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DIREITO PENAL-Principios Constitucionais

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DIREITO PENAL

“Lei Penal “ ou “ Direito Penal “ será , nesse sentido, o ramo do Direito Público que define as infracções criminais e fixa as respectivas censuras ( penas e medidas de segurança “

O Prof. Cavaleiro de Ferreira pôde escrever que “ o Direito Penal tem a função específica… de , mediante a aplicação de penas, garantir, contra os atentados mais graves, o bem comum da sociedade “

O Direito Penal como forma jurídica de exercer o poder punitivo do Estado - foi concebido , desde o Iluminismo, como um puro poder material, repressivo e expansivo, que precisa ser limitado através de uma série de postulados capazes de demarcar o que castigar e como castigar, de forma a garantir os direitos individuais, axiomas então extraídos de ordens externas ao próprio Direito Penal (Direito Natural ) . Hoje pelo contrário, “ existe amplo consenso em estimar que um poder do Estado, como é punitivo, tem eu ter definidos os seus fins e, por tanto, os postulados e princípios do seu sistema de argumentação e aplicação “ – tanto na fase legislativa como na judicial - , a partir da definição que desse poder do Estado se faz da Constituição. Isto é assim porque esse poder do Estado é feito através de nomas e decisões jurídicas e, tanto o legislador que as elabora, como o juiz que as aplica, estão vinculados pelas exigências da Constituição. Esta vinculação está garantida pela atribuição de um controlo sobre o legislador e os juízes a um órgão Supremo que é o Tribunal Constitucional, com poder para corrigir a um e a outro “. Portanto, pode-se concluir que “ hoje não se deve considerar os princípios orientadores do sistema penal como … meros limites do “ ius puniendi “ mas sim como princípios constituintes do Direito de punir ou, dito de outra forma, o Direito penal deve ser considerado como Direito penal Constitucional, pois, … é inerente ao mesmo a função de garantia dos valores e dos direitos que se encontram no texto Constitucional “. Por esse motivo é do exame pormenorizado da Lei Fundamental ( do seu teor literal, dos princípios gerais que consagra e do seu espírito ) que resulta o programa penal da Constituição. Isto é: “ o conjunto de princípios político-jurídicos e político-criminais que constituem o quadro normativo no qual

o legislador penal pode e deve tomar as decisões e no qual o juiz há de se inspirar para interpretar as leis que lhe cabe aplicar” ASSIM TEMOS :Na Constituição da República Portuguesa (CRP ) há um número significativo de normas e princípios que incidem expressamente sobre matéria penal. Integram-se na constituição penal escrita a estatuição de que “ em caso algum haverá pena de morte ( artigo 24º , nº 2 ) a proibição de “ penas cruéis , degradantes ou desumanas ( artigo 25º nº 2 ) ; a determinação de que “ ninguém pode ser total ou parcialmente privado da liberdade, a não ser em consequência de sentença judicial condenatória pela prática de acto punido por lei com pena de prisão ou de aplicação judicial de medida de segurança ( artigo 27º nº 1 ) ; a estatuição de que ninguém pode ser sentenciado criminalmente senão em virtude de lei anterior que declare punível a acção ou a omissão, nem sofre medida de segurança cujos pressupostos não estejam fixados em lei anterior , sem prejuízo da punição, nos limites da lei interna , por acção ou omissão qie no momento da sua prática seja criminosa segundos os princípios gerais de direito internacional comummente reconhecidos ( artº 29º nºs 1 e 2 ); a proibição de penas ou medidas de segurança que não estejam

expressamente cominadas com lei anterior ( artº 29º nº 3 ); a determinação

de que ninguém pode sofrer pena ou medida de segurança mais graves do que as previstas no momento da correspondente conduta ou da verificação dos respectivos pressupostos , aplicando-se retroactivamente as leis penais de conteúdo mais favorável ao arguido ( artº 29ª nº 4) ; a proibição de penas e medidas de segurança privativas ou restritivas da liberdade com carácter perpétuo ou de duração ilimitada ou indefinida (

artº 30º nº 1) ( este parâmetro já foi convocado para aferir da

conformidade constitucional das normas do Código Penal que prevêem a pena relativamente indeterminada , tendo sido feito julgamento de não inconstitucionalidade ( Acórdãos 43/86 e 549/94).

“ACÓRDÃO Nº 549/94
Proc nº 646/92

Rel. Cons. Alves Correia

Acordam na 2ª Secção do Tribunal Constitucional:

I - Relatório.

1. A. foi condenado, por Acórdão do Tribunal Colectivo do Tribunal da
Comarca de Barcelos, de 29 de Setembro de 1992, pela prática de dois crimes de roubo, previstos e punidos pelo artigo 306º, nºs. 1 e 2, alínea a), do Código Penal, de um crime de detenção de arma proibida, previsto e punido pelo artigo 260º do mesmo Código, com referência ao artigo 3º, nº 1, alínea f), do Decreto-Lei nº 207-A/75, de 17 de Abril, e, bem assim, de um crime de consumo de estupefacientes, previsto e punido pelo artigo 36º, nº 1,

Do Acórdão acima identificado interpôs o Ministério Público o presente recurso para o Tribunal Constitucional. esta com 30 dias de prisão em alternativa. Nas alegações produzidas neste Tribunal. atendendo ao circunstancialismo concreto da sentença e ao teor dos artigos 86º e 88º do Código Penal. "constitui objecto do recurso a apreciação da inconstitucionalidade da norma constante do artigo 88º do Código Penal de 1982. do Decreto-Lei nº 430/83. enquanto torna aplicável. de 13 de Dezembro. a punição com pena relativamente indeterminada". indicando no requerimento de interposição do recurso que "a norma cuja inconstitucionalidade se pretende que o Tribunal Constitucional aprecie é a constante do artigo 88º do Código Penal de 1982. de 15 de Novembro). o Tribunal Colectivo recusou a aplicação da norma constante do nº 1 do artigo 86º do Código Penal. com as devidas adaptações. 3. por remissão do artigo 88º. aos delinquentes que abusem de estupefacientes o disposto para os alcoólicos no artigo 86º do mesmo Código. imputando-lhe a violação do artigo 30º. enquanto toma aplicável. apresenta o seguinte quadro conclusivo: . ao abrigo da alínea a) do nº 1 do artigo 70º da Lei do Tribunal Constitucional (Lei nº 28/82. aos delinquentes que abusem de estupefacientes o disposto para os alcoólicos no artigo 86º do mesmo Código. ou seja. com as devidas adaptações. acrescida de 4 anos) do delinquente que abuse de estupefacientes e. na pena única de quatro anos e três meses de prisão e 45 mil escudos de multa. nº 1. da Constituição. depois de afirmar que. pratique um crime a que devesse aplicar-se concretamente prisão". No mencionado aresto. a punição com pena relativamente indeterminada (com um mínimo correspondente a metade da pena de prisão que concretamente caberia ao crime cometido e um máximo correspondente a esta pena. com fundamento na sua inconstitucionalidade.alínea a). ou seja. 2. o Exmº Procurador-Geral Adjunto. relacionado com este abuso.

Fundamentos. relacionado com este abuso. II . Corridos os vistos legais. na parte impugnada. inconstitucional. nº 1.1º. não é inconstitucional. pratique um crime a que devesse aplicar-se concretamente prisão. a punição com pena relativamente indeterminada (com um mínimo correspondente a metade da pena de prisão que concretamente caberia ao crime cometido e um máximo correspondente a esta pena. . da Constituição. o disposto para os alcoólicos no artigo 86º do mesmo Código. 4. é. então. determinando-se a reforma da decisão recorrida. apreciar e decidir a questão de saber se a norma do artigo 88º do Código Penal. cumpre. aos delinquentes que abusem de estupefacientes. ou não. ou seja. com as devidas adaptações. enquanto torna aplicável.A norma constante do artigo 88º do Código Penal de 1982. 2º- Deve. designadamente o artigo 30º. no segmento assinalado. em consequência. acrescida de 4 anos) do delinquente que abuse de estupefacientes e. conceder-se provimento ao recurso. pois não viola qualquer princípio ou preceito constitucional.

O disposto no número anterior não é aplicável quando o delinquente seja condenado em pena suspensa ou sujeito ao regime de prova. acrescida de 2 anos na primeira condenação e de 4 anos nas restantes". sempre que o crime tenha sido praticado em estado de embriaguez ou seja relacionado com o alcoolismo ou a tendência do agente. 2. Artigo 88º (Abuso de estupefacientes) O que fica disposto para os alcoólicos é aplicável. A pena relativamente indeterminada tem um mínimo correspondente a metade da pena de prisão que concretamente caberia ao crime cometido e um máximo correspondente a esta pena. É o seguinte o conteúdo dos artigos 86º e 88º do Código Penal: " Artigo 86º (Pressupostos e efeitos) 1. será punido com uma pena relativamente indeterminada. Se um alcoólico habitual ou com tendência para abusar de bebidas alcoólicas praticar um crime a que devesse aplicar-se concretamente prisão. com as devidas adaptações. aos delinquentes que abusem de estupefacientes". 3.5. O acórdão aqui sob recurso tratou a questão da inconstitucionalidade do .

resulta com toda a nitidez dos factos apurados que estamos perante um toxicodependente e que a sua actuação está mais que relacionada com essa tendência dele. o que não quer dizer que não seja de levantar a questão.mínimos ou máximos .a atenção merecida.face ao princípio da legalidade das penas consagrado na Constituição daquele país (artigo 103º). Entre nós não tem tido . pág. enquanto torna aplicável. com as devidas adaptações. Só que as primeiras não foram acolhidas por nenhuma legislação (confronte-se Cuello Calón.artigo 88º do Código Penal. 720). as penas podem ser absolutamente ou relativamente indeterminadas. Derecho Penal. importa tomar posição sobre se não será caso de aplicação do disposto no nº 1 do artigo 86º do mencionado Código. isto é.ao que sabemos . 17ª edição. Na realidade. Por isso. a punição com pena relativamente indeterminada. nos seguintes termos: "Chegados aqui.onde o instituto tem origem . por remissão do artigo 88º. aos delinquentes que abusem de estupefacientes o disposto para os alcoólicos no artigo 86º do mesmo Código.e as segundas caracterizam-se pelo estabelecimento de um limite mínimo e de outro máximo. embora não se tenha provado que o arguido tenha actuado sob o efeito da heroína. I. As primeiras não têm quaisquer limites . . há que decidir se a pena indeterminada ali prevista é constitucional: O problema da constitucionalidade deste tipo de penas foi levantado com acuidade na Alemanha . Como é sabido.

agora. lhe equivale. de certo modo. pleonasticamente. o artigo 30º da Constituição que "não pode haver penas nem medidas de segurança com carácter perpétuo ou de duração ilimitada ou indefinida". E não se distingue entre indeterminação ou indefinição relativa ou absoluta. Mais: a dicotomia entre "carácter perpétuo" e duração ilimitada só se justifica se o legislador tinha em mente o estabelecimento de limite mínimo também. Sendo assim. sendo certo que "ubi lex non distinguit. pela portuguesa (tendo o legislador o cuidado de. Logo ao outro dia da condenação. como referimos) e. Mas usa-se a palavra indefinida que. Dispõe. A pena relativamente indeterminada foi acolhida por muitas legislações (entre elas a alemã. porquanto seria trair todas as tradições de julgamento. non distinguire debemus". se a palavra "indefinida" abrangesse a indeterminação absoluta. porém. se referir a "pena relativamente indeterminada" quando tal relatividade resulta do estabelecimento dos parâmetros máximos e mínimos). por que se acrescentou a palavra indefinida. Não se emprega ali o termo "indeterminada". haveria que "abrir" novo processo para saber se o condenado que recolhia à prisão devia sair passado tal dia ou esperar.O que é mais que compreensível. se não para proibir a indeterminação? . imperioso. face à proibição da indeterminação absoluta. Além disso. sem mais e sem que ninguém ficasse a saber o "quantum" respectivo. para quê a referência a duração ilimitada? Os direitos dos cidadãos em não serem condenados a penas ilimitadas já estariam assegurados com o estabelecimento de um limite máximo da pena. ficando este reduzido a condenar ou absolver. Confronte-se citado artigo 86º).

que se alicerça na "ideia da referência da culpa à personalidade do delinquente" e visa "tornar viável um sistema monista relativamente aos delinquentes imputáveis. 16. 6. em consequência. no segmento em que estabelecem pena relativamente indeterminada. II Série. tendo em vista a culpa particularmente grave que se divisaria nos factos praticados por tais delinquentes. Introdução. p. Os fundamentos da solução a que se chegou no acórdão mencionado . Lisboa. Neste aresto. no caso dos delinquentes por tendência. penas essas que. como intérpretes. J. como certo que as penas indeterminadas. mesmo relativamente. julgou não inconstitucionais as normas constantes dos artigos 83º e 84º do Código Penal. a 2/3 da pena de prisão que concretamente caberia ao facto). da Constituição e.556. o Tribunal Constitucional considerou que o instituto da pena relativamente indeterminada não briga com o artigo 30º. Direito Penal Português . A questão da compatibilidade com o artigo 30º.4 ou 2 anos. no seu Acórdão nº 43/86 (publicado no Diário da República. e Código Penal e Outra Legislação Penal. então. Temos. 1993. 555. Eequitas/Editorial Notícias. da Constituição . no caso dos alcoólicos e equiparados) à pena concretamente determinada (cfr.É que.já foi analisada pelo Tribunal Constitucional. enquanto a duração máxima resulta do acrescimento de um certo lapso de tempo (6. p. apresentam como característica a definição judicial apenas do mínimo de prisão que o agente terá de cumprir (equivalente. Lisboa. de 15 de Maio de 1986). 2 ou 4 anos.As Consequências Jurídicas do Crime -. estão vedadas pela nossa Lei Fundamental". nº 1. nº 111.o qual determina que "não pode haver penas nem medidas de segurança privativas da liberdade com carácter perpétuo ou de duração ilimitada ou indefinida" da pena relativamente indeterminada . Figueiredo Dias. Eequitas/Editorial Notícias. em princípio. nº 1.instituto acolhido no Código Penal de 1982.17) . temos de presumir que não existem ali palavras a mais.1992. sancionando ainda com penas a delinquência especialmente perigosa".

salientou o Tribunal Constitucional no mencionado Acórdão nº 43/86: "4. ambos assentes no princípio constitucional da dignidade humana.74. os artigos 1º e 2º da Constituição). o Tribunal limitar--se a recordar o essencial da fundamentação vertida naquele acórdão. em compensação. cit. segundo o qual "ao Estado que faz uso do ius puniendi incumbe.o princípio da culpa.. O problema dos delinquentes por tendência constituiu sempre objecto da maior preocupação do legislador penal. Depois de recordar dois dos mais importantes princípios políticocriminais que presidem ao Código Penal Português de 1982 . Figueiredo Dias. 73.e de reconduzi-los ao princípio constitucional da inviolabilidade da dignidade da pessoa humana. surge a necessidade de defesa da comunidade em que ele se integra e. nos termos do qual "em caso algum pode haver pena sem culpa ou a medida da pena ultrapassar a medida da culpa".proporcionando-lhe o máximo de condições para prevenir a reincidência e prosseguir a vida no futuro sem cometer crimes" (cfr. cit. encontram especial expressão no CP de 1982 ao estabelecer a pena relativamente indeterminada. por isso. p. Vai. Os princípios da culpa e da ressocialização. e Código Penal.3. J. 12-14) . um princípio axiológico que constitui uma dimensão essencial da ideia de Estado de Direito (cfr.são inteiramente transponíveis para o caso que agora este Tribunal tem entre mãos. além . Direito Penal Português.. e o princípio da socialidade ou socialização do delinquente. Antes de mais. uma obrigação de ajuda e de solidariedade para com o condenado.p.

no princípio da dignidade humana. Esta pena. podiam períodos «ser prorrogadas de três por dois sucessivos a anos». . repita-se. Prof. segundo o autor do projecto do CP de 1982. cumpre implementar esforços no sentido da sua reinserção social. considerando os mencionados princípios. da sua verificando-se manutenção «perigosidade» e a falta de idoneidade do «condenado» para seguir vida honesta. as penas de prisão ou de prisão maior aplicadas a delinquentes de difícil correcção. de 31-5. Iluminado o nosso ordenamento penal pela luz dos assinalados princípios da culpa e da ressocialização.disso. entendeu o legislador instituir o sistema da para e para pena os os relativamente delinquentes indeterminada por tendência alcoólicos e equiparados. Eduardo Correia. na redacção que lhe deu o Dec-Lei 184/72. Nos termos do artigo 67º do CP de 1886. alicerçados. surge como corolário da referência da culpa à personalidade do delinquente. em que se incluíam os delinquentes habituais e por tendência.

«As grandes linhas da reforma penal». de 1971: «Certo que a medida da punição poderá ir além da moldura penal do facto quando o modo de ser.31. ed. conduz.cfr. permite diagnosticar uma especial perigosidade .Citemos. Os Novos Rumos da Política Criminal e o Direito Penal Português do Futuro. deve acentuar-se que a teoria da culpa referida à personalidade. pp. punição». na sua lógica. pp. à aceitação de uma pena indeterminada » . 321 e 328. in Jornadas de Direito Criminal. a Acrescenta mais abaixo: «Finalmente. I. 36 e 37. do Prof.caso em que a culpa pela não preparação da personalidade passa a fundamentar.. Eduardo Correia. «O . sobre o problema. que o agente não dominou. tal como a deixamos exposta. o ensinamento do mesmo autor. do Prof. Figueiredo Dias. separata da Revista da Ordem dos Advogados. um tal prorrogamento como o conhece o nosso actual direito criminal. autonomamente. se não pode nunca servir para indefinido justificar da pena. a propósito. nas suas Lições de Direito Criminal.

ob. no citado Acórdão nº 43/86.Novo Código Penal e a moderna criminologia». p. Boletim do Ministério da Justiça. cit. Ieschek. Coimbra.. Este fim . «Algumas considerações sobre o sistema monista das reacções criminais». da pela reinserção Drª social do Anabela Miranda Rodrigues. p. in estudos em Homenagem ao Prof. José de Sousa e Brito. 24. 19 e segs. pp. «Da pena relativamente indeterminada na perspectiva recluso». 1984. sem quebra da sua dignidade como homem . pp. 565 ss). passando a fundamentar concretamente a não inconstitucionalidade da norma impugnada. in Jornadas. mesmo para quem não subscreva a tese da "culpa na formação da personalidade" (cfr. ao fixar um mínimo e um máximo precisamente definidos na lei.é seguramente. ibidem. Doutor Eduardo Correia. do Dr. nº 323. Assim é que o Tribunal. I. Roxin. Lopes Rocha. A Medida da Pena no Novo Código Penal. p. A pena relativamente indeterminada. do ponto de vista constitucional. um fim legítimo da pena.o da reinserção social do delinquente. pp. III. Jornadas. I. visa alcançar a reinserção social do delinquente. Manuel da Costa Andrade. sem quebra da sua dignidade como homem. do Dr. 211. 108 e 118. 287 e segs. realçou: .

vejamos se ele contende com o citado artigo 30º. em conformidade com o artigo 27º. O normativo constitucional em apreço pretende que as penas sejam determinadas e certas. O que importa é que a sua aplicação não gere incerteza relativamente ao quantum da punição e ao modo da sua expressão. pois esse é o modo por que se elimina o arbítrio do julgador. pois. Isto não é o mesmo que dizer que as penas têm que ter uma duração fixa. Pergunta-se. o instituto da pena relativamente indeterminada. 1. da Constituição. determinada. nºs. a pena prevista pelo legislador. é a pena legal. Apresentado. ainda que por forma perfunctória. Responderemos negativamente.4.4. . Pena certa. 2 e 3. se a pena relativamente indeterminada pode subsumir-se ao conceito de pena de duração indefinida. nº 1. da Constituição no segmento em que veda a aplicação de penas de duração indefinidas. de modo a garantir-se plenamente o direito à liberdade e à segurança.

pratique um crime a que devesse aplicar-se concretamente prisão.Ora. partindo da pena concretamente aplicável ao facto. III. aos delinquentes que abusem de estupefacientes o disposto para os alcoólicos no artigo 86º do mesmo Código. acentue-se. enquanto torna aplicável. a punição com pena relativamente indeterminada (com um mínimo correspondente a metade da pena de prisão que concretamente caberia ao crime cometido e um máximo correspondente a esta pena. decide-se: a) Não julgar inconstitucional a norma constante do artigo 88º do Código Penal de 1982. da Constituição. com as devidas adaptações. já que o juiz.Decisão. acrescida de 4 anos) do delinquente que abuse de estupefacientes e. nº 1. entende o Tribunal Constitucional que a norma objecto do presente recurso de constitucionalidade não viola o artigo 30º. relacionado com este abuso. Nos termos e pelos fundamentos expostos. a pena relativamente indeterminada encontra-se definida. Na linha desta jurisprudência. . isto é. 7. nem qualquer outra norma ou princípio constitucional. estabelece um mínimo e um máximo da pena dentro dos quais a mesma se executará tendo em mira atingir o objectivo ressocializador do delinquente".

e desde que a ordem jurídica do Estado requisitante consagre garantias de um processo justo e equatitativo ( artº 33º nº 3 ) a determinação de que só é admitida a extradição por crimes a que corresponda . Lisboa.) a insusceptibilidade de transmissão da responsabilidade penal ( artº 30º nº 3 ) . nos casos de terrorismo e de criminalidade internacional organizada. em consequência. profissionais ou políticos artº 30º nº 4 ) a determinação de que os condenados a quem sejam aplicadas penas ou medidas de segurança privativas da liberdade mantêm a titularidade dos direitos fundamentais . em condições de reciprocidade estabelecidas wm convenção internacional. 19 de Outubro de 1994 A admissibilidade de prorrogação de medidas de segurança privativas ou restritivas d liberdade . enquanto tal estado se mantiver ( artº 30º nº 2. segundo o direito do Estado requisitante . pena ou medida de segurança privativa ou restritiva da liberdade com carácter perpétuo ou de duração indefinida. revogar o acórdão recorrido. salvas limitações inerentes ao sentido da condenação e as exigências as próprias da respectiva execução (artº 30º nº 5 ) a estatuição de que a extradição de cidadão português do território nacional só é admitida . em caso de perigosidade baseada em grave anomalia psíquica e na impossibilidades de terapêutica em meio aberto. em condições de reciprocidade estabelecidas em convenção internacional e desde . que deve ser reformado em conformidade com o presente juízo de não inconstitucionalidade.b) Conceder provimento ao recurso e. a proibição de a pena envolver como efeito necessário a perda de quaisquer direitos civis.

que o Estado requisitante ofereça garantias de que tal sanção não será aplicada ou executada .constitucional da culpa . salvo decisão em contrário do Tribunal Constitucional. surgindo como formas de densificação ou revelação específicas de princípios ou regras constitucionais positivamente explanadas . quando a norma penal for de conteúdo menos favorável ao arguido ( artº 282º ns. integram o “ bloco da constitucionalidade “ . alínea c). e o princípio jurídico-constitucional da “proporcionalidade das sanções penais “ . segundo o direito do Estado requisitante. salvo autorização ao Governo para a definição dos crimes. Na tarefa de de intérprete da Constituição que lhe está cometida . apesar de não escritos. por motivos políticos ou crimes a que corresponda. A estes princípios acresce o “ princípio da . bem como as sanções aplicáveis e os respectivos efeitos. 1 e 3 ) Além destes preceitos constitucionais . na medida em que são reconduzíveis ao programa normativo constitucional. competência legislativa da Assembleia da República. quanto aos efeitos repristinatórios da declaração de inconstitucionalidade com força obrigatória geral. medidas de segurança e respectivos pressupostos ( artº 165º nºs 1. e nº 2 ) a ressalva dos casos julgados. o Tribunal Constitucional chegou a três parâmetros fundamentais de controlo da constitucionalidade e normas penais: o princípio jurídico-constitucional do “ direito penal do bem jurídico “. que podem incluir a destituição do cargo ou a perda do mandato (artº 117º nº 3) a irresponsabilidade criminal dos Deputados pelos votos e opiniões que a reserva de emitam no exercício das suas funções ( artº 157º nº 1 ). sem prejuízo da aplicação de normas de cooperação judiciária penal estabelecidas no âmbito da União Europeia ( artº 33º nºs 4 e 5 ) a proibição de extradição ou entrega a qualquer título. o princípio jurídico. penas . há princípios que . pena de morte ou outra que resulte lesão irreversível da integridade física ( artº 33º nº 6) a remissão para lei que determine os crimes de responsabilidade dos titulares de cargos políticos.

nos casos expressamente previstos na Constituição. as medidas penais só são constitucionalmente admissíveis quando sejam necessárias . O princípio jurídico-constitucional do “direito penal do bem jurídico “ enquanto parâmetro de controlo da constitucionalidade de normas incriminatórias a partir de critérios da dignidade do bem jurídico e da necessidade da intervenção penal ( da carência de tutela penal ) . em geral. artigo 18º da Constituição ) . que a jurisprudência constitucional autonomiza. no caso de prisão ).socialização soa condenados. de acordo com o qual “ as restrições legais aos direitos liberdades e garantias.”. Expressamente aflorado no artigo 18º. nº 2. 9º. na falta de disposição constitucional expressa. “ Consistindo as penas . 2º . O Tribunal chega a fazer apelo a um “ princípio de congruência ou de analogia substancial entre a ordem axiológica constitucional e a ordem legal dos bens jurídicos protegidos . enquanto princípios decorrentes da ideia de Estado de direito democrático. na privação ou sacrifício de determinados direitos ( maxime . a partir do princípio da dignidade da pessoa humana ( artº 1 e 25º nº 1 ) e as normas constitucionais escritas ( artº 1º. começou a ser fundado nos peincípios constitucionais da justiça e da proporcionalidade . Presentemente a base de sustentação passa antes pelo princípio da proporcionalidade. e 18ª ) concluindo que incumbe ao Estado a tarefa de proporcionar ao condenado as condições necessárias para a sua reintegração na sociedade . adequadas e proporcionais a pretecção de determinado direito ou interesse constitucionalmente protegido ( cfr . e só serão constitucionalmente exigíveis quando se trate de proteger um direito ou bem constitucional de primeira importância e essa protecção não possa ser suficiente e adequadamente garantida de outro modo. a partir da revisão constitucional de 1982. consignada no artigo 2º da Constituição . a privação da liberdade. alínea d). da CRP. têm de limitar-se ao necessário para a salvaguarda de outros direitos ou interesses constitucionalmente protegidos .

ao legislador. que é afinal o ponto de harmonização do princípio da constitucionalidade com o princípio da maioria. concluindo que a segurança na circulação rodoviária é um bem que. da necessidade ( só devem ter dignidade penal os bens jurídicos comunitários cuja violação atinja aspectos essenciais da vida em sociedade e alcancem elevada gravidade ética). não é legítimo deduzir sem mais a exigência de criminalização dos comportamentos que o violem. deve ser especialmente tutelado. É entendimento reiterado do Tribunal que o recurso a meios penais está constitucionalmente sujeito a limites estritos e consideráveis. ao qual é de reconhecer um largo âmbito de discricionariedade. quando apreciou norma incriminadora da condução sem habilitação legal.constitucionalmente reconhecido com o integrante de um direito ou de um dever fundamentais. em primeira linha . porque não pode ser ultrapassado “ o inevitável entreposto constituído pelo critério da necessidade ou da carência de pena “ Este juízo cabe. à luz da ordem jurídico-constitucional . porém. da subsidiariedade e da máxima restrição das penas ( deve ser garantida uma adequação proporção entre as penas e os factos que se aplicam ) . Não existindo injunções constitucionais expresses de criminalização. de um valor jurídico. Em matéria de interrupção voluntária da gravidez os critérios . mas é também jurisprudência constante que a autolimitação da competência de controlo face ao legislador começa quando intervenha o critério da “ necessidade “ ( ou da “ carência “) de tutela penal. assenta na dignidade da pessoa humana e estruturado nos princípios da culpa ( fundamento legitimador e limite das penas). só podendo a liberdade de conformação legislativa ser limitada em casos em que “ a punição criminal se apresente como manifestamente excessiva “ Um direito penal de justiça.pelo direito penal..

consciente e responsável. ajuizando da adequação. e pela averuguação subsequente da necessidade de intervenção penal. ou sob a sua direcção. nas primeiras 10 semanas de gravidez. Logo em 1984. segundo o qual “ a vida humana é inviolável “. passou pela afirmação prévia de um bem jurídico penal . da necessidade e da proporcionalidade ( em sentido estrito) desta mesma intervenção. após um período de reflexão não inferior a três dias a contar da data da realização da primeira consulta destinada a facultar à mulher grávida o acesso à informação relevante para a formação da sua decisão livre. o juízo de não constitucionalidade. por lesão no nascituro e criminal ). Estes dois momentos são também identificáveis nos acórdãos sobre a conformidade constitucional e legal de perguntas que foi objecto de referendo em matérias de descriminalização/ despenalização da interrupção voluntária nas primeiras dez semanas de gravidez e no arresto que. em sede de fiscalização preventiva e. então feito pelo Tribunal Constitucional. o seguinte : o artigo 24º da Constituição. depois .da dignidade penal do bem jurídico e da necessidade da intervenção penal são particularmente evidentes. já em sede de fiscalização abstracta sucessiva . não declarou a inconstitucionalidade das normas de acordo com as quais não é punível a interrupção da gravidez efectuada por médico . quando for realizado. por opção da mulher. sucessiva da constitucionalidade de normas relativas à exclusão da ilicitude em casos justificados à luz do modelo das indicações ( médica. além de garantir a todas as pessoas um direito . Da jurisprudência constitucional portuguesa relativa à interrupção voluntária da gravidez retira-se. de um bem jurídico digno de tutela penal. em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido e com o consentimento da mulher grávida. com relevo específico para a problemática penal.

a protecção da vida humana em gestação não assume. justificando- . integra igualmente uma dimensão objectiva. o mesmo grau de densificação nem as mesmas modalidades que a protecção do direito à vida individualmente subjectivado em cada ser humano já nascido. desnecessária ou desproporcionada. o legislador goza de ampla margem de discricionariedade legislativa.fundamental à vida. balizada por duas proibições de sinal contrário – por um lado. por outro. consoante o maior tempo de gravidez. sempre e em todas as circunstâncias. podendo. num modelo de prazo. por afectação . havendo um crescendo de intensidade tuteladora. a avaliação da observância deste imperativo de tutela no regime da consulta de aconselhamento ( de base informativa ou dissuasora ) deve lidar com critérios de evidência . podendo a lei não recorrer a eles quando haja razões para considerar a penalização inadequada. tão-pouco è a mesma a protecção da vida humana em gestação nas diferentes fases da gravidez. quando seja possível recorrer a outros meios de protecção mais apropriados e menos gravosos. mediante meios penais. além do admissível . e . que acompanha a evolução da relação de “ dualidade na unidade que intercede entre a mulher e o nasciturno. não pode desrespeitar a proibição de insufuciência . subjectivado em cada indivíduo. em que se enquadra a protecção da vida humana intrauterina. ficando aquém da medida mínima de cumprimento do dever de protecção do bem jurídico vida humana intra-uterina. portanto . quando esteja em conflito com direitos fundamentais ou com outros valores constitucionalmente protegidos. nada impõe constitucionalmente que a protecção da vida humana em gestação tenha de ser efectivada. ter de ceder. o legislador não pode desrespeitar a proibição de excesso . da posição jurídico-constitucional da mulher grávida. porém.

É também a partir do princípio constitucional do “ direito penal do bem jurídico “ . uma vez que “ em relação às incriminações de perigo ( e. uma vez que vida antecipar a protecção de um bem jurídico valioso – a segurança rodoviária – que encerra em si próprio diversos bens jurídicos individualizáveis . às de perigo abstracto ) . sempre se poderá entender que não é indispensável a imposição dos pesados sacrifícios resultantes da aplicação de penas e medidas de segurança. que o Tribunal tem apreciado a conformidade constitucional de normas que prevêem crimes de perigo . a valoração do cumprimento ou não do dever de tutela da vida pré-natal deve ter em conta a globalidade das medidas dee direito infraconstitucional. do planeamento familiar e do apoio à maternidade e à família.se uma pronúncia de inconstitucionalidade apenas em caso de manifesto erro de avaliação do legislador. tipicamente. especialmente . tais como o direito à vida e à integridade física de terceiros ou o direito à propriedade privada. Aceitando esse tipo de normas penais desde que passem o teste da razoabilidade de antecipação da tutela penal. a efectiva lesão de qualquer bem jurídico “ Passaram o teste da razoabilidade de antecipação da tutela penal. a norma que prevê e pune o crime de tráfico de estupefacientes por se tratar de acção que tem em geral aptidão para ser elemento de processo causal dos danos ( dos consumidores e da sociedade ) ligados ao tráfico de estupefacientes . bem como se prevê e pune a condução de veículo em estado de embriaguez. designadamente prestações públicas no domínio da educação sexual. abstracto e concreto. . entre outras. visto que não está em causa.

possa ser utilizada como puro instrumento ao meio do serviço de outrem. fomentar ou facilitar o exercício por outra pessoa de prostituição ( artigo 169º do Código Penal ).A legitimidade constitucional de crimes de perigo abstracto tem vindo a ser afirmada relativamente ao crime de lenocínio. em relação a norma incriminadora que deixou de conter o elemento típico “ exploração de situações de abandono ou actividade económica “. na Cultura e nas análises sobre a Sociedade segundo a qual as situações de prostituição relativamente às quais existe um aproveitamento económico por nterceiros de situações cujo signifacado é o da exploração da pessoa prostituída (…) . O Tribunal tem entendido que subjacente à norma “ está inevitavelmente uma perspectiva fundamentada na História . profissionalmente ou com intenção lucrativa . desde logo. enquanto expressão de liberdade de acção. seja a sexual ). Preenchendo agora o tipo legal “ quem. favorecimento ou facilitação do exercício da prostituição de pessoa livre e auto determinada. A isso no impele . O entendimento de que a norma do lenocínio “ radica na protecção por meios penais contra a necessidade de utilizar a sexualidade . situações e actividades cujo “ princípio “ seja o de que uma pessoa. seja a f+isica. numa qualquer dimensão ( seja a intelectual . o artigo 1º da Constituição da República Portuguesa na igual dignidade da pessoa humana “ ( o entendimento de que não merece censura constitucional a norma que incrimine o fomento.Tal perspectiva não resulta de preceitos morais mas do reconhecimento de que a Ordem Jurídica orientada por valores de Justiça e assente na dignidade da pessoa humana não deve ser mobilizada para garantir.

em direito penal. obsta à punição sem culpa e à punição que exceda a culpa. sendo a culpa não apenas princípio fundante da pena. Fugeiredo Dias. ) O princípio constitucional penal da culpa é um dos princípios que a jurisprudência fés decorrer do texto da CRP. a vários níveis : veda a incriminação de condutas destituídas de qualquer ressonância ética. obviamente também das exigências de prevenção ) que em cada caso . se há-de encontrar a medida concreta da pena. é em função dela ( e. o Tribunal julgou inconstitucionais normas que previam penas fixas.como forma de subsistência. obrigando ao estabelecimento de um nexo subjectivo – a título de dolo ou de negligência – entre o agente e o seu facto. situada entre o mínimo e o máximo para aquele tipo de comportamento “ A autonomização do princípio constitucional da culpa em Ada obstou a que o Tribunal tivesse concluído pela legitimidade constitucional da . Com fundamento neste princípio constitucional penal. protecção directamente fundada no princípio da dignidade da pessoa humana” foi questionado á luz do princípio constitucional do “ direito penal do bem jurídico “ por Prof. mas também o seu limite. impede a responsabilização objectiva. que não pode ser tomada como simples meio para a prossecução dos fins preventivos. dos artigos 1º e 25º nº 1 “ Deriva da essencial dignidade da pessoa humana. Esta princípio exprime-se . e articula-se com o direito *a integridade moral e física “ . “ Um direito penal de culpa não é compatível com a existência de penas fixas: de facto .

é verdadeiro parâmetro de conformidade a Lei Fundamental da responsabilidade penal das pessoas colectivas O princípio da proporcionalidade das sanções penais é um princípio que a jurisprudência constitucional tem feito decorrer do já mencionado artigo 18º . há-de gozar de uma razoável liberdade de conformação “ O princípio constitucional penal da proporcionalidade das sanções também é convocado para censurar normas que prevejam penas fixas “ a lei prevê uma pena fixa pode também conduzir a que o juiz se veja forçado a aplicar uma pena excessiva para a gravidade da infracção. “ Assim porque se o Tribunal fosse além disso. É no entanto. estaria a julgar a bondade da pr+opria solução legislativa. aí.responsabilidade criminal das pessoas colectivas e equiparadas: o princípio da individualidade da responsabilidade criminal não tem consagração constitucional expressa . “ apenas de um qualquer principio constitucional mas de uma « garantia dos cidadãos » . reiterado e uniforme o estabelecido de que o Tribunal só deve censurar as soluções legislativas que contenham sanções que sejam manifesta e claramente excessivas. nº 2 .R. assim deixando de observar o princípio da proporcionalidade. o artigo 2º da CRP. invadindo indevidamente a esfera do legislador que . uma garantia que a nossa Constituição . Não se trata.P. da C. que exige que a gravidade das sanções criminais seja proporcional à gravidade do crime “ Já o princípio da legalidade criminal logra consagração explicita no testo constitucional artigos 29º e m165º nº 1 alínea c) .ao invés de . porém. devendo ser. na medida que comete ao Estado o respeito e a garantia de efectivação dos direitos fundamentais e projecto de realizar a democracia económica.

nomeadamente quando é questionada a conformidade constitucional de normas governamentais descriminalizadoras ou de normas penais em branco. . com o controlo da exigência de reserva da lei e de tipicidade da norma incriminatória. contudo. salvo autorização ao Governo. liberdades e garantias relevando. p Tribunal tem entendido que a competência exclusiva da Assembleia da República . toda a carga axiológica-normativa que lhe está subjacente “ Não obstante esta carga do princípio da legalidade em matéria criminal. ou seja. definir e ounir como contra-ordenações factos anteriormente qualificados e punidos como ilícitos criminais. assim. pela supressão do quadro criminal de tipos de ilícitos . o Tribunal tem entendido que “ uma norma penal em branco só é susceptível de violar o princípio da legalidade ( no sentido de exigência de lei formal expressa que contemple o tipo legal de crime ) e. salvo autorização ao Governo . realizando-se também pela negativa.outras que se tratam a respeito do exercício do poder jurisdicional explicitamente inclui no catálogo dos direitos . da CRP). no que toca à definição de crimes e penas não se exerce apenas pela positiva. são detectáveis divergências na jurisprudência constitucional quanto ao princípio é tido como parâmetro de controlo normas penais. o princípio da tipicidade ( no sentido da exigência de uma descrição clara e precisa do facto punível). Relativamente à primeira questão . Quanto à segunda questão. da constitucionalidade das As divergências não têm a ver. pelo que também é da competência reservada do parlamento. por invocação do parâmetro “ princípio da legalidade “ ( artigos 29º e 165º nº 1 alínea c) . como seu corolário.

no sentido de abranger o administrador de facto “ . a legitimidade constitucional das normas penais em branco pode aferir-se em função do carácter meramente técnico e não inovador das normas de integração.quando a remissão feita para a norma complementar põe em causa a certeza e a determinabilidade da conduta tida como ilícita. Segundo este entendimento jurisprudencial . não se trata propriamente de negar carácter normativo . desde que a mediatização pela decisão recorrida . Por exemplo: o tribunal recorrido interpretou a expressão “ como titular de um órgão de uma sociedade “. na redacção primitiva. Uma interpretação que terá transposto a barreira da moldura semântica do texto ou que terá mesmo desrespeitado a proibição de recurso à analogia . em determinado segmento ou segundo certa interpretação . no sentido. impedindo que os destinatários possam apreender os elementos essenciais do tipo de crime “. de a precrição do procedimento criminal se suspende com a declaração de contumácia. Têm-se constitucionalmente divergido quando à questão de saber se pode ser objecto de controlo de constitucionalidade uma norma relativamente à qual se invoque que a interpretação normativa do Tribunal recorrido não se conteve no sentido possível das palavras da lei. o tribunal recorrido interpretou o artº 119º nº 1 do Código Penal. Como é entendimento reiterado do Tribunal que o recorrente pode requerer a apreciação de uma norma na sua totalidade . constante de preceito do Regime Geral das Infracções Tributárias em matéria de actuação em nome de outrem. sem que esta causa de suspensão estivesse expressamente contemplada neste preceito legal.

Na prática. só excepcionalmente é que poderá ser assinado um certo conteúdo normativo às decisões de inconstitucionalidade. por violação do princípio da igualdade e dos direitos à identidade e ao desenvolvimento da personalidade ( artigos 13º . controláveis do ponto de vista jurídicoconstitucional à luz de um qualquer outro parâmetro . coito anal ou coito oral. o Tribunal Constitucional “ substituiu “ a norma julgada inconstitucional pela norma segundo a qual era punido quem praticasse com menor entre 14 e 16 anos de idade. a inadmissibilidade quando modifiquem para pior.àqueles critérios interpretativos. abusando da sai inexperiência ( independentemente da natureza . na redacção anterior à vigente depois de 2007. por isso mesmo. e . pelo menos . o artigo 175º do Código Penal. Na jurisprudência constitucional portuguesa. e 26º nº 1 da CRP ). homossexual ou heterossexual . na parte em que punia a prática de actos homossexuais com adolescentes ainda que não se verificasse . nº 2 . tendo por referência a norma relativa à punição dos actos homossexuais com adolescentes . invocada para sustentar a inadmissibilidade de princípio de sentenças aditivas e substitutivas ou. abuso da inexperiência da vítima e na parte em que na categoria de actos homossexuais de relevo. um efeito quase sempre associado a um juízo de desconformidade constitucional por violação do princípio da igualdade. A reserva de lei em matéria penal é. por vezes. e que foi julgada inconstitucional. dotados da necessária abstracção e susceptíveis de invocação e aplicação numa pluralidade de situações concretas. por parte do agente. cópula. Assim sucede em sede de fiscalização concreta . destes actos sexuais de relevo ) .

Mas já não no segundo caso. diferentemente. Uma das questões que tem sido postas ao Tribunal tem sido a de saber qual é. o âmbito de protecção da norma constitucional segundo a qual se aplicam favoráveis ao arguido rectroactivamente as leis penais de conteúdo mais . Está expressamente consagrado no artº 29º nº 4 da CRP.O princípio da aplicação da lei penal mais favorável é o pincípio ao qual a jurisprudência constitucional tem reconhecido automonia face ao princípio da legalidade em matéria criminal. Quando o Código Penal ressalvava da aplicação do regime penal mais favorável os casos em que o agente já havia sido julgado condenado por sentença transitada em julgado ( artigo 2º nº 4 ). uma lei da qual decorra apenas um regime méis favorável. afinal. A de se saber se é admissível do ponto de vista jurídico-constitucional o estabelecimento de regras distintas consoante a lei nova seja uma lei descriminalizadora ( ou equivalente ) ou. No primeiro caso. a posição maioritária do Tribunal foi no sentido da não inconstitucionalidade desta norma penal. precisamente porque a lei nova decorria apenas de um regime mais favorável. em que seria admissível ressalvar os casos já julgados. justificando-o à luz do princípio da necessidade das sanções penais. o conteúdo de sentido do princípio da aplicação da lei penal mais favorável imporia a aplicação desta lei ainda que tivesse havido condenaçãp transitada em julgado . Entendendo que a CRP aceita como um valor próprio o respeito pelo caso julgado e não podendo deixar de perspectivar a regra constante do nº 4 do artigo 29º como uma garantia constitucional fundamental. o Tribunal .

irrazoável ou injustificada. implica. então a intangibilidade do caso julgado não pode ser invocada em seu manifesto prejuízo . o tribunal voltou a fazer um julgamento de não inconstitucionalidade. nos termos gerais. Mais recentemente . Se o propósito que presidiu á garantia do caso julgado foi precisamente o de evitar que o condenado viesse a ter que enfrentar um novo julgamento. . uma vez que o princípio da aplicação da lei mais favorável pressupõe a validade das normas em causa. face à nova redacção do nº 4 do artigo 2º do Código Penal. de acordo com o qual passou a ser sempre aplicado o regime que concretamente se mostrar mais favorável ao agente . prevendo-se a reabertura da audiência de julgamento para o efeito ( artº 371º-A do Código de Processo Penal ) .concluiu que a restrição operada por aquela norma penal não era necessária. A obrigação de aplicar. sem prejuízo de o Tribunal poder restringir os efeitos da declaração de inconstitucionalidade . A jurisprudência constitucional tem entendido que a declaração de inconstitucionalidade. exclusivamente . a repristinação da norma por ela revogada. nos termos do disposto do artigo 282º nº 4 da CRP. normas constitucionais ( artº 204º da CRP ) precede e conforma a obrigação de aplicar normas de conteúdo mais favorável ao arguido. face à “ enormíssima perturbação na ordem dos tribunais judiciais “ que a solução contrária acarretaria. no qual poderia ver agravada a sua situação jurídico-penal. com força obrigatória geral. Uma outra questão prende-se com a aplicabilidade da lei penal inconstitucional mais favorável. não podendo prevalecer sobre o princípio da constitucionalidad3. de norma penal. A norma penal inconstitucional Maios favorável não se aplica por si mesma e por força do n~4 do artigo 29º da CRP. ainda que mais favorável so arguido.

b). de forma expressa. sobre a detenção . Diferentemente da Constituição que a antecedeu . É frequentemente invocado como parâmetro de controlo quer em fiscalização concreta quer em fiscalização abstracta de normas. c). habeas corpus e ao princípio da A CRP dispõe. a de 1933. nº 4 ). estabelecendo o prazo máximo de duração desta privação de liberdade ( artigos 27º. o dever de indemnizar o lesado por privações da . no seio do qual a lei possa corresponder automaticamente à condenação pela prática de determinado crime. à matéria da instrução criminal e das garantias de defesa antes e depois da formação da culpa. os preceitos vão além dos que se referem aos pressupostos da prisão preventiva antes e depois da culpa formada. f) e g). a perda de direitos “ è por isso determinante saber se o que está em causa é a perda de um direito .O principio constitucional da não automaticidade dos efeitos da pena é um dos princípios que tem consagração expressa no texto constitucional ( artigo 30º. imediatamente e de forma compreensível. havendo jurisprudência abundante de onde se extraí que o princípio é “ o de negar ao legislador ordinário a possibilidade de criar um sistema de punição complexo. em flagrante delito e fora dele. toda a pessao privada da liberdade das razões da sua prisão ou detenção de dos seus direitos ( artigo 27º nº 4 ). e 28º nº 1 ). o dever de informar. nº 3 . Na história do constitucionalismo português a Constituição da República Portuguesa de 197 ( CRP) é aquela que tem mais preceitos dedicados directamente ao processo penal . à previsão da providência de publicidade da audiência . alíneas a). e com o seu efeito.

nº 5 ) . especificando a lei os casos e fases em que a assistência por advogado é obrigatória ( artigo 32º nº 3 ) . a garantia de presunção de inocência do arguido até ao trânsito em julgado da sentença de condenação ( artigo 32º nº 2. o dever de comunicação. a parente ou a pessoa da confiança do detido. que deverá estar sujeito aos prazos estabelecidos na lei ( artigo 27º nº 1 alíneas b) e c). a estruturação do processo segundo o modelo acusatório ( artigo 32º nº 5 ). a submissão da audiência de julgamento e dos actos instrutórios que a lei determinar ao princípio do contraditório ( artigo 32º nº 5 ) . a dispensa do . o direito á revisão da sentença e à indemnização pelos danos sofridos em caso de condenação injusta ( artigo 29º nº 6. primeira parte ). nºs 2 e 4 ). a competência reservada do juiz para a instrução e para a prática dos actos instrutórios que se prendam directamente com os direitos fundamentais ( artigo 32º. a submissão da audiência de julgamento e dos actos instrutórios que se prendam directamente com direitos fundamentais ( artigo 32º nº 4). por virtude de prisão ou detenção ilegal ( artigo 31º ) . a exigência de o processo penal assegurar todas as garantias de defesa . o direito de não ser julgado mais de que uma vez pela prática do mesmo crime ( artigo 29º nº 5 ). a admissibilidade da prisão preventiva e a natureza a excepcional desta medida de coação . da decisão judicial que ordene ou mantenha uma medida de provação da liberdade ( artigo 28º nº 3 ). e 28º. a apreciação judicial da detenção ( artigo 28º nº 1 ) . o direito de escolher defensor e ser por ele assistido em todos os actos do processo . incluindo o direito ao recurso ( artigo 32º nº 1 ) . parte final ).liberdade contra o disposto na Constituição e na lei ( artigo 27º nº 5) . o dever de o arguido ser julgado no mais curto prazo compatível com a garantia de defesa ( artigo 32º nº 2 . a providência habeas corpus contra o abuso de poder.

a intervenção do Tribunal de jurí. nas telecomunicações e nos demais meios de comunicações . sem prejuízo do que dispõe sobre tribunais militares ( artigos 209. para legislar em matéria de processo penal ( artigo 165º . Dispõe. quando esteja em causa a . nº 8 ) : o princípio do Juiz natural ( artigo 32º nº 9 ) . no domicílio. nº 4 ). na correspondência ou nas telecomunicações ( artigo 32º. nº3 ) . ainda. e a proibição da existência de tribunais com competência exclusiva para o julgamento de certas categorias de crimes. nº 4 e 213º). incluindo a audiência de julgamento. parte final ) . a admissibilidade de ingerência das autoridades públicas na correspondência. ofensa da integridade física ou moral da pessoa . nos casos e com a composição que a lei fixar. a inviolabilidade do domicílio durante a noite . nº 6 ) . a reserva de competência da Assembleia da República . sobre os desvios à regra da aplicação da lei processual penal a todas as pessoas. abusiva intromissão na vida privadd.arguido ou acusado em actos processuais . salvo em situação de flagrante delito ou mediante a autorização judicial em casos de criminalidade especificamente violenta ou altamente organizada. salvo autorização ao Governo. a competência do Ministério Público para exercer a acção penal orientada pelo princípio da legalidade ( artigo 219º nº 1 ) . nos termos previstos na lei ( artigo 34º. no julgamento de crimes graves. desde que assegurados os direitos de defesa ( artigo 32º . de armas e de estupefacientes. nos casos previstos na lei em matéria de processo criminal ( artigo 34º. a nulidade de todas as provas obtidas mediante tortura. o direito de intervenção no processo por parte do ofendido ( artigo 32º nº 7 ) . salvo os de terrorismo e os de criminalidade altamente organizada ( artigo 270º nº 1 ) . coacção. nº 1 alínea c) . incluindo terrorismo e o tráfico de pessoas . nos casos definidos na lei.

princípios constitucionais fundamentais como os da dignidade da . de religião e de culto ( artigo 41º ) . os direitos à identidade pessoal. o direito á liberdade e à segurança ( artº27º nº 1). Bem como disposições constitucionais gerais. Têm também incidência no processo penal normas constitucionais sobre direitos. em despacho fundamentado. regras sobre a aplicação da lei criminal ( artº 29º nº 1 e 4 ). da correspondência e de outros meios de comunicação privada ( artº 34º nº 1 ) . e a que impõe que as audiências dos tribunais são públicas. ou quando seja caso de efectivação da responsabilidade criminal de membros do Governo ( artigo 196º nº 1 ). para salvaguarda da dignidade das pessoas e da moral pública ou para garantir o seu normal funcionamento ( artº 206º ) . ainda . E . como o acesso ao direito e à tutela jurisdicional efectiva ( artigo 20º. e o direito de deslocação em qualquer parte do território nacional ( artigo 44º ). a que estatui que incumbe à lei definir e assegurar a protecção adequada do segredo de justiça ( artº 20º nº 3) . a que garante que a entrada no domicílio dos cidadãos contra a sua vontade só pode ser ordenada pela autoridade judicial competente . nos casos e segundo as formas previstas na lei ( artº 34º nº 2 ) . a liberdade de consciência. salvo quando o próprio tribunal decidir o contrário. onde se incluem o direito à integridade pessoal ( artº 25º ) . quando os deputados devam ser ouvidos como declarantes ou arguidos ( artigo 157º nº 2 ) . à imagem. liberdades e garantias.responsabilização do presidente da República por crimes praticados no exercício das suas funções e fora dele ( artigos 130º e 163º . ao bom nome e reputação. a inviolabilidade do domicilio . alíne c) ). à palavra e à reserva da intimidade da vida privada e familiar ( artigo 26º ). quando se trate de prisão ou detenção de Deputado ( artº 157º nº 3 ) .

em vigor desde 1 de Janeiro de 1988. fundamentalmente . nºs 1 e 2. necessidades antinómicas e conflituantes. 215º . 203º. com as funções constitucionalmente cometidas ao juiz de instrução e ao Ministério Público. que são pedidas ao processo penal de um Estado de direito democrático: a realização da justiça e a descoberta da verdade material. O novo Código estrutura o processo penal a partir de um modelo acusatório integrado por um princípio subsidiário de investigação. com o sigílio profissional dos jornalistas. tem sido objecto de alterações legislativas sucessivas. de 25 de Agosto . 216 ) . com o princípio da independência dos tribunais. formulando 16 questões de inconstitucionalidade. de 29 de Agosto.pessoa humana ( artigo 1º ) e do Estado e direito democrático ( artº 2º ) e normas e princípios constitucionais atinentes ao estatuto e função de participantes / sujeitos processuais : do juiz ( artigos 202º . e 48/2007. com o direito do arguido de ser assistido por defensor em todos os . O Presidente da República requereu a fiscalização preventiva da constitucionalidade de conjunto alargado de normas do CPP de 1987. O Código. O Código de Processo Penal ( CPP) actualmente em vigor é de 1987. do Ministério Público ( artº 219º) e da polícia ( artº 272º nºs 1 e 2 ). As questões Constitucionais decidiu pelo acórdão 7/87 tiveram a ver. pretendendo desta forma dar cumprimento à exigência de harmonização das finalidades . a tutela dos direitos dos cidadãos e muito particularmente do arguido e o restabelecimento da paz jurídica posta em causa com a prática do crime. sucedendo ao Código de 1929. sendo as mais relevantes as introduzidas pelas Leis nºs 59/98.

O fundamento para a aplicação de uma medida de segurança. quanto mais culpa o indivíduo revelar na prática de um facto criminoso. e as principiais são: Medidas de segurança. justifica-se a imposição daquela medida de segurança quando há suspeita de que aquele indivíduo que cometeu aquele facto penalmente relevante volte a cometer novo ilícito. e as principiais são: Prisão. A partir dos 16 anos. embora sejam sempre pósdelituais e são baseadas na perigosidade do delinquente. c) Penas . 1. não pode ser a culpa. com a proibição de obtenção de provas mediante abusiva intromissão na vida privada. uma sanção jurídica ou. conjunto de normas jurídicas que fazem corresponder a uma descrição de um determinado comportamento uma determinada consequência jurídica desfavorável. ou seja. que são basicamente: . o indivíduo é inimputável. A esses factos penalmente relevantes correspondem determinadas sanções jurídico-penais. b) Medidas de correcção São medidas (penais) que se aplicam a jovens delinquentes. com a necessidade e proporcionalidade de restrições à reserva da intimidade da vida privada e familiar. maior será a pena.As penas. mas sim a perigosidade. Multa. quanto menor a culpa menor será a pena. com restrições constitucionalmente admissíveis do direito á liberdade e com o princípio da oportunidade do exercício da acção penal pelos Ministério Público. a culpa é simultaneamente o limite da medida da pena. à capacidade civil e ao direito ao trabalho . No âmbito do Direito Penal vigora o princípio da culpa que significa que toda a pena tem como suporte axiológico normativo uma culpa concreta. o indivíduo tem plena capacidade de culpa e sobre ele pode recair uma pena: pena de prisão ou pena de multa.As medidas penais. . Direito Penal Conjunto de normas jurídicas que associam factos penalmente relevantes uma determinada consequência jurídica. a) Medidas de segurança Têm um carácter essencialmente preventivo.actos do processo. Antes dos 16 anos. com harmonização do direito à inviolabilidade do domicilio com outros direitos constitucionalmente protegidos. Medidas de correcção. Ou seja. de gravidade semelhante.

em que o indivíduo é encarcerado num determinado estabelecimento prisional onde cumpre a pena. O objecto do Direito Penal são os factos penalmente relevantes. Essa estrutura é a descrição de um facto. 4. uma inactividade. As normas da parte geral permitem de alguma forma encontrar princípios e preceitos que contemplam o que está na parte especial. como também determinadas omissões. Prevista e regulada nos arts. naquelas circunstâncias. uma omissão. Mas nem sempre as incriminações ou crimes estão descritos pressupondo da parte do agente. 41º CP). Crítica há definição estrutural da norma penal Esta definição estrutural do Direito Penal não nos resolve o problema de saber se. . Definição estrutural de Direito Penal Direito Penal é composto por um conjunto de normas jurídicas com uma determinada estrutura. CP. de um modo geral. A pena de multa é uma pena de natureza essencialmente pecuniária. A pena de prisão tem um limite mínimo de um mês e um limite máximo de 20 anos podendo ir até aos 25 anos em determinados casos (art. 3. 47º CP).Sanção característica do Direito Penal. quando a lei obrigava. a que corresponde uma sanção jurídico-penal1[1]. ilícito das contravenções (coimas) etc. ilícito da mera ordenação social. A pena de multa tem um limite mínimo de 10 dias e um limite máximo de 360 dias (art. de um comportamento humano que é considerado crime ou contravenção. poderá não ser: poderá ser por hipótese direito disciplinar. Estrutura da norma penal: . . sendo os de maior importância os crimes. A pena de prisão distingue-se da pena de multa: . um comportamento activo. 40º segs. ela tem a virtualidade de ser convertível em prisão. Também nestes casos é cominada uma consequência jurídica desfavorável (uma estatuição) para quem incorre num determinado facto previsto.A pena de prisão é uma pena privativa da liberdade. a que a pessoa actuasse. 2. se isso é ou não Direito Penal.A descrição de um facto – previsão. Definição formal e material de crime 1[1] Vulgarmente uma pena. A norma tem uma estrutura decomposta numa previsão e numa estatuição. em determinados campos em que também são aplicadas consequências jurídicas desfavoráveis a pessoas que cometem determinados factos relevantes. em Direito Penal são crimes não só determinadas acções. se o juiz condenar alguém pela prática de um crime com uma pena de multa e esta não paga. Pune-se não a actividade.A sanção jurídica que corresponde à prática desse facto – estatuição. esta bipartição entre uma previsão e uma estatuição. mas precisamente o “non facere”. vendo a sua liberdade de movimentação coactada. A estrutura das normas penais insertas na parte especial tem.

procurando dar tutela jurídica. crime é todo o comportamento humano que lesa ou ameaça de lesão (põe em perigo) bens jurídicos fundamentais. a criação de uma incriminação. transforma-o em bem jurídico. O bem já existe porque é um valor de ordem ideal. só deve emprestar a sua tutela. São bens jurídicos: . . de ordem moral. 18º CRP.Liberdade. leis. muitas vezes por opção de para política. os crimes principais encontram-se na parte especial do CP. .Integridade física. Formalmente o Direito Penal está legitimado pelas normas constitucionais. .Honra. a Constituição aponta determinados critérios que o legislador ordinário em matéria penal não pode ultrapassar. não é o legislador penal que cria o bem jurídico. . do direito administrativo. A intervenção do Direito Penal por força do princípio da subsidiariedade só se justifica quando seja para acautelar lesões ou ameaças de lesões de bens jurídicos fundamentais. Mas encontram-se muitos crimes tipificados em outros diplomas legislativos: Decreto-lei2[2].Propriedade. só está legitimada a intervir para tutelar determinados bens de agressões humanas quando essa tutela não puder ser eficazmente dada através de outros quadros sancionatórios existentes no ordenamento jurídico. Existe um princípio basilar e que dá consistência à criminalização de comportamentos que é o princípio da subsidiariedade do Direito Penal. Direito Penal no quadro das ciências penais O Direito Penal é composto por um conjunto de normas jurídicas que têm a virtualidade de associar a factos penalmente relevantes – os crimes e as contravenções – determinadas consequências jurídico-penais. . não forem suficientemente eficazes para acautelar esses bens jurídicos que as normas de Direito Penal procurem acautelar. Não é legítima a criação de um comportamento criminoso. mormente o art. outras por opção de política penal ou política criminal. Ou seja. sem que por detrás dessa incriminação se tentem proteger bens jurídicos fundamentais. Portanto. Por detrás de cada tipo legal de crime. Bens jurídicos são valores da ordem ideal que o legislador considera.Liberdade de decisão.Formalmente pode-se dizer que o crime é uma acção ou um facto típico. .Vida.Património em geral. Simplesmente o legislador. 2[2] Mediante autorização da Assembleia da República. . quando do direito civil. As normas penais têm de estar em harmonia com as orientações constitucionais. Mas. Materialmente. etc. encontram-se sempre a necessidade de tutelar um ou mais bens jurídicos. ao atribuir-lhe tutela penal. . O Direito Penal ao intervir.Liberdade de movimentação. ilícito e culposo. 5.

mesmo que seja a única arma de que disponhamos”. O carácter subsidiário e fragmentário do Direito Penal deve ser também analisado em consonância com outro princípio fundamental que é o princípio da proporcionalidade. aquilo que legitima o Direito Penal é a própria manutenção do Estado e da própria sociedade. mas tão só àqueles bens fundamentais. por força das sanções jurídicas que lhe são características. em termos de grandeza. Portanto. quer da parte especial do Código Penal. não deixam de reflectir uma certa carga moral. que se resume dizendo que o Direito Penal intervém como ultima “ratio” no quadro do ordenamento jurídico instrumental. O Direito Penal só deve intervir quando a sua tutela é necessária e quando se revela útil. considera como tal. que bens. quer de legislação penal extravagante ou avulsa. O Direito Penal é talvez o ramo de direito que mais próximo se encontra do ordenamento moral. Saber quais os bens estes valores da ordem moral e ideal que devem carecer de disciplina jurídica e de tutela penal. pode fazer-se através de duas maneiras: 1) Através de um processo intra-sistemático. Tal como Gallas dizia: “não se devem disparar canhões contra pardais. Princípio da subsidiariedade do Direito Penal O Direito Penal só deve intervir quando a tutela conferida pelos outros ramos do ordenamento jurídico não for suficientemente eficaz para acautelar a manutenção desses bens considerados vitais ou fundamentais à existência do próprio Estado e da sociedade. 6.Formalmente. inerente ao sistema: averiguar quais são as incriminações constantes de legislação penal. o Direito Penal só deve intervir quando e onde se torne necessário para acautelar a inquebrantibilidade social. A este carácter subsidiário do Direito Penal. sendo certo que a intervenção do Direito Penal. carecem de tutela penal. Significa isto que há que medir em termos de proporção. deve opor-se um outro princípio que é o princípio da fragmentariedade do Direito Penal. o Direito Penal é legitimado pelas próprias normas constitucionais e a visão constitucional do funcionamento do Estado e da sociedade é reflectida depois pelo legislador em sede de Direito Penal. a necessidade que há de tutelar um bem fundamental. ou seja. verificar que comportamento é que o legislador penal. colide com o direito de liberdade que é um direito fundamental do cidadão. Âmbito e disciplina do Direito Penal - . 7. Materialmente. Muitos comportamentos que são considerados como criminosos. o Direito Penal não deve intervir para acautelar lesões a todos e quaisquer bens. quando tem alguma eficácia. face ao direito vigente. 2) Através de um plano sistemático crítico: indagam que valores. saber depois de por detrás dessas incriminações se encontram sempre bens jurídicos que o legislador pretende tutelar. essenciais e necessários para acautelar a inquebrantibilidade social.

27º/2 CP. não se admite extradição se se tratar de uma contravenção. ou seja: Afirma-se que um crime é uma acção ou um facto típico. ou dogmática penal. A dogmática parte da elaboração de conceitos que arruma num edifício lógico e que vem permitir uma aplicação certa. a lei penal. por força do princípio da proporcionalidade. conforme preceitua o art. pode-se distinguir entre: . também designado por Direito Penal executório ou direito da execução penal. criação e execução dos preceitos de natureza penal. enquanto que há responsabilidade por crimes praticados na forma tentada.Direito Penal material ou substantivo. se os prazos de prescrição do procedimento criminal são mais amplos consoante maiores forem as penas. por exemplo. Dentro do âmbito e delimitação do Direito Penal. Quanto aos prazos de prescrição do procedimento criminal. Direito Penal da execução. A dogmática jurídico-penal.Direito Penal adjectivo. 3) Contra-ordenações. culposo e punível é obra dogmática. Censura-se ao agente o facto de ele ter decidido pelo ilícito. a lei vigente. É admissível a extradição em matéria de crime. que um facto ilícito é um facto típico não justificado. quando podia e devia ter-se decidido diferentemente. 9. segura e uniforme da lei penal. então se pode dizer que os prazos de prescrição do procedimento criminal são mais curtos no âmbito das contravenções do que no âmbito dos crimes (art. Afirmar-se. tanto maiores são quanto maiores forem as penas. a facto menos graves devem corresponder sanções menos graves. especialmente atenuadas. onde. 8. 117º CP). pode-se distinguir três conceitos: 1) Crimes. ou seja. é também obra da dogmática jurídico-penal. Principais diferenças de regime entre contravenção e crime Nas contravenções não se pune nunca a tentativa. ao passo que os cúmplices dos crimes são punidos com as penas fixadas para os autores. não há facto contravencional tentado. Não se pune a cumplicidade no âmbito das contravenções. diferentemente do que acontece no âmbito dos crimes por força do preceituado nos art. o facto de ele ter cometido um crime. formal ou Direito Processual Penal. as contravenções são menos sancionadas que os crimes. é uma ciência normativa que tem como fundamento e limite à lei positivada. logo. Neste caso. 2) Contravenções. . . ilícito.Segundo um critério que separa entre aplicação. ter-se decidido de harmonia com o direito. Tendencialmente é verdade que as contravenções são menos graves que os crimes. O que é a culpa? É um juízo de censura formulado pela ordem jurídica a um determinado agente. que é também um princípio de política penal. 22º e 23º CP.

A sanção do ilícito de mera ordenação social é a coima. Não há impedimento conceitual à aplicação de coimas a pessoas colectivas. de natureza essencialmente pecuniária. ressalva-se a excepção do art. não é admissível a prisão preventiva. Para prevenir violações a esses interesses que carecem de protecção legal. Por força do disposto no art. 1º CP. diferentemente do que sucede enquanto regra no âmbito do Direito Penal. efectivamente. mas que. 10. em que as pessoas colectivas podem ser sancionadas (art. quando não paga. o crime tem de ser um facto típico. não se pode aplicar nenhuma sanção jurídicopenal sem a intervenção dos tribunais. contrário à lei. . vigora o princípio da personalidade. a protecção jurídico-penal. O crime tem de ser um facto ilícito. também a contra-ordenação. só em caso de não conformação é que poderá haver recurso para os tribunais comuns3[3]. Pena de prisão. contudo possível a detenção por 24 horas para identificação do suspeito. e o ilícito de mera ordenação social empresta uma tutela administrativa. Por outro lado. Semelhanças entre ilícito penal e o ilícito de mera ordenação social Ambos os ilícitos tentam proteger valores dignos de protecção legal. que tem uma natureza pecuniária e que. 11º CP. 3[3] E não tribunais administrativos. não pode ser convertida em prisão. quando a lei expressamente o disser. conforme a definição do art. No âmbito do ilícito penal. 13º CP. salvo disposição em contrário. por regra e por força do art. 1º DL 433/82. No ilícito penal é possível a prisão preventiva. só as pessoas singulares são susceptíveis de responsabilidade criminal. que consiste numa privação da liberdade humana. Também a contra ordenação tem de ser tipificada na lei. Quem aplica as coimas no ilícito da mera ordenação social é a administração. Diferentemente sucede no ilícito da mera ordenação social. e a responsabilização criminal por facto negligente. só há responsabilidade criminal se os factos forem praticados dolosamente. quando não paga.No âmbito dos crimes. enquanto que no âmbito do ilícito penal se exige sempre a intervenção judicial. As sanções dos ilícitos são diferentes: A sanção característica do ilícito penal é a pena que assume duas modalidades: Pena de multa. O crime é um facto censurável e a contra-ordenação também. Diferenças entre ilícito penal e ilícito de mera ordenação social Os seus fins: Âmbito de aplicação. 11. O ilícito penal empresta. pode ser convertida em pena de prisão. ambos os ilícitos impõem aos infractores consequências jurídicas desfavoráveis. 7º DL 433º/82). No ilícito da mera ordenação social. Nas contravenções é indiferente a responsabilização fundada em facto doloso ou facto negligente. é.

131º CP. expressão de um interesse de uma pessoa ou da comunidade. Os bens jurídicos não são realidades palpáveis. Portanto. Quando se fala no artigo em Direito Penal militar e Direito Penal da marinha mercante. XIX). pois eles já existem. vão-se sentar na própria pessoa ou na comunidade. Figueiredo Dias define bem jurídico como. 130º CP. Trata-se do objecto do Direito Penal. as disposições deste código penal aplicam-se não só ao Direito Penal. sendo certo obviamente que quando o legislador lhes confere tutela jurídica transforma esses bens em bens jurídicos. 8º CP. em diante. pois que o código penal está dividido em duas partes: . Leis há que ainda não estão suficientemente maduras ou experimentadas. Noção Essência do Direito Penal como objectivo de proteger bens jurídicos fundamentais. são valores reputados fundamentais à própria existência da sociedade organizada em termos de 4[4] Direito Penal especial. O Prof. integridade do Estado. . que vem dizer que os crimes não lesam direitos. concretas. Aplicam-se. e consequentemente não têm aquele carácter de estabilidade que devem ter as normas constantes de um código. como os nomes indicam. são antes valores da existência social. isto é. inclusive. ou seja. portanto. isso são fundamentalmente leis penais específicas. Não é efectivamente o legislador que cria esses bens. entidades para além da própria ordem jurídica. mas sim bens. dentro de determinados limites. que vai do art. preexistem. A ideia de que o crime lesa bens fundamentais e não direitos remonta a Birnbaum (séc. como à restante legislação especial. .Uma parte especial. para passarem a integrar imediatamente a parte especial do código penal. que vai até o art. objecto que é em si mesmo socialmente relevante fundamental para a integridade do Estado. A noção material de crime era todo o comportamento humano que lesava ou ameaçava de lesão bens jurídicos fundamentais. Estes bens são interesses da coexistência social. TEORIA DO BEM JURÍDICO 13. Há leis de carácter pessoal4[4] que saíram posteriormente à feitura e à elaboração do código penal. Significa. aos agentes que detêm essas qualidades.Uma parte geral. leis que têm a ver com a categoria funcional de determinadas pessoas e que valem. Direito Penal geral e Direito Penal especial A base da distinção encontra-se no art.12.

diz que os bens jurídicos são uma combinação de valores fundamentais. daí carácter subsidiário e fragmentário do Direito Penal. quer da colectividade. O Direito Penal justifica a sua intervenção não só devido à natureza dos bens jurídicos em causa. o Direito Penal deve intervir apenas para tutelar as ofensas mais graves a esses bens jurídicos que. façam perigar esses interesses. devem ser objecto de uma reacção. funções que esses mesmos bens jurídicos desempenhavam para o desenvolvimento da própria sociedade. significando isto que: tem de estar em harmonia com o princípio da representatividade política e com o princípio da reserva de . sociais e culturais. Os comportamentos que agridam lesem. c) Concepção social Independentemente destes valores e interesses estarem subjectivados. Instrumento de interpretação dos tipos legais de crimes. têm de ser bens jurídicos fundamentais. d) Concepção funcional Podia-se ver nos bens jurídicos. São bens jurídicos fundamentais por referência à Constituição. Os bens jurídicos são vistos numa óptica social. aqueles que visam o bom funcionamento da sociedade e das suas valorações éticas. O Direito Penal não deve intervir para tutelar todo e qualquer bem jurídico. como bens universais pertencentes à colectividade. por referência à axiologia constitucional. 15. em virtude do especial significado que assumem para a sociedade e das suas valorações éticas. b) Concepção metodológica de bem jurídico Procuram ver no bem jurídico um papel voltado para uma função interpretativa. ou seja. 14. Evolução do conceito de bem jurídico Existem várias perspectivas a) Concepção liberal ou individual Ligada ao liberalismo e a Füerbach. ponham em causa. interesses sociais e individuais juridicamente reconhecidos quer do próprio. Fornecer fórmulas para interpretar as normas. mas também atendendo à intensidade da agressão que é levada a cabo para com esses bens jurídicos fundamentais. as funções sociais desempenhadas por esses bens. sociais e populares. Não necessitam. O bem jurídico tem como papel fundamentar a intervenção do Direito Penal. constata-se que há crime quando se verifica uma lesão de bens jurídicos que estão concretizados na esfera jurídica de um certo indivíduo. uma concepção mista em que se dá ênfase a uma combinação individualista. Portanto. podendo estar efectivamente imanentes à colectividade social. por outro lado. Figueiredo Dias. valores. O bem jurídico hoje: concepção mista O Prof.Estado. Os bens jurídicos tutelados pelas diferentes incriminações têm de estar de acordo com a Constituição. que têm de ser bens jurídicos fundamentais. uma lesão de valores ou interesses que correspondem a bens jurídicos subjectivos. O Direito Penal só deve intervir para proteger bens jurídicos fundamentais. de ser individualmente encabeçados na esfera social de um determinado sujeito em concreto. social ou mesmo funcional do bem jurídico. concretizados na esfera jurídica de um indivíduo. Portanto.

o Direito Penal só deve intervir quando estejam em causa bens jurídicos fundamentais e que outros ramos de direito não sejam suficientes para salvaguardar os bens jurídicos. permite dizer se o legislador ordinário respeitou a axiologia constitucional nas diferentes incriminações e nas inserções sistemáticas dos diferentes tipos legais de crime. são exclusivamente definidos na Constituição. é a Assembleia da República que deve efectivamente escolher quais esses valores. legítima a intervenção do Direito Penal nos quadros valorativos do art. quais esses interesses que carecem de tutela jurídico-penal. ou seja. assente em que. Figueiredo Dias. A teoria do bem jurídico. permite verificar também se o princípio da proporcionalidade do Direito Penal. porque ela deixa de ser necessária. tendo efectivamente um poder muito forte de critica argumentativa e permite ao legislador. mas tão só os que o art. não são todos os bens jurídicos que o Direito Penal deve tutelar. . se esses bens jurídicos que o legislador resolve tutelar quando cria incriminações são: Bem jurídico fundamental. Conjugam-se os princípios da necessidade e da subsidiariedade. a intensidade com que se devem restringir direitos fundamentais do cidadão é variável consoante a necessidade maior ou menor que há de tutelar outros bens jurídicos fundamentais. se o não forem. ou ao jurista verificar: Por um lado. é possível identificar os bens jurídicos que a ordem jurídica vai defender. é o princípio da subsidiariedade do Direito Penal. 17. . A ideia de necessidade – a pena deve ser necessária. diz que existe uma axiologia constitucional. por referência à gravidade dos bens jurídicos em questão. a tutela do Direito Penal é inconstitucional. os bens jurídicos.lei formal. Relação ordem jurídica penal e ordem jurídica constitucional O Prof. 18º CRP.Permite verificar se a intensidade da agressão justifica a tutela do Direito Penal. de harmonia com o princípio ou com o carácter fragmentário do Direito Penal. forem suficientes para acautelar a manutenção destes bens jurídicos. então não se impõe a tutela do Direito Penal. Princípios fundamentais5[5] De harmonia com os princípios imanentes a um Estado de direito democrático deve-se dizer que só deve haver criminalização de comportamentos humanos quando a tutela conferida por outros ramos de direitos não seja suficiente para acautelar esses bens jurídicos. as diferentes gravidades de ilícito devem corresponder diferentes penas. se isso é ou não observado. se é efectivamente necessária a tutela do Direito Penal ou se outra tutela será suficiente. O princípio da proporcionalidade. 16. Por outro lado. isto é. Mútua referência. As restrições limitam-se ao necessário. 18º CRP indica: os bens fundamentais. Por outro lado. só não ordem constitucional. é o princípio da necessidade. se outros ramos do direito através das suas sanções.

Da teoria dos fins das penas. Não há correspondência total da ordem penal na ordem constitucional 6[5] Art. Três finalidades podem ser prosseguidas com os fins imediatos das penas: 1) Ideia de retribuição. encontram-se valores que podem fazer intervir o Direito Penal. Compromisso de ter de proteger os bens jurídicos constitucionalmente consagrados. mas não nos direitos. Direito Penal secundário: todos os bens jurídicos que estavam na Constituição. fins de duas naturezas: fins mediatos e fins imediatos: . Direito Penal de justiça ou clássico ou primário: corresponde ao núcleo de bens jurídicos consagrados constitucionalmente. pode-se distinguir. mas em legislação avulsa. estando consagrados no Código Penal. Ou então poder-se-á dizer que as penas servem para fazer com que as pessoas em geral não cometam crimes. As penas servem para retribuir o mal a quem praticou o mal. No âmbito dos fins das penas. uma finalidade de prevenção geral. 2) Ideia de prevenção: a) Geral. TEORIA DOS FINS DAS PENAS 18.Como fins mediatos das penas tem-se os fins do Estado. não devem ser tratados no Código Penal. . Não há uma exclusiva vinculação da ordem penal à constitucional. 7[6] Pena. deve em última análise prosseguir fins imanentes a esse mesmo Estado. na ordem social.Da teoria do bem jurídico. . 18º/2 CRP. liberdade e garantias. b) Especial. valores que poderão não estar referidos constitucionalmente. A ordem constitucional identifica valores fundamentais.A restrição do Direito Penal é a restrição de uma tutela de bens jurídico constitucionalmente consagrados. Introdução O Direito Penal pode encontrar legitimação a partir de duas ideias fundamentais: . mas numa óptica formal e abstracta. esta é a teoria retributiva das penas: tem uma finalidade retributiva. O Direito Penal é um ramo de direito produzido pelo Estado e como tal. sanção característica do Direito Penal determinadas pela lei. Como fins imediatos das penas tem-se a ideia de retribuição e de prevenção. A finalidade das penas7[6] pode ser vista não numa óptica mediata de finalidades a prosseguir pelo próprio Estado.

8[7] Geral ou especial. Escolhe-se uma pena que corresponde a determinado facto. mas a prevenção já não é a comunidade em geral. 20. pode-se dizer que as penas pretendem evitar que as pessoas em geral cometam crimes. . Teorias absolutas – teoria da retribuição ou retributiva Apresenta a ideia de que as penas são um mal que se impõe a alguém. tem-se aqui uma finalidade de prevenção especial. ou seja. isto é. cria a “teoria psicológica da coacção”. ao submeter um indivíduo a uma sanção por um crime que ele cometeu. É uma teoria inadequada para fundamentar a actuação do Direito Penal. que o agente não volte a cometer um crime. mas sim a prevenção do indivíduo. O Direito Penal é chamado a retribuir um crime. já não assente na ideia de segregação. Significa a imposição de um mal a quem praticou um mal.Ou dizer que as penas servem para que a pessoa que é condenada a uma pena e que a tenha de cumprir não volte ela própria a cometer crimes. a função da pena é combater esse impulso de cometer crimes.Prevenção geral negativa revelar a intimidação. Fá-lo por duas vias: 1) Ou porque esse indivíduo é segregado. de recuperação ou de ressociabilização. uma ideia de castigo. através de um tratamento que lhe será submetido no âmbito do cumprimento da pena. por esse alguém ter praticado um crime.Teorias absolutas das penas. . mas numa ideia de regeneração. Numa óptica da prevenção especial. pode-se verificar que o direito penal. deve ter correspondência com a proporcionalidade na responsabilidade do agente. 19. revelar à comunidade o que acontece se praticar um crime. 2) Ou então. embora este tenha um fim de retribuição. as infracções que as pessoas cometem têm. Intimida-se as pessoas. A estas ideias subjacentes aos fins das penas. tem também a ideia de prevenção. pretende evitar que esse indivíduo volte a cometer crimes. Teorias relativas a) Teoria da prevenção8[7]: Numa óptica de prevenção geral. enquanto está a cumprir pena tem a impossibilidade de reincidir. há que distinguir entre: . não pode ter a teoria da retribuição como fim em si mesmo. . O objectivo da pena é essencialmente o objectivo de exercer uma influência na comunidade geral – ameaçar se cometer um crime. Füerbach. com esta coacção para que os cidadãos em geral não cometam crimes. pois ao cometer fica submetido a uma determinada pena – prevenir a prática de crimes. Esta prevenção geral divide-se em: Prevenção geral positiva.Teorias relativas das penas. Aparece a teoria da prevenção especial. Pretende evitar a reincidência. mas é concebido com uma ideia de prevenir (teoria da prevenção geral). um impulso psicológico.

de prevenção geral. O Direito Penal é cada vez mais dirigido à pessoa do criminoso.Os principais defensores da teoria da prevenção especial asseguram-na de três formas9[8]: 1) Salvaguardar a comunidade do delinquente. Teoria dialéctica dos fins das penas Klaus Roxin desenvolve esta teoria mista. . 2) Fase da condenação: fase em que o indivíduo que cometeu um crime vai ser julgado e em que o juiz lhe comunica a pena aplicável.Princípio da culpabilidade para a limitação da pena vai-se ter em conta a culpa do agente12[11].Criar o que falta nelas. de importância solada são insuficientes para justificar os fins das penas. abstractamente definido na lei. b) Teorias unificadoras preventivas Dois objectivos: . A pena serve para corrigir o delinquente. dizendo que cada uma das teorias per si. . 3) Evitar a reincidência11[10].Os fins das penas são essencialmente e exclusivamente preventivos. momento da retribuição. de recuperação ou ressociabilização do delinquente. Apenas não pode ultrapassar a medida de culpa. a prevenção.Renúncia de toda a ideia de retribuição. 3) Fase da execução da pena: em que a finalidade da pena estaria aqui numa óptica de prevenção especial. Aquele que praticou o facto. Outras teorias a) Teorias unificadoras retributivas Viam no Direito Penal o fim retributivo (fim essencial). não nos fornece um critério de quanto e a duração das penas. em que existe a tipificação do comportamento como criminoso e os estabelecimentos da sanção correspondente. os fins das penas seriam predominantemente de natureza. 9[8] Quando se aplica uma pena a um indivíduo. Características: . Tal como a prevenção geral. . mas partindo das insuficiências da retribuição iam apontar ao Direito Penal a finalidade de prevenção. 21. Ao grau de culpa vai-se encontrar a medida da pena13[12]. Os sistemas (teorias) desenvolvidos por si só são falíveis. É alvo de críticas. começando a se desenvolver teorias mistas. 10[9] 11[10] . 2) Intimidar o autor 10[9]com a pena. 22. É a teoria que mais se opõe à retributiva. criando condições para o sociabilizar. Engloba três fases: 1) Fase da ameaça penal: a formulação de um preceito legal.Aproveitar o que têm de positivo a prevenção especial e geral.

Princípio da humanização das penas passou a ser proibido certas penas cruéis. limitar as questões de justiça privada. Características das ordenações: Casuísmo: direito casuísta evolui na aplicação concreta de casos a caso. Há tentativas de organizar o poder – centralização do poder real. Princípio da proporcionalidade das penas. tendo o mesmo monopólio do poder de punir.12[11] 13[12] Limita a intervenção penal. que tentava restringir o poder do imperador. XIX – 1822 – com a constituição liberal vem reorganizar o Estado português – corte com o regime das ordenações contendo princípios de Direito Penal. estas ordenações mantiveram-se até ao séc. Concentra-se nos reis os poderes. as penas eram transmissíveis. No séc. Desigualdade: as penas eram aplicadas em conformidade com a posição social do acusado. período da reconquista. Influência árabe. Este período dura até ao constitucionalismo liberal13[13]. Arbitrariedade: o juiz tinha uma longa margem de discricionariedade de fazer funcionar as penas daquele que estava perante si. XIX (1852). Nos livros das ordenações há uma linha idêntica na matéria de punição. No séc. não há uma lei concreta. XII e XIII. Necessidade das penas. formas de organização do Estado – período afonsino. Atribuir exclusividade de repressão pública. Síntese histórica A primeira manifestação de direito organizado na península ibérica – período visigótico – relativo ao Direito Penal foi o Código Visigótico. e o máximo de obediência à lei. TEORIA DA LEI PENAL 23. As penas eram marcadas por grande crueldade. Combater a desigualdade das penas. . é inspirado pelos movimentos europeus de Direito Penal13[14]. referência a incriminações de carácter doloso. Vai limitar a medida da pena. Há uma tentativa de criação de um Código Penal em 1779.

De 1966. as normas penas ordinárias são autorizadas. 11º CP). são delegadas por outras normas. no que à parte geral diz respeito. transpõe para o Direito Penal os princípios penas consagrados. autoria de Cavaleiro Ferreira. Neste sentido pode-se ver aqui que este conjunto de normas constitucionais que proíbem certas penas ou certas medidas de segurança filiam-se num princípio de política penal. alteração à parte especial. o art. Mas na Constituição encontram-se também normas que proíbem a transmissibilidade das penas. dirigida por Figueiredo Dias. Em primeiro lugar encontram-se um grupo de normas que proíbem certas penas e certas medidas de segurança13[15]. essas de natureza constitucional. Em 1852 é feito o primeiro Código Penal Português. 30º/3 CRP. o princípio da intransmissibilidade das penas e acolhe o carácter pessoal da responsabilidade penal (art. no que à parte especial diz respeito.Acabar com a transmissibilidade da responsabilidade criminal. Na Constituição encontram-se vários conjuntos de normas que conexionam directamente com o Direito Penal. Fundamentos O Direito Penal funda-se na Constituição. O Código Penal de 1982 consiste nos projectos e ante-projectos do Prof. que é o princípio da humanidade das penas. consagra assim. Eduardo Correia: De 1963. Em 1886 é feito um novo Código Penal. não mais do que o Código Penal de 1852 com algumas alterações. Em 1954 é reformado. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE 24. Sofre alterações em 1984 e uma profunda alteração de 195. .

29º/2 CRP). O Direito Penal funda-se também no sentido de que o legislador ordinário deve de alguma forma dar acolhimento e plasmar a axiologia ou a valoração constitucional. as opções axiológicas constitucionais devem ser respeitadas pelas normas penais. Art. 29º/1. ou da - A lei. 29º/4. . 29º/5. consagra-se o princípio “ne bis in idem”. 29º/3. órgãos que julgam com imparcialidade. na sua essência visa a submissão dos poderes estabelecidos à lei. 27º/2. 18º CRP): Princípio da necessidade da pena: da máxima restrição da pena e das medidas de segurança. só pode intervir para restringir ou limitar direitos. liberdades e garantias fundamentais quando isso se revele absolutamente imprescindível para acautelar outros direitos tão fundamentais. Outro princípio fundamental que norteia todo o Direito Penal é o princípio da legalidade. proíbe-se a retroactividade das leis penais incriminadoras. do Direito Penal. Art. porque é a Constituição que contem os valores que o Direito Penal deve proteger (art. que são órgãos de soberania.A Constituição contém também um conjunto de normas que delimitam a aplicação no tempo das leis penais e fixam o âmbito da sua interpretação (art. Diz-se que as valorações. Princípio da jurisdicionalidade da aplicação do Direito Penal ou princípio da mediação judicial (arts. proíbe a integração de lacunas em Direito Penal por analogia. 33º/4. independentes. o princípio de que ninguém pode ser condenado mais do que uma vez pela prática do mesmo facto. Princípio da intervenção mínima subsidiariedade do Direito Penal. 29º CRP): Art. impõe obrigatoriamente a retroactividade das leis penais mais favoráveis ao agente. ou seja. traduz-se numa limitação de poderes estabelecidos pela própria lei. 30º/2 CRP): As sanções de Direito Penal e a responsabilidade criminal de uma pessoa só podem ser decididas pelos tribunais. Art. - - Também os princípios gerais de direito internacional são fonte de Direito Penal (art.

extrai-se o seguinte: Não pode haver crime sem lei. o princípio da legalidade tem esse fundamento: garantir os direitos individuais do cidadão. a correspectiva sanção jurídico-penal. Proíbe-se a integração de lacunas por analogia e impõe-se a retroactividade das leis penais mais favoráveis. O princípio da legalidade impõe a exigência da intervenção judicial ou da imediação judicial na aplicação ou na apreciação da responsabilidade criminal do agente. Proíbe-se a retroactividade da lei pena – “nullum crimen nulla poena sine lege previa”. o princípio da legalidade impõe particularidades no âmbito da competência para a criação de normas penais incriminadoras e normas penais favoráveis. O princípio da legalidade impõe ainda a proibição de uma dupla condenação pelo mesmo facto.25. Proíbe-se a interpretação extensiva das normas penais incriminadoras – “nullum crime nulla poena sine lege strica”. deve conter. O princípio da legalidade. o princípio da legalidade tem como fundamento a garantia dos direitos individuais. em conexão com essa descrição. princípio de que não há crime nem pena sem lei. . Decorrência do princípio da legalidade Princípio “nullum crimen. O princípio da legalidade tem um fundamento político. A lei que define crime tem de ser uma lei precisa – “nullum crimen nula poena sine lege certa”. - - - Por outro lado. um fundamento saído da Revolução Francesa. e que assenta na ideia de que existe uma razão comum a todos os homens que encontram expressão comum na lei e evitam o arbítrio. Neste sentido. Enquanto submissão do poder de punir o Estado à lei. do Iluminismo. nulla poena sine lege”. Uma lei penal não deve conter tão só a descrição de um comportamento considerado crime. ou seja. mesmo no domínio do Direito Penal tem uma justificação e um fundamento de constituir uma garantia de direitos individuais do cidadão.

a Assembleia da República (art. a exigência de lei prévia. com a finalidade de aplicar a justiça. a definição de um comportamento como crime e a correspondente sanção que se lhe aplica tem de constar de uma lei escrita. Do princípio da legalidade decorre a ideia de que não há crime nem pena sem lei (escrita). “nullum crimen nulla poena sine lege prévia”. “nullum crimen nulla poena sine juditio”. ao agente. Decorrência de que não existe crime nem pena sem lei escrita – “nullum crimen nulla poena sine lege scripta”. b) Não há crime nem pena sem lei prévia É outra concretização do princípio da legalidade na garantia de direitos individuais. Outro princípio que é o da imposição de leis penais retroactivas quando as leis penais posteriores forem favoráveis ao arguido. Tem competência para criar normas incriminadoras13[16]. isto é. as sanções jurídico-penais sejam elas penas ou medidas penais. e) Proibição de dupla condenação pelo mesmo facto . 2) d) Exigência de intervenção judicial. Decorrências do princípio da legalidade enquanto garantia dos direitos individuais do cidadão a) Missão de fazer leis penais Uma delas afere-se pelas pessoas que têm a missão de criar crimes e estabelecer as correspondentes sanções jurídico-penais. Neste sentido. têm de ser sempre aplicadas por um órgão de soberania independente. que tem a missão de fazer leis penais. c) Exigência de lei expressa Pode ser analisada a partir de duas outras decorrências: 1) O princípio de que não há crime nem pena sem lei certa – “nullum crimen nulla poena sine lege certa”. que entre nós são os tribunais. Impõe que as leis a aplicar sejam a lei que vigora no momento da prática do facto. 165º CRP).26.

quando o costume se venha traduzir no âmbito de uma norma favorável. e arts. de contrário violaria o disposto no art. Tem de ser típico. Há uma grande tendência para que os tribunais se orientem para decisões anteriores. d) Doutrina . 1º CP. ou seja. Este facto tem ainda de ser simultaneamente ilícito. 3) 27. tem de estar descrito numa lei. No entanto o costume tem valia quando visa. o princípio de que ninguém pode ser julgado mais do que uma vez pela prática do mesmo facto. isto é. Reconduz-se à aplicação da lei ao caso concreto.Consagra-se o princípio “ne bis in idem”. Muito genericamente dir-se-á: 1) 2) O crime é um facto humano. mas quando a sua intervenção resulte benéfica para o agente: ou seja. Existem categorias analíticas e sistemáticas da teoria do facto punível: são as categorias da tipicidade. Fontes de Direito Penal a) A lei (escrita) Aqui está a tal decorrência do princípio da legalidade “nullo crimen nulla poena sine lege scripta”. b) Costume Como fonte de incriminação não é admissível em Direito Penal. tem de corresponder a uma descrição legal. c) Jurisprudência Não é fonte imediata de direito. não há crime nem pena sem lei escrita (art. 165º CRP). 29º e 165º/1-c CRP. nomeadamente estaria a violar o princípio da representatividade política e da reserva da lei formal. da ilicitude e da culpabilidade. isto é. não criar ou agravar a responsabilidade penal do agente. quando o costume de alguma forma venha atenuar ou mesmo excluir a responsabilidade criminal do agente.

e) Fontes de direito internacional – tratado São fonte de Direito Penal.Não é fonte imediata de direito. proíbe-se a aplicação analógica no âmbito das normas penais incriminadoras. ou seja. quer de normas incriminadoras. tornando mais suaves os pressupostos da punibilidade ou da punição. Outros ainda – Frederico da Costa Pinto – entende que no âmbito das normas favoráveis a analogia está de todo excluída. Normas favoráveis. São aquelas normas que de alguma forma contêm a criação de crimes. nas normas penais favoráveis. ou atenuá-la. quer por analogia iuris. Interpretação da lei penal Tem-se de dividir as normas penais em dois grupos: normas incriminadoras e normas favoráveis. Outros autores – Cavaleiro Ferreira – a analogia em Direito Penal. 28. aprovação. etc. relativamente ao problema da analogia: 1) Alguns autores – Teresa Beleza. Corresponde ao conjunto das opiniões dos eminentes penalistas. tal como a lei. é admissível a interpretação restritiva. admitem a analogia. mas sim fonte mediata. admite-se a interpretação extensiva. Deve entender-se por normas incriminadoras aquelas que criam ou agravam a responsabilidade jurídico-penal do agente. de outra forma estar-se-ia a violar o princípio da legalidade na sua decorrência “nullum crimen nulla poena sine lege stricta”. eles entram na ordem jurídica nacional como lei escrita. a) Normas penais incriminadoras Proíbe-se a interpretação extensiva das normas penais incriminadoras. ratificação. ou que contêm agravamentos dos pressupostos de punibilidade ou de punição. porque depois de todo o processo de assinatura. de que as normas penais devem ser estritamente aplicadas. quer de normas favoráveis. está vedada.. b) Normas penais favoráveis Proíbe-se a interpretação restritiva de normas penais favoráveis. Em certos 2) 3) . são aquelas normas que visam diminuir a responsabilidade jurídico-penal do agente. quer por analogia legis.

no âmbito de normas incriminadoras uma interpretação declarativa lata. os pressupostos da punibilidade e da punição. ou que traduzem para o agente. nem tão pouco criar a norma de harmonia com o espírito do sistema. mas com limites. nem à analogia iuris. 30. Tudo aquilo que a exceda e que vise harmonizar a letra da lei à sua razão de ser. Isto é. a serem ou não adoptadas. ao contrário de que acontece no domínio do direito civil regular esse caso omisso. Normas incriminadoras A interpretação extensiva em normas incriminadoras não é possível. - Pode-se fazer interpretação extensiva. uma posição mais benéfica porque: Ou excluem a ilicitude de um facto típico e portanto justificam o facto e tornam-no ilícito. porque não há responsabilidade penal por factos lícitos. . à sua “ratio”.casos pode-se admitir a interpretação extensiva de normas favoráveis. Normas favoráveis As normas favoráveis são aquelas que visam. Esta não deve ser admitida em Direito Penal. excluem a responsabilidade penal. tornando-o ilícito. não classificou como crime. porque se entende que por força do princípio da legalidade. 29. se ultrapassar este sentido literal máximo possível já se está a fazer interpretação extensiva. Só é possível. perante um caso omisso que o legislador penal ano tipificou. mais suaves. Assim a norma deve dizer expressamente quais são as condutas. se exige que a lei penal seja uma lei penal expressa. o juiz não pode. absolvendo. activas ou omissivas que. No entanto admite-se a interpretação restritiva. Afirma-se rotundamente que não é possível integrar lacunas por analogia. O juiz pura e simplesmente julga. Ou tornam-se mais brandos. nem recorrendo à analogia legis. constituem objecto de incriminação em sede de Direito Penal. mas não é possível o recurso à analogia no âmbito de normas favoráveis. na sua vertente garantia.

Mas já não se aceita que se faça interpretação restritiva de normas penais favoráveis. o que significa aumentar o campo de punibilidade. a ser possível. precisamente porque no entender de determinada doutrina. mas sim noutras normas de categoria hierárquica igual ou inferior à norma penal em branco13[17]. Leis penais em branco É uma norma que contem uma sanção para um pressuposto ou um conjunto de pressupostos de possibilidade ou de punição que não se encontram expressos na lei. Levantam-se problemas quanto à constitucionalidade de tais normas. ou seja. que digam quem são os . 31. Desde que as normas penais em branco contenham os pressupostos mínimos de punibilidade e de punição. Uma (Teresa Beleza) admite-se a integração de lacunas no âmbito de normas penais favoráveis. Outra posição é a de que se admite por princípio a integração de lacunas por analogia no âmbito de normas penais favoráveis. Quanto à analogia: Existem várias posições. A doutrina maioritária defende a constitucionalidade e validade das normas penais em branco. dentro de certos limites ou desde que sejam respeitados determinados limites. desde que essa analogia não se venha a traduzir num agravamento da posição de terceiros. por ele ter de suportar na sua esfera jurídica efeitos lesivos ou por ter auto-limitado o seu direito de defesa. diminuir-se-ia o campo de aplicabilidade destas normas favoráveis. isto porque. mais concretamente a existência de lei penal certa – “nullum crimen nulla poena sine lege certa”. estas normas seriam inconstitucionais por consistirem numa violação de uma decorrência do princípio da legalidade que é a existência de lei penal expressa.

Concurso efectivo ou concurso de crimes: constitui a situação em que o agente comete efectivamente vários crimes e a sua responsabilidade contempla todas essas infracções praticadas. ou do mesmo tipo mais do que uma vez.destinatários e em que posição é que eles se encontram e que contenham a respectiva sanção. 32. As quais podem traduzir o preenchimento de vários tipos de crimes. Concurso aparente ou concurso de normas: uma vez que a conduta do agente só formalmente preenche vários tipos de crimes. Concurso legal ou aparente de normas Na determinação da responsabilidade criminal dos agentes que praticam factos penalmente relevantes podem suceder situações de anulação ou concurso de infracções. desde que correspondam a uma verdadeira necessidade que o legislador tem de tutelar bens jurídicos fundamentais através desta técnica. a alternativa resultaria da sua desprotecção. sempre que o agente com a sua conduta cometa uma pluralidade de infracções. das situações em que o conteúdo da conduta é absorvido por uma única das normas. estas normas não serão inconstitucionais. na concretização da sua responsabilidade a aplicação de um dos crimes afasta a aplicação de outro ou outras de que o agente tenha também preenchido os elementos típicos. . A teoria do concurso permite distinguir os casos nos quais as normas em concurso requerem uma aplicação conjunta. sob pena de não o fazendo.

ou seja. constituindo uma forma de crime. só se aplicando a norma subsidiária quando a outra não se aplique. Neste sentido. A relação de concurso aparente consagra-se por conexões de subordinação e hierarquia. tanto pode subsistir a norma que contenha a moldura penal mais elevada. vê-se que por força de uma relação de especialidade em que as normas se podem encontrar. o qual se traduz num problema de determinação da norma aplicável13[18]. se chega à mesma conclusão.Em rigor não se pode falar em verdadeiro concurso de crimes. O tema do concurso de infracções deve ser integrado no âmbito da teoria da infracção. não a contradizendo contudo. Sendo sempre um dos últimos passos na resolução da responsabilidade dos intervenientes no crime. Subsidiariedade implícita ou material: resulta quando em face de um raciocínio imperativo. quando por força de uma interpretação verificar-se que a relação que existe b) . como a norma que contenha a moldura penal mais baixa. O que se depreende da prática judiciária. em consonância com a maioria da doutrina é que a resolução concreta do concurso de normas opera no momento final da teoria da infracção. mas tão só em concurso de normas (concurso legal). Distinguem-se dois tipos: a) Subsidiariedade expressa: é a própria lei que afirma expressamente que uma norma só se aplica se aquela outra não se puder aplicar. podendo identificar-se essencialmente três tipos de relações: 1) Relação de especialidade Uma norma encontra-se numa relação de especialidade em relação a outra quando acrescenta mais um tipo incriminador. 2) Relação de subsidiariedade Nos casos em que a norma vê a sua aplicabilidade condicionada pela não aplicabilidade de outra norma. A norma prevalecente condiciona de certo modo o funcionamento daquela que lhe é subsidiária.

A relação de consunção acaba por colocar em conexão os valores protegidos pelas normas criminais. quando tem uma discrição típica suficientemente ampla que abranja os elementos da discrição típica da outra norma. pois ao contrário do que se verifica naquela relação de concurso de normas. Não deve confundir-se com a relação de especialidade. Casos em que subsiste uma imputação a título negligente e doloso. Diferentes formas de participação ou autoria. . Introdução Uma das decorrências do princípio da legalidade é que não há crime sem uma lei anterior ao momento da prática do facto que declare esse comportamento como crime e estabeleça para ele a correspondente sanção13[19]. A finalidade das normas concentra-se sempre na tutela de bens jurídicos. mas por uma forma característica. ou seja. sendo possível identificar em cada tipo legal a ratio da conduta descrita. sendo certo que a responsabilidade por facto negligente é subsidiária à imputação por facto doloso. VIGÊNCIA TEMPORAL DA LEI 33. Entre as condutas de omissão e por acção.entre as normas não pode deixar de ser uma relação de subsidiariedade. a norma prevalecente não tem necessariamente de conter na sua previsão todos os elementos típicos da norma que derroga. a realização de outro tipo de crime. Existem tendencialmente ou em princípio quatro grandes situações em que as normas se encontram numa relação de subsidiariedade implícita ou material: 1º Diz-se que as incriminações de perigo ou os crimes de perigo se encontram numa relação de subsidiariedade implícita ou material em relação aos crimes de lesão. Relação de consunção 2º 3º 4º 3) Quando um certo tipo legal de crime faça parte não por uma definição do código.

34. É diferente dos efeitos da descriminalização. o Código Penal é de 1982 e entrou em vigor em 1983. Regime que se revela concretamente mais favorável. Aplicação da lei Qual é a lei que no momento do julgamento o juiz devia aplicar ao arguido? É a lei do momento da prática do facto. ainda que essa lei tenha revogado aquela. que é a mas favorável. Mas a aplicação externa ou exacerbada deste princípio poderia levar a situações injustas. porque se aplica sempre a lei penal de conteúdo mais favorável ao arguido. 2º/2 CP). 2º/4 CP. deve-se aplicar este regime ao agente. no caso de se tratar de um crime omissivo. Existe ultra-actividade da lei penal. 35. outros defendem a sua constitucionalidade. No entanto a lei no art. 2º/4 CP A Constituição de 1976 foi revista em 1982. no momento em que o agente deveria ter actuado. Cessa os efeitos penais – princípio da aplicação da lei mais favorável. Duas situações Uma nova lei vem descriminalizar uma determinada conduta. Donde o princípio geral em matéria penal é de que as leis penais mais favoráveis aplicam-se sempre retroactivamente. mesmo que o agente tenha já sido condenado e se encontre detido (art. O momento da prática do facto é sempre aquele em que. donde.Em Direito Penal vigora portanto a lei do momento da prática do facto. Como deve reagir a ordem jurídica? Se a conduta vier a ser descriminalizada não deve ser condenado por essa conduta. Há autores que defendem a inconstitucionalidade do art. ou. o legislador penal deveria ter conhecimento das disposições constitucionais e se legislou ordinariamente consagrando esta . 2º/4 CP coloca um limite para o efeito retroactivo – “salvo se este já tiver sido condenado por sentença transitada em julgado”. o agente actuou. Constitucionalidade do art. do que a lei posterior. no caso de se tratar de um crime comissivo ou por acção.

2º/4 CP. 36. diz que a lei penal de conteúdo mais favorável só não se aplica ao condenado. então estava-se a julgar outra vez o mesmo indivíduo pela prática do mesmo facto. se abstenha a partir de determinado momento de impor uma determinada punição. ou seja. e também se poria em causa a intangibilidade no caso julgado.ressalva. Esta ressalva é inconstitucional porque viola o princípio da igualdade. substancialmente não existem diferenças a que se aplique retroactivamente as normas que operam a descriminalização. e arguido tem um sentido técnico-jurídico rigoroso: uma coisa é arguido. Logo o Direito Penal só deve intervir quando se torne necessário a sua intervenção. a entender-se a aplicabilidade da lei mais favorável. não se estando a falar em arguido mas sim em condenado. como também não faz sentido continuar a aplicar uma punição que o Estado recusou num determinado momento. se já há trânsito em julgado da sentença condenatória. e também existe o princípio da igualdade dos cidadãos na administração da justiça. A entender-se o contrário. 29º/4 CRP. 29º/5 CRP) era posto em causa. Um outro argumento para a inconstitucionalidade da ressalva do art. pôr-se-ia em causa o princípio “ne bis in idem”. por ser legislação posterior. 2º/4 CP com o art. e isto porque. 2º/4 CP O Direito Penal tem carácter subsidiário. na medida em que a Constituição manda aplicar retroactivamente a lei de conteúdo mais favorável ao arguido. 2º/4 CP. equacionando uma valoração eminente a um determinado crime. E o princípio “in bis in idem”. de que ninguém deve ser julgado/condenado duas vezes pelo mesmo facto (art. O art. Não faz sentido que o Estado. outra é condenado e outra ainda é réu. . é porque a ressalva não é incompatível com o disposto na Constituição. Se realmente se pudesse aplicar retroactivamente esta lei mais favorável. porque nos dois casos se altera o regime penal. Inconstitucionalidade do art. é o princípio da subsidiariedade do Direito Penal. Não é incompatível o art. é porque esse indivíduo já foi condenado. das normas que não operam uma descriminalização mas principalmente uma despenalização.

deve continuar a ser punido pelo facto que praticou durante esse período em que a lei estava efectivamente em vigor. Em bom rigor. mas em que esse agravamento se deve tão só a situações ou circunstâncias anormais que reclamam a situação de emergência. As leis de emergência são as leis que face a determinado circunstancialismo anormal vêm penalizar. não há uma sucessão de regimes. donde também não faz sentido falar em aplicação retroactiva porque a lei é sempre a mesma. que continua a ser punido o facto criminoso praticado durante o período de vigência de uma lei de emergência. Leis temporárias e leis de emergência As leis temporárias são as leis que marcam “ab initio”. o seu prazo de vigência. São leis temporárias que caducam com o “terminus” da vigência que pré-fixaram. ou vêm efectivamente agravar a responsabilidade penal por determinado facto que até aí já era crime. Significa que. Ressalva-se no art. pelo menos duas leis. à partida. 2º/3 CP. Aqui a lei é só uma. no âmbito das leis temporárias não há uma verdadeira sucessão de leis no tempo. a lei é só uma só faz sentido falar em sucessão de leis penais no tempo e em retroactividade ou irretroactividade quando estão em causa mais do que uma lei. não obstante no momento do julgamento a lei já não estar em vigor por já ter caducado ou já ter sido revogada. - 38. Não há uma lei diferente. porque: A lei é temporária em sentido estrito. não necessita de nenhuma outra lei para que se possa afirmar uma sucessão de leis penais no tempo.O que está em causa é uma diferente valoração do legislador quanto aos factos considerados crimes. 37. Aplicação da lei no espaço . são as normas que se destinam a vigorar durante um determinado período de tempo pré-fixado. criminalizar determinadas condutas que até aí não eram consideradas crime.

5º/1-b CP. Vindo estes princípios consagrados no art. Princípio da tutela ou da protecção dos interesses nacionais Quando se trate de crimes expressamente consagrados no art. O legislador utiliza também a conexão dos valores ou dos interesses lesados ou ameaçados de lesão com as actividades criminosas. são crimes que põem em causa valores ou interesses fundamentais do Estado português. 5º/1 CP. para que seja competente para julgar factos penalmente relevantes.Não são só conexões geográficas que o legislador utiliza para tornar aplicável a lei penal portuguesa. independentemente da nacionalidade dos seus autores. Princípio da universalidade ou da aplicação universal São de alguma forma crimes que todos os Estados têm interesse em punir. Este princípio da territorialidade é depois complementado pelo princípio do pavilhão ou da bandeira pelo qual independentemente do espaço aéreo ou das águas. a lei penal portuguesa também se aplica a factos praticados no interior de navios com pavilhão português. ou a bordo de aeronaves registadas em Portugal. são crimes que o Estado português entende ferirem a sensibilidade jurídica nacional. 5º CP. Isto evidencia-se em sede de dois princípios: Princípio da tutela ou da protecção dos interesses nacionais. Princípio da universalidade ou de aplicação universal. a lei portuguesa é competente para os julgar – princípio da territorialidade. 39. são crimes que reclamam uma punição universal e daí que as ordens jurídicas se reclamem competentes para fazer aplicar a sua lei penal a esses factos descritos no art. . o valor dos interesses postos em causa pela prática do crime. 40. Os factos penalmente relevantes ocorridos em território nacional. De um modo geral.

também dito princípio da personalidade activa ou passiva.Da alínea c) do art. Uma vez em sede do art. O princípio da nacionalidade activa diz basicamente que a lei portuguesa se aplica a factos praticados no estrangeiro por portugueses. e aqui verificar se estão reunidas todas as - . 5º/1 CP retira-se o princípio da nacionalidade. Teoria da ubiquidade Visa abranger os delitos à distância. só funciona cumulativamente quando se trate de um caso de nacionalidade passiva. O art. É de harmonia com o princípio da nacionalidade activo. salvo quando nesse lugar não se exerça poder punitivo”. Condição: que os factos criminosos “sejam também puníveis pela legislação do lugar em que foram praticados. que a lei penal portuguesa aplica-se a factos praticados no estrangeiro que sejam cometidos por cidadãos nacionais. 41. Condições para o princípio da nacionalidade: 1º 2º Condição: os agentes sejam encontrados em Portugal (art. Se será eventualmente o princípio da nacionalidade activa ou passiva previsto na alínea c). então pode-se considerar que o facto ocorreu em território nacional. quando se trate de um crime praticado no estrangeiro por um estrangeiro contra um. e aí poder-se-á aplicar a lei penal portuguesa por força do preceituado no art. Que “constituam crime que admite extradição e esta não possa ser concedida”. Se haverá afloramento do princípio da universalidade (alínea b)). 5º CP vai-se analisar caso a caso: Se será o princípio da protecção dos interesses nacionais. não se admite a extradição de cidadãos nacionais. 5º/1-b CP). poderá ser um dos crimes elencados no aliena a). O princípio da nacionalidade passiva diz que a lei penal portuguesa se aplica a factos cometidos no estrangeiro contra portugueses. 7º CP é importante: se considerar que a conduta ou o resultado típico tiveram lugar em Portugal. uma vez precisamente que este princípio vem dizer que a lei penal portuguesa é aplicável a factos praticados no território nacional. português. 4º CP e que consagra o princípio da territorialidade. 3º Esta condição prevista na 3ª condição.

42. 6º define as condições gerais de aplicação da lei penal portuguesa a factos cometidos por estrangeiros: Princípio de que ninguém pode ser responsabilizado por um facto mais do que uma vez (art. 6º/3 CP). Pressupostos: Que o agente se encontre em Portugal. Princípio da dupla incriminação e princípio da especialidade O princípio da dupla incriminação. A extradição seja pedida. significa que só é admitida a extradição se o Estado português considerar também crime o facto pelo qual se pede a extradição ou o facto que fundamenta a extradição. mas que puna o facto. Seja possível a extradição mas não seja admitida. Princípio da administração supletiva da justiça penal (art. O art. não podendo o extraditado ser julgado por uma infracção diferente e anterior à que fundamenta o pedido de extradição. O princípio da especialidade significa que a extradição só pode ser concedida para o crime que fundamenta o seu pedido. 6º/2 CP não funciona quando está em causa o princípio da protecção dos interesses nacionais (art. 6º/2 CRP. 43. e mais favorável. tem-se que ter em atenção a lei do lugar onde o facto foi cometido. - As condições no art. Por outro lado. 29º CRP). . Art. 5º/1-e CP) Admite que o Estado português julgue um criminoso que tenha cometido um crime no seu país de origem contra um cidadão desse país e fuja para Portugal. também em princípio não se admite a extradição quando seja prioritariamente aplicável a lei penal portuguesa. depois de ver que lei penal é competente.condições previstas e se existem ou não restrições à aplicabilidade da lei portuguesa13[20].

. e mais favorável. Pode-se formalmente definir crime como um comportamento humano que consiste numa acção penalmente relevante. Art. A extradição seja pedida. para o agente daquela infracção. tem-se que ter em atenção a lei do lugar onde o facto foi cometido. acção essa que é típica. a culpa. O art. 5º/1-e CP) Admite que o Estado português julgue um criminoso que tenha cometido um crime no seu país de origem contra um cidadão desse país e fuja para Portugal. depois de ver que lei penal é competente. ilícita. 29º CRP). mas que puna o facto. Seja possível a extradição mas não seja admitida. a todos os factos tipificados na lei como crime. Esta teoria permite desde logo uma aplicação certa. Pressupostos: Que o agente se encontre em Portugal. Função da tutela necessária dos bens jurídicos – objectivos de ressociabilização do agente encontrando o limite da pena. O conjunto dos pressupostos de punibilidade e de punição que são comuns a todos os crimes. Sistema exclusivamente preventivo em que se procura fazer uma coexistência dos princípios de prevenção especial e geral. Os requisitos comuns é que um facto deve ter para ser considerado criminoso e para que dele decorra uma responsabilidade jurídico-penal para o seu autor. 6º define as condições gerais de aplicação da lei penal portuguesa a factos cometidos por estrangeiros: Princípio de que ninguém pode ser responsabilizado por um facto mais do que uma vez (art. TEORIA DO FACTO PUNÍVEL OU TEORIA DA INFRACÇÃO 44. segura e racional da lei penal. Introdução É a teoria que tem por objecto o estudo do crime. - O Código Penal assume princípios de prevenção especial e um misto de prevenção geral – teorias unificadoras preventivas. culposa e punível.43. 6º/2 CRP. Princípio da administração supletiva da justiça penal (art.

Tem-se de ver se essa acção preenche a tipicidade de um dos tipos previstos na parte especial do Código Penal. isto é. Acção penalmente relevante É todo o comportamento humano dominado ou dominável pela vontade. vai-se verificar que esta categoria analítica que é composta por elementos subjectivos e objectivos. estando integralmente preenchida indicia a ilicitude. E através do estudo destas categorias analíticas pode-se determinar a responsabilidade jurídico-penal duma pessoa.Passa-se dum casuísmo. Ilicitude . é necessário verificar se estão preenchidos os elementos objectivos13[21] e subjectivos13[22] de um tipo legal. ter-se uma vocação generalizadora de factos penalmente relevantes. de verificar caso a caso o que é crime para através da teoria da infracção. tem-se de ver se esse comportamento humano preenche ou não um tipo legal de crime. de factos criminosos. através duma análise de subsunção progressiva. Tem-se de se ver então o que é o dolo: consiste na consciência e vontade de realizar os elementos objectivos de um tipo legal. Ter-se-á depois de verificar o seguinte: se está em presença de um comportamento humano dominado pela vontade. Depois. Estando preenchida a tipicidade. 46. ou então em legislação penal lateral. Para isso é preciso verificar se essa acção é típica. O elemento subjectivo geral do tipo é o dolo. Como se verifica se a acção é típica? Tem-se efectivamente de analisar esta categoria que é a tipicidade. pode-se firmá-la ou excluía. tem-se de ver se o elemento objectivo do tipo está preenchido. Através deste conceito. 45. tem-se de verificar se aquela actuação humana se subsume ao tipo normativo na previsão dos seus elementos objectivos e subjectivos. já se está a excluir a responsabilidade jurídico-penal de comportamentos que provêm não de pessoas mas de animais.

A ilicitude num sentido formal. Mas numa óptica material. justificam o facto típico. Mas para além de ter capacidade de culpa. Mas pode acontecer. Pode estar excluída pela intervenção de normas remissivas. é nomeadamente o caso dos inimputáveis e dos menores de 16 anos. pode ser que não se verifique nenhuma causa de justificação ou de exclusão da ilicitude. Na maior parte dos casos em que as pessoas cometem crimes não estão a actuar ao abrigo de nenhuma causa de exclusão da ilicitude. ou se for portador de uma anomalia psíquica ou de um estado patológico equiparado. O agente não tem capacidade de culpa se tiver menos de 16 anos. para que o juízo de culpa possa ser formulado é preciso que o agente tenha capacidade de culpa. o agente também tem de ter consciência da ilicitude do facto que pratica. que vêem apagar o juízo de ilicitude do facto típico. contrário ao direito. 47. e para além da capacidade de culpa e da consciência da ilicitude é preciso. a estarem presentes. de um facto ilícito é um facto contrário à ordem jurídica. para se formular sobre o agente um juízo de censura de culpa. são as designadas causas de justificação que. àquelas pessoas a quem não for susceptível formular um juízo de censura de culpa aplicam-se medidas de segurança. Sabendo-se que só se pode formular um juízo de censura de culpa sobre um imputável. Em princípio da lei penal só tipifica factos que são contrários ao direito. Culpa É a categoria analítica do facto punível. Punibilidade . Logo. numa ofensa material a bens jurídicos. Mas a ilicitude indiciada pelo facto típico ou pela tipicidade pode ser excluída. 48. é a contrariedade à ordem jurídica na sua globalidade. que preenchido um tipo mediante uma acção penalmente relevante e a ilicitude indiciada pelo tipo. excluindo a ilicitude indiciada pela própria tipicidade. o facto ilícito consiste numa danosidade social. que o agente não tenha actuado em circunstâncias tão extraordinárias que o desculpem. porque as penas só se aplicam a quem seja susceptível de um juízo de censura de culpa.

Para além de o facto ter consistido numa acção típica, ilícita e culposa, é ainda preciso que seja punível. Então chega-se à conclusão que por vezes existem determinados factos praticados no seio de acções penalmente relevantes, típicas, ilícitas culposas, mas contudo os agentes não são punidos. E porque é que não há punibilidade em sentido estrito? Ou porque não se verificam condições objectivas de punibilidade; Ou então porque se trata de uma isenção material, no caso de desistência; Ou porque se trata de uma causa pessoal de isenção de pena.

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Porque é que se fala numa subsunção progressiva? Porque quando se analisa a responsabilidade jurídico-penal de alguém, temse de analisar detalhadamente todas estas categorias. Ainda que intuitivamente se possa dar automaticamente a resposta, tem-se de percorrer estas etapas porque, por hipótese, se chegar à conclusão que aquele comportamento não foi dominado nem tão pouco era dominável pela vontade humana, imediatamente se nega a responsabilidade criminal do agente. Os tipos, a não ser quando a lei expressamente o diga, são sempre dolosos. O estudo analítico do crime, da teoria da infracção, vai permitir: Por um lado, fazer uma aplicação certa, segura e uniforme da lei penal; Por outro lado, vai ter uma vocação de subsunção progressiva.

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Mas se hoje, entende-se que o crime é uma acção típica, ilícita, culposa e punível, esta tripartição entre tipicidade, ilicitude e culpa é uma conquista dogmática da Escola Clássica. E à Escola Clássica segue-se cronologicamente a Escola Neo-clássica, e a esta segue-se a Escola Finalista. Todas estas escolas teorizam o crime tripartindo-o, dizendo que era uma acção típica, ilícita e culposa. Agora, o que cada uma destas escolas considerava como integrante de cada uma destas categorias analíticas é que diverge. Escola Clássica: Beling/Van Listz;

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Acção – naturalista (acção natural); Tipicidade – correspondência meramente externa, sem consideração por quaisquer juízos de valor; só elementos objectivos e descritivos; Ilicitude – formal; Culpa – psicológica (inserção de todos os elementos subjectivos – dolo e negligência). Criticas – os factos penalmente relevantes com negligência e os comportamentos omissos.

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Escola Neo-clássica: Prof. Figueiredo Dias; Acção – negação de valores; Tipicidade – o tipo tem também elementos normativos e determinados crimes têm também na sua tipicidade elementos subjectivos; Ilicitude – material; a) b) Permite graduar-se o conceito de ilicitude; Permite a descoberta ou a formação de causas de justificação.

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Culpa – censurabilidade: pressupostos da culpa – capacidade de culpa, consciência da ilicitude, exigibilidade; Os conceitos de acção social e a posição de Figueiredo Dias, renúncia a um particular conceito de acção e os conceitos de: a) b) Tipo indiciador; Tipo justificador ou tipo do dolo negativo; A teoria dos elementos negativos do tipo.

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Escola finalista: Wessel; Acção – final; Tipicidade – o dolo é um elemento subjectivo geral dos tipos; Ilicitude – conceito de ilicitude pessoal – o desvalor da acção e do resultado;

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Culpa – normativa; elementos da culpa.

Todos estes sistemas partem duma análise quadripartida do crime, como acção típica, ilícita e culposa.

49. O sistema clássico Parte de uma concepção positiva, mecânica, mesmo naturalista, lógica da teoria da infracção. O conceito de acção para os clássicos é visto como um conceito naturalista da acção, como um movimento corpóreo, um esforço muscular ou nervoso que produz uma alteração objectiva do mundo real. O tipo ou tipicidade é a correspondência externa de um comportamento considerado acção uma disposição legal, à discrição legal de um tipo legal de crime. Mas a tipicidade era vista do ponto de vista meramente externo ou objectivo sem nenhuma consideração de valor. A ilicitude é uma categoria separada. Para os Clássicos a ilicitude é vista numa óptica meramente formal, ou seja, como contrariedade à ordem jurídica na sua globalidade. Um facto ilícito é um facto contrário à lei. Não vem permitir uma graduação do conceito de ilicitude, porque se em sentido formal, a ilicitude significa contrariedade à ordem jurídica, se o facto ilícito é o facto que contraria a ordem jurídica, donde contraria a lei, e o facto lícito é o facto que não contraria a lei, então só se pode afirmar que um comportamento é ou não é ilícito, é ou não é contrário à ordem jurídica. Quanto à culpa, para os Clássicos, era nessa categoria dogmática do facto punível que se incluíam todos os elementos subjectivos. Portanto, a ilicitude e a tipicidade eram meramente objectivas. Tudo quanto fossem elementos subjectivos estaria na culpa. A culpa era vista de uma óptica psicológica, porque a culpa corresponde à ligação psicológica entre uma pessoa e o seu comportamento, e essa ligação poderia ser uma ligação dolosa ou uma ligação negligente. Logo, o dolo e a negligência são meras formas de culpa. A tipicidade é meramente objectiva. É depois em sede de culpa que se terá de verificar que relação existe entre o agente e o seu facto, para se poder afirmar uma culpa meramente psicológica.

Mas talvez a crítica mais forte que se pode tecer ao conceito de acção dos clássicos é precisamente a omissão porque a responsabilidade penal é afirmada por factos cometidos por acção. procurando “limar” alguns defeitos ou arestas do sistema clássico. O que interessa é efectivamente o valor que está subjacente a um determinado comportamento. Em relação à ilicitude. Este conceito de acção como movimento corpóreo que produz a alteração objectiva no mundo exterior é um conceito criticável por várias razões. Sistema Neo-clássico É desenvolvido na Alemanha a partir dos anos 20. dizendo então que a acção homicida é a acção que se esperava que o agente tivesse. é ou não ilícita. se um facto. Criticas ao sistema Clássico A primeira crítica diz respeito ao conceito de acção. Assim. se uma acção. os Neo-clássicos passam a ver a acção (o . A acção para os Neo-clássicos: Vêem dizer que não é importante verificar se ouve ou não um movimento corpóreo que produziu uma alteração objectiva no mundo exterior.50. mas também por omissões penalmente relevantes. Daí que os clássicos tenham reformulado um pouco esta noção. porque as actuações humanas são pautadas por determinadas valorações. 51. só nos permite afirmar se um comportamento. pergunta-se como é que os Clássicos explicam a culpa negligente. mormente os casos de negligência inconsciente. Sendo a culpa vista numa óptica meramente psicológica. o agente conhece e quer empreendida com determinado resultado típico. Em relação à culpa. sendo uma ilicitude meramente formal. Nos comportamentos dolosos. não nos permitindo graduar o conceito de ilicitude. ou os crimes omissivos. O conceito de acção dos clássicos deixa de fora as omissões. ou assumir uma determinada conduta consubstanciada num tipo legal de crime.

crime) como a negação de valores através de um comportamento. Portanto, o crime é todo aquele comportamento que nega valores. Klaus Roxin entende que o que é importante em sede de Direito Penal, em sede comportamental são tão só os factos ou as acções voluntárias, isto é, aqueles comportamentos dominados ou domináveis pela vontade. Dentro da vertente Neo-clássica surge outro conceito de acção, que é a acção social, desenvolvida por Smith. Este autor defende que mais importante que tudo para afirmar a existência duma acção penalmente relevante é verificar se aquele comportamento, se aquela actuação deve ser tido como uma acção em termos sociais. Isto é, se socialmente aquele comportamento merece a qualificação de acção. E isto porque, desde logo, há acções que à prática, podem parecer negar valores, mas que não devem ser acções penalmente relevantes de harmonia com a própria concepção social de acção. A tipicidade, os Neo-clássicos vêm dizer que a tipicidade é composta por uma série de elementos, e o tipo não é valorativamente neutro, implica já um juízo de valor para quem preenche a tipicidade. Referem que o tipo tem também elementos normativos, elementos que, descrevendo entidades do mundo real, carecem duma interpretação complementar pelo recurso a normas. Para estes autores, o tipo é composto por elementos positivos e por elementos negativos: Elementos positivos: aqueles responsabilidade penal do agente; que fundam positivamente a

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Elementos negativos: são as causas de justificação que, quando relevantes, justificam o facto típico.

A culpa para os Neo-clássicos, não é uma culpa psicológica, como pretendiam os Clássicos, mas é antes um conceito que é integrado já por um critério de censurabilidade assente na existência de determinados pressupostos, nomeadamente a capacidade de culpa e a consciência da ilicitude. A culpa é já uma culpa com ingredientes normativos e implica um juízo de censurabilidade pela prática de um facto.

52. Criticas ao sistema Neo-clássico

O conceito de acção: um comportamento humano que nega valores. Ora, na negação de valores cabe não só o comportamento activo, como existem também omissões que podem de igual modo lesar valores. Portanto, aqui neste conceito de crime como comportamento socialmente relevante que lesa valores, já se pode enquadrar de alguma forma o comportamento omissivo ou a omissão, coisa que ficava de fora do conceito meramente causal e naturalístico de acção dos Clássicos. Há determinados comportamentos cuja apreensão da negação ou de valores só pode ser dada pela finalidade do comportamento, ou da acção. Os Neo-clássicos não incluíam o dolo em sede de tipo ou de tipicidade. O dolo é um elemento da culpa, ou uma forma de culpa, porque só excepcionalmente a tipicidade é integrada por elementos subjetivos, chamados elementos subjetivos específicos, com a intenção de apropriação no crime de furto, etc. Também os Neo-clássicos não resolvem correctamente problema da negligência e dos comportamentos negligentes.

53. Sistema finalista Os finalistas propõem um conceito de acção que é um conceito de acção final. Chagam à conclusão que o direito, a realidade normativa, não pode aparecer totalmente divorciada e desligada da realidade ôntica, da realidade do ser que é anterior à realidade normativa. Se o direito visa regular comportamentos humanos, estabelecer regras de conduta, então o direito, sob pena de ser uma falácia, tem de respeitar a natureza ôntica, a natureza do ser, e o que é próprio do ser humano para os finalistas, dentro de um conceito de acção, é o agir com vista à obtenção de um fim servindo-se de conhecimentos objectivos e causais que permitem essa obtenção, este conceito de acção deve ser respeitado em sede de tipicidade. Portanto, a intenção que preside a uma determinada acção, que é a sua finalidade, deve ser espelhada no tipo. Logo, o dolo que é a intenção, o fim da actuação, deve ser um elemento subjectivo do tipo. Quanto ao conceito de ilicitude: começa a falar-se de um conceito de ilicitude pessoal. Actuar ilicitamente já não é tanto actuar contrariamente à ordem jurídica na sua globalidade, como pretendiam os Clássicos (ilicitude formal). Já não

interessará tanto actuar lesando bens jurídicos fundamentais, como pretendiam os Neo-clássicos (ilicitude material). Interessará mais, verificar se aquela pessoa que actua de determinada forma actua ilicitamente, se se lhe pode atacar um juízo de desvalor na acção ou no facto que pratica. Existe aqui uma certa concepção ética do direito. Dentro deste conceito de ilicitude pessoal de se poder reprovar uma pessoa por adoptar um determinado comportamento, podem-se distinguir dois desvalores: 1) 2) O desvalor da acção, da conduta empreendida pelo agente; O desvalor do resultado, em que se traduz o comportamento ou a conduta do agente.

A acção, embora no âmbito dos crimes negligentes seja também desvaliosa13[23], por comparação dos crimes dolosos em que o agente actua querendo e conhecendo um determinado resultado, o desvalor da acção nos crimes dolosos é muito superior. Quanto à culpa. Os finalistas têm um conceito de culpa puramente normativo. A consciência da ilicitude, a capacidade de culpa e a exigibilidade dos comportamentos passam a ser elementos da culpa. Faltando um destes elementos da culpa, já não é possível formular sobre uma pessoa um juízo de culpa. A capacidade de culpa consiste no fundo em a pessoa ter capacidade para avaliar as exigências. São incapazes de culpa: a) b) Os inimputáveis em razão da idade (menores de 16 anos); Os portadores de anomalias psíquicas, que são inimputáveis em razão da anomalia psíquica.

A consciência da ilicitude é um elemento autónomo da culpa.

54. Criticas ao sistema finalista O conceito de acção, é um conceito de acção final e os finalistas nunca conseguiram com este conceito justificar muito bem os crimes de negligentes. Sendo assim também para as omissões.

porque o legislador só responsabiliza pelas omissões impuras aqueles sobre quem recaía ou . A acção tem relevância quer consista num comportamento positivo. que é dominado ou dominável pela vontade. que se diferenciam: são designadas omissões puras (ou impróprias) e as omissões impuras (ou impróprias). Crime doloso por omissão. Uma acção penalmente relevante pode consistir: Num comportamento positivo – num “facere”. das forças da natureza e dos animais irracionais. Dentro do ponto de vista dos fins das penais. quer numa óptica preventiva.Daí que quem segue a sistemática finalista opte por uma quadripartição do facto punível. Quando o legislador descreve as incriminações. 10º CP. Crime por acção negligente. Num comportamento negativo – num “non facere”. quer numa óptica retributiva. Crime doloso por acção. Acção Acção penalmente relevante é todo o comportamento humano. Fica logo excluído os comportamentos ou as acções das coisas. com relevância no mundo exterior. Crime por omissão negligente. Há duas formas de comportamento omissivo penalmente relevante. não faz sentido criminalizar comportamentos que não sejam dominados pela vontade. A nossa lei equipara a omissão à acção. essa equiparação é dada pelo art. para estar preenchido. quer numa omissão. para ser consumado exige uma conduta e um resultado. em que se distingue: 55. No caso das omissões impuras nem toda a gente pode incorrer em responsabilidade jurídico-penal por omissão impura. através de normas proibitivas e de normas que pressupõem um determinado resultado típico do tipo.

esforço nervoso ou muscular. O conceito de acção causal é criticável. Para os Neo-clássicos. dizendo que acção penalmente relevante é aquilo que é socialmente adequado a ser acção. Os clássicos consideravam por acção penalmente relevante todo o movimento corpóreo. Finalmente o conceito de acção final para os finalistas. não há dúvida que o mesmo comportamento pode ter vária e diferente relevância social. isto porque: Torna-se mais difícil de explicar como é que nestes casos das omissões impuras pode haver a acção omissiva. que produz uma alteração objectiva no mundo real. o conceito de acção é todo o comportamento que nega valores – é uma negação de valores. Muitas vezes também. a relevância social da acção não pode estar desligada daquilo que o agente quis. consoante a intenção do agente. de per si. O processo causal nos crimes omissivos representa especialidades face aos crimes activos. Mas este conceito não explica de per si porque é que algumas omissões negam valores não é dada tanto pela acção. Essas especialidades fazem com que os próprios finalistas tivessem de chegar a uma análise quadripartida do facto punível (ou da infracção): . Por outro lado. mas pela ordem jurídica. só é crime porque socialmente se convenciona que aquele comportamento é uma acção relevante.impendia um dever jurídico que pessoalmente o obrigasse a evitar a produção do resultado típico. Smith vem com um conceito social de acção. - - Só através de um critério exterior ao próprio conceito de acção causal é que se consegue delimitar os comportamentos com relevância penal e os comportamentos que não têm essa relevância. Este conceito de acção causal não afasta. Crime de injúria: este crime só é concebível a partir de uma certa ponderação social daquele comportamento como negação de um determinado valor. É todo o comportamento em que a pessoa se serve dos conhecimentos objectivos e causais para atingir uma determinada finalidade. comportamentos dominados pela vontade.

- Crimes dolosos por acção. . Este conceito de acção final não é compreensível para abarcar todas as realidades e comportamentos que podem dar origem à responsabilidade jurídico-penal. porque o direito penal encontra a sua justificação na tutela de bens jurídicos fundamentais. Figueiredo Dias). porque o conceito de acção tem um determinado rendimento em sede de dogmática jurídico-penal. mas também é concebível que nalguns tipos apareçam elementos normativos. um interesse. Crimes negligentes por omissão. Crimes negligentes por acção. o legislador há-de pretender sempre a tutela de um ou mais bens jurídicos. Há autores que. predominantemente. 57. Estrutura do tipo Por detrás de cada tipo legal encontra-se sempre a tutela de um ou mais bens jurídicos. Os tipos têm na sua descrição elementos descritivos. é um valor. 56. em relação ao conceito de acção penalmente relevante. como categoria autónoma da punibilidade. dizem que nós devemos renunciar a um particular conceito de acção e é própria tipicidade que englobamos os comportamentos por acção e por omissão (Prof. Crimes dolosos por omissão. porque não é um conceito isento de críticas em qualquer formulação. O bem jurídico é algo distinto do chamado objecto do facto ou objecto da acção. O objecto do facto ou da acção é o “quid” concreto sobre o qual incide a actividade criminosa do agente. Enquanto que o bem é aquela realidade que não é uma realidade palpável. Tipo ou tipicidade Por detrás de cada tipo incriminador. Há outros autores que discordam e que dizem que o conceito de acção penalmente relevante e efectivamente uma categoria que não se deve descurar.

Estes elementos objectivos do tipo referenciam entidades ônticas que existem independentemente de qualquer representação entre a mente do agente e o facto por ele praticado.Aliás foram os Neo-clássicos que chamaram à atenção para a existência destes elementos normativos do tipo. por isso se designam elementos subjectivos. A conduta ou descrição da acção típica. uma valoração suplementar. por isso se dizem elementos objectivos. Referindo. por uma estrutura mista: é composto por elementos objectivos e por elementos subjectivos. Os elementos descritivos são aqueles elementos que expressam entidades do mundo real. ou crime doloso por acção. para seu cabal entendimento carecem do recurso a uma valoração suplementar. do recurso por exemplo a outra norma. agora. São as especiais tendências. postulam sempre. que são elementos que têm de existir para que os tipos legais de crime se considerem efectivamente preenchidos. Os elementos subjectivos. Os elementos normativos são aqueles que. seja de ordem jurídica. Como elementos subjectivos e no âmbito do crime doloso. O resultado. quer para a sua cabal compreensão. que não existem elementos puramente descritivos: todos eles são mais ou menos normativos. encontram-se os chamados elementos subjectivos específicos. como Ihering. as especiais intenções. Há quem diga. pode-se encontrar os seguintes elementos objectivos do tipo: a) b) c) d) e) O agente. não necessitam de nenhuma valoração suplementar feita pelo recurso a uma norma. entre a representação da mente do agente daquilo que ele pensa e quer aquilo que objectivamente se verifica.13[24] O nexo de imputação. expressando também entidades do mundo real. . O tipo é integrado sobretudo a partir duma abordagem finalista. também designado de causalidade13[25]. para seu cabal entendimento e compreensão. ou seja. são aqueles que pressupõem já uma relação com o foro íntimo do agente. tão só ao crime comissivo por acção. seja ética. quer no foro exterior quer interior. Algumas circunstâncias que rodeiam a conduta ou descrição da acção típica.

. d) Nexo de causalidade Isto traduz-se. em saber se um determinado resultado pode ser imputado a uma conduta do agente. Há crimes em que. se aquilo que se verifica pode ser efectivamente considerado como obra daquela actuação típica do agente. Nestes crimes materiais ou de resultado. Elementos objectivos do tipo especial a) Agente O agente é aquela (s) pessoa (s) que adopta uma conduta típica descrita num determinado tipo legal de um crime e que empreende a realização típica – o agente do tipo legal de crime. ou tão só a acção típica. ainda. que para além da conduta pressupõe.O elemento subjectivo geral será o dolo. nos chamados crimes materiais ou de resultado: é o próprio resultado típico. também dita descrição da acção típica. para a sua consumação. O dolo consiste no conhecimento e vontade de empreender um determinado tipo legal de crime. 58. uma estrutura bipartida. a verificação do resultado típico. c) Resultado É também um elemento objectivo do tipo. no âmbito dos crimes dolosos. aparece como um elemento objectivo do tipo legal de crime e encontrase efectivamente descrita no tipo. Nos crimes negligentes. o querer efectivamente essa realidade objectiva de determinada forma. e um elemento de natureza volitiva. O dolo consiste no conhecer e querer os elementos objectivos de um tipo legal de crime. b) Acção típica ou conduta A conduta típica. se exige que espaço-temporalmente se desprenda ou se destaque da conduta típica algo diferenciado que é o resultado – o resultado típico – para que o facto possa estar efectivamente consumado. o elemento geral será a negligência. O dolo apresenta pois. integrada por um elemento intelectual que é o conhecimento – o conhecimento de uma determinada realidade objectiva. para além da descrição da conduta típica.

e descrevê-lo. abrangendo simultaneamente não só a categoria analítica da tipicidade mas também as outras categorias dogmáticas como a ilicitude a culpa e a própria punibilidade. nos crimes materiais ou de resultado. Muitas vezes a lei descreve comportamento que considera proibidos e que as pessoas não devem adoptar. total. são crimes cuja obtenção do resultado típico previsto pela norma pode ser obtido. por referência à conduta do resultado típica que é matar. porque ao adoptá-los isso importa a obtenção de um determinado resultado lesivo. quer por via de um comportamento omissivo ou de uma omissão. naqueles crimes que se designam normalmente por crimes de forma livre. o legislador pode pretender dar cobertura literal a esse elemento. Acepções em que se utiliza a palavra tipo a) Tipo de garantia. ou nalguns tipos de crime – os crimes de omissão impura ou imprópria – é o chamado dever de garante. ou em virtude da sua passividade ou omissão. Aqui o crime é de realização vinculada. é preciso que sobre essa pessoa impenda um dever jurídico que pessoalmente a obrigue a evitar a produção desse resultado lesivo. muito raramente. ou então elementos que integram qualificações ou priviligiamentos de tipos legais de crimes. ou a este nexo de nexo de causalidade ou de imputação objectiva. e) Circunstâncias que rodeiam a conduta As circunstâncias podem ser. É o que acontece nos chamados crimes de realização vinculada. Por vezes. o qual pode ser obtido quer por via de um comportamento activo ou de uma acção. por uma certa descrição do nexo de causalidade. Para que uma pessoa seja responsabilizada por ter dado origem à produção de um resultado típico proibido pela lei em virtude de uma inactividade. Este dever de garante pode resultar fundamentalmente de três pontos: ou directamente da lei. Ou seja. pelas mais diferentes formas. ou em sentido amplo Pretende abranger todos os elementos que concorrem para fundamentar uma responsabilidade criminal. Um outro elemento não escrito no tipo e que existe apenas nalgumas classificações. isto porque. para a nossa lei. 59. ou de contrato. ou crimes autónomos. .É um elemento não escrito do tipo. ou de uma situação de imergência. pela descrição do elemento.

E designa-se também tipo indiciador porquê? Porque uma vez preenchida integralmente a tipicidade. uma pessoa cometeu um facto que corresponde à descrição objectiva e subjectiva de uma norma legal. ou não actuando ao abrigo de nenhuma causa de justificação. b) Tipo iniciador ou tipo em sentido restrito O tipo abrange tão só a categoria da tipicidade. Significa pois. ao qual se comina uma sanção penal geral e abstractamente estabelecida.O tipo garantia corresponde ao conjunto de pressupostos de punibilidade e de punição de um tipo legal. formula-se um juízo de valor sobre essa pessoa no sentido de que a tipicidade indicia a ilicitude. que é simultaneamente ilícito. porque a pessoa pode ter actuado tipicamente. com a estrutura somente de elementos objectivos e subjectivos. por hipótese. ou seja. com a expressão tipo indiciador. Podendo-se dizer assim que. tipo indiciador ou tipo em sentido restrito é a correspondência objectiva e subjectiva à definição de um tipo legal de crime. tipo em sentido restrito ou tipo de injusto. a qual pode ser excluída pela intervenção das causas de justificação. preenchidos integralmente os elementos constitutivo do tipo de crime. não actuando ao abrigo de nenhuma causa de exclusão da ilicitude. todos os elementos objectivos e subjectivos do tipo podem estar preenchidos mas a pessoa não ter responsabilidade jurídico-criminal porque. porquê? Porque o facto de preencher um tipo neste sentido restrito não significa de per si que a pessoa vá ser punida. Ou. de um crime. por outras palavras. a situação de que alguém cometeu um facto típico em sentido estrito. . naquele caso actuou em legítima defesa. c) Tipo intermédio comportamento típico acresce Pretende-se significar que a um simultaneamente um juízo de equidade. visa-se a delimitação de um comportamento proibido exigido. Tipo em sentido restrito.

porquê? Porque o facto de preencher um tipo neste sentido restrito não significa de per si que a pessoa vá ser punida. ao qual se comina uma sanção penal geral e abstractamente estabelecida. a qual pode ser excluída pela intervenção das causas de justificação. naquele caso actuou em legítima defesa. porque a pessoa pode ter actuado tipicamente. preenchidos integralmente os elementos constitutivo do tipo de crime. formula-se um juízo de valor sobre essa pessoa no sentido de que a tipicidade indicia a ilicitude. CLASSIFICAÇÃO DOS TIPOS DE CRIME IMPUTAÇÃO OBJECTIVA IMPUTAÇÃO SUBJECTIVA ILICITUDE CULPA COMPARTICIPAÇÃO CRIMINOSA PUNIBILIDADE TENTATIVA E DESISTÊNCIA . por hipótese.exigido. todos os elementos objectivos e subjectivos do tipo podem estar preenchidos mas a pessoa não ter responsabilidade jurídico-criminal porque. E designa-se também tipo indiciador porquê? Porque uma vez preenchida integralmente a tipicidade. Tipo em sentido restrito.

Dizem-se crimes específicos em sentido próprio quando para além de só poder ser agente ou autor da incriminação aquela pessoa que tenha as características exigidas pelo próprio tipo. também chamados de participação necessária e. ou por uma qualquer situação juridicamente definida. Os crimes específicos em sentido impróprio são aqueles que exigindo embora essas qualidades específicas do agente. há uma outra classificação que distingue entre: crimes plurisubjectivos. qualquer pessoa pode ser agente ou autor do crime tipificado. Ainda quanto ao agente. na pessoa do agente. Os crimes plurisubjectivos ou de participação necessária são aqueles em que o tipo incriminador exige o envolvimento. São portanto crimes que não postulam de determinadas qualidades. ou seja. podendo estes ainda ser: crimes específicos em sentido próprio e em sentido impróprio. para estarem preenchidos quanto à pessoa do agente. Os crimes específicos ou próprios são aqueles em que os agentes são qualificados por um qualquer dever jurídicos. . e crimes específicos ou próprios.CLASSIFICAÇÃO DOS TIPOS DE CRIME 60. crimes unisubjectivos ou unisingulares. têm paralelo para o comum das pessoas em termos de responsabilização jurídico-penal. Quanto ao agente Pode-se classificar a tipicidade em crimes gerais ou comuns. não existe na lei penal nenhuma tipificação correspondente para o comum das pessoas. Os crimes gerais ou comuns são aqueles que podem ser praticados por qualquer pessoa. pressupõem um envolvimento plural. É um crime que só pode ser praticado por aquelas pessoas e mais nenhumas. Estes tipos. Não existe responsabilidade jurídico-penal paralela para quem não tenha essas qualidades pressupostas pelo tipo na pessoa do seu agente. exige mais do que um agente para integrar o tipo. naturalísticas ou não. São aqueles que pressupõem como autores dos crimes apenas as pessoas que têm uma qualidade exigida pelo próprio tipo.

mas acentuando a ideia da incapacidade de culpa. os crimes que violam deveres jurídicos. porque senão eram nulas por contrariedade à lei. acentuando já não a ideia de incapacidade de agir. Essa teoria bipartida devia assentar: Por um lado. - 61. Neste sentido. roubo. apenas as pessoas singulares são susceptíveis de responsabilidade jurídico-criminal. de um só autor. mas essencialmente pela titularidade de um dever jurídico. É o que preceitua o art. Por outro lado. ou o consenso de uma só pessoa.. Savigny tem afirmado também a ideia de que não existe responsabilidade penal das pessoas colectivas. normalmente deveres jurídicos de natureza profissional ou deveres jurídicos funcionais a que uma determinada pessoa está adstrita. São crimes que são definidos através de um dever jurídico. Fundamentalmente tem-se acentuado o responsabilidade criminal com base em duas ideias: carácter pessoal da Por um lado. São a maior parte deles: o crime de furto. nos crimes que consistem em levar a cabo uma determinada actividade.Os crimes unisubjectivos ou unisingulares que podem ser praticados por um único agente. então elas só têm capacidade de agir legitimamente. Klaus Roxin propõe uma sistemática bipartida da teoria do facto punível. Princípio da responsabilidade singular ou princípio da responsabilidade individual Salvo quando a lei expressamente o disser. Füerbach vem dizer que as pessoas colectivas são incapazes de agir. não tanto pelo desenvolvimento de qualquer actividade. podem ser praticados única e exclusivamente com a colaboração. as pessoas colectivas não podem agir como as pessoas singulares. 11º CP. Por outro lado. Klaus Roxin fala nos chamados crimes de violação de dever. à ordem pública e aos bons costumes. Portanto. A culpa é um juízo individualizado de censura feita pela ordem jurídica e que se dirige a uma pessoa pela prática de um facto ilícito. E naquilo que no juízo . homicídio etc. Se o fim das pessoas colectivas tem de ser um fim legítimo. E isto porque as pessoas colectivas estão dominadas e só têm capacidade de para agir de harmonia com a especificidade do fim. só existe responsabilidade jurídico-penal das pessoas colectivas quando a lei expressamente o determinar.

uma norma que impõe a adopção de uma determinada conduta que é omitida. respectivamente. Pode-se classificar ou distinguir as chamadas omissões puras das omissões impuras. uma vez que as pessoas colectivas não têm uma vontade própria real. mas precisamente porque omitiu uma conduta que lhe era exigível por lei. As omissões podem ser de duas ordens. também designadas por alguns autores de omissões próprias e omissões impróprias. Na omissão imprópria o agente é responsabilizado por um crime. não são só crimes de mera actividade.de censura se reprova ao agente é precisamente o facto dessa pessoa. Aqui o agente é responsabilizado por um determinado resultado que tem lugar não por sua acção. porque sobre ele impendia um dever jurídico que pessoalmente o obrigava a evitar a produção do resultado. ou não tem lugar. Crimes formais são também omissões puras. Existe responsabilidade por acção quando o agente pratica actos que são subsumíveis às condutas descritas nos tipos legais em termos de acção. ter-se decidido pelo ilícito. têm só uma vontade fictícia. Acção que. mas precisamente porque dá origem a um resultado por uma inactividade sua. 62. Daí a insusceptibilidade de culpabilizar as pessoas colectivas. Os crimes por acção em cuja tipicidade e cuja conduta típica está descrita efectivamente em termos de acção. ter-se decidido pelo torto. Mas também existe responsabilidade por omissão. Nos caos de omissões puras o agente incorre em responsabilidade jurídicopenal por ter violado uma norma preceptiva. Dentro das omissões puras. E este dever jurídico que impende sobre o agente e . viola uma proibição ou um comando legal. de se decidir pelo direito. a ser efectuada pelo agente. enquanto crimes de resultado ou crimes materiais são também omissões impuras. Crimes e função do resultado Os crimes formais ou de mera actividade. tem-se a responsabilidade jurídico-penal do agente. No âmbito das omissões impuras tem-se uma situação diferente. tendo capacidade e possibilidade de se decidir de forma diferente. não porque ele tenha directamente adoptado uma conduta típica descrita na lei. Neste sentido. violando desta forma uma norma ou um preceito de natureza proibitiva. na porque ele tenha actuado.

ou típico. para responsabilizar alguém por uma omissão impura. Tem importância prática desde logo para efeitos de início da prescrição do procedimento criminal. na violação de um comando. por tanto. que é o resultado típico. 10º CP. De situações de ingerência. Indirectamente da lei ou do contrato. pelo próprio tipo legal. Enquanto que os crimes de omissão impura não consistem já na violação directa de um comando legal. que equipara a acção à omissão. existe aqui assim a violação de uma norma proibitiva mediante um comportamento omissivo. Os crimes de mera actividade também ditos formais (omissões puras) são aqueles em que a mera conduta típica consuma imediatamente o crime. Nas omissões impuras o agente dá origem a um determinado resultado através da sua passividade. pressupõe a verificação de um certo resultado para se poder dizer que se consumou esse crime. oriundo de qualquer destas fontes que pessoalmente o obrigasse a evitar a produção do resultado lesivo. são aqueles que. Importância dogmática e prática da distinção crimes de resultado e crimes de mera actividade. um resultado previsto num tipo que está desenhado em termos de acção. - Pode-se ver então que os crimes materiais ou crimes de resultado são também as omissões impuras. pode resultar principalmente de três fontes: Directamente da lei.que pessoalmente o obriga a evitar a produção do resultado lesivo. mas sim no levar a cabo. segundo o tipo desenhado na lei. mas crimes formais ou de mera actividade são também omissões puras. que sobre essa pessoa recaísse o dever jurídico. pode-se dizer que: Os crimes de omissão pura são os que consistem directamente. e onde se encontra a base legal da construção das omissões impuras é necessário. por remissão. . Portanto. Os crimes de resultado são aqueles em que espaço-temporalmente se podem destacar ou distinguir algo de diferenciado da conduta. Os crimes de resultado. ou materiais (omissões impuras). 63. Mas por força do art.

Pelo contrário. nos crimes de lesão. elemento positivo e subjectivo. exige-se um dano ou uma lesão efectiva no bem ou bens jurídicos tutelados pela norma. A tentativa. A tentativa tem três elementos: 1) 2) 3) A prática de actos de execução. Enquanto o crime de mera actividade está consumado no momento em que o agente actua. está construída para os chamados crimes materiais ou de resultado. Nos crimes de resultado o facto só está consumado quando o resultado típico se verifica. A tentativa só se distingue da consumação precisamente pela não verificação de um elemento que é o resultado típico. É concebível nos crimes de resultado. elemento negativo e objectivo. consiste na prática de actos de execução de um crime que o agente decidiu cometer. 22º CP. Nos crimes de perigo a descrição típica não exige a lesão efectiva dos bens jurídicos tutelados pela incriminação. falar em tentativa. porque são concebíveis actos de execução com a intenção criminosa do cometimento de um facto mas em que. A decisão do cometimento de um crime. e não maior parte dos casos é a partir da consumação. Tipo em função do objecto Distingue os chamados crimes de perigo e os crimes de dano ou lesão. o resultado pretendido pelo agente não se tenha verificado. E fala em bem ou bens . - Por outro lado. tal como está tipificada no art. Portanto. pode decorrer um espaço de tempo mais ou menos longo. e entre o momento em que o agente actuou e o momento em que o resultado típico se produziu. elemento positivo e objectivo. esta distinção é também importante para efeitos de possibilidade ou não possibilidade de responsabilidade criminal por facto tentado. 117º e 118º CP dizem a partir de que momento é que se começa a contar o praz de prescrição do procedimento criminal. mas tão só a colocação em perigo. tão só a ameaça de lesão desse bem ou bens jurídicos tutelados pela norma.Os arts. por um outro motivo estranho à vontade do agente. A não verificação do resultado típico. 64. sem que o resultado típico se chegue a verificar.

. os crimes de perigo concreto. 313º CP. que é o chamado dolo de perigo. pode ameaçar de lesão. Quanto aos crimes de perigo abstracto-concreto: É esta uma classificação intermédia entre os crimes de perigo abstracto e os crimes de perigo concreto. da qual se autonomiza o resultado típico. previsto no art. resultado que é o próprio perigo para o bem ou bens jurídicos tutelados pela incriminação. 142º CP. Perigo abstracto-concreto. etc. Donde. já não é preciso que se autonomize nenhum resultado típico que seja o próprio perigo. Perigo abstracto. uma vez que têm autonomizado o resultado da conduta perigosa descrita pelo legislador. vários bens jurídicos. E perigosa por referência ao mais variado leque de bens jurídicos. é uma actividade que pode pôr em perigo. Os crimes de perigo podem distinguir-se em: Perigo concreto. são crimes de resultado. quanto ao seu elemento subjectivo. sem tão pouco ter a preocupação de se lhe referir expressamente. em que se pode dizer que o legislador é menos exigente do que em relação aos crimes de perigo concreto. que é o próprio perigo. 131º CP: uma vez ocorrida a morte. E os crimes de perigo concreto. mas mais exigente do que em relação aos crimes de perigo abstracto. aquela actividade. Os crimes de lesão são desde logo entre outros: O crime do art. Nos crimes de perigo abstracto o legislador contenta-se com a presunção que tem de aquele comportamento. São os chamados crimes pluridimensionais. o legislador tipifica o próprio perigo pela descrição de uma conduta perigosa. porque a lei contenta-se com a descrição da conduta que tem como perigosa. Quanto aos crimes de perigo abstracto aqui o legislador parte da presunção de que aquela conduta descrita é uma conduta perigosa. postulam um dolo especial ou específico. O crime de ofensas corporais controvertidamente) do art. (ainda que um pouco - - O crime de burla. Nos chamados crimes de perigo concreto. há uma lesão do bem jurídico vida. Neste tipo de crime.jurídicos tutelados pela norma porque há tipos legais de crimes que tutelam mais do que um bem jurídico.

. e que é o próprio perigo. - 66. 26º CP. não admitindo outra forma de autoria. Não se pode confundir estes crimes de mão própria com os crimes específicos ou próprios: Nos crimes específicos ou próprios exige-se uma especial qualidade do agente. pelo próprio agente material do crime. Por lesar ou colocar em perigo. desde logo autoria mediata. 14[26] 15[27] Também designados crimes compostos ou crimes dimensionais.É menos do que nos crimes de perigo concreto porque o legislador descreve no tipo a própria conduta que considera perigosa. Crimes de mão própria Estes crimes são aqueles que alguns autores consideram que só podem ser cometidos pelo próprio agente da infracção. Crimes simples e crimes pluri-ofensivos14[26] a) Crimes simples São aqueles em que é violado. sem necessidade de autonomizar o resultado perigoso. tal como acontece no âmbito dos crimes de perigo concreto. por lesão ou ameaça de lesão 15[27] um determinado bem jurídico. A autoria mediata é uma das formas de autoria tipificada no art. Outra situação típica de autoria mediata é o caso da coacção. em que alguém coage outrem à prática de um determinado facto. 65. Os crimes de mão própria são crimes que podem ser praticados por qualquer agente.

no sentido de impor uma agravação ou uma atenuação de pena. são um misto de um resultado a título doloso. designando-se então crimes privilegiados. por hipótese. crimes privilegiados Os crimes qualificados e os crimes privilegiados distinguem-se dos crimes básicos ou simples pelas suas variações agravadas. designando-se então crimes qualificados. . Crimes simples ou básicos. mas abrange um conceito mais amplo. seja sempre doloso. um resultado negligentemente provocado pode dar origem a um resultado mais grave. que o primeiro resultado. ligados por um nexo de imputação objectiva15[28]. e pelas suas variações privilegiadas. é uma espécie desta figura da praeter intencionalidade. crimes qualificados. Crimes agravados pelo resultado e crimes praeter intencionais Os crimes praeter intencionais têm uma estrutura mista. porque não supõe que o crime básico. negligentemente ocorrido. Diz-se que nos crimes praeter intencionais há uma estrutura mista: misto de dolo e negligência. Os crimes agravados pelo resultado.67. descrição essa a partir da qual outros tipos fazem inserir determinadas variações ou variantes. E mais amplo. 68. O crimes básico ou crime simples é aquele que descreve os elementos fundamentais de uma certa forma de violação de bem jurídico tutelado pela incriminação. O nexo de imputação dá origem a segundo resultado imputado ao agente a título de negligência.

tem-se os crimes privilegiados.- Se essas variantes se traduzirem numa agravação da pena. O crime de envenenamento (art. para além de ser um tipo doloso. ou dessas tendências se verifique. - Repara-se que esta classificação é também importante desde logo porque quando estão em causa tipos básicos. 235º CP tem uma especial intenção: intenção de causar prejuízos ao Estado ou a terceiros. Quem chamou a atenção para que os tipos por vezes pressupunham determinados elementos subjectivos específicos e refiram as especiais intenções. Crimes de intenção ou crimes de resultado parcial Estes tipos de crime são aqueles em que a tipicidade é descrita em função de uma especial intenção ou tendência. o tipo não está preenchido. foram os Neo-clássicos: O tipo de furto. curiosamente. um elemento subjectivo específico que é a especial intenção de aprovação. Mas. Crimes instantâneos. neste caso numa relação de especialidade. tipos qualificados e tipos privilegiados. postula também para além do dolo (em sede de tipicidade). Se se traduzirem numa atenuação. para a . normalmente entre eles pode estar em causa uma relação consensual. - - - Significa pois que a tipicidade aqui é descrita em função desta especial tendência ou intenção. 146º CP) postula uma intenção de lesar a saúde física. 313º CP) pressupõe uma intenção de enriquecimento. O crime de burla (art. crimes de Estado e crimes duradouros Estas distinções têm reflexos práticos importantes. 70. ou psíquica de outra pessoa. 69. legal ou de normas. uma relação de concurso aparente. nomeadamente para contagem dos prazos de prescrição do procedimento criminal. Se não se verificar esse elemento subjectivo específico. para a consumação do tipo. tem-se os crimes qualificados. não se exige que o resultado dessas intenções. O tipo legal do art. sem a qual o tipo não está preenchido.

para efeitos de consumação formal do crime. ou uma ilicitude progressiva. através de um comportamento seu. contrariamente aos crimes de estado. havendo também a possibilidade de remoção do estado lesivo tem-se que. Mas esse estado lesivo dura enquanto pelo menos a pessoa que furtou não devolveu o objecto furtado a quem de direito. situação essa que fica privada em relação à coisa de que é proprietário das suas faculdades de uso. por sua vez. Enquanto nos crimes de estado já há a possibilidade de remover o estado lesivo. E então como é que estes crimes que são ditos de Estado se distinguem dos crimes instantâneos? Nos crimes instantâneos. - - . situação de ilicitude que é mantida no tempo pela própria vontade do agente. Como é que se distinguem. gozo e fruição. Mas nos crimes duradouros há um estado decrescente de ilicitude progressiva. a determinação do momento em que o agente com o seu comportamento dá origem a uma situação de ilicitude. Crimes instantâneos são aqueles em que o agente com o seu comportamento dá origem a uma situação de ilicitude que ocorre e se esgota com a produção desse comportamento.determinação do momento da prática do facto. Conclusão: Nos crimes instantâneos não se verifica um estado lesivo que possa ser removido. para a matéria da comparticipação e desistência. mas em que não há possibilidade de recomposição do estado lesivo. detecta-se um momento preciso em que corre e se esgota o estado lesivo. pode fazer cessar esse estado ilícito de coisas. os crimes de estado dos crimes duradouros? Nos crimes duradouros de que é exemplo o sequestro há efectivamente. existem graus crescentes de ilicitude. Nos crimes duradouros o agente com o seu comportamento dá origem também a uma situação de ilicitude. e o agente. o que não acontece nos crimes de estado em que o grau de ilicitude é sempre o mesmo. entre outras. efectivamente. Nos crimes duradouros.

Passa depois aos actos de execução. tem-se de distinguir a responsabilidade penal do agente não por facto consumado. ou então o próprio legislador tipifica como crime autónomo actos que são actos de preparação. mas por actos preparatórios ou por factos tentados. Nos crimes materiais ou de resultado só há uma consumação pelo menos formal. quando o resultado típico se tenha produzido. Enquanto que nos crimes de mera actividade. ou nos crimes formais. Em primeiro lugar. como não há um resultado que se tenha que distinguir ou autonomizar da conduta do agente. está perante a consumação. Mas a regra geral é a da impunidade dos actos preparatórios e isto porque: .Uma outra distinção que é necessária fazer é aquela que estabelece a diferença entre actos preparatórios: De tentativa. tem-se que atender a dois conceitos de consumação. o tipo está consumado formalmente quando se verifica a actuação ou a conduta típica do agente. Quanto aos actos preparatórios eles são uma fase do “inter criminis”. que mentalmente concebeu e prática para efeito determinados actos que são preparatórios à execução. quando acaba os actos de execução. 21º CP. fala-se num conceito de consumação material que tem a ver com a lesão efectiva do bem jurídico tutelado pela norma jurídico-penal. Por um lado fala-se em consumação formal e essa consumação formal pressupõe o preenchimento de todos os elementos do tipo incriminatório. Depois a pessoa passa efectivamente a procurar esse plano. Mas por vezes. E de consumação. E finalmente. em que normalmente é possível cindir e destacar várias etapas na evolução do cometimento do crime: Há normalmente a pessoa que tem uma intenção criminosa15[29]. os actos preparatórios não são punidos. - Os actos preparatórios regra geral e por força do disposto no art. Só existe punição por actos preparatórios quando a lei expressamente o disser. Por outro lado.

porque se tem no Código Penal um pendor objectivista da tentativa. não são puníveis. De um crime que o agente decidiu cometer (tem de haver a intenção do cometimento do crime). Essa tentativa. elemento negativo e objectivo. pois de harmonia com o que preceitua o art. quando existe numa manifesta inaptidão do meio empregue com vista à produção do resultado pretendido. Por isso. 22º CP quando o agente passa dos actos preparatórios para os actos de execução. O nosso direito é um Direito Penal de factos exteriorizados. Nomeadamente não é punível a tentativa impossível por referência ao meio empregue se revelar um meio manifestamente inadequado à produção do resultado lesivo. e é preciso o resultado típico não se produzir. A punibilidade da tentativa é muito menor do que a punibilidade por facto consumado. Por outro lado. as tentativas são sempre dolosas. A não produção do resultado típico. e o nosso legislador não valora da mesma maneira a intenção e a execução dessa intenção diferentemente. 23º CP: Em primeiro lugar a tentativa só é punida se ao crime consumado respectivo corresponder pena superior a três anos de prisão. sendo ainda punível a tentativa. nos termos do art. a não ser que a lei expressamente diga que a tentativa é punível. 23º CP. as tentativas impossíveis que também. 22º/2 CP).Em primeiro lugar. Encontra-se por referência ao disposto no art. Embora seja necessário o elemento subjectivo – o dolo – para a construção da figura da tentativa. nalguns casos. Então a tentativa é virtualmente punível. . elemento positivo e subjectivo. elemento positivo e objectivo. Mas para isso o agente tem de empreender já actos de execução. não se valora da mesma maneira a intenção quando há consumação e a intenção havendo tão só tentativa. a pena é especialmente atenuada. é uma tentativa não punida. - Só há tentativa. 3) Em Direito Penal não existem tentativas negligentes. pode-se assentar que os elementos da tipicidade do facto tentado sejam três: 1) 2) Actos de execução (art. tem de ter a decisão criminosa.

71. só é possível desistir enquanto não há consumação. 22º CP. Comparticipação criminosa – envolvimento plural de vários agentes. Regra geral. vem permitir duas coisas: 1) Por um lado. Antes disso. . Nos crimes uniexecutivos já não é possível nem pensável uma fragmentação de actos antes da consumação. Os crimes pluriexecutivos têm uma descrição típica que pressupõe um fraccionamento da actuação ou do comportamento ilícito. Como a tentativa pressupõe um elemento negativo que é a não produção do resultado típico está concebida para os crimes de resultado. de que são exemplo os crimes de mera actividade ou as omissões puras. não há comparticipação criminosa.Também a distinção entre tentativa e consumação é importante para efeitos de comparticipação. Crimes uniexecutivos e crimes pluriexecutivos Nos crimes formais. Crimes formais pluriexecutivos. dentro dos crimes formais. há quem distinga e fale em: Crimes formais uniexecutivos. vem permitir considerar-se que também é possível falar de tentativa nos crimes formais que sejam pluriexecutivos. 24º CP). A classificação dos crimes pluriexecutivos. pelo menos enquanto não há consumação material. As várias formas de comparticipação criminosa só são possíveis a partir do momento em que existem actos de execução por parte de um dos agentes ou intervenientes15[30]. A tentativa é uma figura que está especialmente concebida para os crimes materiais ou de resultado. A distinção entre tentativa e consumação é também importante para efeitos de desistência (art. sendo eles autores ou participantes – só existe efectivamente a partir do momento em que o agente/autor tenha praticado pelo menos um acto de execução dos previstos nas várias alíneas do art. ou em que ontologicamente se pode retirar essa conclusão.

excepto se se tratar de um crimes de realização vinculada. ainda. nos crimes de resultado ou nas omissões impuras. vem permitir que nos crimes formais pluriexecutivos se possa falar por exemplo em desistência. não há responsabilização penal do agente. essa acção tinha de ser subsumível a um tipo. Há uma acção penalmente relevante. tem-se como elemento objectivo o nexo de causalidade ou nexo de imputação. passar a outra categoria analítica que é a ilicitude. Dentro da teoria do facto punível e das categorias analíticas começou-se por analisar a acção. tem-se de ver se os elementos do tipo estão preenchidos. é um elemento não escrito do tipo. não está lá escrito. Verificando-se que havia uma acção penalmente relevante. Nos crimes materiais ou de resultado. IMPUTAÇÃO OBJECTIVA 72. Esse nexo de causalidade. que permite efectivamente imputar um evento a uma determinada conduta. como a . mas não é típica se não é típica. nos crimes de mera actividade. sendo um elemento objectivo do tipo nos crimes materiais. E portanto o tipo tem uma determinada estrutura que é composta por elementos objectivos e por elementos subjectivos. estando o tipo integralmente preenchido. se os elementos objectivos estiverem preenchidos. A imputação objectiva só existe nos crimes materiais.2) Por outro lado. Se faltar um elemento objectivo do tipo. em termos de poder responsabilizar uma pessoa por aquele facto que ocorreu. que estão preenchidos com a mera conduta do agente e que não exigem a verificação de um resultado ontologicamente diferenciado da conduta. ou omissões impuras. já não há tipicidade. Nexo de causalidade ou nexo de imputação É um elemento objectivo não escrito do tipo nos crimes materiais ou de resultado. para analisar a responsabilidade jurídico-penal. nestes crimes formais. de resultado. vai-se então ver se os elementos subjectivos do tipo também estão preenchidos para. E já nem sequer há que passar para a categoria seguinte. Para se verificar se aquela acção se subsume a um tipo legal.

Portanto. em termos de causa e efeitos. Teoria da causalidade ou teoria “conditio sine qua non” ou teoria da equivalência das condições Surge uma teoria que procurava dar resposta a esta imputação do resultado a uma determinada actividade e que é uma verdadeira teoria da causalidade. pode haver causalidade e não haver imputação objectiva. para os partidários da teoria “conditio sine qua non”. um determinado evento ou uma determinada conduta humana. E nomeadamente.conduta do agente consuma desde logo o tipo legal e não é necessário que espaço-temporalmente algo se diferencia. em termos de nexo de imputação. . esse nexo relacional. um determinado resultado. através deste raciocínio hipotético. Ou seja. A causa de um determinado resultado é toda a circunstância sem a qual o resultado não se produziria. Esta matéria de imputação objectiva mais na faz do que decidir quando é que se pode responsabilizar criminalmente uma pessoa por alguma coisa que ela fez. eles pensavam assim: vai-se abstrair dessa conduta cuja causalidade se quer aferir e verificar se o resultado. E chega-se a esta conclusão: se abstraindo do comportamento o resultado permanecer é porque aquele comportamento não é causa de resultado. pressupõe-se que entre fenómenos exista um nexo relacional. eles partiam dum processo hipotético de eliminação para verificar se um determinado comportamento podia ser ou não causa de um determinado resultado. se mantém ou não. O nexo de causalidade pressupõe que entre os fenómenos se estabeleça um nexo causal em relação de causa e efeito. A própria conduta consuma o tipo legal de crime. E só havendo nexo de imputação. que não tem de ser necessária e forçosamente causal. Quando se fala em imputação objectiva. da mesma forma que só artificialmente é que se poderá falar de causalidade e no entanto haver imputação objectiva. abstraindo da conduta. imputação objectiva e causalidade não são a mesma coisa. 73. é que se pode afirmar a responsabilidade jurídico-penal do agente. porque. não há nada a imputar. ver se é possível aferir. que pressupõe a existência de um nexo causal entre um determinado resultado e uma conduta. Então. Neste sentido todas as condições se equivalem enquanto causa do mesmo resultado.

Mas quando à partida a relevância da causa for desconhecida. Uma critica que se faz à teoria da “conditio sine qua non” é que ela não resolve os casos de imputação na chamada causalidade cumulativa e na chamada causalidade virtual ou hipotética. uma critica que se faz a esta teoria. Isto porquê? Porque eles nivelam todas as circunstâncias enquanto condição da produção do resultado. ou prognose objectiva póstuma. E isto faz com que exista um encadeamento causal infinito e leva a exageros de responsabilidade criminal. então é porque o comportamento é causa do resultado. Teoria da causalidade adequada ou teoria da adequação Parece ser aquela que o Código Penal perfilha no art. sem que haja a possibilidade para se parar entre causas relevantes e causas irrelevantes. no sentido de importarem a obtenção de determinado resultado. então este conceito naturalístico de causa não consegue explicar a imputação nos crimes omissões impuros ou impróprios. por referência ao conceito de causa que tem. Daí que esta teoria seja também chamada a teoria da equivalência das condições. Já não são todas as circunstâncias que se equivalem enquanto causa do mesmo resultado. A teoria da adequação. mas são só importantes aquelas causas ou aquelas condições que sejam aptas. que sejam. abstraindo-se do comportamento ou da conduta. E para a determinação de que se considera causa adequada utiliza-se um juízo de prognose objectiva posterior. quando equipara a acção à omissão e quando se diz que. é causado também desaparecer.Se pelo contrário. todas concorrem equivalentemente para a produção do resultado. a teoria pouco ou nada diz sobre a manutenção ou não do resultado. como a omissão da acção adequada a evitá-lo. 74. Todas as circunstâncias se equivalem em termos de produção do resultado típico. é a de que esta teoria. o facto é tanto a acção adequada a produzi-lo. quando de um crime faz parte um determinado resultado. Por outro lado ainda. . já excessiva na responsabilização criminal. 10º. visa restringir ou limitar os exageros da antecedente construção da “conditio sine qua non”. e porque não permite distinguir entre causas relevantes e irrelevantes e irrelevantes porque todas as circunstâncias são condições aptas à produção do resultado.

Para encontrar a verdadeira adequação. mas vai-se efectivamente questionar. para um homem médio. Contudo. Se se pudesse afirmar um juízo de previsibilidade. ter-se-á de considerar que aquele comportamento não é causa. no sentido de causa adequada. para um agente médio colocado nas mesmas circunstâncias de tempo e lugar daquele comportamento em concreto. lhe era a si previsível que ocorresse aquele evento. E é objectiva. pelo contrário. se para ele era previsível que daquela conduta ocorresse aquele resultado. faz-se entrar também em linha de conta os conhecimento que o próprio agente tinha daquela situação. quer-se efectivamente comprovar se a conduta é conducente a esse resultado já ocorrido. Se. E essa previsão é posterior. porque não se vai perguntar ao próprio agente que agiu se. porque se vai fazer uma previsão no momento em que já ocorreu o resultado. Na descoberta do critério da causalidade adequada hão-de estar presentes não só elementos objectivos. vai-se averiguar. ou póstuma. Qual é o critério para se discernir se uma causa é adequada ou não à produção de um determinado resultado? Fazendo-se este juízo de prognose objectiva póstuma. não só o recurso à ideia da valoração feita pelo homem médio. mas é póstuma. actuando daquela forma. à produção do resultado. mas há que entrar em linha de conta também com os conhecimentos concretos que o agente tenha daquela situação. Por isso é que é uma prognose – uma previsão –. não se puder afirmar um juízo de previsibilidade. Ou seja. era previsível que resultasse aquela ocorrência ou que desse comportamento resultasse aquele evento em concreto. - 75. então. por relação – é quase uma valoração paralela na esfera laica do agente. há que recorrer também aos conhecimentos que o agente tenha no caso concreto. são várias as críticas que se podem fazer a esta teoria da adequação e que são as seguintes: . Juízo de prognose póstuma ou posterior Fazer uma prognose é fazer uma previsão.Neste juízo vai-se verificar se. então dir-se-á que o comportamento é causa adequada à produção desse resultado. para um homem médio colocado nas mesmas circunstâncias de tempo e de lugar do próprio agente.

este critério. não se pode esquecer também que sendo categórico o juízo de previsibilidade. já não estabelecem um nexo de causalidade causa – efeito entre fenómenos. Teoria do risco ou dos critérios do risco Existem doutrinas posteriores cujo percurso foi iniciado por Klaus Roxin. E portanto já não se faz totalmente uma prognose objectiva posterior. ele só se pode afirmar ou negar. não há dúvida nenhuma que esse conhecimento é residual. 76. Os critérios de risco não são baseados em critérios de causalidade. só faz sentido imputar um resultado. ou uma conduta humana. é uma doutrina que postula.Em primeiro lugar. através do comportamento empreendido. pode existir um nexo de causa e efeito entre dois fenómenos e no entanto não haver lugar a imputação objectiva. Por outro lado. Portanto. quando o agente com aquela conduta: . consequência de um determinado comportamento. quer a teoria da “conditio sine qua non” ou da equivalência das condições. uma qualquer relação entre fenómenos. uma vez que se tem de ter também em conta os conhecimentos que o agente tinha da situação. E isto porque. que vêm introduzir determinadas ideias para de alguma forma. ou dos critérios do risco. corrigir estas teorias antecedentes: quer a teoria da adequação ou da causalidade adequada. porque ela não é mesclada por uma subjectividade. sendo certo que a ideia de causalidade em sede de imputação objectiva é um pressuposto mínimo ou um limite máximo que não se pode dispensar. Estabelecem antes um nexo de imputação. um risco juridicamente desaprovado pela ordem jurídica. o nexo de causalidade. ou esta ideia de previsibilidade em que assenta a teoria da adequação é um critério algo impreciso. elementos de natureza subjectiva. sempre que o agente. pelos conhecimentos que o agente tinha da própria situação. Finalmente. a causalidade. em termos jurídico-penais. postulando um conhecimento da realidade e do mundo objectivo. criar um risco relevante. para a adequação da causa. não chega. Por vezes. não é suficiente para explicar a imputação objectiva porque. Perante a teoria do risco entende-se que só faz sentido considerar um evento. ou um nexo relacional. Os critérios do risco já não se fundam única e exclusivamente numa ideia de causalidade. É a chamada teoria do risco. pode existir causalidade.

nos casos de diminuição do risco. não tem que ser sempre necessariamente causal. ou seja. actuação negligente essa que da origem a um determinado evento lesivo. são casos de diminuição do risco15[32].- Criou um risco juridicamente relevante. Ou então aumentou o risco existente. e mesmo quando seja causal. também não há imputação objectiva. Só haverá lugar a imputação objectiva quando o agente. O cerne está pois em que o comportamento ou a conduta do agente tem de ser criado. mesmo que o agente actuasse diligentemente. - Portanto. quando não diminui um risco proibido. Por outro lado. o chamado comportamento lícito alternativo. mas. mesmo que o agente adoptasse um comportamento lícito. tiver criado. imputação objectiva em princípio não haverá. proibido pela ordem jurídica. A relação entre um determinado comportamento humano e um resultado. pelo menos para aqueles que defendem como corrector. para efeitos de punição. Também a causalidade não resolve aquelas situações em que existe uma actuação negligente por parte do agente. Em conclusão: A causalidade e imputação objectiva são duas realidades que não significa a mesma coisa. aumentado ou não diminuído risco proibido. em que não há uma causalidade em termos naturalísticos. quando as situações estiverem fora do âmbito da esfera de protecção da norma. pode haver causalidade e não obstante não haver imputação objectiva. essa relação muitas vezes não é suficiente para afirmar a responsabilidade jurídico-penal do agente. E nos casos de risco lícito ou permitido15[31]. dentro dos critérios do risco. através da sua conduta. Causalidade há. É o que acontece nomeadamente no caso dos crimes omissos impuros (ou omissões impuras). com a observância de todos os cuidados que lhe são impostos e de que era capaz. minorar o evitar a produção de um resultado lesivo. . o resultado produzia-se na mesma. Ou ainda. aumentado ou não diminuído o risco proibido. Existem dois casos em que não há imputação objectiva: Nos casos em que o agente intervém no decurso de um processo causal já iniciado no sentido de adiar.

. Se se afirmar essa previsibilidade e se disser que era previsível. pluridimensionais ou crimes compostos 77. faz desencadear uma série de acontecimentos que vão produzir o evento pretendido pelo agente. Se. concebe um determinado processo causal. Desvios irrelevantes ou não essenciais. prevê normalmente a forma de obtenção desse evento ou desse resultado típico. quando pretende a obtenção de um determinado resultado típico. pelo contrário. é o mesmo critério de previsibilidade que se utiliza para aferir da adequação da causa na teoria da adequação. Desvios do processo causal Quando uma pessoa pretende praticar um determinado crime. então trata-se de um desvio relevante ou essencial. - Portanto. isto é. daquela actuação do agente seria previsível que ocorresse um risco tal que levasse à produção daquele resultado. O critério utilizado para verificar se o desvio no processo causal é um desvio relevante ou não relevante. nos casos de desvio irrelevante ou não essencial do processo causal. Muitas vezes o processo causal perspectivado pelo agente para obtenção do evento ou do resultado típico diverge daquele que na realidade se verifica. isto é. se é um desvio essencial ou não essencial. constrói. Há diversos tipos de desvios no processo causal: Desvios relevantes ou essenciais. há sempre imputação objectiva.b) Crimes pluri-ofensivos. pergunta-se se. se afirmar que não era previsível. Ou seja. então trata-se de um desvio irrelevante.

. num determinado capítulo. Com a adopção das condutas típicas proibidas por estes tipos o agente lesa vários bens jurídicos.São aqueles em que são violados. vários bens jurídicos. . Qualquer um destes tipos está inserido na parte especial do Código Penal. por lesão ou ameaça de lesão.

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