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Florestan Fernandes

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Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos

Quem foi Florestan Fernandes?
11 de abril de 2006

FLORESTAN FERNANDES

"Afirmo que iniciei a minha aprendizagem sociológica aos seis anos, quando precisei ganhar a vida como se fosse um adulto e penetrei, pelas vias da experiência concreta, no conhecimento do que é a convivência humana e a sociedade"

Florestan Fernandes

Florestan Fernandes nasceu em São Paulo, no dia 22 de julho de 1920. Sua luta pela vida começou já na infância, para conquistar o próprio nome - já que patroa de sua mãe o chamava de Vicente, por considerar que Florestan não era nome de pobre - e sobreviver começou a trabalhar aos seis anos, o que o impediu de completar o curso primário e o levou a se formar no curso de madureza (supletivo).

Era vendedor de produtos farmacêuticos quando, aos 18 anos, ingressou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em 1947, formando-se em ciências sociais. Doutorou-se em 1951 e foi assistente catedrático, livre docente e professor titular na cadeira de sociologia, substituindo o sociólogo e professor francês Roger Bastide em caráter interino até 1964, ano em que se efetivou na cátedra.

O nome de Florestan Fernandes está obrigatoriamente associado à pesquisa sociológica brasileira. Sociólogo e professor universitário com mais de cinquenta obras publicadas, transformou as ciências sociais no Brasil
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e estabeleceu um novo estilo de pensamento.

Foi mestre de sociólogos renomados, como Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso. Cassado com base no AI-5, em 1969, deixou o país e lecionou nas universidades de Columbia (EUA), Toronto (Canadá) e Yale (EUA). Retornou ao Brasil em 1972 e passou a lecionar na PUC-SP. Não procurou reintegra-se à USP, da qual recebeu o título de professor emérito em dezembro de 1985.

Florestan esteve ligado ao Partido dos Trabalhadores (PT) desde sua fundação. Em 1986 filiou-se ao partido e exerceu dois mandatos de deputado federal (1987-1991 e 1991-1995).

Colaborou com a Folha desde os anos 40 e, em junho de 1989, passou a ter uma coluna semanal nesse jornal.

Florestan não via o destino da ex-URSS como o fim do socialismo e do marxismo, nem a globalização como a esperança dos excluídos - ao menos, dizia, enquanto o "capitalismo da fase atual não conseguir uma equação definitiva para a questão social".

Florestan Fernandes morreu em São Paulo no dia 10 de agosto de 1995.

Renato Roschel do Banco de Dados

Biografia de Florestan Fernandes Fonte: Fundação Florestan Fernandes Uma vida de luta e construção

Florestan Fernandes nasceu em São Paulo, no dia 22 de Julho de 1920, de família muito humilde do Brás. Sua mãe, Dona Maria Fernandes, era uma imigrante portuguesa, analfabeta e trabalhava como lavadeira. Sua madrinha, que era patroa de sua mãe, costumava chamá-lo de Vicente, pois julgava que Florestan, não era nome apropriado para uma criança pobre.
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Devido às necessidades de sua família, Florestan começou a trabalhar aos seis anos de idade, onde desempenhou vários ofícios como: engraxate, auxiliar de marceneiro, auxiliar de barbeiro, alfaiate e balconista de bar. Como sua vida no trabalho estava exigindo que se dedicasse em período integral, aos nove anos de idade parou de estudar no terceiro ano do curso primário. Somente aos dezessete anos concluiu o antigo curso de madureza (atual supletivo), por insistência dos fregueses do Bar Bidu, na Rua Líbero Badaró, onde trabalhava como cozinheiro, pois achavam que Florestan era muito inteligente devido aos comentários sobre a política e a leitura da realidade que fazia.

Florestan aos cinco anos começando sua luta pela sobrevivência Vendedor de produtos farmacêuticos, Florestan, aos dezoito anos de idade, ingressou na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de São Paulo. Neste momento, ele dizia que o Vicente começou a morrer e sobreveio o Florestan.

Obteve a licenciatura em 1943, ano em que O Estado de São Paulo publicou o seu primeiro artigo. Em 1944, casou-se com Myriam Rodrigues Fernandes, com quem teve seis filhos. Neste mesmo ano, tornou-se assistente do professor Fernando de Azevedo, na cátedra de sociologia II. Obteve o título de mestre em 1947 com a dissertação A organização social dos Tupinambá e concluiu o doutorado em 1951, com a tese A função social da guerra na sociedade Tupinambá, sob orientação do professor Fernando de Azevedo. Nas obras em que defendeu (por sinal, são muito respeitadas ainda hoje), Florestan constrói a estrutura da tribo Tupinambá, já desaparecida na época, por meio de documentos de viajantes. Concluído o doutorado, Florestan passou a livre docente da USP na cátedra de Sociologia I, e posteriormente, tornou-se professor titular.

Devido ao seu engajamento na Universidade, foi perseguido pela ditadura militar e foi cassado com base no Ato Institucional de nº 5, pediu exílio, em 1969, para o Canadá, onde assumiu um lugar de professor de Sociologia na Universidade de Toronto.

Faleceu em São Paulo no dia 10 de agosto de 1995, aos 75 anos de idade, vítima de embolia gasosa maciça (presença de bolhas de ar no sangue), seis dias após submeter-se a um transplante de fígado. Ele estava revisando os originais de seu último livro: A contestação necessária – retratos intelectuais de inconformistas e revolucionários, uma coletânea de biografias de amigos e heróis.

A militância política

O intelectual militante, o professor engajado e o político eleito com mandato pelo partido dos trabalhadores marcaram a história deste grande educador.
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Um pensamento importante de Florestan se deu por volta de 1969 em plena ditadura militar, com a transição da fase acadêmica-reformista para a política-revolucionária. O processo de consolidação do pensamento revolucionário foi destruído pelo AI-5, que coloca vários intelectuais para fora das universidades, inclusive Florestan, que passa a não reconhecer mais a universidade como um centro dinâmico das transformações.

Seu ingresso no partido dos trabalhadores se deu a convite do presidente do partido, Luis Inácio Lula da Silva, num momento de sua vida, onde o desencantamento com a Universidade já se fazia presente.

Época da Constituinte, em frente ao Congresso Nacional. Eleito deputado federal duas vezes pelo Partido dos Trabalhadores, ele manteve coerência com seu pensamento e obra, e, se destacou na defesa da escola pública e do projeto de Diretrizes e Bases da Educação. Devido à sua crítica ao governo militar, a sua ligação a movimentos sociais e organizações políticas de esquerda e a luta pela educação pública.

Revolucionando a sociologia brasileira

Na Universidade, Florestan inaugura uma nova fase de sua vida. Engajado nos estudos e na reflexão sobre a sociedade, aprofunda-se no pensamento de Émile Durkheim e dos demais pensadores da sociologia positivista. Como um intelectual orgânico, introduz no meio acadêmico um novo perfil intelectual, responsabilizando-se e engajando-se nos problemas da realidade social brasileira, sobretudo na militância em prol das pessoas de condições menos favorecidas.

Na década de 40, Florestan participava de um grupo marxista, onde se dedicou ao estudo da obra de Marx e sofreu uma influência muito grande, principalmente sobre o pensamento dialético, pois isso o ajudou a entender melhor a dominação da sociedade burguesa e seus métodos expressos na realidade social.

Aliando o rigor metodológico à pesquisa empírica, Florestan Fernandes funda a sociologia critica no Brasil. Inaugurando um novo estilo de pensar a realidade social. Para Florestan, o pensamento se pensa todo o tempo, pois a reflexão crítica deve ser sobre o pensamento e o pensado.

Segundo Ianni, contribuições de Florestan para a Sociologia brasileira, tem origem em 5 fontes, são elas:

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· A Sociologia Clássica e moderna, com diálogo contínuo, aberto e crítico que se desenvolve com os principais sociólogos, ou cientistas sociais, que apresentam alguma contribuição à pesquisa e à interpretação da realidade social.

· No pensamento marxista é contínuo e o crescente diálogo com as obras de Marx, Engels, Lênin, Trotsky e Gramsci, entre outros, incorporou progressivamente o pensamento dialético, que fica evidenciado tanto na escolha dos temas quanto no tratamento dado a eles; criando desafios para os movimentos sociais e os partidos políticos comprometidos com as lutas de grupos e classes populares.

· A corrente mais crítica do pensamento brasileiro – em diferentes momentos, manifesta-se um diálogo, explícito ou implícito, como Euclides da Cunha, Lima Barreto, Manoel Bonfim, Astrogildo Pereira, Graciliano Ramos, Caio Prado Junior e outros cientistas sociais e escritores, inclusive do século XIX. Em diferentes escritos, reencontram-se sugestões, desafios ou temas suscitados pela obra desses autores, compondo uma espécie de família intelectual fundamental e muito característica no pensamento brasileiro. Levam em conta as lutas dos mais diversos setores populares que entram no passado e no presente da sociedade brasileira. Ajudam a recuperar algumas dimensões básicas das condições de existência, de vida e trabalho, do índio, caboclo, escravo, colono, seringueiro, camarada, sitiante, operário e outros, pretéritos e presentes.

· Os desafios de sua época, a começar pelos anos 40. As transformações em curso na sociedade, em termos de urbanização, industrialização, migrações internas, emergência de movimentos sociais e partidos políticos, governos e regimes, sem esquecer as influências externas, criam e recriam desafios práticos e teóricos para muitos.

· Os grupos e classes sociais que compreendem a maioria do povo, descortinando um panorama social e histórico mais largo do que aquele que aparece no pensamento produzido segundo as perspectivas dos grupos e classes dominantes. É o negro, escravo e livre, isto é, trabalhador braçal, na lavoura e indústria, que descortina um horizonte inesperado, amplo. Ao lado do índio, imigrante, colono, camarada, peão e outros, a presença do negro na história social brasileira desvenda perspectivas fundamentais para a construção do ponto de vista crítico na Sociologia, nas Ciências Sociais e em outras esferas do pensamento brasileiro.

Além dessas cinco fontes principais da Sociologia Crítica fundada por Florestan, Ianni acrescenta outras inspirações como a militância política, a reflexão sobre a responsabilidade ética e política do sociólogo, o convívio com o pensamento latino-americano, destacando-se figuras como as de José Martí, José Carlos Mariátegui, Ernesto Che Guevara e assim por diante. Sintetizando as matrizes da Sociologia inaugurada por Florestan Fernandes no Brasil. Sociologia Crítica essa que se caracteriza como um estilo de pensar a realidade social a partir da raiz.

Na década de 50, Florestan volta-se para a questão do racismo, em um trabalho pioneiro, onde levantou sérias dúvidas sobre o mito da democracia racial e deu espaço para o estudo da democracia de forma mais ampla. Em um artigo de 1977,
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publicado em O Globo, o sociólogo afirma que no Brasil “não existe sequer democracia para brancos poderosos, imagine para negros e mulatos”.

A Educação para o professor Florestan

Antonio Candido, intelectual, amigo de Florestan por mais de 50 anos, descreve o professor Florestan Fernandes em três momentos com a seguinte citação: “Houve um Florestan dos anos 40, um Florestan dos anos 50 e um Florestan dos anos 60 a partir do qual a síntese já estava feita. O Florestan dos anos 40 é o da construção do saber, que ao construir o seu, constrói a possibilidade de saber dos outros. O Florestan dos anos 50 é o que começa a se apaixonar pela explicação do saber do mundo, porque, tendo já os instrumentos na mão, se dedica a aplica-los para compreender os problemas do mundo. O terceiro momento é o do Florestan que, tendo aplicado o saber à compreensão do mundo, transforma-o numa arma de combate. Naturalmente, as três etapas estão misturadas, pois sempre houve a terceira na primeira e, a primeira na terceira. Estou me referindo às predominâncias. (CANDIDO, 1986, P.33).

Florestan (no alto, à direita) em um dos inúmeros atos em defesa da escola pública. O professor Florestan criticou a pedagogia tradicional e condenava a postura dos educadores distante do processo social, acreditando que estes deveriam estar engajados na tarefa de transformação social. Desta forma, tornou-se defensor permanente da escola pública, fazendo da Educação um dos temas centrais da sua vida. Para ele, não poderia existir estado ou sociedade democrática sem uma educação democrática via escola pública gratuita.

Como bom marxista defendeu uma educação vinculada ao pensamento socialista. Para ele, a classe trabalhadora era a principal força revolucionária, e, portanto seus membros deveriam estar preparados, bem informados e conscientes de seu papel e isto seria uma responsabilidade da Educação. Portanto entendia a Educação como um fator de mudança social.

As faces que marcam o professor Florestan Fernandes na Educação são: a de professor, cientista, militante e publicista da Educação, faces que ele manteve em outras práticas e que mostraram a coerência deste intelectual em toda sua trajetória de vida.

A campanha em defesa da escola pública

Muitos educadores já estavam envolvidos na discussão e principalmente na criação de um projeto que, através do Estado-Educador, privilegiasse a educação escolarizada, tornando o acesso e a permanência cada vez maior nas classes mais baixas. Simultaneamente, estava em tramite a aprovação da lei de Diretrizes da Educação Nacional, que com o apoio das elites, não suportavam essas propostas. É neste contexto que nasce a campanha em defesa da escola pública.

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Defesa de tese de Octavio Ianni em 1961. Sentados, na primeira fila, Fernando Henrique Cardoso e Ruth Cardoso. Em torno de indignações, reuniram-se vários educadores em São Paulo e realizaram a I Convenção Estadual em Defesa da Escola Pública, donde saiu grande mobilização, dando origem a Campanha em Defesa da Escola Pública.

Essa campanha conseguiu juntar diversos intelectuais além de outros segmentos da sociedade. No meio intelectual uniu uma diferente corrente do pensamento educacional: os liberais idealistas, os liberais pragmáticos e os socialistas. Nesta esta última corrente, encontravam-se Florestan, Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso.

A Lei de Diretrizes e Bases - L.D.B.

Tendo a Educação se apresentado como tema de grande relevância para o professor Florestan, sua atuação em defesa do tema se constitui em algo memorável. Além de sua atuação na campanha, podemos destacar a sua atuação na assembléia constituinte e no processo de construção da L.D.B.

Florestan Fernandes X Darcy Ribeiro

No processo de constituição da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Florestan Fernandes sofre uma grande decepção com seu até então amigo Darcy Ribeiro, que havia o acompanhado na longa trajetória em defesa da Educação.

A maior injustiça de Darcy a Florestan é referente a sua frase: “Florestan não se inquieta com o milhão de alunos do proletariado estudantil, que pagam caro para estudar a noite, em escolas péssimas, montadas para fazer lucros empresariais, enganando-os. Abandona-os à sua sorte”.

Florestan, que sempre lutou pelos menos favorecidos, que mobilizou diferentes segmentos para a construção de um projeto democrático e tentou incluir nas leis medidas que contemplassem a educação popular, encontrando resistências nas comissões foi traído e injustiçado por seu amigo.

Darcy considera, também, que o projeto da Câmara consolida o atual sistema de ensino e que continuará a manter o Brasil na condição do “... país que oferece a seu povo a pior educação”.

Esse conflito vivido entre Florestan e Darcy Ribeiro foi aberto e ocupou espaço
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na mídia, persistindo até próximo dos últimos dias da vida do professor.

Florestan Fernandes foi professor a vida toda e apesar de decorrentes internações hospitalares nos últimos anos de vida, o sociólogo não abriu mão do tom professoral e intelectual que o caracterizava.

Florestan foi, sem dúvida, um dos maiores professores e sociólogos do Brasil por ser um dos grandes responsáveis pela Consolidação do pensamento científico no estudo dos temas sociais no Brasil.

Conclusões

Florestan Fernandes, de engraxate a Professor catedrático, 75 anos de vida dedicada a luta contra desigualdade social. Intelectual orgânico, no sentido empregado por Gramsci, foi militante aguerrido na defesa da Escola Pública de Qualidade e com forte influência marxista, acreditou, lutou e defendeu a transformação social, atribuindo papel relevante aos trabalhadores a partir da consciência de classe e incluindo a Educação como tema de grande destaque na construção e consolidação de um novo projeto de sociedade.

O deputado federal Florestan Fernandes em ato pela defesa do ensino público em 1988. Sociólogo formado em 1943, obteve título de mestre em 1947 e de doutor em 1951. Atuou em universidades importantes no Brasil e em outros países, contudo, conquistou uma posição de destaque na Sociologia Brasileira devido sua atuação nos diferentes campos das ciências sociais, abrindo caminho para a profissionalização dos sociólogos ao defender a participação e a interferência dos intelectuais nos problemas nacionais, inaugurando um novo estilo de pensar a realidade social, por meio da qual se torna possível reinterpretar a sociedade e a história, bem como a Sociologia anteriormente produzida.

Fundador da Sociologia Crítica no Brasil, tem sua produção intelectual impregnada de reflexão, no questionamento à realidade e o pensamento sintetizado. Enfrentou especialmente durante a ditadura, a grande repressão por propagar no meio universitário, um engajamento dos intelectuais, aos problemas da sociedade brasileira. Foi desligado da Universidade e exilado no Canadá, com base no AI 5, retornando para o Brasil após 1972.

No Brasil, guiado pela inquietude em que o tema da Educação representava em seu projeto de sociedade, participou intensamente da Campanha em Defesa da Escola Pública, na criação do Fórum de defesa, no processo de construção da LDB, defendendo um projeto lei, democrático e tinha o apoio e a participação de diversas entidades sociais.
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Nos últimos anos de sua trajetória de militância Educacional, sofreu uma grande decepção com dois amigos que militavam com ele, dentro de uma tendência que defendia um Educação com bases socialista na ocasião da Campanha em Defesa da Escola Pública, Fernando Henrique Cardoso e Darcy Ribeiro. Com este último travou diversos embates públicos até seus últimos dias de vida.

Este grande intelectual, a convite de Lula, inicia sua vida partidária no partido dos trabalhadores, mantendo sempre sua coerência, valoriza a diversidade dentro do partido, mas mantém-se, como ele me se intitulava: "lobo solitário", sendo admirado e respeitado por todas as alas do PT. Conquista o parlamento, onde convive com as tensões do momento de transição pelo qual passava o nosso país. No parlamento, dedica-se a defender as causas dos menos favorecidos, sem nunca abandonar sua dedicação ao tema Educação, desempenhando um papel de grande relevância na Constituinte de 1988. Acreditava que a Constituição poderia corrigir as desigualdades verificadas no projeto Educacional da sociedade.

Com toda sua participação na Constituinte, conhecendo por dentro o parlamento, Florestan teceu críticas de que o parlamento servia para sustentar o conservadorismo imperialista, expressando as tensões entre passado autoritário e as perspectivas futuras e que a constituição de 88 foi um processo inacabado, pois a própria conjuntura que desencadeou colocou a Constituição de um lado, e as organizações populares de outro.

Enfim, crítica social, militância ativa, dedicação à docência, a pesquisa, ao publicismo; o sociólogo e professor, político engajado na luta contra desigualdade, na defesa da educação pública, do socialismo, da democracia e da solidariedade entre a classe trabalhadoras e entre os povos latino-americanos fizeram do Professor Florestan Fernandes, um grande homem de nosso tempo – coerente, sonhador e comprometido com sua classe.

Principais Obras

Florestan começa a escrever no final dos anos 40 e ao longo de sua vida publicou mais de 50 livros e centenas de artigos. Suas principais obras foram:

· Organização Social dos Tupinambá (1949);

· A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá (1952); (Estas duas obras são indispensáveis para o conhecimento das nossas sociedades indígenas)

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· Mudanças Sociais no Brasil (1960); (Nesta obra Florestan faz um panorama de seu trabalho e retrata o Brasil)

· Fundamentos Empíricos da Explicação Sociológicas (1959); (Esta é um dos clássicos da sociologia de Florestan, se esta obra tivesse sido publicada nos Estados Unidos, na mesma época, teria revolucionado o ensino da sociologia).

· Folclore e Mudança Social na Cidade de São Paulo (1961); (Esta obra revela o Brasil do tradicionalismo popular, na qual se tornou um documento etnográfico sobre a cultura popular).

· A Integração do Negro na sociedade de classes (1964); (Estudo das revelações raciais em nosso país).

· Sociedade de Classes e subdesenvolvimento (1968);

· A Revolução Burguesa no Brasil (1975). (São obras que servem de eixo para compreender o Brasil que se seguiu à queda do antigo regime).

Bibliografia

FERNANDES, F. (1981) Sociedade de classes e subdesenvolvimento, 4ª edição, Zahar editores, Rio de Janeiro, RJ.

MARTINS,J.S.(1998) Florestan: Sociologia e Consciência Social no Brasil, Edusp, São Paulo – SP.

IANNI, O. (1986) Florestan Fernandes: Sociologia, Editora Ática, São Paulo SP.

SILVA, M. L. O. (1998) Trabalho de Pesquisa do Historiador http://www.florestaneducador.hpg.ig.com.br/sumario.htm São Paulo, sexta-feira, 21 de janeiro de 2005 Folha de São Paulo
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DEPOIMENTO Florestan e o MST ANTONIO CANDIDO Numa reunião como esta, nada mais natural do que evocar o nome de Florestan Fernandes, um dos intelectuais brasileiros do nosso tempo mais empenhados em transformar o pensamento em ação política e social. O traço que quero ressaltar nele em primeiro lugar é o orgulho com que sempre se referiu à humildade das suas origens de homem do povo, nascido na pobreza, marcado pelas privações que se opõem como obstáculo à realização pessoal. Orgulho nobre e justo, porque para ele esses obstáculos foram estímulo, e os seus grandes feitos surgiram da luta contra tudo o que poderia tê-lo paralisado. Florestan construiu a sua personalidade, a sua carreira, a sua obra, a sua militância graças a uma tenacidade e a uma coragem raras, aliadas à lucidez com que soube desde cedo analisar a realidade que o cercava, escolhendo as posições de radicalidade e inconformismo. Consciente da iniqüidade própria da nossa organização social, ele se aplicou a partir de certa altura a estudar o mecanismo do privilégio, a natureza das oligarquias, a formação da burguesia, a exclusão do negro depois da Abolição, os vícios elitistas do nosso processo educacional. Havia na sua personalidade poderosa uma espécie de titanismo, tomada a palavra em seus dois sentidos principais: o de força hercúlea e de ânimo de revolta contra as potências superiores. Curiosamente, ele atuou a maior parte da vida fora dos partidos. Ainda moço, na segunda metade dos anos de 1940, por influência de seu amigo Hermínio Sacchetta, militou algum tempo numa organização trotskista, mas em seguida, e por quase quarenta anos, militou por conta própria, só ingressando no PT em 1986, quando foi eleito deputado federal. Nesse longo intervalo, eu lhe dizia de vez em quando que não precisava entrar para nenhuma organização partidária, porque valia sozinho um partido de esquerda... Isso se tornou claro no decorrer dos anos de 1950, quando empreendeu com Roger Bastide a grande pesquisa sobre a condição do negro em São Paulo. Até então ele se enquadrava no tipo mais acadêmico de sociologia, no qual produziu alguns trabalhos fundamentais. A partir da referida pesquisa, foi elaborando o que viria a denominar "sociologia crítica", isto é, marcada pela consciência política. A situação do negro é um dos problemas mais graves da sociedade brasileira, porque significa a exclusão e a humilhação de grande parte do povo devido à cor da pele. É uma situação que desumaniza o excluído, por negar-lhe acesso aos níveis satisfatórios da vida social e econômica; e desumaniza também os agentes da exclusão, porque implica neles uma falta de fraternidade que raia pela insensibilidade moral. Florestan enfrentou este problema com decisão e clarividência, inclusive fazendo
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da pesquisa uma oportunidade para o negro manifestar-se como sujeito, não como objeto. Ele e seus colaboradores, inspirados pelo mestre Roger Bastide, abriram uma fase nova na maneira de abordar o problema racial em São Paulo. Nos anos de 1960 houve outros momentos importantes da ação política de Florestan, sempre associada à sua condição de intelectual revolucionário independente. Foi o caso, a partir de 1959, da memorável campanha que desenvolveu por todo o país a favor da escola pública, expondo uma das falhas mais dramáticas da sociedade brasileira, que é o descaso pela democratização e generalização do ensino. No Brasil, consciente ou inconscientemente, a preocupação sempre foi formar as classes dominantes, descurando o resto da população, com uma insensibilidade que chega a parecer projeto intencional. O resultado é este país mal preparado para a vida moderna, comprometido pelas sobrevivências arcaicas da nossa organização social. A campanha de Florestan expôs a chaga e foi um episódio maior na luta pela verdadeira democracia. Quando entrou para o PT, a sua saúde já estava seriamente abalada, devido a um erro de hospital. Os amigos ficaram apreensivos ao vê-lo assumir a responsabilidade de um mandato no Congresso, e alguns chegaram a pensar que não resistiria. No entanto, o seu titanismo venceu tudo, ele pareceu recuperar as forças e durante dois quadriênios exerceu o papel de legislador com firmeza e competência, ambas exemplares. Quando a morte o feriu, devido a outro erro hospitalar, a impressão foi que só ela seria capaz de abater o ardoroso lutador. Por tudo isso, acho que nada mais natural do que evocar o seu nome num evento ligado ao MST, cujo ânimo de luta e cuja oportunidade histórica se combinam bem ao que ele foi, porque o MST possui a fibra militante e o alcance revolucionário que ele tanto prezava. Estou certo de que o MST é um movimento historicamente decisivo, e Florestan devia pensar o mesmo. Para esclarecer o meu ponto de vista, peço licença para remontar ao tempo da minha mocidade e da minha iniciação na vida política. O ano era 1945 e, com a volta das liberdades civis após sete de ditadura, um grupo de jovens de que eu fazia parte fundou uma agremiação inconformada, que desejava encontrar fórmulas adequadas à nossa realidade, num sentido de transformação revolucionária. Éramos cheios de esperanças e estávamos convencidos de que nem o stalinismo nem o trotskismo poderiam fornecer diretrizes convenientes ao Brasil. Por isso, tentávamos com a nossa bisonhice elaborar uma concepção e uma ação de cunho radical, pautadas pelas características da evolução histórica brasileira, sem abrir mão da democracia. O nosso principal inspirador era um antigo comunista que fora preso em 1935, fugira da prisão em 1937, vivera no exterior e voltara quando a guerra eclodiu em 1939: Paulo Emilio Salles Gomes. O nosso agrupamento, denominado União Democrática Socialista, UDS, durou pouco e nós acabamos entrando para a Esquerda Democrática, que em 1947 passou a se denominar Partido Socialista Brasileiro, fechado em 1965 pela ditadura militar. O manifesto da UDS foi escrito por Paulo Emilio e nele se lia o seguinte trecho, para o qual chamo a sua atenção: "Na história do liberalismo e da pseudodemocracia do Brasil, os grandes fazendeiros, industriais, comerciantes e banqueiros já falaram muito. A classe média e o operariado disseram algumas palavras. Os trabalhadores da terra são a grande voz muda da
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história brasileira".Este ponto de vista foi um dos meus guias políticos desde aquele ano remoto de 1945. Os trabalhadores urbanos tinham começado a se organizar politicamente em grande escala e a participar como força viva no país. Mas o trabalhador rural continuou marginalizado, sem liderança, mesmo paternalista, sem oportunidade de se manifestar na política de maneira consciente. Só em 1955 um companheiro nosso do Partido Socialista, Francisco Julião, fundou as Ligas Camponesas e iniciou de maneira efetiva, revolucionária a seu modo, a era das atuações sistemáticas do trabalhador agrícola. Mas passou ainda muito tempo antes que o processo amadurecesse e o campesinato começasse a pensar realmente na vida política brasileira, o que só aconteceu com o MST. Por isso este último é um acontecimento histórico decisivo, porque completa a incorporação de todos os brasileiros à esfera das decisões de interesse coletivo. Retomando as palavras do manifesto da nossa UDS, lembremos que primeiro falaram as classes dominantes; depois, a classe média e os operários; finalmente ergueu-se a voz que faltava, a dos trabalhadores da terra. Assim, o circuito se completou e o Brasil está preparado, pela primeira vez, para as lutas decisivas, com a possibilidade da participação de todos os segmentos e camadas, cada um afirmando os seus interesses e as suas reivindicações. Graças ao MST estão, portanto, criadas as condições para que a sociedade brasileira possa manifestar-se de maneira íntegra, inclusive afirmando a vontade transformadora dos seus setores radicais. O MST foi um sinal de amadurecimento da sociedade e a condição para que seja realizada a vontade transformadora no sentido da justiça social e da organização econômica pautada por ela. O que estou procurando sugerir é que devido ao MST estamos finalmente maduros para tentar realizar a aspiração de um homem como Florestan Fernandes, isto é, a ação revolucionária que há de transformar o Brasil. Quem diz revolução não diz necessariamente insurreição nem violência armada, mas decisão de alterar pela raiz a estrutura da sociedade, estrutura que no Brasil é das mais injustas da terra. Com estas palavras fecho o meu anel expositivo. Um grande intelectual revolucionário, como foi Florestan Fernandes, deve ser pensado em conexão com os grandes movimentos radicais, como é o MST. A conjunção de ambos neste evento é natural e anima a nossa esperança. ANTONIO CANDIDO, 86, é crítico literário, professor emérito da USP e autor de "Formação da Literatura Brasileira" (1959) e "O Discurso e a Cidade" (1993), entre outros livros.

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