COLL, César e outros.

O construtivismo na sala de aula
3. COLL, César e outros. O construtivismo na sala de aula. São Paulo: Ática, 2006.Jeferson Anibal Gonzalez Pedagogo (FFCLRP/USP) e Mestrando em Educação (FE/UNICAMP). Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas “História, Sociedade e Educação no Brasil” – HISTEDBR (GT/UNICAMP). 1. Os professores a e concepção construtivista (Isabel Solé e César Coll)O construtivismo não é uma teoria, e sim uma referência explicativa, composta por diversas contribuições teóricas, que auxilia os professores nas tomadas de decisões durante o planejamento, aplicação e a avaliação do ensino. Ou seja, o construtivismo não é uma receita, um manual que deve ser seguido à risca sem se levar em conta as necessidades de cada situação particular. Ao contrário, os profissionais da educação devem utilizá-lo como auxílio na reflexão sobre a prática pedagógica; sobre o como se aprende e se ensina, considerando-se o contexto em que os agentes educativos estão inseridos. Essas afirmações demonstram a necessidade de se compreender os conteúdos da aprendizagem como produtos sociais e culturais, o professor como agente mediador entre indivíduo e sociedade, e o aluno como aprendiz social. Tendo em vista uma educação de qualidade, entendida como aquela que atende a diversidade, o processo educativo não é responsabilidade do professor somente. Desse modo, o trabalho coletivo dos professores, normas e finalidades compartilhadas, uma direção que tome decisões de forma colegiada, materiais didáticos preparados em conjunto, a formação continuada e a participação dos pais são pontos essenciais para a construção da escola de qualidade. A instituição escolar é identificada pelo seu caráter social e socializador. É por meio da escola que os seres humanos entram em contato com uma cultura determinada. Nesse sentido, a concepção construtivista compreende um espaço importante à construção do conhecimento individual e interação social, não contrapondo aprendizagem e desenvolvimento. Aprender não é copiar ou reproduzir, mas elaborar uma representação pessoal da realidade a partir de experimentações e conhecimentos prévios. É preciso aprender significativamente, ou seja, não apenas acumular conhecimentos, mas construir significados próprios a partir do relacionamento entre a experiência pessoal e a realidade. A pré-existência de conteúdos confere certa peculiaridade à construção do conhecimento, que deve ser entendida como a atribuição de significado pessoal aos conteúdos concretos, produzidos culturalmente. Pensando especificamente o trabalho do professor, o construtivismo é uma concepção útil à tomada de decisões compartilhadas, que pressupõe o trabalho em equipe na construção de projetos didáticos e rotinas de trabalho. Por fim, é importante ressaltar que o construtivismo não é um referencial acabado, fechado a novas contribuições; sua construção acontece no âmbito da situação de ensino/aprendizagem e a ela deve servir. 2. Disponibilidade para a aprendizagem e sentido da aprendizagem (Isabel Solé)A aprendizagem é motivada por um interesse, uma necessidade de saber. Mas o que determina esse interesse, essa necessidade? Não é possível elaborar uma única resposta a essa questão. No entanto, um bom caminho a seguir é compreender que além dos aspectos cognitivos, a aprendizagem envolve aspectos afetivo-relacionais. Ao construir os significados pessoais sobre a realidade, constrói-se também o conceito que se tem de você mesmo (autoconceito) e a estima que se professa (auto-estima), características relacionadas ao equilíbrio pessoal. O autoconceito e a auto-estima influenciam a forma como o aluno constrói sua relação com os outros e com o conhecimento; reconhecer essa dimensão afetivo-relacional é imprescindível ao processo educativo. Em relação à motivação para conhecer, é necessário compreender a maneira como

Esse deve ser o início do processo educativo: conhecer o que se tem para que se possa. uma resposta desejável e não a real compreensão do conteúdo. determinadas pelo contexto e experiências de cada pessoa. 3. A inclinação dos alunos para um enfoque ou outro vai depender. procedimental (saber como se planta uma árvore). que pode ser dividida em dois enfoques: o enfoque profundo e o enfoque superficial.4. tendo em vista que o autoconceito e a autoestima. raciocínio e memória que possibilitam a realização da tarefa. esforço e envolvimento pessoal. Reconhecer esses aspectos afetivos e relacionais é fundamental para motivação e interesse pela construção de conhecimento. Na concepção construtivista é a partir desses conhecimentos que o aluno constrói e reconstrói novos significados. a intenção do aluno limita-se a realizar atarefas de forma satisfatória. estratégias e habilidades compreendidas em certos níveis de inteligência. que conta com elementos pessoais e interpessoais com sua auto-imagem. das relações que se estabelecem no contexto escolar. As interações. Os esquemas de conhecimento contêm. ao entrar numa sala de aula. Identificam-se alguns aspectos globais como elementos básicos que auxiliam na determinação do estado inicial dos alunos: a disposição do aluno para realizar a tarefa proposta. sobre essa base. seus professores e colegas. Da mesma forma. auto-estima. Importante ressaltar que o enfoque com que o aluno aborda a tarefa pode variar. de ordem conceitual (saber que o coletivo de lobos é alcatéia). Ao contrário.Os conhecimentos prévios podem ser compreendidos como esquemas de conhecimento. que as pessoas se educam. é preciso conhecer as características da tarefa trabalhada. é preciso considerar o estado inicial dos alunos. Para isso. possuem um papel mediador na aprendizagem escolar. quando chegam à sala de aula os alunos já possuem conhecimentos prévios advindos da experiência pessoal. É a partir dessas interações. Entretanto. dessa forma. Esses conhecimentos são diferentes. limitando-se ao que o professor considera como relevante. construir o novo. O que faz com que o aluno e a aluna aprendam os conteúdos escolares? A natureza ativa e construtiva do conhecimento (Teresa Mauri) .Para o ensino coerente. a representação e expectativas em relação à tarefa a ser realizada. diferentes tipos de conhecimentos. as mentes dos alunos não estão vazias de conteúdo como lousas em branco. o que se pretende com determinado conteúdo e a sua necessidade. que podem ser. Tudo isso demanda tempo. ainda. Já no enfoque superficial. a representação que cada pessoa possui sobre a realidade. Levar isto em consideração é compreender o papel essencial dos aspectos afetivo-relacionais no processo de construção pessoal do conhecimento sobre a realidade. capacidades. o aluno se interessa por compreender o significado do que estuda e relaciona os conteúdos aos conhecimentos prévios e experiências. da situação de ensino da qual esse aluno participa.alunos encaram a tarefa de estudar.Outro ponto importante a ser ressaltado é que o professor. normativa (saber que não se deve roubar). no processo de construção de conhecimento. No enfoque profundo. instrumentos. por exemplo. o enfoque profundo pode ser a abordagem de uma relação a uma tarefa e o enforque superficial em relação a outras pelo mesmo aluno. devem ser caracterizadas pelo respeito mútuo e o sentimento de confiança. Um ponto de partida para a aprendizagem de novos conteúdos: os conhecimentos prévios (Mariana Miras) Quando se inicia um processo educativo. carrega consigo certa visão de mundo e imagem de si mesmo. o enfoque profundo pode ser trabalhado com os alunos de maneira intencional. dentre outros fatores. porém não devem ser considerados melhores ou piores que outros. É importante ressaltar que esses esquemas de conhecimento são sempre visões parciais e particulares da realidade. seus conhecimentos prévios e esquemas de conhecimentos construídos. os alunos constroem representações sobre seus professores. que influenciam seu trabalho e sua relação com os alunos. ou seja. ligados às representações e expectativas sobre o processo educativo.

Os alunos são considerados receptores passivos dos reforços dispensados pelos professores. 5. A contribuição do conceito de ZDP está relacionada à possibilidade de se especificar as formas em aula. seus conhecimentos prévios em relação aos conteúdos a serem trabalhados. ao mesmo tempo. conferências. 2) e. rigor. conjuga duas grandes características: 1) a de levar em conta os esquemas de conhecimento dos alunos. S. entendem de formas diferentes esse processo. A primeira concepção está ligada às concepções tradicionais. vídeos. ajudando os alunos no processo de significação pessoal e social da realidade. sem a qual o aluno não poderá compreender a realidade e atuar nela. identifica-se a natureza ativa dessa construção e a necessidade de conteúdos ligados ao ato de aprender conceitos. trabalho que demanda o envolvimento coletivo na escola. diferenciada em relação às duas restantes por enfatizar o papel supremo do professor na elaboração das perguntas. pelo contrário. Porém. deve ajustar-se a esse processo de construção. destacamse três. formalidade. entende-se que o aluno aprende quando apreende informações necessárias. Para tanto. considerado como ser ativo que aprende a aprender. cada uma considerando que aprender é: 1) Conhecer as respostas corretas: Nessa concepção entende-se que aprender significa responder satisfatoriamente as perguntas formuladas pelos professores. ocupam-se de como os alunos adquirem conhecimentos. com a ajuda dos outros. Nesse sentido. propor desafios que levem os alunos a questionarem esses conhecimentos prévios. A análise aprofundada do ensino enquanto ajuda leva ao conceito de “ajuda ajustada” e de zona de desenvolvimento proximal (ZDP). No conceito de “ajuda ajustada” observase que o ensino. é preciso organizar e planejar intencionalmente as atividades didáticas tendo em vista os conteúdos das diferentes dimensões do saber: procedimental (como a observação de plantas). sancionando-as. e atitudinal (de curiosidade. visitas a museus) nas quais os alunos possam processar essas informações. indicam-se os seguintes pontos: . O trabalho com esses conteúdos demonstra a atividade complexa que caracteriza o processo educativo. Auxiliar a construção dessa competência é o papel do professor. As outras duas concepções. Ou seja. Vygotsky.O conceito de zona de desenvolvimento proximal (ZDP) foi proposto pelo psicólogo soviético L. entre outras). Reforçam-se positivamente as respostas corretas. Nesse sentido. não se ignora aquilo que os alunos já sabem. porém aponta-se para aquilo que eles não conhecem. enquanto ajuda o processo de construção do conhecimento. 2) Adquirir os conhecimentos relevantes: Nessa concepção. uma pessoa realiza tarefas que não seria capaz de realizar individualmente. A principal atividade do professor é possuir essas informações e oferecer múltiplas situações (explicações.3) Construir conhecimentos: Os conteúdos escolares são aprendidos a partir do processo de construção pessoal do mesmo. não realizam ou não dominam suficientemente. a ZDP pode ser identificada como o espaço no qual. Para o trabalho com os conceitos acima arrolados. O centro do processo educativo é o aluno. procedimentos e atitudes. deve ser apenas ajuda porque não pode substituir a atividade construtiva do conhecimento pelo aluno. O conhecimento é produto da cópia e não processo de significação pessoal. leituras.Entre as concepções de ensino e aprendizagem sustentadas pelos professores. partindo do entendimento de que as interações e relações com outras pessoas são a origem dos processos de aprendizagem e desenvolvimento humano. incrementando a capacidade de compreensão e atuação autônoma dos alunos. no entanto. Compreendendo-se que aprender é construir conhecimentos. Ensinar: criar zonas de desenvolvimento proximal e nelas intervir (Javier Onrubia)O ensino na concepção construtivista deve ser entendido como uma ajuda ao processo de ensino-aprendizagem. conceitual (tipos e parte das plantas).

conhecimento e interesses forem diferenciados. Os enfoques didáticos (Antoni Zabala) A concepção construtivista considera a complexidade e as distintas variáveis que intervêm nos processos de ensino na escola. entende-se que esse esforço. 7) Utilizar linguagem clara e objetiva evitando mal-entendidos ou incompreensões. mostra-se como importante instrumento de entendimento do que acontece na sala de aula. explícita ou implicitamente (currículo oculto). 4) Introduzir modificações e ajustes ao logo da realização das atividades. a análise dos conteúdos trabalhados segundo a natureza conceitual. seu planejamento e avaliação. No entanto. 6) Estabelecer relações entre os novos conteúdos e os conhecimentos prévios dos alunos. requer a compreensão do determinante ideológico que embasam as práticas dos professores.1) Inserir atividades significativas na aula. Trabalhar a partir dessas concepções caracteriza desafios à prática educativa que não está isenta de problemas e limitações. Por isso.Um método educacional sustenta-se a partir da função social que atribui ao ensino e em determinadas idéias sobre como as aprendizagens se produzem. mesmo que os níveis de competência. 5) Promover a utilização e o aprofundamento autônomo dos conhecimentos que os alunos estão aprendendo. ou seja. procedimental ou atitudinal. 8) Recontextualizar e reconceitualizar a experiência. é decisivo para a aprendizagem e o desenvolvimento das escolas e das aulas. não receita formas determinadas de ensino. possibilitando a compreensão de seus processos. 3) Trabalhar com as relações afetivas e emocionais. 2) Possibilitar a participação de todos os alunos nas diferentes atividades. a análise das tarefas que propõem e conteúdos trabalhados. 6. mesmo que acompanhado de lentos avanços. mas oferece elementos para a análise e reflexão sobre a prática educativa. A discriminação tipológica dos conteúdos. Nesse sentido. Outro instrumento importante para a compreensão .