1

TRABALHO DE FILOSOFIA JURÍDICA

I PARTE - ASPECTOS GERAIS DA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA

1. Desenvolva brevemente a concepção racionalista de ciência. Na concepção racionalista, que vai dos gregos ao fim do século XVII, a ciência é definida como um conhecimento racional dedutivo e demonstrativo semelhante à matemática, capaz de provar a verdade necessária e universal de seus enunciados, sem deixar dúvidas. Envolve o modelo de objetividade da matemática. 2. Explique brevemente a concepção empirista de ciência. Na concepção empirista, que vai da medicina grega e Aristóteles ao fim do século XIX, a ciência é definida como uma interpretação dos fatos baseados em observações e experimentos que permitem estabelecer induções e que, ao serem completadas, oferecem a definição do objeto, suas propriedades e suas leis de funcionamento. Envolve o modelo de objetividade da medicina grega e da história natural do século XVII. 3. Explique brevemente a concepção construtivista de ciência. Na concepção construtivista iniciada em nosso século, a ciência é uma construção de modelos explicativos para a realidade e não uma representação da própria realidade. Envolve o modelo de objetividade que advém da ideia de razão como conhecimento aproximado, que pode ser corrigido, modificado, abandonado por outro mais adequado aos fenômenos. Em resumo, esta ciência contemporânea julga que os fatos e os fenômenos novos podem exigir a elaboração de novos métodos, novas tecnologias e novas teorias. 4. O que significam as expressões: “hipotético-dedutivo” e “hipotético-indutivo”. A expressão “hipotético-dedutivo” era a forma apresentada pela concepção racionalista, que definia o objeto e suas leis e disso deduzia propriedades, efeitos posteriores, previsões. A expressão “hipotético-indutivo” era a forma de concepção empirista, que apresentava suposições sobre o objeto, realizava observações e experimentos, chegando à definição dos fatos, as suas leis, as suas propriedades, os seus efeitos posteriores e a previsões. 5. Quais os princípios do ideal de cientificidade na concepção construtivista de ciência?
Filosofia Contemporânea e Ética Elaborado por Cícero Santos Curso de Direito - Faculdade 2 de Julho Salvador – Bahia, 2010

criadas por Gaston Bachelard para se referir às mudanças científicas? Ruptura epistemológica significa que. superioridade do futuro e do presente com relação ao passado. o futuro já está contido no ponto inicial de um ser cuja história ou cujo tempo nada mais é do que o desdobrar ou o desenvolver pleno daquilo que ele já era potencialmente. não haja contradições entre os princípios que orientam a teoria. Explique as ideias de progresso e evolução científicos e a concepção de história pressuposta por elas. 2010 . progresso e evolução pressupõem continuidade temporal. Enquanto o progresso significa a ida num rumo cada vez melhor. na direção de uma finalidade superior. corrigindo-a. A concepção de história pressuposta por elas é semelhante à que a biologia apresenta quando fala em germe. elabora um conjunto de receitas e práticas para agir sobre as coisas. b) que os modelos dos objetos ou estruturas dos fenômenos sejam construídos com base na observação e na experimentação. acumulação causal dos acontecimentos. c) que os resultados obtidos possam não só alterar os modelos construídos.2 São três: a) que haja coerência. Estes são entes que contêm em si mesmos tudo o que lhes acontecerá. graças à observação. 7. 6. a tecnologia é um saber teórico que se aplica praticamente. o cientista ou o grupo de cientistas precisam ter a coragem de dizer “não”. a evolução significa tornar-se superior e melhor do que era antes. Representam as crenças na superioridade do presente em relação ao passado e do futuro em relação ao presente. Que significam as expressões “ruptura epistemológica” e “obstáculo epistemológico”. Dizer não à teoria existente e aos métodos e tecnologias existentes. Filosofia Contemporânea e Ética Elaborado por Cícero Santos Curso de Direito .Faculdade 2 de Julho Salvador – Bahia. para superar um obstáculo epistemológico. 8. que. Em síntese. existência de uma finalidade a ser alcançada. Ela explica a descontinuidade no conhecimento científico. ou seja. Progresso e evolução são ideias recentes que partem da suposição de que o tempo é uma linha contínua e homogênea. semente ou larva. Qual a diferença entre técnica e tecnologia? Enquanto a técnica é um conhecimento empírico. mas também alterar os próprios princípios da teoria. por outro lado. ou seja.

Por que. descobrem. Porque a ciência não caminha numa via linear continua e progressiva. os procedimentos. em um campo científico. até então inexistente e cuja necessidade não era sentida pelos investigadores. parecendo que passasse a trabalhar num mundo completamente diferente. quando um cientista e/ ou um grupo de cientistas começam a estudar um fenômeno. b) do lado dos não cientistas – porque vivemos sob a ideologia do progresso e da evolução. mas por saltos ou revoluções. vemos os resultados tecnológicos das ciências. sendo necessário produzir um outro paradigma. mas porque há uma mudança profunda na maneira de o cientista ver o mundo. tecnologias. conceitos e demonstrações formam um todo sistemático. 12. Filosofia Contemporânea e Ética Elaborado por Cícero Santos Curso de Direito .Faculdade 2 de Julho Salvador – Bahia. Uma ciência normal é o trabalho científico no interior de um paradigma estabelecido. uma teoria que permite o conhecimento de inúmeros fenômenos. 2010 . O que é um paradigma científico e uma ciência normal? Um paradigma científico é quando. O que é uma crise de paradigma científico? Uma crise de paradigma científico é quando o paradigma se torna o campo no qual uma ciência não trabalha normalmente. métodos. métodos e tecnologias disponíveis no seu campo de trabalho. pouco a pouco. 10. já que o paradigma anterior não lhe permitia conhecer certos objetos ou fenômenos. que os conceitos. Ela acontece quando o cientista descobre que o paradigma disponível não consegue mais explicar um fenômeno ou um fato novo. Além disso. os instrumentos existentes não explicam o que estão observando nem tão pouco levam aos resultados buscados. formas de observação e experimentação. 11. apesar das rupturas e descontinuidades. O que Thomas Kuhn entende por revolução científica? Quando ela acontece? Por que ela é uma ruptura radical com relação à ciência anterior? Kuhn entende por revolução científica os momentos de ruptura e de criação de novas teorias. empregando teorias. 9. do “novo” e do “fantástico”.3 Obstáculo epistemológico significa que. É uma ruptura radical com relação à ciência anterior porque não só novos fenômenos são descobertos e conhecimentos antigos são abandonados. continuamos acreditando no progresso das ciências? Por dois motivos principais: a) do lado do cientista – porque este sente que sabe mais e melhor do que antes.

Mas a moralidade e a lei não precisam coincidir”. 13. roubar e matar são moralmente errados. é mais amplo do que o da lei. mas também aumentam a esperança de vida. A lei não pode apreender tais valores sem a ajuda de um interprete humano. na modernidade. Como resultados práticos. O direito é um círculo menor. Os arquivos filosóficos. o vínculo entre ciência e aplicação prática dos conhecimentos gera não só objetos que facilitam a vida humana. uma razão mais profunda para nossa crença no progresso. Porque.4 Há.certo e errado . com a lei. porém. A moral é instituição ligada a valores. 147-148). da norma social.Faculdade 2 de Julho Salvador – Bahia. Toda infração jurídica seria também infração moral. Discorra sobre as ideias contidas no texto. Stephen. da norma jurídica. A partir dessa concepção. a moral. porque. Jellinek desenvolveu a Teoria do Mínimo Ético. que possa identificar imoralidade a partir do caso concreto e de valores. justificando sua posição. Há coisas que são moralmente erradas. Como Karl Popper explica a mudança de uma teoria científica? Popper explica que a mudança de uma teoria cientifica é consequência da concepção da verdade como coerência teórica. 2003. mas não são contra nenhuma lei. Ocorre que não podemos confundir moral com legalidade. sentimos que estamos em condições melhores do que nossos antepassados. São Paulo: Martins Fontes. (LAW.com uma lei. desde a Antiguidade. Porque. a superstição e as crendices. afirma que a reelaboração científica decorre do fato de ter havido uma mudança no conceito filosófico científico da verdade. ou seja. conhecer sempre foi considerado o meio mais preciso e eficaz para combater o medo. Entretanto. “É importante não confundir moralidade . Também é contra a lei. nem tampouco não podemos ignorar a relação da moral com o direito. É a conhecida figura dos círculos concêntricos. p. que variam de acordo com aspectos históricos e sociais.ÉTICA 1. só porque algo é ilegal não significa que é moralmente errado. Por exemplo. concêntrico a um círculo de raio maior. Ainda propõe que uma teoria científica seja avaliada pela possibilidade de ser falsa ou falsificada. É claro que moralidade e a lei muitas vezes coincidem. É preciso entender que o campo da moral. 2010 . Filosofia Contemporânea e Ética Elaborado por Cícero Santos Curso de Direito . II PARTE . a cada dia.

O máximo que um filósofo moral pode fazer é.5 para se atingir a faixa destinada ao direito. Assim. pode-se esboçar os seguintes tipos de vida. 2. descendentes da doutrina platônica: a) vida de prazeres (eirímines) – simples gozo material – vida animal. formas superiores de Aristóteles.. Pode-se partir da indagação: A vida como ela é. deixando a quem pergunta a tarefa de escolher”. mérito. estando sujeita a um processo de desenvolvimento e de mudança. Dentre estes tipos de vida. Discuta e comente essa concepção de Nowell . (ROUSSEAU. à medida de Platão. Rio de Janeiro. independente das circunstâncias objetivas e das condições históricas e sociais.. reconhecimento das ações por outros. necessariamente a moralidade não precisa coincidir com o da lei. antes se percorreria o espaço reservado à moral. Consciência! Instinto divino. juiz infalível do bem e do mal!”. b) vida política ou prática (politikós) – ação na busca da honra. Entretanto. por ter a moral um campo maior de abrangência. Essa pergunta complexa e de caráter geral constitui a parte mais abstrata do que se conhece por ética normativa. Bertrand Brasil. qual você escolheria? 3. “Há no fundo das almas um princípio inato de justiça e de virtude pelo qual julgamos as nossas ações e as do próximo como boas ou más. 2010 . 1992. entende-se que. “Que devo fazer? Mas a esse tipo de pergunta não se pode oferecer respostas de caráter geral.Faculdade 2 de Julho Salvador – Bahia. pode ser ou deve ser? Com base na lição do livro “Ética a Nicômaco”. Expressa que tudo o que é jurídico é moral. esse aspecto é refutável uma vez que no direito muitas normas existem indiferentes à moral. Emílio ou da educação. Enquanto Rousseau define a consciência com base na concepção teológica. mas nem tudo que é moral é jurídico. e é a esse princípio que denomino consciência. na maioria das vezes. esboçar vários tipos de vida. Jean-Jaques.Smith. e c) vida contemplativa (theoretikós). Filosofia Contemporânea e Ética Elaborado por Cícero Santos Curso de Direito . voz celeste e imortal. Compare a concepção de consciência de Rousseau com a que foi exposta por Sanchez Vasquez no texto Ética. em que a consciência seria um juiz interno e supremo. Sanchez Vasquez define a consciência moral dos indivíduos como produto histórico-social.

e a liberdade. Exemplo: Sabemos que roubar é um ato reprovável do ponto de vista moral. porque há circunstâncias em que o individuo ignora o que poderia ter conhecido ou o que tinha a obrigação de conhecer. isto é. sem dúvida alguma.Faculdade 2 de Julho Salvador – Bahia. a ignorância não pode eximi-lo da responsabilidade já que o indivíduo é responsável por não saber o que deveria saber. contrariando a sua vontade. Em uma apreciação rápida. há uma reprovação moral. 2010 . Se Antônio rouba um disco da casa de seu amigo Carlos. A ignorância não exime alguém da responsabilidade moral em todos os casos. Buscamos a resposta para essa pergunta nas lições do mestre Aristóteles. de um lado. decide e age conscientemente. a liberdade de vontade é inseparável do da responsabilidade. mas. 4. Além disso. Em que condições podemos imputar a alguém responsabilidade moral? Por que? Dê exemplo. não basta julgar determinado ato por uma norma ou regra de ação. Afirma que somente em sociedade o indivíduo toma consciência daquilo que é permitido ou proibido. sem levar em consideração outras variáveis. e nem tampouco se manifesta ela no homem independentemente de seu desenvolvimento histórico e de sua atividade prática social. isto é. Para que se possa imputar a alguém a responsabilidade moral. que o sujeito não ignore nem as circunstâncias nem as consequências da sua ação. de um homem que é essencialmente social. A ignorância é sempre uma condição para que se possa eximir alguém de responsabilidade moral? Por que? Só se pode responsabilizar o indivíduo que escolhe. decide e age conscientemente. que a causa da conduta esteja no interior do indivíduo. que evidenciam duas condições fundamentais: a) o comportamento tem que possuir um caráter consciente (consciência) por parte do indivíduo. E se a ação de Filosofia Contemporânea e Ética Elaborado por Cícero Santos Curso de Direito . Só se pode responsabilizar o indivíduo que escolhe. Conclui que a consciência moral efetiva é sempre a consciência de um homem concreto individual. 5. É preciso saber das condições em que o ato acontece. Porque tão-somente o conhecimento. do obrigatório e do não obrigatório num sentido moral. e não em outro agente (causa exterior) que o force a agir de certa maneira. do outro. por isto mesmo. e b) a conduta tem que ser livre (liberdade). Então. sua condenação se justifica porque roubar a um amigo não tem desculpas. permitem legitimar a imputação de responsabilidade moral a alguém.6 Afirma que o indivíduo não possui a consciência moral desde o seu nascimento.

A realização da moral possui. numa dada sociedade não só como tarefa individual. organizações e instituições sociais desempenham um papel decisivo”. A moral. p. Rio de Janeiro. e os seus atos morais. uma qualidade social. em virtude da natureza social dos indivíduos. A moral implica sempre numa consciência individual que faz suas ou interioriza as regras de ação que lhe apresentam com um caráter normativo. É tanto que uma mudança radical da estrutura social provoca uma mudança fundamental de moral. quer em grupos sociais. Só resta a alternativa de imputar a ele a responsabilidade moral. A Ética. A rigor. isto é. Civilização Brasileira. mas coletiva. ainda que se trate de regras estabelecidas pelo costume.7 Antônio não tem desculpas.Faculdade 2 de Julho Salvador – Bahia. normas. 2010 . não existe uma moral estritamente pessoal. mas como ser social. ***** Filosofia Contemporânea e Ética Elaborado por Cícero Santos Curso de Direito . valores. sempre terão um caráter social. 1970. como processo social no qual as diferentes relações. Mas estes também não existem fora da sociedade. Os agentes dos atos morais são somente os indivíduos concretos. quer atuem separadamente. A sociedade se compõe de homens e não existe sem indivíduos reais. 6. em sua essência. (SANCHEZ VAZQUEZ. 181). porque só se manifesta na sociedade. possui também caráter social. como o indivíduo não existe isolado. “Por realização da moral entendemos a encarnação de princípios. fora do conjunto de relações sociais nas quais se inserem. como forma de comportamento humano. respondendo as suas necessidades e cumprindo uma função determinada nela. não se pode eximi-lo da responsabilidade.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful