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Redação- Samir Meserani-Criatividade

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Published by: Paulo Lóssio Corrêa on Nov 21, 2011
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FLUÊNCIA E DESINIBIÇÃO DO ATO DE ESCREVER: sobre os desejos

Escrever com fluência é escrever com facilidade, sem inibições, tais como o medo de errar, de parecer ridículo, o desejo exagerado de perfeição, etc. Este exercício é para soltar a imaginação, a linguagem e a mão, escrevendo no papel, livremente. Não é redação, nem precisa ser mostrado para ninguém. Escreva o que vier, como vier, sem fiscalizar essas primeiras idéias. O professor marcará o tempo: 10 minutos, mais ou menos, é o suficiente. Faça o que der nesse tempo. Mas escreva bem rápido. Quanto mais depressa, melhor. 1. Temos um mundo de desejos, ideais e sonhos povoando nossa imaginação. Você vai escrever um desejo seu (realizável ou não, fantasioso, terrível, maravilhoso, absurdo, etc.).

2, Nossos desejos podem manifestar-se em gostos. Isso é muito pessoal: há quem goste de
calor, laranja, cachorro, viajar; há quem deteste essas coisas. E você? Escreva abaixo nomes de objetos, coisas da natureza, bichos, pessoas, sentimentos, comidas, aulas, músicas, livros, de seu agrado e desagrado.
2 "coisas" de que eu gosto: 2 "coisas" que detesto:

3. As palavras também podem ser agradáveis ou detestáveis, por seu significado, forma
sonora ou gráfica, por sua colocação numa frase, num texto ou num contexto, e pela relação pessoal que temos com elas. Há quem goste da palavra "alcaçuz" e nãb goste da palavra "feijão" (embora goste muito mais de comer feijão do que alcaçuz). E você?
Palavras de que eu gosto: Palavras que eu detesto:

Você se cansou com o exercício de fluência? Até adquirir ritmo, isso pode acontecer. Quando você se cansar de escrever é bom fazer um recreio, um intervalo. E, se a imaginação "esfriar", para "aquecê-la" vale a pena ouvir uma música, ler um texto gostoso. Vamos ler um texto que é muito estimulante. É uma crônica (narrativa breve) do maior cronista brasileiro, Rubem Braga. Acompanhe em silêncio a leitura do professor e sinta como é bonito este texto. Logo após a leitura, sem analisar o texto, vamos para o exercício lc.

MEU IDEAL SERIA ESCREVER...
Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta, quando lesse minha história no jornal, risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse — "ai meu Deus, que história mais engraçada". E então contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria — "mas essa história é mesmo muito engraçada!" Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos. Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera, a minha história chegasse — e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse — "por favor, se comportem, que diabo! eu não gosto de prender ninguém!" E que assim todos tratassem melhor sois empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à história. E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mfl maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dubfim, a um japonês, em Chicago — mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a na pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história anõn tio engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouw U; essa ldstória não pode ter sido inventada por nenhum homem; foi com certeza alff"" anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que ji estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até mento; é divina". E quando todos me perguntassem — "mas de onde é que você tirou — eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na nhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a "Ontem ouvi um sujeito contar uma história..." E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventai história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena < de meu bairro.
conheci-

Braga)

você vai tentar criar sua primeira redação. Estamos no início ainda de uma aprennão se obrigue a fazer "o melhor texto do mundo". Faça o que puder, do seu modo. ótimo, bom, regular, ruim, péssimo... Vale tudo. O gostoso é tentar fazer. redação (ou texto) não precisa ser muito grande. Uma ou duas páginas é o suficiente, íor marcará o tempo: 50 minutos, mais ou menos. que escrever? O que você quiser. Pode ser um acontecimento, pensamento, desejos, reais ou imaginadas. Se você preferir, pode tomar como tema o mesmo da crônica Braga, "Meu ideal seria escrever...". Depois de feita a redação, dê-lhe um título, . Comece livremente: você não será obrigado a mostrar esse texto a ninguém, a não o queira.

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FLUÊNCIA E DESINIBIÇÃO DO ATO DE ESCREVER: sobre as emoções
Você não vai fazer ainda uma redação. Agora é apenas um exercício para soltar a imaginação, as palavras e a mão que escreve. 1. Temos emoções variadas, ou de uma mesma espécie em graus diferentes. Para simplificar, dividimos as emoções em positivas (como a alegria) e negativas (como a tristeza). Você vai se lembrar de momentos, situações, coisas, bichos, pessoas, obras de arte... enfim, tudo que para você provoque ou lembre essas emoções. É muito pessoal essa escolha. Há pessoas que ficam alegres com dias ensolarados; outras ficam tristes. Deu para entender? Então vamos ver sua lista. Coisas que me dão alegria, prazer, amor, Coisas que me dão tristeza, desprazer, ódio, euforia, agrado,
satisfação: depressão, desagrado, insatisfação:

2. Agora, são as palavras. Há palavras que, pelo significado e até independentemente dele (pela forma sonora e gráfica, pela colocação na frase ou no texto), nos evocam emoções. Eu, por exemplo, sinto alegria com palavras como "sol", "azul", "evanescente", "maravilha-", "criar", "anis". Acho tristes palavras como: "doença", "poente", "melancolia", "sussurrar", "gripe". E você? Vamos ver as suas palavras?
Palavras tristes: Palavras alegres:

Pronto? Você já sabe que não é preciso mostrar para ninguém, a não ser que você queira. Mostrando ou não, converse com um colega (que também já tenha terminado o exercício) sobre o que vocês fizeram.

Textos emocionantes podem tornar-nos emocionados. É como ver uma pessoa triste: isso pode nos entristecer. Nesta página há dois poemas emocionantes, ambos de Manuel Bandeira. Em um há dor, tristeza; no outro há serenidade e calma. E, nos dois, acima desses sentimentos, há emoção estética, específica dos textos literários. O professor vai ler em voz alta. Acompanhe, lendo silenciosamente. E sinta os poemas.

DESENCANTO
Eu faço versos como quem chora De desalento... de desencanto... Fecha o meu livro, se por agora Não tens motivo nenhum de pranto. Meu verso é sangue. Volúpia ardente Tristeza esparsa... remorso vão... Dói-me nas veias. Amargo e quente, Cai, gota a gota, do coração. E nestes versos de angústia rouca Assim dos lábios a vida corre, Deixando um acre sabor na boca. — Eu faço versos como quem morre. (Manuel Bandeira)

O RIO
Ser como o rio que deflui Silencioso dentro da noite. Não temer as trevas da noite. Se há estrelas nos céus, refleti-las. E se os céus se pejam de nuvens, Como o rio as nuvens são água. Refleti-las também sem mágoa Nas profundidades tranqüilas. (Manuel Bandeira)

iniruRiyiflvw

Revisão gramatical. NA HORA DO H
Você sabe que algumas palavras são escritas com h inicial. Lendo e escrevendo, a gente fixá as mais usuais. Mas, "na hora h", a de escrever cercas paiavras com h inicial, costumam aparecer dúvidas. Vão aqui algumas delas para você recordar (não é preciso decqrar, evidentemente). E há, em seguida a essas palavras, linhas com espaços em branco: escreva nesses espaços outras palavras que você usa, iniciadas com h. Quando (na revisão gramatical de suas redações) você tiver dúvidas sobre esse assunto, consulte esta página.
H inicial: hã!, hem!, heim!, hui!, hábil, hábito, habitar, hálito, harmonia, haver, hegemonia (liderança,

dominação), higiene, hino, história, hoje, homem, honesto, honra, horizonte, hóstia, hotel, humano, humilde, humor,— _______________________________ : __ , ------------------ , ---------- ——, ------------- ---Nos compostos com hífen o h é mantido: anti-histórico, pré-histórico, pseudo-herói,

Nos compostos sem hífen o h é suprimido: desonra, desumano, inumano,.

Atente para os seguintes prefixos: hefni = metade, meio -> hemisfério = meia esfera ' faiper = acyna, superior, super hipertensão = tensão arterial alta hipo = abaixo, inferior -> hipotensão = tensão arterial baixa homo = igual, semelhante homogêneo = de natureza, gênero ou = outro, diferente —► heterogêneo = de natureza, gênero

semelhante ÜilR:

textual. A EMOÇÃO DE CRIAR
uma crença segundo a qual é melhor escrever sobre as emoções nó aos. Porém, às vezes., isso pode se tornar difícil. Comumente, é ô medo depoisque o medo passou. Sobre o amor, na lembrança Isso quando escrevemos sobre coisas acontecidas, emoções acontecida* ou não, o escritor de ficção sempre inventa. Ou ini a partir do que- aconteceu. Vale a pena ler este poema de Fernando Pessoa:
em qme escrevei;

óriá . Sobre ou inventa

AUTOPSICOGRAFIA

Q poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. Com ou sem -^àkteào temática, aquela à qual o texto se refere, há uma emoção processual, de criar. sempre presente no processo de escrever, embora possa não estar no texto. Ê ela qu|^JMHÍ^%A4maginação e a inteligência e mobiliza a mão que escreve. . Pois bea&áie settítexto desta unidade ficou muito amarrado, pode não ser um problema só de linguagem. Pode ser que no processo de criação sua imaginação estivesse embotada, sem um "aquecimento" emocional. Você estava realmente entusiasmado, emocionado em contar essa hi£tórja f&oposta ou queria apenas se livrar de uma obrigação? A resposta é decisiva: seu textô^isasee de um processo emocionado e emocionante. E é esse processo o que primeiro influi na qualidade de sua redação.
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FLUÊNCIA E DESINIBIÇÃO DO ATO DE ESCREVER: sobre a imaginação
A imaginação é um processo psicológico de criar imagens e idéias, algumas parecidas . com a realidade e outras bem distantes do real, fantasiosas. Vamos soltá-la livremente. 1. Imagine uma invenção ou descoberta que poderia melhorar a vida da humanidade (ou de outras espécies animais, das plantas, da natureza...).

2. Agora você vai inventar um significado para palavras também inventadas, que não têm significado algum. É divertido. Vamos tentar? Sinta bem essas "palavras" e escreva o que querem dizer. Não precisa dar significado para todas as palavras: escolha as que lhe parecerem mais interessantes.
substantivos

gapanda: ______________________________________________ ______________ _______________________ lucimóvel: _______________________________________________________________________________ pitolene: _________ ____ _____________ ______________________________________________________ ;— tunareza: ___________________________________________________________________________ : _________
adjetivos
*

clastom: _______________________________________________________________________ ____ — _ _____ pueroso: ______________________________________________________________ _______________________ mesnado: ___________ ____________________________________________________________ _ ______ vertiscente: ______________________________________________________________________ : __ . '
verbos

/

elvonar: ______________________________________________________________ __________________ ____ ' primider: ___________________ _____________________ „ _______________________________ __ _______ acrir: ____________________________ _____________________ : __________________________________ ___ vitipor: ____________________________________________________________________; __________________ Pronto? Há um colega curioso de saber o que você inventou. Descubra quem é na classe e vá até ele.

Há tanta coisa que a gente imagina ser impossível existir e que acaba sendo inventada ou descoberta... A imaginação pode ser um projeto de realidade. Mas pode ser, também, pura fantasia. Você acredita em fantasma, vampiro, saci, disco voador, seres extraterrestres? Bem, alguns povos primitivos acreditavam em dragão, animal que hoje só é encontrado em obras de ficção. Mas um escritor argentino, o "fabuloso" Jorge Luis Borges, em uma obra curiosíssima, O livro dos seres imaginários, nos diz o que é o dragão. Borges tem a capacidade de nivelar a realidade e o imaginário, de um modo poético. Vamos ler?

O dragão possui a capacidade de assumir muitas formas, mas estas são inescrutá- veis. Em geral o imaginam com cabeça de cavalo, cauda de serpente, grandes asas laterais e quatro garras, cada uma dotada de quatro unhas. Fala-se também de suas nove semelhanças: seus cornos se parecem aos de um cervo, sua cabeça à do camelo, seus olhos aos de um demônio, seu pescoço ao da serpente, seu ventre ao de um molusco, suas escamas às de um peixe, suas garras às da águia, as plantas de seus pés às do tigre e suas orelhas às do boi. Há espécimes aos quais faltam orelhas e que ouvem pelos chifres. É comum representá-lo com uma pérola, que pende de seu pescoço e é emblema do sol. Nessa pérola está seu poder. É inofensivo se despojado dela. A história lhe atribui a paternidade dos primeiros imperadores. Seus ossos, dentes e saliva gozam de virtudes medicinais. Pode, segundo sua vontade, ser visível ou invisível aos homens. Na primavera sobe aos céus, no outono submerge na profundidade das águas. Alguns não têm asas e voam com o próprio impulso. A ciência distingue diversos gêneros. O dragão celestial leva no lombo os palácios das divindades e impede que esses caiam sobre a terra; o dragão divino produz os ventos e as chuvas, para o bem da humanidade; o dragão terrestre determina o curso dos arroios e dos rios; o dragão subterrâneo cuida dos tesouros vedados aos homens. Os budistas afirmam que os dragões não são menos abundantes que os peixes de seus muitos mares concêntricos; em alguma parte do universo existe uma cifra sagrada para expressar seu número exato. O povo chinês crê mais nos dragões que em outras deidades, porque os vê com tanta freqüência nas nuvens inconstantes. Paralelamente Shakespeare havia observado que há nuvens com forma de dragão (sometimes we see a cloud
that's dragonish).

O dragão governa as montanhas, vincula-se à geomancia, mora perto dos sepulcros, está associado ao culto de Confúcio, é o Netuno dos mares e aparece em terra firme. Os reis dos dragões do mar habitam palácios resplandecentes sob as águas e se alimentam de opalas e de pérolas. Há cinco desses reis; o principal está no centro, os outros quatro correspondem aos pontos cardeais. Têm uma légua de comprimento; ao mudar de posição abalam as montanhas. São revestidos de uma acmadura de escamas amarelas. Abaixo do focinho têm uma barba; as pernas e a cauda sao peludas. A testa se projeta sobre os olhos chamejantes, as orelhas são pequenas e cheias, a boca sempre aberta, a língua comprida e os dentes afiados. O hálito ferve os peixes, as exalações do corpo os fazem assar. Quando sobe à superfície dos oceanos produz redemoinhos e tufões; quando voa pelos ares causa tormentas que destelham as casas das cidades e inundam os campos. São imortais e podem comunicar-se entre si apesar das distâncias que os separam e sem necessidade de palavras. No terceiro mês fazem seu informe anual aos céus superiores.

Agora você vai projetar sua imaginação para o futuro e tentar ver o que vai acontecer. Será que o futuro é uma simples extensão do passado ou, ao contrário, há saltos que mudam tudo? Bem, vamos imaginar que estamos no ano de 2030, uma data não muito distante. Nesse ano, como será o Brasil? Sua imaginação é capaz de ver. Vamos tentar? Pode começar, por exemplo, assim: "Hoje, dia .... de ..................................de 2030, eu.................. ." (como se fosse uma página de um diário). Ou você pode contar uma história acontecida nesse ano, escrever uma notícia de jornal, um bilhete, uma carta. O que você quiser, desde que seja sobre o Brasil desse futuro esperado.

INFORMAÇAO 3 Revisão gramatical. DE QUE JEITO SE ESCREVE? COM J OU COM G? J berinjela, cerejeira, gorjeta, hoje,
jeca, jeito, jejum, jibóia, lisonjear, pajé, pajem, sarjeta, ultraje, varejista, ■ ,__________________ , _______________ , , _______________

G abordagem, agir, agitar, algema, argila, auge, coragem, digestivo, dirigir, emergir, estrangeiro, ferrugem, fingir, fugir, gibi, gíria, giz, herege, lógica, megera, monge, ogiva, restringir, tigela, vagem, vertigem, viagem, _____________________________________________ , ________ : ______ ,_________ ______ ,_________

OBSERVAÇÕES
I. As palavras terminadas em agem, em português, são femininas: a abordagem, a aragem, a aterrissagem, a coragem, a embalagem, a linguagem, etc. De igual modo, a palavra personagem é feminina. Ex.: A personagem João é interessante. A personagem Joana é interessante. Contudo, por influência francesa (le personnage, masc.) usa-se também em português o galicismo "o personagem" (no masculino).

Revisão textual. IMAGINAÇÃO: FANTASIA E REALIDADE
Há textos mais apegados à realidade e outros mais fantasiosos. Todos dependem da imaginação. A imaginação permite ver a realidade de modo mais Original, diferente da visão habitual e rotineira. Por outro lado, alimenta fantasias irreais, devaneios e sonhos. As obras apegadas à realidade podem ser de ficção ou não. Obras de ficção são aquelas que fingem uma realidade. Em criança você já tinha percebido isso: qriawfe cBVia um conto fadas, dizia que a história era "de mentirinha". Mas a ficção nã«*_ ^ppfPfMãttmente uma tira, porque não se propõe a falsear a realidade. Procura appnÉf^jpfoil1 parecer com o meai. As obras de ficção mais parecidas com a verdade charoanv<c mflfíftú. l£$ pinturas, filmes e romances realistas. O maior romancista realista do Brasil^.IjlftdtNpfc & Assis. Seus romances mostram a alma humana com virtudes e defeitos, desi^flBjtliáò'■Étfp^ggÉO» ocultos. Suas personagens são verossímeis, isto é, parecem pessoas de vwfrtj^jlH^^^g obras de ficção, há obras não ficcionais comprometidas em desvendar a iJ8ÉÍÍÉ^fej^HBí «fentíficos. jornalísticos, relatos de coisas acontecidas, diários, etc. Esses iUtfkt jtfçtfSKppflCtrar, sem fingimento, a verdade, a realidade do mundo. Será qüRMsso é' |<MI vive na ilusão de realidades que não gassam (te representações ^hH O que você

acha. „ Finalmente, há textos, de ficção ou não, que trabalham com a fui já ouviu contos de fada, fábulas, já viu filmes de terror, de ficção científica, de <^iwf^n> ^»verossímeis. Há também obras que idealizam a realidade, como filmes e ronaripKj|pí£feúcós. As novelas de televisão, por exemplo, tendem mais ao romantismo que ao' sobretudo para atender a sonhos e desejos do público. Um desses desejos é dè qtp haja um "final feliz", principalmente na trama amorosa. Ainda que essa e outras idealiati^ões fantasiosas sejam consideradas como formas de fugir da realidade,: de "escapismo", é lÉtai não esquecer que mintas fantasias — como as de Júlio Verne e outros autores de ficção científica — acabaram%endo um anteprojeto da realidade. E a realidade às vezes se mostra tão absurda que parece fantasia, permitindo o romance do chamado realismo fantástico. Se você quiser um bom exemplo, de leitura fascinante,-leia Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez, que conta a história de uma cidade sul-americana onde «ver é praticar o absurdo e a fantasia. Enfim, acionando sua imaginação, você pode descobrir dinossauros ou inventar dragões. Ou — quem sabe? — o contrário... 18

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FLUÊNCIA E DESINIBIÇÃO DO ATO DE ESCREVER: sobre a memória
A memória é um arquivo de nossas experiências vividas diretamente ou através de sím- bolos. Nela estão guardadas coisas vividas ou imaginadas. ~~ Você vai voltar para um momento, uma situação, um lugar. Tente vê-lo. Depois de focalizá-lo, não é preciso escrever sobre esse foco, como se fosse um tema, mas sobre o que você estiver pensando a partir dessa lembrança. Deixe o pensamento fluir solto e registre: frases, palavras, desenhos. . . mesmo que pareçam não ter sentido. Não use pontuação, nem se preocupe com a ortografia das palavras. Escreva seu pensamento do jeito que ele vier.

/

Pronto? Não precisa mostrai para ninguém. Leia o que você escreveu. E procure um colega para contar sua experiência.

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Agora você vai ler um poema de Carlos Drummond de Andrade, um dos poetas mais criativos da língua portuguesa. O poema faz emergir resíduos impregnados na memória, fragmentos persistentes que ficaram para sempre. Leia em "ritmo de memória", em silêncio, acompanhando a leitura do professor.

RESÍDUO
De tudo ficou um pouco. Do meu medo. Do teu asco. Dos gritos gagos. Da rosa ficou um pouco. Ficou um pouco de luz captada no chapéu. Nos olhos do rufião de ternura ficou um pouco (muito pouco). Pouco ficou deste pó de que teu branco sapato se cobriu. Ficaram poucas roupas, poucos véus rotos, pouco, pouco, muito pouco. Mas de tudo fica um pouco. Da ponte bombardeada, de duas folhas de grama, do maço — vazio — de cigarros, ficou um pouco. Pois de tudo fica um pouco. Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha. De teu áspero silêncio um pouco ficou, um poucu nos muros zangados, nas folhas, mudas, que sobem. Ficou um pouco de tudo no pires de porcelana, dragão partido, flor branca, ficou um pouco de ruga na vossa testa, retrato. Se de tudo fica um pouco, mas por que não ficaria um pouco de mim? no trem que leva ao norte, no barco, nos anúncios de jornal, um pouco de mim em Londres, um pouco de mim algures? na consoante? no poço? Um pouco fica oscilando na embocadura dos rios e os peixes não o evitam, um pouco: não está nos livros. De tudo fica um pouco. Não muito: de uma torneira pinga esta gota absurda, meio sal e meio álcool, salta esta perna de rã, este vidro de relógio partido em mil esperanças, este pescoço de cisne, este segredo infantil... De tudo fica um pouco: de mim; de ti; de Abelardo. Cabelp na minha manga, de tudo ficou um pouco; vento nas orelhas minhas, simplório arroto, gemido de víscera inconformada, e minúsculos artefatos; campânula, alvéolo, cápsula de revólver... de aspirina. De tudo ficou um pouco. E de tudo fica um pouco. Oh abre os vidros de loção e abafa o insuporravel mau cheiro da memória. Mas de tudo, terrível, fica um pouco. e sob as ondas ritmadas e sob as nuvens e os ventos e sob as pontes e sob os túneis e sob as labaredas e sob o sarcasmo e sob a gosma e sob o vômito e sob o soluço do cárcere, o esquecido e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes e sob tu mesmo e sob teus pés já duros e sob os gonzos da família e da classe, fica sempre um pouco de tudo. Às vezes um botão. Às vezes um rato.

(Carlos Drummond de Andrade)

Se "de tudo fica um pouco", quanta coisa não há na sua memória, coisa adormecida, stada, esquecida? Há resíduos de experiências boas e ruins. Há lembranças gostosas. Que tal escrever sobre isso? Vale ir inventando, não precisa ser só real. E vale até você inventar alguém e ir escrevendo sobre as memórias desse alguém. Escreva uma, duas ou as três páginas. Vamos começar?

INFORMAÇAO 4 Revisão gramatical. UM SOM DE "ASSSSSSSOBIO" 5, SS, Ç, C, SC, X, XC

S absolver, ânsia, cansar, falso, farsa, imerso, intenso, persuadir, fpjtensão, pulso, sensatez, suspensão,
tenso, verso, _________________________ : _______, __________ _ —, --------------■■■.,,........................ . _____________________________________ ________
SS acessível (ou accessívèl), assembléia, assessor, assumir, concessão, confissão, dezesseis, dissertação, escasso, impresso, massa, necessário, obsessão, sossego, sucessão, verossímil, Ç (+ a, o, u) açúcar, açude, adoção, adoçar, aguçar, coçar, caçoar, cobiça, dançar, opção,

presunção, suíço, _________________ , _______________ _______________ , - ... C (+ e, i) acervo, acetona, ancião, ancestral, lucidez, nocivo, ócio,

________

SC - acrescentar, adolescência, adolescente, ascender (subir), i m i i iii iHu^^WjHj i. consciência, descender, descer, disciplina; florescer, nascer, oscilar, pischta^ XiMM^/j&ssuscitar,
seiscentos, transcendental,

X contexto, expectativa, expor, expressar, exprimir, extensão, XC exceção, excelente, excêntrico, excepcional, excesso, exceto, i Revisão textual. MEMÓRIA E REPERTÓRIcfcmTURAL
, . A memória é um fator psicológico responsável Usa-se também a palavra de uma naçã< ✓ museus têm essa função: Os entos, pinturas, esculturas, fotos, roupas, móveis * Há, uma expressão muito usada em teoria da coaiaBlgasi^j^jjjj^^JPfc yBpci tório cultural, muito próxima do significado de memória/yO dinâmica de experiências diretas_£_ simbólicas) Assim; vuce sal>c.-a <MMH|JHip^ÉÉ&<ttBe esse animal consta de suas experiências diretas de infância e sabe o qp^^SjH^^^paao sem ter visto ou brincado com tigres, porque já os viu em desenhos e meio de símbolos. Pois bem, essas informações vão para sua memgrÜL e pa88*MÍ|mBBB&r seu repertório cultural, que lhes~dá uma organização, um significado, a partir 3jj§H|f[^ggjl, oe - sua ideologia e de outros fatores que formara padrões, fcnhm, o seu reper pessoal, formada dentro cío repertório de §gu ^mpo. na maioria das ve Um exemplo fácil é o repertório gustativo, alimentar. Cada cultura jtêtfk át$#lSMto£ típicos: há comidas brasileiras, chinesas, japonesas, árabes, etc. Em sua caijHHHBpkfm um certo cardápio. Dentro da cultura de sua família (nacional, regional, especiâl?pqiiÍaãido você era criança, foram-lhe oferecidas várias comidas, frutas, doces e bebidas. Algumas entraram no seu repertório de gosto. Outras, nem pensar... Pois bem, o mesmo acontece com roupa, filmes, música e literatura. Em literatura, seu repertório pode estar bem alimentado, por exemplo, de narrativas como romances de amor, de aventura, de ficção científica, policiais, etc. Talvez não esteja tanto, ainda, de poesia. Qual é a importância do repertório? Para quem cria é fundamental. A gente cria a partir do próprio repertório, a partir do que está em nossa càbeça. O repertório é o ponto de partida de sua redação. Você pode até receber um estímulo chi "inspiração" de fora. Mas a criação vem do que já está interiorizado. Na hora de redigir criativamente desperte as suas emoções, gostos, experiências, o seu repertório cultural.
24

sem,i

FLUÊNCIA E DESINIBIÇÃO DO ATO DE ESCREVER:
sobre o paladar e o olfato
Temos cinco sensações básicas para captar informações do mundo: visão, audição, tato, paladar e olfato. Vamos começar pelas duas últimas. 1. O paladar ou gustação é uma sensação muito próxima do olfato. São sensações dirigidas a elementos químicos: o paladar sente elementos químicos em estado sólido e líquido, e o olfato sente elementos em estado gasoso. Indique abaixo:
comidas ou bebidas salgadas: ______________________________ ___________________ __________________

doces: _______________________ ___________________ __________________ azedas: ______________________ ___________________ __________________ amargas: _________________ __________________ . - ____________________
perfumes ou aromas fortes: ________________________________ ___________________

____________ : ____

suaves: _____________________ ___________________ _______________

2. Vamos às palavras. Pela forma, conteúdo, texto, contexto, experiência pessoal, quais são, 3. para você: palavras perfumadas:__________________________, _______________________ , __________ __________________________________________________. palavras doces: _______ y _____________________ _______________________ , -------------------------------palavras amargas: __________________________ __ _______________________ , ______________ :___ . _____ 4. Preencha os claros do texto abaixo, com um destes adjetivos (vale colocar outros, desde que façam sentido): faminto, esfomeado, guloso, voraz, frugal, saboroso, apetitoso, doce, salgado, indigesto, digestivo, intragável, sedento, perfumado, fétido, odorífico, aromático, suave, forte... Eu estava __ _____________________ , embora normalmente eu não seja ___________________________ .. Comi aquela refeição tão _________________________ e a sobremesa ____________________________' . Depois, ao sentir o aroma ________________________ daquela fruta, não resisti. Devorei-a em um segundo.

Pronto? Então respire fundo e sinta o gosto do trabalho realizado. Procure um colega para trocar informações sobre esta experiência.

O gosto de um refrigerante conhecido começa a se degenerar no poema visual de Décio Pignatari. E Cecília Meireles revela sabores, aromas e suspiros da noite. Vamos ler estes poemas de dois poetas extremamente criativos.

beba coca cola babe cola beba coca babe cola caco caco cola cIoaca
(Décio Pignatari)

NOITE
-Ümido gosto de terra, cheiro de pedra lavada, — temj|o inseguro do tempo! — sombra do flanco da serra, nua e fria, sem mais nada. Brilho de areias pisadas, sabor de folhas mordidas, — lábio da voz sem ventura! — suspiro das madrugadas sem coisas acontecidas. A noite abria a frescura dos campos todos molhados, — sozinho, com o seu perfume! preparando a flor mais pura com ares de todos os lados. Bem que a vida estava quieta. Mas passava o pensamento...

— de onde vinha aquela música? E era uma nuvem repleta, — entre as estrelas e o vento. V
(Cecília Meireles) ^

Você vai preparar um jantar para sua classe: terá comidas, doces, frutas, bebidas. Será um cardápio muito gostoso e perfumado. Descreva como vai ser esse jantar, com seus sabores e aromas. Depois veja se seus leitores ficaram com vontade de ser convidados. Se você preferir, porém, pode descrever um jantar detestável. Nesse caso, duvido que alguém queira ir. " Vamos começar? Escreva uma ou duas páginas.

INFORMAÇÃO 5 Revisão gramatical. UM SOM DE ZUMBIDO - Z, S, X
Z amizade, aprendizado, azar, azedo, azeite, azia, certeza, clareza, cozinhar, dezembro, dúzia, estranheza, lazer, sintetizar, vazar, vazio, vez, vizinho, voz, ________ _____ " , _____________ acidez, aprendiz, arroz, capaz, dez, fez, fazia, feliz, feroz, giz, luz, raiz, talvez, traz, ,

—, -------------------------------------------------- ,-------------------------------------------------------------- , ------------------------------------------------------------- , ------------------------------------------------------------- , —, ---------------------------------------------------, ---------------------------------------------------------------

S agasalho, análise, artesão, atraso, atrasar, burguesia, casa, caso, coeso, conciso, decisão, exclusão, fase, inclusive, exclusive, lousa, piso, poetisa, prosa, raso, resumo, revisar, trânsito, atrás, usar, vasilha, visão,______________________________ ,___________________ , ________ : ___ _ ____________ X exagerar, exaltar, exame, ,exato, exaurir, execução, exemplo, exercer, exercício, exibir, existir, êxito, __, ISAR e IZAR Regra prática: quando houver is no final da palavra —«-ISAE ' quando não houver------------------------------------------ IZAR

IS

ISAR

.'

IZAR

análise--------- » analisar aviso ----------- ►avisar bis — - -------- - bisar pesquisa ------ ► pesquisar televisão ------ televisar ^

atual --------- -------- atualizar aval ------------------- avalizar civil -— ----------- —► civilizar democrático—democratizar tranqüilo ------- ---- ► tranqüilizar

Isão textual. DESCRIÇÃO SENSORIAL
Descrever é sugerir, com palavras, sensações:
visuais: "brilho de areias pisadas" sonoras: "música de vento assobiando" gustativas: "úmido gosto de terra" olfativas: "cheiro de pedra lavada" táteis: "a frescura dos campos molhados" :

Com exceção do exemplo da sensação sonora, os demais foram transcritos do poema "Noite", de Cecília Meireles, que você leu na página de estímulo. Não só nesse poema como em toda sua obra, a grande poetisa mineira recorre a imagens sensoriais para compor seus textos, que, de tal modo, se transformam em descrições sensoriais. Habitualmente, a imagem sensorial que mais aparece nas descrições é a visual, até por ser a que mais usamos para captar o mundo. Contudo convém recorrer a vários tipos de sensações para enriquecer o texto, não só pela variedade, como também pelo fato de uma sensação sugerir e completar outra. Você já deve ter percebido isso: uma comida bonita (visual) e com bom aroma (olfativa) parece gostosa (gustativa). Quando uma pessoa está com suas sensações adormecidas, dizemos que seu estado é de anestesia; quando está com elas meio adormecidas ou meio fechadas, o estado é de parestesia; se está com todas elas abertas e ativas o estado é de sinestesia.

A audição capta os sons do universo e a fala humana. O tato é uma "antena" captando textura e temperatura, através das mãos e de toda pele. 1. Você vai indicar os sons que lhe são agradáveis (bonitos, melodiosos, harmônicos...) e os desagradáveis (barulhentos, ruidosos...). Se você não souber o nome do som, use uma expressão indicativa dele, como barulho de chuva caindo, zumbido de pernilongo, explosão de bombinha de São João, etc. Vamos tentar? Sons agradáveis: _________________________________________________________________________________

Sons desagradáveis:

2. Vamos tatear o mundo. Indique coisas ou substâncias: I Quentes: _ ____________________________ ___________ ______ Frias: Ásperas: Lisas:____ Macias:. Duras: _ 3. Há um tipo de poesia que trabalha a musicalidade das palavras. O recurso sonoro mais usual desses poemas é a rima (repetição de sons iguais). Complete, rimando, a estrofe abaixo, do poema do poeta clássico português Sá de Miranda:

„r . , . *

Comigo me desavim , sou posto em todo perigo; não posso viver comigo _ nem posso rugir de -------------------* desavim = desencontrei, briguei.

- GAwrmtU*

- O^ilj/iO-^fCK) _ pê/a3jji£(jm£) f

Pronto? Sem brigar, procure um colega e troque com ele a experiência desta página.

Arthur C. Clarke, autor do roteiro do filme 2001, uma odisséia no espaço, escreveu uma das mais poéticas obras de ficção científica, A cidade e as estrelas. Transcrevemos um trecho dela, cheio de imagens visuais. Em seguida leia o texto de Dalton Trevisan em que "a vida escorre pelos dedos", lenta e tátil como um suor.

A CIDADE E AS ESTRELAS
A noite já ia alta quando Alvin despertou. Alguma coisa o havia perturbado, algum sussurro que se infiltrara até o fundo de sua mente, apesar do trovão incessante das cachoeiras. Sentou-se, em meio à escuridão, fazendo força para enxergar a terra oculta, enquanto, sustendo a respiração, escutava o ruído das águas e os sons mais suaves, mais fugidios, dás criaturas da noite. Nada se via. A luz das estrelas era fraca demais para revelar os quilômetros de terras que se estendiam a dezenas de metros lá embaixo; apenas uma linha acidentada de noite mais escura, eclipsando as estrelas, revelava a presença das montanhas no horizonte meridional. Nas trevas, ao lado dele, Alvin percebeu que o companheiro rolava no leito e se sentava. — O que foi? — ele ouviu uma voz sussurrante. — Acho que ouvi um barulho. — Que tipo de barulho? — Não sei. Talvez seja apenas imaginação. Houve silêncio, enquanto dois pares de olhos perscrutavam o mistério da noite. Então, de repente, Hilvar pegou Alvin pelo braço. — Veja! — dfurmurou. A distância, em direção ao sul, brilhava um ponto solitário de luz, baixo demais no céu para ser uma estrela. Era de um branco brilhante, manchado de violeta, e, enquanto olhavam, a luz começou a escalar o espectro de intensidade, até que a vista não suportou mais contemplá-la. Então, explodiu — e foi como se o relâmpago houvesse atingido a Terra. Por um breve momento, as montanhas e a terra que elas encerravam ficaram gravadas a fogo contra o negrume da noite. Muito tempo depois ouviu-se o fantasma de uma explosão longínqua, e nas matas lá embaixo um vento súbito agitou as árvores, morrendo rapidamente, e uma a uma as estrelas dispersadas voltaram ao céu.

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(Arthur C. Clarke)

NO JARDIM
O pálido rosto à sombra, uma lagartixa que comeu mosca, José cochila ao sol. Os copos-de-leite estão quietos como túmulos brancos. Que sede! Suor frio na testa, coça o queixo, puxa, é quase uma barba! A mãe surge à porta: — Quer entrar, meu filho? A vida escorre na ponta dos dedos. Um copo d'água, mãe. O cacto desfalece de calor. Com mais sede ele morre mais um pouquinho. Brincam as sombras ao pé do muro que nem canteiro de gatos; — Água, meu filho. Bebe até a última gota e pisca o olho esquerdo para a mãe, que lhe afaga o cabelo. — Está melhor? A cigarra anuncia o incêndio de uma rosa encarnada. Nuvens brancas enxugam no arame do quintai. E o filho dorme, uma lágrima suspensa dos olhos, sem rolar pelo bigodinho grisalho de lágartixa. (Dalton Trevisan)

Quando estamos privados de uma sensação, recorremos a outra. Uma pessoa privada da visão serve-se de todas as outras sensações, principalmente da audição e do tato. Pois bem, você estava dormindo numa casa estranha, quando ouviu,uma série de barulhos e ruídos. Tentou acender a luz, mas foi inútil, não havia eletricidade nessa noite. Então resolveu levantar-se e ir até o lugar de onde vinham os sons. Você tateou alguma coisa, tropeçou em outra, chegou lá e descobriu a causa do barulho. Conte o que aconteceu, mostrando com imagens táteis e sonoras o que foi encontrando pelo caminho.

INrUKMAVAU D

Revisão gramatical. UM SOM bE CHIADO X, CH
X xadrez, xampu, xangô, xarope, xavante, xerife, xerox (xérox), xilogravura, xingar, xodó, xote, ------------------ ,------------------- : , ----------------- ---------------- ------------------ > --------------abacaxi, baixo, bexiga, bruxa, caixa, capixaba, coxa, eixo, enxada, enxame, faixa, faxina, graxa, lagartixa, lixa, lixo, luxo, mexer, praxe, queixa, queixo, _____________________ , _________ __

CH chá, chacina, chaga, chaleira, chanceler, chapa, charco, charlatão, charuto, chato, chave, chefe, chegar, cheirar, chiclete, chimarrão, chimpanzé, chocar, chofer, churrasco, chute,

apetrecho, bacharel, brecha, bucha, cachaça, cachimbo, cachola, clichê, cochilar, colchão, concha, creche, crochê, despachar, encher, espichar, fachada, ficha, flecha, gancho, guin- cho, lancha, lanche, macho, mancha, mochila, salsicha, _________________________ ______ , __________________ Repetição do x e do ch na mesma palavra: X maxixe, muxoxo, xaxim, xexelento, xexéu, xixi,_______________________ , ______________ , _____ : ____ _ CH bochecha, cachucha, chocho, chucha, chuchu, cochicho _______ _____________ , _ ______ ____ ___

Revisão textual. IMAGEM E IDÉIA
Vimos na "Informação" da unidade 5 que a descrição apresenta .imagens sensoriais: visuais, gustativas, olfativas e táteis. Entenda "imagem" não ápenas como uma represènta- ção. visual, mas amplamente, como representação sensorial. Nesse sentido podemos falar em "imagem gustativa", por exemplo. ____ — ---- — ---------- --. Tomemos o sentido restrito e mais adequado de^imagem, o de uma representação visual I As palavras não são capazes de representar os objetos e seres vivos, como a fotografia, o desenho, a pintura, a escultura. As palavras sugerem imagens, mas não representam,l/com . exceção das palavras onomatopaicas, que reproduzem falas de animais, barulhos de máquinas, etc. Nesse caso, seriam palavras representativas de imagens acústicas ou sonoras. Mas, de modo geral, as palavras nos dão idéias, conceitos, e não imagens. A palavra casa nos dá uma idéia abstrata de casa, muito geral, aplicável a todas as casas do mundo. Já uma imagem descasa, uma foto ou desenho, refere-se a uma casa única, singular. Dó que foi exposto você pode concluir que: — imagem: é uma representação de aspectos concretos e singulares de algo. — idéia ou conceito: é uma representação de aspectos abstratos e gerais de algo. Mesmo com essa natureza conceituai, a palavra pode sair de seu cám^jfcstrato, vago e geral e sugerir Imagens, concretas e singulares. Ela não desenha uma p€3£oa* lt)as, ao descrever, sugere o rosto e o corpo dessa pessoa. Entendendo isso você fará descrições mais sugestivas e não aquelas que se perdem em abstrações. A propósito, na linguagem oral, você já faz isso. Quando você dte a um amigo que comeu um pedaço de pão com manteiga e tomou café com leite, ele «a$ende o que você diz. Mas se você fala "comi um pedaço de pão macio e quente, com uma manteiga amarela, salgada e saborosa, enquanto tomava um café com leite clarinho e doce", ele não só entende como vê. Sente até fome. Costuma-se dizer que uma boa descrição depende de adjetivos como: macio, quente, amarela, salgada, saborosa, clarinha e doce. Mas não só os adjetivos são palavras imagís- ticas. Quase toda palavra é capaz de sugerir "tonalidades" imagísticas à idéia geral. Assim, comer é geral; devorar é um comer" apressado, mal mastigado; saborear é um comer calmo, sentindo o gosto dos alimentos. Verbos, substantivos e adjetivos bem escolhidos ajudam sua descrição. 36

FLUÊNCIA E DESINIBIÇÃO DO ATO DE ESCREVER: sobre a visão
A visão nos traz as imagens do mundo. É a mais importante das sensações para a colheita de informações necessárias para os processos de conhecimento. 1. Pense em um objeto ou um bicho ou uma planta, em qualquer coisa. Preencha as indicações abaixo. Depois, tente ver se algum colega adivinha o que é:

Forma: _____________________________________________________ ;____________________________________

Volume:_________________________________________________________ ________________ ______________

Função (para que serve, o que faz): ______________ ________________________________________________

Cor:__________ __________________________________________________________________ _______________

Substância (do que é feito):_________________________ ______________________________________: ______ 2. Indique três cores existentes na classe e, se possível, com suas tonalidades. Olhe bem para as paredes, o teto, o chão, as portas, janelas, os móveis, os objetos, as roupas. Depois marque com um X sua cor preferida dentre as indicadas.

3. As palavras, dentro de nosso vocabulário pessoal, podem ter cores e tonalidades. Para você, quais são:

'-tf
Palavras azuis: _______________________________ ,_________________________, __________ __ __ _______

Palavras vermelhas: __________________________ , _______________________ , ________________________

Palavras cinzentas: ___________________________ ,________________________ , __________________ : _____

Já fez os exercícios? Procur um ou mais colegas para conversar sobre este exercício 'colorido".

Abra bem os olhos para os dois textos. Um, de Jorge de Lima, dá imagens visuais como se fosse um quadro surrealista. O outro é um poema visual, cuja forma já é uma composição desenhada, contendo uma surpresa... É do poeta Augusto de Campos. Vamos ver?

O GRANDE DESASTRE AÉREO DE ONTEM
(Para Portinari) Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de bailarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o pára-quedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol. (Jorge de Lima)

(Augusto de Campos)

Você tem na foto abaixo uma escada. Subindo essa escada você chega a um lugar, "lá do outro lado". É um lugar que só a sua imaginação pode ver. Mas, se você o descrever, o leitor também verá. Olhe, imagine e escreva...

INFORMAÇÃO 7 Revisão gramatical. O SOM KS GRAFADO COM X, CC, CÇ
X afixar, anexar, asfixia, axila, bórax, boxe, clímax, complexo., conexão, crucifixo, dióxido, fixar, flexão, léxico, marxismo, maxilar, oxido, oxigênio, paradoxo, paíoxítona, perplexo, reflexão, saxão, sexo, táxi, tórax, tóxico, _____________________ , _____ __ —.—:— , — ----------------CC confeccionar, cóccix, ficcional, friccionar, ______________________ , __________: __ __ , __ _ __________ CÇ confecção, convicção, defecção, ficção, intelecção, micção, __________ __________ , _ ____________

Revisão textual. A DESCRIÇÃO SENSORIAL/CONCEITUAL
Até aqui, nas "Informações" antecedentes (unidades 5 e 6), falamos da descrição senso- rial ou imagística. É um gênero de textos literários e não literários que pode aparecer sozinho ou mesclando narrações e dissertações. Nas narrações, a descrição do espaço, das personagens e cte objetos mistura-se com o enredo das ações. Em relatos não literários, em cartas, nos noticiários dos jornais também aparecem trechos descritivos junto aos narrativos. Nas dissertações também pode haver segmentos descritivos: num tratado de geografia, de anatomia, de zoologia, há conceitos dissertativos sobre objetos que são também descritos, como ilhas, o corpo humano e animais. Se os textos misturam gêneros, definindo-se pelo predominante, também a própria natureza da descrição mistura imagens com conceitos. Sobre um objeto, como um avião, não descrevemos apenas a sua imagem visual e sonora. É pouco dizer que o avião é um objeto brilhante e com barulho de motor. Dizemos que é um veículo de transporte, feito de metal, movido por um motor, que serve para voar, etc. Em resumo, a descrição não se contenta apenas com imagens sensoriais. compondo-se também de conceitos que completam essas imagens. Veja o exemplo seguinte: natureza da coisa descrita: móvel doméstico substância do que é feita: madeira eof&posição ou estrutura: uma tampa e quatro pernas .Imagem visual: marrom/brilhante ' classificação:.móvel de sala de jantar, copa e cozinha imagem tátil: lisa, temperatura fria, pesada volume ou dimensão: grande, com 2 m2 ' função: serve para deixar repousar pratos, copos, talheres, etc. forma: quadrada e baixa, plana e retilínea, sem adornos Você já deve ter percebido que esse móvel doméstico é uma mesa. A simples enunciação da palavra mesa já evocaria alguns desSes conceitos e até uma imagem vaga. Mas, para quem não conhece o objeto, é preciso descrevê-lo. Você deve ter percebido também que essa descrição trabalhou com algumas imagens (marrom, brilhante, lisa, fria, pesada, grande, baixa) e com conceitos (móvel doméstico, serve para repousar...). É verdade .que essas imagens levam a conceitos e os conceitos a imagens. Mas nesse tipo de descrição não há somente a pureza de imagens sensoriais bem concretas e imediatas, há também conceitos. Quando você descreve uma pessoa não dá apenas seus traços físicos, como a cor dos olhos; cabelos e pele, estatura, peso e feitio do rosto. Diz também de seu moido de ser psi- cológico: introvertido, tímido, sincero, sonhador. São traços abstratos que se concretizam em comportamentos. Por exemplo, quando alguém se declara leal, nós entendemos (conceito), mesmo sem ver essa pessòá se comportando com lealdade. De qualquer modo esse traço passa a compor a sua descrição. - • Mais à frente, ao tratarmos da dissertação, retornaremos a esse tipo de descrição imagístico-conceituaj. Agora ficam estos noções gerais e uma recomendação: ao descrever, procure mostrar os aspectos mais relevantes da coisa descrita, com imagens e conceitos.
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FLUÊNCIA E DESINIBIÇÃO DO ATO DE ESCREVER:
sobre a personalidade
Cada um de nós tem um modo de ser pessoal, uma personalidade. Determinações biológicas e culturais e uma história individual constroem o nosso jeito, ordenando certos traços > organizando um tipo, um modo de ser, pensar, sentir e agir. 1. Escreva palavras referentes ao modo físico de duas pessoas. Ex.: gordo, olhos verdes, cabelos crespos. 1." pessoa: __________________________________________________ ____________________________________

2.a pessoa:

2. Nós não nos conhecemos com certeza e exatidão. Mas temos uma certa imagem, real ou ideal, de alguns traços psicológicos nossos. Indique três traços que você acha que são próprios do seu modo de ser. Marque com um X. ) tímido ( ) extrovertido ( ) seguro ) humilde ( ) arrogante ( ) tranqüilo ) flexível ( ) rígido ( ) corajoso ) egoísta ( ) altruísta ( ) vencedor ) desajeitado ( ) habilidoso ( ) sociável ( ) inseguro ( ) ansioso ( ) covarde ( ) perdedor ( ) anti-social

3. Você vai escolher uma das palavras da lista acima, somente uma. Escreva tudo o que lhe vier à cabeça, a partir dessa palavra. Ela não é exatamente um tema, mas uma palavra pro- vocadora de seu pensamento, que poderá "ir longe" a partir dessa sugestão. Vamos tentar? Palavra escolhida: ________________________________ ____________________________________ ^ _________ Escreva o que vier: ____________ : _________________________________________ ___ : _____ _______ ____

Pronto? Agora procure um colega e converse com ele áobre este exercício. Não precisa mostrar o que você escreveu, a não ser que você queira.

Agora vamos à leitura de um poema de Fernando Pessoa, o grande poeta português. Neste poema de confissão você sentirá a força de um desabafo sincero. Leia silenciosamente enquanto o professor lê em voz alta.

POEMA EM LINHA RETA
Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida... Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos, Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? Poderão as mulheres não os terem amado, Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, Como posso eu falar com os meus superiores sem titu|Qjpr? Eu, que tenho sido vil, literalmente vil. Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. (Fernando Pessoa)

INFORMAÇAO 8
Revisão gramatical. DÚVIDAS COMUNS DE ORTOGRAFIA
1. Palavras terminadas em:

admiração * aflição exceção exibição

ÇAO
intenção isenção sensação transcrição

concessão compreensão dimensão dispersão

SAO

diversão excursão obsessão pretensão

2. Grafia com s ou z no final da palavra.

S: atrás, através, após, detrás, gás, por trás, quis (de querer)
3. Observe o uso de há (verbo) e de a (preposição):

Z: faz (de fazer), talvez, vez, luz, paz, traz' (de trazer) Estudo há (faz) nove anos. Daqui a (até, para, em diante) três anos eu me formarei.
Há indica uma idéia de passado e presente. A indica uma projeção para o futuro.

Revisão textual. DESCRIÇÃO PE UMA PESSOA
A pessoa é um ser humano com individualidade física e psicológica. Faz-se dentro de uma história individual e de uma história social. Por sua vez, ela age e também faz essas histórias. Descrever uma pessoa é habitual. Estamos sempre falando sobre nós e sobre os outros. Contudo, é muito difícil falar de uma pessoa sabendo como ela é na integridade de sua personalidade. São muitos os traços ou características que compõem a personalidade. Há características físicas, psicológicas, éticas, sociais, políticas, ideológicas, profissionais, de faixa etária -e tantas outras cruzando-se numa rede interior. Assim, descrevemos uma pessoa por seu lado aparente. Vemos seu físico: cabelos escuros, •pele clara, olhos grandes, rosto redondo. Sentimos seu odor: o compositor Luís Gonzaga, numâ entrevista, dizia que seu pai tinha cheiro de pai. Tateamos sua pele: dizemos que os bebês são "fofinhos". Ouvimos as vozes: graves, agudas, altas, baixas, macias, duras. A aparência psicológica, aquilo que aparece do modo interior da pessoa, pode ser vista no comportamento e nas declarações que a pessoa faz de si mesmá. Entretanto, essa imagem aparente pode ser enganosa. Quem tem coragem, como no "Poema em linha reta", de Fernando Pessoa, de declarar-se vil, parasita, sujo, grotesco, mesquinho, submisso e arrogante? Ou o comportamento revela esses traços ou é preciso olhar a pessoa "por dentro" em sua estrutura profunda, como fazem psicólogos e escritores. Um conhecimento da pessoa revela que ela contém traços contrários. Ainda que aparentemente se mostre com traços tidos como positivos, potencialmente tem também os negativos. Ou seja, temos dentro de nós um herói, um "mocinho", e seu antagonista, o "bandido". Normalmente torcemos pelo "mocinho" e prendemos o "bandido". Mas às vezes este ameaça escapar. O que decide se a pessoa se realiza como "mocinho" ou "bandido" é o seu comportamento, suas ações, muitas vezes em conflito com as intenções. Num texto descritivo podemos ver a aparência e a estrutura profunda da pessoa (e da personagem) de dois modos: a) Pela declaração do autor: "Ele era sádico, perverso, mau". b) Pela ação, pelo comportamento: "Ele batia em animais, odiava crianças e ficava feliz com o sofrimento alheio". No exemplo acima a declaração e a ação coincidem. Mas o autor pode mostrá-las em conflito. 48

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