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Globalização Da Economia Mundial e Os Mercados de Trabalho

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GLOBALIZAÇÃO DA ECONOMIA MUNDIAL E OS MERCADOS DE TRABALHO

Victor Hugo Klagsbrunn 1
1. A Globalização da Economia Mundial e a Integração dos Mercados de Trabalho

Em primeiro lugar cabe perguntar-se o que há de novo no que se entende por globalização da economia mundial. Desde o início do século temos uma mobilidade e uma integração crescentes dos capitais a nível mundial, com grandes empresas investindo e construindo instalações produtivas em várias partes do mundo, inicialmente concentradas nos setores dos serviços públicos, utilizando muitas vezes o mercado internacional de capitais. Daí disseminou-se o conceito de imperialismo e o conjunto de teorias e concepções críticas quanto às perspectivas de concentração/cartelização do capital e monopolização dos mercados. Na verdade, a chamada fase imperialista sucedeu e aperfeiçou a etapa anterior fundamentada exclusivamente na mobilidade de produtos, de um lado os produtos primários dos países coloniais para os centrais e, de outro, de produtos industrializados dos últimos para os primeiros. Esta mobilidade não deixou de constituir a base material das trocas internacionais na etapa imperialista, ela apenas foi subordinada ao movimento de capitais altamente concentrados, no geral estruturados na forma de sociedades anônimas, que foram investidos em setores altamente rentáveis e com rendimentos mais ou menos assegurados por políticas públicas na periferia do capitalismo mundial: em primeira linha nos serviços públicos, mas também em grandes plantations voltadas para a exportação. Desde tempos coloniais o movimento de mercadorias, comandado pelas metrópoles, sempre foi acompanhado por e determinou movimentos migratórios, canalizando excedentes populacionais existentes em regiões pauperizadas ou não dos países centrais ou periféricos. Durante a fase imperialista essas migrações continuaram sendo a contrapartida de movimentos de capitais controlados pelos centros do capitalismo mundial. De um lado parte das camadas que deveria gerir os processos de produção nos países periféricos vinha dos países de origem dos capitais investidos. Por outro lado, todo esse processo de intensificação de trocas internacionais, com ou sem investimento diretamente na produção e nos serviços básicos, tinha seu sustentáculo e sua
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Professor Titular do Departamento de Economia da Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ.

2 razão de ser na fantástica onda de concentração e de centralização de capital ocorrida desde a II Revolução Industrial. Os impérios coloniais eram uma de suas consequências. Já antes das duas guerras mundiais e de modo mais marcante no pós-guerra o investimento de capitais também em países menos desenvolvidos se dirigiu, de início apenas marginalmente, para a produção industrial. O objetivo inicial era via de regra o de suprir o mercado local com produtos que encontravam pouca concorrência e traziam altos lucros. O fim da reconstrução das economias européias nos anos 50 permitiu canalizar maior quantidade de capital para o investimento em atividades produtivas, agora não necessariamente em atividades primárias, em países do terceiro mundo. As prioridades eram então as de suprir os maiores mercados locais que, no geral, apresentavam também condições mais adequadas de produção e de infrastrutura, incluindo a existência de mercados de trabalho asssalariado suficientemente estabelecidos. A etapa atual vem sendo caracterizada pela globalização crescente, embora este termo seja utilizado e entendido de modos muito variados e até contraditórios. O seu uso corrente subentende atividades de empresas em geral de maior envergadura, que são coordenadas e planejadas globalmente, quer dizer, levando em conta os investimentos realizados em diferentes países. Em décadas anteriores essas empresas foram denominadas multi ou transnacionais. Em ambas designações diminuía ou mesmo desaparecia a importância da caracterização de seus centros de operação. Na sua prática, porém, essa caracterização mostrava-se crucial, por exemplo em momentos em que seus investimentos feitos em outros países eram postos em questão, quando aquelas firmas mostravam toda sua interseção com os governos de seus países de origem, forçando-os a atuar politica e militarmente para garantir seus investimentos no estrangeiro. A globalização das atividades das firmas internacionais é um reflexo e expressão do transbordamento da concorrência entre empresas para fora dos limites nacionais e mesmo das regiões mais industrializadas. Por outro lado, a disseminação de atividades econômicas de grandes empresas nunca deixará de estar condicionada pelos diferentes espaços físicos, culturais, políticos, institucionais e econômicos existentes nos vários países em que atuam. A importância desses espaços multifacéticos não desaparece, apenas se modifica, condicionados em primeiro lugar pelas transformações tecnológicas na produção, no transporte, nas comunicações e na

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penetração de interesses internacionalizados na própria condução das políticas econômicas e sociais locais, informada pela disseminação de idéias sociais, econômicas e políticas no meio das camadas sociais que elaboram e propõem os caminhos que acabam predominando nos vários países. A transformação das condições técnicas tem se acelerado flagrantemente sob o efeito da introdução de elementos microeletrônicos inicialmente na produção e mais recentemente na área dos serviços, cortando postos de trabalho e limitando as possibilidades de aumento do emprego. . Os meios de transporte tornam-se cada vez mais rápidos e baratos, em função da extensão do transporte aéreo, o que tem contribuído enormemente para o crescimento do comércio mundial, incluindo cada vez mais produtos que antes tinham que necessariamente ser produzidos localmente, devido por exemplo a sua rápida perecividade. Veja-se o avanço da floricultura de exportação na Colômbia, que fornece seus produtos nos mercados europeus. O extraordinário avanço dos meios de transporte também tem sido um fator essencial para permitir e facilitar a migração de indivíduos entre os vários países e continentes. Mas talvez em nenhum outro setor o avanço tenha sido mais contundente do que nos meios de comunicação. A dissseminação da telefonia internacional via satélite e mais recentemente a integração mundial através da rede INTERNET tornaram as comunicações, decisões e transferências sobretudo de valores praticamente instantâneas. Por isto, é antes de mais nada na área das conexões e transferências financeiras que podemos falar de uma verdadeira globalização. A transferência de valores e de aplicações financeiras, cuja existência é meramente contábil e indepente de transposição no espaço físico, tornou-se tão rápida e fácil seja dentro da mesma cidade ou com o outro lado do planeta. Em todos os demais setores e campos de atividade seguem atuando, mais ou menos fortemente, as limitações espaciais e territoriais para a transposição de bens e serviços. Em outras palavras, em todas as demais áreas das relações internacionais podemos falar apenas de uma globalização mais ou menos relativa. Não se pode perder de vista o fato de que as condições de valorização do capital financeiro continua atrelada, embora com grande autonomia, às condições materiais de produção e de valorização, que dependem do consumo e das taxas de lucro no setor produtivo e de serviços, fortemente condicionadas pelas circunstâncias e conjunturas locais. A possibilidade de combinar investimentos financeiros em diversos setores e países e de modificar rapidamente essas

4 combinações permite ampliar ainda mais a autonomia relativa dos investimentos nas áreas financeiras, o que além de aumentar a volatilidade de investimentos nos setores financeiros aprofunda a dependência de ondas especulativas que agora se espraiam quase instantaneamente. Em todas as etapas de desenvolvimento do mercado mundial, incluindo a atual, um outro nível de globalização relativa existiu e segue existindo também há muito tempo e pouca atenção tem despertado entre economistas, mesmo entre os mais críticos: o da internacionalização dos mercados de trabalho. O fenômeno da migração de trabalhadores para países com rápida industrialização não é novo. A expansão das minas de carvão e a industrialização a ela acoplada na Região do Ruhr, na Alemanha, não teria sido possível sem as levas de migrantes poloneses; a migração de habitantes das ex-colônias inglesas e franceses para as ex-metrópoles é outro exemplo marcante. No pós-guerra citemos apenas alguns: os turcos na Alemanha na época do “milagre econômico alemão” e os mexicanos nos Estados Unidos. É bem verdade que, inicialmente, os migrantes entram pela porta dos fundos, para fazer os trabalhos mais pesados, muitas vezes nos setores que apresentam rápido aumento de demanda por trabalhadores, inclusive ramos emergentes da indústria. Logo, no entanto, a importância dos migrantes deixa de ser marginal, para assumir papel determinante para ramos e setores-chave. É o caso da agricultura californiana, mas também dos turcos nas indústrias siderúrgicas e mesmo de automóveis alemãs. Nos serviços industriais e públicos em países como a França e a Inglaterra a presença de migrantes é também marcante. A discussão sobre globalização da economia mundial hoje centra no que se poderia designar um novo nível de complementariedade entre empresas e dentro das empresas internacionais, no âmbito regional e mundial, fruto de uma concorrência internacional extremamente acirrada, que inclui também a disputa dos mercados emergentes pelos grandes grupos industriais que produzem para escalas supra-nacional, regional e mundial. A expansão industrial do Japão, invadindo os países industrializados com seus produtos e dizimando ramos industriais inteiros, criou sem dúvida toda uma nova configuração nas condições da concorrência entre os capitais. O Brasil, assim como outros países em vias de industrialização, é atingido por estas novas imposições da concorrência em vários níveis. Em primeiro lugar mencione-se a entrada de produtos novos ou diferenciados, via importação, para o qual a ideologia do chamado neo-

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liberalismo faz o trabalho de convencimento, que ele mesmo não consegue fazer nos países centrais, em grande parte ainda marcados pelo protecionismo. Um outro caminho que volta a se apresentar é a abertura de novas fábricas no país, por parte de capitais estrangeiros, antevendo uma grande expansão dos mercados para certos produtos, cujo consumo ainda é baixo, como é o caso dos automóveis no Brasil e na América Latina de modo geral. As novas constelações da concorrência internacional levam também a mudanças na forma de produzir, disseminando-se alguns dos princípios adotados por empresas japonesas em sua expansão internacional. Como era de se esperar, as transformações colocam novas exigências quanto à força de trabalho a ser empregada. No entanto, todas estas mudanças tecnológicas, de organização do trabalho e da produção, bem como nas exigências quanto à qualificação da força de trabalho, apresentam vários reversos, que nada têm de positivo: o desemprego agora reconhecido como estrutural, a diferenciação dos mercados de trabalho com o aumento concomitante do emprego de pouca qualificação na indústria e sobretudo nos serviços. Lembremos que é o setor de serviços o único que vinha aumentando o emprego, especialmente nos Estados Unidos, mas em ritmo claramente descendente.2 Longe de constituir exceção, a expansão de empregos menos exigentes e com remuneração mais baixa se insere dentro da mesma lógica da diferenciação crescente dos mercados de trabalho dos países industrializados. É por esta brecha que migrantes internacionais, entre eles os trabalhadores brasileiros, têm logrado penetrar no mercado de trabalho dos países industrializados.3 2. O mercado de trabalho nos países industrializados

De modo geral, os governos dos países industrializados já não podem mais ignorar o problema do desemprego. Desde pelo menos a crise de 1974/75 suas economias têm apresentado dinamismo menor, com crises mais pronunciadas e mais longas. A fase relativamente mais longa de crescimento durante o governo Reagan constituiu uma exceção no período, durante a qual o
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Veja-se um quadro alarmante do desemprego e da menor qualidade do emprego nos países industrializados, p.ex. em OCDE (1994). Uma visão sobre as tendências atuais de internacionalização do mercado de trabalho pode ser encontrada em Van DIJK (1995) e SIMAI (1995). Uma boa seleção de teorias explicativas para as migrações internacionais e sobre a forma de inserção dos emigrantes brasileiros nos Estados Unidos encontra-se, por exempl, em SALES, T. (1995), p. 126 e segs. e 132-134.

6 crescimento foi fortemente impulsionado por uma política de déficit spending conservadora: ao mesmo tempo que cortava impostos e gastos sociais, o governo dos Estados Unidos aumentou em muito as despesas militares. Mesmo com o ciclo relativamente mais longo da era Reagan, podemos reconhecer, sobretudo, desde meados da década der 70, com crises pronunciadas e periódicas - que sempre incluíram diminuição da produção e do emprego. Independente de se considerar ou não o desemprego como um característica intrínseca do sistema capitalista4, é fato que as transformações tecnológicas muito rápidas ocorridas nas últimas décadas têm contribuído de forma decisiva para a expansão do que tem sido chamado de desemprego estrutural. A busca de cortes nos custos, impulsionada pela concorrência mais acirrada em função da expansão e integração dos mercados nacionais em mercados regionais e mundiais sempre tem por consequência o corte de postos de trabalhos e a modificação constante dos empregos que permanecem. Esta tendência pode ser e é no geral contraposta à tendência ao crescimento da produção, do emprego e do consumo que ocorre em forma cíclica no sistema capitalista. Fases de crescimento mais lento, como se observa no capitalismo mundial desde a crise de 1974/5 e, por outro lado, a aceleração das transformações tecnológicas na produção, nos serviços, nos transportes, nas comunicações, etc. tiveram por consequência um aumento rápido do desemprego, do subemprego e uma diminuição dos rendimentos dos empregados. Esta evolução está longe de ser linear e igual para todos os segmentos do mercado de trabalho, como se enfatiza a seguir. Resulta um volume cada vez maior de desempregados com poucas chances de serem novamente absorvidos no mercado de trabalho e com características de permanência, aumentando o denominado desemprego estrutural. O reconhecimento, embora tardio, da sua existência permanente ou estrutural coloca na ordem do dia questões relativas à conformação e transformação dos mercados de trabalho, nacionais e internacionais, às novas exigências de qualificação dos setores de ponta e às exigências postas para os sistemas educacional e de formação profissional. Toda a ênfase da discussão sobre os mercados de trabalho nos países industrializados - e o desemprego daí decorrente - parte das necessidades dos setores de ponta, que são os que ditam a

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Lembremos que para MARX a contituição do que ele designa por exército industrial de reserva constitui a lei geral da acumulação capitalista. Veja-se MARX,K. (1985), Livro I, Cap. 23.

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tendência geral.5 Esta ênfase justifica-se plenamente pela exigência de se verificar o que seria novo no horizonte e se preparar para ele. A relação com o progresso científico-técnico é evidente e imediata. Este tem sido responsável pela racionalização da produção, tendo o desemprego como uma de suas consequências. Mas não esqueçamos que o “modelo industrial japonês” não existiria sem os empregos mal pagos e não regulamentados nas empresas fornecedoras e o desemprego seriam bem maior se a agricultura do país fosse exposta aos ventos da concorrência internacional e boa parte das mulheres não se retirassem do mercado do trabalho após o casamento. Quando associamos desemprego estrutural com progresso científico-técnico pensamos inicialmente e sobretudo no setor industrial. A constante revolução na forma de produzir constitui elemento intrínseco da concorrência entre capitais em qualquer setor e, muito especialmente, na indústria. E uma de suas consequências sempre é a substituição de trabalho vivo por trabalho morto. Em fase de crescimento mais lento, como constatamos desde pelo menos meados dos anos 70, com exceção da fase do governo Reagan, é natural que o desemprego decorrente de inovações tenha sido menos contrabalançado por um aumento da escala de produção. Esta já é uma razão, por si só, para explicar o aumento do desemprego desde então. Outra, está relacionada com as próprias características da onda de inovações ora em curso no mundo da produção, incluindo as mudanças na organização do trabalho. Nos Estados Unidos e em boa parte da Europa as últimas décadas assistem a uma maior concentração de renda devido a dois movimentos: por um lado, os trabalhadores com mais qualificação, inseridos nos processos mais modernos de produção, e camadas médias com especializações requeridas pelos novos avanços tecnológicos passam a ganhar mais e aumentam sua participação no consumo. Por outro lado, uma proporção cada vez maior da população economicamente ativa fica excluída destes avanços e passa a ocupar empregos pouco exigentes. Nos Estados Unidos, por exemplo, o nível de renda dos 10 % mais pobres baixou sensivelmente no mesmo período, talvez por se empregar mais no setor de serviços 6. Esta desigualdade, própria do sistema, deixou de ser compensada pelo menos em parte, como vinha sendo tentado no pós-guerra, devido ao desmonte progressivo de serviços públicos voltados para as camadas
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Isto é verdadeiro tanto na discussão sobre o assim chamado Modelo Japonês de Gestão Industrial quanto no que se refere a estudos mais globais como o da OCDE sobre o emprego (ver OCDE, 1994, L´Ètude de l`OCDE sur l´Émploi - Données et Explications, Parties I et II, Paris. Sobre as novas tendência da organização do trabalho, veja-se p.ex. KLAGSBRUNN (1994). Ver OCDE, 1994, p.22 e seguintes.

8 menos afortunadas, resultado de políticas econômicas de cunho neoliberal. Com isto, as camadas de poder aquisitivo crescente passaram a demandar mais serviços pessoais, diretamente ou através de pequenas empresas como clínicas, restaurantes, lavanderias, táxis, engraxates, etc. Estes são aparentemente os campos de trabalho que se expandem na área de serviços, nos quais os migrantes, incluindo os brasileiros, vêm encontrando emprego, por exemplo nos Estados Unidos. A conjuntura econômica e, consequentemente, a situação no mercado de trabalho nos países industrializados, se desenrolou de modo diferenciado nos últimos anos: nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, o aumento da produção e do emprego em 1993 e 1994 foram significativos. No caso japonês, a situação é certamente algo diferente. O Japão quase não participou da última onda internacional de recuperação e auge econômico. Muito tem sido enfatizado, com razão, que as novas formas de produção e de organização do trabalho exigem trabalhadores com características diferentes. Vejamos a seguir como se coloca a exigência do “novo” tipo de trabalhador em função dos últimos avanços tecnológicos, especialmente na indústria. 3. Algumas observações sobre a relação entre o desenvolvimento tecnológico recente e as tendências atuais quanto à qualificação dos trabalhadores. Normalmente associa-se a evolução técnica na produção industrial com o investimento necessário - para se continuar competitivo - em equipamentos cada vez mais integrados e caros. Pelo seu tamanho e custos crescentes associa-se o investimento em capital fixo com uma menor flexibilidade de utilização. Esta era a tendência histórica, sempre contraditória com desenvolvimentos que tendiam a baratear os elementos do capital fixo. 7 Na fase do pós-guerra, caracterizada pela expansão da produção em massa, baseada nas economias de escala, a tendência de rápido aumento absoluto e sobretudo relativo do valor do capital fixo só fez aumentar. Equipamentos com dispositivos microeletrônicos rompem com esta suposição intuitiva, que nunca se colocou, na verdade, como necessidade lógica ou histórica. O capital fixo pode não aumentar tanto, mas o capital constante, que inclui também todo o capital circulante sem salários, incluindo portanto o que se gasta com insumos, segue aumentando tendencialmente.
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A este respeito veja-se MARX,K. (1985), Livro Primeiro, Cap.XIII.

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O trabalho vivo movimenta cada vez mais trabalho morto. Há a tendência de se substituir trabalho e máquinas por sistemas de máquinas cada vez mais complexos, mas elas em si não precisam ser em conjunto sempre mais dispendiosas. A microeletrônica permite reprogramar os equipamentos e, até certo ponto, utilizá-los para processos produtivos diferentes 8, o que implica em barateamento relativo. O equipamento com elementos microeletrônicos apresenta outra vantagem essencial: no geral ele se controla a si mesmo e permite fácil reprogramação. Deste modo, a tendência que vinha sendo observada, de restringir progressivamente a atividade do trabalhador fabril a mero controlador de máquinas, se modifica em muitos casos. Agora o trabalhador é chamado a intervir sobretudo quando há problemas no processo e estes problemas são denunciados e localizados pelo próprio equipamento. Sua qualificação tem que ser maior, para resolver problemas de menor gravidade, evitando assim que o capital investido fique parado por muito tempo. A atividade de manutenção passa a ser parte integral do trabalho do operador de máquina e a equipe especializada de manutenção e reparação só precisa ser chamada quando o problema for de solução não imediata. Esta evolução começou a se consolidar em ramos ditos de processo, como a indústria química, no qual a produção hoje em dia ocorre em circuitos fechados, mas se consolida aos poucos, como princípio, nos demais ramos de produção. Esta é a razão de encontrarmos em tantos setores da indústria moderna uma crescente exigência quanto à qualificação dos trabalhadores 9. Mesmo que estes ganhem forçosamente mais, seu custo como parte do custo total torna-se por um lado menor e, por outro, aumenta sua importância estratégica para manter o capital crescente em funcionamento. Assim entende-se também a importância redescoberta, creditada ao sistema japonês de gestão, de enfatizar a capacidade e a autonomia relativa do trabalhador industrial no processo de produção e, até mesmo, de integrá-lo na fase de projeto de novos investimentos. Com equipamentos munidos de elementos microeletrônicos de controle e programação abre-se mais espaço para o trabalho em grupos em mais setores das fábricas. As formas contemporâneas de produção e especificamente o trabalho em grupo exigem trabalhadores com mais autonomia,
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Sobre as transformaçöes tecnológicas ocorridas nas últimas três décadas, especialmente no Japäo, no contexto da evoluçäo econômica no período, veja-se por exemplo CORIAT (1990). NEVES (1992) salienta o aumento da qualificaçäo dos trabalhadores em tarefas de manutençäo, negando a mesma necessidade para os demais trabalhadores operadores.

10 maior preparo e mais confiança em suas opiniões. São qualidades que nas formas de organização anteriores não eram estimuladas, pelo contrário. Por outro lado, deixa-se em boa parte a escolha do como trabalhar a critério do próprio grupo, desde que a meta exigida seja alcançada. Como em qualquer esporte por equipe, ficam apenas os melhores.

4.

O mercado de trabalho para migrantes dos países subdesenvolvidos: o caso dos migrantes brasileiros nos países industrializados

Alguns aspectos relevantes da emigração brasileira para os países industrializados a diferenciam de outros grupos nacionais e ela se apresenta bastante diferente nos vários países de destino . Nos casos dos Estados Unidos e do Japão os brasileiros ocupam postos de trabalho pouco ou quase não disputados por trabalhadores nativos. Vejamos inicialmente mais de perto a emigração para os Estados Unidos. Por mais que as poucas pesquisas e a observação enfatizem que a maioria dos migrantes é constituída de indivíduos de nível de escolaridade bastante elevado e oriundos de famílias de classe média, sua inserção no mercado de trabalho nos Estados Unidos ocorre, principalmente, em ocupações no âmbito dos serviços. Margolis10 localizou a maioria dos imigrantes brasileiros em Nova York lavando pratos em restaurantes, engraxando sapatos (um quase-monopólio dos brasileiros), fazendo faxina e dirigindo táxi ou como motoristas particulares. SALES (1995) descreve os brasileiros vivendo na região de Boston ocupados principalmente lavando pratos em restaurantes e bares11. Estes são ramos que passam ao largo das grandes transformações tecnológicas em curso. Nos Estados Unidos, o panorama do trabalho ilegal dos brasileiros se complica sobremodo porque ele se mescla com o imenso turismo, por via aérea, tantas vezes mera forma encoberta de transporte e comércio de bens para venda no Brasil. Segundo informações internas dos Estados Unidos, citadas na Revista Veja, o turista brasileiro é o segundo que mais compra em sua estadia no país, ficando só atrás dos japoneses. É claro que as compras tém sido muito estimuladas pela
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Ver MARGOLIS,M.(1995) SALES (1995), p. 134 se refere às ocupações principais dos brasileiros vivendo na região, oriundos em grande medida da cidade mineira de Governador Valadares. MARGOLIS (1995), p. 31/32, julga ter indícios suficientes de que os migrantes radicados em Newark ,N.J. e em áreas do Estado de Massachusssetts, próximas a Boston, são em maior proporção operários que, em parte, também se empregam na construção civil, como motoristas de caminhão, como frentistas ou como empregados de restaurante.

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sobrevalorização da moeda brasileira desde julho de 1994, mas o fenômeno é bem anterior, como veremos. Deste modo, a própria viagem pode ser facilmente financiada, total ou parcialmente, com a venda de alguns produtos eletrodomésticos. Além disto, como os Estados Unidos exigem, para conceder o visto de entrada, uma passagem de ida e volta, o trecho da volta é passado adiante, para algum migrante que queira passar “férias” no Brasil, por preço abaixo do custo normal e, assim, todo este mixto de migração-turismo-comércio se torna ainda mais atraente. Esta intrincada rede impossibilita, além disto, todo e qualquer controle de quanto os migrantes trazem ou mandam para suas famílias no Brasil. Sempre há algum conhecido, amigo, parente ou vizinho disposto a trazer algum dinheiro. Os dólares que assim entram no país fogem de qualquer controle por parte do Banco Central e alimentam o mercado paralelo de divisas no Brasil. Em todos os casos de emigração, uma das poucas vantagens dos imigrantes, frente aos naturais do país, é que, nos primeiros tempos, quando predomina a idéia de uma migração temporária, o migrante está disposto a aceitar qualquer tipo de trabalho, muitas vezes fazendo coisas que não aceitaria fazer em seu próprio país. O caso dos migrantes estrangeiros talvez corresponda à tão decantada e nunca encontrada mobilidade completa do fator de produção trabalho. O que os leva a este tipo de decisão é o diferencial de rendimentos: uma faxina em Nova Iorque pode significar até 60 dólares por dia. É o mesmo espírito de tudo sacrificar, por pouco tempo, que leva os migrantes a aceitarem empregos que os naturais não aceitam e a viver sob condições muito precárias, dividindo espaço com muitos companheiros em quartos apertados de pensões ou em apartamentos minúsculos. Os naturais do país têm além disto acesso, embora cada vez mais restrito, a assistência social e a outros programas sociais que lhes permitem não ser forçados a aceitar qualquer tipo de emprego pouco qualificado e mal visto. A situação no mercado de trabalho japonês é bastante diferente. Depois de décadas de rápido crescimento industrial, o país vivia uma crescente escassez de mão-de-obra também para a indústria no início dos anos 90. Neste setor os dekasseguis encontram trabalho nos famosos três Ks que em japonês significam empregos penosos (kitsui), sujos (kitanei) e perigosos (kiken) 12.
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As características básicas da emigração de brasileiros para o Japão, aqui sintetizadas, foram extraídas de entrevistas bastante esclarecedoras com Reimei YOSHIOKA, do Centro de Apoio aos Trabalhadores Brasileiros no Japão, que funciona em São Paulo, de YOSHIOKA, R. (199), da leitura do

12 Estes empregos podem ser tanto na área de serviços, quanto na indústria. O que os caracteriza, de modo semelhante ao caso dos brasileiros nos Estados Unidos, é que em muitos casos são empregos pouco cobiçados pelos nacionais e que não contam, no geral, entre os que vêm sofrendo grandes transformações tecnológicas. Nem a qualificação anterior e nem os conhecimentos do idioma japonês dos migrantes brasileiros os qualificariam para assumir postos de trabalho mais exigentes. Os dados expostos no ítem seguinte indicam que o auge da emigração para o Japão teria ocorrido no período 89-92, quando ocorreu uma saída líquida significativa para aquele país. Segundo as informações veiculadas em revistas, o tempo de permanência no Japão não passa, no geral, de três anos. É o tempo suficiente para economizar alguma reserva e com ela comprar casa ou automóvel e tentar estabelecer-se em uma atividade autônoma no Brasil, nos ramos que exigem menor capital inicial, como o comércio e os serviços. Como se vê, como muitas vezes acontece nas migrações por razões econômicas, seu caráter é eminentemente temporário, com alta rotatividade. Não se sabe como a emigração evoluirá em função de uma diminuição da demanda por trabalhadores no Japão. Se se confirmar o aumento do desemprego também no Japão, aquele país poderá adotar medidas de controle de imigração de brasileiros. A provável consequência poderá ser, por um lado, uma certa diminuição da emigração de brasileiros, mas sobretudo a mudança de seu caráter temporário para algo mais permanente. Se alguma limitação à imigração for introduzida, muitos tentarão esticar sua estadia, com medo de perder a possibilidade de algum dia retornar para outra temporada. Algo semelhante ocorreu com a limitação da imigração de mexicanos nos Estados Unidos e dos turcos na Alemanha. O incentivo para os próprios emigrantes nisseis e sanseis para o Japão não deve ter diminuído, em 1994 e 95, mesmo com a menor demanda por trabalhadores naquele país. Isto porque a valorização do ien frente ao dólar - de 20 % só no primeiro semestre de 1995 situação no mercado de trabalho japonês. É difícil reconhecer uma correlação direta e imediata entre a conjuntura econômica e o nível de emprego geral na economia, por um lado, e a capacidade de absorção de imigrantes brasileiros
jornal Notícias do Japão, editado em S.Paulo e da leitura de material publicado em vários órgãos de imprensa brasileiros. Quanto a algumas diferenças entre a migração para o Japão e os Estados Unidos veja-se também SALES (1995), p. 131-135.

e por

conseguinte com relação ao real, compensa possíveis perdas de salários decorrentes da pior

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nos Estados Unidos e mesmo no Japão, por outro. No primeiro caso a primeira dificuldade já começa com a própria estimativa da quantidade e das formas de emprego dos emigrantes brasileiros. Tanto a estadia quanto o trabalho são ilegais e/ou informais. A conjuntura da demanda industrial se reflete de modo atenuado na demanda por trabalhadores formalmente empregados no setor. Podemos inferir que a parte informalmente empregada em serviços prestados às indústrias, como por exemplo os de limpeza, também é afetada mais diretamente pela conjuntura geral. Mas já é difícil concluir se o reflexo se dá na mesma direção ou em sentido contrário. Por exemplo, uma indústria pode decidir cortar custos, passando alguns serviços a subcontratantes que empreguem força-de-trabalho ilegal e, assim, possam oferecer o mesmo serviço mais barato. Já para os serviços pessoais, a relação do emprego informal dos brasileiros com a conjuntura geral de emprego é mais indireta e difícil de precisar. As camadas sociais que necessitam de faxineiras, p.ex., só deixam de empregá-las se perderem o emprego. Mas mesmo assim não imediatamente, pois precisam seguir procurando trabalho. No entanto, não há nenhum indício de que os que mais contratam serviços pessoais têm estado entre os primeiros a perder emprego quando a crise ocorre. Ao contrário, o longo processo de seleção tecnológica, ao qual estiveram expostos nas últimas décadas, deixou-os muito preparados para adaptar-se a mudanças nos ambientes e nos processos de trabalho. No caso do Japão, embora os poucos dados disponíveis indiquem um arrefecimento da migração, não há ainda indícios de que os trabalhadores brasileiros empregados na indústria estejam entre os primeiros a serem despedidos. Não se pode esperar que as empresas despeçam trabalhadores já adaptados e prontos a aceitar trabalho mais pesado, e certamente por menor remuneração, em épocas de “vacas magras”, só porque são estrangeiros e nem falam bem o idioma japonês. Na verdade, estes brasileiros estão no mínimo tão ameaçados quanto os japoneses que trabalham em empresas subcontratantes menores, e que não estão incluídos entre os “eleitos” empregados em grandes empresas, nas quais segundo a tradição, o emprego é garantido por toda a vida profissional. Além disso, os imigrantes brasileiros estão em situação melhor que outros grupos de imigrantes, como os chineses e coreanos, de longe os dois maiores grupos de estrangeiros, para os quais não há legislação que lhes dê algum tipo de amparo ou possibilidades de visto de permanência por tempo mais longo. Embora quase não tenham sido pesquisados, também por ser fenômeno dos mais recentes, a emigração brasileira para os países industrializados compõe-se em sua maior parte, segundo as

14 informações e observações disponíveis, de indivíduos oriundos de mercados de trabalho urbanos e relativamente modernos e que apresentam, em boa medida, níveis de escolaridade elevados. Estas características lhes permitem penetrar com certa facilidade, através do turismo por via aérea ou pela ascendência de pais e avós, e encontrar nichos nos mercado. Mas não lhes permitem fugir de empregos de pior qualidade e baixa remuneração, pelo menos nos primeiros tempos. A forte emigração de brasileiros para países industrializados, desde meados dos anos 80, tem certamente componentes conjunturais, mas já hoje se apresenta com características de continuidade. O excesso de população em nossas cidades leva os brasileiros a procurar formas de sobrevivência as mais variadas, inclusive a emigração. Por outro lado, esta acarreta efeitos importantes quanto aos hábitos de consumo e a cultura em nossas cidades e ao “turismo” internacional. Este se apresenta crescentemente combinado com o comércio informal e a migração mais ou menos temporária. O excedente crescente de trabalhadores com níveis altos de escolaridade, sem ocupação correspondente nas cidades grandes e médias, tem encontrado no exterior uma válvula de escape, nem sempre condigna com sua formação pessoal e profissional. Todo contingente migratório apresenta características específicas e historicamente diferenciadas. No geral, podemos constatar alguns pontos que vão se tornando comuns. Se inicialmente os migrantes oriundos do chamado Terceiro Mundo vinham em maior parte de áreas agrícolas, o panorama vem se modificando mesmo no caso de migrações clássicas como a dos mexicanos para os Estados Unidos e dos turcos para a Alemanha. Em todos os casos a disseminação de conhecimentos e técnicas modernas também nos países do Terceiro Mundo coloca os indivíduos citadinos em contato com novas capacidades de sobrevivência e de penetração nos países industrializados. Resulta que atualmente não é mais possível imaginar as sociedades industrializadas, em todos os setores e ramos de produção e de serviços, sem a presença dos migrantes vindos de países pouco desenvolvidos. 5. Tendências gerais e questões abertas para uma agenda de pesquisa.

Na discussão recente o aspecto da globalização dos mercados de trabalho tem sido pouco focalizado. Trata-se de fenômeno mais antigo, que hoje perde interesse para outros como o da globalização dos mercados financeiros. A evolução tecnológica recente impulsiona a globalização

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destes últimos e a maior mobilidade dos trabalhadores também é muito facilitada pela massificação dos meios de transporte internacionais especialmente do transporte aéreo. A emigração de brasileiros é um fenômeno recente, intimamente relacionado com o menor crescimento econômico dos anos 90 mas também aponta para alguns problemas estruturais dos mercados de trabalho do Brasil. A tendência, compartilhada com os demais países capitalistas avançados, de aumento do desemprego e do subemprego, se mostra no país especialmente nos centros urbanos, nos quais qualificações até há pouco bastante escassas rapidamente se tornaram excedentes. Não só pela crescente qualificação técnica, especialmente de segmentos da classe média, quanto também pela rápida racionalização do trabalho também nos ramos dos serviços e da administração, em boa parte devido à disseminação da microeletrônica. Frente a este pano de fundo, de transformações que poderiam ser chamadas estruturais, impactam as consequências de um longo período de baixo crescimento da produção e sobretudo do emprego na década de 90, que mal foi contrabalançado pela prosperidade econômica de julho de 94 a abril de 95. A comparação da emigração de brasileiros para os Estados Unidos e o Japão permite iluminar alguns aspectos interessantes dos movimentos migratórios para os países industrializados. Antes de mais nada constatamos que os brasileiros que emigram são cada vez mais, e em sua maioria, vindos dos centros urbanos modernos e fazem parte das camadas médias da população. Assim sendo, sabem se inserir nos mercados de trabalho dos países desenvolvidos, mesmo que lá consigam empregos com um grau de exigência muito inferior à sua qualificação profissional. O que importa é a diferença de salários entre o Brasil e o Japão ou Estados Unidos. A emigração para o Japão se dirigia no início, e atualmente de modo decrescente, ao setor industrial; para os Estados Unidos, salvo a exceção dos migrantes de Governador Valadares para a construção civil, os brasileiros se empregam em serviços, pessoais ou não. A globalização crescente encontra na formação de blocos econômicos regionais sua forma mais adequada para o atual nível de concorrência internacional. A formação de mercados comuns permite ampliar a escala de produção e de distribuição de bens e serviços para fazer frente à crescente concorrência externa e a integração dos mercados. Por mais que a circulação de indivíduos seja sempre um dos últimos ítens a serem regulamentados pelos blocos regionais, a migração interna aos blocos começa a se incrementar

16 quase que paralelamente ao maior comércio de bens e serviços. O conhecimento mútuo dos respectivos mercados por parte das empresas dos países integrados e a maior divulgação das condições imperantes nos demais países incentivam por si só uma maior circulação de indivíduos em busca de regiões e setores onde possam melhor vender sua força de trabalho. Por exemplo, não são apenas os professores brasileiros de português que migram para a Argentina, mas também todos os profissionais que enxergam melhores condições de competir no mercado de trabalho respectivo no outro país. O mesmo é verdadeiro para os profissionais argentinos. Deste ponto de vista, quando os blocos regionais caminham no sentido de regulamentar também a circulação de indivíduos, o emprego de trabalhadores estrangeiros e até a conciliação de sistemas diferentes de previdência social, não se faz mais do que acompanhar uma tendência que já se observa nos vários segmentos dos mercados de trabalho respectivos. Tendo em vista a profundidade e a rapidez dos desenvolvimentos observados nos mercados de trabalho mais integrados, coloca-se sobretudo a questão de se saber os limites de tais tendências. Certamente as próprias sociedades respectivas terão que tomar medidas no sentido de evitar que o desemprego e as desigualdades crescentes desandem em revoltas populares. Propostas para limitar a jornada de trabalho com o objetivo de distribuir melhor o trabalho por mais indivíduos já hoje constituem legislação concreta na França e na Itália e foram introduzidas na Alemanha por força de acordos coletivos de trabalho. Da mesma forma, maior desigualdade social e mais desemprego demandam mais atendimento social aos necessitados e não menos. As propostas de Estado mínimo começam por isto a serem substituídas por novas propostas de programas sociais e sobretudo de geração de emprego e renda. O papel das organizações não governamentais vem sendo também constantemente revalorizado. A forma do desenvolvimento tecnológico que resulta em desemprego e desigualdade crescentes coloca como consequência um menor crescimento do consumo final, cuja principal componente continua sendo a massa de salários pagos na economia. O formidável aumento da produtividade do trabalho, acompanhado pelo menor emprego em termos relativos e absolutos, implica a disponibilidade maior de bens e serviços que necessitam de demanda solvente para que a atividade econômica possa trazer bons lucros. Esta, por sua vez, se vê limitada pelo crescimento

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pífio do consumo final, mesmo com as novas formas de crédito pessoal e de previdência privada que, por sua vez, também pressupõem níveis aceitáveis de rendimento.

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