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Manifesto Comunista Ontem & Hoje (Org. Osvaldo Coggiola)

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Álvaro Bianchi • Amarílio Ferreira Jr. •Ariovaldo Umbelino de Oliveira • Elias Thomé Saliba • Giulio Pietranera • Fábio Faversani • Jorge Grespan • Lincoln Secco • Marisa Bittar • Miguel Urbano Rodrigues • Modesto Florenzano • Norberto Guarinello • Pablo Rieznik • Paula Beiguelman • Pedro Paulo Funari

Organização: Osvaldo Coggiola

MANIFESTO COMUNISTA ONTEM & HOJE
Trabalhos apresentados durante as comemorações dos 150 anos do Manifesto Comunista Departamento de História — FFLCH — USP 1 a edição — 1999

SUMÁRIO Apresentação, 2 Osvaldo Coggiola Anotações sobre a Europa em 1848, 3 Modesto Florenzano A revolução fora do tempo — Marx, Engels em 1848, 9 Álvaro Bianchi O espectro do comunismo, 19 Giulio Pietranera O Manifesto em 1848 e hoje, 24 Paula Beiguelman O Manifesto Comunista e o mundo de hoje, 26 Miguel Urbano Rodrigues O Manifesto Comunista: um panfleto atual, 29 Marisa Bittare Amarílio Ferreira Júnior O Manifesto Comunista: método do programa e programa do método, 32 Jorge Grespan O Manifesto Comunista e o proletariado no século XIX, 36 Lincoln Secco A ditadura do proletariado como um ato de sensatez (e uma referência ao amor), 40 Pablo Rieznik Humor romântico e utopias: reflexões sobre alguns registros cômicos na época do Manifesto Comunista (1814-1857), 48 Elias Thomé Saliba O Manifesto Comunista e a Antigüidade Clássica, 53 Norberto Luiz Guarinello O Manifesto Comunista e a crítica da razão sistêmica, 60 Osvaldo Coggiola A Antigüidade, o Manifesto e a historiografia crítica sobre o mundo antigo, 75 Pedro Paulo Funari O Manifesto e o classicismo, 79 Fábio Faversani Os 150 anos do Manifesto e a luta pela terra no Brasil, 83 Ariovaldo Umbelino de Oliveira

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APRESENTAÇÃO
Em 1998, cumpriram-se 150 anos da primeira edição do Manifesto Comunista. Dois marcos fundamentais, estreitamente interligados, da história geral e da história das idéias contemporâneas, estavam em pauta: as revoluções de 1848 e a publicação da primeira obra de referência da corrente político-ideológica mais influente da contemporaneidade, o marxismo. A data, portanto, era um convite, não só para a reflexão acadêmica, mas também para a reafirmação (e atualização) de princípios, por parte dos militantes de esquerda e do movimento dos trabalhadores em geral. Através da história e do balanço do Manifesto, é a própria história do século e meio mais convulsionado da história da humanidade o que está em discussão. E, bem além disso, também a questão da validade do método materialista e dialético (o materialismo histórico) para a análise da realidade histórica e social. Uma comissão nacional foi constituída, então, para organizar e tentar centralizar, na medida do possível, as inúmeras iniciativas que, no Brasil todo, nos sindicatos, universidades, associações de bairro e comunitárias, assentamentos agrários, se dispunham a comemorar a data. A comissão ficou composta por universitários e intelectuais, sindicalistas e militantes, estudantes e trabalhadores, e vinculou-se internacionalmente ao coletivo Espaços Marx que programou (e realizou) um encontro mundial sobre o Manifesto, em Paris, durante a segunda semana do mês de maio. A comissão recusou a divisão entre reflexão “acadêmica” ou intelectual, e militante ou política. Por isso, em São Paulo, programou uma série de eventos que se desenvolveram na CUT, na USP, na Unicamp, na Unesp, na PUC/SP, em associações comunitárias, enfim, suscitando a participação do maior número de pessoas, independentemente de sua titulação acadêmica ou política. O conjunto das atividades culminaram numa grande jornada político-acadêmica e cultural, realizada no Tuca, em 2 de maio, depois das comemorações do 1o de maio. Coube-me exercer diversas responsabilidades dentro da comissão, entre elas a de coordenar as atividades realizadas na Universidade de São Paulo. O volume que agora apresentamos ao leitor reúne, justamente, os principais trabalhos que foram apresentados nas três jornadas realizadas na USP, nos Departamentos de História e Geografia e na Faculdade de Educação, de 28 a 30 de abril. Algumas palavras sobre os autores. Modesto Florenzano é professor de História Moderna na FFLCH-USP, autor de As revoluções burguesas e doutorado em História pela USP. Álvaro Bianchi é pós-graduando em Ciências Sociais na Unicamp, membro do Instituto de Estudos Socialistas. Giulio Pietranera foi um teórico marxista independente, italiano, já falecido, que redigiu o texto aqui reproduzido (e inédito) por ocasião do centenário do Manifesto, em 1948. Paula Beiguelman, historiadora bem conhecida, autora de Os companheiros de São Paulo, é professora aposentada da FFLCH-USP. Miguel Urbano Rodrigues é um dirigente histórico do Partido Comunista Português, por longos anos exilado no Brasil, onde editava o jornal Portugal Democrático. Marisa Bittar e Amarílio Ferreira Jr. são professores de História na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), com longa experiência no movimento sindical docente. Jorge Grespan é professor de História da América na FFLCH-USP, com doutorado no Instituto de Economia da Unicamp e pós-doutorado na Alemanha. Lincoln Secco é mestre em História pela USP e membro do corpo editorial da revista Praxis. Pablo Rieznik é dirigente do Partido Obrero da Argentina e professor de Economia na Universidade de Buenos Aires. Elias Thomé Saliba, autor de As utopias românticas, é professor de Teoria e Metodologia da História na FFLCH-USP. Norberto Guarinello é professor de História Antiga na FFLCH-USP, autor de livros didáticos e membro do Conselho Editorial da Revista da Adusp. Pedro Paulo de Abreu Funari é professor de História da Antigüidade no IFCH da Unicamp, com doutorado em História pela USP. Fábio Fauersani é posgraduando em História pela USP e professor no Departamento de História da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto). Ariovaldo Umbelino de Oliveira, conhecido especialista na questão agrária, com diversos livros publicados (4 geografia das lutas do campo no Brasil, entre outros) é professor de Geografia na FFLCH-USP. A leitura do conjunto dos trabalhos evidencia que em momento algum tratou-se de uma comemoração retórica, ou de uma reflexão puramente acadêmica, mas de um momento reflexivo dentro de uma luta mais que secular. Osvaldo Coggiola Professor livre-docente do Departamento de História da FFLCH da Universidade de São Paulo. Membro do corpo editorial da revista internacional Em defensa de´l marxismo (publicada na Argentina).

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ANOTAÇÕES SOBRE A EUROPA EM 1848 Modesto Florenzano
É um lugar comum dizer que se as idéias não movem o mundo o mundo não se move sem idéias. E a Europa nunca foi tão povoada de idéias visando mover o mundo como na década de 1840. Não são poucos os historiadores, das mais diferentes concepções, que chamaram a atenção para esse fato. Para Namier, que era um conservador, “a revolução de 1848 foi precedida por um período de florescimento intelectual como a Europa nunca conhecera antes nem conheceria depois”; para Godechot, que era um liberal-democrata, entre 1815 e 1848, “nunca se tinha visto — e nunca se veria a seguir — um tão vivo florescimento de teorias políticas”; e para Hobsbawm, que é um marxista-comunista, em 1848, havia três modelos de revolução em circulação ao mesmo tempo: “o liberal moderado”, “o democrata radical” e “o socialista”.1 Lembremos, nesse sentido, que, entre as décadas de 1830 e 1840, Comte, Tocqueville e Marx/Engels já tinham elaborado e formulado suas respectivas filosofias da História, constituindo, cada uma delas, como todos sabem, as mais elevadas e influentes teorias sociais deixadas pelo século XIX. Ora, essas teorias expressavam o que H. Arendt definiu com perspicácia, mas de maneira negativa e algo exagerada, como a “tremenda mudança intelectual que ocorreu em meados do século XIX (que) consistiu na recusa de encarar qualquer coisa „como é‟ e na tentativa de interpretar tudo como simples estágio de algum desenvolvimento ulterior”.2 Embora as influências desses pensadores, sobretudo de Marx e Engels, só se fizessem sentir depois de 1848, a maneira como todos eles interpretaram o papel e a importância da História não poderia expressar melhor a atmosfera intelectual reinante, na Europa, naquele momento. Num lúcido comentário ao Manifesto Comunista, por ocasião do seu centenário, o historiador Carr, assinala que o famoso panfleto “apresenta a metodologia marxista em sua forma completamente desenvolvida: uma interpretação da História que é, ao mesmo tempo, um chamado à ação”. E embora outros escritos anteriores e posteriores ao Manifesto, prossegue Carr, “parecem insistir nas leis férreas do desenvolvimento histórico, que deixariam pouca margem à iniciativa da vontade humana... não alteram a dupla ortodoxia estabelecida no Manifesto Comunista, onde interpretação e ação, predestinação e livre-arbítrio, teoria revolucionária e prática revolucionária marcham triunfalmente de mãos dadas”.3 Talvez, não constitua um exagero afirmar que todo o acirrado e rico debate, conhecido como Zusammenbruchstheorie, que se desenvolveu no final do século passado e início deste, no interior do marxismo, sobre a existência ou não existência, em O Capital de Marx, de uma teoria do colapso do capitalismo, teve como fundamento precisamente a tensão, e o enigma, entre determinação e liberdade.4 Assim, e voltando a 1848, quando Joseph Proudhon, o fundador do socialismo anarco-sindicalista, escreveu, nas Confissões de um revolucionário, publicadas em 1849, que o governo provisório, na França, criado pelas jornadas de fevereiro, era um “governo sem idéias e sem escopo”, não estava apenas formulando mais um paradoxo, ele que uma vez chamou a si mesmo de “um homem de paradoxos”5. Estava, talvez, lamentando não a ausência de idéias, mas o seu excesso (e, naturalmente, a ausência das idéias dele, Proudhon). Na verdade, havia, entre os contemporâneos de 1848, tanto por parte dos que queriam (um)a revolução, quanto dos que a ela se opunham, uma aguda percepção sobre o poder transformador e subversivo das idéias, já que todos se lembravam dos precedentes revolucionários de 1789, de 1792-3 e de 1830. A ação das sociedades secretas, como a dos carbonários, e o livro de Filippo Buonarroti, A conspiração dos iguais de Graco Babeuf, editado em Bruxelas, em 1828, vieram enriquecer o acervo em matéria de revolução; como se sabe, quando os eventos se materializam, chegam à prática é porque antes aconteceram nas mentes. Ninguém se expressou melhor sobre isso do que os alemães, dos dois lados da barricada, isto é, dos que queriam levar a teoria à prática e dos que queriam impedir que isso ocorresse. Não vou lembrar aqui, de Marx e Engels (cujas brilhantes formulações nesse sentido são conhecidas de todos), mas do rei Guilherme, do pequeno Estado alemão de Würtemberg, da sua formulação, lapidar, verbalizada a um diplomata, em 9 de maio de 1848, “Não posso montar a cavalo contra as idéias”.6 Assim, tanto quanto a presença das muitas idéias e dos vários programas revolucionários, o que ainda distingue 1848 é que, de ambos os lados da barricada, eram muitos os que sabiam que a revolução estava a caminho. Por isso, tanto Namier, quanto Hobsbawam, começam e terminam suas interpretações sobre 1848, com citações dos contemporâneos para enfatizar a consciência que estes tinham da iminência da revolução. Para Namier, “a revolução de 1848 era universalmente esperada, e foi supranacional como nenhuma outra antes ou depois de então”, e, para Hobsbawm, “raras vezes a revolução foi prevista com tamanha certeza, embora não fosse prevista em relação aos países certos ou às datas certas”.7 Assim, quando Tocqueville advertiu no profético, e muito citado, discurso à Câmara dos Deputados, de 27 de janeiro de 1848, sobre a iminência da revolução (“Não ouvis então... que direi?... Um vento de revoluções que paira no ar? Esse vento, não se sabe onde nasce, de onde vem, nem, acreditai, o que carrega...”8), ele já havia sido precedido por outros. A começar por Vitor Hugo que, ainda em 1831, escrevia que ouvia por toda parte “o barulho surdo que fazem as revoluções, ainda encravadas nas entranhas da terra, estendendo sob todos os reinos da Europa suas galerias subterrâneas, ramificações da grande revolução central cuja cratera é Paris”. E por Metternich que, em 1832, escrevia: “Existe apenas um assunto sério na Europa de 1832, a revolução (...) a revolução social (que) ataca os alicerces da sociedade”. Ninguém percebeu com mais profundidade do que o ministro prussiano, o conde von Galen, que a crise econômica geral, iniciada em 1848, e que iria se agravar o ano seguinte, havia tornado a revolução impossível de ser detida. Escrevia o ministro prussiano, em 1847, “o ano velho se encerrou em meio à carestia, o novo se abre em meio à fome. A miséria espiritual e física percorre a Europa em formas espantosas: uma sem Deus, a outra sem o pão. Ai se elas se dão as

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mãos”. E foi, precisamente, o que aconteceu. Nas palavras do historiador Taylor: “Os ideólogos tinham apelado às massas por 60 anos; em 1848 as massas finalmente responderam ao seu chamado”.9 Todos os historiadores estão de acordo em considerar que a revolução de 1848 foi o resultado da fusão de duas crises: uma crise política e uma crise econômica. Não tenho espaço aqui para tratar desta última, lembro apenas que o historiador Labrousse demonstrou, por ocasião do centenário de 1848 e, salvo engano, foi o primeiro a fazê-lo,10 que, entre 1846-1848, a França (e o mesmo, mutatis mutandis, vale para boa parte da Europa) passou, simultaneamente, pela última crise, aguda, de tipo antigo regime (isto é, por uma grave escassez de gêneros alimentícios básicos e que, a partir da agricultura, afetou também a indústria têxtil e o comércio a ela vinculados) e pela primeira crise, igualmente aguda, de tipo novo (isto é, capitalista, de superprodução, com escassez financeira e paralisação da indústria metalúrgica e ferroviária). Se cada uma das duas crises já era suficiente para provocar fome e desemprego e, em conseqüência, agitação social e revolta, as duas somadas, ao deixarem milhões de famintos e desempregados, agravaram a crise social já em curso por causa da industrialização, e em conseqüência, abriram o caminho à revolução. Mas, como notou Labrousse, no texto já citado, embora existam crises econômicas decenais, não há revoluções decenais. Tanto é verdade que, os dois países mais industrializados da Europa, a Inglaterra e a Bélgica, estiveram entre os mais afetados pela crise, mas escaparam da revolução. Assim, o curso da crise econômica determina o momento da eclosão da revolução, mas esta só ocorre onde a crise econômica cruza-se, e funde-se, com uma crise política que a antecede. Não que na Bélgica e na Inglaterra não tenha havido problemas e agitações políticas em 1848, mas, em ambas, não havia mais, por parte das classes proprietárias, questionamento às instituições políticas básicas, isto é, à monarquia e ao parlamento. Por isso, em 1848, na Bélgica, bastou ampliar um pouco mais o número de eleitores para colocar todos os proprietários do lado do governo. E na Inglaterra, o governo não sofreu nenhum abalo, apesar do problema irlandês; apesar da intensa agitação promovida pela Anti-corn-law League; e, sobretudo, apesar do cartismo. Este último, expressava a questão operária, que se havia tomado aguda precisamente nos 10 anos que antecederam 1848. Os cartistas desenvolveram, a partir de 1838, uma intensa campanha de mobilização e de agitação, para angariar assinaturas e forçar o Parlamento a aprovar seu programa democrático de seis pontos, a Carta ao Povo, visto como condição indispensável para dar a todos os trabalhadores a possibilidade de obter sua emancipação política e econômica. O último esforço dos cartistas, a realização de uma manifestação monstro em 10 de abril de 1848, terminou em fracasso. Sobre esse acontecimento, vejamos o testemunho de Fulk-Greville que, em seu diário do dia anterior, escrevia: Londres inteira está preparada para responder a um levante dos cartistas amanhã: o qual será ou muito sublime ou muito ridículo. Todos os empregados e demais pessoas que se encontram nos diferentes escritórios devem, por ordem do governo, prestar juramento como guardas especiais e formar guarnições (...) Amanhã passaremos todo o dia no escritório, e eu mandarei todos os meus fuzis; em suma, estamos em estado de guerra (...) em Londres, todo gentleman tomou-se um guarda... No dia seguinte comenta: A anunciada tragédia transformou-se rapidamente em uma leve farsa. Mas prevalece a satisfação: todos se alegram pelo fato da demonstração defensiva ter sido feita, por que proporcionou uma grande e memorável lição, que não será esquecida (...) e produzirá um grande efeito em todos os países estrangeiros, mostrando como são sólidos os fundamentos sobre os quais nos apoiamos. Mostramos uma grande resolução e uma grande força... E, Cantimori, o historiador italiano do qual extraímos essa citação, acrescenta: “É conhecido como os reacionários, os conservadores e os moderados franceses aprenderam a lição inglesa”.11 Na verdade, o que aconteceu na Bélgica e na Inglaterra foi que 1848 havia sido decidido em 1831 e 1832. A constituição belga de 1831 reunia tudo o que liberais e burgueses poderiam querer como forma ideal de governo: uma monarquia constitucional, rigidamente limitada, que estabelecia o claro reconhecimento da soberania do povo, um legislativo bicameral (onde as câmaras eram inteiramente eleitas pelo povo), um poder judiciário (completamente independente), um clero pago pelo Estado (mas dele independente), e uma declaração de direitos dos cidadãos solidamente baseada nos princípios de 1776 e 1789 (e sob muitos aspectos mais avançada do que estes 12). Não admira, assim, que, em 1848, a constituição belga tenha exercido uma considerável influência na Alemanha, Itália, Escandinávia e outros países. Quanto à Inglaterra, o Ato de Reforma, aprovado em 1832, ao aumentar em 50% o número de eleitores (e deve ser dito que mesmo antes da reforma o número de votantes na Inglaterra, era o maior da Europa, superior àquele estabelecido pela constituição sueca de 1809, espanhola de 1812, norueguesa de 1814, holandesa de 1815, francesa de 1830 e belga de 1831) e ao reformar as circunscrições eleitorais com base na população, abriu caminho legal para a classe média, a burguesia empresarial, finalmente, poder ser maioria no Parlamento. A reforma de 1832, eliminava qualquer possibilidade de conflito sério entre o capital agrário e o industrial e de uma eventual aliança entre este e a classe operária. O historiador Rude colocou em dúvida que a Inglaterra tenha estado perto, ou na iminência, de uma revolução não só em 1848, como até mesmo em 1830-32, como chegaram a acreditar muitos historiadores. Afirmou Rude, com razão, que não houve revolução em 1832 não apenas por que os tories ou os lordes cederam às ameaças dos whigs ou dos radicais, como também por que ninguém importante queria uma revolução e por que aquela combinação de fatores políticos e materiais, a única a poder fazer a revolução possível, estava conspicuamente ausente.13 Com efeito, examinando-se todas as grandes revoluções do Ocidente, da inglesa de 1640 à russa de 1917, verifica-se que, em todas elas, ocorreu, previamente, entre outras coisas, uma alienação dos intelectuais com relação ao Estado e uma fratura — e uma crise moral — no interior das classes ou frações de classes dominantes. Ora, nenhuma dessas duas condições existia na Inglaterra e na Bélgica em 1848, bem como também não existia (ou porque tinha acabado de ser

Se a opinião de Engels (que era também a de Marx) é mais do que justa. temos que recebê-las de Paris”. do que o romance Lucien Lewen de Stendhal. as prerrogativas. Em outras palavras. como cidadão e como historiador. em todo o vasto território formado pelos 39 Estados alemães.16 Mas. ministro e ideólogo do regime. também Guizot. ficou completamente traumatizado. e em menor escala. o governo inteiro. o historiador liberal Augustin Thierry.. assim revelava sua perplexidade: “Quando eclodiu sobre nós a catástrofe de 1848. e o de todas as frações da burguesia. a fratura — e a crise moral — no interior das classes dominantes existia na França. isto é. Como bem lembrou o historiador Droz. não nos esqueçamos o quanto o conceito de luta de classes de Marx. tinha já explodido em Palermo. Bassermann. até 1848. os romances de Balzac explicam a sociedade francesa de classes. Guizot. tinha jurado fidelidade à nova dinastia porque. E existia também. ficou na oposição e. tinha. tinha confundido o fim de um ato com o fim da peça. acabado. estava convencido que. mais do que o rei. melhor do que os livros de História. em 1840. todas as franquias. para começar. acreditava no fim da História. a história da França parecia-me tão subvertida quanto a própria França”. isto é. Como muito bem notou Godechot: “não se pode afirmar que sem a revolução parisiense funcionando como detonador ela não teria. herdada dos próprios contemporâneos. e depois de abandonar. por um lado.. ao contrário de Quinet e Tocqueville. com a exclusão (de direito) de tudo o que estava abaixo dela e (de fato) de tudo o que estivera acima. retornou à capital e à política. em 24 de fevereiro de 1848. “foi a última vez que a França espirrou e o resto da Europa apanhou um resfriado”. eram numerosas as pessoas importantes que queriam uma revolução. Em 1830. os legitimistas. Assim. levarmos em conta os que estavam acima da burguesia. a luta de classes que conflagrava a sociedade francesa era quadrangular. ficou até o fim. de meados do século XIX. mas também converteu-se em sua arrendatária. e. em um segundo momento. na Sicília. na Polônia. deu-se conta de que. e para retomar a formulação de Rude. e de ter acumulado por isso uma revolução igualmente implacável. foram. como afirma nas Lembranças. em algum momento dos anos 1840. durante a Monarquia de Julho. como bem viu Tocqueville. Na verdade. escrevia em 1849.14 À oposição que reclamava a reforma eleitoral e parlamentar. a alienação dos intelectuais. todos legitimistas. rapidamente. nesses países. a melhor das repúblicas. como lembrou de maneira espirituosa Taylor. apesar de tudo. Tocqueville assim interpretou esse comportamento: todos os poderes políticos. e não apenas triangular. em um primeiro momento. Deve-se olhar com muita atenção para a conjuntura histórica existente na Itália a partir de 1846. D. ainda. que a Revolução Francesa não tinha acabado ainda. dir-seia que. E a burguesia orleanista porque. pelo Império Habsburgo. em Turim e em Roma. a concessão de Estatutos (Constituições) em Nápoles. entre duas burguesias e as massas.18 Em 1848. a começar por Guizot. O movimento italiano tinha já chegado espontaneamente a um ponto muito avançado quando recebeu um novo e . em 1848. Nas Lembranças de 1848. Mas. Por esta nova Revolução. conseqüentemente. Como Hegel. na Escandinávia e na Rússia (daí porque em nenhuma dessas regiões houve revolução). ou. pois. na feliz formulação de Vitor Hugo. refugiando-se em suas terras e reaproximando-se dos camponeses. os franceses tinham sonhado com um soberano que os levaria ao sufrágio universal e com uma monarquia que seria. e os seus grandes porta-vozes e líderes. sobretudo. na véspera de 1848. Comecemos pela França. como propuseram os historiadores Labrousse e Droz. a onda revolucionária de 1848 teve precisamente na Itália um dos seus principais centros de irradiação: das agitações e das reformas de 1846-47 saiu com efeito a revolução de Palermo de 12 de janeiro de 1848 e. F. pelos sete Estados italianos e. porque não havia emergido) na Suíça. encontraram-se encerrados e como que amontoados nos limites estreitos da burguesia. posto fogo na Europa”. depois de 1830. deve ser lembrado que a revolução antes de explodir em Paris.15 Se. ele não foi o único. como Guizot e tantos outros liberais. chegou até mesmo a votar com os republicanos contra o governo. os responsáveis pelo fracasso do regime criado em 1830. ao contrário do que ocorria na Inglaterra. e sobretudo.5 superada. a qual parecia apenas aguardar o sinal vindo de Paris. como as nossas modas. isolou-se perigosamente no poder. um mês e meio antes. em Florença. durante a Restauração. Novamente. “As nossas revoluções. agravada ainda pelo problema nacional. a burguesia não só se tornou a única dirigente da sociedade. o drama iniciado em 1789. ou porque estava em refluxo. no fim. com o novo regime. segundo a qual. Que ela se cuide para não cair no mesmo erro. por outro. à revolução de 1848 na Itália. respondia enrichessez-vous.”. A nobreza legitimista porque nunca aceitou a nova dinastia. Por isso. na Península Ibérica.19 Contudo.17 Passemos agora. como ele próprio reconheceu. Paris e a política. pois ela permite corrigir a tendência. É conhecida a opinião de Engels. em oposição a seus pais e amigos. eu senti o golpe de duas maneiras. cabe acrescentar que nenhum livro de História permite compreender melhor o comportamento e a mentalidade da nobreza legitimista e da burguesia orleanista.20 E de acordo com o historiador italiano Candeloro. Alemanha e Império Austríaco. Em 1853. obcecado com sua política do juste milieu. com seu exclusivismo. um dos líderes dos liberais moderados no Parlamento de Frankfurt”. convencido que o 1830 francês era o perfeito equivalente do 1688 inglês. Guizot. finalmente. desprezando o “país real”. a superdimensionar o papel desempenhado pela França na Revolução de 1848. a nobreza legitimista. fora “uma revolução pela metade”. quando. o historiador republicano Edgar Quinet advertia: “A burguesia acusou a antiga realeza de ter oposto uma resistência implacável ao espírito de seu tempo. Na França. a Revolução de 1830. ou seja. a grande burguesia orleanista. mas confrontaram-se com um rei que se opôs a toda emancipação política e que se negou a reconhecer outra coisa que não fosse o „país legal‟. segundo a famosa frase. devia àqueles pensadores — não tinha mais nada a dizer e face à revolução de 1848 e suas lutas de classes. Mas. ele e o liberalismo burguês francês como um todo — que havia sido tão criativo e rico. do que a Educação sentimental de Flaubert. Tocqueville.

não é que. foi na Alemanha.23 Nesse sentido. e. a revolução de Viena foi o evento central de 1848. tão significativo quanto a Queda da Bastilha. ou a social. Ainda em 1846. o tempo se arrasta e os princípios e as instituições representativas do que é arcaico e do que é moderno combinam-se de maneira singular. se os grandes princípios sobre os quais ela repousa vierem a estar diante de um sério risco. também na Alemanha e Áustria). de tudo isso? Os muitos milhões de europeus. anteviu. juntamente com a Rússia. a política) o ponto de partida da nacionalidade. em 1789 (. e a figura emblemática. reinante em fevereiro de 1848. sociedade hierárquica e aristocrática. o futuro arquiteto da unificação italiana. húngaros e poloneses. a política) era o ponto de chegada. mais tarde. e também. em um Estado nacional. entre os momentos de nascimento do novo e da morte do velho e seus. croatas. e/ou de uma etnia próprias e. Era o fim do governo baseado na tradição. elas devem ter o direito de se constituírem em uma comunidade política independente. croatas e sérvios que. eram elas mesmas desafiadas pelas nações nãohistóricas. o curso da História. temos certeza. Ora. na Alemanha e no Império Habsburgo. o princípio nacional reivindicado em 1848 tinha uma fundamentação distinta do princípio francês. a surpresa de 1848 foi o aparecimento das nações não-históricas: as nações históricas. quanto da Revolução Industrial inglesa.6 poderoso impulso da revolução parisiense de fevereiro de 1848 e da conseqüente revolução de março em Viena. E no entanto. lírico. Por isso pode-se até mesmo afirmar que o rápido e aberto desenvolvimento do movimento liberal e nacional na Itália nos 20 meses compreendidos entre a eleição de Pio IX e a revolução parisiense exerceu um notável influência sobre a situação européia. que viviam sob o domínio do Império Habsburgo que anelavam por liberdade. e profeticamente. como se sabe. o social. tinham dado um golpe de morte. eslovenos. não é linear. os poloneses lutavam nos dois campos — resistiram às reivindicações dos alemães na Posnânia. ou todas elas juntas. o culto do princípio começou”.. com profundidade. então muitos dos mais decididos oposicionistas. pelo menos na aparência e no curto prazo. seu curso descombinado e seu resultado contraditório. senão a encarnação viva. que lutavam para construir seus respectivos Estados independentes: alemães. Os direitos do homem triunfaram nas ruas de Paris. era o objeto de todos os descontentamentos e de todos os ódios. na Alemanha e no Império Austríaco foi exemplar. escrevia em 1832. queriam ser reconhecidas como nações. mais do que político e territorial. a revolução de 1848. desafiando a ordem tradicional da Europa. italianos. ainda que no Leste suas próprias reivindicações “históricas” eram desafiadas pelos ucranianos. o direito dinástico sobre os povos perdeu sua sustenção em 13 de março de 1848. profeticamente: “Se a ordem social chegar a ser genuinamente ameaçada. assim se exprimia sobre a situação contraditória vivida pelos burgueses na Itália (e. foi o italiano Giuseppe Mazzini o grande teórico. Depois. pela polícia. uma vez passada a tempestade revolucionária. Eslovenos e croatas disputavam as históricas reivindicações da Itália nacional. os checos questionaram o predomínio alemão na Boêmia. absolutismo político. os mais entusiásticos republicanos. que me parece bastante conhecido. os direitos das nações nas ruas de Viena. pela espionagem e pela censura onipresentes. sentiam-se tolhidos. decorridas poucas semanas das jornadas de fevereiro. a Áustria. a nacionalidade existe em decorrência de uma língua. reprimidos e sufocados pela burocracia. a três fatores: a) ao medo que a burguesia tinha da revolução social.22 Mas. a revolução explode em Berlim e em Viena. afirmava. a defensora intransigente.24 Como se sabe. dando lugar a formas compósitas e bizarras. ou democrática. como se sabe. sobretudo. para caracterizar o clima. de todas as condições e nacionalidades. com as várias burguesias. no antigo regime e em tudo o que o caracterizava. o que era a Áustria de Metternich. foram os alemães. “A nação é a universalidade dos cidadãos que falam a mesma língua”. Lembro apenas que. eslovenos. em 1848: “Na França pedia-se a revolução do pobre. “a questão da nacionalidade está destinada a dar o seu nome ao século”25). Daqui para a frente os povos poderiam ser governados somente pelo consentimento ou pela força. Por isso. o que iria acontecer. bem como as chamadas nações “nãohistóricas”. Enquanto neste havia sido o Estado (portanto. relações ainda feudais no campo. serão. sérvios e romenos repudiaram a Grande Hungria. isto é. e os italianos a expressão fare um quarantotto. rutenos. b) aos vários e conflitantes nacionalismos e c) à habilidade do Império Habsburgo em se reformar e lidar com os problemas. Para Taylor. etc. como a dos checos.. na Itália. daí seu caráter confuso. Os franceses cunharam a expressão esprit quarante-huitard. Como assinalou Taylor. Mas. Em 1848. uma vez iniciada a revolução. do princípio das nacionalidades (“A única idéia hoje fecunda e poderosa na Europa é a idéia da liberdade nacional.) ambas simbolizavam a velha ordem e caíram com ela. na Itália não tinha ainda chegado a revolução do rico”. o Império Habsburgo sobreviveu até a Primeira Guerra Mundial? Pode-se dizer que o fracasso da revolução de 1848. entre 1815-1848. naqueles o Estado (portanto. romântico. e irrealista. quer fosse somente a liberdade política. . os que antes formularam esse conceito de nacionalidade que é lingüístico e racial. em 1853. ou a nacional. o político e o nacional. na Itália. para designar a confusão e a falta de coordenação que marcaram a revolução italiana de 1848. onde se manifestaram com mais intensidade a confusão e o espírito romântico. por causa disso. A autoridade monárquica sobre os „súditos‟ perdeu sua sanção divina em 14 de julho de 1789. Os princípios e a realidade histórica decorrentes tanto da Revolução Francesa de 1789. triunfos e retiradas do cenário histórico. Não vou aqui tratar do primeiro fator. Era na Prússia e no Império Habsburgo que se localizavam as “nações históricas”. ou a econômica. fundamentalmente. a começar pelo filósofo Herder. os primeiros a aliaremse aos flancos do partido conservador”.21 Seja como for. e onde todos os componentes de 1848 estiveram presentes: o econômico. entre 11 e 18 de março. Giuseppe Ferrari. precisamente em 1848. deveu-se. Mas. respectivos. Camilo Benso di Cavour.

para estrangular-nos”. como Marx e Engels. se o Império Austríaco não existisse. e declarou que “nós os alemães queremos tomar os checos em nossos braços. mesmo tendo fracassado. eram portadores desse sentimento. baseada no princípio da língua. Se até mesmo o sonho mazziniano de uma comunidade universal de nações irmãs. foi para Praga em missão oficial. Turim. p. de liderança (bem como o sonho de Mickiewicz que considerava a Polônia “Cristo das nações” que “ressurgirá e libertará da escravidão todas as nações da Europa” e o de Michelet que escrevia. Hannah. esteve disposta a negociar. 127. 211. p. Ver Colletti. 4. uma missão. a uma delegação polonesa da Posnânia. assim exortava os alemães: “De todas as nações modernas sois vós que carregais mais claramente a semente da perfeição humana. 1973. Einaudi. Esses dois historiadores comprouveram-se em mostrar que até revolucionários radicais e internacionalistas. porque em plena crise revolucionária. como a sonhada por Mazzini e tantos outros. já manifesta pensamentos de predomínio e de usurpação”. de maneira brilhante diga-se.. “Minha pátria. exceto o princípio de um Estado nacional poderoso. Instituto Geográfico De Agostini.27 Os historiadores Namier e Taylor estavam convencidos que.”. Arendt. 3. 230. p. falando uma língua viva. afirmou: “O germanismo mal nasceu e já ameaça turvar o equilíbrio europeu. Alianza Editorial. do Estado permaneceu intacto. implicava no que Namier chamou de “uma grande guerra européia de cada nação contra seus vizinhos”. No prefácio à edição italiana de 1893 do Manifesto Comunista. de um aliado. minha pátria somente pode salvar o mundo”26) o que não se poderia esperar do nacionalismo alemão? O filósofo Fichte acreditava que somente os alemães constituíam uma verdadeira nação. As origens do totalitarismo. um dos líderes das assembléias de Frankfurt. exclamaram estes. Depois da queda de Metternich e da abdicação do imperador. Documento. nos seguintes termos: “Nem mesmo o comunista mais avançado ousou pedir as leis que Vossa Majestade decretou”. uma Europa das nações. em 1848. que se caracterizava precisamente por ser supranacional. pôde. de março a outubro. quer por sua capacidade de se autoreformar. ao passo que as outras línguas “mortas na raiz”. só Hobsbawm está vivo. 24-25. Estas doutrinas serviram para liberar forças revolucionárias que esperam apenas pela sua hora para explodir e encher o mundo de temor e de estupor. E pôde se recompor porque. Quando em maio de 1848. se recompor. não é que a Europa tenha falhado em mudar em 1848. sobretudo. Roma-Bari. malgrado seu. Assim. à Itália cabia um lugar. e é vossa missão desenvolvê-la. Hobsbawm. e até mesmo a renegar. p. “II Quarantotto.28 Cavour. Il Marxismo e il „crollo‟ del capitalismo.7 Mas. Rio de Janeiro. Lúcio. com uma reforma pelo alto a ameaça mais séria: a revolução camponesa. proferido em outubro de 1848. Namier. quer pelo medo. desunião e fraqueza dos adversários. como bem assinalou Hobsbawm. não eram mais do que ecos. era contraditória: sua realização. porque dispunham de um exército estruturado e obediente. Engels escreveu que “os homens que abateram a revolução de 1848 foram. todos os princípios. entre outras coisas. que uma das mais altas personalidades austríacas tinha-lhe confidenciado o seguinte: “As desordens italianas e suíças causaram-nos muito dano e a crise financeira causou-nos muitas dificuldades. estavam imbuídos de sentimento nacionalista. . o Império Austríaco dos Habsburgo conseguiu uma sobrevida. militar e social. para dialogar com os checos. Sim. protestou junto ao próprio imperador. “A liberdade através do poder: tal o caminho destinado à Alemanha”. pois. Jacques. In: Estúdios sobre Ia revolúcion. Conta-se que o príncipe Alfred Windischgrätz. von Wachter. 1977. o esteio burocrático. 1957. Eric J. p. o que significa dizer que. em abril de 1848. Um mês antes. Le Rivoluzioni del 1848. como a burguesia alemã. “El Manifiesto Comunista”. In: La rivoluzione degli intellettuali. vivaio di storia”. Carr.32 NOTAS: 1. o Estado austríaco aboliu a servidão que ainda pesava sobre os camponeses e com isso rompeu uma possível e irresistível aliança revolucionária entre campo e cidade. 1979. Lewis. que antes e durante a tempestade de 1848. porque. contra as reformas que haviam prejudicado os interesses dos grandes proprietários. Em suas interpretações sobre 1848 eles exploraram ao máximo esse aspecto e demonstraram. uma vez refeito do susto e da paralisação inicial. Cavour pareceu entrever o que o poeta Heine profetizou em 1834: A revolução alemã não será mais nobre e mais suave pelo fato de ser precedida pela crítica de Kant ou pelo eu transcendental de Fichte ou pela própria filosofia da natureza. 130. Palacky. O imperador da Prússia. em 1846. era irrealizável. porque souberam eliminar. Dos três historiadores. de crença na superioridade do alemão sobre os demais povos. os seus executores testamentários”. 2.. a Rússia pronto a ajudá-los e. 1970. Madri. “falhou foi em mudar de uma forma revolucionária”. Rio de Janeiro. com poucas exceções. mas nada tem sido tão ruinoso para a nossa monarquia como a insurreição dos camponeses.29 O poder da dinastia Habsburgo. Frederico Guilherme IV disse em 23 de março de 1848. em um discurso. de origem burguesa ou nobre. seria necessário criá-lo sem demora”. o líder do movimento nacional checo escreveu: “Na realidade. todas as esperanças da humanidade para a cura dos seus males profundos pereceriam também”. escrevia o acadêmico Dahlmanm. os novos dirigentes puderam explorar a fundo as divisões e os temores que dominavam as várias camadas da burguesia e manobrar à vontade entre os povos. no interesse da Europa. um dos arquitetos da reconstrução do domínio Habsburgo.30 Compreende-se assim. ou melhor da humanidade. A era das revoluções 1789-1848. em fevereiro de 1850. hesitação. parecia impossível. Godechot. Se ela perecesse em vós. não estava isento do preconceito de superioridade. apesar da insurreição vitoriosa em Viena. a Revolução Alemã conseguiu assustar outras nacionalidades. Edward Hallet. Laterza. 1979. isto é.31 Assim. Em 1808. praticamente todos os alemães instruídos. Paz e Terra. Novara.

21. cit. Citações retiradas de Namier. assim chamadas porque nunca haviam. Storia dell‟Italia moderna. In: Storia del mondo moderno (ed. 1967. P. “Proudhon: El Robinsón Crusoe del socialismo”. Paris. 1970. Citado por Cantimori. p. Belo Horizonte. p. Jacques. respectivamente. e Suratteau. 33-34. p. para o historiador Charles Pouthas. ao passo que. Idem. Garzanti. Op. Sedes. Siglo XXI. entre as nações não-históricas. 1976. vol. 29-30. 17. 32. s/d. desfrutado de unidade e independência política. reproduzido em Fohlen. cit. Editorial Verbo. Citado por Gérard. cit. ou austríaca. cit. p. 30. 3. São Paulo. La Revolution Française. Delio. Feltrinelli. ou russa. Em 1848. Op. Citado por Bury. 36. 252.. cit. A. In: Studi di storia. op. p. Rude. 1970. p.. todas se encontravam sob dominação estrangeira: ou prussiana. 686. A.) Manifesto Comunista de Marx e Engels. A citação de Cavour encontra-se em Hobsbawm. Cf Hawgood. Madri. 8. embora estivessem politicamente separados e sob dominação absolutista. O discurso de Alexis de Tocqueville pode ser lido na edição brasileira de sua A democracia na América. 463-478. cit. Ernest “1848. p.. Cantimori.. Europa 1815-1848.8 5. 10. Alexis de. Penguin Books. 267: a de Metternich. 44-60. 12.. 1960. 238. 1973. 31.. p. J. cit. op. Namier. . 26. J. italiana da The new Cambridge modern history). Companhia das Letras.. “Avertissement au pays”. Lewis. In: Fluctuaciones economicas e historia social. p. Paris. X.. Turim. p. cit. 155 e 122. p. (vários autores). p. In: Storia del mondo moderno. Edward Hallet. p. p. 1974. de Talmon. A era do capital 1848-1877. J. In: Studies Über Die Revolution. e também especialista no tema. p. p. Hobsbawm. 219. cit. J. Sobre Proudhon. J. 21. cit. 9. Giorgio Candeloro.. Itatiaia. 19. 3. cit. p. Lewis. vol. Taylor. As três citações foram retiradas de Namier. cit. 179. Op. 30. p. 24. 1991. 462. J. 16. Lisboa. Taylor. p. “Liberalismo e sviluppi constituzionali”. 30. Boitempo. 51. 1967. Delio. A. 20. 14. Einaudi. 1961. de Namier. p. Storia del mondo moderno. c/t. J. L. ver o ensaio de Carr. 35. “Le rivoluzioni del 1848”. só os alemães não estavam sob dominação estrangeira. op. “Nazionalità e nazionalismo”. foi retirada de Bury. George “Why was there no revolution in England in 1830 or 1848?”. p. A. p. São Paulo.. Op. In: Storia del mondo moderno. 1977. assim chamadas por que em algum momento do passado haviam vivido como unidades políticas independentes. p. Milão. P Op. 586. Flammarion. 189. Godechot. A frase de Engels foi retirada de Osvaldo Coggiola (org. 28. J. 29. Lembranças de 1848. cit. op. Lewis. P T. Taylor. p. Editorial Tecnos. 332.. “No inicio de 1848 ninguém considerava iminente uma explosão revolucionária”. a de von Galen. 236 e a de Droz. 25. O historiador Rude também já é falecido. 7. Op. 18. do ensaio “1848”. 1977. Jacques. p. 13 e Hobsbawm. 28. das quatro nações históricas. Op. Feltrinelli. 31. Op.17. em algum momento do passado. Paz e Terra. Idem. Tocqueville. H. 494. J. p. já falecido. 165 e 175. 23. P historiador conservador inglês.. 15 e a de Taylor. Milão. “Introdução”. p. 15.. Op. Citado por Lewis Namier. Labrousse. Alice. A citação de Vitor Hugo. p. Londres. p. 35 e a de Ferrari em Salvemini. 9. Romantismo e revolta. Idem. R T. op. 22. 1789: tres fechas en Ia historia de Ia Francia moderna”. Eric. 1830. 11. cit. Namier. H. 1998. p. A citação de Vitor Hugo foi retirada de Hawgood. C. J. Rio de Janeiro. P. 179. também já falecido. J. p. R. 5. op. p. 685. p. 82. tradução de Modesto Florenzano. cit. p. p. México. 1967. 243. Akademie-Verlag. mythes et interprétations 1789-1970. cit.. Europa: Restauracion e revolucion 1815-1848. Scritti sul Risorgimento. Berlin. “Realtà storica e utopia nel 1848 Europeo”. Milão. In: Europe: grandéur and decline. 6. 27.. Gaetano. Textes d‟Histoire Contemporaine. 13. No entanto. 272. op. vol. op. As jornadas revolucionárias em Paris. p. A era do capital 1848-1875.

começou a Revolução Húngara. de modo algum. mas não. não dá conta das profundas transformações pelas quais ele passou no interior de tais celas. bastante imprópria. Hobsbawm distingue três fases: uma que tendo início na metade dos anos 1840 se encerra no começo da década de 1850. uma revolução de caráter continental. O que o proletariado conquistava era o terreno para lutar pela sua emancipação revolucionária.9 A REVOLUÇÃO FORA DO TEMPO MARX. Na madrugada do dia 25. o que viria a ocorrer no ano de 1848. rígidas tentativas de periodização costumam ser arbitrárias. lançou um desafio a toda França burguesa. uma gama de situações que lhe valeram a alcunha. herança de um pensamento positivista. na medida em que fossilizam seu objeto para melhor enquadrá-lo num esquema préestabelecido. As tentativas de classificação. a própria emancipação. Foi a primeira vez em suas vidas conscientes que ambos presenciaram um processo revolucionário. Ou seja. o grande exemplo revolucionário sobre o qual Marx e Engels se debruçaram para analisar foi a Revolução Francesa de 1789. desde o momento em que Marx e Engels começam a trabalhar com a possibilidade de uma revolução iminente. quando não inúteis. Muito mais fértil do que esse afã classificatório é o programa lançado por Karl Korsh em Marxismo e filosofia: a aplicação da concepção materialista da história à própria história do marxismo. sem dúvida os acontecimentos de 1848. A revolução de 1848 marcou de forma profunda o pensamento de Marx e Engels. lutas pela independência nacional. provocaram uma inflexão em seu pensamento. No dia 12. no velho continente. Em 15 desse mês. A vaga foi prenunciada pela derrota dos cantões da liga clerical (Sunderbund) na Suíça em novembro de 1847. Luis Blanc e Albert (codinome do operário mecânico Alexandre Martin). Até 1848. impresso nas páginas imortais do Manifesto Comunista. Se uma divisão do conjunto do pensamento de Marx e Engels em fases e subfases costuma ser problemática. ao mesmo tempo. Eric J. Praticamente nenhum país ficou imune ao vendaval revolucionário que agitou a Europa. A insurreição de Veneza contra a dominação austríaca teve início no dia 17. Era chegada a hora. promulgou uma constituição.3 A pátria da revolução havia dado o sinal. Em 5 de março. período de desenvolvimento do capitalismo e de inércia do movimento operário. O ano de 1848 combinou. Quando do ensaio parisiense de 1830. Mas. até o momento da derrota desta. a partir das conclusões obtidas. que. Torna-se impossível proceder a tal enquadramento sem deixar muito a desejar quando se trata de obra da extensão da qual falamos e de pensadores que constantemente submetem suas hipóteses e teorias à prova da prática para. Devemos ter em mente esta impossibilidade de promover uma periodização rigorosa quando procuramos reconstituir uma teoria de revolução em Marx durante o período que se inicia com os artigos da Deutsche Brüsseler Zeitung até o fim da Neue Rheinische Zeitung. reformulá-las. Era. são limitadas em si. num contínuo processo de destruição-reconstrução teórica. insurreições operárias. derrubou a monarquia de Luís Felipe e criou um governo provisório com a participação de dois ministros socialistas. No dia 14 de fevereiro. Marx tinha apenas 12 anos e Engels 10. a derrubada da dinastia dos Bourbon só motivou reflexões ocasionais. os cigarreiros de Milão se insurgiram. de “1789 europeu”. com o fracasso das revoluções de 1848. Dois dias depois começou a insurreição em Viena que provocou a fuga de Metternich. a população de Palermo se ergueu contra a monarquia absolutista de Fernando II.2 Vincular as sucessivas elaborações de Marx e Engels aos abalos sociais de então e as transformações no pensamento de ambos ao desenrolar da luta de classes do período pode esclarecer a aparente inconstância de seus movimentos políticos e da tática por eles defendida. A hora de Berlim chegou um dia depois. A revolução adquiriu impulso com a vitória do povo parisiense. No dia 2 de janeiro. o rei Carlos Alberto. por último a fase dos últimos anos de Engels. A insurreição obrigou o rei da Prússia a formar um governo composto por liberais . como o partido independente. ao encerrar de forma esquemática em celas temporais o pensamento de Marx e Engels. no dia 24 de fevereiro. sorte diferente não tiveram aqueles que exerceram seus dotes classificatórios com diferentes aspectos particulares do pensamento de Marx e Engels. O monarca foi obrigado a ceder e outorgar uma constituição. do Piemonte. apareceu imediatamente em primeiro plano. segundo Marx a primeira participação do proletariado como classe independente: O proletariado ao impor a República ao Governo Provisório e. e.1 Tal classificação. As razões do fracasso dessa empreitada não podem ser atribuídas à forma de trabalho desordenada de Marx e aos incontáveis projetos que começou e deixou inacabados. a toda a França. Nos anos posteriores. É sobre a base do estudo dessa revolução que Marx formulará um esboço de teoria da revolução. ENGELS EM 1848 Álvaro Bianchi Numa obra tão vasta e polifacética como a de Marx e de Engels. Roma ganhou uma constituição dia 14. Dia 1 1 . Hobsbawm é um dos autores que tenta fazer uma periodização do pensamento de Marx e Engels sobre os aspectos políticos da transição do capitalismo para o socialismo. Revoluções de caráter democrático e burguês. em 1849. outra nos 25 anos posteriores. mas. revoluções agrárias. através do Governo Provisório. quando a construção de partidos operários de massas colocava novas perspectivas para a luta operária. foi a vez do papa Pio IX criar uma comissão para promover uma reforma liberal. foi criada uma Assembléia Popular em Praga. o povo invadiu a Câmara dos Deputados e forçou o governo provisório a proclamar a República.

Na França esse índice chegava a 75% e na Noruega e Suécia a 90%. Na mesma data. Em 1850. sendo equivalentes a hierarquia etária ocupacional. apesar do crescimento do proletariado urbano. Somente na década de 1840 cerca de 640 milhões de toneladas de carvão foram produzidas no mundo. Em menos de um mês a paisagem política da Europa se encontrava completamente transfigurada. Na Prússia. Já no ano de 1847 a conjuntura européia emitia sinais de que mudanças significativas estavam para acontecer.500 1.100 800 300 12. continuava a ser. mesmo assim. De Paris a Viena o serviço de comunicação mais rápido. eu reconheço. até mesmo. com o declínio das guildas. A ordem instituída depois da derrota de Napoleão e materializada na Santa Aliança havia deixado de existir. a possibilidade de ascensão ficou reduzida e ocorreu. na década de 1840 havia na Prússia.10 burgueses. tomando estes permeáveis à propaganda revolucionária.000 3. que hoje.390 190 400 DORMIMOS SOBRE UM VULCÃO Mas se a economia se desenvolvia com uma velocidade impressionante as estruturas sociais e políticas de então evoluíam num ritmo consideravelmente menor. Engels escrevia em dezembro daquele ano que “nada decisivo havia sido levado a cabo durante o ano de 1847. senhores. Depois da invenção da iluminação a gás. minha convicção profunda. obra de 1845. status diferentes correspondiam a diferenças geracionais. Segundo Gouldner. As revoluções se sucediam numa velocidade superior à dos próprios meios de comunicação. aproximadamente.7 O declínio dos artesãos se deu numa velocidade menor à que Marx supunha e assumiu formas que se manifestaram nas revoluções de 1848. mas durante esses 12 meses os partidos se enfrentaram em todos os lugares de forma nítida e aguerrida.8 milhões de artesãos e 571 mil operários fabris. o rei Luís I. estão tranqüilas.5 A crise que Tocqueville previra com tanta lucidez assumia características diferentes da anteriores. O surgimento do proletariado e a decomposição das antigas classes sociais havia modificado profundamente os centros urbanos. mesmo tal governo. abdicou. Nos primeiros 40 anos do século passado a produção de ferro bruto aumentou 475% na Alemanha (Zollverein). no mesmo grau em que foram por elas atormentadas outrora. fundamentalmente. não sei quando. que possibilitava o trabalho noturno. quando tais opiniões tomam raízes. Segundo Theodore S. de políticas se tomaram sociais? Não vedes que pouco a pouco se propagam em seu seio opiniões. mas não vedes que as suas paixões. Em 27 de janeiro de 1848. quando penetram profundamente nas massas. como podemos ver abaixo. Mesmo nas cidades. o peso das antigas classes sociais era predominante. mas a sociedade e abalá-la sobre a bases nas quais hoje repousa? Não ouvis que entre elas se repete constantemente que tudo o que se acha acima delas é incapaz e indigno de governá-las? Que a divisão dos bens feita até o presente no mundo é injusta? Que a propriedade repousa em bases que não são equitáveis? E não credes que. tal ministro. o então deputado na Câmara francesa Alexis de Tocqueville. É verdade que não são atormentadas pelas paixões políticas propriamente ditas. alertava o regime: Olhai o que se passa no seio dessas classes operárias. A Europa.500 30. Na Inglaterra. não eram raros os casos de jornadas diárias superiores a 15 horas. no dizer do próprio Marx. devem cedo ou tarde.4 A proximidade da revolução era uma perspectiva generalizada em todo o movimento democrático e mais além dele. 72% da população vivia no campo. ocorreu um novo levante em Milão contra a ocupação austríaca. demarcados uns dos outros”. forças até então inimagináveis e essas forças estavam fora de controle. creio que dormimos no momento em que estamos sobre um vulcão. levava cinco dias.400 Produção de ferro bruto (milhares de toneladas)6 Inglaterra França Alemanha (Zollverein) 190 40 60 370 90 140 1. Pelo menos por enquanto. o do banco Rothschild. uma penúria muito bem retratada por Engels em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. da Baviera. que de modo nenhum irão apenas derrubar tal lei. apenas 47 cidades haviam ultrapassado os 100 mil habitantes. Dia 19. progressivamente. 2. acarretar as mais temíveis revoluções? Tal é.100 1.8 Nas cidades a situação era de extrema penúria. quando se propagam de uma maneira quase geral. Um retrato das condições de vida desses operários pode ser pintado a partir das sucessivas legislações — raramente aplicadas — regulamentando as condições de trabalho. somente para mulheres e . uma Europa rural. Nas antigas guildas. se casarem com as filhas dos mestres. idéias.000 3. Hamerow. a jornada de 10 horas só foi regulamentada em 1847 e. O capitalismo havia colocado em movimento. Mas as diferenças entre mestres e aprendizes eram aceitas na medida em que os últimos tinham a perspectiva de se tornarem mestres ou de. Ano 1800 1820 1840 Ano 1800 1820 1840 Produção de carvão (milhares de toneladas) Inglaterra França Alemanha (Zollverein) 10. concentrando 5% dos habitantes do continente. o estranhamento entre mestres e aprendizes.

13 É a perspectiva de uma revolução iminente o que explica os passos dados para uma unificação entre o Comitê de Correspondência de Bruxelas. Seja sob a bandeira da democracia. seja sob o estandarte da libertação nacional. a burguesia cedo chegou a um estágio em que achou o desenvolvimento dos seus mais importantes interesses refreado pela constituição política do país — pela sua divisão fortuita entre 36 príncipes com tendências e caprichos em conflito. os reis da Bolsa. mas também converteu-se em sua arrendatária. que todos os poderes políticos. Em Paris. Um ano depois houve a primeira greve geral. comunicou a formação de um Comitê de Correspondência. Engels conhecia Harney desde 1843 e desde 1845 colaborava em seu jornal. no ano de 1823. esses grupos participaram de poderosos movimento ligados “à destruição de um sistema social vinculado ao absolutismo e ao particularismo”. posteriormente. até que a Liga dos Justos enviou a Bruxelas o relojoeiro Joseph Moll com a missão de estabelecer contato direto com Marx e. o Zollverein. George Julian Harney. Que se quiséssemos ingressar. as frações burguesas afastadas do poder. o escritor e deputado francês Alexis de Tocqueville dizia: Em 1830. pela superintendência bisbilhoteira a que uma burocracia ignorante e presunçosa submetia todas as suas transações. Em suas Lembranças de 1848. A passagem de camadas sociais cada vez mais amplas para o campo da oposição verificou-se no restante da Europa. Bauer e Joseph Moll. O líder cartista. Na França a autosuficiência das classe dirigentes contribuiu para aumentar essa insatisfação. Assim. em 1839. mas propôs que os dirigentes da liga fossem consultados antes de qualquer iniciativa. o governo inteiro. unificando a ala esquerda do cartismo com a Liga dos Justos. num congresso da liga. A legislação francesa é de 2 anos depois. A reação a essas condições de vida veio através da disseminação do associativismo entre os trabalhadores.11 Na oposição encontravam-se não só as massas populares como. As de Marx e Engels cresceram com a posição da liga frente à luta contra as idéias de Kriege no Comitê de Bruxelas e com a convocação por parte desta de um congresso comunista sem tê-los consultado previamente. A sociedade secreta dirigida por Auguste Blanqui promoveu uma fracassada tentativa insurreicional em Paris. Schapper. propuseram a um dos dirigentes da esquerda do movimento cartista. Na Alemanha. Desejava ela assumir no plano político o lugar que possuía na vida econômica desde a criação da união alfandegária. ditava as leis nas câmaras e distribuía os cargos públicos. Alojou-se em todos os cargos. respondeu afirmativamente. seria publicado NASCE O PARTIDO DE MARX E ENGELS . À insatisfação social somava-se a insatisfação política. Os contatos dos dois com o grupo de Londres existiam desde 1846. no ano de 1839. e a sessão londrina da Liga dos Justos. com a riqueza crescente e o comércio em expansão. os proprietários das minas de carvão e de ferro e de explorações florestais e de uma parte da propriedade territorial aliada a ela — a chamada aristocracia financeira. The Northern Star. destacando porém. À margem do país legal. com ambos os lados mantendo suas mútuas reservas. principalmente a industrial. a constituição de um Comitê de Correspondência naquela cidade. que se encontrava em Paris. também. As relações ficaram congeladas. o país real exigia ser ouvido. Segundo Engels. dar-nos-ia. com a exclusão (de direito) de tudo o que estava abaixo dela e (de fato) de tudo o que estivera acima. com 11 mil membros e na Itália. 38 destas associações. H. Oposição essa que se fazia sentir de forma cada vez mais intensa à medida em que a crise fiscal do Estado havia colocado o rei da Prússia em campanha por um aumento dos impostos.14 As relações entre os dois grupos continuaram por todo o ano de 1846. aumentou prodigiosamente seu número e habituou-se a viver quase tanto do tesouro político quanto de sua própria indústria. a fração burguesa que havia se incrustado ao aparelho Quem dominou sob Luís Felipe não foi a burguesia francesa. o triunfo da classe média foi definitivo e tão completo. as diferentes frações da burguesia estavam completamente afastadas do poder.12 Tal situação forçou a passagem da burguesia para o campo da oposição. Schapper também deixou claro suas reservas em relação a Marx e Engels que considerava pessoas dispostas a criar uma “aristocracia de sábios”. Legislação proibindo o trabalho de crianças menores de 9 anos e regulamentando o trabalho infantil foi promulgada. existiam 160 associações de ajuda mútua. mas também da necessidade de libertar a Liga das velhas tradições e formas conspirativas.10 estatal: Diagnóstico semelhante fez Karl Marx. dos ministérios às lojas de tabaco. 9 Os levantes e greves também se generalizaram durante os 10 anos que antecederam as Revoluções de 1848. chegando Engels a levantar a hipótese de uma ruptura. e convidá-los para integrar a liga. os reis das estradas de ferro. O contato foi realizado em maio e rendeu bons frutos. dirigido por ele mesmo. que recém havia formado uma organização chamada Fraternal Democrats. com Engels. as prerrogativas. Em fevereiro daquele ano. Numa carta de 6 de junho. na Prússia. a oportunidade de desenvolver nosso comunismo crítico num manifesto que. Este último resumira dessa forma a missão de Moll: Disse-nos que estava convencido não só da justeza geral de nossa concepção. pelos grilhões feudais à volta da agricultura e do comércio com ela relacionado. do qual Marx e Engels faziam parte. a burguesia não só se tornou a única dirigente da sociedade. a pequena burguesia e os camponeses. o líder da liga. Esta ocupava o trono. país de desenvolvimento capitalista retardatário. mas uma fração dela — os banqueiros. encontraram-se encerrados e como que amontoados nos limites estreitos da burguesia.11 crianças. todas as franquias. em seguida. O desejo de liberdade e as aspirações nacionais confluíram num contexto marcado pela crise da política e da divisão territorial definida pelo Congresso de Viena.

19 À época do Manifesto. Partido é a Liga dos Comunistas. é que Marx decidiu participar de forma mais efetiva. Para eles a conquista dessas liberdades teria como conseqüência inelutável a dominação política do proletariado. a “democracia”. do proletariado organizado em classe dominante. a adquirir um contorno mais nítido. conquista do poder político pelo proletariado”. em 1871. O segundo é a organização do proletariado como classe dominante. portanto. para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado. As experiências das revoluções de 1848 e. constituindo o círculo de Bruxelas da Liga dos Comunistas. O texto diz ser o objetivo imediato dos comunistas “o mesmo que o de todos os demais partidos proletários: constituição dos proletários em classe. como Estado. reunião e imprensa. direta ou indiretamente. é que a questão da forma e dos meios seria plenamente equacionada. Marx e Engels não conseguiriam formular uma resposta para o problema da forma e dos meios de exercício do poder operário. Em 1848. é a Associação Operária de Colônia. e para aumentar.18 A ordem do enunciado é pertinente.) a primeira fase da revolução operária é o advento do proletariado como classe dominante. O objetivo primeiro dos comunistas é a constituição do proletariado em classe. procurando formular os diferentes momentos pelos quais o proletariado deverá passar nas revoluções que se aproximavam e sua atitude neles.21 Enganam-se. a base do movimento cartista na Inglaterra. Marx e Engels atribuem um caráter ambíguo ao termo “partido”. ocorreu em junho de 1847. uma Constituição democrática do Estado. “em partido político”. mais adequada à época e aos objetivos visados. segundo narra Engels. mas que terminaria com a vitória do proletariado. Marx e Engels passam. portanto sujeito capaz de operar a mudança social. é uma “democracia operária”. unicamente. o total de forças produtivas. levantando a hipótese de que a tradução tenha sido revista por Engels. em suas notas ao Manifesto Comunista na edição da Bibliothèque de la Pléiade. liberdades estas que se encontravam ausentes em toda a Europa. a conquista da democracia.17 O programa. A constituição do proletariado em classe é. no Manifesto. o domínio político do proletariado”. Nos referimos ao sufrágio universal. Em Princípios básicos do comunismo. cuja consciência é desmistificada e desmistificadora. aqueles aspectos políticos de uma teoria da revolução. antes de mais nada. Para além do partido-organização. momentos diferentes.23 Dizer que Marx e Engels se referiam a uma “democracia operária” tem como inconveniente o fato de se antecipar à elaboração teórica de ambos. Uma “democracia operária” implica não apenas uma forma de exercer o poder mas a afirmação dos meios pelos quais ele é exercido. tal qual aparece nessa passagem do Manifesto. ao mesmo tempo teórico e prático”. Engels coloca que a revolução “estabelecerá. que veio à luz em fevereiro de 1848.22 Engels destaca que na Inglaterra. principalmente. em nenhum momento do texto mencionada.. O congresso modificou o nome da organização. Não é outro o motivo que leva Marx e Engels a afirmarem no prefácio de 1872 que a parte referente às medidas revolucionárias enumeradas ao final do segundo capítulo deveriam ser retocadas. ficou imortalizado com o nome de Manifesto Comunista. Qual o exato significado de “democracia” para ambos? Para alguns intérpretes. Sequer a questão do que fazer com a antiga ordem estatal estava para ambos resolvida. A transformação do proletariado em partido deve ser entendida como a transformação do proletariado em sujeito autoconsciente e auto-organizado. isto é. embora intimamente vinculados. Interessa-nos. O proletariado utilizará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo capital à burguesia. Na França e na Alemanha. São. e que poderíamos também contribuir para a substituição da arcaica organização da Liga por outra nova. Somente com a análise dos acontecimentos da Comuna de Paris. derrubada da supremacia burguesa. Era. Em outras ocasiões Marx e Engels procederão à mesma associação. O primeiro congresso.12 como manifesto da liga.24 . levado a cabo em Londres nos meses de novembro e dezembro do mesmo ano. O segundo congresso. O problema da forma e dos meios começava. Para Marx e Engels (. a realização de seu devir. Uma vez assentados os objetivos finais.20 A afirmação coloca um problema interpretativo de primeira grandeza. O que aqui lhes interessa é a conquista de liberdades que retirem os entraves para o desenvolvimento das forças do proletariado. poucos dias antes da revolução irromper em Paris. de derrubar a supremacia burguesa e de assumir o poder político tal qual Marx e Engels expressam nos objetivos seguintes dos comunistas. com a participação de Engels representando o Comitê de Correspondência que havia constituído em Paris.16 Na mesma ocasião Marx e Engels receberam a incumbência de elaborar “um programa pormenorizado do partido. mesmo. a democracia levaria diretamente ao poder político do proletariado. são os cartistas e todos os movimentos da classe.15 Marx e Engels. que passou a se chamar Liga dos Comunistas. a tratar os temas referentes à tática e à estratégia. embora mantivessem suas reservas. o mais rapidamente possível. ambos pensam um partido-consciência. e com ela. durou dez dias. e discutiu seus novos estatutos. onde o proletariado não era a maioria do povo talvez fosse necessária uma segunda luta. Mas além dos movimentos da classe também estão se referindo à classe em movimento. Não é nossa intenção fazer aqui uma análise detalhada do Manifesto. observa que na tradução realizada por Laura Lafargue. Associar a “democracia” ao domínio político do proletariado era comum nos setores mais avançados do movimento democrático da época e entre os comunistas. Marx teve nele a oportunidade de expor suas idéias e depois de um grande debate elas foram aceitas por unanimidade.. ao direito de organização. consideravam que a classe operária alemã necessitava de uma organização para a propaganda e aceitaram o convite. assim. Marx e Engels não se referem a um determinado tipo de democracia e sim à democracia como “ser genérico”. a frase citada aparece como la conquête du pouvoir public par la démocratie. Maximilien Rubel. O primeiro é a conquista da democracia que permite ao proletariado aparecer em cena como classe que almeja a conquista do Estado. escrito em novembro de 1847. nesse congresso. da Comuna parisiense de 1871 haviam imposto a conclusão de que não bastava à classe operária apoderarse da máquina estatal. Só depois dos resultados concretos obtidos. onde o proletariado constitui a maioria do povo. então.

O texto enumera dez medidas que constituem o programa do proletariado.. Marx e Engels passavam. como insinuam David McLellan. Marx afirmou que ele era “o modo plebeu de lutar contra os inimigos da burguesia. Referindo-se ao Terror do ano II. contra o absolutismo. no máximo. no próprio Manifesto. afirmava o texto das Reivindicações. a propriedade rural feudal e a pequena burguesia. A afirmação que fazem da estratégia e dos problemas da transição política e da transformação do modo de produção não deixaram. podem ser consideradas como um programa para a transição. como o próprio texto diz é um programa para quando o proletariado já estiver constituído como classe dominante. Marx e Engels deixavam claro que não esconderiam os antagonismos existentes entre a burguesia e o proletariado. Não estavam. determinada pelo caráter das revoluções que se aproximavam. só poderá ser o prelúdio imediato de uma revolução proletária. como alerta Engels. Um programa cujo objetivo não é “partir das condições atuais e da consciência atual de largas camadas da classe operária” e conduzi-la a uma única conclusão: “a conquista do poder do proletariado”.25 Em 1848 Marx e Engels. afirmam Marx e Engels. os comunistas estão aliados ao partido social-democrata.35 Apesar de uma ampla política de alianças. já era um divisor de águas entre o partido do proletariado e os demais. da pequena burguesia e da classe camponesa lutar pela implementação destas medidas com todas suas energias”. concordar com a afirmação. nacionalização dos transportes... Mais de uma vez os autores do Manifesto denunciaram “a fé supersticiosa nas tradições de 1793”.: criação de um banco nacional. Elas. cujas despesas de impressão dos primeiros exemplares foram custeadas pelo próprio Marx.. o feudalismo e os filisteus”.28 Não podemos. criava as condições para a aceitação destas. nem organizar um partido à imagem e semelhança dos companheiros de Robespierre.26 Depois de abordar o problema da transição da democracia ao proletariado organizado como classe dominante. constituído por democratassocialistas e burgueses radicais. uma revolução que tenha à frente o proletariado. e o jornal La Réforme. (Não existia tal partido constituído. Depois de anunciar que lutarão de acordo com a burguesia sempre que esta agir de forma revolucionária contra a monarquia absoluta.31 Marx elaborará um programa específico para a Alemanha. Karl Obermann. outros problemas se colocam: como se dá a transição da conquista da democracia para a conquista do Estado? Em outras palavras: uma vez conseguidos os meios para o proletariado derrubar a supremacia burguesa e conquistar o poder político. O movimento jacobino possuía um ideário. O partido democrático mais esquerdista não ia além da defesa de uma República Federativa. como Estado. geral e gratuito.29 pelo simples motivo que. por conseguinte. Apenas quatro delas figuravam no texto das Reivindicações. “É do interesse do proletariado alemão. para citar apenas um exemplo — “todo o território alemão formará uma república una e indivisível”34 —. uma política concreta a ser seguida pelos comunistas nos movimentos revolucionários que se avizinhavam. O ano II do calendário revolucionário foi o que permitiu à Revolução Francesa cumprir suas promessas. apoiado nas massas sans-culottes. à mecânica da revolução. para essa realidade dada. Na França. Somente o primeiro ponto do programa. eram apenas um programa prático para a revolução democrática que se avizinhava.) Na Suíça. o setor extremo do movimento democrático inicial. A referência à Revolução Francesa de 1789 e à ascensão do jacobinismo ao poder restringe-se. e porque realizará essa revolução nas condições mais avançadas da civilização européia e com um proletariado infinitamente mais desenvolvido que o da Inglaterra no século XVII e o da França no século XVIII a revolução burguesa alemã. sequer colocadas como tarefas para um hipotético governo operário levar a cabo. no Manifesto. O que os autores do Manifesto denominam como tal é a fração de Ledru-Rollin. no sentido que Trotski dava à expressão. Percebem o caráter burguês e democrático da revolução e apresentam. e o conhecido biógrafo de Joseph Weydemeyer. Essas medidas embora possam parecer “insuficientes e insustentáveis” advertem os autores. desfazem a idéia de fácil aceitação das propostas dos comunistas. partia claramente das dez reivindicações presentes no Manifesto Comunista. Marx e Engels não pretendiam repetir em 1848 o modo jacobino de agir. apóiam o partido radical. “ultrapassarão a si mesmas e serão indispensáveis para transformar radicalmente todo o modo de produção”. no parlamento. o setor extremo do movimento revolucionário. de poderem ser admitidas por qualquer democrata radical.33 Este último chega a firmar que o espírito reinante em abril de 1848. imposto progressivo e ensino público. Queriam que os . O programa. mas eram. os autores do manifesto afirmam: a Alemanha se encontra nas vésperas de uma revolução burguesa. ou seja. Os defensores da revolução agrária são apoiados na Polônia.27 As medidas vão desde a expropriação dos latifúndios até o ensino público e gratuito para todas as crianças. como ele o faz? Marx e Engels tomam como ponto de referência. não vêem como limite a conquista de uma democracia representativa por um movimento unânime de todo o povo sob a bandeira da fraternitè e sim uma segunda revolução surgida no coração da primeira. Luis Blanc. Marx e Engels presos de forma esquemática a ela. As dez medidas foram muitas vezes interpretadas como um programa de transição. entretanto. no campo democrático. entretanto. para cumprir as promessas que a primeira não havia sido capaz. Ambos não duvidam de que os aspectos antiburgueses do Terror serviram para garantir a vitória da nova ordem burguesa. à forma como seus diferentes momentos se encadeiam. uma prática e formas organizativas que estavam associados a um projeto de classe e não poderiam ser transpostos ao movimento proletário.13 Interpretada dessa forma a “conquista da democracia”.30 Mas é para a Alemanha que os olhos dos comunistas estão voltados. o desenvolvimento da Revolução Francesa de 1789 e a chegada ao poder dos jacobinos. ainda. evidentemente mais moderadas. as Reivindicações do Partido Comunista Alemão. no terreno ideológico. embora no Manifesto isso não esteja explícito. levar a termo a revolução burguesa e romper definitivamente com a antiga ordem. entretanto. Trata-se de uma revolução proletária. em sua biografia de Marx. Os cuidados tomados por Marx e Engels na divulgação do texto e o fato de não ser mencionado posteriormente na Neue Rheinische Zeitung.32 Mas embora tivessem esse caráter estavam muito distantes. a tratar da transição para o comunismo. não mais unânime. ou seja.

que havia ajudado a fundar a Sociedade Democrática de Colônia. a maioria artesãos. conquistadas pelas revoluções. Chegaram no dia 10 de abril. Franz Raveau. eles esperavam por outro levante. seria um “órgão da democracia”. Marx se incorporou ativamente à Sociedade dos Direitos Humanos. Marx e Engels acompanharam o desenvolvimento da revolução . No mesmo dia que foi notificado de sua expulsão. Consideravam-na necessária porque ela. Assim que chegou a Paris. No dia 20.39 Ao mesmo tempo em que participavam da Sociedade Democrática. a aspiração unânime”.14 operários transformassem as condições sociais e políticas criadas pela revolução burguesa em armas contra a própria burguesia. 0 programa do jornal era muito simples e podia ser resumido a apenas dois pontos: “República alemã democrática. As diferenças com Gottschalk aumentaram com as eleições para a Assembléia Prussiana e para o Parlamento Nacional de Frankfurt. e guerra com a Rússia. apesar das pressões econômicas que sofreram e da perseguição da censura. levando consigo as mil primeiras cópias do Manifesto Comunista e o folheto Reivindicações do Partido Comunista na Alemanha. Pouco depois Marx a dissolveu. abrindo-lhe as portas de seu país. Os editores sempre a mantiveram independente. fundada por LedruRollin e Flocon. com quase 100 mil habitantes.”40 O Apelo para a fundação da Neue Rheinische Zeitung só de passagem mencionava a condição operária. além do ministério Camphausen na Alemanha. Depois de 24 de fevereiro e de 18 de março. em poucos meses. Os enfrentamentos levaram Gottschalk a se afastar da Liga. poderia ser levado a cabo em condições abertas e muito melhores na nova conjuntura. Julgavam seus objetivos econômicos estreitos e acusavam seus dirigentes de provocarem o isolamento político dos trabalhadores. um militante da Liga Comunista. um número verdadeiramente impressionante. A Associação recrutou. Os autores do Manifesto não se cansavam de alertar que “a menos que uma nova revolução se seguisse à de março de 1848. dessa vez nitidamente proletário. ter fundado a Associação dos Trabalhadores. um dos maiores clubes políticos de Paris. Marx e Engels se recusaram a participar da Associação. A idéia de duas revoluções. Marx. que se havia unido ao primeiro em Paris. A capital da Renânia era a terceira maior da Prússia. Mal começaram os levantes populares e Marx foi expulso de Bruxelas. as coisas voltariam inevitavelmente ao que eram antes daquele acontecimento”. recebeu uma carta de seu conhecido Ferdinand Flocon. Pior ainda. E mesmo assim para.41 O fato de se auto-intitular “órgão da democracia”. No dia 10 de março. Marx e seus companheiros decidiram retomar à Alemanha imediatamente. membro do governo provisório da França. foi eleito secretário. a propaganda. compreender a forma como viam a passagem de uma revolução a outra. além de liquidar as velhas classes dominantes e colocar a nu as contradições sociais fundamentais. não transformou a Neue Rheinische Zeitung no porta-voz da esquerda parlamentar.36 A idéia de que a revolução democrática e burguesa seria o prolegômeno indispensável do levante operário está. A liga conseguiu fazer com que mais de 400 operários alemães retornassem a seu país para se engajarem no movimento revolucionário. dizer que “destruir esse estado de coisas. argumentando que seu objetivo. como anunciava seu subtítulo. A Associação afirmava que os trabalhadores não poderiam participar de eleições indiretas — os eleitores escolheriam apenas aqueles que definiriam quais seriam os deputados — e propôs o boicote. uma sobreposta a outra. É no desenvolvimento desse movimento unitário que o proletariado surgiria como uma força social independente. tal é o desejo geral. Não é completamente descabido afirmar que. que teria como objetivo acabar com as contradições sociais colocadas a nu pelo primeiro. na Alemanha. Através da Neue Rheinische Zeitung. o que trazia implícita a restauração da Polônia. daria a liberdade de reunião e imprensa necessárias para tornar mais efetivo o combate proletário. que havia viajado a Paris para entregar uma mensagem da Associação dos Trabalhadores Alemães de Londres ao governo provisório. já mencionado. através do qual pudessem expressar suas opiniões. A pretensa república social na França e a realização de eleições indiretas para as Assembléias Nacional e Constituinte. que veio à luz sob o nome de Neue Rheinische Zeitung. presente nos fundadores do socialismo científico. quatro dias depois de Andreas Gottschalk.38 A PROVA DOS NOVES Logo a revolução obrigou Marx a submeter seu esboço de uma teoria da revolução à prova da prática. O governo temia que ele utilizasse os 6 mil francos que herdara de sua mãe (mais do que sua renda total nos três anos anteriores) para financiar o movimento revolucionário. do ponto de vista interpretativo. no dia 1o de junho. Marx e Engels pensavam uma revolução por etapas. chegaram a Paris notícias da revolução em Berlim. Mas daí a uma interpretação caricatural como a que foi levada a cabo pelo stalinismo durante décadas há uma grande distância. herança da Revolução Francesa de 1789. O jornal. “A melhor forma de governo é aquela na qual as contradições sociais abrem caminho livremente e se encaminham assim rumo a sua solução”. As revoluções que então se avizinhavam deveriam nascer como um movimento de todo o povo contra o absolutismo. Marx e Engels deram início a um projeto há meses acalentado: fundar um jornal nacional. Não era mais necessário recorrer às formas conspirativas da Liga dos Comunistas.37 Embora possa ser analisada a existência de um Marx e de um Engels “etapistas” é mais produtivo. promoveu a candidatura de um democrata. está presente em Marx e Engels. A cidade escolhida por Marx e Engels. 8 mil trabalhadores. de certa forma. e possuía uma grande tradição democrática. caracterizavam a primeira revolução como limitada e parcial. depois de mencionar o desemprego e a miséria. portanto. Schapper. 3 de março. una e indivisível. onde havia chegado 3 anos antes. foi Colônia. se encontravam constantemente ameaçadas pela atitude conciliadora das novas classes governantes. Afirmar a necessidade de uma revolução burguesa nunca significou para eles admitir a necessidade de um desenvolvimento pacífico das forças proletárias depois de tal revolução. o Comitê Central da Liga Comunista promoveu uma reunião que elegeu Marx presidente. As liberdades democráticas parciais.

sem generais. A revolução de junho pôs um fim à era das revoluções unânimes. Ou se estava com os 40 mil trabalhadores insurretos ou do lado dos 200 mil membros do exército. Não houve quem ficasse impassível frente ao acontecido. Mas foram derrotados. os deputados confiscaram. Marx a critica por ela não conseguir promover sua própria revolução e recuar amedrontada. Foi uma luta pela conservação ou o aniquilamento da ordem burguesa”. A crítica de Marx à burguesia.42 A atitude dos democratas e da burguesia possibilitou o avanço da reação. Becker e Schaper foram presos. O povo na ma não era mais invencível. negando a sua necessidade e os seus resultados. Cansado de ver os direitos conquistados em fevereiro sendo usurpados pelo novo governo. que escreveram a respeito algumas das melhores páginas da história do jornalismo. Na Itália o poder retornou às mãos de Fernando II no dia 15 de maio. em Berlim e em Frankfurt. bombardeando incessantemente os bairros ocupados pelos trabalhadores. comparando a covardia destes à valentia dos trabalhadores nas barricadas. A Neue Rheinische Zeitung ficou do lado dos polacos. A Neue Rheinische Zeitung acompanhou passo a passo a ação destes. como em Paris.44 e com poucas armas. em Londres e em Milão. Um levante popular ocorreu em Frankfurt. que presidia a Associação Operária a partir da prisão de Gottschalk.46 As sucessivas vacilações da burguesia liberal e dos partidos da “esquerda parlamentar” levaram Marx a abandonar. o proletariado da capital francesa se ergueu contra o fechamento dos ateliers. portanto. Os operários construíram suas barricadas. O exército. com as classes remanescentes do antigo regime. Mas os acontecimentos adquiriram grande velocidade com a insurreição parisiense que começou no dia 23 de junho. que a única saída para salvar a revolução era a guerra contra a Rússia. criticando as vacilações do partido democrático e a aliança que a grande burguesia promoveu. entretanto. Já no primeiro número Engels denunciou a Assembléia de Frankfurt por não ter tomado nenhuma medida enérgica frente à investida do exército prussiano sobre os revoltosos de Mongúcia. acusados de complô contra a ordem estabelecida.47 O artigo pode ser interpretado como uma ruptura definitiva entre Marx e o movimento democrático. No dia 25 de setembro.. o discurso democrático e a denunciar. A insurreição ecoou em Colônia. criados para dar emprego aos trabalhadores de Paris. uma transição mediatizada entre a Coroa e o povo”. que se recusou a atear fogo na cidade e promover uma guerra total. ou como até a Inglaterra chegou a fazer. No número sete do jornal é possível encontrar uma crítica dos programas do partido democrata-radical e da esquerda de Frankfurt. e o anúncio da revolução operária que viria ganhavam destaque: (. Suas posições despertaram a ira dos representantes da grande burguesia e dos democratas e o número daqueles que apoiavam financeiramente o jornal caiu ainda mais. Em Berlim. Esse avanço se manifestou nas próprias assembléias. isso sim. A questão polonesa mereceu da parte de Marx e Engels especial atenção. respondeu a magnanimidade do proletariado.. líder dos democratas moderados chegou a fazer uso da palavra no parlamento para afirmar que na Alemanha “não se produziu uma revolução. A Inglaterra seguiu-se a França. Nos meses seguintes continuaram a acompanhar o avanço da contra-revolução e a alertar aos democratas honestos dos perigos que estavam por vir. deveria ocorrer poucos dias depois. de fato. Os redatores da Neue Rheinische Zeitung tiveram ordens de prisão expedidas. A repressão foi implacável. trata-se de uma revolução cujas conseqüências imediatas enchem de pavor a todos os burgueses acomodados e especuladores. trata-se de derrocar o poder político da burguesia. progressivamente. a própria idéia da revolução. chefiado por Cavaignac. As regiões ocupadas pelos operários transformaram-se num verdadeiro campo de batalha. onde a Sociedade Democrática. A análise que Marx e Engels fazem do levante nas páginas da Neue Rheinische Zeitung adquire contornos marcadamente classistas. em protesto contra o armistício com a Dinamarca. Essas críticas fizeram com que o jornal perdesse boa parte de seus acionistas logo no primeiro número.43 A senha para a burguesia havia sido dada pela Inglaterra. A Guarda Civil foi dissolvida e todas as . os operários resistiram bravamente.45 Os acontecimentos de junho foram acompanhados atentamente por Marx e Engels.15 européia passo a passo. Mais de 3 mil presos foram executados. Moll. permanece. Inferiorizados numericamente. através do voto. com vigor cada vez maior seus antigos aliados. que viam como um bastião da reação européia. Nas eleições para as assembléias de Berlim e Frankfurt havia sido eleito um número significativo de democratas. constantemente. dentro do ponto de vista do campo democrático. A repressão a uma manifestação cartista no dia 10 de abril deteve o avanço da revolução.) todos os partidos sabem que a luta que é preparada em todos os países civilizados é uma luta completamente diferente e incomparavelmente mais importante do que todas as revoluções anteriores. As críticas à esquerda também são uma constante. Foi a partir de setembro que a política de Marx e Engels começou a sofrer uma inflexão. Uma prosa vigorosa. Ela foi “a primeira grande batalha entre as duas classes em que se divide a sociedade moderna. no terreno definido anteriormente pela Neue Rheinische Zeitung. Somente em 5 de janeiro de 1849 é que aparecerá o primeiro artigo de Marx denunciando a exploração capitalista. desde o primeiro minuto da revolução. denunciou a divisão da Polônia pela Prússia e pela Rússia e agitou. da Guarda Móvel e da Guarda Nacional. o Comitê de Segurança Pública e a Associação Operária convocaram uma manifestação de apoio. As palavras são duras: “pedimos ao partido denominado democrata radical que não confunda o ponto de partida da luta e do movimento revolucionário com o ponto de chegada”. porque tanto em Viena como em Paris. semelhante àquela utilizada para denunciar o massacre de junho em Paris. cujo governo reprimiu duas manifestações semelhantes nos dias 16 de abril e 15 de maio. Hansemmann. houve. desde o primeiro dia às tentativas do governo Camphausen de estabelecer um pacto de governabilidade com a monarquia e as assembléias de Frankfurt e Berlim. conseguiu escapar. As baterias do novo jornal estavam dirigidas. A insurreição de setembro em Frankfurt foi logo sufocada e o governo nomeou o general Pfüel para formar um novo gabinete. o que. erguendo bandeiras com a inscrição “Pão ou morte!”. Os combates duraram quatro dias. É uma crítica levada a cabo.

na medida em que era impossível a vitória dos operários era necessário unir-se aos democratas para impedir a vitória do inimigo comum: a monarquia absolutista. com o título A burguesia e a contra-revolução. Polemizaram com Gottschalk. No dia seguinte o rei da Prússia substituiu Pfüel por um conservador ainda mais enérgico. o conde de Bradenburgo. Marx decidiu então aceitar a proposta da Associação Operária e tornar-se seu presidente provisório. Marx chegava à conclusão de que a revolução que teve início em março de 1848 em Berlim era uma revolução anacrônica. substituído Moll. permitiu à Coroa dissolver rapidamente a assembléia. Caso contrário o conde poderia intervir com suas tropas.16 organizações políticas proibidas. Depois de quase um mês de combates as tropas austríacas e croatas entraram em Viena e levaram a cabo uma sangrenta repressão. que aglutinava várias organizações operárias no sul. a partir de hoje. expressam a nova postura assumida por Marx. Desde o primeiro momento Marx e Engels não duvidaram que Viena seria esmagada. Ao contrário do que defendia Gottschalk. A reunião de Marx com os líderes da Irmandade Operária ocorreu pouco depois do congresso que esta realizou em Heidelberg nos dias 28 e 29 de janeiro. Frederico Guilherme dissolveu a assembléia e outorgou uma constituição feita por encomenda. que um vínculo mais estreito das associações operárias é preferível porque elas estão compostas por elementos mais homogêneos. Suas páginas relatavam a revolução ocorrida em Viena no dia 6. mas 263 deputados permaneceram em Berlim. recém-saído da prisão. Marx e Engels viam um crescimento considerável do movimento operário alemão e da atenção que este dedicava aos problemas políticos. a hostilidade da burguesia para com a revolução e o crescente avanço da contra-revolução levaram Marx e Engels a redesenhar sua tática política. seu filho ilegítimo. entre eles Stephen Born. onde sua influência seria bem menor. Situou-se no terreno revolucionário. Ao mesmo tempo. A Assembléia de Frankfurt não fez outra coisa do que patéticos chamados a que os governos apoiassem Viena. Os 180 deputados que resistiram conclamaram o povo a não pagar mais impostos.49 A constituição outorgada por Frederico Guilherme previa novas eleições. Marx argumentava que. Também a burguesia renunciou à hipocrisia do terreno jurídico. No dia 9. Esta é a razão pela qual nos demitimos. na medida em que o terreno contra-revolucionário é revolucionário ao seu modo”. o conde de Bradenburgo ordenou que a assembléia suspendesse suas sessões e que só as retomasse no dia 27. A falta de iniciativa dos parlamentares e o medo destes de que os trabalhadores interviessem na crise. O jornal só reapareceu no dia 12 de outubro. A direita parlamentar obedeceu candidamente.51 . Consideramos. elegendo 200 dos 344 representantes que participariam da eleição dos deputados. embora já fosse evidente que ela não aceitaria acordo algum. que propunha que a Associação lançasse candidatos próprios. No dia 15. a Neue Rheinische Zeitung publicava uma carta assinada por Marx. No final de janeiro Marx e Engels se reuniram com dirigentes da Irmandade Operária. a idéia de que a burguesia cumpria um papel cada vez mais contrarevolucionário e que os democratas eram incapazes de fazer frente de forma conseqüente à monarquia absolutista adquiria contornos mais nítidos. fundador da irmandade e antigo membro da Liga Comunista. Logo depois da reunião a Associação Operária de Colônia resolveu vincular-se ao Comitê de Leipzig. na cidade homônima. Uma assembléia da Associação ratificou a nomeação. Logo no início advertia: “O terreno que nós pisamos não é o terreno jurídico e sim o terreno da revolução. No dia 5 de dezembro. Os acontecimentos motivaram uma detalhada análise por parte de Marx. que recebeu a incumbência de convocar um congresso de toda a Alemanha para criar uma União Geral dos Operários da Alemanha. Wolff e Becker: Avaliamos que a organização atual das associações democráticas mantém em seu seio elementos por demais heterogêneos para que seja possível uma atividade proveitosa em relação ao objetivo fixado pela causa. Sua vitória era como a luz das estrelas que muito tempo depois de haverem se extinguido chega até à Terra. a Irmandade tinha uma atividade política muito forte. Os artigos que publicou na Neue Rheinische Zeitung. Annecke. O congresso promoveu a unificação da Irmandade. mas já era tarde demais.50 Os democratas obtiveram na Renânia uma vitória esmagadora. A luz da revolução de 1848 “emanava do cadáver de uma sociedade que se encontrava há muito tempo putrefata”. No dia 1 1 de março a Neue Rheinische Zeitung publicou um documento da Associação Operária propondo a todas as organizações operárias da região que estabelecessem ligações entre si para preparar o congresso. Schapper. que fugira para Londres. exigindo que a Assembléia Nacional saísse de Berlim e fosse para a pequena cidade de Bradenburgo. Ela não representava a vitória de uma nova ordem social. A reação imediatamente lançou a palavra-de-ordem “a assembléia a Bradenburgo ou Bradenburgo à assembléia”. sediado em Leipzig. do comitê regional renano das associações. entretanto. que tinha grande influência no norte do país com o Congresso Geral Operário Alemão. A vacilação dos democratas. As possibilidades de acordo com os democratas eram cada vez mais escassas. O giro de Marx e Engels ao jovem movimento operário consolidou-se com a renuncia destes e de seus colaboradores aos postos que ocupavam na Sociedade Democrática da Renânia. as inúteis tentativas das assembléias de Berlim e Frankfurt de fazer um pacto com a Coroa. A organização de Bom adquiriu grande influência entre os operários e fez parte ativamente da insurreição de Frankfurt. Apesar de sua posição nas eleições. tendo participado do congresso dos democratas realizado em Berlim no mês de outubro. As duas organizações formaram um Comitê Central unificado. Marx e Engels defenderam que a Associação Operária apoiasse os candidatos democratas.48 Comparando-a com as revoluções inglesa de 1648 e a francesa de 1789.

I . equivocadamente. E. As jornadas revolucionárias em Paris. Op. vol. Mas são dois momentos diferentes.. La época de Ias revoluciones europeas. “As lutas de classes na França de 1848 a 1850. Bergeron. História do marxismo. 11. Engels.53 Marx. cit. Journal of Central European Affairs. et alli. Alfa-Ômega. Karl. Karl. Alfa-Ômega. In: Hobsbawm. para afirmar que em 1848. Rocca. Uma análise superficial da política de Marx no período e uma leitura mais do que ligeira do Manifesto Comunista levaram muitos autores a estabelecer uma linhagem direta entre a teoria da revolução permanente de Trotski e a política de Marx e Engels na revolução de 1848. 12(4): 521532. J. argumentando que não podia participar oficialmente de um movimento alheio a seu partido. 1983. a Neue Rheinische Zeitung já não se dirige a seus leitores como um “órgão da democracia” e sim como defensora da emancipação do proletariado. São Paulo.” In: Marx. “Discurso pronunciado na Câmara dos Deputados. p. E nem poderia ser diferente. 1988. México. 1848 e 1905. acompanhados de outros nos quais a influência das revoluções burguesas do século anterior é patente.57 Apesar da política de Marx e Engels apresentar traços de uma teoria da revolução permanente. Alvin W. s. p. Como homens de sua época. Bergeron. 280. mas não o suficiente como para que a classe operária — o produto de novas condições de produção — aparecesse como uma força política decisiva”. J. Alexis de. De Ia Liga de los justos al Partido Comunista. Afrontamento. 1981. São Paulo. 14. 305. são apenas esboços intuitivos. Louis et alli. Ele considera possível que depois da revolução burguesa venha a surgir uma revolução proletária.56 A idéia de uma antecipação. Marx e Engels carregaram as tintas ora no caráter democrático da revolução. s. E. No interior desse período. Amsterdã. afirma que Marx e Engels esperavam. A democracia na América. Revolução e contra-revolução na Alemanha. Hamerow. 1973.d. uma transformação da revolução burguesa em revolução socialista. 1961. p. Em seu artigo comemorativo dos 90 anos do Manifesto Comunista. “Los movimentos revolucionários de 1847”. F. 3. Só é possível encontrar em Marx e Engels uma teoria da revolução permanente em sua forma embrionária. da teoria da revolução permanente. 10. Louis et alli. no dia 19 de maio. está presente também naqueles autores que caracterizam as dez reivindicações contidas no final do Manifesto como um programa de transição. Korsh. Tocqueville. 579. Europa: restauración y revolución. Siglo XXI. Obras escolhidas. Theory and society. na discussão do projeto de declaração de voto em resposta ao discurso da coroa”. I. Lembranças de 1848.).” In: Marx. Não apresenta essa teoria de forma acabada. In: Engels. vol. Engels.17 Quando encerrou sua curta e atribulada vida. recusou-se a participar do governo provisório de Baden. São Paulo. NOTAS: 1.52 UMA ERA DE TRANSIÇÃO O desligamento do partido democrático marcou o fim de um período da política revolucionária de Marx e Engels. como Joseph Hansen. por sua vez. onde proclamava a independência de classe e lançava como palavra de ordem de “revolução permanente”. 1977. Karl e Engels. que colocava novos problemas ao mesmo tempo em que deixava velhas questões em aberto. que captavam as transformações sociais e econômicas que recém tinham se iniciado. Jacques.58 Marx não fala da transformação da revolução burguesa em revolução proletária. Alexis de. Gouldner.54 Acreditamos ter demonstrado que a idéia de que a teoria da revolução em Marx e Engels durante as revoluções de 1848 ser apresentada como um todo homogêneo constitui um grande equívoco. ora na impossibilidade do movimento democrático levá-la a bom termo e na constituição do proletariado como uma alternativa política. Trotski contribui para essa confusão. 1815-1848. Mesmo assim.1 5. Esboços que procuravam responder a uma realidade que já não se assemelhava com a da Revolução Francesa de 1789. como afirma Michael Löwy. São Paulo. p. p. o “capitalismo tinha feito progressos de tal monta como para fazer necessária a abolição das velhas condições feudais. Tratava-se de uma era bastarda. Madri. Também não é parte ainda da era das revoluções proletárias. 136. coincidindo com os diferentes momentos vividos pela revolução. “Artisans and intellectuals in the German revolution of 1848”. 34-35. Friedrich. 117. que teve seu apogeu com o 1789 francês. Friedrich. a teoria da revolução de Marx e Engels não poderia apresentar outra forma senão a de elaboração marcada por sucessivas reviravoltas e descontinuidades. 4. Lisboa. 12. 7. 1977. Porto. do seu transcrescimento. vol. A partir daí a independência de classe passou a ser parte integrante do discurso e da prática de ambos. p. p. de 1905. em 27 de janeiro de 1848. 1780-1848.. Avante. c/t. Alvin W. com programas diferentes e sujeitos sociais diferentes. 13. Numa época histórica marcada por tão profundas transformações. Itatiaia. “As lutas de classes na França de 1848 a 1850. ela não vai mais além disso. I. Essas reivindicações. “Aspectos políticos da transição do capitalismo ao socialismo”. Marx. “The german artisan movement”. Marx e Engels trabalharam naqueles anos com uma teoria da revolução que era a imagem do momento vivido. 9. Companhia das letras.. 112. Tocqueville. Marx. Apud Gouldner. In: Idem. conseqüência direta do desenvolvimento do imperialismo e do declínio das forças produtivas. apresenta momentos geniais nos quais os autores do Manifesto parecem vislumbrar as características das futuras revoluções. redigiu a famosa Mensagem do Comitê à Liga dos Comunistas em 1850. Belo Horizonte. 72. Um período caracterizado por um turn over. Trotski. p. Karl. Op. 1991. 1848 não pertence mais à era das revoluções burguesas. Obras escolhidas. Siglo XXI. O momento histórico no qual viviam não permitia nada além disso. México. 319. Edusp. Theodor S. 2. 21: p. Friedrich. em 1848. (org. Hobsbawm. 6. fechada pelas autoridades. 294. por parte de Marx. Paz e Terra. Droz. p. por exemplo. 523. Karl e Engels. p. 8.55 Mas em Resultados e perspectivas. Engels. 1974. . entretanto. mas que ainda não era a da revolução proletária. Marxismo e filosofia. Friedrich. 1987.d. ele estabelece de maneira adequada as diferenças entre as revoluções de 1789. p. Rio de Janeiro.

32. São Paulo. Las revoluciones de 1848. vol. Friedrich. p. Idem. “La burguesia y la contrarrevolución. 57. Engels. Idem. 17. Programa de Transição. Obras escolhidas. “Manifesto Comunista”. p. Marx. Marx. s. Karl e Engels. David. 425. Paris. I .-dez. Obermann. 91. Neue Rheinische Zeitung. 1989. Karl e Engels. “As lutas de classes na França de 1848 a 1850. Trotski. Las revoluciones de 1848. Obras escolhidas. Friedrich. Ruedo Ibérico. Op. Karl e Engels. In: Idem. Karl e Engels. 5 de enero de 1849. 152-168. Siglo XXI. Marx. Vida e pensamento. Friedrich. Karl e Engels. Neue Rheinische Zeitung. Anexo a Obermann. E m meio à luta política contra a teoria do socialismo num só país. 27. cit. p. cit. s.. 48. 74. Las revoluciones de 1848. p.d. David.. t.. Op. 55. 20. n° 187. 23. Friedrich. São Paulo. 18. 56. Karl e Engels. p. p. “A los obreros de Colônia”.d. Ibidem.. 3. 10 de diciembre de 1848. n° 165. A versão de Marx e Engels pode ser encontrada em Engels. Löwy. Engels. Karl. 31. Petrópolis. Leon. Neue Rheinische Zeitung.” In: Hansen. Karl e Engels. Op. 19. Revolução e contra-revolução na Alemanha. 1973. Citado por Engels em “El debate de Berlin sobre Ia revolución”. Idem. vol.. Fernando. Engels. 29. p. F. 1971. cit. s. 15 de diciembre de 1848. cit. 16. “El programa de transición de Trotski: sus origenes y su importância actual.. p. “Alan/festo Comunista”. Op. Informação. Marx. 89. p. “La revolución de junio”. Neue Rheinische Zeitung. 46. Friedrich. n° 169. 161. Karl. 26. n° 7. Notas aclaratorias. Alfa-Ômega. Alfa-Ômega. Alfa-Ômega. “Contribuição à história da Liga dos Comunistas”. Karl Marx. 19-34.. Marx. Karl. vol. “Reivindicaciones del Partido Comunista de Alemania”. 44. Karl. Friedrich. p. 51. São Paulo.3. “Marx e a Nova Gazeta Renana”. 29. p. p. Friedrich. Op. p. 5. 28. Le Mouvement Social. p. Karl e Engels. Revolução e contra-revolução na Alemanha.14. Op. New Left Review. Karl. In: Marx. Pluma. e Claudín. Friedrich. Friedrich. p. 31. É o caso de D. São Paulo. Friedrich. Neue Rheinische Zeitung. McLellan. 185. “Programas del Partido Demócrata-Radical y de la isquierda.. Alfa-Ômega. Leon.d. 165. Trotski. “Neue Reinische Zeitung. Los revoluciones de 1848. 6 1. 43. 21. In: Marx. In: Marx. Fontamara. Leon. 22. Bogotá. México. Idem. Friedrich. en Francfort”. “Notes et variantes”. vol. 63. Brossat. Ibidem. Op. In: Marx. 18. Engels. In: Engels. Friedrich. Friedrich. Neue Rheinische Zeitung. 46. 1982.. Bibliothèque de la Pléiade. p. Fernando. A dissolução da Liga Comunista por Marx é motivo de polêmica entre os historiadores.. Friedrich. faz da “ditadura democrática dos operários e camponeses” defendida por Lenin. Trotski. 136. 160. infinitamente superior às duas sacolas onde o stalinismo carregava toda sua teoria. 47. De La Liga de los justos al Partido Comunista. vol.. como foi chamado por Marx. n° 16.. p.. Las revoluciones de 1848. Alfa-Ômega. p. vol. p. Soius Kommunistov (Liga dos Comunistas). 84. 58. Neue Rheinische Zeitung. p. 30. Idem. Friedrich. Roca. “La insurrección de Francfort”.. p. p. Las revoluciones de 1848. São Paulo. cit. In: Marx. I . 37. “Appel pour Ia fondation de la neue Rheinische Zeitung”. I. Karl e Engels. cit. “Contribuição à história da Liga dos Comunistas”. 41. México. 42. I. Friedrich. 218.. Engels. Ibidem. 83. 50. “La burguesia y Ia contrarrevolución”. p. p. 53. Friedrich. antigo oficial e revolucionário francês que participou das revoluções de 1830 e 1848. Obras Fundamentales de Marx y Engels. vol. cit. 1990. 1973. Karl e Engels. Karl e Engels. 9. Karl. Karl e Engels. Riazanov. p. Michael. p. 37.”. Engels. 33. 34. Engels. Karl e Engels. F.. Op. D. A exceção foi Joachim René Théophille Gaillard de Kersausie. a do desenvolvimento desigual e a do socialismo num só país.. Sobre a relação de Marx e Engels com o jacobinismo ver Löwy. Karl. “A luta de classes na França de 1848 a 1850”.. I. Marx. Gallimard. I. Tais exageros não retiram a validade de sua teoria e seu potencial político e interpretativo. George. 16 de junio de 1848”. São Paulo. Idem. p. Citado por Claudín. 49. Friedrich. Ibidem. p. 142. Marx. Barcelona. 210. Citado por Claudín. 83. p. 190. Ibidem. Selección de artículos de la Nueva Gazeta Renana. Friedrich.. I . cit. cit. Oeuvres. Marx. “Prefácio à edição alemã de 1872 do Manifesto Comunista”. 45. Karl e Engels. vol. Karl. 7 de junio de 1848”. Marx. 1978. p. s. n° 301. Michael. s. Op. 25. é provável que Trotski tenha extrapolado as afirmações de Marx para amparar a teoria da revolução permanente com a autoridade deste. 39. Alfa-Ômega. n° 29. Fernando. Friedrich. In: Marx. p. Marx.. Marx. Karl e Engels. p. I . 40. 1963. out. “Un documento autêntico de Ia burguesia. In: Marx. Joseph. Las revoluciones de 1848. 15. I . Obras escolhidas. vol. 13-14. 14 de abril de 1849. Friedrich. Alain. 213. 1989. et alli. Friedrich. em A revolução permanente.d.. p. In: Marx. p. 55. 1989. Friedrich. Obras escolhidas. México. p. The poetry of the past: Marx and the French Revolution. 38.. 129. 35. 45. 37. p. Karl. 1964. Joseph e Novack. Claudín.. “90 anos del Manifiesto Comunista”. 1979. Ediciones de Cultura Popular. Op. 24.. Michael. Op. Rubel. “Mensagem do comitê central à Liga dos Comunistas”.18 14.. Manifiesto del partido comunista.. Engels y la revolución de 1848. 71. Engels. Vozes.” Op. vol. Maximilien. Las revoluciones de 1848. In: Marx. A organização dos proletários é atribuída a Kersausie. Ver Riazanov. In: Idem. 1978.. In: Marx. Friedrich. Paris. Op. 29 de junio de 1848. Sobre o tema é possível consultar Löwy. Karl e Engels. 1975. 232. vol. vol. p. vol. 47. 19 de mayo de 1849. p. Engels. 2.. 83-92. Fernando. Las revoluciones de 1848. “Man/festo Comunista”. 203.. In: Engels.. 52. Marx. Obras escolhidas. Friedrich e Marx. O mesmo ocorre com a interpretação que Trotski.. 1905. cit... 3. “La campaña alemana en pro de la constitución del Imperio”.. Escritos. McLellan. 13. “Reivindicaciones del Partido Comunista de Alemania”. p. Ver por exemplo Hansen. Friedrich e Marx. Avante. Londres: 177: sept. n° 169. 87-91. p. In: Marx. Karl e Engels. Moscou Misl. Economie I. Lisboa. . Friedrich. In: Idem. cit. vol. 1971. Marx. Karl. Paris. São Paulo. cit p. 13-18. Resultados y perspectivas. 54. p. Op. Las revoluciones de 1848. Madri. 243-246. Obras escolhidas. In: Marx. Idem./ oct..d. Neue Rheinische Zeitung. A agonia mortal do capitalismo e as tarefas da Quarta Internacional. et alli. 46-47.. 36. p. 3. 185. cit. 1582-1583.. 147.. Marx. Las orígenes de la revolución permanente. 15 de diciembre de 1848”. Op. “Princípios básicos do comunismo”. p. Introducción al Programa de Transición. cit. “Aux origenes de la Neue Rheinische Zeitung”.. cit. In: Marx. Siglo XXI. Obras escolhidas. Karl. “La burguesia y la contrarrevolución. p. “Prefácio à edição alemã de 1872 do Manifesto Comunista. “o primeiro grande general das barricadas”. Karl. México. Fondo de Cultura Econômica. Karl.

assim como a Liga dos Proscritos tinha buscado apoio na Sociedade dos Direitos do Homem. atacou a doutrina de Venedey: somente a revolução poderia realizar a igualdade dos homens e só as classes não corrompidas “por uma ciência de ponta-cabeça. russos e . húngaros. a virtude civil e a união do povo. poderiam operá-la. A riqueza dos ricos cresce pari passu com a miséria dos pobres. associação que servia de cobertura à reconstituída Liga dos Justos e como meio de recrutamento. as classes “cujas urgentes necessidades exigem a transformação do nosso Estado de um modo conforme a igualdade”.2 A dissensão interior se personificou nas pessoas dos seus dirigentes. Temos de um lado as recordações de Engels. Marx relacionava-se de preferência com Everbeck.. de outro lado temos a interpretação dada por Riazanov. Os estatutos da liga lhe assinalavam. o genial alfaiate. contra a humanidade. deveria assegurar a igualdade social com a segurança do necessário e a tributação do supérfluo.). a libertação e a regeneração da Alemanha. Na sociedade operária se achavam além de alemães e suíços. Comunista. e dado que os alfaiates alemães estavam bem espalhados pela Suíça. Karl Pfänder e Georg Ecarius.19 O ESPECTRO DO COMUNISMO1 Giulio Pietranera DA LIGA DOS JUSTOS À LIGA DOS COMUNISTAS Até o fim de 1843 Marx se estabelecia em Paris para a nova impressão dos Anais franco-alemães. da Liga dos Proscritos. a Liga dos Justos se transformou de liga alemã em liga internacional. como objetivos. e portanto por cisão. com graus hierárquicos e com incondicional obediência para os superiores.5 Os membros mais enérgicos saíram chefiados por Schuster: esses acentuavam o caráter comunista e proletário e propugnavam uma constituição democrática. No princípio de 1834 o governo francês tinha suprimido uma sociedade popular pública surgida para socorrer a imprensa de oposição da Alemanha meridional. Em Londres. A Liga dos Justos apareceu como uma sociedade de conspiradores. A monarquia porém não está no brasão nem na coroa. pequeno-burguês e radical o segundo. dois antigos livre-docentes: Wilhelm Schuster de Göttingen e Jakob Venedey de Heidelberg.. com suas variedades alemãs”. mas a monarquia. Heinrich Bauer e Wilhelm Weitling de Magdeburgo. A Liga dos Justos surgira em Paris em 1836 para o aprofundamento revolucionário comunista e proletário.7 O próprio Marx escrevia que a doutrina secreta da liga “passou por todas as modificações do socialismo e do comunismo francês e inglês. para estudar o socialismo francês. A história londrina da Liga dos Justos e a sua transformação em Liga dos Comunistas não estão de fato claras. a fundação e a conservação da igualdade e da liberdade política e social. em 12 de maio de 1839. apoiando-se na Sociedade das Estações do Ano. Seguidores de Lamennais. abandonar a França e parar em Londres. aspirante a um “Estado livre” que. no sentido “marxista” o primeiro dos seus escritos surgem elementos que apaixonadamente reúnem os sintomas difusos do futuro Manifesto. enquanto Wilhelm Weitling fazia o mesmo na Suíça. A liga era. cometeriam um delito contra si próprios. o que demonstra a influência que tinha sobre esta as idéias de Blanqui: Karl Schapper e Heinrich Bauer deveriam. não somente de derrubar o monarca. Foi de fato Wilhelm Schuster que no quinto fascículo do Proscrito. formada como as sólidas organizações secretas. a revista mensal que era órgão da liga. que dirigia naqueles anos a comunidade parisiense da Liga dos Justos {Bund der Gerechten) e desse modo o comunismo operário se apresentou a Marx nas vestes daquela liga. todos os povos da terra. também escandinavos. checos. O grosso da liga era formado por alfaiates. nos limites da propriedade privada. reataram os fios da organização e a eles uniu-se Joseph Moll. Eles fundaram em 7 de fevereiro de 1840 a Associação Pública dos Operários Alemães para a Propaganda Cultural. foi então que os refugiados alemães fundaram a sua primeira organização secreta com a Liga dos Proscritos. por outro lado.3 Uma revolução puramente política não tem sentido: o nosso povo. Trata-se. que deveria dividir com Ruge e. foi sustentada pela “sagacidade” dos governantes que expulsavam os operários indesejáveis. nem por uma moral frouxa”. se não aprendessem com o exemplo da malograda república dos Estados Unidos. naquela França que os revolucionários alemães viam então como o princípio político. a Liga dos Justos era fortemente influenciada pelo comunismo cristão primitivo de Weitling. Para melhor conhecer a vida dos círculos operários comunistas. e os transformava em emissários e propagandistas. Como doutrina.8 A Liga dos Justos foi abalada pela derrota da Sociedade das Estações. O progresso da indústria é portanto o retrocesso na felicidade e na cultura humanas. por Mayer e por Grünberg. holandeses. com o crescimento do capital. Segundo Engels. A cisão da Liga dos Proscritos ocorreu ao mesmo tempo em que na Suíça foi suprimida a Jovem Alemanha. sobretudo. esses totalmente secretos. juntos em Londres. antes da ruptura de 1847 (. assim chamado por Marx no Pariser Vorwärts de 1844. por Londres e Paris. está no privilégio. eslavos meridionais.6 Surgiu assim em 1836 a Liga dos Justos que contava entre os seus membros mais distintos Karl Schapper. o alemão era a sua língua típica.9 Schapper e Bauer. e o privilégio de todos os privilégios é a riqueza.4 Em 1835 a Dieta federal prussiana induziu o governo francês a expulsar Schuster e a levar os operários a abandonar Paris. na próxima revolução. como o puro princípio da liberdade humana na Europa. substancialmente exatas segundo as novos dados e documentos acrescentados por Mehring. como observa Engels. A liga. depois de longa prisão.

com o escopo de “aproximar os revolucionários de todas as nacionalidades. Na primavera de 1847.10 No segundo congresso — que durou ao menos dez dias — Marx defendeu a nova teoria e. os mazzinianos e a emigração polaca oficial. Logo denominou-se Círculo Operário-Comunista de Estudos e na carteira dos sócios aparecia o lema “Todos os homens são irmãos” reproduzido em pelo menos 20 línguas. “Esses estavam — assim nos disse — convencidos da absoluta exatidão da nossa concepção. Marx e Engels poderiam assim desenvolver o seu comunismo crítico num manifesto. em 1880. . impedia que a liga se constituísse conscientemente em partido proletário. A liga tinha relações com os revolucionários franceses por meio dos combatentes de 12 de maio de 1839 e com os radicais polacos. Ocorreram assim o primeiro congresso no verão de 1847 e a organização interior da liga. seja porque estes estavam convictos de que a revolução vitoriosa deveria ser européia. expedido depois a Londres para a impressão. Proudhon recusou e Garny — que tinha em 1845 fundado com outros cartistas uma sociedade revolucionária internacional. A necessidade de uma organização propagandística em meio à classe operária alemã. aceitou. os Irmãos Democratas — ainda que cético. do comunismo verdadeiro cristão de Weitling e do “verdadeiro” socialismo alemão. levaram Marx e Engels a aceitar. algumas semanas depois da Revolução de Fevereiro. Sebastian Zeiler. na fraternidade e na justiça. e foi somente Engels que. que seria depois publicado como manifesto da liga. continuaram a desenvolver sua atividade revolucionária na Inglaterra e na Suíça. mas ignoravam totalmente a economia política. das consciências e das convicções teóricas dos membros da liga. representa muito mais um relato didático escrito para influenciar os social-democratas alemães que se achavam. Já em 1843 Schapper tinha proposto a Engels que entrasse na liga. a nova visão. Esta ruptura e o prestígio crescente de Marx e Engels. mas não se pode provar que essa servisse de cobertura à secreta Liga dos Justos e é com essa sociedade. o desenvolvimento dos tempos. surgida como Democratic Friends o f all Nations.20 ingleses. Sabe-se. encontraram de 1845-46 em diante o dever decisivo de suas vidas: fundir os grupos intelectuais e proletários. por isso. Joseph Weydemeyer. foram fixados os novos estatutos sobre bases absolutamente democráticas e. Naqueles anos Marx e Engels atingiram a plena consciência da sua doutrina do materialismo histórico e fizeram a síntese entre socialismo e movimento operário. Moses Hess. que sob iniciativa de Schapper foi organizada a primeira associação internacional. Em 1847 a ruptura de Marx com Weitling acentuou a separação de idéias entre a liga e os campeões do comunismo. não fizeram mais que acelerar a crise interior da própria liga e a impeliu cada vez mais a livrar-se dos resíduos do comunismo igualitário simplista de tipo francês e de origem babeuvista. como da necessidade de eliminar da liga as antigas formas e tradições de conspiração”. mas Engels naturalmente tinha recusado. porque se via nele um teórico comunista que podia se colocar ao lado dos grandes teóricos franceses da época. Em Bruxelas havia sido formado um importante círculo que seguia as doutrinas dos mestres: Wilhelm Wolff. a influência de Weitling era preponderante. Foi o grupo de Bruxelas que constituiu o núcleo de uma nova organização comunista internacional. nos convenceram que toda a história da Liga dos Comunistas até 1848. abandonando Paris. deu seu apoio. idealmente corporativos. superados os pontos controversos e as objeções. Acreditavam firmemente na igualdade. reduzidos à atividade clandestina. Philip Gigot e outros operários.12 A história da Liga dos Justos seria relatada com inexatidão. que Marx e Engels estabeleceram relações mais íntimas e pessoais por ocasião da sua viagem à Inglaterra no verão de 1845. Karl Pfänder. os cartistas não se filiaram à liga por causa do caráter especificamente inglês e não-revolucionário do seu movimento. e foi no esforço de propagar as suas idéias que se encontraram novamente na Liga dos Justos. AS INTERPRETAÇÕES HISTÓRICAS Riazanov coloca radicalmente em dúvida a veracidade de todo o relato de Engels. que dirigia a seção parisiense. Marx e Engels buscaram colocar no grupo Proudhon 13 e os cartistas ingleses mais notórios. como tinham fundido idealmente socialismo e movimento operário. Moll visitou Marx em Bruxelas e Engels em Paris. Os dois que tinham até então forjado nos seus estudos as armas da revolução e atuado principalmente no ambiente da “burguesia intelectual”. os novos princípios foram acolhidos por unanimidade e Marx e Engels encarregados da redação do Manifesto. depois de 1840 é impossível achar qualquer traço de existência da organização. a influência entre os dirigentes de Londres. em uma situação similar àquela dos comunistas alemães do período 1846-1848. um segundo congresso os adotou definitivamente em 8 de dezembro de 1847. Marx e Engels porém continuaram mantendo relações com a liga. Também a sociedade secreta seguiu o exemplo da associação pública internacionalizando-se e o fez seja devido à diversificada nacionalidade dos seus membros. um dos campeões do “verdadeiro” socialismo alemão. de “dois homens infinitamente mais capazes de adquirir noções teóricas”. isto é. convidando-os insistentemente e em nome de todos os companheiros a entrar na liga. Contrariavam-lhe. de reforçar a fraternidade entre os povos e de conquistar os direitos políticos e sociais”. da Turíngia. e o sacrifício teórico e a oferta dos renovados membros da liga. Existia porém a Sociedade Alemã de Estudos fundada por Schapper e companheiros. além disso poderiam reorganizar a associação em novas formas mais adaptadas ao momento. como a lemos nas páginas de Engels. colocou-os em contato com a Liga dos Comunistas. como com os cartistas da Northern Star e especialmente com Garny e Jones. depois de alguma hesitação. e precisamente por seu caráter comunista. de Heilbronn. mais tarde. seja através de Everbeck. em seus estudos que foram concluídos em 1924:11 uma análise crítica detalhada desta introdução (aquela de Engels a Perante os jurados de Colônia) e o confronto dos dados de Engels com os dados fornecidos muito antes por Marx no seu Herr Vogt. e Georg Eccarius. depois que as sessões os discutiram. De positivo só o fato de que os velhos membros da liga. o caráter de artesão dos membros da liga e especialmente o seu caráter de artesãos alemães e. porém. De acordo com Engels. seja através de correspondência.

Foi assim que. por outro lado. que foram os membros mais ardentes. e isto o comprovam as cartas trocadas por Marx e Engels nesse período. exceto se supormos uma verdadeira liga de ação marxista e referirmos a essa a negativa de Proudhon. esses necessitavam e procuravam a integração com o proletariado. e é por isso presumível que essa fosse somente a forma exterior anódina de alguma coisa mais séria. e pelo menos seis meses antes da publicação do Manifesto. aqueles mais “à esquerda”. Lê-se como lema e pela primeira vez. mas isso não resulta do teor das duas cartas. organizados por Marx e Engels. tendo o objetivo de aproximar os revolucionários de todas as nações e portanto. como essa é e como deveria ser (1838). organizados por Karl Grün e pelos cabetianos. a Kommunistische Zeitschrift16 (Revista Comunista). a liga. chefiados por Schuster. provavelmente. onde reuniu os membros mais conhecidos da Sociedade Alemã de Estudos e Garny.20 o nome dos seus membros nos mostra o caráter “intelectual”. uma secreta Liga dos Justos. foi fundada a associação internacional Democratic Friends of all Nations. um artigo que analisa e rejeita o plano de emigração de Cabet. pode-se pensar que Moll os havia realmente convidado para entrar na liga. assumindo o de Jovem Geração. não deveriam ter formado outra? Não estavam assim em concordância no momento do novo exílio? E como pode Engels dar por viva (ainda que escrevendo em 1885). não se pode negar que houvesse na liga uma tradição de comunismo revolucionário. onde se fixou permanentemente a partir de 1841. depois de lutar contra uma forte oposição influenciada pelos proudhonianos.21 A correspondência de Marx/Proudhon não prova nada. apareceu o primeiro número (número de ensaio que não teve seguimento) do primeiro jornal proletário marxista. Todos os artigos são anônimos. Weitling recolhe em Paris os elementos esparsos e em 1840 se transfere à Suíça. compreende ser um progresso que o trabalho manual sucumba diante da grande indústria e vê como esta última cria as reais condições da revolução proletária. De outra parte. Há. não se sabe em quais termos. em 1847. pelas reivindicações do Partido Comunista formuladas pelo comitê central recém-constituído. um ensaio sobre a situação política na Prússia (Engels) e uma resenha político-social devida a Wilhelm Wolf. especialmente com o escrito A humanidade.19 Porque Schapper e Bauer. e isso devia fazer gravitar a liga para os Comitês Comunistas de Correspondência. Todos esses comitês se reuniram em um congresso em Londres. mas não nos parece assim fundamental reduzir o relato engelsiano a pura propaganda. Tudo isso demonstra como provável a orientação da Liga dos Justos para Marx e Engels. Além disso dificilmente se pode ver nos Comitês Comunistas de Correspondência. somente para fins de propaganda. O Grito de Auxílio da Juventude Alemã. Depois da tentativa de revolução de 1839 que.18 A reconstrução crítica de Riazanov revela indubitavelmente muitas lacunas na detalhada história da Liga dos Justos que nos oferece Engels. com a Sociedade das Estações. quando homens tenazes e enérgicos como Schapper e Bauer saíram das prisões francesas e emigraram para um ambiente relativamente favorável como a Inglaterra? A Sociedade Operária de Educação foi fundada realmente por eles e é difícil aceitar que semelhantes homens se contentassem com tão pouco (de fato foi em 1844 que. assim como não conhecemos os longos debates que levaram à aprovação dos estatutos. onde demonstra um claro conhecimento da estrutura econômica da sociedade burguesa. a partir de setembro de 1841 essa teve uma revista mensal. Foi precedido. deveria essa extinguir-se depois de maio de 1839. porém.17 O NASCIMENTO DO MANIFESTO Somente Marx era o responsável pela redação do Manifesto perante o congresso. Não é menos verdade. O segundo congresso se desenvolve em novembro/dezembro de 1847. Wilhelm Weitling tinha se hospedado em Paris em 1835 e era um dos membros da liga parisiense por ele fortemente influenciada.15 A luta no interior do comitê se prolongou depois do primeiro congresso. de publicar um Manifesto do Partido Comunista. Por outro lado. Ali fundou com Simon Schmidt. e tomaram a decisão de reunir-se em uma liga comunista. Engels ficou em Paris para organizar um outro comitê e conseguiu. era preciso vencer oposições utopistas (Cabet) e democrático-burguesas (Heinzen). que em 1836 fundaram a Liga dos Justos. uni-vos!. que mudou o nome. No outono de 1846. Eccarius estava muito avançado no seu comunismo e o demonstrou com o seu estudo sobre os alfaiates de Londres (que leva o subtítulo “Sobre a luta entre o grande e o pequeno capital”). arrasta a Liga dos Justos. de marxismo avant la lettre. A revista inclui um artigo/programa (com toda probabilidade devido a Schapper.14 Um comitê similar surgiu em Londres. a imortal invocação: Proletários de todos os países. pois uma prova indireta a favor da existência da Liga dos Justos. aqueles originariamente alemães da Liga dos Justos).21 A nova organização surgiu como Comitê Comunista de Correspondência. em vez da primitiva Profissão de fé. no pouco caso que fazem das idéias dos membros da liga e em algumas contradições. quando ainda viviam outros anuentes do Manifesto e ex-membros da liga e ainda estava viva a tradição? Precisaria supor um acordo entre esses e Engels. saídos com Weitling da parisiense Liga dos Justos. achamos porém nas relações de Marx e Engels os objetivos didáticos de que fala Riazanov. O Manifesto estava na gráfica quando explodiu em Paris a revolução. contraposta por Marx àquela dos Irmãos Democráticos: “Todos os homens são irmãos”. da qual conhecemos a profissão de fé cujos sócios adquiriam no momento da admissão. Antes de tudo ele resiste às provas negativas: não há nenhuma declaração ou proclamação publicada pela liga de 1840 até sua pretensa transformação em Liga dos Comunistas e nesse terreno não há nada a afirmar. em setembro de 1847. em janeiro de 1842. Foram adotados os novos estatutos depois de longa discussão e se acolheu a proposta de Engels. por iniciativa de Schapper. Proudhon aceita se tomar “um dos . qualquer coisa além de um círculo literário e de difusão de idéias. devido ao pensamento de Schuster que já colocamos apropriadamente aqui em relevo. Elaboraram os estatutos e fixaram para um próximo congresso a apresentação de uma profissão de fé comunista. é verdade que estes últimos não relevaram tais desenvolvimentos e isso se pode ver no seu objetivo didático.

aqui excluída. Schapper — Bauer — Moll. a mim que. insaciavelmente: a riqueza de poucos. porque não é do nosso caráter iludir ninguém. homens de trabalho. (. “um gigante resoluto e enérgico”.. (. Com a riqueza cresce a avidez de lucro. o comitê central pede o reenvio imediato de todos os documentos colocados à disposição de Marx. A Liga dos Justos estava coligada à Jovem Alemanha e ao movimento mazziniano através da pessoa de Karl Schapper de Nassau que participou da expedição de Savóia. em conclusão.. o “uni-vos” pressupõe uma direção autoritária. da arte refinada. concorrência dos capitais.. “um Hércules de estatura média — quantas vez ele e Schapper não defenderam vitoriosamente a porta de uma sala contra centenas de adversários que avançavam impetuosamente!”. irônica. do T. dialética” — (Engels). compositor-tipógrafo e depois professor de línguas em Londres. da Liga dos Comunistas na Liga dos Justos. Parece-nos. Nesta tradução. “Proletários de todos os países. concorrência dos braços produtores. Conheci-os a todos os três em 1843 em Londres. sempre em Londres. Ainda que se possa pensar acerca das origens. p. O “unamo-nos” é democrático. V. selecionamos trechos de sua parte histórica e eliminamos outros em que o autor se reporta a circunstâncias específicas da Itália e do ano de 1948 (pós-Segunda Guerra).. igual aos seus dois companheiros em energia e resolução.. A parte filosófica do texto. N. inserese numa tradição de discussão no interior do pensamento político italiano. relojoeiro de Colônia. Mehring.. todo progresso na indústria. “um verdadeiro homem” (Engels). Tudo pressagia o naufrágio da felicidade pública. Joseph Moll. V. nessa altura. o comitê central endereçava ao comitê regional de Bruxelas. “Proletários de todos os países. 4. Schuster escrevia: “Sim! Declaramos vigorosamente diante de nossos amigos e inimigos: não é nossa intenção contentar-se com uma miserável farsa teatral. NOTAS: 1.. em meio à queda geral. símbolo de todos aqueles que a fria pobreza e a vida dura impediram o seu livre desenvolvimento. e com eles também o salário da força produtiva. No caso em que o cidadão Marx não execute o trabalho.22 destinatários da vossa correspondência”. Em um dos seus últimos artigos no Proscrito. nem freqüentemente”. unamo-nos” — assim estava escrito na Revista Comunista. Este texto foi escrito em 1948 por ocasião do centenário do Manifesto.. reais ou lendárias. Permaneceu inédito por 50 anos. E ainda que em pormenores fosse grande a divergência entre nossas idéias. espirituoso. certamente entendendo: “uni-vos. Não é talvez uma questão bizantina de terminologia. ocorrida 56 anos depois. juntaram-se com os intelectuais de Bruxelas. “revolucionário profissional”. As medidas contra a Liga dos Proscritos não fizeram mais do que reforçar o caráter revolucionário. Uma viva concorrência toma vigor. disseram os comunistas. op. e é assim que. primeiro de fevereiro do ano corrente. p. Em nome e por ordem do comitê central. e superior em engenho” (Engels). Os próprios lemas das duas ligas nos dizem o seu espírito: “todos os homens são irmãos”. pintor de miniaturas. Seu é o fruto da fadiga de outros. alfaiate. não chegar a Londres antes de terça-feira. 85. sua a benção de todos os benefícios e de todos os sacrifícios da união social. avidamente. “uma cabeça firmemente pensante. assinala um regresso na felicidade dos cidadãos e na cultura da humanidade”. Ibid. cit. na falta de documentos específicos.. ainda estava para me tornar um homem (Engels). é um fato que dessa saiu o Manifesto e com essa os proletários. para o bem ou para o mal. O nosso objetivo é: . serão tomadas medidas contra ele. Esta questão de palavras não faz lembrar um pouco aquela célebre. “um diplomata nato. Georg Eccarius da Turíngia. E é pela pena comovida desses intelectuais que podemos recordar aqueles grandes homens novos.) nunca esquecerei a enorme impressão que esses três verdadeiros homens me causaram. uma carta: O comitê central encarrega o comitê regional de Bruxelas de informar o cidadão Marx que se o Manifesto do Partido Comunista. uni-vos”. nova fonte de indigência e miserabilidade. Karl Pfänder de Heilbronn. 82 e ss. “um homenzinho vivo. seu é o gozo da centuplicada operosidade. entre outros comunistas? O fato é que em 26 de janeiro de 1848. eram os primeiros proletários revolucionários que eu via.). espirituosa. “justos” e evoluídos até a doutrina do comunismo. ascende. e Lessner e Lochner. o nosso objetivo vai muito além. 3. 84. nós o proclamamos doravante em alta voz. A História não perdeu por esperar. o capital. não se pode negar veracidade substancial ao relato de Engels. nas condições da nossa sociedade. 0 que Proudhon recusa são os princípios marxistas e portanto outra coisa. Mehring. com mudanças de governo e de constituição. sapateiro da Francônia. na arte. cujo corpo pequeno guardava muita astúcia e decisão”. os preços dos produtos caem. Uma coisa só. que. cit. op. p. E é sempre a sucessiva e diversificada redação do lema da Liga dos Comunistas que nos ilumina sobre o seu caráter absolutamente democrático segundo os estatutos. sendo publicado na Itália em 1998. Assim escrevia Schuster no Proscrito: “Eu digo ampliação (da riqueza dos ricos e da pobreza dos pobres) porque o país se povoa e as sedes da indústria se multiplicam em razão do encurtamento das distâncias e da melhor rapidez das comunicações. para que no futuro todos os homens possam ser irmãos”. diziam os justos. de modo incomensurável. O “unamo-nos” de Schapper foi substituído pelo “uni-vos” do Manifesto. as máquinas surgem para substituir a força humana. Nós os encontramos ao lado dos “doutores da universidade” alemã: Karl Schapper. Heinrich Bauer. acrescentando somente (questão essa de fato independente da aceitação): “Não prometo por isso vos escrever muito. com a avidez de lucro o espírito de invenção. 5. desperto. de que ele foi encarregado de redigir pelo último congresso. Assim o comunismo historicista crítico e tático se separava da sua matriz utopista-democrática. 2.

manter informados os estrangeiros sobre movimentos socialistas que se desenvolveram na Alemanha e informar os alemães na Alemanha sobre o progresso do socialismo na França e na Inglaterra. portanto. 1885.. vol. 16. I. observa Riazanov (op. O preço de venda na Inglaterra era de dois pence e fora fixado a seis kreuzer para a Alemanha e a quatro soldi para a Bélgica e a França. a política do Partido Comunista na medida em que se pode expor diante do público” (vide a nota preliminar de J. existente na sede do 191 Drury Lane. 85). Como é possível. Revelações sobre o processo dos comunistas em Colônia. 23). vol. cit. loc. Contribuirei pouco porque estou sempre ocupado. “História da Liga dos Comunistas”. p. In: Pariser Vorwärts. cit. a tendência comunista proletária vemos somente em Schuster. Riazanov. Introduction historique au Manifeste Communiste. op. o motivo da cisão foi a exigência de obediência incondicional a chefes não conhecidos. é renunciar à forma catequista e tomar como título: Manifesto Comunista. Qual das duas interpretações deveu-se à “tendenciosidade” de Mehring? O que positivimante resulta é a negação de obedecer a chefes desconhecidos. D. p. cit. Engels tinha proposto 25 perguntas. 17. J. Ao contrário. ao meu ver. que Moll tivesse sua oferta de desenvolver o seu comunismo antigo num manifesto. de Bruxelas em 5 de maio de 1846). 86 e ss. porém. F.. K. Marx e Engels escolheram. (trad. O índice do primeiro número trazia: “Introdução e o plano de emigração do cidadão Cabet — a dieta prussiana e o proletariado na Prússia. como da necessidade de tirar a liga das antigas formas e tradições conspiratórias” (vide Rivelazioni. todavia. op. Il signor Vogt. os estatutos da Liga dos Comunistas. Proudhon. 6. op. J. cit. Molitor aos apêndices do Manifesto. p. in: Marx. mas o Círculo Comunista de Paris o reprovou por intervenção de Engels.). Paris. op. 15.. Londres.. se pensamos que a recusa seja mais substancial nos aproximamos de Riazanov. p. 1929) e a resposta na Correspondance de Proudhon. O objetivo fundamental da nossa correspondência será. O próprio Engels renunciou depois ao projeto da Profissão de fé e tinha proposto a Marx o Manifesto Comunista numa carta de 24 de novembro de 1847: “. 20. 10. e isto acentua o caráter comunista e proletário. Vide a carta de Marx a Proudhon em apêndice às Confessions d‟un révolutionnaire (in Oeuvres completes de P. N. cit.“Organizei uma correspondência regular com os comunistas e socialistas alemães... para publicar como manifesto da liga. p. Já Moses Hess tinha publicado uma espécie da catecismo comunista em 21 e 28 de dezembro no Vorwärts de Paris. sobre o título Kommunistische Zaltschrift. K. Segundo Mehring (op. Em O senhor Vogt. a qual se ocupará seja da discussão de questões científicas. Engels. Riazanov. desenvolvimento da oposição entre proletariado e burguesia. característica de sociedades secretas.. vol. K... 16. “Introdução”. A revista leva de fato a indicação “Probeblatt”. 19. cit. talvez recordando da Revolução Francesa (Comitês de Correspondência Jacobinos) ou das antigas sociedades revolucionárias inglesas que foram assim em grande parte até o fim do século XVIII. 14. sobre este está a invocação: Proletarier aller Länder vereinigt Euch!. estabelecer a ligação dos socialistas alemães com os socialistas franceses e ingleses. o próprio Mehring afirma que a cisão deveu-se realmente ao fato de que os membros proletários da liga tinham melhor “compreendido os próprios interesses”. crises e conseqüências. o que deveríamos fazer de melhor. que respondeu a sete das perguntas feitas pela federação. do T. naquela forma adotada isso não convém. o nome de Comitê Comunista de Correspondência (Kommunistisches Korrespondenz Komitee).23 radical emancipação social e política das classes operárias” (in: Mehring. As correspondências deviam ser enviadas a um Bildungsverein für Arbeiter. na introdução de Friedrich Engels. Rivière. o próprio Hess retomou o projeto e o catecismo. desvalorizando completamente a Liga dos Justos que não nomeia. Tratava-se de um catecismo comunista. 11. 21. como na Alemanha em geral — os imigrantes alemães — resenha política e social”. R J. 12. 7. Assim.. anteposta à obra de Marx. 121). Mehring. seja — enfim — da propaganda socialista que é possível desenvolver na Alemanha com este meio. 13. Misturo a tudo isso muitas coisas secundárias e. 18. op. Começo com a pergunta: o que é o comunismo? Depois passo ao proletariado: origens. Cf. High Holborn. cit. J. o que o diferencia da antiga classe trabalhadora. 198-202. p. p. Molitor. 1844. I. 102). p. para a sua organização. Revelações. seja de fornecer um panorama crítico dos escritos populares. Certamente o nome é revolucionariamente significativo. Marx. D. se se falou depois longamente de uma profissão de fé e a idéia do Manifesto foi apresentada pelo próprio Engels? . mais do que democrático da liga. Editado por Molitor. coleção Ciccotti. op. Este é o passo que o movimento social deve dar na sua forma de expressão literária para libertar-se da limitação nacional” (Carta de Marx a Proudhon. Vide: Marx. cit. sob outro nome”. A interpretação da carta de Proudhon é de grande importância para a controvérsia entre os sustentadores da tradição de Engels ou da reconstituição de Riazanov. Se a se considera como uma resposta a uma oferta de Marx para participar de um grupo literário de correspondência (Mehring) tem-se um motivo para acolher o relato de Engels. 87 ss. por último. “Em todo caso não se tratava de um simples comitê de literatura e de edição”.. 1853. cit. De particular interesse são todos os pontos dessas reivindicações difundidas por meio de panfletos durante a Revolução Alemã (vide introdução citada de Engels a Revelações..: “A Liga dos Comunistas foi criada em Paris em 1836. II.. v. 9.. como Corresponding Societies. Engels refere-se às palavras de Moll: “estavam (os membros da liga) convencidos da exatidão absoluta da nossa concepção. como seremos obrigados a recontar mais ou menos a História. 8.

Elogiando a bravura heróica. Engels observava que a Revolução de Junho era a primeira que dividia verdadeiramente a sociedade em dois grandes campos inimigos representados pela Paris-Leste e Paris-Oeste. uma seqüência de modos de produção. O objetivo dela é abolir o modo de apropriação vigente. Engels nota que. Marx termina a brilhante análise do período compreendido entre fevereiro e junho de 1848 com uma mensagem dialética de esperança acerca da importância política do sangue derramado pelos insurretos de junho. de muitos modos. quando a burguesia industrial recebeu o apoio dos operários: as barricadas tomavam conta dos bairros populares onde as bandeiras vermelhas eram entusiasticamente desfraldadas. a disciplina e a habilidade militar dos operários. pois se encontrava na Alemanha. com aquelas partes da própria burguesia cujos interesses se tornaram contrários ao progresso da indústria”. pois. Na mesma passagem do Manifesto. organizar o proletariado. num raciocínio dialético. Temos aí retratados os acontecimentos políticos franceses de 1830 e. como fora o feudalismo. Mas sua vulnerabilidade essencial consiste no fato de haver produzido a classe trabalhadora moderna.24 O MANIFESTO EM 1848 E HOJE Paula Beiguelman O Manifesto Comunista foi escrito numa conjuntura de efervescência social. passaram a entrar em contradição com as relações feudais de propriedade. presente no sistema capitalista e nos que o antecederam. só assim pode ser eliminada. que faz parte da obra As lutas de classes na França. com a correlata luta de classes. Operada a ruptura. o proletariado. premonitoriamente. Marx e Engels plantavam o alicerce do socialismo científico. em outras palavras. torná-lo classe dirigente. uma época de longo refluxo revolucionário. As últimas palavras desse estudo. como a de superprodução. O texto luminoso contém uma indagação fundamental: como se estabeleceu o domínio da burguesia. instauram-se o capitalismo e a sociedade burguesa. De início com a aristocracia. lê-se. que corresponde a instauração do sistema econômico capitalista? Em resposta a essa questão é construída. Ocorrem. derrubar a hegemonia burguesa. a fim de realizar a ruptura radical com as relações tradicionais. a arrastá-lo para a arena política. porém. abre o processo do desaparecimento dos antagonismos de classe — e das classes em geral. exponencialmente representadas nas crises comerciais cíclicas. O sistema capitalista é portanto vulnerável. Só assim a exploração de uma parte da sociedade por outra. Impõe-se. Foi assim que. uma vez no poder. cujos 150 anos estão sendo celebrados em todo o mundo. por isso. mais tarde. as forças produtivas já desenvolvidas dentro do próprio sistema econômico no qual se baseava a sociedade feudal. que ganhava visibilidade política. com a correspondente apropriação dos instrumentos de produção e a liquidação das relações de produção vigentes. a propriedade privada burguesa. violentamente reprimida. Contudo iniciava-se. surgirá uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um será a condição do livre desenvolvimento de todos”. são: “E nós bradamos: A revolução está morta! Viva a revolução!” E voltemos ao Manifesto Comunista. mas de elaborar uma teoria estreitamente vinculada à concomitante ação proletária. A própria burguesia. que ao mesmo tempo que se liberam as potencialidades produtivas do novo modo de produção. Nem a derrota desanima. no esplêndido estilo dos seus autores. a burguesia passa a fustigar o proletariado até levá-lo à insurreição de junho do mesmo ano de 1848. A esse respeito lê-se no Manifesto. a conquista revolucionária do poder pelo proletariado. Ou seja. operar a conquista do poder político pelo proletariado. o curso do desenvolvimento do proletariado. quando parte da riqueza produzida é periodicamente destruída. depois do seu desenvolvimento. com ativa participação do proletariado. o triunfo certamente seria alcançado quando a massa inteira dos operários agisse em uníssono e com coesão. Com o Manifesto. dá ao proletariado os seus elementos de educação geral e política. cada um deles. a pedir o seu auxílio. se apesar de serem 40 mil lutando contra um inimigo quatro vezes mais numeroso só por um triz não conquistaram a vitória. os de 1848. vêm à tona as contradições a ele inerentes. Por isso. O proletariado se educava — e reivindicava. Não se tratava apenas de conclamar à luta. engendrando o subseqüente. cobrindo os acontecimentos de junho para o periódico que fundara com Marx e escrevendo quase na própria ocasião em que ocorriam os combates de rua. A burguesia está envolvida numa batalha permanente. informando-se com base nos despachos das agências de notícias. em benefício da imensa maioria. fornece ao proletariado as armas com que este há de combatê-la. Engels. em continuação: Em todas essas batalhas a burguesia vê-se obrigada a apelar para o proletariado. única classe realmente revolucionária. num certo momento. pois a Revolução de Fevereiro na França ainda estava por acontecer quando o Manifesto era redigido e começava a ser impresso. No Manifesto lê-se: “Os conflitos entre classes da velha sociedade apressam. como é sabido. “Em lugar da velha sociedade burguesa. . escrevendo em 1850. Assim ocorreu realmente em fevereiro de 1848 na França. Mesmo assim. com suas classes e seu antagonismo de classes.

monumental. A nova ordem. em oportunidade de vibrante convocação à luta. como a nossa Vale do Rio Doce. no exercício de uma ingerência espantosa que só um governo títere ou consular pode admitir.) Para finalizar. a confirmação sobre a natureza das contradições que minam o sistema.25 A tarefa de formular a teoria do sistema capitalista. Paulo. 17/4/1998. a abertura predatória plena dos nossos mercados nacionais. reduzindo-se inclusive a produção de alimentos. contraposta à progressiva concentração dos meios de produção num número cada vez menor de mãos privadas. por meio das chamadas privatizações. A ordem é proceder à predatória desregulamentação da economia. dentro da investida contra os Estados nacionais e sua soberania. dentro da frenética busca de competitividade. {O Estado de S. como certamente ocorrerá. o Acordo Multilateral de Investimentos. Por esse acordo. aspectos apresentados no Manifesto em linhas gerais e em síntese. que retira qualquer vestígio de freio às atividades do capital. do Alasca à Patagônia. Que a celebração dos 150 anos do Manifesto se constitua. Com esse trabalho gigantesco. e com ela a certeza de ter a História a seu favor. que aprofunda em detalhe e com rigor. Paulo lê-se uma notícia cujo título é o seguinte: “Gasto com Saúde desagrada ao FMI”. já colocou em pauta. sob os auspícios da Organização Mundial do Comércio (OMC). é uma aceleração do processo de concentração e contração da economia. sejam elas de crianças ou de idosos. 2) Desregulamentação liberal — suprimir qualquer defesa ou proteção. e também à desregulamentação das relações no trabalho. por exemplo. no presente. nacional ou social. associada a uma anexação econômica semelhante à que vitimou o México pelo Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte). a fundamental diz respeito à socialização do trabalho. no caso brasileiro (como em outros) se traduz em visitas freqüentes para inspecionar o Plano Econômico. no jornal O Estado de S. sem barreiras. um mercado. a fim de tentar escapar do declínio inevitável. genocida: há que diminuir o número de bocas a serem assistidas. Não podemos esquecer de mencionar o monitoramento estreito do Fundo Monetário Internacional que. em detrimento dos respectivos povos e em benefício das corporações e do capital especulativo. ou seja. ou de pessoas de qualquer idade! Genocida e delinqüente no sentido estrito. Estaríamos gastando demais. O resultado. O neoliberalismo e a globalização — pois é disso que falamos — constituem a resposta do sistema ao profundo aguçamento da crise característica da atual etapa do capitalismo monopolista. Marx a realizou n‟O Capital. associado a um brutal desemprego das massas trabalhadoras. observe-se ainda: que. Em conseqüência. o proletariado ganhava. para a apropriação espúria e escusa de ativos reais importantes. o sistema. a “flexibilização” suprimindo-se direitos historicamente conquistados. ou melhor dizendo. . através de uma demonstração irrefutável. Dessas contradições. o avanço tecnológico se associa à retratação da economia. paralelamente se processa a corrida do capital financeiro. qualquer que seja a importância estratégica do setor. É por isso que. o capitalismo se tornou malthusiano. pelos vínculos extensos com o narcotráfico — mais uma face da barbárie instaurada. É o caso da pretendida Alca (Área de Livre Comércio das Américas) um mercado único. A propósito. à qual dedicaria sua vida. na marcha para a implantação plena do neoliberalismo e da globalização. caso seja implementado. o esmagamento total das economias nacionais. intensificar-se-á. Os slogans atuais para a abertura completa ao imperialismo são: 1) Um mundo. como dissemos.

prólogo de rupturas que iriam estender-se a quase toda Europa. o neoliberalismo ortodoxo foi erigido em catecismo do capital. O objetivo era perverso: forjar um imaginário abismo entre Marx e os marxistas do fim do século XX. A partir de 1973. Como a lógica do sistema gerava um desemprego elevadíssimo — 20 milhões atualmente. para sobreviver a grande crise de 1923/30 iria reformar-se contra sua própria lógica aparente. . Foi essa a primeira metamorfose do sistema. A própria palavra Manifesto foi tema de debate. de Lenin a Fidel. inspirada nas teses de lorde Keynes. Mas não estabeleceu um calendário. não fixou datas. paradoxal. parece. só na União Européia — a poderosa máquina difusora do pensamento único promoveu no mundo uma gigantesca campanha de perversão ideológica. onde quer que encontrou resistências. como árbitro ativo. contrapor o Manifesto às lutas atuais pela colimação dos seus ideais revolucionários. terem também comemorado os 150 anos do Manifesto com suplementos especiais e páginas inteiras. e por economistas da Escola de Chicago. a estabilidade do emprego. o 13° e o 14° salários. na França o liberalismo tradicional do laissez faire. sendo uma necessidade. E cumpriram a tarefa. do Collége de France. Marx e Engels foram incumbidos em 1847 pela Liga dos Comunistas — uma associação secreta alemã que depois se tornou internacional — de redigir um programa simultaneamente teórico e prático — um guia para a ação revolucionária na Europa. as lutas sociais no mundo industrializado atenuaram-se com as grandes conquistas realizadas pelos trabalhadores. Em poucos anos assistiu-se a uma concentração brutal do capital nas mãos de uma minoria cada vez mais rica enquanto a situação dos assalariados se degradava e a percentagem de pobres aumentava de maneira alarmante. mesmo após a desintegração da União Soviética e a reimplantação ali do capitalismo — esse fantasma continua a assustar os responsáveis pelo desgoverno do mundo. a quantos se mantêm fiéis ao projeto comunista.. de riqueza. Cabe recordar que o texto foi impresso na Inglaterra pouco antes da Revolução de Fevereiro de 1848 na França. A sacralização do mercado foi acompanhada pela política de privatizações selvagens. agora. associando intelectuais. quebrando-as. em meios de comunicação que. Temos a prova desse medo no fato. Margaret Thatcher foi pioneira do Estado Mínimo embora a expressão tivesse sido popularizada por Reagan. Obviamente. foi o complemento natural e indispensável da estratégia neoliberal. vigilantes. Entretanto. os grandes da mídia. controlados pelo capital. assistiu-se a um endurecimento brutal nas relações entre o capital e o trabalho. LA Todos os poderes da velha Europa se aliaram para uma caçada a esse espectro. O Manifesto Comunista expôs uma lúcida visão da História e trouxe a milhões de revolucionários ensinamentos muito valiosos. O Manifesto limitou-se a prever que o capitalismo seguiria a sua marcha trituradora até desaparecer. Em tempo brevíssimo. à casa própria. Na maior parte dos casos não se tratou de homenagens sinceras. A ofensiva. As causas dos grandes movimentos revolucionários do século XIX não desapareceram. homens de negócios. na Inglaterra. um trabalho constante foi empreendido. o fantasma.. de um pouco por todo o mundo. laissez passer foi arquivado como obsoleto e o Estado capitalista passou a intervir maciçamente na economia.” Transcorridos 150 anos. ou seja. Dos países industrializados passou ao Terceiro Mundo e. tomaram-se de repente a bíblia dos neoliberais. Não é correto afirmar que o capitalismo não evoluiu de acordo com as previsões do Manifesto. A crise do petróleo ao provocar uma revisão estratégica. Mas nos Estados Unidos. Os mecanismos de exploração mantiveram-se. desencadeou nova metamorfose do capitalismo. Na Europa e nos Estados Unidos o acesso ao automóvel. o comunismo. se impuseram como tendo legitimidade para dar força de evidência a uma visão neoliberal que no essencial veste de racionalização econômica os pressupostos mais clássicos do pensamento conservador de todos os tempos e todos os países.26 O MANIFESTO COMUNISTA E O MUNDO DE HOJE Miguel Urbano Rodrigues Anda um espectro pela Europa. o espectro do comunismo. As teses ultra-liberais do austríaco Friedrich Hayek que haviam permanecido engavetadas desde a publicação de seu livro O caminho da servidão. opor Marx aos seus continuadores. Mas Marx e Engels não podiam evidentemente prever que após a Revolução Russa de outubro de 1917 o capitalismo. paralela e simultânea contra o chamado Estado de bem-estar social desencadeada em escala mundial. o FMI e o Banco Mundial. o Manifesto Comunista não poderia dar resposta a situações que se produziram no desenvolvimento da História. seu discípulo aplicado. intervieram no seu estilo. Este não pretendia ser um exercício de futurologia. aos benefícios da previdência (escassos nos Estados Unidos) criaram a ilusão de que o capitalismo reformado se humanizava. pouco a pouco. Conforme salientou Pierre Bourdieu. A ofensiva adquiriu proporções mundiais. as palavras de abertura do Manifesto Comunista conservam atualidade num contexto histórico muito diferente. mais distante. Assumiu o papel que antes lhe era negado como fonte criadora de emprego. aos eletrodomésticos. jornalistas. Nos anos dourados do capitalismo — como lhes chama Eric Hobsbawm — as décadas de 50 e 60. Sob certos aspectos o mundo tomou-se mais cruel do que era então. Os analistas burgueses do Manifesto que hoje pretendem atribuir-lhe objetivos que ele jamais teve demonstram que nada entendem de marxismo. o que por si só confere atualidade aos ideais comunistas proclamados no Manifesto. mas a revolução.

Sugere-se que o Estado é vocacionalmente inimigo do homem moderno e que o mercado sem controle algum responde às aspirações mais espontâneas e nobres do homem. é associada a idéia de tirania. Ao primeiro. labirinto sem centro. não dispomos ainda de um estudo tão rigoroso. com a máquina digital e robótica? De que maneira a introdução das novas tecnologias no processo de trabalho afeta as relações técnicas e sociais de produção. o conceito de mais-valia. A sociedade informacional gerou uma globalização imperial incompatível com a globalização humanista que responde à vocação do homem. o mercado. Foram formuladas pela chilena Marta Harnecker num livro fascinante que acaba de publicar em Havana: Haciendo posible lo imposible — La izquierda en el umbral del Siglo XXI Porventura. A erradicação do comunismo e a implantação do consumismo foram. O mundo — repito — mudou efetivamente muito. sobretudo nos países industrializados. criou-se uma situação aberrante que inverte os papéis. ampliado e realizado da maneira mais dramática. como operação. aparecem mascaradas de progressistas. se formos capazes de abstrair daquilo a que nos possa conduzir a interpretação dos fatos concretos que temos perante nós. se dedica a romper o seu próprio céu”. com o mercado a colocar-se acima dos Estados permite que o capitalismo. As nossas dificuldades principiam quando entramos no debate em torno da alternativa. numa conferência internacional sobre ecologia e espiritualidade emitiu o seguinte desabafo: Este sistema de vida que se oferece como paraíso. Obviamente que o mundo mudou e as classes sociais não são hoje. ao segundo. Marx lembra-nos que o motor da História desde tempos remotos foi sempre a luta de classes. Os opositores são fustigados como gente arcaica. Entretanto.27 Perante o controle quase absoluto do sistema mediático pelo grande capital. fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza. Enunciou uma verdade. Conforme nos lembra o cubano Armando Hart. Como se modifica. O roubo manteve-se. pergunto. Penso que todos estamos de acordo com as belas metáforas de Galeano e sua conclusão. esteja já a assumir aspectos antropofágicos. numa evolução inquietante. conceito central da análise criativa do capitalismo em Marx. Marx partiu de um conhecimento científico da Revolução Industrial para a formulação das suas análises e conclusões. quando procuramos respostas à velha pergunta de Lenin: que fazer? É aqui que entra Marx. o companheiro de Fidel que foi ministro da Cultura do seu país. a da democracia. isto é. que a sociedade capitalista está pondo em crise as relações de produção criadas pelo próprio sistema. abrangente e lúcido como o de Marx sobre a sociedade industrial para compreendermos a nossa época. o processamento e a transmissão da informação se convertem em fontes fundamentais da produtividade e do poder devido às novas condições tecnológicas surgidas neste período histórico? A resposta é negativa. que devemos recordá-lo e meditar sobre o Manifesto e os seus ensinamentos. Não vamos baixar os braços pelo fato de o capitalismo na sua mais perigosa versão — a neoliberal — ter alcançado uma vitória temporal que erigiu os Estados Unidos em polícia do mundo. profundamente reacionárias. Análises que considerem essas questões são hoje fundamentais porque uma sociedade alternativa não brota magicamente do espaço. o crescimento com o desenvolvimento e o grandote com a grandeza. por exemplo. se o fizermos sem preconceitos. Porventura conhecemos minimamente o funcionamento daquilo que o sociólogo espanhol Manuel Castells chama a sociedade informacional. . ao extremo de que. Aquilo que divide hoje os espíritos progressistas em todo o mundo não é a rejeição do pensamento único. defensora da irracionalidade. o Estado. as que ele tão bem soube analisar e retratar. terá de surgir das potencialidades emergentes daquela em que vivemos no final do milênio. ou seja a forma novíssima e específica de organização social em que a geração. Eduardo Galeano. enquanto o mundo. Nem vamos confundir a Revolução de Outubro com os erros e perversões que contribuíram para a trágica destruição da União Soviética. Acredito que o instrumental científico de Marx será de enorme utilidade nessa tarefa. o capitalismo prosseguiu a sua marcha sórdida para se apoderar do valor criado pelo trabalho humano que continuou a ser subtraído aos trabalhadores. Ao relermos o Manifesto Comunista hoje. Responsabilizar o marxismo pelo fracasso do socialismo na União Soviética é uma atitude tão pouco inteligente como a daqueles que responsabilizam a receita quando o pudim se queima no forno. mas endosso-as integralmente. confirmaremos. nos está envenenando a alma e nos está a deixar sem mundo. E conclui: “a civilização que confunde o relógio com o tempo. mas o doente está a morrer. Não dispomos sequer de uma análise global que nos habilite a compreender o capitalismo da revolução eletrônico-informática. O projeto neoliberal é apresentado como humanista e renovador e as suas teses. também confunde a natureza com a paisagem. é aquele que está aniquilando o corpo. verificamos que ele não só elaborou a melhor descrição da sociedade do seu tempo como nos deixou um legado que conserva atualidade. muitíssimo mais complexa do que a dos meados do século XIX. as relações de distribuição e consumo? Que modificações sofreram tanto o proletariado como a burguesia numa era em que o conhecimento passa a representar um elemento fundamental das forças produtivas? Para onde caminha a atual globalização e quais as suas conseqüências? Quais os elementos que podem constituir uma base objetiva potencial para a transformação deste modo de produção? Estas perguntas não são minhas. temos respostas satisfatórias para as conseqüências a curto prazo do funcionamento de um mercado sacralizado onde somente o jogo especulativo do dinheiro no mercado de divisas representa 50 vezes o valor do comércio mundial? Porventura temos alguma idéia sobre a maneira de parar engrenagens financeiras como as que mergulharam alguns países da Ásia Oriental numa crise cujos efeitos já começaram a afetar o conjunto da humanidade? A subalternização da produção e o agigantamento da especulação. um êxito.

Temos de criar tudo a partir de uma situação extremamente desfavorável. sobretudo naqueles países em que a esquerda tem grandes tradições de luta como França. Ora os dogmas são a antítese do pensamento científico criador. O marxismo não é estático. Essa tarefa primordial e prioritária foi durante muitos anos subalternizada pelos intelectuais revolucionários. Estou convicto de que o conhecimento das nossas mazelas e insuficiências e o debate sobre as mesmas contribui para a melhora do nosso trabalho e a elevação do nível da luta contra o grande inimigo.. egoísmo. é sempre a transformação do impossível em possível. já dizia Lenin. Marx aponta-nos o caminho no Manifesto Comunista. Não temos programa. o capitalismo neoliberal e a política imperial da potência que se apresenta como seu porta-voz — uma política que pela sua ambição. Penso ser dramaticamente urgente a revalorização da teoria.. Isso não acontece apenas hoje. Um dia sairemos do atual pântano neoliberal em que o Estado que menos respeita os direitos humanos. nomeadamente no que se refere ao papel dos militares na política e a questões conceituais sobre o Estado e a democracia. Julgo oportuno sublinhar que o imperialismo tem dedicado ao marxismo uma atenção que quase nos tem passado despercebida. Na Europa estão para ser dados os primeiros passos nesse sentido. sempre foi assim. A intensidade e a profundidade do debate sobre a globalização imperial — creio que a expressão foi cunhada por Fidel — e as conseqüências dramáticas da irracionalidade de um mercado sem controle confirmam que tanto na Europa como na América Latina a mobilização para lutas de novo tipo é acompanhada de uma conscientização sobre a importância da teoria. Felizmente está a ocorrer uma reação salutar. Portugal. entre muitas. O Manifesto Comunista encerra. breviário de uma estratégia que tantos males causou na América Latina. Grécia e Espanha. Sem teoria revolucionária. se exibe como protetor da humanidade por ele desprezada e agredida como guardião do mercado. são esclarecedores do emprego da metodologia marxista por analistas da Casa Branca e do Pentágono. Se fosse — como alguns admitiram após a morte de Lenin e sobretudo na época de Brejnev — não seria uma ciência. Parágrafos do Documento de Santa Fé. não há revolução. A própria idéia da revolução aparece como impossibilidade quase absoluta quando não estão criadas as condições mínimas que levam mais tarde a grandes rupturas que mudam o rumo da História.28 É melancólico reconhecê-lo. mas não chegamos sequer a uma globalização das nossas lutas contra as conseqüências das estratégias neoliberais. Itália. Não sou pessimista. o desafio eterno que os homens enfrentam para mudar a História. Mas pode-se dizer que o processo ainda vai no adro. não temos teoria. . uma lição esquecida: lembra-nos que o grande desafio. A ciência da História — e quero enfatizar que Marx foi também um grande historiador — entrou em crise na União Soviética precisamente porque pretenderam oficializá-la. quando se organizam coletivamente. desprezo pelos direitos dos povos e falta de ética nas relações internacionais só encontra precedente na que o Terceiro Reich desenvolveu.

ou seja. contida no Manifesto. É quase impossível lê-lo sem que se sinta impelido a tomar partido: a força do texto reside no impacto que causa ao oferecer uma explicação global da História e uma crítica radical do capitalismo. tanto é verdade que o momento era de grande agitação revolucionária na Europa. a construção de uma humanidade reconciliada consigo mesma. A esperança de que o proletariado completaria o ciclo revolucionário desencadeado em 1789. apenas dúvidas. no lugar das certezas que tínhamos há dez anos. Mas em 1848 não era assim. estava presente no pensamento de Marx e de Engels quando escreveram o belo e memorável texto. Sobre o futuro. eis a resposta: o Manifesto do Partido Comunista. aliadas aos fenômenos da exclusão. surgido novas formas de exploração. o escrito político individual mais influente desde a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Ao tempo em que o Manifesto foi redigido havia a expectativa da eclosão de movimentos anticapitalistas. de tal forma que. induz a uma práxis não se constituindo. muito mais válida hoje do que no final do século XIX. A inserção de Marx e de Engels nessas lutas e polêmicas teóricas. marginalidade. o Estado socialista. Porque tinha muito a ver uma coisa com a outra”. que relata: “Eu lia muito a Bíblia e pensei: esse Marx deve ter sido um amigo de Jesus Cristo. pode parecer absurdo que haja atualidade numa obra que comemora 150 anos. o colapso da União Soviética. A lógica interna da desigualdade. derrotando a burguesia. o ressurgimento dos nacionalismos. ao comemorarmos os seus 150 anos. desenraizamento cultural de milhões de pessoas no mundo.5 Depoimentos como esses demonstram que a crítica radical ao capitalismo. É que o advento da chamada “sociedade informática” trouxe consigo a falsa idéia de que só valem as informações do momento presente e isso provocou uma mudança drástica na forma de encarar o passado. 3) O caráter visionário do Manifesto. o Estado capitalista. Que eles fossem irmãos ou parentes. assim expressou-se o frei Leonardo Boff sobre os três pontos que o impactaram na primeira leitura: 1) A força da perspectiva dos oprimidos e também a beleza retórica e denunciatória dessa perspectiva. a mensagem de igualdade permanece em pauta. os riscos ecológicos e a “dissolução de valores estáveis”. só o proletariado é uma classe verdadeiramente revolucionária”. como todo texto clássico.4 A mensagem de igualdade também não passou despercebida pelo líder do Movimento dos Sem-Terra. o historiador Eric Hobsbawm afirmou que ele “é. levaram-nos à compreensão de que o proletariado crescia e de que seria a verdadeira e única força revolucionária capaz de liquidar o “comitê executivo” da burguesia. na enorme velocidade com que as informações são veiculadas. encontramo-nos mergulhados em profunda crise. isto é. A idéia expressa no Manifesto de uma sociedade burguesa destruindo todos os velhos valores tradicionais parece. exortaram o proletariado à sua organização como classe para si. a apresentação de um caminho para essa reconciliação final. redigido em fevereiro de 1848. e a “primeira fase da revolução operária” deveria consistir na “elevação do proletariado a classe dominante. para ele era necessário também a sua transformação. Essas coisas vinham à minha cabeça. quase com certeza e de longe. Entretanto. expondo a sua essência fundamental. A propósito. a conquista da democracia”. Em primeiro lugar. isto já estava expresso na famosa tese sobre Feuerbach com a reivindicação de Marx de uma atitude dos homens que fosse além da mera interpretação do mundo. exploração desenfreada e dominação unilateral que Marx e Engels analisaram em 1848 atingiu o ápice neste final de século. ao mesmo tempo. não tendo desaparecido o objeto de análise de Marx e Engels — o modo de produção capitalista — e tendo. ele ganhou o estatuto de valor perene: é um patrimônio vivo do pensamento político que resiste ao passar do tempo. entre outros aspectos. por isso. tanto que o Manifesto Comunista nos fala não apenas de uma revolução específica mas anuncia a emergência de um período revolucionário. portanto. somada aos seus estudos sobre o capitalismo. pobreza. Aliás. segundo palavras de Hobsbawm. colocam-nos em face de um cenário incerto. A perda de referência histórica é um dos fenômenos de nossa época. em seus aspectos gerais. num materialismo contemplativo. uma sociedade secreta revolucionária . como resgate da vida do trabalhador. que é o socialismo como maneira de construir o comunismo para todos. A reação imediata de quem o lê pela primeira vez é indagar-se sobre o que fazer para mudar o mundo. A propósito. da dignidade das atividades ligadas à produção e reprodução da vida. a pergunta sobre a atualidade de um texto escrito há 150 anos pode soar como questão ociosa.29 O MANIFESTO COMUNISTA: UM PANFLETO ATUAL Marisa Bittar Amarílio Ferreira Júnior No momento em que vivemos o triunfo do efêmero e da aparência e os efeitos da revolução técnico-científica que se manifestam. 2) A ética. aliás. Época prenhe de sonhos.3 Para a concretização de tal fim. para a maioria das pessoas. Aliás. enfatizando a importância da educação política como elemento mediador da prática revolucionária. para instaurar a radicalidade democrática. Por isso. ao abordar o “sesquicentenário da publicação deste pequeno panfleto”. a dignidade ética da revolução. da Revolução Francesa”. por se tratar de um manifesto. O fim do desemprego cíclico. utopias e ações políticas de uma classe operária que ensaiava as primeiras iniciativas contra o poder burguês já em fase de consolidação. Lembremo-nos de que o documento havia sido encomendado “ao cidadão Marx” em novembro de 1847 pela Liga dos Comunistas. com a natureza.2 afirmaram eles. José Rainha. o apelo à ação política pesa fortemente e esse é um dos seus encantos. é mais atual do que nunca. “De todas as classes que hoje em dia se opõem à burguesia. ele é a expressão de uma época otimista. Ele apresenta um sonho.1 Em segundo lugar.

a análise que nos cabe fazer passa pela constatação de que. Num excerto extraído das Teorias sobre a mais-valia. forças para um “novo assalto ao poder das classes dirigentes” e foram forçados “a limitar-se a uma luta pela conquista de espaços políticos”. Ora. que criou um Estado mais complexo.9 O que ocorreu foi o fato de que as contradições presentes no capitalismo ao tempo de Marx e Engels não levaram o sistema à morte. que nunca desistiu de fazer do “governo moderno” um “comitê para gerir” os seus próprios “negócios”.11 De fato. então. polemizando com Ricardo. “forjou as armas que lhe trarão a morte e produziu os homens que empunharão essas armas — o proletariado (. Leon Trotski. que morrera em 1883.. proliferando entre o proletariado e a burguesia. O proletariado não cresceu nem se pauperizou na proporção prevista pelos autores. num processo incessante de substituição do . A propósito. a onda de revoluções eclodiu. Assim. deparamo-nos com um panorama diverso do previsto para o século da Revolução Industrial. a contar de então. no Prefácio à edição inglesa de 1888.12 Assim. da superestimação da maturidade revolucionária do proletariado”8. Talvez no Prefácio a que nos referimos. de um lado. Engels quisesse chamar a atenção para o papel não realizado pela classe operária ao lembrar que “para o triunfo decisivo das idéias formuladas pelo Manifesto. ela mantém as mais primitivas. Isso sem falar do desemprego que joga nas ruas milhões de trabalhadores em todo o mundo. o que alguns economistas já estão chamando de “novo capitalismo”. tomar-se-iam “medidas contra ele”. com isso. sua força cresce e ele adquire maior consciência dela”. apesar do termo. Entretanto. então. todas as relações sociais”. ao lado das formas mais avançadas de produção. os operários não reuniam.7 Em 1937. as relações de produção. temos hoje trabalhadores amedrontados pelo desemprego e talvez com menor “força” e “consciência” política do que imaginaram Marx e Engels. como os acontecimentos indicavam a explosão revolucionária. é essa: onde estão os seus “coveiros”? Dito de outra forma: quem são os atores sociais que “empunharão as armas” contra o domínio do poder burguês globalizado? Esses atores. o sistema ainda dá sinais de força: hoje a fusão de megaempresas estrangeiras anuncia. Tal fenômeno apenas confirma a interpretação contida no Manifesto segundo a qual “a burguesia não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de produção. cuja relevância no curso do capitalismo já havia sido notada por ele. devido às profundas e rápidas transformações do modo de produção capitalista. constata “o aparecimento de grupos instáveis e camadas de difícil definição. que nada mais é do que o reinado do capital financeiro. mas de pouca expressão. onde o Manifesto Comunista teve mais influência.10 Todavia. Depois. principalmente se levarmos em consideração o crescimento do setor terciário da economia. Essas mudanças. cresceram e tiveram aumentada a sua inserção no cenário político de nossa época. ao homenagear os 90 anos do Manifesto e analisar os seus pontos problemáticos. Hoje. inclusive. Todavia. sem que se concretizasse o sonho socialista de “assalto ao poder” que colocaria fim ao Estado burguês. o sentimento dos comunistas era de urgência: eles chegaram a enviar uma advertência impaciente a Marx. da subestimação das possibilidades posteriores do capitalismo e. observou que o economista inglês se esquecia de que “o aumento constante das classes médias — que estão entre os operários. e os capitalistas e latifundiários. de outro — se assenta.. concluiu que “o erro de Marx e Engels a respeito dos prazos históricos decorria. de um lado. Para ele. o qual deveria resultar da unidade da ação e da discussão”. como se previa. que repercutem na sociedade e influenciam a vida política e cultural”. assumindo funções novas e papéis múltiplos. em 1850. É o caso das classes médias urbanas. estão ainda em formação. o proletariado não apenas se multiplica. podemos dizer que estamos à procura dos “coveiros” que sepultarão o capitalismo. de outro. os dois autores reconheceram que a perspectiva da continuação do processo revolucionário estava inviabilizada pela retomada da prosperidade industrial. e. já existentes à época de Marx. em Bruxelas. comprime-se em massas cada vez maiores. observando que a partir da derrota da insurreição parisiense de 1848 — a primeira grande batalha entre o proletariado e a burguesia — as aspirações sociais e políticas do operariado europeu passaram para “um segundo plano”. novas camadas sociais emergiram. A questão sobre a qual é necessário nos debruçar.14 A chamada “globalização”. intitulada “Burgueses e proletários”. Alguns entendem que as fronteiras nacionais parecem estar se dissolvendo à medida que as mercadorias e informações se movem livremente.30 fundada por artífices alemães em Paris. é tal que. está mostrando a capacidade da burguesia no sentido apontado pelo Manifesto. a par de haver causado a redução quantitativa do proletariado. que escreveram: “Com o desenvolvimento da indústria. como a exploração do trabalho infantil e o trabalho escravo em várias partes do mundo. é contra as imensas maiorias e se faz em benefício de mais concentração de riquezas. Outras. A burguesia. por conseguinte. E. uni-vos!. na Alemanha. comunicando que se o Manifesto não chegasse a Londres antes do dia 1o de fevereiro de 1848. ao analisar o fenômeno. Marx dependia unicamente do desenvolvimento intelectual da classe operária. Em vez da união de operários em fábricas. a revolução de 1848 era de cunho democrático-burguesa. com todo o seu peso sobre a base trabalhadora e aumenta a segurança social e o poder dos 10 mil de cima”. A “globalização”. Leandro Konder. a presença dessas classes é cada vez maior. a burguesia não arregimentou “os homens que manejarão as armas” que desferirão o golpe mortal no capitalismo. escreveram Marx e Engels. 150 anos após a conclamação veemente expressa na palavra de ordem Proletários de todo o mundo. Eles também previram que as contradições fundamentais do modo de produção capitalista levariam a uma simplificação dos antagonismos de classe a dois pólos: burguesia e proletariado. Mas tal não aconteceu por conta do desenvolvimento do capitalismo no século XX.) a burguesia produz seus próprios coveiros: seu declínio e a vitória do proletariado são inevitáveis”.6 Mas a liga não precisou ser tão drástica: no prazo previsto a tarefa destinada aos dois jovens comunistas estava realizada. a despeito das crises mundiais do capitalismo.13 eis o final profético da primeira parte do Manifesto Comunista. Engels voltou ao tema. O poder da burguesia. já sem o parceiro Marx. na obra As lutas de classe na França. Mesmo porque.

a dos partidos social-democratas da época de Marx e Engels. In: Idem. Friedrich.31 trabalho vivo pelo trabalho mecânico. contudo. p. Mais!. “Introdução”. t. no sentido preconizado por Marx e Engels. Teorias sobre a mais-valia. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo. Osvaldo (Org. quando a classe operária era o centro das manifestações anti-capitalistas. Folha de S. O que verificamos hoje.16 NOTAS: 1. . “Carta a C. Paulo. Osvaldo (Org. 1/2/98. 9. p. Ática. 114. em decorrência da derrocada do chamado “socialismo real”. Edição “Avante!” — Moscou. p. São Paulo. São Paulo. um guia de estudo. Mais!. 7. ibidem. Hobsbawm. na expressão de um partido que o dirigisse à revolução socialista. 1982. p. por outros protagonistas sociais que não são produtos genuínos da sociedade urbano-industrial. Engels. 76. “Prefácio à edição inglesa de 1888”. São Paulo. 1989. In: Idem. Manifesto Comunista. coloca em relevo os milhões de despossuídos que hoje ocupam o cenário político. 12. Obras escolhidas. Mais!. inconformado com o uso vulgar e não-dialético que a nova geração de marxistas vinha dando ao materialismo histórico. Friedrich. 14. Aquelas estruturas de classes. paulatinamente. Sobre história. Konder. p. fundadas no antagonismo. p.). Ibidem. além de novas formas de organização e manifestação políticas diferentes daquelas previstas no Manifesto Comunista. t. O processo social de substituição do proletariado fabril por outros tipos de protagonistas do largo espectro dos explorados ainda não está totalmente definido. 456. Karl. In: Coggiola. Nos anos 90 o capitalismo brasileiro produziu uma radicalidade da manifestação desse fenômeno. São Paulo. Manifesto Comunista. é o declínio dos históricos partidos comunistas cuja matriz residia no marxismo da Segunda Internacional. Karl. Ibidem. cit. a centralidade da questão da terra para a conquista de uma verdadeira democracia. 13. 4.). 11. 2. Paulo. diferentemente das décadas de 70 e 80. tais como os sem-terra no Brasil e os zapatistas no México. 16. Op. p. Eric J.). Trotski. Friedrich. deram lugar a novos atores sociais que estabeleceram um outro tipo de organização societária sem. em termos da validade e do alcance dos pressupostos marxistas para a contemporaneidade. 1983. “O dia em que eu li o Manifesto”. Marx. O dilema hoje vivido pelas esquerdas tem origem nas profundas transformações que as atuais relações capitalistas de produção foram capazes de engendrar na estrutura de classes. Engels. Lisboa: Edição “Avante!” & Moscou: Edições Progresso. Boff. Ibidem. Florestan (Org. “90 anos do Manifesto Comunista”. Boitempo Editorial. Com isso queremos dizer que não é o apego a dogmas que dará a resposta para os difíceis desafios que ora enfrentamos nas lutas sociais destinadas à construção de uma sociedade “na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”. p. Schmidt. 15. São Paulo. p. A classe operária fabril está sendo forçada a deixar o palco da luta de classes ser ocupado. 10. Edições Progresso.). Manifesto Comunista. 109. “O que será do marxismo no século XXI?”. 164. 8. Ocorrerá o mesmo entre burgueses e proletários? A solidez de “burgueses e proletários” se “desmanchará no ar” no processo revolucionário que dará passagem à próxima formação social? Este hipotético desfecho para a luta de classes entre burgueses e proletários guarda simetria com a própria concepção de História formulada por Marx e Engels. Boitempo Editorial. 6. Companhia das Letras. 1/2/98. São Paulo. 75. p. Friedrich. Folha de S. e não um guindaste de construção a hegelianismo”. pôr fim à lógica histórica da luta de classes. ou seja. acima de tudo. “O dia em que eu li o Manifesto”. 1998. Obras escolhidas. Leandro. p. provocou o surgimento de novos grupos e camadas sociais. Engels. p. 5 de agosto de 1890”. 1998. Engels. Rainha Jr. Marx. 1998. In: Fernandes. a pergunta que se coloca é: quem será o seu sucedâneo e quanto tempo será necessário para a sua gestação? Essa pergunta conduz a uma reflexão de igual magnitude e complexidade histórica. Manifesto do Partido Comunista. Os modos de produção escravista e feudal foram superados sem que houvesse um vencedor na luta de classes entre escravos/senhores e servos/nobres. Folha de S. São Paulo. José. Coggiola. 09. Osvaldo (Org. 125. 294. Friedrich. no entanto. Paulo. São Paulo. Osvaldo. I. Leon. 5. 1998. do tipo daquela que se inaugurou com a Revolução Industrial do século XIX. p.15 Assim. No caso brasileiro. centrada na necessidade constante de uma “análise concreta da situação concreta”. p. Engels. 5/4/92. In: Coggiola. que se autodenominava “o segundo violino”. 117. Marx-Engels: história. 124.. 1982. 5. Boitempo Editorial. Marx. Leonardo. 490. advertia: “Nossa concepção de História é. 3. 4. Aqui reside o seu nó górdio.. Karl. I. lembramos que o próprio Engels. 116. p. Assistimos atualmente a complexa e contraditória manifestação social dos explorados num conjunto muito variado de organizações político-culturais. In: Coggiola. Lisboa. Difel. Se os “coveiros da burguesia” não são mais pura e simplesmente os operários fabris. A perspectiva apontada ali estava em consonância com a expectativa do crescimento e da pauperização do proletariado e da sua necessidade de organizar-se enquanto classe para si. p. Marx. 4. Karl.

Enquanto que no outro caso. o método não deve ser objeto de uma análise que o destaque e autonomize. Por isso. Encontram-se aí algumas de suas idéias mais conhecidas. numa relação que os exclui reciprocamente mas os reúne. o caráter de sua luta. que Marx cuidadosamente distinga. ao caracterizar a sociedade burguesa. como afirma o Manifesto. empregando o primeiro. ou a definição da luta de classes como o motor da História. estrategicamente situado no ponto de inflexão entre as reflexões de juventude e a obra de maturidade de Marx. “cria capital. pois à expressão “luta de classes” corresponde a “oposição de classes”. Por isso. que se constitui como “produto” da indústria. pois. mas para salvar-se da proletarização. convertese numa simples diferença. resultante da transformação contínua das outras classes nessas duas. a variedade dos grupos que nelas conviviam. Elas se excluem. porém. contudo. o trabalho cria propriedade para outro. E isso não apenas por seu conteúdo. em que a negação ainda conserva o outro como referência do que foi ultrapassado. que antecipa em muitos aspectos a dialética de O Capital. colocando os dois termos como diferentes um para o outro. discutindo seu método e. Aqui a diferença é estabelecida pela relação. Inseparavelmente ligado ao seu conteúdo. esta segunda parte do Manifesto utiliza “suprimir” para caracterizar a incompreensão dos objetivos . apesar de breve. por fim. eles mesmos. especialmente da proletarização sofrida pela antiga pequena burguesia. portanto. sendo desta também excluído. evidentemente.32 O MANIFESTO COMUNISTA: MÉTODO DO PROGRAMA E PROGRAMA DO MÉTODO Jorge Grespan No prefácio da edição de 1872 do Manifesto Comunista. é o modo lúcido e sucinto com que nele são apresentadas as principais teses da concepção materialista da História de Marx e Engels. anuncia algumas das preocupações centrais da futura “crítica da economia política”. Trata-se de uma diferença que apenas nega. da relação de trabalho industrial. Examinemos mais detalhadamente. É justamente essa distinção crucial da sociedade burguesa que. sendo dele excluído. a aspectos específicos de seu conteúdo. pretendo concentrar-me aqui na análise desse “documento”. em que uma classe está diante da outra. ressalta-se o enfrentamento. nesse sentido. a explicação do desenvolvimento histórico pela tensão entre as forças produtivas e as relações de produção. que os proletariza. sem dúvida. o texto descreve o processo de “simplificação” que nela ocorre como uma cisão cada vez mais profunda do todo social em apenas duas classes. ao contrário do verbo “superar”. Precisamente isso. o assalariado é despojado da propriedade dos meios de produção. Referiam-se. já à primeira vista.3 Segue-se a ela uma enumeração dessas classes que. Proponho-me aqui. para descrever o processo de supressão da propriedade do pequeno-burguês e do pequeno agricultor pelo capital industrial. a fazer uma reconstituição dessas relações conceituais do texto. transformando a diversidade de classes típica das sociedades pré-capitalistas na oposição burguesa de duas classes. Com isso. Daí o texto conservar sempre. Mais adiante.4 Aqui o crucial é como se define a diferença: as classes médias — pequenos artesão. ele pode ser considerado como um programa da teoria desenvolvida por Marx a seguir. é extremamente reveladora de como seus autores definiam tal luta. Do mesmo modo. Num caso. como sabemos. que elas não querem integrá-lo diretamente e desaparecer nele. sendo a mera exclusão a definição de sua diferença para com a burguesia. seus objetivos e caráter. como acabamos de ver.1 devido ao desenvolvimento histórico do capitalismo e do movimento operário. comerciantes e agricultores — também lutam contra a burguesia. pela exposição geral do materialismo histórico que ele realiza. permite a Marx e Engels o julgamento do projeto revolucionário das outras classes: elas “surgem e sucumbem com a grande indústria. o proletariado é seu próprio produto”. O que mais chama a atenção na leitura do Manifesto Comunista. opondo-se mutuamente. a diferença nega mas também define afirmativamente. a propriedade que explora o trabalho assalariado”. transformando sua posição social externa à relação industrial em uma posição determinada por essa relação. beneficiando-se ou não da acumulação de riquezas e da expansão do mercado geradas pela indústria. pois é a relação entre os conceitos que aí define e desdobra as significações mais complexas e instigantes. que não determina o que é o outro termo. o caráter de um “documento histórico” ao qual não seria mais o caso de “acrescentar alguma coisa”. De fato. É distinto o caso do proletariado. ao apresentar o projeto revolucionário em forma de polêmica contra objeções burguesas. portanto. O Manifesto inicia com uma das proposições mais conhecidas e importantes do materialismo histórico: “a história de toda a sociedade até hoje é a história das lutas de classes”. Essas classes se relacionam a ele talvez só indiretamente. Marx e Engels afirmam. na terceira parte do Manifesto. os verbos “suprimir” (abschaffen) e “superar” (aufheben). o trabalho do proletário não cria propriedade para ele. ou seja. burguesia e proletariado. enfrentando-se. evidencia que elas são estranhas ao processo industrial. mas não ao conjunto de idéias por eles expostas. que se determina enquanto classe pela relação de trabalho com o capital. O tecido amplamente diferenciado de outras sociedades. além de um programa político. uma leitura do Manifesto Comunista atenta somente ao conteúdo de suas proposições seria unilateral e empobrecedora. para evitar sua eliminação enquanto classe pela grande indústria. na segunda parte do Manifesto. que seu texto já naquela altura havia “envelhecido [veraltet] em alguns pontos”. à recíproca negação de uma classe pela outra.5 Em primeiro lugar. e isso ocorre porque. ao mesmo tempo. o que desse modo é dito. ou seja. como a determinação da vida intelectual e cultural pela base econômica. É esse processo de despojamento que define a diferença entre burgueses e trabalhadores assalariados e que atua também para proletarizar as classes médias. porém. por exemplo. tentando avaliar até que ponto elas preparam a forma de apresentação da obra posterior. mas também por seu método.2 Aceitando essa sugestão. a diferença se constitui por uma negação que simplesmente exclui ou suprime a classe social em questão. o Manifesto sintetiza os resultados alcançados até 1848 e. ainda segundo seus autores. É sintomático.

como dirá Marx posteriormente em O Capital. em verdadeiro escravo. Os aspectos qualitativos que distinguem os homens e suas relações se reduzem todos a valor de troca. o trabalho converte-se em instrumento do capital. a modificação constante das condições que garantem esse domínio. o raciocínio de seus autores é coerente com a lógica da oposição. Ou melhor.11 Aqui é possível perceber.. em que os adversários contra quem Marx e Engels polemizam pensam que os comunistas querem “suprimir” relações sociais e instituições burguesas. cada termo é o que o outro não é. o trabalho assalariado é “produto” da indústria.7 Ou ainda. Nesse todo. Opera-se. pois só o trabalho se inclui como parte do capital. e “superar” como a forma correta de expressar suas metas. dessa maneira. É assim que tendem a desaparecer os vínculos sociais típicos do feudalismo e da ordem aristocrática. quando de fato o verbo “superar” é geralmente o mais adequado para compreender o seu projeto. convertendo-o em miserável. o Manifesto deve referir-se a classes e agentes sociais. como pensam os burgueses. respondida por Marx e Engels já com a mera troca de palavra para “superação”: o programa revolucionário não pretende simplesmente “suprimir” a propriedade privada. pois na medida em que a inclusão é assimétrica. no entanto. É a oposição. faz com que ele possa ser empregado pelo capital. o trabalho é incluído como parte do capital. de forma que a hegemonia burguesa teria. Deve ser mencionada como exemplo a objeção burguesa à “supressão” da propriedade privada. “reduzido a dignidade pessoal a valor de troca”. de universalização e de concentração do capital. por outro lado. outra das mais famosas e controvertidas afirmações do Manifesto: o progresso da indústria. que compõe a totalidade da qual o trabalho é apenas uma parte. O progresso da indústria repousa. Com a instituição do mercado. como qualquer outro artigo de comércio”. ao invés de também melhorar a vida do trabalhador. objeto de “cálculo” e de “pagamento”. por outro lado. numa palavra. como um todo constituído por “trabalho acumulado” e “trabalho vivo”. Todas as relações tenazmente enrijecidas. presididas pelo “interesse nu” e pelo “cálculo egoísta”. admitem ser a burguesia “o portador [ou representante — Träger] involuntário e incapaz de reação do progresso industrial”. evidentemente. Assim. Todo o estamental e estancado se esfuma. um todo formado por capital constante e capital variável. mas negativamente — o trabalho é a nãopropriedade e a propriedade é o não-trabalho. o eterno movimento e a incerteza distingue a época burguesa de todas as anteriores. possui no Manifesto um significado ainda mais rico e preciso.10 A necessidade. porque ao trabalhador despojado da propriedade de meios de produção. Controlando a capacidade de medir-se.8 Ao ser comprado “como qualquer artigo de comércio”. novamente nas palavras de Marx. imposta pela concorrência intercapitalista. com seu cortejo de imagens e concepções consagradas. O conceito de oposição. É suficientemente conhecida de todos nós a dialética materialista entre relações de produção e forças produtivas. com isso. pelo mercado. a burguesia descobre que não há necessidade da violência feudal. todo o sagrado é profanado[. na simultânea inclusão e exclusão do trabalho assalariado pelo capital. também de outras relações sociais resistentes à lógica do capital. uma mudança no tipo de raciocínio. o capital não encontra limites externos para sua tendência a expandir-se e a revolucionar os meios e técnicas da produção. o desenvolvimento das forças produtivas. Todas as diferenças qualitativas — da cultura e do direito — mais uma vez se dissolvem e reduzem à quantidade mensurável. Em primeiro lugar. e que até a expansão militar se torna secundária. Marx e Engels chegam a prever a gradativa pauperização do proletariado. as ligações afetivas e permeadas pela hierarquia do mérito e da honra desaparecem. isto é. possível porque todas as barreiras sociais e nacionais são “superadas” pela força do valor de troca.33 comunistas por seus adversários. porém. o capital”12 e. Em outras palavras. a algo homogêneo e mensurável em dinheiro. se ele é por um lado excluído da propriedade dos meios de produção. transformando-se em relações de “pagamento”. excluído de seus frutos. por seu turno.13 É o capital e não a burguesia. mas “superá-la”. apresentando sempre a burguesia como o oponente dos comunistas. portanto. por ser comprado por este no mercado. assim definida. A exclusão é recíproca. diante .. alcançam-se as condições para uma autonomização dessas relações face a seus agentes. A dignidade. De acordo com uma das citações anteriores. da coerção ao trabalho pela força. num movimento dialético que define a oposição entre os dois termos: eles se definem um pelo outro. Por esse raciocínio. todas as recém-formadas envelhecem antes de ossificar. Alguns dos parágrafos mais interessantes do Manifesto tratam justamente desse processo de acumulação do capital e de mundialização dos mercados. como vimos antes. que caracteriza a relação de produção burguesa de modo a permitir a contínua e exclusiva apropriação de riquezas pelos proprietários dos meios de produção. mas a inclusão é assimétrica. portanto. ou. O que me interessa destacar. isto é. assim. são dissolvidas. sendo. E com a instituição do mercado como o lugar social exclusivo em que se realiza a mensuração. e não é o que o outro é. que tem o sentido de permitir a medida. e o é. cujo custo varia de acordo com a idade ou o sexo”. de seu progresso. excluindo-o. substituídos pela racionalidade do mercado. pois a propriedade comunista terá na forma privada uma referência negativa a partir da qual ela mesma se constituirá. de modo a ser “uma mercadoria. contudo. Mas seus autores mesmos dizem “a burguesia. em outro trecho. de aperfeiçoar sempre os meios e métodos de produção leva a permanentes alterações das formas de organização e. em “meio” para a finalidade de “incrementar” seus lucros. O capital não é um meio para a melhoria da vida do proletário. uma verdadeira transformação da qualidade em quantidade. O mesmo procedimento é adotado nas outras objeções hipotéticas. Daí a oscilação de todo o texto em contrapor ao proletariado ora a burguesia. ao contrário. conforme outra passagem: “não há senão instrumentos de trabalho.]. são as considerações de Marx e Engels sobre o processo de expansão. faria com que ela piorasse ainda mais. Nas palavras do Manifesto: a revolução contínua da produção. só o trabalho é meio para o incremento do capital. incluído em sua órbita. só resta vender sua energia laboriosa para o burguês.6 justamente isso. impulsionando. a comoção ininterrupta de todas as condições sociais. ora o capital. “na sociedade burguesa o trabalho vivo é apenas um meio para incrementar o trabalho acumulado”. Também aqui tudo se apresenta dialeticamente. dispensando-se uma repetição. a inclusão do trabalho no capital depende da exclusão do trabalho pelo capital. E o capital se configura. porque a permanência do domínio de classe burguês pressupõe seu oposto.9 Deixando de lado a controvérsia sobre esse tema. Por ser um programa político.

portanto. como contradição. Como dizem os autores do Manifesto: “na sociedade burguesa o trabalho vivo é apenas um meio para aumentar o trabalho acumulado. a superprodução é definida como excesso de forças produtivas.16 O excesso surge porque as quantidades produzidas extravasam sua medida. Marx inaugura uma nova acepção para o burguês. entretanto. só formalmente a sociedade civil universaliza seus direitos e condições. ele é excluído. de valorizar sempre o valor existente.21 Nessa inversão do meio e da finalidade. substancial. constrangendo-as a introduzir a chamada Civilização. a sociedade burguesa é forçada a destruir o que está em excesso. o que se amplia é sua oposição ao capital. Outra saída é a retomada da expansão. O sentido da luta do proletariado. vista sob a ótica da oposição no começo deste texto. enriquecer. que passa a ser também o proprietário. sujeito de direitos políticos. por outro lado. comparado por Marx e Engels a uma “súbita barbárie”. demasiado comércio”. “suprimindo” forças produtivas. apenas do ponto de vista formal. que é precisamente a referência para se caracterizar o excesso. o proletariado só encontra emprego “enquanto seu trabalho acrescenta o capital”. remodeladas à sua imagem e semelhança. em que as diferenças se dissolveriam na homogeneidade do valor de troca. E já no Manifesto. seus próprios coveiros”. já claramente explicadas no Manifesto como resultado da superprodução.14 Mediante a constante transformação da qualidade em quantidade. caracterizadas já pelo Manifesto como “periódicas”. numa contradição clara com a finalidade do capital. a fazerem-se burgueses”. preocupados nesse momento com a elaboração do materialismo histórico. No argumento de Marx e Engels. Por outro lado. Revela-se. portanto. ele é uma tendência inerente ao capital que. entretanto. com a qual todas as Muralhas da China são derrubadas. é tirado de sob os pés da burguesia a própria base sobre a qual ela produz e se apropria do produto. negando a si próprio. em outro trecho. Tal expansão do capital só é possível pela reprodução crescente das condições de despojamento do proletariado. significa em geral cidadão. que nesse modo de produção a inclusão se determina dialeticamente através da exclusão. Se o trabalho é formalmente apenas uma parte da totalidade composta pelo capital. assim. E fica clara a proposição do Manifesto: “com o desenvolvimento da grande indústria. porém. sendo essas. o capital está. Isso acontece porque o trabalho está incluído no capital. porque o trabalhador vende seu trabalho ao burguês numa relação jurídica. idéia fundamental no desenvolvimento posterior da obra econômica de Marx. do valor. “crises mais violentas e multilaterais. pois estes dependem da exclusão da propriedade. excluindo a si de si próprio. como a solução prática para a crise não consegue eliminar a oposição constitutiva da sociedade burguesa. demasiados meios de vida. A crise é a nãocorrespondência entre as forças produtivas e as relações de produção. É preciso lembrar. ao excluir de si o que ele mesmo inclui.19 Ou ainda. ocorre um incremento das forças produtivas para além das potencialidades inerentes às relações de produção burguesas. como prossegue o texto anterior: “obriga todas as nações. está presente a idéia central de que é a expansão e concentração do capital que permite a expansão e unificação do movimento de reação contra ele. Esse estado. A desmedida se determina porque divergem e se opõem o mensurado — as forças produtivas — e o mensurador — as relações de produção.18 A inclusão do trabalho no capital se dá. com a conquista de novos mercados. Porém. demasiada indústria. Em toda a descrição do fortalecimento da luta do proletariado contra a burguesia. Ou. é a situação em que a qualidade não mais expressa a quantidade: é a desmedida. a medida daquelas. A burguesia produz. se universaliza. o capital se acumula e expande pelo mundo.15 A burguesia. A universalidade do capital corresponde à expansão também do despojamento sobre o qual ele se baseia. Devido a esse caráter dialético de sua força expansiva. Antecipando a versão refinada de O Capital. na grande identidade burguesa. Bürger (burguês). nesse ponto. enquanto trabalho acumulado nos meios de produção. o trabalho acumulado é apenas um meio para ampliar. ou. Se as condições burguesas são adotadas no mundo inteiro. mais do que de mercadorias: nestes momentos “a sociedade possui demasiada civilização. da inflexão semântica. contraria a ordem necessária para a acumulação de capital e ameaça sua própria existência. na formulação precisa que Marx adotará mais tarde. e diminui os meios de evitá-las”. ao negar o que simultaneamente afirma. cria um mundo para si. de sua exclusão da propriedade e dos direitos civis que ela traz consigo. por outro lado ele é que integra em si o todo real. promover o processo de vida do trabalhador”. é só uma parte. o capital exclui do consumo de seus produtos uma grande parte da população mundial. Dessa maneira.34 da força do capital: “os preços baixos de suas mercadorias são a artilharia pesada.17 Em outras palavras. com a qual se obriga mesmo a xenofobia mais teimosa dos bárbaros à capitulação”. é o aspecto quantitativo da expansão das forças produtivas que se refere ao aspecto qualitativo das relações sociais de produção. o capital entra em oposição a si mesmo. a superprodução não é apenas de mercadorias que não se consegue vender. de que o capital. Na sociedade comunista. como. É o final do longo processo de inclusão. Para superar suas crises. nem por isso se universalizam. é o de tornar-se efetivamente o que ele é apenas de modo ainda potencial: a verdadeira totalidade da produção social. a nova etapa de expansão se realiza através de uma inclusão ainda determinada pela exclusão. “a condição do capital é o trabalho assalariado”. isto é. então. ampliando suas bases junto com as desse último. Esse final aparente esconde. contratual. posto de outra forma. isto é. ao demonstrar que a cidadania moderna repousa sobre a propriedade privada. cujo elemento destrutivo se manifestará novamente no futuro. inverte-se a ordem de . então. a substância de que se constitui o capital. assim. podendo traduzir-se a expressão bürgerliche Gesellschaft também por sociedade civil. numa teoria subconsumista que muitos acreditam ser também a de Marx. que ocupa o final da primeira parte do Manifesto. Na crise. que Marx operou sobre a palavra “burguês”: na língua alemã. deve-se notar que. de fato. o avesso da sua acumulação e do seu alargamento de horizontes: sobrevêm as crises. o trabalho cria. exclui-se de si mesmo. nas palavras de Marx e Engels. como foi dito. antes de mais nada. limitando para si próprio seu mercado. definindo-se a medida como a expressão da quantidade na qualidade. situação que prepara. Sua oposição ao trabalho assalariado aparece. se não querem sucumbir. E esse último raciocínio recoloca a questão da relação entre capital e trabalho.20 O trabalho cria valor e. a adotar o modo de produção da burguesia. reconhecendo-se em todas as partes. De certa forma. ou seja. o capital é valor que se valoriza.

esse programa revolucionário expõe também as bases do programa de toda a teoria posterior de Marx. p. NOTAS: 1. v. ferreamente comprometida com sua origem. 469. p. ibidem. 472. se pretende ser o que Marx e Engels idealizaram para ele: uma peça básica na luta intelectual que expressa a luta real entre “opressores e oprimidos”. 462. ibidem. 2. a base real da dialética materialista. A inclusão não depende mais da exclusão. Dietz Verlag. p. In: Marx-Engels Werke. de modo que desaparecem as oposições de classe. Karl e Engels. contestando a validade eterna e universal das verdades burguesas. só pode ser elaborado dessa forma. O meio agora são os instrumentos de produção. do trabalho acumulado. Principalmente por isso. e sim social. Idem. 4. 4. Idem. 8. como parte ou meio do trabalho elevado à condição de totalidade. . Idem. 468. 475. Manifest der Kommunistischen Partei. p. a dialética aparece como a única forma de análise de uma sociedade marcada por tais oposições. ou melhor. 1959. ibidem. porém. Idem. 574. 6. Idem. Idem. p. Marx. ibidem. ibidem. Friedrich. p. Berlin. 5. cuja propriedade não é mais privada. Um manifesto comunista.35 inclusão do trabalho como parte ou meio do capital e do capital. Até chegar esse momento. ibidem. Mas essa nova relação não recria as condições de exclusão que definem a sociedade burguesa. p. nesse sentido. ibidem. excludente. 573-574. p. Idem. 7. 476. 3.

enquanto cânone de interpretação histórica. portanto. um documento de divulgação da teoria comunista. o presente e o futuro imediato. O Manifesto é ele mesmo representativo da noção de práxis: exposição sumária do materialismo histórico. que os autores iniciam a obra. inserido em circunstâncias históricas específicas que não mais se repetiram. Captando as determinações básicas da sociedade capitalista. Trata-se do estudo mais sistemático sobre o papel do proletariado na s o c i e d a d e industrial. históriasíntese. Além disso. unindo julgamentos científicos e postulados éticos. exercendo uma influência direta na vida social e revelando o futuro no reino da atividade concreta”. A contemporaneidade do Manifesto reside no fato de que sintetiza os fundamentos da concepção sociológica e histórica de Marx e Engels. anteriormente anunciada. a tese gerando sua antítese. o Manifesto Comunista. Por outro lado.7 A segunda idéia. anterior ao de Engels. guia para a compreensão das contradições básicas da sociedade. A primeira idéia relaciona dialeticamente o surgimento da burguesia e o do proletariado. Há a mediação da consciência. pela formação das classes sociais fundamentais do modo de produção capitalista. pelo vigor analítico e literário. . da práxis. mostra a relação proporcional entre o desenvolvimento do proletariado e da burguesia: “Na proporção em que a burguesia.5 Outros autores que trataram da questão do proletariado. a moderna classe trabalhadora. o Manifesto deixou. quando este propugnava que a filosofia deveria “tornar-se filosofia prática ou antes uma filosofia da atividade prática. Ambos já haviam considerado imprescindível juntar suas críticas teóricas à sociedade capitalista com um movimento político-prático que visasse a transformação concreta dessa sociedade. mas a sua influência sobre Marx é tema ainda controvertido. sobre os quais não terá nenhum controle: “Mas não somente a burguesia forjou as armas que representam sua morte. o Manifesto não deriva diretamente a classe trabalhadora das condições de produção.1 sendo a mais editada e lida. com inegável atualidade. o Manifesto sobreviveu. O Manifesto permite engatar o passado. Além disso. Engels o fez com seus estudos empíricos sobre os trabalhadores de Manchester e outras cidades inglesas. proposta de um “partido político” destinada a convencer todos os partidos operários da Europa a cumprirem os dois postulados fundamentais da conjuntura: organização dos trabalhadores como classe e realização de uma revolução social para destruir violentamente a sociedade burguesa. a atualidade não pode ser dissociada daquilo que é eminentemente histórico na obra. elemento já integrante e pedra angular da atividade filosófica e política de Karl Marx e Friedrich Engels. Enfim. capaz de demonstrar como a ascensão histórica da ordem social competitiva traz em seu íntimo os elementos da sua desagregação. Entretanto. que justificam a hipótese teórica. ela também trouxe à vida os homens que manejarão essas armas — a moderna classe trabalhadora — os proletários”.36 O MANIFESTO COMUNISTA E O PROLETARIADO NO SÉCULO XIX Lincoln Secco Redigido e publicado em 1848. como se aquela fosse epifenômeno destas. que “podia ser lido e memorizado por qualquer operário europeu medianamente culto” da época. e só encontra trabalho na medida em que este incrementa o capital”. isto é. em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (1845). a que mais influenciou o curso posterior dos partidos operários que esposaram a teoria de Marx e Engels. o Manifesto foi um documento destinado à intervenção política imediata. não só para aqueles que são adeptos da teoria marxista. na mesma medida o proletariado. portanto. se desenvolve. como os românticos alemães Adam Müller e Franz von Baader. Fala-se em gradações ou camadas subordinadas em cada classe. também se desenvolve — a classe de trabalhadores que só vive se encontra trabalho.6 A referência inicial do Manifesto à “moderna classe trabalhadora” já traz a lume duas idéias correlacionadas e essenciais. eles se debruçaram sobre a sociedade de sua época e reconstruíram a evolução histórica do capitalismo à luz dos conhecimentos existentes na primeira metade do século XIX. lições metodológicas de grande importância. é um documento “datado”.2 O conceito de práxis havia sido desenvolvido por August von Cieszkowski (1838). o feiticeiro libertando “poderes infernais”. constituindo-se. autor do livro O socialismo e o comunismo da França atual (1842). sem perder o tom ao mesmo tempo didático e prospectivo. encarnando perfeitamente a noção de práxis. Marx e Engels não estudaram um objeto teórico e abstrato no Manifesto. em principal obra do marxismo clássico. de que toda a História tem sido movida pela luta de classes. Marx adquiriu o conceito de luta de classes de historiadores franceses. conforme os seus fichamentos e comentários (1842-43) de livros sobre o papel das classes sociais na Revolução Francesa. Marx e Engels chegaram por vias diferentes a compreender a importância do proletariado na sociedade capitalista.3 A práxis era. embora se admita que o capitalismo tenha simplificado economicamente os antagonismos de classes. a sociedade não é reduzida a duas classes. de Marx e Engels. programa para a ação. daquela maneira mais odiada pela “historiografia oficial”. o capital. É. Entretanto. tiveram influência menor do que o crítico Lorenz von Stein.4 O PROLETARIADO NO MANIFESTO A primeira parte do Manifesto chama-se “burgueses e proletários”.

A classe não é definida em termos estáticos. em proveito da imensa maioria”. a partir da sua simples forma de inserção nas relações de produção capitalistas. nos estreitos limites de espaço desse artigo.8 a qual só pode se emancipar universalmente. porque é entendida também em sua dinâmica histórica. escrita por F. em 1850. como uma “massa incoerente”. emancipando toda a humanidade em todas as partes. como afirma o Manifesto. outro. qual classe trabalhadora “empírica” Marx e Engels tinham diante dos olhos em 1848. era mais do que uma preferência teórica dos autores do Manifesto. o programa político). o Partido Agrário polonês. na definição da natureza do futuro governo dos trabalhadores e “limpando o terreno” das diversas manifestações ideológicas socialistas anteriores. a análise das correntes socialistas da época (nem sempre justa. e busca nos proletários uma base de apoio. que são a fração mais resoluta do movimento proletário. econômico.37 Esses aspectos da obra de Marx e Engels provocam uma dificuldade que se apresenta à sociologia e à ciência econômica acadêmicas. que se tornaram centros de produção. o Manifesto não se detém no esboço histórico inicial. quais eram aqueles “aliados” do proletariado aos quais o Manifesto faz referência. a “formação dos operários em classe”. era geralmente a sede político-administrativa de um reino ou império. A figura histórica do proletariado. Deixaremos de lado outras questões relevantes da obra. seja no mundo da produção material. posto que não existem. mas em nenhum lugar constituíam a maioria da população. Eram os casos de São Petersburgo. e é essa posição nuclear e única dos proletários que lhes permite desempenhar um papel mais revolucionário que qualquer outra camada social. Contra o regime aristocrático. ao menos três indagações devem ser feitas sobre o substrato histórico do Manifesto. Os operários de fábrica eram realmente numerosos na Inglaterra. A classe trabalhadora é o mesmo ente social. que tinham. seja na arena política. Eram grandes. Assim. Os comunistas. numa abordagem ao mesmo tempo genética e estrutural. ou seja. e a famosa introdução que Harold Laski preparou para a edição comemorativa do centenário do Manifesto Comunista. supostamente. diga-se en passant) e a política de alianças. da experiência política que a própria burguesia lhe fornece. a classe trabalhadora é uma processualidade. por isso. unindo as condicionantes objetivas e subjetivas do proletariado. Este é “produzido” e organizado pela fábrica moderna. em 1850. o proletariado passa por uma fase de dispersão. A grande cidade não era enorme apenas pelo desenvolvimento industrial nela contido. a burguesia vê-se obrigada a defender a ampliação da democracia e do sufrágio. Os autores do Manifesto não trabalham com dois conceitos diferentes de classe: um sociológico. poderia ser essa: o que era a classe trabalhadora na Europa (e até certo ponto também nos Estados Unidos) em meados do século XIX? Considerá-la como produto da revolução industrial. As duas primeiras questões foram. mas também tinham grande importância política ou cultural e em breve se aproximariam do meio milhão de habitantes. Por isso. O PROLETARIADO E OS “PARTIDOS” NO SÉCULO XIX Para dar substância a algumas das proposições teórico-políticas apresentadas na seção anterior. As palavras finais do Manifesto só poderiam ser. Mas se não se torna consciente de seus interesses históricos e nem se organiza politicamente. avaliadas em duas obras magníficas: a Contribuição para a história da Liga dos Comunistas. tem uma força centrípeta de aglutinar outros interesses sociais. uma minoria significativa na França. mas tinham menos que a metade da população de Paris ou ¼ da de Londres. Em seguida. cidade de Engels. o proletariado organiza-se em classe “e conseqüentemente em partido político”. Viena e Berlim. as diversas organizações de oposição na Alemanha e os reformadores agrários nos Estados Unidos. têm como finalidade imediata a mesma de qualquer partido operário. Esse chamado se dirige aos trabalhadores do mundo inteiro. muitos livros que tenham reconstituído a história dos partidos referidos pelo Manifesto em 1848 (Parte IV — “a posição dos comunistas em relação aos vários partidos de oposição”): social-democratas franceses. Liverpool e Birmingham eram cidades autenticamente operárias. Numa fase superior. As cidades industriais desse tamanho eram mais raras. e jamais erigindo uma dominação particular de um novo grupo ou casta. Elas ajudarão a entender. ou tinha razões históricas para ter crescido. respectivamente. foi pouco estudada. populações que variavam de 71 a 82 mil habitantes. tinha 75 mil habitantes). era uma imposição política da realidade. acostumadas à rigorosa delimitação de seus campos de saber. suas populações variavam de 242 a quase 400 mil habitantes. radicais suíços. mas também como sujeito da sua própria formação em classe. um chamamento à ação. De onde o proletariado retira meios para sua politização? Em primeiro lugar. Engels. sob os auspícios do Partido Trabalhista britânico. esta há muito com . A primeira pergunta. e somente se constituído politicamente em classe. Marx e Engels manejam a análise dialética com mestria. depois do arrazoado teórico e histórico anterior. e o que significava dizer que os proletários deviam estabelecer-se em “partido político”.9 A terceira questão. Só o cartismo inglês é mais conhecido entre nós. em nossa língua. avançando em medidas práticas de uma possível revolução proletária. em 1800. A sua morfologia alia-se com o estudo da sua formação e tendências de natureza política. mas ele também se autoproduz e é “recrutado em todas as classes da população”. como a história da Liga dos Comunistas (da qual o Manifesto seria. porque o proletariado é uma classe universal. Também alguns elementos das classes dirigentes que foram proletarizados fornecem condições de educação e progresso ao proletariado. Na sua formação. O Manifesto define que “o movimento proletário é o movimento consciente da imensa maioria. A cidade industrial européia e norte-americana era de tamanho médio (Barmen. mas. não pode ser a vanguarda revolucionária proposta por Marx e Engels. concentra-se em virtude do desenvolvimento industrial (são as condições objetivas necessárias para que tome consciência da sua força). Manchester. que concentra muitos operários num exército industrial. proposta na parte final.

como os tradicionais artesãos.14 abrindo postos de trabalho para os “proletários intelectuais” de que costumava falar Marx. enquanto o número de tecelões algodoeiros em teares manuais era de 213 mil. eram associações difusas. a universalização da educação pública era vista com reservas pela aristocracia e pela burguesia. as grandes cidades não eram apenas operárias. com sua natural acuidade. mas ainda não desenvolvidas suficientemente para agregar e cooptar. a firma Engels & Ermen. eram meras etiquetas que encobriam disputas locais. Tornou-se um jornalista e agitador político radical. agitações públicas. muito tempo depois. e cuja recompensa salarial era bem mais modesta que suas ambições. Em cada cinco habitantes londrinos. embora fosse um eficiente administrador dos negócios da família. desenvolvendo um alto senso de responsabilidade com sua própria educação política. que receberam Marx e Engels no seu meio político. Antes de 1848. com o avanço da indústria. são jogadas no proletariado. sociedades de auxílio mútuo. nada parecido aos modernos partidos políticos do século XX. espoliado e humilhado. toda a administração pública. fossem artesãos ou operários. Mas uma derradeira pergunta ainda persiste. mesmo à época de Bismarck. nem mesmo representava a realidade européia continental. que produzia em quantidade sem precedentes. Em 1833. e certamente não queriam) ser aproveitadas pelo regime político que vigorava na maior parte da Europa: regimes aristocráticos convivendo com economias capitalistas em expansão. no início do século XIX. mas não o povo. Outra questão de relevo poderia ser assim formulada: quem eram os aliados desses trabalhadores? Essa pergunta só exige uma ponderação marginal para explicar a seguinte frase do Manifesto: “Ademais. formada como partido no Congresso de Gotha. Certamente. stricto sensu. De toda maneira. a participação eleitoral era limitada e os partidos operários que surgissem não poderiam se organizar em função do parlamento. cujo modelo pioneiro foi a socialdemocracia alemã. Mesmo na Inglaterra. em 1875. da classe operária. sem desprezar uma minoria numericamente significativa.15 Os aliados do partido do proletariado eram recrutados nessa massa insatisfeita de intelectuais. Os partidos da Revolução Francesa (ou clubes) que inspiraram outras organizações posteriores. Na Prússia. Eric Hobsbawm. sem organicidade.8% da população total (um contraste com a França. Marx não conseguira tornar-se privatdozent na universidade. ainda assim eram os junkers que forneciam os “intelectuais” para as carreiras de Estado. os professores. o chamado “proletariado” estava ainda repleto de camadas sociais apenas formalmente subordinadas ao capital. E de . em produzir suficiente número de postos de status adequado para os educados. ainda trabalhavam na agricultura 43% da sua força de trabalho. recebendo ordens apenas do kaiser. por exemplo. cuja tradição revolucionária era mais rica.671. que Marx chamava de “escravos domésticos”). se a classe operária de fábrica formou-se no século XVIII e na primeira metade do século XIX. mas de maneira alguma poderíamos encaixar essa maioria numa categoria homogênea. O reform act (1832) ampliou o sufrágio e permitiu que as camadas industriais da burguesia participassem da gestão governamental. de apenas 23% da população economicamente ativa. não podiam (mesmo se quisessem. principalmente na França. havia uma maioria esmagadora de trabalhadores de algum tipo. só adentrava os escolhidos pela nobreza prussiana. periódicos. Além disso. o crescimento das cidades e. e no corpo de oficiais das forças armadas que. que temiam o papel da elevação educacional no aumento da contestação social e política da monarquia e do próprio sistema capitalista. instituições educacionais. que partia da sua incipiente compreensão das contradições geradas pela industrialização. onde o proletariado era forte e organizado. Elas suprem o proletariado com novos elementos de esclarecimento e progresso”. movimentos religiosos e educativos. etc. eles monopolizavam a administração dos condados (até 1891). os principais líderes eram artesãos afetados pelo desenvolvimento da grande indústria: Moll. Muito menos pessoas perfeitamente ajustadas na classe média (burguesia). Além disso.38 uma população acima dos 2 milhões. foi principalmente através da autoconsciência e auto-educação. em 1866. fosse recorrendo a críticas passadistas ou a ações verdadeiramente destemidas contra o capital. a realmente grande cidade européia. Na França. Engels não concluíra nenhum curso superior.11 O fato é que. como operários de fábrica. em 1841. não se sujeitava ao chanceler. de antes de 1848. O que era um partido do proletariado ou de qualquer outra camada social. conforme demonstrou Thompson. ou seja. expressa nos seus sindicatos. profissionais para a burocracia de grandes empresas privadas. o Grande (século XVIII). para criar uma identidade de interesses materiais e culturais. As biografias de ambos nos permitem dizer que eles eram os mais singulares representantes de um tipo de intelectual desterrado numa sociedade burguesa movediça. ou ao menos ameaçadas em suas condições de existência. resumiu bem o problema: O radicalismo dos intelectuais possuía raízes um pouco menos profundas: tinha sua base largamente (como se descobriu depois) na inabilidade da nova sociedade burguesa. que tinha 74. de 47.13 Na Inglaterra. Na Inglaterra. a preocupação com a educação pública remonta a Frederico.12 Suas formações educacionais de altíssimo nível. Schapper e Bauer. no sentido empregado no Manifesto? Sem dúvida. os dois partidos burgueses. burocracia estatal etc. muito mais conhecido do que se tivesse conseguido uma cátedra universitária. como nós já vimos. 10 anos depois. o conservador e o liberal. muitos intelectuais dedicavam-se à atividade de publicistas revolucionários. Marx e Engels não poderiam ignorar esse esforço de trabalhadores. com elas. e depois da geração de notáveis que renovou. A participação da agricultura no emprego da força de trabalho inglesa era. melhor desenvolvidas pelo enorme talento pessoal. que não eram uma classe extinta. Era esse proletariado em movimento. partidos políticos. mas a economia era mais pobre que a inglesa. mas é preciso lembrar que a Inglaterra não era o mundo. A educação foi relegada à indiferença ou à iniciativa privada (o que no fundo é a mesma coisa) e somente em 1880 a instrução primária tornou-se obrigatória em todo o Reino Unido. juntamente com a aristocracia. um era empregado doméstico (era esse tipo de gente. a força de trabalho adulta nas indústrias têxteis era de 191. era um salto gigantesco que deve ter impressionado os comunistas da época.10 embora a quantidade de pessoas que vivia em áreas rurais ainda fosse.5% de camponeses). seções inteiras das classes dirigentes. em massa. Os autores do Manifesto não eram operários. Na própria Liga dos Comunistas. incluindo a educação. Se tomarmos o caso de Londres.

1990. Landes. “Marx e o pensamento sociológico moderno”. 6. Em A ideologia alemã. e Engels.17 É preciso notar. e Mayer. In: Escritos de juventud. 7. 1932. nem formavam um partido à parte dessa classe. FCE. em cada país. A formação da classe operária inglesa. 3. os movimentos da classe trabalhadora. ou seja.. p. a Inglaterra possuía 1 milhão de eleitores entre 27. 1973. Esta e todas as demais referências posteriores do Manifesto. p. K. a vanguarda do proletariado. O eleitorado norte-americano era. p. 12. Companhia das Letras. 72. dos quais surgiram a Crítica da economia política e O Capital. sendo que a elite fundiária britânica continuou muito importante até a Grande Guerra de 1914. gradualmente. p. História. Friedrich Engels. da qual Engels fizera parte como secretário. Hobsbawm.5 milhões de habitantes. Apud: Bottomore. predispostas à ação violenta para instaurar uma nova ordem social. NOTAS: 1. Vide Marx. p. 13. Engels. As duas melhores biografias de Marx e Engels. F. Marx. quatro a cinco vezes maior.39 qualquer maneira. e Hess. São Paulo. Maximilien. v. Zahar. Paz e Terra. 4a ed. 1989. “Critica de la filosofia del derecho de Hegel”. p. Gustav. A persistência do Antigo Regime. sem sombra de dúvida. p. Rubel. Prometeu desacorrentado. Cenit. mas sim política. 90. FCE. o que pensar da maioria da população britânica? Em 1850. 2a ed. 34. em 1843. mas foi muito menos influente sobre a história do movimento socialista e comunista posterior do que o Manifesto.P. Ática. 9. Não se trata de um julgamento da sua importância cientifica. Fernandes. De la Liga de los Justos al Partido Comunista. S. vanguardistas. Vide Marx. Nova Fronteira. Anderson. p. México. mas somente na França um chefe de Estado conseguiu o apoio de quase 8 milhões de eleitores. 1996. 2. F. 52 e Marx. E isso só depois de 1848! Em tal situação não havia partidos organicamente constituídos para disputar o governo. p. The Communist Manifesto. 1989. São Paulo.. México. foram retiradas de Marx. Franz. p. em termos políticos. K. O Capital pode ser a mais importante contribuição científica do marxismo clássico. Phoenix. 1982). 3a ed. Karl Marx: essai de biographie intellectuelle. F. Ensaios de sociologia geral e aplicada. K. 256. M. que não é essa organização que Marx e Engels tinham em mente quando se referiam à constituição do proletariado em partido político. Kuznets. 17. são. p. 41. 15. cit. A era do capital. Avineri. Os próprios estudos de economia política empreendidos por Karl Marx no decênio de 1850. 8. Rio de Janeiro. 101-111. 5. conforme se pode inferir dos poucos documentos da Liga dos Justos (depois. Rio de Janeiro. Eric. Embora seja paradoxal que tivessem escrito o Manifesto sob as ordens do comitê central da Liga dos Comunistas. Pioneira. Paz e Terra. “O proletariado”. 350. 1979. em classe. Madri. vieram da “necessidade de dar bases teóricas mais sólidas ao programa político estabelecido em o Manifesto Comunista” (Cf. na época de. In: Bottomore. As ligas tinham consistência programática e organizacional exatamente porque tinham feição clandestina. K. Rio de Janeiro. ele retomou a mesma idéia. e não mais do que isso (o ditador plebiscitado Napoleão III). provavelmente. respeitando suas limitações. Arno. Grijalbo. Tinham comando centralizado. op. subordinando-se à liderança desses partidos (como os próprios autores do Manifesto fizeram em relação aos operários da liga). eles se destacavam principalmente pela compreensão mais acurada das contradições sociais e pelo internacionalismo. K. Perry. Mayer. 500. mediante o domínio político do proletariado. os autores definem “partido” como o conjunto de trabalhadores que têm consciência dos interesses da sua classe. Abril Cultural. México. 2a ed. Foi publicada em português pela editora Zahar (3a edição. trad. o conceito de “classe universal”. Marx e Engels. Marx adotou. ajudarem-nos a elevarem sua compreensão da missão histórica do proletariado: a realização do comunismo. Tom. Rio de Janeiro.16 Se a burguesia ainda não atingira sozinha o tope. Roca. Brasiliense. integrando-se a eles para. Paris. Tom. as duas clássicas: Mehring. 11. A força da tradição. cujos objetivos podiam se tornar. só havia ligas e seitas revolucionárias. 14. Thompson. Linhagens do Estado absolutista. 1960. Shlomo. . 15. 12. Sua função não era concorrer com os demais partidos operários. mas colaborar com eles. Florestan. 1987. Carlos Marx. 1988. Não é por outra razão que dizem ser a tarefa primordial dos comunistas apoiar. 10. invariavelmente excluídos da participação política legal. 1994. Fernandes. p. São Paulo. a burguesia industrial estava longe de tomar a dianteira. 4. entrementes. 1987. Os comunistas não eram. e Engels. Samuel Moore. Karl Marx. Londres. 1986. Crescimento econômico moderno. São Paulo. Barcelona. Marcel Riviere. 1981. cit. São Paulo. Entre socialistas e comunistas. David. In: Marx. In: Idem. Florestan. em consensuais no conjunto da sociedade. Liga dos Comunistas) que foram publicados. E. 1957. 16. em meio às várias existentes. 271. 2. 302). p.. La ideologia alemana. op. Escritos de juventud. precisando de unidade de ação contra a força repressiva do Estado.

parece tomar vida o pensamento que “tende a se tornar realidade” (Marx). como é o Manifesto Comunista. Um mundo concebido pela revolução ao finalizar a primeira metade do século XIX. ainda. conseqüentemente. Pelas características apontadas. que se opõe à lenda pueril do fantasma comunista. Para um leitor desavisado.. como resultado de seu caráter radical. porque é o resultado conclusivo de um trabalho sistemático. a sociedade inteira de toda a exploração. além disso. no que consideraram como a especificidade de seu próprio trabalho. deve-se entender a fidelidade consciente aos princípios. pelo contrário. na medida de sua própria conformação como um programa de ação. a História inteira tem sido uma história de luta de classes exploradas e exploradoras (. se tomadas isoladamente as diversas propostas do Manifesto. da integridade que transborda em sua formidável síntese do movimento da sociedade moderna. No Manifesto. de toda a opressão e de toda a luta de classes”. fins e tendências. em circunstâncias históricas muito precisas. Ele o fez nos seguintes termos: a) “que a produção econômica e a diferenciação social entre os homens que. em uma fase na qual a classe explorada e oprimida (o proletariado) não pode emancipar-se da classe exploradora e opressora (a burguesia). porque foi Engels quem — 35 anos depois de sua publicação — se ocupou de assinalá-la no prólogo de uma nova edição. é a afirmação de princípios do proletariado revolucionário que. a contar do desaparecimento da propriedade coletiva do solo. b) “que. a “alienação” não é uma referência vaga às evidências de uma existência social completamente transtornada do homem de nossos dias. em princípio. deixar claro que. políticas e econômicas. neste caso. nada menos que um século e meio de uma obra de difusão universal. quaisquer que sejam as novidades presentes 150 anos após sua publicação. um manifesto autêntico do próprio partido”. no entanto. ou seja. Não é algo metafórico porque. O leitor poderá encontrar a citação na parte final do texto. se organiza como partido.40 A DITADURA DO PROLETARIADO COMO UM ATO DE SENSATEZ (E UMA REFERÊNCIA AO AMOR) Pablo Rieznik O título deste trabalho requer uma breve explicação inicial. como um todo. o partido operário. nada mais. essa luta encontra-se. Será possível.1 Por “ortodoxia”. consciente e implacável por compreender e assimilar os resultados da teoria e da prática do mundo em que viviam. como se sabe. Trata-se de um conceito que nos parece chave para a compreensão do pensamento marxista e da forma definitiva que se apresenta no Manifesto Comunista. de toda conotação de romantismo resplandecido (mas não necessariamente de romantismo) e vale no título para chamar atenção a uma consideração do próprio Marx relativa ao dinheiro. Uma tarefa a que seus autores se lançaram como homens de ciência e como revolucionários. a proposta é abordar a questão no contexto de uma “visão ortodoxa”. com a “sensatez”. Esse rigor do Manifesto é a conseqüência da evolução de vida de seus autores. entender porque aqui se . É importante.. da plenitude que expressa a articulação de seus enfoques de problemas. no presente. contemporâneos: vivemos na era do capitalismo. a tarefa é muito simples. em uma época da qual somos. portanto. e ao amor. de partir da raiz do fenômeno exposto e desdobrar sua própria dinâmica com a convicção de que são o homem e sua própria vida que brotam em uma pintura impressionante. obviamente. sinal de que pertence a uma causa que interessa ao melhor do ser humano. Nisso consiste a vigência do próprio Manifesto Comunista.) qualquer que fosse o grau de progresso social alcançado por umas e outras” e c) que. há algum tempo atrás. A própria “índole” do marxismo e desta obra que marca sua maturidade deve ser apreciada como o topo do pensamento e da ação humanas. Em se tratando de resumir e expressar a “idéia fundamental” que contém o Manifesto. tal é a matéria que constitui o “próprio partido”. Sua originalidade deve ser valorizada. pode sugerir uma aproximação “heterodoxa” a um problema clássico do marxismo e pouco de acordo com o caráter rigoroso que merece um artigo dedicado a comemorar. cuja lógica essencial descreve-se com admirável simplicidade. como uma “exposição aberta à consideração de todos os propósitos. A “IDÉIA FUNDAMENTAL” A força inigualável do Manifesto Comunista é fruto do conjunto da obra. “finalmente. o que não significa. às relações humanas.. e é capaz de confrontar a ação própria e coletiva com a realidade.. em conseqüência. a referência ao “amor” carece. conforme a “acusação” que recebeu um breve trabalho sobre o capitalismo e o socialismo deste final de século. não existe nenhuma que já não houvesse sido formulada previamente. ou seja. assinalar alguns dos elementos constitutivos desta “idéia fundamental” para considerar o conteúdo do Manifesto — esse é o objetivo do presente trabalho. sem emancipar. que a leitura do mesmo deva começar pelo final.. constituem a base da história política e intelectual desta mesma época”. Não é um manifesto da classe operária como categoria sociológica. Do mesmo modo. de seu retrato deslumbrante de um desenvolvimento histórico. justamente por isso. em uma dada época (. A idéia que a ditadura do proletariado corresponde à própria essência do pensamento marxista identifica-se. como antípoda da “alienação” à qual está submetido o homem na sociedade capitalista contemporânea.) surge necessariamente daquela.. Cabe. seus autores se formaram sob o impacto das enormes transformações surgidas no cenário da revolução burguesa e de suas implicações sociais. de uma vez por todas. Mas. Nada nele é improvisado.

em primeiro lugar. ALIENAÇÃO E DESUMANIDADE O “fato contemporâneo”. condicionada por determinações históricas concretas. Se considerarmos o trabalho como o intercâmbio de toda forma de vida com seu meio natural. para Hegel. como tal. por sua capacidade simbólica e seu produto social.) toma-se uma mercadoria mais barata. e contempla seu próprio reflexo em um mundo que ele construiu”. da desumanidade. experimenta uma sensação de mal-estar mais do que de bem-estar. específica. instalou a consciência humana na determinação concreta do mundo real e fez da abstração um instrumento da compreensão teórica para a transformação real e prática do mundo prático e real. O próprio homem. mas sim ativamente e em um sentido real. o verdadeiro e essencial trabalho era o “espiritual” e o mundo apenas uma manifestação da “idéia”. O TRABALHO E O HOMEM O conceito fundamental de produção “econômica” como base da “história humana” deve ser definido com amplitude.. de dar ao significado de “produção” uma dimensão desprovida de qualificativos desnecessários. quanto mais bens cria. Marx. ao “compreender a autoprodução do homem como um processo” e “conceber o homem objetivo. a obra recebe a natureza do configurador. denominado “Circular da Liga dos Comunistas”. mas sim ao objeto. visto que. o “homem é livre frente a seu produto”. do trabalhador que carece de toda propriedade que não seja sua própria capacidade para trabalhar. foi revelada como a peculiaridade própria que dava ao trabalho seu caráter especificamente humano. Hegel fazia. cria e recria — através do trabalho — uma “verdadeira natureza humana”. a natureza aparece como sua obra e sua realidade. opõe-se a ele como um ser exterior. então. mediante o pensamento e a elaboração especulativa. o absoluto e universal. é que a manifestação efetiva. real e concreta do trabalho humano apresentase em oposição às determinações que acabamos de pontuar. o trabalho “é” o homem em sua manifestação real. O trabalhador toma-se mais pobre na medida em que produz mais riqueza (. entre a pior construção de um carpinteiro humano e o mais harmônico e perfeito favo da abelha. A alienação da atividade é a atividade da alienação: o trabalhador não se realiza em seu trabalho. em sua forma natural. esse estranhamento. mas sim do trabalho assalariado. É nessa produção que o homem “exterioriza-se”. é o mundo inadequado a seus fins. o trabalhador na sociedade moderna não vive seu trabalho como o universo da liberdade. escrito em 1844. uma produção que se auto-realiza. definitivamente. ou seja.. se abate. portanto.2 Nessa perspectiva.) o trabalhador põe sua vida no objeto e sua vida já não lhe pertence. Um produto que se concretiza. histórica. o homem forma e transforma a relação original com a natureza em uma relação com suas produções. a diferença consiste no fato de que o primeiro pode representá-lo primeiro em sua cabeça.6 Estamos na presença. então. trabalha para outro e produz algo que é propriedade de outro.3 A produção do homem é sua vida ativa como espécie. a particularidade do trabalho humano está determinada pela consciência do homem. Em segundo lugar.. tanto do ponto de vista biológico como social. Por essa razão. não do trabalho em geral. no entanto... a linguagem. ao contrário. O homem é o ser cuja relação com o mundo exterior consiste no fato de que ele deve construir seu próprio mundo. A consciência. é um produto. O homem faz da natureza seu “corpo inorgânico”. do mundo real uma abstração.. mediante o intercâmbio de suas próprias disposições corporais com as da natureza e sem as quais não se poderia conceber sua existência. Trata-se. enquanto “os animais constróem somente de acordo com as normas e necessidades da espécie à qual pertencem.. o trabalho de quem. o mundo do trabalho. porque ele já não se reproduz só intelectualmente como na consciência. em particular. a objetivação da vida do homem como espécie. Nos célebres Manuscritos econômico-filosóficos de Paris. poucas vezes pontuada. igualmente abstrata.) A vida que ele dá ao objeto se lhe opõe como uma força exterior e hostil.41 enfatiza. de “completar” o Manifesto com um texto que seus autores elaboraram apenas dois anos depois. conseqüentemente. Não distingue a atividade de si mesmo (. o “objeto produzido por seu trabalho. O homem. Marx desenvolverá essa concepção: “é em seu trabalho sobre o mundo objetivo que o homem mostra-se realmente como ser genérico”.) o homem faz de sua própria atividade vital um objeto de sua vontade e sua consciência. configura seu próprio mundo e seu próprio ser: “o homem é o mundo dos homens”. um poder independente do produtor”. a necessidade. Popitz destacou o reconhecimento expresso — por parte de Marx — do significado do conceito de trabalho na filosofia hegeliana. as produções humanas: mediante a configuração.. a origem e o ponto de chegada de tudo o que existe. O objeto do trabalho é. é um produto que produz. — é alguém com sua atividade vital. verdadeiro — porque é real — como o resultado de seu próprio trabalho”. para evitar todo equívoco ou compreensão sectária.) constrói também de acordo com as leis da beleza”.5 Em uma célebre passagem de O Capital se afirma que. “O animal — antecipa-se nos Manuscritos. não desenvolve livremente suas energias . Por esse motivo. Neste caráter universal da produção humana reside a especificidade de sua espécie e o significado próprio de seu trabalho e atividade vital. seu produto. O trabalho não é a vida “objetivada”.. O trabalho.4 É aqui que o discípulo deixa para trás o mestre pois. do sofrimento.. ao contrário. A desvalorização do mundo aumenta em relação direta com o aumento do valor do mundo das coisas (. tem uma atividade vital consciente”.. mas sim um meio de vida. menos possuirá (. o homem sabe produzir de acordo com as normas de toda espécie e sabe aplicar a norma adequada ao objeto (. mas sim da degradação.. Um recurso que lhe permitia resolver suas contradições intelectualmente. mediante ela. essa distância-separação do objeto produzido com relação ao produtor é também a forma na qual se manifesta a própria atividade de trabalho. Por esta razão. Quanto maior for sua atividade. então.

Desse modo. como natureza. O trabalho. nessas condições. por outro lado. à pura especulação e à fuga metafísica. Por isso é uma vida alienada — a vida não é vida para o trabalhador moderno. que mortifica.42 mentais e físicas uma vez que se encontra fisicamente exausto e mentalmente abatido (. abstrato ou especulativo.. Comer. são a primeira síntese integral à qual chega Marx em torno de sua concepção do homem e sua vida. enquanto que em suas funções humanas. seu corpo orgânico. O trabalho não é um fim.. o da redação em O Capital e o organizador do movimento operário — é uma assertiva de filiação stalinista. sua objetividade real como espécie e transforma sua vantagem sobre os animais em uma desvantagem.. também arrebata sua vida. funções humanas genuínas. dominados pelo “sistema” de Hegel — entrará em contato. só um meio de satisfazer outras necessidades. Seu caráter alienante demonstra-se claramente no fato de que. porque constituem a dobradiça fundamental na evolução de Marx até o comunismo. capaz apenas de trabalhar para outro. Marx pôde basear toda sua concepção em um fundamento sólido (.. um objetivo. — é o “trabalho alienado”. A atividade vital do homem em seu trabalho apresenta-se não como realização integral de suas capacidades. o homem sente-se realmente ativo só em suas funções animais — comer. de suas determinações materiais e biológicas próprias como ser natural. de ferramenta. para compreender um tipo de homem universal. “A vida produtiva do homem aparece agora perante o homem unicamente como um meio para a satisfação de uma necessidade.7 Quem se atém à superfície ou à aparência das coisas. beber e procriar são também. “Reconhecendo que a chave de toda alienação — religiosa. ou seja. como fora da própria vida empírica. ou seja. revela suas raízes nas condições materiais da vida humana. do clima e dos debates da filosofia da época.. estabelece o “ajuste de contas final” com a herança filosófica de sua juventude. “o trabalho alienado que tira do homem o objeto de sua produção. a necessidade de manter sua existência física (. de não fazer de seu trabalho sua vida. Os Manuscritos. que outro controla e manipula. . porque é a expressão do trabalho para outro. e a cuja essência etérea e espiritual havia de remeter-se. “filosófico”. O certo é que. apenas algum tempo depois e que. política. mas sim como exploração de seu potencial: o homem trabalha. a expressão criativa — na vida material — da distinção do homem no reino animal como um ser consciente e pensante..) a própria vida aparece só como um meio de vida”. ou. moral. que além da morfologia do fenômeno.. idealmente definido. visto que os perdeu a favor do monopólio dos mesmos por outra classe de homens. ou seja.. o conceito puramente filosófico de alienação transformou-se em algo terreno. nesse confisco. com Marx. em sua terra natal. nessa alienação. que se revela como impropriamente humana. O trabalho assalariado moderno tem sua gênese nessa exploração. artística. através da qual o trabalho humano e suas “capacidades universais” apresentam-se não como realização positiva do trabalhador. conseqüentemente. para onde se dirigiu em outubro de 1843. quando muito. para entender a dinâmica da história humana. conforme a confissão dos autores. a natureza (que o mesmo configura humanamente) lhe é arrebatada. mais pobre e desprovido encontra-se em relação à sua própria produção. em uma concepção que parte do homem “tal como é”. para usar as palavras de A ideologia alemã — aquele trabalho que Marx completa com Engels. mas não lhe pertence aquilo em que trabalha.” Não existe nessa descrição do trabalho alienado nada de metafísico. Quando o “humano torna-se animal”. é a atividade própria do empobrecimento. enquanto. a forma alienada da atividade produtiva prática do homem. ao qual se converte definitivamente durante sua estada em Paris. supostamente.) Não é a satisfação de uma necessidade. a que fixa um tipo de programa de ação — teórico e prático — ao qual se manterá fiel pelo resto de sua vida. beber e procriar. por um lado.. para além da realidade. no pilar de uma doutrina que não vai do “céu à terra”. O animal toma-se humano e o humano torna-se animal. de não trabalhar para si. de uma classe de homens que não possuem o controle dos meios de produção. Essa é a base do “fato econômico contemporâneo”.. a “alienação” é provada como mutilação do homem de sua “objetividade real”. É na capital francesa que Marx — embebido. quanto mais produz. em cuja elaboração encontrará os elementos para compreender a “anatomia da sociedade civil”. A mais plena das manifestações humanas — sua peculiar capacidade como ser natural para transformar e transformar-se mediante sua própria vida produtiva social — aparece como sua negação. não havendo uma obrigação física. uma tarefa que esgota.. pode ver — na “alienação — o último elo de ligação de Marx à “filosofia”. mas sim como sua completa alienação. e convertidas em fins definitivos e únicos — são funções animais.. Devemos a um enorme trabalho de Mészáros da década de 70. consideradas abstratamente — à parte das demais atividades humanas. Com Marx. com o movimento operário revolucionário francês e. para encobrir as formas do trabalho alienado na própria União Soviética. o destaque deste significado dos Manuscritos. jurídica. em sua casa e na vida pessoal —. relativos ao “trabalho alienado” são o antecedente mais importante para a compreensão da “idéia fundamental” do Manifesto Comunista sobre o lugar determinante que ocupa a “produção econômica”. vê-se reduzido à condição animal. é evitado como uma praga. Mas. e apresentar o stakhanovismo e o embrutecido “homem de mármore” como o ideal do trabalhador na sociedade “comunista”. mas sim da “terra ao céu”. no pior sentido da palavra. É falso que inclusive no “jovem Marx” a natureza humana apareça como indeterminada e não-histórica.) o conceito de alienação transformou-se no conceito central de toda a teoria de Marx”. da vida material do homem contemporâneo. etc. com a obra dos principais expoentes da “economia política”. O HOMEM E A SOCIEDADE Os Manuscritos. É rebaixado à condição de mero instrumento. A oposição entre um e outro Marx — o da juventude e o dos anos maduros. de uma máquina alheia ao produtor-trabalhador que nada possui e torna-se um puro meio para a reprodução elementar. ou seja. em uma descrição ad hominem..

o próprio homem é incorporado na esfera da produção privada. é que a “natureza humana” à qual se refere Marx é. A forma positiva de superar a alienação do trabalho humano consiste na reapropriação. A “alienação” perde.. não podem dominar. Marx afirma que Engels tem razão quando indica que Smith é o Lutero da economia política: assim como Lutero reconheceu a religião e a tornou a essência do mundo real — e. sua velha conotação filosófica quando sua superação aparece determinada pela “recuperação” material prática do homem de suas condições de vida e trabalho. conseqüentemente. O certo. passando por A ideologia alemã. um ideal ao qual tenha que se prender a realidade (. apropriando-se do trabalho alheio”.. aparece agora como uma dupla relação: de um lado.43 A chave do equívoco consiste em mal interpretar o conceito de “natureza humana”. dirige essa vontade e esses atos (.. quaisquer que sejam as condições. das condições de sua própria vida e reprodução: abolir a propriedade privada dos meios de produção.10 Isso significa — parafraseando um trabalho prévio do próprio Marx sobre a “questão judaica” — que: a) o aburguesamento da religião transforma-a em um assunto humano. ECONOMIA E HISTÓRIA Nos textos de Paris. a economia política — cujo princípio é o trabalho — leva à conclusão lógica da negação do homem”. essa alienação (sic) — para nos expressarmos em termos compreensíveis para os filósofos —. perfeitamente natural: “visto que o homem é parte da natureza”.) o comunismo não dá a ninguém o poder de apropriar-se dos produtos sociais. de outro. No Manifesto. quando neles se afirma que para se superar a idéia de propriedade privada bastam as idéias comunistas. Então. nem para onde se dirige e que. no trabalho.). de forma polêmica. quanto a aleatória. inclusive. em conseqüência. tanto a determinada. É por isso que. portanto. o que ele impede é o poder de escravizar. no Manifesto Comunista ironiza-se a “acusação” de que os comunistas pretendem expropriar a propriedade privada como sinônimo da apropriação dos resultados do trabalho individual: “o desenvolvimento da indústria (capitalista) decretou sua abolição. como resultado. o poder social. A continuidade e ruptura dessa colocação com o pensamento da época. é incorporado à esfera da religião. O caminho que a partir dos Manuscritos. a força produtiva multiplicada (. pelo contrário. surgirá uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um será a condição do livre desenvolvimento de todos”. a alienação . como organizador prático do movimento operário de sua época..) o comunismo não é um estado que deve ser estabelecido. um processo duro e prolongado”. Marx desenvolve extensamente a conclusão de sua análise. “essencial”.. mas não libera o homem da propriedade privada. Pode-se afirmar que o “programa” do Manifesto está essencialmente resumido nos Manuscritos. e que.. na procriação.9 É somente considerando esse desenvolvimento prévio que pode ser plena a compreensão desse magnífico final do Manifesto. em proletários modernos. algo que deriva de sua vida e história real: o indivíduo isolado e as robinsonadas8 constituem a abstração “antinatural”. Com a aparência de um reconhecimento do homem.. ou seja. algum a priori sobre o “dever ser” do homem. mas não libera o homem da religião e b) a economia burguesa admite a propriedade privada como resultado do trabalho. de tal forma que o ato prático-histórico que transforma a propriedade em propriedade burguesa é ignorado: a expropriação de camponeses e artesãos que originalmente transforma os trabalhadores pré-capitalistas em classe operária. portanto. deixou de ser considerada “meramente como uma condição exterior ao homem”. Agora. Adam Smith negou a riqueza como algo externo ao homem e independente deste...) não como um poder próprio unificado.. só pode ser superada partindo de premissas práticas (. recupera sua dimensão autenticamente humana.... como relação natural. em conseqüência. alguma coisa própria do reino místico ou espiritual. se compreendemos a redundância. Riazanov” destaca que o Manifesto Comunista inscreve-se nessa tarefa de Marx. “Mas. da mesma forma que. em condição de existência do próprio capital. que não sabem de onde procede. e ao qual se atribui uma filiação “antimarxista” — como se fosse a definição de uma “essência” não-histórica.) [é] o movimento real que anula e supera o estado de coisas atual. quem revelou “a essência subjetiva da propriedade privada” que. pode ser percorrido de um modo igualmente “natural”: A produção da vida. O Marx filósofo metamorfoseia-se no ativista do comunismo.. como relação social — social no sentido de que se entende por isso a cooperação de diversos indivíduos. como ser dado na materialidade própria de sua atividade — social e consciente — de produção e auto-reprodução. Foi Adam Smith quem reconheceu o trabalho como princípio da propriedade privada.. presente repetidamente nos Manuscritos.. e todos os dias continua a aboli-la gradualmente (. O homem é “naturalmente” um “ser social”. nos leva ao Manifesto Comunista. mas que para superar a propriedade privada verdadeira é necessária a atividade comunista: “a História a produzirá. na medida em que integra as dimensões do homem como ser natural. e o desenvolvimento — que já reconhecemos em pensamento como vontade autotranscendente — irá supor.. É a superação da “alienação humana”. na tradição de um “humanismo” vago e etéreo. de qualquer modo e para qualquer fim. na verdade. anulou a religiosidade exterior transformando-a em essência interior do homem —. com Lutero. o caráter social consciente do trabalho humano realizar-se-ia sem mediações alienantes. a cujo estudo havia se dedicado. ao concluir seus dois magistrais capítulos iniciais indicando que “em lugar da antiga sociedade burguesa. por parte da sociedade. visto que percorre uma série de fases e etapas de desenvolvimento peculiares e independentes da vontade e dos atos dos homens. Uma das confusões chaves da economia política consiste em não distinguir entre a propriedade privada fundamentada no trabalho próprio e a propriedade privada fundamentada no trabalho alheio. esclarece-se quando Marx explicita o significado revolucionário e os limites que não se pode salvar da economia política. mas como um poder aleatório situado à margem deles.

. um texto que. Não se trata. transformado em classe dirigente (. a imutabilidade do antigo modo de produção”. nas barricadas e nos campos de batalha (. no homem real em seu desenvolvimento histórico.) os operários modernos. algo que — três anos depois da redação do Manifesto — Marx colocaria explicitamente em destaque em uma célebre carta a Wiedemeyer. A idéia subjacente de que a “violência é a parteira da História” percorre todo o texto. visto que a existência de classes e da luta de classes já havia sido assinalada anteriormente. em épocas passadas... a “história”. a existência das próprias classes e impedirá. Por isso. DITADURA DO PROLETARIADO A condição prática desse processo é a “revolução”. produziu os homens que manejarão essas armas (. a Liga saiu com honra de uma dupla prova: primeiro. Do mesmo modo que a “ditadura da burguesia” pode-se expressar das formas mais diversas — e até a república mais democrática segue sendo uma ditadura do capital —. “O poder político. Civilização e crise. A burguesia “já criou forças produtivas cuja prodigiosa variedade e colossal poder excedem a tudo quanto sabiam fazer todas as gerações que nos precederam”. Por isso. os poderes públicos perderão seu caráter político”. é a declaração de propósitos da atividade e a atividade de propósitos que se apresentam como resultado da evolução da história humana tal como foi. porque seus membros participaram energicamente em todos os lugares onde se produziu movimento (. nem Marx. por outro lado. assim como no Manifesto Comunista (sic) mostrou ser a única correta. Uma “reclamação” da História que se expressa nas crises. o caráter de uma supremacia de classes”. A alienação não necessita aqui ser predicada. e na qual. portanto. da história da luta de classes. desse modo. c) “[o proletariado] suprimirá violentamente as condições antigas da produção”.14 . porque “implica uma transformação incessante nos instrumentos de produção.) Além disso. também. que “erguerá o proletariado como classe dirigente” e “suprimirá as condições que determinam o antagonismo de classe. dos confrontos e choques — que são suas manifestações particulares — que a própria História se livrará de seu passado de “desumanidade”.) ordenará infrações despóticas ao direito de propriedade e às condições burguesas de produção”. é por meio dessa mesma luta.) na imprensa. organizado. então real. desse modo. Não se propuseram a isso.. Não é casual que Marx tenha utilizado o termo “ditadura do proletariado” em 1851. nem Engels pensaram em construir um modelo universalmente aplicável da forma da ditadura do proletariado. b) “o proletariado. sendo seu objetivo conciliar a transformação democrática da vida política das massas com as medidas necessárias para impedir uma contra-revolução da classe dominante desalojada do poder. Não são poucos os que se perguntam — sem muito resultado — o porquê de uma definição tão contundente como essa não aparece enunciada no próprio Manifesto. Somente quando “pelo andar das coisas hajam desaparecido as diferenças de classe. tal como é. uma apropriação social dos produtos sociais. porque reclamam uma ordem social superior. Se a História foi a história da luta de classes. de “toda a história da sociedade humana até nossos dias”. e não podiam prever os vários tipos de situação em que esta poderia se impor. quando a produção inteira estiver concentrada nos indivíduos associados.44 do trabalho apresenta-se. sua própria supremacia. celebra o significado “revolucionário” da burguesia e do universo que cria à sua “imagem e semelhança”. para realizar a opressão da outra”. e.. diante da história necessária da exploração do homem pelo homem. o caráter de uma supremacia de classes”.. porque transforma-se em matéria. das condições da produção e de toda a organização social”. de um modo nada eufemístico. como o resultado da História. não temos feito senão prosseguir o curso da luta na qual está empenhada a sociedade atual até o momento em que há de irromper em franca revolução. de 1850. sua própria supremacia. Foi pouco depois da publicação da Circular da Liga Comunista. A transição entre um e outro ponto do devir histórico é precisamente a “ditadura do proletariado. porque a consciência e a potência social do ser humano realiza-se de um modo complementar.. a História toma um caráter consciente quando o proletário — como sujeito — termina com a “pré-história” de exploração do homem e forja a “nova história” de uma humanidade sem classes antagônicas. poder social da produção e barbárie de miséria e destruição: “a burguesia forjou as armas às quais sucumbirá e. forças que o regime de propriedade da burguesia não pode conter. conforme indicamos mais acima. enquanto que a “condição essencial de todas as classes industriais do passado era a estagnação. a existência das próprias classes e impedirá. “a propagação de uma epidemia social que. julgou-se insensata — a epidemia da superprodução”. Naturalmente. o proletariado há de estabelecer sua dominação”. os proletários”. que a conclusão da ditadura do proletariado está indissoluvelmente vinculada a toda a arquitetura do Manifesto e à sua conclusão inevitável. harmônico: “o proletariado suprimirá as condições que determinam o antagonismo de classes. pelo derrubamento violento da burguesia. o Manifesto é energia pura. A alienação é a marcha até a construção humana do mundo diante da desumanidade. as definições desse último com relação a esse tema são suficientemente claras: a) “ao enumerar as fases mais gerais do desenvolvimento do proletariado. porque a própria Circular se ocupa de traçar esta continuidade: durante os dois anos revolucionários de 1848.12 O objetivo transforma-se em subjetivo.13 Marx não usou o termo “ditadura” para sublinhar uma forma institucional específica de governo. é o poder de uma classe. deve ser considerado como parte integrante do próprio Manifesto. de um modo direto. No entanto. além disso. verdadeiramente. como indicou Hobsbawm. porque a concepção que a Liga tinha do movimento — tal como foi formulada nas circulares dos Congressos e do Comitê Central em 1847. pontuando que nisso consistia precisamente seu “descobrimento”. mas somente para definir o conteúdo que assume o domínio de uma classe. conseqüentemente. É claro. O Manifesto é rotundo e claro nesse sentido. de uma reivindicação que requer grandes justificativas..

. e até que. Recordemos que. além dos interesses da mesma burguesia em acabar com a herança do velho regime feudal e aplainar o terreno para seu domínio de classes. Se neste.. em 1848. por sua vez legal e secreta.) Tal união deve ser. mas de estabelecer uma nova. produziu-se o desenvolvimento incipiente da classe operária e sua organização. o leitor pode fazer um exercício “prático” sobre a “tradução” desse texto à realidade do período presente em numerosos países). se for preciso. A Circular prognostica que. Na Circular. Por essa razão. pelo menos. da luta de classes. em continuidade quase imediata com o Manifesto. Em síntese: no primeiro momento da vitória. 2) [Os operários] devem atuar de tal forma que a excitação revolucionária não seja reprimida (. na mesma tarefa delineada desde então (graças aos quais. a “ditadura do proletariado” está definida “extensamente”. insistem: “o grito de guerra do proletariado há de ser: a revolução permanente”. Se no Manifesto indica-se que “a revolução alemã será o prelúdio da revolução proletária”. e que tende a ofuscar seu vinculo indissociável com os “propósitos” fixados pelo Manifesto. não se trata de melhorar a sociedade existente.. pela força das armas”. os operários deverão constituir imediatamente [no curso da revolução] governos operários revolucionários. Marx considera o descobrimento científico da “ditadura do proletariado” como o mecanismo político da transição do capitalismo a uma ordem social superior. na terra de Engels e Marx.. nas quais a atitude e os interesses do proletariado possam discutir-se independentemente das influências burguesas”.. apresentada como a tarefa própria do “proletariado em armas” e da necessidade de lutar por seu “poder”. até que seja descartada toda dominação das classes de maiores ou menores proprietários até que o proletariado conquiste o Poder do Estado. desde o primeiro momento.. portanto.). seja por uma invasão da Babel revolucionária (refere-se a Paris) pela Santa Aliança”. mas sim em todos os países dominantes do mundo. de uma tal densidade — em termos de programa de ação política para a “vanguarda do proletariado” (termo do próprio documento) — que Riazanov” afirma que Lenin “a conhecia de cor”. . essas garantias devem ser arrancadas pela força”. temerosos — sobre todas as coisas — das energias incontíveis que poderiam ser liberadas da própria classe operária. É uma espécie de “quarto capítulo ampliado”. como devem tomar sua direção (. parecenos pertinente a definição sobre seu caráter diretamente complementar do texto de fevereiro de 1848: formula as conclusões derivadas dos mesmos acontecimentos para os quais o próprio Manifesto havia sido publicado. mas de aboli-la.. impondo “pela força” suas reivindicações e suas necessidades. Para nós.. o proletariado à união. os operários — e antes de tudo. de tal forma que os governos democrático-burgueses não somente percam imediatamente o apoio dos operários. a Circular considera que.) devem exigir garantias para os operários assim que os democratas burgueses disponham-se a tomar o poder. à reconciliação...... estes devem estar armados (. Quando. até que a associação dos proletários se desenvolva e não só em um país.. determinado pela imensa covardia dos “liberais burgueses”. Foi redigida nos termos seguintes — que reproduzimos com alguma extensão (e com grifos nossos) — justamente pelo esquecimento injustificável ao qual normalmente é relegado.) exorta.45 REVOLUÇÃO PERMANENTE A Circular de 1850 é a elaboração da experiência desses anos-chave. cuja traição aos operários começará desde os primeiros momentos da vitória. nem munições. seja na forma de clubes operários ou de comitês operários. Em função disso é que Marx e Engels esperam. vigiados e ameaçados pela autoridade por trás da qual se encontra a massa inteira dos operários... em caso de necessidade. estende-lhe a mão e trata de criar um grande partido de oposição (. em proporções tais que cesse a competição entre os proletários nesses países. a Circular complementará esse texto com uma detalhada elaboração tática e estratégica. um aborto da própria revolução. 3) Duplo poder: “ao lado dos novos governos oficiais. em 1850.16 As palavras finais da Circular. hoje. a Liga — devem procurar estabelecer junto aos democratas oficiais uma organização independente do partido operário. arrematava em uma síntese conceituai o alcance de sua contribuição. É por isso que merece ser considerado como uma continuidade natural do célebre programa. mas sim contra os antigos aliados.. a própria dinâmica do processo social. pouco depois. não se trata de atenuar os antagonismos de classe. na verdade. ou melhor. uma pequena ameaça de revolução geral. “o papel de traição que coube aos liberais burgueses alemães em relação ao povo. 5) Nossos interesses e nossas tarefas consistem em fazer a revolução permanente.) no qual as reivindicações específicas do proletariado são colocadas de lado em nome da tão desejada paz (. Conseqüentemente. Por isso.) Sob nenhum pretexto entregarão suas armas.. apenas se manifestou. uma nova “revolução provocada. 4) “Mas para poder opor-se enérgica e ameaçadoramente a este partido. aos atos de vingança popular contra indivíduos odiados ou contra edifícios públicos que o povo só pode recordar com ódio. pela inocultável vigência que mantém para todos aqueles empenhados. a Circular está inteiramente dedicada a determinar a “atitude do partido operário revolucionário” perante a revolução que se considerava iminente. não só devem tolerar tais atos.) não só não devem se opor aos chamados excessos. seria desempenhado — na próxima revolução — pelos pequeno-burgueses democráticos”. conseqüentemente. o fato não altera em nada a consideração metodológica relativa a suas diferenças com o “modelo clássico” de Paris de 1789: no lapso entre uma e outra época. as forças produtivas decisivas estejam concentradas nas mãos do proletariado. toda tentativa de desarmamento será rechaçada. se em 1848 a Alemanha encontrava-se às vésperas de uma revolução burguesa que finalmente não se concretizou na data prevista. seja por uma insurreição independente do proletariado francês. pouco tempo antes. e fazer de cada comunidade o centro e o núcleo de sociedades operárias. não se trata de reformar a propriedade privada. se nos permite a expressão. é preciso causar a desconfiança não contra o partido reacionário derrotado. em geral. o quarto e último capítulo (“A atitude dos comunistas perante os partidos da oposição”) consagra uma breve página para determinar com rigor conceituai a conduta a ser adotada diante da revolução em curso. Mais ainda. contra o partido que queira explorar a vitória comum em seu exclusivo benefício”. seja na forma de comitês ou conselhos municipais. como se vejam. resolutamente rechaçada (. da revolução. mas de abolir as classes. 1) “Quando a pequena burguesia democrática é oprimida (.. alterou-se.

pela perversão social de um sistema que acumula montanhas de riqueza — material e monetária — em um pólo da sociedade e miséria incalculável no pólo oposto (de acordo com uma informação recente. confusão dessa época. Mas há um ponto que tem de ser explicitado. realistas. Não está errado. Sujeito e objeto se fundem no trabalho teórico-prático. do aparato estatal. ou seja. em outubro de 1917. em primeiro lugar. . é a tarefa dos homens sensatos. Naquele momento. que se refere à ditadura do proletariado. porque é o meio real. para desenvolver o itinerário de sua própria agonia. Não como resultado de uma evolução puramente “objetiva”. quer dizer. minha aspiração não é nada. mas minha apropriação será igualmente real. as 346 maiores fortunas pessoais do mundo acumulam um montante equivalente ao que dispõem para subsistir — melhor seria dizer não-sub-sistir — os 40% “mais pobres” de todo o planeta). no partido nacionalista burguês. Claro que a sociedade andará por esse caminho com os recursos iniciais bárbaros da violência e da força. para a qual continua sendo insubstituível o renomado texto de Lenin.. mas na transformação do mundo. deu lugar à vitória da burguesia liberal) e proclamou que aquele não era mais que o prelúdio da “revolução dos sovietes”. quando nasceram historicamente os conselhos operários. É um ato de sanidade social contra esta loucura. antimarxismo. Encontramo-nos dessa forma. levando seu partido a tirar todas as conclusões da situação. em oposição a isso. sua forma terrena transformadora no plano das relações sociais é a “ditadura do proletariado”. conseqüentemente. a se desarmar e a renunciar a qualquer forma de duplo poder. Inversamente pode-se ter o dinheiro para possuir tudo e não almejar nada. como se sabe. na medida em que se rebelam contra essa barbárie. definir a ditadura do proletariado como um ato de sensatez. O “marxismo” de Stalin transformava-se em política de desarme contra-revolucionário da classe operária. Se almejo algo. de ação plenamente humana para acabar com a alienação do homem pelo homem. quer dizer.. os dirigentes do PC chinês foram liquidados impunemente por seus “aliados”. o texto transformou-se em uma denúncia implacável do stalinismo. não na interpretação. para terminar com a alienação mediante a qual o homem é dominado pelas coisas. concreto e único. pensou-se que ele havia enlouquecido. vale a pena precisar. revolucionários. que na década de 20 lançou sua campanha contra a “oposição de esquerda”. Lenin teve de conquistar seu próprio partido para a revolução socialista. Os acontecimentos do século XX contribuíram para difundir a idéia de que a ditadura do proletariado (que não é outra coisa que a vitória da revolução operária como o início do processo de transformação material em direção de uma nova sociedade) é apenas o começo de um processo de fortalecimento do poder. de sua progressiva extinção. um capítulo especial está dedicado ao dinheiro. como parto inevitável. e em nome da necessidade de cumprir com a etapa chinesa correspondente à “revolução burguesa”... os epígonos de Stalin proclamaram a “revolução por etapas”. mas como conseqüência do empenho do próprio Lenin em traduzir. que o próprio Marx cita.. parafraseando a Marx da época dos Manuscritos. conforme versos de Shakespeare. liga o homem à vida. obrigaram o PC chinês a se dissolver em “um grande partido de oposição”. FINAL AMOROSO Nos Manuscritos. a essa mercadoria especial e única. que para bem ou para mal. inclusive nos círculos mais importantes do partido bolchevique. ao derrubar o czarismo. Isso. os sovietes). Em 1927. a essa “divindade visível (.. quer dizer. ao equivalente universal de todos os valores.) traidora e prostituta universal dos homens e das nações”. o universo da criação de relações humanas não mediadas pela exploração e pela luta de classes irreconciliavelmente opostas. novamente. com a “idéia fundamental” do Manifesto. É o ato de força que acaba com a “pré-história” e dá o primeiro passo da “história humana” porque tende a dissolver o poder na sociedade. as lições do movimento operário revolucionário. para que seu pleno significado não seja completamente distorcido. para que esta caminhasse “objetivamente”. no cenário da maior revolução posterior à façanha de 1917. ao valor como tal na sociedade capitalista. Em todo caso. a suas possibilidades e carências. Recordemos também que. na mesma medida em que desenvolve as premissas materiais de um mundo no qual o trabalho de cada um corresponderá a suas capacidades e o retorno a suas necessidades. que o roteiro de outubro de 1917 seguiu o caminho traçado pela Circular. DITADURA E PODER POLÍTICO Não é o objetivo deste trabalho desenvolver a relação existente na proposta da ditadura do proletariado com a teoria marxista do Estado. de seus instrumentos repressivos..17 escrito na véspera da Revolução de Outubro. que se atribuiu a um desvario — supostamente contra-revolucionário — de Trotski.. na prática. pela fome que provoca a superprodução. ditado pela herança do passado (com que outra “herança” pode contar o homem em seu trabalho em qualquer esfera de sua atividade vital?). Lenin retornou do exílio (logo após a revolução que.. divulgada pelo Financial Times. mas não tenho dinheiro para possuí-lo. Isso é stalinismo puro.46 Por essa mesma razão. O dinheiro é tudo na sociedade capitalista. de um governo operário e camponês (antecipado na elaboração e balanço que fez Trotski da “primeira revolução russa” de 1905. Em abril de 1917. que na Rússia tomaria a forma. A exteriorização do pensamento. Os “propósitos” do Manifesto mantêm sua atualidade total. conscientes. associado unilateralmente a essa suposta “novidade”. de sua capacidade coercitiva como ferramenta peculiar separada e aperfeiçoada por sobre a própria sociedade. A peculiaridade específica da ditadura do proletariado é que nasce para morrer. em nome da suposta filiação antimarxista do conceito de revolução permanente.

5. 15. 1979. 8. V. Robinsonadas refere-se a Robinson Crusoé. pode ser imaginada. Marx. Fondo de Cultura Econômica. 6. no cruzamento de caminhos no sentido da sua conformação como revolucionário acabado. tens de ser uma pessoa que estimule e impulsione realmente a outros homens. o amor em ódio. 1980. Ver Braverman. é tomado possível pelo dinheiro. Lenin. “Capitalisme et socialisme. Ver Fromm. 16. La ideologia alemana. Isztván. Algo cuja superação. 17. no entanto. segundo semestre. Se quiseres gozar da arte. Era. correspondente ao objeto de sua vontade. 1994. de sua verdadeira vida individual. Pablo. que é resultado do trabalho e do trabalhador. cit. Inversamente. As citações que estão neste capítulo correspondem todas aos Manuscritos. Marx. como coisa. México. Erich. El Yunque. 1971. o vício em virtude. do qual Marx toma o termo “ser genérico”. Várias edições. Harry. Op. O homem tem consciência de si próprio como indivíduo e como espécie. várias edições. Mészáros. 14. Hobsbawm. Leon. Popitz.). I97S. Paris. se realmente não tenho vocação para o estudo. Este também é o Marx descobridor da ditadura do proletariado. Assim são a ditadura do proletariado. etc.) 9. Riazanov. 4. El Estado y la revolución. basta-se a si mesmo (Cf. diz-se do homem que. Paris.. 3. quer dizer. décennie 90”. Resultados y perspectivas. aparece com mero objeto. teu amor é impotente e uma desgraça. Se amas sem invocar o amor como resposta. Todas as citações desse parágrafo correspondem ao Manifesto Comunista. Cada uma de suas relações com o homem e a natureza devem ser uma expressão específica. op. Rio de Janeiro. 1971. Karl e Engels. 1979. mediante a manifestação de ti mesmo como homem amante. tens que ser uma pessoa artisticamente cultivada. Manuscritos. 2. quer dizer. México. 7. PUF. Marx et Engels. Manuscritos económico-filosóficos. Friederich. se quiseres influir em outras pessoas. não tenho vocação... 1966... O dinheiro inverte tudo.. se não sois capaz.. a sensatez e o amor cento e cinqüenta anos após o Manifesto Comunista. op.. Rieznik. Dicionário da Real Academia Espanhola). 10. a estupidez em inteligência e a inteligência em estupidez”. Riazanov. (N. Buenos Aires. Trabajo y capital monopolista. Isso acontece quando o homem é homem por intermédio e através do dinheiro. O que eu sou como homem. Anthropos. em que “o homem é homem e que sua relação com o mundo é uma relação humana”. David. Em espanhol. La teoria de Ia enajenación em Marx. o amor só pode se intercambiar por amor. do homem que não é homem porque não pode se expressar como tal.. Então. Várias edições. a confiança pela confiança. a virtude em vício. de te converter em pessoa amada. Heinrich. Feuerbach. por isso mesmo. Karl. Nuestro Tiempo. de sua aparência de sujeito e construtor de nossa sociedade. A “Circular. estabelecia assim uma distinção entre a consciência do homem e dos animais. na sociedade e sem ajuda alheia. Del Sur. cit. Karl. é “a confusão e a troca de todas as qualidades naturais e humanas (.. o servo em amo. Eric J.. daquilo que o capitalismo explora e que. Karl. o ódio em amor. Buenos Aires. David. NOTAS: 1. aos 26 anos. Paz e Terra. . “Sobre a ditadura do proletariado” na antologia do mesmo autor História do marxismo. o próprio símbolo do fetiche do capital. objetivamente como é. 13.. Marx y su concepto del hombre. Ver Trotski. sou incapaz de fazer e. Marx. da própria representação da alienação. 12. In: Actuel Marx n° 16. em uma sociedade que seja humana.) transforma a fidelidade em infidelidade.47 Se tenho vocação para o estudo.. para além da alienação. do T. então. O dinheiro é o meio e o fim pelo qual este mundo aparece invertido. México. mas careço de dinheiro para estudar. 11.” pode ser encontrada na maioria das edições das obras escolhidas de Marx e Engels. tenho uma vocação efetiva (. Marx. El hombre alienado. mas possuo o dinheiro e a vontade para fazer isso. portanto. cit. o que todas minhas faculdades individuais são incapazes de fazer.

Particularmente no Manifesto Comunista e nos escritos anteriores de Marx a revolução industrial capitalista e o conjunto de relações sociais objetivas desencadeadas por ela são descritas como libertadoras e. “substituem a atividade social pela imaginação pessoal. sugerimos o quanto essas atitudes de exagero imaginativo. tomando-se. as pessoas comuns. então das duas uma: ou se detêm. expressa no escritos de Hazlitt. Marx teria sido um dos únicos autores a transformar os dois lados numa só visão crítica do tempo presente.. iluminista e romântica. como Paul Breines. da imaginação social. constituíam partes do projeto utópico romântico.48 HUMOR ROMÂNTICO E UTOPIAS: REFLEXÕES SOBRE ALGUNS REGISTROS CÔMICOS NA ÉPOCA DO MANIFESTO COMUNISTA.3 os românticos forjaram suas utopias como esquemas de um tempo futuro que servia como móvel de superação de um presente degradado. a arte. veremos que o móvel utópico já está presente e a saída cômica parece ser a única diante de uma atitude geral de desencanto e de frustração com o tempo presente. como os românticos. Se por acaso não quebrarem o pescoço. no espaço simbólico. para delimitar uma nova comunidade de linguagem e um novo campo de significações. O humor serve para verificar a quantidade de verdade que existe em nossos preconceitos favoritos. pois deslocam significados. o guia temático de todos os seus escritos. no auge da batalha.2 Os analistas. inclusive. Se tomarmos a definição romântica do cômico. fragmentos do Athenaeum. concluiu Hazlitt.. e que fez do cômico. “O homem é o único animal que chora e ri. a longo prazo. sustentar uma atitude não conformista face à sociedade e à História. nesse caso. de que o que provoca o riso é “a repentina transformação de uma expectativa tensa em nada”. porque não começar a análise do humor romântico exatamente com Kierkegaard. O iluminismo e a sua descendência utilitarista sublinharam o primeiro lado do quadro. das singularidades nômades e dos pontos aleatórios — sempre deslocados”. como opressoras. é por demais conhecida a passagem do Manifesto que deplora as utopias comunistas. no limite. atenuando as lutas de classes e conciliando os antagonismos históricos. que nos escritos de Marx da segunda metade do século XIX. Cabeça baixa e olhos fechados. fazia-se na superfície dessa. através dos registros cômicos. que geralmente não têm a menor sensibilidade para o futuro. ou se voltam. a fertilidade e a enorme variedade das correntes românticas. Aqui teríamos — segundo a argumentação deste autor em 1819 — o grau mais elevado do cômico. como os falanstérios de Fourier. O tema do desencanto romântico alimentava as energias utópicas. Não é difícil concordar com tal tipo de análise. mas o próprio sentido das coisas e a razão. Sabemos que humor e a ironia constituem dois caminhos pouco explorados nos escritos românticos e. diagnosticou Alfred de Musset no seu Confissões de um filho do século. a nosso ver. fazem derrapar os sentidos estabelecidos e. “Tudo o que era deixou de ser. Lembre-se que os próprios autores românticos chegaram a teorizar sobre o humor. deslocando os significados estáveis pelo não-senso. oferecem subsídios importantes para a compreensão da própria utopia. (1814-1857) Elias Thomé Saliba Uma vez tomadas pela fome de progresso. como Kierkegaard. enquanto a raiz propriamente romântica se esgota. pois não se contraria apenas o hábito. Embora reconhecida a validade em lutar com as palavras. Utilizar-se. de agarrar covardemente os soldados pela garganta e voltar seus rostos para o inimigo. filósofo que escreveu O conceito de ironia. Apesar de descrições utópicas delirantes e não-factíveis. pois é o único que percebe a diferença entre o que as coisas são e o que deveriam ser”. ao mesmo tempo.4 O objetivo desse pequena intervenção é analisar a concepção de história e de utopia entre os românticos. Hazlitt assinala que o cômico nasce da colisão entre o objeto e nossas expectativas e o ridículo ocorre quando a mesma colisão aparece aumentada por alguma deformidade ou inconveniência. Retomando a célebre observação de Kant. de 1819. especialmente no que se refere ao seu traço utópico. A estas últimas é preciso tratar à maneira de César. marcham para os quatro cantos do mundo como se o espírito do progresso tivesse braços e pernas. dada a sua generalidade. nos escritos de Marx. quando chega a afirmar. o humor era um desses elementos da crítica da linguagem entre os românticos pois. Friedrich Schlegel.5 Pode-se perguntar.1 Não há dúvida de que um dos elementos centrais desse último argumento teria sido o enfático abandono marxista do caráter utópico das correntes românticas. “das superfícies e das dobras. a corrente romântica o segundo. Ora. mas sem tréguas. era marcar pontos na luta para. acabam por transtornar completamente nossas concepções de tempo. pois. contrariando o costumeiro e o desejável. Como procurei sugerir num livreto sobre o tema. às vezes de quase delírio onírico. Todas as suas . tudo o que será não é ainda”. por excelência. esta mobilização de energia imaginativa e poética fazia parte de um luta sutil. deixando de lado. 1798. desabrocha somente a raiz utilitarista. ou de uma forma mais extensa sobre a ironia. parece que ficaram presos apenas a essa passagem famosa. Nesse sentido. como William Hazlitt. Só não é possível concordar com a continuidade do argumento. correm literalmente para ele. as condições históricas da emancipação pelas condições fantasistas”. Muito já se escreveu sobre a dupla herança. essa arma ofensiva. que tinha o costume.

como é o caso — veremos adiante — da obra de Charles Renouvier. embora seja uma singularidade nômade e aleatória. ou seja. A história maravilhosa de Peter Schlemihl. perturbando os circuitos de contato com a realidade. que se instaura e se questiona ao mesmo tempo. irado. Aprendi a respeitar lucidamente a necessidade. da galhofa e do chiste. na fábula de Chamisso. numa passagem.49 proposições são atrevidas. como nos ensinava André Breton. explicada. Sob os escritos de Hazlitt ou de Kierkegaard. É na sua Filosofia da História.. é provérbio bem conhecido. O mesmo vale em relação ao acontecimento histórico”. todos os seus argumentos descambam no chiste e na paródia. mas crê que a estrela veio a ser. sabemos que Hegel estava muito distante de satisfazer-se com uma anedota mas. é fina a casca do ovo e ela se quebra com muita facilidade. dentro de amplo espectro. Mas Marx se afastaria. Eu acrescentei (e Goethe o repetiu dez anos depois) não porque o primeiro não seja herói. Não crê que a estrela existe. Como pai tenho de zelar por ela. Peter percorre todo um calvário de sofrimentos. publicado em 1814. a resposta do Chefe Florestal quando o infeliz Peter pede a mão da filha Mina em casamento: O senhor pede a mão de minha filha. o criado Bendel resolve emprestar sua sombra ao seu patrão Peter.7 Todos conhecem a história do homem que. A segunda. irônica. outros fazem o mesmo. O foco da narrativa de Chamisso é uma singularidade histórica. que “a fé crê no que não vê. sabe que ele bebe um bocado de champanhe. mas é uma dialética da derrisão. O homem perdeu sua sombra pela malévola necessidade histórica. não apenas deixam de lado a história social. só pode ser vista pela ótica do deslocamento ou da recriação de sentidos. pela chamada escrita fantástica ou literatura do absurdo. podemos perceber o quanto a situação chega muito próxima da dialética.10 No episódio final. Veja-se. por conta de sua extrema preocupação com os ditames de conduta dos personagens. sem possibilidade de superar a tragédia da mortalidade e o sono profundo do esquecimento. não se esconderiam laços mais profundos entre o cômico e as utopias? Tomemos. argumentando. Se dentro de três dias o senhor me aparecer com uma sombra bem adequada. quando. a bota de sete léguas. pois isso se vê. quase alegre. prosaica. afinal resolvido nesse caso pela própria escrita. Os diálogos criados por Chamisso são extensos exercícios de um humorismo de pés leves já que. uma tensão enorme à razão contemporânea pois. cada um à sua maneira. no humor. acentuando os aspectos metafísicos. olhando o universo do alto. quando. este lhe propõe devolver a sombra. outras tantas vezes na história universal — um acontecimento veio ocupar o lugar de uma ação. Desde a sua primeira publicação o escrito de Chamisso recebeu as mais diversas interpretações. de uma maneira geral.. o modo mais notável para captar a dissolução das personalidades na realidade social pósrevolucionária. como ocorre nas esquizofrenias. depois o humor transformado em coisa prática e por fim o humor transformado em coisa necessária. O criado de quarto. não é aceito em lugar nenhum e nos sucessivos reencontros com o famoso homem de casaca cinza e de silhueta mais fina do que uma agulha. com ironia. Chamisso trata de um mundo muito bem situado historicamente e no qual a ruptura do indivíduo com a sociedade e a conseqüente dissolução da sua personalidade. embora sem eliminar o cristianismo da História. faz lembrar aquele famoso exemplo que Hegel nos dá dos “criados de quarto” psicológicos. com sua fidelidade quase bovina ao patrão sem sombra. como um espécie de exercício sugestivo. Mas o próprio tema do desterro nos é apresentado de maneira leve. enfatiza o combate eterno do homem com o absoluto e Deus. pois nele podemos ler tanto uma sátira feroz ao titanismo dos românticos como uma quase paródia das definições hegelianas dos “indivíduos histórico-cósmicos”. realizar tal desiderato. Esta fábula protokafkiana parece impor. Bendel. A obra de Kierkegaard é a escrita que duvida de si mesma.6 Daí a necessidade de suspensão do juízo cognitivo. até hoje. parecem ter chegado ao limite da sua fecundidade.8 Tais linhas interpretativas apenas criam obstáculos para o historiador da cultura. mas no quarto — eu lhe digo — minha filha será a mulher de um outro. do deslocamento ou recriação do sentido..” Ora. para ficar nos mais famosos. Mais tarde eu me reconciliei comigo mesmo. no qual o infeliz Peter ganha. sem identidade e sem nação — portanto. mas apenas em troca de sua alma. do ângulo metafísico. ajuda-o a deitar-se. pelo própria figura de Peter Schlemihl. do que um acontecimento realizado?9 O que temos aqui é o autêntico desterro do exilado num mundo socialmente destroçado e carente de significados coletivos. fundindo tais traços nas generalidades — a mais evidente dessas generalidades é tratar o absurdo como inerente ao mundo e não como resultado da ruptura dos fios que tecem a trama social e histórica. diz: Aqui. pois. e o que é mais próprio dela do que uma ação cumprida. será bem-vindo. . provoca o riso. escrevendo: Nenhum homem é herói para o seu criado de quarto. que Hegel condena os “esmiuçadores de alma” que destacam apenas as particularidade da vida privada dos grandes personagens históricos. nas Migalhas filosóficas. etc. a paródia kierkegaardiana que ousava colocar o humor no interior da tríade dialética: primeiro. A primeira acentua traços de obsessão ou neurose compulsiva. Duas linhas interpretativas — uma de cunho mais psicológico e a outra. além da ambigüidade infinita de significados do homem que perdeu a sua sombra parece impingir-nos a figura inquietante do indivíduo sem memória. por exemplo.. que lhe permite viajar por todo o mundo em questão de segundos. buscando demolir o símbolo filosófico da temporalidade. objeto de humorismo no mundo antigo e renascentista encontra na fábula do homem que perdeu sua sombra. dou-lhe um prazo de três dias para que providencie uma sombra. O primeiro é a conhecida novela de Chamisso. Perdida sua sombra. inclusive do foco central. o filósofo dinamarquês propunha a fé como base do conhecimento da História. tem que evitar o sol e a luz do luar. para consolo. mas porque o segundo é criado de quarto. Ele descalça as botas do grande homem. Marx provavelmente teria lido com prazer. A idéia do “sósia”. necessitado de dinheiro vendeu sua sombra ao diabo. porém — como já tantas vezes em minha vida e. base para uma visão humorística do mundo e da História. aliás. o humor transformado em coisa possível. três exemplos de escritos da época romântica que. procuraram. criando um vazio analítico — como passam ao largo dos traços singulares da narrativa romântica. quando.

que transcreve o primeiro manuscrito da Ucronia. No posfácio. plantar acácias e choupos. symia belzezu. Para subtrair os homens à tirania dos fatos e às ilusões da necessidade histórica. com experimentos físicos notáveis. reverteria em seu crédito. satisfazer os diversos críticos no que se refere à verossimilhança.. que ganhou renome depois de ter estabelecido. para que tal decreto se efetivasse.. banir todos os indivíduos de convicções perigosas que não dão ouvidos à razão e seduzem o povo com uma leva de tolices. o melhor funcionário do Estado — até chegar a ministro e ser condecorado com o mais alto galardão real: a Ordem do Tigre Mosqueado de Verde com 20 botões!14 Neste conto. provém talvez do fato de que o manuscrito da Ucronia quer acabar com duas ilusões: primeira ilusão. O terceiro registro. sob o nome de poesia. o texto do neto. é o humor que predomina. um “legítimo macaco brasileiro”. nesse caso. outros desvios se apresentam noutros momentos. Assim. escrito por um monge visionário. Os indivíduos que circundam o palácio só conseguem ver o poder. com a suspensão da crença.. cronologicamente começam com Império Romano. um veneno secreto que tomava as pessoas absolutamente inaptas para o serviço do iluminismo”. depois destas quase 500 páginas. transmutado no senhor Cinábrio. Hoffmann. construir estradas. daí o móvel do seu humor. um ser encantado. depois do conselho do seu ilustrado ministro. depois de reconhecer a fragilidade. que a escuridão provém principalmente da ausência de luz. Aliás. se os próprios historiadores da realidade não conseguem por eles mesmos. repreendêlo pela penúria dos fatos que inventou e condená-lo pelo arranjo polêmico pelo qual dispôs os mesmos eventos. melhorar as escolas do vilarejo. parece tratar todas as coisas transcendentes — anjos. sonha com o passado — daí por que os quadros históricos. como pode o leitor ter a coragem de ainda rir e divertir-se?17 Como um moralista cínico. raquítico.50 O segundo registro é a novela de ETA. o melhor amante. na sua forma tacanha.. acabam. e que fala exatamente sobre o que não foi e o que poderia ter sido — poderia satisfazê-los?16 Assim. tornando absolutamente impossível eliminar a contingência. Se Hoffman foi mestre na arte de sugerir e engendrar espanto e angústia. operam num vácuo cronológico. já que estimula-nos a conceber a História despida de quaisquer dos seus traços genéticos.12 Nem é preciso dizer que. revertendo o finalismo agonístico e revirando o mundo instituído.. O resultado é absolutamente estapafúrdio. todos os nossos territórios de historicidade — esvaziando a cronologia cristã. supondo-se portanto o apagamento do cristianianismo da História. duendes. o Zacarias. apesar de todas as precauções. escrito em 1709 e o posfácio do editor. de três palmos de altura. depois de exemplificar com uma improvável demonstração geométrica a impossibilidade das verdades de fato se encaixarem em qualquer sistema. tornar os rios navegáveis. sobretudo. um jogo de espelhos e contra-espelhos. decide instituir. por decreto. aplicar vacina contra a varíola mas. mandrágoras — como coisas inerentes à vida humana e à História. a de que a percepção do tempo é algo intrínseco ao ser humano. Renouvier ainda satiriza conosco. expulsar do reino as fadas. negligenciado pela natureza. em lugar de sonhar com o futuro. se acrescentam três outros textos: o do filho do monge. as fadas continuaram a freqüentar o principado. O cômico de Hoffmann é o grotesco construído na superfície da linguagem que trabalha. o livro parece a todo momento querer empurrar o leitor pelo caminhos obscuros do equívoco e do embuste.” Assim. O problema é que a esse esquema já complicado. o embuste continua: Será fácil — escreve Renouvier — criticar o autor por ser incapaz de imitar a variedade infinita da vida. A escrita de Renouvier não é fluente talvez porque a abundância de idéias não lhe permitisse encontrar a expressão adequada. por articular a conspiração de todo o principado. com os vários narradores estabelecendo significados os mais disparatados: uma vez estabelecido um desvio possível num certo momento da história. a inusitada supressão do cristianismo da história também conduz-nos ao enredo da comédia. apesar de datados. Hoffmann. escrito em 1857. foge aos limites ficcionais — é a Ucronia (Uchronie). Não é de todo impossível ler aí um notável intuito cômico. apenas um narrador duplamente apócrifo. escrevendo sobre . “tudo de excelente que alguém mais pensasse. o senhor Cinábrio. confundido com o macaco. A sensação de estranhamento no leitor.. a impossibilidade e o caráter quimérico da Ucronia”. como Mosch Terpin. segunda ilusão: a crença no fato consumado na história. o Iluminismo. essas “inimigas das luzes que se ocupavam perigosamente do maravilhoso e propagavam. escrito na Holanda em 1658. O subtítulo já é rebarbativo: esboço histórico apócrifo do desenvolvimento da civilização européia tal como não foi e tal como teria sido. para reverter a visão global que temos do mundo. não há essências atrás das aparências. daí talvez o efeito cômico. que. finalmente. livro publicado pela primeira vez em 1857. sem as lentes distorcidas do prestígio e da veneração. cultivar batatas. para pôr fim ao prestígio do pequeno Zacarias chamado Cinábrio. na ânsia de governar. O príncipe Paphnutius. Os funcionários são burocratas grosseiros que fazem qualquer negócio por dinheiro ou vantagens pessoais. como nas novelas góticas.13 depois. é o melhor súdito. que não existe mais. o melhor poeta. No mesmo ambiente da poesia romântica. seu humor é destilado como o supremo produto da imaginação que cria e destrói segundo a sua própria vontade. Nessa fábula cômica de Hoffmann. fazer os jovens entoarem a duas vozes os seus cantos matinais. os intelectuais vegetam como imbecis completos na Universidade de Kerepes. pois tanto o primeiro quanto os sucessivos manuscritos. O autor coloca-se como um editor. a Ucronia faz derrapar todos os nossos sentidos de tempo. Mas. Sobretudo Rosabelverde. animais falantes. condenando nosso riso inoportuno: “Como pode. mais ou menos no ano 50 — e terminam com o Império Carolíngio. O pequeno Zacarias chamado Cinábrio. bem menos conhecido. falasse ou fizesse em sua presença. atenuando os equívocos. disforme. como é que eu. a fada que irá encantar o pequeno diabinho.. pois. quando poderíamos supor a apresentação de algumas chaves para toda essa confusão. Até as fadas fazem acordos espúrios para não serem expulsas do reino e. de Charles Renouvier. que consistia em mandar abater as florestas. Paphnutius resolveu.15 Apesar de não-ficcional. apocalípticos ou finalistas.

19 Mas se trata apenas de uma indicação isolada. Marcus Vinícius Mazzari. Paris: Union Genérale d‟Editions. Sem querer polemizar e. particularmente nos registros que analisamos. o humor dos românticos. que não há melhor começo para o pensamento do que o riso. afinal como não rir desse frenético e infinito jogo de espelhos que é a Ucronia? Se a Ucronia atrapalha a compreensão da História. Hegel. É conhecida a passagem no início do Manifesto que constata. 1948. é claro que Marx abandonou a ótica romântica de análise da realidade.. a deterse. As utopias românticas. p. Deleuze. Trad. Paris: Gallimard. 145. particularmente. W. 49. eu diria que. H. vivenciaram os mesmos impasses e as mesmas aporias que circulavam no oxigênio cultural que presidiu a escrita marxista. p. num momento de perigo na História”. Registros que se contrapunham à concepção de tempo herdada do cristianismo e do Iluminismo e que. Gilles.51 manuscritos apócrifos. Mas. E.U. por momentos. Edição bilíngüe. O tempo expresso no Manifesto Comunista é mais o tempo de Cronos. Romanticism and the case of Georg Luckács”. como uma epifania da emoção. para Renouvier. Nova York: American Book. Marx. Era preciso articular um futuro factível que esvaziasse a falsa plenitude do presente. bem mais tarde). a partir de perspectivas díspares. S. 1975. “Marxism. pois percebeu. de seu caráter fragmentário e aforístico. F. portanto. é o tempo de Aion — o tempo no qual o futuro e o passado dividem aleatória e infinitamente o presente. 16. 1965. 6.20 Hayden White e Kenneth Burke já analisaram as estruturas tropológicas contidas no textos de Marx em geral e. 62. buscando uma outra temporalidade que não fosse. por isso. p. o esgotamento de todas as formas de utopias na conjuntura das revoluções sociais de 1848. Hoffmann. atribuía inconscientemente ao presente — a frase é de Kant — “uma espécie de direito divino que era arbitrariamente negado a todas as outras épocas”. por extensão. esforçava-se apenas por “apropriar-se de uma reminiscência. dando lições a respeito dos momentos certos que temos para rir. Estes três registros. podendo ser pensado. e Enscoe. com acuidade e lucidez.. 9. uma fase da História destinada a ser substituída por outra. Riens philosophiques. deram substância a uma forma de humor de linhagem romântica. e Clark. Luiz R. Trad. os três registros. ao pensamento dos possíveis que ainda estão em suspenso no mundo”. ela. La raison dans l‟Histoire. a obra posterior de Marx. Kostas Papaioannou. A. o humor romântico constituiu um duro exercício de desesperança porque afinal não queria nada. G. NOTAS 1. 13. 1994. 8. 10. 46. Fora do tempo cumulativo e dos sentidos estáveis. G. os registros cômicos românticos. moralmente. Idem. Karin Volobuef. Ali. a necessidade de superação daquele presente degradado. p. Idem.. cada um a sua maneira. Literary Criticism. R. O pequeno Zacarias chamado Cinábrio. A história maravilhosa de Peter Schlemihl. afirmando que a sociedade capitalista não era permanente mas. 7. Lógica do sentido. Points of view. Ou. dentro dos limites muito estreitos da minha análise. From Pope to Croce. enquanto o tempo do humor romântico. Hazlitt. pois. p. 1942. onde o futuro irrompe e esvazia a falsa plenitude do presente.. 1989. p. E. que esteve na base do desencantamento em relação ao presente. 127. “On wit and humor”. como todo iluminista entusiasta do progresso. da coisificação das relações sociais e do fracasso da comunicação entre os seres humanos. 4. Press. F. In: Allen. 12. São Paulo: Ars Poetica. .. mostravam o quanto Marx se afastou dessa concepção não-linear e fragmentária — na verdade derivada de fontes pagãs ou anticristãs. numa atitude de desencanto romântico. 1977. Idem. Paris: Editions Sociales. Adelbert von. fora de suas manifestações históricas singulares. que “as exaltações piedosas. Apesar de suas impropriedades. se distanciou. induziram a uma concepção de tempo que o Manifesto e. no “pensamento dos possíveis que não se realizaram e elevar-se. através do riso. 143. 259-261. Chamisso. p. Manifeste du Parti Communiste. Marx também partilhou desta atitude de desencantamento com o presente. Trad. a menos que ela própria afundasse “na ruína comum das classes em contenda”. p. Georg W. Knud Ferlov e Jean Gateau. Detroit: Wayne State Un. p. 31-34. Também eles se batiam contra algo que dentro da tradição hegeliana figurava sempre como pertencente a uma espécie de realidade autônoma. 1971. apenas apressar a derrocada das ilusões sociais em relação ao poder burguês.18 Surgindo da ruína da antiga síntese. 1991. Cinábrio e Zacarias eram aquelas singularidades nômades. 11. por contraponto. criadas para expressar. o próprio Benjamin tenha dito certa vez. 137. mais forte. aquela outra passagem. Ainda que limitado. repentinamente. ele ainda se permite a condenar o nosso riso inoportuno. Trad. T. Trad. Gleckner. p. Chamisso. 1973. os frêmitos sagrados e o entusiasmos cavalheirescos do passado” foram impiedosamente despedaçados e submersos “nas águas geladas do cálculo egoísta”. O humor romântico também falava-nos — como o Manifesto — da dissolução dos vínculos sociais. Nova York: N. São Paulo: Perspectiva.21 Mas não precisamos concordar inteiramente com a análise desses autores para extrair delas aquilo que nos interessa mais de perto: a estrutura da comédia e da ironia e o seu significado mais vasto em termos de uma compreensão da temporalidade e da História. da renitente falta de acordo entre o sentimento e a inteligência. Romanticism. Salinas Fortes. tal como ela brilhava. Marx deixou de lado a força e o impacto que o registro cômico exercia sobre a compreensão crítica do presente. H. ao abandonar a ótica das utopias românticas. no texto do Manifesto Comunista.22 Talvez. São Paulo: Brasiliense. 5.P. pois os espasmos do diafragma oferecem melhores chances para o conhecimento do que os espasmos da alma. W. contudo obriga o espírito humano. (como diria Walter Benjamin. como um dos elementos da atitude utópica entre os românticos. Kierkegaard. Peter. aqui brevemente indicados. São Paulo: Estação Liberdade. 2. 3. 475-477. In: Studies in romanticism. temporária.. aquela de um tempo vazio e homogêneo. particularmente do Manifesto Comunista.

Trad. Manifest du. cit.52 14.. Benjamin. trad. 167173. Renouvier. Kenneth. p. 1857) Paris: Fayard.ldem. Respectivamente. e no caso do Alan/festo Burke. In: Obras Escolhidas. White. 22. 1969. Idem. p. 224. Berkeley: University of California Press. Walter. São Paulo. p. Charles. op. Idem. 15. in: Lógica do sentido. Hayden. 1992. 143. . José Laurênio de Melo. 465-466. 20.. 56. Uchronie (L‟Utopie dans l‟Histoire). Uchronie:. p. p.. 19... p. 1988. São Paulo: Brasiliense. 18. a imaginação histórica do século XIX. esquisse historique aprocryphe du développement de Ia civilisation européenne tel qu‟il n‟a pas été. Edusp. Sérgio Paulo Rouanet. ibid. Tomei como inspiração as páginas que Deleuze escreveu sobre o tema. Idem. 1985... “Sobre o conceito de História”. (1a ed. tel qu‟il aurait pu etre. 17. 21. 468. Meta-História... A Grammar of Motives. 16.

patrício e plebeu.53 O MANIFESTO COMUNISTA E A ANTIGÜIDADE CLÁSSICA Norberto Luiz Guarinello O título deste artigo aproxima. Mesmo. O Manifesto. (Manifesto. até recentemente: que o mundo antigo também se organizava em classes de explorados e exploradores. Um ponto comum parece perpassar quase toda a historiografia marxista sobre a Antiguidade. já em meados dos anos 30. uma questão central fundamental para os historiadores marxistas da Antiguidade uma questão central: a História é. que terminou. suas leis próprias de desenvolvimento? Como definir se os princípios analíticos. 94) Mas quais classes? Como pensar os conflitos de classe numa sociedade não-capitalista? Quais as semelhanças e as diferenças entre o passado pré-capitalista e o mundo criado pelo capital? As respostas a essas perguntas variaram enormemente ao longo destes 150 anos. é um texto essencialmente preocupado com o presente. A escravidão teria sido a primeira forma de exploração e as sociedades escravistas as primeiras sociedades de classes. simultaneamente. cada vez. mestre de corporação e companheiro. levando a efeito uma guerra ininterrupta. em particular. logo em seu início. ou sobre o caráter de classe da escravidão antiga. derrubado. recorrente nos escritos de Marx e Engels. provavelmente. no Prefácio da Contribuição à crítica da economia política. representaram uma fonte de inspiração e muitos desafios. senhor e servo. mostrando a vitalidade das leituras às quais o Manifesto se abria.. no entanto. ao interminável debate sobre o chamado modo de produção asiático. escrito por K.3 A Antigüidade Clássica. sempre teve a luta de classes como seu ponto central. Para os historiadores marxistas. geral. (que) adotou a forma de uma encarniçada luta de classes. mas cujas raízes eram já identificáveis nos dilemas e conturbações de então. de Engels. com efeito. trazia em si todas as marcas da urgência com que fora escrito. a história da luta de classes.1 Trazia uma reflexão nova sobre um mundo também novo. os textos mais mencionados e explorados nos dias de hoje. De modo geral. Quando veio à luz. que se erguia diante do olhar espantado de todos. E isso merece uma explicação. por sua profundidade e argúcia. a formulação mais completa.2 O Manifesto Comunista. como se sabe. certamente. desde os mais remotos tempos. entre opressores e oprimidos. talvez nenhum tenha exercido uma influencia mais marcante sobre a historiografia da Antiguidade Clássica do que o Manifesto Comunista. em diversas passagens de O Capital. que “a queda da sociedade romana. largamente influente (mesmo para seus detratores) e permanentemente relido nestes últimos 150 anos. a especificidade de sua sociedade. Um futuro que.5 O conjunto dessas referências à Antiguidade. ou dois termos. tais como: qual a posição da chamada Antiguidade Clássica na História Universal e. mais do que tudo. um clássico. o domínio do capitalismo sobre o mundo e sua inevitável superação.8 A historiografia soviética sobre a Antiguidade. um ponto de partida e um contraponto para o desenvolvimento do capitalismo. marxista ou não. compõem. em A origem da família. em última instância. em torno de duas classes fundamentais.6 Mas de todos os escritos de Marx e Engels. ora aberta. de alguns princípios gerais que regem a transformação das sociedades humanas. no movimento da História. tem uma presença e um papel de grande importância no Manifesto Comunista. no entanto. como afirmava Kovaliov. na correspondência e. Afinal. desenvolvidos por Marx e Engels para a análise do capitalismo. oprimidos e opressores. influenciou notavelmente a própria historiografia especializada. de toda a obra de Marx e Engels. fez mais justiça ao texto que seu próprio presente. como que anunciando a onda revolucionária que varreria a Europa. articulada e coerente da especificidade histórica da Antiguidade Clássica. escondem-se. opressor e oprimido permaneceram em constante oposição um ao outro. não tenha deixado vencedores. naquela do capitalismo. com efeito. o capítulo sobre as formas que precedem à produção capitalista. da visão absolutamente genérica e generalizante da história humana que se pode ler no Prefácio da Contribuição à crítica da economia política. com efeito. Partilha. Como definir seu modo de produção. p. e que o conflito se dava. a primeira a constituir-se no campo marxista. ao mesmo tempo que permite ressaltar. ora disfarçada. Apontava. Marx e F. para o futuro. e com as diretrizes para transformá-lo. longe de estar ausente. os Grundrisse e. até mesmo. as lutas de classe na Antiguidade Clássica foram rigidamente enquadradas numa Filosofia da História derivada. numa palavra. em passagens cruciais dos Grundrisse. terminando com a „destruição das classes em conflito‟”. neles. São. não raro da própria Antiguidade: Homem livre e escravo.10 . de modo aparentemente insólito. diferenças profundas. duas realidades. contudo.7 E os exemplos que enuncia são exemplos do passado.9 Até meados da década de 1950. que assistiram à dissolução da comuna primitiva até o fim do Império Romano. para se ter uma idéia da riqueza das questões propostas pelo marxismo aos historiadores da Antiguidade. precisamente. como no capitalismo. a absoluta singularidade da sociedade capitalista. ao mesmo tempo. e a despeito de inúmeras incongruências. sob diversas roupagens: na Ideologia alemã. O conflito fundamental foi identificado nas lutas entre senhores e escravos. cuja relação não é evidente. Anuncia. o Manifesto do Partido Comunista. Essa presença da Antigüidade Clássica é. Engels no princípio do ano fatídico de 1848. Sob o manto desse acordo. são também válidos para as sociedades que o precederam? Basta uma olhada. tornou-se um marco do pensamento social contemporâneo. em particular. para um futuro radicalmente diferente do presente.. mesmo que perfunctória. da propriedade privada e do Estado. mais ou menos. por uma revolução dos escravos contra seus proprietários. e firmemente regida pelo esquema de etapas do desenvolvimento social da cartilha stalinista.4 É. com o capitalismo. e sempre foi. com seu presente. ou pela reconstituição revolucionária de toda a sociedade ou pela destruição das classes em conflito. coloca.

L.. à parte alguns episódios de rebelião aberta. ocupando postos acadêmicos e com acesso ao mundo editorial data apenas dos anos de 1960. caracterizadas pela coerção extra-econômica dos produtores diretos. mais do que qualquer outro. em particular. e uma ênfase na especificidade das leis de evolução desse mundo frente ao capitalismo. Há. atuam no plano das relações econômicas. mas a todas as vítimas da sociedade existente. enquadrando a escravidão como uma entre tantas relações de dependência. Se a divisão em classes econômicas é. a velha noção da escravidão como primeira forma de exploração de classe. tanto na derrubada da República romana como na queda do Império romano do Ocidente. de Ste..)18 A própria presença de escravos. mas. para o Ocidente. nos escritos de Staerman.15 Nos países ocidentais. com o antigo sistema binário.) a população livre (. nesse sentido.16 Dizia Parain: A oposição mais profunda.” Sua principal dificuldade era. dos Grundrisse e do próprio O Capital. e potencialmente transformador.”. enfatizando-se. entre ricos e pobres.) Cada um dos modos antagônicos de produção (na História) engendra duas classes fundamentais. Staerman. sem deixar de ser eficaz. na própria França. O esquema stalinista não atuou como um fantasma. no mínimo uma maior flexibilidade no seu ordenamento. escravos e proprietários de escravos são essas duas classes (. Duas características marcam essa revisão: uma ruptura progressiva com noção de etapas. Vernant. sem grande preocupação com as fontes antigas.20 Ste.13 O sistema entra em crise.C.. que explica o desenvolvimento político do mundo antigo. A revisão da interpretação stalinista da Antiguidade Clássica iniciou-se ainda nos anos 50. o caráter extra-econômico das formas de exploração na Antiguidade. rompendo.) e os pequenos produtores.. mesmo que tenha sido um conflito latente. Podemos acompanhar essas mudanças na obra de uma das maiores historiadoras soviéticas da Antiguidade. como o conflito principal que. mas baseado sobretudo em citações de Marx e Engels. assim como a idéia de um conflito binário. mas podiam coexistir. de apenas duas classes fundamentais. Na sociedade escravista.54 Kovaliov representa. O conflito aberto. e uma paralela mudança de ênfase. para o Oriente antigo. podemos explicar a existência de classes acessórias (de transição). a classe dos pequenos produtores era uma das classes acessórias.) Sua grande debilidade (dos escravos em luta) foi que nunca puderam levar adiante e propor. uma ameaça quase sempre surda. não pelo conflito entre senhores e escravos. no sentido estrito do termo e. que não apenas se sucediam. mas com características próprias.. Como conciliá-las com as contradições decorrentes da exploração econômica dos escravos? Como pensar a especificidade das lutas de classe no mundo antigo? E uma questão que jamais se colocou para a historiografia soviética: é lícito falar em classes na Antiguidade? Ch. Um esquema não apenas rígido.) Mas como nas sociedades de classes se mantêm resíduos dos modos de produção anteriores e se formam novos elementos. engendra o conflito “principal” entre estes últimos e os ricos. o que não significa que esta tenha sido sempre a oposição principal.. no âmbito dos próprios livres. “A ausência de interesse dos escravos por seu trabalho era o principal obstáculo no desenvolvimento da vida econômica no mundo antigo. Mas seu foco de interesse é o Império Romano e. do Manifesto Comunista. em última instância.. A classe explorada e oprimida era fundamentalmente a escrava (. solapando as bases do sistema escravista sem conseguir alterá-lo. Parain para o mundo romano e. uma maior atenção para a multiplicidade de modos de produção característicos do mundo antigo.14 A escravidão desapareceu por suas contradições internas. várias pistas para os desenvolvimentos mais recentes da historiografia marxista soviética. o exemplo de uma leitura do Manifesto Comunista à luz do Prefácio da Contribuição. justificar a evidente importância das lutas políticas entre os homens livres. compunha-se de homens livres e escravos.. O próprio conceito de classe. e as lutas entre cidadãos livres. depois dele. os trabalhos de G. para o marxismo ocidental. Uma delas é a tendência à multiplicação das formas de exploração do trabalho. ou uma camisa de força e o Manifesto foi lido.. Na sociedade escravista. assim.12 A inspiração no Manifesto é clara. Croix afirma peremptoriamente a eficácia do conceito de classe social para o estudo do mundo antigo. entre escravos e donos de escravos. Utchenko é um exemplo dessa última tensão: A sociedade escravista. e o conflito entre exploradores e explorados. é a oposição entre livres e escravos.. há uma . a expressão do modo pelo qual a exploração é efetivada — o modo pelo qual as classes proprietárias vivem das não-proprietárias — então. tornou-se mais flexível. não apenas a seus companheiros de miséria. a dimensão política das cidades-Estados antigas. Contudo. E. desde os tempos remotos de babilônicos e egípcios antigos. Por outro lado.. as chamadas relações de dependência. (. o texto de Utchenko já aponta para uma crítica da versão stalinista do mundo antigo. Mais recentemente. no século III d. para a Grécia. A luta de classes permaneceu como uma categoria fundamental.. permaneceram um foco de constantes preocupações. Em seus primeiros trabalhos reproduz ainda.... sem sombra de dúvida.) dividia-se em duas classes: os grandes proprietários de terras (.19 Na Inglaterra. como as revoltas da Sicília ou o levante de Espártaco.. Também aqui o Manifesto exerceu uma notável influência.. que deu às sociedades antigas seu caráter específico em relação às sociedades medievais e modernas. dera-se em outro nível. uma historiografia marxista consistente. M. quanta novidade! As lutas entre senhores e escravos. Um artigo de S. sem qualquer -revolução. determina toda sua história. mais precisamente.. P. diz ele.. entre duas classes fundamentais. um ideal verdadeiramente revolucionário (. das lutas de classe para as contradições sistêmicas. de modo acanhado e quase mecânico. ou. acima de tudo. que caracterizariam esse mundo em diferentes épocas e lugares. greco-romano. em muito maior medida. propuseram responder a tais questões estabelecendo uma sutil diferença entre oposição de classe fundamental (entre senhores e escravos) e oposição principal (entre livres e escravos). como a especificidade do mundo antigo frente ao capitalismo. aqui.. econômicas. gerando o empobrecimento da maioria dos homens livres. por sua própria natureza. explicar a escassez e a irrelevância dos escravos.. a idéia de classes fundamentais parece ceder lugar a uma visão multifacetada do universo da exploração e do conflito de classes. J. não à luz do Prefácio da Contribuição. Só o foi quando a produção escravista era dominante17 (. Croix representam a tentativa mais brilhante e coerente de ler a Antiguidade Clássica à luz das obras de Marx e.

quer essa se expresse politicamente ou não. as condições objetivas de sua leitura. entre cidadãos. mas não pelos conflitos de classe. A historiografia marxista sobre a Antiguidade Clássica seguiu. para Finley como para Weber. O escravismo se expande. claramente insuficiente para a análise da sociedade romana. outras formas de exploração e de conflito. o marxismo vem perdendo influência no contexto da historiografia sobre a Antiguidade. não parece hoje tão segura. a complexa estratificação social do mundo antigo. Sua preocupação central é com a esfera da produção e da circulação. que sempre atuou como guia ou contraponto dessa historiografia. verticalizadas. perdido sua atualidade? Não creio. da evolução do mundo antigo. as próprias mudanças nas relações econômicas resultam da luta de classes. As aporias no pensamento marxista sobre a Antiguidade Clássica parecem refletir. no sentido pleno da palavra. E de que história? Da econômica. agentes econômicos. não é a luta entre as classes que determina a passagem de um modo de produção a outro. de modo sintomático. fruto. com o diferente potencial transformador e unificador do capitalismo e do escravismo. Os marxistas italianos. que conduzem à dissolução da sociedade antiga e ao desenvolvimento do modo de produção escravista. mas por ordens. necessita de urgente reflexão. em essência.”. Croix na luta de classes como motor da História tende a colocar as estruturas econômicas como uma espécie de pano de fundo. que parecem tê-la conduzido a um impasse. como Padgug: os estamentos e as classes sociais não são diferentes classes de fenômenos (pois funcionam relacionados). ou aos quais não deu importância. mas esse permanece como o conflito essencial. Para Ste.25 Não precisamos ir tão longe para perceber que o modelo dual — das classes fundamentais em conflito — deixou de ser coerente e que a própria noção de luta de classes. fortemente influenciada por M. de uma racionalidade econômica própria. sua difícil classificação. A historiografia marxista sobre a Antiguidade clássica vive hoje. na melhor das hipóteses. sem dúvida. menos o signo de uma opressão que deve ser extirpada que uma estratégia econômica de ampliação da produção mercantil. e talvez por conta dessas aporias não resolvidas. ou seja. ou de relações de dependência. Croix. uma direção. Para Faversani. que exerce uma forte influência mesmo sobre os historiadores marxistas. seus literatos colocam problemas que a historiografia marxista não soube resolver. a estrutura de exploração é um elemento essencial. das transformações do mundo antigo. conceitualizando essa ruptura na História? A própria aplicabilidade do conceito de classe social na Antiguidade. com seus libertos enriquecidos. na verdade. estamos longe do Manifesto Comunista. mais recentemente. Talvez os problemas da realidade contemporânea . derivadas de uma certa leitura do chamado marxismo analítico. a visão predominante. senão explicativo. procuram. senhores e escravos (modo de produção escravista). As classes sociais. não por classes sociais. de palco quase imóvel. não sociais.. A exploração do escravo toma-se. Weber e cujo impulso inicial foi dado pelos trabalhos de M. que as noções de coerção extra-econômica. O mundo antigo passou a ser visto como um mundo à parte. grupos de prestígio e status hierarquizados num continuum ou. sem produção mercantil e ordenado. juntamente com as classes. mas tais classes são. tal é. sem resolver. única. aplicada à Antiguidade. com as noções de valor de uso e de valor de troca.21 Havia. a par com a perda de eficácia das ações coletivas. tendem a diminuir a importância da própria luta de classes como fator causai.. diferentes percursos neste século. entre patronos e seus dependentes. A insistência de Ste. sem conexão histórica com o desenvolvimento do capitalismo. Finley.55 incessante luta entre classes exploradas e exploradoras e. não puderam ser resumidos a um conflito fundamental. nem se pode comprovar sua permanente eficácia como motor da História. sobretudo aqueles ligados ao Instituto Gramsci. Em todo caso. seus escravos domésticos ou trabalhando independentemente.23 A multiplicidade das formas de dependência. e sim pelas restrições do mercado à universalização do valor de troca.22 Aqui. aboliu a noção de revolução como lei histórica universal. mesmo que atuantes em diferentes períodos. mas estruturas adequadas a diferentes tipos de sociedades. Os marxistas italianos ainda lêem as sociedades da Antiguidade Clássica como divididas em classes fundamentais: grandes proprietários de terra e camponeses (modo de produção antigo). sem dúvida. como a chave. o contexto no qual se apresenta como texto. Primeiramente. aparecem apenas nas sociedades em que o valor de troca e a produção de bens de consumo se desenvolvem em toda a sua potencialidade. antes de tudo.27 A luta desaparece. como o capitalismo. as “relações diretas de poder”. uma perda de identidade. que parece ignorar as relações de produção? Podemos pressentir uma forte tensão entre economia e política nos estudos marxistas sobre a Antiguidade. cuja produção foi muito intensa nos anos 80. referido exclusivamente às relações de produção. como todo clássico que se abre a infinitas e sucessivas leituras. Nada impede que releiamos o Manifesto Comunista com nossos olhos novos. a própria dificuldade de explicar as transformações do chamado “capitalismo tardio” e a fragmentação e multiplicação dos agentes sociais. a penetração do valor de troca. um impasse. Croix. Os conflitos de classe. Mudaram. exprimir. estamentos. É uma posição quase isolada. que é essencialmente mercantil e regido pelas leis do mercado. por redes de relações pessoais. Terá o Manifesto Comunista. por exemplo. se a estrutura de classes. procurando entender a posição social de um rico liberto no Império Romano. como o oposto do capitalismo? E não estaria Marx. seus estrangeiros e metecos. entre senhores e escravos acima de tudo.24 aparecem como uma alternativa a um conceito de classe social que “se mostra. seus camponeses mais ou menos pobres. mesmo que indireta e a longuíssimo prazo. exceto aquela política. mas sua expansão é limitada. no que reside a especificidade do mundo antigo? Não seria melhor falar em mundo pré-capitalista? Um mundo construído em negativo. vale dizer. Para alguns. para Ste. mesmo se apenas os senhores podiam conduzir tal luta com eficácia. na última década. A História deixa de ter um motor. assim. uma causação. nas sociedades burguesas. um mundo estagnado. seus artesãos livres. precisamente. Para autores como Andrea Carandini. sobretudo para a chamada Escola de Cambridge. Mas então. E o capitalismo aparece como novidade absoluta na História. na Antiguidade. A despeito das inúmeras variantes disponíveis. ou quase. que parece mover-se por forças próprias? Ou da política. 26 Há vários pontos de contato entre essa escola e o marxismo mais recente. para os conflitos sociais. precisamente no Manifesto Comunista. São as possibilidades do mercado.

ela se resolve no futuro. a escória da sociedade. coerente e única é um lugar-comum na historiografia marxista. um esquema essencialmente dual. ao longo de lutas setoriais. é essa. os artesãos. aristocratas. Um mundo complexo. A oposição binária não advém. Pelo menos ainda não. As barreiras dos Estados-nacionais. de um vir a ser. os camponeses. que dominou essa historiografia por largos anos. O Manifesto. como aparece no último livro de O Capital. a diversidade cultural e social dos povos do planeta não foram simplesmente abolidas pelo capitalismo. como não poderiam ser. para seus autores. ainda. Devemos tentar interpretar o passado à luz das indagações que nos são contemporâneas. a historiografia marxista sobre a Antiguidade Clássica projetou sobre o passado greco-romano. O Manifesto transmite. como agrupar os conflitos de interesse na sociedade contemporânea. 94). de forma alguma. como em O 18 Brumário de Luís Bonaparte. não como a história de uma idéia. encontramos. Detenhamo-nos. através da ação de uma única força geral. a nossa época. possui uma característica: simplificou os antagonismos de classe. no Manifesto. 94). que se reflete mesmo em não-marxistas. por científico. a visão dual das classes? Vejamos a continuação do trecho: “No entanto. a brusca interrupção no livro terceiro de O Capital de uma discussão que Marx apenas esboçara sobre as classes sociais. a prever um “desfecho” para a História. No passado. os guerreiros. as classes médias inferiores. menos utópico. só é visível. já estava lá. porque aquele futuro não se concretizou (ao menos. e.56 nos permitam ler. De onde vem. efetivamente. na Idade Média. necessário sem dúvida. em praticamente toda parte. mas que não se dava a ver nas décadas passadas. o capitalismo não se universalizou. dominada por um único e irreversível conflito. embora seu impacto se faça sentir por toda a parte. ou apenas. em duas grandes classes que se defrontam — a burguesia e o proletariado” (ibidem. como aquelas que privilegiam a classe para si. os servos. presente e futuro numa relação dialética. p. mas produziu o próprio presente. Se a História é a história da luta de classes essa luta também tem uma história. É a tendência do capitalismo e Marx o diz explicitamente. todas as demais podem ser encontradas e lidas no Manifesto Comunista. p. A utopia lhe é consubstanciai. a posição do Manifesto? Sim e não. a não ser às custas de transformar-se. desde sempre. os pequenos fabricantes. os pequenos industriais. que é própria do capitalismo. suas zonas possíveis de fratura. das relações de exploração. pouco a pouco. quase simultaneamente e sem que seus autores se assombrem com essa aparente incoerência. apenas aquelas entre explorados e exploradores. Será mesmo incoerência? Depende de como leiamos o Manifesto: como o enunciado das leis gerais e permanentes da História ou como a descrição de um processo. os companheiros. os escravos. que pranteia. tão caras ao século XIX e às quais Marx e Engels não foram imunes. portanto. Permaneceu assim presa à armadilha teleológica de Hegel e das utopias do progresso. A sociedade global divide-se cada vez mais em dois campos hostis. hoje. e isso Marx e Engels deixam claro desde o início. pode. mas distribuíam-se numa gama variada de subdivisões dependentes de fatores políticos. da História. Mas isso se dá. O passado não apenas corrobora a análise do presente. mas não acontecido. A ênfase no dualismo do conflito de classes. hoje. e no qual restaram apenas duas classes. O capital não se transformou no sujeito único. temos os patrícios. A tensão entre esquema binário ou multifacetado. Mais do que isso. os plebeus. 103). uma gradação múltipla das condições sociais. E o mesmo parece aplicar-se à detida análise que Marx e Engels fazem. Há uma forte tendência a ver em Marx.29 Olin Wright. como A. de status e não necessariamente. apenas o proletariado é uma classe realmente revolucionária. que parece percorrer o Manifesto. As outras classes decaem e por fim desaparecem com o desenvolvimento da indústria moderna” (ibidem. de uma época em que o capitalismo já se universalizou. os senhores. mas aquela pela qual vislumbravam um futuro. já abrange o mundo. mas que exercem uma ação social importante. uma complexa divisão da sociedade em estamentos (Stände) diferentes. dos conflitos do presente. culturais . do presente. mas é uma característica do futuro. mas como a história das condições objetivas que o tornaram possível e necessário. ainda não). essencial e radicalmente. que tanta importância teve nas interpretações marxistas da Antiguidade. Na Roma Antiga. suas lutas mais promissoras? Como pensar o espaço dessas lutas? Que objetivos propor à sociedade e. a época da burguesia. os aprendizes. o de Marx em 1848. no Manifesto Comunista o que. sem uma definição conceituai precisa. aparentemente.35 E é sua solução no futuro que nos permite entender os conflitos no passado. muito menos do passado. sobretudo. em quase todas essas classes. cego e automático. Visão do presente.36 Dessa maneira. portanto? Não. é apenas aparente porque. com muita propriedade. Giddens. que nos são postas pela realidade de hoje: como pensar a ação dos grupos sociais. portanto. uma visão histórica da humanidade: a história do comunismo. a luta de classes. que é a mesma que conduzirá ao futuro: à luta de classes. não a estrutura pela qual Marx e Engels viam o presente no Manifesto.37 Não nos tornamos uma sociedade dual. visão do futuro. a consciência de classe como pré-requisito para sua definição. quais os limites físicos. que é uma classe para Marx? A ausência de uma definição explícita.28 Ou. precisamente. separa um conceito abstrato de classe. que mescla com mestria passado. políticos.30 Outras definições podem ser encontradas. Afinal. certamente influenciados pelo Manifesto. A burguesia cria o proletariado e este. ainda. Ora. só é compreensível. O método é claramente teleológico e o materialismo histórico de seus autores não deixa de ser. outras camadas subordinadas (Manifesto. Mas “de todas as classes que hoje se defrontam com a burguesia. em oposição ao texto prévio de Engels que com ele guarda muitas semelhanças32 é um texto essencialmente histórico. sobre o caráter dual da luta de classes. os vassalos. os mestres.31 Com exceção da divisão tripartite. Mas esse processo. p. as divisões entre oprimidos e opressores não eram. em primeiro lugar. ligado à definição de modo de produção e claramente polarizado em classes fundamentalmente antagônicas. uma divisão tripartite. do uso do termo classe em análises conjunturais. 150 anos após o Manifesto Comunista e ninguém se arriscaria. transforma sua condição de classe em consciência de classe e se torna o algoz da própria burguesia. parecer estranha. que atua como base e contraponto do presente e do futuro. a partir do futuro33 A definição da luta de classes como um conflito binário e polarizado não advém do passado e Marx e Engels deixam isso claro: Desde as épocas mais remotas da História.34 As velhas classes sobrevivem no presente de Marx.

encontramos novas necessidades que requerem para sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas e dos climas mais diversos. NOTAS: 1. mas apenas como ilustração de um passado que a Europa já superara. em redimensionar a Europa nos quadros de uma história mais universal e que seja. ainda. em detrimento da história do conjunto. é central para uma releitura. a única então possível.. Há uma urgência. na formação de uma comunidade global. para algum desfecho? O Manifesto Comunista ainda nos faz pensar. de histórias locais. p. na medida que generaliza.40 Uma visão típica do século XIX. Há várias pistas que podemos seguir. livresca em língua grega. ou pensável. que é herança histórica?). É um texto que visualiza a força da ação humana na História como instância transformadora por excelência! Nisso reside. sobrevivendo e atuando mesmo sob o manto de um império politicamente centralizado. a visão universalizante da História que aparece no Manifesto Comunista envelheceu. sobretudo. ter dominado um extenso império marítimo. 97) Uma visão bastante atual. dito em outros termos. a se tomarem burguesas. Mas isso é um outro tema.. é um futuro europeu. Em lugar do antigo isolamento local e da autosuficiência das nações.. esse produto passivo das camadas mais baixas da velha sociedade” (Manifesto. retirou da indústria sua base nacional. como o romano. ou de a cidade de Roma ser o núcleo de um processo de formação imperial não implica. universaliza. “Manifesto Comunista”. a imagem que herdamos do século passado sobre a Antiguidade Clássica.. (Ibidem. intrinsecamente ligados. Neste sentido. cria um mundo à sua imagem. a burguesia deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo de todos os países. do Manifesto Comunista. mais que tudo. 103).. que também a História se concentrasse nessas cidades. nos deixarmos ofuscar pelo brilho do poder político ou o fulgor da cultura erudita. dessa visão exclusivamente européia do futuro. sua maior riqueza e seu maior impulso ao nosso presente. cuja introdução se toma uma questão de vida e morte para todas as nações civilizadas. sem dúvida. onde os conceitos de comunidade. no mínimo. Marx e Engels pensavam o capital a partir de sua forma mais desenvolvida. necessariamente. Boitempo. In: Coggiola. provavelmente. Cf. entendido como continuação da história de Roma. não precisariam ser levadas em consideração. me parece. ainda fértil.. a todas as comunidades de homens? Formamos uma comunidade global? Como agir globalmente para transformar o mundo? A questão da comunidade. p. ao abrir-se à leitura. para a civilização. na luta pelo futuro.41 Uma escolha fundada em critérios políticos e culturais que correspondem à formação cultural dos dois autores (sobretudo de Marx) e à compartimentação da história corrente no século XIX. um século e meio depois de escrito. tribos. O futuro. mais atenta às história locais. isto é. um intercâmbio e uma interdependência universais. Nos propõe questões fundamentais: Para onde caminhamos? É a História. sobretudo nos Grundrisse. no Manifesto Comunista. O fato de Atenas. sobre as especificidades em seu interior. propor um desfecho à cada vez mais aguda exploração do homem pelo homem? Podemos pensar a exclusão como uma forma de opressão? Corno incluir. . situações históricas particulares e reproduzem. de modo de produção e de identidade cultural aparecem. ou seriam absolutamente secundárias: Por meio de sua exploração do mercado mundial.38 A história universal do comunismo que traçam é essencialmente européia. sem qualquer crítica. ao mesmo tempo. E a contrapartida dessa europeização do futuro ou. Não há porque. “a escória da sociedade. com as imensas facilidades dos meios de comunicação. nos escritos de Marx e Engels. hoje. na qual as diferenças entre os povos desapareceriam. universalizada e concebiam a própria história humana como história da universalização do capital. sobretudo em A origem da família. não apenas em termos locais. Para desespero dos reacionários. Mais que isso. hoje. a burguesia arrasta todas as nações. em todas as direções. nos seus contornos. satisfeitas na produção nacional.. Essa visão parece hoje. como a convivência de sociedades estruturadas diferentemente. mas que a historiografia marxista sobre a Antiguidade preservou em nosso século. mesmo o da revolução proletária. portanto. da separação entre as sociedades humanas. e. como estagnação39 E a América comparece. calcada no modelo de sucessão de civilizações e de centros de poder. p. Não há porque privilegiar uma linha histórica. As velhas indústrias nacionais foram destruídas ou estão se destruindo dia a dia. sobre sua especificidade e. mais que em qualquer outro ponto.. bem como em quase todos os demais escritos de Marx ou de Engels. São Paulo. Friedrich. bizarra. cujas particularidades culturais seriam simplesmente tragadas pelo capitalismo ou que. só possível. a história da luta de classes? E como definimos essas classes? Como se dá essa luta? Como pensá-la. a adotarem o que ela chama de civilização. A Antiguidade à qual Marx e Engels se referiam era um mundo restrito e específico: Atenas em sua época clássica. Em uma palavra. cidades. São suplantadas por novas indústrias. Com o rápido crescimento de todos os meios de produção. O. é o eurocentrismo que marca a visão do passado.57 dessas sociedades? Haverá fins comuns a todas as sociedades humanas. o Império Romano. Karl e Engels. Marx. mas sempre como nãoHistória. talvez. por algumas décadas. Marx e Engels pensam a universalização do capitalismo como uma universalização da Europa sobre um mundo sem História.. mas globais? Podemos. sem dúvida. 150 anos do Manifesto Comunista.. nos escritos da década de 1850. de modo radical. com insistência. mesmo as mais bárbaras. as ênfases das próprias fontes antigas. mas de um futuro que ainda não se realizou. ou de concentrar a produção intelectual e. Para os historiadores da Antiguidade isso coloca novos desafios. É verdade que a Ásia começa a aparecer. afinal. ainda. sobre sua posição na história da Europa (mas será da Europa? Não será o Islão o verdadeiro herdeiro das sociedades clássicas? E. Força todas as nações. É preciso refazer. 9. a República de Roma. 1998. crescentemente. em lugar das antigas necessidades. que cresce sem cessar nesse mundo globalizado e liberal? Podemos apontar. traçado a partir da Europa. efetivamente. impérios.. de culturas distintas. desenvolvem-se. O Manifesto Comunista revela-se.

a Marx. na obra citada à nota I. ora são os mercados. p. “El régimen esclavista”.. Riuniti. a colonização da América. M. La esclavitud en la Italia Imperial. A afirmação e o texto foram retirados de Mazza. Rio de Janeiro. “Prefácio a obra de Staerman”.. L‟Erma di Bretchneider. 75-107. 1978. no livro primeiro de 0 Capital. (org. 492-518. com os escravos constituindo uma espécie de pedestal passivo.. as oportunidades estruturais. 1924. Madri. “La esclavitud antigua en Ia storiografia sovietica”. Os mercados das Índias Orientais e da China. mas nele também encontramos o germe de uma outra tensão. além do artigo citado de Vittinghof. 165-190. da pequena contra a grande propriedade. dominio del valore d‟uso e funzione idelogica”. 1986. Introduzione.” (p. no Manifesto. 13. p.)” (Weber. cit. como veremos. M. por mais que possamos rejeitá-lo em suas teses essenciais (como. 69). B. 9. xvii-xviii. No próprio Manifesto. favoreceram o rápido desenvolvimento do elemento revolucionário na sociedade feudal em decomposição”. V. In: La transicion del esclavismo al feudalismo. 66-68. 1978. O tema da luta de classes. Madri. 2a edição.. Akal. II. Staerman. 18. em conseqüência. E. a maioria dos trabalhos que mencionaremos. 3a ed.. in: El modo de produccion esclavista. também.. Madri. Akal. I. Akal. etc. “Les problèmes économiques du socialisme en URSS”. “Per una rilettura delle „Formen‟: teoria delia storia.. O próprio Marx parece hesitar entre diversas alternativas: patrícios e plebeus. 1978. “A burguesia despojou (. (Manifesto. Akal. 68). E.. p. um impulso jamais conhecido antes e. Não faço juz. S. M. “Los caracteres específicos de la lucha de clases el Ia Antigüedad clásica”. neste trabalho. p. Utchenko. “La investigacion de Ia época clásica en Europa Oriental: algunas tendencias recientes”. M. Citado a partir de Ste Croix. aqui apenas enunciada por Marx e Engels. Der Sozialismus. op. Berlim: Akademie verlag. acompanhada de uma análise crítica. à indústria. J. também. “Clases y estructuras de clases en la sociedad esclavista antigua”. Parain. no prefácio à edição alemã de 1890. p. I. da História. Sobretudo. F. L. p. Idem. Veja-se Mazza. op. sobretudo na Itália. “La teoria del materialismo historico sobre el Estado esclavista” In: El modo de produccion esclavista. 36. numa carta a Engels de 8/3/1885. cit. 553). 7. Cahiers du Communisme. às comunicações por terra. livres e escravos. ou seja. 504-5.. 7 e 12-13. Veja-se. o texto do Manifesto Comunista traduzido e publicado em Laski. Akal. 17. ao menos eu. Paz e Terra. Vejam-se os parágrafos que se iniciam com: “A descoberta da América. Ch. p. Uma relação bastante completa dessas passagens. Londres: Duckwoth. Kovaliov. enquanto as classes econômicas se opõem a isso” (em Stalin. P.. entre credores e devedores.. com os plebeus passando à condição de subproletariado. O conceito ao qual Staerman se opunha era o de que “a classe de vanguarda é sempre. a promotora da utilização das leis econômicas no interesse da sociedade. Natunewicz. Essa tensão entre sujeitos. O Manifesto Comunista de Marx e Engels. F. Parain. abriram um novo campo de ação à burguesia nascente. entre agência humana e agência estrutural. a circunavegação da África. p. em A ideologia alemã. citado à nota 12. à navegação. à navegação. p. op. Veja-se Biezunska Malowist. 13-64. cit. Akal. 12. 69).. p. 257-287. In: El modo de produccion esclavista. Akal.)” “A burguesia não pode existir sem revolucionar continuamente(. A. é a seu modo uma realização cientifica de primeiro nível. 273. para o qual a descoberta da América preparou o terreno. Madri. ibidem. ora é a burguesia que atua. 1978.)” (p.)” (p. Formações econômicas pré-capitalistas. Da mesma Staerman vejam-se também: “Alcuni problemi della storia delia schiavitú delia tarda repubblica romana” In: Biezunska Malowist.) a burguesia destruiu todas as relações feudais.. xi-xv. & Trofimova. p. 15. 67) E também “A grande indústria criou o mercado mundial. & Sharevskaia. reflete-se. Basta mencionar a insuspeita visão de Max Weber: “Este documento. 6. por sua vez. pode ser encontrada em Vittinghof. na formação do capitalismo.. na historiografia marxista sobre a Antiguidade Clássica. mas permeia. o aumento dos meios de troca e das mercadorias em geral deram ao comércio. 1979 e seu fundamental Die Krise der Sklavenhalterordnung im Westen des römischen Reiches. de modo não resolvido. 1978. p.. ou motores. 176. Vernant. 1981. Roma. 23-47. entre livres ricos e livres pobres. O mercado mundial deu um imenso desenvolvimento ao comércio. 1978.. K. e em todas as partes. Isto não pode ser negado (. H. 14. M. Veja-se. Gesammelte Aufsätze zur Soziologie und Sozial Politik.. “El vuelco social del siglo III al V en el Imperio Romano de Occidente”. Madri. 1977. S. p. Madri. veja-se. Vejam-se as referências completas em Vittinhoff. “A burguesia rasgou o véu (. aqui. 5-19. 1981.. 1965. P. 149-172. in: El Modo de produccion esclavista.. Madri. 79. esp.) Schiavitú e produzione nella Roma Repubblicana. 216-217.58 2. 4. p. Veja-se a introdução de Hobsbawm. G. Esse desenvolvimento. 5. a respeito. Como lembrava o próprio Engels. 1980. rejeito). p. 49-66. Akal. 68). Petit. no 18 Brumário. Madri. p. particularmente do artigo de Schiavone. livres e escravos. “(. 268. Ch. sem dúvida é central ao texto. p. Roma. p. 4. M. 11. 1952. E. 8. E.. C.. The class struggle in the ancient greek world. “Remarques sur Ia lutte de classe dans Ia Grèce ancienne”. a toda a riqueza de questões que o Manifesto nos coloca. p. p. I. Utilizamos. Zahar. na mesma obra. Rio de Janeiro. Os Fundamentos são o pano de fundo essencial à discussão da obra coletiva Analisi marxista e società antiche. Compare-se com as descrições da burguesia como ator: “A burguesia desempenhou na História um papel extremamente revolucionário” (68). entre os dois modelos de transformação histórica que transparecem em suas obras. op.)” “A burguesia revelou (. reagiu sobre a extensão da indústria” (Manifesto. J. Staerman. no Império. & Trofimova. 3. 122. 10. In: El marxismo y los estudios clasicos. 1978. que possibilitam e determinam o desenvolvimento e a futura crise do capitalismo. Eirene.. J. . a luta entre latifundiários e proprietários de fazendas escravista (estes os derrotados). J. 16. o intercâmbio com as colônias. 1964. p. p. cit. In: El modo de produccion esclavista.

p.. 9-52. p. Paris. Sobre a obra de Finley. p. Vittinghof. 1989. Roma. In: Marx en perspective. como princípio de toda a História. na obra citada à nota 1. (org. Annequin. Petrópolis. Turim. Veja-se o meu “Revalorização da origem da família. J. “Em memória do Manifesto Comunista” e de Jaurès. Madri. oprimida”. Padgug. 27. Schlesinger. “Roma imperialistica: un caso di sviluppo precapitalistico”. J. Veja-se. Veja-se Hadrill-Wallace.. 1983. “Apresentação”. 112. Macmillan. Veja-se Schiavone. Arciniega.166-167. 235.) Marx e Engels na História. Por esse texto é fácil perceber o impacto da perspectiva histórica sobre o conteúdo do Manifesto e de sua visão das sociedades de classe. F. que depois se revelaria equivocada. (org. entre outros. 33. 1985. 22-24 mai 1986). Akal. In: Formas de exploração do trabalho e relações sociais na Antiguidade Clássica. em particular. 222. Clavel-Lévêque & F. 1978. 1978. “Aspectos políticos da transição do capitalismo ao socialismo”. Londres. Histoire. 1980. 1995. respectivamente. Sobretudo dos trabalhos de John Elster. como resultado de tal revolução. M. Routledge. Engels”. republicados. Roma. p. 35. 92-94. Ehesc. vide seu “Tres desafios al concepto de clase social”. Refiro-me aos Princípios do comunismo. 20. Ecole Française. “Présentation: vingt ans après L‟Économie antique de Moses l Finley”. Kolendo. In: El marxismo y los estudios clasicos. do próprio Finley. H. The class struggle. “What is marxist and what is neo in neo-marxist class analysis”. no entanto. as p. 87. de. J. Vejam-se Ste. Madri. E. na verdade. O objetivo do Manifesto era. História Antiga. 103-127. de que a crise dos velhos regimes levaria a uma vasta revolução social. Croix. dar uma dimensão histórica ao que. p. A. J. In: A contemporary critique of historical materialism. que viria a revelar-se correta. 22. no texto de Engels. 66. Revista de História. cit.59 19. In: Coggiola. O. p. Croix. “Marx‟s abstract model of class is a dichotomous one”. E. 7-35 21. A. como afirma E. Veja-se Vittinghof. devem existir. Memoirs of the American Academy in Rome. 1988. M. 38. 319. Prieto. In: Amphores romaines et histoire economique: dix ans de recherche. 1989. precisamente. 165-187. 505-521. da propriedade privada e do Estado de F. de. Ste. 26.. O. os artigos reunidos em Analisi marxista e società antica.) Patronage in Ancient Society. bem como.. A bibliografia é extensa. p. Martins Fontes. São Paulo. 1978. Vejam-se. necessariamente uma classe dominante que disponha das forças produtivas da sociedade e uma classe pobre. . p. 5. São Paulo. A. 109. 34. p. p. 1996. A. Porto. bastante pertinentes. A economia antiga. Prefazione — “Quando la dimora dello strumento e l‟uomo”. 947-961. Vejam-se as observações. Madri. 1989. Riuniti. 31. p. 36. Annales. Paz e Terra. entre outros. 1980. 37. Vol. (Actes du Colloque de Sienne. 11. de Ste. (org. Ehesc. ambos. entre outros. cit.. Riuniti. 29. Afrontamento. como os de Labriola. Porto. Roma.) Manifesto do Partido Comunista. I. p. uma visão polarizada das classes sociais aparece. (org. Concepção marxista da História. México. 2a ed. Paris. The Seaborne Commerce of Ancient Rome: Studies in Archaeology and History.. E. Boringhieri. Diz Engels: “Enquanto a produção não for suficiente tanto para cobrir as necessidades de todos como também para fornecer um certo excedente de produtos destinados ao incremento do capital social e ao ulterior desenvolvimento das forças produtivas da sociedade. J. La formazione economica della societa prima del capitale. p. “Per una rilettura delle Formen: teoria delia storia. Croix. p. Rio de Janeiro. Faversani. IXLX. E. “Clases y sociedad en la Grecia Clasica”. 17-18. Favory. R. 78-79. “Karl Marx and the interpretation of Ancient and Modern History”. p. 1981. L‟Anatomia della Scimmia. L‟Agricoltura nell‟Italia Romana. de que o desenvolvimento da economia capitalista teria avançado tanto a ponto de tornar possível. “O Manifesto Comunista de Marx e Engels”. 105-138. 1981. op. G. p. 54-55. já citado. p. 134. 1985. In: El Marxismo y los estudios clasicos. Trimalchio. A. “Classe e estamento”. A. de Engels. Humanitas. Escravidão antiga e ideologia moderna. p. In: Marx en perspective. G. M. p. Testemunhos e modelos. 24. FCE. Milão. A. Afrontamento. Rio de Janeiro.. R. 23. 1991. “Prólogo”. 39. Hobsbawm: “a perspectiva de 1848 baseava-se na hipótese. 25. 28. a vitória do proletariado”. p. 1996. Akal. aparecia como uma cartilha de perguntas e respostas. 32. dominio del valore d‟uso e funzione dell‟ideologia”. Ricordando i tempi dello scavo ostiense. 40. che sembrano cosi lontani”.) El marxismo: una perspectiva analítica.. Hobsbawm. para uma visão particular da relação entre marxismo e futuro. “L‟economia italica fra tarda Repubblica e medio Impero considerata dal punto di vista di una merce: il vino. “Karl Marx y la Historia de la Antiguedad Clasica”. p. 107-108 e 139-140. 1980. Andreau. citado à nota 32.. e também da hipótese. toma as análises de Marx como descrevendo um presente concreto e plenamente realizado. Feltrinelli. Que a descrição que Marx e Engels fazem do capitalismo no Manifesto refere-se ao futuro fora já observado em comentários clássicos ao Manifesto. Veja-se Fleischer. M. Marx ieri e oggi. I 1-20 e. p. Vejam-se. Akal. Graal. 30. In: História do marxismo. Wright. 1979. 1978. In: Analisi marxista e società antiche. Sciences Sociales.. In: El modo de produccion esclavista. In: Roemer. que. Vozes. 1990 e por último. vol. Carandini. do próprio A. op. 41. 1995. Giddens. Nos Princípios do comunismo. XXXVI. Cf. p. Londres. 52-54. redigidos por Engels em 1847 como esboço de um programa para a Liga dos Comunistas e publicados por Nogueira. 1961.

60 O MANIFESTO COMUNISTA E A CRÍTICA DA RAZÃO SISTÊMICA Osvaldo Coggiola “Em todos os filósofos. isto é. é precisamente o „sistema‟ o perecível. uma crítica do capitalismo e uma análise das suas contradições amplamente desenvolvida.. mas também uma grande parte das próprias forças produtivas já criadas. da ação humana consciente) o que é surpreendentemente ignorado em algumas análises mais recentes do texto (confusão vinculada à simplificação de que foi objeto seu título). é Manifesto do Partido Comunista. A sociedade vê-se subitamente reconduzida a um estado de barbárie momentânea (. assim como “um primeiro genial esboço de crítica das categorias da economia política” (nas palavras de Marx) redigido por Engels em 1843 (e freqüentemente reeditado sob o título de Para a crítica da economia política). social e política. o regime burguês de propriedade. Há dezenas de anos. O Manifesto foi publicado quando explodiam as revoluções de 1848. uma entidade que não engloba — em nenhuma circunstância — a totalidade dos membros da classe respectiva. A que leva isso? Ao preparo das crises mais extensas e mais destruidoras e à diminuição dos meios de evitá-las. O título correto. uma década e meia mais tarde. Uma epidemia. de outro. o comunismo não é um mero ato de vontade..1 Por outro lado. que conduzem à crise. reformistas e socialistas revolucionários — e. pois se os seus autores eram de origem burguesa-intelectual. em que diversos conceitos políticos (já contidos no Manifesto) foram precisados à luz da experiência histórica. em especial. assemelha-se ao feiticeiro que já não pode controlar os poderes infernais que invocou. sua redação lhes fora encarregada por uma organização operária (a Liga dos Comunistas) no sentido lato e estrito do termo. nem sequer uma maioria deles mas. como o movimento operário da época. O PARTIDO COMUNISTA Na época da sua redação. REVOLUÇÃO E CLASSE OPERÁRIA A revolução. em especial. com suas relações de produção e de troca.. n‟A luta de classes na França (1848-1850). e é importante lê-lo junto ao balanço feito por Marx desse período revolucionário. A preocupação dos autores em deixar claro que não pretendiam formar uma seita de iluminados (“os comunistas não constituem um partido à parte. conduzem em direção da revolução proletária. em especial pelos chamados “uto-pistas”. contra as relações de propriedade que condicionam a existência da burguesia e seu domínio. Mas já possuíam. a derrubada do capitalismo não seria o resultado automático das contradições daquele.) O sistema burguês tomou-se demasiado estreito para conter as riquezas criadas em seu seio. da democracia revolucionária. repetindo-se periodicamente. Friedrich Engels O Manifesto Comunista resume as tendências históricas que. mas da organização consciente dos trabalhadores. n‟0 Capital.. pela conquista de novos mercados e pela exploração mais intensa dos antigos. da sua natureza histórica. mas o resultado objetivo das contradições capitalistas. pela destruição violenta de grande quantidade de forças produtivas. o que explicita claramente seu objetivo político. do célebre texto. não é concebida no Manifesto sem a mediação da política (ou seja. Surge ali a crítica do proudhonismo. Marx e Engels careciam de uma análise da anatomia da sociedade capitalista comparável àquela que será desenvolvida. e completo. ou seja. que conjurou gigantescos meios de produção e de troca. ameaçam cada vez mais a existência da sociedade burguesa. pela simples razão de que surge de um eterno desejo do espírito humano: o de superar todas as contradições”. desaba sobre a sociedade — a epidemia da superprodução. que em qualquer outra época teria parecido um paradoxo. do socialismo reformista (ou “republicano”) — Giovanni Arrighi pretende arbitrariamente que só meio século mais tarde será consumada a cisão entre anarquistas. a sociedade burguesa moderna. oposto aos outros partidos operários. na sociedade capitalista. Cada crise destrói regularmente não só uma grande massa de produtos fabricados.”) não significa que não quisessem formar um partido. O pior erro que se pode cometer — e o mais freqüentemente cometido — é analisá-lo à margem das coordenadas de tempo e espaço. o que levou Marx à elaboração do conceito de . No próprio Manifesto. explicada no Manifesto em termos que não serão basicamente alterados nos trabalhos posteriores de Marx e Engels: A sociedade burguesa. Ele mesmo é um documento histórico da tendência já existente no operariado europeu de meados do século XIX para o confronto revolucionário contra o capital. no caso do proletariado (de acordo com o Manifesto) a sua “fração mais consciente e resoluta”. Basta mencionar as crises comerciais que. E de que maneira consegue a burguesia vencer essas crises? De um lado. portanto. nos artigos jornalísticos na Nova Gazeta Renana e. a história da indústria e do comércio não é senão a história da revolta das forças produtivas modernas contra as modernas relações de produção.

foi esta que levantou as barricadas e que pagou com a vida. mas não o bastante para levar ao primeiro plano. e não o suficientemente longe para permitir ao proletariado assumi-lo no seu lugar. Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas. por conseguinte. na Áustria. direto ou indireto. como também devido à ausência das condições materiais de sua emancipação. na Alemanha. de suas causas acelerantes e compensadoras. As divergências políticas e ideológicas no interior do proletariado (que justificam e tornam necessária a organização dos comunistas em partido diferenciado) não são um processo puramente ideológico. mas o reflexo. 13 anos depois. são portanto o arremate de uma luta de idéias em que essas expressam. as relações de produção e. os operários. que o Manifesto conseguiu resumir em seus termos mais gerais.. portanto. à classe operária. tinham atingido ainda o grau que teria tornado possível uma reconstrução social. desvinculadas da sua base material. a “conquista do poder político”.. León Trotski. e da expansão mundial do novo modo de produção. Grande parte da obra ulterior de Marx e Engels pode ser vista como uma pesquisa acerca da maturidade dessas “condições materiais”. depois. portanto. ele e Engels viam no comércio (e na emigração) com a Rússia e a América nãocapitalista um fator de abrandamento dos antagonismos classistas na Europa capitalista: “Ambos os países proviam a Europa de matérias-primas sendo ao mesmo tempo mercado para a venda de seus produtos industriais. em que Marx via no desenvolvimento do comércio exterior um fator compensador da queda tendencial da taxa de lucro. de uma revolução burguesa. derrubando o governo. essa agitação permanente e essa falta de segurança distinguem a época burguesa de todas as precedentes. eram. processos sociais objetivos. o antagonismo entre o proletariado a burguesia tinha ido longe demais para permitir à segunda assumir sem temor o papel de dirigente da nação. mas não de método. que “fracassaram necessariamente não só por causa do estado embrionário do próprio proletariado.. Engels afirmará que o erro da Circular. contudo. A “constituição do proletariado em classe”. e sua conseqüência. desde o princípio. derrubar o regime da burguesia. O Manifesto refere-se a elas como responsáveis (pela sua ausência) do fracasso do “socialismo e comunismo crítico-utópico”. O capitalismo tinha se desenvolvido o suficiente para tornar necessária a abolição das velhas relações feudais. nascida das novas relações industriais. com seu cortejo de concepções e de idéias secularmente veneradas. Na Circular à Liga dos Comunistas de 1850. Mas só os operários de Paris tinham a intenção bem definida de. consagrada à crítica da “literatura socialista e comunista” existente. o método de Marx e Engels na parte III do Manifesto. ou seja. condições que apenas surgem como produto da época burguesa”. Tudo o que era sólido e estável se desmancha no ar. as relações que as substituem tornam-se antiquadas antes de se consolidarem. Em última análise. na Itália. o caráter proletário de 1848 foi reafirmado por Engels no seu prefácio de 1893 à edição italiana do Manifesto: Por toda a parte a revolução de então foi obra da classe operária. de maneira insuperada até hoje: A burguesia não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de produção. experiência e conhecimentos. quererão detê-la no estágio em que seus estreitos interesses de classe sejam satisfeitos. Mas. também contida n‟A luta de classes na França): em carta a Engels. peso e composição social do proletariado é uma decorrência da característica histórica específica do modo de produção capitalista.61 “ditadura do proletariado” como mediação política necessária entre o capitalismo e a consolidação de uma sociedade socialista. fora de ritmo (a iminência de uma revolução) devido a que o capitalismo continha ainda importantes possibilidades de um amplo desenvolvimento das forças produtivas. e aceleram. De uma maneira ou de outra. Essa subversão contínua da produção.. do desenvolvimento dos antagonismos de classe nos países capitalistas. De modo análogo em O Capital. todas as relações sociais. ou seja. justamente. esse abalo constante de todo sistema social. das constantes pressões e mudanças sociais que o próprio proletariado experimenta. afirmou claramente que o proletariado de 1848 carecia ainda do desenvolvimento social que lhe permitiria candidatar-se ao poder: O proletariado era ainda fraco demais: faltavam-lhe organização. nem o progresso econômico do país nem o desenvolvimento intelectual das massas operárias francesas. A conservação inalterada do antigo modo de produção era. propondo a fórmula de “revolução em permanência” (ou “permanente”. Qualquer polêmica “marxista” que não as desvende será incompleta e idealista. Esse foi. A impossibilidade. O outro aspecto a ser levado em conta é a maturidade das condições objetivas para a revolução proletária. Mais de quatro décadas mais tarde. com sua correspondente base de classe). a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores.” EXPANSÃO MUNDIAL . embora profundamente conscientes do antagonismo fatal que existia entre a sua própria classe e a burguesia. Marx caracterizou a Circular. como força política decisiva. primeiro. Essas divergências tem portanto uma raiz social. Ainda no caso da Alemanha. Marx chama a desconfiar dos “democratas pequeno-burgueses” que. A constante mudança no número. os frutos da revolução foram colhidos pela classe capitalista. social e de classe. Nos outros países. já a essa altura. numa futura (e próxima) revolução. com isso. pilares da ordem européia vigente.2 CONDIÇÕES OBJETIVAS Isso não significa que a formação e diferenciação social do proletariado seja um dado que se adquire de uma vez e para sempre: as reflexões de Engels e Trotski referem-se à conjuntura específica de 1848. pelo contrário. por considerar as idéias em si mesmas. como um “plano de guerra contra a democracia” (entendendo por “democracia” uma corrente política. não fizeram mais do que levar a burguesia ao poder.

No lugar do antigo isolamento de regiões e nações auto-suficientes. mas sim matérias-primas vindas das regiões mais distantes. A expansão mundial do capital. a perspectiva da revolução proletária (comunista) encontrava-se vinculada a: a) A maturidade social e política do proletariado para realizá-la. para quem: Essa trajetória de negações sucessivas e cumulativas do legado de Marx por indivíduos. é Giovanni Arrighi. para dizer de outro modo. Ao invés das antigas necessidades. recentemente. Para desespero dos reacionários. E a Rússia? Durante a revolução de 1848-49. como fator de estabilidade da Europa. Esse dinamismo contraditório determina não só a luta política (de classe) entre o proletariado e a burguesia. prisioneiro de guerra da revolução e a Rússia forma a vanguarda da ação revolucionária na Europa. assim como sobre a possibilidade de que a Rússia e a América jogassem o papel de gendarme da reação internacional. a base do regime político em sua totalidade. Pouco a pouco. os produtos das regiões mais longínquas e de climas os mais diversos. ao mesmo tempo formam-se.4 e se identificou inicialmente pela defesa da ditadura proletária contra o anarquismo. o que quer que isso signifique. especialmente o da Inglaterra. Marx e Engels assim escreviam no prefácio à sua primeira edição russa (de 1882): Que diferença hoje! Foi justamente a imigração européia que possibilitou à América do Norte a produção agrícola em proporções gigantescas. para Marx. E isto se refere tanto à produção material como à produção intelectual. Hoje ele é. E há ainda quem opine que o início da revolução proletária na Rússia contrariou os “esquemas” marxistas. ESCOLHAS ESTRATÉGICAS De nossos dias. dessa corrente. Ou. por outro lado. O representante mais significativo. As velhas indústrias nacionais foram destruídas e continuam a ser destruídas diariamente. para sua satisfação. pois essa se insere na trajetória do movimento operário (que já tinha elaborado “estratégias alternativas” antes do próprio Marx). tinha um efeito deletério sobre a troca comercial entre o berço histórico do capitalismo e as regiões periféricas. porém. o que dependia: b) Das condições materiais objetivas. tem um caráter metodológico. ela roubou da indústria sua base nacional. de imediato. descreve o marxismo tal como ele é. na substância dessa afirmação.3 Sem nos ocuparmos. sucumbe diante da competição das fazendas gigantescas. satisfeitas pelos produtos nacionais.. mas também a luta política interna do proletariado. não vinculado a nenhuma “circunstância histórica” específica. os príncipes e a burguesia europeus viam na intervenção russa a única maneira de escapar do proletariado que despertava. pela primeira vez exposto de maneira geral e sintética no Manifesto Comunista. Essas duas circunstâncias repercutem de maneira revolucionária na própria América do Norte. genial antecipação do Manifesto pela qual não poucos interessados fizeram. dentro em breve.. arruinarão o monopólio industrial da Europa Ocidental. partidários de um “socialismo antiautoritário”. Ao mesmo tempo. que opunham a base da sua própria existência social (a pequena propriedade) ao avanço da grande propriedade capitalista: a corrente “anarquista”. ilustrada pelo próprio Manifesto. Resumindo: de acordo com o método de Marx e Engels. mas o resultado de sucessivas “escolhas estratégicas”. mas em todas as partes do mundo. Ambos fatores têm um caráter dinâmico. continuaram a afirmar seu compromisso com aquele legado. tem se desenvolvido uma corrente que. cuja introdução se toma uma questão vital para todas as nações civilizadas — indústrias que já não empregam matériasprimas nacionais. cuja concorrência está abalando os alicerces da propriedade rural européia — a grande como a pequena. vinculadas ao desenvolvimento concreto de alternativas históricas. determinado pela “subversão contínua da produção” própria do capitalismo. com tal energia e em tais proporções que. em Gatchina. Ao contrário. A existência de uma “corrente marxista” no interior do movimento operário não foi uma criação artificial. e isto em escala internacional. deu aos Estados Unidos a oportunidade de explorar seus imensos recursos industriais. por sua vez. uma formação histórica que está de acordo com o desdobramento real do legado marxiano em circunstâncias não previstas por aquele legado. consideremos inicialmente sua improcedência metodológica: a escolha de “estratégias alternativas” foi imposta ao próprio Marx desde o início da sua trajetória política. grupos e organizações que. de Marx o primeiro apóstolo da “globalização”: Pela exploração do mercado mundial. sobreviveu ao desaparecimento . desenvolvem-se um intercâmbio universal e uma universal interdependência das nações. embora não o único. como se sabe. Três décadas e meia depois do Manifesto. que reclamam. O termo “marxismo”. não eram absolutamente alternativas. pretende fazer tabula rasa da penosa história do desenvolvimento dos fatores objetivos e subjetivos da revolução. de um século e meio de duração. São suplantadas por novas indústrias. o “legado marxiano”. o marxismo foi feito por seguidores bona fide de Marx. O czar foi proclamado chefe da reação européia. em que diversas frações expressam condições históricas ultrapassadas (como o “socialismo crítico-utópico”) ou pressões externas àquele (como o “socialismo burguês”). em nome de Marx. foi inicialmente cunhado pelos seus adversários. devido a que essa história teria sido presidida por um gigantesco equívoco histórico. pela primeira vez nas regiões industriais. apesar disso. medidas pela própria maturidade do capitalismo. um numeroso proletariado e uma concentração fabulosa de capitais. previsível ou não (e seria alheio a esse legado conceber uma circunstância absolutamente previsível). e cujos produtos se consomem não somente no próprio país. identificado como a expressão de setores artesanais em vias de proletarização. mas em circunstâncias históricas que não foram nem prefiguradas para eles nem foram de sua responsabilidade. a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. não descreve uma „traição‟ do marxismo. surgem novas demandas.62 Mas o capitalismo era o primeiro modo de produção tendencialmente mundial da História. A escalada da luta pelo poder interEstados e o colapso concomitante do domínio do mercado mundial impuseram aos seguidores de Marx a necessidade histórica de escolher entre estratégias alternativas que. a pequena e a média propriedade rural.

Considerar essa análise falha — embora a época atual a confirme com todas as letras — é bem diferente do que considerá-la inexistente ou puramente “filosófica”. que tinha um grande respeito pela lógica. que inclui a classe operária por ela gerada.. aos “pecados oportunistas do movimento operário” (o que. é seu produto mais autêntico”. longe de se elevar com o progresso da indústria. como já vimos. o pensamento de Marx rejeitou. substitui o isolamento dos operários. para o movimento operário. se declare marxista. Numa segunda etapa. O Manifesto. fora mais do que amplamente analisado por Marx nos seus escritos imediatamente posteriores). adotada antes de Marx tornar-se “marxista”. qualquer teleologia deduzida de uma suposta “natureza humana” in abstracto. Hobsbawm está errado. não pode exercer o seu domínio porque não pode mais assegurar a existência de seu escravo. pois Marx partiu. nas palavras de Lenin.5 Do ponto de vista histórico. A meta do comunismo. Desde o seu início. De fato. na melhor hipótese. o historiador inglês Eric Hobsbawm parte da constatação bastante banal de que os prognósticos revolucionários daquele não se realizaram nas revoluções de 1848 (o que. o único conteúdo do parágrafo citado é o profundo empirismo de Hobsbawm. mas uma premissa. além de desfazer o mito do mecanicismo econômico atribuído ao marxismo. desce cada vez mais. ela foi determinada pelas conseqüências políticas. porque visão e conclusão não derivavam da mesma análise. A idéia — fundamental para Marx dali em diante — de que o proletariado era uma classe que não poderia libertar-se sem com isso libertar a sociedade como um todo.63 da sua base histórica. a análise teórica da conclusão revolucionária. o proletariado. de 1844) para daí debruçar-se na análise do desenvolvimento contraditório do capitalismo como seu fundamento histórico: a revolução comunista não foi. que . e a conclusão da partilha do mundo entre as potências capitalistas. não foi deduzida da análise da natureza e desenvolvimento do capitalismo. pelo contrário. devido. a insurreição dos trabalhadores franceses em Lyon. Em recente introdução ao Manifesto. seria a “herança judaica” — ! — de Marx: os messias. as condições de existência de sua classe. À revolução comunista não está inscrita na “natureza e desenvolvimento do capitalismo”. e não de um argumento “sobre a natureza e o destino humanos” em geral. em prol de uma nova ordem social. alhures. afinal de contas. uma “dedução filosófica”. a “escolha estratégica” do comunismo referiu-se à sua delimitação do utopismo e do (proto)anarquismo. de que a burguesia é agente passivo e involuntário. Quanto ao papel do proletariado na derrubada do capitalismo. à possibilidade de desvincular. tem encontrado inúmeros adeptos nos últimos anos. Fica assim evidente que a burguesia é incapaz de continuar desempenhando o papel de classe dominante e de impor à sociedade. mas de um argumento filosófico. A condição de existência do capital é o trabalho assalariado. como lei suprema. não levava necessariamente à conclusão de que o proletariado derrubaria o capitalismo e. se depreende de uma análise do conjunto da história humana e de seu desenvolvimento dialético. tem a ver. resultante da competição. manifestou dúvidas e ceticismo quanto ao comunismo: seus artigos na Gazeta Renana o comprovam). pois a análise científica deste só pode levar à conclusão de que leva à maioria da humanidade a um estado de barbárie: a conclusão de que esse estado pode e deve ser rejeitado conscientemente por essa maioria. que constitui.. por outro lado. justamente. o fundo do seu pensamento histórico. inaugurado pelo “revisionismo” de Eduard Bernstein. na qual se apóia toda sua teoria: “As outras classes degeneram e perecem com o desenvolvimento da grande indústria. por definição. do capital financeiro. IMPERIALISMO Na vida de Marx.). nunca lhe teria ocorrido). ANÁLISE E PROPOSTA Cabe aqui fazer um parêntese para referir-se à relação existente entre as análises e os prognósticos marxistas. situou-se no vértice oposto ao dos utopistas que “substituem a atividade social por sua própria imaginação pessoal. é colocado no Manifesto com base no mesmo método materialista de análise usado para a sociedade burguesa: O operário moderno. qualquer conclusão relativa à sua subversão revolucionária seria “escatológica”. Este baseia-se exclusivamente na concorrência dos operários entre si. não pecam. do fato da revolução proletária em desenvolvimento (a organização dos operários na Inglaterra. também desfaz a idéia do suposto “messianismo proletário” que. caindo abaixo das condições da sua própria classe. em que pese seu caráter centenário. não uma dedução. se uma teoria só pudesse analisar as leis de desenvolvimento da realidade imediata. no marxismo. ele era produto da “observação” essencial de Marx. para tirar uma conclusão bastante geral: A visão do Manifesto sobre o desenvolvimento histórico da “sociedade burguesa”. ou seja. na base de seu desenvolvimento desigual: o surgimento dos monopólios. às condições históricas da emancipação por condições fantásticas”. O caráter historicamente revolucionário do proletariado. primeiro aparece como uma dedução filosófica em vez de um produto da observação. como discípulo de Hegel.. mesmo no quadro de sua escravidão. Esse procedimento. para Marx. da transformação qualitativa operada no capitalismo pela sua expansão mundial. O progresso da indústria. na verdade escatológico. por sua união revolucionária resultante da associação. mas uma realidade histórica (enquanto Marx se manteve apenas no terreno da filosofia. segundo os autores mais superficiais.. sobre a natureza e o destino humanos. que o apresentam como grande novidade. Do ponto de vista teórico. Que Hobsbawm. por isso. abriria o caminho para o desenvolvimento do comunismo. ou com uma escatologia muito mais acentuada do que a criticada em Marx (porque reafirmada depois de negada. o que a Marx. O trabalhador torna-se um indigente e o pauperismo cresce mais rapidamente do que a população e a riqueza. ao assim fazer. com o sentimentalismo.

Hilferding. predomínio da exportação do capital sobre a exportação de mercadorias. agrupando os magnatas do capital em uma férrea organização que extendeu sua ação à totalidade da vida econômica. ampliação e extensão das tendências mais profundas e essenciais do capitalismo e da produção mercantil em geral. atingido mais ou menos na virada para o século XX. encontramos com freqüência que o salário diário. fizesse para cada conceito teoricamente novo o mesmo trabalho filológico realizado em O Estado e a revolução). o que é a base do superbenefício dos monopólios. onde se relacionam com as mudanças estruturais já visíveis no capitalismo e que estavam preparando o caminho para o “capitalismo monopolista”. Cada um das economias nacionais desenvolvidas. A definição mais breve possível do imperialismo seria. as diversas mercadorias da mesma classe produzidas em países distintos durante o mesmo tempo de trabalho têm valores internacionais distintos expressos em preços distintos. A superprodução de mercadorias. a grande produção saiu vitoriosa em todas as partes. ambos conceitos têm uma profunda filiação marxista (outra coisa é que Lenin. Em O Capital. que se converteram nos intérpretes fiéis dos interesses do capital financeiro. a grande produção adquiriu proporções tais que os monopólios substituíram a livre concorrência. o papel da Bolsa de Valores e dos bancos. No processo de luta pela concorrência. isso é. etc. Hobson. Kautski. onde as sociedades anônimas são caracterizadas como o ponto mais alto da organização capitalista da produção. Para a crítica revisionista. o movimento comercial determinou uma internacionalização das relações econômicas e do capital. o processo de organização das partes economicamente avançadas da economia mundial é acompanhada de um agravamento extremo da concorrência mútua. inerente ao desenvolvimento das grandes empresas. Do socialismo utópico ao socialismo científico. Engels também trata brevemente dessas tendências no Anti-Dühring. a desproporção crescente entre a indústria. No entanto. segundo Lenin. Suas características essenciais são conhecidas: papel decisivo do monopólio. ou seja. em busca de taxas de lucro superiores. Ora. conclusão da divisão territorial do mundo. as observações de Marx sobre o surgimento da empresa comercial e os “empresários”. a concentração e centralização do capital como resultado inevitável da luta competitiva são mencionados no livro I. semanal. que não era um acadêmico ou um exegeta de Marx. tirando delas as principais conclusões históricas e políticas: “O desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo mundial deu um salto gigantesco nas últimas décadas. o preço do trabalho em relação tanto com a mais-valia como com o valor do produto. a política de exportação dos cartéis e a redução dos mercados por causa da política colonial e aduaneira das potências capitalistas. transformou-se em uma espécie de truste nacional de Estado. em somas de dinheiro que variam segundo os valores internacionais.7 Bukharin resumiu as características essenciais do imperialismo “econômico”. de . baseada nos diversos níveis de desenvolvimento das forças produtivas: Conforme a produção capitalista se desenvolve em um país. As trocas comerciais crescem. De acordo com isto. SUPERBENEFÍCIOS Não só o monopólio encontra-se antecipado n‟O Capital. “a fase monopolista do capitalismo”. é maior nos primeiros países do que nos segundos. de modo algum. Uma oligarquia financeira instalou-se no poder e dirige a produção. Esse processo de organização partiu de baixo para se consolidar no marco dos Estados modernos. a um certo nível do desenvolvimento das trocas. Por conseguinte. a um certo grau de desenvolvimento da grande produção. A esse processo se vincula o surgimento de uma “aristocracia operária” (conceito mais amplo que o de “burocracia sindical”. que se encontra reunida em uma só feixe por meio do bancos. Cria-se uma taxa de lucro média internacional. mas que o inclui) nos países imperialistas.. e são tratados mais especificamente no livro III.. mas também a base para a análise dos superbenefícios obtidos pelo capital monopolista da exploração das nações atrasadas. é maior nos segundos países do que nos primeiros. o capital monopolista expressava as leis básicas de movimento de capital em condições históricas concretas: Essa mudança é devida ao desenvolvimento. A teoria do imperialismo de Lenin se insere no quadro de um amplo debate com a participação de autores marxistas e não-marxistas (Bukharin. o imperialismo e a aristocracia operária foram conceitos arbitrariamente concebidos por Lenin para justificar opções políticas prévias.6 Marx já chegara à conclusão de que se produzia um movimento de capitais desde os países mais adiantados até os mais atrasados. a intensidade e a produtividade do trabalho dentro dele vai remontando-se sobre o nível internacional. que esse critério seja também aplicável ao salário real. Essas tendências marcantes foram observadas ao longo dos séculos no mundo todo. no sentido capitalista da palavra. enquanto que o preço relativo do trabalho. Rosa Luxemburgo) e de longos anos de discussão no interior do movimento operário e socialista internacional. Para Lenin. o equivalente de força de trabalho expresso em dinheiro. a produção aumenta.64 determinam o ingresso do capitalismo em sua fase imperialista. como a antesala da socialização dos meios de produção. segundo o termo que os marxistas empregariam mais tarde. acima. tem de ser também maior nos primeiros países que nos segundos: o que não quer dizer. Daqui se segue igualmente que o salário nominal. o valor relativo do dinheiro será menor nos países em que impere um regime progressivo de produção capitalista do que naqueles em que impere um regime capitalista de produção mais atrasado. Mas ainda prescindindo dessas diferenças em relação ao valor relativo do dinheiro nos diferentes países. Veja-se. surgimento do capital financeiro como produto da fusão do capital bancário e industrial. divisão do mercado mundial entre os monopólios capitalistas e competidores. e no resumo dessa obra. na qual as taxas de lucro dos países ricos estão abaixo da média internacional e a dos pobres. por exemplo. De outro lado. quer dizer.

fórmulas que com maior propriedade já tinham sido expostas em inícios do século por Kautski (com a teoria do “superimperialismo”) e Hobson: “O processo de internacionalização dos interesses capitalistas.14 Não é uma inverdade. por exemplo. mas uma unilateralidade. na força e potência da organização do Estado e em primeiro lutar da sua frota e de seus exércitos. pondo um obstáculo ao desenvolvimento revolucionário. deixou claro em que ponto exato essa mudança histórica qualitativa se contrapunha à perspectiva inicialmente traçada por Marx (“O país mais desenvolvido industrialmente — escreveu Marx no prefácio da primeira edição d‟O Capital — não faz mais do que representar a imagem futura do menos desenvolvido”): Somente uma minoria de países realizou completamente a evolução sistemática e lógica desde a mão-de-obra. pois ela foi comprovada pela pesquisa histórica mais recente: “No que se refere ao século XIX britânico. exaspera os antagonismos de classe e a anarquia econômica e política internacional a tal ponto que provocará uma rebelião do proletariado mundial contra seu domínio muito antes que a evolução econômica tenha chegado a suas últimas conseqüências: a dominação absoluta e exclusiva do capitalismo no mundo. como uma burguesia. situação em que a expansão ulterior e. esse processo se vê contrariado por uma tendência mais forte à nacionalização de capital e ao fechamento de fronteiras”. auto-suficiente. como último recurso. tornado historicamente estreito. entretanto. desapareceria ou se confundiria com o resto do proletariado com o fim daquele monopólio”.8 ARISTOCRACIA OPERÁRIA Trotski. O capital comercial. em que se implanta e cria as bases de seu próprio desmoronamento. o conceito (de aristocracia operária) apóia-se sobre bases econômicas e políticas sólidas”.65 desenvolvimento formidável. Qualquer que seja. que evidenciam a crescente inadequação daquelas às relações de produção imperantes. por outro lado. Esses grupos confiam. Lenin conseguiu estabelecer porque. a acumulação. que dependem da concreta evolução histórica do capital. por último. IMPERIALISMO E REVOLUÇÃO Foi justamente a análise do conjunto dos desdobramentos da expansão mundial do capital. no século XIX. Se para Lenin o imperialismo era a fase monopolista do capitalismo. Sob a imensa pressão do imperialismo. desde o exterior. aumentando sem fim sua força até governar o mundo em um império universal. ao plano internacional. os superbenefícios monopolistas cumprem. de modo que. um papel semelhante. um pilar da ordem européia. seu vigor. far-se-ão impossíveis. Aqui. a imensa proporção da exportação de capital e a submissão econômica de países inteiros por consórcios de bancos nacionais. Na conclusão mais geral. tanto uma aristocracia burguesa. . o que faltou à teoria do imperialismo de Rosa Luxemburgo. o fenômeno já tinha sido embrionariamente captado pelos clássicos. a medida que avança. enfim. equivalente a. que não fazem senão repetir.12 Mas Engels ainda “afirmava que essa aristocracia operária se tornara possível graças ao monopólio industrial da Inglaterra e que. industrial e financeiro invadiu. A Primeira Guerra Mundial e sua conseqüência mais importante (o início de um ciclo revolucionário internacional com a revolução de outubro de 1917 na Rússia). de qualquer capital e não necessariamente do monopolista. por sua própria dinâmica interna. os países atrasados. Uma unidade econômica e nacional. para quem o imperialismo é necessidade inelutável do capital.13 Sobre a base teórica do imperialismo. apoiando-se ao mesmo tempo artificialmente em um nível ou em outro. em parte. o imperialismo é uma era de guerras e revoluções. através da manufatura doméstica até a fábrica. iniciada nos próprios países de origem e levada. mal requentadas. ao permitir à burguesia dos países imperialistas a elevação artificial do nível de vida de uma camada da classe operária metropolitana (a “aristocracia operária”). e a agricultura. ao que parece. como revela uma carta de Engels a Marx na última fase da vida deste: O proletariado inglês está-se tomando cada vez mais burguês. isto se explica até certo ponto no caso de uma nação que explora o mundo inteiro. considerar apenas a queda tendencial da taxa de lucro sem considerar os seus fatores compensadores. tal é o ideal sonhado pelo capital financeiro”. que testemunha a maturidade mundial das forças produtivas capitalistas para a passagem para uma nova ordem social. só podem ser entendidas cabalmente como expressão de revolta das forças produtivas contra o quadro. para a Rosa Luxemburgo é a forma concreta que adota o capital para poder continuar sua expansão. esta nação mais burguesa que todas as demais tende a ter.. longe de desaparecer a categoria em questão. Certamente. também. antecipou-se criticamente aos atuais teóricos da “globalização”. aproxima-se o momento em que toda a humanidade se comporá efetivamente de operários e capitalistas. Por outro lado. não foi para ela mais que um complemento. extendeu-se a outros países europeus. levam o antagonismo entre os interesses dos grupos nacionais do capital até o paroxismo. em sua situação histórica concreta. portanto. destruindo em parte as formas primitivas da economia nativa e. obriga imperiosamente à formação de um truste capitalista estatal mundial. atrasada..11 Não se tratou de uma observação incidental ou superficial.. no século XX. portanto. sujeitando-os ao sistema industrial e banqueiro do Oeste. e que foram cuidadosamente detalhados por Marx no volume III d‟0 Capital.10 Assim como o intercâmbio comercial com as regiões periféricas tinha sido. ao extender-se a custa das formas de produção não-capitalistas. em última instância. que Marx submeteu a uma análise detalhada. as colônias e semicolônias se viram obrigadas a abrir mão das etapas intermediárias.9 Bukharin.. Rosa Luxemburgo afirma que: deste modo o capital prepara duplamente sua derrubada: por um lado. O desenvolvimento da Índia não duplicou o desenvolvimento da Inglaterra. Por ser a fase mais avançada do capital.

têm refletido todas as contradições e todas as limitações do sistema. Não são estruturas externas ao sistema histórico. É interessante sublinhar que. o autor explica a amplitude e radicalidade da Grande Guerra — que desencadearia toda a “cultura da brutalidade” — pelo fato de que os interesses econômicos e políticos das grandes potências imperialistas eram radicalmente excludentes. O surgimento do capitalismo e a industrialização dos países avançados. A principal causa da reprodução desse “imaginário” da indiferença e da brutalidade teria sido a invenção de meios assépticos e impessoais de matar. também.15 O fator coadjuvante é apresentado como principal. Não podiam nem podem agir de outra maneira. pois não existe necessidade dela. mas a excreção de processos internos ao sistema. Além disso. contribuiu também muito o caráter “popular” dessas guerras. na época histórica que. ao obscurantismo. o que demonstra mais uma vez a recusa do autor inglês a perceber o complexo da economia como momento preponderante da totalidade social. pelo contrário. seus efeitos negativos fazem parte do balanço do capitalismo histórico. o “movimento”. como na escola dos Annales. A verdadeira “causa primeira” da Grande Guerra aparece como se fosse a rivalidade “geohistórica” das potências européias. da queda do grau de civilidade no século XX. a qual teria acostumado a população européia a ser indiferente às carnificinas sistemáticas e. a burguesia. acerca das suas contradições concretas. Os desdobramentos históricos desses episódios e a sobrevivência do capitalismo mundial ao longo do século XX explicam a presença e o crescimento constantes da reação política e do massacre. não por acaso os Annales. na verdade todas as formas de movimento anti-sistema. e as suas tentativas de implantação de uma ordem humana. como o bombardeiro e o rifle de longo alcance. o socialismo era um substituto mais ou menos adequado dos elementos constitutivos religiosos do modo de produção capitalista na Europa Ocidental. pois capaz de assumir as roupagens mais diversas: assim “para a Rússia. a medida que entravam em contato com o mercado mundial. no caso armamentista. a que foi conduzido geraram um mercado mundial e uma divisão internacional do trabalho. CAPITALISMO E GUERRA Qualquer outro ângulo para apreender a dinâmica histórica de nosso século conduz necessariamente ao subjetivismo e. desde a Reforma”. conseqüentemente.66 das relações capitalistas e dos Estados Nacionais que as organizam e expressam concentradamente. o de uma ordem socialista mundial. da análise das suas contradições. a força histórica concreta do capital é substituída pela abstração da “modernidade”. criando uma massa de veteranos de guerra dispostos a guiar os seus povos para renovadas hecatombes. a ser tão profundamente pacifista que não se dispunha a enfrentar atentados violentos à própria “legalidade civil”. suas limitações. Na certeira crítica de Golbery Lessa. pois somos todos marionetes na valsa dos “sistemas” (a não ser os poucos privilegiados que têm consciência da sua existência e. assim como todos os Estados revolucionários e/ou socialistas. Os Estados se desenvolveram e moldaram como pontos integrantes de um sistema interestatal. demonstra que as forças produtivas postas em marcha pelo modo de produção capitalista não podem estar contidas dentro das áreas geograficamente confinadas dos velhos Estados dinásticos da Europa. contraditoriamente. Por isso. da sua própria impotência). a conseqüência como causa e a conclusão final só pode ser que somos marionetes de forças históricas que estão fora de nosso alcance. portanto. A VISÃO SISTÊMICA Igual conformismo histórico (e historiográfico) impera na visão da revolução nessa concepção de um mundo governado por forças desconhecidas e inatingíveis. justa e igualitária). que pretende explicar o aumento da dimensão dos massacres no século XX a partir da disseminação de uma cultura da violência e do desprezo à vida dos outros. como o demiurgo da História). estabeleceu-se politicamente através do . que ainda nem existe. mas que remontam também a todas as revoluções prévias da humanidade. a esperança e o drama da Revolução de Outubro se resolvem em um par de idéias lapidares: O movimento socialista mundial. e das tentativas mais ou menos conscientes dos homens por dominá-la (que não se limitam às revoluções socialistas.16 Como veremos. mais poderosa ainda. Foi através de sua relação com o mercado mundial que os Estados capitalistas nacionais adquiriram sua fisionomia específica. é encontrado no “extenso espaço” e não na natureza particular da economia dos países beligerantes. encontram-se na base das visões sistêmicas mais recentes. finalmente. são eles próprios produtos integrais do capitalismo histórico. sobretudo. que obrigou líderes políticos a mobilizarem a massa através da “demonização” dos seus inimigos.17 Para Immanuel Wallerstein.19 (grifo OC).18 A História. a “economia” e a “política” aparecem fundidas numa identidade completa — “Na era imperialista a política e a economia se haviam fundido” —. que teria sido gerada pela Primeira Guerra Mundial. A idéia básica que permeia essa visão e a do “mito ideológico da soberania do Estado (que) nunca foi uma entidade política completamente autônoma. Suas falhas. que compunha um conjunto de regras no interior do qual funcionavam os Estados e um conjunto de legitimações sem o qual os Estados não sobreviveriam”. em especial a concepção histórica de Braudel. levou à ciência e à técnica a um ponto mais alto. acabou. e que as áreas menos desenvolvidas. Ao mesmo tempo. os quais facilitariam a aceitação da violência a partir de desenvolverem a impessoalidade da guerra (o que significa conceber a tecnologia. O problema consiste em que os defensores de tal teoria pouco têm a dizer sobre esse “conjunto de regras e legitimações” e. concepção na qual a erudição (às vezes abrumadora) parece estar a serviço da confusão. Em Robert Kurz. assumiram uma posição de dependência. portanto. à beira da modernidade burguesa. A investigação histórica. presentes no último livro de Hobsbawm. a classe dirigente capitalista. e não um hipotético sistema histórico. nessa tentativa de explicar o “motor inicial” da Grande Guerra e.

elas se resumem basicamente em duas. são desiguais. porque compartilharia com “sua” burguesia os frutos da exploração dos operários e camponeses da periferia. A partir desse momento. em sua forma contemporânea. A esse absurdo se chega ao identificar o inidentificável. O próprio da acumulação primitiva. se os Estados modernos definem as classes.. quem os define? São as unidades básicas da economia-mundo. no sentido marxista. Autores dessa corrente não tiveram dificuldade em destruir empiricamente a “teoria do intercâmbio desigual”. por oposição à reprodução ampliada normal. uma contradição entre as tendências internacionais unificadoras das novas tecnologias e a influência constritora do Estado nacional. em certos casos estudados. encontra-se a teoria do “capital transnacional”. Havia. veremos que elas não se mantêm ao fazermos um exame das condições atuais. O Estado se definiu na esfera econômica mediante suas próprias leis. nela. que sustenta que a exploração das nações atrasadas pelas potências capitalistas teria cessado em função da emancipação das “multinacionais” de toda base nacional (nos últimos tempos. as classes e o modo de produção que as põe em conexão não têm a possibilidade. o que significaria afirmar que o capitalismo está nascendo novamente. e já sem referência alguma ao marxismo. amparada pela conquista colonial. Pelo contrário. não uma “segunda infância” dele. Por sua importância política. No conjunto. em alianças e preparativos de guerra e finalmente na própria guerra. Isso se manifestou em rivalidades e tensões entre as principais potências. já que pressuposta. os investimentos estrangeiros são crescentemente realizados entre os próprios países desenvolvidos. mas igualmente troca) com a expropiação compulsória e violenta. portanto. Então se impõe uma nova extensão geográfica. que a produção de mais-valia relativa é bem maior naqueles). devido à diferença da produtividade do trabalho (que se acentua com o tempo) a taxa de mais-valia nos países metropolitanos pode ser (e. Surge a periferia. liderada por Tony Cliff.) O fundo do erro [de Samir Amin e outros. o sistema interestatal é identificado como superestrutura (palavra incautada ao marxismo): mas de que estrutura? Da economiamundo. pois privada de conceito e conteúdo. a saber. que tem suas próprias leis e atua sobre cada uma de suas partes.21 Segundo essa teoria. O capital não corre avassaladoramente dos países capitalistas maduros para os em desenvolvimento. entende-se. depois de terminada a primeira Revolução Industrial na Europa e América do Norte. além de histórica e prática.22 O imperialismo expressa a senilidade do capital em termos mundiais. Temos que distinguir o nascimento das células daquele do organismo total. A “troca desigual” de produtos com preços de produção diferentes configuraria uma nova “acumulação primitiva”..67 Estado nacional e assim surgiu um sistema de Estados que encarnavam diferentes interesses nacionais. Não há razão para discutir o argumento do “amortecedor” em profundidade: por mais que fossem importantes os países atrasados ao absorver a expansão descontrolada e desproporcional desse ou .. OC] consiste em não levar em conta a unidade mundial da economia capitalista. Esta volta a pôr em contato — ainda que sob formas novas — formações sociais diferentes: as do capitalismo central e as do capitalismo periférico em vias de constituição. características da acumulação originária. pois se nos recordarmos das razões que Lenin apresenta para a exportação de capital. diz Wallerstein: são então primordiais? Não. que são fenômenos qualitativamente diferentes (. a sistêmica e estruturalística economia-mundo se morde a cauda. Juan Pablo Bacherer deixou claro o equívoco da concepção citada: A frustração da acumulação originária (nos países atrasados) explica essa obrigada combinação do capitalismo com modos de produção pré-capitalistas (. de fato é) maior do que nos países atrasados (ou seja. fazendo uma descrição superficial) e o movimento de capitais. tarifas e restrições ao movimento dos fatores de produção. como afirma Gianfranco Pala. E isto passa-se de acordo com a lógica. o proletariado metropolitano estaria objetivamente interessado na exploração das nações atrasadas. e talvez sobretudo lógica. quer dizer. Wallerstein nos faz saber que esse sistema é um pressuposto de qualquer sistema estatal: mistério. posto que as possibilidades da primeira Revolução Industrial se esgotaram precisamente quando se constituíram os monopólios. ça va de soi! Em conclusão. a “teoria da globalização” desenvolveu argumentação semelhante). que tomaram possível essa exportação de capital. mistério maior ainda. porém. A visão sistêmica nada tem para oferecer em substituição a esse desenvolvimento histórico ou. sequer lógica. na expansão colonial. a não ser que se considere que um assalto à mão armada constitui uma “troca” entre o ladrão e o assaltado. a remuneração do trabalho começará também a ser desigual. No extremo oposto. Como exemplo da primeira (a “teoria do intercâmbio desigual”). aparece quando as possibilidades do desenvolvimento capitalista se esgotam. no sentido leninista do termo. o intercâmbio de produtos cujos preços de produção.20 TEORIAS SOBRE O IMPERIALISMO A teoria do imperialismo foi objeto de inúmeras controvérsias e deformações. citemos como exemplo a corrente do International Socialism. mas isso não autoriza a dizer que está acontecendo cada dia a gestação e o nascimento do cachorro.) No organismo do cachorro nascem cotidianamente novas células. porque são definidos pelo sistema interestatal. a troca (desigual.. O caráter combinado da economia dos países atrasados é justamente uma conseqüência do desenvolvimento desigual do capitalismo em escala mundial: naqueles “o capitalismo nasce sem que tivesse podido se desenvolver plenamente a acumulação originária (mas) sob a influência da penetração do capital financeiro internacional”. E. de serem definidas. Essa nova especialiazação internacional constituirá a base de intercâmbio das mercadorias (produtos de base por produtos manufaturados. citemos a análise de Samir Amin: O imperialismo. demonstrando que. A partir desse e de outros dados concluiu que os dados atuais simplesmente não mantêm as teses de Lenin. é precisamente o intercâmbio desigual. sistema monetário. O mecanismo de acumulação primitiva em benefício do centro reaparece.

O capitalismo não seria um conceito suficiente.23 Trata-se do caso típico de contraposição de uma análise conjuntural a uma caracterização estrutural. para uni-los numa explicação global”. e isso em virtude da intensificação permanente da força produtiva. porém. o crescimento do fluxo de capitais entre países imperialistas não elimina — até acentua — a exploração das regiões atrasadas. sem o seu indubitável talento historiográfico. . devido à crescente dependência tecnológica (industrial) e financeira. o capitalismo tornou-se “incapaz de explorar”. porque não há movimento. Atualizada. as velhas receitas. no qual inclui também o fim do chamado “socialismo de caserna”. pretendendo “integrá-lo” no seu sistema. como afirma Josep Fontana. não há nexos que nos expliquem como os elementos de um plano atuam sobre outros.68 daquele ramo ou setor da economia no ápice da supremacia industrial britânica e do laissez faire clássico. aumentou — a dependência delas em relação às metrópoles. Arthur Rosenberg e até pelo “guerreiro frio” James Burnham). que não pode haver “leis de movimento”. aumentando também a sua exploração. e por outro lado. que manteria o processo de exploração da força de trabalho mundial. identificar a tendência para a extinção da lei do valor.) cujas leis de movimento. “da quase imóvel presença do espaço e do clima até os acontecimentos políticos cotidianos. das quais nos ocuparemos. a crise da economia mundial se inseriria no mais amplo “colapso da modernização”. o capitalismo é um fenômeno de superestrutura. e muito menos prever a sua substituição por um novo modo de produção da vida social. a partir do qual lançam um olhar sobre os avatares patéticos da crise contemporânea. os procedimentos empíricos. Para chegar à conclusão de que “é impossível chegar a uma boa compreensão da vida econômica se não se analisam antes as bases do edifício”. as soluções vindas da noite dos tempos.27 Braudel. FILÓSOFOS DO MUNDO. o que sobrou para os seus discípulos mais “especializados” foi “o fenômeno da altitude”. evitou habilmente qualquer confronto direto com Marx. vale a mesma crítica feita ao “intercâmbio desigual”: assim como os superbenefícios monopólicos não anulam — podem até acentuar — a exploração dos trabalhadores metropolitanos (a existência de uma “aristocracia operária” não elimina esse fato.24 O capitalismo estaria sobredeterminado pelo processo da “vida material” (situado na “longa duração”) onde a imutabilidade e o atavismo são tais. Este autor privilegia na sua pesquisa “os usos repetidos. A expansão capitalista de pós-guerra teve razões específicas. A procura de um suporte teórico em Fernand Braudel não deve surpreender. tal como exposta por Marx nos Grundrisse. do tipo “para mim. ao situá-lo como uma explicação de um “momento secundário” (o capitalismo moderno) da sua “grande teoria”. mas a de uma transição para uma sociedade relativamente sem classes contra uma transição para algum novo modo de produção baseado em classes (diferente do capitalismo histórico. Essa última tese é bastante velha (foi exposta. Não seria correto. A internacionalização crescente do capital nos países metropolitanos teve por base. a “economia-mundo”. Tudo fica então numa espécie de indeterminação. e assim por diante): a própria tese do “colapso final” estaria contida nas velhas teses de Rosa Luxemburgo sobre o colapso mundial da acumulação de capital. A industrialização artificial das regiões atrasadas não diminuiu — ao contrário. não há nenhuma relação plausível. mas muito provavelmente mais igualitária. um fenômeno de altitude”. pela primeira vez na história capitalista está diminuindo também em termos absolutos — independentemente do movimento conjuntural — a massa global do trabalho abstrato produtivamente explorado. o capitalismo é impensável sem a cumplicidade ativa da sociedade”. Contra a argumentação exposta. Assim. o da “vida material”. são desconhecidas. e até sua própria definição. por Boris Souvarine. um fenômeno de minoridade. pois consubstanciai com sua natureza: “Privilégio da minoria. para Braudel. há décadas. a convulsão das últimas décadas evidenciaria que a forma que a luta vem assumindo não é a do socialismo contra o capitalismo. UNI-VOS! Para Robert Kurz. onde ela assumiria uma roupagem “socialista”. poderia-se dizer que as diferenças de Kurz com a análise marxista são apenas semânticas (“socialismo de caserna” em vez de “estado operário burocratizado”. pois deveriam ser relacionados três planos. mas não necessariamente melhor). Na verdade. e tentaria criar então um sistema histórico alternativo. que não permite realizar nenhum prognóstico acerca do futuro do capitalismo. ou uma “burguesia socialista”. o que é facilmente comprovável medindo o aumento das remessas de lucros e da dívida externa nas décadas do pós-guerra. em proveito de uma minoria. embora seja de grande importância política).25 Se é verdade que. etc. o seu papel é secundário neste caso hoje em dia. com a seguinte tese de Kurz: Tendencialmente. A alternativa para a burguesia mundial não está em manter o capitalismo histórico ou se suicidar. ela é feita de observações incidentais. herdeiro dos Annales. isso é. uma acumulação sem precedentes de superbenefícios monopólicos originados na exploração das nações atrasadas. o da “vida econômica” e. que resultaria na continuação da desintegração do sistema e sua subseqüente transformação numa ordem mundial incerta.28 O que seja uma sociedade “relativamente (!) sem classes”. A “relação”„ entre os “três planos” é o que há de mais obscuro na obra de Braudel. são assuntos prosaicos que Wallerstein deixa aos cuidados dos mortais que ainda se ocupam com a luta de classes. de um lado. como a moeda ou a divisão cidade-campo”. finalmente. ou seja que é eterno. Está entre uma postura “conservadora”. justamente.26 também o é que. invólucro político-ideológico passagem das sociedades do Leste para a “modernidade”. para o teórico da “economia-mundo”. SISTEMAS E LEIS O que aqui temos chamado de “visão sistêmica” tem por característica diluir o capitalismo e suas leis de movimento dentro de “entidades” (ou “sistemas”) maiores (a “modernidade”. o “jogo capitalista”. o “jogo” capitalista (nascido dos “jogos das trocas”) conclui sendo uma espécie de atavismo espontâneo da sociedade humana. Mas. uma tentativa ousada de tomar o controle do processo de transição.

para repetir o elementar do Manifesto. Por isso não entende a “afirmação” da classe operária como um movimento que. introduzir a “flexibilização laborai” sob todas as suas formas. Isso impôs ao marxismo uma (falsa) escolha: Desenvolver vínculos orgânicos ou com os segmentos do proletariado mundial que experimentaram mais direta e sistemicamente a tendência à crescente penúria maciça. abstrata. e esperou. em uma abstração que conclui por não dar conta de nada relativo ao movimento concreto da história e das forças sociais atuantes. o mesmo período. para dizê-lo em termos da pedagogia engelsiana do Anti-Dühring. Nessa crise.30 ARRIGHI e o MANIFESTO Se. o mais próximo que encontramos na realidade. revela-se todo o marxismo da história como parte integrante do mundo burguês da mercadoria moderna. pois resultante de uma radicalização unilateral e absurda das teorias “sub-consumistas”. através da expropriação do capital. para Kurz. ela já não pode ser criticada ou até superada a partir de um ponto de vista ontológico do “trabalho”. como força social. E muito menos sobre a “força social” (quem?) que seria portadora dessa “razão”. para Kurz o atual “colapso” estaria criando nada menos do que as bases do comunismo. a “segunda metade do século XX” torna evidente o limite imanente do capital. Faltaria apenas um empurrão. Para Kurz. enquanto que a penúria que Marx associava ao capitalismo se espalharia exatamente nas regiões do mundo em que o proletariado era socialmente mais fraco. de ser absoluta. da destruição do Estado capitalista e da ditadura do proletariado conduz à “negação” da classe operária e a “emancipação de toda forma de exploração do homem pelo homem”. como sujeito antípoda”.. ou com os segmentos do proletariado mundial que experimentaram mais direta e sistemicamente a tendência ao poder social crescente. supostamente fracassado. um fenômeno já presente.. e não destruindo-as: O comunismo. um ovo é um ovo e não pode entender que a “afirmação” do ovo conduza ao ser adulto. Como seja. A “divisão crescente” da economia mundial pela “luta inter-Estados” (que só agora estaria sendo superada) provocou a queda do mercado mundial (que só agora — “globalização” mediante — estaria sendo restabelecido). não serve só para deixar desempregados ociosos. muito além da realidade. animal ou humano. não é nem utopia nem um objetivo distante. mas também e sobretudo para achatar salários. na forma de um comunismo das coisas. que seria “uma revolução de fato.29 O problema é que Kurz tem tanto a nos dizer sobre a “razão sensível”. No Manifesto. da “classe trabalhadora”. mas por outras razões. quanto Wallerstein acerca das leis da “economia-mundo”. devido à sua própria dinâmica. então? Kurz responde que “teria primeiro que se formar um movimento de supressão. quebrar todas as conquistas sociais e reintroduzir as formas mais arcaicas e bárbaras de exploração do “trabalho livre”: escravidão. já observável em forma embrionária em sua própria época.. onde havia mais penúria. que essa divisão. Nessas condições. De fato. portanto sem consumo. Mas Kurz vai fundo nessa tese. obviamente. com isso. que é confundido com as sociedades em colapso da modernização recuperadora. Marx pensou. de caráter mais histórico.. e em especial a crise finisecular. A escolha foi imposta pela divisão crescente entre as duas tendências no espaço da economia mundial. que se observa atualmente. ainda que na forma errada e negativa. ou seja. praticamente nada. na supressão negativa do trabalho abstrato pelo capital e dentro do capital. à destruição do ovo. mas precisamente por isso não foi uma revolução proletária: . e em virtude dela. Mas qual seria o elemento “conscientizador”? (A) razão sensível. mas sim. sendo por isso atingido ele próprio pela crise. com isso. mediante a conscientização. trabalho infantil e até prostituição infantil em grande escala. com a utopia de Tugan-Baranovski (uma sociedade sem operários. apelando genericamente ao que o autor denomina a dinâmica do “sistema produtor de mercadorias” se transforma em um movimento de sombras chinesas. ou da “luta das classes trabalhadoras”. ou Braudel acerca das leis do movimento (imóvel) da “vida material” situada na “longa duração”. jamais alcançável. e isso é grave para quem pinta com cores tão (corretamente) dantescas o “colapso”. a escalada da luta pelo poder inter-Estados fortaleceu ambas as tendências e aumentou sua divisão espacial. a pretensão de explicar a evolução do mundo contemporâneo. Mas a coisa muda de cor quando se observa que o crescimento sem precedentes do “exército industrial de reserva”. isso é. uma “revolução proletária” é impensável. Como. dentro do invólucro capitalista do sistema mundial produtor de mercadorias. Na certeira crítica de Pablo Rieznik. também evidenciam um (ou o) limite do capitalismo. Marx não teria previsto que o poder social do proletariado europeu (e seu nível de vida) cresceriam enormemente no interior da sociedade burguesa. a não ser o consumo suntuário dos capitalistas) demolida em inícios do século por Kautski. numa sociedade sem trabalhadores. burguesa e vinculada à formamercadoria. para Giovanni Arrighi. mas o seu peso relativo comparado com o trabalho “morto” tendia a uma magnitude insignificante). como entrelaçamento global do conteúdo da reprodução humana. a intensificação da força produtiva através do incremento relativo do capital constante em relação ao variável tornava absurda a medida do valor pelo tempo de trabalho vivo (não que este desaparecesse. diminuísse com o tempo. ao contrário. que no nível intelectual restabelece o contexto perdido”.69 Para Marx. chegando à conclusão central: Uma vez que essa crise consiste precisamente na eliminação tendencial do trabalho produtivo e. e isso é apenas possível por meio da consciência e. a “revolução socialista” começou. Ao invés disso. e. Pensar que isso não é capitalismo equivale a pensar que o “verdadeiro” capitalismo não é a barbárie. A análise de Kurz parece-se. Revelar-se-ia então que a pretensão dessa. que é exatamente o contrário da razão iluminista. mas não daquele tipo no qual uma „classe‟ dentro da forma-mercadoria (e constituída por essa) tivesse que „derrotar‟ outra „classe‟. nada mais significa que medir conteúdos sensíveis de qualidade totalmente diferente com os mesmos critérios de uma lógica que se tomou independente.

as expectativas da revolução estão postas no mais atrasado país europeu. na Segunda Guerra Mundial. assim como a tabula rasa feita de todas as lutas políticas desse longo período de 3/4 de século. capitalisme oblige. o desenvolvimento dos Estados Unidos gozou da pre-eminência de um território imensamente grande e de uma riqueza natural incomparavelmente maior que os da Alemanha. mantiveram uma taxa de crescimento constante. O mesmo cabe dizer das condições de vida dos explorados: se a degradação nas metrópoles é evidente. e com a Segunda Guerra. a república norte-americana chegou a ser. com seu “marketing publicitário” (os partidos revolucionários). Espanha) e. em certos casos. que não teriam podido ser evitadas e. que não deixariam nenhuma lição para o futuro (a não ser de caráter moral). muito especificamente em 1929 e 1937. com bastante esforço. por cima da simplificação mais do que excessiva que Arrighi faz da história do movimento operário da Europa Ocidental e dos Estados Unidos.33 . para Arrighi. isso não é verdade: a degradação das condições econômicas nos países periféricos não fez senão aumentar a sua distância com relação ao que Arrighi chama de “núcleo orgânico”. O pensamento dialético trilha outra via. agora. desde a Comuna de Paris até as revoluções abortadas do primeiro pós-guerra. e não de espera do preenchimento de condições objetivas ideais. que se extendeu por uma década. ela atinge proporções de catástrofe na periferia. em algumas localidades. a revolução socialista não teve clientela. o nazi-fascismo. no início do século atual. afunda suas raízes nas tendências mais profundas do capitalismo em sua fase monopolista.31 Isso seria o efeito socialista (ou comunista) da “globalização”. A boa nova seria que. junto com a tendência ao desaparecimento dos Estados Nacionais. com seus mais de 80 milhões de mortos em duas guerras mundiais. e da revolução socialista contra a penúria maciça. a praça forte da burguesia mundial. Onde o poder social do proletariado era significativo e crescente. que se converteu no século XX no modelo mais perfeito do capitalismo. o “caos sistêmico”. Devemos aqui passar. A internacionalização do capital do último período não fez senão aumentar o desenvolvimento desigual a escala mundial.32 A crise atual. a barbárie. Havendo se adiantado consideravelmente à Grã-Bretanha. Em resumo. qualquer que fosse seu estágio.70 O traço mais surpreendente dessas tendências divergentes — o desenvolvimento do poder social do operariado. os gastos militares dos Estados Unidos. em ambas teorias as catástrofes do século XX. as conquistas sociais. Os claros sintomas de barbárie presentes não seriam uma manifestação daquela. sobretudo. Mais esforço ainda para aceitar o conceito de “clientela” da revolução socialista. O papel de “locomotiva” dos Estados Unidos deveu-se a uma série de fatores históricos precisos. Quanto ao crescimento do poder social do proletariado periférico. E aqui está uma das conseqüências básicas do “pensamento sistêmico”: o de deformar a realidade para fazê-la entrar no “sistema”. As vastas demandas de gastos militares pelo Estado absorveram o excedente depois de 1937. porém. que os colocaram já no entre-guerras no centro do capitalismo mundial. se elas medem o “poder social” (e não se vê outra maneira de medi-lo) foram arrasadas na periferia no último período. seus holocaustos. ganham um ar de fatalidades históricas. enfim. como se esta fosse um produto à espera de potenciais compradores e. e onde a revolução socialista teve clientela. A penúria maciça começou a se disseminar pelo proletariado do núcleo orgânico. como pilar hegemônico do imperialismo: Além das numerosas e valiosas vantagens de seu caráter histórico. enquanto que o poder social começou a gotejar para o proletariado da periferia e semiperiferia. Isso sem falar nas situações revolucionárias na década de 30 (França. e desde 1963 em diante o grande aumento no gasto militar gerou uma taxa de crescimento muito mais rápida. em outras — é que. que em sentido estrito ainda não era um país: a Alemanha. só recentemente atingido (Kurz). e em nenhum caso a crise do capital. Até a Segunda Guerra Mundial o excedente de capital acumulado nos países industriais avançados do capitalismo criou as crises periódicas do capital. Estritamente falando. ainda que lenta para toda a economia. onde a tendência socialista do proletariado metropolitano foi tão forte ou mais do que a do proletariado vitorioso da Rússia. No próprio Manifesto. Todas as potencialidades do capitalismo encontraram nesse país sua mais alta expressão. ou da supostamente recente homogeneização das condições sociais do proletariado “orgânico” e do periférico (Arrighi). CRISE DO “SISTEMA” OU CRISE DO CAPITAL? Quer se trate do “limite imanente” da produção de mercadorias. Posteriormente. poder social e penúria maciça não estão mais tão polarizados em diferentes segmentos do proletariado mundial quanto estiveram na metade do século XX. elas demonstraram a impenetrabilidade histórica do proletariado industrial às ideologias e práticas revolucionário-socialistas. Seria simplificar em demasia o pensamento de Marx atribuir-lhe expectativas revolucionárias vinculadas a uma “homogeneização capitalista” do mundo. e não só na África. Em parte alguma de nosso planeta pôde a burguesia realizar empresas superiores às da República do Dólar. mas da crise do Estado territorial: “A impossibilidade de conter a violência no mundo contemporâneo está estreitamente associada ao definhamento do moderno sistema de Estados territoriais como locus primário do poder mundial”. da padronização das condições econômicas mundiais. Marx esperava um desdobramento proletário da revolução democrática (que não aconteceu): o Manifesto é um texto para intervir na revolução em curso. mas a crise reapareceu em fins dos anos 40 nos Estados Unidos. que provocasse uma uniformização das condições de vida (a obra de Marx está cheia de exemplos contraditórios). o proletariado industrial não teve poder social. estamos nos aproximando do cenário imaginado por Marx e Engels no Manifesto — um cenário no qual o poder social e a penúria maciça do proletariado afetam o mesmo material humano em vez de segmentos separados e diferentes do proletariado mundial. A atual crise seria a da “modernidade” ou. ou seja. consideradas conjuntamente. combinados com a corrida espacial.

nos Estados Unidos. não está claro que eles tenham aumentado significativamente mais depressa do que numa ou duas gerações anteriores. retrospectivamente. Marx e Rosa Luxemburgo) como uma teoria de classe. Mas a maioria deles remonta aos anos do entre-guerras. enquanto que nos dois períodos anteriores de maior crescimento neste século. glorificou a política intervencionista ex post facto.37 Nessas condições. e tinha sido consagrada teoricamente pela “teoria” keynesiana que. e no clima ideológico gerado pelo boom capitalista. 1910-14 e 1921-29. Os Estados Unidos se viram obrigados a financiar (Plano Marshall) a reconstrução capitalista da Europa e do Japão (para conter desenvolvimentos revolucionários e/ou a expansão da União Soviética). deveu-se a um comércio mais intensivo entre os países capitalistas ocidentais desenvolvidos — dos 2/5 do total em 1950 a aproximadamente a metade atualmente — parece que temos todos os motivos para pensar que o comércio seja a chave da economia posterior à guerra. como meio para tirar a economia norte-americana da depressão. No entanto. a bancar a reconstituição dos imperialismos rivais. mas tentando mantê-lo como conceito teórico: A teoria do imperialismo viu-se prejudicada em seu desenvolvimento pela separação da análise de classe da análise nacional. Segundo a crença geral. em 1948-71. tanto quanto os avanços tecnológicos dos anos do após-guerra apóiam-se numa base científica. mesmo assim. Dado que o incremento. Alemanha 7. com um forte dinamismo científico.3% e Grã-Bretanha 2. o próprio pensamento marxista sofreu os efeitos. num extremo. Egito 3%. depois de um período de lenta incubação. existiam elementos suficientes para questionar a “revolução tecno-científica” ou a “terceira revolução industrial”.71 A hegemonia norte-americana.39 EXPANSÃO E INTERVENCIONISMO A expansão. TÉCNICA A expansão capitalista de pós-guerra fez muitos autores caracterizá-la.34 Outro autor aponta que a estabilidade e o elevado nível de emprego foram atribuídos à grande expansão do comércio internacional ocorrida a partir da guerra. a taxa média de crescimento da indústria mundial foi. antes disso. como consumidor e como financiador do consumo.. a produção industrial aumentou. e a expansão econômica. Por mais que os gastos com pesquisa e desenvolvimento tenham aumentado desde 1945. A primeira experiência em grande escala desse tipo tinha tido lugar nos Estados Unidos na década de 30. elevando-se a média nos anos 60 a 7% anual. a taxa média esteve entre 5% e 6% anuais. Brasil 6%.7%. em primeiro lugar a economia americana. o que devia fazer-se . 22%. no outro? A resposta é: não muitas e. De fato. b) da coordenação ao redor de alguns centros motores.5% entre 1860 e 1870). e a 9% ou 10% nos anos 1963-66. COMÉRCIO. o crescimento percentual anual nos países desenvolvidos importantes foi Japão 9. como os “30 anos dourados” do capital. Estados Unidos 3. Mas foi necessário esperar que as ilusões dos “30 gloriosos” desaparecessem para que aqueles fizessem irrupção no pensamento econômico. seja do consumo pessoal nos velhos países capitalistas ou da industrialização artificial das nações atrasadas. não foi a realização do “superimperialismo” kautskyano. não se baseou no livre e espontâneo desenvolvimento das forças produtivas capitalistas. embora os dados históricos e científicos já existissem para pôr em questão a aparente ruptura representada pelas taxas mais altas de crescimento do período após-guerra. Itália 5. o melhor que se pode fazer é apontar para uma correlação entre os gastos com P&D e as taxas de crescimento das diferentes indústrias. afastando-se da concepção do imperialismo como “capitalismo agonizante ou em decomposição”. a teoria que teve sua origem (em Lenin. Que há no curso do desenvolvimento tecnológico para explicar essa ruptura? A resposta pode ser: nada.38 A questão do “desenvolvimento” ocupou o centro das atenções num mundo em que os mais importantes países capitalistas desenvolvidos cresciam a uma taxa mais rápida que os mais importantes dos atrasados: entre 1950 e 1959.3% (superando o recorde histórico de 5. o comércio mundial cresceu em média de 6% anual. Que provas incontestáveis existem de uma ligação.1%. trata de uma base química e elétrica que remonta a um século atrás. de 7.5% para os mais importantes dos subdesenvolvidos foi.. CIÊNCIA. Além disso. de 5. a produção aumentou (1947-1952) 275%. na verdade. Esta expansão foi muito considerável: nos anos 50.5%. fazendo da necessidade virtude. e o emprego só 40%:36 O processo de crescimento econômico dos países industrializados foi retomado por volta de 1950 {boom coreano). ou mais até. Zaire 5%. Superadas as breves tensões de 1949. porém. uma extensão da análise marxista do capitalismo em uma nova fase. durante esses anos. Em outras palavras. Certamente. mas na intervenção externa do Estado.35 Com a expansão comercial “puxando”„ o crescimento industrial. França 4%. Indonésia 4%. Entre 1953 e 1960. Praticamente. enquanto o emprego industrial caiu 11%. Argentina 2%. Na indústria eletrônica. nos Estados Unidos. não poucos acreditaram na existência de uma “revolução técnico-científica” e até numa “terceira revolução industrial”. entre a ciência. em sua maior parte. tinha sido 4. o que não significa outra coisa que as próprias contradições e decomposição capitalistas impedem a realização (pacífica ou não) do “superimperialismo” que estaria na lógica abstrata do monopólio. não há dificuldade em enumerar um conjunto de novos produtos e processos. foi elaborada posteriormente como uma teoria das relações econômicas entre Estados desenvolvidos e subdesenvolvidos. ou quase nada. ou seja.2% em 1900-1913) e a do comércio.6% (a maior. as economias capitalistas usufruem: a) da junção de altos níveis técnicos. Índia 3%. irregulares. das tradicionais energias produtivas do Ocidente. c) de um mercado interno e externo potencialmente dilatado. maior ainda.

a principal causa da expansão e ainda do desaparecimento de uma parte das desproporções que antes limitavam a capacidade de expansão. era um território particularmente inóspito: nos Estados Unidos essas indústrias usam proporcionalmente 23% a mais de trabalho de profissionais especializados. CRISE O financiamento público da produção. o “modelo” típico das crises: Quando a taxa de mais-valia já não aumenta. que durante a Segunda Guerra tinha permitido absorver o desemprego criado pela crise da década de 30.40 A intervenção do Estado na política salarial. e posteriormente tirar (sob pretexto da guerra da Coréia) o país da recessão do final da década de 40: Os gastos militares somaram. porém. exigiu um grau inédito de integração dos sindicatos ao Estado (e reforçou a “aristocracia operária” nos países imperialistas). para o sistema mundial capitalista. de quatro a seis empresas abocanham 60% a 80% da produção) a inflação virou um imposto privado que o capital percebe dos consumidores. o que acelera a atuação da queda tendencial da taxa de lucro. dos quais dependia a recuperação (eles haviam protagonizado os debates sobre a propriedade pública antes da guerra) e coordená-los em termos nacionais. Mas. superposta aos mecanismos tradicionais (emissão de ações e obrigações. Numa época dominada pela extensão dos cartéis internacionais e das firmas multinacionais no mercado dos principais produtos (em geral. Em todo o continente a destruição material havia sido enorme e havia existido muito pouco investimento neto. A crise do “modelo” estava. se apresenta o . a chamada “exclusão social” típica da atual crise. Para eles a indústria armamentista. em contraposição com a tendência estrutural ao desemprego que as condições econômicas favoreciam: De um lado. ou não aumenta o suficientemente rápido como para compensar o aumento da composição orgânica do capital. que tem uma pronunciada tendência à qualificação. Tão logo os capitalistas descobrem que a taxa de lucro desce. independentemente dos obstáculos criados pelas flutuações conjunturais. a diminuir o ritmo de crescimento do emprego produtivo mas. em especial nos Estados Unidos. DESEMPREGO. para o capital.‟42 INFLAÇÃO. na Lei de Salários e Horas que estabeleceu um mínimo de salários e um máximo de horas e na ajuda prestada pelo New Deal à recuperação e expansão dos sindicatos. A inflação vira um meio para intensificar a acumulação e ampliar suas bases sociais. mercados que de outro modo não teriam existido.72 era aumentar os salários na indústria em geral. foi depois sob influência das forças do mercado que a expansão prosseguiu. Nessas condições teve lugar a expansão do sistema capitalista internacional. seguindo. em que pese a rapidez da expansão econômica. que nada mais é do que o crescente desemprego de trabalhadores não-qualificados. que os dividendos das sociedades por ações começam a baixar. empréstimos bancários) que centralizavam a poupança das classes médias para transformá-la em capital. para as indústrias nãoarmamentistas. a fixar (pela “formação — monopólica — dos preços”) seu montante em função de seu programa de investimentos. num meio de prosseguir e intensificar a acumulação. Encontra sua expressão concreta na política de salários da Lei de Recuperação Nacional da Indústria. ou seja. também. pelo desaparecimento da concorrência de preços.‟41 O gasto público garantiu o pleno emprego que vigorou durante mais de duas décadas. se o boom armamentista motorizou a economia até um certo nível. começa a descender a taxa de lucro social. portanto. quantidades nunca antes atingidas. o aumento da produtividade tendia. Os encargos militares davam solução ideal ao problema colocado pela realização da mais-valia: preservavam a taxa de lucro no conjunto da economia e abriam. os pedidos do Estado e o consumo das camadas improdutivas faziam recuar os limites da realização da mais-valia. generalizada nos países capitalistas no segundo pós-guerra. Tratouse. e é a panacéia favorita para restabelecer os bons tempos. enormemente influenciada pelos pontos de vista dos teóricos do subconsumo. propicia atividades intensivas em capital (constante). gerou a inflação que se transformou. foi o gasto armamentista. e apropriá-la sem reembolso nem juros. especialmente na América do Norte. por outro lado. onde o primeiro problema que se apresentou no pós-guerra foi o de reparar as devastações produzidas durante o conflito. Prepara. a partir de então. Esses setores foram objeto da primeira onda de nacionalizações que ocorreu depois da guerra. O maior poder de compra que isso gera constitui o mercado necessário para a recuperação e para estimular os empresários a aumentar a produção e a ocupação. de uma expansão capitalista de tipo normal: a multiplicação das indústrias de bens de produção e o desenvolvimento do mercado civil eram as condições que permitiam realizara mais-valia. e do novo gigante russo nos militares. o gasto improdutivo do Estado. inclusive à de baixos recursos. por outro lado. a partir da Guerra da Coréia (1950). Era particularmente importante — e custoso — modernizar os serviços básicos de transporte e de energia. Teve um papel importante na política econômica do New Deal. É prontamente aceita pelos políticos e de forma entusiasta pelos líderes operários. que voltar simplesmente aos esquemas pré-bélicos teria deixado a Europa à mercê dos Estados Unidos nos aspectos econômicos tradicionais. Os gastos militares eram. A intervenção estatal como garantia do ciclo do capital em seu conjunto foi particularmente marcante na Europa. obrigando toda a população a contribuir compulsoriamente para a acumulação capitalista. Esse poder permite aos oligopólios obrigar à população. a praticar uma espécie de poupança forçada. O grande motor. aqui também. Ao mesmo tempo havia existido tal progresso nas técnicas e produtos industriais durante a guerra. inscrita em seu nascedouro. além disso. Esse ponto de vista encontra um grande apoio popular. 69% a mais de trabalho qualificado e 25% a mais de trabalho semi-qualificado do que a indústria em geral. A extensão do trabalho improdutivo e do gasto público aplicado em atividades que não produziam valor compensavam as tendências ao inchaço do desemprego estrutural induzido pela elevação da produtividade. O gasto armamentista.

é a forma mais flagrante pela qual lhe é dado advice to be gone and to give room to a higher state of social production. ela seria qualitativamente diversa daquela da sociedade de consumo.43 A crise é identificada vulgarmente com o “choque do petróleo” de 1973. A destruição violenta de capital. não experimentando recuperação significativa posterior.9% em 1973-1990. para 8. após-impostos. convulsões agudas. cresceu de 30/1 em 1960. mas como condição da sua conservação. a diminuição absoluta do trabalho assalariado. A “rolagem das dívidas” e o retrocesso produtivo criaram a agora chamada “financeirização da riqueza”.45 CRISE E FALÊNCIA DO CAPITAL Com a crise mundial. uma solução à crise baseada nas “novas tecnologias” somente seria possível num quadro de barbárie.3% em 1961-65 para 5. A concentração da totalidade da renda social nas mãos de uma fração reduzida da população abalaria a estrutura do consumo. Por outro lado. e só poderia sê-lo através de um cataclisma histórico. é uma expressão do esgotamento do modo de produção capitalista. A taxa de crescimento anual das exportações. ela não consumiria 100 ou 1. expresso na monumental dívida externa desses países que. nesse contexto. não por condições que lhe seriam exteriores. e dos 20% mais pobres. em que pesem as efêmeras “recuperações”. atingindo atualmente a fabulosa cifra de 42 milhões para os países da OCDE. a suposta “definitiva decadência do domínio do capital-dinheiro sobre o capital-mercadoria. motor da expansão de pós-guerra. A taxa de lucros.. ao mesmo tempo que deflagrava uma profunda luta interimperialista. que ameaça com a falência do sistema financeiro mundial.50 No entanto. e inadaptada à produção automatizada. já que na visão dos países europeus. o declínio do papel do capital bancário (como) tendência universal”. antes de se realizar essa “des-utopia” de uma sociedade de “novos párias”.44 A declaração de inconvertibilidade do dólar pelos Estados Unidos (1971) já expressava a falência do suposto “modelo”. como foi pontuado numa “antiutopia”: O mesmo movimento que leva a produtividade do trabalho para seu zênite implica também. crises nas quais a cessação momentânea de qualquer trabalho e a destruição de uma grande parte do capital fazem regressar este ponto em que ele is enable fully employing its productive powers without commiting suicide” (em inglês no original). quando seu elementos já estão presentes no final da década de 60 sob a forma de “aumento dos custos. não temos feito senão assistir à expansão e profundização cada vez maiores dos elementos dessa crise. (. a semi-industrialização de (alguns) países atrasados se realizou com base num fantástico desenvolvimento parasitário.. Ainda que aumentasse a procura das camadas capitalistas e da aristocracia salarial. para 78/1 em 1994 (segundo cifras da ONU). evidenciam que o capital é cada vez mais incapaz de reproduzir-se produtivamente (como capital industrial).. Mas a sua expansão é insuficiente para mobilizar todo o capital ocioso gerado pela crise. à escala nacional e internacional.73 desastre financeiro. crises. os Estados Unidos haviam abusado durante anos de sua liderança na política monetária. para 3.2% em 1950-73. Como afirmar. tão logo ela tem de descer devido a que o aumento da composição orgânica do capital não pode ser já compensado pelo aumento da taxa de mais-valia. E os demais países simplesmente não tinham outra opção senão aceitar essa decisão unilateral diante da maré de dólares que se estendia em escala mundial.6% em 1973. caiu de 8. as catástrofes sociais e políticas serão de tal magnitude que elas porão o poder político em jogo. pois com essa medida o governo dos Estados Unidos se livrava definitivamente do saneamento econômico interno e transpassava ao estrangeiro toda a carga do ajuste. provam a tendência à desagregação do primeiro.000 vezes mais os mesmos produtos.46 O desemprego na CEE pulou 2. na qual a necessidade de reduzir o tempo de trabalho necessário provocaria o retrocesso gradual dos mercados. of course. A crise é verificada apenas quando começa a descer a taxa de lucro. que estaríamos em presença da “renovação do mercado mundial auto-regulador” e da “tendência a barrar a escalada do caos sistêmico mediante um processo de formação de um governo mundial”?49 As cifras. nos anos 70. contra os imperialismos rivais e as nações atrasadas. saturação dos mercados. de tal modo que a desproporção entre a capacidade de produção e a de consumo evoluiria em direção de um paroxismo... Primeiro “fez emanar dólares-ouro de suas máquinas” destinados a financiar seu crescente déficit na balança de pagamentos e a afiançar seu predomínio político e econômico sobre o Ocidente. e nas mesmas proporções. impulsionando ao mesmo tempo uma enorme inflação. Os europeus viram na suspensão da convertibilidade do dólar a culminação do abuso de poder por parte dos norte-americanos. a saber. e a realidade. Mas.3% em 1970.5% em 1985. caiu de 7. Mesmo que o assalariado da sociedade automatizada ganhasse 100 ou 1. e como questão de vida ou morte .000 vezes mais. que está longe de realizado. o que cria a tendência para a queda da rentabilidade (com o) esgotamento dos esquemas de acumulação dos anos 50 e 60 (saturação dos mercados e resistência do mundo do trabalho)”. pois grande parte desse capital ocioso são créditos incobráveis contra empresas e nações na bancarrota. a tendência é nesse sentido: a proporção entre a renda dos 20% mais ricos da população mundial.8% em 1981.) Essas contradições.48 Desde então. que demoliu uma das críticas principais à teoria marxista do imperialismo. A dívida externa. O capitalismo chegaria assim a uma nova etapa histórica. e o segundo só pode ser aceito se for o “governo mundial” dos Estados Unidos. que seria uma espécie de “crise permanente”.. Do ponto de vista econômico. o armamento se transforma no único mercado capitalista que não retrocede. para todas as classes sociais. conduzem a explosões. sendo um retrocesso às formas usurárias do capital. e para 13. nos Estados Unidos.”47 O retrocesso produtivo evidencia o mecanismo típico da crise exposto por Marx nos Grundrisse: A inadequação crescente do desenvolvimento produtivo da sociedade com as suas relações de produção até aí existentes exprime-se por contradições. acentuação da concorrência.

. El capitalismo Occidental de la pos-guerra. p. 293 e 303. p. 41. Rio de Janeiro. p. Contribuición a la dinâmica del capitalismo tardio. Fernand. Josep. Op. 1973. Boukharine. “Sobre la acumulación originaria de capital”. 1983. Giovanni.. É nessa crise. 37.. n° 10. 1992. 24.. Op. Civilización material y capitalismo. 170. Giovanni. 343. p. 3. 149. junho 1998. Paz e Terra. Barcelona. Manes. Hobsbawm. I. In: Lacoste. “Introdução ao Manifesto Comunista”. Samir. 87. Marx. Op. in: Economi a nazionale e mercato mondiale. 46. p. Wallerstein. Op. 1981. Leon. Idem. 16. 27. Les étapes de la croissance économique. Prometeu desacorrentado. Boitempo Editorial. p. 63. Et desarrollo desigual . 38. 26. Kidron. UGE. p. 1978. 9. Hobsbawm. 10-11 e 456. 316-340. Arrighi. 47. Paris. 48. 2. 47. Companhia das Letras. 19. p. 44. In: Sobre História. Rosa. n° 16. . 1968. Guadarrama. n van der Wee. p. Pierre. 45.d. Trotski. J. março 1997. I.). FCE. 415 (Ia edição. São Paulo. Rober. 3. 1995. “Préface”. p. 1971. p. p. cit. Amin. Giovanni. 536-537. 22. O capitalismo histórico. p. In: Boukharine. 42. Osvaldo (organização e introdução). 1906). 1979. 43. Santarelli. 532. 18. Braudel. 31. 23. Ciências Sociales. 20. Oxford University Press. 1996. 1986. p. Histoire du capitalisme. p. in: 1905. e Engels. Fontana. Ernest. FCE. Arrighi. Juan Pablo. p. Nova Fronteira. Tom. 1998. A. Arrighi. incluída na edição de Coggiola. p. Pierre.. Paris. Souyri. Rio de Janeiro. 1982. Paris. “La aristocracia obrera en la Gran Bretaña del siglo XIX”. México. J. Landes. E. 1982. Nikolai. 1998. Georges. Ler Braudel. 6. p. 340. 25. La Verité. p. 125. Tratado sobre los ciclos econômicos. 1978. 50. Lessa. Belo Horizonte. México. Davis S. Kurz. p. p. e não em caprichosos esquemas “sistêmicos” ou “pós-modernos” que se verifica a atualidade da dialética corrosiva do Manifesto Comunista. 29. “Bilan et perspectives”. V. e Smith. Planeta-De Agostini. Leon. Brasiliense. 90. 1977. L‟économie mondiale et l‟imperialisme. Hobsbawm. São Paulo. Todas as citações do Manifesto Comunista são extraídas da tradução de Álvaro Pina. Nápoles. O longo século XX. 226-228 e 232. Paris. Manifesto Comunista. Milão. 136. Wallerstein. São Paulo. Bauer. Pasado y Presente. In: Era dos extremos. 304-305. Arrighi. Mandei. Giovanni. Nikolai. “Per la critica delia concezione sistemica del mondo”. La geometria del imperialismo. Campinas. Kemp. 1989. cit. La acumulación del capital. Paris. 1976. e Owen. O longo século XX. abril 1964. W. s. Paris. 1994. Golbery.570. n° 527. 35.. NOTAS: 1. Luxemburgo. 91. Seuil. Souyri. 248-249. B. Maspéro. Michael. 9. 342-343. N. p. 14. A crise do capital. 10. Paris. 31. 54. 28. 4. Londres. Kidron. A ilusão do desenvolvimento. G. p. Hobsbawm. Op. Kurz. Boukharine. Labor. Barcelona. Rostow. 461. “Um olhar moderado sobre o século dos extremos”. J. 34. Outubro. Ensaio-Unicamp. 1997. México. 127. 13. cit. 1948. 23. R. Grijalbo. W. Companhia das Letras. 316.. Arrighi. 1981. Praxis. Braudel. 5. São Paulo. Cf. p. 201. 1969. Pala. El Capital. Op. Barcelona. Cf. Payot. 1972. 43. In: Revolucionários. p. Eric. p. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro.. Eric. Karl. Traité d‟économie marxiste. Vozes. Bacherer. Sutcliffe. 11. 1962. Immanuel. Marx. p. Buenos Aires. Estey. p.. O colapso da modernização. São Paulo. 15. En defensa del marxismo. Trabajadores. 23 e 232. p. 40. “O breve século XX 1914-1991”. 1990. Madri. p. cit. n° 20. 115. 17. p. 7. p. Minuit. Robert. Rieznik. Storia sociale del mondo contemporaneo. 8. cit. 106. 146. K. 36. 33. Trotski. Giovanni. 21. In: En defensa del marxismo. Papirus. Capitalismo e teoria. 1934. Selected correspondance. Barcelona. Buenos Aires. cit. O marxismo de nosso tempo. Fernand. 20. Seuil. 12. Paris. Prosperidad y crisis (1945-1980). São Paulo. p.74 para os trabalhadores. Immanuel. Mandei. Michel. Op. desde 1750 até nossa época. 1986. “Perspectives du développement capitaliste”. p. Enzo. Crítica. E. 32. cit. 30. Beaud. 1987. 430. 1995. Lisboa. 39. Zwischen zwei Weltkriegen? (1936). cit. Haupt. 1995. “Una revolución sin sujeto e un sujeto sin revolución”. Lenin. A dinâmica do capitalismo. La dynamique du capitalisme au XX Siècle. 42. Op. Transformação tecnológica e desenvolvimento industrial na Europa Ocidental. Barcelona. México. México. Feltrinelli. Siglo XXI. Gianfranco. Yves (org. apud Natalie Moszkowska. p. vol. ERA. p. 1962. 332. Otto. F. 470. p. p. Crítica. 49. Iniciativas. Leon. p. São Paulo. outubro 1997. L‟historien et le mouvement social. 1982. v. Michael. Managing the global economy. Paz e Terra. Trotski. Mitchie. Havana. Pablo. Historia: análisis del pasado y proyecto social. Anthropos. 4. Contraponto-Unesp. p. Estudios sobre la Teoria del Imperialismo. Rio de Janeiro. J. p. Ernest. Rocco. “Lenin e a aristocracia operária”.

encontramos. a pertinência do Manifesto para compreender o mundo capitalista. em autores como Kiakov e Kovaliev3 e uma infinidade de estudos que. a possibilidade de análise das clivagens e lutas de classes na Antiguidade. para. antes de mais nada. Marx e Engels publicavam o Manifesto Comunista. não deixaria de denunciar esse conservadorismo um pouco ingênuo. talvez o ponto tratado com maior brevidade e menor profundidade? A resposta. a resposta só poderá ser negativa. hoje. representava. escravos. em abril de 1841.10 Suposta. Nas primeiras etapas da História. patrício e plebeu. a um só tempo. De fato. ora disfarçada. A primeira questão. mestre de corporação e jornaleiro. Por outro lado.11 o latim servia como arma de poder. na Kritik. exercer uma crítica filosófica. os conceitos de estatutos jurídicos e de continuum de gradação social esvazia não só o conceito marxista de classe como. Assim. é que apenas a consciência da existência de classes e seus interesses permite transcender o discurso conservador do senso comum. uma complexa divisão da sociedade em várias ordens. Nesta ocasião. assim. ou mesmo a importância do status nas relações sociais no mundo antigo. a exegese e a descoberta de verdades inefáveis que já se encontrariam em um corpus hermético a ser decifrado por iluminados. de um lado. portanto. mas cuja posteridade e. naturalmente. o apego exegético à forma externa do marxismo e o uso da critica marxista. após tantas transformações sociais. a começar de suas primeiras frases. por Moses Finley e hoje consolidado na chamada “Escola de Cambridge”. mas almejavam mostrar-se superiores.75 A ANTIGUIDADE. obra que revolucionou a história política moderna e que. pois. se informam na crítica marxista. e revolucionária. pode servir para diferenciar uma elite “de primeiro mundo”. pois. O modelo historiográfico dominante mais bem articulado e difundido funda-se em uma interpretação. pois a adoção de costumes romanos. aqui. originalmente. Livre e escravo. sempre. para além do deleite que.8 estava a servir à causa da crítica do contemporâneo. uma graduação variada de posições sociais. plebeus. então poderemos perceber o quão pertinentes foram as observações do Manifesto. encontramos patrícios. seguramente importante. Em sociedades em que as classes baixas falavam uma língua vernácula. em seguida. propugnado. cavaleiros. ao estudar o mesmo fenômeno de aculturação. e os locais. refere-se ao caráter da classe da sociedade antiga e às contradições decorrentes. justamente.2 Nesse contexto. a ressaltar. que se referem. tratarei de mostrar como as discussões sobre o funcionamento e transformações do mundo antigo têm tocado em questões apresentadas. pois.6 trabalho que já nos está a demonstrar. se retomarmos o sentido último da Kritik proposta por Marx. com objeto imediato em Epicuro. por meio de um exame aprofundado de um período comparável da história da filosofia grega. ao restante da população. daí. aceitação dos destinos e valores atribuídos. por sua parte. continua atual. A historiografia marxista. As duas atitudes mentais mencionadas. de início. uma estratégia para manter sua hegemonia no interior da sociedade em suposta aculturação.7 Para Marx. então. a leitura das obras latinas e gregas em seu original. Marx havia defendido in absentia sua tese de doutoramento em Jena sobre a diferença entre a filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro. de movimento que se modifica a cada instante. podem ser bem exemplificados com as diferenças entre a esterilização dos esquemas sobre a Antiguidade. assim como. não casualmente. sujeição. no passado.9 Trata-se. Na Roma antiga. no Manifesto. opressor e oprimido. como quando um autor americano propõe que “a superioridade (s/c) cultural romana bastou para romanizar inteiras províncias „pois havia‟ uma mágica (s/c) associada aos membros da civilização dominante”. em decorrência. a própria escolha do tema de sua tese tinha por objetivo compreender a situação filosófica após Hegel. senhor e servo. a erudição clássica de Marx e sua preocupação com o mundo contemporâneo. se tomarmos a vitalidade em sua acepção mais profunda. Outros prefeririam concluir que “a luta de classes chegou ao fim e com ela o Manifesto Comunista também perdeu sua força”. que tudo “americanizariam”. Sem negar a pertinência das diferenciações de ordem jurídica. por parte das elites locais. dependerá da acepção que se tenha da vitalidade de uma obra como essa. o que nos interessa. em ambiente local. 12 Mais que conflitos. aqui ou ali. de uma ou outra forma. pois. em constante oposição. . Não me parece relevante tratar daquela corrente. De qualquer forma. Recentemente. O MANIFESTO E A HISTORIOGRAFIA CRÍTICA SOBRE O MUNDO ANTIGO Pedro Paulo Funari Há 150 anos. de forma explícita. A própria linguagem utilizada demonstra o comprometimento da historiografia tradicional. pela elite. numa palavra. Alain Touraine 1 propôs que bastaria substituir “burguesia” por “globalização” e eis o mundo atual descrito por Marx. de outro. haveria sentido em se buscar a atualidade do Manifesto para a compreensão da Antiguidade Clássica. um uma transformação revolucionária da sociedade inteira. ora franca. no estudo do mundo antigo. ou pela ruína das classes em luta.6 O cerne do interesse de Marx encontrava-se. senão como exercício historiográfico. Os paradigmas dominantes. no presente e. quase por toda parte. como tampouco hoje um americanófilo tenta ser americano.4 Menos de 7 anos antes. ao imitarem o dominador. não têm hesitado em adotar um ponto de vista das elites. Se por vida tomarmos o seu oposto. vitalidade não se concretiza. a servir de modelo para o estudo do mundo antigo. a literalidade. têm vivido numa luta ininterrupta. deixa transparecer. o uso do inglês. o período helenístico. pois as aristocracias locais não buscavam tomar-se romanas. uma luta que terminou. da transposição da suposta superioridade e mágica dos americanos. haveria acomodação. de raiz weberiana. à Antiguidade: A História de todas as sociedades que existiram até hoje tem sido a história da luta de classes. naturalmente. como prefere Robert Kurz. em fevereiro de 1848.

e a produção de mais-valia. como destacado pela historiografia crítica. geralmente. os dominantes.20 como no que se refere ao mundo romano. ter sido um homem livre. elitista. De fato. escravos”. como vimos há pouco. pode passar-se para a dominação. era. segundo a qual “as idéias dominantes de uma época sempre foram as idéias da classe dominante”. consideraram natural que. para que possa dominar. que se pensava. as contradições de classe podem assumir contornos violentos.13 Essa proposta teórica de Harris encontra respaldo em estudos específicos. pode chegar à simples transformação de um sistema de escravidão patriarcal.25 às vezes imersos. admitida a inevitável existência de conflitos. por Walter Benjamin. Na verdade. Saitta.40 enquanto as estradas. a longa distância. bem como dos bancos. ao desenvolvimento das culturas rentáveis que lhes permitissem vender o mais possível”. na sociedade antiga.19 Já nas sociedades com divisão de classe. como hoje. ressaltaria que: “Em todo caso.38 Diferentes estudiosos mostraram a importância dos mercados locais39 para a troca.18 podem ser considerados como igualitários e estratificados a um só tempo e. como parte da “ideologia dominante”.37 “proprietários rurais escravistas que visavam à produção no melhor dos seus interesses. mal definidos como “simples”. seguia padrões de . mas por que buscam estabelecer a dominação de classe. na aplicabilidade do uso do conceito de classe para estudar as sociedades humanas.17 que buscam a continuidade das relações sociais.24 Ademais. na verdade. A ideologia dominante burguesa e moderna.14 A historiografia marxista tem insistido. operários. voltada para a produção para o mercado. determinaria uma vida social dominada pela honra. está a indicar a fecundidade de uma abordagem menos parcial e redutora da História àquela dos dominantes. as idéias dominantes são aqueles constructos ideológicos da elite que esta tenta impor. confesso que não ficaria horrorizado com o pensamento de que a maioria dos escravos e praticamente todos os assalariados — um grupo mal conhecido — pode ser considerado como membros de uma mesma classe social. a despeito das diferenças entre eles”.16 De fato. Harris.21 Além disso. por tanto tempo consideradas de uso exclusivamente militar e estratégico. como Randall McGuire e Dean J. ao menos. posições não apenas redutoras da realidade como incapazes de explicar sua inevitável interação. as elites ditassem comportamentos e idéias. também. os conflitos de classe atingiam. têm sido interpretadas como importantes artérias econômicas. ou. no entanto. seus estereótipos e visões de mundo comprometidos com seus interesses. aristocratas. em sua própria cultura de elite. em particular. a despeito da existência da escravidão: No mundo antigo. Estudiosos das sociedades arcaicas. os próprios historiadores da Antiguidade Clássica. Tradicionalmente. o marxismo tem sempre ressaltado que os interesses e os conflitos são características inerentes à vida em sociedade.30 Um aspecto do mundo antigo tem causado particular discussão e se refere ao papel desempenhado pela economia. pois. termo usado para designar todos os explorados do passado. acima citada de Marx. a ação do comércio e o desenvolvimento do capital mercantil levam. na realidade. essa subestimação do cálculo e dos interesses econômicos dos antigos. na Antiguidade. com relações de classe. daquelas camadas sociais da Antiguidade que não seriam apenas ignaras ou imitadoras da elite. n‟0 Capital. não deixaria de influenciar diversos estudiosos marxistas da Antiguidade. orientado à produção de meios diretos de subsistência. pois. no passado. em particular nas lutas dos escravos. pouco teriam atentado para os possíveis benefícios que aufeririam de uma mais racional exploração da mão-de-obra. não hesitou em descrever a economia antiga como.76 William V. entretanto. estudados. à diferença dos modelos normativos de cultura. e mesmo simples camponeses. nem muito menos de enaltecer as classes subalternas e suas manifestações políticas e culturais como contraposição àquelas dos dominantes. o historiador tratou do passado a partir das idéias das elites. a própria noção de modo de produção escravista foi concebida. não lhe resta a possibilidade de maximizar o lucro e minimizar os custos. na qual os produtores de trabalho geram mais-valia e os apropriadores são distintos. pelos historiadores marxistas japoneses. antes que pelo interesse econômico. explícito nas fontes eruditas antigas. segundo o ponto de partida.23 aceitando. elite e povo. também. em termos gerais. e como se aplicou essa leitura aos próprios autores antigos. a uma economia escravista. para afirmar que o desprezo que a elite antiga sentia pelo trabalho manual. “dado que o camponês não pode despedir os membros de sua família”. já ressaltado por diversos observadores. a submissão dos grupos e dos indivíduos às regras sociais. Assim.34 Haveria. estes tão magnificamente chamados. gerando uma irracionalidade inevitável.35 No entanto. de produtos excedentes. uma leitura parcial do famosa proposição. de esquecer o entrelaçamento inevitável entre as classes sociais. pois mesmo grupos pré-históricos. Nas palavras de Finley. Um caso paradigmático consiste.27 Ellen Meikins Wood28 estudou a criação do mito da plebe ociosa. No próprio interior do marxismo. um “escravo assalariado”. muitas vezes.32 Isso explicaria a pouca atenção que prestariam à busca do lucro. por analogia com o mundo moderno. no mundo antigo. têm demonstrado como o conceito de classe é apropriado para o estudo de todas os tipos de sociedades. em muitos casos. servos. os agricultores antigos calculavam seus “lucros” e “perdas”. entenda-se. justamente.26 fez com que se aceitasse que uma única ideologia seria prevalecente. bem como na importância da bipolaridade15 entre apropriadores e apropriados. em um sistema voltado para a produção de maisvalia.29 Não se trata.36 tem encontrado inúmeros estudos de caso que contraditam suas assertivas. seria compartilhado.33 Desinteressados. em determinados momentos.22 Em seguida. sempre. o mercennarius. de qeknechteten. na esteira do Manifesto.31 A historiografia aferrada a uma leitura da História a partir dos pontos de vista da elite tem ressaltado que haveria uma alteridade radical entre a racionalidade capitalista e uma visão de mundo aristocrática e pouco afeita a preocupações comezinhas. o estudo e a valorização das elaborações culturais populares. “aqueles que servem. Marx. na leitura reducionista da frase. pelos próprios pobres e escravos. escravos. pois que uma categoria social importante do mundo romano. à prática de atividades lucrativas e. Dominantes. não por que sejam prevalecentes. de caráter legal e de prestígio. Nesse sentido. as interdições. portanto. como meio de sustentação de um paradigma. ou “assalariado”.41 O assentamento humano. no mundo contemporâneo. uma “psicologia da vida ociosa” a impedir a racionalidade econômica.

objeto tão pouco mencionado. redistributivos. Frankfurt. 62. 603. em particular para grupos privilegiados. In: Forms of control. “Presentación”. 1977. 9. William. Benoit. p. 13. 1974. explicitamente. 46. McGuire. class. Differenz der demokritischen und epikureischen Naturphilosophie. Folha de S. Londres. R. em muitos aspectos. 4S-S3. 1994. 1978. 1. 1988. uma crítica consistente encontra-se em Siân Jones. 1994. como é o caso de Alföldy. 80-136. p. Caio Navarro de (org. 1988. 7. explica-se pela configuração das relações econômicas antigas: “as condições econômicas de então explicam porque é que a política desempenhava o papel principal”. In: American Antiquity. Dean J. Folha de S. In: The archaeology of inequality. 18. e Favory. “A luta de classes como fundamento da História”. . La Pensée. 2. 1996. 21. Berlim. Clavel-Lévêque. p. Crítica Marxista. Geza. Paulo.111 et passim. 1-25. 20. Sobre esta historiografia. McLellan. I. “Pompeii.46 estão a demonstrar a vitalidade da dialética materialista.3. Philip. “Considerações em torno das „Teses sobre a Filosofia da História‟. 64. p. Dawson e D. p. J. University of Florida Press. 196. I97S. 24. O Manifesto. domination. no caso do mundo romano. “Radical History Review”. 1986. 106 et passim. Foss. 4. Marx. bem como da complexa relação dialética entre as interpretações e realidades atuais e aquelas referentes ao mundo antigo. Touraine. 13. Hector. A historiografia moderna que enfatiza a alteridade. Sobre o modelo normativo de cultura.45 Em outros termos. Lisboa. 201-227. sob o espectro do materialismo de Marx. Dean J. 6. 23. pelo Manifesto. in: Journal of Roman Archaeology. 45-69. Tradução do autor. Randall. Estampa. nas palavras de Lietta de Salvo. “Ethnic strife: a necessary amendment to a consideration of class struggle in Antiquity”. 17. In: Toledo. pode afirmar-se que os estudos modernos não deixam de dialogar com concepções da História radicadas nas reflexões nele contidas. 1996. Hector. a distribuição política de recursos. 1992. In: Zeitschrift der Savigny-Stiftung für Rechtsgeschichte. Tóquio. Pedro Paulo A. Marx (1839-1841). In: Civilization in crisis. Bürge. 352.44 A própria mediação política. “Der „mercennarius‟ und die Lohnarbeit”. ao descrever a sociedade antiga como essencialmente baseada no status e na honra. 1990. não deixa de construir seu discurso em oposição ao marxismo. 5. Randall e Saitta. 66. 1-7. organizado por Christine Ward Gailey. p. tese xii. São Paulo. p. Cario. développement et transition: pluralité des voies et universalisme dans le modele impériale romain”. em vvaa. Ginsburg. de forma indireta e mediada. “Apresentação”. 11. 32. com bibliografia anterior. p. Dietz Verlag. Gainesville. “Sobre a crítica (dialética) de O Capital”. Alfons. de Walter Benjamin”. 14.). “Agency. v. p. mesmo historiadores não-marxistas têm ressaltado as contradições e lutas intestinas no interior das classes antigas. 19. “On the applicability of the concept of class in roman history”. 16. Dean. 889. Constructing identities in the past and present. Blackwell. V. 9.43 ainda que fatores políticos. “Why complexity is too simple”. Por outro lado. como referencial. M. the social city”. Essay in the ordinary. Cf. 2. Xamã. em conclusão. Franz Steiner. Barcelona. T. 84. p. não possam ser deixados de lado. Hanna. Como quando menciona. S. Pedar. 198-4. 11. Saitta. Karl Marx: su vida y sus ideas. Crítica. 13 et passim. 1. 1997. Candel. Clavel-Lévêque. 1982. In: Antiquity. Annequin. p. nesses 150 anos. F. p. J. Miguel. Tóquio. Paynter e R. “Um apelo à libertação”. Walter. labor. Escritos sobre Epicuro. p. p. McMullen. Adams. 1997. “The archaeology of inequality: material culture. pois. p. “Impérialisme.77 circulação e de troca de mercadorias42 e “o livre mercado romano deve ter tido uma extensão muito mais ampla do que se admitia até há pouco”. mantendo-o. and archaeological interpretation”. and resistance”. Barcelona. Ramsay. os inúmeros estudos que têm tratado dos interesses das classes em confronto. p. 1997. 15. New Jersey. p. 1998. en passant. “Power. Oxford. In: Journal of Anthropological Archaeology. “Radicai archaeology and middle-range methodology”. Dean. Funari. Kurz. 1991.. Benjamin. Consulte-se Doi. In: Debating complexity. Suhrkamp. p. p. Alain. tomo 2. 1990. Kohl. 22. In: American Antiquity. não pode ser entendida senão como reflexo de estruturas e interesses econômicos dos atores sociais em embate. In: Cesammelte Schriften. in: Interview. Cf.. NOTAS 1. 3. 35. N. como os soldados ou a plebe. “Über den Begriff der Geschichte”. Saitta. cf. Princeton University Press. E. C. 3. Routledge. 22. Calgary. “O Manifesto Comunista”. Römische Sozialgeschichte. por sua parte. David. Paulo. 10. Crítica. Changes in the Roman Empire. Robert. 107. “Latin and punic in contact? The case of the Bu Njem Ostraca”. tem sido abordada. Monique. veja-se. organizado por P. “Although they have petty captains. Benoit. p. 1992. 7-26. Journal of Roman Studies. A Antiguidade Clássica. Nesse sentido amplo. Masaoki. 1/2/98. abriu perspectivas genéricas de uma leitura crítica da História. 1/2/98. p. Ensaios sobre o Manifesto Comunista. 12.g. 8. 61. McGuire. Harris. McGuire. The results and issues of post-war Japans studies on slavery in classical antiquity. In: Crítica Marxista 1. they obey them badly: the dialectics of prehispanic Western Pueblo social organization”. S. Na . The archaeology of ethnicity. 3. Formos de exploração do trabalho e relações sociais na Antiguidade Clássica. and the dynamics of change in Chacoan Political economy”. 108: bipartition between popular and learned Culture is more useful than a holistic model. p. anthropological perspectives. a contínua relevância das tragédias gregas ou de Aristóteles. Saitta. Wiesbaden. 197-216. 6. buscando uma práxis autoreflexiva.

Transaction. Nicholas. Heeresversorgung und die wirtschaftlichen Beziehungen zwischen der Baetica und Cermanien. p. 45. exigem uma análise de sua especificidade. “Pratique scientifique et théorie des sociétés de l‟antiquité”. Lietta de. E. não implica elogiar a cultura popular. In: Epigrafia. 46. conceitos e debates”. Faversani. In: La Pensée. Verso. Stuttgart. Editions Sociales. Britannia y el Mediterraneo: Estudios sobre el abastecimiento de aceite bético y africano en Britannia. p. Ray. 13. Londres. mais que elogios. Funari. Marx. 35. La cultura delia plebs romana. 144. practice and the economy”. 1992. Veyne. E. “Cultura popular e classicismo”. 1967. Ciro Flamarion Santana. in: La Pensée. p. Guerrini. Nicolet. p. Funari. 93. I. 1992. Roma. mas mostrar que. A economia antiga. Randall. “Land transport in roman Italy: costs. apenas ao se estudar seus códigos específicos. 33. Princeton. 28. p. 1967.Corbier. p. Londres. Academic Press. Theiss. P. Mireille. 27. E. Oxford. São Paulo. Universidad de Barcelona. Yavetz. remarques sur l‟esclavage dans l‟antiquité”. Messina. “Esboço de história universal”. 36. Finley. 1996. 144149. Paris. 148. p. José.Cohen. Cf. Marx. 1988. E. 244. 1998. A. “Cité. “Economia e sociedade antigas. Musse. Paris. New Jersey. “Formes de contradiction et rationalité d‟un système économique. Samperi. 1997. 129-148. Barcelona. Contexto. A banking perspective. Dressel 20 inscriptions from Britain and the consumption of Spanish olive oil. Cf. 1989. Pedro Paulo A. P. Folha de S. Moses I. Wood.78 25. 1988. 69. como a que desenvolvi em A cultura popular na Antiguidade Clássica. François.Annequin. p. territoire et fiscalité”. 1980.g. In: LPH: Revista de História. 44. César & Funari. Houses and society in Pompeii and Herculaneum. 15. Idem. Slaves and slavery in ancient Rome. p. p. Milão. Tempus Reparatum. Horsfall. R Kehoe. p. Claude. 1989. 192. I. 37. Cambridge University Press. 30. 43. Remesal. Cf.Salvo. Peasant-citizen and slave. 1988. . Princeton University Press. Trade. 32. 475-484. Wallace-Hadrill. 1992. Rendre à César. PPU. se pode compreendê-la. Dennis. Ricardo. économie et société dans la Rome Antique. A marxist archaeology. p. 1977. Hertz. La società romana. Afrontamento. 225-227. pois essas manifestações só existem em contextos específicos que. 41. Saggi di storia economica e sociale del mondo antico. the foundations of the athenian democracy. 26-35. Paulo. I. Peter. 1994. Medieval popular culture: problems of belief and perception. 31. Oxford. 42. Aron. 1992. Cambridge. 1996. In: Helen Parkins & Christopher Smith (eds). Fábio. In: Ktema. 1991. 1988. 1993. Le Capital. cf. Mais!. p. Ellen Meikins. A. 1998. 5. I corpora nauiculariorum. Gurevich. 615.g. 37 et passim. Essa análise contextual. Laurence. Andrew. R R A. Karl. 1988. 4.Gabba. A cultura popular na Antiguidade Clássica. Porto. et passim e a resenha que publiquei em LPH. 40. S I . Karl. p. p. Paul. Economia privata e pubblici servizi nell‟impero romano. 39. Monique e Favory. Jaques. In: Journal of Roman Archaeology. Editions Sociales. 1994. Roma. 38. Assim. Paris. p. p. Athenian economy and society. “Economic rationalism in Roman agriculture”. Barcelona. 275 et passim. McGuire. Cardoso. Como ressaltam Clavel-Lévêque. Gallimard. p. 26. 1994. 96. Zvi. 1985. 629. Revista de História. École Française de Rome. De buon uso delia ricchezza. Emilio. não cabe elogiar o erudito ou o popular. 161. 337. traders and the Ancient City. “Der praefectus annonae und die Wirtschaft der westlichen Provinzen”. Le Capital. p. Laterza. 29. Routledge. 1990. San Diego. 6. 34. Carreras. Princeton University Press. In: Clássica.

6 Basta lembrar. “se a vitória de nosso programa é tão inevitável como o nascer do sol amanhã”. Mas as coisas não se passam bem assim. o elemento mais importante na criação da Quarta Internacional falava do “prognóstico de Marx sobre a inevitabilidade do socialismo”. Em especial no que se refere à historiografia da Antiguidade.9 O que nos importa destacar é que o Manifesto traz como contribuição. em sentido amplo. ensina-nos Raymond Boudon que: Todo o pensamento filosófico clássico testemunha (. Já o movimento proletário caracteriza-se por ser um movimento consciente e autônomo de uma maioria esmagadora. a maior contribuição do Manifesto foi apontar para a necessidade de uma luta internacional em favor da superação das crises crescentes geradas pelo capitalismo. a nosso ver. Se não fosse assim. Sempre foi preciso encorajamento para enfrentar a luta contra o capitalismo. a luta para a superação do capitalismo passava pela luta de classes. ou seja.. alguns anos antes da tomada do poder por Hitler. Com esse texto. mas que a História mesmo acabou. diversos encontros foram realizados com o fito de se discutir a atualidade desse texto de Marx e Engels. Como nos diz Jacob Gorender a propósito disso: “Com Marx e Engels. deveria ser construída pelo proletariado. enquanto superação das contradições do capitalismo e as chagas sociais por ele geradas. Sobre isso. É por isso que pela metade dos anos sessenta. a concorrência entre os intelectuais..1 A negação da ética política burguesa e sua superação tornam-se sonhos possíveis a partir do texto de Marx e Engels. ademais. Alguém poderia dizer que é inadequado apontar aí a atualidade do Manifesto.79 O MANIFESTO E O CLASSICISMO Fábio Faversani O Manifesto é. O comunismo como alternativa de superação do capitalismo era aquela que. todos os movimentos sociais foram desencadeados por minorias em proveito de minorias. mas não era a única. E essa atitude em relação ao erro estendeu-se a essa forma moderna do erro que representa.. revelam muito mais uma manifestação de convicção de militantes do que um axioma teórico a respeito da revolução. que há duas alternativas de desenlace: A luta de classes. A nosso ver. isto é. se o caso é de um comunismo inevitável. a idéia de que o capitalismo. caberia aquela crítica de Plekhanov.) um esforço para exorcizá-lo [o erro]. Trotski. ao mesmo tempo que previam sua liquidação enquanto profissionais (seriam proletarizados). como “teoria da revolução permanente. Para os autores do marxismo. são de natureza a fazer triunfar a idéia verdadeira sobre a idéia falsa.10 Estaria essa teoria colocada em cheque pela queda do Muro de Berlim e o colapso do comunismo . aos olhos de Marx. É. sugeriu então.3 Em 1848. Na época de Weimar. a meu ver. que permanece atual. essa e outras passagens que podem ser lidas nos mais importantes marxistas e mesmo em Marx e em Engels. à sua maneira: a circulação de idéias. para que o esforço e o sacrifício de construção de um partido proletário e da revolução? De fato. por toda a parte. Se o Manifesto não fosse um texto ainda hoje importante. Luta de classes entendida.7 É verdade que não apenas os detratores do marxismo auxiliaram para criar essa confusão. Demonstrativo disso são as palavras de Lenin na abertura da Terceira Internacional: “A burguesia pode exercer represálias. A diferença parece sutil. visto que o sonho comunista está morto e enterrado. em larga medida. importante por defender uma compreensão do mundo e não por compreendê-lo. assim como a produção marxiana em geral. como bem demonstrou Hector Benoit. E volta-se a fazê-lo. não apontava para um fim da História preciso e inevitável. Ao longo desse ano em que se comemoram os 150 anos da publicação do Manifesto do Partido Comunista.. É preciso compreender que o Manifesto. um momento. a ideologia. sempre terminou ou numa reestruturação revolucionária da sociedade inteira ou no aniquilamento das classes em luta”. ele teria sido esquecido. afirmam Marx e Engels. A grande inovação ética se resume a que: “Na História. que lembrava que. pode assassinar milhares de operários. como se quer muitas vezes fazer crer. talvez soasse ridícula a pretensão daquele pequeno grupo de alfaiates e outros artesãos que. O fato de tantos. para mantermo-nos no Manifesto. mas a vitória é nossa. como teoria da revolução permanente mundial”.4 Parece-nos temerário dizer que morreu o comunismo. Há até quem tenha se apressado em dizer que não só o comunismo morreu. o espectro do comunismo”. como o efetivo lugar de pensar em concorrência com outros. também Mannheim o anunciou. para que arriscar o pescoço pelo que acontecerá independentemente do que façamos. Coloca o comunismo. Ao menos o comunismo como o fazem entender Marx e Engels no Manifesto.8 Mas. O Manifesto marca uma etapa. engendra a miséria da maioria. apostavam que era razoável dizer que “um espectro paira sobre a Europa. Os preceitos lógico-explicativos que fundam o socialismo científico do século passado não morreram. atribuindo-o a forças obscuras que é importante dominar. bem conhecida a possível conseqüência desses sempre repetidos anúncios do fim das ideologias. Não nos parece ser razoável esse tipo de assertiva. E é a essa maioria que cabe reinventar a sociedade de tal sorte que as condições de existência da humanidade atinjam uma qualidade jamais vista. se colocarem a discuti-lo já faz com que se torne um pouco desnecessário o debate a respeito de sua atualidade. em absoluto. mas é relevante.5 O nazismo não é exatamente o que eu tomaria por idéia verdadeira. Por isso ele segue atual. funda-se uma nova ética possível para a atuação política. seu final foi anunciado com gritos e fanfarras. “historicamente. para muitos.2 Essa é a idéia. em proveito dessa mesma maioria”. o movimento operário deu um giro não só da utopia à ciência como também da utopia à política”. a vitória da revolução comunista mundial está assegurada”.

na verdade.. Isso se vincula a uma tendência elitista de perceber a Antiguidade Clássica. Como nos lembra Gorender a esse propósito: “não existe marco zero na história”. Para ele: O velho “internacionalismo” dos blocos e dos “países guias” — como a União Soviética. que: A historiografia marxista sobre a Antiguidade Clássica vive hoje. buscando reapropriá-la de modo a dar conta dos desafios colocados presentemente ao marxismo. como ele previa. a complexa estratificação social do mundo antigo (. “atualizando”.25 O mais dramático é que tais estudiosos buscam justificar essa pretensão com o glorioso passado clássico.16 Para realizar essa reflexão. Robert Kurz. não puderam ser resumidos a um conflito fundamental.) A multiplicidade das formas de dependência. estão vinculadas a grupos stalinistas e pequeno burgueses que se afastaram daquela teoria revolucionária da História” (. aliás. deve ter causas explicativas e estas esclarecem ou contribuem para esclarecer o modo pelo qual a doutrina suportou o critério da prática”. É preciso abrir mão de direitos sociais e se tornar mais rentável do que o trabalhador asiático para que seu emprego não evapore! Mas o que Marx não antevia é que as lutas empreendidas pelos setores subalternos não levou a ganhos organizativos crescentes. É o que faz. a Albânia. — está morto e enterrado. as lutas sociais assumem um caráter mundial. que escreveu que: “a luta de classes chegou ao fim e com ela o Manifesto Comunista também perdeu sua força”.15 É preciso refletir sobre os novos desafios colocados ao marxismo.. mas a união cada vez mais abrangente de todos os operários”. (.26 A partir da recuperação desse debate. É preciso pensar o porquê disso. a nosso ver com razão. O verdadeiro resultado dessas lutas não é o êxito imediato. das classes fundamentais em conflito. na sua maioria. mesmo a maioria dessas derrotas apenas confirma e atualiza mais ainda aquela teoria”. que ao mesmo tempo preserve o que de melhor havia nas tradições internacionalistas do passado. Vitórias. essa tem abrangido um longo leque de alternativas. nem se pode comprovar sua permanente eficácia enquanto motor da História.19 Há. pela crise histórica da direção do proletariado”. antes de mais nada. Há uma verdade insofismável que devemos enfrentar: temos perdido feio a luta que Marx e Engels nos propuseram com o Manifesto. suas palavras iniciais. aplicada à Antiguidade. Fazê-lo poderá significar repetir os acertos e erros..) a própria noção de luta de classes. necessita de urgente reflexão. Isso significaria questionar a propriedade de pensar-se sempre o conflito social como tendo um caráter de classe. Tenho feito isso não só como militante sindical em minha categoria profissional.) “e. portanto. Creio mesmo que a reflexão acerca do mundo romano. Um bom balanço dessa utilização para o estudo do mundo antigo é feito por Norberto Luiz Guarinello. Primeiramente.) colocam problemas que a historiografia marxista não soube resolver ou aos quais não deu importância. A idéia de que os regimes instalados no campo do socialismo real acabaram mais por atrapalhar do que por avançar a revolução não é nova. Hoje. ainda que concordemos que não podemos parar de lutar no sentido que nos apontou Marx. mesmo que atuantes em diversos períodos.80 na União Soviética e países da Europa Oriental? Para Hector Benoit “essas derrotas.) O modelo dual. tem uma contribuição importante a dar nesse esforço18 que se tem empreendido de repensar a idéia de classes e de luta de classes no interior do marxismo. em especial se comparada com a dos capitalistas que têm o Banco Mundial.24 Essa tendência. Poderia ter escrito: “Um espectro paira sobre o comunismo.11 No mesmo sentido investe Michael Löwy. acontece um triunfo de operários.. Nossa opção tem sido por essa última alternativa. como também do lugar ocupado por esse elemento analítico no pensamento marxiano. já que: “a prevalência de uma versão inautêntica. sua difícil classificação.13 Trotski bem poderia ter parafraseado o Manifesto. não cremos tão pouco que seja possível reiniciar do zero. inicia-se com as seguintes palavras: “A situação política mundial no seu conjunto caracteriza-se.23 Os pressupostos que levam a uma injustificada elitização de nossa visão do passado fundam-se em muito no pressuposto de que nenhum instrumental analítico dará conta da complexidade social da Antiguidade. Ele foi o instrumento de burocracias nacionais mesquinhas que o utilizaram para legitimar seu poder político de Estado.. a China. o Programa de Transição. mais do que nunca. não só como conceito. Uma delas é simplesmente decretar o fim da luta de classes. às vezes. obtivemos muitas nesses 150 anos. O surgimento de idéias como a de “empregabilidade” é a uma clara demonstração disso. uma perda de identidade. como pretendem Löwy e Benoit.27 .. deve-se ao desejo de muitos classicistas (por vezes declarado explicitamente) de viver em uma sociedade mais elitizada.22 Na historiografia da Antiguidade Clássica há uma cada vez mais difundida presunção de inexistência de classes não só formalmente. que estudo.21 Uma terceira forma que tem sido adotada é repensar o lugar da luta de classes enquanto idéia à luz de novas possibilidades conceituais. Mas não acreditamos que mesmo isso seja possível. mas a organização internacional dos trabalhadores é insignificante. por exemplo. parece-nos fundamental repensar o lugar da idéia da luta de classes no marxismo.. etc.20 Uma segunda maneira de abordar a idéia-chave do Manifesto é procurar preservar a idéia de luta de classes.. mas enquanto aquela idéia de conflito social criador. Mesmo que a utilização das idéias de classe e luta de classes venha se tomando uma via pouco procurada pelos historiadores da Antiguidade. Os conflitos de classe. o espectro da burocratização”. O mais importante documento da Quarta Internacional. mas também enquanto historiador. como antevia Marx. o autor conclui. É pouco.. o Fundo Monetário Internacional. Diziam-nos Marx e Engels no Manifesto: “Ocasionalmente. (. deixou de ser coerente e (. 90 anos depois. a Organização Internacional do Comércio. um impasse..17 A verdade é que isso não aconteceu. entre outros organismos. em vez da versão supostamente autêntica. aboliu-se a noção de revolução como lei histórica universal. mas um triunfo passageiro.12 Não há mesmo como entender a surpresa de que tais entendimentos surjam em muitas dessas avaliações suscitadas pela comemoração do aniversário do Manifesto. três formas básicas pela qual esse debate tem sido pensado. Chegou a hora de um novo começo.14 Mas.

1998. 12. São Paulo. 4a ed. p. 19. 120. Caio Navarro de. “Mundialização e internacionalismo: a atualidade do Manifesto Comunista”. ibidem. Engels.. “Marx entre a utopia e a ciência”. a partir dos pressupostos criados pelo marxismo. Isso explica porque essa área do conhecimento humano se preocupou fundamentalmente com as elites greco-romanas. 66. In: Toledo. que atuam racionalmente e transformam sua realidade. 1984. tal qual pretendia Marx. Global. Isso se deve a um processo histórico que elegeu Grécia e Roma clássicas como fontes privilegiadas da cultura ocidental e suas sociedades e culturas como legitimadoras de diversos discursos através da história.). 25. mais claramente desde o Renascimento. é extremamente importante ter clara a importância de se estudar a Antiguidade. para a qual ele construiu suas idéias. p. Se o fosse. Jacob. “Mundialização e internacionalismo: a atualidade do Manifesto Comunista”. 6. pretendemos revitalizar a idéia de transformação social a partir do conflito de interesses. E não a fizemos. Caio Navarro de. p. curiosamente. “A luta de classes como fundamento da história. Gorender. Michael. “Programa de transição. São Paulo. elite e povo”. Friedrich. Op. 124. revisando os conceitos de Marx. como quer Norberto Guarinello. 4. em especial quando essa procurou se afirmar ao longo do período moderno. São Paulo. Hector.. Hector. É esse lugar comunista. Michael.28 A alternativa em que tenho trabalhado pessoalmente é diversa da manutenção da formalidade da lição marxiana do confronto bipolar de classes. 5. 13. Ática. São Paulo. Uma primeira distinção importante dessa alternativa com relação à adoção da idéia de classe social seria que esses grupos não obedecem a uma pressuposta posição em função de seu lugar nas relações sociais de produção. Desse modo. que buscava na cultura clássica legitimação para a sua prática e discurso.) A questão do programa. 132 2. em especial à burguesia européia. p. 37. já teríamos feito a revolução. Pedro Paulo Abreu Funari. Para tanto. (org.29 Isso significa pensar que os grupos sociais em conflito são construídos a partir das interações que os agentes vivenciam. cit.. Marx. Creio que o desafio colocado hoje para o marxismo é investigar. bem como a importância da bipolaridade entre apropriadores e apropriados. concluímos que o Manifesto impôs uma compreensão da sociedade que nos inspira até hoje. onde o estudo da história antiga foi eliminado dos currículos das escolas públicas estaduais. Op. Manifesto do Partido Comunista. 4a ed. mas sem pressupor que todo interesse que move os agentes é um interesse de classe. 17. que permanece não apenas atual. 1979. e bastante sinteticamente. O que pretendemos demonstrar é que estudar.” In: Toledo. 11. O estudo da Antiguidade Clássica nos diversos campos disciplinares das ciências humanas se reveste de enorme importância já de muito tempo. A ideologia. Visamos valorizar as opções efetivamente adotadas pelos agentes na sua prática enquanto sujeitos da História. possamos produzir algo sobre esse momento fundamental do pensar nossa própria cultura. Manifesto do Partido Comunista.). Karl. (org. Löwy. 1984. fundado com o Manifesto. Os estudos clássicos interessaram. Francisco Foot (org. Cf. Engels. Contudo. Em especial em Minas Gerais. Benoit.” In: Hardman. coloca-se como fundamental a reflexão sobre os estudos clássicos. p. Caio Navarro de. Friedrich. Palavra. p. Trotski. Nossa idéia é pensar a posição social como uma construção realizada pelo agente a partir das interações que esse estabelece.) Ensaios sobre o Manifesto Comunista. 3. Nesse sentido. que se modificaram em muito ao longo do tempo e do espaço. Engels. fonte inspiradora da burguesia. uma explicação para o porquê da revolução. Boudon. “Mundialização e internacionalismo: a atualidade do Manifesto Comunista”. pretendemos pensar em grupos sociais em confronto. Desse modo. uma sociedade não capitalista é fundamental para pensarmos a possibilidade de transformar a sociedade no sentido inventado por Marx. Leon. tanto quanto aqueles da elite. 8. In: Toledo.). Nesse sentido. Kairós. temos feito uso do instrumental que vem sendo construído pelo marxismo analítico. 4a ed. Não me parece algo muito inteligente a se fazer. cit. p. por exemplo. cit. Op. Global. 19. Raymond. 122. Xamã. 1982. em sentido amplo. . Manifesto do Partido Comunista. Pensamos que se deve construir um instrumental que permita uma compreensão da sociedade que tome os subalternos como agentes sociais plenos. mas não perderam nunca o seu referencial clássico por longo tempo reconstruído.Trotski. como quer Pedro Paulo Funari e da sua abolição enquanto possibilidade analítica.. o espaço de uma perspectiva de transformação da sociedade pela maioria em favor da maioria tem se reduzido cada vez mais nos estudos clássicos. como também necessário. Cf. ignorando ou desprezando os setores subalternos. 10. ainda investe na “aplicabilidade do uso do conceito de classe para estudar as sociedades humanas. In: Toledo. 1989. Löwy. (org. Löwy. Marx. Global. nesse sentido. (org. Marx. 28. em detrimento daquelas que teriam realizado se se comportassem como pertencentes a uma classe.30 Enfim. In: Toledo. Caio Navarro de. São Paulo. Outubro. Benoit. (org. Michael. NOTAS 1. Caio Navarro de. Idem. 9. O marxismo de nosso tempo. Os quatro primeiros congressos da internacional Comunista.). cit. 7. 68. São Paulo. Friedrich. 73. p. brasileiros. fracassou. 1988. 2a ed. p. Isso é relevante particularmente quando se trata da Antiguidade Clássica. p. p. São Paulo. já que o Brasil se insere dentro do quadro da construção de uma “História Cultural do Ocidente” e é mais do que razoável que se espere que nós. Op. 1984. Leon. Abster-se de fazê-lo é dar a exclusividade de repensar a Antiguidade Clássica aos antípodas do sonho marxista.81 É verdade que tal leitura não é consensual. Karl. que. p. é a área que o próprio Marx elegeu para produzir sua tese de doutorado. p. Karl. São Paulo.

82 14. Diga-se, aliás, que seria muito interessante a realização de um estudo comparativo entre o Manifesto e o Programa de transição. Há visíveis paralelismos entre esses dois documentos tão importantes para a luta comunista. 15. Gorender, Jacob. “Marx entre a utopia e a ciência”. In: Toledo, Caio Navarro de. (org.). Op. cit., p. 130. 16. Gorender, Jacob. Idem, ibidem, p. 129. 17. Marx, Karl; Engels, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. 4a ed. São Paulo, Global, 1984, p. 26. É a idéia de ganho organizativo, que esteve tão em voga nos finais de todas as greves derrotadas em nosso país no campo das conquistas imediatas. A nosso ver, a organização dos trabalhadores da área de educação, para citar um exemplo, construiu-se, em parte, com esse espírito. Para um estudo de caso, veja-se Furtado, João Pinto. Trabalhadores em educação. Experiência, imaginário e memória sindical nos anos 80 e 90. Ouro Preto, Editora da Ufop, 1996. 18. Tanto é assim que diversos pesquisadores que estudam o mundo antigo têm participado ativamente do debate acerca dos 150 anos do Manifesto (e.g. Hector Benoit; Norberto Luiz Guarinello, Pedro Paulo Abreu Funari). 19. Nunca é bastante lembrar que essa reflexão data de antes da queda do Muro de Berlim. A queda do Muro aumentou, talvez, o número de ex-marxistas, mas não daqueles que pensam as categorias teóricas fundamentais do marxismo. 20. Kurz, Robert. “O Manifesto Comunista.” Folha de S. Paulo, 1/2/98, 5, p. 3. Citado por Funari, Pedro Paulo Abreu. “O Manifesto e o estudo da Antiguidade: a atualidade da crítica marxista.” Crítica Marxista, n° 6, 1998. p. 106-1 14. É curioso perceber que toda essa fúria de “enterrar viva” a luta de classes se constrói a partir da idéia de que a queda do Muro de Berlim a teria sepultado. Mas o que pensam os alemães sobre isso? Perguntados se “hoje a luta de classes está ultrapassada; patrões e empregados devem se tratar como parceiros”, ou se “é correto falar de luta de classes; patrões e empregados têm no fundo interesses totalmente incompatíveis” pelo jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung (que não nutre qualquer simpatia pelo marxismo), os alemães ocidentais responderam da seguinte forma em 1990: 58% disseram que não havia mais luta de classes; 25% ainda percebiam sua existência. Em 1997, a tendência se inverteu: 41% responderam pela primeira formulação e 44% pela segunda. Na antiga República Democrática Alemã, que mais teria “empurrado” o Muro, a maioria é ainda mais destacada: 58% se vêem metidos em uma luta de classes, enquanto só 26% pensam ter saído dela. Dados publicados em Le Monde Diplomatique, n° 526, jan. 1998, p. 8, citados por Löwy, Michael. “Mundialização e internacionalismo: a atualidade do Manifesto Comunista”. In: Toledo, Caio Navarro de. (org.). Op. cit., p. 122. 21. É o que fazem, por exemplo, Benoit, Hector. “A luta de classes como fundamento da história.” In: Toledo, Caio Navarro de. (org.). Op. cit., p. 45-69. e Funari, Pedro Paulo Abreu. “O Manifesto e o estudo da Antiguidade: a atualidade da critica marxista”, Crítica Marxista, n. 6, 1998. p. 106-114. No campo dos estudos clássicos, não se esperou a queda do Muro. O “enterro” da luta de classes tem em um artigo de Finley um ponto de partida que foi adotado por muitos, criando uma tendência largamente hegemônica de desacreditar a idéia de uma luta de classes na análise do Mundo Antigo. (Finley, Moses I. “Between slavery and freedom” In: Economy and society in ancient Greece. Harmondsworth, Penguin, 1983. 22. Para uma mais pormenorizada justificativa dessa filiação ver Faversani, Fábio. “As relações diretas de poder enquanto instrumento analítico para a compreensão da pobreza no Satyricon de Petrônio”. História Revista, 1, 1. Goiânia, UFG, 1996, p. 43-70; e “Trimalchio, classe social e estamento” Revista de História, 134. São Paulo, DH/FFLCH/USR 1996, p. 7-18. 23. Sobre isso, ver Funari, Pedro Paulo Abreu. Cultura popular na Antiguidade Clássica. São Paulo, Contexto, 1989. Em especial p. 9-10. Lévêque, Pierre. “Problèmes téoriques de l‟histoire et sociétés antiques” (Entretien avec P. L., par MarieLuce Hazebroucq). In: vv.aa. Aujourd‟hui l‟Histoire. Paris, Éditions Sociales, 1972. p. 71-93. 24. Um autor fundamental para a construção dessa posição, hoje hegemônica, é Moses Finley. Para uma boa defesa de que tais argumentos não levam ao descarte dos pressupostos analíticos marxistas: Cardoso, Ciro F. S. “Economia e sociedade antigas. Conceitos e debates”, Clássica I (1988): 5-19. 25. Para a apresentação de um caso que nos parece paradigmático, Faversani, Fábio. “A tipicidade de Trimalchio.” História, 15. São Paulo, Unesp, 1996, p. 245-252. 26. Guarinello, Norberto Luiz. “O Manifesto Comunista e Antiguidade Clássica”. São Paulo, texto datiloscrito, 1998. [publicado na presente edição, p. 159-178. N. do E.] 27. Guarinello, Norberto Luiz. “O Manifesto Comunista e Antiguidade Clássica”, já citado. Guarinello chega mesmo a negar a existência da bipolaridade da luta de classes como um mecanismo de apreensão da realidade em Marx. Para o autor: “A oposição binaria não advém, portanto, do presente, muito menos do passado, mas é uma característica do futuro, de uma época em que o capitalismo já se universalizou, já abrange o mundo, e no qual restaram apenas duas classes.” Contudo, é possível ler claramente, no próprio Manifesto, que as oposições binárias são fundamentais ao correr da história (lembrar do início do capítulo “Burgueses e proletários”). Não é possível, ou-trossim, pensar que o capitalismo se faria uma oposição só entre duas classes no futuro, pois Marx mesmo indicava que as condições objetivas para a construção da revolução estavam dadas. Marx não era, definitivamente, um adivinho do futuro. Nem é preciso dizer em que deu Stalin e sua compreensão de adivinho do texto marxiano... Cremos melhor evitar essa alternativa que já se mostrou suficientemente desastrosa. 28. Funari, Pedro Paulo Abreu. “O Manifesto e o estudo da Antiguidade: a atualidade da crítica marxista.” Crítico Marxista, n° 6, 1998. p. 106-1 14. p. 109. 29. Para essa discussão: Faversani, Fábio. “A sociedade em Sêneca: debate sobre instrumentos analíticos.” Trabalho apresentado no XIV Encontro Regional de História da Anpuh-SR realizado em São Paulo, setembro de 1998. 30. Desse modo seguimos a lição de Marx nas Teses sobre Feuerbach, em especial as teses VI e VIII.

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OS 150 ANOS DO MANIFESTO E A LUTA PELA TERRA NO BRASIL Ariovaldo Umbelino de Oliveira
A burguesia submeteu o campo à cidade. Criou grandes centros urbanos; aumentou prodigiosamente a população das cidades em relação à dos campos e, com isso, arrancou uma grande parte da população do embrutecimento da vida rural. Do mesmo modo que subordinou o campo à cidade, os países bárbaros ou semibárbaros aos países civilizados, subordinou os povos camponeses aos povos burgueses, o Oriente ao Ocidente. Marx e Engels1 A compreensão da luta pela terra, dos movimentos sociais no campo, do MST, e a discussão sobre a reforma agrária, têm, a nosso juízo, de estar articulada a forma de entender o desenvolvimento do capitalismo nas diferentes formações sociais, como contraditório e desigual. Têm de compreender que as elites brasileiras gestaram uma forma específica de articulação política que consolida politicamente a irracionalidade da propriedade da terra no desenvolvimento do capitalismo no país. Aqui no Brasil: A propriedade da terra é o centro histórico de um sistema político persistente. Associada ao capital moderno, deu a esse sistema político uma força renovada, que bloqueia tanto a constituição da verdadeira sociedade civil, quanto da cidadania de seus membros (...) No Brasil, o atraso é um instrumento de poder (...) O modelo brasileiro inverteu o modelo clássico. Nesse sentido, reforçou politicamente a irracionalidade da propriedade fundiária no desenvolvimento capitalista, reforçando conseqüentemente, o sistema oligárquico nela apoiado (...) portanto (...)comprometeu os grandes capitalistas com a propriedade fundiária e suas implicações políticas.3 O Brasil, não custa nada lembrar, possui a estrutura fundiária mais concentrada que a história da humanidade já registrou. A soma da área ocupada pelas 27 maiores propriedades do Brasil é igual a área total do Estado de São Paulo, ou ainda, a soma da área ocupada pelas 300 maiores propriedades do Brasil é igual a duas vezes a superfície total do Estado de São Paulo. Essa estrutura fundiária violentamente concentrada, em 1992 possuía um total de 5.147.000 imóveis rurais ocupando uma área de 639.026.992ha. Os latifúndios por dimensão e por exploração somavam ao todo, 1.219.167 imóveis com 424.977.156ha de extensão (66,5% do total). Entre esses latifúndios, segundo a Lei 8.624 de 25/02/93, foram considerados improdutivos 85.781 imóveis rurais ou seja 1,6% do total, que ocupavam 115.054.000ha (18% da área total) e pertenciam a 57.188 proprietários.4 Por outro lado, a sociedade brasileira nessa última década às vésperas do terceiro milênio, tem visto aumentar a massa de excluídos: mais de 32 milhões de brasileiros estão abaixo da linha da miséria absoluta, 6,9 milhões de famílias (18% do total) são classificadas como indigentes, e 14,4 milhões de famílias (38% do total) são classificadas como pobres. Nas áreas urbanas, cada vez mais concentradas, vivem mais de 120 milhões de pessoas, mais de 80% da população brasileira. No campo, 90% dos estabelecimentos rurais têm menos de 100ha e ocupam apenas 20% da área total, mas respondem por quase a metade da riqueza produzida. Enquanto isso, os estabelecimentos com mais de 1.000ha (1% do número total que ocupam 44% da área do país) respondem por menos de 20% da riqueza produzida. Mais de 1,5 milhão de estabelecimentos estão sob controle de posseiros, meeiros e rendeiros. Os filhos dos camponeses que possuem propriedades com áreas inferiores a l0ha (53% do total) não terão no futuro sequer a possibilidade de continuarem camponeses nas terras dos pais. Enfim, há no campo brasileiro mais de 5 milhões de famílias sem terra. Esses camponeses sem terra têm historicamente lutado pela obtenção de um pedaço de terra neste país dos latifúndios. A violência contra essa luta tem também sido histórica. Morreram mais trabalhadores em conflitos de terra no Brasil do que qualquer outra revolução, com ou sem aspas. Os camponeses-proprietários que eram em 1940 perto de 1,6 milhões, em 1985 passaram para mais de 5,2 milhões. Nos últimos 17 anos os camponeses sem terra em sua luta cotidiana conquistaram em mais de 1.000 assentamentos, mais de 7 milhões de hectares de terra, para mais de 140 mil famílias trabalharem. Falar do MST, é pois falar de parte dessa história. É falar da história real e simultaneamente, daquela história não contada por muitos intelectuais que, falam sobre o campo, mas que infelizmente só conhecem o campus. É falar pois da luta na realidade e falar da luta na teoria. Luta teórica essa que leva muitos intelectuais a insistirem na postura que nega na prática a existência desses novos personagens sociais. Por isso que a sua compreensão tem de ser buscada na estrada. Compreender o Brasil de hoje, compreender seu território, passa necessariamente pela compreensão do MST. E isso tem de ser dito, doa a quem doer. Não se faz essa opção apenas por razões pessoais, ao contrário, essa opção tem de nascer da necessidade histórica desse tempo. Um tempo que não é local ou nacional. Um tempo que está datado historicamente. Um tempo universal, mundial como preferimos nós. Um tempo de guerra e de paz. Um tempo de vida e de morte. Um tempo talvez, sem igual na história mundial. Assim, a opção nasceu na trajetória da vida e o tributo nasceu no caminho, que foi sendo construído caminhando. A estrada é a raiz da práxis. Por isso a opção voltada para compreender a trajetória dos camponeses sem terra na luta pela terra, pelo trabalho livre, enfim, pela cidadania. A estrada que a História legou ao Brasil, não passou primeiro pela presença cativa da terra, mas ao contrário, passou pela pessoa cativa do escravo. No cativeiro dos homens, a liberdade do acesso à terra foi negado primeiro, aos negros

84 escravos e depois aos brancos ou mestiços sem terra. Nesse país, os camponeses lutam desde o início de sua ocupação para obter um pedaço de terra e poder construir livremente o lugar de suas vidas. Por isso que este século XX está marcado pela luta pela terra. Este século constitui-se no século por excelência de formação do campesinato brasileiro. Dessa forma, a história da maioria dos trabalhadores do país tem muita semelhança. Expulsos da terra, pela transformação nas relações de produção e de trabalho no campo, proletarizaram-se nos empregos urbanos e industriais deste país. Porém, mesmo assim, não abandonaram o ideal da terra como lugar da liberdade. É esse ideal utópico, não compreendido por muitos intelectuais, que leva camponeses proletarizados a empreender o retorno à terra. Por isso não medem sacrifício; lutam, morrem para conquistar o lugar de realização de seus ideais: a terra. Também por isso, são na atualidade, a força social movente do campo brasileiro. Um campo conflitado, um campo apropriado privadamente. Absurdamente concentrado em poucas mãos. Nunca na história da humanidade se viu concentração fundiária como essa que temos no Brasil. Por isso, o conflito e as mortes sempre foram constantes na manutenção dessa ordem anacrônica. Mas, o combate, a luta dos trabalhadores formam parte fundamental da história brasileira, uma história repleta de conflitos no campo. Assim, conflitos sociais no campo, no Brasil, não são uma exclusividade de nosso tempo. São, isso sim, uma das marcas do desenvolvimento e do processo de ocupação do campo no país. Os povos indígenas foram os primeiros a conhecerem a sanha de terra dos colonizadores que aqui chegaram. Esse genocídio histórico a que vêm sendo submetidos, há quase 500 anos, os povos indígenas brasileiros é marca original das muitas histórias de massacres no campo. O território capitalista no Brasil se fez como produto da conquista e destruição do território indígena. Espaço e tempo do universo cultural índio foram sendo moldados ao espaço e tempo do capital. O ritmo compassado do tic-tac do relógio no seu deslocar temporal nunca foi a marcação do tempo para as nações indígenas. Lá, o fluir da História está contado pelo passar das “luas” e pela fala mansa dos mais velhos registrando os fatos reais e seus mitos. Talvez, estivesse aí o início da primeira luta entre desiguais. A luta do capital em processo de expansão, desenvolvimento, em busca de acumulação, ainda que primitiva, e a luta dos “filhos do sol” em busca da manutenção do seu espaço de vida no território invadido. A marca contraditória do país que se desenhava podia ser buscada na luta pelos espaços e tempos distintos e pelos territórios destruídos/construídos. Essa luta das nações indígenas e a sociedade capitalista européia primeiro, e nacional/internacional hoje, não cessou nunca na história do Brasil. Os indígenas, acuados, lutaram, fugiram e morreram. Na fuga deixaram uma rota de migração, confrontos entre povos e novas adaptações. A Amazônia é seguramente seu último reduto. Mas a sociedade brasileira capitalista, internacionalizada, insiste na sua capitulação. O Banco Mundial acena com recursos para a demarcação de suas “prisões”. As “reservas” indígenas, frações do território capitalista para aprisionar o território liberto indígena, são demarcadas para não serem respeitadas. Novamente espaços e tempos distintos são produtos da luta desigual do e no território. O espaço liberto e o tempo cíclico da vida indígena são novamente sacudidos pelo tempo do relógio e pelo espaço-prisão, do capital. Tal qual no passado, essa luta continua, com um único derrotado: o índio, e com ele uma fração da humanidade. Simultaneamente à luta dos indígenas contra o tempo e o trabalho dos brancos capitalistas, nasceu a luta dos escravos negros contra espaços e trabalhos para os senhores fazendeiros rentistas. Quilombos surgiram, Palmares cresceu. Zumbi nasceu, Ganga Zumba lutou, Zumbi morreu. Na terra da liberdade e do trabalho de todos nasceu, no seio do território capitalista colonial, o território livre, liberto, dos africanos/brasileiros escravos, mercadorias antes de trabalhadores, para a primitiva acumulação do capital já mundializado. Palmares cresceu; negros acolheu e brancos juntou. Procurava-se construir, agora por dentro, o território da liberdade negra da África no Brasil. A produção coletiva era crime contra a lógica da produção privada/expropriada do escravo pelo senhor. A guerra/destruição de Palmares viu a presença dos bandeirantes — Domingos Jorge Velho e outros — destruidores da terra e da liberdade negra, indígena e de homens libertos: jagunços históricos dos senhores rentistas do açúcar. Hoje são outros os jagunços da história das classes dominantes que desde os tempos da ditadura militar dos anos 60 e 70, vêm tomando a bandeira da guerra/destruição das terras de trabalho dos posseiros dos povoados empoeirados, enlameados do sertão, e/ou da terra livre e do território sem cercas dos povos indígenas da Amazônia. Os posseiros lutam numa ponta contra a expropriação que os gera, e na outra, contra o jagunço, gendarme de plantão do latifundiário especulador e grileiro das terras indígenas. Não lhes é dado sequer a possibilidade de serem senhores de seu vir a ser. Matam os posseiros, seus defensores e seus seguidores. Matam a possibilidade de criação e recriação do espaço liberto da produção familiar. Matam/destroem o território liberto das posses livres e das terras de trabalho da Amazônia retirante, da Amazônia dos retirantes. Mas da luta e da morte que atravessam essa conquista do território coletivo livre do índio, nascem e se reproduzem as roças comunitárias e a produção coletiva do território liberto dos posseiros contra a sanha e a sina da expropriação e da proletarização. Canudos, Contestado, Trombas e Formoso fazem parte da história das lutas pela terra e pela liberdade no campo do país. São memórias da capacidade de resistência e de construção desses expropriados na busca pelo espaço livre onde possam ser proprietários coletivos de um tempo descompromissado com o relógio capitalista. São também memórias da capacidade destruidora do capital e dos capitalistas perante o temor de uma destruição inevitável.

85 Inevitáveis e históricas, as Ligas Camponesas sacudiram o campo nordestino nos anos 50 e 60. A violência do golpe militar de 64 sufocou o anseio de liberdade do morador sujeito dos latifúndios armados do Nordeste brasileiro. Caçaram e cassaram as lideranças dos camponeses em luta. Muitos “fugiram” fingindo, sumiram, foram assassinados. Mas mesmo assim a Contag — Confederação dos Trabalhadores da Agricultura — nasceu e não morreu. Nos confins do sertão, na Amazônia, as lideranças camponesas se esconderam para não morrer. E vivos, voltaram em outro tempo, para atuar nos sindicatos e organizar a resistência dos posseiros contra os empresários do Centro Sul, travestidos de grileiros rentistas. O Estatuto da Terra era uma espécie de bandeira militar levada ao campo em luta para, através da guerra, impor a “paz na terra”. Mais de 20 anos se foram e os militares não permitiram sequer que o Estatuto se tornasse Plano. A “Nova República” se incumbiu dessa missão histórica, mas se esqueceu de pedir a fiança do PMDB, do PFL, dos latifundiários, da UDR, enfim, esqueceu-se que para o Estatuto sair do Plano/papel para a realidade em reforma, havia o fosso controlado pelos especuladores rentistas. Aliás, mais que isso, o fosso estava controlado pela aliança entre os setores nacionais do capital internacionalizado do mundo, agora territorializados. O número de mortos nos campos, pelas batalhas da terra, foi crescendo, dobrando. E se transformando qualitativamente. Não morrem unicamente os posseiros que ocupam as posses, morrem também as lideranças sindicais, aqueles que os apóiam e defendem: os padres, os pastores, os agentes pastorais, os advogados, etc. Essa luta também chegou ao Congresso Constituinte em 1988. Os setores reacionários, proprietários/latifundiários/rentistas não abrem mão da necessidade de se implantar no campo o princípio legal considerado “injusto e ilegítimo” da “justa e prévia indenização em dinheiro da terra e das benfeitorias”. No entanto, se da violência nasce a morte, nasce também a vida. O Movimento dos Trabalhadores Rurais SemTerra é produto dessa contradição. A negação à expropriação não é mais exclusividade do retirante posseiro distante. Agora ela é pensada, articulada, executada a partir da cidade, com a presença dos retirantes a quem a cidade/sociedade insiste em negar o direito à cidadania. Direito agora construído e conquistado na luta pela recaptura do espaço/tempo, perdidos na trajetória histórica da expropriação. Acampamentos e assentamentos são novas formas de luta de quem já lutou ou de quem resolveu lutar pelo direito à terra livre e ao trabalho liberto. A terra que permite aos trabalhadores — donos do tempo que o capital roubou e construtores do território coletivo que o espaço do capital não conseguiu reter à bala ou por pressão — reporemse/reproduzirem-se, no seio do território da reprodução geral capitalista. Nos acampamentos, camponeses, peões e bóias-frias encontram na necessidade e na luta a soldagem política de uma aliança histórica. Mais que isso, a evolução da ação organizada das lideranças bóias-frias, abre novas perspectivas para os trabalhadores. Greves rurais na cidade para buscar conquistas sociais no campo são componentes ainda localizados no campo brasileiro, sinal de que estes trabalhadores, apesar de tudo, ainda vivem e lutam. No entanto, se o horizonte do campo no Brasil é contraditório na essência, é nessa contradição ou conjunto de contradições que se deve desenvolver a compreensão dessa realidade. Essa compreensão seguramente passa pela distribuição territorial desigual dessas contradições e movimentos. Talvez aí esteja um espaço para a participação dos geógrafos e da geografia: estudar o desenvolvimento econômico, social e político da sociedade em que se inserem. Esse momento do desenvolvimento do capitalismo é fundamental para o campo, pois as bases para sua industrialização estão lançadas, e o capital, feito rolo compressor, tudo esmaga na rota da acumulação e da sua reprodução ampliada. É nessa rota que entendemos os conflitos sociais e a luta pela terra no Brasil. A ocupação recente da Amazônia é síntese e antítese desse processo violento. Se a abertura da posse pelo posseiro deriva da negação consciente à proletarização, a colonização tem sido a válvula de escape das pressões que a concentração e o remembramento da terra traz consigo. A pressão que o capital faz “aqui”, libera parcialmente “lá”. Da pressão e contra-pressão, nasceu o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. Um movimento camponês em pleno limiar do terceiro milênio. Está posta pois, a necessidade urgente de compreendermos particularmente a luta camponesa pela terra, e no interior dessa luta é inegável que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra ocupa lugar de destaque. O MST como o movimento social rural mais organizado nesse final de século, representa no conjunto da história recente deste país, mais um passo na longa caminhada dos trabalhadores rurais brasileiros em sua luta cotidiana pela terra. Essa luta camponesa revela a todos interessados na questão agrária, um lado novo e moderno. Não estamos diante um processo de luta para não deixar a terra, mas sim, diante um processo de luta para entrar na terra. Terra que tem sido mantida improdutiva e apropriada privadamente para servir de reserva de valor e/ou reserva patrimonial às classes dominantes. Trata-se pois, de uma luta de expropriados, que na maioria das vezes, experimentaram a proletarização urbana ou rural, mas que resolveram construir o futuro baseado na negação do presente. Não se trata pois, de uma luta que apenas revela uma nova opção de vida para essa parcela excluída da sociedade brasileira, mas revela muito mais, revela uma estratégia de luta acreditando ser possível hoje, a construção de uma nova sociedade. Uma nova sociedade dotada de justiça, dignidade e cidadania. Por estas razões, essa luta contraditória não excluiu nem mesmo o interior do Estado de São Paulo, onde o desenvolvimento do capitalismo fincou sua mais espetacular expansão nas últimas décadas. Mesmo assim, ou por isso mesmo, é que parte dos trabalhadores proletarizados do campo e da cidade passaram a negar essa condição. E como produto dessa negação, organizaram-se para lutar por um pedaço de terra, para poder reconquistar a perdida autonomia do trabalho. Reconquistada agora, nas experiências coletivas ensaiadas pelos campos conquistados na luta. Assim, as transformações profundas que a agricultura brasileira tem passado nesse final de século XX revela suas contradições presentes no interior da estrutura agrária e revela sua componente contemporânea: a luta pela reforma agrária.

Por causa de todas as relações que envolve. Têm de buscar no entendimento da luta. transformou seu território. Por isso. E qual foi o resultado desse processo? Uma pequena parte da humanidade apropriou-se de forma privada do mundo. ao mesmo tempo que nos explora e nos atormenta. à rua moderna. O capital mundializando-se. porém. A sua luta espacializou-se. é na relação estabelecida entre prática e teoria. o lugar da luta cotidiana da sociedade pelo seu devir histórico. é um espaço transformado pelo trabalho. é importante trabalhar com a noção de espacialização da luta. flexível. O MST é parte substantiva e moderna desta sociedade. de luta de classes ou frações de classes. Ao contrário. a partir da compreensão da espacialização da luta pela terra pelos diferentes rincões do país. Desvendar o território pode e deve ser uma perspectiva científica para a geografia. mas monopolizam o território marcado pela produção camponesa. as ocupações. os monopólios se territorializaram. uma produção humana. e por isso reafirmamos que o território não pode ser entendido como equivalente. com olhar de geógrafo. Ponto de retorno que deve procurar abrir novos horizontes para a luta dos Sem-Terra. (Tudo que é sólido desmancha no ar. É como se eles não estivessem em lugar nenhum e ao mesmo tempo estivessem em todos os lugares onde há a necessidade de erguer uma bandeira de luta. basta olharmos para o México. posseiros. mulheres. construiu. como bem disse o poeta Afagar a terra. fincando alicerces. a luta camponesa pela terra tem se constituído em marca histórica deste século XX. Essa é base da compreensão que temos sobre a lógica do desenvolvimento capitalista no campo neste país. E mais do que isso. agora é contestado. pelos posseiros e pelos Sem-Terra. e muito menos a utopia. Conquista da democracia que se consuma na conquista da terra. certamente. e lá estão os zapatistas em luta. está marcado por dois processos contraditórios e distintos. metamorfoseando-a em capital. ou seja. Nesse caminho. dos colonos. De um lado. os monopólios não se territorializam. os estudos sobre o campo têm de dar passos na direção da teoria. Nós. Conhecer os desejos da terra. revela a relação orgânica entre a luta pela terra e a conquista da democracia por esses excluídos. insistimos. Cio da terra propícia estação E fecundar o chão. e se tomando cidadãos. Por isso insistimos: temos de aprofundar a diferença que nos move frente a essa luta de cunho teórico. Com isso poder-se-á dar mais um passo no caminho da necessária construção de uma teoria que dê conta da explicação geográfica dessa realidade. internacional. e mais do que isso. dos Sem-Terra são marcas visíveis dessa contestação. assim é a luta travada pelos camponeses. Nesse caso. Se a mundialização da economia capitalista traz à tona novos sujeitos sociais e novas articulações. mundializou seu território. como igual ao espaço. A luta dos indígenas. Produziu. O caminho teórico para o estudo da questão agrária e particularmente dos movimentos sociais no campo. a luta do campesinato brasileiro não se desmancharão no ar. irá contribuir para sua organização no plano nacional e por certo. Contraditoriamente. . o espírito moderno continuem a desmanchar no ar. Por isso eles brotam por todos os cantos cantando seus hinos de guerra. temos de entendê-lo ou então seremos reféns da História. Mas o MST. logo espaço de luta. etc. traz também à tona a luta de novos personagens sociais. Assim. onde o capital monopolista procura desenvolver liames para subordinar/apropriar-se da renda da terra camponesa. Móvel. sendo pois. o capital. são processos que fazem a luta mover-se pelo território apropriado privadamente pelos proprietários de terra e ou pelos capitalistas. de sua identidade camponesa. Dos sonhos camponeses utopicamente re-construídos na proletarização e na luta pela conquista da terra. por excelência de formação do campesinato brasileiro. Século. em particular.86 Mais do que isso. dos posseiros. Por isso. É preciso lembrar que para uma parte desses que não cessam a luta. De outro lado. são a nossa esperança. O chão e a história deste país neste final de milênio. O campo brasileiro nesse final de século. o desenvolvimento da agricultura capitalista abriu possibilidade histórica aos proprietários de terras ou aos capitalistas/proprietários de terra para a apropriação do lucro e da renda capitalista da terra. Nelas estão semeando a utopia. está a industrialização da agricultura. que os geógrafos também vão gestando caminhos para se entender o mundo. dos colonos. O território por sua vez. dos posseiros ou do MST. Assim. Marshall Berman) Muitos textos e teorias sobre o campo e sobre o MST certamente desmancharão no ar. as caminhadas. pequenas parcelas estão sendo retomadas pelos povos indígenas. nos impele a apreender e a enfrentar o mundo que a modernização constrói e a lutar por tomá-lo o nosso mundo. conquista da cidadania. espacialiazando com ela a luta pela cidadania. É através dessa lógica contraditória que uma parte dos geógrafo procura entender a realidade agrária brasileira. enfim. sua dimensão espacial. movente. é anterior ao território. inscreve-se no campo do poder. e essa tem de ter como ponto de retorno os movimentos sociais. Creio que nós e aqueles que virão depois de nós continuarão lutando para fazer com que nos sintamos em casa neste mundo. intelectuais. está o processo de expansão da agricultura camponesa. abriu a possibilidade para se renovar. Com certeza a História não acabou. A territorialização camponesa. se fortalecer. e com ele o movimento de luta se territorializou. devemos mostrar a todos que a luta possibilitou o assentamento. torna-se fundamental compreender que o espaço é uma propriedade que o território possui e desenvolve. Os acampamentos. construindo as bases para continuar a luta. como propõem muitos geógrafos. reencontrando sua identidade. transformando-a. têm de ir além da chamada espacialidade diferencial. São homens. Suas marchas fazem parte da longa marcha do campesinato brasileiro. Esse processo permitirá que a consciência construída também. Nós. Abre possibilidades para edificar-se o território da liberdade e dos sonhos. a possibilidade histórica da realização da utopia já começou a se tornar realidade. como foram aqueles que acreditaram cegamente na modernização O processo de modernização. O território capitalista confiscado historicamente no processo de sua construção. mesmo que os lares que construímos. crianças que fizeram da opção pela terra uma luta cotidiana sem fim. é portanto. É por isso que o capital.

Karl e Engels. Abra. 13. . 1992” e “Estatísticas Especiais do Recadastramento de 1992. “Dados das Estatísticas Cadastrais Anuais do Incra. Marx.87 NOTAS 1. J. 1994. Hucitec. Gomes da Silva. S. Friedrich. jan-abr/l995. 3. 44. 79 e 80. p. Martins. 1998. J. São Paulo. Incra. Manifesto Comunista. Campinas. 1994”. Boitempo Editorial. 2. São Paulo. p. In: Reforma Agrária. O poder do atraso.

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