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FGV Economia Aplicada-Apostila

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Published by: Maria Cristina Sousa on Nov 23, 2011
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O conceito de valor agregado ou de ―agregar valor‖ possui um uso corrente

impreciso. Quando um artesão transforma argila em um vaso de barro cru e depois esse

mesmo vaso é comprado por um artista que pinta esse vaso, dizemos que o artista

―agregou valor ao vaso‖ e conseguiu vende-lo por um preço maior do que havia pago

para o artesão. Mas, e a transformação do barro em vaso? Agora, pense na atividade de

coleta. Uma pessoa entra na mata e colhe uma fruta. Leva a fruta para a beira da estrada

e a vende por determinado preço. Houve agregação de valor? Esse caso difere do artista

que decorou o vaso de barro cru, feito pelo artesão?

Para evitar imprecisões, vamos definir de forma simples e clara o conceito de

valor agregado (VA). Considere uma empresa que vende um produto por R$ 150. Esse

é o valor bruto da produção (VP). Agora, suponha que a produção desse bem exija a

compra de insumos no valor de R$ 120. Chamaremos esse valor de VI (isto é, valor dos

insumos). Vamos definir insumos como aqueles materiais que, de alguma forma, são

incorporados ao produto: matérias-primas, energia, material de acabamento ou de

embalagem. O importante é que os insumos são comprados de outras empresas e só

podem ser utilizados uma única vez, pois são incorporados ao produto final. O valor

agregado (VA) na atividade em análise será dado simplesmente pela expressão:

VA = VP - VI

No caso em questão, o valor agregado será 150 - 120 = 30. Vamos voltar aos

casos citados acima. O artesão que produziu o vaso de barro cru e o vendeu por,

digamos, R$ 30 talvez não tenha gasto um único centavo com insumos: recolheu a

argila e a água na natureza para moldar o vaso que secou ao sol. O valor agregado por

sua atividade foi de R$ 30, isto é, igual ao valor da produção. O mesmo ocorre com os

coletores de frutas que simplesmente as recolhem e colocam na beira da estrada para

venda. Essas atividades agregam valor, ou transformando o barro ou simplesmente

transportando as frutas para a beira da estrada.

Agora, vamos considerar o artista que decora o vaso. Ele comprou o vaso cru,

que é o principal insumo do vaso decorado, pagando R$ 30. Também gastou R$ 40 com

Economia Aplicada

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Lucro do artista,
aluguéis, juros, salários,
impostos embutidos no
preço final.

as tintas e mais R$ 15 com a energia elétrica de um forno necessário para queimar o

vaso. Se esses foram todos os insumos e o vaso decorado foi vendido por R$ 200, o

valor agregado será:

VA = 200 - (30 + 40 + 15) = 115

Note que esse é o valor agregado total. Ele não é, necessariamente, o lucro do

artista. Se ele vender 1000 vasos como esse por mês, teria um ganho bruto de R$

115.000. Essa margem total também será utilizada para pagar a folha de salários dos

funcionários (que não é insumo!), os aluguéis da oficina (que também não são insumo!),

eventuais juros devidos sobre o capital de giro e, é claro, os impostos embutidos no

preço final do vaso decorado. Esses itens não são insumos, pois não estão incorporados

ao produto final. Os trabalhadores voltam a cada mês, a oficina pode ser utilizada

continuamente, os empréstimos podem ser renovados, etc.

Figura 10 – Importância do Valor agregado

VP

$200

VI

$85

Esquematicamente, nosso exemplo ficaria da seguinte forma:

É uma situação parecida com o exemplo da construção civil, mostrado acima,

que entrega prédios no valor de R$ 12 milhões tendo empregado insumos (cimento e

aço) no valor total de R$ 1,5 bilhão.

Para que possamos discutir quais os fatores que podem contribuir com o

crescimento do PIB ao longo do tempo será conveniente desagregar (dividir) esse

agregado econômico a fim de refinar a análise. Assim, o PIB pode ser separado em

subconjuntos de bens e serviços de diversas formas. Uma maneira seria por setor de

VA
$115

Energia
$15

Tintas
$40

Vaso cru
$30

Economia Aplicada

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atividade: agricultura, indústria e serviços. Para qualquer país, é possível calcular o PIB

industrial, o PIB agrícola e o PIB do setor de serviços, cuja soma corresponde ao

produto interno bruto em sua totalidade.

Outra forma é separar os bens em duas categorias básicas: os bens de consumo e

os bens de investimento. Esta separação nos permitirá analisar em mais detalhes o que

se chama de consumo agregado e investimento agregado.

Suponha inicialmente que um determinado país não possui governo, nem se

relaciona com o resto do mundo através de importações e exportações. É uma situação

meramente hipotética que se convenciona chamar de economia fechada e sem governo.

Toda a produção de bens e serviços finais só pode ser classificada em duas categorias:

bens de consumo, que se destinam a satisfazer necessidades ou desejos dos

consumidores, e bens de investimento, adquiridos pelas empresas para viabilizar a

produção de outros bens e serviços. Assim, podemos representar o PIB pela igualdade

abaixo:

PIB = consumo agregado + investimento agregado, ou

(3.1)

PIB = C + I

Esta representação apresenta o PIB sob a ótica da produção. Isto é, os bens e

serviços produzidos na economia em um determinado ano são classificados ou como

bens de consumo ou como bens de investimento. No entanto, em uma economia fechada

e sem governo, as empresas acabam transformando sua produção agregada (ou produto

agregado) em renda agregada.

A ótica da renda agregada permite outra representação do PIB. Ao venderem

seus produtos aos preços de mercado, as empresas obtêm um faturamento que é

transferido às pessoas (físicas) através do pagamento de salários, juros, aluguéis, lucros

e dividendos. Isto é o que se chama remuneração dos fatores de produção. Os fatores de

produção são os elementos essenciais para que uma economia possa produzir. Em

última instância, os fatores de produção são o capital e o trabalho. A remuneração do

trabalho é feita através dos salários. Já a remuneração do capital se desdobra em várias

categorias. Aquele que aluga um escritório para instalar sua firma se utiliza dele como

capital, e tem que remunerar o dono deste capital através do pagamento de aluguéis.

Aquele que toma dinheiro emprestado para utilizar como capital de giro paga juros ao

Economia Aplicada

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dono do dinheiro. Já o empresário, quando é dono de sua empresa, tem direito aos

lucros que a empresa gera.2

Por seu turno, a renda agregada pode ser transformada em gasto (o gasto

agregado). Em uma economia fechada e sem governo, o gasto somente pode se dar

através da aquisição de bens e serviços de consumo ou de investimento, fechando o

ciclo. Os bens de consumo são adquiridos pelas pessoas (físicas), ao gastarem parte de

sua renda. Já os bens de investimento são adquiridos pelas empresas (pessoas jurídicas).

No entanto, se a empresa transfere todo o seu ganho na forma de remuneração dos

fatores produtivos, como ela poderá adquirir bens de investimento? Na Macroeconomia,

costuma-se supor que todo o investimento é financiado com recursos de fora da

empresa. Por exemplo, se a empresa acumula lucros para financiar seus projetos de

investimento, tudo se passa como se os donos da empresa decidissem emprestar parte

do lucro a que têm direito para sua própria empresa. Por enquanto devemos lembrar que

os bens de consumo são adquiridos pelas pessoas (físicas), através do gasto de parte de

sua renda, e que os bens de investimento são adquiridos de algumas empresas que

compram de outras, e que se financiam tomando recursos emprestados.

Este movimento através do qual a produção é vendida, viabilizando a geração de

renda que, por sua vez, se transforma em gasto que nada mais é do que a compra

daquela mesma produção é o chamado fluxo circular de renda, o qual está representado

esquematicamente na figura abaixo. As setas representam fluxos financeiros.

Figura 11 – Fluxo Circular da Renda

Fluxo circular de renda

2

É interessante notar que a Economia considera fatores como terra e tecnologia como formas de capital.

A terra sendo uma espécie de ―capital natural‖ e a tecnologia como ―capital intelectual‖.

PRODUÇÃO

GASTOS

RENDA

Economia Aplicada

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Na comparação do PIB de diversos países, é usual utilizar o método chamado de

Paridade do Poder de Compra (Puchased Power Parity). Esse método consiste em

desprezar a taxa de câmbio corrente, sujeita às grandes oscilações no dia a dia, e

empregar uma taxa de câmbio alternativa para transformar o valor do PIB de um país de

sua própria moeda para dólares. Essa taxa de câmbio alternativa é calculada reunindo-se

uma cesta de bens e serviços idêntica em todos os países. Se essa cesta custa, por

exemplo, R$ 2.100 no Brasil e US$ 1.000 nos EUA, a taxa de câmbio segundo a

Paridade do Poder de Compra será R$ 2,10. Veja abaixo como ficam os valores PIBs

dos mesmos países listados anteriormente segundo a Paridade do Poder de Compra:

Valores em US$ Trilhões em 2009

1- Estados Unidos- 14,266

2- Japão- 5,048

3- China- 4,757

4- Alemanha- 3,235

5- França- 2,634

6- Reino Unido-

2,198

7- Itália- 2,089

8- Brasil- 1,481

9- Espanha- 1,438

10- Canadá- 1,319

Fonte: Fundo Monetário Internacional - World Economic Outlook Database,

2010.

Numa economia fechada, isto é, sem relações com o exterior, vale sempre a

igualdade entre produto agregado, renda agregada e gasto agregado. Mas a

representação do fluxo circular de renda, no qual a produção agregada, a renda agregada

e o gasto agregado são necessariamente iguais, nos permite representar uma outra

relação, tão importante quanto a relação (3.1), mostrada acima. Se a produção se

transforma em renda (alguns autores usam o jargão PIB => RIB, ou seja, Produto

Interno Bruto gerando a Renda Interna Bruta) a renda, por sua vez, não poderia ser

desagregada, da mesma forma que desagregamos o PIB? De que forma as pessoas em

geral alocam sua renda em uma economia fechada e sem governo?

Nesta situação hipotética, só há duas coisas que se pode fazer com a renda:

consumir ou poupar. Se o seu consumo for menor que sua renda, então sua poupança

será positiva, isto é, haverá um excedente de renda que poderá ser emprestado. Mas

emprestado para quem? Se alguém possui gastos maiores que sua renda, terá uma

Economia Aplicada

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poupança negativa, isto é, precisará pedir emprestado (caso esta pessoa não tenha ela

mesma poupado no passado). Além disso, como vimos, as próprias empresas precisam

de recursos de terceiros para investir. Assim, neste exemplo hipotético, aqueles que têm

poupança positiva podem emprestar para aqueles que têm poupança negativa ou que

precisam investir. Ainda assim, só há duas coisas a fazer com a renda: consumir ou

poupar. E como a renda agregada é igual ao produto agregado (que nada mais é do que

o PIB), chegamos à seguinte relação:

PIB = consumo agregado + poupança agregada, ou

(3.2)

PIB = C + S

Agora observe. Vamos colocar lado a lado as relações (3.1) e (3.2) apresentadas

acima3
:

(3.1)

PIB = C + I

Produto e Gasto Agregados

(3.2)

PIB = C + S

Renda Agregada

Considerando estas duas igualdades (na verdade, estas duas identidades, pois

resultam de uma definição do que seja o PIB e a Renda Agregada), podemos derivar

uma segunda relação de grande importância:

PIB = C + I = PIB = C + S

C + I = C + S

(3.3)

I = S

3

Note: em Macroeconomia, investimento não é sinônimo de aplicação financeira. Neste contexto,

investimento significa a produção de bens e serviços que são utilizados na produção de outros bens e

serviços sem serem transferidos diretamente para estes novos produtos. Assim, bens de investimento são,

tipicamente, máquinas, equipamentos, instalações industriais, implementos agrícolas, automóveis que são

utilizados por empresas de transporte de passageiros (taxis, ônibus, etc). Os bens que se transferem para

os produtos (areia na construção civil, tinta nos automóveis, plástico na indústria de brinquedos) não são

bens finais, mas insumos ou matérias-primas. Do mesmo modo, como veremos adiante, poupança não é

sinônimo de caderneta de poupança, representando apenas a parcela da renda agregada não consumida no

período corrente.

Economia Aplicada

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Poupança (=Investimento) em países selecionados como percentual do PIB:

China: 39%

Índia: 30%

Coréia: 30%

Espanha: 28%

Turquia: 26%

Japão: 24%

Brasil: 19%

Argentina: 19%

EUA: 18%

Bolívia: 12%

Os dados acima mostram que os países com maior potencial de crescimento

sustentado a longo prazo são os que têm maiores taxas de investimento e poupança. Um

país com a China pode manter a taxa de crescimento do PIB perto de 10% ao ano em

média graças a um nível de investimento próximo a 40% do próprio PIB. Outros países

como Brasil e Argentina têm crescido muito pouco nos últimos dez anos (em média),

pois não investem o suficiente para sustentar o crescimento. Em algum momento, países

que se deparam com baixos níveis de investimento ou terão falta de capacidade

produtiva ou terão que importar bens e serviços em escala crescente (caso dos EUA).

A identidade (3.3) mostra que, em uma economia fechada e sem governo, o

investimento agregado é necessariamente igual à poupança agregada. Caso o país

hipotético em questão consuma demais, haverá menos recursos disponíveis para o

investimento. A capacidade produtiva estará sendo destinada prioritariamente para a

geração de bens de consumo. Agora, caso as pessoas decidam consumir menos e,

portanto, poupar mais (não há nada mais a fazer com a renda que não consumir ou

poupar), sobrarão recursos que poderão ser emprestados para as empresas que poderão

investir. Como, em geral, os projetos de investimento são feitos, mesmo que

parcialmente, com recursos tomados de empréstimo, o investimento agregado poderá

ser expandido com a ajuda do aumento da poupança.

Note um detalhe importante. Caso as firmas decidam, por exemplo, reter uma

parcela dos lucros gerados para financiar seus próprios projetos de investimento, tal

retenção de lucros também será caracterizada como poupança. Isto porque, as firmas,

por decisão de seus proprietários e/ou acionistas, não transferem os lucros, na forma de

rendas, para estes mesmos proprietários e acionistas. Assim, em última análise, foram

eles mesmos que tomaram a decisão de poupar recursos que eram seus por direito,

deixando-os acumulados na firma. Assim, é como se a firma financiasse, ainda que

Economia Aplicada

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parcialmente, seus projetos de investimento, com recursos dos próprios donos da

empresa.

Outra observação importante é que poupança, em Macroeconomia, não é

sinônimo de caderneta de poupança. Poupança é simplesmente a parcela da renda que

não é consumida no período analisado, seja ela emprestada diretamente a algum agente

que precise de recursos, seja ela aplicada no sistema financeiro em qualquer tipo de

aplicação financeira.

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