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monografia descosideração

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  • INTRODUÇÃO
  • 1 AS PESSOAS JURÍDICAS
  • 1.1 UMA BREVE INTRODUÇÃO E O CONCEITO DE PESSOA JURÍDICA
  • 1.2 A ORIGEM E A NATUREZA DA PESSOA JURÍDICA
  • 1.2.1 As pessoas jurídicas para os romanos
  • 1.2.2 A contribuição do direito germânico e canônico
  • 1.2.3 Pessoas jurídicas, principais teorias acerca de sua natureza jurídica
  • 1.2.4 A personalidade jurídica no Brasil
  • 1.3 A DIVISÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS, DIREITO PÚBLICO E PRIVADO
  • DIREITO PRIVADO
  • 1.5 CAPACIDADE E REPRESENTAÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS
  • 1.6 O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA PATRIMONIAL
  • 1.7 EXTINÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS
  • 1.8 RESPONSABILIDADE CIVIL DAS PESSOAS JURÍDICAS
  • 2 AS SOCIEDADES EMPRESÁRIAS
  • 2.1 A PERSONALIZAÇÃO DAS SOCIEDADES E SEUS EFEITOS
  • 2.1.1 O início da personalização das sociedades empresárias
  • 2.1.2 O fim da personalização das sociedades empresárias
  • 2.1.3 A responsabilidade dos sócios
  • 2.1.4 Os efeitos da personalização
  • 2.1.5 A dissolução das sociedades empresárias
  • 2.2 CLASSIFICAÇÃO DAS SOCIEDADES EMPRESÁRIAS
  • 2.2.1 O primeiro critério: sociedades de pessoas ou de capital
  • 2.2.2 O segundo critério: sociedades institucionais e contratuais
  • 2.2.3 O terceiro critério: a responsabilidade dos sócios
  • 2.3 A SOCIEDADE IRREGULAR E A SOCIEDADE DE FATO
  • 3 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA
  • 3.1 O SIGNIFICADO DA EXPRESSÃO
  • PERSONALIDADE JURÍDICA
  • 3.2.1 A Disregard Doctrine
  • 3.2.2 A contribuição dos doutrinadores para a formulação da disregard doctrine
  • 3.2.3 Origem e evolução no direito brasileiro
  • 3.3.1 Considerações iniciais sobre a teoria
  • 3.3.2 Entendendo a desconsideração
  • 3.4 A TEORIA MAIOR E A TEORIA MENOR DA DESCONSIDERAÇÃO
  • 3.4.1 A teoria maior da desconsideração
  • 3.4.2 A teoria menor da desconsideração
  • NA TEORIA MAIOR (A FRAUDE E O ABUSO DE DIREITO)
  • 3.5.1 Consideração sobre os pressupostos
  • 3.5.2 A fraude
  • 3.5.3 O abuso de direito
  • 3.6 A DESCONSIDERAÇÃO INVERSA
  • 3.7 A QUESTÃO PROCESSUAL
  • POSITIVO BRASILEIRO
  • BRASILEIRO
  • DEFESA DO CONSUMIDOR
  • 4.2.1 O Surgimento do CDC
  • 4.2.2 A desconsideração da personalidade jurídica, hipóteses do artigo 28
  • 4.3 APLICAÇÃO DA DESCONSIDERAÇÃO NA LEI ANTITRUSTE
  • 4.3.1 Breve consideração sobre o truste e a lei que tutela o livre mercado
  • 4.3.2 A lei antitruste e a desconsideração: uma cópia do artigo 28 do CDC
  • 4.4.2 A desconsideração da personalidade jurídica no artigo 4.º da Lei 9.605
  • 4.5 A DESCONSIDERAÇÃO NO CÓDIGO CIVIL DE 2002
  • 4.5.1 A desconsideração no projeto do Código Civil
  • 4.5.2 A desconsideração no Código Civil de 2002
  • CONSIDERAÇÕES FINAIS
  • REFERÊNCIAS

RONALDO ROBERTO REALI

A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO (DISREGARD OF LEGAL ENTITY)

BLUMENAU 2003

RONALDO ROBERTO REALI

A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO (DISREGARD OF LEGAL ENTITY)

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado para obtenção do grau de Bacharel em Direito pela Universidade Regional de Blumenau FURB.

Orientador: Prof. Esp. Itacir Cristiano Filander

BLUMENAU 2003

RONALDO ROBERTO REALI

A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO (DISREGARD OF LEGAL ENTITY)
Trabalho de Conclusão de Curso aprovado com conceito 9,8 como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito, tendo sido julgado adequado para o cumprimento do requisito legal previsto no artigo 9o da Portaria no. 1.886/94 do Ministério da Educação e Cultura – MEC, regulamentada na Universidade Regional de Blumenau – FURB, através do Parecer no. 397/99 – CEPE, pela Banca Examinadora formada pelos professores:

Orientador:

Prof. Esp., Itacir Cristiano Filander Centro de Ciências Jurídicas

Banca Exam:

Profª. Doutoranda, Sandra Krieger Centro de Ciências Jurídicas

Blumenau, 23 de outubro de 2003.
ii

________________________________________ RONALDO ROBERTO REALI iii . isento meu Orientador e a Banca Examinadora de qualquer responsabilidade sobre o aporte ideológico conferido ao presente trabalho.DECLARAÇÃO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE Através deste instrumento.

Sempre tive certeza. que o destino da humanidade em sua grandiosa viagem determina-se para o bem ou para mal .na sua maioria para o bem . WINSTON CHURCHILL iv .por grandes homens em grandes momentos.

de modo especial àqueles que participavam "QUOTIDIE" das idas e vindas à Faculdade de Direito. v .Aos colegas da Turma "DESEMBARGADOR LUIZ CARLOS CERCATO PADILHA". dedico este trabalho.

amigos e colegas do Curso de Direito. Aos amigos e colegas do escritório. ao meu pai e minha mãe. Aos professores. pelo apoio e incentivo que dedicou a este trabalho. pelo incentivo que me deram durante toda a vida. vi . pela compreensão e apoio nos momentos difíceis e pelo carinho sempre por eles ofertado.AGRADECIMENTOS Especialmente em primeiro lugar. pela troca de experiências. Ao amigo e professor professor Itacir Cristiano Filander.

....... 10 1.... 15 1...................................................SUMÁRIO RESUMO............ x INTRODUÇÃO ..1 O início da personalização das sociedades empresárias...2...................1 A PERSONALIZAÇÃO DAS SOCIEDADES E SEUS EFEITOS .... DIREITO PÚBLICO E PRIVADO.. 16 2 AS SOCIEDADES EMPRESÁRIAS ........... 26 vii ............................. 4 1...........................1 UMA BREVE INTRODUÇÃO E O CONCEITO DE PESSOA JURÍDICA ......................2 A ORIGEM E NATUREZA DA PESSOA JURÍDICA ...............8 RESPONSABILIDADE CIVIL DAS PESSOAS JURÍDICAS ................................6 O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA PATRIMONIAL .......................................................... 5 1..... 1 1 AS PESSOAS JURÍDICAS .. 24 2...2 CLASSIFICAÇÃO DAS SOCIEDADES EMPRESÁRIAS .......................4 REQUISITOS LEGAIS PARA A EXISTÊNCIA DAS PESSOAS JURÍDICAS DE DIREITO PRIVADO...........................................2............ 21 2........................................1....1........ 19 2....................3 A responsabilidade dos sócios .1......................................... 22 2.. 18 2.......................................................7 EXTINÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS.............................5 A dissolução das sociedades empresárias...............................2 O fim da personalização das sociedades empresárias ..2............2................ principais teorias acerca de sua natureza jurídica. 20 2........... 8 1.....................................................................................................1 As pessoas jurídicas para os romanos........................................ 19 2......................................3 Pessoas jurídicas............................................4 A personalidade jurídica no Brasil ....... 12 1.........................3 A DIVISÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS....................................1................................................1.....2 A contribuição do direito germânico e canônico ................................................... 4 1.... 6 1............................................. 7 1......... 13 1.......................................................2..........4 Os efeitos da personalização ......1 O primeiro critério: sociedades de pessoas ou de capital ................. 10 1............ 9 1............................. 25 2...........5 CAPACIDADE E REPRESENTAÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS ............................................

....................... 40 3..................................................................................................2..................... 33 3...............................1 A teoria maior da desconsideração ........2 A teoria menor da desconsideração....2 A fraude................................3 O terceiro critério: a responsabilidade dos sócios ..............................2 A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR...............................2 A contribuição dos doutrinadores para a formação da disregard doctrine ............1 A disregard doctrine .......2 O segundo critério: sociedades institucionais e contratuais .................................... 32 3.........2.................................1 O Surgimento do CDC......................................................................... 33 3......... 46 3.. 46 3......1 CRONOGRAMA DA EVOLUÇÃO DA TEORIA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO..........................3.......2...4 A TEORIA MAIOR E A TEORIA MENOR DA DESCONSIDERAÇÃO ............... 51 3..........................................................1 Considerações iniciais sobre a teoria ..5.....2................................................. 50 3. 48 3...... 52 3.................2....................3 O abuso de direito ............................... 55 4....3 O QUE É REALMENTE A TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA .....4.............................................. 42 3.......... 55 4....................................2 Entendendo a desconsideração ........ 56 viii ..................... 56 4............. 37 3..........................3..................5.......................................4................. 32 3....1 O SIGNIFICADO DA EXPRESSÃO ........2..................... 53 4 A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO ........................... 29 2....................2 SURGIMENTO E HISTÓRIA DA TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA .................................... 43 3....................... 28 2......................5................1 Consideração sobre os pressupostos ..........................................................................................................................................................3 A SOCIEDADE IRREGULAR E A SOCIEDADE DE FATO................................ 42 3.......................................... 31 3 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA ......7 A QUESTÃO PROCESSUAL ...............................................................2............................................. 48 3.......5 PRESSUPOSTOS INAFASTÁVEIS PARA EFETIVAR A DESCONSIDERAÇÃO NA TEORIA MAIOR (A FRAUDE E O ABUSO DE DIREITO)..................................................................6 A DESCONSIDERAÇÃO INVERSA...................................................................3 A origem e evolução no direito brasileiro............ 47 3..................................

...2 A desconsideração da personalidade jurídica........................... 58 4...1 A unificação parcial da legislação ambiental com o advento da Lei 9.....5.......................... 68 4..................4......605 ...................................4........ 72 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............. da Lei 9......1 A desconsideração no projeto do Código Civil ...2 A desconsideração da personalidade jurídica no artigo 4o.. 75 REFERÊNCIAS ............. 67 4.. 63 4..............2............3.....................3 APLICAÇÃO DA DESCONSIDERAÇÃO NA LEI ANTITRUSTE....................... 77 ix ..................................... 64 4..... 67 4......... hipóteses do artigo 28............605 ...2 A lei antitruste e a desconsideração: uma cópia do artigo 28 do CDC..........5.............5 A DESCONSIDERAÇÃO NO CÓDIGO CIVIL DE 2002 .................... 70 4. 63 4.......................4 APLICAÇÃO DA DESCONSIDERAÇÃO NA LEI DE CRIMES AMBIENTAIS...................3...2 A desconsideração no Código Civil de 2002 ...4..................................1 Breve consideração sobre o truste e a lei que tutela o livre mercado . 70 4..

demonstrados no decorrer do trabalho. como também o fez no CDC. mas o legislador brasileiro. o que acarreta alguns desacertos. é demonstrar de forma clara e objetiva quais os dispositivos legais fazem expressa menção à teoria da desconsideração da personalidade jurídica ou disregard doctrine em nosso ordenamento jurídico e investigar quais são as impropriedades e acertos encontrados nestes artigos de lei.RESUMO O objetivo desta pesquisa. A metodologia utilizada segue as normas de apresentação de trabalhos da Universidade Federal do Paraná e como fonte subsidiária as normas da ABNT. acabou por não adotar teoria da desconsideração em sua formulação original. x . Outros diplomas legais que comportam a teoria surgiram depois. na linha do Direito das Relações Sociais e da Atividade Empresarial. Deste estudo conclui-se que é notável a evolução ocorrida no direito brasileiro após a entrada em vigor do Código de Proteção e Defesa do Consumidor que trouxe expressamente para nosso ordenamento jurídico a disregard doctrine.

após destaca as sociedades empresárias. No que à teoria se referem. mas sim demonstrar de uma forma prática e objetiva as referências expressas à teoria da desconsideração no ordenamento jurídico brasileiro. .º 10. respectivamente mais conhecidas como Código de Defesa do Consumidor. ou seja. 8.406/2002. Esta pesquisa traz seus estudos fundamentados em doutrinas e legislações nacionais e estrangeiras presentes no meio jurídico desde o início do século XIX nos Estados Unidos da América até os dias de hoje. a desconsideração da personalidade jurídica e por fim a desconsideração no direito positivo brasileiro. pois isto seria abandonar o objetivo proposto inicialmente.884/1994. as imperfeições. examinaremos nos seus pormenores a disregard doctrine inserta pelo legislador expressamente nas leis nacionais que a comportam. impropriedades e outras informações julgadas necessárias das seguintes leis: 8.605/1998 e Lei n. 9. Lei Antitruste. estudar-se-á a positivação da disregard doctrine no ordenamento jurídico nacional. tem por escopo não exaurir as controvérsias sobre o assunto. utilizada para superar a personalidade jurídica das sociedades empresárias. iniciando o estudo pela matéria referente às pessoas jurídicas. serão examinados e colocados em evidência os acertos. O trabalho objetiva analisar os textos legais que expressam a teoria da desconsideração da personalidade jurídica. ofertada à discussão do controverso tema pertinente à desconsideração da personalidade jurídica ou disregard doctrine. benefícios. ou seja. muito menos explanar demasiadamente sobre o tema. mas sem deixar de examinar a teoria juntamente com as pessoas jurídicas e sociedades empresárias.INTRODUÇÃO A presente monografia. Não será objeto de estudo neste trabalho a desconsideração não expressamente prevista em lei. O tema somente é pertinente ao estudo da desconsideração no direito positivado brasileiro.078/1990. Lei de Crimes Ambientais e Código Civil brasileiro.

Trata o primeiro capítulo do instituto da pessoa jurídica. Desdobra-se este estudo em uma análise pormenorizada de cada artigo de lei que comporta a disregard doctrine onde são colocadas em evidência as imperfeições e os acertos destes dispositivos legais. seu estudo é realizado desde a origem nos direitos romano. sendo que após há uma investigação sobre a contribuição doutrinária e sua origem no direito brasileiro. análise. germânico e canônico. Inicia-se seu estudo pela personalização. divisão e requisitos legais para a existência destes entes criados pelo direito. . efeitos e dissolução de forma objetiva e prática. somente no que a ela dizem respeito às leis no parágrafo acima mencionadas. Posteriormente analisa-se a capacidade das pessoas jurídicas. extinção e responsabilidade civil destas pessoas. terminando com uma análise sobre as sociedades irregulares e de fato. após passa-se à natureza jurídica. terminando com um enfoque nos pressupostos necessários para se efetivar a aplicação deste instituto criado pelo direito. Primeiramente há um estudo histórico sobre a desconsideração com enfoque na doutrina original da disregard doctrine. A terceira parte cuida do tema referente à teoria da desconsideração da personalidade jurídica propriamente dita. Em seguida cuida-se da classificação das mesmas segundo o direito vigente.2 O tema proposto no título do trabalho tem a finalidade de investigar a desconsideração da personalidade jurídica. O segundo capítulo aborda as sociedades empresárias. onde será visto que o princípio da autonomia patrimonial não é mais absoluto nestes tempos modernos. finalizando esta matéria com investigações sobre o princípio da autonomia patrimonial. conforme já frisado. usada com o objetivo de coibir fraudes e abuso de direito através da personalidade jurídica. destinadas à atividade econômica em geral. Uma exposição da teoria é feita considerando-se a teoria maior e menor da desconsideração.

Lei Antitruste. Lei de Crimes Ambientais e Código Civil.3 O derradeiro capítulo. . Começa o estudo com o exame do artigo 28 do CDC. O método escolhido para a elaboração desta pesquisa é o indutivo e a técnica a pesquisa bibliográfica. o que dificultou um pouco o estudo em vista de que não há conhecimento de obras com enfoque a este tema específico. aborda amplamente a desconsideração da personalidade jurídica das sociedades empresárias no direito positivo brasileiro. esta teoria revolucionou a maneira como os magistrados enfrentam os problemas relativos à fraude e ao abuso de direito nas questões societárias. da Lei de Crimes Ambientais e finalmente faz uma abordagem do artigo 50 do Código Civil brasileiro. Presente expressamente nas leis pátrias desde o início da década de 90. Este capítulo final destina-se a analisar a disregard doctrine nos dispositivos legais elencados no Código de Defesa do Consumidor. Esta técnica foi escolhida em virtude da sua confiabilidade e qualidade que oferece ao pesquisador. avançando ao artigo 18 da Lei Antitruste. artigo 4º. foco central desta monografia. onde investiga as impropriedades e acertos destes diplomas legais.

Não há neste capítulo o propósito de discorrer profundamente sobre a personalidade jurídica. o homem. esta estupenda criação humana’.1 AS PESSOAS JURÍDICAS 1. . através do direito. frutos do seu trabalho. isto os tornam difíceis de serem administrados por uma única pessoa. Pois conhecendo corretamente de algumas considerações sobre as pessoas jurídicas.1 UMA BREVE INTRODUÇÃO E O CONCEITO DE PESSOA JURÍDICA Importantíssimo é o estudo das pessoas jurídicas quando temos em mente o instituto da desconsideração da personalidade jurídica. p. e sim fazer uma abordagem geral e ampla. 81. talvez almejando a felicidade. O homem. nos traz importante lição de Werner Flume. há de se ter uma melhor compreensão do trabalho em tela. quando trata das pessoas jurídicas. o ‘imenso fenômeno da pessoa jurídica. Em razão destes motivos. sobre a importância do estudo das pessoas jurídicas para se ter uma completa noção da teoria da desconsideração: Diz Werner Flume na Encyclopädie der Rechtes-und Staatswissenchaft. grifo do autor). mas não menos importante sobre esta matéria. que o estudo da desconsideração da personalidade jurídica das sociedades para alcançar seus membros é parte do estudo das pessoas jurídicas. segundo Salvatore Satta (SZTASN. a própria realização pessoal ou simplesmente com o intuito de amealhar riqueza. seu bem estar. criou as pessoas jurídicas. Rachel Sztasn. uma garantia de bem estar para si e para sua família. Muitas vezes esses projetos ou negócios. tomam grandes dimensões. 1999. difíceis de serem controlados de uma forma que não se apresente complexa. por muitas vezes se lança a fazer projetos que lhe garantam um futuro promissor. objeto de estudo do presente trabalho.

1. 531-532. com personalidade diversa da dos indivíduos que os compõem. que.].86.. são seres que atuam na vida jurídica..5 Estes entes intitulados pessoas jurídicas. e seu objetivo é próprio. a prerrogativa de serem titulares do direito. 2003. A pessoa jurídica pode ser formada por pessoas naturais [. são pessoas distintas cada uma com autonomia própria. racional. capazes de serem sujeitos de direitos e obrigações na ordem civil (RODRIGUES. 1999. isto é. mas a personalidade destas últimas não se confunde com a das primeiras. ou pessoas morais (RODRIGUES. que atuam na vida jurídica ao lado dos indivíduos humanos e aos quais a lei atribui personalidade. destacado da simples soma dos objetivos daqueles que dela participam (ACQUAVIVA.] ou bens. que se distinguem das pessoas que os compõem. grifo do autor). grifo do autor). a pessoa jurídica. 2003. Marcus Cláudio Acquaviva traz outro bom exemplo. são criados pela lei e constituídos pela união de pessoas que se esforçam para atingir algum objetivo em comum. . dá-se o nome de pessoas jurídicas. p. abstrato. Quem melhor transmite a lição sobre este tema é Silvio Rodrigues: A esses seres. que as pessoas jurídicas são sujeitos de direitos e obrigações independentes de seus sócios.2 A ORIGEM E A NATUREZA DA PESSOA JURÍDICA Tudo o que a inteligência do ser humano concebe. e não foi diferente com uma de suas maiores criações no ramo do direito. ou seja. portanto. há uma distinção de personalidades.. pertence ao mundo das instituições ou ideais destinados a perdurar no tempo. Pode-se concluir então. onde seus patrimônios não se confundem. ou seja. p. para ele Chama-se pessoa jurídica. A pessoa tem existência que independe de cada um dos indivíduos que a integram.. no caso da fundação [. 86). são entidades a que a lei empresta personalidade. todos os frutos e obras da sua intelectualidade tendem a evoluir. p. coletiva ou moral o ente ideal. sem constituir uma realidade do mundo sensível. há de se considerar que as Pessoas jurídicas.

fundações. Já no Direito clássico. um desenvolvimento teórico no sentido de distinguir-se a universitas dos singuli. denominando os textos de populus romanus.] se admite uma entidade abstrata. sua existência. sem nenhuma relação de condomínio com os seus membros componentes. p. vínculo obrigacional entre os respectivos sócios.. germânico e canônico. . No primeiro. em sua existência. 358. passou do princípio da universalidade para o princípio da unidade. negando-se-lhe personalidade.” (VENOSA. abstrata. com direitos e obrigações ao lado da pessoa física.6 O processo de evolução do que hoje se conhece por personalidade jurídica.2. então. grifo do autor) Operou-se. representadas por agrupamentos de indivíduos. a entidade já desfrutava de autonomia patrimonial. para eles não era desconhecida. embora se desconhecesse inicialmente no direito romano. considerados os verdadeiros titulares dos direitos (SERPA LOPES. 1. Definiram-se duas modalidades de pessoas jurídicas: as universitates personarum. 201. os romanos passam a encarar o Estado. Foram os direitos romano. hospitais etc. onde cada um era titular de uma parcela destes. esta não possuía autonomia.. o conceito de pessoa jurídica. O patrimônio passou a constituir propriedade da entidade. mas sim. era considerado isoladamente o indivíduo que fazia parte de uma entidade. a desvinculação das pessoas naturais das pessoas jurídicas. pois os romanos idealizavam que o conjunto de bens ou o patrimônio pertencente a várias pessoas. 1996. os principais influentes da concepção que se tem hoje da personalidade jurídica. como um ente abstrato.1 As pessoas jurídicas para os romanos Os romanos somente tinham um conceito de pessoa jurídica no direito pósclássico. ao passo que no segundo. por ser ela encarada como um fenômeno puramente contratual. mas esta já existia antes disso. Demorou a ocorrer. ou entidade idealizada. não chegava a formar uma corporação.formadas pelos estabelecimentos. 2001. este patrimônio pertencia aos membros que constituíam este conjunto de bens. Excluía-se a societas. Os romanos somente conseguem ter uma idéia de corporação a partir do momento em que “[. p. grifo do autor). e as universitates bonorum.

é tratado como uma entidade autônoma.7 Para os antigos romanos. p. As primeiras. embora os romanos de início desconhecessem o conceito de fundação. grifo do autor). com a concepção de que a pessoa jurídica era persona ficta. 1. As universitates rerum eram fundações.2. no direito pós-clássico.13 Retomado na Idade Média. p. ou universitas. 2001. de uma forma mais lenta. distintos de seus integrantes.18. entendimento totalmente diverso daquele posteriomente consagrado por Savigni. como o pium corpus. fundados por uma vontade superior. já para os ficcionistas do século XIX.14 a construção dogmática atingiu contornos mais ou menos definidos. a partir do trabalho de Sinibaldo de Fleshi (depois papa Inocêncio IV). qualquer ofício eclesiástico. A ficção desse não é a ficção dos canonistas e glosadores. os conventos.. passando-se novamente da universalidade para a unidade.] os templos no direito clássico. a fictio da pessoa jurídica estava na sua ‘falsidade’ (JUSTEN FILHO. os hospitais e os hospícios. a fictio significava criação da mente humana (ou a existência no mundo das idéias). 1987. segundo a grande maioria da doutrina atual. 202) Merece destaque o posicionamento de Marçal Justen Filho. havia duas categorias de pessoas jurídicas. e a cada novos ofícios criados correspondem outras tantas entidades independentes. são as igrejas. 359. com fins determinados. possuiam uma personalidade e patrimônio próprios. o hospitalis e a sancta domus. Para estes. denominadas também de corpus. p. Podemos citar as universitates personarum e rerum.. um nomem iuris (SERPA LOPES. dotado de um patrimônio. pois estas são “[. embora estas denominações não fossem originariamente deles.” (VENOSA.2 A contribuição do direito germânico e canônico Posteriormente. grifo do autor). formadas por bens. Tal significativa. A universitas passa a representar um corpus mysticum. para ele Duvida-se se o conceito de pessoa jurídica foi encontrado no direito romano. O Direito canônico também houve por contribuir para a formação da personalidade jurídica. Assim. Desse conceito surge o de fundação também autônoma. . além dos estabelecimentos de beneficência. como explica Lopes: Todos os institutos da Igreja foram reputados entes ideais. 1996. ocorreu entre os germânicos o desenvolvimento da teoria da personalidade jurídica.

3 Pessoas jurídicas. 2003. p. formularam diversas teorias a fim de determinarem sua natureza jurídica. No que se reporta à segunda teoria. no que alude à pessoa jurídica. a criadora da personalidade jurídica. teoria da pessoa jurídica como realidade técnica e a teoria da instituição. A pessoa jurídica é uma ficção legal que visa atender os interesses das pessoas. e que esta não tem existência real. Formulada por Hauriou. se dedicam a um determinado fim. através de uma ficção. principais teorias acerca de sua natureza jurídica Os doutrinadores. esta teoria teve maior relevância na segunda metade do século XIX. são elas: a teoria da ficção legal.” (RODRIGUES. esta sustenta que as pessoas jurídicas são entes reais. A teoria da ficção legal. Sustentada por Savigny. o qual às vezes não pode ser conseguido pelo homem individualmente. mas real. no substrato. 2003. a teoria da instituição sustenta que “uma instituição preexiste ao momento em que uma pessoa jurídica nasce. tal realidade é meramente técnica. afirma que é a lei. com autonomia própria. p. A teoria provém do direito germânico e é sustentada por Gierke e Zitelmann. 88). visa à satisfação dos interesses humanos (RODRIGUES. teoria da pessoa jurídica como realidade objetiva. as sociedades existem. as associações. O Estado. neste trabalho são citadas as mais importantes. A circunstância de serem titulares de direito demonstra que sua existência não é fictícia. há necessidade destes se unirem ordenadamente para obterem êxito no que pretendem.2.8 1. A teoria da pessoa jurídica como realidade técnica. para esta teoria. . criados pela sociedade. existe para suprir os interesses humanos de uma forma indireta. uma vez que existem não se pode concebê-los a não ser como titulares de direitos. 88) As pessoas jurídicas. Apenas. pois.

o Decreto 1.2. X. Posteriormente. Foi somente o Decreto 1. temos como exemplo J. nem mesmo o Código Comercial de 1850 às contemplava. através do seu esboço de Código Civil.. . nos casos e pelo modo e forma que no mesmo se determinar. Quanto aos doutrinadores. 347). o professor Porchat e Clóvis Beviláqua. p.637. Freitas “[. concedendo esta personalidade às empresas de armazéns de que tratava. que poderiam adquirir os direitos que eram regulados pelo então código. incluindo as sociedades na categoria de pessoas [. quem introduziu a teoria da personalidade jurídica. o qual instituí regras para o estabelecimento de empresas de armazéns gerais. no direito brasileiro. 1998. foi Teixeira de Freitas. determinando os direitos e obrigações dessas empresas. ou de existência ideal. surgiu no ano de 1907.] apresentou a regulamentação das pessoas jurídicas.4 A personalidade jurídica no Brasil Até o início do século XX o direito brasileiro não reconhecia as pessoas jurídicas em seu ordenamento. que reconhecia a personalidade jurídica dos sindicatos. O atual Código de 2002 contempla a personalidade jurídica amplamente. Outros doutrinadores da época também se lançaram a estudar o tema. O artigo 17 do referido esboço prescrevia que as pessoas ou eram de existência visível...102 de 21 de novembro de 1903. O antigo Código Civil de 1916 tratava do assunto nos artigos 16 e 20. que introduziu no direito pátrio a expressão pessoa jurídica..9 1.] (REQUIÃO. Carvalho de Mendonça.

os Territórios. e permitem. autarquias e outras entidades de caráter público criadas pela lei.10 1. temos como exemplo a OAB e o INMETRO. fundações e sociedades. “A personalidade jurídica do estado. pertencem à autonomia privada. O artigo 40 do Código Civil nos traz as pessoas jurídicas de direito público interno. DIREITO PÚBLICO E PRIVADO De acordo com o critério utilizado pelo Código Civil brasileiro as pessoas jurídicas são divididas em duas grandes classes: pessoas jurídicas de direito público e pessoas jurídicas de direito privado. poderão abrir contas correntes. 1. o Distrito Federal. Assim. No que se reporta às autarquias. estas vem elencadas no artigo 44 do Código Civil. exemplo destas últimas são organizações como a ONU e a Santa Sé. objetivam fins e interesses comuns de particulares. Municípios. São as associações. As de direito público ainda subdividem-se em pessoas jurídicas de direito público interno e pessoas jurídicas de direito público externo. p. os partidos políticos são um exemplo clássico. enquanto derivada a das organizações. em direito das gentes. Existem três sistemas que vigoram acerca das condições para a existência das pessoas jurídicas: . 1998. As pessoas jurídicas de direito público externo são de acordo com o artigo 42 do mesmo código: os Estados estrangeiros e as pessoas que forem regidas pelo direito internacional público. 155) Quanto às pessoas jurídicas de direito privado.” (REZECK.4 REQUISITOS LEGAIS PARA A EXISTÊNCIA DAS PESSOAS JURÍDICAS DE DIREITO PRIVADO São as normas ou atos jurídicos que tornam as pessoas jurídicas existentes do ponto de vista legal.3 A DIVISÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS. que elas possam realizar todos os atos que não lhes sejam vedados pela lei. em seu próprio nome. 373). contrair empréstimos etc. diz-se originária. os Estados. p. as pessoas jurídicas. e quanto às entidades de caráter público criadas por lei. são estas: a União. Parafraseando Serpa Lopes (1996.

antes ainda.015 de 31 dezembro de 1973. pois fica condicionado ao ato registral. O ato de vontade das pessoas naturais na criação não é o bastante.º) sistema misto. devendo-se ainda respeitar o que prescreve o artigo 1. 3. De acordo com o artigo 45 do Código civil. Ainda determina o mesmo artigo que. elementos jurídicos formais e materiais. . O artigo 985 do nosso Código Civil. que confere reconhecimento à nova pessoa jurídica (LOTUFO. devem obedecer ao requisito do prévio registro formal. normatiza que esta adquire personalidade jurídica com a inscrição dos seus atos constitutivos no registro próprio e na forma da lei.º) sistema da concessão. 2003. ao serem criadas. além da licitude de seu objetivo ou fim. no sistema. 131). 2.º 6. para a publicidade de sua existência. no que diz respeito à sociedade. para o início da personalidade jurídica. a qual será adiante estudada. As sociedades e associações. Lei n. onde haverá necessidade de concessão estatal somente para determinada classe de pessoas jurídicas.º) sistema da plena liberdade de formação de associações. ser necessária a autorização ou do Poder Executivo. Desta feita. p. poderá. onde há necessidade de autorização estatal para a aquisição da personalidade jurídica. cabe ao estado a fiscalização das pessoas jurídicas de direito privado. são requisitos para se constituir uma pessoa jurídica. averbando-se no registro todas as alterações por que passar o ato constitutivo. este é o sistema adotado pelo direito brasileiro. Desta forma. Quanto aos requisitos formais.150 do mesmo diploma legal. há necessidade da aquisição da capacidade jurídica na forma da lei. É importante também ressaltar que o registro civil das pessoas jurídicas é disciplinado atualmente pelo Título III da lei de Registros Públicos. as pessoas jurídicas somente existem legalmente quando da inscrição do seu ato constitutivo no respectivo registro.11 1.

dentro dos limites próprios à sua natureza.. Quanto à representação em juízo. Para exercê-los. esta é regulada pelo artigo 12 do Código de Processo Civil.. estes se fundam na vontade humana. conforme anuncia o Decreto-lei 9. a pessoa jurídica tem capacidade para o exercício de todos os direitos compatíveis com a natureza especial de sua personalidade.] pode exercer todos os direitos subjetivos. adquire sua personalidade. O instante em que a pessoa jurídica registra o contrato constitutivo que lhe deu origem. Por último temos o requisito da licitude. p. que lhes outorga essa capacidade quando essas pessoas preenchem determinados requisitos. Regra esta que vinha inserta no artigo 17 do Código Civil de 1916. entretanto.. [. onde se organizam bens ou pessoas com objetivo de criar uma entidade com personalidade distinta de seus sócios. ou. O artigo 52 do Código Civil garante as pessoas jurídicas a proteção dos direitos relativos à personalidade. não comportando quaisquer restrições (SERPA LOPES. 1996. É portanto o ordenamento jurídico.] E quanto à capacidade. ela é a mais ampla possível.12 Quanto aos requisitos materiais. ativa e passivamente: . A pessoa jurídica quando adquire capacidade “[. visto que não são admitidos a elas os direitos personalíssimos. que se não for cumprido poderá ser causa da extinção ou dissolução da pessoa jurídica. e suprimida no atual. na repartição competente. como ser biológico. elas necessitam das pessoas físicas que as representam.085 de 1946. 374). 1. com exceção dos próprios ao ente humano.. o qual preceitua no seu caput que serão representadas em juízo. é o instante em que adquire a capacidade jurídica. o que a torna capaz de exercer os direitos que lhe são compatíveis. por outras palavras.5 CAPACIDADE E REPRESENTAÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS A capacidade apresentada pelas pessoas jurídicas advém da personalidade jurídica que a lei lhes confere.

6 O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA PATRIMONIAL Adquirindo personalidade jurídica. p. parágrafo único). pelo gerente. os Estados. Como sabemos. que nada mais é do que a separação dos patrimônios dos sócios do das sociedades. quando demandadas. cabendo ao representante que exorbitou responder pelo excesso. VIIas sociedades sem personalidade jurídica. quando atuar dentro dos limites da lei e do ato constitutivo. pela pessoa jurídica estrangeira. 88.As sociedades sem personalidade jurídica. por seus o Município.13 Iprocuradores. a receber citação inicial para o processo de conhecimento. não poderão opor a irregularidade de sua constituição. ou.º . 94) 1. não os designando. o Distrito Federal e os Territórios.O gerente da filial ou agência presume-se autorizado. “Ultrapassados tais poderes. pelo síndico. por quem os respectivos estatutos designarem. as pessoas jurídicas. pela pessoa a quem couber a administração de seus bens. 2003. . a massa falida. VIIIa pessoa jurídica estrangeira. exime-se a sociedade da responsabilidade. de execução. e os atos do representante. agência ou sucursal aberta ou instalada no Brasil (art. por seus diretores. ficam vinculados à pessoa jurídica onde o representante atua. cautelar e especial. a pessoa jurídica tem existência distinta de seus integrantes ou membros. por seu prefeito ou procurador. IIIIIVI- a União. § 3. representante ou administrador de sua filial.” (RODRIGUES. adquire-se a autonomia patrimonial. § 2.º .

validamente constituídas.14 É uma proteção tanto para os sócios como para as sociedades. É esta autonomia. comerciantes etc. as quais sem a devida personalidade jurídica. como nos adverte Fábio Ulhoa Coelho: . respondem somente com seu patrimônio pelos atos praticados por seus administradores. Mas o princípio da autonomia patrimonial tem suas limitações. sociedades em comandita simples ou por ações. não se lançariam aos riscos que a conjuntura econômica atual oferece nos dias de hoje. enquanto nas últimas. e estas resguardam seu patrimônio no caso de dívidas de um ou alguns dos sócios. onde pouquíssimas pessoas arriscariam seu patrimônio pessoal em algum negócio que não oferecesse cem por cento de certeza de retorno. o sócio tem o direito que exigir que primeiro sejam exauridos os bens da sociedade.. As pessoas jurídicas. Diferente também é a responsabilidade dos sócios das sociedades ilimitadas ou mistas. é um fenômeno praticamente no mundo todo. um dos impulsores da economia moderna. desde que estes atos sejam válidos aos olhos da lei. somente alguns respondem de forma ilimitada. O que não ocorre com as sociedades irregulares. pois se não existisse esta separação de patrimônios. a patrimonial. pois aqueles não respondem com seu patrimônio por dívidas destas. exceto nos casos previstos em lei. pessoas. O artigo 596 do Código de Processo Civil. e estes. empresários. industriais. então respondem ilimitadamente pelas obrigações contraídas por aquelas. também preceitua que os bens do sócio não respondem pelas dívidas da sociedade. ainda afirma que quando demandado. as sociedades em nome coletivo. e nos dias atuais está perdendo um pouco de seu prestígio. Nas primeiras. acabam por confundir seu patrimônio com o dos sócios. todos os sócios respondem ilimitadamente pelas obrigações sociais.

19-20). nocivos ou perigosos ao bem público.7 EXTINÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS De diferentes formas se extinguem as pessoas jurídicas de direito público e privado. 88) .. atualmente. p. à moral ou aos bons costumes (RODRIGUES. o princípio não tem sido prestigiado pela lei ou pelo juiz (COELHO. Silvio Rodrigues aponta que: O Decreto-lei n. objeto de estudo deste trabalho. seus bens são repartidos entre os sócios na proporção de suas participações..” (DINIZ. No que se reporta ao destino dos bens da pessoa jurídica. p. 1.. por norma constitucional.162) Quantos às pessoas jurídicas de direito privado. As primeiras terminam da mesma maneira como foram criadas. Deste modo. 2003. extinguem-se pela ocorrência de fatos históricos.] O princípio da autonomia patrimonial tem sua aplicação limitada. 2003.15 Em suma. 98). quando da sua dissolução. Se eles nada resolveram.. [. empresários.085/46 trata da proibição de se registrarem pessoas jurídicas e de sua dissolução. Se o credor é empregado. que será analisada adiante nos seus pormenores. “Logo. à segurança do Estado e da coletividade. 2002. devolverse-á o patrimônio a um estabelecimento público congênere ou de fins semelhantes. consumidor ou o estado. às obrigações da sociedade perante outros empresários. mas no caso de haver omissão “[. bancos etc. quando têm por objeto fins ilícitos ou contrários. ou se a deliberação for ineficaz. 9. deve seguir o que rege seu estatuto. quando os credores da sociedade não são outros comerciantes.] deve-se examinar se os sócios adotaram alguma deliberação eficaz sobre a matéria. quando esta não tiver finalidade lucrativa. 1997. p. à ordem pública ou social.. dando ensejo à desconsideração da personalidade jurídica. lei especial ou tratados internacionais. o princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica poderá restar abalado. p. se já registradas. observa-se certa tendência do direito no sentido de restringir ao campo das relações especificamente comercias os efeitos plenos das personalizações das sociedades empresárias. com finalidade lucrativa.” (RODRIGUES.

521. deve-se seguir a regra do artigo 61. Não trataremos da responsabilidade civil das primeiras neste trabalho. 1. O artigo 389 do Código Civil nos traz a hipótese da responsabilidade contratual.8 RESPONSABILIDADE CIVIL DAS PESSOAS JURÍDICAS Diferentes são os tratamentos das responsabilidades civis extracontratuais que envolvem as pessoas jurídicas de direito público e privado. para o melhor estudo da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. neste caso. a jurisprudência da época dava interpretação diferente ao artigo 1. Na esfera civil a pessoa jurídica de direito privado é responsável.523 e se orientou por transferir o ônus da prova à pessoa jurídica. antes de entrar em vigor o Código Civil de 2002. A responsabilidade decorrente de atos ilícitos praticados pelos representantes das pessoas jurídicas. quando não for possível encontrar estabelecimentos nas condições de que trata o mesmo artigo. era vista pela jurisprudência de maneira diversa do que expressavam os artigos 1. os bens os bens da pessoa jurídica passarão a integrar o patrimônio da Fazenda pública. quando esses causassem danos a outrem. a responsabilidade civil das pessoas jurídicas de direito privado. Da combinação da leitura dos referidos artigos pode-se concluir que o ônus da prova. Porém. parágrafo 2º. Este deveria provar que a pessoa jurídica concorreu com culpa ou negligência para a ocorrência do evento danoso.. pois somente nos interessa. do Código Civil. no caso de uma lide que tinha por objeto a reparação de um dano causado pelo ato do representante da pessoa jurídica. . 1. recaía sobre quem alegava o dano.522 e 1.16 Entretanto. A questão da responsabilidade extracontratual é mais complexa e merece maior análise. deveria esta então demonstrar que não concorrera com culpa ou negligência.523 do antigo código. contratual e extracontratualmente. no caso de a pessoa jurídica se tornar inadimplente.

] a responsabilidade das pessoas jurídicas por ato de seus administradores. 2003. essa jurisprudência. 95.522 do Código de 1916.4 do capítulo 4. de onde decorre que seriam aquelas pessoas que deveriam provar sua não-culpa. no que diz respeito à pessoa jurídica. p.” (RODRIGUES. em vez de reconhecer a obrigação da vítima de demonstrar a culpa do patrão. . grifo do autor) A responsabilidade da pessoa jurídica decorrente de dano ambiental não é objeto de estudo neste trabalho.. quer in eligendo. grifo do autor) Hoje. quer se trate de sociedades. quer in vigilando. do amo.17 “Com efeito. “[. criava uma presunção de culpa. só emerge se o autor da ação demonstrar a culpa da pessoa jurídica.. 2003. não mais prospera a presunção de culpa dos representantes da pessoa jurídica. do comitente etc. 96.. p. pois o Código Civil em vigor não contém regra semelhante à do artigo 1. será estudada desconsideração de sua personalidade na Lei de Crimes Ambientais no item 4.” (RODRIGUES. quer de associações.

. para este estudo. visando lucro. A sociedade empresária nasce da união de dois fatores: o primeiro é a condição desta ser uma pessoa jurídica. dissolução e classificação das sociedades empresárias. por exemplo) e a sua disciplina jurídica se aplica subsidiariamente à das sociedades empresárias e às cooperativas.. “[.. de matéria referente às pessoas jurídicas em geral. Quanto às espécies de sociedades existentes no ordenamento jurídico brasileiro. ou seja.” (COELHO. agora neste. em breves palavras tratar-se-á de questões referentes à personalização. A sociedade simples. deve exercer uma atividade ligada ao empreendimento empresarial. ter-se-á uma breve noção do conceito de sociedade empresária. responsabilidade dos sócios. no âmbito do direito privado. visto que serão principalmente sobre essas pessoas. p. ou seja.2 AS SOCIEDADES EMPRESÁRIAS Tratou-se o capítulo anterior.13) Quanto às sociedades empresárias. existem duas: as sociedades empresárias e as sociedades simples. estas se destinam a atividades econômicas em geral. interessa somente a primeira classe. a busca da riqueza. Também serão abordadas as sociedades irregulares e de fato. fundações e associações.] explora atividades econômicas específicas (prestação de serviços de advocacia. 2002. o segundo está ligado à atividade empresarial. As pessoas jurídicas. podem se constituir de três maneiras diferentes: sociedades. que excepcionalmente se estenderão os efeitos da desconsideração da personalidade jurídica. quando diversas pessoas se unem para realizar atividades que envolvam o aspecto econômico.

o direito adequar-se-á a uma ordem de idéias mais racional. mas sim esta última. indo ao encontro da realidade social (KOURY.111) Empresário não é o sócio ou integrante da empresa.. os primeiros são melhor denominados de empreendedores. p. tratando da personalização da empresa explica que [. 2002.1.56). . é através dela que ficará assegurada a continuidade e a coesão dessa célula social fundamental. 109) que somente algumas espécies de pessoas jurídicas exploradoras de atividades definidas pelo direito como de natureza empresarial podem ser conceituadas como sociedades empresárias.. ao reconhecê-la. Suzy Koury.] a sociedade empresária pode ser considerada como a pessoa jurídica de direito privado não-estatal. Existem ainda pessoas jurídicas que são sempre empresárias.19 Alerta Fábio Ulhoa Coelho (2003.. como as sociedades anônimas e em comanditas por ações. O registro na Junta Comercial de seus atos constitutivos é o marco inicial da aquisição da personalidade jurídica pela sociedade empresária.1 O início da personalização das sociedades empresárias Os requisitos para a existência legal das pessoas jurídicas de direito privado. p.” (COELHO. já foram abordados no item 1..1 A PERSONALIZAÇÃO DAS SOCIEDADES E SEUS EFEITOS 2. 2003. “[. pois é ela quem desenvolve a atividade econômica. Cabe agora aqui tratar do início da personalização da sociedade empresária. pois já a possui. ou investidores. tem personalidade moral. pois este ato torna pública a sociedade e permite a qualquer interessado retirar informações sobre determinada pessoa jurídica.] apesar de a personalidade jurídica não lhe dar vida. mais verdadeira. p. qualquer que seja o seu objeto.4 do primeiro capítulo deste trabalho. além do que. que explora empresarialmente seu objeto social ou a forma de sociedade por ações. 2.

desde o contrato. isto é. de formação de sociedade. excluindo-se o que dispõe o artigo 990 do Código Civil. no sentido técnico de sujeito de direito personalizado (COELHO. ela pode ser considerada existente. este simples encontro de esforços já é suficiente para caracterizar a existência da pessoa jurídica. na exploração da atividade econômica. 16. isto é. enquanto não regularizada a situação. onde os sócios são titulares em comum dos bens e das dívidas da sociedade. grifo do autor). . mas a compreensão de que o encontro de vontade dos sócios já é suficiente para dar origem a uma nova pessoa.5 deste capítulo. e esta ainda responde com seus bens por atos praticados por seus sócios.2 O fim da personalização das sociedades empresárias É um procedimento dissolutório que acaba com a personalização das sociedades empresárias. a melhor sistemática de disciplina da matéria não é a legal. 2. ou sua dissolução. que identifica no registro o ato responsável pela personalização da sociedade empresária. matéria tratada no item 2. 2002.1. já se pode considerar existente a pessoa jurídica. Mas. mas desde já deve ficar claro que a simples paralisação da empresa não caracteriza o fim de sua personalização. Embora não tendo os integrantes dessa sociedade formalizado o contrato social ou estatuto. deve-se registrar uma certa impropriedade conceitual e lógica nessa sistemática. ainda que verbal. será o da sociedade em comum. desde o momento em que os sócios passam a atuar em conjunto. todos respondem solidaria e ilimitadamente por obrigações contraídas pela mesma.1. Em outros termos. e por conseqüência serem impedidos de registrar a sociedade empresária no órgão competente para tal. Disto conclui-se que quando duas ou mais pessoas se unem com ânimo de atuarem juntas. o regime jurídicos destas sociedades irregulares.20 Fábio Ulhoa Coelho explica que: Mas. A rigor. p. e praticam atos caracterizem os praticados por uma empresa.

os do sócio. independentemente de ter ou não bens a sociedade. No primeiro. Ocorre que a lei trata de forma diferente os sócios da sociedade empresária enquanto não for regularizado o registro. “ (COELHO. A responsabilidade dos sócios poderá ser ilimitada e direta. 17). do autor) Fábio Coelho. poder-se-á fazer com que a execução recaia diretamente sobre o patrimônio do sócio.2. se despersonalizada. ou ilimitada e subsidiária dependendo do caso. 17. quando atribui responsabilidade subsidiária à generalidade dos sócios. a personalização ocorre no momento em que é feito o registro do ato constitutivo na Junta Comercial. p. no segundo caso..1.] se a sociedade empresária irregular é pessoa jurídica.3 deste trabalho. deverão ser primeiro executados os bens da sociedade. será ilimitada e direta. grifo . ao contrário. e somente após. e direta somente ao que se apresentar como seu representante.. sustenta a idéia de que em razão do direito vigente. a regra é a da subsidiariedade. em seu Curso de direito comercial (2002. excluindo a do sócio representante de sociedade irregular. a responsabilidade do sócio será sempre subsidiária. a responsabilidade dos sócios será ilimitada e subsidiária.3 A responsabilidade dos sócios Será feito aqui um breve comentário a respeito da responsabilidade dos sócios. Na prática temos que “[. Isto é. E para haver coerência.21 2. E na sociedade regularmente registrada. visto que esta matéria também é tratada no item 2. em todas as demais. o sistema legal deveria dar sustentação à responsabilidade ilimitada e direta. 2002. p. mesmo que esta seja ilimitada.

com as separação das pessoas dos sócios da pessoa da sociedade. os quais segundo Fábio Ulhoa Coelho (2002. os quais sem a segurança da autonomia patrimonial. p. princípio consagrado do direito societário e já estudado no item 1. onde podem existir sociedades personalizadas que seus sócios respondem de forma ilimitada pelas obrigações sociais.14) são: a titularidade obrigacional. graças a ele as pessoas se lançam a fazer empreendimentos. diante do insucesso da atividade empresarial. poderiam levar o sócio-empreendedor. ou mesmo uma vida inteira de trabalho. ensina que há direitos. ainda em seu Curso de Direito Comercial (2002. Coelho. a titularidade processual e a responsabilidade patrimonial. e seus sócios limitam sua responsabilidade pelas obrigações sociais contraídas pela sociedade. à ruína. adquire esta última a autonomia patrimonial. Personalizada então a sociedade.6 do primeiro capítulo. Para tais sistemas. que associam a personalização da sociedade à limitação da responsabilidade dos sócios. 7). as sociedades onde os sócios respondem integralmente pelas obrigações sociais são despersonalizadas. Após adquirida a personalidade jurídica.22 2. Diferente ocorre no Brasil.1. E desta personalização ocorrerão alguns efeitos.4 Os efeitos da personalização Da personalização das sociedades empresárias decorre a separação do seu patrimônio do patrimônio do sócio integrante. aquelas adquirem obrigações e direitos próprios. . como o do Reino Unido. diante da possibilidade de perda dos bens particulares arrecadados durante anos. o norte teoria da personalização das sociedades empresárias. separados o patrimônio dos sócios do patrimônio da sociedade. É este princípio. por muitas vezes arriscados. p. ou uns respondem ilimitadamente e outros limitadamente. por conseqüência temos a autonomia patrimonial.

O derradeiro efeito. não terão legitimidade passiva ad causam para contestar a ação.” (COELHO. mas administram-na através de atos praticados por pessoas naturais que são. p. afastando as pessoas dos sócios das relações com terceiros. Em outros termos. .. estes bens são a garantia dos credores por eventuais dívidas contraídas pela sociedade.. Os sócios. somente os bens sociais respondem por obrigações contraídas pela sociedade. decorrente da personalização da sociedade. etc. Quanto ao segundo efeito. o da titularidade processual.23 Quanto à titularidade obrigacional. isto é. é a pessoa jurídica que celebra contratos comerciais. a qual sob seu comando deveria ter corretamente cumprido com suas obrigações fiscais. Os sócios encontram-se fora deste pólo de obrigações e direitos contraídos pela sociedade. os bens que constituem e integram o patrimônio social. como os do sócio-gerente. no caso de ser proposta ação qualquer em face da sociedade.] estendem-se os efeitos da mesma relação à esfera subjetiva de quem agiu pela sociedade empresária. por obrigações tributárias da sociedade. 2002. 2002.” (COELHO. Somente em “situações excepcionais. o patrimônio do sócio não se confunde com o patrimônio desta última. é a responsabilidade patrimonial. aluga imóveis para sede. esta última assume por completo direitos e obrigações decorrentes da exploração da atividade que exerce. a própria sociedade. tratadas em normas específicas [. como por exemplo a compra e venda de máquinas para realizar sua atividade econômica. quer sejam estas judiciais ou extrajudiciais. para eventualmente propor ou responder às ações de diversas naturezas perante o judiciário. a detentora de legitimidade ativa e passiva. como também não terão legitimidade ativa para demandar pela sociedade. p. decorrente da personalização. Assim. pois como já vimos. a contratação de funcionários. 15) Clássico exemplo disto é a responsabilização do gerente de sociedade limitada. “a personalização da sociedade empresária importa a definição da sua legitimidade para demandar e ser demandada em juízo.14) Será então a pessoa jurídica.

24 A questão da responsabilidade patrimonial. “Se a dissolução operou-se por deliberação dos sócios registrada em ata. A dissolução das sociedades poderá ocorrer de duas formas: judicial ou extrajudicial. Ainda a dissolução poderá ser total ou parcial. representada pelas quotas da sociedade limitada ou pelas ações da sociedade anônima. A participação societária. 15). são de propriedade dela.]” (COELHO. permitindo que a sociedade continue a existir. sobre estes os componentes da sociedade empresária não exercem nenhum direito. determina que sejam dissolvidos os vínculos contratuais. de propriedade ou de outra natureza. nem como uma sua parcela ideal. e não dos seus membros. É apenas a pessoa jurídica da sociedade a proprietária de tais bens. é bem explicada por Fábio Ulhoa Coelho: Os bens integrantes do estabelecimento empresarial. nem da liquidação e apuração de haveres.5 A dissolução das sociedades empresárias Serão brevemente aqui tratadas as formas de dissolução das sociedades empresárias. não se confunde com o conjunto de bens titularizados pela sociedade. com a extinção de todos os vínculos contratuais. Mas. o modo dependerá de como ocorrer o ato dissolutório. 2003. p. no entanto. Trata-se. .1. 2002. pois estes são assuntos complexos e extensos. Ocorre a dissolução judicial. em ação específica. p. No patrimônio dos sócios encontra-se a participação societária. distrato (na extensão total) ou alteração contratual (na extensão parcial. 2. não entrando na seara da causas determinantes dessas dissoluções. 167). quando o judiciário. e outros eventualmente atribuídos à pessoa jurídica.. e a segunda ocorre com a dissolução de somente parte destes vínculos. de patrimônios distintos. inconfundíveis e incomunicáveis os dos sócios e o da sociedade (COELHO. a primeira implica na extinção por completo da sociedade. e um breve relato sobre o tema constante neste subtítulo será suficiente para a compreensão exata deste trabalho. em sentença proferida por juiz competente.. Não existe comunhão ou condomínio dos sócios relativamente aos bens sociais. será a hipótese de dissolução extrajudicial [. definitivamente.

1. p.086). diretamente proporcional ao número de cada uma existente. As três restantes.” (COELHO.2 CLASSIFICAÇÃO DAS SOCIEDADES EMPRESÁRIAS O Direito brasileiro contempla cinco espécies de sociedades empresárias.173) 2. grifo do autor) Temos ainda. 4) Sociedade em Comandita Ações. após a dissolução.” (COELHO. No Código Civil de 2002 a dissolução parcial é chamada de resolução da sociedade em relação a um sócio (arts. 3) Sociedade em nome Coletivo. a liquidação e a apuração de haveres. 2003. Entre uma e outra forma de dissolução não há. tem-se dissolução total ou parcial.028 a 1. de acordo com a abrangência. total ou parcial. que não é considerada propriamente uma sociedade em função de suas peculiaridades. nem pode haver.085 e 1. Não se admite outras formas de constituição de sociedades empresárias.032. As sociedades empresárias admitidas pelo ordenamento jurídico nacional são as seguintes: 1) Sociedade por Quotas de Responsabilidade Limitada. 2003. 2) Sociedade Anônima. enquanto à dissolução segue-se a apuração de haveres e o reembolso. 1.25 “Portanto. nem tem um impacto relevante sobre a economia. qualquer diferença de conteúdo econômico. Merecem maior destaque as duas primeiras. mas. existe ainda a Sociedade em conta de Participação. “À dissolução total seguem-se a liquidação e a partilha. p. 167. . pois a importância que estas exercem se deve a sua influência na economia brasileira. 5) Sociedade em Comandita Simples. senão estas. não constituem um número expressivo.

26 “Com efeito. . 23).2. p. que impossibilitam considerá-la no tratamento geral do tema. é o que leva em conta o grau de dependência da sociedade em relação às qualidades subjetivas dos sócios (classificação que repercute nas condições para a alienação da participação societária. 2) Sociedades Contratuais e Institucionais e quanto à 3) Responsabilidade dos Sócios. 2. p. de acordo com o que dispuser o contrato social. Serão sempre constituídas na forma de sociedades de capital. propõe três critérios de classificação das sociedades empresárias: 1) Sociedades de Pessoa ou de Capital. não será tratada de cada uma das sociedades em seus pormenores. portanto. sociedades de pessoas ou de capital. 2002. afirma que o primeiro critério de classificação (Sociedades de Pessoa ou de Capital). sujeita a regras muito específicas. e que segundo este critério pode-se ter uma sociedade de pessoas ou de capitais. [a Sociedade em Conta de Participação] trata-se de uma conjugação de esforços despersonalizada. as seguintes: A sociedade limitada. também foi abolida do direito pátrio a Sociedade de Capital e Indústria.” (COELHO. 23) Com a entrada em vigor do Código Civil de 2002. penhorabilidade desta e conseqüências da morte de sócio).1 O primeiro critério: sociedades de pessoas ou de capital Coelho (2002. em seu Curso de Direito Comercial (2002). sociedade em nome coletivo e a sociedade em comandita simples. e sim a desconsideração de suas personalidades jurídicas. Neste trabalho. e. Fábio Ulhoa Coelho. Podem ser. as sociedades em comandita por ações e as sociedades anônimas. visto que não são elas em si o objeto de estudo.

. quando morre um sócio. como por exemplo. a regra é a inversa. . pois.. Já em relação às sociedades de capital. o sócio pode alienar sua participação societária a quem quer que seja. [. enquanto noutras. Existe ainda a questão da penhorabilidade das quotas de participação. Relevante também é a situação onde ocorre a morte do sócio. Como os atributos individuais do adquirente dessa participação podem interferir na realização do objeto social. ocorreria uma mudança de titularidade onde o arrematante tomaria o lugar do sócio devedor. o que não ocorre no caso das sociedades de capital. 24. questão de extrema importância. através da dissolução parcial da sociedade. podem impedir o ingresso na sociedade. Quanto ao primeiro caso a medida se justifica. Então. ou seja.27 Disto pode-se concluir que em determinadas sociedades empresárias é muito relevante a característica individual do sócio. porque as características pessoais do adquirente não atrapalham. do sucessor ou sucessores do de cujus. o que poderia ser prejudicial à sociedade. As quotas são impenhoráveis por dívida particular do sócio nas sociedades de pessoas. em uma sociedade anônima. após arrematadas. a cessão a cessão da participação societária depende da anuência dos demais sócios.] nas sociedades em que prepondera o fator subjetivo. Nas sociedades de pessoas. suas qualidades subjetivas influem de maneira determinante no modo de atuação da sociedade. cujos interesses podem ser afetados. se não concordarem. grifo nosso). os remanescentes. p. não têm como atrapalhar o desenvolvimento do negócio social (COELHO. 2002. pois é diferente a situação nas sociedades de pessoas e nas de capital. independentemente da anuência dos demais. esse critério é determinante no que diz respeito à cessão da participação societária. é justo e racional que o seu ingresso na sociedade fique condicionado à aceitação dos outros sócios. pois caso fossem penhoradas as quotas de determinado sócio. as características individuais do sócio não são relevantes.

através da causa mortis. As de capital são as sociedades em que essa contribuição material é mais importante que as características subjetivas dos sócios. A natureza da sociedade importa diferenças no tocante à alienação da participação societária (quotas ou ações).2. 2. podem se revestir na forma de sociedade anônima ou em comandita por ações.2 O segundo critério: sociedades institucionais e contratuais Podem ainda ser. 2002. grifo do autor).28 Já não acontece o mesmo nas sociedades de capital. 24. As sociedades contratuais podem tomar a forma de sociedade limitada. e é institucional se constituída por um ato de vontade não contratual. . A diferença diz respeito à aplicação. o vínculo estabelecido entre os sócios não tem natureza contratual. pois os sócios remanescentes não podem se opor ao ingresso do sucessor ou sucessores proprietários das quotas sociais. Coelho define bem as sociedades de pessoas e as de capital. as institucionais. serem as sociedades classificadas em Institucionais ou Contratuais. 27). A sociedade empresária é contratual se constituída por um contrato entre os sócios. Estas sociedades são constituídas através de um contrato. que disciplinará suas relações sociais. p. para ele As sociedades de pessoas são aquelas em que a realização do objeto social depende mais dos atributos individuais dos sócios que da contribuição material que eles dão. elas se constituem através da emissão de um ato de manifestação de vontade por parte dos seus integrantes. p. As primeiras. denominado contrato social. de acordo com o segundo critério de classificação. o estatuto. à sua penhorabilidade por dívida particular do sócio e à questão da sucessão por morte (COELHO. sociedade em nome coletivo ou sociedade em comandita simples. os quais entre si. elaborado entre os integrantes. Nestas sociedades. ou não. a partir daí. do regime do direito contratual às relações entre os sócios (COELHO. 2002. passam a ter tem um vínculo contratual.

024 do Código Civil preceitua que os bens particulares dos sócios não podem ser executados por dívidas da sociedade antes de serem executados os bens sociais. A responsabilidade dos sócios será limitada. quando também preceitua que tais bens do sócio. a lei se refere às relações entre eles. sempre respondem ilimitadamente pelas obrigações que assumirem. p. uma responsabilidade perante terceiros. esta pode ser exigida dos demais. Coelho (2003. com a responsabilidade dos sócios. p. como será a seguir estudado. se forem solidários. como freqüentemente ocorre. 220. em relação às sociedades.” (MARTINS. deve-se ter em mente. caso o patrimônio da sociedade seja insuficiente para satisfazer os compromissos assumidos por esta. Não se deve confundir. 1998. e o artigo 596 do Código de Processo Civil também nos traz regra clara neste sentido. que esta responsabilidade dos sócios em relação às sociedades “[. isto é. ilimitada ou mista. grifo do autor) O artigo 1. somente em casos excepcionais. dos diretores da comandita por ações e dos sócios da limitada em relação à integralização do capital social. o que quer dizer que se um sócio descumpre sua obrigação. e mesmo após ser totalmente exaurido o patrimônio da sociedade. em regra. dos comanditados na comandita simples.29 2. dependendo do caso. .3 O terceiro critério: a responsabilidade dos sócios As sociedades empresárias..] é uma responsabilidade subsidiária. a responsabilidade das sociedades. que se responsabilize o sócio por eventuais dívidas da sociedade. somente respondem por dívidas da sociedade nos casos previstos em lei. Portanto. pelos compromissos sociais. O princípio da autonomia patrimonial impede. poderá se cogitar em atingir o patrimônio do sócio para satisfazer as obrigações contraídas pela sociedade.2. então. 116) afirma que quando a lei classifica de solidária a responsabilidade dos membros da sociedade em nome coletivo..

sempre de modo subsidiário. os bens particulares dos sócios de forma ilimitada.30 Ainda continua o mesmo autor. 2003. Esta é classificada como sociedade ilimitada. explanando que O direito brasileiro da atualidade não conhece nenhuma hipótese de limitação de responsabilidade pessoal. Estas são portanto as duas sociedades classificadas como limitadas: a Ltda e a S/A. também o sócio. Portanto. os credores poderão buscar. a limitação da responsabilidade subsidiária. O mesmo não vale para as sociedades anônimas ou S/A. observa-se que se totalmente integralizado pela parte do sócio seu capital social. as sociedades classificam-se em ilimitada. o único exemplo desta sociedade no direito brasileiro é a sociedade em nome coletivo. mas eventualmente poderá ele responder pela parte não integralizada pelo outro sócio. limitada e mista. ainda que relacionado com a vida social. Somente se concebe. quando responder por ato seu. onde após esgotado seu patrimônio. Assim. como foi supramencionado. ou seja. nestas os sócios respondem pelas obrigações contraídas pela mesma de uma forma limitada ao total da quantia restante à integralização do capital social. os patrimônios de todos os sócios respondem de forma ilimitada pelas obrigações contraídas pela sociedade. mas limitada ou ilimitadamente (COELHO. grifo nosso). pelas obrigações sociais. no que tange a responsabilidade dos sócios. . Existe sociedade. 117. não tendo estes nenhuma responsabilidade pelo que o outro acionista susbcreveu e não integralizou. nelas a responsabilidade é limitada para uns sócios. quando a sociedade estiver respondendo por obrigação sua. para satisfazer o restante de seu crédito. assim. Quantos às sociedades classificadas como limitadas. onde os acionistas somente respondem pelo que subscreveram e ainda não integralizaram. no presente estágio evolutivo do direito nacional. e ilimitada para outros. terá responsabilidade ilimitada. este é o caso das sociedades limitadas ou Ltda. sua responsabilidade é nenhuma. p. terá responsabilidade ilimitada. As sociedades classificadas como mistas são duas: a sociedade em comandita simples e a sociedade em comandita por ações. Os sócios respondem.

. assinalam os autores que sociedades de fato são aquelas que existem eivadas de nulidades. possuírem as formalidades dessas. Fran Martins ensina que No entanto. grifo do autor).. 144. Resumidamente podem ser consideradas sociedades irregulares ou de fato. As sociedades de fato não possuem personalidade jurídica. Mas convém aqui fazer uma distinção entre as sociedades irregulares e as de fato. ou seja. Os livros comerciais dessas sociedades também não possuem eficácia probatória. entretanto. isto é. . Para os sócios representantes esta responsabilidade será direta. E que isto se dá nos termos dos artigos 44 e 45 do Código Civil. Ainda. a questão de maior relevância é o fato dessas sociedades ensejarem aos seus sócios responsabilidade ilimitada pelas obrigações por elas contraídas. Muitas vezes ocorre confusão sobre o que seriam as sociedades de fato e as sociedades irregulares. o estatuto ou contrato social. apesar de autores as confundirem com irregulares [.3 A SOCIEDADE IRREGULAR E A SOCIEDADE DE FATO Rubens Requião (2003. este órgão seria a Junta Comercial. Importante é ressaltar que as sociedades empresárias que atuam sem o seu devido registro na Junta Comercial não estão sujeitas às regalias concedidas pela falência ou concordata.31 2. p. subsidiária. a teor do artigo 990 do Código Civil. Irregulares são as sociedades que se constituem dentro das prescrições legais mas que deixam de cumprir as obrigações impostas por lei. 380) explica que a sociedade adquire personalidade jurídica por concessão da lei. para os demais. 2001. aquelas que não tem seu registro arquivado no órgão competente. elas não podem fazer jus a este dois benefícios concedidos pela lei. este último dispõe sobre o começo da existência legal das pessoas jurídicas.] (MARTINS. apresentando-se ao público como se fossem sociedades sem. p. embora conservem a personalidade.

A palavra desconsideração. distinguindo-se de seus sócios. Esta última adquire uma autonomia em relação aos seus sócios. . A personalidade jurídica. não reconhecer a personalidade jurídica de determinada sociedade. ignorar. estes então denominados de pessoas físicas. Durchgriff der Juristischen Personen na Alemanha e Teoria de la Penetración de la personalidad ou Desestimación de la Personalidad Societaria para os argentinos. Desconsideração da personalidade jurídica significa. Lifting the Coporate Veil ou simplesmente Disregard Doctrine. para melhor compreensão do trabalho em tela. separar ou ocultar os sócios da sociedade de que fazem parte. para distinguir. uma breve noção do significado da expressão “desconsideração da personalidade jurídica” à luz do direito pátrio e da nossa língua portuguesa. então. ou seja. significa tornar sem efeito.1 O SIGNIFICADO DA EXPRESSÃO Inicialmente há de se ter. quando inserida no contexto da expressão título deste capítulo. não mais separar as pessoas do sócio e sociedade. já estudada no presente trabalho. passando ela própria a ser sujeito de direitos e obrigações.3 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 3. Piercing the Corporate Veil. Nos Estados Unidos e Inglaterra esta teoria é denominada Disregard of Legal Entity. anular. Abus de la Noction de Personnalité Sociale para os franceses. tornando os primeiros também suscetíveis de responder pelas obrigações contraídas pela sociedade da qual fazem parte. pode-se dizer que é uma ficção criada pela lei. na Itália Superamento della Personalità Giuridica.

com a intenção de preservar a jurisdição das Cortes Federais sobre as Corporations. quando uma decisão do juiz norte-americano Marshall. p. já que a Constituição Federal Americana. grifo nosso) O marco jurisprudencial inicial foi mais precisamente o ano de 1809.. da atividade judiciária de aplicação do direito ao caso concreto).2 O SURGIMENTO E A HISTÓRIA DA TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 3. MOHR. as Cortes levantaram o véu personal e consideraram as características dos sócios individuais (BOTTAN. “[. Este foi portanto o leading case. em si. . 54. Carlos Roslindo e Gislaine Mohr em excelente artigo publicado no periódico de jurisprudência do Tribunal de Justiça de Santa Catarina.” (JUSTEN FILHO. não foi relevante. o primórdio do que se conhece hoje por disregard doctrine. 89. nos EUA. já se discutia a Disregard Doctrine. limita tal jurisdição às controvérsias entre cidadãos de diferentes estados. prelecionam o seguinte: Conforme os estudos de Koury². ROSLINDO. no começo do século XIX. ou seja. n.1 A Disregard Doctrine A teoria da desconsideração da personalidade jurídica. utilizada como um instrumento para coibir fraudes ou abuso de direito. p. Antonio Bottan.33 3. visto que foi repudiada pela doutrina da época. No caso Bank of united States v. A decisão. seção 2ª. já em 1809. Assim. citando Suzy Elisabeth Cavalcante Koury. 26). ou disregard doctrine. em 1809.] a teoria da desconsideração da personalidade jurídica não foi produzida pela ciência do direito. acabou por estender aos sócios os efeitos da personalidade da entidade da qual faziam parte. obteve seu inicial desenvolvimento através da jurisprudência nos Estados Unidos da América. Deveaux. no caso Bank of United States x Deveaux.2. mas a partir da jurisprudência (ou seja. o Juiz Marshall conheceu da causa. mas. 2000.. no seu artigo 3º. 1987.

. dos quais é preciso extrair um conjunto orgânico de normas de origem jurisprudencial aplicáveis nesta matéria. tornava-se monopolista e controlava 90% a 95% da produção refinada de petróleo nos estados Unidos. Outra disputa judicial. interessante é o posicionamento do argentino Guillermo Cabanello de Las Cuevas. p. trad. ocorreu no ano de 1892.34 Alguns autores sequer mencionam em suas obras o caso supramencionado. num primeiro momento.. Esta formação jurisprudencial necessariamente implica o ditado de regras aplicáveis em casos determinados. aconteceu o desenvolvimento doutrinário da teoria.. é certo que esta doutrina teve sua origem e desenvolvimento nos Estados Unidos. fundada por John Davison Rockefeller em 1870. praticamente em todos os países onde esta doutrina tem uma aplicação efetiva. onde confirma a origem jurisprudêncial da teoria no direito norte-americano: A doutrina da desestimação da personalidade societária [esta é uma das formas como é chamada a teoria da desconsideração no direito argentino] tem uma origem fundamentalmente jurisprudencial. [. famoso exemplo da Disregard Doctrine nos Estados Unidos. 1994. ou por este ter sido de certo modo encoberto ou esquecido em virtude de casos mais famosos que surgiriam posteriormente. De acordo com o demonstrado até agora. conclui-se que a teoria da desconsideração da personalidade jurídica evoluiu. Também adotam este posicionamento alguns doutrinadores brasileiros e vários outros estrangeiros. Mas a verdade é. de onde foi tomada por outros sistemas jurídicos (LAS CUEVAS. este é o caso de desconsideração da personalidade jurídica mais antigo já registrado pela doutrina. 70-71. na Alemanha. ao que tudo indica. nossa). A Standard Oil. a partir de decisões jurisprudênciais norte-americanas que de certa forma “contaminaram” outros países. notadamente na Inglaterra.] Também desde o ponto de vista histórico. pouco tempo depois de fundada. e em virtude da deficiente sistematização da doutrina da desestimação da personalidade societária. Itália e Inglaterra. e também. envolvendo a Standard Oil Co. o que será demonstrado a seguir. talvez pela pouca relevância que o mesmo obteve. que o início de toda sua formulação aconteceu em decisões proferidas por juízes norteemericanos. e a partir daí. .

no sentido monopolístico.. . “Segundo a doutrina clássica. Não se tendo obtido ainda assim uma suficiente descentralização administrativa. por John D.. Dodd.. um comerciante do ramo de calçados chamado Aaron Salomon. PAMPLONA FILHO. para si reservou o montante de 20. uma Company (sociedade por ações). Neste caso julgado pela House of Lords (Câmara dos Lordes).53). p. em 1882. nada restou aos outros credores. que reuniu todas as participações da ‘ Standard Oil Co. Rockefeller (embora se atribua sua autoria ao advogado S. onde o sistema jurídico é o Common Law. Salomon & Co. desconsiderando a personalidade e declarando ilegal o este monopólio exercido pela Standard Oil. 233). p. tornando posteriormente insolvente a companhia.]” (GAGLIANO. Este é.000 ações. foi substituída por um trust agreement que instituiu o primeiro trust. Talvez a disputa judicial mais famosa envolvendo a Disregard Doctrine seja o caso Salomon v. A Suprema Corte de Ohio. Of Ohio’.. E. em que o costume é importantíssima fonte do direito. constituiu no ano de 1892. a serviço da concentração de empresas. 2002. estes incluíam sua mulher e filhos. ocorrido no ano de 1897 na Inglaterra. Transferiu-se a carteira e os ativos da ‘ Standard’ para um conselho de 9 trustes composto pelos principais controladores do grupo. em 1881). como ele era credor privilegiado. ao decidir. distribuindo uma ação para cada um dos seis membros de sua família. Aaron constitui para si um crédito privilegiado no valor de dez mil libras esterlinas. atribuindo-se 20 ‘certificados’ por ação (BULGARELLI. empregados da empresa.35 Waldirio Bulgarelli.] foi utilizado no fim do século XIX. em 1892.. criou então outro precedente da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. cerca de 600. transferindo-as a trustees. ele afirma que o truste [. traz este caso em sua obra Concentração de empresas e direito antitruste. o precedente jurisprudencial que permitiu o desenvolvimento da teoria [. 1997.

o caso em questão foi julgado em 1897. como ensina Fran Martins: . grau e da Corte de Apelação terem desconsiderado a personalidade jurídica da companhia criada por Salomon. sob a alegação de que a companhia havia sido validamente constituída e que Salomon era seu credor privilegiado por ter-lhe vendido o estabelecimento recebido. que se começou a desconhecer da personalidade jurídica para atingir os sócios. Na realidade. visando transferir a estes as responsabilidades pelo mau uso da sociedade. considerá-lo como leading case no Direito inglês. obrigações contraídas por hipoteca (KOURY. inicialmente nos Estados Unidos e posteriormente na Inglaterra. p. reputando-a como uma extensão da atividade pessoal dele. Através de decisões ousadas para a época. que contibuava sendo o verdadeiro proprietário do estabelecimento que falsamente transferira à sociedade. sem nenhum vício para as leis da época. esta decisão desencorajou maiores desenvolvimentos doutrinários na época sobre a teoria em tela no direito inglês. 64. por isso. portanto. só sendo possível. e ao que tudo indica. grifo do autor) Foi então. oitenta e oito anos após a primeira manifestação da jurispruD6encia americana. de uma maneira um pouco reservada e discreta. juntamente com 6 (seis) pessoas da sua família. para corrigir duas informações incorretas passadas pela doutrina. mas esta decisão foi posteriormente reformada pela Câmara dos Lordes sob o fundamento de que a sociedade havia sido constituída de forma válida. apesar do juiz de 1o. optou por desconsiderar a pessoa jurídica da sociedade fundada por Aaron.36 A justiça inglesa em sua decisão de primeiro grau. Koury utiliza este caso. A primeira delas diz respeito à sua qualificação como o verdadeiro e próprio leading case da Disregard Doctrine por vários autores. 2002. Posteriormente reformada em instância superior. o que atingiria seu patrimônio. acertadamente. ou seja. assim. entendendo que houve fraude no negócio. Além disso [referindo-se à segunda informação incorreta]. a decisão foi reformada pela House of Lords. mas é certo que posteriormente também serviu como precedente à formulação da disregard doctrine. uma verdadeira agent ou trustee de Salomon. o despertar do surgimento da disregard doctrine.

O principal idealizador desta teoria pode ser considerado o alemão Rolf Serick. são eles: o alemão Rolf Serick. etc. proteger devedores. época em que formulou premissas e tentou conceituar a teoria. Este era na época. Seus estudos foram o ponto de partida de outros doutrinadores que se seguiram. p. No que se reporta a Wormser. no ano de 1953 na Universidade de Tübigen. que fornece as regras básicas a serem seguidas. 1998. a qual denominou Durchgriff der Juristichen Personen. professor da faculdade de Direito de Heidelberg. entre eles estão a fraude aos credores através do uso da proteção concedida pelo véu da pessoa jurídica.. 226. quando os sócios tentam se eximir de uma obrigação existente. os tribunais começaram então a desconhecer a pessoa jurídica para responsabilizar os praticantes de tais atos (MARTINS. Wormser em seu trabalho descreve uma série de fatores que podem levar à superação da personalidade jurídica no sistema americano. No começo da década de 50 a surgiram os primeiros trabalhos doutrinários de maior envergadura que convergiam para a formulação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. o italiano Piero Verrucoli e o norte americano Maurice Wormser. .2 A contribuição dos doutrinadores para a formulação da disregard doctrine Podemos destacar a contribuição de três grandes doutrinadores que se dedicaram ao estudo e inicial desenvolvimento da disregard doctrine. este jurista americano começou seus estudos no início do século XX. grifo do autor). 3. se reporta ainda ao intuito de desviar a aplicação da lei.2. Serick defendeu sua tese de doutorado.37 Constatado o fato de que a personalidade jurídica das sociedades servia a pessoas inescrupulosas que praticassem em benefício próprio abuso de direito ou atos fraudulentos por intermédio das pessoas jurídicas. onde firmou os pilares da Teoria da Desconsideração da Personalidade Jurídica. com o título Rechtsform und Realität juristischer Personem. que revestiam as sociedades.

levam-se em conta as pessoas físicas que agiram pela pessoa jurídica’. que será adiante estudada. [. para atendimento dos pressupostos da norma. para alcançar o que Serick denominou de ‘susbstrato’. 1989. os princípios da teoria da desconsideração da pessoa jurídica. condensados na obra de Fábio Coelho.. quando se abusa da personalidade jurídica com vistas à realização de fraude. se não houver contradição entre os objetivos desta e a função daquela. quando o desconhecimento é condição de aplicação de normas jurídicas. Primeiro.. pode. Outro importante contribuinte da teoria da desconsideração da personalidade jurídica foi o professor italiano Piero Verrucoli da Universidade de Pisa.. para impedir a realização do ilícito. p. este se aprofundou no estudo do assunto através de sua monografia “Il Superamento della Personalità Giuridica delle Società di Capitali nella Common Law e nella Civil Law. Pelo panorama apresentado por esta análise. este afirma que] ‘aplicam-se à pessoa jurídica as normas sobre capacidade ou valor humano.] [quanto ao terceiro.” . segundo.. diante de abuso da forma da pessoa jurídica. 36). cabe desconsiderá-la para aplicação de norma cujo pressuposto seja diferenciação real entre aquelas partes’ (COELHO. no primeiro grupo.. Os quatro princípios. dos Direito alemão e norte-americano. no terceiro livro de sua obra Forma e Realidade da Pessoa Jurídica. divisam-se dois grupos de casos em que a personalidade jurídica pode ser desconhecida. 17. por força da ratio legis específica (COELHO. 2002. Rolf Serick formula quatro princípios básicos da teoria da desconsideração.] [o último princípio preceitua que] ‘se as partes de um negócio jurídico não podem ser consideradas um único sujeito apenas em razão da forma da pessoa jurídica.] [o segundo princípio nos diz que] ‘não é possível desconsiderar a autonomia subjetiva da pessoa jurídica porque o objetivo de uma norma ou a causa de um negócio não foram atendidos’. grifo do autor).38 Ensina Fábio Ulhoa Coelho que É o próprio Rolf Serick quem sintetiza. desconsiderar o princípio da separação entre sócio e pessoa jurídica’. e. e. [. com vistas a coibir o abuso. Em tal hipótese. sendo que. [.. Em ambos afasta-se a personalização da pessoa jurídica. p. no segundo. são: O primeiro afirma que ‘o juiz. estes servem de pilares para a teoria maior da desconsideração. após análise de diversos casos.

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Verrucoli “[...] nos oferece a origem dessa doutrina, que teria surgido na jurisprudência inglesa, nos fins do século passado.” (REQUIÃO, 1998, p. 350) Data venia, há que se discordar do posicionamento do mestre italiano, pois conforme já demonstrado neste trabalho, é cristalina a origem jurisprudencial da teoria nos Estados Unidos da América, onde há registros de decisões judiciais, que acabaram por superar a personalidade jurídica das sociedades desde 1809, quase um século antes do famoso caso Salomon. Voltando ao estudo de Verrucoli em sua monografia, é de suma importância sua contribuição para a formação doutrinária da teoria da desconsideração, nela enfoca a teoria da desconsideração da personalidade jurídica nas sociedades de capital, pois na Itália, “[...] entende-se que as sociedades de pessoas, ou personalísticas, não possuem personalidade jurídica, não se colocando, por isso, o problema em relação a elas.” (COELHO, 1989, p. 23, grifo do autor) Verrucoli defende a idéia de que com a criação das pessoas jurídicas através de meios legais, seja normal que em contrapartida, também criem-se meios para impedir o uso indevido destas pessoas por parte de seus integrantes, ou através de atos destes, e um destes meios seria a desconsideração da personalidade jurídica, uma forma de evitar abusos, onde se superaria um certo privilégio que os sócios teriam ao se valerem dos privilégios decorrentes da personalização da sociedade. Citado por Suzy Elizabeth Cavalcante Koury, Piero Verrucoli afirma que,
’[...] a superação, que realiza esta atividade da pessoa jurídica, mostra-se em toda evidência como um dos possíveis instrumentos através dos quais o poder central contém e corrige a força dos grupos, restaurando um equilíbrio comprometido, combatendo os abusos do privilégio concedido, realizando completamente os fins perseguidos que se tenham tornado, de qualquer maneira, comprometidos por um rígido respeito formal ao privilégio da personalidade jurídica.’ 23 (KOURY, 2002, p. 7)

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3.2.3 Origem e evolução no direito brasileiro No Brasil, a teoria da desconsideração da personalidade jurídica foi lentamente ganhando força e se desenvolvendo através de esporádicas decisões judiciais e posteriormente através dos estudos dos doutrinadores, entre estes merecem destaque Rubens Requião e Fábio Konder Comparato. Rubens Requião foi o primeiro doutrinador brasileiro a tratar do superamento da personalidade jurídica, segundo COELHO (1989, p. 33) ele trouxe duas grandes contribuições para desenvolvimento da teoria da desconsideração no Brasil. “A primeira delas foi a de ter sido o primeiro jurista nacional a cuidar do tema de forma sistematizada, em conferência [...] intitulada ‘Abuso de direito e fraude através da personalidade jurídica.’ [...]” A outra grande contribuição de Requião, também de enorme envergadura, “foi a de ter demonstrado a compatibilização existente entre a teoria da desconsideração e o Direito nacional, propugnando pela sua aplicação a despeito da ausência de dispositivo legal sobre o assunto.” (COELHO, 1989, p.33) Requião, comentando a respeito do seu pioneirismo ao tratar da questão do abuso de direito e da fraude através da personalidade jurídica, traz em sua conferência realizada na Universidade Federal do Paraná uma interessante mensagem:
Não temos lembrança, em nossas constantes peregrinações pelas páginas do direito comercial pátrio, de haver encontrado doutrina nacional ou estudos sôbre o uso abusivo ou fraudulento da pessoa jurídica, o que nos daria, se correta a nossa impressão, o júbilo de apresentá-la pela primeira vez, em sua formulação sistemática, aos colegas e aos juristas nacionais [...] (REQUIÃO, 2002, p. 752, grifo do autor).

O paranaense Rubens Requião procura conciliar uma forma de adequar a disregard doctrine ao ordenamento jurídico nacional, porém sem quebrar os princípios já consagrados que regem as pessoas jurídicas.

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A expressão “desconsideração da personalidade jurídica”, incorporada por Requião à doutrina brasileira, foi por ele mesmo traduzida do original disregard of legal entity, e a fraude ou o abuso de direito seriam elementos essenciais que autorizariam o poder judiciário a quebrar o princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica, e o efeito disto seria a possibilidade de se atingir o patrimônio dos sócios, quando do uso indevido da sociedade. Preocupa-se este jurista com o livre convencimento do magistrado, que diante da hipótese de fraude ou abuso de direito, deve ou fazer justiça e alcançar os responsáveis através da desconsideração, ou então deixar impune os responsáveis pelo mau uso da sociedade, consagrando plenamente a autonomia patrimonial, e por conseguinte, consagrando também a impunidade, esta escondida atrás da máscara de proteção que envolve a pessoa jurídica, o que sem dúvida alguma não seria fazer justiça.
No tocante aos efeitos da teoria da desconsideração da personalidade jurídica, afirma Requião: ‘o que se pretende com a doutrina do disregard não é a anulação da personalidade jurídica em toda sua a extensão, mas apenas a declaração de sua ineficácia para determinado efeito, em caso concreto, em virtude de o uso legítimo da personalidade ter sido desviado de sua legítima finalidade (abuso de direito) ou para prejudicar credores ou violar a lei (fraude).[...] Com isto, no fundo não se nega a existência da pessoa, senão que se a preserva na forma com que o ordenamento jurídico a há concebido’ (COELHO, 1989, p. 36, grifo do autor).

Outro expoente, no que diz respeito à introdução da teoria da desconsideração da personalidade jurídica no ordenamento jurídico brasileiro, foi Fábio Konder Comparato. No Brasil, foi ele o idealizador da teoria da desconsideração da personalidade jurídica com pressupostos objetivos. Critica a teoria subjetiva da desconsideração e identifica outros fundamentos para ela. Para esta formulação objetiva da teoria, bastaria tão somente a confusão patrimonial dos bens do sócio com os da sociedade, para que o judiciário aplicasse a teoria da desconsideração.

Comparato afirma que o verdadeiro critério para aplicar-se a desconsideração da personalidade jurídica está “nos pressupostos da separação patrimonial.42 Fábio Ulhoa Coelho. grifo nosso) Fábio Konder Comparato dá essas diretrizes em sua obra O poder de Controle na Sociedade Anônima. salienta que para Fábio Konder Comparato. e também no restante do trabalho. e não no uso que dela se faça [. 1989. sempre se tratará. o estudo será o do instituto da desconsideração da personalidade jurídica propriamente dita. no desaparecimento do objeto social específico (exploração de uma empresa determinada) ou do objetivo social (produção e distribuição de lucro) e na confusão do objeto social ou objetivo social e da atividade ou interesse individuais de um sócio. quando não for expressamente mencionado. onde também cita a jurisprudência norteamericana. . É importante ressaltar que a partir deste item. o efeito fundamental da personalização é a separação de patrimônios. quando se referir à teoria da desconsideração. que há tempos aplica a teoria da desconsideração. 41). causando um certo abalo na doutrina mais tradicional.1 Considerações iniciais sobre a teoria Após breves retrospectos históricos. seus pressupostos. a saber: na ausência do pressuposto formal estabelecido em lei.39-40.3. da teoria maior da desconsideração. será analisada neste item a teoria da desconsideração da personalidade jurídica em si. 3. úteis para melhor compreender o trabalho em tela. 1989. da sua formulação subjetiva. p.]” (COELHO.3 O QUE É REALMENTE A TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 3. ou seja.. seus aspectos no campo do direito processual e a desconsideração inversa. a teoria maior da desconsideração. sua aplicação. a teoria menor. visto que é esta a teoria de maior aceitação. e este efeito não se opera em algumas situações..63 (COELHO. em estudo aprofundado da matéria. p. ou seja.

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Somente quando expressamente mencionado, tratar-se-á da teoria menor, ou de formulação objetiva e de menor aceitação. No que diz respeito a um instituto jurídico, sua função, “[...] é satisfazer determinadas necessidades compatíveis com o ordenamento jurídico, utilizando-se para tanto de uma forma também compatível com o mesmo.” (KOURY, 2002, p. 66) Este é o objetivo da desconsideração, ser ao mesmo tempo compatível com o instituto da pessoa jurídica, não visando anulá-la, mas sim em determinados casos ordenar que não seja considerada a personalidade jurídica de uma sociedade quando presentes a fraude e o abuso de direito. Assim, importante é o estudo relacionado dos institutos da pessoa jurídica e da desconsideração da personalidade jurídica, pois o segundo visa de certa forma tornar sem efeito o primeiro no que tange a determinadas situações, como será a seguir demonstrado.

3.3.2 Entendendo a desconsideração Este item trata do instituto da desconsideração da personalidade da sociedade empresária, instituto profundamente relacionado com o das pessoas jurídicas, e impossível discorrer somente sobre um, sem mencionar o outro, por este motivo será repetido aqui, algumas vezes, assunto já mencionado anteriormente. As sociedades empresárias muitas vezes são utilizadas através das pessoas físicas que as comandam, para efetivar atividades que visam lesar, fraudar seus credores, ou para abuso de direito através de sua personalidade. O que “superficialmente” garante a impunidade a estas pessoas é exatamente o princípio da autonomia patrimonial, consagrado em nosso ordenamento jurídico. A teoria da desconsideração da personalidade jurídica ou disregard doctrine surgiu justamente para combater tais injustiças que freqüentemente ocorrem.

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Então, quando a atividade ilícita praticada pelo sócio encontra respaldo atrás do véu que recobre a pessoa jurídica e a distingue de seu sócio, tornando-o praticamente inatingível, cabe ao poder judiciário, em casos excepcionais, aplicar a teoria desconsideração, levantando o véu da pessoa jurídica, com o objetivo de atingir e responsabilizar este último, se presentes os requisitos que a autorizem. Maurice Wormser, citado por Requião, em seus estudos preceitua o seguinte:
‘quando o conceito de pessoa jurídica (‘corporate entity’) se emprega para defraudar os credores, para subtrair-se a uma obrigação existente, para desviar a aplicação de uma lei, para constituir ou conservar um monopólio ou para proteger velhacos ou delinqüentes, os tribunais poderão prescindir da personalidade jurídica e considerar que a sociedade é um conjunto de homens que participam ativamente de tais atos e farão justiça entre pessoas reais’ (REQUIÃO, 2002, p. 753).

O interessante da teoria de Wormser, é que mesmo datados dos idos de 1912, seus estudos sobre a desconsideração das corporates entities, continuam atuais, sendo nos dias de hoje plenamente válidos. A idéia de justiça, parece nortear sua doutrina sobre o superamento da personalidade jurídica, o que parece também estar ocorrendo atualmente em nosso ordenamento jurídico, com a positivação da disregard doctrine em várias leis. O que se pretende com a desconsideração não é anular a personalidade jurídica de uma sociedade, mas sim obter uma declaração, através do judiciário, de que esta personalidade não tem efeito em determinadas situações, como bem aponta Rubens Requião (2003, p. 378, grifo do autor): “Não se trata, é bom esclarecer, de considerar ou declarar nula a personificação, mas torná-la ineficaz para determinados atos.” O mesmo posicionamento, em favor da não anulação permanente da personalidade jurídica da sociedade, é adotado pela maioria dos doutrinadores:
Não há invalidação ou dissolução da sociedade, associação ou fundação. O que ocorre é apenas a ineficácia episódica do ato constitutivo da pessoa jurídica. Vale dizer, ela continua existente, e seus atos plenamente válidos e eficazes em relação a todos os demais negócios de que participa, estranhos à fraude perpretada.

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Assim, preserva-se a empresa e, conseqüentemente, não se atinge os interesses dos empregados, consumidores, demais integrantes da pessoa jurídica e os da própria comunidade, em razão de um ilícito praticado através da pessoa jurídica, mas pelo qual ela não é responsável (COELHO, 1995, p. 45).

Não são todas as espécies de sociedades passíveis de sofrer a desconsideração de sua personalidade, em algumas, como a sociedade em nome coletivo, conforme já visto anteriormente, todos os sócios respondem de forma ilimitada pelas obrigações desta, não sendo necessário invocar a teoria da desconsideração para atingi-los. Em outras, como as sociedades em comandita simples e a em conta de participação, somente alguns dos sócios respondem de forma não limitada, sobre eles a desconsideração não há necessidade de ser aplicada, visto que estes já têm uma responsabilidade ilimitada, mas sim somente nos demais que respondem de forma limitada, quando presentes os requisitos que a autorizem. “Assim, a desconsideração corresponde à ignorância ou não aplicação, para casos concretos, do regime jurídico estabelecido como regra para situações de que participe uma sociedade personificada (pessoa jurídica).” (JUSTEN FILHO, 1987, p. 67) “Pretende a doutrina penetrar no âmago da sociedade, superando ou desconsiderando a personalidade jurídica, para atingir e vincular a responsabilidade do sócio.” (REQUIÃO, 2003, p. 378) Interessante é o posicionamento do Advogado e professor Alexandre Couto Silva, para ele
A teoria da desconsideração assegura que a estrutura da sociedade com responsabilidade limitada pode ser desconsiderada apenas no caso concreto, atingindo-se a personalidade jurídica do sócio, tanto pessoa natural quanto pessoa jurídica, responsabilizando-o pela fraude e pelo abuso de direito, bem como nos casos em que ele se esconde atrás da personalidade jurídica da sociedade para evitar obrigação existente, tirar vantagem da lei, alcançar ou perpetrar o monopólio, ou proteger desonestidade ou crime. A idéia da busca de justiça é fator preponderante para aplicação da teoria (SILVA, 2000, p. 48, grifo nosso).

quando não possível no da própria sociedade.4 A TEORIA MAIOR E A TEORIA MENOR DA DESCONSIDERAÇÃO No Brasil.1 A teoria maior da desconsideração A teoria maior da desconsideração. Concluindo. o qual tratou de sistematizá-la. No Brasil a teoria maior foi inserida na doutrina por Rubens Requião. destacando como de maior importância a primeira. aqui seu maior elaborador. que se sentiu lesado em virtude do mau uso da personalidade jurídica da sociedade por seus sócios. como regra. é a de maior aceitação no Brasil. 34) considera que a manipulação da autonomia das pessoas jurídicas. quando aplicada em face de uma sociedade empresária. p. Esta formulação doutrinária é muito melhor desenvolvida e elaborada do que na teoria menor. 3. sem comprometer o próprio instituto da pessoa jurídica. em exemplos citados na sua obra. onde o pretendente à reparação. pois é a de maior aceitação e que está de acordo com a elaboração doutrinária original da desconsideração. este trabalho trata dessas formulações de uma forma breve. pode buscar no patrimônio pessoal dos mesmos. critérios subjetivos para ensejar a desconsideração.46 Fábio Ulhoa Coelho (2002. a desconsideração da personalidade jurídica. . enseja ela a quebra do princípio da autonomia patrimonial. mas no seu mau uso. e que o problema não está no perfil básico destas pessoas. a restituição dos prejuízos que efetivamente sofreu. Seu maior expoente na doutrina estrangeira é o alemão Rolf Serick. existem duas elaborações doutrinárias sobre a teoria da desconsideração da personalidade jurídica. O objetivo da teoria da desconsideração é possibilitar a coibição da fraude. condiciona-se à ocorrência de fraude ou abuso de direito.4. são instrumentos para a realização de fraude contra credores. ou pelo menos abuso de direito. também denominada de teoria subjetiva. A solução para evitar tais manipulações não é a abolição da autonomia da pessoa jurídica. 3.

o juiz brasileiro tem o direito de indagar. 2002. 3. p. no entendimento de Comparato. p. outorgariam ao magistrado a oportunidade de aplicar a teoria da desconsideração ao seu alvedrio. diante do abuso de direito e da fraude no uso da personalidade jurídica. A formulação menor não se preocupa em determinar se há ou não fraude ou abuso de direito na condução da sociedade através de seus sócios. Explica Fábio Coelho (2002. na fraude e no abuso. Isto a difere profundamente da teoria menor. requisitos que são de caráter subjetivo e não contemplam. em seu livre convencimento. ou se deva desprezar a personalidade jurídica. p. penetrando em seu âmago. 2000. onde este critério de subjetividade praticamente inexiste. baseia-se. Esta subjetividade está bem demonstrada no ensinamento de Rubens Requião: Ora. quando presentes no caso concreto. estaria o juiz autorizado a utilizar o seu livre convencimento para aplicá-la. a fraude e o abuso de direito. se há de consagrar a fraude ou o abuso de direito. . grifo nosso). para. 53). que nesta teoria distingue-se com clareza a desconsideração da personalidade jurídica de outros institutos jurídicos que também importam a afetação do patrimônio do sócio por obrigação contraída pela sociedade.2 A teoria menor da desconsideração A teoria menor da desconsideração é uma proposta doutrinária formulada por Fábio Konder Comparato. todo o terreno da ocorrência da teoria da desconsideração (SILVA. alcançar as pessoas e bens que dentro dela se escondem para fins ilícitos ou abusivos (REQUIÃO. devido ao caráter subjetivo que a teoria comporta.4. isto é.47 Segundo Alexandre Couto Silva A concepção subjetivista apresentada por Requião. Para a teoria maior. 35). 752. esta doutrina combate o subjetivismo da proposta original oferecida no Brasil por Rubens Requião. para a aplicação da teoria da desconsideração.

3. 94) afirma que “reputa-se ser impossível definir pressupostos para a desconsideração da personalidade jurídica societária enquanto se adote um conceito absoluto de pessoa jurídica. Coelho (2002. Onde se tem como pressuposto. um dos maiores responsáveis pelo impulso e desenvolvimento da economia. na verdade.5 PRESSUPOSTOS INAFASTÁVEIS PARA EFETIVAR A DESCONSIDERAÇÃO NA TEORIA MAIOR (A FRAUDE E O ABUSO DE DIREITO) 3. no sentido de desvincular o superamento da pessoa jurídica desse elemento subjetivo. de qualquer forma. p. Elenca. ou a falência da sociedade.48 Há uma tentativa. pois para esta visão da doutrina. quando o sócio não for insolvente. para esta formulação doutrinária a simples insolvência. 1995. então. o credor não pode sair prejudicado. fundamentam a desconsideração. de enfoque superficial. dúvida não pode haver quanto à natureza excepcional da desconsideração (COELHO. a crise do princípio da autonomia patrimonial referente às sociedades empresárias. 46) entende que esta teoria reflete. em razão da insolvabilidade ou falência desta. p. ainda que se adote uma concepção objetiva nesses moldes.” . p. É uma teoria muito menos elaborada. no seu modo de ver. São os seguintes: ausência do pressuposto formal estabelecido em lei.5. da parte de Fábio Konder Comparato. um conjunto de fatores objetivos que. enseja a quebra da autonomia patrimonial visando atingir o patrimônio particular do sócio. Mas. 45-46). o simples desatendimento do crédito titularizado perante a sociedade. Aplicar esta teoria em nosso ordenamento jurídico seria tornar ineficaz o instituto da pessoa jurídica. desaparecimento do objetivo social específico ou do objetivo social e confusão entre estes e uma atividade ou interesse individual de um sócio (197:273/275).1 Consideração sobre os pressupostos Marçal Justen Fillho (1987.

49 A lição deste grande doutrinador era totalmente procedente na época em que foi formulada. mesmo após a sua positivação no ordenamento jurídico nacional. . confirmando a possibilidade. dois pressupostos tornam-se ainda inafastáveis para aplicar-se a teoria da disregard. Isto não quer dizer que antes a teoria nunca havia sido utilizada. o que culminou com o artigo 50 do Código Civil de 2002. Após 1990. O Código de Defesa do Consumidor. de quando presentes os requisitos. A personalidade jurídica a partir de então se torna relativa pelo fato de haver uma norma expressamente autorizando a quebra deste princípio. Estes dispositivos são tratados no capítulo 4 deste trabalho separadamente. o CDC somente positivou o que antes somente existia na doutrina e na jurisprudência. em 1990 pela primeira vez declarou expressamente em nossa legislação. A partir desta inovação em nosso ordenamento jurídico. em virtude de várias mudanças e inovações ocorridas ao longo das últimas duas décadas no cenário jurídico brasileiro. pelo contrário. ao enunciar que o juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica. pois se considerava a personalidade jurídica de uma sociedade praticamente insuperável para atingir o sócio. se pode afirmar que o conceito absoluto de pessoa jurídica já não é mais o mesmo. a pessoa jurídica e o princípio da autonomia patrimonial não eram mais absolutos. Até o final da década de 80 havia no Brasil uma espécie de tabu. Essa intransponibilidade da barreira da personalidade jurídica foi transposta com uma importante inovação e evolução legislativa ocorrida no Brasil no início dos anos 90. superar-se a personalidade jurídica. Após ocorrer esta “relatividade” da personalidade jurídica. a possibilidade de aplicação da disregard doctrine. porém hoje. São eles a fraude e o abuso de direito. surgiram outros dispositivos legais. que consagrou a teoria no Brasil. isto ocorria em vista de não haver norma expressa que autorizasse desconsiderá-la.

p. de persona ad personam.. A fraude perpetrada com o uso da autonomia patrimonial de pessoa jurídica.2 A fraude A fraude pode ser caracterizada com um procedimento utilizado para iludir. 2000.” (SERPA LOPES.50 Segue-se aqui a linha de raciocínio original formulada pela doutrina. “Na definição de Clóvis. 1995. lesar os interesses legítimos do credor. e também pelo fato de não se considerar todas as hipóteses presentes no direito nacional como verdadeiros exemplos de disregard doctrine. que para a aplicação da disregard há necessidade de que não se possa responsabilizar o sócio diretamente. pode por vezes o devedor frustrar a efetivação de sua responsabilidade ou. a despeito de sua fundamental importância no regime capitalista. terão sempre a responsabilidade ilimitada (SILVA. 44). extrai-se que o instituto somente será aplicado às sociedades anônimas e as de responsabilidade limitada. Deve-se atentar para o fato de que mesmos os sócios com responsabilidade limitada nestas espécies de sociedade (mistas).] a autonomia da pessoa jurídica. Ocultando-se atrás da personalidade jurídica de uma sociedade. 1996. de qualquer forma. associação ou fundação. fraude é o artifício malicioso utilizado para prejudicar terceiro. As outras sociedades que apesar de apresentarem responsabilidade limitada para alguns sócios. . enganar. p. onde estes dois pressupostos são inafastáveis. pode dar ensejo à realização de fraudes contra a lei. 3. as quais já foram aqui estudadas. o contrato ou credores. 466) Quanto à ocorrência de fraude ligada às pessoas jurídicas Coelho esclarece que: [. em geral. como nas sociedades de responsabilidade ilimitada. 48). aqueles que exercem a gerência. Deve-se também ter em mente.5. resulta em imputar-lhe responsabilidade de um ato ou de atos praticados em seu nome apenas com o objetivo de ocultar uma ilicitude (COELHO. p.. ludibriar. são passíveis de sofrer a desconsideração quando por parte deles de algum modo houver sido praticada a fraude ou abuso de direito. Alexandre Couto Silva traz a lição explicando que Diante disso.

não para ser-lhes agradável. 107) ensina que o abuso de direito ocorre quando uma atividade lícita e legalmente permitida descontrola-se e foge dos padrões da normalidade.” (SERPA LOPES. ao exercê-lo.5. Este último afirma que para se compreender a teoria há necessidade de partir da observação de que a sociedade garante a determinadas pessoas as suas prerrogativas. 755) preceitua que a relatividade do direito da personalização leva. portanto presente a fraude. Elida Séguin (1999. à teoria do abuso do direito. 1996. e sistematizada por Josserand. excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social. pode ser considerado como abuso de direito. mas para assegurar-lhes a própria conservação. A teoria do abuso de direito foi agasalhada pelo Código Civil de 2002 em seu artigo 187. pela boa-fé ou pelos bons costumes. deve ser usados por seus titulares na mesma proporção de seus interesses e finalidades para não correr o risco de transformar-se em abuso de direito. ou seja. o qual prescreve: também comete ato ilícito o titular de um direito que.3 O abuso de direito Rubens Requião (2002.51 O uso indevido da personalidade jurídica. um direito dos sócios. o excessivo e injustificado uso de determinado instituto. 3. p. amparado pela lei. O abuso dessas prerrogativas. “O direito deve ser exercido em conformidade com o seu destino social e na proporção do interesse do seu titular. de criação dos tribunais franceses. num rápido desvio do assunto. deve o magistrado aplicar a desconsideração sob pena de estar acobertando a injustiça. não pode então ser acobertado pelo poder judiciário em virtude do princípio da autonomia patrimonial. p. 525) Portanto o instituto da pessoa jurídica. p. . e se esta for esta demonstrada plenamente.

através da quebra de sua autonomia patrimonial. não deve o magistrado acobertar a injustiça quando demonstrado o uso abusivo do instituto da desconsideração da personalidade jurídica. p. nada muda quanto aos pressupostos e demais aspectos. como o próprio nome diz. Deste modo continua a usufruí-los. razão pelo qual não se processará neste item um estudo mais apurado. é esta última que responde por dívidas ou atos praticados pelo sócio. Na desconsideração inversa. mas da pessoa jurídica que está sob seu controle. E também como já mencionado nos casos de fraude.52 Aqui o legislador não buscou definir as hipóteses de incidência.6 A DESCONSIDERAÇÃO INVERSA A desconsideração inversa enseja que se aplique os mesmos princípios da desconsideração da personalidade jurídica já estudada. então pode ser conceituada como o afastamento do princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica para responsabilizar a sociedade por obrigação do sócio. a fraude que a desconsideração invertida coíbe é basicamente o desvio de bens. por ato praticado pelo sócio. mas traçou as linhas gerais que visam combater o abuso de direito. apesar de não serem de sua propriedade. 3. . A desconsideração inversa. Para Coelho (2002. na inversa. a ordem de responsabilidade ocorre no sentido oposto. neste caso o que se busca é a responsabilidade perante os bens da sociedade. isto é. 45). Pela desconsideração tradicional busca-se responsabilizar o sócio por obrigações contraídas pela sociedade. onde o devedor os transfere para a pessoa jurídica sobre a qual detém o absoluto controle.

Se a sociedade não é sujeito passivo do processo legitimado a outro título. 55) que o juiz não pode desconsiderar a separação entre a pessoa jurídica e seus sócios senão através de ação própria. desconsiderada. desta vez de procedimento cognitivo. então a sua participação na relação processual como demandada é uma impropriedade. Se a personalização da sociedade empresária será abstraída. para ver responsabilizado o sócio responsável pela conduta fraudulenta. . ele ainda não possuí título executivo contra o responsável pela fraude. devendo o processo ser extinto. caso indicada como ré (COELHO. 55) Pela teoria maior da desconsideração. Coelho (2002. de caráter cognitivo.53 3. p. 2002. ignorada pelo juiz. em despacho no processo de execução. 55) entende que se o credor obtém em juízo a condenação da sociedade. em relação à sua pessoa. se o autor não pretende a sua responsabilização. deve fazer isso através de uma ação com procedimento adequado que possibilite a ampla produção de provas. Afirma Coelho (2002. então ela é parte ilegítima. ajuizar nova ação. não pode o magistrado declarar a quebra do princípio da autonomia patrimonial. obstando seu direito reconhecido em juízo. p. este procedimento é o processo de conhecimento.7 A QUESTÃO PROCESSUAL Quando o credor pretender que seja desconsiderada a personalidade jurídica de uma sociedade empresária. em virtude de fraude na manipulação da autonomia da pessoa jurídica. p. sem julgamento de mérito. mas a de sócios ou administradores. não deve propor demanda contra esta última. e ao promover a execução constata o uso fraudulento da sua personalidade jurídica. e sim contra os primeiros. Desta forma deve o credor. Nesta ação o credor deverá demonstrar a presença do pressuposto fraudulento. Quem pretende imputar aos sócios de uma sociedade empresária responsabilidade por ato social.

54 “Não é correto o juiz. p. acabam os embargantes sendo responsabilizados sem o devido processo legal. ambos garantidos pela Constituição Federal de 88. p. que neste caso está sendo subtraído do demandado o direito a ampla defesa e ao devido processo legal. baseados no pressupostos da insolvabilidade e insatisfação do crédito simplesmente. 56) diz respeito ao fato de que os juízes que adotam a teoria menor da desconsideração. Pode-se afirmar. No processo de execução esses juízes determinam a penhora de bens de sócios e administradores e consideram os eventuais embargos de terceiro como o local apropriado para apreciar a defesa destes. tornam a discussão mais simplificada. . porque isto significaria uma inversão do ônus probatório. 2002. na execução. transferindo para eventuais embargos de terceiros a discussão sobre a fraude.55) Outro aspecto tratado por Coelho (2002.” (COELHO. Como não participaram da lide durante o processo de conhecimento e não podem rediscutir a matéria alcançada pela coisa julgada. simplesmente determinar a penhora de bens do sócio ou administrador.

1 CRONOGRAMA DA EVOLUÇÃO DA TEORIA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO Como já afirmado anteriormente neste trabalho. A teoria da desconsideração da personalidade jurídica está presente tanto na jurisprudência como na doutrina desde o início da década de 70 no Brasil. mas também é certo que esta teoria chegou para ficar. as quatro leis a seguir elencadas. nos textos de lei. onde serão matérias de estudo. pois o legislador brasileiro já a adotou expressamente em quatro Leis e consagrou-a no Código Civil de 2002.4 A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO 4. . especificamente. já há muito desejada pelo consumidor brasileiro. ou seja. Direito de Família. e demais leis que porventura parte da doutrina entenda como casos de desconsideração. Direito Tributário. ela chegou de forma expressa somente no ano de 1990. o qual proporcionou uma notável conquista. A aparição da desconsideração na legislação brasileira aconteceu quase dois séculos após as primeiras decisões norte-americanas. Indiscutível é o avanço que se deu somente em pouco mais de uma década no Brasil. passando pela formação doutrinária de Rolf Serick e posteriormente Rubens Requião no Brasil. pois nestes e outros casos. não é propósito o estudo da disregard doctrine. muito se fez em apenas uma década. ou teoria da desconsideração. pois se compararmos a omissão do legislador desde as primeiras decisões jurisprudenciais norte-americanas. O presente trabalho apenas tratará da desconsideração no direito positivo brasileiro. com o advento do Código de Defesa do Consumidor. etc. no Direito do Trabalho. esta teoria não está explicitamente positivada. mas no direito positivo brasileiro.

que tem por objetivo prevenir e reprimir infrações contra a ordem econômica. o grande avanço se deu com a entrada em vigor do Novo Código Civil brasileiro de 2002. Indiscutível então. seguiu-se no ano de 1994. 1998. a lei de Crimes Ambientais. onde a cada quatro anos. .56 A partir do advento da teoria da desconsideração no Código de Defesa do Consumidor em 1990.1 O Surgimento do CDC Pode-se concluir que com o surgimento das grandes corporações. mas se deve atentar para alguns equívocos praticados pelo legislador nos dispositivos legais que a contemplam. e recentemente com o fenômeno da globalização. empresas. ao longo dos últimos 100 anos ou um pouco mais. 1990. no âmbito do Direito Penal e Ambiental.2. onde está claramente positivada a teoria da desconsideração. que acatando o que já nos trazia a doutrina e a jurisprudência. Resumindo. mais precisamente em 1998. mais uma incorporação desta teoria na legislação pátria com a Lei Antitruste. 4. foi avanço proporcionado pela positivação da teoria da desconsideração em nosso ordenamento jurídico. adotou a teoria em seu texto. 1994. Podemos então confirmar um dado curioso. pode-se fazer o seguinte retrospecto cronológico: 2002. houve mais uma introdução da desconsideração da personalidade jurídica no nosso sistema legal. companhias etc. o que será estudado a seguir. houve um enorme desequilíbrio nas relações de consumo. Quatro anos depois. traz regra inserta no seu artigo 50. o legislador brasileiro avançou um pouco para cristalizar a desconsideração da personalidade jurídica no nosso sistema legal. Contudo.2 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR 4.

a desconsideração da personalidade jurídica (ROCHA. fundamentado em doutrinas estrangeira e nacional. é a defesa do consumidor. mas não somente estas. No artigo 170 inciso V. a defesa do consumidor. visto que. trouxe. diante do outro pólo da relação de que fazem parte. 1999. Salienta Antonio do Rêgo Monteiro Rocha: Como o direito regulado no art. do Código Civil [referindo-se ao antigo Código Civil de 1916]. que objetiva equilibrar as relações de consumo. 28. da chegada em nosso ordenamento jurídico do Código de Defesa do Consumidor. Ambos. pois mesmo diante de empresas.º 8. 120). o consumidor tornou-se a parte fraca da relação. como também em crescente jurisprudência do Brasil.57 Isto ocorreu face o tremendo poder disponível a serviço das grandes empresas. o consumidor não dispunha de um instrumento eficaz. ou sociedades empresárias de menor porte. o consumidor e o trabalhador podem ser considerados hipossuficientes. fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa. veio sendo usado irregular e imoderadamente. p. É valido fazer uma comparação. E finalmente. determina que o Estado promoverá. o legislador brasileiro do CDC. mais conhecida como Código de Defesa do Consumidor. Assim surgiu a Lei n. no artigo 48 no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. A constituição Federal de 1988 no seu artigo 5. determina que seja elaborado o Código de Defesa do Consumidor. a CLT. à chegada das Leis Trabalhistas. na época o cidadão. .º inciso XXXII. na forma da lei. em seu art. causando prejuízos a terceiros e aos consumidores. 20. embora ocorrida em momentos e num contexto diferente. preceitua que um dos princípios da ordem econômica. que lhe desse segurança quando se sentisse lesado por parte de uma grande empresa ou corporação.078 de 11 de setembro de 1990.

O caput do artigo 28 do CDC é claro quando expressa que o magistrado “poderá” desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando ocorrer alguma das hipóteses (parte da doutrina entende não serem todas as hipóteses elencadas no artigo. visto que o objeto de estudo deste capítulo é somente a “desconsideração” no CDC. sobre o qual não se fará análise aprofundada. houver abuso de direito. A desconsideração também será efetivada quando houver falência. o qual preceitua o seguinte: o juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando. em detrimento do consumidor. Ao que tudo indica.2. a expressão “poderá” foi empregada de forma infeliz pelo legislador. pois comporta duas dúvidas a seguir explicitadas.º do citado artigo. ainda que não determináveis. casos de desconsideração da personalidade jurídica. de alguma forma. O conceito de consumidor está no próprio artigo 2º do CDC e seu parágrafo único. obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. do qual pode-se extrair que consumidor é toda pessoa física ou jurídica. excesso de poder. fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. estado de insolvência. hipóteses do artigo 28 Após breve histórico sobre surgimento do CDC. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração. mas para fins didáticos as utilizaremos aqui) ensejadoras da desconsideração indicadas no mesmo caput ou no parágrafo 5. infração da lei.º do mesmo dispositivo traz ainda: também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for. atenta-se agora para o conceito de consumidor. então não serão tratados dos seus pormenores e nem sobre o que diz respeito às relações de consumo. que haja intervindo nas relações de consumo. O parágrafo 5. a coletividade de pessoas.2 A desconsideração da personalidade jurídica. que adquire ou utiliza algum produto ou serviço como destinatário final. . A desconsideração da personalidade jurídica encontra respaldo no artigo 28 do CDC. como demonstrado a seguir.58 4. equiparam-se ao consumidor também.

Então surge a dúvida quanto ao fato de ser ou não obrigatória a desconsideração por parte do magistrado quando presentes os requisitos elencados logo após a segunda expressão. esta. Seguindo a transcrição literal do artigo 28. de alguma forma. em todas as hipóteses elencadas no artigo 28. diz respeito se constitui uma mera faculdade do magistrado aplicar a desconsideração da personalidade jurídica à sociedade ou se esta expressão “poderá” deve ser convertida obrigatoriamente em “deverá” quando presentes os requisitos elencados no artigo. . pode-se interpretar o artigo de uma forma não literal. ou seja. onde temos que o magistrado terá a “faculdade”. No que alude à expressão “a desconsideração também será efetivada”. deverá ser entendida da mesma forma. estado de insolvência. A segunda dúvida se constitui no seguinte: o caput do artigo traz uma vez a expressão “poderá” e logo após a expressão “A desconsideração também será efetivada”. violação dos estatutos ou contrato social. pelo fato de estar inserida a palavra “também” em seu contexto. fato ou ato ilícito. então ele poderá utilizar o instituto da desconsideração quando houver falência. se esta foi a sua intenção. obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. quis conferir ao magistrado um “poder-dever”. Contudo resta saber o seguinte: se quando o legislador aplicou no texto a expressão “poderá”. como uma faculdade do magistrado. encerramento ou inatividade de pessoa jurídica provocados por má administração. infração de lei.59 A primeira. o magistrado. então. “poderá” utilizar o instituto da desconsideração nos seguintes casos: quando em detrimento do consumidor houver abuso de direito. e ainda quando sempre que a personalidade jurídica for. excesso de poder. presente os requisitos. teria o dever de aplicar a teoria. e elenca as hipóteses em que ocorrerá cada um dos casos.

. p. não cabe a este trabalho discutir. e se proposital ou não este descompasso criado pelo legislador. sob pena de quebra da escala de valores instituída por ordem legal (KRIGER FILHO. como a seguir será demonstrado. torna obrigatório ao magistrado chamar à responsabilidade aos sócios que estavam na direção da empresa na ocasião da ofensa ao consumidor.] a expressão ‘poderá desconsiderar' não encerra em si uma simples faculdade outorgada ao magistrado a ser usada a seu alvedrio mas. 49). conforme o caso. que entre os fundamentos legais que ensejam a teoria da desconsideração no CDC encontram-se hipóteses que não caracterizam a teoria da desconsideração e sim a responsabilização de administrador. Outras imperfeições no tocante a formulação original da disregard doctrine ocorrem com o dispositivo em estudo. também não devemos duvidar de sua capacidade de expressão e redação. E também se omite a fraude. sendo. uma fonte de incertezas e equívocos. esta dissonância entre o texto legal e a doutrina não traz nenhum benefício para a tutela dos consumidores.60 Há.. 1994. mas tudo indica que. que nem todos os casos elencados pelo artigo 28 correspondem à aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. pois se o mesmo realmente estivesse com a intenção de conferir um “poder-dever” ao magistrado. 22). temos o ensinamento de Domingos Afonso Kriger Filho. em vista de que não se deve simplesmente presumir o que efetivamente quis o legislador. Salienta Fábio Coelho (2002. portanto. Entende parte da doutrina. p. No sentido de ser um dever do magistrado aplicar a teoria da desconsideração.. para ele a expressão “poderá” não seria uma “faculdade” do magistrado: [. foram propositadamente inseridas pelo legislador. que se discordar desta hipótese. embora haja entendimento contrário. tudo indica que teria ele feito isto por completo no artigo supramencionado. apesar das impropriedades técnicas. salvo raríssimas exceções. o que não pressupõe nenhum superamento da personalidade jurídica. mas sim demonstrar efetivamente a existência desta divergência. principal fundamento para a desconsideração. ao contrário. no entanto.

de maneira alguma. em princípio. p. e a existência da pessoa jurídica não a obsta. (5) e (6). violação dos estatutos ou contrato social ou por qualquer outra modalidade de ilícito (COELHO. (6) encerramento ou inatividade de pessoa jurídica provocados por má administração. são eles referentes à responsabilidade do sócio ou representante legal da sociedade empresária por ato ilícito próprio. p. provoca danos a terceiros. não há porque cogitar do superamento de sua autonomia. foram feitas pelo legislador com intuito de introduzir pressupostos novos à teoria da desconsideração. em virtude de comportamento ilícito. 50) entende de forma diferente no que alude às hipóteses de (1) infração de lei. Não há. se a existência da pessoa jurídica não é obstáculo à responsabilização de quem quer que seja. tem pertinência apenas quando a responsabilidade não pode ser. diretamente imputada ao sócio. e quando houver (4) falência. Se a imputação pode ser direta. seriam eles casos de responsabilidade por má administração. como salientam os próprios autores do anteprojeto: . entretanto. que a omissão da fraude. A circunstância de o ilícito ter sido efetivado no exercício da representação legal de pessoa jurídica. controlador ou representante legal da pessoa jurídica. e quanto aos primeiros três elementos. A teoria da desconsideração. em nada altera a responsabilidade daquele que. controlador ou representante legal da pessoa jurídica. portanto desconsideração da pessoa jurídica na definição da responsabilidade de quem age com excesso de poder. estes elementos presentes em parte do caput do artigo 28 não seriam caso de desconsideração da personalidade jurídica e sim pertinentes a tema societário diverso. E quando alguém. Não há nenhuma dificuldade em estabelecer essa responsabilização. infração da lei. ou em função da qualidade de sócio ou controlador. ilicitamente. já quanto aos últimos (4). inclusive consumidores. a inserção de hipótese de má administração e hipóteses que dizem respeito a tema societário diverso. Parece. Nesse caso. (2) fato ou ato ilícito.50-51.61 Coelho (2002. na qualidade de sócio. decorrente do ilícito em que incorreu. quando a personalização da sociedade não impede que o administrador tenha que ressarcir os danos causados. (5) estado de insolvência. (3) violação dos estatutos ou contrato social. causa danos a terceiros. grifo nosso). Para ele. estará respondendo por obrigação pessoal. no entanto. 2002. como visto. responde pela indenização correspondente.

Primeiro: porque contraria os fundamentos teóricos da desconsideração. Note-se que a referência. pois se assim fosse. grifo nosso). mas não assim a sanção administrativa inflingida ao fornecedor em razão desse dano. teríamos que um simples prejuízo. Salienta que esta interpretação não deve prevalecer em vista de três motivos. 195).. A pessoa jurídica só poderia ter sua personalidade desconsiderada em caso de fraude ou abuso de direito e a simples insatisfação do credor não autoriza. constitui sociedade empresária para agir por meio dela. no caso de exegese literal. sem o apelo à teoria da desconsideração.º do artigo 28 do CDC. Terceiro: porque essa interpretação seria o equivalente a eliminar o instituto da pessoa jurídica no âmbito do direito do consumidor. visto que o mesmo traz hipóteses autorizadoras do superamento da personalidade da jurídica da sociedade.. para furtar-se ao seu cumprimento. Coelho (2002. ou dano que afetasse seu patrimônio do consumidor. p. e. a norma para operacionalizá-la poderia ser direta. a autonomia da pessoa jurídica pode ser desconsiderada justamente como forma de evitar que a burla aos preceitos da legislação consumerista se realize.].] como pertinente apenas às sanções impostas ao empresário. já ensejaria a aplicação da teoria da desconsideração. Se determinado empresário é apenado com essas sanções. Para uma melhor interpretação do parágrafo 5. de caráter não pecuniário. pura e simplesmente) encerrar suas atividades como pessoa jurídica (GRINOVER et al. a ‘ressarcimento de prejuízos’ importa que o dano sofrido pelos consumidores tenha conteúdo econômico.. pois é a primeira vez que o direito legislado acolhe a teoria da desconsideração sem levar em conta a configuração da fraude ou do abuso de direito. por descumprimento de norma protetiva dos consumidores. se esta tivesse sido a intenção da lei. no texto legal. . p. ainda. o dispositivo pode ser aplicado pelo juiz se o fornecedor (em razão da má administração. 2002. De fato. a proibição de fabricação de produto e a suspensão temporária de atividade ou fornecimento [. (COELHO.. Segundo: porque seria letra morta o caput do artigo 28.. Neste sentido é valiosa a lição de Fábio Coelho: Dessa maneira. 1998. melhor seria que esta não fosse a literal. preceitua que uma rápida leitura deste dispositivo pode sugerir que a simples existência de prejuízo patrimonial arcado pelo consumidor já ensejaria a aplicação da teoria aqui em destaque. conforme a teoria maior da desconsideração.51-52) reportando-se ao parágrafo 5º do artigo 28. por sí só a desconsideração. deve-se entender o dispositivo em questão [. Por exemplo.52. p.62 O texto introduz uma novidade.

para um melhor aproveitamento do estudo da desconsideração na Lei n. como bem explana Requião: . e reprimir as infrações conta a ordem econômica. Inicialmente. ficando os acionistas privados do exercício do voto. traz regra em seu texto preceituando que a lei deverá tutelar o livre mercado. 1976. ‘trust’) – Reunião ou fusão de várias companhias em uma só.º da Constituição Federal de 1988. tem-se então a uma breve definição: TRUSTE (do ing. e. principalmente após a Segunda Guerra Mundial. assim. é necessário ter uma noção básica sobre o significado da palavra truste.3 APLICAÇÃO DA DESCONSIDERAÇÃO NA LEI ANTITRUSTE 4.º 8.884/94. embora conservem o direito de participar dos lucros que se verificarem (NUNES. que dirige os negócios comuns.º 8. dominar o mercado.3. p.884 de 11 de junho de 1994. pode-se concluir que o truste. com o fim de monopolizar de fato determinada indústria. suprimir a livre concorrência. Simplificando o ensinamento acima. 849).63 4. ou seja. seria uma espécie de aglomeração de várias empresas visando dominar determinado nicho do mercado e com isto obter lucros de maior monta. resumidamente. a Lei n. prevenir. no ano de 1994. com o objetivo de transformar o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) em autarquia.1 Breve consideração sobre o truste e a lei que tutela o livre mercado O artigo 176 parágrafo 4. mais conhecida como Lei Antitruste brasileira. Esse sindicato de fabricantes se organiza pela transferência da totalidade ou maioria das ações a um comitê central. reprimir o abuso do poder econômico que vise à dominação dos mercados. à eliminação da concorrência e o aumento arbitrário dos lucros. Isso começou a ocorrer. Surgiu assim. obter proventos maiores com a elevação do preço dos produtos.

passaram a constituir a inexorável técnica do capitalismo ascendente e vitorioso nos países de economia desenvolvida. após a Segunda Grande Guerra de 1939 (REQUIÃO. cada vez mais dimensionados. perdendo consistência técnica (COELHO.2. que o artigo 18 da Lei Antitruste foi criado com base no do caput do artigo 28 do Código de Defesa do Consumidor. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração. 2002. p. segue então o estudo da Lei Antitruste. transcendendo aos lindes territoriais das nações. O legislador neste caso somente suprimiu os parágrafos constantes do artigo 28 do CDC. no que diz respeito à teoria da desconsideração da personalidade jurídica.). O fenômeno mais se acentuou e terminou por ser universalmente reconhecido. 1988. estado de insolvência. Konzerns etc. Está demasiadamente claro. que ocorreu uma das primeiras decisões judiciais acerca da disregard doctrine nos Estados Unidos (caso Standard Oil). tratando do tema. A desconsideração também será efetivada quando houver falência. excesso de poder. Desse modo. a segunda referência legal à desconsideração no direito brasileiro também não aproveitou as contribuições da formulação doutrinária. 53). Fábio Coelho. 4.64 Os grupos societários (trustes.] a redação infeliz do dispositivo equivalente do Código de Defesa do Consumidor. conforme estudado no item 3. 286) Após estas considerações iniciais. assim posiciona-se em relação a esta matéria: [..3. fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. infração da lei. visto que o artigo comporta basicamente os mesmos problemas encontrados no caput do seu correspondente na lei do consumidor. se não foi uma cópia explícita. e parece que acertadamente. E foi justamente na seara das leis antitruste.. cartéis. . acabou incorrendo nos mesmos desacertos.1 deste trabalho.2 A lei antitruste e a desconsideração: uma cópia do artigo 28 do CDC Preceitua o artigo 18 da mencionada lei: a personalidade jurídica do responsável por infração da ordem econômica poderá ser desconsiderada quando houver da parte deste abuso de direito. p.

praticamente. 2000. 52). 2002. Nelson Nones. são praticamente as mesmas aqui apontadas. p.2.. p. Como bem aponta Coelho (2002. Deve-se ressaltar que quando a sociedade é utilizada para obtenção de monopólio. estado de insolvência. são duas as hipóteses de desconsideração da personalidade jurídica visando proteger o livre mercado: 1) quando houver infração contra a ordem econômica e 2) na aplicação da sanção. o excesso de poder. exemplifique-se a proibição de licitar.65 As críticas apontadas no item 4. a desconsideração pode muito bem ser aplicada para verificar a existência de abuso de poder econômico. infração à lei.. que trata da desconsideração no CDC.’ (NONES. de conduta infracional. 55). em seu artigo 18. excesso de poder. revelou-se uma adaptação do artigo 28 do Código Proteção [sic] e Defesa do Consumidor. as mesmas hipóteses de incidência previstas no Código de Defesa do Consumidor. Referindo-se à primeira hipótese. ensina que a lei antitruste [. Na aplicação da sanção. reafirmando erroneamente. como hipóteses de aplicação da teoria. nos dá importante contribuição sobre a teoria da desconsideração no que alude à Lei Antitruste: A lei antitruste (lei 8. 123) Alexandre Couto Silva. ‘A personalidade jurídica do responsável por infração da ordem econômica poderá ser desconsiderada quando houver da parte deste abuso de direito. . às outras sociedades que tenham objeto idêntico ou semelhante porventura existentes entre os mesmos sócios. p. a doutrina dominante assim também se posiciona. em excelente obra sobre as sociedades unipessoais. A penalidade imposta deve ser estendida. A desconsideração também será efetivada quando houver falência. a autonomia das pessoas jurídicas não pode servir de obstáculo. fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou do contrato social. a falência ou estado de insolvência e o encerramento ou inatividade por má administração. ao preceituar que. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração. com vista à proteção do interesse público (SILVA. através da desconsideração. permanecendo o abuso de direito como única hipótese justificadora da desconsideração da personalidade jurídica.] traz.884).

2. Ocorre ainda a omissão da fraude por parte do legislador. sem discutir a eficácia e aplicabilidade da lei antitruste. 1995. que visa proteger o livre mercado. não são todos os casos elencados pelo artigo. O legislador simplesmente efetuou uma cópia do artigo 28 do CDC sem preocupar-se com algum eventual desacerto que isto poderia trazer. em virtude de algumas impropriedades técnicas utilizadas pelo legislador no artigo 18 da mencionada lei. c) falência. ao contrário. poderá ser fonte de incertezas e equívocos. o abuso de direito. infração da lei. somente o elencado na letra a.46-47). também entende ser realmente correspondente à teoria da desconsideração. e esta é o “principal fundamento para a desconsideração. hipóteses que ensejam a responsabilização do administrador. b) o excesso de poder.66 Existem neste dispositivo legal. estado de insolvência. p. conforme já tratado no item 4. fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. 46) Coelho (1995. Quanto às outras hipóteses. Este autor. como será demonstrado a seguir. p. . Dá análise do conteúdo deste item. pois conforme já tratado.2 correspondente à desconsideração no CDC. o que não é caso de desconsideração da personalidade jurídica. ainda tratando do assunto explica que os fundamentos legais para a aplicação da teoria da desconsideração na tutela das estruturas do livre mercado são: a) o abuso de direito. ele as considera como não sendo casos de desconsideração. A dissonância entre o texto legal e a doutrina nenhum proveito trará à aplicação da legislação antitruste.” (COELHO. pode-se concluir que a desconsideração da personalidade jurídica neste dispositivo legal comporta os mesmos desacertos encontrados no Código de Defesa do Consumidor. hipóteses de desconsideração da personalidade jurídica. no que se refere à lei antitruste. encerramento ou inatividade provocados por má administração.

havia uma legislação específica sobre diversos setores do ambiente. foi a sociedade brasileira. onde as primeiras espécies de infrações ganharam tanta relevância. . o Ministério Público e demais órgãos ambientais receberam um instrumento mais forte para combater as infrações contra o ambiente. como uma resposta às constantes agressões que o ambiente vinha sofrendo.605 Antes de entrar em vigor a Lei de Crimes Ambientais. de uma forma mais ampla. etc. surgiu então no ano de 1998. deste modo a maior beneficiária desta lei. mais eficiente. 4. p. Havia a necessidade de uma legislação que tutelasse de uma forma geral. Elida Séguin e Francisco Carrera (1999. 33) explicam que era o grande sonho dos ambientalistas brasileiros a edição de um Código Ambiental. pesca. caça. flora.605. onde ficasse consubstanciada de uma forma sistemática e holística a regulamentação do Direito Ambiental. que este diploma legal ficou conhecido como Lei de Crimes Ambientais.67 Ao que tudo indica somente o abuso de direito é o que corresponde à aplicação da teoria da desconsideração. a Lei de Crimes Ambientais. Quando esta lei entrou em vigor.1 A unificação parcial da legislação ambiental com o advento da lei 9. mas esta lei não revogou as legislações anteriores. o ambiente em que vivemos. Eram tuteladas em diferentes leis as águas. ou meio ambiente. fauna. os outros correspondem à responsabilidade do sócio ou representante legal da sociedade por ato ilícito por ele praticado ou responsabilidade por má administração. E a Lei 9.4. como preferem muitos. visto que somente modificou a parte penal. disciplinou as infrações penais e administrativas.4 APLICAÇÃO DA DESCONSIDERAÇÃO NA LEI DE CRIMES AMBIENTAIS 4.

º da Lei 9. para caracterizar a aplicação da teoria da desconsideração. com conseqüente prejuízo.2 A desconsideração da personalidade jurídica no artigo 4. este estaria em desacordo com a teoria da desconsideração. que trata das sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente.º: poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados à qualidade do meio ambiente. Desta feita. contém regra expressa inserta no seu artigo 4. fazendo-os ressarcir o prejuízo. 53). quando houver uma manipulação fraudulenta da autonomia patrimonial visando escapar da responsabilidade de recompor os prejuízos causados. pois havendo dano ao meio ambiente.º no tocante à desconsideração da personalidade jurídica. a Lei n.4.. Preceitua o artigo 4.605 de 12 de fevereiro de 1998.68 4.. Não comporta nenhuma dúvida este artigo na questão referente a sua interpretação.] na busca da responsabilização civil do dano ambiental. poderá o magistrado aplicar a teoria. impropriedade em que incorreu ao editar o Código de Defesa do Consumidor e a Lei Antitruste (COELHO. poderá o juiz desconsiderar a pessoa jurídica para atingir os culpados. Assim. p. a Lei de Crimes Ambientais também contempla a aplicação da chamada desconsideração da personalidade jurídica” (CAVALLAZZI FILHO. isto é. 2001). assim também se posiciona Fábio Ulhoa Coelho em interessante exemplo: . quando a personalidade jurídica da sociedade for obstáculo para a recomposição do dano ou prejuízos.605 Tullo Cavallazzi filho explica que “[. Mas o obstáculo a que se refere o artigo 4. deve ser criado de forma fraudulenta. Isto se deve ao fato de que se assim não fosse interpretado o artigo. não cabe criticar o legislador por confundir a desconsideração com outras figuras do direito societário. 2002.º 9.º.

para tentar escapar à responsabilidade. da teoria da desconsideração. . por conseguinte. ele traz uma regra geral.. Se determinada sociedade empresária provocar sério dano ambiental. grifo do autor). 4. p. também.] não se pode. na qual passem a concentrar seus esforços e investimentos.. pois a responsabilidade da pessoa jurídica não exclui a da pessoa física. a disregard theory pode ser aplicada no caso de insuficiência do patrimônio da empresa.]. mas. serão decisivos para a correta aplicação da lei. p.. a manipulação fraudulenta da autonomia patrimonial não poderá impedir a responsabilização de seus agentes. na composição dos danos à qualidade do meio ambiente. conforme valor fixado na execução civil da sentença (art. Quer dizer. com sede. Provada a simulação.º indica apenas um “norte” ao magistrado. que da atividade da primeira tira proveito (SÉGUIN. pois esta lei não descreve as hipóteses que ensejariam a desconsideração. deixando a primeira minguar paulatinamente [. por meio da desconsideração das autonomias patrimoniais. Deve ser comprovada a fraude contra o credor e que a personalidade jurídica esteja sendo usada para salvaguardar os bens dos sócios. em conjunto com a com os pressupostos da teoria maior da desconsideração.. recursos e pessoal diversos. a execução do crédito ressarcitório no patrimônio das duas sociedades (COELHO. 53). e. onde a prudência e o discernimento. será possível. interpretar a norma em tela em descompasso com os fundamentos da teoria maior. 2002.69 [. 20 parágrafo único da LCA). Deve-se dar atenção para o fato de que o artigo 4. Cabe então ao judiciário avaliar o caso concreto. 2002. Neste sentido também temos a lição de Elida Séguin: O art.º da LCA expressamente admite a desconsideração da personalidade jurídica sempre que ela for obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados à qualidade do Meio Ambiente. 399. os seus controladores constituírem nova sociedade.

º 10. clamava por leis mais atuais. mais conhecida como Código Civil brasileiro. correspondentes à nova realidade. mas artigo sofreu alterações nesta fase.70 4.1 A desconsideração no projeto do Código Civil É notável o avanço trazido pelo Código Civil de 2002 em vários aspectos. ainda no ano de 1998. trazia no seu texto um padrão moral que não mais se adaptava à realidade de hoje. Explica. Dentre muitas das inovações trazidas pelo novo Código Civil podemos destacar o artigo 50. Surgiu então a Lei n. O antigo código. Então em 18 de junho de 1974 foi publicado o anteprojeto do Código Civil. finalmente entrou em vigor na forma de lei no ano de 2003. por todos conhecida.5. e. que após resultou no Código Civil de 2002.5 A DESCONSIDERAÇÃO NO CÓDIGO CIVIL DE 2002 4. totalmente desatualizado em face da nova realidade social brasileira não mais comportava dispositivos que atendessem aos anseios da nova sociedade urbana brasileira. A sociedade. Marcelo Gazzi Taddei: . se deu através de proposta oferecida por Rubens Requião.406 de 10 de janeiro de 2002. ou Código Civil de 2002. correspondente à teoria da desconsideração da personalidade jurídica. visto que o antigo Código de 1916. nos anos de 1995 e 1997 este anteprojeto foi aprovado sucessivamente pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal após muitas emendas. em constante processo de modernização. criado na primeira década do século XX. A inserção da teoria da desconsideração no projeto do Código Civil pela Comissão Revisora.

p. conjuntamente com os da pessoa jurídica. o Senador Josaphat Marinho. ou seja. Este artigo original do projeto. 1998. que recentemente sofreu alteração por meio da emenda do relator do projeto. Outra impropriedade encontrada no dispositivo em questão é o fato de o sócio não ser mencionado como passível de responder com seus bens pela má conduta da pessoa jurídica. para servir de instrumento ou cobertura à prática de atos ilícitos. como pesquisador do programa PIBIC/UNESP/CNPq. A desconsideração não comporta a dissolução da pessoa jurídica. ou seja. e sim a ineficácia da autonomia patrimonial somente em relação ao ilícito praticado. sob a orientação do Professor Doutor Luiz Antonio Soares Hentz. não corresponde em parte à formulação da teoria da desconsideração. atendento à sugestões de juristas. desrespeitando o princípio básico da desconsideração. responderão. entre as quais. pois o antigo texto do dispositivo não traduzia devidamente a teoria da norma. 31). Parágrafo único – Neste caso. p. 50. a enviada por nós. Em seguida Taddei transcreve o antigo artigo 50 do projeto: ‘A pessoa jurídica não pode ser desviada dos fins que determinaram a sua constituição. . ou abusivos. sem prejuízo de outras sanções cabíveis. decretar-lhe a dissolução. a autonomia patrimonial é afastada no caso concreto momentaneamente. a preservação da pessoa jurídica naquilo que não se relaciona com o ilícito praticado (TADDEI. somente os administradores ou representantes são citados pelo dispositivo. 50. 30-31).71 O projeto do novo Código Civil trata da desconsideração em seu art. encaminhada como proposta de emenda modificativa ao art. o que foi corrigido pelo legislador no Código Civil de 2002. os bens pessoais do administrador ou representante que dela se houver utilizado de maneira fraudulenta ou abusiva. 1998. a requerimento do lesado ou Ministério Público. caso em que caberá ao juiz. salvo se norma especial determinar a responsabilidade solidária de todos os membros da administração’ (TADDEI.

5. ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo. Assim também é o posicionamento de Suzy Koury: . não é este o objetivo da desconsideração. a possibilidade de ser decretada a dissolução da pessoa jurídica. pois o mesmo embora possua algumas impropriedades. como nos outros já estudados. p. pode o juiz decidir. é considerada a inserção em nossa Lei Civil. que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica. mas contempla uma norma destinada a atender as mesmas preocupações que nortearam a elaboração da disregard doctrine. expressa no dispositivo em destaque. Este dispositivo. do artigo 50. o Código Civil de 2002 não contempla nenhum dispositivo com referência específica à desconsideração da personalidade jurídica. Se assim não fosse este trabalho estaria se furtando ao seu objetivo. que é o estudo da desconsideração da personalidade jurídica no direito positivo brasileiro. ou pela confusão patrimonial. este será tratado como autêntico caso de desconsideração. Conforme ensina Fábio Ulhoa Coelho (2002. como a consagração da teoria no direito brasileiro.4. a requerimento da parte.72 4. tem o claro objetivo de aplicar a teoria quando presentes os requisitos por ele elencados. pois conforme já apontado. foi inspirado na formulação objetivista da teoria da desconsideração proposta por Fábio Konder Comparato. embora não exista a palavra desconsiderar ou desconsiderada. Por este motivo.2 A desconsideração no Código Civil de 2002 O artigo 50 do Código Civil brasileiro de 2002 preceitua o seguinte: em caso de abuso da personalidade jurídica.2 deste trabalho. Por este motivo. caracterizado pelo desvio de finalidade. 53-54). O grande acerto do legislador foi retirar do texto original do artigo 50 do projeto. aliás. matéria já tratada no item 3.

grifo do autor). reconhece sua importância para o desenvolvimento das atividades econômicas e apenas admite a superação do princípio da autonomia patrimonial quando necessário à repressão de fraudes e à coibição do mau uso da pessoa jurídica (COELHO. a Disregard Doctrine não leva à dissolução da pessoa jurídica (despersonalização). p. ocorrerá. não pode desprezar o instituto da pessoa jurídica apenas em função do desatendimento de um ou mais credores sociais. por fazer prevalecer o princípio da preservação da empresa. conforme já supracitado. pois se os magistrados brasileiros. muito considerado nos dias atuais em virtude da função social que a mesma exerce..73 [. nas situações abrangidas pelo art. quando se depararem com requerimento ou pedido de desconsideração efetuado pela parte ou pelo Ministério Público.]. O que os julgadores devem ter em mente. Esta também é a postura doutrinária emitida por Fábio Coelho: Por outro lado. em vista de que esta formulação doutrinária corresponde a uma aplicação mais justa da teoria... um desvirtuamento do instituto da pessoa jurídica. estaria sendo comprometido o próprio instituto da pessoa jurídica.. isto é. 50 do CC/2002 e pelos dispositivos que fazem referência à desconsideração. em casos concretos. Não poderia ser mais acertada a posição de Fábio Coelho. o que está em plena consonância com a disregard doctrine. Optou então o legislador. para responsabilizar as pessoas físicas ou jurídicas que a tenham desviado da função que o ordenamento jurídico busca alcançar por seu intermédio (KOURY. a justiça para um pode ser a ruína de vários outros que nada contribuíram para o prejuízo suportado pelo requerente à desconsideração). e sim à desconsideração da personalidade jurídica. com conseqüente fuga de investimentos no setor econômico. respeita o instituto da pessoa jurídica. é o fato de devem aplicar a teoria da desconsideração de acordo com a teoria maior ou subjetiva. 2002. 144. onde devem estar presentes os requisitos fraude ou abuso de direito. aplicarem ao seu alvedrio a teoria sem se preocupar com os pressupostos da teoria maior. na ânsia de fazer justiça (e diga-se. que traz enorme impulso ao desenvolvimento da economia. não pode o juiz afastar-se da formulação maior da teoria. é a que prestigia a contribuição doutrinária. A melhor interpretação judicial dos artigos de lei sobre a desconsideração [. pois se assim não fosse. 54). .] como já ressaltamos. p. 2002.

o artigo 50 é claro quando expressa: pode o juiz decidir. então. . os terceiros. Outra questão importante a ser tratada no que alude à desconsideração prevista no artigo 50 é a hipótese de terceiros efetuarem o pedido de desconsideração quando se sentirem prejudicados pelo uso fraudulento ou abusivo da sociedade. o que é raríssimo no Brasil atualmente em virtude da intensa instabilidade econômica. Quanto a esta hipótese. ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo. pelo menos expressamente. não mais estará disposto a arriscar seu capital em um empreendimento que não seja demasiadamente seguro. não estão legitimados a fazer pedido de desconsideração visando estender a responsabilidade aos sócios ou administradores.74 Este fenômeno ocorrerá basicamente pelo fato de que o empreendedor. a requerimento da parte.

porque os livros ainda são a melhor forma de perpetuar o conhecimento. pode causar dúvidas conforme o que já foi aqui analisado. muitos de uma qualidade questionável. mas deve-se ressaltar que se poderia ter colocado a desconsideração dentro dos moldes originais da teoria. É indiscutível a facilidade que os outros meios ou fontes de conhecimento proporcionam ao o estudo de determinada matéria. Com a realização deste estudo. o que certamente não geraria tantas dúvidas ao judiciário e aos operadores do direito em geral. referentes à desconsideração. mas em compensação tornou mais confiável e de melhor qualidade o conteúdo aqui apresentado. A inserção da desconsideração da personalidade jurídica em nosso direito positivo. Exemplo disso é a avalanche de artigos jurídicos publicados na www. Este método de pesquisa tornou mais alto sem dúvida o grau de dificuldade para elaborar esta monografia. Deve o magistrado tomar muito cuidado na aplicação da lei ao caso concreto. e os dispositivos a ela referentes nestes diplomas comportam algumas impropriedades. visando uma melhor proteção aos direitos da sociedade em geral. não se vinculam à formulação original da disregard doctrine. . optou-se por não utilizar nenhum outro método que não este.CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta monografia resulta de um trabalho elaborado através de pesquisa bibliográfica. neste trabalho mencionados. chega-se à conclusão que a legislação brasileira adotou expressamente a teoria da desconsideração da personalidade jurídica em quatro diplomas legais. merece aplausos. mas são muito inconstantes e as vezes de procedência duvidosa. que demonstradas ao longo do trabalho. pois a interpretação dos artigos.

o maior atrativo que leva o homem a investir em determinado setor do mercado. pelo contrário. a desconsideração é totalmente com ela compatível. pelo contrário. ocorrerá uma crise de insegurança jurídica que nada trará de benefícios à sociedade. Se assim não for. o que poderá haver é uma fuga de investimentos em vários setores da economia. estando presentes a fraude e o abuso de direito deverá utilizar deste instituto para satisfazer a pretensão de quem restou frustrado no recebimento de seu crédito. e restarem abalados os princípios da autonomia patrimonial e do instituto da pessoa jurídica. . o magistrado então somente em casos excepcionais.76 Portanto recomenda-se prudência e cautela na aplicação da teoria. pois seu objetivo não é desvirtuar o instituto da pessoa jurídica. visto que é justamente a possibilidade de separação patrimonial entre sócio e sociedade. limitando os riscos inerentes a qualquer atividade ou empreendimento que vise lucro.

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