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APRENDIZAGEM COOPERATIVA E INCLUSÃO

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APRENDIZAGEM COOPERATIVA E INCLUSÃO∗

Francisco Alberto Ramos Leitão Professor Associado na ULHT

Numa sociedade democrática, a escola será factor de desenvolvimento e coesão social na medida em que garanta condições de acesso, participação e sucesso, à diversidade e heterogeneidade de todos os que a frequentam.

Levar à prática o princípio de que, no respeito pelas suas diferenças, seja qual for a sua origem, todos os alunos devem aprender juntos, não se reduz, portanto, à organização e estruturação de um sistema de educação especial, à organização e estruturação de recursos e medidas adicionais nas escolas, que respondam aos alunos com Necessidades Educativas Especiais, medidas muitas vezes isoladas, segmentares e localizadas, fisicamente integradas mas exteriores à dinâmica escolar, ou seja, no contexto de uma escola que, nas suas linhas gerais se mantém, ela própria, inalterável, igualitária, massificadora e marginalizadora.

Inclusão, antes de tudo, significa um esforço de mudança e melhoria da própria escola, de forma a proporcionar a todos as melhores condições possíveis de aprendizagem, sucesso e participação, na base das circunstâncias específicas de cada um.

Mas recuemos um pouco a algumas questões essenciais, para de alguma forma explicitar o que neste contexto entendemos por escola, escola que se pretenda inclusiva. Para o efeito, centre-mos a nossa atenção nas dimensões fundamentais à volta das quais se organiza o conceito de educação inclusiva.

A inclusão escolar é, antes de tudo, uma questão de direitos. Para além do direito a viverem com as suas famílias, a utilizarem os recursos da comunidade onde vivem, a

Comunicação apresentada no Fórum de Estudos de Educação Inclusiva, “Debate sobre a Proposta de Diploma para o Regime de Educação Especial”, no dia 7 de Julho de 2007, na FMH/UTL, em Lisboa.

Mas sem nunca esquecer.” Organizam-se. de uma boa organização escolar. minimizando as barreiras que sempre se colocam à aprendizagem. uma actividade laboral. da qualidade das aprendizagens proporcionadas a todos os alunos. as famílias e a comunidade. sempre que possível. Como nos recorda a Declaração de Salamanca. amigos ou irmãos. entre outros aspectos. de recursos e de uma cooperação com as respectivas comunidades. a exercer. Estas escolas devem reconhecer e satisfazer as necessidades diversas dos seus alunos. nomeadamente na sala de aula. Uma segunda dimensão é a da qualidade. pois. cooperando. trabalhando em conjunto. que a heterogeneidade e diversidade são um valor. pelo reconhecimento de que os alunos devem aprender juntos. Todas as crianças têm o direito a viver com a sua família. os alunos com necessidades educativas especiais têm também o direito a frequentar a escola da sua comunidade. que os contextos sociais de aprendizagem proporcionados. com os seus vizinhos. “O princípio fundamental das escolas inclusivas consiste em todos os alunos aprenderem juntos. à participação e ao desenvolvimento. independentemente das dificuldades e das diferenças que apresentam. em todo este processo. enquanto adultos. garantir os apoios e serviços técnicos específicos. Sem dúvida que. é um factor decisivo. quer para os alunos quer para as suas famílias. à participação e ao desenvolvimento. Incluir é criar oportunidades de acesso a uma educação de qualidade. em que circunstâncias. o que passa. adaptando-se aos vários estilos e ritmos de aprendizagem. na base do reconhecimento de que: . de modo a garantir um bom nível de educação para todo. amigos ou irmãos. de estratégias pedagógicas. com os seus vizinhos. em que contextos. Qualidade significa a comunidade escolar. visam antes de tudo minimizar as barreiras que sempre se colocam à aprendizagem. com que grau de articulação com a escola e a turma. promovendo a inclusão dos alunos na escola. com os seus pares.participar em actividades de recreação e lazer com os seus pares. os alunos e os professores. a frequentar. a escola da sua comunidade. através de currículos adequados.

Todos os alunos podem e devem aprender juntos .Todos são diferentes . entre outros aspectos. Em grande parte a aprendizagem e a participação derivam dos contextos de aprendizagem proporcionados pela escola. da qualidade dos contextos sociais de aprendizagem. na solidariedade e ajuda mútua. . na construção de uma cultura de proximidade. não apenas como mera técnica ou estratégia de ensino. até porque se sabe que o receio de que a integração acarrete a perda destes serviços específicos parece ser um dos factores maioritariamente responsável pela institucionalização. a liderança pedagógica assumida pelos órgãos de gestão é condição fundamental à construção de uma cultura de inclusão. Uma terceira dimensão tem a ver com a diferenciação. de partilha e ajuda.Devem frequentar a escola da sua comunidade . O que envolve. se entendida como concepção educativa. Trata-se de reconhecer e responder às necessidades individuais promovendo oportunidades de cooperação e participação social. a filosofia da inclusão assenta na permanente construção de oportunidades de interacção e participação social. Nesta perspectiva. Uma quarta dimensão coloca-nos ante as questões da liderança pedagógica. alargada a toda a escola e inequivocamente favorável à inclusão. O que significa que o objectivo prioritário dos sistemas educativos. Com efeito. de colaboração.Essa diferença é um valor Garantindo os apoios e os serviços complementares necessários aos alunos com Necessidades Educativas Especiais e suas famílias.. valorizando os procedimentos interactivos e contextos sociais de aprendizagem na sala de aula. como cultura organizacional de escola. é a melhoria e o aperfeiçoamento da qualidade dos processos interactivos. Liderança que deverá ser assente na partilha e participação. dada a heterogeneidade e diversidade da população escolar. ao nível da sala de aula. em última instância. a diferenciação pedagógica assume um papel importante.

Importa desenvolver a interdependência positiva entre alunos e grupos de aprendizagem. a participação activa e construtiva de todos os alunos. portanto. facilitam a construção de contextos de aprendizagem diversificados e adaptados às necessidades específicas de cada aluno. como igualmente se sabe que a inclusão de crianças com deficiência é facilitada quando dois professores colaboram no contexto da sala de aula. assumir colegialmente responsabilidades. maximizando. Uma atenção especial deve ser dada ao estabelecimento de um . Há que apoiar a participação e satisfação de toda a comunidade educativa. na construção do seu próprio desenvolvimento. a partilha de objectivos e de projectos. Os professores aumentam igualmente a qualidade das suas práticas quando promovem a cooperação entre alunos. No seguimento da dimensão anterior. Sabe-se que as escolas que mais mudam. a organização de parcerias pedagógicas. há que referir também a importância da cooperação entre alunos.Uma forte liderança pedagógica e administrativa alargada a toda a escola. a responsabilidade individual no seio do grupo. expor e partilhar forças e fraquezas. como parceiros pedagógicos. Em quinto lugar gostaríamos de referir a questão da cooperação entre profissionais. as interacções face-aface. desta forma. a planificação conjunta dirigida a toda a classe (ultrapassando-se. A cooperação entre profissionais. a partilha de objectivos e projectos. a preparação e planificação conjunta dirigida a toda a classe. a perspectiva centrada no aluno individual). que inequivocamente demonstre expectativas elevadas e positivas claramente favoráveis à inclusão. a colaboração em equipa. assente na partilha e na participação. trabalham em conjunto. são aquelas em que os professores. facilitar a construção de relações de confiança mútua entre agentes educativos. que melhores condições de aprendizagem proporcionam aos seus alunos. já que se sabe que o desenvolvimento de relações de confiança mútua. até porque se sabe que os professores aumentam a qualidade das suas práticas quando promovem a cooperação entre alunos. na solidariedade e na ajuda mútua.

do funcionamento familiar. A cooperação escola-família é a dimensão a que seguidamente gostaríamos de fazer referência. influenciando. formal ou informal. o comportamento e o desenvolvimento da criança). o funcionamento da família e a qualidade das interacções pais-criança-escola. o desenvolvimento de práticas inclusivas e cooperativas e o desafio que sempre . a estas famílias (promoção da saúde e bem-estar. as interacções face-a-face. o comportamento e o desenvolvimento da criança. o suporte social. maximizando desta forma a participação activa e construtiva de todos os alunos na construção do seu próprio desenvolvimento. ponto essencial nas políticas de transformação e mudança das escolas na direcção de uma educação assente em práticas cada vez mais inclusivas. promove a saúde e o bem-estar. Importa desenvolver a interdependência positiva entre alunos e grupos de aprendizagem. Para além da formação de base e da formação contínua. A formação e valorização profissional são igualmente dimensões a referir. pilar central da construção de uma comunidade de aprendizes – professores e alunos – fortemente cooperantes. Em todo este processo a cooperação escola-família assume igualmente um papel digno de nota. No caso específico das famílias com filhos com deficiência. formal ou informal. a responsabilidade individual no seio do grupo. resultantes de factores como o confronto diário com a diferença entre os seus filhos e as crianças ditas normais ou o sentimento de não serem aceites pelos outros pais. que se confrontam com factores adicionais de stress.clima social e afectivo positivo na sala de aula. da qualidade das interacções pais-criança-escola. directa ou indirectamente. pelo próprio grupo. justificam uma atenção especial ao reforço do suporte social. o que influencia. directa ou indirectamente. a essas famílias. dos procedimentos usados no processo de aprendizagem. a avaliação. docentes e serviços. nomeadamente em contexto de escola. As fontes adicionais de stress com que normalmente as famílias de crianças com necessidades educativas especiais se confrontam (confronto diário com a diferença entre os seus filhos e as crianças ditas normais. docentes ou serviços…). o sentimento de não serem aceites pelos outros pais.

Potenciando o desenvolvimento das competências cognitivas. defendendo que os formandos. de acordo com um modelo relacional. vão descobrindo e construindo alternativas de intervenção. modificando. dinamizando a interacção entre alunos e o aumento da consciência das necessidades do outro. numa atitude de permanente aprendizagem. partindo das virtualidades do que já se faz. esta dinâmica organizacional contribui igualmente para o desenvolvimento profissional dos docentes. contribuindo assim para a melhoria da qualidade do processo educativo. avaliando. de uma ou outra forma. cooperando.constitui a procura colaborativa das melhores soluções para as problemáticas mais complexas. afectivas. Finalmente. portanto. No caso do sistema educativo. Sempre. os valores. permanentemente. mas antes como a construção do homem possível e real. contribuem igualmente para o desenvolvimento profissional dos docentes. reflectindo em conjunto. fortalecendo o sentimento de pertença a uma comunidade. recordamos Agostinho da Silva quando afirma que “Será utópica a escola que o filósofo . Com efeito. Reflectindo e procurando resolver problemas. O que de alguma forma é dizer que a escola deve. novas práticas e novos procedimentos. da aceitação e respeito pela diferença. entendida esta não como o sonho e o repouso num mítico mundo inalcançável. Os valores da cidadania. num esforço de resolução das situações problemáticas com que se confrontam. algum grau de utopia. Se anteriormente afirmámos que a inclusão é em primeiro lugar uma questão de direitos. interactivo e cooperativo. trabalhando em equipa. alicerça-se nos princípios da autonomização e descentralização. aprende-se fazendo. a todo o momento. A formação em contexto de escola. experimentando. partilhando dificuldades e sucessos. contribuir para a produção de valores. como última dimensão a considerar. o aumento do estatuto social e a participação em círculos de amizade mais alargados. A ideia de inclusão envolve sempre. cooperando e partilhando experiências. da solidariedade e ajuda mútua. reconhecendo aos professores e às comunidades educativas maiores espaços de liberdade para agirem e interagirem mais plenamente na e com a realidade local. sociais e comunicativas. estéticas e morais dos alunos. importa agora referir que a inclusão é igualmente uma questão de valores.

(1989). o papel dos recursos técnicos específicos e especializados.sonhou. valorizar. D. descentrar a problemática da inclusão. Johnson. N. a única forma de activar. Englewood Cliffs. London: Paul Brookes Pub.J. M. seja qual for o rosto que possam assumir. & Johnson. são valores educativos”.W. Cultural diversity and cooperative learning. sempre à procura das melhores perguntas e das melhores respostas. D. sem o qual a inclusão não é possível.W. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Dewey. Ou então. Johnson. ao constituir-se a escola como “alma”. em última instância. que ouve e responde. . Cooperation and competition: theory and research. Joining together: group theory and group skills. a todos envolve…”. F. mas já não o será uma escola aberta e interactiva. Johnson.N. É o reforço de todas estas dimensões. potencia o valor dos apoios e recursos técnicos específicos de que alguns dos membros dessa comunidade necessitam. o esforço convergente de construção de contextos inclusivos de aprendizagem que respondam à diversidade das medidas específicas de todos aqueles que integram a comunidade educativa. (1997). R. Edina. é. (1998). D. “o que ela [a escola] deve produzir a todo o momento.W. paradoxalmente. que.: Prentice-Hall. Democracy and education. New York: Free Press. que satisfaz e provoca curiosidade. In Cooperative learning and strategies for inclusion. Neste sentido. & Johnson. uma escola que cresce com a comunidade e que a todos valoriza. o pleno reconhecimento da importância que a escola tem em todo este processo. (1916).: Interaction Book Company. segundo a feliz expressão de António Sérgio. engrandecer. J. como “contexto-mãe”. transferindo-a do aluno individual e dos apoios especializados para a qualidade do processo educativo que a escola deve proporcionar a todos os alunos. & Johnson. R.

In R. (Eds. Learning to Cooperate. (1984). Sérgio. Educação Cívica. (1985).Kagan. . cooperating to learn. In Cooperative learning and strategies for inclusion. Slavin e al. Lisboa: Livraria Sá da Costa. Na introduction to cooperative learning research. New cooperative learning. S. (1998). London: Paul Brookes Pub. A. New York: Plenum Press. R.). multiple intelligences and inclusion. Slavin.

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