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CENTRO DE INVESTIGAÇÃO E DIVULGAÇÃO

Publicações cm

Textos clássicos do pensamento humano/5

Coordenadores
Arcângelo R. Buzzi
Leonardo Boft

FICHA CATALOGRAFICA

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RI.

L546 As Leis de Eshnunna / introdução, texto cunei-


forme em transcrição, tradução e comentários [de]
Emanuel Bouzon. - Petrópolis: Vozes, 1981.
(Textos clássicos do pensamento humano; 5).
176p.

Bibliografia.
1. Eshnunna - História 2. Leis de Eshnunna
I. Bouzon, Emanuel 11. Série.
CDU - 340.134(354)
81-0188 935.4

'----------------------------- --
EMANUEL BOUZON

AS LEIS DE ESHNUNNA
Introdução
Texto cumiforme em transcrição
Tradução do original cuneiforme
e Comentários

Petr6polis
1981
Sumário

Apresentação, 9

Lista de abreviaturas, 11

I. Introdução: As Leis de Eshnunna em seu contexto histórico e social, 13


1. As tábuas cuneiformes 1M 51.059 e 1M 52.614, 13
2. O reino de Eshnunna nos séc. XX a XVIII a.C., 15
3. O «código» de leis de Eshnunna, 26
4. A sociedade de Eshnunna durante o período babilônico antigo, 33

11. As Leis, 52

m. O Texto Cuneiforme em Transcrição, 155

IV. Bibliografia, 169

V. Fotografias das tábuas 1M 51.059 e 1M 52.614, 173


Apresentação

o trabalho aqui apresentado sobre as leis da cidade-reino


Eshnunna está baseado nas duas tábuas cuneiformes 1M 51.059
e 1M 52.614, descobertas nas escavações de TeU l:Iarmal e que,
hoje, se encontram no Iraq-Museum. O assiriólogo Albrecht
Goetze as editou, pela primeira vez, em 1948 na revista Sumer.
Em 1956 ele publicou, então, uma edição completa das leis de
Eshnunna com transcrição do texto, tradução e comen_tários no
«Annual of the American Schools of Oriental Research». Esta
obra tornou-se a edição «standard» das leis de Eshnunna. Desde
então apareceram outros trabalhos como os de E. Szlechter e
Y. Reuven, bem como inúmeros artigos sobre problemas textuais,
filológicos e legais relativos ao texto das duas tábuas cuneifor-
mes. Em língua portuguesa até agora não havia nenhum estudo
sobre as leis de Eshnunna. A intenção do nosso trabalho é
preencher esta lacuna.
Nesta Edição brasileira foi seguida, com algumas variações,
a mesma divisão em sessenta parágrafos adotada por A. Goetze.
1 a tradução vernácula procurou-se, quanto possível, uma grande
fidelidade ao texto original, respeitando-se as locuções idiomá-
t' as e o sabor típico da língua acádica. Mas, às vezes, a
in eligibilidade do texto exigiu uma tradução portuguesa mais
I"vre. Nestes casos foram colocadas, ao pé da página, notas com
o texto acádico e sua tradução literal. As palavras entre parên-
es foram introduzi das para facilitar a compreensão do texto;
a entre colchetes indicam uma conjedura ou reconstru-ção do
- xto original. Os comentários aos diversos parágrafos legais
trataram, principalmente, de problemas textuais, filológicos ou
gramaticais. Procurou-se, outrossim, comparar, sempre .que-pos-
s· -el, as leis de Eshnunna com leis paralelas de outras legisla-
ções do Oriente Antigo, que pudessem contribuir para uma

9
melhor compreensão da lei em questão, bem como para situá-Ia
em seu contexto vital.
A cronologia babilônica é, ainda hoje, um problema não
totalmente resolvido da assiriologia. Existem praticamente três
sistemas de datação: a cronologia longa, a média e a curta.
Pode-se notar, claramente, a diferença existente entre eles, com-
parando-se as diversas datas atribuídas ao reinado de Ham-
murabi. Assim a cronologia longa data o reinado de Hammurabi
entre os anos 1848-1806 a.c.; a cronologia média entre 1792 e
1750 a.C. e a curta entre 1728 e 1686 a.C. Adotei neste trabalho
a cronologia média, hoje a mais aceita graças aos argumentos e
explicações de seus defensores, embora no «Código de Ham-
murabi» ainda tenha trabalhado com a cronologia curta (Cf.
para uma visão panorâmica do problema: P. OareIli, Le Proche-
Orient Asiatique p. 227-239).
A todos que me incentivaram e ajudaram neste trabalho vai
aqui o meu sincero agradecimento. Um agradecimento todo espe-
cialcabe, sem dúvida, ao colega e amigo Prof. Dr. Jean Bottéro,
Paris, pelos proveitosos diálogos em Oif-sur- Yvette e pela
bondade de colocar sua ótima biblioteca particular à minha
disposição.
«Last but not least», menciono agradecido a bolsa de pes-
quisador concedida pelo «Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico» (CNPq), que tornou possível uma
dedicação mais intensa a este trabalho.

Rio, 22 de julho de 1980.


E. Bouzon
LISTA DE ABREVIATURAS

AASOR; Annual of the American MSL: B. Landsberger, Materialien


Schools of Oriental Research. zum sumerischen Lexikon, Rom,
1937s.
AHW: W. von Soden, Akkadi-
sches Handwarterbuch, Wies- MV AO: Mitteilungen der Vorder-
baden, 1965s. asiatisch-Aegyptischen Gesell-
ANET; J. B. Pritchard, Ancient schaft, BeriinjLeipzig, 1896-
1944.
Near Eastern Texts relating to
the OT, Princeton 3 1969. OIC - Oriental lnstitute Commu-
nications - The University of
Ar.Or.; Archiv Orientalní, Journal
of the Czechoslovak Oriental Chicago.
lnstitute, Praga. OIP: Oriental lnstitute Publica-
ARM; Archives Royales de Mari, tions - The University of
Paris, 1950s. Chicago.

CAD: The' Assyrian Dictionary OLZ: Orientalische Literaturzei-


of the University of Chicago, tung.
Chjcago-Olückstadt, 1956s. Or.: Orientalia (NS Nova
CT: Cuneiform texts from Baby- Series).
lonian tablets in the British Mu-
RA:. Revue d' Assyriologie et
seum, London, 1896s. d' Archéologie Orientale.
GAO: W. von Soden, Orundriss SD: Studia et Documenta ad iura
der Akkadischen Grammatik, Orientis Antiqui pertinentia,
Analecta Orientalia 33, Roma,'
952 Leiden, 1936s.
SL: A. Deimel, Sumerisches Lexi-
'.';OS: Journal of the American
Oriental Sodety. kon, Rom, 1925-1950.
VAB; Vorderasiatische Bibliothek.
.' -: Journal of Cuneiform Studies.
~OL: J aarbericht van het Voora- YOS: Yale Oriental Series, Baby-
lonian Texts.
r-atisch-Egyptisch Oenootschap
Ex Oriente Lux. ZA; Zeitschrift für Assyriologie
. "ES; Journal of Near Eastern und vorderasiatische Archãolo-
~ dies. gie.
"'-.\R: Keilschrifttexte aus Assur ZDMG: Zeitschrift der Deutschen
~c 'giasen lnhalts, Leipzig, 1919. Morgenlandischen Oesellschaft.

11
I. Introdução

As leis de Eshnunna em seu contexto histórico e social

1. As TÁBUASCUNEIFORMES1M 51.059 E 1M 52.614

Em 1945, durante as escavações conduzi das em Tell Abu


Harmal, uma pequena localidade ao sul de Bagdad, pelo «Direc-
torate General of Antiquities» do 1raque, sob a direção Sayid
Taha Baqir>, veio à luz uma tábua cuneiforme, que media
10,5 cm x 20 cm. Ela foi registrada no 1raq-Museum com o
número 1M 51.059. Os cantos superiores da tábua estão quebra-
dos e na parte de baixo faltam algumas linhas. Seu tipo de
escrita muito amontoado e seu mau estado de conservação im-
_ediram que fosse imediatamente decifrada. Durante a terceira
sêSsão de trabalhos arqueológicos em I:Iarmal, no ano 1947, foi
. coberta uma outra tábua cuneiforme de 12 cm x 11,5 cm em
S"J2 parte mais larga, registrada com o número 1M 52.614, que
:;:aJecia constituir a parte inferior de uma tábua maior. O primeiro
G: reconhecer a natureza e o significado do texto que essas
:.t3uas ofereciam foi o próprio Sayid Taha Baqir. Mas foi A.
2

Je ze que decifrou o texto das duas tábuas e o publicou, por


:_3eiro, com transcrição do texto cuneiforme e tradução inglesa
::=. 1948.' Goetze denominou o texto 1M 51.059 de tábua «A»
'= 52.614 de tábua «B».
=...',

As .duas tábuas são duplicatas, contendo o mesmo texto,


=c-~ra aqui e ali com algumas variações tanto do pónto de

:_ Para um relato completo das escavações d.a revista Sumer


: :~) 12s; 22-29 e 4 (1948) 137s.
_ Cí. Sumer 4 (1948) 52s.
. Cf. Sumer 4 (1948) 63-91. Fotografias das tábuas «A» e «B~?
= ::::0. <Plates» l-IV e em JCS 2 (194.8) «Plates» I-IV.

13
vista ortográfico, como textual. A tábua «A» é a mais completa.
A «B» apresenta uma escrita mais clara e mais bonita, mas está
em estado mais lacunar do que a «A», faltando várias linhas.
As duas tábuas, contudo, de alguma maneira se completam.
Elas contêm um corpo de leis, que A. Ooetze dividiu em sessenta
parágrafos.' A introdução, bem como os diversos parágrafos
legais, mencionam diversas vezes o reino de Eshnunna, o que
levou Ooetze a concluir tratar-se do corpo de leis do reino de
Eshnunna. Além disso as duas tábuas foram descobertas na loca-
lidade onde outrora estava situada a cidade de Shaduppum,
que pertencia ao reino de Eshnunna.·
A tábua «A» foi encontrada na sala cinco do assim chamado
«serai»· sob o pavimento da camada arqueológica 11. A tábua T

«B» jazia, igualmente, sob o pavimento da camada 11 entre


outras tábuas do tempo do rei Dadusha de Eshnunna. • A arqueo-
logia mostrou que, das quatro camadas encontradas nas escava-
ções de TeU I:Iarmal, a primeira pertencia ao período acádico,
a segunda e a terceira ao período babilônico antigo e a quarta
ao período cassita.· Na camada 11, destruída pelo fogo, foram
encontradas tábuas cuneiformes datadas do tempo de Ibalpiel II
e de seu pai Dadusha, reis de Eshnunna.·o A própria evidência
arqueológica nos obriga, pois, a datar as duas tábuas em um
período pré-hammurabiano. E esta datação é confirmada pela
paleografia. Ambas as tábuas apresentam um tipo de escrita do
período babilônico antigo mais arcaico do que o empregado pelos
escribas de Hammurabi. A tábua «B» foi encontrada entre outros
objetos pertencentes ao tempo do reinado de Dadusha." A tábua

4. Em «The Laws of Eshnunna Discovered at TeU l:Iarmal», em


Sumer 4 (1948), p. 91, Ooetze termina com a observação «§§ 60 and 61
(A IV 33-37) mutilated and incomprehensible». Mas na edição standard,
AASOR, 31, ele já dividiu em 60 parágrafos.
5. Cf. S. Taha Baqir em Sumer 5 (1949), p. 35s.
6. Cf. A. Ooetze, Sumer 4 (1948), p. 65: «The exact provenance of
the pie-ce is room 5, also lacated in the «serai» (it is the room between
8 and 17 that is unmarked on the plan in Sumer, voI. II n. 2)>>.
7. Cf. A. Ooetze ibid.: «... it was faund below the pavement of
levei lI».
8. Cf. A. Ooetze, ibid, p. 65, e The Laws af Eshnunna, p. 3.
9. Cf. S. Taha Baqir em Sumer 2 (1946), p. 25. .
10. Cf. S. Taha Baqir, Sumer 2 (1946), p. 25. Cf. tb. A. Ooeíze,
The Laws of Eshnunna, p. 4.
11. Cf. S. Oreengus, Old Babylanian Tablets from Ishchali and Vici-
niíy, p. 19. Na cronologia seguida por D. O. Edzard, p. ex., a reinado de

14
«A» parece um pouco mais antiga do que a «B». Mas uma
determinação mais exata da data decomposição das duas tábuas
não nos é possível.
As tábuas 1M 51.059 e 1M 52.614 não são, contudo, o texto
original das leis de Eshnunna. Não se sabe, até hoje, se \?
texto original dessas leis foi esculpido em alguma estátua, eomó
as leis de Hammurabi, ou em alguma pedra. As duas tábuas
que possuímos são cópias de textos anteriores. Provavelmente
não são, nem mesmo, cópias oficiais. 12 Elas apresentam, aqui
e ali, pequenos erros de cópia, corrupções do texto e diferenças
textuais entre si, que dificilmente se encontrariam em um texto
oficial e muito menos no texto original. 13 As duas tábuas, 1M
51.059 e 1M 52.614, são, certamente, o produto de uma escola
de escribas, onde o texto das leis era recopiado, muitas vezes,
para servir na formação literária e jurídica dos futuros escribas
e funcionários públicos.

2. O REINO DE ESHNUNNA Nos SÉCULOS XX A XVIII A.C. 1<

No fim do século XXI a.C., durante o reinado


de lbbi-Sin
I 15,
a terceira dinastia de Ur começou a se desagregar. Era q fim
da renascença suméria. Os exércitos elamitas e seus alia-El-os·r- ~
destruíram completamente U r, a capital do reino, e levaram o

Narãmsin, irmão de Dadusha, acabou pouco antes de 1800 a.C. e por


essa época começou o reinado de Dadusha. Cf. Fischer Weltgeschichte,
vol. 2, p. 184.
12. Cf. A. Ooetze, The Laws of Eshnunna, p. 14: «lt also follows
rrom these observations that neither «A» nor «B» were official copies of
e laws. Official copies would not be faulty to the 'extent that «A», at
east, apparently is. The copi.es, then, were private ,copies».
13. Cf. a lista de diferenças ortográficas entre «A» e «B» e de erros
e omissões existentes nas duas tábuas, .apresentada por A. Ooetze em
Tbe Laws of Eshnunna, p. 5-14.
14. Para um panorama histórico desta época, d. A. Scharff-A.
,'.~oortgat, Aegypten und Vorderasien im Altertum, p. 217-317; H. Schmo-
'c.:, Oeschichte des Alten Vorderasien em Handbuch der Orientalistik,
--1 2, parte I1I, p. 73-118; J. Bottéro, «Das Erste Semitische Oróssreich»,
~ Fischer Weltgeschichte, vol. 2: Die altorientalischen Reiche I, p.
::::-128; D. O. Edzard, ibid., «Das Reich der m. Dynastie von Dr und
sebe Nachfolgestaaten», p. 129-164 e «Die Altbabylonische Zeit», p. 165-
_; H. W. F. Saggs, Mesopotamien, p. 96-130. P. Garelli, Le Proche-
,:ent Asiatique, p. 97-137.
15. O r,ei Ibbi-Sin creinou de 2027-2003 a.C.

15
rei Ibbi-Sin, pnslOneiro, para o Elam.16 Com a queda de Dr
desaparecia o centro de unidade da Mesopotâmia. Durante os
séculos XX, XIX e começos do século XVIII, o quadro político
da Babilônia é marcado pelo aparecimento de uma série de
dinastias locais, dominadas por semitas, entre as quais se des-
tacavam Isin, Larsa, BabeI e na região do rio Diyala, um
afluente do Tigre, o reino de Eshnunna.
A presença de povos semitas no cenário político da Meso-
potâmia data, contudo, de época bem mais antiga. Já no período
conhecido entre os assiriólogos como «frühdynastische Zeit» 17

encontram-se indícios claros da presença semita no norte da


Babilônia e na região do Diyala. Os testemunhos mais antigos,
que com certeza nos mostram a existência de semitas na Meso-
potâmia, são os nomes próprios encontrados nos textos arcaicos
de Dr e as palavras de origem semita mais antigas que entra-
ram na língua suméria. As descobertas arqueológicas demons-
tram, também, para essa época, uma diferença profunda entre o
norte e o sul da Babilônia. Na região do Diyala os arqueólogos
encontraram um grande número de estatuetas votivas, chamadas
entre os assiriólogos de «orantes», que apresentam formas com-
pletamente diferentes dos modelos da plástica suméria. 18 O tipo
de construção de templos é, nessa região, diferente do tipo
clássico de templo sumério. A cerâmica pintada de escarlate -
a chamada «scarlet-ware» - é um outro sinal da independência
da região do Diyala em relação aos modelos sumérios. ,. Esses

16. Cf. D. O. Edzard, op. dt., p. 149-152. A queda de Ur foi consi-


derada como o fim de uma época de esplendor e de glória, como aparece
na célebre lamentação suméria, que S. N. Kramer traduziu com o título
«Lamentation over .the Destruction of Ur» em ANET 3 p. 455-463. Cf. tb.
a tradução alemã de A. Falkenstein em «Sumerische und Akkadische
Hymnen und Gebete», p. 192-213. Sobre o reino de Elam cf. W. Hinz,
Das Reich Elam.
17. Sobre o período «frühdynastische Zeit» D. O. Edzard em Fischer
Weltgeschichte, voI. 2, p. 57 observa: «.Mit dem Terminus 'frühdynastisch'
ist die Periode vom Ende der Frühgeschichte Mesopotamiens bis zur
Gründung des Reiches von Akkade gemeinb>. Portanto abrange mais ou
menos desde o ano 2800 até 2340 a.C. Em português poderíamos chamar
de período proto-dinástico.
18. Cf. A. Parrot, Archéologie Mésopotamienne, voI. I: Les Étapes,
p. 369-392; H. Frankfort, Sculpture of the Third Millenium BC fromTeU
Asmar and Khafajah, Chicago, 1939; H. Frankfort, S. LIoyd, Th. Jacob-
sen, The Gimilsin Temple and the Palace of the Rulers at TeU Asmar,
Chicago, 1940.
19. Cf. A. Parrot, ibid. p. 385.

16
semitas estavam, provavelmente, relacionados com os grupos
acadianos, que pelo norte, mais especificamente pela Síria, en-
traram na Mesopotâmia, estabelecendo-se na região do Diyala
e penetrando, aos poucos, no norte da Babilônia, onde forma-
ram em Kish um grande centro semita. No período «frühdy-
natisch 11», pelo ano 2700 a.C., esses grupos nômades já se
tinham tornado completamente sedentários e podiam assim in-
fluenciar de maneira decisiva na arte e na cultura da região
norte da Babilônia. A influência semita vai crescendo tanto na
Babilônia, que pelo ano 2340 a.C. Sargão (acad. sarru kên =
«rei verdadeiro») consegue estabelecer a primeira dinastia se-
mita na história da Babilônia. Sargão
20 construiu para
sua capital a cidade de Acade, cuja exata localização
os é até hoje desconhecida. Provavelmente, ela foi construída
às margens do Eufrates, perto das antigas cidades de Sippar e
Kish. O caráter neutro da nova capital facilitava, sem dúvida,
a tarefa de união do norte da Babilônia com as tradições sumé-
rias do sul. Sargão e seus descendentes conseguiram manter
unida a Babilônia sob o seu cetro durante cerca de cento e
quarenta e dois anos. Depois do desaparecimento trágico do
último descendente de Sargão, Sharkalisharri, em 2198 a.c., o
reino entrou em desagregação e a região foi dominada por um
grupo de bárbaros chamados «guti». Pelo ano 2120 a.C. o
>.t

sumério Utu-gegal, rei de Uruk, conseguiu libertar a Babilônia


da dominação guta'" e em 2111 a.c. o ENSí de Ur, Urnammu,
fundou uma nova dinastia, a terceira de Ur, começando uma
verdadeira renascença suméria na Babilônia.23 Urnammu assumiu
em suas inscrições o título «Rei da Suméria e de Acade».
Na região do rio Diyala, um centro antigo de tradições
semitas foi, sem dúvida, a cidade de Eshnunna. Estava situada
a margem direita do Diyala, na localidade hoje conhecida como
TelI Asmar, cerca de 35 km a nordeste de Bagdad. O nome
24

20. Cf. J. Battéra, «Das Erste Semitische Grassreich» em Fischer


\\'ehgeschichte vaI. 2: Die altarientalischen Reiche I, p. 91-128; P. Ga-
relli, Le Prache-Orient Asiatique, p. 82-96.
21. Cf. C. J. Gadd, «The Dynasty af Agade and the Gutian Invasian»
em Cambridge Ancient History, vaI. I, capo XIX.
22. Cf. P. Garelli, Le Prache-Orient Asiatique, p. 93-96; H. Schmo-
kel, Oeschichte des Alten Varderasien, p. 52s.
23. Cf. P. Garelli, Le Proche-Orient Asiatique, p. 97-115; D. O.
Edzard, «Das Reich der m. Dynastie van Ur und seine Nachfalgestaaten»
em Fischer Weltgeschichte vaI. 2, p. 129s.
24. Cf. H. Frankfart, Th. Jacabsen, C. Preusser, Tell Asmar and
Khafaje, Oriental Institute Cammunicatians n. 13, p. 1.
17
primitivo da cidade era, como aparece nos textos da época sar-
gônica, is-nunki• 25Este nome não se pode explicaretimologica-
mente nem pela língua acádica, nem pela suméria. Aliás, a antiga
toponomástica da região do Diyala, com nomes como Isnun,
Tutub, que não são nem semitas nem 'Sumérios, mostra influên-
cia estrangeira, eventualmente do Elam. ,Ê provável que a popu-
lação dessa região se tenha formado, já no período «prato-di-
nástico», da mistura de camadas semitas com outros grupos não
semitas provenientes da região elamita. Foi somente durante a
terceira dinastia de Ur que o nome Isnun recebeu uma etimolo-
gia 'Suméria popular e se transformou em Esnunna, nome inter-
pretado em sumério como «Templo do príncipe». 26

A partir de Ur III as notícias sobre Eshnunna são mais


freqüentes nos textos babilônicos. Durante a dominação dos reis
de Ur, Eshnunna tornou-se um estado vassalo da potência cen-
tralizadora de Ur. Pelo menos a partir do trigésimo ano do
reinado de Shulgi, Eshnunna estava totalmente nas mãos do rei
de Ur. 2' Foi Shulgi quem reconstruiu o tem pIo «:Ê-SIKIL» do
deus Tispak, divindade principal de Eshnunna.28
Os textos do tempo de Shulgi mencionam, pelo menos, três
governadores (ENSí) de Eshnunna nesta época: Urgedinna,
Bamu e KalIamu.29 Este último foi transferido por Shulgi de
ENSí de KazalIu para ENSí de Eshnunna. Ele deve ter gover-
nado Eshnunna, provavelmente, até o nono ano de Amar-Suen,
sucessor de Shulgi. Um outro ENSí de Eshnunna, Ituria, que
30

é mencionado nos textos de Ur a partir do nono ano do rei

25. I. J. Gelb, Sargonic Texts from the Diyala region, Chicago 2 1961,
n. 235 (Kh 1934,40 = A 22.029): 3; 275 (A 7.772): 3; 318 (A 7.861): 12.
26. Cf. D. O. Edzard, Fischer Weltgeschichte, vaI. 2, p. 70.
27. Cf. P. GareIli, Le Proche-Orient Asiatique, p. 99s. Cf: tb. H.
Frankfort, S. LIoyd, Th. jacobsen, The Gimilsin Temple and the Palace
of the Rulers at TeIl Asmar, p. 196.
28. Cf. H. Frankfort, S. LIoyd, Th. jacobsen, The Gimilsin Temple
p. 196. Cf. tb. H. Frankfort, Th. jacobsen, C. Preusser, TeIl Asmar and
Khafaje - OIC 13 - p. 51-59.
29. Urgedinnaaparece como ENSí de Eshnunna no ano 31· de
Shulgi, i.é: pelo ano 2062 a.C. Bamu é mencionado no ano 46 de Shulgi,
i.é: pelo ano 2047 a.C. d. The Gimilsin Temple, p. 196.
30. Os textos aludem a KaIlamu como ENSí de Eshnunna no ano 47
de Shulgi, i.é: pelo ano 2046, no nono ano de Amar-Suen, que reinou
de 2045-2037, e pelo ano 2036 a.C. Cf. C. E. Keiser, Selected Temple
Documents af the Ur Dynasty (YOSB IV) n. 61 :5.

18
eram, ao mesmo tempo, os antigos xeques das respectivas tribos.
Destarte a Babilônia se dividiu em numerosas cidades-reinos
rivais entre si. 3I A unidade política .da Babilônia só foi resta-
belecida, novamente, por Hammurabi, muitos anos depois.
Foi justamente no período entre a queda da dinastia de Ur
(-t- 2003 a.c.) e o começo do reinado de Hammurabi (-t- 1792
a.c.) que Eshnunna conheceu momentos de grande expansão
territorial, e conseguiu entrar de maneira determinante no cená-
rio político da Babilônia.
Essa nova fase de Eshnunna começou sem dúvida com o
ENSí Kirikiri. Seu nome não é nem de origem suméria, nem
semita. H. Frankfort levanta a possibilidade de que Kirikiri tenha
entrado na Mesopotâmia com os exércitos elamitas e tenha
recebido Eshnunna como parte na divisão dos despojos. '" Mas
nada sabemos, ao certo, sobre a origem de Kirikiri. Conhece-se
39

uma inscrição de Kirikiri em um selo oferecido a seu filho Bila-


lama: «Tispak, rei forte, rei do país de Warum: Kirikiri, o
governador (ENSí) de Eshnunna, ofereceu (este selo) a Bilalama
seu filho» ..•• Foi, provavelmente, durante o governo de Kirikiri
que a cidade Tutub - hoje Khafaje, cerca de 15 km a leste de
Bagdad - foi anexada ao reino de Eshnunna.
Seu filho e sucessor Bilalama é melhor atestado nas fontes
arqueológicas encontradas em Tell Asmar. Parece ter assumido
o governo pelo ano 1970 a.C. Continuou o bom relacionamento
com os elamitas; sua filha Mekubi foi dada em casamento a
Tanruhuratir, rei do Elam.41 Conseguiu manter sob controle as
hordas dos Amurru, servindo-se deles para expandir o seu do-
mínio sobre outras cidades vizinhas. Desta maneira deve ter
<2

37. Cf. ]. R. Kupper, Les Nomades en Mésopotamie au temps des


rois de Mari. Paris, 1957. Cf. tb. B. Hrouda, Vorderasien I, p. 154s.
38. Cf. H. Frankfort, Th. jacobsen, C. Preusser, TeU Asmar and
Khafaje, p. 27: «We may weU argue, therdore, that the rise of Eshnunna
asan independent power was due to its ruler's relations with the con-
querors who defeated the 3d dynasty of Ur. Most likely Kirikiri entered
the country together with the Elamites and received Eshnunna as his
share of the spoil».
39. Cf. D. O. Edzard, Die «Zweite Zwischenzeit» Babyloniens, p. 72.
40. Cf. E. Sollberger- j. R. Kupper, Inscripíions Royales Sumériennes
et Akkadiennes, p. 235s.
41. Cf. F. Thureau-Dangin, Die Sumerischen und Akkadischen Ko-
nigsinschriften, p. 180, XIX, 3. - Cf. tb. W. Hinz, Das Reich Elam, p. 71.
42. Cf. H. Frankfort, Th. jacobsen, C. Preusser, Tell Asmar and
Khafaje, p. 31 as seguintes «fórmulas de data» do reinado de Bilalama:

20
_:--õ:guido controlar as cidades Ká-'lli-ba-um e Bàd-barki• Bila-
~ é conhecido também como o reconstrutor do templo
':::-':J<IL de Eshnunna, dedicado a Tispak, o deus principal da
::; e. Em uma das fórmulas de datas do governo de Bilalama
_: :~: «Ano em que Bilalama, ensí de Eshnunna, construiu o
~: IL de Tispak»." Esse fato foi, também, registrado em
pequena inscrição encontrada em alguns tijolos do palácio,
_ estavam destinados originariamente, sem dúvida, à constru-
-- do templo: «Para Tispak, seu senhor, Bilalama, seu amado
~:.;:. ~\\'J\"à.ü\), ~\\~\ Ü~ E~\\w,m\\"à., c.\)\\.~~x\\.\\\. É-SlKlL, C\\\.e ek
~ô.~ .•.•. 'b\.\"à.\"à.\\\"à.'i~\:.'0\\'S\\.\\.\.\\., \â.\\\'uíc\\\, '0 );)â.\'o.\:.\.'0~~ ~'S\\\\\\.\\\\"à. ~
~::ê.. ou para uso profano o antigo templo dedicado ao rei de Dr,
::':.:-Sin . ..,
A arqueologia mostrou que, durante o governo de Isharra-
-2shu, sucessor de Bilalama, o palácio de Eshnunna foi incen-
:::ê o. Esta catástrofe se deve, provavelmente, a uma invasão
46

- .-\numutabil, um aventureiro que, aproveitando um momento


~" fraqueza da dinastia de Isin, estabeleceu_se na cidade de

«Year when Amurru destroyed Ka-ibaum» (Tell Asmar 248).


«Year when Badbar and Ka-ibaum were built» (TeU Asmar 252).
«Year when Amurru destroyed Ishur» (Tell Asmar 24.6).
«Year when Amurru intrusted Bilalama with the rule of Ishur»
- II Asmar 253).
E Frankfort conclui: «The last formula, in its completeness, contains
::::e key to the understanding of ali of them. It appears that the Amorites
:-a\'aged and plundered cities in the neighborhood with the connivance of
Bi alama, who annexed and rebuilt them after the nomads had taken the
. ot which constituted their exclusive interest in those towns».
43. Cf. H. Frankfort, Th. jacobsen, C. Preusser, TeU Asmar and
Khafaje, p. 45.
44. Cf. H. Frankfort, Th. jacobsen, C. Preusser, Teu- Asmar and
Khafaje, p. 45: a-na dTispak
be-Ií-su
bi-Ia-Ia-ma
na-ra-am-su
5. u na-ás-pár-su
ENSl
ás-nunki
é-sikil-am
sa i-ra-a-mu
10. ib-ni
45. Cf. H. Frankfort, S. Lloyd, Th. jacobsen, The Gimilsin Temple
and the Palace of the Rulers at TeU Asmar, p. 47.
4~. Cf. H. Frankfort, Th. jacobsen, C. Preusser, TeU Asmar and
Khafaje, p. 32s.

21
Der, na reglao oriental do rio Tigre.47 Como sucessor de Ishar-
ramashu aparece um tal U1?urawasu, provavelmente idêntico com
o homônimo mencionado em duas tábuas cuneiformes de TeU
Asmar como um habitante de Der e enviado de Anumutabil."
Mas a independência de Der deve ter terminado durante o rei-
nado de Iddin-Dagan (-t- 1974-1954 a.c.), já que seu filho
Ishme-Dagan, antes de assumir em 1953 a.c. o trono de Isin,
foi governador de Der."
As fontes mencionam dois personagens portadores de nomes
sumérios como ENSí de Eshnunna depois de U1?urawasu. O pri-
meiro, Ur-Ninkimara, reconstruiu o palácio do governo. '" Do
segundo, Urningishzida, não sabemos praticamente nada mais do
que o nome. O nome sumério não significa nada em relação à
origem etnológica dos dois personagens, já que era costume
entre os semitas adotarem nomes slimérios. O governo de Ur-
Ninkimara parece coincidir cronologicamente com o reinado de
Gungunum (-t- 1932-1906 a.c.) de Larsa.!1l Este rei, aprovei-
tando a fraqueza política de Lipit-Ishtar (1934-1924) a.C.)
e principalmente de Ur-Ninurta (1923-1896 a.C.), tentou supe-
rar a hegemonia de Isin e fazer de Larsa o centro político da
época. 62

Embora um selo acádico testemunhe que Urningishzida tinha


um filho, Erra-bãni, o próximo ENSí de Eshnunna foi o filho de

47. Cf. H. Frankfort, S. Lloyd, Th. jacobsen, The Gimilsin Temple,


p. 197; H. Frankfort, Th. jacobsen, C. Preusser, TeU Asmar and Khafaje,
p. 32s; D. O. Edzard, Die «Zweite Zwischenzeit» Babyloniens, p. 72s.
48. Cf. H. Frankfort, Th. jacobsen, C. Preusser, TeU Asmar and
Khafaje, 32s.: «But the remaining ruler, U~urawasu, may well be con-
nected with the catastrophe itself. jar-sealings style him «ishakku of
Eshnunna» with the usual epithets. But on one tablet (T. A. 245) we
find «U~urawasu, the man of Der», and on another (T. A. 222) «U!?U-
rawasu, the ambassador (kin-ge-a) of Anumutabil, king of Der».
49. Cf. D. O. Edzard, Die «Zweite Zwischenzeit» Babyloniens, p. 73s.
50. Cf. H. Frankfort, S. Lloyd, Th. jacobsen, The Gimilsin Temple,
p. 63.
51. Cf. ibid. p. 197, nota 95a: «Tablet AS.30: T.600, found in the
street at N 32: 1, levei 32-50, mentions a lú ku-un-ku-nu, «man of Kun-
kunu». This Kunkunu can hardly be other than the weU known Gungunum
of Larsa. The find-spot of this tablet, almost a meter below a tablet
of Sharria in the same locus, suggests that it should be dated to appro-
ximately the time of Urninmar».
52. Cf. D. O. Edzard, Fischer-Weltgeschichte vol. 2, p. 174s; P.
GareUi, Le Proche-Orient Asiatique, p. 112s; W. von Soden, Propylãen -
Weltgeschichte I, p. 574s.
22
-í-Ninkimara, Ipiq-Adad L 53 Seu filho e sucessor Abdi-AralJ.,
temporâneo do babilônio Sumu-abum (1894-1881 a.c.), em
:lliIa guerra contra Yawium de Kish foi derrotado e feito prisio-
:: iro. Nesta ocasião, Eshnunna perdeu todo o território situado
54

2. foz do Diyala .•• Os sucessores Shiqlanum e Sharria foram figu-


::-2 apagadas.
56 Apenas Belakum, filho de Sharria, conseguiu res-
:2urar o poder de Eshnunna, retomando Tutub e reorganizando o
. der central. A Belakum parece ter seguido no governo de
:':shnunna um tal Waradsa, provavelmente um usurpador, que
ontinuou a obra de restauração de seu antecessor. 67

Com Ibalpiel I começou uma nova dinastia que levou


!:shnunna ao auge de seu desenvolvimento político e econômico .
.?oi principalmente o filho de Ibalpiel, Ipiq-Adad 11, que a partir
'" 1850 a.c., aproveitando a rivalidade existente entre Isin e
- arsa e, em conseqüência disso, o enfraquecimento político de
sin, conseguiu expandir o poder de Eshnunna. Entre suas con-
quistas conta-se também a cidade de Rapiku, situada às margens
o Eufrates.58 Duas inscrições sobre tijolos encontradas nas
escavações de TeU Asmar nos mostram uma evolução clara na
ideologia real dessa região, que correspondia, sem dúvida, à sua
expansão política. Na primeira inscrição lê-se: «Ipiq-dAdad,
amado de Tispak, ENSí de Eshnunna»." Este texto corresponde
exatamente ao modelo tradicional. Já na segunda inscrição é
roclamado: «dIpiq-dAdad, rei forte, rei que expandiu Eshnunna,
pastor dos cabeças-pretas 60, amado de Tispak, filho de Ibal-
iel». '" O nome de Ipiq-Adad vem precedido do determinativo
53. Cf. E. Sollberger-]. R. Kupper, Inscriptions Royales Sumérien-
nes et Akkadiennes, p. 237: «Ur-Nin-giz-zida, le gouverneur d'Esnunna,
a offert (ce sceau) à Erra-bãni, son fils». Cf. tb. op. cit. p. 238 um
ou ro selo acádico com a inscrição: «Ipiq-Adad, bien aimé de Tispak,
gouverneur d'Esnunna, fils d'Ur-Nin-Kimara».
54. Cf. H. Frankfort, S. Lloyd, Th. jacobsen, The Gimilsin Temple
. 123.
55. Cf. ibid. p. 123.
56. Cf. S. Gre'engus, Old Babylonian Tablets from Ishehali and
\,icinity, p. 20s.
57. Cf. H. Frankfort, S. L1oyd, Th. jacobsen, The Gimilsin Temple,
p. 120.
58. Cf. ibid. p. 126s.
59. Cf. E. SolIberger-]. R. Kupper, Inscriptions Royales Sumérien-
nes et Akkadiennes, p. 239, IV E 16a.
60. O título «pastor dos cabeças-pretas» é um antigo epíteto dos
soberanos sumérios. A locução «cabeça-preta» é uma forma poética
comum entre os sumérios par·a designar o «homem».
61. Cf. ibid., ;p. 239, IV E 16b.

23
divino «DINGIR», o que significa que esse soberano, seguindo
o exemplo dos reis da terceira dinastia de Ur, se fez divinizar
em vida, provavelmente após suas conquistas militares, quando
assumiu também o título «LUGAL = rei».
Seu filho Narãmsin sucedeu-o no trono e estendeu a influên-
cia de Eshnunna, no norte, até à região do rio Habur. Em uma
inscrição descoberta nas escavações de TeU Asmar lê-se:
«dNarâm-dSin, rei forte, rei de Eshnunna, amado de Tispak,
filho de dIpiq-dAdad».62 Por esta inscrição pode-se concluir que
Narãmsin também foi divinizado em vida, como se deduz pelo
uso do determinativo «DINGIR» antes de seu nome. Além disso
encontra-se aqui, pela primeira vez, °
título LUGAL es-nun-naki
= «rei de Eshnunna». Pelo ano 1820 a.C. subiu também ao
trono de Assur, conseguindo assim, por algum tempo, unir sob
seu governo Eshnunna e a Assíria. Morreu relativamente cedo,
sendo substituído no trono de Eshnunna pelo seu irmão Dadusha,
no ano 1815 a.C. aproximadamente. Como seu pai e seu irmão,
ele também foi divinizado em vida. 63 Continuou a política
expansionista de seus antecessores, mas teve seu campo de ação
limitado pela presença política e militar do novo rei da Assíria,
Shamshi-Adad I. Pelo material arqueológico encontrado em
&1

TeU Asmar, sabe-se que deu sua filha em casamento ao gover-


nador de Rapiku.65 Provavelmente essa cidade, conquistada por
Ipiq-Adad 11, tornara-se novamente independente e Dadusha tentou
um bom relacionamento com ela através de um casamento.

62. Cf. E. Sollberger-j. R. Kupper, Inscriptions Royales Sumérien-


nes et Akkadiennes, p. 240, IV E 17a. O texto acádico é:
dna-ra-am-dSin
LUGAL da-an-nu-um
LUGAL es-nun-naki
na-ra-am dtispak
DUMU di-bi-iq_dAdad
63. Cf. a inscrição IV E 18a em E. Sollberger-j. R. Kupper, «Ins-
criptions Royales Sumériennes et Akkadienes, p. 240: «[A dTispak, son
maitre], dDadusa, le fils d'dlpiq_dAdad, le roi d'Esnunna, a voué (ce
poids) pour Inibsina, sa fille». Como se vê nesta inscrição o determina-
tivo divino «DINGIR» precede o seu nome e ele conser~a também o
título «rei de Eshnunna». ' ,
64. Shamshi-Adad I reinou de 1814-1782 a.C. Um governador de
grande tino político e administrativo, colocou a Assíria novamente entre
as potências da época. Como nota D. O. Edzard em Fischer Weltge-
schichte vol. 2, p. 185: «Die Persõnlichkeit Shamshiadads hãlt durchaus
den Verg1eich mit dem jüngeren Zeitgenossen Hammurabi aus».
65. Cf. H. Frankfort, S. Lloyd, Th. ja.cobsen, The Gimilsin Temple,
p. 129.

24
potâmia justamente em um período de transição. A queda de
Ur e da terceira dinastia de Ur privara a região de uma força
centralizadora. Uma unidade política verdadeiramente estável só
reaparecerá na Mesopotâmia com o reinado de Hammurabi. Esse
período de cerca de duzentos anos entre a queda de Ur e a
ascensão política de Hammurabi é, em geral, denominado, pelos
assiriólogos, o tempo de lsin-Larsa. 7' É um tempo em que se
multiplicaram as pequenas dinastias semitas na região. Os su-
mérios, antigos habitantes da região, foram, sob o ponto de vista
político, completamente derrotados. Mas permaneceu a herança
cultural e religiosa do's sumérios, que marcou' profundamente os
estados semitas que surgiram naquela época. Os semitas não
entraram na região com fúria iconoclasta, tentando destruir à
força tudo que fosse costume ou tradição suméria. Pelo contrá-
rio, procuraram integrar a cultura e a religião suméria na própria
cultura e religião. Eles prepararam, assim, o terreno para aquele
tipo de cultura bilíngüe que se tornou uma constante da cultura
babilônica.

3. O «CÓDIGO» DE LEIS DE ESHNUNNA

Uma simples leitura das tábuas 1M 51.059 e 1M 52.614 nos


mostra claramente que o material legal aqui reunido não forma
um código de leis no sentido moderno do termo. Muitos pontos
da vida jurídica e social da cidade não são tratados nas leis de
Eshnunna. Faltam, por exemplo, prescrições que regulem o direito
de herança. Na parte do direito penal faltam as sanções aplica-
das aos crimes de morte, de roubo etc... Mesmo o direito de
propriedade é tratado muito brevemente. Tudo isto nos leva a
concluir que os tribunais de Eshnunna certamente conheciam, no
seu funcionamento cotidiano, outras leis e prescrições que não
foram fixadas nas tábuas encontradas em TeU I;Iarmal. Aliás, a
preocupação de reunir todas as leis vigentes em um código, que
realmente mereça esse nome, é relativamente moderna. Como o
74

73. Cf. p. ex.: H. Schmokel, Geschichte des Alten Vorderasien, p.


73-84. O nome Isin-Larsa lhe vem das duas maiores cidades-reinos da
época, Isin e Larsa, que tentaram, alternadamente, exercer uma certa
hegemonia na região.
74. Cf. ·W. Preiser, «lur r·echtlichen Natur der altorientalischen
Gesetze» em Festschrift für Karl Engish, p. 32: «Der Gedanke, dass es
darauf ankomme, das geltende Recht in erschopfender Weise darzusteIlen,
ist ein moderner Gedanke, und Kodifikationen, die diesen Namen verdie-
nen, begegnen erst in den letzten zweihundert jahren».
26
~=C-O::lstrouH. Brunner, as legislações antigas, mesmo na Idade
"~";:3. limitavam-se, ao que parece, a fixar por escrito e a cole-
,-=:::21" somente aquelas normas e leis, cuja transmissão era, por
::;'~-=:l motivo, interessante.75 E este princípio vale provavelmente
-::;--' ém para as legislações do Oriente Antigo. Mais problemá-
':::: se torna, contudo, determinar o motivo que levou reis e
= ~~- adores a transmitir complexos legais como o «código» de
-..:~-""ammu, o «código» de Lipit-Ishtar, as leis de Eshnunna e o
:-' 'go» de Hammurabi. Continua aberta entre os especialistas
'"- -:estão sobre a natureza, a jurisdição e o conteúdo dos «códi-
~-> de leis encontrados pela arqueologia no Oriente Antigo. 7.
"~ uma análise atenta do prólogo e epílogo dos «códigos» de
-"~-" 'ammu TI, de Lipit-Ishtar'" e de Hammurabi parece permi-
~-::os a conclusão que o motivo principal que levou esses reis
:=. .roclamar e publicar seus códigos legais foi, sem dúvida, a
~:ên,ão de empreender em seus reinos uma reforma social e
~::..:idica.7. O rei Ur-Nammu declara solenemente em seu prólogo
~." no seu tempo: «O órfão não foi entregue ao rico; a viúva
-==0 foi entregue ao poderoso; e o homem de um sido
-"- foi entregue ao homem de uma mina».80 De maneira aná-
= -~a Hammurabi declara no epílogo de sua estela: «Que o
::,-,:;]em oprimido, que está implicado em um processo, venha
2.:éillte de minha estátua de rei da justiça e leia atentamente
::únha estela escrita e ouça minhas palavras preciosas. Que
=~a estela resolva a sua questão, ele veja o seu direito, o seu
::x3,ão se dilate!» 01 Na mesma linha, Lipit-Ishtar justifica a

75. Cf. H. Brunner, Deutsche Rechtsgeschichte, vol. I, p. 425.


76. Cf. W. Preiser ,art. cit. p. 17.
n. Cf. S. N. Kramer, «Ur-Nammu Law Code» em Orientalia NS
(1954), p. 40s. Cf. tb. a tradução inglesa de J. J. Finkels!ein em
.-\..:
~T', p. 523-525.
78. Cf. A. Falkenstein - M. San Nicolà, «Das Gesetzbuch Lipit-
~~- von Isim> em Orientalia NS 19 (1950), p. 1038; Cf. tb. a tradução
:.:Jg!esa de S. N. Kramer em ANET 3, p. 159-161.
79. Cf. W. Eilers, Die Gesetzesstele Chammurabis - Der Alte Orient,
-01. 31, fascículo 1, p. 8. Cf. tb. W. Preiser, art. cit., p. 17. Embora,
.0 diz Preiser, loc. dt.: «Sind moglicherweise diese Sammlungen, die
'em modernen Betrachter auf den ersten Blick ais Gesetzeskorpora oder
Ansãtze zu solchen erscheinen, in Wirklichkeit lediglich ais Erklarungen
",ê",enüber der Gottheit úder dem Thronfolger gedacht?»
80. Cf. ANET', p. 524.
1. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 110.

27
proclamação de sua legislação." Até o período babilônico antigo,
pelo menos, a finalidade da fixação por escrito e proclamação
de coleções de leis parece ter sido, pois, corrigir abusos e resta-
belecer a justiça. Essa proclamação era feita, provavelmente, em
uma estela colocada no templo do deus principal da cidade. Hoje
possuímos apenas a estela de diorito, conservada no museu do
Louvre, com a legislação de Hammurabi. Mas sabe-se pelo
epílogo das leis de Lipit-Ishtar que seu original foi igualmente
escrito em uma estela, embora hoje conheçamos somente cópias
desse original, provenientes da cidade de Nippur.83 Ê, portanto,
provável que o original das leis de Eshnunna também tenha sido
escrito em uma estela. Contudo, atualmente, possuímos apenas
as duas cópias em tábuas de argila.
A estrutura literária dos complexos legais mais antigos da
Babilônia apresentava normalmente uma divisão tripartida em
prólogo, corpo legal e epílogo, como se pode constatar nos
«códigos» de Ur-Nammu, Lipit-Ishtar e Hammurabi." Como não
possuímos o texto original das leis de Eshnunna, não nos é
possível saber se tinham originariamente a mesma estrutura dos
«códigos» contemporâneos. As duas tábuas 1M 51.059 e 1M
52.614 mostram uma formulação diferente. As sete linhas em
língua suméria que a tábua «A» (1M 51.059) coloca à guisa
de introdução não apresentam as características de um prólogo.
Essa parte deve ser considerada como uma fórmula de data-
ção.8O Após essa fórmula introdutória seguem as prescrições
legais escritas em língua acádica. Nem a tábua «A» nem a tábua
«B» nos transmitiram um epílogo.
A divisão em sessenta parágrafos foi feita por A. Goetze",
seguindo aspectos puramente formais, como por exemplo o uso
da partícula acádica summa = «se». Por isso, depara-se com

82. Cf. ANET3, p. 159: « ... when Anu (and) EnlH had called Lipit-
Ishtar - Lipit-Ishtar, the wise shepherd whose name had been pronoun-
ced by Nunamnir - to the princeship of the land in order to 'establish
justicein the land, to banish complaints, to turn back enmity and rebel-
lion by the force of arms, (and) to bring wellbeing to the Sumerians and
Akkadians ... »
83. Cf. J. Klima, art. «Gesetze» em Reallexikon der Assyriologie, voI.
3, p. 248. Cf. tb. ANET 3, p. 161: «VeriIy when I hadestablished the
wealth of Sumer and Akkad, I erected this stela».
84. Cf. J. Klima, art. cit. p. 243s.
85. Cf. B. Landsberger, em art. «Jungfrãulichkeit», p. 65s.
86. Cf. acima p. 14.

28
"'" anomalia de uma divisão como § 18 e § 18a. E, por outro
~ErlO encontram-se diversos parágrafos que, na realidade, for-
=.a:n uma unica lei." A formulação mais comum dos parágrafos
§ ;:-=rI estilo casuístico, introduzido pela partícula summa = «se»,
~e é seguida, em geral, pelo sujeito «awl1um». Alguns pará-
~afos, contudo, apresentam uma formulação apodítica", outros
';"0 tabelas de preços, tarifas e salários. 89

Embora a disposição geral das diversas determinações


~=gajs de Eshnunna, nas cópias que possuímos, apresente uma
--=na ordem lógica, as leis de Eshnunna são em sua formulação
_ m sua sistemática geral, sem dúvida, mais primitivas do que
"'-= do «Código» de Hammurabi. H. Petschow, em seu estudo
00

~_~re a sistemática nas leis de Eshnunna 91, mostrou como a


"'".arente desordem atribuída ao complexo de leis estudado reflete
::.:-J outro tipo de sistemática, regido por uma outra maneira de
::-:isar .••

7. Compare §§ 17 + 18; §§ 22 + 23 + 24; §§ 27 + 28; §§ 34


35; §§ 36 + 37; §§ 44 + 45; §§ 47 + 48; §§ 53 + 54 + 55 e
56 + 57.
88. Cf. os §§ 12, 13, 15, 16, 18a, 19, 34, 35, 51 e 52. Para o
:;::: . lema das leis apodíticas e casuísticas d. o trabalho fundamental de
•.!_ Alt, «Di e U rsprünge des israelitischen Rechts» em Kleine Schriften
== Geschichte des Volkes Israels, voI. I, p. 285-332. Cf. tb. H. J. Boec-
~=., Recht und Gesetz im Alten Testament und im Alten Orient, p.
:-- 180; E. Gerstenberger, Wesen und Herkunft des «Apodiktischen
_ .ozhts».
9. Cf. os §§1-4, 7-8, 10, 11 e 14.
90. Os autores acentuam, em geral, a falta de ordem existente nas
>;'" de Eshnunna. Assim, p. ex.: G. R. Driver e J. C. MiJes em «The
32bylonian Laws», vol. I, p. 10, escrevem: «The order is whoIly unscien-
.::.:: ... This chaotic lack of order sugg,ests that these laws are not an
=. :g':.l1al text but a col1ection of laws put together fm such scholastic
7=-"""poses... » V. Korosec em «Orientalisches Recht», Handbuch der
.:e taHstik I, vol. complementar IlI, p. 86, afirma: «Die Systematik ist
:::e.:rJich primitiv». J. Klima diferencia um pouco mais o seu julgamento
=- ALOL 20 (1952), p. 566, nota 93: «Unsystematik nur im Sinne der
= 'emen Auffassung». Cf. tb. o art. «Gesetze» de J. Klima em Real1e-
don der Assyriologie, vol. 3, p. 253.
91. Cf. o art. «2ur 'Systematik' in den Gesetzen von Eschnunna»,
"-:TI Symbolae luridicae et Histor'ÍCae Martino David dedicatae, vol. II,
;J. 131-143. Cf. tb. o art. do mesmo autor sobre a sistemática no Código
:::e Hammurabi. «Zur Systematik und Gesetzestechnik im Codex Hammu-
~ i>, em ZA 57 (1965), p. 146-169.
92. Por exemplo, o fenômeno de atração, tão freqüente na formula-
. -o do complexo legal de Eshnunna, e que levou o legislador a colocar
E:l um determinado contexto leis que apresentam uma certa semelhança

29
Uma análise crítica das tábuas «A» e «B» detecta três
grandes divisões ou grupos temáticos no complexo de leis de
Eshnunna."
O primeiro grande grupo abrange os §§ 1 a 14 e trata de
preços, tarifas e aluguéis. Nos §§ 1 e 2 o legislador determina
os preços máximos permitidos para gêneros de primeira necessi,.
dade como cevada, óleo, lã etc... Seguem nos §§ 3 e 4 as
tarifas para aluguel de um carro de boi e de um barco e o
respectivo salário de seus condutores. Os preços são calculados
nos dois veículos de pagamento da época: cevada e prata. Os
§§ 7 e 8 determinam o salário mínimo de duas classes de tra-
balhadores do campo: o ceifador e o joeireiro. O § 9 decide
como proceder com um mercenário contratado para trabalhar
na colheita e que não cumpriu o seu contrato. O § 10 trata da
tarifa de aluguel de um jumento e seu condutor. Já o § 11 fixa
o salário mínimo mensal de um LÚ. trUN.GÁ, i.é: de um mer-
cenário. O § 14 estipula para o alfaiate uma remuneração· pro-
porcional ao valor da roupa confeccionada. A inclusão neste
grupo dos §§ 5 e 6, bem como dos §§ 12-13, parece perturbar
a ordem lógica natural dos assuntos tratados. Deve-se, con-
tudo, explicar a presença desses parágrafos neste contexto certa-
mente pelo fenômeno de atração. As palavras chaves «barco» e
«barqueiro» do § 4 atraem para este 'COntexto o § 5, que se
refere à responsabilidade de um barqueiro, se por sua negligên-
cia o barco afunda, e o § 6 que pune o uso indevido (furtum
usus) de um barco. Pelo mesmo motivo pode-se também, expli-
car a introdução dos §§ 12 e 13 neste contexto O assunto
«colheita» tratado nos §§ 7 a 11 atrai a lei que pune o awilum
que for surpreendido no campo de um muskenum junto dos
feixes de grão. O § 14 estende a casuística tratada rio § 13 à
casa do muskenum.
O segundo grande grupo, o mais extenso, abrangendo os
§§ 15 a 41, reúne as diversas leis referentes ao que hoje cha-
maríamos de direito contratual. Começa com o § 15 proibindo ao
tamkãrum (comerciante) e à sãbitum (taberneira) receber prata
ou «naturalia» a-di ma-di-tim (em pequena quantidade?) da
mão de um escravo ou de uma escrava. O § 16, por sua vez,·

temática ou de terminologia, nos leva a descobrir uma mentalidade regi da


pela ciência das listas, tão comum entre os sumérios e babilônios.
93. Cf. H. Petschow, art. cit. p. 132s.

30
proíbe o tipo de empréstimo «qlptum» ao mãr awilim Ia zizu,
i.é: o filho que ainda vive na comunidade da casa paterna, e
ao escravo. Os §§ 15e 16 proíbem dois tipos de contratos, mas
não prescreveu as sanções a serem impostas nos casos de infra-
ção da lei. Como observa Petschow, as conseqüências legais
em casos de violação da lei eram certamente a anulação do
contrato e a obrigação, no § 15, de restituir os bens recebidos."
Com a mesma expressão «mãr awIlim» = «filh() de um
awIlum», usada no § 16, começa também o § 17, que provavel-
mente por atração é introduzido neste lugar. Ele determina como
proceder com a terl].atum levada à casa do sogro nos casos de
dissolução natural de um «inchoate marriage», Lé: de um casa-
mento nãó consumado, pela morte de uma das partes. O § 18
continua a casuística: como proceder com os bens no caso de
um casamento consumado, mas prematuramente terminado pela
morte de um dos cônjuges.
Os §§ 18a a 24 reúnem diversas prescrições relativas a
empréstimos. O § 18a determina as taxas de juros normais para
empréstimos de prata e de cevada; o § 19 o prazo de venci-
mento e os §§ 20 e 21 a taxa de juros em casos especiais. Os
3. 22 a 24 tratam de casos ilegais de penhora.
O § 25, reassumindo o tema «terl].atum», serve de passagem
ara o tema casamento e família (§§ 25 a 35). Esse tema é
abordado pelo legislador em uma seqüência 'Cronológica.·5 Co-
::leça no § 25 determinando as conseqüências financeiras da
"ssolução de um «inchoate marriage», por intervenção do pai
::'a noiva, que a entrega em casamento a um terceiro. Nestes
::2S0S o pai da noiva tem o direito de dissolver o casamento
-"'o onsumado, mas deverá pagar um preço bem alto: o dobro
.::::. uantia paga como terl].atum. O rapto e defloração da esposa
=-= ':TI «inchoate marriage» é punido com a pena de morte no
= _5. Os §§ 27 e 28 descrevem as condições exigidas para que
-.2 mulher se torne esposa. Os §§ 29 e 30 tratam do caso de
_ ::lOVO matrimônio de uma mulher, cujo marido foi levado
___=-=::IJ.eiroou fugiu da cidade por motivos políticos. O § 31
- -:' aqui por atração por causa do termo naqãbum = «deflo-
_~ . Os §§ 32 a 35 tratam da educação e adoção de crianças
___ o as.

f. art. cito p. 136.


i. H. Petschow, art. oito p. 137.

31
No fim do segundo grande grupo, encontram-se nos §§ 36
e 37 prescrições sobre a responsabilidade nos depósitos em casos
de perda do bem depositado. O § 38 trata do direito de um
irmão sócio de comprar a parte do outro irmão pelo preço médio
oferecido por um estranho. O § 39 dá a um awIlum que, por
necessidade, se viu obrigado a vender a sua casa, o direito de
preempção se essa casa for colocada novamente à venda. Con-
forme o § 40, o comprador que não puder indicar o vendedor
de uma mercadoria questionada deve ser considerado ladrão.
O § 41 determina que a cerveja de três membros da classe
privilegiada só poderá ser vendida por meio da taberneira.
O terceiro grande grupo trata de diversos temas que, na
terminologia moderna, pertenceriam ao direito civil e penal. Os
§§ 42-47 determinam as sanções contra diversas lesões corporais
e agressões pessoais. No § 48 é abordada e decidida a questão
de competência dos diversos tribunais. Note":se que nos §§ 42-47
não é aplicada, como no «Código» de Hammurabi, a pena de
talião, mas o legislador se limita a compensações financeiras.
Os §§ 49 e 50 punem delitos contra a propriedade privada. Os
§§ 51 e 52, que tratam dos sinais que devem marcar um escravo,
entram aqui por atração com o tema «escravo» tratado nos §§
49-50. Os §§ 53 a 57 determinam a responsabilidade do proprie-
tário de um boi escorneador ou um cão feroz no caso de agres-
são e morte de outro boi, de um homem livre ou de um escravo.
No § 58 o legislador pune com pena capital a negligência do
proprietário de um muro que cai e mata um awIlum.
Os §§ 59 e 60, que encerram a tábua «A», parecem um
acréscimo posterior. 00O § 59 parece punir o awilum que repu-
diar a esposa que lhe gerou filhos com a perda de sua casa.
Mas a formulação é bastante obscura e sua interpretação muito
discutida.·7 Pelo tema tratado, o lugar esperado para o § 59
seria logo após o § 30 e não em seu contexto atual." O § 60,
embora transmitido em estado bastante lacunar, parece impor
ao vigia negligente a pena de morte, caso a casa por ele guar-
dada fosse arrombada.
Uma última questão a ser abordada neste contexto é o pro-
blema da época de composição do texto original das leis de

96. Ct. H. Petschow, art. cit. p. 141.


97. Ct. acima o comentário ao § 59.
98. O. H. Petschow, art. cit. p. 142.

32
Eshnunna. Hoje está completamente descartada a hipótese que
a ribuía a publicação das leis de Eshnunna ao ensí Bilalama."
tas ainda não é possível uma datação exata. As duas tábuas
1M 51.059 e 1M 52.614 datam, como foi visto acima 100, certa-
mente do reinado de Dadusha. Elas são, contudo, apenas cópias
e não o original. Um elemento precioso para a determinação do
empo de composição do texto original nos é fornecido pela parte
introdutória da tábua 1M 51.059. Na terceira linha lê-se a expres-
são nam-lugal es-nun-naki = «realeza de Eshnunna». Infeliz-
mente, no início da linha, onde devia estar o nome do rei, há
uma lacuna. A frase toda pode ser traduzida: «Nin-azu chamou
[ .N.?] para a realeza de Eshnunna». Sabe-se pelas inscrições
encontradas pela arqueologia que o primeiro governador de
Eshnunna a assumir o título LUOAL es-nun~naki =«rei de Esh-
nunna» foi Narãmsin. A promulgação do texto original das leis
de Eshnunna deve ter ocorrido, portanto, ou durante o reinado
de Narãmsin ou de seu irmão e sucessor Dadusha, entre os
anos 1825 .a.c. e 1787 a.C. aproximadamente. '01

4. A SOCIEDADE DE ESHNUNNA DURANTE O


PERÍODO BABILÔNICO ANTIGO

A estrutura da antiga sociedade sumena, baseada em um


sistema de centralização tipo social-teocrático, sofreu durante o
governo dos reis da terceira dinastia de Ur uma profunda trans-
formação. O templo do deus principal da cidade foi perdendo,
102

aos poucos, o seu lugar de centro administrativo da região. O


palácio do rei tornou-se, então, centro administrativo e político
do país, o lugar das grandes decisões, a última instância de
todos os casos pendentes. A Babilônia assistiu, portanto, nessa

99. Cf. A. Goetze, «The Laws of Eshnunna Discovered at Tell Har-


mal» em Sumer 4 (1948), p. 69. Mas o próprio Goetze rejeitou essa
sua hipótese em The Laws of Eshnunna, p. 20.
100. Cf. acima p. 14.
101. Cf. acima p. 24.
102. Cf. A. L. Oppenheim, Ancient Mesopotamia, p. 74s; H. W. F.
Saggs, Mesopotamien, p. 235s; A. Falkenstein, «La Cité-Temple Sumé-
rienn'e», em Cahiers d'Histoire mondiale 1 (1954), p. 784-814; F. R.
Kraus, «Le Rôloe des Temples depuis Ia Troisieme Dynastie d'Ur jusqu'à
Ia Premiere Dynastie de Babylone», em Cahiers d'Histoire mondiale
I (1954), p. 522-536.

33
época, um processo que hoje chamaríamos de secularização. Foi
um processo paulatino, que 'começou muito antes de Vr III. Pro-
vavelmente já com a primeira dinastia semita, a dinastia acádica.
Mas essa evolução atingiu o seu apogeu durante Vr I1I, quando
o rei tornou-se um monarca absoluto. Ele já não é mais apenas
o representante do deus da cidade, mas a divindade mesma
presente entre o povo, como se pode deduzir do costume dos reis
de Vr III de colocar diante de seus nomes o determinativo
DINGIR = «deus», sendo, assim, considerados como deuses. '03
As hordas semitas, que começaram a invadir a Babilônia desde
o terceiro milênio, contribuíram, sem dúvida, de maneira decisiva
para o aparecimento dessas novas idéias que conseguiram trans-
formar a antiga sociedade suméria.
Em Eshnunna, quando Ipiq-Adad lI, após a queda de Vr
I1I, aproveitando as rivalidades entre Isin e Larsa, assumiu o
título de LVGAL = «rei», foi instituído o mesmo modelo de
monarquia absoluta, que encontramos na terceira dinastia de V r.
Em suas inscrições, Ipiq-Adad II e seus filhos Narãmsin e Da-
dusha assumem o determinativo DINGIR = «deus» antes de
seus nomes. Este jato nos mostra o tipo de ideologia real que
,o<

existia no reino de Eshnunna na época em que foram promulga-


das as leis de Eshnunna.
A sociedade de Eshnunna se apresenta, em suas leis, com
a mesma divisão em três grupos sociais como a sociedade babi-
lônica do «Código» de Hammurabi.105 O homem livre, com todos
os direitos de cidadão, era chamado no período babilônico
antigo de awi"lum.10;; Constituía a camada mais ampla da socie-
dade de Eshnunna. Nela eram recrutados funcionários, escribas,
sacerdotes, comerciantes, profissionais liberais e grande parte dos
soldados. 101Naturalmente, a classe dos awi"lum comportava uma
gama imensa de diferenças sociais, desde influentes governado-
res até pequenos camponeses. A nobreza hereditária como classe

103. Cf. H. Frankfort, Kingship and the Gods, p. 295s.


104, Cf. E. SoIlberger-]. R. Kupper, lnscriptions Royales Sumé-
riennes et Akkadiennes, p. 239.
105. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 16s.
106. Como se pode constatar pela consulta a um léxico (Cf. p. ex.:
W. von Soden, Akkadisches Handworterbuch, p. 90a), o termo awilum
significa em si «homem».
107. Cf. W. Rollig, art. «Gesellschafb> em Lexikon der Assyriologie,
vol. 1II, p. 235.

34
social parece não ter existido entre os sumenos e semitas, pelo
menos até o período babilônico antigo. Povos estrangeiros como
os cassitas, hurritas e outros tinham em sua sociedade uma
camada social de nobres. 108Mais tarde, devido a influências
estrangeiras, os altos funcionários reais desempenharam na Ba-
bilônia, e especialmente na Assíria, o papel de uma espécie de
nobreza .•••
~ A camada mais ínfima da sociedade babilônica era formada,
103
sem dúvida, pelos escravos. Mas foram sempre uma minoria.
No período pré-dinástico não eram nem mesmo um fator social
, significativo. Nesta época os escravos eram conseguidos nas
campanhas militares com a captura de prisioneiros de guerra.
Uma outra maneira de conseguir escravos era também as «ra-
zias» feitas nas regiões montanhosas. Daí se compreende por que
o sumerograma GEME = «escrava» seja um sinal composto dos
elementos que significam «mulher» e «montanha». A partir
010

de documentos datados da terceira dinastia de Ur, sabe-se que,


aos poucos, entrou na Babilônia o costume de homens livres
(awilum) que se entregavam como escravos para pagar uma
dívida ou, para isso, vendiam a esposa ou os filhos. Hammurabi
no § 117 de suas leis determina o tempo máximo desse tipo de
escravidão: «Se uma dívida pesa sobre um awilum e ele vendeu
sua esposa, seu filho ou sua filha, ou entregou-se em serviço
pela dívida: trabalharão durante três anos na casa de seu
comprador ou daquele que os tem em sujeição; no quarto ano
será feita sua libertação». ou Embora a tradição legal da Babi-
lônia se preocupasse com o direito dos escravos, como o com-
provam as leis de Hammurabi 112, contudo eram considerados
como um bem patrimonial de seus proprietários. "'
As leis de Eshnunna abordam o tema «escravo» em dife-
rentes parágrafos. O § 40 considera o escravo como uma espécie

108. Cf. W. RõIlig, art. «GeseIlschaft» em ReaIlexikon der Assyrio-


Ivgie, vol. III, p. 235.
109. Cf. W. RõIlig, ibid.
110. Cf. A. Deimel, Sumerisches Lexikon, lI, vol. 4, p. 1029, n. 558.
De fato o sinal cuneiforme GEMÉ é um composto dos sinais MI =
«mulher» e KUR = «montanha». Cf. tb. R. Borger, Assyrisch-babylo-
nische Zeichenliste, p. 194; R. Labat, Manuel d'Epigraphie Akkadienne,
p. 231, n. 558.
111. Para um comentário dessa lei d. E. Bouzon, O Código de
Hammurabi, p. 57s.
112. Compare os §§ 146-147, 175, 176 do CH.
113. Cf. W. Rõllig, ibid.

35
de mercadoria, que pode ser comprada e vendida. O § 15 proíbe
ao comerciante (tamkãrum) e à taberneira (sãbitum) receber
das mãos de um escravo prata, cevada, lã ou óleo de sésamo,
certamente para revender ou negociar. No § 16 é vetado ao
escravo fazer um contrato de empréstimo tipo «qiptum». Que a
lei mencione expressamente apenas a proibição de contratos de
venda e de contratos de empréstimo «q'iptum», não significa,
certamente, que o escravo pudesse ser sujeito de outros tipos de
contratos . .,. Os filhos de uma escrava pertenciam ao senhor dessa
escrava. O § 33 prescreve, por isso, que se uma escrava entregar
o seu filho a uma mulher livre, para que esta o crie, o dono da
escrava tem o direito de retomar a criança, sem pagar compen-
sação alguma, se a encontrar ou reconhecer. Os §§ 34/35 pare-
cem conceder um certo privilégio à escrava do palácio que
entregasse seu filho «a-na tar-bi-tim»: «como filho de criação»
a um muskênum: o muskênum podia ficar com a criança, se
compensasse o palácio com uma outra criança escrava. Os §§
31, 49, 55 e 57 fixam as quantias que deviam ser pagas como
indenização ao proprietário em caso de roubo, violação ou morte
de escravos ou escravas. Dentro da perspectiva de que o escravo
era um patrimônio de seu proprietário, o § 50 prescreve ao palácio
tratar como ladrão um funcionário da classe «sakkanakkum»,
«sapir nãrim» ou «bel têrtim», que capturar um escravo, uma
escrava, um boi ou um jumento e o retiver consigo mais de um
mês. Os §§ 51 e 52 parecem indicar que os escravos eram mar-
cados com determinados sinais que os diferenciavam das outras
pessoas.
Como no Código de Hammurabi, também nas leis de Esh-
nunna aparece, entre os awIlum e os escravos, um terceiro
grupo de pessoas, os «muskênum». O sumerograma usado em
Eshnunna para expressar o muskênum é sempre LÚ.MAs.KAK.
EN.115 O significado do termo tem sido objeto de muita discussão
entre os assiriólogos. E. A. Speiser justifica em seu artigo sobre
o muskênum a tradução de «dependente do palácio». ". Contra
114. O § 175 do Código de Hammurabi permite ao escravo do palá-
cio e ao escravo do muskênum realizar um contrato de casamento com
a filha de um homem livre. Não se sabe se esta praxe vigorava, também,
em Eshnunna.
115. O sumerograma usual para indicar o muskênum é LÚ.MAs.
EN.KAK, d. W. von Soden, AHW, p. 684.a.
116. Cf. E. A. Speiser, «The muSkênum» em Or. NS 27 (1958), p.
19-28. Cf. tb. G. R. Driver-j. C. Miles, The Babylonian Laws I, p. 90s.

36
Speiser, F. R. Kraus defende que o muskênum é o cidadão nor-
mal, eriquanto que o awilum representa uma classe mais elevada,
uma espécie de nobreza. Como mostrouW. von Soden, deve-se
111

levantar várias objeções sérias contra a tese de Kraus.118 A mais


séria parece-nos o fato de Kraus postular em sua tese a existên-
ia de uma sociedade feudal com uma nobreza bem definida
para o período babilônico antigo. Este postulado não encontra
nenhuma confirmação nos textos desta época.
A palavra muskênum é, sem dúvida, uma das mais antigas
a língua acádica. Já na época dos arquivos de Shurupak -
também conhecida como período de Para",19 - o termo entrou
na língua suméria, como uma palavra semita importada, na
:orma maska'en.120 Até agora, para essa época, o termo é teste-
:nunhado unicamente em um texto proveniente de Kish. 12' Os
:extos dos séculos imediatamente seguintes silenciam completa-
:nente em relação ao maska'en. As próximas menções ao mas-
-'a'en são provenientes de Ur lU '''', mas são bastante raras e
::-eferem-se a pessoas com nome semita. Diante das escassas
~ferências ao muskênum nos textos sumérios antigos, parece
=:lais provável a conclusão de que a sociedade suméria não co-
- ecia uma classe social dos muskênum.
Bem mais abundantes são as referências ao muskênum no
~2ríodo babilônico antigo. Mas a maior parte dessas referências
=~ ontra-se nas leis de Eshnunna e no Código de Hammurabi. m
117. Cf. F. R. Kraus, Ein Edikt des Konigs Ammi-Saduqa von
32bylon, p. 14.4-155. Nesta linha de interpretação d. tb. R. Yaron, The
::..z"'.3 of Eshn unna, p. 83-93.
118. Cf. W. von Soden, «muskênum und die Mawâli des frühen
-",';oJl" em ZA 56 (1964), p. 134.
119. Cf. D. O. Edzardem Fischer Weltgeschichte vol 2, I: «Die
::"}jynastiche Zeií», p. 57-82; P. GareIli, Le Proche-Orient Asiatique,'
;_ 05-79. D. O. Edzard escreve na p. 60: «Nach vorsichtiger Schãtzung
-=,:-j :nan die Archive von Suruppak an den Beginn oder in die Mltte des
-. ]ahrhunderts einordnen».
120. Cf. A. F alkenstein em ZA 51 (l 955), p. 262.
_21. St. Langdon, Oxford editions of Cuneiform texts VII. The Har-
:::e:-: Wek! CoIlection in the Ashmolean Museum. Pictographic inscriptions
::..__ Jemdet Nasr excavated by the Oxford and Field Museum expedi-
::=. Oxford 1928 (Texto 12), IV, 4.
:22. Cf. p. ex.: A. Falkenstein, Die Neusumerischen Gerichtsurkun-
:~ .'Wnchen 1957, voI. 1Il, p. 139.
I . Nas leis de Eshnunna d. os §§ 12, 13, 24, 34, 35 e 50 (na
'- ação da tábua «B»). No CH d. os §§ 8, 15, 16, 140, 175, 176,
:=S. 2!J , 204, 208, 211, .216, 219 e 222.

37
E esses dois complexos legais babilônicos são ongmanos do
norte do país, onde a influência semita era marcante. Fora desses
corpos legais, as menções ao muskênum são raras e quase todas
provenientes do norte.'"
No Código de Hammurabi o muskênum representa, sem
dúvida, uma classe social entre o awIlum e o escravo. Note-se
aqui, por exemplo, a gradação de penas entre uma ofensa feita
a um awIlum, a um muskênum ou a um escravo.'"
Nas leis de Eshnunna, os §§ 12 e 13 protegem o campo e
a casa de um muskênum contra a entrada indevida de um awi-
lum. O § 24 protege o muskênum contra um pseudo-credor que
penhore a sua mulher ou o seu filho: neste caso é aplicada a
pena de morte. Os §§ 34 e 35 tratam de um caso de adoção:
se uma escrava do palácio entrega seu filho para ser criado por
um muskênum, o palácio pode retomar a criança. Mas o muskê-
num pode, também, indenizar o palácio e ficar com a criança. 126

No § 50, a formulação da tábua «B» determina que, se um fun-


cionário «sakkanakkum», «sapir nãrim» ou «bel têrtim» capturar
um escravo, uma escrava, um boi ou jumento fugitivos do palácio
ou de um muskênum e o conduzir para Eshnunna, mas o retiver
em sua casa, deverá ser acusado de roubo.
Fora do centro cultural babilônico, é em Mari onde se en-
contra o maior número de alusões ao muskênum. São principal-
mente as cartas do arquivo real de Mari que o mencionam
diversas vezes. Como na Babilônia, também aqui o muskênum
1121

124. Cf. p. ex.: G. Dossin, Lettres de Ia premiere dynastIe babylo-


nienne, Textes Cunéiformes XVII, Paris, 1933, texto 76, onde em uma
carta o muskênum é citado ao lado do redo.m e do bã'irum, i.é: de duas
classes de soldados. Nas cartas publicadas por H. F. Lutz em Early
Babylonian letters from Larsa, Yale Oriental Series, vol. 2, New Haven
1917, 117, 25 e 71, 6 fala-se de um barco e de um boi pertencentes a
um muskênum. Em um documento de processo publicado por M. Schoor,
em Urkunden des altbabylonischen Zivil- und Prozessrechts, VAB 5, Leipzig,
1913, p. 273, fala-se da cevada «sa mu-us-ke-ne-tim» que lhe é tirada
de maneira violenta. Da reg-ião sul da Babilônia temos apenas três textos
ominosos que mencionam o muskênum (d. A. Goetze, Old Babylonian
o.men texts, YOS 10, New Haven 1947, 56, I, 19; 46, III, 12. Cf.
tb. Revue d'Assyriologie 44 [1950], p. 30, 52).
125. Compare p. ex.: os §§ 200 e 201; 202, 203 e 204; 215,216 e 217.
126. Compare com o § 23.
127. Cf. p. ex.: ARM lI, 55, 29; lI, 61, 25; lI, 80, 10; lIJ, 79, 9;
V, 25, 7; V, 36, 15; V, 77, 10; V, 81, 5; V, 86, 2.

38
era sem dúvida um grupo social ]:", que gozava de uma proteção
especial do rei. "'9
A partir do ano 1000 a.c. parece que o termo muskênum
começou a ser usado para indicar o «pobre» em geral, alguém
que vivia em uma situação social de opressão. ]30
Os textos acima apresentados permitem-nos, pois, concluir
que, pelo menos durante o período babilônico antigo, o muskê-
num formava uma classe intermediária entre os awilum e os
escravos, que, ao que parece, gozava de uma certa proteção
especial do rei. ""'W. von Soden aventou uma hipótese sobre a
origem da classe muskênum 102: eles eram, inicialmente, escravos
libertos de tribos semitas nômades e seminômades. As poucos
essas tribos foram tornando-se sedentárias e seus chefes passa-
ram de xeques a reis. Os libertos receberam dos novos reis partes

128. Cf. p. ex.: o significado coletivo do texto em ARM lI, 80, 10:
LÚ.MEs mu-ús-ke-nim: «os muskênum» com o determinativo LÚ.MEs
indicando uma classe de homens. Em ARM V, 25, 7 fala-se de mu-us-ke-
nu-um sa a-Ia-ni: «muskênum das cidades».
129. Em ARM V, 86, 2 o funcionário real se preocupa que o desejo
do palácio seja cumprido em relação a uma dádiva a um muskênum.
Em ARM 11, 61, 25 o texto refere-se a um A.sà mu-ús-k,e-nim
A.SA é-kal-lim: «campo do muskênum, campo do palácio ... » Infeliz-
mente a lacuna do texto não nos permite entender o sentido da frase.
130. Cf. W. von Soden, «muskênum und die Mawãli des frühen
Islam» em ZA 56 (1964), p. 137. Cf. p. 'ex. neste sentido o hino a
Shamash publicado por W. G. Lambert, Babylonian Wisdom Literature,
p. 134, linha 133: ú-la-lu en-su !].u-ub-Iu-Iu mus-ke-nu: «o humilde, o
fraco, o endividado, o pobre ... » Com este significado o termo passou
para oaramaico e para o árabe, que influenciou as línguas romanas na
formação do termo «mesquinho», «mesquin», «meschino».
131. Cf. tb. a -conclusão de G. R. Driver- J. C. MiJoes em The
Babylonian La:ws, vol. I, p. 93: «The facts here collected seem to show
that the muskênum belonged to a class under the protection of the crown
and was in some sense a dependent on, if not a servent of, the palace,
he was, however, not a slave of the palace ... »
132. Cf. W. von Soden, «muskênum und die Mawãli des frühen
Islam» em ZA 56 (1964), p. 133-141. Especialmente na p. 140 von Soden
escreve: «Ich mêichte nun die These aufstellen, dass der muskênum der
altbab. Zeit _iihnlich dem maulã des frühen Islam ein Fre-igelassener des
Stammes bzw. seines seU war. Die frühere Versklavung war gewiss
meist die Folge einer Kriegsgefangenschaft, kann aber auch andere Gründe
gehabt haben. Die Freilassung erfolgt nicht bedingungslos, sondern band
den Freigelassenen an den inzwischen zum Kleinkêinig oder Kanig
aufgerückten Stammeshiiuptling, der ihm bestimmte Pflichten auferlegte,
aber sich auch verpflichtete, ihm einen besonderen Schutz angedeihen
zu lassem>.

39
na divisão de terras.'33 O benefício concedido ligava esse grupo
de pessoas diretamente ao rei e acarretava para o beneficiado
diversas obrigações. As legislações babilônicas trataram dos
direitos e deveres da nova classe que surgia. A relação especial
com o soberano significava, também, uma proteção especial do
rei em relação à classe dos muskênum. Mas como também os
outros cidadãos (awilum) tinham deveres e obrigações em rela-
ção ao rei, aos poucos as diferenças vão desaparecendo, de
maneira que é praticamente impossível, a partir dos textos exis-
tentes, constatar-se a existência do muskênum como classe social
distinta a partir do fim da dinastia de Hammurabi.
A família era na sociedade de Eshnunna, como na sociedade
suméria e na sociedade babilônica, o cerne de sua estrutura
social. O sistema familiar vigente era o patriarcal. Embora a
poligamia, como no resto da Babilônia, não fosse proibida, o
casamento era, em geral, monogâmico. E, mesmo nas famílias,
onde havia diversas mulheres, uma só ocupava o lugar de esposa
principal e seus filhos eram os herdeiros legítimos. As outras
mulheres eram esposas secundárias ou concubinas.'34
Nas leis de Eshnunna nove parágrafos regulamentam o
direito matrimonial."" Se se leva em consideração o reduzido
número de parágrafos do· complexo legal de Eshn~nna, trata-se
até de uma regulamentação bastante detalhada, embora bem
menos completa que a do Código de Hammurabi. 1136

O processo matrimonial é começado na Babilônia pelo


pagamento da terl].atum. i.é; o preço estipulado pelo pai da
noiva. Ao receber a terl].atum o pai da noiva se compromete
com o noivo e a família deste. O § 25 pune, por isso, com a
obrigação de restituir em dobro a quantia de prata que recebeu
como terl].atum, o pai que entregar a sua filha a um terceiro. m
Desta maneira é cortada pela raiz todo e qualquer tipo de
especulação com a terl].atum."'''' Mas se o noivo desistisse do

133. Eram uma espécie de «glebae adscripti» do direito romano.


134. Cf. E. Ebeling,art. «Familie» em Reallexikon der Assyriologie,
vol. 1lI, p. 9-15; A. L. Oppenheim, Ancient Mesopotamia, p. 77-80. Cf. tb.
E. Ebeling, art. «Ehe» em Reallexikon der Assyriologie, vol. lI, p. 281-286.
135, Cf. os' §§ 17, 18, 25, 26, 27, 28, 29, 3D, 59.
136. Cf. os §§ 127-195 do Código de Hammurabi.
137. Cf. tb. os §§ 160 e 161 do Código de Hammurabi.
138. No § 161 Hammurabi corta mais uma possibilidade de es-
peculação quando prescreve: «Se um awilum enviou o presente para a
casa de seu sogro e pagou a terl].atum e (então) seu amigo o difamou

40
casamento, perdia a quantia paga como ter(latum, que ficava em
posse do pai da noiva. Se antes da coabitação uma das partes
morresse, conforme o § 17, a prata paga como ter(latum devia
retomar a seu dono, i.é: ao noivo ou à família deste. No tempo
de Hammurabi o preço estipulado como ter(latum parece ter
regulado em torno de uma mina, i.é: 500 g de prata '3', uma
quantia, sem dúvida, bastante elevada.
Ao sair da casa de seu pai, a esposa recebia deste um dote
- chamado em acádico seriktum - que permanecia propriedade
da esposa durante todo o casamento e era, após a morte desta,
dividido entre seus filhos. O § 18 das leis de Eshnunna determi-
na que se uma das partes morrer e o casamento não tiver filhos,
o marido ou a família deste não poderá exigir do sogro a devo-
lução da terlJatum, pois eles podem ficar com o dote trazido.
Caso, porém, o valor da ter(latum exceder o do dote, ou
vice-versa, a família poderá exigir a restituição da quantia
excedente. ,""
A sociedade de Eshnunna exigia, para que um casamento

que fosse exarado um contrato (riksatum) e celebrado um ban-


fosse válido e(kirrum);
quete nupcial a mulhero considerada «assatum»
elemento tempo = «esposa»,
de coabitação, por si 1\

só, não convalidava um casamento. 141

A lei protegia a esposa, que tivesse gerado filhos no casa-


mento, da arbitrariedade de seu marido. Se este quisesse divor-
ciar-se dela, perdia, como determina o § 59, o direito a todos os
seus bens. 142 A lei protegia, também, como se vê no § 29, a
esposa que perdia seu marido, feito prisioneiro de guerra em
uma campanha militar, permitindo-lhe um segundo casamento. 143

e seu sogro disse ao esposo: «Não tomarás a minha filha como esposa»:
ele restituirá o dobro de tudo que lhe foi trazido e seu amigo não
poderá tomar sua mulher como esposa». Pode-se compreender a serie-
dade com que a le,i encarava o vínculo criado pelo pagamento da terlJa-
tum, se se considera o § 26 das leis de Eshnunna, que prevê a pena
de morte para o rapto e defloração de uma donzela, pela qual já foi
paga uma terlJatum.
139. Cf. § 139 do CH.
140. Compare a legislaçãú de Hammurabi nos §§ 163 e 164 para
casos análogos.
141. Cf. §§ 27 e 28 - Compare com os §§ 128 e 129 do CH.
142. Em casos de um matrimônio sem filhos, o divórcio era, 'provavel-
mente, resolvido nos moldes dos §§ 138/139 do Código de Hammurabi.
143. Compare com os §§ 133-135 do CH, onde é prevista uma casuís-
tica bem mais complexa e detalhada para resolver casos análogos.

41
Mas se o marido retomasse à sua pátria, tinha o direito de
retomar a sua esposa. Somente o homem que abandonava o seu
lar e fugia de sua terra por motivos políticos perdia, conforme
o § 30, o direito de reaver a sua esposa. ''''
A sociedade de Eshnunna baseava sua economia principal-
mente na agricultura.H' Um sistema bastante eficaz de irrigação
artificial, criado pelos sumérios já no terceiro milênio, tornou a
terra fértil e possibilitou, assim, o desenvolvimento da agricultu-
ra.146 As terras eram, em geral, propriedade do palácio, dos
templos ou de particulares, donos de grandes latifúndios. Os
147

pequenos proprietários eram poucos e estavam à mercê dos


grandes senhores. No período babilônico antigo o palácio distri-
buía partes de terra entre pessoas que lhe tivessem prestado
serviço e criava, assim, uma espécie de «obrigação feudal» do
beneficiário em relação ao palácio. Essa obrigação era chamada
em acádico «ilkum». 148 Hammurabi proíbe a venda de um campo
ou pomar de alguém ligado ao palácio por um ilkum.149 Tal
campo, ou pomar, continuava propriedade do palácio e seu
beneficiário usufruía apenas de seus frutos mediante o paga-
mento de um tributo. Por isso, essa propriedade podia ser assu-
mida somente pelo filho herdeiro, que tomava sobre si a obrigação
do ilkum.:I.5' Os grandes proprietários costumavam alugar tra-
balhadores para cultivar seus campos. ""."
Na Babilônia os trabalhos agrícolas estendiam-se por seis
meses. Seu começo 'coincidia com o início do período de chuvas
nos meses de novembro e dezembro. O campo era trabalhado
com um arado de madeira puxado, em geral, por bois. A co-
lheita era feita dos fins de abril aos fins de maio. ''''' O costume
144. Compare com o § 136 do CH.
145. Cf. A. L. Oppenheim, Ancient Mesopotamia, p. 83-95; H. Schmõ-
kel, Kulturgeschichte des Alten Orient, p. 46-85; W. Schwenzner, Zum
altbabylonischen Wirtschaftsleben, em MVAG 19/3 (1915).
146. Cf. H. Helbaek, «Ecological Effects of Irrigation in Ancient
Mesopotamia» em Iraq 22 (1960), p. 186-196; J. Schawe,art. «Bewasse-
rung» em ReaUexikon der Assyriologie, voI. 11, p. 23.
147. Cf. P. Garelli, Le Proche-Orient Asiatique, p. 283s.
148. Cf. W. von Soden, AHW, p. 371a.
149. Cf. CH § 36 - Cf. tb. os §§ 27-41 onde é regulado o direito
de «propriedade» de um homem ligado por um ilkum.
150. Cf. CH § 28 - Compare com o § 38. Cf. B. Kienast, art. «i1kum»
em Reallexikon der Assyriolog,ie, vol. V, p. 52-59.
151. Cf. CH §§ 42-52, 59-65.
152. Cf. A. Salonen, Agricultura Mesopotamica nach den sumerisch-
akkadischen Quellen, Helsinki, 1968; B. Meissner, art. «Ackerbau» em
Reallexikon der Assyriologie, vol. I, p. 16-21.
42
era semear entre 40 e 80 litros para um hectare de terra. E os
textos da época testemunham que a colheita era, em condições
-ormais, oitenta vezes mais do que a quantidade plantada. O
ereal mais cultivado na região era a cevada, expressa, em geral,
10 sumerograma se - acádico se' um - que também podia
significar o grão em geral. A cevada era a base da alimentação
e;n Eshnunna, sendo usada na fabricação do pão e da cerveja.
ervia, ao mesmo tempo, como meio de pagamento nas transa-
ções comerciais. Plantava-se, também, trigo de diferentes quali-
ades. Muito cultivado era, outrossim, o sésamo, donde se extraía
o óleo empregado na cozinha, na higiene corporal, no culto
e c. " O óleo de oliva era raro e, em geral, importado da Síria.
_ a confecção de roupas, a lã era a matéria-prima principal, já
que o linho desempenhava, apenas, um papel secundário e o
algodão era completamente desconhecido na Babilônia, até o
"empo de Sanherib, que tentou introduzi-Io na Assíria.153 De
grande importância para a economia do país era, também, a
amareira.1M Bem cedo os sumérios descobriram a maneira de
fecundá-Ia artificialmente. Era uma árvore maravilhosa, porque
dela se aproveitava praticamente tudo. O fruto podia ser comido
fresco ou seco, como uma espécie de pão de tâmara ou mel de
lâmarã. Seu suco fermentado servia para a preparação de uma
forte bebida alcoólica. O gomo terminal do caule era, como o
nosso palmito hoje, um legume muito apreciado. Os caroços
secos dos frutos eram usados-como material de combustão, prin-
cipalmente em processos de fundição de metal. A sua madeira
era utilizada como material de construção e como lenha para o
fogo. Suas folhas serviam para cobrir as casas.
Ao lado da agricultura, a criação de animais era outro ele-
mento importante na economia da região. Os bovinos, embora
presentes, eram em menor quantidade. O leite de vaca era muito
precioso e procurado para a produção de queijos e manteiga.""
O boi era usado como animal de tração para carros e arados. O
couro era aproveitado na confecção de correias, de sapatos e

153. Cf. P. Garelli, Le Proche-Orient Asiatique, p. 276; B. Meissner,


Babylonien und Assyrien, vol. I, p. 209, 254; E. Ebeling, art.«Baumwol:
lenbaum» em Reallexikon der Assyriologie, vol. I, p. 439.
154. Cf. E. Ebeling, art. «Dattelpalme» em Reallexikon der Assyrio-
logie, vaI. 11, p. 196. Cf. tb. B. Meissner, Babylanien und Assyrien, vaI.
I, p. 202s; G. Contenau, La Vie Quodidienne à Babyloneet en Assyrie,
p. 79s.
155. Cf. H. Schmokel, Kulturgeschichte des Alten Orient, p. 62s.

43
de outros instrumentos. O animal de montaria por excelência.
era, nesta época, o jumento. "'"' Até a época em que os hititas
introduziram na Babilônia a arte de domesticar o cavalo no fim
do segundo milênio "ir, ele era importado apenas para ser 'Cruzado
com o jumento e obter-se, assim, a procriação de mulos, muito
procurados por serem mais fortes que o jumento e mais parcos
em sua alimentação. Os grandes fornecedores de carne e leite
eram, contudo, como ainda hoje no Oriente Médio, as ovelhas
e as cabras. Os rebanhos de ovelhas tinham uma importância
especial, pois· além de alimento, forneciam também a lã, essen-
cial na fabricação de roupas. Os textos nos falam da existência
de rebanhos suínos. Aliás, a presença de ossos de porcos consta-
tada pelas escavações arqueolÓgicas mostra que a Babilônia não
conhecia, como Israel, preconceitos contra o consumo da carne
de porco.
De grande importância para a alimentação dos habitantes
da Babilônia era, também, a pesca.'" Conforme os dados dos
documentos da época, os rios, canais e lagunas da Babilônia
possuíam uma grande quantidade e variedade de peixes. ,59 Os
pescadores (sumério LÚ.sU.KU 6, acádi-co bá'irum), divididos em
pescadores de água doce e pescadores do mar, formavam, no
período babilônico antigo, uma organização severamente contro-
lada pelo· palácio, que mantinha o monopólio da pesca.·60 As
embarcações usadas variavam conforme o tipo de pesca: podiam
ser barcos de junco, canoas de madeira e até barcos à vela. Os
instrumentos de trabalho eram anzóis de cobre, nassas e princi-
palmente redes.·61 O peixe podia ser consumido fresco ou era
156. Cf. A. Hilzheimer, art. «Esel» em Reallexikon der Assyriologie,
voI. 11, p. 476s.
157. Cf. A. Goetze, Kleinasien, p. 119.
158. Cf. M. Lambert-E. Ebeling, art. «Fischerei»em Reallexikon der
Assyriologie, voI. 1lI, p. 68s; B. Meissner, Babylonien und Assyrien, voI.
I, p. 225s; G. R. Driver-j. C. MiJ.es, The Babylonian Laws, voI. I, p. 115s.
159. Cf. H. Schmêikel, Kulturgeschichte des Alten Orient, p. 66,
onde cita um texto do tempo de Luga1anda, que fala da pesca de 9600
carpas e 3600 outros peixes.
160. Cf. p. ex. o Código de Hammurabi nos §§ 26, 27-29, 30, 31.
Ct tb. G. R. Driver-j. C. Miles, The Babylonian Laws, voI. I, p. 115s.
161. Cf. em H.Frankfort, S. Lloyd, Th. Jacobsen, TheGimilsin
Temple - OIP 43 - Chicago, 1940, p'. 219, ilustração 106g a fotografia
de um anzol de cobre encontrado nas escavações de Tell Asmar. Cf. tb.
H. Frankfort, Th. Jacobsen, c. Preusser, Tell Asmar and Khafaje, p. 92s.
Nas escavações de Khafaje foram encontrados vários pesos de argila
que serviam para afundar as ·redes.

44
,;i
:::-abalhado em pequenas indústrias que salgavam ou secavam o
~~'xe ou o transformavam em farinha de peixe.
As cidades-reinos da Babilônia eram, porém, muito pobres
=- metais, pedras e madeiras. Fazia-se, pois, mister suprir as
-e essidades desses produtos, importando-os de outras regiões.
::::.Irgiu, assim, desde o tempo dos sumérios, no terceiro milênio,
_ idéia de comerciar os excedentes agrícolas, a lã, e provavel-
-ente peixe seco para obter recursos a fim de importar os pro-
:::utos em falta no país:"' No período babilônico antigo somava-se
2 essa gama de produtos naturais, outros provenientes da indús-
="Ía babilônica como perfumes, cremes de beleza, bijuterias e
::lUtros trabalhos do artesanato babilônico. Os produtos mais
; portados eram madeiras, especialmente o cedro proveniente
e Amanus e do Líbano, mas também ébano da Núbia e cipreste
as montanhas da Armênia. A região do Taurus fornecia, pro-
vavelmente, a prata, muito importante como base de pagamento
Ilas transações comerciais entre os diversos reinos. O ouro era,
ambém, procurado e vinha de diversas regiões, principalmente
da Ásia Menor e da Índia (MelutJ,tJ,a). O cobre era 'importado
a Ásia Menor e do Elam. O desenvolvimento da vida social dos
grandes centros urbanos criou a necessidade de importar pro-
dutos mais sofisticados. De regiões longínquas, como o Afega-
nistão e as imediações do lago Urmia, vinham as pedras semi-
preciosas como lápis-lazúli, cornalina, jaspe etc... que eram
utilizadas na confecção de jóias. O Golfo Pérsico fornecia péro-
las. Muito apreciados eram, também, os produtos de luxo como
incenso, mirra, nardo e outras especiarias procedentes do sul da
Arábia. O marfim, proveniente provavelmente da Índia, era
empregado na fabricação de jóias e outros objetos, como também
para incrustações em móveis. Além disso, as expedições comer-
ciais traziam novos escravos para as cidades babilônicas.
O intermediário desse comércio internacional era o tamkã-
rum - expresso em geral nos textos pelo sumerograma DAM.
GAR -, originalmente um funcionário do templo ou do palá-
cio 163, que controlava todo o comércio externo. Mas, aos poucos,

162. Cf. W. F. Leemans, art. «HandeI» em ReaIlexikon der Assyrio-


Iogie, voI. IV, p. 76-90. A. L. Oppenheim, Ancient Mesopotamia, p. 89s.
W. F. Leemans, The Old-Babylonian merchant, his business and his
social position, SD 5, Leiden, 1950.
163. Ct W. von Soden, AHW, p. 1314s. Ct tb. G. R. Driver- J.
C. MiJes, The Babylonian Laws, voI. I, p. 120s. M. R. Larsen, Old
Assyrian caravan procedures, Istanbul, 1967.

45
esta atividade foi passando para a mão de particulares, embora
continuasse supervisionada e regulamentada pelo palácio. No
período babilônico antigo, como aparece claramente no Código
de Hammurabi, o tamkãrum tornou-se uma espécie de banqueiro,
que financiava a expedição comercial e enviava um agente seu
(samaI1Qm) com capital e mercadorias para as diversas transa-
ções comerciais. 164A prata era, nesta época, o veículo comum
de pagamento. O meio de transporte mais usado era a navega-
ção fluvial pelo Eufrates, Tigre e pelos muitos canais navegá-
veis que cortavam a Babilônia. Onde não era possível chegar
por via marítima, organizavam-se caravanas. Mas a lentidão dos
meios de transporte - carroças puxadas por bois ou jumen-
tos - e o estado lastimável das estradas tornavam demoradas
e difíceis as caravanas. O 'centro do comércio de uma cidade era
o «kãrum». O termo «kãrum» significa, em si, «cais» 165; era o
lugar onde as embarcações ancoravam. No «kãrum» os tamkã-
rum se reuniam, os preços eram notados, o comércio organiza-
do. 1,," O comércio varejista da cidade era, sem dúvida, explorado
pela sãbItum (taberneira), que vendia não só bebidas, mas pro-
vavelmente também todos os gêneros de primeira necessidade. '01
A cidade-reino de Eshnunna, por sua posição geográfica,
podia controlar todo o comércio na região do Tigre. Durante o
período de Larsa-Isin, os reis de Eshnunna estenderam o seu
poder do Diyala até o Tigre e assim podiam dominar não só as
rotas de caravanas que vinham do Elam, mas também as prin-
cipais vias fluviais do norte para o sul. Eles tiveram sob seu
controle as grandes cidades comerciais Diniktum e Mankisum.
Eshnunna teve, além disso, relações comerciais intensas com as
cidades às margens do Eufrates, como o comprovam os inúmeros
textos encontrados nas escavações de Tell Asmar e adjacências.'68
Uma preocupação séria dos governantes de Eshnunna parece
ter sido a regulamentação dos preços dos gêneros de primeira
necessidade, na tentativa de estabilizar o custo de vida.169 As
164. Cf. CH §§ V-107.
165. Cf. W. von Soden, AHW, p. 451.
166. Cf. W. F. Leemans, art. «HandeI» em RealIexikon der Assyrio-
logie, vol. IV, p. 81s.
167. Cf. p. ex.: o § 15 das leis de Eshnunna.
168. Cf. p. ex.: H. Frankfort, S. Lloyd, Th. jacobsen, The Gimilsin
Temple. H. Frankfort, Th. jaoobsen, C. Preusser, TeU Asmar and Kha-
faje. S. Greengus, Old Babylonian Tablets from Ishehali and Vieinity.
169. Cf. sobre a evolução dos preços na Babilônia os trabalhos de
W. Sehwenzner, «Zum babylonisehen Wirtsehaftsleben» em MVAG 19/3

46
.,
.eis de Eshnunna começam com uma lista que visa determinar o
. reço máximo permitido para alguns produtos vitais na vida
otidiana da Babilônia.07• Para compreendermos bem a situação
_ onômica de Eshnunna é necessário compará-Ia com a de outras
:dades da região. O abundante material textual que a arqueo-
:ogia trouxe à luz permite uma tal comparação. Como ponto de
-eferência deve-se tomar o preço dos três produtos essenciais
o dia-a-dia das populações babilônicas: a cevada, o óleo de
:::ésamo e a lã. Em Eshnunna a lei determinava que, com um
úlo (8 g) de prata, se podia comprar 1 GUR (300 I) de cevada,
: sut e 2 qa (121) de óleo de sésamo e 6 minas (3 k) de lã. m
~sses preços regulam com os da terceira dinastia de Ur. 172

Apenas no reinado de Ibbi-Sin constata-se uma alta vertiginosa


o custo de vida.013 Um aumento de custo de vida verifica-se,
,ambém, durante o reinado de Hammurabi e notadamente no de
seus sucessores. 174 Os baixos preços mencionados nas inscrições
e Shamshi-Adad I (1815-1782) e de Sin-Kashid de Uruk
± 1865-1833) são exagerados 1i5 e têm, sem dúvida, a finali-
ade propagandística de sublinhar a prosperidade de seus reinos.
1915) e B.. Meissner, Warenpreise in Babylonien. - Abhandlung der
?reussischen Akademie der Wissenschaft, philosophisch-historische Klasse
:. Berlin, 1936.
170. Cf. § 1 - Cf. tb. o estudo de K. Polanyi em Trade and Market
~ the Early Empires, Glencoe 1957, onde ele tenta mostrar a diferença
e:1 re a economi.a babilônica e a economia do mercado livre vigente nos
;:aíses modernos.
171. Cf. § 1 - Cf. a tabela comparativa de preços vigentes desde
;:: época pré-sargônica até o fim da dinastia de Hammurabi em P .
. -elli, Le Proche-Orient Asiatique, p. 278s.
172. Cf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 30, que, baseado
=0- contratos dessa época reunidos por W. Schwenzner, Zum altbaby-
: :Jischen Wirtschaftsleben e B. Meissner, Warenpreise in Babylonien e
='0 art. de Th. Jacobsen, «The reign of Ibbi-Suen» em JCS 7 (1953), p.
--5, apresenta a seguinte tabela para Ur III: 1 sido de prata = 300 I
::':e cevada, 10 minas (5.kg) de lã e entre 9 e 15 I de óleo de sésamo.
173. Cf. Th. Jacobsen, «The reign of Ibbi-Suen» em JCS 7 (1953), p.
~, n. 49. Durante o reinado de Ibbi-Sin os textos testemunham que
:~m 1 sido de prata comprav.a-se apenas 51 de cevada e 2 li:! I de
óleo de sés amo.
174. Cf. P. GareIli, Le Proche-Orient Asiatique, p. 278s.
175. Cf. a inscrição de Shamshi-Adad I em L. Messerschmidt, Keil-
:-. rifttexte aus Assur historischen Inhalts I, 2 III, 13s; 1 sido de
;::-ata = 600 I de cevada, 20 I de óleo e 15 minas (7,5 kg) de lã. A
:....: rição de Sin-Kashid em A. Falkenstein, Zu den Inschriftfunden der
~ abung in Uruk-Warka, 1960-1961, Baghdader Mitt. 2 (1963), p. 33,
=- 151: 1 siclo = 900 I de cevada, 30 I de óleo, 12 minas (6 kg) de lã.

47
Como os textos provenientes da -região do Diyala mostram
claramente, as terras nesta região estavam repartidas entre o
rei, seus familiares, seus funcionários, o templo e algumas pes,...
soas particulares. 116Torna-se, contudo, bastante difícil avaliar a
situação econômica dos pequenos proprietários, que viviam da
renda de seus campos. Dependia tudo da extensão de suas pro-
priedades e da qualidade do solo. Aqueles awilum, que estavam
ligados ao palácio por um serviço do tipo «ilkum» 017, recebiam
do rei um pequeno lote de terra e o pagamento de uma deter-
minada quantia em produtos naturais. O lote de terra não
118

ultrapassava, normalmente, a um «iku», ou seja, cerca de


3.600 m2• ". Se se leva em conta que a terra na Babilônia produ-
zia, em geral, 30 GUR por cada BUR plantado 180, o que equivale
a cerca de 9.000 litros em cada 6 hectares, um terreno de 1 iku
daria uma produção de 500 litros, e isto representa um rendi-
mento de aproximadamente 2 litros diários. A quantia paga pelo
palácio em produtos naturais àqueles que estavam sujeitos a um
«ilkum» era, pois, uma complementação essencial à subsistência
desses pequenos proprietários. Não se conhece exatamente a
quantia que eles recebiam mensalmente. Parece que durante
181

a dinastia de Acade e a de Ur III a situação se estabilizou em


torno de um mínimo de 60 litros mensais. 182

A situação dos assalariados é mais fácil de ser avaliada,


graças às tabelas de salários conservadas nas leis de Eshnunna.
A lei estipulava, assim no § 11, como pagamento mensal de um
LÚ.ljUN.GÁ = mercenário o salário de 1 siclo de prata e mais
1 «pan» (60 I) de cevada a título de alimentação. O salário

176. Cf. I. j. Gelb, «Old Akkadia,n !nscriptions in Chicago Natural


History Museum», Feldiana, Anthropology 44 (1955), p. 181s.
177. Ct p. 39s.
178. Cf. G. R. Driver-j. C. MiJes, The Babylonian Laws, voI. I, p. 112.
179. Cf. A. Falkenstein, «La Cité-temple sumérienne» em CahieE
d'Histoiroe mondiale Ij4 (1954), p. 802; W. Schwenzner, «Zum Baylon'-
schen Wirtschaftsleben» em MVAG 19/3 (1915), p. 47.
180. Ct G. R. Driver-j. C. MiJes, The Babylonian Laws, vol. I,
p. 133. Compare tb. B. Landsberger, Materialien zum Sumerischen Lexikor:
!, p. 177.
181. Ct os diversos testemunhos textuais relacionados por P. Ga-
relli, Le Proche-Orient Asiatique, p. 282.
182. Ct I. j. Gelb, «The Ancient Mesopotamian Ration System» em
JNES 24 (1965), p. 236. Ct tb. T. B. Jones-j. W. Snyder, Sumeria::
Economic Texts from the Third Ur Dynasty, Minneapolis, 1961, p. -
286-287, 299-300.

48
· rescrito na legislação de Hammurabi para a mesma classe de
essoas é menor. Conforme o § 272, ele receberá nos cinco pri-
eiros meses do ano uma diária de 6 sE de prata, mas nos
outros meses, sua diária será apenas de 5 SE de prata.'83 Por-
:anto somente nos cinco meses mais pesados para um trabalha-
'or rural ele ganhará um siclo de prata mensalmente. Nos
-estantes sete meses seu salário mensal será 5/6 de um siclo
( erca de 6,666 g) de prata. Além disso, Hammurabi não pres-
Teve o pagamento da alimentação, que em Eshnunna é de dois
li ros de cevada por dia. Nos §§ 7 e 8 as leis de Eshnunna
'eterminam, ainda, o salário de mais dois trabalhadores agrí-
~olas. O ceifador recebe uma diária de 2 sat (201) de cevada,
orrespondendo, destarte, a um salário mensal de 600 litros de
evada ou, conforme a equivalência da tabela de preços do § 1,
dois siclos de prata. O joeireiro tem direito a uma diária de 1 sut
(10 litros) de cevada, equivalente a um salário mensal de 300
li ros de cevada, que, de acordo com o § 1, valia um siclo de
rata. No § 257 do Código de Hammurabi o salário anual de
um «ENOAR = ikkarum = trabalhador rural""» é de 8 OUR
( erca de 2.400 I), que corresponde a um salário mensal de 200
itros de cevada. Os elementos aqui examinados nos levam à
cnclusão de que a situação econômica de um trabalhador em
~shnunna era melhor do que na Babilônia durante o reinado da
'nastia de Hammurabi.
O preço de locação de animais e de instrumentos de traba-
., o era, também, inferior em Eshnunna. O aluguel diário de
m carro de boi com condutor era, conforme o § 3, 1 pan e 4 sat
'e cevada, i.é: cerca de 100 litros, ou, se computado em prata,
:/3 de siclo.185 Para o mesmo instrumento de trabalho as leis de
nammurabi prescrevem uma diária de 3 parsiktum, ou seja, 180
:i-ros .••••Para alugar um jumento o habitante de Eshnunna pagava
:0 litros de cevada por dia ao dono do animal e um salário diário
::" 10 litros de cevada ao condutor do animal. Hammurabi fala,
2.. enas, de 10 litros de grão como aluguel do jumento. No §
187

183. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 105.


184. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 101.
185. A 'conversão em prata cOl"responde aos preços ·estabelecidos·
-- § 1.
186. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 104, § 271: «Se um
~ilum alugou .animais, um carro e seu condutor: dará 3 parsiktum de
~ão por dia».
187. Cf. ibid. § 269: «Se alugou um jumento para trilhar (o grão),
::-:1 aluguel será um sutum de grão». Hammurabi não fala sobre o
~ário do condutor do ·animal.
49
9a o legislador estipula a quantia de 15 litros de cevada com(
aluguel de uma foice (URUD.KlN.A) durante o tempo da colhei
ta. Um alfaiate tinha direito a receber como remuneração 201ft
do valor de seu trabalho.·88
O aluguel de um barco, o meio de transporte mais impor
tante, sem dúvida, para a economia da Mesopotâmia, dependi;
de sua tonelagem. O § 4 das leis de Eshnunna determina um,
diária de 2 litros de cevada por cada 300 litros (GUR) de capa
cidade do barco. Portanto a diária de um barco de 60 GUR -
18.000 litros - era de 120 litros de cevada ou, na proporçã(
do § 1, 2/5 de um sido (cerca de 3,2 g) de prata. No temp(
de Hammurabi o aluguel estipulado para o mesmo tipo de bafC(
era menor: 1,33 g de prata.'89
Não raras vezes o pequeno camponês, diante da necessidadl
de comprar sementes, de renovar os instrumentos de trabalh(
e, até mesmo, de alocar mão-de-obra, se via na necessidade di
fazer um empréstimo. '" Conforme o § 18a, a taxa máxima di
juros permitida era de 20% ao ano, se se tratasse de um emprés
timo em prata e de 33 1/3% se o empréstimo fosse em cevada
Como observa Leemans, a diferença entre as duas taxas era, n;
realidade, praticamente nula, já que o pagamento da cevada er;
feito durante o tempo da colheita 191, quando o custo da cevado
baixava consideravelmente. 192

O reino de Eshnunna, pouco antes de sua queda diante do:


exércitos de Hammurabi, parece ter passado por uma grave crisl
econômica.193 O nível de vida era bastante baixo. Os pequeno
camponeses viam-se, muitas vezes, obrigados a vender suas pro
priedades, ou mesmo os seus filhos, para pagar as suas dívi
das.l94 Da análise do material encontrado nos arquivos d(

188. Cf. § 14. Pelo menos na interpretação de B. Landsberger tra


ta-se de um LÚ.TÚG = «alfaiate».
189. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 106, § 277: «SI
umawllum alugou um barco de 60 GUR, pagará como aluguel 1/6 (di
siclo) de prata por dia». Mas nos §§ 275-276 o legislador trata di
aluguel de outros ti'pos de barcos.
190. Cf. W. F. Leemans, «The Rate of Interest in Old Babylonial
Times» em Revue lnternationale des Droits de l'Antiquité 5 (1950), P
7-34.. Cf. tb. E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 70s.
191. Compare o § 19.
192. Cf. W. F. Leeman5,art. cit. p. 75.
193. Cf. R. Harris, «The Archives of the Sin Temple in Khafajah:
em JCS 9 (1955), p. 43s.
194. Cf. p. ex.: § 39 - Compare com o § 117 do CH.

50
'\I.
~ ::J.,:,~t.JC..a C~":rJ~;~"::s.)t.i~•.-<;~ c.: ! lr.Hi,ó.::uadAª'
::=mplo do deus Sin em Khafaje, Harris conclui que se deu,
::.aquela época, uma concentração de riquezas nas mãos de
_ ucas pessoas, principalmente funcionários do templo, que for-
=avam a classe dirigente do país. Suas riquezas cresciam cada
-ez mais em detrimento dos pequenos camponeses e da popula-
> -o rural em geral. Foi, provavelmente, diante deste quadro
195

= ial que Hammurabi limitou para três anos o tempo de escra-


--: ão por dívida prescrevendo: «Se uma dívida pesa sobre um
c. -lum e ele vendeu sua esposa, seu filho ou sua filha ou entre-
s u-se em serviço pela dívida: trabalharão durante três anos na
,::-sa de seu comprador ou daquele que os tem em sujeição; no
-: arto ano será feita sua )Yoer'tação».'"

195. Cf. R. Harris, art. cit. p. 45. Cf. tb. P. Garelli, Le Proche-
fr'ent Asiatique, p. 286s.
196. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 57, § 117.

51
11. As Jeis

Fórmula de Data (introdução)

Décimo
[do ano,segundo
em que, mês,
por vzgeszmo primeirodecreto
um irrevogável dia j de Enlil,4. t
Nin-azu chamou [Dadusaj para a realeza de Esnunna,
ele e,ntrou na casa de seu pai e conquistou
no espaço de um ano
a cidade de Supur-samas
[como também Astabelaj, do outro lado do Tigre,
com uma arma forte.

Esta parte introdutória foi conservada, apenas, pela tábua


«A» (1M 51.059) I, 1-7 em estado bastante fragmentário. Segui-
mos na tradução as correções de texto e conjecturas apresenta-
das por B. Landsberger.'97

1. [itu sE.KIN-K] UD UD 21 KAM


2. [mu inim-zi-d] a dEn-líl-la dNin-a-zu
3. [Da-du-sa] nam-luga! Es-nun-naki
4. [ba-ni-in-s] a4-a é-ad-da-a-ni-se
5. [ba-an-k] uçra-àm f;)ú-pu-ur-dsamaski
6. [ti As-ta-ba-la] KI bal-ri-a íD IDIGNA
7. [sà] mu-1-kam gis-tukul-kala-ga ba-an-dab

197. B. Landsberger, Neue Lesungen und Deutungen im Gesetzbuch


von Esnunna, apêndice ao artigo jungfraulichkeit: Ein Beitrag zum
Thema «Beilager und Eheschliessung» em Symbolae Jur.jdicae et Histo-
ricae Martino David dedicatae, Tomus Alter: Jura Orientis Antiqui, Leiden,
1968, p. 65~67.

52
Como acertadamente observou Landsberger, não se trata
ui de um preâmbulo ao corpo legal, mas de uma simples fór-
=ula de datação, que corresponde à data de promulgação da lei.
orno era em geral costume na época, a fórmula de datação foi
2S rita em língua suméria. 108

O estado fragmentário da fórmula dificulta uma exata


ea ação. Na linha 3 lê-se com certeza nam-Iugal Es-nun-naki
realeza de Eshnunna». Mas os sinaiscuneiformes que começam
2 linha e que deviam conter o nome do rei são ilegíveis. Na
'" 'itio princeps da tábua «A», A. Ooetze pensou poder ler na
:2 una existente o nome Bi-la-ila51a-a-ma 199, atribuindo, deste
=odo, o Código a Bilalama, contemporâneo de Su-ilisu (1984-
= 975 a.C.) e de Iddindagan (1'974-1954 a.c.) da cidade-reino
== Isin. '00 O Código de Eshnunna seria, pois, na opinião de
0oetze, mais antigo do que o Código sumério de Lipit-Ishtar.
_ \as o próprio Ooetze abandonou mais tarde a sua tese de um
201

Código de Bilalama. Bilalama nos textos 'á'l'l sua época é chamado


::'e ENSi e não de LUGAL = rei 202, e ~a tábua «A», I, 3 se
:a.a em nam-Iugal es-nun-naki = realeza de Eshnunna. Confor-
=e esta fórmula de datação, o texto deve ser atribuído a um
:aberano que assumiu o título de LUGAL. E parece que o pri-
=eiro soberano de Eshnunna que assumiu o título LUOAL foi
_-arãmsin que reinou até pouco depois de 1820 a.C. '""
O tipo de escrita cuneiforme usado nas tábuas «A» e «B»
2 -ipicamente babilônico antigo, de um período pouco anterior ao
='" Hammurabi. As duas tábuas foram, também, encontradas na
~ada arqueológica I;Iarmal 11, que pertence ao período babi-
:::Ji o antigo, e a tábua «B» entre outros documentos do reinado
-'" Dadusa. As tábuas «A» e «B» são, sem dúvida, cópias de
original, que, contudo, não' deve ser muito mais antigo do

198. Cf. A. Ungnad, art. «Datenlisten» em Reallexikon der Assyrio-


-5ie, vol. 11, p. 131s.
199. Cf. A. Goetze, Sumer 4 (1948), p. 63s.
200. Cf. A. Scharff-A. Moortgat, Aegypten und Vorderasien im
=--:e~um, p. 285s.
201. Cf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, New Haven, 1956,
;: 2ú.
202. Cf. E. Sollberger-]. R. Kupper, Inscriptions Royales Sumériennes
=- Akkadiennes, p. 240, inscrição IV E 18a.
203. Cf. D. O. Edzard, Die Altbabylonische Zeit, em Fischer Welt-
~~.:' 'chte, vol. 2, p. 184.

53
:Código de Eshnunna» foi, portanto, com o segundo produto
mposto durante os reinados de Narãmsin _2 como Landsberger m
--':'.in."" A expressão LS
__::neira qualidade. 206 J.
- -. lO de Mari, como «óle
_"'- i.é: cerca de 3 litros, (
- sido de prata.
A medida de capacic
===-;::a de 10 litros. Doze li
por um sido de prata. :: pelo sumerograma 1.01
tngir por um siclo de prata. --'0 ou seja, 8 gramas,
) de sésamo por um ciclo de prata. ==:"ograma I.sAl}: - cw
dura de porco por um sido de prata. _ JS, um sido de prata.
'io por um sido de prata. O sumerograma UC
um sido de prata. :::.. zlechter lê em vez de
. um siclo de prata. :;;-? ico ittum = betume .
1 por um siclo de prata. :=; -afta, que corresponde <

por um sido de prata. := pelo sumerograma LI


trabalhado por um siclo de prata. . -::-!ão era bastante rica
-=_ 'ia extrair o óleo. A p

_ sido de prata.
= Eshnunna chegou até nós. por meio da A lã era vendida na
o parágrafo é uma lista de preços e indica =2-a. A mina valia 60
merciante podia cobrar pelos artigos de ~=:s minas de lã, i.é: 3]
tentro do espírito da legislação do Oriente :.~: 8 gramas de prata.
ta reforma do que uma codificação legal, zzma NUN - era ven(
enção do legislador aqui é corrigir abusos ~:- 600 litros para 1 sic
dos habitantes de Eshnunna, bem como .§.-se, sem dúvida, o sur
corrigir tendências inflacionárias. -=-:-:no acádico ulJulum
[O é descrito pelo sumerograma SE que ::..c.s cinzas de uma planta
grão em geral, como também, em espe-
lida de capacidade GUR não tinha um 205. Cf. B. Landsberger
a Babilônia antiga 300 qa (cerca de 300 ~:-43.
206. Cf. W. von Soden,
'o reino de Mari valia apenas 120 qa. O
207. Cf. J. Bottéro, Are
peso que correspondia a um pouco mais 208. Cf. E. SzIechtér, I
cerca de 300 litros de cevada custavam ~ e Laws of Eshnunna, p.
g gramas de prata. tSir = iHum «bitumen» (~
:o, minute ... »
209. Cf. W. von Soden
d, Die «Zweite Zwischenzeit» Babyloniens, p.
~r, Les Lais d'Esnunna, p. 6s. A. Goetze, The 210. Cf. A. Deimel, SUl
= 2inal como «eine alkaliscl

54
o segundo produto é expresso pelo sumerograma 1.SAO,
que, como Landsberger mostrou, corresponde ao acádico saman
rusfin.303 A expressão LSAG indica, sem dúvida, um óleo de
primeira qualidade.200 J. Bottéro interpretou, a partir de um
texto de Mari, como «óleo de ungir».207 A lei determina que 3
qa, i.é: cerca de 3 litros, de óleo de ungir custarão em Eshnunna
um sicIo de prata.
A medida de capacidade sufum corresponde a 10 qa, i.é:
cerca de 10 litros. Doze litros de óleo de sésamo - aqui expres-
so pelo sumerograma 1.OIs - usado para a cozinha custava 1
sicIo, ou seja, 8 gramas, de prata. A gordura de porco - su-
merograma LsAlj: - custava 1 sut e 5 qa, i.é: cerca de 15
litros, um sido de prata.
O sumerograma UD significa literalmente «óleo do rio».
E. Szlechter lê em vez de. íD, o sinal ESIR, que corresponde ao
acádico ittum = betume.208 O LESIR = óleo de betume seria
a nafta, que correspop~e ao acádico naptum normalmente expres-
so pelo sumerograma i.KUR.RA = «óleo da montanha».209 A
região era bastante rica em terrenos betuminosos de onde se
podia extrair o óleo. A proporção era de 4 sat =
40 litros por
um sicIo de prata.
A lã era vendida na proporção de 6 minas por um sicIo de
prata. A mina valia 60 ciclos, portanto cerca de 500 gramas.
Seis minas de lã, i.é: 3 k de lã, valiam em Eshnunna um sicIo
i.é: 8 gramas de prata. O sal - aqui expresso pelo sumero-
grama NUN - era vendido na proporção de 2 GUR = cerca
de 600 litros para 1 sicIo = 8 gramas de prata. Na linha 15
lê-se, sem dúvida, o sumerograma NAGA, que corresponde ao
termo acádico u1}ulum = potassa. 210Trata-se, provavelmente,
das cinzas de uma planta, que continha potassa e era empregada

205. Cf. B. Landsberger, op. cit. p. 68-70. Cf. tb. o texto CT 17,34,
41-43.
206. Cf. W. von Soden, AHW sub voce rustu, p. 996.
207. Cf. J. Bottéro, Archives Royales de Mari, VIl, p. 179-180.
208. Cf. E. Szlechter, Les Lais d'Esnunna, p. 14. E A. Oaetze em
The Laws af Eshnunna, p. 27 explica: «The graphic difference between
esir = ittum «bitumen» (SL 579:427) and id = «river» (SL 579 :457)
is minute ... »
209. Cf. W. von Soden, AHW, p. 742.
210. Cf. A. Deimel, Sumerisches Lexikon, 11, N. 165a, que identifica
o sinal como «eine alkalische pnanze; Soda, Kali1auge».

55
na fabricação de sabão.211 O preço de 1 GUR (cerca de 300
litros) dessa espécie de potassa é um sido de prata (8 gramas).
A. Goetze leu o sinal em questão como TE correspondente ao
acádico qaqqulum = «cardamun», que seria um tipo de espe-
ciaria empregada na fabricação do pão. Mas como nota Lands-
212

berger a leitura do ideograma como NAGA = ulJ.ulum = potassa


é, sem dúvida, antiga e certa entre os assiriólogos.·13
N as linhas 16-17 é tratado o preço do cobre, aqui expresso
pelo sumercgrama URUDU. Na linha 17 Landsberger constatou
que a leitura ep-sum é certa. O legislador estabelece, pois,
214

para 3 minas (1.500 g) de cobre o preço de 1 sido (8 g) de


prata. Se se tratasse, porém, do cobre já trabalhado, então o
preço de 2 minas (1.000 g) seria de um sido de prata. >1.

§ 2

1 qa de óleo de sésamo «sa nislJatim»:


sua (equivalência em) cevada é 3 sal.
1 qa de gordura de porco «sa nislJalim»:
sua (equivalência em) cevada é 2 sal e 5 qa.
1 qa de «óleo do rio» da nislJatim»:
sua (equivalência em) cevada é 8 qa.

Este parágrafo foi conservado apenas na tábua «A» I, 18-20.


A lei enumera aqui três produtos já tratados no § 1: LGIs =
211. Cf. G. Contenau, La vie quotidienne à Babylone et en Assyrie,
p. 72.
212. Cf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 27: «The ideogram
of 1.15 is probably naga (SL 165a) to be read te in Sumerian and
qaqullum in Akkadian. This is one af the common spices needed for the
productian of bread, probably «cardamun». Uma outra interpretação é
dada por E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 14.
213. Cf. B. Landsberger, art. cito p. 70 - Cf. tb. F. Thureau-Dangin,
RA 7 (1910), p. 110 e H. de Genouillac, Inventaire des tablettes de
Tello conservées au Musée Impérial Ottonam, V: Époque présargonique,
époque d'agade, époque d'Ur, Paris, 1921, p. 20.
214. Cf. B. Landsberger, op. cito p. 70.
215. Cf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 28; e E. Sz!echter, Les
Lois d'Esnunna, p. 14, para a antiga leitura ma suma ou masum, em
lugar de ep-sum.
56
óleo de sésamo, tsAtr = gordura de porco e o UD = óleo do
rio que ~significa, provavelmente, a nafta, como foi visto
no parágrafo anterior. O correspondente, aqui, não é mais
Kq.BABBAR = prata, mas sE que exprime o grão em geral,
e mais especificamente a cevada. A grande dificuldade para a
compreensão deste artigo legal é a expressão «sa nisl;).atim», cuja
tradução ~ incerta. Trata-se, aqui, de óleo de sésamo, de gordura
de porco e de «óleo do rio» sa nisl;).atim. Foram tentadas várias
interpretações para a expressão sa nisl;).atim.216'É muito comum
relacionar-se essa expressão como termo nisl;).atum dos textos
do período assiríaco antigo, que indicava um imposto sobre mer-
cadorias.217 Paralelamente, a expressão sa nisl;).atim nas leis de
Eshnunna indicaria também uma taxa incluída no preço.21S Mas
como notou von Soden, a conexão com o assiríaco antigo não
pode ser feita, já que o termo não apare~e nos inúmeros do-
cumentos babilônicos. 21.
Landsberger tenta uma nova explicação a partir de uma
lista lexical da série lZl onde se lê: GA-AB-SA10-SA10 =
na-
as-si-l;).u «varejista».22() Landsberger propõe para a expressão
nisl;).atum a tradução: «preço a varejo». 221Neste caso o § 1
trataria do preço por atacado de várias mercadorias e o § 2 de-
terminaria o preço a varejo de três gêneros de primeira necessi-
dade. O preço por atacado é determinado em prata e o preço a
varej o é estabelecido no correspondente em cevada.

216. Cf. R. Yaron, The Laws of Eshnunna, p. 22.


217. Cf. W. von Soden, AHW, p. 794, s.v. «nisl].atum». Cf. tb.
A.. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 31-33.
218. Cf. a tradução de E. Szlechter, Les Lois d'Eshnunna, p. 14:
(: qa d'huile végétable y compris Ia taxe d'entrée» ... e na nota 16
","=escenta: «Peut-être: y compris Ia taxe de transport» ou «y compris
-=s frais de livraison».
219. Cf. W. von Soden em Biblioteca Orientalis 13 (1956), p. 33.
220. Cf. Série IZI 5, 115. Cf. tb. o texto paralelo em Dr Exca-
","::ons Texts, IV, 208,11.
221. Cf. Landsberger, op. cit. p. 71.

57
§3

Um carro com seus bois e seu condutor:


1 pan 4 sat de cevada (é) o seu aluguel.
Se (o seu pagamento for) prata o seu aluguel
(é) 1/3 de sido. Ele deverá conduzi-la o dia inteiro.

o § 3 estabelece o preço legal do aluguel de um carro com


o boi e o seu condutor. O texto foi conservado apenas na tábua
«A» I, 21-23. É declarado o preço em cevada e em prata: 1 pan
4 sat, i.é: 100 litros de cevada ou 1/3 de siclo, i.é: 2,666 g de
prata. No Código de Hammurabi o preço diário de aluguel do
mesmo tipo de carro é de 3 parsiktum, i.é: 180 litros de ceva-
da.222 A equivalência feita no § 3 entre prata e cevada corres-
ponde à tabela estabeleci da no § 1 do Código de Eshnunna. 223

aIs
O tipo de veiculo expresso pelo sumerograma MAR-GíD.DA
- acádico ereqqum - indicaria um carro de carga puxado por
uma parelha de bois. A expressão ka-la uçmi-im = lit.: «todo
224

o dia» estabelece aqui o tempo normal de trabalho correspon-


dente ao aluguel exigido. O tempo útil de trabalho para o semita
antigo ia do nascer ao pôr do sol. O legislador estabelece, pois,
no § 3 o preço do aluguel do carro com os animais e o condutor
por dia. O Código de Hammurabi usa a expressão ina U 4 1
KAM =
«em um dia» para exprimir a mesma coisa.
223

§4

o aluguel de um barco (é) 2 qa por 1 GUR e ... qa o


salário do barqueiro. Ele deve conduzi-lo o dia inteiro.

Este parágrafo legal foi conservado na tábua «A» I, 23-24.


O legislador determina, aqui, que o aluguel máximo permitido de
um barco é 2 litros - se subentende de cevada - por cada
222. Cf. Código de Hammurabi § 271. Para uma tradução portu-
guesa d. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, Petrópolis, 1976.
223. Cf. § 1: 1 GUR (= 300 litros) de cevada = 1 sido de prata.
224. Cf. A. Salonen, Die Landfahrzeuge des alten Mesopotamien
nach sumerisch-akkadischen Quellen, Helsinki, 1951, p. 28-32.
225. Cf. CH § 271.

58
300 litros de capacidade do barco. A tonelagem corrente nos
barcos de navegação fluvial da Babilônia parece ter sido de 60
GUR, i.é: 18.000 litros, que corresponde a uma capacidade de
erca de 18 toneladas. '''' Portanto o aluguel diário de um barco
de 60 GUR era em Eshnunna 120 litros de cevada, ou seja na
proporção do § 1 das leis de Eshnunna 2/5 de um sicIo de prata
(cerca de 3,2 g). No tempo de Hammurabi o aluguel estipulado
era menor: o § 277 determina como aluguel de um barco de 60
GUR 1/6 de sido de prata (cerca de 1,33 g). 221 O salário do
barqueiro não pode ser determinado com certeza devido a uma
acuna na tábua cuneiforme. B. Landsberger julga poder recons-
iruir a lacuna e ler: [u 1)3] qa Á MÁ. LAJ:;Ix: «[e 1/3] de qa
o salário do barqueiro». '" Neste caso o barqueiro receberia uma
iária de 1)3 de litro de cevada por cada GUR (300 litros) de
apacidade do barco. Hammurabi prescreve no § 239 de seu
ódigo que o salário de um barqueiro deve ser 6 GUR = 1.80(·
j ros por ano, o que corresponde a uma diária de cerca de 5
'tros para um barco normal, i.é: de 60 GUR de capacidade. '29
.\ condição de contrato é, como no § 3, igualmente ka-Ia uçmi
«todo o dia», i.é: pelo preço estipulado o barqueiro deve dar
dia de trabalho.
Na Babilônia o barco era, sem dúvida, o meio de comuni-
- .ão mais importante.230 Praticamente quase todos os grandes
z~ntros comerciais podiam ser atingidos por meio da navegação
:.. via!'

§5

Se um barqueiro foi negligente e afundou um barco:


deverá restituir tudo que afundou.

o §5 foi conservado, apenas, pela tábua «A» l, 25-26. Nos


;2ágrafos anteriores o tema central era determinar os aluguéis

226. Cf. A. Salonen, Die Wasserfahrzeuge in Babylonien (Studia·


__:~ alia VIlI/4) , p. 158s.
'127. Cf. a tradução do § 277 em E. Bouzon, O Código de Hammu-
~:, p. 106.
-
. Ct B. Landsberger, art. «]ungfraulichkeit», p. 72.
. Para a tradução e comentário do § 239 do CH d. E. Bouzon,
- ~. "go de Hammurabi, p. 96.
. Cf. H. Schmõkel, Kulturgeschichte des Alten Orient, p. 82s.

59
e salários no reino de Eshnunna.2:11 Os §§ 5 e 6 quebram a
seqüência do contexto. 232O tema inicial será reassumido no § 7.
A intenção do legislador no § 5 é bastante clara: definira res-
ponsabilidade do barqueiro em caso de naufrágio causado por
negligência do barqueiro. Este parágrafo supõe, naturalmente, o
costume babilônico, vigente na época, segundo o qual o proprie-
tário de um barco o alugava a um barqueiro que contratava as
cargas, combinava as viagens e os preços.23' Esse barqueiro era
responsável pelo barco diante de seu proprietário e pela carga
diante do cliente. Em um parágrafo paralelo do Código de
Hammurabi encontra-se uma formulação bem mais explícita e
mais pormenorizada: «Se um awilum fretou um barqueiro e um
barco e carregou-o com grão, lã, óleo, tâmaras ou qualquer outra
carga e esse barqueiro foi negligente e afundou o barco ou
perdeu a sua carga: o barqueiro pagará o barco que afundou e
tudo o que se perdeu de sua carga».234 Aliás a legislação de
Hammurabi é, aqui, mais completa em sua casuística, tratando
da responsabilidade e dos direitos de um barqueiro em cinco
parágrafos. 235No § 238 Hammurabi aventa a possibilidade de o
barqueiro poder erguer o barco afundado. Neste caso deverá
pagar em prata a metade de seu preço. 233
A introdução do' verbo acádico egu = «negligenciar» na
casuística do § 5 das leis de Eshnunna veio refutar a tese comum
a vários autores 23', de que teria sido Hammurabi quem primeiro

231. Cf. §§ 3, 4, 7, 8, 10.


232. Cf. H. Petschow, «Zur 'Systematik' in den Gezetzen von Eschnun-
na», em Symbolae Iuridicae et Historicae Martino David dedicatae ...
Leiden, 1968, vaI. 11, p. 133: «für den modernen Beurteiler juristisch
storend wirken in dieser Gruppe die §§ 5 und 6 sowie 12 und 13. Beide
Paragraphenpaare haben hier - wie für §§ 5 und 6 schon lãngst erkannt -
infolge Attraktion ihren Platz gefunden. Die Stichworte «Schiff» und
«Schiffer» in den Miettarifen haben die beiden einz·igen weiteren Bestim-
mungen über Schiffe in den GE attrahiert: Haftung des Schiffers für
durch seine N achlãssigkeit verursachten Verlust von Schiff und Ladung
(§ 5)' und Busse wohl für widerrechtliche Ingebrauchnahme (furtum
usus) eines fremden Schiffes».
233. Cf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 38.
234. Cf. O Código de Hammurabi, § 237. Para a tradução e comen-
tário d. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 95.
235. Cf. os §§ 236, 237, 238, 239, 240.
236. «Se um barqueiro afundou o barco de um awilum, mas conse-
guiu erguê-Io: pagará em prata a metade de seu preço». Para tradução
e comentário d. E. Bouzon, op. cit. p. 96.
237. Cf. p. ex.: M. San Nicoló, Beitrãge zurRechtsgeschichte im
Bereich der keilschdftlichen Rechtsquellen, p. 184s.

60
_::"oduziu este elemento na casuística legal em relação à res-
.;.:msabilidade dos barqueiros. 23S . Mas nem as leis de Eshnunna
=2:n o Código de. Hammurabi tratam do caso de afundamento
:::2 um barco' sem comprovada negligência do barqueiro. Parece
':;-le nestes casos valia o princípio: «res perit domino».

~ 6

Se um awilum tomou, de maneira fraudulenta (?), um


barco (que) não ( é) seu: pesará 10 sidos de prata.

o texto do § 6 nos foi transmitido apenas pela tábua «A»


- 27-28. A única dificuldade na compreensão deste parágrafo é
2. tradução da expressão acádica i-na nu-la-a-ni. O § 6 pune o
::.wIlum - i.é: o homem livre, o cidadão que goza de todos os
jjreitos legais - que se apossa (i~-~a-ba-at) de um barco que
::.ão é seu. As circunstâncias dessa posse ilegal são descritas pela
~J ução circunstancial ina nulãni. O significado dessa expressão
2 incerto. A. Goetze interpreta a locução ma nullãni como expres-
sando uma emergência. 239 E. Szlechter prefere traduzir «de
:a on illégale».
> ><0 Outros autores preferem deixar a expressão sem
-adução. ><1W. von Soden registra o termo nullãnü com o signi-
:-: ado de «infâmia», «fraude».242 Daí parece justificar-se a tra-
dução acima «de maneira fraudulenta». Certamente não se trata
je um roubo. A pena imposta é suave demais. O Código de
:-lammurabi prevê para o caso de roubos uma pena de, pelo
:nenos, dez vezes mais o valor do objeto roubado. 243A intenção

238. Cf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 39.


239. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 40: «It probably denotes some
:o:indof an emergency».
240. Cf. Les Lois d'Esnunna, p. 15.
241. Assim p. ex.: R. Yaron, The. Laws of Eshnunna, p. 23; ]. Botté-
~o, Annuarie 1965/1966 - École Pratique des Hautes Études - IV·
section, p. 91: «Si un homme, par suíte (?) de nullanu, a détenu un
jateau ... »
242. Cf. W. von Soden, AHW, p. 803. Cf. tb. R. Yaron, The Laws of
Eshnunna, p. 182.
243. Cf. CH § 8: «Se um awilum roubou um boi ou uma ovelha ou
u asno, ou um porco ou uma barca: se é de um deus ou do palácio

61
do legislador de Eshnunna no § 6 é, certamente, punir o uso
indevido e ilegal de um barco, sem o consentimento de seu pro-
prietário. Seria, pois, um caso de «furtum usus» como o carac-
teriza M. San Nicolà. "'"' O pagamento de dez sidos (80 g) de
prata deverá ser feito, sem dúvida, ao proprietário do bàrco.

§7

2 sat de cevada (é) o salário de um ceifado,..


Se (o pagamento for ,em) prata: 12 SE é o seu salário.

Este parágrafo legal, conservado apenas na tábua «A» I,


28b-29a, determina a diária de um ceifador, aqui expresso pelo
sumerograma sE.KUD.KIN, em vez do sumerograma mais usual
Lú.sE.KIN.KUD.2'" Mas a forma sE.KUD.KIN é também en-
contrada em textos de Susa .••• O salário diário de um ceifador
é, pois, 2 sat (20 litros), se o pagamento for feito em cevada,
e 12 sE, se for feito em prata. A medida expressa pelo sume-
rograma sE corresponde ao acádico uttetum, em geral traduzido
por «grão». Um sido (8 g) tem 180 grãos; o grão equivale,
pois, a 1/180 do sido. De acordo com o § 7 o salário mínimo
mensal de um ceifador era 600 litros de cevada ou 2 sidos de
prata.241

§8

1 sut de cevada (é) o salário de um joeireiro.

O § 8, conservado na tábua «A» I, 29b, determina a diária


mínima devida a um trabalhador rural denominado em acádico

deverá pagar até trinta vezes mais; se é de um muskênum restituirá até


dez vezes mais. Se o ladrão não tem com que restituir será morto».
Compare com CH § 6 e veja os comentários aos §§ 6 e 8 em E. Bouzon,
O Código de Hammurabi, p. 27s.
244. Cf. art. «Rechtsgeschichtliches zum Gesetz des Bilalama von
Esnunna, Orientalia 18 (1949), p. 258.
245. Cf. W. von Soden, AHW, p. 253a.
246. Cf. Mémoires de Ia· Délégation en Perse, 18, 182.
247. Compare com a tabela de preços do § 1.

62
zarum. B. Landsberger mostrou que a raiz zarum corresponde
ao· nosso joeirar. 248O termo zarum usado no texto da lei é,
provavelmente, um particípio e indica aquele que joeira o grão
na eira. O legislador prescreve que um trabalhador zarum deve
receber por dia 1 sut de cevada, Lé: o equivalente a 10 litros.
Isto corresponde exatamente à metade do salário de um ceifador
(d. § 7). Não é mencionado o salário correspondente em prata.
Mas seguindo a proporção da cevada, deverá ser também a me-
tade do do ceifadorou seja: 6 sE de prata. Nessa proporção,
o salário mensal de um joeirador era 300 litros de cevada ou 1
sido de prata.

§9

Se um awllum deu a um mercenário um sido de prata para


trabalhar na colheita e se este não se colocou à disposição
e não trabalhou (durante toda) a colheita: pesará 10 siclos
de prata.

O texto do § 9 foi conservado apenas na tábua «A» I,


30-33a. Este parágrafo prevê um contrato de trabalho entre um
awilum, como empregador, e um trabalhador apresentado, aqui,
pelo sumerograma LÚ.:t!UN.GÁ, que corresponde ao termo acá-
dico agrum e indica o que chamaríamos, hoje, de «mercenário»,
i.é: um homem que se alugava quer para servir na guerra quer
para trabalhar no campo.249 Neste parágrafo das leis de Esh-
nunna é apresentada uma casuística bem determinada o mer-25<>:

cenário é contratado para trabalhar na colheita (a-na e-I?e-di)


e recebe adiantado a quantia de um sido (8 g) de prata. Não
se trata de um salário para um tempo determinado (dia ou
mês) de trabalho, mas do pagamento de um trabalho determi-

248. Cf. B. Landsberger, ZDMG 69 (1915), p. 5265. - Cf. tb. a


sér,ie ana ittisu em MSL I, p. 170, 172. A. Goetze menciona tb. diversos
textos de TeU Barmal I, de caráter econômico, onde aparece o termo
zanlm (d. The Laws of Eshnunna, p. 42).
249. Cf. W. von Soden, AHW, p. 16b.
250. Cf. tb. R. Yaron, The Law5 of Eshnunna, p. 167s; E. Szlechter,
Les Lois d'Esnunna, p. 105-109; A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 47s.

63
nado (a colheita de um campo). O contrato visa, pois, o resulta-
do final: a colheita. "'" Comparando-se o § 9 com o § 7, pode-se
deduzir que a quantia dada ao' LÚJjUN.GÁ correspondia ao
salário de 15 dias de um ceifador.
Se, porém, esse mercenário faltar com o compromisso assu-
mido pelo contrato, deverá pagar uma multa de 10 siclos de
prata ou sej a: dez vezes mais do que recebeu.
A expressão acádica re-su Ia ú-ki-il-ma, cujo sentido literal
é, como registra von Soden, «não segurou a cabeça» "", deve ser
compreendida como uma expressão idiomática com a significa-
ção de «não se· colocou à disposição ... ».253
A repetição e-~e-dam e-~e-dam Ia [e] -~í-su - lit.: «2
colheita, a colheita não colheu» - é registrada pelo Chicago
Assyrian Dictionary como uma simples ditografia.2>4 Já E.
Szlechter interpreta a repetição como uma maneira de expressar
que o mercenário não trabalhou durante toda a colheita e, POi
isso, não cumpriu uma das' cláusulas do contrato em questão. os;

Do enunciado do parágrafo legal pode-se, pois, concluir que o


contrato previsto no § 9 continha duas exigências: 1) Que
o mercenário se colocasse à disposição do dono do campo. 2)
Que realmente trabalhasse durante toda a colheita. A quebra
dessas exigências (bastava a quebra de uma delas?) acarretava
uma multa de dez siclos de prata contra o mercenário.

§ 9a

1 sut (e) 5 qa (é) o aluguel de uma foice, mas a corda


(?) retomará a seu dono.

o texto do § 9a foi-nos transmitido apenas pela tábua «A>


I, 33b-34. A exegese do texto legal deste parágrafo é bastante
251. Assim tb. R. Yaron, op. cit. p. 168; E. Szlechter, op. cit. p. 1055.
- A. Goetze, ao contrário, julga: «This amount must be intended fo~
a month (as the 1 shekel paid the agrum under § 11) and it is certain!y
Iess than a harvester wouId expect under § 7» (d. op. cit., p. 47).
252. Cf. W. von Soden, AHW, p. 503a: «das Haupt haIten».
253. Cf. W. von Soden, AHW, p. 503a.
254. Cf. CAD «E», p. 339a.
255. Cf. E. SzIechter, Les Lois d'Esnunna, p. 16, onde traduz: «... o[
ne moissonne pas Ia totalité de Ia récolte ... »

64
discutida em função da interpretação de dois grupos de sinais
cuneiformes e da lacuna existente no início da linha 34. A.
Goetze, tanto na «editio princeps» ''''', como mais tarde na edição
«standard» 251, interpreta os dois grupos de sinais' cuneiformes
como sendo os sumerogramas AB.TUK.A e BA.ZI.As. O primeiro
grupo é relacionado com a raiz suméria TUK = «aceitar»,
«adquirir»"" e o segundo com ZI, que corresponde ao acádico
nasãl].um = «arrancar», «extrair». Para Goetze, os §§ 9 e 9a
Z59

formam um único parágrafo.260 E. Szlechter segue a interpreta-


ção de Goetze. ,." Na interpretação de A. Goetze, a segunda parte
do § 9 visa determinar o salário do mercenário, citado na pri-
meira parte, no caso em que ele tivesse trabalhado por algum
tempo, sem contudo, respeitar o contrato pleno de trabalho.
Neste caso, ele receberia um salário diário de 15 litros de cevada,
mas deveria descontar as rações de cevada e de óleo e as
roupas ..,..
256. Cf. art. «The Laws of Eshnunna Discovered at TelI Barmal»,
em Sumer 4 (1948), p. 72s.
257. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 41.
258. Cf. A. Góetze, The Laws of Eshnunna, p. 44: «The second
'" oup occurring in LE § 9, ab-luk-a is Iikewise a «subjunctive»; being
~losely tied by 11 to the ba-zi-as, which has just been discussed, it should,
:ike the latter, be considered as governed by the postposition - s( e).
-:-he basic ab-tuk must be analyzed as a=b=l.uk which is for i=b=tllk
me acquired, accepted (it)>>.
259. Cf. A. Goetze, op. cit. p. 43: «The complex ba-zi-as lends
:.:::elf well to an interpretation from Sumerian and must no doubt be
2:lalyzed as ba=zi=a=s, i.e: as the verbal form ba-ZÍ nominalized
:::- a- and followed by the postposition -se which in the position after
~ \-owel appears as -s... The verbal stem zi corresponds with akk.
-=-.:::ã!]u.m literalIy «uproot, extract» which is not only used in the par-
o:- e of mathematics and accollntancy for «dedllct, sllbtract, withdraw»
=-__ also jur·idically for «remove (from a group)>>.
260. Cf. a tradução de Goetzeem op. cit. p. 41: «Should a man
~e 1 shekel of silver to a hired man for harvesting, if then he (Le: the
::"':"'W man) does not hold himself in readiness and does not do for him
-~ him who does the hiring) the harvesting, wherever it may be, he
~ pay 10 shekels of silve r. In consideratian af the fact that he (i.e:
--= hired man) earned 1 seah (and) 5 qa in (daily) wages and was
- ~:"arged (fram the household), the rations of barley, oil (and) cloth
_ aisa revert (to that household)>>.
2ú1. Cf. E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 16, onde a segunda
2 da § 9 é traduzida: « ... (cependant) 15 qa d'orge comme salaire
- _..:: chaqlle jour de travail) sera reçu et enlevé, mais Ia ration d'orge,
0>" et de vêtement iI rendra».
1'32. Cf. A. Goetze, ap. cit. p. 48. ~

65
Em 1964 B. Landsberger propôs para o primeiro grupo de
sinais cuneiformes a leitura do sumerograma URUD.KIN.A -
cujo correspondente acádico é niggallum - com a significação
de «foice». """ Esta leitura foi confirmada por Landsberger em
1968 no seu artigo «Jungfraulichkeit» e aceita por W. von
264

Soden 26., A. Salonen"', J. Bottéro "" e outros. 2S8 De fato na cópia


da tábua «A» feita por A. Goetze o primeiro sinal parece mais
um URUDU do que um AB. Os sinais KIN e TUG são, também,
no período babilônico antigo muito parecidos. Assim a leitura
URUD.KIN.A se justifica textualmente e dá ao contexto um
significado satisfatório. ,.. O segundo grupo de sinais cuneiformes
é lido por Landsberger kU-l?i-rum, que para ele indica a «corda»
que prende a foice ao seu cabo. "O Embora na cópia de Goetze
o primeiro sinal do grupo possa também ser interpretado como
o sinal KU, Finkelstein prefere conservar a leitura BA, que ele
julga confirmada em suas colações de texto "" e lê BA-ZI-RUM,
que relaciona com a expressã<;>suméria BA.ZUR. Conforme Fin-
kelstein a expressão BA.ZUR denota «o processo de derreter
objetos de metal em preparação para fundir novos objetos»."::
Para Finkelstein o termo acadizado ba-zi-rum indicaria os restos
da foice, tornados «ferro velho». zm

263. Cf. Welt des Orients III (1964), p. 61, nota 52.
264. Cf. Symbolae luridicae et Historicae M. David dedicatae, voI.
lI, p. 72.
265. Cf. art. «Neubearbeitung-en der babylonischen Gesetzessamm-
lungen» em Orientalische Literaturzeitung 53 (1958), p. 519.
266. Cf. Agricultura Mesopotamica, p. 163s.
267. Cf. École Pratique des Hautes Études, Annuaire 1965/66, p. 91.
268. Cf. p.ex.: ]. J. Finkelstein, art. «On Some Recent Studies in
Cuneiform law» em JAOS 90 (1970), p. 247s.
269. Cf. J. J. Finkelstein, art. cit. p. 247, nota 19.
270. Cf. Welt des Orients III (1964.), p. 61, confirmado no art.
«Jungfrãulichkeib>, p. 72. W. von Soden registra o termo kUi;>irumem
AHW, p. 515b, com o significado «ein Band (7»>, mas a única citação
apresentada é o nosso texto.
271. Cf. J. J. Finkelstein, art. cit. p. 248, nota 20.
272. Cf. J. J. Finkelstein, art. cit. p. 248s. Cf. tb. H. Limet, Le travail
du métal au pays de Sumer .au temps de Ia lI!" dynastie d'Ur, Paris,
1960, p. 145s.
273. Cf. ]. J. Finkelstein, art. cit. p. 248: «The most appropriate
rending of ba-zi-ir is therefore «scrap» Le: metal implements to be
scrapped ar alr·eady turned into scrap. This meaning will fit ali Sumerian
occurrences in which the object is metal or metal implements».

66
A lacuna do ImclO da linha 34 é completada por W. von
Soden: [a-na be] -li-su-ma i-ta-a-ar: «ao seu proprietário re-
tornará».2'l4 Esta interpretação é, hoje, comumente aceita. 275
O § 9a parece, pois, tratar do contrato de aluguel de um
objeto chamado URUD.KlN.A, i.é: uma foice. O § 9, ao con-
trário, tratava de um contrato de trabalho. Deve-se, pois, prova-
velmente considerar como dois parágrafos diferentes. No § 9a o
legislador determina o preço máximo do aluguel de uma foice:
1 sut e 5 qa, que corresponde a cerca de 15 litros. O cereal
em questão é, sem dúvida, a cevada, que serve como base de
pagamento nas leis de Eshnunna. O preço estipulado vale, cer-
tamente, como aluguel da foice para todo o tempo da colheita.
Na segunda frase do § 9a o legislador determina que o
ku-~i-rum (corda?) ou o ba-zi-rum («scraf-metal»?) deveria
ser restituído a seu dono. A interpretação desta parte continua
obscura e será necessário mais material textual para determinar
o significado exato desta parte.

§ 10

1 sut de cevada (é) o aluguel de um jumento e 1 sut de


cevada (é) o salário de seu condutor. Ele deverá conduzi-Io
o dia inteiro.

O § 10, conservado pela tábua «A» I, 34b-35, determina o


preço de aluguel de um animal, expresso aqui pelo sumerograma
ANsE, que corresponde ao termo acádico imerum, indicando o
burro ou o jumento. 216A lei prevê o pagamento diário de 1 sut
= 10 litros de cevada para alugar um jumento. No § 269 do
ódigo de Hammurabi lê-se uma prescrição paralela: «Se alu-
gou um jumento para trilhar: seu aluguel será um sut de
lão». Nas leis de Eshnunna não é declarado o tipo de tra-
21'1

274. Cf. W. von Soden, art. cit. em Orientalische Literaturzeitung,


__ o 519.
275. Cf. p. ex.: B. Landsberger, art. cit. p. 72. J. J. Finkelstein
~-l. cito p. 247.
276. Cf. W. vou Soden, AHW, p. 375.
277. Cf. O Código de Hammurabi, ed. E. Bouzon, p. 104.

67
balho a que é destinado o animal alugado. No seu atual contexto,
depois dos §§ 7-9, pode-se supor que o animal alugado era
destinado aos trabalhos da colheita. A legislação de Eshnunna
acrescenta uma segunda prescrição: o salário diário do condutor
do jumento é igualmente 1 sut, i.é: 10 litros de cevada. O pará-
grafo termina, com a cláusula: ka-Ia u4-mi-im i-re-de-su: «Ele
dever.á conduzi-Ia o dia inteiro». 27.

§11

o salário de um mercenarlO (é) um sido de prata; J pan


de cevada a sua alimentação. Ele deverá trabalhar 219 um
mês.

A tradução segue o texto da tábua «A» I, 36-37a. Como


no § 9, o personagem central deste parágrafo é o LÚJjUN.OÁ,
que traduzimos por mercenário. O § 9 visava a quebra de um
contrato especial de trabalho por parte de um mercenário. O
§ 11 determina como salário mensal do LÚJjUN.OÁ = merce-
nário: um siclo (8 g) de prata. Mas além do salário, o seu em-
.• pregador devia dar-lhe 1 pan 280,i.é: cerca de 60 litros de cevada
a título de alimentação por mês. Comparado com o § 273 do
281

Código de Hammurabi, nota-se que o mercenário ganhava bem


mais em Eshnunna do que na Babilônia. No § 273 lê-se: «Se um
awl1um contratou um mercenário: pagará desde o começo do ano
até o quinto mês 6 sE de prata; a partir do sexto mês até o fim
do ano pagará 5 sE de prata».282 Hammurabi distingue, pois
entre o salário dos cinco primeiros meses e o dos restantes sete
meses. Para os cinco primeiros meses do ano babilônico (do fim
de março até o fim de agosto), o tempo mais pesado devido
aos trabalhos da colheita, Hammurabi estabelece uma diária de
6 sE, correspondente a 6/180 de um sido, o que equivale a um
salário mensal de um sido de prata. Mas nos sete meses restan-

278. Cf. §§ 3 e 4.
279. Lit.: ITU 1.KAM i-Ia-ak: «Ele irá um mês».
280. Cf. W. von Soden, AHW, p. 822b.
281. Cf. a expressão sumérica sA.OAL que corresponde ao acádico
ukuIlum. Cf. W. von Soden, AHW, p. 1406a.
282. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 105.

68
tes a diária é apenas de 5 sE, l.e: 5/180 de um sido, que
corresponde a um salário mensal de 5/6 de um sido ou seja
6,666 g de prata. Hammurabi não fala do sustento do mercená-
rio. Em Eshnunna, portanto, um LÚ.ljUN.GA = «mercenário»,
além de ganhar um siclo por mês - ou seja uma diária de 6
sE - durante todo o ano, sem distinção de meses, recebia
uma quota mensal de cerca de 60 litros de cevada - i.é: cerca
de dois litros por dia - a titulo de sustento.
E. Sztechter tem, sem dúvida, razão quando afirma que o
§ 11 apresenta um caráter geral, devendo ser aplicado a todos
os trabalhadores para os quais não é previsto um salário
especial. 2S3

§ 12

o awilum que for apanhado no campo de um muskênum,


ao meio-dia, junto dos feixes de grão: pesará dez sidos
de prata. O que for apanhado, de noite, junto dos feixes de
grão morrerá, ele não viverá.

Esta tradução segue o texto da tábua «A» I, 37-40. Na


tábua «B» I, 1-3 foram conservados apenas os verbos H;a-ab-
ba-tu = «for apanhado» do fim da segunda linha e ú-ul i-ba-
al-lu-ut = «não viverá» do fim do parágrafo. O § 12 das leis
de Eshnunna trata da entrada ilegal de um awIlum no campo de
um muskênum. A interpretação da expressão acádica i-na ku-ru-
lim é necessária para a compreensão das circunstâncias dessa
entrada ilegal. W. VOll Soden registra o termo kurullum com o
significado de «feixe de cereais».2M Daí a nossa tradução i-na
ku-ru-lim: «junto (ou entre) os feixes de grão». 285A lei distingue

283. Cf. E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 105: «L'art. 11 peut


être considéré comme une disposition d'ordre général, c'est-à-dire com-
portant le salaire applicable aux ouvriers pour lesquels un salaire spécial
n'a pas été prévu».
284. Cf. AHW, p. 513a: «Getreideschwade(n), Gerbe(n)>>.
285. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 50, traduz «inside the
fence» (?). J. Bottéro, em École Pratique des Hautes Études, Annuaire
1965/1966, p. 91, traduz: « ... ave c un gerbe-liée(?) ... » Já E. Szlechter,
em Les Lois d'Esnunna, p. 17 propõe a tradução: «au delà de Ia haie de
jonc».
69
duas possibilidades: se foi i-na mu-u~-la-lim = «ao meio-dia»,
certamente na hora da sesta os., pagará uma multa de dez siclos,
i.é: 80 g de prata. Se, porém, a entrada ilegal se deu i-na
mu-si-im = «de noite», o awilum será condenado à morte. A
intenção do legislador neste parágrafo é, pois, defender o campo
de um muskênum contra a entrada indevida de um awiJum. Não
se trata ainda de um roubo consumado. O awiJum é surpreendido
i-na ku-ru-lim, i.é: «junto (ou entre) os feixes de grão». Não
se fala de alguma coisa roubada, mas a intenção do awiJum
entrando no campo alheio à hora da sesta ou durante a noite
parece bem clara.
No Código Sumério de Lipit-Ishtar encontra-se uma lei
paralela à do § 12 de Eshnunna, mas Lipit-Ishtar não faz dis-
tinção alguma de tempo. "" Para qualquer momento do dia ou
da noite é imposta a multa de dez siclos de prata. As leis. de
Eshnunna atribuem à tentativa noturna de roubo uma gravidade
maior, que é punida com a pena capital. A mesma concepção
parece, também, vigorar na legislação bíblica do livro do
Êxodo. os. A legislação de Hammurabi é mais severa e prescreve
simplesmente: «Se um a'WIIum abriu uma brecha em uma casa:
matá-Io-ão diante dessa brecha e o levantarão».'" Mas mesmo
uma multa de 1O sidos (80 g) de prata deve ser considerada
como uma pena bastante pesada para a época, principalmente
se se compara com os salários, então vigentes, de diversos tra-
balhadores especializados. 200

O § 12 das leis de Eshnunna toca em uma questão muito


discutida entre os assiriólogos sobre a natureza do muskênum.2ll1

286. Cf. W. von Soden, AHW, p. 679a.


287. Cf. Código de Lipit-Ishtar § 9: «Se um homem entra no jardim
de um outro homem e é aí surpreendido roubando: pagará dez sidos
de prata». Cf. A. Fal.kenstein-M. San Nicoló, «Das Gesetzbuch Lipit-
Ishtar von Isim>, em Orientalia NS 19 (1950), p. 103s.
288. Cf. Ex 22,2-3: «Se o ladrão surpreendido de noite em flagrante
delito de arrombamento, for ferido e morrer, não existe crime de homi-
cidio. Mas, se já o sol tiver nascido, existe crime de homicídio. O ladrão,
porém, será obrigado a restituir e, se não puder fazê-Io, será vendido
pelo que roubou».
289. Cf. § 21 - Cf. para comentários ao § 21 E. Bouzon, O Código
de Hammurabi, p. 31.
290. Cf. p. ex.: os §§ 7, 8, 9 das leis de Eshnunna.
291. Cf. E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 40-43; G. R. Driver-
]. C. Miles, The Babylonian Laws, voI. I, p. 90-95; E. A. Speiser, «The
muskenum» em Orientalia NS 27 (1958), 19-28; W. von Soden, «mus-
kenum und die Mawãli des frühen lslam» em ZA 56 (1964) p. 133-141.

70
Por que uma lei que se refere, exclusivamente, à defesa do
ampo de um muskênum? Por que esse cuidado especial por
parte do legislador em relação ao muskênum? Quem era esse
21J2

muskênum? Nas leis de Eshnunna, o muskênum é expresso pelo


sumerograma MAs.KAK.EN em lugar da forma usual MAs.EN.
KAK. Embora se tenha escrito muito sobre a origem e a natu-
21J2

reza da classe social muskênum, não se encontrou ainda uma


resposta completamente satisfatória. No Código de Hammurabi,
e provavelrpente também nas leis de Eshnunna, o muskênum
formava uma classe social entre os cidadãos totalmente livres -
os awllum - e os escravos. Do ponto de vista político e social
eram, sem dúvida, inferiores ao awilum. Eram, porém, livres em
relação aos awllum. Parece, contudo, que tinham uma certa
dependência em relação ao palácio, que, em troca, os protegia
legalmente.294 O problema do muskênum continua, portanto,
aberto.

§ 13

o awl.lum que for apanhado na casa de um muskênum, ao


meio-dia, com um pedaço de pau (?), pesará dez sidos
de prata. O que for apanhado, de noite, com um pedaço de
pau (?), morrerá, ele não viverá.

A tradução acima segue o texto da tábua «B» I, 4-7. O


texto da tábua «A» I, 41-42 foi-nos transmitido em estado bas-
tante lacunar. O § 13 encontra-se na mesma linha de proteção

292. Cf. tb. os §§ 13 e 50 das leis de Eshnunna.


293. Cf. W. von Soden, AHW, p. 684a.
294. Cf. W. vou Soden, art. «muskênum und die Mawãli des frühen
lslam» em ZA 56 (1964), p. 140: «lch mochte nun die These aufsteIlen,
dass der muskênum der altbab. Zeit ahnlich dem maulã des frühen Islam
ein Freigelassener des Stammes bzw. seines seU war. Die frühere Ver-
. sklavung war gewiss meist die Folge einer Kriegsg-efangeuschaft, kann
aber auch andere Gründe gehabt haben. Die Freilassung erfolgt nicht
bedingungslos, sondem band den Freigelassenen an den inzwischen zum
Kleinkonig oder Konig aufgerückten Stammeshauptling, der ihm bestimmte
Pflichten auferlegte, aber sich auch verpflichtete, ihm einen besonderen
Sçhutz angedeihen zu lassel1».

71
à propriedade do muskênum como o § 12. A repetição da
295

expressão i-na É. .. i-na É : «na casa... na casa» que se en-


contra na quarta linha dificulta a compreensão exata da intenção
do legislador. Alguns assiriólogos julgam o segundo i-na É como
ditografia e cortam a expressão do texto .••• Mas não há base
para tal julgamento, já que a mesma seqüência de sinais cunei-
formes é testemunhada nas duas tábuas. m Outros tentam uma
solução traduzindo o segundo É = «casa» com um significado
mais específico de «cômodo» ou «quarto». """ Parece-nos, con-
tudo, difícil que o legislador use, no mesmo texto, a mesma
palavra com dois significados diferentes. B. Landsberger propõe
uma pequena correção no texto cuneiforme: Ele interpreta o
segundo grupo de sinais cuneiformes não como i-na Ê, mas
como i-na GIs e traduz «mit einem Scheit Holz» (com um pe-
daço de madeira). Do ponto de vista epigráfico, o sinál cunei-
299

forme gravado na tábua é plausível de ser interpretado como


«É» ou como «GIs», já que ambos os sinais eram no período
babilônico antigo graficamente bastante semelhantes. Dificilmente
uma acha de lenha pode ser considerada um objeto típico para
ser roubado de uma casa. O sumerograma GIs expressa, aqui,
sem dúvida, um instrumento de madeira, que o awilum usaria
para arrombar as paredes da casa.
Como no § 12, a intenção do legislador é, aqui, proteger a
casa de um muskênumcontra uma entrada ilegal - certamente
com intenção de roubo - por parte de um awilum. Se esse
awilum for surpreendido ao meio-dia, i.é: na hora da sesta,
com um pedaço de pau na casa de um muskênum, deverá pagar

295. Cf.acima p. 69s.


296. Cf. p. ex.: L. F. Hartman, -em Catholic Biblical Quarterly 1
(1956), p. 442.
297. A observação de A. Goetze em The Laws of Eshnunna, p. 12,
nota 48: «The second i-na bitim of B I, 4 which has no correspondencE'
in A (1,41) may be an inadvertent repetition of the first i-na bitim in the
same line», parece contradita pelo próprio autor na p. 52 - Cf. tb.
R. Yaron, The Laws of Eshnunna, p. 26.
298. Cf. H. Petschow, «Zur 'Systematik' in den Gesetzen von Esch-
nunna», em Symbolae ... Martino David dedicatae, voI. 11, p. 134 - e::.
tb. W. von Soden, AHW, p. 133a.
299. Cf. B. Landsberger, art. «]ungfraulichkeit» em Symbolae ...
Martino David dedicatae, vol. 11, p. 72. Landsberger traduz o § 13 de:
seguinte maneira: «Einer, der im Hause eines Untertanen mit eine=
Scheit Holz bei hellem Tageslicht ertappt wird, zahlt 10 Schekel Silbe:
Strafe: wer aber bei Nacht mit einem Scheit Holz ertappt wird, wi:"""'
hingerichtet, darf nicht begnadigt werden».

72
uma multa de dez sidos (80 g) de prata. Mas, como no § 12,
o legislador estende a casuística do parágrafo com mais uma
hipótese: Se o awllum for surpreendido, durante a noite, na casa
do muskênum, então não haverá nem pena financeira nem perdão.
Esse awilum deverá ser condenado à morte.

§ 14

o salário d.e um alfaiate (?) é um siclo, se a roupa custar


cinco siclos de prata. Se custar dez siclos de prata, (o seu
salário é) dois siclos.

o texto deste parágrafo foi transmitido, apenas, pela tábua


«B» I, 8-9. A leitura do sumerograma que indica a profissão em
questão neste parágrafo é incerta.3 •• Deste modo a interpretação
do parágrafo é prejudicada. A tradução apresentada acima segue
a leitura de B. Landsberger: A LÚ.TÚG 1 TúG 5 GíN KU.
BABBAR li-bil-ma 1 GíN A.BI 10 GíN KU.BABBAR li-bi-il-ma
2 GíN A.B!. 301Landsberger interpreta pois o segundo sumero-
grama da linha 8 como LÚ.TÚG e que seria indicativo de uma
profissão correspondente ao nosso «alfaiate».3\)2 A forma verbal
\\'oi.\ma - 10rma precahva de wabã\um - tem no di.a\eto de
Eshnunna uma função de condicional. 3\)3Se a interpretação textual
de Landsberger for certa, o legislador determina no § 14 como
salário de um LÚ.TÚG =
«alfaiate» 20% do valor da roupa
confeccionada.

300. Cf. A. Goetze, The Laws oÍ Eslmunna, p. :'Jits; 1:... '::>z'lec'n'ter,


::"'5 Lois d'Esnunna, p. 18. R. Yaron, The Laws qÍ Eshnunna, p. 26.
301. Cf. art. «jungfraulichkeit» em Symbolae Iuridicae et Historicae
_'~:-tino David dedicatae, vol. lI, p. 73.
302. No art. cito p. 73 ele traduz «Apprêteurs». J. Bottéro em Annuai-
~ 1965/1966, École Pratique des Hautes Études, p. 91 traduz por
_1 eur».

303. Cf. W. von Soden, GAG, § 160c.

73
§ 15

Da mão de um escravo ou de uma escrava, o comerciante


ou a taberneira não deverá receber prata, cevada, lã, óleo
de sésamo, mesmo em pequena quantidade.

o texto deste parágrafo encontra-se apenas na tábua «B»


I, 10-11. A lei menciona dois personagens da vida comercial da
Babilônia: o tamkãrum - expresso aqui pelo sumerograma
DAM-OÁR e a sãbltum. O tamkãrum era mais do que um sim-
ples comerciante no sentido hodierno da palavra. Ele desempe-
nhava. em geral, a função do banqueiro, que emprestava a juros
e jogava com a especulação, como aparece claramente no Có-
digo de Hammurabi. "" A sãbitum normalmente traduzido por
3Oõ,

«taberneira», não era, exclusivamente, a vendedora de bebidas,


mas parece ter negociado com todos os gêneros de primeira ne-
cessidade, como se pode concluir deste § 15. A interpretação
exata desta lei é prejudicada pela dificuldade em traduzir a ~x-
pressão final do parágrafo, cujos sinais cuneiformes tanto podem
ser lidos a-di ma-di-im = «em grande quantidade» como a-di
ma-ti-im, que W. von Soden traduz «bis zum Oeringsten».306 A
tradução acima apresentada segue a leitura do texto cuneiforme
a-di ma-ti-im.307 A. Ooetze, partindo da leitura madum =
«muito», chega à seguinte tradução da lei: «From the hand of
a slave or a slave girl the famkãrum and the sãbi.tum will DOt
receive silver, barley, 'Wool (or) oil for speculation».3oo Para
Ooetze, pois, a intenção do legislador é proibir ao tamkãrum
e à sãbítum receber prata, cevada, lã ou óleo de sésamo da
mão de um escravo para especular com o valor desses produ-

304. Cf. §§ L, M, N, O, P, R, V, 101, 107 - Para comentários a


esses §§ d. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 49s. - Cf. tb.
W. F. Leemans, The Old-Babylonian Merchant, his business and his social
position, SD 3, Leiden, 1950.
305. Cf. G. R. Driver-j. C. Miles, The Babylonian Laws, vol. I,
p. 202-207.
306. Cf. W. von Soden, AHW, p. 635b.
307. Cf. tb. E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 18 que traduz
«même de peu de valeur».
308. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 56.

74
tos. 30. B. Landsberger lê a-di ma-di-im e traduz simplesmente
por «et cetera».31O Se a nossa interpretação de a-di ma-ti-im
«em pequena quantidade» está certa, então o § 15 proíbe ao
tamkãrum e à sãbItum receber da mão de um escravo ou de
uma escrava prata, cevada, lã ou óleo de sésamo, mesmo em
pequena quantidade, para revender ou negociar. E o motivo dessa
proibição parece óbvio: o escravo é propriedade do seu senhor,
os bens que possui pertencem igualmente ao seu senhor.

§ 16

Ao filho de um awílum não separado ou a um escravo não


deve ser feito empréstimo.

A tradução segue o texto da tábua «B» I, 12, já que na


lábua «A» II, 1 há uma lacuna neste lugar. Para se interpretar
orretamente o sentido exato da prescrição do § 16 é necessário
ompreender o significado da expressão DU MU .Lú Ia zi-zu: «o
filho de um awllum não separado». O verbo acádico zãzum
significa «dividir», «separar».3l1 Quem é o filho «não separado»?
Encontra-se a mesma classe de pessoas nas Leis Assírias B § 2
e § 3.312E. Szlechter julga que a expressão DUMU.LO Ia zi-zu
se refere a filhos menores, que vivem ainda em comunidade de
bens com os outros irmãos após a morte do pai. 313A. Goetze dá
309. Cf. A. Goetze, op. cit. p. 57: «I take mãdim to be the genitive
af the adjective «much». I therefore feel justified to understand adi
::::lãdim mabãrum as accept money (or its equivalent) at the multiple
oi its value Le. for speculating on a rise».
310. Cf. art. «jungfraulichkeit», p. 73 - Na mesma linha «The As-
syrian Dictionary of the University of Chicago», voI. A/I, p. 122b que
::aduz: «... silve r, barley, wool, oi! and other things» (lit.: «inclusive
=any others»).
311. Cf. CAD «2», p. 76s.
312. Cf. G. Cardascia, Les Lois Assyriennes, Paris 1969, p. 264-266 .
., .ui encontra-se a expressão traduzida por Cardascia «Si un homme
::armi des freres indivis ... »
313. Cf. E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 38: «L'expression
=âr awilim Ia zizu semble bien se reporte r à un «fi1s (mineur)>> de
.....:.oyen qui apres Ia mort de son pere est resté en communauté de biens
::..ee d'autres freres».

75
à expressão um significado mais amplo: «Thus mãr awllim lã
zizum can mean a free man to whom a specific share in his
father's estate has not yet been assigned».314 Nesta linha, julga-
mos preferível dar à expressão um sEntido mais amplo. O «filho
de awIlum não separado» é aquele que vive na comunidade da
casa paterna com seus irmãos, quer durante a vida do pai quer
após a morte deste antes da divisão da herança paterna.:rn O
significado do verbo acádico usado neste parágrafo ul iqqiap,
da raiz qiãpum 31. - traduzido aqui por «não deve ser feito
empréstimo» - foi amplamente discutido por E. Szlechter. 317
Ele relaciona o uso do verbo qiãpum neste parágrafo com o tipo
de empréstimo qlptum.:l13 O direito babilônico conhecia emprés-
timos a juros e empréstimos sem juros. A série ana ittisu 319
denomina o empréstimo a juros de }J:AR-ra, com o equivalente
acádico lJubuIlum. 320O mesmo texto lexicográfico apresenta dois
tipos de empréstimos sem juros: ES.DÉ.A, com o equivalente
acádico b-ubuttatum e sU .LÁ com o equivalente acádico qlptum . ..,
E. Szlechter mostra a diferença existente entre o tipo de em-
préstimo b-ubuttatum e o tipo qlptum.3Z2 Parece não tratar-se
apenas de uma diferença dialetal entre o norte e o sul da Babi-
lônia. 323O termo tlUbuttatum expressa uma relação jurídica de
empréstimo propriamente dito, mas trata-se de um empréstimo
que não exige o pagamento de juros até a liquidação da dívida
e que para liquidar a dívida, basta restituir o capital emprestado.
Mas não é impossível que os juros já tenham sido pagos por
ocasião do empréstimo ou incluídos no montante do capital. 32.

314. Cf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 58.


315. Cf. nesta linha tb. R. Yaron, The Laws of Eshnunna, p. 98s.
316. Cf. W. von Soden, AHW, p. 918b. O s'ignificado original de
qiãpum é confiar.
317. Cf. Les Lois d'Esnunna, p. 70-73.
318. Cf. idem, ibidem - Cf. tb. W. von Soden, AHW, p. 922b.
319. Cf. B. Landsberger, Materialien zum sumerischen Lexikon, vaI.
I, tábua 2.
·320. Cf. B. Landsberger, MSL 1,2, 1,57 - Cf. AHW p. 351b.
321. Cf. idem, MSL, 1,2, 1,63-64 - AHW, p. 352b e 922b.
322. Cf. Les Lois d'Esnunna, p. 71-73.
323. Cf. ibidem, p. 71.
324. Cf. idem, p. 71-72: «Le terme désigne: «prêt sans intérêt»
(ou plus exactement: «prêt qui ne porte pas d'intérêt»). Cette expression
indique en premier lieu un rapport juridique de prêt proprement dito
Elle précise en outre que jusqu'à I'échéance de Ia dette, aucun intérêt,
légal ou conventionnel, ne sera exigé. Autrement dit, à I'échéance, le
débiteur n'est tenu qu'au pai'ement de Ia somme indiquée comme ayant

76
No contrato qlptum, o depositário se torna proprietário dos
objetos emprestados pelo simples reembolso de uma soma ou
quantidade igual de mercadoria. 32'
O § 16 proíbe que a filhos, considerados menores por vive-
rem ainda na comunidade da casa paterna, e a escravos seja
feito um empréstimo de tipo qlptum. Ao que parece, os emprés-
timos tipo qlptum não gozavam da confiança dos legisladores
babilônicos. Hammurabi determina no § 111: «Se uma taberneira
deu a crédito (a-na qi-ip-tim id-di-in) um jarro de cerveja: na
colheita ela tomará 5 BÁN (cerca de 50 I) de grão». 326O legis-
lador queria, sem dúvida, prevenir abusos e por isso prescreve
uma quantidade determinada de cevada para reembolsar a taber-
neira em um caso de empréstimo tipo qlptum. Szlechter cita um
exemplo mais radical ainda, contido no texto BM 78.259 da
época cassita.327 Uma das prescrições desse documento legal
determina: sãbitum sa sikãrum u se-am i-qí-pu mi-im-ma
sa i-qi-pu ú-ul ú-sa-ad-da-an: «A taberneira que deu a crédito
cerveja ou cevada não poderá se fazer reembolsar daquilo que
deu a crédito».323 O legislador proíbe, neste texto, a taberneira
de conceder empréstimos, tipo qlptum, de 'cerveja ou de cevada.
 proibição uo § \ \')uo Código ue. Es\munna é mais ge.ral.
Se a relacionamos com o § 15, pode-se interpretar o § 16 como
uma proibição feita tanto ao comerciante como à taberneira de
conceder empréstimos tipo qlptum aos filhos dependentes da casa
paterna e aos escravos. O emprego do empréstimo qlptum era,
provavelmente, um modo usado pelos comerciantes e taberneiras
para burlar o direito vigente. 329

fait l'objet du prêt... Cependant, rien ne garantit que I'intérêt n'ait pas
été immédiatement payé au moment du prêt, ou que Ia somme mentionnée
comme capital ne soit pas constituée ,en réalité par le capital plus les
intérêts».
325. Cf. idem, p. 72: «Sous Ia dénomination de qiptum il y a bien
d'entendre, au sens précis du terme, le depositum ,irregulare, c'est-à-dire
le dépôt qui porte sur des objets in genere dont le dépositaire devient
propriétaire à charge de rembourser une somme égale de merchandises».
326. Cf. a tradução portuguesa de E. Bouzon: O Código de Hammu-
rabi, p. 55.
327. O texto BM 78.259 foi publicado por S. Langdon 'em Proceedings
of the Society of Biblical Archeology, vol. XXXVI, 1914, p. 100s.
328. Idem, col. I. 14.
329. Cf. aS considerações de E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 73.

77
§ 17

o filho de um awUum (que) levou a terlJatum para a casa


de seu sogro: Se um dos dois morreu """,a prata retomará
a seu dono.

A tradução acima segue a formulação da tábua «B» I,


13-15. O § 17 da tábua «B» determina a maneira de proceder
em relação à terbatum no caso da morte de um dos noivos antes
da realização do casamento. O termo terbatum indicava uma
quantidade determinada de prata, que, em geral, o pai do noivo
pagava ao pai da noiva. Em caso de morte da noiva, o noivo
331

podia exigir do sogro a quantia paga pela noiva. Se o morto


fosse o noivo, então a família deste podia exigir a devolução da
terbatum. Este é, sem dúvida, o significado da expressão
KO.BABBAR a-na be-lí-su-ma i-ta-a-ar: «e a prata retomará
ao seu dono». Na tábua «A», cujo § 17 está em estado bastante
lacunar a apódose -é diferente: ma-Ia ub-lu ú-ul ú-se-e~H?é
wa-tar-su-ma i-le-qé: «o que ele tiver trazido não fará sair, ele
tomará o seu excedente». A tábua «A» juntou em um parágrafo
dois tipos de casuística diferente: o caso da morte de um dos
noivos e o caso da morte de uma das partes de um casamento
que não tem filhos. A tábua «B» tratou os dois casos separada-
mente nos §§ 17 e 18. Na tábua «A» parece, pois, ter havido um
erro de homoioteleuton por parte do escriba, provocado, sem
dúvida, pela repetição da expressão a-na si-im-tim it-ta-la-ak
= «morreu» (lit.: foi para o destino).

§ 18

Se ,ele a tomou como esposa e ela entrou em sua casa e


ou o noivo ou a ,noiva vier a morrer =: o que ele tiver tra-
zido não poderá fazer sair. Ele tomará, apenas, o seu
excedente.

330. Lit.: a-na si-im-tim it-ta-Ia-ak: «foi para o destino».


331. Cf. E. Ebeling, art. «Ehe» em Reallexikon der Assyriologie,
vaI. 11, p. 281-286.
332. Lit.: a-na si-im-tim it-ta-Ia-ak: «foi para o destino».

78
o § 18 foi transmitido apenas pela tábua «B» I, 16-18. A
prótase do parágrafo caracteriza bem a sua casuística: o noivo
tomou a noiva como esposa e esta entrou em sua casa. Trata-se,
pois, de um casamento consumado. Uma pequena lacuna do
texto na segunda parte da prótase dificulta a sua compreensão. 333
A edição standard de A. Goetze interpreta e transcreve o texto
desta maneira: u (?) a-a:g.-:g.a-ru-um (?) kal-la-tum a-na si-im-
tim it-ta-Ia-ak, que ele traduz: «... but soon afterward the
young woman deceases ... ». 234Goetze lê, portanto, na lacuna do
texto um advérbio a:g.:g.arum,que ele interpreta como uma variante
dialetal de warkanum = «depois».'35 E. Szlechter lê: lU-li
a-a:g.-:g.a-ru-lI kal-Ia-tum a-na si-im-tim it-ta-Ia-ak, que traduz:
«. .. 'et si apres que Ia jeune femme est décédée, il (le mâr
awilim) est en retard (pour Ia restitution de Ia dot) ... ».33"
Seguindo von Soden E. Szlechter traduz o termo a:g.:g.aru
a:11,

por «être en retard», que ele interpreta como um retardar por


parte do noivo da entrega do dote. 338B. Landsberger propõe
uma nova conjedura para a lacuna do texto e lê: lU-li a-:g.i-za-nu
lu-ú kal-Ia-tum: «entweder der Brãutigam oder die Braut».339
Embora do ponto de vista epigráfico tanto a leitura a:g.:g.aru
como a leitura a:g.izanum sejam possíveis, a conjectura de
Land.sberger parece mais enquadrada dentro do contexto.34<lNossa
tradução «e ou o noivo ou a noiva vier a morrer» segue a
conjedura de Landsberger. A casuística do parágrafo parece
agora mais clara: um homem casou-se e consumou o casamento
pela coabitação. Esse casamento é, porém, prematuramente des-

333. Cf. art. dt. em Symbalae... Martina David dedicatae, vaI. 11,
p. 72.
334. Cf. The Laws af Eshnunna, p. 59-60.
335. Cf. ibid. p. 60.
336. Cf. Les Lois d'Esnunna, p. 20.
337. Cf. AHW I, p. 20a: a{i{iarum: «im Rückstand befindlich ... »
338. E. SzIechter, Les Lais d'Esnunna, p. 49s: «La Iai envisage
expressément le cas du déces de Ia jeune épause (kaIlatum). Le mari
devait rendre Ie sheriqtum, et pauvait aIlors reprendre Ia terOatum.
Cependant, s',i! se trouvait en retard pau r Ia restitution de Ia dot, i!
n'avait droit qu'à Ia part de Ia teruatum qui excede da dot».
339. Cf. art. cit. em SymbaIae... Martino David dedicatae vaI. 11,
p. 73.
340. Cf. a forma disjuntiva do § 17. B. Landsberger argumenta, com
razão: «Der WechseI im Ausdruck (§ 17: ina kilallen isten) ist eine
von manchen Sti!eigentümlichkeiten des LE, durch die er sich vou KH
unterscheidet» (d. ibid. p. 73).

79
feito pela morte do noivo ou da noiva, subentendido, sem deixar
filhos. Como proceder nestes casos em relação à terlJ.atum? A
resposta a esta questão é dada na apódose em três proposições
curtas. A primeira frase ma-Ia ub-Iu: «o que ele tiver trazido»
deve ser compreendida dentro do contexto geral dos §§ 17-18.
Essa proposição refere-se, sem dúvida, à terlJ.atum introduzida
na prótase do § 17: DUMU LÚ a-na É e-mi-im ter-lJ.a-tam
li-bi-il-ma: «o filho de um awilum (que) levou a terlJ.atum para
a casa de seu sogro». O problema das. três frases da apódose está,
sem dúvida, na determinação do sujeito. O laconismo da frase
acádica dificulta enormemente a sua clareza e compreensão.
A. Goetze"" E. Szlechter'<2 e outros especialistas ••• inter-
pretam este parágrafo à luz do § 164 do Código de Hammurabi,
que prescreve: «Se o seu sogro não lhe devolveu a terlJ.atum:
ele deduzirá do seu dote o correspondente à sua terlJ.atum e
restituirá o (resto de) seu dote à casa de seu pai».'44 Para
Goetze, o § 18 trata exclusivamente do caso da morte prematura
da esposa. "'" O viúvo não poderá exigir de volta a terlJ.atum
paga ao sogro, mas terá o direito de ficar com o dote, mesmo
que o montante deste seja mais elevado do que o da terlJ.atum .•••
É este o sentido da frase: «ele tomará o seu excedente». Na
interpretação de Goetze, o sujeito das três frases da apódose é,
portanto, o noivo.
Para E. Szlechter, o § 18 prevê apenas o caso de morte
da esposa.3H Como já foi mencionado acima, é introduzido aqui

341. Cf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 63.


342. Cf. E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 48s.
343. Cf. ]. J. Finkelstein, art. Recent Studies in Cuneiform Law,
JAOS 90 (l 970), p. 249s.
344. CL E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 74.
345. Cf. ibid. p. 60, onde Goetze traduz o § 18: <<!fhe takes her
and she enters his house, but soon afterward the young woman deceases,
he will get .refunded nothing of that which he had brought (to his
father-in-Iaw), but will 'keep (what is in) excess of ib>.
346. Cf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 61: «The relative
clause mala ublu <<whatever he broughb>, then, stands for ter batam «the
bride-money»and it is stated that he (i.e. the bridegroom) will not
get back» the terl)atum he had brought (to his father-in-Iaw). The S
form sü;;um means literally «cause to go out», namely from the house
of the father-in-law; I do not see any difficuJ.ty in such usage. Instead
of getting back the bride-money wa-tar-su-ma i-Ie-( eq)-qé «he will take
(or keep) its excess», namely the excess (in his hand) of the seriktum
(<<dowry») over the terl)atum».
347. Cf. Les Lois d'Esnunna, p. 20: «S'il I'a épousée, et si elle est
entrée dans Ia maison, et si apr,ês que Ia jeune femme est décédée, il

80
um elemento novo: o retardamento em devolver o dote. Neste
caso o marido viúvo não podia exigir do sogro a devolução da
terbatum. Ele tinha, apenas, o direito de cobrar de seu sogro
a parte da terbatum que excedia o valor do dote. 3'"
R. Yaron em seu comentário ao § 18 apresenta uma solução
que ele mesmo chama de eclética. O sujeito da expressão ma-Ia
ub-lu: «o que ele trouxe» é o noivo. O sujeito dos outros verbos
da apódose ú-ul ú-se-e~-~é: «não fará sair»... i-Ia-eq-qé
«tomará» é o sogro. 3,.,
B. Landsberger apresenta uma interpretação totalmente di-
ferente.350 O § 18 trata, segundo ele, da morte prematura de
uma das partes. O sujeito dos três verbos da apódose é o
marido viúvo ou os descendentes deste. A lei prevê que, nestes
casos, o pai da esposa não tem a obrigação de devolver a terl)a-
tum, mas deve restituir o que ganhou pelo investimento da quantia
da terbatum na forma dos juros correntes. 30,
Como já foi observado acima, o estilo telegráfico em que a
apódose do § 18 foi formulada dificulta a sua interpretação.
As três frases: ma-Ia ub-Iu: «o que tiver trazido»; ú-ul ú-se-
e~-~é: «não fará sair» e wa-tar-sú-ma i-Ie-qé: «tomará o seu
excedente» podem ter como sujeito tanto o marido viúvo como
também o sogro, pai da esposa falecida. Deve-se, contudo,
examinar o § 18 das leis de Eshnunna dentro do contexto da
tradição legal da Babilônia. E aqui, a tradição legal expressa
nos §§ 163 e 164 do «Código de Hammurabi» oferece, sem

(le mãr awIlim) est en retard (pour Ia restitution de Ia dot), iI ne fera


pas sortir autant qu'i1 apporta, iI devra pendre seulement le reliquat».
34.8. Cf. E. Szlechter, op. cito p. 48s.
349. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 120: «... it follows that of
Goetze in assigning mala ublu to the bridegroam; an the ather hand, I
-agree with San Nicalà that the «taking of the excess» can anly be the
act of father-in-Iaw (or a successor of his). These two assumptions
lead almost necessarily to the third, the ul use;;;;e has to be rendered
«he shall not return, shall not relinquish», again with the father-in-Iaw
as subject. The apodosis has then the following import: «... whatever
he (H) has brought, he (F) will nat (have to) relinquish; its excess
indeed he (F) will take».
350. Cf. B. Landsberger, art. «Jungfrãulichkeit» em Symbolae ...
Martino David dedicatae, vol. lI, p. 74.
351. Cf. B. Landsberger, art. cit. em Symbolae... Martino David
dedicatae, vol. lI, p. 74: «Der Brautvater, bzw. seine Erben, erstattet
zwar das Eingebrachte nicht zurück, wohl aber den durch seine Investi-
rung erzielten Gewinn, der in Form von Zinsen zum normalen Satze
abgefunden wird».

81
dúvida, subsídios para a interpretação do nosso parágrafo. A
casuística do § 18 trata de um casamento consumado, mas pre-
maturamente acabado pela morte de um dos cônjuges. Além
disso, pressupõe-se que esse casamento não tenha filhos. Como
proceder nestes casos com a terlJ.atum e com o dote?
O objeto da primeira frase é, certamente, a terlJ.atum e o
sujeito da frase o marido. A segunda frase ú-ul ú-Se-e1jH?é;
«ele não fará sair», parece referir-se, também, à terlJ.atum. Neste
caso o sujeito será igualmente o marido. Ele, o esposo, ou a
família dele, não exigirá do sogro a entrega da terlJ.atum. Nesta
perspectiva a terceira frase wa-tar-su i-le-qé: «tomará o seu
excedente» terá igualmente por sujeito o esposo ou a família
deste. Portanto no caso de morte da esposa, o viúvo - e no
caso da morte do jovem esposo 3 família dele - não podia
exigir do sogro a restituição da quantia paga como terlJ.atum.
O esposo - ou a sua família - podia ficar com o dote trazido
pela mulher para a comunidade familiar. O único direito que o
esposo, ou a família deste, tinha era exigir que o sogro devol-
vesse o excedente, no caso em que a quantia paga como terlJ.a-
tum fosse superior à quantia trazida pela mulher 'como dote.

§ 18a

Por um siclo (de prata) ele dev,erá acrescentar um sexto


de siclo e seis sE como juros; por um OUR (de cevada)
ele deverá acresceniar um (pa,n e) quatro sat de cevada
como juros.

O texto deste parágrafo foi conservado


tanto na tábua «A»
II, 6-7 como na tábua «8» I, 19-20. A interpretação do pará-
grafo é bastante discutida. A. Ooetze na «editio princeps» e 35'2

na tradução apresentada em «Ancient Near Eastern Texts rela-


ting to thé Old Tes-tament» trata esta passagem como uma
353

continuação do § 18. Daí a numeração 18a. Ela determinaria os


juros a serem pagos no caso em que a terlJ.atum ou o dote

352. Cf. A. Goetze, Sumer 4 (1948), p. 63-102, plates I-IV.


353. Cf. p. 162.

82
evessem ser restituídos. B. Landsberger, coerente com a inter-
pretação dada ao § 18, vê neste parágrafo a determinação dos
~uros que devem ser pagos pelo lucro no investimento da prata
paga como terbatum. - Na «editio standard», Goetze, embora
onservando a numeração § 18a, interpreta este parágrafo como
uma determinação da taxa de juros legais para empréstimos em
creral. 355Também E. Szlechter interpreta o § 18a em uma linha
e taxa de juros moratórios em geral. """
No § 18a a taxa de juros máxima permitida para 1 siclo
de prata é, ao ano, 1/6 de siclo e 6 sE. O sE - em geral
raduzido por «grão» - é a medida de peso que corresponde a
1/180 do siclo. A taxa de juros, calculada em sE, é, pois, de 36
sE para cada siclo, ou seja para 180 sE. Era, pois, permitido
para a prata juros de 20% ao ano. Quando se tratava de ceva-
a, os juros eram maiores. Para um GUR de cevada, que cor-
responde a 300 qa - cerca de 300 litros - era permitido como
juros 1 pan e 4 saí. A medida pãn corresponde a 1/5 do GUR,
ar tanto 60 qa ou 60 litros. O sutum, também uma medida de
capacidade babilônica, correspondia a 10 qa, ou seja, 10 litros.
Os juros permitidos eram pois 100 qa - cerca de 100 litros -
por cada 300 qa, o que corresponde a uma taxa de 33 1/3%.
Para o caso da prata, sabe-se que 20% era a taxa rlOrmal cor-
~ente na tradição legal da Babilônia. O Código de Hammurabi
~etermina: «Se um mercador emprestou grão com juros: ele
"ornará por 1 GUR de grão... como juros. Se ele emprestou
. rata com juros: ele tomará por um siclo de prata como juros
1/6 de siclo e 6 grãos».351 Infelizmente o estado lacunar deste

354. Cf. art. cit. publicado em Symbolae ... Martino David dedicatae
-=-01.lI, p. 74: «b) § 18 kann kein selbstandiger Gesetzesartikel sein;
-ãre er es, so müsste er anders lauten; u:;;:;;ab hat kein Subjekt, dies
~n nur dem § 18 entnommen werden, obgleich Hãrte des Subjekt-
-echsels zugegeben werden muss.
355. Cf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna - The Annual of the
.-illlerican Schools of Oriental Research, vol. 31 (1951-1952), New Haven,
:956, p. 67s.
356. Cf. E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 80: «Commeht justifier
:'insertion dans l'art. 18(l8a) de dispositions relatives au taux d'intérêt?
II nous parait peu probable qu'el1es se rapportent uniquement à une dette
~ésultant des dons matrimoniaux et fassent partie de l'art. 18. Nous
íOyons qu'il faut plutôt leur assigner une portée plus large, et considérer
u'elles concernent l'intérêt moratoire en général. .. »
357. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, § L, p. 49.
83
texto de Hammurabi não nos permite conhecer os juros permi-
tidos para o grão; mas, no caso da prata, os juros eram os
mesmos; 1/6 de sido + 6 sE, ou seja, 36 sE (grãos).

§ 19

o awUum que dá (um empréstimo) a um (awllum) igual a


ele: fará pagar na eira.

otexto do parágrafo nos foi transmitido tanto pela tábua


«A» lI, 8-9 como pela tábua «B» I, 21-22. A maior dificuldade
para a interpretação deste parágrafo é a compreensão da
expressão acádica a-na me-elJ.-ri-su.
E. Szlechter interpreta a expressão ana melJ.ri-su como um
termo técnico para indicar um empréstimo onde era restituída
a quantidade equivalente à quantidade emprestada 358e traduz;
«Le citoyen qui «prête» contre (Ia restitution) de l'équivalent
(sur Ia récoIte) se fera rembourser (litt. donner) (Ie prêt) sur
l'aire».358 A. Goetze interpreta, também, a expressão ana melJ.ri-
su como um termo técnico para indicar um tipo de empréstimo,
mas a posição de Goetze apresenta algumas diferenças em rela-
ção à interpretação de Szlechter. Para ele a expressão ana
melJ.ri-su deve ser entendida como «em termos de seu equiva-
lente», significando, de fato, não o montante emprestado, mas
a quantia que deve ser devolvida. lJllO

Literalmente essa expressão significa «seu igua1», «seu


equivalente». "'" No § 200 do Código de Hammurabi lê-se; «Se
um awl1um arrancou um dente de um awilum igual a ele (a-wi-

358. Cf. Les Lois d'Esnunna, p. 79: «En premier lieu, l'empIoi de
I'expression «ana mel].rishu» qui suppose Ia remboursement de I'equiva-
lent de ce qui a eté prêté».
359. Cf. ibid. p. 20.
360. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 66s. «The 'ana mebri-su' of our
§ 19 can be undersfood as meaning in (terms of) its equivalent, i.e:
recording in the deed nrt the amount actually lent, but the amount to
be repaid». Em Ancient Near Eastern Texts relating to the Old Testa-
ment, p. 162, Goetze trpduz o § 19: «The man who gives (a loan) in
terms of his retake shall make (the debtor) pay on the threshing floor».
361. Cf. W. von S()den, AHW, p. 640b.

84
·:m me-eb-ri-su): arrancarão o seu dente». Aqui a expressão
362

análoga mebri-su indica, sem dúvida, uma pessoa da mesma


?osição social. No § 35 das Leis de Eshnunna a expressão
:nel}ri-su indica um escravo igual ao escravo do palácio adota-
do.'" Nesta linha colocamos a interpretação do § 19. Trata-se
e um emprésF!no feito por um awilum a um outro awllum da
mesma condição social. O objeto do empréstimo é, provavel-
mente, a cevada. Como nada se fala dos juros, não se sabe se
o § 19 tem em vista um empréstimo gratuito, sem juros, ou
se os juros já foram calculados. no montante a ser restituído.""
Um awllum que emprestou a um outro awllum nas circunstâncias
. revistas no § 19 pode exigir o pagamento da dívida em sua eira.
Desta maneira o awllum que emprestou estará isento dos custos
de transporte e de armazenamento ete ... Ele receberá a quantia
devida em sua própria eira. """
Uma outra interpretação possível da expressão «na eira» é
que o credor só poderá exigir o pagamento da dívida no tempo
da colheita. 36ô

§ 20

Se um awílum deu. .. para ...


mas converteu a c.evada em prata: na colheita ele tomará
a cevada e os seus juros: por um GUR 1 (pan) e 4 sat.

O § 20 nos foi transmitido apenas pela tábua «A» II,


10-13, mas infelizmente em estado bastante fragmentário. As
lacunas existentes no texto dificultam uma perfeita compreensão
do parágrafo. A apódose é a parte de compreensão mais fácil:
ela prevê o pagamento de uma dívida em cereais por ocasião da
olheita. Os juros prescritos são os mesmos do § 18a: 1 pan e

362. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 87.


363. Cf. acima a interpretação do § 35.
364. Cf. R. Varon, The Laws of Eshnunna, p. 155.
365. Cf. tb. B. Landsberger, art. cito em Symbolae ... Martino David
dedicatae, vol. 11, p. 74.
366. Cf. J. Klima, art. «Gesetze» in Reallexikon de Assyriologie,
\'01. I1I, p. 255.

85
4 sat, Lé: 100 litros por cada GUR, Lé: 300 litros. A taxa de
juros de 33 1/3% é a mesma prevista no § 18a.
A prótase consta de duas proposições. A primeira, introdu-
zida pela partícula summa =«se» está incompleta no texto
transmitido. Falta o objeto do verbo iddin =
«deu» (empres-
tou): o empréstimo foi em cevada ou em prata? A lacuna apó
a partícula «ana» = «para», nos impede de conhecer o tipo de
empréstimo previsto aqui no pa::" grafo. A segunda frase da
prótase parece introduzir na casuística do parágrafo uma cir-
cunstância nova, que o legislador deseja tratar. Mas foi conser-
vado apenas: se-a-am a-na KÚ.BABBAR i-te-x-x: «cevada em
prata ... » Justamente a forma verbal está mutilada; foram con-
servados apenas dois sinais cuneiformes facilmente legíveis. Daí
as conjecturas e tentativas de completar o texto serem inúmeras.
A Goetze na edição standard sugere algumas emendas ao
texto e lê: sum-ma awlhim ka[spam] a-na qa? -aq-qa? - di?
- ma id-di-in-ma; que ele traduz: <<lfa man lends out money to
the amount recorded ... ».367Trata-se, pois, conforme Goetze, de
um empréstimo de prata «ana qaqqadim», Lé: como capital. Na
segunda proposição da apódose ele completa a lacuna correspon-
dente ao verbo e lê i-te- [wi-sum], que na edição «princeps» ele
traduziu por «expresses to him» derivado do verbo awum =
falar 368;mas já na edição standard de 1956 ele fez derivar a
forma i-te-wi-sum de um verbo ewum = «to equal».369 Baseado
nessa nova derivação, Goetze traduz a frase se-a-am a-na
KÚ.BABBAR i-te-wi-sum: «he has equated for him (self)
barley to silver».87o Para Goetze o credor especula com a possi-
bilidade de uma alta de preço da cevada. 3'11
E. SzIechter propõe para a primeira frase da prótase 2.
seguinte leitura do texto: sum-ma awIlum [se-a-am] a-na na'?
as? - pa-ku-tim?-ma, que traduz: «Si un citoyen donne
de [l'orge pour (payer) d'engrangement] ... ».:m Na segunda

367. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 65.


368. Cf. Sumer 4 (1948), p. 63s.
369. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 67.
370. Cf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 67.
371. Cf. A. Goetze, The Laws af Eshnunna, p. 67: «The remammg
§ 20 treats a mixed deaI. The capitalist Iends money but has its vaIue
expressed in barley: «he has equated for him (self) barIey ta the silver>.
He apparently specuIates an the rise in the price af the barIey and ma:
also wish to take advantage of the higher interest rate which the Ia,
provides (§ 18) for barIey Ioans».
372. Cf. Les Lais d'Esnunna, p. 20.

86
frase Szlechter conserva a forma i-te-wi-8um proposta por
Goetze na edição «princeps» e traduz: «... et bien que (Ia res-
titution de) l'orge en argent soit stipulée ... ».373Para Szlechter,
o § 20 tenta coibir um tipo especial de usura. O empréstimo de
cevada era em geral feito antes da colheita, em um tempo onde
o preço dos cereais era mais alto. Era, pois, interesse do credor
exigir no ato do empréstimo que o pagamento fosse feito em
prata, sabendo qt~ durante a colheita o preço da cevada, neces-
sariamente, cairia. 37'
B. Landsberger apresenta uma outra leitura do texto da
prótase com conjecturas textuais bastante diferentes: sum-ma
Lú se-a-am a-na GIs.APIN u GIs.TuN id-di-in-ma - «Se um
awl!um emprestou cevada para (o cultivo com) arado ou enxada»
- se-a-am a-na Ku .BABBAR us-te-pi- [e1] «e quer 'converter a
cevada em prata ... ».375 Na cópia da tábua «A», feita por
Goetze, a leitura GIs.APIN e GIs.TUN é possível. Neste caso
o § 20 trataria de um empréstimo de sementes para o plantio.
Embora o tipo de empréstimo tratado neste parágrafo, por
causa do estado lacunar da tábua cuneiforme, não nos seja
conhecido e todas as tentativas de correção e complementação
do texto permaneçam no campo da conjectura, o sentido geral do
§ 20 parece claro. A sugestão de leitura se-a-am =
«cevada»
na primeira frase da prótase parece-nos a mais provável. O §
20 trataria, portanto, de um empréstimo de cevada. Por ocasião
do contrato de empréstimo o credor estipulou que a dívida de
cevada seria paga no correspondente em prata. O credor espe-
culava, sem dúvida, com o fato de a cevada durante a colheita
sofrer uma queda nos preços. Tendo emprestado a cevada du-
rante o período de alta e convertendo a quantia da dívida em
prata durante a baixa de preços, o credor teria, certamente,
uma boa margem de lucro. A intenção do legislador é impedir
esse tipo de usura. O devedor pode por lei, durante a colheita,

373. Cf. ibid. p. 20.


374. Cf. E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 78: «Le prêt d'orge
était normalement contracté avant Ia récolte, à l'époque de l'année ou
le prix de l'orge était le plus élevé. Le créancier avait donc tout intérêt
à évaluer l'orge en argent en cours du jour du contrat, et à se faire
rembourser Ia dette d'orge en argent. C'était probablement un procédé
courant ayant pour but d'enfreindre les dispositions reIatives au taux
d'intérêt légal».
375. Cf. art. cit. publicado em Symbolae... Martino David dedica-
tae, Tomus alter, p. 74: «Wenn jemand Gerste zum (Anbau mit) Pflug
oder Hacke verliehen hat und will die Gerste in Geld umw.andeln ... »

87
pagar a sua dívida de cevada, com cevada, ainda que tenha
consentido a conversão da dívida em prata. O § 20 visa,
pois, proteger o devedor contra um tipo especial de usura. 376
O pagamento em cevada está, naturalmente, ligado à taxa de
juros de 33 1/3% prevista no § 18a. Uma determinação paralela
à do § 20 encontra-se, provavelmente, no § M do Código de
Hammurabi: «Se um awilum, que tem uma dívida, não tem
prata para restituir, mas tem grão: o merQ.ador tomará como
juros o correspondente em grão de acordo com as prescrições
do rei. Se o mercador exigiu como juros mais do que... por 1
GUR de grão ou 1/6 de siclo e 6 grãos [por um siclo de prata]
perderá tudo o que emprestou».371 Aqui Hammurabi permite a
um awilum devedor, que tomou prata emprestada a um merca-
dor, pagar a sua dívida com o correspondente em cereais à
prata emprestada.

§ 21

Se um awilum deu prata «ana pamsu»: ele tomará a prata


e seus juros: por um sido de prata 1/6 ( de sido) e
[6 grãos}.

O texto do § 21 nos foi transmitido apenas na tábua «A»


lI, 13-15. Ele está bem conservado. A única dificuldade para a
interpretação do texto é a compreensão da expressão acádica
ana panisu. A tradução literal de ana panisu é «diante dele»,
i.é: «à sua disposição». Mas, aqui, o sentido da expressão é,
318

sem dúvida, técnico e indica um tipo de empréstimo.


A. Goetze na edição standard interpreta ana panisu como
o oposto de ana mebrisu do § 19 e traduz: «in terms of its
initial (amount)>>. ".

376. Cf. R. Yaron, The Laws of Eshnunna, p. 156s. V. Korosec,


Orientalisches Recht, p. 89s.
377. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 49. Cf. tb. § 51.
378. Cf. W. von Soden, AHW, p. 821a.
379. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 65.

88
E. Szlechter compara a prótase do § 21 com a prótase do
§ L do Código de Hammurabi 330e explica a expressão ana
panisu como um substituto de ana l)ubuIlim.381 Trata-se, pois,
de um empréstimo a juros. Szlechter conclui: «Dans les lois
d'Eshnunna, Ia locution ana pa,ni définit Ia nature juridique du
rapport prévu par I'art. 21, c'est-à-dire du prêt. En employant
cette expression, le législateur entendait souligner, d'une part,
qu'il y avait trar~f2rt de Ia possession de I'argent et, d'autre
part, que ce transfert était temporaire, c'est-à-dire que le débi-
teur devait rembourser Ia somme reçue... De même, le cara c-
tere onéreux du prêt ne découle que de I'adjonction de Ia c1ause
reIative aux intérêts».3S2 Contudo não parece metodologicamente
certa a equiparação de ana lJ.ubuIlim com ana panisu. Não há base
suficiente no material jurídico encontrado para uma tal afirmação.
B. Landsberger traduz a expressão ana panisu por «como
adiantamento». $S3Tratar-se-ia, neste caso, de um empréstimo
como adiantamento para a futura colheita.
Como se vê, o significado da expressão ana panisu não é
claro. Partindo do significado literal de ana panisu = «à sua
disposição», apresenta alguma probabilidade a explicação de R.
Yaron. ZS4 Para ele, o § 21 trataria de casos em que o dinheiro
era colocado à disposição de alguém, mas esse alguém não
buscava o dinheiro emprestado. Podia surgir então a questão:
que juros pagar em tais casos?
Os juros previstos na apódose são os mesmos do § 18a:
1/6 de siclo = 30 se (grãos) + 6 se (grãos) = 36 se (grãos)
ou sej a: 20% de juros ao ano.

380. sum-ma (tamkãrum) KO.BABBAR ana bubullim id-di-in «Se (o


mercador) emprestou prata com juros ... » Cf. E. Bouzon, O Código de
Hammurabi, p. 49.
381. Cf. Les Lois d'Esnunna, p. 74.
382. Cf. E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 75s.
383. Cf. Symbolae juridicae et historicae Martino David dedicatae,
11,p. 74: «Wenn (aber) jemand Geld ais Vorschuss (auf die Ernte) gibÍ».
384. Cf, The Laws of Eshnunna, p. 163: «Quite tentatively it may
. en be suggested that ana panisu refers to a situation where silver has
. een put at the disposal of the borrower, but has not yet been actually
,.aken by him. The question arises whether interest is payable in these
ircumstances».

89
§ 22

Se um awílum não tem nada contra um (outro) awílum,


mas (contudo) penhora a escrava do awílum: o dono da
escrava fará este juramento por deus: «Tu não tens nada
contra mim» ,e (aquele) pesará a prata correspondente [ao
preço] da escrava.

o texto do §§ 22 encontra-se~apenas na tábua «A» lI,


15-18. A casuística deste parágrafo aparece claramente descrita
na prótase: Um awilum penhora a escrava de um outro awilum,
embora este não tenha dívida alguma. Trata-se, pois, de um
caso de penhora ilegal. No direito babilônico era comum, em
casos de dívidas, que o credor tomasse uma garantia (nipCitum)
- em geral um homem ou animal - na casa do devedor. O 385

Código de Hammurabi prevê casos legais"'" e ilegais de tomada


381

de garantias. As leis de Eshnunna nos §§ 22 e 23/24 tratam,


apenas, de casos ilegais de penhora. O § 22 determina, para os
casos de penhora ilegal de uma escrava, que o proprietário da
escrava faça um juramento diante da divindade (ni-is DIN-
GIR).3SS A lei prescreve, também, a fórmula do juramento:
mI-im-ma e-li-ia Ia ti-su-ú: «Tu não tens nada contra mim». O
§ 22 não diz claramente se o awilum era um devedor, que já
pagou a dívida, ou se nunca foi devedor do awlIum que lhe
tirou a escrava como garantia.
A apódose apresenta uma pequena lacuna, o que torna
discutida a sua interpretação. No texto «A» lI, 18 lê-se:
KÚ.BABBAR ma-Ia X GEMÊtim isaqqal: «'ele pesará prata
tanto quanto. .. da escrava». A. Goetze na edição standard lê 389

kaspam ma-Ia ta1].1].iamtimtim isaqqal e traduz: « ... shaIl pay

385. Cf. G. R. Driver - J. C. Miles, The Babylonian Laws, vaI. I,


p. 208s; E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 124s. Idem, La saisie iIIégale
dans- les lois d'Esnunna et dans le Code de Hammurabi, Studii de Fran-
cisci I (1956), p. 273s. Nas cartas de Mari temos o caso de um jumento
tomado como garantia: d. ARM IV, 58.
386. Cf. §§ 115-119. Na edição brasileira de E. Bouzon, p. 56-58.
387. Cf. § 114. Na edição de E. Bouzon, p. 56.
388. Literalmente: um juramento de Deus.
389. Cf. The Laws af Eshnunna, p. 68.

90
silver in fuIl compensation for the slave-girI». E. Szlechter
aoo

segue a leitura de Goetze e traduz: « ... (alors) l'argent cor-


respondant à Ia valeur de l'esclave il (Ie détenteur de I'esclave)
doit payer». m W. von Soden, em lugar de talJ.lJ.u preferiu a
leitura idum = «Lohn», «Miete» = «aluguel».:l92 Na interpretação
de von Soden, o credor que tomasse ilegalmente uma escrava
como niputum = «garantia» devia pagar ao proprietário da es-
crava o aluguel correspondente ao tempo que ficou com a escrava.
Embora a interpretação da apódose seja incerta por causa
da lacuna, pode-se interpretá-Ia como uma penalidade contra a
retenção i1eg~ da escrava. Na interpretação de W. von Soden
falta esse caráter de pena. O infrator deverá pagar apenas o
aluguel da escrava retida. Contra a interpretação de Goetze
deve-se dizer que, embora a leitura dalJ. = talJ.lJ.um seja possível
do ponto de vista do sinal cuneiforme, seria um «hapaxlego-
menon» nas leis, já que a leitura talJ.:lJ.o.mdo § 53 foi abando-
nada.393 Comparando-se o § 22 com o § 114 do Código de
Hammurabi 3M, que determinava a pena de 1/3 de uma mina de
prata, i.é: cerca de 165 g de prata, ou seja, 20 siclos de prata,
orrespondente ao preço de um bom escravo no tempo de
Hammurabi"', pode-se concluir que o § 22 das leis de Eshnunna
provavelmente punia o pseudo-credor com a obrigação de pagar
o preço de uma escrava por ter retido ilegalmente uma escrava
como garantia.

390. Goetze comenta ibid. p. 73: «The noun tabbum (§ 22) requi-
~es some comment. It recurs in § 53 where the expression taá!:Ji alpim
mitim «tabbum of the dead ox» is used in paraIlelism with, and con-
,radistinction to, sim alpim baltim «simum of the live ox». In that passage
he relationship between simum and tabbum becomes clear; simum is
c:price» i.é. the amount actually paid for some specific good, talJlJum
on the other hand, is «value», i.é. the abstract amount which one might
~ealize for some specific good or some specific service».
391. Cf. Les Lois d'Esnunna, p. 21.
392. Cf. ALOr. 17/2, p. 370.
393. Cf. as consider.ações de R. Yaron, The Laws of Eshnunna,
;I. 183s.
394. Cf. a tradução de E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 56:
e um awIlum não tem (exigências de) grão ou prata sobre um (outro)
2wIlum e tomou sua garantia: por cada garantia ele pesará 1/3 de
=a mina de prata».
395. Cf. P. Garelli, Le Proche-Orient Asiatique, p. 278s.

91
§ 23/24

Se um awílum não tem nada contra um (outro) awílum


mas penhora a escrava deste awílum, retém o penhor em
sua casa e lhe causa a morte: ele restituirá duas escravas
ao proprietário da escrava. Se não tem nada contra ,ele,
mas penhora a mulher de um muskê,nun1, (ou) O filho de
um muskênum, retém o penhor em sua casa e lhe causa a
morte: é um processo de vida. AqiMle que penhorou deverá
3!J6

morrer.

o texto destes dois parágrafos foi conservado apenas na


tábua «A» II, 19-25. O § 23 trata do caso de penhora ilegal
de uma escrava. Mas, em relação ao § 22, acrescenta um novo
elemento na casuÍstica do parágrafo: a escrava tomada como
garantia morre na casa do pseudo-credor. A forma causal
ustamit «causa a morte» mostra, claramente, que a escrava
morreu por culpa daquele que a retém como garantia. A pena
imposta é a restituição de duas escravas ao proprietário. No
§ 116 do Código de Hammurabi é prevista uma indenização de
1/3 de mina de prata (+ 166 g) para o caso de a escrava,
tomada como garantia, morrer na casa do credor por pancada
ou mau trato. 391Era este o preço de um escravo na Babilônia.
O § 116 do CH trata de um caso de penhora legal: a dívida
existia realmente. Por isso, basta indenizar o proprietário pela
escrava perdida pelos maus tratos do credor. O § 23 das leis de
Eshnunna trata, porém, de---u~a penhora ilegal. A pena neste
caso é dupla: o pseudo-credor ~everá compensar o proprietário
da escrava morta com duas escravas.

A formulação da prótase do § 2~ não é clara. Na proposição


sum-ma mi-im-ma e-li-su Ia i-Su-ma\ «Se não tem nada contra
ele» o sujeito deve ser awilum. Mas a quem se refere o pronome

396. Lit.: ne-pu-ú sa ip-pu-ú i-ma-a-at: «O penhorador que penho-


rou, deverá morrer».
397. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 57: § 116: «Se a
garantia morreu na casa de seu credor por pancada ou mau trato:
o dono da garantia' comprovará (isto) contra seu mercador. Se (a
garantia) foi o filho do awl1um, matarão seu filho; se foi um escravo do
awilum, ele pesará 1/3 de mina de prata; além disso, perderá tudo que
tiver emprestado».

92
su na fórmula e-li-su? Como as garantias previstas são a
mulher ou o filho de um muskênum, o pronome em questão
deve referir-se ao muskênum. O parágrafo trata, portanto, de
um awIlum que, não sendo credor de um muskênum, lhe toma
a esposa ou o filho como garantia e o penhor vem a morrer na
casa do pseudo-credor por culpa deste. Para estes casos é
prevista a pena capital. Na apódose o caso é classificado como
di-in na-pÍ-is-tim: «processo de vida», a pena imposta: ne-pu-ú
sa ip-pu-ú i-ma-a-at: «Aquele que penhorou deverá morrer».

§ 25

Se um awilum r.eclamou a consumação (do casamento),


mas o seu sogro o tratou injustamente e deu a sua filha a
(um outro): o pai da filha deverá restituir em dobro a
terlJatum que recebeu.

Este parágrafo nos foi transmitido pela tábua «A» lI, 26-28.
Todos os problemas de interpretação neste parágrafo se con-
centram na prótase. A apódose é clara e simples: O pai da filha
- i.é: o sogro - deverá restituir em dobro a quantia recebida
como terlJ.atum. Mas em que circunstâncias a terlJ.atum devia
ser devolvida em dobro? Para responder a esta questão é ne-
cessário responder a algumas dificuldades textuais e lexicais. A
primei-ra dificuldade é a expressão a-na É e-mi is-si-ma. A difi-
culd~de )a,ra a tradução desta frase está na falta de paralelos.
A. d10etze Ii:t", «editio princeps» 'os e em ANET traduzia: «calls
309

at the house 0\f (his) father-in-Iaw». Na «editio standard» ele


traduziu: «... a man offers to serve in the house of (his)

father-in-law ... »\E. Szlechter traduz: « ... un citoyen intente


398. Cf. Sumer 4 (\948), p. 63s.
399. Cf. Ancient Near Eastern Texts relating to the OT, edited by
J. B. Pritchard, p. 162. I
4.00. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 75. E. Goetze comenta: «The
phrase ana bit x sasum (25) is otherwise known and has, wherever it
occurs, crearly to do with feudal service... Our passage is different
from ali the othersand yet it Iikewise seems to deal with services; only
that the services are 110t requested bllt offered».

93
une action contre Ia maison de son beau-pere ... ». A expressão <01

acádica ana bit x sasum significa «levantar exigências contra


alguém». ,o:: Ela foi detalhadamente estudada por F. Kraus.'"
Dois textos recentemente publicados do período babilônico antigo
introduziram uma nova luz para a compreensão da expressão
ana bit emi sasúm. O primeiro, o texto U.16.900 F proveniente
de Ur, apresenta as queixas de um credor logrado diante do
deus Nana: kaspam ula isuma ittiam ina kaspiia J].ubullisu uppil
ana bit emim issi maram u martam irsi libbi ula utib kaspí
salmam ula uterram «Quando ele não tinha prata, veio a mim;
com minha prata pagou as suas dívidas, exigiu a noiva e gerou
filho e filha, mas não contentou o meu coração: não me restituiu
[em sua totalidade 1 a minha prata».404 O outro é o texto BM
80.754, publicado por J. J. Finkelstein.40' Trata-se de uma carta,
infelizmente mal conservada, da mãe de uma noiva para a mãe
de um noivo, que se recusou a consumar o casamento. No trecho
relevante para a nossa discussão o texto diz: ana NN mariki
ana bit emim assim a, que Finkelstein traduz: «1 performed ana
bit emim sasu for your son PN».406 Como nota R. Yaron "", a
melhor tradução para BM 80.754 parece ser: «Eu exijo consu-
mação (do casamento) de teu filho NN ». Além do § 25, estes
dois textos são os únicos conhecidos, onde a expressão ana bit
x sasCim aparece em contexto de direito matrimonial. Trata-se,
pois, de uma expressão idiomática, cujos componentes não pre-
cisam ser traduzidos literalmente. A tradução proposta por R.

401. Cf. Les Lois d'Esnunna, p. 22. Na mesma linha ]. Bottéro, em


Annuaire, École Pratique des Hautes Études IV section, 1965, p. 92,
traduz a expressão por «faire réclamation».
402. Cf. W. von Soden, AHW, p. 1196a, 13: «Forderungen, Ansprü-
che stellen».
403. Cf. F. R. Kraus, Ein Edikt des K6nigs Amrrii-saduqa von
BabyJon, Leiden 1958, p. 57s. Kraus em seu_-estuao apresenta a seguinte
paráfrase para explicar a expressão: ~<~.. einen seiner Dienst- oder
Leistungspflicht nicht genügenden (Lehns)mann durch di·e RepressaJie
der Wegführung von Familienmitgliedern behordJich zur PfJichterfüllung
zwingen woilen».
404. Cf. C. J. Gadd, «Two Sketches from the Life at Dr», Iraq 25

(1965),
(1963), p.p. 23-29.
177s; R. Yaron, The Rejeeted !.
jBridegroom, Orientalia 34
p. 127-136.
405. Cf.
406. Cf. ibid.
J. J.p. Finke!stein, «ana
127. Na p. 135 tentabitumerimtradução
saso.»,mais
RA aproximada:
61 (1967),
«I requested that PN, your son, be wedded formalIy (to my daughter».
407. Cf. R. Yaron, The Laws of Eshnunna, p. 126.

94
/
Yaron <OS«claimed consummation» parece a melhor tanto para o
.§ 25 como para os dois outros textos acima tratados.
O segundo verbo da prótase ik-si-:su-ma 409causa, também,
algumas dificuldades. A. Ooetze o deriva de uma raiz kasãsum,
e traduz por «takes him in bondage» 410, que, naturalmente
combina com a tradução dada por Goetze à expressão ana bit
emim issima: «offers to serve in the house of (his) father-in-
law ... » Provavelmente, contudo, deve-se derivar da raiz kasum
I que von Soden registra com o significado de «ungerecht behan-
deln».411.Daí, a nossa tradução «o tratou injustamente». 412
A terceira dificuldade da prótase é a lacuna no texto da
linha 27, que seguindo vários outros autores 41" completamos
com o termo san'Ím lendo: a-na [sa-ni-im i 1 t-ta-di-in: «e deu a
um outro».
Com estas explicações pode-se tentar reconstruir melhor a
casuística do § 25: Um awilum, que certamente já pagou a seu
futuro sogro a quantia estipulada como tergatum, exige que sua
noiva lhe seja entregue. Mas o sogro recusa a exigência do
awIlum e dá a sua filha em casamento a um outro. A pena
imposta ao pai da jovem, que quebrou o contrato iniciado com
o pagamento da tergatum, é restituir em dobro a quantia paga
como terb-atum. O Código de Hammurabi nos §§ 160 e 161 414

408. Cf. ibidem p. 33 e p. 126.


409. A. Goetze interpreta os sinais cuneiformes em The Laws of
Eshnunna, p. 77 diferentemente e acha que a única leitura possível é
ik-si-su.ma. Mas cf. von Soden, AHW, p. 463.
410. Cf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 77. Cf. tb. W. von
Soden, AHW, p. 462a. Mas a segunda vogal no pretérito de kasãsum é
«u» e não «i» como no § 25.
41 L Cf. W. von Soden, AI-!'W, p. 463b. Mas a raiz kasum é pouco
atestada. Por isso tem razão R. Yaron quando escreve em The Laws
of Eshnunna, p. 129: «Nevertheless, while the linguistic aspect remains
in doubt, Qne can yet be fairly confident that the meaning of the verb
underGliscussion is to be found within the proposed range of «to wrong,
to injure, to reject».
412. \Na mesma linha E. Szlechter, Les Lois d'ESnunna, p. 22: «I'a
offensé». J. Bottéro, p. 92: «I'a repoussé». R. Yaron, The Laws of
Eshnunna, p. 33: «wronged him».
4.13.ICf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 75; E. Sz1echter, Les
Lois d'Esnunna, p. 22; R. Yaron, The Laws of Eshnunna, p. 32. Outros,
p. ex. \\j. von Soden, à luz do § 161 do Código de Hammurabi, preferem
a conjeatura ana ibrim= «a um amigo».
4141 Cf. a tradução de E. Bouzon em O Código de Hammurabi, p. 73:
§ I
160: «Se um awilum enviou o presente
pagou a terl]atum e o pai da filha disse:
nupcial à caSa do sogro e
«Não te darei minha filha»;

95
apresenta um bom paralelo para ilustrar a casuística do nosso
parágrafo. No § 29 do Código de Lipit-Ishtar - um paralelo ao
§ 161 do Código de Hammurabi - a pena é a simples restituição
da quantia paga ao sogro.ill

§ 26

Se um awZlum trouxe a terlJatum pela filha de um awílum,


mas um outro sem perguntar a seu pai ou à sua mãe a
raptou e a defloroa: (Este é) um processo de vida. Ele
deverá morrer.

o texto deste parágrafo foi conservado apenas na tábua


«A» lI, 29-31. A sua casuística geral parece bastante clara. A
lei impõe a pena capital a um homem que, sem o consentimento
dos pais de uma jovem por quem já tinha sido paga a soma
estipulada como terlJatum, rapta e deflora essa jovem. A pró-
tase do § 26 especifica três elementos que qualificam o ato de
coabitação coercitiva previsto nesta lei. De fato, o rapto e deflo-
ração de uma virgem não era considerado, em si, no Oriente
Antigo, como um crime capital. As leis assírias previam para o
caso de violentação de uma virgem uma compensação pecuniária
e a obrigação de esposar a violentada, sem direito a repudiá-Ia
durante toda a vida. Na mesma linha encontra-se a prescrição
410

ele restituirá o dobro de tudo quanto lhe tiver sido trazido». § 161: «Se
um awIlum enviou o presente nupcial para a casa de seu sogro e pagou
a terl].atum e (então) seu amigo o difamou e seu sogro disse ao esposo:
«Não tomarás minha filha como esposa»: ele restituirá o dobro de tudo
que lhe foi trazido e seu amigo não poderá tomar sua mulher como
esposa».
415. Cf. em Ancient Near Eastern Textsrelating to the OT em
tradução inglesa de N. Kramer: § 29: <<!fa son-in-Iaw has entered the
house of his (prospedive) father-in-Iaw (and) he made his betrothal
(but) afterwar~hêY\nade him go out (of the house) and gave his
wife to his companion, they shall present to him the betrothal-gifts which
he brought (and) that vhfe may not marry his companion».
416. Cf. G. Cardm\cia, Les Lois Assyriennes, p. 247, tábua «A»

§ 55:
Ia maison
«[Si de]
un homme,jIa
son pet' dont
fiI]le [Ie
d'unpudendum]
awIlu, vierge,
n'a [qui
pas été
dem]eure
souillé,[dans
que

l'on n'a P" Mil"}?' qai n'a :a; '" ma";" (,t pone qai) oncon
bíblica do livro do Deuteronâmio: «Se um homem encontrar uma
jovem virgem que não esteja noiva e a violentar, dormir com
ela e se forem surpreendidos em flagrante, o homem, que dormiu
com ela, dará ao pai da jovem cinqüenta sicIos ,de prata e ela
será sua mulher, porque a violou. Não poderá repudiá-Ia
enquanto viver». m
Em se tratando, porém, de uma mulher casada, as mesmas
leis assírias aplicavam a pena de morte para os casos de
viol'entação. 418
A primeira frase da prótase enumera um elemento essencial
na casuística do § 26: o pagamento da terl)atum. Recebendo a
terl)atum, o pai da noiva consente com o casamento e é efetuado
o noivado, que cria laços jurídicos entre a jovem e aquele que
pagou a terl)atum: ela se torna assatum = «esposa».41D A
violentação de uma assatum é considerada, em geral, como um
crime capital. 420

réclamant ne s'est présenté à Ia maison de son pere, (si) I'homme, -


que ce soit dans Ia ville, ou dans Ia campagne, ou Ia nuit dans Ia rue,
ou dans une grange ou dans les fêtes de Ia ville - (si) I'homme, ayant
pris par contrainte Ia vierge, I'a souillée, le pere de Ia vierge prendra
I'épouse du fornicateur de Ia vierge et Ia Iivrera au stupre; iI ne Ia
rendra pas à son mari; il Ia prendra, Le pere donnera comme épouse
sa fille souillée à son fornicateur. S'i1 n'a pas d'épouse, le fornicateur
paiera le «tiers», prix de Ia vierge, à son pere (et) son fornicateur
I'épousera; iI ne Ia renverra pas. Si le pere ne veut pas (ce mariage),
iI recevra (en) argent le «tiers», (prix) de Ia vierge (et) donnera sa
fille à qui il voudra».
417. Cf. Di 22,28-29.
418. Cf. G. Cardascia, ibid. p. 115, tábua «A» § 12: «Si une femme
mariée a passé dans les rues (et) un homme I'a arrêté(e!) (et) lui a
dit: «Laisse que je couche avec toi», (si) elle ne consent pas (et) se
défend énergiquement mais iI Ia prend de force et couche ave'c elle, soit
qu'on I'ait surpris sur Ia femme mariée, soit que des témoins aient té-
moigné contre lui qu'i1 a couché avec Ia femme, on mettra I'homme à
mort; pour Ia femme iI n'y aura pas de peine». Cf. o Código de Hammu-
rabi, § 130. Cf. tb. Dt 22,23-27.
419. Cf. V. Korosec, art. «Ehe» em Reallexikon der Assyriologie,
voI. lI, p. 281s. Na p. 282, Korosec escreve: «In der Zeit, die wir vor-
laufig überblicken kéinnen, wurde allerdings zuerst der Brautpreis bezahlt.
Er wurde offenbar in das Haus des Schwiegervaters gebracht und bei
einem Festmahle übergeben, zu dem der Brautigam oder sein Vater die
erforderlich Esswaren (biblu?) lieferte. Spater geschah dann die feier-
Iiche Überführung der Braut in das Haus des Brãutigams und die
übergabe an ihn. Von dem Augenblicke an, wo der Brautpreis bezahlt
war, galt die Braut aIs Ehefrau (assatu)>>.
420. Cf. Código de Hammurabi § 130. G. Cardascia, Les Lois Assy-
riennes, tábua «A», § 12, p. 115s; Dt 22,23-27. Menos rigor encontra-se

97
Um outro elemento essencial é a falta de consentimento dos
pais da jovem. Se estes tivessem consentido com o rapto, estaria
caracterizada uma quebra da promessa de noivado e seria
aplicado o § 25: O pai da noiva deveria devolver em dobro a
quantia paga como terl)atum. A frase ba-Ium sa-al a-bi-sa u
4.21

um-mi-sa: «sem perguntar ao seu pai e/ou à sua mãe» não


é totalmente clara, já que a partícula acádica «u» tanto pode ser
traduzida por «e» como por «ou». Dentro do contexto histórico
a tradução «ou» pareceu-nos a melhor. Em uma sociedade
patriarcal, como a do Oriente Antigo, dificilmente seria necessá-
rio, no caso previsto pelo § 25, o consentimento do pai e da
mãe, e a falta de consentimento da mãe certamente não invali-
daria um contrato. Ê mais provável que o legislador do § 26
tenha em vista casos em que o pai já tivesse falecido e a mãe
assumia a responsabilidade no contrato matrimonial.
O § 26 descreve a ação praticada contra a filha do awIlum
pelos verbos acádicos masâ'um = «raptar» e naqâbum =
4.22

«deflorar». O § 26 caracteriza, pois, a ação a ser punida com


423

a pena capital como seqüestro e violentação da jovem. O fato


de a jovem concordar ou não com o rapto, não parece mitigar
em nada a pena prevista. "".

apenas nas leis hititas que resolvem o problema por meio de uma com-
pensação financeira. Cf. A. Goetze, em Ancient Near. Eastern Texts
relating to the OT, p. 190 § 28: «If a girl is promised to a man, but
another (man) elopes with her, as soon as he elopes, he shall compensate
the first man for whatever he (has given); her parents will not make
any compensation. But if the parents give her to another man, the
parents will make compensation. If the parents refuse (to make com-
pensation), they shaIl withhold her from him».
421. Cf. R. Yaron, The Laws of Eshnunna, p. 186. Cf. tb. E. Szlechter
Les Lois d'Esnunna, p. 124.
422. Cf. W. von Soden, AHW, p. 624b: masã'um: I «gewaItsam
wegnehmen, rauben».
423. Cf. W. von Soden, AHW, p. 743a: naqãbum (sem.) «(durch-
bohren), deflorieren».
424. Cf. R. Yaron;-The Laws of Eshnunna, p. 186: «Her consent
would become important only when her own fate carne to be decided: force
used upon her absolves her punishment; consent, actual or implied by
the circumstances, renders her equally guilty; the case would probably

have been regarded as adulyry».


98
§ 27

Se um awílum tomou por esposa a filha de um awilum,


sem perguntar a seu pai ou à sua mãe, e não deu um
banquete de núpcias nem um contrato a seu pai ou à sua
mãe, ainda que more um ano em sua casa, ,não é esposa.

§ 28

Se, porém, deu um contrato e um banquete de núpcias para


o seu pai e a sua mãe e a tomou por esposa: (ela é)
esposa. No dia em que for apanhada no seio de um outro
awilum, morrerá. Ela não poderá continuar viva.

o texto dos §§ 27 e 28 foi transmitido pela tábua «A»


lI, 31-37. Na tábua «B» lI, 1-2 foram conservadas apenas duas
linhas e, assim mesmo, em estado lacunar.
A casuística geral dos §§ 27 e 28 é clara. A intenção do
legislador é, aqui, declarar as condições essenciais para uma
mulher tornar-se assatum =«esposa».'''' Contudo, a estrutura
dos dois parágrafos é bastante complexa. No § 27 é negado o
status de assatum para uma mulher que é tomada em casamento :
1) sem consentimento dos pais e 2) sem que o marido tenha
oferecido um kirrum e um riksãtum aos pais da noiva. O fator
tempo é irrelevante para a validade do casamento. Ainda que a
mulher coabite um ano inteiro na casa do awlIum, ela não é sua
assatum se não forem cumpridas as condições aqui exigi das. É
provável, como julga E. Szlechter ''', que o § 27 se dirija contra
uma determinada praxe de casamento vigente, que a reforma
legal de Eshnunna visa revogar. Para Szlechter «Ies éléments
constitutifs de ce geme de mariage, dit mariage par usus, étaient
les suivants: I'intention matrimoniale chez les deux époux; Ia
prise de Ia femme en mariage (al}ãzum); Ia cohabitatiol1 effec-
tive de Ia femme, durant une année, dans Ia maison de son

425. Cf. W. von Soden, AHW, p. 83b-84a.


4.26. Cf. E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 50.

99
§ 27

Se um awHum tomou por esposa a filha de um awílum,


sem perguntar a seu pai ou à sua mãe, e não deu um
banquete de núpcias nem um contrato a seu pai ou á sua
mãe, ainda que more um ano em sua casa, ,não é esposa.

§ 28

Se, porém, deu um contrato e um banquete de núpcias para


o seu pai e a sua mãe e a tomou por esposa: (ela é)
esposa. No dia em que for apanhada no seio de um outro
awilum, morrerá. Ela não poderá continuar viva.

o texto dos §§ 27 e 28 foi transmitido pela tábua «A»


lI, 31-37. Na tábua «B» II, 1-2 foram conservadas apenas duas
linhas e, assim mesmo, em estado lacuna r.
A casuística geral dos §§ 27 e 28 é clara. A intenção do
legislador é, aqui, declarar as condições essenciais para uma
mulher tornar-se assatum = «esposa».425 Contudo, a estrutura
dos dois parágrafos é bastante complexa. No § 27 é negado o
status de assatum para uma mulher que é tomada em casamento :
1) sem consentimento dos pais e 2) sem que o marido tenha
oferecido um kirrum e um riksãtum aos pais da noiva. O fator
tempo é irrelevante para a validade do casamento. Ainda que a
mulher coabite um ano inteiro na casa do awllum, ela não é sua
assatum se não forem cumpridas as condições aqui exigidas. Ê
provável, como julga E. Szlechter "., que o § 27 se dirija contra
uma determinada praxe de casamento vigente, que a reforma
legal de Eshnunna visa revogar. Para Szlechter «Ies éléments
constitutifs de ce genre de mariage, dit mariage par usus, étaient
les suivants: I'intention matrimoniale chez les deux époux; Ia
prise de Ia femme en mariage (al:].ãzum); Ia cohabitatiol1 effec-
tive de Ia femme, durant une année, dans Ia maisoll de son

425. Cf. W. von Soden, AHW, p. 83b-84a.


426. Cf. E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 50.

99
mari».427 As leis de Eshnunna parecem não admitir a validade
legal desse tipo de casamento. As leis assírias prevêem uma
exceção no caso de uma viúva (almaítu), que após dois anos
de coabitação, mesmo sem contrato matrimonial, se torna
esposa . .,. ! I~:
,~,.i;;
Para uma reta compreensão dos §§ 27 e 28 é necessano
esclarecer o significado dos dois termos kirrum e riksãtum. O
termo ri'ksãtum é, em geral, traduzido por «contrato». 429O signi-
ficado de kirrum, porém, é muito discutido. A. Goetze e outros
autores lêem, em vez de kirru, girru e interpretam a forma
gir-ra-am li ri-ik-sa-tim como uma hendiadis com o significado
de «formal marriage contract».'30 B. Landsberger fez um estudo
detalhado do termo e chegou ao significado de «Hochzeitsge-
lage»: «festim nupcial» que foi seguido nesta tradução.
4111

Os §§ 27 e 28 tratam, pois, de uma mesma casuística:


determinar quando uma mulher é legítima assatum = «esposa».
No § 27 é declarado quando ela não é esposa e no § 28, de
modo positivo, são apresentados o contrato (riksãtum) e a
realização do banquete (kirrum) como elementos essenciais para
a validade do casamento. No caso ,em que se realizam as
exigências do § 28, qualquer relação sexual extra-matrimonial
será considerada como adultério e punida com a pena de morte.

427. Cf. E. Szlechter, ibid. p. 50. Cf. contudo R. Yaron, The Laws of
Eshnunna, p. 133.
428, Cf. G. Cardascia, Les Lois Assyriennes, p. 181, § 34: «Si un
homme a pris une (veuve) almattu sans rédiger un acte de marriage
(et si)elle habite deux ans dans sa maison, eIle (est) son épouse: eIle
ne s'en ira pas».
429. Cf. W. von Soden, AHW, p. 984a. Cf. tb. S. Greengus, Old
babylo!)i-an Marriage Ceremonies and Rites, jCS 20 (1966), p. 62, nota 44.
130, Cf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p, 76 e esp, p, 79 onde
escreve: «I'n § 27 we read girrum u riksãtum, jn § 28 with inverted
wortl order riksãtum u girrum. The hendiadys apparently corresponds to
riksãtum of CH § 128 which denotes the formalcontract. The additional
gitrum seems to add nothing essentiaIly new. It probably refers to the
sé'aling of the respective tablets; that grr (also) means «roIl (a seal)>> is
ihdicated by jEN 330 12f.: U tup-pa sa maru-ti dayyãnu mes-nu il-ta-at-ru

lu
out and had their seals rolled (over it) », Cf. tb. A. Pohl, Orientalia NS 22
(1953), 222-223, que traduz a expressão girram u riksãttum por
«gesiegelter Ehevertrag».
na4 kunukke-su-nu
431. ge-er-ri-ru
Cf. Neue Lesungen und «the judges um
Deutungen had Gesetzbuch
an adoptionvon
tablet made
Esnunna,
apêndice ao art. «jungfraulichkeit» em Symbolae Iuridicae et historicae
Martino David dedicatae, Tomus Alter, p. 75s.

100
o Código de Hammurabi no § 128 determina: «Se um
awIlum tomou uma esposa e não redigiu o seu contrato: essa
mulher não é esposa». 432Embora os compiladores do Código de
Hammurabi possam ter tido como base o mesmo material jurídico
que tiveram os compiladores das leis de Eshnunna, contudo a
formulação final do § 128 do CH resume as exigências a um
único elemento essencial: a redação de um contrato matrimonial
(riksãtum).433

§ 29

Se um awZlum foi feito przslOneiro durante uma expedição


militar, de razia ou de reconhecimento (?j, ou foi levado
embora à força e permaneceu por longo tempo em uma
outra t.erra, um outro, então, tomou a sua mulher por esposa
e ela gerou um filho: quando ele regressar, sua mulher
retomará para ele.

o texto do § 29 é obtido pela combinação das tábuas «A»


e «B» já que tanto «A» II, 38-45 como «B» lI, 3-7 apresentam
diversas lacunas. O presente parágrafo regulamenta o direito da
esposa de um cativo. 4" A lei prevê dois tipos de cativeiro. O
primeiro é o prisioneiro de guerra capturado ina KASKAL
se-e [I:].-ti 1 m u sa-ak-pí-im «em uma expedição militar de razia
ou de reconhecimento». A tradução acima segue a conjectura de
Goetze que lê na lacuna a forma verbal it-ta-as-la-al, pretérito
Ntn da raiz salãlum que significa «ser levado prisioneiro». 4""

O segundo tipo de cativeiro é descrito pela forma Ntn it-ta-alJ.-


ba-at da raiz verbal I:].abãtum que caracteriza o crime de

432. Cf. E. Bouzon, O CÓ'digo de Hammurabi, p. 62.


433. Cf. R. Yaron, The Laws of Eshnunna, p. 133: «The compilers
of the CH, it is submitted, may have had before them a text similar to
LE 27/28. But it served them merely as a first draft and underwent
extensive reformulation and abridgement. They concentrated on one re-
quirement only, on the executian of a contract».
434. Cf. E. Szlechter, Effets de Ia captivité em drait assyrababy-
lonien, RA 57 (1963), p. 181-192, RA 58 (1964), p. 23-35.
435. Cf. A. Goetze, The Laws af Eshnunna, p. 85. Cf. von Soden,
AHW, p. 1142a.

101

, W G S
~Jig~Q Setorla1 de (..;l~n.clas
_'o
SC,,~,j3e H11nWl1~
rapto"', exprimindo a idéia de raptar alguém. O fator «tempo
de ausência» é vagamente descrito pela fórmula uÇm [i ar-
ku- tim 1 = «longo tempo» e parece não ser na intenção do
legislador de Eshnunna um elemento essencial. Nas leis assírias
437

é determinado o prazo de dois anos para que a esposa de um


prisioneiro de guerra possa contrair um segundo casamento. ,••
A legislação de Hammurabi permite um segundo casamento
somente nos casos em que a mulher não tenha meios de subsis-
tência em sua casa. '39 A apódose do § 29 visa defender os
direitos do prisioneiro que regressa à sua pátria: i-nu-ú-ma
it-tu-ra-am as-sa-su i-ta- [a-ar-sum 1: «quando el'e regressar, sua
mulher retomará para ele». A tradução segue a reconstrução do
texto proposta por W. von Soden.440 A legislação de Hammurabi
e as leis assírias decidem da mesma maneira.'" As leis de Esh-
nunna silenciam a respeito dos filhos nascidos no segundo
casamento. Hammurabi determina: «... os filhos seguirão seu
pai». "" Nas leis assírias a decisão é semelhante: «... iI ne
réclamera pas les fils qui sont nés au mari ultériur mais le mari
ultérieur (Ies) prendra». <4' Ê provável que a praxe legal de Esh-
nunna conhecesse a mesma tradição em relação aos filhos do
segundo casamento.

436. Cf. W. von Soden, AHW, p. 303b.


437. Cf. R. Yaron, The Laws of Eshnunna, p. 134. Ao contrário,
E. Szlechter, em Les Lois d'Esnunna, p. 63, vê no fator «tempo longo»
um elemento essencial: «Elles permirent à l'épouse du prisionnier de
guerre de se remarier si lacaptivité était ,longue».
438. Cf. G. Cardascia, Les Lois Assyriennes, p. 217 = Tablette A
§ 45.
439. Cf. §§ 133-134. Cf. E. 8ouzon, O Código de Hammurabi, p.
63s. «Se um awilum afastou-se secretamente e em sua casa há o que
comer: [sua esposa guarda] rá [a sua casa e cuidará de si] mesma. [Ela
não entrará na casa de um outro]. [Se] essa mulher não cuidou de si
mesma e entrou na casa de um outro (homem), comprovarão (isto)
cont~ mulher e a lançarão n'água». «Se um awilum afastou-se se-
entrar na casa de um outro. Essa mulher não tem culpa».
440. Cf. ALOr. 17/2, p. 370. A. Goetze lê i-ta-[ab-ba-al] = «will
take back» seguido por R. Yaron, op. cit., p. 35.
~famente 441. Cf. e Código
em suadecasa não há §o 135
Hammurabi que -comer: sua esposaLespoderá
G. Cardascia, Lois
Assyriennes, p. 217, Tablette A § 45.
442. Cf. § 135.
443. Cf. G. Cardascia, Les Lois Assyriennes, p. 218, § 45.

102
§ 30

Se um awilum odiou a sua cidade e o seu senhor e fugiu,


um outro (awilum), então, tomou a sua mulher por esposa:
quando ele regressar não poderá r.eclamar a sua mulher.

A tradução acima segue o texto «B» II, 8-10, já que «A»


lI, 45-48 está em estado bastante lacunar. Apenas, em lugar
da forma verbal it-ta-ag-bi-it da tábua «B», foi preferida a
forma it-ta-bi-it da tábua «A», um perfeito N de uma raiz
abãtum II = fugir. ••• A casuística do parágrafo é clara. Um
awl1um toma aversão contra a sua cidade e o seu senhor e foge
de sua pátria. A fórmula URU.KI-su li be-el-sll = «sua cidade
e seu senhor», bem conhecida nos documentos assírios, indica
aqui, certamente, a cidade de Eshnunna e seu rei Narãmsin ou
Dadusha. Depois de sua fuga, sua esposa contrai matrimônio
445

com um outro homem livre. Para estes casos a apódose deter-


mina: o fugitivo perde o direito sobre sua esposa, ele não
poderá reclamá-Ia, se algum dia voltar à sua pátria. É justa-
mente o contrário do § 29. Trata-se neste parágrafo de uma
ausência voluntária"', causada pela aversão desse cidadão contra
a sua cidade. O direito de retomar sua esposa vale só para o
prisioneiro de guerra. Nos casos de fuga, por motivos políticos
ou não, o fugitivo perde, completamente, o direito sobre sua
esposa. O legislador não determina prazo algum para o segundo
casamento.
O Código de Hammurabi no § 136, em um caso análogo,
decide da mesma maneira: «a esposa do fugitivo não retomará
a seu esposo, porque ele desprezou a sua cidade e fugiu». "7

4.44. Cf. The Assyrian Dictionary of the Oriental Institute af The


University of Chicago, A, p. 45. W. von Soden não registra esta raiz.
445. Cf. acima a introdução histórica.
446. Cf. E. Szlechter, «Effets de I'absence volontaire en droit assyro-
babylonien», em Orientalia 34 (1965), p. 289-311.
447. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 64s. Em Hammurabi
a formulação da prótase é um pouco diferente: «Se um awilum aban-
donou a sua cidade e fugiu, (e) depois de sua saída sua esposa entrou
na casa de um outro; se este awilum voltou e quer retomar sua
esposa: ... »

103
ik-ki-im, cuja tradução aproximada seria «em um momento de
mau humor», «em um momento de raiva». 5" A tradução acima
apresentada seguiu a conjectura proposta por B. Landsberger
i-na ek-Iu-tim = «no escuro».· •• Esta leitura permanece sempre
umaconjectura. Por isso, torna-se praticamente impossível uma
interpretação exata do parágrafo. Se a leitura proposta por
Landsberger for certa, ,então o § 44 determina que, se um
aw:ilum em um lugar escuro empurrou um outro aw:ilum e na
queda este quebrou um braço, o agressor deverá compensar o
seu delito com o pagamento de meia mina, i.é: cerca de 250 g
de prata. O § 45 prevê uma outra conseqüência da queda: a
fratura de um pé. A compensação imposta é igual: meia mina
de prata (250 g).
Na legislação bíblica é aplicada em casos análogos a pena
de talião 5" sem maiores matizes.
As leis hititas tratam nos §§ 11-12 de um caso análogo.
Mas o teor da lei é bem mais geral, sem a determinação das
circunstâncias que parecem envolver os §§ 44/45 das leis de
Eshnunna. Na lei hitita o § 11 determina que, se alguém quebrar
a mão ou pé de um homem livre, deverá pagar uma compen-
sação de 20 sidos de prata. Se se tratar da mão ou do pé de
538

um escravo, a pena aplicada será apenas 10 sidos de prata."'"

§ 46
Se um aw"ilum bateu em um (outro) awllum e quebrou o
seu ... : pesará 2/3 de uma mina de prata.

O texto do § 46 nos foi transmitido apenas pela tábua «A»


III, 39-40. A tábua «B» apresenta no fim da terceira coluna
535. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 43 - Cf. tb. ,W. von Soden,
AHW, p. 36gb. r
536. Cf. art. «Jungfrãulichkeit», p. 101, onde Landsberger propõe a
tradução: «Wenn jemand in der Finsternis einem anderen ein Bein
stellt ... » Cf. tb. W. von Soden, AHW, p. 195b. Mas J. J. Finkelstein
em seu artigo «On Some Recent Studies in Cuneiform Law», JAOS 90
(1970), p. 254s, apresenta algumas dificuldades contra a leitura i-na
ek-Iu-tim.
537. Cf. Ex 21,24.
538. Cf. J. Friedrich, op. cit. p. 19 § 11: «Wenn jemand Hand oder
Fuss eines freien Menschen zerbricht, so gibt er ihm 20 Sekel Silber ... »
539. Cf. J. Friedrich, op. cit. p. 19 § 12: «Wenn jemand Hand oder
Fuss ,eines Unfreien oder einer Unfreien zerbricht, gibt er 10 Sekel
Silber ... »
126
uma grande lacuna, que causou a perda total do texto deste
parágrafo.
A interpretação deste artigo legal é dificultada por uma
pequena lacuna no texto da tábua «A». Na prótase falta o objeto
do verbo seberum = «quebrar». No começo da lacuna pode-se
ainda ler o sinal cuneiforme «l].a» e no fim «su». A prótase do
§ 46 na tábua «A» III, 39 em seu atual estado apresenta o
seguinte texto: sum-ma Lú a-wi-Iam im-l].a-a:;;-ma l].a-x-x-su
is-ta-ber5: «Se um awilum bateu em um (outro) awilum e
quebrou o seu ... ». Para restaurar o texto foram propostas
diversas conjeduras. De Liagre-B5hl sugeriu l].a- [si-si] -su =
«sua orelha» ou l].a- [si] -su =
«seu pulmão». E. Szlechter 5<0

preferiu a leitura l].a-si-su, que ele traduziu por «tórax». W. 541

von Soden propõe a leitura l].a-Ia-su =


«coxa». 5'2 Esta sugestão
foi seguida por J. Bottéro. B. Landsberger prefere a leitura
543

l].a-sa~su is-te-bir5: «quebrou o seu pulmão». '" Esta frase, con-


tudo, não deve ser interpretada literalmente, mas, no sentido
mais lato, de um ferimento na região pulmonar. Na apódose a545

leitura 2/3 MA-NA também é discutível; alguns preferem ler


1/3 MA-NA .•.••

540. Cf. F. M. Th. de Liagre-Bohl, «Het akkadische Wetboek van


Bilalama Koning van Esjnunna», em JEOL 11 (1949/50), p. 95-105. Cf.
tb. W. von Soden, AHW, p. 330b e 335a.
541. Cf. Les Lois d'Esnunna, p. 29: «Si un citoyen frappe un autre
citoyen et Iui «blesse» Ie «thorax» (?) (Ie poumon?) ... »
542. Cf. W. von Soden, «Neubearbeitungen der babylonischen Ge-
setzessammlungen», em OLZ 53 (1958), p. 521. Cf. tb. AHW, p. 312b:
baIlurn = «Oberschenkel».
543. Cf. Annuaire 1965/1966 - École Pratique des Hautes Études,
IV· section, p. 90: «Si un homme, en frappant (autre) homme, lui a
brisé Ia cuisse(?) ... »
544. Cf. art. «Jungfraulichkeit», p. 101.
545. Cf. B. Landsberger, ibid.: «Das Brechen der Lunge darf man
nicht zu wortlich nehmen; es ist eine der bekannten Projizierungen
innerer Korperteile nach aussen, wie sie insbesondere bei kalitu 'Niere'
zu beobachten ist. Es liegt noch vaI' an der folgenden StelIe eines Briefes
aus der Kassitenzeit, BE XVII 21,30: (Zwei Manner sind in einen
Brunnen gefaIlen) sa isten kirrasu sebir /u sanu he-sa-a-su se-bir der
erste wurde in der Gegend der Halsschlagader (kerru AHW 468), der
zweite in der Lunge verwundet».
. 546. Assim p. ex.: J. Miles-O. R. Gurney, art. «The Laws of
Eshnunna», em Ar.Or. 17/2 (1949), p. 186. Esta leitura foi seguida
tb. por J. Bottéro, loc. cit. p. 94 que traduz a apódose do § 46: «... il
VefSera 1/3 de mine d'argent».

127
Essas dificuldades textuais tornam praticamente impossível
uma interpretação exata do § 46. Além do mais, trata-se de uma
casuística específica das leis de Eshnunna. Faltam-nos paralelos
nas leis de Hammurabi e nas leis hititas. Seguindo a reconstru-
ção do texto l].a-sa-su = «seu pulmão» proposta por Landsber-
ger, a lei determinaria que, s'e um awilum batesse em um outro
awilum e o ferisse na região pulmonar, deveria pagar como
compensação 2/3 (?) de uma mina de prata, que corresponde
a 40 siclos ou cerca de 320 g de prata.

§ 47

Se um awilum em uma [briga} feriu (?) um (outro) awilum:


pesará dez sidos de prata.

o § 47 foi transmitido apenas pela tábua «A» III, 40-41.


Duas dificuldades textuais perturbam a compreensão e interpre-
tação do parágrafo. Na linha 40 pode-se ler, conforme a cópia
de A. Goetze, sum-ma LÚ i-na x-x-tim M1: «Se um awilum em ... »
Uma análise do contexto das leis de Eshnunna permite concluir
que a partícula «ina» deve introduzir aqui uma cláusula ate-
nuante. A multa imposta de 10 sidos é, em relação às dos pará-
grafos antecedentes, bastante modesta. Deve tratar-se, pois, de
uma determinada circunstância, que atenua a culpabilidade do
agressor. E. Szlechter propôs a leitura i-na ri-is-ba-tim: «em
uma rixa». "'" B. Landsberger prefere a conjectura i-na ~a-al-tim
= «em uma briga». M' O segundo problema textual deste pará-
grafo é o significado exato da forma verbal i-se-el, forma pre-
térito G da raiz sêlum. W. von Soden registra a raiz sêlum em seu

547. No espaço da lacuna tanto é possível a perda de dois como


de três sinais cuneiformes. A. Goetze supõe três sinais em sua transcrição
na edição The Laws of Eshnunna, p. 119. E é seguido por ]. ]. Finkel-
stein, On Some Recent Studies in Cuneiform Law, ]AOS 90 (1970),
p. 225: «The collation shows traces of three signs before - tim ... »
548. Cf. Les Lois d'Esnunna, p. 29. Cf. tb. W. von Soden, AHW,
p. 988b.
549. Cf. art. «]ungfrãulichkeib>, p. 101. Cf. tb. W. von Soden,
AHW, p. 1079a.

128
dicionário com o significado de «scharfen» =
«afiar».55<l Mas
no n. 3 'ele admite um sentido lato não conhecido para a raiz
no texto de Eshnunna. 551
No seu contexto atual, entre os parágrafos que tratam das
lesões corporais, o -significado mais provável do termo deve ser
«ferir», «machucar». 552
Se o termo que se perdeu na lacuna da tábua significa «em
uma briga», e se o significado da raiz sêlum para o contexto
do § 47 é, aproximadamente, «ferir», «machucar», a intenção
do parágrafo é tratar de ferimentos que podem surgir durante
uma briga. Se a vítima é ferida, ,mas apenas com alguma esco-
riação, sem fratura de ossos, dentes etc... o agressor será
punido com uma muIta de 10 sidos de prata, i.é: cerca de 80 g
de prata. A mesma compensação é imposta no § 42 para o caso
de uma bofetada.
No Código de Hammurabi, as agressões feitas durante uma
briga recebem uma solução diferente da apresentada nas leis de
Eshnunna. No § 206 lê-se: «Se um awl1um agrediu em uma
briga um (outro) aWllum e lhe infligiu um ferimento: esse
awl1um deverá jurar: «Não o agredi deliberadamente»; além
disso deverá pagar o médico». 553 Se a vítima morresse dos feri-
mentos causados não era imposta a pena de talião, mas o
agressor devia jurar que não agiu deliberadamente e era imposta
uma compensação em prata, cuja quantidade dependia da posi-
ção social do agredido: Se o agredido fosse um awl1um: 1/2
mina (cerca de 250 g) de prata 551; se fosse um muskênum: 1/3
de uma mina (cerca de 165 g) de prata. "'.

550. Cf. AHW, p. 1211 a.


551. Cf. ibid.: 3)ühertr. aB jmd im Streit awilam i-se-el LE AllI,
41 unkl. (geringe Strafe).
552. B. Landsberger em seu art. «Jungfraulichkeib, p. 101, propõe
a tradução: «Wenn jemand hei einem Streiteinem anderen (die Haut)
abscl1ürft», J. Bottéro em Annuaire 1965/1966. École Pratique des Hautes
Études - IV· Sedion, p. 95, traduz: «Si un homme, au cours d'une rixe
(?) a blessé (?) un (autre) homme ... » A. Goetze, The Laws of Eshnun-
na, p. 119, e R. Yaron, Tl1e Laws of Eshnunna, p. 45, preferem o signi-
ficado mais geral «injured». Já E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 29,
traduz: «Si un citoyen au cours d'une rixe «j ette à terre» un citoyen ... »
533. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 88s.
554. Cf. § 207: «Se ele morreu por causa da pancada: deverá jurar
e, se foi o filho de um awilum, pesará a metade de uma mina de prata».
555. Cf. § 208: «Se foi o filho de um muskênum: pesará 1/3 de
uma mina de prata».

129
§ 48

Além disso: em uma causa (que implique a aplicação de


uma compensação) de 1/3 de mina até uma mina de prata,
os juizes julgarão a causa... Mas um processo de vida
(pertence) ao rei.

o texto do § 48 chegou até nós, tanto na tábua «A» IJI,


42-44 como na tábua «B» IV, 1-3, em estado bastante frag-
mentário. Mesmo combinando o texto das duas tábuas, não se
consegue formar um texto completo e inteligível do parágrafo.
Várias lacunas continuam abertas. Algumas delas podem ser
reconstruídas por meio de conjeduras textuais. A tradução acima
apresentada seguiu o trabalho de reconstrução do texto feito
por B. Landsberger. O texto final do § 48 reconstruído por
Landsberger é o seguinte: 42U a-na [di-nim sa KO.BABBAR]
is-tu 1/3 MA.NA a-di 1 MA.NA43 [D I.KUD .MES] di-nam-
ú-sa-J;p-zu-su- [ma] XXX 44a-wa-at na-pí-is-tim a-na LUGAL-
ma.''''
O problema tratado nesta prescrição legal é, sem dúvida, a
questão da competência dos diversos tribunais. O § 48 determina
a jurisdição do tribunal para decidir questões que envolvem uma
penalidade de vinte a sessenta siclos de prata. Infelizmente a
denominação desse tribunal não foi conservada no texto atual.
De acordo com a conjectura textual apresentada por E. Szlech-
ter551 e B. Landsberger as pessoas 'competentes para julgar
558,

esses tipos de processos eram os dajjãnu, que aqui seriam


expressos pelo sumerograma DI.KUD.MES. O dajjãnum era,
provavelmente, o juiz profissional nomeado pelo rei para as
diversas províncias .• 5' O § 48 não menciona a instância compe-

556. Cf. art. «jungfraulichkeib>, p. 101. Os termos entre colchetes


são conjecturas de Landsberger. Ele oferece a seguinte tradução: «Und
zwar: Für einen Rechtsfall, der (mit einer Strafe) von 1/3 bis 1 Mine
Silber (abgegolten werden kann), sprechen die Richter ihm Recht, was
darüber hinausgeht, ist eine Re-ehtssache auf Tod und Leben: sie obliegt
dem Künig».
557. Cf. Les Lais d'Esnunna, p. 111.
558. Cf. art. «jungfraulichkeit», p. 101.
559. Cf. E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 111: «Ces juges,
fonctionnaires royaux, siégeant dans le chef-lieu du district, sant désignés
dans les textes soit par le seul terme daiânu, soit par les expressions:

130
::: ;2"2 julgar os delitos punidos com uma pena menor do
_ = "=-=::2 siclos (1/3 de mina). Esses casos eram, certamente,
-- :==, etência do sakkanakkum = «governador» ou de juizes
-'::'-=. ais, A falta de alusão a penas superiores a 60 siclos,
::õ.=:) nas leis de Eshnunna, como no Código de Hammurabi,
::::--2:-s.o,sem dúvida, ao fato de não existirem, na legislação babi-
.=::.: -a, multas superiores a uma mina (= 60 siclos) de prata.
~ :=--ressante, neste contexto, citar um texto de Mari, do período
:=Ebilônico antigo, onse é aplicada uma penalidade de dez minas
-'" prata.5OO Mas esse texto de Mari explicita claramente
=-C.BABBAR din na-ap-si-tim: «prata de um processo de vida».
5mbora esse texto de Mari seja proveniente de um outro con-
texTO literário - trata-se de um contrato -, contudo ele reflete,
rovavelmente, o resultado de uma intervenção do rei, comu-
!ando uma pena capital em uma compensação financeira bastante
levada. '""
O § 48 termina com a cláusula a-wa-at na-pÍ-is-tim a-na
LUOAL-ma: «um processo de vida (pertence) ao rei». Esta
cláusula limita, pois, a competência dos juizes. Os delitos, para
os quais era prevista a pena de morte (§§ 12, 13, 24, 26, 28,
58), só podiam ser julgados pelo próprio rei ou por um tribunal
presidido por ele ou por um delegado seu.

juges de... (nom de Ia ville) , ou juges royaux (daiánê sharrim)>>. CL


tb. H. Schmokel, Kulturgeschichte des Alten Orient, p. 129-158. H. W.
F. Saggs, Mesopotamien, p. 295-346.
560. Cf. Archives Royales de Mari VIlI, 11 - Cf. tb. G. Boyer,
Archives Royales de Mari VIII, Textes juridiques, Paris 1948, p. 168:
«Peut-être également Ia peine de mort, ancienne sanction du din napistim,
avait-eIle été convertie en Ia lourde peine pécuniaire dont parlent nos
textes, pour le grand profit du Trésor royal, ·et I'indication donnée dans
notre texte tendait-eIle seulement à justifier I'émende qui était édictée».
561. R. Yaron ·em The Laws of Eshnunna, p. 77, observa com razão:
«Nevertheless, it seems reasonable to assume that the substitution of
money for Iive will have had its origin in the sphere oI judgements in
matters of delict, with the sovereign exercising his power of mercy». -
Cf. tb. 'w. F.. Leemans, «King Hammurapi as judge» em Symbolae luri-
dicae et Historicae Martino David dedicatae, Tomus alter: lura Orientis
Antiqui, Leiden 1968, p. 107-129, esp. 126s.

131
§ 49

Se um awllum foi apa.nhado em (posse) de um escraro


roubado ou de uma escrava roubada: o escravo trará um
(outro) escravo e a escrava uma (outra) escrava.

o texto do § 49 foi conservado apenas na tábua «B» IV,


4-5. A sua casuística é completamente diferente da do § 40. A
expressão acádica i-na SAG.iR sar-qí-im GEMÊ sa-ri-iq-tim:
«em (posse) de um escravo roubado ou de uma escrava rouba-
da» caracteriza a natureza do crime aqui perseguido: um awilum
é flagrado em posse de um escravo roubado ou de uma escrava
roubada. A penalidade imposta é expressa na apódose pela
fórmula SAG.IR SAGJR GEMÊ GEMÊ i-re-ed-de. Uma formu-
lação acádica dos quatro sumerogramas deve corresponder a
«wardum wardam amtum amtam i-re-ed-de»: «o escravo trará
um (outro) escravo e a escrava uma (outra) escrava». A. 562

Goetze na edição Standard interpreta warad warad amat amat


i-re-ed-de e traduz: «he shall surrender slave for slave (and)
slave girl for slave girl».OO'Mas esta interpretação, como mos-
trou W. von Soden, é gram~ticalmente impossível. De acordo
564

com a interpretação gramatical mais provável, a intenção do le-


gislador de Eshnunna era punir duplamente o awilum surpreen-
dido em posse de um escravo roubado. Além da obrigação de
devolver o escravo roubado, ele devia compensar o dono do
escravo roubado com um outro escravo.

562. Cf. a fundamentação apr·esentada porW. von Soden, «Neubear-


beitungen der babylonischen Gesetzessammlungen», OLZ 53 (1958), p. 52!.
Esta interpretação é seguida tb. por E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna,
p. 29; J. Bottéro, Annuaire 1965/1966. École Pratique des Hautes Études
- IV· Section, p. 95; R. Yaron, The Laws of Eshnunna, p. 45.
563. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 124. E na p. 130 tenta explicar
a dificuldade de um roubo não punido: «On doseI' examination it appears
that the section of the laws is primari1y interested in the disposition
of the slave and the reparation of the damage inflicted on the owner af
the slave. It gaes without saying that the man in whose house tIle slave
is found will have to account for his pr'esence; if he proves to be the
thief he may face the death penalty».
564. Cf. art. cit. p. 52!.

132
Na Babilônia a legislação de Hammurabi era muito mais
rigorosa, punindo todo aquele que retivesse em sua casa um
escravo fugitivo com a pena de morte. 565
A legislação hitita nos §§ 20 e 21 nos apresenta uma dis-
tinção interessante. Se um hitita roubar um escravo hitita da
terra Luwija e o trouxer para a terra hitita e o seu dono o
encontrar: o ladrão, além de devolver o escravo, deverá pagar
uma compensação de 12 sidos de prata.566 Se porém se tratar
de um escravo de Luwija trazido para a terra hitita e encontrado
pelo seu proprietário: neste caso o ladrão deverá apenas resti-
tuir o escravo roubado, mas não estará obrigado a nenhuma
compensação. 561

Em uma legislação bem mais recente, no Codex lustinianus,


encontra-se uma determinação semelhante à do § 49 das leis de
Eshnunna. Em casos de retenção de um escravo fugitivo, a legis-
lação romana determinava: «Quicumque fugitivum servum in
domum vel in agrum inscio domino eius susceperit, eum cum
pari alio vel viginti solidis reddab.568

§ 50

Se um «sakkanakkum», um «sapir nãrim» ou um «bei


têrtim», qualquer que seja, capturou um escravo fugitivo,
uma escrava fugitiva, um boi fugitivo ou um jume,nto fugi-
tivo (do pqlácio ou de um muskênum) e :não o conduziu para

565. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 31 § 19: «Se ele


reteve esse 'escravo em sua casa e depois O' escravo foi preso em sua
mão: esse awilum será morto». Cf. tb. §§ 16, 17, 18, 20.
566. Cf. ]. Friedrich, Die Hethitische Gesetze, p. 21, § 20: «Wenn
irgendein Hatier einen hattischen Unfreien aus dem Lande Luwija stiehlt
und ihn nach dem Lande Hatti herbringt (und wenn) sein Herr ihn
findet, so gibt er ihm 12 Sekel Silber;' auch sttisst er (ihn) zu seinem
Hause».
567. Ibid. § 21: «Wenn jemand den Unfreien eines Luwiers aus dem
Lande Luwija stiehlt undihn nach clem Lande Hatti herbringt (und
wenn) sein Herr ihn findet, so darf er seinen Unfreien an sich nehmen;
Entschadigung gibt es nicht».
568. Cf. Codex Iustinianus 6.1.4 pr. 317 C.E.

133
Eshnunna, mas (o) reteve em sua casa e deixou passar mais
de um mês 569: o palácio deverá acusá-Io de roubo. 5;0

o § 50 nos foi transmitido pela tábua «A» IV, 2-7 e pela


tábua «B» IV, 6-10. Mas o início das três primeiras linhas
da tábua «A» foi destruído e deve ser completado pelo texto da
tábua «B». A tábua «B» apresenta, além disso, duas variantes
textuais em relação à tábua «A». Em «B» IV, 8 é acrescentada
a locução sa É.GAL li MAs.KAK.EN: «do palácio ou de um
muskênum» que parece delimitar o sentido da frase. Igualmente
em «B» IV, 9-10 a expressão u4-mi e-li ITU 1 KAM ú-se-te-
eq-ma: «dias acima de um mês deixou passar» introduz uma
determinação temporal que não existe no texto da tábua «A».
O parágrafo menciona três tipos de funcionários e trata de
suas obrigações em relação a um escravo ou a um animal fugitivo.
O sakkanakkum - aqui expresso pelo sumerograma Gt.NIT Á
- é o chefe da administração de uma cidade, portanto o repre-
sentante mais categorizado do rei nessa cidade.5n O vocábulo
vernáculo mais próximo seria o termo «governador». A expres-
são «sapir nãrim» - ,lit.: «aquele que administra o rio», da raiz
sapãrum = «enviar» e também «administrar», «governar» 512 -

indica o funcionário encarregado da supervisão do sistema de


irrigação, de capital importânciá para a economia da Babilô-
nia.512 O termo bêl têrtim é registrado por VI. von Soden com o
significado de «delegado», «comissário». No período babilônico
614

antigo aparece o título em um texto dos arquivos de Mari:


sum-ma be-el te-er-tim U4 2 KAM U4 3 KAM Ia ú-we-er
te-er-tum ú-ul i-l).a-al-li-iq: «Se um bêl têrtim não administra
dois ou três dias não se perderá o posto»? O termo indica,
515

569. Lit.: u4-mi e-li ITU 1 KAM ú-se-te-eq-ma: «dias acima de


um mês deixou passar».
570. Lit.: su-ur-qá-am it-ti-su i-ta-wi: «falará com -ele de roubo».
571. Cf. W. von Soden, AHW, p. 1140a - Cf. tb. A. WaIther, Das
aItbabyIonische Gerichtswesen, p. 127s; O. Krückmann, art. «Beamter»
em ReaIlexikon der AssyrioIogie, voI. I, p. 445; A. Goetz-e, The Laws
of Eshnunna, p. 127.
572. Cf. '\IV. von Soden, AB'W, p. 1171a,7: «mit Anweisungen ver-
sehen, verwaIten, regieren».
573. Cf. O. Krückmann, art. cit. p. 445: A. WaIther, op. cit. p. 143s.
574. Cf. AHW, p. 120b: beI 1êrtim: «Beauftragter, Kommissar».
575. Cf. ARM I, 61,29-30 - Cf. tb. G. Dossin, Archives Royales de
Mari I, Correspondance de samsi-Addad; Paris 1950, p. 119s.

134
sem dúvida, um funcionário importante, como a própria tra-
dução literal da locução - bel têrtim: «senhor da ordem» -
o demonstra. Mas desconhece-se a função específica desse
funcionário. 57.
Na formulação da tábua «A», qualquer governador, super-
visar de rio ou bel têrtim, que capturar um escravo ou uma
escrava fugitivos, ou um animal (boi, jumento) desgarrado, e
não o levar para Eshnunna, mas o retiver em sua casa, será
tratado pelo palácio como um ladrão. O texto da tábua «B»
introduz as duas especificações acima mencionadas. Várias ques-
tões surgem aqui. O texto «B» é o mais antigo ou as duas
especificações são acréscimos posteriores? A expressão «um
escravo fugitivo ou uma escrava fugitiva, um boi fugitivo ou um
jumento fugitivo do palácio ou de um muskênum» limita o sen-
tido da lei a esses dois casos específicos ou, citando os dois
extremos palácio-muskênum, quer abranger qualquer tipo de
escravo, desde o escravo do palácio até o escravo do proprie-
tário socialmente mais fraco, o muskênum? m A segunda espe-
cificação da tábua «B» é de caráter temporal: para ser acusado
de ladrão é necessário que retenha o escravo ou o animal fugitivo
urmi e-li ITU 1 KAM: «dias acima de um mês», Lé: mais de
um mês.
O § 50 não especifica a pena a ser aplicada. O parágrafo
diz apenas que o funcionário infrator deverá ser tratado como
ladrão. No § 16 a legislação de Hammurabi determina: «Se um
awílum escondeu em sua casa um escravo ou uma escrava fugi-
tivos do palácio ou de um muskênum e a convite do arauto não
fez sair: o dono dessa casa será morto»."18 Mas como, com
razão, observa E. Szlechter, não se pode simplesmente igualar
a expressão surqam ittisu itawi: «falará com ele de roubo», i.é:
«acusará de roubo» com a formulação be-el É su-ú id-da-ak:
«o dono dessa casa será morto» das leis de Hammurabi. 5"19

576. Cf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 127: «The term beI
têrtim - literally «master of authority» - might be taken as a general
term, or it might refer to a speciaI. branch of govemment, either of a
judicial or a religious character».
577. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 29s; Cf. tb. G. R.
Driver-J. C. Miles, The Babylonian Laws, vol. 1, p. 106.
578. Cf. E. BOl1zon, op. dt. p. 30.
579. Cf. Les Lois d'Esnunna, p. 115s: «Notons que Ie Code de
Hammurabi mentionneex'pressément que Ie voleur est passible de Ia
peine de mort. Il reprend dans tous Ies cas le terme iddak apr,es avoir
indiqué ---..
que le coupable est considéré comme voleur. Si le seul em pIo i
135
Tanto o § 40 das leis de Eshnunna como o nosso § 50 não
indicam a sanção a ser aplicada ao ladrão. Dificilmente tratar-
se-á de uma pena de morte. Hammurabi menciona explicitamente
a aplicação da pena de morte. As leis de Eshnunna silenciam
completamente o tipo de pena a ser aplicado. Se, porém, com-
pararmos o nosso parágrafo com o § 49 e com texto NBC 8237
citado acima 580, poderemos concluir que a pena aplicada, tanto
no caso do § 40 como no § 50, estava em uma linha de
compensação financeira.

§ 51

Um escravo ou uma escrava de Eshnunna que foi marcado


com um «kannum», um «maskanum» ou um «abbuttum» não
poderá sair da porta de Eshnunna sem o seu dono.

A tábua «A» IV, 7-9 e a tábua «B» IV, 11-13 transmitiram


o texto do § 51 sem variantes nem lacunas. O sentido geral do
parágrafo é bastante claro: um escravo ou uma escrava que
tenham uma das três marcas 58' aqui descritas pelos termos acá-
dicas kannum, maskanum e abbuttum não podem sair da cidade
de Eshnunna «ba-lum be-Ií-su»: «sem o seu dono», i.é: sem a
autorização de seu proprietário. Toda discussão gira, natural-
mente, em torno do significado exato dos três termos acádicos.
W. von Soden registra o vocábulo kannum com o significado
de «Binde», «Band», i.é: «faixa» 582; o termo maskanum ele
traduz por «Fessel», i.é: «cadeia», «algema» '83; e abbuttum:

de I'expression sharrâq (il est voleur) .avait suffi pour indiquer que le
voleur était frappé de Ia peine de mort, J.e Iégislateur n"aurait pas eu
besoin d'ajauter chaque fais iddak».
580. Cf. acima p. 119.
581. W. von Saden art. «Kleine Beitrãge zum Verstãndnis der
Gesetze Hammurabis und Bilalamas» em Ar.Or. 17/2 (1949), p. 3725
prefere entender que a escravo de Eshnunna tinha os três sinais: «Die
Sklaven in Eshnunna hatten hiernach ausser ihrer Sklavenmarke noch
eine Binde (kannum) und eine Fessei (maskanum) zu tragen».
582. Cf. AHW, p. 438a.
583. Cf. AHW, p. 627a.

136
«eine Haartracht», i.é: «um tipo de penteado». Os escravos de
584

Eshnunna eram, sem dúvida, marcados com uma determinada


faixa ou com um tipo determinado de cadeia ou por um modo
próprio de cortar ou de pentear os cabelos. O § 226 do CH nos
5S5

apresenta um bom termo de comparação para a interpretação do


termo abbuttum: «Se um barbeiro, sem (a permissão do) dono
do escravo raspou o abbuttum de um escravo que não lhe per-
tence: cortarão a mão desse barbeiro». '86
Não parece de acordo com o contexto aplicar o § 51 somente
aos escravos fugitivos como o faz E. Szlechter. '8, Para esse autor
os §§ 51 e 52 devem ser compreendidos como uma continuação
do § 50 e determinam que os escravos fugitivos, quando trazi-
dos de volta a Eshnunna, deviam ser marcados com os sinais
«kannum», «maskanum» e «abbuttum».588 Mas os argumentos de
Szlechter não nos parecem suficientes para limitar a extensão
dos §§ 51 e 52.

§ 52

Um escravo ou uma escrava que, sob a custódia de um


mensageiro, entrou na porta de Eshnunna: será marcado
com o «kannum», o «maska.mlm» ou o «abbuftum» e ficará
sob a custódia de seu do,no.

584. Cf. AHW, p. 5b: «Abbuttum I eine Haartracht (nach der


Urform von QAR in ATU 97,362 ein oben zusammengebundener Schopf?)>>.
Cf. tb. F. R. Kraus, Orientalia 16 (1947), p. 189s; E. Szlechter, Ar.
Or. 17/2 (1949), p. 39s; G. R. Driver- J. C. Miles, The Babylonian
Laws, vol I, p. 306s.
585. Cf. tb. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 128s.
586. Cf. tb. CH § 227: «Se um awilum coagiu (?) um barbeiro e
ele raspou o abbuttum de um escravo que não lhe pertence: matarão
esse awIlum e o suspenderão em sua porta; o barbeiro deverá jurar:
'Eu não raspei deliberadamente' e será livre». Estes dois exemplos do
Código de Hammurabi parecem confirmar o significado do termo
abbuttum 'como um sinal especial na cabeleira, ou um tipo determinado
de corte de cabelo, que distinguia um escravo dos outros cidadãos.
587. Cf. E. Szlechter, Les Lois d'Esnunna, p. 40.
588. Cf. E. Szlechter, ibid.: «... Lorsque les 'esclaves fugitifs étaient
ramenés à Eshnunna par le már shiprim (messager, envoyé), ils etaient
alorscondamnés à Ia chaine et tatoués: ka-an-nam mash-ka-nam li
ab-bu-tam sha-ak-nu (A IV,8 - B IV 11,12). De plus, les esclaves
fugitifs ne pouvaient plus désormais quitter abul Esh-nun-naki balum
belishu ul-uççi, sans autorisation de leur maltre».

137
o § 52 foi transmitido completo e sem divergências pela
tábua «A» IV, 10-13 e pela tábua «B» IV, 14-16. Os três termos
que expressam os sinais distintivos de um escravo já foram
discutidos no parágrafo anterior. Note-se, aqui, que o termo
mãr siprim = «mensageiro» tem um significado mais amplo do
que o termo vernáculo. O mãr siprim não é apenas o portador
de uma mensagem. O termo pode também, como acertadamente
observa A. Ooetze, expressar o que hoje chamaríamos de
«enviado», «embaixador». 58. Este parágrafo trata, provavelmente,
de escravos trazidos para Eshnunna na comitiva de um legado
estrangeiro. Durante a permanência desses escravos em Eshnun-
na, a lei determina que sejam marcados com um dos sinais con-
vencionais para escravos usados em Eshnunna. ,"o

§ 53

Se um boi escorneou um (outro) boi e causO'u a sua morte:


os proprietários de ambos os bois dividirão (entre si) o
preço da bO'i vivo e a carne da boi morta.

O texto do § 53 foi transmitido completo na tábua «A» IV,


13-15. Na tábua «B» IV, 17-19 perdeu-se o início da linha 19.
A casuística deste parágrafo é clara: como agir quando um boi
mata a chifradas um outro boi que pertence a um outro dono. A
solução é bastante simples e engenhosa. Um típico caso de «jus-
tiça de Salomão». Os prejuízos são divididos entre os dois
proprietários: o boi vivo deve ser vendido e o preço dividido
entre os dois proprietários em questão. Além disso a carne do
boi morto deve, também, ser dividida entre os dois. Ao con-
591

589. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 129s: « ... His role corresponds
to that of modern «envoy» or «ambassador» with the difference that he
was not permanently stationedat a certain court, attending there to the
relations between his lord and that court, but that he travelled back
and forth, with power limited to specific affairs».
590. Cf. tb. R. Yaron, The Laws of Eshnunna, p. 103.
591. Cf. R. Yaron, The Laws of Eshnunna, p. 192s; A. Goetze, The
Law8 of Eshnunna, p. 1378; A. Van Selms, «The Goring Ox in Babylo-
nian and Biblical Law», Ar.Or. 18/4 (1950), p. 3218.

138
~-=-'J do § 54, o legislador de Eshnunna não toca no problema
=-= :-ulpa ou negligência do proprietário do boi assassino. Na
_=-js:ação bíblica do livro Êxodo encontra-se um paralelo per-
='::::J ao nosso parágrafo. Em Ex 21,35 a lei prescreve: «Se o
==: de alguém escornear o boi de um outro e este morrer: ven-
:::::"-se-á o boi vivo e dividir-se-á o preço; também o boi morto
::c""e ser dividido». Mas a lei bíblica é mais completa e deter-
=-_:na no v. 36: «Se, porém, o proprietário sabia que o boi era
2.Scorneador e, contudo, não tomou providências: ele deverá
S'Jbstituir o boi, boi por boi; o boi morto, porém, lhe pertence».
A lei bíblica previa, pois, os casos de negligência; e em tais
.:asos o proprietário do boi assassino devia arcar com todos os
prejuízos. Ele ficava, apenas, com a carne do boi morto.

§ 54

Se um boi é escorneador, e o distrito informou o seu pro-


592

pri,etário, mas ele não vigiou (?) o seu boi e este escorneou
um awílum e lhe causou a morte: o proprietário do boi pesará
2/3 de uma mina de prata.

Somente a tábua «A» IV, 15-18 conservou integralmente o


texto do § 54. Este parágrafo continua a temática do § 53. Mas
a vítima aqui é uma pessoa humana. A formulação do § 54 é
bem mais detalhada do que a do parágrafo antecedente. O boi
é conhecido como nakkãpí' = «escorneador». As autoridades
competentes já avisaram o proprietário a respeito desse vício de
seu boi. O termo bãbtum, derivado de bãbum = «porta», signi-
fica em si a «região da porta da cidade» e é registrado por
W. von Soden também com os significados de «bairro», «aloja-
mento».593 O termo «distrito», usado na tradução, indica as
autoridades locais encarregadas da ordem da cidade. Do contexto
pode-se concluir que o legislador constata que o dono do animal
não tomou as providências devidas em relação ao seu animal.
_\\as o verbo usado não é claro. Os sinais cuneiformes no fim

592. Lit. ba-ab-tllm: «Torbereich» cf. W. von Soden, AHW, p. 94b.


593. Cf. AHW, p. 94b: bãbtum: «Torbereich; Stadtviertel; Quartier».

139
da linha 16 oferecem a leitura GUD-su Ia ú-si-ir-ma: mas ele
não «usir» o seu boi. A forma verbal usir é, sem dúvida, um
5'"

pretérito da raiz surrum. W. von Soden registra a raiz com o


significado de «se inclinar», «inclinar» que levou E. Szlechter
5C5,

a traduzir «( etcelui-ci Ia tête) de son boeuf n' a pas incliné


et ... ».500 Esta tradução, contudo, não satisfaz plenamente. A.
Goetze tenta por isso uma leitura diferente da linha 16: ...
GUD-su Ia pa-si-ir-ma e traduz «mas não aparou os chifres (?)
de seu boi». J. J. Firikelstein prefere corrigir o texto e lê GUD-
597

su Ia ú-<se>-si-ir - um pretérito «8» da raiz wasãrum - e


traduz: «he did not keep his ox in the direct march».·"' Em
uma prescrição legal paralela do Código de Hammurabi é dito:
«Se o boi de um awllum for escorneador e seu distrito o infor-
mou que ele é escorneador e ele não aparou os seus chifres e não
vigiou o seu boi e (se) esse boi escorneou e matou o filho de
um awllum: ele deverá pagar a metade de uma mina de prata» . .,.
No texto acádico lemos: qar-ni-su Ia ú-sar-ri-im GUD-su Ia
ú-sa-an-ni-iq-ma: «seus chifres não aparou, seu boi não vigiou ...»
O texto de Hammurabi usa, pois, o pretérito das raizes verbais
sarãmum e sanãqum. G. Dossin estudou o uso da raiz sa-
000

rãmum, relacionando-a com o substantivo sirmum: «Kappen von


Hornern» e chega à conclusão que: «11 n'est donc pas interdit
601

de supposer que sarãmum, à Ia forme 11, soit un dénominatif

594. Cf. W. von Soden, «Kleine Beitrãge zum Verstãndnis der


Gesetz'e Hammurabis und Bilalamas», ALOr. 17/2 (1949), p. 373; B.
Landsberger, art. «Jungfrãulichkeit», p. 102. Cf. tb. W. von Soden,
«Neubearbeitungen der babylonischen GesetzessammJungen», OLZ 53
(1958), p. 522.
595. Cf. AH'W, p. 1285a: surrum: «sich hinabbeugen, - neigen, sich
vorbeugen».
596. Cf. Les Lois d'Esnunna, p. 32. Na p. 121, E. SzIechter explica:
«Le législateur a pris soin de préciser dans les textes cités en quoi consiste
leur faute; -celle du propriétaire du boeuf: alapshu lâ ú-shi-ir-ma, de
n'avoir pas lié les comes du boeuf ou de n'avoir pas «incliné Ia tête»
du boeuf de maniere à ce qu'il ne puisse pas frapper de Ia corne ... »
597. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 132: «but he does not have his
ox dehorned (?) ... » Cf. tb. ibid. p. 136. W. vou Soden registra o termo
em AHW, p. 842, com o significado «Io-ckern, (auf)lõsen».
598. Cf. art. «Sex Offenses in Sumerian Laws», JAOS 86 (1966),
p. 364., nota 30.
599. Cf. CH .§ 251 - Cf. tb. E. Bouzon, O Código de Hammurabi,
p. 99.
600. Cf. 'W. von Soden, AH'W, p. 11845 e 1022a.
601. Cf. 'W. von Soden, AH'W, p. 1248b.

140
de sirmum et signifie «couvrir de Ia couffe» les comes de l'ani-
mal dangereux».6()2 No texto de Hammurabi o significado do
verbo sarãmum é claro, quer se adote o significado de «aparar»,
<~cortar», registrado nos dicionários 600,quer se siga a sugestão
de Dossin de interpretar sarãmum em relação com o termo
sirmum e se traduza «cobrir os chifres». Na mesma linha deve-
se, sem dúvida, interpretar a forma «usir» do § 54. O proprie-
tário do boi, depois de avisado pelas autoridades locais do mau
costume de seu boi, deverá tomar as providências necessárias
para evitar acidentes causados pelos chifres de seu boi. Se não
tomar as providências necessárias, ele será culpado caso o seu
boi mate achifradas um awlIum e deverá, por isso, pagar uma
compensação de 2/3 de uma mina de prata, ou seja 40 siclos
de prata (cerca de 320 g). Nas leis de Hammurabi a pena era
de meia mina, i.é: 30 siclos (cerca de 240 g) de prata.
A legislação bíblica do livro do Êxodo determinava em casos
análogos: «Se um boi escorneia um homem ou uma mulher e
este morre: então o boi será apedrejado e sua carne não pode
ser comida; o dono do boi, porém, está livre. Mas se o boi já era
escorneador e seu proprietário, embora avisado, não vigiou o
animal e ele mata um homem ou uma mulher: então o boi deve
ser apedrejado e seu proprietário deve ser morto». 604

§ 55

Se escorneou um escravo e causou a sua morte: pesará 15


sidos de prata.

O § 55 nos foi transmitido apenas pela tábua «A» IV, 18-19.


Este parágrafo continua a casuística do antecedente. São pre-
vistas as mesmas circunstâncias: um boi é conhecido como escor-
neador. As autoridades locais já informaram o proprietário do
boi sobre o perigo que o seu animal representa para a com uni-

602. Cf. G. Dossin, «Sur deux passages du Code de Hammurapi»,


RA 31 (1934), p. 87-96; esp. p. 92.
603. Cf. W. von Soden, AHW, p. 1184b.
604. Cf. Ex 21,28-29. ./

141
dade. o dono do animal, contudo, não tomou providência
alguma. O animal mata a chifradas uma pessoa. Mas a vítima
neste parágrafo é um escravo. Devido à condição social inferior
da vítima, a sanção imposta é substancialmente inferior: 15
sidos (cerca de 120 g) de prata. No Código de Hammurabi, a
compensação imposta para o mesmo tipo de delito é 1/3 de
uma mina, i.é: 20 sidos de prata. 605Uma comparação entre os
§§ 54-55 das leis de Eshnunna com os seus paralelos no Código
de Hammurabi (§§ 251-252) mostra-nos uma diferença interes-
sante. Nos casos em que a vítima é um awilum, o § 54 de
Eshnunna impõe a pena de 2/3 de uma mina de prata e o § 251
de Hammurabi 1/2 mina de prata. Se a vítima é um escravo, o
§ 55 de Eshnunna pune com 15 sidos de prata, enquanto que o
§ 252 de Hammurabi exige 1/3 de mina, i.é: 20 sidos. As leis
de Hammurabi punem, pois, com mais rigor a morte de um es-
cravo; enquanto que,' em Eshnunna, as penas eram mais rigo-
rosas do que em Hammurabi para casos que envolviam a morte
de um awilum.

§ 56

Se um cão é feroz, e o distrito informou o seu dono, mas


flO6

ele não vigiou o seu cão e (este) mordeu um awílum e lhe


causou a mort,e: o dono do cão pesará 2/3 de uma mina
de prata.

O § 56 foi transmitido apenas pela tábua «A» IV, 20-23a.


O legislador aborda aqui uma outra possibilidade que não é
tratada nem no Código de Hammurabi nem na legislação bíblica.
Do ponto de vista literário, o § 56 é formulado em paralelismo
perfeito com o § 54. As circunstâncias do delito são descritas
detalhadamente. Trata-se de um kalbum (UR.GI7) se-gi: «cão
feroz».601 O proprietário do animal já foi notificado pelas auto-

605. Cf. § 252: «Se foi o escravo de um awilum: pagará 1/3 de


uma mina de prata». Cf. E. Bouzon, op. cit. p. 99.
606. Lit.: ba-ab-tum. Cf. W. von Soden, AHW, p. 94b.
607. Cf. W. von Soden, AHW, p. 1208b: segam I «wild, agressiv».

142
ridades (ba-ab-tum a-na be-lí-su ú-se-di-ma: «o distrito infor-
mou o seu dono»). Mas o proprietário UR-OI7-su Ia i~-~ú-ur-ma:
«não vigiou o seu cão», Lé: não prendeu, nem amarrou o seu
cão. Por isso, esse proprietário é responsável pelos danos que
seu cão causar. O delito tratado no § 56 é caracterizado pelas
duas formas verbais is-su-uk-ma = «mordeu» (um pretérito O
da raiz acádica nasãku) e us-ta-mi-it
600 =
«causou a morte» (um
perfeito S da raiz mâtum). A pena imposta se a vítima for
609

um awl1um é a mesma do § 54: 2/3 de mina, i.é: 40 sidos


(cerca de 320 g) de prata.

§ 57

Se mordeu um escravo e lhe causou a morte, pesará 15


siclos de prata.

O texto do § 57 foi transmitido, apenas, pela tábua «A» IV,


23b-24. Este parágrafo continua a casuística do § 56. Em ana-
logia com o § 55, é apresentada aqui uma alternativa que pode
atenuar o rigor da multa imposta no § 56. Para a aplicação da
pena, como no § 55, deve ser tomada em consideração a condi-
ção social da vítima. Se o cão feroz agrediu e matou não um
awl1um, mas um escravo, a compensação exigida é menor: 15
sidos (cerca de 120 g) de prata. Trata-se da mesma soma
exigida no § 55 para o caso de um escravo escorneado e morto
pelo boi de um awl1um.
Na linha 24 a agressão do cão feroz é expressa pela forma
verbal ik-ki-im-ma - um pretérito O da raiz nakãpum =
«escornear» - que é, certamente, um erro de cópia em lugar
da forma normal is-su-uk-ma (pretérito O da raiz nasãkum =
«morder» ).
Os 15 sidos exigidos como compensação pelo escravo morto
nos §§ 55 e 57 correspondem, sem dúvida, ao preço de um
escravo naquela época, como nos mostra o § 13 do Código de

608. Cf. W. von Soden, AHW, p. 758a.


609. Cf. W. von Soden, AHW, p. 634b.

143
Lipit-Ishtar. 61. Se Hammurabi exige no § 252 1/3 de uma mina,
i.é: 20 siclos, pelo escravo morto, isto se deve provavelmente
ao fato de que, no tempo de Hammurabi, o preço de um escravo
se tinha elevado consideravelmente.

§ 58

Se um muro ameaça cair e o distrito informou o proprie-


611

tário do muro, mas (este) não reforçou o seu muro e o


muro caiu e causou a morte do filho de um awílum: (este
é um processo de) vida. Decreto do rei.

Somente a tábua «A» IV, 25-28 nos transmitiu o texto


deste parágrafo. Do ponto de vista formal ele apresenta a mesma
estrutura literária dos §§ 54 e 56. As circunstâncias que carac-
terizam o delito são descritas detalhadamente na prótase. Mas
a casuística aqui tratada é diferente da dos §§ 54 e 56. Não se
trata mais de um animal feroz, mas do muro ou parede de uma
casa: i-ga-rum i-qa-am-ma: «um muro ameaça cair». O pro-
prietário do muro já foi devidamente avisado pelas autoridades
locais do perigo que o seu muro inseguro representa para a
comunidade. Mas ele não tomou providência alguma: i-ga-ar-su
Ia ú-dan-nin-ma: «não reforçou o seu muro». Por isso, se o muro
cair e matar um mãr awiJim = «filho de awl1um», Lé: um «awi-
lum», ele será considerado responsável pelo acidente e pela morte
da vítima causada pelo desmoronamento do muro. A pena im-
posta não é mais uma compensação financeira como nos §§ 54 e
56. Ela é definida na apódose do parágrafo pelo termo na-pi-is-
tum: «vida» 612, que corresponde, sem dúvida, à locução din na-
pistim do § 24 ou awat napistim do § 48. O delito é, pois, con-
613

610. Cf. F. R. Steele, The Code of Lipit-Ishtar, Philadelphia 1948,


p. 15s: § 12: <df a slave-girl or slave of a man has fled into the heart
of the city and it has been confirmed that he (or she) dwelt in tile
house of (another) man for one month, he shall give slave for slave».
§ 13; <df he has no sI ave, he shall pay fifteen shekels of silver».
611. Lit.: ba-ab-tum. Cf. W. VO'n Soden, AHW, p. 94b.
612. Cf. W. von Soden, AHW, p. 738s.
613. Cf. acima p. 92s e 130s. Cf. tb. O Código de Hammurabi, § 3.
144
siderado pelo legislador como um crime capital e é imposta a
pena de morte. A apódose termina com a expressão ~i-im-da-at
sar-ri-im: «decreto do rei». 61.Essa formulação aparece freqüen-
temente não só em textos legais, mas também em vários contra-
tos e cartas do período babilônico antigo. O significado exato
615

da expressão «I?imdat sarrim» tem sido objeto de muita dis-


cussão entre os assiriólogos.616 A análise dos textos, em que a
expressão «~imdat sarrim» ocorre, nos mostra, sem dúvida, que
o termo «~imdatum» deve ser compreendido em um sentido con-
creto, como um termo que expressa determinados decretos e
prescrições do rei e não, apenas, em um sentido abstrato da «lei»
ou «justiça».613 A última frase da apódose do § 58 expressa,
portanto, que a pena de morte aqui imposta é uma decisão do rei.
No Código de Hammurabi 'não se encontra um paralelo
perfeito ao § 58. Uma certa analogia, contudo, pode-se consta-
tal' no § 299: «Se um pedreiro edificou uma casa para um
awllum, mas não fortificou o seu trabalho e a casa, que cons-
truiu, caiu e matou o dono da casa: esse pedreiro será morto». 618
Hammurabi refere-se apenas à responsabilidade do construtor de
uma casa em relação à segurança de seu trabalho. O § 58 trata,
porém, da responsabilidade do dono de um muro, que por qual-
quer motivo, seja pela idade, seja pelas intempéries, se tornou
inseguro e ameça ruir.
O legislador do § 58 não diz nada sobre a responsabilidade
do dono do muro em relação aos danos materiais causados pelo

614. Cf. W. von Soden, AHW, p. 1102a. Cf. tb. o Código de Ham-
murabi, § M e § 51.
615, Cf. p. ex.: L.Waterman, Business Documents of the Hammu-
rapi Period, London 1916, N° 33,13; R. Frankena, Briefe aus dem British
Museum, Heft 2, Leiden, 1966, No 19,12; F. R. Kraus, Briefe aus dem
British Museum, Heft 1, Leiden 1964, N° 120,13; E. Szlechter, Tablettes
Juridiques de Ia Ire Dynastie de Babylone, Paris, 1958, p. 107, N°
16.651,8.
616. Cf. J. G. Lautner, Altbabylonische Personenmiete und Erntear-
beitervertrage, Leiden 1936, p. 177-190; M. San Nicoló, Beitrage zur
Rechtsgeschichte im Bereich der keiJschriftlichen RechtsqueIlen, Oslo 1931,
p. 68s; B. Landsberger, «Die babylonischen Termini für Gesetz und Recht»
em Symbolae ad iura Orientis Antiqui pertinentes Paulo Koscha:ker de di-
catae, Leiden 1939, p. 219-234; F. R. Kraus, Ein Edikt des Kanigs Ammi
- ~aduqa von Babylon, Leiden 1958,' p. 194s; G. R. Driver-J. C. MiJes,
The Babylonian Laws, vol. I, p. 17-23.
617. Cf. G. R. Driver-J. C. Miles, op. cit., p, 19.
618. Cf. tb. §§ 239, 231, 232, onde a pena varia de acordo com a
posição social da vítima.

145
desmoronamento nas casas vizinhas. Sua única preocupação é
legislar para os casos em que o desastre causar a morte de um
awilum. No Código de Lipit-Ishtar encontra-se uma determina-
ção que lembra a «causa damni infecti» do direito romano. O § 11
das leis de Lipit-Ishtar responsabiliza o dono de um terreno pelo
roubo ocorrido na casa do vizinho, se ele tiver negligenciado
esse seu terreno adjacente e, embora avisado pelo vizinho, não
tenha cuidado de fortificar o muro ou fechar o terreno.'"
Uma comparação entre os §§ 54 e 56 de uma parte, e o
§ 58 de outra, nos leva naturalmente a uma pergunta: Por que
o rigor na pena aplicada no § 58? Quando a morte de um
awilum é causada pelas chifradas de um boi ou pela mordida
de um cão, o dono do animal é obrigado a pagar 40 sidos de
prata. Quando, porém, a morte de um awilum é causada pelo
desmoronamento de um muro, o seu proprietário é condenado
à morte. Aqui também os especialistas tentaram vários tipos de
resposta."'· Mas R. Yaron tem, certamente, razão quando pro-
cura a resposta na própria expressão 9imdat sarrim. A razão
6>l

da diferença das sanções está justamente na diferença de


origem dos §§ 54/56 e § 58. A solução apresentada nos
§§ 54 e 56 reflete, provavelmente, uma larga praxe judicial
dos tribunais babilônicos. Ao contrário, a pena imposta no
§ 58 é um decreto do rei. Trata-se, pois, de uma determinação
do rei de Eshnunna para coibir abusos ou punir um caso
especial ocorrido no Reino. A intervenção real entrou, então, no
dia-a-dia dos tribunais de Eoshnunna e passou a ser aplicada em
casos semelhantes.

619. Cf. F. R. Steele, The Code of Lipit-Ishtar, p. 15, § 11: <<lf


adjacent to the house of a man the bare ground of (another) man has
been neglected and the owner of the house has said to the owner of
the bare ground 'Because your ground has been neglected someone may
break into my house: strengthen your house' and this agreement has
been confirmed by him, the owner of the bare ground shall restore to
the owner of the house any of his propriety that is lost». Cf. tb. Código
de Hammurabi, §§ 53-56.
620. CL p. ex.: A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 140s; E.
Sz!echter, Les Lois d'Esnunna, p. 122.
621. Cf. R. Yaron, The Laws of Eshnunna, p. 199s.

146
§ 59

Se um awílum repudiou a sua esposa, depois de ter gerado


filhos (com ela), e tomou uma outra como esposa: ele (ela?)
será afastado (a?) de sua casa e de tudo que (nela) há e
ele (ela?) poderá seguir a quem ama. .

o § 59 encontra-se apenas na tábua «A» IV, 29-32. A


tábua «B» não transmitiu este parágrafo. Isto se deve, sem
dúvida, ao fato de estar o fim da coluna IV da tábua «B»
bastante mutilado.
A casuística geral do parágrafo é bastante clara, embora
seja. bem difícil a interpretação de alguns detalhes da lei. O
parágrafo trata de um caso especial de divórcio. A formulação
da prótase é bastante simples. Três elementos são característi-
cos: 1) Um awilum se divorcia de sua esposa; 2) Esta esposa
já lhe gerou filhos; 3) Esse awilum esposa uma outra mulher.
Estes três elementos parecem essenciais para caracterizar o
delito aqui punido. O sujeito dos três verbos da prótase -
wu-ul-lu-ud «fez gerar», i-zi-im-ma «repudiou», i-ta-l].a-az
«tomou como esposa» - é o mesmo awilum. A intenção do
legislador é evidente: defender os direitos de uma esposa que
gerou filhos ao seu marido e, em última análise, defender
também os direitos desses mesmos filhos. Goetze observa, com
razão, que a finalidade principal do casamento na sociedade
babilônica era a perpetuação da família; por isso, a esposa que
satisfaz essa finalidade gerando filhos, goza da proteção da
lei.622 Neste parágrafo, o delito do awilum é determinado por
dois atos desse homem: divórcio da mãe de seus filhos e um
novo casamento contraído com uma outra mulher. Parece-nos
sem fundamento a conclusão de Goetze, que vê como inválido

622. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 145: «The maÍn purpose of


marriage is the perpetuation of the family. To a wife who fulfills this
purpose the law accords special protection; she cannot be divorced at
the will of the husband». Mas d.tb. a opinião contrária de E. Ebeling
e V. Korosec no art. «Ehe» em Reallexikon der Assyriologie, vol. II,
p. 281s. Cf. tb. A. van Praag, Droit matrimonial assyro-babylonien,
p. 193s.

147
o divórcio da esposa que gerou filhos.623 O § 59 não fala nada
de ilegalidade ou nulidade do ato de divórcio. Apenas exige um
preço bem alto para o tipo de divórcio aqui caracterizado, como
se verá na interpretação da apódose.
Se a interpretação da prótase era simples, a apódose, ao
contrário, apresenta várias dificuldades gramaticais e textuais,
que dificultam a sua compreensão. A prótase mencionava dis-
tintamente três pessoas: o aw'ilum, a esposa repudiada e a nova
esposa. Na apódose, ao contrário, não é mencionada diretamente
nenhuma das três pessoas. Há apenas três verbos, cujos' sujeitos,
do ponto de vista gramatical, podem ser masculinos ou femininos.
Portanto qualquer uma das três pessoas introduzidas na prótase
pode ser sujeito dos verbos da apódose. O primeiro verbo
in-na-sa-ab- - um presente N da raiz nasãb-u - «será afastado»
e o terceiro verbo it-ta-Ia-ak - um perfeito G da raiz alãku -
acompanhado da partícula warki = «seguirá» foram integral-
mente transmitidos. Já o segundo verbo, introduzido pela partí-
cula relativa «sa», por causa de uma lacuna na tábua, foi
transmitido incompleto e deve ser completado por meio de textos
paralelos ou de uma conjectura textual.
Na edição «princeps» das tábuas «A» e «B», Goetze trans-
creve o texto cuneiforme: i-na bitim li ma-I [a i-b] a-su-ú
in-na-sà-ab--ma wa-ar-ki sa xxx it-ta-Ia-ak, mas sem tentar uma
reconstrução da lacuna. Na edição «standard» ele propõe a
624

leitura i-ma- [ab--b-a-ru] -su para a lacuna. Para Goetze o


625

sujeito dos três verbos da apódose é o marido. W. von Soden


sugere a leitura sa i-ra-a [m-mu] -si, tomando o aw'ilum como
sujeito do verbo râmum = «amar» e traduz « ... der (Frau)
nach, die er Iiebt wird er gehen».626 M. San Nicolà propõe a

623. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 146: «But the implication c1ear1y
is that the divorce was willful and iIlegal, therefore invalido In consequence,
the second marriage was likewise invalid and the second wife had no
legal standing in the house».
624. Cf. Sumer 4 (1948), p. 90 e na p. 91 apresenta a tradução:
« . .. he shall be driven from his house and whatever he owns and go
after ... »
625. Cf. A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 142 onde traduz:
«he shall beexpelled from (his) house and whatever (property) there
is and he will go after him who will accept him».
626. Cf. art. «Kleine Beitrage zum Verstandnis der Gesetze Ham-
murabis und Bilalamas», ALOL 17/2 (1949), p. 373. Para W. vou
Soden o "sujeito dos três verbos é o awIlum. Ele será afastado de sua
casa e de seus bens e poderá então seguir a mulher que ama.
\

148
restauração textual i-b [u-uz-z] u. 627Sua proposta foi seguida,
om pequenas correções, por B. Landsberger que transcreve o
texto: wa-ar-ki sa i-ib- [ha-zu l-ma it-ta-Ia-ak: «ele seguirá (a
mulher) com quem se casará ... ».'" P. Koschaker, seguindo
a leitura proposta por von Soden, chega a uma interpretação
totalmente diferente. Para ele os três verbos da apódose refe-
rem-se à segunda esposa: ela será afastada da casa de seu
primeiro marido e perderá tudo que tiver trazido, mas poderá
seguir o homem que ela ama. 62\l
E. Szlechter aceita a sugestão de Koschaker que a segunda
mulher é o sujeito dos verbos da apódose, mas apresenta uma
outra interpretação. "'" Para ele a finalidade do § 59 é regular a
situação financeira da segunda esposa. Na apódose propõe
a seguinte transcrição e tradução do texto: i-na bitim u ma- [Ia
i-ba ]-su-ú in-na-sà-ab-ma wa-ar-ki sa i-r [a-a] s-s [u] -ú it-ta-
la-ak: «... celle-ci sera privée de Ia maison et de tout ce qui
existe (des biens actuels); à l' avenir ce qu'il acquerra elle sui-
vra».631 Na interpretação de R. Yaron, o sujeito do primeiro
verbo da apódose - in-na-sà-ab = «será afastado» - é o
awilum. 6"" Mas o segundo e o terceiro verbos se referem à
esposa repudiada. O legislador concede a essa esposa repu-
diada pelo seu marido, que se casou com outra mulher, o direito
de casar de novo com o homem que ela amar. 633
Esta rápida visão panorâmica da literatura existente sobre
o § 59 nos mostra como é difícil uma interpretação definitiva
do parágrafo. A linguagem quase telegráfica da apódose e a
lacuna existente no texto tornam difícil sua compreensão. Com

627. Cf. art. «Rechtsgeschichtliches zum Gesetz des Bilalama von


Esnunna», Orientalia 18 (1949), p. 260.
628. Cf. art. «lungfraulichkeit», p. 102: «er folgt (der Frau) mit
der er in Hinkunft verheiratet sein w.ird ... » Na interpretação de Lands-
berger o sujeito dos três verbos da apódose é o awilum que será
afastado de sua casa e de seus bens e deverá seguir a esposa com que
se casará.
629. Cf. art. «Zur Interpretation des art. 59 des Codex Bilalama»
em lCS 5 (1951), p. 104-122. Cf. p. 113: «Sie ist aus dem Hause ihres
Mannes ausgewiesen mit Verlust ihres Eingebrachten ... »
630. Cf. Les Lois d'Esnunna, p. 52s.
631. Cf. E. Szlechter, op. cit. p. 33.
632. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 142s.
633. Cf. ibid. p. 144: «Hence, the proposed reading of the second
part of the apodosis is warki sa ira [mm] usu ittalak, to be rendered
«she may go after him whom she will love». Na p. 145: «We submit,
in conclusion, that the person who is granted power to remarry is W 1».

149
Finkelstein julgamos que a leitura mais conforme os restos dos
sinais cuneiformes existentes na lacuna, no meio da apódose,
é i- [ra-am-mu] -ma, uma forma presente O da raiz râmu =
«amar» .••• Assim temos as três formas verbais in-na-sa-ag-ma.
i-ra-am-mu-ma e it-ta-la-ak. O problema é determinar o sujeito
desses três verbos. De acordo com o contexto, o sujeito mais
provável do primeiro verbo é o awilum que se divorcia. A lei
permitia, sem dúvida, a um awilum divorciar-se de sua esposa,
mãe de seus filhos. Mas esse awilum deveria, nesse caso, aban-
donar o seu lar e os seus bens. A casa e os bens ali existentes
ficariam em posse da mulher repudiada e de seus filhos. Uma
determinação análoga encontra-se no § 137 do Código de Ham-
murabi. 635 Este § 137 priva o homem que se divorciar de uma
sacerdotisa sugetum ou nadHum, que lhe deu filhos, da metade
de seus bens, que é entregue à esposa repudiada e a seus filhos.
O § 59 de Eshnunna parece mais rigoroso e estende o caso a
qualquer esposa repudiada que tenha gerado filhos a seu marido.
Mas o princípio é o mesmo, tanto no § 59 como no § 137 do
CH. Apenas a quantia varia. Por isso, não nos parece convin-
cente a opinião de Koschaker, que julga impossível que o legisla-
dor afaste o homem de sua casa, destruindo destarte a unidade
da família. As leis sumero-babilônicas conhecem outros casos,
63G

em que o chefe da família é punido com o afastamento da


comunidade familiar. Assim, nas leis familiares sumérias, publi-
cadas na série «ana ittisu», lê-se a seguinte prescrição: sum-ma
a-bu ana ma-ri-su ul ma-ri at-ta iq-ta-bi· ina É ti i-ga-rim
i-te-el-li: «Se um pai diz a seu filho: «Tu não és meu filho»: ele

634. Cf. J. J. Finkelstein, «On Some Recent Studies in cuneiform


Law» em JAOS 90 (1970), p. 255: «The best reading, in terms of
context and as best fitting the traces is i-'ra-am-mu'-ma».
635. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 65: «Se um awilum
decidiu repudiar uma sugetum, que lhe gerou filhos, ou uma naditum
que lhe obteve filhos: devolverão a essa mulher o seu dote e dar-Ihe-ão
a metade do campo, do pomar e dos bens móveis e ela educará os seus
filhos. Depois que tiver educado os seus filhos, de tudo o que foi deixado
para seus filhos, dar-Ihe-ão a parte correspondente à de um herdeiro
e o homem de seu coração poderá tomá-Ia como esposa». Compare
com os §§ 138 e 139.
636. Cf. P. Koschaker, art. «2ur Interpretation des art. 59 des
Codex Bilalama», em JCS 5 (1951), p. 107: « ... nirgends kommt das
Gesetz auf den Gedanken bei verbotener oder auch nur missbilligter
Ausübung seines Scheidungsrechts den Mann aus dem Hause zu entfernen
und so die Einheit der Familie, die es doch aufrechterhalten will, zu
zerstbren».

150
perderá casa e muro». 631Pode-se, pois, concluir que o sujeito do
verbo in-na-sa-al). = «será afastado» é, certamente, o awllum que
repudiou a mãe de seus filhos. Esta solução é do ponto de vista
gramatical possível e não há objeções sérias, sob o aspecto legal,
que nos obriguem a abandoná-Ia.
Na segunda parte da apódose a melhor reconstrução do
texto parece. ser sa i-ra-a [m-mu] -su ou, como quer Finkelstein,
sa i-ra-am-mu-ma. O significado é ess'encialmente o mesmo. A
segunda parte da apódose seria a cláusula wa-ar-ki sa i-ra-a [m-
mu] -su it-ta-Ia-ak. O sujeito dos dois verbos deve ser o mesmo.
R. Yaron propõe a tradução: «she (a esposa repudiada) may
go after bim whom she will love». 638Neste caso o legislador
concederia à esposa repudiada o direito de se casar novamente
com o homem que ela escolhesse. De fato, a cláusula warki sa
irãmmusu ittalak: «ela seguirá a quem amar» pode ser compa-
rada com a formulação «mut libbisa il).l).assi» = «o marido de
seu coração poderá tomá-Ia como esposa» dos §§ 137, 156 e 172
do Código de Hammurabi.
Nas leis assírias encontra-se também a expressão corres-
pondente «ana mut libbisa tussab»: «ela irá morar com o esposo
de seu coração».639 Parece, pois, ser uma tradição legal assiro-
babilônica conceder à esposa repudiada ou abandonada o direito
de contrair livremente um segundo matrimônio.

637. Cf. B. Landsberger, «Di,e Sede ana ittisu» em Materialien zum


sumerischen Lexikon, Roma 1937, vol. I, p. 102, Cf. 7.III 34-39:
34 tukum-bi sum-ma
35 ad-da dumu-na-ra a-bu ana ma-ri-su
36 dumu-mu nu-me-en ul ma-ri at-ta
37 ba.an.na.an.dug.iq-ta-bi
38. é. lngar-ta ina bi-ti u i-ga-rim
39 ba.ra DUL + DU.dê i-te-el-li
Wenn ein Vater zu seinem Sohne
'Du bist nicht mein Sohn'
sagt
des Hauses und der Mauern
wird er ver1ustig gehen.
638. Cf. The Laws of Eshnunna, p. 144. Na mesma linha lb. J
Bottéro; «et alors (sa premiere femme) pourra suivre, (pour se faire
épouser), celui qu'elle [veut]». Cf. Annuaire 1965/1966. École Pratique
des Hautes Études - IV· Section, p. 96. Cf. tb. Série «Ana ittisu»,
tábua 7 III, 4-6.
639. Cf. os §§ 36 e 45 das leis assírias, em G. Cardascia, Les Lais
Assyriennes, p. 184s e 217s.

151
Como conclusão, pode-se dizer que a intenção do legislador
do § 59 era provavelmente punir o esposo que repudiasse a mãe
de seus filhos, afastando-o de sua casa e de seus bens, e, ao
mesmo tempo, conceder à esposa repudiada o direito de contrair
segundas núpcias.

§ 60

[Se] um vigia foi negligente na gua[rda de uma casa] e


um ladrão [arrombou a casa]: o vigia da casa que foi
arrombada. .. será m [orto] ,e, sem [sepu] liura, será enter-
rado [diante do lugar do arrom] bamento.

o § 60 foi transmitido, em estado bastante lacunar, apenas


pela tábua «A» IV, 33-37. O texto está tão mutilado que é
impossível recompô-Io sem a ajuda de conjecturas e suposições.
A tradução acima segue a tentativa de reconstrução do texto
apresentada por B. Landsberger. "'" O ponto de partida foi o
seguinte texto acádico:

33. su [m-m] a LÚ.EN.NUN


34. [É i-na na] -~a-ri-im i-gu-ma pa-al-li-su
35. [É ip-Iu-us] LÚ.EN.NUN É sa ip-pa-al-su
36. [x x x i-du] -uk-ku ba-Ium [a] -ab-ri-su
37. [i-na pa-ni pi] -il-si-im iq-qa-bi-ir

A. Goetze na edição «princeps» renunciou a qualquer ten-


tativa de reconstrução textual e apenas comentou: «§§ 60 and
61 mutilated and incomprehensible».6<1 Uma primeira tentativa

640. Cf. art. «Jungfrãulichkeit» p. 102. J. J. Finkelstein julga essa


reconstrução em JAOS 90 (1970), p. 255: «Landsberger's restoration of
§ 60 is a tour-de-force, considering the state of preservation of the text
at this point, and accepts Goetze's general understanding of the import
of therule, while filling in the language necessary to support it».
641. Cf. art. «The Laws of Eshnunna Discovered at Tell I;Iarmal»
em Sumer 4 (1948), p. 91.

152
· arcial de completar o texto foi apresentada por W. von Soden <>U

e seguida por E. Szlechter. &I' Em 1956, na edição «standard»,


A. Goetze, seguindo em parte a sugestão de von Soden, tentou
um primeira reconstrução do texto todo"', mas concluía: «the
estauration is very difficult». &I' A temática geral do parágrafo
aparece claramente no resto do texto que sobrou na tábua «A»:
o § 60 trata de um vigia negligente no desempenho de sua
função. O Sumerograma LÚ.EN.NUN = mal?l?ãrum = «vigia» 6t6
é claramente legível tanto na fotografia da tábua 1M 51.059
orno na cópia de A. Goetze. A ação desse vigia, caracterizada
pela forma verbal i-gu-ma = «foi negligente» &I' é também facil-
mente decifrável no texto. Outro personagem que aparece cla-
ramente no texto é o pallisu - uma forma parris da raiz palãsu
- «ladrão» .••• A conjectura É ip-Iu-us: «arrombou a casa» do
começo da linha 35 é a leitura mais provável, como se pode
concluir da continuação dessa mesma linha: LÚ.EN.NUN Ê .sa

642. Cf. art. «Kleine Beitrage zum Verstandnis der Gesetze Ham-
murabis und Bilalamas» em Archiv Orientalní 17/2 (l 949), p. 373:
33. [sum-ma] bitum te-us-ut [... ] awilim ...
34. [a?-na? na?] -$a-r·i-im i-ge?-ma: «[Wenn) ein
Haus der Unterhalt [ .... ] eines Bürgers ist. ..
[beim] Bewachen nachlassig ist und ... »
643. Cf. Les Lois d'Esnunna, p. 33:
33. [shum-ma] bitum te-u.-ut [ ... ] awilim
34. [a? -na na?] - ça-ri-im i-gi?-ma
35. [ ]
«Si Ia maison... d'un citoyen:
dans? Ia garde? il 'est négligent. .. »
644. Cf. The Laws os Eshnunna, p. 146:
33 [sum-ma] bltam te-gu-ut awIlim na-za-ru?
34 [iz-zu-ur-ma a-na na]-za-ri-im i-gi?-ma x x x
35 [ ]xxxxxxx
36 [ ] bi-su ba-Ium [ ] -su
37 [ ] x-si-im qa?-bi?-ir
«[If] a guard [guards] a house (which is) a
man's Iivelihood [but] is negligent in guarding
.jt and [the houseis broken into],
[the guard will be killed],
[ando ] unceremoniously
[in front of the bre]ach he will be buried».
645. Ct A. Goetze, The Laws of Eshnunna, p. 146.
646. Cf. A. Deimel, Sumerisches Lexikon, 11, vol. 1, p. 214, 99, 85.
Cf. tb, W. von Soden, AHW, p. 621a.
647. Ct W. von Soden, AHW, p. 191a.
648. Cf. W. von Soden, AHW, p. 816b. Cf. tb. W. van Soden, Grund-
riss der Akkadischen Grammatik, p. 61, 20a.

153
ip-pa-al-su: «o vIgIa da casa que foi arrombada». A pena im-
posta na apódose a partir dos dois sinais que sobraram na linha
36 deve ser [i-du] -uk-ku: «eles matarão» i.é: «será morto».
Depois da partícula ba-lum = «sem», Landsberger lê [qa] -ab-ri-
su: «sua sepultura», mas essa leitura não é evidente nem na
fotografia da tábua, nem na cópia de Ooetze. Na última linha
da apódose, a conjectura [i-na pa-ni pi] -il-si-im: «diante do
lugar do arrombamento» é bastante provável.
Se o texto reconstruído por B. Landsberger corresponder
em suas linhas gerais ao texto original, a intenção do legislador,
neste parágrafo, será punir um vigia negligente, que durante o
seu tempo de guarda não evitou um roubo na casa vigiada por
ele. A pena é severíssima: ele será morto e enterrado diante do
buraco feito no muro, por onde o ladrão penetrou na casa. Um
paralelo longínquo ao § 60 encontra-se no § 21 do Código de
Hammurabi: «Se um awIlum abriu uma brecha em uma casa:
matá-lo-ão diante dessa brecha e o levantarão» .••• Mas no § 21
a pena é aplicada ao ladrão. A interpretação do § 60 continua,
pois, objeto de discussão. Somente novos textos paralelos, que
futuras campanhas arqueológicas tragam à luz do dia, poderão
ajudar-nos a encontrar o sentido exato deste parágrafo legal.

649. Cf. E. Bouzon, O Código de Hammurabi, p. 31.

154
111. O texto cuneiforme em transcrição

INTRODUÇÃO: «A» 1'1-7

[ ) x U4.21.KAM

2 [ ) x DEN.LíL.LÁ DNIN.A.ZU
"v ki
3 [ ) x NAN.LUGAL ES.nun-na
4 [ ) x.A É.AD.DA.A.NI.SE
5 [ .. . . . . .. ) x RA .A. M S'
. u-pu-ur D sarnas
v Vk'1
íD
6 [ ) x BAL.RI.A IDIGNA
GIs
7 [ .... ) MU.1.KAM TUKUL.KALAG.GA. BA.AN.DAB

-: :: <A» [ 8-[7
_ G "R sE a-na 1 GíN KÚ.BABBAR
~ StLA 1.SAG a-na 1 GíN KÚ.BABBAR
3A.'\í 2 SiLA LGIs a-na 1 GíN KÚ.BABBAR
3A: 5 SiLA i.SA~ a-na 1 GíN KÚ.BABBAR
-= 3.-\.: Li D a-na 1 GíN KÚ.BABBAR
= =a-na SíG a-na 1 GíN KÚ.BABBAR
-.: oCR NUN a-na 1 GíN KÚ.BABBAR
- _ ---R NAGA a-na 1 GíN KÚ.BABBAR
- .= -2-na URUDU a-na 1 GíN KÚ.BABBAR
- _ :=:a-na URUDU ep-surn a-na 1 GíN KÚ.BABBAR

sa ni-ís-ba-tirn 3 BÁN sE.BI


sa ni-Ís-ba-tirn 2 BÁN 5 SiLA sE.BI
sa ni-ís-ba-tirn 8 SiLA sE.BI

155
§ 3: «A» I 21-23

21 GíS.MAR.GíD.DA qá-du-um GUD.IJÁ.sa li re-di-sa


22 1 PI 4 BÁN sE Á.BI sum-ma KÚ.BABBAR 1/3 GíN Á.BI
23 ka-Ia uçmi-im i-re-de-e-si

§ 4: «A» I 23-24

Á GIs.MÁ 1 GURUM 2 SILA


li
24 li [ .... ] SILA Á MA.LAIJ4 ka-Ià' uçmi i-re-de-si

§ 5: «A» I 25-26

25 sum-ma MA.LAIJ4 i-gi-ma Gls.MÁ ut-teçeb-bé


26 ma-Ia ú-teçeb-bu-ú ú-ma-al-Ia

§ 6: «A» I 27-28

27 sum-ma LÚ i-na nu-Ia-a-ni GIs.MÁ Ia sa-at-tam


28 i1?-1?a-ba-at 10 GíN KÚ.BABBAR LLÁ.E

§ 7: «A» 28-29
2 BÁN sE Á sE.KUD.KIN
29 sum-ma KÚ.BABBAR 12 sE ABI

§ 8: «A» I 29
1 BÁN sE Á za-ri-i

§ 9: «A» I 30-33

30 LÚ 1 GíN KÚ.BABBAR a-na e-1?e-di a-na LÚ.IJUN.GÁ


31 [li ]-di-in-ma sum-ma re-su Ia ú-ki-il-ma
32 [e] -1?e-dam e-~e-dam Ia e-~í-su 10 GíN KÚ.BABBAR
33 [LLÁ] E

§ 9A: «A» I 33-34

1 BÁN 5 SILA Á URUDU.KIN.A li ku-~i-rum


34 [a-na b] e-li-su-ma i-ta-a-ar

§ 10: «A» I 34-35


156
1 BÁN sE Á ANsE
35 U 1 BAN sE Á re-di-su ka-Ia uçmi-im i-re-de-su

§ 11: «A» I 36-37

36 Á LU.lj:UN.GÁ 1 GíN KÚ.BABBAR 1 PI sE sÀ.GAL.BI


37 ITU I.KAM i-Ia-ak

§ 12: «A» I 37-40


LÚ sa i-na A.sÀ MAs.KAK.EN
38 i-na ku-ru-lim i-na mu-ui?-la-Iim ii?-i?a-ba-tu
39 10 GíN KÚ.BABBAR LLÁ.E [sa i-na mu-s)i-im i-na ku-ru-lim
40 i~-~a-ba-tu i-ma-a- [at J ú-ul i-ba-lu-ut

«B» I 1-3

1 [ ] x
2 [ J i-i?a-ab-ba-tu
3 [ J ú-ul i-ba-al-Iu-ut

§ 13: «A» I 41-42

41 LÚ sa i- [na É sa MAs.KAK] EN i-na É i-na mu-u~-Ia-lim


42 [ ] sa i-na mu-si-im
43 [..................]

«B» I 4-7

4 [Lú s] a i-na É sa MAs.KAK.EN i-na É i-na mu-ui?-la-Iim


5 ii?-i?a-ab-tu 10 GíN KÚ.BABBAR i. LÁ. E
6 sa i-na mu-si-im i-na 'É i~-i?a-ab-ba-tu
7 i-ma-a-at ú-uI i-ba-al-Iu-ut

§ 14: «B» I 8-9

8 Á LÚ.TÚG 1 TúG 5 GíN KÚ.BABBAR li-bil-ma 1 GíN ABI


9 10 GíN KÚ.BABBAR li-bi-il-ma 2 GíN Á.BI

§ 15: «B» I 10-11

10 i-na qa-ti SAGJR u OÉME DAM.GÀR u


sa-bi-tum

157
11 KO.BABBAR se-a-am SíG LGIs a-di ma-di/ti-im ú-uI
i-ma-l].a-ar

§ 16: «A» II 1

1 DUMU.LÚ Ia zi-z[u ]

«B» I 12

12 DUMU.LÚ Ia zi-zu li SAG.lR ú-uI iq-qi-a-ap

§ 17/18: «A» II 2-5

2 DUMU.LÚ a-na 'É e[-mi-im 1


3 sum-ma i-na ki-Ia-al-li-in i [s-te-en]
4 a-na si-im-tim it-ta-Ia-ak ma-Ia ub- [lu]
5 ú-ul ú-se-e~-~é wa-tar-su-ma i-Ie-qé

«B» I 13-18

13 DUMU.LÚ a-na É e-mi-im ter-l].a-tam li-bi-il-ma


14 sum-ma i-na ki-la-al-li-in is-te-en a-na si-im-tim
15 it-ta-la-ak KO.BABBAR a-na be-lí-su-ma i-ta-a-ar
16 sum-ma i-l].u-ús-si-ma a-na É-su i-ru-ub
17 lu-ú a-x-l].a-x-x kaI-la-tum a-na si-im-tim it-ta-Ia-ak
18 ma-Ia ub-lu ú-ul ú-se-~e wa-tar-su-ma i-le-eq-qé

§ 18A: «A» II 6-7

6 1 GíN IGI.6.GÁL li 6 sE MÁs ú-~a-ab


7 1 GUR 1 PI 4 BÁN MÁs ú-~a-ab

«B» I 19-20

19 GíNUM IGI.6.GÁL ú 6 sE MÁs ú-~a..:ab


20 1 GUR UM 1 PI 4 BÁN sE MÁs ú-~a-ab

§ 19: «A» II 8-9

8 LÚ sa a-na me[-e{J-ri-su] i-na-ad-di-nu


9 i-na mas-.kán-n[im ú] -sa-ad-da-an
158
«B» I 21-22

21 [LÚ] sa a-na me-el).-ri-su i-na-ad-di-nu


22 [i-na mas-] kán-nim ú-sa-ad-da-an

§ 20: «A» II 10-13

10 sum-ma Lú x [ .. ] a-na x x x x
11 id-di-in-ma se-a-am a-na KÚ.BABBAR i-te-pu!-u [s]
12 i-na e-bu-ri se-a-am ti MÁs.BI 1 GUR 1 PI 4 B [ÁN]
13 i-Ie-eq-qé

§ 21: «A» II 13-15

sum-ma LÚ KÚ.BABBAR a-na pa-ni-su


14 id-di-in KÚ.BABBAR ti MÁs.BI 1 GíN IGI.6.GÁL ti 6 sE
15 i-Ie-eq-qé

§ 22: «A» II 15-18

sum-ma LÚ e-li LÚ mi-im-ma


16 Ia i-su-ú-ma GÉME LÚ it-te-pé be-eI GÉME ni-is DINGIR
i-[za-ka]r
17 mi-im-ma e-li-ia Ia ti-su-ú KÚ.BABBAR
18 ma-Ia x G'EME TIM 1.LAET •

§ 23/24: «A» II 19-25

19 sum-ma LÚ e-li LÚ mi-im-ma Ia i-su-ma


20 GÉME LÚ it-te-pé ni-pu-tam i-naÉ-su ik-Ia-ma
21 us-ta-mi-it 2 GÉME a-na be-eI GÉME i-ri-ab
22 sum-ma mi-im-ma e-li-su Ia i-su-ma
23 DAM MAs.KAK.EN DUMU MAs.KAK.EN
it-te-pé
24 ni-pu-tam i-na É-su ik-Ia-a-ma us-ta-mi-it di-in na-pÍ-is-tim
25 ne-pu-ú sa ip-pu-ú i-ma-a-at

§ 25: «A» II 26-28


26 sum-ma LÚ a-na É e-mi is-si.•ma e-mu-su
27 ik-si-su-ma DUMU.MÍ.su a-na [sa-ni-im i] t-ta-di-in
28 a-bi ma-ar-tim ter-l).a-at im-l).u-ru ta-as-na ú-ta-ar

159
§ 26: «A» II 29-31

29 sum-ma Lú a-na DUMU.Mí Lú ter-u.a-tam ú-bil-ma


30 sa-nu-ú ba-Ium sa-aI a-bi-sa ú. um-mi-sa im-su-u'-si-ma it-ta-
qa-ab-si
31 di-in na[-pí-i]s-[ti]m-ma i-ma-[at]

§§ 27/28: «A» II 31-37

sum-ma LÚ DUMU.Mí LÚ ba-Ium sa-al


32 a-bi-sa ti um-mi-sa i-u.u-si-ma ti kir-ra-am-ti ri-ik-<sa>-tim
33 a-na a-bi-sa ú. um-mi-sa Ia is [-ku-u] n U4-mi MU l.KAM
i-na É-su
34 li-si-im-ma ú-uI DAM sum-ma x ri-ik-sa-tim
35 ú. kir-ra-am a-na a-bi-sa ti um-mi-sa is-ku-un-ma
36 i-u.u-us-si DAM uÇum i-na su-un LÚ i~-~a-ab-ba-tu i-ma-at
37 ú-ul i-ba-al-Iu-ut

«8» II 1-2

1 [ ri-]ik-sa[-tim ]
2 [ ] ti um-mi-sa is-ku-un-ma i-u.[u-us-si ]

§ 29: «A» II 38-45

38 sum-ma LÚ i-na KASKAL AN se-e[u.-ti] m


39 ti sa-ak-pí-im it-t[ a-as-Ia-a1]
40 ti lu na-au.-bu-tum it-ta-au.-ba-at
41 [U4 -m] i ar [-ku-tim i-na ma-] tim sa-ni-tim-ma
42 [ ] sa-nu-um
43 [ ] it-ta-Ia-ad
44 [ a] m DAM-su
45 [ ]

«8» II 3-7

3 sum-ma LÚ i-na KASKAL se-eu.-tim ú. sa-ak-p [í-im it-ta-


as-Ia-aI]
4 ti lu-ú na-au.-bu-tum it-ta-au.-ba-at U4-m [i ar-ku-tim]
5 i-na ma-a-tim sa-ni-tim-ma it-ta [-sa-ab]
6 as-sa-su sa-nu-ú-um-ma i-ta-u.a-az ti DUMU it[-ta-Ia-ad]
7 i-nu-ú:"'ma it-tu-ra-am as-sa-su i-ta- [a-ar-sum]

160
§ 30: «A» 1145-487 (I1I 17)

[sum-ma] LÚ a_alki
46 [ ] it-ta-bi-it
47 [ ]
48 7 III 1 (7) [ ]

«B» 118-10

8 sum-ma LÚ URU.KI-su ú. be-eI-su i-ze-er-ma it-ta-a.g.-bi-it


9 as-sa-su sa-nu-ú-um-ma i-ta-.g.a-az i-nu-ú-ma it-tu-ra-am
10 a-na as-sa-ti-su ú-uI i-ra-ag-ga-am

§31: «B» II 11-12

11 sum-ma LÚ GÉME LÚ it-ta-qa-ab


12 1/3 ma-na KU.BABBAR LLÁ.E ú. GÉME sa be-li-sa-ma

§ 32: «A» III 3-5

3 [ ] x
4 id- [ di- ] i [n-ma ] -na
5 tar-b[i] -it DUMU-su t [LÁ.E DUMU-su] i-ta-ar-ru

«B» II 13-15

13 sum-ma LÚ DUMU-su a-na su-nu-qí-im a-na tar-bi-tim id-


di-in-ma
14 sE.BA LBA SiG.BA MU 3.KAM Ia id-di-in 10 ma-na
15 tar-bi-it DUMU-su LLÁ.E-ma DUMU-su i-ta-a-ar-ru

§ 33: «A» III 6-9

6 sum-ma G'ÉME ú-sa-ri-ir-ma [DUMU-sa] a-na DUMU [Mi]



7 [i] t-ta-di-in i-nu-ú-ma ir-at-bu-ú
8 [be-] eI-su i-mar-su i-:;;a-ba-su-ma
9 i-ta-ar-ru-ú-su

«B» II 16-18

16 sum-ma GÉME ú-sa-ar-ri-ir-ma DUMU-sa a-na DUMU.Mí


LÚ it-ta-di
161
17 i-nu-ú-ma ir-ta-bu-ú be-el-su i-ma-ar-su
18 i-ljia-ab-ba-su-ma i-ta-ar-ru-su

§ 34/35: «A» III 9-13

sum-ma GÊME !Ê.GALUM DUMU-sa


10 lu DUMU.MÍ-sa a-na MAs.KAK.EN a-na tar-bi-tim
11 it-ta-di-in DUMU lu DUMU.MÍ sa id-di-nuE.GAL LUM
UM
12 it-ta-ba-al li le-qú-ú sa DUMU GEME E.GAL
v
13 il-qú-ú me-l].e-er-su • GALUM.. l-n-a-a b
a-na E.

«B» II 19-23

19 sum-ma GEME E.GAL UM DUMU-sa lu-ú DUMU.Mí-sa


20 a-na MAs.KAK.EN a-na tar-bi-tim it-ta-di-in
21 DUMURUM lu-ú DUMU.MíTUM sa id-di-nu 'E.GALLUM
i-ta-ab-ba-al

22 li le-qú-ú sa DUMU GEME 'Ê.GALUM il-qú-ú


v
23 me-l].e-er-su • GALUM l-n-a-a
a-na E. .. b

§ 36/37: «A» III 14-23

14 sum-ma Lú bu-se-su a-na na-ap-tà-ri a-na ma-~a-ar-tim


15 id-di-in-maE Ia pa-li-is si-ip-pu Ia l].a-li-is
16 a-ap-tum Ia na-às-l].a-at bu-se-e ma-ljia-ar-tim
17 sa id-di-nu-sum ul].-ta-li-iq bu-se-e-su i-ri-a-ab
18 sum-maE LÚ lu-uq-qú-ut it-ti ma-ljia-ar-tim
19 sa id-di-nu-sum l].u-Iu-uq be-el E l].a-li-iq
20 be-el Ê i-na Ê dTispak ni-is DINGIR i-za-kar-sum
21 it-ti bu-se-e-ka bu-su-ia l].al-qú i-wi-tam
22 li sà-ar-tam Ia e-pu-su i-za-kar-su'll-ma mi-im-ma
23 e-li-su ú-ul i-su

«B» II 24-I1I 6

24 sum-ma LÚ bu-se-e-su a-na na-ap-tà-ri-im

.162
25 a-na ma-~a-ar- t·1m I'd - d'I-m-ma
. E. TUM 1a pa- l'1-1S
.v
26 si-ip-pu Ia l].a-li-is a-ap-tum Ia na-as-l].a-at
27 bu-se-e ma-~a-ar-tim sa id-di-nu-sum ul].-ta-aI-li-iq
28 bu-se-e-su i-ri-a-ab-sum
1 sum-ma É LÚ Iu-uq-qú[-ut] it-ti bu-se-e LÚ [ma-~a]-ar-tim
2 sa id-di-nu-sum l].u-Iu-uq be-eI ~Él].a-li-iq
3 b e-e 1·E TIM l-na
. K'A DT·vIspa k lll-IS
.·v DINGIR' I-za- k ar-sum-ma
v

4 it-ti bu-se~e-ka bu-su-ia Iu-ú l].a-aI-qu


5 i-wi-tam u sà-ar-tam Ia e-pu-su i-za-kar-sum-ma
6 mi-im-ma e-li-su ú-uI i-su

§ 38: «A» III 23-25

sum-ma i-na at-l].i-i is-te-en zi-it-ta-su


24 i-na-ad-di-in a-l].u-su sa-ma-am l].a-se-el]. qá-ab-li-it
25 sa-ni-i ú-ma-Ia

«B» III 7-9

7 sum-ma i-na at-l].i-i is-te-en zi-it-ta-su a-na Kú'.BABBAR


i-na-ad-di-in
8 u a-l].u-su sa-ma-am l].a-se-el].
9 qá-ab-li-it sa-ni-i-im ú-ma-aI-Ia

§ 39: «A» III 25-27

sum-ma LÚ i-ni-is-ma
26E-su ana Kú'.BABBAR it-ta-di-in U4-um sa-ia-ma-nu
27 i-na-di-nu be-eI E i-pa-tà-ar

«B» III 10-11

10 sum-ma LÚ I-ll!-Is-ma E-su a-na Kú'.BABBAR it-ta-di-in


11 U4-um sa-a-Ia-ma-nu
v. I-na-a
• t'
d- d'l-nu b e-e 1 ET1M. I-pa-. a-ar

§ 40: «A» III 28-29

28 sum-ma LÚ SAG.iR GEME GUD u si-ma-am ma-Ia i-ba-su,ú


29 i-sa-am-ma na-di-na-nam Ia ú-ki-in su-ma sar-ra-aq

163
«B» III 12-13

12 sum-ma LÚ SAGJR GÉME GUD ú si-ma-am ma-Ia i-ba-as-


su-ú
13 i-sa-am-ma na-di-na-nam Ia ú-ki-in s [u-m] a sar-ra-aq

§ 41: «A» III 30-31

30 sum-ma v.BAR na-ap-tà-rum li mu-du-ú KAs-su i-na-di-in


31 sa-bi-tum ma-l].i-ra-at i-la-ku KAs. i-na-di-in-sum

«B» III 14-16

14 sum-ma v.BAR na-ap-tà-rum li mu-du-ú KAs-su i-na-ad-


di-in
15 sa-bi-tum ma-l].i-ra-at i-il-Ia-ku
16 si-ka-ra-am i-na-ad- [ta] -di-sum

§ 42: «A» III 32-34

32 sum-ma LÚ ap-pé LÚ is-su-uk-ma it-ta-ki-Ís


33 1 ma-na KU.BABBAR LLAE 101 1 ma-na ZÚ 1/2 ma-na
34 uz-nu 1/2 ma-na me-l].e-el? Ie-tim 10 GíN KU.BABBAR
I.LAE

«B» III 17-20

17 sum-ma LÚ ap-pé LÚ is-su-u'k-ma it-ta-ki-is


18 1 ma-na KU.BABBAR LLÁ.E
19 101 1 ma-na ZÚ 1/2 ma-na uz-nu 1/2 ma-na
20 me-l].e-e~ le-tim 10 GíN KU.BABBAR I.LAE

§ 43: «A» III 35-36

35 sum-ma LÚ ú-ba-an LÚ it-ta-ki-Ís


36 2/3 ma-na KU.BABBAR LLÁ.E

«B» III 21-22

21 sum-ma LÚ ú-ba-an a-wi-lim [it-t] a-ki-is


22 .... m] a-na KU.BABBAR I.LÁ.E

164
§ 44/45: «A» 11I 36-38

sum-ma LÚ a-wi-lam i-na ik/g-x-x


37 Ís-ki-im-ma sU-su is-te-bers 1/2 ma-na KÚ.BABBAR LLÁ.E
38 sum-ma GiR-su is-te-ber5 1/2 ma-na KÚ.BABBAR LLAE

«B» 11I 23-25

23 [ ] a-wi-lam i[ -na i] s-ki-in-ma


24 [ ] am LLÁ.E
25 [ ] LLÁ.E.

§ 46: «A» III 39-40

39 sum-ma LÜ a-wi-lam im-l].a-a~-ma l].a-x-x-su is-te-birs


40 2/3 ma-na KÚ.BABBAR LLÁ.E

§ 47: «A» 11I 40-41


sum-ma LÚ i-na x-x-x-tim
41 LÚ i-~-el 10 GíN KÚ.BABBAR LLÁ.E

. § 48: «A» III 42-44

42 li a-na x x xis-tu 1/3 ma-na a-di 1 ma-na


43 [ ] di-nam ú-sa-l].a-zu[-s]u[ma]
44 a-wa-at na-pÍ-is-[tim ]

«B» IV 1-3

1 [ ] ma-na a-di 1 ma-na


2 [ ] ú-sa-l].a-zu-su-ma
3 [ na-] pÍ-is-tim a-na LUGAL-ma

§ 49: «B» IV 4-5

4 sum-ma LÚ i-na SAG.lR sar-qÍ-im GEMÉ sa-ri-iq-tim


5 it-ta-a~-ba-at SAG.lR SAG.lR GÉME GÉME i-re-ed-de

§ 50: «A» IV 2-7

2 [ ] te-] er-tim
3 [ ] SAGJR l].a-al-qá-am

165
4 [ ] OUD ba-aI-qá ANsE ba-aI-qá-am
5 i [9-ba-a] t-ma [a-n] a es-nun-naki Ia ir-di-a-am-ma
6 l-na
. . v
E-su-ma I'k - tI'a- a E. OALLUM v ,
su-ur-qa-am
7 it-ti-su i-ta-wi

«B» IV 6-10

6 sum-ma GIR.NITÁ sa-pir6 íD be-eI te-er-tim


ma:.Ia i-ba-as-su-ú
7 SAOJR baI-qa-am OÉME ba-li-iq-tam OUD baI-qa-am
ANsE baI-qa-am

8 sa É.OAL UM li MAs.KAK.EN i~-ba-at-ma a-na es-nun-naki


9 Ia ir-di-a-am i-na É-su-ma ik-ta-Ia uLmi e-li ITU 1 KAM

10 u-se-te-eq-ma
' v • OALLUM
E. v
su-ur-qa-am I·t - t'I-SU
v • t a-wI '
1-

§ 51; «A» IV 7-9

SAOJR li Ü'ÉME sa 'es-nun-naki


8 sa ka-an-nam mas-ka-nam u ab-bu-tam sa-ak-nu
9 KÁ.OAL es-nun-naki ba-Ium be-lí-su ú-uI u~-~i

«B» IV 11-13

11 SAOJR OÉME sa es-nun-naki sa ka-an-nam ma-as-ka-nam


12 u ab-bu-ut-ta-am sa-ak-nu
13 KÁ.OAL es-nun-naki ba-Ium be-lí-su ú-uI U~-9í

§ 52; «A» IV 10-13

10 SAOJR u GÉME sa it-ti DUMU si-ip-ri":im


11 na-a9-ru~ma KÁ.OAL es-nun-naki i-te-er-ba-am
12 ka-an-nam mas-ka-nam li ab-bu-tam is-sa-ka-an-ma
13 a-na be-lí-su na-~er

«B» IV 14-16

14 SAOJR u OÉME sa it-ti DUMU si-ip-ri-ím na-a9-ru-ma


15 KÁ.OAL es-nun-naki i-te-er-ba-am ka-an-nam ma-as-ka-nam
16 u ab-bu-tam is-sa-ak-ka-an-ma a-na be-lí-su na-~e-er

166
§ 53: «A» IV 13-15

sum-ma GUD GUD ik-ki-im-ma


14 us-ta-mit-it si-im GUD ba-al-ti ti UZU GUD mi-tim
15 be-el GUD ki-la-la-an i-zu-uz-zu

«B» IV 17-19

17 sum-ma GUD GUD ik-ki-im-ma us-ta-mi-it


18 si-im GUD ba-al-tim ti UZU GUD mi-tim
19 [ ] ki-la-aI-Ia-an i-zu-uz-zu

§ 54/55: «A» IV 15-19

PI
DU7
sum-ma GUD DU7 - ma
16 ba-ab-tum a-na be-lí-su [ú ]-se-di-ma GUD-su Ia ú-si-ir-ma
17 Lú ik-ki-im-ma us-ta-mi-it be-eI GUD
18 2/3 ma-na KO.BABBAR LLAE sum-ma SAG.iR ik-ki-im-ma
19 us-ta-mi-it 15 GíN KO.BABBAR LLAE

«B» IV 20

20 [ ] be-lí-su

§ 56/57: «A» IV 20-24

20 sum-ma UR.GI7 se-gi-ma ba-ab-tum a-na be-lí-su


21 ú-se-di-ma UR.0I7-su Ia i~-~ú-ur-ma
22 LÚ is-su-u'k-ma us-ta-mi-it
23 be-eI UR.0I7 2/3 ma-na KO.BABBAR LLAE sum-ma
SAG.iR
24 ik-ki-im-ma us-ta-mi-it 15 GíN KO.BABBAR LLAE

§ 58: «A» IV 25-28

25 sum-ma i-ga-rum i-ga-am-ma ba-ab-tum a-na be-eI i-ga-ri


26 ú-se-di-ma i-ga-ar-su Ia ú- <dan> -nin-ma
27 i-ga-rum Ím-gú-ut-ma DUMU LÚ us-ta-mi-it
28 na-pÍ-is-tum ~Í-im-da-at sar-ri-im

167
§ 59: «A» IV 29-32

29 sum-ma LÚ DUMU.MEs wu-ul-lu-ud-ma DAM-su


30 i-zi-im-ma [sa ]-ni-tam i-ta-ba-az
31 i-na É u ma-l [a i-b] a-su-ú in-na-sa-ab-ma
32 wa-ar-ki sa i-r a-a [m-m] u-su it-ta-Ia-ak

§ 60: «A» IV 33-37

33 su[m-m]a LÚ.EN.NUN
34 ['É i-na na] -I?a-ri-im i-gu-ma pa-al-li-su
35 [É ip-Iu-us] LÚ.EN.NUN É sa ip-pa-al-su
36 [x-x-x i-du ]-uk-ku ba-Ium [qa] -ab-ri-su
37 [i-na pa-ni pi] -il-si-im iq-qa-bi-ir

168
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Z 1
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1M. 52614
, Anverso
1M. 52614, Reverso

2 '3

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