UMA HISTÓRIA DE MUITAS HISTÓRIAS

Pedaços da minha vida Pedaços do meu Sertão Sob a luz da poesia Carlinda Nunes de Brito Brasília - DF Justificativa: A primeira parte deste livro é uma retrospectiva, uma volta ao passado, uma alusão às primeiras famílias que impulsionaram o progresso da minha terra natal, Itapetim – PE A segunda parte refiro-me aos impulsos, sonhos e motivações de minha adolescência, procurando descrever,com felicidade, a minha busca, os meus anseios, mostrando que, foi através do AMOR que encontrei respostas e soluções para todos os problemas e dilemas com os quais me envolvi em várias fases da minha vida. O AMOR me levou ao misticismo e a busca de algo mais profundo, o verdadeiro sentido da vida. E assim eu conto em versos meus desafios diante das dificuldades e contingências familiares, estruturais, humanas e sociais, bem como o redimensionamento das opções de vida, feitas conscientemente sob a luz da filosofia do AMOR, a tônica dominante dos meu atos e dos meus versos, que reconhecendo não terem muita poesia, talvez apenas construção de rimas que expressam a minha maneira de ver, sentir e enfrentar o mundo, engajar-me e adaptar-me as paralelas, sem me deixar abater, e encontrando sempre uma resposta na grande via de acesso à vida: o AMOR

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AGRADECIMENTOS:

Desembargador Valdeci Confessor que oportunizou minha entrada ao curso ginasial; Seu Juvêncio Bezerra Leite e sua filha, Anísia Bezerra de Farias, pelo acolhimento na Cidade de Patos-PB, para estudar no Colégio Roberto Simonse;

A todas as Irmãs do Colégio Cristo Rei em Patos-PB, pelo internato e seqüencia dos estudos como candidata à Vida Religiosa, tendo me tornado, à época, a Irmã Sulamita .

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Sobre a autora:

Carlinda Nunes de Brito nasceu em 04/01/1940, no Sítio Riacho Salgado, pertencente ao Municipio de Itapetim - PE, onde viveu sua infância e adolescência, do sítio para a cidade, até seus 18 anos. Alfabetizou-se na escola do engenho dos Sampaios , e em casa estudava, lia, fazia poesias com ajuda dos trabalhadores do engenho de seus pais , avós e bisavós. Em seguida estudou a quinta série no grupo escolar Dom José Lopes com a professora e prima Jacimã Leite, preparando-se para o exame de Admissão ao Ginásio, recebendo grande ajuda e incentivo do professor Valdeci Gomes Confessor, foi aprovada, mas não teve condições para estudar em São José do Egito, uma cidade vizinha que tinha colégio e, naquela época, a Cidade de Itapetim só tinha até o curso primário. Foi convidada pelo fazendeiro André Bitu e sua esposa Dona Dorita para alfabetizar suas filhas: Socorro e Rilva, além de seus moradores e vizinhos da Fazenda Riacho Verde, de sua propriedade, por não haver uma Escola Rural na região próxima era comum a professora ser paga pelo fazendeiro e residir com a família. Em 1960, por orientação de seu Juvêncio Bezerra, um comerciante próspero da cidade e casado com uma prima sua, foi morar em Patos-PB com Anísia Bezerra de Farias para ajudar nas tarefas de casa e dar continuidade aos seus estudos à noite no Colégio Roberto Simonsen. Em seguida mudou seus objetivos de vida e resolveu entrar no convento da Congregação das Filhas do Amor Divino, através do Colégio Cristo Rei, onde estudou a segunda série ginasial e foi transferida para o postulantado em Natal, no Rio Grande do Norte, onde continuou os estudos. Depois foi admitida ao noviciado e recebeu o hábito tornando-se a Irmã Sulamita, permanecendo na Congregação por 12 anos. Deixou a Congregação por motivos familiares (arrimo de família). Como professora estadual e municipal, em Natal, assumiu a responsabilidade de manter seus pais uma vez que, naquela época, não existiam a aposentadoria e o Funrural. Finda a temporada em Natal, mudou-se para Brasília em busca de melhores empregos na área de educação e psicologia, onde casou-se com o primo José Paulino Nunes, economista e militar da Marinha Naval, onde reside até hoje. Dessa união nasceu Carlos Alberto que lhe deu duas netinhas: Fernanda e Raphaela. Nunca deixou Itapetim fora de seus objetivos e um dia talvez possa retornar a concha familiar e espiritual, para de novo juntar-se aos seus familiares, ao seu povo, às suas raízes. Longe muito longe da gleba onde nasci, nunca consegui esquecer nem perder de vista aquele recanto íngreme que nas épocas de seca ao prenúncio das chuvas, já se

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transformava num paraíso acolhedor onde a própria natureza se encarregava da arbórea ornamentação. Todos aqueles elementos naturais e paisagísticos estão profundamente ligados a minha personalidade. Sinto que a minha energia psíquica tem algo daquela química nordestina e me sinto pedaço, continuação daquela realidade que trago latente em meu ser. Identifico-me com o solo ardil, com as quietudes das tardes, com o sereno da noite, com as fases da lua, com a escuridão das madrugadas frias. Identifico-me com o sertão nordestino em si, com os seus variados climas, com a alegria dos pássaros nas temporadas de inverno. Identifico-me, igualmente, com a gente humilde com sua linguagem transparente que traduz a verdade na mais alta expressão do sentimento. Sofro quando o Nordeste sofre as agruras da seca, o abandono dos governos e a insensatez dos políticos e vibro, igualmente, com os anos promissores e com aqueles que conscientemente lutam pelo seu desenvolvimento e com o progresso que lentamente está chegando por lá ...

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Prefácio – Professor Benone Lopes:

À minha prima Carlinda : De Nininha a Sulamita De Sulamita a Carlinda, Nunca temos o destino nas nossas mãos, Podemos determiná-lo pelo ideal, por tudo aquilo que realmente queremos e pela determinação com que nos firmamos para o que queremos conquistar. Não poderia sequer descrever, ou mesmo analisar a determinação com que se firmou essa criatura sensacional, de coração e alma incomparáveis, na conquista do seu ideal. Nos seus versos descreveu de maneira simples mas, verdadeiramente harmoniosa, sua história e todos os fatos que comprovam sua determinação como gente, como pessoa e como criatura humana, que soube definir-se seguramente nas suas decisões. Sua vida reflete simplicidade. Sua história espelha humanidade. Seus atos exprimem a grandeza de sua alma. Consciente de seus ideais, quando a vida lhe parecia infortúnio, soube ouvir a voz do Senhor atendendo ao chamado de Cristo, que a esperava no seu lugar verdadeiro No seu hábito religioso soube demonstrar ao passar de cada dia, a forma simples de amar, doar-se, de conquistar seus ideais, de fazer amizade e de ser querida por todos que a rodeavam. Como educadora é exemplo de dedicação, empenhando-se para a formação de pessoas humanas, de cidadãos conscientes, capazes de proverem sua própria existência. Despiu-se do seu hábito religioso e, hoje, como filha, mãe e esposa, continua a atender a voz do Senhor, continua ofertando seu mais puro gesto de verdadeira oração de amor. A essa criatura maravilhosa, por quem tenho uma profunda admiração, como nada tenho a lhe oferecer, senão a minha amizade, meu carinho e reconhecimento de sua bondade. Deixo nesta mensagem toda a minha sinceridade e prova de minha admiração pela sua personalidade e firmeza de determinações. Terás sempre em cada amanhecer Uma luz brilhando em teu caminho Em outras vidas farás resplandecer A bondade de Deus com teu carinho E farás do amor toda beleza Dessa vida que Deus te consagrou Com teus gestos simples de grandeza És a mesma Imã na caridade Pela força que tens na amizade Vais pregando a paz e o amor. Do primo e amigo:

Benone Lopes
Itapetim, 25 de janeiro de 1987

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Prefácio – Maria das Neves Marinho (in memoriam): Carlinda, Nem sei mesmo porque me pediste para figurar no prefácio do teu livro, fiquei surpresa, não foi pouca sorte tua? Quem sou eu para falar da poetisa Carlinda, flor dos campos de Itapetim que certamente bebeu na mesma fonte de Rogaciano Leite, nosso poeta maior. A pessoa de Carlinda eu já conhecia de longas datas, mas a poetisa somente agora conheci, e fiquei deveras emocionada com a história de seus antepassados, que ela conta em versos simples cheios de sentimento, saudades, emoções e, acima de tudo, de tanto amor! Posso aproveitar o sentimento do poeta e dizer como disse ele: “Pois algo que se quer quando se escreve/ Pega-se a pena em traços idéias.” Eis aí o fruto dessas idéias que saíram numa efusão de sentimentos, arrancados do coração para a mente e da mente para o papel, porque não podiam mais calar na alma da poetisa e brotavam para aliviar o peito de alguém que soluçava numa avalanche de recordações. É só o que sei dizer da poetisa, certa porém, que ela merece muito mais. E da poetisa humana que ela é? O que posso dizer de alguém que muitas vezes me fez parar para refletir sobre si e nessas reflexões fiquei certa de que nunca seria capaz sequer de imitála. Pois é por tudo isso que eu digo: pra frente mulher corajosa! Reparte comigo o que Deus te sobra e eu serei uma pessoa fortalecida com capacidade para contribuir na mudança desse mundo conturbado, num mundo de harmonia, onde todos juntos possam de mãos dadas entoarem a mesma canção, a canção da paz!

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São José do Egito, março de 1989

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Prefácio – Jó Patriota (in memoriam):

De Jó Patriota para Carlinda, um verso improvisado que fez em alusão ao seu passado e misticamente se afina com as páginas deste livro, onde ele entra em cena como personagem inspirador do mesmo: “A infância esquecer não há quem possa Guardo dela algum filme em minha mente Na beleza que vem do sol nascente Dóira o terreiro da palhoça O meu pai regressando de uma roça Eu recordo na hora que anoitece Minha mãe ajoelhada numa prece Evitar de eu lembrar não há quem faça Passa tudo na vida, tudo passa Mas nem tudo que passa a gente esquece!”

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Sobre o livro: 1 Um livro para a família Para os amigos também Escrito aqui em Brasília Com um desejo porém De deixar com a minha história Um pouquinho de memória De uma distante cidade Dos que por lá passaram E com certeza deixaram Marcas de muita saudade 2 São minhas reminiscências E minhas recordações São minhas experiências Êxitos e desilusões Desta minha travessia Em forma de poesia É dura, é realística É um forte sentimento Mesclando meu pensamento É minha visão humanística 3 São rimas em construção Que vão formando meus versos Realidade e ação E nestes deixo impresso Minha vida detalhada Minha íngreme caminhada Minha origem e parentela Minha maneira de ser Deixando pra você ler De forma simples, singela 4 Nasci longe, no Sertão No interior do Nordeste Na indômita região Entre leste e o oeste Do meu bravo Pernambuco Solo de Joaquim Nabuco Terra enfim das vaquejadas De poetas violeiros Grandes vates seresteiros Das noites enluaradas

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CAPÍTULO I MEU RIACHO SALGADO:

5 Sou filha de Itapetim Que quer dizer pedras soltas Tão linda quanto um jardim Com suas praças em volta Por sua típica aragem Embelezando a paisagem Daquele árido rincão Onde a torre imponente Da Igreja ali presente Se faz ornamentação 6 E foi em teu município Que apareceu um riacho Que deu o nome ao sítio Que nesses versos encaixo É dele que eu vou falar Minhas saudades matar Foi o Riacho mais doce Na região encontrado Mas por Riacho Salgado Um dia assim batizou-se 7 Riacho Salgado era Uma ótima Região Com certeza a primavera Dentro daquele sertão Água pura bem saudável Qualquer criação viável Gado, suíno e galinhas Tudo lá bem se criava E a vizinhança gostava Do Riacho dos “ Ritinhas ”

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8 Em janeiro se aguardava A chuva com ansiedade A terra se preparava Naquela realidade Descer água no sertão Quando se ouvia o trovão A tardinha ribumbar Era mais uma esperança Aproximava a bonança Tudo ia melhorar 9 Eu cresci vendo as belezas Do cenário pastoril E também as sutilezas Daquele céu cor de anil Hora claro e ostentoso Outras vezes tenebroso Com relâmpagos e trovões Assustando a meninada Anunciando a coalhada Alegria dos sertões 10 A noite a chuva caia Fortemente no telhado De manhã o sol nascia E tudo estava alagado Um sol sem brilho e moroso Meu pai homem corajoso Ativo e experiente Com a enxada ia cavando E nós, crianças plantando Atrás a escolhida semente 11 Em frente a casa se via O açude velho sangrando A natureza sorria A região alegrando Aquelas águas barrentas Passando por mil tormentas Lavando todo baixio Trazendo húmus da serra O Nilo da nossa terra Auxiliando o plantio

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12 Cheiro de terra molhada Mata pasto e marmeleiro O tilintar da enxada Depois de um grande aguaceiro A vida toda mudava A passarada cantava Sua canção maviosa Embelezando o cenário Daquele santo sacrário De terra boa e rochosa 13 Os campos enverdeciam Trocando sua roupagem Arbustos apareciam Mudando toda paisagem A caatinga floria Era um show de alegria O sapo boi coaxava Anunciando outra cheia A mata virava aldeia Onde o poeta sonhava 14 Quando os açudes sangravam Íamos aprender nadar Os cabaços se amarravam Para não nos afogar Os troncos das bananeiras Eram nossas nadadeiras Sem biquini, sem maiô Numa pureza total Era tudo natural Do jeito que Deus criou 15 Se a chuva não faltava Era na certa fartura Cada vez mais se plantava Milho, feijão a altura Fazia-se o adjunto Onde todo mundo junto Trabalhava em mutirão Assim todos se ajudavam E a colheita esperavam Com grande satisfação

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16 Marreco e galinha d’água Grasnavam lá no açude E eu tinha grande mágoa Do caçador sem virtude De traiçoeira espingarda Disparando uma rajada Quebrando a sintonia No seio da natureza Deixando ali a tristeza Num gesto de covardia 17 A tardinha os bacuraus Saltitavam no terreiro Tinham a mesma cor dos paus Das cercas do galinheiro Diziam ser agourentos Traziam maus pensamentos E a calma do sol poente O horizonte envolvia Tudo ali entristecia Quase repentinamente 18 O pequeno candeeiro Era hora de acender Vagalumes no terreiro Faziam a gente temer Parecia assombração Piscando na escuridão Mais tarde a lua minguante Surgia lá bem fininha Parecendo uma lasquinha De algum bruto diamante 19 As galinhas logo cedo Subiam para o poleiro Indicando um certo medo Do maracajá trigueiro Porém jolí, o cachorro Prestava logo socorro Jolí o fiel amigo Que na fria madrugada Espantava a bicharada E afastava o perigo

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20 Nesta hora a tristeza Dominava a amplidão O sol em sua nobreza Dava vez a escuridão Os pássaros todos calavam Só os insetos piavam A toada melancólica Deixando a noite assombrosa Até que a manhã garbosa Surgisse linda e bucólica 21 Setembro mês de moagem Como era bom no engenho Um contínuo vai e vem De todos via-se empenho Ah! Tempo bom que se foi Até do carro de boi Grande saudade ficou Não se ouviu mais o grito Do boiadeiro perito Que por ali trabalhou 22 O carro de boi cheinho De cana vinha chiando O canavial verdinho Os homens iam cortando Para as moendas levando As almanjarras rodando Feixes de cana espremendo Muita garapa saindo E lá no parol caindo Depois nas tachas fervendo 23 O mestre e o caldeireiro A garapa ia limpando Há de longe um grande cheiro De mel quente borbulhando E o mestre habilidoso Num calorão vaporoso O melado ia mexendo A rapadura cheirando No ponto ia chegando E nas formas endurecendo

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24 O paiol de rapadura Na casa grande guardado Era a principal cultura Que ali deixava saldo E era o que garantia Com enorme serventia O dinheiro e o alimento Em qualquer necessidade Naquela realidade Rapadura era o sustento 25 Quando passava a moagem O engenho entristecia Deserta sua paisagem Barulho não se ouvia A fornalha esfriava Carro de boi não chiava A bagaceira secando Já bastante amarelada Pelo sol toda queimada Novo plantio esperando 26 Num quarto grande escuro Tinha um caixão de farinha E também coco maduro Milho, feijão também tinha Vários depósitos de zinco Se contava mais de cinco Ali tudo se guardava Em termos de agricultura Havia muita fartura E fruta nunca faltava 27 A casa dos meus avós Era grande e conjugada Com a casa dos bisavós Por fora pela calçada E por dentro um corredor Comprido e acolhedor Mantinha a família unida Com grande satisfação Era a revelação Daquela forma de vida

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28 Da casa de Pai João Não poderei esquecer Está no meu coração Faz parte do meu viver Sentir hoje essa saudade É uma necessidade Pois a alma sertaneja Cultiva suas raízes Descreve a fundo as matizes Quando o coração almeja 29 A casa grande caiada Do meu avô João Ritinha Era uma casa animada E de pintura branquinha Lá nunca faltava gente Recebia-se alegremente A visita que chegava Pro almoço ou pro jantar Teria que se esperar Pois Mãe Quina convidava 30 Te vejo casinha branca De pilares rodeada Tinha acolhida franca E uma alta calçada E varanda de madeira Com jasmins e trepadeira Em cada pilar um vaso De cravinas, que a tardinha Beijá-las o sol já vinha Na ida pro seu ocaso 31 Jasmim e mimo do céu Crisantinas e roseiras Boninas nasciam ao léu Lá debaixo das biqueiras E as ervas medicinais Para sustar os sinais De dores e mal estar O mastruz a carobeira Capim santo erva cidreira Pra qualquer hora tomar

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32 No mês de março rezava-se Pra Virgem da Conceição Trinta e um dia cantava-se Com imensa devoção Minha bisavó “ Mainha ” Todos unidos mantinha Ela era a forte raiz Daquele clã fervoroso “ Painho ” manso e generoso Símbolo do homem feliz 33 Pai João, Mãe Quina também Seguindo a mesma lição A todos fazer o bem E a ninguém dizer não E na arte de servir Sabiam se dividir Mesmo na diversidade Tentavam compreender E a todos atender Sem ferir a unidade 34 Pai João tocava viola Quando da roça chegava A manga e a graviola No seu bisaco guardava Eu pulava da janela A pôr água na gamela E os seu pés eu lavava E na sagrada escritura Ela fazia a leitura E depois me explicava 35 Mãe Quina era habilidosa Fazia renda e bordava Na costura cuidadosa E muito bem cozinhava Nos lábios sempre um conselho Ter Jesus como um espelho Não criticar a ninguém Saber usar o perdão Ser enfim um bom cristão Sem orgulho e sem desdém

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36 Os meus pais eram sinceros Mandavam cedo deitar E por serem mais severos Bem mais cedo levantar Não reclamar, não mentir Não fica com “ qui ” “ qui ” “ qui ” Aguar bem o canteiro Os potes d’água encher A casa toda varrer Principalmente os terreiros 37 Só uma escola rural Havia lá no Juá Considerada ideal Íamos todos pra lá Na mochila um lanchinho E de manhã bem cedinho Pra nesta escola chegar Viajávamos meia légua No lombo de uma égua Felizes a cavalgar 38 Era assim que se vivia Lá em Riacho Salgado Quando o dia amanhecia O pai ia pro roçado A gente para a escola Com os livros na sacola Antes que a gente saísse Ouvia-se um sermão Aprender bem a lição E não trazer “disse, me disse” 39 A meninada crescia Com muita simplicidade O luxo desconhecia Quase não se ia a cidade No sítio tinha de tudo Só era fraco o estudo Somente aprender a ler Contar com habilidade Para em necessidade Alguma carta escrever

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40 Da casa de Pai João Não esqueço o jardim Bem na porta o sombrião Pé de arvoredo e jasmim Hoje só resta a lembrança Do meu tempo de criança Do sítio mais nada existe Nem engenho, nem plantações Das casas só os torrões Naquele recanto triste 41 Recorde onde eu nasci Sítio Riacho Salgado Lá eu brinquei e vivi Hoje ele está acabado Não mais nenhum “ Ritinha ” Marmeleiro, erva daninha Cobriram toda paisagem As nossas casas caíram Os engenhos também ruíram E até nossa linhagem 42 Dos nossos antepassados Ainda restou Mãe Quina Daqueles entes amados Ela cumpriu sua sina Pai João foi, ela ficou E cinco anos esperou Partindo para eternidade Para os filhos e para os netos Bisnetos e tetranetos A dor da grande saudade 43 Hoje tudo é passado Um sonho, uma miragem Quero deixar registrado Neste livro a passagem De uma família pobre Mas de caráter mais nobre Que por ali já passou E com muita honestidade Passou deixando saudade E um exemplo que ficou

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CAPÍTULO II MINHA ADOLESCÊNCIA:

44 Como toda adolescente Em tudo eu era igual Às vezes irreverente Outras cheias de ideal Gostava de passear E muito mais de dançar Aos quinze anos queria Conquistar a independência E não tinha paciência De aguardar esse dia 45 Gostava muito de ler E também de analisar Os fatos para saber Discutir e contestar Gostava de poesia Versos de feira eu lia Cordel e literatura Lia até dicionário Almanaque e anuário Na busca de mais cultura 46 Um personagem importante Motivou-me a adolescência Uma pessoa brilhante E de grande inteligência O qual foi JÓ PATRIOTA Aqui merece uma nota Envolvendo só a mim Ele não sabia, enfim Deste amor sua extensão 47 Ele um boêmio afamado Com a viola na mão Era muito procurado Pelas jovens da região Saudava a todas elas Com frases muito singelas Improvisava um poema deste que encanta a alma Mas depois pedia calma Deixando as vitimas em dilema

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48 Sonhadora, adolescente Não deixei de cair nessa De maneira diferente Interpretei a conversa Jó cantava alegremente Era um mito feito gente Mui simpático e cavalheiro Soube disse e me escreveu Algo que me comoveu Pelo seu tom verdadeiro 49 Não pensava em casamento Vivia para cantar Tinha outro pensamento E não podia me dar Aquela felicidade E diante esta verdade Eu procurei aceitar E resolvi abrir mão Pôr fim nesta questão Novo sonho recomeçar 50 E sem ser correspondida Comecei a procurar uma outra forma de vida Algo maior abraçar Quando alguém me segredou Que já de outro escutou E me falou com carinho Sabendo que eu sofreria Mas o Jó se casaria Com a Dasneves Marinho 51 Foi um impulso a mais Na minha resolução Me veio um súbito de paz Digo até de elevação Senti-me livre de lei Do grande amor que jurei E pelos dois fui rezar Neste sentimento misto Resolvi doar-me a Cristo E para o convento entrar

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52 Dasneves era um talento Verdadeira alegria Um perfeito casamento Se dava na poesia Deus tem lá suas razões Também suas provações Eu encontrei no convento A razão do meu viver Não tinha porque sofrer Em Cristo encontrei alento 53 Meus pais não se agradaram Dessa idéia de convento E até se opuseram Mas deram consentimento Pois eu sempre quis sair Outras coisas descobrir Eu tinha que aprofundar E também compreender Melhor a Deus conhecer E meu espírito elevar 54 Eu gostava de viver E de nada tinha medo Queria tudo entender E comecei muito cedo Com desejo de mudar Minha vida transformar E nos estudos buscar De Itapetim ir além Ser útil a mais alguém Talvez um dia voltar 55 Essa ida pro convento Parecia uma aventura Mas o meu pensamento Repousava na ternura Não via nisto mistério E levava a vida a sério Queria mesmo ir a fundo Meu pai me fazia medo Dizia ser um degredo O outro lado do mundo

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56 Eu não podia ficar Na minha querida roça O jeito era deixar Minha terra, minha choça Tinha mais que procurar Algo para acreditar Só o Cristo era real Só Ele era infinito Para mim não era mito Nascia meu ideal 57 Para poder decidir Passei um ano pensando Me exercitei no servir Com a prima Anísia morando Da casa dela cuidando E à noite estudando Cinco horas levantava Para a missa da matriz E lá em Patos eu fiz A opção que sonhava 58 Depois eu fiquei interna No Colégio Cristo Rei E de aluna moderna Não me diferenciei Mostrei um bom desempenho Orgulho que ainda tenho As Irmãs me observando Pra ver se eu tinha talento Para a vida do convento Que eu estava experimentando 59 Era muito bem tratada E a tudo correspondia No final fui aprovada E já esperava o dia De passar pela triagem E depois seguir viagem Teria que me encontrar Com a Madre Provincial Pra receber o sinal Se poderia ingressar

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60 Abri meu coração Contei toda minha história Quando esperava um "não" Daquela alma notória Que atentamente escutou Para mim assim falou: - Você vai para Natal Continuar estudando Devagar analisando Se é este seu ideal

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CAPÍTULO III IRMÃ SULAMITA

61 E em Natal eu fiquei Com a mestra do Juvenato Logo me adaptei Àquele pensionato Onde as jovens que chegavam As vestes comuns trocavam E naquele ambiente De trabalho e oração Sob a orientação De uma alma inteligente ... 62 Com dias de experiência Eu já era candidata Já demonstrava vivência Era uma coisa nata E o dia determinado Para o noviciado Era dois de fevereiro Para o hábito receber Só para Cristo viver Como causa e amor primeiro 63 Eu busquei sem mágoa e dor Nesta minha doação Estender o meu amor Ao próximo, ao meu irmão Procurei esquecer tudo Dediquei-me ao estudo Denotei-me a oração Com fervor e alegria Encontrando a cada dia Da vida toda razão 64 coComecei a aprofundar E nem sentia saudade Por longe dos meus estar E fui me distanciando Em outra clima entrando Sempre alegre e dedicada Àquela realidade Vivendo a fraternidade Perfeitamente engajada

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65 Após um longo retiro E muita reflexão Era o dia me refiro Da solene vestição A capela engalanada E de flores perfumada Com bastante assistentes Sons de órgãos e violino “Sponsa Cristi” era o hino Emocionando aos presentes 66 De branco todas vestidas Com grinalda e finos véus Todas em prece unidas Agradecíamos aos céus Muitas graças e louvores O altar cheio de flores E de sírios crepitando E a família reunida Ante aquela nova vida Que estávamos abraçando 67 Ali deixávamos tudo O nome também mudávamos Após meses de estudo Tudo novo começávamos Com muita felicidade Jurávamos sinceridade Àquela Congregação Pra no evangelho buscar Forças pra vivenciar O amor e a oração 68 Eu deixei de ser Carlinda Pra ser Irmã Sulamita Numa gratidão infinda Por me sentir já inscrita Naquela Congregação A vida era uma lição De amor a conduzir Em busca da perfeição E da realização Pra Jesus Cristo servir

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69 E Com uma mestra polonesa Todo dia era estudado O princípio da pobreza A vida de muitos santos A ordem nos quatro cantos O silêncio , a oração Lemas de fraternidade Vivência de caridade Muito trabalho e unção 70 Como noviça passei Dois anos de experiência As normas assimilei Em nome da obediência Busquei na Teologia Também na Filosofia O sentido, a explicação De ter tudo na pobreza No meio até da riqueza Pobreza era a profissão 71 A pobreza e a obediência E também a castidade Eram notas de lealdade E ponto de consciência Com muita orientação Também fé e oração Podia-se realizar Aquele estado de vida Por tanta gente esquecida E fácil de exercitar 72 Pra mim não tinha segredo Tudo era simples demais Eu só tinha muito medo De um dia voltar atrás Muitas jovens desistiam E para sair pediam Outras se adaptavam Demonstrando grande zelo Trabalhando com desvelo Pra casa jamais voltavam

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73 Eu pensava estar segura Na concha espiritual Sob aquela estrutura De vida tão fraternal Eu não via sacrifício Naquele santo ofício Por isso me perguntava: Fui mesmo por Deus chamada Para a vida consagrada? - As vezes eu desconfiava 74 E os jardins do convento Convidavam a oração Inspiravam um sentimento Que tocava o coração Tinha um “quê” de poesia Singeleza e harmonia Com os planos elevados Da espiritualidade Onde o amor e a caridade São os dons mais inspirados 75 Quando o sino da capela De madrugada chamava Eu deixava a minha sela E para lá me encaminhava Pro ofício matinal Nas mãos eu tinha um missal, No peito um crucifixo, Recitava o rosário Em frente o Santo Sacrário Diante d’um lume fixo 76 A tardinha se rezava O ofício em latim E o “TE DEUM” se cantava Nas varandas do jardim, Depois a meditação, O silêncio, a emoção Invadiam o ambiente Tudo falava de amor Muita paz interior Fazia-se ali presente

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77 Em Natal no Alecrim Onde ficava o convento No centro tinha um jardim Com pinheiros ao relento Ali estava a raiz Da grande casa matriz Da província do Brasil Onde as Irmãs estrangeiras Nas paragens brasileiras Instalaram seu redil 78 Era um pedaço da Áustria Engastado no Brasil Das estrangeiras a pátria Neste solo tão ardil Aliança da cultura Se dava nesta mistura Francisca Lechener expandiu Para o Brasil enviou Seu rebanho aqui ficou E daqui jamais saiu 79 Nos fins de tarde serena Era como se ouvir Uma música de Viena Por ali repercutir Nos acordes de um violino Danúbio azul era o hino Que expressava a saudade Daqueles que aqui vieram E nesse Brasil quiseram Viver em fraternidade 80 O convento e o colégio Eram os dois o mesmo lar Ocupavam o mesmo prédio Com varandas pra limpar Era um trabalho pesado Porém bem orientado Quando as aulas terminavam A quietude voltava Nas preces se meditava E silêncio e paz reinavam

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81 Toda minha juventude Dediquei com muito amor E em cada atitude Uma marca de fervor Era muito estudiosa E também atenciosa Amava a Congregação Das Filhas do Amor Divino Sem esperar que o destino Reservasse-me outra missão 82 Os três votos de pobreza Castidade e obediência Eu vivia com pureza Cultivando toda essência Daquela sublime vida Nunca fiquei deprimida Admirava as Irmãs Mais velhas em oração O fervor e a devoção Naquelas calmas manhãs

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CAPÍTULO IV POR AMOR ENTREI, POR AMOR SAÍ DO CONVENTO

83 Até que um dia chegou Uma carta diferente Que me desestruturou Me deixou quase doente Alguém assim me dizia Como era que eu vivia Apregoando a verdade Sem os meus pais ajudar Deixando muito faltar E vivendo numa irmandade 84 E algum tempo fazia Que os mesmos não visitava Ir a passeio não podia Só quando a norma mandava Profundamente chocada Me senti ameaçada E fui lá de perto ver Se tudo era verdadeiro Tinha que saber primeiro Pra pensar no que fazer 85 Chegando em casa encontrei As coisas bem diferentes Já não tinha o que deixei Sítio, gado, nem sementes Tudo Havia acabado Meu pai velho e cansado Já de tanto labutar Não perdia a esperança De ver chegar a bonança Pois quem espera sempre alcança

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86 Com a tal carta concordei Esse alguém tinha razão Estava fora de lei Filial do coração Como ajudar os de fora Todo dia e toda hora Se os que me deram a vida Precisavam dessa ajuda A caridade não muda A coisa era definida 87 Falei a provincial Da minha congregação Grande Alma sem igual Que me deu uma lição Considerada de luz Que o heroísmo da cruz Exigia sacrifício E que lá fora a dureza Me esperava com certeza Eram os ossos do ofício 88 Voltei como doação Para os meus pais ajudar Era a única solução Tinha que recomeçar E foi tão difícil a lida Mas não reclamo da vida Por tudo quanto vivi Eu jamais esquecerei Que se por amor entrei Foi por amor que sai 89 Sendo eu já professora Já passei a contratada Como alfabetizadora Pois estava preparada Trabalhava os três horários Pra conseguir honorários E assim restabelecer O equilíbrio da família Era a única como filha Em condições de prover

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90 Permaneci em Natal A família toda veio Me senti num vendaval Sem poder sair do meio Fazendo uma faculdade Foi grande a dificuldade Com salário magistério Sem tempo para estudar Tinha mais que trabalhar E o problema foi sério 91 E não foi fácil enfrentar Tudo de cabeça erguida Comecei a fraquejar Por não encontrar saída Mas encontrei uma gente Que a tenho bem presente Ana Lélia, Dona Lídia Dr. Valtércio Bandeira Família hospitaleira Que a bondade irradia 92 Não somente Ana Lélia Que em casa me acolheu Lá de Açu Dona Ofélia De mim não se esqueceu Irmã Judite também Dos limites foi além Era presença constante Em todos os dissabores Já que nem tudo foi flores Nesse passado distante 93 Meus pais não se adaptaram E tiveram que voltar As coisa se complicaram Tive que improvisar Uma outra solução Naquela situação Foi Ana Lélia Bandeira A tábua da salvação Me estendeu a mão Com dedicação inteira

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94 Com Dona Lídia morando Não deixei a Faculdade Continuei trabalhando Com garra e dignidade Para o dinheiro enviar Para os meus pais nada faltar Foi essa a finalidade Porque deixei o convento E com esse pensamento Vivo a realidade 95 Com dois anos de ausência Da família e do Convento Já sem muita paciência Às vezes um casamento Sempre me aparecia Só que eu não sentia Com essa disposição Porém a vida é um drama Em cada ato uma trama No palco da encenação 96 Resolvi deixar Natal Tentar a vida em Brasília Pois não Podia afinal Mais um naquela família Que já tinha feito tanto Enxugando o meu pranto Eu teria que lutar Pela minha independência Superar toda carência E me reequilibrar

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CAPÍTULO V MINHA VIDA EM BRASÍLIA:

97 Para Brasília mudei Emprego fui procurar Mas esse não encontrei E tive que esperar Fiquei num pensionato Porque julgava sensato Continuar estudando Mas o dinheiro acabou E um dia a fome chegou Quase me intimidando 98 Sem emprego não podia Ficar mais de um mês Procurava todo dia Com a maior avidez Lia os classificados Verificava os chamados Era final de novembro As escolas não chamavam Pois também não precisavam De professor em dezembro 99 Foi um período pesado Difícil de ser descrito Hoje ele é passado Com ele já não me irrito Posso dizer que venci Lutei muito e sofri Aqui não quero contar Os momentos de amargura Quero esquecer as agruras Preferindo não lembrar

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100 Finalmente em janeiro O tal emprego pintou Já em fins de fevereiro Outro colégio chamou E o que eu tinha passado A ninguém tinha contado E assim chegou a vez De em mim poder confiar Pra casa poder mandar Dinheiro no fim do mês 101 E a vida fui enfrentando Com pouco de segurança Trabalhando e estudando Sempre com muita esperança Não tinha grande ilusão Mas surgiu uma emoção Nos reveses do destino Os planos de casamento Chegaram bem no momento Quando chegou o Paulino 102 Éramos da mesma cidade Mesma família também E em questão de idade Eu não ficaria além Em Brasília já estava Há alguns anos trabalhava Ele como militar E eu ex-religiosa Numa tarde calorosa Resolvemos nos casar 103 Foi um amor diferente Baseado na razão E também inteligente Amizade sem paixão O coração me acordou E a emoção despertou Pois estava adormecida Desta vez eu acertei E a ele eu dediquei Minha afeição, minha vida

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104 Juntos nós dois buscamos Construir felicidade Juntos também trabalhamos Com muita sinceridade E também nos divertimos E muito bem nos sentimos Por termos nos encontrado E cada um foi consciente Que o amor é uma semente Restava ser cultivado 105 É amigo e companheiro Digno e muito leal Tem um sorriso matreiro Um coração sem igual É bom pai, é generoso É dedicado e bondoso Está sempre do meu lado Tentando compreender Me ajudando a entender Feliz e bem humorado 106 Desta feliz união Veio pra nós Carlos Alberto É veia do coração Chegou no momento certo Um garoto bem dotado Muito simples e calado Responsável, inteligente De habilidade artista Tem alma de artista E deve ser certamente 107 Demonstra aptidão Para música e desenho No órgão, no violão Também mostra desempenho Bom aluno em karatê Não sei o que ele vai ser Estuda, mas sem gostar, Porque há necessidade E esta dificuldade Me deixa muito a pensar

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108 Só peço a Deus que lhe dê Saúde e compreensão Para que ele possa ver E sentir a dimensão Da vida em profundidade E nesta realidade Busque os melhores meios Em Deus tenha esperança Em si muita confiança Pra resolver seus anseios 109 Minha história já contei Mas ainda tenho a falar Da cidade que deixei E as pessoas relembrar E os jovens de Itapetim Talvez perguntem a mim De quem é que estou falando Direi dos antepassados Dos que hoje são ausentes E neles estou pensando

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CAPÍTULO VI SAUDADES DE ITAPETIM NOS TEMPOS DAS UMBURANAS:

110 Reporto-me a Vila Umburanas Hoje Cidade Itapetim Longe das zonas Serranas E pelos tropeiros enfim Era muito procurada Como descanso e parada Talvez foi lá que nasceram As primeiras inspirações As poéticas vibrações Que por lá apareceram 111 Ali nasceram poetas Jocosos e humoristas Capacidades seletas Verdadeiros piadistas Cheios de sabedoria Ciência e poesia Que só pela tradição Tomamos conhecimento Por algum depoimento Guardado no coração 112 De Marinho a Lourival Dimas e Otacílio Sabemos não ter igual Só comparando a Virgílio E Dantes no seu inferno Mas a um coração terno Que está além deste plano O místico Jó Patriota Que comanda bem a nota Do verso pernambucano

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113 A poesia em ação Falou alto em sentimento Na genuína explosão De verso e do pensamento Lembro um Vicente Preto Cuja mente era um soneto Um Jó, um Rogaciano, Os grandes irmãos Batistas Os três poetas artistas Do sertão pernambucano 114 Passaram-se muitos anos A igreja em construção Fiéis os paroquianos Mantinham a tradição Esta lembrança me resta Em cada junho uma festa Pra São Pedro padroeiro O nosso santo querido Ver seu templo construído Sem nunca faltar dinheiro 115 Cada família queria Com amor contribuir Para ver a cada dia A grande torre subir Era princesa e rainha Prendas, votos e leilões São Pedro lá no andor E os beijarás no tambor Debaixo dos foguetões 116 Na paróquia a devoção De todas as zeladoras Que entravam em ação Como orientadoras Das lidas paroquiais França, Natália e outras mais Ajudavam ao Padre João Josué Leite o devoto Cumpria o sagrado voto Fiel a religião

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117 Itapetim teu município Recorda Zé Paraguá E Nena de Zé Patrício Que já não estão por lá Louro de seu Simão Rapaz de bom coração De Wilson de Dasdores E nesta saudade arranco As serenatas de Franco Seu violão seus amores 118 Itapetim mudou tanto Não tem mais "Alto do Grude" Hoje lá é nome de santo Não tem mais menino rude A rua toda asfaltada E também iluminada Quando o progresso chegou Foi grande a transformação Ficando a recordação De tudo que já se passou 119 Lavanderia não tinha Só as pedras da barragem Pra onde de manhãzinha Ica ia pra lavagem Siá quitéria e a meninada Faziam a carregada De água para cidade Latas d'água na cabeça Não há mesmo quem esqueça Aquela realidade 120 E quando a luz do motor Antonio Preto apagava Nesta hora o amor O seu encontro marcava Interpretando Calheiro Vinha Franco, o seresteiro Com seu violão plangente Aquecer o coração Mexendo com a emoção Num romantismo dolente

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121 Itapetim de Dondon De Bá, Thiago e Juva O teu clima é muito bom Mesmo faltando chuva Teu povo traz alegria Também muita simpatia Dos teus sítios e recantos Por guardar recordações Canto hoje aos teus rincões Oh! Terra dos meus encantos 122 Itapetim tem história Também filhos importantes Que na sua trajetória Foram os iniciantes Deste progresso atual Gente de grande ideal Famílias que ali plantaram Trabalho e honestidade Deixando a prosperidade Pra terra que tanto amaram 123 Foram os Amâncios os Brejeiros E o seu Joaquim Mariano Os ilustres pioneiros Com seu Juvêncio o arcano Trabalhavam com apego Pedro Silva e Seu Zé Rego Os grandes comerciantes Seu Branco e Raimundão Seu João Marques e João Leão Homens simples e marcantes 124 Cláudio Leite o artesão Era o engenheiro nato O médico da região Juvino Leite, o pacato Padre joão leite, o pastor Rogaciano, o ator Sensível e inteligente O gênio da poesia O rouxinol da alegria Do meu Pajeú carente

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125 Assim fico a relembrar Estes marcos do passado Chego a visualizar Um grande álbum ilustrado Nos anais da ventania Onde só a poesia Pode entrar em sintonia O silêncio do momento E com o anzol do sentimento Pescar com grande ironia 126 Itapetim os teus ares Estão cheios de energias De seu Augusto Tavares E também das sinfonias Dos cânticos de Zé Gongor Que cantava com amor E nas notas celestiais Hoje nos planos divinos Deve estar tocando os hinos Que aqui não toca mais 127 Passo olhando o sobradinho Do velho Zé Valdivino Sujo velho acabadinho Como que lembra o destino Que a vida aqui é passar Ninguém veio pra ficar Ai lembro seu Crisante Naquela fatal viagem A triste dura passagem Lá na Bahia distante 128 Recordo de seu João Lino Nas missas dominicais Homem inteligente e fino Com seus suspiros e "ais" Por um novo casamento Morreu sem ter esse alento Pois a morte é intrigante Um jipe quase parado Matou João Lino, coitado! Dentro de um pequeno instante

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129 Também lembro Júlia Malta Dona Isabel seu Ernesto E vou buscando quem falta Neste vácuo tão funesto É quando sinto a ausência Se impor com eficiência Me mostrando que presente Só fica a dor da saudade Resquícios da amizade Que só o poeta sente 130 Muita gente em Itapetim Eu recordo com saudade Que queria bem a mim E já foi pra eternidade Seu Sebastião Senhor Dona Amélia, quanto amor! Otaviano e Celina Miguel Costa, Dona jovem São as lembranças de ontem Sentidas em cada esquina 131 As pessoas mais antigas Sá Clara e Sá Quitéria E Dondon velhas amigas São personagens e matéria Neste meu itinerário Seu Francisco Imarginário Dona Etelvina também E seu Raimundo Ribeiro Também Nestor de coqueiro Na minha memória vem 132 E um verso de saudade Para Laura de seu Delfino Gracinha a simplicidade Colhida pelo destino Teve morte prematura Meiga e doce criatura Símbolo de amabilidade E educação perfeita E hoje por Deus eleita Nas sendas da eternidade

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133 Cachoeira dos Vicentes De cana do doce fino Nas secas ou nas enchentes Teu solo é quase divino Vizinha da Boa Vista Lá de seu Pedro Batista E do Caramucuqui Do Recanto e da Serrinha Onde o cantar da rolinha É diferente daqui 134 Cacimba Nova, os Machados Não te esquecem como filhos Nos teus baixios e prados Hoje só chegam andarilhos Olhando pra casas velhas Onde as restas vermelhas Das luzes do por do sol Penetram ali como flechas Pelos buracos e brechas Naquele triste arrebol 135 Vejo em Santa Maria Benedito Salvador Na sua homeopatia Foi um grande curador Que socorria as crianças Restituía esperanças Curava gastroenterite Com beladona e infusão Diarréia, convulsão Pneumonia e bronquite 136 Hoje tudo parece um sonho Itapetim na verdade É um contraste medonho Que só desperta saudade E com ela vou descendo Aqueles sitios revendo Os Prazeres e os Silveiras A maniçoba, a Goiana Onde a saudade engalana As tardes alvissareiras

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137 Lembro Madrinha Maria A brandura do coração Nas mãos tinha a magia Para as flores da perfeição Ao lado de seu Juvêncio Cultivava o silêncio Na mais santa paciência Ela uma genuína artista Ele um culto estadista No brilho e na inteligência 138 Juvino Felipe, eu Não esqueci de você Que em itapetim viveu E também Antonio de Bê Lia, Moura, Dona Aurora São figuras de outrora Amélia e Antônio Machado Taiá, Finoca e Ica Antônio Grilo e Mãe Chica Seu Lucas e Chica Ricardo 139 Lembro Tiago e Ernestina E o sapateiro Paizinho Trabalhando a sola fina Naquele sujo quartinho Lembro também Pedro Rego Escrevendo seu sossego São coisas de itapetim E tudo era registrado Nos arquivos do passado Numa saudade sem fim 140 E cadê Mãe Bulibinha? A luz de quem dava luz Pois quando a criança vinha Pra aquele seus braços nus Cheios de sabedoria Que tão bem já conhecia Dos partos o grande medo Das mulheres a agonia Da chegada a alegria Da vida todo segredo

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141 Itapetim teus recantos Me lembra alguém afinal O velho seu Chico Santos Augêncio e Aderbal São pessoas que passaram Mas os seus gestos ficaram Na vida desta cidade Pois deram muito de si E deixaram por aqui Marcas de integridade 142 Itapetim tem saudade De quem saudade cantou Desde a sua mocidade E ela nunca acabou Em tarde de sol poente Uma viola plangente Antonio Pereira, o poeta Na mais sentida emoção Fez da saudade a canção Sua musa predileta 143 E Antonio Padre, o sanfoneiro De forró era estilista Só precisava um terreiro Muita gente e um baterista Numa latada varrida Na terra firme batida Valia como um salão Se avisava a mulherada Que evitasse a cortada Pra não surgir confusão 144 E naquela redondeza Antonio Padre mandava Nos dedos tinha a destreza E o samba comandava De mãe d'água à Piedade Tocava sem vaidade Lá de Cacimba Salgada São vicente a Enjeitado Lá pro Serrote Pintado Do Curralinho pra Malhada

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145 Há dias que tenho saudade Da flor do mandacaru Daquela serenidade Do Vale do Pajeú Fecho os olhos chego lá Vou até o jatobá Ai vejo Antonio Pereira Rita e Geminiano Lá no Querqueré insano De Jiqui na Cachoeira 146 Visualizo o Joá Dos Guedes e de Flauzina João Sampaio mais pra cá Madalena e Celestina Joaquina e Amélia Flor E o povo trabalhador Do Rosilho a Querqueré Que apanhavam algodão Sabiam bater feijão Torrar e pisar café 147 As filas da procissão Maria Maga arrumava Na frente a Congregação Os Marianos puxava Aquela época os hinos Com o povo dos Alvinos Nissa, Alzira e Pequena Eram as moças mais bonitas Aquela sacras artistas Davam mais beleza a cena 148 Lembrando o povo de lá De Balbina e Zé coringa De Vicente Carcará O jumentinho e a pinga Seu Zé Cego da gaiola Macaca Oca e Pachola Memórias que fazem parte Da história da cidade Onde a simplicidade Se constitui uma arte

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149 E muitos outros amigos Que já desapareceram No cemitério os abrigos Daqueles que já morreram Jazom, Jacira e Pretinha Que tanta amizade eu tinha Julio Jordão, Agenor E Preta? quanta saudade! É dura a realidade Mas recordo com amor 150 João Piancó e Joaquim Dona Isabel Dona Ana Do Recanto a Itapetim Com sua caravana Famílias bem numerosas E muito religiosas Congregados de Maria Fita azul e trajes brancos Sempre alegre muito francos Espargindo simpatia 151 E vinte e oito de junho De São Pedro a grande festa Com a bandeira em punho Os pastoris, a seresta Jacinta e Seu Simão Pedro, Alzira e Simeão Zé Alves e Dona Ritinha E nos leilões se gritavam E prendas se arrematavam Pra se fazer a rainha 152 Nos vales da serrania Das plagas regionais Deve estar contando os dias E escrito nos seus anais Que as Cacimbas dos Garras Dos baralhos e das farras Dos Nunes, Marques e Cajus Hoje os morcegos com medo Vivem fugindo da luz

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153 Cacimbas do meu avô Do velho Antônio Garra Pra Mãe Naná um alô Da sua Neta cigarra Que nesta vida só canta Mas nunca pela garganta E sim pelo coração Descrevendo as raízes Da vida as suas matizes Na força da expressão 154 Tão grande nossa família Miguel, José, Argemiro Raimunda, Hilda e Cecília A Beatriz me refiro A Maria, a Severina Tia Auta e Joaquina Só Tio Odon hoje existe Sua Sanfona teclando A mesma música tocando Mas de aprender não desiste 155 Cacimbas de Antônio Dantas Onde viveu Clotilde Uma santa entre as santas Terno coração humilde Sei que sabes perdoar Quem daqui te quis tirar Com aviltada maldade Gente sem coração Que um dia a Deus prestarão Contas na eternidade 156 Nas Cacimbas só ficou A saudade e nada mais O resto o tempo levou Todos se foram e em paz Eu peço a Deus que os guarde Lar dos meus antecedentes São poucos remanescentes Sinhá e tio Miguelzinho Ermina e tio Joaquinzinho Nos lapsos de algum momento

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157 Se passa de vária formas Quando a hora é chegada Não sabemos bem as normas Que regem esta caminhada Falei tanto de saudade Dos amigos e da cidade Mas tenho neste momento Uma dor inexplicável Para mim incalculável Em termos de sofrimento 158 É do meu pai que eu falo Foi inesperadamente Um fleche que vou guardá-lo Na memória eternamente Nunca pensei em perdê-lo Mais parece um pesadelo Eu fiquei como criança Quando se toma um brinquedo A morte é mesmo um segredo Que todo vivente alcança 159 Não tenho inspiração Para falar do meu pai É corda do coração A rima foge e não sai Guardo este filme na mente Dele saudável a doente Em casa e no hospital Naquela mórbida UTI E eu esperando ali O desenlace fatal 160 Infelizmente se deu E o seu vôo alçou Mas para mim não morreu Só desse plano mudou Como mudou minha vida E nessa lágrima sentida Uma saudade, uma prece Junto a uma gratidão Brotada do coração De quem jamais o esquece

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161 Homem sincero e forte E muito trabalhador Às vezes falava na morte Sem medo e sem temor Fiel a cada amizade E hoje nesta cidade Vejo os amigos seus Quero encontrá-lo, não posso Recito um verso, um "Pai Nosso" Por sua alma a meu Deus 162 O primo e amigo Oliveira Os dois na mesma semana Dez de abril, segunda feira Oitenta e nove cruel Nos trouxe um cálice de fel Cobrindo a tos de luto Mas trouxe a reflexão: Junto a dor, a oração Ao nosso humilde reduto 163 Uma coisa é escrever Outra é por ela passar Vivenciar é sofrer É difícil de esquecer Vi o meu velho partir E aqui vou incluir O seu nome em memória Zé Nunes a sua vida É uma lembrança erguida Nas linhas da minha história 164 Não pensei ser pra você Esta póstuma homenagem Independeu do querer Esta saudosa mensagem Desta filha que sentiu Os seus últimos momentos viu Mas aguarda a esperança O reencontro da paz Aonde a dor se desfaz E a nova vida se alcança

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165 Deus de eterna bondade Ensina-me a viver Na tua santa humildade E também compreender O teu mistério infinito A tua fé solicito Na angústia do cansaço Para não desanimar E a meu próximo ajudar Sem o temor do fracasso 166 Muitos jovens já se foram deixando interrogações É preciso que ele ouçam Nossas preces e orações Dodô, Jorginho e Osman Naquela fria manhã Deixaram em desalento Os seus amigos, os seus pais Aos nossos olhos é demais Tanta dor e sofrimento 167 Vavilson na flor da idade Desabrochando pra vida Cheio de felicidade Tinha naquela saída O desfecho inesperado Pois havia terminado A sua etapa terrena Devia se elevar Maior perfeição buscar Numa pátria mais serena 168 O Josivan, a Geórgia O Fabinho foram tão cedo Por que será que essa história De morte é triste o enredo? É porque nunca buscamos E muito longe estamos De uma apreciação Solene a vida no além onde os espíritos também Busca a sua evolução

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169 A morte é regresso ao lar Após reajustamento Onde vamos completar Nosso aprimoramento É um lar em outra esfera Onde o dever nos espera Lá estão os mensageiros Conscientes da missão Com a divina permissão Nos ajudam os companheiros 170 É hora de despertar Para um estudo profundo Refletir e repensar A nossa ação neste mundo Da mais sentido a vida Pois cada hora perdida Se fosse aproveitada Em favor de alguém que sofre Era tesouro no cofre Por cada ação reparada 171 Só isso consta na vida Desta passagem terrena Um apoio uma guarida Uma ajudinha pequena E a grande lei de Jesus Reverte tudo em cruz É preparo na estrada Que se há de palmilhar A boa ação ressaltar Na hora necessitada 172 A lei maior é o amor No ensinamento de Cristo Ele foi o grande ator Por todo mundo foi visto No palco da existência Encarnou a paciência Na natureza humana Deus-e sem esperar troca Hoje por nós se coloca Mediador que irmana

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173 Cristo é o mediador Ele é o irmão maior E o conciliador O Santo Espírito Mor O exemplo da caridade Do amor da humanidade É o caminho a seguir Com margem de segurança Ele é a esperança Da vida que há de vir O MEU LIVRO AQUI TERMINO É MEU E DE ITAPETIM É COMO SE FOSSE UM HINO PRA MINHA TERRA E PRA MIM

Carlinda Nunes de Brito

ANEXOS

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MEUS BISAVÓS MATERNOS

Joaquim Ferreira de Brito e Josefa Maria da Conceição F. de Brito MEUS AVÓS MATERNOS

João Ritinha e Joaquina Farias de Brito MEUS PAIS

José Nunes e Alzira Nunes de Brito

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MINHA FAMÍLIA

Carlinda, Paulino, Carlos Alberto, Fernanda e Raphaela. MINHA CIDADE NATAL

Itapetim-Pernambuco OS NOVENTA ANOS DA MINHA MÃE

Eu, Dona Alzira, meu irmão Inácio - Ano 2009 Hoje 2011, ela está com 93 anos.

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ACESSE MEU BLOG UMA HISTÓRIA DE MUITAS HISTÓRIAS http://historiademuitashistorias.blogspot.com/ Carlinda Nunes de Brito (Psicóloga, Assistente Social, Fonoaudióloga, Pedagoga e Poetisa) Brasília, novembro de 2011

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