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WLADYSLAW SZPILMAN O PIANISTA A história extraordinária da sobrevivência de um homem em Varsóvia, 1939-1945 Com excertos do Diário de Wi1m Hosenfeld Prefácio de Andrzej Szpilman Epílogo de Wolf Biermann Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues Título original: The Pianist Autor: Wladyslaw Szpilman FICHA TÉCNICA Copyright Wladyslaw Szpilman 1998 Tradução (c) Editorial Presença, Lisboa, 2OO2 Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues Capa: Arranjo Gráfico de Editorial Presença Pré-impressão, impressão e acabamento: Multitipo - Artes Gráficas, Lda. l.a edição, Lisboa, Novembro, 2OO2 2.a edição, Lisboa, Fevereiro, 2OO3 Depósito legal n.° 191 827/O3 Reservados todos os direitos para Portugal à EDITORIAL PRESENÇA Estrada das Palmeiras, 59 Queluz de Baixo 2745-578 BARCARENA Email: infoLeditpresenca.pt Internet: http://www.editpresenca.pt

ÍNDICE

Prefácio de Andrzej Szpilman 1 A Hora das Crianças e dos Loucos 2 Guerra

3

Os Primeiros Alemães

4

O Meu Pai Curva-se aos Alemães 39

5

Vocês São judeus?

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6

Dançando na Rua Chiodna

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7

Um Bonito Gesto da Sr.a K

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8

Um Formigueiro Ameaçado

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O Umschlagplatz

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Uma Oportunidade de Viver

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"Atiradores, Erguei-vos!"

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Majorek

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Discussões e Zangas na Casa ao Lado 118

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A Traição de Szaías

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Num Edifício em Chamas

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Morte de uma Cidade

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Vida por Álcool

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Nocturno em Dó Menor

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Post scriptum

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Excertos do Diário do Capitão Wilm Hosenfeld 167 Epílogo: Uma Ponte entre Wladyslaw Szpilman e Wilm Hosenfeld,

por Wolf Biermann

PREFÁCIO

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Até há poucos anos o meu pai nunca falava das suas experiências do tempo de guerra. E, no entanto, elas tinham-me acompanhado desde a infância. Através deste livro, que retirei sub-repticiamente de um canto das nossas estantes quando tinha doze anos, descobri por que motivo não tinha avós paternos e o meu pai nunca falava da

sua família. O livro revelou-me uma parte da minha própria identidade. Eu sabia que ele sabia que eu o lera, mas nunca tocámos no assunto e, talvez por isso, não me passava pela cabeça que o livro pudesse ter qualquer importância para outras pessoas - pormenor para o qual me foi chamada a atenção pelo meu amigo Wolf Biermann quando lhe contei a história do meu pai. Vivo na Alemanha há muitos anos e estou sempre consciente da penosa ausência de comunicação entre judeus e os alemães e polacos. Espero que este livro ajude a fechar algumas das feridas que ainda estão abertas.

O meu pai, Wladystaw Szpilman, não é escritor. É, por profissão, aquilo a que na Polónia chamam

"um homem no qual a música vive": um pianista e compositor que sempre foi uma figura inspiradora e importante na vida cultural polaca.

O meu pai completou os seus estudos de piano com Arthur Schnabel na Academia de Artes de

Berlim, onde também estudou composição com Franz Schreker. Quando Hitler chegou ao poder em 1933, regressou a Varsóvia e começou a trabalhar como pianista na Rádio

Polaca. Em 1939 já tinha composto partituras para diversos filmes, assim como muitos lieder e canções que nesse tempo foram muito populares. Antes da guerra tocou com

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o internacionalmente famoso violinista Bronislav Gimpel, com Henryk Schoering e outros músicos famosos. Depois de 1945 voltou a trabalhar na Rádio Polaca e regressou aos concertos como solista e em conjuntos de câmara. Escreveu várias obras sinfónicas e cerca de três centenas de canções populares, muitas das quais foram grandes êxitos. Também compôs música para crianças, alguma música para peças radiofónicas e mais partituras para filmes. Foi director do departamento de música da Rádio Polaca até 1963, ano em que desistiu desse cargo para dedicar mais tempo a digressões de concertos e ao Quinteto

de Piano de Varsóvia, fundado por ele e por Gimpel. Ao fim de mais de dois mil concertos e recitais pelo mundo fora, abandonou a vida de concertos públicos em 1986 para se dedicar inteiramente à composição. Constitui uma mágoa pessoal, para mim, o facto de as suas composições ainda serem quase desconhecidas no mundo ocidental. Penso que uma das razões desse desconhecimento

é a divisão da Europa em duas metades, tanto cultural como politicamente, depois da Segunda Guerra Mundial. No mundo inteiro, a música ligeira, de entretenimento,

chega a um número muito maior de pessoas do que a música clássica "séria", e a Polónia não é excepção. O seu povo cresceu com as canções de meu pai, pois ele moldou

a paisagem da música popular polaca ao longo de várias décadas mas a fronteira ocidental da Polónia constituía uma barreira para música desse género.

O meu pai escreveu a primeira versão deste livro em 1945, destinando-o, suponho, mais a si próprio

do que à humanidade em geral. Permitiu-lhe aprofundar as suas

devastadoras experiências do tempo de guerra e libertar o espírito e as emoções para continuar a sua vida.

O

livro nunca foi reeditado, apesar de, nos anos 6O, diversas editoras polacas terem tentado colocá-

lo

ao dispor de uma geração mais nova. Os seus esforços foram

sempre frustrados. Ninguém deu quaisquer explicações a esse respeito, mas a verdadeira explicação era evidente: as autoridades políticas tinham as suas razões. Mais de cinqüenta anos volvidos sobre a primeira edição, o livro foi agora publicado: uma lição útil, talvez, para muito boa gente da Polónia, uma lição que poderá persuadi-la a reeditá-lo no seu próprio país. Andrzej Szpilman

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A

HORA DAS CRIANÇAS E DOS LOUCOS

Iniciei a minha carreira do tempo de guerra como pianista no Café Nowoczesna, situado na Rua Nowolipki, em pleno coração do ghetto de Varsóvia. Quando os portões do ghetto se fecharam, em Novembro de 194O, há muito tempo que a minha família tinha vendido tudo o que pudera, até o bem mais precioso da nossa casa, o piano. Apesar

de tão insignificante, a vida forçara-me a vencer a apatia e a procurar uma maneira de ganhar a subsistência, e tinha-a encontrado, graças a Deus. O trabalho deixava-me pouco tempo para cismar e a consciência de que toda a família dependia do que eu podia ganhar ajudou-me a ultrapassar gradualmente o meu anterior estado de impotência

e

desespero.

O

meu dia de trabalho começava à tarde. Para chegar ao café tinha de passar por um labirinto de

becos estreitos que conduziam muito para o interior do ghetto, ou,

para variar, se me apetecia observar as emocionantes actividades dos contrabandistas, podia contornar o muro.

A tarde era melhor para o contrabando. A polícia, exausta por uma manhã passada a encher os

próprios bolsos, estava então menos atenta, atarefada a contar os lucros. Vultos inquietos apareciam nas janelas e nas entradas dos prédios de habitação ao longo do muro, para logo desaparecerem e se esconderem de novo, aguardando impacientemente

o barulho de uma carroça ou o estrépito de um eléctrico que se aproximassem. De vez em quando, o barulho do outro lado do muro aumentava e, à passagem de uma

1O

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carroça puxada por um cavalo, ouvia-se o sinal combinado, um assobio, e sacos e embrulhos voavam por cima do muro. As pessoas que estavam de atalaia saíam a correr das entradas dos prédios, apanhavam apressadamente a mercadoria, voltavam para dentro e um silêncio enganador, repassado de expectativa, nervosismo e murmúrios secretos, descia novamente sobre a rua, durante minutos a fio. Nos dias em que a polícia desempenhava a sua missão quotidiana com mais energia, ouvia-se o eco de tiros de mistura com o barulho de rodas de carroças e, em vez de sacos, voavam por cima do muro granadas de mão que explodiam ruidosamente e faziam cair estuque dos prédios. Os muros do ghetto não desciam completamente até à estrada ao longo de toda a sua extensão. Com intervalos certos, havia aberturas compridas ao nível do solo, através das quais a água das áreas arianas da estrada corria para valetas existentes ao lado dos passeios judeus. As crianças costumavam utilizar essas aberturas para o

contrabando. Viam-se pequenos vultos negros, de pernas escanzeladas, avançar depressa para elas, vindos de todas as direcções, a olhar cautelosamente, com olhos assustados, para a esquerda e para a direita. Depois as pequenas mãos escuras puxavam volumes de mercadorias pelas aberturas - volumes que eram muitas vezes maiores do que os próprios contrabandistas. Feito isso, as crianças içavam os volumes para cima dos ombros e, curvadas e cambaleantes sob o peso, com as veias das têmporas salientes como cordas azuis, devido

ao esforço, e as bocas escancaradas e dolorosamente ofegantes na ânsia de respirar, fugiam em todas

as

direcções como ratinhos assustados.

O

seu trabalho era tão arriscado, e acarretava o mesmo perigo para a vida e para o corpo, como o dos

contrabandistas adultos. Um dia, ao caminhar ao lado do muro,

observei uma operação infantil de contrabando que parecia ter sido concluída com êxito. A criança judia, ainda do lado oposto do muro, faltava apenas seguir o caminho das suas mercadorias, passando pela abertura. O seu corpo magro e franzino já estava parcialmente à vista quando desatou, de súbito, a gritar e eu ouvi o berro rouco de um alemão, do outro lado. Corri para ajudar a criança a passar o mais depressa possível, mas, desafiando os nossos esforços, os seus quadris ficaram presos na valeta. Puxei-lhe os pequenos braços com toda a força, enquanto os seus gritos se tornavam cada vez mais desesperados e, ao mesmo tempo, ouvia as pancadas violentas desferidas pelo polícia do outro lado do muro. Quando consegui, finalmente, fazê-la passar, estava morta. A sua espinha tinha sido despedaçada. Na realidade, o ghetto não dependia do contrabando para se alimentar. A maior parte dos sacos e embrulhos contrabandeados por cima do muro continha donativos de polacos para os judeus muito, muito pobres. O verdadeiro e regular comércio contrabandista era dirigido por magnatas como Kon e Heller e tratava-se de uma operação mais fácil e inteiramente segura. Polícias subornados limitavam-se a fechar os olhos, em momentos combinados, e depois colunas inteiras de carroças transpunham

o portão do ghetto, mesmo debaixo dos narizes deles, e, com o seu acordo tácito, transportavam alimentos, bebidas caras, as mais sumptuosas iguarias, tabaco vindo directamente da Grécia e artigos de luxo e cosméticos franceses.

Eu podia ver de perto essas mercadorias contrabandeadas, diariamente, no Nowoczesna. O café era freqüentado por ricos, que lá apareciam carregados de jóias de ouro

e refulgentes de diamantes. Ao som do estouro de rolhas de champanhe, mulheres fáceis,

berrantemente pintadas, ofereciam os seus serviços a exploradores da guerra sentados a lautas mesas. Perdi, lá, duas ilusões: as minhas crenças na nossa solidariedade geral e no

espírito musical dos judeus. Não era permitida a presença de pedintes à porta do Nowoczesna. Porteiros gordos repeliam-nos à cacetada. Vinham com freqüência riquexós de muito longe, e os homens

e as mulheres neles recostados usavam lãs caras no Inverno e chapéus de palha luxuosos e sedas francesas no Verão. Antes de chegarem à zona protegida pelos cacetes

dos porteiros, eles próprios enxotavam a turba com paus, de rostos desfigurados pela cólera. Não davam esmolas: na sua opinião, a caridade só servia para desmoralizar as pessoas. Se elas trabalhassem tão esforçadamente como eles, então também ganhariam muito:

estava ao alcance de todos fazê-lo, e se alguém não sabia como singrar na vida a culpa era inteiramente sua.

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Uma vez sentados, finalmente, às pequenas mesas do espaçoso café, que visitavam apenas para tratar de negócios, começavam logo a queixar-se dos tempos difíceis

e da falta de solidariedade mostrada por judeus americanos. O que pensavam eles que estavam a

fazer? As pessoas aqui estavam a morrer, à míngua de uma côdea. Aconteciam as coisas mais pavorosas, mas a imprensa americana não dizia nada, assim como os banqueiros judeus do outro lado do mar nada faziam para levar a América a declarar guerra à Alemanha, embora pudessem ter aconselhado facilmente esse tipo de acção, se tivessem querido. No Nowoczesna ninguém prestava a mínima atenção à minha música. Quanto mais alto eu tocava, mais alto falavam os presentes abancados a comer e a beber, e todos os dias eles e eu competíamos para ver qual de nós conseguia abafar o outro. Em certa ocasião, um cliente mandou até um empregado dizer-me que parasse de tocar uns momentos, porque a música o impossibilitava de examinar as moedas de ouro de vinte dólares que tinha acabado de adquirir a outro cliente. Depois foi batendo levemente com as moedas na superfície de mármore da mesa, pegando-lhes com as pontas dos dedos, levando- as à orelha e escutando atentamente o seu tinido: essa era a única música que lhe despertava algum interesse. Não toquei ali durante muito tempo. Tive a sorte de arranjar outro emprego num tipo de café muito diferente, na Rua de

Sienna, onde a intelectualidade judaica ia para me ouvir tocar. Foi lá que construí a minha reputação artística e arranjei amigos com os quais viria, mais tarde,

a passar alguns bocados agradáveis, mas, também, outros terríveis. Entre os freqüentadores habituais

do café contava-se o pintor Roman Kramsztyk, artista extremamente dotado e amigo de Artur Rubinstein e Karol Szymanowski. Trabalhava nessa altura num magnífico ciclo de desenhos que representava a vida no interior dos muros do ghetto, mal sabendo que viria a ser assassinado e que a maioria dos desenhos se perderia. Outro freqüentador do café da Rua de Sienna era uma das mais excelentes pessoas que jamais conheci: Janusz Korczack. Tratava-se de um homem de letras que conhecia quase todos os principais artistas do movimento Jovem na Polónia. Falava deles de um modo fascinante, com um discurso ao mesmo tempo directo e apaixonan te. Não era considerado um dos escritores de primeira categoria, talvez por as suas realizações no campo da literatura terem um carácter muito especial: eram histórias para e sobre crianças, notáveis pela sua grande compreensão da mentalidade infantil. Não eram escritas por ambição artística: vinham directamente do coração de um activista e pedagogo nato. O verdadeiro valor de Korczak não residia naquilo que escrevia, mas sim no facto de viver como escrevia. Anos antes, no início da sua carreira, dedicara cada minuto do seu tempo livre e todos os zlótis de que podia dispor à causa das crianças, às quais continuaria a dedicar-se até à morte. Fundava orfanatos, organizava toda a espécie de angariações de fundos para crianças pobres e fazia conferências na rádio, granjeando enorme popularidade (e não só entre crianças) como o "Velho Doutor". Quando os portões do ghetto se fecharam, foi para lá, embora se pudesse ter salvo, e continuou a sua missão, muros adentro, como pai adoptivo de uma dúzia de órfãos) judeus, as mais pobres e mais abandonadas crianças do mundo. Quando falávamos com ele na Rua de Sienna não podíamos imaginar quão admiravelmente, nem com que intensa paixão, a sua vida terminaria. Ao fim de quatro meses mudei-me para outro café, o Sztuka (Arte), na Rua Leszno. Era o maior café do ghetto e tinha aspirações artísticas. As exibições musicais efectuavam-se na sua sala de concertos. Entre os cantores contava-se Maria Eisenstadt, que seria hoje um nome famoso para milhões de pessoas, graças à sua voz maravilhosa, se os alemães a não tivessem posteriormente assassinado. Eu apresentava-me a tocar duetos de piano com Andrzej Goldfeder e obtive grande êxito com a minha paráfrase

da Valsa de Casanova de Ludomir Rózycki, com letra de Wladyslaw Szlengel. O poeta Szlengel aparecia todos os dias com Leonid Fokczaríski, o cantor Andrzej Wiast,

o comediante popular "Wacus, o Amante da Arte", e Pola Braunówna no espectáculo "Jornal Vivo", uma crónica humorística da vida do ghetto cheia de alusões mordazes

e picantes aos alemães. Além da sala de concertos havia um bar onde os que gostavam mais de

comer e beber do que de artes podiam encontrar excelentes vinhos e cotelettes de volaille ou boeuf Stroganofj deliciosamente preparados. Tanto a sala de concertos como o bar estavam quase sempre cheios e, por isso, eu nessa altura ganhava

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bem e podia prover às necessidades da nossa família de seis pessoas, embora com alguma dificuldade. Teria gostado realmente de tocar no Sztuka, visto encontrar lá muitos amigos e poder conversar com eles entre as actuações, se não fosse o pensamento do meu regresso

a casa, à noite. Essa perspectiva entristecia-me a tarde inteira.

Isto passava-se no Inverno de 1941 a 1942, que foi muito duro no ghetto. Um mar de miséria judaica cercava as pequenas ilhas de relativa prosperidade, representadas pela intelectualidade judaica e pela vida luxuosa dos especuladores. Os pobres já se encontravam gravemente debilitados pela fome e não possuíam nada que os protegesse do frio, pois não tinham com que comprar combustível. Estavam, além disso, infestados de parasitas. Pululavam no ghetto que não se podia fazer nada. O vestuário das pessoas por quem passávamos na rua estava inçado de piolhos, e o mesmo acontecia aos interiores

de eléctricos e lojas. Passeavam piolhos pelos passeios e pelas escadas acima e caíam dos tectos de repartições públicas que tinham de ser visitadas por tantos e tão diversos assuntos. Os piolhos encontravam o caminho para as dobras dos nossos jornais e para os nossos trocos, e até os encontrávamos na côdea do pão que acabávamos de comprar. E cada um desses repugnantes parasitas podia ser portador de tifo. Eclodiu uma epidemia no ghetto. Segundo as estatísticas, o número de mortes causado pela doença era de cinco mil por mês. O tema principal das conversas, tanto entre ricos como entre pobres, era o tifo. Os pobres perguntavam-se, simplesmente, quando seria a sua vez de morrerem, enquanto os ricos pensavam numa maneira de conseguirem

a vacina do Dr. Weigel e protegerem-se. O Dr. Weigel, um bacteriologista eminente, tornou-se a

figura mais popular depois de Hitler: o bem ao lado do mal, por assim dizer. As pessoas diziam que os alemães tinham prendido o doutor em Lemberg, mas graças a Deus não o haviam assassinado; na verdade, quase o reconheciam como um alemão honorário. Dizia-se que lhe tinham oferecido um óptimo laboratório e uma maravilhosa

moradia, assim como um igualmente maravilhoso carro, depois 1, de o colocarem sob a maravilhosa supervisão da Gestapo, para. terem a certeza de que não fugia em vez de produzir

o maior

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número possível de vacinas para o infestado de piolhos exército alemão no leste. Claro que, rezava a história, o Dr. Weigel recusara a moradia e o automóvel. Desconheço quais eram realmente os factos a seu respeito. Sei apenas que estava vivo, graças a Deus, e que, depois de ter revelado aos alemães o segredo da sua vacina

e ter, portanto, deixado de lhes ser útil, eles, por qualquer milagre, não o tinham remetido para a mais maravilhosa das câmaras de gás. De qualquer modo, graças

à sua invenção e à venalidade alemã, muitos judeus de Varsóvia foram salvos de morrer de tifo,

ainda que apenas para morrerem de outra morte qualquer, mais tarde. Pessoalmente, não me vacinei. Não tinha dinheiro para mais do que uma única dose da vacina, o suficiente para mim e não para o resto da família, e não quis fazer isso. No ghetto não havia possibilidade de enterrar as vítimas do tifo com rapidez suficiente para acompanhar a taxa de mortalidade. No entanto, os cadáveres também não podiam ser deixados simplesmente dentro de casa. Por isso encontrou-se uma solução intermédia:

depois de despojados das suas roupas - por de mais valiosas para os vivos para serem deixadas com eles -, eram colocados nos passeios embrulhados em papel. Permaneciam aí durante dias, até veículos camarários virem recolhê-los e levá-los para valas colectivas no cemitério. Eram os cadáveres das vítimas do tifo, assim como os dos que tinham morrido de fome, que tornavam tão terrível o meu regresso do café a casa, à noite.

Eu era um dos últimos a sair, juntamente com o gerente, depois de feitas as contas do dia e me ser pago o que me era devido. As ruas estavam escuras e quase desertas. Acendia a minha lanterna eléctrica e mantinha-me atento à presença de cadáveres, para não cair em cima deles. O vento frio de janeiro soprava-me no rosto ou impelia-me para a frente, fazendo farfalhar o papel que embrulhava os mortos, levantando-o e expondo canelas nuas e mirradas, ventres afundados, rostos de dentes arreganhados

e olhos fixos no vazio.

Não estava, ainda, tão familiarizado com os mortos como viria a acontecer, mais tarde. Estugava o passo pelas ruas fora, com medo e náusea, para chegar a casa o

mais depressa possível. A minha mãe esperava-me com uma taça de álcool e uma pinça. Velou o

melhor

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que pôde pela saúde da família durante essa perigosa epidemia, e não nos deixava passar do patamar para dentro de casa sem antes ter, conscienciosamente, retirado com a pinça os piolhos dos nossos chapéus, sobretudos e fatos, e de os haver afogado no álcool. Na Primavera, depois de ter estreitado a minha amizade com Roman Kramsztyk, era freqüente não ir directamente do café para;; minha casa, mas antes para a dele, na Rua Elektoralna, onde nos encontrávamos e conversávamos até altas horas da noite. Kramsztyk

era um homem com muita sorte: tinha um quarto minúsculo, com tecto esconso, só para si, no último andar de um prédio; Reunira aí todos os tesouros que tinham escapado

à pilhagem dos alemães: um divã largo, coberto com um kilim,

duas valiosas cadeiras antigas, uma encantadora cómoda Renascença, um tapete persa algumas armas antigas, vários quadros e toda a espécie de pequenos objectos que coleccionara ao longo dos anos em diferentes lugares da Europa, cada um dos quais era uma pequena obra de arte e um regalo para os olhos. Era agradável estar sentado

naquele pequeno quarto, à suave luz amarela de um candeeiro com um quebra-luz feito por Roman,

a beber café e a conversar animadamente. Antes de escurecer íamos

para a varanda tomar um pouco de ar, mais puro ali em cima do que nas ruas poeirentas e sufocantes.

A hora do recolher aproximava-se. As pessoas tinham ido para

casa e fechado as portas; o sol baixo da Primavera projectava um brilho rosado nos telhados de zinco, bandos de pombos brancos rasgavam o céu azul e o perfume dos lilases passava por cima dos muros, vindo do vizinho Ogród Saski (Jardim Saxónico), e chegava até nós, aqui, no bairro dos malditos.

Era a hora das crianças e dos loucos. Roman e eu já estávamos a olhar pela Rua Elektoralna abaixo, à procura da "senhora das plumas", como chamávamos à nossa louca. Tinha um aspecto invulgar, com as faces pintadas de vermelho-vivo e as sobrancelhas, com um centímetro de espessura, desenhadas de têmpora a têmpora com um lápis de khol. Usava uma velha cortina de veludo verde, com franja, por cima do esfarrapado vestido preto, e do chapéu de palha subia, erecta para o ar, uma enorme pluma de avestruz lilás, que oscilava suavemente ao ritmo dos seus inseguros passos rápidos. Enquanto caminhava, ia detendo transeuntes com um sorriso cortês e perguntando-lhes pelo marido na sua presença.

viu por acaso Izaak Szerman? Um homem alto e bem-parecido, com uma pequena

barba grisalha?" Depois olhava com atenção para o rosto da pessoa que interpelara

e, ao receber uma resposta negativa, exclamava, decepcionada, "Não?!" O seu rosto desfigurava-se

dolorosamente, um instante, mas um sorriso cortês, ainda que artificial, logo o suavizava. "Oh, perdoe-me!", desculpava-se, e seguia o seu caminho, a abanar a cabeça, meio pesarosa por ter feito perder tempo a alguém, meio atónita por esse alguém não ter

conhecido o seu marido, Izaak, um homem tão bem-parecido e encantador. Era mais ou menos a essa hora que o indivíduo chamado Rubinstein costumava, também, descer a Rua Elektoralna, esfarrapado e desgrenhado, com as roupas a adejar em todas as direcções. Brandia uma bengala, pulava, cabriolava, cantarolava e murmurava baixinho. Era muito popular no ghetto. Sabíamos que se aproximava muito antes de o vermos aparecer, quando ouvíamos o seu grito infalível de "Mantém a pila ao alto, meu rapaz!"

O seu objectivo era fortalecer o ânimo das pessoas, fazendo-as

rir. Os seus gracejos e os seus comentários cómicos percorriam o ghetto inteiro, espalhando boa disposição. Uma das suas especialidades era aproximar-se dos guardas

alemães, aos pulos e a fazer caretas, e chamar-lhes nomes: "Seus tratantes, seus bandidos, corja de ladrões!", e toda a espécie de termos mais obscenos. Os alemães achavam isso hilariante e, com freqüência, atiravam-lhe cigarros e algumas moedas, como paga dos seus insultos; no fim de contas, não se podia levar a sério um doido daqueles. Eu não estava tão certo disso como os alemães, e ainda hoje não sei se Rubinstein era, de facto, um dos muitos que tinham perdido o juízo por causa dos tormentos sofridos, ou se se armava simplesmente em pateta para escapar à morte. Embora, quanto a isso, não tenha sido bem sucedido. Os loucos não ligavam à hora do recolher; não significava nada para eles, nem para as crianças. Esses fantasmas de crianças saíam das caves, dos becos e dos portais onde dormiam, espicaçados pela esperança de ainda conseguirem despertar compaixão em corações

"Desculpe

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humanos naquela derradeira hora do dia. Paravam junto de candeeiros de iluminação pública, junto de paredes de prédios e na estrada, de cabeças levantadas e a lamuriar monotonamente que tinham fome. Os mais dados à música cantavam. Com vozes finas e fraLcas, cantavam a balada do jovem soldado ferido em combate; abandonado por todos no campo de batalha, grita, "Mãe!", ao morrer. Mas a mãe não se encontra ali, está muito longe, sem saber que o filho jaz moribundo, e só a terra embala o pobre homem a caminho do sono eterno com o sussurro das suas árvores e ervas: "Dorme bem, meu filho, dorme bem, meu querido!" Uma flor caída de uma árvore para o seu peito morto é a sua única medalha de honra.

Outras crianças tentavam apelar à consciência das pessoas, suplicando-lhes. "Temos tanta, tanta fome. Há muito tempo que não comemos nada. Dê-nos um bocadinho de pão, ou, se não tem pão, uma batata ou uma cebola, só para nos mantermos vivos até de manhã." Mas quase ninguém tinha essa cebola, e se tinha não encontrava no peito a vontade necessária para a dar, pois a guerra transformara-lhe o coração em pedra.

2 GUERRA

Em 31 de Agosto de 1939 toda a gente de Varsóvia estava convencida, há algum tempo, de que a guerra com os Alemães era inevitável. Só os optimistas incorrigíveis

acalentavam ainda a ilusão de que a atitude determinada da Polónia dissuadiria Hitler no último momento. O optimismo de outras pessoas manifestava-se, porventura inconscientemente, como oportunismo: uma convicção intrínseca, ao arrepio de toda a lógica, de que, embora a guerra fosse certa - isso estava decidido há muito tempo

-, a sua eclosão de facto seria adiada, de modo que poderiam viver a vida em pleno durante mais algum tempo. No fim de contas, a vida era boa.

Nessa noite foi imposto à cidade um blackout rigoroso. As pessoas vedaram as salas que planejavam usar como abrigos antigás e experimentaram as respectivas máscaras.

O gás era temido mais do que qualquer outra coisa.

Entretanto, continuavam a tocar bandas atrás das montras enegrecidas de cafés e bares onde os clientes bebiam, dançavam e excitavam os seus sentimentos patrióticos

entoando canções beligerantes. A necessidade de um blackout, a oportunidade de se passearem com uma máscara antigás suspensa do ombro, um regresso de táxi a casa,

à noite, por ruas que subitamente pareciam diferentes, tudo isso acrescentava um certo picante à vida, sobretudo porque ainda não existia nenhum perigo real.

O ghetto ainda não tinha sido criado e eu vivia com os meus pais, as minhas irmãs e o meu irmão na

Rua Sliska e trabalhava para a

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Rádio Polaca como pianista. Cheguei tarde a casa, nesse último dia de Agosto, e como me sentia cansado fui logo deitar-me. A nossa casa ficava no terceiro andar,

o que tinha as suas vantagens: nas noites de Verão a poeira e os cheiros da rua desciam e pelas nossas janelas abertas entrava ar refrescante, vindo de cima e transportando

a humidade que subia do rio Vístula.

Acordou-me o barulho de explosões. Já havia claridade. Olhei para o relógio: seis horas da manhã.

As explosões não eram particularmente fortes e pareciam um bocado distantes - fora da cidade, de qualquer modo. Tratava-se obviamente de exercícios militares; nos últimos dias habituáramo-nos a eles. Passados alguns minutos, as

explosões cessaram. Hesitei, sem saber se devia voltar a dormir, mas o dia já estava demasiado claro

e cheio de sol e resolvi ler até ao pequeno-almoço.

Deviam ser pelo menos oito horas quando a porta do meu quarto se abriu. A minha mãe apareceu à entrada, vestida como se fosse sair a qualquer momento. Estava mais pálida do que era costume e não conseguiu disfarçar uma certa desaprovação, ao ver-me ainda na cama, a ler. Abriu a boca, mas quando tentou pronunciar a primeira palavra a voz traiu-a e teve de pigarrear. Depois disse, em tom nervoso e apressado:

- Levanta-te! A guerra

Resolvi ir directamente para a estação de rádio, onde encontraria os meus amigos e tomaria conhecimento das últimas notícias. Vesti-me, tomei o pequeno-almoço e

a guerra começou.

saí de casa.

Já se viam grandes cartazes brancos nas paredes de edifícios e em espaços para anúncios: continham

a mensagem do Presidente à nação, anunciando que os Alemães tinham

atacado. Algumas pessoas estavam paradas em pequenos grupos, a lê-Ia, enquanto outras seguiam apressadas em várias direcções diferentes, para tratarem dos seus assuntos mais urgentes. A proprietária da loja da esquina, não longe do nosso prédio, colava tiras de papel branco nos vidros das montras, esperando que isso as mantivesse intactas no bombardeamento que viria. Entretanto, a sua filha decorava travessas de salada de ovos, presunto e rodelas de salsichas com pequenas bandeiras nacionais e fotografias de dignitários polacos. Rapazes vendedores de jornais corriam ofegantes pelas ruas abaixo, apregoando edições especiais.

Não havia pânico. O estado de espírito oscilava entre a curiosidade - o que aconteceria a seguir? - e a surpresa: era assim que tudo começava? Um cavalheiro grisalho, de rosto escanhoado, parecia preso ao chão ao lado de uma das colunas com

o anúncio presidencial. A sua agitação era visível nas vivas manchas

vermelhas que lhe cobriam o rosto e o pescoço, e empurrara o chapéu para trás, coisa que com

certeza não teria feito em circunstâncias normais. Olhou para o comunicado,

abanou incredulamente a cabeça e continuou a ler, comprimindo as lunetas com mais firmeza contra

o nariz. Leu algumas palavras em voz alta, indignado.

- Eles atacaram-nos

Olhou à volta, para ver a reacção das outras pessoas, levantou a mão, ajeitou de novo as lunetas e

declarou:

- Francamente, isto não é maneira de proceder! - E, enquanto se afastava, depois de ter lido tudo de novo e ainda incapaz de controlar a agitação, abanava a cabeça

e murmurava: - Não, não, isto não pode ser!

Eu morava muito perto do centro de radiodifusão, mas não foi nada fácil lá chegar. Levei o dobro do tempo do costume. Ia mais ou menos a meio do caminho quando o

silvo de sereias saiu dos altofalantes instalados em candeeiros públicos, nas janelas e por cima das entradas das lojas. Depois ouvi a voz do locutor da rádio.

Isto é um alerta para a cidade de Varsóvia

- A

seguir leu uma lista de algarismos e letras do alfabeto, em código militar, que caiu nos ouvidos dos civis como uma misteriosa ameaça cabalística. Significariam os algarismos o número de aviões que aí vinham? Seriam as letras um código dos lugares onde estavam prestes a ser lançadas bombas? E seria o lugar onde naquele momento nos encontrávamos um deles?

A rua ficou deserta num instante. Mulheres corriam em pânico para os abrigos. Os homens não

queriam dar parte de fracos; ficaram às portas, amaldiçoando os Alemães,

fazendo grande alarido da sua coragem e manifestando a sua ira contra o governo, por ter atamancado de tal maneira a mobilização que somente um pequeno grupo de homens aptos para o serviço militar fora convo

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sem avisar!

Estejam atentos! Vêm neste momento a caminho

cado. Os restantes andavam de uma autoridade militar para outra, incapazes de serem incorporados

no exército por amor ou dinheiro.

Não se ouvia nada na rua deserta e parada, além das discussões entre os vigilantes dos ataques aéreos

e pessoas que insistiam em sair das entradas dos prédios para

irem tratar de qualquer assunto e tentavam seguir o seu caminho encostadas às paredes. Um

momento depois ouviram-se mais explosões, mas ainda não muito próximas.

Cheguei ao centro de radiodifusão precisamente quando o alarme soava pela terceira vez. No entanto, ninguém que estava dentro do edifício tinha tempo para se dirigir para os abrigos antiaéreos sempre que o alarme soava.

O plano de emissão estava um caos. Assim que se conseguia alinhavar à pressa algo parecido com

um programa provisório, chegavam informações importantes, quer da frente quer de natureza diplomática. Havia então que interromper tudo para transmitir esse tipo de

notícias o mais depressa possível, intercalado com marchas militares

e hinos patrióticos.

Reinava também uma confusão sem remédio nos corredores do centro, onde prevalecia um estado de espírito de autoconfiança beligerante. Um dos locutores que tinha sido convocado veio despedir-se dos colegas e exibir o uniforme. Esperava, provavelmente, que

todos o rodeassem para uma comovente e encorajadora cena de despedida, mas ficou decepcionado: ninguém tinha tempo para lhe prestar muita atenção. Ficou por ali, interceptando os colegas que passavam apressados por ele e tentando pôr no ar pelo menos uma parte do seu programa intitulado "O Adeus de um Civil", para poder um dia falar disso aos seus netos. Mal sabia que duas semanas depois continuariam

a não ter tempo para ele, nem sequer para homenagear a sua memória com um funeral digno.

Do lado de fora da porta do estúdio, um velho pianista que trabalhava na estação de rádio pegou-me no braço. Era o caro Professor Ursztein. Enquanto outras pessoas medem as suas vidas por dias e horas, a dele tinha sido medida por décadas de acompanhamentos ao

piano. Quando o professor tentava lembrar-se de algum acontecimento

passado, começava assim: "Ora deixe-me ver

quando situava determinado acompanhamento pela sua data, como um marco na beira da estrada, deixava a memória espraiar-se por outras, e invariavelmente menos importantes, reminiscências. Neste dia estava atordoado e desorientado, do lado de fora do estúdio. Como ia esta guerra ser travada sem acompanhamento ao piano? Como ia ser? Perplexo, começou a lamentar-se:

- Não me dizem se vou trabalhar hoje

À tarde estávamos ambos a trabalhar, cada um no seu piano. Continuavam a fazer-se transmissões de

música, embora não em conformidade com o horário habitual.

A meio do dia, alguns de nós sentiram fome e saíram do centro para almoçarem qualquer coisa num

restaurante próximo. As ruas pareciam quase normais. Havia muito

trânsito nas vias principais da cidade: eléctricos, automóveis e peões. As lojas estavam abertas, e como o presidente da Câmara apelara à população para não açambarcar alimentos, garantindo não haver necessidade disso, nem sequer havia bichas às suas portas. Vendedores de rua faziam bom negócio com um brinquedo de papel que representava um porco: dobrando e desdobrando o papel de determinada maneira, o boneco transformava-se na cara de Hitler. Arranjámos mesa no restaurante, ainda que com alguma dificuldade, e verificámos que diversos pratos habituais não constavam da ementa e outros eram bastante mais caros do que de costume. Os especuladores já estavam em campo.

A conversa girou principalmente à volta da declaração de guerra da França e da Inglaterra, esperada

para muito breve. Muitos de nós, tirando alguns pessimistas incuráveis,

estavam convencidos de que, agora, esses países entrariam na guerra a qualquer momento, e também havia os que pensavam que os Estados Unidos declarariam igualmente guerra à Alemanha. Os argumentos apresentados baseavam-se nas experiências da Grande Guerra e havia um sentimento generalizado de que o único resultado desse conflito fora mostrar-nos como conduzir melhor o de agora e fazê-lo como devia ser, desta vez.

A declaração de guerra da França e da Grã-Bretanha tornou-se realidade no dia 3 de Setembro.

Nessa altura eu estava a acompanhar Fulano

", e

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Eu ainda me encontrava em casa embora já fossem onze horas.

Deixávamos o rádio ligado todo o dia, para não perdermos uma palavra das importantíssimas notícias. Os comunicados da frente não correspondiam ao que esperáramos.

A nossa cavalaria atacara a Prússia Oriental e a nossa aviação estava a bombardear objectivos

militares alemães, mas entretanto a superior capacidade militar do

inimigo não parava de forçar o exército polaco a retirar deste ou daquele lugar. Como podia semelhante coisa ser possível, se a nossa propaganda nos dissera que

os aviões e os tanques alemães eram feitos de cartão e alimentados a combustível sintético que não prestava sequer para acender isqueiros? Vários aviões alemães tinham já sido abatidos sobre Varsóvia e testemunhas oculares afirmavam que os cadáveres dos aviadores inimigos vestiam e calçavam roupa e sapatos de papel. Como podiam tropas tão miseravelmente equipadas obrigar-nos a recuar? Não fazia sentido.

A minha mãe andava atarefada a arrumar a sala, o meu pai ensaiava violino e eu estava sentado

numa poltrona, a ler, quando um programa qualquer, sem importância, foi subitamente interrompido e uma voz informou que ia ser feita uma comunicação da máxima

importância. O meu pai e eu corremos para o aparelho de rádio, enquanto a minha mãe ia à sala ao lado chamar as minhas duas irmãs e o meu irmão. Entretanto, o rádio transmitia marchas militares. O locutor repetiu a informação, seguiram-se mais marchas e novo aviso da comunicação iminente. Mal conseguíamos suportar a tensão nervosa quando soou finalmente o hino nacional, seguido pelo da Grã-Bretanha. Depois ficámos a saber que já não enfrentávamos o nosso inimigo sozinhos; tínhamos um aliado poderoso e a guerra seria com certeza vencida, embora fossem de esperar altos e baixos e a nossa situação pudesse não ser muito boa, nos tempos mais próximos.

É difícil descrever a emoção que sentíamos enquanto escutávamos a comunicação pela rádio. A

minha mãe tinha lágrimas nos olhos, o meu pai soluçava sem rebuço e o meu irmão Henryk aproveitou a oportunidade para me dar um soco e dizer, irritado: "Aí tens! Eu

tinha-te dito, não tinha?" Regina não gostou de nos ver brigar num momento daqueles e interveio, dizendo calmamente: "Oh, acabem com isso! Todos sabíamos que isto tinha de acontecer." Fez uma pausa e acrescentou:

"E a conseqüência lógica dos tratados."

Regina era advogada e uma autoridade em tais matérias, por isso não valia a pena discutir com ela. Entretanto, Halina, sentada ao lado do aparelho, tentava sintonizar Londres; queria uma confirmação em primeira mão da notícia. As minhas duas irmãs eram os membros da família dotados de mais bom senso. A quem saíam? Se saíam a alguém, só podia ser à mãe, mas até ela parecia uma pessoa emotiva comparada com Regina e Halina. Quatro horas depois, a França declarou guerra à Alemanha. Nessa tarde, o meu pai insistiu em participar na manifestação à porta do edifício da Embaixada Britânica.

A minha mãe não gostou da idéia, mas ele estava decidido. Regressou num estado de grande

agitação, amarrotado e despenteado do aperto da multidão. Vira o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros e os embaixadores britânico e francês, aplaudira e cantara juntamente com todos os outros, mas, de súbito, fora pedido aos manifestantes que dispersassem o mais depressa possível, pois podia haver um ataque aéreo. As pessoas obedeceram com celeridade, e o meu pai podia ter sido asfixiado na barafunda daí resultante. Fosse como fosse, estava muito satisfeito e bem disposto. Infelizmente, a nossa alegria foi de curta duração. Os comunicados da frente tornavam-se cada vez mais alarmantes. No dia 7 de Setembro, pouco antes de alvorecer,

bateram com força à porta da nossa casa. O nosso vizinho do apartamento do lado oposto, um

médico, estava parado à nossa porta, de botas altas do exército, casaco de caça, boné desportivo e uma mochila. Apesar de estar com muita pressa, achava seu dever informar-nos de que os alemães avançavam para Varsóvia, o governo se mudara para Lublin e todos os homens fisicamente aptos deviam deixar a cidade e dirigir-se para a outra margem do Vístula, onde seria construída uma nova linha de defesa. Ao princípio, nenhum de nós acreditou nele. Eu resolvi tentar obter confirmação de alguns dos outros vizinhos. Henryk ligou o rádio, mas respondeu-lhe o silêncio:

a estação saíra do ar.

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Não encontrei muitos dos nossos vizinhos. Diversos apartamentos estavam fechados e, noutros, mulheres faziam as malas para os maridos ou irmãos, chorosas e preparadas para o pior. Não restavam dúvidas, o médico falara verdade. Tomei rapidamente uma decisão: ficaria. Não fazia sentido nenhum andar às voltas fora da cidade; se tinha de morrer, preferia morrer em casa. E, no fim de contas, alguém tinha de olhar pela minha mãe e pelas minhas irmãs, se o meu pai e Henryk partissem. No entanto, quando discutimos todos juntos o assunto, verifiquei que eles também tinham resolvido ficar. Mesmo assim, o sentido do dever da minha mãe levou-a a tentar persuadir-nos a sair da cidade. Olhava de um para outro de nós, com os olhos dilatados pelo receio, e ia apresentando novos argumentos a favor de deixarmos Varsóvia. Quando, porém, insistimos em ficar, um alívio e uma satisfação instintivos espelharam-se nos seus bonitos olhos expressivos: acontecesse o que acontecesse, era melhor estarmos juntos. Esperei até às oito horas e depois saí e encontrei a cidade irreconhecível. Como podia o seu aspecto ter mudado tanto, e tão completamente, em apenas algumas horas? Todas as lojas estavam fechadas. Não se viam eléctricos nas ruas, apenas automóveis cheios de gente, carregados e a grande velocidade, todos em direcção às pontes sobre o Vístula. Um destacamento de soldados marchava pela Rua Marszalkowska abaixo. Os homens mostravam uma atitude desafiadora e cantavam, mas notava-se uma negligência fora do vulgar no tocante a disciplina: cada um tinha o boné inclinado à sua maneira, transportavam as espingardas como lhes apetecia e não marchavam com passo certo. Alguma coisa nos seus rostos indicava que partiam para lutar por sua própria iniciativa, por assim dizer, e há muito tinham deixado de fazer parte de uma máquina tão precisa e de funcionamento tão perfeito como o exército. Do passeio, duas jovens mulheres atiraram-lhes ásteres, ao mesmo tempo que gritavam qualquer coisa, histérica e repetidamente. Ninguém lhes prestava atenção. As pessoas passavam apressadas; era evidente que todas tencionavam atravessar o Vístula e estavam apenas ansiosas por resolver algumas últimas coisas importantes antes de os alemães começarem a atacar. Todas essas pessoas pareciam também diferentes das da noite anterior. Varsóvia era uma cidade tão elegante! Que fora feito das damas e dos cavalheiros vestidos como se tivessem saído das páginas de uma revista de moda? As pessoas que se apressavam agora em todas as direcções pareciam estar mascaradas de caçadores e turistas. Usavam botas altas, botas de esquiar, calças de esquiar, calções e lenços na cabeça, e transportavam trouxas, mochilas e bengalas. Não se tinham dado ao trabalho de se arranjarem para parecerem civilizadas, pois tinham-se vestido descuidadamente e com visível pressa.

As ruas, ainda ontem tão limpas, estavam cheias de lixo e poeira. Havia outros soldados sentados ou deitados em ruas transversais, no passeio, na beira do passeio, no meio da rua; tinham vindo directamente da frente e os seus rostos, atitude e gestos denunciavam exaustão e desânimo extremos. Na realidade, tentavam mesmo acentuar

o seu desânimo, para que quem os visse soubesse que estavam ali e não na frente porque não servia de nada estar na frente. Não valia a pena. Pequenos grupos de pessoas

trocavam entre si as notícias das zonas de combate que tinham obtido dos soldados. Eram todas más. Olhei instintivamente em redor, à procura de altofalantes. Tê-los-iam levado? Não, continuavam nos mesmos lugares, mas tinham emudecido. Apressei o passo para o centro de radiodifusão. Por que motivo não haveria comunicações? Por que motivo ninguém tentava dar ânimo às pessoas e estancar aquele êxodo maciço? Mas o centro estava fechado. A sua direcção abandonara a cidade e só restavam os tesoureiros, a pagar aos empregados da estação de rádio e aos artistas três meses de ordenado em substituição do aviso prévio de despedimento. - O que vamos fazer agora? - perguntei, agarrando a mão de um administrador superior. Olhou inexpressivamente para mim, mas depois vi desdém nos seus olhos, desdém que deu lugar a cólera quando soltou bruscamente a mão da minha.

- Quem se importa com isso? - gritou, encolhendo os ombros e saindo em grandes passadas para a rua. Bateu furiosamente com a porta.

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Era intolerável. Ninguém podia persuadir toda aquela gente a não fugir. Os altofalantes colocados nos candeeiros públicos estavam mudos e ninguém limpava a sujidade das ruas. Sujidade ou pânico? Ou a vergonha de fugir por aquelas ruas fora em vez de combater? A dignidade que a cidade subitamente perdera não podia ser restabelecida. Isso era derrota. Muito acabrunhado, fui para casa. Ao anoitecer do dia seguinte, a primeira granada da artilharia alemã atingiu o depósito de madeira que ficava defronte da nossa casa. As janelas da loja da esquina, tão cuidadosamente protegidas com tiras de papel branco, foram as primeiras a ficar estilhaçadas.

3 OS PRIMEIROS ALEMÃES

Nos dias seguintes, felizmente, a situação melhorou muito. A cidade foi declarada fortaleza e foi-lhe dado um comandante, que fez um apelo aos seus habitantes para permanecerem onde se encontravam e se prepararem para defender Varsóvia. Do outro lado da curva do rio tropas polacas estavam a organizar um contra-ataque e, entretanto, nós teríamos de conter a força principal do inimigo em Varsóvia, até os nossos soldados virem render-nos. A situação a toda a volta de Varsóvia também estava a melhorar

e a artilharia alemã deixara de bombardear a cidade.

Em contrapartida, os ataques aéreos inimigos tinham-se intensificado. E agora não eram dados alertas desses ataques; tinham paralisado a cidade e os seus preparativos de defesa durante demasiado tempo. Qi i"e hora a hora, os vultos prateados dos bombardeiros apareciam muito acima de nós, no céu extraordinariamente azul daquele Outono, e víamos as nuvens de fumo branco das explosões das granadas disparadas contra eles pela nossa artilharia. Tínhamos, então, de correr para os abrigos. O caso agora era muito sério: a cidade inteira estava a ser bombardeada. O chão e as paredes dos abrigos antiaéreos tremiam, e se uma bomba caía no edifício debaixo

do qual estávamos escondidos, era morte certa: a bala naquele mortífero jogo de roleta russa. Ambulâncias cruzavam constantemente a cidade, e quando se esgotavam

eram complementadas com táxis, e até com simples veículos de tracção animal, para o transporte de mortos e feridos retirados das ruínas.

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O

moral da população era elevado e o entusiasmo crescia de hora a hora. Já não dependíamos da

sorte e da iniciativa individual, como em 7 de Setembro. Agora éramos

um exército, com comandantes e munições; tínhamos um objectivo - a autodefesa - cujo êxito ou fracasso dependiam de nós. Tínhamos apenas de usar toda a nossa força.

O

general comandante pediu às pessoas que abrissem trincheiras à volta da cidade, a fim de impedir

o

avanço dos tanques alemães. Oferecemo-nos todos como voluntários

para essa tarefa; só a minha mãe ficava em casa de manhã, para cuidar do apartamento e preparar- nos uma refeição. Estávamos a cavar ao longo do lado de uma colina nos limites dos subúrbios. Atrás de nós havia um simpático bairro residencial de moradias e à nossa frente um jardim

municipal cheio de árvores. Teria sido realmente um trabalho agradável se não fossem as bombas lançadas contra nós. A pontaria não era muito precisa e elas caíam

a alguma distância, mas não deixava de ser desconfortável ouvi-las assobiar por cima de nós enquanto trabalhávamos lá em baixo, na nossa trincheira, conscientes

de que nada impediria que uma delas nos acertasse.

No primeiro dia, um velho judeu de cafetã e solidéu cavava a meu lado. Fazia-o com fervor bíblico, atirando-se à pá com todo o seu peso, como se ela fosse um inimigo mortal, espumando pela boca, com o rosto pálido banhado de suor, o corpo inteiro a tremer e os músculos contraídos. Rangia os dentes, enquanto trabalhava, um torvelinho negro de cafetã e barba. O seu esforço obstinado, muito superior às suas capacidades normais, produzia resultados desoladoramente pequenos. A ponta da sua pá mal conseguia penetrar na lama endurecida e os torrões secos, amarelos, que lograva arrancar, escorregavam de novo para a trincheira, antes que o pobre velho pudesse, com um esforço sobre-humano, erguer a pá e lançá-los para fora da vala. Com intervalos de poucos momentos, encostava-se à parede de terra, sacudido por ataques de tosse. Pálido como um moribundo, sorvia a infusão de hortelã-pimenta preparada para refrescar os trabalhadores por mulheres idosas, demasiado fracas para cavarem, mas empenhadas em serem de alguma utilidade.

- Está a esforçar-se demais - disse-lhe numa das suas paragens. - Não devia, de facto, estar a cavar,

visto não ser suficientemente forte para isso. - Com pena dele, tentei persuadi-lo a desistir; era claramente inapto para aquele trabalho. - No fim de contas, ninguém lhe pede que faça isto. Olhou para mim, ainda a ofegar, e depois para o céu, um sereno azul-safira onde as pequenas nuvens brancas deixadas pelas granadas ainda pairavam, e uma expressão

de êxtase encheu-lhe os olhos, como se visse Jeová em toda a sua majestade, ali, no firmamento.

- Tenho uma loja! - murmurou.

Suspirou ainda mais profundamente, e saiu-lhe do peito um soluço. O desespero voltou-lhe ao rosto, quando agarrou de novo a pá, fora de si com a violência do esforço. Parei de cavar ao fim de dois dias. Tinha ouvido dizer que a estação de rádio estava de novo a transmitir, agora com um novo director, Edmund Rudnicki, que fora

o

chefe do departamento musical. Em vez de fugir como os outros, reunira os seus colegas dispersos

e

reabrira a estação. Cheguei à conclusão de que seria mais útil

lá do que a cavar, e era verdade: toquei muito, como solista e acompanhante.

Entretanto, as condições na cidade começaram a deteriorar-se, dir-se-ia que na razão inversa da coragem e determinação crescentes dos seus habitantes.

A artilharia alemã recomeçou a bombardear Varsóvia, primeiro os subúrbios e depois também o

centro da cidade. Cada vez mais edifícios perdiam os vidros das suas janelas, havia buracos redondos nas paredes atingidas e esquinas de alvenaria arrancadas. À noite, o reflexo dos incêndios avermelhava o céu e o ar estava impregnado

do

cheiro a queimado. As provisões escasseavam. Este era o único ponto em que o heróico prefeito

da

cidade, Starzynski, se enganara: não devia ter aconselhado as

pessoas a não fazerem reservas de alimentos. A cidade tinha agora de se alimentar não só a si mesma, mas também aos soldados encurralados dentro dela e ao exército

de Poznan, que viera do oeste para Varsóvia a fim de reforçar a defesa.

Por volta de 2O de Setembro, a nossa família mudou-se toda da Rua Sliska para casa de uns amigos que tinham um apartamento

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no

primeiro andar de um prédio da Rua Pariska. Nenhum de nós gostava dos abrigos antiaéreos. Era

quase impossível respirar o ar abafado, na cave, e o tecto baixo dava a impressão de ir desabar a qualquer momento, sepultando tudo debaixo dele com as ruínas de um prédio de vários andares por cima. Mas era difícil continuar no nosso terceiro andar. Ouvíamos constantemente o silvo das granadas a passar pelas nossas

janelas, que tinham perdido todos os vidros, e um dos projécteis poderia facilmente atingir o nosso prédio, na sua trajectória pelo ar. Decidimos que o primeiro andar seria melhor: as granadas atingiriam os andares mais altos, onde explodiriam,

e nós não teríamos de descer para a cave. Já se encontravam várias pessoas em casa dos nossos amigos, que estava apinhada, e por isso tivemos de dormir no chão.

Entretanto, o cerco de Varsóvia, o primeiro capítulo da trágica história da cidade, chegava ao fim. Tornava-se cada vez mais difícil para mim chegar ao centro de radiodifusão. Os cadáveres de pessoas e cavalos mortos pelos estilhaços jaziam espalhados pelas ruas, zonas inteiras da cidade estavam em chamas e, agora que os serviços camarários de abastecimento

de água tinham sido danificados pela artilharia e pelas bombas, não

era possível tentar extinguir os incêndios. Tocar no estúdio também era perigoso. A artilharia alemã estava a alvejar todos os lugares mais importantes da cidade,

e, assim que um locutor começava a anunciar um programa, as baterias alemãs abriam fogo contra o

centro de radiodifusão. Durante esta penúltima fase do cerco, o medo histérico de sabotagem que se apoderara da população

atingiu o ponto máximo. Qualquer pessoa podia ser acusada de espiar

e abatida de um momento para o outro, antes de ter tempo de se explicar.

Uma solteira idosa, professora de música, vivia no quarto andar do prédio para onde nos mudáramos,

a fim de estarmos com os nossos amigos. Tinha a pouca sorte de

ter o apelido de Hoffer e de ser corajosa. A sua coragem, aliás, também podia ser descrita como excentricidade. Não havia ataque aéreo ou disparos de artilharia capazes de induzi-la a descer para o abrigo em vez de fazer as suas duas horas diárias de prática de piano, antes do almoço. Tinha alguns pássaros numa gaiola, na varanda, e alimentava-os três vezes por dia com a mesma obstinada regularidade. Este modo de viver parecia claramente estranho na sitiada cidade de Varsóvia. E extremamente suspeito às empregadas domésticas do prédio. Reuniam-se nas instalações da porteira, para falarem de política. Depois de muitas idas e vindas, chegaram à firme conclusão de que uma professora com um apelido tão inequivocamente alemão devia ser, ela própria, alemã e de que os seus ensaios de piano eram um código secreto que utilizava para enviar sinais aos pilotos da Luftwaffe, dizendo-lhes

onde deviam lançar as suas bombas. Num abrir e fechar de olhos, as agitadas mulheres entraram em casa da excêntrica senhora, amarraram-na e fecharam-na numa das caves, juntamente com os pássaros, como prova da sua sabotagem. Sem o pretenderem, salvaram-lhe

a vida: poucas horas depois, uma granada atingiu a sua casa e destruiu-a

completamente. Toquei pela última vez à frente do microfone no dia 23 de Setembro. Não faço a mais pequena idéia de como cheguei ao centro de radiodifusão, nesse dia. Corri da entrada de um prédio para a entrada de outro, escondi-me e depois corri de novo para a rua, quando me pareceu que já não ouvia o silvo das granadas nas proximidades. Encontrei o prefeito Starzynski à porta do centro. Estava despenteado e com a barba por fazer e tinha estampada no rosto uma expressão de mortal fadiga. Havia alguns dias que não dormia. Era o coração e a alma da defesa, o verdadeiro herói da cidade. Pesava-lhe nos ombros toda a responsabilidade pelo destino de Varsóvia. Estava

em todo o lado: percorria as trincheiras, tinha a seu cargo a construção de barricadas, a organização

de

hospitais, a distribuição justa da pouca comida que existia, as defesas contra ataques aéreos e os

serviços de combate a incêndios, e ainda arranjava tempo para se dirigir diariamente à população. Todos aguardavam ansiosamente os seus discursos, que lhes davam coragem: não havia motivo algum para desanimar enquanto o prefeito não tivesse dúvidas. De qualquer modo, a situação não parecia demasiado má. Os franceses tinham

atravessado a Linha Siegfried, Hamburgo fora violentamente bombardeada pela força aérea britânica e o exército britânico podia, agora, desembarcar na Alemanha a qualquer momento. Ou, pelo menos, era isso que nós pensávamos.

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Nesse último dia na estação de rádio, ia fazer um recital de Chopin. Foi a última música ao vivo transmitida de Varsóvia. Explodiram granadas perto do centro de radiodifusão durante o tempo todo em que toquei e estavam a arder edifícios muito perto de nós. Quase não ouvia o som do meu piano no meio de tanto barulho. Depois do recital tive de esperar duas horas que o bombardeamento abrandasse o suficiente para poder ir para casa. Os meus pais, o meu irmão e as minhas irmãs tinham pensado que eu morrera e acolheram-me como se tivesse ressuscitado do túmulo. A nossa empregada era a única pessoa convencida de que toda aquela ansiedade tinha sido desnecessária. "No fim de contas, ele tinha os documentos no bolso", lembrou. "Se tivesse sido morto, saberiam aonde trazê-lo." No mesmo dia, às três e um quarto da tarde, a Rádio Varsóvia saiu do ar. Estava a ser transmitida uma gravação do Concerto para Piano em Dó Menor, de Rachmaninov, e, precisamente quando o belo e sereno segundo andamento chegava ao fim, uma bomba alemã destruiu a central eléctrica. Os altofalantes emudeceram em toda a cidade. Ao anoitecer, apesar de o fogo de artilharia ser de novo intenso, tentei trabalhar na composição do meu concertino para piano e orquestra. Continuei a trabalhar nele durante todo o mês de Setembro, embora com dificuldade crescente.

Quando escureceu, nessa noite, espreitei pela janela. A rua, avermelhada pelo reflexo dos incêndios, estava completamente deserta, e o único som que se ouvia era

o eco da explosão de granadas. À esquerda, a Rua Marszaikowska estava em chamas, assim como a

Rua Królewska e o Largo Grzybowski, atrás de nós, e a Rua de Sienna, mesmo em frente. Grandes massas de fumo vermelho-sangue erguiam-se acima dos prédios. As ruas

e os passeios estavam salpicados de panfletos alemães brancos, que

ninguém apanhava por constar que estavam envenenados. Jaziam dois cadáveres debaixo de um candeeiro, no cruzamento, um estendido de braços abertos e o outro encolhido,

como se estivesse a dormir. À porta do nosso prédio encontrava-se o cadáver de uma mulher, com a cabeça e um braço arrancados por uma explosão. A seu lado, estava caído um balde; ela tinha saído para ir buscar água ao poço.

O seu sangue corria para a valeta, num comprido regato escuro que depois mergulhava num esgoto

coberto por uma grade. Um carro puxado por uma cavalo avançava com alguma dificuldade pela rua abaixo, vindo da Rua Wielka e indo na direcção da Rua Zelazna. Era difícil perceber como ali chegara e por que motivo

• cavalo e o cocheiro pareciam tão calmos, como se nada estivesse a passar-se à sua volta. O homem parou o cavalo à esquina da Rua Sosnowa, como se estivesse indeciso entre virar ali ou continuar em frente. Após breve reflexão, optou por seguir em frente; deu um estalo com a língua e o cavalo reatou o trote. Encontravam-se a cerca

de dez passos da esquina quando se ouviu um silvo, um estrondo

• a rua ficou momentaneamente banhada de luz branca, como se o flash de uma máquina fotográfica

tivesse disparado. Fiquei ofuscado. Quando os meus olhos voltaram

a habituar-se ao crepúsculo, o carro desaparecera. Pedaços de madeira, restos de rodas e varais, bocados dos forros dos bancos e os corpos despedaçados do cocheiro

• do cavalo espalhavam-se ao longo das paredes dos prédios. Se ele tivesse optado por descer a

Rua Sosnowa Chegaram os terríveis dias 25 e 26 de Setembro. O estrépito das explosões misturava-se com o troar constante dos canhões, atravessado pelo zumbido de aviões em voo picado, como brocas eléctricas a abrir buracos em ferro. O ar estava saturado de fumo, poeira de tijolos e estuque esboroados. Entrava por todos os lados, sufocando

pessoas que se tinham fechado em caves ou nas suas casas, para estarem o mais afastadas possível da rua. Não sei como sobrevivi a esses dias. Um estilhaço de granada matou uma pessoa que estava sentada

a meu lado, no quarto dos nossos amigos. Passei duas noites e um

dia com dez pessoas, de pé, num lavabo minúsculo. Algumas semanas depois, quando nos

perguntámos como tal fora possível e tentámos meter-nos lá de novo, verificámos que só cabiam oito pessoas - a não ser, claro, que estivessem apavoradas com medo de morrerem. Varsóvia rendeu-se na quarta-feira, 27 de Setembro. Passaram mais dois dias antes de me atrever a sair. Voltei para casa profundamente deprimido: a cidade já não existia; ou pelo menos assim pensei, então, na minha inexperiência. Nowy Swiat era um beco estreito, que serpenteava entre montes

de entulho. Em cada esquina era obrigado a fazer desvios à volta de

barricadas construídas com eléctricos voltados e lajes de pavimen

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tação arrancadas. Havia corpos corpos em decomposição amontoados nas ruas. As pessoas, famintas em conseqüência do cerco, atiravam-se às carcaças de cavalos espalhadas por ali. As ruínas de muitos edifícios ainda fumegavam. Encontrava-me na Aleje Jerozolimskie quando se aproximou uma motocicleta vinda da direcção do Vístula. Montavam-na dois soldados com uniformes verdes que não conhecia

e capacetes de aço. Tinham caras grandes, impassíveis, e olhos azul-claros. Pararam junto ao passeio

e chamaram aos berros um rapaz assustado. Ele aproximou-se. - Marschallstrasse! Marschallstrasse!

Repetiam a mesma palavra, que era o equivalente alemão à Rua Marszaikowska. O rapaz ficou

parado, confuso, de boca aberta e incapaz de proferir um som. Os soldados perderam a paciência. -Ora, raios partam! - berrou o condutor, com um gesto furioso. Acelerou e a motocicleta afastou-se, ruidosamente. Eram os primeiros alemães que eu via. Poucos dias depois, apareceram nas paredes de Varsóvia proclamações bilingües, assinadas pelo comandante e prometendo à população condições de trabalho tranqüilas

e a atenção do Estado alemão. Havia um parágrafo especial dedicado aos judeus: eram-lhes garantidos todos os seus direitos, a inviolabilidade dos seus bens e que

as suas vidas estariam em absoluta segurança.

4 O MEU PAI CURVA-SE AOS ALEMÃES

Voltámos para a Rua Sliska. Encontrámos o nosso apartamento intacto, apesar de termos pensado que isso seria impossível. Faltavam alguns vidros nas janelas, mais nada. As portas estavam fechadas à chave, como as deixáramos, e até os objectos mais insignificantes continuavam nos seus antigos lugares. Outras casas daquela zona também permaneciam intactas ou haviam sofrido apenas pequenos estragos. Nos dias seguintes,

quando começámos a sair para sabermos o que acontecera aos nossos conhecidos, descobrimos que, apesar de muito danificada, na sua essência a cidade continuava de pé. As perdas não eram tão pesadas como se poderia pensar, à primeira vista,

ao passar pelas grandes extensões de ruínas ainda fumegantes.

Acontecia o mesmo em relação às pessoas. Inicialmente, falou-se de cem mil mortos, o que equivalia

a quase dez por cento da população da cidade e horrorizou toda

a gente. Mais tarde, soubemos que tinham morrido cerca de vinte mil pessoas.

Entre elas contavam-se amigos, que víramos vivos poucos dias antes e jaziam agora sob as ruínas ou despedaçados por granadas. Duas colegas da minha irmã Regina tinham morrido quando um prédio da Rua Koszykowa ruiu. Ao passarmos por lá, tínhamos de tapar o nariz com um lenço: o fedor nauseante de oito corpos em decomposição passava por recessos e fendas das janelas tapadas da cave e contaminava o ar. Uma granada matara um dos meus colegas na Rua Mazowiecka. Só depois de a sua cabeça ter sido

encon

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trada foi possível determinar que os desposjos espalhados pertenciam a um ser humano que fora um violinista talentoso. Por terríveis que estas notícias fossem, não conseguiam perturbar o nosso prazer animal de ainda estarmos vivos e sabermos que quem escapara à morte já não corria perigo imediato, embora o subconsciente reprimisse, por vergonha, tais sentimentos. Neste novo mundo, onde tudo quanto havia apenas um mês tivera um valor permanente

estava destruído, as coisas mais simples, coisas em que mal teríamos reparado antes, adquiriam um enorme significado: uma poltrona sólida e confortável, o aspecto apaziguador de um fogão revestido de mosaicos brancos no qual podíamos repousar os olhos, o estalar das tábuas do soalho, tudo isso era um agradável prelúdio para

a

atmosfera de paz e tranqüilidade em casa.

O

meu pai foi o primeiro a voltar à sua música. Fugia à realidade tocando violino horas a fio.

Quando alguém o interrompia com uma má notícia, escutava e franzia

a testa, com ar irritado, mas o seu rosto não tardava a desanuviar-se e ele dizia, levantando o violino para o queixo: "Oh, não se preocupem. Os Aliados estarão com certeza aqui dentro de um mês." Esta resposta estereotipada a todas as perguntas e problemas daquele tempo era a sua maneira de fechar a porta da realidade e regressar àquele outro mundo da música onde se sentia mais feliz. Infelizmente, as primeiras notícias comunicadas por pessoas que tinham comprado acumuladores, que lhes permitiam ter de novo os aparelhos de rádio a funcionar, não confirmavam o optimismo do meu pai. Nada do que ouvíramos estava certo: os Franceses não tinham intenção alguma de atravessar a Linha Siegfried, do mesmo modo que os Britânicos não planejavam bombardear Hamburgo, quanto mais desembarcar na costa da Alemanha. Por outro lado, estavam a começar em Varsóvia as primeiras incursões racistas alemãs. Ao princípio, foram efectuadas atabalhoadamente, como se os perpetradores tivessem vergonha daqueles novos meios de atormentar pessoas, e de qualquer maneira faltava-lhes a prática. Vários pequenos carros particulares percorriam as ruas e encostavam inesperadamente ao passeio quando localizavam um judeu. As portas do automóvel abriam-se e uma mão estendia-se, a chamar com um dedo. "Entre!" Os que regressavam dessas detenções ainda não eram muito graves. As ofensas físicas limitavam-se a bofetadas, murros e, algumas vezes, pontapés. Mas, em virtude de se tratar de um procedimento tão novo, as vítimas ressentiam-no vivamente, considerando uma bofetada de um alemão algo ignominioso. Ainda não tinham compreendido que uma pancada dessas não tinha mais significado moral do que um empurrão ou um coice de um animal. Nessa fase inicial, a ira contra o governo e o exército, de que tinham ambos fugido e deixado o país entregue ao seu destino, era de modo geral mais forte do que o ódio aos alemães. Amargamente, recordávamos as palavras do marechal-de-campo que tinha jurado que não permitiria que o inimigo ficasse com um único botão do seu uniforme - e não permitiu, de facto, mas apenas porque os botões continuaram presos ao seu uniforme quando ele salvou a pele fugindo para o estrangeiro. Não tinham faltado sequer vozes insinuando que talvez até estivéssemos melhor assim, pois os alemães poriam alguma ordem no caos que a Polónia era. Agora, porém, que tinham ganho o conflito armado contra nós, os alemães pareciam decididos a perder a guerra política. A execução da primeira centena de cidadãos inocentes de Varsóvia, em Dezembro de 1939, foi um ponto de viragem crucial. Decorridas poucas horas, erguera-se uma muralha de ódio entre alemães e polacos, e depois disso nenhum deles conseguiu transpô-la, embora os alemães tivessem mostrado alguma disposição para o fazer nos anos posteriores da ocupação. Os primeiros decretos alemães estipulando a pena de morte para quem não obedecesse foram colados nas paredes. O mais importante dizia respeito ao preço do pão: quem fosse apanhado a comprar ou vender pão a preço superior ao de antes da guerra seria fuzilado. Esta proibição causou-nos uma impressão devastadora. Passávamos dias

a fio sem comer pão, substituindo-o por batatas e outros alimentos amiláceos. Mas depois Henryk descobriu que ainda havia pão, e estava à venda, sem que o vendedor

caísse forçosa e imediatamente morto. Por isso recomeçámos a comprá-lo. Como o decreto nunca foi revogado e toda a gente comprou e comeu pão diariamente durante os cinco anos de ocupação, só por esse crime deveria ter havido

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milhões de condenações à morte na zona do Governo Geral do território polaco sob domínio alemão. Mas foi preciso muito tempo para nos convencermos de que os decretos alemães não tinham realidade nenhum peso, e que o verdadeiro perigo que corríamos era o que nos podia acontecer a qualquer momento, de forma totalmente inesperada, sem ser anunciado por quaisquer normas ou regulamentos, por muito fictícios que fossem. Em breve começaram a ser publicados decretos aplicáveis e exclusivamente a judeus. Uma família judia não podia ter em casa mais de dois mil zlótis. Outras economias

e objectos de valor deviam ser depositados no banco, numa conta bloqueada. Ao mesmo tempo os

bens imóveis dos judeus tinham de ser entregues aos alemães. Naturalmente, quase ninguém foi ingénuo ao ponto de entregar o que era seu ao inimigo por sua própria iniciativa. Como toda a gente, resolvemos esconder os nossos objectos valiosos,

embora consistissem apenas no relógio e corrente de ouro do meu pai e na quantia de cinco mil zlótis. Discutimos acaloradamente sobre a melhor maneira de os escondermos. O meu pai sugeriu alguns métodos tentados e testados na última guerra, tais como abrir um buraco na perna da mesa sala de jantar e esconder lá os valores.

- E se eles nos levam a mesa? - perguntou Henryk, sarcasticamente.

- Idiota - replicou o meu pai, aborrecido. - Para que queriam eles uma mesa? Uma mesa como esta? Olhou desdenhosamente para a mesa. A sua brilhante superfície de nogueira estava manchada por líqüidos entornados e o foliado do tampo começava a soltar-se ligeiramente,

num ponto. A fim de retirar a essa peça de mobiliário o último vestígio de valor, o pai meteu o dedo debaixo do foliado solto, que estalou e se partiu deixando à vista uma tira de madeira nua.

- O que estás tu a fazer? - perguntou a minha mãe, num tom repreensivo.

Henryk tinha outra sugestão. Achava que devíamos utilizar métodos psicológicos e deixar o relógio

e o dinheiro bem à Os alemães procurariam em todos os cantos e

nunca reparariam nos valores que se encontrassem à vista, em cima da mesa. Chegámos a um acordo amigável: o relógio foi escondido debaixo do aparador, a corrente sob o braço do violino do meu pai e o dinheiro enfiado nos caixilhos da janela. Embora alarmadas com a severidade das leis alemãs, as pessoas não perdiam o ânimo e confortavam-se com a idéia de que os alemães poderiam entregar Varsóvia à Rússia Soviética a qualquer momento, e áreas ocupadas apenas para manter as aparências seriam restituídas à Polónia tão depressa quanto possível. Ainda não fora estabelecida nenhuma fronteira na curva do Vístula e vinham à cidade pessoas de ambas as margens, que juravam ter visto com os próprios olhos tropas do Exército Vermelho em Jablonna ou Garwolin. Mas logo a seguir chegavam outras que juravam ter visto, também com os próprios olhos, os russos retirarem de Vilna e Lvóv e entregarem essas cidades aos alemães. Era difícil decidir em quais dessas testemunhas oculares acreditar.

Muitos judeus não esperaram que os russos chegassem; venderam os seus bens e partiram para leste,

o único caminho que ainda lhes restava para fugirem dos alemães.

Quase todos os meus colegas músicos partiram e instigaram-me a ir com eles. A minha família, porém, continuava decidida a ficar onde estava.

Um desses colegas voltou dois dias depois, contuso e faminto, sem mochila e sem dinheiro. Vira judeus seminus atados pelas mãos às árvores próximas da fronteira

e serem chicoteados. E assistira à morte do Dr. Haskielewicz, que disse aos alemães que queria

atravessar a curva do rio. De pistola apontada, tinham-lhe ordenado que entrasse no rio, cada vez mais e com água mais alta, até perder o pé e se afogar. O meu colega tinha perdido apenas os seus pertences e o seu dinheiro, depois do que fora espancado e mandado para trás. Mas muitos judeus, apesar de roubados e maltratados, conseguiram chegar à Rússia.

Tivemos pena do pobre homem, evidentemente, mas ao mesmo tempo experimentámos um sentimento de triunfo: nada daquilo lhe teria acontecido se tivesse seguido o nosso conselho e ficado. A nossa decisão não se devia a qualquer espécie de raciocínio lógico. A verdade pura e simples é que decidimos ficar devido ao nosso afecto por Varsóvia, embora também não tivéssemos sido capazes apresentar alguma explicação lógica para isso. 42 43 Quando digo a nossa decisão, estou a pensar em todos os entes queridos, excepto o meu pai. Se ele não partia de Varsóvia mais por não querer estar muito longe de Sosnowiec, de era oriundo. Nunca gostara de Varsóvia, e quanto pior a sit se tornava, para nós, mais ele ansiava por uma Sosnowiec id da. Sosnowiec era o único lugar onde a vida era boa, e pessoas tinham sensibilidade musical e apreciavam um bom pianista. Sosnowiec era, até, o único lugar onde se podia beber cerveja decente, pois em Varsóvia não se conseguia encontrar do que repugnante e intragável água de lavar louça. Depois do jantar, o meu pai cruzava as mãos sobre o estômago, recostava-se na cadeira, fechava sonhadoramente os olhos e enfadava-nos com monótono desfiar de visões de uma Sosnowiec que só exist sua enternecida imaginação. Nessas semanas de fins de Outono, menos de dois meses de os alemães terem tomado Varsóvia, a cidade regressou, de súbito e completamente inesperado, ao seu antigo modo de vida. melhoria das suas circunstâncias materiais, alcançada tão facilmente. Foi mais uma surpresa para nós naquela guerra, mais surpreendente que qualquer outra, onde nada acontecia como esperávamos. A me cidade, capital de um país com uma população de muitos milhares de pessoas, estava se parcialmente destruída, um exército de funcionários públicos estava sem emprego e não paravam de chegar va evacuados da Silésia, da área de Poznan e da Pomerânia. Inesperadamente, todas essas pessoas - gente sem um tecto, sem trabalho e. as mais sombrias perspectivas - compreenderam que era ganhar muito dinheiro, com grande facilidade, contornando os muitos alemães. Quantos mais decretos eles impunham, mais a eles eram as probabilidades de ganhar. Começaram a viver-se duas vidas paralelas: uma vida fictícia, baseada em normas que obrigavam as pessoas a todo alvorecer ao anoitecer, quase sem comerem, e uma se vida, não oficial, cheia de fantásticas oportunidades de ter com um tráfico de dólares, diamantes, farinha, cabedal ou, documentos falsos: uma vida vivida sob constante ameaça de morte, mas alegremente gozada em restaurantes luxuosos quais as pessoas iam em "riquexos". Nem todos a viviam assim, evidentemente. Todos os dias, quando regressava a casa à noite, via uma mulher sentada no mesmo nicho da parede da Rua de Sienna, a tocar concertina e a cantar tristes canções russas. Nunca começava a pedir antes do crepúsculo, talvez por ter medo de ser reconhecida. Usava um fato cinzento, porventura o último que tinha, cuja elegância mostrava que a sua dona conhecera melhores tempos. O seu rosto bonito parecia sem vida, no lusco-fusco, e os seus olhos estavam fixos no mesmo ponto, algures acima das cabeças dos transeuntes. Cantava com nina atraente voz profunda e acompanhava-se bem com a concertina. Todo o seu porte,

o modo como se encostava à parede, revelava tratar-se de uma senhora da sociedade que só a guerra forçara a ganhar assim a vida. Mas até ela ganhava muito bem. Havia

sempre muitas moedas na pandeireta enfeitada de fitas que ela supunha, com certeza, ser o símbolo

da profissão de pedinte. Colocara-a aos pés, para que ninguém pudesse

ter qualquer dúvida de que estava a mendigar, e além de moedas continha algumas notas de cinqüenta zlótis.

Eu próprio nunca saía antes do crepúsculo, se podia, mas por razões inteiramente diferentes. Entre os muitos regulamentos incómodos impostos aos judeus, havia um que, embora não escrito, tinha de ser respeitado muito cuidadosamente: homens de origem judaica tinham de curvar-se diante de cada soldado alemão que encontrassem. Esta exigência estúpida e humilhante deixava-nos fulos de raiva, a Henryk e a mim, e recorríamos a todos os estratagemas para a contornar. Fazíamos grandes desvios nas ruas para evitarmos encontrar um alemão, e se tal era impossível olhávamos para outro lado, fingindo não o ter visto, embora pudéssemos ser espancados por isso.

A atitude do meu pai era muito diferente. Procurava as ruas mais compridas para os seus passeios e

curvava-se com um garbo indescritivelmente irónico diante dos

alemães, sentindo-se feliz quando um dos soldados, induzido em erro pelo seu rosto radiante, lhe retribuía com uma saudação cortês e sorria como se ele fosse um

bom

amigo. Ao regressar a casa, todas as noites, não podia

de comentar, com ar displicente, o seu extenso círculo de conhecidos: bastava-lhe pôr os pés na rua, dizia-nos, e era cercado

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por dúzias deles. Não podia, sinceramente, resistir à sua cordialidade e a sua mão estava a ficar rígida de tanto e tão cortesmente levantar o chapéu. Sorria, travesso, enquanto dizia estas coisas e esfregava as mãos de contentamento. Mas a maldade dos alemães não devia ser tomada de ânimo leve. Fazia parte de um plano destinado

a manter-nos num constante estado de incerteza nervosa quanto ao

nosso futuro. De poucos em poucos dias, saíam novos decretos. Aparentemente, não tinham qualquer importância, mas recordavam-nos que os alemães não nos haviam esquecido, nem tinham intenção alguma de nos esquecer

A seguir, os judeus foram proibidos de viajar de comboio. Mais tarde, passaram a cobrar-nos, por

um bilhete de eléctrico, o quádruplo do que cobravam a um "ariano". Começaram a circular os primeiros boatos acerca da construção de um ghetto. Proliferaram durante dois dias, encheram-nos os corações de desespero, e depois cessaram.

5 VOCES SÃO JUDEUS? Cerca do fim de Novembro, quando os belos dias daquele Outono extraordinariamente longo

estavam a tornar-se mais raros e chuvadas frias caíam na cidade com freqüência crescente, o meu pai, Henryk e eu tivemos o nosso primeiro contacto com o estilo de morte alemão. Uma noite, fôramos os três visitar um amigo. Tínhamos estado a conversar e quando olhei para o relógio, dei-me conta, assustado, de que eram quase horas de recolher. Precisávamos de sair imediatamente, embora não houvesse a mínima probabilidade de chegarmos a casa a tempo. Mas não era um crime assim tão grande estar um quarto

de hora atrasado e havia esperança de escaparmos daquela encrenca.

Pegámos nos sobretudos, despedimo-nos apressadamente e saímos. As ruas estavam escuras e já

completamente desertas. A chuva fustigava-nos os rostos, rajadas de vento

sacudiam as tabuletas dos anúncios e o ar ressoava com o matraquear de metal. Levantámos as golas dos sobretudos e tentámos andar o mais depressa possível, rente às paredes dos prédios. Encontrávamo-nos já a meio da Rua Zielna, e começava a parecer-nos que chegaríamos em segurança ao nosso destino, quando uma patrulha policial surgiu, de súbito numa esquina. Não tínhamos tempo para nos escondermos ou voltarmos para trás. Parámos simplesmente, apanhados

la luz ofuscante das suas lanternas, cada um a tentar pensar numa desculpa, quando um dos polícias veio direito a nós e apontou a lanterna aos nossos rostos.

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- Vocês são judeus? - A pergunta era puramente retórica,, pois ele não esperou pela resposta. - Então

é verdade. Havia uma nota de triunfo na sua confirmação da nossa origem racial. Exprimia satisfação por terem capturado semelhante presa. Num ápice, tínhamos sido agarrados e virados para a parede do prédio enquanto os polícias recuavam para o meio da rua e começavam a destravar as carabinas. Era afinal assim que íamos morrer. Isso aconteceria nos próximos segundos e, depois, ficaríamos caídos no passeio, banhados no nosso próprio sangue e com os crânios despedaçados, até ao dia seguinte. Só então a minha mãe e irmãs saberiam o que tinha acontecido

e viriam, desesperadas, encontrar-nos. Os amigos que visitáramos censurar-se-iam por nos terem demorado demais. Todos estes pensamentos me, passaram pela cabeça

de uma maneira estranha, como se outra pessoa os estivesse a pensar. Ouvi alguém dizer, alto: "É o fim." Só um momento depois tive consciência de que fora eu própria que falara. Ao mesmo tempo, ouvi um choro alto e um soluçar convulso. Virei a cabeça e, à luz crua da lanterna, vi o meu pai de joelhos no passeio molhado, a soluçar

e a suplicar aos polícias pelas nossas vidas. Como podia ele rebaixar-se tanto? Henryk estava

debruçado para o meu pai, a falar-lhe baixinho e a tentar levantá-lo. Henryk, o meu reservado irmão com o seu eterno sorriso sarcástico, tinha, naquele momento um ar extraordinariamente doce e terno. Eu nunca o vira assim. Devia haver, pois, outro Henryk, um Henryk, que eu compreenderia se o conhecesse, em vez de estar constantemente a brigar com ele.

Virei-me de novo para a parede. A situação não se modificara. O meu pai continuava a chorar, Henryk tentava acalmá-lo e os polícias ainda tinham as armas apontadas

a nós. Não conseguíamos vê-los atrás da parede de luz branca. De súbito, numa fracção de segundo, soube instintivamente que a morte deixara de nos ameaçar. Passaram mais uns momentos, e uma voz forte soou através da parede de luz.

- Como ganham a vida?

Henryk respondeu pelos três. Estava espantosamente controlado e tinha a voz muito calma, como se nada tivesse acontecido.

- Somos músicos.

Um dos polícias colocou-se à minha frente, agarrou-me na gola do sobretudo e sacudiu-me numa

última explosão de fúria, embora não houvesse nenhuma razão para isso, agora que resolvera deixar-nos viver.

- Têm sorte por eu também ser músico!

Deu-me um safanão que me atirou contra a parede.

- Desapareçam!

Corremos para a escuridão, ansiosos por nos afastarmos do alcance das suas lanternas o mais

depressa possível, antes que mudassem de opinião. Ouvimos as suas vozes

a ficarem mais fracas atrás de nós, envolvidas numa discussão violenta. Os outros dois protestavam com o que nos deixara partir. Achavam que não merecíamos qualquer compaixão, pois iniciáramos a guerra em que estavam

a morrer alemães.

De momento, porém, eles não estavam a morrer, mas sim a enriquecer. Com freqüência cada vez maior, bandos de alemães invadiam casas de judeus, pilhavam-nas e levavam

as mobílias em camionetas. Donos de casa transtornados vendiam as suas coisas mais valiosas e substituíam-nas por objectos sem valor, que não tentariam ninguém. Nós próprios vendemos os nossos móveis, embora mais por necessidade do que por medo:

estávamos cada vez pobres. Ninguém da família tinha jeito para regatear. Regina tentou mas sem êxito. Como advogada, tinha uma forte noção de honestidade e responsabilidade e era incapaz de pedir, ou aceitar, o dobro do preço que qualquer coisa valia. Não tardou a dar lições particulares. O meu pai, a minha mãe e Halina davam lições de música. Henryk ensinava inglês. Eu era o único que não conseguia arranjar um modo de ganhar o meu sustento naquele tempo. Mergulhado na apatia, a única coisa que podia fazer era trabalhar ocasionalmente na orquestração do meu concertino. Na segunda metade de Novembro, sem apresentarem quaisquer razões, os alemães começaram a barricar as ruas transversais a norte da Marszlkowska com arame farpado,

e no fim do mês foi feito um comunicado no qual ao princípio ninguém conseguiu acreditar. Nem nos nossos mais secretos pensamentos teríamos jamais suspeitado que

semelhante coisa pudesse acontecer: do dia 1 ao dia 5 de Dezembro, os judeus tinham de arranjar braçadeíras brancas

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com uma Estrela de David azul cosida e passar a usá-las. Íamos, pois, ser publicamente

estigmatizados como párias. Iam ser anulados vários séculos de progresso humanitário

e estávamos de novo na Idade Média.

Durante semanas a fio, a intelectualidade judaica manteve-se sob prisão domiciliária voluntária. Ninguém se arriscava a sair à rua com a marca na manga, e se era de todo impossível evitar sair de casa, tentávamos passar despercebidos caminhando de olhos postos no chão, envergonhados e angustiados. Seguiram-se, sem aviso, meses de Inverno rigoroso em que o frio parecia aliar-se aos alemães para matar gente. A geada durou semanas e a temperatura desceu mais

do que alguém na Polónia se lembrava de ter acontecido antes. Era quase impossível arranjar carvão

e o pouco que havia atingia preços fantásticos. Lembro-me de uma

série de dias em que tivemos de ficar na cama porque a temperatura no apartamento era insuportável. Durante o pior desse Inverno, chegaram a Varsóvia numerosos deportados judeus evacuados do Ocidente. Isto é, apenas alguns deles chegaram, de facto: tinham sido metidos em vagões de gado nos seus lugares de origem, os vagões tinham sido selados e as pessoas que se encontravam lá dentro tinham partido sem comida, água ou quaisquer meios para se manterem quentes. Era freqüente esses horríveis carregamentos levarem dias para chegarem a Varsóvia, e só então deixavam as pessoas sair. Nalguns deles, apenas uma escassa metade dos passageiros continuava viva, e esses estavam gravemente enregelados. A outra metade era constituída por cadáveres de pé, rígidos e gelados entre os restantes, que só caíam quando os vivos se mexiam. Chegara-se a um ponto em que parecia que as coisas não poderiam piorar. Mas essa era apenas a opinião dos judeus; os alemães pensavam de outro modo. Fiéis ao seu sistema de exercerem pressão por fases graduais, emitiram novos decretos repressivos judeus em Janeiro e Fevereiro de 194O OP primeiro anunciava que os judeus iriam

prestar dois anos de trabalho em campos de concentração onde receberiam "educação social

apropriada", para se curarem do hábito de sermos "parasitas do organismo saudável dos povos arianos". Os homens com idades compreendidas entre os doze e os sessenta anos e as mulheres entre os catorze e os quarenta e cinco, teriam de ir. O segundo determinava o método como seríamos registrados e levados. Para se pouparem

a esse trabalho, os alemães confiaram-no ao Conselho judaico, encarregado da administração da comunidade. Tínhamos, em suma, de participar na nossa própria execução, de preparar a nossa queda com as nossas próprias mãos, de cometer uma espécie de suicídio legalmente regulamentado. Os transportes partiriam na Primavera.

O

Conselho resolveu actuar de modo a poupar a maioria dos membros da intelectualidade. A troco

de

mil zlótis por cabeça, mandava um membro das classes trabalhadoras

judaicas como substituto da pessoa supostamente registrada. Evidentemente, nem todo o dinheiro acabava nas mãos dos próprios substitutos: os funcionários do Conselho precisavam de viver, e viviam bem, com vodka e umas iguariazitas. Mas os transportes não partiram na Primavera. Constou, de novo, que os decretos oficiais alemães não eram para ser levados a sério, e de facto houve, durante alguns meses, um abrandamento da tensão das relações germano-judaicas, que parecia cada vez mais genuíno à medida que cada uma das partes tinha de se concentrar mais no que se passava na frente.

A Primavera chegara, finalmente, e agora não podiam restar quaisquer dúvidas de que os Aliados,

que tinham passado o Inverno a fazer preparativos adequados, atacariam

a Alemanha a partir simultaneamente da França, da Bélgica e da Holanda, atravessariam a Linha Siegfried, tomariam o Sarre, a Baviera e a Alemanha Setentrional, conquistariam

Berlim e libertariam Varsóvia, o mais tardar nesse Verão. A cidade inteira encontrava-se num estado

de feliz excitação. Esperávamos o começo da ofensiva como se

esperássemos uma festa. Entretanto, os Alemães invadiram a Dinamarca, mas na opinião dos nossos políticos locais isso não significava nada. Os seus exércitos seriam simplesmente eliminados lá. Em 1O de Maio a ofensiva começou, finalmente, mas foi uma ofensiva alemã. A Holanda e a Bélgica caíram. Os Alemães entraram em França. Mais uma razão para não desanimarmos.

O ano de 1914 estava a repetir-se. Se até as mesmas pessoas estavam no comando, no lado francês:

Pétain, Weygand - excelentes homens 51 5O da escola de Foch. Podíamos confiar que se defenderiam contra os alemães tão bem como se tinham defendido na última vez. Por fim, em 2O de Março, um violinista, meu colega, visitou-me depois do almoço. Íamos tocar juntos uma sonata de Beethoven que não tocávamos há algum tempo e nos dava a ambos grande prazer. Estavam presentes mais alguns amigos, e a minha mãe, querendo fazer- me uma surpresa agradável, serviu-nos café. Estava um belo dia de

sol e apreciámos o café e os bolos deliciosos que ela fizera. Sentíamo-nos bem dispostos. Todos nós sabíamos que os Alemães estavam às portas de Paris, mas ninguém estava excessivamente preocupado com isso. No fim de contas, havia o Marne, essa clássica linha de defesa onde tudo teria de parar, como acontece na fermata da segunda secção do scherzo em si menor de Chopin, num ritmo tumultuoso de colcheias que se sucedem cada vez mais tempestuosamente, até ao acorde final: altura em que os Alemães recuariam para a sua própria fronteira tão vigorosamente quanto tinham avançado, conduzindo assim

ao fim da guerra e a uma vitória aliada.

Depois do café, preparámo-nos para continuar a execução. Sentei-me ao piano, com um grupo de

ouvintes sensíveis à minha volta, pessoas capazes de apreciar o prazer

que tencionava proporcionar-lhes, e também a mim próprio. O violinista estava de pé à minha direita e, à minha esquerda, estava sentada uma encantadora jovem amiga de Regina, que ia virar as páginas para mim. Que mais podia eu desejar para que a minha felicidade fosse completa, naquele momento? Só esperávamos por Halina, que fora à loja fazer um telefonema, para começarmos. Quando ela voltou, trazia um jornal, uma edição especial. Na primeira página estavam impressas duas palavras em letras enormes, com certeza as maiores de que os compositores dispunham: PARIS CAI! Apoiei a cabeça no piano e, pela primeira vez naquela guerra, desfiz-me em lágrimas. Embriagados pela vitória e detendo-se um momento para tomar fôlego, os alemães dispunham agora de tempo para pensar de novo em nós - embora não se pudesse dizer que nos tinham esquecido por completo durante os combates no Ocidente. Roubos a judeus, a sua evacuação forçada, deportações para trabalhar na Alemanha, tudo isso acontecia constantemente, mas nós habituáramo-nos. Agora esperava-nos pior. Em Setembro partiram os primeiros comboios para os campos de trabalho de Belzec e Hrubieszów. Os judeus que estavam a receber "educação especial apropriada" passavam lá dias a fio com água até à cintura, a instalar sistemas de esgoto aperfeiçoados, e recebiam cem gramas de pão e um prato de sopa aguada por dia, para se agüentarem. O trabalho não durava, na verdade, dois anos, como fora anunciado, mas apenas três meses. Isso chegava, no entanto, para esgotar as pessoas fisicamente e deixava muitas delas tuberculosas. Os homens que ainda permaneciam em Varsóvia tinham de se apresentar para trabalhar lá: toda a gente tinha de fazer seis dias de trabalho físico por mês. Eu fazia tudo o que podia para escapar a esse trabalho. Preocupava-me com os meus dedos. Bastaria uma atonia muscular, uma inflamação das articulações ou uma simples pancada forte e a minha carreira como pianista estaria acabada. Henryk via as coisas de modo diferente. Na sua opinião, uma pessoa intelectualmente criativa tinha de fazer trabalho físico para poder avaliar de modo adequado as suas faculdades, e por isso ele fazia a sua quota de trabalho, apesar de para isso ter de interromper os estudos. Passado pouco tempo, dois outros acontecimentos afectaram o estado de espírito público. Primeiro, começou a ofensiva aérea alemã contra a Inglaterra. Segundo, foram colocados avisos nas entradas das ruas que, posteriormente, assinalariam os limites do ghetto judeu, informando os transeuntes de que essas ruas estavam contaminadas de tifo e deviam ser evitadas. Pouco tempo depois, o único jornal de Varsóvia publicado em polaco pelos alemães trazia um comentário oficial sobre esse assunto:

além de serem parasitas sociais, os judeus também propagavam a infecção. Não seriam, dizia a notícia, encerrados num ghetto; a própria palavra ghetto não devia ser usada. Os Alemães eram uma raça demasiado culta e magnânima, declarava o jornal, para confinar até mesmo parasitas como os judeus em ghettos, um remanescente medieval indigno da nova ordem da Europa. Em vez disso, haveria na cidade um bairro judaico onde só viveriam judeus, no qual desfrutariam de total liberdade e poderiam continuar

a praticar os seus costumes e a sua cultura raciais. Por razões puramente higiénicas, esse bairro seria cercado por um muro, para que o tifo e outras doenças dos judeus

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não se propagassem a outras partes da cidade. Esta notícia humanitária era ilustrada por um pequeno mapa que mostrava as fronteiras exactas do ghetto. Pelo menos tivemos a consolação de a nossa rua já estar na área do ghetto e não precisarmos, assim, de procurar outra casa. Os judeus que moravam fora da área encontravam-se

numa triste situação. Tiveram de pagar quantias exorbitantes de sinal e procurar um novo tecto para os cobrir na última semana de Outubro. Os mais afortunados encontraram quartos disponíveis na Rua de Sienna, que viría a tornar-se nos Champs-Elysées do ghetto, ou mudaram-se para a área mais próxima. Outros foram condenados a míseráveis cafurnas nas abjectas áreas das ruas Gésia, Smocza e Zamenhof, que tinham sido habitadas pelo proletariado judaico desde tempos imemoriais. Os portões do ghetto foram fechados em 15 de Novembro. Eu tinha assuntos a tratar nessa noite no extremo oposto da Rua de Sienna, não longe da Rua Zelazna. Chuviscava, mas ainda estava um calor fora do vulgar para aquela época do ano. As ruas escuras estavam apinhadas de vultos com braçadeiras brancas. As pessoas revelavam todas uma grande agitação, correndo de um lado para o outro como animais metidos numa gaiola e ainda não habituados a ela. Mulheres lamentavam-se e crianças choravam de terror, empoleiradas, ao lado das paredes dos prédios, em montes de roupas de cama e colchões que iam ficando gradualmente molhados e sujos da porcaria das ruas. Eram famílias judias que tinham sido metidas à força atrás dos muros do ghetto e não tinham esperança de encontrar abrigo. Meio milhão de pessoas tinha de encontrar um lugar qualquer onde deitar a cabeça numa parte da cidade já sobrepovoada, onde mal havia espaço para mais de cem mil. Olhando pela rua escura abaixo, vi projectores iluminando o novo gradeamento de madeira: o portão do ghetto, do outro lado do qual viviam pessoas livres - em liberdade, com espaço adequado, na mesma cidade de Varsóvia. Mas nenhum judeu podia mais transpor aquele portão. A certa altura, alguém tocou na minha mão. Era um amigo do meu pai, outro músico e, como ele, um homem possuidor de uma natureza animada e cordial. -Que me diz a isto, hein?- perguntou-me com nervoso, enquanto descrevia com a mão um arco que al multidões, as paredes sujas das casas molhadas da chuva e e o portão do ghetto visíveis ao longe.

- O que digo? - redargui. - Querem acabar connosco.

Mas o velho senhor não partilhava a minha opinião, ou não queria partilhá-la. Soltou outra pequena gargalhada, ligeiramente: constrangida, deu-me uma pequena palmada

nas costas e exclamou:

- Oh, não se preocupe! - Depois pegou num botão sobretudo, aproximou o rosto de faces vermelhas do mei com genuína ou pretensa convicção: - Deixar-nos-ão breve. Só precisamos que a América saiba.

6 DANÇANDO NA RUA CHLODNA Hoje, quando penso noutras, e mais terríveis, recordações, as minhas experiências do ghetto de Varsóvia de Novembro de 194O a Julho de 1942, um período de quase dois anos, amalgamam-se numa só imagem, como se tivessem durado apenas um único dia. Por muito que me esforce, não consigo fraccioná-la em fragmentos mais pequenos, que lhe imporiam alguma ordem cronológica, como costumamos fazer quando estamos a escrever um diário. Naturalmente, tanto na altura como antes e depois, aconteceram algumas coisas que eram do conhecimento comum e fáceis de compreender. Os alemães andavam à caça de presas humanas para utilizarem como bestas de carga, exactamente como faziam por toda a Europa. Talvez a única diferença residisse no facto de no ghetto de Varsóvia essa caça ter parado, de repente, na Primavera de 1942. Dentro de poucos meses, a presa judia serviria outros objectivos e, como outra caça, precisava de um período de defeso, para que as grandes caçadas espectaculares fossem muito melhores e não causassem qualquer decepção. Nós, judeus, fomos roubados, do mesmo modo que os

franceses, os belgas, os noruegueses e os gregos foram roubados, mas com a diferença de que o fomos mais sistematicamente e de uma maneira estritamente oficial. Os alemães que não faziam parte do sistema não tinham nenhum acesso ao ghetto nem qualquer direito de roubarem para si mesmos. A Polícia alemã foi autorizada a roubar por um decreto do governador-geral em conformidade com a lei sobre roubo, publicada pelo governo do Reich.

A Alemanha invadiu a Rússia em 1941. Nós, no ghetto, contínhamos a respiração enquanto

acompanhávamos o decurso dessa nova ofensiva. Ao princípio acreditámos, erradamente,

que agora os Alemães iam, enfim, perder; mais tarde, sentimos desespero e uma dúvida crescente quanto ao destino da espécie humana e de nós próprios, à medida que

as tropas de Hitler avançavam cada vez mais na Rússia. Depois, quando os alemães ordenaram que todos os casacos de peles dos judeus fossem entregues, sob pena de

morte, sentimo-nos de novo satisfeitos com a idéia de que eles não deviam estar a sair-se muito bem,

se

a sua vitória dependia de peles de raposa prateada e de castor.

O

ghetto estava a encolher. Rua por rua, os alemães iam reduzindo a sua área. Exactamente do

mesmo modo, a Alemanha mudava as fronteiras dos países europeus que subjugara, apropriando-se de província após província. Era como se o ghetto de Varsóvia não fosse menos importante do que a França e a exclusão da Rua Zlota e da Rua Zielna significasse tanto para a expansão do Lebensraum germânico como a separação da Alsácia e da Lorena do território francês. No entanto, estes incidentes exteriores eram inteiramente insignificantes comparados com o facto importante que ocupou constantemente os nossos pensamentos, cada hora e cada minuto do tempo que passámos no ghetto: nós estávamos fechados lá dentro. Suponho que teria sido psicologicamente mais fácil de suportar se estivéssemos mais obviamente encarcerados: trancados numa cela, por exemplo. Esse tipo de encarceramento define, clara e indubitavelmente, a relação de um ser humano com a realidade. Não pode haver nenhum equívoco na nossa situação: a cela é um mundo em si mesma, contém

o nosso próprio encarceramento e nunca se entrosa com o mundo distante da liberdade. Podemos sonhar com esse mundo, se temos tempo e inclinação para isso; no entanto,

se não pensamos nele, ele não se imporá à nossa atenção, à nossa consciência, por iniciativa própria. Não está sempre ali, diante dos nossos olhos, a atormentar-nos com recordações da vida livre que perdemos.

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1 Espaço vital. (NT)

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A

realidade do ghetto tornava-se muito pior simplesmente porque tinha a aparência de liberdade.

Podíamos sair para a rua e manter a ilusão de estarmos numa cidade perfeitamente normal. As braçadeiras que nos estigmatizavam como judeus não nos incomodavam, porque todos nós as usávamos, e ao fim de algum tempo a viver no ghetto percebi que me habituara por completo a elas - de tal modo que, quando sonhava com os meus amigos arianos, os via com braçadeiras, como se essa tira branca de tecido

fosse uma parte tão essencial do guarda-roupa humano como, por exemplo, uma gravata. No entanto,

as ruas do ghetto, e só essas, terminavam em muros. Eu saía muitas

vezes, para caminhar ao acaso, e encontrava inesperadamente um desses muros. Barravam-me o caminho quando queria continuar a andar e não havia nenhuma razão lógica para me deter. Nessas ocasiões, a parte da rua do outro lado do muro parecia de súbito o lugar que amava e de que precisava mais do que tudo no mundo, um lugar onde

estariam a acontecer, naquele exacto momento, coisas que eu daria tudo para ver. Mas não havia remédio. Voltava para trás, esmagado, e continuava a viver assim, dia após dia, sempre com o mesmo sentimento de desespero. Mesmo no ghetto, podíamos ir a um restaurante ou a um café. Encontrávamo-nos lá com amigos, e nada parecia impedir-nos de criar uma atmosfera tão agradável como num restaurante ou café de qualquer outro lugar. Inevitavelmente, porém, chegava um momento em que um dos nossos amigos deixava escapar um comentário do género:

seria interessante para aquele pequeno grupo, ocupado numa conversa tão interessante, fazer uma excursão a qualquer lado, a Otwock, por exemplo, num bonito domingo.

Estamos no Verão, poderia ele dizer, e o tempo está bom, este período de calor parece estar para

durar

mesmo que nos apetecesse fazê-lo naquele mesmo momento. Bastar-nos-ia pagar a conta do café e dos bolos, irmos para a rua, dirigirmo-nos para a estação com os nossos risonhos e bem dispostos companheiros, comprarmos os bilhetes e metermo-nos no comboio suburbano. Existiam todas as condições para criar uma ilusão tão perfeita - até chegarmos à fronteira dos muros

O período de quase dois anos que passei no ghetto recorda-me, quando penso nisso, uma experiência

da infância que durou muito menos tempo. Eu precisava de tirar

o apêndice. Esperava-se que a operação fosse rotineira, sem nenhum motivo para preocupações.

Seria feita dentro de uma semana; combinou-se a data com os médicos

e reservou-se um quarto no hospital. Na esperança de me suavizarem a espera, os meus pais

esforçaram-se para preencherem a semana anterior à operação com mimos e prendas. Saíamos todos os dias para comer gelados e depois irmos ao cinema ou ao teatro; deram-me uma quantidade de livros e brinquedos, tudo quanto o meu coração podia desejar. Dir-se-ia que não precisava de mais nada para a minha felicidade ser perfeita. Mas ainda me lembro de que, durante toda a semana, quer estivesse no

cinema ou no teatro quer a comer gelados, e até durante divertimentos que exigiam grande concentração, nem por um momento me libertei da sensação de medo na boca do meu estômago, do receio inconsciente e persistente do que aconteceria quando o dia da operação finalmente chegasse. Esse mesmo medo instintivo nunca deixou as pessoas do ghetto durante quase dois anos. Comparados com o tempo que se seguiu, esses anos foram de relativa calma, mas transformaram as nossas vidas num infindável pesadelo, pois sentíamos com todo o nosso ser que alguma coisa terrível aconteceria a qualquer momento: só não tínhamos ainda a certeza do perigo que nos ameaçava e de onde viria. De manhã, costumava sair logo após o pequeno-almoço. O meu ritual quotidiano incluía um longo passeio pela Rua Mila até uma espelunca escura e obscura onde a família do porteiro Jehuda Zyskind vivia. Nas condições vigentes no ghetto, sair de casa, uma actividade perfeitamente normal, assumia foros de uma cerimónia, sobretudo durante as caçadas de rua. Primeiro tínhamos de visitar os vizinhos, escutar os seus problemas e as suas queixas, e descobrir assim o que se estava a passar na cidade naquele dia: havia incur sões, tinham ouvido falar de alguns bloqueios, a Rua Chlodna estava guardada? Feito isto, saíamos do edifício, mas tínhamos de repetir as perguntas na rua, detendo transeuntes que vinham na nossa direcção, e depois perguntar de novo em cada esquina. Só

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e nada nos impediria de pôr em prática um plano tão simples,

estas precauções podiam assegurar, com relativa certeza, que não seríamos apanhados.

O ghetto estava dividido em dois: um grande ghetto e um pequeno ghetto. Após posterior redução no

seu tamanho, o pequeno ghetto, constituído pelas ruas Wielka, Sienna, Zelazna e Chiodna, tinha apenas uma ligação com o grande ghetto, da esquina da Rua Zelazna e pela Rua Chiodna. O grande ghetto compreendia toda a parte norte de

Varsóvia, onde havia muitas ruas e travessas estreitas e malcheirosas e apinhadas de judeus que viviam na pobreza, com falta de higiene e amontoados. O pequeno ghetto também estava apinhado, mas não excessivamente. Viviam três ou quatro pessoas num quarto e podiam andar na rua sem chocar com outros peões, desde que soubessem desviar-se

e manobrar com perícia. Mesmo que se estabelecesse contacto físico, não era demasiado perigoso,

em virtude de os habitantes do pequeno ghetto pertencerem principalmente

à intelectualidade e à classe média próspera; estavam relativamente livres de parasitas e faziam tudo quanto podiam para exterminar os que toda a gente apanhava no grande ghetto. O pesadelo só começava quando deixávamos a Rua Chiodna - e, para começar, era preciso ter sorte e um sentido apurado do momento certo para chegar

a esse ponto.

A Rua Chiodna ficava no bairro "ariano" da cidade, e havia muitas idas e vindas de automóveis,

eléctricos e peões. Permitir à população judaica passar pela Rua Zelazna, do pequeno para o grande ghetto e vice-versa, significava que o trânsito tinha de parar enquanto as

pessoas atravessavam a Rua Chiodna. Como isso era inconveniente para os alemães, os judeus só eram autorizados a passar o mais raramente possível.

Quem descia a Rua Zelazna ia ver um aglomerado de pessoas à esquina da Rua Chiodna, a uma boa distância. Os que tinham assuntos urgentes a tratar apoiavam-se nervosamente ora num pé, ora no outro, à espera de que os polícias tivessem a amabilidade de mandar parar o trânsito. Competia-lhes a eles decidir se a Rua Chiodna estava suficientemente vazia e a Zelazna suficientemente congestionada para deixar passar os judeus. Quando o momento chegava, os guardas afastavam-se e uma multidão impaciente e compacta avançava de ambos os lados, em sentidos opostos, colidin do, atirando-se mutuamente ao chão e passando por cima de quem estava caído para se afastar o mais rapidamente possível da perigosa proximidade dos alemães e regressar aos dois ghettos. Depois a cadeia de guardas fechava-se de novo e a espera recomeçava.

À medida que o número de pessoas aumentava, o mesmo acontecia à agitação, ao nervosismo e ao

desassossego, pois os guardas alemães sentiam-se enfadados nos seus postos e tentavam divertir-se o melhor que podiam. Uma das suas diversões preferidas era a dança. Iam buscar músicos às ruas transversais próximas - o número de bandas de música aumentava com a miséria geral. Os soldados escolhiam, entre a multidão que esperava, pessoas cujo aspecto consideravam particularmente cómico e ordenavam-lhes que dançassem valsas. Os músicos ocupavam os seus lugares junto da parede de um prédio, desimpedia-se espaço no meio da rua e um dos polícias fazia de maestro e batia nos músicos se eles tocavam muito devagar. Outros supervisionavam o desempenho consciencioso das danças. Pares de aleijados, velhos, gente muito gorda ou muito magra, todos tinham de rodopiar, em círculos, diante dos olhos da multidão horrorizada. Pessoas baixas ou crianças eram obrigadas a formar pares com outras excessivamente altas. Parados à volta daquela "pista de dança", os alemães riam alto e berravam: "Mais depressa! Vamos, mais depressa! Toda a gente dança!" Se a escolha de pares era particularmente bem sucedida e divertida, a dança prolongava-se por mais tempo. A passagem abria-se, fechava-se e abria-se de novo, mas os infelizes dançarinos tinham de continuar a evolucionar ao ritmo de valsa, ofegantes, chorando de exaustão e esforçando-se para continuarem, na vã esperança de

piedade.

Só depois de ter conseguido atravessar em segurança a Rua Chiodna eu era capaz de ver o ghetto como ele realmente era. As pessoas que lá viviam não tinham capital nem valores secretos; ganhavam o seu pão comerciando. Quanto mais penetrávamos no labirinto de travessas estreitas, mais activo e insistente o comércio se tornava. Mulheres com crianças agarradas às saias abordavam transeuntes, oferecendo-lhes alguns bolos para venda num pedaço de cartão. Esses bolos representavam toda a sua fortuna e da sua venda dependia a possibilidade de os filhos terem um pequeno

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pedaço de pão escuro para comer à noite. Judeus velhos, irreconhecíveis de tão magros, tentavam chamar a nossa atenção para alguns farrapos com os quais esperavam ganhar algum dinheiro. Homens novos transaccionavam ouro e notas, travando acerbas e rancorosas batalhas por causa de caixas de relógios amachucadas, pontas de correntes ou notas de dólar muito usadas e sujas, que levantavam para a luz e proclamavam defeituosas e não

valerem quase nada, embora os vendedores teimassem apaixonadamente que estavam "quase como novas". Carros puxados por cavalos, conhecidos por konhellerki, faziam o seu trajecto pelas ruas apinhadas, num estardalhaço e num tilintar de guizos, com os cavalos e os varais a dividir a multidão de corpos humanos como um barco a abrir caminho pela água. A alcunha derivava dos proprietários dos carros, Kon e Heller, dois magnatas judeus que estavam ao serviço da Gestapo e faziam um excelente negócio. O preço dos bilhetes era muito elevado, de modo que só os prósperos utilizavam esses veículos para irem ao centro do ghetto tratar exclusivamente de negócios. Quando se apeavam nas paragens, tentavam ser o mais rápidos possível no seu caminho pelas ruas para

a loja ou escritório onde tinham encontro marcado e, logo a seguir, tomavam outro carro, a fim de

deixarem depressa o terrível bairro. A simples deslocação da paragem para a loja mais próxima não era nada fácil. Dúzias de mendigos aguardavam aquele breve instante de encontro com um cidadão próspero, cercavam-no, puxavam-lhe a roupa, barravam-lhe o caminho, pedinchavam, choravam, gritavam, ameaçavam. Mas era estúpido alguém sentir compaixão e dar alguma coisa

a um mendigo, pois nesse caso a gritaria aumentava para um uivo. Esse sinal atraía mais e mais

desgraçados, numa torrente vinda de todos os lados, e o bom samaritano dava consigo cercado, encurralado por aparições esfarrapadas que o salpicavam de saliva tuberculosa, por crianças com chagas purulentas que eram empurradas para

o seu caminho, por cotos de braços gesticulantes, olhos cegos, gengivas desdentadas, fétidas bocas

escancaradas, suplicando todos eles por compaixão naquele derradeiro momento das suas vidas, como se só uma ajuda imediata pudesse adiar o seu fim. Para chegar ao centro do ghetto era preciso descer a Rua Karmelicka, o único caminho para lá. Tornava-se absolutamente impossível não roçar noutras pessoas que lá se encontravam. A densa aglomeração de corpos humanos não andava: empurrava e dava encontrões para abrir caminho, formando redemoinhos à frente de tendas e balcões do lado de fora de vãos de portas. Um odor picante a decomposição emanava de roupas de cama não arejadas, gordura requentada e lixo a apodrecer nas ruas. À mínima provocação, a turba entrava num pânico louco, corria de um lado da rua para o outro, sufocava, empurrava, gritava e praguejava. A Rua Karmelicka era um lugar especialmente perigoso: carros prisionais passavam por lá várias vezes por dia. Atrás dos lados de aço cinzentos, com pequenas janelas de vidro opacas, transportavam presos, invisíveis,

da cadeia de Pawiak para o centro da Gestapo na Travessa Szuch, e na viagem de regresso levavam

o que restava deles após o interrogatório: despojos ensanguentados

de gente com ossos partidos, rins esmagados, unhas arrancadas. A escolta desses veículos não permitia que ninguém se aproximasse, apesar de eles serem blindados. Quando viravam para a Rua Karmelicka, tão apinhada que nem com a melhor boa vontade do mundo as pessoas conseguiriam refugiar-se nos vãos das portas, os homens da Gestapo debruçavam-se e espancavam indiscriminadamente a multidão à bastonada. Isso não teria sido particularmente perigoso se fossem bastões de borracha comuns, mas os usados pelos homens da Gestapo estavam cravejados de pregos e lâminas de barbear. Jehuda Zyskind morava na Rua Mila, que não ficava longe da Rua Carmelita. Tomava conta do seu prédio e, quando era necessário, fazia as vezes de carregador, motorista,

negociante e contrabandista de mercadorias por cima do muro do ghetto. Com a sua mente astuta e a força física do seu enorme arcaboiço, ganhava dinheiro no que podia, para sustentar a família, uma família tão grande que eu não sabia sequer calcular toda a sua extensão. No entanto, além das suas ocupações diárias, Zyskind era um socialista idealista. Mantinha-se em contacto com a organização socialista, trazia às escondidas para

o ghetto artigos de jornais proibidos e tentava organizar células,

embora achasse esta última tarefa muito difícil. Tratava-me com amável desdém, que considerava a maneira adequada

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de lidar com artistas, pessoas sem qualquer utilidade como conspiradoras. Apesar disso, gostava de mim e permitia que o visitasse todas as manhãs e lesse as comunicações secretas que tinham chegado pela rádio, acabadas de sair da tipografia. Quando hoje penso, nele, passados os anos de horror que me separam do tempo em que ele ainda era vivo e podia espalhar a sua mensagem, admiro-lhe a vontade inquebrantável. Jehuda era um optimista determinado. Por muito más que as notícias da rádio fossem, conseguia dar-lhes sempre uma boa interpretação. Uma vez, quando estava a ler as últimas notícias, pousei a mão, num gesto de desespero, no papel impresso e suspirei.

"Bem, agora tem de admitir que está tudo acabado", disse. Jehuda sorriu, tirou um cigarro, instalou-

se confortavelmente na cadeira e respondeu: "Oh, mas não está

a compreender, Sr. Szpilman! "E, logo a seguir, lançou-se numa das suas prelecções políticas.

Compreendi ainda grande parte do que ele disse, mas Jehuda tinha uma maneira de falar e uma convicção, tão contagiante, de que, na realidade, tudo acontecia pelo melhor

neste melhor de todos os mundos possíveis, que eu descobria que adoptara a sua maneira de pensar. Não fazia idéia nenhuma de como nem quando. Mas ao deixá-lo sentia-me sempre fortalecido e confortado. Até que, em casa, deitado na cama e passando de novo em revista as notícias políticas, chegava à conclusão de que os seus argumentos eram um disparate. Mas na manhã seguinte voltava a visitá-lo, ele conseguia persuadir-me de que eu estava enganado e eu saía com uma injecção de optimismo que durava até à noite e me ajudava a resistir. Jehuda durou até ao Inverno de 1942, quando foi apanhado in flagrante, com montes de material secreto em cima da mesa, enquanto ele, a mulher e os filhos o seleccionavam. Foram todos imediatamente abatidos a tiro, até o pequeno Symche, de apenas três anos. Foi difícil para mim manter alguma esperança depois de Zyskind ter sido fuzilado, e não tinha ninguém que me explicasse tudo como devia ser! Só agora sei que estava enganado, assim como os relatos das notícias diárias, ao passo que Zyskind estava certo. Ao contrário do que então parecia, veio a acontecer tudo como ele previra.

Eu seguia sempre o mesmo trajecto para casa: Rua Karmelicka, Rua Leszno, Rua Zelazna. No caminho, visitava rapidamente

al,

uns amigos e dava-lhes, por palavras faladas, as notícias que recebera de Zyskind. Depois descia a Rua Nowolipki a fim de ajudar Henryk a levar o seu cesto de livros para casa.

A vida de Henryk era difícil. Fora ele próprio que a escolhera e não tencionava mudá-la, pois estava

convencido de que seria aviltante viver de qualquer outra maneira.

Amigos que prezavam as suas qualidades culturais aconselharam-no a aderir à polícia judaica, como muitos jovens intelectuais faziam; era possível estar lá em segurança

e, quando se era expedito, ganhar muito bem. Henryk não quis ouvir falar de semelhante idéia, ficou

muito irritado e considerou-a um insulto. De acordo com a sua atitude habitual de rigorosa integridade, respondeu que não trabalharia com bandidos. Os nossos amigos sentiram-se ofendidos, mas Henryk começou a ir todas as manhãs para a Rua Nowolipki com um cesto cheio de livros. Transaccionava com eles, parado a escorrer suor, no Verão, e a tremer de frio nos rigores do Inverno, inflexível

e obstinadamente fiel às suas idéias: se, como intelectual, não podia ter nenhum outro contacto com livros, então teria pelo menos este e não desceria mais do que isso. Quando Henryk e eu chegávamos a casa com os livros dele, os outros estavam geralmente à nossa

espera para iniciarmos a refeição do meio-dia. A minha mãe, sobretudo, insistia para que comêssemos juntos: este era o seu domínio e, à sua maneira, ela estava a tentar dar- nos qualquer coisa a que nos pudéssemos agarrar. Punha a mesa com esmero, sempre com a toalha e os guardanapos limpos. Empoava ligeiramente o rosto, antes de nos sentarmos, ajeitava o cabelo e lançava uma vista de olhos ao espelho, para ver se estava elegante. Alisava o vestido com gestos nervosos, mas não conseguia fazer

o mesmo às pequenas rugas à volta dos olhos - tornavam-se cada

vez mais visíveis, com o passar dos meses - nem evitar que os fios grisalhos do seu cabelo começassem a ficar brancos. Quando nos sentávamos à mesa ia buscar a sopa à cozinha e, enquanto a servia, iniciava a conversa. Tentava evitar que alguém mencionasse assuntos desagradáveis, mas se um de nós cometia semelhante faux pas social, interrompia-o delicadamente.

- Tudo isso passará, verão - dizia, e mudava imediatamente de assunto.

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O

meu pai não era dado ao desânimo, e o mais natural nele era tentar cumular-nos de boas notícias.

Por exemplo, se houvera uma incursão racista e depois uma dúzia

de homens tinha sido libertada a troco de subornos, declarava, sorridente, saber de fonte segura que todos eles, tivessem mais ou menos quarenta anos, fossem ou não instruídos, tinham sido libertados por uma ou por outra razão - qualquer que ela tivesse sido, achava sempre o facto muito encorajados. Se não havia a mínima possibilidade de negar que as notícias da cidade eram más, sentava-se à mesa com ar deprimido, mas

a sopa depressa lhe restaurava o humor. Durante o segundo prato,

que geralmente constava de vegetais, animava-se e começava a conversar descuidadamente. Henryk e Regina costumavam estar sempre muito pensativos, ela a preparar-se mentalmente para o trabalho que fazia, de tarde no escritório de um advogado. Ganhava muito pouco, mas trabalhava com tanta probidade como se lhe estivessem a pagar milhares. Se Henryk afastava os seus sombrios pensamentos, era apenas para começar

a discutir comigo. Fitava-me um longo momento cheio de espanto, e depois encolhia os ombros e

rosnava, dando escape aos seus sentimentos:

- Francamente, só um parvo nato usaria gravatas como as do Wladek!

- Parvo és tu! E idiota também! - replicava eu, e a nossa discussão estava lançada a todo o pano. Henryk não apreciava o facto de eu ter de estar bem vestido quando tocava piano em público. Na realidade, não queria compreender-me, nem aos meus assuntos. Agora que ele morreu há tantos anos, sei que nos amávamos à nossa maneira, apesar de tudo, embora bulíssemos constantemente com os nervos um do outro, talvez porque, no fundo tínhamos personalidades muito semelhantes. Eu compreendi Halina menos do que os outros. Ela era a única que não parecia pertencer à nossa família. Era reservada e não revelava os seus pensamentos e sentimentos,

nem nos dizia o que fazia quando saía de casa. Depois regressava tão impassível e indiferente como sempre. Dia após dia, sentava-se à mesa das refeições sem demonstrar

o mínimo interesse pelo que poderia acontecer.

Não sei dizer como ela era, realmente, e agora já não posso descobrir nada a seu respeito.

A nossa refeição do meio-dia era muito simples. Quase nunca comíamos carne, e a minha mãe fazia

os outros pratos muito economicamente. Mesmo assim, eram copiosos, comparados com o que a maior parte das pessoas do ghetto tinha no prato.

No Inverno, num dia húmido de Dezembro em que a neve se transformara em lama debaixo dos pés

e soprava um vento agreste pelas ruas abaixo, vi por acaso um velho

"do esticão" a comer a sua refeição do meio-dia. No ghetto, "ser do esticão" era como classificávamos alguém mergulhado numa miséria tão grande que tinha de roubar para se manter vivo. Essas pessoas corriam para um transeunte portador de algum embrulho, arrancavam-lho da mão e fugiam, esperando encontrar lá dentro alguma coisa comestível. Eu ia a atravessar o Largo do Banco; poucos passos à minha frente, uma pobre mulher transportava uma lata embrulhada em jornal e, entre mim e ela, arrastava-se um velho esfarrapado. Tinha os ombros curvados e tremia de frio enquanto caminhava pela papa de lama e neve, com uns sapatos cujos buracos deixavam ver os seus pés roxos. De súbito, o velho saltou para a frente, agarrou a lata e tentou arrancá-la à mulher. Não sei se era ele que não tinha forças suficientes, se foi a mulher que se agarrou à lata com excessiva firmeza; fosse como fosse, em vez de acabar nas mãos do homem, a lata caiu e entornou na rua imunda uma sopa espessa e fumegante. Ficámos os três pregados ao chão. A mulher estava muda de horror. O velho olhou para a lata e depois para a mulher, e soltou um gemido que soou como um soluço. De repente, porém, estendeu-se ao comprido na lama e lambeu a sopa do chão, envolvendo-a com as mãos em concha para que nenhuma lhe escapasse e ignorando a reacção da mulher, que lhe dava pontapés na cabeça, aos uivos, e lhe puxava os cabelos, desesperada. 66 67

7 UM BONITO GESTO DA SR K No início da Primavera de 1942, a caça ao homem no ghetto, até aí uma actividade sistematicamente exercida, parou de súbito. Se tivesse acontecido dois anos antes,

as pessoas ter-se-iam sentido aliviadas e interpretado o facto como uma razão para se alegrarem na

ilusão de que era uma mudança para melhor. Mas agora, depois de viverem dois anos e meio perto dos alemães, ninguém se deixou iludir. Se eles tinham parado com as caçadas só podia ser por terem tido outra, e melhor, idéia para nos atormentarem. A questão era: que espécie de idéia? As pessoas entregaram-se às mais fantástica suposições e, em lugar de se sentirem mais calmas, ficaram duas vezes mais ansiosas do que antes.

Pelo menos agora podíamos dormir sossegados em casa, por enquanto, e Henryk e eu não precisávamos de acampar toda a noite no consultório do médico ao mínimo sinal de alarme. Era muito desconfortável, lá. Henryk dormia na mesa de operações e eu na marquesa ginecológica e, quando acordava de manhã, os meus olhos davam logo com

as radiografias penduradas a secar por cima da minha cabeça, mostrando corações doentes, pulmões tuberculosos, vesículas biliares cheias de cálculos, ossos fracturados.

No entanto, o nosso amigo médico, que era o director daquela sociedade, estivera certo ao dizer que, mesmo nas mais ferozes incursões nocturnas, nunca passaria pela cabeça da Gestapo revistar o consultório, de modo que era o único lugar onde podíamos dormir em segurança. Esta calma aparentemente total durou até uma sexta-feira da segunda metade do mês de Abril, altura em que um furacão de medo varreu inesperadamente o ghetto. Parecia não haver nenhuma razão para isso, pois assim que perguntávamos às pessoas por que estavam tão assustadas e angustiadas e o que pensavam que ia acontecer, nenhuma tinha uma resposta concreta. No entanto, logo depois do meio-dia, todas as lojas estavam fechadas e

as pessoas escondidas em casa.

Eu não sabia bem o que estaria a acontecer no café. Fui para o Sztuka como de costume, mas encontrei-o também fechado. Sentia-me particularmente nervoso ao voltar para casa porque, apesar de todas as perguntas que fizera a conhecidos habitualmente bem informados, não conseguira descobrir o que se passava. Ninguém sabia. Ficámos todos a pé, completamente vestidos, até às onze horas da noite, mas depois resolvemos ir para a cama, pois lá fora estava tudo tranqüilo. Tínhamos quase

a certeza de que o pânico resultara de boatos infundados. O meu pai foi o primeiro a sair, de manhã.

Voltou poucos minutos depois, pálido e assustado: os alemães tinham estado em muitos prédios, durante a noite, e arrastado para a rua e fuzilado uns setenta homens. Por enquanto, ainda ninguém recolhera os cadáveres. Que significava aquilo? Que tinham aquelas pessoas feito aos alemães? Ficámos horrorizados e indignados. Só soubemos a resposta nessa tarde, quando foram colados cartazes nas ruas desertas. As autoridades alemãs informavam-nos de que tinham sido obrigadas a limpar a

nossa parte da cidade de "elementos indesejáveis", mas que a sua acção não afectaria a parte leal da população: lojas e cafés deviam reabrir imediatamente e as pessoas deviam reatar as suas vidas normais, que não corriam qualquer perigo.

O

mês seguinte passou, sem dúvida, tranqüilamente. Era Maio, e até no ghetto os lilases floriam aqui

e

ali, nos poucos pequenos jardins, enquanto cachos de flores

em botão pendiam das acácias e se tornavam todos os dias mais claros. Precisamente quando as flores estavam prestes a abrir por completo, os alemães voltaram a lembrar-se de nós. Mas desta vez houve uma diferença: não tencionavam lidar pessoalmente connosco. Em vez disso, transferiam a 68 69

tarefa da caça ao homem para a polícia judaica e para o gabinete do trabalho judaico. Henryk tivera razão quando se recusara a entrar para a polícia e classificara os que lá trabalhavam de bandidos. Tinham sido recrutados, principalmente, entre os jovens das classes mais prósperas da sociedade, e entre eles contavam-se alguns conhecidos nossos. Ficámos ainda mais horrorizados quando vimos que homens a quem costumávamos apertar a mão, que tratáramos como amigos, homens que tinham sido indivíduos decentes não havia ainda muito tempo, eram agora tão desprezíveis. Poder-se-ia dizer, talvez, que haviam sido contagiados pelo espírito da Gestapo. Assim que vestiam os seus uniformes, punham os seus bonés de polícias e pegavam nos seus bastões

de borracha, as suas naturezas mudavam. Agora a sua suprema ambição era estarem em contacto

directo com a Gestapo, serem úteis aos agentes da Gestapo, mostrarem-se na rua com eles, exibirem o seu conhecimento da língua alemã e rivalizarem com os seus senhores na severidade com que tratavam a população judaica. Isso não os impediu de formarem uma banda de jazz da polícia, que por acaso era excelente. Durante a caça ao homem, em Maio, cercaram as ruas com o profissionalismo dos SS racialmente puros. Passeavam-se nos seus elegantes uniformes, berravam em voz alta

e brutal, a imitar os alemães, e espancavam pessoas com os bastões de borracha.

Eu ainda estava em casa quando a minha mãe chegou a correr com a notícia da caçada: tinham apanhado Henryk. Resolvi arranjar maneira de o soltar custasse o que custasse, embora a única coisa com que pudesse contar fosse com a minha popularidade como pianista; os

meus próprios documentos não estavam em ordem. Abri caminho por uma

série de cordões, tendo sido apanhado e depois autorizado a prosseguir de novo, até chegar ao edifício do gabinete do trabalho. À frente estavam diversos homens

a ser conduzidos como um rebanho para dentro, vindos de todas as direcções, pelos polícias que actuavam como cães-pastores. O rebanho não parava de crescer, à medida

que novos grupos eram trazidos das ruas vizinhas. Com dificuldade, consegui chegar à presença do vice-director do gabinete do trabalho e obter a promessa de que Henryk estaria de novo em casa antes de escurecer.

E assim aconteceu, embora, para minha grande surpresa, o meu irmão se sentisse furioso comigo.

Achava que eu não devia ter-me humilhado a rogar a tão reles exemplares da espécie humana como os polícias e o pessoal do gabinete do trabalho.

- Preferias então que eles te tivessem levado, preferias?

- Não tens nada a ver com isso! - rosnou. - Era a mim que eles queriam, não a ti. Para quê interferir nos assuntos das outras pessoas?

Encolhi os ombros. De que servia discutir com um louco? Nesse entardecer foi anunciado que o recolher obrigatório seria protelado até à meia-noite, para que

as famílias dos que tinham sido "levados para trabalhar" tivessem

tempo de lhes levar cobertores, uma muda de roupa interior e comida para a viagem. Esta "magnanimidade" da parte dos alemães era francamente tocante, e a polícia

judaica deu-lhe grande publicidade, num esforço para conquistar a nossa confiança. Só muito mais tarde vim a saber que os mil homens apanhados no ghetto tinham sido levados directamente para o campo de Treblinca, a fim de os alemães poderem testar

a eficiência das recém-construídas câmaras de gás e dos fornos crematórios.

Passou outro mês de paz e tranqüilidade e, depois, num anoitecer de junho, houve um banho de

sangue no ghetto. Não fazíamos a mínima idéia do que se preparava para acontecer. Estava calor e, depois de jantarmos, descemos as persianas da sala de jantar e abrimos as janelas, para aproveitarmos um pouco do ar mais fresco do fim do dia. O veículo da Gestapo passara pela casa oposta a tal velocidade, e os tiros de alarme tinham sido disparados tão depressa, que antes de termos tempo de saltar da mesa e correr para a janela as portas desse prédio já estavam abertas e ouvíamos os homens das SS a gritar lá dentro. As janelas também tinham sido abertas e estavam às escuras, mas podíamos ouvir um grande alarido atrás delas. Rostos alarmados espreitaram do escuro e voltaram a recolher-se, rapidamente. Enquanto os alemães de botas altas subiam a escada, as luzes acendiam-se, andar após andar. No apartamento directamente oposto ao nosso morava a família de um homem de negócios; conhecíamo-los bem, de vista. Quando a luz se acendeu também nesse andar e os homens das SS de capacete irromperam na

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sala, com as pistolas-metralhadoras prontas para disparar, as pessoas que lá moravam encontravam-

se sentadas à volta da sua mesa, como nós próprios estivéramos sentados

à nossa um momento antes. Estavam petrificadas de horror. O sargento que comandava o

destacamento considerou isso um insulto pessoal. Mudo de indignação, observou em silêncio as pessoas que estavam à mesa. Só passado um momento gritou, numa fúria

monumental: "De pé!

Levantaram-se o mais depressa que puderam, todos menos o chefe da família, um homem idoso, tolhido das pernas. O sargento espumava de raiva. Aproximou-se da mesa, apoiou os braços nela, fitou intensamente o aleijado e rosnou pela segunda vez: "De pé!"

O velho agarrou-se aos braços da cadeira, para se apoiar, e fez esforços desesperados para se

levantar, mas em vão. Antes de termos consciência do que estava a acontecer,

os alemães levantaram o enfermo, com a cadeira de braços e tudo, levaram a cadeira para a varanda

e atiraram-na para a rua, do terceiro piso.

A minha mãe gritou e fechou os olhos. O meu pai recuou da janela para a sala. Halina correu para

ele e Regina passou o braço pelos ombros da mãe, dizendo em voz

alta, e muito claramente, em tom autoritário: "Silêncio!"

Henryk e eu não conseguíamos arrancar-nos da janela. Vimos o velho no ar durante um momento ou dois, ainda agarrado à cadeira de braços, e depois cair dela. Ouvimos

a cadeira embater na rua, separadamente, e logo a seguir o embate de um corpo humano nas pedras

do passeio. Continuámos em silêncio, presos ao chão, incapazes de

nos afastarmos ou de desviarmos os olhos do espectáculo que tínhamos à nossa frente.

Entretanto, os SS já tinham tirado umas duas dúzias de homens do edifício para a rua. Acenderam os faróis do carro, obrigaram os prisioneiros a ficar sob o feixe

da sua luz, ligaram os motores e fizeram os homens correr à frente deles, no cone de luz branca.

Ouvimos gritos convulsivos vindos das janelas do prédio e uma rajada

de metralhadora disparada do carro. Os homens que corriam à frente caíram um por um, atirados ao

ar pelas balas, dando cambalhotas e descrevendo um círculo, como

se a passagem da vida para a morte consistisse num salto extremamente difícil e complicado. Só um deles conseguiu esquivar-se para o lado e sair do cone

de luz. Correu com todas as forças e parecia que ia conseguir chegar à rua que atravessava a nossa.

Mas o carro tinha um holofote giratório montado no tejadilho

para tais contingências. Acendeu-se, numa explosão de luz, procurou o fugitivo e foi-lhe no encalço, ouviu-se outra rajada e chegou a vez de ele saltar no ar. Levantou

os braços acima da cabeça, arqueou o corpo para trás enquanto saltava e caiu de costas.

Os SS entraram todos no carro e partiram, passando por cima dos corpos. O veículo oscilava ligeiramente ao passar-lhes por cima, como se tropeçasse em buracos pouco fundos. Nessa noite, foram abatidas a tiro, no ghetto, cerca de cem pessoas, mas esta operação não causou tanta impressão como a primeira. No dia seguinte, as lojas e os cafés estavam abertos, como de costume. Havia outra coisa que interessava as pessoas, nessa altura: entre as suas diversas actividades quotidianas, os alemães tinham-se dedicado a fazer filmes. Nós perguntávamo-nos porquê. Irrompiam num restaurante e diziam aos empregados que preparassem uma mesa com as melhores comidas e bebidas. Depois ordenavam aos clientes que se rissem, comessem e bebessem e registravam a cena em celulóide, divertidos. Filmaram espectáculos de opereta no cinema Femina, na Rua Leszno, e os concertos sinfónicos dirigidos por Marian Neuteich, uma vez por semana, na mesma sala. Insistiram com o presidente do Conselho judaico para que oferecesse uma recepção sumptuosa e convidasse todas

as pessoas notáveis do ghetto, e também filmaram essa recepção. Por fim, um dia, conduziram um

certo número de homens e mulheres ao balneário público, mandaram-nos despir-se e banhar-se na mesma sala e filmaram a curiosa cena em pormenor. Só mais tarde, muito mais tarde, descobri que esses filmes se destinavam à população alemã no Reich e no estrangeiro. Os alemães estavam a fazer estes filmes antes de liqüidarem o ghetto, para poderem desmentir quaisquer boatos desconcertantes se chegassem

ao mundo exterior notícias desse acto. Mostrariam assim que os judeus de Varsóvia estavam bem - e também quanto eram imorais e desprezíveis, e daí as cenas de homens

e mulheres judeus partilhando do mesmo balneário e despindo-se despudoradamente à frente uns dos outros.

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Mais ou menos na mesma altura, começaram a circular no ghetto boatos cada vez mais alarmantes e

a intervalos cada vez mais pequenos, embora fossem infundados, como

de costume, e nunca se conseguisse encontrar ninguém que estivesse na sua origem ou pudesse dar a

mais pequena confirmação de que se baseavam em factos. Um dia,

por exemplo, as pessoas começaram a falar nas terríveis condições do ghetto de Lódz, onde os judeus tinham sido obrigados a pôr a sua própria moeda de ferro em circulação

- não se podia comprar nada com ela e agora eles estavam a morrer de fome aos milhares. Uns

tomaram esta notícia muito a sério; a outros, entrou-lhes por um ouvido

e saiu pelo outro. Passado algum tempo, as pessoas deixaram de falar de Lódz e começaram a falar

de Lublin e Tarnów, onde aparentemente os judeus estavam a ser envenenados

com gás, embora ninguém pudesse, realmente, acreditar nessa história. Mais credível era o boato de que os ghettos judaicos na Polónia iam ser reduzidos a quatro:

Varsóvia, Lublin, Cracóvia e Radom. Depois, para variar, começaram a surgir rumores segundo os quais as pessoas do ghetto de Varsóvia seriam reinstaladas no leste

e partiriam em levas de seis mil por dia. Na opinião de alguns, isso já teria sido feito há muito tempo, se não fosse a misteriosa conferência do Conselho judaico, que conseguira persuadir a Gestapo (com certeza a troco de subornos) a não nos transferir. No dia 18 de julho, um sábado, Goldfeder e eu estávamos a tocar num concerto no Café Pod Fontanna (Fonte), na Rua Leszno, num benefício para o famoso pianista Leon Borunski, que uma vez ganhara o concurso Chopin. Agora encontrava-se tuberculoso e a viver na miséria no ghetto de Otwock. O jardim do café estava cheio. Tinham comparecido cerca de quatrocentas pessoas da nata social ou aspirantes a ela. Quase ninguém se

lembrava do último espectáculo em semelhante escala, mas se havia alguma excitação entre a assistência era por outra razão inteiramente diferente: as senhoras finas das classes ricas e as elegantes arrivistas sociais estavam num alvoroço para descobrir se naquela noite a Sr.a L falaria à Sr.a K. Ambas as senhoras se ocupavam em obras de caridade e desempenhavam um papel activo nas actividades dos comités habitacionais que tinham sido formados em muitos dos prédios mais ricos para ajudar os pobres. Este trabalho de caridade era particularmente agradável, porque envolvia bailes freqüentes onde as pessoas dançavam, se divertiam e bebiam, e ofereciam depois o dinheiro assim obtido a obras de beneficência.

A causa do mau ambiente entre as duas senhoras era um incidente ocorrido no Café Sztuka alguns

dias antes. Eram ambas muito bonitas, cada qual à sua maneira, antipatizavam fortemente uma com a outra e faziam tudo para roubar os respectivos admiradores. Entre estes, o mais cobiçado era Maurycy Kohn, proprietário de vias férreas e agente

da Gestapo, um homem com o rosto atraente e sensível de um actor.

Naquela noite, ambas as senhoras tinham estado a divertir-se no Sztuka. Sentadas no bar, cada uma com o seu pequeno círculo de admiradores, tentavam ultrapassar-se uma à outra pedindo as bebidas mais rebuscadas e convencendo o acordeonista da banda de jazz a tocar, nas suas mesas, as melhores das melodias mais em voga. A Sr.a

L saiu primeiro. Não fazia a mínima idéia de que, enquanto estava lá dentro, uma mulher faminta se

arrastara ao longo da rua e depois caíra e morrera mesmo do lado

de fora da porta do bar. Ofuscada pela luz que vinha do café, a Sr.a L tropeçou na morta, ao sair. Ao ver o cadáver, foi sacudida por convulsões que pareciam não querer acabar. O mesmo não aconteceu à Sr.a K, que entretanto fora informada do incidente. Quando, por sua vez, saiu, soltou um guincho de horror, mas logo a seguir, como se a profundidade da sua compaixão a avassalasse, aproximou-se da morta, tirou quinhentos Aótis da mala de mão e entregou-os a Kohn, que estava atrás dela.

- Por favor, encarregue-se disto por mim - pediu-lhe. - Faça o que for necessário para ela ter um funeral decente.

Acto contínuo, uma das senhoras do seu círculo murmurou, suficientemente alto para todos ouvirem:

- Um anjo, como sempre!

A Sr.a L não perdoou tal atitude à Sr.a K. No dia seguinte, descreveu-a como "uma desavergonhada

de baixa estirpe" e disse que nunca mais voltaria a falar-lhe. Hoje, as duas senhoras iriam ao café Pod Fontanna e a jeunesse dorée do ghetto esperava, cheia de curiosidade, para ver o que aconteceria quando elas se encontrassem.

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A

primeira metade do concerto já terminara, e Goldfeder e eu saímos para a rua, a fim de fumarmos

calmamente um cigarro. Tornáramo-nos amigos e actuávamos há um ano como um duo. Ele já morreu, apesar de nesse tempo as suas perspectivas de sobrevivência parecerem melhores do que as minhas. Era, além de excelente pianista,

advogado. Formara-se ao mesmo tempo pelo conservatório e pela faculdade de Direito da universidade, mas era extremamente autocrítico e chegara à conclusão de que nunca conseguiria ser um verdadeiro pianista do topo da gama. Optou, por isso, pela advocacia e só durante a guerra voltou a ser pianista. Era extraordinariamente popular na Varsóvia de antes da guerra, graças à sua inteligência, ao seu encanto pessoal e à sua elegância. Mais tarde, conseguiu fugir do ghetto e sobreviver dois anos escondido em casa do escritor Gabriel Karski. Uma semana antes da invasão do exército soviético, foi abatido por alemães numa pequena cidade não muito longe das ruínas de Varsóvia. Fumávamos e conversávamos, sentindo-nos menos exaustos cada vez que respirávamos. Tinha estado um belo dia. O Sol já desaparecera atrás dos prédios e só os telhados

e as janelas dos últimos andares conservavam ainda um rubor carmesim. O azul carregado do céu ia empalidecendo, cruzado por andorinhas. Nas ruas, as multidões, tornavam-se menos densas, e até elas pareciam menos sujas e infelizes do que habitualmente, ao caminharem banhadas pelo azul, carmesim e ouro-baço da luz vespertina.

Depois vimos Kramsztyk vir ao nosso encontro. Sentimo-nos ambos satisfeitos: tínhamos de arranjar maneira de entrar na segunda metade do concerto. Prometera pintar

o meu retrato e eu queria discutir os pormenores com ele.

No entanto, não quis entrar. Parecia abatido, imerso nos seus sombrios pensamentos. Pouco antes, ouvira, de fonte fidedigna, que desta vez a reinstalação do ghetto era inevitável: o comando de extermínio alemão já estava a postos do outro lado do muro, pronto para iniciar as operações.

8 UM FORMIGUEIRO AMEAÇADO

Mais ou menos nesta altura, Goldfeder e eu andávamos a tentar organizar um concerto a meio do dia, comemorativo do aniversário da formação do nosso duo. Estava previsto que seria no sábado, 25 de Julho de 1942, no jardim do Sztuka. Sentíamo-nos optimistas. Os nossos

corações estavam empenhados nesse concerto, cuja preparação já nos dera muito trabalho. Agora, a poucos dias do acontecimento, não podíamos acreditar que não se realizasse. Estávamos convencidos de que os boatos de realojamento eram, mais uma vez, infundados. No domingo, 19 de julho, voltei a tocar no jardim de um café da Rua Nowolipki, sem me passar pela cabeça que essa seria a minha última exibição no ghetto. O café estava cheio, mas a atmosfera era sombria. Depois de tocar passei pelo Sztuka. Era tarde e já não se encontrava ninguém no café, a não ser o pessoal, ocupado nas últimas tarefas do dia. Sentei-me um momento com o gerente, que estava taciturno e dava ordens sem qualquer convicção, como se se tratasse de uma mera formalidade.

- Ainda não está a preparar a casa para o nosso concerto de sábado? - perguntei-lhe.

Olhou para mim com ar de não perceber do que eu estava a falar, e depois o seu rosto revelou uma compreensão irónica pela minha ignorância dos acontecimentos que tinham mudado por completo o destino do ghetto.

- Pensa, realmente, que ainda estaremos vivos no sábado? - indagou, inclinando-se para mim por cima do tampo da mesa.

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- Tenho a certeza de que estaremos!

Como se a minha resposta tivesse aberto novas perspectivas de segurança, e essa segurança dependesse de mim, agarrou-me a mim e disse, fervorosamente:

- Bem, se realmente ainda estivermos vivos, poderá pedir o que quiser para jantar, aqui, por minha

conta, e

tudo como devia e acrescentou: - E poderá pedir o melhor que temos na garrafeira do Sztuka

também por minha conta e sem limites! De acordo com os boatos, a "operação" de realojamento começaria no domingo à noite. No entanto,

a noite passou tranqüilamente e na segunda-feira de manhã as pessoas

estavam encorajadas. Quem sabe, talvez o boato não tivesse, uma vez mais, qualquer fundamento Ao anoitecer, porém, o pânico deflagrou de novo: de acordo com as últimas informações, a operação

iniciar-se-ia naquela noite com o realojamento dos ocupantes do pequeno ghetto, e desta vez não havia dúvida alguma a esse respeito. Grupos de pessoas agitadas, transportando trouxas e grandes malas e acompanhadas de crianças, começavam

a mudar-se do pequeno para o grande ghetto, atravessando a ponte construída pelos alemães sobre a

Rua Chlodena para nos tirarem a última possibilidade de contacto com o bairro ariano. Essas pessoas esperavam sair da área ameaçada antes da hora do recolher obrigatório. Em conformidade com a atitude fatalista da nossa família, deixámo-nos ficar onde estávamos. Mais tarde, os vizinhos ouviram notícias da sede da polícia polaca, segundo as quais fora decretado um alerta. Estava, portanto, para acontecer alguma coisa má. Não consegui dormir até às quatro horas da manhã, e fiquei a pé, sentado junto da janela aberta. Mas essa noite passou, também, tranqüilamente. Na terça-feira de manhã, Goldfeder e eu dirigimo-nos ao corpo administrativo do Conselho judaico. Ainda não perdêramos a esperança de que tudo poderia, sabíamos lá como, correr bem, e queríamos obter a informação oficial do Conselho a respeito dos plannos alemães para o ghetto nos dias mais próximos. Estávamos quase chegar

- hesitou momentaneamente, mas depois resolveu fazer

ao edifício quando passou por nós um carro aberto. Sentado nele, pálido, de cabeça descoberta e rodeado por polícias, ia o coronel Kon, chefe do departamento de saúde da comunidade. Muitos outros funcionários judeus tinham sido presos ao mesmo tempo e começara uma caçada nas ruas. Na tarde do mesmo dia aconteceu uma coisa que abalou Varsóvia inteira, de ambos os lados do muro. Um conhecido cirurgião polaco, o Dr. Raszeja, grande especialista no seu ramo e professor da Universidade de Poznan, fora chamado ao ghetto para efectuar uma operação difícil. A sede da polícia alemã em Varsóvia dera-lhe um passe, para poder entrar no ghetto, mas quando ele chegara e começara a operação, homens das SS tinham entrado na casa onde isso estava a acontecer e abatido a tiro o doente anestesiado e deitado na mesa operatória e, a seguir, o cirurgião e todos os presentes. Na quarta-feira, 22 de julho, fui à cidade cerca das dez da manhã. A atmosfera nas ruas estava um pouco menos tensa do que na noite anterior. Corria um boato tranqüilizador, segundo o qual os funcionários do Conselho detidos na véspera haviam sido libertados. Conseqüentemente, os alemães não tencionavam realojar-nos, por enquanto, pois em tais casos (como soubéramos por relatos do exterior de Varsóvia, onde comunidades judaicas muito mais pequenas tinham sido realojadas há muito tempo) eles começavam sempre por liqüidar os funcionários. Eram onze horas quando cheguei à ponte sobre a Rua Chiodna. Caminhava pensativamente, e ao princípio não reparei que havia pessoas paradas na ponte a apontar para qualquer coisa. Depois dispersaram muito depressa, agitadas. Ia a subir os degraus para o arco de madeira da ponte quando um amigo que não via há muito tempo

me agarrou num braço.

- Que fazes aqui? - Estava numa grande agitação e, ao falar, o seu lábio inferior tremia comicamente, como o focinho de um coelho. - Vai já para casa!

- Mas o que é que se passa?

- A operação começa daqui a uma hora.

- Isso é impossível!

- Impossível? - Deu uma amarga gargalhada nervosa e depois virou-me de frente para a balaustrada e apontou para a Rua Chlodna. - Olha para aquilo!

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Um destacamento de soldados de uniformes amarelos fora do vulgar marchava pela Rua Chiodna abaixo, conduzido por sargento alemão. De poucos em poucos passos, a unidade parava e um dos soldados ocupava a sua posição junto do muro que cercava o ghetto.

- Ucranianos. Estamos cercados! - Estas palavras foram mais soluçadas do que ditas. Depois desceu

apressadamente os degraus sem se despedir. Com efeito, cerca do meio-dia as tropas começaram de facto a despejar os lares de idosos, os lares de veteranos e os abrigos nocturnos. Estes abrigos recolhiam judeus da região circundante de Varsóvia que tinham sido enviados para o ghetto, assim como os expulsos da Alemanha, Checoslováquia, Roménia e Hungria. À tarde apareceram na cidade cartazes anunciando o início da operação de realojamento. Todos os judeus aptos para trabalhar iriam para leste. Toda a gente podia levar vinte quilogramas de bagagem, provisões para dois dias - e as suas jóias. Quando chegassem ao seu destino, os que estivessem aptos para trabalhar seriam alojados em casernas e iriam trabalhar em fábricas alemãs locais. Os únicos isentos eram os funcionários das instituições sociais judaicas e do Conselho judaico. Era a primeira vez que um decreto não tinha a assinatura do presidente do Conselho judaico. Czerniaków suicidara-se com cianeto.

Afinal, acontecera o pior: as pessoas de uma localidade inteira, um lugar com uma população de meio milhão de habitantes, iam ser realojadas. Parecia absurdo, ninguém podia acreditar em tal coisa. Nos primeiros dias, a operação processou-se pelo sistema lotaria. Os prédios eram cercados ao acaso, ora numa parte do ghetto, ora noutra. Um apito convocava todos os habitantes de casa para saírem para o pátio, onde eram metidos, sem excepção em carroças puxadas por cavalos, independentemente do sexo ou idade, de bebés a velhos, e levados para o Umschlagplatz - o centro de concentração e trânsito. Depois as vítimas eram apinhadas em carruagens e enviadas para o desconhecido. Ao princípio, a operação era inteiramente efectuada por polícias judeus, comandados por três ajudantes dos executores alemães: coronel Szerynski, o capitão Lejkin

e o capitão Ehrlich, que não eram menos perigosos e desumanos do que os próprios alemães. Talvez

até fossem piores, pois quando encontravam pessoas que se tinham escondido em qualquer lado, em vez de descerem para o pátio, deixavam-se persuadir facilmente a fechar os olhos, mas só a troco de dinheiro. Lágrimas, súplicas e

até os gritos desesperados das crianças deixavam-nos impassíveis.

Como as lojas tinham sido fechadas e o ghetto estava isolado de todas as fontes de abastecimento, ao fim de poucos dias a fome alastrara e desta vez afectava toda

a gente. As pessoas não permitiram que isso as incomodasse muito: pretendiam algo mais importante

do que comida. Queriam atestados de emprego. Só encontro uma comparação capaz de dar uma idéia da nossa vida naqueles dias e horas terríveis:

era como um formigueiro ameaçado. Quando o pé brutal de um idiota insensível começa a destruir a casa dos insectos com o tacão cardado, as formigas fogem em todas as direcções, procurando cada vez mais afanosamente uma saída, uma maneira de se salvarem, mas seja por estarem paralisadas pelo imprevisto do ataque, seja por preocupação com o destino da sua prole e a vontade de salvarem o que

puderem, voltam para trás, como se obedecessem a alguma maléfica influência, em vez de seguirem em frente, para fora do alcance da ameaça, e acabam por regressar sempre aos mesmos carreiros e aos mesmos lugares, incapazes de saírem do círculo fatal - e por isso perecem. Exactamente como nós. Foi um período terrível para nós, mas os alemães fizeram muito bons negócios nesse tempo. Proliferaram no ghetto firmas alemãs, como cogumelos depois da chuva, todas elas dispostas a passar atestados de emprego. A troco de uns milhares de zlótis, evidentemente, mas

a amplitude dessas quantias não detinha as pessoas. Havia bichas

à porta de tais firmas, bichas que assumiam enormes proporções à porta dos escritórios de empresas realmente grandes e importantes, como a Toebbens e a Schultz. Os que tinham a sorte de adquirir esses atestados, pregavam pequenos avisos no vestuário, com o nome do lugar onde supostamente trabalhavam. Julgavam que isso os protegeria do realojamento. Eu podia ter arranjado facilmente um desses atestados, mas uma vez mais, como no caso da vacina contra o tifo, só para mim.

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Nenhum dos meus conhecidos, nem mesmo dos mais bem relacionados, encararia a idéia de os

fornecer para toda a minha família. Seis atestados grátis

esperar de mais, e eu não podia pagar nem o preço mais baixo para todos nós. Ganhava num dia para

gastar no outro, e a alimentação levava o dinheiro todo. O início

seria, certamente,

da operação no ghetto apanhou-me apenas com umas centenas de zlótis no bolso. Sentia-me

destroçado pela minha impotência, e também por ver os meus amigos mais ricos assegurarem facilmente a segurança das suas famílias. Mal arranjado, com barba por fazer e sem um pedaço de comida no estômago, calcorreei a cidade de manhã à noite, de uma firma para outra, suplicando às pessoas que se compadecessem de nós. Ao fim de seis dias, e de ter manipulado todos os cordelinhos possíveis, consegui, não sei bem como, arranjar os atestados. Deve ter sido na semana anterior ao início da operação que encontrei Roman Kramsztyk pela última vez. Estava magro e nervoso, embora tentasse disfarçá-lo. Pareceu satisfeito por me ver

- Ainda não partiste em digressão? - perguntou-me, tentando gracejar.

- Não - respondi secamente, pois não estava com vontade de brincar. Depois fiz-lhe a pergunta que estávamos sempre a fazer uns aos outros, naquele tempo: - Que te parece? Achas que nos vão realojar a todos? Evitou responder, exclamando:

- Estás com um aspecto terrível! - Olhou para mim, compadecido, e acrescentou: - Levas tudo isto demasiado a sério.

- Como posso evitá-lo? - retorqui, encolhendo os ombros.

Ele sorriu, acendeu um cigarro, ficou uns momentos calado e depois disse:

- Tem calma, espera, que um belo dia tudo acabará, porque

porque não faz, realmente, sentido nenhum, pois não? Falou com uma convicção cómica e ao mesmo tempo impotente, como se o absoluto despropósito do que estava a passar-se fosse um óbvio argumento demonstrativo de que só poderia acabar. Infelizmente, não acabou. Pelo contrário, as coisas tornaram-se ainda piores quando nos dias seguintes foram trazidos para o ghetto lituanos e ucranianos. Eram tão venais como a polícia judaica, embora de modo diferente. Aceitavam subornos, mas assim que os recebiam matavam as pessoas cujo dinheiro tinham tirado. Aliás, gostavam de matar: matar por desporto, ou para facilitar o seu trabalho, como treino de tiro ao alvo ou, simplesmente, para se divertirem. Matavam crianças na presença das mães e achavam divertido o desespero das mulheres. Disparavam para o ventre das pessoas pelo prazer de observar os seus tormentos. Às vezes, um grupo deles alinhava as suas vítimas e atirava-lhes granadas de mão, de certa distância, para ver quem tinha melhor pontaria. Todas as guerras geram determinados pequenos grupos entre populações étnicas: minorias tão cobardes que são incapazes de lutar abertamente, tão insignificantes que não podem desempenhar nenhum papel político independente; mas suficientemente desprezíveis para actuarem como carrascos pagos de uma das potências combatentes. Nesta guerra esse papel coube aos fascistas ucranianos e lituanos. Roman Kramsztyk foi um dos primeiros a morrer, quando eles começaram a dar uma ajuda na operação de realojamento. O prédio onde morava foi cercado, mas ele não desceu para o pátio quando soou o apito. Preferiu ser abatido em casa, entre os seus quadros. Mais ou menos por essa altura, os agentes da Gestapo, Kon e Heller, morreram. Não tinham sabido firmar a sua situação com tacto suficiente, ou talvez fossem demasiado sovinas. Só pagaram a uma das duas sedes da SS em Varsóvia e tiveram o azar de cair nas mãos de homens da outra. As autorizações que apresentaram tinham sido passadas pela unidade SS rival, o que enfureceu ainda mais os captores: não contentes com abaterem simplesmente Kon e Heller a tiro, mandaram chamar os carros do lixo, e foi neles que, entre restos e imundícies, os dois magnatas fizeram a última viagem, através do ghetto, para uma vala comum.

- fez um gesto vago com os braços

Os ucranianos e os lituanos não queriam saber para nada de quaisquer atestados. Os seis dias que eu passara a adquirir os nossos tinham sido uma perda de tempo e esforço. Eu achava que as pessoas tinham realmente de trabalhar; a questão era como. Perdi por completo o ânimo. Agora passava o dia inteiro deitado na cama, a escutar os sons que subiam da rua. Todas as vezes que ouvia

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o estrondear de rodas no macadame, entrava de novo em pânico. Esses veículos estavam a levar

pessoas para o Umcchlagplatz. Mas nem todos passavam a direito pelo ghetto; qualquer deles podia parar à porta do nosso prédio. Agora podíamos ouvir o apito no pátio a

qualquer momento. Eu estava constantemente a saltar da cama,

ir à janela, voltar a deitar-me e levantar-me de novo.

Era o único da família a proceder com uma fraqueza tão vergonhosa. Talvez porque, de algum modo, só eu pudesse salvar-nos graças à minha popularidade como executante, e por isso me sentisse responsável.

Os meus pais, as minhas irmãs e o meu irmão sabiam que não podiam fazer nada. Concentravam-se inteiramente em controlar-se e manter a ficção de uma vida quotidiana normal. O meu pai passava o dia inteiro a tocar violino, Henryk estudava, Regina e Halina liam e a minha mãe remendava as nossas roupas. Os alemães tiveram mais uma idéia brilhante para facilitar o trabalho. Apareceram nas paredes anúncios dizendo que todas as famílias que se apresentassem voluntariamente no Umschlagplatz para "emigrarem" receberiam um pão e um quilograma de compota por pessoa, e, além disso, essas famílias voluntárias não seriam separadas. Houve uma adesão maciça a essa oferta. As pessoas estavam ansiosas por aceitá-la, tanto por estarem famintas como pela esperança de percorrerem juntas o difícil e desconhecido caminho para o seu destino. Inesperadamente, Goldfeder veio em nosso auxílio. Tinha oportunidade de empregar um certo número de pessoas no centro recolha, perto do Umschlagplatz, onde os móveis

e os pertences das casas de judeus que já tinham sido realojados eram escolhidos. Arranjou-nos lá alojamentos, a mim, ao meu pai e a Henryk, e depois conseguimos que as minhas irmãs e a minha mãe se nos juntassem embora elas não trabalhassem no centro de

recolha, mas tratassem da nossa nova "casa" no edifício que era a nossa caserna. As rações não eram nada de especial: cada um de nós recebia meio pão e um quarto de litro de sopa por dia, que tínhamos de repartir cuidadosamente para apaziguarmos a nossa fome o melhor que podíamos. Foi o meu primeiro trabalho para os alemães. Carregava móveis espelhos, carpetes, roupa interior, roupa de cama e vestuário de um lado para o outro, de manhã até

à noite: objectos que tinham pertencido a alguém poucos dias antes, apenas, que tinham mostrado

que o interior de uma casa era o lar de pessoas com ou sem bom gosto, prósperas ou pobres, bondosas ou cruéis. Agora não pertenciam a ninguém; tinham descido à categoria de pilhas e montes de objectos, eram manuseadas sem cuidado e só uma vez por outra, quando eu transportava um braçado de roupas interiores, a leve fragrância do perfume favorito de alguém se evolava delas muito delicadamente, como uma recordação, ou eu tinha um vislumbre momentâneo de monogramas coloridos num fundo branco. Mas não dispunha de tempo para pensar nessas coisas. Cada momento de contemplação, ou até de distracção, dava origem a uma pancada ou a um pontapé dolorosos desferidos com a bota de biqueira de ferro ou o bastão de borracha de um polícia. Podia custar-nos a vida, como aconteceu aos jovens que foram imediatamente abatidos a tiro porque tinham deixado cair um espelho de sala e ele se partira.

No princípio da manhã do dia 2 de Agosto, foi dada ordem para todos os judeus deixarem o pequeno ghetto até às seis da tarde desse dia. Consegui arranjar tempo para

ir buscar algum vestuário e roupas de cama à Rua Sliska, juntamente com as minhas composições,

um conjunto de críticas dos meus desempenhos, a minha obra criativa como compositor e o violino do meu pai. Levei tudo para as nossas instalações num carro de mão, o que foi um trabalho muito pesado. Era tudo o que tínhamos.

Um dia, por volta de 5 de Agosto, tivera uma breve folga no trabalho e descia a Rua Gésia, quando

vi por acaso Janusz Korczak e os seus órfãos sair do ghetto.

A evacuação do orfanato judaico de Janusz Korczak fora ordenada naquela manhã. Somente as

crianças deveriam ser levadas. Ele teve a oportunidade de se salvar, e só a custo conseguiu persuadir os alemães a levarem-no também. Tinha passado muitos anos da sua

vida com crianças e agora, nesta última viagem, não as deixaria sós.

Queria facilitar-lhes as coisas. Disse aos órfãos que iam para o campo e, por isso, deviam sentir-se alegres. Poderiam finalmente trocar os horríveis muros sufocantes da cidade por prados cheios de flores, rios onde se banhariam, florestas

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cheias de bagas e cogumelos. Disse-lhes que vestissem as suas melhores roupas e, por isso, eles desceram para o pátio, a dois e dois, bem arranjados e satisfeitos.

A pequena coluna foi conduzida por um homem das SS que amava crianças, como os alemães

amam, mesmo aquelas que estavam prestes a levar para o outro mundo. Sentiu uma simpatia especial por um rapaz de doze anos, um violinista que transportava o seu instrumento debaixo do braço. O SS disse-lhe que passasse para a frente do cortejo e tocasse, e assim partiram. Quando os encontrei na Rua Gésia, as crianças sorridentes cantavam em coro, o pequeno violinista tocava para elas e Korczak levava ao colo dois dos mais pequeninos,

que também sorriam e a quem ele contava uma história engraçada qualquer. Tenho a certeza de que mesmo na câmara de gás, enquanto o Cyclon B asfixiava gargantas infantis e enchia de terror, em vez de esperança, os corações dos órfãos,

o Velho Doutor deve ter murmurado, num derradeiro esforço: "Não é nada, crianças, vai correr tudo

bem", para que pelo menos ele pudesse poupar aos seus meninos o medo da passagem da vida para a morte. Finalmente, em 16 de Agosto de 1942, chegou a nossa vez. Tinha sido feita uma selecção no centro de recolha, e só Henryk e Halina foram considerados ainda aptos para trabalhar. O meu pai, Regina e eu fomos mandados regressar à caserna. Uma vez lá, o edifício foi cercado e ouvimos o apito no pátio.

Não valia a pena lutar mais. Eu tinha feito o que pudera para salvar os meus entes queridos e a mim próprio. Fora obviamente impossível, desde o princípio. Talvez Halina e Henryk, pelo menos, tivessem mais sorte do que nós. Vestimo-nos rapidamente, enquanto soavam em baixo, no pátio, gritos e disparos instigando-nos a apressar-nos. A minha mãe fez uma pequena trouxa com o que apanhou

à

mão e depois descemos a escada.

9

O

UMSCHLAGPLATZ

O

Umschla latz ficava na fronteira do ghetto. Era um recinto junto dos desvios do caminho-de-ferro,

cercado por uma rede de ruas, ruelas e becos sujos. Apesar da sua aparência pouco atraente, contivera riquezas antes da guerra. Um dos desvios fora o destino de

grandes quantidades de mercadorias vindas de todas as partes do

mundo. Homens de negócios judeus arrematavam-nas e depois forneciam-nas às lojas de Varsóvia a

partir de armazéns na Rua Nalewki e na Travessa Simon. O recinto era um grande oval, rodeado em parte por edifícios e em parte por vedações, com diversas estradas a desembocar nele como regatos num lago, ligações úteis com a cidade. A área fora isolada com portões nos pontos aonde as ruas chegavam e podia agora conter até oito mil pessoas. Quando chegámos ainda estava muito vazia. Andavam pessoas de um lado para o outro, procurando água em vão. Estava um dia bonito e quente de fins de Verão. O céu tinha um tom cinzento-azulado, como se fosse transformar-se em cinzas no calor que subia do solo muito pisado e das paredes ofuscantes dos edifícios, e o sol escaldante sugava as últimas gotas de suor dos corpos exaustos. Na margem do recinto, onde uma das ruas desembocava, havia um espaço desocupado. Passavam todos o mais ao largo possível desse local ao qual lançavam olhares horrorizados, mas sem nunca Se deterem. Encontravam-se lá cadáveres: os corpos daqueles que tinham sido mortos na véspera por um ou outro crime, talvez até

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por tentarem fugir. Entre os corpos de homens estavam os de uma mulher jovem e de duas rapariguinhas com os crânios esmagados. O muro sob o qual jaziam apresentava traços claros de manchas sangue e tecido cerebral. As crianças tinham sido assassinadas pelo método preferido dos alemães: agarradas pelas pernas e com as cabeças atiradas violentamente contra o muro. Grandes moscas pretas passeavam sobre os mortos e as poças de sangue derramado no solo, e os corpos inchavam e decompunham-se, quase visivelmente, a inchar sob a acção do calor. Nós instaláramo-nos com razoável conforto, à espera do comboio. A minha mãe estava sentada na trouxa das nossas coisas. Regina, no chão ao lado dela, eu estava de pé e o meu pai andava nervosamente de um lado para o outro, com as mãos atrás costas, dando quatro passos para um lado e retrocedendo outros quatro. Só agora, à luz fulgurante do sol, quando já não servia de nada preocupar-me com planos inúteis para nos salvarmos, tinha tempo para examinar de perto a minha mãe. Estava com aspecto horrível, apesar de, na aparência, inteiramente controlada. O seu cabelo, em tempos bonito e sempre cuidadosamente arranjado, já quase não tinha cor e pendia-lhe em madeixas para o rosto ansioso e enrugado. A luz dos seus brilhantes olhos pretos parecia ter-se apagado, e um espasmo nervoso descia-lhe da têmpora direita até ao canto da boca. Eu nunca reparara nisso antes e pensei que fosse um sinal do quanto se sentia angustiada com o cenário que nos rodeava. Regina chorava, com as mãos à frente do rosto e as lágrimas a escorrer por entre os dedos. Com intervalos, iam chegando veículos aos portões do Uwchlagplatz e despejavam lá dentro multidões de pessoas para realojamento. Estes recém-chegados não ocultavam o desespero. Os homens falavam em voz alta e as mulheres cujos filhos haviam sido separados delas lamentavam-se e soluçavam convulsivamente. Em breve porém, a atmosfera de pesada apatia que reinava no recinto começou a afectá-los também. Aquietaram-se, e só de vez em quando havia uma breve explosão de pânico, quando se metia na cabeça de um SS de passagem abater a tiro alguém que não se desviara do caminho com suficiente rapidez, ou cuja expressão não era suficientemente humilde. Uma mulher nova sentou-se no chão, não longe de nós. Tinha o vestido rasgado e o cabelo desgrenhado, como se tivesse lutado com alguém. Agora, porém, estava ali sentada em silêncio, com a morte estampada no rosto, os olhos fixos num ponto qualquer no espaço. Apertava a garganta com os dedos esticados e, de vez em quando,

perguntava, com monótona regularidade: "Por que fiz eu aquilo? Por que fiz eu aquilo?" Um homem novo, de pé a seu lado e obviamente seu marido, tentava confortá-la e convencê-la de qualquer coisa, falando suavemente, mas as suas palavras não pareciam penetrar no espírito dela. Íamos encontrando vários conhecidos entre as pessoas trazidas para o recinto. Eles vinham ter connosco, cumprimentavam-nos e, por puro hábito, tentavam entabular

uma conversa, mas essas conversas não tardavam a esmorecer e findar e as pessoas afastavam-se, preferindo tentar controlar a ansiedade sozinhas.

O Sol subia cada vez mais, escaldante. E nós sofríamos tormentos crescentes de fome e sede.

Comêramos o último pão e a última sopa na noite anterior. Achando difícil ficar parado no mesmo sítio, resolvi andar um pouco; talvez ajudasse.

À medida que chegava mais gente, o recinto ia ficando cada vez mais cheio, e precisávamos de

evitar as pessoas paradas e deitadas por ali, em grupos. Estavam todas

a discutir o mesmo assunto: para onde seríamos levados e se íamos realmente trabalhar, como a polícia judaica tentava convencer toda a gente. Vi um grupo de velhos deitados numa parte do recinto, homens e mulheres provavelmente

evacuados de algum lar de idosos. Estavam terrivelmente magros, exaustos pela

fome e pelo calor, e visivelmente no limite das suas forças. Alguns estavam deitados de olhos fechados, e não se podia saber se já tinham morrido ou estavam a morrer.

Se íamos ser incorporados numa força de trabalho, o que faziam ali aqueles velhos?

Mulheres com filhos ao colo arrastavam-se de grupo em grupo, suplicando uma gota de água. Os alemães tinham desligado propositadamente o abastecimento de água ao

Umschlagplatz. Os olhos das crianças estavam mortiços, já com as pálpebras a descer sobre eles: as suas cabeças pequenas não se seguravam nos pescoços ma

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gros e os seus lábios secos estavam abertos como bocas de pequenos peixes abandonados na margem pelos pescadores. Quando voltei para junto da minha família não a encontrei Uma amiga da minha mãe estava sentada

ao lado dela e o marido, outrora proprietário de uma grande loja,

juntara-se ao meu pai e a outro conhecido de ambos. O homem de negócios mostrava-se muito

animado. No entanto, o outro companheiro deles, um dentista que exercera clínica na Rua Sliska, não muito longe do nosso apartamento, via tudo em tons muito negros. Estava nervoso e virulento.

- É uma vergonha para todos nós! - quase gritava. - Estamos a deixá-los levar-nos para a morte como gado para o matadouro! Se nós, que somos meio milhão, atacássemos

os

alemães poderíamos sair do ghetto ou, pelo menos, morrer honrosamente, não como uma nódoa

na

face da História!

O

meu pai escutava-o. Muito embaraçado, mas com um sorriso amável, encolheu levemente os

ombros e perguntou:

- Como pode ter a certeza absoluta de que nos estão a levar para a morte?

O dentista apertou-lhe as mãos.

- Bem, evidentemente não tenho a certeza. Como podia ter? Acaso eles nos vão dizer? Mas pode estar noventa por cento certo de que planejam liqüidar-nos a todos!

O meu pai voltou a sorrir, como se estivesse ainda mais seguro de si depois daquela resposta.

- Olhe - disse, apontando a multidão que se encontrava no Umschlagplatz. - Nós não somos heróis! Somos pessoas perfeitamente comuns, e é por isso que preferimos

arriscar ter esperança nesses dez por cento de probabilidade de vivermos.

O homem de negócios concordou com o meu pai. A sua opinião também era diametralmente oposta

à do dentista: os alemães podiam ser estúpidos ao ponto de desbaratarem

a enorme força potencial de trabalho representada pelos judeus. Pensava que íamos para campos de trabalho, talvez campos de trabalho muito rigorosa mente dirigidos, mas que eles com certeza não nos matariam. Entretanto, a mulher do homem de negócios contava à minha mãe e a Regina como deixara a sua

prata emparedada na cave. Eram objectos belos e valiosos e ela esperava reencontrá-los quando regressasse do desterro. Já era de tarde quando vimos chegar ao recinto um novo grupo para realojamento. Ficámos horrorizados ao ver que Halina e Henryk faziam parte dele. Afinal, também iam partilhar o nosso destino - e fora tão reconfortante pensar que pelo menos os dois estariam em

segurança!

Apressei-me a ir ter com Henryk, convencido de que a culpa de estarem ali cabia à sua atitude estupidamente íntegra. Bombardeei-o com perguntas e censuras, sem lhe dar tempo para dizer uma palavra de explicação. Mas, de qualquer modo, ele não se teria dignado responder-me. Encolheu os ombros, tirou da algibeira uma pequena

edição de Shakespeare, da Oxford, colocou-se ao nosso lado e começou a ler. Foi Halina quem nos contou o que acontecera. Ouviram dizer no trabalho que nos tinham levado e ofereceram-se, simplesmente, para virem para o Umschlagplatz, porque queriam estar connosco. Que estúpida reacção emocional da parte deles! Resolvi fazer com que saíssem dali a qualquer preço. No fim de contas, não estavam na lista de realojamento. Podiam ficar em Varsóvia.

O polícia judeu que os trouxera conhecia-me do Café Sztuka, e eu esperava ser capaz de amaciar

facilmente o seu coração, sobretudo porque não existia nenhuma razão formal para os dois estarem ali. Infelizmente, enganava-me: o indivíduo nem queria ouvir falar em deixá-los sair. Como todos os polícias, era obrigado a entregar

cinco pessoas por dia ao Umschlagplatz, pessoalmente, sob pena de ser ele próprio realojado, se não obedecesse. Halina e Henryk tinham completado a sua quota de cinco daquele dia. Estava cansado e não tinha a mínima intenção de os soltar e recomeçar a caça para arranjar mais duas pessoas, sabia Deus onde. Na sua opinião, tais caçadas não eram tarefa fácil, pois as pessoas não vinham quando a polícia as chamava, pelo contrário, escondiam-se. E, de qualquer maneira, estava farto de tudo aquilo. Voltei para junto da minha família de mãos a abanar. Até esta derradeira tentativa de salvar pelo menos dois de nós falhara, como todas as minhas tentativas anteriores. Sentei-me muito deprimido ao lado da minha mãe.

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Já eram cinco horas da tarde, mas o calor mantinha-se e a multidão aumentava a cada hora que passava. As pessoas perdiam-se na balbúrdia e chamavam em vão umas pelas

outras. Ouvi os disparos e os gritos indicadores de que as incursões continuavam nas ruas vizinhas.

A agitação crescia à medida que se aproximava a hora prevista

para a chegada do comboio.

A mulher que se encontrava perto de nós, e que não parava de perguntar, "Por que fiz eu aquilo?",

bulia com os nossos nervos mais do que qualquer outra coisa. Entretanto, soubéramos do estava ela a falar. O nosso amigo homem de negócios descobrira-o. Depois de toda a gente receber ordem para sair do seu prédio a mulher, o marido e

o filho tinham-se escondido num lugar previamente preparado. Quando a polícia ia a passar por esse lugar o bebé começou a chorar e, cheia de medo, a mãe tapou-lhe

a boca com as próprias mãos. Infelizmente, nem isso ajudou. O choro da criança, e depois o seu estertor, foram ouvidos e o esconderijo descoberto.

A certa altura, um rapaz abriu caminho pelo meio da multidão e dirigiu-se a nós com uma caixa de

doces suspensa do pescoço por um cordel. Andava a vendê-los por preços ridículos, embora, Deus soubesse o que pensava fazer com o dinheiro obtido. Juntámos o resto das nossas pequenas moedas e comprámos um caramelo de nata. O meu pai dividiu-o em seis bocadinhos com o seu canivete. Foi a última refeição que tomámos juntos. Cerca das seis horas, desceu sobre o recinto uma atmosfera de grande tensão nervosa. Tinham chegado vários carros alemães e a polícia inspeccionava os que estavam destinados a partir, separando os jovens e fortes. Estes felizardos seriam, obviamente, usados para outros fins. Uma multidão de muitos milhares começou a empurrar

nessa direcção. Pessoas gritavam, tentando abafar as vozes umas das outras, chegar à frente e exibir

as suas vantagens físicas. Os alemães respondiam a tiro. O dentista,

ainda com o nosso grupo, mal podia conter a indignação. Interpelou furiosamente o meu pai, como

se tudo aquilo fosse culpa dele.

- Então, agora já acredita em mim, quando digo que nos vão matar a todos? As pessoas aptas para trabalhar ficarão aqui A morte mora para aquele lado!

A voz faltou-lhe quando tentava gritar estas palavras acima do barulho da turba e dos disparos,

apontando a direcção que os transportes seguiriam. Deprimido e angustiado, o meu pai não respondeu. O homem de negócios encolheu os ombros e

sorriu ironicamente; continuava animado. Achava que a selecção de umas centenas de pessoas não significava nada. Os alemães tinham, finalmente, escolhido a sua força de trabalho e foram-se embora, mas a agitação

da turba não esmoreceu. Pouco depois, ouvimos ao longe o apito

de uma locomotiva e o som de carruagens nos carris, à medida que se aproximavam. Mais uns minutos, e vimos o comboio: mais de uma dúzia de vagões de gado e de mercadorias

a avançarem lentamente na nossa direcção. A brisa do entardecer, que soprava no mesmo sentido,

lançava sobre nós uma onda sufocante de cloro. Ao mesmo tempo, o cordão de polícias judeus e homens das SS à volta do recinto tornou-se mais denso e começou a convergir para o centro. Mais uma vez, ouvimos tiros

disparados para nos assustarem. Da multidão compacta subiam lamentos altos de mulheres e choro de crianças. Preparámo-nos para partir. Para quê esperar? Quanto mais depressa estivéssemos dentro dos vagões, melhor. Uma fila de polícias instalou-se a poucos passos do comboio, deixando um largo corredor aberto para a multidão. O corredor conduzia às portas abertas dos vagões desinfectados com cloro. Quando percorremos o nosso caminho para o comboio, os primeiros vagões já estavam cheios. As pessoas estavam de pé, no seu interior, comprimidas umas contra as outras. Homens das SS continuavam a empurrá-las para dentro com as coronhas das espingardas, apesar dos gritos que vinham do interior e de queixas de falta de ar. E, de facto, o cheiro a cloro dificultava a respiração, mesmo a alguma distância dos vagões. Que se passaria lá dentro, para o chão ter de ser tão fortemente desinfectado? Percorrêramos cerca de metade do comprimento do comboio quando ouvi, de súbito, alguém gritar:

"Eh! Eh, Szpilman!" Uma mão agarrou-me pela gola e puxou-me para trás

e para fora

do cordão policial.

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Quem se atrevera a fazer semelhante coisa? Eu não queria separar-me da minha família. Queria ficar com ela!

O que via agora eram as fileiras cerradas das costas dos polícias Lancei-me contra elas, mas não

cederam. Olhando por cima suas cabeças, vi a minha mãe e Regina subirem para as carruagens ajudadas por Halina e Henryk, enquanto o meu pai olhava redor, a

procurar-me.

- Papá! - gritei.

Ele viu-me e deu dois passos na minha direcção, mas depois hesitou e parou. Estava pálido e os seus lábios tremiam de nervosismo. Tentou sorrir, desamparada e dolorosamente, levantou a mão e acenou um adeus, como se eu estivesse a começar a minha vida e ele a saudar-me

já de além-túmulo. Depois voltou-se e dirigiu-se para os vagões.

Atirei-me de novo contra os ombros dos polícias, com todas minhas forças.

- Papá! Henryk! Halina!

Gritei como um possesso, apavorado com o pensamento de que neste último momento vital, poderia não conseguir chegar até eles e ficaríamos separados para sempre.

Um dos polícias voltou-se e olhou-me furiosamente.

- Que raio pensa que está a fazer? Vá-se embora, salve-se!

Salvar-me? De quê? Num lampejo repentino, compreendi o que esperava as pessoas amontoadas nos vagões de gado. Fiquei de cabelos em pé. Olhei para trás de mim. Vi

o recinto aberto, as linhas e os cais do caminho-de-ferro e, para lá deles, as ruas. Impelido por um medo animal compulsivo, corri para as ruas meti-me no meio de uma coluna de trabalhadores camarários que saíam do local, e foi assim que transpus o portão. Quando consegui pensar de novo com alguma clareza, encontrava-me num passeio, entre prédios. Um homem das SS saiu de uma das casas com um polícia judeu. O SS tinha um impassível rosto arrogante; o polícia lambia-lhe positivamente as botas, sorridente, bajulador. Apontou para o comboio parado no Umschlagsplatz e disse ao alemão, com uma familiaridade de colega e em tom sarcástico: "Bem, lá vão eles para a fundição!" Olhei na direcção para onde ele apontava. As portas dos vagpeS tinham sido fechadas e o comboio arrancava, lenta e esforça damente-Afastei-me, cambaleante, pela rua deserta, chorando alto, per seguido pelos gritos cada vez mais fracos das pessoas fechadas naqueles vagões. Lembravam o pipilar de pássaros engaiolados em perigo mortal.

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1O UMA OPORTUNIDADE DE VIVER

Limitei-me a caminhar a direito, em frente. Não me interessava para onde ia. O Umschlagplatz e os vagões que transportavam a minha família tinham ficado para trás.

Deixara de ouvir o comboio; ele já se encontrava vários quilómetros para além da cidade No entanto, sentia-o dentro de mim, enquanto se afastava. A cada passo que dava no passeio, mais só me sentia. Tinha consciência estar definitivamente separado de tudo o que até então constituíra a minha vida. Não sabia o que me esperava,

a não ser que seria com certeza tão mau quanto podia imaginar. Não existia qualquer possibilidade

de regressar ao prédio onde a nossa família vivera ultimamente.

Os guardas das SS matar-me-iam de imediato, recambiar-me-iam para o Umschlagplatz como alguém que não seguira na leva de realojamento por engano. Não fazia idéia

nenhuma de onde passaria a noite, mas naquele momento não me importava realmente com isso,

embora houvesse no meu inconsciente um medo oculto do crepúsculo que se aproximava. Dir-se-ia que a rua fora completamente evacuada: as portas dos prédios de onde todos os habitantes haviam sido levados estavam fechadas ou tinham sido deixadas escancaradas. Aproximou-se de mim um polícia judeu. Não me despertou qualquer interesse nem lhe teria prestado

a mínima atenção se ele não tivesse parado e exclamado: "Wladek!" Quando parei, também, acrescentou, surpreendido:

- Que fazes aqui, a esta hora?

Só então o reconheci. Era um parente meu, não muito bem-visto pela nossa família. Achávamos a sua moralidade duvidosa e tentávamos evitá-lo. Arranjava sempre maneira de se livrar de dificuldades e conseguia estar sempre na mó de cima graças a métodos que outras pessoas considerariam errados. A sua entrada para a polícia serviu apenas para lhe confirmar a má reputação. Assim que o reconheci, naquele uniforme, todos estes pensamentos me passaram pela cabeça, mas logo a seguir pensei que ele era agora o meu parente mais chegado,

na verdade, até o meu único parente. Era, de qualquer modo, alguém relacionado com a recordação da minha família.

- comecei. Ia contar-lhe que os meus pais, o meu irmão e as minhas irmãs tinham sido

- Sabes

levados, mas não fui capaz de pronunciar uma única palavra mais. No entanto, ele compreendeu e pegou-me no braço.

- Talvez tenha sido melhor assim - murmurou, com um gesto de resignação. - Quanto mais depressa melhor, na realidade. É o que nos espera a todos. - Acrescentou, após uma pausa: - Vem para nossa casa. Animar-nos-á um pouco a todos. Concordei e passei com esses parentes a minha primeira noite sem ninguém. Na manhã seguinte fui falar com Mieczyslaw Lichtenbaum, filho do novo presidente do Conselho judaico, que conhecera bem quando ainda tocava piano nos cafés do ghetto.

Sugeriu que eu poderia tocar no cassino do comando de extermínio alemão, onde oficiais da Gestapo

e das SS se distraíam, à noite, depois de um dia cansativo a assassinar

judeus. Eram servidos por judeus que mais cedo ou mais tarde também seriam assassinados. Claro que não quis aceitar semelhante oferta, embora Lichtenbaum não pudesse compreender por que motivo ela não me agradava e ficasse ofendido quando a recusei. Sem discutir mais, alistou-me numa coluna de trabalhadores que estavam a demolir os muros do antigo grande ghetto, o qual ia ser incorporado na zona ariana da cidade. No dia seguinte, saí do bairro judeu pela primeira vez em dois anos. Estava um bonito dia quente e a data era mais ou menos 20 de Agosto. Um dia tão bonito como muitos outros antes, tão bonito como o último que passei com a minha família no Umschlagplatz. Caminhávamos numa coluna em filas de quatro ho lado a lado, sob o comando de capatazes judeus e guardad dois SS. Parámos no Largo Zelazna Brama. Afinal, ainda havi assim, algures! Vendedores de rua com cestos cheios de mercadorias est parados do lado de fora do edifício do mercado, agora fec presumivelmente convertido pelos alemães numa espécie q de armazéns. O sol luminoso emprestava um brilho às cores frutos e vegetais, fazia cintilar as escamas do peixe e arr reflexos ofuscantes às tampas de folha dos boiões de com Andavam mulheres à volta dos vendedores, regateando, indo cesto em cesto, fazendo as suas compras e seguindo depois em direcção do centro da cidade. Os negociantes de ouro e m apregoavam monotonamente: "Ouro, comprem ouro. Dólares blos!"

A dada altura, um veículo buzinou muito ao longe, numa transversal, e apareceu o vulto verde-

acinzentado de um cami" polícia. Em pânico, os vendedores guardaram todas as suas dórias e atropelaram-se uns aos outros na ânsia de fugir. S gritos e reinou a confusão em todo o largo. Afinal, nem ali estava bem! Tentávamos trabalhar o mais lentamente possível na demo do muro, para que a obra durasse muito tempo. Os capa judeus não nos importunavam, e os próprios SS não se com vam tão mal, ali, como dentro do ghetto. Mantinham-se a uma distância, entretidos a conversar

e

deixando os olhos vaguear.

O

caminhão passou pelo largo e desapareceu. Os vendedores regressaram aos seus lugares anteriores

e

dir-se-ia que nada no largo. Os nossos companheiros foram deixando

o

grupo, cada vez, para comprarem coisas nas tendas e metê-las em que tinham trazido, ou

enfiá-las nas pernas das calças e nos c Eu, infelizmente, como não tinha dinheiro, só podia obs embora me sentisse desfalecer de fome. Um casal jovem aproximou-se do nosso grupo, vind Ogród Saski. Estavam ambos muito bem vestidos. A mulher parecia encantadora, e eu não conseguia desviar os olhos dela:

seus lábios pintados sorriam, bamboleava ligeiramente os quadris

e o sol transformava-lhe o cabelo claro num bruxuleante halo dourado à volta da cabeça. Ao passar por nós, a jovem abrandou o passo e exclamou:

Olha

O homem não compreendeu e olhou-a interrogadoramente. Ela apontou para nós.

Judeus!

Ele ficou surpreendido.

- E depois? - perguntou, encolhendo os ombros. - São os primeiros judeus que vês na tua vida?

Ela sorriu, um pouco embaraçada, chegou-se mais para o companheiro e afastaram-se os dois na direcção do mercado. Nessa tarde consegui que um dos outros me emprestasse cinqüenta zlótis. Gastei-os em pão e batatas. Comi algum pão e levei o restante e as batatas para o ghetto. Nesse fim de tarde fiz a primeira transacção comercial da minha vida. Tinha pago vinte zlótis pelo

pão; vendi-o por cinqüenta no ghetto. As batatas tinham-me custado três zlótis por quilo; vendi-as por dezoito. Pela primeira vez desde há muito tempo, tinha o suficiente para comer e dispunha ainda de um pequeno fundo de maneio para as compras do dia seguinte.

O trabalho de demolição era muito enfadonho. Saíamos de manhã cedo do ghetto e depois

andávamos à volta de um monte de tijolos, a fingir que trabalhávamos, até às cinco horas da tarde. Os meus companheiros passavam o dia ocupados em toda a espécie de transacções, adquirindo coisas, especulando sobre o que comprar, como levá-lo

às escondidas para o ghetto e como vendê-lo lá mais lucrativamente. Eu comprava as coisas mais

simples, apenas o suficiente para me manter. Se pensava em alguma coisa, era na minha família: onde estavam agora, para que campo tinham sido levados, como estavam a passar lá.

Um dia, um velho amigo meu passou pelo nosso grupo. Tratava-Se de Tadeusz Blumental, judeu, mas um judeu cujas feições eram tão "arianas" que não precisava de admitir

as suas origens e Podia viver fora dos muros do ghetto. Gostou de me ver, mas ficou Pesaroso por me encontrar numa situação tão difícil. Deu-me algum dinheiro e prometeu que tentaria ajudar-me. Disse que no dia

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oh, olha!

seguinte viria uma mulher e, se eu conseguisse escapar-me sem ser observado, me levaria para um lugar onde me poderia esconder A mulher apareceu, de facto, mas infelizmente

apenas para, comunicar que as pessoas com quem eu era para ficar se recusavam a aceitar um judeu. Noutro dia, o chefe da Filarmónica de Varsóvia, Jan Dworakowski, viu-me quando ia a atravessar o largo. Ficou sinceramente comovido por me encontrar. Abraçou-me

e começou a perguntar-me como estávamos, eu e a minha família. Quando disse que os outros tinham sido levados de Varsóvia, olhou para mim com o que me pareceu uma compaixão

especial e abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa. Mas, no último momento não disse.

- O que pensas que lhes terá acontecido? - perguntei, com grande ansiedade.

- Wladyslaw! - Pegou-me nas mãos e apertou-as carinhosamente. - Talvez seja melhor para ti

saberes

baixinho quase num murmúrio: - Nunca mais voltarás a vê-los. Virou-se rapidamente e afastou-se depressa. Logo a seguir, porém, voltou para trás e abraçou-me, mas eu não tinha força suficiente para retribuir a sua cordialidade. Subconscientemente, soubera desde o início que os contos de fadas dos alemães acerca de campos

para judeus, onde os aguardavam "boas condições de trabalho", não passavam de mentiras, que a única coisa que podíamos esperar era a morte às mãos deles. No entanto, como os outros judeus do ghetto acalentara a ilusão de que podia ser diferente, de que desta vez as promessas dos alemães eram verdadeiras. Quando pensava nos

meus familiares tentava imaginá-los vivos: talvez estivessem a viver em condições terríveis, mas de qualquer modo estavam vivos e um dia poderíamos voltar a ver-nos, apesar de tudo. Dworakowski desttruíra a estrutura de auto-engano que eu tão arduamente mantivera. Só muito mais tarde consegui convencer-me de que ele procedera bem ao fazê-lo: a certeza da morte deu-me a energia necessária para me salvar, no momento crucial. Passei os dias seguintes como se vivesse num sonho, levantando-me maquinalmente de manhã, movimentando-me maquinalmente durante o dia, deitando-me maquinalmente

à noite para dormir numa cama de tábuas do armazém de móveis judeu que fora concedido ao

Conselho. Não sei como, rendera-me ao que sabia agora ter sido a morte certa da minha mãe, do meu pai, de Halina, Regina e Henryk. Houve um ataque aéreo soviético a Varsóvia. Toda a gente foi para os abrigos. Os alemães estavam assustados

para ficares de sobreaviso. - Hesitou, apertou-me a mão e acrescentou

e

furiosos; os judeus, encantados, embora não pudessem demonstrá-lo. Todas as vezes que ouvíamos

o

barulho dos bombardeiros, os nossos rostos iluminavam-se: para

nós, era o som do socorro que se aproximava e a derrota da Alemanha, a única coisa que nos poderia

salvar. Não desci para um abrigo; era-me indiferente morrer ou viver. Entretanto, as nossas condições de trabalho, na demolição dos muros, haviam-se deteriorado. Os lituanos que tinham passado a guardar-nos não permitiam que comprássemos

nada no mercado, e éramos revistados, cada vez mais minuciosamente, no principal posto de guarda

e no regresso ao ghetto. Uma tarde, inesperadamente, foi feita uma

selecção no nosso grupo. Um jovem polícia instalou-se à saída do principal posto de guarda, arregaçou as mangas e começou a separar-nos de acordo com o sistema de loteria e como melhor lhe parecia: os da esquerda para morrerem, os da direita para viverem. Mandou-me para a direita. Os da esquerda tiveram de se deitar de bruços no chão. Depois ele matou-os com o seu revólver. Ao fim de cerca de uma semana, foram colados nos muros do ghetto avisos de uma nova selecção de todos os judeus que restavam em Varsóvia. Trezentos mil já tinham sido "realojados"; restavam cerca de cem mil, dos quais apenas vinte mil permaneceriam na cidade, todos eles profissionais e outros trabalhadores indispensáveis

aos alemães.

Os funcionários do Conselho tiveram de ir para o pátio do edifício do Conselho judaico no dia marcado; o resto da população, para a área do ghetto entre as ruas Nowolipki e Gésia. A fim de tornar a operação duplamente segura, um dos polícias judeus, um agente chamado Blaupapier, colocou-se à frente do edifício do Conselho de chicote em punho, usando-o pessoalmente contra quem tentasse entrar.

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Aos que permaneceriam no ghetto foram entregues papéis com números. O Conselho tinha o direito de ficar com cinco mil dos seus funcionários. Nesse primeiro dia não

me foi dado um número mas mesmo assim dormi toda a noite, resignado com a minha sorte, embora os meus companheiros estivessem quase fora de si de tanta ansiedade. Na manhã seguinte recebi um número. Formámos em filas com quatro homens lado a lado e tivemos de esperar que a comissão de controle das SS, sob o comando do Untersturm Brandt, condescendesse em vir contar-nos, não fosse dar-se o caso de demasiados de nós escaparmos

à morte.

Quatro a quatro, marchando em cadência e rodeados de polícias, dirigimo-nos para o portão do edifício do Conselho a fim de seguirmos para a Rua Gésia, onde seríamos alojados. Atrás de nós, a multidão de pessoas condenadas a morrer atirava-se para o chão, gritava,

lamentava-se e amaldiçoava-nos por termos escapado miraculosamente, enquanto os lituanos que superintendiam na sua passagem da vida para a morte disparavam para o meio da turba para a acalmarem da maneira que lhes era agora habitual. Fora-me, pois, dada de novo uma oportunidade de viver. durante quanto tempo?

11 "ATIRADORES, ERGUEI-VOS!"

Mudara mais uma vez de casa, a última não sei de quantas mudanças desde que morávamos na Rua Sliska e a guerra rebentara. Desta vez deram-nos quartos partilhados, ou melhor, celas onde havia apenas o equipamento doméstico mais essencial e camas de tábuas. O meu era partilhado com os três membros da família Prózàski e a Sr.a A, uma mulher silenciosa muito metida consigo, embora tivesse de o ser no mesmo quarto que nós. Logo na primeira noite que lá passei tive um sonho que me desencorajou completamente. Parecia ser a confirmação definitiva das minhas suposições a respeito do destino da minha família. Sonhei que o meu irmão Henryk se aproximava de mim, se inclinava para a minha cama e dizia: "Nós agora estamos mortos." Fomos acordados às seis da manhã por muitas idas e vindas no corredor. Havia muita actividade e conversas em voz alta. Os privilegiados, que trabalhavam na conversão do palácio do comandante das SS em Varsóvia, na Aleje Ujazdowskie, partiam para o trabalho. O seu estatuto de "privilegiados" significava que tinham direito a uma sopa de sustância, com carne, antes de saírem para o trabalho; era nutritiva e os seus efeitos prolongavam-se por algumas horas. Nós saíamos pouco depois deles com

a barriga quase vazia, pois só nos calhava um caldo aguado. O seu fraco valor nutritivo correspondia

à importância do nosso trabalho: a limpeza do pátio do edifício do Conselho Judaico.

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No dia seguinte, mandaram-me, assim como a Prózanski e ao seu filho ainda rapaz, para o edifício onde ficavam os armazéns do Conselho e os andares dos seus funcionários. Eram duas da tarde quando o familiar apito alemão e o habitual berro alemão soaram chamando toda

a gente para o pátio. Apesar de já termos sofrido tanto às mãos

dos alemães, ficámos petrificados como pilares de sal. Havia apenas dois dias que nos tinham sido atribuídos os números que significavam vida. Toda a gente daquele

edifício tinha um; não devia, portanto, tratar-se de outra escolha. Nesse caso, o que era? Descemos apressadamente: sim, era de facto uma selecção. Voltei a ver pessoas mergulhadas em desespero e vi os SS berrarem e enfurecerem-se enquanto separavam famílias e nos escolhiam para a direita e para a esquerda, praguejando e espancando-nos. Mais uma vez, o nosso grupo de trabalho foi destinado a viver, com algumas excepções. Entre as excepções contava-se o filho de Prózanski, um rapaz encantador com o qual travara amizade. Já gostava muito dele, apesar de termos vivido no mesmo quarto apenas dois dias. Não sei descrever o desespero dos seus pais. Milhares de outras mães e pais do ghetto estiveram igualmente desesperados durante esses meses. Havia um aspecto ainda mais característico na selecção: as famílias

de personalidades proeminentes da comunidade judaica compravam a sua liberdade a supostamente

incorruptíveis agentes da Gestapo do local. Para acertar os números estipulados, carpinteiros, empregados de mesa cabeleireiros e barbeiros e outros trabalhadores especializados, que podiam realmente ter sido úteis aos alemães, eram

levados em lugar para o Umschlagplatz e enviados para a morte. Por acaso jovem Prózanski fugiu do Umschlagplatz e sobreviveu, assim, algum tempo. Um dia, pouco depois disso, o chefe do nosso grupo disse que conseguira destacar-me para o grupo que trabalhava no edifício do aquartelamento das SS no bairro distante

de Mokoto Garantiu-me que receberia melhor comida e que, de modo geral estaria muito melhor.

A realidade era muito diferente. Tinha de me levantar duas horas mais cedo e caminhar cerca de

doze quilómetros pelo meio da cidade para chegar ao trabalho a tempo.

Quando chegava, exausto da longa caminhada, tinha de pegar logo no trabalho, que excedia muito as minhas forças e consistia em carregar às costas tijolos empilhados numa tábua. Nos intervalos, carregava baldes de cal e barras de ferro. Poderia ter-me saído bem se não fossem os capatazes SS, futuros ocupantes do aquartelamento, acharem que estávamos a trabalhar muito devagar. Mandavam-nos transportar as pilhas de tijolos ou

as barras de ferro em corrida, e se alguém se sentia desfalecer

e parava batiam-lhe com chicotes de couro munidos de bolas de chumbo nas pontas.

Na verdade, não sei como teria suportado este primeiro turno de trabalho físico pesado se não tivesse

procurado de novo o chefe do grupo e rogado, com êxito, a transferência para o destacamento que estava a construir o palacete do comandante das SS em Aleje Ujazdowskie. As condições eram mais toleráveis e eu consegui de certo modo agüentar-me. Eram toleráveis principalmente porque trabalhávamos com mestres pedreiros alemães e artesãos polacos especializados, alguns dos quais eram mão-de-obra forçada, embora outros trabalhassem sob contrato. Em conseqüência disso, dávamos menos nas vistas e podíamos render-nos para descansar um pouco, agora que nem sempre éramos um grupo judaico obviamente autónomo. Além disso, os polacos faziam causa comum connosco contra os capatazes alemães e davam-nos uma ajuda. Outro factor que nos ajudava era

o facto de o arquitecto responsável da obra ser, também ele, judeu, um engenheiro chamado Blum

que tinha às sms ordens um grupo de outros engenheiros judeus, todos eles notáveis profissionais. Os alemães não reconheciam oficialmente esta situação, e o mestre pedreiro Schultke, designado por uma questão de aparência como arquitecto responsável, era um sádico típico e tinha o direito de espancar os engenheiros as vezes que lhe apetecesse. Mas sem os artesãos judeus especializados nada se teria

realmente conseguido fazer. Por esse motivo, éramos todos tratados com relativa brandura - tirando, evidentemente, os espancamentos acima mencionados, mas tais coisas praticamente não contavam no clima daquele tempo. Eu era servente de um pedreiro chamado Bartczack, um polaco que, no fundo, era um indivíduo decente, embora não pudesse deixar de haver algum atrito entre nós. As vezes os alemães não

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nos largavam e tínhamos de tentar trabalhar da maneira que eles queriam. Eu fazia o possível, mas acabava inevitavelmente por derrubar o escadote, entornar a cal

ou deixar cair tijolos dos andaimes, e Bartczak acabava por ser também repreendido. Sentia-se, por seu turno, furioso comigo, ficava escarlate, resmungava entredentes

e esperava que os alemães se afastassem Empurrava então o boné para trás, punha as mãos nos quadris abanava a cabeça perante a minha inépcia como pedreiro e iniciava

a sua tirada habitual:

- Dizes que costumavas tocar música na rádio, Szpilman? perguntava, estupefacto. - Um músico como tu, que não consegue segue sequer manejar uma pá e raspar cal de

uma tábua

Depois encolhia os ombros, olhava desconfiadamente para mim, cuspia e, numa última explosão de cólera, gritava com todas as forças:

- Idiota!

No entanto, quando eu mergulhava nos meus sombrios pensamentos acerca da minha vida e parava de trabalhar, esquecendo onde estava, Bartczak nunca deixava de me avisar

a tempo se um capataz alemão se aproximava.

- Argamassa! - berrava, a palavra ecoava no recinto da obra e eu pegava no primeiro balde que encontrava à mão, ou numa pá de pedreiro, e fingia estar a trabalhar diligentemente.

A perspectiva do Inverno, que não tardaria, causava-me uma ansiedade especial. Não tinha nenhuma

roupa quente nem, claro luvas. Fora sempre muito sensível ao frio

e se as minhas mãos enregelassem enquanto fazia um trabalho físico tão pesado, podia dizer adeus a

qualquer carreira futura como pianista. Com uma melancolia crescente, via as folhas das árvores da Aleje Ujazdowskie mudarem de cor, ao mesmo tempo que o vento soprava mais frio de dia para dia. Nessa altura, os números que tinham significado autorização provisória para viver adquiriram estatuto permanente, e ao mesmo tempo fui transferido para novo alojamento no ghetto, na Rua Kurza. O nosso local de trabalho também mudou, agora para o lado ariano da cidade. O trabalho no palacete de Aleje estava a chegar ao fim e eram necessários menos trabalhadores. Alguns de nós foram transferidos para a Rua Narbutt, n.o 8, a fim de prepararem alojamento para uma unidade de oficiais das SS. Estava cada vez mais frio e os meus dedos ficavam dormentes com mais freqüência, enquanto trabalhava. Não sei o que teria acontecido se o acaso não tivesse vindo em meu socorro: um feliz acaso de azar, por assim dizer. Um dia tropecei, quando transportava cal, e torci o tornozelo. Fiquei incapacitado para trabalhar no local de construção, e Blum, o engenheiro, destacou-me para os armazéns. Isto passou-se em fins de Novembro, no derradeiro momento em que podia ter alguma esperança de salvar as mãos. De qualquer modo, estava mais quente nos armazéns do que no exterior. Um número cada vez maior de trabalhadores que tinham estado na Aleje Ujazdowskie estava a ser transferido para a nossa obra - e um número também crescente de SS

devias pô-los todos a dormir!

que tinham sido nossos capatazes lá era igualmente transferido para a Rua Narbutt. Uma manhã,

descobrimos entre eles o homem que era a maldição das nossas vidas, um sádico cujo apelido desconhecíamos, mas que tínhamos alcunhado de Zás-Trás. Sentia um prazer quase erótico em maltratar pessoas de determinada maneira: ordenava ao delinqüente que se baixasse, metia a cabeça do homem entre as coxas, apertava-a com força e, lívido de fúria e a silvar por entre os dentes cerrados, açoitava

o rabo do infeliz com um kourbash (1). "Zás-trás, zás-trás." Nunca largava a vítima antes de ela

desmaiar de dor. Voltaram a circular no ghetto boatos de "realojamento". A corresponderem à verdade, tornava-se evidente que os alemães tencionavam exterminar-nos totalmente. No fim de contas, já só restávamos uns sessenta mil, e com que outro objectivo podiam eles pretender

retirar esse pequeno número de pessoas da cidade? A idéia de oferecer resistência aos alemães era alvitrada com freqüência crescente. Judeus jovens estavam especialmente determinados a lutar, e aqui e ali alguns edifícios do ghetto começaram a ser fortificados em segredo, para poderem ser defendidos do ((1) NT Chicote de tiras de couro - especialmente de hipopótamo - usado como instrumento de castigo no Egipto e na Turquia.)

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interior se o pior acontecesse. Obviamente, os alemães tiveram conhecimento desses actos, pois foram colados nas paredes do ghetto editais garantindo-nos veementemente que não haveria mais realojamentos. Os homens que guardavam o nosso grupo repetiam-nos todos

os dias a mesma informação e, para tornarem a sua garantia ainda mais

convincente, autorizaram-nos oficialmente a comprar, daí em diante, cinco quilogramas de batatas e

um pão, por cabeça, no lado ariano da cidade e a transportá-los para o ghetto. A sua benevolência levou-os, até, a permitir que um delegado do nosso grupo se movimentasse livremente na cidade, todos os dias, e fizesse essas compras em nosso nome. Escolhemos um jovem corajoso, conhecido por "Majorek", pequeno major. Mas os alemães não faziam idéia de que, seguindo instruções nossas, Majorek

se tornaria um elo de ligação entre o movimento clandestino de resistência do ghetto e organizações polacas similares no exterior.

A autorização oficial para trazermos uma certa quantidade de alimentos para o ghetto desencadeou

algum comércio animado à volta do nosso grupo. Havia todos os dias alguns negociantes à nossa espera, quando saíamos do ghetto. Eles permutavam ciuchy, vestuário em

segunda mão, por comida, com os meus companheiros. Eu estava menos interessado nesse comércio do que nas notícias que, ao mesmo tempo, os negociantes nos traziam. Os Aliados tinham desembarcado em África. A defesa de Estalinegrado

ia já no terceiro mês e houvera uma conspiração em Varsóvia: tinham sido lançadas granadas para o

Café-Club alemão. Cada uma destas notícias elevava o nosso ânimo, fortalecia a nossa capacidade de resistência e a convicção de que a Alemanha seria derrotada num futuro próximo. Muito em breve, começaram as primeiras represálias

armadas no ghetto, primeiro do que tudo contra os elementos corruptos existentes entre nós próprios. Um dos piores polícias judeus foi assassinado: Lejkin, famoso pela diligência com que caçava pessoas e entregava a sua quota diária no Umschlagplatz. Pouco depois dele, um homem chamado First, que servia de ligação entre a Gestapo e o Conselho judaico, morreu às mãos de assassinos judeus. Pela primeira vez, os espiões do ghetto começaram a ter medo. Pouco a pouco, recobrei o ânimo e a vontade de sobreviver. Um dia, pedi a Majorek que telefonasse

a alguns conhecidos meus, quando estivesse na cidade, e lhes perguntasse

se podiam arranjar alguma maneira de me tirarem do ghetto e de me esconderem. Nessa tarde,

esperei com o coração em sobressalto o regresso de Majorek. Ele voltou, mas com más notícias: os meus conhecidos tinham dito que não podiam correr o risco de esconder um judeu. No fim de contas, explicaram, indignados por eu ter ousado sugerir tal coisa, fazê-lo acarretaria a pena de morte! Bem, não havia nada a fazer. Eles tinham recusado; talvez outros fossem mais humanos. Custasse o que custasse, não podia perder a esperança.

O Ano Novo estava à porta. No dia 31 de Dezembro de 1942 chegou inesperadamente um grande

carregamento de carvão. Tivemos de descarregá-lo todo no mesmo dia e armazená-lo na cave do prédio da Rua Narbutt. Era trabalho difícil e pesado, e demorou mais tempo do que se esperava. Em vez de partirmos para o ghetto às seis da tarde, só

o fizemos quando já era quase noite.

íamos sempre pelo mesmo caminho, em grupos de três, da Rua Polpa até à Rua Chalubinski e depois pela Rua Zelazna até ao ghetto. Já tínhamos chegado à Chalubinski quando se ouviram gritos apavorados na frente da coluna. Parámos. No momento seguinte, vimos o que acontecera. Por puro acaso, cruzáramo-nos com dois SS perdidos

de bêbados. Um deles era o Zás-Trás. Caíram-nos em cima e bateram-nos com os chicotes, de que não se separavam nem quando iam embebedar-se. Actuaram sistematicamente, espancando um grupo de três de cada vez, a começar pela cabeça da coluna. Quando acabaram, colocaram-se a alguns passos de distância, no passeio, sacaram das pistolas

e o Zás-Trás gritou: "Intelectuais, debandar!"

Não havia dúvidas quanto às intenções deles: iam matar-nos ali mesmo. Tive dificuldade em decidir

o que fazer. Não debandar era capaz de os enfurecer ainda mais.

Podiam arrastar-nos eles próprios para fora da coluna e darem-nos outra tarefa antes de nos matarem, como castigo de não termos debandado voluntariamente. O historiador

Dr. Zajczyk, um assistente universitário que ia a meu lado, tremia dos pés à cabeça, como eu, e também como eu não conseguia decidir o que fazer. Mas à segunda ordem

gritada saímos da coluna. Éramos sete, ao todo. Vi-me novamente cara a cara Zás-Trás, o qual berrava agora pessoalmente comigo:

- Não tardarei a ensinar-lhes disciplina! Por que demoraram tanto tempo? - Agitou a pistola debaixo do meu nariz. - Deviam estar aqui às seis horas e já são dez! Não respondi, certo de que, de qualquer maneira, ele ia disparar no momento seguinte. Olhou-me bem de frente, com olhos turvos, cambaleou debaixo do candeeiro da rua e, de súbito, anunciou numa voz perfeitamente firme:

- Vocês sete são responsáveis pela condução da coluna ao ghetto. Podem ir.

Já nos viráramos quando berrou, de repente: - Voltem!

Desta vez, tinha o Dr. Zajczyk mesmo na sua frente. - Sabem por que lhes bati? O doutor não disse

nada.

- Então, sabem porquê? - insistiu.

Um homem que se encontrava bastante afastado e obviamente alarmado, perguntou, timidamente: -

Porquê?

- Para lhes lembrar que é Ano Novo!

Quando voltáramos a formar a coluna, ouvimos outra ordem: - Cantem!

Fitámos Zás-Trás, surpreendidos. Ele voltou a cambalear, arrotou e acrescentou:

- Cantem qualquer coisa alegre!

Rindo-se da sua própria piada, virou costas e cambaleou pela rua abaixo. Após ter dado alguns passos, parou e gritou ameaçadoramente:

- E cantem bem alto!

Não sei quem foi o primeiro a entoar a melodia, nem por que lhe veio à cabeça aquela canção militar em especial, mas juntámos a nossa voz à dele. No fim de contas,

pouco interessava o que cantávamos.

Só hoje, ao recordar esse incidente, tenho consciência de quanta tragédia se misturava com o seu ridículo aspecto. Naquela noite de fim do ano, um pequeno grupo

de judeus completamente exaustos percorreu as ruas de uma cidade onde eram proibidas, havia anos,

sob pena de morte, manifestações de patriotismo polaco, cantando com toda a força dos seus pulmões, e total impunidade, a canção patriótica Hei, strzelcy veraz! -

"Eh, atiradores, erguei-vos!"

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12 MAJOREK 1 de janeiro de 1943. O ano em que Roosevelt anunciara que os Alemães seriam derrotados. E, de facto, eles agora estavam claramente a ser menos bem sucedidos nas linhas da frente. Se ao menos essas linhas da frente estivessem mais perto de nós! Chegaram-nos notícias da derrota alemã em Estalinegrado; era uma notícia demasiado importante para ser abafada ou facilmente minimizada com a habitual afirmação da imprensa de que "não tinha significado algum para o vitorioso rumo da guerra". Desta vez os alemães tiveram de admiti-la e anunciaram três dias de luto, os primeiros dias livres que gozávamos em meses. Os mais optimistas, entre nós, esfregaram as mãos de contentamento, firmemente convencidos de que a guerra terminaria em breve. Os pessimistas não eram dessa opinião: acreditavam que a guerra ainda duraria mais algum tempo, mas pelo menos já não podia haver a mínima dúvida quanto ao seu desfecho final.

Em paralelo com as cada vez melhores notícias políticas, as organizações clandestinas do ghetto aceleravam as suas actividades O meu grupo também estava envolvido nisso. Majorek, que diariamente mente entregava ao nosso grupo sacos de batatas trazidos da cidade, escondia munições por baixo das batatas. Repartíamo-las entre nós e levávamo-las para o ghetto escondidas nas pernas das calças. Era um procedimento arriscado,

e um dia quase terminou tragicamente para todos nós.

Majorek entregara os sacos no meu armazém, como de costume Cabia-me esconder as munições e reparti-las pelos meus colegas nessa noite. No entanto, assim que Majorek

pousara os sacos e saíra do armazém, a porta abriu-se de repelão e o Untersturmführer Young entrou. Olhou em redor, reparou nos sacos e dirigiu-se para eles. Senti uma fraqueza nos joelhos. Se ele inspeccionasse o seu conteúdo, estávamos perdidos, e eu seria o primeiro a levar um tiro na testa. Young parou defronte dos sacos

e tentou desatar um. Mas a corda estava embaraçada e tornou-se difícil desatá-la. O SS praguejou impacientemente e olhou para mim.

- Desate isso! - ordenou.

Aproximei-me, tentando acalmar os nervos. Desembaracei o nó com propositada lentidão, aparentemente muito calmo. O alemão observava, de mãos nos quadris.

- O que está lá dentro?

- Batatas. Temos autorização para trazer algumas para o ghetto, todos os dias.

O saco estava aberto. Seguiu-se outra ordem:

- Tire-as e deixe-me vê-las.

Meti a mão no saco. Não havia batatas. Por sorte, Majorek comprara uma pequena quantidade de flocos de aveia e feijão, em vez de parte das batatas. Os flocos e o feijão estavam em cima e as batatas em baixo. Mostrei um punhado de feijões amarelos relativamente compridos.

- Batatas, hein? - Young riu-se sarcasticamente, e depois ordenou: - Experimente mais abaixo!

Desta vez tirei um punhado de flocos de aveia. A qualquer momento, o alemão ia bater-me por o ter enganado. Na verdade, eu desejava que o fizesse; isso poderia desviar

a sua atenção do resto do conteúdo do saco. Mas nem uma bofetada me deu. Girou nos calcanhares e saiu. Pouco depois entrou de novo, de rompante, como se esperasse surpreender-me a cometer novo crime. Eu estava de pé no meio do armazém a tentar refazer-me do susto. Tive de me controlar. Só quando os passos de Young se foram tornando cada vez menos audíveis, à medida que se afastava pelo corredor fora, até finalmente deixarem de se ouvir, despejei apressadamente os sacos e escondi as munições debaixo de um monte de cal que fora despejada a um canto do armazém. Quando nos aproximámos do muro do ghetto, nesse anoitecer, atirámos para o

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outro lado a nova remessa de balas e granadas de mão, como de costume. Tínhamo-nos safado!

No dia 14 de janeiro, uma sexta-feira, furiosos com as derrotas na linha da frente e o prazer que, muito claramente, isso causava aos polacos, os alemães recomeçaram

a caça ao homem. Desta vez alargaram as caçadas a toda a cidade de Varsóvia, durante três dias sem

parar. Todos os dias, quando íamos para o trabalho e quando regressávamos, víamos pessoas a serem perseguidas e capturadas nas ruas. Comboios de caminhões da polícia carregados de presos seguiam para a cadeia, de onde regressavam vazios, prontos para arrebanharem mais futuros reclusos de campos de concentração. Uma quantidade de arianos procurou refúgio no ghetto. Nesses dias difíceis assistiu-se

a outro paradoxo do período da ocupação: a braçadeira com a Estrela de David, anteriormente o mais

ameaçador dos símbolos, tornou-se da noite para o dia uma protecção, uma forma de segurança. Pois agora os judeus já não eram a presa. Passados dois dias, porém, chegou a nossa vez. Quando saí do edifício, na segunda-feira de manhã, não encontrei na estrada a totalidade do nosso grupo, mas apenas alguns trabalhadores obviamente considerados indispensáveis. Como "gerente de armazém", fazia parte deles. Partimos, escoltados por dois polícias, na direcção do

portão do ghetto. Habitualmente, este era guardado apenas por agentes da polícia judaica, mas hoje uma unidade inteira de polícias alemães verificava com o maior cuidado os documentos de todos quantos saíam do ghetto para irem trabalhar. Um rapaz de cerca de dez anos apareceu a correr pelo passeio. Estava muito pálido e tão assustado que se esqueceu de tirar o boné a um polícia alemão que vinha em sentido contrário. O alemão parou, tirou o revólver sem dizer uma palavra, encostou-o

à têmpora do rapaz e disparou. A criança caiu, a agitar os braços, tornou-se rígida e morreu. O

polícia meteu calmamente o revólver no coldre e seguiu o seu caminho. Olhei para ele; não tinha sequer feições particularmente brutais nem parecia zangado. Era um homem normal, tranqüilo, que desempenhara um dos seus muitos pequenos deveres diários e o afastara imediatamente do pensamento, pois aguardavam-no outros deveres mais importantes. O nosso grupo já se encontrava no lado ariano quando ouvimos tiros atrás de nós. Vinham de outros grupos de trabalhadores judeus cercados no ghetto que, pela primeira vez, respondiam ao terror germânico com o seu próprio fogo. Prosseguimos, deprimidos, o nosso caminho para o trabalho, perguntando-nos, todos nós, o que aconteceria agora no ghetto. Não havia dúvida de que começara uma nova fase da sua liqüidação. O jovem Prózanski caminhava a meu lado, preocupado com os pais que tinham ficado no nosso quarto e sem saber se conseguiriam esconder-se em qualquer lado a tempo de escaparem ao realojamento. Eu também tinha as minhas preocupações, que eram de uma natureza muito específica: deixara a caneta de tinta permanente e o relógio, tudo quanto tinha no mundo, em cima da mesa do nosso quarto. Se conseguisse fugir, planejava vendê-los e viver alguns dias do dinheiro obtido,

o tempo suficiente para encontrar onde me esconder com a ajuda dos meus amigos.

Nessa noite não voltámos para o ghetto; ficámos provisoriamente aboletados na Rua Narbutt. Só mais tarde soubemos o que tinha acontecido atrás dos muros, onde as

pessoas se defenderam o melhor que puderam antes de serem conduzidas para a morte. Esconderam-

se em lugares preparados de antemão e as mulheres despejaram água nas

escadas, para que congelasse e tornasse mais difícil aos alemães chegarem aos andares mais altos.

Alguns dos prédios foram simplesmente barricados e os seus moradores trocaram fogo com os SS, decididos a morrer lutando, de armas nas mãos, em vez de perecerem na câmara de gás. Os alemães tinham evacuado os doentes internados no hospital judaico em roupa interior, haviam-nos carregado em camionetas abertas, no frio de enregelar, e levado para Treblinca. Mas graças a esta primeira demonstração

de resistência judaica, conseguiram levar apenas cinco mil pessoas em cinco dias, em vez das dez mil que tinham planejado transportar. Na quinta noite, Zás-Trás informou-nos de que a operação para "limpar o ghetto de elementos não- trabalhadores" estava concluída e podíamos voltar para lá. Os nossos corações batiam aceleradamente. As ruas do ghetto ofereciam um espectáculo desolador. Os passeios estavam cobertos de vidro das janelas partidas. As penas de almofadas rasgadas entupiam as valetas e encontravam-se por todo o

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lado: cada sopro de vento levantava grandes nuvens delas, que turbilhonavam no ar como uma densa

queda de neve em sentido inverso, da terra para o céu. Com intervalos de poucos passos encontrávamos corpos de pessoas assassinadas. O silêncio em redor era tão grande que o som dos nossos passos era devolvido pelas paredes dos prédios como se estivéssemos a passar por um desfiladeiro rochoso nas montanhas. Não encontrámos ninguém no nosso quarto, mas ele não tinha sido saqueado. Estava tudo como os pais de Prózanski, seleccionados para serem levados, tinham deixado. As camas de tábuas ainda estavam por fazer, depois de lá terem passado a última noite, e uma cafeteira de café que não tinham podido acabar de beber encontrava-se em cima do fogão frio.

A minha caneta e o meu relógio estavam em cima da mesa, onde os

deixara. Agora tinha de agir com muita energia e rapidez. Presumivelmente, as próximas operações de realojamento não tardariam, e desta vez eu podia fazer parte da lista dos que partiriam. Por intermédio de Majorek, entrei em contacto com amigos, um jovem casal de

artistas. Andrzej Bogucki era actor e a sua mulher uma cantora que actuava sob o nome de solteira: Janina Godlewska. Um dia, Majorek disse-me que eles viriam cerca das seis da tarde. No momento em que os trabalhadores arianos iam para casa, aproveitei a oportunidade para me esgueirar para fora do portão. Estavam ambos lá. Trocámos apenas algumas palavras. Entreguei-lhes as minhas composições,

a caneta de tinta permanente e o relógio, que eram tudo o que queria levar comigo. Já trouxera essas coisas do ghetto e escondera-as no armazém. Combinámos que Bogucki viria buscar-me às cinco horas da tarde de sábado, quando um general das SS inspeccionaria o edifício. Contava com a agitação que isso causaria para me facilitar

a fuga.

Por essa altura, a atmosfera do ghetto tornava-se cada vez mais tensa e alarmante. Pairava no ar uma sensação de mau presságio. O comandante da polícia judaica, coronel Szerynski, tinha-se suicidado. Devia ter recebido muito más notícias para, até ele - que era mais chegado aos alemães do que qualquer outra pessoa, o homem

de quem eles mais prementemente necessitavam e que, de qualquer modo, teria sido o último dos últimos a ser escolhido para realojamento -, não ver outra saída a

não ser a morte. Outros judeus misturavam-se connosco diariamente, quando íamos para o trabalho,

a fim de tentarem fugir para o lado ariano do muro. Nem sempre o

conseguiam. Havia espiões do outro lado à espera dos fugitivos, assim como agentes pagos e voluntários que, posteriormente, atacavam o judeu que tinham estado a

observar em alguma rua transversal, obrigando-o a entregar o dinheiro e as jóias que tivesse consigo

e ameaçando entregá-lo aos alemães. Depois, a maior parte das

vezes, entregavam do mesmo modo aos alemães a pessoa que tinham roubado. Nesse sábado, senti-me desfalecer de nervosismo desde manhã cedo. Conseguiria? Qualquer passo em falso podia significar morte instantânea. À tarde, o general apareceu,

como previsto, para efectuar a inspecção. Os SS, muito ocupados, deixaram provisoriamente de pensar em nós. Cerca das cinco horas, os trabalhadores arianos largaram

o trabalho. Vesti o casaco e, pela primeira vez em três anos, tirei a braçadeira com a estrela azul e esgueirei-me com eles para fora do portão. Bogucki estava parado à esquina da Rua Wisniowa. Isso significava que, por enquanto, correra tudo como planejado. Quando me viu, começou a afastar-se rapidamente. Dei alguns passos atrás dele, com a gola do casaco levantada, tentando não o perder de vista no escuro. As ruas estavam desertas e muito fracamente iluminadas, de acordo com as normas em vigor desde o deflagrar da guerra. Eu tinha apenas de ter cuidado e evitar encontrar algum alemão à luz de um candeeiro público, pois isso podia permitir-lhe ver a minha cara. Seguimos, muito depressa, pelo caminho mais curto, que mesmo assim parecia interminável. Felizmente, porém, chegámos ao fim do nosso trajecto - o número dez da Rua Noakowski -, onde eu me esconderia no quinto andar, no estúdio de um artista que estava à disposição de Piotr Perkowski, um dos líderes dos músicos que nesse tempo conspiravam contra os alemães. Subimos apressadamente a escada, a três e três. Janina GodIewska esperava-nos no estúdio. Parecia nervosa e amedrontada, e suspirou de alívio ao ver-nos.

- Oh, finalmente chegaram! - Apertou as mãos acima da cabeça e acrescentou, dirigindo-se a mim: - Só depois de o Andrzej sair para o ir buscar me lembrei de que hoje era 13 de Fevereiro, um dia aziago.

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DISCUSSÕES E ZANGAS NA CASA AO LADO

O estúdio do artista onde agora me encontrava, e onde teria de permanecer durante algum tempo, era grande, uma sala espaçosa com tecto envidraçado. Tinha alcovas sem janelas de ambos os lados, isoladas por portas. Os Bogucki tinham-me arranjado uma cama de campanha que, depois das camas de tábuas onde dormira durante tanto tempo, parecia maravilhosamente confortável. O simples facto de não ver alemães fazia-me sentir muito feliz. Agora não tinha de ouvir os seus berros nem de recear ser espancado, até morto, por um SS, a qualquer momento. Durante esses dias tentei não pensar no que ainda tinha pela frente antes de a guerra acabar - se vivesse até lá, evidentemente. Animaram-me as notícias que a Sr.a Bogucka me trouxe, um dia: tropas soviéticas tinham retomado Cracóvia. No entanto, o que ia ser de mim?

Tinha consciência de que não podia ficar muito tempo no estúdio Perkowski precisava de arranjar um locatário nos próximos dias quanto mais não fosse porque os alemães

tinham anunciado um censo que acarretaria uma revista policial a todas as casas, para verificar se os ocupantes estavam devidamente registrados e tinham o direito

de lá morarem. Potenciais inquilinos vinham ver a sala quase todos os dias, e quando isso acontecia

tinha de me esconder numa das alcovas e fechar a porta à chave

do lado de dentro.

Ao fim de duas semanas, Bogucki chegou a acordo com o ex-director do departamento de música da Rádio Polaca, o patrão de antes da guerra, Edmund Rudnicki, que chegou uma noite com um engenheiro chamado Gébczynski. Eu deveria mudar-me para casa do engenheiro

e da sua mulher, no rés-do-chão do mesmo imóvel. Nessa noite voltei a

tocar num teclado, pela primeira vez em sete meses. Sete meses durante os quais perdera todos os meus entes queridos, sobrevivera à destruição do ghetto, ajudara

a demolir os seus muros e carregara cal e montes de tijolos de um lado para o outro. Durante algum tempo resisti à persuasão da Sr.a Gébczynska, mas por fim cedi. Os meus dedos rígidos moveram-se com relutância sobre as teclas e o som pareceu-me irritantemente estranho, buliu-me com os nervos. Na mesma noite tomei conhecimento de outra notícia alarmante. Gébczynski recebeu um telefonema

de um amigo geralmente bem informado, que lhe disse que no dia seguinte

haveria uma caça ao homem em toda a cidade. Ficámos todos muito inquietos. Tratou-se, no entanto,

de um falso alarme; havia muitos, nesse tempo. No dia seguinte,

apareceu um ex-colega da estação de rádio, o maestro Czeslaw Lewicki, que mais tarde viria a

tornar-se meu amigo íntimo. Tinha ao seu dispor um apartamento de solteiro

na Rua Pulawska, 83, mas não vivia lá e acedera a deixar-me ocupá-lo.

Eram sete horas da noite de sábado, 27 de Fevereiro, quando saímos de casa dos Gébczynski. Graças

a Deus estava uma escuridão de breu. Metemo-nos num riquexó na

Plac Unii, chegámos à Rua Pulawska sem contratempos e subimos apressadamente para o quarto

andar, esperando não encontrar ninguém na escada.

O apartamento de solteiro era confortável e estava elegantemente mobilhado. Atravessávamos um

vestíbulo para chegar à casa de banho, e do outro lado do vestíbulo havia um grande armário de parede e um fogão a gás. A sala propriamente dita continha um divã confortável, um roupeiro, uma pequena estante, uma mesinha e algumas cadeiras confortáveis. A pequena estante estava cheia de pautas de música e partituras, e também de alguns livros académicos. Senti-me no paraíso. Na primeira noite não dormi muito. Queria saborear o conforto de estar deitado num divã verdadeiro, com boas molas.

No dia seguinte, Lewicki veio com uma amiga, mulher de um médico, chamada Sr.a Malczewska, trazer as minhas coisas. Falámos

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de como seria alimentado e do que deveria fazer relativamente ao censo a realizar no dia seguinte. Teria de passar o dia inteiro na casa de banho, com a porta fechada à chave do lado de dentro, como fizera com as portas das alcovas do estúdio. Mesmo que os alemães, forçassem a entrada no apartamento durante o censo, parecia-nos improvável que reparassem na pequena porta atrás da qual estaria escondido. No máximo, tomá-la- iam pela porta de um armário fechado à chave. Segui rigorosamente esse plano estratégico. Munindo-me de um razoável número de livros, meti-me

na casa de banho de manhã esperei pacientemente até anoitecer - não

era exactamente confortável para um longo espaço de tempo, e desde o meio-dia que eu sonhava com a possibilidade de estender as pernas. Foi, afinal, umamanobra supérflua:

não apareceu ninguém, a não ser Lewicki, que chegou cerca do anoitecer, simultaneamente curioso e ansioso por descobrir como me encontrava. Trouxe vodka, salsichas, pão e manteiga, e comemos como reis. A idéia do censo destinava-se a permitir aos alemães descobrirem todos os judeus escondidos em Varsóvia numa operação rápida. Não me tinham encontrado e eu sentia uma confiança nova. Lewicki morava a alguma distância, e combinámos que só me visitaria duas vezes por semana, para me trazer comida. Eu tinha de arranjar maneira de ocupar o tempo entre as suas ansiosamente esperadas visitas. Lia muito e aprendi a preparar pratos deliciosos seguindo os conselhos culinários da mulher do médico. Tinha ser tudo

feito em silêncio. Eu andava de um lado para o outro com movimentos lentos e em bicos de pés - Deus me livrasse de bater com as mãos ou os pés em alguma coisa! As paredes eram delgadas e qualquer movimento descuidado poderia denunciar a minha presença aos vizinhos. Eu ouvia bem de mais o que eles faziam, em especial as pessoas da porta contígua, do lado esquerdo. A julgar pelas suas vozes, os inquilinos desse apartamento eram um jovem casal que costumava iniciar as suas conversas, todas

as noites usando nomes ternos: "Gatinha" e "Cachorrinho". Decorrido cerca de um quarto de hora, porém, a harmonia doméstica dissipava-se, o tom das vozes subia e os epítetos que usavam provinham de toda a gama de animais domésticos e acabavam no porco.

Seguia-se

o que era, presumivelmente, uma reconciliação. As vozes emudeciam durante algum tempo e,

depois, eu ouvia uma terceira voz, o som de um piano no qual a jovem tocava com sentimento - embora com muitas notas erradas. No entanto, o tocar também não costumava durar muito tempo. A música parava e uma irritada voz

feminina reatava a briga. "Está bem, está bem, não toco mais! Viras sempre as costas quando começo a tocar!"

E voltavam a percorrer o reino animal.

Enquanto os escutava, pensava muitas vezes, tristemente, quanto daria, e como me sentiria feliz, se pudesse pôr as mãos no pequeno e desafinado velho piano que causava

tantas discussões e zangas na porta ao lado. Os dias passavam. Ou a Sr.a Malczewska ou Lewicki visitavam-me regularmente, duas vezes por

semana, trazendo comida e notícias dos últimos acontecimentos políticos, que não eram encorajadores: lamentei saber que as tropas soviéticas tinham retirado de novo de Cracóvia e os Aliados estavam a retirar de África. Condenado à inactividade, passando a maior parte dos dias sozinho com os meus tristes pensamentos, meditando constantemente no terrível destino da minha família, dava-me conta de que as minhas dúvidas e a minha depressão se agravavam. Quando olhava pela janela para o trânsito, que era sempre o mesmo, e via os alemães andarem de um lado para o outro com

a mesma calma de sempre, parecia-me muito provável que semelhante estado de coisas nunca

terminasse. E nesse caso o que seria de mim? Após anos de sofrimento inútil, um dia seria descoberto e morto. O melhor que podia esperar era suicidar-me, em vez de cair vivo nas mãos dos alemães.

O meu estado de espírito só começou à melhorar quando a grande ofensiva dos Aliados em África

foi desencadeada e coroada de êxito atrás de êxito. Num quente dia de Maio, estava eu a preparar uma sopa para o almoço, quando Lewicki apareceu. Ofegante por ter subido a correr até ao quarto andar, fez uma pequena pausa, apenas o tempo necessário para poder dar-me, arquejante, a notícia que trazia: a resistência alemã e italiana em África ruíra, finalmente.

Se ao menos tudo tivesse começado mais cedo! Se as tropas aliadas estivessem a alcançar vitórias na Europa em vez de em

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África, nesta altura, talvez eu tivesse conseguido sentir algum entusiasmo. Talvez a sublevação planejada e organizada pelo pequeno resíduo de judeus que restava

no ghetto de Varsóvia tivesse tido, pelo menos, uma pequenina possibilidade de êxito. Paralelamente com as cada vez mais numerosas boas notícias que Lewicki me trazia, vinham os cada vez mais terríveis pormenores dos trágico actos dos meus irmãos de que ele tivera igualmente conhecimento: o punhado de judeus que decidira oferecer pelo menos alguma, resistência activa aos alemães nesta derradeira e desesperada fase. Pelos jornais clandestinos que recebia, fiquei a saber da sublevaçãp dos judeus, dos combates por cada prédio, por cada parte de cada rua, e das grandes baixas sofridas pelos alemães. Apesar de artilharia, tanques e força aérea terem sido chamados a intervir durante as batalhas no ghetto, foram precisas semanas para aniquilar os rebeldes, não obstante serem muito mais fracos do que eles. Nenhum judeu estava disposto a ser apanhado vivo. Quando um prédio era capturado pelos alemães, as mulheres que ainda se encontravam nele levavam os filhos para o último andar, de onde se atiravam com eles das varandas para a rua. Se me debruçava da janela, à noite, quando eram horas de dormir, podia ver a luz dos incêndios, no lado norte de Varsóvia,

e densas massas de fumo deslocando-se no céu limpo e estrelado.

Um dia, no princípio de junho, Lewicki veio ver-me inesperadamente e não à hora habitual, mas ao

meio-dia. Desta vez não trazia boas notícias. Não se barbeara e tinha olheiras escuras, como se não tivesse dormido a noite toda, e uma expressão claramente angustiada.

- Veste-te! - disse-me, num murmúrio.

- Que aconteceu?

- Ontem à noite a Gestapo selou o meu quarto em casa do Dr. e da Sr.a Malczewska. Podem chegar

aqui a qualquer momento Temos de fugir imediatamente. Fugir? Àquela hora, em plena luz do dia? Equivalia a suicídio, pelo menos no que me dizia respeito.

Lewicki estava ficar impaciente.

- Despacha-te, despacha-te! - instigou-me, ao ver que continuava ali parado, em vez de preparar uma mala, como esperava. Depois resolveu animar-me e encorajar-me: - Não te preocupes - disse nervosamente. - Foi tudo tratado. Está alguém à tua espera, não longe daqui, pronto para te conduzir a um lugar seguro. Eu continuava sem vontade de me mexer de onde estava. O que for será, pensei. Lewicki conseguiria escapar, de qualquer maneira, e a Gestapo não o encontraria. Por

mim, se o pior acontecesse, preferia pôr fim à vida, ali, a arriscar-me a vaguear de novo pela cidade. Não me restavam, pura e simplesmente, forças para tanto. Não sei como, expliquei tudo isto ao meu amigo e abraçámo-nos, convencidos de que nunca mais nos voltaríamos a encontrar nesta vida. Depois Lewicki saiu do apartamento. Comecei a andar, de um lado para o outro, na sala que me parecera um dos lugares mais seguros do mundo, mas me dava agora a sensação de uma jaula. Estava ali preso como um animal e os algozes não tardariam a encontrar-me e a matar-me. Ficariam encantados com

a presa. Eu nunca tinha fumado, mas naquele dia, enquanto esperava

pela morte, fumei o pacote inteiro de cem cigarros que Lewicki me deixara. Mas as horas iam passando e a morte não chegava. Sabia que, habitualmente, a Gestapo vinha ao anoitecer ou de manhã cedo. Não me despi nem acendi a luz; fiquei de olhos fixos no parapeito da varanda, visível através da janela, e atento ao mínimo som vindo

da rua ou da escada. As palavras de despedida de Lewicki ainda soavam nos meus ouvidos. Já tinha

a mão na maçaneta da porta quando se voltou mais uma vez, veio ter comigo, me abraçou de novo e disse: Se eles subirem e invadirem o apartamento, atira-te da varanda. Não deixes que te apanhem vivo!" E acrescentou, para facilitar a minha opção pelo suicídio: "Eu trago veneno comigo. Também não me apanharão." Já era tarde. O trânsito nas ruas cessara por completo e todas as janelas do prédio do lado oposto ao meu tinham escurecido, uma por uma. E, no entanto, os alemães ainda não tinham vindo. Os meus nervos estavam tensos, a ponto de estalarem. Às vezes dava comigo a desejar que, se tinham de vir, viessem o mais depressa possível. Não queria sofrer aquele tormento durante mais tempo. A certa altura daquela noite mudei de opinião acerca da maneira de me suicidar. Acudira-me de súbito a idéia de que podia enforcar-me, em vez de me lançar da varanda, e, embora não saiba dizer porquê, esta morte

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parecia-me mais fácil, um modo tranqüilo de partir. Sempre sem acender a luz, comecei a procurar no quarto alguma coisa que pudesse servir para esse efeito. Por fim, encontrei um pedaço comprido de corda resistente atrás dos livros da prateleira. Tirei o quadro que estava pendurado por cima da estante, verifiquei que o prego estava firmemente cravado na parede, preparei o nó corredio - e esperei. A Gestapo não apareceu. Também não veio de manhã, nem nos dias seguintes. Mas às onze horas da manhã de sexta-feira, quando estava deitado no divã após uma noite quase insone, ouvi tiros na rua. Corri para a janela. Uma fileira de polícias ocupava toda a largura da rua, incluindo os passeios, e disparava caótica e aleatoriamente contra a multidão em fuga. Passados momentos, chegaram alguns caminhões das SS e uma grande área da rua foi cercada: a área onde o meu prédio se erguia. Grupos de agentes da Gestapo entraram em todos os prédios dessa área e saíram de lá com homens. Também entraram no meu prédio. Não restavam dúvidas, desta vez descobririam o meu esconderijo. Coloquei uma cadeira junto da estante, para chegar ao prego do quadro mais facilmente, preparei o nó corredio e fui escutar à porta. Ouvi alemães a gritar na escada, dois andares mais abaixo. Meia hora depois, voltou o silêncio. Olhei pela janela. O bloqueio fora levantado, os caminhões das SS tinham partido. Eles não tinham vindo.

14 A TRAIÇÃO DE SZAEAS

Decorrera uma semana desde a fuga de Lewicki. A Gestapo continuava sem vir e, pouco a pouco, os meus nervos acalmaram-se. Mas havia outra ameaça: a minha reserva de alimentos estava a esgotar-se. Restava-me apenas uma pequena quantidade de feijão e flocos de aveia. Reduzi as minhas refeições diárias a duas, e quando fazia sopa utilizava apenas dez feijões e uma colher de flocos de cada vez, mas mesmo racionadas desta maneira as provisões não durariam mais do que alguns dias. Uma manhã, parou outro carro da Gestapo junto do prédio onde eu estava escondido. Apearam-se dois SS com um papel e entraram no prédio. Convencido de que me procuravam, preparei-me para morrer. Mais uma vez, porém, não era eu a sua presa.

As minhas provisões já se tinham esgotado. Havia dois dias que não ingeria nada a não ser água. Tinha duas alternativas: morrer de fome ou arriscar-me a sair para comprar um pão ao vendedor de rua mais próximo. Optei pela segunda. Barbeei-me cuidadosamente, vesti-me e saí do prédio às oito da manhã, esforçando-me por andar com naturalidade. Ninguém reparou em mim, apesar das minhas feições obviamente "não-arianas". Comprei o pão e voltei para o apartamento. Isto passou-se no dia 18

de julho de 1943. Vivi desse único pão - o meu dinheiro não chegava para mais - durante dez dias inteiros, até 28 de Julho. No dia 29 de julho, ao princípio da tarde, ouvi bater levemente à porta. Não reagi. Passados momentos, foi introduzida uma chave

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na fechadura e girou cuidadosamente. A porta abriu-se e entrou um homem novo, que eu não conhecia. Fechou rapidamente

a porta e perguntou, num murmúrio:

- Não se passa nada de suspeito?

Não. Só nesse momento desviou a sua atenção para mim. Olhou-me de alto a baixo, com os olhos cheios de espanto. - Então está vivo?

Encolhi os ombros. Supunha que estava suficientemente vivo para não precisar de responder. O desconhecido sorriu e, tardiamente, apresentou-se: era irmão de Lewicki

e viera dizer-me que no dia seguinte me seriam entregues alimentos. Depois,

nos próximos dias, seria levado para outro lugar, pois a Gestapo continuava à procura de Lewicki e ainda podia aparecer ali. De facto, no dia seguinte o engenheiro Gébczynski veio com outro homem, que me apresentou como um técnico de rádio chamado Szalas, um activista clandestino de confiança. Gébczynski lançou-se nos meus braços. Estivera convencido de que, entretanto eu já devia ter morrido de fome e fraqueza. Disse-me que todos nossos amigos comuns tinham estado preocupados comigo, não tinham podido aproximar-se do prédio, que se encontrava sob observação constante de agentes secretos. Assim que os agentes tinham partido, ele fora encarregado de cuidar dos meus restos mortais e arranjar maneira lhes dar sepultura decente. Doravante, Szalas tomaria conta de mim, numa base permanente, tarefa que lhe fora atribuída pela nossa organização secreta. Ele revelou-se, porém, um protector muito duvidoso. Aparecia de dez em dez dias com uma minúscula quantidade de comida, alegando não ter conseguido arranjar dinheiro para mais Entreguei-lhe, para que as vendesse, algumas das poucas coisas que me restavam, mas ele dizia quase sempre que lhe tinham sido roubadas e voltava a trazer muito pouca comida, suficiente apenas para dois ou três dias, embora às vezes tivesse de chegar para duas semanas. Quando finalmente ficava de cama, completamente esgotado pela fome e convencido de que estava prestes a morrer, Szalas aparecia com mais alguns alimentos, o suficiente apenas para me manter vivo e dar-me força para continuar a atormentar-me. Sorrindo, claramente a pensar noutra coisa, perguntava sempre:

"Ainda está vivo, hem?" Eu ainda estava vivo, embora a mistura de falta de comida e mágoa me tivesse causado icterícia. Szalas não levou isso muito a sério e contou-me a animadora história do seu avô, cuja namorada o abandonou quando ele adoeceu subitamente com icterícia. Na opinião de Szalas, a icterícia não era nada de grave. A título de consolo,

disse-me que os Aliados tinham desembarcado na Sicília. Depois despediu-se e foi-se embora. Este

foi o nosso último encontro, pois ele não voltou a aparecer, embora

tivessem passado dez dias. Depois os dez dias passaram para doze, e depois para duas semanas Eu não tinha nada para comer e faltavam-me até as forças para me levantar e arrastar-me até à torneira ida água. Se a Gestapo tivesse aparecido naquela altura, não teria sido capaz de me enforcar. Dormitava a maior parte do dia, e quando acordava era apenas para

padecer as insuportáveis ânsias da fome. O meu rosto, os meus braços e as minhas pernas já tinham começado a inchar quando a Sr.a Malczewska apareceu, inesperadamente: eu sabia que ela, o marido e Lewicki tinham sido obrigados

a deixar Varsóvia e a esconderem-se. Ela estava convencida de que me encontrava bem e viera só para conversar um pouco e tomar uma chávena de chá comigo. Fiquei

a saber, por ela, que Szalas andara a recolher dinheiro para mim na cidade inteira, e como ninguém o recusava quando se tratava de salvar a vida de um homem, reunira uma boa quantia. Garantira aos meus amigos que me visitava quase todos os dias e que eu não precisava de nada.

A mulher do médico voltou a sair de Varsóvia poucos dias depois, mas antes abasteceu-me

prodigamente de comida e prometeu-me cuidados mais dignos de confiança. Infelizmente,

foi sol de pouca dura.

Ao meio-dia de 12 de Agosto, quando estava a fazer sopa para mim, como de costume, ouvi alguém

a tentar entrar no apartamento. Não era assim que os meus amigos batiam,

quando vinham Visitar-me; agora era um martelar na porta. Os alemães, portanto. Contudo, pouco depois, identifiquei as vozes que acompanhavam as pancadas na porta como femininas. Uma. mulher gritou: "Abra esta porta ou chamamos a polícia!"

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As pancadas tornaram-se cada vez mais insistentes. Não restavam dúvidas: os outros moradores do

prédio tinham descoberto que eu estava ali escondido e tinham decidido entregar-me, para não correrem o risco de serem acusados de abrigar um judeu. Vesti-me apressadamente e meti as minhas composições e umas poucas coisas mais numa mala. O bater parou, um momento. Com certeza que as iradas mulheres, aborrecidas

com o meu silêncio, estavam dispostas a pôr a sua ameaça em prática e provavelmente iam já a caminho da esquadra de polícia mais próxima. Abri a porta devagarinho

e esgueirei-me para a escada, onde me encontrei cara a cara com uma delas. Era evidente que ocupara o seu posto para ter a certeza de que eu não escaparia. Barrou-me

o caminho.

- É daquele apartamento, ali? - apontou para a porta. - Não está registrado!

Disse-lhe que o inquilino do apartamento era um colega meu, mas que não o encontrara em casa. A minha explicação não tinha lógica nenhuma e, naturalmente, não satisfez

a belicosa mulher.

imediatamente! - gritou ainda mais alto. Aqui e

ali, outros moradores começavam a pôr as cabeças fora das portas, assustados com o barulho. Empurrei a mulher para o lado e corri pela escada abaixo. Ouvi-a guinchar atrás de mim: "Fechem a porta principal! Não o deixem sair!" No rés-do-chão, passei a toda a velocidade pela porteira. Felizmente, ela não percebera o que a outra mulher estava a gritar, lá de cima. Cheguei à entrada e corri para a rua.

- Deixe-me ver o seu passe, por favor! O seu passe

Mais uma vez escapara à morte, mas ela continuava de atalaia, à minha espera. Era uma hora da tarde e eu ali, parado na rua: com a barba por fazer, cabelo comprido, que não era cortado há muitos meses, e um fato maltrapilho e amarrotado. Mesmo sem as minhas feições semíticas, não deixaria de dar nas vistas. Meti por uma rua transversal e estuguei o passo. Para onde havia de ir? As únicas pessoas que conhecia nas proximidades eram os Boldok, que moravam na Rua Narbutt. Mas estava tão

nervoso que me perdi no caminho, apesar de conhecer bem aquela área. Durante quase uma hora vagueei por pequenas ruas, até encontrar, finalmente, o meu destino. Hesitei muito antes de decidir tocar à campainha, na esperança de encontrar abrigo atrás daquela porta, pois sabia bem de mais quanto a minha presença seria perigosa para os meus amigos. Se fosse descoberto com eles, também seriam fuzilados. Não me restava, porém, nenhuma alternativa. Mal abriram a porta, garanti-lhes que não me demoraria muito tempo; queria apenas fazer alguns telefonemas, para saber onde podia encontrar um novo e permanente esconderijo. Mas os meus telefonemas foram vãos. Alguns dos meus amigos não me podiam acolher, outros não podiam sair de casa porque as nossas organizações tinham assaltado, com êxito, um dos maiores bancos de Varsóvia, naquele mesmo dia,

e todo o centro da cidade estava cercado pela polícia. Em vista disso,

os Boldok, um engenheiro e a mulher, resolveram deixar-me dormir num apartamento vazio, num andar mais baixo do qual tinham as chaves. Na manhã seguinte, chegou

o meu ex-colega da rádio, Zbigniew Jaworski. Ia deixar-me ficar alguns dias com ele.

Estive, assim, em segurança durante algum tempo em casa de pessoas bondosas que me desejavam bem! Nessa primeira noite tomei um banho e depois comi um jantar delicioso regado com schnapps, que infelizmente não fez nada bem ao meu fígado. No entanto, apesar da atmosfera agradável e, sobretudo, de poder falar quanto me apetecesse após meses de silêncio forçado, tencionava deixar os meus anfitriões o mais brevemente possível, por recear pô-los em perigo, embora Zofia Jaworska e a sua corajosa mãe, a Sr.a Bobrownicka, uma idosa senhora de setenta anos, insistissem para ficar com eles o tempo que fosse necessário.

Entretanto, todas as minhas tentativas para encontrar um novo esconderijo saíram frustradas. Voltei

a receber recusas de todos os lados. As pessoas tinham medo de

acolher um judeu; no fim de contas, a pena de morte era obrigatória para esse crime. Sentia-me mais deprimido do que nunca, quando a Providência veio novamente em meu socorro, no último momento, desta vez sob a forma de Helena Lewicka, cunhada da Sr.a Jaworska. Não nos conhecêramos antes e esta era a primeira vez que me via, mas ao saber das minhas experiências anteriores aceitou imediatamente acolher-me. Chorou ao tomar conhecimento da minha situação, embora a sua

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própria vida não fosse fácil e não lhe faltassem razões para lamentar o destino de muitos dos seus amigos e familiares. No dia 21 de Agosto, após a minha última noite em casa dos Jaworski e enquanto a Gestapo percorria as imediações e mantinha toda a gente nervosa de preocupação e ansiedade, mudei-me para um grande prédio de apartamentos na Aleja Niepodlegiosci. Esse seria o meu último esconderijo antes da sublevação polaca e da destruição completa de Varsóvia: um espaçoso apartamento de solteiro no quarto andar, com entrada directa pela escada. Tinha luz eléctrica e gás, mas não água, que tinha de se ir buscar a uma torneira comum no patamar, onde ficava também a retrete comum. Os meus vizinhos eram intelectuais, de uma classe superior à dos moradores da Rua

Pulawska. Os meus vizinhos do lado eram um casal activo na resistência; andavam fugidos e não dormiam em casa. Este facto, acarretava algum perigo também para mim, mas eu preferia esta vizinhança à de polacos pouco instruídos, leais seus senhores e capazes de me denunciarem por medo. Os outros prédios próximos estavam ocupados principalmente por alemães, abrigavam várias autoridades militares. Defronte das minhas janelas ficava um grande edifício hospitalar inacabado, onde havia um armazém

qualquer. Todos os dias via prisioneiros de guerra bolchevistas transportarem caixotes pesados para dentro e para fora. Desta vez tinha ido parar a uma das zonas mais alemãs de Varsóvia mesmo na caverna do leão - o que, na realidade, pode tê-la tornado um lugar melhor e mais seguro para mim. Ter-me-ia sentido muito bem no meu novo esconderijo se a minha saúde não tivesse declinado tão rapidamente. O fígado estava a causar-me muitas preocupações e, por fim, no princípio de Dezembro, tive uma crise de dor tão grande que precisei de um enorme esforço para não gritar. A crise durou uma noite inteira. O médico chamado por Helena Lewicka diagnosticou inflamação aguda da vesícula biliar e recomendou uma dieta rigorosa. Felizmente, desta vez não dependia do "cuidado" de pessoa como Szalas; estava a ser tratado por Helena, a melhor e mais abnegada das mulheres. Com a sua ajuda, recuperei a pouco e pouco a saúde.

E foi assim que entrei no ano de 1944.

Fiz tudo o que estava ao meu alcance para levar uma vida tão regular quanto possível. Estudava

inglês das nove às onze da manhã, lia das onze à uma, depois almoçava

e voltava ao meu estudo de inglês e à leitura das três às sete da tarde.

Entretanto, os Alemães iam sofrendo derrota atrás de derrota. Havia muito tempo que deixara de se falar em contra-ataques. Eles estavam a efectuar uma "retirada estratégica" de todas as frentes, operação descrita na imprensa como a rendição de áreas sem importância, para que a linha da frente pudesse ser reduzida em benefício da Alemanha. No entanto, apesar das suas derrotas na frente, o terror que espalhavam dentro dos países que ainda ocupavam aumentava. As execuções públicas nas ruas de Varsóvia, iniciadas no Outono, eram agora feitas quase todos os dias. Como sempre, com a sua habitual maneira sistemática de resolver tudo, ainda tiveram tempo para demolir toda a alvenaria do ghetto, agora "limpo" dos seus habitantes. Destruíram-no prédio a prédio, rua a rua, e levaram o entulho da cidade por uma via férrea

de bitola estreita. Os "senhores do mundo", cuja honra fora ferida pela sublevação judaica, estavam determinados a não deixar pedra sobre pedra. No princípio do ano, um acontecimento absolutamente inesperado perturbou a monotonia dos meus dias. Um dia, alguém começou a tentar forçar a minha porta - trabalhando sem pressa, lentamente e com determinação, parando até de vez em quando. No início, não compreendi bem o que poderia ser. Só depois de muito pensar cheguei à conclusão de que se tratava de um ladrão. Isto suscitava um problema. Aos olhos da lei, éramos ambos criminosos: eu, pelo mero facto biológico de ser judeu; ele, por ser ladrão. Sendo assim, deveria ameaçá-lo com a polícia quando ele conseguisse entrar? Ou seria mais provável fazer-me ele a mesma ameaça? Deveríamos entregar-nos mutuamente

à

polícia ou fazer um pacto de não-agressão entre criminosos? No fim, ele não entrou, surpreendido

e

afugentado por um morador do prédio.

No dia 6 de junho de 1944, Helena Lewicka visitou-me, à tarde sorridente e com a notícia de que os americanos e os ingleses tinham desembarcado na Normandia e quebrado

a resistência alemã, e estavam a avançar. Com rapidez e em quantidade, começaram a chegar boas e sensacionais notícias: a França tinha sido tomada, a Itália rendera-se,

o Exército Vermelho estava na fronteira polaca, Lublin tinha sido libertada.

Os ataques aéreos soviéticos a Varsóvia tornavam-se cada vez mais freqüentes; eu via o aparato do

fogo-de-artifício da minha janela. Havia um som rosnador vindo do leste, ao princípio quase inaudível, mas que ia aumentando e ficando cada vez mais forte: a artilharia soviética. Os alemães evacuaram Varsóvia, incluindo o conteúdo do edifício hospitalar que ficava defronte do meu prédio. Eu observava com esperança e sentia crescer no coração a crença de que viveria, e seria livre. No dia 29 de julho, Lewicki apareceu inesperadamente com a notícia de que a sublevação de Varsóvia começaria agora, a qualquer momento. As nossas organizações compravam apressadamente armas aos desmoralizados alemães em retirada. A aquisição de uma remessa de metralhadoras ligeiras fora confiada ao meu inesquecível anfitrião da Rua Faiar, Zbigniew Jaworski. Infelizmente, encontrou uns ucranianos, que ainda eram piores do que os alemães. A pretexto de lhe entregarem as armas que comprara, levaram-no para o

pátio da faculdade de Agricultura e abateram-no a tiro. No dia 1 de Agosto, Helena Lewicka chegou às quatro horas da tarde, cheia de pressa. Queria levar- me para a cave, porque a rebelião ia começar dentro de uma hora. Guiado por um instinto que já me salvara muitas vezes, resolvi continuar onde estava. A minha protectora despediu-se de mim como se eu fosse seu filho, com lágrimas nos olhos. Com voz trémula pela emoção, perguntou:

- Voltaremos a encontrar-nos mais alguma vez, Wiadek?

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NUM EDIFICIO EM CHAMAS Apesar da garantia de Helena Lewicka de que a sublevação começaria às cinco horas, dentro de poucos minutos, apenas, não fui, pura e simplesmente, capaz de acreditar nisso. Ao longo dos anos de ocupação tinham circulado constantemente na cidade boatos políticos anunciando coisas que nunca se tornaram realidade. A evacuação de Varsóvia pelos alemães - que eu próprio pudera observar da minha janela - e a fuga em pânico, para

oeste, de caminhões e automóveis particulares sobrecarregados, tinham cessado nos últimos dias. E o troar da artilharia soviética, tão próximo poucas noites atrás, afastava- se agora nitidamente da cidade e tornava-se mais fraco. Fui à janela: reinava a paz nas ruas. Observei o trânsito normal de peões, talvez bastante menor do que de costume; mas, de qualquer maneira, esta parte da Aleja Niepodleglosci não fora muito movimentada. Um eléctrico que descia a rua, vindo da universidade técnica, deteve-se na paragem. Estava quase vazio. Apearam-se algumas pessoas: mulheres, um velho com uma bengala. Depois saíram também três homens novos, transportando objectos compridos embrulhados em papel de jornal, e pararam do lado de fora da primeira carruagem. Um deles olhou para o relógio, depois olhou à sua volta e, subitamente, ajoelhou-se na rua, pôs o embrulho ao ombro e ouviu-se uma série de estampidos rápidos. O papel de jornal da ponta do embrulho que tinha ao ombro começou a brilhar e revelou o cano de uma metralhadora. Ao mesmo tempo, os outros dois homens puseram as próprias armas ao ombro.

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Os disparos do jovem foram uma espécie de aviso para as proximidades; pouco depois soavam tiros por todo o lado, e quando as explosões da vizinhança imediata diminuíram, ouviram-se várias rajadas de tiros vindas do centro da cidade. Soavam umas atrás das outras, sem parar, como o som de água a ferver numa enorme cafeteira. Dir-se-ia que a rua ficara repentinamente deserta. Só o idoso senhor continuava a andar apressada e desajeitadamente, com a ajuda da bengala e visivelmente sem fôlego; tinha dificuldade em correr. Por fim, também ele chegou à entrada de um prédio e desapareceu no seu interior.

Fui à porta e encostei o ouvido à madeira. Havia movimentações confusas no patamar e na escada. Escancaravam-se portas, que logo a seguir eram fechadas ruidosamente,

e corriam pessoas em todas as direcções. Uma mulher gritou: "Jesus e Maria!" Outra gritou na

direcção da escada: "Cuidado, Jerzy!" Responderam-lhe dos andares de baixo: "Sim, está tudo bem!" Agora as mulheres choravam; uma delas, incapaz de se controlar, soluçava nervosamente. Uma voz profunda tentou acalmá-la, em tom baixo:

"Não demorará muito tempo. No fim de contas, toda a gente tem estado à espera disto." Desta vez a previsão de Helena Lewicka estava certa: a sublevação começara. Deitei-me no sofá, a pensar no que faria a seguir. Quando saíra, a Sr.a Lewicka fechara-me, como de costume, usando a chave do apartamento e o cadeado. Voltei à janela. Havia grupos de alemães parados à entrada dos prédios. Juntaram-se-lhes outros, vindos da direcção de Pole Mokotowskie. Tinham todos armas semiautomáticas, usavam capacetes e traziam granadas nos cinturões. Não havia nenhum combate na nossa parte da rua. Os alemães disparavam de vez em quando, mas só para as janelas e para as pessoas que delas olhavam. Das janelas não respondiam ao fogo. Só quando chegaram à esquina da Rua 6 de Agosto, os alemães abriram fogo, tanto na direcção da universidade técnica como no sentido oposto, na direcção dos "filtros" - as instalações dos serviços de água da cidade. Talvez eu conseguisse encontrar caminho para o centro da cidade pelas traseiras do prédio, dirigindo-me directamente para os serviços de água, mas não tinha ne nhuma arma e, de qualquer modo, estava fechado ali dentro. Se começasse a bater na porta, os vizinhos, concentrados como estavam na sua própria situação, dariam

por isso? E, ainda por cima, teria de lhes pedir que fossem lá abaixo, a casa da amiga de Helena Lewicka, a única pessoa do prédio que sabia que eu estava escondido no apartamento. Ela tinha as chaves, para, no caso de acontecer o pior, poder abrir a porta e deixar- me sair. Resolvi esperar até de manhã e decidir então o que faria, consoante o que tivesse acontecido. Entretanto, o tiroteio tornara-se muito maior. Os tiros de espingarda eram intercalados pelas explosões mais fortes das granadas de mão - ou de morteiros, se a artilharia estava em acção. No fim da tarde, quando começava a escurecer, vi os primeiros clarões de incêndios. Os reflexos das chamas, ainda pouco freqüentes, brilhavam aqui

e ali, no céu. Iluminavam-no fortemente, e depois extingüiam-se. A pouco e pouco, o tiroteio

abrandou. Ouviam-se apenas algumas explosões isoladas e o matraquear breve do fogo de metralhadora. A actividade na escada do prédio também cessara; obviamente, os inquilinos tinham-se barricado nas suas casas, para assimilarem em privado as suas impressões daquele primeiro dia de sublevação. Era tarde quando adormeci de repente, sem me despir, e dormi o sono profundo da exaustão nervosa.

Acordei, também subitamente, de manhã. Era muito cedo, e o crepúsculo matutino mal despontara.

O primeiro som que ouvi foi o de uma carruagem puxada por um cavalo.

Fui à janela. O veículo passou num trote calmo, com a capota corrida para trás, como se nada tivesse acontecido. Tirando isso, a rua estaria deserta, não fora o homem e a mulher que caminhavam no passeio, de mãos no ar, debaixo da minha janela. Do lugar onde me encontrava não podia ver os alemães que os escoltavam. De súbito, saltaram ambos para a frente e começaram a correr. A mulher gritou: "Esquerda, vira à esquerda! "O homem foi o primeiro a virar e desapareceu do meu campo de visão. Nesse momento, soou uma rajada de tiros. A mulher parou, agarrou o ventre e caiu devagarinho para

o chão, como um saco, com as pernas a dobrarem-se debaixo dela.

Na realidade, mais do que cair, foi descendo até ficar de joelhos, com a face direita a tocar no

asfalto, e permaneceu nessa complicada posição

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acrobática. Quanto mais o dia clareava, mais tiros eu ouvia. Quando o Sol apareceu no céu - era um céu muito claro, o daqueles dias -, o eco dos tiros de espingarda percorria Varsóvia inteira Começou em breve a juntar-se-lhe, com freqüência cresceu som da

artilharia pesada. Cerca do meio-dia, a amiga da Sr.a Lewicka subiu para me trazer alguma comida e notícias. Por enquanto, no que respeitava nosso bairro, as notícias não eram boas:

estava nas mãos dos alemães quase desde o princípio e apenas houvera tempo, à justa, para os jovens das organizações da resistência chegarem ao centro da cidade quando a sublevação começou. Agora estava fora de questão arriscar, sequer, sair do prédio. Teríamos de esperar que destacamentos do centro da cidade nos socorressem.

- Mas talvez eu conseguisse escapar, de alguma maneira

Ela lançou-me um olhar compadecido.

- Ouça, há ano e meio que não sai de casa! As suas pernas iam-se abaixo antes de chegar a meio do

caminho. - Abanou a cabeça, pegou-me na mão e acrescentou, apaziguadoramente:

- É melhor ficar aqui. Havemos de nos arranjar.

Apesar de tudo, o seu ânimo mantinha-se elevado. Levou-me à janela da escada, de onde se via o lado do edifício que ficava defronte da minha própria janela. Todo

o complexo residencial de chalés da urbanização Staszic, até às instalações dos serviços de

abastecimento de água, estava em chamas. Ouvia-se o silvo de traves a arder, o som de tectos a cair, pessoas a gritar e tiros. Uma nuvem de fumo castanho avermelhado cobria o céu. Quando vento a afastava ligeiramente, viam-se as bandeiras vermelhas e brancas no horizonte distante. Os dias passavam e não chegava qualquer ajuda do centro cidade. Havia anos, já, que me habituara a esconder-me de toda a gente, excepto de um grupo de amigos que

sabia que eu estava vivo e onde me encontrava. Agora não conseguia sair do quarto, deixar as outras pessoas do prédio saber que estava ali e integrar-me numa vida comunitária com elas nos nossos apartamentos sitiados. Saberem a meu respeito só faria com que se sentissem pior; se os alemães descobrissem que, além de tudo o mais, ocultavam um "não-ariano" no prédio, seriam punidas com redobrada severidade. Resolvi continuar a limitar-me a escutar à porta as conversas que tinham na escada. As notícias não melhoravam: travavam-se duras batalhas no centro da capital, não chegavam apoios

de fora de Varsóvia e o terror germânico aumentava na nossa parte

da cidade. Na Rua Langiewicz, ucranianos deixaram os moradores de um prédio morrer queimados nas chamas que o consumiriam e abateram a tiro os ocupantes de outro.

O famoso actor Mariusz Mszynski foi assassinado muito perto desta área.

A vizinha de baixo deixou de me visitar. Talvez alguma tragédia familiar tivesse expulsado a minha

existência do seu pensamento. As minhas provisões estavam a esgotar-se:

não eram mais do que uns biscoitos, agora. No dia 11 de Agosto a tensão nervosa aumentou perceptivelmente no prédio. Escutei à porta, mas não consegui perceber o que se passava. Todos os moradores estavam nos andares de baixo, a falar em voz alta, que depois, subitamente, baixavam. Vi da janela pequenos grupos de pessoas saírem de vez em quando dos edifícios circundantes e dirigirem-se furtivamente na direcção do nosso. Depois voltavam a sair. Perto do anoitecer, os moradores dos andares mais baixos subiram inesperadamente a escada, a correr. Alguns pararam no meu andar. Soube pelos seus murmúrios assustados que estavam ucranianos no prédio. Desta vez, porém, não tinham vindo para nos assassinar.

Estiveram algum tempo atarefados nas caves, levaram as provisões que lá estavam armazenadas e desapareceram de novo. Nessa noite ouvi chaves girar na fechadura da minha porta e no cadeado. Alguém abriu a porta e tirou o cadeado, mas não entrou. Em vez disso, quem quer que era correu muito depressa pela escada abaixo. Que significava aquilo? Nesse dia as ruas estavam cheias de panfletos. Alguém os espalhara, mas quem? No dia 12 de Agosto, cerca do meio-dia, houve de novo pânico na escada. Pessoas desorientadas não

paravam de subir e descer. Concluí, por fragmentos de conversas que escutei, que o prédio se encontrava cercado por alemães e tinha de ser evacuado imediatamente, porque a artilharia estava prestes a destruí-lo. A minha primeira reacção foi vestir-me, mas logo a seguir compreendi que não podia ir para a rua à vista dos SS, a não ser que quisesse ser

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logo abatido. Ouvi disparos vindos da rua e uma voz firme e invulgarmente alta gritar: "Saiam todos, por favor! Abandonem imediatamente as casas!" Lancei um olhar rápido à escada: estava silenciosa e deserta. Desci-a até meio e fui à janela que dava para a Rua Sédziowska. Um tanque apontava o canhão para o meu andar do nosso prédio. Pouco depois vi um jorro de fogo, o canhão recuou, ouvi um barulho atroador e uma parede próxima ruiu. Soldados de mangas arregaçadas e latas nas mãos corriam de um lado para o outro. Nuvens de fumo preto começaram a subir pela parede exterior do edifício e pela escada, do rés-do-chão até ao meu quarto andar. Alguns SS correram para dentro do prédio e subiram apressadamente a escada. Fechei- me no apartamento, despejei na palma da mão o conteúdo do pequeno tubo de fortes comprimidos para dormir que tomara quando estava doente do fígado, e pus o frasquinho do ópio à mão. Tencionava engolir os comprimidos e beber o ópio assim que os alemães tentassem abrir a minha porta. Mas pouco depois, guiado por um instinto que dificilmente saberia analisar de modo racional, mudei de idéias:

saí do quarto, dirigi-me depressa para o escadote que levava do patamar ao sótão, subi-o, puxei-o para cima e fechei o alçapão do sótão atrás de mim. Entretanto, os alemães já estavam a bater nas portas do terceiro andar com as coronhas das espingardas. Um deles subiu ao quarto andar e entrou no meu quarto. Mas os companheiros devem ter achado que era perigoso ficar mais tempo no edifício e começaram a chamá-lo:

- Despacha-te Fischke! Vamos! Quando o tropel parou, lá em baixo, arrastei-me para fora do sótão, onde quase asfixiara com o fumo que subia pelos tubos de ventilação dos andares de baixo, e voltei para o meu quarto. Dei-me ao luxo de ter esperança de que apenas os apartamentos do rés-do-chão, incendiados como medida dissuasora, arderiam e os moradores regressariam assim que os seus documentos fossem verificados. Peguei num livro, instalei-me confortavelmente no sofá e comecei a ler, mas não consegui perceber uma única palavra. Larguei o livro, fechei os olhos e decidi esperar até ouvir vozes humanas, algures perto de mim. Só ao anoitecer resolvi aventurar-me de novo a sair para o patamar. A minha sala estava a encher-se de vapores e fumo, e o brilho vermelho dos incêndios entrava pela janela, vindo do exterior. O fumo na escada era tão denso que não deixava ver os corrimões. O crepitar alto, explosivo do fogo, quando ardia com mais violência, subia dos andares de baixo, juntamente com o estalar da madeira que se rachava e o estrondo da queda de objectos domésticos. Agora seria impossível utilizar a escada. Fui à janela. O prédio estava cercado por um cordão de SS, a alguma distância. Não havia civis à vista. Obviamente, o edifício inteiro estava a arder e os alemães esperavam apenas que o fogo chegasse aos últimos andares e ao madeiramento do telhado.

Afinal, esta ia ser a minha morte: a morte que esperara durante cinco anos, a morte a que escapara dia após dia e que, finalmente, me apanhara. Tentara muitas vezes imaginá-la. Esperara ser capturado e maltratado, e depois fuzilado ou asfixiado na câmara de gás. Nunca me passara pela cabeça que seria queimado vivo. Não pude deixar de rir da astúcia do destino. Sentia-me agora completamente calmo, com uma calma que decorria da minha convicção de que já não podia fazer mais nada para mudar o rumo dos acontecimentos. Deixei o olhar vaguear pela sala: os seus contornos tornavam-se indistintos, com o engrossar do fumo, e parecia estranha e sinistra no crepúsculo que se adensava. Eu começava a ter cada vez mais dificuldade em respirar. Sentia-me tonto e uma impetuosa vaga de som invadia-me a cabeça:

os primeiros efeitos do envenenamento por monóxido de carbono.

Voltei a deitar-me no sofá. Por que havia de deixar-me morrer queimado vivo se podia evitá-lo tomando os comprimidos para dormir? Como a minha morte seria, assim, muito mais fácil do que as dos meus pais, irmãs e irmão gaseados em Treblinca! Nesses derradeiros momentos tentei pensar apenas neles. Encontrei o tubinho dos comprimidos, despejei-os na boca e engoli-os. Ia tomar também o ópio, para ter a certeza absoluta de que morria, mas não tive tempo. Os comprimidos actuaram instantaneamente num estômago vazio e esfaimado. Adormeci. 138 139

16 MORTE DE UMA CIDADE

Não morri. Afinal, os comprimidos não tinham sido suficientemente fortes. Acordei, agoniado, às

sete horas da manhã. Havia um estrondear nos meus ouvidos, as minhas têmporas latejavam, num martelar doloroso, os meus olhos pareciam querer saltar das órbitas e tinha

os braços e as pernas dormentes. Foi uma sensação de cócegas

na garganta que na realidade me acordou. Uma mosca arrastava-se no meu pescoço, atordoada como

eu

pelos acontecimentos da noite e, tal como eu, meia morta. Tive

de

me concentrar e chamar a mim todas as forças para mexer a mão e enxotá-la.

O

meu primeiro sentimento não foi de decepção por não ter conseguido morrer, mas de felicidade

por me encontrar vivo. Uma imensa, desmesurada concupiscência animal de vida a qualquer preço. Sobrevivera uma noite num edifício a arder; o principal, agora, era salvar- me fosse como fosse. Continuei deitado durante alguns momentos, para recuperar um pouco mais a lucidez, e depois deixei-me escorregar do sofá e arrastei-me para a porta. O quarto ainda estava cheio de fumo, e quando estendi a mão para a maçaneta da porta ela estava tão quente que a larguei logo. Numa segunda tentativa, dominei a dor e abri a porta. Havia menos fumo na escada do que na minha sala, pois podia sair facilmente pelas aberturas carbonizadas das altas janelas dos patamares. Via a escada; seria possível descê-la. Recorrendo a toda a minha força de vontade, mantive-me de pé, agarrei o corrimão e comecei a descer. O patamar abaixo do meu ia ardera e o fogo aí extingüira-se. As molduras das portas ainda ardiam e o ar das salas a que davam acesso tremeluzia, do calor. Restos de móveis e outros objectos ardiam lentamente no chão, deixando montes brancos de cinza quando o brasido se apagava. Quando cheguei ao primeiro andar encontrei o cadáver queimado de um homem caído na escada. As roupas tinham ardido e o corpo estava castanho e horrivelmente inchado.

Tinha de passar por ele, se queria continuar. Pensei que conseguiria levantar as pernas o suficiente para lhe passar por cima e seguir para a frente. Mas à, primeira

tentativa o meu pé bateu no ventre do cadáver e tropecei,, perdi o equilíbrio, caí e rebolei meio andar para baixo, juntamente com o corpo carbonizado. Felizmente,

o corpo ficou para trás e consegui levantar-me e descer até ao rés-do-chão. Saí para o pátio estava cercado por um pequeno muro coberto por uma trepadeira.

Arrastei-me até ao muro e escondi-me num nicho, ao canta, a dois metros do prédio a arder, disfarçando-me com as gavinhas da trepadeira e as folhas e os caules de uns tomateiros que cresciam entre o muro e o prédio.

O tiroteio ainda não abrandara. Voavam balas por cima da minha cabeça e ouvia vozes alemãs perto

de mim, do outro lado do muro). Eram de homens que desciam o passeio

ao lado da estrada. Perto do anoitecer começaram a surgir fendas na parede do edifício incendian do. Se a parede ruísse, ficaria sepultado debaixo dela. No entanto, não saí de onde estava enquanto não escureceu e não me senti um pouco mais refeito do envenenamento da noite anterior. Voltei para

a escada às escuras, mas não me atrevi a subir de novo. O interior

dos apartamentos ainda estava a arder, como de manhã, e o fo4o podia chegar ao meu andar a qualquer momento. Pensei bem e elaborei um plano diferente: o enorme e inacabado edifício do hospital onde a Wehrmacht guardava as provisões ficava do outro lado da Aleja Niepodlegiosci. Tentaria entrar lá. Saí para a rua pela outra entrada do meu prédio. Embora já tivesse anoitecido, ainda não estava completamente escuro. O bri lho vermelho dos incêndios iluminava a rua larga, coberta de cadáveres; a mulher que vira ser morta no segundo dia da subleva

ção ainda lá estava, entre eles. Estendi-me de bruços e comecei a rastejar na direcção do hospital. Passavam constantemente alemães,

que

,

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sozinhos ou em grupos, e nessas ocasiões não me mexia e fingia ser mais um cadáver. O cheiro a decomposição que emanava dos corpos misturava-se no ar com o dos fogos.

Tentei rastejar o mais depressa possível, mas a largura da rua parecia interminável e a sua travessia levar uma eternidade. Por fim, cheguei ao edifício às escuras. Meti, cambaleante, pela primeira entrada que vi, deixei-me cair no chão e adormeci imediatamente. Na manhã seguinte resolvi explorar o lugar. Com grande decepção, descobri que estava cheio de sofás, colchões, tachos, panelas e louça, objectos de uso diário, o que queria dizer que os alemães passariam com certeza por lá com muita freqüência. Em contrapartida, não encontrei nada que se comesse. Descobri uma arrecadação, num canto distante, cheia de ferro velho, canos e fogões. Deitei-me e passei ali os dois dias seguintes. No dia 15 de Agosto - de acordo com o meu calendário de bolso, que trazia comigo e onde posteriormente risquei, com todo o cuidado, dia após dia -, sentia-me tão insuportavelmente faminto que resolvi procurar alguma coisa para comer, acontecesse o que acontecesse. Em vão. Subi para o parapeito de uma janela entaipada e comecei

a observar a rua por uma pequena fresta. Enxames de moscas passeavam por cima dos corpos abandonados na rua. Não muito longe, à esquina da Rua Filtrowa, havia uma vivenda cujos moradores ainda não tinham sido expulsos de casa. Levavam uma vida extraordinariamente normal, sentados na varanda a tomar chá. Um destacamento de

soldados de Wlassov, comandado pelos SS, avançou, vindo da Rua 6 de Agosto. Recolheram os cadáveres da estrada, amontoaram-nos, regaram-nos com gasolina e deitaram-lhes fogo. A certa altura, ouvi passos aproximarem-se na minha direcção, pelo corredor do hospital. Desci do parapeito da janela e escondi-me atrás de um caixote. Um SS entrou na sala onde me encontrava, olhou em redor e voltou a sair. Fui depressa para o corredor, dirigi-me para a escada, subi-a e escondi-me na minha arrecadação.

Pouco depois, um destacamento inteiro entrou no edifício para revistar todas as salas, uma por uma. Não encontraram o meu esconderijo, embora eu os ouvisse rir, cantarolar e assobiar - e, também, fazer a pergunta vital: "Já procurámos em todo o lado?" Dois dias depois - e cinco dias desde a última vez que comera alguma coisa -, saí mais uma vez para procurar comida e água. Não havia água canalizada no edifício, mas tinham disposto alguns baldes cheios aqui e ali, para o caso de haver algum incêndio. A água que continham estava coberta de uma película iridescence e cheia de moscas, aranhas e mosquitos mortos. Mesmo assim, bebi sequiosamente, mas por pouco tempo, pois a água estava fétida e eu não podia evitar engolir os insectos mortos. Depois encontrei algumas côdeas de pão na oficina do carpinteiro. Estavam bolorentas, empoeiradas e cobertas de excrementos de ratos, mas constituíam um tesouro para mim. Havia um carpinteiro desdentado, de quem nunca saberia que estava a salvar-me a vida quando as separou do miolo. No dia 19 de Agosto os alemães expulsaram de casa os moradores da vivenda da esquina da Rua Filtrowa, no meio de muitos gritos e de muitos tiros. Encontrava-me agora sozinho naquele bairro da cidade. Os SS visitavam com freqüência crescente o edifício onde me escondia. Quanto tempo poderia sobreviver em semelhantes condições? Uma semana, duas semanas? Depois disso, o suicídio seria, de novo, a minha única maneira de escapar, e desta vez só dispunha, para o pôr em prática, de uma lâmina de barbear. Teria de cortar as veias. Encontrei um pouco de cevada numa das salas e cozi-a no fogão da oficina do carpinteiro, que acendi durante a noite. Tive assim alguma coisa para comer, durante mais uns dias. No dia 30 de Agosto resolvi voltar às ruínas do prédio do outro lado da rua, pois o fogo parecia finalmente extinto. Levei comigo um jarro de água do hospital e atravessei cautelosamente a rua, à uma hora da manhã. Ao princípio, pensei ir para a cave, mas como

o combustível que lá se encontrava - carvão e coque - ainda ardia,

amodorrado, porque os alemães não tinham parado de o reacender, escondi-me nas ruínas de um apartamento do terceiro andar. A banheira estava cheia de água até acima:

água suja, mas água. O fogo poupara a despensa, onde encontrei um pacote de biscoitos.

Ao fim de uma semana, obedecendo a um terrível pressentimento, mudei novamente de esconderijo

e fui para o sótão - ou melhor, para as suas tábuas nuas, pois o telhado que existira por

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cima delas desabara para as chamas. Nesse mesmo dia entraram por três vezes ucranianos no esqueleto do edifício, para pilharem as partes dos apartamentos poupadas pelo fogo. Quando se foram embora voltei ao apartamento onde estivera escondido na última semana. O fogo não poupara nada além do fogão de azulejos; os ucranianos haviam-no desmanchado, azulejo a azulejo, provavelmente à procura de ouro. Na manhã seguinte, toda a extensão da Aleja Niepodlegiosci estava rodeada por soldados. Pessoas carregando trouxas às costas, mães agarradas aos filhos, eram todas conduzidas para o interior desse cordão. Os SS e os ucranianos tiraram muitos dos homens para fora do cordão e mataram-nos à frente de todos, sem nenhum motivo,

como tinham feito no ghetto enquanto ele existia. Significava isso que a sublevação se saldara numa

derrota para nós? Não: dia após dia, projécteis de artilharia pesada rasgavam de novo o ar, produzindo um som semelhante ao do voo de um moscardo -, ou para mim, que estava mais perto, como o de dar corda a relógios antigos -, a que se seguiam séries cadenciadas de explosões ruidosas, vindas do centro da cidade. Mais tarde, em 18 de Setembro, esquadrilhas de aviões sobrevoaram a cidade e lançaram de pára- quedas provisões para os rebeldes - mas não sei se também lançaram homens ou material de guerra. Depois a aviação bombardeou as áreas da cidade de Varsóvia sob controle alemão e durante a noite efectuou lançamentos sobre o centro da cidade. Ao mesmo tempo, o fogo de artilharia vindo de leste ia-se tornando cada vez mais forte. Só no dia 5 de Outubro destacamentos de rebeldes começaram a sair da cidade, cercados por homens da Wehrmacht. Alguns estavam fardados, outros usavam apenas braçadeiras brancas e vermelhas nas mangas. Formavam um curioso contraste com os destacamentos alemães que os escoltavam, impecavelmente fardados, bem alimentados e seguros de si, troçando e rindo do fracasso da sublevação enquanto filmavam e fotografavam os seus novos prisioneiros. Os rebeldes, pelo seu lado, estavam magros, sujos, muitas vezes esfarrapados e só com dificuldade se conservavam de pé. Mantinham a disciplina nas suas próprias fileiras, amparando os que tinham mais dificuldade em andar, e nem sequer olhavam

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para as ruínas: marchavam, olhando em frente. Embora fizessem uma figura tão triste ao lado dos

seus vencedores, a impressão que causavam era a de não serem eles os vencidos. Depois disso, o êxodo da restante população civil da cidade, em números cada vez menores, demorou mais oito dias. Era como ver o sangue vital esvair-se do corpo de um homem assassinado, primeiro com ímpeto e depois mais lentamente. As últimas pessoas

partiram no dia 14 de Outubro. O crepúsculo descera há muito quando um pequeno grupo de retardatários, instigado a apressar-se pela escolta SS, passou pelo edifício onde eu continuava escondido. Debrucei-me do que restava da janela queimada pelo fogo e segui com o olhar os vultos apressados, vergados sob o peso das suas trouxas, até serem engolidos pela escuridão. Agora estava sozinho, com uma ínfima quantidade de biscoitos no fundo da mala e várias banheiras cheias de água suja como única reserva de provisões. Quanto tempo mais poderia resistir em tais circunstâncias, com os dias do Outono a ficarem cada vez mais curtos e a ameaça do Inverno que se lhe seguiria?

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17 VIDA POR ALCOOL

Estava só: só não apenas num único edifício, ou sequer numa única parte de uma cidade, mas só numa cidade inteira que apenas há dois meses tivera uma população de um milhão e meio e era uma das mais ricas da Europa. Agora estava reduzida às chaminés dos edifícios incendiados a apontar para o céu e às poucas paredes que os bombardeamentos tinham poupado: uma cidade de entulho e cinzas sob os quais a cultura secular do meu povo e os corpos de centenas de milhares de vítimas assassinadas jaziam sepultados, a apodrecer no calor daqueles dias de Outono pleno e a encher o ar de uma horrível e fétida miasma.

Pessoas visitavam as ruínas apenas de dia, escumalha de fora da cidade que se aproximava furtivamente, de pás ao ombro, e se dispersava pelas caves à cata do que pilhar. Um desses visitantes furtivos escolheu a minha própria casa em ruínas. Tinha de evitar que me descobrisse ali; ninguém podia saber da minha presença. Quando subiu a escada e se encontrava dois pisos, apenas, abaixo de mim, berrei numa ameaçadora voz brutal: "Que vem a ser isto? Fora! Rrraus! i Fugiu como um rato assustado: o último dos miseráveis, um homem afugentado pela voz do último pobre diabo ali deixado com vida. (NT: Alemão: Rua! Fora!) Cerca do fim de Outubro, estava a olhar para baixo do meu sótão, quando vi os alemães apanharem uma dessas matilhas de hienas. Os ladrões tentaram safar-se da encrenca com conversa. Ouvi-os repetir várias vezes: "De Pruszków, de Pruszków", e apontarem para oeste. Os soldados encostaram quatro deles à parede mais próxima e abateram-nos com os revólveres, apesar das suas lamurientas súplicas para que lhes poupassem a vida. Ordenaram aos restantes que abrissem uma cova no jardim de uma das moradias, enterrassem os cadáveres e desaparecessem. Depois disso, até os ladrões se mantiveram afastados

daquela parte da cidade. Eu era agora a última alma viva que lá se encontrava. O primeiro dia de Novembro estava à porta, e começava a sentir-se frio, principalmente à noite. Para evitar enlouquecer no meu isolamento, decidi levar uma vida tão disciplinada quanto possível. Ainda tinha o meu relógio, o Ómega de antes da guerra que estimava como a menina dos meus olhos, assim como a caneta de tinta permanente. Eram os meus únicos objectos pessoais. Dava conscienciosamente corda ao relógio e, guiando-me por ele, elaborei um horário. Ficava imóvel o dia inteiro, para conservar

a pouca força que me restava, e só estendia a mão uma vez, cerca do meio-dia, para me fortalecer

com um biscoito e uma tigela de água, escrupulosamente racionados. Desde o início da manhã, até tomar essa refeição, recordava, ali deitado de olhos fechados, todas as composições que tocara, compasso por compasso. Mais tarde, este

exercício de recapitulação mental foi-me útil: quando voltei a trabalhar ainda sabia o meu repertório

e tinha-o todo na memória, de cor, como se tivesse ensaiado

durante toda a guerra. Depois, da refeição do meio-dia até ao anoitecer, recapitulava o conteúdo de todos os livros que tinha lido, repetindo mentalmente o meu vocabulário inglês. Dava lições de inglês a mim próprio, fazendo perguntas e tentando responder-lhes correcta e minuciosamente. Quando escurecia, adormecia. Acordava cerca da uma hora da manhã e ia procurar mantimentos à luz de fósforos - encontrara uma reserva deles no prédio, num apartamento que não ardera por completo. Procurava em caves e nas ruínas carbonizadas das casas, encontrando um pouco de flocos de aveia aqui, uns pedaços de pão ali, uns restos de farinha húmida, água em banheiras, baldes e

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jarros. Não sei quantas vezes passei pelo corpo carbonizado na escada, nessas expedições. Era o

único companheiro cuja presença não precisava de temer. Uma vez,

encontrei um tesouro inesperado numa cave: meio litro de aguardente. Resolvi guardá-lo até chegar

o fim da guerra.

De dia, enquanto estava deitado no chão, era freqüente entrarem alemães ou ucranianos nas ruínas do prédio, à procura de saque. Cada visita dessas era mais uma tensão para os meus nervos, pois tinha um medo mortal de que me encontrassem e assassinassem. No entanto, fosse lá pelo que fosse, deixavam sempre o sótão em paz, embora eu tivesse contado mais de trinta dessas breves incursões.

Chegou o dia 15 de Novembro e caiu a primeira neve. O tempo frio atormentava-me cada vez mais sob o monte de farrapos que reunira para me manter quente. Quando acordei nessa manhã, estavam cobertos de neve branca e macia. Tinha feito a minha cama a um canto, sob uma parte do telhado ainda intacta, mas o restante desaparecera e entravam grandes quantidades de neve por todos os lados. Um dia, estendi um bocado de tecido sob um vidro de janela partido, que tinha encontrado, e observei-me nesse espelho improvisado. Ao princípio não pude acreditar que a horrível imagem que estava a ver era realmente eu: não cortava o cabelo há meses, tinha a barba crescida e estava sujo. O meu cabelo estava densamente emaranhado, o meu rosto quase todo coberto de barba escura e cerrada e a minha pele, nos pontos que a barba não cobria, quase preta. Tinha as pálpebras avermelhadas e uma erupção com crosta na testa.

Mas o que mais me atormentava era não saber o que se passava nas zonas de combate, tanto na frente como entre os rebeldes. A sublevação de Varsóvia propriamente dita fora sufocada; não podia acalentar quaisquer ilusões a esse respeito. Mas talvez ainda houvesse resistência fora da capital, na localidade de Praga, na outra margem do Vístula. Ainda ouvia fogo de artilharia vindo de lá, de vez em quando, e explodiam granadas nas ruínas, muitas vezes bem perto de mim, ecoando brutalmente no silêncio entre os edifícios destruídos pelos incêndios. E a resistência no resto da Polónia? Onde estavam as tropas soviéticas? Que progresso estava

a ofensiva aliada a fazer no Ocidente? A minha vida ou a minha morte dependiam da resposta a estas perguntas, e mesmo que os alemães não descobrissem o meu esconderijo,

a segunda não tardaria: de frio, se não de fome.

Depois de ver a minha imagem reflectida no espelho improvisado, resolvi utilizar parte da pequena reserva de água para me lavar. Ao mesmo tempo, acenderia o lume num dos poucos fogões de cozinha intactos e cozeria o resto dos flocos de aveia. Não comia nada quente há quase quatro meses, e com o avançar do tempo frio do Outono sentia cada vez maior necessidade de comida quente. Mas para me lavar e cozinhar alguma coisa tinha de sair do meu esconderijo durante o dia. Só quando já me encontrava na escada reparei numa unidade alemã no exterior do hospital militar, do outro lado da rua, a trabalhar na sua cerca de madeira. Sentia-me, porém, tão desejoso de comer umas papas de aveia quentes, que não voltei para trás. Estava convencido de que adoeceria se não aquecesse imediatamente o estômago com as papas.

Já estava atarefado no fogão quando ouvi homens das SS a subir a escada. Saí do apartamento o mais depressa que pude e apressei-me a subir para o sótão. Consegui! Mais uma vez, os alemães limitaram-se a farejar aqui e ali e foram-se embora. Voltei a descer para a cozinha. Para acender um lume tive de arrancar cavacos de madeira de uma porta, com uma faca ferrugenta que encontrara, e ao fazê-lo enterrei uma lasca com um centímetro de comprimento sob a unha do polegar direito. Ficou tão profunda

e firmemente cravada que não consegui arrancá-la. Este pequeno acidente podia ter conseqüências perigosas, pois não tinha nenhum desinfectante, estava a viver num

ambiente sujo e arriscava-me a contrair facilmente uma infecção. Mesmo encarando a questão pelo lado mais optimista e presumindo que a infecção se confinaria ao polegar, ele podia ficar deformado e a minha carreira como pianista em risco - supondo, evidentemente, que sobreviveria até ao fim da guerra. Decidi esperar até ao dia seguinte e depois, se fosse necessário, cortar a unha com a lâmina de barbear. Estava parado a olhar tristemente para o polegar quando voltei a ouvir passos. Pus-me logo a caminho do sótão, mas desta vez era

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tarde de mais. Vi-me cara a cara com um soldado de capacete de aço e espingarda. Tinha um rosto inexpressivo e não muito inteligente. Estava tão assustado como eu com aquele encontro solitário entre ruínas, mas tentou parecer ameaçador. Perguntou-me, num polaco mascavado, o que fazia ali. Respondi-lhe que agora vivia fora de Varsóvia e tinha voltado para levar algumas das minhas coisas. Uma explicação ridícula, dada a minha aparência. O alemão apontou-me a arma

e ordenou-me que o seguisse. Disse-lhe que o faria, mas a minha morte pesaria na sua consciência e,

se me deixasse ficar, lhe daria meio litro de aguardente. Mostrou-se de acordo com essa forma de resgate, mas deixou muito claro que voltaria e, então, eu teria de lhe dar mais bebida forte. Assim que fiquei só, subi rapidamente para

o sótão, puxei o escadote para cima e fechei o alçapão. Como prometera, voltou passado um quarto

de hora, mas acompanhado por vários outros soldados e um sargento. Ao ouvir o som dos seus passos e das suas vozes, subi do chão do sótão para o cimo da parte intacta do telhado, que formava um declive acentuado. Deitei-me de bruços, com os pés firmados contra a calha do algeroz. Se a calha tivesse cedido, eu teria escorregado para a

cobertura do telhado e caído daí para a rua, cinco andares abaixo. Mas agüentou, e graças a essa nova e, na verdade, desesperada idéia de esconderijo, a minha vida fora uma vez mais salva. Os alemães procuraram no prédio inteiro, empilhando mesas e cadeiras, e por fim chegaram ao meu sótão, mas não lhes passou pela cabeça procurarem no telhado. Deve ter-lhes parecido impossível que alguém lá se encontrasse. Partiram de mãos vazias, a praguejar e a chamarem-me uma quantidade de

nomes. Este encontro com os alemães deixou-me profundamente abalado. Decidi que, doravante, ficaria deitado no telhado, durante o dia, e só desceria para o sótão quando a noite chegasse. O metal enregelava-me e ficava com os braços

e as pernas rígidos e o corpo entorpecido da posição tensa e desconfortável em que tinha de me

manter, mas já tinha suportado tanto que valeu a pena sofrer um pouco mais, embora a unidade de soldados alemães sabedora de que me encontrava escondido no prédio ainda demorasse uma semana para acabar o trabalho no hospital e deixar de novo esta parte da cidade. Hoje os SS trouxeram um grupo de homens vestidos à paisana para trabalharem no hospital. Eram quase dez horas da manhã e encontrava-me estendido no telhado em declive quando ouvi, de súbito, uma rajada de tiros de espingarda ou pistola-metralhadora, disparada de muito perto: era um som entre o silvo e o estrídulo, como se um bando de pardais voasse por cima de mim, e alguns tiros acertaram à minha volta. Olhei em redor: estavam dois alemães de pé no telhado do hospital, a disparar na minha direcção. Deixei-me escorregar para o sótão e corri para o alçapão, com o corpo dobrado. Gritos de "Pare! Pare!" perseguiam-me, enquanto as balas silvavam por cima de mim. No entanto, aterrei em segurança na escada. Não podia perder tempo a pensar: o meu último esconderijo naquele prédio fora descoberto e tinha de sair dali imediatamente. Corri pela escada abaixo e desemboquei na Rua Sédziowska, corri pela estrada fora e embrenhei-me nas ruínas dos chalés que antes tinham sido a urbanização Staszic. Mais uma vez a minha situação era desesperada, como tinha sido tantas vezes antes. Vagueei entre as paredes das casas totalmente queimadas, onde com certeza não havia uma gota de água ou quaisquer restos de comida, e muito menos um lugar para me esconder. Passados momentos, porém, vi um edifício alto, ao longe, com a frente para a Aleja Niepodlegíosci e as traseiras para a Rua Sédziowska, o único edifício de vários andares daquela área. Dirigi-me para lá. Ao observar mais de perto,

verifiquei que o centro da construção ardera, mas as alas estavam quase intactas. Havia mobiliário nos apartamentos, as banheiras ainda estavam cheias de água do tempo da sublevação e os saqueadores tinham deixado alguma comida nas despensas. De acordo com o meu costume, fui para o sótão. O telhado estava intacto, apenas com alguns buracos deixados por estilhaços de granadas. Era muito mais quente do que o meu esconderijo anterior, mas seria impossível fugir de lá. Não poderia sequer saltar do telhado para a morte. Havia uma pequena janela de vidro colorido no último mezanino do prédio, através da qual observei as imediações. Por muito confortável que o meu novo ambiente parecesse, não me sentia ali à vontade, talvez por

me

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ter habituado ao outro prédio. De qualquer maneira, não me restava por onde escolher: tinha de ficar ali. Desci para o mezanino e olhei pela janela. Por baixo de mim havia centenas de moradias queimadas, toda uma parte da cidade agora morta. Nos pequenos jardins sobressaíam

os montículos de incontáveis sepulturas. Uma unidade de trabalhadores civis, com pás e picaretas ao ombro, descia a Rua Sédziowska, em fileiras de quatro, ombro

a ombro. Não havia um único alemão fardado entre eles. Ainda nervoso e agitado por causa da fuga

recente, apoderou-se de mim um forte e súbito desejo de ouvir uma voz humana e a minha própria voz a responder-lhe. Acontecesse o que acontecesse, trocaria umas palavras com aqueles homens. Desci rapidamente a escada e saí para

a rua. Entretanto, o grupo de trabalhadores ia la um pouco mais à frente. Corri e alcancei-os.

- São polacos? Pararam e olharam para mim, surpreendidos. O chefe do grupo respondeu:

- Somos.

- O que fazem aqui? - Tinha dificuldade em falar após quatro meses de silêncio absoluto, exceptuando as breves palavras que trocara com o soldado do qual me resgatara com a aguardente, e sentia-me profundamente emocionado.

- Estamos a cavar fortificações. E você? - Escondo-me.

O chefe do grupo olhou-me, segundo me pareceu, com uma ponta de compaixão.

- Venha connosco. Pode trabalhar e recebe um pouco de sopa.

Sopa! A simples idéia da possibilidade de comer uma tigela de sopa quente, verdadeira, provocou- me um espasmo de fome no estômago, tão grande e doloroso que durante

um momento me senti disposto a ir com eles, mesmo que depois fosse morto. Como eu queria aquela sopa! Queria ter o suficiente para comer, ao menos uma vez! Mas o bom senso prevaleceu.

- Não - respondi. - Não vou para os alemães. O homem sorriu, entre cínico e trocista.

- Oh, não sei! Os alemães não são assim tão maus.

Só agora me dou conta do que, não sei porquê, me passou despercebido antes: o chefe foi o único que falou comigo, enquanto todos os outros permaneciam calados. Usava uma braçadeira colorida, com um sinal qualquer estampado. O seu rosto tinha uma expressão abjecta, desagradável e astuta. Não olhava para os meus olhos enquanto falava, mas para além de mim, por cima do meu ombro direito.

- Não - repeti. - Obrigado, mas não.

- Como queira - rosnou.

Virei-me para os deixar. Quando o grupo recomeçou a marcha, disse, para as suas costas: "Adeus!" Cheio de maus pressentimentos, ou guiado, talvez, por um instinto de conservação muito apurado ao longo dos anos que passara escondido, não voltei para o sótão do

edifício onde decidira ficar. Dirigi-me para a moradia mais próxima, como se a sua cave fosse o meu esconderijo. Quando cheguei à porta carbonizada, olhei de novo em redor: a unidade seguia o seu caminho, mas o chefe continuava a olhar para trás, a fim de ver para onde eu ia. Só quando desapareceram da minha vista regressei ao sótão, ou melhor, ao andar do mezanino mais alto, para olhar pela janela. Passados dez minutos, o civil com a braçadeira voltou com dois polícias. Apontou para a moradia na qual me vira entrar. Revistaram-na, assim como algumas das casas vizinhas, mas não entraram no meu prédio. Talvez tivessem medo de encontrar um grande grupo de rebeldes ainda de atalaia em Varsóvia. Muita gente escapou com vida durante a guerra devido à cobardia dos alemães, que só gostavam de alardear coragem quando desfrutavam de grande superioridade

numérica sobre os inimigos. Ao fim de dois dias fui procurar comida. Desta vez planejava reunir uma boa reserva, para não ter de sair com freqüência do meu esconderijo. Tinha de procurar de dia, pois não conhecia o edifício suficientemente bem para me orientar de noite. Encontrei uma cozinha e depois uma despensa com várias latas de comida e alguns sacos e caixas, cujo conteúdo tinha de ser cuidadosamente verificado. Desatei cordéis e levantei tampas. Tão absorvido estava na minha busca, que não ouvi nada antes de uma voz perguntar, mesmo atrás de mim:

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- Que diabo faz aqui?

Um oficial alemão alto e elegante estava encostado ao balcão da cozinha, com os braços cruzados no peito.

- Que faz aqui? - repetiu. - Não sabe que o estado-maior da unidade do comando de fortificações de Varsóvia se vai mudar para cá a qualquer momento?

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NOCTURNO EM DO MENOR

Deixei-me cair na cadeira junto da porta da despensa. Com a infalibilidade de um sonâmbulo, senti

subitamente que as forças me faltariam se tentasse escapar a esta nova armadilha. Fiquei ali sentado, a gemer e a olhar estupidamente para o oficial. Só passado algum tempo consegui gaguejar, com dificuldade:

- Faça-me o que quiser. Não vou sair daqui.

- Não tenho intenção alguma de lhe fazer nada! - O oficial encolheu os ombros. - Qual é a sua profissão?

- Sou pianista.

Olhou-me com mais atenção e evidente desconfiança. Depois o seu olhar deteve-se na porta que levava da cozinha a outras divisões. Parecia ter tido um idéia.

- Venha comigo, por favor.

Entrámos na divisão seguinte, que tinha sido a sala de jantar, e depois noutra, onde havia um piano junto da parede. O oficial apontou para o piano.

- Toque qualquer coisa!

Não lhe passara pela cabeça que o som do piano atrairia de imediato todos os SS que se encontrassem nas imediações? Olhei para ele, interrogadoramente, e não me mexi. O oficial deve ter compreendido os meus receios, pois acrescentou, tranqüilizador:

- Não há perigo, pode tocar. Se vier alguém, esconde-se na despensa e eu digo que era eu que estava a experimentar o piano.

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Os dedos tremiam-me quando os pus no teclado. Desta vez, para variar, tinha de comprar a minha vida tocando piano! Havia dois anos e meio que não tocava, tinha os dedos rígidos e cobertos de uma espessa camada de sujidade e não cortava as unhas desde o incêndio

no prédio onde estivera escondido. Além disso, o piano estava numa sala sem quaisquer vidros nas janelas, de modo que a humidade o afectara e resistia à pressão das teclas. Toquei o Nocturno em Dó Menor de Chopin. O som frágil e tilintante das cordas desafinadas vibrava no apartamento vazio e na escada, flutuava através das ruínas da moradia do outro lado da rua e regressava como um eco melancólico, em surdina. Quando acabei, o silêncio pareceu ainda mais triste e lúgubre do que antes. Um gato miou numa rua, algures. Ouvi um tiro lá em baixo, fora do prédio: um som alemão, cruel e estrondoso.

O oficial olhou para mim em silêncio. Momentos depois, suspirou e disse, em voz baixa:

- Mesmo assim, não devia ficar aqui. Eu levo-o para fora da cidade, para uma aldeia. Lá fica mais seguro. Abanei a cabeça.

- Não posso sair daqui - declarei, com firmeza.

Só então pareceu compreender a verdadeira razão por que me

escondia entre as ruínas. Estremeceu nervosamente. - É judeu?

- Sou.

Estivera de pé, de braços cruzados no peito; mas agora descruzou-os e sentou-se na poltrona junto do piano, como se aquela descoberta exigisse demorada reflexão.

- Bem, nesse caso, compreendo que não pode realmente sair - murmurou.

Pareceu pensar de novo, profundamente, durante algum tempo, e depois virou-se para mim e fez outra pergunta: - Onde está escondido?

- No sótão.

- Mostre-me como é, lá em cima.

Subimos. Ele inspeccionou o sótão com olhar cuidadoso e entendido. Ao fazê-lo, descobriu uma coisa em que eu ainda não reparara: uma espécie de piso extra por cima do sótão, como uma sobreloja, ou um palheiro feito de

tábuas debaixo da revessa do telhado e logo acima da entrada para

o sótão propriamente dito. A primeira vista, quase não se dava por ele, em virtude de a luz ser ali tão fraca. O oficial disse que, na sua opinião, me devia esconder ali e ajudou-me a procurar um escadote nos apartamentos dos andares de baixo. Depois de subir para

a parte superior do sótão, devia puxar o escadote para cima.

Discutido e posto em prática este plano, o oficial perguntou-me se tinha alguma coisa para comer.

- Não - respondi. No fim de contas, ele apanhara-me desprevenido enquanto procurava mantimentos.

- Bem, não se preocupe - apressou-se a tranqüilizar-me, como se estivesse retrospectivamente envergonhado do seu ataque de surpresa. - Eu trago-lhe alguma comida. Só então me aventurei a fazer-lhe uma pergunta. Não consegui conter-me mais tempo:

- É alemão?

Corou e, agitado, respondeu quase a gritar, como se a minha pergunta tivesse sido um insulto.

- Sou, sim! E tenho vergonha de o ser, depois de tudo o que tem acontecido.

Abruptamente, apertou-me a mão e partiu. Passaram três dias até ele reaparecer. Era de noite e estava uma escuridão de breu, quando ouvi um murmúrio debaixo do meu esconderijo:

- Olá, está aí?

- Sim, estou aqui.

Pouco depois, caiu a meu lado qualquer coisa pesada. Através do papel, senti a forma de vários pães

e qualquer coisa mole, que mais tarde descobri ser geleia embrulhada em papel impermeável. Pus imediatamente o embrulho de lado e pedi:

- Espere, espere um momento!

A voz que respondeu, no escuro, pareceu impaciente.

- O que é? Despache-se. Os guardas viram-me entrar, não posso demorar-me.

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sobreviverei aos combates de rua? - perguntei

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- Onde estão as tropas soviéticas?

- Já estão em Varsóvia. Em Praga, do outro lado do Vístula. Agüente mais umas semanas; a guerra estará acabada na Primavera, o mais tardar.

A voz calou-se, e eu não soube se o oficial ainda ali estava ou se fora embora. Mas, de súbito, ele

falou de novo:

- Tem de agüentar, ouviu? - A sua voz parecia ríspida, quase como se estivesse a dar uma ordem, a convencer-me da sua firme certeza de que a guerra terminaria bem para nós. Só então ouvi o som baixo da porta do sótão a fechar-se. Passaram semanas monótonas, desesperadas. Eu ouvia cada vez menos fogo de artilharia vindo dos lados do Vístula. Havia dias em que nem um único tiro quebrava o silêncio.

Não sei se não teria, finalmente, desistido, nesta altura, e cometido suicídio, como tantas vezes planejara, se não fossem os jornais em que o alemão embrulhava o pão que me trazia. Eram os mais recentes, e eu lia-os e relia-os, fortalecendo-me com as notícias que continham de derrotas alemãs em todas as frentes - frentes que avançavam cada vez mais, a uma velocidade crescente, para o interior do Reich. O estado-maior da unidade continuava o seu trabalho, como antes, nas alas laterais do edifício. Soldados subiam e desciam a escada, trazendo com freqüência grandes volumes para o sótão e levando outros para baixo, mas o meu esconderijo tinha sido bem escolhido e nunca ninguém pensou em revistá-lo. Fora do edifício marchavam constantemente guardas, na estrada, para trás e para diante. Eu ouvia os seus passos

a toda a hora, de dia e de noite, assim como quando batiam com os pés no chão, para os aquecerem. Quando precisava de água esgueirava-me de noite para os apartamentos em ruínas, onde as banheiras estavam cheias até acima. No dia 12 de Dezembro o oficial veio pela última vez. Trouxe-me uma quantidade maior de pão e um edredão quente. Disse-me que ia sair de Varsóvia com o seu destacamento

e recomendou-me que, acontecesse o que acontecesse, não desanimasse, pois a ofensiva soviética era agora aguardada a qualquer momento.

- Em Varsóvia?

- Sim.

- Mas como sobreviverei aos combates de rua? - perguntei ansiosamente.

-Se você e eu sobrevivemos a este inferno durante mais de cinco anos, isso só pode significar que é, obviamente, vontade de Deus que vivamos. Pelo menos temos de acreditar nisso.

Já nos tínhamos despedido e ele preparava-se para partir, mas no último momento tive uma idéia. Há

muito tempo que tentava encontrar uma maneira de lhe demonstrar

a minha gratidão, e ele recusara-se peremptoriamente a aceitar o único tesouro que me restava, o