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O Modelo de Heckscher-Ohlin e o Paradoxo de Leontief

O modelo de Heckscher-Ohlin (Teoria Sueca de Comércio Internacional) é também conhecido como a teoria das proporções dos fatores. O que ele significa? Significa que um país se especializará em exportará bens nos quais utiliza seus fatores produtivos mais abundantes de modo intensivo. Assim, se somos abundantes em capital, o teorema nos diz que nosso país deverá se especializar na exportação de produtos que requeiram bastante capital na sua produção. Perceba o contraste com relação ao modelo original de Ricardo. Lá o que tínhamos era apenas um fator de produção. Naquele caso, as vantagens comparativas eram causadas apenas por diferenças nas produtividades do trabalho em cada país. No modelo de fatores específicos, a estória não era muito distinta. A diferença estava apenas em incluir fatores de produção cuja mobilidade era igual à zero. Naquele caso, os efeitos do comércio sobre a distribuição de renda podiam ser facilmente analisados. A conclusão principal é a de que fatores específicos ao setor exportador ganham e fatores específicos ao setor importador perdem, enquanto os fatores com mobilidade podem ganhar ou perder. No modelo de Heckscher-Ohlin, a fonte de comércio entre as nações é gerada apenas pelas diferenças nos recursos que cada país possui. O modelo leva em conta a abundância relativa dos fatores de produção e a tecnologia de produção (que diz respeito, aqui, à intensidade relativa com a qual os fatores de produção são utilizados na produção de diferentes bens). Vamos, então ao modelo: O modelo de uma economia com dois fatores de produção Dois bens (alimentos (a) e roupas (t)) Dois insumos (trabalho (L) e terra (T)) Considere a seguinte notação: i) aTt = acres de terra usados para produzir um metro de roupa; ii) aLt = horas de trabalho usados para produzir um metro de roupa; iii) aTa = analogamente para terra-alimentos (este último medido em calorias) e, iv) aLa = analogamente para trabalho-alimentos; v) L, T = oferta total, na economia, de trabalho e terra.

A idéia deste modelo é a de que os fabricantes podem produzir uma unidade de um bem e uma do outro usando diferentes intensidades de insumos. Assim, não se fala de quantidades do fator necessárias à produção de um bem, mas sim de quantidades usadas na produção do mesmo. Se a diferença ainda não está clara, lembre-se que "necessária" não é sinônimo de "usada (utilizada)". Assim, para se produzir uma caloria de alimentos, tem-se uma isoquanta desenhada nos eixos (aTa e aLa). A quantidade utilizada de cada insumo dependerá da razão dos preços dos insumos relativos. Chamando de "r" a renda da terra e "w" o custo da mão-de-obra, a quantidade produzida se dará (se a isoquanta é bem comportada) na tangência entre a reta de custos e a isoquanta. [veja o gráfico feito em sala] Uma das implicações do exposto até aqui é que um bem não pode ser, ao mesmo tempo, intensivo nos dois fatores de produção. Suponha, por enquanto, que um país produza ambos os bens. Se ambos são produzidos em um regime de concorrência perfeita, o preço final dos bens será igual ao custo de se os produzir (óbvio, pois P = CMg). Se assim o é, então o preço depende do custo dos insumos. Ceteris paribus, e.g., quanto maior "r", maior será o preço do produto. Mas, perceba que se a terra (T), com custo "r", é pouco utilizada na produção do bem, o impacto sobre o preço é muito pequeno. Já, o trabalho (L), que seria o fator mais utilizado na produção do bem, teria um impacto muito maior, relativamente à terra, sobre o preço final do produto. Isso nos leva a... ...concluir que existe uma relação entre w/r e Pt/Pa (o relativo dos preços dos produtos desta economia). Essa relação é conhecida como efeito de Stolper-Samuelson, pois a estes dois autores devemos a exposição original deste fato. [gráfico feito em aula]. Suponha que, por algum motivo, o Pt/Pa aumente. Isso leva a um aumento de w/r gerando maior emprego na produção de roupas e de alimentos. Adicionalmente, existe um aumento na renda dos trabalhadores, relativamente à do dono da terra. Após o aumento de Pt/Pa, teremos um aumento da razão T/L na produção de cada bem (afinal, a terra passa a ser relativamente mais barata). Isso nos leva a um aumento da PMgL, o que explica o w/Pt e w/Pa maiores. Por outro lado, a PMgT cai, de forma que a renda dos donos da terra cai.

Assim, perceba, neste modelo uma mudança no preço dos bens leva a um ganho para os proprietários de um fator de produção enquanto os proprietários dos outros fatores perdem.

Dado o preço relativo Pt/Pa, é fácil verificar a quantidade empregada de trabalhadores em cada setor. Basta observar a caixa [ver gráfico de alocação de recursos em aula] na qual se mede, no eixo horizontal, L e, no vertical, T. Do lado esquerdo crescendo para o lado direito (ou para cima, se você estiver olhando o eixo vertical) temos L e T empregados na produção de roupas. Vindo de cima para baixo, analogamente para alimentos. Observe as retas que partem da origem inferior e superior. O ponto de interseção entre elas mostra a alocação dos recursos na economia. O que acontece se ocorrer um aumento na quantidade de terra ofertada? Os eixos verticais crescem, e, portanto, a quantidade de trabalho empregada na produção de alimentos aumenta. Da mesma forma ocorre com a quantidade de terra usada para a produção de alimentos. A análise está sendo feita ceteris paribus ! Perceba que a quantidade de terra e trabalho utilizadas na produção de roupas caem!! Assim, mantidos os preços constantes, um aumento na quantidade de terra ofertada na economia leva a uma queda no produto que é trabalho-intensivo. Os fatores, agora, foram incorporados à produção de alimentos, cujo produto cresceu mais do que proporcionalmente ao aumento na oferta de terra. Isso quer dizer que a CPP se desloca para cima, só que desproporcionalmente, favoravelmente aos alimentos. Assim, geralmente uma economia tenderá a ser relativamente mais eficiente na produção de bens que são mais intensivos nos fatores nos quais o país é mais bem dotado.

Efeitos do Comércio Internacional entre Economias com Dois Fatores Convergência dos preços relativos - Verifique você mesmo, com RS e RS* (a curva de oferta relativa para o país estrangeiro) que, para uma dada RD, o preço relativo de equilíbrio tenderá a ficar no meio dos preços relativos de equilíbrio existentes no pré-comércio. Ora, se o preço relativo converge, e se existe uma relação direta entre os preços relativos e o preço relativo dos fatores, você observa que o preço relativo dos fatores tenderá a ser o mesmo nos dois países!! Esse resultado é conhecido como equalização dos preços dos fatores. Os proprietários dos fatores de produção abundantes (lembre-se: abundância relativa) ganham com o comércio, mas os proprietários dos fatores relativamente escassos perdem.

Mas, no mundo real, esse resultado não necessariamente ocorre. Isso significa que, em certo sentido, nosso modelo é limitado em seu poder de previsão sobre o que acontecerá ao comércio mundial. Quais as limitações? Assumimos que os países produzem ambos os bens, o que não necessariamente é verdade. Assumimos também que a tecnologia de produção nos dois países era a mesma, o que também não necessariamente se verifica no mundo real. Se existirem barreiras ao comércio (e.g., custos de transporte), então os preços podem não se equalizar.

O Paradoxo de Leontief Em 1953, Leontief estudou a economia americana sob o ponto de vista do Teorema de Heckscher-Ohlin. Como naquele país os trabalhadores produziam com muito mais capital do que por trabalhador do que seus parceiros comerciais, e seguindo o teorema, esperava-se que os dados mostrassem um comportamento exportador de bens capital-intensivo e importador em bens trabalho-intensivo. Contudo, Leontief encontrou, com seu estudo, que as exportações americanas eram menos capital-intensivas do que as importações. Como explicar esse resultado? Uma explicação parcial é a de que a estrutura de tarifas nos EUA tenderia a proteger indústrias que usam grandes quantidades de trabalho nãoqualificado, viesando as importações para produtos mais capital-intensivos. O modelo supõe que não exista reversão de fatores. Ou seja, assume-se que um bem sempre tem uma intensidade de fator dominante, independentemente dos preços relativos. Se, por exemplo, produtos agrícolas fossem mais capital-intensivos nos EUA, mas o reverso ocorresse em outros países, então existiria o que se chama de reversão de fatores. Outra tentativa de explicação seria assumir reversão de demanda. Esta ocorreria se um país tivesse forte preferência por um bem que fosse produzido mais intensamente produzido com o fator abundante do país. Contudo, não parecem haver evidências de que isso ocorra no comércio mundial. A explicação que atualmente parece ser a mais importante é a de que o teorema pecaria por ignorar um importante insumo: o capital humano. O paradoxo, assim, seria resolvido da seguinte forma: Suponha que o fator mais abundante nos EUA fosse o capital humano e não o trabalho, simplesmente. As exportações americanas, assim, tenderiam a ser mais capital humanointensivas do que os produtos importados.

De qualquer forma, o estudo de Leontief representa um importante marco de desenvolvimento teórico para a Economia Internacional, pois novas teorias de comércio surgiram na tentativa de explicar os resultados daquele autor. Krugman, contudo, aponta o fato de que, no comércio norte-sul entre os EUA e a Coréia do Sul, o teorema parece ser respeitado. Contudo, mesmo assim, é importante que consideremos diferenças outras que influem, certamente, nos resultados dos testes. Diferenças tecnológicas, barreiras tarifárias, poder de monopólio, economias de escala são alguns dos fatores mais importantes nesse tipo de problema.

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