COERÊNCIA, TEXTO E LINGUÍSTICA DO TEXTO

Coerência e Texto

Quando relacionamos coerência e texto alguns pontos se mostram relevantes e quase sempre se tornam objeto de questionamento pelo interessado no fenômeno da coerência

Tais pontos são:
 


1) Qual a contribuição da coerência para a constituição e existência de um texto? 2) Há sequências linguísticas que não constituem um texto, isto é, que são incoerentes? Ou seja, existe o não-texto? 3) A coerência é uma característica do texto? 4) Há diferentes tipos de coerência para diferentes tipos de textos?

Primeira questão: Qual a contribuição
da coerência para a constituição e existência de um texto?

É a coerência que faz com que uma sequência linguística qualquer seja vista como um texto, porque é a coerência, através de vários fatores, que permite estabelecer relações (sintáticogramaticais, semânticas e pragmáticas) entre os elementos da sequência (morfemas, palavras, expressões, frases, parágrafos, capítulos, etc.), permitindo construí-la e percebê-la, na recepção, como constituindo uma unidade significativa global. A coerência dá origem à textualidade.

Coesão não dá textualidade.Recapitulando COESÃO  A coesão é apenas um dos fatores de coerência. . mas não sendo nem necessária. nem suficiente para converter uma sequência linguística em texto. representando fatos da face linguística da coerência. Pode ocorrer seqüências sem coesão. mas com coerência que lhes dá textualidade e sequências com coesão mas sem coerência. quem o faz é a coerência. que contribui para a constituição do texto enquanto tal.

Exemplos de seqüências sem coesão mas com coerência que lhe dá textualidade  (4) O Show O cartaz O desejo O pai O dinheiro O ingresso O dia A preparação A ida O estádio A multidão A expectativa A música A vibração A participação O fim A volta O vazio pág. 10/11 .

Ouve-se rádio à tarde. pág. ano XIV. Lá pelas 5 horas. inicia-se o sempre. 24/11/79. p. Limpa-se em volta. (Miniconto publicado no Suplemento Literário do Minas Gerais nº 686. Cumprimenta-se os vizinhos. Almoça-se ao meio dia. 9).14 .Exemplos de seqüências sem coesão mas com coerência que lhe dá textualidade  (7) Corte – Maria Amélia Mello O dia segue normal. Arruma-se a casa.

tias e primos . 22 .Alberto D’Onofrio . pág.Meus irmãos.José Gregório e esposa . .Tios.Tereza Mardin e noivo . . .Cecília Machado . .João da Silva .Exemplos de seqüências sem coesão mas com coerência que lhe dá textualidade  (13) Lista de convidados para festa do meu aniversário .

Estas são algumas das matérias do Caderno 2 de “O Estado de São Paulo”. Romances do tempo em que se perdia a cabeça. a aguda inteligência trabalha ao vivo. Quando o bem sempre triunfava sobre o mal. a ecoópera de Philip Glass. Tite de Lemos. Diana Pequeno em nova fase canta autores inéditos. Autor que inspirou Machado. Duplas feitas e desfeitas. “Flores”. 20/06/89. Premiação. “Matogrosso”. única unanimidade. uma festa de humor bandido. O arraso de Magic Slim. Reflexos de São Paulo em Amsterdã. Retratos de Cher quando jovem. Ugo Giorgetti. Ney Matogrosso. pág. 22/23 .Exemplos de seqüências sem coesão mas com coerência que lhe dá textualidade  (14) Triste poema para uma mulher criança. hoje.

] pág.Exemplos de seqüências sem coesão mas com coerência que lhe dá textualidade  (15) A Eterna Imprecisão da Linguagem Carlos Drumond de Andrade .Uma uva ! Branca? preta? tinta? moscatel? isabel? maçã? japonesa? ursina? mijona gorda? brava? bastarda? rara? de galo? de cão? de cão menor? do monte? da serra? do mato? de mato grosso? de facho? de gentio? de joão pais? do nascimento? do inverno? do inferno? de praia? de rei? de obó? da promissão? da promissão roxa? verde da fábula de La Fontaine? espim? do diabo? [.Que pão! Doce? de mel? de açúcar? de ló? de ló de mico? de trigo? de milho? de mistura? de rapa? de saruga? de soborralho? do céu? dos anjos? brasileiro? francês? italiano? alemão? do chile? de forma? de bugio? de porco? de galinha? de pássaros? de minuto? ázimo? branco? dormido? duro? sabido? saloio? seco? segundo? nosso de dia? ganho com o suor do rosto? que o diabo amassou? ... 23 .

Exemplos de seqüências sem coesão mas com coerência que lhe dá textualidade  (16) A: O telefone! B: Estou no banho! A: Certo. pág. 25 .

1983: 31) pág. A geometria rimaniana dá conta desse fenômeno. 15 . Também os mísseis são caríssimos. Segundo a teoria da Relatividade o espaço é curvo.Exemplo de seqüência com coesão mas sem coerência  (8) João vai á padaria. Os tijolos são caríssimos. Os mísseis são lançados no espaço. A padaria é feita de tijolos. (Marcuschi.

Senão pode vir alguém e querer fazer qualquer coisa com elas. . o homem está aí.]  (Fernandes.Não. Millôr.” (Richard Gehman) . Ponha no lugar do outro dia.Não ponha junto com as outras. não.. . ponha isso lá fora em qualquer parte.Junto com as outras? .Que é que você disse a ele? . Trinta anos de mim mesmo.Eu disse para ele continuar.Sim senhora.. p.77) pág. . 36/37 . o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo. . [.Maria.Exemplo de seqüência com coesão mas sem coerência (20) A Vaguidão Específica “As mulheres têm uma maneira de falar que eu chamo de vago-específica.Aquele de quando choveu? . Círculo do Livro. Olha.

Marcuschi (1983) juntamente com Fávero e Koch (1985) . existe o não-texto?   Beaugrande e Dressler (1981) .Falam na mesma existência de textos incoerentes. seja pela discrepância entre os conhecimentos ativados. que seriam aquelas em que o receptor não consegue descobrir qualquer continuidade de sentido. que são incoerentes? Ou seja. .Segunda questão: Há seqüências lingüísticas que não constituem um texto. isto é.Há sequências linguísticas incoerentes. seja pela inadequação entre esses conhecimentos e o seu universo cognitivo.

isto é. .Charolles  Charolles (1987) . violando seu valor e função. Pois como não há regras de boa formação de textos (como as há para as frases) que se apliquem a todas as circunstâncias e cuja violação. Para Charolles não há o texto incoerente em si. “fizesse unanimidade”. levasse todos ao mesmo veredicto: “é um texto ou não é um texto”. tudo vai depender muito dos usuários do texto (o produtor e principalmente o receptor) e da situação. mas admite que pode ocorrer o tipo de incoerência local e que pode resultar do uso inadequado de elementos lingüísticos.Afirma que as seqüências de frases não são coerentes ou incoerentes em si. como na sintaxe das frases.

mas ainda estava lavando a roupa. (2) João não foi à aula.Exemplos desta violação    (1) Maria tinha lavado a roupa quando chegamos. pág. (3) A galinha estava grávida. 9 . entretanto estava doente.

43  (28) b) João foi à festa. 44 . todavia porque não fora convidado. (Cavalo não é hipônimo de veículo e a seqüência aparece como incoerente.Exemplos desta violação  (26) Roberto tem um belo veículo. pág. d) João foi à festa. É um cavalo árabe puro sangue.) pág. todavia ela não fora convidada.

/ Dois e dois são quatro. 55 .Charolles  Charolles comenta o fato de muitas vezes se considerar como incoerentes sequências nas quais não há nenhuma marca de relação entre os enunciados e nas quais a relação entre os conteúdos dos enunciados não é aparente. pág. 46 (32) b) Júlia está com dor de dente. Exemplo: (30) A: Você me empresta seu livro do Guimarães Rosa? B: Hoje eu comi um chocolate que é uma delícia! pág.

. sem qualquer relação com a fala de A. a fala de B. disse algo que deseja contar a A. não tendo ouvido a pergunta. excluída naturalmente a hipótese de que B.Explicação : EXEMPLO 30 A/B  Neste exemplo. pode ser vista pragmaticamente como uma recusa por qualquer razão.

significando que Júlia estar com dor de dentes era algo tão certo e esperado quanto dois mais dois ser quatro.um dentista – conhece bem a situação dos dentes de Júlia (eles estão com várias cáries) num dado momento. O produtor de (32b) . a menina começa a chorar e reclamar que está com dor de dentes.Explicação : EXEMPLO 32  Neste exemplo podemos estabelecer entre eles uma relação plausível. O irmão dentista avisa que ela vai ter dor de dentes. Júlia está chupando muito sorvete e picolé. À tarde. Certo domingo. . que é uma menina. mas ninguém se preocupa em fazer a menina parar. então o irmão diz (32b). Imagine a seguinte situação: o produtor de (32b) é dentista e é irmão de Júlia.

podem ocorrer falas causadoras de incoerência em determinados casos. propõe que ele se dá em três fases e que.Bernárdez  Bernárdez (1982) . em cada uma delas. .Ao falar do processo de criação de um texto coerente.

mas esse tipo de incoerência dificilmente acontecerá. o texto será incoerente.A)  Primeira fase O produtor do texto tem uma intenção comunicativa. Para Bernárdez. . Se ele tiver uma intenção comunicativa impossível para a situação. quase só pessoas com problemas psíquicos ou neurológicos incorreriam neste tipo de falha.

Seja o caso em que se pede a alguém que compare dois fatos. tenha êxito face a todos os fatores envolvidos. Se o produtor projetar mal o seu plano.B)  Segunda fase O produtor do texto desenvolve um plano global que lhe possibilite conseguir que seu texto cumpra sua intenção comunicativa. pessoas. ocorre falha e incoerência. compreensível. fenômenos. etc. O produtor do texto pode caracterizar só um dos elementos em comparação ou caracterizar ambos. ou seja. mas seria incoerente com a intenção comunicativa que devia realizar. Neste caso. livros. o texto pode até estar coeso. . mas não estabelecer o paralelo entre as características dos dois.

o recebedor seja capaz de reconstruir ou identificar a intenção comunicativa. de maneira que. As falhas dessa fase afetam diretamente a formulação lingüística. através das estruturas superficiais.C)  Terceira fase O produtor do texto realiza as operações necessárias para expressar verbalmente o plano global. sendo um texto sem coesão ou com problemas de coesão e/ou “gramaticalmente incorreto” (aqui não no sentido normativo). .

etc. dos usuários (produtor. dependendo da situação. receptor) do texto. da intenção comunicativa. mas fazem-na depender dos usuários e da situação (cf. o que Beaugrande e Dressler disseram ser um texto incoerente: aquele em que o receptor não consegue descobrir qualquer continuidade de sentido). Mesmo fatores normalmente definidores da coerência podem ser violados sem. . criar coerência. necessariamente.Pontos relevantes para a resolução da segunda questão   Mesmo os que admitem a existência de textos incoerentes ou de determinadas incoerências locais não colocam a incoerência apenas na sequência linguística. de normas sociais.

usando para isso todos os recursos à sua disposição. o receptor (interpretador) fará todo o possível para estabelecer um sentido para a seqüência que recebe. por mais incoerente. sem sentido que ela possa parecer: ele irá construir as relações que não figuram explicitamente no texto. . constituindo um texto. Mesmo o texto sendo o mais absurdo. Buscará um contexto.Pontos relevantes para a resolução da segunda questão   A descontinuidade é até uma condição para a existência do texto como um texto de humor. uma situação em que a seqüência dada como incoerente faça sentido e se torne coerente. Como está explicitado no exemplo (18).

como se isto não fosse algo totalmente díspar do que perguntara antes). morais e religiosas. . 32/33  . (Com entonação natural. gostaria de lhe fazer algumas perguntas. políticas. psicológicas. .Também gostaria de saber porque as garotas não me dão bola.Eu queria saber as causas econômicas da Revolução Francesa / e também as causas sociais. . quase sem tomar fôlego).Professor. (RISOS) pág.Exemplo 18 (18) O aluno se aproxima do professor para lhe pedir alguns esclarecimentos: . -E só isso que você quer saber? ( professor coloca ênfase em só como a fazer uma leve ironia em relação à pergunta do aluno). (o trecho após a barra é falado de enfiada.Pois não. filosóficas.

de repente começou a chorar. Esta.MG) pág. Ele se agasta. porque não é o irmão dele que vai receber as honrarias. pelado com a mão no bolso. Enquanto esperava. buscava consolá-la e calado dizia: a Terra se queixa de que ele ficou impassível. O sol brilhava. (Este texto reproduz aproximadamente versão ouvida junto a crianças de Araguari . sentado à mesa de roupão. O homem cedo. olha-a com desdém. Pássaros cantavam pulando de galho em galho. O cego. passava a mão na faca sobre a mesa como se a acariciasse tendo idéias. esperava que lhe servissem o desjejum. num gesto de amor. pois o telegrama lhe trazia a notícia de que o irmão se enforcara num pé de alface. passa a manteiga na torrada e lhe oferece. enquanto olhava fixamente a esposa sentada à sua frente.Texto incoerente  (33) Era meia-noite. que lia o jornal. 59 . agarra a faca. absorta em seus pensamentos.

levando em conta intenção comunicativa. etc. uso dos recursos linguísticos. Nada adianta o texto ser bem elaborado se o receptor desconhece o assunto. ele deve estar bem estruturado para poder entender e/ou compreender o texto que está lendo. outros elementos da situação. mas que o texto pode ser incoerente em/para determinada situação comunicativa. O texto será incoerente se o seu produtor não souber adequá-lo à situação. O papel do receptor é fundamental. Caso contrário. será coerente. destinatário.” . Sendo assim ele fará o comentário: “Não consegui entender este texto.Análise: Texto incoerente 33    O texto ratifica a conceituação da coerência como um princípio de interpretabilidade e nos leva à posição de que não existe o texto incoerente em si. não tem domínio do léxico e/ou estruturas. regras socioculturais. objetivos.

b) devido à competência lingüística dos usuários da língua é improvável o aparecimento real de um texto com tal nível de violação no uso de elementos lingüísticos. um produtor só faria um texto assim com um propósito. colocamos esta possibilidade como apenas teórica por duas razões: a) como produtor e recebedor são cooperativos. por termos um mau uso extremo do código linguístico. . Excetuando casos patológicos em que não teríamos um situação normal. o receptor não conseguirá estabelecer o seu sentido e teríamos um texto incoerente em si.Possibilidade teórica  O mau uso de elementos linguísticos e estruturais cria incoerências no nível local. Se o produtor de um texto violar em alto grau o uso desses elementos. o que é suficiente para torná-lo coerente.

nem dos usuários do mesmo. Garrafa. Nesta atividade (cf. mas está no processo que coloca texto e usuários em relação numa situação comunicativa. estabelecendo sua coerência. . levando em conta todos os fatores da situação e usando seu conhecimento lingüístico. através da consideração dos mesmos fatores que o produtor e usando os mesmos recursos.Terceira questão: A coerência é uma característica do texto?   O produtor do texto. cuja superfície linguística é constituída de pistas que permitem ao receptor calcular o (um) sentido do texto. de mundo. em função de sua intenção comunicativa.. etc. 1987) está envolvida a manipulação de elementos linguísticos por operações argumentativas (ligadas à intencionalidade) e processos cognitivos realizados entre os usuários do texto. de modo que podemos afirmar que a coerência não é nem característica do texto. constrói o texto.

Diferentes tipos de texto podem diferir quanto ao número e/ou quanto ao tipo de pistas da superfície lingüística que apresentam ao receptor do texto para que ele possa estabelecer o sentido desse texto. .Quarta questão: Há diferentes tipos de coerência para diferentes tipos de textos?   Coerência: um princípio de interpretabilidade. como a possibilidade de estabelecer um sentido para uma seqüência lingüística.

As superestruturas ou esquemas textuais – conjunto de conhecimentos sobre os diversos tipos de textos. diferentes tipos de texto têm diferentes esquemas estruturais. que vão sendo adquiridos à proporção que temos contato com esses tipos e fazemos comparações entre eles. que recebem o nome de superestruturas.Quarta questão: Há diferentes tipos de coerência para diferentes tipos de textos?   Na Linguística Textual. .

fábulas. . contos. romances. Textos poéticos são diferentes dos textos em prosa. Subtipos: entre os narrativos. epopéias. descritivos e dissertativos. crônicas.Quarta questão: Há diferentes tipos de coerência para diferentes tipos de textos?    Textos: narrativos.

os por reiteração são mais freqüentes que os de substituição. estruturas e recursos fonológicos (rima. aliteração. ritmo.). etc. entre os mecanismos de coesão referencial. Ainda no mesmo tipo de texto parece que.Quarta questão: Há diferentes tipos de coerência para diferentes tipos de textos?  Textos líricos são diferentes de textos de ficção e dramáticos. os mecanismos que fazem a coesão sequencial por progressão através de encadeamentos (sobretudo por conexão). . Nos textos poéticos do gênero lírico. eco. são bem menos usados que os mecanismos por progressão através de manutenção temática e os de sequenciarão por recorrência de termos.

10/11 O cartaz O desejo O pai O dinheiro O ingresso O dia A preparação A ida .Exemplo 4  O Show O estádio A multidão A expectativa A música A vibração A participação O fim A volta O vazio pág.

Por ser fã do cantor. Foi para o UTC com um grupo de amigos. Mas valeu a pena: a música era da melhor qualidade. dia do show. falou com o pai que lhe deu dinheiro para comprar o ingresso. pág. dia 04/04/89. Chegando em casa. 12 . às 21h. Raul preparou-se. Raul voltou para casa com um vazio no peito pela ausência de todo aquele som. Lá havia uma multidão em grande expectativa aguardando o início do espetáculo. fazendo todos vibrarem e participarem do show. ficou com muita vontade de assistir à apresentação. no ginásio do Uberlândia Tênis Clube na Getúlio Vargas. Após o final. de toda aquela alegria contagiante. escolhendo uma roupa com que ficasse mais à vontade durante o evento. Na terça-feira.Exemplo 5  O Show Sexta-feira Raul viu um cartaz anunciando um show de Milton Nascimento para a próxima terça-feira. que começou com meia hora de atraso.

14 . Arruma-se a casa. ano XIV. p. Ouve-se rádio à tarde. Lá pelas 5 horas. Cumprimenta-se os vizinhos. 24/11/79. pág. 9).Exemplo 7  Corte – Maria Amélia Mello O dia segue normal. Almoça-se ao meio dia. inicia-se o sempre. Limpa-se em volta. (Miniconto publicado no Suplemento Literário do Minas Gerais nº 686.

Minha mãe ficava sentada cosendo. não acorde o menino. pára o berço onde pousou um mosquito. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé. olhando para mim? . ia para o campo. Comprida história que não acaba mais..Psiu. E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. café bom.  Minha mãe ficava sentada cosendo..Exemplo 34 Infância Carlos Drummond de Andrade Meu pai montava a cavalo. Café preto que nem a preta velha café gostoso. que fundo! Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda.. (Do livro Alguma Poesia) pág.. . 63 No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu chama para o café. E dava um suspiro.

Exemplo 35  Trem de Ferro Manuel Bandeira Oô.] pág.. 64/65 Café com pão Café com pão Café com pão Virge Maria qie foi isso maquinista? Agora sim Café com pão Agora sim Voa. povo Passa ponte Passa poste Passa pasto Passa boi Passa boiada Passa galho De ingazeira Debruçada No riacho Que vontade De cantar! [... bicho Foge. cerca Ai seu foguista Bota fogo Na fornalha Que eu preciso Muita força Muita força .. fumaça Corre. Foge.

66 .Exemplo 36  Pássaro em Vertical penas fofas leves plumas mole espuma e um risco surdo n o r t e s u l Libério Neves Cantava o pássaro e voava cantava para lá voava para cá voava o pássaro e cantava de repente um tiro seco (Do livro Pedra Solidão) pág.

sapatos. descarga. espuma. vaso com plantas. xícara e pires. carro. talheres. Escova. gravata. copo com lápis. Água. cortina. Cigarro. papéis. canetas. telefone. água. creme de barbear. documentos. Mesa e poltrona.. calça. caneta. pincel. água. vales. gilete. camisa. telefone. Pasta. caixa de fósforo. Quadros. pente. níqueis. Jornal. Cueca. espuma. cheques. abotoaduras. espátula. vaso. Pia. caixas de entrada. guardanapo. meias. cartas. notas. bule. cinzeiro. fósforo. relógio. bloco de notas. toalha. sabonete. prato. cigarro. Creme para cabelo. de saída. fósforo. Carteira.Exemplo 37  Circuito Fechado Ricardo Ramos 1 Chinelos. maço de cigarros. creme dental. Bandeja. água quente.) . chaves. Papéis. agenda. Cigarro e fósforo. Mesa. água fria. xícara pequena. quadros. papéis. (. paletó. pastas. cadeiras. relatórios. cadeira. sabonete. lenço..

imóveis. do entendimento. distância. um pouco do ouvido esquerdo e da visão.. não a de muito longe nem a de ontem. (. relógios.) . roupas. de empréstimo. por morte. A memória intermediária. amigos. cabelos. Parentes.Continuação EXEMPLO 37 2 Dentes. paisagens. esquecimento e mudança. Várias vezes. seu registro. do candeeiro ao vaga-lume. contando. chegando e se despedindo. como o jasmim no muro. do caminho. sua música. Livros. Mulheres também. Móveis.. chamando e seus ecos. os bens da infância. as romãs encarnadas. quem sabe não virão mais. Flores e frutos. Luzes. conversando. desvio. terrenos. como os seus temas. os pés de pau. a cada ano.

Gosto mais assim.. (. Que bom telefonar.) . e digo alguma coisa. e você? Feitas as contas. Guarde o troco. tenho um jantar. Veja logo a conta. agora mesmo estava pensando em você. Este mês. sim? É pena mas hoje não posso. Amanhã eu ligo. hoje chovendo. estava errado. com azul. não me lembrei. foi ótimo. Nas próximas férias. obrigado. fica para o outro. aquele calor. Passe mais tarde. Vinte litros. de carro. Puro. com gelo. Ontem. pode levar. Por favor. vou até lá. Acho que não. quer ver o meu saldo? Acho que sim. não.. Bem. Creio que não. ainda não fiz. Penso que sim.Continuação EXEMPLO 37 3 Muito prazer. Desculpe. Já. não está pronto. da comum.

e nada mais. 73/74/75 Fonte: Os Melhores Contos Brasileiros de 1973. Um armário com roupa e sapatos. felizmente breves. depois a rua e os telhados. as pessoas. Um silêncio por dentro.175 . um recorte que permanece. uma gargalhada. p. que não duram nem rendem. (. uma filha.Continuação EXEMPLO 37 4 Ter. os dias. tudo sem horizonte. Uma cicatriz de operação na barriga e mais cinco invisíveis. Uma lâmpada de cabeceira. 1974. Uma curva de estrada e uma árvore. Um envelope com fotografias. Um talento para as coisas avulsas. um cachorro vermelho. Uma janela sobre o quintal. Uma sombra no chão. Um canto de sala e o livro marcado. que doem quando chove. que somente vestem e calçam. uma gaiola de passarinhos. não aquele álbum.. quando se engarrafam o trânsito. um choro no ouvido.. uma colcha e os seus retalhos. Uma dor de dente. um filho. Porto Alegre: Editora Globo. que olha e lembra. 169 . um seguro que se desvalorizou. haver.) págs. e todavia muda.

.Pesquisa empírica  Necessidade de pesquisa empírica que permita estabelecer as regularidades básicas da relação entre gêneros e tipos de pistas da superfície linguística e sua frequência em cada um deles.

Teoria do Texto ou Linguística do Texto – princípios e/ou modelos cujo objetivo não é predizer a boa ou má formação dos textos. estabelecendo o seu sentido e. .Coerência e Lingüística do Texto   O texto como unidade de estudo: Gramática do texto (semelhante à gramática de frases proposta por Chomsky). mas permitir representar os processos e mecanismos de tratamento dos dados textuais que os usuários põem em ação quando buscam interpretar uma sequência linguística. portanto. calculando sua coerência.

compreensão e coerência textuais tornou-se um campo inter e pluridisciplinar.  . Sociologia. Teoria da Computação e Informática. Linguística em geral e de alguns ramos em particular – Socio-linguística. recebendo contribuições da: Psicologia.Coerência e Lingüística do Texto O estudo da produção. Filosofia. Psicolinguística.

cabe aos linguistas “delimitar. qual é a parte e a natureza das determinações que resultam dos diferentes meios que existem nas diferentes línguas. na constituição e composição textuais. Isto para além da generalidade dos processos psico e sociocognitivos que intervêm na interpretação (da coerência) do discurso. o melhor possível. os problemas de interpretação que seu uso possa gerar. para exprimir a continuidade ou a sequência do discurso”. O linguista deve fazer “a análise das marcas de relação entre as unidades de composição textual que a língua usa para resolver.Coerência e Lingüística do Texto   O que cabe à Linguística fazer no estudo da produção. compreensão e coerência textuais? Segundo Charolles (1987). .

5.79. .77..48 742.48 $:-954803970483.7.3.4884/10703908/4890948 025748.8 1E-:.407H3.8 %094854F9.43948 .9.48 /08..9.6:0894E/107039089548/0 .08  ./107039089548/0 90948 %09483.6:0894 :.79.":.73.480 /88079.77.8 0545F.9.79.

.6:0894 :.54757470884 .48/4H3074J7./0907248 0897:9:7.6:0894E/107039089548/0 .48 489094854F9.907.70..F8/003..4 0.97.48 72.81706Q039086:048/0 8:-899:4 ..4304 84 -0220348:8.8070.38248/0.4 48 20.97.048/0806:03..02..5.4084 7010703.4 09.F8/02./107039089548/0 90948 %0948J7.2E9.3824854757470884 .06:0 039704820./0. 4854770907.407H3.3420824954/0 90945./486:04820.477H3.. 3/..7.382486:01..4842. 7924 ..79.40 /7.203948 84-709:/4547..4884/10703908/090948/01..:78481434O..":.4084806:03.79.74547 70.3:9034902E9.

.4 12 .7. . .79.79.0254 $4 . /3074 370884 /.. /0804 5. 28.4 /.4 5. 5705.9. 089E/4 2:9/4 050.5.-7.49..4 5E  ..9.

 .

907..8. 107...:.3:3.79. 107.#.57O2. .0254 $4 $09.203945.7. /.::2.3/4:284/0943 ..

.

-7.07.426:01.. 47.7.8..:8H3.248 E.3/0 050.702/484 5O8413..8 !478071/4 ./.4245.88897..4220..422:9.74: 80 08.42:2.6:0.9.4:./0/0. 1./484 #.6:00 842 /094/.74:5......094'.7..9.3/4 02. 8 34 3E84/4&-073/.403/4 :2..70205..79.6:00/0:/30745.907.4 0.439.8802.4204:.4/408509E.494:5.: .84 ./0/:7..3947 1./0.503../.8.:2.4:..439./094/4.03/494/48./0  1.7....5.%H38:-03.0:.28.:.8.42:27:54/0.07.:5705. /.2:9/4027.39040..97.:4 6:0.390 5E  .7/.7.74 370884 ...20476:.. #.3/443J.5708039.0394 45.8.439.434509450. 4&%.4257. 107.

80 . 80 02.8 07. 80.4204/.. 804802570  3./434$:5020394907E74/43.7.8. 77:2..0 807E/49.04 /.8 3  . 25.8 3.34' .8 47.348 24...80:03472.49.7/0 E50.0254 4790 . 8048.  :. :2572039.2F.43945:-.

.

 5  5E  .

8039.2.9480212/.!408..0254 313....8039...33..6:034..22 !8: 34...80 086:0.5709...0: ..4. :843420334039702.1F570946:0302.803.89O7.3.:28:8574 6:01:3/4 E43020:5..1F  .254 3.89O7../0#4-38437:84F 4.. 03:3..7.7487:2243//03/7. .1. 07..201..8 4204 /.5703/0: ..-.5.201.7.. 342.73484308/./0#4-38437:84F 4257/.2439.. 5E  .47/0420334 5E7..4 .2.4/0::2.-.6:0.0....4-07443/054:84::22486:94 /.7.03/.-7../.4803/4 0:724506:034/472..3/45./0 0:5.46:0 .89O7.....74:2.6:023.8-439.8 .5.1F489484 .4..3:07./. ...250.1F-42 3.4803/4 4.2. 0:348.

07.4 40 54.54390 !.144 .4 !.4 ":0.-4.7.6:389.4254 47.0254 %702/00774 . 49. 47. 47. . :9.88.88.88. !.4254 '70.84 :9. 0-7:.82 '4.3:0.147...894 !. ":00:570.1F.82 .1F.1F..54890 !.1F.3/07.07.88.4254 . 80:14:89.4254 ..-4 !. 4770 .147.5.1473.39./.  40 -.88.7 ( 5E ./../0 0.88.60148842. 1:2.4 03.439..

 .

4 503.7. 0:278.E . ..4 8:7/4 3 4 7 9 0 8 :  4.085:2...4.08 .7.8 0.4..0254 !E88..8 240085:2..74!0/7.5.. -F740.45E88.E .740.$4/4 5E  .4.8141...7402'079.... /0 7050390 :2 974 80.45E88.39....39.740.39.5..

-43090  :.774 1O81474 .84.7-0.8  349.... 5.4./748 !.3074 5..17..77401O81474 !.. .4793.7748 ./.7907. 8.42 E58 .0 085:2... 70205.8 -4..0254 7..7/../748 5.. 3J6:08 /4.948 7.-494.J/.09O  .8/00397.7.:940. 20.. 090 E:.4/0 ..0708 :.94  -:0 9.39.08 034 70O4 2.5F8 9001430 . ../4 #.  8..3. ..309.7 53.309.8 085E9:.8 . .7020/0-.89.. 8. .7./01O81474 473.  J./:7.-04 50390  :0...08 ..03/.:203948 .54 ":.. 5.8 6:.454.28. ..506:03... /0 8.9O748 . 085:2.05708 57.4/0349..8 ..8 .8 8. ... !.6:0390 94.8 J.425..9.79./07.248  3048 .7020/039.0549743.5F8 .89.. .7. ..-43090 E:.84 /08. E:. .3/0.  E:. 08./07.774 . .774 1O81474  08.7/4#.7. .06:08   . .5.5F8 9001430 70.

.08 2O.3/4 .008 .8..: :08 /4.4244.3/4080 /0850/3/4 6:028.84 202O7.439.2-F2 .822342:74 .248  54724790 /893.-034.038 48-038/..4/44:.4244880:8902.234  /403903/20394 4708017:948 ./.3/4 .742.8./02:94430302. 390720/E7..2. :07089..0.703908 .8 O.3/4080:80.8 742803..4 ...8 90770348 70O48 5..313. 28.748 /00257F8924 086:0.48 8:.73../.8 485F8/05./043902 !. 34.203940 2:/.8 ../4086:07/40/.078.34 . /08..4!   03908 .. :20  'E7.4393:. /4..08  74:5. 80:708974  .4.3/0074.3.43.-048 :254:.

H  !:74 .5038.4 !03846:082  8902H8 34 1.774  48942.44:974 08..8.39.: 02 4-7.:2...8403454884 9034:2.7 14O924 ..46:034 .4../4..81F7..8.8..48./4 7046:034 E 54/00.4.7.8 .2.4:.6:00..47.20824089.42:2 .9FE /0.7  3902 .4.89.3/402.46:082 ":0 -42900143.47 6:07.07420:8..5.44 .47 40 .857O2.8  089.3/.077.7/04974..03/4  .4393:.8802.439.4!   :9457./4 0.42.7/0 .07 !471.439.882 .341 34089E574394  2.4204 !. :. 82A503.:50 342002-70 '0.H09.7 '3909748  /.30:4 0/4..

.948 6:0 8420390.8 ./. &2..2.5.0450 .2 03..97/04507..4774.7348 &2.1..394/08. 1020390-70./00897.72E74.07204 :2.34.8 6:034/:7.3.8 &2.-.07 &2.. .25.7:./0.84-7046:39.43.4.002-7..48 &203./05.-0.2302 703/02 &2.:8./4 :270../.8 &2.0 &2.  :2. E7.474: :2..03945.2:/.. /0548./48 9:/4 802474390 &28H3.4393:.8 .8.4214947.04890.0 094/.4.88.1.74 2..3/480 03.8 34.07.30.7.08..4.1../.04880:8709..089020.470 :214 :2.0:2.8.3/4. 6:.:7.7.842-7.48. :2.24973894 48/..43..474344:.4!   %07 .6:00E-:2 &2. .08 6:0/4026:..08  5E8 ..4 :280:746:080/08.4274:5.4547/03974 6:04.30..7.8J.850884.47906:0 5072..77.04.02.77../4 &29..././47/0/0390 :2.

.

 4390 804708439487.80748/0 !4794070/947.4-4  5   .

0.8:5071J.02.7/.025J7...870:.025J7./08 -E8.07.08:..403970H3074809548 /0589.. 1706:H3.088/..8/.70.:2/008 .089.6:0 50729.8/././0/05086:8.03:J89.-00..!086:8.

./49094 8020./4%094 4:3:J89..2E9../4%094 9094.407H3.03QJ89./4%094 573.8085745489.J5480.547428 %047.2E9./0 17./0/0089:/4 7...424:3/.3907.

239075709.394 .3:J89.:44-09..7:2. 806:H3.748574...3/48:..3/4-:8.20394/48/./48909:.38248/0 97. 089.9.86:048:8:E748 50202.:.4/4890948 2.03/4480:8039/4 0 5479.8 507297705708039.4:2E1472.  .-4..-00..434F 570/07.4:24/048..08848020.46:..407H3.

:.909:.7 70.0/0.4 3:J89. $4../4%094 089:/4/..574/:4 . 3:J89.03QJ89.43:J89.0-03/4.7 $4.248025.2543907 05:7/8.4257003840 .. %047.407H3.407H3. !8. 425:9. !8.02 07.894734: 80:2.4031472E9..53..4397-:08 /.. .44..79.44.:387. 4841./..

7.4257003840.46:080::84 5488...425484909:. .7.03QJ89.07.4.407H3.7  3.4393:/..407H3.7 8945.:784  3:89./.439./04:.0 1.43899:40. 3.8:3/.6:0..:784 .:8.7.425484909:./08/0 ./.-03:J89..7.0734089:/4/.0 48574-02..5..7900.1..806:H3.-0.086:0708:9.F.4 /.8/10703908J3:.4084./4/8..05727.39075709.7084.8/070. /4/8.403970.483:89.909:.H23.8/090723.8 6:.07 ..7408  . .574/:4  .486:03907.08848 58.J3:.3E80/./0.07 4 20475488J./4%094 6:0./0/48574.407H3.0307.9:70..2/48/10703908 20486:0089023.8/039075709.5.8 5.82.F2/.8 $0:3/4.8 /029..

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful