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FRANCO JR, Hilário. O Feudalismo

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• Histomapa de História . John B. Sparks Coleção Primeiros Passos • O que é História . Vavy Pacheco Borges Coleção Tudo é História • A Inquisição • Anita Novinskí • As Cruzadas· Hilário Franco Jr. Coleção Primeiros Vôos • Sociedade Feudal • Guerreiros, sacerdotes e trabalhadores • Francisco C. T. da Silva • Uma Introdução à História • Ciro Flamarion Cardoso

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Revisão:

JoséW. S. Moraes Hercílio de Lourenzi

INDICE

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Introdução ' -A gênese ~ A estrutura . ~ , A dinâmica . .-. .A crise ;'.. , Conclusão Indicações para leitura

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Editora Brasiliense S.A.
B. General Jardim, 160 01223 - São Paulo - SP' Fone (011l231-1422

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INTRODUÇÃO
As palavras, para o historiador, são sempre problemáticas. Como explicar o passado com palavras que não soem estranhas e pedantes aos não especialistas, e que, ao mesmo tempo, sendo simples e de uso comum, não desvirtuem as realidades históricas? Essa é uma questão concreta quando pretendemos estudar o "feudalismo", termo . aparecido apenas no século XVII, muito tempo depois do momento histórico. que ele devia designar. Melhor que essa expressão tornada clássica, seria então empregar "regime feudal"; "sistema feudal", "modo de produção feudai", "civilização feudal", "sociedade feudal" ou alguma outra que se propusesse? Possivelmente, mas isso implicaria justificar a escolha, nos afastando assim dos objetivos desta Coleção. Aqui e agora, mais importante do que discutir metodologias e suas diferentes visões sobre este ou aquele ponto é tentar compreender o que havia de fundamental naquela realidade histórica conhecida por Feudalismo. Portanto, nosso primeiro passo deve ser delimitar o que queremos estudar. No espaço: Europa Ocidental, deiJL

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Hilário Franco Ir. xando de lado a discussão sobre a analogia com outras regiões. No tempo: séculos X-XIII, retrocedendo e avançando um' pouco para vermos a formação e desestruturação do Feudalismo. Assim, temos pela frente uma vastidão territorial (dois milhões de kmê) e temporal (400 anos) nas quais não se pode logicamente pensar em encontrar algo idêntico e imutável. Levando-se esse aspecto em consideração, seria talvez mais correto que os rótulos estivessem no plural ("sociedades feudais", "modos de produção feudais" etc.). Por outro lado, não se pode negar que naqueles limites geográficos e cronológicos houvesse, no essencial, uma unidade de estruturas e uma evolução semelhante. Desta forma, preocupando-nos pouco com específicidades regionais, examinaremos o Feudalismo no que ele apresentava de mais profundo, de mais estrutural. Procuraremos vê-locomo uma formação social surgida das novas condições decorrentes do desaparecimento do Império Romano e da penetração de tribos germânicas, ou seja, como uma sociedade saída das ruínas da anterior mas melhor adequada às novas circunstâncias de então. Logo, o Feudalismo - como aliás qualquer outro fenômeno histórico - não deve ser objeto de nenhum juizo de valor, como ocorre frequentemente. No uso popular; no senso comum, o Feudalismo é sinônimo de anarquia política, de exploração pura e simples de camponeses por c1éricos e guerreiros, de barbarismo e ignorância generalisadas. Nossa pretensão é tão somente amenizar esta visão simplista sobre o Feudalismo, tentando mostrâ-lo como uma sociedade histórica, isto é, a única possível para o seu tempo, herdeira do passado romano-germânico e preparadora de uma nova sociedade, a capitalista.

A aBNESE
processo de gestação do Feudalismo foi bastante longo, remontando à crise romana do século Hl, passando pela constituição dos reinos germânicos nos séculos V-VI e pelos problemas do Império Carolingio no século IX, para finalmente se concluir em fins desse século ou princípios do X. Para podermos acompanhar mais claramente esse processo, examinaremos sucessivamente sete de seus aspectos mais importantes: a ruralização da sociedade, o enrijecimento da hierarquia social, a fragmentação do poder central, o desenvolvimento das relações de dependência pessoal, a privatização da defesa, a elericalização da sociedade, as transformações na mentalidade. O primeiro desses aspectos tinha raizes muito antigas. A civilização romana na sua fase inicial estivera baseada na agricultura, porém, em função' das dificuldades que esta apresentava naquele solo

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pouco favorável, .aos poucos o comércio passou a ser o setor mais dinâmico. Estruturalmente ligada a isso . estava a política imperialista que tornou o mar Mediterrâneo um lago romano. Contudo, as imensas conquistas territoriais e o conseqüente afluxode riquezas provocaram profundas alterações, cheias de con- ... seqüências, na sociedade e na economia latinas. Por \ exemplo, um grande crescimento do número de es- \1:: cravos, o enfraquecimento da camada de pequenos ej médios proprietários rurais e a concentração de terras nas mãos de poucos indivíduos. ""Ora, aquela situação apresentava claras contradições, pois o estoque de mão-de-obra escrava, base da economia, precisava ser constantemente renovado por novas conquistas. O Estado, dominado pelos cidadãos mais ricos, via seus rendimentos decrescerem, porque os poderosos escapavam aos impostos e os pobres não tinham condições de pagâ-los. Ademais, era preciso fornecer pão e diversão à plebe urbana sem propriedades devido à concentração fundiária e sem emprego devido à concorrência do trabalho escravo - para se camuflar o problema social. Assim, não havia condições econômicas e sociais de prosseguirem as conquistas. Em outros termos, o sistema escravista e imperialista não podia mais continuar a se auto-reproduzir. Era a crise. Como aquela era uma sociedade urbana, naturalmente a crise se manifestava mais claramente nas , cidades, com as lutas sociais, a contração do comércio e do artesanato, a retração demográfica, a pressão do banditismo e dos bárbaros. Assim, entende-se

que os mais ricos se retirassem para suas grandes propriedades rurais (vil/ae), onde estariam mais seguros e onde poderiam obter praticamente todo o necessário. É muito significativo que o Estado tenha precisado, através de legislação específica, impedir que os próprios elementos encarregados da administração municipal icuriales) abandonassem as cidades. Colocava-se, então, a questão da mão-de-obra rural, que foi solucionada por um regime de tripla origem, que atendia ao interesse dos proprietários em ter mais trabalhadores, ao interesse do Estado em garantir suas rendas fiscais e ao interesse dos mais humildes por segurança e estabilidade. Desse encontro nasceu a importante instituição do colonato. '.De fato, as crescentes dificuldades em se obter tanto mão-de-obra escrava (devido aos problemas de abastecimento) quanto livre (devido ao retrocesso populacional) punham em xeque as possibilidades de o grande 'proprietário explorar suas terras proveitosamente. Buscou-se então um novo sistema. Por este, a terra ficava dividida em duas partes: a reserva senhorial e os lotes camponeses. Estes lotes eram entregues a indivíduos em troca de uma parcela do . que eles aí produzissem e da obrigação de trabalharem na reserva senhorial sem qualquer tipo de remuneração. Tudo que era produzido na reserva cabia ao proprietário. Para o Estado, vincular cada trabalhador a um lote de terra representava melhor controle do fisco imperial sobre os camponeses e urna forma de incen-

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o Feudalismo mica e a participação nos quadros diretivos do Estado eram decisivas. como as camadas médias urbanas e rurais tendiam a desaparecer. não podendo jamais abandonâ-lo.12 Hilário Franco Ir. . nem ele sem a terra. sem haver escala de correspondência entre ambos: eram quase dois sistemas monetários paralelos refletindo a' polarização social. Ele estava vinculado ao lote que ocupava. mas também não podendo ser privado dele pelo proprietário. A terra não poderia ser vendida sem ele.ra os camponeses à terra. continuaram a evoluir nesse sentido. mas estavam claramente fixadas e não poderiam ser modificadas arbitrariamente pelo latifundi. surgia o colono. mas verdadeiro escravo da terra. Em suma. crescia a distância social entre a aristocracia latifundiária e/ou burocrática e a massa dependente em diversos graus.~. pelo contrário.segundo aspecto a considerar . da hierarquia social. a partir do século lU a condição econô- l . sustentando-se a si próprios. Da mesma forma que se vincula. A penetração dos bárbaros germânicosnão alterou esse quadro. por um aviltamento da condição do trabalhador livre e por uma melhoria da do escravo. ' tivar a produção. trabalhar nas terras de um grande proprietário significava casa. mas fazia parte de um processo mais amplo . É sintomática a reforma monetária do século IV. receber um lote de terra era uma considerável melhoria de condição. quebrando a relativa mobilidade anterior e levando mesmo alguns historiadores (como Ferdinand Lot) a falarem em "regime de castas". como seria pelas do século IX. era uma forma de aumentar a produtividade daquela mão-de-obra e ao mesmo tempo baixar seu custo de manutenção. comida e proteção naquela época de dificuldades e incertezas.de enrijecimento . Para os marginalizados sem bens ou ocupação e para os camponeses livres. que criava um padrão-ouro para uso do Estado e da aristocracia e um padrão-cobre que atendia melhor as necessidades dos pobres. Enquanto na Roma clássica o critério fundamental de diferenciação social era a liberdade. também se vinculou os artesãos de cada especialidade a uma corporacão (collegia) submetida ao controle estatal. 13 i. As camadas humildes também não tiveram sua sorte alterada. o cotonus era juridicamente um homem livre. pois os invasores de maneira geral mantiveram as estruturas anteriores. Sua situação jurídica.ário. em decadência desde o século IH. Assim. expressava nitidamente a ruralização da sociedade romana. a quebra da unidade política romana acentuava as tendências regionalistas daquela aristocracia e reforçava seus privilégios. De fato. As obrigações que ele devia não eram leves. Para os escravos. pois os escravos estabelecidos num lote de terra (servi casati) deixavam de ser alimentados e vestidos por seu amo. já definida no século IV. Naturalmente o colonato não era um fenômeno isolado. A vida e a população urbanas. Para o seu proprietário. Ora. Mais ainda. desde o século IV estabeleceu-se a vitaliciedade e hereditariedade das funções. mesmo sem ter esse processo sido acelerado pelas invasões do século V.

com o tempo. As invasões germânicas. como vimos. . expropriando parte de suas terras (geralmente um terço).. homens livres de sua tribo como rendeiros ou mesmo pequenos proprietários. . em princípios do século V os colonos foram desligados da autoridade fiscal do Estado. puderam aos poucos ir se fundindo numa nova sociedade. Porém. aquelas transformações sociais germânicas convergiam para a mesma polarização que a sociedade romana vinha conhecendo há tempos. Isso era reforçado ainda pela decadência da economia comercial e monetária. ) ele nada possuía de seu além de uma única terra de baixo rendimento. resultava daquele estado de coisas. a tendência à auto-suficiência de cada latifúndio e as crescentes dificuldades nas comunicações. além de escravos. Com a ruralização. A formação de uma aristocracia fundiária germânica. a própria sociedade germânica logo após sua instalação no Ocidente começou a passar por transformações profundas. um. nos limites do antigo Império Romano do Ocidente. os representantes do poder imperial foram perdendo capacidade de ação sobre . Em função disso. Contudo. cronista afirmava que "exceto esse inútil título de rei. concedia-se o usufruto (e não a plena propriedade) de um bem imóvel em troca de determinados serviços prestados. Mais do que isso. os reis merovíngios remuneravam seus servidores entregando a cada um deles uma extensão de terra a título de beneficium: Ou seja. passando a ter estruturas semelhantes e identidade de interesses ao nível das aristocracias. que levava os reis bárbaros a remunerarem seus colaboradores com a única verdadeira riqueza da época. Estabelecia-se assim o pluralismo que desde então jamais deixaria de caracterizar a vida política européia. desta forma os reis iam pouco a pouco se empobrecendo e se enfraquecendo. Por exemplo. que nelas estabeleciam. a fragmentação do poder central. (. 15 . aqueles homens livres acabavam por entrar em algum tipo de dependência.14 Hilârio Franco Ir. devido à sua inferioridade cultural e numérica frente ao mundo romano dominado: por volta do ano 500. mais importante que isso é o fato de que em cada reino germânico continuavam a se manifestar as mesmas tendências centrífugas da época romana. quebraram definitivamente a frágil unidade política do Ocidente do século V. o Feudalismo vastos territórios. seguindo a lógica da evolução social da época.. que era delegada ao proprietário da terra. contribuía para tanto. O terceiro aspecto da gênese feudal. as sociedades romana e germânica. que lhe proporcionava uma habitação e um pequeno número de servidores". Contudo. Falando do monarca franco da dinastia dos merovíngios. Na maioria das vezes aquelas áreas caíram em mãos de membros da aristocracia germânica. terras. Nem poderia ser diferente. De fato. Portanto. havia um milhão de bárbaros numa população total de 30 milhões. por sua vez. O processo teve início quando os conquistadores impuseram a velha instituição da hospitalitas aos proprietários romanos. os próprios latifundiários foram ganhando atribuições anteriormente da alçada do Estado.!í "r i Mais ainda.

Por ela. aliás.aplicar justiça. Não muito diferente foi o destino de um tipo de beneficium (o mais comum. quando foi estendida a uma significativa parcela dos territórios. Em troca de ajuda econômica e proteção judiciária. da tribo ou da linhagem. determinados territórios ficavam isentos da presença de funcionários reais. Apesar de mais antiga. os clientes apoiavam seus protetores nas assembléias políticas e prestavam diversos pequenos serviços. a imunidade (immunitas).. inerentes ao rei. marqueses). apesar do grande número de benefícios f: de imunidades concedidos. Tal concessão era feita vitaliciamente. Assim. isto é. de maneira que após sua morte . zar recrutamente militar. sua apropriação por parte de indivíduos que detinham grandes extensões de terra e nelas exerciam em proveito próprio atribuições anteriormente da alçada do Estado. então. quarto aspecto . E sobretudo após meados do século IX. de crescimento da distância social e da fraqueza do Estado. Contudo. . que ali não poderiam exercer nenhuma de suas funções.o desenvolvimento das relações de dependência pessoal-era o resultado lógico daquele quadro de isolamento dos grupos humanos (devido ruralização). quando o Império Carolíngio foi dividido entre os netos do o à l .de seu império. Assim. o imunista tornavase detentor de poderes regalianos. Desta forma. reali .rr 16 Hilário Franco Jr. o detentor de um benefício recebia um importante privilégio. o poder de Carlos Magno era inquestionável. que alguns busquem segurança e sustento junto a indivíduos mais poderosos. é próprio dos momentos de insuficiência das relações sociais dentro do Estado. apesar da existência de um Estado forte . Mas ele baseava-se 'em seu prestígio pessoal. na época merovingia) que implicava certo pagamento ao concessor: precaria . e outros busquem prestígio e poder junto a um grupo de dependentes. essa instituição foi melhor definida e generalizou-se no tempo de Carlos Magno. Em suma. o concessor perdia . os efeitos desagregadores daquela política se fizeram sentir.ou exatamente para fugir a ele -indivíduos de origem humilde colocavam-se sob o patronato de um poderoso. o patrocinium potentiorum dos últimos tempos do Império Romano criava laços de dependência muito 17 ): i 11 "'1 e Muitas vezes. Cada vez mais. Mesmo na Roma clássica. mas como quase sempre era renovada em favor do herdeiro do concessionário falecido. rados. mesmo as funções públicas passaram a ser vistas como benefícios. Aliás. cujos cargos tornavam-se bens pessoais hereditários. tornando-se seus clientes. aos poucos o controle sobre os benefícios cedidos e portanto sobre os próprios servidores assim remune. ocorria um recuo das instituições públicas. Apesar de derivado da instituição da clientela. cobrar impostos e multas. os reis perdiam sua faculdade de nomear e destituir seus representantes provinciais (condes. que esvaziava ainda mais o poder real. podendo nos seus domínios exercer as correspondentes funções administrativasv. lI'\ o Feudalismo grande imperador. ou melhor. duques. com o tempo tendia a se tornar hereditária.

Terminologicamente. pensavam reforçar seu poder: como eles tinham muitos vassalos. colocando-se sob o seu patronato. por se tornarem exclusividade daquela camada social. mundeburdis . É verdade que inicialmente. mas desde princípios do século VII o termo passou a ser empregado também em relação a homens livres. Todavia. Sua larga difusão deu-se desde Carlos Magno. Por fim. . na sua forma germanizada. ele procurou estabelecer e reforçar esses laços pessoais. estas acabaram por se enobrecer e mesmo. Os monarcas carolíngios. foi então que vassalus suplantou outras palavras que também designavam um homem livre que se havia recomendado a outro. Da latinização deste termo surgiu vassus. Assim. 19 mais fortes. ao retirar aqueles homens da órbita do Estado. como desde princípios do século VIII elementos da. Em outros termos. inúmeras leis tentaram inutilmente proibir o estabelecimento desse tipo de relação. que por sua vez estabeleciam seus próprios vassalos. A origem da vassalagem é difícil de ser determinada. e da do desdobramento gwassawl (" aquele que serve"). lristitucionalmente. Por fim. "vassalo" apresentava uma conotação servil. Concretamente. pois como na verdade a autoridade do imperador dependia mais da fidelidade de seus servidores pessoais do que de sua soberania teórica.18 Hilário Franco Jr. mais tarde. aristocracia entravam nas relações vassálicas. Para fugir ao Estado opressor e ao fisco insaciável. no século VI. O ato jurídico pelo qual uma pessoa se colocava assim sob a proteção e a autoridade de outra era a recomendação (commendatio). a instituição que mais sucesso teria nesse desenvolvimento das relações de dependência pessoal foi a vassalagem. muitos camponeses livres entregavam sua terra a um indivíduo poderoso. foi então que à recomendação se acrescentou o juramento de fidelidade como reforço religioso. "servidor"). esta parecia ao rei uma forma de estender seu controle a todos os escalões da sociedade. ainda que de condição inferior. a insegurança provocada pela penetração dos germânicos generalizou o recurso a esse tipo de relação social conhecida por patrocinium ou. ao incentivarem a difusão dos laços vassálicos. com o primeiro destes elementos tornando-se condição indispensável para a concessão do segundo. ou seja. o Feudalismo Como naquele momento as demais expressões que significavam "homem dependente" ganhavam sentidos diversos. vassalus. da combinação dos dois atos nasciam as relações vassálicas. o benefício era a remuneração do vassalo (servidor fieI) e só um vassalo receberia um benefício (termo mais tarde substituído por "íeudo"). os latifundiários tendiam a transformá-Ios em colonos e a diminuir a soberania do Estado. mas sua importância data de meados do século VIII. recorreu-se para tanto ao céltico gwas ("rapaz". desde meados do século IV. enquanto os criados pela clientela tinham um caráter sobretudo político. Por isso. Esses laços eram essencialmente econômicos. foi então que vassatidade e benefício se uniram.

os ataques de surpresa e a rapidez da retirada dos invasores impediam que a lenta mobilização dos exércitos reais conseguisse sucesso. e tanto entre os romanos quanto entre os germanos havia antecedentes institucionais: milícias particulares com laços de devotamento pessoal ligando os guerreiros a. Derivados desta instituição surgiram na época merovíngia os antrustiones. Como observou Ganshof. ele decorria de todos os aspectos anteriores. Além disso. guardas pessoais do rei. por outro lado. "a difusão das relações vassálicas acabou por subtrair. mas jamais ela chegou a se organizar institucionalmente. Pode-se assim falar. entanto. porque o clero torna-se um grupo social diferenciado dos demais. ao lado de quem deviam lutar até a morte.20 Hilário Franco Ir. em larga medida. Tratava-se aqui de um bando de guerreiros ligados por um juramento ao chefe. Para sobreviver. a resistência aos invasores só poderia ser feita pelos condes e outros efetivos detentores de poder em cada região. o resultado foi oposto. Naturalmente. aquelas relações mantinham um vínculo entre os grandes senhoresterritoriais e o rei. a partir da cristianização do império. de resistência à completa dissolução do Estado" . Outro aspecto a considerarmos é a clericalização da sociedade. lembra o mesmo autor. os latifundiários romanos contavam com grupos armados. para preservar a ordem dentro de seus domínios e protegê-los do banditismo e de incursões bárbaras. uma das mais profundas transformações ocorridas no Baixo Império Romano. a constituir uma Igreja. o grande fator responsável pelo ace- o Feudalismo leramento do processo de privatização da defesa foram os ataques vikings. seu chefe. Contudo. coerentemente com sua civilização tribal e bélica) havia o companheirismo ou comitatus . pois a regionalização da defesa era uma necessidade. porque a proporção de clérigos em relação ao conjunto da população torna-se muito superior à que existira no paganismo ou mesmo que viria a existir em outras sociedades. qualitativamente. Entre os germanos. acentuando-se a partir do século IV com a vitória definitiva dessa religião. um grande número de homens livres à autoridade imediata do Estado". Ê verdade que o velho paganismo greco-romano possuíra uma camada sacerdotal. a Europa católica cobriu-se de castelos e fortalezas. sarracenos e húngaros. Mas. fornecendo "um elemento. em troca de seu comando e de uma parte do saque. diante da fraqueza do Estado. Como sua fase aguda ocorreu após a divisão do Império Carolíngio e num contexto de crescente fraqueza dos poderes públicos. e até elemento capital. A fragmentação política completou-se. os bucellarii. Esse fenômeno acompanhava os progressos do cristianismo. Daí sua limi. De fato. desde o século IV. tada importância social. possuidor de privilégios especiais e de grande poderio político- 21 No . pois muitas vezes os vínculos de um vassalo para com seu senhor levavam-no a defender os interesses deste e não os do rei. Quinto aspecto das origens do Feudalismo: a privatização da defesa. em clericalização da sociedade em dois sentidos: quantitativamente.

. símbolo -ía aliança "-. os guias da comunidade cristã não eram apenas repre. reforçada por normas diferenciadoras que iam se impondo aos )OUCOS. aliás. o Feudalismo 23 I' i.~· pr. o fato de o clero cristão. i' I econômico. o batismo de crianças tornou-se a norma desde o século V) também contribuíram para valorizar () papel dos eclesiásticos. A multiplicação das festas religiosas e a melhor definição dos sacramentos (por exemplo. Sem ele não haveria Salvação. Numa palavra.'1:: I Monooolirando a comunicação com Deus. o clero tornava-se o responsável por todos os homens.'. os primeiros bispos.d:êri~~ocorrer sern a iderrnediaç1c Jo clérigo.22 Hilârio Franco Jr.r. Esta. Em primeiro lugar. . ter sido escolhido.l: Deus \) o homem 113. mas de Cristo. Depois. Portanto. o clero tornava-se o responsável por todos os homens. do século IV ao VII não deixou de crescer em complexidade. monopolizando a comunicação com Deus. Também não se pode esquecer que o caráter . estes com os seus discípulos. como decorrência do fator anterior. Mas quais foram as origens desse fenômeno fundamental? Sua complexidade nos leva a lembrar aqui apenas uns poucos fatores. estes por sua vez com outros clérigos e assim sucessivamente.sentantes da própria comunidade. exigindo cada vez mais que seus oficiantes fossem especialistas. 50oretudo a celebração eu caristica. como o celibato ou a tonsura. Daí advinha sua imensa autoridade moral.. ao contrário do de outras religiões. somente o clero norterin realizar os rituais da liturgia cristã. instruído e ter recebido poderes diretamente da própria divindade: assim fez Cristo com seus apóstolos.

ao agirem assim os dirigentes da Igreja não pensavam estar falseando os fatos históricos. a Igreja passou a receber e ceder benefícios. A partir de 321. Assim. vassalos.'ja pôde falsificar o documento conhecido por J I I . a Itália e todas as províncias romanas do Ocidente. Por fim. Mas os bens efetivamente recebidos já faziam da Igreja. visto como transitório. Contudo. isto é. não afetou a Igreja. um último aspecto a ser considerado no processo da gênese do Feudalismo são as transformações na mentalidade. Por isso é que em meados do século VIII a Igrf. a Igreja superava o Estado. guiçoes. Apesar de "não ser deste mundo". com sua organização e suas leis. econômicos ou políticos. elas são difíceis de serem acompanhadas e impossíveis de serem datadas: a mentalidade tem um ritmo histórico muito mais lento que os fatos sociais. mas apenas recordando um fato real e justo. Pelo contrário. quando o imperador Constantino autorizou a Igreja a receber legados. o desaparecimento do império. que na verdade foi 25 i! I I! universalista fazia da Igreja cristã a única herdeira possível do Império Romano. Desde 313. impedia a divisão ou alienação do patrimônio eclesiástico. Igualmente importante para se entender a clericalização é considerar o crescente poder econômico da Igreja. no século IV teria sido transferido pará o papa o poder imperial sobre Roma.24 Hilário Franco Jr. quando aquele imperador decretara a liberdade de culto aos cristãos. aquelas transformações estiveram ligadas ao cristianismo. colonos e escravos. Por um lado. Por outro lado. A chegada dos germânicos não alterou no essencial esse estado de coisas. que não é deste mundo material. porque as doações não deixavam de crescer: Santo Agostinho recomendava mesmo que todo cristão ao fazer testamento deixasse à Igreja "a parte de um filho".. estima-se. que aos poucos ia se impondo como norma. formando uma sociedade autônoma e completa. apesar dos obstáculos colocados pelo Estado. alargou o campo de sua atuação: por exemplo. E verdade que ela se considerava uma sociedade sobrenatural. antes mesmo da queda do império. Segundo este. Esta sociedade se expandia dentro da sociedade romana. pondo fim às perse-. os bispos iam substituindo nas cidades a magistratura civil. Na verdade. o celibato clerical. De qualquer forma. Mas exatamente por isso. daí reconhecer os direitos do Estado: "dai a César o que é de César. Perfeitamente integrada na economia agrícola da época. portanto. o próprio Estado revelou-se o mais pródigo doador. a Deus o que é de Deus". no século V. o Feudalismo Doação de Constantino. que assim aumentava constantemente. a quantidade de seus bens cresceu rapidamente. da face política da sociedade romano-cristã. Desde seus primeiros tempos. No século IX ela detinha. acabando por se identificar com ela quando em fins do século IV o cristianismo foi reconhecido como religião oficial do Estado. a maior proprietária fundiária depois do próprio Estado. ela recebia donativos dos fiéis. Tinha. uma terça parte das terras cultiváveis da Europa católica. a Igreja estava bem enraizada nele.

Combater aquela presença era portanto uma necessidade. exteriores. servindo-O." nova concepção do papel do homem no unii-: ".uma concepção fatalista. foi se desenvolvendo um ritualismo (isto é.significativamente. Cada vez mais. Firmava-se assim uma nova aliança. no centro de um combate a que nãopoderia fugir.l'r:"1. por ter permanecido restrito a uma elite urbana e intelectual e ter com o tempo mostrado os limites de sua ação efetiva. excessiva preocupação com os aspectos formais. uma nova visão do homem sobre si mesmo. uma nova autoconcepção do homem. que mantinha o homem na ilusão de uma falsa sabedoria que o afastava da Verdade. por outro lado. naturalmente. Mais ainda. o cristianismo passava a responder melhor aos anseios espirituais de um número crescente de pessoas. 'I r--] o Feudalismo havia a possibilidade de levantar esse véu e se aproximar de Deus. aqui. Colocado entre as forças do Bem e do Mal. Disso tudo decorria. Um mundo que ganharia . ~i lfi! il ) fl muito mais sua expressão do que sua causa. o que criara condições para O' desenvolvimento do racionalismo. o homem viu-se diante de um Deus distante e onipotente e de um Demônio sempre presente e tentador. Contudo. a partir do século IH e mais claramente do IV. "desgraçados daqueles que amam os Vossos sinais em vez de Vos amar aVós mesmo". O surgimento e o sucesso do cristianismo naquele momento refletiam tal estado de espírito e ao mesmo tempo reforçavam-no. sócio-político-econômicos que tinham acompanhado seu desenvolvimento acelerou seu processo de transformação. A natureza passava a ser um véu entre o homem e Deus: como disse Santo Agostinho.: . '. No paganismo clássico ele estivera diante de deuses sem o sentido do Bem e do Mal. Com o cristianismo. I Ii j ! j ! ! I ~ t j . o homem jogava seu destino. Para ::lÓC. pela qual a condi-----' 27 'i.. a presença do demônio na vida cotidiana era para o homem da' época uma realidade palpável. A decadência dos quadros. Um dos elementos centrais da mentalidade clássica Iora a harmonia do homem com a natureza. da religião) que levou a época carolíngia a ser chamada de "civilização da liturgia" . Ou seja. r . Em função disso e do crescente clericalismo.:.. mesmo no pag ••nismo . Desde o século III desenvolvia-se . o racionaEsmo foi sendo superado.~·."'.26 ~ Hilário Franco Ir. basta lembrar três daquelas mutações 'r. A razão passava a ser vista como um instrumento diabólico.ec:l:idü apenas através de Deus. ' Tal relação de reciprocidade entre Deus e o homem colocava este numa posição diversa da que tivera anteriormente. firmava-se aos poucos uma mentalidade simbólica que via no mundo um grande enigma decifrável somente pela fé. um grande teste a que o homem era submetido e cujo resultado definia o destino de sua Vida Eterna. Porém.iS: um novo relacionamento homem-Deus. divindades próximas ao homem e que se diferenciavam dele apenas pela imortalidade. Assim. cujos problemas não eram solucionados pelo frio e ultrapassado racionalismo greco-romano. pela qual o homem através de determinadas ações ganharia as recompensas celestiais.

na busca de clareza. Ou melhor. ção humana estava nas mãos de Deus e não da sociedade. hege- . a revelação decorrente da conversão abriria até aos mais humildes e incultos a compreensão da vida e do mundo. Naturalmente. definidor . Assim. Assim.28 Hüârio Franco Ir. contrapunhase a medieval. os diversos elementos derivados do processo de formação que examinamos no capítulo anterior estavam reunidos de forma indissolúvel e compacta num todo histórico chamado Feudalismo. as estruturas feudais já se encontravam montadas.e não apenas externo e de sustentação . já no século I São Paulo afirmara que "pela graça de Deus sou o que sou". Prenunciando essa tendência. Economicamente.do Feudalismo. o homem devia colocar-se nas mãos de Deus: a conversão ao cristianismo lhe daria as qualidades morais anteriormente vistas como exclusividade dos seguidores da cultura clássica. tentaremos desmontar aquele bloco e examinar partes dele. Portanto. e a Ele estava dedicada: à síntese clássica "o homem é a medida de todas as coisas". a existência do homem devia-se a Deus. e valorizar algum mais que outros ou procurar entender o conjunto através de uma ou outra parte isolada seria falsear o todo. não há qualquer hierarquia entre eles. "Deus 6 a medida de t(x~as2S coisas" A ESTRUTURA lr Por volta de fins do século IX ou princípios do X. Porém.' é preferível falarmos em estrutura (no singular) para indicar o caráter coeso daqueles ele-' mentos e para marcar bem seu caráter constitutivo visceral. o Feudalismo estava centrado na produção do setor primário (agricultura).

trabalho inadequado ou insuficiente) provocasse períodos de escassez. manteiga. de onde eram importadas mercadorias de luxo consumi das pela aristocracia laica e clerical. ainda que de início timidamente. desde meados do século XI a zona rural foi-se integrando nos circuitos comerciais. chumbo. tecidos. mas não exclusivamente. instrumentos agrícolas. As matérias-primas a serem transformadas eram quase sempre produzidas no local. ainda que de má qualidade e em pequena quantidade. não se deixava de produzi-los. Devemos abandonar a imagem. carvão). mantinha mesmo certo porte. utensílios domésticos. o próprio comportamento dos indivíduos e os valores socialmente aceitos estavam intimamente ligados a esse caráter agrícola. o Feudalismo tráveis apenas em alguns .caso do sal. Mais ainda. Portanto. direta ou indiretamente. Assim. Era claramente uma sociedade agrícola pelo fato de essa atividade envolver a grande maioria da população e por quase todos. I i mônico em relação ao secundário (indústria) e ao terciário (comércio e serviços). Mais do que esse comércio inter-regional. havia circuitos comerciais para isso. pragas) ou humano (guerras. sempre assustados com a possibilidade da fome. armas etc. comida e umas poucas moedas. por exemplo). com os camponeses levando à feira seu pequeno excedente produtivo e podendo. carnes defumadas. vegetal (fibras têxteis. isolada e auto-suficiente. Assim. Havia. ao contrário do que os historiadores pensavam até há algum tempo. Em suma. couro. É verdade que a pequena produtividade fazia com que qualquer acidente natural (chuvas em excesso ou em falta. apesar de irregular e de intensidade muito variável conforme as regiões. 31 I ! . carne. com os mais hábeis sendo utilizados nas tarefas que requeriam mais cuidado e qualidade (armas. era uma agricultura apenas tendente à subsistência. Mas quando era preciso recorrer à produção de outras regiões. exagerada. móveis. Oriente. de uma agricultura feudal fechada. cada senhorio procurava suprir suas necessidades. ainda. produzindo para seu consumo tudo que ali fosse possível. por exemplo . as trocas locais desempenhavam papel de primeira ordem. Os trabalhadores eram os camponeses. fossem de origem animal (leite. um comércio a longa distância que ligava o Ocidente ao.Jij Hilário Franco Jr.eram objeto de trocas comerciais constantes e importantes. mas encon- . ossos). Desta forma. madeira) ou mineral (ferro. Certas mercadorias imprescindíveis em todos os locais. De qualquer forma. isso não significa que outras atividades econômicas não fossem praticadas e não tivessem mesmo um peso considerável. lã. O comércio. para não se depender de outros locais. viverem em função dela. quase todo senhorio tinha sua própria produção artesanal. por sua vez. comprar algum artesanato urbano. cada grande domínio agrícola procurava produzir tudo que fosse preciso na vida cotidiana: queijo. uma economia agrária. Mesmo em solos pouco favoráveis a determinados cultivos. Além de artesãos ambulantes que iam de região em região manufaturando a matéria-prima local em troca de casa.

Os lotes (mansi) camponeses ocupavam no conjunto de 40 a 500/0 do senhorio. vinham de fato materializar uma generosidade permanente que. Como já vimos. o que legitimava suas exigências e fazia convergir para sua casa todo um sistema de oferendas ritualizadas" . as chamadas banalidades pelo uso do moinho. com 30 ou 40% da área total do senhorio. levavam todo senhor a abrir seus celeiros aos pobres. as transformações pelas quais passava o escravo da Antiguidade e o trabalhador livre acabaram por criar um tipo intermediário. Como os chefesbantos. do forno e do lagar monopolizados pelo senhor. Cada família cultivava o seu lote. O servo devia. no invisível. "tais valores ocupavam um lugar determinante nos procedimentos de reciprocidade e de redistribuição. Aquela área era utilizada para pastagem dos animais.32 Hilário Franco Ir. para a coleta de frutos e .um propiciador de fertilidade. Todo o resultado desse trabalho cabia ao senhor. um pequeno valor anual para marcar sua . o senhorio. fazia fluir das mãos dos poderosos os princípios da fertilidade e da abundância. o Feudalismo mente a seu filho (mão-morta). como os chefes de Ruanda. sem qualquer tipo de pagamento ao produtor. ocupando 20 ou 30% dele. um presente ao senhor para poder transmitir o lote hereditaria- J. o colonus romano. e não simplesmente um explorador. isto é. Da mesma forma. era cultivada alguns dias por semana pelos servos em função da obrigação conhecida por corvéia. dele tirando sua subsistência e pagando ao senhor pelo usufruto da terra uma taxa fixa conhecida por censo.direito exclusivo do senhor .a extração de madeira e . O elemento central. ademais. estratificada em grupos de relativa 33 ~ ! Mas ter sido essencialmente agrário não diferencia o Feudalismo das demais sociedades préindustriais. reside no tipo de mão-de-obra feudal. baldios) exploradas tanto pelo senhor (através de seus servidores domésticos) quanto pelos camponeses. lembrando a forte conctação religiosa que ela possuía. o Feudalismo era uma sociedade de ordens. aqui. pagava também". que fazia o senhor ser visto também corno um patrono. Socialmente. E com a profunda e total interligação servo-senhorio. uma taxa para se casar com pessoa de outra condição social ou submetida a outro senhor (formariage). De fato. condição de dependência (chevage). As obrigações morais que. Como todos os habitantes do senhorio. uma parte do que produzia (talha). todas trabalhadas e exploradas (ainda que não exclusivamente) pelos servos. eram as terras comunais (pastos. o latifúndio romano acabou com o decorrer dos séculos por gerar a típica unidade de produção feudal. os senhorios estavam divididos em três partes. chegamos ao que há de mais essencial no componente econômico do Feudalismo.. Como observou Georges Duby. em tempo de fome. é preciso colocar essa relação no seu devido lugar. A terceira parte do senhorio. os da Idade Média européia aparecem em primeiro lugar como dispensa dores da fecundidade. antepassado direto do servo feudal. j I I I i I .para ~ caça. bosques. A reserva senhorial. Contudo.

clerical elaboradora do modelo. Portanto.que geravam tensões. Os servos por sua vez têm outra condição. frente à hierarquia. Adalberon de Laon. que deve ser mantida pela moral e pelo poder. Desigualdade e portanto obediência. Ou seja. assim deve ser também na Cidade do Homem. a ideologia das três ordens funcionava para a elite. O senhor é alimentado pelo servo que ele diz alimentar. outros combatem e outros trabalham. a concórdia: Da multi- 35 '. mas atenuada pela idéia de todos os cristãos terem um só coração. que é imutável. De fato. Daí a necessidade de um reacomodamento dos qua- J . uma hierarquia de méritos. o curso de sua vida e seus inumeráveis trabalhos? Fornecer a todos alimento e vestimenta: eis a função do servo. Assim. organização justa e boa do universo. assim também nós. A lei humana impõe duas condições: o nobre e o servo não estão submetidos ao mesmo regime. Esta raça de infelizes não tem nada sem sofrimento. Por isso. quando o Feudalismo provocava transformações sociais . feita à imagem do Criador também deve ser una e trina. Como toda construção ideológica. Eles defendem os poderosos e os fracos. investido com responsabilidades específicas. e sobretudo para a elite. a humanidade. cada membro tendo uma função. um sonho. ele é de começo do século XI. Todos os três formam um conjunto e não se separam: a obra de uns permite o trabalho dos outros dois e cada qual por sua vez presta seu apoio aos outros" . aquele modelo ideológico pretendia ser estabilizador. do estabelecimento de um sistema estrita e definitivamente hierarquizado. Quando um trabalho se apresenta e é preciso encher a despensa. conquanto somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros. "o domínio da fé é uno. como um sonho e também como uma arma para manter seus interesses. Quem poderia reconstituir o esforço dos servos. um projeto de agir sobre o real. Não por acaso. o Feudalismo dros sociais. ardo expressava certo imobilismo social visto como garantia de preservação da Ordem universal. tendo porém diferentes dons segundo a graça que nos foi dada". mas há um triplo estatuto na Ordem. com. esse esquema tripartido não era uma descrição do real. protegem todo mundo. Nenhum homem livre pode viver sem eles. Assim. A casa de Deus que parece una é portanto tripla: uns rezam. mas uma representação mental. mas nem todos os membros têm a mesma função. Como na Cidade de Deus existe a desigualdade. fixidez. total sujeição do campesinato . O próprio uso do termo ardo (ordem) é significativo no seu duplo sentido: corpo social isolado dos demais. a ordem terrestre baseia-se na ordem celeste. Os guerreiros são protetores das igrejas. Como dissera São' Paulo. "num só corpo temos muitos membros.34 Hilârio Franco Jr. diante das forças do Mal (entenda-se transformações e contestações sociais) que ameaçavam o mundo.aparecimento dos cavaleiros. inclusive a si próprios. Não há fim ao lamento e às lágrimas dos servos. o rei e os bispos parecem se colocar sob a dependência de seus servos. Nas palavras de um bispo do século XI. formarem um só corpo.

Outros lutando para proteger a sociedade . que não herdavam as terras do pai devido à regra de primogenitura que reservava tudo ao filho mais velho . elaborando o código de comportamento moral. Acompanhando a tendência da época. Portanto. De um lado. Assim. armados e sustentados por um poderoso senhor. De fato. não se negava a desigualdade. O segundo nível da camada dos bellatores era formado por elementos de origem humilde. a nobreza. ~ . isto é. nas terras recebidas. por se apossar 37 :iI li :1 li plicidade saía a unidade. Portanto.36 Hilârio Franco Ir. Esta norma era. atraindo muitas vezes indivíduos mais em função de seu patrimônio do que da função sacerdotal. em última análise. Outros ainda produzindo. a fadiga. húngaros. as aristocracias clerical e laica compunham um grupo com a mesma origem familiar e os mesmos interesses. a Cidade de Deus. tinham dupla origem. que geralmente lhes cedia uma certa extensão de terra com os correspondentes trabalhadores.cristã dos infiéis (muçulmanos) e dos pagãos (vikings. detentores de terras e do monopólio da violência. - . Assim. ao contrário das demais camadas so- . fonte de prestígio e poder. O estrato mais alto dos bellatores era constituído por indivíduos pertencentes a antigas linhagens. importantes personagens da época carolíngia. Assim. mas ela era justificada através da reciprocidade. especialistas da oração. Os guerreiros. ao mesmo tempo. E nela o clero requisitava seus elementos. da troca equilibrada de serviços. para o sustento de todos: os trabalhadores ou laboratores. De outro. o clero funcionava como uma forma de colocação dos filhos secundogênitos da nobreza. obrigava o clero a buscar seus componentes no grupo social mais próximo. Muitas vezes essas famílias remontavam a grandes servidores. a força e a fraqueza do clero.esforço. o sofrimento como forma de penitência. Só eles sabiam interpretar corretamente o mundo dos homens. Os clérigos. ela impedia a divisão do patrimônio eclesiástico. o Feudalismo ciais. a verdadeira nobreza feudal era um pequeno grupo de. pessoas com descendentes importantes e conhecidos. ~ . os oratores estavam naturalmente muito próximos da aristocracia laica também detentora de terras. Uns rezando para afastar as forças do Mal e trazer os favores divinos para o homem: os clérigos ou oratores na linguagem da época. desempenhavam papel central por deterem o monopólio do sagrado. eslavos): os guerreiros ou bellatores. termo que expressava não só o trabalho em si mas também o . eles exerciam poderoso controle sobre a conduta dos homens. visto como um conjunto de simbolismos que refletia o mundo celeste. Assim surgiram os cavaleiros. Só através deles os homens se aproximavam de Deus. de ação social e de valores culturais. da força militar. As esmolas e doações recebidas pela Igreja faziam do clero um grupo possuidor de extensos domínios fundiários e portanto de poder econômico e político. os cavaleiros acabaram. Portanto. a dor corporal trocada pelo pecado. O clero não se auto-reproduzia em virtude do celibato.

passaram desde então a se fundir. Contudo. que com sua tendênciaà autarcia tornavam desinteressante a um senhor fiscalizar e alimentar bandos de escravos geralmente pouco produtivos. podendo deixar a terra quando quisesse. os servi casati da época carolíngia (séculos VIII-IX). sob modalidades diversas. não é fácil acompanhar a passagem da escravidão para a servidão. mas em troca de obrigações e limitações relativamente leves. o principal tipo de trabalhador no Feudalismo eram os servos. que apesar de ser grande proprietária de escravos e considerar a escravidão um meio de expiação do pecado original. De um lado. Seu título. desde camponeses livres até escravos.38 Hilário Franco Jr. com a atrofia da economia mercantil era mais difícil recorrer-se à mão-de-obra escrava (caso em que o trabalhador é mercadoria) ou assalariada (caso em que a força de trabalho é mercadoria). sobretudo como servos. conhecidas por alôdios. Desta forma. colonos e demais ho- 39 de poderes políticos e por ter domínio sobre os camponeses. eram cultivadas pelo proprietário e sua família. Os escravos. admitia-os aos sacramentos e assim recuperava sua dignidade humana. seu estilo de vida tendia a imitar o da velha nobreza a quem servia. à Igreja. Os cada vez mais freqüentes casamentos entre pessoas dos dois níveis da aristocracia laica levavam à fusão entre elas. miles ("cavaleiro"). mas sempre acompanhando o caráter cada vez mais agrário da sociedade ocidental. produtores dependentes. ainda numericamente' importantes até o século VIII. o Feudalismo um lote de terra. Assim. Ela se deu lentamente. isso se deveu às transformações econômicas da época. A servidão tinha uma dupla origem. Em parte. A superioridade da técnica de combate a cavalo aumentava seu prestígio e poder. escravos que haviam recebido uma casa e terra para cultivar. camponês livre que recebera um lote de terra de um senhor. Sem dúvida. Esta foi uma das origens do vilão. foi com o tempo se enobrecendo graças à Igreja. a partir do século XI. os escravos jamais desapareceram na época feudal. fosse em virtude de doações à Igreja. De outro. Em parte. De fato. os alódiosdesapareceram em grande número. Contudo. em fins do século XII na França desapareceram as diferenças entre nobres e cavaleiros. apresentava-se como solução natural a mão-de-obra servil. De qualquer forma. As pequenas propriedades rurais não ligadas a um grande domínio. mantiveram-se livres mas trabalhando num grande domínio. Assim. apesar da perda da terra. Seus antigos proprietários ou entraram então em algum tipo de dependência ou. de endividamento ou de pressões dos aristocratas. mantendo mesmo certa importância nas regiões meridionais. isto é. porém. sem liberdade de locomoção (de que goza um assalariado). mas que escapavam à arbitrariedade de um senhor (que atingia o escravo). na massa de trabalhadores dependentes detentores de ~ . com variações regionais. Os trabalhadores apresentavam uma grande diversidade de condições.

eram "homens de corpo" de um senhor. espontaneamente ou não. e despossuídos. estima-se. com a crescente importância da terra na vida econômico-social. No segundo tipo. diversas obrigações em serviço. forma de os camponeses resistirem a abusos aristocráticos. cujos titulares deixavam cada vez mais de representar o poder monárquico e passavam a agir de forma independente. Surgiram então grandes principados territoriais. A tendência de parcelamento da soberania continuava a se manifestar no interior desses principados. através do contrato feudo-vassálico. estando ligados a uma terra que não podiam abandonar. os camponeses se organizavam para empreenderem conjunto certas tarefas (arar um campo. Portanto.40 Hilário Franco Ir. Os segundos constituíam a servidão real. Assim. e podiam ser dados. vendidos ou trocados. Em ambos os casos a condição servil era transmitida hereditariamente. Surgiram assim desde princípios do século XI os chamados senhorios banais. ao poder de grandes proprietários rurais. em produtos e em dinheiro devidas pelos trabalhadores aos seus senhores. tributar. primeiro por linha feminina. os detentores de terra passaram a exercer nos seus senhorios poderes políticos. As relações verticais -' . geralmente dependentes (laboratores). julgar e punir seus habitantes. Desta forma. como já vimos. foi expressado e acelerado pelo desaparecimento do Império Carolíngio. O terceiro tipo de relação social constituía-se por sua vez num elemento central do Feudalismo. para privatizar as terras comunais). submetidos. Ele era a razão de ser do primeiro. Os primeiros constituíam a servidão pessoal. Politicamente. com a decadência do Império Carolíngio e a apropriação de poderes régios por seus representantes. e a partir do século XII por linha masculina. No primeiro tipo a relação se dava. ocorria uma fragmentação do poder central. eram possíveis três tipos de relações sociais: duas horizontais (uma intracamada dominante e outra intracamada dominada) e uma vertical (intercamadas). desmatar uma área) ou resistir a pressões senhoriais (por exemplo. como veremos algumas páginas adiante. com a fraqueza da própria concepção de Estado e com o desenvolvimento de particularismos regionais (influências germânicas). Ou melhor. isto é. com amplas áreas escapando ao poder ducal ou condal e passando ao domí- 41 !! ! ! 'd ··1 mens livres. de 30 a 50% do que eles produziam eram transferidos para as mãos da aristocracia laica e clerical. para se pensar a mecânica das relações sociais. ducados e condados. e do segundo. a quem pertenciam "da sola dos pés ao alto da cabeça". na verdade forma de a aristocracia dividir o produto do trabalho camponês. podemos considerar a existência de duas camadas básicas: senhores de terra e poder político (oratores e bellatores). nos quais os senhores tinham poder de bannum. de mandar. o Feudalismo implicavam. O processo político centrífugo que vinha desde os últimos tempos de Roma. uma debilidade do poder público que resultava na transferência das atribuições do Estado para mãos de particulares.

em termos práticos. Os atos. o mapa político da Europa Ocidental pulverizou-se numa infinidade de pequenos territórios. Como ocorria no Antigo Testamento. glâdio e mesmo coroa. diante da fraqueza do Estado e da necessidade de segurança.l I . com direitos e obrigações recíprocos. e vivendo daquilo que estes produziam. verdadeiros micro-Estados. podendo com a decadência do Feudalismo assumir novamente o papel de soberano. Dentro do mesmo espírito. ele podia curar certas doenças apenas pelo contato de suas mãos. existia tanto no seio da aristocracia quanto no do campesinato. continuava a ser o soberano. através de inúmeros intermediários. as relações dentro das famílias. os amigos e parentes da vítima faziam justiça pelas próprias mãos. pelo velho costume germânico do wergeld. A relação com estes era unilateral. e de forma muito limitada. considerava-se a morte violenta de uma pessoa como atingindo todo -o grupo. ele era único: se os grandes senhores feudais imitaram o uso de insígnias reais. Sobretudo. das linhagens. Assim.42 Hilário Franco Jr. o rei passava a ter um duplo e contraditório caráter. pois o soberano tinha caráter sagrado que originário do Antigo Oriente passara para o Império Romano e fora reforçado pelo cristianismo. o rei não desapareceu com o Feudalismo. por ser soberano. Portanto. "o preço do homem". Contudo. "rei por graça de Deus" . Este forte sentimento grupal. Por outro lado. grupos cuja solidariedade interior podia melhor proteger os indivíduos em relação ao exterior. Por exemplo. Ele era Rex Dei Gratia. de um indivíduo envolviam todos os seus parentes. seus próprios vassalos e os vassalos destes. Que papel cabia então ao poder monárquico? Em função das transformações que ocorriam. sua sacralidade era confirmada pela unção. pondo em ação a faide. Estreitaram-se assim os laços de sangue. o Feudalismo feudal como os demais. mas se adaptou às novas condições tornando-se suserano. castelões). manteve uma fração de seu poder anterior. exercendo-o apenas. judiciais.1 " t iJ \"1 ti l! i i nio efetivo de seus servidores (viscondes. contudo. Por um lado. mandando efetivamente apenas nos seus senhorios. o que naturalmente não excluía desentendimentos internos. a ter teoricamente poderes bastante extensos sobre seus súditos. não havendo instituições públicas encarregadas da punição do agressor. a falta de um indivíduo comprometia toda sua família e devia ser resgatada por um pagamento à família da pessoa ofendida ou prejudicada. a "vingança dos parentes". ativos ou passivos. o rei era suserano. Ou seja. diretas. os laços de sangue eram claramente 43 ! i ~ ! í j I ~ ij ~! ~i :! . como suserano ele não tinha poder político-direto sobre o conjunto da população. como anel. Assim. Assim. Institucionalmente. Em suma. militares e fiscais. jamais algum deles teve a pretensão de ser ungido e de possuir caráter sagrado. desenvolviam-se as relações pessoais. Isto implicava uma relação bilateral entre ele e seus vassalos. o rei era um senhor \. sem intermediação do Estado. por ser suserano. unidades administrativas. pelo rito de o bispo passar-lhe óleos santos.

Este último tipo. de inferioridade do vassalo. isto é. Mais ainda. De fato. como já vimos. quando pela homenagem alguém se tornava "moço" (vassalus) de um "ancião" (senior). a relação nobre-camponês. claro indicativo de atitude entre pessoas iguais. Portanto. outro sustentar. que através de palavras "se entrega" a ele. estabelecia. pela qual um indivíduo (o futuro vassalo) se ajoelhava diante de outro (que se tornava o senhor feudal). Por fim. precisa de terra e camponeses. Muitas vezes. as três fases do ritual formavam um todo. para o juramento e sobretudo para o beijo. De fato. o Feudalismo cárga simbólica.) simbolizador do feudo então concedido. complexos vínculos econômicos. outros ligando homens livres e dependentes. Ou seja. filho simbólico. que expressava simbolicamente a relação vassalo-senhor feudal baseada na desigualdade-igualdade-reciprocidade. como os laços familiares não bastavam. que tem suas mãos envolvidas. O vassalo. 45 1 . Como observou Marc Bloch ao estudar a importância dos laços homem a homem. uns ligando homens livres entre si. Este era criado por três atos. era o juramento de fidelidade: depois de se pôr em pé. O segundo ato. o vassalo jurava sobre a Bíblia ou relíquias de santos. o senhor era um misto de protetor' e propiciador.44 Hilârio Franco Ir. um conjunto coerente. O terceiro ato era o da investidura. um devia servir. Por sua vez. o dom da autoentrega (homenagem) e da fidelidade (juramento) tinham como contradom a concessão do feudo (investidura): selàva-se o pacto. a relação entre nobres. estabelecia-se um pseudoparentesco entre filho e pai. precisa de guerreiros. o senhor feudal. baseada na igualdade. logo a seguir. O primeiro ato era a homenagem. i insuficientes para as necessidades sociais: daí a formação de vínculos fora do parentesco. mas numa organização hierárquica" . pois ambos se encontram de pé. devia haver respeito e· fidelidade. beijo trocado entre ambos. os laços familiares nas relações sociais e a complementaridade das funções sociais. na homenagem transparece uma relação de dependência. o contrato feudo-vassálico estava bem de acordo com dois elementos importantes da época. "mutualidade. num gesto de desamparo e submissão. fundamentavase no contrato feudo-vassálico. como nas relações paternais-filiais biológicas. pai simbólico. muito bem estudada por Jacques Le Goff. geralmente mais rico e experiente. Como ele mostrou. religiosos e políticos. geralmente mais jovem e vigoroso. na boca. criaram-se laços artificiais. a reciprocidade. especialmente na França. pelo qual o senhor entregava ao vassalo um objeto (ramo. que se encontra ajoelhado diante do senhor. Mas o segundo ato altera a relação. Entre eles. "a força da linhagem foi um dos elementos essenciais da sociedade feudal. colocava suas mãos nas dele e se reconhecia como "seu homem". punhado de terra etc. baseada na desigualdade. Esta cerimônia feudo-vassálica possuía forte 1J . frente a frente. realizados diante de testemunhas mas poucas vezes colocados por escrito. (contudo) a sua fraqueza relativa explica que o feudalismo tenha existido". a fidelidade era selada pelo osculum.

em todos estes domínios. o auxilium implicava ajuda econômica em quatro casos: pagamento de resgate do senhor se ele fosse aprisionado. possível. Por parte do senhor havia as mesmas obrigações negativas. Sustentar o vassalo. enquanto em outras (como a. e como positivas a proteção e o sustento. Proteger o vassalo implicava defendê-Io de seus inimigos. Importa. tal como o vassalo que fosse visto faltar aos seus deveres.termo surgido em fins do século IX e vulgarizado no XI . para que não cause prejuízo aos bens do seu senhor. O auxilium era o serviço militar prestado" sempre que requisitado pelo senhor. obrigações neJ . significava ou alojâ-lo e alimentá-Ia no castelo senhorial. opinar sobre assuntos propostos pelo senhor. Honesto para que não prejudique os direitos de justiça do seu senhor ou outras prerrogativas que interessem à honra a que pode pretender. desde que não ultrapassasse certo número de dias anuais. Na essência. para que não torne difícil ao seu senhor o bem que este poderia facilmente fazer e para que não torne impossível o que teria sido possível ao seu senhor. Se não o fizer.equivalia ao velho beneficium carolíngio. que sob os seis aspectos que acabam de ser indicados. fosse judicialmente. Portanto. fácil. seguro. honesto. se quiser parecer digno do seu benefício e realizar a fidelidade que jurou. o feudo . Caso fosse preciso ir além desse limite. e sobretudo participar algumas vezes por ano no tribunal presidido por ele. é preciso fazer o bem. geralmente quarenta. para que não prejudique o seu senhor divulgando os seus segredos ou dos castelos que garantem sua segurança. Mas não é assim que ele merece o seu feudo. fosse militarmente. natu- 47 "1 (Duby) Enfim. para que não cause qualquer prejuízo ao corpo do seu senhor. Naquela sociedade agrícola. da partida do senhor para uma cruzada. Seguro. O consilium significava dar conselhos. Útil. forneça fielmente ao seu senhor conselho (consilium) e ajuda tauxilium). Fácil e possível. seria ele culpado de perfídia e de perjúrio". portanto. por parte dos vassalos. pois não basta abster-se de fazer mal. ou conceder-lhe um feudo do qual ele tiraria sua subsistência. Em algumas regiões (como a Inglaterra) a ajuda para a cruzada não era exigida. útil. o Feudalismo gativas (não prejudica! seu senhor de maneira alguma) e positivas iauxilium e consilium). do casamento da filha mais velha do senhor. fazer o mesmo àquele que lhe jurou fidelidade. O senhor deve igualmente.46 Hilário Franco Ir. Ao lado do aspecto militar. será com razão acusado de má fé. palavra que aliás continuou a ser usada ainda por bastante tempo (como no texto de Fulbert de Chartres citado acima).Provença) havia exigências complementares. da cerimônia em que se armava cavaleiro o primogênito do senhor. o senhor deveria remunerar complementarmente seus vassalos. quais eram as obrigações recíprocas? Elas foram definidas em princípios do século XI pelo bispo Fulbert de Chartres: "Aquele que jura fidelidade ao seu senhor deve ter sempre presente na memória seis palavras: são e salvo. pela ação ou por simples consentimento. São e salvo.

I!j 'J i i j 1J . corno cobrar pedágio numa ponte. a terra enfeudada retomava ao senhor. Esta regra de primogenitura excluía. o pacto seria vitalício. Contudo. correspondente a um ano de rendimento do feudo. pois o vassalo gozava apenas do usufruto temporário daquele bem. Disso decorria a quebra da fidelidade e o confisco do feudo. apossar-se de vários feudos e aos poucos recuperar a força do poder rnonârquico. como suserano (isto é. por exemplo. os demais filhos e as mulheres da sucessão feudal. o senhor. a morte de uma das partes levava à o Feudalismo necessidade de se renovar o contrato feudo-vassálico.. assim. o interesse do novo senhor em manter os vassalos que tinham sido de seu pai e o interesse dos filhos dos vassalos falecidos em continuarem ligados a um senhor foram aos poucos criando uma tendência à hereditariedade do feudo. que podia conservá-Ia ou concedê-Ia a outrem. Em função disso. tida pelo falecido. i " l i " . Vivia. De toda forma. Portanto. numa estrada ou num rio. o feudo era indiviso na sua transmissão hereditária. como seu tutor. Por outro lado. na França desde o século XII. Contudo. Podia ser um certo cargo remunerado: conhece-se mesmo "feudos de cozinha". pois. fosse em moeda.48 Hilário Franco Jr. nos quais o cozinheiro detinha seu ofício e a correspondente remuneração como feudo. Nada disso ocorrendo. o contrato íeudo-vassâlico implicava direitos e obrigações recíprocos. indicava-lhe um marido que pudesse cumprir as obrigações feudais. para enfeudá-lo na terra anteriormente mano. Essa preocupação do senhor em não ter menores de idade ou mulheres à frente dos feudos que concedera. pelo menos na França. cabeças de gado ou sacas de trigo. a inexistência dessa regra juridica na Alemanha obrigava o rei a reenfeudar as terras que voltavam para ele pela morte de vassalos sem herdeiros. exigia o relevium. com cada vassalo entregando partes do feudo 49 : . das prestações em serviço. Esta norma permitiria ao rei. Mas o feudo não era necessariamente um bem Imóvel. englobando um ou mais senhorios. em produtos e em dinheiro devidas pelos camponeses daquela terra recebida como feudo. ralmente O feudo era quase sempre uma certa extensão de terra. o senhor. portanto. pois sendo o vassalo um homem livre pertencente à camada dos guerreiros. terra com camponeses'. Podia ser uma determinada quantia paga periodicamente ao vassalo. ' Ainda assim. o feudo só poderia ser transmitido inteiro ao filho mais velho do falecido. 'a monarquia permaneceu fraca e o país não pôde centralizar-se politicamente na Idade Média. Foi o que ocorreu. senhor dos senhores). rompendo-se apenas pela morte de uma das partes. de maneira que o rompimento do acordo por uma das partes era considerado felonia ("traição"). no caso de haver apenas uma mulher como herdeira. caso existisse um herdeiro. devia-se às suas necessidades militares. Caso o vassalo não tivesse herdeiro. Por outro lado. podendo ser um direito. taxa primitivamente arbitrária e desde o século XlI. O feudo então retomava ao senhor ou a seu herdeiro. Era. nãc se dedicava a tarefas produtivas. De qualquer forma. mas podia ser indefinidamente subenfeudado.

. R. no Ocidente. D. Q. ao mesmo tempo. Tentemos exemplificar com um caso hipotético. os indivíduosl K. \: 11 "I J ' [ ~I lj' recebido e tendo assim seus próprios vassalos. E. precisando de mais guerreiros. N. o estribo "tornava solidários homem e cavalo.. O indivíduo A. podiam agir da mesma forma. M. N. Q. uma unidade de combate eficaz. por sua vez. Estes. constituiu cinco feudos. i \ l . M.:.poderia se manter firme sobre o cavalo. Basicamente a mesma coisa foi feita por B.) Contudo. S) foram remunerados com um senhorio cada. : .com sua pesada armadura. Apenas na hipótese de A morrer sem herdeiros (e assim seus 1. A precisava de nove guerreiros que o acompanhassem quando o serviço militar fosse requisitado pelo conde. o Feudalismo baseava-se na superioridade de um guerreiro altamente especializado. O resultado desse constante processo de subenfeudação era criar novos degraus na hierarquia. Por este exemplo. Prevalecia a regra "o vassalo do meu vassalo não é meu vassalo" . o cavaleiro . era a institucionalização das relações pesso~is refletindo e agravando a pulverização do poder que examinamos páginas atrás. S. a relação direta era apenas com o indivíduo colocado um degrau acima na hierarquia e com o outro um degrau abaixo. por sua vez. para utilizar tal tecnologia militar. R. P. mas não a X. o Feudalismo vinte senhorios retornariam a X).50 Hilârio Franco Jr. entregues aos indivíduos A. com uma mão segurando as rédeas do animal e o escudo e com a outra empunhando a lança . A subsistência deles estava assim garantida graças ao produto do trabalho camponês em cada um daqueles senhorios. C. animais de que cada família camponesanão contava com mais de dois. (Lynn White Jr. C. Esses guerreiros (K. Importante inovação: somente a partir de então. no século VIII. S se tornariam vassalos diretos de X. o cavaleiro. era preciso recursos econômicos abundantes para adquiriras valiosas armas e o caro. Constituía-se assim uma cadeia de relações vassálicas. O custo desse equipamento equivalia a 22 bois. mantinha onze senhorios. B. Militarmente. O.. E. Para cumprir sua obrigação. cada um recebeu como feudo vinte senhorios. A Antiguidade tinha imaginado o centauro. P. vassalo de X e senhor feudal de K. Esta superioridade vinha se firmando aos poucos e parece ter-se concretizado.l . tornando-se também um senhor feudal. em que quase todos os membros da aristocracia eram ao mesmo tempo senhor e vassalo. Independentemente de quem fosse seu senhor. O. o indivíduo K poderia ceder parte de seu feudo a Y. L. Contudo. Enfim. que detinha seu condado como feudo do rei. Todos estes deviam fidelidade e serviço militar a A. cavalo e para o constante treinamento que o uso de todo aquele equipamento requeria. com o início da utilização do estribo. para ajudar nos 51 i! I I !\ i . a Alta Idade Média fez dele o senhor da Europa". Foi combinado que cada um desses vassalos deveria ao conde o serviço militar de dez cavaleiros. Para que isso fosse possível. D. enfraquecendo os que estavam mais acima. Como já se disse. I 1I 'j i l í r I 1 ~ 1 J ~' l ~ I ~ ~ :(: ~ f! i fi 1 ~. O conde X. vemos que o indivíduo A era. a título de feudo. L.

portanto. pois os muçulmanos foram ali exterminados em 972. a guerra revelou-se a forma de revigorar. sua própria condição de cavaleiro. Entende-se. a rivalidades locais e ao interesse em dominar o campesinato e aumentar as exações sobre ele. Nos seus primeiros tempos. de doze castelos construídos na primeira metade do século X. motivadora e mantenedora daquela constante atividade militar. passada aquela fase.J i . Por isso. o monopólio da violência permitia aos bellatores manterem o domínio sobre o campesinato e assim se apropriarem de grande parte de sua produção. os bens mobiliários de um cavaleiro correspondiam aos de onze camponeses reunidos. pois o poder militar desempenhou papel fundamental no Feudalismo. lembremos o caso da Provença. eles passaram a algumas dezenas em fins do mesmo século e a uma centena nas Um exemplo de cidadefortificada. Ou seja. e sobretudo. a defesa da Cristandade contra os muçulmanos ou pagãos dava aos guerreiros crescente prestígio e poder. sim. e o cavaleiro precisava ter terras para manter seu equipamento e treinamento militares.52 Hilário Franco Ir. que o detentor de terras precisava ser (ou ter) cavaleiro para defendêIas e portanto não perdê-Ias. enfim. Desta forma. Para exemplificar. Depois. manter ou alterar os laços hierárquicos dentro da aristocracia através de uma nova distribuição das terras. Por fim. a condição de guerreiro era intrínseca ao aristocrata feudal. Deviase. o Feudalismo 53 1 i l ~ l l 'I 1 li .I I serviços agrícolas. onde a intensificação da construção militar não se dava em função de ameaças externas. .

assim como seus bens. Desta maneira começava um processo de cristianização da cavalaria. ! ' . No século XII o prestígio do cavaleiro adubado era tão grande. seguindo um rito muito antigo. -1 ! I l primeiras décadas do século XI.). Clericalmente. Aquela cerimônia. e depois. havia no Feudalismo um papel de primeira ordem desempenhado pelo grupo eclesiástico.I _. eles ganhavam certa autonomia. ter participado como auxiliar em alguns combates. I . Sendo a Igreja a única instituição organizada da época. ocorria a bênção das armas. em muito. Mais ainda. era um rito iniciático que ganhou força de sacramento. ele podia se tornar membro daquele grupo restrito e privilegiado. Até então. ao se proibir as lutas em certos momentos. unificadora. geralmente saídos do campesinato livre que ainda existia. automaticamente. um cavaleiro de Cristo. que redundava em constantes combates entre eles e em expedições destrutivas contra os feudos inimigos. sua atividade sacerdotal. a anarquia dos primeiros tempos feudais levou a Igreja a lançar em fins do século X o movimento da Paz de Deus. as semanas que precedem o Natal etc. os mercadores e os camponeses. Por isso mesmo. I . a condição socialmente importantedos cavaleiros só se firmou a partir do começo do século XI. ele passava toda uma noite na igreja. a serviço da Igreja. tentava-se obter um juramento dos guerreiros no sentido de respeitarem no curso de suas lutas os clérigos. Assim. Esse movimento se ampliou com a Trégua de Deus. a rezar. . - n~ ' . sendo armados e sustentados por um senhor na sua própria casa (vassalos domésticos). Paz de Deus e Guerra Santa foram concepções complementares. Papel que extravasava. ter aprendido o manejo das armas. naquela Europa fragmentada em ss . Mas assim. criou-se . Corno porém seu número crescia e sua manutenção era custosa. que mesmo os nobres de nascimento queriam passar por aquele ritual: a cavalaria tornava-se "0 denominador comum da aristocracia" (Chedeville). o que desembocaria. j i I .I ~' 54 Hilário Franco Jr. De manhã. Portanto. que permitiam aos oratores manterem certo controle sobre os bellatores . em fins do século. Depois de o jovem ter servido como escudeiro a um cavaleiro. ato de rico e discutido simbolismo. atestando que a cavalaria se tornava uma peça essencial no sistema de exploração senhorial.I ~I 'j i 'I '~ -I~') 'r. em vigília das armas colocadas no altar. que proibia lutas alguns dias por semana (da quinta de tarde à segunda de manhã) e em certos períodos do ano (Páscoa. Vestido de branco. o Feudalismo uma cerimônia para transformar o -guerreiro anárquico e destrutivo em um miles Christi. após comungar. de princípios do século XI. Por ela. quer dizer. conhecida por adubamento. pois. universal. tornando-o seu igual. de atuação realmente católica. " . O mesmo fenômeno é constatado em inúmeras outras regiões. elas estavam justificadas no resto do tempo. diante da fraqueza dos poderes públicos. preferiu-se cada vez mais remunerá-los com terras. a ela cabia a função cimentadora. seu padrinho batia-lhe com a espada na nuca. nas Cruzadas. I -I I' II 1 ~ '. eles eram elementos de origem humilde.

pagando-lhe uma pequena contribuição anual e com os monges prestando um juramento de fidelidade ao abade de Cluny. não escapava às características básicas do período: muito de seu poder temporal derivava da fragmentação dos Estados. as relações sociais. t: í. milhares de células. ducal ou condal.'Não por acaso. na Borgonha. entre não" familiares . os conceitos de Paz de Deus e Guerra Santa foram de ori- o Feudalismo gem cluniacerise. os valores culturais e mentais).~ . De fato. Tempo pessoal: o cristão nascia com o batismo. ou seja. a Igreja. caráter do casamento ocidental. A estreita articulação Feudalismo-Igreja pode ser exemplificada pela ordem monástica de Cluny.. público (a relação 57 I i 'I. morria após a extrema-unção e era enterrado no espaço sagrado do cemitério da igreja de sua localidade. sua imensa riqueza assentava-se na posse de terras e no trabalho de servos. a sociedade feudal (agrária.. lembravam a onipotência de Deus e deixavam aos homens uma única possibilidade de intervenção. estando proibido até o 7? grau de parentesco).1 . naturalmente. Tempo social: festas litúrgicas. Por outro lado. suas relações com a elite laica davam-se através de laços feudo-vassâlicos. realizada através do clero: as orações. ao determinar rigorosamente o uso do tempo. No que dizia respeito às relações sociais. Entre os mosteiros da Ordem havia uma rígida hierarquia. que tinha no cume a abadia-mãe. reproduzia no casamento (desde que fora dos momentos de abstinência). Tempo natural: os ciclos das estações e os fenômenos meteorológicos. o papel da Igreja não era menos decisivo. Esses mosteiros encontravam-se estreitamente ligados à abadia central.· Não havia relações horizontais entre unidades de igual categoria. Fundado por um duque no início do século X. Tempo político: a Paz de Deus fixando onde e quando se poderia combater. a proteção dos bens e pessoas da Igreja era realizada pelos cavaleiros. de trabalhar ou repousar. exogârnico (isto é. ~ ff ~ ~ ~ f o i' . o prestígio social do clero estava ligado à sua origem nobiliárquica. ! IJ i i I 1. adotando integralmente sua regra. Tempo histórico: intervalo entre a Criação e o JUÍzo Final. interferia no mais profundo e cotidiano da ação dos homens. tão importantes numa sociedade agrária. como cada castelão escapava à autoridade real. determinando para certos momentos certas formas de agir e de pensar. indissolúvel.56 Hilário Franco Ir. estratificada) era ao mesmo tempo uma sociedade clerical (controle eclesiástico sobre o tempo. de se alimentar ou de jejuar. diferenciado do de outras sociedades. . militarista. Todo mosteiro cluniacense estava isento do poder local dos bispos. por sua vez submetida à Santa Sé. !j~. portanto..: j'. I I '! :i 'I ' . tendo como grande linha divisória a encarnação de Cristo. a Igreja. reportando-se todas ao nível hierárquico superior. aquele mosteiro em duzentos anos deu origem a mais de mil outros espalhados por todo o Ocidente. Enfim. \ i! i . I. !Na verdade. Iocalista. a partir da qual se passa a contar os anos. uma organização altamente feudalizada. foi fixado por ela: monogâmico. como que numa extensa cadeia de vassalagem. ~ . cada um deles era um enc1ave que fugia à autoridade legítima. f J .

o mundo terrestre seria apenas um reflexo deformado do mundo celeste. pois todos eram vistos como "irmãos em Cristo". cada vez mais adotada a partir do século VIII. desenvolvida.. permitia a reprodução do corpo de idéias que ia sendo selecionado e formulado por ela./ i i! homem-mulher deixava de ter caráter pessoal e privado. a tendência a interpretar todos os acontecimentos como manifestação divina. daí os muitos padrinhos e madrinhas em todos os atos considerados importantes na vida do cristão. o homem da época feudal era tão complexo quanto seus antepassados ou seus descendentes. Assim. o Feudalismo dominicais dos clérigos funcionavam como os meios de comunicação de massa da época. a clericalização da sociedade que.. A realidade es- 59 i. Entre os clérigos as relações baseavam-se num parentesco espiritual. Psicologicamente. extraindo delas certa posição de domínio: o clérigo é o padre. isto é. foi primeiro nos mosteiros. ou melhor. O controle eclesiástico sobre os valores culturais e mentais era exercido através de vários canais. "pai" dos cristãos. à ecclesia. para os nossos objetivos. mais adequadamente. já vimos. o contrato feudo-vassálico não deixava de ser uma forma de parentesco nãobiológico referendada por um ato religioso. Conseqüentemente.. Numa época em que poucas pessoas tinham acesso a essa cultura escrita. emendada. Da mesma forma. transmitindo naturalmente a visão de mundo da Igreja. adultério. . em feudo-c1ericalismo ou em sociedade feudo-c1erical. permitia ao clero penetrar profundamente na consciência de seus paroquianos e assim orientar seu pensamento e comportamento. Entre os laicos. . deserção. divórcio. A prática da confissão individual. que a herança cultural greco-romana foi devidamente cortada. Pouca coisa naquele momento escapava à Igreja. monopolizado pela Igreja até o século XIII. jfi .í . . O primeiro deles é a supranaturalidade. enfim. Assim. Deste ponto de vista.. incesto etc. destacar três traços. todas as relações familiares (adoção. passando a ter normas controladas pela sociedade). à Igreja no seu sentido mais amplo. Por fim. ocorria desde os últimos tempos do Império Romano.i 58 Hilário Franco Ir. Portanto. atingiu seu auge nos séculos X-XIII. depois nas universidades. a compreensão dos objetos e dos fenômenos deveria se dar através da fé e da sensibilidade mais do que da inteligência. o indivíduo pertencia à comunidade cristã. a Igreja procurava transferir esse pseudoparentesco para as relações entre clérigos 'e leigos. profundamente interligados. mas talvezpossamos. o juramento de fidelidade sobre os Evangelhos ou relíquias. herança.. c1ericalizada. cristianizada. Antes de fazer parte de qualquer grupo familiar. O sistema de ensino. incentivava-se o parentesco artificial para se criar uma rede de relações que nada deixasse escapar à Igreja. se não estivéssemos adotando a expressão clássica e consagrada de "feudalismo". imagem que o homem deveria se esforçar por entender olhando para além das aparências materiais. deveríamos falar.) passavam para a alçada da Igreja. social ou político. isto é. Em suma. as pinturas e esculturas das igrejas e os sermões '" .

dos vassalos honestos do Senhor. exorcismos. o mundo terrestre era visto como palco da luta entre as forças do Bem e as do Mal. reproduzindo o gesto do vassalo ao prestar homenagem ao seu senhor. Identificadas as forças sobrenaturais. jejuns. Portanto. esse dado foi reforçado pelo cristianismo e contribuiu para o próprio contratualismo social. todos os homens enfrentavam o Diabo. por detrás das máscaras visiveis mas ilusórias. o Feudalismo século X se tenha generalizado o hábito de fazer uma prece com as mãos juntas. com suas armaduras simbólicas (batinas) e suas armas espirituais (sacramentos. hordas de anjos e demônios. . benéficas ou maléficas. tratava-se de enfrentar as forças demoníacas dos muçulmanos. Presente na verdade em muitas religiões pré-cristãs.J. Eis o outro traço psicológico: a contratualidade. responsáveis por determinados acontecimentos. e que desde o l% ~. preces. Assim. contudo. vikings e húngaros. vassalo de Deus que praticara Ielonia ao quebrar sua fidelidade.•••. político. amuletos etc. Mais perigosas e difíceis de serem vencidas. Na"sua manifestação mais concreta. 61 li 1 I !' I III f i tava no invisível.60 Hilário Franco Jr. Para isso era preciso outrá tipo de guerreiros especializados: os clérigos. não é de se estranhar que Deus fosse visto como Senhor e o homem como vassalo.:I. Disso decorria o segundo grande traço mental da época: a belicosidade. sendo por sua vez influenciado por este. fidelidade e serviços. exorcismos). o homem poderia tentar intervir através de preces. A religião feudal tornava-se um feudalismo religioso. que deviam em troca do mundo que receberam. peregrinações. Isso pedia a participação dos fiéis (o termo é significativo). . eram as forças maléficas que não se encarnaram. Sob seu comando. econômico e militar dos séculos X-XIII.

A natalidade. demográfico. a densidade populacional quase dobrou de fins do século VIII a fins do XIII.o Feudalismo tes do fracasso do Império Carolíngio e com as profundas transformações que ocorriam há séculos. i. morte.l l ' ~ ! I I. pela suavização do clima. o próprio movimento do corpo social. pela transformação jurídica do campesinato. Mal estava completada sua estruturação. esses crescimentos ocorreram paralela e interligadamente. na época feudal dois importantes fatores de mortalidade foram pouco ativos: as epidemias e a guerra. nascimento. por sua vez. mais de 34 (ano 1200) e mais de SO (cerca do ano 1300). era favorecida pela abundância de recursos naturais. a conquista e a ocupação de vastos territórios. Também as sociedades passam por este ciclo vital. econômico e territorial. 'I . não encontrava obstáculos à tendência natural que toda espécie tem para se multiplicar. E com o Feudalismo não poderia ser diferente. . a vida enfim da sociedade.I j [. para 22 (em torno do ano 1000). Isso foi possível porque o Feudalismo significara uma reorganização da sociedade ocidental em novos moldes. Em função disso tudo. o crescimento demográfico. mas de outro levavam-no à sua velhice e decadência.após centenas de anos de gestação o Feudalismo conheceu seu período de mais intenso crescimento de meados do século XI a meados do XIII. . que desencadeava uma série de mutações que de um lado expressavam a vitalidade do Feudalismo na sua maturidade. tal reorganização (estrutura) provocava um movimento geral de renovação e expansão (dinâmica) que trazia em si os germes que acabariam por abalar seus próprios fundamentos (crise). Apesar de paralelamente ter havido o desbravamento. reprodução. pelas inovações das técnicas agrícolas.: I ! I Gestação. A DINÂMICA ~ j 'il . a população da Europa Ocidental passou de 18 milhões de pessoas por volta do ano 800. O primeiro deles. crescimento. 'I ' . Nascido em fins do século IX ou princípios do X . mais de acordo com as condições decorren- i ~ u. De fato. Sendo partes de um mesmo fenômeno. isto é. Contudo. apesar de flutuações no tempo e desigualdades regionais. Aquela revitalização da sociedade cristã ocidental expressou-se num triplo crescimento.1 1. Era a dinâmica feudal. J I . ocorreu como resposta lógica a uma sociedade que . o Feudalismo já começava a sofrer transformações. Um fator que explica esse crescimento popula- 63 !! :. com cada um deles agindo sobre os demais. quase 26 (ano 1100).

De fato. mas apenas pequenos bandos de guerreiros de elite. I Ii I II 1 cional foi a ausência de epidemias no Ocidente dos séculos X-XIII. que então fazia jus ao seu nome (literalmente. como nas legiões romanas ou nos exércitos nacionais modernos. l I I I I. 1 .fazia deles mais adversários que inimigos. Assim. o Feudalismo I leiros de disputarem entre si a posse de terras e poderes políticos . No conjunto da Europa. como também contribuiu para dificultar a difusão da peste. que protegia praticamente todo o corpo). 64 Hilârio Franco Jr. 'í '. rI :. Em parte. As mudanças climáticas são difíceis de serem acompanhadas. Desta forma. o homem podia obter ali frutos silvestres e caça para sua alimentação. a guerra feudal não objetivava a morte do adversário.se não impedia os cava- I I j .. A malária. talvez porque o despovoamento que ela provocara em várias regiões dificultava a sua própria propagação. também desapareceu no período feudal.' devido a uma certa consciência de classe que . parece que a crise demográfica da Alta Idade Média esteve nas origens da expansão populacional da Idade Média Central. uma das obrigações dos vassalos era pagar o resgate de seu senhor feudal aprisionado). mas apenas sua captura. porém tudo indica que desde meados do século VIII o . "terra verde").clima da Europa Ocidental tornou-se mais seco e temperado que antes. sempre favorecida em climas úmidos. talvez devido ao próprio desenvolvimento de anticorpos por parte das populações anteriormente atingidas: A peste. devastadora nos últimos tempos do Império Romano. assumiu forma mais benigna. constante mas pouco destruidora. Isso se devia ao fato de ela não envolver grandes tropas de combatentes anônimos. Na verdade. Assim. Mais ainda. O período mais quente e seco não apenas tornou determinadas áreas cultiváveis e habitáveis. a viticultura pôde expandir-se em regiões anteriormente impróprias. Outro fator era o tipo de guerra da época feudal. caso da Groenlândia. da mesma forma que esta se encontra nas raízes da crise demográfica da Baixa Idade Média. porque assim cada cavaleiro podia provar seu valor de guerreiro e ao mesmo tempo exigir um resgate pelo prisioneiro (como sabemos. . a produtividade agrícola foi beneficiada por essa suavização do clima. Um terceiro elemen to a ser considerado é a abundância de recursos naturais existente na época feudal. rninimizando nos combates o número de mortes. a paisagem de alguns locais foi alterada e humanizada. e sobretudo madeira. A passagem da escravidão para a servidão tam- 65 I li.[ I j. os cavaleiros. como a Inglaterra. a maior produtividade agrícola que então ocorria deviá-se em parte ao cultivo de zonas desmatadas e portanto de solo virgem e de grandeiertilidade. Em parte. presente até o século VIII (e que reapareceria no XIV). o recuo demográfico dos séculos III -VIII fizera com que extensas áreas anteriormente cultivadas fossem abandonadas e ocupadas por bosques e florestas. O equipamento desses era sobretudo defensivo (especialmente a armadura. . o principal material de construção e combustível de que dispunha.

da população. ou este é que tornou necessário o progresso técnico? De qualquer forma. . possibilitando utilizar mais eficientemente nos trabalhos do campo a força-motriz cavalar e bovina. Assim. a melhoria do estatuto jurídico do escravo incentivava sua reprodução: ele passava a ter um lote de terra para cultivar. mas não se sabe qual o ponto de partida: furam elas que ao aumentarem a produção possibilitaram o crescimento demográfico. recorria-se muito a práticas contraceptivas.66 Hilário Franco Ir. não podia ser separado da família. As inovações técnicas beneficiaram a produção agrícola. ignorância). maus tratos. tinha obrigações fixas e limitadas e não mais arbitrárias. O comportamento demográfico do escravo é geralmente pouco propício ao crescimento. De um lado. abortivas e infanticidas. de 1050 a 1350. foram erguidas 80 catedrais. em função de uma baixa natalidade resultante de sua condição psicológica: não desejando a mesma má sorte para os filhos e também como forma de protesto e oposição à escravidão. o Feudalismo 67 bém teve influência positiva no incremento populacional. Outro ainda roi o sistema de rodízio das terras. Outro foi o novo sistema de atrelar os animais. não nos importa .num primeiro ou num segundo momento. em função da alta mortalidade decorrente de um baixo padrão de vida (má alimentação. Um foi a charrua. três aperfeiçoamentos exerceram ação direta sobre o desenvolvimento agrícola e assim . 500 grandes igrejas e algumas dezenas de milhares de pequenas igrejas paroquiais. revolvendo-o e aumentando sua fertilidade. por exemplo. pelo qual ocorria uma alternância de cultivos (cereais. tipo de arado mais eficiente por penetrar profundamente no solo. De outro. legumi- S6 na França.

' Porém.••. lentilha. o artesanato necessitava de matérias-primas como couro. Isso sem contar.~I' ' ! 68 Hi/ário Franco Ir. Assim. Mas. é claro. já que a crescente população pressionava por mais carne e leite. como o ritmo de crescimento populacional era mais intenso. de 1050 a 1350 foram erguidas 80 catedrais. carne) e assim uma menor morilha. muralhas. leite. Desenvolveram-se especialmente a indústria têxtil e a de construção. muitas das terras então ocupadas não eram propícias à agricultura. a agricultura precisava da força-motriz animal. a procura de novas áreas para a agricultura através do recuo das florestas. com uma dieta mais rica em proteínas (er.para agilizar a produção e baratear a mercadoria. dos terrenos baldios e das zonas pantanosas. recorrendo à divisão do trabalho . . Só na França. progresso do setor urbano. sobretudo. Calcula-se que entre o século IX e o XIII a produtividade da cerealicultura cresceu em torno de 50%. hospitais) e a construção civil (casas muitas vezes levantadas pelos proprietários com uns poucos ajudantes). Como assim era possível alimentar-se um maior número de cabeças de gado. ou seja. foram os excedentes gerados pela agricultura que forneceram as matérias-primas básicas para a indústria artesanal e assim permitiram a intensificação do comércio. chifres e ossos. talidade. I nosas) sobre uma mesma área. os edifícios públicos (palácios. esse setor conheceu um grande avanço. por exemplo. as realizações da arquitetura militar (castelos. torres).cerca de 30 operações diferentes da matéria-prima ao produto acabado . Isso incentivava os arroteamentos. O ramo têxtil envolvia boa parte da população de muitas cidades. crescia muito a procura por lã e conseqüentemente pelo rebanho ovino: em fins do século XIII havia na Inglaterra quase sete milhões de carneiros e na Espanha mais de um milhão. acentuada monetarização. Se esse desenvolvimento do artesanato atestava o progresso urbano dos séculos XI-XIII. Apesar de a elevação da produtividade ter ocorrido em todos os setores. sendo entregues à pecuária. De fato. também no setor secundário a produção conhecia claros progressos. impedindo que ela se esgotasse. 500 grandes igrejas e algumas dezenas de milhares de pequenas igrejas paroquiais. Esse incremento da produção agrícola teve como ponto de partida as inovações técnicas e a melhoria climática de que falamos mais acima. como resultado das necessidades impostas pelo crescimento demogrâfico. o que também influenciou positivamente a agricultura. havia maior disponibilidade de adubo. O crescimento econômico manifestou-se sobretudo através de três fenômenos: maior produção. não só a produtividade cresceu. Contudo. o Feudalismo Ocidental estendeu-se bastante. Portanto. como também os hábitos alimentares se modificaram. Desta forma. ~ i:\ :. desde meados do século XI verificava-se uma alta nos preços de cereais. naturalmente. r importante 69 . naturalmente numa economia agrária o processo foi desencadeado pelo setor primário. Foi desta forma que a área cultivável da Europa j r .

levou a se recolocar 71 li l'ill :. o Feudalismo senhor feudal. tornando necessário vender o excesso e criando oportunidades de compras. Sem essa intensificação do comércio não haveriacondições para as atividades bancárias. isso se tornaria claro somente a partir de meados do século XII. ferro e tecidos não se desenvolveriam o comércio internacional e a importação de mercadorias orientais (especiarias.' f. as cidades não venderiam sua crescente produção.. uma ativação da economia monetária. e para o qual vendia seus produtos manufaturados. a cidade não podia naturalmente desligar-se do mundo feudal. De fato. Sem a maior produção agrícola não teria sido possível alimentar a crescente população urbana: por volta do ano 1000 não havia no Ocidente cristão nenhuma cidade de 10000 habitantes. ! 70 Hilário Franco Ir. os senhores feudais 'liam com bons olhos a formação ou o desenvolvimento de cidades nas suas terras. vistas como elementos antifeudais. "O ar da cidade dá liberdade" dizia um provérbio medieval: morando um ano e um dia numa cidade sem ser reclamado pelo seu senhor. mas em 1300 existiam 5S delas. Desde então. o artesanato urbano· não poderia expandir sua produção. Sem a maior capacidade de compra por parte do campo. estas cresciam basicamente graças à imigração de elementos originários do campo... Como qualquer homem livre. e locais próximos e cômodos para vender os excedentes produtivos dos seus senhorios. Sem o excedente demográfico rural. a população urbana não teria atingido os níveis que atingiu. a cidade passava a se ligar a pessoas ou a outras cidades através de contratos feudovassálicos. I :. ! j! ! r f I' lembrar contudo que a sociedade ocidental permanecia essencialmente agrária. Elas lhes pareciam boas fontes de taxas e impostos. !I i' j. Sem o campo fornecer matériasprimas. o servo tornava-se livre. os historiadores sabem hoje que jamais o Feudalismo foi uma economia natural. explorando o trabalho de seus camponeses como qualquer i ~ li . que cidades submetessem a zona rural vizinha. Mesmo depois de obter sua autonomia (comprando-a ou lutando por ela). Sem a exportação de trigo. quando o conjunto de transformações saídas da própria dinâmica feudal começava a comprometer o Feudalismo. aliás. l. por que as monarquias favoreciam a autonomia das cidades. Até aquele momento. Ademais. o progresso urbano era parte do crescimento econômico global do Feudalismo. " I: " I' . Entende-se assim. apenas 10 ou 20% da população total moravam em cidades. produtos de luxo). porém não negam que ela era pouco utilizada até fins do século XI.! I r . que viam na fuga para os centros urbanos a forma de escapar à dependência de um senhor.. O revigoramento do artesanato e do comércio implicava. isto é. Não era raro.J . o aumento da produção. sobretudo na Itália. vinho. No entanto. madeira. de outro estavam perfeitamente encaixadas nele. Em suma. do qual recebia reforços populaéionais e matérias-primas. sem moeda. Ao contrário do que pensavam tempos atrás. seda. De qualquer forma. contudo. r II L li. é claro. i 1 : i: j' I: j' t'l '!I Ii I'. se de um lado as cidades negavam o mundo agrário e aristocrático do Feudalismo.

que expulsava do corpo social um excesso de vitalidade que poderia sufocá-lo. Já em fins do século XI era conhecido em algumas regiões o feudo de bolsa ou Ieudo-renda.terceiro aspecto da dinâmica feudal.I ~! \i ':1 'I' . a partir do século XII passou-se a aceitar a alienabilidade do feudo. contribuía para que nele ocorressem importantes transformações. atuais França. O crescimento territorial . Mas desta forma tornou-se um fenômeno de grande alcance: a penetração. ao mesmo tempo que expressava o vigor do Feudalismo. . pelo qual o senhor comprometia-se a remunerar ti vassalo não com terras. Como parte do mesmo processo de monetarização das relações vassálicas.I: I. ligadas às condições . geralmente mais eficiente e bastante barata devido ao crescimento populacional. o Feudalismo troca de uma taxa monetária (scutage) que permitia ao rei contratar forças mercenárias. desejando o senhor comprar os produtos orientais oferecidos pelos mercadores.foi o resultado lógico da necessidade de exportar os excedentes de população e de mercadorias. em cada um desses locais o Feudalismo. o domínio e a fixação de grupos feudais em outras áreas significou a própria expansão do Feudalismo. desta forma ia se descaracterizando um dos elementos centrais do Feudalismo. preexistentes e de implantação.I' . l.: :1 ! . Naturalmente. mas com uma quantia.i: 'I. e passava a recebê-Ias dos seus servos ao invés dos produtos ou serviços que eles lhe deviam. eles o vendiam na feira local e obtinham . sem se descaracterizar. a reprodução do sistema. por um grupo de conquistadores estrangeiros. Além disso. a comutação das obrigações servis em pagamentos em moeda. Também no plano institucional a monetarização da economia provocava mudanças. 'I' I I . Ademais. isto é. desde a segunda metade do século XII na Inglaterra os vassalos reais podiam ser dispensados do serviço militar em I ~ . Ora. paga periodicamente. assumiu feições próprias. o senhor podia assim contratar para certas tarefas mão-de-obra assalariada. aqueles "feudalismos de importação" (Bloch) estavam bem mais sistematizados do que nos locais onde o Feudalismo se \ 73 ~: ( L I:~ . Oriente Médio e Península Ibérica.:'i ! em circulação moedas e metais preciosos entesourados..1 if . Itália do Norte. Como foram naqueles locais impostos de cima para baixo. Portanto. Por exemplo. Suíça. limitado originalmente aos territórios do antigo Império Carolíngio (grosso modo. Essa monetarização da economiafeudal. Nesse sentido. o progresso da mineração e os metais trazidos do Oriente pelo comércio permitiam a cunhagem de mais moedas. Alemanha Ocidental). Mais significativo ainda. geralmente em moeda.l' 72 Hilário Franco Ir. assim uma certa renda monetária. precisava cada vez de mais moedas. representou uma tentativa instintiva de sobrevivência. pois como sabemos o vassalo tinha apenas o usufruto e não a propriedade do feudo. a venda de um direito sobre ele. Assim. decorrentes do crescimento demográfico e econômico. desde a segunda metade do século XI o Feudalismo penetrou também na Inglaterra. Como a maior produtividade permitia aos camponeses ficarem com um excedente. Bélgica.

Ocupado pelos vikings ou normandos ("homens do norte"). e de outro os camponeses anglo-saxões. aplicada ao C~L'O normando e por extensão ao caso inglês. Da mesma forma. a posse daquele território francês foi-lhes reconhecida como feudo concedido pelo rei. Ora. no ducado da Normandia o Feudalismo foi organizado pelo chefe viking transformado em duque. também resultara de uma conquista. crown (coroa. onde existiam condições favoráveis à feudalização. designado pela palavra anglo-saxônica ox: para os dominadores era sobretudo uma carne consumível. o Feudalismo 75 Ir se deu a partir de ü região pelo duque Guilherme da Normandia. de couronne). apresentava uma particularidade política. court (corte. Contudo. na Inglaterra não existiam alódios . detentores de terra. formado no norte da França um século e meio antes. ao contrário do que ocorria. de cour). Daí a expressão algo contraditória de "feudalismo centralizado". não provocava na Inglaterra a pulverização dos poderes públicos. dezoar). Na Síria-Palestina. vinda do francês (idioma falado pelos normandos) boeuf. pois valia o princípio do "nenhuma terra sem senhor". mas somente depois da . utilizado nos trabalhos agrícolas. sheep (carneiro em anglo-saxão) e mutton (carne de carneiro. impedindo a fragmentação típica da época. a manutenção de extensos poderes em suas mãos. Assim. depois de reservar terras que ficavam sob o domínio direto da monarquia. carneiro). muitos termos eclesiásticos.como na Europa continental. mas também estes prestavam juramento de fidelidade ao rei. militares e administrativos também derivaram do francês falado pelos conquistadores: chapel (capela. boi. E esta atingia todo o pais. Guilherme. daí a palavra beef. ou seja. podiam ter seus próprios vassalos. Essa nova situação social ficou testemunhada na própria língua: para os dominados o boi era apenas um animal vivo. Na Inglaterra doperíodo prê-normando existia um carnpesinato dependente. A cadeia de vassalagens montada pelo próprio rei inglês fazia com que ele tivesse controle sobre todos os escalões da hierarquia feudal. de messe). ou seja. portanto vassalos reais.J 11: ~ " . A divisão social passou a ser funcional e étnica: de um lado os clérigos e os guerreiros de origem normanda. castle (castelo. ao contrário do que aconteceu na Inglaterra. tal estrutura foi naturalmente transplantada para a Inglaterra: possuidor de todo o país por direito de conquistá. a subenfeudação. por exemplo. na França. De fato. mass (missa. Não por acaso. de château). de chapelle). que não eram concedidas ou recebidas por relação feudo-vassâlica .: conquista de 1066 é que as relações de dominação sobre os trabalhadores se generalizaram e se senhorializaram. tower (torre. dividiu o restante em 5000 feudos concedidos aos seus seguidores. 'A feudalização da Inglaterra Hilário Franco Jr.il' i 74 desenvolvera espontaneamente. no Oriente . o Feudalismo fci implantado em fins do século XI com as Cruzadas. vindo do francês mouton. despossuidos e dependentes. o próprio ducado. Noutros termos. Todos esses detentores de feudos.terras de plena propriedade.

i 76 Hilário Franco Ir.-se que apenas 1 ou 2% das rendasagrícolas fossem reinvestidas. de forma que a manutenção e a expansão do sistema dependiam da constante incorporação de novas áreas produtivas e de mais mão-de-obra. como no Ocidente. como boa parte da riqueza gerada provinha da agricultura. enquanto o crescimento econômico. o Feudalismo pôde manter sua capacidade de expansão enquanto houve certo equilíbrio entre os três elementos básicos. Em suma. dade dificultavam a adaptação dos europeus. os usos e costumes e a mentali-. o progresso técnico era pequeno e o aumento da produção ficava restrito à disponibilidade dos fatores natureza e força de trabalho. estavam o enfraquecimento do domínio muçulmano e a necessidade de expansão da comunidade cristã ibérica devido ao crescimento populacional.- . aquele era um equilíbrio precário. capital. a língua e a religião afastavam os conquistadores ocidentais das populações dominadas e submetidas. Não foi um fenômeno limitado e artificial como no Oriente Médio. o Feudalismo foi uma criação artificial. De fato. nem tampouco de uma transposição repentina como na Inglaterra. em função de questões internas e externas à península. Mas estes fatores não podiam crescer indefinidamente.I 'I li I I II li r! q ~ ~i I ir I.era análoga à da França. Assim. pere- . II lt .. para sermos exatos. o Feudalismo ibérico não resultou de uma evolução natural e constante como na França. e esta era dominada por uma elite fundiária de hábitos suntuosos. como toda sociedade pré-industrial. Na verdade. Dentre as outras. Na primeira etapa da gênese feudal. o que existiu nos Estados latinos do Oriente Médio foi um conjunto de instituições políticas feudais regulando as relações entre os cruzados. nada restasse ali de testemunhos profundos de uma época feudal. Logo. Dentre as primeiras. estavam as transformações sofridas pelo Feudalismo de além-Pireneus e que levavam monges. em fins do século XIII. Contudo. naquele terreno pouco propício e sem antecedentes favorecedores. a situação ibérica . Jamais o Feudalismo conseguiu lá penetrar em todos os aspectos da vida cotidiana. Contudo. Ou seja. i I I .:1' . calcula. O caso da Península Ibérica apresenta feições próprias. a dinâmica feudal mostrava os limites do sistema e encaminhava-o para a crise. O ambiente físico. marginais e nobres sem terra a procurar na Espanha a solução de seus problemas. o crescimento territorial e o crescimento demográfico puderam ocorrer de forma complementar um aos outros. i~ I! Médio O contexto era bastante diferente. A raça. mais do que Feudalismo. I i ! i Em suma. que com o desaparecimento dos Estados cruzados. sem raízes históricas. nem espontâneo e profundo como na maior parte do Ocidente. a conquista muçulmana impediu que aqueles elementos pré-feudais pudessem continuar se desenvolvendo como na Europa carolíngia. 77 i j ! " I· 1 I . Mas eles foram reativados a partir de meados do século XI. no qual o fator capital tendia a crescer pouco. Portanto. natureza e trabalho. o Feudalismo grinos. Não surpreende. até princípios do século VIII. então.

. leite e derivados. A abriu caminho a várias epidemias. a crise resultavadas características do próprio Feudalismo. com todas as estruturas feudais sendo fortemente atingidas. . o que levou à retração desse setor e conseqüentemente também do comerem.talvez tenha sidoo responsável pelas mudanças no regime pluvial e pelo resfriamente do clima então ocorrido.'':i o Feudalismo No seu aspecto econômico.em 1300 as florestas da França cobriam um milhão de hectares a menos que atualmente . aquele incremento produtivo era frágil e apresentava claros limites. As violentas e constantes chuvas que atingiram a maior parte da Europa em 1314-1315 provocarem colheitas desastrosas: de fins de 1315 a meados de BIS os preços de trigo mais que triplicaram. De fato. ao longo dos séculos XII-XIII já vinham ocorrendo profundas transformações. num complexo entrecruzamento. Em outros termos. o aumento da produção fora conseguido mais com a ampliação da área cultivável do que com a utilização de tecnologia mais avançada. pois só poderia se manter com a anexação constante e indefinida de novas áreas cultiváveis. cada manifestação da crise separadamente.dinâmica. que se revelaram com toda a força a partir de princípios do século XIV. nãonos deve fazer esquecer a total interligação entre elas. Como cada indivíduo gastava mais com alimentação. Assim. a crise derivava da exploração agrícola predat6ria e extensiva que fora típica do Feudalismo. A origem disse estava na sua. a médio prazo a produtividade agrícola baixou devido à menor disponibilidade de esterco. o fato de precisarmos examinar. Essa retração estava também ligada aos proble- 79 A CRISE I 'J ~ Desde as últimas décadas do século 1GB. Portanto. Quando em algumas regiões o cultivo de cereais precisou crescer roubando terras da pecuária. Esmo a atingir então os limites possíveis de' funcionamento de sua estrurura. para maior clareza.vque levara o Feuda . assistia-se a 'uma perda da vitalidade que caracterizarao Feudalismo nos duzentos anos anteriores. é claro. Desta forma. O desmatamento . A crise era orgânica)" -. Esta crise foi global. a mortalidade cresceu.- . na época de expansão. consumia menos bens artesanais. a manifestação da crise em cada setor refletia-se nos demais. A busca desordenada de terras para a agricultura parece mesmo ter provocado importantes alterações ecológicas. E naturalmente caiu a produção de carne. Assim.

a queda na produção de metais preciosos e o entesouramento de moedas devido à menor oferta de mercadorias levaram às constantes desvalorizações monetárias. se a peste se propagou tão rapidamente na Europa. Os lugares de forte concentração humana parece terem sido os mais atingidos. Se as camadas sociais mais elevadas resistiram melhor. a peste não é influenciada pela fome. o Feudalismo Como todas as demais manifestações da crise geral do Feudalismo. naturalmente. Contudo. Nos. devido à peste negra.1 !! 11 Ij. isto é. É verdade que ela atingiu a Europa Ocidental levada da região domar Negro por comerciantes genoveses. que pode dobrar ou triplicar a mortalidade de outras epidemias. Com a crise agrícola de 1315··1317.j l i I . Natural- 11 81 1 r • '~ :l II 11 I' . I1 11 i I I:: I ~. não altera a ação da peste. Ou seja. a fome e a subnutrição foram acompanhadas por epidemias e a mortalidade elevou-se rapidamente. seria necessário cavar poços profundos e possuir sistemas de drenagem mais eficientes. foi apenas pela sua possibilidade de abandonar os locais infectados e buscar refúgio em outros. Portanto. atingira seus limites tecnológicos. pelo menos 100/0 da população morreu no curto espaço de seis meses em 131ó. foi devido à superpopulação gerada pela própria dinâmica feudal. a peste apresentava taxas de letalidade (relação entre os que contraíam a doença e os que morriam dela) extremamente altas. os problemas daquele momento não chegaram a atingir todo o Ocidente e as perdas populacionais poderiam ser recuperadas em pouco tempo.80 Hilârio Franco Ir. que os níveis anteriores a ela seriam alcançados apenas no século XVII. a subnutrição. Mas tal não aconteceu. Esta perda demográfica foi tão grande. no conjunto a peste negra de 1348-1350 eliminou de 25 a ·35% da população européia. a solução foi manter o valor nominal das moedas mas diminuir a quantidade de metal que nelas havia. que criara colônias comerciais em locais onde a peste sempre existira em. e a crise demo gráfica agravou-se drasticamente. como os reis precisavam de recursos para as freqüentes guerras da época. e fazendo tão grande número de vítimas. homens e mulheres. Mais que qualquer outra epidemia. De fato. Mas esse fato decorreu em última análise da expansão ocidental. Ora. Na cidade belga de Ypres. . levava os possuidores de moedas boas a entesourarem-nas. Este processo. uma das mais importantes da Europa. por volta de 70%. pois a extração de minérios. como a agricultura. Além disso. forçando os reis a novas desvalorizações. Assim.campos ingleses ela passou de 40 mortos por cada mil habitantes para 100 por mil. ela: ating1. a peste deve ser vista como um fator interno a ele. forma endêmica. os preços subiam e o setor produtivo conhecia novas dificuldades. Ao contrário do que se pensava até há pouco tempo. A crise dernográfica já se anunciava em fins do século XIII quando o intenso ritmo de crescimento anterior começou a diminuir. mas monetários. esgotados os veios superficiais e mais facilmente exploráveis. Apesar de sensíveis desigualdades regionais.a indiscriminadamente pobres e ricos. caso das cidades e dos mosteiros. crianças e adultos.

Muitas famílias nobres desapareceram. trocavam obrigações servis por dinheiro: em meados do século XIV cerca de 50% das corvéias haviam sido substituídas por rendas monetárias em o Feudalismo I. isto é. Acentuava-se então uma tendência que vinha desde o século XII e que formava um "proletariado clerical". a peste obrigava os senhores a recorrerem a assalariados e a amenizarem a dependência dos servos sobreviventes. extinguia-se uma linhagem. quando os preços de cereais subiram. na qual cada indivíduo é de determinada camada. não só a mão-de-obra assalariada tornava-se mais comum" como também beneficiava-se de uma elevação salarial. mas elemento desestruturador daquela sociedade. A aristocracia laica e clerical. ao diminuir significativamente a quantidade de mão-de-obra dos senhorios. os salários subiam e os senhores.82 Hilário Franco Ir. da burocracia monárquica e mesmo do campesinato mais rico/ Portanto. desta forma. na qual o indivíduo está num certo grupo social. através de casamentos com membros da burguesia. a servidão recebeu um golpe profundo. De fato. i I 83 ~I I a <. Nos séculos XIVXV. passando-se de uma sociedade de ordens. ) ir. o que pressupõe a possibilidade de mudança. eles caíram e se mantiveram baixos devido à retração demográfica e à conseqüente menor procura. quebrava-se aos poucos a identidade clero-nobreza. depois das dificuldades de-13151317. a cada seis gerações. Nestas condições. Ê verdade que as cidades também foram atingidas pela crise econômica e demográfica. as repercussões de um fenômeno como esse se revelaram bastante amplas. a nobreza precisava renovar seus quadros com ••elementos de outras origens. as rendas senhoriais se encolhiam ainda mais. Portanto. os problemas da zona rural aceleraram a tendência anterior de penetração burguesa no campo. com a desvalorizaçãoda moeda a aristocracia perdia seu poder aquisitivo: 50% no caso da importante abadia de Saint Denis apenas no curto período de 1337-1342. recrutando-se os eclesiásticos também em outras camadas sociais. para terem recursos. as transformações sociais mais importantes deram-se entre os laboratores. para uma sociedade estamental. Paralelamente. nascida da própria dinâmica feudal. Ademais. desde então tendia a comutar ás obrigações camponesas em produtos e serviços por rendas monetárias. Assim. quebrava-se a rigidez social anterior. Assim. Por exemplo. Contudo. mente. Agravando situação. Concretamente. vários locais da Inglaterra. porém proporcionalmente menos que o campo. a desorganização social que seguiu a peste e a crescente procura por mão-de-obra facilitavam e incentivavam a fuga de servos. atingida pelas dificuldades econômicas.. a aristocracia viu sua taxa de natalidade cair. condição estabelecida desde o nascimento por ordem divina. Ademais. pela peste e pela resultante mudança psicológica. comprando terras de nobres JJ. em média. . A crise social caracterizou-se por importantes alterações na composição das camadas sociais e nas relações entre elas. que tinha sido a grande beneficiada pelo crescimento econômico. continuava a ganhar terreno . A burguesia.

de se estranhar. Diante daquele quadro de dificuldades para os trabalhadores é que eclodiram sublevações camponesas (como a Jacquerie francesa de 1358 e a revolta inglesa de 1381) e urbanas (Florença em 1378. a crise econômica e demográfica apresentou dois resultados diferentes. Assim. que um sermão do século XIV afirmasse que "Deus fez os clérigos. era possível com o tempo comprar sua liberdade ao senhor. quebrava a rigidez e a hierarquia sociais.' Na Europa Oriental. Não é . pois a lã era uma das matériasprimas pouco afetadas pela crise. tocracia nos séculos XIV-XV permitiram em alguns 'locais a difusão desse processo. A crise política do Feudalismo foi representada pela reconstituição dos 'poderes públicos. a burguesia revelava-se um elemento dissolvente do Feudalismo em vários aspectos. Por outro lado. a penetração tardia do Feudalismo e as condições disso decorrentes geraram o que se chama classicamente de "segunda servidão". contudo. rompia aos poucos o predomínio absoluto da agricultura. Desde a época de expansão econômica. os reis feudais tinham sido inicialmente 85 \1 I :I: I arruinados. cidades flamengas em 1379). aproveitando-se do surgimento de áreas despovoadas pela peste. França e Castela toda uma legislação objetivando congelar preços e salários. Por seus interesses na centralização política e seu conseqüente apoio à monarquia. Outro caminho tentado pela. surgiu um campesinato livre e que se enriquecia. Para tanto. Catalunha. muitas vezes aqueles indivíduos dedicavam-se à pecuária. Por sua própria origem marginal e campo. Aragão. o Feudalismo Como geralmente eram áreas pouco férteis e como havia falta de mão-de-obra. tendo sido significativa apenas na Inglaterra e especialmente nos senhorios monásticos. Assim. se opunha à religiosidade e coletivismo feudais. Desta forma. contribuía para o recuo da aristocracia. em certas regiões os senhores procuraram fazer frente às suas dificuldades revigorando os laços de dependência camponesa. Como já vimos. Por um lado. Portugal. Por suas atividades comerciais. Em relação aos camponeses.economia senhorial para fazer frente à crise foi brecar a alta salarial.! I j I! 84 Hilârio Franco JT. artesanais e bancárias. os cavaleiros e os trabalhadores. ~ J "I J . Essa "reação senhorial" não foi muito difundida no Ocidente. ou mais especificamente pela centralização monárquica. pagavam seu senhor e economizavam mesmo algumas moedas. Por seu racionalismo e individualismo. formando uma verdadeira elite camponesa. Obtinham assim bons rendimentos. cada vez mais interessado em rendas monetárias. eles vendiam seu excedente produtivo nas feiras locais. Um caminho para isso era renunciar às taxas monetárias fixas pagas pelos trabalhadores e reimpor as antigas obrigações em produtos e serviço. mas o demônio fez os burgueses e os usurários" . As dificuldades da aris-. conseguiam ter suas próprias terras. surgiu entre 1349 e 1351 na Inglaterra.. Estes camponeses. muitos servos se beneficiavam da substituição de suas obrigaçõespor pagamentos em dinheiro. nesa. portanto.

Ê 87 'i 1: i ! i" I r~ 1:11 r . de se negociar tratados e restabelecer a paz. A centralização decorreu ainda das importantes perdas na nobreza dos dois países. significativo que a primeira grande guerra nacionalista tenha ocorrido nessa fase da Idade Média: a Guerra dos Cem Anos (1337-1453). que minava as jurisdições feudais. a sociedade era como o corpo humano. Tanto no lado francês quanto no inglês. a guerra favoreceu a mobilidade social.86 Hilário Franco Ir. A devastação de muitos territórios franceses. \ I ~ .1' . a monarquia desde o século XIII ia reagrupando em suas mãos os fragmentos de poder anteriormente detidos pela aristocracia. Além disso. que acabou por funcionar como um tribunal de apelação ao suserano. "toda jurisdição laica do reino pertence como feudo ao rei". desde o século XII firmavam-se os nacionalismos. constituindo tropas mercenárias. esta era a única forma de se mobilizar tropas por uma área geográfica bem mais ampla que nos combates feudais. os empréstimos feitos pelas monarquias junto a banqueiros italianos forçaram a alta dos preços e a desvalorização monetária. Pelas migrações que provocou. o rei podia extrair das próprias relações vassálicas elementos que faziam dele cada vez mais soberano que suserano. a guerra favoreceu a centralização política. Recorrendo ao apoio da burguesia. de se obter nos vários cantos do país os recursos econômicos necessários para a luta. que devia arbitrar as questões entre senhores e vassalos. para um legista. Por exemplo. Para um cronista. enfim. o Feudalismo representante da coletividade. contribuindo para a baixada taxa de riatalidade e o despovoamento de regiões arrasadas. Na verdade. a ruptura de laços de dependência pessoal. no qual "o príncipe ocupa o lugar da cabeça". incentivando a libertação de servos. Caminhava-se assim para uma unificação jurídica. favorecendo as comunas urbanas. Mas era também limitado por eles. esse processo era acompanhado por uma recuperação do prestígio da função monârquica. Contudo. A formação das línguas vernáculas e os contatos estabelecidos pelo comércio com outros povos levavam à conscientização das características próprias de cada grupo humano. Assim. Foi o caso do Parlamento de Paris. para um filósofo. que fazia a realeza ser vista como símbolo e I \ :I -\ . à medida que os poderes regionais detidos pela aristocracia entravam em crise. Os problemas dos séculos XIV-XV e as soluções muitas vezes conflitantes encontradas pelos diversos países intensificavam o sentimento patriótico. Por outro lado. Esse fortalecimento monârquico era ainda favorecido pelo desenvolvimento de um sentimento nacionalista.! . ferir o rei seria "temeridade nefasta". revigorando o direito romano.I muito mais suseranos que soberanos. na França o consilium devido pelos vassalos esteve na origem de muitos órgãos centrais da monarquia. o empobrecimento de uns e o enriquecimento de outros. a guerra agravou a crise demográfica. seu poder se efetivava fundamentalmente pelos laços vassálicos. ou seja. a perda de colheitas e de rebanhos. a crise social. agudizando a crise econômica.

graças sobretudo aos diversos tipos de couraças e armaduras protetoras. fizeram mais de mil e quinhentos mortos na cavalaria francesa.J. Graças à artilharia. a Igreja precisava. isto é. Mas as ofensivas não evoluíram correspondentemente.: !~ 'I:i. Na batalha de Crêcy. O cavaleiro perdia sua função militar e assim seu prestígio e seu poder. atravessando armaduras.mas que agia cada vez mais nele. ao mesmo tempo. uma infantaria disciplinada e armada com longas lanças mostrava como podia agüentar uma carga da cavalaria e depois de "'" r dispersá-Ia passar ao ataque e aniquilá-Ia. tornaram-se mais eficientes. sendo proibida pela Igreja em 1139. Nessas oportunidades. A cavalaria feudal.1 i A crise militar naturalmente acompanhou a política. conquistar uma fortaleza implicava um longo e desgastante cerco. poucas novidades haviam surgido nos armamentos. No entanto. dentre as funções recuperadas pelo rei estava cada vez mais a de defender seus súditos. obediênciae bens . A :11 . Anteriormente. mas convenientemente fraco para não submetê-Ia. como nos combates feudais. com os defensores podendo resistir quase indefinidamente desde que tivessem água e . O papa pretendia ser. Mais ainda. Foi assim em 1302 em Courtrai. muitas vezes no desempenho de um desses papéis agia incoerentemente com o outro. Equilíbrio difícil. nos primórdios do Feudalismo. em 1449-1450 o rei francês pôde reconquistar 60 praças-fortes aos ingleses. quando as milícias urbanas flamengas destroçaram o exército feudal do rei Irances. As armas defensivas. em 1346.. :. como a cavalaria feudal tinha se tomado uma arma obsoleta. tomou-se definitivamente ultrapassada com '0 surgimento das armas de fogo. contudo. Ao mesmo tempo. a violência de seus arremessos era muito grande e foi considerada "arma abominada por Deus e indigna de um cristão". com as lutas nacionalistas e sociais que pretendiam destruir o inimigo e não apenas aprisionâ-lo. na Guerra dos Cem Anos. pouco influíram no resultado da luta. alimentos. Desde que a superioridade da cavalaria ficara clara. suas violentas flechadas. é verdade. ~ . elas foram se aperfeiçoando e a artilharia tomou o papel central nos combates. a não ser o surgimento da besta no século XII.e por isso mesmo recebia respeito.r 88 Hilário Franco Jr. o Feudalismo 89 :i. é verdade. os arqueiros ingleses mostraram. de um Estadõ suficientemente forte para protegê-Ia. Ã regionalização da defesa seguia-se a nacionalização da defesa. o representante de São Pedro e o herdeiro do imperador romimo. !1'. Na Europa Ocidental elas foram usadas pela primeira vez no cerco de uma fortaleza em 1324 e em batalha campal em 1346. Era clara a contradição entre a instituição "que não é deste mundo" . A crise clerical tinha suas raízes no papel central desempenhado pela Igreja no Feudalismo. Contudo. A mudança deu-se no século XIV. . O arco inglês tinha nas mãos de um homem treinado uma precisão muito grande e um alcance de até 400 metros. Desta forma. Em muitas outras oportunidades. Mas a crise militar feudal derivava também de mudanças na própria tecnologia bélica.

inclusive a Igreja. tal tarefa cabia ao imperador ou ao papa? O sucesso de um ou de outro devia-se a uma série de circunstâncias. Portanto. os papas deixaram de residir em Roma. ele foi conseguido somente no curto espaço de quatro anos. a feudal. Se ele está presente embrionariamente no cristianismo. no século XIV. a Igreja feudal viu-se arrastada pelos novos interesses monárquicos e burgueses. Rejeitava as relações sexuais e a procriação. Na verdade. o misticismo. desiludidos com a Igreja universal. entre 999 e 1002. Contudo. uma criação do Mal. Daí para a frente o choque entre o poder temporal dos imperadores e o poder espiritual dos papas tornou-se comum. de 1378 a 1417 desapareceu a unidade da Igreja. Em suma. Significativamente. numa rara e harmoniosa relação entre dois homens extraordinários. muito difundido na França meridional e na Itália setentrional. abrindo vazios de poder que foram sendo preenchidos pelos nascentes nacionalismos. produto de seu tempo. Desde o século XII as heresias ganhavam terreno como movimentos de contestação social que justificavam suas críticas e suas propostas religiosamente. tirando portanto a razão de ser do clero católico. de 1309 a 1378. o recuo do clericalismo não resultava apenas dos interesses da cúpula da sociedade laica. Assim. e inevitavelmente sendo envolvidos nos seus negócios. Ora. Ele negava o valor dos sacramentos. o catarismo. a oposição ao statu quo somente poderia combater o discurso ideológico dominante através de um discurso formalmente semelhante e que correspondesse à mentalidade da época. Acompanhando a tendência lógica da época. aquela luta representou o desgaste de ambas as forças que se pretendiam universalistas. A crise espiritual provinha de duas fontes. próximo ao reino francês. o imperador Otão III e o papa Silvestre 11. Por exemplo. passavam a pensar em termos de igrejas nacionais. tivera suas primeiras manifestações no século XII e seu grande momento no XIV. tanto o clero quanto os fiéis. trabalhavam nesse sentido: na Inglaterra em 1351 e 1393 e na França em 1438. e era sempre passageiro. Em função disso. Nas últimas décadas do século XI ecIodiu a Questão das Investiduras. condenava a sociedade humana. Ou seja. Em determinado momento surgiu mesmo um terceiro pontífice. Por muitos anos. essa divisão no topo da hierarquia eclesiástica natural- o Feudalismo "\ 91 \ mente se refletia em todos os escalões. a pressão havia começado. o campo de atuação do Papado naqueles países foi bastante limitado por determinação real. isto é. a sociedade historicamente • concreta de seu tempo. Colocado entre os interesses nacionais franceses de um lado e os diversos e às vezes contraditórios interesses italianos de outro. Uma. Cativeiro da Babilônia: o nome dado àquele período define bem o exílio e a dependência do Papado. fixando-se em Avignon. sem dú- I J i . existindo um papa em Roma e outro em Avignon. e era mais demolidora. Considerava o mundo material. o Papada tornou-se um joguete político. de baixo para cima. As monarquias. assim chamada porque a disputa girava em torno do poder de investir os bispos. obviamente.90 Hilário Franco Jr.

vida desenvolveu-se naquele momento como uma resposta espontânea à religiosidade formal que prevalecia. Tudo isso era interpretado como castigo divino aos pecados humanos. era generalizada. Diante da crise clerical fazia-se necessária uma nova Igreja. que deveria interceder a favor do homem mas apenas acelerava sua perdição envolvendo-se excessivamente nas questões materiais. O pessimismo. de desprendimento. 93 . buscava-se a salvação numa comunicação direta com Deus. de busca do sagrado na própria alma. Diante da crise monetária fazia-se necessária a descoberta de novas fontes de minérios. a valores questionados e a uma Igreja decadente. a angústia coletiva que perturbava os homens dos séculos XIV e XV. Diante da crise espiritual fazia-se necessária uma nova visão de Deus e do homem. Esta deveria ser de emotividade. r / . Frente a um mundo atormentado. I 1 I . A obsessão pelo pecado era imensa. temas . controlador das tensões e das lutas sociais. A perspectiva da morte e da ira de Deus atormentava a muitos. na Igreja.1 * * * }t' I _ . Diante da crise político-militar fazia-se necessária uma força centralizadora e defensora de toda a nação. naturalmente. macabros abundavam na arte e na literatura.92 sus-« Franco Ir. a fome. Deixavase de reconhecer no cumprimento dos rituais e no recebimento dos sacramentos a verdadeira atitude cristã. Outra. acreditando-se que mesmo os pequenos erros de um indivíduo comprometiam a todos. Diante da crise demo gráfica fazia-se necessário o domínio sobre populaç:õesrião-européias. a morte. Via-se a grande culpada. Ou seja.novas áreas produtoras. o Feudalismo Diante da crise agrária fazia-se necessária a conquista de . a espera sofrida de novas calamidades. diante de atitudes religiosas mecânicas. voltavam os grandes inimigos: a guerra. muitos indivíduos procuravam suprir suas necessidades espirituais pela interiorização. a peste. Depois de séculos de relativa tranqüilidade. Diante da crise social fazia-se necessário um monarca forte. Começavam novos tempos. exteriores. como resultado do afastamento dos homens em relação a Deus. de beatitude.

entre vassalos e suseranos" (Dicionário Aurélio). no Japão dos séculos XII-XVI ou no Brasil colonial. É verdade que . ora noutro. ora se colocando a ênfase num aspecto. delegado do poder imperial. mereceria uma resposta mais cuidadosa a velha questão: Feudalismo ou Feudalismos? Tendo surgido a palavra no século XVII com forte sentido de crítica ao Absolutismo Monárquico. o que permitiu ver-se "feudalismos" tanto no Ocidente medieval quanto. nobres provinciais com poderes quase autônomos sobre suas terras ishoen). as unidades de produção eram grandes domínios agrários. mais de subordinação que de reciprocidade de direitos e obrigações: o shogun podia destituir ou substituir daimios arbitrariamente. por exemplo. porque havia uma cadeia de relações pessoais ligando o shogun. De fato. escrava.' às vezes ainda associando-se ambos. Ademais. o "vassalo" só podia ter um único "senhor" e em caso de infidelidade podia ser morto por ele. os dairnios. estabelecendo uma relação de dependência . Na linguagem culta. No Brasil colonial. No Japão. ainda hoje permanecem os abusos de.o Feudalismo nais". Mas isso nos levaria muito além dos limites desse pequeno livro. em nome da qual exerciam amplos poderes. Mesmo na linguagem dos historiadores uma certa vagueza de sentido permanece. A própria fragmentação dos poderes públicos era relativa. CONCLUSÃO Para que a idéia que temos agora sobre o Feudalismo ficasse mais completa. Na fala corrente a palavra geralmente designa o poder de um grupo fechado e isolado em relação ao todo social: "feudalismo das multinacio- J . 95 . linguagem. trabalhados por mão-de-obra dependente. deveríamos acrescentar uma análise historiográfica. porque havia donatários ocupando terras que não pertenciam a eles e sim à Coroa. e os guerreiros (samurai = "aquele que serve"). "feudalismo dos sindicatos". examinando e discutindo as diversas interpretações sobre o nosso tema. "feudalismo dos partidos políticos" etc.como muitos historiadores perceberam depois . que procuravam seautobastar. Assim. sendo remunerados com parte das rendas que cabiam ao rei. ela desde então carrega uma dupla significação: frag-· mentação do poder político e exploração dos camponesespelos detentores de terra. "regime que resulta de um enfraquecimento do poder central e une estreitamente autoridade e propriedade da: terra.no Japão as relações pessoais eram muito estreitas.

igualmente. . desde que j j 'j . o sistema era para servir 'à obra colonizadora da Coroa e não significava renúncia de direitos por parte dela. era mais um dualismo político que uma fragmentação. contudo.! : pois O shogun na teoria agia em nome do imperador e na prática mantinha um certo controle sobre os nobres ligados a ele. os donatários eram claramente representantes do poder monárquico português. corremos o risco de encontrar "feudalismos" em civilizações tão diversas entre si quanto o Egito antigo. Tais comparações. por sua vez. mas todos estritamente delimitados pelo poder central. No Brasil colônia. com muitos poderes é verdade. o imperador (que não fazia parte do jogo "vassálico". podem ser interessantes e úteis. os grandes latifúndios estavam voltados para o exterior. Em suma. Enfim. mas não se criava nenhum laço pessoal entre eles. O~~fu~ ~ . . Este reservava-se. Bizâncio ou o Império Turco. Os direitos políticos dos colonos. No plano econômico. A capitania não podia ser alienada ou dividida. pois em todos os aspectos e em última análise. Além disso. o direito de modificar as capitanias naquilo que fosse interesse do Estado. a China. Os donatários podiam doar extensões de terras a serem exploradas pelos colonos. se valorizarmos um ou outro aspecto análogo ao da Europa Ocidental medieval. de relações pessoais) conservava seus poderes tradicionais em certos setores. sobretudo.'11 96 Hilário Franco Jr .J . para a economia mercantil européia.1 A mentalidade era extremamente sensível a forças sobrenaturais. eram salvaguardados e' equiparados àqueles que os portugueses gozavam na metrópole. nada havia de "feudal". .

canalizar (Cruzadas. Portanto.1 I 1I fi :1. reestruturando a economia. sua sociedade de ordens. I li . I: ii j. absorver (Franciscanismo) ou reprimir (Inquisição) tais manifestações. Ao lado de um ou outro aspecto semelhante. Mas isso significava tentar negar suas próprias forças vitais. Ê verdade que o Feudalismo procurou limitar (Paz de Deus). sua organização rnilitar cavalheiresca. sua mentalidade extremamente sensível às forças sobrenaturais. mas uma resposta espontânea às dificuldades.permitindo a recuperação. como na imagem muito pintada e esculpida na época. E o Feudalismo não poderia ser mais forte que si mêsmo. sua fragmentação política. possibilidades.. ele se autodestruía. De fato. que ele alcançava seu objetivo. do invariante. de sua economia agrária. Na verdade. ele automaticamente criava novas tensões e oposições. e portanto poderíamos encontrar sociedades capitalistas e socialistas em todas as épocas e locais. de uma serpente que para viver ia aos poucos devorando o próprio corpo. Nestes quadros é que foi possível o surgimento e a total interpenetração de suas partes constitutivas. Desprezar o caráter sistêmico do Feudalismo . e senhorial. necessidades e ansiedades concretas de um local (Ocidente europeu) e de uma época (medieval). suas relações homem a homem.I "I I1 98 tlitári« Frunco Jr. I não levem apenas à valorização dos elementos comuns. ia perdendo sua razão de ser: sua realização representava sua superação. do a-histórico. no essencial diferente da dos locais de pretensos "feudalismos" . Reconquista Ibérica).equivaleria a fazer o mesmo com o Capitalismo ou o Socialismo. lt _J I I I I . I1 /'"'1111111''''''' I . não tomemos partes pelo todo.i . Por fim. Identificar um ângulo "feudal" em alguma civilização não significa necessariamente descobrir um "feudalismo".conjunto de partes estruturalmente coordenadas entre si . absorvendo outros povos e culturas. Mas assim estaríamos vendo modelos e não realidades históricas. existem especificidades que não são meros detalhes e não podem ser deixados de lado. demográfica. seu profundo clericalismo. Nessa direção é que é preciso ver a lenta desfiguração -- I do Feudalismo desde seus primeiros tempos. . ao permitir a sobrevivência da Cristandade. à medida que ele reorganizava a sociedade cristã ocidental. aliviando as tensões -sociais. isto é. é sempre preciso recordar que o Feudalismo apresentava uma dinâmica que explica asetapas seguintes da história européia. É preciso entender que o Feudalismo não foi uma fórmula.

. La Provence et Ia société féodale. do anterior). Lisboa. Fossier. Mouton. com rica bibliografia). Paris. 1942. J... Por exemplo: Chedeveille. Braga.. SEDES. 1972. J. Devailly. Edições 70. Structures féodales et féodalisme dans l'Occident méditerranéen (X-XIII siêcles): bilan et perspectives de recherches. port. Verbo.. Seigneurie et Féodalité. 1973...o Feudalismo siêcles. Sobre a gênese do Feudalismo pode-se ver Brown. 1979 (o da/e. Touzot. Dockês. E. Poly. 1980.. A sociedade feudal. La mutation féo\ grande clássico do assunto. Lisboa. 1968. Roma. 2 vols. c.' Bordas. nova ed. Senhorio e feudalidade na Idade Média. abundantes sobretudo para a França. com valiosa coleção de documentos em apêndice). mas claro e interessante). R.. por isso cabem aqui apenas algumas referências. PUF.. Paris. 1979. L.-P. 1982 e Genicot. Cornell University Press. O fim do mundo clássico. precisa.. Paris. Chartres et ses campagnes (XI-XIII siêcles). 1980 (síntese mais atual. port. F. Edições 70. Labor. Lisboa.. E.. PUF. Paris.. O Feudalismo das regiões mediterrânicas foi objeto de dois colóquios internacionais: Les structures sociales de l' Aquitaine . Paris. Para se construir uma visão global do Feudalismo são fundamentais as monografias regionais. Klincksieck. com visão basicamente política. 2 vols. Armand Colin. La libération médiévale. 1980. G. Paris.. 1967(trabalho de divulgação. 1972. port. trad. Barcelona. 1970. 353-624. publicado há mais de 40 anos. 1978 (espécie de síntese. premier age féodal. Lot. Paris. Flammarion. P. Enfance de l'Europe. Nova Iorque. . pp. Paris. e Bournazel.. Bloch. Duby. port. port. Paris. X-XII siêcles. Fourquin.. trad. 1973.. Annales du Midi 80.. Paris. i J . Boutruche.-P. Le monde carolingien. Para o enquadramento geral do período. nova ed. esp. Mediaeval feudalism . 1976. Edições 70.. X-XII 1011 ·1 INDICAÇÕES PARA LEITURA A literatura sobre o nosso tema é uma das maiores produzidas pela historiografia. M. Lisboa. du Languedoc et de l'Espagne au . trad.. R. Dawson. Cruz. O fim do mundo antigo e o princípio da Idade Média. trad. La société aux XI et XII siêcles dans Ia région mãconnaise. porém ainda moderno e inteligente). Le Berry du X siêcle au milieu du XIII. A. Aubier. 19681970 (obra de peso.. 1971.... A formação da Europa. Poly.. G. Europa en el siglo XIII. 1953. École Française de Rome. C. P. trad.. trad.. Perroy. G. bem feita. Como obras gerais sobre o Feudalismo destacam-se Stephenson.

Zahar. 1938.ed.. Porto. trad. port.. Duby.. Princeton University Press. Critchley. Ulisséia. Akal. (ed. J. G. Anderson. . G.). 1979. 4:'. Paris. Le Goff.. 1975. Cahen. enquanto componente vital do Feudalismo não há estudos específicos.. mas existem boas indicações nos dez volumes dedicados à Idade Média na obra coletiva coordenada por Fliche. c. si d. Londres. port. Feudalism in History . Princeton. 1980. Bloud et Gay. La spiritualité du Moyen Age occidental. 1968." Duby. La guerre aú Moyen . 1980.. As cruzadas. 2:'. Madri.. Roma. Bloch. R... esp." sobre economia. 1971. PUF.. M. Siglo XXI. Edi- .. G. G... 1971. sobre fortificações.ed. contamos hoje com algumas obras de grande valor: sobre ideologia. trad. Herlihy. trad. Dobb. Barcelona. Paris. Fournier.. S. 1980. Crise du feodalisme. e I.. port. Lisboa. A concepção de "sociedade feudal" aparece sobretudo em Calmette. Estampa.lV"" DlIaTlO r runco a r. 7~ ed. trad. 1978. Lisboa. Bloch.. J.ed. G. naturalmente. 980-1420. Madri.. PUF. pert.. Madri. Lisboa. As três ordens ou o imaginário do feudalismo. Paris.. 1977. 1975. H. Para um novo conceitode Idade Média. port. Fourquin. Na historiografia marxista. Finley et alii. Sobre a Igreja. Estampa. R. Lisboa. V. Economia rural y vida campesina en el occidente medieval. O tempo das catedrais. Histoirede l'Eglise. 1982. Gallimard. 1976.. deu margem a inúmeras interpretações. port. Feudalism. Franco Jr. Contamine. sobre arte e" sociedade. Paris. 1978. P. Ph.. Allen and Unwin. La naissance du purgatoire.. Madri.. trad. Vauchez. sobre família e parentesco. Histoire économique de l'Occident médiéval. Londres. trad. Aubier. D. Biriukovitch et alii.). A.. Êcole Française de Rome. A sociedade feudal. o Feudalismo 103 2:'. A.. Duby. Êcole des Hautes Êtudes en Sciences Sociales.. Rornero. sobre cultura. J. Paris. 1980. Paris. The History of Feudalism. G. 1981. 2:'... Lisboa. em que o tema é muito debatido. Guerreiros e camponeses. encontrável em várias civilizações. Dentre os que o concebem de forma ampla. 1979.. 1981. sobre espiritualidade. La transición dei" esclavismo aI feudalismo. e no grande clássico já citado.. sobre mentalidade. Coulborn. J. Sobre os fenômenos que caracterizaram a dinâmica e a crise: Bois.. O Feudalismo. Famille et parenté dans l'Occident médiéval. El modo de produccion feudal. Armand Colin. G... igualmente em Southern. Brasiliense. Estampa.ed. V. Afrontamento. M.. Age. Le Goff. sobre a guerra. (ed. e Martin. Paulo. Romero. A evolução do capitalismo. 1979. Armand Colin. M. Para se entender determinados aspectos específicos do Feudalismo. L. A Igreja medieval. 1939-1964. La société féodale. Estampa. 1975. Passagens da Antiguidade ao Feudalismo.).. trad. G. Siglo XXI. J. Crisis y orden en el mundo feudoburgués. 1976. M. J.. Akal. 1956. L. Paris. Macmillan.Le Goff (apres. Península.. Duby. 1980. Duby. Rio. Lisboa. Le chãteau dans Ia France médiévale: essai de sociologie monumentale. trad.. port. La revolución burguesa en el mundo feudal. Paris.

. 765771. pp. Escreveu ainda (em co-autoria com Paulo Chacon) uma História Econômica Geral (Atlas.Universidade Estadual Paulista..-L. 1958. Economies. lt ~ lr .. "La féodalité? Une mentalité médiévale".104 Hiiário Franco Jr. F. Sociétés. 4!i ed. Caro leitor: As opiniões expressas neste livro são as do autor. podem não ser as suas. G. s/d. Pubi. Civilisations 13. nós estamos dispostos a estudar sua publicação como mesmo título como "segunda visão". Lisboa. Europa-América. A. A critica historiográfica de todas estas tendências é feita por Guerreau. I I I Hilârio Franco Junior. port. trad. O Feudalismo. Edições. port. Caso você ache que vale a pena escrever um outro livro sobre o mesmo tema. doutor ern História Medieval pela Universidade de São Paulo. um horizonte teórico. 1979. Que é o feudalismo?. 70. Annales. o 111 Sobre o Autor I.... 1976. Pesquisa atualmente temas sobre a mentalidade ocidental dos séculos XI-XIII. A sugestão do Feudalismo como mentalidade é de Duby. 1985) e diversos artigos publicados em revistas especializadas nacionais e estrangeiras. trad. É membro da The Medieval Academy of America. I ções 70. professor dessa disciplina na UNESP . é autor nessa mesma coleção de As Cruzadas e O 1m· pério Bizantino. O Feudalismo en~uanto conjunto de instituições políticas aparece principalmente em Ganshof. Lisboa.

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