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60 Cultlira e ratâo pratjca
a antropologia aceitou a especificidade do "primitivo" como sua tarefa acadêmica,
embora isso pudesse significar uma amputaçao da sua per linência pelo menas tao
drastica quanta a rclativizaçào do materialismo hist6ri co, 1èntei di scutir agui a
plausibilidade do ponto de vista "duas sociedade - duas ciências': lv/as SOnlcnte
para II cga- lo cm U11/ capitulo posterior como uma espécie de falsa consciéncia: uma
traduçao de integraçôes diferentes de c6digo e praxis em uma di stinçao radical na
natureza das saciedades, como se uma nao conhecesse ncnhum axioma cancep-
tuaI. da mesma forma que a outra nao conhece nenhuma conseqüência prât ica.
Acho que isso é "falsa consciència': porque a disti nçao de saida Iegit ima 0 modo de
aparência da sociedade ocidental como sua verdadeira explicaçao. A derivaçao da
organizaçâo a partir da atividade pratica e da consciência a partir das relaçôes
entre pessoas ignora a qualidade si mb6lica ordenada das nossas pr6prias institui-
ç6es. Mas se por urn lado se conclui que a determinaçao da consciência pela ser
social, coma é geralmente entendida, precisa de alguma reavaliaçao, pOl' outro
lado se conclui também que ela continua, exatamente como é, a rnelhor expli caçao
da ciência social ocidental. Pois muito dessa ciência é a autoconcepçao do capita-
lismo.
o verdadeiro problema para 0 marxismo e para a antropologia se localiza na
relaçao entre a praxis e a ordem simb6lica. E esse é um problema mais bem
explicado a partir da hist6ria da pr6pria antropologia - exatament e porque a
hist6ria da antropologia é um coroIar io permanente da contradiçao da sua exis-
tência camo uma ciência ' ocidental das outras culturas. A contradiçao é uma
condiçao original: uma ciência do homem patrocinada par uma sociedade que, tal
como as outras, se definiu exclusivamente a si pr6pria como humanidade e a sua
pr6pria ordem coma cultura. Apesar de tudo, acredito que no C3S0 ant ropol6gico
essa sociedade aprendeu alguma coisa das outras - sobre si mesma.
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$ZII$, ;a;:
m CULTURA E RAZAo PRATICA
dois paradigmas da teoria ant ropol6gica
A oposiçao levantada recentemente por Lévi-Strauss entre ecologia e estruturali s-
ma - dentro de uma unidade de naturalismo mais elevada, ou talvez se trate de
um materialismo transcendental- nao é nova. Em seus contomos principais, é
endèmica à antropologia anglo-saxônica. Esst conflito ent re a at ividade pratica e
os limites da mente se insere em uma contradiçao original e basica, entre cujos
p6los a teor ia antropol6gica lem osci lado desde 0 século XIX camo UITI pr isioneiro
que caminha compassadamente entre as mais distantes paredes da sua cela. Mui -
tas das mes mas premissas que separam 0 estruturalismo de uma explicaçao por
adapta ça a também diferenciam Boas de Morgan, Radcliffe Brown de Malinowski
- ou mesmo aspectos diferent es de um unico projeta te6rico, como a énfase
colocada ao mesmo tempo na definiçao simb6lica da cultura e no seu determinis-
ma tecnoI6gico na ob ra de Leslie White. As alternativas nesse veneravel conflito
entre utilitarismo e um enfoque cultural podern ser colocadas da seguinte forma:
se a ordern cultural tem de ser concebida camo a codifi caçao da açao int encional
j e pragmatica real do homem, ou se, ao contrario, a açao humana no munda dcve
ser compreendida camo mediada pela projeto cultural, que ordena imediatamen-
te a experiência prâtica, a pratica ordinaria, e 0 relacionamento ent re as duas. A
diferença nao é simples, nem sera resolvida pela feliz conclusao acadêmi ca de que
a resposta se encont ra em algum lugar no meio das duas ou mesmo em ambas as
partes Osto é, dialet icamente). Afina l, nunca ha um verdadeiro diaIogo entre 0
silêncio e 0 discurso: de um lado, as leis e forças naturais «independentes da
vontade humana", e do outra 0 sentido que os grupos de homens conferem
variavelmen te a si mesmos e ao mundo. Por taoto, a oposiçao nao l'ode estar
comprometida; nas palavras de Loui s Dumont, a relaçâo nao pode ser senao uma
superposiçao. No final, a cultura estarâ rclacionada, na sua especificidade, a lima
ou out ra 16gica dominante - a 16gica "objetiva" da superioridade pnHica ou a
l6gica significativa no "esquema conceituaJ': No primeiro caso, a cultura um
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62
Cu/furc< e f «ZaO pra/Ica
sistema instrument.al ; no segundo, 0 instrumental se encontra sujeito a sistemas
de uma outra espécie.
A relevância dessa controvérsia provinciana para a invocaçao da prâxis de
Marx é patente, muita embora, como veremos, a posiçao de Marx nao possa seT
simplesmente assimilada ao materialismo empirista reconhecido na antropologia.
É através de uma versao moderada do marxismo, "senao do pr6prio Marx", que
Lévi-Strauss apresenta muita resumidamente sua pr6pria perspectiva:
1
Se afirmamos que 0 esqucma conceitual comanda c define as prâticas, é porque estas,
objcto de cstudo do ctn6logo, sob a forma de realidades discretas, localizadas no
tempo e no espaça c dîstintivas de gêneras de vida e de formas de civilizaçao, nao se
confundem corn a prâxis que - neste ponta, ao men os, estamos de acordo cam
Sartre - constitui para as ciências do homem a totalidade fundamental. 0 marxis-
mo, senao a proprio Marx, muitas vezes como se as praticas decorressem
imediatamente da prâxis. Sem pôr em dûvida 0 incontestavel primado das infra-cs-
truturas, cremos que entre praxis e prâticas se intercala sempre um mediador, que é 0
esqucma conceitual, par ob ra do quaI uma matéria e uma forma, desprovidas ambas
de existência indcpendente, realizam-se coma estruturas, isto é, camo seres, ao mes-
mo tempo empfricos e inteligiveis. [1966, p.130-1.]
Lévi-Strauss continua, explicando 0 contraste coma se fosse uma questào de
Itividades complementar.es:
.t para esta tearia das superestruturas, mal e mal esboçada par Marx, que desejamos
contribuir, reservando à hist6ria - assistida pela demografia, pela tecnologia, pela
geografia hist6rica c pela etl1agrafia - a cuidado de desenvolver a estudo das infra-
estruturas propriarncntc ditas; que nao pode ser principalmente de nossa responsabi-
lidadc, porque a etnologia é, antes de mais nada, uma psicologia. [Ibid. )
A seriedade da crîtica de Lévi-Strauss se apresenta assim dissimulada por esta
modesta renûncia. Talvcz cIe esteja cedendo uma parte muito grande da sua
ciência. Se 0 esquema conceitual abrange a matéria nos termos de uma existência
humana, ele nao vern ao cenario da açâo pra.tica apenas para acrescentar a inter-
pretaçào apropriada de fatos materiais ou das relaçôes instrumentais. Nem a de
codificaçao do esquema seria confinada à Esse esquema é a
pr6pria organizaçâo da produçào material; ao analisa.-Io, encontramo-nos na
pria base econômica. Sua presença ai dissolve as antinomias classicas de infra-es-
trutura e superestrutura, uma "material" a outra "conceitual': Ë clara que ela nâo
dissolve 0 "material" enquanto tal. Mas as chamadas causas materiais devem ser,
enquanto tais, a produlo de um sistema simb61ico cujo canüer cabc a n6s investi -
gar, pois sem a mediaçâo desse esquema cultural nenhuma relaçào adequada entre
uma dada condiçào matcrial e uma determinada forma cultural po de ser especifi -
Dois paradigmas da Icoria alltropol6gica 63
cada. As determinaçôes gerais da praxis estào sujeitas às formulaçôes espedficas
da cul tura, isto é, de uma ordem que goza, por suas propriedades de sistema
sîmb6li co, de uma autonomia fundamental.
Morgan
As questôes envolvidas na opçao entre a 16gica pratîca e a significativa travaram,
coma ja disse, em dezenas de campos de batalha, cern anos de guerra antropo16gi-
ca. Uma reflexào sobre essa hist6ria nos ajudara a clarificar essas quest6cs. Devo
advcrtir, porérn, que a excursao sera uma historia "para n6s" - uma forma de
tomarmos consciência de n6s mcsmos na hist6ria - sem qualquer pretensao ao
status de uma "verdadeira" abordagem diacrônica. Nesse sentido, estabeleço os
contrastes entre Lewis Henry Morgan e Franz Boas como uma oposiçao paradig-
matica, sem referência às outras figuras do contexto intelectual da época, cujas
influências foraru seguramente crfticas para a controvérsia personificada nos dois.
Mais uma vez, deixo de lado ou teço consideraç6es sumarias sobre um grande
nûmero de pensadores sérios dos ultimos tempos, tanto cm antropologia quanto
em disciplinas correlatas, que outras poderiam julgar mais importantes e exem-
plificadorcs. Talvez esse tratamento cavalheiresco possa ser desculpado por atri -
buÎ-Io a uma hist6ria corn a quaI os antrop610gos j:i se familiarizaram: uma versao
do passa do como ele é realmente'vivido por um segmento da sociedade, camo 0
.mapa da sua condiçao presente (ver Pouillon, 1975) .
Começo por Morgan, mas jâ me antecipo em dizer que a escolha pode ter
sido, de certa forma, equÎvoca. Camo todo [undador, 0 pensamento de Morgan
tende a ser mais generalizado do que os pontos de vista que divergiram dele,
contendo dentro de si os "germes" de quase toda posiçâo posterior. Isso significa
que a homem pode ser submetido a muitas leituras sendo que q1,lalquer
uma delas, precisamentc por se tornar uro mapa para a presente discussao, po de
sec culpada de desrespeitar a generalidade original. Assim, Morgan foi
do pelos mcios acadêmicos mais recentes camo "idealista", devido à sua ênfase no
desdobramento dos "germes [originais] do pensamento"j coma materialista, por
firmar a evoluçâ.o social sobre 0 desenvolvimento das artes de subsistência; e ainda
camo "dualista filos6fico': por sua dependência simultânea de ambos. Por ter feito
uma alusâo à "16gica natural da mente", alguns 0 consideravam um "mentalista",
enquanto outros 0 acusavam de "racismo" por ter referenciado a cultura ao orga-
nismo (incluindo a famosa transmissâ.o de habitos "através do sangue"). Sem
pretender resolver todas essas questôes, acho que é importante nao confundir
uma certa semelhança da terminologia de Morgan corn 0 discurso do moderno
estruturalismo, isto é, a invocaçâo dos germes originais do pensamento, desdo-
brando-se em resposta aos desejos e humanos, mas de acordo.com a
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64 CI/III/ra c razilo prritica
"J6giea nalueal da mente': A mente aparct:e Il:1 teo ria de Morga n mais como 0
instrumenta do dcsenvolvimento cul tural do que como seu autor (cf. Terray,
1972). Mais passiva que ativa, simplcsmcnte racional cm vez de simb61ica, a
inteligência responde reflcxivarncnte a sÎtuaçôes que nâo produz nem organiza, de
modo que, no final, 0 que é reali zado cm fOrlll3.S culturais é urna 16gica pratica-
biol6gica nos primeiros estagios, tecnol6gica nos ûltimos. 0 esquema conceitual
nao é a construçâo da experiência humana, mas sua verbalizaçâo, como nas clas-
sificaçôes de parentesco que sao simpl esmcnte os termos de uma ordenaçao de
rclaçôes de fato, efetuados pela vantagcm ccon6mica ou biol6giea. Para Morgan,
pcnsamento é reconhecimento; concepçao é percepçâo; e linguagem é 0 reflexo de
distinçôes que jél têm sua prôpria ra zao. A qualidade simb6lica da cultura nâo
apurece no esquema de Morgan; nele, as palavras sâo simples mente os nomes de
coisas.
Consideremos a discussâo em Ancient Society a respeito do desenvolvimento
do casamento punaluano, da gens (elâ) e, nessas bases, da terminologia do paren-
tesco turaniano. 0 casamento punaluano fo i para Morgan 0 triunfo da biologia na
socicdade, uma grande reforma nas uni ôes consangüineas de irmaos e irmas cm
um grupo que ele caracterizou camo possuidor da mais rudi mentar humanidade.
A evidência crîtica desse avanço veio do conlraste corn os padrôes de casamento e
as c1assificaçôes de parentesco dos havaianos contemporâneos. A terminologia do
parentesco dos havaianos comprovava 0 esta do consangüineo original, uma vez
que todos os homens de uma mes ma geraçâo eram "irmâos': todas as mulheres
"irmâs" e os fiIhos de todos, indiscriminadamente, "filhos" e "filhas': Mas a pratica
do casamento, a pUllalua, exigia a exelusao das irmâs do grupo de mulheres
compartilhado pelas irmaos, e dos irmaos do grupo de homens compartilhado
pelas irmâs. Morgan concluiu que a contradiçâo entre casamento e parentesco no
Havai contemporâneo remontava aos primeiros estagios de emancipaçào do esta-
do consangüineo. Eie nao estava seguro de como se produziu exatamente a proi-
biçao de casamentos entre irmao e irmâ; refere-se aos primeiros passos como
"casos isolados", algo no modelo das variaçôes ocasionais, cuj as vantagens foram
pouco a pouco sendo reconhecidas:
Dada a familia consangüinea, que englobava tanto os i n llllOS e irmas consangüfneos
quanto os irmâos c irmâs colatcrais na relaçao matrimonial, na familia punaluana
bastava excluir os primeiros do grupo, nele conscrvando apenas os segundos. Mas cra
dificil excl ui r os primeiros e man ter os scgulldos, pois tal medida implicava uma
mudança radical na composiçâo da familia, para nao dizer na antiga estrutura da vida
domés tica. El a implicava igualmente 0 abandono de um privilégio do quai os selva-
gens nào podiam desistir facilmente. Pode-se suporquc essn medi da foi IOl/Tada, iniciaI-
mente, em casas iso/ados, que SIIt1S valltagellS foram /ellfalllcll te reconhecidns, e que foi
adotada a titulo experimental durante periodos muita longos. A principio, cla foi
Dois paradigfltQ$ da tcoria antropol6gica 65
aplicada por algumas tribos, dcpois pela maioria, até ser finalmente universalmentc
adotada pelas tribos mais evoluidas que se encontravam ainda no estado selvagem e
entre as quais se originara 0 movimento. Sua adoçao oferece lima boa ilustraçao do
proces$o segundo 0 quai se realiza 0 principio da seleçào natural. (Morgan, 1963
(1877), p.433-4; grifo meu. J
h importante perceber a natureza da intelecçâo humana que Morgan propôe
aqui. 0 exemplo da punalua é particularmente adequado, uma vez que é comu-
mente utilizado no primeiro ano de antropologia para ilustrar a arbitrariedade do
sfmbolo pela observaçao de que nenhum sfmio poderia at ingir a distinçao entre
"esposa" e "irma", da mesma forma que nao poderia estabelecer a diferença entre
agua benta e agua destilada.
1
No entanto, 0 que Morgan esta dizendo é exatamente
o oposto, que a diferença entre "marido" e "irmao" nao é uma const ruçao simb6-
lica colocada no mundo, mas a decorrência racional de lima diferença objetiva no
mundo, isto é entre homens biologicamente superiores e inferiores. Trata-se de
uma percepçao das vantagens biol6gicas como resultantes da diferença, sendo
portanto uma representaçao em termos sociais de uma 16gica externa a esses
termos. A reforma caracterizada pela punalua foi a primeira de uma ionga série
que cul minou na monogamia, uma série na quai a espécie hum(l na livrou-se
progressivamente de uma promiscuidade original e dos males decorrentes da
procriaçao consangüinea. E esse primeiro passa resume a noçao que Morgan tem
do. todo: cIe foi efetuado pela observaçâo e pela expùiência; atençâo às conse-
qüências deletérias do casamento dentro do grupo - "os males dos quais a
observaçao humana naD podia indefinidamente escapar" (Morgan, 1963, pA33)
- a experiência das vantagens mentais, portanto institucionais. do casamento
fora grupo. "É uma inferência correta dizer que 0 costume punaluano chegou
à adoçao geral através da descoberta da sua intluência benéfica" (p.509). Portanto, n
pensamento é reconheClmento e a mente é um veiculo pela quaI a natureza é '\
compreendida como cultura.
A explicaçâo posterior de Morgan da gens como uma derivaçao da sociedade
punai uana e uma codificaçao das suas vantagens leva ao mais alto nivel a mesma
concepçao. Enquanto matrilinear, a gens original representa 0 acabamento natu-
rai da familia punaluana no tempo, dada a impossibil idade de se verificar a pater-
nidade sob as condiçôes maritais existentes. 0 conceito social de d escendéncia é,
mais uma vez, uma consciência de relaçôes jâ prevalecentes (p.442). (Em um
! 0 uso de c. "signo" na anlropotogia amcricana, ou peto menos cm grande parte dela,
tende a sc dar no sentldo lIlverso das famosas dcfiniçôes de Saussure, em seu CI/rso dt: liugiiisticagcra/;
na anterior "simbolo" é 0 verdadei ramente arbitnlrio ou 0 naD motiva do, e "signo" é 0
mOIi.va?O Langer, 1957, ou White, 1960. com Saussure, 1966 Il9l 5 J). Coma regra geral
segulrel a usa amencnno, exccto onde 0 contexto é clarnmente saussuri nno.
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Cu/wra e razào pratica
lllomentQ posterior no esquema de Morgan, a descendéncia se tornarâ patrilinear
sob a influência do crcscimento da "propriedade" - termo geral empregado por
Morgan para dcsignar a l'osse da "riqueza" estratégica - que é a junçâo na quai 0
int eresse econômico, ou 0 desdobramento efetivo dos meias crcscentes de subsis-
tência, prevalece sobre a vantagem biol6gica como a determinante pratica da
forma social.) Exatamente como a famflia punaluana, cuja funçao nesse aspecta
cJa duplica e generaliza, a gens se tamau accita graças às CCvantagens a ela conferi-
d;1S", ou seja, a melhoria genética que deve resultar da regra da exogamia:
Vm objeto primario da organizaçao Cfa, evidentemente, isolar uma metade dos
descendentes de um suposto fundador, evitar 0 casamento entre eles por motivos de
,
parentesco ". A gens, que se origina provavelmente da ingenuidade de um pequeno
bando de selvagens, deve ter logo provado sua utilidade na produçao de homens
superiores. Sua prevalência quase universal no mundo antigo é a maior evidência das
vantagens que da apresentou. (Ibid., p.73-4; cf. também p.68, 389, 442.)
Por sua vez, 0 sistema de parentesco turaniano reflete a organizaçào sobre a
base da punalua e da gens. Na sua distinçâo entre 0 parentesco paralelo e cruzado,
cla apenas expressa as diferenças jâ estabelecidas na pratica. 0 parentesco turania-
no nao é mais que a articulaçao criteriosa das distinçôes sociais desenvolvidas pela
scleçao natura!.
A teoria pode ser da seguin te forma: os homens cedo desenvolve-
ram certas prâticas, formas de comportamento, como a exclusào de irmaos e
1 irmas de uniôes sexuais de grupo, que provàram naturalmente ser uteis e vantajo-
sas. As vantagens foram apreciadas e os comportamentos formulados como mo-
I dos de organizaçâo - por exempIa, a farnilia punaluana, a gens - que, por sua
, vez, estavam suj eitos à reflexaa secundâria ou à codificaçao na terminologia do
parentesco. A lin ha geral de força da demol1straçao, a orientaçtio do efeito 16gico,
vai dos limites naturais à pratica camportamental, e da ·pratica comportarnental à
\
instituiçao cultural:
( 1) circunstância -+ pratica -+ o rganizaçao e codificaçâo (instituiçao).
Para se cornpreender qualquer segmenta dado na cadeia de efeito, deve-se ter
par base 0 segmente precedente; assim como a codificaçao expressa organizaçao,
também a estrutura institucional coma um todo esta referida à pratica e a pratica
;\ cxperiéncia no mundo, de tai modo que a seqüência total representa a
taçao, dentro da cultura, da 16gica da natureza (a vantagem adaptativa).2
1 Em termos mais gerais, uma vez que nos ultimos estagios do esquema de Morgan 0 interesse
sc apossa da vantagem biol6gica, a l6gica bâsica poderia ser caractcrizada simplesmente
como "vantagem pnitica". De uma pcrspectiva ecol6gica, contudo, a diferença se dâ apenas entre
modalidades de vantagern adaptativa. (Na realidade, 0 aumento do estoque é uma mctarora que vem
0 homcm primitivo, passando pelos pastores patriarcais, até 0 capitalismq.)
. ,---.
Dois paradigmas da teorÎa alltropoMgica 67
Mas entao a tcoria de Morgan é apropr iada a uma cllltllra nào-humana - ou
melhor, a uma humanidade nao-cultural. TaI camo 0 pensamento é a rcconheci -
mento de uma significaçao exterior, as palavras dos ho mens nao sac a conceito
das realidades externas, mas sim 0 seu signo. Consistindo simpl esmente na capa-
cidade de agir racionalmente sobre a exper iência, a inteligência que Morgan en-
tende coma humana nao difere da de outras espécies mamfferas, especialmente do
castor. Na sua famosa monografia The American Beaver and his Works (1968 ),
Morgan de fend eu vigorosamente a idéia de que "a principio do pensamento" era
comum aos homens e aos animais. As qualidades mentais do castor, escreveu eIe,
sao "essencialmente as mes mas que aquelas manifestas pela mente humana"
(p.252). A diferença ent re essas qualidades e 0 pensamento huma no, "e, por
inferência, entre os prindpios que e1es representam respectivamente, é de grau e
nao de gênera" (ibidem). A semel hança especîfica consiste na capacidade de se
fazer <C urn uso racional" das percepçôes transmitidas pelos sent idos para agir
pragmaticamente sobre a experiência. Dai, para Morgan, a fonte de significaçâo
que é materializada nas produçôes das espécies, tanto na casa do africano quanta
do castor, residir na pr6pria natureza. Morgan retornou rcpet idas vezes à
gia animal, sem pre preocupado em mostrar "que todas as espécies, incluindo a
hum an.;:!., recebem orientaçtio imediata da natureza" (Resek, 1960, p.SI; grifo
meu).
3
Sua teoria do conhecimento foi, portanto, caracterizada pela suposiçao-
para fi carmos de acordo corn a descriçao gerai de Cassirer - de que a "real" é
dada "tout fait, tanto na sua existência como na sua estrutura, e que para a mente
(esprit) humana é apenas uma questao de tomar posse dessa realidade. Aquilo que
existe e subsiste 'fora' de n6s deve ser, por assim dizer, 'transportado' para a
alterado em alguma coisa interna sem, contudo, acrescentar nada de
novo ao processo" (Cassirer, 1933, p.18). Morgan reduziu a linguagem ao ato de
nomear as diferenças manifestas na experiência. Preferiu respeitar a continuidade
da inteligência, às expensas da criatividade da linguagem, susten tan do que 0
castor era apenas "silencioso", mas nao " mudo': chegando mesmo a afirmar que a
faculdade lingüîstica do homem era apenas rudimentar na Selvageria, desenvol-
3 Resek, 0 mais perspicaz bi6grafo de Morgan, estabelece uma conexao precisa entre a racional idadc
atribuida aos animais e a pr6pria epistemologia antropol 6gica de Morgan. Desconfiando tanto do
instinto quanto da imaginaç50, a longa obra de Morgan sobre a evoluçao social deixou intact a a
i1ist6ria das idéias, mesmo que cie - racionalista supremo - pudcsse considerar cssa pr6pria obra
intocada pda ideologia. Morgan "nunca duvidou de que seus pcnsamentos fossem verdadeiros
retlexos da realidadej 0 que ele via na base das Montanhas Rochosas ou em um povoado asteca pouco
ou nada tinna a ver com 0 fato de ser rko ou às vezes mil Whig dissidcntc. Ele teri a re;eitado a noçao
de que fatores subjetivos, irracionais ou subconscientes fazem de cada homem seu pr6prio
dor. As leis da natureza e da socicdade foram dcscobertas em plena luz do dia, 115.0 nos subterrâneos
da alma ou nas meditaçôes dos fi!6sofos. Elc tentou provar isso aos outras - como sc fosse preciso
prova - em seus ensaios sobre psicologia animal" (Resek, 1960, p.151·2).
"
"
1

i"' .
68 Culll/ra e razao prdtica
venda-se gradualmente através daquel e longo perfodo. Morgan fo i UI11 antrop61o-
go pré-simb6lico.
4
Ent retanlo, 0 pr6prio conceito do conceito continua em muitas antropolo-
gias da praxis recentes. Esta é uma premissa implkita,mas decisiva, da filosofia. A
ana lise deve negligenciar a arbitrariedade fundamcntaJ da palavra -reconhecen-
do talvez que nào haja qualquer relaçao inerente entre 0 som-imagem e 0 conceito
(idéia), supondo, porém, que exista tal relaçâo entre 0 conceito e a realidade
objetiva à quaI ela se refere.
5
Assim, a linguagem s6 é simb6lica no sentido de que
represcnta 0 munda de uma outra forma, mas que nao t'cm sentido algum se
retirada do mundo; por conseguinte, é 0 comportamento do signo em uso, sc nao
em invençao. 1
Mas a arbitrariedade do simbolo é a condiçào indicativa da cultura humana.
6
Isso nao se da simplesmente porque a combinaçao de sons sheep [carneiro] nào
tem qualquer conexào necessaria corn 0 animal designado desse modo, da ffieSITIa
forma que a palavra mouton, mas porque 0 conceito de carneiro também varia em
diferentes sociedades. 0 exemplo acima é clara mente motivado por urn farnoso
exemplo de Saussure, no quai ele usa a di ferença de significado entre sheep e
mouton para ilustrara diferença entre valor e significaçao lingüfsticos. As palavras
francesa e inglesa referem-se à mesma espécie, mas 0 fazem "em termos diferen-
tes"; cada uma, em virtude das diferenCÎaçôes semânticas das respectivas Hnguas,
exprime uma concepçào distinta das (e em relaçào às) espécies. A palavra inglesa
nao se aplica ao animal quando pronto para ser comido, no seu estado culinario,
para 0 quaI ha um segundo termo, mutton; mas 0 francês ainda nâo foi capaz de
participar da distinçao mais elevada entre 0 cru e 0 cozido:
o francês moderno mouton pode ter a mes ma significaçao do inglês slleep, mas nao 0
mesmo valor, è isso por varias razoes, cm particular porque, ao falar de uma peça de
carne pronta para ser levada àp1esa, 0 inglês usa l11uttOIl e nao sheep. A diferença de
valor entre sheep e mutton deve-se ao fato de 0 primeiro ter, ao seu lado, um segundo
tenno,o que nao é 0 caso da palavra francesa.
Dentro de uma mesma lingua, todas as palavras que cxpressam idéias vizinhas se
limitam reciprocamente ... Assim, 0 valor de qualquer termo é determinado pela que
4 Para uma posÎçao scme1hante sobre a Iinguagem na ohr .. do antrop61ogo evolucÎOllista inglês E.B.
Tylor, ver Hcnson ( 1974, p. 16-7).
5 Uma vcz que Îlcm a som-imagcm nem a idéia podcrn ocorrer um se m 0 outro, coma argument ou
Benvcniste cm seu conhccido comentârio sobre 0 texto saussuriano, sua re1açao é cOll5ubstancial e
absoluta, e nesse sentido nao-a rbitrâria. A verdadeira contingência est:\. entre 0 conccito e a palavra,
um::! re1açào quc Benveniste recusa tratar, por consider:\.-Ia fom do objetivo de lingüistica 09li,
p.43-8).
6 "Enquanto encarannos as sensaçoes coma signos das coisas que supostamente lhcs dao origem,
qualificando talvez esses signos corn rcferência a scns::!çOes p::! ssadas que (omm scmel hantcs, nem
terernos arranh:ldo a superficie dessa mente humana ocupada de simbolos" (Langer, 1957, pA3).
Dois parndigma5 da tcoria tinlropoMgica 69
o ccrea; é impossivel flXar até mesmo 0 valor da palavra que sign ifica "sol" sem <la tes
considerar 0 que h;, ao seu redor; ha Iinguas onde n50 é possivel dizer "scntar-sc no
sol". ISaussurc, 1966 (1916), p.I I S-6.]
No que diz respeito ao conceito ou significado, uma palavra é rcfcrivel nao
simpl esmente ao mundo externo, mas antes de tudo ao seu lugar na lingua, ou
seja, a oulras pal av ras relacionadas. Par sua diferença cm relaçâo a essas palavras,
constr6i-se sua pr6pria avaliaçao do objeto, e no sistema dessas diferenças ha uma
construçâo cultural da realidade. Nenhuma lingua é uma simples nomenclatura. I'"j';
Nenhuma se baseia cm uma simples correspondência UI11-a- UI11 dos seus proprios 1
termos com "as" distinç6es objetivas. Cada uma confere certo valor às distinçôes
determinadas e const itui, por conseguinte, a realidade objetiva em outra quaI ida-
de, especifica àquela sociedade.
7
Na realidade, enquanlo projeto social tolal, a
atividade simb6lica é ao mesmo tempo sintética e analitica, lrazendo para 0
conceito toda a 16gica cultural. Se, por um lado, as diferenças nr valor lingüistico
efetuam uma découpage part icular do mundo externo, dividindo-o de acordo com
certos principios, por outra lado os el ementos assim segregados sao reagrupados
por correspondências significativas ent re eles. Refira-mc aqui nâo apenas a distin-
çôes semânticas, mas também a praposiçôes culturais. E a arbit rariedade simb61i-
ca das segundas é mesmo maior do que a das primeiras. Ao menos na leoria ha
limites naturais no campo semântico de um ûnico lexema: nenhuma ûnica pala-
vra, por exemplo, é capaz de significar, simultânea e exclusivament e, as duas espé-
CÎes, boi e lagosta. Mas 0 mesmo exemplo suger ini aos americanos, entre os quais
a peculiar combinaçao "bife e lagosta" é uma categoria definida de jantar, que a
cultura nâo se submete a tal tipo de limitaçao. Parece nao haver qualquer limite
te6rico determinavel a priori em relaçao ao qué sera c1assificado com quê no
esquema cultural: "Um parente por casamento é uma anca de elefante." A 16gica
proposicional é rnaravilhosamente variada e assim sào as culturas, dentro deste
mesmo e ûnico mundo.
8
7 "A represenlaçào 'objetiva' - é isso 0 que eu quero tentar cxplicar - Ilao é 0 ponlo de part ida do
processo de (ormaçào da linguagem, mas sim 0 fim ao quai esse processo conduz; ela n5.o é seu
terminus a quo, mas si m seu termi/lus ad qI/cm. A linguagem nào entra em um mundo de perœpç6es
objetivas acabadas, somentc para acrescenta r, a ohjetos individuais dados e claramc nte dellmitados
uns cm relaçao aos outros, "nomes" que seriam signos puramenlc cxteriores c arbitrarios; cla mcsma
é um mediador na {ormaçao dos objetos; cm um scntido, é 0 mediador por excclência. 0 instrumenta
mais importante e mais precioso para il conquista e para a eonstruçào de urn verdadeiro mundo de
objetos" (Cass irer, 1933, p.23).
Para uma boa di scussao antropol6gica sobre a rclatividade cultural da dislinçao entre crcnça e
experiência, urna distinçao peculiar dessas sociedades ocidcntais que se propôcm fa u r a antropologia
das outras, vcr Necdham, 1972 (sobretudo p.173).
8 No mcslllo sentido de uma construçao cultural, pode-se observar no p:lr carneiro/carne de ca rnei-
ro (sllcep/mlllton) que esse animal, no mundo anglo-saxao, ocupa no açougue um lugal' ao lada de
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70 Cu/Jura c razJo pratica
Em suma, através da avaliaçao simb6lica e da sintese da realidade objetiva,
criamos um novo tipo de objeto, com propriedades distintas: a cultura. A lingua-
gem é um meio privilegiado clesse projeta. Mas, para Morgan, a linguagem naQ é
mais que a percepçao articulada. Dai, a passagem da natureza para a cultura, na
visao de Morgan, nao ser mais importante do que, digamos, a reduçao da Odisséia
da forma falada à escrita. Coma escreveu recentemente um destacado rnarxista cm
, relaçao a Kautsky, 0 mesmo pode ser dito de Morgan. Parà cie, "a hist6ria humana
l'" é um apêndice da hist6ria natural, sendo a sua lei de movimento simplesmente
\formas de manifestaçao das leis bio16gicas" (Schmidt, 1971, pA?}.
9
Boas
Eru contraposiçao ao que foi dito, a odîsséia de Boas "da ffsica à etnologia" torna-
se significativa, representando uma oposiçao dentro da quai a antropologia pas-
sou por varios ciclos durante todos esses anos. Como George Stocking (1968)
descrcve muito bem, foi uma viagem de muitos anos na quaI Boas passou de um
materialismo monista à descoberta de que "0 olho que vê é 0 6rgao da tradiçao";
l' uma jornada de muitos estâgios nos quais ele descobriu que, para 0 homem, 0
:! orgânico nao procede do inorgânico, 0 subjetivo do objetivo, a mente do mundo
1 _ e, finalmente, a cultura da natureza. Os primeiros passos foram dados dentTO
da pr6pria fisica. Na sua dissertaçao sobre a cor da âgua do mar, Boas observou a
dificuldade de determinar as intensidades relativas de Iuzes que diferiam levemen-
te em cor. A variaçao quantitativa no objeto nao evocava uma variaçao correspon-
dente no sujeito.
lo
Boas repetiu, mais tarde, a experiência ao nivel lingüfstico,
porcos e bois, que compartilham uma' declinaçao paralela de termos para 0 estâgio de consumo
(pig/pork, cat/le/bec}), embora todos des difiram ncsse sentido dos cavalas e cachorros. A hist6ria sem
estrutura da a impressao de nao explicara classificaçao, uma vez que nao possuimos nenhuma palavra
de inspiraçâo normanda para cheval par analogia às palavras para carnes de carneiro, de boi e de
porco. No capitula 4, discuta a 16gica da comestibilidade/nao-comestibilidade no esquema america-
no (p.166-79).
9 Estou em débito com 0 professor Paul Kay pelo muito quc elc contribuiu para a nossa discussao
do problema da "arbitrariedade do signo". Meu débita vai mais além, chegando mesmo ao uso de
certas [rases que sao suas - tanto quanto quaisquer erros SaD de minha intdra responsabilidade.
Entre os erros que devo evitar encontra-se a reivindicaçao de um extremo relativismo lingüfstico. Nao
quero dizer que 0 pensamento deva coincidir corn as distinçoc$ gramaticais de determinada Hngua. A
idéia coma um todo parece implicar uma paralisaçâo dos poderes simb61icos neccssarios il sua
postulaçao. Ha também alguma evidência de que 0 falar interior, que se encontra cm "um piano
~ distinto do pensamento verbal': tenna uma cstrutura diferentc c mais simplificada que a estrutura da
II lingua falada. Nem chegamos ainda ao nive! mais profundo dessa relaçao complexa e amplamente
l desconhecida entre pensamento e palavra (Vygotsky, 1962) .
10 ''Ao preparar minha tese de doutorado, tive de usar métodos fotométricos para comparar intensi-
dades de luz.lsso levou-me a considerar os valores quantitativos das sensaçoes. No decorrer de minha
r
Dois paradigmas da leoria antropo16gica 71
quando, através de informantes da Costa Noroeste dos Estados Unidos, descobriu
que os SOll.') considerados iguais por um orador de uma lingua podiam ser ouvidos
como algo completamente diferente por pessoas que falavam outra Hngua, e
vice-versa, na medida em que ca da um percebia no discurso do outra asdistinçôes
apropriadas ao seu pr6prio.
11
Nesse meio-tempo, ele passou naturaimente por uma fase de psicoflsica fe-
clllleriana que teve a mesma importância: experimentos sensoriais em fenômenos
liminares que nao apenas reiteraram a conclusao de que as diferenças objetivas a
estimulos llaO engendravam nenhuma diferenciaçao paralela de resposta - que a
reaçao humana à quantidade efa em si mesma qualitativa - mas também que a
resposta dependia de fatores situacionais e do conjunto mental da pessoa. No
sujeito humano, a percepçao (perception) é reconhecimento (apperception), que
depende, pode-se dizer, da tradiçao mental. A quai, par sua vez, nao é em si mesma
decisiva nem unica para 0 homem. Para qualquer grupo humano, a tradiçao em
questao é um conjunto de significados acumulados, teoria coletiva e hist6rica que
faz da sua percepçao uma concepçao. 12
Permitam-me aqui fazer uma breve digressao e uma comparaçao aparente-
mente curiosa. É fascinante que tanto Boas quanto Marx tenham passado, no
inicio das suas vidas intelectuais, pele mesmo ponto. Em um determinado mo-
mento, ambos foram compelidos a recusar um materialismo mecanicista que lhes
vinha do iluminismo. No entanto, escolheram respostas concebiveis alternadas,
que nao eram em si mesmas muito diferentes, mas 0 suficiente para conduzi-Ios a
caminhos fatalmente diferentes. Marx teve de reagir ao materialismo contempla-
tivo e sensorial de Feuerbach, um materialismo do sujeito hipotético individual
que responde passivamente à realidade concreta; mas a reaçao de Marx também
foi refreada pelo idealismo de Hegel, que se apropriou do sujeito ativo hist6rico. A
soluçao, como Marx colocou na prime ira tese sobre Feuerbach, era aproveitar 0
ativismo do idealismo.para remediar 0 defeito de um materialismo que concebia
"a coisa, a realidade, a sensibilidade ... apenas na forma do objeto ou da contempla-
Çao, mas nao como atividade humana sensivel, pratica, nao subjetivamente"
investigaçao, aprendi a reconhecer que existem dominios da nossa experiênda nos quais os conceitos
de quantidade, de medidas que podem ser acresccntadas ou subtraidas como aquelas corn que eu
estava acostumada a operar, nao sao aplidveis" (Boas [19381 il! Stocking, 1974, p. 42).
II "A alternância dos sons é daramente um deito da pcrcepçao obtida atra\'és de um sistema de
fonética estranho" (Boas, 1966a [1911], p.14; cf. Stocking, 1974, p.72ss.).
12 "A primeira impressao obtida de um estudo das crenças do homem primitivo é que, embora as
percepçoes de seus sentidos sejam suficientes, seu poder de interpretaçaa logîca parece deficiente.
Acho que a razao para esse fato pode ser encontrada !laO cm qualquer peculiaridade fundamental da
mente do homem primitivo, mas sobretudo no carater das idéias tradicionais pelo quai cada nova
percepçào é interpretada; cm outras palavras, no carater das idéias tradicionais com as quais cada
nova percepçao se associa, determinando a condusao alcançada" (Boas, 1965 [1938], p.198-9)-
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72 CI/III/ra c mziio pralica
(Marx, 1965. p.66J; escrito cm 1845). "Feuerbach, naD satisfeito cam 0 pensamen-
to abstrato': escreveu Marx em sua quinta tese, "deseja a contemplaçâo; mas cIe
nao con cebe a sensualidade COIllO atividade pratica, humano-sensorial." Marx
salientou que cssa praxis deve sel' entendida ca mo social e na sua especificidade
hist6rica, nao como a açào de um individuo abstrato e isola do. Entretanto, 0
reconhecimenlo do social. comum a Marx e a Boas, foi inscrita com uma diferen-
ça de ênfases. Marx chegou até a l' ratica e as estruturas da realidade, construidas
cam base na açào concreta e presente, cm modos historicamente especificados, de
seres humanos sensiveis. Boas transferiu 0 mesmo problema do materialismo
mecânico para os esquimôs, e mais tarde para a Costa Noroeste, para descobrir a
especificaçâo histôrica do sujeito que age. A escolha de Marx 30 materia-
li smo histôrico; a de Boas, à cultura.
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o fato de a viagem de Boas ter acabado no poder estruturante da tradiçao
parece agora, em retrospecto, incrente às condiç6es do seu inîcio. Boas começou
questionando a essència da tese de Morgan, a expressao da natureza na cultura
pela mediaçao de uma mentalidade refl exiva. Em uma série de cartas ao seu tio na
América, em 1882-3, Boas des creve 0 arcabouço de seu proj eto esquim6:
Embora, no inicio, minha intençao fosse esludar matematica e fisica coma meta final,
fui levado, através do estudo das ciências naturais, a outras questôes que logo me
conduziram à geografia, e esse assunto de lai forma atraiu meu interesse que final-
mente 0 escolhi camo meu estudo principal. No entanto, a direçao de meu traba1ho e
estudo foi fortemente influenciada par meu treinamento em ciências naturais, espe-
cialmente a fi sica. Com 0 passar do tempo, fiquei convencido de que meu Weltans-
chaullIIg materialista anterior - para Unl fisico, algo muito compreensivel- era
insuslentavcl, c assim cheguei a um nova ponta de vista, que me revelou a importân-
cia do estudo da interaçao entre 0 orgânico e 0 inorgânico, sobretudo entre a vida de
Ulll pava e seu meio ambiente fisico. Assim nasceu meu plana de considerar a [se-
guinte J investigaçâo coma minha tarera de vida: até que ponto podemos considerar
os fenômenos da vida orgânica, especialmente da vida fi sica, de um ponto de vista
mecanicista, e que conc!usôes podem ser retiradas de uma consideraçâo desse gêne-
ra? fCitadoin Stocking, 1968,p.1 38.1
13 Dai a rejeiçao paraleJa de Boas do dct cnni nislUo "geogriifico" e "econômico", baseado em uma
noçao de cuhma nao tant o coma uma condiçao da rclaçaodo homem cam a natureza. massobretudo
camo a cOllccpplo dela (por exemplo, 1965 119381. p.1 7S-7). 'Iodas as questoes fundamentaÎs do
ultimo dcbatc - bem como as discutidas no capitula 1 -eS130 aqui prefiguradas: "nao ha razao para
denominar as outras rases da cultura de uma superestrut ura sobre uma base econômica, pois as
condiçôes econômicas sempre agem sobre uma cultura precxistente e elas mesmas dependem de
outros aspectos da cultura" (ibid., p.I7S). 0 tempo aguç:lria a oposiçao entre a realidade material da
simbolizaçào c a simbolizaçao da rèalidade material-que para Boas nao efa nem racionalidade nem
dis(arce.
Dois paradiglllas da /eoria alllropo16gica 73
De cert'a forma, a carreira antropol6gica de Boas pode ser caracterizada como
um processo no quai 0 axioma originaI,la construS,âo humana da experiéncia.Joi
transposto do nivel psîcolôgico para 0 destaca 0 velho arli go
(1888) "Sobre os sons alternantes" como contendo os germes clesse desenvolvi -
mento e, por conseguinte, do moderno conceito de cultura. Mais que um exercicio
critico ou metodolôgico, escreve Stocking, esse artigo:
1 prenuncia muito do pensamento antropol6gico moderno, cm direçao à "cultura". Ao
!
'1menos pa r implicaçao, de vê os fenômenos culturais em termos da ÎlI1posiçilo de
tls!!fficaA.o Ele os vê como
. cionados e transmitidos pela processo de aprendizado. Ele os vê como determinal1tes
de flossa s pr6prias percepç8es do mUl1do externo. Ele os vê em termos mais relativos que
absolu tas. Grande parte do final da obra de Boas, e da dos seus seguidores, pode ser
vista simplesmente camo a acabamento das implicaçôcs presentes nesse artigo.
IIbid., p. 159; grifo m,u.]
De fato, os caminhos pelas quais Boas chegou ao conceito cultural foram
diversificados e aigu mas vezes cheios de meandros (cf. Stocking, 1968, p.195-223;
1974, p.I-20). Vm desses caminhos tem aqui especial importância, jâ que foi
desenvolvido no confronto direto corn Morgan sobre a questao de leis gerais de
evoluçao social. A antropologia modern a tende a considerar essa controvérsia em
particular como infeliz, pois a nominalista, operada por Boas no
contet'ido das culturas para provar a diversidade dos processos de desenvolvîmen-
to, entronizou aquela concepçao de "far rapos e remendos" do objeto que a etno-
logîa amer icana leva ria décadas para expiaI'. Na realidade, Radin criticou, cedo e
de forma vigorosa, a noçao "quantitat iva" do traço cultural separado que Boas
desenvolveu a partir da sua obsessao corn a contestaçâo do evolucionismo (Radin,
1966 [1933]). No entanto, 0 desmembrarnento negativo da cultura gerou, forço-
sarnen te, um resultado contradit6rio e sintético.:Rara BO,as, <? que racionâlizou a .
disparidade de traços aparentemente semelhantes, que realmente existiam em
as diferenças emsignificados e usas determinados local- .
esses significados implicavam processos dissimil ares de desenvolvimen- .
to, provando que Morgan estava errado, era tambérn pOl' suas implîcaç6es de um
contexto total e arientado: uma cult ura que padronizava os traças de acordo com
Il seu prôprio espîrito singular. Dado. que Boas argumentava que as mascaras da
Il sociedade A, usadas para enganar os espiritos, nao comparaveis às mascaras
.! da sociedade B, que comemoravam os ancestrais - e correspondentemente que d
os c1âs, os totens ou os sistemas de metade variavam em todo 0 mundo - ele teve t·,
de conduir pela existência de culturas, de totalidades cujas "idéias dominantes"
ou padrôes criam essa diferenciaçào (Boas, 1966b [1940J, p.270-89, e passim). Em
um artigo muito conhecido, "Hist6ria e antropologia': Lévi-Strauss observa a
eventualidade conceitual do método:
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74
Cul/!lra e razào pratica
Procurar-se-a entao levar ao extremo 0 nominalismo boasiano, estudando cada um
dos casas observa dos como se fossem outras tantas entidades individuais? Dever-se-a
constatar, de um lado, que as funçôes atribuidas à organizaçao dua\ista nao coinci-
dem; e, por outra lado, que a historia de cada grupo social mostra que a divisâo cm
metades procede das origens mais divcrsas. Assim, a organizaçâo dualista pode resul-
lar, scgundo 0 casa, da invasâo de uma populaçâo par um grupo de imigrantes; da
fusao, por fazoes cm si mesmas variaveis (econômicas, demogrMicas. cerimoniais),
de dois grupos tcrritorialmente vizinhos; da cristalizaçao, 50b forma de instituiçao, de
regras empiricas destinadas a assegurar as tracas matrimoniais no scia de determina-
do grupo; da distribuiçao no interior do grupo, nas duas partes do ano, de dois tipos
de atividade ou duas fraçôes da populaçao, de comportamentos antiéticos, mas julga-
,
dos igualmente indispensaveis para a manutençao do equiHbrio social etc. Assim,
seremos conduzidos a despedaçar a noçâo de organizaçao dualista camo constituio-
do uma falsa, calegoria e, estendcndo este raciodnio a todos os outros aspectas da
vida social, a negar as instituiçôes em beneficio exclusivo das sociedades. [Lévi-
Strauss, 1963b, p.lO-l.]
A problematica geral de Boas difere, portanto, radicalmentc da de Morgan.
Onde Morgan entendia a pratica e suas formulaçôes costumeiras pela 16gica das
circunstâncias objetivas, Boas intercalava um subjetivo independente entre as
condiçôes objetivas c 0 comportamento organizado, de modo que 0 segundo nao
derivasse mccanicamente do primeiro. Ao nivel psicol6gico, onde foi primeira-
mente anunciado, 0 termo interventor pode ser caracterizado grosso modo como
uma operaçao mental, gerado pele contexto e pela experiência anterior, que, ao
governar a percepçao, especifica a relaçao entre estîmulo e resposta (figura 7). Ao
nive} cultural, em direçào ao quaI 0 pensamento de Boas estava cm continuo
desenvolvimento, 0 termo mediador é a tradiçao, 0 VoIkergedanken ou 0 padrao
dominante, que ordena ao mesmo tempo a relaçao com a natureza, as instituiçôes
existentes e a sua interaçao (figura 8).
A semelhança das duas f6rmulas corn a de Lévi-Strauss é indiscutîvel (p.61-
2). Na vcrdade, os termos da afirmaçao de Lévi-Strauss da sua posiçao - em
oposiçao a um certo marxismo - descrevem Boas corn exatidao, especificando
até mesmo 0 tCl titl1n quid entre a praxis e as prâticas como um "esquema concei-
tuai" (ou c6digo). Adotando esses termos, 0 contraste te6rico entre Boas e Morgan
pode ser estabelecido, de [arma geral, como mostra a figura 9.
É clara que 0 "es que ma conceitual" tem uma qualidade diferente nessas duas
perspectivas. Para Boas, é a encodificaçao (encoding), enquanto para Morgan é a
codificaçao (codiJicntioll) de distinçôes externas. Para Boas, a significaçao do obje-
to é a propriedade do pensamento, ao passo que para Morgan 0 pensamento é a
representaçao da significaçao objetiva. Se na concepçào de Morgan pensamento e
linguagcm funciOi}2m de Boas tl-ata-se, essencialmente, de uma
problematica do srmbolo. Na re31idade, a estrutura do simbôlico desenvolvida por
'- '" )
Dois paradigmas da tcoria alltropol6gica 75
Boas corrcsponderia às posiçôes empirico-racionalistas do tipo que Morgan man-
teve, isto é, uma forma caracterîstica de auto-retlexao cultural, um apelo post-fac-
tum à racionalidade de pratÎcas cuja verdadeira lôgica é nao-explfcita e cujas
verdadeiras fontes sac desconhecidas.
Boas afirmou que a formaçao de uma cultura, como um pracesso de tomaI' a
experiência significativa, se exerce necessariamente cm uma teoda - da natureza,
do homem, do ser humano na natureza. Essa teoria, contudo, continua naD sendo
formulada pelo grupo humano que vive nela. A linguagem é um exemplo privile-
giado desse processo inconsciente, mas outres costumes, priticas, crenças e proibi-
çôes sac também baseados em pcnsamentos e idéias nao-retletidos e imemoriaveis.
Todos eles sac baseados na categorizaçao da experiência, na apropr iaçao do perce-
bido pelo conceito, exatamente coma nas raizes da palavra ou_'2a, sintaxe de uma
\ determinada lingua, a experiência nao é é classifica--
1 \ da. E como toda classificaçao deve ter seus princîpios, cada lingua é, ao rncsmo -
V tempo, "arbitriria" cm rclaçao a qualquer outra lîngua e cm relaçao ao real, agru-
pando, sob uma significaçao unica, uma variedade de coisas ou eventos que nas
outras lînguas poderiam ser concebidos e denotados separadamente. Boas exp li ca:
FIGURA 7
(2) Nivel psicol6gico
FIGURA 8
(3) Nrvel cultural
FIGURA 9
(4) Boas:
(5) Morgan:
estfmulo
meio ambiente
praxis
- , ,7"' , _'
operaçao mental -
tradiçao
(V6/kergediinken)
esquema conceitual
(c6digo)
resposta

praticas
praxis _ prtiticas_ esquema conceit.ual (c6digo)
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76
Culfl/ra c razào pratica
As Ii nguas difcrem nao apenas quanta ao carater dos scus elcmentos fonéticos e
grupos de sons COll stitutivos mas também quanta Olos grupos de idéias que
tram expressao cm grupos fonéticos flXOS ... Dma vez que 0 âmbi to total de experiên-
ci as pcssoais às quais a lîngua serve é infinitarncnte variado c sel! objctivo, coma um
Lodo, devc sec expresso através de um nûmero Iimitado de palavras-lroncos, de uma
extensa classificaçao de experiências que devem necessariamente ernbasar todo 0
discurso articulado.
Issa coincide corn um traça fundamen tal do pensamento humano. Em nossa expe-
riência real, nem dois estados de senti do-impressôes ou emocionais sao idênticos.
N6s os classificamos, de acordo cam suas semelhanças, cm grupos mais au menas
amplas, cujas limites padern ser determinadas por uma grande variedade de pontas
de vista ... /
Em vârias culturas, essas c1assificaçoes podem ser baseadas em prindpios
mel1talmente distintos ... Par excrilplo: que as cores sao c1assificadas em
grupos bem dist intos, de aeor'do cam suas semelhanças, sem qualquer di fercnça
associada à capacidade de distinguir formas de cor ... A importância do fato de que a
palavra faz surgir um quadro diferente na fala e no pensarnento, de acordo corn a
c1assificaçào do verde (comJ a arnarelo ou do verde [camI a azul coma um grupo,
difici lmente pode ser exagerada. [Boas, 1965 (1938), ver também Boas,
1966, (1 911 ).)"
Boas argumentoli mais tarde - em uma observaçao hoje cJassica _ que,
embora a linguagem e outras costumes sejam organizados por lima 16gica
f1 etida) ha lima diferença entre el es no fato de que as classificaçoes da primeira
normalmente nao atingem a consciência, ao passo que as categorias da cultura a
atingem, estando tipicamente sujeitas a uma reinterpretaçao secundaria (1966a,
p.63). A diferença desponta essencialmente no modo de reproduçao. Encaixadas
em regras inconscientes, as categorias de linguagem sao automaticamente repro-
duzi das na fala. Mas a continuidade do costume é sem pre vulnera.vel à ruptura,
quer somente pela comparaçao co'rn outras formas, quer na socializaçao do jovem.
o costume, conseqüentemente, toma-se um objeto de contemplaçao, bem como
uma fonte dela, e emprestamos uma expressao convencional que mal parece
razoaveJ a uma razao convencional que permanece A 16gica cultural
reaparece entào sob uma forma mistificada - como ideologia. Nào mais como
um princîpio de classificaçào, mas como satisfaçao de uma demanda por
14 As cxplic:lçôcs de Boas dos gr:lus de generalizaçao c difcrendaçli o, cspccialmell{c 110 vocabu/<i rio,
cram vaganwntc funcionalistas, apebndo para os "interesses" ou para as "ncccssidades" do POyo. Ele
enfatizou, porém, que as categorias de uma populaçào (dai os interessc5 e as necessidades) nao podem
ser comprccndidas pela invocaçao de processos racionais, isto é, baseados no raciodnio consciente,
ou na lltilidadc pdt ica ( 1965[ 1938), p.204-25). Nessa mesma época, Boas a reconhecer a
pnltica camo sen do, de fato, a unica base das categorias terlllinol6gicas, pois poderia facilmente
acontecer 0 isto é, 0 comportamento rell etir a d assificaçâo. Foi a partir dessa posiçao que
cIe encarou as teorias de Morgan de tenninologia de parent esco (por exemplo, 1966a [ 1911), 1'.68-9).
Dois pnrndigmns dn ' carÎn mr'ropo/6gicn 77
tiva. Por conseguinte, nao aparece mais como algo arbitn.hio em relaçâo a uma
realidade objetiv<i, Illas como algo motivado pela . _
As impli caçoes dessa compreensào para 0 proJcto ant ropologlCo alnda nao
estâo rcsolvidas. E em alguns aspectos, nao fora m ai nda percebidas. POl" um bdo,
quanto do que considcramos como inst ituiçôes e crenças essenci ais dev.e ser
lisado como uma elimologia do povo? Por outro lado, nao parece sel" maIs pOSSIVel
compart ilhar do otimismo de Boas quanto às categori as que, por
alguma operaçào positivista continuada , oposta à formaçao das Ide.las e costumes
às quais das se referem, poderiam ser realmente "derivadas de, COI1s!stentes com c,
num certo sentido, internas aos pr6prios fenômenos" (Stocking, 1974, pA). Em
todo caso, 0 comentario sobre a analise racional ista de Morgan implicado pela
noçao de consciência secundaria Jlao seria difici l de ser desenvolvido. Se por um
lado "a ori gem dos costumes do homem primit ivo nao deve ser procurada
. processÇ)s como cscre·veu Boas (196S [1938 j, p. 2IS), por outro
.. ' gem de certos proèessos racionais podia ser procurada no costpme. A
de das institui çoes, e acima de tudo sua utilidade, é a forma pela quaI nos
mos a n6s mesmos. A racionalidade é nossa racionalizaçao. Boas fornece a
plo do tabu do incesto, que ha algum tempo nos contentavamos em atribuir a
razoes religiosas, mas que hoj e é "um conceito uti li tario, sendo 0 filhos
nào-saudaveis - devido ao casamento dentro do grupo de parentes proxlmos-
apresentado coma a razao para nossos sentimentos" (I 965. [1 938], p.20B).
A questao é que, quando interpretamos 0 convenclonal. coma utIl, el:
também se transforma, para n6s, no "natural", no duplo senudo de merente a
natureza e de normal à cultura. Por isso é que Morgan fez dessa contradiçao.uma
teoria etnol6gica, 0 status do que poderia ser enUio descrito C?I1"lO .a ap_l"opnaçao
das realidades significativas dOlS vidas de outros povos pelas raclonahzaçoes
darias das nossas pr6prias.
Variedades antropol6gicas da razâo prâtica
Anunciado primeiramente na obra de Morgan e Boas, 0 desacordo basico a
natureza do objeto antropol6gico continua a se fazer presente, mesmo hOJe, e de
15 0 exemplo mais conhecido é a origem do cornportarnen\ o que sc tem ii I.llcsa: "0 easo,
comport :lInento que se tem à mesa ofereee também um barn exemplo secundar.I,I.
Coma nao é usual se levar a (aca il boca, surge da! a intuiçiio de que a (aca naD e usada dessa manClfa
porque, cmprega.ndo-a, correr-se-ia a risco de carlar os A tardia i.nvcnçào do garfo e a fato de
facas sem cort e serem usadas em muitos pafses, e de que eXIste Ulll penga semelhante se furar a
lfnglla ou os l:ibios cam os garfos de aço ponli agudos comUlllcnte usados Europa, delxam claro
que eSS<l expli caçao é apenas uma tentativa radonali sta secunddria para expllc;\ r um costume que, de
outm modo, permaneceria inexpl ic;ivel" (Boas, 1965 [1938]. p.65).
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1
78 ClIltura e razao prririca
todos os modos - através de outras controvérsias te6ricas. Isto nao significa
subestimar 0 alcance de antinomias famosas tais como "hist6ria/ciência': "cultu-
ra/sociedade': "diacronia/sincronia': Mas se essas oposiçôes foram bem-sucedidas
30 gerarem 0 desdobramento de UI11 momento te6rico para 0 seguin te, isso se
deveu apenas à reproduçào, em cada estagio, das contradiçôes nâo-solucionadas
na base. No final, as perspectivas posteriores que aparecem demarcando rupturas
te6ricas encontram-se, internamente, em pendência ao longo das mes mas linhas
que separam a visao de Morgan da de Boas. Desta forma é que se distingue U111
funcionalismo do outro, como também um historicismo do outro, assim como a
metade de funcionalistas ou evolucionistas encontra um improvavel aliado na
tribo do outro. Parece muito para'doxal agrupar certas ênfases te6ricas de Lévi-
Strauss e Leslie VVhite? (ver mais adiante, p.106-7). 0 acordo em termos de prin-
cipios entre 0 arquievolucionista Morgan e 0 arquifuncionalista Malinowski é
muito mais completo.
Malinowski e 0 "neofuncionalismo"
De uma forma ainda mais explicita que Morgan, Malinowski considerou a cultura
coma a realizaçao instrumental de necessidades biol6gicas, construîda a partir da
açao pnitica e do inter;esse, como se orientada por uma espécie de super-raciona-
lidade - à quaI a Iinguagem fornece apenas a vantagem de um suporte te6rico (cf.
Leach, 1957). Devemos ter como base, escreveu Malinowski, dois axiomas: "Ern
primeiro lugar, e principal mente, toda cultura deve satisfazer ao sistema biol6gico
de necessidades, corno as ditadas pelo metabolismo, reproduçao, as condiçôes
fisiol6gicas da temperatura." E em segundo lugar, "toda realizaçao cultural que
implica 0 uso de artefatos e do simbolismo é um realce instrumental da anatomia
humana, e refere-se, direta ou indiretamente, à satisfaçao de uma necessidade
fisiea" (Malinowski, 1960 [ 1944), p.l?!). Utilizando uma frase do soei6logo ffan-
cês Baudrillard, é como se a cultura fosse uma metafora sustentada sobre as
funçôes biol6gicas da digestao. Em tiltima ana lise, a cultura é referenciâvel à
utilidade prâtico-orgânica. Simples ou complexa, é "um vasto aparato, parciaI-
1 mente mate rial, parcialmente humano, e parcialmente espiritual, através do quai
0 homern é capaz de competir corn 0 concreto em problemas especificos corn os
quais se defronta" (Malinowski, 1960 [1944). p.36).
Apresentar a concordância, ponto pOl' ponto, do texto de Morgan corn 0 de
Malinowski seria cair no lugar-comum. Por ser mais explicito, Malinowski
se mais interessante para certas implicaç6es te6ricas do argumento das praxis que
sâo apenas sugeridas em Morgan, embora elas estejam, na realidade, contidas ali e
em muitas versôes posteriores, até na mais recente ecologia "neofuncionalista".
Abordarei diversas dessas implicaç6es, que podem sel' resumidamente intituladas
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--- --.- ---_._-- -- - ,.
Dois paradigmas da tcoria flmropolOgica 79
de "0 hllhri s etnogrJ.fico", "rendimentos decrescentes na explicaçao funcionalista", 1
"tel [QI ", "fetlChismo da eco}ogla': "dualismo utihtario" e "desapareClmento da j
cul tU! a" A plll11elra tem a ver corn a relaçâo partlCular su}elt%b}eto envolvida na
ênfase pl agmâtIca, que contrasta Iadicalmente corn 0 relatIvismo ,.. _ ....
o scntldo dominante do projeto de MahnowskI cra reduzlr. de todas as ES ';-l
mancil as, costumes aparentemente bizarros, do Inttcluuma austrahano ao tote- f ..;,
mlsmo de Trobnand, a valores pratlcos (Jela-se bioI6gicos).l? eVl,dente que Mah- 5S:-? :
nO\vskt fOI 01 ientado poruma sllnpatia pecuh:r para corn Jarvle, 1 ;J '"
1969, P 2-3) Ele gostana de mostrar que a razao subJ3cente as mascaras aparen- __ .. _ ,
temente sem senti do do que en tao chamavamos de "selvagens" (Richards, 1957, 1 r 'V' '' .c... 'l
p.IS) era algo que qualquer europeu poderia entender: a vantagem materia1. Isso ,1 :t 3
significava, de fato, uma inversao do se informada y.ela g
mesma indulgência. Sob certo aspecto, 0 IntlchlUma e lucratIvo; logo, 0 abongme ff S ,
australiano é nosso irmao:
Desde 0 começo ... um interesse na utilidade das mascaras aparentemente sem senti-
do do que entao chamavamos "selva gens" foi 0 ponto principal na sua obra [de
Malinowski]. Seu primeiro artigo foi publicado com a intençâo de demonstrar que as
cerimônias Intichiuma dos aborîgines australianos, corn suas danças selvagens, scus_.,
corpos pintados e seus escudos simbolicamente esculpidos, desempenham efetiva-
mente uma funçao na sua vida econômica ... Ap6s a sua viagem de estudo às ilhas
Trobriand, publicou seu primeiro artigo importante sobre a vida econômica dos
habitantes das ilhas, no quaI manifestava a mesma determinaçao de provar que
aquilo que aos europeus pareciam trocas de bens cerimoniais sem utilidade desempe-
nhava, na realidade, um importante papel na sua organizaçao econômica [Richards,
1967,p.18)16
Ha nisso uma dimensâo mais ampla do que a implicaçao 6bvia se a
interpretaçao for aceitavel ao europeu, ela diz mais 'sobre de do que sobre os
"selva gens" - mais geralrnente de que a "ética" do antrop610go é a "êmica" da sua
pr6pria sociedade. Aigo deve ser dito sobre a relaçao sujeito/objeto, subentendida
pela compulsao em atribuir um "sentido" pratico a um costume ex6tico que é tao
intricado quanto nao é de cara uma questao de necessidade pratica. Ela eleva 0
antrop610go à divindade de um sujeito constituinte, de quem emana 0 projeto da
16 Como 0 projeto de Malinowski é popularmcnte descrito: do blzarro ao bazar 0 artlgo d:
(1957) sobre Malinowski faz uma excelcnte ami!ise clesse processo de "fazer sentido",
cscreveu: "Na realidade, seremos capazes de provar que aigu mas realidades que nos parecem mUlto
estranh:ls il primeira vista (canibalismo, cOtlvade, mumificaçao etc.) estâo ligadas
elemcntos culturais muito univcrsais c fundamcntalmentc humanos, e esse reconhecllllento acabara
admitindo a explicaçao, ou scja, a dcscriçao, cm termos familiares, de costumes cx6ticos" (1960
[1933 J, pA).
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Clllll/ra c razao prtltic(/
Em vez de submeler-se à compreensào de uma estrutura corn uma exis-
tênda indcpendente e autênti ca, cie co mpn.-' ènde a est rutura pela sua compreen-
stlO do objelivo dela, fazendo assim cam que sua existëncia 1 da estrutura J dependa
delco
l'ara Mal inowski cra um ponta do método etnografico "pcrecber
() ponta de vista do nativo, sua relaçào com a vida, para compreender a sua visâo
do sel! Ill undo" (1950 [ 1922J p.25). Este cra Uffi principio fundamental do seu
"cmpirismo radi cal", como chama Leach. Ha, porérn. uma contradiçao clara entre
esse empir ismo e a compulsao para dissolver costumes estranhos cm noçôes
ul ilit;i ri 3s. 0 "empir is mo" en tao deve cOll si sl ir na aplicaçao radical de uma teori a
- :1 dos interesses praticos e do calculo pessoal - que sustenta que as rnaneiras
ap:1n.'ntl'mente peculiares pelas quais as pessoas estào agindo nao merecem em
nada, nos seus proprios termos, a nossa alençao. Cer ta vez, Kroeber lançou a
,sl'guinte pergunta, pensando obviamente em Malinowski: "Por que um Yurok nao
(Oill e l' Ill sua canoa enquanto navega no occano?" A questôes como esta "nao ha
Ilenhuma rcsposta 6bvia coma a que se da a perguntas do ti po: por que uma flecha
é eillplumada ou quai é 0 uso dade a uma rede de pescar" (Kroeber, 1948, p. 307).
j\ l:tl inowski - fcita esta critica - se recusa a rcconhecer qualquer capacidade no
sistl'Illa cult ural, quanto men os tenl ar compreender sua 16gica inerente. Areas
intcÎras da cultura escapam, portanto, a uma explicaçao funcionalista, uma vez
qut.' IÜO fonnam nenhum, senti do pnHico aparcntc. Leach coloca a feitiçaria corno
\l1ll c:ü' mplo do que acaba de ser dito: "De acordo cam a dogma de Malinowski,
pelo quai essa racionalidade é natural à espécie humana, as crenças em feitiçaria
1) - Il;10 sendo nem sensiveis nem racionais - nunca foram efet ivamente incorpo-
radas ao esquema funcionalista" (Leach, 1957, p. 128-9; cf. Nadel , 1957).
t-tlYia muitos outros domînios da vida dus îlhas Trobriand - parentesco,
polîtica - dos quais Malinowski deixou- nos uma avaliaçao incompleta e
Il :1o-sist€'matizada, devido a algul1s desses mesmos escrupulos t'c6ri cos. Ele consi-
(1$ textos e declaraçôes de pessoas como simpl es formulaçôes do ideal, cm
lOlll !,.uaç:1o com os motivos reais pragmaticos que governavam as relaçôes dos
com tais regras e entre si (cf. Malinowski, 196611926]). Em tudo isso,
\\alillo"'ski inverteu nao apenas as premissas de uma antropologia boasiana,
':Otl1('\ t;lI11bém 0 relacionamento original do antrop6logo com a popul açao. Ë
hem wrJade que Boas termi na ria tendo uma compreensao do parentesco Kwa-
kiutl à que Malinowski teve do sistema Trobriand. De fato, Boas foi muito
I1Ul :' illù)t'fente, a partir de um respei to decente pel a ininteli gibi lidade do indi o.
BO.l:' .l.:h.1Y;l que os fatos "falariam pOl' eles mesmos': Hojc cm di a, esta aftrlnaçao
/ t' como a signo de um empi ri smo ingênuo, Mas, cm pri meiro lugar, 0
quI:'" !'rocurava cra uma submi ssao à cuhura em si mes ma, um compromisso em
1 t'n.:('tHr.H ordem nos fat os, e nao em colocar os fa tos em ordem (cf. Smith, 1959).
;\. cmpi ri sta de Boas consist ia na ilusao de que a pr6pria ordem se
'-"'1f-
cc
Dois paradigmas da teoria ant ropoMgica 8 1
revelar ia exatamente tal como apresentada, através dos textos de mil receitas de
salmâo, sem se benefi ciar de nenhum entendimento da sua parte,17 Tratava-sc
aqui de uma relaçâo total mente di fe rente corn 0 objeto. 0 antropôlogo foi reduzÎ-
do ao status de um aparelho de gravaçao; nem mesmo sua propria inteligência
podia entraI' em cena, Para Malinowski, parém, a "selvagem" era negatividade
pura. Ele nào existia; Malinowski 0 criaria: "Ouço a pa!avra 'Kiriwina' ... estou
pronto; pequenas cabanas cinzas, r6seas: sou eu quem as descrevera ou criara"
(Mali nowski,I967, p.140).
o funcionali smo utilitario é uma ceguei ra funcional para 0 conteudo e para
as relaçôes internas do objeto cul tural. 0 conteudo é apreciado apenas por seu
efeito instrumental, sen do sua consistência interna, por conseguinte, mistificada
como sua utilidade externa. A explicaçao funcionali sta é uma espécie de barganha
feita com a realidade etnografica, na quaI 0 conteudo é trocado por uma "com-
preensao" de le. Uma teoria, porém, deve ser julgada tallto pela ignorância que
exige, quanto pelo "conhecimento" que oferece. Ha uma enorme disparidade
entre a riqueza e a complexidade de fenômenos culturais como 0 Intichiurna e as
noçôes simples do antrop610go quanto às suas virtudes econômicas. Sornente a
fraçao mais infinitesimal dessa rica realidade, e nada do seu conteudo especifico, é
avaliada por sua funçaO.
18
Quando Malinowski demonstrou que "as cerimônias
Intichiuma dos aborfgines australianos, corn suas danças selvagens, se us corpas
'pintados e seus escudos simbolicamente esculpidos, 'desempenhavarn uma funçao
na sua vida econômica" - ou sej a, que estimulavam a produçao através da ante-
cipaçao representada pelos ritos (Malinowski, 1912) - 0 que de fato aprendemos
sobre essas danças selva gens, esses corpos pintados e as mil outras propriedades
do Intichiuma?
Esse empobrecimento conceitual é 0 modo funcionalista da produçao te6ri-
ca. Ele se apresenta exacerbado quando a funçao é buscada ao nivel biol6gico, 0
que é quase sempre verdadeiro, nao s6 em Malinowski, como também em vers6es
mai s recenles da antropologia (cf, Vayda, 1965, p. 196; Vayda e Rappaport, 1967).
Quanto mais 0 fato cultural se afasla da esfera da utilidade à quai esta referenciado
- a orgâni ca, a econômica, a social -, menos intensas e mai s mediatizadas
devem ser as relaçôes entre esse fato e os fenômenos dessa esfera; conseqüente-
17 Radin apresenta resumidamente 0 pri ndpio de Boas de que "ninguém tem a dircilo de alterar a
forma cxala na quai suas informaçôes foram recebidas", embora, na mesma obra, critique em profun-
didade a tentaçâo do mestre de retalhar a cultura em pedaços, adotando um tratamento difusionista,
entre outras imperfeiçôes do método historicista (1966 (l933J). Para uma excelente discussao da
at itude de circunspecç:l.o de Boas para corn 0 fen6meno em si mesmo, ver seu artigo "0 estudo da
geografia" (in Boas, 1966b [ 1940J),
18 Neste ponto, devo muito a Firthjof Bergm3nn e Raymond C. Kell y, quanto a uma primeira
formulaçâo da "lei dos rcndimcntos decresccntcs para a explicaçao funcional ista" que deriva .dela.

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1

82 Cu/tllra c mzao prarica
mente, menas intensas e menas especificas serac as coerçôes sobre a natureza do
costume cm consideraçao; menas determinada sera a explicaçâo através de vir tu-
des func ionais, ou, inversamente, maior sera a variaçao de prâticas culturais alter-
nativas que poderiam servir igualmente (até melhor) ao mesmo prop6sito. Deve
haver muitas maneiras de estimular a produçâo além de encenar uma cerimônia
Intichiuma. Na realidade, a explicaçaa sai frustrada no seu objetivo de tomar 0
costume inteligîvel; esta é uma forma bizarra de se ocupar dos seus pr6prios
assuntos. Para nos provar a indeterminaçao de qualquer dessas explicaçôes. basta
inverter a questao: é vantajoso aumentar a produçao - e, conseqüentemente, é
vantajoso 0 Intichiuma? 0 entendi mento funcionalista de Malinowski teria sido
mais convincente se, à la Radcli ffe Br6wn, ele examinasse a cerimônia ao nivel do
fato social. As relaçôes domi nantes entre os cHis totêmicos, homens e mulheres,
iniciados ou de percor rer um longe caminho até tornar
inteligiveis as danças selvagens e os escudos esculpidos. Quanto mais se recorre às
vantagens econômicas, menos é dito. E menos ainda teria sido obtido se Mali-
nowski tivesse levado adiante seu projeto, até 0 nivel biol6gico. Ai 0 conteu-
do cul tural, cuja especificidade consiste no seu significado, ficaria completamente
perdido em um discurso de «necessidades"vazio de significaçao.
for mular uma regra geral dos rendimentos decrescentcs para a
explicaçao funcionalista: quanto mais distante e distinta a prâtica cultural do
observador da sua pretensa funçâo, menos essa funçao especificara 0 fe nômeno. A
regra deve ser concebida como uma expressao instrumental da "autonomia relati-
va" de diferentes dominios culturais (ceri mônia/economia), e particularmente da
irredutibilidade do cultural aos nfveis constitutivos da integraçâo fenomenal (su-
perorgânic% rgânico). Nesse ultimo aspecto, a fo nte geral de inadequaçâo nas
explicaçôes pela nat ural esta relacionada, precisamente,à atividade
tiva da simbolizaçao: mais uma vez, a natureza arbitraria do signo, que envolve 0
objetivo apenas selctivamente, submete 0 natural a uma 16gica espedfica da cul tu-
ra. Lucien Sebag demonstra-o bem:
por definiçao, toda refraçao de uma realidade através de uma linguagem implica uma
perda de informaçao, podendo 0 que é abandonado, por sua vez, tornar-se 0 objeto de
um tratamento da mesma ordem. A atividade lingüistica aparece portanto como um
esforço permanente para submeter a um conjunto de formas um dado que sempre
ultrapassa os seus limites. Mas nao é esta uma caractcdstica apenas da linguagem; é a
cultura como um todo que se deixa de fini r da mesma rnaneira. A relaçao do dado
natural coloca isso em pie na luz: quer se trate da sexualidade, dos rirmos do dcsenvol-
viOlenta do corpo, da gama das sensaçôcs ou' dos afetos, cada sociedade aparece coma
submetendo a um principio de organizaçao que nunca é a ûnico concebivel uma
realidade que se presta a urna multiplicidade de transformaçôes. A partir desse fato,
compreende-se por que a explicaçao naturalista é sempre insuficicI11e, pois a essência
da necessidade, descoberta aquém das diversas modulaç5es culturais, nao nos pode

Dois pamdigmlls da tcoria antropol6gica 83
dar senao 0 esboço da pr6pria forma da cultura, nunca do seu conteûdo; ora, é este
illtimo que deve ser compreendido. [Sebag, 1964, p.166-7. ] f Em francês no origina1.]
É 0 conteudo que deve ser compreendido. Esse é 0 nosso objetivo. No entan-
to, a pratica funcionalîsta, C0l110 ja vîmos, consiste em considerar as propriedades
culturais simples mente camo a aparência. 0 concreto-real cultural torna-se um
abstralo-aparente, apenas uma forma de comportamento assumida pelas forças
mais fundamentais da economia ou da biologia. Sartre fala, num contexto analo-
go, de um "banho de acido sulfurico". Além disso, como as forças supostamente
essenciais sac na verdade abstratas - sobrevivência humaI/a, necessidades numa-
tlas, etc. -, a abstraçao do simb6li co atinente ao objeto foi complementada pela
simbolizaçao de uma abstraçao pertencente ao antrop610go. 0 ataque de Sartre
tinha camo alvo um certo marxismo, que se contenta em negligenciar a 16gica
autêntica de um "fato superestrutural", lai coma uma obra de arte ou um ato
poHtico, e as determinaçôes especificas do seu autor, em favor das determinaçôes
gerais de classe e produçâo. A partir dessa visâo, a poesia de uro Valéry é repudiada
coma um exemplo de "idealismo burguês': A crîtica de Sartre parece apropriada,
ponto par ponto, à pratica funcionalista clâssica:
u formalismomarxista é um projeto de eliminaçao. 0 método é idèntico ao terror na
sua recusa inflexîvel do dlferetrte; sua meta é a assimilaçao total corn um minimo
. possivel de esforço. 0 objetivo .nao é integrar aquilo que é diferente enquanto tal,
preservando para de uma relat iva autonomia, mas sim suprimi-Io ... Delerminaçôes
espedficas despertam na teoria as mcsmas suspeilas que as pessoas despertam na
realidade. Para a maioria dos marxistas, pensar é exigir totalidade e, com esse
to, substituir a particularidade pele univcrsal. l! nccessario levar-nos de volta ao
concreto [0 material] e conseqüentemente apresenlar-nos com determinaçôes fun-
damentais mas abstratas ... 0 marxista pensaria estar perdendo 0 seu tempo se, por
exemplo, tentasse compreender a originalidade de um pensamento burguès. Aos seus
01h05, a ûnica coisa que importa é mostrar que 0 pellsamento é um modo de idealis-
mo ... O marxista, por conseguinte, é levado a tomar por aparência 0 contcûdo real de
um comportamento ou de um pensamento e, quando dissolve 0 particular no Uni-
versai, tem a satisfaçao de acrcditar que esta reduzindo a aparência à verdade. (Sartre,
1963,p.48-9.].
Da mesrna forma, Malinowski dissolveu repelidas vezes a ordem simb6lica
na verdade âcida da razao instrumental. Qualquer que fosse 0 dominio cultural
em questào, seu exame s6 podia começar livrando-se da consistência simb6lica.
Parentesco ou tOlemisl11o, mito ou magia, crença nos espiritos ou disposiçao do
morto, e até mesmo a anâlise da pr6pria li nguagem - em relaçao a tudo 0
primeiro passo de Malinowski era negar qualquer 16gica interna, qualquer est ru-
tura significativa, ao fenômeno coma tal (ver, par exemplo, a anilise que permeia
todo a seu Magic Science and Religion (1954]). Dai decorria que a
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!
84 CIIltllra c razào pratica
jihum;:ma, a "especulaçâo': como }.[alinowski a considerava, nuo poderia ter qual -
ïquer papel constitutivo. 0 costume se origina na prâtica, na vida - nao no jogo
Ido pensamento, mas no da emoçâo e do desejo, no do instinto e da necessidade:
Nessa perspect iva, dificil mente urn "selvagem" teria uro Interesse na natureza que
nac fosse ditado pela fome, nem articularia qualquer concepçâo além da raciona-
Iizaçâo clesse desejo. Dai a famosa afirmaçâo de Malinowski sobre a mentalidade
manifesta nas classificaçoes totêmicas: "a caminho que vai da selva para 0 estô-
mago do selvagem, e conseqüentemente para a sua cabeça, é muito curto, e para
ele 0 munda é um indiscr iminado pano de fundo contra 0 quai se destacam as
espécies uteis de plantas e animais e dentre elas sobret udo as comestiveis" (1954.
p.44) . Do mesmo modo) " ha pouco,.espaço para 0 simbolismo nas suas idéias c
contos" (ibid .• p.97). Quanto ao mito, nao é "uma raps6dia inutil ... mas uma força
cultural ativa, extremamente importante" (ibid., p. 97) :
o mito estudado vivo ... nao é simb6lico, mas urna cxpressao direta do objeto cm
questao; nao é uma explicaçao para a satisfaçao de um interesse cientîfi co, mas urna
ressurreiçao narrativa de urna realidade primeva, narrada para a satisfaçao de pro·
fundos desejos rcligiosos, anseios marais, submissôes sociais, e até mesmo necessida·
des praticas [ibid .• p.l 0 J ... Pademos, certamente, descartar·nos de todas as interpre·
taçôes expl icativas e simb6licas mitas de origcm. Os pcrsonagcns e seres sao 0
que parcccm ser na superficie, e n30 sirnbolos de realidades ocultas. No que toca à
funçao explicativa desses mitas, nâo ha qualquer probJema de que eles dêcm conta,
qualquer curiosidade'que eles satisfaçam, qualquer teoria que eJes encerrem." [ibid. ,
p. 1261 .
Esta também foi a famosa abordagem de Malinowski à linguagem. Pace, Boas.
a linguagem nao contém teoria aigu ma: ela nada contém. nada além de urn gesto
verbal. de " 'apreensao' das c01sas", cujo significado consiste nos efeitos induzi dos
sobre os ouvintes. ''As palavras sao parte da açao e sao equivalentes às açôes"
(Malinowski, 1965 [19351 2:9). E eomo as palavras sao aç'a, 0 signifieado é a
reaçao evocadaj as primeiras SaD 0 estimulo, 0 segundo é a resposta; Uluas sao 0
instrumenta, 0 outra é 0 seu pr6prio produto:
o significado de urna ûnica expressao vocal. que nesses casos é rcduzida quase semprc
a urna palavra, pode ser definido como a llludança produzida pela som no campor·
tamento das pessoas. ta manci ra pela quai um som, proferido apropriadamentc. ê
correlacionado corn elementos espaciais c temporais e com movimentos do corpo
humano que canstitui 0 seu significado; e isso se dcve <1 respostas culturais produzi·
das por treinamenlo, "condicionamento" ou educaçao. Uma palavra é um esllmulo
condicionante da açao humana e torna·sc. por assim dizer, ullla "aprecnsao" das
cOLsas externas 30 alcance de qucm fala, mas dentro de quem ouve [ibid., 1'. 59. J 19
19 Malinowski dcscnvolveu essa visao instrumentaI·pragmalica da linguagem cm uma séri e de t'seri·
Dois paradigllul5 da teor;a IlI!tropolOg;cn 85
Fica evidente também que 0 significado é limit ado à expcr iência pela associa·
çao. isto é, a urna referência ori ginal e indicado ra que cont inua senda 0 conccito
bâsico da expressao vocal através das suas reproduçôes Pa ra Mali·
nowski, a linguagem. em vez de cJassificar il exper iència, é ela pr6pria dividida pela
exper iência. VIlla palavra se diferencia de outra da mesma fo rma que a contexto
do mundo real na q uai a pri rneira ocorre é perceptivelmen te dis tingulvel do
contexto do segundo. "A li nguagem espelha, na sua estrulura, as catcgorias reais
derivadas de atitudes praticas da criança e do homem natural ou primitivo para
com a mundo eircundant." (Malinowski, 1949 [1923], 1'.327-8). Esse tipo de
recusa fundamenta l do simb6lico. da palavra como categoria. levou Mali nowski a
aIgu mas escolhas bévues. Uma deJas foi "a doutrina dos homônimos": uma vez
que cada referência cmpi ri camente distinta de determinaâa palavra collst itui um
significado dist into, Malinowski viu-se obrigado a conc1uir que a "palavra" em
questao é. na realidade. muitas outras diferentes, urn conjunto acidental de homô-
nirnos.
20
Se fosse esse 0 caso, é clare, nem as palavras nem a cornunicaçao pode.
riam existir como nés as entendenlOs. na medi da em que os contextos de dois usos
diferentes da mesma palavra nunca sâo os mesrnOSj portanto, cada um desscs so ns
é uma "unidade" d ife rente de todos os o utres. 0 que significa dizer que nao
existern palavras, mas apenas uma infinidade de sinais contextuais fugidios . Difi -
culdades semelhantes se apresentam pelo fato de que duas pessoas nao podern
nunca experimentar a mesma realidade exatarnente da mesrna maneira. ja que
- elas pr6prias. de um modo ou de outro, sao diferentes. Mais uma vez, jj que "no
final das contas todo 0 significado das palavras é derivado da experiência fl sica':
Malinowski insist iria em q ue mesrno os conceitos mais abstratos. coma os de
ciência, derivarn-se realmente do lugar.comurn ou da praxis infantiL "Mesmo 0
rnatermitico puro, lidando corn 0 mais inut il e arrogante ramo da sua ciência. a
teoria dos nurneros, provavelmente ;a possuÎa alguma experi ência de contar seus
tos. Porexemplo, no art Îga sobre "Cultura", na Ellciclopédia das ciêncÎas socÎais:"O signifi cado de uma
palavra nao esta misteriosamente conlido nela; é antes um efcito ativo do som proferido dentro do
contexto de uma sÎtuaçao. A emissào do som é um ato significa nte indispensâvel a todas as formas de
aç<'io huma na combinada. Ë um tipo de comporlamento intimame nte comparanl à manipulaçâo de
uma ferrarnenta, ao mancjo de uma anna, à exccuçao de um ri tuai ou à conclusâo de um contrato. a
uso das palavras cm Iodas essas formas de atividadc numana lem uma rebçao mütua e indispens:lvcl
corn a comport;uuento manual e fîsko" (Mali nowski , 1931, p.622; cf. Malinowski , 1949 ! 1923] ; 1964
[ 1963]). Para uma avaliaçâo critica dOlS tcorias da linguagem de Malinowski, ver Henson ( 1974).
20 "Para definir um som, devemos descobrir, através do exame cuidadoso de contexlos \'erbais, cm
quantos significados distingulveis ele é usado. 0 signHicado nao é algo que rcsida denlro de um som
lista é, nao é os dois lados do papcl de Saussure]; elc existe na rel açao do som com 0 contexto. Da[, se
a palavra é usada cm um contexto diferente nâo pode ter 0 mesmo significado, deixa de ser a mesma
palavra e torna-se duas ou mais unidades semantkament e disti nguÎveis" ..Ialinowsld, 1965! 1935 ]
2:72; cf. Leach, 1957, 1'. 130·2).
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86 Cu/tum e rf/zao pratica
trocados" (1965 [1935] 2:58). MalinO\vski ignora agui 0 fato de que 0 sîsterna de
numeros deve ter antecedido a contagem, mas é esse tipa de erra que ele sempre
comete nos se us argumentas ontogenéticos (como 0 da pratica classificat6ria do
parentesco), confundindo a maneira pela qual 0 indivîduo é socializado no
ma com a explicaçâo - na realidade a "origem" - do sistema (cf. Malinowski,
1930),21 Finalmente, 0 conceito de significado de Malinowski é inca paz de explicar
seu pr6prio projeta etnogrâfico de dar sentido funcional ao costume ex6tico. Na
medida em que a forma ostensiva desses costumes é estranha ou mesmo nao-fun-
cional, Malinowski nao pode seT orientado pela experiência na sua interpretaçao,
ou pela men os deve categorizar e valorizar seletivamente as atitudes racionais das
pessoas sobre seu comportamento nao-racional através de um princîpio n3oO-
dado pela encontro etnograflco. Malinowski sustentava que 0 mundo nao corpo-
rifica idéia aIguma, que 0 seu significado é externo aos seus "efeitos" empîricos ...
Uma etnografia correta, gerada por uma prolongada socializaçao na vida de Tro-
briand, seria exatamente 0 que um nativo de Trobriand teria escrito. Mas se
Malinowski tem de criâ-Ios, deve organizar sua experiência etnografica através de
se us conceitos. E é 0 que faz ao admitir isso. embora em contradiçao corn sua
noçao de que a palavra nao contém idéia alguma:
Nao existe descriçao destituida de tcoria. Quer se reconstruam cenas hist6ricas, se
leve a cabo uma pesquisa de campo em uma tribo selvagem ou em uma comunidade
civilizada ... toda declaraçao e toda argumentaçao têm de ser feitas em palavras. isto é,
cm conceitos. Cada conceito. por sua vez, é 0 resultado de uma teoria que declara que
aIguns fatos sac relevantes e outros acidentais, que alguns fatores determinam 0 curso
dos acontecimentos e outros sao simplesmente entreatos acidentais; que certas coisas
acontecem como acontecem por causa de personalidades e mediaç6es materiais do
meio ambiente que as produziram. [Malinowski. 1960 (1944). p.7.1
21 Ricoeur (1970, p.197-219) formula uma brilhante cdtica geral da noçao da palavra praxis pura
(incluindo a palavra imperativa), que se aplica totalmente a Malinowski . Enfocando particularmente
a matematjca, Ricoeur escreve: ",Ë porque 0 homem exprcssou 0 espaço cm geometria, em vez de
vivê-Io e experimenta-lo em suas mcdidas rcais, que a matematica foi posslvel e, através dcla. a fisica
e as técnicas matematicas rcsu!tantes das sucessivas rcvoluçôes industriais. E surpreendente que
Platao tenha contribuido para a constmçao da geometria euclidiana através de sua obra de denomi-
naçao dc conceitos tais como linha, superficie, igualdade. similaridade das figuras etc .... que impossi-
bi!it:tvam qualquer recurso e qualquer alusao a manipulaçôes, a transforrnaç6es fisicas dc figuras. Esse
ascetiSlllO da linguagem matematica. a que devemos, em ûltima analise, todas as nossas maquillas
desde a aurora da era mecânica, teria sido impossîvel sem 0 heroismo 16gico de um Parmênides
negando todo 0 mundo do devir c da praxis cm nome da auto-identidade das significaç6es. E a essa
ncgaçao do movimento e da atividade que devcmos as rcalizaçôes de Euclidcs. de Galileu. a maquina-
ria modcrna e todos os nossos dispositivos c instmmentos. Pois todo 0 nosso conhecimento. todas as
palavras quc a princlpio nâo procuraram transformar 0 mundo cstao contidos dentro deJes" (ibid.,
p.201-21).
Dois paradigmas da tcoria antropo/6gica 87
Ricoeur observa que no exemplo mais forte do mundo como praxis. a "pala-
vra imperativa", a "efeito" requer a presença de seres simbolizantes em urn contex-
to simbolizado, ja que a "compreensao" inclui ao mesmo tempo um projeto e um
sistema de va!oraçôes que diferenciam 0 mundo e as aç6es dos ho mens neleY
fazer a mesma afirmaçao de outra maneira. Pode-se ver na compreensao
que Malinowski tem da linguagem como trabalho e do significado como resposta
produzida ao ouvinte a mes ma reduçao do sujeito humano ao objeto manipulado
que informa sua técnica etIlografica. Nessa concepçao. 0 Alter é simplesmente um
meio para um fim. Vma matéria-prima a sel' trabalhada como qualquer outra.
Mais uma vez, porém, camo insiste Ricoeur, 0 resultado de uma observaçao sobre
o comportamento de outra pessoa nâo é 0 mesmo tipo de relaç300 como a do deito
de uma ferramenta sobre a forma de um objeto; cIe nao é "produzido" como um
bem mate rial é produzido (1970. p.203). Nao apenas porque 0 outrc é um ser l
intencional como eu. e sim, mais decisivamente, porque a comunicaçao implica
uma comunidade) e) conseqüentemente. isso intluencia 0 "efeito" de todas essas
concepçôes comuns de homens e coisas que, ordenando essas inter-relaçôes, de-
termina a "intluência" especîfica da palavra.
A eliminaçao por Malinowski do simbolo e do sistema das praticas culturais,
o canibalismo da forma pela funçao, constitui uma epistemologia para a elimina-
çao da pr6pria cultura como objeto antropoI6gico prôprio. Sem prcpriedades
distintivas por direito nato, a cultura nao tem qualquer condiçao de ser analisada
como uma coisa-em-si-mesma. Seu estudo degenera em uni ou outrc dos dois
naturalismos vulgares; 0 economicismo do individuo racionalizante (natureza
humana); ou 0 ecologismo da vantagem seletiva (natureza externa). Malinowski.
é clara, nao pode ser tido como responsavel pela invençao de qualquer das duas
problematicas. nem pele desenvolvimento completa de ambas. mas a primeira é
definitivamente integrada em sua obra. enquanto a segunda ja ai se prefigu,ra. 0
economicismo ou 0 utilitarismo se desenvolve a partir de sua distinçao entre
norma cultural e atitude subjetiva. e da submissao, na sua opiniao, do "ideal"a um
interesse pr6prio pragmâtico - que investe 0 segundo como 0 verdadeiro opera-
dol' da vida social.
22 ''A palavra. tal camo afirmamos. nao 'faz' nada. no maximo incita à açao ... mas se incita à açao é
porque significa 0 que ha para ser feito e porque a exigência significada para outrem é 'entendida' por
de e 'scguida' por cie ... A palavra se articula cm frases. verbos e substantivos. objetos, complcmentos.
plurais etc. ... e. por causa disso. somos capazes de controlar nossa açao por uma espécie de 'ftasea-
mento' de nossos gestos ... 0 significado desse fraseamento nao é uma transformaçao das coisas ou dc
n6s mesmos. nao é uma produçao no sentido literaI, mas uma significaçao. e toda significaçao designa
vaziamente que trabalho realizara. no sentido em que se realiza um piano. um descjo, um objetivo .
é através desse v:Ilio de significaçôes, que designam sem nada fazer. que a palavra conecta e as
estruturas agcm" (ibid .• p.204) . '
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88 CUIIl/ra e razao prdtica
Mali nowski podia "ver as cnisi1s COIllO os nativos as viam': contanto que des
concordassem cm ver as coisas da sua mancira. Eles teriam que desenvolver uma
analise que valorizasse a açâo prât ica sobre a norma cultural - e de novo corn
referència à :lçâO --'- 0 afeto subj etivo sobre a forma ostensiva. Pelas noçoes de
Malinowski, as regras eram llma coi sa, e as açôcs uma outra (oisa e mais verdadei -
ra, senda as primci ras uma si mpl es co nversa cam a "realidade" das ûltimas. merc-
ccnda as nonnas menas existência e analise do que 0 comportamento motivado
por um auto-Înteresse iluminado. Todavia, 0 ato- as "danças selvagens': as trocas
de ornamentos killa que nac podiam ser possuidos-continua senda peculiar nas
suas propriedades observaveis. Privil cgi<i-Io sobre a regra em nome do interesse
racional requereria uma segunda distinçao: ent re essa aparência externa, forma
incongruente, e as atitudes pniticas que as pessoas conferem a ela. Os dados mais
verdadei ros da etnografia nào consistern em fatos de ordern cultural, mas na
maneira pela quai essa ordem é subjctivamente vivida, a famosa "imponderabili-
dade da vida quotidiana': Muito freqüenternente, insiste Malinowski, os antrop6-
logos sac envolvidos pel a narrativa das "ficçôes legai s" dos nativos, tais como a
solidariedade do da, as regras de exogamia c1ânica, e 0 que 0 valha, que repre-
sentam somenle 0 "aspecto intel ectual, manifesta, totalmente convencionalizado
da atitude nativa". Mas "0 c6digo da condut a natural, impulsiva, as evasôes, os
compromissos e os costumes nâo-legais s6 sao revelados a quern faz 0 trabalho de
campo, a quem observa a vida diretamente, registra os fatos, vive nesses abrigos
junto ao seu 'material' corl1o par.a compreender nao somente a sua linguagem e as
suas afirmaçôes, mas também os motivas ocultos do comportamento, a quase
nunca formulada lin ha da conduta espontânea" (Malinowski, 1966 11926]. p.120-
1). A importância desse "c6digo natural, é que, no final, ele prevalece
sobre 0 convencional, e a forma cultural se submete à praxis "espontânea': "0
verdadeiro problema nâo é estudar camo a vida huma na se submete às regras -
isso simplesmente nâo existe; 0 problema real é saber como as regras se tornaram
adaptadas à vida" (ibid., p.127)."
:3 Fortes descreve corn agudeza a oposiçao entre nonna "ideal" e pdtica "l'cal" na obra de Malinows-
ki, e documenta a sua transposiçâo para um contraste entre forma e sentimento que n:1o deixou
qualque r possibilidade de entendimento do parentesco em si mes lllo: "0 que é digno de nota é a
cnfase na prâlÎca (a atÎvidadej a comportamcnto; os mûtuos serviços concretos; 0 interesse pr6prio,
a ambi ç1io e a vaidacle demonstradas; 0 amor mat erno e a afeÎçao paterna; cm suma, as açôes,
sentimentos e pensamentos de indiv(duos cm situaçocs sodais, tal corno diretamcnte obscrvadas pelo
ctn6grafo e admiticla$ pc10s atores) vista coma a realidadc da vida social, cm contraposi çao ao ' ideaJ'
<l U 3 ' teori a', 3S fonnul açoes simplesmente verbais (Fort es, 1957,1'. 160) ... os fatos das relaçOes e dos
agrupamentos sociais sao, em seu esquema, fatos meramente de costume e motivo, amplamentc
cquipafados, par exemplo, com :lS crenças magicas, e que emcrgern cm ûltima instância de instintos
huma nos universais camo 0 parentesco ou de sent irnentos humanos comuns coma a va idadc e a
:llnbiçào. Assim, nao temos cm parte aIgUilla uma anâlisc artîculacla da organizaçao local, do paren-
tcsco c d3 cstrutur3 po!itîca trobriandesa" (p.164) .
Doi$ paradigmas da ttoria antropo16gicn 89
Mas ao separar dessa forma a ordem cultural do sujeito humano, assim como
a fi cçâo é separada da vida real, Malinowski introduz um tipo de esquizofrenia
ontol6gica na etnologia - que é °pensamento normal da ciência social da nossa
época. A vida social humana é tomada como dividida contra si mesma, composta
de dois tipos difercntes de objeto que se mantêm em relaçôes de contraposiçao e
competiçao. Por um lado, ha as regras e formas convencionais que equivalem à
"cultura" da situaçao. S6 elas têm direito a esse status, da mesma forma que s6 elas
sao descritas l'or propriedades especificamente culturais: descendência matrili -
near, exogamia dânica, rituais mortuârios, pagamentos de valores aos afins, pro-
duçâo de inhame, parentesco classificat6rio. Em princîpio, elas também poderiam
ser compreendidas nesse sentido, ou seja. por uma 16gica, ao mesmo tempo, de
significaçao e açao, desdobrada a partir dos atributos simb6licos, da rnesma forma
que a valorizaçâo de bens e a divisâo do trabalho, por exemplo, poderiam ser
relacionadas às classificaçôes de parentesco ou às prâticas matrimoniais. Mas a
identificaçâo dos atributos culturais como a "norma" ou 0 <Cideal" vis-d-vÎs a vida
real deve condenar esse esforço como metafisico. A cultura, ao contrario, se subor-
dîna a uma outra 16gica - que, como nao preserva as propri edades simb6licas,
nâo pode fazer uma avaliaçao delas.
24
Por outro lado, em opos}çâo à nonna da
cultura esta 0 "comportamento real" da pessoa. E isso, enquanto especificamente
humano, deve ser descri to e compreendido em termos retirados de outro universo
de discurso: necessidades, impuisos, motivos, desejo"s, sentimentos e emoçôes das
pessoas. Neste ponto, uma espécie de inversâo bâsica dos prindpios durkheimia-
nos, muito embora de acordo corn a premissa de que "0 homem é duplo", Mali-
nowski desloca a dinâmica social para 0 nivel natural, procurando representa- la
por forças que emanam do pr6prio organismo. remos de lidar com a luta do
suj eito individual para alcançar seus pr6prios fins, em face de convençôes cul tu-
rais coercitivas. Uma anâlise significativa cede port anto lugar a uma racionalidade
manipulativa, à analise formaI de relaçôes meios-fins baseadas em uma teleologia
das satisfaçôes humanas. Deste outro ponto de vista, a cultura aparece simples-
mente coma um instrumento ou urn ambiente da dinâmica constitutiva do pro-
p6sita humano. É um instrumento no sentido de um conjunto de meios à dispo-
siçao do sujeito, através do quaI ele alcança se us fins autofixados. E é um ambiente,
nao somente como um conjunto de coerçôes externas ao individuo, mas coma
algo sobre 0 quaI de opera suas razôes e, ao agir assim, ordena as propriedades
24 Sorokin caractcriza corrctamente esse procedimento COolO "3 falacia da inadequaçâo - 0
que é dtadocom aprovaçao par Parsons t assim dcscrito: "Consiste cm cx:plic3r um conjunto de f3tos
corn propriedadcs que 0 diferenciam d aramente de outras, cm termos de um csquema apli c:i.vel da
mesma forma aos outros" (Parsons, 1968 r 19371 1 :354). A i11esma fahid3 se aplica tante ao ccologismo
quanto ao economicismo (utilitarismo), camo "cremos adiantc.
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90 Cu/wra e razao prdtica
clesse meio.
25
Concebida des sa forma, a interaçao entre "vida" e "cultura" é
sariamente desigual: uma relaçao de sujeito com objeto, ativo corn passivo, cons-
tituinte com constitufdo. Comportando-se corn uma mente singular em direçao
aos seus melhores interesses pr6prios, as pessoas formulam e reformulam adequa-
dam ente sua ordem cultural (cf. Firth, 1963). Mas a eficacia da cultura como uma
ordem significativa é ao mesmo tempo suspensa. A cultura é reduzida a um
epifenômeno de "processos de tomada de decisao" intencionais (como dizem).
Essa expressao familiar, é clare, naO é de Malinowski, mas apresenta uma
conexao aprepriada corn 0 saber atual da ciência social. Esse utilitarismo - a
adoçao axiomatica da sujeito que calcula, ordenando 0 mundo
social racionalmente de acordo corn desejos igualmente axiornaticos - é uma
consciência instintiva que n6s temos dos outros e de n6s mesmos. Muitos daque-
les que podiam criticar 0 funcionalismo de Malinowski estao, nao obstante, satis-
feitos corn sua contraposiçao essencial entre interesses pessoais e ordem social (p.
ex., ]arvie, 1967, p.77; Kuper, 1973, p.49; ou mesmo Wolf, 1964). É verdade que
Malinowski foi 0 primeiro antrop610go a negar a generalidade de um homem
econômico (1921; 1950 [1922J). Mas isso nao se deu exatamente para conferir ao
mesmo conceito um alcance maior? "Nas pâginas dos Argonautas e em seus
sucessores", escreveu Leach, "0 'selvagem' deixa de ser uma marionete ... Ete é um
ser huma no vivo que opera um sistema bizarro da organizaçao social através do
exercicio de escolhas naturais entre meios alternativos para fins alternativos"
(1957, p.12?). Do mesmo modo, Bateson considerou que 0 método funcionalista
de Malinowski "é provavelmente acertado e, pela sua investigaçao cuidadosa, pode
oferecer um sistema coerente de antropoIogia aliado a sistemas de economia
baseados no 'homem que calcula'" (1958, p.2?). Pois, como 0 pr6prio Malinowski
relatou, "sempre que 0 nativo pode fugir à sua obrigaçao sem perda de prestigio,
ou sem provâvel perda de lucfo, ele 0 faz, exatamente como faria um homem de
neg6cios civilizado" ( 1966 [19261, p.30). A perspectiva em questâo continua sen-
do 0 economicismo nativo do mercado transposto aqui da anâlise da sociedade
burguesa para a explicaçao da sociedade humana. 0 lugar analitico assim conce-
dido à sociedade foi brilhantemente descrito por Dumont:
2S "Os problemas colocados pelas necessidades nutritivas, reprodutivas e higiênicas do homem têm
de ser resolvidos. E sao resolvidos pela construçâo de um nova meio ambiente, secundârio ou
cial. Esse meio ambiente, que é nada mais nada menos que a pr6pria cultura, tem de ser permanente-
mente reproduzido, mantido e controlado" (Malinowski, 1960 [1944], p.37; grifo meu). Indicamos
também que a cultura, coma trabalho manual do homem e camo meio através do quai ele atinge os
seus fins, um mdo que lhe permite viver, estahelecer um padrao de segurança, conforta e prosperida·
de; llm meio que lhe da poder e Ihc permite criar bens e valares que vâa além dos seus dotes animais,.
orgânicos - essa cultura, em tudo isso e por tudo isso, deve ser entendida camo Ilm meio para !/fil
fim, ou seja, instrumental ou fundonalmente" (ibid., p.67-8; grifo meu).
Dois paradiglllas da tcoria autropo/6gica 9 1
Na sociedadc modern a .. . 0 Ser Humano é a homem "clementar': indivislvel, sob a
forma de ser biol6gico, ao mesmo tempo em que sujeito pensante. Cada homem
particular encarna, em um certo sentido, toda a Humanidade. É a medida de todas as
coisas, em um sentido pleno e totalmente novo. 0 reino dos fins coincide corn os fins
Icgitimos de cada homem, e assim os val ores se invertem. 0 que ainda se denomina
"sociedade" é 0 meio, a vida de cada um é 0 fim. Ontologicamente, a sociedade nao
existe, nao é mais que um dado irredutivel ao qual se pede som ente que nao contrarie
as exigências de liberdade e de igualdade. Naturalmente, 0 que foi dito acima é uma
descriçao de valores, uma visao da mente ... Uma socicdade tal como 0 individualis-
mo a conecbe nunca existiu em parte alguma pela razâo ja apresentada, ou seja, a de
que 0 individuo vive de idéias sociais. [Dumont, 1970, p.9-10; para outras importan-
tes discuss6es do utilitarismo (economicismo, individualismo), ver Dumont, 1965;
Macpherson, 1962; Parsons, 1968 [1937]; Polanyi, 1944.]
A separaçao economicista da estrutura normativa da açao pragmatica, se nao
bane completa mente a cultura do alcance antropol6gico, a reduz ao status de uma
preocupaçao secundaria. Apenas pressagiados par Malinowski, esses efeitos apa-
recem muito mais claramente em uma "antropologia ecol6gica" que homenageia
suas fontes intelectuais intitulando-se "funcionalista" ou "neofuncîonalista" (cf.
. Collins e Vayda, 1969). Entretanto, como afirmou Marx corn razao, a anatomia do
homem é a chave para a anatomia do macaco. 0 sistema econômico mais desen-
volvido faz uma diferenciaçao explicita de categorias que permanecem combina-
das, ambîguas ou som ente virtuais no sistema econômico menos desenvolvido.
Do mesmo modo, as împlicaçoes prefiguradas em uma determinada perspectiva
intelectual tornam-se explicitas apenas em versoes mais evoluidas dela. 0 novo
funcionalismo ecol6gico demonstra que 0 efeito da dissoluçao de Malinowski do
conteûdo cultural na funçao biol6gica, particularmente do simb6lico no instru-
mental, é uma soluçao final para 0 problema cultural. Ele deixa explicito que a
cultura nao permite qualquer compreensao especial, isto é, distinta de uma expli-
caçao biol6gica. Nesse caso, a cultura desaparece.
Como no funcionalÎsmo de Malinowski, esse processo depende da apropria-
çao te6rica das qualidades culturais como efeitos orgânicos, interpretaçao que nao
somente dissolve as especificaçôes culturais como também lhes permite reapare-
cer de forma mais cientîfica (isto é, quantificavel). Explica Rappaport
(/s questaes scjant colocadas em termos de fenômenos culturais, elas siio respon-
didas em fermos dos efcitos de UIII comportamcnto illformado culturalmentc sobre siste-
mas biol6gicos: organismos, populaçoes e ecossÎstemas. A caracteristica distintiva da
antropologia eco16gica nao é simples mente a de levar cm consideraçao os fatores
ambientais nas suas tentativas de elucidar os fenômenos culturais, mas a de atribuir
significado biol6gico aos termos-chaves - adaptaçao, homeostase, funcionamento
adequado, sobrevivência - das suas formulaçoes. [1971, p.243.]
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92 Crlliura e razilo prtitica
. A prâtica te6rica poderia sel' chamada de "fetichismo ecoI6gico". Nada do que
e .cultural é 0 parece; tudo é mistificado como ml1 fato natural que possui a
vlrtude ostenslva de ser bâsico e exato, embora essencialmente abst rato. 0 casa-
"um intercâmbio de materiais genéticos", assim coma a caça é
um mtercambiO de encrgia corn 0 meio ambiente", milho, feij âo e ab6bora sào
uma "dicta nao-equilibrada': a sociedade uma "populaçao de organismos huma-
nos': e 0 canibalismo uma {<atividade de subsistência". ("Ao examinar 0 canibalis-
m.o> operamos a partir da premissa de que todas as atividades que proporcionam
alImentos para os membros do grupo, ali mentos que eles realmente consornem
sao 'atividades de subsistência' que podern, pois, sel' comparadas
e/ou tomadas em conjunto como atividades constÏlutivas de uro repcrt6rio com·
portamental global> chamado de ' padrao de obtençâo de alimentos'" - Dorns-
trcich e Moeren, 1974, p.3). Dougl.3S (1966) chamou ao mesmo ti po de pensamen-
to, aplicado à descoberta de valor'es sanitarios cm ta bus de dieta, de "materialîsl11o
Trata-se somente uma versao antropol6gica ou ecol6gica particular
da troca do conteûdo signi Qcativo pela verdadc funcional que Sartre descreveu
coma vulgar.
26
Esse mesquin ho comércio metafisico de pormenores
etnograficos nao apresentaria interesse algum, nâo fosse por sua intençao confessa
de apoderar- se do conceito de cultura.
Malinowski opunha "cultura" a cornportarnento; para a ecologia ela é "com-
Pode tratar-se de comportamento aprendido, mas nem pOl' isso
digno de tratamento diferente do "comportarpento espedfico de espécie" de qual-
outro de .organismos. Pensemos nele simplesmente como um "reper-
16no cultural (Collms e Vayda, 1969, p.155). Compreendido isso, 0 fe nômeno
26 ao I,?nge de estar envolvido, foi ele quem formulou as crfticas e explicaçôes
maiS ,desse fehchlSIllO: A aparente estupidez de fundir todas as multiplas relaçôes das pessoas
cm uma rel açao de utilidade, essa abstraçao aparcntemente metaffsica resulta do fa to de que, na
socledade burgucsa, todas as rcl açôes sao subordinadas na prat'ÎCa a uma relaçaa monctario-
Essa tcaria veio à tona corn Hobbes e Locke ... Em Holbach, toda a atividade de
Illutua, isto é, 0 ato de falar, 0 amor etc., é descrila coma uma relaçao de
utthdade e utl,hzaçao. Dai, as rclaçôes reais que sac aqui pressupostas - 0 ato de falar, a alllor-
m,amfcstaçôes definidas qualidades definidas dos indivlduos. Assim, essas rclaçôes per-
. m s,lgm!Ïcad? que lhes é peCIIIUlr para se tornarem a expressao e a ma nifestaçao de uma terceira
Iclaçao mtroduzlda em seu lugar, a relaçiio de IIlilidnde Olllllilizaçiio ... Tudo isso realmente se aplica
ao Para ele, lIIt/a rclaçao é valida por si mesma - a relaçao de exploraçàoi Iodas as
demals rc!açôes s6 têm validade para cie na medida cm que podcm ser incluidas sob aquela (mica
rdaçao, e mesmo onde de encontra rclaçôes que niio podelll ser diretamente subordinadas à rel açao
ao menos as subordina a d a na imaginaçao. A expressào material desse uso é 0
a representaçao do valor de Iodas as coisas, pcssoa.s e relaçôes sodais. Conseqüentemente,
cm um relance, que a catcgoria de 'utilizaçao' é subtraida das relaçoes reais que cu tenho com
OUi ras (mas de forma alguma como renexo ou simples vontade) e enUio essas rc!açôes passam
a sel' a. da categoria quc delas foi abst raidaj urn método completamcnte metafisico de
procedlmcnto (Marx e Engels, 1965,1'.460-1),
Dois parndigmCJs da leorin
93
como tal nao deve distinguir 0 homem de quai squer outras espécies, nem a
antropologia da biologia. Como "comportamento" - ou mcsmo mais abslrata-
mente, "movimentos do corpo" - a cultura pode ser estudada, do l11esmo modo,
como as açôes de qualquer animal, isto é, como boas para a espécic ou mas para
cla, sob as condiçôes seletivas naturalmente constituidas:
A atençao a idéias, valores ou eoneeitos culturais nao pode, cOlltudo, ser cansidcrada
uma sine qua 1/011 da analise de eeossistemas que incluam 0 homem. Ao contrario,
pode-se prcferir dar ênfase ao comportalllCllto ftsico real OH aos 1II0villletJtos do corpo
através dos qllnis 0 IlOmem efetua diretamellte alteraçoes 110 seu IIU'Î O illllbiente ... Na
realidade, uma abordagem posslvel sugerida par Simpson ... entre outras, é oillar n
wltura hunltwa sÎlIlplesmente como 0 comportamento ou parte do C()/llportflnlCl!to de
lima espécie particular de pril11atas. Encarando·a desse modo, estolJllOS eapacitados
para estuda-Ia e interpreta-la da mesma forma que estudamos e interpretamos a
comportamento de qualquer outra espécie, como, por exemplo, com respeito nao
samente à sua interaçao corn variâveis ambientais, mas também com 0 efeito dessa
interaçao sobre a seleçao natura!. 0 [ato de 0 comportamento humano ser complexo,
variado, variavel e, cm uma medida eonsideravel, espedfico de uma populaçâo, pode
fazer da observaçào e da deseriçao tarefas formidaveis, mas isso nao signifiea que
prindpios basieamente diferentes devam ser usados no estudo do eompartamento
humano e no estudo do comportamento de outras espéeies animais. [Vayda. 1965,
p.4; grifo meu, J
o funcionali smo ecol6gico coloca a cultura em um rÎsco du plo. É ameaçada
de liquidaçao porque nâo pode ser especificada como tal por motivos naturais, e
porque a consideraçâo da sua qualidade especifica exigiria a invocaçao de uma
razâo de outra natureza. A crise torna-se entao ontol6gica cm suas proporçôes. A
cultura é trocada pelo "comportamento". Suas qualidades concretas sao apenas a
aparência de "movimentos do corpo", cujo saber é seu efeito biol 6gico. A ontolo-
gia recapitula assim uma metodologia, E a antropologia perde seu objeto. 'Tendo
sido ignoradas as propriedades da cuttura na pratica da sua explicaçao, presume-
se que essas propriedades nâo tenham qualquer autonomia ou valor como tal-
o que é uma racionalizaçao do fato de que a explicaçao nao pode responder pOl'
elas:
Pareee que uma cîêneia unifieada da eeologia telll eontr ibuiçôes definitivas a fa1.er no
sentido da realizaçao das melas ant ropol6gicas, nao requerendo qualquer saerifjeio
apreei<\.vel de intcresses antropol6gieos tradieionais, Pode, eontudo rcquerer um sa-
erifieio UIll poueo difcrentc, isto é, 0 da noçào da autonomia de lima ciência da
eultura (Varda e Rappaport.1967, p.497),
Esse sacrificio da autonomia da cultura (e da ciência cultural) seria à conse-
qüência da sua subordinaçao denlro de um sistcma maior de coerçào natural. Na
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94 Cullllra e raziio pra/ica
medida em que esta ûltima é concebida como uma ordem cibernética, como é
comum nos estudos ecol6gicos, senda a cultura inclufda em uma "ciência unifica-
da", isso também requereria 0 deslocamento da propriedade da "mente" da huma-
nidade para 0 ecossistema. Como conjunto de relaçôes termodinâmicas auto-re-
gulado ras, que respondem às "informaçôes" ou a alteraçôes significativas dos se us
componentes, 0 ecossistema camo um todo é hoje 0 local de uma "atividade
mental" que deve, logicamente (no interesse da autor idade exclusiva do Behe-
math)," ser negada cm qualquer uma das suas partes. Bateson expli ca esses siste-
mas: "podemos afirmar que qua/quer conjunto de acontecimentos e objetos em
andamento, que possua a complexidade apropriada de circuitos causais e as
çôes apropriadas de energia, exibira.caracteristicas mentais. Ele comparara, isto é,
respondera a diferenças ... <Processara informaçôes' e sera, inevitavelmente, auto-
corretivo, quer no sentido de 6timos homeostaticos, quer no sentido da maximi -
zaçao de certas variaveis" (1972,· p.315). Evidentemente, se qualquer um dos C0111-
ponentes desse sistema auto-regulat6rio fosse capaz de impor seu pr6prio projeto
à totalidade, 0 ultimo deles se toma ria uma mera cadeia de conseqüências,
nado apenas negativamente pelos limites de funcionamento possîvel. (Donde,
para preservar a sistematicidade, a mente s6 poder ser uma propriedade do todo:
"em nenhum sistema que mostre caracterfsticas mentais, qualquer uma das partes
pode ter um controle unilateral sobre 0 todo. Em outras palavras, as caracteristicas
mentais do sÎstema siïo imanentes, nao a esta ou àquela parte, mas ao sistema coma
um todo" [ibid., p.316).) ,
Dentro do ecossistema, a trama interativa, ou 0 subsistema que envolve 0
homcm e seus arredores Îmediatos, seria caracterizada por relaçôes de retroali-
mentaçao (feedback) reciprocas e iguais às existentes entre quaisquer outros ele-
mentos do circuito, apesar de a transaçao homem-natureza ser mediada pela
cultura. A cultura é aqui, simplesmente, a automediaçao da natureza. É somente 0
modo humano de resposta, e portanto sistemat icamcnte governado, na medida
em que 0 homem é mais que uma variavel funcional do todo - um componente
reativo em mutua determinaçao corn variaveis ambientais, elas mesmas tao suj ei-
tas ao seu objeto quanto vice-versa. Um dos exemplos favoritos de Bateson é a
interaçao do homem corn a arvore no corte da madeira:
Consideremos um homem que corta uma arvore cam um machado. Cada golpe do
machado é modificado ou corrigido, de acordo corn a forma do corte da ârvore
provocada pela golpe anterior. 0 processo aulocorrelivo Osto é, mental) é realizado
par um sistcma total, arvore-olhos-cérebro-musculos-ùlachado-golpe-arvorc; e é
esse sistema total que tem as caracterist icas da mente Îmanente. IIbid. , p_371.J
• Behemoth - ani mal descrito no Velho Testamento, provavelmente 0 hipop6tamoi cm sua acepçào
correllte, a palavra significa algo opressivo ou de dimensües e poder monstruosos. (N.T.)
._-
Dois paradigmas da teoria antropol6gica 95
o problema é que os homens nllI1Ca "cortam madcira" simplesmente dessa
forma . Eles cortam toros para as canoas, esculpem as figuras de deuses cm clavas
gllcrn?iras, ou mesrno cortam madeira para lenha, mas sempre estabelecem re1a-
çôes corn a madeira de um modo especifico, uma forma cultural, em tcrmos de
um projeto significativo cuja final id ade governa os termos da interaçao redproca
ent re 0 homem e arvore. Se 0 objetivo é produzir uma canoa, a resposta a uma
mudança na arvore é uma; se a meta é a obtençao de lenha, é outra. A resposta ao
ultimo golpe depende de um obj ctivo que nao é dado ao processo coma um
processo natural; esse golpe e todos os golpes que 0 antecedem, desde 0 inicial,
dependem da intençao significativa. A interaçao determinada de arvore-olhos-cé-
rehro-etc. foi estipulada par uma ordem simb6lica; é um exemplo paradigmatico
da natureza subordinada a serviço da cultura. A alternativa cibernética prevista
pela teoria dos ecossistemas nao passa de um fetichi smo ecol6gico mais apropria-
do ao seu pr6prio contexto cultural, do capitalismo industrial e burocratico, cujo
projeto consiste igualmente em reduzir os homens e as coisas às suas especifica-
d
· d . 27
çôes fUllcionais como elementos de um processo pro utlVO auto etermmante.
G.P. Murdock
o fim do "terror" sera a morte da cultura nobre .. Em George Peter Murdock, a
antropologia pode jâ ter encontrado â seu Robespierre. Murdock aproveitou a
ocasiao aparentemente apropriada da Huxley Memorial Lecture de 1971 para
anunciar a morte da cultura. t interessante observar como ele finalmente chegou
a esse ponto de autoconsciência metodol6gica. 0 tema central do seu Social
Stru.cture (1949);3. repetia em seus pontos essenciais 0 entendimento morganiano
das relaç6es entre circunstância pratica, açao utilitaria e ordem cultural. Murdock
pode ter sida 0 primeiro a divergir de Morgan cm questôes de metodologia e
detalhes de interpretaçao, mas sua compreensâo da estrutura social deriva em
hnha direta da teoria da praxis. Para Murdock, a formaçao de "grupos de paren-
27 "De fato, no processo de produçao do capital ... 0 trabal ho uma totalidade ." cujas partes
componentcs individuais sao estranhas umas às outr<lS, de modo que 0 global como uma
totalidade 11110 é 0 traball/O do trabalhador individual, mas 0 trabalho de dlfcrentes trabalhadores que
Cslào juntos s6 na medida em que esUo agrupados là forçai e naD se reûnem Ivoluntariamente] uns
corn os outras. A combinaçào desse trabalho <lpucce exatamente coma subservicnte e controlada l'or
uma vontade e par uma inteJigência estranhas - cstando a sua IIIr idade dCll1iimaçao cm outra parte
_ assim camo a sua unidade material aparece subordi nada à rmidade objetiva da maquinaria, a
capital fIXO, que, COffiO 1I1O,1$l ro allimado, objeüfica a idéia cicntlfica e é, de fato, 0 coordenador;
nll.o se rclaciona de mancira alguma corn 0 trabal hador individual camo seu instrumento; ao contra-
rio. ex.iste camo um sin al de pontuaçào de um.indi viduo animado, coma seu acess6rio isolado vivo"
(Marx, 197311857-8], 1'.470).
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96 CI/llr/ ra c razao pnirica
tesco consangüincos" - e pOl" conscqüência, a c1assificaçao de pa rentes - repre-
senta 0 reconhecimento de arranjos baseados cm relacionamentos determinados
pelas praticas residcnciais, que pOl sua vez respondem a exigências praticas. A
pratica residencial é portanto a chave dinâmica. A deter minaçào da composiçao
rcal dos agrupamcntos 50ciais descmpenha, no esquema de Murdock, um papei
anâlogo ao desempenhado pelas uniôes exogâ micas nos primeiros estâgios de
Morgan: 0 inst rumenta pelo quai a LO mpulsào obj etiva ou natural é reificada na
forma cultural. As relaçôes de parentesco sac constituidas por uma consciência
reflexiva da composiçào do grupo en tao estabelecida, Elas sào as exprcssôes arti-
culadas de arranjos residenciais, arranjos res idenciai s esses que, por sua vez, refle-
rem as "condiçôes fundamentais de vida":
As condiçôes de existência de qualqucr socicdadc estao sempre passando por mudall -
ças - às vezes nipidas, out ras vezes lentas _ em conseqüência de acontecimentos
naturais como fomes e epidemias, de acontecimentos sociais como guerras e revolu-
çoes, de influências bi o16gicas como uma densidade populacional em crescimento, de
adaptaçoes internas coma invcnçocs lecnol6gicas, e de conlatos externos que podern
esti mular empréstimos culturais, MuÎ tas mudanças nas condiçëies fundamentais de
vida podem exercer pressao na direçao da modificaçao da regra ex.istente de residên-
ciao Tao diversos sao os fatares causais na mudança social, e tao poucas as alternativas
nas regras de residência, que, praticamente, qualquer sociedade, independente do
nive! de cult ura das for mas existentes de organizaçao social, pode encontrar, prova-
vclmente, concatenaçôes particub res de circunstâncias que favorecerao 0 desenvolvi-
mento de qualquer uma das regras alternativas de res idência, [Murdock, 1949,
p.203.]
Assim, por exemplo:
A residência patrilocal parccè scr desencadeada por alguma mudança na cultura das
condiçëies de vida social que, significativamente, aumenta 0 status, a importância e a
influência dos ho mens em rdaçao ao sexo oposta, Qualquer modificaçao na econo-
mia basica é particularmente influentc, ]-lois por meio dela as atividades masculi nas
na divisao sexual do trabalho chcgam a produzi r os principais mei os de subsistência.
{Ibid. , p. 206]
Essas prât icas residenciais geram alinhamentos especî fi cos de parentes,28 cujo
"reconhecimento" - recon hecÎmcnlo este que pode sel' negado - estabelece
grupos de parentesco tais como as linhagens e as costumci ras c1assificaçoes de
pessoas:
28 Murdock considera 0 "parcntesco" Uln (;lt O gClle:l16gico- nalural, exatal11 ente nos termos expostos
c crit icados por Schneider ($cbneid,'[', 1968; 1972),
Dois paradigmQs da {caria mltrop%gica 97
A rcsidência unilocal nâ.o produz diretamentc li nhagens ou parentes, Simplesmente
favorece 0 descnvolvi mento de famil ias extensas e demes exogâmicas, corn 0 caracLc-
ristico alinhamento nao-linear de parentes, podendo um desses levar ao rcconheci -
mento de grupos de parentesco nao-Iocalizados. 0 que a residência mat ri local ou
patrilocal realiza é reunir, cm uma proximidade espacial, gr upos de parentes do
mesmo sexo unilinearmente relacionados, junto corn as suas csposas, [Ibid" p, 21O,]
Murdock resume toda a discussâo em um relato do desenvolvimento de um
sistema patrilocal -patrilinear, a partir de uma organizaçao dual de dis matrilinea-
res. 0 exemplo é capital sob diversos ângulos, dos quais nâo é 0 menaI' a de que
Mur'dock é levado a cunhar sua cxplicaçào coma um mito de origem. Ao mesmo
t empo, 0 pr6prio método de Morgan desponta claramente, nâo SOmeI)te em
termos gerais, mas através dos detalhes do crescirncnto da patrilincaridade a
partir da matrilinearidade (embora Murdock, evidentemente, nao afi rme que essa
tenha sido uma seqüência universal da evoluçao). Como diz 0 relato, algurn fator
aparece no conj unto matrilinear que "confere esta vantagem à residência pat rilo-
cal", coma a introduçao do gado (0 pr6prio "fator" de Morgan), escravos ou
rnoedas de concha, acompanhado pela noçao de que 0 prestîgio é fort alecido pela
poliginia (ibid" p,217). Agora, todos os homens, "ao adqui:':rem Tiquezas",29 sâo
capazes, ao pagarem 0 preço da noiva, de persuadi r os pais das noivas a permiti -
rem que suas filhas se mudem para a casa deles. E os ho mens começam a
deixar aIgumas de suas propriedades para os filhos, em detrimento dos filhos da
irma, coma no sistema matrilinear. Assim, "pouco a pouce': os laços corn a "pa-
rentela patrilinear" sâe reforçados às expensas da "parentela matrilinear': até que
as pesseas final mente descubram que estavam usando a patrilinearidade sem ter
consciência disso:
Pouco antes de a populaçao da aldeia se dar conta de que algo particula'rmcnte
signi fi cativo tin ha acontecido, ela descobriu que as casas de um lado da rua eslllo
agora por homens relacionados patri li nearmente, corn as suas mulhcres c
filhos, e que um grupo semelhante vive do outro b do da rua. A residência patrilocal
fo i firmemente estabelecida, a herança pat rilinear é accita, e os antigos matrietas
foram transformados cm incipientes patriclas. A situaçào esta madura para 0 desen-
volvi mento da descendência patrilincar, c isso pode ocorrer mui[O rapidamente, casa
exislam sociedades patrilineares nas redondezas para servirem como modelos, [Ibid"
p.216.]
29 Murdock, camo Morgan, toma "riqueza" corna tlma catcgoria natural, praticamente do mt!s mo
modo que aceita "parentcsco" ou "parcntela patrilinear" como catcgori as gc ncaJ6gicas,

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98 Cu/lura c razao prtilica
A posiçao basica de Murdock pode sel' ilustrada de outra forma, através de um
confronta c1assico com Leach, no quai a pr6pria concepçao de Murdock da rela-
çâo entre a ordcm vivida e a ordem pensada emerge claramente do equfvoco. De
cefto modo, 0 errc de MUI"dock nao chegou a sê-Io, pois reconheceu no fato de
Leach privil egiaI' a escolha individual sobre a regra legal um desvio do paradigma
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cstrutural -funcional semelhante à sua pr6pria prâtica.:W Com relaçâo à aldeia
sinhalesa de Pul Eliya. Leach disse que "as estruturas sociais sao algumas vezes
JI melhor obscrvadas coma 0 resultado estatistico de multiplas escolhas individuais
do que como um reflexo direto de regras legais" (1960, p. 124). Para Murdock,
f entao, foi apenas l6gico concordar corn Leach, invertendo a frase de modo a dizer
que as regras legais sac melhor observadas coma 0 resultado de uma tendência
estatistica das escolhas individu ais (Murdock, 1960, p.9). E isso era 0 que de vinha
! dizendo pelo menos desde 1949:
l
E em 197 1 a conclusao l6gica evidenciou-se para ele. Naquele ano, perante a
reuniao dos antrop6logos .da Grâ-Bretanha e l rlanda, evento cuja insignificância
te6rica s6 pode ser equiparada à sua solenidade, Murdock renunciou à sua adesao
_.J...,..... aos conceitos de "cultura" e "sistema social". Esses conceitos, disse ele, nao passam
I
de "abst raçôcs conceit uais ilus6rias" dos "fenômenos reais" de indivîduos que
ÎJ interagem uns corn os outros e corn 0 seu meio ambiente em busca dos seus
) 1 pr6prios e melhores Înteresses. Finalmente, Murdock se conscientizou da teoria
em sua pratica. Essa nova concepçao da cultura nao era mais que uma "abstraçao
.. conceitual il us6ria" do método que ele tinha utilizado durante tanto tempo:
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Parece-mc agora desconcertantemente 6bvio que a cultura, 0 sistema social e todos os
1,) YI h conceitos desse tipe, tais cole.riva, espirito de
grupo e organlsmo social, seJam abstraçôes conceltualS rl us6nas l11fendas da observa-
çâo dos "fen6menos reais" que sao os individuos interagindo uns corn os outros e
. com 0 seu meio ambiente natural. As circunstâncias da sua interaçâo levam quase
sempre a similaridades no oornportamento de individuos diferentes, que tendemos a
reificar sob 0 nome de cultura, e fazem corn que os indivîcJuos se relacionem uns corn
os outros de manei ras rcpeti ti vas, que telldemos a reificar coma estruturas ou siste*
mas. Na realidade, cultura e sistema social sao meros epifenômenos - produtos
dcrivados da interaçâo social de pluralidades de individuos. [Murdock. 1972, p.19. }
30 Nao obsl antc Leach tenha sido muito influenciado pelas técnicas estruturalistas francesas. ainda
que trcinado nas tradiçôes de Radcliffe-Brown, ele é capaz de uma di scordância malinowskiana corn
ambos. espccilicalllcnte qu:mto 3 interposiçao de interesses prat icos entre ci rcunstância e ordem
social. 1550 é cxplicitado em Pul Efi)'a. a que se rcfcre 0 exemplo acima, mas é também 0 casa cm
Sistemas po/it;cos dos plana/tos de Burina, na medida em que ele entende a imposiçao de um ou out ra
c6digo alternalivo (gumsa/gumb.o) coma umOl escalha ditada pela vOlntagem polftica. Dai. a necessi-
dade te6rica de Si.! assumir uma propcnsao natural para compctir par prcstigio, difcrcntc apenas no
conteudo da prcmissa economu:mte da economia cblssica, e para conferir-lhe 0 pOlpel de uma força
motara geral nos assuntos humanos (1954, p. l O).
Dois parndigmas da teoria alltropol6gica 99
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Mas nao se deve deduzir que essa der ivaçao da ontologia a partir da metodo*
logia represen te uma exceçao - ao men os para as ciéncias sociais - da nossa tese
geral de que 0 conceito nao procede da prat ica_ 0 status empfrico da proposiçao
segundo a quaI a cultura é 0 "epifenômeno" de uma outra rea!idade é em si mesmo
UIua i1usao. a que esta\'a presente ao longo de todo 0 método, e que assoma à
superfic ie aqui como a verdadei ra font e da proposiçao, é a sociedade burguesa.
Por consegui nte, Murdock simplesmente produz para a antropologia 0 mesmo
tipo de reduçao solipsfstica que Max \.\leber tentou para a sociologia, com a
mesma suspensao do coletivo ou do objetivizado em favor de intenç6es indivi-
duais. ara, consideremos a noçao que Murdock colocaria posteriormente no
lugar da chamada cultura, ou seja, "a abordagem da tOIllada de decis6es para 0
estudo dos fenômenos sociais" de Frederik Barth, uma abordagem que "focaliza
os acontecimentos da vida social em Jugar de seus aspectos ffsicos ou estatisticos,
e vé 0 comportamento social do ponto de vista das decisôes tomadas por indivf-
duos na 'alocaçao de tempo e recursos' dentre as alternativas disponfveis" (ibid.,
p.22-3). A anatomia do homem e do macaco: 0 ultimo paradigma de Murdock é
uma for ma evolufda daquele contido no funcionalis mo de Malinowski - ai nda
que 0 cruzamento das li nhas filogenéticas seja aqui complexo, uma vez que, como
se refere Kuper ao modelo de Barth, "A visao de Radcliffe*Brown da estrutura
social como uma rede de relacionamentos didaticos reais tornou-se, ironicamen-
.te, a salvaçâo do homem manipulativo de Malinowski" (I973, p.230). Mas 0
<C homem manipulativo" revela a ascendência comum de t?das essas teorias utilitâ-
rias. A idéia geral da vida social aqui expressa é 0 comportamento particular das
partes no mercado. Toda a cultura é entendida como 0 efeito organizado da
economia individual. A Cultura é 0 Neg6cio na escala da Sociedade. 0 conceito
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de cultura de Murdock nao veio da experiência ant ropol6gica: 0 conceito antro-
pol6gico ja era uma experiéncia cultural.

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E mais, a condusao a part ir da "exper iência" de que a cultura nao existe é uma \-Z., '-
lusao dupla, ja que toma como modelo de toda a vida social nao a realidade da lf l,..' · 1 :<
ociedade burguesa, mas a autoconcepçao dessa sociedade. Ac!-cdita na
tlda conspirando portanto para a \ .
gue é 0 socializado da atividade pratica, ignorando a . S& ('
f onstituiçao simb6lica da pratica.' A ciência social eleva a uma declara- .
t ao de princîpio té6riê"O-ë que a il
cultura é assim ameaçada corn um negligenciamento na antropologia 1
[que s6 se equipara à consciència dcla na· sociedade. J '
a fato de que, na li nha da teor ia da praxis iniciada por Julian Steward, esse
negligenciamento tenha levado a algum arrependimento, ja pode servir como
consolo.
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1
1
100 Cufll/ra e razao pralica
Julian Steward
A perspecliva fundamentaJ de Steward sobre a "ecologia cultural" é, cm tcrmas
gcrais. a mcsma da problemâtica desculturada de Morgan e, no detalhamento do
seu artigo paradigmatico sobre os bandos patrilineares ( 1936), corresponde exa-
tamente à idéia de estrutura social de Murdock. Portanto, s6 valeriaa pena expô-Ia
aqui para apresentar 0 contexto paradoxal no quai Steward, e mais tarde Murphy

[1970J, colocam sua ecologia cultural - como oposiçao à bio16gica. 0 paradoxo
é instrutivo. Scu esclarecimento mostrara como a mistificaçâo da 16gica cultural
\ da açao econômica
te da forma cultural. i
Em seu preâmbulo à principal quesUio eco16gica sobre os "bandas primiti-
vos", Stéward, de uma maneira o'u de outra, arrola as mais importantes condiç6es
técnicas e sociais dos caçadores e coletores - referindo aigu mas à vantagem
econômica, outras à natureza humana, e outras simplesmente ao fato empirico. A
upropricdade" territorial se entende corn base em que "qualquer ani mal pode se
assegurar de alimento e agua de uma maneira n'lais eficiente no terreno que
habitualmcnte utiliza"; os grupos de famflia, corn base em "uma excitabilidade
sexua! crônica" da espécie hunJ..ma; e 0 bando de fammas, corn base no fato de que
"em praticamente todqs os grupos humanos muitas familias cooperam .... Isso
proporciona um tipo seguro de subsistência" (Steward, 1936, p.332). As princi-
pais relaçôes de produçâo - a divisao de trabalho por sexo - sao encaradas a
partir de sua generalidade empirica entre os caçadores. E isso também em relaçâo
à simples tecnologia existente, nao apenas como um conjunto de ferramentas em
si mcsmas, mas. também como um conjunto evidente em si mesmo de intenç6es:
a provisâo da "subsistência': Essa tecnologia se desenvolve em areas de recursos
alimentares limitados; dai, os caçadores nunca ultrapassarem os pequenos agrega-
dos em b;:mdo, da ordem de 20 a 50 pess03s, e apresentarem baixas densidades
populacionais.
Dadas essas condiçôes, passa-se a determinar a base ecol6gica das varias
formas de banda; "patrilinear", "matrilinear" e "composta". Como na an,i1ise de
Murdock, 0 elo critico entre 0 meio am bien te e a est rulura social é a prâtica
residencial. Steward concentra suas atençôes sobre 0 tipo de bando mais difundi-
do,o patrilinear, que ele entende como a fo nna lizaçao da residência patr il ocal. Na
primeira versao do estudo (1936), a patrilocalidade é expli cada pela dominância
inata do macho e pela importância econômica dos homens nas culturas caçadoras
(p.333). Em uma versao posterior, a patrilocalidade é rc1acionada particularmente
suas vantagens econômicas cm areas de recursos animais dispersos, mas fixos:
"cm um mcio ambiente no quai 0 principal alimento seja caça nào-migrat6ria e
dispersa, é \'antajoso que os homens permaneçam no seu terr it6rio geral de nascÎ -
Dois pamdigmas da /caria (lIJ /rol'0l6gica 101
mento" (isto é, de vez que ja conhecem 0 territ6rio) (I 955, p. 135 L Com a patrilo-
cal idade assim estabelecida corn base na sua superioridade econ6mica, a estrutura
do bando decorre como reconhecimento e articulaçâo - de uma maneira agora
fami li ar a n6s. A residência patrilocal deve agregar pa renles Con-
seqüentemente, 0 tabu do incesto é imposto ao nivcl do bando, e 0 grupo é
organizado coma uma patrilinhagem exogâmica. Resumindo a questao em ter-
mos gerais: a eficiência econômica em um dado conjunlo de circullstâncÎas técni-
cas e ambientais requer certas prâticas e relaçôes sociais (residència patrilocal)
que, por sua vez, sào fo rmuladas e codificadas como uma estrutura social (bando
patrilinear). Pu ro Morgan.
3
!
A proposiçao tambérn épura praxis. Pois para da os "padr6es comportamen-
tais de trnba/ho" "exigidos" pela contexto ecol6gico é que se realizam sob forma
cultural. Murphy expl ica a posiçâo de Steward:
o rneio ambiente por si mesmo naD é 0 fator critico, t'ois os "padrôes de comparta-
mento" exigidos na sua exploraçâo através do usa de ccrlos "dispositivos econômi-
cos" é que sâo os e1ementos-chavcs. Esses padrôes de comportarncnto sac 0 lrabalho
e a lecnologia, os "dispositivos econômicos': Dc uma fo rma muito simples, a teoriada
ecologia cultural esta envolvida corn 0 processo de Irabalho, sua organizaçao, scus
cidos e ritmos, e suas modalidades situacionais ... (1970, p.155 J.
... Os padrôes de trabaillo sao diretalllelite derivados das fcrramclltas e recursos aos
quais eles sao aplicados, e esses dois falores servem para limitar as atividades huma-
nas às quais cstao relacionados [p.156]. E é da (!f/{îlisc da atividadc, emiugarda muilise
das instituÎçôes e vaiores, que a teoria deriva.
Essas atividades sac aquelas pertencentes ao cido de trabalho e delas emerge a
estrutura da sociedade Shoshone [p. 156 J ...
o ponto que desejo enfatizar é que 0 dominio da açào social enyolvido na produçâo
material, islO é, 0 trabalho, encontra-se subjacente ao sistema social Shoshone como
um todo. Os recursos sao a objeto de trabalho e ai jaz sua importância para uma
da sociedade e da cultura .... Como abjctos de trabalha, eles possucm
cerlas caracteristicas imadificâveis às quais a trabalho deve sc adaptar para fazê-Ios
acessÎvcis à cxploraçao. As ferramcntas devem sua posiçao central na analisc da
socicdade à sua condiçaa de instrumentos e mediadorcs do trabal ho. 0 uso de fcr ra-
mentas requer certos mados de comportamellto, e a aplicaçao desses inst rumentos a
materiais induz a posteriores ajustes de cornportamento [p.1571 .
31 0 parildigma praxis - pdticil- estrutura, generalizado por Ste .....ard na forma de "três proce-
dirncntos fundamentais da ecologia cultural": "Primeiro dcve seT :lI1alisado 0 inter-rdilcionamento
de tecnologia explorativa ou produtiva cam 0 mdo ambiente ... EI11 scgundo lugar, devem ser
analisados os padrôes de comportamento envolviclos na exploraçiio de uma ârca particular por mdo
de uma teenologia partieular ... 0 terceiro procedirnento é para detcnninar ah! que ponto os padroes
de comportamento rcqueridos na cxploraçiio do meia ambicnte aCctam outras aspectas da cuttura"
( 1955, pAO-I).

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102 CI/II/ml c raziio prtilica
A t",oria e 0 método da ecoJogia .cultural nao sao UIl1 tipa de determÎnismo ambien-
uJ. nem mesmo basicamente preocupados corn 0 mcio ambicnlc. Trata-se de
sem ser "culturolôgica" ou E mais, é urna tcaria
aç"û, no sentldo cm que esse terma foi usado cm sociologia. Embora reconhecen-
'::0 que 0 c?mportamcnto é, cm boa parle, regulado por normas, vé também as narmas
ù' mo slIrgllldo 110 primeiro piano d - . 1 d "
c açao sOCJa , e sen 0 wl1a cnstaltznçiio do comporta_
que, por sua vez, mantém esses padr6es comportamcntais [p.163J ... as ferra-
e recurSQS rcquerem [grifo de MurphyJ aIguns lipas de comportamento para
corn sucesso, e essas exigencias _ 0 processo de trabalho _ pres.
cm segUlda a estrut ura social gcral fp.163; todos os grifos sao meus corn as
e... ,,\: (eçoes cxpressas. )32
.... . ,fa.zendo eloqüente defesa dessa "ecologia cultural",
n .. ;) reduçoes blOloglCas da nova ecologia" (da quaI Vayda, Sweet e Leeds sac
.:ltJOÙS como expoentes) 33 A der ,_ .
.:: . , . '.. lcsa, porem, nao se faz sem contradlçôes e, no
unl1. das contas, é dlflctl dlstmguir as duas posiçôes, a nao ser por diferenças de

. acordo corn Murphy, Steward pensava a sociedade como um modo distin-
rl .... llltegraÇao. e, como tal •. nao-subordinada à natureza. Ordenada por idéias e
a goz3na de uma relativa autonomia. Mas para apresentar a
sucmtamente, as idéias sac sobre atividades, enquanto que a razao
-:6$3.5 atI\ïdades nao passa da sua eficJ:.· , . d ' ,
. ' 1 dCl a pratlCa em eterrnmadas clrcunstân-
'tas de mod . , . d
• 0 que 0 pnnclplO a ordem cullural permanece sendo 0 princfpio
.:ultural da vantagem adaptativa. Como 0 pr6prio Murphy observa (na passagem
A. intere:ssante obra te6rica de Murphy (297!) cl '
, • d uI . parte a mesma duahdade de açao e norma
K"«la e e c tura, e das premissas irreconcTâ . cl . . . . '
• • _ ru! al 1 t vels e que a atlvldade gera Idélas e a percep\âo é
,' . I,;.:n .. w: tur mente de modo qu 'l'
'.' d' - .' _ . sempre 1 us6no (por exemplo, p.34-5, 55, 90- 1, 100-2). As
IÇoeS de uma Interaçao dlalétu:a tornam-se en tao contradiçô d 6' M h
! t:.\1d..;.de anles da idéia que é a recondi :1 d .. es 0 pr pno urp y, corn a
. . ' p . ç 0 a atlVldadc, estando essas duas proposiçôes rclaciona-
_;J!> po. uma negatlvldade aleat6na' I)or ex 1" b
• , . 1 - 1 - . COlI' 0, cm ora cu tenha argumentado que as idéias sâo
a açao, e as nào sao apenas um rc(\cxo 1 . 'd d
L.:. , ; 'cl ai '. . (essa atl\'1 a cou uma reafirmaç:1o dela na forma
•.;l1l""Il.iCa el': . Ao contnlno as Idélas in 1 . d _ .
.... "·d d d ' ,c ll1n 0 as que sao 1l0nnatlvas elll uma sociedade podern
.. :l.! a rea.u a e a comporlamento IJode " .. '
, : ; •• - d cl '. .' III rCJI1tcrprcta_la de acordo corn outras estruturas de
..... 0, po em sunphfic:i· la e dlstorcê la ou d . cl
.' _ '.' 1 .. -, po em:llll aemrar cmconflitoabertoeconscientc
,. fi a aÇ30 SOCldJ. sso n:1o slglllfica que 0 sist . '.
... _ . cilla Ilormaln'o n:1o esteJa relaclonado à condula pois
J.; s.ao <i precondlç:1o da atividadc" (p.158). '
como dey? p:r:1 distingui_la da ecologia cultural de Steward, estâ
.. ' ..1 ... . .. aptaçào c coerCJlCI<l slslcmal lcas ('l1lre cultura e mcio ambientc, cessa busca lM
• • ... :l <.: ... mento e ordem na I"claçào caUS:1 0 ob .'
" '" . '.' SCUrCCll1lCnto c 0 des:1parccimcnto das distinçôes entre
. . ' ... 015 ... As conexôes entre um SISlcma soc' · J ' .
,.; ... . . . .' 1.\ e 0 St.'11 melO :1mblente podem ser cfetivamente
. , mas ISSO dlfi cllmente elllllina as frolltt'ir:1s enlrt' os do's A cl ',' • ' d
,,">-!:.:ma social derivam d t: t d . _. 1 ... 15 mç 0 e a 3utonomla a
d cl 0 a e que sua IIllegraçao n.'side no dominio das idéias e das atividades
....:-..: •.:1..1>., .: mo 0 que estas se 3}Ustam pm I"od ,', cl '
' . d • . U7.11 um mo 0 de \'Ida coerente e ordenado Elas est:io
as 2 natureza, mas suas moda!idades ellcontrarn-se da natureza" ! 970,
Dois paradigmas da teoria anlropo16gica 103
citada), a teoria de Steward deriva mais da atividade do trabalho "do que das
instituiçôes e valores". Essas instituiçôes e valores, conseqüentemente, nao organi-
zam a interconexao huma na COOl a natureza, mas chegam à cena post festum, como
uma cristalizaçao das relaçôes estabelecidas na situaçao de trabalho. Por outro
lado) os padrôes de trabalho "derivam diretamente das ferramentas e recursos";
des sac "exigidos" para a integraçao efetiva dos dois no processo de produçao (cf.
Steward, 1938, p.260- 1). Tudo, portanto, leva à noçao de "exigências", e a "exigên-
cia" em questao é a purarnente objetiva de lidar com sucesso corn 0 meio ambien-
te. As conclusôes de Murphy sobre as relaçôes de cultura corn a natureza sao
verdadeiras, mas infelizmente nao sao pertinentes à ecologia stewardiana;
Os fenômenos de ordem superior ordeoam os fenômenos de ordem inferior de
acordo corn seus objetivos, embora o<io possam alterar suas propriedades. Do mesmo
modo, os sistemas sociais humanos alcançam e envolvem os ecossistemas, e nao 0
contrario, e a cultura reordena a natureza e realça as partes deia que sac relevantes
para a situaçao humana. f 1970, p. 169.)
É justamente assim. No entanto, toda a filosofia de Steward se encaminha exata-
mente no sentido oposto. A morfologia cultural se toma inteligîvel precisamente
nas mes mas bases que as asas de um passaro ou as guelras de um peixe. A cultura
nao reordena a natureza através dos seus pr6prios objetivos porque, para Steward,
todo objetivo, a nâo ser 0 pratico, desaparece no momento da produçao. A sabe-
do ria ecol6gica consiste em esquecer a ordenaçao cultural da natureza em todos os
rnomentos decisivos. A interaçâo da tecnologia corn 0 rneio ambiente segundo
determinadas relaçôes de produçao - sobre a quaI se erige uma morfologia
cultural- é considerada por Steward coma um fato instrumental. Dai a ordem
que é transmitida através da açao à estrutura ser a eco-16gica da adaptaçao efetiva.
A problemâtica de Steward é um padrào para 0 negli genciamento, no princî-
pio te6rico, da ecologia como sistema cultural. Isso é cm parte uma questao de
ornissao, incapacidade de desenvolver ao nivel do conceito 0 que é reconhecido de
fato. Steward estâ bem dente de que 0 carMer particular da tecnologia determina
o carMer do meio ambiente, isto é, confere significância a recursos por um critério
de relevância cultural. No entanto. no modo de argumentaçao de Steward, isto é
urn dado, juntamente corn as relaçôes de famHia e de produçao (divisao de traba- .
Iho por sexo: homens caçando, lTIulheres colhendo). A ordenaçao cultural da
natureza é portanto disfarçada como premissa para uma ordenaçao naluralista da
cul tura. Na realidade) a intencionalidade completa do processo produtivo é negli -
genciada na suposiçâo de que essa seja uma economia de "subsistência". conde na-
da pela pobreza dos meios técnicos a LIma rnisedvel existência.
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104 CI/hum c mzdo prtlticil
Essa naturalizaçao da econonù:-. do caçador-coletor é. evidentcmente, 0 saber
an tropo16gico E isso km a ver direlamcnte com uma explicaçâo "ecoI6-
gica" da cultura total. Por ignoraf 0 c" rater hist6rico dos objetivos econ6micos,
tanta cm qualidade coma em quantidade, tailla nos bens particulares que se tenta
produzir quanta na intcnsidade do processo. carece ainda da organizaçao cultural
da relaçao corn a cultura.
3S
Neill l11CSIllO os caçadores estâo engajados cm lima
simples economia de subsistência. Toda grupo distingue a comestivel do nao-co-
mestîvel e nâo apenas para a como um todo, mas para classes especifi-
cas de idade, sexo e condiçôes rituais tais C0l110 sao local mente defin idas. Além do
mais, uma porçao de exemplos dos aborigines australi anos serve para rnostrar que
diferentes tipos de troca intergrupal têm implicaçôes correspondentes sobre a
intensidade e os padrôes sociais do trabalho. Os australianos sao mesmo capazes
de um totemismo concreto, no quai os grupos de vizinhança se especializam na
produçao de diferentes objetos utilitarios para comerciar a partir de materiais
igualmente disponîvei s para todos, duplicando, desse modo, no plana econômica,
os ritas e a interdependência de grupos imaginados no sistema totêmico. Em
suma,O que Steward deixa de lado é a organizaçâo do trabalho como um processo
simb6lico que opera tanto nas reIaçôes de produçâo corna nas suas fin ali dades. A
atividade da produçâo é) ao co nt rario, desconstituida culturalmente, para dar
lugar à constituiçao da cuhura pela at ividade da produçao.
A quesUio real colocada à antropologia par essa raZaO pratica é a da existência
da cultura. As teorias da utilidade jâ mudaram muitas vezes de roupa) mas a
desfecho é sem pre 0 mesmo: a eliminaçao da cultura - camo objeto di stintivo da
d isciplina. Vê-se, através da vari edade dessas teorias, dois t ipos principais que
correm ao 10ngo de duas eSlradas diferentes em direçao a esse fim comum. Um
tipo é naturalist ico ou ecol6gico - por assim dizer, objetivo - enquanto a
segundo é utilitario no sentido c1assico, ou economidstico, invocando a familiar
rclaçao meios-fins do sujeito humano racional.
o naturalismo compreende 3 cultura coma 0 modo humano da adaptaçao. A
cultura, desse ponto de vista, é uma ordem instrumental; concebida (segundo
H "Um homem que passa a vida seguindo animais apenas para mata-los e comê- Ios, ou passando de
urna moita de fruteiras para outra, na realidadc vive coma um animal" (Braidwood, 1957, p.122j cf.
$ablins, 1972, cap.l j Lee e De Vore, 1968).
35 a que esta falt:mdo especificamentc é a intencionalidade cultural corporificada no c6digo de
objetos descj:\.\'eis, Coma l3audrilJard explica cam muila propriedade, um "objeto de consumo le
pOl'tanlo de produç:io] existe da mesma forma que um fonema tem um significado absoluto em
lingüistica. Esse objeto naD adquire signific:ldo nem numa rcl açao espedfica corn 0 sujeito, .. nem
numa relaç:io operativa COrn 0 mundo (0 objeto·utensîlio)j cie s6 adquirc significado através de sua
di ferença dos outras objetos. de acordo cam um c6digo herarquico" ( 1972. p.61). Sendo este 0 casa,
o!lo h:\. "necessidades a nao ser aqueJas Inecessidadesl de que a sistcma nccessita" e isso nao se da
porque 0 consumo é uma funçao da. produçao, mas porque a cOI!SIII11/nalivité é um modo estrutural
de produçao (ibid., p.89).
Dois paradigmas da tcoria alllropolOgica 105
cada escola eco16gica em particular) camo engajada na reproduçao de si mcsma
enquanto cultura ou na manutençao da populaçao huma na dentro de limites de
viabilidade biol6gica. Em qualquer caso, a praxologia é "objetiva" no scntido de
que a explicaçao consiste em determinar as virtudes mate riais ou bio16gicas de
determinados traços culturais; naO ha qualquer demanda te6rica de que os atores
façam seus calculos diretamente em utilidades adaptativas; pelo contrario, os mais
triunfantes eurekas! serao reservados para a demonstraçao de que 0 fazem malgré
eux. 0 ato final para a cultura consiste na sua absorçao, de uma maneira ou de
outra, dentro da natureza. Ou a pratica cultural é um modo comportamental de
aparência das leis da seleçao natural, exatamente como qualquer "cornportamen-
ta especîfico de espécie>l, ou ela se inclui dentro de um ecossistema mais geral que,
sozinho e camo uma total idade, desfr uta dos poderes de auto-regulaçao ou "men-
te': e cujas li mitaçôes se dâo sob formas culturais.
Mais do que par uma pragmatica de formas culturais, a utilitarismo subjeti-
va esta, em contraste) preocupado corn a atividade intencional dos indivîduos na
persecuçao dos seus pr6prios interesses e das suas pr6prias satisfaçôes. Pode-se
dizer que este segundo tipo de teoria pragmatica pressupôe um Homem Econô-
mica Universal, corn um conjunto relativizado de preferências, isto é, um homem
agindo racionalmente em direçao a metas que variam contudc je sociedade para
sociedade. Essa relativizaçao é, portanto, uma acomodaçao à variaçao cultural ,
mas também sua apropriaçao) coma premissa, par tl,ma explicaçâo que pretende
representa-la camo conseqüência. Nessa praxologia, a cultura é tomada coma um
meio ambiente ou 0 conjunto dos meios à di sposiçao do "individuo que age': e
também camo uma resultante sedimentada de suas maquinaçôes auto-Î nteressa-
das. A soluçao caracterist ica da cultura é portanto solipsistica na forma. Apenas os
atores (e os interesses considerados a priori como seus) sao reais; a cultura é 0
epife nômeno das suas intençôes.
a os esses tipo?ae râzio pratica tallÏoénlfêiTïefilèomüm uma conœpçao
empobrecida da simbolizaçao humana. Para todos eles, 0 csquema cultural é 0
signo de outras realidades, obedecendo no final em seu arranj o interna a outras
leis e outras 16gicas. Nenhum deles foi capaz de explorar a fu ndo a descoberta
antropol6gica de que a criaçao do signifi cado é a qualidade que distingue e cons-
titui os homens - a "essência humana" de um discurso mais an tigo - de modo
que, pelos processos de valor izaçao e significaçao diferenciais, as relaçôes entre os
1 ho mens) bem coma entre eles e a natureza, sao organizadas. ____ , __
---------- .... --
A razao cultural
Nos paragrafos iniciais deste capitula. referi -me à rel açâo exislente ent re a propos-
ta cultural e a proposta prâtica coma uma oposiçao dclica e repetitiva à q,ual a
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106 Cul/ura e raziio pra/ica
antropologia se manteve presa nos ultimos cern anos. Assim, exatamente coma na
, sociedade norte-amer icana, onde tudo que é essencialmente 0 mais convencional
é t ido como 0 mais natural, começou em desvantagem a luta pelo reconhecimento
) Il ... 1. ) da perspectiva cultural que poderia ser qualificada como uma tentativa de Iibertar
... .,,-, f) ) ant ropologia dos grilhôes do naturalismo. Desenvolvida tanto na Eurepa coma
; nos Estados Unidos, essa luta se tem caracterizado nao somente por uma maior
!consciência ant ropol6gica a respeito do simb6lico, mas também por uma penetra-
, • '" '1 çao crescente no campo da analise do pratico.
_,1 l •
t\ 1) ,ép l . ; No que se refere aos Estados Unidos, os pr6prios discipulos de Boas tomaram
\",(.,. . :,a si a defesa do seu conceito de cultura coma es trutura significativa interposta
ènt re as circunstâncias e 0 cost umé. Esse conceito foi posteriormente desenvolvi-
do, sobretudo pa r Ruth Benedict , que sustentou a idéia de uma 16gica or ienta dora
que reunificaria os fragmentos espalhados por Lowi e, alin havando-os para for-
mar padrôes consistentes de cultura. Segundo Benedict, a ordem seria produto da
infusao de significados e .atitudes comparaveis encontrados em todas as praticas
da cultura. Nao se tratava, é clare, de um c6digo di ferencial, mas de um opératoire
global que organiza 0 mei o ambiente, as relaçôes sociais e, acima de tudo, a
hist6ria, um filtro seletivo que reduziria 0 caos em potencial dos empréstimos
culturais (a difusao) por meio de um critério de aceitaçao e uma atribuiçao de
significado (Benedi ct, 1961 11934]J .
Na obra de Lesli e Whi te, outro conheddo ant rop61ogo norte-americano, 0
paradigma de Boas coiwive corn 0 de Morgan, sem que, no entanto, seja alcançada
a unidade dos opostos te6ricos. Essa ambivalência presente na filosofi a de White
pode nao ser idiossincni tica; constitui um reconhecimento legftimo de quea razao
pratica e 0 simb6lico coabi tam, sem suscitar muitos comentarios ou escândalos,
na maioria da.s teori as antropol6gicas. Para "White, as idéias sào, por um lado) a
refI exo da base t ecnol6gica, seja diretamente, seja por mediaçao das relaçôes so-
d ais igualmente determinad(\,s por essa base. Aqui) sua formulaçao te6rica provém
di retamente da epistemologia de Morgan. As idéias que os ho mens elaboram
sobre 0 mundo derivam necessariamente do modo peio quaI 0 conhecem pela
experi ênda, e essa experi ência, por sua vez, depende do modo pela quai se articu-
lam tecnicamente ao mundo:
Os sistcmas ideol6gicos ou filos6ficos sac 0 produto da organizaçao de crenças nas
quais a experiência humana encontra sua interpretaçào. Mas a experiência e) em
conseqüênci a, as intcrpretaçôcs sao profundamente condicionadas pelas tecnologias.
A cada tipo de tccnologia corresponde um tipo de filosofia. A interpretaçao de um
sistema de experiência do quai mTI coup de pOÎnt é um traço caracterfstico refletira
neccssariamente esse tipo de experi éncia. Nao seria impr6prio falar em um ti po de
• 50co (cm no original).
..
Dois paradigmas da tcoria alltropoMgica 107
fi losofia coup de poing hem como de uma tecnologia coup de pOÎng ... Vm determinado
tipo de tecnologia encontra cxpressao na filosofia do lotemislllo, outro tipo na astro-
logia ou na mecânica quântica. (\o\'hite, 1949, p.365-6.)
Como as idéias decorrern das condiçôes técnicas da percepçao, a evoluçao da
fil osofi a é, em sua esséncia, concebida por \'\Thi te como a passagem do estagio da
falsa consciência para 0 estagio da verdadeira consciência, atravessando 0 curto
periodo de transiçao da metafîsica. Ao dispor de recursos tecnol6gicos cada vez
mais efi cazes para tidar corn 0 mundo, 0 supernaturalismo pri miti vo) correspon-
dente à representaçao antropom6rfica de uma ignorânci a fundamental, deveria
fo rçosamente dar lugar a uma fil osofi a cientifica baseada no conhecimento obje-
tivo.
Pa r out ro lado, White insiste no ca rater unico do "comportamento simb6li-
co': isto é, um sistema de signifi cados que independe da realidade fi sica. Conse-
qüentemente, 0 modo pelo quaI 0 mundo é "experimentado" nao constitui um
simples processo sensorial determinado pela exposiçao direta da realidade à per-
cepçao por meio da tecnologia. 0 poder que 0 homem tem de conferir significado
- experiênda como atribuiçao de si gni ficado - constr6i out re tipo de mundo:
o homem difere do macaco e, ao que sabcmos, de todos os out ros sercs vivos por ser
capaz de um comportamento simb6lico. Corn palavras, 0 homem cria um novo
mundo, um mundo de idéias e filosofias. Nesse mundo, a existência do homem é tào
real quanto no mundo fisico de seus sentidos. Em verdade, 0 homem sente que a
qualidade essencial de sua cxistência consiste em ocupar esse mundo de sfmbolos e
idéias - ou, como às vezes cie 0 chama, 0 mundo da mente ou do espirito. Esse
mundo das idéias da provas de uma continuidade e de uma permanência que 0
mundo externo dos sentidos jamais podeni ter. Ele naD é feiro apenas do presente,
mas de um passado e tambérn de um futuro. Tcmporalmente, nao co'nsiitui uma
sucessao de epis6dios desconcxos, e sim um continuum que se estendc ao infinito em
amhas as direç6es, da ctcrnidade à eternidadc. (White, 1942, p.372.]
Mas en tao, nessa perspectiva simb6lica - que se opoe à consciência positi-
vista e utili taria através da exposiçao tecnolôgica - a ferrame nta é, ela pr6pria,
uma idéia. A ferramenta "nao é um mero objeto mate rial ou mesmo uma imagem
sensorial como pode ser para um macaco. Ë também uma idéia" (White, 1942,
p.373). Se um machado de pedra gera deter mi nado tipo de filosofia, ncm por isso
deixa de sel', ele pr6prio, u m conceito cujo significado e uso - como ocorre corn
todos os conceitos - sào flXados, nao por suas propri edades objet ivas, mas pela
sistema de relaçôes entre simbolos. Assim, a determinaçào tecnol6gica da cul tura
na teori a evolucionista de White atua lado a lado com a determinaçao cultural da
tecnologia em sua teor ia simb6lica:
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108 Cultura c razao prdtica
Um machaclo lcm um componentc subjetivo; n30 teria scntido algum sem UI11 COll-
ceito cuma atit ude. Por outra Jado, um concei to ou uma 3titude nao teriam sentido
algum sem uma clara expressao, através do comportamento ou da (ala (que é uma
forma de comportamento) . Toda elemento cultural, toda traça cultural, lcm um
aspecta objetivo C subjetivo. Mas as concepçëies, atitudes e scnt îmentos - fenômcllos
que têm seu lugar no organismo huma no - podem ser considerados, para fins de
interprctaçao cicntifica, num contexto extra-sol1latico, isto é, a partir da sua relaçâo
corn outras coisas e acontecimcntos simbolizados, cm vez de cm sua relaçâo COOl 0
organismo humano ... [Desse modo, um machado pode ser a partir da
sua relaçao 1 corn out ras coisas e acontecÎmentos si mbol izados, tais como arcos, enX2-
das e costumes que regem a divisao de trabalho na sociedade. [White, 1959a, p.236.J36
/
Em oposiçao ao paradigma fundamentalmente prat ico e tecnol6gico que 0
Iiga a Morgan, White é capaz de .assumir uma perspectiva simb6lica que 0 cola ca
em companhia de um nome inverossimil. Permitam-me justapor uma citaçao de
Lévi-Strauss, transcrita anteriormente, a um texto extraido do discurso proferido
por White na condiçâo de presidente da seçao de Antropolagia da MAS [American
Associati on for the Advancement of Science - Associaçao Americana para 0
Progresso da Ciência]:
UVI -STRAUSS
1
Se afi rmamos que 0 esquema concei -
tuaI comanda e define as prâticas, é
porque essas prMicas, objeto de estu-
do do etn61ogo, sob a forma de reali-
dades discretas,lacalizadas no tempo
e no espaço, e distintivas de gêneros
de vida e de formas de civili zaçao, nâo
se confundem com a praxis que ...
constitui a totalidade fundamental
para as ci ências do homem ... Sem
pôr cm duvida 0 incontestavel prima-
do das infra-estruturas, cremos que
entre prâxis e prâticas se intercala
sempre /lm medindor, que é 0 esquema
WHITE
Assim [corn simbolosl 0 homem
èriou um novo mundo para nele vi-
ver. Certamente ele nâo deixou de
palmilhar a terra, de sentir 0 vento no
rosto, de escuta- lo suspirar nos ra-
mos dos pinheiros; ele bebeu a agua
dos rios, dormiu sob as estrelas e le-
van tou-se para saudar 0 sol. Mas ja
nâo era 0 mesmo sol! Nada mais era
como antes. Tudo estava "banhado
por luz celestial" e havia «sugestôes de
imortalidade" em cada mao. A agua
ja nâo servia mais apenas para saci ar
a sede; poderia tornar a vida eterna.
l6 Nesse arti go, \Vhite confere dcsncccssariamente à cultura uma definiçi'io contextual; cm out ras
palavras, os "simbo13dos" \l istos no contexto de outros "simbolados':o que coloca a carga da deu'nn i-
naçao no antrop61ogo - mesmo quando 0 local do simb61ico permanecc no sujeito humallO - e
ignora 0 proccsso real pelo quai as produçôes hum3113s si'io reifi cadtls ou "ohjeti\ltldas'; ou scja,
tornam-se "cxt ra-sornâticas". Vcr Berger e Luckmann para ll!l1tl di scussilo rcccnte de "objcti vaçao",
presa, cOlltudo, às ll ot6ri as origens na pr:ixis.
, :
Dois paradigmas da l eoria 109
COll ceiwal por obm do quaI t/l1U1 maté-
ria e lima forma, desprovidas al1lbas de
existéllcia independel'lte, realizam-sc
COIIID cstrul'uras, isto é, como seres ao
mesmo tempo empi ri cos e inteligi-
voi s. [1966, p. 130; grifo rneu·1
Entre 0 IlO1IIC111 e a WHll reza, illterpu-
/l iul-se a Véll da W/lHrrI , e ele nada po-
derja cll xergaf" (j lU'i O scr arTavés desse
véu. Ele ainda usa\'a seus sentidos.
Lascava pcdras. caçavtl ccrvos, acasa-
lava-se e procriava . Mas tlldo cra per-
meado pela essêllci f"! Jas palavras: os
significados e valores ql/e estamm além
dos sell tidos. E esses sigl/ificados e va/o-
res 0 orie ll ta 1'L'111J, a/ém cfe oricl/ tar seus
selltidos, tendo /nlliras vezes precedê/!-
cia sobre eles. [1958 ms; grifo meu.Jl7
Ao que parece, sempre que se incursiona pela antro.polagia norte-an:ericana,
verifica-se. se nao exatamente essa ambivalência de White, uma apropnaçâo, de
certo modo inescrupulosa, do obj eto cultural pel o significado. A impressionante
etnociência desenvolvida por Goodenough, Lounsbury, Conkl in e outros, sobre-
tudo a partir do legado lîngüistico da escola de Boas, foi agrilhoada por um
conceito positivista de cuttura como competência ou
conseqüent emente do significado coma significânci a rcfe.rel.1Clal e.
camo traduçao, em termos de um.c6digo aparentemente Ob)l2! tIVO, CUp
dade" encerra uma teoria. Ou, para mencionar exemplos de natureza bem dlstmta
(ainda que igual mente impression antes pela qualidade os
Geertz ou Schneider, por caminhos diferentes, esbarraram tambem em hn:'-
taçao especifica do simbolo, concebido a parti r da disti nçao açao e
sociedade e cultura. Essa dist inçao, cm particular, é caracteristlca dos melOS euro-
peus. muito mais di fundida na antropologia inglesa q.ue na
na. Como suas implicaçoes remontam a Durkheim e, de pOiS, ao 111oderno estt u-
turalismo francês _ que também incorpora a tradiçâo de Boas através de Lévi -
Strauss- pareceu-me mais correto dedicar maior atençao à maneira pela quaI foi
concebida a relaçao entre util itarismo e cultura nessa tradiçao. Começo pOl' Durk-
hei m.
Embora se t'cnha tornado a her6i de um cer to "funcionali smo" posterior,
Durkheim desenvolveu sua pr6pria posiçâo a respeito da sociedade em contra po-
siçao à modali dadc de economicisl11o e individualismo radical que vimos
no projeto de Malinowski (cf. Parsons, 1968 [19371; Lukes, 1972) . Durkheim
37 Ë evidcnt c que essa comparaçao é IC\le l11ente maliciosa, pois a frase final do paragrafo Vlhite é
uma proposiçao que Lévi-Strauss nao endoss a ria, embora scja le propre da escol;} de Boas: 0 homem
tornou-se 0 animal irracional."

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110
Cul/lira c razao pratica
elegclI Spencer coma seu principal adversario socio16giço no que se [cfere a essas
questocs, cm par ticular na obra A divisiio do trabalho (1949 [1893J). Portanto,
paralclamente ao contraste entre Morgan e Boas, é passivel estabelecer uma COI11-
paraçao paradigmatica entre Spencer e Durkheim, cujo debate mais recente estava
cent rado no utilitarismo pr6prio ou na sua açao economicistica, logo, na oposiçao
enlre indivîduo e sociedade, estanda esta ûltim3 relacionada à 16gica materi aI da
prod uçao e, por conseguinte, à oposiçào global entre cultura e natureZ3. Por varias
razoes, contudo, 0 exerdcio dessa comparaçâo entre Durkheim e Spencer nao
seria tao valioso. Uma delas é a grande semelhança residual entre 0 "superorgâni-
co" de Spencer e a "sociedade" de Durkheim. Mais importante é que Durkheim
forjo u seu conceito de social num confronta gera! corn a economia poli tica clJ.ssi-
ca, e apenas corn Spencer, e portanto é mais correto entendê- Io camo uma
profunda crîtica à autoconcepça6 do capitalismo que se exibia como teoria da
Tratava-se de uma crîtica geral à adoçao da f6rmula racio nalista do
indivîduo que acumula como 0 modelo da produçao soci al, modela que elevava a
sociedade ao status de predicado das su postas fin alidades e necessidades humanas.
A esse voIuntar ismo e intencionalismo, Durkheim opôs 0 fato social. As esmaga-
. doras propriedades e poderes que Ihe atr ibui em relaçao ao individuo repre-
sentam um ataque direto à idéia que 0 economÎsta liberal fazia da sociedade como
produto publico do Interesse privado.
Porlanto, a célebre advertência contida em As regras do tnétodo socio16gico-
"tratar os fatos sociais coma coisas" - representava mais que uma liçào aplicada
à ret ificaçao positivista. Ressaltar a fact icidade do fato social efa precisamente uma
fo r ma de removê- lo da produçâo individual: "Pois tudo que é real possui uma
natureza defi nida que impôe cont role, que deve ser levada em conta e que jamais
é complet amente superada, mesmo quando conseguimos neutrali za-Ia." (1950a
{1895J, p.iv-vi). Todos os aspect os afirmativos da sociabili dade no esquema de
Durkheim sao, simultaneamente, aspectos negativos da individualidade. A ques-
tao nao se reduzapenas a que 0 fato social seja coletivo. Trata-seda consciência em
oposiçJo ao desejo, do convencional em oposiçao ao espontâneo; e em vez de se
das necessidades, que sac internas, ela se impôe como coerçao, que é
extern:l. "De fato, a ma is impor tante caracteristica de uma 'coisa' é a impossibili-
dade de que seja modificada por um simples esforço de vontade" (ibid ., p.28) . De
maneir;l analoga, 0 m6vel real das incursôes de Durkheim no terreno da psicolo-
gia ach;l\'n-se em sua critica à economia. Entendia de que a origem real do redu-
cionisillo era a ideologia do homem que calculava:
D ..' tato, se a sociedade é apenas um sistema de meios instituidos pelo horncm para
atingir determinados fins, esses fins 56 podem ser individuais, pois somente os indi-
viduos podcriam tcr existido anles da sociedade. Do individuo, portanto, cmanaram
ns nçc:essidades e dcscjos que determinam a formaçao de socicdades; e sc é dele que
Dois paradigmas da feoria alltropoldgÎca 111
Indo provém, é nccessariamente através dcle que tudo devc ser explicado. Além disso,
ha nas socicdades apenas consciências individuais; portanto, é nelas que se encontra
a fonle de Ioda a evoluçao social.
Em conseqüência, as leis socio16gicas s6 podem ser um carola rio das ieis mais gcrais
da psicologi a. /Ibid., p.97-9.]
Desde cedo, observa Luke, Durkheim convenceu-se de que a econornia poH-
tica conslÎluia UIl1 eSlagio do desenvolvimento da ciência social que precisava ser
superado. Obrigada a part ir do pressuposto de que "nada ha de real na sociedade
além do tai ciência nao oferecia qualquer espaço te6rico para a socio-
logia. Com retaçao a esse individuo eterno do quaI fora abstraida a sociedade,
Durkheim nao poderia deixar de nutrir 0 mesmo desprezo que Marx. Esse pr6-
prio "individuo" era uma abstraçao. Privado de todas as coordenadas de tempo,
espaço e hist6ria, tudo que restava era "0 t riste retrato do puro egoÎsmo" (Durk-
heim [ 1888[, citado par Lukes, 1972, p.80).
Ncm Malinowski nem Weber. Durkheim recusava-se a conceber a sociedade
como 0 objeto externo da manipulaçao huma na ou troca- la pela realidade exclu-
siva do sujeito intencional. Como enlâo se coloca Radcliffe-Brown? Seguramente,
as mesmas consideraçôes impediriam Durkheim de ser indulgente corn a utilita-
rismo mal disfarçado do funcionalisIl1o sociol6gico. Nem mesmo seu entusiasmo
pela "solidariedade" 0 levou a supor, em pri ncipio, que a funçao de u m costume
9U seu papel na satisfaçao dos sociaux poderia dar conta de sua natureza
especifica.
l8
Nâo obstante, os deli neamenlos do funcionalismo de Radcliffe-
Brown transparecem na ontologia de Durkheim. Ao negar a economia politica,
Durkheim foi obrigado a reproduzi r ao nivel da sociedade, encarada como .uma
espécie de supersujeito, 0 mesmo economicismo que se havia recusado a admitir
como const itut ivo ao nivel do individuo. Pode-se perceber mu ito bem essa uniao
de opostos em um ensaio (1887) que escreveu sobre a ciência moral alema, onde
enaltece as perspectivas sociais dos historiadores econômicos G. e A.
Wagner, combatendo os liberais da "escola de Manchester': Corn relaçâo a estes
ultimos, escreve:
a economia politica consiste na satisfaçao das nccessidades dos indivfduos, em parti-
cular de suas necessidades mate riais. Segundo CSSa concepçao, 0 individuo supôe-se
camo 0 unico hm das relaçôes econômÎCasi tudo é feito par e1e e para de. A sociedade,
par sua vez, é uma invcnçao do pensamento, uma entidade metafisica que 0 estudioso
38 Mostrar em que sentido um fato é l'tlll nào é expli car par que é verdadeiro nem por que é a quê é,
pois os usas aos quais serve pressupèiem as propriedades espedficas que a caracterizam. mas flao a
criam. A necessidadc que temos das coisas nâo pode determinar que elas sejam desta ou daquela
forma c, par conseqUência, nao é cssa nccessidade que pade ret ira-las do nada C conferi r-lhcs
existência (Durkheim, 1950b [1895], p.90; cf. p.94-5, 109- 11; e 1965, p.42-4).
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112 CI/hura e. razao pra/Ica
pade c devc ignoraI'. Essa palavf(l apcllas [ol ul a 0 conj unto de todas as atividades
individuais; trala-se de um fodo que ,Sc redu?, à soma das suas partes ... Vê -se que,
basicamçnte, os ecoll omi stas libcrai s s:io. sem 0 sabcr, disdpulos de Rousseau, a quem
repudiam par cngano. É ycrdadc que reconhcCè I1l que 0 cstado de isolamcnto nao é
ideal, mas, tal como Rousseau, vêcm no do social nada mais que uma aproximaçao
supcrficial, dcterminada pela conjunçao de înl ercsses individuais. [Durkheim, 1887,
p.37. Em um cnsaio postcrior (1965) sobre Rousseau, sua opiniao muda. J
Quer di zer entào que 0 argumenta iilvocaclo contra 0 scr individual é exatamente
o da existência de um ser social - e contra 0 l'oder ordenador da necessidade
individual esta 0 da l1ecessidade social. A negaçao de que determinada pratica-
econ6mica, por exemplo - seja produto do desejo indi vidual adquire a forma de
uma insistênci a em sua utilidade social:
Para [Wagner e Schmoller], ao conùêlr io, a sociedade é um verdadeiro ser que nao
esta, sem duvida, acima dos indivîduos que a compôem, mas que, nao obstante, tem
sua pr6pria natureza e personalidade. Essas express6es utilizadas na linguagem cor-
rente - consciência colctiva, cspirito colet ivo, corpo da naçào - nao possuem
apenas uma dimensâo puramcnte verbal, mas expressam fatos que sac emÎnente-
mente concretos. :Ë errado dizer que 0 todo é igual à soma de suas partes. Pelo simples
(ato de que as partes man}êm relaç6es dcfinidas Lunas com as outras, porque estao
dispostas de determinada maneira, algo de nova resulta de sua combinaçao: um ser
composto, é certo, mas dotado de propriedades especiais e que, em ci rcul1stâncias
especiais, pode inclusive tom ar-se consciente de si mesmo ... Como ... 0 ser social lcm
necessidades pr6prias. entre as quais a necessidade de objetos mate riais para satisfa-
zê-las, cie institui e organiza uma atividade econômica que nao é a atividade deste ou
daquele individuo, tampouco a maioria dos cidadâos, Illas a atividade da naçao cm
seu conjunto. [Ibid., p.37 -8.]
A sociedade, portanto, tem os seus propr ios fins. que nào sao aqueles do
individuo, e é através da sociedade, e nao do indivfduo, que a atividade social po de
ser compreendida. "Para um fa to ser sociol6gico, ele deve interessar nao apenas
aos individuos considerados separadamcnte, mas também à pr6pria sociedade. 0
exército, a industria, a fa mflia possuern fun çëies sociais na medida cm que têm
coma se us obj etivos um a defesa, a outra a alimentaçâo da sociedade, e a terceira a
sua renovaçao e cont inuidade" (Durkheim, 1886, p.66). Nesse casa, a telcologia
utilitaria nâo pode sel' evitada. 0 paradigma meies-fins camo U1n tode foi cons-
truide corn base na cOll cepçao do rata social, na medida em que esse fato foi
determinado por oposiçiio à necessidade individual. Assim, a vida da sociedade era
a fin alidade relevante. Mas, além di sso, precisamente porque foi definida camo
exteri or e por dist inçao ao bem-esta r individua!, es sa idéia de sebrevivència social
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. .
Dois paradigmas da teoria alltropo/6gica 11 3
produzia grande numero de efcitos permanentes sobre a idéia do objeto social.
Um deles cra a visao de que a sociedadc cstava continuamente ameaçada a part ir
de dentro por uma guerra da parte contra 0 toda, e que era construida de modo a
evitar esse peri go; esse conceito, que inspirou profundamente a maioria das obras
do grupo do Am1ée Sociologique, encantrava-se também por detrâs da preocupa-
çao de Radcliffe-Brown corn a "cooptaçao" e corn a ordem legal em geral (cf.
Sahlins, 1972, cap. 4). Pode ser que essa noçao de luta subterrânea e dos probl emas
funcionais que ela apresenta à sociedade permaneça como 0 legado mais impor-
tante conferido à ciência socia l pela ideologia capitalista. B 6bvio que a ênfase na
vida da sociedade em oposiçao ao pro ividual proporcionou a base
16gica para a apropriaçao de toda a metafora orgânica omo a idéia basica da
constituiçao social. A tradiçao da socieda e co ITm organismo foi mantidal)Or
-é "com ela a divisao da antropologia social ou sociologia, nos
ramos das ciências naturai s: morfologia, fi siologia e evoluçao. Ela requeria apenas
a proposiçâo de que a "funçâo social" de uma instituiçâo, ou sua contribuiçao à
continuidade social, fosse também sua miso,t d'être (Radcliffe-Brown, 1950, p.62)
para completar em um mesmo movimento a reversâo da maxima de Durkheim
para 0 seu contrario - e a transferência do utilitarismo do indivîduo para 0
sllpersujeito que a pr6pria linha ini cial de argumentaçâo de Durkheim tornou
inevitavel.
o conceito de simbolizaçao de Durkheim, incluindo a muito conhecida
"epÎstemologia sociol6gica': acabou viti ma do mesmo tipo de dualismo, da mes-
ma forma que se tornou, nas mâos dos seguidores antropol6gicos, outra forma de
16gica instrumental. Lukes e outros em __
il
objeçôes de da i
social, que Durkheim se tornara cada vez malS consciente da autonomla e da
Uri'ivêtsalidade do sÎgnifj .JCadoJIalyeZ __
estar consciente de um fato e conhecer seu lugar.. te6ricq Os lextos que lfJ
poderiam ser os lados da questâo equivalem a
apenas um conjunto de paradoxos dentro da compreensao do mest re da relaçâo
do pensamento com a mundo. Outro conjunto de paradoxos é 0 problema (muito
semelhante ao de Malinowski ) da diferença entre 0 modo de conhecimento do
soci610go e a maneira pela qual 0 conhecimento é constituido na infância e na
sociedade - processos tao di stintos na concepçao de Durkheim que isso 0 deixa
inca paz de abarcar seu pr6prio programa positivi sta. Esse programa afirmava que
os fatos sociais, preci samente porque eram "coisas", s6 podiam ser penetrados de
fora, contanto que guiados pela percepçao e sem preconcepçao. No entanlo, Durk-
hei m nunca acreditou que 0 nosso pr6prio conhecimento como membros da
sociedade ou, a fortiori, os fatos sociai s tivcssem a mesmo tipo de gênese. Esse
dilema pode ser exemplificado por duas curtas passagens das Regras. Por urn lado,
Durkheim escreve que "toda educaçao é um esforço continuo para irnpor na

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114 Clllwra e raziiQ prl!/ica
cf iança maneiras de ver, sentir e agir às quais ela nao poderia chegar espontanea-
mente" (1950a [1895], p.6). Todavia, al gumas paginas adiante, ele diz: "Os mora-
li stas pensam que é necessario determinar corn precisao a essência das idéias de lei
e élic3. Eles ai nda nao chegararn à verdade muita simples de que, como nossas
idéias (représentations) das coisas fisicas sâo derivadas dessas pr6prias coisas e as
expressam mais ou menas exatamente, assim [como estudiososJ nossas idéias de
ét ica devem ser derivadas da manifestaçao observavel das regras que estao funcio-
nando 50b nossos olhos" (ibid., p. 23). Durkheim se apegou simultaneamente a
uma re'laçao mediada e nâo-medi ada entre suj eito e objeta. Se 0 segundo se
adaptava ao projeta cientîfico, 0 primeiro era 0 destino do homem na sociedade,
No entanto, a contradiçao era ma{s complexa e nao deixava de apresentar certa
determi naçao, No caso mediado, a sociedade confrontava o .homem como um
supersujeito cujos pr6prios c;onceitos do mundo dominavam e suhstitufam suas
sensibilidades e depois, como um objeto, a experiência direta do que explicava
empiricamente esse processo de imposiçao conceitual. Na condiçao de locus desse
dualismo antagônico entre sociedade e sensibiJidade, 0 homem era «duplo" na
visao de Durkheim, e a dualidade do seu ser correspondia a uma oposiçâo entre
percepçao (individual) e concepçao (social), bem como entre gratificaçao egoista
e moralidade coletiva.
39
essas ?ial éticas e1as a explicar as vir-
D
. , !(' . . e as hmltaçôes da problemahca durkhelmlana como da cultura.Essas
1 iJ . Ur. virtudes sao apenas parcialmente documentadas pela mfluencla do concelto de
Jw.. 1 fato social de Durkheim na formulaçao de Saussure da distinçao entre langue e . , ,
\1 l "..l·V al-1 <"parole (Doroszewski, 1933). Na Classificaçao primitiva corn Mauss) e
! ,\ \ i i em 0 desenvolve,u uma
U signo, particularmente em às de classe,
espaço, te'rhpo, causa, etc, qqe em mUltos pontos essenClalS era bastante pr6Xlma
à de Saussure. Observa-se outra paradoxe do ponto de vista do carater arbitrârio
do signo, uma vez que para Durkhei m as categorias representavam a morfologia
39 Em outro artigo ( 1914), que da seguimento às Formas elementares, Durkheim "Nossa
inteligência, como nossa atividade, apresenta duas formas muito. diferent es.: um lado, sao sensa-
çoes e tcndèncias $ensoriais; por outro, sao 0 pcnsamento conce.tual e a atlVldade moral. Cada uma
dessas duas partes de n6s mesmos representa um p610 scparado do !lOSSO ser, e esses d.ois p610s
san apenas distintos um do outro, mas também sao opostos um ao out ro. Nossos sensonalS
sao neccssariamente egolstas: des têm a !lossa e apenas da, como Quando
satisfazemos nossa fome, nossa sede etc., sem colocar em Jogo qualquer outra tendencla, é a n6s
mesmos, c apenas a n6s mesmos, que satisfazemos. [0 pensamento conceitualj e a moral,
ao contrario, distinguem-se pelo fato de que as regras de condutas às quais estao su}eltos sel"
univers:lIizadas. Assim, por definiçao, perseguem fins impessoais. A moral começa com 0 desmteres-
se, com a ligaçao com alguém que naD n6s mesmos" (1 960 ( 1914] , p.327; cf. 1951, e Lukes, 1972,
1'.23-4).
DaÎs paradigmas da tcaria lZlltrapolOgica
115
mais adiante). Entretant o, como os
( .especificamente a expe-
nêncla IOdlvldual. Em vez de arttcularem essa expenêncla, el es se elevam a uma
metalinguagem pela quai a experiência é organizada.
40
E uma vez que ascategorias
nao sao as particularidades da experi ência, mas antes idéias gerais das particulari -
clades (que fazem de uma exper iência uma particularidade), el as nao refietem
especificamente a percepçao, mas apropriam-na dentro de um sistema cultural
relativo.
41
Finalmente, Durkheim reconhece 0 carater arbitrario do signo direta-
mente, como uma conseqüência 16gica da distinçao entre 0 fa to individual e 0
social, exatamente porque a sensaçâo individual é somente um fato transit6rio
que 116s. como seres sociais. temos os meios e a liberdade para representar em
outros termos:
Urna sensaçao, urna irnagem, relaciona-se sempre corn um objeto determinado ou
corn uma coleçao de objetos desse tipo c expressa 0 estado momentâneo de uma
consciência particular; ela é esscncialmente individual c subjetiva. Por isso, podemos
dispor, corn relativa liberdade, das reprcsentaçôes que têm essa origem. Sem duvida,
quando nossas sensaçôes sac reais, se impOem a n6s de [ato. Porém, de direito, somos
livres 'para concebê-las de modo diferentc do que realmente sâo, de representa-las a
n6s como se desenvolvendo em urna ordem difercnte daquet a na quai realmentc se
produzirarn. Frente a elas. na.da nos prende, cnquanto nao intervenham considera-
çôes de outro tipo [ou seja, sociais). [Durkheim, 1947 (1912), p.14.r
12
40 "De fato, ha um nûmero muito pequeno de pal avras que empregamos normalmente cujo signifi-
cado nao ull rapassa, cm maior ou menor medida, os limÎtes da nossa experiência pessoa!. Com muita
frequência, um termo expressa coisas que nunca percebemos ou experiências que nunca tivemos ou
das quais nunca fomos testemunhas" (Durkheim, 1947 [19121, 1'.434).
41 "0 pensar através de conceitos nao é apenas ver a realidade do seu lado mais geral, mas é projetar
uma luz sobre a sensaçao que a ilumina, penetra-la e transforma-la. 0 conceher algo é aprender
mclhor seus c1ementos essenciais e tamhém situa-Io cm seu lugar; cada civil izaçao tem seu sistema de
conceitos organi zado que também a caracteriza" (ibid., 1'.435).
42 Em outra part e da sua obca, Durkheim escreve sobre a alienaçâo envolvida nessa apropriaçao da
experiência individual de uma forma semelhante à que Ma rx aprcsenta nos Manl/s,ritas de 1844:
"N6s s6 comprecndemos quando pensamos soh a forma de conceitos. Mas a realidade sensorial n:ïo
é fcita para entrar no quadro de conceitos, nem espontaneamente nem por si mesma. El a resiste e,
para submetê-Ia, temos de cometer aigu ma violência para com cla, temos de submetê-Ia a todos os
ti pos dc operaçoes laooriosas que a alteram de modo que a mente possa assimila-la. No cntapto,
nunca somos completa mente bcm-sucedidos ao controIar nossas sensaçôes e ao traduzi-Ias t·otal.
mente em termos inteligiveis. Elas s6 tomam forma conceit ual perdendo 0 que ha de mais concreto
nelas, aqui lo que as fazem ral ar ao nosso se r sensorial e a comprometê.lo na açâo; desse modo,
tornam-se algo ftxo e morto. Portanto, n:io podemos comprecnder as coisas sem renunciar parcial-
mente a um sentimento sobre a sua vida, e nao podemos sentir aquela vida sem renunciar à sua
compreensao. Sem duvida, às vezes sonhamos corn uma ciência que expresse adequadamcnte tod<l a
realidade; isso, porém, é um ideal do quai nos podemos incessantemente aproximar, mas nunca
at ingir" (Durkheim, 1960 [1914], p.329). '
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Cl/IIUnI e razào pra/Îca

Portanto, para Durkheim, 0 fato social, acima de toda consc iência coletiva,
nao é um simples reconhecimento da circunstância mate rial. A oposiçào a essa
recluçao levaria Durkheim, ao menos momentaneamente, além de seu pr6prio
reflexioni smo sociol6gico. Da determinaçao do esquema significativo pela morfo-
Jogia social, ele passau a uma determinaçao da morfologia social camo significa-
tiva, e da si ntaxe significativa coma sui ge/leris: "A sociedade ideal", insistia ele,
l "nao se encontra fora da sociedade real; é parte integrant e dela .... Villa socicdade
1. nao é constituîda somente da massa de individuos que a comp6em, 0 chao que
': el es que eles e os que ma.s acima
I
l de tudo é 'l lde'VIue ela for ma de SI mcsma (1914 [1 9121, p.422). Dlvergmdo do
i materialismohist6rico em gestaçao, Durkheim contrap6s "todo um mundo de
, sentimentos, idéias e imagens que, uma vez nascidos, obedecem a Ieis pr6prias.
Eles se atraem, repelem, unem, dividem e multiplicam, embora essas combinaç6es
nao sejam comandadas nem compelidas pelas condiç6es da realidade subjacente"
(ibid. , p.424; comparar com as primeiras observaçôes de Labriola, em Lukes, 1972,
p.23!). Observem que mesmo dentro da epistemologia sociol6gica surgiu um
desvio fundamental na relaçao entre sociedade e natureza que podia afastar qual-
quer reflexionismo. A sociedade, DurkJ1eim costumava dizer, abrange os "moldes
dentro dos quais é formada a experiência Conseqüentemente, 0 mundo
conhecido do homem era um mundo social, preci sa mente nao um reflexo, mas dc
dcntro da sociedadc. A do mundo era a narrativa da existência da tribo,
exatamente coma 0 espaço geogrâfico podia ser explicado a partir do ponto
central de uma aldeia. Os obj etos dessa existência social nao eram simplesmente
classi fi cados isomorficamente corn a homem, em correspondência corn as catego-
rias de homens, por isso foi dado a el es um Iugar dentro des grupos huma nos.
("Para os australianos, as pr6prias coisas, tudo que existe no universo, sao uma
parte da tribo; sao elementos const itutivos dela e, por assim dizer, membros
rcgulares dela, e, exatamente camo os homens, elas têm um lugar determinado no
esquema geral da organizaçao da sociedade" [Durkheim, 1947 (1912). p.141 ).) Se,
camo Durkheim colocava, 0 universo s6 existe na medida em que é pensado, entao
ele foi abrangido dentro de uma ordem até mesmo maior; desse modo, ele nao
pode mais ser pensado para agir simplesmente de fora, de uma maneira puramen-
te natural. A oposiçao 30 marxismo foi exagerada nesse exemplo te6rico. Do
mesmo modo que DurkJleim concordaria corn Marx quanto ao reconhecimento
l
'Ide que "a homem nao é um ser abstrato, pairando for a do mundo': ambos estào
Ide acordo quanta à proposiçao corolarÎa de uma natureza sociali zada ou)h'1mani-
J zada. A descr içao feita por Lukâcs é valida para os dois: \'A natureza lé uma
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categoria social. Issa significa tudo que éconsiderado natural em Ùhl de(ermi nado
lestagio de desenvolvimento social ; contudo, essa natureza é relativa 30 homem, e
J. tudo que forma seu envolvimento com cie, isto é, a forma da natureza, seu conteu-
! do e sua objetividade sâo todos socialmente condicionados" (1971, p.234) .
j
Dois paradigllws 1'1/1 tcoria fill/ropo16gica 117
Esse conceito da apropriaçao social da I1Jtureza, da ordem nalural (OIllO
ordem moral, con ti nua a info rmar a rnclhor antropologia estrutural, inglesa ou
francesa. Ele foi essencÎal ao lrabalho de Radcliffe-Brown sobre a crcnça e 0
.• cerimonial dos andamaneses, assim como aas seU5 estudos de totemismo, tabu c
:" reli giao cm geral. Ele também foi dcterrn inante para as iniciativas etnograficJs de
Evans-Pritchard e seus alunas, bem como às ana lises mais rceentes de c1assificaçâo
de Douglas, Leach, BuJrrier e Tambiah. Além di ssa. reconhece-se nesse problema-
mat riz da antropologia social inglesa a mesma "i530 geral da relaçào de costume
corn a natureza que distingue Boas de Morgan. Se a funcionalismo inglês reprodu-
ziu certo tipo de economicismo, e se 0 exagerou pela transposiçao de uma telcolo-
gia utilitâria ao supersujei to social, èsse mesmo rnovimento evitaria a naturalismo
vulgar, ou a ecologismo. The Nuer (1940), de Evans-Pritchard, dcsen'lolve lad a a
questao na sua const ruçâo, permeando 0 contraste entre as detenninaçôes gcrais
da ecologia e a especificidade do sistema de linhagem pelas suas famosas passo. gens
,
Il sobre a constitui çao social do tempo e do espaço. Mas entao Evan.)-Pritchard ja
os 'pOÎ1toS essen'ciaisde uma ecologia cultural em
sua obra sobre a bruxaria Zande (1937). Por que, perguntou cIe, pessoas essencia\-
mente racionais camo os Azande, sabendo perfeitamente que suas hortas ti nham
sida destroçadas par elefantes e suas casas queimadas pela fogo, ainda assirn
acusavarn disso seus vizinhos e parentes e ernpreendiam aç6es magicas de defesa e
represâlia? A resposta que ele mesmo deu foi que a efeit b socialhâo resulta da
causa natural. Embora a fogo passa ter a propri edade de casa, nao é
, -
propri edade do fogo qucimar a sua casa. A resposta poderia ser encontrada tam-
bém especificamente no nivel cultural; nao estâ na natureza do fogo queimar uma
.. casa; a fogo s6 queima madeira. Uma vez incorporado ao dOl11lnio huma no, a
. açao da natureza nâo é mais um J'nera fato empirico, mas um significado social. E
entre a propri edade de 0 [ogo queimar madeira e 0 fato de um homem perder sua
propriedade nao existe qualquer relaçào comensurâvel. Nem ha uma resposta
comensuravel. POl' nenhuma 16gica natural a açao nl<\gica contra um tipo especi-
fico de pessoa é conseqüência do processo de comb us tao. Um fato natural abran-
gido pela ordem cultural. se nao cede suas propriedades fîsi cas, nao dita mais suas
conseqüências. 0 "resultado" cultural particular nào é qualquer predicado direto
da causa natural. Em crit ico, é até mesmo 0 o posto.
'ft epistemologia sociol6gica 2te Durkheim tinha seus limites enquanto teoria
{ do significado, limites esses, contudo, que parecem estaI' reproduzidos nos melho-
:/ res t rabalhos modernos. Nào me refiro ao sentimentali smo da explicaçao de
Durkheim do totemismo austral iano, a derivaçao de forma 16gica do afeto inqis-
tinta pele quai Lévi-Strauss a censurou - um problema também colocado· ·pelo
papel que Durkhei m e Mauss (1963 [1901-2]) emprcstaram à "confusào" na
geraçâo de categorias conceituais. Foi antes a diferenciaçao fatal entre morfologia
social e representaçâo coletiva - recriada por auteres modernes coma socicdadc

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11 8 Cl/flLlra e razao prritica
(ou sistema social) versus cultura (ou ideologia) - que arbitra ria mente limitou a
extensao de simb61ico e deixou 0 campo aberta ao habituai dualismo funcionalis-
ta. uA sociedade", escreveu Durkheim. "sup5e uma organizaçào autoconsciente
que nada mais é que uma classificaçiio" (194711912 J, p,443). A dificuldade foi que
Durkheim derivou as categorias que a sociedade "sllpôe" de sua constituiçâo jâ
concretizada, deixando assim a forma da sociedade sem explicaçâo, a nao sec que
Cfa "natural': Daî 0 dualismo de estrutura social e conteudo cultural, que conti-
I1uamente ameaçava 0 segundo corn uma reduçâo funcional aQS modelos e prop6-
sitos utilitarios da primeira.
!
1" Na visâo de Durkheim, como vimos, as noçôes fundamcntais dos ho mens -
I
{de classe, tempo, numero, etc. - foram dadas, BaO inata ou transcendentalmente,
mas na pr6pria organizaçao e açâo da vida social:
1 As primeiras categorias 16gicas foraru categorias sociais; as primeiras classes de coisas
foram classes de homens, nas quais as coisas estavam integradas, Foi porque os
1 i homens (otam agrupados, e pensavam em si mesmos sob a forma de grupos, que em
: i suas mentes e1es agruparam outras coisas, e no inkio os dois modos de agrupamento
I
se misturavam ao ponto de serem indistintos, As metades foram os primeiros gêne-
1
ros; os clàs, as primeiras espécies, As coisas cram pensadas coma partes integrantes da
sociedade. e foi seu lugar na sociedade que determinou seu lugar na natureza, [Durk-
heim e Mauss, 1963 (1901-2), p.82-3; cf. Durkheim, 1947 (1912), p.431-47.}
No entanto, as metades sac el as mesmas categorizaçôes (de ho mens), e por
isso representam operaçôes mentais das quais eles sao. supostamente. 0 modelo
1"",;"",-. original. Rodney Needham, convincentemente. fez a seguinte objeçâo:
J
po
l a 11 0çao de teve de existir antes de os grupos sociais poderem ser percebidos
J para cxibir. cm sua disposiçao, qualqucr relaçao espacial que pudesse entao ser apli-
cada ao universoj as categorias de quantidade têm de existir a fim de que uma mente
i individual passa ser capaz de rcconhecer uma. muitas e a totalidade de divisoes da sua
1
sociedade; a noçao de classe precede necessariamente a apreensao de que os pr6prios
grupos sociais, em concordância corn os quais os fen6menos naturais sac dispostos
f em classe. sac c1assificados, Em outras palavras. 0 pr6prio "modelo" social deve ser
: percebido para possuir as caracterfsticas que a tornam util na classificaçao de outras
coisas. mas isso nao pode ser feito sem as pr6prias categorias que Durkheim e Mauss
derivam do modelo ( 1963, p,xxvii ),4 3
43 Durkheim rcecbcu edtieas do mesmo teor do fil6sofo contempon'lOeo D, Parodi, que contestou a
idéia de que nossas categarias de eomprecnsao e 16gica derivasscm cm primeiro lugar da "maneira
pela quai determinada tribo armara suas tcndas". D. Patodi cscteveu: "Parcee manifesta, ao contrario,
". que a simples cristència de cerimônias ou de trabalhos rcgulat es, que a simples distinçao entre dis
e tribos e os seus respectivos lugares no campo pressupoem as categorias 16gicas e s6 sao possivcis
m:.. • 'Ift\
'\ "1 • .
;'
,
Dois paradigmas da tcoria mrtropolOgica J119 t
r! Durkhei m formulou uma teor ia sociol6gica da simboli7..açao, t- u:;:
U
l
teoria d3 sociedad:,: A sociedade nao vista constitufda pelo ',>$,. t
processo slmb6 hco; ao contrano. s6 0 reverso parecI3 verdadelro, Que dizer enHio f- il: 1Ol . t.!!<
dos suporles das categorias, da pr6pria sociedade? 0 problema da sua natureza "' , ,S ... (\ QI
tornou-se agudo ao nî vel pois Durkheim tinha t E :
de enfrentar a questao de como as categonas denvadas de uma formaçao social f' m
ft!
particular podiam provar-se adequadas para a compreensâo do mund9' A -. -_ _,
cm um sentido, foi ja . .(totlt à coup)) r . .f-l. " ";1
todos os paradoxos do superorganiClsmo de Durkheull, ,,- L
sim dizer. cm um superparadoxo que as futuras geraçôes teriam de combater, A
resposta a coma as categorias podiam aplicar-se à
reza foi que a pr6pria sociedade et:,a natural: ) .-.J
----- ' ......... -... '. -'---_/' "
Porém sc as catcgorias nao traduzem originariarncnte nada além de estados sociais,
nao deriva dai que elas possam ser aplicadas ao resta da natureza apenas camo
rnciâforas? '"
Porém. intcrprctar dessa maneira uma teoria sociol6gica do conhecimento é esque-
cer que, se a é uma real idadc espcdfica. naD é duvida oum império ,V
dentro de um IInpenoj forma parte da natureza. é sua mamfestaçao mais elevad!:l2_ fi ' 1 .
s,ociaI é um reine que s6 dos sua mais>r complexidade, .1\ \ \..::rW -
": É por isso que noçoes se elaboraram sobre 0 modela das coisas sociais podem ..
3)udar-nos a pensar as COJsas de outra natureza a idéia exatamente oposta dvo
de Lévi-Strauss do "chamado totemismo''J. Ao menos, sem duvida, quando elas se .
desviam da sua significaçao primeira, essas noçôes descmpenham, em um senti do. 0 t!L
papel de trata-se de simbolos bem fundamentados, Se, pela fato mesmo de -
que sâo conceilos construfdos·. entra neles a artificialidadc. é uma artificialidade que
segue de perto a natureza e que se esforça par se aproximar dela cada vez mais,
IDurkheim, 1947 (1912), p.18-9.}
yale a pena nessa recuperaçao da sociedade pela natureza, ou
n_a do de,outras contradiç?es melhor compreen-
saD do que DurkheIm apresenta aqu J. Basta mdlca r certas conseqüên-
cias da distinçao -entre eStrutura social e conceito mental coma realizadas em uma
a,ntropologia posterior, A incompleta do sfmbolo. isto é, como ... - .... -
sun pies representaçao de realidades continua a perseguir 0 funcionalismo
est rutural desenvolvido por Radcliffe-Brown e outros em uma base durkheimia-
na,44 0 "simb6li co" foi. na maior parte dos casos, tomado no sentido secundârio
gruças à intervençào anterior dOlS idéias de tempo, espaça e causalidade" (1919, p,155ss,). Gostaria de
ugradecer a Mark Franci!lon por chamar minha atençào para cssa passagem e para esse livro.
44 Jamesoll atriblli, qllase à maneira de VVhorf, ao reflexo representacional na ciência social anglo-
amcricana a prcferéncia pelo termo "simbolo" em oposiçiio à utilizaçiio (rancesa de "signo", e a
tendência dM resultante de se relacionarem os termos em \llll sistema scmi6tico cujos principios de
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120 Cllttura c raziio prtftica
c derivalivo de uma moda lidade ideal do fato social, uma expressao articulada da
sociedade, tend.o a funçao de apoio para rclacÎonamentos farmadas por processos
., " ,
t polîticos e econôl-qicos reais. cfcito é dada pela arbitnl ria diferenciaçào
J entre "cultura" e dsistema social" na escola inglesa, como se as relaçôes sociais
também nac fosse m compostas e organizadas pela significado. Na realidade, à
mcdida que 0 significado é considerado como 0 mera "conteudo cultural" de
relacionamentos cuja estrulura formai é a preocupaçao verdadeira, 0 simb61ico é
simplesmente uma condiçao variavcl ou acidental do objeta antropol6gico. cm
vez de sua propr iedade defi nidora. Mesmo os trabalhos mais valiosos sobre a
conceitualizaçâo da natureza, 0 de Mary Douglas, por exemplo, tendem a trocar 0
valor scmântico das categorias pelos se us efeitos sociais. Em termos mais precisos,
um tende a ser identificado corn 0 outre - conteudo significativo corn valor
(no sentido dado ppr uma ifàaiçao-que"toma
como certo que 0 pensamento huma no serve aos interesses humanos e, consc-
"j qüentemente, traz consigo mesmo, cm qualqucr momento, as configuraç6es so-
. ciais daquele tempo e lugar" (Dc:Jglas, 1973b, p. 11 ). 0 efeito disso é uma visao
unilateral do significado como diacritica social, e da ordem cultural total como
um projeto utilitario. .,....--...
Reconhecendo dai doutrinas epistemol6gicas de As formas elemetlta-
res da vida religiosa, Douglas promove a adoraçao de Terminus, 0 deus dos marcos
fronteiriços. Para eIa, a ordenaçao da natureza é uma objetificaçao, ou melhor,
uma expressâo nas regras para lidar corn os objetos, da diferenciaçao dos grupos
r __ ,,-_·1 . î Jhumanos. 0 significado é coerentemcnte sacrificado à marcaçao social. Os c6di-
".- . ... culturais de pessoas e objetas, como as correspondências entre eles, sac consu-
':::. J) 1 midos em implicaç6es abstratas de inclusao e exclusâo. Pois no projeto te6r Îco
. l ' j total,o sîmbolo nao é mais que um signo que nao é gerativo de significância em
virtude do scu lugal' em um sistema de simbolos, mas empiricamente motivada
!a 1
t: (f'l ,! por realidades sociai s existcnt es, as quais, coma os "interesses humanos" que se
d f" sup6e constituf- las, fogen\ a qualquer explicaçao sÎgnifi cativa.
45
Mas, en tao, nao se
. n
':.., 0 ' ) ,j.z. .
diferenciaçao ordcnariam a referênCÎ a objctiva. A diferc nça de predi leçôes analiticas pareee rcal,
rncsmo se a expllcaçao nac for inteiramente convÎncente (accitando-se 0 USQ corrente do (rancrs da
palavra signe): " 3 etidcia da terminologia anglo-americana, da palavra 'sim1>olo', é a de di ri gir nossa
atençaÇ! para 0 relacionamento entre as palavras e scus objctos ou refcrcnt cs no mundo Tcal. Na
realidade, a pr6pria palavrn '51I11bolo' implica que a rcl açao entre patavra t,coisa J.1li.q s_cja totalme'!!.c
que exista alguma adcquaçao basica na situaçâo ini cial. Aconlece que, desse ponto de vista,
a tàref:rmais importa nte de in\'cstigaçao lingüist ica consiste cm uma busca de referent es, frase por
fr ase, uma a,uma ... Saussure, por outra lado, dcsviou·sc, devido à sua pr6pria terminologia, de Ioda
a quesU'io dos referentes tiltimos do signa lingülstico. As linhas de Irajct6ri a do seu sistema sac
laterais, de lin signo outro, ein vez de front ais, da pabv!"a à {eoria. um movirnenlo ja absorvido
e interiorizado no pr6prio signa coma a ll1ovimento do signifi canle ao significado" (Jameson, 1972.
p.3I·2).
45 "Se fossemos Deus, poderi amos 1er imaginado um pIano melhor? Se quiséssemos cscalher um
pava para n6s mesmos, revclar-lhe Ul1l l yisào l1l onoteistica e dar-Ihe um conceito de santidade que
ii . HilL L 1 I H .
---_.---- . _ ,
Dois paradigmas da tcoria alltropo/6gica 121
poderi a esperar que a 16gica simb6lica fosse mais sistematica que «as maneiras
incorretas pelas quais as pessoas usam a 16gica para lidarem umas corn as outras"
(Douglas, 1973a, pAl). Pelo lado dos objetos e das essa rcduçao, !
simb6lica envolve um esvaziamento progressivo € uma des-'i
consideraçâo para corn a sua estrutura em favor de propri edades puramentell·
formais de distinçao e categorizaçao. Vma discussâo do significado corn a
particularmente voltada para a diacritica social permite - apenas parcialmente
- a liberdade analitica para considerar 0 que é simbolicamente variavel e proble-
matico - digamos, uma divisao tripartida de espécies entre terra, céu e agna -
como a priori e normal. 0 mais importante é que, de um modo paralelo ao ,
dualismo 16gica em sG'---
mesma, assim como sua ordem verdadeira é ul1l _refle?o:9 dos grupos .e r
social: _Antes de serern Iistados para os prop6sitos .de · ,
d iferenciaçao de grupa, os elementas de um c6digo de objeto, tais como diferenças
alimentares, possuem apenas a coerência de um "fluxo arnbiente de simbolos"
(Douglas, 1971, p.69). Entretanto, ap6s esse processo pelo quai sao selecionados t .
do "meio ambiente cultural" e assim classifi cados e inter-relacionados, eles nao
estao realmente em melhor condiçao semântica, uma vez que seu signi ficado nao
é mais que a intençâo social dirigente. "Se a comida é tratada COlüO um c6digo",
escreve Douglas, «as mensagens que ela codifica serao encontradas no padrâo de
relaçôes sociais que estao sendo exp cessas. A. mensagem trata de diferentes graus
de hierarquia, de inclusâo·e exclusao, de fr'onteiras e transaç6es através das fron-
teiras ... As categorias de comida, por conseguinte, codificarn eventos sociais"
(ibid., p.61). Do mesmo modo, nào sao os aspectes contrastantes de espécies
liminares que merecem atençâo, possibilitando portanto uma discussâo da ma-
neira pela quai 0 mundo é culturalmente construfdo em relaçao aos homens, mas
apenas mais abstratamente se a espécie é olhada cam benevolência, ma vontade ou
ambivalência, visto que isso pode sec comparado às relaç6es entre grupos, contan-
to que um deles esteja preparado para definir essas relaçôes corn 0 rnesmo grau de
indeterminaçao. E observcm que ao prestar-se a ess'e empobrecimento, 0 social
também deve sofrer uma decomposiçâo est rutural. Um exemplo apropriado disso
é a tentativa de Douglas de correlacionar a consideraçao atribuida a espécies
sent isse em sua pr6pria carne, que fadamos? Prometer a seus descendentes uma terra fér lil e ce rca· la
de impérios ini migos. Isso, par si mesmo. seria quase a suficiente. Vma cadcia politîcamente ascen-
dente asseguraria a hostili dade crcscentc de se us vizinhos. Sua desconfiança dos estranhos seria
validada ainda mais completamente. Fiel ao nosso santuario e à nossa lei, ser-l he· ia evidente que
nenhuma irnagem de animal, nem mesmo um bezerra, nem que fosse de ouro. poderia relratar seu
deus 1 ou scia, na medida em que um grupo humano que se concebe coma uma espécie di sl.inta deve
ver 0 resta do mundo coma composto desse modo, cie seria 1110 pouco capaz de acei tar uma divindade
beneficente sob forma extra-humana quanta de acolher um genro nao-judeuJ" (Douglas, 1973a,
pAO).

..
1
:1
.j
ij
J
122 CrI/film c razao pnfti ca
anômalas corn tipas de tracas matrimoniais, na medida em que as varias regras-
como 2 da troca gcneralizada, as exclusôes Crow-Omaha, ou 0 casamento da filha
do irmao do pai - situariam a pessoa intercalada, isto é, 0 afim. Douglas 56 chega
a essa correlaçao entre a consideraçao para corn 0 afim e as relaçàes corn as
espécies intersticiais através de uma operaçao dupla na estrutura de troca que a
dissolve (às vezes falsamente) em uro coeficiente de integraçao entre grupos.
Primeiramentc, Douglas prefere ignorar as armaduras espedficas e bem-conheci-
das das relaçôes intergrupais, as varias formas de ordem intergrupal, coma sac
geradas por regras de troca marital elementares e complexas. Em segundo lugar,
ela traduz essas regras e formas determinadas em implicaç5es de distância social,
nao considerando mais uma vez as régras, mas sim invocando praticas de facto que
Ihe permitem ignora-l as {as regras}. Argumenta, par exempla, que vista que se
padern casar membros c1assificat6rios das categorias preferenciais de parentesco,
as estruturas elernentares (inc1uindo a forma LeIe da troca generalizada perm item
uma incorporaçao mais radical de estranhos do que.as_p_roibiçôe.s Crow-Omaha
(que proîbem a repetiçâo de inter\aSamentos corn as Em
1
suma, a anâlise de Douglas ,dé o·s- signifj.cados constituidos" (1973a,
, p.31) tende a tornar-se um feichismo ae--sociabj@ je, similar . .ao-{çoI6gico, por
, substituir os efeitos sociais abstratos por forrn conceituais espedficas, sendo
estas t'i ltimas tratadas coma dos primeiros, corn 0 resultado
sernelhante de dissolver 16gicas estruturais definidas em interesses funcionai s
,
incipientes.
'-1 Nao quero corn isso negar 0 sentido apurado que Douglas demonstra corn
i relaçao à construçao humana da experiência. E menos ainda negar a impor tância
crftica das correspondências estabelecidas nas sociedades hurnanas entre catego-
rias de pessoas e: categarias de coisas, ou entre as respectivas diferenciaçôes dessas
taxonomias. Desejo apenas sugerir as limitaçôes de uma anâlise que almeja fazer
desmoronar a estrutura coocei.tuaI de um c6digo de objetos em uma mensagem
funcional, como se as coisas culturais fossem versôes substanciali-
zadas de solidariedades sociais, sendo estas entendidas aqui como privilegiadas e
46 De Corma seme!hante, Douglas nem sempre é cuidadosa cm seus estudos de diferentes culturas ao
comparar "grupos" ou processos de diferenciaçao da mesma ordem. Assim, a excl usivi dade social dos
israelitas como povo é comparada às relaçOes entre linhagens Karam ou Leie, embora a implicaçao do
casamento da filha do irmao do pai entre os judeus, entendida par Doug!as coma uma indicaçao de
desprezo pela estranho, dividiria. igualmente, linhagem minima por linhagem mi nima dentro da
mesma tribo israelita (cC. Douglas. 1973a) . Mais uma vez se coloca a questao da pretensa conexao
entre os afins e as espécies anômalas, através de estudos que Dougl as prefere ignorar: Leach (1964)
sobre os camponeses Kachin e Tambiah (1967) sobre os carnponeses Thai. Nesscs exemplos, a
categoria da afinidade é identifid.\'c1 corn um conjuntode animais normalmente constituido, baseada
em uma l6gica de grau de distAncia do Jar, e portanto da domesticidade das espécies. Inversamente, as
espécies anôma!as na Polinésia sao muitas vezes identificadas especificamente corn as suas pr6prias
linhagens ancestrais, como no aI/makI/a havaiano (cf. Kamakau, 1964).
,.
,
...
Dois paradigmos da tcoria all tropol6gica 123
praticas.
47
Desse modo, no final, a verdadeira 16gica do todo soci ocultural é
taria. Este é 0 resultado da adesào à decisiva separaçao durkheimiana da morfolo-
tl gia social da representaçào - - .-
A recusa deffil-Strauss de conferir status ontoI6gico a essa di stînçâo, por
outra lado - sua apropr iaçao do social pel a simb61ico - foi um passa decisivo
no desenvolvimento de uma teoria cultura1.
48
n bem verdade que essa recusa nào
desvinculou inteiramente 0 trabalho de Lévi-Strauss das preocupaçôes fun cio na-
listas (cf. Baon e Schneider, 1974), mas ao menas concedeu menos espaças para
essa preocupaçào atuar, evi tando todo e qualquer reducionismo na rel açào entre
sociedade e ideologia. Também é verdade que ao levar a em.presa
durkheimiana a uma conclusào consistente incluindo as rel açôes sociais dentro
Il do sistema geral de coletivas, chega, no processo, a
observar lllcluslVe um aparente fechamento do clrculo
da insistência de Morgan de que 0 crescimento das instituiçôes estava predeterml-
nado e limitado pela "16gica naturai da mente humana" a uma analise estrutura-
lista cuja coda é composta por uma frase semelhante (Lévi-Strauss, 1971; 1972).
Mas 0 curso desse processo foi mais uma espiral do que um circula, uma vez que ,1'-"'-"-
toda a apropriaçao do simb6lico intervém eH route; como jâ vÎmos, seria um erro
equiparar a invocaçao da mente de Lévi-Strauss ao "princîpio de pensamento" de
Morgan, que nao podia senao limitar-se a reagir racionalmente a val ores pragmâ-
ticos inerentes à experiência. "0 homem nunca pode sel' imediatamente confren-
. . d ..., fi r !
47 utra Corma de pensar essas Iimitaç6es é observar que Douglas esta }ogan 0 pnnclpd.lmente 1 . ' • ,
açôcs motÎvadas entre sfrnbolos, assim a definiçao do signÎfi cado de um pela i - .
outro (a . 3.0) fara necessari amente corn que a maior parte do eonleudo cultural se evapore.'
O
oug as esta realmente preocupada com 0 fundonamento de e1ementos j a simb6licos (relaçoes corn f :'fY,·.· .-
afins, linhagens, conceitos de animais, labus a!imentkios etc.) como signos uns para 'os outros - '
usando agora "slmbolo" e "signo" no sentido anglo·americano costumeiro (na verdade, a maior parte r;. : .: .
ij
dos estudos antropol6gicos endereçados ao "simb6Iico" estao mais preocupados corn essa funçao de 1
segunda ordem do signo do que corn a constituiçao da forma e sim.b6Iicos).
to, como aponta Roland Barthes, uma importante caracterlstICa do Slgno motJvado lem frances,
symbole], cm contraste corn 0 nao· motivado, é que no primeiro' nao existe qua!quer adequaçao
conceitual entre signifi cante e significado: 0 conceito "ultrapassa" 0 signo fisico, por exernplo, como
a cristandade é maior que a cruz (1970 [ 19641, p.38). J: fkil constatar, portanto, que q U3 i1do 0
significante e 0 significado, em mTIa relaçâo de signo motivada, sao slmbolos pa r dircito mlto, essa
inadequaçao é composta duplamente. Dada a relaçao logiea entre e1es, cada um dos e!ementos, como
por exemplo no caso dos tabus ali mentarcs e dos grupos sodais exclusivos, pade agi ralternadamente,
ara como sigoificante ora camo significado do outra. No cntaoto, cada um continua sendo, além do
signo do outro, simbolo no seu pr6prio dominio. Conseqüentemenle, é muito difidl sc exaurir 0
,. significado de um pela analagia (Cracîonaria) corn 0 outro. A amilise semi6 ti ca das praticas
res deve transcender de longe a transCerência aos grupos sociais, e vice· versa.
48 "Lévi-St rauss Coi bem-succdido porque nao olhou os fatos culturais como expressoes, de algum
modo, de Corças sociais; ao contrario, ambos roram analisados dcntro de um unico qU:ldro de
referência" (Kupcr, 1973 p.223) .

<
124 CI/Ill/ra e raziio puitÎca
tado ccm a natureza da maneifa pela quaI 0 materialismo vulgar e 0 sensualismo
empirico a concebem': escreve Lévi -Strauss. Seu apelo ao esprit humain, entao,
nâo provocaria curto-circuÎto no simb6lico, mas antes arcaria ca m as conseqüên-
cias de sua pr6pria ubiqüidade. 0 argumenta se desenvolve com base na simples
prernissa de que, na medida cm que 0 mundo humano é simbolicamente consti -
tUldo, quaisquer similaridades nas operaç5es pelas quais os diferentes grupos
constroem ou transformam seu projeto cultural padern sec atribuidas à maneira
pela quaI a pr6pria mente é construida. Segundo a mesma premiss3, as "similari-
clades" nâo padern aqui significaro contcudo daquele projeta. mas apenas 0 modo
de ordenaçao. Nunca é uma questao de significados especfficos, que cada grupo
executa por sua pr6pria iniciat ivl, mas a maneira em que os signifi cados sâo
sistematicamente relacionados .que, em formas do tipo "oposiçâo bimiria", pode
ser observada como gerais. Conseqüenlemente, também nâo se trata de uma
t:-':', .... .... questâo de "reducionismo biol6gico", um encargo que, no contexto da mente,
uma discussâo da cuttura 'poderia igualmente provocar. Nenhum costume part i·
cular podera ser atribuido à natureza da mente hurnana) pela dupla razao de que
em sua particularidade cultural ela esta para a mente como uma diferença esta
: para uma constante e uma pratica para uma matriz. Ô
,
estruturas conJ'!nto
ilradas"t 1971, p. 561).\' Portanto, 0 objeto cultural, na sua integndade slmb6liëa,
inteira e exclusivamente dentro da esfera da interpretaçao signifi cati-
va. Apenas os pontos comuns da estruturaçao podem ser referenciados à mente,
incluindo especifi camente os sentidos e a· transmissao sensori al, que parecem
F ,... ... "...- operar por prindpios similares ao contraste binario (cf. Lévi-Strauss, 1971). Para
alérn disso instaura-se 0 mais alto naturalismo, no .qual Lévj·Strauss une-se a
e a Durkheim d,? seu método pr6prio de Iigar e natureza, ou
1· seJa, 0 de que, na medlda em que a natureza usa, na st.:'a pr6pna construçao, 0
l t mesmo tipo de processos - por exemplo, 0 c6digo genético, a estereoquimica de
49 Nessa passagem de L'Homme 1/11, Lévi-Strauss emprega uma frase de Piaget - baseada, ao que me
parece, em um estrutul'alismo falho de compreensilo cultural (Piaget, 1971) - como uma crHica
nitida a varios reducionismos biol6gicos. Piaget observou, corn efeito, que toda fo rma é um conteudo
relativo à sua forma circundante, assim coma todo conteudo é uma forma dos conteudos que ele
abarca. 0 projeta do redueionismo. prossegue Lévi-Strauss. é 0 de explicar um tipo de ordem
referindo-se a um conteudo que nao é da mesma natureza e que age sobre ele a partir de fora. "Vm
estrut uralismo autêntico. ao contrario. procura aci ma de tudo apreender (saisir) as propriedades
int rinsecas de cert os ti pos de ordens. Essas propricdades li do expresjam Nada do que esra fora de si
mcsmas {grifo meuJ. Mas se é forçado a referi-las a algo n'terno, sera necessâri o vohar-se no sentido
da organizaçao cerebral, concebida coma uma rede da quai as mais diversas ideologias. interprctando
esta ou aque1a propriedade nos termos de uma estrutura parlicular, reveJ:lm, da sua pr6pria maneÎ ra,
os modos de inlereonexao" (1971 , p.561).

Dois /Ulnldig/luu da Icoria alllropolôgicn 125
,
odores _ que a mente emprega para ha uma cumPlîci-l\ l 0
dade ultima que é a condiçao da posSlblhdade de compreensao. ! 1..'
Pareceria, con tu do, que 0 problcma principal do "reducionisdmo
d
" aOige ' '. - .I;/':
constantemente 0 cstruturali smo moderne consiste em um 1110 0 e Iscurso 'r. 'K''''''
que, dando à mente todos os poderes da "lei" e da acabou por
a cultura em uma posiçao de submi ssao e dependencla. Todo 0 vocabulano das
leis "subjacentes" à mente confere toda força de coerçao 30 lado 0
cultural pode apenas responder, como se 0 primeiro fosse 0 clemento allvO e_
0
segundo apenas passivo. Talvez fosse melhor dizer que as cstruturas da m:nte
--fiï.ê-Il0S-0S-iinperativos da 'cultura do que se us impIe.mentos. compoem um
conjunto de possibilidades organi zacionais à disposlçao do pro)eto .cultural hu-
mano, projeto, no entanto, que governa seu entrosamen to de ac?rdo a su.a
natureza exatamente como governa seu investimento cam conteudos slgOlficatl -
Y: :,. ...'"
;.J
..
;'11 \);; l
-:: (1 //f
vos dive: sos. Como explicar a presença na cultura de estruturas universais
F, em url! hdar ,.,
de um superorganismo, cont radlçoes
de "consciência coletiva", "representaçao,coletlva ou pensamento ob)etlficado
que atribu,em a uma entidade socia.I'uma funçao.que n6s
îndividual? Para responder a todasns questôes des se tlpO, sera necessano 0
mental humano anteS como instrumento do que como determman-·
lêCa cultu ra. - -_:--; ..
---Nâ realirlade, nosafastamos muito do "prindpio de pensamento" d: Morgan.
Porém. ai nda falta fazer a crHica especifica da posiçao morganiana connda
da perspectiva estruturalista. Eu ilustraria essa lançando mao do notavel
trabalho de Lucien Sebag, Marxisme et structuralrsme, onde se pode
uma tese que também é essenciamente de Boas. 0 olho que vê conslderado
em sua particularidade cultural. :Ë impossivel denvar 0 dlretamente da
ou-dô-acoi1teèimento. na medida cm que a pratlca se cm um
50 "A nalurela aparece cada vez mais como construfda de propriedades
mais ricas, embora nao diferentes em espécie dos c6digos est ruturais nO_5 quais 0 slstcma as
interprcta. nem das propriedades estrut urais elaboradas pela compreensao a fim de voltar, na medlda
do posslvel, às estruturas originais da rcalidade. Reconhccer que apenas a mente
der 0 ll111ndo que nos ccrea porque da. em si mesma, é parte c produto dest e mesmo mundo nao
signifiea sel' mcnlalista ou ideali sta. POl' conseguinte, a mcnte,enquant o tent a 0 mllnd7,:
1
: s6 apliea operaçôcs que nao difcrem em espécie daquelas que ocorr:m pr61: rLO mundo
; (Lévi-Strauss 1972 p.14) . Lévi-Strauss vê css:! perspecti va como 0 UI1I CO tlpo de
1
', consistente c;m a pela quai a ciéncia se desenvolve" E ela é total mente conSlS,tente
1 \ cam a vis3.o de Marx: UA pr6pria Hist6ria é lima parte real da Iusfona lUlli/ rai: da natureza gue \em a
ser homem. As ciências naturais chegarao a incluir a ciència do mesma forma que a
ciência do homem induira as ciências da natureza; havera ruila s6 cl:ncla (Marx, 1961 ! l 84.4 j,
p.lll ). Ver às p.269-73 algumas tentati vas de uma integraçao substanclal de estruturas cullurals C
perceptivas.
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126 Cu/lZlra e raziio prtitic(/
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' mundo jâ simbolizado; assim, a mesmo quando ela se depara com
, 'C. uma realidade externa à Iinguagcm' p,or meio da quai é compreendida, é construi-
" da coma uma realidade humana pelo:conceitodela (cf. Berger e Luckmann, 1967).
f '.. Ci} .• ·;"·\ A tese nao é mais que uma deduçao imediata da natureza do pensamento simbo-
,,'V"" li.co'Fi? signi fi cado é sem pre em relaçao às propriedades fisicas
't\ " .-.J '. por con seguin te, em primeiro lugar, a um côdigo
distinçôes pr6prio à cultura em quéstao. Scbag desenvolve a idéia no contexto
. _da alternativa marxÎsta corrente, que, objeta ele:
. ...
remete a totalidade das significaç6cs ao sujeito em fornccer, entrelanto, os meios de
tematizar efetivamente essa constitui çào de sentido,
É cm direçao a essa tematizaçâo que tendem as distinç6es que retomamos depois de
outras; elas excluem a possibilidade de uma gênese hist6rica ou l6gica da sociedade
em seu conjunto a partir da praxis constitutiva dos indivfduos e dos grupos, pois essa
prâx.is se desenvolvc em um universo ja simbolizado e nao é concebivel qualquer
surgimento anterior dessa simbolizaçao. {1964, p.142.1 lEm francês 00 original.]
Mas seus comentârios sobre a experiência da natureza também sac direta-
mente relevantes para a antropologia convencional da praxis:
A ioterferência entre natureza e cultura nao provém entao da sua colocaçao em
relaçao extrînseca, mas de uma culturalizaçao da realidade naturaI. A natureza torna-
se cultura nao em razao da existêncïa de um sistema de equivalências que faria
corresponder a cada unidade de mn dominio uma unidade emprestada a um outra
domfnio,51 mas através da integraçao de certo numero de elementos naturais a um
tipo de ordem que caracteriza a cultura. Ora, essa caracterfstica é pr6pria de todo
sistema simb6lico e mais profundamcntc de todo discurso, desde que a mensagem
que eJe veicule 'suponha urna codificaçao suplemcntar em relaçao à da lingua; da
pode ser definida como se segue: utilizaçao de uma matéria retirada de outre registra
que nao este onde funciona 0 sistema, matéria que pode ser natural (cores. sons,
gestos etc,) ou cultural (a fornecida par sistemas semiol6gicos jâ construfdos) e
aplicaçao a essa matéria que é ordenada em si mes ma de um prîncfpio de oTganizaçao
que Ihe scja transcendente.
! 0 arbit rario do signa, resmtado da associaçâo de dois planas distintos do real.
1 en contra-se reduplicado pela integraçao de cada unidade significante (integraçao que
1 é a pr6pria lei dessa associaçao) em um sistema difcTenciado que permitc 0 surgimen-
1) to do efeito de sentido. 1 Ibid., p. l 07 -8.1 lEm fTancés no original. 1
5! Compare-se corn Rappaport (1967), que encontra oculto no "meio ambientc apropriado concei.
tualmcntc" c nas praticas rituais da sociedade a maior sabedoria biol6gica da adaptaçao. As distinçoes
da natureza reaparccem portanto na traduçao cultural, sen do a segunda apcnas um mcio de forçar
uma aderência às primeiras (cf. Friedman. 1974).
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Dois p(/radigmas da leori(/ antropo16gica 127
As ressonâncias da primeira viagem de Boas aos esquÎm6s aparecem clara-
mente no texto de Sebag. Mais que uma pratica ou interesse "econômico", a
sociedade comporta significados desenvolvidos por toda a ordem culturaL Para os
homens, nâo pode haver qualquer interesse ou sign ificância prâticos nos objetos
de consumo, tal como é caracterîstico nos animais, cuja relaçâo corn 0 objeto é
prccisamente confinada às coisas como elas sâo:
A Fecutldidade da geografia huma na, sem duvida, nunca é tao grande quanto a
possibilidade que ela tem de estudar como, a partir de condiç6es naturais globalmen-
te idênticas, certas sociedades do mesmo tipo organizam 0 espaça, 0 cielo de ativida-
des produtivas, a preparaçao do terreno, os ritmos de utilizaçao do solo etc. Os
determinismos entrevistos sao de uma ordem diferente da daqucles que impôe 0
meio; cada sociedade poderia ter feito a mesma escolha que a vizinha e nao a fez por
motivos que sac 0 signa de seus objetivos essenciais.
entao cm que sentido a noçao de infra-estrutura pode encontrar um sentido
relativo: trata-se sempre do limite do espîrito, do que é irredutiv€l a certo nivel de
funcionamento da socîedade. A criaçao de detcrminada espécie de animais, a pratica
de determinado tipo de cultura sao 0 produto de um trabalho permanente do
to que sc exerce sobre um certo meio natural; a fabricaçao de Înstrumentos, 0
!
. Iho da terra, a utilizaçao ordenada e regular do universo animal supôem grande
,\ quant idade de observaçôes, de pesquisas, de analises que nao podern, de modo
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j gum, ser !evadas a termo de maneira"Cragmentada; €las s6 tomam forma através da
1 mediaçao de .de mais vasto que ultrapassa 0 pIano
um carMer malS natural do q e qualqucr outro aspecto da cmtura de uma sociedade.
tecnol6glco ou SimPlesmeOfleCOri.ômiCO. Nesse sentido, estes Ultimos nao possuem
\) [Sebag, 1964,p 216.J
l,' Ao confrontar os ultimos desdobramentos do estruturalismo corn Morgan e
i\ Boas, tentei mostrar a continu{dade da luta da antropologia contra seu pr6prio
I
l que é também, poç assim dizer, uma luta contra sua pr6pria natureza
bItturai herdada. Mas a passive) relaçao que essa paroquial controvérsia passa ter
Il l . 1" 6 .
\ com 0 marxismo requer outro capltu 0 llltelro: 0 pr XIffiO.

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Cu/furc< e f «ZaO pra/Ica

Dois paradigmas da Icoria alltropol6gica

63

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sistema instrum en t.al ; no segund o, 0 instrumental se encontra sujeito a sistemas de uma outra espécie. A relevância dessa controvérsia provinciana para a invocaçao da prâxis de

ca da. As determinaçôes gerais da praxis estào sujeitas às formulaçôes espedficas da cul tura, isto é, de uma ordem que goza, por suas propriedades de sistema sîmb6 li co, de uma autonomia fundamental.

Marx é patente, muita embora, como veremos, a posiçao de Marx nao possa seT
simplesmente assimilada ao materialismo empirista reconhecido na antropologia. É através de uma versao moderada do marxismo, "senao do pr6prio Marx", que Lévi-Strauss apresenta muita resumidamente sua pr6pria perspectiva: 1
Se afirmamos que 0 esqucma conceitual comanda c define as prâticas, é porque estas, objcto de cstudo do ctn6logo, sob a forma de realidades discretas, localizadas no tempo e no espaça c dîstintivas de gêneras de vida e de formas de civilizaçao, nao se confundem corn a prâxis que - neste ponta, ao men os, estamos de acordo cam Sartre - constitui para as ciências do homem a totalidade fundamental. 0 marxismo, senao a proprio Marx, racl~cinou muitas vezes como se as praticas decorressem imediatamente da prâxis. Sem pôr em dûvida 0 incontestavel primado das infra-cstruturas, cremos que entre praxis e prâticas se intercala sempre um mediador, que é 0 esqucma conceitual, par ob ra do quaI uma matéria e uma forma, desprovidas ambas de existência indcpendente, realizam -se coma estruturas, isto é, camo seres, ao mesmo tempo empfricos e inteligiveis. [1966, p.130-1 .]

Morgan

Lévi-Strauss continua, explicando Itividades complementar.es:

0

contraste coma se fosse uma questào de

.t para esta tearia das superestruturas, mal e mal esboçada par Marx, que desejamos
contribuir, reservando à hist6ria - assistida pela demografia, pela tecnologia, pela geografia hist6rica c pela etl1agrafia - a cuidado de desenvolver a estudo das infraestruturas propriarncntc ditas; que nao pode ser principalmente de nossa responsabilidadc, porque a etnologia é, antes de mais nada, uma psicologia. [Ibid. ) A seriedade da crîtica de Lévi-Strauss se apresenta assim dissimulada por esta modesta renûncia. Talvcz cIe esteja cedendo uma parte muito grande da sua ciência. Se 0 esquema conceitual abrange a matéria nos termos de uma existência humana, ele nao vern ao cenario da açâo pra.tica apenas para acrescentar a interpretaçào apropriada de fatos materiais ou das relaçôes instrumentais. Nem a de codificaçao do esquema seria confinada à "superestrutura'~ Esse esquema é a pr6pria organizaçâo da produçào material; ao analisa.-Io, encontramo-nos na pr6~ pria base econômica. Sua presença ai dissolve as antinomias classicas de infra-estrutura e superestrutura, uma "material" a outra "conceitual': Ë clara que ela nâo dissolve 0 "material" enquanto tal. Mas as chamadas causas materiais devem ser, enquanto tais, a produlo de um sistema simb61ico cujo canüer cabc a n6s investi gar, pois sem a mediaçâo desse esquema cultural nenhuma relaçào adequada entre uma dada condiçào matcrial e uma determinada forma cultural po de ser especifi -

As questôes envolvidas na opçao entre a 16gica pratîca e a significativa travaram, coma ja disse, em dezenas de campos de batalha, cern anos de guerra antropo16gica. Uma reflexào sobre essa hist6ria nos ajudara a clarificar essas quest6cs. Devo advcrtir, porérn, que a excursao sera uma historia "para n6s" - uma forma de tomarmos consciência de n6s mcsmos na hist6ria - sem qualquer pretensao ao status de uma "verdadeira" abordagem diacrônica. Nesse sentido, estabeleço os contrastes entre Lewis Henry Morgan e Franz Boas como uma oposiçao paradigmatica, sem referência às outras figuras do contexto intelectual da época, cujas influências foraru seguramente crfticas para a controvérsia personificada nos dois. Mais uma vez, deixo de lado ou teço consideraç6es sumarias sobre um grande nûmero de pensadores sérios dos ultimos tempos, tanto cm antropologia quanto em disciplinas correlatas, que outras poderiam julgar mais importantes e exemplificadorcs. Talvez esse tratamento cavalheiresco possa ser desculpado por atri buÎ-Io a uma hist6ria corn a quaI os antrop610gos j:i se familiarizaram: uma versao do passa do como ele é realmente 'vivido por um segmento da sociedade, camo 0 .mapa da sua condiçao presente (ver Pouillon, 1975) . Começo por Morgan, mas jâ me antecipo em dizer que a escolha pode ter sido, de certa forma, equÎvoca. Camo todo [undador, 0 pensamento de Morgan tende a ser mais generalizado do que os pontos de vista que divergiram dele, contendo dentro de si os "germes" de quase toda posiçâo posterior. Isso significa que a homem pode ser submetido a muitas leituras te6ri~as, sendo que q1,lalquer uma delas, precisamentc por se tornar uro mapa para a presente discussao, po de sec culpada de desrespeitar a generalidade original. Assim, Morgan foi categoriza ~ do pelos mcios acadêmicos mais recentes camo "idealista", devido à sua ênfase no desdobramento dos "germes [originais] do pensamento"j coma materialista, por firmar a evoluçâ.o socia l sobre 0 desenvolvimento das artes de subsistência; e ainda camo "dualista filos6fico': por sua dependência simultânea de ambos. Por ter feito uma alusâo à "16gica natural da mente", alguns 0 consideravam um "mentalista", enquanto outros 0 acusavam de "racismo" por ter referenciado a cultura ao organismo (incluindo a famosa transmissâ.o de habitos "através do sangue"). Sem pretender resolver todas essas questôes, acho que é importante nao confundir uma certa semelhança da terminologia de Morgan corn 0 discurso do moderno estruturalismo, isto é, a invocaçâo dos germes originais do pensamento, desdobrando-se em resposta aos desejos e n~cessidades humanos, mas de acordo.com a

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CI/III/ra c razilo prritica

Dois paradigfltQ$ da tcoria antropol6gica

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"J6giea nalueal da mente': A m ente aparct:e Il:1 teo ria de Morga n m ais como 0 instrumenta do dcse nvolvimento cul tural do que como se u au tor (cf. Terray, 1972 ). Mais passiva q ue ativa, simplcsmc nte rac io nal cm vez de sim b61ica, a inteligência respond e reflcxivarn cnte a sÎtuaçôes q ue nâo p rod uz nem organ iza, de m odo qu e, no final, 0 que é reali zado c m fOrlll3.S culturais é urna 16gica praticabio l6g ica nos primeiros estagios, tecnol6g ica nos ûltimos. 0 esquema co nceitual nao é a construçâo da experiência hum ana, mas sua verbalizaçâo, como nas classificaçôes d e parentesco que sao simples mcnte os termos de uma ordenaçao de rcla çôes de fato, efetuados pela vantagcm ccon6 mica ou biol6giea. Para Morgan, pcnsam ento é reconhecimento; concepçao é percepçâo; e lin guagem é 0 reflexo de distinçôes que jél têm sua prôpria ra zao. A qualidade simb6lica da cultura nâo apu rece no esquema de Morgan; nele, as palavra s sâo simples mente os nomes de coisas. Co nsideremos a discussâo em Ancient Society a respeito do desenvolvimento do casa m ento punaluano, da gens (elâ ) e, nessas bases, da terminologia do parentesco turaniano. 0 casamento punaluano fo i para Morgan 0 triunfo da biologia na soc icdade, uma grande refo rma nas uni ôes consangüineas de irmaos e irmas cm um grupo que ele caracterizou camo possu id or da m ais rudi mentar humanidade. A evid ência crîtica desse avanço veio do con lraste corn os padrôes de casamento e as c1assificaçôes de pare ntesco dos havaianos contemporâneos. A terminologia do parentesco dos hava ianos comprovava 0 esta do consangüineo original, uma vez que todos os h omens de uma mes ma geraçâo eram "irmâos': todas as mulheres "irmâs" e os fiIhos de todos, indiscriminadamente, "filhos" e "filhas': Mas a pratica do casamen to, a pUllalua, exigia a exelusao das irmâs do grupo de mulheres compartilhado pelas irmaos, e dos irmaos do grupo d e homens compartilhado pelas irmâs. Morgan concluiu que a contradiçâo entre casame nto e parentesco no Havai contemporâneo remontava aos primeiros estagios de emancipaçào do estado co n sa ngüineo. Eie n ao estava seguro de co mo se produziu exa tam ente a proibiçao de casamentos entre irmao e irmâ; refere-se aos prim eiros passos como "casos iso lados", algo no modelo das variaçôes ocasion ais, cuj as vantagens foram pouco a pouco sendo reconhecidas: Dada a familia consangüinea, que englobava tanto os i n llllOS e irmas consangüfneos quanto os irmâos c irmâs colatcrais na relaçao matrimonial, na familia punaluana bastava excluir os primeiros do grupo, nele consc rva ndo apenas os segundos. Mas cra dificil excl ui r os primeiros e man ter os scgu lldos, pois ta l medida implicava uma mudança radical na composiçâo da familia, para nao dizer na antiga estrutura da vida domés tica. El a implicava igualmente 0 abandono de um privilég io do quai os selvagens nào podiam desistir facilmente. Pode-se suporquc essn medi da foi IOl/Tada, iniciaImente, em casas iso/ados, que SIIt1S valltagellS foram /ellfalllcll te reconhecidns, e que foi adotada a titulo experimental durante periodos muita longos. A principio, cla foi

aplicada por algum as tribos, dcpois pela maioria, até ser fina lmente un iversalmentc adotada pelas tribos mais evoluidas que se encontrava m ainda no estado selvagem e entre as quais se originara 0 mov imento. Sua adoçao oferece lima boa ilustraçao do proces$o segundo 0 quai se realiza 0 principio da seleçào natural. (Morgan, 1963 (1877), p.433-4; grifo meu. J

h im portante perceber a natureza da intelecçâo humana que Morgan propôe aqui. 0 exemplo da punalua é particularmente adequado, um a vez que é comum ente utilizado no primeiro ano de antropologia para ilustrar a arbitrariedade do sfmbolo pela observaçao de que nenhum sfmio poderia at in gir a distinçao entre "esposa" e "irma", da mesma forma que nao poderia estabe lecer a diferença entre agua benta e agua destilada. 1 No entanto, 0 que Morgan esta dizendo é exatamen te o oposto, que a diferença entre "marido" e "irm ao" nao é uma const ruçao simb6lica co locada no mundo, mas a decorrência racional d e lima diferen ça objetiva no mundo, isto é entre homens biologicamente superio res e inferiores. Trata-se de uma percepçao das vantagens biol6gicas como resulta ntes da diferença, sendo portanto uma represe ntaçao em termos sociais de um a 1 6gica externa a esses termos. A reforma caracterizada pela punalua foi a prim eira de um a ionga série que cul minou na monogamia, uma série na quai a espécie hum(l na livrou-se progressivamente de uma promiscuidade original e dos males decorrentes da procriaçao consangüinea. E esse primeiro passa resume a noçao que Morgan tem do. todo: cIe foi efetuado pela observaçâo e pela expùiência; atençâo às conseqüên cias deletérias do casamento dentro do grupo - "os males dos quais a observaçao humana naD podia indefinidamente escapar" (Morgan, 1963, pA33) - ~ a experiência das vantagens mentais, portanto institucionais. do casamento fora d~ grupo. "É uma inferência correta dizer que 0 costume punaluano chegou ~. à adoçao geral através da descoberta da sua intluência benéfica" (p.509). Portanto, n pensamento é reconheClmento e a mente é um veiculo pela quaI a natureza é '\ compreendida como cultura. A explicaçâo posterior de Morgan da gen s como um a derivaçao da sociedade punai uan a e uma codificaçao das suas vantagens leva ao mais alto nivel a mesma concepçao. Enquanto matrilin ear, a gens original represe nta 0 acabamento naturai da familia punaluana no tempo, dada a imposs ibil idade de se verificar a patern idad e sob as co ndiçôes marita is existentes. 0 co nceito social de d escendéncia é, m ais uma vez, uma consciência de relaçôes jâ prevalecentes (p.442). (Em um
! 0 uso de "si mbol~" c. "signo" na anlropotogia amcricana, ou peto menos cm g rande parte dela, tende a sc dar no sentldo lIlverso das famosas dcfiniçôes de Saussure, em seu CI/rso dt: liugiiisticagcra/; na t~ad i çào anterior "simbolo" é 0 verdadeiramente arbitnlrio o u 0 naD motiva do, e "signo" é 0 mOIi.va?O (compa r~r Langer, 1957, ou White, 1960. com Saussure, 1966 Il9l 5 J). Coma regra geral segulrel a usa amencnno, exccto onde 0 contexto é clarnmente saussuri nno.

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A gens. 3 Sua teoria do con h ecimento foi. passando pelos pastores patriarcais. uma vez que nos ultimos estagios do esquema de Morgan 0 interesse ~·. Morgan reduziu a lin guagem ao ato de nomear as diferenças manifestas na experiência.1S".66 Cu/wra e razào pratica Dois paradigmas da teorÎa alltropoMgica 67 " lllomentQ posterior no esquema de Morgan. Na sua distinçâo entre 0 parentesco paralelo e cruzado. Ele teri a re. também a estrutura institucional coma um todo esta referida à pratica e a pratica . prevalece sobre a vantagem biol6gica como a determinante pratica da forma social.termo geral empregado por Morgan para dcsignar a l'osse da "riqueza" estratégica . 442. sao "essencialmente as mes mas que aquelas manifestas pela mente humana" (p. "e. deve-se ter par base 0 segmente precedente. TaI camo 0 pensamento é a rcconheci mento de uma significaçao exterior. é de grau e n ao de gênera" (ibidem). 0 aumento do estoque é uma mctarora que vem d~sde 0 homcm primitivo.\ cxperiéncia no mundo. p. evitar 0 casamento entre eles por motivos de .:!. escreveu eIe. residir na pr6pria natureza. Desconfiando tanto do instinto quanto da imaginaç50. As qualidades mentais do castor. (Na realidade. de tai modo que a seqüê ncia total representa a sedimen~ taçao. a diferença se dâ apenas entre modalidades de vantagern adaptativa.-'--~ 1 . tanto na sua existência como na sua estrutura. que provàram naturalmente ser uteis e vantajosas. cla apenas expressa as diferenças jâ estabe lec idas na pratica.151·2). estavam suj eitos à reflexaa secundâria ou à codificaçao na terminologia do parentesco. p. caracterizada pela suposiçaopara ficarmos de acordo corn a descriçao gerai de Cassirer . p.73-4.) Por sua vez. a inteligência que Morgan entende coma humana nao difere d a de outras espécies mamfferas. a orientaçtio do efeito 16gico. contudo. às expensas da criatividade da linguagem. dese nvol<C 1 Em termos mais gerais. mesmo que cie . por sua . A semel hança especîfica consiste na capacidade de se fazer urn u so racional" das percepçôes transmitidas pelos sent idos para agir pragmaticamente sobre a expe riência. entre os prindpios que e1es representam respectivamente. contudo.) 3 Resek. As leis da natureza e da socicdade foram dcscobertas em plen a luz do dia.que é a junçâo na quai 0 int eresse econômico.252). mas sim 0 seu signo. ou 0 desdobramento efetivo dos meias crcscentes de subsistência. isolar uma metade dos descendentes de um suposto fundador. portanto.que.SI. A teoria pode ser r~sumida da seguin te forma: os homens cedo desenvolveram certas prâticas. Morgan de fend eu vigorosamente a idéia de que "a principio do pensamento" era comum aos hom ens e aos animais.68. A diferença ent re essas qualidades e 0 pensamento huma no.) Exatamente como a famflia punaluana.de que a "real" é dada "tout fait. por assim dizer. evidentemente. deve ter logo provado sua utilidade na produçao de homens superiores. a fonte d e significaçâo que é materializada nas produçôes das espécies. também p. formas de comportamento.pudcsse considerar cssa pr6pria obra in tocada pda ideologia. para Morgan. que se origina provavelmente da ingenuidade de um pequeno bando de selvagens. Preferiu respeitar a continuidade da inteligê ncia. a uma humanidade nao -cultural. 0 parentesco turaniano nao é mais que a articulaçao criteriosa das distinçôes sociais desenvolvidas pela scleçao natura!. a l6gica bâsica poderia ser caractcrizada simplesmente como "vantagem pnitica". Na sua famosa monografia The American Beaver and his Works (1968 ). grifo meu). A lin ha geral de força da demol1straçao. Sua prevalência quase universal no mundo antigo é a maior evidência das vantagens que da apresentou. a descendéncia se tornarâ patrilinear sob a influência do crcscimento da "propriedade" . As vantagens foram apreciadas e os comportamentos formulados como moI d os de organizaçâo por exempIa. (Ibid.:onômico sc apossa da vantagem biol6gica. 1960.eitado a noçao de que fatores subjetivos. Consistindo simplesme nte na capacidad e de agir racionalmente sobre a exper iência.como sc fosse preciso prova .ou melhor. a longa obra de Morgan sobre a evoluçao social deixou intact a a i1ist6ria das idéias. como a exclusào de irmaos e 1irmas de uniôes sexuais de grupo. até 0 capitalismq. parentesco ". De uma pcrspectiva ecol6gica. 0 mais perspicaz bi6grafo de Morgan. Morgan retornou rcpet idas vezes à psicolo~ gia animal. acrescentar nada de novo ao processo" (Cassirer. assim como a codificaçao expressa organ izaçao. a farnilia punaluana.18).em seus ensaios sobre psicologia animal" (Resek. incluindo a hum an. dentro da cultura. Para se cornpreender qualquer segmen ta dado na cadeia de efe ito.2 Mas entao a tcoria de Morgan é apropr iada a uma cllltllra nào -humana . sem pre preocupado em mostrar "que todas as espécies. vai dos limites naturais à pratica camportamental. especialm ente do castor. 1960. ou seja. " ------'. 389. e da ·pratica comportarnen tal à \ instituiçao cultu ral: ( 1) circu nstância -+ pratica -+ o rga nizaçao e codificaçâo (instituiçao). da 16gica da natureza (a vantagem adaptativa). tanto na casa do africano quanta do castor. as palavras dos ho mens nao sac a conceito das realidades externas. 'transportado' para a c~nsciência. Morgan "nunca duvidou de q ue seus pcnsa mentos fossem verdadeiros retlexos da realidadej 0 que ele via na base das Mon tan has Rochosas ou em um povoado asteca pouco ou nada tinna a ver com 0 fato de ser rko ou às vezes mil Whig dissidcntc. susten tan do que 0 castor era apenas "silencioso". 1933. alterado em alguma coisa interna sem. a melhoria genética que deve resultar da regra da exogam ia: Vm objeto primario da organizaçao Cfa... estabelece uma conexao precisa entre a racional idadc atribuida aos animais e a pr6pria epistemologia antropol 6gica de Morgan. Dai. irracionais ou subconscientes fazem de cada homem seu pr6prio historia~ dor. cf.racio nalista supremo . mas nao " mudo': chegando mesmo a afirmar que a faculdade lin güîstica do homem era apenas rudimentar na Selvageria. 115. Elc tentou provar isso aos outras . e que para a mente (esprit) humana é apenas uma questao de tomar posse dessa realid ade. 0 sistema de parentesco turaniano reflete a organizaçào sobre a base da punalua e da gens. a gens . recebem orientaçtio imediata da natureza" (Resek. Aquilo que existe e subsiste 'fora' de n6s deve ser. por inferência. a gens se tama u accita graças às CCvantagens a ela conferid. cuja funçao nesse aspecta cJa duplica e generaliza. p.. vez.0 nos subterrâneos da alma ou nas meditaçôes dos fi!6sofos.

23). Cada uma confere certo valor às distinçôes determinadas e const itui. p. a realidade objetiva em outra quaI idade. p.4 Ent retanlo. ao seu redo r. Ao men os na leo ria ha limites naturais no campo semântico de um ûnico lexema: nenhuma ûnica palavra.. 6 Isso nao se da simplesmente porque a combinaçao de so ns sheep [carneiro] nào tem qualquer conexào necessaria corn 0 anima l designado desse modo. lrazendo para 0 conceito toda a 1 6gica cultural.B. constr6i-se sua pr6pria avaliaçao do objeto. As palavras francesa e inglesa referem-se à mesma espécie. por consider:\.-Ia fom do objetivo de lingüistica 09li. Se. e nesse sentido nao-a rbitrâria. Mas 0 mesmo exemplo suger ini aos americanos.Ilao é 0 po nlo de part id a do processo de (ormaçào da linguagem.173). 1966 (1916). ao seu lado. e no sistema dessas diferenças ha uma construçâo cultural da realidade.o é seu terminus a quo.. 8 No mcslllo sentido de uma construçao cultural. 8 4 Para uma posÎçao scme1hante sobre a Iinguagem na ohr. entre 0 conccito e a palavra. Dentro de uma mesma lingua. mas também a praposiçôes culturais. vcr Necdham. no mundo anglo-saxao. porém. Refira-mc aqui nâo apenas a distinçôes semânticas. cada uma. Par sua diferença cm relaçâo a essas palavras. mas antes de tudo ao se u lu gar na lingua. que a cultura nâo se submete a tal tipo de limitaçao. que exista tal relaçâo entre 0 conceito e a realidade objetiva à quaI ela se refere. Morgan fo i UI11 antro p61ogo pré-simb6lico. ela n5. por um lado..7 Na realidade. por conseguinte.] o francês moderno mouton pode ter a mes ma sign ificaçao do inglês slleep. -.4 3-8). 5 Assim. è isso por varias razoes.é isso 0 que eu quero tentar cxplicar .. em virtude das diferenCÎaçôes semânticas das respectivas Hnguas. "nomes" que seriam signos puramen lc cxteriores c arbitrarios. 0 pr6prio conceito do conceito continua em muitas antropologias da praxis recentes. um segundo tenno. cm um scntido. 1933. A linguagem nào entra em um mundo de perœpç6es objetivas acabadas.68 Culll/ra e razao prdtica Dois parndigma5 da tcoria tinlropoMgica 69 venda-se gradualmente através daquel e lo ngo perfodo. por exemplo. é 0 mediador po r excclência. entre os quais a peculiar comb inaçao "bife e lagosta" é uma categoria definida de jantar. 0 valor de qualquer termo é determinado pela que No qu e d iz respeito ao conceito ou significado. ISaussurc. no quai ele usa a di fe rença de sign ificado en tre sheep e mouton para ilustrara diferença entre va lor e sign ificaçao lingüfsticos. mutton. Nenhuma lingua é uma simples nomenclatura. para 0 quaI ha um segundo termo.UI11 dos seus proprios 1 termos com "as" distinç6es objetivas. . ~ . «. ha Iinguas onde n50 é possivel dizer "scntar-sc no sol". a oulras pal av ras relacionadas. uma palavra é rcfc rivel nao simpl esme nte ao mundo externo. somentc para acrescen ta r. p. sua re1açao é cOll5ubstancial e absoluta. E a arbit rariedade simb61ica das segundas é m esmo maior do que a d as primeiras. é 0 comportamento do signo em uso. . ~ i"' . cm particular porque.16-7). é capaz de significar. boi e lagosta. A verdadeira contingência est:\. no seu estado culinario..I I S-6. ver Hcnson ( 1974..mas decisiva.. mas nao 0 mesmo valor. as diferenças nr valor lingüistico efetuam uma découpage part icular do mundo externo.. cla mcsma é um mediador na {ormaçao dos objetos. mas 0 francês ainda nâo foi capaz de participar da distinçao mais elevada entre 0 cru e 0 cozido: o ccrea. exprime uma concepçào distinta das (e em relaçào às) espécies. mas que nao t'cm sentido algum se retirada do mundo. ocupa no açougue um lugal' ao lada de . A ana lise deve negligenciar a arbitrariedade fundamcntaJ da palavra -reconhecendo talvez que nào haja qualquer relaçao inerente entre 0 som-imagem e 0 conceito (idéia). Para uma boa discussao antropol6gica sobre a rclatividade cultural da dislinçao entre crcnça e experiência. supondo. da ffieSITIa forma que a palavra mouton. 0 exemplo acima é clara mente motivado por urn farnoso exemplo de Saussure. .. I'"j'.. Nenhuma se base ia cm uma simples correspondência UI11 -a. 1972 (sobretudo p. 0 instrumenta mais importante e mais precioso para il conquista e para a eonstruçào de urn verdadeiro mundo de objetos" (Cass irer.o que nao é 0 caso da palavra francesa." A 16gica proposicional é rnaravilhosamente variada e assim sào as culturas. A palavra inglesa nao se aplica ao animal quando pronto para ser comido. 1 Mas a arbitrariedade do simbolo é a condiçào in dicativa da cultura humana. 7 "A rep resenlaçào 'objetiva' . 1957. é im poss ivel flXar até mesmo 0 valor da palavra que sign ifica "sol" sem <la tes considerar 0 que h. enquanlo projeto social tolal. 5 Uma vcz que Îlcm a som-imagcm nem a idéia podcrn ocorrer um se m 0 outro. '" . urna distinçao peculiar dessas sociedades ocidcntais que se propôcm fa u r a antropologia das outras. por conseguinte. Assim.ni . coma argumentou Benvcniste cm seu conhccido comentârio sobre 0 texto saussuriano. a ohjetos individuais dados e claramc nte dellmitados uns cm relaçao aos outros. especifica àquela sociedade. ao falar de uma peça de carne pronta para ser levada àp1esa. do antrop61 ogo evolucÎOllista inglês E. por outra lado os el ementos assim segregados sao reagrupados por correspondê ncias significativas en tre eles. 0 inglês usa l11uttOIl e nao sheep. sc nao em inven çao. mas sim seu termi/lus ad qI/cm. mas porque 0 conceito de carneiro também varia em diferentes sociedades. p. 6 "Enquanto encarannos as sensaçoes coma signos das coisas que supostamente lhcs dao origem. qualificando talvez esses signos corn rcferência a scns::!çOes p::! ssadas que (omm scmel hantcs. ou seja. um::! re1açào quc Benveniste recusa tratar. Esta é uma premissa implkita. todas as palavras que cxp ressam idéias vizinhas se limitam reciprocamente . a lin guagem s6 é simb6lica no sentido de que represcnta 0 munda de uma outra forma. pode-se observar no p:lr carneiro/carne de ca rneiro (sllcep/mlllton) que esse animal. Tylor. A diferença de valor entre sheep e mutton deve-se ao fato de 0 primeiro ter. pA3). dividindo-o de acordo com certos principios. mas 0 fazem "em termos diferentes". simultânea e exclusivament e. a atividade simb6lica é ao mesmo tempo sintética e analitica. dentro deste m es mo e ûnico mundo. nem terernos arranh:ldo a superficie dessa mente humana ocupada de simbolos" (Langer. as duas espéCÎes.. mas sim 0 fim ao quai esse processo conduz. da filosofia.. Parece nao haver qualquer limite te6rico determinavel a priori em relaçao ao qué sera c1assificado com quê no esquema cultural: "Um parente por casamento é uma anca de elefante.

p. l' :! porcos e bois. descobriu que os SOll.. mas 0 suficiente para conduzi-Ios a caminhos fatalmente diferentes. que se apropriou do sujeito ativo hist6rico.).. a odîsséia de Boas "da ffsica à etnologia" tornase significativa.') considerados iguais por um orador de uma lingua podiam ser ouvidos como algo completamente diferente por pessoas que falavam outra Hngua. A quai. que compartilham uma' declinaçao paralela de termos para 0 estâgio de consumo (pig/pork. na visao de Morgan. para 0 homem... Parà cie. pode-se dizer. ele passou naturaimente por uma fase de psicoflsica feclllleriana que teve a mesma importância: experimentos sensoriais em fenômenos liminares que nao apenas reiteraram a conclusao de que as diferenças objetivas a estimulos llaO engendravam nenhuma diferenciaçao paralela de resposta . discuta a 16gica da comestibilidade/nao-comestibilidade no esquema americano (p. representando uma oposiçao dentro da quai a antropologia passou por varios ciclos durante todos esses anos. Nem chegamos ainda ao nive! mais profundo dessa relaçao complexa e amplamente l desconhecida entre pensamento e palavra (Vygotsky. Na sua dissertaçao sobre a cor da âgua do mar. "a hist6ria humana l'" é um apêndice da hist6ria natural. a mente do mundo 1 _ e. cat/le/bec}). a reduçao da Odisséia da forma falada à escrita . p. mas sobretudo no carater das idéias tradicionais pelo quai cada nova percepçào é interpretada. . 1971. r' 1 pwa: . determinando a condusao alcançada" (Boas.- Cu/Jura c razJo pratica Dois paradigmas da leoria antropo16gica 71 ~- il' . " " li: 1 '$ <- I --F ~i d i 1 1 ~ Em suma. . No sujeito humano. nao sao aplidveis" (Boas [19381 il! Stocking. 10 ''Ao preparar minha tese de doutorado. que depende. nao ser mais importante do que. Marx teve de reagir ao materialismo contemplativo e sensorial de Feuerbach.198-9)- . p. era aproveitar 0 ativismo do idealismo.. a linguagem naQ é mais que a percepçao articulada. No entanto. Nao quero dizer que 0 pensamento deva coincidir corn as distinçoc$ gramaticais de determinada Hngua.~ r. par sua vez. lo Boas repetiu.mas também que a resposta dependia de fatores situacionais e do conjunto mental da pessoa. finalmente. que nao eram em si mesmas muito diferentes.- r ~' b$ ~: i <. como Marx colocou na prime ira tese sobre Feuerbach. . um materialismo do sujeito hipotético individual que responde passivamente à realidade concreta. a cultura da natureza. uma vez que nao possuimos nenhuma palavra de inspiraçâo normanda para cheval par analogia às palavras para carnes de carneiro. Mas. chegando mesmo ao uso de certas [rases que sao suas . p. A hist6ria sem estrutura da a impressao de nao explicara classificaçao. que se encontra cm "um piano ~ distinto do pensamento verbal': tenna uma cstrutura diferentc c mais simplificada que a estrutura da II lingua falada. Coma escreveu recentemente um destacado rnarxista cm . ~l "" investigaçao. Para qualquer grupo humano. aprendi a reconhecer que existem dominios da nossa experiênda nos quais os conceitos de quantidade. Em um determinado momento. teoria coletiva e hist6rica que faz da sua percepçao uma concepçao. mais tarde. 0 orgânico nao procede do inorgânico. relaçao a Kautsky. foi uma viagem de muitos anos na quaI Boas passou de um materialismo monista à descoberta de que "0 olho que vê é 0 6rgao da tradiçao". a experiência ao nivel lingüfstico.. ambos foram compelidos a recusar um materialismo mecanicista que lhes vinha do iluminismo.. 11 Nesse meio-tempo. A linguagem é um meio privilegiado clesse projeta..tanto quanto quaisquer erros SaD de minha intdra responsabilidade. ~ .para remediar 0 defeito de um materialismo que concebia "a coisa. 42). de medidas que podem ser acresccntadas ou subtraidas como aquelas corn que eu estava acostumada a operar.. Acho que a razao para esse fato pode ser encontrada !laO cm qualquer peculiaridade fundamental da mente do homem primitivo. 1. Meu débita vai mais além. . Como George Stocking (1968) descrcve muito bem. mas a reaçao de Marx também foi refreada pelo idealismo de Hegel. da tradiçao mental. através de informantes da Costa Noroeste dos Estados Unidos.. criamos um novo tipo de objeto. Boas observou a dificuldade de determinar as intensidades relativas de Iuzes que diferiam levemente em cor.72ss. cf. No decorrer de minha quando. nao subjetivamente" ~ . a passagem da natureza para a cultura. apenas na forma do objeto ou da contemplaÇao. 1962) . ~- -.. a tradiçao em questao é um conjunto de significados acumulados.lsso levou-me a considerar os valores quantitativos das sensaçoes. sendo a sua lei de movimento simplesmente \formas de manifestaçao das leis bio16gicas" (Schmidt. Entre os erros que devo evitar encontra-se a reivindicaçao de um extremo relativismo lingüfstico. mas nao como atividade humana sensivel. no carater das idéias tradicionais com as quais cada nova percepçao se associa. com propriedades distintas: a cultura. embora as percepçoes de seus sentidos sejam suficientes. pA?}. 1 i . . Os primeiros passos foram dados dentTO da pr6pria fisica. 9 Estou em débito com 0 professor Paul Kay pelo muito quc elc contribuiu para a nossa discussao do problema da "arbitrariedade do signo". Stocking. 1965 [1938]. seu poder de interpretaçaa logîca parece deficiente. através da avaliaçao simb6lica e da sintese da realidade objetiva. A idéia coma um todo parece implicar uma paralisaçâo dos poderes simb61icos neccssarios il sua postulaçao. de boi e de porco. II "A alternância dos sons é daramente um deito da pcrcepçao obtida atra\'és de um sistema de fonética estranho" (Boas. pratica. 9 Boas 1 Eru contraposiçao ao que foi dito. 12 Permitam-me aqui fazer uma breve digressao e uma comparaçao aparentemente curiosa.14. a sensibilidade . para Morgan. 0 subjetivo do objetivo. 12 "A primeira impressao obtida de um estudo das crenças do homem primitivo é que. 1974. no inicio das suas vidas intelectuais. a percepçao (perception) é reconhecimento (apperception). na medida em que ca da um percebia no discurso do outra asdistinçôes apropriadas ao seu pr6prio. A variaçao quantitativa no objeto nao evocava uma variaçao correspondente no sujeito. A soluçao. 1974. escolheram respostas concebiveis alternadas. cm outras palavras. tive de usar métodos fotométricos para comparar intensidades de luz. pele mesmo ponto. nao é em si mesma decisiva nem unica para 0 homem. digamos..166-79). No capitula 4. Dai.. a realidade. 1966a [1911].. embora todos des difiram ncsse sentido dos cavalas e cachorros.que a reaçao humana à quantidade efa em si mesma qualitativa .r M 70 :\. e vice-versa. uma jornada de muitos estâgios nos quais ele descobriu que. Ha também alguma evidência de que 0 falar interior. 0 mesmo pode ser dito de Morgan. É fascinante que tanto Boas quanto Marx tenham passado.

por conseguin te. sobretudo entre a vida de Ulll pava e seu meio ambiente fisico.. em 1882-3. e mais tarde para a Costa Noroeste. cm modos historicam en te especificados. Mais que um exercicio critico ou metodolôgico.u. e da dos seus seguidores.r oF 'i' < 13 Dai a rejeiçao paraleJa de Boas do dctcnni nislUo "geogriifico" e "econômico". a direçao de meu traba1ho e estudo foi fortemente influenciada par meu treinamen to em ciências naturais. entronizou aquela concepçao de "far rapos e remendos" do objeto que a etnologîa amer icana leva ria décadas para expiaI'. e qu e conc!usôes podem ser retiradas de uma conside raçâo desse gênera? fCitadoin Stocking. p. jâ que foi desenvolvido no confronto direto corn Morgan sobre a questao de leis gerais de evoluçao socia l. especialmente da vida fisica. a exp ressao da natureza na cultura pela mediaçao de uma mentalidade refl exiva. o humana da experiéncia. Vm desses caminhos tem aqui especial importância.. A antropologia modern a tende a considerar essa controvérsia em particu lar como infeliz. <>. e pass im). do modern o conceito de cultura. 1968. cionados e transmitidos pela processo de aprendizado. de vê os fenômenos culturais em termos da ÎlI1posiçilo de tls!!ffica c. Em uma série de cartas ao seu tio na América.l /l 72 CI/III/ra c mziio pralica Dois paradiglllas da /eoria alllropo16gica 73 " (Ma rx. to. Em um artigo muito conhec ido.~t. cm direçao à "cultura".270-89. comum a Marx e a Boas. No entanto. 1965.~~ da_~periên. especialmente a fisica. os toten s ou os sistemas de metade variavam em todo 0 mundo . v . qu e Boas argumentava que as mascaras da !~i sociedade A. usada s para enganar os espiritos. p. através do estudo das ciências natu rais. incre n te às condiç6es do seu in îcio. 1. a outras questôes que logo me conduziram à geografia. escreve Stocking.. . A esco lha de Marx l evou ~o 30 materiali smo histôrico.. Radin criticou. cedo e de form a vigorosa. Entretanto. De fato.. Boas começou questionando a essència da tese de Morgan.era insuslentavcl.\ ~> Ç'.:Rara BO.!!!39J!.ele teve de conduir pela existên cia d e cu ltu ras. foi inscrita co m uma diferen ça de ênfases. <? que racionâlizou a . que me revelou a importância do estudo da interaçao entre 0 orgânico e 0 inorgânico.bem como as discutidas no capitula 1 -eS130 aqui prefiguradas: "nao ha razao para denominar as outras rases da cultura de uma superestrut ura sobre uma base econômica.~o'ndi­ A. 0 reconhecimenlo do social.o . mas cIe nao con cebe a se nsualidade COIllO atividade pratica. p.. que comem oravam os ancestrais .o!lxel1c~9!!. 1966b [1940 J. Stocking.1 7S-7). pode ser vista simplesmente camo a acabamento das implicaçôcs presentes nesse artigo. IIbid. Com 0 passar do tempo. que rea lm ente existiam em vâriasSoëledaaes. 'Iodas as questoes fu ndamentaÎs do ultimo dcbatc . era tambérn pOl' suas implîcaç6es de um con texto total e arientado: u ma cultura que padronizava os traças de acordo com r~ Il seu prôprio espîrito singular. "Feuerbach. 1965 119381.~ente.as. disparidade de traços aparentemente semelhantes. esse artigo: 1 prenuncia muito do pensamento antropol6gico moderno." Marx salientou que cssa praxis deve sel' entendida ca mo social e na sua especificidade hist6rica.I7S ).e correspondentemente que d os c1âs. Ao '1menos pa r implicaçao. operada por Boas no contet'ido das culturas para provar a diversidade dos processos de desenvolvîmento. 0 tempo aguç:lria a oposiçao entre a realidade material da simbo lizaçào c a simbolizaçao da rèalidade material-que para Boas nao efa nem racionalidade nem dis(arce.! da sociedade B. Grande parte do fin al da obra de Boas. 1968. massobretudo camo a cOllccpplo dela (por exe m plo. no inicio. ~e esses significados implicavam processos dissim il ares d e desenvolvimen. provando que Morgan estava errado. pois a f~agmentaçao nominalista. nao como a açào de um individuo abstrato e isola do. Boas tran sfe riu 0 mesmo problema do materialismo mecânico para os esquimôs. escrito cm 1845).66J. "deseja a contemplaçâo. t 'C c. um resultado contradit6rio e sintético. construidas cam base na açào concreta e presente. i' r~ ! r . Boas des creve 0 arcabouço de seu proj eto esquim6: Embora.Jor~in as d ifere nças emsignificados usas determinados local. p. baseado em uma noçao de cuhma nao tanto coma uma condiçao da rclaçaodo homem cam a natureza. "Hist6ria e antropolog ia': Lévi-Stra uss observa a eventualidade conceitual do método: e Il t·. l ' De cert'a forma. Ele os vê em termos mais relativos que absolu tas. c assim cheguei a um nova ponta de vista.195-223. . para descobrir a espec ifica çâo histô rica do sujeito qu e age.Joi â transposto do nivel psîcolôgico para 0 cuî~St~~ki~·g d es taca 0 velho arli go (1888) "Sobre os sons alternantes" como conte ndo os germes clesse desenvolvi mento e.1 38. fui levad o. fiquei convencido de que meu WeltanschaullIIg materialista anterior .u.. naD satisfeito cam 0 pensamento abstrato': escreveu Marx em sua quinta tese. p. em retrospecto. algo muito compreensivel. a de Boas. ./ ~ o fato de a viagem de Boas ter acabado no poder estru turan te da tradiçao pa rece agora. de seres hum anos se nsiveis. 1974.] f s < . pois as condiçôes econô micas sempre agem sobre uma cultura precxistente e elas mesmas dependem de outros aspectos da cultu ra" (ibid. 1966 [1933]). fo rçosarnen te.. os caminhos pelas quais Boas chegou ao conceito cultural foram diversificados e aigu mas vezes cheios d e meandros (cf.1 L.ci~: Ele os vê como histori~a7r. 1 . p. Na realidad e. Assim nasceu meu plana de considerar a [seguinte J investigaçâo coma minha tarera de vida: até que ponto podemos considera r os fenômenos da vida orgânica. e esse assunto de lai forma atraiu meu interesse que finalmente 0 escolhi ca mo meu estudo principal.p. p.'. grifo m. No entanto. minha intençao fosse esludar matematica e fisica coma meta final.la construS.I-20). à cultura.. Marx chegou até a l' ratica e as es truturas da realidade. de totalidades cujas "idéias dominantes" ou padrôes criam essa diferenciaçào (Boas. ~. 0 desmembrarnento negativo da cultura gerou. Dado. a carreira antropol6gica de Boas pode ser caracterizada com o um processo no quai 0 axioma or iginaI. C' '" 1<. Ele os vê co mo determinal1tes de flossa s pr6prias percepç8es do mUl1do externo. humano-sensorial. nao er~I11 comparaveis às mascaras ~ . a noçao "quantitativa" do traço cultural separado que Boas desenvolveu a partir da sua obsessao corn a con testaçâo do evolucionismo (Radin. 159. de um ponto de vista mecanicista.para Unl fisico.

de dois tipos de atividade ou duas fraçôes da populaçao. essencialmente. demogrMicas. de dois grupos tcrritorialmente vizinhos. nas duas partes do ano.em oposiçao a um certo marxismo . que. seremos conduzidos a despedaçar a noçâo de organizaçao dualista camo constituiodo uma falsa. sob uma significaçao unica. cerimoniais). S ). 0 contraste te6rico entre Boas e Morgan pode ser estabelecido..7 "' .74 Cul/!lra e razào pratica Dois paradigmas da tcoria alltropol6gica 75 Procurar-se-a entao levar ao extremo 0 nominalismo boasiano. por outra lado. Boas in tercalava um subjetivo independente entre as condiçôes objetivas c 0 comportamento organizado. agrupando. por fazoes cm si mesmas variaveis (econômicas. 1963b. FIGURA 7 -. 0 VoIkergedanken ou 0 padrao dominante. do homem. contudo. exatamente coma nas raizes da palavra ou_'2a. Ao nivel psicol6gico. que as funçôes atribuidas à organizaçao dua\ista nao coincidem. de [arma geral. os termos da afirmaçao de Lévi-Strauss da sua posiçao . "arbitriria" cm rclaçao a qualquer outra lîngua e cm relaçao ao real. enquanto para Morgan é a codificaçao (codiJicntioll) de distinçôes externas. uma forma caracterîstica de auto-retlexao cultural. a estrutura do simbôlico desenvolvida por Boas corrcsponderia às posiçôes empirico-racionalistas do tipo que Morgan manteve. Assim. 0 termo interventor pode ser caracterizado grosso modo como uma operaçao mental. Ao nive} cultural.da natureza. ~ . < . gerado pele contexto e pela experiência anterior. Onde Morgan entendia a pratica e suas formulaçôes costumeiras pela 16gica das circunstâncias objetivas. ao governar a percepçao. de um lado. A semelhança das duas f6rmulas corn a de Lévi-Strauss é indiscutîvel (p. ao rncsmo V tempo. da fusao.] A problematica geral de Boas difere. 0 termo mediador é a tradiçao. na apropr iaçao do percebido pelo conceito. continua naD sendo formulada pelo grupo humano que vive nela. sintaxe de uma \ determinada lingua. da distribuiçao no interior do grupo. a experiência nao é simplesment~_fepresentadâ'. Adotando esses termos. Se na concepçào de Morgan pensamento e linguagcm funciOi}2m comC\. Na vcrdade. como mostra a figura 9. de modo que 0 segundo nao derivasse mccanicamente do primeiro. que a historia de cada grupo social mostra que a divisâo cm metades procede das origens mais divcrsas. 50b forma de instituiçao. a significaçao do objeto é a propriedade do pensamento. uma variedade de coisas ou eventos que nas outras lînguas poderiam ser concebidos e denotados separadamente. um apelo post-factum à racionalidade de pratÎcas cuja verdadeira lôgica é nao-explfcita e cujas verdadeiras fontes sac desconhecidas. ao passo que para Morgan 0 pensamento é a representaçao da significaçao objetiva.é classifica-1\ da. mas outres costumes.ual (c6digo) . dos igualmente indispensaveis para a manutençao do equiHbrio social etc. A linguagem é um exemplo privilegiado desse processo inconsciente. se exerce necessariamente cm uma teoda . [LéviStrauss. crenças e proibiçôes sac tamb ém baseados em pcnsamentos e idéias nao-retletidos e imemoriaveis. de comportamentos antiéticos. scgundo 0 casa. É clara que 0 "es que ma conceitual" tem uma qualidade diferente nessas duas perspectivas. a negar as instituiçôes em beneficio exclusivo das sociedades.lO-l. isto é. as instituiçôes existentes e a sua interaçao (figura 8). e. cada lingua é. de uma problematica do srmbolo. especifica a relaçao entre estîmulo e resposta (figura 7).descrevem Boas corn exatidao. Para Boas.612). E como toda classificaçao deve ter seus princîpios. calegoria e. da invasâo de uma populaçâo par um grupo de imigrantes. priticas. _' operaçao mental (2) Nivel psicol6gico estfmulo resposta FIGURA 8 tradiçao (V6/kergediinken) (3) Nrvel cultural meio ambiente ~nstituiçao FIGURA 9 esquema conceitual (c6digo) (4) Boas: praxis (5) Morgan: praticas '. Essa teoria. mas julga. estudando cada um dos casas observa dos como se fossem outras tantas entidades individuais? Dever-se-a constatar.~o"lla de Boas tl-ata-se. estendcndo este raciodnio a todos os outros aspectas da vida social. p. da cristalizaçao.'" ) praxis _ prtiticas_ esquema conceit. de regras empiricas destinadas a assegurar as tracas matrimoniais no scia de determinado grupo. é a encodificaçao (encoding). do ser humano na natureza. onde foi primeiramente anunciado. Assim. radicalmentc da de Morgan. em direçào ao quaI 0 pensamento de Boas estava cm continuo desenvolvimento. Boas afirmou que a formaçao de uma cultura. como um pracesso de tomaI' a experiência significativa. especificando até mesmo 0 tCl titl1n quid entre a praxis e as prâticas como um "esquema conceituai" (ou c6digo). portanto. Todos eles sac baseados na categorizaçao da experiência. Boas exp li ca: . Na re31idade. que ordena ao mesmo tempo a relaçao com a natureza. Para Boas. a organizaçâo dualista pode resullar.

m es mo hOJe. devc sec expresso através de u m nûm ero Iim itado de palavras-lroncos. que ha algum tempo nos contentavamos em atribuir a razoes religiosas. A tardia i.)" Boas argumentoli mais tarde . quanto do que considcramos como inst ituiçôes e crenças essenciais de v se r a~a ~ .\ r um costume que. as categorias de linguagem sao automa ticamente reproduzi das na fala..20B). essas c1assificaçoes podem ser baseadas em prindpios funda~ mel1ta lmente distintos .e lisado como uma elimologia do povo? Por outro lado..76 C ulfl/ra c razào pratica Dois pnrndigmns dn ' carÎn mr'ropo/6gicn 77 ~ ~ 'Jill . ~. . como cscre·veu Boas (196S [1938 j. E em alguns aspectos. 1965 [1938]. sem qualquer di ferc nça associada à capacidade de distinguir fo rm as de cor . ver também Boas.co mo ideologia. COI1s!ste ntes co m c. pA) . a unica base das categorias terlllinol6gicas. e acima de tudo sua utilidade.. no duplo senudo de meren te a natureza e de normal à cultura. Issa coin cide corn um traça fund amen tal do pensamento humano. Mas a continuidade do costume é sem pre vuln era. A racionalidade é nossa racio nalizaçao..a ap_l"opnaçao das realidades significativas dOlS vidas de outros povos pelas raclonahzaçoes sec un~ darias das nossas pr6prias. internas aos pr6prios fenômenos" (S tocking. . para n6s. p. de aeor'd o cam suas semelhanças. A importância do fato de que a palavra faz surgir um quadro diferente na fala e no pensarnento. 0 co mentario sobre a analise racional ista de Morgan implicado pela noçao de consciência secu ndaria Jlao seria difici l de ser desenvolvido.204-25). nao aparece mais como algo arbitn. bem co mo um a fonte dela. co ma ~ utIl. p.I. coma um L odo. sendo 0 m e d ~ ~e filhos nào-saudaveis . mas que hoj e é "um conceito uti li tario. POl" um bdo.uma teo ria etnol6gica. Ele enfatizou. Por co nsegu inte. Illas como algo motivado pela re~lidade cultur~J. Boas fornece a exe m ~ plo do tabu do incesto.>: '" As Ii nguas difc rem nao apenas qua nta ao carater dos scus elcmentos fonéticos e grupos de sons COll stitutivos mas também quanta Olos grupos de idéias que e ncon~ tram expressao cm grupos fo néticos flXOS .~cio nais". 1'. o costume. p.63). ao passo que as categorias da cultura a atin gem. Se po r um lado "a ori gem dos costumes do homem primitivo nao deve ser procurada e~l . qu er so mente p ela comparaçao co'rn outras formas.hio em relaçâo a uma realidade objetiv<i. é a forma pela quaI nos exphca~ mos a n6s mesmos. mas como satisfaçao de uma demanda por jus tifica~ tiva.65 ). comport :lInento que se tem à mesa ofereee também um barn exemplo d~ c~pbcaçao secundar. nem dois estados de sen ti do-impressôes ou emocionais sao idênticos. toma-se um obje to de contemplaçao. p. Em nossa experiência real. po rém. A difere nça desponta essencialmente no m odo de reproduçao. 1966a [ 1911).I. que as categorias de uma populaçào (dai os interessc5 e as necessidades) nao podem ser comprccndidas pela invocaçao de processos racionais. embo ra a linguagem e outras cos tumes sejam o rganizados por lima 1 6gica n ao~re­ f1 etida) ha lima diferença entre el es no fato de que as class ificaçoes da primeira normalm ente nao atingem a consciência. Nào ma is como um princîpio d e classificaçào. (1 911 ). cmprega.. A 1 6gica cultu ral reaparece entào sob uma forma mistificada . isto é. Nessa mesma época. [Boas. • el: Variedades antropol6gicas da razâo prâtica Anunc iado prim eiramente na obra de Morga n e Boas.ivel" (Boas. Par excrilplo: observou~se que as cores sao c1assificadas em grupos bem dist intos.. de acordo cam suas semelhanças. quer na socializaçao do jovem. 2IS). Dma vez que 0 âmbi to total de experiências pcssoais às qua is a lîngua serve é infin itarncnte variado c sel! objc tivo. 1974. 15 0 exemplo mais conhecido é a origem do cornpo rtarnen\ o que sc tem ii Illcsa: "0 easo. e de que eXIste Ulll penga semelhante d~ se furar a lfnglla ou os l:ibios cam os garfos de aço pon li agudos comUlllcnte usados I~a Europa.nvcnçào do garfo e a fato de facas sem co rte serem usadas em muitos pafses. A razoablh. p. 1965 (1938). surge da! a intuiçiio de que a (aca naD e usada dessa manClfa porque. pois poderia facilmente acontecer 0 c~lI1tr:i rîo. cm grupos mais au menas amplas. processÇ)s [. e emprestamos uma expressao convencio nal que mal parece razoaveJ a uma razao convencional q ue permanece n ào~exp ressa . [1 938].. esta ndo tipicamente sujeitas a uma reinterpretaçao secu nd aria (1966a. de uma extensa classificaçao de experiências que devem necessariamente ernbasar todo 0 discurso articulado.o . quando interp retamos 0 conven clo nal.da~ de das instituiçoes. ~s. delxam claro que eSS<l explicaçao é apenas uma tentativa radonali sta secund dria para expllc. apebn do para os "interesses" ou para as "ncccss idades" do POyo. cujas limites padern ser determinadas por uma gra nd e variedade de pontas de vista .. / Em vârias culturas.68-9).. de acordo corn a c1assificaçào do verde (com J a arnarelo ou do verde [camI a azul coma um grupo.ndo-a. de fato. 0 status do que poderia se r enUio descrito C?I1"lO .. cram vaganwntc fun cionalistas. difici lmente pode ser exagerada. co nseqüentemente.' gem de certos proèessos rac ionais podia ser procurada no costpme. por outro ~ ~n~ . baseados no raciodnio conscien te. de outm modo.devido ao casamento dentro do grupo de parentes proxlmosap resentado coma a razao para nossos sentimentos" (I 965.em uma observaçao hoje cJass ica _ que. 0 desacordo basico ~obre a natu reza do objeto antropol6gico co ntin ua a se fazer presente. cspccialm ell{c 11 0 vocabu/<irio. _ As implicaçoes dessa com preensào para 0 proJc to ant ropologlCo alnda nao es tâo rcso lvidas. Por isso é que Morga n fez dessa co ntradiçao. num ce rto se ntido. Coma nao é usual se levar a (aca il boca.189~90. 0 comportamento relletir a d assificaçâo. permaneceria inexpl ic. Foi a partir dessa posiçao que cIe encarou as teorias de Morgan de tenn inologia de parent esco (por exemplo. ta mbém se transforma. nao fora m ai nd a percebidas. e de 14 As cxplic:lçôcs de Boas dos gr:lus de generalizaçao c difcrendaçlio. nao parece sel" maIs pOSS IVel com part ilhar do otimismo de Boas quanto às catego ri as an trop~I~~icas que. isto é. Encaixadas em regras inco nscientes. no "natural". p. ou na lltilidadc pdt ica ( 1965[ 1938 ). oposta à formaçao das Ide.vel à ruptura. A questao é que. co rrer-se-ia a risco de carlar os 1 5bi~s.las e costu mes às qu ais das se referem . F . por algu ma operaçào positivista continuada . Em todo caso. poderiam ser realm en te "derivadas de. N6s os classificamos. 1966. Boas recusou~st' a reconhecer a pnltica camo sen do.

36). Devemos ter como base. Malinowski torna~ se mais interessante para certas implica ç6es te6ricas do argumento das praxis que sâo apenas sugeridas em Morgan. de todas as man cil as. Aigo deve ser dito sobre a relaçao sujeito/objeto. ponto pOl' ponto. uma inversao do relat!vi~mo b~asian~. 1957). -' --." E em segundo lugar. em cada estagio. reproduçao. 0 acordo em termos de principios entre 0 arquievolucionista Morgan e 0 arqu ifuncionalista Malinowski é muito mais completo. No final.. _. ela diz mais 'sobre de do que sobre os "selva gens" . __ 1r s~ ~ ~ . ou scja. as perspectivas posteriores que aparecem demarcando rupturas te6ricas encontram-se..ela ~ mesma indulgência. o sc ntldo dominante do projeto de MahnowskI cra reduzlr... a dcscriçao. que contrasta Iadicalmente corn 0 relatIvismo ~oaslano. "fetlChismo da eco}ogla': "dualismo utihtario" e "desapareClmento da cul tU! a" A p lll11e lra tem a ver corn a relaçâo partlCular su}elt%b}eto envolvida na ênfase pl agmâtIca. logo.~bon~lI1es (~f. parciaI1 mente mate rial. as condiçôes fisiol6gicas da temperatura. Parece muito para'doxal agrupar certas ênfases te6ricas de LéviStrauss e Leslie VVhite? (ver mais adiante. assim como a metade de funcionalistas ou evolucionistas encontra um improvavel aliado na tribo do outro. como se orientada por uma espécie de super-racionalidade . _. Leach.l?!). desempenham efetivamente uma funçao na sua vida econômica . Malmow~kl cscreveu: "Na realidade..---_ .. contidas ali e em muitas versôes posteriores.. se informada y.c.1 :t 3 ~ ~ ~ Malinowski e 0 "neofuncionalismo" De uma forma ainda mais explicita que Morgan. 0 IntlchlUma e lucratIvo. Apresentar a concordância. a valores pratlcos (Jela-se bioI6gicos).l? eVl._-- -. p. construîda a partir da açao pnitica e do in ter. embora elas estejam. parcialmente humano... corno as ditadas pelo metabolismo. Desta forma é que se distingue U111 funcionalismo do outro. e esse reconhecllllento acabara admitindo a explicaçao. Abordarei diversas dessas implicaç6es. ~ j ~~ ~ ~~ ! ~' 1 ES . Isso ~ -"'-"'----""'1 "c . de fato. um importante papel na sua organizaçao econômica [Richards. Simples ou complexa.através de outras controvérsias te6ricas. à satisfaçao de uma necessidade fisiea" (Malinowski. Em tiltima ana lise. Jarvle. como também um historicismo do outro.-l . subentendida pela compulsao em atribu ir um "sentido" pratico a um costume ex6tico que é tao intricado quanto nao é de cara uma questao de necessidade pratica. ~ Ha nisso uma dimensâo mais ampla do que a implicaçao 6bvia d~_que. 1957.esse. costumes aparentemente bizarros.fico". isso se deveu apenas à reproduçào. ~.. na realidade. em pendência ao longo das mes mas linhas que separam a visao de Morgan da de Boas. Sob certo aspecto. P 2-3) Ele gostana de mostrar que a razao subJ3cente as mascaras aparentemente sem senti do do que en tao chamavamos de "selvagens" (Richards.". corn suas danças selvagens. de quem emana 0 projeto da 16 Como 0 projeto de Malinowski é popularmcnte descrito: do blzarro ao bazar 0 artlgo d: Leac~ (1957) sobre Malinowski faz uma excelcnte ami!ise clesse processo de "fazer sentido".dente que MahnO\vskt fOI 01 ientado poruma sllnpatia pecuh:r para corn oS. "tel [Q I ". mumificaçao etc. p. "toda realizaçao cultural que implica 0 uso de artefatos e do simbolismo é um realce instrumental da anatomia humana. Seu primeiro artigo foi publicado com a intençâo de demonstrar que as . p. através do quai 0 homern é capaz de competir corn 0 concreto em problemas especificos corn os quais se defronta" (Malinowski. Isto nao significa subestimar 0 alcance de antinomias famosas tais como "hist6ria/ciência': "cultura/sociedade': "diacronia/sincronia': Mas se essas oposiçôes foram bem-sucedidas 30 gerarem 0 desdobramento de UI11 momento te6rico para 0 seguin te. 196 9. do texto de Morgan corn 0 de Malinowski seria ca ir no lugar-comum.IS) era algo que qualquer europeu poderia entender: a vantagem materia1. ~ 'V' ' . p.. 0 abongme S australiano é nosso irmao: ff g . até na mais recente ecologia "neofuncionalista".. toda cultura deve satisfazer ao sistema biol6gico de necessidades. escreveu Malinowski. Utilizando uma frase do soei6logo ffancês Baudrillard. 'l significava. e principal mente. cOtlvade.106-7).. que podem sel' resumidamente intituladas Desde 0 começo . publicou seu primeiro artigo importante sobre a vida econômica dos habitantes das ilhas. 1960 [ 1944). Ela eleva 0 antrop610go à divindade de um sujeito constituinte. Por ser mais explicito.18)16 !k l~ . a cultura é referenciâvel à utilidade prâtico-orgânica. Ap6s a sua viagem de estudo às ilhas Trobriand.. é como se a cultura fosse uma metafora sustentada sobre as funçôes biol6gicas da digestao. cm termos familiares. na realidade. pA). e refere-se. de costumes cx6ticos" (1960 [1933 J.. de "0 h llh ris etnogrJ. 1 todos os modos . e parcialmente espiritual.mais geralrnente de que a "ética" do antrop610go é a "êmica" da sua pr6pria sociedade. • . dois axiomas: "Ern primeiro lugar."<. do Inttcluuma austrahano ao totemlsmo de Trobnand. 1960 [1944).p. é "um vasto aparato.) estâo essencial~ente ligadas ~ elemcntos culturais muito univcrsais c fundamcntalmentc humanos. no quaI manifestava a mesma determinaçao de provar que aquilo que aos europeus pareciam trocas de bens cerimoniais sem utilidade desempenhava. internamente.--. seremos capazes de provar que aigu mas realidades que nos parecem mUlto estranh:ls il primeira vista (canibalismo. "rendimentos decrescentes na explicaçao funcionalista".à quaI a Iinguagem fornece apenas a vantagem de um suporte te6rico (cf. scus_ corpos pintados e seus escudos simbolicamente esculpidos. direta ou indiretamente.J '" 1~ 5-~ 5S:-? : ~ f . Malinowski considerou a cultura coma a realizaçao instrumen tal de necessidades biol6gicas. '. cerimônias Intichiuma dos aborîgines australianos. 78 ClIltura e razao prririca Dois paradigmas da tcoria flmropolOgica 79 . um interesse na utilidade das mascaras aparentemente sem sentido do que entao chamavamos "selva gens" foi 0 ponto principal na sua obra [de Malinowski]....:1 . 1967. das contradiçôes nâo-solucionadas na base. se a interpretaçao for aceitavel ao europeu..

cf. . Para uma excelente discussao da atitude de circunspecç:l.sl'gu inte pergunta. 196.. corn suas danças selvagens. 1 { 17 Radin apresenta resumidamente 0 pri ndpio de Bo as de que "ninguém tem a dircilo de alterar a fo rma cxala na quai suas in formaçôes foram recebidas". Uma teoria. Smith.H o rdem nos fatos.10 sendo nem sensiveis nem racionais . j\ l:tl inowski . parém. fazendo assim cam que sua existëncia 1 estrutura J dependa da delco l'ara Mal inowski cra um p o nta import~l1t e do método etnografico "p crecber () ponta de vista do nativo.ou sej a. a social . portanto. . devo muito a Firthjof Bergm3 nn e Raymond C.fcita esta critica .dela. quanto a uma primeira formulaç âo da "lei dos rcndimcntos decresccntcs para a explicaçao funcion alista" que deriva .Il. Leach coloca a feitiçaria corn o \l1ll c:ü'mplo d o que acaba de ser d ito: "De aco rdo cam a dogma d e Malinowski. 0 ~ qu I:'" ~. cm pri m eiro lugar. cm lOlll !. i n ~. uma contradiçao clara entre esse empir ismo e a compulsao para disso lve r costumes estranhos cm noçô es ul ilit.1Y. critique em profundidade a tentaçâo do mestre de retalhar a cultura em pedaços. cie co mpn.nos uma avaliaçao in completa e Il:1o-sist€'matizada. Ele se apresenta exacerbado quando a fun çao é buscada ao nivel biol6gico.i ri 3s. conseqüente- . que estimulavam a produçao através da antecipaçao representada pelos ritos (Malinowski. r6seas: sou eu quem as descrevera ou criara" (Mali nowski. .. nao s6 em Malinowski. Areas intcÎras da cultura escapam. 1957). . 'desempenhavarn uma fun çao na sua vida eco nômica" . Para Malinowski. 196611926]). na quaI 0 co nteudo é trocado por uma "compree nsao" d e le. Vayda e Rappaport. quanto pelo "conhecimento" que oferece.o de Boas para corn 0 fen6meno em si mesmo. pequenas cabanas cinzas. por conseguinte.'I1~ co m tais regras e entre si (cf. po rérn. e nao em coloca r os fa tos em ordem (cf.l:' / t' (('IIl~ i ~i. BO . uma vez qut.dos qu ais Malinowski deixou. se m se benefi ciar de nenhum en tendim ento d a sua parte. nem m esm o sua propria in teligência podia entraI' em ce na. sen do sua consistência interna. embora. Malinowski 0 criaria: "Ouço a pa!avra 'Kiriwina' . o funcionalismo utilitario é um a ceguei ra fun cion al para 0 conteudo e para as relaçôes interna s do objeto cul tural. co m o chama Leach.l. A explicaçao funcionalista é uma espécie de barganha feita com a realidade etnografica. Ele co nsiJt'r~lY. esto u pronto. polîtica .a orgâni ca. para compreender a sua visâo do sel! Ill undo" (1950 [ 1922 J p. 18 Quando Malinowski demonstrou que "as cerimôn ias Intichiuma dos abo rfgines australianos. é avaliad a por sua funçaO. Em tud o isso... esses corpos pintados e as mil outras propried ades do Intichiuma? Esse empobrecimento co nceitual é 0 modo fu nciona lista da produçao te6rica. esta aftrlnaçao .uaç:1o com os motivos rea is pragmaticos q ue governavam as relaçôes dos hOI11I. a "selvagem" era negatividade pura.140). quanto men os tenl ar compreender sua 16gica in erente. 1912) . nos seus propr ios termos. Ele nào existia.parentesco. De fato. 0 conteudo é ap reciado apenas por seu efeito instrum ental. 1966b [ 1940 J). deve ser julgada tallto pela ignorância que exige. 1959). Ha.:: .' n uid . p. 1957. e nada do se u conteudo especifico.' IÜO fonnam nenhum. a uma explicaçao fu ncionalista.l. a partir d e um respei to decente pela ininteli gibi lid ade do indi o. Este cra Uffi principio fundamental do seu "cmp irismo radi ca l". . su a relaçào com a vida.se recusa a rcconhece r qualquer capacidad e no sis tl'Illa cult ural.lde cmpi ri sta d e Boas cons ist ia na ilusao d e que a pr6p ria orde m se \ revelar ia exatamen te tal como apresentada. 0 antropô logo foi reduzÎdo ao status de um aparelho de gravaçao. 1948. ':O tl1('\ t. 1965. como tamb ém em vers6es mai s recen les da antropologia (cf. 1967). Sornente a fra çao mais infinitesimal dessa rica realidad e. Boas fo i mu ito I1Ul:' illù)t'fe nte.:h.l que os fatos "falariam pOl' eles m esmos': Hojc cm di a. Kroeber lançou a . Clllll/ra c razao prtltic(/ Dois paradigmas da teoria ant ropoMgica 81 Em vez de submeler-se à compreensào de uma estrutura corn um a existênda in dcpendente e autênti ca. 0 "empir is mo" en tao deve cO ll sislir na aplicaçao radical de uma teori a .\. Kelly. Ë hem wrJade que Boas termi na ria tendo uma co mpreensao do parentesco Kwakiutl i:!ll~ll à que Malinowski teve do sistema Trobriand. pensando obviamen te em Malinowski: "Por que um Yurok nao (O ill e l' Ill sua canoa en quanto navega no occano?" A questôes como esta "nao ha Ilenhuma rcsposta 6bvia coma a que se da a pergunta s do ti po: por que uma flecha é eillplumada ou quai é 0 uso dade a uma rede de pescar" (Kroeber.l (1$ textos e declaraçôes d e pessoas co mo simples formulaçôes do id ea l. m enos intensas e mai s mediatizadas d evem ser as relaçôes en tre esse fato e os fen ôm enos dessa esfera. devido a algul1s d esses mesmos escrupulos t'c6ri cos. nu~i. Cer ta vez.0 que de fato aprendemos sobre essas danças selva gens. na mesma obra. p. Quanto mais 0 fato cu ltu ral se afasla da esfera da utilidade à quai esta referenciado . adotando um tratamento difusion ista..17 Tratava-sc aqui d e uma relaçâo total mente di fe rente corn 0 objeto.nunca foram efet ivam ente in corpo) ~ radas ao esq uem a fun cionalista" (Leach.128-9. Mas. \\alillo"'ski inverteu nao apenas as prem issas de uma antropolog ia boasiana.:1 dos in teresses praticos e d o calculo pessoal . as crenças em feitiça ria 1 . ver seu artigo "0 estudo da geografia" (in Boas. Ha uma enorme dispa ridade entre a riqueza e a complexidade de fen ômenos culturais como 0 Intichiurna e as noçôes simples d o antrop610go quanto às suas virtudes econômicas..'ènde a est rutura pela sua compreenstlO do objelivo dela. porém. Nadel . p. mistificada como sua utilidade externa. Vayd a.. a econômica.I967.lI11bém 0 relac ion amento original do antrop6 lo go com a po pulaçao. t-tlYia muitos outros dom în ios da vida dus îlh as Trobriand . '~ cc r ~ 80 c lil l ur ~l.25 ).que sustenta que as rnaneiras ap:1n.. pelo quai essa racionalidad e é natura l à espéc ie humana.:' !'rocurava cra uma submi ssao à cu hura em si mes m a. 18 Neste ponto.--------~--- '-"'1f'~. 0 qu e é qu ase sempre verdadeiro. Malinowski. p. se us corpas 'p intados e seus escudos simbolicamente esculpidos. através dos textos d e mil receitas de salmâo.('fada como a sign o de um empi ri smo in gênuo.'ntl'mente peculiares pelas quais as pessoas estào agindo nao m erecem em na da. 307). um comp romisso em 1 t'n. entre outras imperfeiçôes do método historicista (1966 (l933J). senti do pnHico aparcntc.:('tHr. a nossa alençao.

substituir a particularidade pele univcrsal. ma ior sera a variaçao de prâticas cultura is alternativas que poderiam servir igualmente (até melh or) ao mesmo prop6sito. tornar-se 0 objeto de um tratamento da mesma ordem. ] f Em francês no origina1.l \j 82 Cu/tllra c mzao prarica Dois pamdigmlls da tcoria antropol6gica 83 ~I 1 mente..] É 0 conteudo que deve ser compreendido. E menos ainda teria sido obtido se Malinowski tivesse levado adiante seu projeto. e até mesmo a anâlise da pr6pria li nguagem . lai coma uma obra de arte ou um ato poHtico. iniciados ou nao~ inic iados. po nto par po nto. submete 0 natural a uma 16gica espedfica da cul tura. etc. com esse prelex~ to. da gama das sensaçôcs ou'dos afetos. a natureza arbitraria do signo. a poesia de uro Valéry é repudiada coma um exe m plo de "idealismo b urguês': A crîtica de Sartre parece apropriada.e. 0 método é idèn tico ao terror na sua recusa inflexîvel do dlferetrte. dos rirmos do dcsenvolviOlenta do corpo. a abstraçao do simb6li co atinente ao objeto foi complementada pela simbolizaçao de uma abstraçao pertencente ao antrop610go.sobrevivência humaI/a. de um "banho de acido su lfurico". por sua vez. compreende-se por que a explicaçao naturalista é sempre insuficicI11 po is a essência e. Para nos provar a indeterminaçao de qualquer dessas explicaçôes. Dai decorria que a i ntel~cçao .166-7. Lucien Sebag demonstra-o bem: dar senao 0 esboço da pr6pria forma da cultura. A relaçao do dado natural coloca isso em pie na luz: quer se trate da sexua lidade. Para a maioria dos marxistas. à p ratica funciona lista clâssica: <. é a cultura como um todo que se deixa de fini r da mesma rnaneira. 1964. Ai ent~ o . possivel de esforço. ficaria comp letamente perd ido em u m d iscu rso de «necessidades"vazio de significaçao. e particularmente d a irredutibilidade do cultural aos nfveis constitutivos da integraçâo feno m enal (superorgânic% rgâ nico). Quanto ma is se recorre às vantage ns econômicas. necessidades numatlas. As relaçôes domi nantes entre os cHis to têmicos. p. que envolve 0 objetivo apenas selctivamente. Parentesco o u tOlem isl11o. a anilise que pe rmeia todo a seu Magic Science and Religion (1954]). num contexto analogo. Na realidade. 0 co n teudo cultural. Da mesrna forma. é este illtimo que deve ser compreendido. menas intensas e menas especificas serac as coerçôes sobre a natureza do costume cm consideraçao. ou. A atividade lingüistica aparece portanto como um esforço pe rmanente para submeter a um conjunto de formas um dado que sempre ultrapassa os seus limites. D eve haver muitas maneiras de estimula r a produçâo além de encenar uma cerimôn ia Intich iuma. a pratica funciona lîsta.em relaçao a tudo 0 p rimeiro passo de Malinowski era negar qualquer 16gica interna. mito ou magia.. podendo 0 que é abandonado. [Sebag. men as determ inada sera a explicaçâo através de vir tudes func iona is. a ûnica coisa que importa é mostrar que 0 pellsamento é um modo de idealismo . tentasse compreender a originalidade de um pensamento burguès. Sartre fala.48-9. par exemp lo. Qualquer que fosse 0 dominio cultural em questào. sua meta é a assim ilaçao total corn um minimo . apenas uma forma de comportamento assumida pelas forças mais fundamentais da economia ou da biolog ia.]. ele exam inasse a cerimôn ia ao nivel do fato social. nao nos pode u formalismomarxista é um projeto de eliminaçao. Além d isso. homens e mulheres. ora. pensar é exigir totalidade e. a explicaçaa sai frustrada no seu objetivo de tomar 0 costume inteligîvel. esta é uma forma bizarra de se ocupa r dos seus pr6prios assuntos. (Sartre. cuja especificidade consiste no seu sign ificado. até 0 nivel biol6gico.. consiste em considerar as propriedades culturais simp les mente camo a aparênc ia. ter~ain de percor rer u m longe camin ho até tornar inteligiveis as danças selvagens e os escudos esculpidos.mçâo nat ural esta relac io nada. 0 marxista pensaria estar perdendo 0 seu tempo se.. conseqüentemente. nunca do seu conteûdo. Mas nao é esta uma caractcdstica apenas da linguagem. . é levado a tomar por aparência 0 contcûdo real de um comportamento ou de um pensamento e. menos é dito. 0 objetivo . Delerminaçôes espedficas despertam na teoria as mcsmas suspeilas que as pessoas despertam na realidade.. preservando para de uma relat iva autonom ia. em favor das determinaçôes gerais de classe e produçâo. inversamente. descoberta aquém das diversas modulaç5es culturais. C0l110 ja vîmos. e as d eterminaçôes especificas do seu autor. a fo nte geral de inadequaçâo nas explicaçô es pela f~. tem a satisfaçao de acrcditar que esta reduzindo a aparência à verdade. A regra deve ser concebida com o uma expressao instrumental da "autonomia relativa" de d iferentes dominios culturais (ceri m ôn ia/economia). menos essa funçao especificara 0 fe nômeno. toda refraçao de uma realidade através de uma linguagem implica uma pe rda de informaçao. Te ntou ~ se fo r mular u ma regra geral dos re ndimen tos decrescentcs para a explicaçao func ionalista: quanto mais distante e d istinta a prâtica cultu ral do observador da sua pretensa fu nçâo. por definiçao. 1963. No entanto. por conseguinte. qualquer est rutura sig nificativa. - ! . é vantajoso 0 Intichiuma? 0 entendi mento func ionalista d e Malinowski teria sido mais convincente se.. 0 concreto-real cultural torna-se um abs tralo-aparente. por exemplo. Esse é 0 nosso objetivo.à atividade valora~ tiva da simbolizaçao: ma is um a vez. Nesse ultimo aspecto. à la Radcli ffe Br6wn. basta inverte r a questao: é vantajoso aumentar a prod uçao . 0 ataq ue de Sartre tinha camo alvo um certo marxismo. Malinowski disso lveu repelidas vezes a ordem simb6lica na verdade âcida da razao instrumental. da necessidade. Aos seus 01h05. quando dissolve 0 particular no Universai. seu exame s6 podia começa r livrando-se da co nsistência simb6 lica.nao é integrar aquilo que é diferente enquanto tal. p recisam ente. como as forças supostamente essenciais sac na verdade abstratas . O marxista. l! nccessario levar-nos de volta ao concreto [0 material] e conseqüentemente apresenlar-nos com determinaçôes fundamentais mas abstratas . que se contenta em negligenciar a 1 6gica autêntica de um "fato superestrutural". ao fenômeno coma tal (ver.p. crença nos espiritos ou d isposiçao do m orto.. cada sociedade aparece coma submetendo a um princip io de organizaçao que nu nca é a ûnico concebivel uma realidade que se presta a urna multiplicidade de transformaçôes. A partir desse fato. mas sim suprimi-Io . A partir dessa visâo.

Uma palav ra é um esllmulo co ndicionante da açao humana e torn a·sc. d e " 'apreensao' das c01sas"." (Malinowski. 20 " Para definir um som. e n30 sirnbolos de realidades ocultas.cn 85 jihum. ullla "aprecnsao" das cOLsas externas 30 alcance de qucm fala. devemos descobrir. Para uma avaliaçâo critica dOlS tcorias da linguagem de Malinowski. Malinowski. 0 signHicado nao é algo que rcsida denlro de um som lista é. p. Porexemplo.. Pa ce. e isso se dcve <1 respostas culturais produzi· das por treinamenlo..! 84 :a !l' :c. Do mesmo modo) " ha pouco . pode ser definido como a llludança produzida pela som no campor· tamento das pessoas.. nuo poderia ter qual ïquer papel constitutivo. ver Henson ( 1974). a teoria dos nurneros. p.. desca rtar·n os de todas as interpre· taçôes expl icativas e simb6licas d ess~s mitas de origcm. 1'. a "especulaçâo': como }. narrada para a satisfaçao de pro· fundos desejos rcligiosos. cm q uantos sign ificados distingulveis ele é usado. Pa ra Mali· nowski. anseios marais.nao no jogo Ido pensamento. isto é. . provavelme nte . Dai a famosa afirmaçâo de Malinowski sob re a mentalidade m anifesta nas classificaçoes totêm icas: "a caminh o que vai da selva para 0 estômago do selvagem. muitas outras diferentes.. mas urna ressurreiçao narrativa de urna realidade primeva. nao é "uma raps6d ia inutil . cf. dific il mente urn "selvagem" teria uro Interesse na natureza que nac fosse ditado pela fome.. 97) : Fica evidente tamb ém que 0 significado é limit ado à exp cr iência pela associa· çao. ao mancjo de uma anna. nao é simb6lico. . 1965! 1935 ] 2:72.• p. Ë um tipo de comporlamento intimame nte comparanl à man ipulaçâo de uma ferrarnenta. Boas. à exccuçao de um rituai o u à conclusâo de um contrato. "condicionamento" ou educaçao. na Ellciclopédia das ciêncÎas socÎais:"O signifi cado de uma palavra nao esta misteriosamente conlido nela.co murn ou da praxis infantiL "Mesmo 0 rn atermitico puro. no do instinto e da necessidade: Nessa perspectiva.. 0 outra é 0 seu pr6prio produto: o significado de urna ûnica expressao vocal. . sao d iferentes.' CIIltllra c razào pratica Dois paradigllul5 da teor. e conseqüentemente para a sua ca beça. a linguagem. deixa de ser a mesma palavra e to rna-se duas ou mais unidades semantkamente d istinguÎveis" (~. e para ele 0 munda é um indiscr imin ado pano de fund o contra 0 quai se d estacam as espécies uteis de plan tas e anim ais e dentre elas sobret udo as co mestive is" (1954. 1957. nao é os dois lados d o papcl de Saussure]. Ialinowsld. mas apen as uma infinidade de sina is co ntextuais fugidios . mas urna cxpressao direta do obje to cm questao.. na realidade. se a palavra é usada cm um contexto diferente nâo pode ter 0 mesmo significado. Qua nto ao mito. nem articularia qualqu er concepçâo além da raciona Iizaçâo clesse desejo. elc existe na relaçao do som co m 0 contexto. 1965 [1935 1 2:9)... de u m modo ou de outro. que nesses casos é rcduzida quase semprc a urna palavra. qualquer curiosidade 'que eles satisfaçam . é antes um efcito ativo do so m proferido dentro do contexto de uma sÎtuaçao. derivarn-se realmente do lugar.[alinowski a considerava. ~ . em vez de cJassificar il exper iència. nâo ha qualquer probJema de que eles dêcm conta. é ela pr6 pria dividida pela expe r iência. 0 q ue significa dizer que nao existern pa lavras. qualquer teoria que eJes encerrem. J 19 19 Malinowski dcscnvolveu essa visao instrumentaI·pragmalica da linguagem cm uma séri e de t'seri· tos. Leach. 0 costume se origina na prâtica.97).. mas no da emoçâo e do desejo. Uluas sao 0 instrumen ta. p. > o mito estudado vivo .a possu Îa alguma experi ência de contar seu s \ . as catcgo rias rea is d erivadas de atitud es praticas da criança e do ho mem natural ou prim itivo para com a mundo eircundant.a IlI!tropolOg. co ma os de ciência. p. lidando corn 0 ma is inut il e arroga nte ramo da sua ciência. "A li nguagem esp elha. . na sua estru lura.• p. ''As palavras sao parte da açao e sao equivalentes às açôes" (Malinowski. 1'.327-8). 1'. 1964 [ 1963]).59. submissôes sociais. Malinowski viu-se obrigado a co nc1uir que a "palavra" em questao é. nao é uma explicaçao para a satisfaçao de um interesse cientîfi co. Difi culdades sem elhantes se apresentam pelo fa to de que duas pessoas nao podern nunca expe rimentar a mesma realidad e exatarnente da m esrna m aneira. Ma is uma vez. ê correlacionado corn elementos espaciais c temporais e com movimentos do corpo humano que canstitui 0 seu significado. na medi da em que os contextos de dois u sos diferentes d a mesma pa lavra nunca sâo os mesrnOSj portanto. mas uma força cu ltural ativa.. a lin guagem n ao contém teoria aigu m a: ela nada co ntém. 20 Se fosse esse 0 caso.espaço para 0 simbolismo nas suas idéias c contos" (ibid .:ma. 1949 [1923]. n ada além de urn gesto verba l.. jj que "no final das con tas todo 0 significado das palavras é derivado d a experiência flsica': Malinowski insist iria em q ue mesrno os conceitos mais abstratos. No que toca à funçao explicativa desses mitas. cada um desscs so n s é uma "u nidade" d ife rente de todos os o utres.. 1931." [ibid. é mu ito curto. extremamen te importante" (ibid. urn conjunto ac idental de homônirnos.. a urna referência ori ginal e indicado ra que cont inua senda 0 conccito bâsico da exp ressao vocal através das suas reproduçôes s~bs('qüente s .elas pr6prias. Uma deJas foi "a doutrina dos homônimos": uma vez que cada referência cmpi ri camente distinta de d eterminaâa palavra collst itui um significado dist in to. ja que . Esta também foi a famosa abordagem de Malinowski à lin guagem..uuento m anual e fîsko" (Malinowski . da pa lavra com o categoria. proferido ap ropriad amentc. 1949 !1923] . riam existir como nés as entendenlOs.44) . Da[. levou Mali nowski a aIgu mas escolhas bévues. 0 segundo é a resposta. e até mesmo necessida· des praticas [ibid . . por assim dizer. 0 sign ifieado é a reaçao evocadaj as primeiras SaD 0 estimulo. ta m an ci ra pela quai um so m. mas dentro de quem ouve [ibid. na vida . VIlla palavra se diferencia de outra da mesma fo rma que a contexto do mundo real na q uai a p ri rneira ocorre é perceptivelm en te dis tingulvel d o contexto do segundo. é clare. r . certamente. E eom o as palavras sao aç'a. cujo significado cons iste nos efeitos indu zi dos sobre os o uvintes. A emissào do som é um ato significa nte ind ispensâvel a todas as forma s de aç<'io h uma na combinada. cf.622. a uso d as palavras cm Iodas essas form as de atividadc numana lem uma rebçao mütua e indispens:lvcl corn a compo rt.l 0 J . 1261 . no artÎga sobre "Cultura". 130·2). Esse tipo d e recusa fundamenta l do simb6lico. através do exame cuidadoso de contexlos \'erbais. Pademos. Os pcrsonagcns e seres sao 0 que parcccm ser na superficie. nem as palavras nem a corn un icaçao pode..

a maquinaria modcrna e todos os nossos dispositivos c instmmentos. que certas coisas acontecem como acontecem por causa de personalidades e mediaç6es materiais do meio ambiente que as produziram. Malinowski. é clara. Malinowski sustentava que 0 mundo nao corporifica idéia aIguma.. complcmentos. somos capazes de controlar nossa açao por uma espécie de 'ftaseamento' de nossos gestos . que a matematica foi posslvel e. E é 0 que faz ao admitir isso. Pode-se ver na compreensao que Malinowski tem da linguagem como trabalho e do significado como resposta produzida ao ouvinte a mes ma reduçao do sujeito humano ao objeto manipulado que informa sua técnica etIlografica. a cultura nao tem qualquer condiçao de ser analisada como uma coisa-em-si-mesma..203).. enquanto a segunda ja ai se prefigu. Mais uma vez. o canibalismo da forma pela funçao. 0 resultado de uma observaçao sobre o comportamento de outra pessoa nâo é 0 mesmo tipo de relaç300 como a do deito de uma ferramenta sobre a forma de um objeto. embora em contradiçao corn sua noçao de que a palavra nao contém idéia alguma: Nao existe descriçao destituida de tcoria. ou 0 ecologismo da vantagem seletiva (natureza externa). porém.1 21 Ricoeur (1970. que alguns fatores determinam 0 curso dos acontecimentos e outros sao simplesmente entreatos acidentais. por causa disso.. ' t 1 ~ · ·. constitui uma epistemologia para a eliminaçao da pr6pria cultura como objeto antropoI6gico prôprio. p. 0 Alter é simplesmente um meio para um fim. Enfocando particularmente a matematjca. Quer se reconstruam cenas hist6ricas. Vma matéria-prima a sel' trabalhada como qualquer outra. isso intluencia 0 "efeito" de todas essas concepçôes comuns de homens e coisas que. na sua opiniao. um descjo. a "palavra imperativa". p. mas uma significaçao. Ricoeur observa que no exemplo mais forte do mundo como praxis. tal camo afirmamos. no maximo incita à açao . superficie. 0 significado desse fraseamento nao é uma transformaçao das coisas ou dc n6s mesmos. confundindo a maneira pela qual 0 indivîduo é socializado no siste~ ma com a explicaçâo . a transforrnaç6es fisicas dc figuras. 1930).. todas as nossas maquillas desde a aurora da era mecânica. no sentido em que se realiza um piano. plurais etc. e toda significaçao designa vaziamente que trabalho realizara. a "efeito" requer a presença de seres simbolizantes em urn contexto simbolizado. Ricoeur escreve : ".86 Cu/tum e rf/zao pratica Dois paradigmas da tcoria antropo/6gica 87 trocados" (1965 [1935] 2:58).197-219) formula uma brilhante cdtica geral da noçao da palavra praxis pura (incluindo a palavra imperativa). Esse ascetiSlllO da linguagem matematica... Cada conceito.Ë porque 0 homem exprcssou 0 espaço cm geometria. p. ja que a "compreensao" inclui ao mesmo tempo um projeto e um sistema de va!oraçôes que diferenciam 0 mundo e as aç6es dos ho mens neleY Pode~se fazer a mesma afirmaçao de outra maneira.do sistema (cf. similaridade das figuras etc . ordenando essas inter-relaçôes. nem pele desenvolvimento completa de ambas. que 0 seu significado é externo aos seus "efeitos" empîricos . Nao apenas porque 0 outrc é um ser intencional como eu. toda declaraçao e toda argumentaçao têm de ser feitas em palavras." %. mas a primeira é definitivamente integrada em sua obra.. A eliminaçao por Malinowski do simbolo e do sistema das praticas culturais. 0 economicismo ou 0 utilitarismo se desenvolve a partir de sua distinçao entre norma cultural e atitude subjetiva. Mas se Malinowski tem de criâ-Ios.. isto é. igualdade. Pois todo 0 nosso conhecimento. a fisica e as técnicas matematicas rcsu!tantes das sucessivas rcvoluçôes industriais. . mas é esse tipa de erra que ele sempre comete nos se us argumentas ontogenéticos (como 0 da pratica classificat6ria do parentesco). ou pela men os deve categorizar e valorizar seletivamente as atitudes racionais das pessoas sobre seu comportamento nao-racional através de um princîpio n3oOdado pela encontro etnograflco... . Na medida em que a forma ostensiva desses costumes é estranha ou mesmo nao-funcional. Nessa concepçao. A palavra se articula cm frases.'JO 22 ''A palavra. se leve a cabo uma pesquisa de campo em uma tribo selvagem ou em uma comunidade civilizada . MalinO\vski ignora agui 0 fato de que 0 sîsterna de numeros deve ter antecedido a contagem. 1960 (1944). .• p.201-21). que designam sem nada fazer. " l ' . é através desse v:Ilio de significaçôes. em ûltima analise.. gerada por uma prolongada socializaçao na vida de Trobriand. E a essa ncgaçao do movimento e da atividade que devcmos as rcalizaçôes de Euclidcs. nao 'faz' nada. de Galileu.21 Finalmente. um objetivo . [Malinowski. que a palavra conecta e as estruturas agcm" (ibid .na realidade a "origem" .. 0 conceito de significado de Malinowski é inca paz de explicar seu pr6prio projeta etnogrâfico de dar sentido funcional ao costume ex6tico. Malinowski. cm conceitos.ra.1 . cIe nao é "produzido" como um bem mate rial é produzido (1970. Uma etnografia correta. 0 economicismo do individuo racionalizante (natureza humana). objetos. deve organizar sua experiência etnografica através de se us conceitos. em vez de vivê-Io e experimenta-lo em suas mcdidas rcais. por sua vez. E surpreendente que Platao tenha contribuido para a constmçao da geometria euclidiana através de sua obra de denominaçao dc conceitos tais como linha. seria exatamente 0 que um nativo de Trobriand teria escrito. mais decisivamente. mas se incita à açao é porque significa 0 que ha para ser feito e porque a exigência significada para outrem é 'entendida' por de e 'scguida' por cie . através dcla. determina a "intluência" especîfica da palavra... verbos e substantivos. é 0 resultado de uma teoria que declara que aIguns fatos sac relevantes e outros acidentais. p. e. teria sido impossîvel sem 0 heroismo 16gico de um Parmênides negando todo 0 mundo do devir c da praxis cm nome da auto-identidade das significaç6es.. porque a comunicaçao implica uma comunidade) e) conseqüentemente.204) . que se aplica totalmente a Malinowski . a que devemos.que investe 0 segundo como 0 verdadeiro operadol' da vida social... que impossibi!it:tvam qualquer recurso e qualquer alusao a manipulaçôes. camo insiste Ricoeur. nao é uma produçao no sentido literaI.. Sem prcpriedades distintivas por direito nato. . e da submissao. do "ideal"a um interesse pr6prio pragmâtico . Seu estudo degenera em uni ou outrc dos dois naturalismos vulgares. nao pode ser tido como responsavel pela invençao de qualquer das duas problematicas. Malinowski nao pode seT orientado pela experiência na sua interpretaçao. e sim. ~ .7. todas as palavras quc a princlpio nâo procuraram transformar 0 mundo cstao contidos dentro deJes" (ibid.

" :3 Fortes descreve corn agudeza a oposiçao entre nonna "ideal" e pdtica "l'cal" na obra de Malinowski. Mas ao separar dessa forma a ordem cultural do suje ito humano. É um instrumento no sentido de um conjunto de m eios à disposiçao do sujeito. E é um ambiente. mas tamb ém os motivas ocultos do comportamento. Todavia.24 Por outro lado. e as açôcs uma outra (oisa e mais verdadei ra. uma espécie de inversâo bâsica dos prindpios durkheimianos. manifesta.e de novo corn referència à :lçâO --'. tais como a solidariedade do da. assim com o a ficçâo é separada da vida real. elas também poderiam ser compreendidas nesse sentido. os antrop6logos sac envolvidos pela narrativa das "ficçôes legais" dos nativos. Os dados mais verdadei ros da etnografia nào consistern em fatos de ordern cultural. com posta d e dois tipos d ifercntes de objeto que se mantêm em relaçôes de contraposiçao e competiçao. procurando representa. as evasôes. Eles teriam qu e desenvolver uma analise que va lorizasse a açâo prât ica sobre a norma cultural . Pelas noçoes de Malinowski. senda as prim ci ras uma si mpl es co nversa ca m a "realidade" das ûltima s. a quem observa a vida diretamente. Assim. nao somente como um co njunto de coerçôes externas ao individuo. .. nao temos cm parte aIgUilla uma anâlisc artîculacla da organizaçao local. como nao preserva as propriedades simb6licas. 1957. desejo"s. registra os fatos.que. e que emcrgern cm ûltima instâ ncia de instintos huma nos universais camo 0 parentesco ou de sent irnentos hu manos comuns coma a va idadc e a :llnbiçào. enquanto especificamente humano. E isso. Neste ponto. ao agir assim. a famosa "imponderabilidad e da vida quotidiana': Muito freqüen ternente. ele prevalece sobre 0 convencional. os fatos das relaçOes e dos agrupamentos sociais sao. as regras eram llma coisa. par exemplo. 0 problema real é saber como as regras se tornaram adaptadas à vida" (ibid. A cultura. 0 amor mat ern o e a afeÎçao paterna. as açôes. pagamentos de valores aos afins. 0 ato. S6 elas têm direito a esse status. rituais mortuârios. Por um lado. em face de convençôes cul tu rais coercitivas. de significaçao e açao. cm contraposiçao ao 'ideaJ' <lU 3 ' teoria'. d esdob rada a partir dos atributos simb6licos. ins iste Malinowski.164) . cm termos de um csquema aplic:i. produçâo de inhame. do parentcsco c d3 cstrutur3 po!itîca trobriandesa" (p. a ambiç1io e a vaidacle demonstrad as. à analise formaI de relaçôes meios-fins baseadas em uma teleologia das satisfaçôes humanas. camo "cremos adiantc. Em princîpio. Malinowski desloca a dinâmica social para 0 nivel natural. a quase nunca formulada lin ha da conduta espontânea" (Malinowski. fatos meramente de costume e motivo. 0 interesse pr6prio.0 que é dtadocom aprovaçao par Parsons t assim dcscrito: "Consiste cm cx:plic3r um conjunto de f3tos corn propriedadcs que 0 diferenciam d aramente de outras. no final. sentimentos e emoçôes das pessoas. e 0 que 0 valha. tal corno diretamcnte obscrvadas pelo ctn6grafo e admiticla$ pc10s atores) vista coma a realidadc da vida social.la por forças que emanam do pr6prio organ ismo.1201). 3S fo nnul açoes simplesmente verbais (Fortes.88 CUIIl/ra e razao prdtica Doi$ paradigmas da ttoria antropo16gicn 89 \ 1 Mali nowski podia "ver as cnisi1s COIllO os nativos as viam': contanto que des concordassem cm ver as coisas da sua mancira.~ • . 24 Sorokin caractcriza corrctamente esse procedimento COolO "3 falacia da inadequaçâo 1 6gica~ . através do quaI ele alcança se us fins autofixados.. em seu esquema. poderiam ser relacionadas às classificaçôes d e parentesco ou às prâticas matrimoniais. com :lS crenças magicas. ou seja. 1968 r 19371 1:3 54). nâo pode fazer uma avaliaçao delas. as regras de exogamia c1ânica. se subordîna a uma outra 16gica .. da mesma forma que s6 elas sao descritas l'or propriedad es especificamente culturais: descendência matrili near. cm suma. A i11esma fahid3 se aplica tante ao ccologismo quanto ao economicismo (utilitarismo). A vida social humana é tomada como dividida contra si mesma.a compreender nao somente a sua lin guagem e as suas afirmaçôes.0 afeto subjetivo sobre a forma ostensiva. por exemplo. que represen tam somenle 0 "aspecto intelectual. exogamia dânica. sentimentos e pensamentos de indiv(duos cm situaçocs sodais.vel da mesma forma aos outros" (Parsons.as "da nças selvagens': as trocas de ornamentos killa que nac pod iam ser possuidos-co ntinua senda peculiar nas suas propriedad es observaveis. A imp ortância desse "c6digo natural. deve ser descri to e comp reendido em termos retirados de outro universo de discurso: necessidades. mercccnda as nonn as menas existência e analise do que 0 com portamento motivado por um auto-Înteresse iluminado.que é pensamento normal da ciência social da nossa época. os mûtuos serviços concretos. vive nesses abrigos junto ao seu 'material' corl1o par. da rnesma forma que a valorizaçâo de bens e a divisâo do trabalho. e a forma cu ltural se submete à praxis "espontânea': "0 verdadeiro problema nâo é estudar camo a vida huma na se submete às regras isso simplesmente nâo existe. amplamentc cquipafados.127). 1966 11926 ].1'. mas coma algo sobre 0 qua I de opera suas razôes e. form a incongruente. muito embora d e acordo corn a premissa de que "0 homem é duplo". ha as regras e formas convencion ais que equivalem à "cultura" da situaçao. 160) . 1 1 . e as atitud es pniticas que as pessoas conferem a ela. os compromissos e os costumes nâo -legais s6 sao revelados a quern faz 0 trabalho de campo. parentesco classificat6rio. Privilcgi<i-Io sob re a regra em nome do interesse racional requereria uma segunda distinçao: ent re essa aparên cia externa. impulsiva. ao mesmo tempo. motivos. ao co ntrario. impuisos. p. em opos}çâo à nonna da cultura esta 0 "comportamento real" da pessoa. Deste outro ponto de vista. a cultu ra aparece simplesmente coma um instrumento ou urn ambiente da dinâmica constitutiva do prop6sita humano. p. por uma 16gica. ordena as propriedades ° 1 1 '--- 1. e documenta a sua transposiçâo para um contraste entre forma e sentimento que n:1o deixou qualque r possibilidade de entend imento do parentesco em si mes lllo: "0 que é digno de nota é a cn fase na prâlÎca (a atÎvidadej a co mportamcnto. mas na maneira pela quai essa ordem é subjctivamente vivida. Mas a identificaçâo dos atrib utos culturais como a "norma" ou 0 <Cideal" vis-d-vÎs a vida real deve condenar esse esforço como metafisico. totalmente convencio nalizado da atitude nativa". Mas "0 c6digo d a conduta natural. remos de lidar com a luta do suj eito individual para alcançar seus pr6prios fins. Malinowski introduz um tipo de esquizofrenia ontol6gica na etnologia . Uma anâlise significativa cede portanto lugar a uma racionalidade manipulativa. impulsivo'~ é que.

Mas isso nao se deu exatamente para conferir ao mesmo conceito um alcance maior? "Nas pâginas dos Argonautas e em seus sucessores".. 1969). 1960 [1944]. ou seja. ele 0 faz. para outras importantes discuss6es do utilitarismo (economicismo. É a medida de todas as coisas.67-8.] A separaçao economicista da estrutura normativa da açao pragmatica. 1968 [1937]. A caracteristica distintiva da f. é uma soluçao final para 0 problema cultural. Cu/wra e razao prdtica Dois paradiglllas da tcoria autropo/6gica 91 1 13 Il i 1 . Pois. Parsons.a adoçao axiomatica da problemâtic~/do sujeito que calcula. grifo meu). 1973. as împlicaçoes prefiguradas em uma determinada perspectiva intelectual tornam-se explicitas apenas em versoes mais evoluidas dela. 0 que ainda se denomina "sociedade" é 0 meio. em um sentido pleno e totalmente novo. pela sua investigaçao cuidadosa. Polanyi. a interaçao en tre "vida" e "cultura" é neces~ sariamente desigual: uma relaçao de sujeito com objeto. p. 0 Ser Humano é a homem "clementar': indivislvel. sobrevivência . 0 que foi dito acima é uma descriçao de valores. Esse utilitarismo . escreveu Leach. tem de ser permanentemente reproduzido. homeostase. E sao resolvidos pela construçâo de um nova meio ambiente. ao mesmo tempo em que sujeito pensante. ordenando 0 mundo social racionalmente de acordo corn desejos igualmente axiornaticos .77. 25 Concebida des sa forma. ou mesmo Wolf.9-10.. p. Como no funcionalÎsmo de Malinowski. Ontologicamente. as pessoas formulam e reformulam adequadam ente sua ordem cultural (cf. mas apresenta uma conexao aprep riada corn 0 saber atual da ciência social. 1967. Entretanto. ver Dumont.2?). nao obstante. 1962. Indicamos também que a cultura. 0 lugar analitico assim concedido à sociedade foi brilhantemente descrito por Dumont: Na sociedadc modern a . Cada homem particular encarna. conforta e prosperida· de. a sociedade nao existe. p. p. naO é de Malinowski. ambîguas ou som ente virtuais no sistema econômico menos desenvolvido. ou seja. llm meio que lhe da poder e Ihc permite criar bens e valares que vâa além dos seus dotes animais. a vida de cada um é 0 fim. esses efeitos aparecem muito mais claramente em uma "antropologia ecol6gica" que homenageia suas fontes intelectuais intitulando-se "funcionalista" ou "neofuncîonalista" (cf.30). ex. Uma socicdade tal como 0 individualismo a conecbe nunca existiu em parte alguma pela razâo ja apresentada. a reduz ao status de uma preocupaçao secundaria. antropologia eco16gica nao é simples mente a de levar cm consideraçao os fatores ambientais nas suas tentativas de elucidar os fenômenos culturais. Mas a eficacia da cultura como uma ordem significativa é ao mesmo tempo suspensa. Do mesmo modo. coma trabalho manual do homem e camo meio através do quai ele atinge os seus fins. estahelecer um padrao de segurança. se nao bane completa mente a cultura do alcance antropol6gico. Ete é um ser huma no vivo que opera um sistema bizarro da organizaçao social através do exercicio de escolhas naturais entre meios alternativos para fins alternativos" (1957. um mdo que lhe permite viver. mantido e controlado" (Malinowski. [Dumont. • 2S "Os problemas colocados pelas necessidades nutritivas. constituinte com constitufdo.49..243. Do mesmo modo.12?).das suas formulaçoes. 1950 [1922J). . Apenas pressagiados par Malinowski. p. Muitos daqueles que podiam criticar 0 funcionalismo de Malinowski estao. uma visao da mente . a anatomia do homem é a chave para a anatomia do macaco. particularmente do simb6lico no instrumental. nao é mais que um dado irredutivel ao qual se pede som ente que nao contrarie as exigências de liberdade e de igualdade. esse processo depende da apropriaçao te6rica das qualidades culturais como efeitos orgânicos. [1971. em tudo isso e por tudo isso. é clare. distinta de uma explicaçao biol6gica. Esse meio ambiente. A cultura é reduzida a um epifenômeno de "processos de tomada de decisao" intencionais (como dizem).] .. Comportando-se corn uma mente singular em direçao aos seus melhores interesses pr6prios. grifo meu). interpretaçao que nao somente dissolve as especificaçôes culturais como também lh es permite reaparecer de forma mais cientîfica (isto é. ]arvie. satisfeitos corn sua contraposiçao essencial entre interesses pessoais e ordem social (p. Collins e Vayda. e assim os val ores se invertem. 1965. pode oferecer um sistema coerente de antropoIogia aliado a sistemas de economia baseados no 'homem que calcula'" (1958. elas siio respondidas em fermos dos efcitos de UIII comportamcnto illformado culturalmentc sobre sistemas biol6gicos: organismos. orgânicos . 1944. isto é. reprodutivas e higiênicas do homem têm de ser resolvidos. 0 sistema econômico mais desenvolvido faz uma diferenciaçao explicita de categorias que permanecem combinadas. ativo corn passivo. funcionamento adequado.. ou sem provâvel perda de lucfo. quantificavel). ~j l~ clesse meio.essa cultura. p.é uma consciência instintiva que n6s temos dos outros e de n6s mesmos. em um certo sentido.adaptaçao. Essa expressao familiar. A perspectiva em questâo continua sendo 0 economicismo nativo do mercado transposto aqui da anâlise da sociedade burguesa para a explicaçao da sociedade humana. individualismo). 1963). instrumental ou fundonalmente" (ibid. exatamente como faria um homem de neg6cios civilizado" ( 1966 [19261.. Bateson considerou que 0 método funcionalista de Malinowski "é provavelmente acertado e. mas a de atribuir significado biol6gico aos termos-chaves . "0 'selvagem' deixa de ser uma marionete . p. a cultura desaparece.37.:90 . sob a forma de ser biol6gico. p. que é nada mais nada menos que a pr6pria cultura. Kuper. Nesse caso. 1970.. 0 reino dos fins coincide corn os fins Icgitimos de cada homem. 1964). deve ser entendida camo Ilm meio para !/fil fim. toda a Humanidade. Firth. como 0 pr6prio Malinowski relatou. p.. Naturalmente. Explica Rappaport ~mbora (/s questaes scjant colocadas em termos de fenômenos culturais. Ele deixa explicito que a cultura nao permite qualquer compreensao especial. populaçoes e ecossÎstemas. 0 novo funcionalismo ecol6gico demonstra que 0 efeito da dissoluçao de Malinowski do conteûdo cultural na funçao biol6gica.. É verdade que Malinowski foi 0 primeiro antrop610go a negar a generalidade de um homem econômico (1921. Macpherson. secundârio ou artifi~ cial. como afirmou Marx corn razao. "sempre que 0 nativo pode fugir à sua obrigaçao sem perda de prestigio. a de que 0 individuo vive de idéias sociais.

1974. as rclaçôes reais que sac aqui pressupostas .'Tendo sido ignoradas as propriedades da cuttura na pratica da sua explicaçao. E a antropologia perd e seu objeto. J . • ~ ~ i { I ~ .. A ontologia recapitula ass im uma metodologia. por exemplo. essas rclaçôes per. r <. m ~ s. isto é. Pensemos nele simplesmente como um "reper- como tal nao deve distinguir 0 homem de quai squer outras es pécies. Suas qualidades concretas sao apenas a aparência de "movimentos do corpo". p. 0 ato de falar. espedfico de uma populaçâo. p. do l11esmo modo.. o funcionalismo ecol6gico coloca a cultura em um rÎsco du plo. 0 amor etc.o Illutua.3S (1966) chamou ao mesmo ti po de pensamento. pode fazer da observaçào e da deseriçao tarefas formidaveis. sel' compa radas individualment~ e/o u tomadas em conjunto como atividades constÏlutivas de uro repcrt6rio com· portamental global>chamado de 'padrao de obtençâo de alimentos'" .3). Encarando·a desse modo. feijâo e ab6bora sào uma "dicta nao-equilibrada': a sociedade uma "populaçao de organismos huma nos': e 0 canibalismo uma {<atividade de subsistência". essa abstraçao aparcntemente m etaffsica resu lta do fa to de que. 0 [ato de 0 comportamento humano ser complexo. variado. Nada do que e . é oillar n wltura hunltwa sÎlIlplesmente como 0 comportamento ou parte do C()/llportflnlCl!to de lima espécie particular de pril11atas. "movimentos do corpo" . cujo saber é seu efeito biol6g ico. [Vayda. valores ou eoneeitos culturais nao pode. Assim. p. É ameaçada de liquidaçao porque nâo pode ser especificada como tal por motivos naturais.desse fehchlSIllO: A aparente estupidez de fundir todas as multiplas relaçôes das pessoas cm uma IImc~ relaçao de utilidade. A cultura é trocada pelo "comportamen to". "um intercâmbio de materiais genéticos". de "materialîsl11o médico'~ Trata-se somente d~. ao menos as subo rdina a d a na imaginaçao. p.- / ~ = "' 16no cultural (Collms e Vayda. toda a ativ idade de 11l?~Vlduos el1~ ~nte~-relaç5. como. Em Holbach. pois. pode-se prcferir dar ênfase ao comportalllCllto ftsico real OH aos 1II0villletJtos do corpo r. reahd~~e da categoria quc delas foi abstraidaj urn método completamcnte metafisico de procedlmcnto (Marx e Engels. foi ele quem formulou as crfticas e explicaçôes .0 ato de falar. como boas para a espécic ou mas para cla.lgm!Ïcad? que lhes é peCIIIUlr para se tornarem a expressao e a ma nifestaçao de uma terceira Iclaçao mtroduzlda em seu lugar. ("Ao examinar 0 can ibalism.Dornstrcich e Moeren. uma abordagem posslvel sugerida par Simpson . Malinowski opunha "cultura" a cornportarnento.amfcstaçôes definidas ~e qualidades definidas dos ind ivlduos. Dougl..se do conceito de cultura. 0 fe nômeno 1 1 \ 26 ~ua nt ? ao pr6pr~0 ~arx. como as açôes de qualquer animal. Dai. A prâtica te6rica poderia sel' chamada de "fetichismo ecoI6gico".a cultura pode ser estudada. Essa tcaria veio à tona corn Hobbes e Locke . eontudo rcquerer um saerifieio UIll poueo difcrentc. A crise torna -se entao ontol6gica cm suas proporçôes...1'. A expressào material desse uso é 0 d~nhelro. é descrila coma uma relaçao de utthdade e utl. Conseqüentemente. sob as condiçôes seletivas naturalmente constituidas: A atençao a idéias. Esse sacrific io da autonomia da cultu ra (e da ciência cultural) seria à conseqüência da sua subo rdin açao denlro de um sistcma maior de coerçào natural. a relaçiio de IIlilidnde Olllllilizaçiio . Na realidade. para a ecologia ela é "comp~rtamento': Pode tratar-se de comportamento aprendido. a representaçao do valor de Iodas as coisas."Cia l abs l~ata.92 Crlliura e razilo prtitica Dois parndigmCJs da leorin flIllropol6~iCfl 93 1 1 1 1 .o> operamos a partir da premissa de que toda s as ativid ades que proporcionam alImentos para os membros do grupo. estolJllOS eapacitados ·17 para estuda-Ia e interpreta-la da mesma forma que estudamos e interpretamos a comportamento de qualquer outra espécie.. e mesmo onde de encontra rclaçôes que niio podelll ser diretamente subordinadas à relaçao d~ c)(~loraçào. ali mentos que eles realmente consornem sao 'atividad es de subsistência' que podern. mas nem pOl' isso digno de tratamento diferente do "comportarpento espedfico de espécie" de qualqu~r outro gr~po de .s e relaçôes sodais.. Pode.ou mcsmo mais abslratamente. Ao contrario. isto é.155). Para ele. que a catcgoria de 'utilizaçao' é subtraida das relaçoes reais que cu tenho com OUi ras pe ss~as (mas de forma alguma como renexo ou simples vontade) e enUio essas rc!açôes passam a sel' a. todas as rcl açôes sao subordinadas na prat'ÎCa a uma relaçaa monctario~a n~e. tudo é mistificado como ml1 fato natural que possui a vlrtude ostenslva de ser bâsico e exato.4. presumese que essas propriedades nâo tenham qualquer autonomia ou valor como talo que é uma racionalizaçao do fato de que a explicaçao nao pode responder pOl' elas: Pareee que uma cîêneia unifieada da eeolog ia telll eontr ibu içôes definitivas a fa1. cm uma medida eonsideravel.er no sentido da realizaçao das melas ant ropol6gicas. Como "comportamento" .460-1).hzaçao. nâo fosse por sua intençao confessa de apoderar. 1965. entre outras.vel de intcresses antropol6gieos tradieionais. v~ .organismos. isto é.497). ~ -" -' r ct ( <: ~ através dos qllnis 0 IlOmem efetua diretamellte alteraçoes 110 seu IIU'ÎO illllbiente . I?nge de estar envolvido. com respeito nao samente à sua interaçao corn variâveis ambientais. Na .1967. 1965. cm um relance.. ser ca nsidcrada uma sine qua 1/011 da analise de eeossistemas que incluam 0 homem. cOlltudo. milho.sc. pcssoa. 0 da noçào da autonomia de lima ciência da eultura (Varda e Rappaport.a relaçao de exploraçàoi Ioda s as demals rc!açôes s6 têm validade para cie na med ida cm que podcm ser incluidas sob aquela (mica rdaçao. embora essencialmente abst rato. ass im coma a caça é um m tercambiO de encrgia corn 0 meio ambiente". apena~ lIIt/a rclaçao é valida por si mesma . aplicado à descoberta de valo r'es sanitarios cm ta bus de dieta.cultural é 0 ~u e parece. mas também com 0 efeito dessa interaçao sobre a seleçao natura!. 1969. 0 casa~cnt~ tor~a-se. a alllor~:rem a~ m. nao requerendo qualquer saerifjeio apreei<\. grifo meu. Tudo isso realmente se aplica ao bll~guês. Compreendido isso. maiS ger~ls . na moder~a socledade burgucsa. nem a antropologia da biologia. variavel e.. mas isso nao signifiea que prindpios basieamente diferentes devam ser usados no estudo do eompartamento humano e no estudo do comportamento de outras espéeies animais. e porque a consideraçâo da sua qualidad e especifica exigiria a invocaçao de uma razâo de outra natureza. 26 Esse mesquin ho comércio metafisico de pormenores etnograficos nao apresentaria interesse algum. uma versao antropol6gica ou ecol6gica particular da troca do conteûdo signi Qcativo pela verdadc funcional que Sartre descreveu coma ~arxismo vulgar.

do capitalismo industrial e burocratico. quer no sentido da maximizaçao de certas variaveis" (1972. 197311857-8]. de acordo corn a forma do co rte da ârvore provocada pela golpe anterior.. seria caracterizada por relaçôes de retroalimentaçao (feedback) reciprocas e iguais às existentes entre quaisquer outros elementos do circuito. quer no sentido de 6timos homeostaticos. 0 tema central do seu Social Stru. Eles cortam toros para as canoas. 1'. de modo que 0 ~rocesso global como uma totalidade 11110 é 0 traball/O do trabalhador individual. t ~ri. ~/'" 4 0 ..um compone nte reativo em mutua determinaçao corn variaveis ambienta is..~ 2 h ~%r t . (N. se qualquer um dos C0111ponentes desse sistema auto-regulat6rio fosse capaz de impor seu pr6pr io projeto à totalidade. inevitavelmente. es~e nll... ~ o fim do "terror" sera a morte da cultura nobre . ex. apesar de a transaçao homem-natureza ser mediada pela cultura. é um exemplo paradigmatico da na tureza subordinada a serviço da cultura.. objeüfica a idéia cicntlfica e é.caracteristicas mentais.!1 94 Cullllra e raziio pra/ica Dois paradigmas da teoria antropol6gica 95 1( . esse golpe e todos os golpes que 0 antecedem. elas mesmas tao suj eitas ao seu objeto quanto vice-versa. t interessante observar como ele finalmente chegou a esse ponto de autoconsciência metodol6gica. dependem da intençao significativa. Bateson exp li ca esses sistemas: "podemos afirma r que qua/quer co njunto de acontecimentos e objetos em andamento. senda a cultura inclufda em uma "ciência unificada". <Processa ra informaçôes' e sera.J • Behemoth ..animal descrito no Velho Testamento. Se 0 objetivo é produzir uma canoa.cture (1949). Um dos exemplos favoritos de Bateso n é a interaçao do homem corn a arvore no corte da madeira: o problema é que os homens nllI1Ca "cortam madcira" simplesmente dessa forma . . 0 coordenador. cujo projeto consiste igualmente em reduzir os homens e as coisas às suas especifica· .1$l ro allimado.470).·p. em tcrmos de um projeto significativo cuja final id ade governa os termos da interaçao redproca ent re 0 homem e arvore. A alternativa cibernética prevista pela teoria dos ecossistemas nao passa de um fetichismo ecol6gico mais apropriado ao seu pr6prio contexto cultural. É somente 0 modo humano de resposta. çôes fUllcionais como elementos de um processo pro dutlVO auto determmante.a. . e é esse sistema total que tem as ca racterist icas da mente Îmanente. mas sua compreensâo da estrutura social deriva em hnha direta da teoria da praxis."" "" ~ ::~. é outra. mas 0 trabalho de dlfcrentes trabalhadores que Cslào juntos s6 na medida em que esUo agrupados là fo rçai e naD se reûnem Ivoluntariamente] uns corn os outras. ~.." cujas partes componentcs individuais sao estranhas umas às outr<lS. 1 .iste camo um sin al de pontuaçào de um ..... Ele comparara.. no processo de produçao do capital . p.. as caracteristicas mentais do sÎstema siïo imanentes. arvore-olhos-cérebro-musculos-ùlachado-golpe-arvorc.316). A cultura é aqui. A combinaçào desse trabalho <lpucce exatamente coma subservicnte e controlada l'or uma vontade e par uma inteJigência estranhas .. Para Murdock. a trama interativa. 0 trabalho ~ uma totalidade . provavelmente 0 hipop6tamoi cm sua acepçào correllte. na medida em que 0 homem é mais que uma variavel fun cional do todo .P. desde 0 inicial. Em outras palavras.) 27 "De fato. uma forma cultural. A resposta ao ultimo golpe depende de um objctivo que nao é dado ao processo coma um processo natural. se a meta é a obtençao de lenha. foi estipulada par uma o rdem simb6lica. nao a esta ou àquela parte.( r. mas ao sistema coma um todo" [ibid. e portanto sistematicamcnte governado.. J . a antropologia pode jâ ter encontrado â seu Robespierre. p_37 1.Em George Peter Murdock. ~.3. a capital fIXO. . mental) é realizado par um sistcma total. 0 " 1?:~ ~~$ AQ ~ çt ~. a mente s6 poder ser uma propriedade do todo: "em nenhum sistema que mostre caracterfsticas mentais. . IIbid. gover ~ nado apenas negativamente pelos limites de funcionamento possîvel. c< " G. que respondem às "informaçôes" ou a alteraçôes significativas dos se us componentes. 0 ecossistema camo um todo é hoje 0 local de uma "atividade mental" que deve. a automediaçao da natureza. 27 . isto é. que possua a complexidade apropriada de circuitos causais e as rela ~ çôes apropriadas de energia. a formaçao de "grupos de paren- ~h. Murdock aproveitou a ocasiao aparentemente apropriada da Huxley Memorial Lecture de 1971 para anunciar a morte da cultura.. Como conjunto de relaçôes termodinâmicas auto-regulado ras.~ '\- (j . simplesmente. Cada golpe do machado é modificado ou corrigido. <. coma seu acess6rio isolado vivo" (Marx.. repetia em seus pontos essenciais 0 entendimento morganiano das relaç6es entre circunstância pratica.> t . açao utilitaria e ordem cultural. respondera a diferenças . esculpem as figuras de deuses cm clavas gllcrn?iras.T.individuo animado.o se rclaciona de mancira alguma corn 0 trabalhador individual camo seu instrumento. autocorretivo. mas sempre estabelecem re1açôes corn a madeira de um modo especifico. .) . ou mesrno cortam madeira para lenha. Murdock pode ter sida 0 primeiro a dive rgir de Morgan cm questôes de metodologia e detalhes de in terpretaçao.315 ). > -I I Consideremos um homem que corta uma arvo re cam um machado. qualquer uma das partes pode ter um controle unilateral sobre 0 todo. 1 medida em que esta ûltima é concebida como uma ordem cibernética.. como é comum nos estudos ecol6g icos.. que. para preservar a sistematicidade. Murdock . isso também requereria 0 deslocamento da propriedade da "mente" da humanidade para 0 ecossistema. 0 processo aulocorrelivo Osto é..cstando a sua IIIr idade dCll1iimaçao cm outra parte _ assim camo a sua unidade material aparece subordi nada à rmidade objetiva da maquinaria. de fato. 0 ultimo deles se toma ria uma mera cadeia de conseqüências. logicamente (no interesse da autor idade exclusiva do Behemath). (Donde. a palavra significa algo opressivo ou de dimensües e poder monstruosos. Dentro do ecossistema. Evidentemente. . ao contrario. exib ira.• ~ '." ser negada cm qualquer uma das suas partes.. a resposta a uma mudança na arvore é uma.. A interaçao determinada de arvore-olhos-cérehro-etc. ou 0 subsistema q ue envolve 0 homcm e seus arredores Îmediatos. COffiO 1I1O.

evidentem ente. podendo um desses leva r ao rcconheci mento de gru pos de parentesco nao-Iocalizados. que.] 1 1 1 · 1 1 As condiçôes de existência de qualqu cr socicdadc estao sempre passando por mudall ças . m as através dos detalh es do crescirnc nto d a patrilincaridade a partir da m atrilinearidade (embora Murdock.nalural. casa exislam sociedades pa trilineares nas redondezas para se rvirem como modelos.28 cujo " recon hecimento" .lt O gClle:l16gico. Com o diz 0 relato.. dos quais nâo é 0 menaI' a de que Mur'dock é levado a cunhar sua cxplicaçào co ma um mito d e orige m. corn as suas mulhcres c filhos. A deter m inaçào da composiçao rcal dos agru pamcntos 50ciais descmpe nha.203. MuÎ tas mudanças nas condiçëies fundamentais de vida podem exercer pressao na direçao da mod ificaçao da regra ex.l 1 96 CI/llr/ra c razao pnirica Dois paradigmQs da {caria mltrop%gica 97 tesco co nsangüincos" . [Ibid" p. por exemplo: A residência patrilocal parccè scr desen cadeada por alguma mudança na cultura das condiçëies de vida socia l que.'['. A residência patriloca l fo i firme mente estabelecida. 1968. e tao poucas as alternativas nas regras de residência. d e p ersuadi r os pais das noivas a perm iti rem que suas filh as se mudem para a casa d eles. toma "riqueza" corna tlma catcgoria natural. de acontecimentos sociais co mo guerras e revoluçoes. exa tal11 ente nos termos expostos c crit icados por Schneider ($cbneid. [Murdock. e de conlatos externos que podern esti mular empréstimos cu lturais. "ao adqui:':rem Tiquezas". e os antigos matrietas foram transformados cm incipientes patriclas. a herança pat rilinea r é accita. algurn fator apa rece no conj unto m atrilin ear que "co n fe re esta va ntage m à residência pat rilocal".às vezes nipid as. um papei anâlogo ao desempen hado pelas uniôes exogâ micas nos primeiros estâgios de Morgan: 0 in st rum en ta p elo quai a LO mpulsào obj etiva ou natural é reificada na fo rma cultura l. out ras vezes lentas _ em conseqüência de acontecimen tos naturais como fomes e ep idemias. p. pra ticame nte. c isso pode ocorrer mui[O rapidamente. nâo SOmeI)te em termos gerais.. . 206] Essas prât icas residencia is geram alin hamentos especî ficos de paren tes. ao pagarem 0 preço da noiva. Qualquer modificaçao na economia basica é particularmente influentc. cm uma proximidade espacial.~. [Ibid" p.2 17). junto corn as suas csposas. A situaçào esta madura para 0 desenvolvi mento da descendência patrilincar.] ~ :t . . . indepen dente do nive! de cult ura das for mas existentes de organ izaçao social. de influências bi o16gicas como uma de nsidade populacional em crescimento.o produz diretamentc li nhagens ou parentes.( 1 Assim. de adaptaçoes internas coma invcn çocs lecnol6gicas. em detrimento dos filh os da irma. arranjos res idenciais esses q ue. aumenta 0 status. qualquer sociedade. . por sua vez. a importância e a influência dos ho mens em rdaça o ao sexo oposta.29 sâo capazes. Assim. acompan hado pela noçao d e que 0 p restîgio é fort alecido pela poliginia (ibid" p. A p ratica res idencial é portan to a chave dinâ m ica.istente de residênciao Tao diversos sao os fatares causais na mudança social. nao afi rme que essa tenha sido u ma seqüência universal da evoluçao ). significativamente. no esquema de Murdock.. Ao mesmo tempo. pode encontrar. co ma no sistema matrilinear. 0 pr6p rio método d e Morgan despo nta clara mente. escravos ou rnoedas de con cha. As relaçôes de parentesco sac con stituidas por um a consciência reflexiva da composiçào do grupo en tao estabelecida. ela descobriu que as casas de um lado da rua eslllo agora oc ~padas por homens relacionados patri li nearmen te. todos os homens. 0 que a residência mat rilocal ou patrilocal realiza é reunir. coma a introduçao do gado (0 pr6prio "fato r" de Morgan ). 1949. E ~odos os ho m en s começam a d eixar aIgumas de suas propriedades para os filh os. concatenaçôes particub res de circunstâncias que favorecerao 0 desenvolvimento de qualquer um a das regras alternativas de res idência. 1972). p. Ago ra. corn 0 caracL cristico alinhamento nao-linear de parentes. 21O . praticamente do mt!s mo modo que aceita "parentcsco" ou "parcntela patrilin ear" como catcgorias gc ncaJ6gicas. Elas sào as exprcssôes articuladas de arranjos residenciais.recon hecÎmcn lo este que pode sel' negado . provavclmente. gr upos de parentes do mesmo sexo unilinearmente relacionados. Simplesmente favo rece 0 descnvolvi mento de fa mil ias extensas e demes exogâmicas. reflerem as "condiçôes fundam en tais de vida": A rcsidência unilocal nâ.representa 0 reconh ec imen to d e arranjos baseados cm relacioname ntos determ inados pelas praticas residcnciais. "po uco a pouce': os laços corn a "parentela patrilinear" sâe reforçados às expensas da "pa rentela matrilinear': até que as pesseas final m ente descubram que estavam u sando a patrilin earidade sem ter consciência disso: Pouco antes de a populaçao da aldeia se dar con ta de que algo particula'rmcnte signi ficativo tin ha acon tecido. 0 exemplo é capital sob diversos ângu los.e pOl" con scqüê ncia. ]-lois po r meio dela as atividades masculi nas na divisao sexual do trabalho chcga m a prod uzi r os principa is mei os de subsistência. a c1assificaçao de pa rentes . 29 Murdock. e que um grupo se melhante vive do outro b do da rua.estabelece grupos d e pare ntesco tais co mo as linhage ns e as costumci ras c1 assificaçoes d e p essoas: 28 Murd ock considera 0 "parcntesco " Uln (.. a partir de uma orga nizaçao dual d e dis matrilineares.216. camo Morgan.] Murd ock resume toda a discussâo em um relato do desenvo lvim ento de um sistema patrilocal-patrilinear. que pOl sua vez respondem a exigências praticas. {Ibid.

~é?~~ . a qu e esta\'a presen te ao longo de todo 0 métod o. t ao de princîpio té6riê"O-ë que a socied~d:_lrtITgae~~ seëreta-<:omo. ainda que trcinado nas tradiçôes de Radcliffe-Brow n.idade pratica. espccilicalllcnte qu:mto 3 interposiçao de inte resses praticos entre ci rcunstância e ordem social. Ac!-cdita na a~~. 1972. e vé 0 comportamento social do po nto d e vista das decisôes tomadas por indivfduos na 'alocaçao de tempo e recursos' dentre as alternativas disponfveis" (ibid.t ~.. } .o.~~ïa:1 1ir.. uma vez que. [Murdock. Para Murdock. l~~ f o nstituiçao simb6lica da ~~i:. cultura e sistema social sao meros epifenômenos .. ou seja.~ tlda ~ultur. conspirando portanto para a ~lusaE_ \ . pois reconheceu no fato de Leach privilegiaI' a escolha individual sobre a regra legal um desvio do paradigma cstrutural -fu ncional semelhante à sua pr6pria p râtica.. 0 errc de MUI"dock nao chegou a sê-Io.\leber ten tou para a sociologia. . v ' social como u ma rede de relacionamentos didaticos reais tornou -se.22-3). ll1~~!deol.. p. p.l l rJ . A Cultura é 0 Neg6cio na escala da Sociedade.9).o ) coma umOl escalha ditad a pela vOlntagem polftica...produtos dcrivados da interaçâo social de pluralidades de individuos. Finalmente. A idéia geral da vida social aqui expressa é 0 comportamento particular das partes no mercado. seJam abstraçôes conceltualSrlus6nas l11fendas da observaçâo dos "fen6menos rea is" que sao os individuos interagindo uns corn os outros e .. "~ t S& (' il - ~ .<?*s~j!y~rdade..! assumir uma propcnsao natural para compctir par prcstigio..' . t~4 '~:.i""J L~ 1.d a Grâ-Bretanha e l rlanda. geral de que 0 conceito nao procede da prat ica_ 0 status empfrico da propos içao . Naquele ano. 1960.. espirito de grupo e organ lsmo social. perante a reuniao dos antrop6logos . e para conferir-lhe 0 pOlpel de uma força motara geral nos assuntos humanos (1954.230). Por consegui nte.. f entao.~~. r I~ ~.. é a sociedade burguesa.!V em sua pratica. f :.~. p.ai nda que 0 cruzamento das li nhas filogenéticas seja aqu i comp lexo. ara. e que assoma à "-" supe rfic ie aqui co mo a verdad ei ra font e da proposiçao.J. "A visao de Radcliffe*Brown da estrutura \.. iro nicamen. a necessidade te6rica de Si..'C-~.f. 0 conceito ~ ~. E isso era 0 que de vinha ! dizendo pelo menos desde 1949: E em 197 1 a conclusao l6gica evidenciou-se para ele. aos conceitos de "c ultura" e "sistema social". l O). As circunstâncias da sua interaçâo levam quase sempre a similaridades no oornportamento de individuos diferentes. ~t de cultu ra de Murdock nao veio da experiência an tropol6gica: 0 conceito antropol6gico ja era uma experiéncia cultural. difcrcntc apenas no conteudo da prcmissa economu:mte da economia cblssica.----- _. 1 Parece-mc agora desconcertantemente 6bvio que a cultu ra.. • 1 . como se refere Kuper ao modelo de Barth.?i'·"I/\. "a abordagem da tOIllad a de d ecis6es para 0 estudo dos fenômenos sociais" de Frederik Barth. ~ :< t ~ . Essa nova concepçao da cultura nao era mais que uma "abstraçao . m as é também 0 casa cm Sistemas po/it.te. ja que to ma como mode lo de toda a vida social nao a realidade da lf l... no quai a pr6pr ia concepçao de Murdock da relaçâo entre a ord cm vivida e a ordem pensada emerge claramente do equfvoco. A anatomia do homem e do ma caco: 0 ultimo paradigma de Murdock é u ma for ma evolufda daquele contido no funcionalis mo de Malinowski ... na medida em q ue ele entende a imposiçao de um ou out ra c6digo alternalivo (gumsa/gumb. Leach d isse que "as estruturas sociais sao algumas vezes JI melhor obscrvadas coma 0 resultado estatistico de multiplas escolhas individuais do que como um reflexo direto de regras lega is" (1960. disse ele. Mas 0 ~I <Chomem man ipulativo" revela a ascendência com um de t?das essas teorias utilitârias.. p. e fazem corn que os indivîcJuos se relacionem uns corn os outros de manei ras rcpeti tivas.19... Murdock simplesm ente prod uz pa ra a antropolog ia 0 mes mo tipo d e reduçao so lipsfstica que Max \. na li nha da teor ia da praxis iniciada por Julian Steward.. 1550 é cxplicitado em Pul Efi)'a. . com a mesma suspensao do coletivo ou do objetivizado em favor d e intenç6es indiv id uais. que telldemos a reificar coma estruturas ou siste* mas. ~lo:>~c ~ conceitual il us6ria" do método que ele tin ha utilizado durante tanto tempo: l l I l' {b'1l (ji..identalS2xnQ.ao m en os para as ciéncias sociais . ja pode servir como consolo. a salvaçâo do ho mem manipulativo de Malinowski" (I973. foi apen as l6gico co ncordar corn Leach. Dai. Toda a cultura é entendida como 0 efeito orga nizado da economia individua l. mas a autoconcepçao dessa sociedade. consideremos a noçao que Murdock colocaria posteriormente no lugar da chamada cultura. a que se rcfcre 0 exemplo acima. 124).:W Com relaçâo à aldeia sinhalesa de Pul Eliya. 'lusao dupla. E mais.. Murdock renunciou à sua adesao _. segundo a quaI a cultura é 0 "epifenômeno" d e uma outra rea!idade é em si mesmo 1"" •• UIua i1usao. .a. . ele é capaz de uma discordância malinowskiana corn ambos. J' a fato de qu e. uma abord age m que "focaliza 1 os acontecimentos d a vida social em Jugar de seus aspectos ffsicos o u estatisticos. com 0 seu meio ambiente natural.riva. invertendo a frase de modo a dize r que as regras legais sac melhor observadas coma 0 resultado de uma tendência estatistica d as escolhas individu ais (Murdock.) ~ YI h ~~ 1 1 . p. Mas nao se deve deduzir que essa d er ivaçao da ontologia a partir da metodo* 1 log ia represe n te uma exceçao . De cefto modo. ~de gue ~~<:!mcntc é 0 pro~uto socializado da atividade pratica. Murdock se consc ientizou da teoria ~. Esses conceitos. . s_ep'_c!. a condusao a part ir da "exper iência" de que a cultura nao existe é um a \-Z. através de um confro nta c1assico com Leach.' ~ ' -î'~g 2i\ . que tendemos a reificar sob 0 nome de cultura.da nossa tese . desse tipe.' A ciência social eleva a uma declara.0 ~~~ cultura é ass im ameaçada co rn um negligenciam ento na antropologia 1 [que s6 se equipara à co nsc iència dcla na· sociedade. esse negligenciamento tenha levado a algum arrependimento. 0 sistema social e todos os conceitos sup~a-individuais. 1tt-" 30 Nao obsl an tc Leach tenha sido muito influenciado pelas técnicas estruturalistas francesas. nao passam d e "abstraçôcs conceituais ilus6rias" dos "fenô m enos reais" de ind ivîduos que ÎJ (~LJY\l interage m uns corn os outros e corn 0 seu m eio ambiente em busca dos seus ) 1 pr6prios e melhores Înteresses. evento cuja insignificância te6rica s6 pode ser equiparad a à sua solenidade. tais com~ re~r~senta~a~ cole.f. igno rando a . p.98 Cu/lura c razao prtilica Dois parndigmas da teoria alltropol6gica 99 A posiçao basica de Murdock pod e sel' ilustrada de outra forma. Na realidade.'· 1 ocied ade burguesa.cos dos plana/tos de Burina.

EI11 scgundo lugar. Dadas essas condiçôes. co locam sua ecologia cultural . mas fixos: "cm um mcio ambiente no q uai 0 p rincipal alimento seja caça nào-migrat6ria e d ispe rsa.i1ise de Mu rdock. A residência patrilocal d eve ag regar pa re nles "p a lrili neares'~ Conseqüen temente.de uma maneira agora fami li ar a n6s. Essas atividades sac aquelas pertencentes ao cido de trabalho e delas emerge a estrutura da sociedade Shoshone [p.!'.. p.. p. Stéward. 135 L Com a patrilocal idade assim estabelecida corn base na sua superio ridade eco n6 mica...:mdo. 156 J . 0 terceiro procedirnen to é para detcnninar ah! que ponto os padroes de comportamento rcqueridos na cxploraçiio do meia ambicnte aCctam outras aspectas da cuttura" ( 195 5. 0 paradoxo é instrutivo. a mcsma da problemâtica desculturad a de Morgan e. Como na an. também como um conjunto evidente em si mesmo de intenç6es: a provisâo da "subsistência': Essa tecnologia se desenvolve em areas de recursos alimentares limitados. (1970. cm tcrmas gcrais. e 0 grupo é organizado coma uma patrilinhagem exogâmica.referindo aigu mas à vantagem econômica. os "dispositivos econômicos': Dc uma fo rma muito simples. Como abjctos de trabalha. 0 trabalho.. scus cidos e ritmos.155 J. mas. Isso proporciona um tip o d~ seguro de subsistência" (Steward. E é da (!f/{îlisc da atividadc.pdticil. 3 ! A proposiçao tambérn épura praxis.1 f. Em uma versao posterior. ~ generalizado por Ste . o ponto que desejo enfatizar é que 0 dominio da açào social enyolvido na produçâo material. é \'antajoso que os homens permaneçam no seu terr it6r io gera l de nascÎ - promove~_I?gicaY:a_t~c-" ::~. Pu ro Morgan. que a teoria deriva. 31 0 parildigma praxis . os grupos d e famflia.". co rn base em "uma excitabilidade sexua! crônica" da espécie hunJ.estrutura. a teoriada ecologia cultural esta envolvida corn 0 processo de Irabalho. eles possucm cerlas caracteristicas imadificâveis às qu ais a trabalho deve sc adaptar para fazê-Ios acessÎvcis à cxploraçao.1)riori \ da açao econômica i te da forma cultural. no detalhamento do se u artigo paradigmatico sobre os bandos patrilineares ( 1936). 0 elo critico entre 0 meio am bien te e a est rulura social é a prâtica reside ncial....ma. arrola as mais importantes condiç6es técnicas e sociais dos caçadores e coletores . Murphy expl ica a posiçâo de Steward: o rneio ambiente por si mesmo naD é 0 fator critico.156]. s6 valeriaa pena expô-Ia aqui para apresentar 0 contexto paradoxal no quai Steward... Os padrôes de trabaillo sao diretalllelite derivados das fcrramclltas e recursos aos qua is eles sao aplicados. 1936. A upropricdade" territorial se entende corn base em que "qualquer ani m al pode se assegu rar de alim ento e agua de uma maneira n'lais eficiente no terreno que habitualmcnte utiliza". e apresentarem baixas densidades populacionais. Portanto. 0 tabu do incesto é imposto ao nivcl do ba ndo. a patrilocalid ade é explicada pela dominância inata do m acho e pela importânc ia econômica dos homens nas culturas caçadoras (p. 1-- ~ 1 i 1 .333). encontra-se subjacente ao sistema social Shosho ne como um todo. e outras simples mente ao fato empirico. Os recursos sao a objeto de trabalho e ai jaz sua importância para uma comprec ns ~o da sociedade e da cultura .332). dai. devem ser analisados os padrôes de comportamento envolviclos na exploraçiio de uma ârca particular por mdo de uma teenologia partieular .... a patrilocalidade é rc1acionada particularmente ~s suas vantagens econômicas cm areas d e recursos animais dispersos. por sua vez. sào fo rmuladas e cod ificadas como uma estrutura social (bando patrilinear). a estrutura do bando d eco rre como reconhecime nto e articulaçâo . os caçadores nunca ultrapassarem os pequenos agregados em b. E isso também em relaçâo à simp les tecnologia existente. passa-se a determ inar a base ecol6g ica das varias formas de banda. de uma maneira o'u de outra.1571 .ard na forma de "três procedirncn tos fundamentais da ecologia cultural": "Primeiro dcve seT:lI1alisado 0 inter-rdilcionamento de tecnologia explorativa ou produtiva cam 0 mdo ambiente . de vez que ja conhecem 0 territ6rio ) (I 955..sao encaradas a partir de sua generalidade empirica entre os caçadores. "patrilinear".... Resumindo a questao em termos gerais: a eficiência econôm ica em um dado conjunlo de circu llstâncÎas técnicas e ambientais requer certas prâticas e relaçôes sociais (residè ncia patrilocal) que. Em seu preâmbulo à principal quesUio eco16gica sobre os "bandas primitivos". sua organizaçao.. As principais relaçôes de produçâo .~ I~ 1 100 Cufll/ra e razao pralica Dois pamdigmas da /caria (lIJ /rol'0l6g ica 101 Julian Steward A perspecliva fundamentaJ de Steward sob re a "ecologia cultural" é. Scu esclarecimen to mostrara co mo a mistificaçâo da 16gica cultural 1 ~ eI1~~". Pois para da os "padr6es comportamentais de trnba/ho" "exigidos" pela contexto ecol6gico é que se rea lizam sob forma cultura l. nao apenas como um conjunto de ferramentas em si mcsmas. e 0 bando de fammas. islO é.. pAO-I). "matrilinear" e "composta".. e esses dois falores servem para limita r as atividades humanas às quais cstao relacionados [p. emiugarda muilise das instituÎçôes e vaiores. outras à natu reza humana."_d_~~~~ mento" (is to é. . e suas modalidades situacionais . 0 uso de fcr ramentas requer certos mados de comportamellto.. e a aplicaçao desses inst rumentos a materiais induz a posteriores ajustes de cornportamento [p. corn base no fato de que "em praticamente todqs os grupos humanos muitas familias cooperam . Steward conce ntra suas atençôes sobre 0 tipo de bando m ais difun dido. e mais tarde Murphy [1970J. As ferramc ntas devem sua posiçao central na analisc da socicdade à sua co ndiçaa de instrumentos e mediadorcs do trabal ho. t'ois os "padrôes de compartamento" ex igidos na sua exploraçâo através do usa de ccrlos "dispositivos econômicos" é que sâo os e1ementos-chavcs.a divisao de traba lho por sexo . Esses padrôes de comportarncnto sac 0 lrabalho e a lecnologia. Na p rim eira versao do estudo (1936).. corresponde exatamente à idéia de estrutura social de Murdock. da ordem de 20 a 50 pess03s. p.o patrilinear.como oposiçao à bio16gica. que ele entende como a fo n na lizaçao da residência patr il ocal.

d _ . no unl1.("~~gia'. conde nada pela pobreza do s meios técnicos a LIma rnisedvel existência. " citada).:1.: •..):\-I:l p:r:1 distingui_la da ecologia cultural de Steward. Dai a ordem 6gica da adaptaçao efetiva.. If " 1 " • . \:(eçoes cxpressas. mas chegam à cena post festum.' " '" . Na realidade) a intencionalidade completa do processo produtivo é neglige nciada na suposiçâo de que essa seja uma economia de "subsistência". aptaçào c coerCJlCI<l slslcmal lcas ('l1lre cultura e mcio ambientc. no modo de argumentaçao de Steward.\ e 0 St... e a cultura reordena a natureza e realça as partes deia que sac relevantes para a situaçao humana. Steward.de anles da idéia que é a recondi :1 d . ~n~ IÇoeS de uma Interaçao dlalétu:a tornam-se en tao contradiçô d 6' M h ! t:. ' . como uma cristalizaçao das relaçôes estabelecidas na situaçao de trabalho.' SCUrCCll1lCnto c 0 des:1parccimcnto das distinçôes entre .~ ~ a açao.. desaparece no momento da produçao.. ~.O iltradl~3? sucmtamente.. . Sweet e Leeds sac . Isso é cm parte uma questao de ornissao. cl . 'cl ai '.zendo ~ma eloqüente defesa dessa "ecologia cultural".' . )32 A t". enquanto que a razao atI\ïdades nao passa da sua eficJ:. 015 ..1>. estâ ~:: .. incapacidade de desenvolver ao nivel do co nceito 0 que é reconhecido de fato. A morfologia cultural se toma inteligîvel precisamente nas mes mas bases que as asas de um passaro ou as guelras de um peixe.iCa el': .. . As .es~ a soc~edade goz3na de uma relativa autonomia.: A. L.. das contas. é dlflctl dlstmguir as duas posiçôes. . '. é urna tcaria ~:: aç"û. todo objetivo.". e a "exigência" em questao é a purarnente objetiva de lidar com sucesso corn 0 meio ambiente. "·d d d ' .cultural nao sao UIl1 tipa de determÎnismo ambienuJ. as idéias sac sobre atividades.. d cl 0 a ~ e que sua IIllegraçao n... e essas exigencias _ 0 processo de trabalho _ pres. A sabedo ria ecol6gica consiste em esquecer a ordenaçao cultural da natureza em todos os rnomentos decisivos. mas suas moda!idades ellcontrarn-se alél~l da natureza" (Mur~hy.l.n. :l <.. '. Ordenada por idéias e .. ~e aco rdo corn Murphy. os sistemas sociais humanos alcançam e envolvem os ecossistemas. todos os grifos sao meus corn as e.'.·l a pratlCa em deterrnmadas clrcunstân. A interaçâo da tecnologia corn 0 rneio ambiente segundo determinadas relaçôes de produçao .. ~. . •d uI . _ .34-5.:ma social derivam d t: t d .': fI ~.. _. Iho por sexo: hom ens caçando. c ll1n 0 as que sao 1l0nnatlvas elll uma sociedade podern ::~ . es 0 pr pno urp y.. ' . 55.nao-subord inada à natureza.:n . isto é urn dado.. po em sunphfic:i· la e dlstorcê la ou d .. . Embora reconhecen'::0 que 0 c?mportamcnto é. Trata-se de ~a ~eona cult~ra l . . no princîpio te6rico. . . des sac "exigidos" para a integraçao efetiva dos dois no processo de produçao (cf.1 .5 . nem ~stao mesmo basicamente preocupados corn 0 mcio ambicn lc.. -. nao se faz sem contradlçôes e. Steward estâ bem dente de que 0 carMer particular da tecnologia determina o ca rMer do meio ambiente. ' como dey? c~)all. 169.u a e a comporlamento IJode " .. no sentldo cm que esse terma foi usado cm sociologia.ao <i precondlç:1o da atividadc" (p..' _ '. . e. nao organ izam a interco nexao huma na COOl a natureza.) .. Como 0 pr6prio Murphy observa (na passagem -:6$3. ~se sempre 1 us6no (por exemplo. regulado por normas.~ 1 .'. mas infelizmente nao sao pertinentes à ecologia stewardiana. cilla Ilormaln'o n:1o esteJa relaclonado à condula pois J. ! 970.~..s s.. cm ora cu tenha argumentado que as idéias sâo ~. toda a filosofia de Steward se encaminha exatamente no sentido oposto.' _ .l as 2 natureza. • 0 que 0 pnnclplO a ordem cullu ral permanece sendo 0 princfpio ..:n~d:u..1).: ..dad..ra..) reduçoes blOloglCas da nova ecologia" (da quaI Vayda. mantém esses padr6es comportamcntais [p.' 1 .' III rCJI1tcrprcta_la de acordo corn outras estruturas de ~run . .163J .\1 d.:: .fa. para Steward. a nâo ser 0 pratico. 15 mç 0 e a 3utonomla a "'... parte a mesma duahdade de açao e norma K"«la e e c tura.. lTIulheres colhendo). a nao ser por diferenças de ~nUmento. fi a aÇ30 SOCldJ. ~ !Onam cm segUlda a estrut ura social gcral fp.' 1. rl. w: tur mente de modo qu 'l' '. e nao 0 contrario. confere significân cia a recursos por um critério de re levância cultural. . as ferra~~nt~ e recurSQS rcquerem [grifo de MurphyJ aIguns lipas de comportamento para ~~ èm mtegrado~ corn sucesso. d • . 102 CI/II/ml c raziio prtilica Dois paradigmas da teoria anlropo16gica 103 7:~-nto que. : . I.11 um mo 0 de \'Ida coerente e orde nado Elas est:io ~.. A cultura S-' ~ ~ ~I \ ~ <:" " 'tas de mod . p. . . intere:ssante obra te6rica de Murphy (297!) cl ' . da ecologia como sistema cultural. É justam ente assim. ' 1 dC .: mo 0 que estas se 3}Ustam pm I"od . (essa atl\'1 a cou uma reafirmaç:1o dela na form a ~'•. corn a ~ .. 0. por sua vez.. I. . Os fenômenos de ordem superior ordeoam os fenômenos de ordem inferior de aco rdo corn seus objetivos.! a rea. po em:llll aem rar cmconflitoabertoeconscientc .. .:ultural da vantagem adaptativa. .~ ' . No entanto. !~·m.. '. uma negatlvldade aleat6na ' I)o r ex 1" b • .158).. . Por outro lado) os padrôes de trabalho "derivam diretamente das ferramentas e recursos". co nseqüentemente. juntamente corn as relaçôes de famHia e de produçao (divisao de traba . e as nào sao apenas um rc(\cxo 1 ..'11 melO :1mblente podem ser cfetivamente . ••.163.. .. lcsa. nao reo rdena a natureza através dos seus pr6prios objetivos porque.' d' . mento e ordem na I"claçào caUS:1 0 ob . . cl ' ' . sso n:1o slglllfica que 0 sist . . .. e das premissas irreconcTâ . As conexôes entre um SISlcma soc' · J ' . .. que é transmitida através da açao à estrutura se r a eco-1 A problemâtica de Steward é um padrào para 0 negli genciamento.. portanto.. Essas institu içôes e valores..:ltJOÙS como expoentes) 33 A der . Steward pensava a sociedad e como um modo distin- " = ". .260.. ~e llltegraÇao. ' p. .:~~~~:a ne. . . A ordenaçao cultural da natureza é portanto disfarçada como premissa para uma ordenaçao naluralista da cul tura. cl .. p. .:-. . 1938. ' • ~ • ~ _ru! al 1 t vels e que a atlvldade gera Idélas e a percep\âo é .. sem ser "culturolôgica" ou «supcrorgâ n ica>~ E mais. p. " .~.. mas ISSO dlficllmente elllllina as frolltt'ir:1s enlrt' os d o 's A cl '.. isto é.~ n ~. f 1970.oria e 0 método da ecoJogia . ç 0 a atlVldadc... As conclusôes de Murphy sobre as relaçôes de cultura corn a natureza sao verdadeiras.. vé também as narmas ù'mo slIrgllldo 110 primeiro piano dc açao sOCJa 1 e sen d0 wl1a cnstaltznçiio do comporta_ . estando essas duas proposiçôes rclaciona_.'.1. Mas para apresentar a ~... Ao contnlno as Idélas in 1 . . a teoria de Steward deriva mais da atividade do trabalho "do que das instituiçôes e valores".">-!:.' • ' d ....J!> po...:l. 100-2). eL ~".. leva à noçao de "exigências".'side no dominio das idéias e das atividades . cessa busca lM • • . ~[~~phy c~ntin~a . Tudo. No entanto.d cl '. U7. .. porem... cm boa parle. . . Do mesmo modo. 1 .~~~~.:. ' . 1 1 ~tl\._ . 90.é considerada por Steward coma um fato instrumental. 'd d ~ ....sobre a quaI se erige uma morfologia cultural . 1 . co mo tal •. embora o<io possam altera r suas propriedades. d ~.l1l""Il. COlI' 0. .

a os esses tipo?ae râzio pratica tallÏoénlfêiTïefilèomüm uma conœpçao empobrecida da simbolizaçao hu ma na. o!lo h:\.. sexo e cond içôes rituais tais C0l110 sao local mente defin idas. ou economidstico. 0 csquema cu ltural é 0 signo de outras realidades. 1 L. Além do mais. desse modo. as relaçôes entre os 1ho mens) bem coma entre eles e a natureza. . mas para classes especificas de idad e.~ c . no quai os grupos de vizinhança se esp ecializam na produçao de diferentes objetos utilitarios para comerciar a partir de materia is igualmente disponîveis para todos. a cultura é tom ada coma um meio amb iente ou 0 conjunto dos meios à di sposiçao do "individuo que age': e também camo uma resultante sedimentada de su as maquinaçôes au to-Î nteressadas. 35 a que esta falt:mdo especificamentc é a intencionalidade cultural corporificada no c6digo de objetos descj:\. de uma m aneira ou de outra. 0 . é uma ordem instrumental.Ios. no plana econômica. Em qualquer caso. ç ' . corn um conju nto relativizado de preferências. . Coma l3audrilJard explica cam muila propriedade. exatamente como qualq uer "cornportamenta especîfico de espécie>l.a "essência humana" de um d iscurso mais an tigo . uma acomodaçao à variaçao cu ltural . invocando a familiar rclaçao m eios-fins do sujeito humano racional. A cultura.~ '- <:. 1972. Nen hum deles foi capaz de explorar a fu ndo a d escoberta antropol6gica de que a criaçao do significado é a qualidade q ue distin gue e constitui os homens . \.por assim dizer.. portanto. Essa relativizaçao é. pelos processos de valor izaçao e significaçao diferenciais. na realidadc vive coma um an imal" (Braidwood. '" . p. ~. desse ponto de vista. uma porçao de exemp los do s aborigines australi anos serve para rnostra r que diferentes tipos de troca intergrup al têm imp licaçôes correspondentes sobre a intensidade e os padrôes sociais do traba lho. ::1 ':o... ou ela se in clui dentro de um ecossistema mais geral que. Toda grupo distingue a comestivel do nao-com estîvel e nâo apenas para a popula ~·. . do caçador-coletor é. concebida (segundo cada esco la eco16gica em particular) camo engajada na reproduçao d e si mcsma enquanto cultura ou na man utençao da populaçao huma na dentro d e limites de viabilidade biol6gica. A atividade d a produçâo é) ao co nt rario.- ~ . objetivo .. 0 ato fina l para a cultura consiste n a su a abso rçao.m a explicaçâo que pretende representa-la camo conseqü ência. ____ . Esse objeto naD adquire signific:ldo nem numa rclaçao espedfica corn 0 sujeito..~.. par tl. Para todos eles.89). IV f < ! . para dar luga r à constituiçao da cuhura pela at ividade da produçao. desconstituida culturalmente.enquan to a segundo é utilitario no se n tid o c1assico. sozinho e camo uma total idade. isto é. Um tipo é naturalist ico ou eco l6gico . ç:>. . os ritas e a in terdependência de grupos imaginados no sistema totêmico.~ _.. pelo contrario.. 1968). Por ignoraf 0 c" rater hist6rico dos objetivos econ6micos.122j cf.. em contraste) preocupado corn a atividade intencional dos indiv îduos na p ersecuçao dos seus pr6prios interesses e das suas pr6prias satisfaçôes. As teorias da utilidad e jâ mudaram muitas vezes de roupa) mas a desfecho é sem pre 0 m esm o: a eliminaçao da cultura . produçao.3~ E isso km a ver dire lam cnte com uma exp licaçâo "ecoI6 gica" da cultura total.l j Lee e De Vore. sao orga nizadas. Nessa praxologia.- ~ e - ~-. de acordo cam um c6digo herarqu ico" ( 1972.__ ~ f [ti ~..S A razao cultural Nos paragrafos iniciais deste capitula. A quesUio real colocada à antropologia par essa raZaO pratica é a da existência da cultu ra.'. um homem agindo racio nalm ente em direçao a metas que variam contudc je sociedade para sociedad e. 0 saber an tropo16gico aceito.$ '" l . 1957. d esfr uta dos poderes de auto -regulaçao ou "men te': e cujas li mitaçôes se dâo sob formas cu ltu rais.. a utilitarismo subjetiva esta. 104 CI/hum c mzdo prtlticil ~ Dois paradigmas da tcoria alllropolOgica 105 iQ. 0 ---------- . obedecendo no final em se u arra nj o interna a outras leis e outras 16gicas. p. cap.. referi -me à rel açâo ex isle nte ent re a proposta cultural e a proposta prâtica coma uma oposiçao dclica e repetitiva à q. ~ ~ )_ . Pode-se dizer que este segundo tipo de teoria pragmatica pressupôe um Homem Econômica Universal. evidentcmen te. carece ainda da organizaçao cultural da relaça o corn a cultura.ual a ~ 1 (. 1 ~. p. através da va ri edade dessas teorias. A soluçao caracterist ica da cultura é portanto solipsistica na forma. Em suma. nem numa relaç:io operativa COrn 0 mundo (0 obje to·utensîlio)j cie s6 adquirc significado através de sua di ferença dos outras objetos. a praxologia é "objetiva" no scntido de que a explicaçao consiste em determ inar as virtudes mate riais ou bio16gicas de determin ados traços cultu rais.i · 0 ~ç' '" . 1 . Sendo este 0 casa. dentro da natureza.ao como um tod o. "necessidades a nao ser aqueJas Inecessidadesl de que a sistcma nccessita" e isso nao se da porque 0 consumo é uma funçao da. $ab lins. J' 1 1 .. mas também sua apropriaçao) coma premissa.. ..de modo que.\'eis.-.- H "Um hom em que passa a vida seguindo animais apenas para mata-los e comê. tanta cm qualidade coma em quantidade.camo objeto di stintivo da d isciplina..61). dois tipos principa is qu e co rrem ao 10ngo de dua s eSlradas diferentes em direçao a esse fim comum.. Vê-se.. mas porque a cOI!SIII11/nalivité é um modo estrutural de produçao (ibid. duplicando. . o n aturalismo compreende 3 cultura coma 0 modo humano da adaptaçao.O que Steward deixa d e lado é a organ izaçâo do trabalho como um processo simb6 lico que opera tanto nas reIaçôes de produçâo co rn a nas suas fin ali dades. naO ha qualquer demanda te6rica de que os atores façam seus calculos diretamente em utilidades adapta tivas. ou passando de urna moita de fruteiras para outra. -- /. Apenas os atores (e os interesses considerados a priori como seus) sao reais. 3S Neill l11CSIllO os caçadores estâo engajados cm lima simples economia de subsistência. um "objeto de consumo le pOl'tanlo de produç:io] existe da mesma forma que um fonema tem um significado absoluto em lingüistica.. t. Os australianos sao mesmo capazes de um totemismo concreto. Ou a pratica cultural é um modo comportame ntal de aparên cia das leis da seleçao natura l. a cultura é 0 ep ife nômeno das suas intençôes. ç:~0- . os mais triunfantes eurekas! serao reservados para a d emonstraçao de que 0 fa zem malgré eux.. Essa naturalizaçao da econonù:-. Mais do q ue par u ma pragmatica de formas culturais. ç C). ta illa nos bens particulares que se tenta produzir quanta na intcnsidade do processo.

:. teori as antropol6gicas. t\ filosofia co up de poing hem como de uma tecnologia coup de pOÎng . exatamente coma na .(. Co nseqü entemente. Essa ambivalência presente na filosofi a de White pod e nao se r idiossincni tica. 1942. começo u em desvantagem a luta p elo reco nhecimento ) _~ Il .. mas pela sistem a d e relaçôes en tre simbolos. 0 sup ern aturalism o pri m iti vo) correspo nd ente à rep rese ntaçao a ntropom6rfica de uma igno rânci a fu nda m enta l. a existência do homem é tào real quanto no mundo fisico de seus sentidos. . Nesse mun do. as id éias sào. N a obra d e Lesli e Whi te. ncm po r isso deixa d e sel'. seja alcan çada a unidad e dos opostos te6ricos. u m filtro seletivo q ue reduz iria 0 ca os em potencial dos empréstimos c ulturais (a difusao) po r m eio de um critério de ace itaçao e uma atribuiçao de significad o (Benedict. 0 mod o pelo quaI 0 mund o é "experimentado" nao constitui um simp les processo sensorial determin ad o pela exposiçao direta da rea lidade à percepçao por m e io d a tecnolog ia.372. é clare. A ferra m enta "nao é um me ro objeto mate rial o u mesmo u ma imagem se nsorial como pode se r para um macaco. da ctcrnidade à etern idadc. p. Pa r out ro lado..373). s n a maioria d a. a ordem seria produto da in fusao d e significados e . essa luta se tem caracterizado nao som ente po r uma m aio r _. Nao se tratava. l . mas de um opératoire global que organiza 0 mei o ambiente. a evoluçao da fil oso fia é. concebid a por \'\Thi te co mo a passage m do estagio d a falsa co nsc iência pa ra 0 estagio da verdade ira con sciência. a h ist6ria .s por essa base. que sustento u a idéia de uma 16gica o r ienta do ra q ue re un ifica ria os fragm en tos espalhados por Lo wi e. sobretudo pa r Ruth Be nedict. nos Estados Un idos. D esenvolvida tanto na Eu repa com a . Corn palavras .a ferrame nta é. se m que.a si a defesa do seu co nceito d e cultura com a es tru tura sign ific ativa interposta ~ èn t re a s circu nstân cias e 0 cost u mé . 106 Cul/u ra e raziio pra/ica < " ~ Dois paradigmas da tcoria alltropoMgica 107 antro polog ia se m anteve presa nos ultimos cern a nos. a d ete rm in açào tecnol6gica d a cul tu ra n a teori a evolucion ista de White atu a lado a lado com a d eterm in açao cultural da tecnologia em sua teo r ia simb6lica: • 50co (cm franc~s no original).1 l • !co n sc iên cia an t rop ol6gica a resp eito d o simb6lico. u m sistema d e sign ifi cados q ue indepe nde da realid ade fisica. onde tud o que é essencialmente 0 m a is co nvencio nal é tido com o 0 mais natural. ao q ue sabcmos. A interpretaçao de um sistema de experiência do q uai m TI coup de pOÎnt é um traço caracterfs tico refletira neccssariamente esse tipo de experi éncia. Em verdade. Esse conceito foi posterio rm en te d esenvolvido. 1949. constitui um reconhec imento leg ftimo de quea razao pratica e 0 simb6lico coabi tam. 0 p arad igma d e Boas coiwive corn 0 de Morgan.ou. e essa expe ri ência... " 1) .que se opoe à co nsc iência p ositivista e utili ta ria através da exposiçao tecnolôgica . como às vezes cie 0 chama.experiênda com o atribu içao d e si g ni ficado .... p. Esse mundo das idéias da provas de uma continuidade e de uma perma nência que 0 mundo externo dos sentidos jamais podeni ter. d e um c6digo di fe rencia l. por sua vez.) r I! ~ . 1.'~.. o utro co nheddo a nt rop61ogo norte-am erica no.. Nao seria impr6prio falar em um tipo de Com o as id éias decorrern das co ndiçôes técn icas da percepçao. No q ue se refe re aos Estados Unidos. Segundo Bened ict. .co m o oco rre co rn todos os conce ito s . .ép \". as relaçôes socia is e. 1942.~ f' .] Mas en tao. Vm determinado tipo de tecnologia enco ntra cxpressao na filosofia do lotemislllo. ele pr6prio. !' . (\o\'hite. outro tipo na astrologia ou na mecânica quân tica. 0 mund o da me nte ou do espirito. d eve ria fo rçosam ente dar lugar a u ma fil oso fi a cientifica baseada no co nh ecimento objetivo. n ao por suas propri edad es o bjetivas. mas de um passado e tambérn de um fu turo.. a travessa ndo 0 curto periodo de tra nsiçao da m etafîs ica. p. de todos os out ros sercs vivos po r ser capaz de um comportamen to simb6lico. alin havand o-os para forma r padrôes con siste n tes d e cultura . '" . m as também por uma penetra. soc iedade no rte-amer icana. no en ta nto. seja por m ediaçao das relaçô es sod a is igu alm en te dete rminad(\. nao co'nsiitui uma sucessao de epis6d ios desconcxos.sào flXados. as in tcrpretaçôcs sa o pro fund amente condicionadas pelas tecnolog ias.365-6. 0 homem cria um novo mundo. n essa pe rspectiva simb6lica . Mas a experiência e) em conseqüênci a. Ele naD é feiro apenas do presente. f) ) ~ a an t ropo logia dos g rilhô es do naturalism o. por um lado) a refI exo da base tec nol6gica.atitud es compa raveis enco ntrados em todas as praticas d a cultu ra. • ~. uma idéia. e m sua essé n cia. 0 homem sente que a qualidade essencial de sua cxistência consiste em ocupar esse m undo de sfmbolos e idéias . Tcmporalmente. u m conce ito cujo significado e uso . acima d e tudo. Ë també m u ma id éia" (White. Ao dispor de recursos tecnol6gicos cada vez m a is efi cazes para tidar corn 0 mundo.-.~ .co nstr6i o u t re tipo de mundo : 1 3'- 1 c o homem difere do macaco e.. As id éias qu e os ho m ens elaboram sob re 0 mundo d eriva m n ecessa ria m en te do m odo peio q uaI 0 conhece m pela experi ênda.\~. ela p r6p ria. e sim um continuum que se estendc ao infinito em amhas as direç6es. 0 p ode r que 0 ho m em tem de co n fe rir significado .. A cada tipo de tccnolog ia corresponde um tipo de filosofia.. 1961 11934]J . Para "White. (Wh ite. ) da perspectiva cultural q ue pode ria ser qualificada co mo uma tentativa de Iib ertar . os pr6 prios discipu los de Boas tomaram . Se um m achado de pedra gera deter mi nado tipo de filosofia. W h ite insiste no ca rater u n ico do "com porta m ento simb6lico': isto é. Aqui) sua form ulaçao te6rica provém di retamen te da epistemolo gia de Morga n. seja d ireta m ente.'. um mundo de idéias e filosofias. '1 çao cresce n te no cam po d a a nalise do p ratico. Assim. sem suscitar muitos comenta rios ou escândalos.. Assim .. depende d o m odo pela q uai se articulam tecnicam ente ao mund o: Os sistcmas ideol6gicos ou filos6ficos sac 0 produto da organ izaçao de crenças nas quais a experiência hum ana encontra sua interpretaçào.

lo suspirar nos ramos dos pinheiros. nâo se confund em com a praxis que . ele bebeu a agua dos rios.a. esbarraram tambem em ~ma hn:'taçao especifica do simbolo. 1959a. objeto de estudo do etn61ogo.fen ômcllos que têm seu lugar no organ ismo huma no . transcrita anterio rmente. Começo pOl' Durkhei m. de certo modo inescrupulosa. às ll ot6rias origens na pr:ixis. sob a forma de realidades discretas. do objeto cultural pelo significado. enX2das e costumes que regem a d ivisao de tra balh o na sociedade. Durkheim dese nvolveu sua pr6p ria posiçâo a respeito da sociedade em co ntra posiçao à moda lidadc de economicisl11o e individualismo radical qu e vimos conti~o no projeto de Malinowski (cf." . \Vhite confere dcsncccssariamente à cultura um a definiçi'io contextual.Associaçao America na para 0 Progresso da Ciência]: UVI -STRAUSS 1 Entre 0 IlO1IIC 1 e a WHll reza. realizam -sc COIIID cstrul'ura s. [Desse modo. A imp ressionante etnociência dese nvolvida por Goodenough. num contexto extra-sol1latico.. [1966. que é 0 esquema Assim [corn simbolosl 0 homem èriou um novo mun do pa ra nele viver. grifo rneu ·1 Em oposiçao ao parad igma fund amentalmente prat ico e tecnol6gico que 0 Iiga a Morgan. Vcr Berger e Luckmann pa ra ll!l1tl di scussilo rcccnte de "objctivaçao".podem ser considerados. embora scja le propre da escol. através do comportamento ou da (ala (que é uma forma de comportamen to) . sociedade e cultura. conseq üe nt eme nte do significado coma significância rcfe. [19 58 ms. de escuta..c6digo aparentemente Ob)l2! tIV CUp ob! e~'Vl­ O. cm vez de cm sua relaçâo COOl 0 organismo h umano . torn am-se "cxt ra-sornâticas". p... Ce rtamente ele nâo deixo u de palmilhar a terra. Parsons.polagia norte-an:ericana. de pOiS. n30 teria scntido algum sem UI11 COllceito cuma atit ude. os "simbo13dos" \listos no contexto de outros "s imbolados':o que coloca a ca rga da deu'nn inaçao no antrop61ogo . é porque essas prMicas.e ignora 0 proccsso real pelo quai as prod uçôes hum3113s si'io reificadtls ou "ohjeti\ltldas'. tais como arcos. a um texto extraido do d iscurso pro ferido por White na condiçâo de presidente da seçao de An tropolagia da MAS [American Associati on for the Advance ment of Science . caçavtl ccrvos. tod a traça cultural. se nao exatamente essa ambivalência de White. ou scja. l6 Nesse artigo. ssumir uma perspectiva simb6lica que 0 cola ca a em co mpanhia de um nome inverossimil. e distintivas de gêneros de vida e de form as de civili zaçao. ~ :. Lounsbury. Co nkl in e outros. Ou. k<"j _ . illterpu11 /l iul-se a Véll da W/lH rrI . '" ~ } . d(~ a~â~l~e camo traduçao. Por outra Jado.. é caracteristlca do s melOS europeus. Sem pôr cm duvida 0 incontes tavel primado da s infra-estruturas.236. verifica-se. isto é.lacalizadas no tempo e no espaço. sobretudo a partir do legado lîngü istico da escola de Boas.. Mas ja nâo era 0 mesmo sol! Nada mais era como antes. Durkheim . ao 111oderno es tt uturalismo francês _ que també m incorpora a tradiçâo de Boas através de LéviStrauss. Tudo estava "banhado por luz celestial" e havia «sugestôes de imortalidade" em cada mao. Essa distinçao. " • • ~ c ~ WHITE 1 ! 1 1 1 i Se afi rmamos que 0 esquema concei tuaI comanda e define as prâticas. mu ito mais di fundida na antropologia soci~l inglesa q. ~ . Lukes. os esfo rç~s ~e Geertz ou Schn eider. Permitam -me justapor uma citaçao de Lévi-Strauss. [White. Lascava pcd ras.rel. 1972) . e ele nada poderja cllxergaf" (j lU'i O scr arTavés desse véu. cm particular.. a titudes e scnt îmentos .mesmo quando 0 local do simb61ico permanecc no sujeito humallO . Embora se t'cnha tornado a her6i de um cer to "funcionalismo" posterior. de sentir 0 vento no rosto. p. pois a frase fin al do paragrafo ~de V lhite é uma proposiçao que Lévi-Strauss nao endoss a ria.eri~a ­ na. lcm um aspecta objetivo Csubjetivo. para mencionar exem plos de natureza bem dlstmta (ainda que igual mente imp ression antes pela qualidade inte l ectu~l ). 37 Ë evidcntc que essa comparaçao é IC\le l11ente maliciosa. : Dois paradigmas da leoria {!llI rop ()IJ~ îCll 109 108 Cultura c razao prdtica Um machaclo lcm um co mponentc subjetivo.'". para fin s de interprctaçao cicntifica.1Clal e. Mas tlldo cra permeado pela essêllcif"! Jas palavras: os significados e valores ql/e estamm além dos sell tidos. presa.. Ao que parece. Como suas implicaçoes remontam a Durkh eim e. foi agrilhoada por um conceito positivista de cuttura co mo competência compar tam en t ~l ou e tnogra ~a . em termos de um. desprovidas al1lbas de existéllcia independel'lte. E esses sigl/ificados e va/ores 0 orie ll ta 1'L'111J.ue na n orte-an.J36 / CO ll ceiwal por obm do quaI t/l1U1 matéria e lima forma.-'~ '.. por caminhos diferentes. A agua ja nâo servia mais apenas para saci ar a sede.Jl7 ~~ . cm outras palavras. White é capaz de . Ele ainda usa\'a seus sentidos. tendo /nlliras vezes precedê/!cia sobre eles.. a partir da sua relaçâo corn outras coisas e acontecimcntos simbolizados. isto é. um concei to ou uma 3titude nao teriam sentido algum sem uma clara expressao. M as as con cepçëies. grifo meu. concebido a parti r da disti nçao en~ re açao e l~eolog. cremos que entre prâxis e prâticas se intercala sempre /lm medindor. se mpre que se incu rsiona pela antro. uma ap ropnaçâo.. 1968 [19371. poderia torn a r a vida ete rn a. Toda eleme nto cultura l.. cOlltudo. co mo seres ao mesmo te mpo empi ri cos e inteligivoi s. acasalava-se e procriava . 130. a/ém cfe oricl/tar seus selltidos.} de Boas: 0 homem to rnou-se 0 animal irracional.pareceu-m e mais correto dedicar maior aten çao à maneira pela quaI fo i concebida a relaçao entre util itarismo e cultura nessa tradiçao. constitui a tota lidad e fundam ental para as ciências do homem . dormiu sob as estrelas e leva n tou-se para sa ud ar 0 sol. dade" encerra uma teoria. um mach ado pode ser co~side ra do a partir da sua relaçao 1 corn out ras co isas e acontecÎmentos si mbol izados.

p.. é nccessariamen te através dcle que tudo devc ser explicado.' tato. Trata-seda consc iência em o pos içJo ao desejo. Po rlan to. ~ '4. Pode-se perceber m u ito bem essa uniao de opostos em um ensaio (1887) que escreveu sobre a ciência moral alema. Com retaçao a esse individuo eterno do quaI fora abstraida a sociedade. . Uma delas é a grande seme lhança res idual en tre 0 "superorgânico" de Spencer e a "sociedade" d e Durkhe im.42-4). a célebre advertência contida em As regras do tnétodo socio16gico" tratar os fatos sociais coma coisas" . Ressaltar a fac ticidade do fato social efa precisamente uma fo r ma de removê. on de enaltece as perspectivas sociais d os historiadores econômicos G. e 1965. citado par Lukes. p. Obrigada a part ir do pressuposto de que "nada ha de real na sociedade além do indivfduo'~ tai ciênc ia nao oferec ia qua lquer espaço te6rico para a sociologia. cujo deba te mais recente estava cent rado no utilitarismo pr6prio ou na sua açao eco nomicistica. do convencional em oposiçao ao espontâneo.. as leis socio16gicas s6 podem ser um carola rio das ieis mais gcrais da psicologi a. cc- ft ~ -.: f" e!'!Î'. à oposiçào global entre cultura e natureZ3... Do individuo. S -:·~ ·C ~. cf.. De mane ir. logo. cmanaram ns nçc:essidades e dcscjos que determinam a formaçao de socicdades. pois somente os individuos podcriam tcr existido anles da sociedade. escreve: a economia politica consiste na satisfaçao das nccessidades dos indivfduos. Segundo CSSa concepçao. e sc é dele que Indo provém. Em conseqüência." . os deli neamen los do fu ncio n alismo de RadcliffeBrown transparecem na onto logia de Durkheim . Il . .94-5. esses fins 56 podem ser individuais.:s . a ma is impor tante caracteristica de u m a 'coisa' é a impossib ilidade de que seja modificada po r u m simp les esforço de vontade" (ibid .l a naloga. portanto.lo da produçâo individ ual: "Pois tu do q ue é real possu i uma natu reza defi n ida que impôe con trole. /Ibid.11.:.. do ras prop riedades e poderes qu e Ihe atr ibui em relaçao ao individuo representam um ataque d ireto à idé ia que 0 economÎsta liberal fazia da sociedade como produ to publico do Interesse privado. Asociedade. p. contudo.iv-vi). ç:~ J - ~. A qu estao nao se reduzapenas a que 0 fato soc ial seja coletivo. A necessidadc que temos das coisas nâo pode determinar que elas sejam desta ou daquela forma c. p.. Wagner.. 0 m esmo economicismo qu e se h avia recu sado a admitir como const itut ivo ao n ivel do in dividuo. 0 individuo supôe-se camo 0 unico hm das relaçôes econômÎCasi tudo é feito par e1e e para de. Ao negar a economia politica.28) ." cular de suas necessidades mate riais.~ =1 c .la pela realidade exclusiva do sujeito intencional. simultaneamente. paralclamente ao contraste entre Morgan e Boas. encarada como . Ma is importante é que D urkh eim forjo u seu conceito de social n u m confronta gera! corn a economia poli tica clJ. e n~o apenas corn Spencer.. que a funçao de u m costume 9U seu papel na satisfaçao dos b~soil1s sociaux poderia dar conta de sua natureza especifica. A esse vo Iu ntar ismo e intencion alismo. f. em pri ncip io. p. Durkheim opôs 0 fato soc ial.' c~ "" ~. Esse p r6prio "individuo" era uma abstraçao. 0 m6vel rea l das incursôes de Durkhe im no terreno da psico lo gia ach... As esmaga. 109..] Desde cedo. <0 l . Durkheim convenceu -se de que a econornia poHtica conslÎluia UIl1 eSlagio do desenvolvimento da ciênc ia soc ial que precisava ser superado.ss ica. p. Todos os aspectos afirmativos da sociabilidade no esquema de Du rkh eim sao. l8 Nâo obstante. Nem mesmo se u entusiasmo pela "solidariedade" 0 levou a supor. se a sociedade é apenas um sistema de meios instituidos pelo horncm para atingir determinados fins. portanto.l\'n-se em sua critica à economia. que deve ser levada em conta e que ja mais é com pletam en te superada. Durkhe im foi obrigado a reproduzi r ao nivel da sociedade. p. .Io camo uma profunda crîtica à autoconcepça6 do cap italismo que se exibia como teoria da socied~lde. e em vez de se o ri gin~r das necessidades.' 38 Mostrar em que sentido um fato é l'tlll nào é explicar par que é verdadeiro nem por que é a quê é. Entendia de que a origem real do reducionisillo era a ideologia do homem que calculava: D. é nelas que se encontra a fonle de Ioda a evoluçao social. par conseqUência. par sua vez. . e portanto é mais correto entendê. mas flao a criam. Privado de todas as coordenadas de tem po. pois os usas aos quais serve pressupèiem as propriedades espedficas que a caracterizam. as mesmas consideraçôes imped iriam Durkheim d e ser in dulgente corn a utilitarismo mal disfarçado do func ionalisIl1o sociol6gico.80). tudo que restava era "0 triste retrato do puro egoÎsmo" (D urkheim [ 1888 [. uma entidade metafisica que 0 estudioso . que sac internas. . que é extern:l. nao é cssa nccessidade que pade retira-las do nada C conferir-lhcs existência (Durkheim. m esm o q uando conseguim os neutra li za-Ia. espaço e h ist6ria.110 Cul/lira c razao pratica Dois paradigmas da feoria alltropoldgÎca 111 elegclI Spencer coma seu principal adversario socio16giço no que se [cfere a essas questocs.represen tava mais que uma liçào aplicada à ret ificaçao positivista.. Durkheim nao poderia deixar de nutrir 0 mesmo desprezo que Marx. cm par ticular na obra A divisiio do traba lho (1949 [1893J). Durkheim recusava-se a conceber a socied ade como 0 objeto externo da manipulaçao huma na ou troca. observa Luke.97-9. Por varias razoes. em parti- "" . s '" ~ ~ .90. Como en lâo se co loca Radcliffe-Bro wn ? Seguramen te. aspectos negativos da individualidade. é passivel estabelecer uma COI11paraçao paradigmatica entre Spencer e Durkheim. estanda es ta ûltim3 relacionada à 16gica materi aI da prod uçao e. "' ~ . é uma invcnçao do pensamento." (1950a {1895J..~ 1:: . "De fato. Porta nto.. Ncm Malinowski nem Weber. Além disso. m odela que elevava a sociedade ao status de predicado das su postas fin alidades e necessidades humanas. .._ f. 0 exerdcio dessa comparaçâo entre Durkheim e Spencer nao seria tao valioso.. 1972.uma espécie de supersuje ito. Tratava-se de uma crîtica gera l à adoçao da f6rmula racio nalista d o indivîduo q ue acumula como 0 modelo da produçao soci al. na oposiçao en lre ind ivîduo e sociedade. por conseguinte. 1950b [1895]. combatendo os liberais da "escola de Manchester': Co rn relaçâo a estes ultimos. ha nas socicdades apenas consciências individuais. ela se impôe como coe rçao.. Sch ~ofIer e A..

~ ~ . que inspirou profundamente a m aioria das obras do grupo do Am1ée Sociologique. à soma das suas partes .om=-.seja produto do desejo indi vidual adquire a forma de uma insistênci a em sua utilidade social: Para [Wagner e Schmoller]. d ctermin ada pela conjunçao de înl ercsses individuais. sem 0 sabcr. qu e nào sao aqueles do ind ividuo.t d'être (Radcliffe-Brown. Pode se r que essa noçao de luta subterrânea e dos problemas funcionais que ela apresenta à sociedade permaneça como 0 legado mais importante conferido à ciência socia l pela ideologia capitalista. tem sua pr6pria natureza e personalidade.. sua opiniao muda . Esse dilema pode ser exemplificado por duas curtas passagens das Regras. -=. Vê -se que. 1950. Por urn lado. entre as quais a necessidade de objetos materiais para satisfazê-las. enca ntrava-se também por detrâs da preocupaçao de Radcliffe-B rown corn a "cooptaçao" e corn a ordem legal em geral (cf. em ci rcul1stâncias especia is. Um deles cra a visao de qu e a sociedadc cstava continuamente ameaçada a pa rt ir de dentro por uma guerra da parte contra 0 toda. a sociedade é um verdadeiro ser que nao esta. p. -' d~ . mas. 0 ser social lcm necessidades pr6prias. Sahlins. a fa mflia possuern fun çëies sociais na medida cm que têm coma se us objetivos um a defesa.~q__àS~ objeçôes de Lévi-Sffairs'Sà-aëriVaçâo~ repr~se nt~!? c~~eti:.- . 0 exé rcito. nos co ra mos das ciências natu rai s: morfologia. que a atividade social po de ser comp reendid a.112 CI/hura e. B 6bvio que a ênfase na vida da sociedade em oposiçao ao pro 6s~:..a.. A tradiçao da socieda e co ITm organismo foi mantidal)Or ltaa. po rtan to. ou sua contribuiçao à continuidade social. Lukes e o utros antrop61. Em um cnsaio postcrior (1965) sobre Rousseau. corpo da naçào .ow·n. Essas express6es utilizadas na linguagem corrente . es sa idéia de sebrevivència social ao il produzia grande numero de efcitos permanentes sobre a idéia do obje to social. tal como Rousseau... ele deve in teressar nao apenas aos individuos considerados separadamcnte. con ù êlr io. e é através da sociedade.e·~ -a-mbos os lados da questâo equivalem a ap enas um conjunto de paradoxos dentro da co mpreensao do m est re da relaçâo do pensamento com a mundo.~~_~~!mar_am. Durkhei m nun ca acred itou qu e 0 nosso pr6prio con hecimento como m embros da sociedade ou."-!~_e~tr:.e contra 0 l'ode r orde nado r da necessidade individual esta 0 da l1ecessidade social. fisiologia e evoluçao. s6 podiam ser penetrados de fora. p.nent.s i~~. é certo. Essa pa lavf(l apcllas [ol ula 0 conj unto de todas as atividades individuais. Esse programa afirmava que os fatos sociais. 1887.consciência colctiva. a outra a alimentaçâo da sociedade. A negaçao de que determinada praticaecon6mica... outra forma de 16gica instrumental.. vêcm no do soc ial nada mais que um a aproximaçao supcrficial.processos tao di stintos na concepçao de Durkheim qu e isso 0 deixa inca paz de abarcar seu pr6prio programa positivista. na medid a em que esse fato foi determinado por oposiçiio à necessidade individ ual.. Ela requeria apenas a proposiçâo de que a " funçâo social" de um a instituiçâo. cspirito coletivo. que Durkheim se tornara cada vez malS consciente da auto nomla e da Uri'ivêtsalidade do sÎgnifj .~. [D urkheim . Pelo simples unas com as outras. "Para um fa to ser sociol6gico. p. 0 paradigma meies-fins camo U1n tode foi construide co rn base na cOll cepçao do rata social. trala-se de um fodo que . porque estao (ato de que as partes man}êm relaç6es dcfinidas L dispostas de determinada maneira. tampouco a maioria dos cidadâos.m _ estar consciente de um fato e conhece r seu lugar. em OPOSiÇ.. mas que.". Assim. mas expressam fatos que sac emÎnentemen te concretos.e a transferência do utilita rismo do indivîduo para 0 sllpersujeito que a pr6pria linha inicial de argumentaçâo de Durkheim tornou inevitavel.Sc redu?.. No entanlo. Durkheim escreve que "toda educaçao é um esforço continuo para irnpor na i J.. Outro conjunto de paradoxos é 0 problema (mu ito semelh ante ao de Malin owski ) da diferença entre 0 modo de conhecimento do soci610go e a maneira pela qual 0 conhecimen to é co nstituido na infância e na sociedade .nao possuem apenas uma dimens âo puramcnte verbal.. te6ricq açi!!_~a. esse conceito. a fortiori.êïTffé~·s.in ividual proporcionou a base 1 6gica para a apropriaçao de toda a metafora orgânica omo a idéia basica da constituiçao social. incluindo a muito conhecida "epÎstemologia sociol6gica': acabou viti ma do mesmo tipo de dualismo. a telcologia utilitaria nâo pode se l' evitada.. [Ibid. Como . o conceito de simbolizaçao de Durkheim. e nao do indivfduo.~-it·~ d~. 1972. contanto que guiados pela percepçao e sem preconcepçao.37 -8. Mas. disdp ulos de Rousseau . :Ë errado dizer que 0 todo é igua l à soma de suas partes. É ycrdadc que reconh cCè I1l que 0 cstado de isolamcnto nao é id eal. mas dotado de propriedades especiais e que.: ~ A.. da mo. precisamente porque foi definida camo exterior e por distinçao ao bem -esta r individua!.~. 4). da mesma forma que se tornou. nao obstante. basicamçn te. a vida da sociedade era a fin alid ade relevante. p. fosse também sua miso.. acima dos indivîduos que a co mpôem. Illas a atividade da naçao cm se u conjunto. precisamente porque eram "coisas". os ecoll omi stas libcrai s s:io.] A sociedade.~eJ~emplo da_ '!i~er_':. . mas tamb ém à pr6pria sociedade.QQ:_ Os lextos que lfJ poderiam ser pe ~.r~ol~gia i social. J Quer di zer entào q ue 0 argu menta iilvocaclo contra 0 scr individual é exatamente o da existência de u m ser social . [ ~ .. razao pra/Ica Dois paradigmas da teoria alltropo/6gica 11 3 pade c devc ignoraI'. os fatos sociais tivcssem a mesmo tipo de gênese. cap.-----------------'- . sem duvida. e que era construida de modo a evitar esse peri go. a quem repud iam par cngano.3 7. 1886.. .. algo de nova resulta de sua combinaçao: um ser composto.. nas mâos dos seguidores antropol6gicos.~~"""oa.66). por exemplo . cie institui e organiza uma atividade econômica que nao é a ativid ade deste ou daquele individuo. Nesse casa. a industria. tem os seus propr ios fins..·1 " ~ • ~e .62) para completar em um mesmo movimento a reversâo da maxima de Durkheim para 0 seu contrario .JCadoJIalyeZ _e~se sej~-". e a terceira a sua renovaçao e continuidade" (D urkheim. -é " m ela a divisao da antropologia social ou sociologia. alé m di sso. pode inclusive tom ar-se conscien te de si mesmo .

ritas de 1844: "N6s s6 comprecndemos quando pensamos soh a forma de conceitos.o essas ~o nvoluçôes ?ialéticas ~or~ue e1as ajuda~ a explicar as vir!(' . ele diz: "Os moralistas pensam qu e é necessario d eterminar co rn precisao a essência d as idéias de lei e élic3.!!.q uestao m ais ad iante).tual e a atlVldade moral. etc. ~ espaço. 39 . e apenas da. . ' . Finalmente. isso. 1'. Durkheim se apegou simultaneamente a uma re'laçao mediada e nâo -medi ada entre suj eito e objeta.~ ) Menc~on. Durkheim reconhece 0 cara ter arbitrario do signo diretamente. p.ois p610s ~li. é um ideal do quai nos pod emos incessantemen te aproximar. No cntapto. te'rhpo. e Lukes. qqe em mUltos pontos essenClalS era bastante pr6Xlma à d e Sa ussure. distin guem-se pelo fato de que as regras de condutas às quais estao su}eltos po~em sel" univers:lIizadas. penetra-la e transform a-la. Eles ai nd a nao chegararn à ve rd ade muita simples de q ue. como nossas idéias (représentations) das coisas fisicas sâo derivadas dessas pr6prias coisas e as exp ressa m mais ou menas exatamente. \1 l " . Observa-se outra paradoxe do ponto de vista do carater arbitrârio do sig no. num~ro. elas nao refietem especifica m ente a percepçao. 0 hom em era «duplo" na visao de Durkheim.!. Ur. temos de cometer aigu ma violência para com cla. 195 1.J. cnquanto nao intervenham consideraçôes de outro tipo [ou seja. cf.. al gu mas paginas adiante... 23). Portanto. de representa-las a n6s como se desenvolvendo em urn a ordem difercnte daquet a na quai realmentc se produzirarn. virtudes sao apenas parcialmente docum entadas pela mfluencla do concelto de Jw. 1'. Sem duvida. relaciona-se sempre corn um objeto determinado ou corn uma coleçao de objetos desse tipo c expressa 0 estado momentâneo de uma consciência particular. Por isso. . mas nunca atin gir" (Durkheim. aquilo que as fazem ralar ao nosso se r sensorial e a comprometê.: ~or um lado. Assim.. Com muita frequ ência.23-4).. para submetê-Ia. c apenas a n6s mesmos.l·V al-1 <"parole (Doroszewski. D.327. ~ ! .~~~:::! 0 ~r6pr:. 40 E uma vez que ascategorias nao sao as particularidades d a experiência. urna irnagem. 1947 [19121. Sem duvida.u u ma Unoçao~o signo. de direito.especificamen te a expe: n ênc la IOdlvldual. nossa sede etc.\ \ i ~.o Dur~ei~ desenvolve. a co ntradiçao era m a{s complexa e nao deixava de apresentar certa determi naçao. Durkheim escreve sobre a alien açâo envolvida nessa apropriaçao da experiência individual de uma forma semelhante à que Ma rx aprcsenta nos Manl/s. se impOem a n6s de [ato. quando nossas sensaçôes sac reais. q ue da seguimento às Formas elementares. A moral co meça com 0 desmteresse.ividade moral..lo na açâo.14.eles transcen~em . Porém. 0 primeiro era 0 d estino do homem na sociedade. temos de submetê-Ia a todos os tipos dc operaçoes laooriosas que a alteram de modo que a mente possa assimila-la. cm maior ou menor medida. 0 conceher algo é aprender mclhor seus c1ementos essenciais e tamhém situa-Io cm seu lugar. p.onceitos do mundo dominavam e suhstitufam suas sensibilidad es e depois. 1'. Nossos apetl~ es sensonalS sao neccssariamente egolstas: des têm a !lossa indiv id u ali d ~dc . Entretant o. 41 "0 pensar através de conceitos nao é apenas ver a realidade do seu lado mais geral. por definiçao.o~las de classe. corn relativa liberdade. como seres sociais. Em vez d e arttcularem essa expe n êncla. na. nem espontaneamente nem por si mesma. nunca somos completa mente bcm-sucedidos ao controIar nossas sensaçôes e ao traduzi-Ias t·otal.. ~1. sao sensaçoes e tcndèncias $ensoriais. ass im [como estudiososJ nossas idéias de ét ica devem ser derivadas da manifestaçao observavel das regras que estao funcio nando 50b nossos olhos" (ibid. como uma conseqüência 16gica da distinçao entre 0 fa to individual e 0 social. p. Na condiçao de locus desse dualismo antagônico entre sociedade e se nsibiJidade.f . como um objeto. os limÎtes da nossa experiência pessoa!. sentir e agir às quais ela nao poderia chegar espontaneam en te" (1950a [1895]. Se 0 segundo se adaptava ao projeta cientîfico.435). desse modo. Mas a realidade sensorial n:ïo é fcita para en trar no quadro de conceitos.329). mente em termos inteligiveis. 1972. sociais). sem colocar em Jogo qualquer outra tendencla. particularmente em r~ferêncla às c~teg. é a n6s m esmos.~~~_~_4~_r::!. como o~Je t ? Quando satisfazemos nossa fome. Ela resiste e. mas também sao opostos um ao o ut ro. Ij~udes te~na .r12 . DaÎs paradigmas da tcaria lZlltrapolOgica 115 1 cf iança maneiras de ver.. mas antes idéias gerais das particulariclades (que fazem de um a exper iência um a particularidad e). temos os meios e a liberdade para representar em outros termos: Urna sensaçao. 1 fato social de Durkheim na formulaçao de Saussure da d istinçao entre langue e .ho mem como um supersujeito cujos pr6prios c. sao 0 pcnsamento conce. Todavia.O san apenas distintos um do outro. No caso mediado. p. 39 40 "De fato. No en tanto. uma vez que para Durkhei m as categorias representavam a morfologia o () Em outro artigo ( 1914 ). somos livres 'para concebê-las de modo diferentc do que realmente sâo. e esses d. r ( 114 Clllwra e raziiQ prl!/ica 1. [Durkheim. [0 pensamento conceitualj e a ~ t. e as hm ltaçôes da problemahca durkhelmlana como da cultura. Cada uma dessas duas partes de n6s mesmos representa um p610 scparado do !lOSSO ser. mas é projetar uma luz sobre a sensaçao que a ilumina. . por outro. dill~~al~dade ~oci. um termo expressa coisas que nun ca percebemos ou experiências que nunca tivemos ou das quais nunca fomos testemunhas" (Durkh eim.Essas 1 iJ .6).JPas~~le~1:~tar~~. ela é esscncialmente individual c subjetiva. ao contrario.l ~~ i em t~ f0. ha um nûmero muito pequeno de pal avras que empregamos normalmente cujo significado nao ullrapassa.da nos prende. n:io podemos comprecnder as coisas sem renunciar parcialmente a um sentimento sobre a sua vida. às vezes sonhamos co rn uma ciência que expresse adequadamcnte tod<l a realidade.a~. exatamente porque a sensaçâo individual é so m ente um fato transit6rio que 116s. bem como entre gratificaçao egoista ~ e moralid ade coletiva. Elas s6 tomam forma conceit ual perdendo 0 qu e ha de mais concreto nelas. perseguem fin s impessoa is. diferentes. das reprcsentaçôes que têm essa origem. com a ligaçao com alguém que naD n6s mesmos" (1 960 ( 19 14]. apresenta d uas formas muito. 1933). podemos dispor. que satisfazemos. Durkheim esc reve~: "Nossa inteligência.. como nossa atividade. a soc iedade co nfrontava o . e nao podemos sen tir aquela vida sem renunciar à sua compreensao. Na Classificaçao primitiva (juntament~ corn Mauss) e ~al-tkJacto (voltaremos-a-essa~. mas aprop riam-na dentro de um siste ma cultural 41 relativo. 42 Em outra pa rte da sua obca. 1960 [1914].434). porém. a experiência direta do que explicava empiricamente esse processo de imposiçao co nceitual. e a dualidad e d o seu ser correspondia a uma oposiçâo entre percepçao (individual) e concepçao (social). 1947 (1912). cada civilizaçao tem seu sistema de conceitos organizado que também a caracteriza" (ibid. como os ( ~c:~~~_s. tornam-se algo ftxo e morto. p. 'l • l ! f f . causa. eles se eleva m a uma metalinguagem pela quai a experiência é organ izada. Frente a elas.

A hi ~t6 ria do mu ndo era a narrativa da existência da tribo. ou a ecologismo. ~. por isso fo i dado a eles um Iugar dentro des grupos huma nos. dcsen'lolve lad a a questao na sua co nst ruçâo. que parece m estaI' reproduzidos nos melho :/ res traba lhos mod ernos.234) . repelem. se nao cede suas propriedades fîsi cas. a forma da natureza. Dlvergmdo do i m aterialismoh ist6rico em gestaçao. perguntou cIe. A respos ta poderia se r enco ntrada também especificamente no nivel cultural. ("Para os australianos. l "nao se enco ntra fora da socied ade real.141 ). contudo.~" 6 Cl/IIUnI e razào pra/Îca Dois paradigllws 1'1/1 tcoria fill/ropo16gica 117 I l Portanto. p. essa natu reza é re lativa 30 homem. 0 chao que ': el es OCUP~J!:1. 1972.424.. Eles se atraem. E entre a propriedade de 0 [ogo queimar madeira e 0 fato de um homem perder sua propriedade nao existe q ualq uer relaçào comensurâvel. entao ele foi abrangido d en tro d e uma ordem até m esmo maior. e da si ntaxe significativa coma sui ge/leris: "A sociedade ideal". u ne m. seu conteu. ma.s acima l de tudo é 'l lde 'VIue ela for ma de SI mcsma (1914 [1 9121. além de seu pr6prio reflexio ni smo soc iol6gico. e. Da determinaçao do esquema significativo pela morfo Jogia socia l. tudo que existe no universo.23!). POl' nenh uma 1 6gica natural a açao nl<\g ica contra um tipo especifico d e pessoa é conseq üência do processo d e comb us tao. . se ntimentos. A oposiçao 30 marxismo foi exagerada nesse exemplo te6rico. ! do e sua objetividade sâo todos soc ialm en te condicionados" (1971. nao estâ na natureza do fogo queimar uma . ainda assirn acusava rn disso seus vizinhos e parentes e ernpreendiam aç6es magicas de defesa e represâlia? A resposta que ele mesmo deu foi que a efeitb socialhâo resulta da ca usa natural. The Nuer (1940). pairando for a do mundo': ambos estào Ide aco rd o quanta à proposiçao corolarÎa de uma natu reza sociali zada ou)h'1maniJzada. p. sao elementos const itutivos dela e. idéias e imagens que.. inglesa ou francesa. uma vez nascidos. Além di ssa. camo Durkheim colocava. bem como às ana lises mais rceentes de c1assificaçâo de Douglas. Ele também foi dcte rrn in ante para as in iciativas etnograficJs de Evans-Pritch ard e seus alunas.422). Se a funcionalismo in glês reproduziu certo tipo de eco nomicismo. • ' . . em co rrespondência corn as categorias de homens. desse modo. ~~~oisas que eles usa~1 e os n~. Em um ~e ntid ~ crit ico. e se 0 exagerou pela transposiçao de uma telcolo gia utilitâria ao supersujeito social. nao é constituîda somente da massa d e ind ividuos que a com p6em. dividem e multiplicam. 0 fato social.ovimentos que executa~. Embora a fogo passa ter a propri edade de qu~eirii3r'uma casa. insistia ele. nao é um simp les reconhecim ento da circu nstância mate rial. nao dita mais suas conseqüê ncias. Villa socicdade 1. p. sao um a parte da tribo. reconhece-se nesse problem amat riz da antropologia social inglesa a mesma "i530 geral da relaçào de costume corn a natureza que distingue Boas de Morgan. da ordem na lural (OIllO ordem moral. é até m esmo 0 o posto. 'ft epistem o logia sociol6gica 2te Durkheim tinha seus lim ites enqua nto teoria { do significado. para Durkheim.. Do mesmo m odo que Du rkJle im concordaria corn Marx quanto ao recon hec imento 'Ide que "a homem nao é um ser abstrato. acima de toda consc iênc ia coletiva. mas um sign ificado social.)-P ritchard ja hi'vi~î dês~~volvido os 'pOÎ1toS essen'ciaisde uma v~rdadeira ecolog ia cultural em sua ob ra sobre a bruxaria Zande (1937). èsse mesmo rnovimen to evitaria a naturalismo vu lgar. 0 "resultado" cultural particular nào é qualque r p redicado d ireto da causa natu ral. ab ra nge os "moldes d entro dos quais é formada a experiência humap-~': Conseqüentemente. a fogo s6 queima madeira. elas têm um lugar determ inado no esquema geral da organizaçao da soc iedade" [Durkheim. 1 .. contudo. de uma maneira puramente natu ral. em Lukes. tabu c :" reli giao cm ge ral. exatamente coma 0 espaço geogrâfico podia ser explicado a partir do ponto central de um a aldeia. casa. e J tudo que fo rm a seu envolvimento com cie. 0 universo s6 exis te na medida em que é pensado. é pa rte integra nt e dela . compara r com as primeiras observaçôes d e Labrio la. Ele foi esse ncÎal ao lraba lho de Radcliffe-Brown sobre a crcnça e 0 . permeando 0 contraste entre as detenn inaçôes gc rais ~ da ecolog ia e a especificidad e do sistema de linhagem pelas suas famosas passo. DurkJ1eim costumava dizer. exatame nte camo os home ns. Esse conceito da apropriaçao soc ial da I1Jtureza. limites esses. 1947 (1912 ). assim como aas seU5 estudos de totemismo. p. gens sobre a constituiçao social do tempo e do espaço. A sociedade.) ~ fi . as pr6prias co isas. 0 mundo conhecido do homem era um mundo soc ial. sabendo perfeitamente que suas hortas ti nham sida destroçadas par elefa ntes e suas casas que im adas pela fogo. ele nao pode m ais ser pensado para agir sim plesme nte de fora. .um problema tam bém co locado··pelo papel que Durkhei m e Mauss (1963 [1 90 1-2]) emprcstaram à "confusào" na geraçâo de categorias conce ituais. nao é propriedade do fogo quc imar a sua casa. a . mas dc dcntro da sociedadc. a derivaçao de forma 16gica do afeto inqistinta pe le q uai Lévi-S trauss a censuro u . . Os objetos dessa existê ncia social nao eram simp lesmen te classificados isomorficamente corn a homem. obedecem a Ieis pr6prias. pessoas essencia\mente racionais camo os Azande. Durkheim con trap6s "todo um mundo de . ele passa u a uma determinaçao da m orfolog ia social camo significativa.. Foi antes a diferenciaçao fatal entre morfologia soc ial e representaçâo coletiva . / categoria social. t_ . Leach. • j . de Evans-Pritchard. con ti nua a in fo rm ar a rnclhor antropologia es trutural. isto é.) Se. por assim dizer. Observem que mesmo dentro da epistemologia sociol6gica surgiu um desvio fundamental na relaçao en tre sociedade e natu reza qu e podia afastar qualquer reflexio nismo..• cerimon ial dos andamaneses. Uma vez incorp orado ao dOl11lnio huma no. Nem ha uma resposta comensurave l. Por que. p. membros rcgulares dela. Um fato natural abrangido pela ordem cultural. Issa significa tudo que éco nsiderado natural em Ùhl d e(ermi nado lesta gio d e desenvolvimento soc ial. Nào me refiro ao sentimentalismo da exp licaçao de Durkheim do totemism o austral iano. t. Mas entao Evan. A oposiçào a essa recluçao levaria Durkheim. A descr içao feita por Lukâcs é valida para os dois: \'A natureza lé u ma . • • . BuJrrier e Tam biah. precisa mente nao um reflexo. açao da natureza nâo é mais um J'nera fato empirico. embora essas combinaç6es nao sejam comandadas nem compelidas pelas condiç6es da realidade subjacente" (ibid. ao menos momentaneamente.recriada por auteres mod ern es coma socicdadc Il t r r r .

L (~ ~ ~ .-. '~cf~c J119 t ~~: C:~ '~ '\ •"1 'Ift\ ~ •. e por isso representam operaçôes mentais das quais eles sao. " ". ao reflexo representaciona l na ciência social angloamcricana a prcferéncia pelo termo "simbolo" em oposiçiio à utilizaçiio (rancesa de "signo". Que dizer enHio . Cl/flLlra e razao prritica Dois paradigmas da tcoria mrtropolOgica . essas noçôes descmpenham. D.. e pensavam em si mesmos sob a forma de grupos.4 3 Porém sc as catcgorias nao traduzem originariarncnte nada além de estados sociais.. na maior parte dos casos.~ ' . se a s. da pr6pria sociedade? 0 problema da sua natureza "' .. em um senti do.outras contradiç?es par~ u~la melhor compreena saD soclO 16gJc ~ do que DurkheIm apresenta aqu J. ao contrano. os clàs. ao contrario. p. .~6Iic3.-. _i ... i~ 3)udar-nos a pensar as COJsas de outra natureza lobse~vem a idéia exatamente oposta de Lévi-Strauss do "chamado totemismo''J. ". 1963 (1901-2). BaO inata ou transcendentalmente. em concordância corn os qua is os fen6menos naturais sac dispostos f em classe. dvo t!L • "1 1 -:! . 118 .. isto é."". cm um sentido.431-47. 1" !I Na visâo de Durkheim. desviam da sua significaçao primeira.. .1 ~ao yale a pena est~nder-se nessa recuperaçao da sociedade pela natureza. que em i suas mentes e1es agruparam outras coisas.).. espaça e causalidade" (1919.:~i no s.. 0 pr6prio "modelo" social deve ser : percebido para possuir as caracterfsticas que a tornam util na classificaçao de outras coisas.J ~ ----. como .il: '.f-l. A resposta a coma as categorias mOd..:~ .s~ciedade podiam aplicar-se à natu~ reza foi que a pr6pria sociedade et:.!. Basta md lca r certas conseqüênc ias da distinçao-en tre eStrutura social e conceito mental coma realizadas em um a a.*. é uma artificialidade que segue de perto a natureza e que se esforça par se aproximar dela cada vez mais.. e a tendência dM resultante de se relacionarem os termos em \llll sistema scmi6tico cujos principios de " po .. : ~ ::. J 43 Durkheim rcecbcu edtieas do mesmo teor do fil6sofo contempon'lOeo D. as primeiras classes de coisas t~ foram classes de homens.._ ' / " :i I No entanto. mas na pr6pria organizaçao e açâo da vida social: 1 As primeiras categorias 16gicas foraru categorias sociais. Gostaria de ugradecer a Mark Franci!lon por chamar minha atençào para cssa passagem e para esse livro.. trata-se de simbolos bem fundamentados.: A soc iedade nao er~ vista co~o constitufda pelo ... As coisas cram pensadas coma partes integrantes da sociedade. ja q~e reconc~iou .. é sua mamfestaçao mais elevad!:l2_ 1 .!!< QI : ft! r ..-_ . tempo. entra neles a artificialidadc. intcrprctar dessa maneira uma teoria sociol6gica do conhecimento é esquecer que. sac c1assificados....: ~ particlllar~nente ~piste~016gico. ~ ~~ .' . Se. ~w.. que a simples distinçao entre dis e tribos e os seus respectivos lugares no campo pressupoem as categorias 16gicas e s6 sao possivcis gruças à intervençào anterior dOlS idéias de tempo...que arbitra ria mente limitou a extensao de simb61ico e deixou 0 campo aberta ao habitua i dualismo funcionalista.(} 1Ol . nas quais as co isas estavam integradas. nao deriva dai que elas possam ser aplicadas ao resta da natureza apenas camo rnciâfo ras? '" Porém. ~. p. Parodi. m _. A dificuldade foi que r! Durkh ei m formulou um a teor ia sociol6gica da simboli7. . . ..xxvii ).1 .155ss. as metades sac el as mesmas categorizaçôes (de ho mens). Em outras palavras. as noçôes fundamcntais dos ho mens {de classe.~- Durkheim derivou as catego rias que a sociedade "sllpôe" de sua constitu içâo jâ concretizada.oc iaI é um reine n?.. Ao menos. e foi seu lugar na sociedade que determinou seu lugar na natureza. naD é ~em duvida oum império den tro de um IInpenoj forma parte da natureza. s6 0 reverso parecI3 verdadelro.1\ \ . cm um superpa radoxo que as futuras geraçôes teriam de combater.443). que s6 dif~re dos ~utr~~ por sua mais>r complexidade. -P. t ~.. - '--.} ~ dos suporles das categorias. 44 Jamesoll atriblli. IDurkheim. 1947 (1912).. numero. 0 modelo 1 "". Durkheim.. cm sua disposiçao.. como vimos. tomado no sentido secundârio -.i .18-9. foi amplament~ ~atisfat6ria. 1947 (1912). a nao sec que Cfa "natural': Daî 0 dualismo de estrutura social e conteudo cultural. supostamente. mas isso nao pode ser feito sem as pr6prias ca tegorias que Durkheim e Mauss derivam do modelo ( 1963. u:. pela fato mesmo de que sâo conceilos construfdos·. tornou -se agudo ao nî vel pois Durkheim tinha E d e enfrentar a questao de como as categonas denvadas de uma formaçao social f' particula r podiam provar-se adequadas para a compreensâo do mund9' A respo~ ~a.. . [Durk1 heim e Mauss. (\ <:::5~: t.. p.~~ t ~ processo slmb6 hco. \.. '.>$. 0 ÇO~ papel de shnb~los. deixando assim a forma da sociedade sem explicaçâo.a natural: ) f. etc. que contestou a idéia de que nossas categarias de eomprecnsao e 16gica derivasscm cm primeiro lugar da "maneira pela quai determinada tribo armara suas tcndas". ~ t. . . qllase à maneira de VVhorf. . A rÎ1ësmaaprec~çao incompleta do sfmbolo. As metades foram os primeiros gêneros.44 0 "simb6li co" fo i. ma~ll. cf.. a noçao de classe precede necessariamente a apreensao de que os pr6prios 1 grupos sociais.! "poLas-'" sim dizer. escreveu Durkheim.ntropologia posterior. p. ou n_ n~raliz~çao do sig~)e de.t~. fez a seguinte objeçâo: l a 110çao de espaç~ teve de existir antes de os grupos sociais poderem ser percebidos J para cxibir.S .. uA sociedade". Foi porque os 1 homens (otam agrupados.} -u '"' c ~ fi ' .82-3. -. muitas e a totalidade de divisoes da sua sociedade.ocie~~de é uma real idadc espcdfica.~1. Rodney Needham....m:. convincentemente... . qualqucr relaçao espacial que pudesse entao ser aplicada ao universoj as categorias de quantidade têm de existir a fim de que uma mente i individual passa ser capaz de rcconhecer uma. p. eladaS'TIa'. combll1and~. que contiI1uamente ameaçava 0 segundo corn uma reduçâo funcional aQS modelos e prop6sitos utilitarios da primeira.(totlt à coup)) todos os paradoxos do superorganiClsmo de Durkheull..V .r!l. p. e no inkio os dois modos de agrupamento se misturavam ao ponto de serem indistintos. ~ .. que a simples cristència de cerimônias ou de trabalhos rcgulates..foram dadas..açao.. -.. original. Patodi cscteveu: "Parcee manifesta. quando elas se .a.9_uma l U teoria sim. d3 sociedad:. continua a perseguir 0 funcionalismo est rutural desenvolvido por Radcliffe-Brown e outros em uma base durkheimiana. "sup5e uma organizaçào autoconsciente que nada mais é qu e uma classificaçiio" (194711912 J. as primeiras espécies. (ou sistema social) versus cultura (ou ideologia) . sem duvida.::rW ": É po r isso que noçoes ~ue se elaboraram sobre 0 modela das coisas sociais podem .sun pies representaçao de realidades so~ iai s.

consc" qüentemente. Douglas promove a adoraçao de Terminus. Os c6di".aç6~s a:.?~'!~9Ividos...e"~a lor d ai doutrin as epistemol6gicas de A s formas elemetltares da vida religiosa. uma divisao trip artida de espécies entre terra. 1972. :~ .69 ). par si mesmo. ein vez de front ais. Para eIa.~ e!ati~ social: _ Antes de serern Iistados para os prop6sitos . tais como diferenças alimentares.. «as m ensagens que ela codifica serao encontradas no padrâo d e relaçôes sociais que estao se ndo exp cessas.o sîmbolo nao é mais que um signo que nao é gerativo d e sign ificância em c~J".. 11 ).1li. cie seria 1110 pouco capaz de aceitar uma divindade beneficente sob forma extra-humana quanta de acolher um genro nao-judeuJ" (Douglas. por conseguinte. é a de di ri gir nossa atençaÇ! para 0 relacionamento entre as palavras e scus objctos o u refcrcntcs no mundo T cal. essa rcduçao. possuem apenas a co erência de um "fluxo arnbiente d e simbolos" (Douglas. um movirnenlo ja absorvido e interiorizado no pr6prio signa coma a ll1ovimento do signifi canle ao significado" (Jameso n. ! simb6lica envolve um esvaziamen to progressivo €~.. 1973b. Pelo lado dos objetos e das re~6cs soc~s. a ordenaçao da natureza é uma objetificaçao. d iferenciaçao de grupa. poderia relratar seu deus 1ou scia. Isso. Vma cadcia politîcamente ascendente asseguraria a hostilidade crcscentc de se us vizinhos. ass im como sua o rdem verdadeira é ul1l_refle?o:9 d os grupos . nao se . tendem a troca r 0 valor scmântico das categorias pelos se us efe itos sociais.apenas parcialm ente . cm vez de sua pro pr iedade d efi nido ra.uma .. 0 significado é coerentemcnte sacrificado à marcaçao social. de lin signo plr~ outro. de fr'o nteiras e transaç6es através das fronteiras ." ---_. !a 1 ii . en tao. pode riamos 1er imaginado um pIano melhor? Se quiséssemos cscalher um pava para n6s mesmos.digamos. As categorias de comida. coma os "interesses humanos" que se d f" ~: sup6e constituf. ~ J) 1midos em implicaç6es abstratas de inclusao e exclusâo. seria q uase a suficiente.. 197 1.de · . desse ponto de vista. céu e agna como a priori e normal. visto que isso pode sec comparado às relaç6es entre grupos. n . sac co nsu':::. Reconhecendo .3I·2). HilL L 1 IH . a tàref:rmais importa nte de in\'cstigaçao lingü ist ica consiste cm uma busca de referentes. codifica rn eventos sociais" (ibid.o a funçao "de . a pr6pria palavrn '51I11bolo' implica que a rclaçao entre patavra t. p.. uma a. Mesmo os trabalhos m ais valiosos sobre a conceitualizaçâo da natureza. p.j. devido à sua pr6pria terminologia. 0 ') . contanto que um deles esteja preparado para definir essas relaçôes corn 0 rnesmo grau de indete rm inaçao. uma vez que seu signi ficado nao é mais que a intençâo social dirigente. nem mesmo um bezerra. 0 simb61ico é simplesmente uma condiçao variavcl ou acide ntal do objeta antropol6gico. de Ioda a quesU'io dos referentes tiltimos do signa lin gülstico. 0 soc ial também d eve sofrer uma decomposiçâo estrutural. As linhas de Irajct6 ria do seu sistema sac laterais.c cja ~fbj trar~'1-. E observcm que ao prestar-se a ess'e empobrecimento.z. . 45 Mas._ .-----~. Na realidade. de inclusâo·e exclusao.las. Em termos mais precisos. 45 "Se fosse mos Deus. uma expressao articulad a da sociedade. fogen\ a qua lquer exp licaçao sÎgn ificativa. que fadamos? Prometer a seus descendentes uma terra fér lil e ce rca· la de impérios ini migos. 0 deus dos marcos fronteiriços. mas apenas m ais abstratamente se a espéc ie é olhada cam benevolência. Vma d iscussâo do significado corn a atençào~ ­ particularmente vo ltada para a diacritica social permite . ma vontade ou ambivalência. revclar-lhe Ul1l l yisào l1l onoteistica e dar-Ihe um conceito de santidade que pod eria espe ra r que a 16gica simb6lica fosse m ais sistematica que «as m aneiras inco rretas pelas quais as pessoas usam a 16gica para lidarem umas corn as ou tras" (Douglas. Aco nlece que. de u m modo paralelo ao . Pois no projeto te6r Îco .--.. sentisse em sua pr6pria carne. 120 Cllttura c ra ziio prtftica Dois paradigmas da tcoria alltropo/6gica c derivalivo de uma m oda lidade ideal do fato socia l. à m cdida que 0 sign ificado é considerado como 0 m era "conteudo cultural" de relacionamentos cuja estrulura form ai é a preocupaçao verdad eira. eles nao ~ estao realmente em melhor condiçao semântica. dcsviou·sc. Na realidade.q s_ totalme'!!. 1 t: ':.. Saussu re. A.. Do mesmo modo.. 1973a.! por realidades sociais existc nt es...coisa J.. mensagem trata d e diferentes graus de h ierarquia. 0 efeito disso é uma visao u nilateral do significado como diacritica social. frase por fr ase.-_· . traz cons igo mesmo.a liberdade analitica para considerar 0 que é simbolicamente variavel e problem atico . 0 mais importante é que. Sua desconfiança dos estranhos seria validada ainda m ais completamente. nem que fosse de ouro. da palavra 'sim1>olo'. Entretanto. as configu raç6es soj . 1973a.--. pAO). cm qualqucr mo men to. como as co rrespo ndências entre eles. ~ um tende a ser id en tificado corn 0 outre conteudo significativo corn valor l~ocial (no sentido dado ppr Radcliffe-B rown)~ 'po'r uma ifàaiçao -q ue"toma como ce rto que 0 pensam ento huma no se rve aos interesses humanos e. ap6s esse processo pelo quai sao selecionados do "meio ambiente cultural" e assim classificados e inter-relacionados.f'~ 06··ïl virtude do scu luga l' em um sistema de simbolos. ser-lhe· ia evidente que nenhuma irnagem de animal. possibilitando portanto uma d iscussâo da maneira pela quai 0 m undo é culturalmente construfdo em relaçao aos homens.inta deve ver 0 resta do mundo com a composto desse modo.. nào sao os aspectes contrastantes de espécies liminares que merecem atençâo.. • . na medida em que um grupo humano que se concebe coma uma espécie disl. Um exem plo apropriado disso é a tentativa de Do uglas d e correlacionar a co nsideraçao atribu ida a espécies r t... e da o rdem cultural total como um projeto utilitario.e rel.. .61).Ï!?~n~?!i~ uma d es-'i consideraçâo para corn a sua estrutura em favor d e propri edades pu ra m en tell· formais de distinçao e categorizaçao. por outra lado. escreve Douglas. dualismo malino wskiarf6?~ ~c·uitûral n nâ?yo~sü(q~~qu:: 16gica n~cessar ia em sG'--m esma. po r exemplo. tend.apo io para rc lac Îonam entos farm adas por pro cessos t polîticos e econôl-qicos reais. l ' j total. pAl). . "Se a com ida é tratada COlüO um c6digo". . p. 0 de Mary Do uglas.. ciais daquele tempo e lugar" (Dc:Jglas. da pabv!"a à {eoria. como se as relaçôes sociais também nac fosse m compostas e organizadas pela sign ificado. que exista alguma adcquaçao basica na situaçâo inicial. Fiel ao nosso santuario e à nossa lei. A diferc nça de predileçôes analiticas pareee rcal.. da d iferenciaçao dos grupos r __ î Jhumanos. rncsmo se a expllcaçao nac for inteiramente convÎncente (accitando-se 0 USQ corrente do (rancrs da palavra signe): " 3 etidcia da terminologia anglo-americana. os elemen tas de um c6d igo de objeto. p. as qua is. mas empiricamente motivada (f'l . diferenciaçao ordcnariam a referênCÎa objctiva.~os culturais de pessoas e objetas. u ma expressâo nas regra s para lidar corn os objetos.---121 . ou m elho r. O~nesmo cfcito é dada pe la arbitnl ria diferenciaçào J entre "cultura" e dsistema social" na escola in glesa..

como se as co isas culturais fossem s i mplesme~te versôes substancializadas de solidariedades sociais. outro (a . a verdadeira 16gica do todo socioc ultural é utili~ taria. ' • . r ! ' ~ . isto é.31) tende a tornar-se um feichismo ae--sociabj@ je. significado de um pela a nalagia (Cracîonaria) corn 0 outro. 1973a) .. a categoria da afinidade é identifid.ao-{çoI6gico. Dada a relaçao logiea entre e1es. n~tura lis. Primeiramentc.b6Iicos). . sendo estas t'iltimas tratadas coma me.. Crow-Omaha s (que proîbem a repetiçâo de inter\aSamentos corn as m~sn1'a\liriliâ~ens). nao considerando mais uma vez as régras. Pode ~ se obse rvar lllcluslVe um aparente fecham ento do clrculo te6 nc~. no processo. assim a definiçao do sign Îficado de um pela conexa~. ou 0 casamento da filha do irmao do pai . ara como sigoificante ora camo significado do outra. as varias formas de ordem intergrupal.cados s~o constituidos" (1973a. além do signo do outro.223) . ambos roram analisados dcntro de um unico qU:ldro de referência" (Kupcr.t6gica. a U1~. seria um erro equiparar a invocaçao da mente de Lévi-Strauss ao "princîpio de pensamento" de Morgan. ela traduz essas regras e formas determinadas em implicaç5es de d istância social.tuaI de um c6digo de objetos em uma mensagem funcional.presa durkheimiana a uma conclusào consisten te incluindo as rel açôes sociais dentro Il do sistema geral de represen. como a cristand ade é maior que a cruz (1970 [ 19641. Em segundo lugar. baseada em uma l6gica de grau de distAncia do Jar.d. na medida em que as varias regrascomo 2 da troca gcnera lizada.signifj.· . "0 homem nunca pode sel' imediatamente confren- n • < ..~' à-parênéias dos primeiros.. Douglas 56 chega a essa correlaçao entre a consideraçao para corn 0 afim e as relaçàes corn as espécies intersticiais através de uma operaçao dupla na estrutura de troca que a disso lve (às vezes falsamente) em uro coeficiente de integraçao entre grupos. cm contraste corn 0 nao· motivado. através de estudos que Douglas prefere ignorar: Leach (1964) sobre os camponeses Kachin e Tambiah (1967) sobre os carnponeses Thai.lmente co~ 1 . 47 Desse modo.·. como por exemplo no caso dos tabus alimentarcs e dos grupos sodais exclusivos. entendida par Doug!as coma uma indicaçao de desprezo pela estranho. Baon e Schneider.) como signos uns para 'os outros . par exempla. que nao podia senao limitar-se a reagir racionalmente a valores pragmâticos inerentes à experiência.j J anômalas corn tipas de tracas matrimoniais.. uma importante caracterlstICa do Slgno motJvado lem frances..0) fara necessariamente corn que a maior parte do eonleudo cultural se evapore. evi ta ndo todo e qualquer reducion ismo na rel açào entre sociedade e ideologia. sao slmbolos pa r dircito mlto. 0 afim.BlE~riOr. 1971.as_p_ roibiçôe.1'-"'-"- O ij 46 De Corma seme!hante. 48 bem verdade que essa recu sa nào desvinculou inteiramente 0 trabalho de Lévi-Strauss das preocupaçôes fun cio nalistas (cf..d é "éo~ o·s. symbole]. similar. Conseqü entemenle.' oug as esta realmente preocupada com 0 fundonamento de e1ementos j a simb6licos (relaçoes corn f :'fY. coma sac geradas por regras de troca marital elementares e complexas. 1964). pade agiralternadamente. no final. dos estudos antropol6gicos endereçados ao "simb6Iico" estao mais preocupados corn essa funçao de 1 segunda ordem do signo do que corn a constituiçao da forma e ~o signi~cado sim. e vice· versa. de algu m modo. p.~ A recusa deffil-Strauss de conferir status ontoI6gico a essa di stînçâo. por . linhagens. portanto. J: fkil constatar. 122 CrI/film c razao pnftica Dois paradigmos da tcoria all tropol6gica 123 1 :1 ij .m~ t. E menos ainda negar a impor tância crftica das correspondências estabelecidas nas sociedades hurnanas entre categorias de pessoas e: categarias de coisas. . que vista que se padern casar membros c1assificat6rios das categorias preferenciais de parentesco. corn 0 resultado sernelha nte de dissolver 16gicas estruturais definidas em in teresses funcionais incipientes. ""~:. Também é verdade que Lévi~Strau ss. que q U3 i1do 0 significante e 0 significado. d . simbolo no seu pr6prio d om inio. açôcs motÎvadas entre sfrnbolos.38). sendo estas entend idas aqui co mo privilegiadas e 1 . . dividiria.foi um passa decisivo no desenvo lvimento de uma teoria cultura1. como aponta Roland Barthes.sua apropr iaçao do social pela simb61ico .' usando agora "slmbolo" e "signo" no sentido anglo·americano costumeiro (na verdade... essa inadequaçao é composta duplamente. Inversamente. 3..: . é muito difidl sc exaurir 0 . fi utra Corma de pensar essas Iimitaç6es é observar que Douglas esta }ogan 0 pnnclpd. 1973 p. Douglas nem sempre é cuidadosa cm seus estudos de diferentes culturas ao comparar "grupos" ou processos de diferenciaçao da mesma ordem. igualmente. por outra lado . A amilise semi6 ti ca das praticas alirilenta~ res deve transcender de longe a transCerência aos grupos sociais.. No cn taoto. como no aI/makI/a havaiano (cf.situa riam a pessoa intercalada. Mas 0 curso desse processo foi mais um a espiral do que um circula. Kamakau. Desejo apenas sugerir as limitaçôes de uma anâlise que almeja fazer desmoronar a estrutura coocei. as estruturas elernentares (inc1uindo a forma LeIe da troca generalizada perm item uma incorporaçao mais radical de estranhos do que. linhagem minima por linhagem minima dentro da mesma tribo israelita (cC. mas ao menas concedeu m enos espaças para essa preocupaçào atuar.\'c1 co rn um conjuntode animais normalmente constituido. por exernplo. Es te é 0 resultado da adesào à decisiva separaçao durkheimiana da morfolotl gia social da represe ntaçào cole ti~ . como jâ vÎmos. e portanto da domesticidade das espécies. Douglas prefere ignorar as armaduras espedficas e bem-conhecidas das relaçôes intergrupais. a maior parte r. ao leva r a em. p. as espécies anôma!as na Polinésia sao muitas vezes identificadas especificamente corn as suas pr6prias linh agens ancestrais.. 1974). substituir os efeitos sociais abstratos por forrn conceituais espedficas. Assim. 48 "Lévi-St rauss Coi bem-succdido porque n ao olhou os fatos culturais co mo expressoes. Douglas. em mTIa relaçâo de signo motivada. ao contrario. labus a!imentkios etc. as exclusôes Crow-Omaha. é que no primeiro ' nao existe qua!quer adequaçao conceitual entre significante e sign ificado: 0 conceito "ultrapassa" 0 signo fisico. Nesscs exemplos. 47 i . .. 1972).afins. Entreta~l' '~ to. ou entre as respectivas diferenciaçôes dessas taxonomias. cada um continua sendo.: .com. conceitos de animais.. embora a implicaçao do casamento da filha do irm ao do pai entre os judeus. '-1 Nao quero corn isso negar 0 sentido apurado que Douglas demonstra corn i relaçao à construçao humana da experiência.. cada u m dos e!ementos.. praticas. mas sim invocando praticas de facto que Ih e permitem ignora-las {as regras}. a exclusividade social dos israelitas como povo é comparada às relaçOes entre linhagens Ka ram ou Leie. Argumenta. uma vez que toda a apropriaçao do simb6 lico intervém eH route.taçôe~ coletivas. Mais uma vez se coloca a questao da pretensa conexao entre os afins e as espécies anômalas. de Corças sociais. a anâlise de Douglas .46 Em suma. da insistência de Morgan de que 0 crescimento das instituiçôes estava predetermlnado e limitado pela "16gica naturai da mente humana" a uma analise estruturalista cuja coda é composta por uma frase semelhante (Lévi-Strauss. chega.

o de Marx: UA pr6pria Hist6ria é lima parte real da Iu sfona lUlli/rai: da natureza gue \em a ser homem. mas apenas 0 modo de ordenaçao. 49 Nessa passagem de L'Homme 1/11.. Lévi-Strauss.14) . Ma rxisme et structuralrsme. Ô natureza-humana..".. como se 0 prime iro fosse 0 clemento allvO e_ . Apenas os pontos comuns da estruturaçao podem ser referenc iados à mente. co ncebida coma um a rede da quai as mais diversas ideologias. procura acima de tudo apreender (saisir) as propriedades intrinsecas de certos tipos de o rdens. consisten te c. ~o~ ess~s cont radlçoes ~m.. um encargo que. entao.iinpera tivos da 'c ultura do que se us impIe. Para alérn disso instaura-se 0 mais alto naturalismo.ê-Il0S-0S. qu e governa se u entrosamen to d e ac?rdo ~on: a su..qual 0 Y: .. ai nd a falta fazer a crHica especifica da posiçao morganiana connda dCI~tro da perspectiva estruturalista. sera necessano slt~ al 0 èquipaTÎ~ento mental humano anteS como instrumento do que como determman -· lêCa cultu ra.e~10s.? seu método pr6prio de Iiga r men~e e natureza.I'uma funçao ... em formas do tipo "oposiçâo bimiria".ib~d:). termo~ de "consciência coletiva". na medlda do posslvel.me ntos.a~ ~esmo conJ'!nto sâ~nge~ ilradas"t 197 1. as "similariclades" nâo padern aqui significaro contcudo daquele projeta. ao que me parece.Nâ realirlade. Ver às p.operar por prindpios sim ilares ao contraste binario (cf.a l .em a uma entidade quc~ socia. . q uaisquer sim ilaridades nas operaç5es pelas quais os diferentes grupos constroem ou transfo rmam se u projeto cultural padern sec atribuidas à maneira pela quaI a pr6pria mente é construida. t~niOpdarnvocaçao de um superorga nismo. os modos de inlereonexao" (1971 .. em si mesma..---~::--. da sua pr6pria maneÎ ra./': constantemente 0 cstru turali smo moderne consis te em um 1110 0 de Iscurso 'r. no co ntexto da mente. dando à me nte todos os poderes da "lei" e da " ~im~taçâo'~ acabou por .. As ciências naturais chegarao a incluir a ciència do hom~. embo ra nao diferentes em espécie dos c6digos est ruturais nO_5 quais 0 slstcma n ervos~ as interprcta.: s6 apliea operaçôcs que nao difcrem em espécie daquelas que ocorr:m ~o. 1971) . 0 objeto cultural. incluindo especificamente os sentidos e a· transmissao senso ri al. na med lda em que a natureza usa. Porém.lll ). prossegue Lévi-Strauss. 0 l t m es mo tipo de processos . (Lévi-Strauss 1972 p. corn efeito.d~ mesma forma que a ciência do homem induira as ciências da natureza. qu e cada grupo executa po r sua pr6p ria iniciativl.que. reveJ:lm..tente 11 \ cam a vis3. p.124 CI/Ill/ra e raziio puitÎca Dois /Ulnldig/luu da Icoria alllropolôgicn 125 tado ccm a natureza da man eifa pela quaI 0 materialismo vu lgar e 0 sensualismo empirico a concebem': escreve Lévi -Strauss...4 j. . no entanto. Seu apelo ao esprit humain.. ! 1. Talvez fosse melho r dizer que as cstruturas da m:nte s~. interprctando esta ou aque1a propriedade nos termos de um a estru tura parlicular. E ela é totalmente conSlS.56 1).:'a pr6pna construçao. mas a maneira em que os sign ificado s sâo sistematicamente relacionados .o -:: (1 --fiï. -. na medida cm que 0 mundo humano é simbolicame nte cons ti tUldo. nâo provocaria curto-circuÎto no simb6lico. questâo de "reducion ismo biol6gico". a estereoqu imica de 1 · odores _ qu e a mente emprega para ~~1~1preendê-la. que toda fo rma é um conteudo relativo à sua forma circundante. em um estrutul'alismo fa lho de compreensilo cultural (Piaget.. nosafastamos muito do "prindp io de pensa mento" d: Morgan.'11 \). p. p.at~lr::l : . POl' consegu inte. //f .. perm.' Pareceria. 0 cultural pode apenas responder.~qq. "Vm estruturalismo autên tico.269-73 algumas ten tativas de uma integraçao substanclal de estruturas cullurals C : 1 perceptivas. 0 c6digo genético. que 0 problcma principal do "reduc io nisdmo " qUd~ aOige ' '. às estruturas originais da rcalidade. mas antes arcaria ca m as co nseqüências de sua pr6pria ub iqüidad e. 50 "A nalurela aparece cada vez ma is como construfda de propriedades estrut~rais ~ndubitavelmcnte mais ricas. 1961 ! l84. é 0 de explicar um tipo de ordem referindo-se a um conteudo q ue nao é da mesma natureza e que age sobre ele a partir de fora. _tëvi:Str:uss~~~<:?~?~~:liâOde~ufiïraSsubstanëi~~ ~xa:. "representaçao. Nunca é uma questao de significados especfficos.~.cole tlva ou pensa men to ob)etlficado que atribu . sera necessârio vohar-se no sentido da organizaçao cerebral..baseada.por exemplo. Aq~i. projeto.. Mas se é forçado a referi-las a algo n'terno. na sua integndade slmb6liëa.-_ . C01~0 îndividual? Para responder a todasns questôes des se tlpO.qual Lévj·Strauss une-se a ~l M~rx e a Durkheim atr~vés d.i'~ l segundo apenas passivo.. ETE~""""'-'-'"~~''' .como hdar .m. uma discussâo da cuttu ra 'poderia igualmente provocar. Segu ndo a mes ma premiss3. Lévi-Strauss emprega uma frase de Piaget ..a natureza exatame nte como governa seu investimento cam con teud os slgOlficatl vos dive:sos.. no . ao contrario. Nenhum costume part i· cular podera ser atribuido à natureza da mente hurnana) pela dupla razao de que em sua particularidade cultural ela esta para a mente como uma diferença esta : para uma constante e uma pratica para uma matriz.. é parte c produto deste mesmo mundo nao \r~ signifiea sel' mcnlalista ou ideali sta. Eu ilustraria essa cr~tica lançando mao do notavel trabalho de Lucien Sebag.':' ~~_~as riI!ff ~ ~..~o. . Piaget observou.\' Portanto.. Reco nhccer que apenas a mente écapazde compree~­ der 0 ll111ndo que nos ccrea porque da. 0 olho que vê ~ conslderado em sua particularidade cultural. na medida cm que a pratlca se desdo~ra cm um . pode se r observada como gerais. 0 projeta do redueionismo. 197 1). a mcnte. na st.cultural humano. onde se pode rec~nhecer uma tese que também é essenciamente de Boas. ha en lr~ c~~s um a cumPlîci-l\ :~~~ ~~~ l 0 dad e ultima que é a co ndiçao da posSlblhdade de compree nsao. assim coma todo conteudo é um a form a dos conteudos que ele ab arca. .. co n tu do. EI ~s co mpoem um conjunto de possibilidades orga ni zaciona is à disposlçao do pro)e to . também nâo se trata de uma t:-':'.c~ lo car a cultura em um a posiçao de submi ssao e dependencla. pr61 rLO mundo n. Lévi-Strauss vê css:! perspectiva como 0 UI1I CO tlpo de matcn~hsmo '.m a ~aneira pela quai a ciéncia se desenvolve" (..I..como uma crH ica nitida a varios reducion ismos biol6gicos. ".enquanto tenta com~rcender 0 mllnd7.~e inteira e exclusivamente den tro da esfera da interpretaçao signifi cativa..'" leis "subjacentes" à mente confere toda força de coerçao 30 lado m e ntal. Como explicar a prese nça na cultura de estrutu ras universais ~ue)" (~ nao obstan te~ -n~o ~ao ~~i_~~~lm~ te 'presentes? F. em url! outr~ I~i~el. :Ë impossivel denvar 0 ~~ltural dlretamente da ~p eriência ou-dô-acoi1teèimento. ~s estruturas Ee_~!~~?~~. Todo 0 vocabulano das :.J '. que parecem F ....~ . 0 de que. 0 argumenta se desenvolve com base na simples prernissa de que. havera ruila s6 cl:ncla (Marx. nem das propriedades estruturais elabo radas pela compreensao a fim de voltar. 'K '''''' que.~~ .que n6s con hec. ou seJa.561). Essas propricdades li do expresjam Nada do que esra fora de si mcsmas {grifo meuJ. ..). Conseq üenlemente..

{1964. po ç assim dizer. Vê~sc entao cm que sentido a noçao de infra-estrutura pode encontrar um sentido relativo: trata-se sempre do limite do espîrito.• '" " " . ser !evadas a termo de maneira "Cragmentada. do que é irredutiv€l a certo nivel de funcionamento da socîedade.p 216. ~once~ere-se. uma luta contra sua pr6pria natureza bItturai herdada. entrelanto."·\ A tese nao é mais que uma deduçao im ediata da natureza do pensamento simbo- f}".. os meios de tematizar efetivamente essa constitui çào de sentido. a partir de condiç6es naturais globalmente idênticas. « . 0 llltelro: 0 pr6XIffiO. Iho da terra. a pratica de determinado tipo de cultura sao 0 p roduto de um trabalho permanente do in telec ~ to que sc exerce sobre um certo meio natural.. essa caracterfstica é pr6pria de todo sistema simb6lico e mais profundamcntc de todo discurso. em primeiro lugar. ' • 1 (. Nesse sentido. 'b . cada sociedade poderia ter feito a mesma escolha que a vizinha e nao a fez por motivos que sac 0 signa de seus objetivos essenciais.' . .. <") li. tal como é caracterîstico no s animais. .' I Ao confron tar os ultimos desdobramentos do estruturalismo corn Morgan e i\Boas. a preparaçao do terreno. 0 cielo de atividades produtivas. mas de uma culturalizaçao da realidade naturaI.51 mas através da integraçao de certo numero de elementos naturais a um tipo de ordem que caracteriza a cultura... " " ._-_ _-. Mais que uma p ratica ou interesse "econômico".. a utilizaçao ordenada e regular do universo animal supôem grande . '. de pesquisas. objeta ele: da . '.. pois essa prâx. a exp~riênCia) mesmo quando ela se depara com ~.:1. sen do a segunda apcnas um mcio de forçar uma aderência às primeiras (cf. 0 ' ~ ~ \\~) . certas sociedades do mesmo tipo organizam 0 espaça. _ alternativa marxÎsta corrente. - ~~. sem duvida. Os determinismos entrevistos sao de uma ordem diferente da daqucles que impôe 0 meio.... ( :. Mas a passive) relaçao que essa paroquial co ntrovérsia passa ter Ilcom 0 marxismo requer outro capltu 1" l . a um côdigo _~: distinçôes pr6prio à cultura em quéstao.. elas excluem a possibilidade de uma gênese hist6rica ou l6gica da sociedade em seu conjunto a partir da praxis constitutiva dos indivfduos e dos grupos. "' "t l. 1967).'V"" 't\ " . Dois p(/radigmas da leori(/ antropo16gica .-_.J '. f '.~ l li 1 1 il 1 '. .is se desenvolvc em um universo ja simbolizado e nao é concebivel qualquer surgimento anterior dessa simbolizaçao.1 'C. ! 0 arbit rario do signa. 1 ) Ibid. 1 . 0 tra~a. por con seguin te. 127 mundo jâ simbolizado. ! i !' .\ ~ quant idade de observaçôes. .] Mas seus comentârios sobre a experiência da natureza também sac diretamente relevantes para a antropologia convencional da praxis: A ioterferência entre natureza e cultura nao provém entao da sua colocaçao em relaçao extrînseca.. Friedman. Ora.1 lEm francês 00 original.. A natureza tornase cultura nao em razao da existêncïa de um sistema de equivalências que faria corresponder a cada unidade de mn dominio uma unidade emprestada a um outra domfnio. 1 en contra-se red uplicado pela integraçao de cada un idade significa nte (integraçao que 1 é a pr6pria lei dessa associaçao) em um sistema difcTenciado que perm itc 0 surgimen1 to do efeito de sentido. As distinçoes da natureza reaparccem portanto na traduçao cultural. que.o r meio da quai é compreendida. Scbag desenvolve a idéia no contexto . p. l 07 -8.. sons. 1 ~ \:t . gestos etc.uma realidade externa à Iin guagcm 'p.. de modo al~ ' j gum. resmtado da associaçâo de do is planas distintos do real. nâo pode have r qualquer interesse ou sign ificância prâticos nos objetos de consumo.'. matéria que pode ser natural (cores. A criaçao de detcrm inada espécie de animais. a sociedad e com porta sign ificados d esenvolv idos por toda a ordem culturaL Para os homens. tentei mostrar a continu{dade da luta da antropologia contra seu pr6prio l <~aturalismo. nunca é tao grande quanto a possibilidade que ela tem de estudar como. Berger e Luckmann. 5! Compare-se corn Rappaport (1967). de analises que nao podern. cuja relaçâo corn 0 objeto é prccisamente con fin ada às coisas como elas sâo: A Fecutldidade da geografia huma na. que encontra oculto no "meio ambientc apropriado concei. 126 Cu/lZlra e raziio prtitic(/ : . 1964. t (~ c . j '. É cm direçao a essa tematizaçâo que tendem as distinç6es que retomamos depois de outras.. \ '1 " L~ ~tMk. p. assim.' l .em mais vasto que ultrapassa 0 pIano l tecnol6glco ou SimPlesmeOfleCOri. a fabricaçao de Înstrumentos.) ~Ignl ~cado. da pode ser definida como se segue: utilizaçao de uma matéria retirada de outre registra que nao este onde funciona 0 sistema.• ·. estes Ultimos nao possuem ~ um carMer malS natural do q e qualqucr outro aspecto da cmtura de uma sociedade.' . os ritmos de utilizaçao do solo etc. que é também.. . Ci} .. \) [Sebag.de pcnsan:e~~).. tualmcntc" c nas praticas rituais da sociedade a maior sabedoria biol6gica da adaptaçao. desde que a mensagem que eJe veicule 'suponha urna codificaçao suplemcntar em relaçao à da lingua.. .142. . . ~ .ômiCO.J . é construi~.co'Fi? signi fi cado é sem pre ar~~0-üo em relaçao às propriedades fisicas doobj~t~ As ressonâncias da primeira v iagem d e Boas aos esquÎm6s aparecem claram ente no texto de Seb ag.) ou cultural (a forne cida par sistemas semiol6gicos jâ construfdos) e aplicaçao a essa matéria que é ordenada em si mes ma d e um prîncfpio de oTganizaçao que Ihe scja transcenden te. " .. 1974).' '" .1 lEm fT ancés no original. €las s6 tomam forma através da 1mediaçao de u~~ma . remete a totalidade das significaç6cs ao sujeito em fornccer.~ " da coma uma realidade humana pelo:conceitodela (cf.