falemos

eis a fala amável dádiva então falemos

manhã

certos rostos são bençãos da manhã oferecem a quem os veja a elegância da aurora

surpreende de aurora os teus olhos para que o teu corpo respire

luz apenas luz claridade

mundo

o opaco silêncio das ruas sem gente esmaga qualquer graça

a cidade tem as portas cerradas é casa inabitável como libertá-la do bafio do pó e do escuro

antes que o metro passasse e a despedida terminasse um lábio acolheu de outro lábio um beijo quente e sereno nesse momento o dia repousou da sua apatia

aquele casal de velhos caminha pela rua persiste e resiste ao frio dos dias e das almas

mãe de toda a luz estou cansado do meu pessimismo mas estou ainda mais cansado do optimismo de embrulho estou cansado o cidadão está cansado o mundo está cansado entediado pelos cálculos numéricos frios apenas números como expressão de lucros e desgraças estou cansado das opiniões sorridentes cínicas esperançosas e pagas estou cansado de ver alegrias de verniz estou cansado de eventos estou cansado de ver mercadoria diante dos olhos só não me canso de saber que a aurora

não faz cálculos não opina não lucra não perde a aurora é a aurora

cultura

aborrecem-me os museus cinemas teatros concertos com as suas peregrinações a preço por cabeça e carro no parqueamento enoja-me a arte em trânsito pelo mundo sendo estatística turística mas não me cansa na relva ainda possível o encontro de convivas sem celebração alguma a não ser estarem juntos e falarem

diante de mim o mundo a consumação plena da tristeza como um fogo perdido

não sei se o olhar é sagrado se a palavra é audível sei apenas que estou no centro do delírio

sorrio do destempero do mundo invocando a luz da aurora

escrita

o movimento imperfeito dos lábios articula palavras vãs

poética da palavra

amo as palavras amo ainda mais a escolha da palavra certa acima de tudo amo a melodia correcta dos lábios dizendo a palavra exacta não é fácil escolher a palavra certa a tonalidade merecida não é fácil encontrar a dicção exacta que obriga o coração a seduzir a razão e a razão a seduzir o coração é de trabalho que falo da voz sentida dos lábios laboriosos lugar onde se encontram

coração e razão escolher a palavra certa a dicção límpida é sedução não a sedução tonta balofa de engate reles palavra mas a sedução que é namoro passeio diálogo violência voz fala silêncio meditação é de trabalho que falo do lúcido trabalho do olhar do saber estar da harmonia entre

dizer e fazer onde a angústia é tensão transitória um ir mais além um querer estar querer ser uma respiração tranquila é isso a escolha da palavra bela do dizer correcto é isso a sábia articulação dos lábios nada mais belo do que uma boca dizendo a palavra certa calo-me recolho-me no silêncio esse sábio que poucos seguem e no escuro treino o meu dizer a minha voz para que surja límpida

isenta de culpa treino-a para não ferir

só tu és a insuperável companheira o regaço insubstituível só tu és o encontro possível a minha única hipótese de regresso só tu és o meu lar habitado a noite e o dia a exuberância e o recolhimento só tu és a euforia e a serenidade só tu és o meu sono em ti me deito em ti penetro adormeço em vigília em ti a palavra

espalhei canetas e lápis por todos os bolsos da minha roupa o poema surge na respiração do dia e da noite não há tempo premeditado nem hoje eu quero para o poema romper ele está aí aqui em ti em mim no ar que respiramos no metro que passa no autocarro que arranca no olhar indefeso ou feroz do cidadão em trânsito pela demência e a clarividência dos dias o poema tal como eu tu e a natureza forçamos a existência resistindo todos à barbárie

da ganância então o poema existência e engano por vezes grita eu sou a fala nunca recolherei as canetas e os lápis que espalhei por todos os bolsos da minha roupa porque a fala é imprevisível livre e assim é o poema existe apenas um risco as canetas borrarem a roupa e os lápis romperem o tecido mas o poema

não se compadece com higienismos pois alguma desordem dá saúde à vida e o poema é livre e imprevisível como a fala

isto é apenas solilóquio um desespero para adiar a morte

a fala sem a conversa é nula falta-lhe a existência física do outro falta-lhe o ar e uma boca movendo os lábios articulando palavras escondidas no coração na alma na razão

quando o poema era fala cantava-se o poema de boca em boca era quente o momento da palavra era fala os versos não eram solilóquios enganosos ninguém se preocupava com o prelo ninguém queria o prelo nem a estampa que poema hoje se canta a quente

escrever poemas à incandescência da insónia e do retalho isso é que era bom mas falta-me o ardume a insónia e o metro do retalho esquecido no balcão

surge das bocas poema ruge ilude quem te faz e quem te vê

silêncio

o silêncio que cala mata

eis o teu rosto olhando-me eis aqui o meu olhar a minha boca nem um gesto pára não te movas vê apenas vê

para quê algo mais do que o silêncio do olhar e o murmúrio certeiro da palavra inventar um gesto talvez mas detendo-o antes do seu fim

belo é surpreender no silêncio do olhar o seu preciso gesto

as palavras tornam-se perigosamente inúteis apenas o silêncio redime se víssemos se fossemos ver

é um secreto prazer possuir o silêncio exacto de um gesto

respiremos o silêncio pétala a pétala

movimento de eros

finalmente os teus braços são a medida do meu dorso e a tua alma conhece o meu gosto

repouso a boca no silêncio da púbis banho a língua na tua carne e no meu peito concluo o movimento dos teus lábios

sei que existo quando pernas me cercam as nádegas unhas cravam-se na carne os olhos fecham e o tempo pára

essa boca deveria estar feroz cercando este rosto sabendo ser a ternura uma agradável violência

essas tuas pernas são quentes e o frio envelhece os ossos beija as crianças aconchega-as não digas nada vem

um beijo no centro do coração e que a voz se erga

falemos

Dedicatória

Para toda a minha família. Para aqueles que trazem o mundo às suas costas – heróis sem alguém que os saiba cantar, porque há heróis. São os que se erguem e deitam todos os dias, conseguem que os seus filhos tenham coragem para ir à escola, voltando à noite com tempo, ainda, para uma história e um sorriso antes do sono. Para Gil Vicente, Luís de Camões, Cesário Verde, Fernando Pessoa…

textos José Manuel Marinho

pintura na capa Betty Martins

Agradecimentos A Betty Martins, gentil pessoa que me ofereceu a pintura que figura na capa, agradeço sua disponibilidade amiga. Muito me honra poder contar com o seu talento. Bem-haja. Ao meu irmão Vítor, que me estimulou a fazer esta edição de autor. Bem-haja.

Nota biográfica Nasci no dia 18 de Abril de 1956 em São Mamede de Infesta, Matosinhos, Porto. Sou professor pela Escola do Magistério Primário do Porto, pela Faculdade de Letras de Lisboa – Estudos Portugueses e actor pelo Conservatório Nacional. Actualmente, exerço funções numa biblioteca escolar. Conhecer-me-á, lendo-me. Todo o leitor é um pouco metediço, gosta de olhar pelo buraco da fechadura; não há mal algum. No entanto, lembro, todo o poeta (o que é o poeta?) simula. Não basta lançar para o papel sentimentos, ideias e/ou emoções. É preciso trabalho, transpiração, dor, prazer, vontade de conhecer. Sem isso, nada haverá em qualquer domínio da vida. Meditei bastante antes de fazer esta opção – vender palavras. Desejo que sejam úteis. Pode encontrar-me no espaço poemarte.blogspot.com e falar comigo através do endereço: josemfmarinho@gmail.com. Se gostou do que leu, recomende-o a outra pessoa. Fico à

sua espera. Sugiro-lhe: leia os poemas em voz alta. Ouça a sua voz e falemos, falemos.

Nota final

Esta edição é, apenas, uma previsão, sem arranjo gráfico, de uma futura edição impressa.

edição de autor
lisboa. 1ª edição. 2011 edições cádacasa

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