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Tratado de Clinica Ped 1

Tratado de Clinica Ped 1

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Luísa Caldas Lopes

Definição e importância do problema

Pediculose é a infestação cutânea causada por
piolhos, parasitas hematófagos humanos perten-
centes à ordem dos Phthiraptera, na qual se inclui a
subordem Anoplura, que compreende as espécies:
–Pediculus humanus (corporis): do corpo ou roupa
–Pediculus humanus (capitis): do couro cabeludo
– Phthirius pubis:da região púbica.
Apediculose do corpo e a pediculose púbica
atingem preferencialmente adultos com vida
precária e sexual activa, pelo que não são abor-
dadas (Quadro 1).

Manifestações clinicas e diagnóstico

Apediculose da cabeça é uma infestação ubiqui-
tária, verificando-se maior incidência entre os 3 e
os 11 anos de idade. É mais frequente no sexo
feminino. O contacto interpessoal é a forma mais
frequente de transmissão, mas pode verificar-se a
disseminação por fómites.
Os achados clínicos são limitados ao couro
cabeludo, mais frequentemente região occipital e
retroauricular. O sintoma clássico é o prurido mar-
cado, ainda que de intensidade variável.
Na primeira infestação o prurido pode demorar
2 a 6 semanas até se evidenciar; em infestações
futuras desenvolve-se prontamente. Salienta-se,

FIG. 2

“Mancha mãe” (Pitiríase

rosada).

FIG. 3

Erupção exantemática típica

(Pitiríase rosada).

Parasita (piolho)

Doença

Pediculus humanus var. capitis

Pediculose da cabeça

Pediculus humanus var. corporis

Pediculose do corpo

Phthirus pubis

Pediculose púbica

QUADRO 1 – Formas de Pediculose

TRATADO DE CLÍNICA PEDIÁTRICA

510

assim, a possibilidade de ocorrência de surtos
epidémicos em creches e escolas. Poderão surgir
complicações (piodermites). Alguns indivíduos as-
sintomáticos podem ser considerados “portadores”.
O diagnóstico é feito pela identificação do para-
sita ou pelos ovos (lêndeas, em geral muito
numerosas) na haste do pêlo. Ocasionalmente pode
existir febre baixa, irritabilidade, linfadenopatia ou
infecção bacteriana secundária.

Tratamento

Na pediculose da cabeça são utilizados os
seguintes fármacos em alternativa:
– Lindano (loção a 1%): aplicação tópica à noite
durante 4 minutos com lavagem na manhã
seguinte utilizando champô; a lavagem deve ser
feita a seguir; a aplicação pode ser repetida 1
semana depois; ou
– Malatião (loção a 0,4%): aplicação tópica
(com precaução por ser produto inflamável) à
noite, removendo com lavagem na manhã se-
guinte; ou

– Piretrinas (champô): aplicação durante 10
minutos, lavando em seguida; pode repetir-se o
procedimento no dia seguinte; como precaução há
que evitar contacto com os olhos; ou
– Permetrina a 1% (creme de lavagem): apli-
cação em cabelo pouco húmido durante 10 minu-
tos, seguido de lavagem; pode repetir-se 1 semana
depois; resistências frequentes.
Notas importantes:
Aescolha terapêutica é baseada na eficácia do
fármaco, potencial de toxicidade e padrões de
resistência. Em todas as preparações tópicas
podem ser realizadas 2 aplicações com 1 semana
de intervalo, atendendo à possibilidade de poder
haver ainda eclosão larvar depois do primeiro
tratamento. É fundamental a remoção mecânica
da lêndeas.

É aconselhavel corte de cabelo (muito curto)
para facilitar, com pente de espaços apertados, a
remoção das referidas lêndeas.
Há que antender à toxicidade do lindano, o
que obrigará a dar prioridade a outros fármacos.
Tratando-se de pediculose púbica e/ou axilar
pode utilizar-se lindano loção a 1% no púbis e/ou
axilas 1vez/semana; ao nivel do pénis e escroto há
que preferir creme ou loção não alcoólica.

101

ESCABIOSE

Luísa Caldas Lopes

Definição e importância do problema

Aescabiose (sinónimo: sarna) é uma doença cu-
tânea parasitária provocada por infestação pelo
ácaro Sarcoptes scabieivariante hominis, parasita
exclusivamente humano, que não infesta animais
domésticos ou objectos inanimados.
Trata-se duma doença ubiquitária; todas as
idades, raças e grupos sócio-económicos são sus-
ceptíveis. No entanto, existem vários factores
que facilitam a sua disseminação: o atraso do
tratamento de casos primários, a falta de alerta
para a doença e as más condições socio-
económicas. Adisseminação da infestação entre
membros da mesma família e contactos próxi-
mos é frequente, e um dado que favorece o diag-
nóstico.

Aprevalência é maior em crianças, em adultos
com vida sexual activa e em idosos ou acamados.

Etiopatogénese

O Sarcoptes scabieivar. hominisé um ácaro muito
pequeno, arredondado e translúcido, cuja fêmea
mede cerca de 0.4 mm. Tem 4 pares de patas e
reproduz-se pela postura de ovos fecundados.
O ácaro fêmea penetra na epiderme onde escava
e avança lentamente originando a galeria, na
qual põe os ovos e morre ao fim de 6 semanas.
Aduração do macho é bastante inferior. Cada
ovo resulta numa larva de 3 pares de patas e que
se vem transformar em ácaro adulto. Este ciclo
dura cerca de 2 semanas. Na primeira infestação
a sensibilização do sistema imunitário pode
demorar duas a seis semanas. As infestações
subsequentes são reconhecidas em 24 a 48
horas.

CAPÍTULO 101Escabiose

511

Manifestções clínicas

Ahistória epidemiológica, a distribuição das lesões
(pápulas, vesículas, nódulos e galerias) e o purido
formam a base para o diagnóstico clínico.
O prurido intenso tem classicamente exacer-
bação nocturna ou é acentuado por banhos quentes.
As lesões cutâneas têm distribuição característica e
simétrica: os locais envolvidos incluem as pregas
interdigitais, punhos, axilas, regiões retroauricu-
lares, região periumbilical, pés e regiões maleolares.
Nas crianças mais velhas e adolescentes as
lesões têm localização semelhante à dos adultos.
No homem são frequentes lesões no pénis e
escroto. Na mulher, os mamilos e a área genital são
frequentemente afectados. Particularmente nas cri-
anças, imunocomprometidos e idosos, todas as
superfícies cutâneas são susceptíveis, incluindo
couro cabeludo e face.
O sinal patognomónico é a presença de galerias
correspondendo ao trajecto do ácaro em forma de
linha quebrada, com poucos milímetros de compri-
mento. Arestantes lesões cutâneas são pápulas
eritematosas, nódulos e lesões secundárias de
coceira. As crianças têm tendência a ter maior
número de lesões que o adulto.
No decurso da evolução de uma sarna não
tratada podem surgir nódulos (escabióticos),
resultantes da intensificação da reacção infla-
matória ao ácaro. Estes nódulos podem atingir
mais de 1 cm de diâmetro, são particularmente
frequentes em crianças e, quando considerados
isoladamente, podem originar problemas dia-
gnósticos.

Aeczematização e a impetiginização são com-
plicações frequentes.
Crianças com atraso psicomotor grave ou inca-
pazes de se coçar podem ser infestadas por mi-
lhares de ácaros, produzindo hiperqueratose
difusa e liquenificação particularmente proemi-
nente nas mãos, pés e orgãos genitais. Esta forma
de escabiose é designada sarna norueguesaou sarna
crostosa.

Diagnóstico

O prurido com exacerbação nocturna, o quadro
clínico típico e a presença de familiares com
doença pruriginosa permitem o diagnóstico clíni-

co. Se necessário, a confirmação faz-se pela
demonstração em exame microscópio directo do
ácaro em hidróxido de potássio a 10%.

Tratamento

O doente e todos os familiares próximos devem
ser tratados simultaneamente, uma vez que é rela-
tivamente frequente a existência de portadores
assintomáticos. É importante ainda recordar que
na primeira infestação o prurido só surge 4 a 6
semanas após o contacto. Apesar de o ácaro atin-
gir preferencialmente zonas quentes e húmidas, o
escabicida deve ser aplicado em toda a superfície
cutânea incluindo face e couro cabeludo, nas
crianças com menos de cinco anos. Para reduzir o
potencial de reinfestação, a roupa de uso pessoal,
a roupa de cama e as toalhas devem ser lavadas no
início e no fim do tratamento.
Após tratamento eficaz a maioria dos doentes
melhora do prurido em 3 dias; contudo, o prurido
e as lesões podem persistir 2 a 4 semanas – é o
prurido pós-escabiótico. Esta reacção não implica
falência terapêutica, mas sim uma reacção
imunológica a toxinas ou ácaros mortos. É ainda
importante recordar que os escabicidas tópicos
determinam sempre um certo grau de irritação
cutânea, pelo que a sua aplicação excessiva agrava
a dermite que frequentemente coexiste com a
escabiose.

O medicamento utilizado deve ser aplicado
minuciosamente ao deitar.
Na idade pediátrica os fármacos utilizados
(ectoparasiticidas) são os seguintes:

Nas crianças com idade inferior a 2 anos:
– Lindano (creme) seguido de banho ao cabo
de 6 horas; pode repetir-se a aplicação tópica
1 semana depois.

Nas crianças com idade igual ou superior a 2 anos:
– Lindano (soluto a 1%), aplicação única ou em
3 noites consecutivas; seguida de banho
cerca de 8 horas depois; se aplicação única,
deve repetir-se 1 semana depois.
Nota:Aneurotoxicidade deste produto limita
a sua utilização em crianças pequenas (< 2 anos),
grávidas e em formas clínicas em que existam
muitas abrasões na pele.

TRATADO DE CLÍNICA PEDIÁTRICA

512

– Benzoato de benzilo (soluto a 30%) com apli-
cação em 3 noites consecutivas, seguindo-se
banho na manhã seguinte à terceira apli-
cação.

Outros fármacos:
– Crotamitão formulado a 10% em loção ou
creme; não recomendado em idade pediátrica.
– Permetrina (creme a 5%); não se encontra
comercializado entre nós na concentração
referida, salientando-se a sua menor toxici-
dade e maior eficácia relativamente ao lin-
dano.

– Invermectina:é o única fármaco de admi-
nistração oral. Não se encontra disponível no
mercado, apesar de ter utilidade em diversas
doenças parasitárias humanas, das quais se
destacam as filaríases. O seu uso na sarna é
restrito às formas refractárias, sobretudo se
associadas a infecção por VIH em crianças
com idade superior a 5 anos.

102

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