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Benedict Anderson

NAÇÃO E CONSCIÊNCIA NACIONAL
Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira

He regards it as his task to brush history against the grain* Walter Benjamin, fí/uminations Thus from a Mixture of ali kinds began, That Hefrogeneous Thing, An Englishman: In eager Rapes, and furious Lust begot, Betwixt a Painted Britton and a Scot. Whose gend'ring Offspring quickly learnt to bow, And yoke their Heifers to the Roman Plough: From whence a Mongrel half-bred Race there carne, • With neither Name nor Nation, Speech or Fame. In whose hot Veins new Mixtures quickly ran, !nfus'd betwixt a Saxon and a Dane. While their Rank Daughters, to their Parents just, Rece'iv'd ali Nations with Promiscuous Lust. This Nauseous Brood directly did contaín The well-extracted Blood of Engfíshmen...*" Excerto de Daniel Defoe, The True-Bom Englishman

SUMÁRIO

l Encara como tarefa sua contrariar o sentido da história. ' Assim da uma mistura de todos os tipos começou £ssa coisa heterogénea, um inglês; Gerado em estupros ardentes e arrebatada luxúria Entre um bretso sardento e um escocês'. ' Cuja prole procriadora logo aprendeu a curvar-se, E jungiu suas novilhas ao arado romano: .E dal uma raça mestiça impura se originou, Sem nome nem nação, sem fala ou fama. Em cujas vaias ardentes novas mesclas logo se fundiram. Infundidas entre um saxão e um dinamarquês. Enquanto suas filhas nobres, exatamente como os pais. Receberam todas as nações com promíscua luxúria. Essa raça repulsiva continha do fato diretamente O sangue de boa extração dos ingleses...

1. Introdução • 2. Raízes culturais 3. As origens da consciência nacional',, 4. Antigos impérios, novas nações 5. Antigas línguas, novos modelos 6. Nacionalismo oficial e imperialismo 7. A última onda _____________ 8. Patriotismo e racismo 9. O anjo da história Bibliografia __ índice alfabético

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INTRODUÇÃO

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Talvez não se tenha ainda percebido que está ocorrendo uma transformação fundamental na história do marxismo e dos movimentos marxistas. Seus sinais mais perceptíveis são as recentes guerras entre o Vietnã, o Camboja e a China. Essas guerras são de importância histórica mundial, por serem as primeiras a ocorrer entre regimes cuja independência e credenciais revolucionárias são inegáveis, e porque nenhum dos beligerantes procurou, senão perfunctoriamente, justificar o derramamento de sangue em termos de uma perspectiva teórica marxista aceitável. Embora fosse ainda perfeitamente possível interpretar os conflitos fronteiriços de 1969 entre a China e a União Soviética, as intervenções militares soviéticas na Alemanha (1953), na Hungria (1956), na Checoslováquia (1968) e no Afeganistão (1980), em termos de — conforme o gosto — "imperialismo social", "defesa do socialismo", etc., ninguém, penso eu, acreditará seriamente que esse tipo de vocabulário tenha muito a ver com o que ocorreu na Indochina. Se a invasão e a ocupação vietnamitas do Camboja, em dezembro de 1978 e janeiro de 1979, representaram a primeira guerra convencional em grande escala empreendida por um regime marxista revolucionário contra ou-

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iro. ' o ataque da China ao Vietnã, em fevereiro, confiras;/ rapidamente o precedente. Apenas os mais confiantes -•leriam apostar que, nos anos finais deste século, qualquer deflagração importante de hostilidades entre Estados encontrará a União Soviética e a China Popular — para não falar nos Estados socialistas menores — apoiando ou combatendo do mesmo lado. Quem pode estar seguro de que a lugoslávia e a Albânia não irão entrar em choque algum dia? Os variados grupos que pedem a retirada do Exército Vermelho de seus acampamentos na Europa Oriental devem recordar o quanto a presença dominante dessas forças tem evitado, desde 1945, conflitos armados entre os regimes marxistas da região. Essas considerações são úteis para salientar o fato de que, desde a Segunda Grande Guerra, cada uma das revoluções vitoriosas tem-se definido em termos nacionais — a República Popular da China, a República Socialista do Vietnã, e assim por diante — e, ao f aze-Io, basearam-se firmemente em um espaço territorial e social herdado do passado pré-revoliicionário. Ao contrário, o f ato de a União Soviética compartilhar com o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte o mérito incomum de não incluir a nacionalidade em sua denominação indica que ela tanto é a legatária dos Esta-r dos dinásticos pré-nacionais do século XIX, quanto a precursora de uma ordem internacionalista do século XXI. 2 Eric Hobsbawm está perfeitamente correto ao afirmar que "os movimentos e Estados marxistas tenderam a tor1

Exprimimo-nos dessa maneira apenas para enfatizar a escala e o estilo da luta, e não como censura. Para evitar possíveis mal-entendidos, é preciso dizer que a invasão de dezembro de 1978 originou-se de choques armados, possivelmente desde 1971, entre guerrilheiros dos dois movimentos revolucionários. Depois de abri! de 1977, ataques fronteiriços, iniciados pelos cambojanos, mas logo imitados pelos vietnamitas, aumentaram em grandeza e alcance, culminando na incursão vietnamita mais importante de dezembro de 1977, Nenhum desses ataques, porém, visava à derrubada do regime do inimigo, ou ã ocupação de granda extensão de território, bem como o número de soldados envolvidos n5o ers comparável ao que se deslocou om dezembro de 1978. A controvérsia a respeito das causas da guerra 6 investigada ponderadarnente em Stepnen P. Hader, "The Kampuchean-Vietnamese Confliet", in David W. P. Elliott, org., The Ttârd Indochina Confíict, p. 21-67; Anthony Batnett, "Inter-Communist Conflicts and Vietnam", Bvllstin of Concerned Asían Scbolars, 11:4 (outubro-dezembro de 1979), p, 2-9; e Laura Summers, "In Matters of War and Sccialism Anthony Barnett would Shsme and Honour Kampuchsa Too Much", ibid., p. 10-8. 3 Se alguém duvidar de que o Reino Unido merece asso tipo de paridade com a URSS, devaié Indagar-se que nacionalidade sã denota por oste nome: grâo-breto-irlandês?

nar-se nacionais não apenas na forma, mas também na substância, isto é, nacionalistas. Nada indica que essa tendência não persistirá". 3 E essa tendência não se limita ao mundo, socialista. Quase todos, os anos, as Nações Unidas admitem novos membros. E muitas das "velhas nações", antes consideradas plenamente Consolidadas, vêem-se ameaçadas por "sub"-nacionalismoâ no interior de suas fronteiras — nacipnalismos que, naturalmente, sonham com livrar-se algum dia dessa condição de "sub". A realidade é muito clara: o "fim dos tempos do nacionalismo", há tanto tempo profetizado, não está à vista, nem de longe. De fato, a nation-ness * constitui o valor mais universalmente legítimo na vida política de nossa era. Porém, se os fatos são evidentes, sua explicação continua sendo .tema de uma disputa há muito existente. Nação, nacionalidade, nacionalismo — todos têm-se demonstrado difíceis de definir, quanto mais de analisar. Em contraposição à enorme influência que o nacionalismo tem exercido no mundo moderno, é notoriamente escassa a teoria plausível a respeito de.le. Hugh Seton-Watson, autor do indubitavelmente melhor e mais abrangente texto em língua inglesa a respeito do nacionalismo, e herdeiro de vasta tradição da historiografia e da ciência social liberais, observa pesarosamente: "Desse modo, sou levado à conclusão de que não se pode estabelecer nenhuma 'definição científica1 de nação; contudo, o fenómeno tem existido e continua a existir". 4 Tom Nairn, autor da obra pioneira The Break-up of Britam, e herdeiro da não menos vasta tradição da historiografia e da ciência social marxistas, observa francamente: "A teoria do nacionalismo representa o grande fracasso histórico do marxismo", s Até mesmo essa confissão, porém, é algo enganadora, na medida em que se possa considerar
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Eric Hobsbawm, "Some Rofloctions on 'The Braak-up o.f Britain' ". tJeitr Lelt Review* 105 (setambro-outubro de 1977). p, 13. " O autor emprega diversas vezes a palavra nation-ness, por ele cunhada, em lugar de ' natlonalíly !cf. p, 12). Impossível criar um correspondente português; por isso, mantive em Inglês todas as vezes (MT). 4 Ver seu Nations and States, p. 5. Grifo nosso. 5 Ver seu "The Modern Jsnus", New Left Review, 94 Inovembro-dszembro do 1975), p. 3. Este ensaio foi incluído sem alterações como capitulo 9 do The Break-up of Brítsin (p. 329-63I.

todo mundo pode e deve "ter". poder-se-ia sem dúvida concluir rapidamente que "lá não existe lá nenhum". ficado perplexos. tem sido amplamente evitado. a particularidade irremediável de suas manifestações concretas. esse "vazio" desperta. Kemilâinen observa também que a palavra "nacionalismo" sá passou a ser amplamente empregada em fins do século XIX. A universalidade formal da nacionalidade como conceito sociocultural — no mundo moderno. por definição. a não ser por ideólogos nacionalistas em determinados países. in Setscted Works. Aira Kemilãinen. de que modo seus significados se alteraram no correr do tempo. nem Marxs. Nationalism. 2. Grifo nosso. como talvez se prefira dizer. exatarnente por essa razão. a nacionalidade "grega" é sui generis. p. um certo ar de superioridade. Hans Kohn e Carlaton Haves. tornaram-se "modulares". naturalmente. por mais de um século. Em qualquer exegese teórica. e que se requer. uma reorientação de perspectiva num espírito por assim dizer copernicano. com graus diversos de consciência e a grande variedade de terrenos sociais. não se refere com essa palavra senão a "sociedades" ou "Estados". para se incorporarem à variedade igualmente grande de constelações políticas e ideológicas. a palavra "naturalmente" seria um sina) de alerta para o leitor entusiasmado. mas que. visto que se define em termos das relações de produção — é teoricamente importante? O que este livro pretende é oferecer algumas sugestões exploratórias para uma ínterpretaçãp mais aceitável da "anomalia" do nacionalismo. p. tanto quanto terá um sexo — vs. Procurarei também demonstrar por que esses artefatos culturais peculiares têm suscitado afetos tão profundos. ou. bem como o nacionalismo. A modernidade objetiva das nações aos olhos do historiador vs. The Comrminist Manifesto. 10. tal que. por volta dos fins do século XVIII. 46. quanto a esse tema. mais do que enfrentado. O poder "político" dos nacionalismos vs. para não dizer irritados. Tentarei demonstrar que a criação desses artefatos. uma vez criados. a dupla de "pais" do estudo académico sobre o nacionalismo. do conceito de "burguesia nacional". nem Tocquevilles. ' Como observa Aíra Kemilãlnen. Facilmente. Para compreendê-los adequadamente é preciso que consideremos com cuidado como se tornaram entidades históricas. naíion-ness. entre intelectuais cosmopolitas e poliglotas. filosófica. inspiram uma legitimidade emocional tão profunda. ajustar contas com sua própria burguesia"? 6 Como justificar doutro modo o emprego. devido às múltiplas significações dessa palavra. e até mesmo incoerência. com estes três paradoxos: 1. Minha impressão é que. 33 e 48-9- . são artefatos culturais de um tipo peculiar. l. tão inevitável quanto a 'neurose' no indivíduo. Os teóricos do nacionalismo têm. Seria mais exato dizer que o nacionalismo tem se revelado uma incómoda anomalia para a teoria marxista e. Marx e Friedrich Engels. Ela não aparece. diversamente da maioria dos outros "ismos". Parto de que a nacionalidade. passíveis de serem transplantados. sua antiguidade subjetiva aos olhos dos nacionalistas. o nacionalismo jamais produziu grandes pensadores próprios:-nem Hobbes.12 que implica no resultado lastimável de uma busca prolongada e deliberada de clareza teórica. Como explicar de outro modo a falha do próprio Marx para explicar o pronome crucial em sua memorável formulação de 1848: "O proletariado de cada país deve. trazendo consigo muito da mesma ambiguidade essencial. uma capacidade implícita semelhante para degenerar em demência. muitas vezes. parece aconselhável considerar sumariamente o conceito de "nação" e oferecer uma definição viável. por exemplo. e por que. 3. em muitos dicionários correntes do século XIX. Conceitos e definições Antes de tratarmos das questões acima propostas. Creio que suas conclusões não foram seriamente contestadas. Em outras palavras. tanto a teoria marxista quanto a liberal têmse debilitado em um tardio esforço ptolomaico para "salvar o fenómeno". nem Webers. com urgência. hoje em dia. argumentava persuasivamente em favor dessa datação. Do mesmo modo que Gertrude Stein diante de Oakland. É típico que até mesmo um estudioso tão solidário com o nacionalismo quanto-Tom Nairn tenha no entanto podido escrever que: "o 'nacionalismo' é a patologia da moderna história do desenvolvimento. sua pobreza. e "terá" uma nacionalidade. 7 foi a destilação espontâ6 Karl nea de um "cruzamento" complexo de forcas históricas. Quando Adam Srnith invoca a riqueza das "nações". antes de mais nada. sem qualquer tentativa séria de justificar teoricamente a importância do adjetivo? Por que esta segmentação da burguesia — uma classe mundial.

Geílner insiste de maneira semelhante quando estabelece que "o nacionalismo não é o despertar das nações para a autoconsciência: ele inventa nações onde elas não existem". a essência de uma nação é que os indivíduos tenham muitas coisas em comum e. Dentro de um espírito antropológico. mais do que com "liberalismo" ou "fascismo". mas "o senhor de X". numa população de 23. Thought and Change. A nação é imaginada como limitada. Acrescenta ele: "tout citoyen [rançais doit avoir oublié Ia SBint-Barthélemy.. 78).. a seguinte definição para nação: ela é uma comunidade política imaginada — e imaginada como implicitamente limitada e soberana. nem os encontrarão. u O inconveniente dessa formulação. que assimila "invenção" a "contrafação" e "falsidade". mas certamente ela só foi imaginada desse modo muito tardiamente.í do mundo (o equivalente do infantilismo. digamos. e em grande medida incurável". (Observe-se que. Os aldeões javaneses sempre souberam que estavam ligados a pessoas que jamais haviam visto. 892.) Creio que as coisas ficariam mais fáceis. divinamente instituído. mas tais vínculos eram outrora imaginados de maneira particuiarista — como malhas indefinidamente extensas de parentesco e de dependência. então.") 11 Emest Gollnor. Grifo nosso. mas pelo estilo em que são imaginadas. Nenhuma nação se imagina coextensiva com a humanidade. a classificá-"lo" como uma ideologia. Nations antí States. Nio na dez famílias na Franca qua possam apresentar provas de origem franca. ou se comportam como se constituíssem uma nação". 10 Ernest Renan. por exemplo. De fato. sonhassem com um planeta inteiramente cristão. quando escreveu que "Or l'essence d'une nation est que tous lês individus aient beaucoup de choses en commun. possui fronteiras finitas. porque o conceito nasceu numa época em que o Iluminismo e a Revolução estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico hierárquico.. porque até mesmo a maior delas. "fixa" isso ao dizer que. nem sequer ouvirão falar deles. Nem os nacionalistas mais messiânicos sonham com um dia em que todos os membros da raça humana se juntem a sua nação. é que Geílner esThe Bre&k-up aí Britam. a resposta normal teria sido. também. do mesmo modo como foi possível que em certas épocas os cristãos.000 (ver seu The Age of Rcvolution. p. não "um membro da aristocracia". talvez. 10 Algo ferozmente. Até muito recentemente. se todo mundo tem uma idade. \. 9 Renan referiu-se a esse ato de imaginar. até mesmo estas) são imaginadas. contudo. ao invés de assimilá-la a "imaginação" e "criação".15 nos dilemas do desamparo imposto à maior par. Atingindo a maturidade numa 12 Hobsbawm. Mas essa descrição estatística da nobreza poderia ser pensada ao tampo do ancien régimoj . Ela é imaginada porque nem mesmo os membros das menores nações jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas. Hoje podemos pensar na aristocracia francesa do ancien regime como uma classe. todas as comunidades maiores do que as primitivas aldeias de contato face a face (e.000 pessoas.. ou "um vassalo do Duque de Z". a língua javanesa não possuía uma palavra para significar a abstração "sociedade". p. ainda que elásticas.. "Qu'éít-ce qu'une nation?" in Oeuvres Completes. 5: "O qua posso dizer é que uma naçSo existe guando um número significativo de pessoas da uma comunidade considera que constituem uma nação. embora na mente de cada um esteja viva a imagem de sua comunhão. "o tio da Baronesa de Y". Seton-Watson. no século XVIII. ela montava a 400. Desse modo. para além das quais encontram-se outras nações. Podemos traduzir "considera" por "Imagina". p. a seguir. 169. Cf." (no texto: ". p. insinua que existem comunidades "verdadeiras" que se podem sobrepor vantajosamente às nações.. 8 Parte da dificuldade é que as pessoas tendem inconscientemente a hipostasiar a existência do Nacionalismocom-N-grande — como se poderia fazer com Idade-com-Imaiúsculo — e. proponho. se ele fosse tratado como associado a "parentesco" e "religião". em 1789. As comunidades não devem ser distinguidas por sua falsidade/autenticidade. a Idade não passa de uma expressão analítica. que todos tenham esquecido muitas coisas" — na nora: "todo cidadão francês deve ter esquecido a noite do S3o Bartolomeu. à sua maneira suavemente sarcástica. que abarca talvez um bilhão de seres humanos. 8 8 tá tão ansioso em demonstrar que o nacionalismo se dissimula sob falsas aparências. II n'y a pás en France dix familles qui puissent fournlr Ia preuve d'une origine franqua. et aussi que tous aient oublié bien dês choses". p. 3S9. para as sociedades). 12 À pergunta "Quem é o Conde X?".000. os massacres do Sul. lês massacres du Midi au XVIils siècle. É imaginada como soberana.

a jamais se alterou. não pudessem ser recuperados para um enterro normal. Ele pertence à posteridade como o mentor das futuras gerações nos princípios da independência e da liberdade. por exemplo. Eu o via então. não encontra precedentes em épocas passadas. conhecidos. mas morram voluntariamente por imaginações tão limitadas. no correr dos últimos dois séculos. O penhor e o símbolo dessa liberdade é o Estado soberano. as nações sonham em ser livres e. em seu A Soldier Sp. basta imaginar a reação geral a algum intrometido que "descobrisse" o nome do Soldado Desconhecido. sem considerar a desigualdade e expioração que atualmente prevalecem em todas elas. não só matem. ou almas imortais. 354 a 357. . bradando estas palavras mágicas: dever. estes notáveis tropos: 1. ' Para que se sinta a força dessa inovação. precisamente porque estão deliberadamente vazios. saturados de fantasmagóricas imaginações nacionais." Douglas MacArthur. "Duty. em caqui. por uma ou outra razão. contemporânea! Por mais que esses túmulos estejam vazios de quaisquer restos mortais identificáveis. Judith Herrin. a nós. mas também corno das mais Imaculadas [sicl. "Minha avaliação Ido soldado norte-americano] formou-se no campo do batalha. Country". em azul e em cinzento se ergueriam de sob suas cruzes brancas. porém.16 etapa da história humana em que até mesmo os mais devotos adeptos de qualquer das religiões universais se defrontavam inevitavelmente com o pluralismo vivo de tais religiões. pátria. por suas virtudes e porr MJ g s realizações. a nação é sempre concebida como um companheirismo profundo e horizontal. West Point. Devo essa informação a minha colega bizantinísta. Ele pgrtance ao presente." í. se sob as ordens de Deus.. ou ninguém sabe quem jaz dentro deles. que seja diretamente. A reverência pública ritual outorgada a tais monumentos. Considerem-se. "A longa linha cinzenta jamais nos -faltou. Finalmente. e com o alomorfismo entre os reclamos ontológicos de cada fé e o território ocupado por ela. Ele pertence á história como aquele que oferece um dos maiores exemplos de patriotismo bem-sucedido Isicl. Em última análise. Essas mortes lançam-nos abruptamente cara a cara com o problema fundamental proposto pelo nacionalismo: o que faz com que as minguadas imaginações da história recente (pouco mais de dois séculos) dêem origem a sacrifícios tão colossais? Creio que as origens de uma resposta encontram-se nas raízes culturais do nacionalismo.. porém para indivíduos determinados. essa fraternidade é que torna possível. eles estão. honra. p. a nação é imaginada como comunidade porque. Se vocês fossem fazê-lo. 12 da maio de 1962. como uma das mais nobres figures do mundo.2 (Razão por que nações as mais diversas pôs1 2 Os antigos gregos tinham cenotáfios. como o vejo agora. que tantos milhões de pessoas. não sã como e que possui es características militares mais perfeitas. Seria um sacrilégio de estranha espécie. is. RAÍZES CULTURAIS Não há símbolo mais impressionante da moderna cultura do nacionalismo do que os cenotáfios e os túmulos de Soldados Desconhecidos. ou insistisse em introduzir dentro do cenotáfio alguns ossos de verdade. um milhão de lantesmas em verda-oliva. discurso perante' ^Academia Militar dos EUA. Honour. cujos corpos. muitos anos atrás.

Posteriormente. Que devemos nos fazer com um materialismo cientifico que formalmente admita as descobertas da física sobre a matéria e. e 6e diferentes modos. O grande mérito das visões de mundo das religiões tradicionais (que. 29. ou norté-americanos. Â razão disso é que nem o marxismo. A vida humana é cheia desse tipo de associação entre necessidade e acaso. "Timpanaro's Materialíst Chatlenge". e a contingência da vida. Com o refluxo da fé religiosa. A/etv Lett flewsw. um Túmulo do Marxista Desconhecido. o mistério da reencarnação..) Trago à baila essas observações talvez simplórias. da contingência em significado. Régis Debray. era uma transformação secular da fatalidade em continuidade. Que mais poderiam eles ser senão alemães. na Europa ocidental. poucas coisas se adaptavam (se adaptam) melhor a essa finalidade do que uma ideia de nação. Quem vivência a concepção e o nascimento do próprio filho sem ter a in-definida sensação de uma mistura de conexão. em geral transformando a fatalidade em continuidade (karma. o homem como ser específico. ?) O significado cultural de tais monumentos torna-se ainda mais claro. naturalmente. Estamos todos cientes da contingência e inevitabilidade de nossa herança genética particular. pecado original. da época em que vivemos. etc. 109 Imaio-junho de 1978). o pensamento religioso reage também aos obscuros sinais de imortalidade. na década de 1960. a revolução. . digamos. Se é amplamente reconhecido que os Estados-nação são "novos" e "históricos". primordialmente porque. do cristianismo ou do islamismo. trouxe consigo suas peculiares trevas modernas. On Materielisiw and The Freudian Sfíp: e a ponderada réplica de Ravmond Williams.19 18 suem esse tipo de túmulos. casualidade e fatalidade em uma linguagem de "continuidade"? (Também aqui a desvantagem do pensamento evolucionário/progressista é uma hostilidade quase heraclitiana a qualquer ideia de continuidade. do budismo. Como essa afinidade não é absolutamente fortuita. ele se ocupa dos vínculos entre os mortos e os nascituros. nem o liberalismo. deve distinguir-se de seu papel na legitimação de sistemas específicos de dominação e de exploração) tem sido sua preocupação com o homem-nocosmos. Por que nasci cego? Por que meu melhor amigo ficou paralítico? Por que minha filha é retardada? As religiões procuram explicar.. de nosso sexo. se se procura imaginar. de nossa língua maternaj e assim por diante. sua mortalidade é inevitável. A extraordinária sobrevivência. O século do Iluminismo. No correr de uma pesquisa de campo na Indonésia. 3 Cf. 105 (setombro-outubro de 1977). é que tais perguntas são respondidas com um silêncio intolerante. Wew Lett Ftevien. mas também o crepúsculo das modalidades religiosas de pensamento.demandava. Não se poderia evitar um sentimento de absurdo. esforça-se tão pouco pá* rã ligar essas descobertas à luta de classes. Se habitualmente parece arbitrária a maneira como um homem morre. não desapareceu o só-' frimento que a fé em parte mitigava. ou argentinos. p.). isto indica forte afinidade com as imaginações religiosas. se preocupam muito com a morte e corn a imortalidade. pesar. vim a compreender que 03 trata de unia louvável tentativa de ser coerente: simplesmente a doutrina da evolução ara incompatível com os ensinamentos do Islã. 3-17. chocou-me a deliberada recusa do muitos muçulmanos o m acoitar as ideias de Oarwin. por milhares de anos. A grande fraqueza de todos os estilos evolucionários/progressistas de pensamento. Desse modo. O que se. da secularidade racionalista. Desintegração do paraíso: nada torna a fatalidade mais arbitrária. "Marxism and the National Question". De início. o século XVIII assinala não apenas o raiar da era do nacionalismo. mutilação. p.. Absurdo da salvação: nada torna mais necessário um outro estilo de continuidade. em dezenas de formações sociais diversas. idade e morte. de nosso potencial físico. 3 Ao mesmo tempo. por ser ela a última de toda uma escala de fatalidades. Como veremos. Se a imaginação nacionalista se preocupa tanto. interpretei essa recusa como obscurantismo. atesta sua resposta imaginativa à esmagadora carga de sofrimento humano — doença. contudo. ou um cenotáfio para os Liberais mortos. ou ao que quer que seja? O abismo entre os pró tons e o proletariado não ocultaria uma nfio admitida concepção metafísica do homem? Veja porém os interessantes textos de Sebastiano Ttmpanaro. será conveniente iniciar pela morte o exame das raízes culturais do nacionalismo. sem exclusão do marxismo. então. sem sentir qualquer necessidade de especificar a nacionalidade de seus ocupantes ausentes.

o árabe escrito funcionou como os caracteres chineses para criar uma comunidade a partir dos signos. do árabe. p. Porém. The WbfltiofSoulheastAsia. Não é preciso dizer que não estou declarando que o aparecimento do nacionalismo em fins do século XVIII foi "produzido" pela erosão das certezas religiosas. do que expulsar "os holandeses". Podemos dizer. mas. ilimitado. porque os textos sagrados que compartilham só existem em árabe clássico. é inteiramente acidental que eu tenha nascido francês. tais comunidades clássicas vinculadas por línguas sagradas tinham caráter distinto das comunidades imaginadas das nações modernas. do Paraguai ao Japão. (Assim. antes. orgs. não com ideologias políticas abraçadas conscientemente. os dois sistemas culturais relevantes são a comunidade religiosa e o reino dinástico. ainda mais importante. ela mesma. Antes de começar a rir. As grandes culturas. para nossos fins. muito embora as próprias memórias desse prfncipe mostrem que ele. com Debray. e do mundo budista.20 21 as nações a que eles dão expressão política assomam de um passado imemorial. Entre os heróis nacionais da indonésia contemporânea tem primazia o príncipe javanês do início do século XIX. a cristandade. do Sri Lanka à península coreana. devemos lembrar de Artur e Boadicéia. 13 (abril de 1972). K em ai Ataturk deu a um de seus bancos estatais o nome de Eti Banka (Banco Hitita) s a outro. mediante uma linguagem sagrada vinculada a uma ordem de poder supraterrestre. Esses bancos são prósperos hoje em dia e não há razão pare duvidar-se de que muitos turcos. Para nossos objetivos. eram aceitos como verdadeiros quadros de referência. é evidente que ele não tinha um conceito de "holandeses" como uma coletividade. salientar determinados elementoschave de sua decomposição. De fato. e a maior parte da In* donásia de hoje tenha sido conquistada pelos holandeses entre 1850 e 1910. Pois ambos. todo mundo tem acesso a um mundo abstrato de signos. Larkin. uma explicação complexa. deslizam para um futuro ilimitado. e até mesmo o Império do Centro — o qual. embora nada conheçam da língua um do outro e sejam incapazes de se comunicar oralmente. ao mesmo tempo. compreendem no entanto os ideogramas uns dos outros. (Na verdade. p. Como também não estou sugerindo que de alguma forma o nacionalismo "suplanta" historicamente a religião. Oíponegoro. mas com os sistemas culturais amplos que o precederam. teoricamente. ou do chinês escritos era. 4 e. sagradas (e. O que proponho é que o nacionalismo deve ser compreendido pondo-o lado a lado. suas ideias a respeito da admissão de novos membros. Natlons and States. 103. Basta tomar o exemplo do Islam: se maguindanaos e berberes se encontram em Meca. a França é eterna". e vice-versa. mas uns e outros compreendem o símbolo. 4 A comunidade religiosa Poucas coisas causam maior impressão do que a enorme extensão territorial da Ummah Islam. 259). a partir dos quais — bem como contra os quais — passaram a existir. "Dtponegoro 117787-1855)". a linguagem matemática continua uma velha tradição. A mágica do nacionalismo consiste em transformar o acaso em destino. mas sim como central — eram imagináveis em grande parte mediante uma linguagem sagrada e um texto escrito. a nacionalidade. Conseq-iientemente. nos hititas e nos sumerianos. da cristandade. Grifo nosso. tanto quanto é. é permissível que incluamos o "confucionismo") incorporaram concepções de comunidades imensas. embora hoje pensemos nele como chinês. Os mandarins chineses encaravam com aprovação os bárbaros que penosamente aprendiam a desenhar os ideogramas do Império do Centro. 158: e Ann Kumar. seus ancestrais turcos. pretendia "conquistar InSo ItbertarlJ Java". a Ummah Islam. e refletir sobre o êxito comercial das mitografias de Tolkien. em seu apogeu. embora o próprio conceito de "Indonésia" seja ume invenção do século XX. hoje em dia. "Sim. Banco Sumeriano (Seton-Watson. p. É essencial. por isso. Os romenos não têm a menor ideia de como o sinal " + '' é chamado pelos tai. o alcance do latim. Analogamente. possivelmente sem excluir o próprio Kemal. hoje em dia. quanto mais morta a lingua escrita — quanto mais distante estivesse da fala — melhor: em princípio.. O falecido presidente Sukarno sempre falou com inteira sinceridade sobre os trezentas e cinquenta anos de colonialismo suportados por sua "Indonésia". não se imaginava como chinês. do Marrocos ao Arquipélago Sulu. e não a partir dos sons. daí. ou que essa erosão não exija. viarn e vêem. Var Harry J. do páli. considerar o que dava a esses sistemas culturais sua manifesta plausibilidade e. Bonda e John A. afinal de contas. Indonésia.) Todas as grandes comunidades clássicas concebiám-se como cosmicamente centrais.) Contudo. . Nesse sentido. seriamente. Diferença essencial era a segurança das antigas comunidades quanto à sacralidade singular de suas línguas e.

Sua preguiça. a realidade de tais aparições dependia de uma ideia em grande medida estranha ao pensamento ocidental contemporâneo: a não-arbitrariedade do signo. Tfte Spanish-American Revoltitians. 8 Michelas Brakespear assumiu o posto de pontífice entra 1154 e 1159. Mas muito embora as línguas sagradas tornassem imagináveis comunidades como a cristandade. sua estupidez e sua indiferença em relação aos empreendimentos humanos normais levam a pensar que provêm de uma raça degenerada que se deteriora à medida que se distancia de suas origens. "wogs". com o nome de Adriano IV. G "n oposição Ss "línguas sagradas" (NT). porque a verdade de Alá somente era acessível mediante os insubstituíveis signos verdadeiros da língua árabe escri. pela miscigenação com os brancos.. Todos conhecemos bem a longa disputa a respeito da língua adequada para as massas (latim ou língua vulgar"). Os ideogramas da língua chinesa. (Quão diferente é a atitude de Fermín da preferência dos imperialistas europeus posteriores por "autênticos" malaios. também. (Contraste o prestígio dessas antigas línguas mundiais. por isso. impregnadas de um impulso em grande medida estranho ao nacionalismo. impostos e outros encargos. humano é maleável do ponto de vista sagrado. pairando muito acima de todas as línguas vulgares. neste caso.' não quero tanto dizer a aceitação de dogmas religiosos par' ticulares. por exemplo. a seguinte "política relativa aos bárbaros" formulada em princípios do século XIX pelo liberal colombiano Pedro Fermín de Vargas: Para expandir nossa agricultura seria necessário hispanizar nossos índios. p. foi essa possibilidade de conversão pela língua sagrada que tornou possível que um "inglês" se tornasse Papa 8. paralelamente à condescendente crueldade. De fato. como qualquer outra pessoa. o Corão era literalmente intraduzível (e.) Afinal de contas. o índio pode ser redimido — mediante fecundação com o sémen branco. Não existe. com o esperanto ou o volapúk. "civilizado". como seus sucessores no Brasil. gurcas e haussas a "mestiços". do árabe do Cõrão. nenhuma ideia de . e um "manchu". . nem limitada à antiguidade. e o recebimento de propriedade privada. ' A Igreja grega pareço n3o ter atingido o status de uma Kngua-vardade. como línguas-verdade. 260. 1803-1826. 5 Ser meio-civilizado era muitíssimo melhor do que ser 'bárbaro. até muito recentemente. Na tradição islâmica. seria muito desejável que os índios fossem extintos. Devo esse insight a Judith Herrin. ou o chinês dos exames. Os bárbaros tornaram-se "Império do Centro". è" não exterminando-os pelas armas e pelos micróbios. aleatoriamente fabricadas. a realidade ontológica somente é apreensível por meio de um sistema único e privilegiado de re-[a]presentação: a língua-verdade do latim da Igreja. As razões desse "fracasso" s3o divorsns.) Contudo. mus um fator-ciiavo (01 corlamontu o falo do quo n Hngua grega continuou sendo uma fala vulgar viva (diferentemente do laiiml em grande parte do império Oriental. na Argentina e nos Estados Unidos começariam a fazer logo depois. o enorme otimismo: em última análise. Grifos nossos. Observe-se."seus leitores eram pequeninos recifes letrados por sobre enormes ocea"Llngua vulgar" foi a tradução que adotamos para vsrnacular. que o autor emprega para referir-se à língua utilizada pelo comum das pessoas. maometanos. os rif. 6 Como é admirável que esse liberal ainda proponha "extinguir" seus índios em parte "declarando-os livres de impostos" e "atribuindo-lhes a propriedade privada da terra". e coisas assim. o verdadeiro alcance e plausibilidade dessas comunidades não podem ser explicados apenas pelo texto sagrado: afinal. portanto.' ta.um mundo tão desligado da língua que todas as línguas constituíssem para ele signos equidistantes (e. Observem. latina ou árabe eram emanações da s realidade e não representações suas. os ilongo. 7 E. Dal a equanimidade com que mongóis e manchus achinesados eram aceitos como Filhos do Céu. não era traduzido). sendo declarados livres de . "nativos semi-instruídos". A natureza toda do ser. o impulso para a conversão. que jazem ignorados entre aquelas e estas. Essa atitude não era por certo peculiar aos chineses. cristãos. 6 John Lynch. se as mudas línguas sagradas eram o meio pelo qual as grandes comunidades globais do passado eram imaginadas. Filho do Céu..23 22 Tais bárbaros já estavam a meio caminho da absorção completa. e sendo-lhes atribuída a propriedade privada da terra. intercambiáveis). Por conversão. mas uma absorção alquímica.

e ali continuava a residir nos meses de fevereiro e março. "alargaram abruptamente o horizonte cultural e geográfico e. Maomé. embora escrevendo para cristãos europeus seus iguais. em parte. qualificar Kublai de hipócrita ou idólatra. 10 Isso nlo quer dizer que os analfabetos não liam. ainda que obscuras. disse ele: "Há quatro grandes profetas que são reverenciados e venerados pelas diversas classes de humanidade. retornou em grande pompa e triunfo à capital de Kanbalu. mas o mundo observável. feita pelo bom veneziano cristão Marco Polo. 158-3. mas de modo algum exclusivamente. Grifos nossos. porque "quanto ao número de súditos. p. 9 O que há de mais notável nessa passagem não é tanto o tranquilo relativismo religioso (ainda que um relativismo religioso) do grande -governante mongol. '3|bid. no último dos quais era nossa festa da Páscoa. Moisés. na Europa. à margem da ideia que a sociedade tem da realidade. Quando lhe foi perguntado o motivo dessa conduta. embora beijado. 83. 9 Uma explicação mais completa exige que se aluda à relação entre os homens de letras e suas sociedades. p. só é compreensível em termos de uma classe transeuropéia de letrados em escrita latina e de uma concepção do mundo compartilhada virtualmente por todos. O que liam. ele supera qualquer soberano que haja existido ou que agora exista no mundo". 81. sua coerência não deliberada desvaneceu-se rapidamente depois do final da Idade Média." Bloch.. os sarracenos. não eram palavras. e invoco para mim a ajuda de seja qual for demre eles que é verdadeiramente o supremo no céu". de modo preponderante. Ciente de que essa era uma de nossas principais comemorações. Feudal Society. p. que contém os quatro evangelhos. após obter essa memorável vitória. ordenou que todos os cristãos fossem até ele. Porém. os judeus. Mimesis. 282. " O processo já aparecia claramente no maior de todos os livros de viagem europeus. 10 As concepções básicas a respeito de "grupos sociais" eram centrípetas e hierárquicas. e não norteadas por fronteiras e horizontais. das descobertas do mundo não-europeu. em seu esplendor. porém. estratos estratégicos em uma hierarquia cosmológica cujo ápice era divino. "Aos olhos de todos os que eram capazes de refle xão. O espantoso poder do papado. The Traveis of Marco Polo. à extensão do território e ao montante da receita.) n E na utilização inconsciente de "nosso" (que se torna "seu") e na re1J Marco Polo. por detrás da qual tinham lugar todas as coisas realmente importamas. e os idólatras. Ao invés disso. Jamais lhe ocorre. l. Esse era seu rnodo habitual de agir em cada uma das festas cristãs mais importantes. Em primeiro lugar. p. Sogomombar-kan. servia de mediador entre a terra e o céu. Após fazer com que ele fosse repetidas vezes perfumado com incenso. da qual a intelligenísia bilíngue. nos analfabetos. trazendo consigo seu Livro.) Apesar de toda a grandeza e poder das grandes comu^ nidades imaginadas religiosamente. beijou-o com devoção e determinou que o mesmo fizessem todos os seus nobres ali presentes. que. pela maneira pela qual sua majestade agia diante deles. e agia semelhantemente nas festas dos sarracenos. de maneira solene. Isso teve lugar no mês de novembro. Dentre as razões dessa decadência.24 25 vê a seguinte descrição reverente de Kublai Khan. . o Evangelho não é lido. dos judeus e dos idólatras. Observe-se que. é evidente que encarava a fé dos cristãos como a mais verdadeira e a melhor.'e!e lhes parecia também uma língua. Seria enganoso encarar aqueles como uma espécie de tecnocracia teológica. ObserMarc Bloch lembra-nos que "a maioria dos senhores e muitos grandes barões (dos tempos medievais] eram administradores incapazes de examinar pessoalmente um relatório ou uma conta". com isso.. (Sem dúvida. como a Páscoa e o Natal. p. (O aterrador da excomunhão reflete essa cosmologia. Erich Auerbach. destinada a expressar por meio de símbolos uma realidade mais profunda. As línguas que eles sustinham. nada tinham da obscuridade preparada dos jargões dos advogados ou dos economistas. em fins do século XIII:12 O grande cã. o mundo material era pouco mais do que uma espécie de máscara. Reverencio e mostro respeito a todos os quatro. 152. como a atitude e a linguagem de Marco Polo. desejo destacar apenas as duas que se relacionam diretamente com a sacralidade singular dessas comunidades.. Os cristãos encaram Jesus Cristo como sua divindade. também a concepção dos homens sobre as formas possíveis de vida humana". mediando entre a língua vulgar e o latim. o mais eminente de todos os seus ídolos. havia o efeito. os homens de letras eram iniciados.

a decadência do latim exemplifica um vasto processo em que as comunidades sagradas. a atividade editorial foi deixando de ser . em "1712' i . sua obscuridade insular do início? Enquanto isso. Pouco depois. a língua mais importante mundialmente. Que contraste revelador oferece o começo da carta escrita pelo viajante persa "Rica" a seu amigo "Ibben". et une proportion toujours plus grande de taxtes an langue nationale. Ele proclama ser o herdeiro de urn dos antigos cristãos. No século XVII. mas em velocidade não menos vertiginosa. 13 Ibid. o comércio do livro segmentou-se na Europa. l. e cada vez mais nas línguas vulgares. porém. L'Apparítiofi tíu Livre. E não falamos apenas da popularidade geral. nem mesmo como um personagem demoníaco (o pequenino Cárter dificilmente preencheria os requisitos). fosse vista'não como uma heresia. Basta que nos lembremos de sua dimensão e ritmo. p. As razões dessa mudança não devem demorar-nos aqui: a importância 14 central do capitalismo editorial (print-capitalism) será discutida mais adiante. pois seu tesouro é imenso e eie tem um grande país sob seu controle. As deliberadas e elaboradas invencionices do católico do século XVIII reproduzem o realismo ingénuo de seu predecessor do século XIII. p. que 23% já eram em línguas vulgares). competitivo). p. Febvre e Martin calculam que 77% dos livros impressos antes de 1500 ainda eram em latim (o que significa. chamado São Pedro. mantinham a maior parte de sua correspondência em latim. n Apesar de uma reaparição temporária durante a Contra-Reforma. em grande medida. em 1501. Bloch observou que "o latim não era apenas a língua em que se ministrava o ensino. ele era a única língua ensinada". p. p. 16 Bloch. 356. p. Ia commerca dia livre se morcelle en Europé". por outro lado.26 ferência à fé dos cristãos como "mais verdadeira". Lucien Febvre a Henri-Jean Martin.. The Corning of the Book. podem-se descobrir as sementes de uma tcrritorializacão das fés. 20 Ibid. compondo suas obras em língua vulgar. era virtualmente desconhecido do outro lado do Canal da Mancha.. 232-3. lô "Após 1640. gradualmente se fragmentavam. os quase contemporâneos destes homens do outro lado do Canal da Mancha. 331-32. Agora. e coro intenção política. não teria ele conservado. ele amedrontava até mesmo os príncipes. Outrora. 321. p. é um ídolo antigo. duzentos anos mais tarde. Escrevendo a respeito da Europa ocidental medieval. Descartes (1596-1650) e Pascal (1623-1662). e essa é por certo uma rica herança. 77. o latim deixou de ser a língua da alta intelligenísia pan-européia." 20 Em suma. depois de 1575 a maioria era sempre em francês. de V Paris. Não seria razoável que urna elaboração paradoxal dessa tradição. 81. l5 (Este "única" demonstra muito claramente a sacralidade do latim — nenhuma outra língua era considerada digna de ser ensinada. agora reverenciado por hábito.. no entanto. integradas pelas antigas línguas sagradas. As Lettres Persanes foram publicadas • pela primeira vez em 1721. Persian Leners. Ibid. ("Uma vez que sã publicam cada vez menos obras em latim e uma proporção sempre maior de textos em língua nacional.") 17 . 330. Grifo nosso. p. pois podia depô-los tão facilmente quanto nossos magníficos sultãos depõem os reis da Iremécia ou da Geórgia. 248-49. mas agora a "relativizacão" e a "territorializacão" são perfeitamente conscientes. Shakespeare (1564-1616). Feudal Society. apenas •oito não eram em latim. O original francês é mais modesto e historicamente exato: "landis que ]'on edite de mói n s en mgins cfouvrages en lati n. mas como uma nação! Em segundo lugar. mas virtualmente toda a de Voltaire (1694-1778) era em língua vulgar. na identificação do Grande Satã feita pelo Ayaíollah Ruhollah Khomeini. um empreendimento internacional [sic]. a hegemonia do latim tinha seu destino marcado. 14 O Papa é o chefe dos cristãos. « Ibid..) Mas no século XVI tudo isso já se estava alterando rapidamente. lfi Se das oitenta e oito edições impressas em Paris. foi uma deterioração gradual da própria língua sagrada. pluralizavam e territorializavam. ninguém mais o teme. que faz antever a linguagem de muitos nacionalistas ("nossa" nação é "a melhor" — em um campo comparativo. Hobbes (1588-1678) foi uma figura de renome continental por escrever na línguada-verdade. 16 Henti de Montesquieu. com cada vez menos livros saindo em latim. 1B E se o inglês não se tivesse tornado. em vez de "verdadeira".

poderíamos dizer. De maneira a mais notável na Ásia pre-moderna. 125). negociatas e pilhagens dos Habsburgos". Nos reinos em que a poligínia era sancionada pela religião. p.047 dos ancestrais do arquiducue prestes a ser assassinado. Duque de Triento e Brizen. Pelo princípio geral da verticalidade. p. que relacionava 2. a soberania do Estado é plena.) Ainda assim. p. 34. porém. Eslavônia. e dos presidentes pelo seu último nome (qual era o nome de batismo de Ebert?!. Nas monarquias.. e acima da Windish Mark. 20 Ingleses. 24 Oscar Jâszi. Esse "curioso documento" está citado em ibid. O mesmo principio. porém. etc. Parma. e que "nacionalidade" devemos atribuir aos Bourbons? 25 23 Observe-se 3 substituição na nomenclatura dos governantes. Conde de Hohenembs. Gõrz e Gradisca. a titulação dos últimos dinastas: 23 Imperador da Áustria. Servia. Grão-duque da Toscana e da Cracóvia. 23 Registramos aqui. um poder superior restaurou aquela ordem que eu. Como dizia o ditado. Na concepção moderna. p. Gallcia. 47 dinamarqueses. Arquiduque da Áustria [slcj. como um "arranjo entre nobres". Sonnenberg. Os escolares lembram-sa dos monarcas por seus primeiros nomes (qual era o sobrenome da Guilherme.. Não posso deixar da citar aqui a admirável reacão do Franz Joseph à noticia do assassinato da seu excêntrico herdeiro necessário: "Dessa maneira. um certo Otto Forst publicou seu Ahnentafet Seiner Kaiserlichen una KõnigKchen Hoheft dês durchlauchíígsten Herrn Erzherzogs Fram Ferdiriend. Bregenz.. porém. de Auschwitz e Sator. Feldkirch. no sentido do que os arquitetos da união (oram políticos aristocratas. a Casa dos Habs51 burgos foi paradigmática. Grande Voivoda da Voivodina. Croácia. à parte qualquer aura de divindade.. 89 espanhóis. "não sem um certo aspecto cómico. Isso. 136. Carniola e Bukovina. que Nairn certamente está certo ao descrever a Lei de 1707. Grão-duque da Transilvânia.. 21 Daí. afinal de contas. e não das populações. 136. que. de várias maneiras essenciais. onde o poder está restrito a um único sobrenome. acompanhados de números ou alcunhas. que propiciam as distinções necessárias.28 O reino dinástico Talvez seja difícil. a monarquia "autêntica" é transversal a todas as concepções modernas de vida política. Ragusa e Zara.486 alemães. Estíria. Num mundo de cidadãos. também. são súditos. 55 Gstlnar salienta o caráter tipicamente estrangeiro das dinastias. Duque de Lotaríngia. Rei de Jerusalém. etc. Sua legitimidade deriva da divindade. e as soberanias fundiam-se imperceptivelmente umas nas outras. bastante paradoxalmente. . estava Incapaz de manter" (ibid. que esses antigos Estados monárquicos expandiam-se não só por meio da guerra.. onde os Estados se definiam por centros. De fato. Conde Principesco de Habsburgo e Tirol. que alguém se coloque empaticamente dentro de um mundo em que o reino dinástico era visto pela maioria dos homens corno o único sistema "político" imaginável. No imaginar de antigamente. de Salzburgo. etc. o Conquistador?). 124 franceses. MJPois tais misturas eram símbolos de um staíus superior. Pois. Em 1910. n. da Dalmácia. de modo algo resumido. são necessariamente os nomes "ds batismo". porque ale não tomará partido em relação a suas rivalidades internas. bom como quatro outras nacionalidades. de passagem. Duque da Alta e Baixa Siiésia. de União entre a Inglaterra e a Escócia. categórica e uniformemente atuante sobre cada centímetro quadrado de um território legalmente demarcado. 1. Margrave da Alta e Baixa Lausitz e da Istria. Rei da Hungria.. 52 poloneses. de Teschen. 136 et seqs. Senhor de Trieste. Caríntia. Lodomeria e Híria. 196 italianos. de Cartaro. mas Interpreta o fenómeno de maneira muito estreita: os aristocratas locais preferem um monarca de fora. dentre os quais 1. de Kyburg. as linhagens reais muitas vezes derivavam seu prestígio.. Friaui. hoje em dia. as fronteiras eram porosas e indistintas. The Dissolution of Habsburg Monarchy. mas também por uma política sexual — de espécie muito diversa da que hoje se pratica. que corresponde a essa transformação. É típico que não tenha havido uma dinastia "inglesa" governando em Londres desde o século XI (se tanto). da Boémia. A concepção de um Reino Unido foi por certo o elemento mediador crucial que tornou poss-Vel esse entendimento. o número limitado de nomes "de batismo" torna-os inadequados como denominadores específicos.. infelizmente. Quanto a isso. e muitas vezes sequer contíguas. da miscigenação. sistemas complexos de concubinato ordenado eram essenciais para a integração do reino. p. é difícil imaginar um arranjo dessa tipo sendo realizado entre as aristocracias de duas repúblicas. Piacenza e Guastella. por longos períodos de tempo. Margrave da Morávia. os casamentos'dinásticos reuniam populações diversas sob novos dirigentes. a facilidade com que os impérios e reinos pré-modernos eram capazes de manter seu comando sobre populações enormemente heterogéneas. era. Bella gerant alH f u fel ix Áustria nube! A seguir. 22 Deve-se recordar. de Módena. observa Jászi com justeza. o registro dos inúmeros casamentos. Ttiought snd Change. não cidadãos. O governo do rei organiza tudo em torno de um centro elevado. todos eles teoricamente elegíveis para a presidência. (Ver sua lúcida exposição em The Break-up of Brítain. ara atuante na Europa crista monogamica.

Contudo. Government and Society in Siam. 1740-1786). Em muitos quadros. isso dava colorido ao dito de que a Prússia não era um pais que tinha um exército. um dos Estados mais importantes da Europa foi governado por um Protetor plebeu. Grécia. Enquanto os exércitos de Frederico. Luís XV e XVI. os Estados dinásticos constituíam a maioria dos componentes do sistema político mundial. mas um exército que tinha um pais. Mais de mi! dos sete a oito mil homens do exército prussiano. Contudo. Universidade de Londres. tais como os relevos e os vitrais das igrejas medievais. Carlos Stuart foi decapitado na primeira das revoluções do mundo moderno e. p. mais do que qualquer outra coisa. vestido como burguês ou em trajes de nobre.. 270. durante o século XVII — por razões de que não nos ocuparemos agora — a legitimidade automática da monarquia sagrada começou sua lenta decadência na Europa ocidental. 18St9phan Green. na França do Iluminismo. que. Suécia. em consequência das espetaculares reformas de Scharnhorst. o Grande (r. . os de seu sobrinhoneto Frederico Guilherme III (r. Estamos diante de um mundo em que a representação da realidade imaginada era irresistivelmente visual e auditiva. curas executadas também pelos Bourbons. 26 Depois de 1789." Em 1798. tornou possível "pensar" a nação. corno assinalaremos pormenorizadamente mais adiante. Battye. p. Gneisenau e Clausewitz. 1971. Os pastores que haviam acompanhado a estrela até a manjedoura' em que Cristo nasceu têm feições de camponeses da Borgonha. o cliente que encomendou a obra. em 1910. Lês fíois Thaumarurges. A Virgem Maria é representada como filha de um mercador toscano. com o tempo. 92. um homossexual caprichoso que certamente teria sido ignorado em outros tempos. " Noel A. Tennõ e Filho do Céu tornaram-se "Imperadores". Tese de Doutoramento IPhD). No longínquo Sião. 1974. O que hoje parece incongruente obviamente parecia inteiramente natural aos olhos dos devotos medievais. podemo-nos voltar para as representações visuais das comunidades sagradas. p. até o fim do ancien regime.. em vez de um rei. porém. desse modo "alinhando o Sião com as monarquias 'civilizadas' da Europa". à medida que o antigo princípio da Legitimidade fenecia silenciosamente."AlfredVagts.29 Concepções do tempo ' Seria uma visão acanhada./Wsroryo/M/ffíansm. 1868-1910". os reformadores prussianos exigiram "redução è metade do número de estrangeiros que ainda representavamcercade 50% dos praças. Para uma primeira impressão dessa mudança. Ana Stuart ainda estava curando os doentes pela superposição das mãos reais. eram estrangeiros. porém. eram em gran26 de parte formados por "estrangeiros". 27 O novo sistema conduziu ao trono. em 1806. 390 e 398-9. "The Militarv. exclusivamente "nacionais-prussianos". Rama V (Chulalongkorn) enviou seus filhos e sobrinhos para as cortes de São Petersburgo. o princípio da Legitimidade tinha de ser defendido em alta voz e deliberadamente e. aparece ajoelhado em adoração ao lado dos pastores. "Os prussianos de classe média aram superados pelos estrangeiros am seu próprio exército. Dinamarca — e Japão! 28 Ainda em 1914. mas. Tese de Doutoramento fPhDS. tinha lugar uma mudança fundamental nos modos de apreender o mundo. Traço característico dessas representações é algo enganosamente análogo à "aparência moderna". muitos dinastas já vinham há algum tempo adquirindo um cunho "nacional". a "monarquia" tornouse um modelo semipadronizado. Cornell. 1797-1840) já eram. Em 1887.30 31 Contudo. mesmo ao tempo de Pope e Addison. no correr da década de 1650. 64 e 85. Em 1649. tituiu o princípio indispensável da sucessão pela primogenitura legal.. A cristandade assume sua forma universal mediante uma 29 Marc Bloch. ou as pinturas dos primeiros mestres italianos e flamengos. p. Por trás da decadência das comunidades. pensar que as comunidades imaginadas das nações simplesmente tenham brotado das comunidades religiosas e dos reinos dinásticos e tomado seu lugar. línguas e linhagens sagradas. "Trai Governmsnt and Admiriistraticn in the Reign of Rama VI (1910-1925)".. Rússia. Londres e Berlim para aprenderem as complexidades do modelo universal. a aprovação intermonárquica de sua ascensão ao trono como Rama VI foi ratificada pelo comparecimento a sua coroação de príncipes vindos da Grã-Bretanha. ins-.

acharemos difícil investigar a génese obscura do nacionalismo.. 84-6. no sentido de que a segunda vinda de Cristo poderia ocorrer a qualquer momento: São Paulo dissera que "o dia do Senhor chega como um ladrão no meio da noite". e estritamente. suábias ou andaluzas. p. l. 34 33 34 WaltBr Banjarnin. Bloch conclui.. se referisse seguidamente a "nós. estabelecese então uma conexão entre dois eventos que não se vinculam temporalmente. Essa nova ideia está tão arraigada que se poderia e f Irma r que todo conceito fundamental moderno baseia-se num conceito de "enquanto isso". algo onítemporal. e sabia-se que era. aquela fábula. modalado da trás para díanle pelo] futuro". o aqui e agora não é mais um simples vinculo em uma corrente terrena de eventos. Mas é uma concepção de importância tão fundamental que. uma ideia de "tempo homogéneo e vazio". no primeiro.. a ideia de "trajes modernos". 32 Auerbach. Grifo nosso. aquela peça moral. 3I Auerbach oferece-nos um inesquecível esboço dessa forma de consciência: 32 30 31 Se um evento como o sacrifício de Isaac é interpretado como a prefiguração do sacrifício de Cristo. algo já consumado na esfera do evento terreno fragmentário. Para nos. Mimeste. por meio de criações vi^ suais e auditivas. p. l. ela se manifestava de maneira diversa a comunidades particulares. 263. p. encontra-se o último como foi anunciado e prometido. se não a levarmos plenamente em conta. e o último "cumpre". a única capaz de traçar um plano de história como esse e fornecer a chave para sua compreensão. sempre pessoais e particulares. bispo Oito de Freising. p. Bloah. é algo eterno. Feudal Society. p. por Santo Agostinho. Embora a classe letrada transeuropéia que lia era latim fosse um elemento essencial na estruturação da imaginação cristã. e medida pelo relógio e pelo calendário. é um reconhecimento iridireto de sua irrevogável distinção. Era pois natural que o grande cronista do século XII. Confronte a descrição do Velho Testamento. Nossa própria concepção de simultaneidade tem estado em elaboração por muito tempo e sua emergência ligase certamente. Ele está certo em acentuar que tal ideia de simultaneidade é inteiramente estranha a nós mesmos. O que veio tomar o lugar da concepção medieval de simultaneidade longitudinal ao tempo é. como "a sombra do [isto é. 64. mas por coincidência temporal. " Dentro desse modo de ver as coisas. O humilde pároco cujos antepassados e cujas fraquezas eram conhecidos por todos os que assistiam a suas celebrações ainda assim era o intermediário direío entre seus paroquianos e o divino. dentro do espírito de restauração do museu moderno. valendo-nos novamente de Benjamin. Ela só pode ser estabelecida se ambas as ocorrências estiverem verticalmente vinculadas à Divina Providência. como réplicas delas mesmas. marcada não pela prefiguração e cumprimento. aquela relíquia. nada estava mais distante de seus pensamentos do que a perspectiva de um longo futuro para uma raça humana jovem e vigorosa". não era menos essencial. aquele vitral.que tão logo os homens medievais "entregavam-se à meditação. 265. 90. de modos que precisam ainda ser bem estudados. maneira metafórica de fazer equivaler passado e presente. uma simultaneidade de passado e futuro em um presente momentâneo. de modo que. Representar a Virgem Maria com traços "semitas" ou vestimentas do "primeiro século". Essa justaposição do universal-cósmico e do particular-mundano significa que por maior que pudesse ser a cristandade. .. Feudal Society. nem oausalmente — conexão impossível de ser estabelecida pela razão na. ele é simultaneamente algo que sempre existiu.32 infinidade de especifi cidades e de particularidades: este relevo. aos olhos de Deus.. era algo inimaginável. 30 Bloch observa que o povo pensava que devia estar próximo o final dos tempos. a mediação de suas concepções para as massas iletradas.. este sermão. e que será cumprido no futuro. que fomos colocados no final dos tempos". porque o pensamento cristão medieval não possuía uma concepção de história como infindável corrente de causa e efeito ou de separação radical entre passado e presente. llíaminsíions.. ao desenvolvimento das ciências seculares. Ela encara o tempo como algo próximo do que Benjamin chama de tempo messiânico. dimensão horizontal. Citado em Bloch. no qual a simultaneidade é como se fosse transversal ao tempo. Ibid. o primeiro. a expressão "enquanto isso" não pode ter significação real.

Enquanto Encolpius lamenta a infidelidade de seu jovem amante. O fato de que todos esses atos são desempenhados no mesmo tempo. B. tudo ao mesmo tempo. pela primeira vez. Podemos imaginar uma espécie de esquema temporal para esse segmento. a época ds Richardson. para fins de ilustração. 38 A ideia de um organismo sociológico que se move pelo calendário através do tempo homogéneo e vazio apresenta uma analogia precisa corn a ideia de nação. que seus membros (A e D) podem até mesmo ser descritos como passando um pelo outro na rua sem jamais se relacionarem e. p. e da elite nativa. traço tão carsctarístieodas antigas crónicas. da seguinte maneira: Tempo: Eventos. anónima e simultânea. 40 ftizel escreveu esse romance na língua colonial (o espanhol). não apenas em espanhol. Littératures contemporaines de l'Asíe du Sud-Est. "The Modern literature of the Philippinss". medido pelo relógio e pelo calendário. indissoluvelmente ligadas a movimentos nacionalistas. emlcamonte diversificadas. observam A telefonando a C. 38 Nesse contexto. no entanto. se C tiver agido inteligentemente. Febvre e Martin. II e llt. Essas sociedades são entidades sociológicas de uma realidade tão firme e estável. todas menos uma. Considere-se primeiro a estrutura do romance à moda antiga. tem um namorado (D). Ela é evidentemente um instrumento para a apresentação da simultaneidade em um "tempo homogéneo e vazio". nem mesmo saberá como se chama. 41 José Hizal. 39 Um norte-ámericano jamais encontrará. M De fato. Apenas'eíes. estrutura típica não só das obras-primas de Balzac. no século XVIII: o romance e o jornal. mais do que um pequeno número de seus 240. lendas e livros sagrados. Não tem ideia alguma sobre o que estão fazendo em qualquer tempo. mas por atores que podem estar em grande medida despercebidos uns em relação aos outros. que A e D estão encravados nas mentes dos leitores oniscientes. Ao mesmo tempo que o romance. é recompensadora a comparação. de qualquer romance histórico. C e O não saibam o que se passa com os outras. . in Pierre-Bernard Lafcnt e Denys tombará (orgs. p. por sua vez. e podem na verdade não ter sequer conhecimento da existência um do outro. Tomemos. que eles estão encravados em "sociedades" (Wessex. mas também de qualquer romanceco contemporâneo.000 de compatriotas. Yabes. urh enredo simples de romance. o que é que realmente liga A a D? Duas concepções complementares: primeiro. com documentos ou relatos da época transformada em ficção. no qual um homem (A) possui uma esposa (B) e uma amante (C) que. The Lost Éden. que também é concebida como uma comunidade compacta que s'e move firmemente através da história. Mas está absolutamente seguro de sua atividade constante. Var Leopoldo Y. Noli Ma Tengere. 37 Segundo. o jornal só se torna uma categoria geral de material impresso após 1700. quase o primeiro romance escrito por um "índio". a compreensão do enredo pode depender. * Eis a maneira admirável como começa:4l Essa potifona distingue decisivamente o romance moderno até mesmo de um precursor tSo brilhante quanto o Satyrícon. Apenas eles percebem os vínculos. de Petrônio. mas em línguas "aborígenes". ainda assim. 287-302. 35 Pois essas formas ofereceram os recursos técnicos para "re-[a}presentar" a espécie de comunidade imaginada que é a nação. 1. escreveu ò romance NoliMe Tangeré. ou um comentário complexo sobre a expressão "enquanto isso". que era. nos Tampos l. The Corning ofthe Book. como o tagato a o ilocano. um segmento de. 39 Nada demonstra melhor a Imersão do romance em um tempo homogéneo e vazio do que a ausSnela daquelas genealogias preliminares. demonstra a novidade desse mundo imaginado evocado pelo autor nas mentes de seus leitores. 1 II NI D beba em urn bar A janta em casa com S C tem um sonho sinistro A discute com B C a D fazem amor A lelsfona a C ã vai és compras D joga sinuca Observe-se que. uma imprensa "nacionalista". porém. Em 1887. no correr dessa sequência. 197. Detoe e Fielding é o inicio do século XVIII. 3S Então. também. como Deus. Los Angeles). o "Pai do Nacionalismo Filipino". no época. hoje considerado o melhor produto da literatura filipina moderna. As origens do jornal moderno encon* tram-sa nas gazetas do final do século XVII. A e D jamais se encontram. 37 Embora a Príncesse tíe CIÊves já tivesse sido publicada sm 1678. estarem li15 gados. B fazendo compras e D jogando sinuca. Talvez a perspectiva que estou sugerindo pareça menosabstrata se nos dedicarmos a examinar rapidamente quatro obras de ficção de diferentes culturas. da que A.).000. Foi. Líibeck. chegando multas veres até à origem do homem. José Rizal. p. surgia também. e de diferentes épocas. a língua franca das elites euraslanas. A narrativa deste dessnróla-se linearmente.35 Pode-se perceber bem melhor por que essa transformação seria tão importante para o nascimento da comunidade imaginada da nação se considerarmos a estrutura básica de duas formas de imaginar que pela primeira vez floresceram na Europa. não ternos conhecimento simultaneamente de Gito na cama corn Ascyltus.

a imprensa foi mantida sob estrito controla eclesiástico. 205-6. satíricos ou nacionalistas.. p. "o desenrolar do enredo não segue uma ordem cronológica. em outros distritos de Manila. p. porém. enquanto Florante at Laura. isso se deixa em geral para Deus e a Natureza. os quais Deus. "Tradition and Influer. como seu país. que se movem para diante pelo tempo do calendário. A história começa In medias rés. Lumbera. parasitas e penetras. não intencionalmente.. é claro. apenas para aumentar a grandiosidade e a sonoridade de sua linguagem poética. contrariando seu costume.42 Não há o que ofereça maior sentimento foucaultiano das abruptas descontinuidades da consciência do que comparar Noli com a mais célebre obra literária anterior de um "índio". onde ele morava.. esse obscuridade/celebridade tem tudo a ver com B disseminação do capitalismo editorial. ** Quase metade dos 399 quartetos são relatos da infância de Fiorante. *Mbid. 1570 a 1898". ou. de botões de colarinho e gravatas. O jantar foi oferecido em uma casa na Rua Anloague.. quem reconhece somos nós-os-leitores-fílipinos. B por séculos. Alguns deles puseram-se em busca de polimento para suas botas. Certamente não terá sido demolida por seu proprietário. 143 e 235. de seus anos de estudo em Atenas e de 4Í O reverso da obscuridade anónima dos leitores foi/é B celebridade Imediata do autor. a menos que tenha vindo abaixo com algum terremoto. Como observa Lumbera. só cr tenha anunciado na tarde do mesmo dia. autor e leitores. Como varemos. Embora.. de tal modo que a história completa só nos chega mediante uma série de falas que servem como/fos/ibacks". e até mesmo na cidadela espanhola de Intramuros. p. logo se tornou o tema das conversas em Bínondo. para o tempo "exterior" da vida quotidiana do leitor de Manila oferece uma confirmação hipnótica da solidez de uma comunidade singular. Naquele tempo. metseqs. ao comércio e a qualquer ideia que fosse nova ou ousada. E na frase "uma casa na Rua Anloague. Enquanto Rizal salpica deliberadamente sua prosa espanhola com palavras de tagalo para obter efeitos "realistas". a imagem (inteiramente nova na literatura filipina) de um jantar que é discutido por centenas de pessoas anónimas. dominicanos ativos haviam publicado em Manila a Doctrina CMstiana. Baltazar. Embora Rizal não tenha a menor ideia da identidade de cada um de seus leitores. estranho ao de Noli. outros. a Pmagdaanang Buhay nl Florante at w Loura sã Cahariang Albânia [A história de Florante e Laura no Reino da Albânia]. A passagem natural dessa casa. que não se conhecem entre si. 43 Pois embora Baltazar ainda fosse vivo quando nasceu Rizal. como se seu relacionamento com eles não fosse nem um pouco problemático. havia criado e generosamente multiplicado em Manila.ces in tha Development of Tagatog Postry. Todos sabiam que sua casa. aristocrata persa muçulmano ("mouro") — só nos lembram as Filipinas pela ligação cristão-mouro. ele tinha reputação de pródigo. Noli foi feito para ser lido. Na verdade. A partir de então. . Basta que se observe que. do tempo "interior" do romance. embora talvez já tivesse sido escrita em 1838. num determinado mês de uma determinada década. se houvesse ocasião. abran- gendo personagens. De modo que a notícia de seu jantar correu como um choque elétrico por toda a comunidade de filantes. Já em 1593. e seu amigo íntimo Aladin. cuja primeira edição impressa data de 1861. que ainda pode ser reconhecida. jamais fechava suas portas — exceto. 44 Ibid. O mais chocante é o manuseio do tempo por Baltazar. desculpar-se polidamente por não haver chegado mais cedo onde presumivelmente sua presença era tão ansiosamente esperada. logo de início.37 Don Santiago de los Santos oferecia um jantar festivo numa noite de fins de outubro da década de 1880. evoca imediatamente a comunidade imaginada. Ver Blenvenido L. às vezes se considera que eles estão contratados pelo governo exatamente para esse fim. 35. quanto a tudo o que tem de básico. Certamente não é necessário um longo comentário. o mundo de sua obra-prima é. mas cada um deles dedicou o melhor de seu pensamento à maneira como poderiam saudar seu anfitrião com a fingida intimidade de. nas Filipinas. Seu cenário — uma Albânia medieval fictícia — é completamente distante no tempo e no espaço da Binondo da década de 1880. em Sua infinita sabedoria. em diferentes bairros de Manila. A liberalização só teve Inicio na década de 1860. um nobre albanês cristão. Don Santiago era mais conhecido como Capitão Tiago — a patente não era militar mas política.velha amizade. escreve para eles com uma intimidade irónica. que ainda pode ser reconhecida..". e indicava que ele havia sido outrora o prefeito nativo de uma pequena cidade. para ser declamado em voz alta. Seus heróis — Florante. mistura expressões espanholas em seus quartetos em tagalo. Observe-se também o tom.

Elas não são nunca imaginadas como típicas desta ou daquela sociedade. . nenhuma deJas por si só de qualquer importância singular. p. meteórica. O horizonte é claramente delimitado: é o do México colonial. nem para levar nada a sério. baseada na impressão de 1861. e'sse texto é "uma feroz acusação à administração espanhola no México: ignorância.suas subsequentes proezas militares. que tal interpretação ô anacrónica. como jornalista radical. é a supermãe de Periquillo que ganha a parada. martela num ponto importante — que o governo espanhol e o sistema de educação estimula m o parasitismo e a preguiça. agora reino/ do mal. Pois eles evocam um espaço social cheio de prisões comparáveis. eis aqui o início de Semarang Hitaw [O Semarang negro]. %. linear. enquanto Florante ainda estudava em Atenas. cusa mang pinatay/ sã iyo. 50 Essa deslocamento de um herói solitário por uma paisagem social adamantina é típico de muitos dos antigos romances (antí)coloniais. o papagaio sarnemo) é exposto a • más influências — criadas ignorantes incutem superstições.. está magicamente solitária. para Baltazar. 35-6'.) Finalmente. e se torna. A forma essencial desse romance "nacionalista" está na seguinte descrição de seu conteúdo: 4S Desde o inicio. Albânia. 203. Esse tour d'horison picaresco — hospitais. Grifos nossos. Al! morreu em 1932. ÍB Ibid. da crueldade. 51 Segundo tradução de Paul Tickell em seu Three Early Indonesian Short Stories t>y Mas Marco Kartodikromo (s. enquanto. 1890-1932) ou L'&Jucation Politique". nunca ocorre a Baltazar "situar" seus protagonistas na "sociedade". Henrl Chambert-Loir. An tntroifuction to Spsnish-Arnerícsn Literature. superstição e corrupção são vistas como suas mais notáveis características". Vemos aqui novamente a "imaginação nacional" funcionando nas andanças de um herói solitário por uma paisagem sociológica de uma . in Littératures contemporaines de l'A$ia du Sud-£st. Não tem disposição para trabalhar. por terem Rizal e Lizardi escrito ambos em espanhol."/ "Adeus. manda o filho para a universidade e assegura assim que ele irá aprender apenas disparates supersticiosos. Após uma carreira curta.". 214-15. ou não tinham capacidade para disciplinálo. 46 "Paalam Albaniang pinamamayanam/ ng casama. i. {890-1932Í. p. Nada nos assegura mais dessa solidez sociológica do que a sucessão de plurais... funcionário numa cidade do interior. após seis anos de confinamento.. padre. i. [o herói. José Joaquín Fernandez de Lizardi escreveu um romance chamado El periquillo sarmento [O papagaio sarnentoj. aldeias longínquas. malaquf ang panghihinavang. p.. Periquillo continua incorrigivelmente ignorante.. índios./ acong tangulan mo. brutalidade e decepção!/ Eu. ^ Em 1816.lupit." Essa famosa estrofe tem sido às vezes interpretada corno uma vetada afirmação de patriotismo filipino. seus professores ou não tinham vocação.. Como também não há muito de "filipino" nesse texto. ou discuti-los com seu público. Mas Marco Kartodikromo.. em 1924:31 49 45 A técnica é semelhante à da Homaro. 47 Jean Franco.. 34. Esses episódios permitem que o autor descreva hospitais. a não ser pelo fluxo melífluo dos polissílabos em tagalo. negros — não é porém um tour du monde. como aquela em que Salomé seduziu-se por João Batista. muito embora depare com muita gente boa e sábia. sua ligação apenas se dá pelas vozes em conversa. para ajustá-lo a uma edição da 1973 do poema. Quão distante está essa técnica da do romance: "Naquela mesma primavera. o destino que te coube. De fato. de maneira convincente. ladrão. Grifos nossos. 4S O "flashback falado" foi. e não pela estrutura do poema. Nas palavras de um crítico. a única alternativa de uma narrativa direta. As aventuras de Periquillo levam-no diversas vezes a estar entre índios e negros. tão competentemente exposta por Auerbach.. médico. "Mas Marco Kartodikromo (c.estabilidade que funde o mundo de dentro do romance com o mundo de fora. fornecidos pelo herói em conversa com Aladin. prisões. Marco foi internado pelas autoridades coloniais holandesas em Boven Digul. ao invés de ir engrossar as fileiras dos advogados e parasitas. A tradução para o inglês é da Lumbera. Se ficamos sabendo dos passados "simultâneos" de Florante e Aladin. uma história escrita pelo malfadado jovem indonésio nacionalista-comunista. Cada uma delas. sua mãe satisfaz seus caprichos. 1 ("Odysseus1 Scar"). Alterei ligeiramente o texto em tagalo apresentada por ele. jogador. que agora tu assassinas/ lamento. nos longínquos pântanos interiores do oeste da Nova Guiné. mas todas representativas (em sua existência simultânea e distinta) da tirania desta colónia. p. sucessivamente. prisões. monastérios. ao mesmo tempo. para afastar a possibilidade de que. Mimesis. Aladin era expulso da corte de seu soberano. porém. p.. seu defensor. E embora seu pai seja um homem inteligente que quer que o filho se dedique a uma profissão útil. aldeias longínquas. "Tradition and Influenoes". bangis caliluhan. evidentemente a primeira obra latino-americana desse género. cap. setenta anos antes de Noli ser escrito. as estruturas que temos estudado sejam algo "europeias".. mas Lumbera demonstra. 7. 50 publicada em folhetim.45 (Contraponham-se as prisões da Bíblia. um dos mais antigos campos de concentração do mundo. aprendiz de farmácia. monastérios.

a luz clara das lâmpadas de gás se obscurecia. deu com uma notícia intitulada: PROSPERIDADE Um miserável vagabundo f içara doente e morrera ao abandono à beira da estrada. pois. não havia ninguém se mexendo. Exatamente o caráter canhestro e a ingenuidade literária do texto confirmam a "sinceridade" não deliberada desse adjetivo pronominal. vamos ficar chocados por seu profundo caráter ficcional. a comunidade imaginada confirma-se pela réplica de nossa leitura a respeito da leitura de nosso jovem. sistema social.. 208. não na vida pessoal. Virava as páginas do jornal. tudo estava deserto. implicitamente. As estradas principais habitualmente abarrotadas de toda sorte de tráfico. sente um profundo mal-estar diarvte da organização social que o rodeia e sente necessidade de ampliar seus horizontes por dois métodos: viagem e leitura". Mas há também algo de novo: um herói que nunca é chamado pelo nome. Qual a convenção literária fundamental do jornal? Se olharmos uma primeira página típica de. Nem Marco. como em El periquillo sarmento. . um amigo Intimo e aliada político de Marco publicou um romanos intitulado Rasa Manlika [Samido llvro/O sentimento da libertada]. têm qualquer. Um jovem estava sentado num longo sofá de vime. Imaginava perfeitamente o sofrimento daquela pobre alma quando jazia moribunda à beira da estrada. carruagens. ("Mas Marco". seu ódio dirigiu-se ao sistema social que dava origem a tanta pobreza. o tropo "nosso herói" simplesmente ressalta um jogo do autor com ura leitor (qualquer). kampongs e lâmpadas de gás. Uma vez mais. sábado à. Observe-se que Marco não sente necessidade de especificar essa comunidade pelo nome: ele já está ali. um herói solitário é sobreposto a uma paisagem social descrita em detalhes cuidadosos e gerais. alguns de nós pode- Em 1924. todos haviam ficado em casa. incitando o cavalo a tocar em frente — ou o clip-clop dos cascos dos cavalos puxando as carruagens.. mós bem ter caminhado por aquelas "peguentas" estradas de Semarang. pertence ao corpo coletivo dos leitores do Indonésio. os Jovens de Semarang jamais ficavam em casa aos sábados à noite. Chambert-Loir escreva que "não t a m ideia nenhuma tio sentido da palavra 'socialismo': não obstante. Ele não encontra o cadáver do miserável vagabundo à beira de uma estrada peguenta de Semarang.. mas dessa vez iriam se decepcionar — devido à letargia causada pelo mautempaeàsestradaspeguentas noskampongs. apareça um jornal encravado na ficção. não menos pela inovação.. lendo um jornal. e não "a nosso". p. Grilo nosso. Nessa noite. como se pode ver pelo fato de que o ódio do jovem dirige-se "ao".noite. significa um jovem que. Sobre-o herói desse romance (que ele atribui erradamente a Marco]. Se na ficção jocosa e elaborada da Europa dos séculos XVIII e XIX. escritórios. mas imagina-o a partir do que está impresso num jornal. uma embrionária "comunidade imaginada" indonésia. o estalo de um chicote duma charrete. quando o vento soprava do leste. nós-os-Ieitores-indonésios mergulhamos imediatamente num tempo de calendário e numa paisagem familiar. Semarang estava deserta. Por um momento sentiu um ódio explosivo bem dentro de si.dúvida quanto à referenda. mas coerentemente mencionado como "nosso jovem". The New York Times. e assim. eles estão excluídos de participar desse "nosso". às vezes seu sorriso eram sinal certo de que estava profundamente interessado no que lia. ali encontrare62 Aqui. as calçadas habitualmente apinhadas de gente. o morto: ele pensa no corpo representativo.40 41 Eram sete horas. 52 Ele também não se importa o mínimo com quem seja. Vez por outra. o "nosso jovem" de Marco. digamos. Em outro momento ainda. Às vezes sua irritação. É apropriado que. esperando talvez encontrar algo que o fizesse parar de se sentir tão miserável. De vez em quando. Estava totalmente absorvido. O jovem comoveu-se com esse breve relato. Repentinamente. individualmente. A seguir sentiu piedade.) Finalmente. enquanto tornava rico um pequeno grupo de pessoas. (Mesmo que os censores coloniais holandeses poliglotas se juntem a seus leitores. A luz das fileiras de lâmpadas de gás iluminava diretamente a estrada de asfalto brilhante. Como no caso de Noli. estamos num mundo de plurais: oficinas. Pelo fato de que a pesada chuva durante o dia todo deixara as estradas encharcadas e muito escorregadias. a manha de sábado era um momento de expectativa — expectativa do lazer e da alegria de circular pela cidade à noite.) O papagaio sarnento mudou-se para Java e para o século XX. porém. Para os trabalhadores de oficinas e escritórios.' nem seus leitores. se nos voltarmos agora para o jornal como produto cultural. em Semarang Hiíam.

50 das quais na hoje Itália. o "personagem" Mali se movimenta silenciosamente. p. ou do que os outros estavam fazehdo. o livro Impresso foi de uso universal.182l 86 Ibid. e o mercado.ele antecipa os produtos duráveis de nossa época — é um objeto bem definido. o livro sempre se distinguiu dos demais bens duráveis por seu mercado intrinsecamente limitado. 30 na Alemanha. Essa vinculação imaginada provém de duas fontes indiretamente relacionadas. se o mercado do livro tornouse pequeno diante dcs marcados de outras mercadorias. A primeira é simplesmente coincidência no calendário. 125.53 Dentro daquele tempo. no século XVI. 125). 'Poderia dizer-se que são best-sellers por um só dia. 8 em cada uma. nisso. a descoberta de um fóssil raro no Zhnbábue.42 43 mós reportagens sobre dissidentes soviéticos. já em fins do século XV. A data no alto do jornal. no século XVI. Mais adiante. sem que seus atores tivessem consciência uns dos outros. Quem quer que tenha dinheiro poda comprar carros checos. Até mesmo a Bíblia de L'jtoro. Ao mesmo tempo. iremos examinar a importância ctsssa distinção. da Antuérpia.260 exemplares. volumes ou unidades). Febvre e Martin. Isso montava a não menos de 35. ou açúcar. um volume conveniente» não um objeto em si mesmo. Comentam os autores que.. esse número atingira entre 150 e 200 milhões. 24 gráficas com mais de cem operários em cada uma delas. 4 na Inglaterra. no correr dos quarenta anos entre a publicação da Bíblia de Gutenberg e o final do século XV. depois de dois dias de reportagens sobre a fome. Pois estas mercadorias são medidas em quantidades matemáticas (libras. coleções pessoais de mercadorias produzidas em série. apenas quem lá checo comprará livros em checo. 2 na Boémia e 1 na Polónia. Por que se justapõem tais eventos? O que os liga uns aos outros? Não é mero capricho. havia gráficas em mais de 110 cidades. na Holanda e na Espanha. The Corning of lhe Book. Já em 1480. em toda [sic] a Europa. A primeira edição excepcionalmente grande da Encyc/opédie de Dlderot n5o foi além da 4.000 edições produzidas em nada menos que 236 cidades. de Marshall McLuhan (p. p. fome em Mali. 262.. 218-20. as oficinas gráficas mais se assemelhavam a modernas oficinas de trabalho do que 53 a salas de trabalho monásticas da Idade Média. um horrível assassinato. como uma forma de'livro. í7 O sentido que tenho em mente se revela.)59 Desta perspectiva. A grande editora Plant n. extraordinário best-seUet. Ibíd. 69 Além disso.." (p. na Europa. "A partir daquela data. o livro foi a primeira mercadoria industrial produzida em série no estilo moderno. A segunda fonte de vinculação imaginada encontra-se na relação entre o jornal. 9 na França. Em 1455." 56 Em sentido muito especial. porém — e. já no século XVI. o jornal não passa de uma "forma extrema" do livro. golpe no Iraque. Uma libra de açúcar^ é simplesmente uma quantidade. um livro vendido em escala imensa. .. porém de popularidade efémera. 5B Uma libra de açúcar confunderse com a seguinte. (Não «admira que bibliotecas.54 Entre 1500 e 1600. auto-suficiente. 5 em cada. Calcula-se que. tijolos. Ata o século XIX. Pode-se acrescentar que. A tiragem média no século XIX era inferior a 2. 57 Esse é um ponto bom estabelecido no meio das fantasias de Gutenberg Galaxy. na Bélgica e na Suíça. pode-$a dizer qua. 56 Quanto a isto. se compararmos o livro com outros primeiros produtos industriais. Dickens também publicava como folhetim em jamais populares seus romances populares. ou que a fome exterminou todos os seus cidadãos. já fossem um espetáculo comum. equipado para a produção padronizada e. as Bicões oram ainda relativamente pequenas. 54 Febvre e Martin. da importância fundamental para o desenvolvimento da Europa moderna.000 exemplares. The Coming of lhe Book.000 de volumes impressos. p. vinte anos depois. nem por um momento os leitores imaginarão que Mali desapareceu. 60 Como demonstra o caso do Semanng W/tam. fornece a conexão essencial — a marcação regular da passagem do tempo homo* gêneo e vazio.' O formato de romance que tem o jornal lhes assegura que. em algum lugar fora dali. é óbvio que a maioria deles aconteceu independentemente.000. o principio é mais importante do que a escala de grandeza. os livros estavam prontamente à disposição de qualquer um que soubesse ler. aguardando sua reaparição seguinte no enredo. O sinal disso: se Mali desaparecer das páginas do The New York Times por meses a fio. Contudo. p. "o mundo" caminha decididamente para a frente. Fust e Schoeffer já geriam um negócio. produziram-se ria Europa mais de 20. os dois tipos de bast-sellers costumavam ser méis estreitamente ligados do que hoje. controlava. O livro. contudo. 186.5Í "Desde então. cada livro possui uma auto-suficiência erèmítica própria. reproduzido com exatidão em grande escala.. grandes empresas gráficas funcionavam por toda parte. teve uma primeira edíçflo de apenas 4. como tecidos. o editor venaziano Aldus havia sido pioneiro no lançamento da uma "edição de bolso" portátil. A arbitrariedade de sua inclusão e justaposição (uma edição posterior substituirá Mitterand pelo resulta1do de uni jogo de beisebol) demonstra que a vinculação entre eles é imaginada. a marca peculiar mais importante que ele apresenta. e um discurso de Mitterand. em centros urbanos como Paris. sau papal estratégico na disseminação da ideias tornou-o.000 exemplares. 60 A obsolescência do jornal no dia seguinte ao de sua impressão — é curioso que uma das ss Lar um jornal é como ler um romance cujo autor tivesse deixado de lado qualquer ideia de um enredo coerente.

deixaram de ter domínio axiomático sobre o pensamento dos homens. ele pode ficar ruim. penso eu. de maneira profundamente renovada. exatamente simultâneo do jornal-comoficção. The Break-up of Brítain. conferindo determinado sentido às fatalidades diárias da existência (sobretudo à morte. e não em outro. Ajiecadência lenta e irregular dessas certezas encadeadas. essa cerimónia é interminavelmente repetida a intervalos de um dia. e do desenvolvimento cada vez mais rápido das comunicações. enraizavam firmemente as vidas humanas na própria natureza das coisas. ou de meio dia. associadas. Sabemos que determinadas edições matinais e vespertinas serão esmagadoramente consumidas entre tal e tal hora. o leitor de jornal. cujo uso se processa num fluxo contínuo. nem a tornasse mais frutífera. Mas o mecanismo representativo (eleições?) á uma festa rara e móvel. por milhares (ou milhões) de outros. . p. sente-se permanentemente tranquilo a respeito de que o mundo imaginado está visivelmente enraizado na vida quotidiana. bem no fundo da cabeça. Não é pois surpresa que a busca se processasse. mas não fica atrasado. Ela se desenrola em silenciosa intimidade. das "descobertas" (sociais e científicas). Afirmei. depois. Sem dúvida. do que o capitalismo editorial. A geração da vontade impessoal. não cronometrado. sob o impacto da mudança económica. poder e tempo de uma maneira significativa. de cuja existência está seguro. Eisenstein. como a escrita sagrada. primeiro na Europa ocidental e.) A significação dessa cerimónia de massa — Hegel observava que os jornais são. 42. os egoísmos individuais em vontade coletiva impessoal. a concepção de temporalidade. para o homem moderno. Como se poderia representar ilustração mais vívida para a comunidade imaginada historicamente cronometrada? 62 Ao mesmo tempo. vendo réplicas exatas de seu jornal sendo consumidas por seus vizinhos do metro. é a marca de garantia das nações modernas. antes só encontra nas regularídadss diárias ds vida da imaginação. um substituto das preces matinais — é paradoxal." Elizabeth L. p. será conveniente recapitular as principais proposições apresentadas até aqui. porque o governante. ao correr do calendário. sendo essencialmente idênticas as origens do mundo e dos homens. do isiamismo e as demais. à privação e à escravidão) e propiciando vários modos de libertar-se delas. Como em Noli Me Tangere. criando aquela notável segurança de comunidade anónima que. embora sobre cuja identidade não possua a menor ideia. pensarem sobre si mesmas. Mais ainda. por toda parte. Ao escrever sobre a relação entre a anarquia material da sociedade de classe média e uma ordem estatal política abstraia. observa Nairn que "o mecanismo representativo converteu a desigualdade ds ciasse real no igualitartsmo abstraio de cidadãos. cravou uma firme cunha entre a cosmologia e a história. fundamentalmente. no entanto. no sentido de um novo modo de tornar a vincular fraternidade. 61 s3 "Material impresso estimulava a adesão silenciosa a causas cujos defensores não podiam ser localizados em nenhuma localidade 9 que se dirigiam de longe a um público invisível. Foi essa ideia que permitiu que surgissem as grandes congregações transcontinentais da cristandade. "Some Conjectures about trie Impact of Prirjting on Western Society and Thought". exatamente por essa razão. precisamente por ser parcela inseparável daquela verdade. apenas neste dia. em que a cosmologia e a história não se distinguiam. (Contraponha-se isso ao açúcar. da barbearia ou de sua casa.44 45 mais antigas mercadorias produzidas em série fizesse antever assim a obsolescência implícita dos modernos produtos duráveis — cria. O segundo era a crença de que a sociedade era organizada de maneira natural em torno de e sob centros elevados — monarcas que eram pessoas distintas dos outros seres humanos e que governavam por alguma forma de disposição cosmoiógica (divina). Essas ideias. esta extraordinária cerimónia de massa: o consumo ("o imaginar") quase que. e onde. 40: 1 (março de 1968). por assim dizer. £4. o que de outro modo seria o caos dentro de urna nova legitimidade do Estado". a um número cada vez maior de pessoas. três conceitos culturais básicos. a ficção desliza silenciosa e continuamente para dentro da realidade. Em terceiro lugar. todos extremamente antigos. Jautri»! of Modern Hlstary. Antes de iniciar uma discussão das origens específicas do nacionalismo. 61 Contudo. e se relacionarem com outras. que a possibilidade mesma de se imaginar a nação só surgiu historicamente quando. As lealdades humanas eram necessariamente hierárquicas e centrípetas. O primeiro deles era a ideia de que uma determinada língua escrita oferecia acesso privilegiado à verdade ontológica. era um ponto central de acesso à existência e a ela inerente. que tornou possível. Talvez nada acelerasse mais essa busca. simultaneamente. cada um dos comungantes está bem cônscio de que a cerimónia que executa está sendo replicada.

p. a edição de livros era afetada por toda a busca incessante de mercados do capitalismo. transversal ao tempo". em meados do século XVII. a nação se tornou tão popular? Os fatores envolvidos são obviamente complexos e variados. potencialmente enormes. p. The Corning of the Book. não é de admirar que Francis Bacon julgasse que a imprensa havia alterado "a aparência e o estado do mundo". 259-60.. o movimento esta4 Febvre o Martin. ampla mas ténue camada de leitores do latim. 281. Relativamente poucos haviam nascido para falar em latim e menor número ainda. A saturação desse mercado levou cerca de 150 anos. Travsls.que a proporção na população mundial de hoje e — não obstante o internacionalismo proletário — dos próximos séculos.. conseqúentemente. p.000. 122. como hoje. (O texto original. 1 Sendo uma das mais antigas formas de empresa capitalista. seriam o atrativo. p. 3 Citado em Eisansteín. 56. pue melhor se traduziria por "civilização padronizada. 187. Febvre e Martin. 394. imagina-se.) 6 Ibid. "Some Conjectures". que ignorava fronteiras nacionais [sic]". 6 "Daf ter sido a introdução da imprensa. Pode-se. Se o conhecimento manuscrito era um saber escasso e misterioso.5 . Assim sendo. 5 Naturalmente. p. 6 O mercado inicial foi a Europa letrada. 248-9. O fato decisivo quanto ao latim — fora sua sacralídade — é que ele era uma língua de biííngúes. L'Apparitiorr. "Mais do que em qualquer outro tempo" ela foi "uma grande indústria sob o controle de abastados capitalistas". sonhava em latim. p. (O textc original diz "une civilisation da masse et de standardisation". a proporção de bilíngues na população total da Europa era muito pequena. p. dentro desse tipo. Como já foi assinalado. p. 3 A população da Europa em QU9 a imprensa era então conhecida era du cerca de 100. buscavam primeiramente aquelas obras que fossem de interesse para o maior número possível de seus contemporâneos". 2 Característico disso é o livro das viagens de Marco Polo. porém. a atividade editorial participou da expansão geral. As primeiras gráficas instalaram filiais por toda a Europa: "desse modo. uma atapa no caminho para nassa atuo soc-iedsde de consuma da massa e de padronização. Naquela época. 2 Se. o conhecimento impresso vivia da reprodutibilidade e da disseminação. uma vez que o mercado latino de elite estava saturado. muito provavelmente não maior do . ' indicando o surgimento da "era da reprodução mecânica" de Benjamin. que permaneceu em grande medida desconhecido até sua primeira impressão em 1559.000. L'AppBrition. a lógica do capitalismo indicava que. fala simplesmente de "par-dessusles frorrtíères" í" por sobre as fronteiras"!.47 AS ORIGENS DA CONSCIÊNCIA NACIONAL Se o desenvolvimento da imprensa-como-mercadoria é a chave da geração de ideias inteiramente novas de simultaneidade. é possível que 200 milhões de volumes já tivessem sido manufaturados por volta de 1600. porém. O 1axtt> original fala ao capitalistas "puissants" (poderosos. pelo menos 20 milhões de livros já haviam sido impressos em 1500. defender com'vigor a primazia do capitalismo. os mercados representados pelas massas monoglotas.. como crêem Febvre e Martin. 194. quanto a isso. É certo que a Contra-Reforma estimulou um ressurgimento temporário da atividade editorial em latim. The Corning of Ifie Book. a grande massa da humanidade é de monoglotas." Ibid. Polo. 4 E cbmo os anos de 1500-1550 foram um período de prosperidade excepcional na Europa. ainda assim estamos simplesmente no ponto em que se tornam possíveis comunidades do tipo "horizontai-secular. p. L 'Apparitíon. de massa". a nlo "abastados". os "livreiros preocupavam-se primordialmente em conseguir lucro e em vender seiis produtos e. XIII. No século XVI. Por que. criouse-uma verdadeira 'internacional' de editoras. mas.

"no espaço de quinze dias [haviam sido] conhecidas em todos os cantos do país". Nessa gigantesca "luta para conquistar o pensamento dos homens' '. Entre 1522 e 1546. 7 lbid. p.. entre 1550 e 1564. 8 Suas obras representaram nada menos do que um terço de iodos os livros em alemão vendidos entre 1518 e 1525." 9 De fato. e nesta última data não havia menos de quarenta gráficas distintas trabalhando em horas extras. Ibid. Dessa maneira. porque sempre teve linhas internas de comunicação melhores que seus desafiantes. fazendo renascer a enorme literatura da antiguidade pré-cristã e disseminando-a por meio do mercado editorial. que vedava a impressão de todo e qualquer livro em seu reino — sob pena de morte por enforcamento! A razão para essa proibição. Roma ganhava facilmente todas as guerras contra a heresia na Europa ocidental. transformação espantosa. 7 O impulso revolucionário do capitalismo no sentido da utilização das línguas vulgares recebeu um ímpeto adicional de três fatores externos. pela primeira vez. deveu muito de seu êxito ao capitalismo editorial. as fronteiras orientais de seu reino estavam cercadas por Estados e cidades protestantes que produziam uma torrente maciça de material impresso contrabandeável. porém.. para a qual Lutero foi absolutamente fundamental. 195. Pois o antigo-latim não era obscuro devido a seu conteúdo ou a seu estilo. . Antes da era da imprensa. Molíèra s La Fomaine •vendiam suas tragédias e comédias manuscritas diretamente. 291-5. outros rapidamente se seguiram. p. que as compravam como investimentos excelentes. e em última análise o menos importante. o protestantismo sempre esteve basicamente na ofensiva. devido à linguagem em si mesma. isto é. era só um passo pars a situação na França do século XVII. Lutero tornou-se o primeiro autor de grande vendagem conhecido como ta!. O latim que agora se pretendia escrever tornava-se cada vez mais ciceroniano e. precisamente porque sabia como utilizar o crescente mercado da imprensa em língua vulgar que o capitalismo criava. dois dos quais contribuíram diretamente para o surgimento da consciência nacional. foram publicadas 430 edições (integrais ou parciais) de suas traduções da'Bíblia. ao mesmo tempo. e saturadas as bibliotecas ardorosamente católicas. está em que. elas foram impressas em tradução para o alemão e. o primeiro escritor que vendia seus Sivros novos com base no próprio nome. Em segundo lugar. haviam sido publicadas ali apenas 42 edições. 161. em outras palavras. 10 Onde Lutero foi o primeiro. 8 Nas duas décadas de 1520-1540. Ou. p. no seio da//ltelUgentsia transeuropéia. uma verdadeira massa de leitores e uma literatura popular ao alcance de todo o mundo. na época.aos editoras. Símbolo disso é o índex Llbrorum Prohibitorum do Vaticano — que não tinha correspondente no protestantismo —.. " Ibid. Nada transmite melhor o sentido' dessa mentalidade de assédio do que a aterrorizante proibição de Francisco I. Para nos atermos à Genebra de Calvino: entre 1533 e 1540. Quando. tornava-se obscuro devido ao que era escrito. A partir desse ponto. mas apenas por ser inteiramente escrito. Agora. Ibid.48 49 vá em decadência. em 1517. mas esse número subiu para 527. 310-5. tornou-se patente. como prova disso. foi o impacto da Reforma que. onde Corrwllla. foram editados três vezes mais livros na Alemanha do que no período de 1500-1520. s 10 p. uma nova forma de apreciar os elaborados resultados estilísticos dos antigos. em 1535.. Graças ao labor dos humanistas. devido a seu status como texto. e para sua inaplicabilidade. Nesse meio tempo. enquanto que a Contra-Reforma defendia a cidadela do latim. dando início à colossal propaganda religiosa que avassalou a Europa toda no correr do século seguinte. cada vez mais afastado da vida eclesiástica e da vida quotidiana. "Temos aí. p. tendo em vista a reputação de seus autores no mercado. M Ibid. catálogo singular que se fez necessário devido ao maciço volume de subversão impressa. 289-SO. ele adquiriu uma característica esotérica. Martinho Lutero afixou suas teses na porta da capela em Wittenberg.. foi uma alteração no caráter da própria língua latina. uma escassez de dinheiro por toda a Europa levou as gráficas a pensar cada vez mais em vender edições baratas nas línguas vulgares. O primeiro deles. muito diversa da do latim da Igreja da época medieval.

O caso da "Inglaterra" — na periferia noroeste da Europa latina — é especialmente'esclarecedor. para não dizer casual. p. governada a partir de Londres. criou rapidamente grandes públicos leitores novos — inclusive entre mercadores e mulheres. a autoridade religiosa do latim nunca possuiu um ver-. da Escócia e da França. e deve. É conveniente que se lembre. teve lugar movimento semelhante. M apenas se tornou a língua oficial dos tribunais de justiça em 1539. em épocas diversas. (O pânico de Francisco I era tão político quanto religioso. não apenas a Inglaterra e o País de Gales de hoje. Não se deve supor que a unificação da língua vulgar administrativa tenha sido realizada Imediatamente ou tis maneira completa. as línguas da corte dos Romanovs eram o francês e o alemão. p. que tipicamente pouco ou nada.50 51 A coalizão entre o protestantismo e o capitalismo editorial. não há nada que indique que quaisquer impulsos ideológicos. uma vez que era encarada meramente como forma adulterada do latim. É improvável que a Guiana. !6 Em todo caso. Netfons anrf Slates. tecedeu tanto a imprensa quanto a revolução religiosa do século XVI. que a universalidade do latim na Europa ocidental medieval jamais correspondeu a um sistema político universal. francês normando. Como tal. '«Ibid. Feudai Sociery. línguas vulgares "estrangei'ras" se impuseram: no século XVIII. Entre cerca de 1200 e 1350. ser encarado (pelo menos inicialmente) como fator independente na erosão da comunidade sagrada imaginada. lenta e geograficamente desigual. l3 Só depois de quase um século após a entronização política do inglês primitivo é que o poder de Londres foi varrido para fora da "França". l. 28-9. não era apenas a Igreja que se abalava em seus fundamentos. pragmático. ainda que em ritmo mais lento. Inevitavelmente. desse modo. o latim sobreviveu por muito mais tempo — sob os Habsburgos até bem tardiamente no século XIX. não deliberado. Como diz ironicamente Bloch. l. e não "nacionais". virtualmente todos os documentos reais eram escritos em latim. Bloch. tivesse sido administrada originariamente ern inglês primitivo. Enquanto isso. viesse a ser a língua da corte — e para a abertura do parlamento. 75. ainda. a língua da corte. Com efeito. na República da Holanda e na Comunidade dos Puritanos. dadeiro correspondente político. após 1362. No correr do século e meio seguinte. era o anglo-saxão. l5 Em outros reinos dinásticos. No Sena. sem falar em protonacionaís. significava que nenhum soberano poderia monopolizar o latim e torná-lo sua língua oficial exclusiva e. O mesmo terremoto produziu os primeiros Estados europeus não dinásticos e não cidades-Estado de importância. Ao mesmo tempo. Veio a seguir. e que o Estado envolvido abrangia. . de línguas vulgares específicas como instrumento de centralização administrativa por determinados pseudomonarcas absolutos presuntivos bem posicionados. Obviamente. quando Francisco I expediu o Edito de Villers-Cotterêts. p. após o colapso do Império do Ocidente. a Bíblia manuscrita em língua vulgar. aqui. 48. onde o âmbito da burocracia dos mandarins e a dos caracteres desenhados coincidiam em grande medida. vale dizer uma Síngua que.) Em terceiro lugar. p. mas também partes da Irlanda. levou diversos séculos para erguer-se à dignidade literária". ou inglês primitivo. enormes parcelas das populações submetidas conheciam pouco ou nada de latim. que explorava edições populares baratas. a fragmentação política da Europa ocidental. de Wycliffe. Feudal Society. 15 Seton-Walsoo. que enfrentavam a ascensão 1S w Seton-Walso-ri. profundamente arraigados estivessem subjacentes à utilização de línguas vulgares onde ela ocorreu. por isso. esse latim ofi- ciai foi substituído pelo francês normando. uma lenta fusão entre essa língua de uma classe dirigente estrangeira e o anglo-saxão da população submetida deu origem ao inglês primitivo. era inteiramente diferente das políticas linguísticas deliberadas perseguidas pelos dinastas do século XIX. 98. 83. Netions and States. u É fundamental que se tenha ern mente que essa sequência constituía uma série de línguas "de Estado". em 1382.. conheciam de latim — e simultaneamente mobilizava-os para fins político-religíosos. literária e administrativa. O nascimento das línguas vulgares administrativas aã-. Anteriormente à invasão normanda. p. M Bloch. Essa fusão tornou possível que a nova língua. -É instrutivo o contraste com a China Imperial. a "escolha" da língua parece constituir-se num desenvolvimento gradual. Em outros. "o francês.. havia a disseminação.

vale lembrar que embora a imprensa tivesse sido Inventada primeiro na China. Steinberg. No fundo. O essencial é a influência recíproca entre fatalidade. Não havia qualquer ideia de se impor sistematicamente a língua às diversas populações submetidas ao dihasta. " 'Não obstante. a Reforma e o desenvolvimento casual das línguas vulgares administrativas sejam significativos. 6. nem há.. em Paris. nSo teve qualquer impacto de maior importância. quanto a característica ideográfica do produto final. fé: do francês a língua de sua cortei Esse não foi a primeiro "acidente" dessa natureza. Contudo. em outras partes do mundo. talvez nenhum deles. criou línguas impressas mecanicamente reproduzidas. cap. Nessa contexto.19 Determinadas línguas podem morrer ou ser exterminadas. rougfi. sem que algum deles. até que o capitalismo e a imprensa criassem os maciços públicos leitores monoglotas. mas explosiva. a promoção dessas línguas vulgares ao stattts de línguas-do-poder. quanto mais ideográficos os signos. (Ver mais adiante. em número muito menor de línguas impressas! . em fins do século XIII. embora Já existisse uma burguesia perceptível na Europa. Quanto a isso. a diversidade das línguas faladas. no sentido de condição geral de diversidade linguística irremediável. O fato do o signo. Cap. 30 e 45. o papel não tevo uso generalizado antes do -final do século XIV. pode-se descobrir uma espécie de hierarquia descendente partindo da álgebra. é provável que a esoterização do latim. bough. proibiu toda e qualquer impressão de livros em 1535 e. entre um sistema de produção e de relações produtivas (capitalismo). teria permanecido um capitalismo de proporções insignificantes. mas não havia.) Sinal claro dessa diferença é que as antigas línguas administrativas eram precisamente isto: línguas utilizadas pelo mundo oficial. naturalmente. eram (e são) a trama e a urdidura de suas vidas. tecnologia e capitalismo. 21 zo 18 15 Confirmação compatível dessa afi/mação ofereça-nos Francisco ! que. Febvre e Martin observam que. neste contexto. Embora seja essencial manter em mente uma ideia de fatalidade. por detrás da imprensa. rnuito menos revolucionário — precisamente devida â ausência do capitalismo ia. quatro anos depois. IS O elemento de fatalidade é fundamental. por sua própria conveniência interna. Tanto Stelnberg 1 quanto Eisenstein chegam muito perto de teornorf liar "a imprensa" que imprensa como c gânio da história moderna. aquelas línguas que. uma tecnologia de comunicações (a imprensa) e a fatalidade da diversidade linguística do homem.A própria arbitrariedade de qualquer sistema de signos para sons facilitava o processo de agrupamento. ele encontrou na morte e nas línguas dois tenazes adversários.. passíveis de disseminação pelo mercado. o que tornou imagináveis as novas comunidades foi uma interação semifortuita. cougti e hiccough demonstra tanto a variedade idiolâtica da qual proveio a ortografia Inglesa. era imensa. que se o capitalismo editorial buscasse explorar cada mercado potencial de língua vulgar oral. N5o temos ainda multinacionais gigantes no mundo editorial. de fato. possivelrrvante quinhentas anos antes de.52 53 de nacionalismos linguísticos populares hostis. Mas esses idioletos variados eram passíveis de se agruparem. em Londres). Itxigh. tanto mais vasta a zona de agrupamento potencial.20 (Ao mesmo tempo. Proveitosa exposição sobre essa questão encontra-se em S. essa incompreensibilidade recíproca era historicamente apenas de 17 ligeira importância. estivesse presente.) Nada serviu para "agrupar" línguas vulgares correíatas mais do que o capitalismo que. primordialmente em sentido negativo — como tendo contribuído para o destronamento do latim e para a erosão da comunidade sagrada da cristandade. Tfte Caming of t/ie Book.por intermédio do mundo Islâmico. mais do que o capitalismo" intencionalmente. É perfeitamente possível conceber o surgimento das novas comunidades nacionais imaginadas. que enfatiza a fatalidade primordial de determinadas línguas e de sua associação a unidades territoriais determinadas. contribuiu à sua maneira para a decadência da comunidade imaginada da cristandade. eram concorrentes do latim (o francês. 5. o inglês [primitivo]. Mas o papel náo era Invenção europeia. Pois por mais que o capitalismo fosse capaz de feitos sobre-humanos. Num sentido positivo. . onde. H. p. passando pelo chinês e pelo inglês. agora padrão. dentro dos limites impostos pelas gramáticas e sintaxes. como vimos. possibilidade de uma unificação linguística geral do homem. estio 33 gráficas e 35 companhias editoras. tão imensa.seu aparecimento na Europa. em certo sentido. Five Hundfett V&sra cfPrinting. para seus falantes. seria equivocado fazer equivaler essa fatalidade àquele elemento comum às ideologias nacionalistas. 22. ough ser pronunciado diferentemente nas palavras althaugh. até os silabários regulares do francês ou do indonésio. dentro de limites definidos. Chegou ali vindo de uma outra história — a da China . 1 Digo "nada ssrvíu. >ía Europa pré-imprensa e. Febvre e Martin (amais se esquecem de que. Somente a superfície bem lisa do pape! tornou possível a reprodução maciça de textos o figuras — e Isso não ocorreu senão apôs outros setenta e cinco anos.

a fixação das línguas impressas e a diferenciação de status entre elas foram. formavam. Hoje em dia. uma vez "ali". Desse modo. seus ancestrais do século XII. inglesas. tão essencial à ideia subjetiva de nação. dentro de uma ortografia arábica. primeiro corn uma romanização compulsória antimucul23 The Corning of the Book. a proporção de mudança diminuiu decisivamente no século XVI. em sua visível invisibilidade secular e peculiar. processos não. enquanto o francês do século XII distinguia-se acentuadamente do francês escrito por Víllon no século XV. e de desenvolver publicações em suas próprias línguas: esse mesmo governo é em grande medida indiferente ao que essas minorias falam. o capitalismo editorial criou Ifaguasde-poder de uma espécie diversa da das antigas línguas vulgares administrativas. 477: "Au XVII" siècle. que. que podiam achar difícil. da Europa ocidental. The Age of Nationalism. compreender-se reciprocamente em conversa. a ele pertenciam. outrora agrupável por toda parte. no decorrer de três séculos. as línguas nacionais mostram-se cristalizadas por toda parta. Os falantes da enorme variedade de línguas francesas. quando vantajoso. em suas origens. de determinadas "sub "-nacionalidades para alterarem seu síaíus subordinado forçando vigorosamente a entrada na imprensa -—• e no rádio. porque era assimilável ao alemão impresso de uma maneira em que não o era o checo falado da Boémia. •. de pessoas existentes em seu determinado campo linguístico . perdiam prestígio. Suas parentes em desvantagem. É provavelmente apenas justo acrescentar que K-crnal esperava lambam. p. No correr do processo. ("No século XVII. tornaram-se gradativamente conscientes das centenas de milhares. temporal e espacialmente.e meio. 319. em grande medida. por ess. as palavras de nossos antepassados do século XVII nos são acessíveis de um modo que não eram. "No século XVII as línguas da Europa haviam. Para exaltar a consciência nacional da Turquia turca em detrimento de qualquer identificação muçulmana mais ampla. p. a Villon. Iraque e URSS atuais é especialmente exemplar. ou até mesmo impossível. nologia e a diversidade Linguística humana. assumido suas formas modernas.i (Daí as lutas. na Europa desse fim do século XX. 108. . o governo tai desestimula ativamente as tentativas de missionários estrangeiros de oferecer a suas minorias tribais das montanhas sistemas próprios de transcrição. ajudou a construir aquela imagem de antiguidade.) Resta apenas salientar que. par o nacionalismo turco ern linha com a c iu Tire cie madeira. Em terceiro lugar. Cf.de mais nada por não serem bem-sucedidas (ou serem apenas relativamente bem-sucedidas) ao insistir em suas próprias formas impressas. O destino dos povos de fala túrquica nas zonas incorporadas à Turquia. e assim um alemão subpadrão. mais tarde. Determinados dialeíos estavam inevitavelmente "mais próximos" de cada língua impressa e domi52 navam suas formas finais. o capitalismo editorial atribuiu nova fixidez à língua. a iongo prazo. a que estavam ligados pela imprensa. que apenas essas centenas de milhares. Como nos fazem lembrar Febvre e Martin. perdeu aquela unidade em consequência de manipulações deliberadas. ao mesmo tempo. antes. conscientemenle exploradas dentro de um espírito maquiavélico. Ira. Atatúrk impôs uma romanização compulsória. L'Apperition. p. o embrião da comunidade nacionalmente imaginada. elas se tornavam modelos formais a serem imitados e. O alto alemão. Em segundo lugar. essas línguas impressas estabilizadas foram se sedimentando. o livro impresso mantém uma forma permanente.e. a tec-. Já não estava mais sujeito aos hábitos individualizadores e "inconscientemente modernizadores" dos escribas monásticos. criaram campos unificados de intercâmbio e comunicação abaixo do latim e acima das línguas vulgares faladas. largamente falado. ainda assim assimiláveis à língua impressa que surgia. Esses co-leitores."! Hans Korin. Mas. Família de línguas faladas. o inglês do rei e. até mesmo milhões. tornaram-se capazes de compreender-se via imprensa e papel. como tanta coisa mais na história do nacionalismo. lês langues nationales apparaissant u n peu partout cristallisées". intencionais que resultaram da interação explosiva entre o capitalismo.54 55 Essas línguas impressas lançaram as bases para a consciência nacional de três modos diferentes." 22 Em outras palavras. ou milhões. ramanítada. Antes de mais nada. seguiram o exemplo. e portanto compreensível. 23 As autoridades soviéticas. passível de reprodução virtualmente infinita. ou espanholas. o tai central foram consequentemente elevados a uma nova proeminência político-cultural. de modo geral. O "alemão do noroeste" tornou-se o Platt Deutsch.

provavelmente por poderem ser facilmente deduzidos a partir dos nacionalismos da Europa de meados do século. Crioula — pessoa da descendência europeia pura [pelo menos teoricamente). por parecer quase impossível explicá-los em termos dos dois fatores que. têm sido dominantes em muito do pensamento europeu a respeito do surgimento do nacionalismo. como republicas (não dinásticas). dizendo que a convergência do capitalismo e da tecnologia da imprensa sobre a diversidade fatal das línguas humanas criou a possibilidade de uma nova forma de comunidade imaginada que. é óbvio que. em outros casos convincente. Todos eles. em geral. é necessário voltarse para o amplo conjunto das novas entidades políticas que brotaram no hemisfério ocidental entre 1776 e 1838. apenas uma fração mínima da população "usa" a língua nacional em conversa ou no papel.56 mana e antipersa e. em sua morfologia básica. nos EUA ou nas antigas colónias da Espanha. da tese de Nairn. p. por extensão. como também o número delas e seu aparecimento simultâneo oferecem terreno fértil para um estudo comparativo. consciências nacionais e Estados-nação. embora hoje em dia quase todas as pretensas nações— e também as nações-Estado — possuam "línguas impressas nacionais". Nations and States. em outras. p. o ponto culminante dos expansionismos dinásticos). e segundo a qual: 2 1 Ji Seton-Watson. a formação concreta dos Estados-nação contemporâneos não é de modo algum isomórfica com o alcance estabelecido de determinadas línguas impressas. 2 77» Brsak-up ofõritein. do segundo. 317. parem nascida na América rã. muitas delas possuem essas línguas em comum e. A extensão potencial dessas comunidades era inerentemente limitada e. com uma cirilização russificante compulsória. quer se pense no Brasil. Contudo. NOVAS NAÇÕES Os novos Estados americanos do final do século XVIII e início do século XIX são de interesse incomum. com a curiosa exceção do Brasil. 41. ] Na verdade. eram Estados crioulos. ao mesmo tempo. srn qualquer lugar fora tia Europa!. . Os Estados-nação da América Espanhola. ou os da "família anglo-saxônica" são exemplos notáveis do primeiro resultado. particularmente na África. ANTIGOS IMPÉRIOS. a seguir. Em primeiro lugar. não mantinha senão a mais fortuita relação com as fronteiras políticas existentes (que eram. há sérias razões para se duvidar da aplicabilidade. muitos ex-Estados coloniais. é justo que se diga que a língua nunca foi sequer um tema nessas antigas lutas pela libertação nacional. Para explicarse a descontinuidade-em-conexão entre línguas impressas. em grande parte do hemisfério ocidental. Pois não apenas eram elas historicamente os primeiros Estados desse tipo a surgir no mundo. constituídos e dirigidos por pessoas que compartilhavam uma língua e uma descendência comuns com aqueles contra os quais lutavam. mais tarde. e por isso forneceram inevitavelmente os primeiros modelos reais de com que deveriam esses Estados "se parecerem". Em segundo lugar. 24 Podemos resumir as conclusões que se podem tirar da exposição até este ponto. na década stalinista de 1930. a língua não era um elemento que os diferenciasse de suas respectivas metrópoles imperiais. inclusive os EUA. Em outras palavras. todas as quais se definiram conscientemente como nações e. prepara o cenário da nação moderna.

s Quanto s isto.que. 5 (Esse medo só aumentou quando o "secretário do Espírito Mundial" de Hegel conquistou a Espanha em 1808. em 1804. 207. especificando pormenorizadamente os direitos e os deveres dos senhores e dos escravos. 14-7 e flnssim. Toussaint L'Ouverture comandou uma insurreição de escravos negros. em casos tão importantes como a Venezuela.Estados. Bolívar. Lynch. por todo o Mar das Caraíbas espanhol — os fazendeiros se opuseram à lei e promoveram sua revogação em 1794". privando assim os crioulos de apoio militar da península em caso de emergência. 6 Em 1791. Talvez seja notável qu« Tupac Amarú não lenha rapudiado completamenta a compromisso de fidelidade ao rei espanhol. na década de 1770.. as "classes-médias" ao estilo europeu ainda eram insignificantes no final do século XVIII. que procuram incitar e canalizar as energias das classes populares para a sustentação dos novos . a prolongada duração da luta continental contra a Espanha. 237. The tJsw HM* Review -o/ Books. o primeiro romance hispano-americano só foi publicado em 1816. 11 Masur. 3 Como vimos. em sua luta contra os crioulos rebeldes. Noticns and Síntes. mas também alguns brancos e mestiços) ínsurglram-se contra'a administração de Lima: Masur. * Também não devemos esquecer que muitos dos líderes do movimento de independência das Treze Colónias eram magnatas agrários donos de escravos. em 1789. p. na época uma potência europeia de segunda ordem. naquela. The Spanish-Amef/can Revo/utíons. ll Além disso. o domínio sobre a longínqua Quito. certa vez. 2. o México e o Peru. 224. Edward 5. em aliança com um número muito menor de comerciantes e de diversos tipos de profissionais liberais (advogadas. 17. até 1820. entre 1814 e 1816. se irritaram com a proclamação do governador legalista que concedia Uberdade aos escravos que rompessem com seus senhores sediciosos. p. albid. The Spanfsíi-Americen fíevolutions. que uma revolta de negros era "mil vezes pior que uma invasão espanhola".as classes inferiores para a vida política". 4 Ao contrário de procurar "arregimentar . e manter. Ele e seus seguidores (na maior parte índios. recentemente subjugada. Os indícios . rebeliões de índios ou'de escravos negros. isto assu miu a forma de uma ciasse média e de uma liderança intelectual inquietas. Na Venezuela —'• na verdade. 7 Quando. e que fora. Em sua versão mais típica. Lyncri. Bolívar. 17 d« agasto tfe 1&78. 8 O próprio Libertador Bolívar opinou. p. ela mesma. sobre escravidão. indica certa "fragilidade social" desses movimentos de independência latino-americanos. estimulou o impulso para a independência em relação a Madri. mais humanitária. p. Simon Bolívar. Madri expediu uma-no vá lei. "Trie Haart of Jelferson". tranquilos da colónia era pouca a leitura a interromper o ritmo faustoso e. 6 Masur. O próprio Thomas Jefferson estava entre os fazendeiros da Virgínia que. Lynch. que deu origem. "os crioulos repudiaram a intervenção estatal com base em que os escravos eram propensos ao vício e à independência [!] e eram fundamentais para a economia. enquanto a propriedade cia terra era inteiramente aberta aos crioulos.58 O advento do nacionalismo num sentido distintamente moderno esteve ligado ao batismo político das classes inferiores. há analogia evidente com o nacionalismo Bóer de um século mais tarde. Ainda que às vezes hostil à democracia. bem depois da deflagração das guerras de independência. Essas proporções provem do faio de que as (unções comorciais o sdmirtistraiifas mais importantes oram em grande medida monopolizadas pelos espanhóis natos. 10 . ainda estavam vivas as lembranças da grande jacquerie liderada por Tu3 Gerhard 4 pac Amarú (1740-1781). 201. p. donos de escravos. militares. era o medo de mobilizações políticas da "classe inferior": a saber.. nesta. p. de início. os movimentos nacionalistas têm tido uma perspectiva invariavelmente populista e procurado arregimentar as classes inferiores para a vida política. p. à segunda república independente do hemisfério ocidental — e aterrorizou os grandes fazendeiros da Venezuela.sugerem claramente que a liderança estava nas mãos de ricos proprietários de terras. foi ela ter conseguido o apoio dos escravos. e dos índios. 192. funcionários locais e provinciais). 59 Pelo menos na América do Sul e na América Central. 24. 10 É instrutivo que uma das razões pelas quais Madri conseguiu retornar com êxito à Venezuela. p. 7 11 Seton-Wstson.snob da vida das pessoas".. um fator-chave. Morgars. Tho Spanfsli-Amaficori ftovolulions.p. Como também não havia algo semelhante a uma intelligenisia.) No Peru. Pois "naqueles dias .

palavra por palavra. em fins da década de 1770. . Naiions ertd States. também. na última metade do século XVIII. Nova Granada e Equador).) Eis então o enigma: por que precisamente as comunidades crioulas é que desenvolveram tão precocemente concepções de sua nation-ness — bem antes da maior parte da Europa? Por que essas províncias coloniais. fortaleceu os monopólios comerciais metropolitanos. "no futuro. não deixaram de ter uma influência poderosa. ao regressar. mesmo ali. entre 1314 e 1316. dos quais apenas 4. porém. o nível da migração peninsular na década de 1780-1790 era cinco vezes maior do que havia sido entre 1710-1730.. 1B A Constituição da Primeira República Venezuelana t1B11) era. decretou. 53. fugindo de Napoleão. p. * 18 Ibid. Bolívar. " • Não há dúvida. da guerra com a Inglaterra. No finai do século. significava transmissão relativamente rápida e fácil das novas doutrinas económicas e políticas que se estavam produzindo na Europa ocidental. seu companheiro de luta pela libertação. em parta. 17. torrada de emptíslímo. 16 Paralelamente à isso. novos impostos. No século XVIII. The Spanisfi-Amerícan Revolutions. 125. 13 Lynch. não expli15 Essa nova agressividade metropolitana era. 4-17. em muitas partes. em 1818 — mas é preciso lembrar que os êxitos de Madri na Venezuela.000. Lynch. em parta. em 1821. O êxito da revolta das Treze Colónias. a não ser no Brasil. Quando Bolívar sã tornou presidente da GrS-Colombia (Venezusta. produto das doutrinas do Iluminismo. 1S O México. 329 e 38B. The Spanísh-American Revotutions. Grifos nossos.18 Em parte alguma houve qualquer tentativa sé: ria de reinstaurar o princípio dinástico nas Américas. em 1821. que. irritaram e alarmaram cada vez mais a classe alta crioula.61 Contudo. p. 206-7. conseguiu ajuda militar do Presidente Alexandre Pétion. no início do século XVIII. a agressividade de Madri e o espírito do liberalismo. em troca da promessa de terminar com a escravidão em todos os territórios libertados. Naquilo que. e o começo da Revolução Francesa. provia a Coroa com uma renda anual de cerca de 3. do próprio dinasta português. por exemplo. eles eram movimentos de independência nacional. 301. ou de nativos. por vezes. eles são filhos e cidadãos do Peru e deverão ser conhecidos como peruanos". em fins da de 1780. " Ibid. "Não solicitara ao congresso que abolisse a escravatura. essa quantia quase quintuplicara. (Ele permaneceu ali por treze anos e. solicitou e obteve do Congresso uma lei libertando os filhos de escravos. Elo libertou seus escravos pouco depois da declaração de independência da Venezuela.000 de pesos. em 1808. p.) Contudo. 13 (Poderíamos acrescentar: a despeito do fato de que. enquanto seis milhões eram de puro lucro. em 1810. Quatro míriSBS iam para subsidiar a administracío de outras partes da América. p. Quando fugiu para o Haiti em 1816. ainda que fundamentais para a compreensão do impulso de resistência na América espanhola. o capitalismo editorial não havia ainda chegado a esses analfabetos. isso provavelmente não teria sido possível. após 1779. não fosse a imigração.000. Seton-Watson. além do fato de as diversas Américas compartilharem línguas e culturas com suas respectivas metrópoles. fragmentou-se tão subitamente em dezoito Estados distintos? Os dois fatores mais comumente mencionados como explicação são o enrijecimento do controle exercido por Madri e a disseminação das ideias liberalizantes do Iluminismo. se deveram em parte è emancipação pela metrópole dos escravos leais. p. os aborígenes não deverão ser chamados de índios. Não há dúvida de que é verdade que as políticas implantadas pelo hábil "déspota esclarecido" Carlos III (r. P. de que a melhoria das comunicações através do Atlântico.000 eram utilizados no custeio da administração local. em parto. por não querer atrair sobre si o ressentimento dos grandes proprietários de terra. como inimigo estrangeiro? Por que o Império hispáno-americano. p. atingindo 14. tem sido sardonicamente chamado de segunda conquista das Américas. A promessa foi cumprida em Caracas. deliberadarnente." Masur.000. até então. que tivera existência tranquila durante três séculos. teve seu filho coroado localmente como Pedro I do Brasil. Bot/ver. da dos Estados Unidos. Madri lançou 12 Não sem algumas idas e vindas. 14 à qual estavam ligados de tantas maneiras. tornou mais eficiente sua arrecadação. Bolívar mudou de opinião a respeito dos escravos 12 e San Martin. de problemas fiscais crónicos a. deram origem a crioulos que. Nada melhor para confirmar essa "revolução cultural" do que o republicanismo que impregnou as comunidades recém-independentes.. centralizou as hierarquias administrativas e promoveu intensa imigração de peninsulares. redefiniram tais populações como compatriotas? E a Espanha. 1759-1788) decepcionaram. restringiu em benefício próprio o comércio intra-hemisfério. 131. 276. abrangendo em geral grandes populações oprimidas que não falavam o espanhol. 14 Anacronismo.000. o tarmo comum era ainda Lãs Espartas [As Espinhas] e não Espana (Espanha). Masur.

62 63 cam. O antropólogo Victor Turner tem escrito de maneira esclarecedora a respeito da "jornada". E então? O começo de uma resposta encontra-se no fato notável de que "cada' uma das novas repúblicas sulamericanas havia sido uma unidade administrativa entre os séculos XVI e XVIII". prenunciaram os novos Estados da África e de partes da Ásia. cf. and Pcvarty: Religi-ous Symbols c-f Cornmunitas"). Masur. Elaboração posterior mais e-nmplsxa ertcontra-s. Bolívar.1 sob a influência de fatores geográficos. Essa disposição ao sacrifício por parte de classes em situação confortável é matéria para reflexão. 19 pulco levava quatro meses. em certa medida. a viagem por terra de Buenos Aires a Santiago demorava normalmente dois meses. The Spanish-AmericanRevotutíons. por si sós. Naturalmente. como uma experiência criadora de significado. segundo o qual cada nação manteria o status quo territorial de 1810. (Apenas um exemplo: durante a contra-ofensiva de Madri. Margíns. ano em que se haviam iniciado os movimentos pela independência''. a jornada marítima de Buenos Aires a AcaO mesmo se pode dizer da postura de Londres diante das Treze Colónias. em meados do século XX. em curso de um lado a outro da América.. 19. e a viagem de volta às vezes mais tempo. Quem estaria disposto a morrer pelo Comecon ou pela CEE? Para perceber de que modo unidades administrativas podem. S8-9 e 231. 22) Além disso. com o correr do tempo. para a desintegração da efémera Grã-Colômbia de Bolívar e das Províncias Unidas do Rio da Prata em seus antigos elementos constitutivos (hoje em dia conhecidos como Venezuela-ColômbiaEquador e Argentina-Uruguai-Paraguai-Bolívia). 'a* enorme variedade de seus solos e climas e. and Metaphors. sobretudo. o da ideologia da Revolução de 1776. "Toda competição com a mãe-pátria era vedada aos americanos e as distintas partes do continente não podiam sequer comerciar entre si. e a Cartagena. ficaram financeiramente arruinados. assinalando os limites espaciais de determinadas conquistas militares. embora seja certo que as classes altas crioulas. p. 21 Quanto a isso. 25-6. afinal de contas. 546. as políticas comerciais de Madri resultavam em fazer das unidades administrativas zonas económicas separadas. arbitrária e fortuita. políticos e económicos. saíramse muito bem com a independência ao longo do tempo. 678. Nem. A própria vastidão do Império hispano-americano. é preciso examinar de que modo organizações administrativas criam significado. a Venezuela e o México vieram a tornar-se emocionalmente plausíveis e politicamente viáveis. não só na América como também em outras partes do mundo. p. síaíus e lugares. 2S Todas essas jor42 23 Lynch. p. 25Ver. p. p. capítulo 5 ("Pilgiimages as Social Processes") e S ("Passagas. essas medidas eram apenas em parte executáveis e sempre continuou a haver certa porção de contrabando. **lbid. A configuração original das unidades administrativas americanas era. TheForesíof Symbols. não criam lealdades. l9 nem por que San Martin devesse decretar que determinados aborígenes fossem identificados pelo neologismo "peruanos". e contrastam marcadamente com os novos Estados europeus do final do século XIX e início do século XX. 21 Masur. Fieids. Pois.de sua autoria. As mercadorias americanas. Svmhotic Actron in Hatnan Soci&ty. por si sós. Com o correr do tempo. Não obstante. a imensa dificuldade de comunicações numa era pré-industriaí contribuíram para dar a essas unidades um caráter de auto-suficiência. concebidas como formações sociais históricas." 23 Essas experiências ajudam à explicar por que "um dos princípios básicos da revolução americana" foi o do "utipossidetis. p. elas desenvolveram uma realidade mais estável. porém. 20B. vir a ser concebidas como pátrias. por que entidades como o Chile. Aspecrsof Ndembít Ritual. 24 Sua influência contribuiu também. tinham de fazer uma tortuosa viagem via portos espanhóis. em 1814-1816. 20Lynch. mercados regionais de caráter "natural"-geográfico ou político-administrativo. sem dúvida. que viveram entre 1808 e 1828. The Spanish-Amerícen Revolutions. apresentam a razão'dos verdadeiros sacrifícios que foram feitos.e ern seu Dramas. Masur. "mais de dois terços das famílias proprietárias de terras sofreram pesados confiscos''. nove. . e a navegação espanhola tinha o monopólio do comércio com as colónias. entre tempos. muitos membros concretos dessas classes. 20) E outros tantos deram a vida voluntariamente pela causa. Bolívar. Bolívar. especialmente a capítulo "BatwlM and Between: Thn Llminal Period ín ftius de Psssage". (Na época colonial.

Feudal Society. 422 st saqs. (c) os títulos não-dinâsticcsetam não só hersditárlos como conceptuais e legalmente distintas de postas administrativos: isto é. Ssu papel nas revoluções vietnamita e indonésia e. persas. 26 Como já assinalamos anteriormente. da cristandade ocidental em seu auge do que o fluxo espontâneo de fiéis seguidores vindos de toda parte da Europa para Roma. "muçulmanos ou hindus. 64. p. a jornada do nascimento à morte deu origem a diversas concepções religiosas). 3° Essa diferença pode ser representada esquematicamente da seguinte maneira: na jornada modal feudal. . Unificação significava permutabilidade interna de homens e documentos.a Inglaterra. '« Ver Bloch. Para nossos fins. A permutabilidade humana era favorecida peia arregimentação — naturalmente de extensão variável — de hominesnovi. enquanto que um pequeno segmento de iniciados letrados bilíngues. tem sido muito subestimado e muito mal estudado. em geral. Na verdade^ em certo sentido. 29 Desse modo.. analogia evidente com os respectivos papéis ctas intetligentsias bilingues e dos operários a camponeses. indagar-se: "Por que esse homem está fazendo o que faço. l. ascendia um degrau para ocupar o lugar daquele pai.64 65 nadas exigem interpretação (por exemplo. quando as aristocracias das províncias possuíam poder independente significativo . 23 Especialmente onde. vindos de localidades longínquas entre as quais não existia qualquer outra relação. II. (h) a primogenitura era a regra. finalmente. as mais importantes foram as diferentes viagens criadas pelo aparecimento das monarquias absolutas e. ao descreve' corno "paregrincs" os agentes espectrais <Je Leopoldo II na profundeza das trevas. neste caso." A "peregrinação secular" não deve ser tonada apenas como um tropo extravagante. O berbere que encontra o malaio diante da caaba deve. elas tinham. onde a página impressa dificilmente penetrava. em oposição a uma nobreza feudal particularista e descentralizada. a jornada modal é a peregrinação. e leal a ele. dinamarqueses. Meca ou Benares fossem os centros de geografias sagradas. o rádio tornou possível ignorar a irnprensa e dar nascimento a uma representação auditiva da comunidade Imaginada. atuavam como emanações das vontades de seus senhores. Inventado apenas em 1895. justaposição que não se poderia explicar de qualquer outra maneira. por assim dizer. O impulso inerente ao absolutismo era a criação de um aparato unificado de poder. em oposição ao S ião. em comunidades cujo significado sagrado era diariamente revelado a partir da justaposição de seus membros no refeitório. nos nacionalismos da meados do século XX. os funcionários dó absolutismo empreendiam jornadas que eram fundamentalmente diferentes das dos nobres feudais. a realidade da comunidade religiosa imaginada dependia profundamente de inúmeras e contínuas viagens. 27 Numa época pré-imprensa. falantes de língua vulgar. pronunciando as mesmas palavras que pronuncio e. com a morte de seu pai. controlado diretamente pelo governante. o herdeiro do Nobre Á. Conrad estava sendo iionico. no entanto. interpretando para seus respectivos seguidores o significado de seu movimento coletivo. na mente dos cristãos.'não possuíam poder independente propriamente seu. Embora as peregrinações religiosas sejam provavelmente as mais tocantes e grandiosas jornadas da imaginação. Feudal Soctety. portugueses. dos impérios mundiais com centro na Europa.2S Para nossos fins. Não é simplesmente que. indianos. executavam os ritos unificadores. uma vez que se aprenda: "Porque nós. os quais. berberes e turcos em Meca é algo incompreensível sem uma noção de alguma forma de comunidade entre eles. as cidades de Roma. Essa ascensão . assim. os limites externos das antigas comunidades religiosas da imaginação eram determinados pelo tipo de peregrinação que as pessoas faziam. somos muçulmanos". e têm. através dos célebres "centros regionais" de aprendizado monástico. equivalentes seculares mais modestos e limitados. Nada é mais impressionante a respeito ™ Ver Bloch. a estranha justaposição física de malaios. oriundos 'de cada uma das comunidades de língua vulgar. na génese de determinadas movimentos nacionalistas — antes do advento do rádio. Pôr certo.. não podemos falar um com o outro?" Existe uma única resposta. exatamente por essa razão. mas também preciso. e. sempre houve ura duplo aspecto da coreografia das grandes peregrinações religiosas: vasta multidão de analfabetos. na maioria analfabetos. alemães e assim por diante. Essas grandes instituições de fala latina congregavam o que hoje talvez víssemos como irlandeses. mas sim que sua centralidade era vivenciada e "realizada" (no sentido da arte cénica) pelo fluxo constante de peregrinos que se deslocavam em sua direção. p. " Existe. (a) a monogamia era imposta pela religião B pela lei. forneciam a densa realidade física da viagem cerimonial.

obteve-se uma função centralizadora mais profunda.) Em princípio. quando soube ds sua declaração do Independênciaj e Ba II vá r qua. Nessa jornada.66 67 exigia uma viagem de ida e volta. 13 Na primeira década do século XIX. 41-7 e 468-70 (San Marttn). só havia um bispo crioulo. Masur conta que Bolívar pertencia [c. latim. assumirem o monopólio. pela restrição do deslocamento dos funcionários de um so- berano para as máquinas de seus adversários: por assim dizer. A permutabilidade de documentos. e termina sua peregrinação na capital no posto Z. Porém. parece não ter havido em momento algum mais de 400 sul-amerlcanps residentes na Espanha. da província C. o "argentino" San. p. prossegue para o vice-reino C no posto Y. normando e inglês primitivo em Londres. Às vésperas da revolução do México. seus colegas funcionários. argumentar que. The Spsnísh-Ameiican ftevolaiions. sobretudo quando todos compartilham de uma única língua-de-Estado.000peninsulares. nutria-se do desenvolvimento de uma língua-de-Estado padronizada. pode retornar à capital no posto W. e não a morte. espera. Descerca de 1 S. e ali passou os 27 anos seguintes. Lima e de novo Madri. do século XI ao XIV. E mais: em sua rota espiral de ascensão. até o centro para receber a investidura. Esses números são ainda mais impressionantes se observarmos que. emerge uma consciência de conexão ("Por que estamos nós. amante "americano" da rainha Maria Lulsa. com a experiência de tê-los como companheiros de viagem. O talento.Martin. Por exemplo. oriundos de lugares e de famílias de que pouco ouviu falar e que espera certamente jamais ter de ver. Então. desempenhar essa função — desde que se lhe atribuam direitos monopolísticos. pois ele não tem pátria com qualquer valor intrínseco. 32 E não é preciso dizer que dificilmente se sabia de algum. em vez do latim. 18-9. que funcionários-peregrinos de Madri não fossem permutáveis com os de Paris. toda pausa é provisória. enquanto o funcionário D. que foi levado para a Espanha quando criança. não 16 deve exagerar essa racionalidade. melada eram soldados. Vê diante de si um cume e não urn centro. dos 170 vice-reís da América espanhola antes de 1813. para os domínios ancestrais. Enviado para a municipalidade A no posto V. e de retorno à casa. apenas 4 foram crioulos. em princípio.31 O padrão é muito evidente na América. em 1800. (Pode-se. 293. Botfver. os quais. os próprios homens novos elaboram. O rancor e o sentimento de inferioridade d-e muitos crioulos em relação 9 metrópole iam-se tornando neles impulsos revolucionários". Escala suas geleiras por uma série de arcos que o circundam.000 crioulos "brancos" do Império Ocidental (que se impunham aos cerca de 13.. O caso do Reino Unido. tanto quanto o soberano. depara-se com companheiros de peregrinação igualmente ansiosos. não há lugar seguro de repouso. a seguir. como ele. foi hóspede em Madri de Manuel Mello. embora os crioulos no vice-reinado superassem os peninsulares na proporção de 70 para 1. vai. as coisas são mais complexas. a expansão extra-européia dos grandes reinos do início da Europa moderna teria simplesmente ampliado o modelo acima ao desenvolver as enormes burocracias transcontinentais. 18051 a "urn grupo de jovens suf-arnaricanos" qua. aqui.. ingressou na Academia Real para jovens fidalgos/ e desempenhou papel destacado na luta armada contra Napoleão antas de regressar à terra natal. administra a província C. Como demonstra a imponente sucessão do anglo-saxão. não é único. Na verdade.. Entre eles. crioulo que ascendesse a um posto de importância oficial na Espanha. Haverá quam duvide que essa prolongada exclusão tenha desempenhado papel Importante no fonalecirnanto do nacionalismo Irlandês? 11 Lynch. A última coisa que o funcionário quer é regressar à pátria.700. onde aconteceu de línguas vulgares. Madri. 33 Além disso.000 indígenas) eram espanhóis nascidos na Espanha. se tornarão menores e mais firmes à medida que se aproxime do topo. por al-gtim tempo. "eram ricos.. isso não aconteceu. ociosas s mal vistos na Corte. Se os funcionários peninsulares podiam percorrer a rota de Saragoça a Cartagena. A racionalidade instrumental do aparato absolutista — sobretudo sua tendência a recrutar e promover com base no talento e não no nascimento — funcionou apenas intermitentemente para além do litoral oriental do Atlântico. menos de 5% dos 3. o crioulo "mexicano" ou "chileno" típico presta31 Evidentemente. juntos!"). garantindo.200. as peregrinações de funcionários crioulos não eram barradas apenas verticalmente. qualquer língua escrita pode. para a província B no posto X. . contudo. porém. que fortalecia a permutabilidade humana. p. Para o novo funcionário. vindo da província B. em que os católicos foram Impedidos de exercer cargos públicos até 1829. é que traça sua carreira. porém. se o funcionário A. administra a província B — situação que o absolutismo começa a tornar provável — essa experiência de permutabilidade exige uma explicação própria: a ideologia do absolutismo que.

o mesmo não se dava em relação aos crioulos. Quanto a isso. os quais acabavam por perceber que o companheirismo entre eles não se baseava apenas naquele determinado . mas na fatalidade. seu movimento lateral era tão tolhido quanto sua ascensão vertical. ò peninsular não podia ser um verdadeiro americano. Hoje em dia. 35 O que fazia com que essa. era a capital da unidade administrativa imperial em que se encontrava. em número cada vez maior e com crescente enraizamento a cada geração que se sucedia. Masur. os crioulos americanos. e controlados pelos mistérios da cristandade e de uma cultura inteiramente estranha (bem como pôr' uma organização política avançada para a época). nascido na Espanha. Pela primeira vez. nessa peregrinação limitada encontrava companheiros de viagem. ergo. com as armas. 3S Ainda que o vice-rei fosse uma pessoa eminente em sua terra andaluza." (Ibid. O equilíbrio tenso entre o funcionário peninsulaj e o magnata crioulo era. Se os indígenas podiam ser conquistados pelas armas e pelas doenças. Da perspectiva do soberano. 30 e 381. mas também uma ameaça a ele. p. à medida que se multiplicavam as incursões britânicas. do século XVI em diante. 34 Contudo. sobreposto aos crioulos. 34 maquiavelismo com o desenvolvimento de concepções de contaminação biológica e ecológica. e hio peças intercambiáveis de um aparato continental de segurança. 10. • ís Observe as transformações que a independência trouxe para os-americanos: os Imigrantas de primeira geração tornavam-se agora "os mais baixos" ao invés de "os mais altos".. 10. Em outras palavras.• cão >que os metropolitanos. religião. ele foi típico da muitos da primeira geração de lideras nacionalistas da Argentina: da Venezuela e do Chllê. quão irracional deve ter parecido sua rejeição! Não obstante.ois da migração do pai. a cristandade e a cultura europeia. pode-se observar certo paralelismo entre a posição dos magnatas crioulos e a dos barões feudais. o acidente do nascimento na América destinava-o à subordinação — ainda que.. CaudiUism antf Militarism ir> Venezuela. os peninsulares enviados como vice-reis e bispos desempenhavam as mesmas funções que os hominesnovi das burocracias proto-absoluttstas. p. do nascimento trans-Atlântico.trecho da peregrinação. fundamentais para o poder do soberano. (Masur. oculta na irracionalidade estava esta lógica: nascido na'América. as doenças. Contudo. ís Dada a grande preocupação de Madri com que a administração das colónias estivasse em mios confiáveis. Gilmore. apresentavam um problema político historicamente singular. f) contava principalmente com milícias coloniais que. Bolívar. que tinham. origem familiar. em princípio. "eia axiomático que os sitos postos fossem praenchidos exclusivanrente por eSpanh-Sis naios". a partir de meados do século XVIII. Com isso em mente. Ainda que tivesse nascido na primeira semana dep. ele era efetivamente um homo novus inteiramente dependente de seu patrão metropolitano. sob o imperialismo. O '. aqui. assim. Compare isso com o programa otimista de miscigenação de Fermín e sua ausência de preocupação com a cor da descendência esperada. Consti. as peregrinações militares tornaram-se tSo importantes quanto as civis. Não havia nada a fazer quanto a isso: ele era irremediavelmente um crioulo. Da 1760 em diante. VerRobert G. fosse praticamente indistinguível de um espanhol nascido na Espanha. exclusão parecesse racional na metrópole? Sem dúvida a confluência de um venerável Com a correr do tempo. aqueles mais contaminados por um local ds nascimento inevitável. . defendendo os portos venezuelanos contra os invasores. isto é. culturais e militares para se afirmarem com êxito. não podia ser um verdadeiro espanhol. em termos de língua. dispor prontamente dos recursos políticos. Desse modo.'sangue negro" — a nódoa negra — veio a ser visto. que compartilhavam. J810-J910 capítulos 6 ("The Militia"! a 7 ("Thia Mllitary"). virtualmente a mesma rela.. as metrópoles tinham que lidar com números — para aquela época — enormes de "patrícios europeus" (mais de três milhões na América espanhola. Deviam ser economicamente subjugados e explorados. O pai de Bolívar fora um aminônte comandante de milícia.' tuíam simultaneamente uma comunidade colonial e uma classe superior. "A Espanha não possuía nem dinheiro nem efetivos para manter grandes guarnicães do tropas regulares na América. Inversões semelhantes ocorrem em reação ao racismo.) Essas milícias eram inteiramente locais. uma expressão da velha política do divide et impera. Desse modo. o centro administrativo mais alto para o qual podia ser designado. quando adolescente. O próprio Bolívar. po:diam. pelo menos nos Estados Unidos.69 vá serviços nos territórios do México ou do Chile coloniais. em 1800) remotamente afastados da Europa. p. foram ampliadas e reorganizadas. desempenharam papel cada vez mais crítico. distante treze mil quilómetros. servira na antiga unidade de seu pai. que se seguiram à disseminação planetária de europeus e do poder europeu. o ápice de sua escalada espiral. ou maneiras. em novo cenário. O mais ligeiro traço de "sangue negro" torna a pessoa inteiramente negra. mas também eram essenciais à estabilidade do império. o "mulato" é peça de museu. iomò irremediavelmente contaminadorpara qualquer "branco". Boltvar.

especialmente com respeito aos mestiços. ' 9 lbld. 10% da população de Lisboa era de escravos. o crescimento das comunidades crioulas. entre 1574 e 1606. perniciosa tendência foi dada pelo renascimento da escravidão em larga escala (pela primeira vez na Europa. nessas regiões. Na última década do século XV. 253. Portugal. porque o tema principal de que estamos tratando é o surgimento do nacionalismo crioulo. tais como "negro" ou "mestiço" [sic]. p. *3 Até aqui. Além disso. uma vez que quanto mais sangue nativo possuem. e não as doutrinas dos philosophes.. As peregrinações vice-reais limitadas não tiveram consequências decisivas. não como curiosidades casuais. coreanos. 15. pela própria natureza. com seus conflitos entre peninsulares e crioulos. Seu surgimento permitiu que prosperasse um estilo de pensamento que prenuncia o moderno racismo. foram amamentados por aias indianas na primeira infância e. (No entanto. levou inevitavelmente ao aparecimento de eurasianos. p. em comparação com a prática anterior. até que suas extensões territoriais puderam ser imagi*° Rona Fields. têm o sangue contaminado por toda a vida". combatendo veementemente a admissão de indianos e eurindianos ao sacerdócio. os franciscanos portugueses de Goa combateram violentamente a admissão de crioulos na ordem. 252. mestiços em número suficiente?) Analogamente. 37 Menos de um século depois. alegando que "mesmo quando nascidos de pais brancos puros. The Portuguese Seaborne Empire. devemos aceitar muito pouco deles. Valignano estimulou ativamente a admissão de japoneses. 72-3. 42 A partir daí. as obras de Rousseau e de Herder. Já na década de 1550. o autocrata esclarecido Pombal não só expulsou os jesuítas dos domínios portugueses. 'havia perto de um milhão de escravos entre os cerca de 2. mas como grupos sociais evidentes. 39 Boxer demonstra que as barreiras e exclusões "raciais" aumentaram notavelmente no correr dos séculos XVII e XVIII. negros e índios. D.. p. o Iluminismo influenciou também a cristalização de uma distinção irrevogável entre metropolitanos e crioulos. *2 Kernilàinen. mas também em certas partes da África e da Ásia. bem como euramericanos. p. exerceram ampla influência. ainda assim. esse decreto citando antigas concepções romanas de cidadania imperial. que afirmavam que o clima e a "ecologia" tinham efeito constitutivo sobre a cultura e o caráter. 41 Ainda mais tipicamente. chineses e "indochineses" à profissão sacerdotal — talvez por não haver ainda. 3»lbid. nascidos em um hemisfério selvagem. . <3 Tenho ríslçado aqui as distinções rací-sias entre peninsulares e crioulos. mais antigo dos conquistadores planetários da Europa. 41 Boser. nem a disposição de uma metrópole n Só emeacada de proteger (-até ce-lo ponto) esses infelizes.70 71 Ademais. porém. principalmente nas Américas. como também classificou como infração criminosa chamar os súditos "de cor" por nomes ofensivos. The Portuguesa Seaborne Èmpirc. era extremamente fácil fazer a dedução vulgar e conveniente de que os crioulos. porém» encontramos Alexandre ^Valignano. portanto. o. 1415-1825.. diferentes dos metropolitanos e inferiores a eles — e. em 1800. 40 Indiretamente. o grande reorganizador da missão jesuíta na Ásia. p.' fornece uma ilustração adequada disso. a qual teve o pioneirismo de Portugal a partir de 1510. estrategicamente. eram. ou nenhum. Quanto aos mestiços e castiços. desde a antiguidade). Boxer. antecipavam o aparecimento da consciência nacional americana dos fins do século XVIII. assim. 257-B. nos seguintes termos: 3S -> Todas essas raças pardas são muito broncas e corrompidas e de índole a mais torpe. nossa atenção tem-se concentrado nos interesses dos funcionários na América — importantes. Manuel I pôde ainda "resolver" sua "questão judaica" pela conversão obrigatória em massa — sendo possivelmente o último governante europeu a considerar essa solução não só satisfatória como "natural". eram interesses que. Isso não deve ser compreendido como minimização da crescimanto paralelo do racismo crioulo em relação a mestiços.000 habitantes do Brasil português. Justificou.500.. 286. interesses menores. Pesada contribuição para essa ''Charles R. mais se assemelham aos indianos e menos são estimados pelos portugueses. eurafricanos. p. mas. Nationalism. The Portuguese Revotution ancf tfis Armed Forces Movement. inadequados para cargos de maior importância. No curso de seus vinte e dois anos no poder (1755-1777).

Febvre e Martin nos esclarecem. na mesma página. sobre si mesmos. na segunda metade do século XVIII. por toda a América espanhola. teve lugar uma verdadeira revolução. eles se tornavam um só. o jornal de Caracas. por ser o México. não leriam o que se produzia em Caracas se pudessem deixar de fazê-lo. Mais uma vez. porém.mais lento e intermitente.120 "jornais". desenvolveu-se uma associação tão estreita com o agente do correio que. Assimetria. estavam no entanto perfeitamente conscientes de sua existência. o gráficojornalista foi. No correr do século XVIII. p. em que portos). que podia repetir-se infinitamente em outras situações coloniais. bispos e preços. 47 De fato. 33. de maneira muito natural e até mesmo apolítica. Outro traço desse tipo era a pluralidade. morando na mesma rua. Entre 1691 e 1820. em outras. Um crioulo colonial. podia ler um jornal de Madri (o qual. corno nuestra América\m sido interpretado como revelador da vaidade dos crioulos locais que. O fato de os primeiros nacionalistas mexicanos escreverem. para que mercadorias. processo semelhante deu origem. porém. às primeiras gráficas locais. este preço cora aquele bispo. "5 Os gráficos que abriam novas oficinas incluíam sempre um jornal em sua produção.palavras. Daí a conhecida duplicidade do nacionalismo hispano-arnericano primitivo. Assim. e assim por diante. aí entrassem elementos políticos. da menos de 2. de início. quais os preços. Na América espanhola. à qual pertenciam esses navios. com o correr do tempo. um fenómeno essencialmente norte-americano. casamentos dos ricos. o que colocava lado a lado.72 73 nadas como nações. Os mais antigos jornais continham — ao lado de notícias sobre a metrópole — notícias comerciais (partidas e chegadas de navios. corno nosotros los americanos e. criava uma comunidade imaginada entre uma determinada congregação de companheirosleitores. mas permaneceu durante dois séculos sob o estrito controle da coroa e da Igreja. "'"'The Cornin9 of the Book'Pi 208"11 • Lvach. 28. sobre seu país. 44 A figura de Benjamin Franklin está indelevelmente associada ao nacionalismo crioulo na América do Norte. frequentemente. de Buenos Aires e de Bogotá. 461 dos quais duraram por mais de dez anos. Em outras palavras. pode ser menos evidente. porém. se tivesse oportunidade. a mais valiosa das possessões da América espanhola. não diria nada sobre seu mundo). senão único. Daí ter a oficina gráfica surgido como o ponto chave das comunicações e da vida intelectual da comunidade nos EUA. do qual eram comumente o colaborador principal. Até fins do século XVII. bem como ordenações políticas coloniais. . as pessoas pen47 48 Franco. Uma vez que o principal problema enfrentado pelo gráfico-jornalista era atingir os leitores. The Spsnísk-AmerJcen fievaSulions. A imprensa chegou cedo à Nova Espanha. ainda que de modo. só se podia esperar que. era a própria estrutura da administração e do sistema de mercado coloniais. noivas. An Introduction. Lembram-nos que "a imprensa de fato não se desenvolveu na América do Norte durante o século XVIII. a imprensa praticamente não existiu nesse século. e sua produção era quase que exclusivamente ligada à Igreja. só havia gráficas na Cidade do México e em Lima. até o advento do capitalismo editorial. Na América do Norte protestante. p. Um traço criativo desses jornais era sempre seu provincianismo. ainda que não lessem os jornais uns dos outros. de longe. -Os leitores de jornal da Cidade do México. até que os impressores descobrissem uma nova fonte de renda — o-jornal". A importância de seu negócio. Desse modo. esta. foram editados na-. 46 Quais eram as características dos primeiros jornais. norte ou sul-americanos? Eles começavam fundamentalmente como prolongamentos do mercado. porém. Naturalmente. este casamento com aquele navio. se consideravam o centro do Novo Mundo. mas muitos funcionários peninsulares. a alternância entre seu extenso âmbito e seu localismo particularista. Os periódicos hispano-americanos que se desenvolveram no final do século XVIII eram compostos com plena consciência da existência de provincianos em mundos paralelos ao seu.

74 . em 1767. p. uma vez que essa expressão denotava precisamente a fatalidade do nascimento extra-espanhol que compartilhavam. após a Insurreição. um maturrango [vulg. e o Uruguai e o Paraguai. de acontecimentos ocorridos em Buenos Aires. hoje.202 quilómetros quadrados. os mercados de Boston. 51 À guisa de conclusão provisória. As Treze Colónias originárias compreendiam uma área menor "Um peão velo queixar-se de que um inspetor espanhol de sua estância havia batido nele. associados à rápida expansão da fronteira oeste e às contradições geradas entre as economias do norte e do sul. tJaliorr$ ancf States. mas era antes uma indignação nacionalista do que socialista. e. a década de soberania independente do Texas (1835-1846). O Paraguai constitui um caso de excepcional interesse. A da Venazuala. meses mais tarde. mas isso se daria por intermédio dos jornais mexicanos." Ibid. e. Nesse sentido. o "fracasso" da experiência hispanoamericana em gerar um nacionalismo de âmbito hispanoamericano permanente reflete. 200-1. ao mesmo tempo. M Estando todas elas juntas geograficamente. não dos do Rio da Prata. um impacto significativo sobre seu alcance. mas multo tardiamente & por pouco mais de uma geração. também. realizada por poderes imperiais os mais terríveis e avançados?) Ao norte.965 dui!õrnetros quadrados. à medida que populações antigas e novas se deslocaram rumo ao oeste a partir do núcleo litorâneo do leste. 49 Evocação fascinante da lonjura e do isolamento das populações hispano-americanas á a descrição da fabulosa Macondo. 8.. a ponto de precipitar uma guerra de secessão quase um século depois da Declaração da Independência. no século XVIII. os laços afetivos de nacionalismo foram suficientemente elásticos. do que a razão por que a resistência se concebeu sob formas 50 51 A superfície. pára atuar como uma Argentina em relação ao Peru das Treze Colónias? Até mesmo nos EUA.78 savam em si mesmas como "americanas". 1760 e 1830. na verdade. 'Ora. acabaram por ter êxito em apropriar-se do título habitual de "americanos". Nova York e Filadélfia eram facilmente acessíveis uns aos outros e suas populações ligadas de maneira relativamente firme pela imprensa. 2. vimos que a própria concepção do jornal implica na refracão de "eventos mundiais" idênticos em um determinado mundo imaginado de leitores na língua vulgar. VarSaton-Watson. (A época da história mundial em que nasce cada nacionalismo tem. e da América do Sul hispínica. "8 Ao mesmo tempo. mesmo no caso dos EUA. 49 do que a Venezuela e equivalente a um terço do tamanho da Argentina. O que se pretende é menos explicar as bases socioeconômicas da resistência antinietropolitana no hemisfério ocidental entre. os crioulos protestantes de fala inglesa estavam em posição muito mais favorável para concretizar a ideia de "América" e. Não será o nacionalismo indiano inseparável da unificação administrativa e de mercado da colónia.'Se. veja sol Depois de três anos de revolução. Os "Estados Unidos" puderam multiplicar gradativamente seu número no correr dos 183 anos seguintes. Graças à ditadura relativamente benevolente alt estabelecida pelos jesuítas em princípios do século XVII. 311.£3-0. p. das Províncias Unidas do Rio da Prata. uma ideia de simultaneidade firme e sólida através do tempo. o nível geral de desenvolvimento do capitalismo e da tecnologia em fins do século XVIII. da Argentina.total das Tieze ColCnlas era de 835.. feita por Márquaz em Cem anos de solidão.439. provavelmente. e o atraso "local" do capitalismo e da tecnologia na Espanha em relação à extensão administrativa do império. digamos. 87.860.776. é conveniente voltar a acentuar a pretensão limitada e específica da exposição que fizemos até aqui. para essa comunidade imaginada. *9 Os crioulos mexicanos podiam saber. tivesse existido uma comunidade de fala inglesa de bom tamanho na Califórnia. do que "fazer parte deles". -o território passou para o Rio de Praia. Com a expulsão dos jesuítas da América espanhola pala Coroa. A imensa extensão do Império hispano-americano e o isolamento de suas partes componentes tornavam difícil imaginar uma simultaneidade como essa. essa guerra nos faz lembrar vivamente as que separaram violentamente a Venezuela e o Equador da GrãColômbia. em quão importante é. . tanto quanto pelo comércio. Contudo. espanhol peninsular] se atreve a erguer a mão para um americano!'. San Martin ficou indignado. os indígenas foram mais bem tratados do que em qualquer outra parte da América espanhola 9 o Guarani alcançou o steíus <Je língua impressa. não seria provável que tivesse surgido ali um Estado independente. e tais acontecimentos antes pareceriam "ser semelhantes aos" acontecimentos ocorridos no México. há elementos de "fracasso" ou retração comparáveis — a não incorporação do Canadá de fala inglesa.

em fins do século XVIII. e não que se fosse definindo gradativamente.76 nacionais "plurais" — e não de outras formas. A "nação" tornou-se.' Kcrnílãinen. O término do período de movimentos de libertação nacional bem-sucedidos na América coincidiu quase que exatamente com o início da época do nacionalismo na Europa. obviamente. por si sós. 52 No cumprimento desta tarefa específica. Em segundo lugar. que: "Denn/ecfes Volk i st Volk. neste capítulo. cão ao que estava no foco central de sua admiração ou desagrado. Em primeiro lugar. O liberalismo e o Ihiminismo tiveram evidentemente um efeito muito forte. 105. p. NOVOS MODELOS 54 É ilustrativo que a Declaração da Independência de 1776 fale somente de "o povo". a "nação" mostrou ser uma invenção que era impossível patentear. alteraram a fisionomia do Velho Mundo. sobretudo propiciando um arsenal de crítica ideológica do regime imperial e dos anciens regimes. nenhum deles proporcionou o quadro de uma nova consciência — a mal percebida periferia de sua visão. dois traços notáveis os distinguem de seus precursores. enquanto que o espanhol e o inglês jamais foram temas na América revolucionária. o tipo. es liai seine National Bil- . Por isso. ANTIGAS LÍNGUAS. enquanto a patavra "nação" só aparece pola primeira vez na Constituição de 1789. imprevistas. não tão remotos. ern outras palavras. como veremos. de importância fundamental. as "línguas impressas nacionais" foram de fundamental importância ideológica e política. Netionslism. Se considerarmos o caráter desses novos nacionalismos que. por vezes. Ela se tornou suscetível de plágio por mãos as mais variadas e. o centro de nossa análise será a língua impressa e o plágio.— em oposi-. ou a forma. os funcionários crioulos peregrinos e os homens de imprensa crioulos provincianos tiveram o papel histórico decisivo. nem o liberalismo. O que estou sugerindo é que nem o interesse económico. ou criaram. entre 1820 e 1920.após as convulsões da Revolução Francesa. Os interesses económicos ern jogo são bem conhecidos e. todos tiveram condições de aluar a partir de modelos disponíveis propiciados por seus predecessores remotos e. . nem o Iluminismo podiam criar. Com leviana despreocupação a respeito de alguns fatos evidentes extra-europeus. assim. em quase todos. Na verdade. de comunidade imaginada que se protegesse contra a espoliação daqueles regimes. o grande Johann Gottfried von Herder (1744-1803) declarou. algo a que se podia aspirar desde o início.

mas como sociedades contemporâneas. não como Paraísos perdidos. essas civilizações haviam-se desenvolvido completamente isoladas da história conhecida da Europa. nas teorias subsequentes sobre a natureza do nacionalismo. Tamburlaifia r/te Qraat (1587-158. na verdade do homem: suas genealogias eram exteriores e inaâsimiláveis ao Éden. surgida em 1516. os franceses tiveram a 'coragem de considerar 1 2 3 sua própria cultura como um modelo válido em igualdade de condições com a dos antigos. Deveríamos também sar parcimoniosos. [Isso tornou impossível] restabelecer a vida autárquica natural da antiga cultura. M/mesis. Nstionalism. causado inicialmente pelas escavações dos humanistas e» posteriormente. em 1497-1498. começou a havei1 um sentimento de que os eventos da história e da lenda clássicas. o humanismo cria uma perspectiva histórica em profundidade tal como nenhuma época anterior de que temos conhecimento jamais possuiu: os humanistas vêem a antiguidade em profundidade histórica e.] Essa concepção notavelmente e«£-européia da nation-ness como algo vinculado a uma língua própria e exclusiva teve ampla influência na Europa do século XIX e. Em sua maior parte. 5 Na esteira dos utopistas. e que as descobertas tinham dado fim à necessidade de buscar modelos em uma antiguidade desaparecida. ex* Mimesis. de maneira bastante paradoxal. pela expansão planetária da Europa.78 79 dung wie seine Sprache". de Swift (1726). e impuseram essa opinião ao resto da Europa". A batalha se iniciou em 1639. da cristandade.. A majestosa Ilha dos Houyhnhnms. da Marlowe. todo povo é povo.) O impacto das "descobertas" pode ser aferido pelas geografias peculiares das sociedades imaginárias da época. Como bem o diz Auerbach: 2 Com a primeira alvorada do humanismo. 42. KemilâMen. 343. A Utopia de Thomas Morus. . o qual participara da expedição de Américo Vespúcio à América. com 69 anos. que teve início já no século XIV. ' ["Assim. com o tempo. de Dtyden. rettala um Imperador contemporâneo reinante n 358-1707]. mas também por condições completamente diversas de vida.. o período intermediário de trevas da Idade Média. vieram os astros do Ilumimsmo. à concepção até então inaudita de uma "modernidade" explicitamente justaposta à "antiguidade". publicou seu poema Síécíe de LQUIU lê Grend.) Todas essas utopias enganosas. 4 No correr do século XVI. Aurangieb \fàlfi). Poderia afirmar-se que tinham de ser assim. Voltaire e Rousseau que.8]. Grifos nossos. em tempo e espaço. A Nova Atlântida de Francis Bacon (1626) foi talvez original sobretudo porque se localizava no Oceano Pacífico. e de modo algum necessariamente em benefício desta última. Quais as origens desse sonho? O mais provável é que.es e as ciências haviam atingido plena prosperidade em seu próprio tempo e lugar.esf" a assa "sua própria".se encontrem na profunda redução do mundo europeu. O desenvolvimento do que se pode chamar "história comparada" levou. ele possui sua formação nacional como possui sua língua". Com seu programa de restauração das antigas formas de vida e de expressão. Moníesquieu. "Na época de Luís XIV. simulava ser o relato de um marinheiro que o autor encontrou em Antuérpia. fictício ou real. descreve um fabuloso dirtasta morto desde 1407. A questão foi encarniçadamente debatida na "Batalha dos Antigos e Modernos" que dominou a vida intelectual francesa na última quarta parte do século • XVII. apresentava um mapa fictício de sua localização no Atlântico Sul. (Ô significado desses cenários fica mais claro se se considerar quão inimaginável seria localizar a República de Platão em qualquer mapa. cada vez mais. sobre esse pano de fundo. p. Grifo nosso. em atribuir "fisrton-r. não estavam separados do presente unicamente por uma extensão de tempo. Sudeste da Ásia e no subcontinente indiano — ou que eram completamente desconhecidas — o México asteca e o Peru incaico — sugeria um irremediável pluralismo humano. Viço. bem como os da Bíblia. 3 Citando mais uma vez Auerbach. mais limitadamente. 282. que afirmava que as ar. Observe que Auerbacn diz "cultuis" e não "língua". ou a ingenuidade histórica dos séculos Xíl e XIII. uma vez que foram compostas como críticas a sociedades contemporâneas. (Somente o tempo homogéneo e vazio permitiria acomodálas. p. "modeladas" sobre descobertas reais. a "descoberta" feita pela Europa das grandiosas civilizações de que até então só se ouvira falar vagamente — na China. 5 Analogamente. são descritas. p. da antiguidade. quando Charles Perra u't. Japão. há um claro contraste entre os cois famosos mongíis do teatro inglês.

11. ou de proveniência divina. De fato.degradação anterior no mercado pelo capitalismo editorial. Mas por quem? Logicamente. 9 0 A partir daquele momento. "Exatsmente porque a historiais língua. 8 Edward Said. '? A vigorosa atividade desses intelectuais profissionais foi fundamen. eram todas igualmente dignas de estudo e de admiração'. Como nos mostra de maneira muito proveitosa SetonWatson. ainda que com o risco de menor domínio da área. iam-se concebendo genealogias que só poderiam conciliar-se em um tempo homogéneo e vazio. outras civilizações se viam traumaticamente confrontadas por pluralismos que aniquilavam suas genealogias sagradas. classificação de línguas em famílias e. 337. Mas somente em fins do século XVIII é que o estudo comparado de línguas. económica e social convencional. com seus estudos de gramática comparada.• tal na moldagem dos nacionalismos europeus do século XIX." 8 Dessas descobertas surgiu a filologia. que levou a uma compreensão crescente de que. Como observa correiamente Hobsbawm. a civilização indiana era muito mais antiga do que a da Grécia ou da Judéia. do. Pa conquista inglesa de Bengala se originaram as investigações pioneiras de William Jones sobre o sânscrito (1786). Os dicionários bilíngues tornavam evidente um igualitarismo mais apro. dentro das capas do dicionário Checo-alemão/Alemão-checo. De lato. enquanto o imperialismo europeu abria vigorosamente seu caminho descuidado pelo mundo." Nations and States. possuíam idêntico staíus. por dedução científica. mantida tão rigidamente separada da historia política. Desde os primeiros momentos.80 81 pioraram uma não-Europa "real" para uma bateria de obras subversivas dirigidas contra as instituições sociais e políticas europeias então vigentes. em princípio. comércio e guerra — colecionaram listas de palavras de línguas não-européias. .'. o grego e o hebreu — foram obrigadas a misturar-se em condições de igualdade ontológica com variegada e plebeia multidão de línguas vulgares rivais. é. A marginalizarão do Império do Centro para o Extremo Oriente é simbólica desse processo. 7 Progressos nos estudos semíticos abalaram a ideia de que o hebreu fosse singularmente antigo. p.. s Hobsbawm. E a maior parte de sua clientela imediata constituía-se. escritório para a casa. Otientatism. oficina para a escola. de estudantes universitários ou préuniversitários. as descobertas e conquistas causaram também uma revolução nas ideias europeias a respeito da língua. que se podiam transportar (ainda que às vezes com dificuldade) da . missionários. tornou-se possível pensar a Europa como apenas uma entre muitas civilizações. ali estava "a primeira ciência a encarar a evolução comp sua própria essência". 6 No devido teiripo. as línguas. em total contraste com a situação na América entre 1770 e 1830. as antigas línguas sagradas — o latim. Se agora todas as línguas compartilhavam um status (intra)mundano comum. holandeses e espanhóis. um dos aspectos mais valiosos do texto de Seton-Wauon é exatamems a stençáo que dedica à historia da língua — embora se possa discordai do modo como a utiliza. A afirmação de Hobsbawm de que "o progresso das escolas e das universidades dá a medida do nacionalismo. uma vez que agora nenhuma delas pertencia a Deus. p. o século XIX foi. sobretudo as das universidades. pelos usuários da língua. que seriam reunidas em dicionários elementares. "Â língua tornouse menos urna continuidade entre um poder exterior e o falante humano do que um terreno interior criado e realizado. por motivos práticos — navegação. de caráter científico. marinheiros. p. e não necessariamente a Escolhida. num movimento que complementava sua . uma idade do ouro para os lexicógrafos. gramáticos. "que multiplicou a antiguidade extra-européia. p. ' Hobsbawm. e particularmente as 10 Assim. exatamente como as escolas. Mais uma vez. The Age of Revolulion. ou por elas sustentados. The Age of Revolution. Da expedição de Napoleão ao Egito veio a decifração dos hieróglifos por Champollion (1835). lado alado. entre eles mesmos.ximador entre as línguas — fosse qual fosse a realidade política exterior. é quçtfné pareceu desejável associá-la a estas. conversão. comerciantes e soldados portugueses. realmente se iniciou. na Europa e em sua periferia imediata. então. em geral'. hoje em dia. reconstruções de "protolínguas" tiradas do esquecimento. 136. não menos inevitavelmente. 337. filologistas e literatos das línguas vulgares. Os rriourejadores visionários que dedicavam anos e anos à compilação dos dicionários eram necessariamente levados para as grandes bibliotecas dá Europa. pôr seusnovps' donos: os falantes — e leitores — nativos de cada língua.Os dicionários raonolíngúes eram enormes compêndios do tesouro impresso de cada língua. ou a melhor.

o padre católico Josef Dobrovsky (1753-1829) escreveu. Embora. se não para outras épocas e lugares. assim. esse grupo reduzido. " Pode-se. quando cada pequena explosão acende outras. 15 • Os primeiros jornais gregos surgiram em 1784.000 estudantes universitários em toda a Europa. ver Narions and States. mas estratégico. nos dos otomanos. l2 Entusiasmados pelo filo-helenismo dos centros da civilização europeia ocidental. certamente está correia em relação à Europa do século XIX. na época morando em Viena e trabalhando na escolta de Maria Teresa. franceses e ingleses não apenas havia tornado acessíveis. reconstituir essa revolução lexicográfica como se poderia fazer com o estrondàr de um arsenal em chamas. que. foi publicado o dicionário pioneiro checo-alemão. que se inicia com esta sugestiva frase: "Uma nação nasce quando algumas pessoas decidem que ata deve existir". uma gramática oficial.. l5 Entre 1789 e 1794. na análise que se segue baseei-me grandemente em Seton-Waison. em 1848.. e. produziu um dicionário russo em seis volumes. e um total aproximado da 48. "The Present State of Cívilization In Greece" encontra-se nas p. 44. em discurso para um público francês. p. Ele também nos faj ver. n Estímulo ulterior foi propiciado Não pretendendo simular qualquer conhecimento especializado sobre a Europa Leste e Central. A respeito do romeno. isto é. como também recriavam.000. No último quartel do século. 167). em 1802. ou devemos tentar tornar-nos novamente dignos desse nome. a Academia Russa.000 alunos no secundário. 43-4. Em meados do século XVIII. se tornaram seus paladinos mais conscientes". numa população de 68. a que se seguiu.82 83 universidades. p. eles n5o desempenharam virtualmente pape! algum na Revolução Francesa (p.. o número de adolescentes nas escolas ainda era mínimo pelos padrões de hoje: não mais de 19. Hungaty. 177. porém.000 da Rússia Imperial. fulgurante e firmemente pagã. em transformá-los em seres dignos de Péricles e de Sócrates. virtualmente todo o corpus existente dos clássicos gregos. «> Ibid. inicialmente bem-sucedido nos reinos dos Habsburgos e. Geschichte der bòhmische Sprache una ãltern Literatur. 40. em 1850. até que a explosão total final transforma a noite em dia.000 estudantes de lyoée na França. p. p. 16 Sobre o nascimento do nacionalismo húngaro. 17 Paul Ignoius. Analogamente. o grande novo porto russo rfe grãos". Philike Hetairia. em 1814." Talvez valha a pena observar que assa passagem sã encontra em uma subsecão Intitulada "The Inventing of trie Hu-ngarian Nation". 166-7). a antiga civilização helénica. na época. em Paris.. de Josef Jungmann. ou não devemos ostentá-lo. Ele contém uma análise espantosamente moderna das bases sociológicas de nacionalismo grego. a maioria dos quais havia estudado ou viajado para fora dos limites do Império Otomano. em 1842. Adamantios Koraes (que mais tarde. proveitosamente. esse "passado" tornouse cada vez mais acessível a um pequeno número de jovens intelectuais cristãos de fala grega. "De fato o provou. o checo fosse ainda a língua apenas dos camponeses da Boémia (a nobreza e as classes médias ascendentes falavam o alemão). seguidos de um movimento. 20. * i 12 The Age a! Revolufion. dicionários e histórias do romeno. Grifo nosso. em cinco volumes. foi fundada "em Odessa. escreve Ignotus ser ele um acontecimento "suficientemente recente no tempo: 1772. Ambos representaram uma vitória da língua vulgar sobre a língua eslava da Igreja. juntamente com os anexos filológicos e lexicográficos necessários. . já entrado o século XVIII. Essa dolorosa descoberta. O texto integrai de Koraes. ano da publicação de algumas obras ilegíveis do versátil autor húngaro GyÕrgy Bessenyei. 150-3. 13 Símbolo dessa mudança de consciência são as seguintes palavras de um desses jovens. Nas revoluções deste ano. O próprio Hobsbawm observa que. desempenhou papel essencial (p. não lança os gregos no desespero: somos os descendentes dos gregos. 1-1 Ibid. em prol da substituição do alfabeto cirílico pelo alfabeto romano (distinguindo nitidamente o romeno das vizinhas línguas eslavas ortodoxas). A magna opera de Bessenyei destinava-se a provar que a língua húngara adaptava-se ao mais elevado género literário". embora a educação se disseminasse rapidamente na primeirã metade da século XIX. As instituições académicas não tiveram significado para os nacionalisrnos americanos. em fins do século XVIII. p. p. empenharam-se em "desbarbarizar" os gregos modernos. o extraordinário trabalho de estudiosos alemães. a nação reconhece o espetáculc horroroso de sua ignorância e estremece ao avaliar a distância 11 que a separa da glória de seus ancestrais. em Viena. a sociedade secreta responsável sm grande medida pelo levante antiotomano de 1821. moldada na Academia Francesa. 166. porém. dizem tacitamente a si mesmos. . em dezenas de livros. embora houvesse 6. posteriormente. em formas impressas de fácil manejo. 157-82. mas seu ímpeto polémica era mais convincente do sue o valer estático dos exemplos que criou. se tornou um ardoroso lexícógrafo!). 13 Ver a introdução de Elíe Kedouríe a Nalionalism ín Ásia en<j África. em 1803: M Pela primeira vez.000 estudantes universitários em Paris. em 1792. primeira história sistemática da língua e da literatura checas. Em 1835-1839. apareceram gramáticas.

Nations and States. 137. apareceu a primeira gramática ucraniana — apenas 17 anos depois da gramática oficial russa. 105-7. A reaçêo foi suficientemente violenta para persuadir seu sucessor. il No caso da Noruega. Hungary. outros lago o acompanharam./Víf/ona/ís/n. . em nome da qual se poderia propor reivindicações políticas mais vigorosas". "Ibid. SetoivWatson. Em 1875. Ivan Kotlarevsky escreveu sunAeneid. encontramos o nacionalismo africâner a que deram início os pastores e literatos bóeres que. três línguas literárias diferentes se formaram ao norte dos Bálcãs: o esloveno. 23 z°Kemilâinen. O uso dessa língua foi a etapa decisiva na formação de uma consciência nacional ucraniana". Isso significava urna rejaiçSo do "otomano". No século XVIII. O estudo do folclore e a redescoberta e reconstituição da poesia épica popular caminhavam par a par com a publicação de gramáticas e dicionários e levava ao surgimento de periódicos que eram úteis para padronizar a língua finlandesa literária [isto é. p. expresso de início por textos escritos em latim e em sueco. 48). 1E8-61. Quando ele saiu à frente. como língua principal da administração imperial. Mas o "despertar" de um interesse pela língua finlandesa e pelo passado finlandês. havia sido geral a ideia de que os "búlgaros" eram da mesma nação dos servos e dos croatas. Sua primeira expressão política foi a reação hostil da nobreza magiar que falava o latim. Em 1804. as obras de Taras Shevchenko. 23Kohrv. Em 1798. a língua oficial tornou-se o russo. em consequência do trabalho pioneiro de estudiosos locais. Ver também adiante. "o pai da literatura húngara". a cujo respeito observa Seton-Watson que "a formação de uma língua literária ucraniana aceita deve mais a ele do que a qualquer outro indivíduo. Ê típico que Ibrahlm Sinssi. M E as sementes do nacionalismo turco podem ser facilmente descobertas no surgimento de uma ativa imprensa em língua vulgar em Istambul. 2329261. do persa e do áraba. Nations and States. porém. na década de 1780. muitos deles produtos do American College de Beirute (fundado em 1866) e do College Jesuíta de São José (fundado em 1875) foram os que mais colaboraram para o renascimento do árabe clássico e para a disseminação do nacionalismo árabe. 1790-1792). nos anos iniciais do século XIX. professores. em 1846. pastores e advogados. na década de 1820 passou a manifestar-se cada vez mais na língua vulgar. foi fundada a Universidade de Karkov. p. que se tornou rapidamente o centro de uma explosão da literatura ucraniana. 18 No período de 1800-1850. p. da pequena cidade provinciana de Trnava para Budapeste. 72. em 1784. Leopoldo II (r. Os^absburgos. Shevchenko foi destruído na Sibéria. a primeira organização nacionalista ucraniana foi fundada em Kiev — por um historiador! No século XVIII. na década de 1870. o servo-croata e o búlgaro. havia sete diários em Ungua turca em Constantinopla. na década de 1870. The Age of fjaííana!ism. do que viria a ser a Universidade de Budapeste. encorajaram um pouco os nacionalistas ucranianos na Galícia — para contrabalançar os poloneses. o nacionalismo surgiu com a nova gramática (1848) e o novo dicionário (1850) noruegueses de Ivar Aasen. Após a união do território aos domíSeton-Watson. 19 Pouco tempo depois. textos que eram uma resposta e um estímulo às reivindicações de uma língua impressa especificamente norueguesa. o ucraniano (o pequeno russo) era desdenhosamente tolerado como língua de caipiras. em 1878 passaria a existir separadamente um Estado nacional búlgaro. Se. Capitulo V). Em outra parte.84 85 pelas inúmeras publicações de Ferenc Kazinczy (1759-1831). Em 1819. p. contra a decisão do imperador José II de substituir o latim pelo alemão. em fins do século XVIII. ainda que com pronúncia completamente diferente.. a língua de Estado na Finlândia de hoje era o sueco. que por muito tempo compartilhara uma língua escrita com os dinamarqueses. na década de 1830. e pela mudança. 21 p. Os maronitas e os coptas. poema satírico extremamente popular sobre a vida ucraniana. p. porém. impressa]. 16 nios do tzar. foram bem-sucedidos em fazer do dialeto holandês local uma língua literária e denominando-a não mais como europeia. É ilustrativo que Kazinczy tenha apoiado potiticamante José II nessa questão flgnotus. 208-15. houvesse acabado de vohar de cinco anos de estudos na França. na década de 1830. 20 Os líderes do nascente movimento nacionalista finlandês eram ''pessoas cuja profissão consistia em grande medida no manejo da língua: escritores. Não é preciso diíer que o Tzarismo liquidou rapidamente com essas passoas. E vieram a seguir. em 1809. '9 Nations and States. fundador do primeiro jornal desse tipo. e de fato haviam participado do Movimento Ilírico. a restaurar o latim. p. língua oficial dinástica que misturava B ementas do turco.

em 1804. que significou também especialização burocrática. mas. é patente que todos esses lexicógrafos. os profissionais liberais. sua metade civil subiu de O. elas eram. os Estados mais adiantados da Europa. plena de sinecuras e dominada pela nobreza: a porcentagem de homens originários da classe média nos postos mais elevados de "Hobsbawm. Áustria and Germany sints WJ5. mesmo na^GrãBretanha e na França. decrépita. The Age of Revotution. depois de Kazinczy.86 87 E não se deve esquecer de que essa mesma época assistiu à popularização de outra forma de página impressa: a partitura. essa "ascensão" deve ser compreendida em suas relações com o capitalismo editorial em língua vulgar. Béía Bártok. não com base na língua ou na cultura que compartilhassem. ou se o Rei da Inglaterra se casava com uma princesa espanhola — terão eles alguma vez conversado verdadeiramente um com o outro? As solidariedades eram produto do parentesco. da língua impressa. Veja-se até mesmo a máquina estatal austro-húngara. Kateen&tein. p. lenta e interrompida em outros. só veio a ser uma classe mediante muitas cópias. 229. pelo menos. eles produziam para o mercado da imprensa. Eles não tinham uma razão necessária para conhecer a existência um do outro. os cortesãos e membros do clero. Se observarmos que. depois de Aasen. a ascensão das burguesias comercial e industrial foi. A Europa de meados do século XIX assistiu a um rápido aumento das despesas do Estado e das dimensões das burocracias estatais (civil e militar). da dependência e de lealdades pessoais. 50% na Bélgica. quase metade da população ainda era analfabeta (e na atrasada Rússia. Quem eram esses consumidores? No sentido mais geral: as famílias das classes leitoras — não apenas o "pai que trabalhava". ainda que tipicamente em ritmo mais lento e mais tardio: o componente de classe média do corpo de oficiais subiu de 10% para 75%. em 1829. com base' em parentescos e amizades comuns. p. indicam que sua coesão como classe era tão concreta quanto imaginada. Nas forças armadas. não se casavam com a filha um do 25petei J. Um dono de fábrica em Lille só estava ligado á um dono de fábrica de Lyon por reverberação. em 1859. extremamente irregular — maciça e rápida em alguns lugares. filólogos. além das antigas classes dirigentes da nobreza e da pequena nobreza fundiária.Mas e a burguesia? Eis aí uma classe que. "Entre 1830 e 1850. O tamanho relativamente pequeno das aristocracias tradicionais. cálculos maquiavélicos à parte. Depois de Dobrovsky veio Smetana. Mas não importa onde tenha ocorrido. folcloristas. 112. jornalistas e compositores não desenvolviam suas atividades revolucionárias no vácuo. ou. 75% nos EUA e mais de 90% nos Países Baixos". a despesa pública per capita aumentou de 25% na Espanha. 40% na França. a despeito da inexistência de qualquer guerra local de maior importância. para 55. gramáticos. e se vinculavam. as camadas médias ascendentes de pequenos funcionários plebeus. abriu as portas da nomeação oficial a números muito maiores e a origens sociais muito mais variadas do que até então. em 1878. quase 98%). K Se a expansão das classes médias burocráticas foi um fenómeno relativamente uniforme. tipicamente. falando figuradamente. entre 1859 e 1918. ao público consumidor. DisfainedParfners. 2* A expansão burocrática. por intermédio desse silencioso bazar. e 35. As classes dirigentes pré-burguesas geraram sua própria coesão em certo sentido independentemente da língua. Nobres "franceses" podiamajudar reis "ingleses" contra monarcas "franceses". ocorrendo em taxas comparáveis tanto nos Estados adiantados quanto atrasados da Europa. Mais concretamente. passando por 27. Se o governante do Sião tomava uma'nobre malaia como concubina. 70% na Áustria. revelou-se a mesma tendência. e as burguesias comercial e industrial. claro. suas bases políticas estáveis. e assim por diante pelo nosso século adentro. Afinal de contas. "classes leitoras" significava gente de algum poder. e a personalização das relações políticas subentendidas nas relações sexuais e na herança. Dvorak e Janácek. . ainda em 1840. mas também a esposa rodeada de criadas e os filhos em idade escolar. Ao mesmo tempo. 44% na Rússia. Grieg. 74. Uma nobreza analfabeta ainda podia atuar como nobreza.

o poder e a língua impressa mapeavam reinos distintos entre si. não tinha nada a ver com o nacionalismo alemão. os consumidores potenciais da revolução filológica. Para perceber por que. pelo menos de início.proporção. 165. mas uma de cada 8 pessoas reivindicava algum status aristocrático. por exemplo. E tal expectativa é corroborada. onde virtualmente não existia uma burguesia magiar. Poderia ser a língua de Estado. das comunicações e das máquinas estatais. especialmente num mundo em que essas /línguas se interpenetravam continuamente. f>. dos quais a Áustria-Hungria é provavelmente o exemplo extremo. há perto de dois séculos. Assim. era a coali26 Como vimos. a língua inglesa expulsou o gaélico da maior parte dai Irlanda. . Na Hungria. é preciso que se retorne ao contraste básico antes traçado entre a Europa e a América. criou novos impulsos vigorosos no sentido da unificação das línguas vulgares dentro de cada reino dinástico. 44-55: vertarnbCmJàszi. essas solidariedades tinham seu maior alcance limitado por legibilidades em língua vulgar. as línguas de Estado vulgares assumiam cada vez mais poder e status em um processo que. * O crescimento generalizado da alfabetização. Na América. Em reinos como a Grã-Bretanha e a França. profissionais liberais. em meados do século. pode-se dormir com qualquer pessoa.p. as consequências foram inevitavelmente explosivas. aos que não a utilizassem. . língua vulgar. assegurava vantagens enormes àqueles de seus súditos que já utilizassem aquela língua impressa. que caracterizou o século XIX. Assim. 26 a interpenetração geral a que aludimos acima não teve consequências políticas dramáticas.) Em muitos outros reinos. Pois é difícil imaginar uma burguesia analfabeta. onde. Nesse ínterim. ela mesma alemã como alguns podem considerá-la. da imprensa ou da literatura. Na Europa. da indústria. mas desapareceu quase imediatamente a seguir. então. a exaltação do alemão no século XIX pela corte dos Habsburgos.francês limitou o âmbito do bretão e o castelhano compeliu o catalão à marginalidade. em cada reino dinástico. mas cada vez mais letrado.) Em termos das clientelas de nossos lexicógrafos. em termos de história mundial. porém. Mas tal clientela não estava plenamente realizada quase em parte alguma e as combinações dos consumidores concretos "variava consideravelmente de região pára região. ser a língua dos negócios. Dizendo doutro modo. No casa do Beira Unida. por razões absolutamente externas. as burguesias foram as primeiras classes a consumar solidariedades numa base essencialmente imaginada. Mais típica. Em outras palavras. ocorreu que houvesse. na mesma. como veremos adiante mais detalhadamente. seria lícito esperar que um nacionalismo cônscio de si mesmo surgisse por último. era em grande medida não planejado. Excelente e pormenorizada exposição encontra-se em Ignotus. p. a adoça» de línguas vulgares corno Itnguss de Estado nesses dois reinos estava em andamento desde muito cedo. (Em tais circunstâncias. Porém. numa Europa do. mas só se pode ler a escrita de um certo povo. havia um isomorfismo quase perfeito entre o âmbito dos diversos impérios e o de suas línguas vulgares. esse tipo de coincidência era raro e os impérios dinásticos intra-europeus possuíam basicamente mais de uma língua vulgar em seu território. TheDissolution. uma coincidência relativamente alta entre língua de Esta» do e língua da população.88 89 outro. O latim se manteve como língua de Estado na Áustria-Hungria até inícios da década de 1840. Membros da nobreza. do comércio. e parecia ameaçador. pequenos nobres fundiários. mas não poderia. século XIX. uma vez que. em que. no século XIX. a preservação do húngaro impresso contra a maré montante do alemão era defendida por segmentos da nobreza menos importante e da pequena nobreza fundiária empobrecida. 21 Pode-se dizer o mesmo dos leitores poloneses. Em seu vasto domínio desmantelado. 27 Hobsbawm. Grifei a palavra qualquer. o. & submissão militar do Gaeltactrt no início do Século XVIII B a depressão da década de 1B40 foram poderosos fstores concorrentes. nem herdavam as propriedades um do outro. funcionários e homens do mercado — eram estes. o latim fora vencido pelo capitalismo editorial em. 224-5. Mas chegavam a visualizar de um modo geral a existência de milhares e milhares de outros como eles por intermédio da língua impressa. The Age effíevolutlon. das ciências. (Esses casos aproximam-se! mais dos da América. em meados do século XIX.Hungary.pelos registros históricos. entre os naturais da terra que lessem a língua vulgar oficial. poliglota. contudo. a substituição do latim por qualquer língua vulgar. não admira pois que se encontrem conjuntos muito diferentes de clientes segundo as diferentes condições políticas.

dão a seus filhos melhor educação. The Age of fígvoàittón. Até certo ponto. a impressionante formulação de Nairn -— "A nova intelligentsia de classe média do nacionalismo tinha de convidar as massas a entrar na história. 30 Mas por toda parte. talvez. pois. o que onçarã ds frente é Constantinopla. Por que "ela" irrompeu. opuseorg. E3 (Egito) e 103 (Pérsia). os segundos e terceiros. Isso dependia muito das relações entre essas massas e os missionários do nacionalismo. E .90 91 zão entre os nobres menores.. Coalizões de leitores. 340. na qual. com composições que se localizam de maneira diversa na gama de variação entre a húngara e a grega. p. p. e próximo dele. á por sobre o ombro. Ela nem mesmo projetou 'líderes' do tipo a que nos habituaram as revoluções do século XX. jornais e formulações ideológicas. a menos que nos voltemos finalmente para o plágio. pelo Oriente Médio. ingressou na memória acumuladora da imprensa. ver Seton-Watson. desenvolveram-se de maneira semelhante por toda a Europa Leste e Central e. Kohn. sem exclusão das meninas. ram-se aos revolucionários poloneses. onde um clero oriundo do campesinato. os primeiros forneciam os líderes de "reputação". 23 Para exemplos. Mas será difícil perceber por que o convite parecia tão atraente. do francês. enviam para a Europa. no sentido moderno. com o avançar do século. O agradável Koraes oferece-nos uma vinheta precisa da clientela inicial do nacionalismo grego. 29 Em que medida as massas urbanas e rurais participavam das novas comunidades linguisticamente imaginadas naturalmente também variava muito. 169. jovens ávidos de aprender. p. aquela experiência foi modelada por milhões de palavras impressas como um "conceito" sobre a página impressa e. 28Kedourie. mitos. como um modelo. ainda que estes houvessem de fato proclamado a abolição da servidão.. 170. preferindo massacrar os cavalheiros e confiar nos funcionários do Imperador". à medida que era maior a alfabetização. na verdade. os académicos. The Age of Nationalism. 80. por que "ela" foi bem-sucedida ou fracassou. que possuíam alguns habitantes abastados e algumas escolas e. Nutions and States. alguns indivíduos que podiam pelo menos ler e compreender os autores antigos.. Hobsbawm observa que "A Revolução Francesa não foi feita nem conduzida por um partido ou movimento organizado. até que surgisse a figura pós-revolucionária de Napoleão". p. e o convite tinha de ser escrito numa língua que elas entendessem" 3I — está correta. tornava-se mais fácil conseguir o apoio popular. A irresistível e desconcertante concatenação de eventos experimentada por seus autores e por suas vítimas tornou-se uma "coisa" — e com um nome próprio: Revolução Francesa. nem por homens que estivessem procurando levar a cabo um programa sistemático. do alemão e do inglês. dinheiro e facilidades de mercado. Grifos nossos. as escolas já estão sendo ampliadas e o estudo de línguas estrangeiras e até mesmo das ciências que são ensinadas na Europa [sic] está sendo introduzido nelas. Q otomano nSo 6 contudo uma língua estrangeira. em que predominavam os intelectuais e os empresários: 2S Nas cidades que eram menos pobres. Quando Koraes olha para a "Europa". a suas expensas. e os últimos. conseqúèntemente. Num extremo. Os ricos patrocinam a impressão de livros traduzidos do italiano. frequentemente. no devido tempo. p. . Tudo aqui é exemplar. 145 (Bulgária). Do mesmo modo que uma imensa rocha informe se torna um penedo arredondado pela ação de inumeráveis gotas de água. Outro extremo é sugerido pelo comentário irónico de Hobsbawm de que: "Os camponeses galicianos. pode-se indicar a Irlanda. em 1846. tudo passa a ser tema de polémicas infindáveis por parte de partidários e de ad30 3' 3! TheAgecfRewkttion. os profissionais liberais e os homens de negócio. poesia. 153 (Boémia) e 432 (Eslováquia). Nationallsm in A$i» and África. 3Z Mas uma vez que ela aconteceu. as fuigras esposas som trabalho ingressam no mercado da impransa. The Sreak-up ofSrítBrrt. quando o 'povo encontrava um novo motivo de orgulho na exaltação pela imprensa de línguas que haviam falado humildemente por tanto tempo. 72 (Finlândia). desempenhava papel mediador essencial. a revolução começou mais cedo e pôde progredir mais rápida e animadoramente. p. e por que alianças tão diversas eram capazes de emiti-lo (a intelligentsia de classe média de Nairn não era absolutamente o único anfitrião). a que "ela" visava. Em algumas dessas cidades.

guetos.. 45.. B nobreza media e infericr "conversava em um latim vulgar salpicado de expressões do magiar. Da confusão americana brotam estas realidades imaginadas: Estados-nação. instituições monárquicas. absolutismos. . já havia um "modelo" "do" Estado nacional independente à disposição para ser plagiado. No Início do século XIX. mais preciso dizer que o modelo era uma complexa mistura da si e mantos franceses e americanos. impunha certos "padrões" em relação aos quais não se permitiam desvios muito acentuados. e assim por diante. pelos grupos sociais mais retrógrados. seja o que for.que'imediatamente. 35 • Não que isso fosso uma questão muito definida. Mas a palavra impressa eliminou o primeiro quase^. p. a escravidão legal era inimaginável — também porque o modelo conceptual estava colocado num lugar inerradicável. e a liquidação de seus contrários: impérios dinásticos. mas também 0.) Mas exatamente porque era então um modelo conhecido. e da língua compartilhada das repúblicas "modais" da América do Sul. a alta aristocracia magiar falava irancâs ou alemão. Ap&nas um terço dns servos falavo magiar. mesmo quando liderados. etc. Metade dos súdito» do reino da Hungria sra nõo-rnagiar. 3i queria dizer um Estado em que o locus fundamental da soberania tinha que ser a coletividade dos falantes e leitores húngaros. os movimentos de independência na América se tornaram "conceitos". "projetos". soberania popular. provavelmente por analogia com a revolução política da França". o caráter "populista" dos primeiros nacionalismos europeus. provavelmente. Desse modo.. A coisa Isicl existia na Grã-Bretanha antes da palavra. Hungtry. então isso queria dizer "os húngaros". assim que se imprimiu a respeito deles. ainda que lembrado.. de tal modo que. J3 De modo muito semelhante. da ESrvio B do romano. era mais profundo do que na América: a servidão tinha que terminar. a lógica da peruanização de San Martín estava funcionando. vassalagens. no devido tempo. aparece como uma anomalia inconsequente. o medo de Bolívar das insurreições de negros e a convocação de San Martin de seus indígenas à peruanidade chocam-se caoticamente. e. Até mesmo as pequenas nobrezas húngara e polonesa. tiveram grandes dificuldades em não realizar um espetáculo de "convidar a entrar" (ainda que apenas até a copa) seus compatriotas oprimidos. bandeiras e símbolos nacionais. bem coma do alemão vulgar. a promoção da educação popular. Ibid.) Além disso. atrasadas e 33 reacionárías.92 versários: mas de que "ela" foi alguma coisa. se não antes. e assim por diante. servidões. Na "realidade"." Ignoius. instituições republicanas. a liquidação da servidão. cidadania universal. ninguém jamais teve muita dúvida. nobrezas hereditárias. Se "húngaros" mereciam um Estado nacional. 34 (Os primeiros grupos a fazê-Io foram as coalizões de pessoas instruídas baseadas em línguas vulgares marginalizadas. Se quiserem.45-6 e 81. na segunda década do século XIX. demagogicamente.. nesse contexto. de fato. p. do que a "supressão" generalizada da escravidão maciça dos EUA "modais" do século XIX. todos eles. até depois de 1870. De fato. que este capítulo focalizou. a expansão do sufrágio. Compare-sei "O próprio nome de RsvoluçSo Industrial reflete seu impacto relativamente tardio sobre a Europa. Mas a "realidade observável" da França. (Nada mais chocante.0 eslovaco. a validade e a generalidade do 'projeto se confirmaram indubitavelmente pelo pluralismo dos Estados independentes. 34 Seria. "modelos" e. Não foi senso na década de 1820 que socialistas Ingleses e franceses — eles próprios um grupo sem precedentes — a inventaram. eram monarquias restauradas e o dinasticismo ersatz do sobrinhoneto de Napoleão.

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