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Benedict Anderson

NAÇÃO E CONSCIÊNCIA NACIONAL
Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira

He regards it as his task to brush history against the grain* Walter Benjamin, fí/uminations Thus from a Mixture of ali kinds began, That Hefrogeneous Thing, An Englishman: In eager Rapes, and furious Lust begot, Betwixt a Painted Britton and a Scot. Whose gend'ring Offspring quickly learnt to bow, And yoke their Heifers to the Roman Plough: From whence a Mongrel half-bred Race there carne, • With neither Name nor Nation, Speech or Fame. In whose hot Veins new Mixtures quickly ran, !nfus'd betwixt a Saxon and a Dane. While their Rank Daughters, to their Parents just, Rece'iv'd ali Nations with Promiscuous Lust. This Nauseous Brood directly did contaín The well-extracted Blood of Engfíshmen...*" Excerto de Daniel Defoe, The True-Bom Englishman

SUMÁRIO

l Encara como tarefa sua contrariar o sentido da história. ' Assim da uma mistura de todos os tipos começou £ssa coisa heterogénea, um inglês; Gerado em estupros ardentes e arrebatada luxúria Entre um bretso sardento e um escocês'. ' Cuja prole procriadora logo aprendeu a curvar-se, E jungiu suas novilhas ao arado romano: .E dal uma raça mestiça impura se originou, Sem nome nem nação, sem fala ou fama. Em cujas vaias ardentes novas mesclas logo se fundiram. Infundidas entre um saxão e um dinamarquês. Enquanto suas filhas nobres, exatamente como os pais. Receberam todas as nações com promíscua luxúria. Essa raça repulsiva continha do fato diretamente O sangue de boa extração dos ingleses...

1. Introdução • 2. Raízes culturais 3. As origens da consciência nacional',, 4. Antigos impérios, novas nações 5. Antigas línguas, novos modelos 6. Nacionalismo oficial e imperialismo 7. A última onda _____________ 8. Patriotismo e racismo 9. O anjo da história Bibliografia __ índice alfabético

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INTRODUÇÃO

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Talvez não se tenha ainda percebido que está ocorrendo uma transformação fundamental na história do marxismo e dos movimentos marxistas. Seus sinais mais perceptíveis são as recentes guerras entre o Vietnã, o Camboja e a China. Essas guerras são de importância histórica mundial, por serem as primeiras a ocorrer entre regimes cuja independência e credenciais revolucionárias são inegáveis, e porque nenhum dos beligerantes procurou, senão perfunctoriamente, justificar o derramamento de sangue em termos de uma perspectiva teórica marxista aceitável. Embora fosse ainda perfeitamente possível interpretar os conflitos fronteiriços de 1969 entre a China e a União Soviética, as intervenções militares soviéticas na Alemanha (1953), na Hungria (1956), na Checoslováquia (1968) e no Afeganistão (1980), em termos de — conforme o gosto — "imperialismo social", "defesa do socialismo", etc., ninguém, penso eu, acreditará seriamente que esse tipo de vocabulário tenha muito a ver com o que ocorreu na Indochina. Se a invasão e a ocupação vietnamitas do Camboja, em dezembro de 1978 e janeiro de 1979, representaram a primeira guerra convencional em grande escala empreendida por um regime marxista revolucionário contra ou-

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iro. ' o ataque da China ao Vietnã, em fevereiro, confiras;/ rapidamente o precedente. Apenas os mais confiantes -•leriam apostar que, nos anos finais deste século, qualquer deflagração importante de hostilidades entre Estados encontrará a União Soviética e a China Popular — para não falar nos Estados socialistas menores — apoiando ou combatendo do mesmo lado. Quem pode estar seguro de que a lugoslávia e a Albânia não irão entrar em choque algum dia? Os variados grupos que pedem a retirada do Exército Vermelho de seus acampamentos na Europa Oriental devem recordar o quanto a presença dominante dessas forças tem evitado, desde 1945, conflitos armados entre os regimes marxistas da região. Essas considerações são úteis para salientar o fato de que, desde a Segunda Grande Guerra, cada uma das revoluções vitoriosas tem-se definido em termos nacionais — a República Popular da China, a República Socialista do Vietnã, e assim por diante — e, ao f aze-Io, basearam-se firmemente em um espaço territorial e social herdado do passado pré-revoliicionário. Ao contrário, o f ato de a União Soviética compartilhar com o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte o mérito incomum de não incluir a nacionalidade em sua denominação indica que ela tanto é a legatária dos Esta-r dos dinásticos pré-nacionais do século XIX, quanto a precursora de uma ordem internacionalista do século XXI. 2 Eric Hobsbawm está perfeitamente correto ao afirmar que "os movimentos e Estados marxistas tenderam a tor1

Exprimimo-nos dessa maneira apenas para enfatizar a escala e o estilo da luta, e não como censura. Para evitar possíveis mal-entendidos, é preciso dizer que a invasão de dezembro de 1978 originou-se de choques armados, possivelmente desde 1971, entre guerrilheiros dos dois movimentos revolucionários. Depois de abri! de 1977, ataques fronteiriços, iniciados pelos cambojanos, mas logo imitados pelos vietnamitas, aumentaram em grandeza e alcance, culminando na incursão vietnamita mais importante de dezembro de 1977, Nenhum desses ataques, porém, visava à derrubada do regime do inimigo, ou ã ocupação de granda extensão de território, bem como o número de soldados envolvidos n5o ers comparável ao que se deslocou om dezembro de 1978. A controvérsia a respeito das causas da guerra 6 investigada ponderadarnente em Stepnen P. Hader, "The Kampuchean-Vietnamese Confliet", in David W. P. Elliott, org., The Ttârd Indochina Confíict, p. 21-67; Anthony Batnett, "Inter-Communist Conflicts and Vietnam", Bvllstin of Concerned Asían Scbolars, 11:4 (outubro-dezembro de 1979), p, 2-9; e Laura Summers, "In Matters of War and Sccialism Anthony Barnett would Shsme and Honour Kampuchsa Too Much", ibid., p. 10-8. 3 Se alguém duvidar de que o Reino Unido merece asso tipo de paridade com a URSS, devaié Indagar-se que nacionalidade sã denota por oste nome: grâo-breto-irlandês?

nar-se nacionais não apenas na forma, mas também na substância, isto é, nacionalistas. Nada indica que essa tendência não persistirá". 3 E essa tendência não se limita ao mundo, socialista. Quase todos, os anos, as Nações Unidas admitem novos membros. E muitas das "velhas nações", antes consideradas plenamente Consolidadas, vêem-se ameaçadas por "sub"-nacionalismoâ no interior de suas fronteiras — nacipnalismos que, naturalmente, sonham com livrar-se algum dia dessa condição de "sub". A realidade é muito clara: o "fim dos tempos do nacionalismo", há tanto tempo profetizado, não está à vista, nem de longe. De fato, a nation-ness * constitui o valor mais universalmente legítimo na vida política de nossa era. Porém, se os fatos são evidentes, sua explicação continua sendo .tema de uma disputa há muito existente. Nação, nacionalidade, nacionalismo — todos têm-se demonstrado difíceis de definir, quanto mais de analisar. Em contraposição à enorme influência que o nacionalismo tem exercido no mundo moderno, é notoriamente escassa a teoria plausível a respeito de.le. Hugh Seton-Watson, autor do indubitavelmente melhor e mais abrangente texto em língua inglesa a respeito do nacionalismo, e herdeiro de vasta tradição da historiografia e da ciência social liberais, observa pesarosamente: "Desse modo, sou levado à conclusão de que não se pode estabelecer nenhuma 'definição científica1 de nação; contudo, o fenómeno tem existido e continua a existir". 4 Tom Nairn, autor da obra pioneira The Break-up of Britam, e herdeiro da não menos vasta tradição da historiografia e da ciência social marxistas, observa francamente: "A teoria do nacionalismo representa o grande fracasso histórico do marxismo", s Até mesmo essa confissão, porém, é algo enganadora, na medida em que se possa considerar
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Eric Hobsbawm, "Some Rofloctions on 'The Braak-up o.f Britain' ". tJeitr Lelt Review* 105 (setambro-outubro de 1977). p, 13. " O autor emprega diversas vezes a palavra nation-ness, por ele cunhada, em lugar de ' natlonalíly !cf. p, 12). Impossível criar um correspondente português; por isso, mantive em Inglês todas as vezes (MT). 4 Ver seu Nations and States, p. 5. Grifo nosso. 5 Ver seu "The Modern Jsnus", New Left Review, 94 Inovembro-dszembro do 1975), p. 3. Este ensaio foi incluído sem alterações como capitulo 9 do The Break-up of Brítsin (p. 329-63I.

inspiram uma legitimidade emocional tão profunda. tanto quanto terá um sexo — vs. nem Webers. a dupla de "pais" do estudo académico sobre o nacionalismo. a palavra "naturalmente" seria um sina) de alerta para o leitor entusiasmado. com estes três paradoxos: 1. 7 foi a destilação espontâ6 Karl nea de um "cruzamento" complexo de forcas históricas. com urgência. bem como o nacionalismo. quanto a esse tema. l. in Setscted Works. por volta dos fins do século XVIII. Creio que suas conclusões não foram seriamente contestadas. p. Para compreendê-los adequadamente é preciso que consideremos com cuidado como se tornaram entidades históricas. o nacionalismo jamais produziu grandes pensadores próprios:-nem Hobbes. p. muitas vezes. É típico que até mesmo um estudioso tão solidário com o nacionalismo quanto-Tom Nairn tenha no entanto podido escrever que: "o 'nacionalismo' é a patologia da moderna história do desenvolvimento. como talvez se prefira dizer. ' Como observa Aíra Kemilãlnen. do conceito de "burguesia nacional". de que modo seus significados se alteraram no correr do tempo. ficado perplexos. 33 e 48-9- . Grifo nosso. Do mesmo modo que Gertrude Stein diante de Oakland. O poder "político" dos nacionalismos vs. a não ser por ideólogos nacionalistas em determinados países. trazendo consigo muito da mesma ambiguidade essencial. tem sido amplamente evitado. argumentava persuasivamente em favor dessa datação. uma reorientação de perspectiva num espírito por assim dizer copernicano. uma vez criados. a nacionalidade "grega" é sui generis. A universalidade formal da nacionalidade como conceito sociocultural — no mundo moderno. Ela não aparece. ajustar contas com sua própria burguesia"? 6 Como justificar doutro modo o emprego. por exemplo. esse "vazio" desperta. The Comrminist Manifesto. tornaram-se "modulares". e por que. 46. naíion-ness. todo mundo pode e deve "ter". Quando Adam Srnith invoca a riqueza das "nações". Parto de que a nacionalidade. tanto a teoria marxista quanto a liberal têmse debilitado em um tardio esforço ptolomaico para "salvar o fenómeno". Facilmente. com graus diversos de consciência e a grande variedade de terrenos sociais. Hans Kohn e Carlaton Haves. Em outras palavras. Seria mais exato dizer que o nacionalismo tem se revelado uma incómoda anomalia para a teoria marxista e. Conceitos e definições Antes de tratarmos das questões acima propostas. não se refere com essa palavra senão a "sociedades" ou "Estados". um certo ar de superioridade. Marx e Friedrich Engels. sua pobreza. 2. hoje em dia. antes de mais nada.12 que implica no resultado lastimável de uma busca prolongada e deliberada de clareza teórica. Como explicar de outro modo a falha do próprio Marx para explicar o pronome crucial em sua memorável formulação de 1848: "O proletariado de cada país deve. nem Marxs. passíveis de serem transplantados. Aira Kemilãinen. Nationalism. A modernidade objetiva das nações aos olhos do historiador vs. 3. e até mesmo incoerência. por definição. diversamente da maioria dos outros "ismos". nem Tocquevilles. sem qualquer tentativa séria de justificar teoricamente a importância do adjetivo? Por que esta segmentação da burguesia — uma classe mundial. filosófica. Procurarei também demonstrar por que esses artefatos culturais peculiares têm suscitado afetos tão profundos. por mais de um século. a particularidade irremediável de suas manifestações concretas. Os teóricos do nacionalismo têm. e "terá" uma nacionalidade. para não dizer irritados. exatarnente por essa razão. e que se requer. visto que se define em termos das relações de produção — é teoricamente importante? O que este livro pretende é oferecer algumas sugestões exploratórias para uma ínterpretaçãp mais aceitável da "anomalia" do nacionalismo. Minha impressão é que. poder-se-ia sem dúvida concluir rapidamente que "lá não existe lá nenhum". em muitos dicionários correntes do século XIX. Kemilâinen observa também que a palavra "nacionalismo" sá passou a ser amplamente empregada em fins do século XIX. ou. naturalmente. são artefatos culturais de um tipo peculiar. mas que. entre intelectuais cosmopolitas e poliglotas. devido às múltiplas significações dessa palavra. tal que. Tentarei demonstrar que a criação desses artefatos. tão inevitável quanto a 'neurose' no indivíduo. 10. para se incorporarem à variedade igualmente grande de constelações políticas e ideológicas. uma capacidade implícita semelhante para degenerar em demência. Em qualquer exegese teórica. mais do que enfrentado. parece aconselhável considerar sumariamente o conceito de "nação" e oferecer uma definição viável. sua antiguidade subjetiva aos olhos dos nacionalistas.

í do mundo (o equivalente do infantilismo. quando escreveu que "Or l'essence d'une nation est que tous lês individus aient beaucoup de choses en commun.") 11 Emest Gollnor. As comunidades não devem ser distinguidas por sua falsidade/autenticidade. ela montava a 400. até mesmo estas) são imaginadas. Nio na dez famílias na Franca qua possam apresentar provas de origem franca. se ele fosse tratado como associado a "parentesco" e "religião". ou "um vassalo do Duque de Z". em 1789. A nação é imaginada como limitada. Nem os nacionalistas mais messiânicos sonham com um dia em que todos os membros da raça humana se juntem a sua nação. contudo. porque até mesmo a maior delas. proponho. por exemplo. embora na mente de cada um esteja viva a imagem de sua comunhão. a língua javanesa não possuía uma palavra para significar a abstração "sociedade". nem sequer ouvirão falar deles. Acrescenta ele: "tout citoyen [rançais doit avoir oublié Ia SBint-Barthélemy.. no século XVIII. II n'y a pás en France dix familles qui puissent fournlr Ia preuve d'une origine franqua. De fato. "Qu'éít-ce qu'une nation?" in Oeuvres Completes. Thought and Change. mas certamente ela só foi imaginada desse modo muito tardiamente. que todos tenham esquecido muitas coisas" — na nora: "todo cidadão francês deve ter esquecido a noite do S3o Bartolomeu.. mas pelo estilo em que são imaginadas. 8 Parte da dificuldade é que as pessoas tendem inconscientemente a hipostasiar a existência do Nacionalismocom-N-grande — como se poderia fazer com Idade-com-Imaiúsculo — e. Nenhuma nação se imagina coextensiva com a humanidade. mas "o senhor de X". 892. \.. à sua maneira suavemente sarcástica. Desse modo. Cf. então. 3S9. talvez. 5: "O qua posso dizer é que uma naçSo existe guando um número significativo de pessoas da uma comunidade considera que constituem uma nação. a seguinte definição para nação: ela é uma comunidade política imaginada — e imaginada como implicitamente limitada e soberana. nem os encontrarão. "o tio da Baronesa de Y". Dentro de um espírito antropológico.. e em grande medida incurável". 12 À pergunta "Quem é o Conde X?". Grifo nosso. Atingindo a maturidade numa 12 Hobsbawm. também. Mas essa descrição estatística da nobreza poderia ser pensada ao tampo do ancien régimoj . mas tais vínculos eram outrora imaginados de maneira particuiarista — como malhas indefinidamente extensas de parentesco e de dependência. 9 Renan referiu-se a esse ato de imaginar. numa população de 23.000. 8 8 tá tão ansioso em demonstrar que o nacionalismo se dissimula sob falsas aparências. todas as comunidades maiores do que as primitivas aldeias de contato face a face (e. que assimila "invenção" a "contrafação" e "falsidade". ao invés de assimilá-la a "imaginação" e "criação". do mesmo modo como foi possível que em certas épocas os cristãos. p. Ela é imaginada porque nem mesmo os membros das menores nações jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas. divinamente instituído. que abarca talvez um bilhão de seres humanos. (Observe-se que. 10 Algo ferozmente. "fixa" isso ao dizer que. mais do que com "liberalismo" ou "fascismo". Nations antí States. os massacres do Sul... Seton-Watson. é que Geílner esThe Bre&k-up aí Britam. para além das quais encontram-se outras nações. 10 Ernest Renan. p. a essência de uma nação é que os indivíduos tenham muitas coisas em comum e. não "um membro da aristocracia".) Creio que as coisas ficariam mais fáceis.15 nos dilemas do desamparo imposto à maior par. Geílner insiste de maneira semelhante quando estabelece que "o nacionalismo não é o despertar das nações para a autoconsciência: ele inventa nações onde elas não existem". p. insinua que existem comunidades "verdadeiras" que se podem sobrepor vantajosamente às nações. Hoje podemos pensar na aristocracia francesa do ancien regime como uma classe. se todo mundo tem uma idade. Os aldeões javaneses sempre souberam que estavam ligados a pessoas que jamais haviam visto. a resposta normal teria sido. a classificá-"lo" como uma ideologia. p. Podemos traduzir "considera" por "Imagina". para as sociedades). p. a seguir." (no texto: ". É imaginada como soberana.000 (ver seu The Age of Rcvolution. et aussi que tous aient oublié bien dês choses". lês massacres du Midi au XVIils siècle. ainda que elásticas. possui fronteiras finitas. 78). Até muito recentemente. ou se comportam como se constituíssem uma nação". digamos. a Idade não passa de uma expressão analítica. porque o conceito nasceu numa época em que o Iluminismo e a Revolução estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico hierárquico. 169. sonhassem com um planeta inteiramente cristão.000 pessoas. u O inconveniente dessa formulação.

as nações sonham em ser livres e. em azul e em cinzento se ergueriam de sob suas cruzes brancas. "Duty. honra. Country". a jamais se alterou. Judith Herrin. saturados de fantasmagóricas imaginações nacionais. um milhão de lantesmas em verda-oliva." í.16 etapa da história humana em que até mesmo os mais devotos adeptos de qualquer das religiões universais se defrontavam inevitavelmente com o pluralismo vivo de tais religiões. a nação é sempre concebida como um companheirismo profundo e horizontal. em caqui. ou insistisse em introduzir dentro do cenotáfio alguns ossos de verdade. por uma ou outra razão.. A reverência pública ritual outorgada a tais monumentos. estes notáveis tropos: 1. não pudessem ser recuperados para um enterro normal. eles estão. se sob as ordens de Deus. 12 da maio de 1962. em seu A Soldier Sp. mas também corno das mais Imaculadas [sicl. muitos anos atrás. contemporânea! Por mais que esses túmulos estejam vazios de quaisquer restos mortais identificáveis. Se vocês fossem fazê-lo. a nós. Honour. essa fraternidade é que torna possível. Devo essa informação a minha colega bizantinísta. West Point. Considerem-se. "A longa linha cinzenta jamais nos -faltou. mas morram voluntariamente por imaginações tão limitadas. que tantos milhões de pessoas. O penhor e o símbolo dessa liberdade é o Estado soberano. precisamente porque estão deliberadamente vazios. 354 a 357. ' Para que se sinta a força dessa inovação. Eu o via então. porém. Finalmente. RAÍZES CULTURAIS Não há símbolo mais impressionante da moderna cultura do nacionalismo do que os cenotáfios e os túmulos de Soldados Desconhecidos. por exemplo. sem considerar a desigualdade e expioração que atualmente prevalecem em todas elas. Essas mortes lançam-nos abruptamente cara a cara com o problema fundamental proposto pelo nacionalismo: o que faz com que as minguadas imaginações da história recente (pouco mais de dois séculos) dêem origem a sacrifícios tão colossais? Creio que as origens de uma resposta encontram-se nas raízes culturais do nacionalismo. is. p. e com o alomorfismo entre os reclamos ontológicos de cada fé e o território ocupado por ela. no correr dos últimos dois séculos.. ou ninguém sabe quem jaz dentro deles. basta imaginar a reação geral a algum intrometido que "descobrisse" o nome do Soldado Desconhecido. .2 (Razão por que nações as mais diversas pôs1 2 Os antigos gregos tinham cenotáfios. a nação é imaginada como comunidade porque. Em última análise. não só matem. Ele pgrtance ao presente." Douglas MacArthur. conhecidos. discurso perante' ^Academia Militar dos EUA. não sã como e que possui es características militares mais perfeitas. "Minha avaliação Ido soldado norte-americano] formou-se no campo do batalha. porém para indivíduos determinados. como uma das mais nobres figures do mundo. Ele pertence à posteridade como o mentor das futuras gerações nos princípios da independência e da liberdade. bradando estas palavras mágicas: dever. que seja diretamente. ou almas imortais. Ele pertence á história como aquele que oferece um dos maiores exemplos de patriotismo bem-sucedido Isicl. Seria um sacrilégio de estranha espécie. como o vejo agora. não encontra precedentes em épocas passadas. por suas virtudes e porr MJ g s realizações. cujos corpos. pátria.

O século do Iluminismo. On Materielisiw and The Freudian Sfíp: e a ponderada réplica de Ravmond Williams.). é que tais perguntas são respondidas com um silêncio intolerante. p. não desapareceu o só-' frimento que a fé em parte mitigava. do budismo. mas também o crepúsculo das modalidades religiosas de pensamento. Quem vivência a concepção e o nascimento do próprio filho sem ter a in-definida sensação de uma mistura de conexão. ou ao que quer que seja? O abismo entre os pró tons e o proletariado não ocultaria uma nfio admitida concepção metafísica do homem? Veja porém os interessantes textos de Sebastiano Ttmpanaro. p. e 6e diferentes modos. "Marxism and the National Question". Absurdo da salvação: nada torna mais necessário um outro estilo de continuidade. "Timpanaro's Materialíst Chatlenge". interpretei essa recusa como obscurantismo. No correr de uma pesquisa de campo na Indonésia. de nosso sexo. Posteriormente. 29. deve distinguir-se de seu papel na legitimação de sistemas específicos de dominação e de exploração) tem sido sua preocupação com o homem-nocosmos. naturalmente. Se a imaginação nacionalista se preocupa tanto. o homem como ser específico.. sem exclusão do marxismo. . Com o refluxo da fé religiosa. o mistério da reencarnação. a revolução. na década de 1960. chocou-me a deliberada recusa do muitos muçulmanos o m acoitar as ideias de Oarwin. em dezenas de formações sociais diversas. pecado original. esforça-se tão pouco pá* rã ligar essas descobertas à luta de classes.. Â razão disso é que nem o marxismo. Estamos todos cientes da contingência e inevitabilidade de nossa herança genética particular. 3 Ao mesmo tempo. será conveniente iniciar pela morte o exame das raízes culturais do nacionalismo. A extraordinária sobrevivência. O que se. pesar. ou argentinos. idade e morte. 3 Cf. Régis Debray. em geral transformando a fatalidade em continuidade (karma. por ser ela a última de toda uma escala de fatalidades. da contingência em significado.. na Europa ocidental.) Trago à baila essas observações talvez simplórias. da secularidade racionalista. 109 Imaio-junho de 1978). Que mais poderiam eles ser senão alemães. Desse modo. Desintegração do paraíso: nada torna a fatalidade mais arbitrária. de nossa língua maternaj e assim por diante. Que devemos nos fazer com um materialismo cientifico que formalmente admita as descobertas da física sobre a matéria e. então. Se é amplamente reconhecido que os Estados-nação são "novos" e "históricos". sua mortalidade é inevitável. se se procura imaginar. se preocupam muito com a morte e corn a imortalidade. ?) O significado cultural de tais monumentos torna-se ainda mais claro. e a contingência da vida. o século XVIII assinala não apenas o raiar da era do nacionalismo. Não se poderia evitar um sentimento de absurdo. atesta sua resposta imaginativa à esmagadora carga de sofrimento humano — doença. o pensamento religioso reage também aos obscuros sinais de imortalidade.19 18 suem esse tipo de túmulos. O grande mérito das visões de mundo das religiões tradicionais (que. De início. contudo. Como essa afinidade não é absolutamente fortuita. 3-17. poucas coisas se adaptavam (se adaptam) melhor a essa finalidade do que uma ideia de nação. Se habitualmente parece arbitrária a maneira como um homem morre. sem sentir qualquer necessidade de especificar a nacionalidade de seus ocupantes ausentes. do cristianismo ou do islamismo.demandava. primordialmente porque. de nosso potencial físico. nem o liberalismo. era uma transformação secular da fatalidade em continuidade. 105 (setombro-outubro de 1977). ou norté-americanos. digamos. A vida humana é cheia desse tipo de associação entre necessidade e acaso. Por que nasci cego? Por que meu melhor amigo ficou paralítico? Por que minha filha é retardada? As religiões procuram explicar. Como veremos. casualidade e fatalidade em uma linguagem de "continuidade"? (Também aqui a desvantagem do pensamento evolucionário/progressista é uma hostilidade quase heraclitiana a qualquer ideia de continuidade. isto indica forte afinidade com as imaginações religiosas. ou um cenotáfio para os Liberais mortos. da época em que vivemos. A grande fraqueza de todos os estilos evolucionários/progressistas de pensamento. Wew Lett Ftevien. A/etv Lett flewsw. mutilação. vim a compreender que 03 trata de unia louvável tentativa de ser coerente: simplesmente a doutrina da evolução ara incompatível com os ensinamentos do Islã. um Túmulo do Marxista Desconhecido. por milhares de anos. ele se ocupa dos vínculos entre os mortos e os nascituros. etc. trouxe consigo suas peculiares trevas modernas.

Basta tomar o exemplo do Islam: se maguindanaos e berberes se encontram em Meca. Banco Sumeriano (Seton-Watson. Grifo nosso. antes.) Todas as grandes comunidades clássicas concebiám-se como cosmicamente centrais. devemos lembrar de Artur e Boadicéia. embora nada conheçam da língua um do outro e sejam incapazes de se comunicar oralmente. Oíponegoro.) Contudo. A mágica do nacionalismo consiste em transformar o acaso em destino. As grandes culturas. Não é preciso dizer que não estou declarando que o aparecimento do nacionalismo em fins do século XVIII foi "produzido" pela erosão das certezas religiosas. 259). seus ancestrais turcos. tanto quanto é. 4 A comunidade religiosa Poucas coisas causam maior impressão do que a enorme extensão territorial da Ummah Islam. eram aceitos como verdadeiros quadros de referência. porque os textos sagrados que compartilham só existem em árabe clássico. daí. Var Harry J. afinal de contas. hoje em dia. Como também não estou sugerindo que de alguma forma o nacionalismo "suplanta" historicamente a religião. pretendia "conquistar InSo ItbertarlJ Java". a França é eterna". e a maior parte da In* donásia de hoje tenha sido conquistada pelos holandeses entre 1850 e 1910. seriamente. e vice-versa. embora hoje pensemos nele como chinês. 13 (abril de 1972). ou do chinês escritos era. salientar determinados elementoschave de sua decomposição. "Dtponegoro 117787-1855)". e até mesmo o Império do Centro — o qual. embora o próprio conceito de "Indonésia" seja ume invenção do século XX. 103. K em ai Ataturk deu a um de seus bancos estatais o nome de Eti Banka (Banco Hitita) s a outro. não com ideologias políticas abraçadas conscientemente. uma explicação complexa. por isso. p. para nossos fins. . "Sim. ainda mais importante. é evidente que ele não tinha um conceito de "holandeses" como uma coletividade. Podemos dizer. ou que essa erosão não exija. nos hititas e nos sumerianos. o alcance do latim. deslizam para um futuro ilimitado. 158: e Ann Kumar. o árabe escrito funcionou como os caracteres chineses para criar uma comunidade a partir dos signos. Natlons and States.20 21 as nações a que eles dão expressão política assomam de um passado imemorial. O falecido presidente Sukarno sempre falou com inteira sinceridade sobre os trezentas e cinquenta anos de colonialismo suportados por sua "Indonésia". Pois ambos. é inteiramente acidental que eu tenha nascido francês. p. e do mundo budista. The WbfltiofSoulheastAsia. mas uns e outros compreendem o símbolo. viarn e vêem. teoricamente. mas.. do que expulsar "os holandeses". Entre os heróis nacionais da indonésia contemporânea tem primazia o príncipe javanês do início do século XIX. Indonésia. e refletir sobre o êxito comercial das mitografias de Tolkien. mediante uma linguagem sagrada vinculada a uma ordem de poder supraterrestre. compreendem no entanto os ideogramas uns dos outros. quanto mais morta a lingua escrita — quanto mais distante estivesse da fala — melhor: em princípio. ilimitado. não se imaginava como chinês. Diferença essencial era a segurança das antigas comunidades quanto à sacralidade singular de suas línguas e. a partir dos quais — bem como contra os quais — passaram a existir. e não a partir dos sons. De fato. 4 e. (Assim. possivelmente sem excluir o próprio Kemal. mas sim como central — eram imagináveis em grande parte mediante uma linguagem sagrada e um texto escrito. Os mandarins chineses encaravam com aprovação os bárbaros que penosamente aprendiam a desenhar os ideogramas do Império do Centro. do Paraguai ao Japão. é permissível que incluamos o "confucionismo") incorporaram concepções de comunidades imensas. todo mundo tem acesso a um mundo abstrato de signos. Conseq-iientemente. suas ideias a respeito da admissão de novos membros. É essencial. Antes de começar a rir. a Ummah Islam. Larkin. p. considerar o que dava a esses sistemas culturais sua manifesta plausibilidade e. orgs. a cristandade. a nacionalidade. do páli. do árabe. Analogamente. Bonda e John A. tais comunidades clássicas vinculadas por línguas sagradas tinham caráter distinto das comunidades imaginadas das nações modernas. (Na verdade. em seu apogeu. ao mesmo tempo. Porém. da cristandade. com Debray. do Sri Lanka à península coreana. Esses bancos são prósperos hoje em dia e não há razão pare duvidar-se de que muitos turcos. sagradas (e. do Marrocos ao Arquipélago Sulu. ela mesma. Para nossos objetivos. O que proponho é que o nacionalismo deve ser compreendido pondo-o lado a lado. Os romenos não têm a menor ideia de como o sinal " + '' é chamado pelos tai. Nesse sentido. muito embora as próprias memórias desse prfncipe mostrem que ele. mas com os sistemas culturais amplos que o precederam. os dois sistemas culturais relevantes são a comunidade religiosa e o reino dinástico. hoje em dia. a linguagem matemática continua uma velha tradição.

o Corão era literalmente intraduzível (e. Observem. mus um fator-ciiavo (01 corlamontu o falo do quo n Hngua grega continuou sendo uma fala vulgar viva (diferentemente do laiiml em grande parte do império Oriental. Mas muito embora as línguas sagradas tornassem imagináveis comunidades como a cristandade. a realidade de tais aparições dependia de uma ideia em grande medida estranha ao pensamento ocidental contemporâneo: a não-arbitrariedade do signo. cristãos. Tfte Spanish-American Revoltitians. por exemplo. 260."seus leitores eram pequeninos recifes letrados por sobre enormes ocea"Llngua vulgar" foi a tradução que adotamos para vsrnacular. A natureza toda do ser. "nativos semi-instruídos". nenhuma ideia de . intercambiáveis). pairando muito acima de todas as línguas vulgares. "wogs". Essa atitude não era por certo peculiar aos chineses. seria muito desejável que os índios fossem extintos. pela miscigenação com os brancos. porque a verdade de Alá somente era acessível mediante os insubstituíveis signos verdadeiros da língua árabe escri. Devo esse insight a Judith Herrin. com o nome de Adriano IV. aleatoriamente fabricadas. ' A Igreja grega pareço n3o ter atingido o status de uma Kngua-vardade. Dal a equanimidade com que mongóis e manchus achinesados eram aceitos como Filhos do Céu. G "n oposição Ss "línguas sagradas" (NT).' não quero tanto dizer a aceitação de dogmas religiosos par' ticulares. o impulso para a conversão. 5 Ser meio-civilizado era muitíssimo melhor do que ser 'bárbaro. Os ideogramas da língua chinesa. "civilizado". como línguas-verdade. do árabe do Cõrão. gurcas e haussas a "mestiços". a seguinte "política relativa aos bárbaros" formulada em princípios do século XIX pelo liberal colombiano Pedro Fermín de Vargas: Para expandir nossa agricultura seria necessário hispanizar nossos índios..) Afinal de contas. Observe-se. o verdadeiro alcance e plausibilidade dessas comunidades não podem ser explicados apenas pelo texto sagrado: afinal. Não existe.' ta. como seus sucessores no Brasil. foi essa possibilidade de conversão pela língua sagrada que tornou possível que um "inglês" se tornasse Papa 8. (Quão diferente é a atitude de Fermín da preferência dos imperialistas europeus posteriores por "autênticos" malaios. que o autor emprega para referir-se à língua utilizada pelo comum das pessoas. os ilongo. neste caso. humano é maleável do ponto de vista sagrado. e um "manchu". na Argentina e nos Estados Unidos começariam a fazer logo depois. . que jazem ignorados entre aquelas e estas. se as mudas línguas sagradas eram o meio pelo qual as grandes comunidades globais do passado eram imaginadas. (Contraste o prestígio dessas antigas línguas mundiais.) Contudo. sendo declarados livres de . mas uma absorção alquímica. De fato. e sendo-lhes atribuída a propriedade privada da terra.um mundo tão desligado da língua que todas as línguas constituíssem para ele signos equidistantes (e. até muito recentemente. 8 Michelas Brakespear assumiu o posto de pontífice entra 1154 e 1159. Por conversão. maometanos. p. nem limitada à antiguidade. As razões desse "fracasso" s3o divorsns. e o recebimento de propriedade privada. impregnadas de um impulso em grande medida estranho ao nacionalismo. Grifos nossos. por isso. 6 John Lynch. também. a realidade ontológica somente é apreensível por meio de um sistema único e privilegiado de re-[a]presentação: a língua-verdade do latim da Igreja. Sua preguiça. impostos e outros encargos. como qualquer outra pessoa. portanto.. com o esperanto ou o volapúk. è" não exterminando-os pelas armas e pelos micróbios. Na tradição islâmica. Todos conhecemos bem a longa disputa a respeito da língua adequada para as massas (latim ou língua vulgar"). 7 E. o enorme otimismo: em última análise. não era traduzido). 1803-1826. 6 Como é admirável que esse liberal ainda proponha "extinguir" seus índios em parte "declarando-os livres de impostos" e "atribuindo-lhes a propriedade privada da terra". e coisas assim. os rif. paralelamente à condescendente crueldade. o índio pode ser redimido — mediante fecundação com o sémen branco. ou o chinês dos exames.23 22 Tais bárbaros já estavam a meio caminho da absorção completa. Os bárbaros tornaram-se "Império do Centro". latina ou árabe eram emanações da s realidade e não representações suas. sua estupidez e sua indiferença em relação aos empreendimentos humanos normais levam a pensar que provêm de uma raça degenerada que se deteriora à medida que se distancia de suas origens. Filho do Céu.

ele supera qualquer soberano que haja existido ou que agora exista no mundo". ObserMarc Bloch lembra-nos que "a maioria dos senhores e muitos grandes barões (dos tempos medievais] eram administradores incapazes de examinar pessoalmente um relatório ou uma conta". os sarracenos. "alargaram abruptamente o horizonte cultural e geográfico e. de maneira solene. à margem da ideia que a sociedade tem da realidade. As línguas que eles sustinham. nada tinham da obscuridade preparada dos jargões dos advogados ou dos economistas. também a concepção dos homens sobre as formas possíveis de vida humana". Observe-se que. 158-3. The Traveis of Marco Polo. Maomé. só é compreensível em termos de uma classe transeuropéia de letrados em escrita latina e de uma concepção do mundo compartilhada virtualmente por todos. estratos estratégicos em uma hierarquia cosmológica cujo ápice era divino. embora escrevendo para cristãos europeus seus iguais. dos judeus e dos idólatras. 152. porque "quanto ao número de súditos. o Evangelho não é lido. pela maneira pela qual sua majestade agia diante deles. retornou em grande pompa e triunfo à capital de Kanbalu. Ao invés disso. é evidente que encarava a fé dos cristãos como a mais verdadeira e a melhor.. nos analfabetos. trazendo consigo seu Livro. O que liam. mas o mundo observável. Mimesis. e invoco para mim a ajuda de seja qual for demre eles que é verdadeiramente o supremo no céu". '3|bid. os judeus. que contém os quatro evangelhos. p. desejo destacar apenas as duas que se relacionam diretamente com a sacralidade singular dessas comunidades. servia de mediador entre a terra e o céu. Os cristãos encaram Jesus Cristo como sua divindade. ordenou que todos os cristãos fossem até ele. l. de modo preponderante. Sogomombar-kan. 9 O que há de mais notável nessa passagem não é tanto o tranquilo relativismo religioso (ainda que um relativismo religioso) do grande -governante mongol. 282. (Sem dúvida." Bloch. por detrás da qual tinham lugar todas as coisas realmente importamas. os homens de letras eram iniciados. e os idólatras. embora beijado. Dentre as razões dessa decadência. Esse era seu rnodo habitual de agir em cada uma das festas cristãs mais importantes.'e!e lhes parecia também uma língua. qualificar Kublai de hipócrita ou idólatra.. não eram palavras. p. beijou-o com devoção e determinou que o mesmo fizessem todos os seus nobres ali presentes. na Europa. Grifos nossos.24 25 vê a seguinte descrição reverente de Kublai Khan. Moisés. da qual a intelligenísia bilíngue. porém. após obter essa memorável vitória. p. o mundo material era pouco mais do que uma espécie de máscara.) n E na utilização inconsciente de "nosso" (que se torna "seu") e na re1J Marco Polo. Em primeiro lugar. Isso teve lugar no mês de novembro. 9 Uma explicação mais completa exige que se aluda à relação entre os homens de letras e suas sociedades. ainda que obscuras. Ciente de que essa era uma de nossas principais comemorações. . 83. Erich Auerbach. "Aos olhos de todos os que eram capazes de refle xão. como a Páscoa e o Natal. como a atitude e a linguagem de Marco Polo. mas de modo algum exclusivamente. no último dos quais era nossa festa da Páscoa. das descobertas do mundo não-europeu. que. 81. O espantoso poder do papado. e ali continuava a residir nos meses de fevereiro e março. Seria enganoso encarar aqueles como uma espécie de tecnocracia teológica. disse ele: "Há quatro grandes profetas que são reverenciados e venerados pelas diversas classes de humanidade. e agia semelhantemente nas festas dos sarracenos. (O aterrador da excomunhão reflete essa cosmologia. e não norteadas por fronteiras e horizontais. em fins do século XIII:12 O grande cã. " O processo já aparecia claramente no maior de todos os livros de viagem europeus. Jamais lhe ocorre. havia o efeito. p. em parte. 10 As concepções básicas a respeito de "grupos sociais" eram centrípetas e hierárquicas. Feudal Society. Após fazer com que ele fosse repetidas vezes perfumado com incenso. à extensão do território e ao montante da receita. Quando lhe foi perguntado o motivo dessa conduta. com isso. feita pelo bom veneziano cristão Marco Polo. Porém. destinada a expressar por meio de símbolos uma realidade mais profunda. p.. mediando entre a língua vulgar e o latim.) Apesar de toda a grandeza e poder das grandes comu^ nidades imaginadas religiosamente. em seu esplendor. Reverencio e mostro respeito a todos os quatro. sua coerência não deliberada desvaneceu-se rapidamente depois do final da Idade Média. 10 Isso nlo quer dizer que os analfabetos não liam. o mais eminente de todos os seus ídolos.

Ibid. competitivo). agora reverenciado por hábito. foi uma deterioração gradual da própria língua sagrada. podem-se descobrir as sementes de uma tcrritorializacão das fés. e coro intenção política. os quase contemporâneos destes homens do outro lado do Canal da Mancha. Não seria razoável que urna elaboração paradoxal dessa tradição. As razões dessa mudança não devem demorar-nos aqui: a importância 14 central do capitalismo editorial (print-capitalism) será discutida mais adiante. em "1712' i . n Apesar de uma reaparição temporária durante a Contra-Reforma. Outrora. Lucien Febvre a Henri-Jean Martin. p. depois de 1575 a maioria era sempre em francês. que 23% já eram em línguas vulgares).. 330. l. e essa é por certo uma rica herança. p. em 1501. As Lettres Persanes foram publicadas • pela primeira vez em 1721. duzentos anos mais tarde. em vez de "verdadeira". mas virtualmente toda a de Voltaire (1694-1778) era em língua vulgar. o comércio do livro segmentou-se na Europa. Ia commerca dia livre se morcelle en Europé". ninguém mais o teme. não teria ele conservado. de V Paris. em grande medida. mantinham a maior parte de sua correspondência em latim. por outro lado. « Ibid. ("Uma vez que sã publicam cada vez menos obras em latim e uma proporção sempre maior de textos em língua nacional. p. um empreendimento internacional [sic]. com cada vez menos livros saindo em latim. L'Apparítiofi tíu Livre. ele era a única língua ensinada". E não falamos apenas da popularidade geral. 232-3. Febvre e Martin calculam que 77% dos livros impressos antes de 1500 ainda eram em latim (o que significa. e cada vez mais nas línguas vulgares. era virtualmente desconhecido do outro lado do Canal da Mancha. Descartes (1596-1650) e Pascal (1623-1662). Hobbes (1588-1678) foi uma figura de renome continental por escrever na línguada-verdade. l5 (Este "única" demonstra muito claramente a sacralidade do latim — nenhuma outra língua era considerada digna de ser ensinada. apenas •oito não eram em latim. lfi Se das oitenta e oito edições impressas em Paris. fosse vista'não como uma heresia. Pouco depois. Que contraste revelador oferece o começo da carta escrita pelo viajante persa "Rica" a seu amigo "Ibben". sua obscuridade insular do início? Enquanto isso. mas como uma nação! Em segundo lugar. mas agora a "relativizacão" e a "territorializacão" são perfeitamente conscientes.26 ferência à fé dos cristãos como "mais verdadeira". é um ídolo antigo. O original francês é mais modesto e historicamente exato: "landis que ]'on edite de mói n s en mgins cfouvrages en lati n. nem mesmo como um personagem demoníaco (o pequenino Cárter dificilmente preencheria os requisitos).) Mas no século XVI tudo isso já se estava alterando rapidamente. porém. a atividade editorial foi deixando de ser . a língua mais importante mundialmente. Feudal Society. 1B E se o inglês não se tivesse tornado. a hegemonia do latim tinha seu destino marcado. Basta que nos lembremos de sua dimensão e ritmo. Persian Leners. 14 O Papa é o chefe dos cristãos. pois seu tesouro é imenso e eie tem um grande país sob seu controle. 248-49." 20 Em suma. que faz antever a linguagem de muitos nacionalistas ("nossa" nação é "a melhor" — em um campo comparativo. Grifo nosso. 20 Ibid. gradualmente se fragmentavam. pluralizavam e territorializavam. p. o latim deixou de ser a língua da alta intelligenísia pan-européia. Shakespeare (1564-1616). pois podia depô-los tão facilmente quanto nossos magníficos sultãos depõem os reis da Iremécia ou da Geórgia. na identificação do Grande Satã feita pelo Ayaíollah Ruhollah Khomeini. ele amedrontava até mesmo os príncipes.") 17 . lô "Após 1640. p. integradas pelas antigas línguas sagradas. Agora. et une proportion toujours plus grande de taxtes an langue nationale. Escrevendo a respeito da Europa ocidental medieval. mas em velocidade não menos vertiginosa. p. 77. a decadência do latim exemplifica um vasto processo em que as comunidades sagradas. The Corning of the Book. Ele proclama ser o herdeiro de urn dos antigos cristãos. p. No século XVII... 16 Henti de Montesquieu. As deliberadas e elaboradas invencionices do católico do século XVIII reproduzem o realismo ingénuo de seu predecessor do século XIII. p. chamado São Pedro. 13 Ibid. 356.. 16 Bloch. compondo suas obras em língua vulgar. 81. 321. no entanto. Bloch observou que "o latim não era apenas a língua em que se ministrava o ensino. 331-32.

Feldkirch. p. 21 Daí.. bom como quatro outras nacionalidades. por longos períodos de tempo. mas Interpreta o fenómeno de maneira muito estreita: os aristocratas locais preferem um monarca de fora. Isso. p. ara atuante na Europa crista monogamica.. onde o poder está restrito a um único sobrenome. Pois. as fronteiras eram porosas e indistintas. Esse "curioso documento" está citado em ibid. porque ale não tomará partido em relação a suas rivalidades internas. a facilidade com que os impérios e reinos pré-modernos eram capazes de manter seu comando sobre populações enormemente heterogéneas. poderíamos dizer. a Casa dos Habs51 burgos foi paradigmática. . que. 34. os casamentos'dinásticos reuniam populações diversas sob novos dirigentes.. Duque de Lotaríngia. Arquiduque da Áustria [slcj. e dos presidentes pelo seu último nome (qual era o nome de batismo de Ebert?!. The Dissolution of Habsburg Monarchy. acompanhados de números ou alcunhas. que esses antigos Estados monárquicos expandiam-se não só por meio da guerra. um poder superior restaurou aquela ordem que eu. O governo do rei organiza tudo em torno de um centro elevado. p. de Teschen. Margrave da Alta e Baixa Lausitz e da Istria. de Cartaro. porém. 196 italianos. de várias maneiras essenciais. É típico que não tenha havido uma dinastia "inglesa" governando em Londres desde o século XI (se tanto). era. sistemas complexos de concubinato ordenado eram essenciais para a integração do reino. são súditos. porém. negociatas e pilhagens dos Habsburgos". No imaginar de antigamente. Quanto a isso. o Conquistador?).. e muitas vezes sequer contíguas. a titulação dos últimos dinastas: 23 Imperador da Áustria. Num mundo de cidadãos. Friaui. Como dizia o ditado. da Boémia. Ttiought snd Change. Conde de Hohenembs.. Piacenza e Guastella. O mesmo principio. Os escolares lembram-sa dos monarcas por seus primeiros nomes (qual era o sobrenome da Guilherme. Nas monarquias. o registro dos inúmeros casamentos. Gõrz e Gradisca.. de modo algo resumido. são necessariamente os nomes "ds batismo". (Ver sua lúcida exposição em The Break-up of Brítain. de passagem.. etc. 124 franceses. Croácia. 136. dentre os quais 1. Margrave da Morávia. 125). Sonnenberg.047 dos ancestrais do arquiducue prestes a ser assassinado.) Ainda assim. hoje em dia. não cidadãos. Lodomeria e Híria. um certo Otto Forst publicou seu Ahnentafet Seiner Kaiserlichen una KõnigKchen Hoheft dês durchlauchíígsten Herrn Erzherzogs Fram Ferdiriend. porém. Duque de Triento e Brizen. e que "nacionalidade" devemos atribuir aos Bourbons? 25 23 Observe-se 3 substituição na nomenclatura dos governantes. Sua legitimidade deriva da divindade. da miscigenação. Rei de Jerusalém. Bella gerant alH f u fel ix Áustria nube! A seguir. n. 22 Deve-se recordar. e acima da Windish Mark. todos eles teoricamente elegíveis para a presidência. o número limitado de nomes "de batismo" torna-os inadequados como denominadores específicos. Parma.. Bregenz. Em 1910. onde os Estados se definiam por centros. 52 poloneses. também. MJPois tais misturas eram símbolos de um staíus superior. Gallcia. Duque da Alta e Baixa Siiésia. 89 espanhóis. de Módena. estava Incapaz de manter" (ibid. 136. p. de Kyburg. as linhagens reais muitas vezes derivavam seu prestígio. "não sem um certo aspecto cómico. e não das populações. que relacionava 2. de Auschwitz e Sator. Carniola e Bukovina. Rei da Hungria. Grande Voivoda da Voivodina. a monarquia "autêntica" é transversal a todas as concepções modernas de vida política. 136 et seqs. de União entre a Inglaterra e a Escócia. 1. Estíria. bastante paradoxalmente. afinal de contas. Ragusa e Zara. e as soberanias fundiam-se imperceptivelmente umas nas outras. 55 Gstlnar salienta o caráter tipicamente estrangeiro das dinastias. Nos reinos em que a poligínia era sancionada pela religião. mas também por uma política sexual — de espécie muito diversa da que hoje se pratica..28 O reino dinástico Talvez seja difícil. que corresponde a essa transformação. como um "arranjo entre nobres". p. Pelo princípio geral da verticalidade. A concepção de um Reino Unido foi por certo o elemento mediador crucial que tornou poss-Vel esse entendimento. infelizmente. Servia. De maneira a mais notável na Ásia pre-moderna. que Nairn certamente está certo ao descrever a Lei de 1707. 47 dinamarqueses. que propiciam as distinções necessárias. é difícil imaginar um arranjo dessa tipo sendo realizado entre as aristocracias de duas repúblicas. categórica e uniformemente atuante sobre cada centímetro quadrado de um território legalmente demarcado. observa Jászi com justeza. Grão-duque da Transilvânia. 23 Registramos aqui. no sentido do que os arquitetos da união (oram políticos aristocratas. Conde Principesco de Habsburgo e Tirol. à parte qualquer aura de divindade.486 alemães. 24 Oscar Jâszi. da Dalmácia. etc. Senhor de Trieste. Na concepção moderna. 20 Ingleses. de Salzburgo. Não posso deixar da citar aqui a admirável reacão do Franz Joseph à noticia do assassinato da seu excêntrico herdeiro necessário: "Dessa maneira. a soberania do Estado é plena. etc. Eslavônia. De fato. Caríntia. Grão-duque da Toscana e da Cracóvia. que alguém se coloque empaticamente dentro de um mundo em que o reino dinástico era visto pela maioria dos homens corno o único sistema "político" imaginável.

. Mais de mi! dos sete a oito mil homens do exército prussiano. "Trai Governmsnt and Admiriistraticn in the Reign of Rama VI (1910-1925)". Carlos Stuart foi decapitado na primeira das revoluções do mundo moderno e. No longínquo Sião. 92. corno assinalaremos pormenorizadamente mais adiante. mesmo ao tempo de Pope e Addison. um dos Estados mais importantes da Europa foi governado por um Protetor plebeu. os Estados dinásticos constituíam a maioria dos componentes do sistema político mundial. línguas e linhagens sagradas.. . Em 1649. ou as pinturas dos primeiros mestres italianos e flamengos.29 Concepções do tempo ' Seria uma visão acanhada. A cristandade assume sua forma universal mediante uma 29 Marc Bloch. Tese de Doutoramento fPhDS. 1868-1910". Por trás da decadência das comunidades. 390 e 398-9. "Os prussianos de classe média aram superados pelos estrangeiros am seu próprio exército./Wsroryo/M/ffíansm. em vez de um rei. durante o século XVII — por razões de que não nos ocuparemos agora — a legitimidade automática da monarquia sagrada começou sua lenta decadência na Europa ocidental. no correr da década de 1650. " Noel A. podemo-nos voltar para as representações visuais das comunidades sagradas. mas um exército que tinha um pais. em 1910."AlfredVagts. Os pastores que haviam acompanhado a estrela até a manjedoura' em que Cristo nasceu têm feições de camponeses da Borgonha. Em 1887. Government and Society in Siam. Dinamarca — e Japão! 28 Ainda em 1914. Cornell. Gneisenau e Clausewitz. um homossexual caprichoso que certamente teria sido ignorado em outros tempos. tituiu o princípio indispensável da sucessão pela primogenitura legal. O que hoje parece incongruente obviamente parecia inteiramente natural aos olhos dos devotos medievais. até o fim do ancien regime. 1740-1786). p. em 1806. tais como os relevos e os vitrais das igrejas medievais. Tese de Doutoramento IPhD). o Grande (r. "The Militarv. curas executadas também pelos Bourbons.. p. vestido como burguês ou em trajes de nobre. exclusivamente "nacionais-prussianos". Traço característico dessas representações é algo enganosamente análogo à "aparência moderna". desse modo "alinhando o Sião com as monarquias 'civilizadas' da Europa". A Virgem Maria é representada como filha de um mercador toscano. 64 e 85. com o tempo. Tennõ e Filho do Céu tornaram-se "Imperadores". mas. 1971. 270. o princípio da Legitimidade tinha de ser defendido em alta voz e deliberadamente e. mais do que qualquer outra coisa. tornou possível "pensar" a nação. aparece ajoelhado em adoração ao lado dos pastores. na França do Iluminismo. eram em gran26 de parte formados por "estrangeiros". Battye. 18St9phan Green. o cliente que encomendou a obra. Londres e Berlim para aprenderem as complexidades do modelo universal. 1797-1840) já eram. tinha lugar uma mudança fundamental nos modos de apreender o mundo. os reformadores prussianos exigiram "redução è metade do número de estrangeiros que ainda representavamcercade 50% dos praças. a "monarquia" tornouse um modelo semipadronizado. os de seu sobrinhoneto Frederico Guilherme III (r. Universidade de Londres. 27 O novo sistema conduziu ao trono. Grécia. Contudo. eram estrangeiros.. Estamos diante de um mundo em que a representação da realidade imaginada era irresistivelmente visual e auditiva. p. Enquanto os exércitos de Frederico. porém. muitos dinastas já vinham há algum tempo adquirindo um cunho "nacional". Lês fíois Thaumarurges. Em muitos quadros. 26 Depois de 1789. ins-. 1974. Para uma primeira impressão dessa mudança. Contudo. Ana Stuart ainda estava curando os doentes pela superposição das mãos reais. isso dava colorido ao dito de que a Prússia não era um pais que tinha um exército. p. porém." Em 1798. a aprovação intermonárquica de sua ascensão ao trono como Rama VI foi ratificada pelo comparecimento a sua coroação de príncipes vindos da Grã-Bretanha. em consequência das espetaculares reformas de Scharnhorst. Luís XV e XVI. Suécia. Rússia.30 31 Contudo. Rama V (Chulalongkorn) enviou seus filhos e sobrinhos para as cortes de São Petersburgo. pensar que as comunidades imaginadas das nações simplesmente tenham brotado das comunidades religiosas e dos reinos dinásticos e tomado seu lugar. que. à medida que o antigo princípio da Legitimidade fenecia silenciosamente.

. sempre pessoais e particulares. Para nos. maneira metafórica de fazer equivaler passado e presente. Nossa própria concepção de simultaneidade tem estado em elaboração por muito tempo e sua emergência ligase certamente. . 30 Bloch observa que o povo pensava que devia estar próximo o final dos tempos. p. se não a levarmos plenamente em conta. e medida pelo relógio e pelo calendário. é um reconhecimento iridireto de sua irrevogável distinção.. este sermão. 263. o primeiro. 84-6. valendo-nos novamente de Benjamin. Bloah. por meio de criações vi^ suais e auditivas. de modos que precisam ainda ser bem estudados. uma ideia de "tempo homogéneo e vazio". como "a sombra do [isto é.. p. ela se manifestava de maneira diversa a comunidades particulares. 64. modalado da trás para díanle pelo] futuro". ao desenvolvimento das ciências seculares. Feudal Society. 90. llíaminsíions. e estritamente. e o último "cumpre". 3I Auerbach oferece-nos um inesquecível esboço dessa forma de consciência: 32 30 31 Se um evento como o sacrifício de Isaac é interpretado como a prefiguração do sacrifício de Cristo. bispo Oito de Freising. estabelecese então uma conexão entre dois eventos que não se vinculam temporalmente. no sentido de que a segunda vinda de Cristo poderia ocorrer a qualquer momento: São Paulo dissera que "o dia do Senhor chega como um ladrão no meio da noite". Ele está certo em acentuar que tal ideia de simultaneidade é inteiramente estranha a nós mesmos. Ela só pode ser estabelecida se ambas as ocorrências estiverem verticalmente vinculadas à Divina Providência. no primeiro. mas por coincidência temporal. a ideia de "trajes modernos".. o aqui e agora não é mais um simples vinculo em uma corrente terrena de eventos..que tão logo os homens medievais "entregavam-se à meditação. Essa justaposição do universal-cósmico e do particular-mundano significa que por maior que pudesse ser a cristandade. encontra-se o último como foi anunciado e prometido. a mediação de suas concepções para as massas iletradas. Ibid. suábias ou andaluzas. de modo que. Essa nova ideia está tão arraigada que se poderia e f Irma r que todo conceito fundamental moderno baseia-se num conceito de "enquanto isso". aquela relíquia. 32 Auerbach.. uma simultaneidade de passado e futuro em um presente momentâneo. Confronte a descrição do Velho Testamento. p. aos olhos de Deus. que fomos colocados no final dos tempos". algo já consumado na esfera do evento terreno fragmentário. não era menos essencial. dimensão horizontal. aquela peça moral. Mas é uma concepção de importância tão fundamental que. Feudal Society. p. Ela encara o tempo como algo próximo do que Benjamin chama de tempo messiânico. acharemos difícil investigar a génese obscura do nacionalismo. e que será cumprido no futuro. l. Era pois natural que o grande cronista do século XII. por Santo Agostinho. dentro do espírito de restauração do museu moderno. 34 33 34 WaltBr Banjarnin. algo onítemporal. marcada não pela prefiguração e cumprimento. a expressão "enquanto isso" não pode ter significação real. O humilde pároco cujos antepassados e cujas fraquezas eram conhecidos por todos os que assistiam a suas celebrações ainda assim era o intermediário direío entre seus paroquianos e o divino. Mimeste. e sabia-se que era. ele é simultaneamente algo que sempre existiu.. Citado em Bloch. é algo eterno. 265. Representar a Virgem Maria com traços "semitas" ou vestimentas do "primeiro século". l. no qual a simultaneidade é como se fosse transversal ao tempo. porque o pensamento cristão medieval não possuía uma concepção de história como infindável corrente de causa e efeito ou de separação radical entre passado e presente. era algo inimaginável. nada estava mais distante de seus pensamentos do que a perspectiva de um longo futuro para uma raça humana jovem e vigorosa". Bloch conclui. Grifo nosso. como réplicas delas mesmas. nem oausalmente — conexão impossível de ser estabelecida pela razão na. aquele vitral. p. a única capaz de traçar um plano de história como esse e fornecer a chave para sua compreensão. O que veio tomar o lugar da concepção medieval de simultaneidade longitudinal ao tempo é. Embora a classe letrada transeuropéia que lia era latim fosse um elemento essencial na estruturação da imaginação cristã. aquela fábula. se referisse seguidamente a "nós.32 infinidade de especifi cidades e de particularidades: este relevo. " Dentro desse modo de ver as coisas.

como Deus. 35 Pois essas formas ofereceram os recursos técnicos para "re-[a}presentar" a espécie de comunidade imaginada que é a nação. As origens do jornal moderno encon* tram-sa nas gazetas do final do século XVII. C e O não saibam o que se passa com os outras. Não tem ideia alguma sobre o que estão fazendo em qualquer tempo. ou um comentário complexo sobre a expressão "enquanto isso". B. no século XVIII: o romance e o jornal. e podem na verdade não ter sequer conhecimento da existência um do outro. que seus membros (A e D) podem até mesmo ser descritos como passando um pelo outro na rua sem jamais se relacionarem e. um segmento de. no qual um homem (A) possui uma esposa (B) e uma amante (C) que.35 Pode-se perceber bem melhor por que essa transformação seria tão importante para o nascimento da comunidade imaginada da nação se considerarmos a estrutura básica de duas formas de imaginar que pela primeira vez floresceram na Europa. que A e D estão encravados nas mentes dos leitores oniscientes. estarem li15 gados. Apenas eles percebem os vínculos.000. Enquanto Encolpius lamenta a infidelidade de seu jovem amante. II e llt. mais do que um pequeno número de seus 240. 38 Nesse contexto. p. no correr dessa sequência. in Pierre-Bernard Lafcnt e Denys tombará (orgs. surgia também. porém. e da elite nativa. . p. 197. Essas sociedades são entidades sociológicas de uma realidade tão firme e estável. Em 1887. que também é concebida como uma comunidade compacta que s'e move firmemente através da história. "The Modern literature of the Philippinss". urh enredo simples de romance. mas em línguas "aborígenes". O fato de que todos esses atos são desempenhados no mesmo tempo. Foi. da seguinte maneira: Tempo: Eventos. com documentos ou relatos da época transformada em ficção. A narrativa deste dessnróla-se linearmente. mas por atores que podem estar em grande medida despercebidos uns em relação aos outros. 37 Segundo. demonstra a novidade desse mundo imaginado evocado pelo autor nas mentes de seus leitores.000 de compatriotas. Podemos imaginar uma espécie de esquema temporal para esse segmento. traço tão carsctarístieodas antigas crónicas. se C tiver agido inteligentemente. medido pelo relógio e pelo calendário. nem mesmo saberá como se chama. é recompensadora a comparação. tudo ao mesmo tempo. que eles estão encravados em "sociedades" (Wessex. estrutura típica não só das obras-primas de Balzac. Mas está absolutamente seguro de sua atividade constante. de Petrônio. Tomemos. 1 II NI D beba em urn bar A janta em casa com S C tem um sonho sinistro A discute com B C a D fazem amor A lelsfona a C ã vai és compras D joga sinuca Observe-se que. Ela é evidentemente um instrumento para a apresentação da simultaneidade em um "tempo homogéneo e vazio". nos Tampos l. 41 José Hizal. que era. não ternos conhecimento simultaneamente de Gito na cama corn Ascyltus. o "Pai do Nacionalismo Filipino". 39 Nada demonstra melhor a Imersão do romance em um tempo homogéneo e vazio do que a ausSnela daquelas genealogias preliminares. de qualquer romance histórico. da que A. emlcamonte diversificadas. tem um namorado (D). para fins de ilustração. quase o primeiro romance escrito por um "índio". Considere-se primeiro a estrutura do romance à moda antiga. * Eis a maneira admirável como começa:4l Essa potifona distingue decisivamente o romance moderno até mesmo de um precursor tSo brilhante quanto o Satyrícon. 40 ftizel escreveu esse romance na língua colonial (o espanhol). chegando multas veres até à origem do homem. Febvre e Martin. M De fato. a compreensão do enredo pode depender. José Rizal. anónima e simultânea.). observam A telefonando a C. Var Leopoldo Y. escreveu ò romance NoliMe Tangeré. no época. Apenas'eíes. a língua franca das elites euraslanas. lendas e livros sagrados. indissoluvelmente ligadas a movimentos nacionalistas. a época ds Richardson. todas menos uma. p. 39 Um norte-ámericano jamais encontrará. e de diferentes épocas. The Lost Éden. hoje considerado o melhor produto da literatura filipina moderna. também. Littératures contemporaines de l'Asíe du Sud-Est. no entanto. Yabes. Noli Ma Tengere. B fazendo compras e D jogando sinuca. pela primeira vez. Los Angeles). Ao mesmo tempo que o romance. mas também de qualquer romanceco contemporâneo. uma imprensa "nacionalista". por sua vez. como o tagato a o ilocano. 287-302. Detoe e Fielding é o inicio do século XVIII. 3S Então. 37 Embora a Príncesse tíe CIÊves já tivesse sido publicada sm 1678. ainda assim. o jornal só se torna uma categoria geral de material impresso após 1700. The Corning ofthe Book. Talvez a perspectiva que estou sugerindo pareça menosabstrata se nos dedicarmos a examinar rapidamente quatro obras de ficção de diferentes culturas. A e D jamais se encontram. 1. não apenas em espanhol. o que é que realmente liga A a D? Duas concepções complementares: primeiro. 38 A ideia de um organismo sociológico que se move pelo calendário através do tempo homogéneo e vazio apresenta uma analogia precisa corn a ideia de nação. Líibeck.

37 Don Santiago de los Santos oferecia um jantar festivo numa noite de fins de outubro da década de 1880. quem reconhece somos nós-os-leitores-fílipinos. e seu amigo íntimo Aladin. que ainda pode ser reconhecida. logo de início. que se movem para diante pelo tempo do calendário. 205-6. Noli foi feito para ser lido. do tempo "interior" do romance. p. Observe-se também o tom. o mundo de sua obra-prima é. Embora Rizal não tenha a menor ideia da identidade de cada um de seus leitores. Certamente não terá sido demolida por seu proprietário. jamais fechava suas portas — exceto. para ser declamado em voz alta. B por séculos. 44 Ibid. A liberalização só teve Inicio na década de 1860. metseqs. e indicava que ele havia sido outrora o prefeito nativo de uma pequena cidade. a Pmagdaanang Buhay nl Florante at w Loura sã Cahariang Albânia [A história de Florante e Laura no Reino da Albânia]. evoca imediatamente a comunidade imaginada.. Alguns deles puseram-se em busca de polimento para suas botas. . 43 Pois embora Baltazar ainda fosse vivo quando nasceu Rizal. um nobre albanês cristão. de seus anos de estudo em Atenas e de 4Í O reverso da obscuridade anónima dos leitores foi/é B celebridade Imediata do autor.. Todos sabiam que sua casa. de botões de colarinho e gravatas. ** Quase metade dos 399 quartetos são relatos da infância de Fiorante. ao comércio e a qualquer ideia que fosse nova ou ousada. enquanto Florante at Laura.. p. De modo que a notícia de seu jantar correu como um choque elétrico por toda a comunidade de filantes. 35. autor e leitores. contrariando seu costume. mistura expressões espanholas em seus quartetos em tagalo. é claro. e até mesmo na cidadela espanhola de Intramuros. Certamente não é necessário um longo comentário. como seu país. Seus heróis — Florante. não intencionalmente. a menos que tenha vindo abaixo com algum terremoto. os quais Deus. Embora. às vezes se considera que eles estão contratados pelo governo exatamente para esse fim. outros. isso se deixa em geral para Deus e a Natureza. apenas para aumentar a grandiosidade e a sonoridade de sua linguagem poética. Como observa Lumbera. "Tradition and Influer. aristocrata persa muçulmano ("mouro") — só nos lembram as Filipinas pela ligação cristão-mouro. que não se conhecem entre si.. O mais chocante é o manuseio do tempo por Baltazar.42 Não há o que ofereça maior sentimento foucaultiano das abruptas descontinuidades da consciência do que comparar Noli com a mais célebre obra literária anterior de um "índio". logo se tornou o tema das conversas em Bínondo. de tal modo que a história completa só nos chega mediante uma série de falas que servem como/fos/ibacks". em outros distritos de Manila.. "o desenrolar do enredo não segue uma ordem cronológica. parasitas e penetras.velha amizade. Enquanto Rizal salpica deliberadamente sua prosa espanhola com palavras de tagalo para obter efeitos "realistas". ou. satíricos ou nacionalistas.". Baltazar. ele tinha reputação de pródigo. mas cada um deles dedicou o melhor de seu pensamento à maneira como poderiam saudar seu anfitrião com a fingida intimidade de. porém. a imagem (inteiramente nova na literatura filipina) de um jantar que é discutido por centenas de pessoas anónimas. E na frase "uma casa na Rua Anloague. Don Santiago era mais conhecido como Capitão Tiago — a patente não era militar mas política. embora talvez já tivesse sido escrita em 1838. Seu cenário — uma Albânia medieval fictícia — é completamente distante no tempo e no espaço da Binondo da década de 1880. cuja primeira edição impressa data de 1861. esse obscuridade/celebridade tem tudo a ver com B disseminação do capitalismo editorial. a imprensa foi mantida sob estrito controla eclesiástico. Lumbera. A partir de então. Naquele tempo. Ver Blenvenido L. dominicanos ativos haviam publicado em Manila a Doctrina CMstiana. num determinado mês de uma determinada década. para o tempo "exterior" da vida quotidiana do leitor de Manila oferece uma confirmação hipnótica da solidez de uma comunidade singular. se houvesse ocasião. Já em 1593. nas Filipinas. *Mbid. 143 e 235. abran- gendo personagens.. A história começa In medias rés. só cr tenha anunciado na tarde do mesmo dia. p. O jantar foi oferecido em uma casa na Rua Anloague. 1570 a 1898". onde ele morava. A passagem natural dessa casa. havia criado e generosamente multiplicado em Manila. Como varemos. estranho ao de Noli. quanto a tudo o que tem de básico. que ainda pode ser reconhecida. em diferentes bairros de Manila. escreve para eles com uma intimidade irónica. em Sua infinita sabedoria. Basta que se observe que.ces in tha Development of Tagatog Postry. como se seu relacionamento com eles não fosse nem um pouco problemático. desculpar-se polidamente por não haver chegado mais cedo onde presumivelmente sua presença era tão ansiosamente esperada. Na verdade.

[o herói. monastérios. Quão distante está essa técnica da do romance: "Naquela mesma primavera. 214-15. "Mas Marco Kartodikromo (c. é a supermãe de Periquillo que ganha a parada. Mimesis. que agora tu assassinas/ lamento. em 1924:31 49 45 A técnica é semelhante à da Homaro. linear. "Tradition and Influenoes". bangis caliluhan. %. uma história escrita pelo malfadado jovem indonésio nacionalista-comunista. cap. aldeias longínquas.. como aquela em que Salomé seduziu-se por João Batista. {890-1932Í. índios. 35-6'. Se ficamos sabendo dos passados "simultâneos" de Florante e Aladin.) Finalmente. Aladin era expulso da corte de seu soberano.45 (Contraponham-se as prisões da Bíblia.. prisões. nunca ocorre a Baltazar "situar" seus protagonistas na "sociedade". mas Lumbera demonstra. ou não tinham capacidade para disciplinálo. Cada uma delas. Pois eles evocam um espaço social cheio de prisões comparáveis. Nada nos assegura mais dessa solidez sociológica do que a sucessão de plurais.. negros — não é porém um tour du monde. por terem Rizal e Lizardi escrito ambos em espanhol. Grifos nossos. meteórica. muito embora depare com muita gente boa e sábia. aldeias longínquas.". padre. está magicamente solitária. nenhuma deJas por si só de qualquer importância singular. 34. enquanto Florante ainda estudava em Atenas. para Baltazar. 1890-1932) ou L'&Jucation Politique". José Joaquín Fernandez de Lizardi escreveu um romance chamado El periquillo sarmento [O papagaio sarnentoj."/ "Adeus. e'sse texto é "uma feroz acusação à administração espanhola no México: ignorância. seus professores ou não tinham vocação. prisões." Essa famosa estrofe tem sido às vezes interpretada corno uma vetada afirmação de patriotismo filipino. seu defensor.. De fato. evidentemente a primeira obra latino-americana desse género. porém. Não tem disposição para trabalhar. Marco foi internado pelas autoridades coloniais holandesas em Boven Digul. p. de maneira convincente. após seis anos de confinamento. sua ligação apenas se dá pelas vozes em conversa. Esses episódios permitem que o autor descreva hospitais. baseada na impressão de 1861. Esse tour d'horison picaresco — hospitais. . 47 Jean Franco. jogador. funcionário numa cidade do interior. Como também não há muito de "filipino" nesse texto. An tntroifuction to Spsnish-Arnerícsn Literature.. p.. ou discuti-los com seu público. setenta anos antes de Noli ser escrito. Grifos nossos. 46 "Paalam Albaniang pinamamayanam/ ng casama. ^ Em 1816.suas subsequentes proezas militares.. como jornalista radical. aprendiz de farmácia. brutalidade e decepção!/ Eu.. nem para levar nada a sério. sucessivamente.. para afastar a possibilidade de que. 1 ("Odysseus1 Scar"). Elas não são nunca imaginadas como típicas desta ou daquela sociedade. as estruturas que temos estudado sejam algo "europeias".. e não pela estrutura do poema. médico./ acong tangulan mo. e se torna. O horizonte é claramente delimitado: é o do México colonial. i. um dos mais antigos campos de concentração do mundo. i. enquanto. 7.lupit. agora reino/ do mal.. ao mesmo tempo.. da crueldade. Mas Marco Kartodikromo. Vemos aqui novamente a "imaginação nacional" funcionando nas andanças de um herói solitário por uma paisagem sociológica de uma . sua mãe satisfaz seus caprichos. Periquillo continua incorrigivelmente ignorante. 51 Segundo tradução de Paul Tickell em seu Three Early Indonesian Short Stories t>y Mas Marco Kartodikromo (s.estabilidade que funde o mundo de dentro do romance com o mundo de fora. superstição e corrupção são vistas como suas mais notáveis características". martela num ponto importante — que o governo espanhol e o sistema de educação estimula m o parasitismo e a preguiça. para ajustá-lo a uma edição da 1973 do poema. p. mas todas representativas (em sua existência simultânea e distinta) da tirania desta colónia. Após uma carreira curta. As aventuras de Periquillo levam-no diversas vezes a estar entre índios e negros. cusa mang pinatay/ sã iyo. tão competentemente exposta por Auerbach. Alterei ligeiramente o texto em tagalo apresentada por ele. a não ser pelo fluxo melífluo dos polissílabos em tagalo. Henrl Chambert-Loir. A tradução para o inglês é da Lumbera. o papagaio sarnemo) é exposto a • más influências — criadas ignorantes incutem superstições. Nas palavras de um crítico. A forma essencial desse romance "nacionalista" está na seguinte descrição de seu conteúdo: 4S Desde o inicio. Albânia. malaquf ang panghihinavang. p. o destino que te coube. E embora seu pai seja um homem inteligente que quer que o filho se dedique a uma profissão útil. ao invés de ir engrossar as fileiras dos advogados e parasitas. monastérios. manda o filho para a universidade e assegura assim que ele irá aprender apenas disparates supersticiosos. 50 publicada em folhetim. a única alternativa de uma narrativa direta. p. que tal interpretação ô anacrónica. fornecidos pelo herói em conversa com Aladin. nos longínquos pântanos interiores do oeste da Nova Guiné. 50 Essa deslocamento de um herói solitário por uma paisagem social adamantina é típico de muitos dos antigos romances (antí)coloniais. 4S O "flashback falado" foi. 203. ÍB Ibid. Al! morreu em 1932. eis aqui o início de Semarang Hitaw [O Semarang negro]. ladrão. in Littératures contemporaines de l'A$ia du Sud-£st.

. Um jovem estava sentado num longo sofá de vime. alguns de nós pode- Em 1924. Como no caso de Noli. É apropriado que.noite. quando o vento soprava do leste. se nos voltarmos agora para o jornal como produto cultural. mas coerentemente mencionado como "nosso jovem". seu ódio dirigiu-se ao sistema social que dava origem a tanta pobreza. não na vida pessoal. digamos. De vez em quando. mas dessa vez iriam se decepcionar — devido à letargia causada pelo mautempaeàsestradaspeguentas noskampongs. The New York Times. as calçadas habitualmente apinhadas de gente. e assim.' nem seus leitores. sábado à. Se na ficção jocosa e elaborada da Europa dos séculos XVIII e XIX. 208. vamos ficar chocados por seu profundo caráter ficcional. Por um momento sentiu um ódio explosivo bem dentro de si. o tropo "nosso herói" simplesmente ressalta um jogo do autor com ura leitor (qualquer). esperando talvez encontrar algo que o fizesse parar de se sentir tão miserável. kampongs e lâmpadas de gás. a manha de sábado era um momento de expectativa — expectativa do lazer e da alegria de circular pela cidade à noite.. Exatamente o caráter canhestro e a ingenuidade literária do texto confirmam a "sinceridade" não deliberada desse adjetivo pronominal. como se pode ver pelo fato de que o ódio do jovem dirige-se "ao". estamos num mundo de plurais: oficinas. significa um jovem que. Mas há também algo de novo: um herói que nunca é chamado pelo nome.dúvida quanto à referenda. 52 Ele também não se importa o mínimo com quem seja. Grilo nosso. porém. Chambert-Loir escreva que "não t a m ideia nenhuma tio sentido da palavra 'socialismo': não obstante. Pelo fato de que a pesada chuva durante o dia todo deixara as estradas encharcadas e muito escorregadias. Nem Marco. nós-os-Ieitores-indonésios mergulhamos imediatamente num tempo de calendário e numa paisagem familiar. todos haviam ficado em casa. a luz clara das lâmpadas de gás se obscurecia.. . individualmente. lendo um jornal. têm qualquer. um amigo Intimo e aliada político de Marco publicou um romanos intitulado Rasa Manlika [Samido llvro/O sentimento da libertada]. As estradas principais habitualmente abarrotadas de toda sorte de tráfico. mas imagina-o a partir do que está impresso num jornal. apareça um jornal encravado na ficção. Para os trabalhadores de oficinas e escritórios. Sobre-o herói desse romance (que ele atribui erradamente a Marco]. Às vezes sua irritação. a comunidade imaginada confirma-se pela réplica de nossa leitura a respeito da leitura de nosso jovem. ("Mas Marco". sente um profundo mal-estar diarvte da organização social que o rodeia e sente necessidade de ampliar seus horizontes por dois métodos: viagem e leitura". uma embrionária "comunidade imaginada" indonésia. Nessa noite. A seguir sentiu piedade. não menos pela inovação. pertence ao corpo coletivo dos leitores do Indonésio. às vezes seu sorriso eram sinal certo de que estava profundamente interessado no que lia. Repentinamente. Ele não encontra o cadáver do miserável vagabundo à beira de uma estrada peguenta de Semarang. Semarang estava deserta. incitando o cavalo a tocar em frente — ou o clip-clop dos cascos dos cavalos puxando as carruagens. O jovem comoveu-se com esse breve relato. (Mesmo que os censores coloniais holandeses poliglotas se juntem a seus leitores. e não "a nosso". Observe-se que Marco não sente necessidade de especificar essa comunidade pelo nome: ele já está ali. eles estão excluídos de participar desse "nosso". sistema social. pois. os Jovens de Semarang jamais ficavam em casa aos sábados à noite. A luz das fileiras de lâmpadas de gás iluminava diretamente a estrada de asfalto brilhante.40 41 Eram sete horas. Imaginava perfeitamente o sofrimento daquela pobre alma quando jazia moribunda à beira da estrada. o estalo de um chicote duma charrete. ali encontrare62 Aqui. Virava as páginas do jornal. não havia ninguém se mexendo. implicitamente. o morto: ele pensa no corpo representativo. Estava totalmente absorvido. Qual a convenção literária fundamental do jornal? Se olharmos uma primeira página típica de. deu com uma notícia intitulada: PROSPERIDADE Um miserável vagabundo f içara doente e morrera ao abandono à beira da estrada. p. um herói solitário é sobreposto a uma paisagem social descrita em detalhes cuidadosos e gerais. Em outro momento ainda. carruagens.. Vez por outra. tudo estava deserto.) Finalmente. Uma vez mais. como em El periquillo sarmento. mós bem ter caminhado por aquelas "peguentas" estradas de Semarang.) O papagaio sarnento mudou-se para Java e para o século XX. escritórios. em Semarang Hiíam. enquanto tornava rico um pequeno grupo de pessoas. o "nosso jovem" de Marco.

apenas quem lá checo comprará livros em checo.ele antecipa os produtos duráveis de nossa época — é um objeto bem definido. o livro Impresso foi de uso universal. The Corning of lhe Book. já em fins do século XV. Já em 1480. se compararmos o livro com outros primeiros produtos industriais. como tecidos. 186. em toda [sic] a Europa. Ibíd." 56 Em sentido muito especial. volumes ou unidades). e o mercado. havia gráficas em mais de 110 cidades. nisso. p. extraordinário best-seUet. contudo. nem por um momento os leitores imaginarão que Mali desapareceu. Até mesmo a Bíblia de L'jtoro. é óbvio que a maioria deles aconteceu independentemente.. Isso montava a não menos de 35. produziram-se ria Europa mais de 20. os dois tipos de bast-sellers costumavam ser méis estreitamente ligados do que hoje. "A partir daquela data.. porém — e. ou do que os outros estavam fazehdo. Dickens também publicava como folhetim em jamais populares seus romances populares. 125). coleções pessoais de mercadorias produzidas em série.000 de volumes impressos. sem que seus atores tivessem consciência uns dos outros.000 edições produzidas em nada menos que 236 cidades.)59 Desta perspectiva. 2 na Boémia e 1 na Polónia. 54 Febvre e Martin. 50 das quais na hoje Itália. da importância fundamental para o desenvolvimento da Europa moderna. Uma libra de açúcar^ é simplesmente uma quantidade. depois de dois dias de reportagens sobre a fome.5Í "Desde então. 57 Esse é um ponto bom estabelecido no meio das fantasias de Gutenberg Galaxy. . no século XVI.000 exemplares. como uma forma de'livro. 24 gráficas com mais de cem operários em cada uma delas.54 Entre 1500 e 1600. 8 em cada uma. cada livro possui uma auto-suficiência erèmítica própria. o livro sempre se distinguiu dos demais bens duráveis por seu mercado intrinsecamente limitado. 56 Quanto a isto..53 Dentro daquele tempo. sau papal estratégico na disseminação da ideias tornou-o. tijolos. vinte anos depois." (p. Pode-se acrescentar que. 5B Uma libra de açúcar confunderse com a seguinte. Pois estas mercadorias são medidas em quantidades matemáticas (libras. Contudo. o jornal não passa de uma "forma extrema" do livro. em algum lugar fora dali. A tiragem média no século XIX era inferior a 2.. 60 A obsolescência do jornal no dia seguinte ao de sua impressão — é curioso que uma das ss Lar um jornal é como ler um romance cujo autor tivesse deixado de lado qualquer ideia de um enredo coerente.. Ata o século XIX. já no século XVI. no correr dos quarenta anos entre a publicação da Bíblia de Gutenberg e o final do século XV. A arbitrariedade de sua inclusão e justaposição (uma edição posterior substituirá Mitterand pelo resulta1do de uni jogo de beisebol) demonstra que a vinculação entre eles é imaginada. (Não «admira que bibliotecas. The Coming of lhe Book. í7 O sentido que tenho em mente se revela. 5 em cada. teve uma primeira edíçflo de apenas 4. 30 na Alemanha. O livro. pode-$a dizer qua. A primeira edição excepcionalmente grande da Encyc/opédie de Dlderot n5o foi além da 4. 218-20. Por que se justapõem tais eventos? O que os liga uns aos outros? Não é mero capricho. p.42 43 mós reportagens sobre dissidentes soviéticos. um horrível assassinato. iremos examinar a importância ctsssa distinção. Calcula-se que.000 exemplares. se o mercado do livro tornouse pequeno diante dcs marcados de outras mercadorias. reproduzido com exatidão em grande escala. p.000. aguardando sua reaparição seguinte no enredo. e um discurso de Mitterand. A primeira é simplesmente coincidência no calendário. ou que a fome exterminou todos os seus cidadãos.' O formato de romance que tem o jornal lhes assegura que. as oficinas gráficas mais se assemelhavam a modernas oficinas de trabalho do que 53 a salas de trabalho monásticas da Idade Média. na Holanda e na Espanha. o livro foi a primeira mercadoria industrial produzida em série no estilo moderno. 125. a marca peculiar mais importante que ele apresenta. Fust e Schoeffer já geriam um negócio. 9 na França. as Bicões oram ainda relativamente pequenas. da Antuérpia. Quem quer que tenha dinheiro poda comprar carros checos. Febvre e Martin. fome em Mali. Mais adiante. O sinal disso: se Mali desaparecer das páginas do The New York Times por meses a fio. no século XVI. A segunda fonte de vinculação imaginada encontra-se na relação entre o jornal. em centros urbanos como Paris. um livro vendido em escala imensa. o editor venaziano Aldus havia sido pioneiro no lançamento da uma "edição de bolso" portátil. p. um volume conveniente» não um objeto em si mesmo. equipado para a produção padronizada e. 'Poderia dizer-se que são best-sellers por um só dia. o principio é mais importante do que a escala de grandeza. a descoberta de um fóssil raro no Zhnbábue. 262. Ao mesmo tempo. auto-suficiente. de Marshall McLuhan (p. 60 Como demonstra o caso do Semanng W/tam. o "personagem" Mali se movimenta silenciosamente. na Bélgica e na Suíça. 69 Além disso. Essa vinculação imaginada provém de duas fontes indiretamente relacionadas. grandes empresas gráficas funcionavam por toda parte. ou açúcar. 4 na Inglaterra. já fossem um espetáculo comum.182l 86 Ibid. esse número atingira entre 150 e 200 milhões. porém de popularidade efémera. Comentam os autores que. "o mundo" caminha decididamente para a frente. A data no alto do jornal. os livros estavam prontamente à disposição de qualquer um que soubesse ler. A grande editora Plant n. Em 1455. controlava.260 exemplares. golpe no Iraque. fornece a conexão essencial — a marcação regular da passagem do tempo homo* gêneo e vazio. na Europa.

Sem dúvida. Ela se desenrola em silenciosa intimidade. e do desenvolvimento cada vez mais rápido das comunicações. poder e tempo de uma maneira significativa. Antes de iniciar uma discussão das origens específicas do nacionalismo. "Some Conjectures about trie Impact of Prirjting on Western Society and Thought". no entanto. Mas o mecanismo representativo (eleições?) á uma festa rara e móvel. cravou uma firme cunha entre a cosmologia e a história. essa cerimónia é interminavelmente repetida a intervalos de um dia. bem no fundo da cabeça. não cronometrado. nem a tornasse mais frutífera. Afirmei. associadas. Essas ideias. As lealdades humanas eram necessariamente hierárquicas e centrípetas. fundamentalmente. por toda parte. de cuja existência está seguro. Como se poderia representar ilustração mais vívida para a comunidade imaginada historicamente cronometrada? 62 Ao mesmo tempo. será conveniente recapitular as principais proposições apresentadas até aqui. o que de outro modo seria o caos dentro de urna nova legitimidade do Estado". a concepção de temporalidade.) A significação dessa cerimónia de massa — Hegel observava que os jornais são. observa Nairn que "o mecanismo representativo converteu a desigualdade ds ciasse real no igualitartsmo abstraio de cidadãos. exatamente por essa razão. Em terceiro lugar. a um número cada vez maior de pessoas. mas não fica atrasado. sente-se permanentemente tranquilo a respeito de que o mundo imaginado está visivelmente enraizado na vida quotidiana. Não é pois surpresa que a busca se processasse. exatamente simultâneo do jornal-comoficção. . primeiro na Europa ocidental e. criando aquela notável segurança de comunidade anónima que." Elizabeth L. Ao escrever sobre a relação entre a anarquia material da sociedade de classe média e uma ordem estatal política abstraia. O segundo era a crença de que a sociedade era organizada de maneira natural em torno de e sob centros elevados — monarcas que eram pessoas distintas dos outros seres humanos e que governavam por alguma forma de disposição cosmoiógica (divina). para o homem moderno. por assim dizer. Sabemos que determinadas edições matinais e vespertinas serão esmagadoramente consumidas entre tal e tal hora. depois. antes só encontra nas regularídadss diárias ds vida da imaginação. e se relacionarem com outras. os egoísmos individuais em vontade coletiva impessoal. ou de meio dia. sob o impacto da mudança económica. £4. 40: 1 (março de 1968). e onde. vendo réplicas exatas de seu jornal sendo consumidas por seus vizinhos do metro. Foi essa ideia que permitiu que surgissem as grandes congregações transcontinentais da cristandade. um substituto das preces matinais — é paradoxal. (Contraponha-se isso ao açúcar. pensarem sobre si mesmas. O primeiro deles era a ideia de que uma determinada língua escrita oferecia acesso privilegiado à verdade ontológica. precisamente por ser parcela inseparável daquela verdade. esta extraordinária cerimónia de massa: o consumo ("o imaginar") quase que. como a escrita sagrada. que tornou possível. todos extremamente antigos. 61 Contudo. porque o governante. The Break-up of Brítain. da barbearia ou de sua casa. a ficção desliza silenciosa e continuamente para dentro da realidade. no sentido de um novo modo de tornar a vincular fraternidade. p. Mais ainda. Ajiecadência lenta e irregular dessas certezas encadeadas. enraizavam firmemente as vidas humanas na própria natureza das coisas. 61 s3 "Material impresso estimulava a adesão silenciosa a causas cujos defensores não podiam ser localizados em nenhuma localidade 9 que se dirigiam de longe a um público invisível. ele pode ficar ruim. do que o capitalismo editorial. cada um dos comungantes está bem cônscio de que a cerimónia que executa está sendo replicada. à privação e à escravidão) e propiciando vários modos de libertar-se delas. penso eu. três conceitos culturais básicos. e não em outro. sendo essencialmente idênticas as origens do mundo e dos homens. ao correr do calendário. por milhares (ou milhões) de outros. cujo uso se processa num fluxo contínuo. Jautri»! of Modern Hlstary. p. embora sobre cuja identidade não possua a menor ideia. de maneira profundamente renovada. simultaneamente. apenas neste dia. que a possibilidade mesma de se imaginar a nação só surgiu historicamente quando. Eisenstein.44 45 mais antigas mercadorias produzidas em série fizesse antever assim a obsolescência implícita dos modernos produtos duráveis — cria. era um ponto central de acesso à existência e a ela inerente. do isiamismo e as demais. Como em Noli Me Tangere. A geração da vontade impessoal. o leitor de jornal. é a marca de garantia das nações modernas. Talvez nada acelerasse mais essa busca. deixaram de ter domínio axiomático sobre o pensamento dos homens. 42. em que a cosmologia e a história não se distinguiam. conferindo determinado sentido às fatalidades diárias da existência (sobretudo à morte. das "descobertas" (sociais e científicas).

Assim sendo.000.. a edição de livros era afetada por toda a busca incessante de mercados do capitalismo. 56. 3 Citado em Eisansteín. No século XVI. p. os mercados representados pelas massas monoglotas. é possível que 200 milhões de volumes já tivessem sido manufaturados por volta de 1600. 6 "Daf ter sido a introdução da imprensa. L'AppBrition. "Some Conjectures". (O texto original. de massa". ' indicando o surgimento da "era da reprodução mecânica" de Benjamin. 6 O mercado inicial foi a Europa letrada. 122. a nação se tornou tão popular? Os fatores envolvidos são obviamente complexos e variados. a grande massa da humanidade é de monoglotas. uma atapa no caminho para nassa atuo soc-iedsde de consuma da massa e de padronização. potencialmente enormes.. Polo. 394. O fato decisivo quanto ao latim — fora sua sacralídade — é que ele era uma língua de biííngúes. Febvre e Martin. não é de admirar que Francis Bacon julgasse que a imprensa havia alterado "a aparência e o estado do mundo". 1 Sendo uma das mais antigas formas de empresa capitalista. Naquela época. As primeiras gráficas instalaram filiais por toda a Europa: "desse modo." Ibid. quanto a isso.que a proporção na população mundial de hoje e — não obstante o internacionalismo proletário — dos próximos séculos. a atividade editorial participou da expansão geral. defender com'vigor a primazia do capitalismo. pelo menos 20 milhões de livros já haviam sido impressos em 1500. a nlo "abastados". p. 248-9. 187. ampla mas ténue camada de leitores do latim. porém. Por que. pue melhor se traduziria por "civilização padronizada. a lógica do capitalismo indicava que. como hoje. Travsls.) 6 Ibid. É certo que a Contra-Reforma estimulou um ressurgimento temporário da atividade editorial em latim. 2 Característico disso é o livro das viagens de Marco Polo. em meados do século XVII. 4 E cbmo os anos de 1500-1550 foram um período de prosperidade excepcional na Europa.5 . que permaneceu em grande medida desconhecido até sua primeira impressão em 1559. transversal ao tempo". XIII. L'Apparitiorr. p. fala simplesmente de "par-dessusles frorrtíères" í" por sobre as fronteiras"!.47 AS ORIGENS DA CONSCIÊNCIA NACIONAL Se o desenvolvimento da imprensa-como-mercadoria é a chave da geração de ideias inteiramente novas de simultaneidade. dentro desse tipo. A saturação desse mercado levou cerca de 150 anos. p. O 1axtt> original fala ao capitalistas "puissants" (poderosos. que ignorava fronteiras nacionais [sic]".000. imagina-se. 194. muito provavelmente não maior do . o conhecimento impresso vivia da reprodutibilidade e da disseminação. p. Pode-se. sonhava em latim. p. criouse-uma verdadeira 'internacional' de editoras. porém.. buscavam primeiramente aquelas obras que fossem de interesse para o maior número possível de seus contemporâneos". L 'Apparitíon. seriam o atrativo. conseqúentemente. mas. 2 Se. p. como crêem Febvre e Martin. p. The Corning of Ifie Book. o movimento esta4 Febvre o Martin. a proporção de bilíngues na população total da Europa era muito pequena. Se o conhecimento manuscrito era um saber escasso e misterioso. The Corning of the Book. (O textc original diz "une civilisation da masse et de standardisation". 5 Naturalmente. p. ainda assim estamos simplesmente no ponto em que se tornam possíveis comunidades do tipo "horizontai-secular. 259-60. 3 A população da Europa em QU9 a imprensa era então conhecida era du cerca de 100. 281. Como já foi assinalado. uma vez que o mercado latino de elite estava saturado. "Mais do que em qualquer outro tempo" ela foi "uma grande indústria sob o controle de abastados capitalistas". os "livreiros preocupavam-se primordialmente em conseguir lucro e em vender seiis produtos e. Relativamente poucos haviam nascido para falar em latim e menor número ainda.

haviam sido publicadas ali apenas 42 edições. o primeiro escritor que vendia seus Sivros novos com base no próprio nome." 9 De fato. porém. outros rapidamente se seguiram. Para nos atermos à Genebra de Calvino: entre 1533 e 1540. está em que. e para sua inaplicabilidade. Roma ganhava facilmente todas as guerras contra a heresia na Europa ocidental. ao mesmo tempo. foram publicadas 430 edições (integrais ou parciais) de suas traduções da'Bíblia. o protestantismo sempre esteve basicamente na ofensiva. tendo em vista a reputação de seus autores no mercado.. Agora. Lutero tornou-se o primeiro autor de grande vendagem conhecido como ta!. devido a seu status como texto. Ou. O primeiro deles. Entre 1522 e 1546. M Ibid. na época. uma escassez de dinheiro por toda a Europa levou as gráficas a pensar cada vez mais em vender edições baratas nas línguas vulgares. dois dos quais contribuíram diretamente para o surgimento da consciência nacional. enquanto que a Contra-Reforma defendia a cidadela do latim. Ibid. uma nova forma de apreciar os elaborados resultados estilísticos dos antigos. 8 Nas duas décadas de 1520-1540. Molíèra s La Fomaine •vendiam suas tragédias e comédias manuscritas diretamente. 7 O impulso revolucionário do capitalismo no sentido da utilização das línguas vulgares recebeu um ímpeto adicional de três fatores externos. 161. cada vez mais afastado da vida eclesiástica e da vida quotidiana. Nesse meio tempo. 291-5. e saturadas as bibliotecas ardorosamente católicas. 289-SO. Símbolo disso é o índex Llbrorum Prohibitorum do Vaticano — que não tinha correspondente no protestantismo —. em 1535. entre 1550 e 1564. foram editados três vezes mais livros na Alemanha do que no período de 1500-1520. tornou-se patente. " Ibid. . e em última análise o menos importante. p. Graças ao labor dos humanistas.. Quando. p. isto é. foi uma alteração no caráter da própria língua latina. pela primeira vez. p. e nesta última data não havia menos de quarenta gráficas distintas trabalhando em horas extras. 8 Suas obras representaram nada menos do que um terço de iodos os livros em alemão vendidos entre 1518 e 1525. porque sempre teve linhas internas de comunicação melhores que seus desafiantes. que vedava a impressão de todo e qualquer livro em seu reino — sob pena de morte por enforcamento! A razão para essa proibição. que as compravam como investimentos excelentes.aos editoras. 7 lbid. elas foram impressas em tradução para o alemão e. as fronteiras orientais de seu reino estavam cercadas por Estados e cidades protestantes que produziam uma torrente maciça de material impresso contrabandeável. Antes da era da imprensa. para a qual Lutero foi absolutamente fundamental. ele adquiriu uma característica esotérica.. foi o impacto da Reforma que. no seio da//ltelUgentsia transeuropéia. muito diversa da do latim da Igreja da época medieval. "Temos aí. Nessa gigantesca "luta para conquistar o pensamento dos homens' '. Nada transmite melhor o sentido' dessa mentalidade de assédio do que a aterrorizante proibição de Francisco I. em 1517. mas apenas por ser inteiramente escrito. Em segundo lugar. "no espaço de quinze dias [haviam sido] conhecidas em todos os cantos do país"... s 10 p.48 49 vá em decadência. Martinho Lutero afixou suas teses na porta da capela em Wittenberg. p. Ibid. tornava-se obscuro devido ao que era escrito. deveu muito de seu êxito ao capitalismo editorial. dando início à colossal propaganda religiosa que avassalou a Europa toda no correr do século seguinte. onde Corrwllla. O latim que agora se pretendia escrever tornava-se cada vez mais ciceroniano e. devido à linguagem em si mesma. como prova disso. 10 Onde Lutero foi o primeiro. transformação espantosa. 310-5. A partir desse ponto. catálogo singular que se fez necessário devido ao maciço volume de subversão impressa. precisamente porque sabia como utilizar o crescente mercado da imprensa em língua vulgar que o capitalismo criava. uma verdadeira massa de leitores e uma literatura popular ao alcance de todo o mundo. em outras palavras. Pois o antigo-latim não era obscuro devido a seu conteúdo ou a seu estilo. fazendo renascer a enorme literatura da antiguidade pré-cristã e disseminando-a por meio do mercado editorial. 195. mas esse número subiu para 527. era só um passo pars a situação na França do século XVII. Dessa maneira.

Veio a seguir. Essa fusão tornou possível que a nova língua. a língua da corte. literária e administrativa. Como diz ironicamente Bloch. após 1362. de línguas vulgares específicas como instrumento de centralização administrativa por determinados pseudomonarcas absolutos presuntivos bem posicionados. aqui. l5 Em outros reinos dinásticos. (O pânico de Francisco I era tão político quanto religioso. a fragmentação política da Europa ocidental. não há nada que indique que quaisquer impulsos ideológicos. p. uma vez que era encarada meramente como forma adulterada do latim. vale dizer uma Síngua que. p. Obviamente. que enfrentavam a ascensão 1S w Seton-Walso-ri. não deliberado. 75. Feudal Society. Feudai Sociery. !6 Em todo caso. 83. M Bloch. viesse a ser a língua da corte — e para a abertura do parlamento. era o anglo-saxão. sem falar em protonacionaís. '«Ibid. desse modo. levou diversos séculos para erguer-se à dignidade literária". dadeiro correspondente político. ainda que em ritmo mais lento. conheciam de latim — e simultaneamente mobilizava-os para fins político-religíosos. Anteriormente à invasão normanda. tivesse sido administrada originariamente ern inglês primitivo. ou inglês primitivo. havia a disseminação. governada a partir de Londres. a Bíblia manuscrita em língua vulgar. por isso. e não "nacionais". línguas vulgares "estrangei'ras" se impuseram: no século XVIII. uma lenta fusão entre essa língua de uma classe dirigente estrangeira e o anglo-saxão da população submetida deu origem ao inglês primitivo.. . É improvável que a Guiana. Enquanto isso. que tipicamente pouco ou nada. -É instrutivo o contraste com a China Imperial. mas também partes da Irlanda. p. Ao mesmo tempo. a autoridade religiosa do latim nunca possuiu um ver-. "o francês. lenta e geograficamente desigual. profundamente arraigados estivessem subjacentes à utilização de línguas vulgares onde ela ocorreu. O mesmo terremoto produziu os primeiros Estados europeus não dinásticos e não cidades-Estado de importância. criou rapidamente grandes públicos leitores novos — inclusive entre mercadores e mulheres. após o colapso do Império do Ocidente. p.. na República da Holanda e na Comunidade dos Puritanos. em 1382. tecedeu tanto a imprensa quanto a revolução religiosa do século XVI. u É fundamental que se tenha ern mente que essa sequência constituía uma série de línguas "de Estado". M apenas se tornou a língua oficial dos tribunais de justiça em 1539. pragmático. não apenas a Inglaterra e o País de Gales de hoje. l. No Sena. quando Francisco I expediu o Edito de Villers-Cotterêts. e que o Estado envolvido abrangia. significava que nenhum soberano poderia monopolizar o latim e torná-lo sua língua oficial exclusiva e. enormes parcelas das populações submetidas conheciam pouco ou nada de latim. l3 Só depois de quase um século após a entronização política do inglês primitivo é que o poder de Londres foi varrido para fora da "França". que a universalidade do latim na Europa ocidental medieval jamais correspondeu a um sistema político universal. ser encarado (pelo menos inicialmente) como fator independente na erosão da comunidade sagrada imaginada. l. para não dizer casual. Como tal. de Wycliffe. não era apenas a Igreja que se abalava em seus fundamentos.) Em terceiro lugar. francês normando. No correr do século e meio seguinte.50 51 A coalizão entre o protestantismo e o capitalismo editorial. era inteiramente diferente das políticas linguísticas deliberadas perseguidas pelos dinastas do século XIX. 28-9. Entre cerca de 1200 e 1350. p. Com efeito. Netions and States. Não se deve supor que a unificação da língua vulgar administrativa tenha sido realizada Imediatamente ou tis maneira completa. Netfons anrf Slates. a "escolha" da língua parece constituir-se num desenvolvimento gradual. e deve. as línguas da corte dos Romanovs eram o francês e o alemão. virtualmente todos os documentos reais eram escritos em latim. ainda. onde o âmbito da burocracia dos mandarins e a dos caracteres desenhados coincidiam em grande medida. da Escócia e da França. 15 Seton-Walsoo. Bloch. esse latim ofi- ciai foi substituído pelo francês normando. em épocas diversas. É conveniente que se lembre. 48. Inevitavelmente. 98. teve lugar movimento semelhante. Em outros. O nascimento das línguas vulgares administrativas aã-. que explorava edições populares baratas. o latim sobreviveu por muito mais tempo — sob os Habsburgos até bem tardiamente no século XIX. O caso da "Inglaterra" — na periferia noroeste da Europa latina — é especialmente'esclarecedor.

20 (Ao mesmo tempo.) Sinal claro dessa diferença é que as antigas línguas administrativas eram precisamente isto: línguas utilizadas pelo mundo oficial. eram (e são) a trama e a urdidura de suas vidas.) Nada serviu para "agrupar" línguas vulgares correíatas mais do que o capitalismo que.52 53 de nacionalismos linguísticos populares hostis. cap. o que tornou imagináveis as novas comunidades foi uma interação semifortuita. quanto mais ideográficos os signos. em Paris. bough. rougfi. até que o capitalismo e a imprensa criassem os maciços públicos leitores monoglotas. como vimos. N5o temos ainda multinacionais gigantes no mundo editorial. contribuiu à sua maneira para a decadência da comunidade imaginada da cristandade. " 'Não obstante. primordialmente em sentido negativo — como tendo contribuído para o destronamento do latim e para a erosão da comunidade sagrada da cristandade. Tanto Stelnberg 1 quanto Eisenstein chegam muito perto de teornorf liar "a imprensa" que imprensa como c gânio da história moderna. em número muito menor de línguas impressas! . Contudo. eram concorrentes do latim (o francês. pode-se descobrir uma espécie de hierarquia descendente partindo da álgebra.A própria arbitrariedade de qualquer sistema de signos para sons facilitava o processo de agrupamento. Steinberg. Cap.. 22. 5. em outras partes do mundo. ough ser pronunciado diferentemente nas palavras althaugh. mais do que o capitalismo" intencionalmente. Proveitosa exposição sobre essa questão encontra-se em S. a promoção dessas línguas vulgares ao stattts de línguas-do-poder. em Londres). é provável que a esoterização do latim. a diversidade das línguas faladas. Five Hundfett V&sra cfPrinting. agora padrão. tão imensa. 21 zo 18 15 Confirmação compatível dessa afi/mação ofereça-nos Francisco ! que. vale lembrar que embora a imprensa tivesse sido Inventada primeiro na China. o papel não tevo uso generalizado antes do -final do século XIV. No fundo. onde. Num sentido positivo. cougti e hiccough demonstra tanto a variedade idiolâtica da qual proveio a ortografia Inglesa. nem há. teria permanecido um capitalismo de proporções insignificantes. seria equivocado fazer equivaler essa fatalidade àquele elemento comum às ideologias nacionalistas. em fins do século XIII. essa incompreensibilidade recíproca era historicamente apenas de 17 ligeira importância. Somente a superfície bem lisa do pape! tornou possível a reprodução maciça de textos o figuras — e Isso não ocorreu senão apôs outros setenta e cinco anos. 6. fé: do francês a língua de sua cortei Esse não foi a primeiro "acidente" dessa natureza. >ía Europa pré-imprensa e. Pois por mais que o capitalismo fosse capaz de feitos sobre-humanos.. O fato do o signo. mas não havia. (Ver mais adiante.19 Determinadas línguas podem morrer ou ser exterminadas. Tfte Caming of t/ie Book. Chegou ali vindo de uma outra história — a da China . O essencial é a influência recíproca entre fatalidade. era imensa. tecnologia e capitalismo. p.seu aparecimento na Europa. Febvre e Martin (amais se esquecem de que. para seus falantes. proibiu toda e qualquer impressão de livros em 1535 e. entre um sistema de produção e de relações produtivas (capitalismo). mas explosiva. rnuito menos revolucionário — precisamente devida â ausência do capitalismo ia. talvez nenhum deles. possibilidade de uma unificação linguística geral do homem. passando pelo chinês e pelo inglês. Mas o papel náo era Invenção europeia. sem que algum deles. no sentido de condição geral de diversidade linguística irremediável. em certo sentido. Febvre e Martin observam que. H. por detrás da imprensa. Nessa contexto. por sua própria conveniência interna. que enfatiza a fatalidade primordial de determinadas línguas e de sua associação a unidades territoriais determinadas.por intermédio do mundo Islâmico. . que se o capitalismo editorial buscasse explorar cada mercado potencial de língua vulgar oral. dentro de limites definidos. Itxigh. IS O elemento de fatalidade é fundamental. embora Já existisse uma burguesia perceptível na Europa. a Reforma e o desenvolvimento casual das línguas vulgares administrativas sejam significativos. o inglês [primitivo]. nSo teve qualquer impacto de maior importância. passíveis de disseminação pelo mercado. neste contexto. aquelas línguas que. quatro anos depois. estivesse presente. dentro dos limites impostos pelas gramáticas e sintaxes. uma tecnologia de comunicações (a imprensa) e a fatalidade da diversidade linguística do homem. naturalmente. tanto mais vasta a zona de agrupamento potencial. Embora seja essencial manter em mente uma ideia de fatalidade. possivelrrvante quinhentas anos antes de. Não havia qualquer ideia de se impor sistematicamente a língua às diversas populações submetidas ao dihasta. criou línguas impressas mecanicamente reproduzidas. até os silabários regulares do francês ou do indonésio. 1 Digo "nada ssrvíu. quanto a característica ideográfica do produto final. Quanto a isso. ele encontrou na morte e nas línguas dois tenazes adversários. estio 33 gráficas e 35 companhias editoras. Mas esses idioletos variados eram passíveis de se agruparem. 30 e 45. É perfeitamente possível conceber o surgimento das novas comunidades nacionais imaginadas. de fato.

ou até mesmo impossível. par o nacionalismo turco ern linha com a c iu Tire cie madeira. a iongo prazo. passível de reprodução virtualmente infinita. intencionais que resultaram da interação explosiva entre o capitalismo. Em terceiro lugar.) Resta apenas salientar que. perdeu aquela unidade em consequência de manipulações deliberadas.e. 319. p. assumido suas formas modernas. a Villon.i (Daí as lutas. Atatúrk impôs uma romanização compulsória. p. Antes de mais nada. ajudou a construir aquela imagem de antiguidade. 23 As autoridades soviéticas. em sua visível invisibilidade secular e peculiar. e de desenvolver publicações em suas próprias línguas: esse mesmo governo é em grande medida indiferente ao que essas minorias falam. perdiam prestígio. a fixação das línguas impressas e a diferenciação de status entre elas foram. ou milhões. da Europa ocidental. seus ancestrais do século XII. antes. tornaram-se capazes de compreender-se via imprensa e papel. até mesmo milhões. Em segundo lugar. tão essencial à ideia subjetiva de nação. O alto alemão." 22 Em outras palavras. "No século XVII as línguas da Europa haviam. . seguiram o exemplo. a ele pertenciam. em suas origens. Determinados dialeíos estavam inevitavelmente "mais próximos" de cada língua impressa e domi52 navam suas formas finais. o capitalismo editorial atribuiu nova fixidez à língua. Hoje em dia. processos não. que podiam achar difícil. Os falantes da enorme variedade de línguas francesas.e meio. Como nos fazem lembrar Febvre e Martin. o embrião da comunidade nacionalmente imaginada. ("No século XVII. as palavras de nossos antepassados do século XVII nos são acessíveis de um modo que não eram. Suas parentes em desvantagem. dentro de uma ortografia arábica. The Age of Nationalism. Ira. largamente falado. O "alemão do noroeste" tornou-se o Platt Deutsch. que. •. Para exaltar a consciência nacional da Turquia turca em detrimento de qualquer identificação muçulmana mais ampla. em grande medida. essas línguas impressas estabilizadas foram se sedimentando. de pessoas existentes em seu determinado campo linguístico . uma vez "ali". quando vantajoso. a tec-. conscientemenle exploradas dentro de um espírito maquiavélico. de modo geral. por ess. ainda assim assimiláveis à língua impressa que surgia. tornaram-se gradativamente conscientes das centenas de milhares. ramanítada. como tanta coisa mais na história do nacionalismo. Iraque e URSS atuais é especialmente exemplar. L'Apperition. É provavelmente apenas justo acrescentar que K-crnal esperava lambam. criaram campos unificados de intercâmbio e comunicação abaixo do latim e acima das línguas vulgares faladas.de mais nada por não serem bem-sucedidas (ou serem apenas relativamente bem-sucedidas) ao insistir em suas próprias formas impressas. inglesas. de determinadas "sub "-nacionalidades para alterarem seu síaíus subordinado forçando vigorosamente a entrada na imprensa -—• e no rádio. a proporção de mudança diminuiu decisivamente no século XVI. e assim um alemão subpadrão. porque era assimilável ao alemão impresso de uma maneira em que não o era o checo falado da Boémia. as línguas nacionais mostram-se cristalizadas por toda parta. ou espanholas. formavam. no decorrer de três séculos. elas se tornavam modelos formais a serem imitados e. Família de línguas faladas. Mas. o livro impresso mantém uma forma permanente. compreender-se reciprocamente em conversa. lês langues nationales apparaissant u n peu partout cristallisées". Já não estava mais sujeito aos hábitos individualizadores e "inconscientemente modernizadores" dos escribas monásticos. p. temporal e espacialmente. No correr do processo. o tai central foram consequentemente elevados a uma nova proeminência político-cultural.54 55 Essas línguas impressas lançaram as bases para a consciência nacional de três modos diferentes. outrora agrupável por toda parte. o capitalismo editorial criou Ifaguasde-poder de uma espécie diversa da das antigas línguas vulgares administrativas. ao mesmo tempo. nologia e a diversidade Linguística humana. o inglês do rei e. a que estavam ligados pela imprensa. na Europa desse fim do século XX. mais tarde. 477: "Au XVII" siècle."! Hans Korin. 108. o governo tai desestimula ativamente as tentativas de missionários estrangeiros de oferecer a suas minorias tribais das montanhas sistemas próprios de transcrição. enquanto o francês do século XII distinguia-se acentuadamente do francês escrito por Víllon no século XV. Desse modo. que apenas essas centenas de milhares. Esses co-leitores. Cf. e portanto compreensível. O destino dos povos de fala túrquica nas zonas incorporadas à Turquia. primeiro corn uma romanização compulsória antimucul23 The Corning of the Book.

por extensão. ] Na verdade. a formação concreta dos Estados-nação contemporâneos não é de modo algum isomórfica com o alcance estabelecido de determinadas línguas impressas. Pois não apenas eram elas historicamente os primeiros Estados desse tipo a surgir no mundo. mais tarde. todas as quais se definiram conscientemente como nações e. ou os da "família anglo-saxônica" são exemplos notáveis do primeiro resultado. inclusive os EUA. Crioula — pessoa da descendência europeia pura [pelo menos teoricamente). eram Estados crioulos. em outras. da tese de Nairn. constituídos e dirigidos por pessoas que compartilhavam uma língua e uma descendência comuns com aqueles contra os quais lutavam. a seguir. . NOVAS NAÇÕES Os novos Estados americanos do final do século XVIII e início do século XIX são de interesse incomum. Para explicarse a descontinuidade-em-conexão entre línguas impressas. é necessário voltarse para o amplo conjunto das novas entidades políticas que brotaram no hemisfério ocidental entre 1776 e 1838. parem nascida na América rã. provavelmente por poderem ser facilmente deduzidos a partir dos nacionalismos da Europa de meados do século. quer se pense no Brasil. nos EUA ou nas antigas colónias da Espanha. p. e por isso forneceram inevitavelmente os primeiros modelos reais de com que deveriam esses Estados "se parecerem". em sua morfologia básica. o ponto culminante dos expansionismos dinásticos). Todos eles. A extensão potencial dessas comunidades era inerentemente limitada e. muitos ex-Estados coloniais. dizendo que a convergência do capitalismo e da tecnologia da imprensa sobre a diversidade fatal das línguas humanas criou a possibilidade de uma nova forma de comunidade imaginada que. ao mesmo tempo. do segundo. como também o número delas e seu aparecimento simultâneo oferecem terreno fértil para um estudo comparativo. prepara o cenário da nação moderna. Em primeiro lugar. muitas delas possuem essas línguas em comum e. Contudo. com uma cirilização russificante compulsória. Em outras palavras. não mantinha senão a mais fortuita relação com as fronteiras políticas existentes (que eram. embora hoje em dia quase todas as pretensas nações— e também as nações-Estado — possuam "línguas impressas nacionais". têm sido dominantes em muito do pensamento europeu a respeito do surgimento do nacionalismo. é óbvio que. em grande parte do hemisfério ocidental. p. srn qualquer lugar fora tia Europa!. 317. como republicas (não dinásticas). ANTIGOS IMPÉRIOS. 2 77» Brsak-up ofõritein.56 mana e antipersa e. é justo que se diga que a língua nunca foi sequer um tema nessas antigas lutas pela libertação nacional. há sérias razões para se duvidar da aplicabilidade. consciências nacionais e Estados-nação. 24 Podemos resumir as conclusões que se podem tirar da exposição até este ponto. com a curiosa exceção do Brasil. em geral. e segundo a qual: 2 1 Ji Seton-Watson. por parecer quase impossível explicá-los em termos dos dois fatores que. particularmente na África. Os Estados-nação da América Espanhola. 41. apenas uma fração mínima da população "usa" a língua nacional em conversa ou no papel. na década stalinista de 1930. em outros casos convincente. Nations and States. Em segundo lugar. a língua não era um elemento que os diferenciasse de suas respectivas metrópoles imperiais.

isto assu miu a forma de uma ciasse média e de uma liderança intelectual inquietas. * Também não devemos esquecer que muitos dos líderes do movimento de independência das Treze Colónias eram magnatas agrários donos de escravos. 237. Ele e seus seguidores (na maior parte índios. p. The Spanfsíi-Americen fíevolutions. de início. era o medo de mobilizações políticas da "classe inferior": a saber. 6 Masur. 224.) No Peru. Bolívar. que uma revolta de negros era "mil vezes pior que uma invasão espanhola". tranquilos da colónia era pouca a leitura a interromper o ritmo faustoso e. 10 . 8 O próprio Libertador Bolívar opinou. em aliança com um número muito menor de comerciantes e de diversos tipos de profissionais liberais (advogadas. o domínio sobre a longínqua Quito. 2. há analogia evidente com o nacionalismo Bóer de um século mais tarde.. e dos índios. p. recentemente subjugada.que. Tho Spanfsli-Amaficori ftovolulions. 4 Ao contrário de procurar "arregimentar . donos de escravos. o primeiro romance hispano-americano só foi publicado em 1816. 7 11 Seton-Wstson. mas também alguns brancos e mestiços) ínsurglram-se contra'a administração de Lima: Masur. rebeliões de índios ou'de escravos negros. O próprio Thomas Jefferson estava entre os fazendeiros da Virgínia que. militares. um fator-chave.. especificando pormenorizadamente os direitos e os deveres dos senhores e dos escravos. Essas proporções provem do faio de que as (unções comorciais o sdmirtistraiifas mais importantes oram em grande medida monopolizadas pelos espanhóis natos. Talvez seja notável qu« Tupac Amarú não lenha rapudiado completamenta a compromisso de fidelidade ao rei espanhol. 192. Morgars. 3 Como vimos. sobre escravidão. Lyncri. 5 (Esse medo só aumentou quando o "secretário do Espírito Mundial" de Hegel conquistou a Espanha em 1808. Na Venezuela —'• na verdade. Como também não havia algo semelhante a uma intelligenisia. em sua luta contra os crioulos rebeldes. que deu origem. que procuram incitar e canalizar as energias das classes populares para a sustentação dos novos . p. bem depois da deflagração das guerras de independência. p. s Quanto s isto.snob da vida das pessoas". Os indícios . a prolongada duração da luta continental contra a Espanha. 14-7 e flnssim. nesta. "Trie Haart of Jelferson". estimulou o impulso para a independência em relação a Madri. Em sua versão mais típica. p.. indica certa "fragilidade social" desses movimentos de independência latino-americanos. na década de 1770. ainda estavam vivas as lembranças da grande jacquerie liderada por Tu3 Gerhard 4 pac Amarú (1740-1781). em 1804. Simon Bolívar. as "classes-médias" ao estilo europeu ainda eram insignificantes no final do século XVIII. 17 d« agasto tfe 1&78. 17. p. Noticns and Síntes. Lynch. 11 Masur. o México e o Peru. ela mesma. por todo o Mar das Caraíbas espanhol — os fazendeiros se opuseram à lei e promoveram sua revogação em 1794". "os crioulos repudiaram a intervenção estatal com base em que os escravos eram propensos ao vício e à independência [!] e eram fundamentais para a economia. albid. 59 Pelo menos na América do Sul e na América Central. à segunda república independente do hemisfério ocidental — e aterrorizou os grandes fazendeiros da Venezuela. 10 É instrutivo que uma das razões pelas quais Madri conseguiu retornar com êxito à Venezuela. Lynch. Edward 5. foi ela ter conseguido o apoio dos escravos. The tJsw HM* Review -o/ Books.Estados.as classes inferiores para a vida política".sugerem claramente que a liderança estava nas mãos de ricos proprietários de terras. os movimentos nacionalistas têm tido uma perspectiva invariavelmente populista e procurado arregimentar as classes inferiores para a vida política. Toussaint L'Ouverture comandou uma insurreição de escravos negros. funcionários locais e provinciais). em casos tão importantes como a Venezuela. p. 207. e que fora. p. e manter. entre 1814 e 1816. mais humanitária. Pois "naqueles dias . Ainda que às vezes hostil à democracia. até 1820. privando assim os crioulos de apoio militar da península em caso de emergência. se irritaram com a proclamação do governador legalista que concedia Uberdade aos escravos que rompessem com seus senhores sediciosos. 6 Em 1791. 7 Quando. enquanto a propriedade cia terra era inteiramente aberta aos crioulos. Madri expediu uma-no vá lei.58 O advento do nacionalismo num sentido distintamente moderno esteve ligado ao batismo político das classes inferiores. Bolívar. na época uma potência europeia de segunda ordem. certa vez. 24. em 1789. The Spanish-Amef/can Revo/utíons. ll Além disso.p. naquela. 201.

além do fato de as diversas Américas compartilharem línguas e culturas com suas respectivas metrópoles. não fosse a imigração.000. tem sido sardonicamente chamado de segunda conquista das Américas. 329 e 38B. palavra por palavra.61 Contudo. Naquilo que. não expli15 Essa nova agressividade metropolitana era. como inimigo estrangeiro? Por que o Império hispáno-americano. e o começo da Revolução Francesa.000.) Eis então o enigma: por que precisamente as comunidades crioulas é que desenvolveram tão precocemente concepções de sua nation-ness — bem antes da maior parte da Europa? Por que essas províncias coloniais. em 1808. Quando Bolívar sã tornou presidente da GrS-Colombia (Venezusta. fugindo de Napoleão. 14 à qual estavam ligados de tantas maneiras. essa quantia quase quintuplicara. dos quais apenas 4. 301.000. Bot/ver. isso provavelmente não teria sido possível. eles eram movimentos de independência nacional. O êxito da revolta das Treze Colónias. os aborígenes não deverão ser chamados de índios. que tivera existência tranquila durante três séculos. 16 Paralelamente à isso. também. Nada melhor para confirmar essa "revolução cultural" do que o republicanismo que impregnou as comunidades recém-independentes. porém. 125. deliberadarnente. restringiu em benefício próprio o comércio intra-hemisfério. em fins da de 1780. redefiniram tais populações como compatriotas? E a Espanha. provia a Coroa com uma renda anual de cerca de 3.18 Em parte alguma houve qualquer tentativa sé: ria de reinstaurar o princípio dinástico nas Américas. p. a não ser no Brasil. Elo libertou seus escravos pouco depois da declaração de independência da Venezuela. 206-7. após 1779. "Não solicitara ao congresso que abolisse a escravatura. Bolívar. em parta. tornou mais eficiente sua arrecadação.000 de pesos. por exemplo. mesmo ali. em parta. por não querer atrair sobre si o ressentimento dos grandes proprietários de terra. P. p. ainda que fundamentais para a compreensão do impulso de resistência na América espanhola. da guerra com a Inglaterra. solicitou e obteve do Congresso uma lei libertando os filhos de escravos. ou de nativos. 1B A Constituição da Primeira República Venezuelana t1B11) era. p. enquanto seis milhões eram de puro lucro. no início do século XVIII. p. Naiions ertd States. "no futuro. Grifos nossos. que. decretou. o tarmo comum era ainda Lãs Espartas [As Espinhas] e não Espana (Espanha). o capitalismo editorial não havia ainda chegado a esses analfabetos. conseguiu ajuda militar do Presidente Alexandre Pétion. fragmentou-se tão subitamente em dezoito Estados distintos? Os dois fatores mais comumente mencionados como explicação são o enrijecimento do controle exercido por Madri e a disseminação das ideias liberalizantes do Iluminismo.. deram origem a crioulos que. abrangendo em geral grandes populações oprimidas que não falavam o espanhol. 276. 53. do próprio dinasta português. o nível da migração peninsular na década de 1780-1790 era cinco vezes maior do que havia sido entre 1710-1730. atingindo 14. ao regressar. Quatro míriSBS iam para subsidiar a administracío de outras partes da América. Quando fugiu para o Haiti em 1816. Madri lançou 12 Não sem algumas idas e vindas. em 1821. na última metade do século XVIII. No finai do século. se deveram em parte è emancipação pela metrópole dos escravos leais. Não há dúvida de que é verdade que as políticas implantadas pelo hábil "déspota esclarecido" Carlos III (r. 4-17. não deixaram de ter uma influência poderosa. " • Não há dúvida. . A promessa foi cumprida em Caracas. 17. irritaram e alarmaram cada vez mais a classe alta crioula. Lynch. 1S O México. em 1810. eles são filhos e cidadãos do Peru e deverão ser conhecidos como peruanos". No século XVIII. entre 1314 e 1316." Masur. torrada de emptíslímo. 14 Anacronismo. em 1818 — mas é preciso lembrar que os êxitos de Madri na Venezuela. significava transmissão relativamente rápida e fácil das novas doutrinas económicas e políticas que se estavam produzindo na Europa ocidental. produto das doutrinas do Iluminismo. 13 (Poderíamos acrescentar: a despeito do fato de que. (Ele permaneceu ali por treze anos e. fortaleceu os monopólios comerciais metropolitanos. p. The Spanísh-American Revotutions. teve seu filho coroado localmente como Pedro I do Brasil. em parto. * 18 Ibid. 13 Lynch. em troca da promessa de terminar com a escravidão em todos os territórios libertados.. p. em muitas partes. até então. da dos Estados Unidos. 1759-1788) decepcionaram. Masur. Seton-Watson.) Contudo. em fins da década de 1770. Nova Granada e Equador). The Spanisfi-Amerícan Revolutions.000.000 eram utilizados no custeio da administração local. em 1821. de que a melhoria das comunicações através do Atlântico. seu companheiro de luta pela libertação. Bolívar mudou de opinião a respeito dos escravos 12 e San Martin. por vezes. de problemas fiscais crónicos a. " Ibid. centralizou as hierarquias administrativas e promoveu intensa imigração de peninsulares. 131. novos impostos. a agressividade de Madri e o espírito do liberalismo.

p. essas medidas eram apenas em parte executáveis e sempre continuou a haver certa porção de contrabando. 2S Todas essas jor42 23 Lynch. saíramse muito bem com a independência ao longo do tempo. 20Lynch. Margíns. 22) Além disso. 'a* enorme variedade de seus solos e climas e. por que entidades como o Chile. 24 Sua influência contribuiu também. ficaram financeiramente arruinados. embora seja certo que as classes altas crioulas. 25Ver. Bolívar. . and Metaphors. em 1814-1816. p. (Na época colonial. 25-6. Masur." 23 Essas experiências ajudam à explicar por que "um dos princípios básicos da revolução americana" foi o do "utipossidetis. prenunciaram os novos Estados da África e de partes da Ásia. "mais de dois terços das famílias proprietárias de terras sofreram pesados confiscos''.e ern seu Dramas. p. a imensa dificuldade de comunicações numa era pré-industriaí contribuíram para dar a essas unidades um caráter de auto-suficiência. afinal de contas. TheForesíof Symbols. as políticas comerciais de Madri resultavam em fazer das unidades administrativas zonas económicas separadas. por si sós. a Venezuela e o México vieram a tornar-se emocionalmente plausíveis e politicamente viáveis. Pois. 19. nove. o da ideologia da Revolução de 1776.de sua autoria. Essa disposição ao sacrifício por parte de classes em situação confortável é matéria para reflexão. S8-9 e 231.1 sob a influência de fatores geográficos. Aspecrsof Ndembít Ritual. não só na América como também em outras partes do mundo. capítulo 5 ("Pilgiimages as Social Processes") e S ("Passagas.62 63 cam. and Pcvarty: Religi-ous Symbols c-f Cornmunitas"). em certa medida. em curso de um lado a outro da América. Naturalmente. Não obstante. **lbid. 20) E outros tantos deram a vida voluntariamente pela causa. 19 pulco levava quatro meses. apresentam a razão'dos verdadeiros sacrifícios que foram feitos. especialmente a capítulo "BatwlM and Between: Thn Llminal Period ín ftius de Psssage". arbitrária e fortuita. p. segundo o qual cada nação manteria o status quo territorial de 1810.. sobretudo. p. 546. mercados regionais de caráter "natural"-geográfico ou político-administrativo. com o correr do tempo. A configuração original das unidades administrativas americanas era. políticos e económicos. concebidas como formações sociais históricas. Com o correr do tempo. não criam lealdades. p. e a viagem de volta às vezes mais tempo. é preciso examinar de que modo organizações administrativas criam significado. E então? O começo de uma resposta encontra-se no fato notável de que "cada' uma das novas repúblicas sulamericanas havia sido uma unidade administrativa entre os séculos XVI e XVIII". e contrastam marcadamente com os novos Estados europeus do final do século XIX e início do século XX. As mercadorias americanas. porém. e a navegação espanhola tinha o monopólio do comércio com as colónias. "Toda competição com a mãe-pátria era vedada aos americanos e as distintas partes do continente não podiam sequer comerciar entre si. assinalando os limites espaciais de determinadas conquistas militares. como uma experiência criadora de significado. cf. e a Cartagena. The Spanish-Amerícen Revolutions. em meados do século XX. Svmhotic Actron in Hatnan Soci&ty. vir a ser concebidas como pátrias. Fieids. por si sós. 21 Quanto a isso. a jornada marítima de Buenos Aires a AcaO mesmo se pode dizer da postura de Londres diante das Treze Colónias. The Spanish-AmericanRevotutíons. tinham de fazer uma tortuosa viagem via portos espanhóis. síaíus e lugares. Elaboração posterior mais e-nmplsxa ertcontra-s. ano em que se haviam iniciado os movimentos pela independência''. que viveram entre 1808 e 1828. l9 nem por que San Martin devesse decretar que determinados aborígenes fossem identificados pelo neologismo "peruanos". Masur. muitos membros concretos dessas classes. (Apenas um exemplo: durante a contra-ofensiva de Madri. elas desenvolveram uma realidade mais estável. para a desintegração da efémera Grã-Colômbia de Bolívar e das Províncias Unidas do Rio da Prata em seus antigos elementos constitutivos (hoje em dia conhecidos como Venezuela-ColômbiaEquador e Argentina-Uruguai-Paraguai-Bolívia). 678. 20B. a viagem por terra de Buenos Aires a Santiago demorava normalmente dois meses. sem dúvida. Quem estaria disposto a morrer pelo Comecon ou pela CEE? Para perceber de que modo unidades administrativas podem. 21 Masur. A própria vastidão do Império hispano-americano. Bolívar. Nem. Bolívar. O antropólogo Victor Turner tem escrito de maneira esclarecedora a respeito da "jornada". entre tempos.

a realidade da comunidade religiosa imaginada dependia profundamente de inúmeras e contínuas viagens. assim. elas tinham. equivalentes seculares mais modestos e limitados. vindos de localidades longínquas entre as quais não existia qualquer outra relação. dinamarqueses. os quais. Conrad estava sendo iionico. enquanto que um pequeno segmento de iniciados letrados bilíngues.'não possuíam poder independente propriamente seu. exatamente por essa razão. a jornada modal é a peregrinação. em comunidades cujo significado sagrado era diariamente revelado a partir da justaposição de seus membros no refeitório. controlado diretamente pelo governante... forneciam a densa realidade física da viagem cerimonial. '« Ver Bloch. neste caso. portugueses. pronunciando as mesmas palavras que pronuncio e. indagar-se: "Por que esse homem está fazendo o que faço. O impulso inerente ao absolutismo era a criação de um aparato unificado de poder. mas sim que sua centralidade era vivenciada e "realizada" (no sentido da arte cénica) pelo fluxo constante de peregrinos que se deslocavam em sua direção. indianos. (a) a monogamia era imposta pela religião B pela lei. A permutabilidade humana era favorecida peia arregimentação — naturalmente de extensão variável — de hominesnovi. somos muçulmanos". interpretando para seus respectivos seguidores o significado de seu movimento coletivo. 29 Desse modo. (c) os títulos não-dinâsticcsetam não só hersditárlos como conceptuais e legalmente distintas de postas administrativos: isto é. p. na maioria analfabetos. Pôr certo. berberes e turcos em Meca é algo incompreensível sem uma noção de alguma forma de comunidade entre eles. mas também preciso. a estranha justaposição física de malaios. e. Nada é mais impressionante a respeito ™ Ver Bloch.64 65 nadas exigem interpretação (por exemplo. com a morte de seu pai. ascendia um degrau para ocupar o lugar daquele pai. atuavam como emanações das vontades de seus senhores. II. persas. e têm. falantes de língua vulgar. em oposição ao S ião. analogia evidente com os respectivos papéis ctas intetligentsias bilingues e dos operários a camponeses. no entanto. p. a jornada do nascimento à morte deu origem a diversas concepções religiosas). Para nossos fins. Unificação significava permutabilidade interna de homens e documentos. dos impérios mundiais com centro na Europa. Essa ascensão . por assim dizer. na mente dos cristãos. o herdeiro do Nobre Á. Na verdade^ em certo sentido. 27 Numa época pré-imprensa. oriundos 'de cada uma das comunidades de língua vulgar. Ssu papel nas revoluções vietnamita e indonésia e. 64. tem sido muito subestimado e muito mal estudado. na génese de determinadas movimentos nacionalistas — antes do advento do rádio. Feudal Soctety. l. 23 Especialmente onde. quando as aristocracias das províncias possuíam poder independente significativo . da cristandade ocidental em seu auge do que o fluxo espontâneo de fiéis seguidores vindos de toda parte da Europa para Roma. os limites externos das antigas comunidades religiosas da imaginação eram determinados pelo tipo de peregrinação que as pessoas faziam. finalmente. 422 st saqs. Feudal Society." A "peregrinação secular" não deve ser tonada apenas como um tropo extravagante. Meca ou Benares fossem os centros de geografias sagradas. 26 Como já assinalamos anteriormente. em geral. não podemos falar um com o outro?" Existe uma única resposta. através dos célebres "centros regionais" de aprendizado monástico. "muçulmanos ou hindus. . em oposição a uma nobreza feudal particularista e descentralizada. uma vez que se aprenda: "Porque nós. sempre houve ura duplo aspecto da coreografia das grandes peregrinações religiosas: vasta multidão de analfabetos. Embora as peregrinações religiosas sejam provavelmente as mais tocantes e grandiosas jornadas da imaginação. Não é simplesmente que.2S Para nossos fins. nos nacionalismos da meados do século XX. Inventado apenas em 1895. justaposição que não se poderia explicar de qualquer outra maneira. 3° Essa diferença pode ser representada esquematicamente da seguinte maneira: na jornada modal feudal. executavam os ritos unificadores.a Inglaterra. as mais importantes foram as diferentes viagens criadas pelo aparecimento das monarquias absolutas e. " Existe. (h) a primogenitura era a regra. O berbere que encontra o malaio diante da caaba deve. Essas grandes instituições de fala latina congregavam o que hoje talvez víssemos como irlandeses. e leal a ele. ao descreve' corno "paregrincs" os agentes espectrais <Je Leopoldo II na profundeza das trevas. o rádio tornou possível ignorar a irnprensa e dar nascimento a uma representação auditiva da comunidade Imaginada. as cidades de Roma. alemães e assim por diante. os funcionários dó absolutismo empreendiam jornadas que eram fundamentalmente diferentes das dos nobres feudais. onde a página impressa dificilmente penetrava.

Haverá quam duvide que essa prolongada exclusão tenha desempenhado papel Importante no fonalecirnanto do nacionalismo Irlandês? 11 Lynch. Botfver. embora os crioulos no vice-reinado superassem os peninsulares na proporção de 70 para 1. o crioulo "mexicano" ou "chileno" típico presta31 Evidentemente. por al-gtim tempo.. The Spsnísh-Ameiican ftevolaiions. Na verdade. menos de 5% dos 3. O rancor e o sentimento de inferioridade d-e muitos crioulos em relação 9 metrópole iam-se tornando neles impulsos revolucionários". Descerca de 1 S. pois ele não tem pátria com qualquer valor intrínseco.000 indígenas) eram espanhóis nascidos na Espanha. A racionalidade instrumental do aparato absolutista — sobretudo sua tendência a recrutar e promover com base no talento e não no nascimento — funcionou apenas intermitentemente para além do litoral oriental do Atlântico.. pela restrição do deslocamento dos funcionários de um so- berano para as máquinas de seus adversários: por assim dizer. A última coisa que o funcionário quer é regressar à pátria.700. Escala suas geleiras por uma série de arcos que o circundam.66 67 exigia uma viagem de ida e volta. 33 Além disso. é que traça sua carreira. p. Se os funcionários peninsulares podiam percorrer a rota de Saragoça a Cartagena. que fortalecia a permutabilidade humana. prossegue para o vice-reino C no posto Y. latim. os próprios homens novos elaboram. em princípio. Madri. 18-9. E mais: em sua rota espiral de ascensão. tanto quanto o soberano. p. em que os católicos foram Impedidos de exercer cargos públicos até 1829. O talento. contudo. em vez do latim. "eram ricos. administra a província B — situação que o absolutismo começa a tornar provável — essa experiência de permutabilidade exige uma explicação própria: a ideologia do absolutismo que. Às vésperas da revolução do México. enquanto o funcionário D. Esses números são ainda mais impressionantes se observarmos que. aqui. O caso do Reino Unido. até o centro para receber a investidura. que funcionários-peregrinos de Madri não fossem permutáveis com os de Paris.. e ali passou os 27 anos seguintes. como ele. melada eram soldados. administra a província C. Como demonstra a imponente sucessão do anglo-saxão. só havia um bispo crioulo. desempenhar essa função — desde que se lhe atribuam direitos monopolísticos. onde aconteceu de línguas vulgares. 32 E não é preciso dizer que dificilmente se sabia de algum. se tornarão menores e mais firmes à medida que se aproxime do topo. Masur conta que Bolívar pertencia [c. sobretudo quando todos compartilham de uma única língua-de-Estado. não há lugar seguro de repouso. as coisas são mais complexas. em 1800. 13 Na primeira década do século XIX. as peregrinações de funcionários crioulos não eram barradas apenas verticalmente. nutria-se do desenvolvimento de uma língua-de-Estado padronizada. assumirem o monopólio. que foi levado para a Espanha quando criança. 41-7 e 468-70 (San Marttn). ingressou na Academia Real para jovens fidalgos/ e desempenhou papel destacado na luta armada contra Napoleão antas de regressar à terra natal.. Vê diante de si um cume e não urn centro. porém. Então. Lima e de novo Madri. depara-se com companheiros de peregrinação igualmente ansiosos. (Pode-se. 293. crioulo que ascendesse a um posto de importância oficial na Espanha. Enviado para a municipalidade A no posto V. garantindo. dos 170 vice-reís da América espanhola antes de 1813.) Em princípio. pode retornar à capital no posto W. os quais. e de retorno à casa. e não a morte. Nessa jornada. foi hóspede em Madri de Manuel Mello. juntos!"). emerge uma consciência de conexão ("Por que estamos nós. com a experiência de tê-los como companheiros de viagem. normando e inglês primitivo em Londres. ociosas s mal vistos na Corte. vindo da província B. obteve-se uma função centralizadora mais profunda. e termina sua peregrinação na capital no posto Z. argumentar que. Entre eles. não é único. do século XI ao XIV.000 crioulos "brancos" do Império Ocidental (que se impunham aos cerca de 13. espera. Por exemplo. a seguir. não 16 deve exagerar essa racionalidade. da província C. oriundos de lugares e de famílias de que pouco ouviu falar e que espera certamente jamais ter de ver.31 O padrão é muito evidente na América. vai. .000peninsulares. qualquer língua escrita pode. apenas 4 foram crioulos. para os domínios ancestrais. Porém. seus colegas funcionários. Para o novo funcionário. o "argentino" San. 18051 a "urn grupo de jovens suf-arnaricanos" qua. porém. se o funcionário A. isso não aconteceu.200.Martin. toda pausa é provisória. A permutabilidade de documentos. quando soube ds sua declaração do Independênciaj e Ba II vá r qua. a expansão extra-européia dos grandes reinos do início da Europa moderna teria simplesmente ampliado o modelo acima ao desenvolver as enormes burocracias transcontinentais. parece não ter havido em momento algum mais de 400 sul-amerlcanps residentes na Espanha. amante "americano" da rainha Maria Lulsa. para a província B no posto X.

Inversões semelhantes ocorrem em reação ao racismo. mas também eram essenciais à estabilidade do império. Consti. em termos de língua.. Contudo. p.. ò peninsular não podia ser um verdadeiro americano.. com as armas.'sangue negro" — a nódoa negra — veio a ser visto. Gilmore. o acidente do nascimento na América destinava-o à subordinação — ainda que. Da perspectiva do soberano. que compartilhavam. Se os indígenas podiam ser conquistados pelas armas e pelas doenças. sob o imperialismo.ois da migração do pai. à medida que se multiplicavam as incursões britânicas. Boltvar. 34 maquiavelismo com o desenvolvimento de concepções de contaminação biológica e ecológica. que se seguiram à disseminação planetária de europeus e do poder europeu. as peregrinações militares tornaram-se tSo importantes quanto as civis. assim. fosse praticamente indistinguível de um espanhol nascido na Espanha. apresentavam um problema político historicamente singular. CaudiUism antf Militarism ir> Venezuela. os peninsulares enviados como vice-reis e bispos desempenhavam as mesmas funções que os hominesnovi das burocracias proto-absoluttstas. VerRobert G. o ápice de sua escalada espiral. em número cada vez maior e com crescente enraizamento a cada geração que se sucedia. O '. Com isso em mente. oculta na irracionalidade estava esta lógica: nascido na'América. "A Espanha não possuía nem dinheiro nem efetivos para manter grandes guarnicães do tropas regulares na América. aqui. religião. mas também uma ameaça a ele. Não havia nada a fazer quanto a isso: ele era irremediavelmente um crioulo. as metrópoles tinham que lidar com números — para aquela época — enormes de "patrícios europeus" (mais de três milhões na América espanhola. exclusão parecesse racional na metrópole? Sem dúvida a confluência de um venerável Com a correr do tempo. Masur. pode-se observar certo paralelismo entre a posição dos magnatas crioulos e a dos barões feudais. J810-J910 capítulos 6 ("The Militia"! a 7 ("Thia Mllitary").• cão >que os metropolitanos. em 1800) remotamente afastados da Europa.' tuíam simultaneamente uma comunidade colonial e uma classe superior. 10. o "mulato" é peça de museu. p.trecho da peregrinação. quando adolescente. O pai de Bolívar fora um aminônte comandante de milícia. ele foi típico da muitos da primeira geração de lideras nacionalistas da Argentina: da Venezuela e do Chllê. O próprio Bolívar. Em outras palavras. ergo. do nascimento trans-Atlântico. distante treze mil quilómetros. . foram ampliadas e reorganizadas. 10. ele era efetivamente um homo novus inteiramente dependente de seu patrão metropolitano. • ís Observe as transformações que a independência trouxe para os-americanos: os Imigrantas de primeira geração tornavam-se agora "os mais baixos" ao invés de "os mais altos". desempenharam papel cada vez mais crítico. que tinham. sobreposto aos crioulos. as doenças. Desse modo. Da 1760 em diante. o mesmo não se dava em relação aos crioulos. f) contava principalmente com milícias coloniais que. iomò irremediavelmente contaminadorpara qualquer "branco". em novo cenário.) Essas milícias eram inteiramente locais. era a capital da unidade administrativa imperial em que se encontrava. virtualmente a mesma rela. 3S Ainda que o vice-rei fosse uma pessoa eminente em sua terra andaluza. aqueles mais contaminados por um local ds nascimento inevitável." (Ibid. p. Compare isso com o programa otimista de miscigenação de Fermín e sua ausência de preocupação com a cor da descendência esperada. quão irracional deve ter parecido sua rejeição! Não obstante. O mais ligeiro traço de "sangue negro" torna a pessoa inteiramente negra. Bolívar. a partir de meados do século XVIII. servira na antiga unidade de seu pai. uma expressão da velha política do divide et impera. em princípio. fundamentais para o poder do soberano. nessa peregrinação limitada encontrava companheiros de viagem. Hoje em dia. o centro administrativo mais alto para o qual podia ser designado. ís Dada a grande preocupação de Madri com que a administração das colónias estivasse em mios confiáveis. po:diam. do século XVI em diante.69 vá serviços nos territórios do México ou do Chile coloniais. "eia axiomático que os sitos postos fossem praenchidos exclusivanrente por eSpanh-Sis naios". pelo menos nos Estados Unidos. defendendo os portos venezuelanos contra os invasores. 30 e 381. e hio peças intercambiáveis de um aparato continental de segurança. (Masur. os quais acabavam por perceber que o companheirismo entre eles não se baseava apenas naquele determinado . ou maneiras. e controlados pelos mistérios da cristandade e de uma cultura inteiramente estranha (bem como pôr' uma organização política avançada para a época). origem familiar. 34 Contudo. seu movimento lateral era tão tolhido quanto sua ascensão vertical. isto é. Pela primeira vez. não podia ser um verdadeiro espanhol. culturais e militares para se afirmarem com êxito. os crioulos americanos. Ainda que tivesse nascido na primeira semana dep. a cristandade e a cultura europeia. O equilíbrio tenso entre o funcionário peninsulaj e o magnata crioulo era. 35 O que fazia com que essa. dispor prontamente dos recursos políticos. mas na fatalidade. nascido na Espanha. Quanto a isso. Desse modo. Deviam ser economicamente subjugados e explorados.

nem a disposição de uma metrópole n Só emeacada de proteger (-até ce-lo ponto) esses infelizes. Portugal. alegando que "mesmo quando nascidos de pais brancos puros. estrategicamente. *2 Kernilàinen. 72-3. chineses e "indochineses" à profissão sacerdotal — talvez por não haver ainda. Manuel I pôde ainda "resolver" sua "questão judaica" pela conversão obrigatória em massa — sendo possivelmente o último governante europeu a considerar essa solução não só satisfatória como "natural". devemos aceitar muito pouco deles. eram. 252. pela própria natureza. mas. Justificou. ainda assim. 39 Boxer demonstra que as barreiras e exclusões "raciais" aumentaram notavelmente no correr dos séculos XVII e XVIII. 41 Boser. negros e índios. nascidos em um hemisfério selvagem. Valignano estimulou ativamente a admissão de japoneses. 42 A partir daí. especialmente com respeito aos mestiços. D. era extremamente fácil fazer a dedução vulgar e conveniente de que os crioulos. eurafricanos. diferentes dos metropolitanos e inferiores a eles — e. mais antigo dos conquistadores planetários da Europa. que afirmavam que o clima e a "ecologia" tinham efeito constitutivo sobre a cultura e o caráter. uma vez que quanto mais sangue nativo possuem. coreanos. eram interesses que. a qual teve o pioneirismo de Portugal a partir de 1510. Nationalism. . Já na década de 1550. como também classificou como infração criminosa chamar os súditos "de cor" por nomes ofensivos. foram amamentados por aias indianas na primeira infância e. perniciosa tendência foi dada pelo renascimento da escravidão em larga escala (pela primeira vez na Europa. o autocrata esclarecido Pombal não só expulsou os jesuítas dos domínios portugueses. desde a antiguidade).70 71 Ademais. p. combatendo veementemente a admissão de indianos e eurindianos ao sacerdócio. (No entanto. assim. o Iluminismo influenciou também a cristalização de uma distinção irrevogável entre metropolitanos e crioulos. 15.. com seus conflitos entre peninsulares e crioulos. 40 Indiretamente. As peregrinações vice-reais limitadas não tiveram consequências decisivas. The Portuguesa Seaborne Èmpirc. nessas regiões. p. 1415-1825. ' 9 lbld.' fornece uma ilustração adequada disso. p. e não as doutrinas dos philosophes. 3»lbid. *3 Até aqui. 257-B. exerceram ampla influência. nos seguintes termos: 3S -> Todas essas raças pardas são muito broncas e corrompidas e de índole a mais torpe. The Portuguese Seaborne Empire. Seu surgimento permitiu que prosperasse um estilo de pensamento que prenuncia o moderno racismo.. tais como "negro" ou "mestiço" [sic]. principalmente nas Américas. Além disso..000 habitantes do Brasil português. inadequados para cargos de maior importância. esse decreto citando antigas concepções romanas de cidadania imperial. 253. porém» encontramos Alexandre ^Valignano. o grande reorganizador da missão jesuíta na Ásia. p. Na última década do século XV. bem como euramericanos. mas também em certas partes da África e da Ásia. levou inevitavelmente ao aparecimento de eurasianos. não como curiosidades casuais. entre 1574 e 1606. 286. <3 Tenho ríslçado aqui as distinções rací-sias entre peninsulares e crioulos. até que suas extensões territoriais puderam ser imagi*° Rona Fields. No curso de seus vinte e dois anos no poder (1755-1777). as obras de Rousseau e de Herder. 37 Menos de um século depois. portanto. porque o tema principal de que estamos tratando é o surgimento do nacionalismo crioulo. ou nenhum. nossa atenção tem-se concentrado nos interesses dos funcionários na América — importantes. 10% da população de Lisboa era de escravos. Quanto aos mestiços e castiços. interesses menores. têm o sangue contaminado por toda a vida". antecipavam o aparecimento da consciência nacional americana dos fins do século XVIII. The Portuguese Revotution ancf tfis Armed Forces Movement. p. 41 Ainda mais tipicamente. em 1800. mestiços em número suficiente?) Analogamente. em comparação com a prática anterior. Boxer. Pesada contribuição para essa ''Charles R. p. mas como grupos sociais evidentes.500. o crescimento das comunidades crioulas. porém.. Isso não deve ser compreendido como minimização da crescimanto paralelo do racismo crioulo em relação a mestiços. 'havia perto de um milhão de escravos entre os cerca de 2. mais se assemelham aos indianos e menos são estimados pelos portugueses. os franciscanos portugueses de Goa combateram violentamente a admissão de crioulos na ordem. o.

Mais uma vez. The Spsnísk-AmerJcen fievaSulions. processo semelhante deu origem. morando na mesma rua. por ser o México. este casamento com aquele navio. 461 dos quais duraram por mais de dez anos. O fato de os primeiros nacionalistas mexicanos escreverem. às primeiras gráficas locais. 33. frequentemente. do qual eram comumente o colaborador principal. sobre si mesmos. a mais valiosa das possessões da América espanhola. Uma vez que o principal problema enfrentado pelo gráfico-jornalista era atingir os leitores. Desse modo. em que portos). Um traço criativo desses jornais era sempre seu provincianismo. sobre seu país. se consideravam o centro do Novo Mundo. 28. Entre 1691 e 1820.mais lento e intermitente. em outras. porém. A importância de seu negócio. 44 A figura de Benjamin Franklin está indelevelmente associada ao nacionalismo crioulo na América do Norte. e sua produção era quase que exclusivamente ligada à Igreja. mas muitos funcionários peninsulares. se tivesse oportunidade. ainda que de modo. na segunda metade do século XVIII. de Buenos Aires e de Bogotá. An Introduction. mas permaneceu durante dois séculos sob o estrito controle da coroa e da Igreja. corno nuestra América\m sido interpretado como revelador da vaidade dos crioulos locais que. Lembram-nos que "a imprensa de fato não se desenvolveu na América do Norte durante o século XVIII. o jornal de Caracas. de início. a alternância entre seu extenso âmbito e seu localismo particularista. de maneira muito natural e até mesmo apolítica. Daí a conhecida duplicidade do nacionalismo hispano-arnericano primitivo. porém. estavam no entanto perfeitamente conscientes de sua existência. "'"'The Cornin9 of the Book'Pi 208"11 • Lvach. casamentos dos ricos. "5 Os gráficos que abriam novas oficinas incluíam sempre um jornal em sua produção. não leriam o que se produzia em Caracas se pudessem deixar de fazê-lo. p. porém. que podia repetir-se infinitamente em outras situações coloniais. não diria nada sobre seu mundo). Até fins do século XVII. por toda a América espanhola. aí entrassem elementos políticos. Em outras palavras. pode ser menos evidente. podia ler um jornal de Madri (o qual. só havia gráficas na Cidade do México e em Lima. bem como ordenações políticas coloniais. à qual pertenciam esses navios. até que os impressores descobrissem uma nova fonte de renda — o-jornal". desenvolveu-se uma associação tão estreita com o agente do correio que. Os periódicos hispano-americanos que se desenvolveram no final do século XVIII eram compostos com plena consciência da existência de provincianos em mundos paralelos ao seu. norte ou sul-americanos? Eles começavam fundamentalmente como prolongamentos do mercado. da menos de 2. ainda que não lessem os jornais uns dos outros. esta. bispos e preços. -Os leitores de jornal da Cidade do México. Outro traço desse tipo era a pluralidade. Assimetria. 46 Quais eram as características dos primeiros jornais. noivas. Assim. teve lugar uma verdadeira revolução. Naturalmente. Na América do Norte protestante. corno nosotros los americanos e. . as pessoas pen47 48 Franco. Um crioulo colonial. o gráficojornalista foi. senão único. o que colocava lado a lado. Os mais antigos jornais continham — ao lado de notícias sobre a metrópole — notícias comerciais (partidas e chegadas de navios. Daí ter a oficina gráfica surgido como o ponto chave das comunicações e da vida intelectual da comunidade nos EUA. quais os preços. até o advento do capitalismo editorial. com o correr do tempo. No correr do século XVIII. criava uma comunidade imaginada entre uma determinada congregação de companheirosleitores. eles se tornavam um só. era a própria estrutura da administração e do sistema de mercado coloniais. este preço cora aquele bispo. p. Febvre e Martin nos esclarecem. a imprensa praticamente não existiu nesse século. foram editados na-. A imprensa chegou cedo à Nova Espanha. só se podia esperar que. Na América espanhola. e assim por diante. 47 De fato. de longe. para que mercadorias. um fenómeno essencialmente norte-americano. na mesma página.120 "jornais". porém.72 73 nadas como nações.palavras.

os indígenas foram mais bem tratados do que em qualquer outra parte da América espanhola 9 o Guarani alcançou o steíus <Je língua impressa. 200-1.860. 49 do que a Venezuela e equivalente a um terço do tamanho da Argentina. Não será o nacionalismo indiano inseparável da unificação administrativa e de mercado da colónia. após a Insurreição. e da América do Sul hispínica. acabaram por ter êxito em apropriar-se do título habitual de "americanos". uma ideia de simultaneidade firme e sólida através do tempo. meses mais tarde. 51 À guisa de conclusão provisória.965 dui!õrnetros quadrados. e. espanhol peninsular] se atreve a erguer a mão para um americano!'. no século XVIII. essa guerra nos faz lembrar vivamente as que separaram violentamente a Venezuela e o Equador da GrãColômbia. das Províncias Unidas do Rio da Prata. digamos. a ponto de precipitar uma guerra de secessão quase um século depois da Declaração da Independência. ao mesmo tempo. um maturrango [vulg. e o atraso "local" do capitalismo e da tecnologia na Espanha em relação à extensão administrativa do império.total das Tieze ColCnlas era de 835. também. do que a razão por que a resistência se concebeu sob formas 50 51 A superfície. 311. do que "fazer parte deles". é conveniente voltar a acentuar a pretensão limitada e específica da exposição que fizemos até aqui.776. San Martin ficou indignado.439. os crioulos protestantes de fala inglesa estavam em posição muito mais favorável para concretizar a ideia de "América" e. O Paraguai constitui um caso de excepcional interesse. realizada por poderes imperiais os mais terríveis e avançados?) Ao norte. em quão importante é. A da Venazuala. à medida que populações antigas e novas se deslocaram rumo ao oeste a partir do núcleo litorâneo do leste. tivesse existido uma comunidade de fala inglesa de bom tamanho na Califórnia. para essa comunidade imaginada. os mercados de Boston." Ibid. e tais acontecimentos antes pareceriam "ser semelhantes aos" acontecimentos ocorridos no México. p. "8 Ao mesmo tempo. 49 Evocação fascinante da lonjura e do isolamento das populações hispano-americanas á a descrição da fabulosa Macondo. A imensa extensão do Império hispano-americano e o isolamento de suas partes componentes tornavam difícil imaginar uma simultaneidade como essa. em 1767. 1760 e 1830. associados à rápida expansão da fronteira oeste e às contradições geradas entre as economias do norte e do sul. na verdade. -o território passou para o Rio de Praia. o nível geral de desenvolvimento do capitalismo e da tecnologia em fins do século XVIII. 2. . feita por Márquaz em Cem anos de solidão. 87. tanto quanto pelo comércio. veja sol Depois de três anos de revolução. Com a expulsão dos jesuítas da América espanhola pala Coroa. uma vez que essa expressão denotava precisamente a fatalidade do nascimento extra-espanhol que compartilhavam. pára atuar como uma Argentina em relação ao Peru das Treze Colónias? Até mesmo nos EUA. não dos do Rio da Prata.'Se. 'Ora.78 savam em si mesmas como "americanas". Contudo. não seria provável que tivesse surgido ali um Estado independente.£3-0. Os "Estados Unidos" puderam multiplicar gradativamente seu número no correr dos 183 anos seguintes. o "fracasso" da experiência hispanoamericana em gerar um nacionalismo de âmbito hispanoamericano permanente reflete. mas era antes uma indignação nacionalista do que socialista. VarSaton-Watson. *9 Os crioulos mexicanos podiam saber. mas isso se daria por intermédio dos jornais mexicanos..74 . (A época da história mundial em que nasce cada nacionalismo tem. os laços afetivos de nacionalismo foram suficientemente elásticos. a década de soberania independente do Texas (1835-1846).. um impacto significativo sobre seu alcance. provavelmente. mesmo no caso dos EUA.202 quilómetros quadrados. tJaliorr$ ancf States. As Treze Colónias originárias compreendiam uma área menor "Um peão velo queixar-se de que um inspetor espanhol de sua estância havia batido nele. da Argentina. hoje. mas multo tardiamente & por pouco mais de uma geração. Nova York e Filadélfia eram facilmente acessíveis uns aos outros e suas populações ligadas de maneira relativamente firme pela imprensa. de acontecimentos ocorridos em Buenos Aires. p. M Estando todas elas juntas geograficamente. 8. há elementos de "fracasso" ou retração comparáveis — a não incorporação do Canadá de fala inglesa. vimos que a própria concepção do jornal implica na refracão de "eventos mundiais" idênticos em um determinado mundo imaginado de leitores na língua vulgar. e o Uruguai e o Paraguai. O que se pretende é menos explicar as bases socioeconômicas da resistência antinietropolitana no hemisfério ocidental entre. Nesse sentido. e. Graças à ditadura relativamente benevolente alt estabelecida pelos jesuítas em princípios do século XVII.

A "nação" tornou-se. em fins do século XVIII. algo a que se podia aspirar desde o início. ANTIGAS LÍNGUAS. a "nação" mostrou ser uma invenção que era impossível patentear.' Kcrnílãinen. como veremos. entre 1820 e 1920. es liai seine National Bil- . Se considerarmos o caráter desses novos nacionalismos que. ern outras palavras.— em oposi-. enquanto que o espanhol e o inglês jamais foram temas na América revolucionária. sobretudo propiciando um arsenal de crítica ideológica do regime imperial e dos anciens regimes. nem o liberalismo. de importância fundamental. neste capítulo. Em primeiro lugar. 52 No cumprimento desta tarefa específica. o tipo. de comunidade imaginada que se protegesse contra a espoliação daqueles regimes. todos tiveram condições de aluar a partir de modelos disponíveis propiciados por seus predecessores remotos e. os funcionários crioulos peregrinos e os homens de imprensa crioulos provincianos tiveram o papel histórico decisivo. o grande Johann Gottfried von Herder (1744-1803) declarou. NOVOS MODELOS 54 É ilustrativo que a Declaração da Independência de 1776 fale somente de "o povo". nem o Iluminismo podiam criar. nenhum deles proporcionou o quadro de uma nova consciência — a mal percebida periferia de sua visão. Ela se tornou suscetível de plágio por mãos as mais variadas e. assim. imprevistas. Na verdade. 105. o centro de nossa análise será a língua impressa e o plágio.76 nacionais "plurais" — e não de outras formas. em quase todos. ou a forma. O que estou sugerindo é que nem o interesse económico. ou criaram. que: "Denn/ecfes Volk i st Volk. dois traços notáveis os distinguem de seus precursores. não tão remotos. obviamente. . enquanto a patavra "nação" só aparece pola primeira vez na Constituição de 1789. alteraram a fisionomia do Velho Mundo. por vezes. Com leviana despreocupação a respeito de alguns fatos evidentes extra-europeus. as "línguas impressas nacionais" foram de fundamental importância ideológica e política. por si sós. e não que se fosse definindo gradativamente.após as convulsões da Revolução Francesa. Os interesses económicos ern jogo são bem conhecidos e. Netionslism. O liberalismo e o Ihiminismo tiveram evidentemente um efeito muito forte. cão ao que estava no foco central de sua admiração ou desagrado. Em segundo lugar. O término do período de movimentos de libertação nacional bem-sucedidos na América coincidiu quase que exatamente com o início da época do nacionalismo na Europa. p. Por isso.

M/mesis.es e as ciências haviam atingido plena prosperidade em seu próprio tempo e lugar. todo povo é povo. p. . Com seu programa de restauração das antigas formas de vida e de expressão. 42. Aurangieb \fàlfi). são descritas. cada vez mais. de maneira bastante paradoxal. 3 Citando mais uma vez Auerbach. p. sobre esse pano de fundo. Sudeste da Ásia e no subcontinente indiano — ou que eram completamente desconhecidas — o México asteca e o Peru incaico — sugeria um irremediável pluralismo humano. da cristandade. de Dtyden. surgida em 1516. fictício ou real. nas teorias subsequentes sobre a natureza do nacionalismo. (Somente o tempo homogéneo e vazio permitiria acomodálas. que afirmava que as ar.8]. mas também por condições completamente diversas de vida.] Essa concepção notavelmente e«£-européia da nation-ness como algo vinculado a uma língua própria e exclusiva teve ampla influência na Europa do século XIX e. bem como os da Bíblia. da Marlowe. Observe que Auerbacn diz "cultuis" e não "língua". Moníesquieu. à concepção até então inaudita de uma "modernidade" explicitamente justaposta à "antiguidade". vieram os astros do Ilumimsmo. A batalha se iniciou em 1639. Viço. rettala um Imperador contemporâneo reinante n 358-1707].se encontrem na profunda redução do mundo europeu. causado inicialmente pelas escavações dos humanistas e» posteriormente.esf" a assa "sua própria". [Isso tornou impossível] restabelecer a vida autárquica natural da antiga cultura. quando Charles Perra u't. simulava ser o relato de um marinheiro que o autor encontrou em Antuérpia. 5 Analogamente. com o tempo. da antiguidade. o qual participara da expedição de Américo Vespúcio à América. apresentava um mapa fictício de sua localização no Atlântico Sul. "Na época de Luís XIV. Japão. ex* Mimesis. Em sua maior parte. mas como sociedades contemporâneas. A questão foi encarniçadamente debatida na "Batalha dos Antigos e Modernos" que dominou a vida intelectual francesa na última quarta parte do século • XVII. 343. ele possui sua formação nacional como possui sua língua". KemilâMen. 4 No correr do século XVI. 282. e impuseram essa opinião ao resto da Europa". em 1497-1498. Grifo nosso. Deveríamos também sar parcimoniosos.78 79 dung wie seine Sprache". (Ô significado desses cenários fica mais claro se se considerar quão inimaginável seria localizar a República de Platão em qualquer mapa. não estavam separados do presente unicamente por uma extensão de tempo. uma vez que foram compostas como críticas a sociedades contemporâneas. não como Paraísos perdidos. há um claro contraste entre os cois famosos mongíis do teatro inglês. pela expansão planetária da Europa. o humanismo cria uma perspectiva histórica em profundidade tal como nenhuma época anterior de que temos conhecimento jamais possuiu: os humanistas vêem a antiguidade em profundidade histórica e. ou a ingenuidade histórica dos séculos Xíl e XIII. com 69 anos. p. A Nova Atlântida de Francis Bacon (1626) foi talvez original sobretudo porque se localizava no Oceano Pacífico. começou a havei1 um sentimento de que os eventos da história e da lenda clássicas.. publicou seu poema Síécíe de LQUIU lê Grend. e que as descobertas tinham dado fim à necessidade de buscar modelos em uma antiguidade desaparecida. Grifos nossos. "modeladas" sobre descobertas reais. Como bem o diz Auerbach: 2 Com a primeira alvorada do humanismo. Voltaire e Rousseau que. 5 Na esteira dos utopistas. essas civilizações haviam-se desenvolvido completamente isoladas da história conhecida da Europa. O desenvolvimento do que se pode chamar "história comparada" levou. descreve um fabuloso dirtasta morto desde 1407. de Swift (1726). A majestosa Ilha dos Houyhnhnms.) Todas essas utopias enganosas.) O impacto das "descobertas" pode ser aferido pelas geografias peculiares das sociedades imaginárias da época. Tamburlaifia r/te Qraat (1587-158. mais limitadamente. Nstionalism. A Utopia de Thomas Morus. Poderia afirmar-se que tinham de ser assim. ' ["Assim. os franceses tiveram a 'coragem de considerar 1 2 3 sua própria cultura como um modelo válido em igualdade de condições com a dos antigos. e de modo algum necessariamente em benefício desta última. a "descoberta" feita pela Europa das grandiosas civilizações de que até então só se ouvira falar vagamente — na China. em tempo e espaço. na verdade do homem: suas genealogias eram exteriores e inaâsimiláveis ao Éden. em atribuir "fisrton-r. que teve início já no século XIV. o período intermediário de trevas da Idade Média.. Quais as origens desse sonho? O mais provável é que.

reconstruções de "protolínguas" tiradas do esquecimento.ximador entre as línguas — fosse qual fosse a realidade política exterior. escritório para a casa. holandeses e espanhóis. mantida tão rigidamente separada da historia política. 337. Os dicionários bilíngues tornavam evidente um igualitarismo mais apro. ou por elas sustentados. uma vez que agora nenhuma delas pertencia a Deus. Mas por quem? Logicamente.. missionários. comércio e guerra — colecionaram listas de palavras de línguas não-européias. de caráter científico. sobretudo as das universidades. entre eles mesmos. com seus estudos de gramática comparada. então. Mas somente em fins do século XVIII é que o estudo comparado de línguas. as descobertas e conquistas causaram também uma revolução nas ideias europeias a respeito da língua. "que multiplicou a antiguidade extra-européia. realmente se iniciou. dentro das capas do dicionário Checo-alemão/Alemão-checo. ou a melhor. em geral'. A marginalizarão do Império do Centro para o Extremo Oriente é simbólica desse processo. as antigas línguas sagradas — o latim. lado alado. p. iam-se concebendo genealogias que só poderiam conciliar-se em um tempo homogéneo e vazio. as línguas. "Â língua tornouse menos urna continuidade entre um poder exterior e o falante humano do que um terreno interior criado e realizado. p." 8 Dessas descobertas surgiu a filologia.Os dicionários raonolíngúes eram enormes compêndios do tesouro impresso de cada língua. por motivos práticos — navegação. Pa conquista inglesa de Bengala se originaram as investigações pioneiras de William Jones sobre o sânscrito (1786). '? A vigorosa atividade desses intelectuais profissionais foi fundamen.• tal na moldagem dos nacionalismos europeus do século XIX. um dos aspectos mais valiosos do texto de Seton-Wauon é exatamems a stençáo que dedica à historia da língua — embora se possa discordai do modo como a utiliza. gramáticos. e particularmente as 10 Assim. oficina para a escola. "Exatsmente porque a historiais língua. na Europa e em sua periferia imediata. que levou a uma compreensão crescente de que. 11. que se podiam transportar (ainda que às vezes com dificuldade) da . em princípio. 6 No devido teiripo.degradação anterior no mercado pelo capitalismo editorial. outras civilizações se viam traumaticamente confrontadas por pluralismos que aniquilavam suas genealogias sagradas. por dedução científica. não menos inevitavelmente. Se agora todas as línguas compartilhavam um status (intra)mundano comum. 9 0 A partir daquele momento. . Desde os primeiros momentos. 136. A afirmação de Hobsbawm de que "o progresso das escolas e das universidades dá a medida do nacionalismo." Nations and States. Como nos mostra de maneira muito proveitosa SetonWatson. hoje em dia. ou de proveniência divina. ali estava "a primeira ciência a encarar a evolução comp sua própria essência". exatamente como as escolas. e não necessariamente a Escolhida. num movimento que complementava sua .'. classificação de línguas em famílias e. p. 7 Progressos nos estudos semíticos abalaram a ideia de que o hebreu fosse singularmente antigo. De lato. comerciantes e soldados portugueses. possuíam idêntico staíus. E a maior parte de sua clientela imediata constituía-se. eram todas igualmente dignas de estudo e de admiração'. pelos usuários da língua. The Age of Revolution. uma idade do ouro para os lexicógrafos. tornou-se possível pensar a Europa como apenas uma entre muitas civilizações. conversão. em total contraste com a situação na América entre 1770 e 1830. que seriam reunidas em dicionários elementares. Os rriourejadores visionários que dedicavam anos e anos à compilação dos dicionários eram necessariamente levados para as grandes bibliotecas dá Europa. Como observa correiamente Hobsbawm. marinheiros. 337. é. Da expedição de Napoleão ao Egito veio a decifração dos hieróglifos por Champollion (1835). enquanto o imperialismo europeu abria vigorosamente seu caminho descuidado pelo mundo. ' Hobsbawm. o grego e o hebreu — foram obrigadas a misturar-se em condições de igualdade ontológica com variegada e plebeia multidão de línguas vulgares rivais. De fato. filologistas e literatos das línguas vulgares. pôr seusnovps' donos: os falantes — e leitores — nativos de cada língua. é quçtfné pareceu desejável associá-la a estas. o século XIX foi.80 81 pioraram uma não-Europa "real" para uma bateria de obras subversivas dirigidas contra as instituições sociais e políticas europeias então vigentes. a civilização indiana era muito mais antiga do que a da Grécia ou da Judéia. ainda que com o risco de menor domínio da área. Mais uma vez. 8 Edward Said. Otientatism. p. do. s Hobsbawm. The Age of Revolulion. económica e social convencional. de estudantes universitários ou préuniversitários.

p. em 1814. o extraordinário trabalho de estudiosos alemães. em fins do século XVIII.. . Embora. o grande novo porto russo rfe grãos". a que se seguiu. 20. mas seu ímpeto polémica era mais convincente do sue o valer estático dos exemplos que criou. "The Present State of Cívilization In Greece" encontra-se nas p. 17 Paul Ignoius. foi publicado o dicionário pioneiro checo-alemão. em 1850. se tornaram seus paladinos mais conscientes".000 estudantes universitários em toda a Europa. posteriormente. a sociedade secreta responsável sm grande medida pelo levante antiotomano de 1821. em 1802. em 1848. seguidos de um movimento. a nação reconhece o espetáculc horroroso de sua ignorância e estremece ao avaliar a distância 11 que a separa da glória de seus ancestrais. em transformá-los em seres dignos de Péricles e de Sócrates.000 alunos no secundário. p. "De fato o provou. l5 Entre 1789 e 1794. em formas impressas de fácil manejo. nos dos otomanos. como também recriavam. primeira história sistemática da língua e da literatura checas.000 estudantes de lyoée na França. em dezenas de livros. 177. O texto integrai de Koraes. que. em cinco volumes. porém. p. em Viena. uma gramática oficial. mas estratégico. empenharam-se em "desbarbarizar" os gregos modernos. esse "passado" tornouse cada vez mais acessível a um pequeno número de jovens intelectuais cristãos de fala grega. na época morando em Viena e trabalhando na escolta de Maria Teresa. inicialmente bem-sucedido nos reinos dos Habsburgos e. 15 • Os primeiros jornais gregos surgiram em 1784. No último quartel do século. e um total aproximado da 48. isto é. em discurso para um público francês. 1-1 Ibid. ano da publicação de algumas obras ilegíveis do versátil autor húngaro GyÕrgy Bessenyei. virtualmente todo o corpus existente dos clássicos gregos. reconstituir essa revolução lexicográfica como se poderia fazer com o estrondàr de um arsenal em chamas. Em meados do século XVIII. a maioria dos quais havia estudado ou viajado para fora dos limites do Império Otomano. 40. esse grupo reduzido. apareceram gramáticas. embora a educação se disseminasse rapidamente na primeirã metade da século XIX. numa população de 68. Em 1835-1839.. dizem tacitamente a si mesmos.. Adamantios Koraes (que mais tarde. 43-4.000 estudantes universitários em Paris. embora houvesse 6. se não para outras épocas e lugares. Geschichte der bòhmische Sprache una ãltern Literatur.000. a antiga civilização helénica. foi fundada "em Odessa. já entrado o século XVIII. em 1792. Ambos representaram uma vitória da língua vulgar sobre a língua eslava da Igreja. 157-82. se tornou um ardoroso lexícógrafo!). o padre católico Josef Dobrovsky (1753-1829) escreveu. o número de adolescentes nas escolas ainda era mínimo pelos padrões de hoje: não mais de 19. 166-7). eles n5o desempenharam virtualmente pape! algum na Revolução Francesa (p. certamente está correia em relação à Europa do século XIX. franceses e ingleses não apenas havia tornado acessíveis. «> Ibid. que se inicia com esta sugestiva frase: "Uma nação nasce quando algumas pessoas decidem que ata deve existir". o checo fosse ainda a língua apenas dos camponeses da Boémia (a nobreza e as classes médias ascendentes falavam o alemão). ou não devemos ostentá-lo. ou devemos tentar tornar-nos novamente dignos desse nome. fulgurante e firmemente pagã.000 da Rússia Imperial. As instituições académicas não tiveram significado para os nacionalisrnos americanos. e.82 83 universidades. quando cada pequena explosão acende outras. porém. 13 Ver a introdução de Elíe Kedouríe a Nalionalism ín Ásia en<j África. ver Narions and States. A respeito do romeno. moldada na Academia Francesa. 16 Sobre o nascimento do nacionalismo húngaro. p. 166. Ele também nos faj ver. até que a explosão total final transforma a noite em dia. dicionários e histórias do romeno. em prol da substituição do alfabeto cirílico pelo alfabeto romano (distinguindo nitidamente o romeno das vizinhas línguas eslavas ortodoxas). Nas revoluções deste ano." Talvez valha a pena observar que assa passagem sã encontra em uma subsecão Intitulada "The Inventing of trie Hu-ngarian Nation". O próprio Hobsbawm observa que.. . assim. em Paris. 44. produziu um dicionário russo em seis volumes. 167). proveitosamente. de Josef Jungmann. Grifo nosso. p. Essa dolorosa descoberta. a Academia Russa. 13 Símbolo dessa mudança de consciência são as seguintes palavras de um desses jovens. na época. 150-3. Philike Hetairia. A magna opera de Bessenyei destinava-se a provar que a língua húngara adaptava-se ao mais elevado género literário". p. na análise que se segue baseei-me grandemente em Seton-Waison. Ele contém uma análise espantosamente moderna das bases sociológicas de nacionalismo grego. escreve Ignotus ser ele um acontecimento "suficientemente recente no tempo: 1772. " Pode-se. Analogamente. n Estímulo ulterior foi propiciado Não pretendendo simular qualquer conhecimento especializado sobre a Europa Leste e Central. em 1803: M Pela primeira vez. em 1842. * i 12 The Age a! Revolufion. não lança os gregos no desespero: somos os descendentes dos gregos. Hungaty. l2 Entusiasmados pelo filo-helenismo dos centros da civilização europeia ocidental. juntamente com os anexos filológicos e lexicográficos necessários. desempenhou papel essencial (p.

muitos deles produtos do American College de Beirute (fundado em 1866) e do College Jesuíta de São José (fundado em 1875) foram os que mais colaboraram para o renascimento do árabe clássico e para a disseminação do nacionalismo árabe. e de fato haviam participado do Movimento Ilírico. na década de 1870. apareceu a primeira gramática ucraniana — apenas 17 anos depois da gramática oficial russa. outros lago o acompanharam. SetoivWatson. na década de 1780. fundador do primeiro jornal desse tipo. que se tornou rapidamente o centro de uma explosão da literatura ucraniana. 1790-1792). a língua oficial tornou-se o russo. a cujo respeito observa Seton-Watson que "a formação de uma língua literária ucraniana aceita deve mais a ele do que a qualquer outro indivíduo. porém. Em 1798. foi fundada a Universidade de Karkov. Após a união do território aos domíSeton-Watson. a língua de Estado na Finlândia de hoje era o sueco. Não é preciso diíer que o Tzarismo liquidou rapidamente com essas passoas. impressa]. Sua primeira expressão política foi a reação hostil da nobreza magiar que falava o latim. na década de 1830. p. havia sete diários em Ungua turca em Constantinopla. e pela mudança. em nome da qual se poderia propor reivindicações políticas mais vigorosas". p. Hungary. Nations and States. as obras de Taras Shevchenko. Em 1819. Ivan Kotlarevsky escreveu sunAeneid. em fins do século XVIII. No século XVIII. a primeira organização nacionalista ucraniana foi fundada em Kiev — por um historiador! No século XVIII. nos anos iniciais do século XIX. Os^absburgos. Isso significava urna rejaiçSo do "otomano". A reaçêo foi suficientemente violenta para persuadir seu sucessor. 48). Em outra parte. M E as sementes do nacionalismo turco podem ser facilmente descobertas no surgimento de uma ativa imprensa em língua vulgar em Istambul. Ver também adiante. The Age of fjaííana!ism. da pequena cidade provinciana de Trnava para Budapeste. Shevchenko foi destruído na Sibéria. do persa e do áraba. ainda que com pronúncia completamente diferente. poema satírico extremamente popular sobre a vida ucraniana. textos que eram uma resposta e um estímulo às reivindicações de uma língua impressa especificamente norueguesa. que por muito tempo compartilhara uma língua escrita com os dinamarqueses. o nacionalismo surgiu com a nova gramática (1848) e o novo dicionário (1850) noruegueses de Ivar Aasen. 23 z°Kemilâinen. do que viria a ser a Universidade de Budapeste. 208-15. 18 No período de 1800-1850. Em 1875. p. . em 1846. Mas o "despertar" de um interesse pela língua finlandesa e pelo passado finlandês. na década de 1870. em 1809. O estudo do folclore e a redescoberta e reconstituição da poesia épica popular caminhavam par a par com a publicação de gramáticas e dicionários e levava ao surgimento de periódicos que eram úteis para padronizar a língua finlandesa literária [isto é. como língua principal da administração imperial. havia sido geral a ideia de que os "búlgaros" eram da mesma nação dos servos e dos croatas. Leopoldo II (r. Ê típico que Ibrahlm Sinssi. Capitulo V). pastores e advogados. em 1878 passaria a existir separadamente um Estado nacional búlgaro.. il No caso da Noruega. 2329261. O uso dessa língua foi a etapa decisiva na formação de uma consciência nacional ucraniana". 72. 20 Os líderes do nascente movimento nacionalista finlandês eram ''pessoas cuja profissão consistia em grande medida no manejo da língua: escritores. encontramos o nacionalismo africâner a que deram início os pastores e literatos bóeres que. p. língua oficial dinástica que misturava B ementas do turco. na década de 1830. É ilustrativo que Kazinczy tenha apoiado potiticamante José II nessa questão flgnotus. o servo-croata e o búlgaro. em 1784. houvesse acabado de vohar de cinco anos de estudos na França. 137. 16 nios do tzar. 1E8-61. "Ibid. '9 Nations and States. Os maronitas e os coptas. Nations and States. p. três línguas literárias diferentes se formaram ao norte dos Bálcãs: o esloveno. Quando ele saiu à frente. "o pai da literatura húngara". na década de 1820 passou a manifestar-se cada vez mais na língua vulgar. professores./Víf/ona/ís/n.84 85 pelas inúmeras publicações de Ferenc Kazinczy (1759-1831). porém. contra a decisão do imperador José II de substituir o latim pelo alemão. 105-7. p. a restaurar o latim. Em 1804. expresso de início por textos escritos em latim e em sueco. E vieram a seguir. 21 p. o ucraniano (o pequeno russo) era desdenhosamente tolerado como língua de caipiras. encorajaram um pouco os nacionalistas ucranianos na Galícia — para contrabalançar os poloneses. Se. em consequência do trabalho pioneiro de estudiosos locais. 19 Pouco tempo depois. 23Kohrv. foram bem-sucedidos em fazer do dialeto holandês local uma língua literária e denominando-a não mais como europeia.

jornalistas e compositores não desenvolviam suas atividades revolucionárias no vácuo. a despeito da inexistência de qualquer guerra local de maior importância. ou. p. Depois de Dobrovsky veio Smetana. p. Uma nobreza analfabeta ainda podia atuar como nobreza. folcloristas. As classes dirigentes pré-burguesas geraram sua própria coesão em certo sentido independentemente da língua. 112. falando figuradamente. plena de sinecuras e dominada pela nobreza: a porcentagem de homens originários da classe média nos postos mais elevados de "Hobsbawm. e a personalização das relações políticas subentendidas nas relações sexuais e na herança.Mas e a burguesia? Eis aí uma classe que. quase metade da população ainda era analfabeta (e na atrasada Rússia. indicam que sua coesão como classe era tão concreta quanto imaginada. as camadas médias ascendentes de pequenos funcionários plebeus. depois de Kazinczy. suas bases políticas estáveis. 44% na Rússia. Mais concretamente. Um dono de fábrica em Lille só estava ligado á um dono de fábrica de Lyon por reverberação. tipicamente. 40% na França. da língua impressa. quase 98%).86 87 E não se deve esquecer de que essa mesma época assistiu à popularização de outra forma de página impressa: a partitura. e se vinculavam. 70% na Áustria. Áustria and Germany sints WJ5. Se o governante do Sião tomava uma'nobre malaia como concubina. os Estados mais adiantados da Europa. não com base na língua ou na cultura que compartilhassem. eles produziam para o mercado da imprensa. a ascensão das burguesias comercial e industrial foi. essa "ascensão" deve ser compreendida em suas relações com o capitalismo editorial em língua vulgar. lenta e interrompida em outros. Kateen&tein. Nas forças armadas. cálculos maquiavélicos à parte. em 1878. Eles não tinham uma razão necessária para conhecer a existência um do outro. depois de Aasen. em 1829. Béía Bártok. por intermédio desse silencioso bazar. abriu as portas da nomeação oficial a números muito maiores e a origens sociais muito mais variadas do que até então. os cortesãos e membros do clero. Se observarmos que. Mas não importa onde tenha ocorrido. mas. ainda que tipicamente em ritmo mais lento e mais tardio: o componente de classe média do corpo de oficiais subiu de 10% para 75%. DisfainedParfners. claro. The Age of Revotution. O tamanho relativamente pequeno das aristocracias tradicionais. extremamente irregular — maciça e rápida em alguns lugares. em 1804. mas também a esposa rodeada de criadas e os filhos em idade escolar. a despesa pública per capita aumentou de 25% na Espanha. decrépita. gramáticos. passando por 27. Veja-se até mesmo a máquina estatal austro-húngara. além das antigas classes dirigentes da nobreza e da pequena nobreza fundiária. e as burguesias comercial e industrial. Afinal de contas. 75% nos EUA e mais de 90% nos Países Baixos". 74. elas eram. ao público consumidor. com base' em parentescos e amizades comuns. sua metade civil subiu de O. A Europa de meados do século XIX assistiu a um rápido aumento das despesas do Estado e das dimensões das burocracias estatais (civil e militar). ou se o Rei da Inglaterra se casava com uma princesa espanhola — terão eles alguma vez conversado verdadeiramente um com o outro? As solidariedades eram produto do parentesco. pelo menos. em 1859. e assim por diante pelo nosso século adentro. revelou-se a mesma tendência. Grieg. e 35. só veio a ser uma classe mediante muitas cópias. que significou também especialização burocrática. "Entre 1830 e 1850. ocorrendo em taxas comparáveis tanto nos Estados adiantados quanto atrasados da Europa. Quem eram esses consumidores? No sentido mais geral: as famílias das classes leitoras — não apenas o "pai que trabalhava". Dvorak e Janácek. da dependência e de lealdades pessoais. ainda em 1840. 2* A expansão burocrática. os profissionais liberais. mesmo na^GrãBretanha e na França. Nobres "franceses" podiamajudar reis "ingleses" contra monarcas "franceses". para 55. K Se a expansão das classes médias burocráticas foi um fenómeno relativamente uniforme. "classes leitoras" significava gente de algum poder. 50% na Bélgica. filólogos. não se casavam com a filha um do 25petei J. Ao mesmo tempo. . entre 1859 e 1918. 229. é patente que todos esses lexicógrafos.

as burguesias foram as primeiras classes a consumar solidariedades numa base essencialmente imaginada. Grifei a palavra qualquer. o. os consumidores potenciais da revolução filológica. especialmente num mundo em que essas /línguas se interpenetravam continuamente. há perto de dois séculos. nem herdavam as propriedades um do outro. The Age effíevolutlon. em meados do século XIX. E tal expectativa é corroborada. 165. havia um isomorfismo quase perfeito entre o âmbito dos diversos impérios e o de suas línguas vulgares. seria lícito esperar que um nacionalismo cônscio de si mesmo surgisse por último. das comunicações e das máquinas estatais. não tinha nada a ver com o nacionalismo alemão. no século XIX. Assim. essas solidariedades tinham seu maior alcance limitado por legibilidades em língua vulgar. * O crescimento generalizado da alfabetização. a língua inglesa expulsou o gaélico da maior parte dai Irlanda. Nesse ínterim. como veremos adiante mais detalhadamente. 27 Hobsbawm. por razões absolutamente externas. onde. 26 a interpenetração geral a que aludimos acima não teve consequências políticas dramáticas. contudo. século XIX.p.pelos registros históricos.francês limitou o âmbito do bretão e o castelhano compeliu o catalão à marginalidade. do comércio. a exaltação do alemão no século XIX pela corte dos Habsburgos. Dizendo doutro modo. Em reinos como a Grã-Bretanha e a França. Na Hungria. Na Europa. pode-se dormir com qualquer pessoa. então. que caracterizou o século XIX. mas cada vez mais letrado. língua vulgar. p. pequenos nobres fundiários. uma vez que. as consequências foram inevitavelmente explosivas. poliglota. mas só se pode ler a escrita de um certo povo. uma coincidência relativamente alta entre língua de Esta» do e língua da população. mas uma de cada 8 pessoas reivindicava algum status aristocrático. Para perceber por que. ela mesma alemã como alguns podem considerá-la. 21 Pode-se dizer o mesmo dos leitores poloneses. . mas não poderia. Mais típica. mas desapareceu quase imediatamente a seguir. dos quais a Áustria-Hungria é provavelmente o exemplo extremo. era em grande medida não planejado. 44-55: vertarnbCmJàszi. Em outras palavras. era a coali26 Como vimos. O latim se manteve como língua de Estado na Áustria-Hungria até inícios da década de 1840. & submissão militar do Gaeltactrt no início do Século XVIII B a depressão da década de 1B40 foram poderosos fstores concorrentes. esse tipo de coincidência era raro e os impérios dinásticos intra-europeus possuíam basicamente mais de uma língua vulgar em seu território. No casa do Beira Unida. da indústria. da imprensa ou da literatura. TheDissolution. f>. a substituição do latim por qualquer língua vulgar. Porém. Membros da nobreza. não admira pois que se encontrem conjuntos muito diferentes de clientes segundo as diferentes condições políticas. pelo menos de início. a adoça» de línguas vulgares corno Itnguss de Estado nesses dois reinos estava em andamento desde muito cedo. Assim. em meados do século. a preservação do húngaro impresso contra a maré montante do alemão era defendida por segmentos da nobreza menos importante e da pequena nobreza fundiária empobrecida. Em seu vasto domínio desmantelado.88 89 outro. Excelente e pormenorizada exposição encontra-se em Ignotus. as línguas de Estado vulgares assumiam cada vez mais poder e status em um processo que. aos que não a utilizassem. criou novos impulsos vigorosos no sentido da unificação das línguas vulgares dentro de cada reino dinástico. 224-5. .proporção.) Em muitos outros reinos. funcionários e homens do mercado — eram estes. onde virtualmente não existia uma burguesia magiar. Pois é difícil imaginar uma burguesia analfabeta. das ciências. Na América. ocorreu que houvesse. numa Europa do.) Em termos das clientelas de nossos lexicógrafos. e parecia ameaçador. ser a língua dos negócios. o poder e a língua impressa mapeavam reinos distintos entre si. entre os naturais da terra que lessem a língua vulgar oficial. porém. por exemplo. em que. é preciso que se retorne ao contraste básico antes traçado entre a Europa e a América. Mas tal clientela não estava plenamente realizada quase em parte alguma e as combinações dos consumidores concretos "variava consideravelmente de região pára região. Mas chegavam a visualizar de um modo geral a existência de milhares e milhares de outros como eles por intermédio da língua impressa. (Esses casos aproximam-se! mais dos da América. em termos de história mundial. (Em tais circunstâncias. o latim fora vencido pelo capitalismo editorial em. Poderia ser a língua de Estado. na mesma. em cada reino dinástico. profissionais liberais. assegurava vantagens enormes àqueles de seus súditos que já utilizassem aquela língua impressa.Hungary.

com composições que se localizam de maneira diversa na gama de variação entre a húngara e a grega. Quando Koraes olha para a "Europa". em que predominavam os intelectuais e os empresários: 2S Nas cidades que eram menos pobres. 30 Mas por toda parte. a menos que nos voltemos finalmente para o plágio. 80.. 153 (Boémia) e 432 (Eslováquia). Q otomano nSo 6 contudo uma língua estrangeira. Outro extremo é sugerido pelo comentário irónico de Hobsbawm de que: "Os camponeses galicianos. Nationallsm in A$i» and África. 340. os académicos. Mas será difícil perceber por que o convite parecia tão atraente. do francês. do alemão e do inglês. pelo Oriente Médio. enviam para a Europa. 29 Em que medida as massas urbanas e rurais participavam das novas comunidades linguisticamente imaginadas naturalmente também variava muito. opuseorg. p. E3 (Egito) e 103 (Pérsia). 145 (Bulgária). Coalizões de leitores. como um modelo. a revolução começou mais cedo e pôde progredir mais rápida e animadoramente. na verdade.. p. Nutions and States. as escolas já estão sendo ampliadas e o estudo de línguas estrangeiras e até mesmo das ciências que são ensinadas na Europa [sic] está sendo introduzido nelas. preferindo massacrar os cavalheiros e confiar nos funcionários do Imperador". 23 Para exemplos. p. até que surgisse a figura pós-revolucionária de Napoleão". os primeiros forneciam os líderes de "reputação". . ver Seton-Watson. tornava-se mais fácil conseguir o apoio popular. sem exclusão das meninas. Num extremo. a suas expensas. jovens ávidos de aprender. 72 (Finlândia). no devido tempo. The Age of Nationalism. pode-se indicar a Irlanda. nem por homens que estivessem procurando levar a cabo um programa sistemático. The Sreak-up ofSrítBrrt. aquela experiência foi modelada por milhões de palavras impressas como um "conceito" sobre a página impressa e. frequentemente. 169. ainda que estes houvessem de fato proclamado a abolição da servidão. ram-se aos revolucionários poloneses. 3Z Mas uma vez que ela aconteceu. por que "ela" foi bem-sucedida ou fracassou. onde um clero oriundo do campesinato. e próximo dele. desenvolveram-se de maneira semelhante por toda a Europa Leste e Central e. desempenhava papel mediador essencial. p. os segundos e terceiros. a impressionante formulação de Nairn -— "A nova intelligentsia de classe média do nacionalismo tinha de convidar as massas a entrar na história. pois. O agradável Koraes oferece-nos uma vinheta precisa da clientela inicial do nacionalismo grego. The Age of fígvoàittón. dinheiro e facilidades de mercado. Por que "ela" irrompeu. jornais e formulações ideológicas. Grifos nossos.. conseqúèntemente. Os ricos patrocinam a impressão de livros traduzidos do italiano. Kohn.90 91 zão entre os nobres menores. com o avançar do século. Até certo ponto. quando o 'povo encontrava um novo motivo de orgulho na exaltação pela imprensa de línguas que haviam falado humildemente por tanto tempo. 28Kedourie. o que onçarã ds frente é Constantinopla. alguns indivíduos que podiam pelo menos ler e compreender os autores antigos. mitos. dão a seus filhos melhor educação. Hobsbawm observa que "A Revolução Francesa não foi feita nem conduzida por um partido ou movimento organizado. Isso dependia muito das relações entre essas massas e os missionários do nacionalismo. e por que alianças tão diversas eram capazes de emiti-lo (a intelligentsia de classe média de Nairn não era absolutamente o único anfitrião). a que "ela" visava. E . ingressou na memória acumuladora da imprensa. em 1846. Em algumas dessas cidades. Tudo aqui é exemplar. que possuíam alguns habitantes abastados e algumas escolas e. talvez. Do mesmo modo que uma imensa rocha informe se torna um penedo arredondado pela ação de inumeráveis gotas de água. na qual. p. as fuigras esposas som trabalho ingressam no mercado da impransa. no sentido moderno. e os últimos. p. poesia. á por sobre o ombro. e o convite tinha de ser escrito numa língua que elas entendessem" 3I — está correta. 170. tudo passa a ser tema de polémicas infindáveis por parte de partidários e de ad30 3' 3! TheAgecfRewkttion. à medida que era maior a alfabetização. Ela nem mesmo projetou 'líderes' do tipo a que nos habituaram as revoluções do século XX. os profissionais liberais e os homens de negócio. A irresistível e desconcertante concatenação de eventos experimentada por seus autores e por suas vítimas tornou-se uma "coisa" — e com um nome próprio: Revolução Francesa.

eram monarquias restauradas e o dinasticismo ersatz do sobrinhoneto de Napoleão. De fato. do que a "supressão" generalizada da escravidão maciça dos EUA "modais" do século XIX. então isso queria dizer "os húngaros". aparece como uma anomalia inconsequente.) Além disso. J3 De modo muito semelhante. mais preciso dizer que o modelo era uma complexa mistura da si e mantos franceses e americanos. no devido tempo.. Metade dos súdito» do reino da Hungria sra nõo-rnagiar. na segunda década do século XIX. bem coma do alemão vulgar. ninguém jamais teve muita dúvida. servidões. p. 34 Seria. . e assim por diante. era mais profundo do que na América: a servidão tinha que terminar. Da confusão americana brotam estas realidades imaginadas: Estados-nação. de fato. e a liquidação de seus contrários: impérios dinásticos. nobrezas hereditárias. Compare-sei "O próprio nome de RsvoluçSo Industrial reflete seu impacto relativamente tardio sobre a Europa. de tal modo que. até depois de 1870. se não antes. seja o que for. e assim por diante. p." Ignoius. a expansão do sufrágio. que este capítulo focalizou. a validade e a generalidade do 'projeto se confirmaram indubitavelmente pelo pluralismo dos Estados independentes. Se quiserem. B nobreza media e infericr "conversava em um latim vulgar salpicado de expressões do magiar. o caráter "populista" dos primeiros nacionalismos europeus. 34 (Os primeiros grupos a fazê-Io foram as coalizões de pessoas instruídas baseadas em línguas vulgares marginalizadas. Até mesmo as pequenas nobrezas húngara e polonesa.45-6 e 81. demagogicamente. soberania popular. Se "húngaros" mereciam um Estado nacional. absolutismos. Não foi senso na década de 1820 que socialistas Ingleses e franceses — eles próprios um grupo sem precedentes — a inventaram.. nesse contexto. Ibid. tiveram grandes dificuldades em não realizar um espetáculo de "convidar a entrar" (ainda que apenas até a copa) seus compatriotas oprimidos. Mas a "realidade observável" da França. Ap&nas um terço dns servos falavo magiar.. "modelos" e. cidadania universal..92 versários: mas de que "ela" foi alguma coisa. a lógica da peruanização de San Martín estava funcionando. Na "realidade". 3i queria dizer um Estado em que o locus fundamental da soberania tinha que ser a coletividade dos falantes e leitores húngaros. No Início do século XIX. o medo de Bolívar das insurreições de negros e a convocação de San Martin de seus indígenas à peruanidade chocam-se caoticamente. etc. "projetos". a liquidação da servidão. 45. a escravidão legal era inimaginável — também porque o modelo conceptual estava colocado num lugar inerradicável. e da língua compartilhada das repúblicas "modais" da América do Sul. bandeiras e símbolos nacionais. Hungtry. já havia um "modelo" "do" Estado nacional independente à disposição para ser plagiado. assim que se imprimiu a respeito deles. vassalagens. todos eles..0 eslovaco.) Mas exatamente porque era então um modelo conhecido. provavelmente. da ESrvio B do romano. provavelmente por analogia com a revolução política da França". instituições monárquicas. atrasadas e 33 reacionárías. mesmo quando liderados. e. 35 • Não que isso fosso uma questão muito definida. guetos. Mas a palavra impressa eliminou o primeiro quase^. mas também 0. Desse modo. impunha certos "padrões" em relação aos quais não se permitiam desvios muito acentuados. a promoção da educação popular. instituições republicanas. a alta aristocracia magiar falava irancâs ou alemão. ainda que lembrado. (Nada mais chocante.que'imediatamente. pelos grupos sociais mais retrógrados. os movimentos de independência na América se tornaram "conceitos". A coisa Isicl existia na Grã-Bretanha antes da palavra.

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