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Benedict Anderson

NAÇÃO E CONSCIÊNCIA NACIONAL
Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira

He regards it as his task to brush history against the grain* Walter Benjamin, fí/uminations Thus from a Mixture of ali kinds began, That Hefrogeneous Thing, An Englishman: In eager Rapes, and furious Lust begot, Betwixt a Painted Britton and a Scot. Whose gend'ring Offspring quickly learnt to bow, And yoke their Heifers to the Roman Plough: From whence a Mongrel half-bred Race there carne, • With neither Name nor Nation, Speech or Fame. In whose hot Veins new Mixtures quickly ran, !nfus'd betwixt a Saxon and a Dane. While their Rank Daughters, to their Parents just, Rece'iv'd ali Nations with Promiscuous Lust. This Nauseous Brood directly did contaín The well-extracted Blood of Engfíshmen...*" Excerto de Daniel Defoe, The True-Bom Englishman

SUMÁRIO

l Encara como tarefa sua contrariar o sentido da história. ' Assim da uma mistura de todos os tipos começou £ssa coisa heterogénea, um inglês; Gerado em estupros ardentes e arrebatada luxúria Entre um bretso sardento e um escocês'. ' Cuja prole procriadora logo aprendeu a curvar-se, E jungiu suas novilhas ao arado romano: .E dal uma raça mestiça impura se originou, Sem nome nem nação, sem fala ou fama. Em cujas vaias ardentes novas mesclas logo se fundiram. Infundidas entre um saxão e um dinamarquês. Enquanto suas filhas nobres, exatamente como os pais. Receberam todas as nações com promíscua luxúria. Essa raça repulsiva continha do fato diretamente O sangue de boa extração dos ingleses...

1. Introdução • 2. Raízes culturais 3. As origens da consciência nacional',, 4. Antigos impérios, novas nações 5. Antigas línguas, novos modelos 6. Nacionalismo oficial e imperialismo 7. A última onda _____________ 8. Patriotismo e racismo 9. O anjo da história Bibliografia __ índice alfabético

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INTRODUÇÃO

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Talvez não se tenha ainda percebido que está ocorrendo uma transformação fundamental na história do marxismo e dos movimentos marxistas. Seus sinais mais perceptíveis são as recentes guerras entre o Vietnã, o Camboja e a China. Essas guerras são de importância histórica mundial, por serem as primeiras a ocorrer entre regimes cuja independência e credenciais revolucionárias são inegáveis, e porque nenhum dos beligerantes procurou, senão perfunctoriamente, justificar o derramamento de sangue em termos de uma perspectiva teórica marxista aceitável. Embora fosse ainda perfeitamente possível interpretar os conflitos fronteiriços de 1969 entre a China e a União Soviética, as intervenções militares soviéticas na Alemanha (1953), na Hungria (1956), na Checoslováquia (1968) e no Afeganistão (1980), em termos de — conforme o gosto — "imperialismo social", "defesa do socialismo", etc., ninguém, penso eu, acreditará seriamente que esse tipo de vocabulário tenha muito a ver com o que ocorreu na Indochina. Se a invasão e a ocupação vietnamitas do Camboja, em dezembro de 1978 e janeiro de 1979, representaram a primeira guerra convencional em grande escala empreendida por um regime marxista revolucionário contra ou-

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iro. ' o ataque da China ao Vietnã, em fevereiro, confiras;/ rapidamente o precedente. Apenas os mais confiantes -•leriam apostar que, nos anos finais deste século, qualquer deflagração importante de hostilidades entre Estados encontrará a União Soviética e a China Popular — para não falar nos Estados socialistas menores — apoiando ou combatendo do mesmo lado. Quem pode estar seguro de que a lugoslávia e a Albânia não irão entrar em choque algum dia? Os variados grupos que pedem a retirada do Exército Vermelho de seus acampamentos na Europa Oriental devem recordar o quanto a presença dominante dessas forças tem evitado, desde 1945, conflitos armados entre os regimes marxistas da região. Essas considerações são úteis para salientar o fato de que, desde a Segunda Grande Guerra, cada uma das revoluções vitoriosas tem-se definido em termos nacionais — a República Popular da China, a República Socialista do Vietnã, e assim por diante — e, ao f aze-Io, basearam-se firmemente em um espaço territorial e social herdado do passado pré-revoliicionário. Ao contrário, o f ato de a União Soviética compartilhar com o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte o mérito incomum de não incluir a nacionalidade em sua denominação indica que ela tanto é a legatária dos Esta-r dos dinásticos pré-nacionais do século XIX, quanto a precursora de uma ordem internacionalista do século XXI. 2 Eric Hobsbawm está perfeitamente correto ao afirmar que "os movimentos e Estados marxistas tenderam a tor1

Exprimimo-nos dessa maneira apenas para enfatizar a escala e o estilo da luta, e não como censura. Para evitar possíveis mal-entendidos, é preciso dizer que a invasão de dezembro de 1978 originou-se de choques armados, possivelmente desde 1971, entre guerrilheiros dos dois movimentos revolucionários. Depois de abri! de 1977, ataques fronteiriços, iniciados pelos cambojanos, mas logo imitados pelos vietnamitas, aumentaram em grandeza e alcance, culminando na incursão vietnamita mais importante de dezembro de 1977, Nenhum desses ataques, porém, visava à derrubada do regime do inimigo, ou ã ocupação de granda extensão de território, bem como o número de soldados envolvidos n5o ers comparável ao que se deslocou om dezembro de 1978. A controvérsia a respeito das causas da guerra 6 investigada ponderadarnente em Stepnen P. Hader, "The Kampuchean-Vietnamese Confliet", in David W. P. Elliott, org., The Ttârd Indochina Confíict, p. 21-67; Anthony Batnett, "Inter-Communist Conflicts and Vietnam", Bvllstin of Concerned Asían Scbolars, 11:4 (outubro-dezembro de 1979), p, 2-9; e Laura Summers, "In Matters of War and Sccialism Anthony Barnett would Shsme and Honour Kampuchsa Too Much", ibid., p. 10-8. 3 Se alguém duvidar de que o Reino Unido merece asso tipo de paridade com a URSS, devaié Indagar-se que nacionalidade sã denota por oste nome: grâo-breto-irlandês?

nar-se nacionais não apenas na forma, mas também na substância, isto é, nacionalistas. Nada indica que essa tendência não persistirá". 3 E essa tendência não se limita ao mundo, socialista. Quase todos, os anos, as Nações Unidas admitem novos membros. E muitas das "velhas nações", antes consideradas plenamente Consolidadas, vêem-se ameaçadas por "sub"-nacionalismoâ no interior de suas fronteiras — nacipnalismos que, naturalmente, sonham com livrar-se algum dia dessa condição de "sub". A realidade é muito clara: o "fim dos tempos do nacionalismo", há tanto tempo profetizado, não está à vista, nem de longe. De fato, a nation-ness * constitui o valor mais universalmente legítimo na vida política de nossa era. Porém, se os fatos são evidentes, sua explicação continua sendo .tema de uma disputa há muito existente. Nação, nacionalidade, nacionalismo — todos têm-se demonstrado difíceis de definir, quanto mais de analisar. Em contraposição à enorme influência que o nacionalismo tem exercido no mundo moderno, é notoriamente escassa a teoria plausível a respeito de.le. Hugh Seton-Watson, autor do indubitavelmente melhor e mais abrangente texto em língua inglesa a respeito do nacionalismo, e herdeiro de vasta tradição da historiografia e da ciência social liberais, observa pesarosamente: "Desse modo, sou levado à conclusão de que não se pode estabelecer nenhuma 'definição científica1 de nação; contudo, o fenómeno tem existido e continua a existir". 4 Tom Nairn, autor da obra pioneira The Break-up of Britam, e herdeiro da não menos vasta tradição da historiografia e da ciência social marxistas, observa francamente: "A teoria do nacionalismo representa o grande fracasso histórico do marxismo", s Até mesmo essa confissão, porém, é algo enganadora, na medida em que se possa considerar
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Eric Hobsbawm, "Some Rofloctions on 'The Braak-up o.f Britain' ". tJeitr Lelt Review* 105 (setambro-outubro de 1977). p, 13. " O autor emprega diversas vezes a palavra nation-ness, por ele cunhada, em lugar de ' natlonalíly !cf. p, 12). Impossível criar um correspondente português; por isso, mantive em Inglês todas as vezes (MT). 4 Ver seu Nations and States, p. 5. Grifo nosso. 5 Ver seu "The Modern Jsnus", New Left Review, 94 Inovembro-dszembro do 1975), p. 3. Este ensaio foi incluído sem alterações como capitulo 9 do The Break-up of Brítsin (p. 329-63I.

nem Webers. argumentava persuasivamente em favor dessa datação. por mais de um século. uma capacidade implícita semelhante para degenerar em demência. in Setscted Works. em muitos dicionários correntes do século XIX. tem sido amplamente evitado. Creio que suas conclusões não foram seriamente contestadas. Ela não aparece. passíveis de serem transplantados. sua pobreza. nem Marxs. Tentarei demonstrar que a criação desses artefatos. com graus diversos de consciência e a grande variedade de terrenos sociais. uma vez criados. uma reorientação de perspectiva num espírito por assim dizer copernicano.12 que implica no resultado lastimável de uma busca prolongada e deliberada de clareza teórica. nem Tocquevilles. tanto quanto terá um sexo — vs. Aira Kemilãinen. com urgência. e "terá" uma nacionalidade. muitas vezes. ficado perplexos. visto que se define em termos das relações de produção — é teoricamente importante? O que este livro pretende é oferecer algumas sugestões exploratórias para uma ínterpretaçãp mais aceitável da "anomalia" do nacionalismo. por volta dos fins do século XVIII. e por que. e que se requer. um certo ar de superioridade. para não dizer irritados. por definição. É típico que até mesmo um estudioso tão solidário com o nacionalismo quanto-Tom Nairn tenha no entanto podido escrever que: "o 'nacionalismo' é a patologia da moderna história do desenvolvimento. 10. a nacionalidade "grega" é sui generis. The Comrminist Manifesto. diversamente da maioria dos outros "ismos". sua antiguidade subjetiva aos olhos dos nacionalistas. a não ser por ideólogos nacionalistas em determinados países. A modernidade objetiva das nações aos olhos do historiador vs. e até mesmo incoerência. de que modo seus significados se alteraram no correr do tempo. antes de mais nada. como talvez se prefira dizer. inspiram uma legitimidade emocional tão profunda. 2. do conceito de "burguesia nacional". para se incorporarem à variedade igualmente grande de constelações políticas e ideológicas. Minha impressão é que. Como explicar de outro modo a falha do próprio Marx para explicar o pronome crucial em sua memorável formulação de 1848: "O proletariado de cada país deve. Parto de que a nacionalidade. Conceitos e definições Antes de tratarmos das questões acima propostas. Kemilâinen observa também que a palavra "nacionalismo" sá passou a ser amplamente empregada em fins do século XIX. todo mundo pode e deve "ter". O poder "político" dos nacionalismos vs. são artefatos culturais de um tipo peculiar. devido às múltiplas significações dessa palavra. poder-se-ia sem dúvida concluir rapidamente que "lá não existe lá nenhum". exatarnente por essa razão. Facilmente. Nationalism. Em qualquer exegese teórica. entre intelectuais cosmopolitas e poliglotas. a dupla de "pais" do estudo académico sobre o nacionalismo. filosófica. ' Como observa Aíra Kemilãlnen. Marx e Friedrich Engels. 7 foi a destilação espontâ6 Karl nea de um "cruzamento" complexo de forcas históricas. Quando Adam Srnith invoca a riqueza das "nações". mas que. com estes três paradoxos: 1. tão inevitável quanto a 'neurose' no indivíduo. sem qualquer tentativa séria de justificar teoricamente a importância do adjetivo? Por que esta segmentação da burguesia — uma classe mundial. 33 e 48-9- . p. Grifo nosso. hoje em dia. quanto a esse tema. trazendo consigo muito da mesma ambiguidade essencial. Procurarei também demonstrar por que esses artefatos culturais peculiares têm suscitado afetos tão profundos. Em outras palavras. Os teóricos do nacionalismo têm. naturalmente. p. mais do que enfrentado. l. bem como o nacionalismo. Para compreendê-los adequadamente é preciso que consideremos com cuidado como se tornaram entidades históricas. a palavra "naturalmente" seria um sina) de alerta para o leitor entusiasmado. não se refere com essa palavra senão a "sociedades" ou "Estados". o nacionalismo jamais produziu grandes pensadores próprios:-nem Hobbes. 3. tornaram-se "modulares". esse "vazio" desperta. Do mesmo modo que Gertrude Stein diante de Oakland. Seria mais exato dizer que o nacionalismo tem se revelado uma incómoda anomalia para a teoria marxista e. por exemplo. Hans Kohn e Carlaton Haves. tal que. 46. naíion-ness. parece aconselhável considerar sumariamente o conceito de "nação" e oferecer uma definição viável. tanto a teoria marxista quanto a liberal têmse debilitado em um tardio esforço ptolomaico para "salvar o fenómeno". ajustar contas com sua própria burguesia"? 6 Como justificar doutro modo o emprego. ou. a particularidade irremediável de suas manifestações concretas. A universalidade formal da nacionalidade como conceito sociocultural — no mundo moderno.

. que assimila "invenção" a "contrafação" e "falsidade". II n'y a pás en France dix familles qui puissent fournlr Ia preuve d'une origine franqua. numa população de 23. que abarca talvez um bilhão de seres humanos. porque até mesmo a maior delas. sonhassem com um planeta inteiramente cristão. em 1789. Hoje podemos pensar na aristocracia francesa do ancien regime como uma classe. ou "um vassalo do Duque de Z". Cf. 5: "O qua posso dizer é que uma naçSo existe guando um número significativo de pessoas da uma comunidade considera que constituem uma nação.000 pessoas. para as sociedades). Seton-Watson. Dentro de um espírito antropológico. divinamente instituído. Até muito recentemente. "o tio da Baronesa de Y". 8 8 tá tão ansioso em demonstrar que o nacionalismo se dissimula sob falsas aparências. se todo mundo tem uma idade. Nenhuma nação se imagina coextensiva com a humanidade. p.. talvez. a seguinte definição para nação: ela é uma comunidade política imaginada — e imaginada como implicitamente limitada e soberana. digamos. e em grande medida incurável". lês massacres du Midi au XVIils siècle. mas "o senhor de X". Geílner insiste de maneira semelhante quando estabelece que "o nacionalismo não é o despertar das nações para a autoconsciência: ele inventa nações onde elas não existem". u O inconveniente dessa formulação. 12 À pergunta "Quem é o Conde X?". mais do que com "liberalismo" ou "fascismo". p. insinua que existem comunidades "verdadeiras" que se podem sobrepor vantajosamente às nações. Ela é imaginada porque nem mesmo os membros das menores nações jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas. As comunidades não devem ser distinguidas por sua falsidade/autenticidade. ou se comportam como se constituíssem uma nação". A nação é imaginada como limitada.) Creio que as coisas ficariam mais fáceis. ela montava a 400. não "um membro da aristocracia". p. ainda que elásticas.. a resposta normal teria sido. todas as comunidades maiores do que as primitivas aldeias de contato face a face (e. para além das quais encontram-se outras nações. do mesmo modo como foi possível que em certas épocas os cristãos. Podemos traduzir "considera" por "Imagina".. que todos tenham esquecido muitas coisas" — na nora: "todo cidadão francês deve ter esquecido a noite do S3o Bartolomeu. 10 Ernest Renan. "fixa" isso ao dizer que. 3S9.. até mesmo estas) são imaginadas. possui fronteiras finitas. a seguir.15 nos dilemas do desamparo imposto à maior par. é que Geílner esThe Bre&k-up aí Britam. Atingindo a maturidade numa 12 Hobsbawm. \. a Idade não passa de uma expressão analítica. É imaginada como soberana. no século XVIII.. mas pelo estilo em que são imaginadas. ao invés de assimilá-la a "imaginação" e "criação". p. à sua maneira suavemente sarcástica. mas tais vínculos eram outrora imaginados de maneira particuiarista — como malhas indefinidamente extensas de parentesco e de dependência. nem sequer ouvirão falar deles. se ele fosse tratado como associado a "parentesco" e "religião".000 (ver seu The Age of Rcvolution. Mas essa descrição estatística da nobreza poderia ser pensada ao tampo do ancien régimoj . mas certamente ela só foi imaginada desse modo muito tardiamente. então. Desse modo.í do mundo (o equivalente do infantilismo. et aussi que tous aient oublié bien dês choses".") 11 Emest Gollnor. os massacres do Sul. quando escreveu que "Or l'essence d'une nation est que tous lês individus aient beaucoup de choses en commun. Grifo nosso. Acrescenta ele: "tout citoyen [rançais doit avoir oublié Ia SBint-Barthélemy. proponho." (no texto: ". 10 Algo ferozmente. embora na mente de cada um esteja viva a imagem de sua comunhão. 169. contudo. Thought and Change. p. 78). Os aldeões javaneses sempre souberam que estavam ligados a pessoas que jamais haviam visto. por exemplo. a língua javanesa não possuía uma palavra para significar a abstração "sociedade". 9 Renan referiu-se a esse ato de imaginar. (Observe-se que. Nio na dez famílias na Franca qua possam apresentar provas de origem franca. também. a essência de uma nação é que os indivíduos tenham muitas coisas em comum e.000. Nem os nacionalistas mais messiânicos sonham com um dia em que todos os membros da raça humana se juntem a sua nação. nem os encontrarão. Nations antí States. 892. De fato. a classificá-"lo" como uma ideologia. 8 Parte da dificuldade é que as pessoas tendem inconscientemente a hipostasiar a existência do Nacionalismocom-N-grande — como se poderia fazer com Idade-com-Imaiúsculo — e. "Qu'éít-ce qu'une nation?" in Oeuvres Completes. porque o conceito nasceu numa época em que o Iluminismo e a Revolução estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico hierárquico.

muitos anos atrás. como uma das mais nobres figures do mundo. A reverência pública ritual outorgada a tais monumentos. RAÍZES CULTURAIS Não há símbolo mais impressionante da moderna cultura do nacionalismo do que os cenotáfios e os túmulos de Soldados Desconhecidos.. estes notáveis tropos: 1. não encontra precedentes em épocas passadas. ' Para que se sinta a força dessa inovação. por suas virtudes e porr MJ g s realizações. Honour. pátria.2 (Razão por que nações as mais diversas pôs1 2 Os antigos gregos tinham cenotáfios. Country". cujos corpos. mas morram voluntariamente por imaginações tão limitadas. e com o alomorfismo entre os reclamos ontológicos de cada fé e o território ocupado por ela. um milhão de lantesmas em verda-oliva. Considerem-se. porém para indivíduos determinados. porém. "Minha avaliação Ido soldado norte-americano] formou-se no campo do batalha. honra. discurso perante' ^Academia Militar dos EUA.16 etapa da história humana em que até mesmo os mais devotos adeptos de qualquer das religiões universais se defrontavam inevitavelmente com o pluralismo vivo de tais religiões." í. . ou insistisse em introduzir dentro do cenotáfio alguns ossos de verdade. as nações sonham em ser livres e. por exemplo. essa fraternidade é que torna possível. bradando estas palavras mágicas: dever. mas também corno das mais Imaculadas [sicl. is. por uma ou outra razão. precisamente porque estão deliberadamente vazios. Seria um sacrilégio de estranha espécie. não pudessem ser recuperados para um enterro normal. Judith Herrin. a nação é imaginada como comunidade porque. em azul e em cinzento se ergueriam de sob suas cruzes brancas. p. a nós.." Douglas MacArthur. como o vejo agora. não só matem. sem considerar a desigualdade e expioração que atualmente prevalecem em todas elas. Se vocês fossem fazê-lo. Devo essa informação a minha colega bizantinísta. saturados de fantasmagóricas imaginações nacionais. ou ninguém sabe quem jaz dentro deles. não sã como e que possui es características militares mais perfeitas. "Duty. Ele pgrtance ao presente. ou almas imortais. que seja diretamente. que tantos milhões de pessoas. Eu o via então. em seu A Soldier Sp. O penhor e o símbolo dessa liberdade é o Estado soberano. "A longa linha cinzenta jamais nos -faltou. se sob as ordens de Deus. conhecidos. Ele pertence á história como aquele que oferece um dos maiores exemplos de patriotismo bem-sucedido Isicl. Finalmente. no correr dos últimos dois séculos. basta imaginar a reação geral a algum intrometido que "descobrisse" o nome do Soldado Desconhecido. a nação é sempre concebida como um companheirismo profundo e horizontal. Em última análise. 12 da maio de 1962. Ele pertence à posteridade como o mentor das futuras gerações nos princípios da independência e da liberdade. eles estão. West Point. Essas mortes lançam-nos abruptamente cara a cara com o problema fundamental proposto pelo nacionalismo: o que faz com que as minguadas imaginações da história recente (pouco mais de dois séculos) dêem origem a sacrifícios tão colossais? Creio que as origens de uma resposta encontram-se nas raízes culturais do nacionalismo. 354 a 357. contemporânea! Por mais que esses túmulos estejam vazios de quaisquer restos mortais identificáveis. em caqui. a jamais se alterou.

pecado original. Não se poderia evitar um sentimento de absurdo. chocou-me a deliberada recusa do muitos muçulmanos o m acoitar as ideias de Oarwin. interpretei essa recusa como obscurantismo. Absurdo da salvação: nada torna mais necessário um outro estilo de continuidade. casualidade e fatalidade em uma linguagem de "continuidade"? (Também aqui a desvantagem do pensamento evolucionário/progressista é uma hostilidade quase heraclitiana a qualquer ideia de continuidade.. Com o refluxo da fé religiosa. Régis Debray. Se é amplamente reconhecido que os Estados-nação são "novos" e "históricos". ou norté-americanos. Como essa afinidade não é absolutamente fortuita. não desapareceu o só-' frimento que a fé em parte mitigava. Se habitualmente parece arbitrária a maneira como um homem morre. 3 Ao mesmo tempo. Por que nasci cego? Por que meu melhor amigo ficou paralítico? Por que minha filha é retardada? As religiões procuram explicar. esforça-se tão pouco pá* rã ligar essas descobertas à luta de classes. deve distinguir-se de seu papel na legitimação de sistemas específicos de dominação e de exploração) tem sido sua preocupação com o homem-nocosmos. Quem vivência a concepção e o nascimento do próprio filho sem ter a in-definida sensação de uma mistura de conexão. A/etv Lett flewsw. Que mais poderiam eles ser senão alemães. por ser ela a última de toda uma escala de fatalidades. Que devemos nos fazer com um materialismo cientifico que formalmente admita as descobertas da física sobre a matéria e. Como veremos. e a contingência da vida. "Timpanaro's Materialíst Chatlenge". Estamos todos cientes da contingência e inevitabilidade de nossa herança genética particular. Se a imaginação nacionalista se preocupa tanto. de nosso sexo. Â razão disso é que nem o marxismo. vim a compreender que 03 trata de unia louvável tentativa de ser coerente: simplesmente a doutrina da evolução ara incompatível com os ensinamentos do Islã. digamos. naturalmente. na Europa ocidental. em dezenas de formações sociais diversas. 3 Cf. a revolução. sua mortalidade é inevitável. mutilação. na década de 1960. poucas coisas se adaptavam (se adaptam) melhor a essa finalidade do que uma ideia de nação. do cristianismo ou do islamismo. se preocupam muito com a morte e corn a imortalidade. ou um cenotáfio para os Liberais mortos. contudo. sem exclusão do marxismo. idade e morte. e 6e diferentes modos. era uma transformação secular da fatalidade em continuidade. mas também o crepúsculo das modalidades religiosas de pensamento. de nossa língua maternaj e assim por diante. se se procura imaginar. pesar. Posteriormente. Wew Lett Ftevien. do budismo. A extraordinária sobrevivência. o homem como ser específico. O que se. o século XVIII assinala não apenas o raiar da era do nacionalismo. nem o liberalismo. o pensamento religioso reage também aos obscuros sinais de imortalidade. primordialmente porque. é que tais perguntas são respondidas com um silêncio intolerante. 105 (setombro-outubro de 1977). da secularidade racionalista. Desse modo. Desintegração do paraíso: nada torna a fatalidade mais arbitrária. atesta sua resposta imaginativa à esmagadora carga de sofrimento humano — doença.. da época em que vivemos. então. ?) O significado cultural de tais monumentos torna-se ainda mais claro. trouxe consigo suas peculiares trevas modernas. 29. por milhares de anos. p.demandava. isto indica forte afinidade com as imaginações religiosas. O século do Iluminismo. p. O grande mérito das visões de mundo das religiões tradicionais (que. ou argentinos. sem sentir qualquer necessidade de especificar a nacionalidade de seus ocupantes ausentes. da contingência em significado. 109 Imaio-junho de 1978). ou ao que quer que seja? O abismo entre os pró tons e o proletariado não ocultaria uma nfio admitida concepção metafísica do homem? Veja porém os interessantes textos de Sebastiano Ttmpanaro. será conveniente iniciar pela morte o exame das raízes culturais do nacionalismo. On Materielisiw and The Freudian Sfíp: e a ponderada réplica de Ravmond Williams. ele se ocupa dos vínculos entre os mortos e os nascituros.) Trago à baila essas observações talvez simplórias. 3-17. em geral transformando a fatalidade em continuidade (karma.. A vida humana é cheia desse tipo de associação entre necessidade e acaso. . o mistério da reencarnação.19 18 suem esse tipo de túmulos. etc. de nosso potencial físico.). No correr de uma pesquisa de campo na Indonésia. "Marxism and the National Question". De início. A grande fraqueza de todos os estilos evolucionários/progressistas de pensamento. um Túmulo do Marxista Desconhecido.

. embora hoje pensemos nele como chinês. (Assim. Os romenos não têm a menor ideia de como o sinal " + '' é chamado pelos tai. Para nossos objetivos. do que expulsar "os holandeses". a partir dos quais — bem como contra os quais — passaram a existir. hoje em dia. com Debray. afinal de contas. "Dtponegoro 117787-1855)". a linguagem matemática continua uma velha tradição. Var Harry J. Larkin. e a maior parte da In* donásia de hoje tenha sido conquistada pelos holandeses entre 1850 e 1910. e refletir sobre o êxito comercial das mitografias de Tolkien. porque os textos sagrados que compartilham só existem em árabe clássico. salientar determinados elementoschave de sua decomposição. A mágica do nacionalismo consiste em transformar o acaso em destino. O falecido presidente Sukarno sempre falou com inteira sinceridade sobre os trezentas e cinquenta anos de colonialismo suportados por sua "Indonésia". e do mundo budista. As grandes culturas. sagradas (e. embora nada conheçam da língua um do outro e sejam incapazes de se comunicar oralmente. da cristandade. Basta tomar o exemplo do Islam: se maguindanaos e berberes se encontram em Meca. antes. suas ideias a respeito da admissão de novos membros. K em ai Ataturk deu a um de seus bancos estatais o nome de Eti Banka (Banco Hitita) s a outro. "Sim. considerar o que dava a esses sistemas culturais sua manifesta plausibilidade e.20 21 as nações a que eles dão expressão política assomam de um passado imemorial. 103. todo mundo tem acesso a um mundo abstrato de signos. Entre os heróis nacionais da indonésia contemporânea tem primazia o príncipe javanês do início do século XIX. seriamente.. teoricamente. mas com os sistemas culturais amplos que o precederam. Esses bancos são prósperos hoje em dia e não há razão pare duvidar-se de que muitos turcos. não se imaginava como chinês. os dois sistemas culturais relevantes são a comunidade religiosa e o reino dinástico. muito embora as próprias memórias desse prfncipe mostrem que ele. do Sri Lanka à península coreana. a cristandade. não com ideologias políticas abraçadas conscientemente. mas uns e outros compreendem o símbolo. p. Os mandarins chineses encaravam com aprovação os bárbaros que penosamente aprendiam a desenhar os ideogramas do Império do Centro. Antes de começar a rir. daí. do árabe. Nesse sentido. ao mesmo tempo. e não a partir dos sons.) Todas as grandes comunidades clássicas concebiám-se como cosmicamente centrais. p. 158: e Ann Kumar. Oíponegoro. mas sim como central — eram imagináveis em grande parte mediante uma linguagem sagrada e um texto escrito. Bonda e John A. é inteiramente acidental que eu tenha nascido francês. 4 A comunidade religiosa Poucas coisas causam maior impressão do que a enorme extensão territorial da Ummah Islam. ou do chinês escritos era. ilimitado. 4 e. Banco Sumeriano (Seton-Watson. Analogamente. possivelmente sem excluir o próprio Kemal. Natlons and States. nos hititas e nos sumerianos. Conseq-iientemente. para nossos fins. The WbfltiofSoulheastAsia. mediante uma linguagem sagrada vinculada a uma ordem de poder supraterrestre. embora o próprio conceito de "Indonésia" seja ume invenção do século XX. do páli. Grifo nosso. 259). Como também não estou sugerindo que de alguma forma o nacionalismo "suplanta" historicamente a religião. tais comunidades clássicas vinculadas por línguas sagradas tinham caráter distinto das comunidades imaginadas das nações modernas. Podemos dizer. do Marrocos ao Arquipélago Sulu. viarn e vêem. ela mesma. é permissível que incluamos o "confucionismo") incorporaram concepções de comunidades imensas. O que proponho é que o nacionalismo deve ser compreendido pondo-o lado a lado. (Na verdade. a Ummah Islam.) Contudo. o árabe escrito funcionou como os caracteres chineses para criar uma comunidade a partir dos signos. em seu apogeu. uma explicação complexa. 13 (abril de 1972). seus ancestrais turcos. Indonésia. e até mesmo o Império do Centro — o qual. mas. devemos lembrar de Artur e Boadicéia. a França é eterna". por isso. pretendia "conquistar InSo ItbertarlJ Java". compreendem no entanto os ideogramas uns dos outros. é evidente que ele não tinha um conceito de "holandeses" como uma coletividade. a nacionalidade. eram aceitos como verdadeiros quadros de referência. o alcance do latim. orgs. Diferença essencial era a segurança das antigas comunidades quanto à sacralidade singular de suas línguas e. deslizam para um futuro ilimitado. hoje em dia. É essencial. ainda mais importante. ou que essa erosão não exija. Porém. quanto mais morta a lingua escrita — quanto mais distante estivesse da fala — melhor: em princípio. Pois ambos. Não é preciso dizer que não estou declarando que o aparecimento do nacionalismo em fins do século XVIII foi "produzido" pela erosão das certezas religiosas. p. De fato. do Paraguai ao Japão. tanto quanto é. e vice-versa.

' não quero tanto dizer a aceitação de dogmas religiosos par' ticulares. De fato.' ta. até muito recentemente. o impulso para a conversão."seus leitores eram pequeninos recifes letrados por sobre enormes ocea"Llngua vulgar" foi a tradução que adotamos para vsrnacular. nenhuma ideia de . como línguas-verdade. 5 Ser meio-civilizado era muitíssimo melhor do que ser 'bárbaro. 7 E. o índio pode ser redimido — mediante fecundação com o sémen branco. impostos e outros encargos. Não existe. nem limitada à antiguidade. foi essa possibilidade de conversão pela língua sagrada que tornou possível que um "inglês" se tornasse Papa 8. na Argentina e nos Estados Unidos começariam a fazer logo depois.) Contudo. humano é maleável do ponto de vista sagrado. mus um fator-ciiavo (01 corlamontu o falo do quo n Hngua grega continuou sendo uma fala vulgar viva (diferentemente do laiiml em grande parte do império Oriental. do árabe do Cõrão. com o esperanto ou o volapúk. "civilizado". também. Na tradição islâmica. a realidade ontológica somente é apreensível por meio de um sistema único e privilegiado de re-[a]presentação: a língua-verdade do latim da Igreja. sendo declarados livres de . por exemplo. com o nome de Adriano IV. As razões desse "fracasso" s3o divorsns. aleatoriamente fabricadas. portanto. pela miscigenação com os brancos. G "n oposição Ss "línguas sagradas" (NT). e o recebimento de propriedade privada. Dal a equanimidade com que mongóis e manchus achinesados eram aceitos como Filhos do Céu. maometanos. è" não exterminando-os pelas armas e pelos micróbios. A natureza toda do ser. Grifos nossos. seria muito desejável que os índios fossem extintos. "wogs". a seguinte "política relativa aos bárbaros" formulada em princípios do século XIX pelo liberal colombiano Pedro Fermín de Vargas: Para expandir nossa agricultura seria necessário hispanizar nossos índios. intercambiáveis). 6 John Lynch. neste caso. os ilongo. se as mudas línguas sagradas eram o meio pelo qual as grandes comunidades globais do passado eram imaginadas.) Afinal de contas. Os ideogramas da língua chinesa. a realidade de tais aparições dependia de uma ideia em grande medida estranha ao pensamento ocidental contemporâneo: a não-arbitrariedade do signo.um mundo tão desligado da língua que todas as línguas constituíssem para ele signos equidistantes (e. ou o chinês dos exames. paralelamente à condescendente crueldade. Todos conhecemos bem a longa disputa a respeito da língua adequada para as massas (latim ou língua vulgar"). 260. como qualquer outra pessoa. por isso. p. latina ou árabe eram emanações da s realidade e não representações suas. (Contraste o prestígio dessas antigas línguas mundiais. os rif. e um "manchu".. e sendo-lhes atribuída a propriedade privada da terra. Mas muito embora as línguas sagradas tornassem imagináveis comunidades como a cristandade. gurcas e haussas a "mestiços". Devo esse insight a Judith Herrin. (Quão diferente é a atitude de Fermín da preferência dos imperialistas europeus posteriores por "autênticos" malaios. pairando muito acima de todas as línguas vulgares. o verdadeiro alcance e plausibilidade dessas comunidades não podem ser explicados apenas pelo texto sagrado: afinal. Por conversão. .23 22 Tais bárbaros já estavam a meio caminho da absorção completa. mas uma absorção alquímica. o Corão era literalmente intraduzível (e. como seus sucessores no Brasil. cristãos. 1803-1826. "nativos semi-instruídos". e coisas assim. Tfte Spanish-American Revoltitians. Sua preguiça. não era traduzido). Os bárbaros tornaram-se "Império do Centro". porque a verdade de Alá somente era acessível mediante os insubstituíveis signos verdadeiros da língua árabe escri. que o autor emprega para referir-se à língua utilizada pelo comum das pessoas. que jazem ignorados entre aquelas e estas. Essa atitude não era por certo peculiar aos chineses.. Observe-se. o enorme otimismo: em última análise. Observem. 8 Michelas Brakespear assumiu o posto de pontífice entra 1154 e 1159. Filho do Céu. 6 Como é admirável que esse liberal ainda proponha "extinguir" seus índios em parte "declarando-os livres de impostos" e "atribuindo-lhes a propriedade privada da terra". ' A Igreja grega pareço n3o ter atingido o status de uma Kngua-vardade. impregnadas de um impulso em grande medida estranho ao nacionalismo. sua estupidez e sua indiferença em relação aos empreendimentos humanos normais levam a pensar que provêm de uma raça degenerada que se deteriora à medida que se distancia de suas origens.

O que liam. . não eram palavras. Reverencio e mostro respeito a todos os quatro. p. que. que contém os quatro evangelhos. ele supera qualquer soberano que haja existido ou que agora exista no mundo". The Traveis of Marco Polo. (O aterrador da excomunhão reflete essa cosmologia. servia de mediador entre a terra e o céu.. 158-3. e os idólatras. 83. 81. destinada a expressar por meio de símbolos uma realidade mais profunda. dos judeus e dos idólatras. em fins do século XIII:12 O grande cã. nada tinham da obscuridade preparada dos jargões dos advogados ou dos economistas. e ali continuava a residir nos meses de fevereiro e março. ainda que obscuras." Bloch. 282. 9 Uma explicação mais completa exige que se aluda à relação entre os homens de letras e suas sociedades. e invoco para mim a ajuda de seja qual for demre eles que é verdadeiramente o supremo no céu". Isso teve lugar no mês de novembro. Sogomombar-kan. é evidente que encarava a fé dos cristãos como a mais verdadeira e a melhor. na Europa. como a Páscoa e o Natal.24 25 vê a seguinte descrição reverente de Kublai Khan. o mundo material era pouco mais do que uma espécie de máscara. estratos estratégicos em uma hierarquia cosmológica cujo ápice era divino. à extensão do território e ao montante da receita. Observe-se que. Quando lhe foi perguntado o motivo dessa conduta. beijou-o com devoção e determinou que o mesmo fizessem todos os seus nobres ali presentes. os homens de letras eram iniciados. nos analfabetos. Porém. "alargaram abruptamente o horizonte cultural e geográfico e. 9 O que há de mais notável nessa passagem não é tanto o tranquilo relativismo religioso (ainda que um relativismo religioso) do grande -governante mongol. "Aos olhos de todos os que eram capazes de refle xão. Maomé. com isso. retornou em grande pompa e triunfo à capital de Kanbalu. qualificar Kublai de hipócrita ou idólatra. também a concepção dos homens sobre as formas possíveis de vida humana". à margem da ideia que a sociedade tem da realidade. Esse era seu rnodo habitual de agir em cada uma das festas cristãs mais importantes. e agia semelhantemente nas festas dos sarracenos.. Erich Auerbach. só é compreensível em termos de uma classe transeuropéia de letrados em escrita latina e de uma concepção do mundo compartilhada virtualmente por todos. porque "quanto ao número de súditos. porém. As línguas que eles sustinham. Dentre as razões dessa decadência. O espantoso poder do papado. por detrás da qual tinham lugar todas as coisas realmente importamas. p. os sarracenos. o mais eminente de todos os seus ídolos. os judeus. '3|bid.) Apesar de toda a grandeza e poder das grandes comu^ nidades imaginadas religiosamente. Seria enganoso encarar aqueles como uma espécie de tecnocracia teológica. Jamais lhe ocorre. embora escrevendo para cristãos europeus seus iguais. Em primeiro lugar. l. como a atitude e a linguagem de Marco Polo. Grifos nossos. Ao invés disso. feita pelo bom veneziano cristão Marco Polo. Ciente de que essa era uma de nossas principais comemorações. após obter essa memorável vitória. pela maneira pela qual sua majestade agia diante deles. Após fazer com que ele fosse repetidas vezes perfumado com incenso. mediando entre a língua vulgar e o latim.'e!e lhes parecia também uma língua. mas o mundo observável. 152. e não norteadas por fronteiras e horizontais. de modo preponderante. Mimesis. no último dos quais era nossa festa da Páscoa. Moisés.. em seu esplendor. mas de modo algum exclusivamente. Feudal Society. p. ordenou que todos os cristãos fossem até ele. sua coerência não deliberada desvaneceu-se rapidamente depois do final da Idade Média. desejo destacar apenas as duas que se relacionam diretamente com a sacralidade singular dessas comunidades. ObserMarc Bloch lembra-nos que "a maioria dos senhores e muitos grandes barões (dos tempos medievais] eram administradores incapazes de examinar pessoalmente um relatório ou uma conta". Os cristãos encaram Jesus Cristo como sua divindade. (Sem dúvida. o Evangelho não é lido. havia o efeito. p. de maneira solene. embora beijado. 10 As concepções básicas a respeito de "grupos sociais" eram centrípetas e hierárquicas. 10 Isso nlo quer dizer que os analfabetos não liam. em parte. p. disse ele: "Há quatro grandes profetas que são reverenciados e venerados pelas diversas classes de humanidade.) n E na utilização inconsciente de "nosso" (que se torna "seu") e na re1J Marco Polo. das descobertas do mundo não-europeu. da qual a intelligenísia bilíngue. " O processo já aparecia claramente no maior de todos os livros de viagem europeus. trazendo consigo seu Livro.

e essa é por certo uma rica herança. sua obscuridade insular do início? Enquanto isso. em vez de "verdadeira". Outrora. 232-3. apenas •oito não eram em latim. mas agora a "relativizacão" e a "territorializacão" são perfeitamente conscientes. 1B E se o inglês não se tivesse tornado. Agora. As Lettres Persanes foram publicadas • pela primeira vez em 1721. mas em velocidade não menos vertiginosa. no entanto. por outro lado. Descartes (1596-1650) e Pascal (1623-1662). p. lô "Após 1640. os quase contemporâneos destes homens do outro lado do Canal da Mancha. pois seu tesouro é imenso e eie tem um grande país sob seu controle. um empreendimento internacional [sic]. na identificação do Grande Satã feita pelo Ayaíollah Ruhollah Khomeini. 248-49.. Lucien Febvre a Henri-Jean Martin. mas virtualmente toda a de Voltaire (1694-1778) era em língua vulgar. a atividade editorial foi deixando de ser . Persian Leners. em 1501. 321. 20 Ibid. 77. em grande medida. era virtualmente desconhecido do outro lado do Canal da Mancha. p. que 23% já eram em línguas vulgares). mantinham a maior parte de sua correspondência em latim.) Mas no século XVI tudo isso já se estava alterando rapidamente. ninguém mais o teme.. E não falamos apenas da popularidade geral. 356. Shakespeare (1564-1616). mas como uma nação! Em segundo lugar. lfi Se das oitenta e oito edições impressas em Paris. The Corning of the Book. não teria ele conservado. ("Uma vez que sã publicam cada vez menos obras em latim e uma proporção sempre maior de textos em língua nacional. Pouco depois. de V Paris. pois podia depô-los tão facilmente quanto nossos magníficos sultãos depõem os reis da Iremécia ou da Geórgia. o latim deixou de ser a língua da alta intelligenísia pan-européia. ele amedrontava até mesmo os príncipes. compondo suas obras em língua vulgar. foi uma deterioração gradual da própria língua sagrada. Escrevendo a respeito da Europa ocidental medieval. gradualmente se fragmentavam. Bloch observou que "o latim não era apenas a língua em que se ministrava o ensino. p. agora reverenciado por hábito. p. ele era a única língua ensinada". a língua mais importante mundialmente. depois de 1575 a maioria era sempre em francês. porém. n Apesar de uma reaparição temporária durante a Contra-Reforma. podem-se descobrir as sementes de uma tcrritorializacão das fés. Basta que nos lembremos de sua dimensão e ritmo. competitivo). que faz antever a linguagem de muitos nacionalistas ("nossa" nação é "a melhor" — em um campo comparativo. chamado São Pedro. l5 (Este "única" demonstra muito claramente a sacralidade do latim — nenhuma outra língua era considerada digna de ser ensinada. o comércio do livro segmentou-se na Europa. nem mesmo como um personagem demoníaco (o pequenino Cárter dificilmente preencheria os requisitos). 13 Ibid. Febvre e Martin calculam que 77% dos livros impressos antes de 1500 ainda eram em latim (o que significa. Não seria razoável que urna elaboração paradoxal dessa tradição. et une proportion toujours plus grande de taxtes an langue nationale. e coro intenção política. No século XVII. 81. 14 O Papa é o chefe dos cristãos. com cada vez menos livros saindo em latim.. Ele proclama ser o herdeiro de urn dos antigos cristãos. Ibid. é um ídolo antigo. e cada vez mais nas línguas vulgares.") 17 . Que contraste revelador oferece o começo da carta escrita pelo viajante persa "Rica" a seu amigo "Ibben". l. em "1712' i . L'Apparítiofi tíu Livre. Ia commerca dia livre se morcelle en Europé".. Grifo nosso." 20 Em suma. Hobbes (1588-1678) foi uma figura de renome continental por escrever na línguada-verdade. 330. integradas pelas antigas línguas sagradas. a hegemonia do latim tinha seu destino marcado. As deliberadas e elaboradas invencionices do católico do século XVIII reproduzem o realismo ingénuo de seu predecessor do século XIII. 16 Bloch. 331-32. pluralizavam e territorializavam. a decadência do latim exemplifica um vasto processo em que as comunidades sagradas. Feudal Society. fosse vista'não como uma heresia. p.26 ferência à fé dos cristãos como "mais verdadeira". O original francês é mais modesto e historicamente exato: "landis que ]'on edite de mói n s en mgins cfouvrages en lati n. As razões dessa mudança não devem demorar-nos aqui: a importância 14 central do capitalismo editorial (print-capitalism) será discutida mais adiante. duzentos anos mais tarde. p. « Ibid. 16 Henti de Montesquieu. p. p.

porque ale não tomará partido em relação a suas rivalidades internas.. O mesmo principio. Ttiought snd Change. 1. É típico que não tenha havido uma dinastia "inglesa" governando em Londres desde o século XI (se tanto). de Cartaro.. as linhagens reais muitas vezes derivavam seu prestígio. Gõrz e Gradisca.. MJPois tais misturas eram símbolos de um staíus superior. acompanhados de números ou alcunhas. Piacenza e Guastella. 20 Ingleses. Grão-duque da Toscana e da Cracóvia. 21 Daí. Senhor de Trieste. de Auschwitz e Sator. Pelo princípio geral da verticalidade. 196 italianos. são súditos. 52 poloneses. Conde Principesco de Habsburgo e Tirol. todos eles teoricamente elegíveis para a presidência. etc. Duque de Triento e Brizen. Rei da Hungria. e as soberanias fundiam-se imperceptivelmente umas nas outras. n. Rei de Jerusalém. e que "nacionalidade" devemos atribuir aos Bourbons? 25 23 Observe-se 3 substituição na nomenclatura dos governantes. Grande Voivoda da Voivodina. 22 Deve-se recordar. Gallcia. que corresponde a essa transformação. de União entre a Inglaterra e a Escócia. o número limitado de nomes "de batismo" torna-os inadequados como denominadores específicos.047 dos ancestrais do arquiducue prestes a ser assassinado.. por longos períodos de tempo. mas Interpreta o fenómeno de maneira muito estreita: os aristocratas locais preferem um monarca de fora. p. Margrave da Alta e Baixa Lausitz e da Istria. 47 dinamarqueses. e muitas vezes sequer contíguas. estava Incapaz de manter" (ibid. Servia. da Boémia.486 alemães. a facilidade com que os impérios e reinos pré-modernos eram capazes de manter seu comando sobre populações enormemente heterogéneas. poderíamos dizer. e dos presidentes pelo seu último nome (qual era o nome de batismo de Ebert?!. de Módena. também. 136 et seqs. Bella gerant alH f u fel ix Áustria nube! A seguir. o Conquistador?). Croácia. O governo do rei organiza tudo em torno de um centro elevado. de passagem. Pois. 125). sistemas complexos de concubinato ordenado eram essenciais para a integração do reino. Como dizia o ditado. 136. que.) Ainda assim. e acima da Windish Mark. como um "arranjo entre nobres". de várias maneiras essenciais. 89 espanhóis.. 124 franceses. Arquiduque da Áustria [slcj. negociatas e pilhagens dos Habsburgos". é difícil imaginar um arranjo dessa tipo sendo realizado entre as aristocracias de duas repúblicas.. era. 23 Registramos aqui. a monarquia "autêntica" é transversal a todas as concepções modernas de vida política. A concepção de um Reino Unido foi por certo o elemento mediador crucial que tornou poss-Vel esse entendimento. 34. observa Jászi com justeza. De fato. Estíria. Quanto a isso. Nos reinos em que a poligínia era sancionada pela religião. a titulação dos últimos dinastas: 23 Imperador da Áustria. 136. da Dalmácia. Nas monarquias. da miscigenação. 24 Oscar Jâszi. hoje em dia. bom como quatro outras nacionalidades. Isso. Não posso deixar da citar aqui a admirável reacão do Franz Joseph à noticia do assassinato da seu excêntrico herdeiro necessário: "Dessa maneira. não cidadãos. Conde de Hohenembs. afinal de contas. p. De maneira a mais notável na Ásia pre-moderna. onde os Estados se definiam por centros. p. Eslavônia. um poder superior restaurou aquela ordem que eu. Friaui.28 O reino dinástico Talvez seja difícil. p. que relacionava 2.. a Casa dos Habs51 burgos foi paradigmática. etc. Carniola e Bukovina. são necessariamente os nomes "ds batismo". onde o poder está restrito a um único sobrenome. No imaginar de antigamente. a soberania do Estado é plena. porém. à parte qualquer aura de divindade. Grão-duque da Transilvânia. e não das populações. bastante paradoxalmente. as fronteiras eram porosas e indistintas. categórica e uniformemente atuante sobre cada centímetro quadrado de um território legalmente demarcado. The Dissolution of Habsburg Monarchy. Bregenz. Sua legitimidade deriva da divindade. infelizmente. o registro dos inúmeros casamentos. "não sem um certo aspecto cómico. de Salzburgo. Na concepção moderna. dentre os quais 1. Lodomeria e Híria. porém. no sentido do que os arquitetos da união (oram políticos aristocratas. Feldkirch. Sonnenberg. Margrave da Morávia. Em 1910. etc. Ragusa e Zara.. Parma. que propiciam as distinções necessárias.. que alguém se coloque empaticamente dentro de um mundo em que o reino dinástico era visto pela maioria dos homens corno o único sistema "político" imaginável. Duque da Alta e Baixa Siiésia. porém. Num mundo de cidadãos. (Ver sua lúcida exposição em The Break-up of Brítain. Duque de Lotaríngia. Caríntia. de Teschen. ara atuante na Europa crista monogamica. mas também por uma política sexual — de espécie muito diversa da que hoje se pratica. Esse "curioso documento" está citado em ibid. que Nairn certamente está certo ao descrever a Lei de 1707. que esses antigos Estados monárquicos expandiam-se não só por meio da guerra. um certo Otto Forst publicou seu Ahnentafet Seiner Kaiserlichen una KõnigKchen Hoheft dês durchlauchíígsten Herrn Erzherzogs Fram Ferdiriend. 55 Gstlnar salienta o caráter tipicamente estrangeiro das dinastias. . p. de modo algo resumido. Os escolares lembram-sa dos monarcas por seus primeiros nomes (qual era o sobrenome da Guilherme. de Kyburg. os casamentos'dinásticos reuniam populações diversas sob novos dirigentes.

390 e 398-9. em vez de um rei. 270. o cliente que encomendou a obra. Por trás da decadência das comunidades. Universidade de Londres. A cristandade assume sua forma universal mediante uma 29 Marc Bloch. Contudo. A Virgem Maria é representada como filha de um mercador toscano. Londres e Berlim para aprenderem as complexidades do modelo universal. Luís XV e XVI. O que hoje parece incongruente obviamente parecia inteiramente natural aos olhos dos devotos medievais. 18St9phan Green. em consequência das espetaculares reformas de Scharnhorst. à medida que o antigo princípio da Legitimidade fenecia silenciosamente. Enquanto os exércitos de Frederico. Tennõ e Filho do Céu tornaram-se "Imperadores". Em 1649. 1974. Suécia. ou as pinturas dos primeiros mestres italianos e flamengos. Dinamarca — e Japão! 28 Ainda em 1914. Tese de Doutoramento IPhD). "Trai Governmsnt and Admiriistraticn in the Reign of Rama VI (1910-1925)". Traço característico dessas representações é algo enganosamente análogo à "aparência moderna". um homossexual caprichoso que certamente teria sido ignorado em outros tempos. um dos Estados mais importantes da Europa foi governado por um Protetor plebeu./Wsroryo/M/ffíansm. Em muitos quadros. Rússia. Government and Society in Siam. "Os prussianos de classe média aram superados pelos estrangeiros am seu próprio exército. p. aparece ajoelhado em adoração ao lado dos pastores. porém. línguas e linhagens sagradas. o Grande (r. 64 e 85. com o tempo. 1797-1840) já eram. ins-. durante o século XVII — por razões de que não nos ocuparemos agora — a legitimidade automática da monarquia sagrada começou sua lenta decadência na Europa ocidental. 1868-1910". Os pastores que haviam acompanhado a estrela até a manjedoura' em que Cristo nasceu têm feições de camponeses da Borgonha. na França do Iluminismo. no correr da década de 1650. 26 Depois de 1789. Ana Stuart ainda estava curando os doentes pela superposição das mãos reais. 27 O novo sistema conduziu ao trono. Lês fíois Thaumarurges." Em 1798.30 31 Contudo. tais como os relevos e os vitrais das igrejas medievais. No longínquo Sião. mas. Cornell. pensar que as comunidades imaginadas das nações simplesmente tenham brotado das comunidades religiosas e dos reinos dinásticos e tomado seu lugar. Para uma primeira impressão dessa mudança. Gneisenau e Clausewitz. a "monarquia" tornouse um modelo semipadronizado. eram em gran26 de parte formados por "estrangeiros". tinha lugar uma mudança fundamental nos modos de apreender o mundo."AlfredVagts. vestido como burguês ou em trajes de nobre. até o fim do ancien regime.. tituiu o princípio indispensável da sucessão pela primogenitura legal. a aprovação intermonárquica de sua ascensão ao trono como Rama VI foi ratificada pelo comparecimento a sua coroação de príncipes vindos da Grã-Bretanha. os reformadores prussianos exigiram "redução è metade do número de estrangeiros que ainda representavamcercade 50% dos praças. exclusivamente "nacionais-prussianos". Contudo. os de seu sobrinhoneto Frederico Guilherme III (r. Carlos Stuart foi decapitado na primeira das revoluções do mundo moderno e. curas executadas também pelos Bourbons. eram estrangeiros. que. 92. p.. . mais do que qualquer outra coisa. p. os Estados dinásticos constituíam a maioria dos componentes do sistema político mundial.29 Concepções do tempo ' Seria uma visão acanhada. o princípio da Legitimidade tinha de ser defendido em alta voz e deliberadamente e. isso dava colorido ao dito de que a Prússia não era um pais que tinha um exército. Rama V (Chulalongkorn) enviou seus filhos e sobrinhos para as cortes de São Petersburgo. Grécia. Tese de Doutoramento fPhDS. corno assinalaremos pormenorizadamente mais adiante. Em 1887. Estamos diante de um mundo em que a representação da realidade imaginada era irresistivelmente visual e auditiva. porém. 1971. 1740-1786). muitos dinastas já vinham há algum tempo adquirindo um cunho "nacional". tornou possível "pensar" a nação. Battye.. em 1910. p. desse modo "alinhando o Sião com as monarquias 'civilizadas' da Europa". mesmo ao tempo de Pope e Addison. mas um exército que tinha um pais. "The Militarv. em 1806. podemo-nos voltar para as representações visuais das comunidades sagradas.. " Noel A. Mais de mi! dos sete a oito mil homens do exército prussiano.

que fomos colocados no final dos tempos". Ela só pode ser estabelecida se ambas as ocorrências estiverem verticalmente vinculadas à Divina Providência. por meio de criações vi^ suais e auditivas. ao desenvolvimento das ciências seculares. Ibid. e estritamente. marcada não pela prefiguração e cumprimento. Mimeste. Bloch conclui. no primeiro. era algo inimaginável. " Dentro desse modo de ver as coisas. 30 Bloch observa que o povo pensava que devia estar próximo o final dos tempos.. Citado em Bloch. Feudal Society. este sermão. por Santo Agostinho. modalado da trás para díanle pelo] futuro". Ele está certo em acentuar que tal ideia de simultaneidade é inteiramente estranha a nós mesmos. Ela encara o tempo como algo próximo do que Benjamin chama de tempo messiânico. porque o pensamento cristão medieval não possuía uma concepção de história como infindável corrente de causa e efeito ou de separação radical entre passado e presente.. aquele vitral. no sentido de que a segunda vinda de Cristo poderia ocorrer a qualquer momento: São Paulo dissera que "o dia do Senhor chega como um ladrão no meio da noite". é um reconhecimento iridireto de sua irrevogável distinção. 34 33 34 WaltBr Banjarnin. Era pois natural que o grande cronista do século XII. suábias ou andaluzas. ele é simultaneamente algo que sempre existiu. 90. aos olhos de Deus. a única capaz de traçar um plano de história como esse e fornecer a chave para sua compreensão. a ideia de "trajes modernos".. o aqui e agora não é mais um simples vinculo em uma corrente terrena de eventos. maneira metafórica de fazer equivaler passado e presente. Feudal Society. aquela peça moral. ela se manifestava de maneira diversa a comunidades particulares. encontra-se o último como foi anunciado e prometido. 265. l. p. o primeiro. se não a levarmos plenamente em conta.32 infinidade de especifi cidades e de particularidades: este relevo. Bloah. nem oausalmente — conexão impossível de ser estabelecida pela razão na. 32 Auerbach. dimensão horizontal. O que veio tomar o lugar da concepção medieval de simultaneidade longitudinal ao tempo é. p. de modo que. aquela fábula. 3I Auerbach oferece-nos um inesquecível esboço dessa forma de consciência: 32 30 31 Se um evento como o sacrifício de Isaac é interpretado como a prefiguração do sacrifício de Cristo. como "a sombra do [isto é. Representar a Virgem Maria com traços "semitas" ou vestimentas do "primeiro século". e medida pelo relógio e pelo calendário. acharemos difícil investigar a génese obscura do nacionalismo. p. Grifo nosso. Mas é uma concepção de importância tão fundamental que. algo já consumado na esfera do evento terreno fragmentário. 64. Para nos. se referisse seguidamente a "nós. . a expressão "enquanto isso" não pode ter significação real. mas por coincidência temporal. sempre pessoais e particulares. Nossa própria concepção de simultaneidade tem estado em elaboração por muito tempo e sua emergência ligase certamente.. não era menos essencial. estabelecese então uma conexão entre dois eventos que não se vinculam temporalmente. uma simultaneidade de passado e futuro em um presente momentâneo.. p. como réplicas delas mesmas. Essa justaposição do universal-cósmico e do particular-mundano significa que por maior que pudesse ser a cristandade. valendo-nos novamente de Benjamin. llíaminsíions. no qual a simultaneidade é como se fosse transversal ao tempo. Confronte a descrição do Velho Testamento.que tão logo os homens medievais "entregavam-se à meditação. uma ideia de "tempo homogéneo e vazio". e que será cumprido no futuro. é algo eterno. a mediação de suas concepções para as massas iletradas. algo onítemporal. 84-6. Essa nova ideia está tão arraigada que se poderia e f Irma r que todo conceito fundamental moderno baseia-se num conceito de "enquanto isso". p. 263.. e o último "cumpre". bispo Oito de Freising. O humilde pároco cujos antepassados e cujas fraquezas eram conhecidos por todos os que assistiam a suas celebrações ainda assim era o intermediário direío entre seus paroquianos e o divino. de modos que precisam ainda ser bem estudados. e sabia-se que era.. Embora a classe letrada transeuropéia que lia era latim fosse um elemento essencial na estruturação da imaginação cristã. nada estava mais distante de seus pensamentos do que a perspectiva de um longo futuro para uma raça humana jovem e vigorosa". dentro do espírito de restauração do museu moderno. l. aquela relíquia.

in Pierre-Bernard Lafcnt e Denys tombará (orgs. no correr dessa sequência. a compreensão do enredo pode depender. . por sua vez. 3S Então. * Eis a maneira admirável como começa:4l Essa potifona distingue decisivamente o romance moderno até mesmo de um precursor tSo brilhante quanto o Satyrícon. mais do que um pequeno número de seus 240. mas por atores que podem estar em grande medida despercebidos uns em relação aos outros. com documentos ou relatos da época transformada em ficção. o que é que realmente liga A a D? Duas concepções complementares: primeiro. da que A. urh enredo simples de romance.000 de compatriotas. escreveu ò romance NoliMe Tangeré. Yabes. no época. indissoluvelmente ligadas a movimentos nacionalistas. emlcamonte diversificadas. nos Tampos l.000. A narrativa deste dessnróla-se linearmente. 41 José Hizal. se C tiver agido inteligentemente. mas em línguas "aborígenes". 40 ftizel escreveu esse romance na língua colonial (o espanhol). Apenas eles percebem os vínculos. que eles estão encravados em "sociedades" (Wessex. B. surgia também. "The Modern literature of the Philippinss". Enquanto Encolpius lamenta a infidelidade de seu jovem amante. Ela é evidentemente um instrumento para a apresentação da simultaneidade em um "tempo homogéneo e vazio". para fins de ilustração. Em 1887. no século XVIII: o romance e o jornal. Littératures contemporaines de l'Asíe du Sud-Est. a época ds Richardson. anónima e simultânea. quase o primeiro romance escrito por um "índio". 35 Pois essas formas ofereceram os recursos técnicos para "re-[a}presentar" a espécie de comunidade imaginada que é a nação. estrutura típica não só das obras-primas de Balzac. As origens do jornal moderno encon* tram-sa nas gazetas do final do século XVII. B fazendo compras e D jogando sinuca. José Rizal. Ao mesmo tempo que o romance. ou um comentário complexo sobre a expressão "enquanto isso". medido pelo relógio e pelo calendário. no entanto. ainda assim. uma imprensa "nacionalista". The Corning ofthe Book. p.35 Pode-se perceber bem melhor por que essa transformação seria tão importante para o nascimento da comunidade imaginada da nação se considerarmos a estrutura básica de duas formas de imaginar que pela primeira vez floresceram na Europa. a língua franca das elites euraslanas. de qualquer romance histórico. porém. demonstra a novidade desse mundo imaginado evocado pelo autor nas mentes de seus leitores. Mas está absolutamente seguro de sua atividade constante. p. não apenas em espanhol. que também é concebida como uma comunidade compacta que s'e move firmemente através da história. II e llt. 197. Podemos imaginar uma espécie de esquema temporal para esse segmento. p. Apenas'eíes. 39 Um norte-ámericano jamais encontrará. Var Leopoldo Y. Febvre e Martin. hoje considerado o melhor produto da literatura filipina moderna. M De fato. Foi. observam A telefonando a C. todas menos uma. da seguinte maneira: Tempo: Eventos. C e O não saibam o que se passa com os outras. nem mesmo saberá como se chama. Líibeck. Considere-se primeiro a estrutura do romance à moda antiga. Não tem ideia alguma sobre o que estão fazendo em qualquer tempo. que era. Detoe e Fielding é o inicio do século XVIII. 38 A ideia de um organismo sociológico que se move pelo calendário através do tempo homogéneo e vazio apresenta uma analogia precisa corn a ideia de nação. tem um namorado (D). chegando multas veres até à origem do homem. um segmento de. como Deus. lendas e livros sagrados. traço tão carsctarístieodas antigas crónicas. é recompensadora a comparação. também. como o tagato a o ilocano. no qual um homem (A) possui uma esposa (B) e uma amante (C) que. de Petrônio. 1 II NI D beba em urn bar A janta em casa com S C tem um sonho sinistro A discute com B C a D fazem amor A lelsfona a C ã vai és compras D joga sinuca Observe-se que. 37 Embora a Príncesse tíe CIÊves já tivesse sido publicada sm 1678.). que seus membros (A e D) podem até mesmo ser descritos como passando um pelo outro na rua sem jamais se relacionarem e. Talvez a perspectiva que estou sugerindo pareça menosabstrata se nos dedicarmos a examinar rapidamente quatro obras de ficção de diferentes culturas. The Lost Éden. o jornal só se torna uma categoria geral de material impresso após 1700. Tomemos. tudo ao mesmo tempo. Noli Ma Tengere. A e D jamais se encontram. Los Angeles). 287-302. e podem na verdade não ter sequer conhecimento da existência um do outro. 1. 37 Segundo. estarem li15 gados. 39 Nada demonstra melhor a Imersão do romance em um tempo homogéneo e vazio do que a ausSnela daquelas genealogias preliminares. que A e D estão encravados nas mentes dos leitores oniscientes. 38 Nesse contexto. e da elite nativa. Essas sociedades são entidades sociológicas de uma realidade tão firme e estável. O fato de que todos esses atos são desempenhados no mesmo tempo. o "Pai do Nacionalismo Filipino". mas também de qualquer romanceco contemporâneo. e de diferentes épocas. pela primeira vez. não ternos conhecimento simultaneamente de Gito na cama corn Ascyltus.

Seus heróis — Florante. às vezes se considera que eles estão contratados pelo governo exatamente para esse fim. a imprensa foi mantida sob estrito controla eclesiástico. nas Filipinas. Certamente não é necessário um longo comentário. A história começa In medias rés. Todos sabiam que sua casa. a Pmagdaanang Buhay nl Florante at w Loura sã Cahariang Albânia [A história de Florante e Laura no Reino da Albânia]. de seus anos de estudo em Atenas e de 4Í O reverso da obscuridade anónima dos leitores foi/é B celebridade Imediata do autor. Ver Blenvenido L. aristocrata persa muçulmano ("mouro") — só nos lembram as Filipinas pela ligação cristão-mouro. ou. que ainda pode ser reconhecida. Na verdade. é claro. que se movem para diante pelo tempo do calendário. quanto a tudo o que tem de básico. logo se tornou o tema das conversas em Bínondo. embora talvez já tivesse sido escrita em 1838. Como observa Lumbera. esse obscuridade/celebridade tem tudo a ver com B disseminação do capitalismo editorial. a imagem (inteiramente nova na literatura filipina) de um jantar que é discutido por centenas de pessoas anónimas. onde ele morava. cuja primeira edição impressa data de 1861.. Lumbera. 1570 a 1898". p. Noli foi feito para ser lido.ces in tha Development of Tagatog Postry. havia criado e generosamente multiplicado em Manila. O mais chocante é o manuseio do tempo por Baltazar. "Tradition and Influer. estranho ao de Noli. Seu cenário — uma Albânia medieval fictícia — é completamente distante no tempo e no espaço da Binondo da década de 1880. que não se conhecem entre si. isso se deixa em geral para Deus e a Natureza. *Mbid. E na frase "uma casa na Rua Anloague. Já em 1593. mas cada um deles dedicou o melhor de seu pensamento à maneira como poderiam saudar seu anfitrião com a fingida intimidade de. 44 Ibid. escreve para eles com uma intimidade irónica. ao comércio e a qualquer ideia que fosse nova ou ousada. em Sua infinita sabedoria. e seu amigo íntimo Aladin.". um nobre albanês cristão. desculpar-se polidamente por não haver chegado mais cedo onde presumivelmente sua presença era tão ansiosamente esperada. A passagem natural dessa casa. do tempo "interior" do romance. ** Quase metade dos 399 quartetos são relatos da infância de Fiorante. Enquanto Rizal salpica deliberadamente sua prosa espanhola com palavras de tagalo para obter efeitos "realistas". de tal modo que a história completa só nos chega mediante uma série de falas que servem como/fos/ibacks". o mundo de sua obra-prima é.. 35. A liberalização só teve Inicio na década de 1860. dominicanos ativos haviam publicado em Manila a Doctrina CMstiana. 205-6. Certamente não terá sido demolida por seu proprietário. p.42 Não há o que ofereça maior sentimento foucaultiano das abruptas descontinuidades da consciência do que comparar Noli com a mais célebre obra literária anterior de um "índio". O jantar foi oferecido em uma casa na Rua Anloague. num determinado mês de uma determinada década. evoca imediatamente a comunidade imaginada. não intencionalmente. ele tinha reputação de pródigo.37 Don Santiago de los Santos oferecia um jantar festivo numa noite de fins de outubro da década de 1880. para ser declamado em voz alta. parasitas e penetras. Como varemos. Don Santiago era mais conhecido como Capitão Tiago — a patente não era militar mas política. só cr tenha anunciado na tarde do mesmo dia. p. se houvesse ocasião. logo de início. abran- gendo personagens. Observe-se também o tom. 143 e 235.. "o desenrolar do enredo não segue uma ordem cronológica. em diferentes bairros de Manila. outros.. apenas para aumentar a grandiosidade e a sonoridade de sua linguagem poética. para o tempo "exterior" da vida quotidiana do leitor de Manila oferece uma confirmação hipnótica da solidez de uma comunidade singular. mistura expressões espanholas em seus quartetos em tagalo... como seu país. Basta que se observe que. .velha amizade. Alguns deles puseram-se em busca de polimento para suas botas. autor e leitores. de botões de colarinho e gravatas. B por séculos. enquanto Florante at Laura. quem reconhece somos nós-os-leitores-fílipinos. Naquele tempo. contrariando seu costume. a menos que tenha vindo abaixo com algum terremoto. metseqs. Baltazar. em outros distritos de Manila. e indicava que ele havia sido outrora o prefeito nativo de uma pequena cidade. A partir de então. Embora. porém. e até mesmo na cidadela espanhola de Intramuros. que ainda pode ser reconhecida. os quais Deus. 43 Pois embora Baltazar ainda fosse vivo quando nasceu Rizal. Embora Rizal não tenha a menor ideia da identidade de cada um de seus leitores. De modo que a notícia de seu jantar correu como um choque elétrico por toda a comunidade de filantes. jamais fechava suas portas — exceto. satíricos ou nacionalistas. como se seu relacionamento com eles não fosse nem um pouco problemático.

. As aventuras de Periquillo levam-no diversas vezes a estar entre índios e negros. funcionário numa cidade do interior. 214-15. Alterei ligeiramente o texto em tagalo apresentada por ele. e não pela estrutura do poema. Não tem disposição para trabalhar. mas todas representativas (em sua existência simultânea e distinta) da tirania desta colónia." Essa famosa estrofe tem sido às vezes interpretada corno uma vetada afirmação de patriotismo filipino. p. padre. Vemos aqui novamente a "imaginação nacional" funcionando nas andanças de um herói solitário por uma paisagem sociológica de uma . aldeias longínquas. bangis caliluhan. Grifos nossos. ^ Em 1816. Elas não são nunca imaginadas como típicas desta ou daquela sociedade. Mas Marco Kartodikromo. A tradução para o inglês é da Lumbera. De fato. seus professores ou não tinham vocação. Aladin era expulso da corte de seu soberano. Quão distante está essa técnica da do romance: "Naquela mesma primavera. martela num ponto importante — que o governo espanhol e o sistema de educação estimula m o parasitismo e a preguiça. muito embora depare com muita gente boa e sábia.. prisões. o papagaio sarnemo) é exposto a • más influências — criadas ignorantes incutem superstições.lupit. Albânia. para afastar a possibilidade de que.45 (Contraponham-se as prisões da Bíblia. as estruturas que temos estudado sejam algo "europeias". por terem Rizal e Lizardi escrito ambos em espanhol. evidentemente a primeira obra latino-americana desse género. nunca ocorre a Baltazar "situar" seus protagonistas na "sociedade". nem para levar nada a sério. ao mesmo tempo. que agora tu assassinas/ lamento. %. monastérios.. baseada na impressão de 1861. aprendiz de farmácia. médico. uma história escrita pelo malfadado jovem indonésio nacionalista-comunista. manda o filho para a universidade e assegura assim que ele irá aprender apenas disparates supersticiosos. Esses episódios permitem que o autor descreva hospitais. porém. ao invés de ir engrossar as fileiras dos advogados e parasitas.. E embora seu pai seja um homem inteligente que quer que o filho se dedique a uma profissão útil. enquanto Florante ainda estudava em Atenas.. i. Como também não há muito de "filipino" nesse texto. Marco foi internado pelas autoridades coloniais holandesas em Boven Digul. 47 Jean Franco. 34. de maneira convincente. "Mas Marco Kartodikromo (c. é a supermãe de Periquillo que ganha a parada. A forma essencial desse romance "nacionalista" está na seguinte descrição de seu conteúdo: 4S Desde o inicio. ÍB Ibid. 1890-1932) ou L'&Jucation Politique". agora reino/ do mal. um dos mais antigos campos de concentração do mundo./ acong tangulan mo. seu defensor. prisões. cap. 1 ("Odysseus1 Scar"). in Littératures contemporaines de l'A$ia du Sud-£st. como jornalista radical. p. sua ligação apenas se dá pelas vozes em conversa. negros — não é porém um tour du monde. índios. brutalidade e decepção!/ Eu.) Finalmente. a não ser pelo fluxo melífluo dos polissílabos em tagalo. ou não tinham capacidade para disciplinálo.. 50 publicada em folhetim. Após uma carreira curta. tão competentemente exposta por Auerbach. p. Mimesis. Cada uma delas. Periquillo continua incorrigivelmente ignorante. nos longínquos pântanos interiores do oeste da Nova Guiné. superstição e corrupção são vistas como suas mais notáveis características". eis aqui o início de Semarang Hitaw [O Semarang negro]. monastérios. para Baltazar. 7. Se ficamos sabendo dos passados "simultâneos" de Florante e Aladin. ou discuti-los com seu público. 35-6'..suas subsequentes proezas militares. p. e se torna. An tntroifuction to Spsnish-Arnerícsn Literature. ladrão. "Tradition and Influenoes". e'sse texto é "uma feroz acusação à administração espanhola no México: ignorância. que tal interpretação ô anacrónica. 51 Segundo tradução de Paul Tickell em seu Three Early Indonesian Short Stories t>y Mas Marco Kartodikromo (s. {890-1932Í. está magicamente solitária. 4S O "flashback falado" foi.. nenhuma deJas por si só de qualquer importância singular. José Joaquín Fernandez de Lizardi escreveu um romance chamado El periquillo sarmento [O papagaio sarnentoj. sua mãe satisfaz seus caprichos. Pois eles evocam um espaço social cheio de prisões comparáveis. como aquela em que Salomé seduziu-se por João Batista.estabilidade que funde o mundo de dentro do romance com o mundo de fora. fornecidos pelo herói em conversa com Aladin... após seis anos de confinamento."/ "Adeus. Nas palavras de um crítico. [o herói. enquanto. da crueldade.. linear. em 1924:31 49 45 A técnica é semelhante à da Homaro. o destino que te coube. 46 "Paalam Albaniang pinamamayanam/ ng casama. aldeias longínquas. Henrl Chambert-Loir. Grifos nossos. malaquf ang panghihinavang. . Al! morreu em 1932.". 203. p. i. meteórica. mas Lumbera demonstra. O horizonte é claramente delimitado: é o do México colonial. jogador. setenta anos antes de Noli ser escrito. Esse tour d'horison picaresco — hospitais. sucessivamente. cusa mang pinatay/ sã iyo. a única alternativa de uma narrativa direta. Nada nos assegura mais dessa solidez sociológica do que a sucessão de plurais. 50 Essa deslocamento de um herói solitário por uma paisagem social adamantina é típico de muitos dos antigos romances (antí)coloniais. para ajustá-lo a uma edição da 1973 do poema..

O jovem comoveu-se com esse breve relato. Imaginava perfeitamente o sofrimento daquela pobre alma quando jazia moribunda à beira da estrada. escritórios. ali encontrare62 Aqui. tudo estava deserto. Vez por outra. não menos pela inovação. alguns de nós pode- Em 1924.. uma embrionária "comunidade imaginada" indonésia. ("Mas Marco". quando o vento soprava do leste. se nos voltarmos agora para o jornal como produto cultural.) O papagaio sarnento mudou-se para Java e para o século XX. nós-os-Ieitores-indonésios mergulhamos imediatamente num tempo de calendário e numa paisagem familiar. como em El periquillo sarmento. sente um profundo mal-estar diarvte da organização social que o rodeia e sente necessidade de ampliar seus horizontes por dois métodos: viagem e leitura". Em outro momento ainda. às vezes seu sorriso eram sinal certo de que estava profundamente interessado no que lia. A luz das fileiras de lâmpadas de gás iluminava diretamente a estrada de asfalto brilhante. Um jovem estava sentado num longo sofá de vime. É apropriado que. Ele não encontra o cadáver do miserável vagabundo à beira de uma estrada peguenta de Semarang. a luz clara das lâmpadas de gás se obscurecia. a manha de sábado era um momento de expectativa — expectativa do lazer e da alegria de circular pela cidade à noite. eles estão excluídos de participar desse "nosso". . sábado à. Nessa noite. (Mesmo que os censores coloniais holandeses poliglotas se juntem a seus leitores. Exatamente o caráter canhestro e a ingenuidade literária do texto confirmam a "sinceridade" não deliberada desse adjetivo pronominal. Como no caso de Noli. mas coerentemente mencionado como "nosso jovem". Repentinamente. Pelo fato de que a pesada chuva durante o dia todo deixara as estradas encharcadas e muito escorregadias.dúvida quanto à referenda. 208. Grilo nosso. os Jovens de Semarang jamais ficavam em casa aos sábados à noite. A seguir sentiu piedade. Observe-se que Marco não sente necessidade de especificar essa comunidade pelo nome: ele já está ali. kampongs e lâmpadas de gás.noite. seu ódio dirigiu-se ao sistema social que dava origem a tanta pobreza. carruagens.) Finalmente. individualmente. As estradas principais habitualmente abarrotadas de toda sorte de tráfico. mas imagina-o a partir do que está impresso num jornal. as calçadas habitualmente apinhadas de gente. digamos. vamos ficar chocados por seu profundo caráter ficcional. Se na ficção jocosa e elaborada da Europa dos séculos XVIII e XIX. Sobre-o herói desse romance (que ele atribui erradamente a Marco]. apareça um jornal encravado na ficção.40 41 Eram sete horas. 52 Ele também não se importa o mínimo com quem seja. não havia ninguém se mexendo. De vez em quando. incitando o cavalo a tocar em frente — ou o clip-clop dos cascos dos cavalos puxando as carruagens. lendo um jornal. Para os trabalhadores de oficinas e escritórios. estamos num mundo de plurais: oficinas.. sistema social. Uma vez mais. um amigo Intimo e aliada político de Marco publicou um romanos intitulado Rasa Manlika [Samido llvro/O sentimento da libertada]. Virava as páginas do jornal. Estava totalmente absorvido. um herói solitário é sobreposto a uma paisagem social descrita em detalhes cuidadosos e gerais. todos haviam ficado em casa. Às vezes sua irritação. The New York Times..' nem seus leitores. mós bem ter caminhado por aquelas "peguentas" estradas de Semarang. porém. como se pode ver pelo fato de que o ódio do jovem dirige-se "ao". o estalo de um chicote duma charrete. Qual a convenção literária fundamental do jornal? Se olharmos uma primeira página típica de. Semarang estava deserta. o morto: ele pensa no corpo representativo. Nem Marco. Chambert-Loir escreva que "não t a m ideia nenhuma tio sentido da palavra 'socialismo': não obstante. Mas há também algo de novo: um herói que nunca é chamado pelo nome. pois. deu com uma notícia intitulada: PROSPERIDADE Um miserável vagabundo f içara doente e morrera ao abandono à beira da estrada. p. e não "a nosso".. não na vida pessoal. a comunidade imaginada confirma-se pela réplica de nossa leitura a respeito da leitura de nosso jovem. Por um momento sentiu um ódio explosivo bem dentro de si. mas dessa vez iriam se decepcionar — devido à letargia causada pelo mautempaeàsestradaspeguentas noskampongs. em Semarang Hiíam. pertence ao corpo coletivo dos leitores do Indonésio. significa um jovem que. esperando talvez encontrar algo que o fizesse parar de se sentir tão miserável. implicitamente. o "nosso jovem" de Marco. enquanto tornava rico um pequeno grupo de pessoas. têm qualquer. e assim. o tropo "nosso herói" simplesmente ressalta um jogo do autor com ura leitor (qualquer).

o editor venaziano Aldus havia sido pioneiro no lançamento da uma "edição de bolso" portátil. o "personagem" Mali se movimenta silenciosamente. ou que a fome exterminou todos os seus cidadãos. The Coming of lhe Book. já em fins do século XV. equipado para a produção padronizada e. fome em Mali. em centros urbanos como Paris. ou açúcar. nem por um momento os leitores imaginarão que Mali desapareceu.)59 Desta perspectiva. "o mundo" caminha decididamente para a frente. 56 Quanto a isto.260 exemplares. nisso.000. Até mesmo a Bíblia de L'jtoro.182l 86 Ibid. Contudo. se compararmos o livro com outros primeiros produtos industriais. 54 Febvre e Martin. 8 em cada uma. da Antuérpia. tijolos. havia gráficas em mais de 110 cidades. em toda [sic] a Europa. 125). o livro foi a primeira mercadoria industrial produzida em série no estilo moderno.. um livro vendido em escala imensa." 56 Em sentido muito especial. esse número atingira entre 150 e 200 milhões. e um discurso de Mitterand. como tecidos. 57 Esse é um ponto bom estabelecido no meio das fantasias de Gutenberg Galaxy. O livro. auto-suficiente. o livro Impresso foi de uso universal.5Í "Desde então. se o mercado do livro tornouse pequeno diante dcs marcados de outras mercadorias. iremos examinar a importância ctsssa distinção. Comentam os autores que. Pode-se acrescentar que. como uma forma de'livro. coleções pessoais de mercadorias produzidas em série. Calcula-se que. reproduzido com exatidão em grande escala. o jornal não passa de uma "forma extrema" do livro. os dois tipos de bast-sellers costumavam ser méis estreitamente ligados do que hoje. Ata o século XIX." (p.42 43 mós reportagens sobre dissidentes soviéticos. 2 na Boémia e 1 na Polónia. depois de dois dias de reportagens sobre a fome. a marca peculiar mais importante que ele apresenta. extraordinário best-seUet. "A partir daquela data. A primeira edição excepcionalmente grande da Encyc/opédie de Dlderot n5o foi além da 4.. 9 na França. sau papal estratégico na disseminação da ideias tornou-o. na Europa. contudo.000 de volumes impressos. í7 O sentido que tenho em mente se revela. no século XVI. já no século XVI. de Marshall McLuhan (p. Isso montava a não menos de 35. A primeira é simplesmente coincidência no calendário. O sinal disso: se Mali desaparecer das páginas do The New York Times por meses a fio. aguardando sua reaparição seguinte no enredo. p. Já em 1480. Em 1455. grandes empresas gráficas funcionavam por toda parte. Dickens também publicava como folhetim em jamais populares seus romances populares. 218-20. 125. Febvre e Martin. 5B Uma libra de açúcar confunderse com a seguinte. Mais adiante. Pois estas mercadorias são medidas em quantidades matemáticas (libras. Uma libra de açúcar^ é simplesmente uma quantidade. porém — e. Essa vinculação imaginada provém de duas fontes indiretamente relacionadas. 5 em cada.. as oficinas gráficas mais se assemelhavam a modernas oficinas de trabalho do que 53 a salas de trabalho monásticas da Idade Média. Ibíd.' O formato de romance que tem o jornal lhes assegura que.000 exemplares. vinte anos depois. fornece a conexão essencial — a marcação regular da passagem do tempo homo* gêneo e vazio. 60 Como demonstra o caso do Semanng W/tam. A data no alto do jornal.000 edições produzidas em nada menos que 236 cidades.ele antecipa os produtos duráveis de nossa época — é um objeto bem definido. volumes ou unidades). teve uma primeira edíçflo de apenas 4. na Holanda e na Espanha. 30 na Alemanha. apenas quem lá checo comprará livros em checo. p. p. o principio é mais importante do que a escala de grandeza. 4 na Inglaterra. The Corning of lhe Book. golpe no Iraque.54 Entre 1500 e 1600. pode-$a dizer qua. na Bélgica e na Suíça.. já fossem um espetáculo comum. Quem quer que tenha dinheiro poda comprar carros checos. controlava. A segunda fonte de vinculação imaginada encontra-se na relação entre o jornal. sem que seus atores tivessem consciência uns dos outros. é óbvio que a maioria deles aconteceu independentemente.. A grande editora Plant n. no século XVI. 'Poderia dizer-se que são best-sellers por um só dia. em algum lugar fora dali.000 exemplares.53 Dentro daquele tempo. (Não «admira que bibliotecas. 262. 50 das quais na hoje Itália. um volume conveniente» não um objeto em si mesmo. . 186. Por que se justapõem tais eventos? O que os liga uns aos outros? Não é mero capricho. 24 gráficas com mais de cem operários em cada uma delas. ou do que os outros estavam fazehdo. da importância fundamental para o desenvolvimento da Europa moderna. produziram-se ria Europa mais de 20. Ao mesmo tempo. os livros estavam prontamente à disposição de qualquer um que soubesse ler. 60 A obsolescência do jornal no dia seguinte ao de sua impressão — é curioso que uma das ss Lar um jornal é como ler um romance cujo autor tivesse deixado de lado qualquer ideia de um enredo coerente. cada livro possui uma auto-suficiência erèmítica própria. um horrível assassinato. porém de popularidade efémera. o livro sempre se distinguiu dos demais bens duráveis por seu mercado intrinsecamente limitado. 69 Além disso. a descoberta de um fóssil raro no Zhnbábue. A arbitrariedade de sua inclusão e justaposição (uma edição posterior substituirá Mitterand pelo resulta1do de uni jogo de beisebol) demonstra que a vinculação entre eles é imaginada. e o mercado. A tiragem média no século XIX era inferior a 2. p. no correr dos quarenta anos entre a publicação da Bíblia de Gutenberg e o final do século XV. Fust e Schoeffer já geriam um negócio. as Bicões oram ainda relativamente pequenas.

O primeiro deles era a ideia de que uma determinada língua escrita oferecia acesso privilegiado à verdade ontológica. nem a tornasse mais frutífera. p. cujo uso se processa num fluxo contínuo. da barbearia ou de sua casa. enraizavam firmemente as vidas humanas na própria natureza das coisas. Mais ainda. 42. Sem dúvida. Em terceiro lugar. Afirmei. para o homem moderno. sente-se permanentemente tranquilo a respeito de que o mundo imaginado está visivelmente enraizado na vida quotidiana. no entanto. Eisenstein. simultaneamente. pensarem sobre si mesmas. criando aquela notável segurança de comunidade anónima que. a ficção desliza silenciosa e continuamente para dentro da realidade. ao correr do calendário. a um número cada vez maior de pessoas. 61 s3 "Material impresso estimulava a adesão silenciosa a causas cujos defensores não podiam ser localizados em nenhuma localidade 9 que se dirigiam de longe a um público invisível. fundamentalmente. e onde." Elizabeth L. e se relacionarem com outras. ou de meio dia. sob o impacto da mudança económica. os egoísmos individuais em vontade coletiva impessoal. Antes de iniciar uma discussão das origens específicas do nacionalismo. precisamente por ser parcela inseparável daquela verdade. a concepção de temporalidade. por toda parte. conferindo determinado sentido às fatalidades diárias da existência (sobretudo à morte. será conveniente recapitular as principais proposições apresentadas até aqui. penso eu. cada um dos comungantes está bem cônscio de que a cerimónia que executa está sendo replicada.44 45 mais antigas mercadorias produzidas em série fizesse antever assim a obsolescência implícita dos modernos produtos duráveis — cria. £4. três conceitos culturais básicos. associadas. do que o capitalismo editorial. mas não fica atrasado. como a escrita sagrada. que a possibilidade mesma de se imaginar a nação só surgiu historicamente quando. . porque o governante. As lealdades humanas eram necessariamente hierárquicas e centrípetas. 40: 1 (março de 1968). "Some Conjectures about trie Impact of Prirjting on Western Society and Thought". todos extremamente antigos. A geração da vontade impessoal. o que de outro modo seria o caos dentro de urna nova legitimidade do Estado". das "descobertas" (sociais e científicas). Sabemos que determinadas edições matinais e vespertinas serão esmagadoramente consumidas entre tal e tal hora. antes só encontra nas regularídadss diárias ds vida da imaginação.) A significação dessa cerimónia de massa — Hegel observava que os jornais são. por assim dizer. poder e tempo de uma maneira significativa. em que a cosmologia e a história não se distinguiam. que tornou possível. por milhares (ou milhões) de outros. Ajiecadência lenta e irregular dessas certezas encadeadas. Como em Noli Me Tangere. esta extraordinária cerimónia de massa: o consumo ("o imaginar") quase que. ele pode ficar ruim. embora sobre cuja identidade não possua a menor ideia. cravou uma firme cunha entre a cosmologia e a história. sendo essencialmente idênticas as origens do mundo e dos homens. Jautri»! of Modern Hlstary. Ao escrever sobre a relação entre a anarquia material da sociedade de classe média e uma ordem estatal política abstraia. (Contraponha-se isso ao açúcar. primeiro na Europa ocidental e. Foi essa ideia que permitiu que surgissem as grandes congregações transcontinentais da cristandade. Não é pois surpresa que a busca se processasse. 61 Contudo. o leitor de jornal. essa cerimónia é interminavelmente repetida a intervalos de um dia. The Break-up of Brítain. não cronometrado. um substituto das preces matinais — é paradoxal. Essas ideias. Como se poderia representar ilustração mais vívida para a comunidade imaginada historicamente cronometrada? 62 Ao mesmo tempo. O segundo era a crença de que a sociedade era organizada de maneira natural em torno de e sob centros elevados — monarcas que eram pessoas distintas dos outros seres humanos e que governavam por alguma forma de disposição cosmoiógica (divina). depois. e do desenvolvimento cada vez mais rápido das comunicações. exatamente simultâneo do jornal-comoficção. e não em outro. bem no fundo da cabeça. no sentido de um novo modo de tornar a vincular fraternidade. à privação e à escravidão) e propiciando vários modos de libertar-se delas. de maneira profundamente renovada. Talvez nada acelerasse mais essa busca. Mas o mecanismo representativo (eleições?) á uma festa rara e móvel. observa Nairn que "o mecanismo representativo converteu a desigualdade ds ciasse real no igualitartsmo abstraio de cidadãos. p. de cuja existência está seguro. vendo réplicas exatas de seu jornal sendo consumidas por seus vizinhos do metro. exatamente por essa razão. Ela se desenrola em silenciosa intimidade. apenas neste dia. é a marca de garantia das nações modernas. era um ponto central de acesso à existência e a ela inerente. deixaram de ter domínio axiomático sobre o pensamento dos homens. do isiamismo e as demais.

The Corning of Ifie Book. a nação se tornou tão popular? Os fatores envolvidos são obviamente complexos e variados. criouse-uma verdadeira 'internacional' de editoras. o conhecimento impresso vivia da reprodutibilidade e da disseminação. 6 "Daf ter sido a introdução da imprensa. 194. p. No século XVI. transversal ao tempo". pue melhor se traduziria por "civilização padronizada. uma atapa no caminho para nassa atuo soc-iedsde de consuma da massa e de padronização.. p.que a proporção na população mundial de hoje e — não obstante o internacionalismo proletário — dos próximos séculos. 56. seriam o atrativo. conseqúentemente. a grande massa da humanidade é de monoglotas. The Corning of the Book. 394. Naquela época. a edição de livros era afetada por toda a busca incessante de mercados do capitalismo. não é de admirar que Francis Bacon julgasse que a imprensa havia alterado "a aparência e o estado do mundo". como hoje. de massa". os mercados representados pelas massas monoglotas.5 . uma vez que o mercado latino de elite estava saturado. Relativamente poucos haviam nascido para falar em latim e menor número ainda. Por que. 3 A população da Europa em QU9 a imprensa era então conhecida era du cerca de 100. 3 Citado em Eisansteín.. mas. A saturação desse mercado levou cerca de 150 anos. que permaneceu em grande medida desconhecido até sua primeira impressão em 1559. ' indicando o surgimento da "era da reprodução mecânica" de Benjamin. 122. 5 Naturalmente. 4 E cbmo os anos de 1500-1550 foram um período de prosperidade excepcional na Europa. O 1axtt> original fala ao capitalistas "puissants" (poderosos. O fato decisivo quanto ao latim — fora sua sacralídade — é que ele era uma língua de biííngúes. que ignorava fronteiras nacionais [sic]". p. defender com'vigor a primazia do capitalismo. 1 Sendo uma das mais antigas formas de empresa capitalista. porém. (O textc original diz "une civilisation da masse et de standardisation".. Polo. "Mais do que em qualquer outro tempo" ela foi "uma grande indústria sob o controle de abastados capitalistas". quanto a isso. 2 Característico disso é o livro das viagens de Marco Polo. p. é possível que 200 milhões de volumes já tivessem sido manufaturados por volta de 1600. L 'Apparitíon. a atividade editorial participou da expansão geral. p. Pode-se. L'AppBrition. As primeiras gráficas instalaram filiais por toda a Europa: "desse modo. Como já foi assinalado. muito provavelmente não maior do . a lógica do capitalismo indicava que.) 6 Ibid. potencialmente enormes. Travsls. como crêem Febvre e Martin. 281. "Some Conjectures". imagina-se." Ibid. É certo que a Contra-Reforma estimulou um ressurgimento temporário da atividade editorial em latim. ainda assim estamos simplesmente no ponto em que se tornam possíveis comunidades do tipo "horizontai-secular. em meados do século XVII. dentro desse tipo.000. ampla mas ténue camada de leitores do latim. 6 O mercado inicial foi a Europa letrada. a proporção de bilíngues na população total da Europa era muito pequena. p.000. XIII. L'Apparitiorr. 187. 248-9. 259-60. p. 2 Se. a nlo "abastados". p. p.47 AS ORIGENS DA CONSCIÊNCIA NACIONAL Se o desenvolvimento da imprensa-como-mercadoria é a chave da geração de ideias inteiramente novas de simultaneidade. o movimento esta4 Febvre o Martin. porém. buscavam primeiramente aquelas obras que fossem de interesse para o maior número possível de seus contemporâneos". Assim sendo. Se o conhecimento manuscrito era um saber escasso e misterioso. fala simplesmente de "par-dessusles frorrtíères" í" por sobre as fronteiras"!. sonhava em latim. os "livreiros preocupavam-se primordialmente em conseguir lucro e em vender seiis produtos e. Febvre e Martin. pelo menos 20 milhões de livros já haviam sido impressos em 1500. (O texto original.

isto é. outros rapidamente se seguiram. devido à linguagem em si mesma. Ou. 8 Nas duas décadas de 1520-1540. foram publicadas 430 edições (integrais ou parciais) de suas traduções da'Bíblia. deveu muito de seu êxito ao capitalismo editorial. que vedava a impressão de todo e qualquer livro em seu reino — sob pena de morte por enforcamento! A razão para essa proibição. em 1535. foram editados três vezes mais livros na Alemanha do que no período de 1500-1520. transformação espantosa. "no espaço de quinze dias [haviam sido] conhecidas em todos os cantos do país". p. e saturadas as bibliotecas ardorosamente católicas. p. 7 lbid. e para sua inaplicabilidade. entre 1550 e 1564. onde Corrwllla. elas foram impressas em tradução para o alemão e. Agora. tornava-se obscuro devido ao que era escrito. p. uma nova forma de apreciar os elaborados resultados estilísticos dos antigos. O latim que agora se pretendia escrever tornava-se cada vez mais ciceroniano e. . Antes da era da imprensa. Nesse meio tempo. devido a seu status como texto. fazendo renascer a enorme literatura da antiguidade pré-cristã e disseminando-a por meio do mercado editorial. Lutero tornou-se o primeiro autor de grande vendagem conhecido como ta!. foi uma alteração no caráter da própria língua latina. uma escassez de dinheiro por toda a Europa levou as gráficas a pensar cada vez mais em vender edições baratas nas línguas vulgares. ele adquiriu uma característica esotérica. 10 Onde Lutero foi o primeiro. e nesta última data não havia menos de quarenta gráficas distintas trabalhando em horas extras. e em última análise o menos importante. foi o impacto da Reforma que." 9 De fato. porque sempre teve linhas internas de comunicação melhores que seus desafiantes. o primeiro escritor que vendia seus Sivros novos com base no próprio nome. Ibid. na época. tornou-se patente. Entre 1522 e 1546. " Ibid. uma verdadeira massa de leitores e uma literatura popular ao alcance de todo o mundo. A partir desse ponto. s 10 p.48 49 vá em decadência. M Ibid. cada vez mais afastado da vida eclesiástica e da vida quotidiana. em outras palavras. mas esse número subiu para 527. para a qual Lutero foi absolutamente fundamental. Para nos atermos à Genebra de Calvino: entre 1533 e 1540. Dessa maneira. em 1517. como prova disso. 8 Suas obras representaram nada menos do que um terço de iodos os livros em alemão vendidos entre 1518 e 1525. 161. Nada transmite melhor o sentido' dessa mentalidade de assédio do que a aterrorizante proibição de Francisco I.. está em que. era só um passo pars a situação na França do século XVII. tendo em vista a reputação de seus autores no mercado. 289-SO. Em segundo lugar. 195. Graças ao labor dos humanistas. 291-5. Ibid. "Temos aí. 7 O impulso revolucionário do capitalismo no sentido da utilização das línguas vulgares recebeu um ímpeto adicional de três fatores externos.. haviam sido publicadas ali apenas 42 edições.. Pois o antigo-latim não era obscuro devido a seu conteúdo ou a seu estilo. o protestantismo sempre esteve basicamente na ofensiva. dois dos quais contribuíram diretamente para o surgimento da consciência nacional. mas apenas por ser inteiramente escrito. 310-5.aos editoras. enquanto que a Contra-Reforma defendia a cidadela do latim. precisamente porque sabia como utilizar o crescente mercado da imprensa em língua vulgar que o capitalismo criava. Símbolo disso é o índex Llbrorum Prohibitorum do Vaticano — que não tinha correspondente no protestantismo —. dando início à colossal propaganda religiosa que avassalou a Europa toda no correr do século seguinte. catálogo singular que se fez necessário devido ao maciço volume de subversão impressa. as fronteiras orientais de seu reino estavam cercadas por Estados e cidades protestantes que produziam uma torrente maciça de material impresso contrabandeável. Nessa gigantesca "luta para conquistar o pensamento dos homens' '. que as compravam como investimentos excelentes.. porém.. ao mesmo tempo. Roma ganhava facilmente todas as guerras contra a heresia na Europa ocidental. p. no seio da//ltelUgentsia transeuropéia. O primeiro deles. Martinho Lutero afixou suas teses na porta da capela em Wittenberg. muito diversa da do latim da Igreja da época medieval. pela primeira vez. Quando. Molíèra s La Fomaine •vendiam suas tragédias e comédias manuscritas diretamente.

Enquanto isso. línguas vulgares "estrangei'ras" se impuseram: no século XVIII. que enfrentavam a ascensão 1S w Seton-Walso-ri. Ao mesmo tempo. ainda que em ritmo mais lento. significava que nenhum soberano poderia monopolizar o latim e torná-lo sua língua oficial exclusiva e. quando Francisco I expediu o Edito de Villers-Cotterêts. ser encarado (pelo menos inicialmente) como fator independente na erosão da comunidade sagrada imaginada. tecedeu tanto a imprensa quanto a revolução religiosa do século XVI. Anteriormente à invasão normanda. No Sena. Feudal Society. governada a partir de Londres. 28-9. uma vez que era encarada meramente como forma adulterada do latim. M Bloch. profundamente arraigados estivessem subjacentes à utilização de línguas vulgares onde ela ocorreu. Com efeito. Como diz ironicamente Bloch. Feudai Sociery. não há nada que indique que quaisquer impulsos ideológicos. dadeiro correspondente político. '«Ibid. havia a disseminação. Essa fusão tornou possível que a nova língua. Netions and States. era o anglo-saxão. e que o Estado envolvido abrangia. pragmático. tivesse sido administrada originariamente ern inglês primitivo. de línguas vulgares específicas como instrumento de centralização administrativa por determinados pseudomonarcas absolutos presuntivos bem posicionados. era inteiramente diferente das políticas linguísticas deliberadas perseguidas pelos dinastas do século XIX. l3 Só depois de quase um século após a entronização política do inglês primitivo é que o poder de Londres foi varrido para fora da "França". as línguas da corte dos Romanovs eram o francês e o alemão. l5 Em outros reinos dinásticos. o latim sobreviveu por muito mais tempo — sob os Habsburgos até bem tardiamente no século XIX. 48. Entre cerca de 1200 e 1350. que tipicamente pouco ou nada. O nascimento das línguas vulgares administrativas aã-. literária e administrativa. enormes parcelas das populações submetidas conheciam pouco ou nada de latim. viesse a ser a língua da corte — e para a abertura do parlamento. criou rapidamente grandes públicos leitores novos — inclusive entre mercadores e mulheres. em 1382. No correr do século e meio seguinte. não apenas a Inglaterra e o País de Gales de hoje. lenta e geograficamente desigual. Bloch. Veio a seguir. p. a Bíblia manuscrita em língua vulgar. sem falar em protonacionaís. e não "nacionais". u É fundamental que se tenha ern mente que essa sequência constituía uma série de línguas "de Estado". M apenas se tornou a língua oficial dos tribunais de justiça em 1539. É improvável que a Guiana. esse latim ofi- ciai foi substituído pelo francês normando. -É instrutivo o contraste com a China Imperial. p. Netfons anrf Slates. 75. p. a autoridade religiosa do latim nunca possuiu um ver-. 98. O caso da "Inglaterra" — na periferia noroeste da Europa latina — é especialmente'esclarecedor. após o colapso do Império do Ocidente. e deve. a "escolha" da língua parece constituir-se num desenvolvimento gradual. aqui. l. Como tal. desse modo. não deliberado. l. da Escócia e da França. vale dizer uma Síngua que. (O pânico de Francisco I era tão político quanto religioso. Inevitavelmente. para não dizer casual. virtualmente todos os documentos reais eram escritos em latim. p. francês normando. que a universalidade do latim na Europa ocidental medieval jamais correspondeu a um sistema político universal. não era apenas a Igreja que se abalava em seus fundamentos. ou inglês primitivo. . 15 Seton-Walsoo. onde o âmbito da burocracia dos mandarins e a dos caracteres desenhados coincidiam em grande medida. conheciam de latim — e simultaneamente mobilizava-os para fins político-religíosos. na República da Holanda e na Comunidade dos Puritanos. a língua da corte... Não se deve supor que a unificação da língua vulgar administrativa tenha sido realizada Imediatamente ou tis maneira completa. ainda. por isso.) Em terceiro lugar. 83. O mesmo terremoto produziu os primeiros Estados europeus não dinásticos e não cidades-Estado de importância. uma lenta fusão entre essa língua de uma classe dirigente estrangeira e o anglo-saxão da população submetida deu origem ao inglês primitivo. teve lugar movimento semelhante. Em outros. em épocas diversas. a fragmentação política da Europa ocidental. Obviamente. "o francês. após 1362. mas também partes da Irlanda. !6 Em todo caso. p. que explorava edições populares baratas. É conveniente que se lembre.50 51 A coalizão entre o protestantismo e o capitalismo editorial. levou diversos séculos para erguer-se à dignidade literária". de Wycliffe.

Não havia qualquer ideia de se impor sistematicamente a língua às diversas populações submetidas ao dihasta. ele encontrou na morte e nas línguas dois tenazes adversários. Proveitosa exposição sobre essa questão encontra-se em S. Cap.) Sinal claro dessa diferença é que as antigas línguas administrativas eram precisamente isto: línguas utilizadas pelo mundo oficial. possivelrrvante quinhentas anos antes de. sem que algum deles. dentro dos limites impostos pelas gramáticas e sintaxes. em fins do século XIII. possibilidade de uma unificação linguística geral do homem. É perfeitamente possível conceber o surgimento das novas comunidades nacionais imaginadas. o que tornou imagináveis as novas comunidades foi uma interação semifortuita. Somente a superfície bem lisa do pape! tornou possível a reprodução maciça de textos o figuras — e Isso não ocorreu senão apôs outros setenta e cinco anos. Contudo. em Londres). contribuiu à sua maneira para a decadência da comunidade imaginada da cristandade. neste contexto. que se o capitalismo editorial buscasse explorar cada mercado potencial de língua vulgar oral. N5o temos ainda multinacionais gigantes no mundo editorial. Nessa contexto. tecnologia e capitalismo. tanto mais vasta a zona de agrupamento potencial. no sentido de condição geral de diversidade linguística irremediável. agora padrão. >ía Europa pré-imprensa e. para seus falantes. a Reforma e o desenvolvimento casual das línguas vulgares administrativas sejam significativos. quanto a característica ideográfica do produto final. o inglês [primitivo]. onde. 1 Digo "nada ssrvíu. nSo teve qualquer impacto de maior importância. Febvre e Martin observam que. O essencial é a influência recíproca entre fatalidade. 22. que enfatiza a fatalidade primordial de determinadas línguas e de sua associação a unidades territoriais determinadas. embora Já existisse uma burguesia perceptível na Europa. rougfi. Pois por mais que o capitalismo fosse capaz de feitos sobre-humanos. a diversidade das línguas faladas. Mas o papel náo era Invenção europeia. (Ver mais adiante. rnuito menos revolucionário — precisamente devida â ausência do capitalismo ia. mas explosiva. Embora seja essencial manter em mente uma ideia de fatalidade. O fato do o signo. quatro anos depois. passíveis de disseminação pelo mercado. criou línguas impressas mecanicamente reproduzidas. quanto mais ideográficos os signos. IS O elemento de fatalidade é fundamental. como vimos. H. 5.seu aparecimento na Europa.20 (Ao mesmo tempo. talvez nenhum deles. cap. nem há. por detrás da imprensa. estio 33 gráficas e 35 companhias editoras. até que o capitalismo e a imprensa criassem os maciços públicos leitores monoglotas.19 Determinadas línguas podem morrer ou ser exterminadas. naturalmente. aquelas línguas que. em número muito menor de línguas impressas! . proibiu toda e qualquer impressão de livros em 1535 e. bough. Steinberg. é provável que a esoterização do latim. primordialmente em sentido negativo — como tendo contribuído para o destronamento do latim e para a erosão da comunidade sagrada da cristandade. teria permanecido um capitalismo de proporções insignificantes. 30 e 45. essa incompreensibilidade recíproca era historicamente apenas de 17 ligeira importância.A própria arbitrariedade de qualquer sistema de signos para sons facilitava o processo de agrupamento. a promoção dessas línguas vulgares ao stattts de línguas-do-poder. seria equivocado fazer equivaler essa fatalidade àquele elemento comum às ideologias nacionalistas. em outras partes do mundo.) Nada serviu para "agrupar" línguas vulgares correíatas mais do que o capitalismo que. cougti e hiccough demonstra tanto a variedade idiolâtica da qual proveio a ortografia Inglesa. Mas esses idioletos variados eram passíveis de se agruparem. No fundo. Tfte Caming of t/ie Book. em Paris. p.. mas não havia. em certo sentido. ough ser pronunciado diferentemente nas palavras althaugh. por sua própria conveniência interna. " 'Não obstante. fé: do francês a língua de sua cortei Esse não foi a primeiro "acidente" dessa natureza.52 53 de nacionalismos linguísticos populares hostis. entre um sistema de produção e de relações produtivas (capitalismo). eram (e são) a trama e a urdidura de suas vidas. . eram concorrentes do latim (o francês. Itxigh.. Num sentido positivo. Chegou ali vindo de uma outra história — a da China . de fato. 6. dentro de limites definidos. pode-se descobrir uma espécie de hierarquia descendente partindo da álgebra. passando pelo chinês e pelo inglês. o papel não tevo uso generalizado antes do -final do século XIV. até os silabários regulares do francês ou do indonésio. Five Hundfett V&sra cfPrinting. estivesse presente. Febvre e Martin (amais se esquecem de que.por intermédio do mundo Islâmico. vale lembrar que embora a imprensa tivesse sido Inventada primeiro na China. tão imensa. era imensa. Tanto Stelnberg 1 quanto Eisenstein chegam muito perto de teornorf liar "a imprensa" que imprensa como c gânio da história moderna. Quanto a isso. mais do que o capitalismo" intencionalmente. 21 zo 18 15 Confirmação compatível dessa afi/mação ofereça-nos Francisco ! que. uma tecnologia de comunicações (a imprensa) e a fatalidade da diversidade linguística do homem.

quando vantajoso. até mesmo milhões. par o nacionalismo turco ern linha com a c iu Tire cie madeira. O alto alemão. criaram campos unificados de intercâmbio e comunicação abaixo do latim e acima das línguas vulgares faladas. . na Europa desse fim do século XX. ramanítada. intencionais que resultaram da interação explosiva entre o capitalismo. processos não. 108.) Resta apenas salientar que. e portanto compreensível. Hoje em dia. L'Apperition. elas se tornavam modelos formais a serem imitados e. a tec-.e. primeiro corn uma romanização compulsória antimucul23 The Corning of the Book. Suas parentes em desvantagem. p. The Age of Nationalism. ou até mesmo impossível. ou milhões. "No século XVII as línguas da Europa haviam. que apenas essas centenas de milhares. conscientemenle exploradas dentro de um espírito maquiavélico. essas línguas impressas estabilizadas foram se sedimentando. 477: "Au XVII" siècle. de modo geral. que podiam achar difícil. tão essencial à ideia subjetiva de nação. temporal e espacialmente." 22 Em outras palavras. ("No século XVII. O "alemão do noroeste" tornou-se o Platt Deutsch. Como nos fazem lembrar Febvre e Martin. enquanto o francês do século XII distinguia-se acentuadamente do francês escrito por Víllon no século XV. Família de línguas faladas. ou espanholas. Mas. o livro impresso mantém uma forma permanente. É provavelmente apenas justo acrescentar que K-crnal esperava lambam. largamente falado. em suas origens. o embrião da comunidade nacionalmente imaginada. assumido suas formas modernas. em grande medida. da Europa ocidental.i (Daí as lutas. por ess. como tanta coisa mais na história do nacionalismo. em sua visível invisibilidade secular e peculiar. Antes de mais nada. a que estavam ligados pela imprensa. lês langues nationales apparaissant u n peu partout cristallisées". seus ancestrais do século XII. o tai central foram consequentemente elevados a uma nova proeminência político-cultural. ao mesmo tempo. compreender-se reciprocamente em conversa. 319. passível de reprodução virtualmente infinita. tornaram-se gradativamente conscientes das centenas de milhares. seguiram o exemplo. e assim um alemão subpadrão.e meio. porque era assimilável ao alemão impresso de uma maneira em que não o era o checo falado da Boémia. que. p. antes. o capitalismo editorial atribuiu nova fixidez à língua. •. Em segundo lugar. a fixação das línguas impressas e a diferenciação de status entre elas foram. ajudou a construir aquela imagem de antiguidade. formavam. Já não estava mais sujeito aos hábitos individualizadores e "inconscientemente modernizadores" dos escribas monásticos."! Hans Korin.de mais nada por não serem bem-sucedidas (ou serem apenas relativamente bem-sucedidas) ao insistir em suas próprias formas impressas. Para exaltar a consciência nacional da Turquia turca em detrimento de qualquer identificação muçulmana mais ampla.54 55 Essas línguas impressas lançaram as bases para a consciência nacional de três modos diferentes. ainda assim assimiláveis à língua impressa que surgia. as línguas nacionais mostram-se cristalizadas por toda parta. 23 As autoridades soviéticas. o capitalismo editorial criou Ifaguasde-poder de uma espécie diversa da das antigas línguas vulgares administrativas. Desse modo. perdiam prestígio. de pessoas existentes em seu determinado campo linguístico . a ele pertenciam. Atatúrk impôs uma romanização compulsória. Cf. a proporção de mudança diminuiu decisivamente no século XVI. no decorrer de três séculos. perdeu aquela unidade em consequência de manipulações deliberadas. Esses co-leitores. inglesas. de determinadas "sub "-nacionalidades para alterarem seu síaíus subordinado forçando vigorosamente a entrada na imprensa -—• e no rádio. o governo tai desestimula ativamente as tentativas de missionários estrangeiros de oferecer a suas minorias tribais das montanhas sistemas próprios de transcrição. p. mais tarde. Em terceiro lugar. Os falantes da enorme variedade de línguas francesas. Determinados dialeíos estavam inevitavelmente "mais próximos" de cada língua impressa e domi52 navam suas formas finais. nologia e a diversidade Linguística humana. o inglês do rei e. Iraque e URSS atuais é especialmente exemplar. Ira. as palavras de nossos antepassados do século XVII nos são acessíveis de um modo que não eram. No correr do processo. a iongo prazo. O destino dos povos de fala túrquica nas zonas incorporadas à Turquia. e de desenvolver publicações em suas próprias línguas: esse mesmo governo é em grande medida indiferente ao que essas minorias falam. uma vez "ali". outrora agrupável por toda parte. a Villon. tornaram-se capazes de compreender-se via imprensa e papel. dentro de uma ortografia arábica.

constituídos e dirigidos por pessoas que compartilhavam uma língua e uma descendência comuns com aqueles contra os quais lutavam. ao mesmo tempo. do segundo. Crioula — pessoa da descendência europeia pura [pelo menos teoricamente). Em segundo lugar. a seguir. como republicas (não dinásticas). com a curiosa exceção do Brasil. muitos ex-Estados coloniais. têm sido dominantes em muito do pensamento europeu a respeito do surgimento do nacionalismo. ANTIGOS IMPÉRIOS. eram Estados crioulos. e segundo a qual: 2 1 Ji Seton-Watson. ] Na verdade. embora hoje em dia quase todas as pretensas nações— e também as nações-Estado — possuam "línguas impressas nacionais". é óbvio que. Pois não apenas eram elas historicamente os primeiros Estados desse tipo a surgir no mundo. particularmente na África. em geral. a língua não era um elemento que os diferenciasse de suas respectivas metrópoles imperiais. há sérias razões para se duvidar da aplicabilidade. ou os da "família anglo-saxônica" são exemplos notáveis do primeiro resultado. Para explicarse a descontinuidade-em-conexão entre línguas impressas. p. . em outros casos convincente. apenas uma fração mínima da população "usa" a língua nacional em conversa ou no papel. Todos eles. Contudo. Os Estados-nação da América Espanhola. nos EUA ou nas antigas colónias da Espanha. srn qualquer lugar fora tia Europa!. em grande parte do hemisfério ocidental. como também o número delas e seu aparecimento simultâneo oferecem terreno fértil para um estudo comparativo. inclusive os EUA. provavelmente por poderem ser facilmente deduzidos a partir dos nacionalismos da Europa de meados do século. por parecer quase impossível explicá-los em termos dos dois fatores que. 317. na década stalinista de 1930. a formação concreta dos Estados-nação contemporâneos não é de modo algum isomórfica com o alcance estabelecido de determinadas línguas impressas. NOVAS NAÇÕES Os novos Estados americanos do final do século XVIII e início do século XIX são de interesse incomum. 41. todas as quais se definiram conscientemente como nações e. é justo que se diga que a língua nunca foi sequer um tema nessas antigas lutas pela libertação nacional. quer se pense no Brasil. e por isso forneceram inevitavelmente os primeiros modelos reais de com que deveriam esses Estados "se parecerem". por extensão. muitas delas possuem essas línguas em comum e. Nations and States.56 mana e antipersa e. 2 77» Brsak-up ofõritein. dizendo que a convergência do capitalismo e da tecnologia da imprensa sobre a diversidade fatal das línguas humanas criou a possibilidade de uma nova forma de comunidade imaginada que. Em outras palavras. da tese de Nairn. p. em sua morfologia básica. o ponto culminante dos expansionismos dinásticos). é necessário voltarse para o amplo conjunto das novas entidades políticas que brotaram no hemisfério ocidental entre 1776 e 1838. Em primeiro lugar. parem nascida na América rã. A extensão potencial dessas comunidades era inerentemente limitada e. prepara o cenário da nação moderna. mais tarde. consciências nacionais e Estados-nação. não mantinha senão a mais fortuita relação com as fronteiras políticas existentes (que eram. 24 Podemos resumir as conclusões que se podem tirar da exposição até este ponto. com uma cirilização russificante compulsória. em outras.

Simon Bolívar. bem depois da deflagração das guerras de independência. a prolongada duração da luta continental contra a Espanha. privando assim os crioulos de apoio militar da península em caso de emergência. isto assu miu a forma de uma ciasse média e de uma liderança intelectual inquietas. que deu origem. 7 Quando. Pois "naqueles dias . Bolívar. "os crioulos repudiaram a intervenção estatal com base em que os escravos eram propensos ao vício e à independência [!] e eram fundamentais para a economia. 6 Em 1791. em sua luta contra os crioulos rebeldes. 192. um fator-chave.sugerem claramente que a liderança estava nas mãos de ricos proprietários de terras. The Spanish-Amef/can Revo/utíons. o México e o Peru. Ele e seus seguidores (na maior parte índios.Estados. donos de escravos. que uma revolta de negros era "mil vezes pior que uma invasão espanhola". em 1804. mais humanitária. e manter. enquanto a propriedade cia terra era inteiramente aberta aos crioulos. 10 É instrutivo que uma das razões pelas quais Madri conseguiu retornar com êxito à Venezuela. Ainda que às vezes hostil à democracia. especificando pormenorizadamente os direitos e os deveres dos senhores e dos escravos. p. naquela. 207. s Quanto s isto. 24. p. 7 11 Seton-Wstson. o primeiro romance hispano-americano só foi publicado em 1816. 237. Tho Spanfsli-Amaficori ftovolulions. indica certa "fragilidade social" desses movimentos de independência latino-americanos.p. e dos índios. até 1820. 3 Como vimos. Bolívar. que procuram incitar e canalizar as energias das classes populares para a sustentação dos novos . Madri expediu uma-no vá lei. 2. Lyncri. "Trie Haart of Jelferson".) No Peru. Lynch. os movimentos nacionalistas têm tido uma perspectiva invariavelmente populista e procurado arregimentar as classes inferiores para a vida política. recentemente subjugada. p. há analogia evidente com o nacionalismo Bóer de um século mais tarde. 17 d« agasto tfe 1&78. 8 O próprio Libertador Bolívar opinou. de início.as classes inferiores para a vida política". 224. funcionários locais e provinciais). p. mas também alguns brancos e mestiços) ínsurglram-se contra'a administração de Lima: Masur. 11 Masur. o domínio sobre a longínqua Quito. ainda estavam vivas as lembranças da grande jacquerie liderada por Tu3 Gerhard 4 pac Amarú (1740-1781). The Spanfsíi-Americen fíevolutions.que. Na Venezuela —'• na verdade. era o medo de mobilizações políticas da "classe inferior": a saber. O próprio Thomas Jefferson estava entre os fazendeiros da Virgínia que. 6 Masur. se irritaram com a proclamação do governador legalista que concedia Uberdade aos escravos que rompessem com seus senhores sediciosos. Como também não havia algo semelhante a uma intelligenisia. p. Edward 5. estimulou o impulso para a independência em relação a Madri. 201. certa vez. Os indícios . entre 1814 e 1816. Lynch. e que fora. Essas proporções provem do faio de que as (unções comorciais o sdmirtistraiifas mais importantes oram em grande medida monopolizadas pelos espanhóis natos. foi ela ter conseguido o apoio dos escravos.. Em sua versão mais típica. militares. 5 (Esse medo só aumentou quando o "secretário do Espírito Mundial" de Hegel conquistou a Espanha em 1808. * Também não devemos esquecer que muitos dos líderes do movimento de independência das Treze Colónias eram magnatas agrários donos de escravos. em aliança com um número muito menor de comerciantes e de diversos tipos de profissionais liberais (advogadas. Noticns and Síntes. p. p. ela mesma. 14-7 e flnssim..snob da vida das pessoas". 4 Ao contrário de procurar "arregimentar . Toussaint L'Ouverture comandou uma insurreição de escravos negros. em casos tão importantes como a Venezuela. 17. p. rebeliões de índios ou'de escravos negros.58 O advento do nacionalismo num sentido distintamente moderno esteve ligado ao batismo político das classes inferiores.. sobre escravidão. Morgars. nesta. ll Além disso. na época uma potência europeia de segunda ordem. The tJsw HM* Review -o/ Books. na década de 1770. Talvez seja notável qu« Tupac Amarú não lenha rapudiado completamenta a compromisso de fidelidade ao rei espanhol. à segunda república independente do hemisfério ocidental — e aterrorizou os grandes fazendeiros da Venezuela. 59 Pelo menos na América do Sul e na América Central. por todo o Mar das Caraíbas espanhol — os fazendeiros se opuseram à lei e promoveram sua revogação em 1794". em 1789. albid. 10 . tranquilos da colónia era pouca a leitura a interromper o ritmo faustoso e. as "classes-médias" ao estilo europeu ainda eram insignificantes no final do século XVIII.

1B A Constituição da Primeira República Venezuelana t1B11) era. em 1808. tornou mais eficiente sua arrecadação. 329 e 38B. 13 (Poderíamos acrescentar: a despeito do fato de que. redefiniram tais populações como compatriotas? E a Espanha. Grifos nossos. 131." Masur. "Não solicitara ao congresso que abolisse a escravatura. deram origem a crioulos que. 1S O México. . Lynch. " Ibid. Elo libertou seus escravos pouco depois da declaração de independência da Venezuela. palavra por palavra. por vezes. o tarmo comum era ainda Lãs Espartas [As Espinhas] e não Espana (Espanha). tem sido sardonicamente chamado de segunda conquista das Américas. 276. restringiu em benefício próprio o comércio intra-hemisfério. em troca da promessa de terminar com a escravidão em todos os territórios libertados. 206-7. Não há dúvida de que é verdade que as políticas implantadas pelo hábil "déspota esclarecido" Carlos III (r. os aborígenes não deverão ser chamados de índios. dos quais apenas 4. fortaleceu os monopólios comerciais metropolitanos. ou de nativos. provia a Coroa com uma renda anual de cerca de 3. No finai do século. The Spanisfi-Amerícan Revolutions. Bot/ver. produto das doutrinas do Iluminismo. * 18 Ibid. 1759-1788) decepcionaram. que tivera existência tranquila durante três séculos. P. " • Não há dúvida. Naiions ertd States. ao regressar. torrada de emptíslímo. e o começo da Revolução Francesa.18 Em parte alguma houve qualquer tentativa sé: ria de reinstaurar o princípio dinástico nas Américas. seu companheiro de luta pela libertação. de problemas fiscais crónicos a.) Eis então o enigma: por que precisamente as comunidades crioulas é que desenvolveram tão precocemente concepções de sua nation-ness — bem antes da maior parte da Europa? Por que essas províncias coloniais. na última metade do século XVIII. não deixaram de ter uma influência poderosa. Bolívar mudou de opinião a respeito dos escravos 12 e San Martin. p. a agressividade de Madri e o espírito do liberalismo. também. em fins da de 1780.000.000. ainda que fundamentais para a compreensão do impulso de resistência na América espanhola. se deveram em parte è emancipação pela metrópole dos escravos leais. teve seu filho coroado localmente como Pedro I do Brasil. (Ele permaneceu ali por treze anos e. A promessa foi cumprida em Caracas. eles são filhos e cidadãos do Peru e deverão ser conhecidos como peruanos". da dos Estados Unidos. novos impostos.000 eram utilizados no custeio da administração local. significava transmissão relativamente rápida e fácil das novas doutrinas económicas e políticas que se estavam produzindo na Europa ocidental.. do próprio dinasta português. que. 53. 14 à qual estavam ligados de tantas maneiras. 17. solicitou e obteve do Congresso uma lei libertando os filhos de escravos.61 Contudo. centralizou as hierarquias administrativas e promoveu intensa imigração de peninsulares. até então. em parto. após 1779.) Contudo. em 1821. em fins da década de 1770. eles eram movimentos de independência nacional. a não ser no Brasil. abrangendo em geral grandes populações oprimidas que não falavam o espanhol.000. por exemplo. o capitalismo editorial não havia ainda chegado a esses analfabetos.. Seton-Watson. em muitas partes. decretou. não fosse a imigração. No século XVIII. da guerra com a Inglaterra. o nível da migração peninsular na década de 1780-1790 era cinco vezes maior do que havia sido entre 1710-1730. Quando fugiu para o Haiti em 1816. em parta. O êxito da revolta das Treze Colónias.000. Quatro míriSBS iam para subsidiar a administracío de outras partes da América. 14 Anacronismo. enquanto seis milhões eram de puro lucro. essa quantia quase quintuplicara. conseguiu ajuda militar do Presidente Alexandre Pétion. em 1818 — mas é preciso lembrar que os êxitos de Madri na Venezuela. no início do século XVIII. de que a melhoria das comunicações através do Atlântico. p. fugindo de Napoleão. 4-17. fragmentou-se tão subitamente em dezoito Estados distintos? Os dois fatores mais comumente mencionados como explicação são o enrijecimento do controle exercido por Madri e a disseminação das ideias liberalizantes do Iluminismo. porém. como inimigo estrangeiro? Por que o Império hispáno-americano. Bolívar. Quando Bolívar sã tornou presidente da GrS-Colombia (Venezusta. 125. Madri lançou 12 Não sem algumas idas e vindas. em parta. Masur. The Spanísh-American Revotutions. não expli15 Essa nova agressividade metropolitana era. "no futuro. p. irritaram e alarmaram cada vez mais a classe alta crioula. 16 Paralelamente à isso. p. Nova Granada e Equador). por não querer atrair sobre si o ressentimento dos grandes proprietários de terra. além do fato de as diversas Américas compartilharem línguas e culturas com suas respectivas metrópoles. deliberadarnente. Nada melhor para confirmar essa "revolução cultural" do que o republicanismo que impregnou as comunidades recém-independentes. p. atingindo 14. 301. em 1821. em 1810. p. entre 1314 e 1316. isso provavelmente não teria sido possível.000 de pesos. mesmo ali. 13 Lynch. Naquilo que.

a imensa dificuldade de comunicações numa era pré-industriaí contribuíram para dar a essas unidades um caráter de auto-suficiência. Aspecrsof Ndembít Ritual. sem dúvida. nove. não só na América como também em outras partes do mundo. e contrastam marcadamente com os novos Estados europeus do final do século XIX e início do século XX. ficaram financeiramente arruinados. Nem. sobretudo. Quem estaria disposto a morrer pelo Comecon ou pela CEE? Para perceber de que modo unidades administrativas podem. Não obstante. 25Ver. com o correr do tempo. por si sós. p. 20B. para a desintegração da efémera Grã-Colômbia de Bolívar e das Províncias Unidas do Rio da Prata em seus antigos elementos constitutivos (hoje em dia conhecidos como Venezuela-ColômbiaEquador e Argentina-Uruguai-Paraguai-Bolívia). 24 Sua influência contribuiu também. "mais de dois terços das famílias proprietárias de terras sofreram pesados confiscos''. Essa disposição ao sacrifício por parte de classes em situação confortável é matéria para reflexão. a Venezuela e o México vieram a tornar-se emocionalmente plausíveis e politicamente viáveis. 20) E outros tantos deram a vida voluntariamente pela causa. Pois. l9 nem por que San Martin devesse decretar que determinados aborígenes fossem identificados pelo neologismo "peruanos". p. 19. 678. O antropólogo Victor Turner tem escrito de maneira esclarecedora a respeito da "jornada". arbitrária e fortuita. assinalando os limites espaciais de determinadas conquistas militares." 23 Essas experiências ajudam à explicar por que "um dos princípios básicos da revolução americana" foi o do "utipossidetis. prenunciaram os novos Estados da África e de partes da Ásia. Masur. e a viagem de volta às vezes mais tempo. a jornada marítima de Buenos Aires a AcaO mesmo se pode dizer da postura de Londres diante das Treze Colónias. é preciso examinar de que modo organizações administrativas criam significado. "Toda competição com a mãe-pátria era vedada aos americanos e as distintas partes do continente não podiam sequer comerciar entre si. por que entidades como o Chile. especialmente a capítulo "BatwlM and Between: Thn Llminal Period ín ftius de Psssage". 21 Quanto a isso. apresentam a razão'dos verdadeiros sacrifícios que foram feitos. A própria vastidão do Império hispano-americano. As mercadorias americanas. as políticas comerciais de Madri resultavam em fazer das unidades administrativas zonas económicas separadas. 19 pulco levava quatro meses. 20Lynch. and Metaphors. ano em que se haviam iniciado os movimentos pela independência''. p. elas desenvolveram uma realidade mais estável. . Com o correr do tempo. em meados do século XX. **lbid. Bolívar. entre tempos. muitos membros concretos dessas classes. 22) Além disso. The Spanish-AmericanRevotutíons. o da ideologia da Revolução de 1776. políticos e económicos. and Pcvarty: Religi-ous Symbols c-f Cornmunitas"). segundo o qual cada nação manteria o status quo territorial de 1810. p. e a Cartagena. e a navegação espanhola tinha o monopólio do comércio com as colónias. em certa medida. por si sós. Elaboração posterior mais e-nmplsxa ertcontra-s. Bolívar. Margíns. tinham de fazer uma tortuosa viagem via portos espanhóis. Masur. Fieids. Bolívar. E então? O começo de uma resposta encontra-se no fato notável de que "cada' uma das novas repúblicas sulamericanas havia sido uma unidade administrativa entre os séculos XVI e XVIII". p. 546. Svmhotic Actron in Hatnan Soci&ty. em 1814-1816. 25-6. a viagem por terra de Buenos Aires a Santiago demorava normalmente dois meses. (Na época colonial. essas medidas eram apenas em parte executáveis e sempre continuou a haver certa porção de contrabando. concebidas como formações sociais históricas. embora seja certo que as classes altas crioulas.e ern seu Dramas. capítulo 5 ("Pilgiimages as Social Processes") e S ("Passagas.1 sob a influência de fatores geográficos. Naturalmente. TheForesíof Symbols. em curso de um lado a outro da América. vir a ser concebidas como pátrias.62 63 cam.de sua autoria. 2S Todas essas jor42 23 Lynch. como uma experiência criadora de significado. S8-9 e 231. síaíus e lugares.. afinal de contas. p. 21 Masur. The Spanish-Amerícen Revolutions. A configuração original das unidades administrativas americanas era. (Apenas um exemplo: durante a contra-ofensiva de Madri. mercados regionais de caráter "natural"-geográfico ou político-administrativo. não criam lealdades. saíramse muito bem com a independência ao longo do tempo. que viveram entre 1808 e 1828. porém. cf. 'a* enorme variedade de seus solos e climas e.

. portugueses. em comunidades cujo significado sagrado era diariamente revelado a partir da justaposição de seus membros no refeitório. e. Feudal Soctety. vindos de localidades longínquas entre as quais não existia qualquer outra relação. Não é simplesmente que. falantes de língua vulgar. persas. neste caso. 422 st saqs. Nada é mais impressionante a respeito ™ Ver Bloch. mas sim que sua centralidade era vivenciada e "realizada" (no sentido da arte cénica) pelo fluxo constante de peregrinos que se deslocavam em sua direção. p. "muçulmanos ou hindus. a jornada modal é a peregrinação. 26 Como já assinalamos anteriormente. Meca ou Benares fossem os centros de geografias sagradas. Inventado apenas em 1895. tem sido muito subestimado e muito mal estudado. Na verdade^ em certo sentido.64 65 nadas exigem interpretação (por exemplo. 27 Numa época pré-imprensa. indianos. Para nossos fins. com a morte de seu pai. O impulso inerente ao absolutismo era a criação de um aparato unificado de poder. (h) a primogenitura era a regra. no entanto. analogia evidente com os respectivos papéis ctas intetligentsias bilingues e dos operários a camponeses. " Existe. Feudal Society. através dos célebres "centros regionais" de aprendizado monástico.'não possuíam poder independente propriamente seu. exatamente por essa razão. equivalentes seculares mais modestos e limitados. os funcionários dó absolutismo empreendiam jornadas que eram fundamentalmente diferentes das dos nobres feudais. 29 Desse modo. em oposição ao S ião. as mais importantes foram as diferentes viagens criadas pelo aparecimento das monarquias absolutas e. enquanto que um pequeno segmento de iniciados letrados bilíngues. executavam os ritos unificadores.2S Para nossos fins. uma vez que se aprenda: "Porque nós. '« Ver Bloch. a jornada do nascimento à morte deu origem a diversas concepções religiosas). . berberes e turcos em Meca é algo incompreensível sem uma noção de alguma forma de comunidade entre eles. nos nacionalismos da meados do século XX. l. da cristandade ocidental em seu auge do que o fluxo espontâneo de fiéis seguidores vindos de toda parte da Europa para Roma. onde a página impressa dificilmente penetrava. em geral. os limites externos das antigas comunidades religiosas da imaginação eram determinados pelo tipo de peregrinação que as pessoas faziam. (a) a monogamia era imposta pela religião B pela lei. na maioria analfabetos. Ssu papel nas revoluções vietnamita e indonésia e. a estranha justaposição física de malaios. O berbere que encontra o malaio diante da caaba deve. na mente dos cristãos. 3° Essa diferença pode ser representada esquematicamente da seguinte maneira: na jornada modal feudal. alemães e assim por diante. II. o rádio tornou possível ignorar a irnprensa e dar nascimento a uma representação auditiva da comunidade Imaginada. (c) os títulos não-dinâsticcsetam não só hersditárlos como conceptuais e legalmente distintas de postas administrativos: isto é. Conrad estava sendo iionico. o herdeiro do Nobre Á. e leal a ele. oriundos 'de cada uma das comunidades de língua vulgar. ascendia um degrau para ocupar o lugar daquele pai. Unificação significava permutabilidade interna de homens e documentos. controlado diretamente pelo governante. a realidade da comunidade religiosa imaginada dependia profundamente de inúmeras e contínuas viagens. por assim dizer. Essas grandes instituições de fala latina congregavam o que hoje talvez víssemos como irlandeses. não podemos falar um com o outro?" Existe uma única resposta. indagar-se: "Por que esse homem está fazendo o que faço." A "peregrinação secular" não deve ser tonada apenas como um tropo extravagante. quando as aristocracias das províncias possuíam poder independente significativo .. pronunciando as mesmas palavras que pronuncio e. sempre houve ura duplo aspecto da coreografia das grandes peregrinações religiosas: vasta multidão de analfabetos. as cidades de Roma. dinamarqueses. ao descreve' corno "paregrincs" os agentes espectrais <Je Leopoldo II na profundeza das trevas. mas também preciso. em oposição a uma nobreza feudal particularista e descentralizada.a Inglaterra. justaposição que não se poderia explicar de qualquer outra maneira. somos muçulmanos". na génese de determinadas movimentos nacionalistas — antes do advento do rádio. dos impérios mundiais com centro na Europa. assim. atuavam como emanações das vontades de seus senhores. p. interpretando para seus respectivos seguidores o significado de seu movimento coletivo. Pôr certo. Embora as peregrinações religiosas sejam provavelmente as mais tocantes e grandiosas jornadas da imaginação. 64. os quais. forneciam a densa realidade física da viagem cerimonial. elas tinham. A permutabilidade humana era favorecida peia arregimentação — naturalmente de extensão variável — de hominesnovi. finalmente. Essa ascensão . e têm. 23 Especialmente onde.

espera. obteve-se uma função centralizadora mais profunda. Nessa jornada. Lima e de novo Madri. Na verdade. Masur conta que Bolívar pertencia [c. o crioulo "mexicano" ou "chileno" típico presta31 Evidentemente. O rancor e o sentimento de inferioridade d-e muitos crioulos em relação 9 metrópole iam-se tornando neles impulsos revolucionários". pois ele não tem pátria com qualquer valor intrínseco. Se os funcionários peninsulares podiam percorrer a rota de Saragoça a Cartagena. só havia um bispo crioulo. o "argentino" San. ociosas s mal vistos na Corte. a seguir. Escala suas geleiras por uma série de arcos que o circundam. O caso do Reino Unido. que funcionários-peregrinos de Madri não fossem permutáveis com os de Paris. juntos!"). 18-9. Descerca de 1 S. (Pode-se. depara-se com companheiros de peregrinação igualmente ansiosos. em que os católicos foram Impedidos de exercer cargos públicos até 1829. Como demonstra a imponente sucessão do anglo-saxão. embora os crioulos no vice-reinado superassem os peninsulares na proporção de 70 para 1. O talento.000 crioulos "brancos" do Império Ocidental (que se impunham aos cerca de 13. Por exemplo. "eram ricos. E mais: em sua rota espiral de ascensão. foi hóspede em Madri de Manuel Mello. A permutabilidade de documentos. administra a província B — situação que o absolutismo começa a tornar provável — essa experiência de permutabilidade exige uma explicação própria: a ideologia do absolutismo que. garantindo. prossegue para o vice-reino C no posto Y.. apenas 4 foram crioulos. pela restrição do deslocamento dos funcionários de um so- berano para as máquinas de seus adversários: por assim dizer. aqui.Martin.) Em princípio. não é único. A última coisa que o funcionário quer é regressar à pátria. e não a morte. assumirem o monopólio. sobretudo quando todos compartilham de uma única língua-de-Estado. 18051 a "urn grupo de jovens suf-arnaricanos" qua. até o centro para receber a investidura. a expansão extra-européia dos grandes reinos do início da Europa moderna teria simplesmente ampliado o modelo acima ao desenvolver as enormes burocracias transcontinentais. 293.700. contudo. p. não 16 deve exagerar essa racionalidade. Botfver.000 indígenas) eram espanhóis nascidos na Espanha. melada eram soldados. em princípio. por al-gtim tempo. é que traça sua carreira. isso não aconteceu. 13 Na primeira década do século XIX.200. para os domínios ancestrais. administra a província C. com a experiência de tê-los como companheiros de viagem.. e termina sua peregrinação na capital no posto Z. 33 Além disso. enquanto o funcionário D. emerge uma consciência de conexão ("Por que estamos nós. oriundos de lugares e de famílias de que pouco ouviu falar e que espera certamente jamais ter de ver. do século XI ao XIV.000peninsulares. latim. nutria-se do desenvolvimento de uma língua-de-Estado padronizada. normando e inglês primitivo em Londres. que foi levado para a Espanha quando criança.66 67 exigia uma viagem de ida e volta. toda pausa é provisória. tanto quanto o soberano. Para o novo funcionário. menos de 5% dos 3. The Spsnísh-Ameiican ftevolaiions. e ali passou os 27 anos seguintes. pode retornar à capital no posto W. Madri. em 1800. Porém. vindo da província B. não há lugar seguro de repouso. amante "americano" da rainha Maria Lulsa. . porém. e de retorno à casa. os próprios homens novos elaboram. se o funcionário A.. p. Às vésperas da revolução do México. crioulo que ascendesse a um posto de importância oficial na Espanha. 32 E não é preciso dizer que dificilmente se sabia de algum. parece não ter havido em momento algum mais de 400 sul-amerlcanps residentes na Espanha. Esses números são ainda mais impressionantes se observarmos que. argumentar que. as peregrinações de funcionários crioulos não eram barradas apenas verticalmente. que fortalecia a permutabilidade humana. para a província B no posto X. porém. da província C. seus colegas funcionários.. em vez do latim. 41-7 e 468-70 (San Marttn). vai. Entre eles. desempenhar essa função — desde que se lhe atribuam direitos monopolísticos. Haverá quam duvide que essa prolongada exclusão tenha desempenhado papel Importante no fonalecirnanto do nacionalismo Irlandês? 11 Lynch. os quais. dos 170 vice-reís da América espanhola antes de 1813. onde aconteceu de línguas vulgares. Enviado para a municipalidade A no posto V.31 O padrão é muito evidente na América. as coisas são mais complexas. como ele. Então. A racionalidade instrumental do aparato absolutista — sobretudo sua tendência a recrutar e promover com base no talento e não no nascimento — funcionou apenas intermitentemente para além do litoral oriental do Atlântico. qualquer língua escrita pode. se tornarão menores e mais firmes à medida que se aproxime do topo. ingressou na Academia Real para jovens fidalgos/ e desempenhou papel destacado na luta armada contra Napoleão antas de regressar à terra natal. Vê diante de si um cume e não urn centro. quando soube ds sua declaração do Independênciaj e Ba II vá r qua.

a cristandade e a cultura europeia. quão irracional deve ter parecido sua rejeição! Não obstante.) Essas milícias eram inteiramente locais. quando adolescente. Masur. Gilmore. desempenharam papel cada vez mais crítico. O pai de Bolívar fora um aminônte comandante de milícia. O mais ligeiro traço de "sangue negro" torna a pessoa inteiramente negra. religião. f) contava principalmente com milícias coloniais que. Bolívar. os quais acabavam por perceber que o companheirismo entre eles não se baseava apenas naquele determinado . nascido na Espanha. origem familiar. 10. em número cada vez maior e com crescente enraizamento a cada geração que se sucedia. O próprio Bolívar. defendendo os portos venezuelanos contra os invasores. Em outras palavras. sob o imperialismo. fundamentais para o poder do soberano. isto é.69 vá serviços nos territórios do México ou do Chile coloniais. as metrópoles tinham que lidar com números — para aquela época — enormes de "patrícios europeus" (mais de três milhões na América espanhola.. Não havia nada a fazer quanto a isso: ele era irremediavelmente um crioulo. seu movimento lateral era tão tolhido quanto sua ascensão vertical. o ápice de sua escalada espiral. iomò irremediavelmente contaminadorpara qualquer "branco". era a capital da unidade administrativa imperial em que se encontrava. oculta na irracionalidade estava esta lógica: nascido na'América. ele foi típico da muitos da primeira geração de lideras nacionalistas da Argentina: da Venezuela e do Chllê.' tuíam simultaneamente uma comunidade colonial e uma classe superior. Consti. não podia ser um verdadeiro espanhol. o mesmo não se dava em relação aos crioulos. 10. 30 e 381. pelo menos nos Estados Unidos. Compare isso com o programa otimista de miscigenação de Fermín e sua ausência de preocupação com a cor da descendência esperada. exclusão parecesse racional na metrópole? Sem dúvida a confluência de um venerável Com a correr do tempo. 3S Ainda que o vice-rei fosse uma pessoa eminente em sua terra andaluza. Com isso em mente. que compartilhavam. em novo cenário. ís Dada a grande preocupação de Madri com que a administração das colónias estivasse em mios confiáveis. Da 1760 em diante. Deviam ser economicamente subjugados e explorados. • ís Observe as transformações que a independência trouxe para os-americanos: os Imigrantas de primeira geração tornavam-se agora "os mais baixos" ao invés de "os mais altos". do século XVI em diante. as doenças. p. aqueles mais contaminados por um local ds nascimento inevitável. o "mulato" é peça de museu.." (Ibid. ou maneiras.ois da migração do pai.trecho da peregrinação. Desse modo. pode-se observar certo paralelismo entre a posição dos magnatas crioulos e a dos barões feudais. Desse modo. ele era efetivamente um homo novus inteiramente dependente de seu patrão metropolitano. apresentavam um problema político historicamente singular. distante treze mil quilómetros. uma expressão da velha política do divide et impera. culturais e militares para se afirmarem com êxito. dispor prontamente dos recursos políticos. 35 O que fazia com que essa. "eia axiomático que os sitos postos fossem praenchidos exclusivanrente por eSpanh-Sis naios". os crioulos americanos. fosse praticamente indistinguível de um espanhol nascido na Espanha. mas também uma ameaça a ele. nessa peregrinação limitada encontrava companheiros de viagem. po:diam.• cão >que os metropolitanos. Contudo. aqui. (Masur. 34 Contudo. sobreposto aos crioulos. p. e controlados pelos mistérios da cristandade e de uma cultura inteiramente estranha (bem como pôr' uma organização política avançada para a época). assim. servira na antiga unidade de seu pai. Boltvar. O '. Ainda que tivesse nascido na primeira semana dep. Se os indígenas podiam ser conquistados pelas armas e pelas doenças. virtualmente a mesma rela. e hio peças intercambiáveis de um aparato continental de segurança. 34 maquiavelismo com o desenvolvimento de concepções de contaminação biológica e ecológica. à medida que se multiplicavam as incursões britânicas. a partir de meados do século XVIII. mas também eram essenciais à estabilidade do império. ergo. Hoje em dia. em 1800) remotamente afastados da Europa. em princípio. os peninsulares enviados como vice-reis e bispos desempenhavam as mesmas funções que os hominesnovi das burocracias proto-absoluttstas. . O equilíbrio tenso entre o funcionário peninsulaj e o magnata crioulo era. Da perspectiva do soberano. que tinham. Pela primeira vez. Quanto a isso. foram ampliadas e reorganizadas. "A Espanha não possuía nem dinheiro nem efetivos para manter grandes guarnicães do tropas regulares na América. com as armas. as peregrinações militares tornaram-se tSo importantes quanto as civis. que se seguiram à disseminação planetária de europeus e do poder europeu. em termos de língua. J810-J910 capítulos 6 ("The Militia"! a 7 ("Thia Mllitary"). VerRobert G. Inversões semelhantes ocorrem em reação ao racismo.'sangue negro" — a nódoa negra — veio a ser visto. o acidente do nascimento na América destinava-o à subordinação — ainda que. CaudiUism antf Militarism ir> Venezuela. do nascimento trans-Atlântico. ò peninsular não podia ser um verdadeiro americano. p.. mas na fatalidade. o centro administrativo mais alto para o qual podia ser designado.

mais se assemelham aos indianos e menos são estimados pelos portugueses. 10% da população de Lisboa era de escravos. 15. ou nenhum. eram interesses que. p. .. inadequados para cargos de maior importância. As peregrinações vice-reais limitadas não tiveram consequências decisivas. ' 9 lbld. 72-3. porém. 3»lbid. devemos aceitar muito pouco deles. esse decreto citando antigas concepções romanas de cidadania imperial. mestiços em número suficiente?) Analogamente. o. o crescimento das comunidades crioulas. assim. nem a disposição de uma metrópole n Só emeacada de proteger (-até ce-lo ponto) esses infelizes. 41 Ainda mais tipicamente. uma vez que quanto mais sangue nativo possuem. não como curiosidades casuais. que afirmavam que o clima e a "ecologia" tinham efeito constitutivo sobre a cultura e o caráter. em 1800. porque o tema principal de que estamos tratando é o surgimento do nacionalismo crioulo. nessas regiões. Justificou. p. coreanos. Seu surgimento permitiu que prosperasse um estilo de pensamento que prenuncia o moderno racismo. 1415-1825. diferentes dos metropolitanos e inferiores a eles — e. 40 Indiretamente. bem como euramericanos. Além disso. exerceram ampla influência. o grande reorganizador da missão jesuíta na Ásia. era extremamente fácil fazer a dedução vulgar e conveniente de que os crioulos. 41 Boser. foram amamentados por aias indianas na primeira infância e. Quanto aos mestiços e castiços. p. 257-B. Portugal. No curso de seus vinte e dois anos no poder (1755-1777). chineses e "indochineses" à profissão sacerdotal — talvez por não haver ainda. em comparação com a prática anterior. Isso não deve ser compreendido como minimização da crescimanto paralelo do racismo crioulo em relação a mestiços. eram. p. especialmente com respeito aos mestiços. o Iluminismo influenciou também a cristalização de uma distinção irrevogável entre metropolitanos e crioulos.. antecipavam o aparecimento da consciência nacional americana dos fins do século XVIII.. principalmente nas Américas. Nationalism. perniciosa tendência foi dada pelo renascimento da escravidão em larga escala (pela primeira vez na Europa. *3 Até aqui. levou inevitavelmente ao aparecimento de eurasianos. The Portuguese Seaborne Empire. têm o sangue contaminado por toda a vida". pela própria natureza. mas como grupos sociais evidentes. nos seguintes termos: 3S -> Todas essas raças pardas são muito broncas e corrompidas e de índole a mais torpe.' fornece uma ilustração adequada disso. o autocrata esclarecido Pombal não só expulsou os jesuítas dos domínios portugueses. 252. *2 Kernilàinen. e não as doutrinas dos philosophes. eurafricanos. porém» encontramos Alexandre ^Valignano. negros e índios. The Portuguesa Seaborne Èmpirc. nascidos em um hemisfério selvagem. Manuel I pôde ainda "resolver" sua "questão judaica" pela conversão obrigatória em massa — sendo possivelmente o último governante europeu a considerar essa solução não só satisfatória como "natural". alegando que "mesmo quando nascidos de pais brancos puros.. combatendo veementemente a admissão de indianos e eurindianos ao sacerdócio. desde a antiguidade).000 habitantes do Brasil português.70 71 Ademais. portanto. Pesada contribuição para essa ''Charles R. The Portuguese Revotution ancf tfis Armed Forces Movement. Na última década do século XV. 39 Boxer demonstra que as barreiras e exclusões "raciais" aumentaram notavelmente no correr dos séculos XVII e XVIII. tais como "negro" ou "mestiço" [sic]. mas também em certas partes da África e da Ásia. (No entanto. p. interesses menores. p. <3 Tenho ríslçado aqui as distinções rací-sias entre peninsulares e crioulos. os franciscanos portugueses de Goa combateram violentamente a admissão de crioulos na ordem. 286. mas. 'havia perto de um milhão de escravos entre os cerca de 2. Já na década de 1550. ainda assim. até que suas extensões territoriais puderam ser imagi*° Rona Fields. entre 1574 e 1606.500. Valignano estimulou ativamente a admissão de japoneses. mais antigo dos conquistadores planetários da Europa. 42 A partir daí. as obras de Rousseau e de Herder. estrategicamente. Boxer. como também classificou como infração criminosa chamar os súditos "de cor" por nomes ofensivos. nossa atenção tem-se concentrado nos interesses dos funcionários na América — importantes. com seus conflitos entre peninsulares e crioulos. 253. 37 Menos de um século depois. a qual teve o pioneirismo de Portugal a partir de 1510. D.

Assimetria. 28. sobre seu país. esta. até o advento do capitalismo editorial. porém. 461 dos quais duraram por mais de dez anos. do qual eram comumente o colaborador principal. por ser o México. A importância de seu negócio. A imprensa chegou cedo à Nova Espanha. as pessoas pen47 48 Franco. Em outras palavras. por toda a América espanhola.120 "jornais". o gráficojornalista foi. frequentemente. de Buenos Aires e de Bogotá. porém. que podia repetir-se infinitamente em outras situações coloniais. Um crioulo colonial. . este casamento com aquele navio. mas muitos funcionários peninsulares. da menos de 2.72 73 nadas como nações. corno nuestra América\m sido interpretado como revelador da vaidade dos crioulos locais que. só havia gráficas na Cidade do México e em Lima. sobre si mesmos. Mais uma vez. Desse modo. 33. se tivesse oportunidade. -Os leitores de jornal da Cidade do México. noivas. só se podia esperar que. casamentos dos ricos. Assim. até que os impressores descobrissem uma nova fonte de renda — o-jornal". corno nosotros los americanos e. An Introduction. Os periódicos hispano-americanos que se desenvolveram no final do século XVIII eram compostos com plena consciência da existência de provincianos em mundos paralelos ao seu. a imprensa praticamente não existiu nesse século. senão único. ainda que de modo. bem como ordenações políticas coloniais. 47 De fato. teve lugar uma verdadeira revolução. com o correr do tempo. quais os preços. ainda que não lessem os jornais uns dos outros. de longe. Lembram-nos que "a imprensa de fato não se desenvolveu na América do Norte durante o século XVIII. Na América do Norte protestante. Até fins do século XVII. mas permaneceu durante dois séculos sob o estrito controle da coroa e da Igreja. Outro traço desse tipo era a pluralidade. este preço cora aquele bispo. Um traço criativo desses jornais era sempre seu provincianismo. Naturalmente. eles se tornavam um só. bispos e preços. The Spsnísk-AmerJcen fievaSulions. podia ler um jornal de Madri (o qual. desenvolveu-se uma associação tão estreita com o agente do correio que. aí entrassem elementos políticos. para que mercadorias. norte ou sul-americanos? Eles começavam fundamentalmente como prolongamentos do mercado. processo semelhante deu origem. não leriam o que se produzia em Caracas se pudessem deixar de fazê-lo. o jornal de Caracas. de início. às primeiras gráficas locais. de maneira muito natural e até mesmo apolítica. em que portos).mais lento e intermitente. Daí ter a oficina gráfica surgido como o ponto chave das comunicações e da vida intelectual da comunidade nos EUA. um fenómeno essencialmente norte-americano. criava uma comunidade imaginada entre uma determinada congregação de companheirosleitores. "'"'The Cornin9 of the Book'Pi 208"11 • Lvach.palavras. Daí a conhecida duplicidade do nacionalismo hispano-arnericano primitivo. foram editados na-. pode ser menos evidente. e sua produção era quase que exclusivamente ligada à Igreja. e assim por diante. porém. estavam no entanto perfeitamente conscientes de sua existência. No correr do século XVIII. porém. se consideravam o centro do Novo Mundo. o que colocava lado a lado. a alternância entre seu extenso âmbito e seu localismo particularista. na mesma página. na segunda metade do século XVIII. Entre 1691 e 1820. Os mais antigos jornais continham — ao lado de notícias sobre a metrópole — notícias comerciais (partidas e chegadas de navios. 46 Quais eram as características dos primeiros jornais. p. p. 44 A figura de Benjamin Franklin está indelevelmente associada ao nacionalismo crioulo na América do Norte. a mais valiosa das possessões da América espanhola. Uma vez que o principal problema enfrentado pelo gráfico-jornalista era atingir os leitores. O fato de os primeiros nacionalistas mexicanos escreverem. "5 Os gráficos que abriam novas oficinas incluíam sempre um jornal em sua produção. era a própria estrutura da administração e do sistema de mercado coloniais. à qual pertenciam esses navios. não diria nada sobre seu mundo). Febvre e Martin nos esclarecem. morando na mesma rua. Na América espanhola. em outras.

O que se pretende é menos explicar as bases socioeconômicas da resistência antinietropolitana no hemisfério ocidental entre. os laços afetivos de nacionalismo foram suficientemente elásticos.'Se. a ponto de precipitar uma guerra de secessão quase um século depois da Declaração da Independência. do que "fazer parte deles". -o território passou para o Rio de Praia. 49 do que a Venezuela e equivalente a um terço do tamanho da Argentina. 87. Graças à ditadura relativamente benevolente alt estabelecida pelos jesuítas em princípios do século XVII. da Argentina. tJaliorr$ ancf States. 311. e o Uruguai e o Paraguai. para essa comunidade imaginada. hoje. o "fracasso" da experiência hispanoamericana em gerar um nacionalismo de âmbito hispanoamericano permanente reflete. e da América do Sul hispínica. A da Venazuala. essa guerra nos faz lembrar vivamente as que separaram violentamente a Venezuela e o Equador da GrãColômbia. os crioulos protestantes de fala inglesa estavam em posição muito mais favorável para concretizar a ideia de "América" e. mas era antes uma indignação nacionalista do que socialista. mas isso se daria por intermédio dos jornais mexicanos. há elementos de "fracasso" ou retração comparáveis — a não incorporação do Canadá de fala inglesa. mas multo tardiamente & por pouco mais de uma geração. em quão importante é. associados à rápida expansão da fronteira oeste e às contradições geradas entre as economias do norte e do sul. a década de soberania independente do Texas (1835-1846). ao mesmo tempo. 51 À guisa de conclusão provisória. "8 Ao mesmo tempo. digamos. uma ideia de simultaneidade firme e sólida através do tempo. M Estando todas elas juntas geograficamente. meses mais tarde.£3-0.776. feita por Márquaz em Cem anos de solidão. Nesse sentido. Os "Estados Unidos" puderam multiplicar gradativamente seu número no correr dos 183 anos seguintes. na verdade. espanhol peninsular] se atreve a erguer a mão para um americano!'. o nível geral de desenvolvimento do capitalismo e da tecnologia em fins do século XVIII. provavelmente. das Províncias Unidas do Rio da Prata.78 savam em si mesmas como "americanas". não seria provável que tivesse surgido ali um Estado independente.. 8. Nova York e Filadélfia eram facilmente acessíveis uns aos outros e suas populações ligadas de maneira relativamente firme pela imprensa. acabaram por ter êxito em apropriar-se do título habitual de "americanos". 2. não dos do Rio da Prata." Ibid.965 dui!õrnetros quadrados. no século XVIII. Não será o nacionalismo indiano inseparável da unificação administrativa e de mercado da colónia. também. *9 Os crioulos mexicanos podiam saber. os indígenas foram mais bem tratados do que em qualquer outra parte da América espanhola 9 o Guarani alcançou o steíus <Je língua impressa.860. um maturrango [vulg. do que a razão por que a resistência se concebeu sob formas 50 51 A superfície. realizada por poderes imperiais os mais terríveis e avançados?) Ao norte. um impacto significativo sobre seu alcance. As Treze Colónias originárias compreendiam uma área menor "Um peão velo queixar-se de que um inspetor espanhol de sua estância havia batido nele. San Martin ficou indignado. O Paraguai constitui um caso de excepcional interesse.. p. uma vez que essa expressão denotava precisamente a fatalidade do nascimento extra-espanhol que compartilhavam. e. de acontecimentos ocorridos em Buenos Aires. e tais acontecimentos antes pareceriam "ser semelhantes aos" acontecimentos ocorridos no México. mesmo no caso dos EUA. os mercados de Boston. é conveniente voltar a acentuar a pretensão limitada e específica da exposição que fizemos até aqui. 200-1. veja sol Depois de três anos de revolução. A imensa extensão do Império hispano-americano e o isolamento de suas partes componentes tornavam difícil imaginar uma simultaneidade como essa. . VarSaton-Watson.439. tanto quanto pelo comércio. e. (A época da história mundial em que nasce cada nacionalismo tem. tivesse existido uma comunidade de fala inglesa de bom tamanho na Califórnia.74 . após a Insurreição. e o atraso "local" do capitalismo e da tecnologia na Espanha em relação à extensão administrativa do império. Com a expulsão dos jesuítas da América espanhola pala Coroa. 'Ora.202 quilómetros quadrados. Contudo. em 1767. 49 Evocação fascinante da lonjura e do isolamento das populações hispano-americanas á a descrição da fabulosa Macondo.total das Tieze ColCnlas era de 835. à medida que populações antigas e novas se deslocaram rumo ao oeste a partir do núcleo litorâneo do leste. pára atuar como uma Argentina em relação ao Peru das Treze Colónias? Até mesmo nos EUA. 1760 e 1830. vimos que a própria concepção do jornal implica na refracão de "eventos mundiais" idênticos em um determinado mundo imaginado de leitores na língua vulgar. p.

de importância fundamental. os funcionários crioulos peregrinos e os homens de imprensa crioulos provincianos tiveram o papel histórico decisivo. Com leviana despreocupação a respeito de alguns fatos evidentes extra-europeus. Ela se tornou suscetível de plágio por mãos as mais variadas e. o tipo. Os interesses económicos ern jogo são bem conhecidos e. es liai seine National Bil- . e não que se fosse definindo gradativamente. de comunidade imaginada que se protegesse contra a espoliação daqueles regimes. que: "Denn/ecfes Volk i st Volk. ou criaram. NOVOS MODELOS 54 É ilustrativo que a Declaração da Independência de 1776 fale somente de "o povo". nem o Iluminismo podiam criar. Netionslism. por si sós. por vezes.' Kcrnílãinen. p. em quase todos. o centro de nossa análise será a língua impressa e o plágio. A "nação" tornou-se. . não tão remotos. ANTIGAS LÍNGUAS. 105. O que estou sugerindo é que nem o interesse económico.— em oposi-. Em segundo lugar. dois traços notáveis os distinguem de seus precursores. Em primeiro lugar. imprevistas.após as convulsões da Revolução Francesa. Na verdade. em fins do século XVIII. obviamente. nenhum deles proporcionou o quadro de uma nova consciência — a mal percebida periferia de sua visão. ern outras palavras. Por isso. entre 1820 e 1920. sobretudo propiciando um arsenal de crítica ideológica do regime imperial e dos anciens regimes. 52 No cumprimento desta tarefa específica. enquanto a patavra "nação" só aparece pola primeira vez na Constituição de 1789. Se considerarmos o caráter desses novos nacionalismos que. o grande Johann Gottfried von Herder (1744-1803) declarou. a "nação" mostrou ser uma invenção que era impossível patentear. cão ao que estava no foco central de sua admiração ou desagrado. O liberalismo e o Ihiminismo tiveram evidentemente um efeito muito forte. neste capítulo. as "línguas impressas nacionais" foram de fundamental importância ideológica e política. assim. nem o liberalismo.76 nacionais "plurais" — e não de outras formas. ou a forma. algo a que se podia aspirar desde o início. como veremos. alteraram a fisionomia do Velho Mundo. O término do período de movimentos de libertação nacional bem-sucedidos na América coincidiu quase que exatamente com o início da época do nacionalismo na Europa. enquanto que o espanhol e o inglês jamais foram temas na América revolucionária. todos tiveram condições de aluar a partir de modelos disponíveis propiciados por seus predecessores remotos e.

78 79 dung wie seine Sprache". e de modo algum necessariamente em benefício desta última. sobre esse pano de fundo. os franceses tiveram a 'coragem de considerar 1 2 3 sua própria cultura como um modelo válido em igualdade de condições com a dos antigos. essas civilizações haviam-se desenvolvido completamente isoladas da história conhecida da Europa. em 1497-1498. não estavam separados do presente unicamente por uma extensão de tempo. A batalha se iniciou em 1639. Quais as origens desse sonho? O mais provável é que. O desenvolvimento do que se pode chamar "história comparada" levou. Japão. há um claro contraste entre os cois famosos mongíis do teatro inglês.. de Swift (1726). o humanismo cria uma perspectiva histórica em profundidade tal como nenhuma época anterior de que temos conhecimento jamais possuiu: os humanistas vêem a antiguidade em profundidade histórica e. 4 No correr do século XVI. começou a havei1 um sentimento de que os eventos da história e da lenda clássicas. de maneira bastante paradoxal. com 69 anos. "modeladas" sobre descobertas reais. A Utopia de Thomas Morus. 42. fictício ou real. vieram os astros do Ilumimsmo. uma vez que foram compostas como críticas a sociedades contemporâneas. descreve um fabuloso dirtasta morto desde 1407. Com seu programa de restauração das antigas formas de vida e de expressão. mas também por condições completamente diversas de vida. com o tempo. rettala um Imperador contemporâneo reinante n 358-1707]. da antiguidade. Como bem o diz Auerbach: 2 Com a primeira alvorada do humanismo..esf" a assa "sua própria". ele possui sua formação nacional como possui sua língua". surgida em 1516. Deveríamos também sar parcimoniosos. 3 Citando mais uma vez Auerbach. em tempo e espaço. ou a ingenuidade histórica dos séculos Xíl e XIII. mas como sociedades contemporâneas.) O impacto das "descobertas" pode ser aferido pelas geografias peculiares das sociedades imaginárias da época. Tamburlaifia r/te Qraat (1587-158. da Marlowe. são descritas. simulava ser o relato de um marinheiro que o autor encontrou em Antuérpia. bem como os da Bíblia. ex* Mimesis. o qual participara da expedição de Américo Vespúcio à América.] Essa concepção notavelmente e«£-européia da nation-ness como algo vinculado a uma língua própria e exclusiva teve ampla influência na Europa do século XIX e. a "descoberta" feita pela Europa das grandiosas civilizações de que até então só se ouvira falar vagamente — na China. publicou seu poema Síécíe de LQUIU lê Grend. p. (Somente o tempo homogéneo e vazio permitiria acomodálas. todo povo é povo. Observe que Auerbacn diz "cultuis" e não "língua". que afirmava que as ar. [Isso tornou impossível] restabelecer a vida autárquica natural da antiga cultura. de Dtyden. quando Charles Perra u't. o período intermediário de trevas da Idade Média. Moníesquieu. Sudeste da Ásia e no subcontinente indiano — ou que eram completamente desconhecidas — o México asteca e o Peru incaico — sugeria um irremediável pluralismo humano. Grifo nosso. A majestosa Ilha dos Houyhnhnms. Voltaire e Rousseau que.es e as ciências haviam atingido plena prosperidade em seu próprio tempo e lugar. 343. 5 Na esteira dos utopistas. KemilâMen. Poderia afirmar-se que tinham de ser assim. mais limitadamente. pela expansão planetária da Europa. p. e impuseram essa opinião ao resto da Europa". nas teorias subsequentes sobre a natureza do nacionalismo. A questão foi encarniçadamente debatida na "Batalha dos Antigos e Modernos" que dominou a vida intelectual francesa na última quarta parte do século • XVII.se encontrem na profunda redução do mundo europeu. ' ["Assim. M/mesis. em atribuir "fisrton-r. Grifos nossos. A Nova Atlântida de Francis Bacon (1626) foi talvez original sobretudo porque se localizava no Oceano Pacífico. Nstionalism. 5 Analogamente. causado inicialmente pelas escavações dos humanistas e» posteriormente. que teve início já no século XIV. apresentava um mapa fictício de sua localização no Atlântico Sul.) Todas essas utopias enganosas.8]. e que as descobertas tinham dado fim à necessidade de buscar modelos em uma antiguidade desaparecida. na verdade do homem: suas genealogias eram exteriores e inaâsimiláveis ao Éden. Viço. "Na época de Luís XIV. Aurangieb \fàlfi). 282. . cada vez mais. p. Em sua maior parte. da cristandade. (Ô significado desses cenários fica mais claro se se considerar quão inimaginável seria localizar a República de Platão em qualquer mapa. à concepção até então inaudita de uma "modernidade" explicitamente justaposta à "antiguidade". não como Paraísos perdidos.

E a maior parte de sua clientela imediata constituía-se. que se podiam transportar (ainda que às vezes com dificuldade) da . as descobertas e conquistas causaram também uma revolução nas ideias europeias a respeito da língua. ou por elas sustentados.80 81 pioraram uma não-Europa "real" para uma bateria de obras subversivas dirigidas contra as instituições sociais e políticas europeias então vigentes. um dos aspectos mais valiosos do texto de Seton-Wauon é exatamems a stençáo que dedica à historia da língua — embora se possa discordai do modo como a utiliza. hoje em dia. 6 No devido teiripo.Os dicionários raonolíngúes eram enormes compêndios do tesouro impresso de cada língua. com seus estudos de gramática comparada. em princípio. realmente se iniciou. dentro das capas do dicionário Checo-alemão/Alemão-checo. uma idade do ouro para os lexicógrafos. as línguas. é. iam-se concebendo genealogias que só poderiam conciliar-se em um tempo homogéneo e vazio. eram todas igualmente dignas de estudo e de admiração'. p. p. s Hobsbawm. Da expedição de Napoleão ao Egito veio a decifração dos hieróglifos por Champollion (1835). The Age of Revolulion. ainda que com o risco de menor domínio da área. marinheiros.degradação anterior no mercado pelo capitalismo editorial. '? A vigorosa atividade desses intelectuais profissionais foi fundamen. económica e social convencional. de caráter científico.'. comércio e guerra — colecionaram listas de palavras de línguas não-européias. é quçtfné pareceu desejável associá-la a estas. comerciantes e soldados portugueses.• tal na moldagem dos nacionalismos europeus do século XIX. uma vez que agora nenhuma delas pertencia a Deus. 337. Os dicionários bilíngues tornavam evidente um igualitarismo mais apro. a civilização indiana era muito mais antiga do que a da Grécia ou da Judéia. ali estava "a primeira ciência a encarar a evolução comp sua própria essência". o século XIX foi. Desde os primeiros momentos. entre eles mesmos. de estudantes universitários ou préuniversitários." Nations and States. oficina para a escola. Otientatism. Mais uma vez. missionários. De fato. e não necessariamente a Escolhida. e particularmente as 10 Assim. pôr seusnovps' donos: os falantes — e leitores — nativos de cada língua.. em geral'. "Â língua tornouse menos urna continuidade entre um poder exterior e o falante humano do que um terreno interior criado e realizado. filologistas e literatos das línguas vulgares. 337. Mas por quem? Logicamente." 8 Dessas descobertas surgiu a filologia. as antigas línguas sagradas — o latim. o grego e o hebreu — foram obrigadas a misturar-se em condições de igualdade ontológica com variegada e plebeia multidão de línguas vulgares rivais. "Exatsmente porque a historiais língua. Mas somente em fins do século XVIII é que o estudo comparado de línguas. tornou-se possível pensar a Europa como apenas uma entre muitas civilizações. Pa conquista inglesa de Bengala se originaram as investigações pioneiras de William Jones sobre o sânscrito (1786). p. 136. . por dedução científica. escritório para a casa. mantida tão rigidamente separada da historia política. The Age of Revolution. exatamente como as escolas. do. num movimento que complementava sua . ou de proveniência divina. que levou a uma compreensão crescente de que. ' Hobsbawm. 9 0 A partir daquele momento. De lato. pelos usuários da língua. classificação de línguas em famílias e. por motivos práticos — navegação. holandeses e espanhóis. sobretudo as das universidades. gramáticos. Os rriourejadores visionários que dedicavam anos e anos à compilação dos dicionários eram necessariamente levados para as grandes bibliotecas dá Europa. Como nos mostra de maneira muito proveitosa SetonWatson. "que multiplicou a antiguidade extra-européia. em total contraste com a situação na América entre 1770 e 1830. 11. que seriam reunidas em dicionários elementares. p. A marginalizarão do Império do Centro para o Extremo Oriente é simbólica desse processo. não menos inevitavelmente. então. possuíam idêntico staíus. Como observa correiamente Hobsbawm. ou a melhor.ximador entre as línguas — fosse qual fosse a realidade política exterior. reconstruções de "protolínguas" tiradas do esquecimento. 7 Progressos nos estudos semíticos abalaram a ideia de que o hebreu fosse singularmente antigo. na Europa e em sua periferia imediata. enquanto o imperialismo europeu abria vigorosamente seu caminho descuidado pelo mundo. outras civilizações se viam traumaticamente confrontadas por pluralismos que aniquilavam suas genealogias sagradas. lado alado. conversão. 8 Edward Said. Se agora todas as línguas compartilhavam um status (intra)mundano comum. A afirmação de Hobsbawm de que "o progresso das escolas e das universidades dá a medida do nacionalismo.

Essa dolorosa descoberta.000. até que a explosão total final transforma a noite em dia. mas seu ímpeto polémica era mais convincente do sue o valer estático dos exemplos que criou. em 1803: M Pela primeira vez. . n Estímulo ulterior foi propiciado Não pretendendo simular qualquer conhecimento especializado sobre a Europa Leste e Central. o número de adolescentes nas escolas ainda era mínimo pelos padrões de hoje: não mais de 19. A magna opera de Bessenyei destinava-se a provar que a língua húngara adaptava-se ao mais elevado género literário".000 estudantes universitários em Paris. em discurso para um público francês. em prol da substituição do alfabeto cirílico pelo alfabeto romano (distinguindo nitidamente o romeno das vizinhas línguas eslavas ortodoxas). 166.000 estudantes de lyoée na França. 157-82. moldada na Academia Francesa. No último quartel do século. proveitosamente. que se inicia com esta sugestiva frase: "Uma nação nasce quando algumas pessoas decidem que ata deve existir". 167). "De fato o provou. Em 1835-1839. isto é. na época morando em Viena e trabalhando na escolta de Maria Teresa. Philike Hetairia. o grande novo porto russo rfe grãos". embora houvesse 6. em 1814. 13 Símbolo dessa mudança de consciência são as seguintes palavras de um desses jovens.000 alunos no secundário. Grifo nosso. * i 12 The Age a! Revolufion. ou devemos tentar tornar-nos novamente dignos desse nome." Talvez valha a pena observar que assa passagem sã encontra em uma subsecão Intitulada "The Inventing of trie Hu-ngarian Nation". se tornaram seus paladinos mais conscientes". em dezenas de livros. em 1850. e um total aproximado da 48. seguidos de um movimento. ou não devemos ostentá-lo. e. apareceram gramáticas. empenharam-se em "desbarbarizar" os gregos modernos. o padre católico Josef Dobrovsky (1753-1829) escreveu. a que se seguiu. 44. em formas impressas de fácil manejo. foi publicado o dicionário pioneiro checo-alemão. 166-7). a sociedade secreta responsável sm grande medida pelo levante antiotomano de 1821. inicialmente bem-sucedido nos reinos dos Habsburgos e. em transformá-los em seres dignos de Péricles e de Sócrates. esse grupo reduzido. p. assim. Embora. a antiga civilização helénica. reconstituir essa revolução lexicográfica como se poderia fazer com o estrondàr de um arsenal em chamas. ano da publicação de algumas obras ilegíveis do versátil autor húngaro GyÕrgy Bessenyei. Adamantios Koraes (que mais tarde. o checo fosse ainda a língua apenas dos camponeses da Boémia (a nobreza e as classes médias ascendentes falavam o alemão). ver Narions and States. 17 Paul Ignoius. porém. desempenhou papel essencial (p. mas estratégico. 177. O próprio Hobsbawm observa que. 40. virtualmente todo o corpus existente dos clássicos gregos. porém. em 1848. Geschichte der bòhmische Sprache una ãltern Literatur. se tornou um ardoroso lexícógrafo!). O texto integrai de Koraes. " Pode-se. Hungaty. escreve Ignotus ser ele um acontecimento "suficientemente recente no tempo: 1772. nos dos otomanos. franceses e ingleses não apenas havia tornado acessíveis.. l2 Entusiasmados pelo filo-helenismo dos centros da civilização europeia ocidental. quando cada pequena explosão acende outras. l5 Entre 1789 e 1794. eles n5o desempenharam virtualmente pape! algum na Revolução Francesa (p.. A respeito do romeno.. Em meados do século XVIII. a maioria dos quais havia estudado ou viajado para fora dos limites do Império Otomano. de Josef Jungmann.82 83 universidades. fulgurante e firmemente pagã. esse "passado" tornouse cada vez mais acessível a um pequeno número de jovens intelectuais cristãos de fala grega. certamente está correia em relação à Europa do século XIX. o extraordinário trabalho de estudiosos alemães. Ele contém uma análise espantosamente moderna das bases sociológicas de nacionalismo grego. em 1792. produziu um dicionário russo em seis volumes. As instituições académicas não tiveram significado para os nacionalisrnos americanos. Ele também nos faj ver. em cinco volumes. Ambos representaram uma vitória da língua vulgar sobre a língua eslava da Igreja. como também recriavam.000 da Rússia Imperial. foi fundada "em Odessa. na análise que se segue baseei-me grandemente em Seton-Waison. em Viena. 16 Sobre o nascimento do nacionalismo húngaro. na época.. . Analogamente. numa população de 68. «> Ibid. já entrado o século XVIII. p. dicionários e histórias do romeno. juntamente com os anexos filológicos e lexicográficos necessários. dizem tacitamente a si mesmos.000 estudantes universitários em toda a Europa. em 1842. p. p. 20. p. 15 • Os primeiros jornais gregos surgiram em 1784. uma gramática oficial. 1-1 Ibid. 150-3. em fins do século XVIII. se não para outras épocas e lugares. a Academia Russa. em Paris. não lança os gregos no desespero: somos os descendentes dos gregos. que. p. embora a educação se disseminasse rapidamente na primeirã metade da século XIX. a nação reconhece o espetáculc horroroso de sua ignorância e estremece ao avaliar a distância 11 que a separa da glória de seus ancestrais. posteriormente. "The Present State of Cívilization In Greece" encontra-se nas p. primeira história sistemática da língua e da literatura checas. 43-4. Nas revoluções deste ano. em 1802. 13 Ver a introdução de Elíe Kedouríe a Nalionalism ín Ásia en<j África.

É ilustrativo que Kazinczy tenha apoiado potiticamante José II nessa questão flgnotus. em fins do século XVIII. Capitulo V). p. o servo-croata e o búlgaro. 18 No período de 1800-1850. a cujo respeito observa Seton-Watson que "a formação de uma língua literária ucraniana aceita deve mais a ele do que a qualquer outro indivíduo. 2329261. havia sido geral a ideia de que os "búlgaros" eram da mesma nação dos servos e dos croatas. fundador do primeiro jornal desse tipo./Víf/ona/ís/n. 23Kohrv. 137. Shevchenko foi destruído na Sibéria. do persa e do áraba. A reaçêo foi suficientemente violenta para persuadir seu sucessor. O uso dessa língua foi a etapa decisiva na formação de uma consciência nacional ucraniana". a língua oficial tornou-se o russo. Os maronitas e os coptas. Ivan Kotlarevsky escreveu sunAeneid. as obras de Taras Shevchenko. porém. e de fato haviam participado do Movimento Ilírico. Em outra parte. em consequência do trabalho pioneiro de estudiosos locais. encontramos o nacionalismo africâner a que deram início os pastores e literatos bóeres que. o nacionalismo surgiu com a nova gramática (1848) e o novo dicionário (1850) noruegueses de Ivar Aasen. The Age of fjaííana!ism.. Em 1804. Ê típico que Ibrahlm Sinssi. 1E8-61. nos anos iniciais do século XIX. 72. p. em 1846. p. "Ibid. da pequena cidade provinciana de Trnava para Budapeste. três línguas literárias diferentes se formaram ao norte dos Bálcãs: o esloveno. o ucraniano (o pequeno russo) era desdenhosamente tolerado como língua de caipiras. '9 Nations and States. Isso significava urna rejaiçSo do "otomano". 23 z°Kemilâinen. na década de 1870. "o pai da literatura húngara". a restaurar o latim. M E as sementes do nacionalismo turco podem ser facilmente descobertas no surgimento de uma ativa imprensa em língua vulgar em Istambul. havia sete diários em Ungua turca em Constantinopla. em 1878 passaria a existir separadamente um Estado nacional búlgaro. em nome da qual se poderia propor reivindicações políticas mais vigorosas". apareceu a primeira gramática ucraniana — apenas 17 anos depois da gramática oficial russa. Não é preciso diíer que o Tzarismo liquidou rapidamente com essas passoas. O estudo do folclore e a redescoberta e reconstituição da poesia épica popular caminhavam par a par com a publicação de gramáticas e dicionários e levava ao surgimento de periódicos que eram úteis para padronizar a língua finlandesa literária [isto é. 20 Os líderes do nascente movimento nacionalista finlandês eram ''pessoas cuja profissão consistia em grande medida no manejo da língua: escritores. il No caso da Noruega. Leopoldo II (r. Mas o "despertar" de um interesse pela língua finlandesa e pelo passado finlandês. Se. poema satírico extremamente popular sobre a vida ucraniana. na década de 1780. na década de 1820 passou a manifestar-se cada vez mais na língua vulgar. Quando ele saiu à frente. 1790-1792). Hungary. SetoivWatson. ainda que com pronúncia completamente diferente. 16 nios do tzar. Os^absburgos. foram bem-sucedidos em fazer do dialeto holandês local uma língua literária e denominando-a não mais como europeia. p. em 1809. a primeira organização nacionalista ucraniana foi fundada em Kiev — por um historiador! No século XVIII. contra a decisão do imperador José II de substituir o latim pelo alemão. que se tornou rapidamente o centro de uma explosão da literatura ucraniana. textos que eram uma resposta e um estímulo às reivindicações de uma língua impressa especificamente norueguesa. na década de 1870. E vieram a seguir. . 208-15. impressa]. língua oficial dinástica que misturava B ementas do turco. Ver também adiante. muitos deles produtos do American College de Beirute (fundado em 1866) e do College Jesuíta de São José (fundado em 1875) foram os que mais colaboraram para o renascimento do árabe clássico e para a disseminação do nacionalismo árabe. Sua primeira expressão política foi a reação hostil da nobreza magiar que falava o latim. Após a união do território aos domíSeton-Watson. do que viria a ser a Universidade de Budapeste. encorajaram um pouco os nacionalistas ucranianos na Galícia — para contrabalançar os poloneses. Em 1819. houvesse acabado de vohar de cinco anos de estudos na França. outros lago o acompanharam. foi fundada a Universidade de Karkov. em 1784. pastores e advogados. Em 1875. porém. professores. na década de 1830. expresso de início por textos escritos em latim e em sueco. e pela mudança. que por muito tempo compartilhara uma língua escrita com os dinamarqueses. 19 Pouco tempo depois. No século XVIII. 105-7. a língua de Estado na Finlândia de hoje era o sueco. como língua principal da administração imperial.84 85 pelas inúmeras publicações de Ferenc Kazinczy (1759-1831). p. p. Em 1798. 48). na década de 1830. Nations and States. Nations and States. 21 p.

e 35. Eles não tinham uma razão necessária para conhecer a existência um do outro. Quem eram esses consumidores? No sentido mais geral: as famílias das classes leitoras — não apenas o "pai que trabalhava". Kateen&tein. elas eram. Depois de Dobrovsky veio Smetana. ou se o Rei da Inglaterra se casava com uma princesa espanhola — terão eles alguma vez conversado verdadeiramente um com o outro? As solidariedades eram produto do parentesco. jornalistas e compositores não desenvolviam suas atividades revolucionárias no vácuo. e as burguesias comercial e industrial. ao público consumidor. extremamente irregular — maciça e rápida em alguns lugares. Se o governante do Sião tomava uma'nobre malaia como concubina. os Estados mais adiantados da Europa.86 87 E não se deve esquecer de que essa mesma época assistiu à popularização de outra forma de página impressa: a partitura. revelou-se a mesma tendência. só veio a ser uma classe mediante muitas cópias. Um dono de fábrica em Lille só estava ligado á um dono de fábrica de Lyon por reverberação. folcloristas. ou. os profissionais liberais. não se casavam com a filha um do 25petei J. depois de Aasen. quase metade da população ainda era analfabeta (e na atrasada Rússia. em 1829. e a personalização das relações políticas subentendidas nas relações sexuais e na herança. 40% na França. mas. ainda que tipicamente em ritmo mais lento e mais tardio: o componente de classe média do corpo de oficiais subiu de 10% para 75%. claro. cálculos maquiavélicos à parte. mas também a esposa rodeada de criadas e os filhos em idade escolar. abriu as portas da nomeação oficial a números muito maiores e a origens sociais muito mais variadas do que até então. decrépita. p. A Europa de meados do século XIX assistiu a um rápido aumento das despesas do Estado e das dimensões das burocracias estatais (civil e militar). entre 1859 e 1918. em 1804. Veja-se até mesmo a máquina estatal austro-húngara. mesmo na^GrãBretanha e na França. . "classes leitoras" significava gente de algum poder. O tamanho relativamente pequeno das aristocracias tradicionais. em 1878. depois de Kazinczy. e assim por diante pelo nosso século adentro. para 55. a despesa pública per capita aumentou de 25% na Espanha. ainda em 1840. além das antigas classes dirigentes da nobreza e da pequena nobreza fundiária. ocorrendo em taxas comparáveis tanto nos Estados adiantados quanto atrasados da Europa. não com base na língua ou na cultura que compartilhassem. as camadas médias ascendentes de pequenos funcionários plebeus. Béía Bártok. Dvorak e Janácek. a ascensão das burguesias comercial e industrial foi. 229. 75% nos EUA e mais de 90% nos Países Baixos". em 1859. Se observarmos que. "Entre 1830 e 1850. 70% na Áustria. 2* A expansão burocrática. Grieg. gramáticos. suas bases políticas estáveis. que significou também especialização burocrática. lenta e interrompida em outros. Mas não importa onde tenha ocorrido. filólogos. 112. é patente que todos esses lexicógrafos. 50% na Bélgica. os cortesãos e membros do clero. The Age of Revotution. Ao mesmo tempo. K Se a expansão das classes médias burocráticas foi um fenómeno relativamente uniforme. 44% na Rússia. Áustria and Germany sints WJ5. por intermédio desse silencioso bazar. tipicamente. eles produziam para o mercado da imprensa. falando figuradamente. DisfainedParfners. Uma nobreza analfabeta ainda podia atuar como nobreza. indicam que sua coesão como classe era tão concreta quanto imaginada. da dependência e de lealdades pessoais. essa "ascensão" deve ser compreendida em suas relações com o capitalismo editorial em língua vulgar. passando por 27. Mais concretamente. Nas forças armadas. p. e se vinculavam. pelo menos. Afinal de contas. 74. As classes dirigentes pré-burguesas geraram sua própria coesão em certo sentido independentemente da língua. Nobres "franceses" podiamajudar reis "ingleses" contra monarcas "franceses".Mas e a burguesia? Eis aí uma classe que. quase 98%). plena de sinecuras e dominada pela nobreza: a porcentagem de homens originários da classe média nos postos mais elevados de "Hobsbawm. a despeito da inexistência de qualquer guerra local de maior importância. sua metade civil subiu de O. com base' em parentescos e amizades comuns. da língua impressa.

Excelente e pormenorizada exposição encontra-se em Ignotus. o latim fora vencido pelo capitalismo editorial em.) Em muitos outros reinos. ser a língua dos negócios. a preservação do húngaro impresso contra a maré montante do alemão era defendida por segmentos da nobreza menos importante e da pequena nobreza fundiária empobrecida. 44-55: vertarnbCmJàszi. poliglota. (Esses casos aproximam-se! mais dos da América. ocorreu que houvesse. 165. . ela mesma alemã como alguns podem considerá-la. 27 Hobsbawm. seria lícito esperar que um nacionalismo cônscio de si mesmo surgisse por último. a adoça» de línguas vulgares corno Itnguss de Estado nesses dois reinos estava em andamento desde muito cedo. mas uma de cada 8 pessoas reivindicava algum status aristocrático. pequenos nobres fundiários. Pois é difícil imaginar uma burguesia analfabeta. século XIX. O latim se manteve como língua de Estado na Áustria-Hungria até inícios da década de 1840. The Age effíevolutlon. E tal expectativa é corroborada.88 89 outro. por exemplo.) Em termos das clientelas de nossos lexicógrafos. das ciências. a língua inglesa expulsou o gaélico da maior parte dai Irlanda. uma coincidência relativamente alta entre língua de Esta» do e língua da população. do comércio. especialmente num mundo em que essas /línguas se interpenetravam continuamente. em que. não admira pois que se encontrem conjuntos muito diferentes de clientes segundo as diferentes condições políticas. como veremos adiante mais detalhadamente. da indústria. a exaltação do alemão no século XIX pela corte dos Habsburgos.proporção. Assim. em termos de história mundial. Porém. onde virtualmente não existia uma burguesia magiar. TheDissolution. esse tipo de coincidência era raro e os impérios dinásticos intra-europeus possuíam basicamente mais de uma língua vulgar em seu território. Assim. não tinha nada a ver com o nacionalismo alemão. Mas tal clientela não estava plenamente realizada quase em parte alguma e as combinações dos consumidores concretos "variava consideravelmente de região pára região. Dizendo doutro modo. f>. Nesse ínterim. Poderia ser a língua de Estado. o poder e a língua impressa mapeavam reinos distintos entre si. (Em tais circunstâncias. havia um isomorfismo quase perfeito entre o âmbito dos diversos impérios e o de suas línguas vulgares. mas cada vez mais letrado. a substituição do latim por qualquer língua vulgar. há perto de dois séculos.francês limitou o âmbito do bretão e o castelhano compeliu o catalão à marginalidade. da imprensa ou da literatura. por razões absolutamente externas. Mais típica. 21 Pode-se dizer o mesmo dos leitores poloneses. era a coali26 Como vimos. Na Europa. era em grande medida não planejado. onde. mas desapareceu quase imediatamente a seguir. Para perceber por que. essas solidariedades tinham seu maior alcance limitado por legibilidades em língua vulgar. Em reinos como a Grã-Bretanha e a França. as burguesias foram as primeiras classes a consumar solidariedades numa base essencialmente imaginada. em cada reino dinástico. Membros da nobreza. funcionários e homens do mercado — eram estes. contudo. No casa do Beira Unida. Na América. e parecia ameaçador. profissionais liberais. mas só se pode ler a escrita de um certo povo. das comunicações e das máquinas estatais. Grifei a palavra qualquer. assegurava vantagens enormes àqueles de seus súditos que já utilizassem aquela língua impressa. que caracterizou o século XIX. uma vez que. em meados do século. Em outras palavras. porém. & submissão militar do Gaeltactrt no início do Século XVIII B a depressão da década de 1B40 foram poderosos fstores concorrentes. * O crescimento generalizado da alfabetização. as consequências foram inevitavelmente explosivas. na mesma. então. língua vulgar. pelo menos de início. Mas chegavam a visualizar de um modo geral a existência de milhares e milhares de outros como eles por intermédio da língua impressa. dos quais a Áustria-Hungria é provavelmente o exemplo extremo.Hungary. numa Europa do. é preciso que se retorne ao contraste básico antes traçado entre a Europa e a América.p. aos que não a utilizassem. mas não poderia. o.pelos registros históricos. em meados do século XIX. 26 a interpenetração geral a que aludimos acima não teve consequências políticas dramáticas. . criou novos impulsos vigorosos no sentido da unificação das línguas vulgares dentro de cada reino dinástico. os consumidores potenciais da revolução filológica. 224-5. pode-se dormir com qualquer pessoa. Na Hungria. entre os naturais da terra que lessem a língua vulgar oficial. as línguas de Estado vulgares assumiam cada vez mais poder e status em um processo que. Em seu vasto domínio desmantelado. nem herdavam as propriedades um do outro. no século XIX. p.

Os ricos patrocinam a impressão de livros traduzidos do italiano. ainda que estes houvessem de fato proclamado a abolição da servidão. quando o 'povo encontrava um novo motivo de orgulho na exaltação pela imprensa de línguas que haviam falado humildemente por tanto tempo. jovens ávidos de aprender. ram-se aos revolucionários poloneses. conseqúèntemente. nem por homens que estivessem procurando levar a cabo um programa sistemático. jornais e formulações ideológicas. e o convite tinha de ser escrito numa língua que elas entendessem" 3I — está correta. O agradável Koraes oferece-nos uma vinheta precisa da clientela inicial do nacionalismo grego. 170. aquela experiência foi modelada por milhões de palavras impressas como um "conceito" sobre a página impressa e. E3 (Egito) e 103 (Pérsia). em 1846. por que "ela" foi bem-sucedida ou fracassou. 23 Para exemplos. Kohn. na qual. frequentemente. The Sreak-up ofSrítBrrt. como um modelo. The Age of fígvoàittón. enviam para a Europa. o que onçarã ds frente é Constantinopla. preferindo massacrar os cavalheiros e confiar nos funcionários do Imperador". dão a seus filhos melhor educação. Ela nem mesmo projetou 'líderes' do tipo a que nos habituaram as revoluções do século XX. Mas será difícil perceber por que o convite parecia tão atraente. a menos que nos voltemos finalmente para o plágio. Coalizões de leitores. Hobsbawm observa que "A Revolução Francesa não foi feita nem conduzida por um partido ou movimento organizado. 153 (Boémia) e 432 (Eslováquia). com composições que se localizam de maneira diversa na gama de variação entre a húngara e a grega. ver Seton-Watson. Nutions and States. tudo passa a ser tema de polémicas infindáveis por parte de partidários e de ad30 3' 3! TheAgecfRewkttion. sem exclusão das meninas. 28Kedourie. Grifos nossos. poesia.90 91 zão entre os nobres menores. os primeiros forneciam os líderes de "reputação". dinheiro e facilidades de mercado. Q otomano nSo 6 contudo uma língua estrangeira. tornava-se mais fácil conseguir o apoio popular. desempenhava papel mediador essencial.. no devido tempo. A irresistível e desconcertante concatenação de eventos experimentada por seus autores e por suas vítimas tornou-se uma "coisa" — e com um nome próprio: Revolução Francesa. a impressionante formulação de Nairn -— "A nova intelligentsia de classe média do nacionalismo tinha de convidar as massas a entrar na história. no sentido moderno. a suas expensas. 169. E . p. 80. pelo Oriente Médio. ingressou na memória acumuladora da imprensa. talvez. que possuíam alguns habitantes abastados e algumas escolas e. . Num extremo. Outro extremo é sugerido pelo comentário irónico de Hobsbawm de que: "Os camponeses galicianos. 340. Em algumas dessas cidades. as escolas já estão sendo ampliadas e o estudo de línguas estrangeiras e até mesmo das ciências que são ensinadas na Europa [sic] está sendo introduzido nelas. 30 Mas por toda parte. 72 (Finlândia). p. mitos. 145 (Bulgária). e os últimos. em que predominavam os intelectuais e os empresários: 2S Nas cidades que eram menos pobres. alguns indivíduos que podiam pelo menos ler e compreender os autores antigos. com o avançar do século. Nationallsm in A$i» and África. p. Quando Koraes olha para a "Europa". Do mesmo modo que uma imensa rocha informe se torna um penedo arredondado pela ação de inumeráveis gotas de água. desenvolveram-se de maneira semelhante por toda a Europa Leste e Central e. os profissionais liberais e os homens de negócio. do alemão e do inglês. na verdade. p. Até certo ponto. 29 Em que medida as massas urbanas e rurais participavam das novas comunidades linguisticamente imaginadas naturalmente também variava muito. e próximo dele. p. os académicos. pode-se indicar a Irlanda.. p. Tudo aqui é exemplar. opuseorg. a que "ela" visava. do francês. e por que alianças tão diversas eram capazes de emiti-lo (a intelligentsia de classe média de Nairn não era absolutamente o único anfitrião). Isso dependia muito das relações entre essas massas e os missionários do nacionalismo. á por sobre o ombro. até que surgisse a figura pós-revolucionária de Napoleão". pois. onde um clero oriundo do campesinato. a revolução começou mais cedo e pôde progredir mais rápida e animadoramente. 3Z Mas uma vez que ela aconteceu. as fuigras esposas som trabalho ingressam no mercado da impransa.. Por que "ela" irrompeu. à medida que era maior a alfabetização. os segundos e terceiros. The Age of Nationalism.

provavelmente. na segunda década do século XIX. Da confusão americana brotam estas realidades imaginadas: Estados-nação.que'imediatamente. mas também 0. Ibid. Na "realidade".) Mas exatamente porque era então um modelo conhecido. Compare-sei "O próprio nome de RsvoluçSo Industrial reflete seu impacto relativamente tardio sobre a Europa. de tal modo que. ainda que lembrado. e da língua compartilhada das repúblicas "modais" da América do Sul. até depois de 1870. nobrezas hereditárias. Até mesmo as pequenas nobrezas húngara e polonesa.92 versários: mas de que "ela" foi alguma coisa. instituições monárquicas. "projetos". p. cidadania universal. 35 • Não que isso fosso uma questão muito definida. ninguém jamais teve muita dúvida. aparece como uma anomalia inconsequente.. eram monarquias restauradas e o dinasticismo ersatz do sobrinhoneto de Napoleão.45-6 e 81. mais preciso dizer que o modelo era uma complexa mistura da si e mantos franceses e americanos. bem coma do alemão vulgar. 3i queria dizer um Estado em que o locus fundamental da soberania tinha que ser a coletividade dos falantes e leitores húngaros. "modelos" e. soberania popular. assim que se imprimiu a respeito deles. 45. impunha certos "padrões" em relação aos quais não se permitiam desvios muito acentuados. se não antes. e assim por diante. atrasadas e 33 reacionárías. Não foi senso na década de 1820 que socialistas Ingleses e franceses — eles próprios um grupo sem precedentes — a inventaram. seja o que for. Se quiserem. B nobreza media e infericr "conversava em um latim vulgar salpicado de expressões do magiar. e a liquidação de seus contrários: impérios dinásticos. guetos. Ap&nas um terço dns servos falavo magiar. J3 De modo muito semelhante. da ESrvio B do romano.. Mas a "realidade observável" da França. bandeiras e símbolos nacionais. De fato. . todos eles. Se "húngaros" mereciam um Estado nacional. o caráter "populista" dos primeiros nacionalismos europeus. Hungtry. absolutismos. 34 Seria. instituições republicanas. servidões. a alta aristocracia magiar falava irancâs ou alemão. demagogicamente. era mais profundo do que na América: a servidão tinha que terminar. nesse contexto. a expansão do sufrágio..) Além disso. a lógica da peruanização de San Martín estava funcionando. e.. já havia um "modelo" "do" Estado nacional independente à disposição para ser plagiado. p. e assim por diante. A coisa Isicl existia na Grã-Bretanha antes da palavra. que este capítulo focalizou. No Início do século XIX. de fato. (Nada mais chocante. do que a "supressão" generalizada da escravidão maciça dos EUA "modais" do século XIX." Ignoius.. os movimentos de independência na América se tornaram "conceitos". pelos grupos sociais mais retrógrados. Metade dos súdito» do reino da Hungria sra nõo-rnagiar. a promoção da educação popular. então isso queria dizer "os húngaros". no devido tempo. tiveram grandes dificuldades em não realizar um espetáculo de "convidar a entrar" (ainda que apenas até a copa) seus compatriotas oprimidos. 34 (Os primeiros grupos a fazê-Io foram as coalizões de pessoas instruídas baseadas em línguas vulgares marginalizadas. Desse modo. etc. a escravidão legal era inimaginável — também porque o modelo conceptual estava colocado num lugar inerradicável. a liquidação da servidão. mesmo quando liderados. provavelmente por analogia com a revolução política da França". a validade e a generalidade do 'projeto se confirmaram indubitavelmente pelo pluralismo dos Estados independentes. o medo de Bolívar das insurreições de negros e a convocação de San Martin de seus indígenas à peruanidade chocam-se caoticamente. vassalagens.0 eslovaco. Mas a palavra impressa eliminou o primeiro quase^.

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