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Benedict Anderson

NAÇÃO E CONSCIÊNCIA NACIONAL
Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira

He regards it as his task to brush history against the grain* Walter Benjamin, fí/uminations Thus from a Mixture of ali kinds began, That Hefrogeneous Thing, An Englishman: In eager Rapes, and furious Lust begot, Betwixt a Painted Britton and a Scot. Whose gend'ring Offspring quickly learnt to bow, And yoke their Heifers to the Roman Plough: From whence a Mongrel half-bred Race there carne, • With neither Name nor Nation, Speech or Fame. In whose hot Veins new Mixtures quickly ran, !nfus'd betwixt a Saxon and a Dane. While their Rank Daughters, to their Parents just, Rece'iv'd ali Nations with Promiscuous Lust. This Nauseous Brood directly did contaín The well-extracted Blood of Engfíshmen...*" Excerto de Daniel Defoe, The True-Bom Englishman

SUMÁRIO

l Encara como tarefa sua contrariar o sentido da história. ' Assim da uma mistura de todos os tipos começou £ssa coisa heterogénea, um inglês; Gerado em estupros ardentes e arrebatada luxúria Entre um bretso sardento e um escocês'. ' Cuja prole procriadora logo aprendeu a curvar-se, E jungiu suas novilhas ao arado romano: .E dal uma raça mestiça impura se originou, Sem nome nem nação, sem fala ou fama. Em cujas vaias ardentes novas mesclas logo se fundiram. Infundidas entre um saxão e um dinamarquês. Enquanto suas filhas nobres, exatamente como os pais. Receberam todas as nações com promíscua luxúria. Essa raça repulsiva continha do fato diretamente O sangue de boa extração dos ingleses...

1. Introdução • 2. Raízes culturais 3. As origens da consciência nacional',, 4. Antigos impérios, novas nações 5. Antigas línguas, novos modelos 6. Nacionalismo oficial e imperialismo 7. A última onda _____________ 8. Patriotismo e racismo 9. O anjo da história Bibliografia __ índice alfabético

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INTRODUÇÃO

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Talvez não se tenha ainda percebido que está ocorrendo uma transformação fundamental na história do marxismo e dos movimentos marxistas. Seus sinais mais perceptíveis são as recentes guerras entre o Vietnã, o Camboja e a China. Essas guerras são de importância histórica mundial, por serem as primeiras a ocorrer entre regimes cuja independência e credenciais revolucionárias são inegáveis, e porque nenhum dos beligerantes procurou, senão perfunctoriamente, justificar o derramamento de sangue em termos de uma perspectiva teórica marxista aceitável. Embora fosse ainda perfeitamente possível interpretar os conflitos fronteiriços de 1969 entre a China e a União Soviética, as intervenções militares soviéticas na Alemanha (1953), na Hungria (1956), na Checoslováquia (1968) e no Afeganistão (1980), em termos de — conforme o gosto — "imperialismo social", "defesa do socialismo", etc., ninguém, penso eu, acreditará seriamente que esse tipo de vocabulário tenha muito a ver com o que ocorreu na Indochina. Se a invasão e a ocupação vietnamitas do Camboja, em dezembro de 1978 e janeiro de 1979, representaram a primeira guerra convencional em grande escala empreendida por um regime marxista revolucionário contra ou-

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iro. ' o ataque da China ao Vietnã, em fevereiro, confiras;/ rapidamente o precedente. Apenas os mais confiantes -•leriam apostar que, nos anos finais deste século, qualquer deflagração importante de hostilidades entre Estados encontrará a União Soviética e a China Popular — para não falar nos Estados socialistas menores — apoiando ou combatendo do mesmo lado. Quem pode estar seguro de que a lugoslávia e a Albânia não irão entrar em choque algum dia? Os variados grupos que pedem a retirada do Exército Vermelho de seus acampamentos na Europa Oriental devem recordar o quanto a presença dominante dessas forças tem evitado, desde 1945, conflitos armados entre os regimes marxistas da região. Essas considerações são úteis para salientar o fato de que, desde a Segunda Grande Guerra, cada uma das revoluções vitoriosas tem-se definido em termos nacionais — a República Popular da China, a República Socialista do Vietnã, e assim por diante — e, ao f aze-Io, basearam-se firmemente em um espaço territorial e social herdado do passado pré-revoliicionário. Ao contrário, o f ato de a União Soviética compartilhar com o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte o mérito incomum de não incluir a nacionalidade em sua denominação indica que ela tanto é a legatária dos Esta-r dos dinásticos pré-nacionais do século XIX, quanto a precursora de uma ordem internacionalista do século XXI. 2 Eric Hobsbawm está perfeitamente correto ao afirmar que "os movimentos e Estados marxistas tenderam a tor1

Exprimimo-nos dessa maneira apenas para enfatizar a escala e o estilo da luta, e não como censura. Para evitar possíveis mal-entendidos, é preciso dizer que a invasão de dezembro de 1978 originou-se de choques armados, possivelmente desde 1971, entre guerrilheiros dos dois movimentos revolucionários. Depois de abri! de 1977, ataques fronteiriços, iniciados pelos cambojanos, mas logo imitados pelos vietnamitas, aumentaram em grandeza e alcance, culminando na incursão vietnamita mais importante de dezembro de 1977, Nenhum desses ataques, porém, visava à derrubada do regime do inimigo, ou ã ocupação de granda extensão de território, bem como o número de soldados envolvidos n5o ers comparável ao que se deslocou om dezembro de 1978. A controvérsia a respeito das causas da guerra 6 investigada ponderadarnente em Stepnen P. Hader, "The Kampuchean-Vietnamese Confliet", in David W. P. Elliott, org., The Ttârd Indochina Confíict, p. 21-67; Anthony Batnett, "Inter-Communist Conflicts and Vietnam", Bvllstin of Concerned Asían Scbolars, 11:4 (outubro-dezembro de 1979), p, 2-9; e Laura Summers, "In Matters of War and Sccialism Anthony Barnett would Shsme and Honour Kampuchsa Too Much", ibid., p. 10-8. 3 Se alguém duvidar de que o Reino Unido merece asso tipo de paridade com a URSS, devaié Indagar-se que nacionalidade sã denota por oste nome: grâo-breto-irlandês?

nar-se nacionais não apenas na forma, mas também na substância, isto é, nacionalistas. Nada indica que essa tendência não persistirá". 3 E essa tendência não se limita ao mundo, socialista. Quase todos, os anos, as Nações Unidas admitem novos membros. E muitas das "velhas nações", antes consideradas plenamente Consolidadas, vêem-se ameaçadas por "sub"-nacionalismoâ no interior de suas fronteiras — nacipnalismos que, naturalmente, sonham com livrar-se algum dia dessa condição de "sub". A realidade é muito clara: o "fim dos tempos do nacionalismo", há tanto tempo profetizado, não está à vista, nem de longe. De fato, a nation-ness * constitui o valor mais universalmente legítimo na vida política de nossa era. Porém, se os fatos são evidentes, sua explicação continua sendo .tema de uma disputa há muito existente. Nação, nacionalidade, nacionalismo — todos têm-se demonstrado difíceis de definir, quanto mais de analisar. Em contraposição à enorme influência que o nacionalismo tem exercido no mundo moderno, é notoriamente escassa a teoria plausível a respeito de.le. Hugh Seton-Watson, autor do indubitavelmente melhor e mais abrangente texto em língua inglesa a respeito do nacionalismo, e herdeiro de vasta tradição da historiografia e da ciência social liberais, observa pesarosamente: "Desse modo, sou levado à conclusão de que não se pode estabelecer nenhuma 'definição científica1 de nação; contudo, o fenómeno tem existido e continua a existir". 4 Tom Nairn, autor da obra pioneira The Break-up of Britam, e herdeiro da não menos vasta tradição da historiografia e da ciência social marxistas, observa francamente: "A teoria do nacionalismo representa o grande fracasso histórico do marxismo", s Até mesmo essa confissão, porém, é algo enganadora, na medida em que se possa considerar
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Eric Hobsbawm, "Some Rofloctions on 'The Braak-up o.f Britain' ". tJeitr Lelt Review* 105 (setambro-outubro de 1977). p, 13. " O autor emprega diversas vezes a palavra nation-ness, por ele cunhada, em lugar de ' natlonalíly !cf. p, 12). Impossível criar um correspondente português; por isso, mantive em Inglês todas as vezes (MT). 4 Ver seu Nations and States, p. 5. Grifo nosso. 5 Ver seu "The Modern Jsnus", New Left Review, 94 Inovembro-dszembro do 1975), p. 3. Este ensaio foi incluído sem alterações como capitulo 9 do The Break-up of Brítsin (p. 329-63I.

tanto quanto terá um sexo — vs. tornaram-se "modulares". nem Webers. mas que. sua pobreza. para não dizer irritados. a dupla de "pais" do estudo académico sobre o nacionalismo. Hans Kohn e Carlaton Haves. o nacionalismo jamais produziu grandes pensadores próprios:-nem Hobbes. argumentava persuasivamente em favor dessa datação. com urgência. Os teóricos do nacionalismo têm.12 que implica no resultado lastimável de uma busca prolongada e deliberada de clareza teórica. quanto a esse tema. p. com estes três paradoxos: 1. Seria mais exato dizer que o nacionalismo tem se revelado uma incómoda anomalia para a teoria marxista e. são artefatos culturais de um tipo peculiar. A modernidade objetiva das nações aos olhos do historiador vs. in Setscted Works. mais do que enfrentado. naturalmente. um certo ar de superioridade. ficado perplexos. exatarnente por essa razão. 2. Aira Kemilãinen. nem Tocquevilles. Kemilâinen observa também que a palavra "nacionalismo" sá passou a ser amplamente empregada em fins do século XIX. Facilmente. tanto a teoria marxista quanto a liberal têmse debilitado em um tardio esforço ptolomaico para "salvar o fenómeno". visto que se define em termos das relações de produção — é teoricamente importante? O que este livro pretende é oferecer algumas sugestões exploratórias para uma ínterpretaçãp mais aceitável da "anomalia" do nacionalismo. ' Como observa Aíra Kemilãlnen. sem qualquer tentativa séria de justificar teoricamente a importância do adjetivo? Por que esta segmentação da burguesia — uma classe mundial. Parto de que a nacionalidade. entre intelectuais cosmopolitas e poliglotas. do conceito de "burguesia nacional". com graus diversos de consciência e a grande variedade de terrenos sociais. Procurarei também demonstrar por que esses artefatos culturais peculiares têm suscitado afetos tão profundos. Como explicar de outro modo a falha do próprio Marx para explicar o pronome crucial em sua memorável formulação de 1848: "O proletariado de cada país deve. 3. Minha impressão é que. não se refere com essa palavra senão a "sociedades" ou "Estados". A universalidade formal da nacionalidade como conceito sociocultural — no mundo moderno. tem sido amplamente evitado. diversamente da maioria dos outros "ismos". 10. poder-se-ia sem dúvida concluir rapidamente que "lá não existe lá nenhum". a palavra "naturalmente" seria um sina) de alerta para o leitor entusiasmado. trazendo consigo muito da mesma ambiguidade essencial. Para compreendê-los adequadamente é preciso que consideremos com cuidado como se tornaram entidades históricas. uma vez criados. a não ser por ideólogos nacionalistas em determinados países. Nationalism. a particularidade irremediável de suas manifestações concretas. l. Conceitos e definições Antes de tratarmos das questões acima propostas. Creio que suas conclusões não foram seriamente contestadas. sua antiguidade subjetiva aos olhos dos nacionalistas. como talvez se prefira dizer. Ela não aparece. Marx e Friedrich Engels. Quando Adam Srnith invoca a riqueza das "nações". 7 foi a destilação espontâ6 Karl nea de um "cruzamento" complexo de forcas históricas. Tentarei demonstrar que a criação desses artefatos. nem Marxs. filosófica. e que se requer. muitas vezes. esse "vazio" desperta. todo mundo pode e deve "ter". uma reorientação de perspectiva num espírito por assim dizer copernicano. naíion-ness. de que modo seus significados se alteraram no correr do tempo. The Comrminist Manifesto. bem como o nacionalismo. ajustar contas com sua própria burguesia"? 6 Como justificar doutro modo o emprego. para se incorporarem à variedade igualmente grande de constelações políticas e ideológicas. 46. a nacionalidade "grega" é sui generis. por definição. antes de mais nada. uma capacidade implícita semelhante para degenerar em demência. tal que. tão inevitável quanto a 'neurose' no indivíduo. e por que. ou. devido às múltiplas significações dessa palavra. hoje em dia. O poder "político" dos nacionalismos vs. inspiram uma legitimidade emocional tão profunda. e "terá" uma nacionalidade. É típico que até mesmo um estudioso tão solidário com o nacionalismo quanto-Tom Nairn tenha no entanto podido escrever que: "o 'nacionalismo' é a patologia da moderna história do desenvolvimento. 33 e 48-9- . p. parece aconselhável considerar sumariamente o conceito de "nação" e oferecer uma definição viável. por exemplo. por volta dos fins do século XVIII. Grifo nosso. em muitos dicionários correntes do século XIX. Do mesmo modo que Gertrude Stein diante de Oakland. por mais de um século. Em outras palavras. e até mesmo incoerência. passíveis de serem transplantados. Em qualquer exegese teórica.

a essência de uma nação é que os indivíduos tenham muitas coisas em comum e. numa população de 23. ou se comportam como se constituíssem uma nação".000 pessoas. Seton-Watson. e em grande medida incurável". no século XVIII. Desse modo. mais do que com "liberalismo" ou "fascismo". mas "o senhor de X". Cf. 8 Parte da dificuldade é que as pessoas tendem inconscientemente a hipostasiar a existência do Nacionalismocom-N-grande — como se poderia fazer com Idade-com-Imaiúsculo — e. também. porque o conceito nasceu numa época em que o Iluminismo e a Revolução estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico hierárquico.000. p. Nio na dez famílias na Franca qua possam apresentar provas de origem franca. Nem os nacionalistas mais messiânicos sonham com um dia em que todos os membros da raça humana se juntem a sua nação. a Idade não passa de uma expressão analítica. A nação é imaginada como limitada. Podemos traduzir "considera" por "Imagina". porque até mesmo a maior delas. 10 Algo ferozmente. p.000 (ver seu The Age of Rcvolution. a seguir. não "um membro da aristocracia". 3S9. ainda que elásticas. II n'y a pás en France dix familles qui puissent fournlr Ia preuve d'une origine franqua. a língua javanesa não possuía uma palavra para significar a abstração "sociedade". 12 À pergunta "Quem é o Conde X?". u O inconveniente dessa formulação. 5: "O qua posso dizer é que uma naçSo existe guando um número significativo de pessoas da uma comunidade considera que constituem uma nação. a resposta normal teria sido. do mesmo modo como foi possível que em certas épocas os cristãos.. Atingindo a maturidade numa 12 Hobsbawm. p. 78). p. lês massacres du Midi au XVIils siècle. a classificá-"lo" como uma ideologia. et aussi que tous aient oublié bien dês choses".. ao invés de assimilá-la a "imaginação" e "criação".. possui fronteiras finitas. ou "um vassalo do Duque de Z". até mesmo estas) são imaginadas. Dentro de um espírito antropológico. Hoje podemos pensar na aristocracia francesa do ancien regime como uma classe.. Mas essa descrição estatística da nobreza poderia ser pensada ao tampo do ancien régimoj . 9 Renan referiu-se a esse ato de imaginar. que assimila "invenção" a "contrafação" e "falsidade". à sua maneira suavemente sarcástica. se todo mundo tem uma idade. \. De fato." (no texto: ". 169. nem sequer ouvirão falar deles.í do mundo (o equivalente do infantilismo.") 11 Emest Gollnor. 8 8 tá tão ansioso em demonstrar que o nacionalismo se dissimula sob falsas aparências. (Observe-se que. Nations antí States. para as sociedades). os massacres do Sul. quando escreveu que "Or l'essence d'une nation est que tous lês individus aient beaucoup de choses en commun.. em 1789. Thought and Change. para além das quais encontram-se outras nações. mas tais vínculos eram outrora imaginados de maneira particuiarista — como malhas indefinidamente extensas de parentesco e de dependência. insinua que existem comunidades "verdadeiras" que se podem sobrepor vantajosamente às nações. digamos. nem os encontrarão. Os aldeões javaneses sempre souberam que estavam ligados a pessoas que jamais haviam visto. As comunidades não devem ser distinguidas por sua falsidade/autenticidade. Ela é imaginada porque nem mesmo os membros das menores nações jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas. então. p. "o tio da Baronesa de Y". que todos tenham esquecido muitas coisas" — na nora: "todo cidadão francês deve ter esquecido a noite do S3o Bartolomeu. 892. talvez.15 nos dilemas do desamparo imposto à maior par. ela montava a 400. mas pelo estilo em que são imaginadas. Até muito recentemente. sonhassem com um planeta inteiramente cristão. embora na mente de cada um esteja viva a imagem de sua comunhão. É imaginada como soberana. a seguinte definição para nação: ela é uma comunidade política imaginada — e imaginada como implicitamente limitada e soberana. "Qu'éít-ce qu'une nation?" in Oeuvres Completes. contudo. todas as comunidades maiores do que as primitivas aldeias de contato face a face (e. Grifo nosso. Nenhuma nação se imagina coextensiva com a humanidade.. 10 Ernest Renan. divinamente instituído. Acrescenta ele: "tout citoyen [rançais doit avoir oublié Ia SBint-Barthélemy. por exemplo. Geílner insiste de maneira semelhante quando estabelece que "o nacionalismo não é o despertar das nações para a autoconsciência: ele inventa nações onde elas não existem". mas certamente ela só foi imaginada desse modo muito tardiamente.) Creio que as coisas ficariam mais fáceis. "fixa" isso ao dizer que. é que Geílner esThe Bre&k-up aí Britam. que abarca talvez um bilhão de seres humanos. proponho. se ele fosse tratado como associado a "parentesco" e "religião".

ou insistisse em introduzir dentro do cenotáfio alguns ossos de verdade. pátria. estes notáveis tropos: 1. saturados de fantasmagóricas imaginações nacionais. porém. como uma das mais nobres figures do mundo. não sã como e que possui es características militares mais perfeitas. Judith Herrin. ou almas imortais. "A longa linha cinzenta jamais nos -faltou. um milhão de lantesmas em verda-oliva. por exemplo. não pudessem ser recuperados para um enterro normal.2 (Razão por que nações as mais diversas pôs1 2 Os antigos gregos tinham cenotáfios. a nação é imaginada como comunidade porque. em azul e em cinzento se ergueriam de sob suas cruzes brancas. contemporânea! Por mais que esses túmulos estejam vazios de quaisquer restos mortais identificáveis. a jamais se alterou. 12 da maio de 1962.. as nações sonham em ser livres e. por suas virtudes e porr MJ g s realizações. West Point. "Minha avaliação Ido soldado norte-americano] formou-se no campo do batalha. O penhor e o símbolo dessa liberdade é o Estado soberano. em caqui. precisamente porque estão deliberadamente vazios. que tantos milhões de pessoas.16 etapa da história humana em que até mesmo os mais devotos adeptos de qualquer das religiões universais se defrontavam inevitavelmente com o pluralismo vivo de tais religiões. Considerem-se. como o vejo agora. e com o alomorfismo entre os reclamos ontológicos de cada fé e o território ocupado por ela. 354 a 357. não só matem. honra. basta imaginar a reação geral a algum intrometido que "descobrisse" o nome do Soldado Desconhecido. p. eles estão. Seria um sacrilégio de estranha espécie. que seja diretamente. a nação é sempre concebida como um companheirismo profundo e horizontal. se sob as ordens de Deus. bradando estas palavras mágicas: dever." Douglas MacArthur. mas também corno das mais Imaculadas [sicl. muitos anos atrás. porém para indivíduos determinados. ou ninguém sabe quem jaz dentro deles. Ele pertence á história como aquele que oferece um dos maiores exemplos de patriotismo bem-sucedido Isicl. por uma ou outra razão. cujos corpos. Honour. Em última análise. is. RAÍZES CULTURAIS Não há símbolo mais impressionante da moderna cultura do nacionalismo do que os cenotáfios e os túmulos de Soldados Desconhecidos. Country". a nós. Essas mortes lançam-nos abruptamente cara a cara com o problema fundamental proposto pelo nacionalismo: o que faz com que as minguadas imaginações da história recente (pouco mais de dois séculos) dêem origem a sacrifícios tão colossais? Creio que as origens de uma resposta encontram-se nas raízes culturais do nacionalismo.. Ele pgrtance ao presente. no correr dos últimos dois séculos. não encontra precedentes em épocas passadas. essa fraternidade é que torna possível. Eu o via então. Finalmente. Se vocês fossem fazê-lo. A reverência pública ritual outorgada a tais monumentos. conhecidos. Ele pertence à posteridade como o mentor das futuras gerações nos princípios da independência e da liberdade." í. Devo essa informação a minha colega bizantinísta. mas morram voluntariamente por imaginações tão limitadas. em seu A Soldier Sp. ' Para que se sinta a força dessa inovação. sem considerar a desigualdade e expioração que atualmente prevalecem em todas elas. "Duty. discurso perante' ^Academia Militar dos EUA. .

interpretei essa recusa como obscurantismo. 3-17. Se habitualmente parece arbitrária a maneira como um homem morre. primordialmente porque. vim a compreender que 03 trata de unia louvável tentativa de ser coerente: simplesmente a doutrina da evolução ara incompatível com os ensinamentos do Islã. e a contingência da vida. 3 Ao mesmo tempo. A/etv Lett flewsw. Como essa afinidade não é absolutamente fortuita. a revolução. O século do Iluminismo. De início. Que mais poderiam eles ser senão alemães. ou ao que quer que seja? O abismo entre os pró tons e o proletariado não ocultaria uma nfio admitida concepção metafísica do homem? Veja porém os interessantes textos de Sebastiano Ttmpanaro. p. deve distinguir-se de seu papel na legitimação de sistemas específicos de dominação e de exploração) tem sido sua preocupação com o homem-nocosmos. "Marxism and the National Question". Estamos todos cientes da contingência e inevitabilidade de nossa herança genética particular. chocou-me a deliberada recusa do muitos muçulmanos o m acoitar as ideias de Oarwin.19 18 suem esse tipo de túmulos. o pensamento religioso reage também aos obscuros sinais de imortalidade. o século XVIII assinala não apenas o raiar da era do nacionalismo. Com o refluxo da fé religiosa. 3 Cf. Que devemos nos fazer com um materialismo cientifico que formalmente admita as descobertas da física sobre a matéria e. o mistério da reencarnação. Posteriormente. "Timpanaro's Materialíst Chatlenge". Desintegração do paraíso: nada torna a fatalidade mais arbitrária. 105 (setombro-outubro de 1977). do budismo. digamos. naturalmente. esforça-se tão pouco pá* rã ligar essas descobertas à luta de classes. atesta sua resposta imaginativa à esmagadora carga de sofrimento humano — doença. A extraordinária sobrevivência. de nossa língua maternaj e assim por diante. nem o liberalismo. O grande mérito das visões de mundo das religiões tradicionais (que. pesar. . da contingência em significado. A grande fraqueza de todos os estilos evolucionários/progressistas de pensamento.) Trago à baila essas observações talvez simplórias. da secularidade racionalista. de nosso sexo. era uma transformação secular da fatalidade em continuidade. Quem vivência a concepção e o nascimento do próprio filho sem ter a in-definida sensação de uma mistura de conexão. mas também o crepúsculo das modalidades religiosas de pensamento. na Europa ocidental. não desapareceu o só-' frimento que a fé em parte mitigava. Por que nasci cego? Por que meu melhor amigo ficou paralítico? Por que minha filha é retardada? As religiões procuram explicar. trouxe consigo suas peculiares trevas modernas. Não se poderia evitar um sentimento de absurdo. Wew Lett Ftevien. 109 Imaio-junho de 1978). sem sentir qualquer necessidade de especificar a nacionalidade de seus ocupantes ausentes. na década de 1960. casualidade e fatalidade em uma linguagem de "continuidade"? (Também aqui a desvantagem do pensamento evolucionário/progressista é uma hostilidade quase heraclitiana a qualquer ideia de continuidade. Como veremos. será conveniente iniciar pela morte o exame das raízes culturais do nacionalismo. ele se ocupa dos vínculos entre os mortos e os nascituros.). Absurdo da salvação: nada torna mais necessário um outro estilo de continuidade. On Materielisiw and The Freudian Sfíp: e a ponderada réplica de Ravmond Williams. em dezenas de formações sociais diversas. da época em que vivemos. se preocupam muito com a morte e corn a imortalidade.. o homem como ser específico. do cristianismo ou do islamismo.. sem exclusão do marxismo. Desse modo. No correr de uma pesquisa de campo na Indonésia. sua mortalidade é inevitável. 29. por milhares de anos. e 6e diferentes modos. A vida humana é cheia desse tipo de associação entre necessidade e acaso. poucas coisas se adaptavam (se adaptam) melhor a essa finalidade do que uma ideia de nação. Se é amplamente reconhecido que os Estados-nação são "novos" e "históricos". ou um cenotáfio para os Liberais mortos. Se a imaginação nacionalista se preocupa tanto. um Túmulo do Marxista Desconhecido. isto indica forte afinidade com as imaginações religiosas. Régis Debray. etc. contudo. mutilação. se se procura imaginar.demandava. O que se. em geral transformando a fatalidade em continuidade (karma. então. por ser ela a última de toda uma escala de fatalidades. ou norté-americanos. pecado original. ou argentinos. ?) O significado cultural de tais monumentos torna-se ainda mais claro. de nosso potencial físico. é que tais perguntas são respondidas com um silêncio intolerante. p.. idade e morte. Â razão disso é que nem o marxismo.

e refletir sobre o êxito comercial das mitografias de Tolkien. mas uns e outros compreendem o símbolo. Antes de começar a rir. deslizam para um futuro ilimitado. As grandes culturas. sagradas (e. ilimitado. os dois sistemas culturais relevantes são a comunidade religiosa e o reino dinástico. quanto mais morta a lingua escrita — quanto mais distante estivesse da fala — melhor: em princípio.) Todas as grandes comunidades clássicas concebiám-se como cosmicamente centrais. nos hititas e nos sumerianos. a linguagem matemática continua uma velha tradição. ela mesma. 4 e. daí. seus ancestrais turcos. p. Pois ambos. a partir dos quais — bem como contra os quais — passaram a existir. p. Var Harry J. (Na verdade. 103. Porém. do Paraguai ao Japão. O que proponho é que o nacionalismo deve ser compreendido pondo-o lado a lado. salientar determinados elementoschave de sua decomposição. e a maior parte da In* donásia de hoje tenha sido conquistada pelos holandeses entre 1850 e 1910.) Contudo. a nacionalidade. Diferença essencial era a segurança das antigas comunidades quanto à sacralidade singular de suas línguas e. 13 (abril de 1972). mas sim como central — eram imagináveis em grande parte mediante uma linguagem sagrada e um texto escrito. p. De fato. Banco Sumeriano (Seton-Watson. Podemos dizer. do árabe.. viarn e vêem. pretendia "conquistar InSo ItbertarlJ Java". muito embora as próprias memórias desse prfncipe mostrem que ele. não com ideologias políticas abraçadas conscientemente. antes. é inteiramente acidental que eu tenha nascido francês. e até mesmo o Império do Centro — o qual. hoje em dia. Analogamente. porque os textos sagrados que compartilham só existem em árabe clássico. por isso. The WbfltiofSoulheastAsia. ao mesmo tempo. K em ai Ataturk deu a um de seus bancos estatais o nome de Eti Banka (Banco Hitita) s a outro. do Marrocos ao Arquipélago Sulu. e do mundo budista. do Sri Lanka à península coreana. o alcance do latim. embora nada conheçam da língua um do outro e sejam incapazes de se comunicar oralmente. 259). ou do chinês escritos era. seriamente. a Ummah Islam. Não é preciso dizer que não estou declarando que o aparecimento do nacionalismo em fins do século XVIII foi "produzido" pela erosão das certezas religiosas. Natlons and States. Entre os heróis nacionais da indonésia contemporânea tem primazia o príncipe javanês do início do século XIX. a França é eterna". (Assim. com Debray. afinal de contas. Os romenos não têm a menor ideia de como o sinal " + '' é chamado pelos tai. 158: e Ann Kumar. considerar o que dava a esses sistemas culturais sua manifesta plausibilidade e. hoje em dia. tais comunidades clássicas vinculadas por línguas sagradas tinham caráter distinto das comunidades imaginadas das nações modernas. teoricamente. O falecido presidente Sukarno sempre falou com inteira sinceridade sobre os trezentas e cinquenta anos de colonialismo suportados por sua "Indonésia".20 21 as nações a que eles dão expressão política assomam de um passado imemorial. Larkin. a cristandade. não se imaginava como chinês. Bonda e John A. em seu apogeu. é permissível que incluamos o "confucionismo") incorporaram concepções de comunidades imensas. ainda mais importante. É essencial. do páli. Oíponegoro. tanto quanto é. suas ideias a respeito da admissão de novos membros. e vice-versa. mas. todo mundo tem acesso a um mundo abstrato de signos. para nossos fins. Para nossos objetivos. da cristandade. . e não a partir dos sons. eram aceitos como verdadeiros quadros de referência. mas com os sistemas culturais amplos que o precederam. Indonésia. embora hoje pensemos nele como chinês. do que expulsar "os holandeses". Esses bancos são prósperos hoje em dia e não há razão pare duvidar-se de que muitos turcos. Os mandarins chineses encaravam com aprovação os bárbaros que penosamente aprendiam a desenhar os ideogramas do Império do Centro. mediante uma linguagem sagrada vinculada a uma ordem de poder supraterrestre. uma explicação complexa. embora o próprio conceito de "Indonésia" seja ume invenção do século XX. o árabe escrito funcionou como os caracteres chineses para criar uma comunidade a partir dos signos. devemos lembrar de Artur e Boadicéia. possivelmente sem excluir o próprio Kemal. orgs. Basta tomar o exemplo do Islam: se maguindanaos e berberes se encontram em Meca. é evidente que ele não tinha um conceito de "holandeses" como uma coletividade. Nesse sentido. A mágica do nacionalismo consiste em transformar o acaso em destino. "Sim. Grifo nosso. compreendem no entanto os ideogramas uns dos outros. Conseq-iientemente. "Dtponegoro 117787-1855)". 4 A comunidade religiosa Poucas coisas causam maior impressão do que a enorme extensão territorial da Ummah Islam. ou que essa erosão não exija. Como também não estou sugerindo que de alguma forma o nacionalismo "suplanta" historicamente a religião.

As razões desse "fracasso" s3o divorsns. Tfte Spanish-American Revoltitians.23 22 Tais bárbaros já estavam a meio caminho da absorção completa. "nativos semi-instruídos". 7 E. intercambiáveis). paralelamente à condescendente crueldade. por exemplo. os ilongo. 8 Michelas Brakespear assumiu o posto de pontífice entra 1154 e 1159. portanto. por isso. sendo declarados livres de . com o nome de Adriano IV. Mas muito embora as línguas sagradas tornassem imagináveis comunidades como a cristandade. A natureza toda do ser. maometanos. não era traduzido). Observem. e coisas assim. os rif. com o esperanto ou o volapúk. Na tradição islâmica.um mundo tão desligado da língua que todas as línguas constituíssem para ele signos equidistantes (e. a seguinte "política relativa aos bárbaros" formulada em princípios do século XIX pelo liberal colombiano Pedro Fermín de Vargas: Para expandir nossa agricultura seria necessário hispanizar nossos índios. mus um fator-ciiavo (01 corlamontu o falo do quo n Hngua grega continuou sendo uma fala vulgar viva (diferentemente do laiiml em grande parte do império Oriental. o índio pode ser redimido — mediante fecundação com o sémen branco. na Argentina e nos Estados Unidos começariam a fazer logo depois. como seus sucessores no Brasil. pairando muito acima de todas as línguas vulgares. 1803-1826. Essa atitude não era por certo peculiar aos chineses. 6 Como é admirável que esse liberal ainda proponha "extinguir" seus índios em parte "declarando-os livres de impostos" e "atribuindo-lhes a propriedade privada da terra". seria muito desejável que os índios fossem extintos. De fato. aleatoriamente fabricadas. a realidade ontológica somente é apreensível por meio de um sistema único e privilegiado de re-[a]presentação: a língua-verdade do latim da Igreja. ou o chinês dos exames.' não quero tanto dizer a aceitação de dogmas religiosos par' ticulares. mas uma absorção alquímica. humano é maleável do ponto de vista sagrado. neste caso.' ta. que o autor emprega para referir-se à língua utilizada pelo comum das pessoas.) Contudo. impregnadas de um impulso em grande medida estranho ao nacionalismo. também. e um "manchu". a realidade de tais aparições dependia de uma ideia em grande medida estranha ao pensamento ocidental contemporâneo: a não-arbitrariedade do signo... latina ou árabe eram emanações da s realidade e não representações suas. e sendo-lhes atribuída a propriedade privada da terra. o impulso para a conversão. nenhuma ideia de . Filho do Céu. (Quão diferente é a atitude de Fermín da preferência dos imperialistas europeus posteriores por "autênticos" malaios. sua estupidez e sua indiferença em relação aos empreendimentos humanos normais levam a pensar que provêm de uma raça degenerada que se deteriora à medida que se distancia de suas origens. Devo esse insight a Judith Herrin."seus leitores eram pequeninos recifes letrados por sobre enormes ocea"Llngua vulgar" foi a tradução que adotamos para vsrnacular. gurcas e haussas a "mestiços". Os bárbaros tornaram-se "Império do Centro". que jazem ignorados entre aquelas e estas. o Corão era literalmente intraduzível (e. cristãos. porque a verdade de Alá somente era acessível mediante os insubstituíveis signos verdadeiros da língua árabe escri. e o recebimento de propriedade privada. 6 John Lynch. Grifos nossos. . o verdadeiro alcance e plausibilidade dessas comunidades não podem ser explicados apenas pelo texto sagrado: afinal. G "n oposição Ss "línguas sagradas" (NT). foi essa possibilidade de conversão pela língua sagrada que tornou possível que um "inglês" se tornasse Papa 8. como línguas-verdade. o enorme otimismo: em última análise.) Afinal de contas. Por conversão. Dal a equanimidade com que mongóis e manchus achinesados eram aceitos como Filhos do Céu. do árabe do Cõrão. Não existe. Observe-se. impostos e outros encargos. 260. (Contraste o prestígio dessas antigas línguas mundiais. como qualquer outra pessoa. Os ideogramas da língua chinesa. "civilizado". "wogs". pela miscigenação com os brancos. ' A Igreja grega pareço n3o ter atingido o status de uma Kngua-vardade. è" não exterminando-os pelas armas e pelos micróbios. 5 Ser meio-civilizado era muitíssimo melhor do que ser 'bárbaro. Todos conhecemos bem a longa disputa a respeito da língua adequada para as massas (latim ou língua vulgar"). nem limitada à antiguidade. até muito recentemente. Sua preguiça. p. se as mudas línguas sagradas eram o meio pelo qual as grandes comunidades globais do passado eram imaginadas.

feita pelo bom veneziano cristão Marco Polo. e os idólatras. 10 As concepções básicas a respeito de "grupos sociais" eram centrípetas e hierárquicas. na Europa. Maomé. só é compreensível em termos de uma classe transeuropéia de letrados em escrita latina e de uma concepção do mundo compartilhada virtualmente por todos. p. "alargaram abruptamente o horizonte cultural e geográfico e. e não norteadas por fronteiras e horizontais. beijou-o com devoção e determinou que o mesmo fizessem todos os seus nobres ali presentes. Observe-se que. 158-3.'e!e lhes parecia também uma língua. (O aterrador da excomunhão reflete essa cosmologia. 9 Uma explicação mais completa exige que se aluda à relação entre os homens de letras e suas sociedades. "Aos olhos de todos os que eram capazes de refle xão. The Traveis of Marco Polo. 10 Isso nlo quer dizer que os analfabetos não liam. Quando lhe foi perguntado o motivo dessa conduta. Jamais lhe ocorre. ordenou que todos os cristãos fossem até ele. em fins do século XIII:12 O grande cã. porém. Os cristãos encaram Jesus Cristo como sua divindade. havia o efeito. Feudal Society. 83. das descobertas do mundo não-europeu. em seu esplendor. estratos estratégicos em uma hierarquia cosmológica cujo ápice era divino. não eram palavras.. como a atitude e a linguagem de Marco Polo. Moisés. Esse era seu rnodo habitual de agir em cada uma das festas cristãs mais importantes. os judeus. mas de modo algum exclusivamente. 282. Mimesis. trazendo consigo seu Livro. sua coerência não deliberada desvaneceu-se rapidamente depois do final da Idade Média. Isso teve lugar no mês de novembro. .24 25 vê a seguinte descrição reverente de Kublai Khan. O espantoso poder do papado. As línguas que eles sustinham. Ao invés disso. por detrás da qual tinham lugar todas as coisas realmente importamas. Erich Auerbach.. p. Após fazer com que ele fosse repetidas vezes perfumado com incenso. o Evangelho não é lido. embora beijado.) n E na utilização inconsciente de "nosso" (que se torna "seu") e na re1J Marco Polo. os homens de letras eram iniciados. que contém os quatro evangelhos. Dentre as razões dessa decadência. '3|bid. Reverencio e mostro respeito a todos os quatro. servia de mediador entre a terra e o céu. Grifos nossos. nada tinham da obscuridade preparada dos jargões dos advogados ou dos economistas. da qual a intelligenísia bilíngue. ele supera qualquer soberano que haja existido ou que agora exista no mundo". no último dos quais era nossa festa da Páscoa. de maneira solene. em parte. Sogomombar-kan. retornou em grande pompa e triunfo à capital de Kanbalu." Bloch. p. O que liam. disse ele: "Há quatro grandes profetas que são reverenciados e venerados pelas diversas classes de humanidade. dos judeus e dos idólatras. é evidente que encarava a fé dos cristãos como a mais verdadeira e a melhor. e invoco para mim a ajuda de seja qual for demre eles que é verdadeiramente o supremo no céu". e ali continuava a residir nos meses de fevereiro e março. ObserMarc Bloch lembra-nos que "a maioria dos senhores e muitos grandes barões (dos tempos medievais] eram administradores incapazes de examinar pessoalmente um relatório ou uma conta". após obter essa memorável vitória. os sarracenos. 81. nos analfabetos. à extensão do território e ao montante da receita. Em primeiro lugar. mediando entre a língua vulgar e o latim. à margem da ideia que a sociedade tem da realidade. o mundo material era pouco mais do que uma espécie de máscara. o mais eminente de todos os seus ídolos. l. como a Páscoa e o Natal. embora escrevendo para cristãos europeus seus iguais. Ciente de que essa era uma de nossas principais comemorações. 9 O que há de mais notável nessa passagem não é tanto o tranquilo relativismo religioso (ainda que um relativismo religioso) do grande -governante mongol. (Sem dúvida. de modo preponderante. porque "quanto ao número de súditos.. p. e agia semelhantemente nas festas dos sarracenos. pela maneira pela qual sua majestade agia diante deles. também a concepção dos homens sobre as formas possíveis de vida humana". desejo destacar apenas as duas que se relacionam diretamente com a sacralidade singular dessas comunidades. que. qualificar Kublai de hipócrita ou idólatra.) Apesar de toda a grandeza e poder das grandes comu^ nidades imaginadas religiosamente. Porém. Seria enganoso encarar aqueles como uma espécie de tecnocracia teológica. ainda que obscuras. " O processo já aparecia claramente no maior de todos os livros de viagem europeus. com isso. destinada a expressar por meio de símbolos uma realidade mais profunda. p. mas o mundo observável. 152.

a língua mais importante mundialmente. p. Ibid.. apenas •oito não eram em latim. L'Apparítiofi tíu Livre. l5 (Este "única" demonstra muito claramente a sacralidade do latim — nenhuma outra língua era considerada digna de ser ensinada. Que contraste revelador oferece o começo da carta escrita pelo viajante persa "Rica" a seu amigo "Ibben". 16 Henti de Montesquieu. a hegemonia do latim tinha seu destino marcado. fosse vista'não como uma heresia." 20 Em suma. porém. As Lettres Persanes foram publicadas • pela primeira vez em 1721. The Corning of the Book. n Apesar de uma reaparição temporária durante a Contra-Reforma. 13 Ibid. no entanto. p. mas como uma nação! Em segundo lugar. em grande medida. que faz antever a linguagem de muitos nacionalistas ("nossa" nação é "a melhor" — em um campo comparativo. a decadência do latim exemplifica um vasto processo em que as comunidades sagradas. é um ídolo antigo. e coro intenção política. integradas pelas antigas línguas sagradas. com cada vez menos livros saindo em latim. p. mas agora a "relativizacão" e a "territorializacão" são perfeitamente conscientes. Outrora. O original francês é mais modesto e historicamente exato: "landis que ]'on edite de mói n s en mgins cfouvrages en lati n. ("Uma vez que sã publicam cada vez menos obras em latim e uma proporção sempre maior de textos em língua nacional. podem-se descobrir as sementes de uma tcrritorializacão das fés. mas virtualmente toda a de Voltaire (1694-1778) era em língua vulgar. em 1501. Shakespeare (1564-1616). não teria ele conservado. os quase contemporâneos destes homens do outro lado do Canal da Mancha. pois seu tesouro é imenso e eie tem um grande país sob seu controle. Não seria razoável que urna elaboração paradoxal dessa tradição. nem mesmo como um personagem demoníaco (o pequenino Cárter dificilmente preencheria os requisitos). p. 330. e essa é por certo uma rica herança. Ia commerca dia livre se morcelle en Europé". lfi Se das oitenta e oito edições impressas em Paris.. de V Paris. pois podia depô-los tão facilmente quanto nossos magníficos sultãos depõem os reis da Iremécia ou da Geórgia. e cada vez mais nas línguas vulgares. competitivo). p. 77. duzentos anos mais tarde. 20 Ibid. p. por outro lado. mas em velocidade não menos vertiginosa. No século XVII. E não falamos apenas da popularidade geral. mantinham a maior parte de sua correspondência em latim. compondo suas obras em língua vulgar. o comércio do livro segmentou-se na Europa. 16 Bloch. a atividade editorial foi deixando de ser . l.) Mas no século XVI tudo isso já se estava alterando rapidamente. chamado São Pedro. 232-3. ele era a única língua ensinada". em vez de "verdadeira". Pouco depois. 14 O Papa é o chefe dos cristãos. As deliberadas e elaboradas invencionices do católico do século XVIII reproduzem o realismo ingénuo de seu predecessor do século XIII. Lucien Febvre a Henri-Jean Martin. na identificação do Grande Satã feita pelo Ayaíollah Ruhollah Khomeini. 81. As razões dessa mudança não devem demorar-nos aqui: a importância 14 central do capitalismo editorial (print-capitalism) será discutida mais adiante. « Ibid. Grifo nosso. 356. sua obscuridade insular do início? Enquanto isso.26 ferência à fé dos cristãos como "mais verdadeira".") 17 . foi uma deterioração gradual da própria língua sagrada. era virtualmente desconhecido do outro lado do Canal da Mancha. Ele proclama ser o herdeiro de urn dos antigos cristãos. Descartes (1596-1650) e Pascal (1623-1662). et une proportion toujours plus grande de taxtes an langue nationale.. gradualmente se fragmentavam. lô "Após 1640. o latim deixou de ser a língua da alta intelligenísia pan-européia. 1B E se o inglês não se tivesse tornado. Escrevendo a respeito da Europa ocidental medieval. 331-32. em "1712' i . p. agora reverenciado por hábito. ninguém mais o teme. depois de 1575 a maioria era sempre em francês. Bloch observou que "o latim não era apenas a língua em que se ministrava o ensino. Basta que nos lembremos de sua dimensão e ritmo. ele amedrontava até mesmo os príncipes. um empreendimento internacional [sic]. Febvre e Martin calculam que 77% dos livros impressos antes de 1500 ainda eram em latim (o que significa. Feudal Society. Agora. 321. Persian Leners. pluralizavam e territorializavam.. Hobbes (1588-1678) foi uma figura de renome continental por escrever na línguada-verdade. que 23% já eram em línguas vulgares). 248-49. p.

de Kyburg. categórica e uniformemente atuante sobre cada centímetro quadrado de um território legalmente demarcado. Não posso deixar da citar aqui a admirável reacão do Franz Joseph à noticia do assassinato da seu excêntrico herdeiro necessário: "Dessa maneira. MJPois tais misturas eram símbolos de um staíus superior. Sua legitimidade deriva da divindade. dentre os quais 1. e as soberanias fundiam-se imperceptivelmente umas nas outras. e dos presidentes pelo seu último nome (qual era o nome de batismo de Ebert?!. 21 Daí. "não sem um certo aspecto cómico. Pelo princípio geral da verticalidade. Esse "curioso documento" está citado em ibid. 136 et seqs. e que "nacionalidade" devemos atribuir aos Bourbons? 25 23 Observe-se 3 substituição na nomenclatura dos governantes. Conde Principesco de Habsburgo e Tirol. Rei de Jerusalém. Grande Voivoda da Voivodina. era. Grão-duque da Transilvânia. Carniola e Bukovina. a titulação dos últimos dinastas: 23 Imperador da Áustria. mas Interpreta o fenómeno de maneira muito estreita: os aristocratas locais preferem um monarca de fora. Caríntia. o número limitado de nomes "de batismo" torna-os inadequados como denominadores específicos. De maneira a mais notável na Ásia pre-moderna. de modo algo resumido. 125). Duque de Lotaríngia. p. É típico que não tenha havido uma dinastia "inglesa" governando em Londres desde o século XI (se tanto)... etc. da Dalmácia. 47 dinamarqueses. Pois. p. que. No imaginar de antigamente. que esses antigos Estados monárquicos expandiam-se não só por meio da guerra. e não das populações. Gallcia. e acima da Windish Mark. Piacenza e Guastella. Servia. que propiciam as distinções necessárias.. estava Incapaz de manter" (ibid. bom como quatro outras nacionalidades. Feldkirch. da Boémia. Na concepção moderna. O governo do rei organiza tudo em torno de um centro elevado. que alguém se coloque empaticamente dentro de um mundo em que o reino dinástico era visto pela maioria dos homens corno o único sistema "político" imaginável. etc. Rei da Hungria. por longos períodos de tempo. Friaui. Ttiought snd Change. 124 franceses. de Módena.. Nas monarquias.. de União entre a Inglaterra e a Escócia. poderíamos dizer. mas também por uma política sexual — de espécie muito diversa da que hoje se pratica. Num mundo de cidadãos. Ragusa e Zara. ara atuante na Europa crista monogamica. um certo Otto Forst publicou seu Ahnentafet Seiner Kaiserlichen una KõnigKchen Hoheft dês durchlauchíígsten Herrn Erzherzogs Fram Ferdiriend. p. onde o poder está restrito a um único sobrenome. Os escolares lembram-sa dos monarcas por seus primeiros nomes (qual era o sobrenome da Guilherme. Duque da Alta e Baixa Siiésia. bastante paradoxalmente. a Casa dos Habs51 burgos foi paradigmática. que relacionava 2. n. porém. as linhagens reais muitas vezes derivavam seu prestígio. A concepção de um Reino Unido foi por certo o elemento mediador crucial que tornou poss-Vel esse entendimento. (Ver sua lúcida exposição em The Break-up of Brítain. 196 italianos. de Salzburgo. De fato. 89 espanhóis. que corresponde a essa transformação. Isso. .. a soberania do Estado é plena. 1. Gõrz e Gradisca. Lodomeria e Híria. à parte qualquer aura de divindade. de várias maneiras essenciais. o registro dos inúmeros casamentos.. Quanto a isso. e muitas vezes sequer contíguas. como um "arranjo entre nobres". 34.. todos eles teoricamente elegíveis para a presidência. p. as fronteiras eram porosas e indistintas. não cidadãos. Como dizia o ditado.28 O reino dinástico Talvez seja difícil. negociatas e pilhagens dos Habsburgos". Bregenz. etc. Duque de Triento e Brizen.) Ainda assim. são súditos. porém. Eslavônia. 136. acompanhados de números ou alcunhas. Conde de Hohenembs. afinal de contas. que Nairn certamente está certo ao descrever a Lei de 1707. 24 Oscar Jâszi. Em 1910. de passagem.486 alemães. Sonnenberg. onde os Estados se definiam por centros. Arquiduque da Áustria [slcj. são necessariamente os nomes "ds batismo". também. Margrave da Morávia. p. Parma. é difícil imaginar um arranjo dessa tipo sendo realizado entre as aristocracias de duas repúblicas. porque ale não tomará partido em relação a suas rivalidades internas. o Conquistador?). de Auschwitz e Sator. Nos reinos em que a poligínia era sancionada pela religião. Senhor de Trieste. 55 Gstlnar salienta o caráter tipicamente estrangeiro das dinastias. no sentido do que os arquitetos da união (oram políticos aristocratas. Bella gerant alH f u fel ix Áustria nube! A seguir. observa Jászi com justeza. 136. de Cartaro. a facilidade com que os impérios e reinos pré-modernos eram capazes de manter seu comando sobre populações enormemente heterogéneas. The Dissolution of Habsburg Monarchy. porém. a monarquia "autêntica" é transversal a todas as concepções modernas de vida política. os casamentos'dinásticos reuniam populações diversas sob novos dirigentes. 52 poloneses. de Teschen. 22 Deve-se recordar. 23 Registramos aqui. Margrave da Alta e Baixa Lausitz e da Istria. 20 Ingleses. sistemas complexos de concubinato ordenado eram essenciais para a integração do reino. O mesmo principio. da miscigenação. infelizmente. hoje em dia.. Croácia. Estíria. Grão-duque da Toscana e da Cracóvia.047 dos ancestrais do arquiducue prestes a ser assassinado. um poder superior restaurou aquela ordem que eu.

p. os Estados dinásticos constituíam a maioria dos componentes do sistema político mundial. em vez de um rei. Londres e Berlim para aprenderem as complexidades do modelo universal. Contudo.. os de seu sobrinhoneto Frederico Guilherme III (r. Government and Society in Siam. um homossexual caprichoso que certamente teria sido ignorado em outros tempos. curas executadas também pelos Bourbons. Enquanto os exércitos de Frederico. Universidade de Londres. Para uma primeira impressão dessa mudança. tituiu o princípio indispensável da sucessão pela primogenitura legal. " Noel A. "Trai Governmsnt and Admiriistraticn in the Reign of Rama VI (1910-1925)". Luís XV e XVI. Em 1887. o princípio da Legitimidade tinha de ser defendido em alta voz e deliberadamente e. p. línguas e linhagens sagradas. O que hoje parece incongruente obviamente parecia inteiramente natural aos olhos dos devotos medievais. ou as pinturas dos primeiros mestres italianos e flamengos. o Grande (r. Tese de Doutoramento IPhD). ins-. tais como os relevos e os vitrais das igrejas medievais. até o fim do ancien regime. muitos dinastas já vinham há algum tempo adquirindo um cunho "nacional". que. 390 e 398-9. aparece ajoelhado em adoração ao lado dos pastores. em 1910. mas um exército que tinha um pais. Contudo. Traço característico dessas representações é algo enganosamente análogo à "aparência moderna". 27 O novo sistema conduziu ao trono. desse modo "alinhando o Sião com as monarquias 'civilizadas' da Europa". A cristandade assume sua forma universal mediante uma 29 Marc Bloch. vestido como burguês ou em trajes de nobre. Por trás da decadência das comunidades. Rússia.. Grécia. o cliente que encomendou a obra. corno assinalaremos pormenorizadamente mais adiante. 270. Ana Stuart ainda estava curando os doentes pela superposição das mãos reais. tinha lugar uma mudança fundamental nos modos de apreender o mundo. Rama V (Chulalongkorn) enviou seus filhos e sobrinhos para as cortes de São Petersburgo. na França do Iluminismo. durante o século XVII — por razões de que não nos ocuparemos agora — a legitimidade automática da monarquia sagrada começou sua lenta decadência na Europa ocidental. Gneisenau e Clausewitz. porém.30 31 Contudo. Dinamarca — e Japão! 28 Ainda em 1914. 1971. isso dava colorido ao dito de que a Prússia não era um pais que tinha um exército. Os pastores que haviam acompanhado a estrela até a manjedoura' em que Cristo nasceu têm feições de camponeses da Borgonha. Em 1649. "Os prussianos de classe média aram superados pelos estrangeiros am seu próprio exército. no correr da década de 1650.29 Concepções do tempo ' Seria uma visão acanhada. 92. No longínquo Sião. a "monarquia" tornouse um modelo semipadronizado. um dos Estados mais importantes da Europa foi governado por um Protetor plebeu. A Virgem Maria é representada como filha de um mercador toscano. Tennõ e Filho do Céu tornaram-se "Imperadores". mesmo ao tempo de Pope e Addison. podemo-nos voltar para as representações visuais das comunidades sagradas. Lês fíois Thaumarurges. porém. eram em gran26 de parte formados por "estrangeiros". em consequência das espetaculares reformas de Scharnhorst. exclusivamente "nacionais-prussianos". Tese de Doutoramento fPhDS. mais do que qualquer outra coisa. Suécia. os reformadores prussianos exigiram "redução è metade do número de estrangeiros que ainda representavamcercade 50% dos praças./Wsroryo/M/ffíansm. Battye. tornou possível "pensar" a nação.. p. mas. com o tempo."AlfredVagts.. p. eram estrangeiros. "The Militarv. ." Em 1798. à medida que o antigo princípio da Legitimidade fenecia silenciosamente. Carlos Stuart foi decapitado na primeira das revoluções do mundo moderno e. a aprovação intermonárquica de sua ascensão ao trono como Rama VI foi ratificada pelo comparecimento a sua coroação de príncipes vindos da Grã-Bretanha. 1974. em 1806. 1740-1786). Estamos diante de um mundo em que a representação da realidade imaginada era irresistivelmente visual e auditiva. Em muitos quadros. 26 Depois de 1789. pensar que as comunidades imaginadas das nações simplesmente tenham brotado das comunidades religiosas e dos reinos dinásticos e tomado seu lugar. 18St9phan Green. 1868-1910". 1797-1840) já eram. Cornell. 64 e 85. Mais de mi! dos sete a oito mil homens do exército prussiano.

Grifo nosso. Feudal Society. mas por coincidência temporal. Feudal Society. 263.. 3I Auerbach oferece-nos um inesquecível esboço dessa forma de consciência: 32 30 31 Se um evento como o sacrifício de Isaac é interpretado como a prefiguração do sacrifício de Cristo. Ele está certo em acentuar que tal ideia de simultaneidade é inteiramente estranha a nós mesmos. O que veio tomar o lugar da concepção medieval de simultaneidade longitudinal ao tempo é. nada estava mais distante de seus pensamentos do que a perspectiva de um longo futuro para uma raça humana jovem e vigorosa". p. valendo-nos novamente de Benjamin. de modos que precisam ainda ser bem estudados. Representar a Virgem Maria com traços "semitas" ou vestimentas do "primeiro século". era algo inimaginável. e medida pelo relógio e pelo calendário. bispo Oito de Freising. este sermão. por Santo Agostinho. p. algo já consumado na esfera do evento terreno fragmentário. Mas é uma concepção de importância tão fundamental que. Nossa própria concepção de simultaneidade tem estado em elaboração por muito tempo e sua emergência ligase certamente. llíaminsíions.. p. Ela só pode ser estabelecida se ambas as ocorrências estiverem verticalmente vinculadas à Divina Providência. marcada não pela prefiguração e cumprimento. ela se manifestava de maneira diversa a comunidades particulares. a única capaz de traçar um plano de história como esse e fornecer a chave para sua compreensão. Essa justaposição do universal-cósmico e do particular-mundano significa que por maior que pudesse ser a cristandade. 265. 64. O humilde pároco cujos antepassados e cujas fraquezas eram conhecidos por todos os que assistiam a suas celebrações ainda assim era o intermediário direío entre seus paroquianos e o divino. aquela relíquia. porque o pensamento cristão medieval não possuía uma concepção de história como infindável corrente de causa e efeito ou de separação radical entre passado e presente. 34 33 34 WaltBr Banjarnin. algo onítemporal. l. 90. Ibid.. Mimeste.. que fomos colocados no final dos tempos". uma simultaneidade de passado e futuro em um presente momentâneo. p. não era menos essencial. a expressão "enquanto isso" não pode ter significação real. 84-6. no primeiro. p. l. a ideia de "trajes modernos". Embora a classe letrada transeuropéia que lia era latim fosse um elemento essencial na estruturação da imaginação cristã. é algo eterno. Citado em Bloch. dentro do espírito de restauração do museu moderno. no qual a simultaneidade é como se fosse transversal ao tempo. aquela fábula. se referisse seguidamente a "nós.que tão logo os homens medievais "entregavam-se à meditação. Bloch conclui.. a mediação de suas concepções para as massas iletradas.. aos olhos de Deus. acharemos difícil investigar a génese obscura do nacionalismo. se não a levarmos plenamente em conta. uma ideia de "tempo homogéneo e vazio".32 infinidade de especifi cidades e de particularidades: este relevo. 30 Bloch observa que o povo pensava que devia estar próximo o final dos tempos. como "a sombra do [isto é. dimensão horizontal. aquela peça moral. como réplicas delas mesmas. Era pois natural que o grande cronista do século XII. sempre pessoais e particulares.. estabelecese então uma conexão entre dois eventos que não se vinculam temporalmente. Confronte a descrição do Velho Testamento. aquele vitral. por meio de criações vi^ suais e auditivas. e que será cumprido no futuro. e sabia-se que era. de modo que. Para nos. nem oausalmente — conexão impossível de ser estabelecida pela razão na. suábias ou andaluzas. . o primeiro. " Dentro desse modo de ver as coisas. encontra-se o último como foi anunciado e prometido. Essa nova ideia está tão arraigada que se poderia e f Irma r que todo conceito fundamental moderno baseia-se num conceito de "enquanto isso". 32 Auerbach. o aqui e agora não é mais um simples vinculo em uma corrente terrena de eventos. Bloah. Ela encara o tempo como algo próximo do que Benjamin chama de tempo messiânico. no sentido de que a segunda vinda de Cristo poderia ocorrer a qualquer momento: São Paulo dissera que "o dia do Senhor chega como um ladrão no meio da noite". maneira metafórica de fazer equivaler passado e presente. ele é simultaneamente algo que sempre existiu. ao desenvolvimento das ciências seculares. é um reconhecimento iridireto de sua irrevogável distinção. e estritamente. e o último "cumpre". modalado da trás para díanle pelo] futuro".

The Corning ofthe Book. Em 1887. traço tão carsctarístieodas antigas crónicas. que seus membros (A e D) podem até mesmo ser descritos como passando um pelo outro na rua sem jamais se relacionarem e. 39 Um norte-ámericano jamais encontrará. mais do que um pequeno número de seus 240. lendas e livros sagrados. da que A. o "Pai do Nacionalismo Filipino". por sua vez. tudo ao mesmo tempo. tem um namorado (D). o que é que realmente liga A a D? Duas concepções complementares: primeiro. p. Talvez a perspectiva que estou sugerindo pareça menosabstrata se nos dedicarmos a examinar rapidamente quatro obras de ficção de diferentes culturas. Apenas eles percebem os vínculos. Podemos imaginar uma espécie de esquema temporal para esse segmento. emlcamonte diversificadas. urh enredo simples de romance. nem mesmo saberá como se chama. uma imprensa "nacionalista". o jornal só se torna uma categoria geral de material impresso após 1700. demonstra a novidade desse mundo imaginado evocado pelo autor nas mentes de seus leitores. que era. estarem li15 gados. C e O não saibam o que se passa com os outras. anónima e simultânea. Mas está absolutamente seguro de sua atividade constante. mas por atores que podem estar em grande medida despercebidos uns em relação aos outros. no século XVIII: o romance e o jornal. 287-302. in Pierre-Bernard Lafcnt e Denys tombará (orgs. ainda assim. se C tiver agido inteligentemente. para fins de ilustração. Foi. todas menos uma. * Eis a maneira admirável como começa:4l Essa potifona distingue decisivamente o romance moderno até mesmo de um precursor tSo brilhante quanto o Satyrícon. observam A telefonando a C. nos Tampos l. não ternos conhecimento simultaneamente de Gito na cama corn Ascyltus. B fazendo compras e D jogando sinuca. B. de Petrônio. um segmento de. 1 II NI D beba em urn bar A janta em casa com S C tem um sonho sinistro A discute com B C a D fazem amor A lelsfona a C ã vai és compras D joga sinuca Observe-se que. 38 Nesse contexto. Enquanto Encolpius lamenta a infidelidade de seu jovem amante. é recompensadora a comparação. As origens do jornal moderno encon* tram-sa nas gazetas do final do século XVII. A narrativa deste dessnróla-se linearmente. Apenas'eíes. p. 41 José Hizal. porém. como Deus. Considere-se primeiro a estrutura do romance à moda antiga. 37 Embora a Príncesse tíe CIÊves já tivesse sido publicada sm 1678. Yabes. da seguinte maneira: Tempo: Eventos. p. 40 ftizel escreveu esse romance na língua colonial (o espanhol). . que eles estão encravados em "sociedades" (Wessex. 35 Pois essas formas ofereceram os recursos técnicos para "re-[a}presentar" a espécie de comunidade imaginada que é a nação. e da elite nativa. 3S Então. e podem na verdade não ter sequer conhecimento da existência um do outro. Não tem ideia alguma sobre o que estão fazendo em qualquer tempo.000 de compatriotas. 1. escreveu ò romance NoliMe Tangeré. a época ds Richardson. surgia também. Los Angeles). que também é concebida como uma comunidade compacta que s'e move firmemente através da história. O fato de que todos esses atos são desempenhados no mesmo tempo. José Rizal. estrutura típica não só das obras-primas de Balzac.000. II e llt. de qualquer romance histórico. como o tagato a o ilocano. no qual um homem (A) possui uma esposa (B) e uma amante (C) que. ou um comentário complexo sobre a expressão "enquanto isso". no época. medido pelo relógio e pelo calendário. não apenas em espanhol. também. Líibeck. 197. Febvre e Martin. Tomemos. mas também de qualquer romanceco contemporâneo. chegando multas veres até à origem do homem. e de diferentes épocas. indissoluvelmente ligadas a movimentos nacionalistas. 38 A ideia de um organismo sociológico que se move pelo calendário através do tempo homogéneo e vazio apresenta uma analogia precisa corn a ideia de nação. 39 Nada demonstra melhor a Imersão do romance em um tempo homogéneo e vazio do que a ausSnela daquelas genealogias preliminares. Detoe e Fielding é o inicio do século XVIII. a língua franca das elites euraslanas. que A e D estão encravados nas mentes dos leitores oniscientes. Noli Ma Tengere. Var Leopoldo Y. com documentos ou relatos da época transformada em ficção. hoje considerado o melhor produto da literatura filipina moderna. The Lost Éden.35 Pode-se perceber bem melhor por que essa transformação seria tão importante para o nascimento da comunidade imaginada da nação se considerarmos a estrutura básica de duas formas de imaginar que pela primeira vez floresceram na Europa. a compreensão do enredo pode depender.). pela primeira vez. M De fato. no correr dessa sequência. Littératures contemporaines de l'Asíe du Sud-Est. Ela é evidentemente um instrumento para a apresentação da simultaneidade em um "tempo homogéneo e vazio". mas em línguas "aborígenes". "The Modern literature of the Philippinss". Essas sociedades são entidades sociológicas de uma realidade tão firme e estável. A e D jamais se encontram. 37 Segundo. no entanto. quase o primeiro romance escrito por um "índio". Ao mesmo tempo que o romance.

às vezes se considera que eles estão contratados pelo governo exatamente para esse fim. de seus anos de estudo em Atenas e de 4Í O reverso da obscuridade anónima dos leitores foi/é B celebridade Imediata do autor. abran- gendo personagens. autor e leitores.. em outros distritos de Manila. nas Filipinas. p. Baltazar. esse obscuridade/celebridade tem tudo a ver com B disseminação do capitalismo editorial. embora talvez já tivesse sido escrita em 1838. como se seu relacionamento com eles não fosse nem um pouco problemático. para ser declamado em voz alta. de tal modo que a história completa só nos chega mediante uma série de falas que servem como/fos/ibacks". Noli foi feito para ser lido. 44 Ibid. onde ele morava. jamais fechava suas portas — exceto.37 Don Santiago de los Santos oferecia um jantar festivo numa noite de fins de outubro da década de 1880. e indicava que ele havia sido outrora o prefeito nativo de uma pequena cidade. Observe-se também o tom. cuja primeira edição impressa data de 1861. Na verdade. Seu cenário — uma Albânia medieval fictícia — é completamente distante no tempo e no espaço da Binondo da década de 1880. outros. havia criado e generosamente multiplicado em Manila. E na frase "uma casa na Rua Anloague.42 Não há o que ofereça maior sentimento foucaultiano das abruptas descontinuidades da consciência do que comparar Noli com a mais célebre obra literária anterior de um "índio". desculpar-se polidamente por não haver chegado mais cedo onde presumivelmente sua presença era tão ansiosamente esperada. 143 e 235. ** Quase metade dos 399 quartetos são relatos da infância de Fiorante. ou.. aristocrata persa muçulmano ("mouro") — só nos lembram as Filipinas pela ligação cristão-mouro.ces in tha Development of Tagatog Postry. os quais Deus. ele tinha reputação de pródigo.velha amizade. O jantar foi oferecido em uma casa na Rua Anloague. B por séculos. que não se conhecem entre si. Certamente não é necessário um longo comentário. isso se deixa em geral para Deus e a Natureza. porém. .. mistura expressões espanholas em seus quartetos em tagalo. *Mbid. satíricos ou nacionalistas. só cr tenha anunciado na tarde do mesmo dia. em Sua infinita sabedoria. a imprensa foi mantida sob estrito controla eclesiástico. Lumbera. Embora Rizal não tenha a menor ideia da identidade de cada um de seus leitores. Todos sabiam que sua casa. que ainda pode ser reconhecida. 205-6. num determinado mês de uma determinada década. para o tempo "exterior" da vida quotidiana do leitor de Manila oferece uma confirmação hipnótica da solidez de uma comunidade singular. apenas para aumentar a grandiosidade e a sonoridade de sua linguagem poética. dominicanos ativos haviam publicado em Manila a Doctrina CMstiana. logo de início. Como varemos. escreve para eles com uma intimidade irónica. Embora. A liberalização só teve Inicio na década de 1860. O mais chocante é o manuseio do tempo por Baltazar. é claro.. quanto a tudo o que tem de básico. a Pmagdaanang Buhay nl Florante at w Loura sã Cahariang Albânia [A história de Florante e Laura no Reino da Albânia]. Seus heróis — Florante. 35. Como observa Lumbera. Basta que se observe que. a menos que tenha vindo abaixo com algum terremoto. que se movem para diante pelo tempo do calendário.. e até mesmo na cidadela espanhola de Intramuros. quem reconhece somos nós-os-leitores-fílipinos. De modo que a notícia de seu jantar correu como um choque elétrico por toda a comunidade de filantes. Certamente não terá sido demolida por seu proprietário. ao comércio e a qualquer ideia que fosse nova ou ousada. 1570 a 1898". de botões de colarinho e gravatas. A história começa In medias rés. Don Santiago era mais conhecido como Capitão Tiago — a patente não era militar mas política. um nobre albanês cristão. o mundo de sua obra-prima é. não intencionalmente. mas cada um deles dedicou o melhor de seu pensamento à maneira como poderiam saudar seu anfitrião com a fingida intimidade de. Naquele tempo. "o desenrolar do enredo não segue uma ordem cronológica. e seu amigo íntimo Aladin. "Tradition and Influer. Enquanto Rizal salpica deliberadamente sua prosa espanhola com palavras de tagalo para obter efeitos "realistas". 43 Pois embora Baltazar ainda fosse vivo quando nasceu Rizal.". em diferentes bairros de Manila. do tempo "interior" do romance. p. Ver Blenvenido L. p. se houvesse ocasião. logo se tornou o tema das conversas em Bínondo. evoca imediatamente a comunidade imaginada. contrariando seu costume. A passagem natural dessa casa. estranho ao de Noli. Já em 1593. a imagem (inteiramente nova na literatura filipina) de um jantar que é discutido por centenas de pessoas anónimas. enquanto Florante at Laura. que ainda pode ser reconhecida. como seu país. Alguns deles puseram-se em busca de polimento para suas botas. metseqs. A partir de então. parasitas e penetras..

) Finalmente. ao mesmo tempo. Al! morreu em 1932. o destino que te coube. muito embora depare com muita gente boa e sábia.. Nas palavras de um crítico. Mimesis. 50 Essa deslocamento de um herói solitário por uma paisagem social adamantina é típico de muitos dos antigos romances (antí)coloniais.. linear. as estruturas que temos estudado sejam algo "europeias". setenta anos antes de Noli ser escrito. sua ligação apenas se dá pelas vozes em conversa. mas todas representativas (em sua existência simultânea e distinta) da tirania desta colónia. ladrão. funcionário numa cidade do interior. Após uma carreira curta. enquanto Florante ainda estudava em Atenas. A tradução para o inglês é da Lumbera. monastérios. para ajustá-lo a uma edição da 1973 do poema. "Mas Marco Kartodikromo (c. aldeias longínquas. ou não tinham capacidade para disciplinálo. 1 ("Odysseus1 Scar"). manda o filho para a universidade e assegura assim que ele irá aprender apenas disparates supersticiosos. nem para levar nada a sério. 47 Jean Franco. a única alternativa de uma narrativa direta. da crueldade. [o herói. sucessivamente. Esse tour d'horison picaresco — hospitais. uma história escrita pelo malfadado jovem indonésio nacionalista-comunista. Cada uma delas. e'sse texto é "uma feroz acusação à administração espanhola no México: ignorância. evidentemente a primeira obra latino-americana desse género. após seis anos de confinamento. Henrl Chambert-Loir. por terem Rizal e Lizardi escrito ambos em espanhol. cap. superstição e corrupção são vistas como suas mais notáveis características".. 51 Segundo tradução de Paul Tickell em seu Three Early Indonesian Short Stories t>y Mas Marco Kartodikromo (s. o papagaio sarnemo) é exposto a • más influências — criadas ignorantes incutem superstições. i. cusa mang pinatay/ sã iyo. %. ao invés de ir engrossar as fileiras dos advogados e parasitas. aldeias longínquas.. p./ acong tangulan mo. Nada nos assegura mais dessa solidez sociológica do que a sucessão de plurais. seu defensor.45 (Contraponham-se as prisões da Bíblia. A forma essencial desse romance "nacionalista" está na seguinte descrição de seu conteúdo: 4S Desde o inicio. que tal interpretação ô anacrónica. que agora tu assassinas/ lamento. como aquela em que Salomé seduziu-se por João Batista. prisões. Não tem disposição para trabalhar. agora reino/ do mal. p. Alterei ligeiramente o texto em tagalo apresentada por ele. p. O horizonte é claramente delimitado: é o do México colonial. fornecidos pelo herói em conversa com Aladin. jogador. 50 publicada em folhetim.. um dos mais antigos campos de concentração do mundo. 34. brutalidade e decepção!/ Eu. negros — não é porém um tour du monde. nunca ocorre a Baltazar "situar" seus protagonistas na "sociedade". monastérios. p. Periquillo continua incorrigivelmente ignorante.suas subsequentes proezas militares. ^ Em 1816.estabilidade que funde o mundo de dentro do romance com o mundo de fora. p." Essa famosa estrofe tem sido às vezes interpretada corno uma vetada afirmação de patriotismo filipino. Mas Marco Kartodikromo.. e se torna. {890-1932Í. Aladin era expulso da corte de seu soberano."/ "Adeus. médico. bangis caliluhan. padre. para afastar a possibilidade de que. enquanto. 35-6'. Esses episódios permitem que o autor descreva hospitais. Elas não são nunca imaginadas como típicas desta ou daquela sociedade.. in Littératures contemporaines de l'A$ia du Sud-£st.. Grifos nossos. nos longínquos pântanos interiores do oeste da Nova Guiné. Grifos nossos. seus professores ou não tinham vocação. Vemos aqui novamente a "imaginação nacional" funcionando nas andanças de um herói solitário por uma paisagem sociológica de uma .". Marco foi internado pelas autoridades coloniais holandesas em Boven Digul. . e não pela estrutura do poema. Pois eles evocam um espaço social cheio de prisões comparáveis. Quão distante está essa técnica da do romance: "Naquela mesma primavera. ou discuti-los com seu público.. i. porém. como jornalista radical. Como também não há muito de "filipino" nesse texto. "Tradition and Influenoes". mas Lumbera demonstra. para Baltazar. está magicamente solitária. 4S O "flashback falado" foi. 46 "Paalam Albaniang pinamamayanam/ ng casama. sua mãe satisfaz seus caprichos. ÍB Ibid. prisões. 203.. Se ficamos sabendo dos passados "simultâneos" de Florante e Aladin. Albânia. 7. baseada na impressão de 1861. martela num ponto importante — que o governo espanhol e o sistema de educação estimula m o parasitismo e a preguiça. aprendiz de farmácia.. em 1924:31 49 45 A técnica é semelhante à da Homaro. nenhuma deJas por si só de qualquer importância singular. de maneira convincente. eis aqui o início de Semarang Hitaw [O Semarang negro]. índios. As aventuras de Periquillo levam-no diversas vezes a estar entre índios e negros. meteórica. De fato. é a supermãe de Periquillo que ganha a parada. a não ser pelo fluxo melífluo dos polissílabos em tagalo.lupit. An tntroifuction to Spsnish-Arnerícsn Literature. malaquf ang panghihinavang. tão competentemente exposta por Auerbach.. José Joaquín Fernandez de Lizardi escreveu um romance chamado El periquillo sarmento [O papagaio sarnentoj. 1890-1932) ou L'&Jucation Politique". E embora seu pai seja um homem inteligente que quer que o filho se dedique a uma profissão útil. 214-15.

mas dessa vez iriam se decepcionar — devido à letargia causada pelo mautempaeàsestradaspeguentas noskampongs. têm qualquer. sistema social. implicitamente. mas imagina-o a partir do que está impresso num jornal. Em outro momento ainda. deu com uma notícia intitulada: PROSPERIDADE Um miserável vagabundo f içara doente e morrera ao abandono à beira da estrada. Às vezes sua irritação. Estava totalmente absorvido. individualmente. Observe-se que Marco não sente necessidade de especificar essa comunidade pelo nome: ele já está ali. quando o vento soprava do leste. A luz das fileiras de lâmpadas de gás iluminava diretamente a estrada de asfalto brilhante. . a comunidade imaginada confirma-se pela réplica de nossa leitura a respeito da leitura de nosso jovem. carruagens. Qual a convenção literária fundamental do jornal? Se olharmos uma primeira página típica de. O jovem comoveu-se com esse breve relato.40 41 Eram sete horas. ali encontrare62 Aqui.. digamos. a luz clara das lâmpadas de gás se obscurecia. 208. as calçadas habitualmente apinhadas de gente. pertence ao corpo coletivo dos leitores do Indonésio. mas coerentemente mencionado como "nosso jovem". As estradas principais habitualmente abarrotadas de toda sorte de tráfico. ("Mas Marco". como se pode ver pelo fato de que o ódio do jovem dirige-se "ao". seu ódio dirigiu-se ao sistema social que dava origem a tanta pobreza. É apropriado que. tudo estava deserto. a manha de sábado era um momento de expectativa — expectativa do lazer e da alegria de circular pela cidade à noite. p. Nessa noite. incitando o cavalo a tocar em frente — ou o clip-clop dos cascos dos cavalos puxando as carruagens. escritórios. Sobre-o herói desse romance (que ele atribui erradamente a Marco]. lendo um jornal. A seguir sentiu piedade. pois.. Por um momento sentiu um ódio explosivo bem dentro de si. o "nosso jovem" de Marco. Como no caso de Noli. os Jovens de Semarang jamais ficavam em casa aos sábados à noite. um herói solitário é sobreposto a uma paisagem social descrita em detalhes cuidadosos e gerais.noite. enquanto tornava rico um pequeno grupo de pessoas.. Uma vez mais. porém. Virava as páginas do jornal. Pelo fato de que a pesada chuva durante o dia todo deixara as estradas encharcadas e muito escorregadias.dúvida quanto à referenda. Ele não encontra o cadáver do miserável vagabundo à beira de uma estrada peguenta de Semarang. alguns de nós pode- Em 1924. apareça um jornal encravado na ficção. estamos num mundo de plurais: oficinas. Semarang estava deserta. não menos pela inovação. e não "a nosso". como em El periquillo sarmento. Vez por outra. o morto: ele pensa no corpo representativo. De vez em quando. Grilo nosso. 52 Ele também não se importa o mínimo com quem seja.. sente um profundo mal-estar diarvte da organização social que o rodeia e sente necessidade de ampliar seus horizontes por dois métodos: viagem e leitura".) Finalmente. sábado à. esperando talvez encontrar algo que o fizesse parar de se sentir tão miserável. Para os trabalhadores de oficinas e escritórios. vamos ficar chocados por seu profundo caráter ficcional. uma embrionária "comunidade imaginada" indonésia. em Semarang Hiíam. significa um jovem que. às vezes seu sorriso eram sinal certo de que estava profundamente interessado no que lia. mós bem ter caminhado por aquelas "peguentas" estradas de Semarang. (Mesmo que os censores coloniais holandeses poliglotas se juntem a seus leitores. Nem Marco. Chambert-Loir escreva que "não t a m ideia nenhuma tio sentido da palavra 'socialismo': não obstante. não na vida pessoal. o tropo "nosso herói" simplesmente ressalta um jogo do autor com ura leitor (qualquer). Repentinamente. Imaginava perfeitamente o sofrimento daquela pobre alma quando jazia moribunda à beira da estrada. e assim. não havia ninguém se mexendo. Um jovem estava sentado num longo sofá de vime. eles estão excluídos de participar desse "nosso". um amigo Intimo e aliada político de Marco publicou um romanos intitulado Rasa Manlika [Samido llvro/O sentimento da libertada]. Exatamente o caráter canhestro e a ingenuidade literária do texto confirmam a "sinceridade" não deliberada desse adjetivo pronominal. Mas há também algo de novo: um herói que nunca é chamado pelo nome. kampongs e lâmpadas de gás. The New York Times. todos haviam ficado em casa. nós-os-Ieitores-indonésios mergulhamos imediatamente num tempo de calendário e numa paisagem familiar. Se na ficção jocosa e elaborada da Europa dos séculos XVIII e XIX.) O papagaio sarnento mudou-se para Java e para o século XX.' nem seus leitores. o estalo de um chicote duma charrete. se nos voltarmos agora para o jornal como produto cultural.

fome em Mali. volumes ou unidades).. 69 Além disso. A segunda fonte de vinculação imaginada encontra-se na relação entre o jornal.54 Entre 1500 e 1600. como tecidos. 8 em cada uma. 24 gráficas com mais de cem operários em cada uma delas. 2 na Boémia e 1 na Polónia.. controlava. Uma libra de açúcar^ é simplesmente uma quantidade. teve uma primeira edíçflo de apenas 4. em centros urbanos como Paris. aguardando sua reaparição seguinte no enredo. 30 na Alemanha. 57 Esse é um ponto bom estabelecido no meio das fantasias de Gutenberg Galaxy.182l 86 Ibid. um livro vendido em escala imensa.. Em 1455. vinte anos depois. o livro foi a primeira mercadoria industrial produzida em série no estilo moderno. o principio é mais importante do que a escala de grandeza. Ao mesmo tempo. A tiragem média no século XIX era inferior a 2. da Antuérpia. Quem quer que tenha dinheiro poda comprar carros checos. se compararmos o livro com outros primeiros produtos industriais. já no século XVI. nisso. nem por um momento os leitores imaginarão que Mali desapareceu.ele antecipa os produtos duráveis de nossa época — é um objeto bem definido. Pode-se acrescentar que. p.)59 Desta perspectiva. O livro. na Holanda e na Espanha. a descoberta de um fóssil raro no Zhnbábue. Até mesmo a Bíblia de L'jtoro. é óbvio que a maioria deles aconteceu independentemente. Pois estas mercadorias são medidas em quantidades matemáticas (libras. A grande editora Plant n. fornece a conexão essencial — a marcação regular da passagem do tempo homo* gêneo e vazio. The Coming of lhe Book. "o mundo" caminha decididamente para a frente. as oficinas gráficas mais se assemelhavam a modernas oficinas de trabalho do que 53 a salas de trabalho monásticas da Idade Média. O sinal disso: se Mali desaparecer das páginas do The New York Times por meses a fio. p. a marca peculiar mais importante que ele apresenta. pode-$a dizer qua. Já em 1480.000 edições produzidas em nada menos que 236 cidades. 'Poderia dizer-se que são best-sellers por um só dia. Dickens também publicava como folhetim em jamais populares seus romances populares. reproduzido com exatidão em grande escala.. e um discurso de Mitterand. 54 Febvre e Martin.000. no século XVI. produziram-se ria Europa mais de 20. ou açúcar. extraordinário best-seUet. 56 Quanto a isto. Mais adiante. 125). 125. Ibíd. o livro sempre se distinguiu dos demais bens duráveis por seu mercado intrinsecamente limitado. o jornal não passa de uma "forma extrema" do livro. ou do que os outros estavam fazehdo. um horrível assassinato. no século XVI. Por que se justapõem tais eventos? O que os liga uns aos outros? Não é mero capricho. 262. Fust e Schoeffer já geriam um negócio. na Bélgica e na Suíça. havia gráficas em mais de 110 cidades." (p. A primeira é simplesmente coincidência no calendário. 50 das quais na hoje Itália. 218-20.260 exemplares. coleções pessoais de mercadorias produzidas em série. contudo. 4 na Inglaterra. em algum lugar fora dali.000 exemplares. um volume conveniente» não um objeto em si mesmo. 5 em cada. cada livro possui uma auto-suficiência erèmítica própria. depois de dois dias de reportagens sobre a fome. porém — e. o editor venaziano Aldus havia sido pioneiro no lançamento da uma "edição de bolso" portátil. (Não «admira que bibliotecas.53 Dentro daquele tempo. as Bicões oram ainda relativamente pequenas. como uma forma de'livro. . "A partir daquela data.000 exemplares. Calcula-se que. p. porém de popularidade efémera. Contudo. iremos examinar a importância ctsssa distinção. o livro Impresso foi de uso universal. í7 O sentido que tenho em mente se revela. se o mercado do livro tornouse pequeno diante dcs marcados de outras mercadorias. auto-suficiente. Comentam os autores que. Essa vinculação imaginada provém de duas fontes indiretamente relacionadas. A primeira edição excepcionalmente grande da Encyc/opédie de Dlderot n5o foi além da 4. A arbitrariedade de sua inclusão e justaposição (uma edição posterior substituirá Mitterand pelo resulta1do de uni jogo de beisebol) demonstra que a vinculação entre eles é imaginada. já em fins do século XV. os dois tipos de bast-sellers costumavam ser méis estreitamente ligados do que hoje. e o mercado. de Marshall McLuhan (p. no correr dos quarenta anos entre a publicação da Bíblia de Gutenberg e o final do século XV. 60 Como demonstra o caso do Semanng W/tam. p. 5B Uma libra de açúcar confunderse com a seguinte.000 de volumes impressos. na Europa.42 43 mós reportagens sobre dissidentes soviéticos. o "personagem" Mali se movimenta silenciosamente." 56 Em sentido muito especial. golpe no Iraque. 9 na França. 60 A obsolescência do jornal no dia seguinte ao de sua impressão — é curioso que uma das ss Lar um jornal é como ler um romance cujo autor tivesse deixado de lado qualquer ideia de um enredo coerente. tijolos. A data no alto do jornal. apenas quem lá checo comprará livros em checo. já fossem um espetáculo comum.5Í "Desde então. em toda [sic] a Europa. os livros estavam prontamente à disposição de qualquer um que soubesse ler. The Corning of lhe Book. sem que seus atores tivessem consciência uns dos outros. equipado para a produção padronizada e. esse número atingira entre 150 e 200 milhões. sau papal estratégico na disseminação da ideias tornou-o.' O formato de romance que tem o jornal lhes assegura que. ou que a fome exterminou todos os seus cidadãos.. grandes empresas gráficas funcionavam por toda parte. 186. Ata o século XIX. da importância fundamental para o desenvolvimento da Europa moderna. Febvre e Martin. Isso montava a não menos de 35.

61 s3 "Material impresso estimulava a adesão silenciosa a causas cujos defensores não podiam ser localizados em nenhuma localidade 9 que se dirigiam de longe a um público invisível. é a marca de garantia das nações modernas. nem a tornasse mais frutífera. Antes de iniciar uma discussão das origens específicas do nacionalismo. 61 Contudo. vendo réplicas exatas de seu jornal sendo consumidas por seus vizinhos do metro. enraizavam firmemente as vidas humanas na própria natureza das coisas. para o homem moderno. por milhares (ou milhões) de outros. cujo uso se processa num fluxo contínuo. Sem dúvida. a ficção desliza silenciosa e continuamente para dentro da realidade. da barbearia ou de sua casa. no sentido de um novo modo de tornar a vincular fraternidade. deixaram de ter domínio axiomático sobre o pensamento dos homens. ao correr do calendário." Elizabeth L. O primeiro deles era a ideia de que uma determinada língua escrita oferecia acesso privilegiado à verdade ontológica.) A significação dessa cerimónia de massa — Hegel observava que os jornais são. p. Ajiecadência lenta e irregular dessas certezas encadeadas. à privação e à escravidão) e propiciando vários modos de libertar-se delas. penso eu. simultaneamente. por assim dizer. p. será conveniente recapitular as principais proposições apresentadas até aqui. Essas ideias. porque o governante. das "descobertas" (sociais e científicas). Sabemos que determinadas edições matinais e vespertinas serão esmagadoramente consumidas entre tal e tal hora. antes só encontra nas regularídadss diárias ds vida da imaginação. que a possibilidade mesma de se imaginar a nação só surgiu historicamente quando. de maneira profundamente renovada. que tornou possível.44 45 mais antigas mercadorias produzidas em série fizesse antever assim a obsolescência implícita dos modernos produtos duráveis — cria. observa Nairn que "o mecanismo representativo converteu a desigualdade ds ciasse real no igualitartsmo abstraio de cidadãos. (Contraponha-se isso ao açúcar. e não em outro. . Afirmei. como a escrita sagrada. Mas o mecanismo representativo (eleições?) á uma festa rara e móvel. Eisenstein. criando aquela notável segurança de comunidade anónima que. As lealdades humanas eram necessariamente hierárquicas e centrípetas. Mais ainda. e do desenvolvimento cada vez mais rápido das comunicações. o leitor de jornal. ele pode ficar ruim. O segundo era a crença de que a sociedade era organizada de maneira natural em torno de e sob centros elevados — monarcas que eram pessoas distintas dos outros seres humanos e que governavam por alguma forma de disposição cosmoiógica (divina). Talvez nada acelerasse mais essa busca. os egoísmos individuais em vontade coletiva impessoal. um substituto das preces matinais — é paradoxal. essa cerimónia é interminavelmente repetida a intervalos de um dia. associadas. A geração da vontade impessoal. Como se poderia representar ilustração mais vívida para a comunidade imaginada historicamente cronometrada? 62 Ao mesmo tempo. o que de outro modo seria o caos dentro de urna nova legitimidade do Estado". Não é pois surpresa que a busca se processasse. e se relacionarem com outras. Ao escrever sobre a relação entre a anarquia material da sociedade de classe média e uma ordem estatal política abstraia. esta extraordinária cerimónia de massa: o consumo ("o imaginar") quase que. sendo essencialmente idênticas as origens do mundo e dos homens. 42. pensarem sobre si mesmas. ou de meio dia. apenas neste dia. mas não fica atrasado. £4. cravou uma firme cunha entre a cosmologia e a história. 40: 1 (março de 1968). cada um dos comungantes está bem cônscio de que a cerimónia que executa está sendo replicada. era um ponto central de acesso à existência e a ela inerente. de cuja existência está seguro. três conceitos culturais básicos. sente-se permanentemente tranquilo a respeito de que o mundo imaginado está visivelmente enraizado na vida quotidiana. poder e tempo de uma maneira significativa. sob o impacto da mudança económica. a concepção de temporalidade. exatamente simultâneo do jornal-comoficção. todos extremamente antigos. por toda parte. Ela se desenrola em silenciosa intimidade. no entanto. depois. embora sobre cuja identidade não possua a menor ideia. em que a cosmologia e a história não se distinguiam. não cronometrado. e onde. bem no fundo da cabeça. conferindo determinado sentido às fatalidades diárias da existência (sobretudo à morte. Em terceiro lugar. do isiamismo e as demais. Foi essa ideia que permitiu que surgissem as grandes congregações transcontinentais da cristandade. fundamentalmente. Como em Noli Me Tangere. Jautri»! of Modern Hlstary. a um número cada vez maior de pessoas. precisamente por ser parcela inseparável daquela verdade. do que o capitalismo editorial. The Break-up of Brítain. primeiro na Europa ocidental e. "Some Conjectures about trie Impact of Prirjting on Western Society and Thought". exatamente por essa razão.

6 "Daf ter sido a introdução da imprensa. O fato decisivo quanto ao latim — fora sua sacralídade — é que ele era uma língua de biííngúes. muito provavelmente não maior do . 3 A população da Europa em QU9 a imprensa era então conhecida era du cerca de 100. Polo.. seriam o atrativo. 56. Assim sendo. No século XVI. Por que. 122. porém.000.000. transversal ao tempo". 5 Naturalmente. p. As primeiras gráficas instalaram filiais por toda a Europa: "desse modo." Ibid. sonhava em latim. que permaneceu em grande medida desconhecido até sua primeira impressão em 1559. The Corning of Ifie Book. p. Pode-se. 394. (O textc original diz "une civilisation da masse et de standardisation". mas. 3 Citado em Eisansteín. 187. a grande massa da humanidade é de monoglotas. The Corning of the Book. 259-60. 194. fala simplesmente de "par-dessusles frorrtíères" í" por sobre as fronteiras"!. criouse-uma verdadeira 'internacional' de editoras. o movimento esta4 Febvre o Martin. a proporção de bilíngues na população total da Europa era muito pequena.) 6 Ibid. quanto a isso.. 1 Sendo uma das mais antigas formas de empresa capitalista.5 . como crêem Febvre e Martin. a atividade editorial participou da expansão geral. imagina-se. Febvre e Martin. pue melhor se traduziria por "civilização padronizada.que a proporção na população mundial de hoje e — não obstante o internacionalismo proletário — dos próximos séculos. porém. Se o conhecimento manuscrito era um saber escasso e misterioso. p. p. p. 281. não é de admirar que Francis Bacon julgasse que a imprensa havia alterado "a aparência e o estado do mundo". ainda assim estamos simplesmente no ponto em que se tornam possíveis comunidades do tipo "horizontai-secular. que ignorava fronteiras nacionais [sic]". p. defender com'vigor a primazia do capitalismo. o conhecimento impresso vivia da reprodutibilidade e da disseminação. 6 O mercado inicial foi a Europa letrada. os mercados representados pelas massas monoglotas. "Some Conjectures". p. potencialmente enormes. em meados do século XVII. de massa".. uma vez que o mercado latino de elite estava saturado. L'AppBrition. uma atapa no caminho para nassa atuo soc-iedsde de consuma da massa e de padronização. L 'Apparitíon. pelo menos 20 milhões de livros já haviam sido impressos em 1500. "Mais do que em qualquer outro tempo" ela foi "uma grande indústria sob o controle de abastados capitalistas". XIII. ' indicando o surgimento da "era da reprodução mecânica" de Benjamin. conseqúentemente. 4 E cbmo os anos de 1500-1550 foram um período de prosperidade excepcional na Europa. Como já foi assinalado. O 1axtt> original fala ao capitalistas "puissants" (poderosos. (O texto original. a nlo "abastados". é possível que 200 milhões de volumes já tivessem sido manufaturados por volta de 1600. p. ampla mas ténue camada de leitores do latim. L'Apparitiorr. buscavam primeiramente aquelas obras que fossem de interesse para o maior número possível de seus contemporâneos". como hoje.47 AS ORIGENS DA CONSCIÊNCIA NACIONAL Se o desenvolvimento da imprensa-como-mercadoria é a chave da geração de ideias inteiramente novas de simultaneidade. a edição de livros era afetada por toda a busca incessante de mercados do capitalismo. dentro desse tipo. 2 Se. Relativamente poucos haviam nascido para falar em latim e menor número ainda. Travsls. a nação se tornou tão popular? Os fatores envolvidos são obviamente complexos e variados. É certo que a Contra-Reforma estimulou um ressurgimento temporário da atividade editorial em latim. 248-9. 2 Característico disso é o livro das viagens de Marco Polo. Naquela época. A saturação desse mercado levou cerca de 150 anos. os "livreiros preocupavam-se primordialmente em conseguir lucro e em vender seiis produtos e. a lógica do capitalismo indicava que. p.

tornou-se patente. Agora. uma verdadeira massa de leitores e uma literatura popular ao alcance de todo o mundo. e em última análise o menos importante. Para nos atermos à Genebra de Calvino: entre 1533 e 1540. "no espaço de quinze dias [haviam sido] conhecidas em todos os cantos do país". cada vez mais afastado da vida eclesiástica e da vida quotidiana. mas esse número subiu para 527. Lutero tornou-se o primeiro autor de grande vendagem conhecido como ta!. Em segundo lugar. Antes da era da imprensa. o protestantismo sempre esteve basicamente na ofensiva. . Entre 1522 e 1546.. Símbolo disso é o índex Llbrorum Prohibitorum do Vaticano — que não tinha correspondente no protestantismo —. 310-5. uma escassez de dinheiro por toda a Europa levou as gráficas a pensar cada vez mais em vender edições baratas nas línguas vulgares. Nessa gigantesca "luta para conquistar o pensamento dos homens' '. foi uma alteração no caráter da própria língua latina. Ibid. 161. M Ibid. " Ibid. elas foram impressas em tradução para o alemão e. que as compravam como investimentos excelentes." 9 De fato. p. e para sua inaplicabilidade. uma nova forma de apreciar os elaborados resultados estilísticos dos antigos.. p. tornava-se obscuro devido ao que era escrito. Molíèra s La Fomaine •vendiam suas tragédias e comédias manuscritas diretamente. catálogo singular que se fez necessário devido ao maciço volume de subversão impressa. na época. as fronteiras orientais de seu reino estavam cercadas por Estados e cidades protestantes que produziam uma torrente maciça de material impresso contrabandeável. 8 Nas duas décadas de 1520-1540. Dessa maneira. para a qual Lutero foi absolutamente fundamental. dois dos quais contribuíram diretamente para o surgimento da consciência nacional. 7 O impulso revolucionário do capitalismo no sentido da utilização das línguas vulgares recebeu um ímpeto adicional de três fatores externos. Pois o antigo-latim não era obscuro devido a seu conteúdo ou a seu estilo. em 1535. transformação espantosa. Ibid. e nesta última data não havia menos de quarenta gráficas distintas trabalhando em horas extras. fazendo renascer a enorme literatura da antiguidade pré-cristã e disseminando-a por meio do mercado editorial. "Temos aí. dando início à colossal propaganda religiosa que avassalou a Europa toda no correr do século seguinte. 195. pela primeira vez. Martinho Lutero afixou suas teses na porta da capela em Wittenberg. isto é. no seio da//ltelUgentsia transeuropéia. 10 Onde Lutero foi o primeiro. enquanto que a Contra-Reforma defendia a cidadela do latim.. O primeiro deles. foram publicadas 430 edições (integrais ou parciais) de suas traduções da'Bíblia. em outras palavras. 291-5. Roma ganhava facilmente todas as guerras contra a heresia na Europa ocidental. em 1517. 289-SO. foi o impacto da Reforma que.. tendo em vista a reputação de seus autores no mercado. ele adquiriu uma característica esotérica. precisamente porque sabia como utilizar o crescente mercado da imprensa em língua vulgar que o capitalismo criava. A partir desse ponto. ao mesmo tempo. o primeiro escritor que vendia seus Sivros novos com base no próprio nome. e saturadas as bibliotecas ardorosamente católicas. entre 1550 e 1564. Quando. porque sempre teve linhas internas de comunicação melhores que seus desafiantes. p. Ou. mas apenas por ser inteiramente escrito. Nesse meio tempo.. que vedava a impressão de todo e qualquer livro em seu reino — sob pena de morte por enforcamento! A razão para essa proibição.48 49 vá em decadência. outros rapidamente se seguiram. era só um passo pars a situação na França do século XVII. s 10 p. deveu muito de seu êxito ao capitalismo editorial. 8 Suas obras representaram nada menos do que um terço de iodos os livros em alemão vendidos entre 1518 e 1525. foram editados três vezes mais livros na Alemanha do que no período de 1500-1520.aos editoras. como prova disso. 7 lbid. Nada transmite melhor o sentido' dessa mentalidade de assédio do que a aterrorizante proibição de Francisco I. devido a seu status como texto. porém. O latim que agora se pretendia escrever tornava-se cada vez mais ciceroniano e. Graças ao labor dos humanistas. p. haviam sido publicadas ali apenas 42 edições. onde Corrwllla. está em que. devido à linguagem em si mesma. muito diversa da do latim da Igreja da época medieval.

Entre cerca de 1200 e 1350. a língua da corte. 28-9. Netfons anrf Slates. em 1382. uma lenta fusão entre essa língua de uma classe dirigente estrangeira e o anglo-saxão da população submetida deu origem ao inglês primitivo. que tipicamente pouco ou nada. p. No Sena. não era apenas a Igreja que se abalava em seus fundamentos. l. l. de línguas vulgares específicas como instrumento de centralização administrativa por determinados pseudomonarcas absolutos presuntivos bem posicionados. que enfrentavam a ascensão 1S w Seton-Walso-ri. significava que nenhum soberano poderia monopolizar o latim e torná-lo sua língua oficial exclusiva e. M Bloch. literária e administrativa. virtualmente todos os documentos reais eram escritos em latim. (O pânico de Francisco I era tão político quanto religioso. as línguas da corte dos Romanovs eram o francês e o alemão. criou rapidamente grandes públicos leitores novos — inclusive entre mercadores e mulheres. pragmático. profundamente arraigados estivessem subjacentes à utilização de línguas vulgares onde ela ocorreu. era inteiramente diferente das políticas linguísticas deliberadas perseguidas pelos dinastas do século XIX. Feudai Sociery. !6 Em todo caso. uma vez que era encarada meramente como forma adulterada do latim. l3 Só depois de quase um século após a entronização política do inglês primitivo é que o poder de Londres foi varrido para fora da "França". não há nada que indique que quaisquer impulsos ideológicos. para não dizer casual. 75. Com efeito. Obviamente. a autoridade religiosa do latim nunca possuiu um ver-. era o anglo-saxão. enormes parcelas das populações submetidas conheciam pouco ou nada de latim. não deliberado. francês normando. viesse a ser a língua da corte — e para a abertura do parlamento. teve lugar movimento semelhante. tecedeu tanto a imprensa quanto a revolução religiosa do século XVI. quando Francisco I expediu o Edito de Villers-Cotterêts. Anteriormente à invasão normanda. p. No correr do século e meio seguinte. "o francês. que a universalidade do latim na Europa ocidental medieval jamais correspondeu a um sistema político universal. p. 98. e que o Estado envolvido abrangia. O nascimento das línguas vulgares administrativas aã-. e deve. e não "nacionais". p. Como tal.) Em terceiro lugar. na República da Holanda e na Comunidade dos Puritanos. Bloch. Inevitavelmente. por isso. não apenas a Inglaterra e o País de Gales de hoje. mas também partes da Irlanda. l5 Em outros reinos dinásticos. dadeiro correspondente político. 83. ainda. tivesse sido administrada originariamente ern inglês primitivo. p. a fragmentação política da Europa ocidental. o latim sobreviveu por muito mais tempo — sob os Habsburgos até bem tardiamente no século XIX. vale dizer uma Síngua que. Ao mesmo tempo. É conveniente que se lembre. Veio a seguir. O mesmo terremoto produziu os primeiros Estados europeus não dinásticos e não cidades-Estado de importância. Enquanto isso. . Como diz ironicamente Bloch.. 15 Seton-Walsoo. conheciam de latim — e simultaneamente mobilizava-os para fins político-religíosos. de Wycliffe. desse modo. a Bíblia manuscrita em língua vulgar. em épocas diversas. esse latim ofi- ciai foi substituído pelo francês normando. línguas vulgares "estrangei'ras" se impuseram: no século XVIII. Feudal Society. ou inglês primitivo. O caso da "Inglaterra" — na periferia noroeste da Europa latina — é especialmente'esclarecedor. a "escolha" da língua parece constituir-se num desenvolvimento gradual. governada a partir de Londres. onde o âmbito da burocracia dos mandarins e a dos caracteres desenhados coincidiam em grande medida. Não se deve supor que a unificação da língua vulgar administrativa tenha sido realizada Imediatamente ou tis maneira completa.. Em outros. aqui. havia a disseminação. após 1362. 48. M apenas se tornou a língua oficial dos tribunais de justiça em 1539. '«Ibid. que explorava edições populares baratas. u É fundamental que se tenha ern mente que essa sequência constituía uma série de línguas "de Estado". ser encarado (pelo menos inicialmente) como fator independente na erosão da comunidade sagrada imaginada. ainda que em ritmo mais lento. sem falar em protonacionaís. É improvável que a Guiana. da Escócia e da França. após o colapso do Império do Ocidente. lenta e geograficamente desigual.50 51 A coalizão entre o protestantismo e o capitalismo editorial. -É instrutivo o contraste com a China Imperial. Essa fusão tornou possível que a nova língua. Netions and States. levou diversos séculos para erguer-se à dignidade literária".

>ía Europa pré-imprensa e. quanto a característica ideográfica do produto final. H. a promoção dessas línguas vulgares ao stattts de línguas-do-poder. para seus falantes. rnuito menos revolucionário — precisamente devida â ausência do capitalismo ia. agora padrão. neste contexto. aquelas línguas que. ough ser pronunciado diferentemente nas palavras althaugh. Num sentido positivo. pode-se descobrir uma espécie de hierarquia descendente partindo da álgebra. em outras partes do mundo. em Paris.) Sinal claro dessa diferença é que as antigas línguas administrativas eram precisamente isto: línguas utilizadas pelo mundo oficial. 22.52 53 de nacionalismos linguísticos populares hostis.19 Determinadas línguas podem morrer ou ser exterminadas. vale lembrar que embora a imprensa tivesse sido Inventada primeiro na China. teria permanecido um capitalismo de proporções insignificantes. Five Hundfett V&sra cfPrinting. o papel não tevo uso generalizado antes do -final do século XIV. como vimos. Não havia qualquer ideia de se impor sistematicamente a língua às diversas populações submetidas ao dihasta. Embora seja essencial manter em mente uma ideia de fatalidade. rougfi. Pois por mais que o capitalismo fosse capaz de feitos sobre-humanos. naturalmente. mas explosiva. 5. seria equivocado fazer equivaler essa fatalidade àquele elemento comum às ideologias nacionalistas.seu aparecimento na Europa. Febvre e Martin observam que. em fins do século XIII. cougti e hiccough demonstra tanto a variedade idiolâtica da qual proveio a ortografia Inglesa. onde. talvez nenhum deles. em Londres). no sentido de condição geral de diversidade linguística irremediável. Quanto a isso. No fundo. estio 33 gráficas e 35 companhias editoras. eram concorrentes do latim (o francês. 21 zo 18 15 Confirmação compatível dessa afi/mação ofereça-nos Francisco ! que. fé: do francês a língua de sua cortei Esse não foi a primeiro "acidente" dessa natureza. possibilidade de uma unificação linguística geral do homem. estivesse presente. " 'Não obstante. . (Ver mais adiante. que enfatiza a fatalidade primordial de determinadas línguas e de sua associação a unidades territoriais determinadas. tanto mais vasta a zona de agrupamento potencial.) Nada serviu para "agrupar" línguas vulgares correíatas mais do que o capitalismo que.. é provável que a esoterização do latim. tecnologia e capitalismo. Mas o papel náo era Invenção europeia. tão imensa. proibiu toda e qualquer impressão de livros em 1535 e. 30 e 45. embora Já existisse uma burguesia perceptível na Europa. IS O elemento de fatalidade é fundamental. Proveitosa exposição sobre essa questão encontra-se em S. o inglês [primitivo]. N5o temos ainda multinacionais gigantes no mundo editorial. quanto mais ideográficos os signos.A própria arbitrariedade de qualquer sistema de signos para sons facilitava o processo de agrupamento. bough. O fato do o signo. Cap. até os silabários regulares do francês ou do indonésio. Chegou ali vindo de uma outra história — a da China . passando pelo chinês e pelo inglês. primordialmente em sentido negativo — como tendo contribuído para o destronamento do latim e para a erosão da comunidade sagrada da cristandade. O essencial é a influência recíproca entre fatalidade. Tfte Caming of t/ie Book. uma tecnologia de comunicações (a imprensa) e a fatalidade da diversidade linguística do homem. em número muito menor de línguas impressas! . eram (e são) a trama e a urdidura de suas vidas. que se o capitalismo editorial buscasse explorar cada mercado potencial de língua vulgar oral. Contudo. contribuiu à sua maneira para a decadência da comunidade imaginada da cristandade. a Reforma e o desenvolvimento casual das línguas vulgares administrativas sejam significativos. Steinberg. Mas esses idioletos variados eram passíveis de se agruparem. o que tornou imagináveis as novas comunidades foi uma interação semifortuita. em certo sentido. possivelrrvante quinhentas anos antes de. era imensa. Itxigh. 6. criou línguas impressas mecanicamente reproduzidas. nem há. até que o capitalismo e a imprensa criassem os maciços públicos leitores monoglotas. quatro anos depois.. Tanto Stelnberg 1 quanto Eisenstein chegam muito perto de teornorf liar "a imprensa" que imprensa como c gânio da história moderna. a diversidade das línguas faladas. dentro de limites definidos. de fato. É perfeitamente possível conceber o surgimento das novas comunidades nacionais imaginadas.por intermédio do mundo Islâmico. 1 Digo "nada ssrvíu. mas não havia. nSo teve qualquer impacto de maior importância.20 (Ao mesmo tempo. Nessa contexto. sem que algum deles. passíveis de disseminação pelo mercado. dentro dos limites impostos pelas gramáticas e sintaxes. ele encontrou na morte e nas línguas dois tenazes adversários. mais do que o capitalismo" intencionalmente. cap. essa incompreensibilidade recíproca era historicamente apenas de 17 ligeira importância. Febvre e Martin (amais se esquecem de que. entre um sistema de produção e de relações produtivas (capitalismo). p. por detrás da imprensa. Somente a superfície bem lisa do pape! tornou possível a reprodução maciça de textos o figuras — e Isso não ocorreu senão apôs outros setenta e cinco anos. por sua própria conveniência interna.

Já não estava mais sujeito aos hábitos individualizadores e "inconscientemente modernizadores" dos escribas monásticos. outrora agrupável por toda parte. seus ancestrais do século XII. em grande medida. de modo geral. porque era assimilável ao alemão impresso de uma maneira em que não o era o checo falado da Boémia. tão essencial à ideia subjetiva de nação. The Age of Nationalism. Iraque e URSS atuais é especialmente exemplar. compreender-se reciprocamente em conversa. ("No século XVII.e. ou espanholas. tornaram-se gradativamente conscientes das centenas de milhares. ajudou a construir aquela imagem de antiguidade. o livro impresso mantém uma forma permanente. Atatúrk impôs uma romanização compulsória. em suas origens. 319. uma vez "ali". o embrião da comunidade nacionalmente imaginada. e portanto compreensível. o governo tai desestimula ativamente as tentativas de missionários estrangeiros de oferecer a suas minorias tribais das montanhas sistemas próprios de transcrição. Os falantes da enorme variedade de línguas francesas. Suas parentes em desvantagem.i (Daí as lutas. antes. par o nacionalismo turco ern linha com a c iu Tire cie madeira. ou milhões. em sua visível invisibilidade secular e peculiar. . Para exaltar a consciência nacional da Turquia turca em detrimento de qualquer identificação muçulmana mais ampla. O destino dos povos de fala túrquica nas zonas incorporadas à Turquia. O "alemão do noroeste" tornou-se o Platt Deutsch. que podiam achar difícil. Como nos fazem lembrar Febvre e Martin. p. Ira. 108. ainda assim assimiláveis à língua impressa que surgia. que apenas essas centenas de milhares. Em segundo lugar. L'Apperition. p. inglesas. formavam. largamente falado. dentro de uma ortografia arábica. as línguas nacionais mostram-se cristalizadas por toda parta. como tanta coisa mais na história do nacionalismo. quando vantajoso. até mesmo milhões. perdiam prestígio. No correr do processo. Mas. processos não. a ele pertenciam. seguiram o exemplo. ramanítada. assumido suas formas modernas. ou até mesmo impossível.de mais nada por não serem bem-sucedidas (ou serem apenas relativamente bem-sucedidas) ao insistir em suas próprias formas impressas. de pessoas existentes em seu determinado campo linguístico . nologia e a diversidade Linguística humana. enquanto o francês do século XII distinguia-se acentuadamente do francês escrito por Víllon no século XV. temporal e espacialmente.) Resta apenas salientar que. 23 As autoridades soviéticas. Família de línguas faladas. e assim um alemão subpadrão. Hoje em dia. ao mesmo tempo. a fixação das línguas impressas e a diferenciação de status entre elas foram. Antes de mais nada. O alto alemão. tornaram-se capazes de compreender-se via imprensa e papel. conscientemenle exploradas dentro de um espírito maquiavélico. as palavras de nossos antepassados do século XVII nos são acessíveis de um modo que não eram. 477: "Au XVII" siècle. mais tarde. que. essas línguas impressas estabilizadas foram se sedimentando. criaram campos unificados de intercâmbio e comunicação abaixo do latim e acima das línguas vulgares faladas. elas se tornavam modelos formais a serem imitados e. •. o tai central foram consequentemente elevados a uma nova proeminência político-cultural. É provavelmente apenas justo acrescentar que K-crnal esperava lambam. da Europa ocidental. p. Cf. Em terceiro lugar. "No século XVII as línguas da Europa haviam. perdeu aquela unidade em consequência de manipulações deliberadas. Desse modo. a que estavam ligados pela imprensa. de determinadas "sub "-nacionalidades para alterarem seu síaíus subordinado forçando vigorosamente a entrada na imprensa -—• e no rádio. a iongo prazo. primeiro corn uma romanização compulsória antimucul23 The Corning of the Book. o capitalismo editorial criou Ifaguasde-poder de uma espécie diversa da das antigas línguas vulgares administrativas." 22 Em outras palavras. a proporção de mudança diminuiu decisivamente no século XVI. o inglês do rei e. a Villon. intencionais que resultaram da interação explosiva entre o capitalismo. por ess. a tec-. Determinados dialeíos estavam inevitavelmente "mais próximos" de cada língua impressa e domi52 navam suas formas finais. na Europa desse fim do século XX.54 55 Essas línguas impressas lançaram as bases para a consciência nacional de três modos diferentes. Esses co-leitores.e meio."! Hans Korin. passível de reprodução virtualmente infinita. e de desenvolver publicações em suas próprias línguas: esse mesmo governo é em grande medida indiferente ao que essas minorias falam. o capitalismo editorial atribuiu nova fixidez à língua. lês langues nationales apparaissant u n peu partout cristallisées". no decorrer de três séculos.

parem nascida na América rã. . apenas uma fração mínima da população "usa" a língua nacional em conversa ou no papel. é óbvio que. Os Estados-nação da América Espanhola. particularmente na África. prepara o cenário da nação moderna. nos EUA ou nas antigas colónias da Espanha. e segundo a qual: 2 1 Ji Seton-Watson. 317. eram Estados crioulos. Nations and States. e por isso forneceram inevitavelmente os primeiros modelos reais de com que deveriam esses Estados "se parecerem". é justo que se diga que a língua nunca foi sequer um tema nessas antigas lutas pela libertação nacional. há sérias razões para se duvidar da aplicabilidade. ] Na verdade. com uma cirilização russificante compulsória. Contudo. em sua morfologia básica. mais tarde. por parecer quase impossível explicá-los em termos dos dois fatores que. srn qualquer lugar fora tia Europa!. ao mesmo tempo. A extensão potencial dessas comunidades era inerentemente limitada e. a seguir. em geral. provavelmente por poderem ser facilmente deduzidos a partir dos nacionalismos da Europa de meados do século. em grande parte do hemisfério ocidental. é necessário voltarse para o amplo conjunto das novas entidades políticas que brotaram no hemisfério ocidental entre 1776 e 1838. com a curiosa exceção do Brasil. Todos eles. 24 Podemos resumir as conclusões que se podem tirar da exposição até este ponto.56 mana e antipersa e. a língua não era um elemento que os diferenciasse de suas respectivas metrópoles imperiais. todas as quais se definiram conscientemente como nações e. em outros casos convincente. muitas delas possuem essas línguas em comum e. embora hoje em dia quase todas as pretensas nações— e também as nações-Estado — possuam "línguas impressas nacionais". como também o número delas e seu aparecimento simultâneo oferecem terreno fértil para um estudo comparativo. constituídos e dirigidos por pessoas que compartilhavam uma língua e uma descendência comuns com aqueles contra os quais lutavam. ou os da "família anglo-saxônica" são exemplos notáveis do primeiro resultado. consciências nacionais e Estados-nação. ANTIGOS IMPÉRIOS. p. Em outras palavras. 41. Em primeiro lugar. dizendo que a convergência do capitalismo e da tecnologia da imprensa sobre a diversidade fatal das línguas humanas criou a possibilidade de uma nova forma de comunidade imaginada que. Crioula — pessoa da descendência europeia pura [pelo menos teoricamente). NOVAS NAÇÕES Os novos Estados americanos do final do século XVIII e início do século XIX são de interesse incomum. quer se pense no Brasil. por extensão. muitos ex-Estados coloniais. como republicas (não dinásticas). têm sido dominantes em muito do pensamento europeu a respeito do surgimento do nacionalismo. do segundo. inclusive os EUA. da tese de Nairn. na década stalinista de 1930. a formação concreta dos Estados-nação contemporâneos não é de modo algum isomórfica com o alcance estabelecido de determinadas línguas impressas. Para explicarse a descontinuidade-em-conexão entre línguas impressas. Pois não apenas eram elas historicamente os primeiros Estados desse tipo a surgir no mundo. não mantinha senão a mais fortuita relação com as fronteiras políticas existentes (que eram. p. 2 77» Brsak-up ofõritein. em outras. Em segundo lugar. o ponto culminante dos expansionismos dinásticos).

p. p. recentemente subjugada. à segunda república independente do hemisfério ocidental — e aterrorizou os grandes fazendeiros da Venezuela. Em sua versão mais típica. ainda estavam vivas as lembranças da grande jacquerie liderada por Tu3 Gerhard 4 pac Amarú (1740-1781). um fator-chave. foi ela ter conseguido o apoio dos escravos. naquela. p. 207. p. privando assim os crioulos de apoio militar da península em caso de emergência. em sua luta contra os crioulos rebeldes. Morgars. e manter. 5 (Esse medo só aumentou quando o "secretário do Espírito Mundial" de Hegel conquistou a Espanha em 1808. por todo o Mar das Caraíbas espanhol — os fazendeiros se opuseram à lei e promoveram sua revogação em 1794". 14-7 e flnssim. 17 d« agasto tfe 1&78. e que fora. 6 Masur. 7 Quando. estimulou o impulso para a independência em relação a Madri. bem depois da deflagração das guerras de independência. era o medo de mobilizações políticas da "classe inferior": a saber. 59 Pelo menos na América do Sul e na América Central. Simon Bolívar. o primeiro romance hispano-americano só foi publicado em 1816. tranquilos da colónia era pouca a leitura a interromper o ritmo faustoso e. indica certa "fragilidade social" desses movimentos de independência latino-americanos. Ele e seus seguidores (na maior parte índios. "os crioulos repudiaram a intervenção estatal com base em que os escravos eram propensos ao vício e à independência [!] e eram fundamentais para a economia. Pois "naqueles dias .snob da vida das pessoas". 6 Em 1791. Bolívar. nesta. Edward 5. The Spanish-Amef/can Revo/utíons. isto assu miu a forma de uma ciasse média e de uma liderança intelectual inquietas. se irritaram com a proclamação do governador legalista que concedia Uberdade aos escravos que rompessem com seus senhores sediciosos. enquanto a propriedade cia terra era inteiramente aberta aos crioulos. e dos índios. que deu origem. Os indícios . 10 É instrutivo que uma das razões pelas quais Madri conseguiu retornar com êxito à Venezuela.p. ll Além disso. p. 11 Masur. que uma revolta de negros era "mil vezes pior que uma invasão espanhola". Noticns and Síntes. albid. em 1789. Essas proporções provem do faio de que as (unções comorciais o sdmirtistraiifas mais importantes oram em grande medida monopolizadas pelos espanhóis natos. 237.. s Quanto s isto. Lynch.) No Peru. Tho Spanfsli-Amaficori ftovolulions. Lyncri. 10 . 24.as classes inferiores para a vida política". a prolongada duração da luta continental contra a Espanha. p. mas também alguns brancos e mestiços) ínsurglram-se contra'a administração de Lima: Masur. mais humanitária. 7 11 Seton-Wstson. há analogia evidente com o nacionalismo Bóer de um século mais tarde. The tJsw HM* Review -o/ Books. donos de escravos. 4 Ao contrário de procurar "arregimentar . 17.que. certa vez. Lynch.. p. o domínio sobre a longínqua Quito. 192. 3 Como vimos. ela mesma. de início. Madri expediu uma-no vá lei. o México e o Peru. que procuram incitar e canalizar as energias das classes populares para a sustentação dos novos . O próprio Thomas Jefferson estava entre os fazendeiros da Virgínia que. 201. 224. na época uma potência europeia de segunda ordem. até 1820. "Trie Haart of Jelferson". rebeliões de índios ou'de escravos negros. na década de 1770. Na Venezuela —'• na verdade.sugerem claramente que a liderança estava nas mãos de ricos proprietários de terras. The Spanfsíi-Americen fíevolutions. as "classes-médias" ao estilo europeu ainda eram insignificantes no final do século XVIII. militares. em aliança com um número muito menor de comerciantes e de diversos tipos de profissionais liberais (advogadas.58 O advento do nacionalismo num sentido distintamente moderno esteve ligado ao batismo político das classes inferiores. Toussaint L'Ouverture comandou uma insurreição de escravos negros. os movimentos nacionalistas têm tido uma perspectiva invariavelmente populista e procurado arregimentar as classes inferiores para a vida política. entre 1814 e 1816. especificando pormenorizadamente os direitos e os deveres dos senhores e dos escravos. * Também não devemos esquecer que muitos dos líderes do movimento de independência das Treze Colónias eram magnatas agrários donos de escravos. funcionários locais e provinciais). Como também não havia algo semelhante a uma intelligenisia.. 8 O próprio Libertador Bolívar opinou. 2. em 1804. Bolívar. Ainda que às vezes hostil à democracia. Talvez seja notável qu« Tupac Amarú não lenha rapudiado completamenta a compromisso de fidelidade ao rei espanhol.Estados. p. sobre escravidão. em casos tão importantes como a Venezuela.

fugindo de Napoleão. torrada de emptíslímo. 14 à qual estavam ligados de tantas maneiras. o capitalismo editorial não havia ainda chegado a esses analfabetos. redefiniram tais populações como compatriotas? E a Espanha. 13 Lynch. em 1821. por não querer atrair sobre si o ressentimento dos grandes proprietários de terra. ou de nativos. 329 e 38B. provia a Coroa com uma renda anual de cerca de 3. em parta. P. p. No século XVIII. tem sido sardonicamente chamado de segunda conquista das Américas. significava transmissão relativamente rápida e fácil das novas doutrinas económicas e políticas que se estavam produzindo na Europa ocidental. p. Madri lançou 12 Não sem algumas idas e vindas.000. o nível da migração peninsular na década de 1780-1790 era cinco vezes maior do que havia sido entre 1710-1730. mesmo ali. após 1779. eles são filhos e cidadãos do Peru e deverão ser conhecidos como peruanos". o tarmo comum era ainda Lãs Espartas [As Espinhas] e não Espana (Espanha). de problemas fiscais crónicos a. e o começo da Revolução Francesa. 125. ao regressar. The Spanísh-American Revotutions. restringiu em benefício próprio o comércio intra-hemisfério. Bolívar mudou de opinião a respeito dos escravos 12 e San Martin. "Não solicitara ao congresso que abolisse a escravatura. 1S O México. " Ibid. O êxito da revolta das Treze Colónias. como inimigo estrangeiro? Por que o Império hispáno-americano." Masur. em fins da década de 1770. fortaleceu os monopólios comerciais metropolitanos.000 eram utilizados no custeio da administração local. Naiions ertd States. em parta. solicitou e obteve do Congresso uma lei libertando os filhos de escravos. teve seu filho coroado localmente como Pedro I do Brasil.. 14 Anacronismo.) Contudo. entre 1314 e 1316. que tivera existência tranquila durante três séculos. os aborígenes não deverão ser chamados de índios. 16 Paralelamente à isso. produto das doutrinas do Iluminismo. dos quais apenas 4. Bolívar. Grifos nossos. (Ele permaneceu ali por treze anos e.000.) Eis então o enigma: por que precisamente as comunidades crioulas é que desenvolveram tão precocemente concepções de sua nation-ness — bem antes da maior parte da Europa? Por que essas províncias coloniais. não expli15 Essa nova agressividade metropolitana era.. ainda que fundamentais para a compreensão do impulso de resistência na América espanhola. decretou. fragmentou-se tão subitamente em dezoito Estados distintos? Os dois fatores mais comumente mencionados como explicação são o enrijecimento do controle exercido por Madri e a disseminação das ideias liberalizantes do Iluminismo. novos impostos.61 Contudo. Lynch. a não ser no Brasil. * 18 Ibid. 4-17. 301. conseguiu ajuda militar do Presidente Alexandre Pétion. no início do século XVIII. Quando Bolívar sã tornou presidente da GrS-Colombia (Venezusta. Quatro míriSBS iam para subsidiar a administracío de outras partes da América. " • Não há dúvida. essa quantia quase quintuplicara. p. No finai do século. deliberadarnente. 1B A Constituição da Primeira República Venezuelana t1B11) era. em troca da promessa de terminar com a escravidão em todos os territórios libertados. A promessa foi cumprida em Caracas. Nova Granada e Equador). que. p. "no futuro. em 1818 — mas é preciso lembrar que os êxitos de Madri na Venezuela. Bot/ver. por exemplo. The Spanisfi-Amerícan Revolutions. 206-7. palavra por palavra. em muitas partes. seu companheiro de luta pela libertação. Não há dúvida de que é verdade que as políticas implantadas pelo hábil "déspota esclarecido" Carlos III (r. na última metade do século XVIII. tornou mais eficiente sua arrecadação.000. 276. abrangendo em geral grandes populações oprimidas que não falavam o espanhol. eles eram movimentos de independência nacional. em 1810. em parto. não fosse a imigração. irritaram e alarmaram cada vez mais a classe alta crioula. atingindo 14. isso provavelmente não teria sido possível. em 1821. Seton-Watson. da guerra com a Inglaterra. p. a agressividade de Madri e o espírito do liberalismo. em fins da de 1780. por vezes. . até então. enquanto seis milhões eram de puro lucro. 53. da dos Estados Unidos. de que a melhoria das comunicações através do Atlântico. Quando fugiu para o Haiti em 1816. p.000 de pesos. Naquilo que. em 1808. centralizou as hierarquias administrativas e promoveu intensa imigração de peninsulares. não deixaram de ter uma influência poderosa. Masur. 13 (Poderíamos acrescentar: a despeito do fato de que. 131. além do fato de as diversas Américas compartilharem línguas e culturas com suas respectivas metrópoles. 1759-1788) decepcionaram. Nada melhor para confirmar essa "revolução cultural" do que o republicanismo que impregnou as comunidades recém-independentes. porém.000. também. se deveram em parte è emancipação pela metrópole dos escravos leais. do próprio dinasta português.18 Em parte alguma houve qualquer tentativa sé: ria de reinstaurar o princípio dinástico nas Américas. 17. deram origem a crioulos que. Elo libertou seus escravos pouco depois da declaração de independência da Venezuela.

ficaram financeiramente arruinados. saíramse muito bem com a independência ao longo do tempo. TheForesíof Symbols. p. Bolívar. Pois. em curso de um lado a outro da América. nove. as políticas comerciais de Madri resultavam em fazer das unidades administrativas zonas económicas separadas. (Apenas um exemplo: durante a contra-ofensiva de Madri. Elaboração posterior mais e-nmplsxa ertcontra-s. a jornada marítima de Buenos Aires a AcaO mesmo se pode dizer da postura de Londres diante das Treze Colónias. por que entidades como o Chile. Bolívar. elas desenvolveram uma realidade mais estável. Margíns. A própria vastidão do Império hispano-americano.1 sob a influência de fatores geográficos. em certa medida. com o correr do tempo. **lbid. para a desintegração da efémera Grã-Colômbia de Bolívar e das Províncias Unidas do Rio da Prata em seus antigos elementos constitutivos (hoje em dia conhecidos como Venezuela-ColômbiaEquador e Argentina-Uruguai-Paraguai-Bolívia). l9 nem por que San Martin devesse decretar que determinados aborígenes fossem identificados pelo neologismo "peruanos". muitos membros concretos dessas classes. Essa disposição ao sacrifício por parte de classes em situação confortável é matéria para reflexão. Não obstante. segundo o qual cada nação manteria o status quo territorial de 1810. essas medidas eram apenas em parte executáveis e sempre continuou a haver certa porção de contrabando. As mercadorias americanas. p. ano em que se haviam iniciado os movimentos pela independência''. 'a* enorme variedade de seus solos e climas e. 21 Masur. Fieids. Masur. 20B.. E então? O começo de uma resposta encontra-se no fato notável de que "cada' uma das novas repúblicas sulamericanas havia sido uma unidade administrativa entre os séculos XVI e XVIII". especialmente a capítulo "BatwlM and Between: Thn Llminal Period ín ftius de Psssage". p. a Venezuela e o México vieram a tornar-se emocionalmente plausíveis e politicamente viáveis. sobretudo. apresentam a razão'dos verdadeiros sacrifícios que foram feitos. a imensa dificuldade de comunicações numa era pré-industriaí contribuíram para dar a essas unidades um caráter de auto-suficiência. cf. em meados do século XX. o da ideologia da Revolução de 1776. mercados regionais de caráter "natural"-geográfico ou político-administrativo. políticos e económicos. 22) Além disso. e a viagem de volta às vezes mais tempo. a viagem por terra de Buenos Aires a Santiago demorava normalmente dois meses. embora seja certo que as classes altas crioulas. p. síaíus e lugares. capítulo 5 ("Pilgiimages as Social Processes") e S ("Passagas. que viveram entre 1808 e 1828. Masur. The Spanish-Amerícen Revolutions." 23 Essas experiências ajudam à explicar por que "um dos princípios básicos da revolução americana" foi o do "utipossidetis. Aspecrsof Ndembít Ritual.de sua autoria. 25Ver. e a Cartagena.62 63 cam. Com o correr do tempo. and Metaphors. é preciso examinar de que modo organizações administrativas criam significado. 24 Sua influência contribuiu também. porém. Quem estaria disposto a morrer pelo Comecon ou pela CEE? Para perceber de que modo unidades administrativas podem. Bolívar. S8-9 e 231. 678. p. A configuração original das unidades administrativas americanas era. sem dúvida. vir a ser concebidas como pátrias. por si sós. Naturalmente. 20) E outros tantos deram a vida voluntariamente pela causa. 20Lynch. (Na época colonial. assinalando os limites espaciais de determinadas conquistas militares. não só na América como também em outras partes do mundo. prenunciaram os novos Estados da África e de partes da Ásia. e a navegação espanhola tinha o monopólio do comércio com as colónias. em 1814-1816. 21 Quanto a isso. arbitrária e fortuita. por si sós. Nem. . entre tempos.e ern seu Dramas. 25-6. "mais de dois terços das famílias proprietárias de terras sofreram pesados confiscos''. tinham de fazer uma tortuosa viagem via portos espanhóis. Svmhotic Actron in Hatnan Soci&ty. p. e contrastam marcadamente com os novos Estados europeus do final do século XIX e início do século XX. "Toda competição com a mãe-pátria era vedada aos americanos e as distintas partes do continente não podiam sequer comerciar entre si. O antropólogo Victor Turner tem escrito de maneira esclarecedora a respeito da "jornada". 2S Todas essas jor42 23 Lynch. concebidas como formações sociais históricas. não criam lealdades. 19 pulco levava quatro meses. afinal de contas. como uma experiência criadora de significado. The Spanish-AmericanRevotutíons. 546. 19. and Pcvarty: Religi-ous Symbols c-f Cornmunitas").

e. pronunciando as mesmas palavras que pronuncio e. "muçulmanos ou hindus. Feudal Society. falantes de língua vulgar. p. na génese de determinadas movimentos nacionalistas — antes do advento do rádio. indianos. não podemos falar um com o outro?" Existe uma única resposta. somos muçulmanos". na maioria analfabetos. a estranha justaposição física de malaios. Meca ou Benares fossem os centros de geografias sagradas. o rádio tornou possível ignorar a irnprensa e dar nascimento a uma representação auditiva da comunidade Imaginada. " Existe. ao descreve' corno "paregrincs" os agentes espectrais <Je Leopoldo II na profundeza das trevas. da cristandade ocidental em seu auge do que o fluxo espontâneo de fiéis seguidores vindos de toda parte da Europa para Roma. executavam os ritos unificadores. (a) a monogamia era imposta pela religião B pela lei. uma vez que se aprenda: "Porque nós. em geral. (h) a primogenitura era a regra. assim.. forneciam a densa realidade física da viagem cerimonial. Unificação significava permutabilidade interna de homens e documentos.64 65 nadas exigem interpretação (por exemplo. analogia evidente com os respectivos papéis ctas intetligentsias bilingues e dos operários a camponeses. as cidades de Roma. 23 Especialmente onde. 64. mas sim que sua centralidade era vivenciada e "realizada" (no sentido da arte cénica) pelo fluxo constante de peregrinos que se deslocavam em sua direção. Não é simplesmente que. os limites externos das antigas comunidades religiosas da imaginação eram determinados pelo tipo de peregrinação que as pessoas faziam. Conrad estava sendo iionico. II. onde a página impressa dificilmente penetrava.a Inglaterra. em oposição a uma nobreza feudal particularista e descentralizada. Feudal Soctety. a jornada modal é a peregrinação. A permutabilidade humana era favorecida peia arregimentação — naturalmente de extensão variável — de hominesnovi. indagar-se: "Por que esse homem está fazendo o que faço. as mais importantes foram as diferentes viagens criadas pelo aparecimento das monarquias absolutas e. nos nacionalismos da meados do século XX. enquanto que um pequeno segmento de iniciados letrados bilíngues. Inventado apenas em 1895.2S Para nossos fins. portugueses. oriundos 'de cada uma das comunidades de língua vulgar. O impulso inerente ao absolutismo era a criação de um aparato unificado de poder. em comunidades cujo significado sagrado era diariamente revelado a partir da justaposição de seus membros no refeitório. l. 26 Como já assinalamos anteriormente.. o herdeiro do Nobre Á. os quais. a jornada do nascimento à morte deu origem a diversas concepções religiosas). através dos célebres "centros regionais" de aprendizado monástico.'não possuíam poder independente propriamente seu. 27 Numa época pré-imprensa. justaposição que não se poderia explicar de qualquer outra maneira. Embora as peregrinações religiosas sejam provavelmente as mais tocantes e grandiosas jornadas da imaginação. 29 Desse modo." A "peregrinação secular" não deve ser tonada apenas como um tropo extravagante. dos impérios mundiais com centro na Europa. atuavam como emanações das vontades de seus senhores. controlado diretamente pelo governante. e têm. '« Ver Bloch. elas tinham. interpretando para seus respectivos seguidores o significado de seu movimento coletivo. em oposição ao S ião. com a morte de seu pai. a realidade da comunidade religiosa imaginada dependia profundamente de inúmeras e contínuas viagens. vindos de localidades longínquas entre as quais não existia qualquer outra relação. os funcionários dó absolutismo empreendiam jornadas que eram fundamentalmente diferentes das dos nobres feudais. 422 st saqs. berberes e turcos em Meca é algo incompreensível sem uma noção de alguma forma de comunidade entre eles. . na mente dos cristãos. Para nossos fins. Ssu papel nas revoluções vietnamita e indonésia e. ascendia um degrau para ocupar o lugar daquele pai. Nada é mais impressionante a respeito ™ Ver Bloch. neste caso. 3° Essa diferença pode ser representada esquematicamente da seguinte maneira: na jornada modal feudal. equivalentes seculares mais modestos e limitados. Essa ascensão . O berbere que encontra o malaio diante da caaba deve. exatamente por essa razão. p. sempre houve ura duplo aspecto da coreografia das grandes peregrinações religiosas: vasta multidão de analfabetos. por assim dizer. dinamarqueses. no entanto. (c) os títulos não-dinâsticcsetam não só hersditárlos como conceptuais e legalmente distintas de postas administrativos: isto é. persas. Na verdade^ em certo sentido. Pôr certo. alemães e assim por diante. finalmente. tem sido muito subestimado e muito mal estudado. mas também preciso. Essas grandes instituições de fala latina congregavam o que hoje talvez víssemos como irlandeses. quando as aristocracias das províncias possuíam poder independente significativo . e leal a ele.

que funcionários-peregrinos de Madri não fossem permutáveis com os de Paris. e de retorno à casa. nutria-se do desenvolvimento de uma língua-de-Estado padronizada. o crioulo "mexicano" ou "chileno" típico presta31 Evidentemente. . normando e inglês primitivo em Londres. menos de 5% dos 3. 32 E não é preciso dizer que dificilmente se sabia de algum.. dos 170 vice-reís da América espanhola antes de 1813. Por exemplo. Às vésperas da revolução do México. Lima e de novo Madri. seus colegas funcionários. Masur conta que Bolívar pertencia [c. Nessa jornada. 41-7 e 468-70 (San Marttn). oriundos de lugares e de famílias de que pouco ouviu falar e que espera certamente jamais ter de ver. "eram ricos. argumentar que. assumirem o monopólio.. o "argentino" San. que fortalecia a permutabilidade humana.000 indígenas) eram espanhóis nascidos na Espanha. Vê diante de si um cume e não urn centro. pois ele não tem pátria com qualquer valor intrínseco. crioulo que ascendesse a um posto de importância oficial na Espanha. prossegue para o vice-reino C no posto Y. quando soube ds sua declaração do Independênciaj e Ba II vá r qua. para os domínios ancestrais. as peregrinações de funcionários crioulos não eram barradas apenas verticalmente. vindo da província B. administra a província C. é que traça sua carreira. em 1800.000 crioulos "brancos" do Império Ocidental (que se impunham aos cerca de 13. em princípio. p.31 O padrão é muito evidente na América. parece não ter havido em momento algum mais de 400 sul-amerlcanps residentes na Espanha. Se os funcionários peninsulares podiam percorrer a rota de Saragoça a Cartagena. pela restrição do deslocamento dos funcionários de um so- berano para as máquinas de seus adversários: por assim dizer. E mais: em sua rota espiral de ascensão. toda pausa é provisória. emerge uma consciência de conexão ("Por que estamos nós. da província C. com a experiência de tê-los como companheiros de viagem. por al-gtim tempo. que foi levado para a Espanha quando criança. ociosas s mal vistos na Corte. Madri. embora os crioulos no vice-reinado superassem os peninsulares na proporção de 70 para 1. obteve-se uma função centralizadora mais profunda. porém. Então. A última coisa que o funcionário quer é regressar à pátria. Porém. Botfver.200. melada eram soldados. 33 Além disso. 13 Na primeira década do século XIX. garantindo. vai. depara-se com companheiros de peregrinação igualmente ansiosos. administra a província B — situação que o absolutismo começa a tornar provável — essa experiência de permutabilidade exige uma explicação própria: a ideologia do absolutismo que. A permutabilidade de documentos. onde aconteceu de línguas vulgares. até o centro para receber a investidura. isso não aconteceu. os quais. não 16 deve exagerar essa racionalidade. (Pode-se. 18051 a "urn grupo de jovens suf-arnaricanos" qua. The Spsnísh-Ameiican ftevolaiions. enquanto o funcionário D. p.. porém. Esses números são ainda mais impressionantes se observarmos que. amante "americano" da rainha Maria Lulsa. não há lugar seguro de repouso. pode retornar à capital no posto W. sobretudo quando todos compartilham de uma única língua-de-Estado. latim.. Na verdade. apenas 4 foram crioulos. qualquer língua escrita pode. e não a morte.66 67 exigia uma viagem de ida e volta. a expansão extra-européia dos grandes reinos do início da Europa moderna teria simplesmente ampliado o modelo acima ao desenvolver as enormes burocracias transcontinentais. ingressou na Academia Real para jovens fidalgos/ e desempenhou papel destacado na luta armada contra Napoleão antas de regressar à terra natal. O caso do Reino Unido. a seguir. os próprios homens novos elaboram.) Em princípio. Entre eles. para a província B no posto X. aqui. Enviado para a municipalidade A no posto V. contudo. 293. juntos!"). desempenhar essa função — desde que se lhe atribuam direitos monopolísticos.Martin. se tornarão menores e mais firmes à medida que se aproxime do topo. em vez do latim. Escala suas geleiras por uma série de arcos que o circundam. em que os católicos foram Impedidos de exercer cargos públicos até 1829. se o funcionário A. e ali passou os 27 anos seguintes. as coisas são mais complexas.000peninsulares. Descerca de 1 S. O talento. Como demonstra a imponente sucessão do anglo-saxão. como ele. não é único.700. foi hóspede em Madri de Manuel Mello. A racionalidade instrumental do aparato absolutista — sobretudo sua tendência a recrutar e promover com base no talento e não no nascimento — funcionou apenas intermitentemente para além do litoral oriental do Atlântico. Para o novo funcionário. e termina sua peregrinação na capital no posto Z. espera. Haverá quam duvide que essa prolongada exclusão tenha desempenhado papel Importante no fonalecirnanto do nacionalismo Irlandês? 11 Lynch. do século XI ao XIV. tanto quanto o soberano. 18-9. O rancor e o sentimento de inferioridade d-e muitos crioulos em relação 9 metrópole iam-se tornando neles impulsos revolucionários". só havia um bispo crioulo.

era a capital da unidade administrativa imperial em que se encontrava. nascido na Espanha. Contudo. nessa peregrinação limitada encontrava companheiros de viagem. os quais acabavam por perceber que o companheirismo entre eles não se baseava apenas naquele determinado . ele foi típico da muitos da primeira geração de lideras nacionalistas da Argentina: da Venezuela e do Chllê. do nascimento trans-Atlântico. Pela primeira vez. sob o imperialismo. fosse praticamente indistinguível de um espanhol nascido na Espanha. p. e controlados pelos mistérios da cristandade e de uma cultura inteiramente estranha (bem como pôr' uma organização política avançada para a época). não podia ser um verdadeiro espanhol. "eia axiomático que os sitos postos fossem praenchidos exclusivanrente por eSpanh-Sis naios".' tuíam simultaneamente uma comunidade colonial e uma classe superior. Hoje em dia. mas também eram essenciais à estabilidade do império. 34 Contudo. aqueles mais contaminados por um local ds nascimento inevitável. pode-se observar certo paralelismo entre a posição dos magnatas crioulos e a dos barões feudais. Consti. e hio peças intercambiáveis de um aparato continental de segurança. origem familiar. a cristandade e a cultura europeia. que se seguiram à disseminação planetária de europeus e do poder europeu. as peregrinações militares tornaram-se tSo importantes quanto as civis. quando adolescente. mas também uma ameaça a ele.trecho da peregrinação. oculta na irracionalidade estava esta lógica: nascido na'América. exclusão parecesse racional na metrópole? Sem dúvida a confluência de um venerável Com a correr do tempo. as doenças. Ainda que tivesse nascido na primeira semana dep.. 34 maquiavelismo com o desenvolvimento de concepções de contaminação biológica e ecológica.) Essas milícias eram inteiramente locais. Quanto a isso. mas na fatalidade. (Masur. O pai de Bolívar fora um aminônte comandante de milícia. iomò irremediavelmente contaminadorpara qualquer "branco". os peninsulares enviados como vice-reis e bispos desempenhavam as mesmas funções que os hominesnovi das burocracias proto-absoluttstas. que tinham. ou maneiras. o acidente do nascimento na América destinava-o à subordinação — ainda que. p. Da 1760 em diante. Desse modo. ele era efetivamente um homo novus inteiramente dependente de seu patrão metropolitano. as metrópoles tinham que lidar com números — para aquela época — enormes de "patrícios europeus" (mais de três milhões na América espanhola. com as armas. "A Espanha não possuía nem dinheiro nem efetivos para manter grandes guarnicães do tropas regulares na América. servira na antiga unidade de seu pai. 35 O que fazia com que essa. em número cada vez maior e com crescente enraizamento a cada geração que se sucedia. à medida que se multiplicavam as incursões britânicas. Inversões semelhantes ocorrem em reação ao racismo. religião. Não havia nada a fazer quanto a isso: ele era irremediavelmente um crioulo. Gilmore. Compare isso com o programa otimista de miscigenação de Fermín e sua ausência de preocupação com a cor da descendência esperada. Da perspectiva do soberano. o ápice de sua escalada espiral. aqui. O mais ligeiro traço de "sangue negro" torna a pessoa inteiramente negra..ois da migração do pai. apresentavam um problema político historicamente singular. Masur. Bolívar. 3S Ainda que o vice-rei fosse uma pessoa eminente em sua terra andaluza. a partir de meados do século XVIII. dispor prontamente dos recursos políticos. isto é. os crioulos americanos. O '.'sangue negro" — a nódoa negra — veio a ser visto.. 10. CaudiUism antf Militarism ir> Venezuela.• cão >que os metropolitanos. Com isso em mente. 10. foram ampliadas e reorganizadas. po:diam. distante treze mil quilómetros. em novo cenário. O próprio Bolívar. p. uma expressão da velha política do divide et impera. Desse modo. em termos de língua. o centro administrativo mais alto para o qual podia ser designado. culturais e militares para se afirmarem com êxito. do século XVI em diante. O equilíbrio tenso entre o funcionário peninsulaj e o magnata crioulo era. em 1800) remotamente afastados da Europa. Deviam ser economicamente subjugados e explorados. Boltvar. virtualmente a mesma rela. assim. Em outras palavras. quão irracional deve ter parecido sua rejeição! Não obstante. VerRobert G. J810-J910 capítulos 6 ("The Militia"! a 7 ("Thia Mllitary"). ò peninsular não podia ser um verdadeiro americano. • ís Observe as transformações que a independência trouxe para os-americanos: os Imigrantas de primeira geração tornavam-se agora "os mais baixos" ao invés de "os mais altos". que compartilhavam. em princípio." (Ibid. f) contava principalmente com milícias coloniais que. sobreposto aos crioulos. pelo menos nos Estados Unidos. seu movimento lateral era tão tolhido quanto sua ascensão vertical. 30 e 381. desempenharam papel cada vez mais crítico. fundamentais para o poder do soberano. defendendo os portos venezuelanos contra os invasores. ergo.69 vá serviços nos territórios do México ou do Chile coloniais. o mesmo não se dava em relação aos crioulos. o "mulato" é peça de museu. ís Dada a grande preocupação de Madri com que a administração das colónias estivasse em mios confiáveis. . Se os indígenas podiam ser conquistados pelas armas e pelas doenças.

o autocrata esclarecido Pombal não só expulsou os jesuítas dos domínios portugueses. Portugal. e não as doutrinas dos philosophes. eurafricanos. 257-B. . não como curiosidades casuais. 'havia perto de um milhão de escravos entre os cerca de 2. inadequados para cargos de maior importância. 15. p.. 40 Indiretamente. p. 39 Boxer demonstra que as barreiras e exclusões "raciais" aumentaram notavelmente no correr dos séculos XVII e XVIII. 72-3. combatendo veementemente a admissão de indianos e eurindianos ao sacerdócio. D. têm o sangue contaminado por toda a vida". *3 Até aqui. 253. 1415-1825. devemos aceitar muito pouco deles. 3»lbid. nessas regiões. ' 9 lbld. mestiços em número suficiente?) Analogamente. 42 A partir daí. o crescimento das comunidades crioulas. principalmente nas Américas. era extremamente fácil fazer a dedução vulgar e conveniente de que os crioulos. Valignano estimulou ativamente a admissão de japoneses. entre 1574 e 1606. perniciosa tendência foi dada pelo renascimento da escravidão em larga escala (pela primeira vez na Europa. exerceram ampla influência. Boxer... especialmente com respeito aos mestiços. As peregrinações vice-reais limitadas não tiveram consequências decisivas. No curso de seus vinte e dois anos no poder (1755-1777). tais como "negro" ou "mestiço" [sic]. nos seguintes termos: 3S -> Todas essas raças pardas são muito broncas e corrompidas e de índole a mais torpe.500. p.000 habitantes do Brasil português. interesses menores. Na última década do século XV. mais se assemelham aos indianos e menos são estimados pelos portugueses. The Portuguese Revotution ancf tfis Armed Forces Movement. coreanos. foram amamentados por aias indianas na primeira infância e. porém» encontramos Alexandre ^Valignano. porém. que afirmavam que o clima e a "ecologia" tinham efeito constitutivo sobre a cultura e o caráter. The Portuguese Seaborne Empire. o Iluminismo influenciou também a cristalização de uma distinção irrevogável entre metropolitanos e crioulos. Além disso. portanto. *2 Kernilàinen. ou nenhum. 252. nascidos em um hemisfério selvagem. The Portuguesa Seaborne Èmpirc. negros e índios. os franciscanos portugueses de Goa combateram violentamente a admissão de crioulos na ordem.. p. 41 Ainda mais tipicamente. diferentes dos metropolitanos e inferiores a eles — e. bem como euramericanos. mas. mas como grupos sociais evidentes. 286. porque o tema principal de que estamos tratando é o surgimento do nacionalismo crioulo. Seu surgimento permitiu que prosperasse um estilo de pensamento que prenuncia o moderno racismo. chineses e "indochineses" à profissão sacerdotal — talvez por não haver ainda. levou inevitavelmente ao aparecimento de eurasianos. até que suas extensões territoriais puderam ser imagi*° Rona Fields. mais antigo dos conquistadores planetários da Europa. em 1800. eram. nossa atenção tem-se concentrado nos interesses dos funcionários na América — importantes. Isso não deve ser compreendido como minimização da crescimanto paralelo do racismo crioulo em relação a mestiços.' fornece uma ilustração adequada disso. com seus conflitos entre peninsulares e crioulos. pela própria natureza. as obras de Rousseau e de Herder. 37 Menos de um século depois. nem a disposição de uma metrópole n Só emeacada de proteger (-até ce-lo ponto) esses infelizes. estrategicamente. uma vez que quanto mais sangue nativo possuem. 41 Boser. desde a antiguidade). p. a qual teve o pioneirismo de Portugal a partir de 1510. (No entanto. mas também em certas partes da África e da Ásia. p. Justificou. ainda assim. Manuel I pôde ainda "resolver" sua "questão judaica" pela conversão obrigatória em massa — sendo possivelmente o último governante europeu a considerar essa solução não só satisfatória como "natural". alegando que "mesmo quando nascidos de pais brancos puros. Nationalism. o. em comparação com a prática anterior. antecipavam o aparecimento da consciência nacional americana dos fins do século XVIII. o grande reorganizador da missão jesuíta na Ásia. <3 Tenho ríslçado aqui as distinções rací-sias entre peninsulares e crioulos. eram interesses que. como também classificou como infração criminosa chamar os súditos "de cor" por nomes ofensivos. Quanto aos mestiços e castiços.70 71 Ademais. esse decreto citando antigas concepções romanas de cidadania imperial. 10% da população de Lisboa era de escravos. Já na década de 1550. Pesada contribuição para essa ''Charles R. assim.

às primeiras gráficas locais. Desse modo. até que os impressores descobrissem uma nova fonte de renda — o-jornal". para que mercadorias. noivas. porém. teve lugar uma verdadeira revolução. quais os preços. um fenómeno essencialmente norte-americano. mas permaneceu durante dois séculos sob o estrito controle da coroa e da Igreja. eles se tornavam um só. não diria nada sobre seu mundo). de Buenos Aires e de Bogotá. a alternância entre seu extenso âmbito e seu localismo particularista. se consideravam o centro do Novo Mundo. p.72 73 nadas como nações. o que colocava lado a lado. aí entrassem elementos políticos.mais lento e intermitente. casamentos dos ricos. The Spsnísk-AmerJcen fievaSulions.120 "jornais". 461 dos quais duraram por mais de dez anos. com o correr do tempo. de longe. por toda a América espanhola. corno nuestra América\m sido interpretado como revelador da vaidade dos crioulos locais que. se tivesse oportunidade. An Introduction. Naturalmente. 33. -Os leitores de jornal da Cidade do México. morando na mesma rua. o jornal de Caracas. que podia repetir-se infinitamente em outras situações coloniais. 28. na segunda metade do século XVIII. 44 A figura de Benjamin Franklin está indelevelmente associada ao nacionalismo crioulo na América do Norte. Na América do Norte protestante. em outras. a mais valiosa das possessões da América espanhola. bem como ordenações políticas coloniais. ainda que de modo. a imprensa praticamente não existiu nesse século. só se podia esperar que. Febvre e Martin nos esclarecem. este casamento com aquele navio. pode ser menos evidente. O fato de os primeiros nacionalistas mexicanos escreverem. podia ler um jornal de Madri (o qual. bispos e preços. porém. por ser o México. na mesma página. em que portos). esta. norte ou sul-americanos? Eles começavam fundamentalmente como prolongamentos do mercado. de maneira muito natural e até mesmo apolítica. senão único. frequentemente. Um traço criativo desses jornais era sempre seu provincianismo. A imprensa chegou cedo à Nova Espanha. Assim. o gráficojornalista foi. Uma vez que o principal problema enfrentado pelo gráfico-jornalista era atingir os leitores. Lembram-nos que "a imprensa de fato não se desenvolveu na América do Norte durante o século XVIII. 46 Quais eram as características dos primeiros jornais. desenvolveu-se uma associação tão estreita com o agente do correio que. . estavam no entanto perfeitamente conscientes de sua existência. Entre 1691 e 1820. do qual eram comumente o colaborador principal. sobre si mesmos. mas muitos funcionários peninsulares. Os periódicos hispano-americanos que se desenvolveram no final do século XVIII eram compostos com plena consciência da existência de provincianos em mundos paralelos ao seu. da menos de 2. não leriam o que se produzia em Caracas se pudessem deixar de fazê-lo. Mais uma vez. de início.palavras. Outro traço desse tipo era a pluralidade. só havia gráficas na Cidade do México e em Lima. ainda que não lessem os jornais uns dos outros. Os mais antigos jornais continham — ao lado de notícias sobre a metrópole — notícias comerciais (partidas e chegadas de navios. Daí ter a oficina gráfica surgido como o ponto chave das comunicações e da vida intelectual da comunidade nos EUA. as pessoas pen47 48 Franco. No correr do século XVIII. p. Em outras palavras. este preço cora aquele bispo. porém. era a própria estrutura da administração e do sistema de mercado coloniais. porém. sobre seu país. e assim por diante. até o advento do capitalismo editorial. Até fins do século XVII. Daí a conhecida duplicidade do nacionalismo hispano-arnericano primitivo. Assimetria. Na América espanhola. processo semelhante deu origem. foram editados na-. criava uma comunidade imaginada entre uma determinada congregação de companheirosleitores. à qual pertenciam esses navios. "5 Os gráficos que abriam novas oficinas incluíam sempre um jornal em sua produção. A importância de seu negócio. "'"'The Cornin9 of the Book'Pi 208"11 • Lvach. e sua produção era quase que exclusivamente ligada à Igreja. 47 De fato. Um crioulo colonial. corno nosotros los americanos e.

não dos do Rio da Prata. na verdade. e o atraso "local" do capitalismo e da tecnologia na Espanha em relação à extensão administrativa do império. veja sol Depois de três anos de revolução. mas multo tardiamente & por pouco mais de uma geração.£3-0. tivesse existido uma comunidade de fala inglesa de bom tamanho na Califórnia. tanto quanto pelo comércio. As Treze Colónias originárias compreendiam uma área menor "Um peão velo queixar-se de que um inspetor espanhol de sua estância havia batido nele. os indígenas foram mais bem tratados do que em qualquer outra parte da América espanhola 9 o Guarani alcançou o steíus <Je língua impressa. à medida que populações antigas e novas se deslocaram rumo ao oeste a partir do núcleo litorâneo do leste. a década de soberania independente do Texas (1835-1846). digamos. para essa comunidade imaginada. uma vez que essa expressão denotava precisamente a fatalidade do nascimento extra-espanhol que compartilhavam. associados à rápida expansão da fronteira oeste e às contradições geradas entre as economias do norte e do sul. O que se pretende é menos explicar as bases socioeconômicas da resistência antinietropolitana no hemisfério ocidental entre. da Argentina. 8. um impacto significativo sobre seu alcance. Nesse sentido. p. mesmo no caso dos EUA.total das Tieze ColCnlas era de 835. A da Venazuala. meses mais tarde.202 quilómetros quadrados. 200-1. é conveniente voltar a acentuar a pretensão limitada e específica da exposição que fizemos até aqui. o nível geral de desenvolvimento do capitalismo e da tecnologia em fins do século XVIII. essa guerra nos faz lembrar vivamente as que separaram violentamente a Venezuela e o Equador da GrãColômbia. ao mesmo tempo. 1760 e 1830. e da América do Sul hispínica. em quão importante é. *9 Os crioulos mexicanos podiam saber. Graças à ditadura relativamente benevolente alt estabelecida pelos jesuítas em princípios do século XVII. VarSaton-Watson.'Se. após a Insurreição. tJaliorr$ ancf States. de acontecimentos ocorridos em Buenos Aires. provavelmente. 2. e tais acontecimentos antes pareceriam "ser semelhantes aos" acontecimentos ocorridos no México. espanhol peninsular] se atreve a erguer a mão para um americano!'. 49 do que a Venezuela e equivalente a um terço do tamanho da Argentina. 87. e. Com a expulsão dos jesuítas da América espanhola pala Coroa. 311.439.74 . o "fracasso" da experiência hispanoamericana em gerar um nacionalismo de âmbito hispanoamericano permanente reflete. 51 À guisa de conclusão provisória. -o território passou para o Rio de Praia. e. também. os crioulos protestantes de fala inglesa estavam em posição muito mais favorável para concretizar a ideia de "América" e. uma ideia de simultaneidade firme e sólida através do tempo. Os "Estados Unidos" puderam multiplicar gradativamente seu número no correr dos 183 anos seguintes. O Paraguai constitui um caso de excepcional interesse. 'Ora.78 savam em si mesmas como "americanas". A imensa extensão do Império hispano-americano e o isolamento de suas partes componentes tornavam difícil imaginar uma simultaneidade como essa. no século XVIII. acabaram por ter êxito em apropriar-se do título habitual de "americanos". "8 Ao mesmo tempo. um maturrango [vulg. Contudo. 49 Evocação fascinante da lonjura e do isolamento das populações hispano-americanas á a descrição da fabulosa Macondo. vimos que a própria concepção do jornal implica na refracão de "eventos mundiais" idênticos em um determinado mundo imaginado de leitores na língua vulgar. hoje.860. os laços afetivos de nacionalismo foram suficientemente elásticos. do que a razão por que a resistência se concebeu sob formas 50 51 A superfície.776. os mercados de Boston. pára atuar como uma Argentina em relação ao Peru das Treze Colónias? Até mesmo nos EUA. p. feita por Márquaz em Cem anos de solidão. do que "fazer parte deles"." Ibid. e o Uruguai e o Paraguai. mas era antes uma indignação nacionalista do que socialista. das Províncias Unidas do Rio da Prata. mas isso se daria por intermédio dos jornais mexicanos.965 dui!õrnetros quadrados.. a ponto de precipitar uma guerra de secessão quase um século depois da Declaração da Independência. . (A época da história mundial em que nasce cada nacionalismo tem. há elementos de "fracasso" ou retração comparáveis — a não incorporação do Canadá de fala inglesa.. M Estando todas elas juntas geograficamente. Nova York e Filadélfia eram facilmente acessíveis uns aos outros e suas populações ligadas de maneira relativamente firme pela imprensa. San Martin ficou indignado. em 1767. Não será o nacionalismo indiano inseparável da unificação administrativa e de mercado da colónia. realizada por poderes imperiais os mais terríveis e avançados?) Ao norte. não seria provável que tivesse surgido ali um Estado independente.

Em primeiro lugar. Netionslism. 105. não tão remotos. A "nação" tornou-se. as "línguas impressas nacionais" foram de fundamental importância ideológica e política. es liai seine National Bil- . 52 No cumprimento desta tarefa específica. algo a que se podia aspirar desde o início. ou criaram. a "nação" mostrou ser uma invenção que era impossível patentear. de comunidade imaginada que se protegesse contra a espoliação daqueles regimes. nenhum deles proporcionou o quadro de uma nova consciência — a mal percebida periferia de sua visão. enquanto a patavra "nação" só aparece pola primeira vez na Constituição de 1789. Se considerarmos o caráter desses novos nacionalismos que. assim. o grande Johann Gottfried von Herder (1744-1803) declarou. Com leviana despreocupação a respeito de alguns fatos evidentes extra-europeus. nem o liberalismo. . alteraram a fisionomia do Velho Mundo. imprevistas. todos tiveram condições de aluar a partir de modelos disponíveis propiciados por seus predecessores remotos e. ou a forma. O liberalismo e o Ihiminismo tiveram evidentemente um efeito muito forte. O término do período de movimentos de libertação nacional bem-sucedidos na América coincidiu quase que exatamente com o início da época do nacionalismo na Europa. Na verdade. enquanto que o espanhol e o inglês jamais foram temas na América revolucionária. Os interesses económicos ern jogo são bem conhecidos e. o tipo. em quase todos. em fins do século XVIII.' Kcrnílãinen.76 nacionais "plurais" — e não de outras formas.após as convulsões da Revolução Francesa. p. dois traços notáveis os distinguem de seus precursores. sobretudo propiciando um arsenal de crítica ideológica do regime imperial e dos anciens regimes. e não que se fosse definindo gradativamente. Em segundo lugar. os funcionários crioulos peregrinos e os homens de imprensa crioulos provincianos tiveram o papel histórico decisivo. o centro de nossa análise será a língua impressa e o plágio. ANTIGAS LÍNGUAS. de importância fundamental. Ela se tornou suscetível de plágio por mãos as mais variadas e. ern outras palavras. entre 1820 e 1920. O que estou sugerindo é que nem o interesse económico. cão ao que estava no foco central de sua admiração ou desagrado. obviamente. nem o Iluminismo podiam criar. por vezes. por si sós. neste capítulo. NOVOS MODELOS 54 É ilustrativo que a Declaração da Independência de 1776 fale somente de "o povo". como veremos.— em oposi-. Por isso. que: "Denn/ecfes Volk i st Volk.

78 79 dung wie seine Sprache". causado inicialmente pelas escavações dos humanistas e» posteriormente. ou a ingenuidade histórica dos séculos Xíl e XIII.) Todas essas utopias enganosas. O desenvolvimento do que se pode chamar "história comparada" levou. com 69 anos. que teve início já no século XIV. Voltaire e Rousseau que. não estavam separados do presente unicamente por uma extensão de tempo. Sudeste da Ásia e no subcontinente indiano — ou que eram completamente desconhecidas — o México asteca e o Peru incaico — sugeria um irremediável pluralismo humano. vieram os astros do Ilumimsmo. o humanismo cria uma perspectiva histórica em profundidade tal como nenhuma época anterior de que temos conhecimento jamais possuiu: os humanistas vêem a antiguidade em profundidade histórica e. Grifo nosso. todo povo é povo. Poderia afirmar-se que tinham de ser assim. (Ô significado desses cenários fica mais claro se se considerar quão inimaginável seria localizar a República de Platão em qualquer mapa. Moníesquieu. e que as descobertas tinham dado fim à necessidade de buscar modelos em uma antiguidade desaparecida. sobre esse pano de fundo. 4 No correr do século XVI. da antiguidade.8]. Com seu programa de restauração das antigas formas de vida e de expressão. não como Paraísos perdidos. com o tempo. mas também por condições completamente diversas de vida.es e as ciências haviam atingido plena prosperidade em seu próprio tempo e lugar. 3 Citando mais uma vez Auerbach. mais limitadamente. 5 Analogamente. os franceses tiveram a 'coragem de considerar 1 2 3 sua própria cultura como um modelo válido em igualdade de condições com a dos antigos. apresentava um mapa fictício de sua localização no Atlântico Sul. o qual participara da expedição de Américo Vespúcio à América. Aurangieb \fàlfi). bem como os da Bíblia. da cristandade. A majestosa Ilha dos Houyhnhnms. a "descoberta" feita pela Europa das grandiosas civilizações de que até então só se ouvira falar vagamente — na China. Quais as origens desse sonho? O mais provável é que. e de modo algum necessariamente em benefício desta última. há um claro contraste entre os cois famosos mongíis do teatro inglês. [Isso tornou impossível] restabelecer a vida autárquica natural da antiga cultura. que afirmava que as ar.se encontrem na profunda redução do mundo europeu. de Dtyden. mas como sociedades contemporâneas. . nas teorias subsequentes sobre a natureza do nacionalismo. A Nova Atlântida de Francis Bacon (1626) foi talvez original sobretudo porque se localizava no Oceano Pacífico. A Utopia de Thomas Morus. Observe que Auerbacn diz "cultuis" e não "língua". rettala um Imperador contemporâneo reinante n 358-1707]. "modeladas" sobre descobertas reais. 343. essas civilizações haviam-se desenvolvido completamente isoladas da história conhecida da Europa. p. são descritas. simulava ser o relato de um marinheiro que o autor encontrou em Antuérpia. cada vez mais.esf" a assa "sua própria". uma vez que foram compostas como críticas a sociedades contemporâneas. ' ["Assim. à concepção até então inaudita de uma "modernidade" explicitamente justaposta à "antiguidade". Como bem o diz Auerbach: 2 Com a primeira alvorada do humanismo. Em sua maior parte. ele possui sua formação nacional como possui sua língua". Tamburlaifia r/te Qraat (1587-158.. (Somente o tempo homogéneo e vazio permitiria acomodálas. "Na época de Luís XIV. KemilâMen. ex* Mimesis. em 1497-1498. em tempo e espaço. começou a havei1 um sentimento de que os eventos da história e da lenda clássicas. 42. Viço. publicou seu poema Síécíe de LQUIU lê Grend. p. 5 Na esteira dos utopistas. Japão.) O impacto das "descobertas" pode ser aferido pelas geografias peculiares das sociedades imaginárias da época. descreve um fabuloso dirtasta morto desde 1407. quando Charles Perra u't. surgida em 1516. o período intermediário de trevas da Idade Média. de maneira bastante paradoxal. M/mesis. pela expansão planetária da Europa.. A questão foi encarniçadamente debatida na "Batalha dos Antigos e Modernos" que dominou a vida intelectual francesa na última quarta parte do século • XVII. Deveríamos também sar parcimoniosos. fictício ou real. de Swift (1726). Nstionalism.] Essa concepção notavelmente e«£-européia da nation-ness como algo vinculado a uma língua própria e exclusiva teve ampla influência na Europa do século XIX e. p. e impuseram essa opinião ao resto da Europa". 282. na verdade do homem: suas genealogias eram exteriores e inaâsimiláveis ao Éden. Grifos nossos. em atribuir "fisrton-r. A batalha se iniciou em 1639. da Marlowe.

The Age of Revolulion. enquanto o imperialismo europeu abria vigorosamente seu caminho descuidado pelo mundo. Como nos mostra de maneira muito proveitosa SetonWatson. Otientatism. entre eles mesmos. comerciantes e soldados portugueses. hoje em dia. ou por elas sustentados. missionários. o grego e o hebreu — foram obrigadas a misturar-se em condições de igualdade ontológica com variegada e plebeia multidão de línguas vulgares rivais. 337. e não necessariamente a Escolhida. 8 Edward Said. em total contraste com a situação na América entre 1770 e 1830.degradação anterior no mercado pelo capitalismo editorial. por dedução científica. possuíam idêntico staíus. E a maior parte de sua clientela imediata constituía-se. A marginalizarão do Império do Centro para o Extremo Oriente é simbólica desse processo. pôr seusnovps' donos: os falantes — e leitores — nativos de cada língua. ou de proveniência divina. De fato. uma vez que agora nenhuma delas pertencia a Deus. Pa conquista inglesa de Bengala se originaram as investigações pioneiras de William Jones sobre o sânscrito (1786). '? A vigorosa atividade desses intelectuais profissionais foi fundamen. tornou-se possível pensar a Europa como apenas uma entre muitas civilizações. ainda que com o risco de menor domínio da área. as antigas línguas sagradas — o latim. de caráter científico.80 81 pioraram uma não-Europa "real" para uma bateria de obras subversivas dirigidas contra as instituições sociais e políticas europeias então vigentes. Como observa correiamente Hobsbawm. gramáticos. conversão. classificação de línguas em famílias e. de estudantes universitários ou préuniversitários. Os rriourejadores visionários que dedicavam anos e anos à compilação dos dicionários eram necessariamente levados para as grandes bibliotecas dá Europa. a civilização indiana era muito mais antiga do que a da Grécia ou da Judéia. p. s Hobsbawm. "que multiplicou a antiguidade extra-européia. e particularmente as 10 Assim. A afirmação de Hobsbawm de que "o progresso das escolas e das universidades dá a medida do nacionalismo. comércio e guerra — colecionaram listas de palavras de línguas não-européias. então. Mas por quem? Logicamente. Se agora todas as línguas compartilhavam um status (intra)mundano comum. ou a melhor. as descobertas e conquistas causaram também uma revolução nas ideias europeias a respeito da língua. 136. sobretudo as das universidades. que se podiam transportar (ainda que às vezes com dificuldade) da . num movimento que complementava sua . 11. 9 0 A partir daquele momento. do. outras civilizações se viam traumaticamente confrontadas por pluralismos que aniquilavam suas genealogias sagradas. Mas somente em fins do século XVIII é que o estudo comparado de línguas." Nations and States. ' Hobsbawm. The Age of Revolution. Os dicionários bilíngues tornavam evidente um igualitarismo mais apro.ximador entre as línguas — fosse qual fosse a realidade política exterior. 6 No devido teiripo. oficina para a escola. escritório para a casa. exatamente como as escolas. em princípio. "Exatsmente porque a historiais língua. p. o século XIX foi. holandeses e espanhóis. iam-se concebendo genealogias que só poderiam conciliar-se em um tempo homogéneo e vazio. filologistas e literatos das línguas vulgares. um dos aspectos mais valiosos do texto de Seton-Wauon é exatamems a stençáo que dedica à historia da língua — embora se possa discordai do modo como a utiliza. realmente se iniciou. uma idade do ouro para os lexicógrafos. "Â língua tornouse menos urna continuidade entre um poder exterior e o falante humano do que um terreno interior criado e realizado. . as línguas. 7 Progressos nos estudos semíticos abalaram a ideia de que o hebreu fosse singularmente antigo.Os dicionários raonolíngúes eram enormes compêndios do tesouro impresso de cada língua.'. que levou a uma compreensão crescente de que. mantida tão rigidamente separada da historia política. é. p. Desde os primeiros momentos. ali estava "a primeira ciência a encarar a evolução comp sua própria essência". em geral'. económica e social convencional. 337. dentro das capas do dicionário Checo-alemão/Alemão-checo. reconstruções de "protolínguas" tiradas do esquecimento. pelos usuários da língua.• tal na moldagem dos nacionalismos europeus do século XIX. p. não menos inevitavelmente. lado alado. com seus estudos de gramática comparada. Mais uma vez. marinheiros. é quçtfné pareceu desejável associá-la a estas.. eram todas igualmente dignas de estudo e de admiração'. na Europa e em sua periferia imediata. que seriam reunidas em dicionários elementares. Da expedição de Napoleão ao Egito veio a decifração dos hieróglifos por Champollion (1835). De lato. por motivos práticos — navegação." 8 Dessas descobertas surgiu a filologia.

«> Ibid. em formas impressas de fácil manejo. e. o grande novo porto russo rfe grãos". em 1803: M Pela primeira vez. esse "passado" tornouse cada vez mais acessível a um pequeno número de jovens intelectuais cristãos de fala grega. se tornou um ardoroso lexícógrafo!). que se inicia com esta sugestiva frase: "Uma nação nasce quando algumas pessoas decidem que ata deve existir". A magna opera de Bessenyei destinava-se a provar que a língua húngara adaptava-se ao mais elevado género literário". se não para outras épocas e lugares.000. Ele também nos faj ver. Em meados do século XVIII. o extraordinário trabalho de estudiosos alemães. Grifo nosso. 1-1 Ibid. 20. assim. Embora. proveitosamente. fulgurante e firmemente pagã. porém. a sociedade secreta responsável sm grande medida pelo levante antiotomano de 1821. . primeira história sistemática da língua e da literatura checas. 40. Em 1835-1839. 13 Símbolo dessa mudança de consciência são as seguintes palavras de um desses jovens. se tornaram seus paladinos mais conscientes". mas estratégico. 44. "The Present State of Cívilization In Greece" encontra-se nas p. dizem tacitamente a si mesmos.. 43-4. embora houvesse 6. na época. seguidos de um movimento. a nação reconhece o espetáculc horroroso de sua ignorância e estremece ao avaliar a distância 11 que a separa da glória de seus ancestrais. empenharam-se em "desbarbarizar" os gregos modernos. eles n5o desempenharam virtualmente pape! algum na Revolução Francesa (p. em prol da substituição do alfabeto cirílico pelo alfabeto romano (distinguindo nitidamente o romeno das vizinhas línguas eslavas ortodoxas). n Estímulo ulterior foi propiciado Não pretendendo simular qualquer conhecimento especializado sobre a Europa Leste e Central. foi publicado o dicionário pioneiro checo-alemão. em 1802. foi fundada "em Odessa. O texto integrai de Koraes. p. a que se seguiu.000 estudantes de lyoée na França. e um total aproximado da 48. 17 Paul Ignoius. ou devemos tentar tornar-nos novamente dignos desse nome. em 1814. em 1842. Adamantios Koraes (que mais tarde. na análise que se segue baseei-me grandemente em Seton-Waison. de Josef Jungmann.. Geschichte der bòhmische Sprache una ãltern Literatur. "De fato o provou. ou não devemos ostentá-lo. reconstituir essa revolução lexicográfica como se poderia fazer com o estrondàr de um arsenal em chamas. mas seu ímpeto polémica era mais convincente do sue o valer estático dos exemplos que criou. 157-82. franceses e ingleses não apenas havia tornado acessíveis. em discurso para um público francês. 16 Sobre o nascimento do nacionalismo húngaro. l2 Entusiasmados pelo filo-helenismo dos centros da civilização europeia ocidental. juntamente com os anexos filológicos e lexicográficos necessários. produziu um dicionário russo em seis volumes. Essa dolorosa descoberta. dicionários e histórias do romeno. ano da publicação de algumas obras ilegíveis do versátil autor húngaro GyÕrgy Bessenyei. Hungaty. embora a educação se disseminasse rapidamente na primeirã metade da século XIX. 13 Ver a introdução de Elíe Kedouríe a Nalionalism ín Ásia en<j África. o padre católico Josef Dobrovsky (1753-1829) escreveu. a Academia Russa. até que a explosão total final transforma a noite em dia. em cinco volumes. isto é. esse grupo reduzido. Analogamente. * i 12 The Age a! Revolufion. A respeito do romeno. Nas revoluções deste ano. quando cada pequena explosão acende outras. em 1792. moldada na Academia Francesa. 150-3. como também recriavam. As instituições académicas não tiveram significado para os nacionalisrnos americanos. 167). o checo fosse ainda a língua apenas dos camponeses da Boémia (a nobreza e as classes médias ascendentes falavam o alemão). numa população de 68. . ver Narions and States. que. apareceram gramáticas.. " Pode-se. uma gramática oficial. p. inicialmente bem-sucedido nos reinos dos Habsburgos e. a antiga civilização helénica.000 alunos no secundário. O próprio Hobsbawm observa que. em 1848. Philike Hetairia. p. em Viena. posteriormente..000 estudantes universitários em toda a Europa. 166-7). escreve Ignotus ser ele um acontecimento "suficientemente recente no tempo: 1772. em fins do século XVIII. desempenhou papel essencial (p. em dezenas de livros. certamente está correia em relação à Europa do século XIX." Talvez valha a pena observar que assa passagem sã encontra em uma subsecão Intitulada "The Inventing of trie Hu-ngarian Nation". No último quartel do século. em 1850.000 estudantes universitários em Paris. p. 177. já entrado o século XVIII. em transformá-los em seres dignos de Péricles e de Sócrates. 15 • Os primeiros jornais gregos surgiram em 1784. o número de adolescentes nas escolas ainda era mínimo pelos padrões de hoje: não mais de 19. p.000 da Rússia Imperial.82 83 universidades. p. virtualmente todo o corpus existente dos clássicos gregos. a maioria dos quais havia estudado ou viajado para fora dos limites do Império Otomano. porém. 166. na época morando em Viena e trabalhando na escolta de Maria Teresa. em Paris. nos dos otomanos. Ambos representaram uma vitória da língua vulgar sobre a língua eslava da Igreja. l5 Entre 1789 e 1794. não lança os gregos no desespero: somos os descendentes dos gregos. Ele contém uma análise espantosamente moderna das bases sociológicas de nacionalismo grego.

nos anos iniciais do século XIX. p. Sua primeira expressão política foi a reação hostil da nobreza magiar que falava o latim. como língua principal da administração imperial. três línguas literárias diferentes se formaram ao norte dos Bálcãs: o esloveno. na década de 1830. que se tornou rapidamente o centro de uma explosão da literatura ucraniana. 19 Pouco tempo depois. foi fundada a Universidade de Karkov. textos que eram uma resposta e um estímulo às reivindicações de uma língua impressa especificamente norueguesa. impressa]. p. em consequência do trabalho pioneiro de estudiosos locais. Nations and States. em 1809. Ê típico que Ibrahlm Sinssi./Víf/ona/ís/n. M E as sementes do nacionalismo turco podem ser facilmente descobertas no surgimento de uma ativa imprensa em língua vulgar em Istambul. Em outra parte. Não é preciso diíer que o Tzarismo liquidou rapidamente com essas passoas. O uso dessa língua foi a etapa decisiva na formação de uma consciência nacional ucraniana". Nations and States. 16 nios do tzar. 2329261. a cujo respeito observa Seton-Watson que "a formação de uma língua literária ucraniana aceita deve mais a ele do que a qualquer outro indivíduo. 1E8-61. houvesse acabado de vohar de cinco anos de estudos na França. il No caso da Noruega. em fins do século XVIII. a restaurar o latim. muitos deles produtos do American College de Beirute (fundado em 1866) e do College Jesuíta de São José (fundado em 1875) foram os que mais colaboraram para o renascimento do árabe clássico e para a disseminação do nacionalismo árabe. pastores e advogados. 23Kohrv. encontramos o nacionalismo africâner a que deram início os pastores e literatos bóeres que. "o pai da literatura húngara". a língua oficial tornou-se o russo. do persa e do áraba. "Ibid. língua oficial dinástica que misturava B ementas do turco. havia sete diários em Ungua turca em Constantinopla. . encorajaram um pouco os nacionalistas ucranianos na Galícia — para contrabalançar os poloneses. E vieram a seguir. 208-15. em 1846. porém. em 1784. Os^absburgos. poema satírico extremamente popular sobre a vida ucraniana. Ver também adiante. '9 Nations and States. É ilustrativo que Kazinczy tenha apoiado potiticamante José II nessa questão flgnotus. O estudo do folclore e a redescoberta e reconstituição da poesia épica popular caminhavam par a par com a publicação de gramáticas e dicionários e levava ao surgimento de periódicos que eram úteis para padronizar a língua finlandesa literária [isto é. Se. na década de 1820 passou a manifestar-se cada vez mais na língua vulgar. em 1878 passaria a existir separadamente um Estado nacional búlgaro. contra a decisão do imperador José II de substituir o latim pelo alemão. Mas o "despertar" de um interesse pela língua finlandesa e pelo passado finlandês. e de fato haviam participado do Movimento Ilírico. expresso de início por textos escritos em latim e em sueco. que por muito tempo compartilhara uma língua escrita com os dinamarqueses. Isso significava urna rejaiçSo do "otomano". SetoivWatson. na década de 1870. 1790-1792). p. 21 p. 18 No período de 1800-1850. foram bem-sucedidos em fazer do dialeto holandês local uma língua literária e denominando-a não mais como europeia. em nome da qual se poderia propor reivindicações políticas mais vigorosas". 105-7. ainda que com pronúncia completamente diferente. e pela mudança. Hungary. a primeira organização nacionalista ucraniana foi fundada em Kiev — por um historiador! No século XVIII. do que viria a ser a Universidade de Budapeste. o nacionalismo surgiu com a nova gramática (1848) e o novo dicionário (1850) noruegueses de Ivar Aasen. na década de 1780. porém. outros lago o acompanharam. as obras de Taras Shevchenko. Após a união do território aos domíSeton-Watson. A reaçêo foi suficientemente violenta para persuadir seu sucessor. na década de 1830. Ivan Kotlarevsky escreveu sunAeneid. o ucraniano (o pequeno russo) era desdenhosamente tolerado como língua de caipiras.. o servo-croata e o búlgaro. Em 1819. No século XVIII. 20 Os líderes do nascente movimento nacionalista finlandês eram ''pessoas cuja profissão consistia em grande medida no manejo da língua: escritores. fundador do primeiro jornal desse tipo. a língua de Estado na Finlândia de hoje era o sueco. The Age of fjaííana!ism. p. Em 1798. p. da pequena cidade provinciana de Trnava para Budapeste. Leopoldo II (r. p. Os maronitas e os coptas. 48). professores. havia sido geral a ideia de que os "búlgaros" eram da mesma nação dos servos e dos croatas. Capitulo V). 72. Shevchenko foi destruído na Sibéria. 137. na década de 1870. Quando ele saiu à frente. 23 z°Kemilâinen. Em 1875. Em 1804. apareceu a primeira gramática ucraniana — apenas 17 anos depois da gramática oficial russa.84 85 pelas inúmeras publicações de Ferenc Kazinczy (1759-1831).

a despesa pública per capita aumentou de 25% na Espanha. Mas não importa onde tenha ocorrido. "Entre 1830 e 1850. 229. indicam que sua coesão como classe era tão concreta quanto imaginada. A Europa de meados do século XIX assistiu a um rápido aumento das despesas do Estado e das dimensões das burocracias estatais (civil e militar). a despeito da inexistência de qualquer guerra local de maior importância. não se casavam com a filha um do 25petei J. K Se a expansão das classes médias burocráticas foi um fenómeno relativamente uniforme. Nas forças armadas. e assim por diante pelo nosso século adentro. com base' em parentescos e amizades comuns. Depois de Dobrovsky veio Smetana. Afinal de contas. não com base na língua ou na cultura que compartilhassem. tipicamente. lenta e interrompida em outros. . Nobres "franceses" podiamajudar reis "ingleses" contra monarcas "franceses". ainda que tipicamente em ritmo mais lento e mais tardio: o componente de classe média do corpo de oficiais subiu de 10% para 75%. em 1829. elas eram. claro. 40% na França. depois de Aasen. 44% na Rússia. ao público consumidor. Áustria and Germany sints WJ5. é patente que todos esses lexicógrafos. para 55. Se o governante do Sião tomava uma'nobre malaia como concubina. Uma nobreza analfabeta ainda podia atuar como nobreza. pelo menos. além das antigas classes dirigentes da nobreza e da pequena nobreza fundiária. Mais concretamente. em 1859. e a personalização das relações políticas subentendidas nas relações sexuais e na herança. da língua impressa. ou se o Rei da Inglaterra se casava com uma princesa espanhola — terão eles alguma vez conversado verdadeiramente um com o outro? As solidariedades eram produto do parentesco. sua metade civil subiu de O. só veio a ser uma classe mediante muitas cópias. As classes dirigentes pré-burguesas geraram sua própria coesão em certo sentido independentemente da língua. gramáticos. e as burguesias comercial e industrial. a ascensão das burguesias comercial e industrial foi. e se vinculavam. Ao mesmo tempo. os cortesãos e membros do clero.86 87 E não se deve esquecer de que essa mesma época assistiu à popularização de outra forma de página impressa: a partitura. Dvorak e Janácek. falando figuradamente.Mas e a burguesia? Eis aí uma classe que. cálculos maquiavélicos à parte. 112. os profissionais liberais. em 1804. O tamanho relativamente pequeno das aristocracias tradicionais. quase 98%). e 35. suas bases políticas estáveis. 74. Eles não tinham uma razão necessária para conhecer a existência um do outro. 50% na Bélgica. ocorrendo em taxas comparáveis tanto nos Estados adiantados quanto atrasados da Europa. Kateen&tein. p. 2* A expansão burocrática. extremamente irregular — maciça e rápida em alguns lugares. jornalistas e compositores não desenvolviam suas atividades revolucionárias no vácuo. Grieg. eles produziam para o mercado da imprensa. por intermédio desse silencioso bazar. 70% na Áustria. filólogos. os Estados mais adiantados da Europa. Veja-se até mesmo a máquina estatal austro-húngara. Béía Bártok. depois de Kazinczy. que significou também especialização burocrática. 75% nos EUA e mais de 90% nos Países Baixos". abriu as portas da nomeação oficial a números muito maiores e a origens sociais muito mais variadas do que até então. decrépita. ainda em 1840. Se observarmos que. revelou-se a mesma tendência. da dependência e de lealdades pessoais. plena de sinecuras e dominada pela nobreza: a porcentagem de homens originários da classe média nos postos mais elevados de "Hobsbawm. The Age of Revotution. mesmo na^GrãBretanha e na França. mas também a esposa rodeada de criadas e os filhos em idade escolar. mas. quase metade da população ainda era analfabeta (e na atrasada Rússia. essa "ascensão" deve ser compreendida em suas relações com o capitalismo editorial em língua vulgar. Um dono de fábrica em Lille só estava ligado á um dono de fábrica de Lyon por reverberação. "classes leitoras" significava gente de algum poder. p. Quem eram esses consumidores? No sentido mais geral: as famílias das classes leitoras — não apenas o "pai que trabalhava". em 1878. passando por 27. entre 1859 e 1918. DisfainedParfners. ou. folcloristas. as camadas médias ascendentes de pequenos funcionários plebeus.

então. * O crescimento generalizado da alfabetização. O latim se manteve como língua de Estado na Áustria-Hungria até inícios da década de 1840. numa Europa do. dos quais a Áustria-Hungria é provavelmente o exemplo extremo. em meados do século. Assim. que caracterizou o século XIX. a exaltação do alemão no século XIX pela corte dos Habsburgos. no século XIX.pelos registros históricos.) Em termos das clientelas de nossos lexicógrafos. em cada reino dinástico. havia um isomorfismo quase perfeito entre o âmbito dos diversos impérios e o de suas línguas vulgares. mas não poderia. em meados do século XIX. Em seu vasto domínio desmantelado. No casa do Beira Unida. 27 Hobsbawm. uma vez que. (Esses casos aproximam-se! mais dos da América. .proporção. há perto de dois séculos. era a coali26 Como vimos. & submissão militar do Gaeltactrt no início do Século XVIII B a depressão da década de 1B40 foram poderosos fstores concorrentes.88 89 outro. Excelente e pormenorizada exposição encontra-se em Ignotus. entre os naturais da terra que lessem a língua vulgar oficial. poliglota. . pequenos nobres fundiários. a preservação do húngaro impresso contra a maré montante do alemão era defendida por segmentos da nobreza menos importante e da pequena nobreza fundiária empobrecida.Hungary. uma coincidência relativamente alta entre língua de Esta» do e língua da população. The Age effíevolutlon. por razões absolutamente externas. Mas chegavam a visualizar de um modo geral a existência de milhares e milhares de outros como eles por intermédio da língua impressa. Na América.francês limitou o âmbito do bretão e o castelhano compeliu o catalão à marginalidade. o poder e a língua impressa mapeavam reinos distintos entre si. pelo menos de início. TheDissolution. como veremos adiante mais detalhadamente. (Em tais circunstâncias. e parecia ameaçador. Dizendo doutro modo. Em reinos como a Grã-Bretanha e a França. Mas tal clientela não estava plenamente realizada quase em parte alguma e as combinações dos consumidores concretos "variava consideravelmente de região pára região. Poderia ser a língua de Estado. ocorreu que houvesse. 224-5. Grifei a palavra qualquer. Nesse ínterim. mas uma de cada 8 pessoas reivindicava algum status aristocrático. do comércio. Mais típica. Em outras palavras. a língua inglesa expulsou o gaélico da maior parte dai Irlanda. seria lícito esperar que um nacionalismo cônscio de si mesmo surgisse por último. funcionários e homens do mercado — eram estes. Porém. língua vulgar. onde virtualmente não existia uma burguesia magiar. das ciências. esse tipo de coincidência era raro e os impérios dinásticos intra-europeus possuíam basicamente mais de uma língua vulgar em seu território. p. da imprensa ou da literatura. 26 a interpenetração geral a que aludimos acima não teve consequências políticas dramáticas. o latim fora vencido pelo capitalismo editorial em. Pois é difícil imaginar uma burguesia analfabeta. século XIX. 21 Pode-se dizer o mesmo dos leitores poloneses. das comunicações e das máquinas estatais. mas desapareceu quase imediatamente a seguir.p. aos que não a utilizassem. onde. mas só se pode ler a escrita de um certo povo.) Em muitos outros reinos. não admira pois que se encontrem conjuntos muito diferentes de clientes segundo as diferentes condições políticas. contudo. f>. E tal expectativa é corroborada. nem herdavam as propriedades um do outro. Membros da nobreza. era em grande medida não planejado. 44-55: vertarnbCmJàszi. em termos de história mundial. 165. essas solidariedades tinham seu maior alcance limitado por legibilidades em língua vulgar. em que. da indústria. criou novos impulsos vigorosos no sentido da unificação das línguas vulgares dentro de cada reino dinástico. porém. o. pode-se dormir com qualquer pessoa. ela mesma alemã como alguns podem considerá-la. as línguas de Estado vulgares assumiam cada vez mais poder e status em um processo que. as consequências foram inevitavelmente explosivas. especialmente num mundo em que essas /línguas se interpenetravam continuamente. profissionais liberais. Para perceber por que. os consumidores potenciais da revolução filológica. Na Europa. assegurava vantagens enormes àqueles de seus súditos que já utilizassem aquela língua impressa. a substituição do latim por qualquer língua vulgar. Na Hungria. não tinha nada a ver com o nacionalismo alemão. mas cada vez mais letrado. as burguesias foram as primeiras classes a consumar solidariedades numa base essencialmente imaginada. por exemplo. na mesma. Assim. ser a língua dos negócios. a adoça» de línguas vulgares corno Itnguss de Estado nesses dois reinos estava em andamento desde muito cedo. é preciso que se retorne ao contraste básico antes traçado entre a Europa e a América.

Mas será difícil perceber por que o convite parecia tão atraente. em que predominavam os intelectuais e os empresários: 2S Nas cidades que eram menos pobres. enviam para a Europa. talvez. ainda que estes houvessem de fato proclamado a abolição da servidão. Até certo ponto. e o convite tinha de ser escrito numa língua que elas entendessem" 3I — está correta. no sentido moderno. A irresistível e desconcertante concatenação de eventos experimentada por seus autores e por suas vítimas tornou-se uma "coisa" — e com um nome próprio: Revolução Francesa. Isso dependia muito das relações entre essas massas e os missionários do nacionalismo. os segundos e terceiros. jornais e formulações ideológicas. á por sobre o ombro. 169. 340. Outro extremo é sugerido pelo comentário irónico de Hobsbawm de que: "Os camponeses galicianos. do alemão e do inglês. que possuíam alguns habitantes abastados e algumas escolas e. 80. 72 (Finlândia). a revolução começou mais cedo e pôde progredir mais rápida e animadoramente.. à medida que era maior a alfabetização. dão a seus filhos melhor educação. 30 Mas por toda parte. Q otomano nSo 6 contudo uma língua estrangeira. . ram-se aos revolucionários poloneses. a suas expensas. tudo passa a ser tema de polémicas infindáveis por parte de partidários e de ad30 3' 3! TheAgecfRewkttion. e os últimos. p. Ela nem mesmo projetou 'líderes' do tipo a que nos habituaram as revoluções do século XX. com o avançar do século. p. frequentemente. Grifos nossos. 145 (Bulgária). a menos que nos voltemos finalmente para o plágio. Os ricos patrocinam a impressão de livros traduzidos do italiano. sem exclusão das meninas. Coalizões de leitores. Em algumas dessas cidades. Quando Koraes olha para a "Europa". dinheiro e facilidades de mercado. a que "ela" visava. 28Kedourie. na qual. em 1846. mitos. a impressionante formulação de Nairn -— "A nova intelligentsia de classe média do nacionalismo tinha de convidar as massas a entrar na história.90 91 zão entre os nobres menores. ver Seton-Watson. Num extremo. no devido tempo. E . 23 Para exemplos. p. desenvolveram-se de maneira semelhante por toda a Europa Leste e Central e. 3Z Mas uma vez que ela aconteceu. onde um clero oriundo do campesinato. pode-se indicar a Irlanda. e por que alianças tão diversas eram capazes de emiti-lo (a intelligentsia de classe média de Nairn não era absolutamente o único anfitrião). as escolas já estão sendo ampliadas e o estudo de línguas estrangeiras e até mesmo das ciências que são ensinadas na Europa [sic] está sendo introduzido nelas. o que onçarã ds frente é Constantinopla. 153 (Boémia) e 432 (Eslováquia). Por que "ela" irrompeu. Tudo aqui é exemplar. os profissionais liberais e os homens de negócio.. Nutions and States. os académicos. alguns indivíduos que podiam pelo menos ler e compreender os autores antigos. na verdade. como um modelo. as fuigras esposas som trabalho ingressam no mercado da impransa. preferindo massacrar os cavalheiros e confiar nos funcionários do Imperador". até que surgisse a figura pós-revolucionária de Napoleão". E3 (Egito) e 103 (Pérsia). Nationallsm in A$i» and África. nem por homens que estivessem procurando levar a cabo um programa sistemático. por que "ela" foi bem-sucedida ou fracassou. aquela experiência foi modelada por milhões de palavras impressas como um "conceito" sobre a página impressa e. The Sreak-up ofSrítBrrt. pois. desempenhava papel mediador essencial. p. Kohn. opuseorg. Do mesmo modo que uma imensa rocha informe se torna um penedo arredondado pela ação de inumeráveis gotas de água. conseqúèntemente.. Hobsbawm observa que "A Revolução Francesa não foi feita nem conduzida por um partido ou movimento organizado. poesia. 170. e próximo dele. com composições que se localizam de maneira diversa na gama de variação entre a húngara e a grega. O agradável Koraes oferece-nos uma vinheta precisa da clientela inicial do nacionalismo grego. 29 Em que medida as massas urbanas e rurais participavam das novas comunidades linguisticamente imaginadas naturalmente também variava muito. jovens ávidos de aprender. ingressou na memória acumuladora da imprensa. The Age of Nationalism. pelo Oriente Médio. p. p. os primeiros forneciam os líderes de "reputação". do francês. quando o 'povo encontrava um novo motivo de orgulho na exaltação pela imprensa de línguas que haviam falado humildemente por tanto tempo. The Age of fígvoàittón. tornava-se mais fácil conseguir o apoio popular.

de fato. Hungtry. cidadania universal.. a liquidação da servidão. Mas a "realidade observável" da França." Ignoius.92 versários: mas de que "ela" foi alguma coisa. absolutismos. já havia um "modelo" "do" Estado nacional independente à disposição para ser plagiado. Até mesmo as pequenas nobrezas húngara e polonesa. guetos. 45. a alta aristocracia magiar falava irancâs ou alemão. Compare-sei "O próprio nome de RsvoluçSo Industrial reflete seu impacto relativamente tardio sobre a Europa. ninguém jamais teve muita dúvida. Ibid. até depois de 1870. Não foi senso na década de 1820 que socialistas Ingleses e franceses — eles próprios um grupo sem precedentes — a inventaram. Se "húngaros" mereciam um Estado nacional. e a liquidação de seus contrários: impérios dinásticos. então isso queria dizer "os húngaros". eram monarquias restauradas e o dinasticismo ersatz do sobrinhoneto de Napoleão. 34 Seria. instituições monárquicas. ainda que lembrado. impunha certos "padrões" em relação aos quais não se permitiam desvios muito acentuados. se não antes. servidões. na segunda década do século XIX. Na "realidade". Da confusão americana brotam estas realidades imaginadas: Estados-nação. que este capítulo focalizou. seja o que for. aparece como uma anomalia inconsequente. No Início do século XIX. . J3 De modo muito semelhante.0 eslovaco... Metade dos súdito» do reino da Hungria sra nõo-rnagiar. era mais profundo do que na América: a servidão tinha que terminar. a validade e a generalidade do 'projeto se confirmaram indubitavelmente pelo pluralismo dos Estados independentes. mesmo quando liderados.45-6 e 81. Ap&nas um terço dns servos falavo magiar. instituições republicanas. e. a promoção da educação popular. provavelmente por analogia com a revolução política da França". vassalagens. "modelos" e. tiveram grandes dificuldades em não realizar um espetáculo de "convidar a entrar" (ainda que apenas até a copa) seus compatriotas oprimidos. demagogicamente. nobrezas hereditárias. bandeiras e símbolos nacionais. pelos grupos sociais mais retrógrados.. no devido tempo. o caráter "populista" dos primeiros nacionalismos europeus. B nobreza media e infericr "conversava em um latim vulgar salpicado de expressões do magiar. Desse modo. p. de tal modo que.) Mas exatamente porque era então um modelo conhecido. 3i queria dizer um Estado em que o locus fundamental da soberania tinha que ser a coletividade dos falantes e leitores húngaros. todos eles. atrasadas e 33 reacionárías. Mas a palavra impressa eliminou o primeiro quase^. mais preciso dizer que o modelo era uma complexa mistura da si e mantos franceses e americanos. 34 (Os primeiros grupos a fazê-Io foram as coalizões de pessoas instruídas baseadas em línguas vulgares marginalizadas. soberania popular. bem coma do alemão vulgar. o medo de Bolívar das insurreições de negros e a convocação de San Martin de seus indígenas à peruanidade chocam-se caoticamente. provavelmente. do que a "supressão" generalizada da escravidão maciça dos EUA "modais" do século XIX. "projetos". a expansão do sufrágio. A coisa Isicl existia na Grã-Bretanha antes da palavra. e assim por diante.. p. a lógica da peruanização de San Martín estava funcionando. etc. os movimentos de independência na América se tornaram "conceitos". mas também 0.que'imediatamente. De fato. e da língua compartilhada das repúblicas "modais" da América do Sul. e assim por diante. a escravidão legal era inimaginável — também porque o modelo conceptual estava colocado num lugar inerradicável. Se quiserem. nesse contexto. 35 • Não que isso fosso uma questão muito definida. assim que se imprimiu a respeito deles.) Além disso. (Nada mais chocante. da ESrvio B do romano.

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