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Nação e Consciência Nacional. Ática. - ANDERSON, B

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Benedict Anderson

NAÇÃO E CONSCIÊNCIA NACIONAL
Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira

He regards it as his task to brush history against the grain* Walter Benjamin, fí/uminations Thus from a Mixture of ali kinds began, That Hefrogeneous Thing, An Englishman: In eager Rapes, and furious Lust begot, Betwixt a Painted Britton and a Scot. Whose gend'ring Offspring quickly learnt to bow, And yoke their Heifers to the Roman Plough: From whence a Mongrel half-bred Race there carne, • With neither Name nor Nation, Speech or Fame. In whose hot Veins new Mixtures quickly ran, !nfus'd betwixt a Saxon and a Dane. While their Rank Daughters, to their Parents just, Rece'iv'd ali Nations with Promiscuous Lust. This Nauseous Brood directly did contaín The well-extracted Blood of Engfíshmen...*" Excerto de Daniel Defoe, The True-Bom Englishman

SUMÁRIO

l Encara como tarefa sua contrariar o sentido da história. ' Assim da uma mistura de todos os tipos começou £ssa coisa heterogénea, um inglês; Gerado em estupros ardentes e arrebatada luxúria Entre um bretso sardento e um escocês'. ' Cuja prole procriadora logo aprendeu a curvar-se, E jungiu suas novilhas ao arado romano: .E dal uma raça mestiça impura se originou, Sem nome nem nação, sem fala ou fama. Em cujas vaias ardentes novas mesclas logo se fundiram. Infundidas entre um saxão e um dinamarquês. Enquanto suas filhas nobres, exatamente como os pais. Receberam todas as nações com promíscua luxúria. Essa raça repulsiva continha do fato diretamente O sangue de boa extração dos ingleses...

1. Introdução • 2. Raízes culturais 3. As origens da consciência nacional',, 4. Antigos impérios, novas nações 5. Antigas línguas, novos modelos 6. Nacionalismo oficial e imperialismo 7. A última onda _____________ 8. Patriotismo e racismo 9. O anjo da história Bibliografia __ índice alfabético

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INTRODUÇÃO

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Talvez não se tenha ainda percebido que está ocorrendo uma transformação fundamental na história do marxismo e dos movimentos marxistas. Seus sinais mais perceptíveis são as recentes guerras entre o Vietnã, o Camboja e a China. Essas guerras são de importância histórica mundial, por serem as primeiras a ocorrer entre regimes cuja independência e credenciais revolucionárias são inegáveis, e porque nenhum dos beligerantes procurou, senão perfunctoriamente, justificar o derramamento de sangue em termos de uma perspectiva teórica marxista aceitável. Embora fosse ainda perfeitamente possível interpretar os conflitos fronteiriços de 1969 entre a China e a União Soviética, as intervenções militares soviéticas na Alemanha (1953), na Hungria (1956), na Checoslováquia (1968) e no Afeganistão (1980), em termos de — conforme o gosto — "imperialismo social", "defesa do socialismo", etc., ninguém, penso eu, acreditará seriamente que esse tipo de vocabulário tenha muito a ver com o que ocorreu na Indochina. Se a invasão e a ocupação vietnamitas do Camboja, em dezembro de 1978 e janeiro de 1979, representaram a primeira guerra convencional em grande escala empreendida por um regime marxista revolucionário contra ou-

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iro. ' o ataque da China ao Vietnã, em fevereiro, confiras;/ rapidamente o precedente. Apenas os mais confiantes -•leriam apostar que, nos anos finais deste século, qualquer deflagração importante de hostilidades entre Estados encontrará a União Soviética e a China Popular — para não falar nos Estados socialistas menores — apoiando ou combatendo do mesmo lado. Quem pode estar seguro de que a lugoslávia e a Albânia não irão entrar em choque algum dia? Os variados grupos que pedem a retirada do Exército Vermelho de seus acampamentos na Europa Oriental devem recordar o quanto a presença dominante dessas forças tem evitado, desde 1945, conflitos armados entre os regimes marxistas da região. Essas considerações são úteis para salientar o fato de que, desde a Segunda Grande Guerra, cada uma das revoluções vitoriosas tem-se definido em termos nacionais — a República Popular da China, a República Socialista do Vietnã, e assim por diante — e, ao f aze-Io, basearam-se firmemente em um espaço territorial e social herdado do passado pré-revoliicionário. Ao contrário, o f ato de a União Soviética compartilhar com o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte o mérito incomum de não incluir a nacionalidade em sua denominação indica que ela tanto é a legatária dos Esta-r dos dinásticos pré-nacionais do século XIX, quanto a precursora de uma ordem internacionalista do século XXI. 2 Eric Hobsbawm está perfeitamente correto ao afirmar que "os movimentos e Estados marxistas tenderam a tor1

Exprimimo-nos dessa maneira apenas para enfatizar a escala e o estilo da luta, e não como censura. Para evitar possíveis mal-entendidos, é preciso dizer que a invasão de dezembro de 1978 originou-se de choques armados, possivelmente desde 1971, entre guerrilheiros dos dois movimentos revolucionários. Depois de abri! de 1977, ataques fronteiriços, iniciados pelos cambojanos, mas logo imitados pelos vietnamitas, aumentaram em grandeza e alcance, culminando na incursão vietnamita mais importante de dezembro de 1977, Nenhum desses ataques, porém, visava à derrubada do regime do inimigo, ou ã ocupação de granda extensão de território, bem como o número de soldados envolvidos n5o ers comparável ao que se deslocou om dezembro de 1978. A controvérsia a respeito das causas da guerra 6 investigada ponderadarnente em Stepnen P. Hader, "The Kampuchean-Vietnamese Confliet", in David W. P. Elliott, org., The Ttârd Indochina Confíict, p. 21-67; Anthony Batnett, "Inter-Communist Conflicts and Vietnam", Bvllstin of Concerned Asían Scbolars, 11:4 (outubro-dezembro de 1979), p, 2-9; e Laura Summers, "In Matters of War and Sccialism Anthony Barnett would Shsme and Honour Kampuchsa Too Much", ibid., p. 10-8. 3 Se alguém duvidar de que o Reino Unido merece asso tipo de paridade com a URSS, devaié Indagar-se que nacionalidade sã denota por oste nome: grâo-breto-irlandês?

nar-se nacionais não apenas na forma, mas também na substância, isto é, nacionalistas. Nada indica que essa tendência não persistirá". 3 E essa tendência não se limita ao mundo, socialista. Quase todos, os anos, as Nações Unidas admitem novos membros. E muitas das "velhas nações", antes consideradas plenamente Consolidadas, vêem-se ameaçadas por "sub"-nacionalismoâ no interior de suas fronteiras — nacipnalismos que, naturalmente, sonham com livrar-se algum dia dessa condição de "sub". A realidade é muito clara: o "fim dos tempos do nacionalismo", há tanto tempo profetizado, não está à vista, nem de longe. De fato, a nation-ness * constitui o valor mais universalmente legítimo na vida política de nossa era. Porém, se os fatos são evidentes, sua explicação continua sendo .tema de uma disputa há muito existente. Nação, nacionalidade, nacionalismo — todos têm-se demonstrado difíceis de definir, quanto mais de analisar. Em contraposição à enorme influência que o nacionalismo tem exercido no mundo moderno, é notoriamente escassa a teoria plausível a respeito de.le. Hugh Seton-Watson, autor do indubitavelmente melhor e mais abrangente texto em língua inglesa a respeito do nacionalismo, e herdeiro de vasta tradição da historiografia e da ciência social liberais, observa pesarosamente: "Desse modo, sou levado à conclusão de que não se pode estabelecer nenhuma 'definição científica1 de nação; contudo, o fenómeno tem existido e continua a existir". 4 Tom Nairn, autor da obra pioneira The Break-up of Britam, e herdeiro da não menos vasta tradição da historiografia e da ciência social marxistas, observa francamente: "A teoria do nacionalismo representa o grande fracasso histórico do marxismo", s Até mesmo essa confissão, porém, é algo enganadora, na medida em que se possa considerar
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Eric Hobsbawm, "Some Rofloctions on 'The Braak-up o.f Britain' ". tJeitr Lelt Review* 105 (setambro-outubro de 1977). p, 13. " O autor emprega diversas vezes a palavra nation-ness, por ele cunhada, em lugar de ' natlonalíly !cf. p, 12). Impossível criar um correspondente português; por isso, mantive em Inglês todas as vezes (MT). 4 Ver seu Nations and States, p. 5. Grifo nosso. 5 Ver seu "The Modern Jsnus", New Left Review, 94 Inovembro-dszembro do 1975), p. 3. Este ensaio foi incluído sem alterações como capitulo 9 do The Break-up of Brítsin (p. 329-63I.

3. tal que. ' Como observa Aíra Kemilãlnen. e por que. em muitos dicionários correntes do século XIX. a nacionalidade "grega" é sui generis. Nationalism. de que modo seus significados se alteraram no correr do tempo. Quando Adam Srnith invoca a riqueza das "nações". Grifo nosso. ficado perplexos. p. todo mundo pode e deve "ter". uma capacidade implícita semelhante para degenerar em demência. Em qualquer exegese teórica. por exemplo. ajustar contas com sua própria burguesia"? 6 Como justificar doutro modo o emprego. com graus diversos de consciência e a grande variedade de terrenos sociais. e até mesmo incoerência. Kemilâinen observa também que a palavra "nacionalismo" sá passou a ser amplamente empregada em fins do século XIX. tanto a teoria marxista quanto a liberal têmse debilitado em um tardio esforço ptolomaico para "salvar o fenómeno". The Comrminist Manifesto. parece aconselhável considerar sumariamente o conceito de "nação" e oferecer uma definição viável. Hans Kohn e Carlaton Haves. argumentava persuasivamente em favor dessa datação. diversamente da maioria dos outros "ismos". in Setscted Works. Seria mais exato dizer que o nacionalismo tem se revelado uma incómoda anomalia para a teoria marxista e. tão inevitável quanto a 'neurose' no indivíduo. Marx e Friedrich Engels. Tentarei demonstrar que a criação desses artefatos. visto que se define em termos das relações de produção — é teoricamente importante? O que este livro pretende é oferecer algumas sugestões exploratórias para uma ínterpretaçãp mais aceitável da "anomalia" do nacionalismo. por mais de um século. filosófica. Aira Kemilãinen. tornaram-se "modulares". por definição. mais do que enfrentado. tem sido amplamente evitado. a dupla de "pais" do estudo académico sobre o nacionalismo. uma vez criados. A universalidade formal da nacionalidade como conceito sociocultural — no mundo moderno. entre intelectuais cosmopolitas e poliglotas. mas que. sem qualquer tentativa séria de justificar teoricamente a importância do adjetivo? Por que esta segmentação da burguesia — uma classe mundial. uma reorientação de perspectiva num espírito por assim dizer copernicano. ou. um certo ar de superioridade. devido às múltiplas significações dessa palavra. exatarnente por essa razão. esse "vazio" desperta. para se incorporarem à variedade igualmente grande de constelações políticas e ideológicas. Ela não aparece. a particularidade irremediável de suas manifestações concretas. 33 e 48-9- . Em outras palavras. do conceito de "burguesia nacional". hoje em dia. com estes três paradoxos: 1. como talvez se prefira dizer. Conceitos e definições Antes de tratarmos das questões acima propostas. com urgência. bem como o nacionalismo. Creio que suas conclusões não foram seriamente contestadas. 10. trazendo consigo muito da mesma ambiguidade essencial. tanto quanto terá um sexo — vs. poder-se-ia sem dúvida concluir rapidamente que "lá não existe lá nenhum". nem Tocquevilles. muitas vezes. p. e "terá" uma nacionalidade. antes de mais nada. Como explicar de outro modo a falha do próprio Marx para explicar o pronome crucial em sua memorável formulação de 1848: "O proletariado de cada país deve. 46. naturalmente. É típico que até mesmo um estudioso tão solidário com o nacionalismo quanto-Tom Nairn tenha no entanto podido escrever que: "o 'nacionalismo' é a patologia da moderna história do desenvolvimento. são artefatos culturais de um tipo peculiar. Facilmente. Minha impressão é que. passíveis de serem transplantados. o nacionalismo jamais produziu grandes pensadores próprios:-nem Hobbes. não se refere com essa palavra senão a "sociedades" ou "Estados". Os teóricos do nacionalismo têm. e que se requer.12 que implica no resultado lastimável de uma busca prolongada e deliberada de clareza teórica. Procurarei também demonstrar por que esses artefatos culturais peculiares têm suscitado afetos tão profundos. sua pobreza. para não dizer irritados. Do mesmo modo que Gertrude Stein diante de Oakland. nem Marxs. inspiram uma legitimidade emocional tão profunda. 7 foi a destilação espontâ6 Karl nea de um "cruzamento" complexo de forcas históricas. naíion-ness. nem Webers. A modernidade objetiva das nações aos olhos do historiador vs. a palavra "naturalmente" seria um sina) de alerta para o leitor entusiasmado. sua antiguidade subjetiva aos olhos dos nacionalistas. Para compreendê-los adequadamente é preciso que consideremos com cuidado como se tornaram entidades históricas. quanto a esse tema. O poder "político" dos nacionalismos vs. a não ser por ideólogos nacionalistas em determinados países. l. 2. por volta dos fins do século XVIII. Parto de que a nacionalidade.

ela montava a 400. nem os encontrarão. que assimila "invenção" a "contrafação" e "falsidade". p. todas as comunidades maiores do que as primitivas aldeias de contato face a face (e. 12 À pergunta "Quem é o Conde X?". Thought and Change. a classificá-"lo" como uma ideologia. u O inconveniente dessa formulação.. 10 Ernest Renan. a resposta normal teria sido. numa população de 23. insinua que existem comunidades "verdadeiras" que se podem sobrepor vantajosamente às nações. em 1789. sonhassem com um planeta inteiramente cristão. Nem os nacionalistas mais messiânicos sonham com um dia em que todos os membros da raça humana se juntem a sua nação.. Desse modo. ou se comportam como se constituíssem uma nação". et aussi que tous aient oublié bien dês choses". a Idade não passa de uma expressão analítica. 8 8 tá tão ansioso em demonstrar que o nacionalismo se dissimula sob falsas aparências. à sua maneira suavemente sarcástica. divinamente instituído." (no texto: ". Geílner insiste de maneira semelhante quando estabelece que "o nacionalismo não é o despertar das nações para a autoconsciência: ele inventa nações onde elas não existem". 8 Parte da dificuldade é que as pessoas tendem inconscientemente a hipostasiar a existência do Nacionalismocom-N-grande — como se poderia fazer com Idade-com-Imaiúsculo — e. é que Geílner esThe Bre&k-up aí Britam. no século XVIII. não "um membro da aristocracia". para além das quais encontram-se outras nações.. De fato. Grifo nosso. p. Hoje podemos pensar na aristocracia francesa do ancien regime como uma classe. Dentro de um espírito antropológico. quando escreveu que "Or l'essence d'une nation est que tous lês individus aient beaucoup de choses en commun. Cf. a seguinte definição para nação: ela é uma comunidade política imaginada — e imaginada como implicitamente limitada e soberana. É imaginada como soberana.000. ainda que elásticas. Os aldeões javaneses sempre souberam que estavam ligados a pessoas que jamais haviam visto. talvez. A nação é imaginada como limitada. \. mais do que com "liberalismo" ou "fascismo". 78). então. Atingindo a maturidade numa 12 Hobsbawm. (Observe-se que.000 (ver seu The Age of Rcvolution. digamos. até mesmo estas) são imaginadas. a seguir.. 3S9.15 nos dilemas do desamparo imposto à maior par. Ela é imaginada porque nem mesmo os membros das menores nações jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas. mas pelo estilo em que são imaginadas. Mas essa descrição estatística da nobreza poderia ser pensada ao tampo do ancien régimoj . nem sequer ouvirão falar deles. Nations antí States. As comunidades não devem ser distinguidas por sua falsidade/autenticidade. que todos tenham esquecido muitas coisas" — na nora: "todo cidadão francês deve ter esquecido a noite do S3o Bartolomeu. proponho. Acrescenta ele: "tout citoyen [rançais doit avoir oublié Ia SBint-Barthélemy. para as sociedades). "o tio da Baronesa de Y". Nio na dez famílias na Franca qua possam apresentar provas de origem franca. mas certamente ela só foi imaginada desse modo muito tardiamente.) Creio que as coisas ficariam mais fáceis. mas "o senhor de X". Podemos traduzir "considera" por "Imagina". do mesmo modo como foi possível que em certas épocas os cristãos.") 11 Emest Gollnor. Nenhuma nação se imagina coextensiva com a humanidade. e em grande medida incurável". a língua javanesa não possuía uma palavra para significar a abstração "sociedade". mas tais vínculos eram outrora imaginados de maneira particuiarista — como malhas indefinidamente extensas de parentesco e de dependência. contudo. Seton-Watson. porque o conceito nasceu numa época em que o Iluminismo e a Revolução estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico hierárquico.í do mundo (o equivalente do infantilismo. ao invés de assimilá-la a "imaginação" e "criação". p. por exemplo. 9 Renan referiu-se a esse ato de imaginar. porque até mesmo a maior delas... lês massacres du Midi au XVIils siècle. 10 Algo ferozmente. os massacres do Sul. "Qu'éít-ce qu'une nation?" in Oeuvres Completes. Até muito recentemente. II n'y a pás en France dix familles qui puissent fournlr Ia preuve d'une origine franqua. "fixa" isso ao dizer que. 169. a essência de uma nação é que os indivíduos tenham muitas coisas em comum e.000 pessoas. p. se todo mundo tem uma idade. se ele fosse tratado como associado a "parentesco" e "religião". ou "um vassalo do Duque de Z". p. embora na mente de cada um esteja viva a imagem de sua comunhão. que abarca talvez um bilhão de seres humanos. também. possui fronteiras finitas. 5: "O qua posso dizer é que uma naçSo existe guando um número significativo de pessoas da uma comunidade considera que constituem uma nação. 892.

Ele pgrtance ao presente. Em última análise. a nação é sempre concebida como um companheirismo profundo e horizontal. e com o alomorfismo entre os reclamos ontológicos de cada fé e o território ocupado por ela. "Duty. p. ou almas imortais. as nações sonham em ser livres e. não encontra precedentes em épocas passadas. RAÍZES CULTURAIS Não há símbolo mais impressionante da moderna cultura do nacionalismo do que os cenotáfios e os túmulos de Soldados Desconhecidos. em seu A Soldier Sp. O penhor e o símbolo dessa liberdade é o Estado soberano. que tantos milhões de pessoas. por exemplo. pátria. precisamente porque estão deliberadamente vazios. "Minha avaliação Ido soldado norte-americano] formou-se no campo do batalha. Ele pertence à posteridade como o mentor das futuras gerações nos princípios da independência e da liberdade. honra. 12 da maio de 1962. Se vocês fossem fazê-lo. basta imaginar a reação geral a algum intrometido que "descobrisse" o nome do Soldado Desconhecido. Finalmente. discurso perante' ^Academia Militar dos EUA. cujos corpos." Douglas MacArthur. por uma ou outra razão. conhecidos. ' Para que se sinta a força dessa inovação. eles estão. estes notáveis tropos: 1. não pudessem ser recuperados para um enterro normal. um milhão de lantesmas em verda-oliva. 354 a 357.16 etapa da história humana em que até mesmo os mais devotos adeptos de qualquer das religiões universais se defrontavam inevitavelmente com o pluralismo vivo de tais religiões. West Point. como o vejo agora. a nós. A reverência pública ritual outorgada a tais monumentos. bradando estas palavras mágicas: dever. is. Honour. sem considerar a desigualdade e expioração que atualmente prevalecem em todas elas. Devo essa informação a minha colega bizantinísta. como uma das mais nobres figures do mundo. muitos anos atrás. ou insistisse em introduzir dentro do cenotáfio alguns ossos de verdade.2 (Razão por que nações as mais diversas pôs1 2 Os antigos gregos tinham cenotáfios. se sob as ordens de Deus. em azul e em cinzento se ergueriam de sob suas cruzes brancas. contemporânea! Por mais que esses túmulos estejam vazios de quaisquer restos mortais identificáveis. não só matem. no correr dos últimos dois séculos. Considerem-se. a jamais se alterou. Country". essa fraternidade é que torna possível. saturados de fantasmagóricas imaginações nacionais. a nação é imaginada como comunidade porque. Eu o via então. mas também corno das mais Imaculadas [sicl. ou ninguém sabe quem jaz dentro deles. ." í. em caqui. Seria um sacrilégio de estranha espécie. "A longa linha cinzenta jamais nos -faltou. não sã como e que possui es características militares mais perfeitas. Ele pertence á história como aquele que oferece um dos maiores exemplos de patriotismo bem-sucedido Isicl. Judith Herrin.. mas morram voluntariamente por imaginações tão limitadas. porém para indivíduos determinados. por suas virtudes e porr MJ g s realizações. porém.. Essas mortes lançam-nos abruptamente cara a cara com o problema fundamental proposto pelo nacionalismo: o que faz com que as minguadas imaginações da história recente (pouco mais de dois séculos) dêem origem a sacrifícios tão colossais? Creio que as origens de uma resposta encontram-se nas raízes culturais do nacionalismo. que seja diretamente.

Que devemos nos fazer com um materialismo cientifico que formalmente admita as descobertas da física sobre a matéria e. do cristianismo ou do islamismo. ou um cenotáfio para os Liberais mortos. contudo. mutilação. Quem vivência a concepção e o nascimento do próprio filho sem ter a in-definida sensação de uma mistura de conexão. ou norté-americanos. Se é amplamente reconhecido que os Estados-nação são "novos" e "históricos". a revolução. não desapareceu o só-' frimento que a fé em parte mitigava. e a contingência da vida. poucas coisas se adaptavam (se adaptam) melhor a essa finalidade do que uma ideia de nação.19 18 suem esse tipo de túmulos. da contingência em significado. era uma transformação secular da fatalidade em continuidade. pecado original. O século do Iluminismo. "Timpanaro's Materialíst Chatlenge". trouxe consigo suas peculiares trevas modernas. esforça-se tão pouco pá* rã ligar essas descobertas à luta de classes. 3 Ao mesmo tempo. sem exclusão do marxismo. No correr de uma pesquisa de campo na Indonésia. nem o liberalismo. sua mortalidade é inevitável. vim a compreender que 03 trata de unia louvável tentativa de ser coerente: simplesmente a doutrina da evolução ara incompatível com os ensinamentos do Islã. deve distinguir-se de seu papel na legitimação de sistemas específicos de dominação e de exploração) tem sido sua preocupação com o homem-nocosmos. 109 Imaio-junho de 1978). Desintegração do paraíso: nada torna a fatalidade mais arbitrária. de nosso sexo. ou argentinos.). Não se poderia evitar um sentimento de absurdo. A extraordinária sobrevivência. sem sentir qualquer necessidade de especificar a nacionalidade de seus ocupantes ausentes. 3-17. . 3 Cf. idade e morte. se preocupam muito com a morte e corn a imortalidade. o homem como ser específico.) Trago à baila essas observações talvez simplórias. em geral transformando a fatalidade em continuidade (karma. pesar. p. On Materielisiw and The Freudian Sfíp: e a ponderada réplica de Ravmond Williams. na Europa ocidental.demandava. da época em que vivemos. o século XVIII assinala não apenas o raiar da era do nacionalismo. ele se ocupa dos vínculos entre os mortos e os nascituros. casualidade e fatalidade em uma linguagem de "continuidade"? (Também aqui a desvantagem do pensamento evolucionário/progressista é uma hostilidade quase heraclitiana a qualquer ideia de continuidade. será conveniente iniciar pela morte o exame das raízes culturais do nacionalismo. isto indica forte afinidade com as imaginações religiosas. 105 (setombro-outubro de 1977). e 6e diferentes modos. do budismo. ou ao que quer que seja? O abismo entre os pró tons e o proletariado não ocultaria uma nfio admitida concepção metafísica do homem? Veja porém os interessantes textos de Sebastiano Ttmpanaro. A grande fraqueza de todos os estilos evolucionários/progressistas de pensamento. etc. o pensamento religioso reage também aos obscuros sinais de imortalidade. Estamos todos cientes da contingência e inevitabilidade de nossa herança genética particular. 29. se se procura imaginar. é que tais perguntas são respondidas com um silêncio intolerante. primordialmente porque. Desse modo. por milhares de anos. ?) O significado cultural de tais monumentos torna-se ainda mais claro.. digamos. Com o refluxo da fé religiosa. Como essa afinidade não é absolutamente fortuita. A/etv Lett flewsw. O que se. Â razão disso é que nem o marxismo. De início. atesta sua resposta imaginativa à esmagadora carga de sofrimento humano — doença. "Marxism and the National Question". na década de 1960. então. da secularidade racionalista. Por que nasci cego? Por que meu melhor amigo ficou paralítico? Por que minha filha é retardada? As religiões procuram explicar. Posteriormente. interpretei essa recusa como obscurantismo. naturalmente.. Como veremos. chocou-me a deliberada recusa do muitos muçulmanos o m acoitar as ideias de Oarwin. O grande mérito das visões de mundo das religiões tradicionais (que. p. de nossa língua maternaj e assim por diante. Absurdo da salvação: nada torna mais necessário um outro estilo de continuidade. Wew Lett Ftevien. por ser ela a última de toda uma escala de fatalidades. Se habitualmente parece arbitrária a maneira como um homem morre. o mistério da reencarnação. mas também o crepúsculo das modalidades religiosas de pensamento. de nosso potencial físico. Régis Debray. Que mais poderiam eles ser senão alemães. um Túmulo do Marxista Desconhecido.. em dezenas de formações sociais diversas. Se a imaginação nacionalista se preocupa tanto. A vida humana é cheia desse tipo de associação entre necessidade e acaso.

p. sagradas (e. hoje em dia. compreendem no entanto os ideogramas uns dos outros. eram aceitos como verdadeiros quadros de referência. O falecido presidente Sukarno sempre falou com inteira sinceridade sobre os trezentas e cinquenta anos de colonialismo suportados por sua "Indonésia". p. embora hoje pensemos nele como chinês. não se imaginava como chinês. Como também não estou sugerindo que de alguma forma o nacionalismo "suplanta" historicamente a religião. do páli. hoje em dia. Antes de começar a rir. orgs. De fato. Porém. uma explicação complexa. do Marrocos ao Arquipélago Sulu. ao mesmo tempo. é inteiramente acidental que eu tenha nascido francês. Podemos dizer. do Sri Lanka à península coreana. por isso. ilimitado. porque os textos sagrados que compartilham só existem em árabe clássico.. Pois ambos. embora o próprio conceito de "Indonésia" seja ume invenção do século XX. tanto quanto é. todo mundo tem acesso a um mundo abstrato de signos. seus ancestrais turcos. e a maior parte da In* donásia de hoje tenha sido conquistada pelos holandeses entre 1850 e 1910. a França é eterna". teoricamente. (Assim. As grandes culturas. Esses bancos são prósperos hoje em dia e não há razão pare duvidar-se de que muitos turcos. mas com os sistemas culturais amplos que o precederam. e do mundo budista. a Ummah Islam. Nesse sentido.20 21 as nações a que eles dão expressão política assomam de um passado imemorial. 4 e. Os romenos não têm a menor ideia de como o sinal " + '' é chamado pelos tai. deslizam para um futuro ilimitado. Os mandarins chineses encaravam com aprovação os bárbaros que penosamente aprendiam a desenhar os ideogramas do Império do Centro. nos hititas e nos sumerianos. viarn e vêem. The WbfltiofSoulheastAsia. os dois sistemas culturais relevantes são a comunidade religiosa e o reino dinástico. o árabe escrito funcionou como os caracteres chineses para criar uma comunidade a partir dos signos. considerar o que dava a esses sistemas culturais sua manifesta plausibilidade e. ou do chinês escritos era. Diferença essencial era a segurança das antigas comunidades quanto à sacralidade singular de suas línguas e. Var Harry J. do que expulsar "os holandeses". A mágica do nacionalismo consiste em transformar o acaso em destino. da cristandade. 13 (abril de 1972). com Debray. suas ideias a respeito da admissão de novos membros. e vice-versa. ela mesma. e refletir sobre o êxito comercial das mitografias de Tolkien. e não a partir dos sons. Conseq-iientemente. é permissível que incluamos o "confucionismo") incorporaram concepções de comunidades imensas. Analogamente. embora nada conheçam da língua um do outro e sejam incapazes de se comunicar oralmente. Indonésia. Não é preciso dizer que não estou declarando que o aparecimento do nacionalismo em fins do século XVIII foi "produzido" pela erosão das certezas religiosas. Banco Sumeriano (Seton-Watson. seriamente. mediante uma linguagem sagrada vinculada a uma ordem de poder supraterrestre. p. Bonda e John A. muito embora as próprias memórias desse prfncipe mostrem que ele. daí. Entre os heróis nacionais da indonésia contemporânea tem primazia o príncipe javanês do início do século XIX. mas uns e outros compreendem o símbolo. ou que essa erosão não exija. afinal de contas. O que proponho é que o nacionalismo deve ser compreendido pondo-o lado a lado. mas. do Paraguai ao Japão. tais comunidades clássicas vinculadas por línguas sagradas tinham caráter distinto das comunidades imaginadas das nações modernas. ainda mais importante. Natlons and States. 158: e Ann Kumar. em seu apogeu. mas sim como central — eram imagináveis em grande parte mediante uma linguagem sagrada e um texto escrito. . Para nossos objetivos. devemos lembrar de Artur e Boadicéia. possivelmente sem excluir o próprio Kemal. 259).) Contudo. K em ai Ataturk deu a um de seus bancos estatais o nome de Eti Banka (Banco Hitita) s a outro. 4 A comunidade religiosa Poucas coisas causam maior impressão do que a enorme extensão territorial da Ummah Islam. 103. para nossos fins. (Na verdade. Grifo nosso.) Todas as grandes comunidades clássicas concebiám-se como cosmicamente centrais. é evidente que ele não tinha um conceito de "holandeses" como uma coletividade. a cristandade. Oíponegoro. antes. não com ideologias políticas abraçadas conscientemente. o alcance do latim. "Dtponegoro 117787-1855)". É essencial. "Sim. pretendia "conquistar InSo ItbertarlJ Java". salientar determinados elementoschave de sua decomposição. a linguagem matemática continua uma velha tradição. Larkin. quanto mais morta a lingua escrita — quanto mais distante estivesse da fala — melhor: em princípio. a partir dos quais — bem como contra os quais — passaram a existir. a nacionalidade. e até mesmo o Império do Centro — o qual. Basta tomar o exemplo do Islam: se maguindanaos e berberes se encontram em Meca. do árabe.

' não quero tanto dizer a aceitação de dogmas religiosos par' ticulares. 5 Ser meio-civilizado era muitíssimo melhor do que ser 'bárbaro.23 22 Tais bárbaros já estavam a meio caminho da absorção completa. pairando muito acima de todas as línguas vulgares.um mundo tão desligado da língua que todas as línguas constituíssem para ele signos equidistantes (e. cristãos. . aleatoriamente fabricadas. Devo esse insight a Judith Herrin. Os bárbaros tornaram-se "Império do Centro". os ilongo. Dal a equanimidade com que mongóis e manchus achinesados eram aceitos como Filhos do Céu. neste caso. foi essa possibilidade de conversão pela língua sagrada que tornou possível que um "inglês" se tornasse Papa 8. Observem. como qualquer outra pessoa. porque a verdade de Alá somente era acessível mediante os insubstituíveis signos verdadeiros da língua árabe escri. Sua preguiça.) Afinal de contas. è" não exterminando-os pelas armas e pelos micróbios. do árabe do Cõrão. 6 John Lynch. gurcas e haussas a "mestiços". "wogs". G "n oposição Ss "línguas sagradas" (NT). A natureza toda do ser. 1803-1826. impostos e outros encargos. Os ideogramas da língua chinesa. com o esperanto ou o volapúk. maometanos. nenhuma ideia de . seria muito desejável que os índios fossem extintos. (Quão diferente é a atitude de Fermín da preferência dos imperialistas europeus posteriores por "autênticos" malaios. o índio pode ser redimido — mediante fecundação com o sémen branco. Observe-se. pela miscigenação com os brancos. 260. Filho do Céu.. sendo declarados livres de . por exemplo.' ta. a realidade ontológica somente é apreensível por meio de um sistema único e privilegiado de re-[a]presentação: a língua-verdade do latim da Igreja. Tfte Spanish-American Revoltitians. até muito recentemente.. com o nome de Adriano IV. Todos conhecemos bem a longa disputa a respeito da língua adequada para as massas (latim ou língua vulgar"). Mas muito embora as línguas sagradas tornassem imagináveis comunidades como a cristandade. como seus sucessores no Brasil. o impulso para a conversão. e sendo-lhes atribuída a propriedade privada da terra. De fato. e coisas assim. Essa atitude não era por certo peculiar aos chineses. a seguinte "política relativa aos bárbaros" formulada em princípios do século XIX pelo liberal colombiano Pedro Fermín de Vargas: Para expandir nossa agricultura seria necessário hispanizar nossos índios. portanto. latina ou árabe eram emanações da s realidade e não representações suas. 7 E. (Contraste o prestígio dessas antigas línguas mundiais. As razões desse "fracasso" s3o divorsns. humano é maleável do ponto de vista sagrado. na Argentina e nos Estados Unidos começariam a fazer logo depois. intercambiáveis)."seus leitores eram pequeninos recifes letrados por sobre enormes ocea"Llngua vulgar" foi a tradução que adotamos para vsrnacular. "civilizado". que jazem ignorados entre aquelas e estas. que o autor emprega para referir-se à língua utilizada pelo comum das pessoas. 6 Como é admirável que esse liberal ainda proponha "extinguir" seus índios em parte "declarando-os livres de impostos" e "atribuindo-lhes a propriedade privada da terra". paralelamente à condescendente crueldade. mas uma absorção alquímica.) Contudo. e um "manchu". por isso. e o recebimento de propriedade privada. "nativos semi-instruídos". p. Não existe. Grifos nossos. não era traduzido). os rif. o verdadeiro alcance e plausibilidade dessas comunidades não podem ser explicados apenas pelo texto sagrado: afinal. se as mudas línguas sagradas eram o meio pelo qual as grandes comunidades globais do passado eram imaginadas. ou o chinês dos exames. Na tradição islâmica. nem limitada à antiguidade. o enorme otimismo: em última análise. impregnadas de um impulso em grande medida estranho ao nacionalismo. 8 Michelas Brakespear assumiu o posto de pontífice entra 1154 e 1159. mus um fator-ciiavo (01 corlamontu o falo do quo n Hngua grega continuou sendo uma fala vulgar viva (diferentemente do laiiml em grande parte do império Oriental. ' A Igreja grega pareço n3o ter atingido o status de uma Kngua-vardade. como línguas-verdade. o Corão era literalmente intraduzível (e. também. a realidade de tais aparições dependia de uma ideia em grande medida estranha ao pensamento ocidental contemporâneo: a não-arbitrariedade do signo. sua estupidez e sua indiferença em relação aos empreendimentos humanos normais levam a pensar que provêm de uma raça degenerada que se deteriora à medida que se distancia de suas origens. Por conversão.

e invoco para mim a ajuda de seja qual for demre eles que é verdadeiramente o supremo no céu". "Aos olhos de todos os que eram capazes de refle xão. havia o efeito. As línguas que eles sustinham. Isso teve lugar no mês de novembro. e agia semelhantemente nas festas dos sarracenos. Erich Auerbach. que contém os quatro evangelhos. 282.. Esse era seu rnodo habitual de agir em cada uma das festas cristãs mais importantes. O que liam. Porém.. The Traveis of Marco Polo. Mimesis. os judeus. à margem da ideia que a sociedade tem da realidade. p. Dentre as razões dessa decadência. Após fazer com que ele fosse repetidas vezes perfumado com incenso. pela maneira pela qual sua majestade agia diante deles. e os idólatras. qualificar Kublai de hipócrita ou idólatra. mas o mundo observável. 152. os sarracenos. o mais eminente de todos os seus ídolos. dos judeus e dos idólatras. após obter essa memorável vitória. Reverencio e mostro respeito a todos os quatro. Seria enganoso encarar aqueles como uma espécie de tecnocracia teológica. l. Em primeiro lugar. feita pelo bom veneziano cristão Marco Polo. nos analfabetos. em parte. disse ele: "Há quatro grandes profetas que são reverenciados e venerados pelas diversas classes de humanidade. desejo destacar apenas as duas que se relacionam diretamente com a sacralidade singular dessas comunidades. o Evangelho não é lido. sua coerência não deliberada desvaneceu-se rapidamente depois do final da Idade Média. 9 Uma explicação mais completa exige que se aluda à relação entre os homens de letras e suas sociedades. (Sem dúvida. os homens de letras eram iniciados. 9 O que há de mais notável nessa passagem não é tanto o tranquilo relativismo religioso (ainda que um relativismo religioso) do grande -governante mongol. como a Páscoa e o Natal. com isso. Quando lhe foi perguntado o motivo dessa conduta. embora beijado. da qual a intelligenísia bilíngue. das descobertas do mundo não-europeu. de maneira solene. 83. p. Jamais lhe ocorre.) n E na utilização inconsciente de "nosso" (que se torna "seu") e na re1J Marco Polo. o mundo material era pouco mais do que uma espécie de máscara. Os cristãos encaram Jesus Cristo como sua divindade. Ciente de que essa era uma de nossas principais comemorações. 158-3. .'e!e lhes parecia também uma língua. p. e ali continuava a residir nos meses de fevereiro e março. p. e não norteadas por fronteiras e horizontais. à extensão do território e ao montante da receita. que.) Apesar de toda a grandeza e poder das grandes comu^ nidades imaginadas religiosamente. ordenou que todos os cristãos fossem até ele. (O aterrador da excomunhão reflete essa cosmologia. como a atitude e a linguagem de Marco Polo. em seu esplendor. Sogomombar-kan. " O processo já aparecia claramente no maior de todos os livros de viagem europeus. de modo preponderante." Bloch. ainda que obscuras. Feudal Society. também a concepção dos homens sobre as formas possíveis de vida humana". mas de modo algum exclusivamente. 10 As concepções básicas a respeito de "grupos sociais" eram centrípetas e hierárquicas. 81.24 25 vê a seguinte descrição reverente de Kublai Khan.. destinada a expressar por meio de símbolos uma realidade mais profunda. beijou-o com devoção e determinou que o mesmo fizessem todos os seus nobres ali presentes. '3|bid. retornou em grande pompa e triunfo à capital de Kanbalu. Grifos nossos. servia de mediador entre a terra e o céu. O espantoso poder do papado. não eram palavras. "alargaram abruptamente o horizonte cultural e geográfico e. p. porém. na Europa. por detrás da qual tinham lugar todas as coisas realmente importamas. estratos estratégicos em uma hierarquia cosmológica cujo ápice era divino. Maomé. Moisés. trazendo consigo seu Livro. é evidente que encarava a fé dos cristãos como a mais verdadeira e a melhor. ObserMarc Bloch lembra-nos que "a maioria dos senhores e muitos grandes barões (dos tempos medievais] eram administradores incapazes de examinar pessoalmente um relatório ou uma conta". só é compreensível em termos de uma classe transeuropéia de letrados em escrita latina e de uma concepção do mundo compartilhada virtualmente por todos. embora escrevendo para cristãos europeus seus iguais. 10 Isso nlo quer dizer que os analfabetos não liam. em fins do século XIII:12 O grande cã. porque "quanto ao número de súditos. no último dos quais era nossa festa da Páscoa. nada tinham da obscuridade preparada dos jargões dos advogados ou dos economistas. Observe-se que. Ao invés disso. mediando entre a língua vulgar e o latim. ele supera qualquer soberano que haja existido ou que agora exista no mundo".

The Corning of the Book. 16 Bloch. 77. mas como uma nação! Em segundo lugar. p. em grande medida. ele amedrontava até mesmo os príncipes. mas em velocidade não menos vertiginosa. As Lettres Persanes foram publicadas • pela primeira vez em 1721. os quase contemporâneos destes homens do outro lado do Canal da Mancha. ele era a única língua ensinada". não teria ele conservado. a atividade editorial foi deixando de ser . era virtualmente desconhecido do outro lado do Canal da Mancha.. O original francês é mais modesto e historicamente exato: "landis que ]'on edite de mói n s en mgins cfouvrages en lati n. pois podia depô-los tão facilmente quanto nossos magníficos sultãos depõem os reis da Iremécia ou da Geórgia. 14 O Papa é o chefe dos cristãos. 13 Ibid. 330. sua obscuridade insular do início? Enquanto isso. em "1712' i . l5 (Este "única" demonstra muito claramente a sacralidade do latim — nenhuma outra língua era considerada digna de ser ensinada. As deliberadas e elaboradas invencionices do católico do século XVIII reproduzem o realismo ingénuo de seu predecessor do século XIII. porém.26 ferência à fé dos cristãos como "mais verdadeira". o latim deixou de ser a língua da alta intelligenísia pan-européia. 20 Ibid. E não falamos apenas da popularidade geral. com cada vez menos livros saindo em latim. Descartes (1596-1650) e Pascal (1623-1662). mantinham a maior parte de sua correspondência em latim. Ia commerca dia livre se morcelle en Europé". Febvre e Martin calculam que 77% dos livros impressos antes de 1500 ainda eram em latim (o que significa. 16 Henti de Montesquieu. por outro lado. Escrevendo a respeito da Europa ocidental medieval. 331-32. o comércio do livro segmentou-se na Europa. fosse vista'não como uma heresia. agora reverenciado por hábito. p. duzentos anos mais tarde. Feudal Society. que 23% já eram em línguas vulgares). é um ídolo antigo. apenas •oito não eram em latim. Persian Leners. a decadência do latim exemplifica um vasto processo em que as comunidades sagradas.. n Apesar de uma reaparição temporária durante a Contra-Reforma. compondo suas obras em língua vulgar. pois seu tesouro é imenso e eie tem um grande país sob seu controle. em 1501. Não seria razoável que urna elaboração paradoxal dessa tradição. e essa é por certo uma rica herança.. gradualmente se fragmentavam. mas agora a "relativizacão" e a "territorializacão" são perfeitamente conscientes. As razões dessa mudança não devem demorar-nos aqui: a importância 14 central do capitalismo editorial (print-capitalism) será discutida mais adiante. um empreendimento internacional [sic]. Grifo nosso. a língua mais importante mundialmente. Que contraste revelador oferece o começo da carta escrita pelo viajante persa "Rica" a seu amigo "Ibben". Ibid. p. Ele proclama ser o herdeiro de urn dos antigos cristãos. chamado São Pedro. 356. Agora. competitivo). lô "Após 1640. 321. p. Basta que nos lembremos de sua dimensão e ritmo. l. Pouco depois. p. ("Uma vez que sã publicam cada vez menos obras em latim e uma proporção sempre maior de textos em língua nacional. lfi Se das oitenta e oito edições impressas em Paris. Outrora." 20 Em suma. 232-3. 1B E se o inglês não se tivesse tornado. pluralizavam e territorializavam. e coro intenção política. 248-49. 81. L'Apparítiofi tíu Livre. a hegemonia do latim tinha seu destino marcado. no entanto. nem mesmo como um personagem demoníaco (o pequenino Cárter dificilmente preencheria os requisitos).) Mas no século XVI tudo isso já se estava alterando rapidamente. p. em vez de "verdadeira".. Bloch observou que "o latim não era apenas a língua em que se ministrava o ensino. na identificação do Grande Satã feita pelo Ayaíollah Ruhollah Khomeini. Lucien Febvre a Henri-Jean Martin. de V Paris. Hobbes (1588-1678) foi uma figura de renome continental por escrever na línguada-verdade. depois de 1575 a maioria era sempre em francês. p. No século XVII.") 17 . integradas pelas antigas línguas sagradas. « Ibid. mas virtualmente toda a de Voltaire (1694-1778) era em língua vulgar. p. ninguém mais o teme. et une proportion toujours plus grande de taxtes an langue nationale. e cada vez mais nas línguas vulgares. foi uma deterioração gradual da própria língua sagrada. Shakespeare (1564-1616). podem-se descobrir as sementes de uma tcrritorializacão das fés. que faz antever a linguagem de muitos nacionalistas ("nossa" nação é "a melhor" — em um campo comparativo.

Nas monarquias. as linhagens reais muitas vezes derivavam seu prestígio. mas Interpreta o fenómeno de maneira muito estreita: os aristocratas locais preferem um monarca de fora. 125). Grão-duque da Toscana e da Cracóvia. 34. Lodomeria e Híria. p.) Ainda assim.047 dos ancestrais do arquiducue prestes a ser assassinado. o Conquistador?). Os escolares lembram-sa dos monarcas por seus primeiros nomes (qual era o sobrenome da Guilherme. MJPois tais misturas eram símbolos de um staíus superior. etc. Bregenz.486 alemães. também. de várias maneiras essenciais.. de Teschen. um poder superior restaurou aquela ordem que eu. Rei de Jerusalém. que relacionava 2. à parte qualquer aura de divindade.28 O reino dinástico Talvez seja difícil. porém. Margrave da Morávia. Senhor de Trieste. Caríntia. que corresponde a essa transformação. hoje em dia. 196 italianos. Friaui. 124 franceses. Como dizia o ditado. que propiciam as distinções necessárias. de modo algo resumido. porém. etc. De fato. infelizmente. Esse "curioso documento" está citado em ibid. . 1. ara atuante na Europa crista monogamica. é difícil imaginar um arranjo dessa tipo sendo realizado entre as aristocracias de duas repúblicas. p. (Ver sua lúcida exposição em The Break-up of Brítain.. o número limitado de nomes "de batismo" torna-os inadequados como denominadores específicos. Pelo princípio geral da verticalidade. a titulação dos últimos dinastas: 23 Imperador da Áustria.. dentre os quais 1. Servia.. a monarquia "autêntica" é transversal a todas as concepções modernas de vida política. Pois. categórica e uniformemente atuante sobre cada centímetro quadrado de um território legalmente demarcado. "não sem um certo aspecto cómico. e que "nacionalidade" devemos atribuir aos Bourbons? 25 23 Observe-se 3 substituição na nomenclatura dos governantes. acompanhados de números ou alcunhas. No imaginar de antigamente. que. afinal de contas. Sua legitimidade deriva da divindade.. não cidadãos. Conde de Hohenembs. Num mundo de cidadãos. e dos presidentes pelo seu último nome (qual era o nome de batismo de Ebert?!. Grande Voivoda da Voivodina. Feldkirch. Parma. onde o poder está restrito a um único sobrenome. que esses antigos Estados monárquicos expandiam-se não só por meio da guerra. que alguém se coloque empaticamente dentro de um mundo em que o reino dinástico era visto pela maioria dos homens corno o único sistema "político" imaginável. Não posso deixar da citar aqui a admirável reacão do Franz Joseph à noticia do assassinato da seu excêntrico herdeiro necessário: "Dessa maneira.. 136 et seqs. 136. 23 Registramos aqui. Ragusa e Zara. da Boémia. de Kyburg. É típico que não tenha havido uma dinastia "inglesa" governando em Londres desde o século XI (se tanto). negociatas e pilhagens dos Habsburgos". os casamentos'dinásticos reuniam populações diversas sob novos dirigentes. são súditos. as fronteiras eram porosas e indistintas. The Dissolution of Habsburg Monarchy. observa Jászi com justeza. 136. porque ale não tomará partido em relação a suas rivalidades internas. poderíamos dizer. de Auschwitz e Sator. a soberania do Estado é plena. p. Conde Principesco de Habsburgo e Tirol. 20 Ingleses. 21 Daí. Piacenza e Guastella. era. Carniola e Bukovina. O governo do rei organiza tudo em torno de um centro elevado. como um "arranjo entre nobres". Margrave da Alta e Baixa Lausitz e da Istria. p. Quanto a isso. Isso. De maneira a mais notável na Ásia pre-moderna. no sentido do que os arquitetos da união (oram políticos aristocratas. de passagem. etc. p. são necessariamente os nomes "ds batismo". sistemas complexos de concubinato ordenado eram essenciais para a integração do reino. de Salzburgo. Sonnenberg. Duque de Lotaríngia. Duque da Alta e Baixa Siiésia. O mesmo principio.. estava Incapaz de manter" (ibid. Croácia. bastante paradoxalmente. porém. Gallcia. a facilidade com que os impérios e reinos pré-modernos eram capazes de manter seu comando sobre populações enormemente heterogéneas. 89 espanhóis. e acima da Windish Mark. mas também por uma política sexual — de espécie muito diversa da que hoje se pratica.. 24 Oscar Jâszi. Em 1910. de Cartaro. da Dalmácia. Estíria. da miscigenação. bom como quatro outras nacionalidades. A concepção de um Reino Unido foi por certo o elemento mediador crucial que tornou poss-Vel esse entendimento. 55 Gstlnar salienta o caráter tipicamente estrangeiro das dinastias. o registro dos inúmeros casamentos. a Casa dos Habs51 burgos foi paradigmática. Rei da Hungria. onde os Estados se definiam por centros. de Módena. Nos reinos em que a poligínia era sancionada pela religião. n. 47 dinamarqueses. e as soberanias fundiam-se imperceptivelmente umas nas outras. por longos períodos de tempo. Grão-duque da Transilvânia. de União entre a Inglaterra e a Escócia. um certo Otto Forst publicou seu Ahnentafet Seiner Kaiserlichen una KõnigKchen Hoheft dês durchlauchíígsten Herrn Erzherzogs Fram Ferdiriend.. Na concepção moderna. 52 poloneses. 22 Deve-se recordar. Ttiought snd Change. Gõrz e Gradisca. e muitas vezes sequer contíguas. que Nairn certamente está certo ao descrever a Lei de 1707. Arquiduque da Áustria [slcj. Duque de Triento e Brizen. e não das populações. Bella gerant alH f u fel ix Áustria nube! A seguir. todos eles teoricamente elegíveis para a presidência. Eslavônia.

1740-1786). Contudo. 64 e 85. mas. o Grande (r. 1797-1840) já eram. 1868-1910". Lês fíois Thaumarurges. mais do que qualquer outra coisa. A Virgem Maria é representada como filha de um mercador toscano. p. línguas e linhagens sagradas. mesmo ao tempo de Pope e Addison.. mas um exército que tinha um pais. Mais de mi! dos sete a oito mil homens do exército prussiano. que. "Trai Governmsnt and Admiriistraticn in the Reign of Rama VI (1910-1925)". A cristandade assume sua forma universal mediante uma 29 Marc Bloch.29 Concepções do tempo ' Seria uma visão acanhada. curas executadas também pelos Bourbons. até o fim do ancien regime. os de seu sobrinhoneto Frederico Guilherme III (r. Os pastores que haviam acompanhado a estrela até a manjedoura' em que Cristo nasceu têm feições de camponeses da Borgonha. Universidade de Londres. Suécia. 92. um homossexual caprichoso que certamente teria sido ignorado em outros tempos. desse modo "alinhando o Sião com as monarquias 'civilizadas' da Europa". 18St9phan Green. 1971. durante o século XVII — por razões de que não nos ocuparemos agora — a legitimidade automática da monarquia sagrada começou sua lenta decadência na Europa ocidental. tais como os relevos e os vitrais das igrejas medievais. a aprovação intermonárquica de sua ascensão ao trono como Rama VI foi ratificada pelo comparecimento a sua coroação de príncipes vindos da Grã-Bretanha. Government and Society in Siam. ."AlfredVagts. tornou possível "pensar" a nação. p. Battye. em vez de um rei. eram estrangeiros. Londres e Berlim para aprenderem as complexidades do modelo universal. em 1806. a "monarquia" tornouse um modelo semipadronizado. 1974. Traço característico dessas representações é algo enganosamente análogo à "aparência moderna". na França do Iluminismo. muitos dinastas já vinham há algum tempo adquirindo um cunho "nacional". aparece ajoelhado em adoração ao lado dos pastores. Gneisenau e Clausewitz. corno assinalaremos pormenorizadamente mais adiante. Luís XV e XVI. isso dava colorido ao dito de que a Prússia não era um pais que tinha um exército. "Os prussianos de classe média aram superados pelos estrangeiros am seu próprio exército. ins-. porém.. " Noel A. os Estados dinásticos constituíam a maioria dos componentes do sistema político mundial./Wsroryo/M/ffíansm. em 1910. Em 1887. Contudo. Dinamarca — e Japão! 28 Ainda em 1914. com o tempo. no correr da década de 1650. ou as pinturas dos primeiros mestres italianos e flamengos. os reformadores prussianos exigiram "redução è metade do número de estrangeiros que ainda representavamcercade 50% dos praças. em consequência das espetaculares reformas de Scharnhorst. Carlos Stuart foi decapitado na primeira das revoluções do mundo moderno e.. p. Rama V (Chulalongkorn) enviou seus filhos e sobrinhos para as cortes de São Petersburgo. Tese de Doutoramento IPhD). Por trás da decadência das comunidades. o princípio da Legitimidade tinha de ser defendido em alta voz e deliberadamente e.. Tennõ e Filho do Céu tornaram-se "Imperadores". à medida que o antigo princípio da Legitimidade fenecia silenciosamente. 26 Depois de 1789. 390 e 398-9. Para uma primeira impressão dessa mudança. podemo-nos voltar para as representações visuais das comunidades sagradas. um dos Estados mais importantes da Europa foi governado por um Protetor plebeu." Em 1798. Em 1649. tituiu o princípio indispensável da sucessão pela primogenitura legal. Cornell. Rússia. vestido como burguês ou em trajes de nobre. exclusivamente "nacionais-prussianos". pensar que as comunidades imaginadas das nações simplesmente tenham brotado das comunidades religiosas e dos reinos dinásticos e tomado seu lugar. Ana Stuart ainda estava curando os doentes pela superposição das mãos reais. 27 O novo sistema conduziu ao trono. No longínquo Sião. 270. Em muitos quadros. Tese de Doutoramento fPhDS. p.30 31 Contudo. "The Militarv. Estamos diante de um mundo em que a representação da realidade imaginada era irresistivelmente visual e auditiva. Grécia. tinha lugar uma mudança fundamental nos modos de apreender o mundo. porém. o cliente que encomendou a obra. Enquanto os exércitos de Frederico. O que hoje parece incongruente obviamente parecia inteiramente natural aos olhos dos devotos medievais. eram em gran26 de parte formados por "estrangeiros".

é um reconhecimento iridireto de sua irrevogável distinção. por Santo Agostinho. Essa justaposição do universal-cósmico e do particular-mundano significa que por maior que pudesse ser a cristandade. aquela fábula. ela se manifestava de maneira diversa a comunidades particulares. a ideia de "trajes modernos". 34 33 34 WaltBr Banjarnin. uma simultaneidade de passado e futuro em um presente momentâneo. estabelecese então uma conexão entre dois eventos que não se vinculam temporalmente. se não a levarmos plenamente em conta. Ela só pode ser estabelecida se ambas as ocorrências estiverem verticalmente vinculadas à Divina Providência. encontra-se o último como foi anunciado e prometido. o aqui e agora não é mais um simples vinculo em uma corrente terrena de eventos.. Essa nova ideia está tão arraigada que se poderia e f Irma r que todo conceito fundamental moderno baseia-se num conceito de "enquanto isso". se referisse seguidamente a "nós.. Ela encara o tempo como algo próximo do que Benjamin chama de tempo messiânico...32 infinidade de especifi cidades e de particularidades: este relevo. era algo inimaginável. l. não era menos essencial. algo já consumado na esfera do evento terreno fragmentário. modalado da trás para díanle pelo] futuro". Bloch conclui. Feudal Society. acharemos difícil investigar a génese obscura do nacionalismo. bispo Oito de Freising. como "a sombra do [isto é. e que será cumprido no futuro. Feudal Society. e estritamente. Confronte a descrição do Velho Testamento. a mediação de suas concepções para as massas iletradas. como réplicas delas mesmas. ele é simultaneamente algo que sempre existiu. aquela peça moral. aos olhos de Deus. maneira metafórica de fazer equivaler passado e presente. Embora a classe letrada transeuropéia que lia era latim fosse um elemento essencial na estruturação da imaginação cristã. de modo que. 64. de modos que precisam ainda ser bem estudados. no sentido de que a segunda vinda de Cristo poderia ocorrer a qualquer momento: São Paulo dissera que "o dia do Senhor chega como um ladrão no meio da noite". aquela relíquia. é algo eterno. aquele vitral. dentro do espírito de restauração do museu moderno. no qual a simultaneidade é como se fosse transversal ao tempo. nem oausalmente — conexão impossível de ser estabelecida pela razão na. Citado em Bloch. 263. 84-6.. Representar a Virgem Maria com traços "semitas" ou vestimentas do "primeiro século". p. ao desenvolvimento das ciências seculares. suábias ou andaluzas. O que veio tomar o lugar da concepção medieval de simultaneidade longitudinal ao tempo é. Mimeste. O humilde pároco cujos antepassados e cujas fraquezas eram conhecidos por todos os que assistiam a suas celebrações ainda assim era o intermediário direío entre seus paroquianos e o divino. Nossa própria concepção de simultaneidade tem estado em elaboração por muito tempo e sua emergência ligase certamente. nada estava mais distante de seus pensamentos do que a perspectiva de um longo futuro para uma raça humana jovem e vigorosa". p. Mas é uma concepção de importância tão fundamental que. l. uma ideia de "tempo homogéneo e vazio". Ele está certo em acentuar que tal ideia de simultaneidade é inteiramente estranha a nós mesmos. 265. Grifo nosso. llíaminsíions. a única capaz de traçar um plano de história como esse e fornecer a chave para sua compreensão. 30 Bloch observa que o povo pensava que devia estar próximo o final dos tempos. 3I Auerbach oferece-nos um inesquecível esboço dessa forma de consciência: 32 30 31 Se um evento como o sacrifício de Isaac é interpretado como a prefiguração do sacrifício de Cristo. que fomos colocados no final dos tempos".. valendo-nos novamente de Benjamin. dimensão horizontal.. marcada não pela prefiguração e cumprimento. e o último "cumpre". " Dentro desse modo de ver as coisas. 32 Auerbach. este sermão.que tão logo os homens medievais "entregavam-se à meditação. por meio de criações vi^ suais e auditivas. e sabia-se que era. . Bloah. p. p. porque o pensamento cristão medieval não possuía uma concepção de história como infindável corrente de causa e efeito ou de separação radical entre passado e presente. no primeiro. a expressão "enquanto isso" não pode ter significação real. Ibid. Era pois natural que o grande cronista do século XII. 90. Para nos. sempre pessoais e particulares. algo onítemporal. mas por coincidência temporal. e medida pelo relógio e pelo calendário. p. o primeiro.

p.000. Var Leopoldo Y. e da elite nativa. ou um comentário complexo sobre a expressão "enquanto isso". de qualquer romance histórico. José Rizal. que também é concebida como uma comunidade compacta que s'e move firmemente através da história. Essas sociedades são entidades sociológicas de uma realidade tão firme e estável. anónima e simultânea. 287-302. a época ds Richardson. Podemos imaginar uma espécie de esquema temporal para esse segmento. todas menos uma. o jornal só se torna uma categoria geral de material impresso após 1700. chegando multas veres até à origem do homem. 40 ftizel escreveu esse romance na língua colonial (o espanhol). B. indissoluvelmente ligadas a movimentos nacionalistas. o que é que realmente liga A a D? Duas concepções complementares: primeiro. quase o primeiro romance escrito por um "índio". Mas está absolutamente seguro de sua atividade constante. 38 Nesse contexto. "The Modern literature of the Philippinss". nem mesmo saberá como se chama. surgia também. ainda assim.35 Pode-se perceber bem melhor por que essa transformação seria tão importante para o nascimento da comunidade imaginada da nação se considerarmos a estrutura básica de duas formas de imaginar que pela primeira vez floresceram na Europa. emlcamonte diversificadas. Líibeck. Littératures contemporaines de l'Asíe du Sud-Est. nos Tampos l. The Corning ofthe Book. Ela é evidentemente um instrumento para a apresentação da simultaneidade em um "tempo homogéneo e vazio". com documentos ou relatos da época transformada em ficção. 39 Nada demonstra melhor a Imersão do romance em um tempo homogéneo e vazio do que a ausSnela daquelas genealogias preliminares. no entanto. Tomemos. 38 A ideia de um organismo sociológico que se move pelo calendário através do tempo homogéneo e vazio apresenta uma analogia precisa corn a ideia de nação. tudo ao mesmo tempo. The Lost Éden. A narrativa deste dessnróla-se linearmente. hoje considerado o melhor produto da literatura filipina moderna. que era. Foi. 1. o "Pai do Nacionalismo Filipino". B fazendo compras e D jogando sinuca. uma imprensa "nacionalista". a língua franca das elites euraslanas. um segmento de. no século XVIII: o romance e o jornal. da que A. A e D jamais se encontram. M De fato. tem um namorado (D). 37 Embora a Príncesse tíe CIÊves já tivesse sido publicada sm 1678. não apenas em espanhol. in Pierre-Bernard Lafcnt e Denys tombará (orgs. que eles estão encravados em "sociedades" (Wessex. pela primeira vez. Febvre e Martin.). Em 1887. não ternos conhecimento simultaneamente de Gito na cama corn Ascyltus.000 de compatriotas. por sua vez. Ao mesmo tempo que o romance. que A e D estão encravados nas mentes dos leitores oniscientes. mais do que um pequeno número de seus 240. II e llt. porém. e de diferentes épocas. para fins de ilustração. . demonstra a novidade desse mundo imaginado evocado pelo autor nas mentes de seus leitores. lendas e livros sagrados. Los Angeles). observam A telefonando a C. é recompensadora a comparação. mas em línguas "aborígenes". 35 Pois essas formas ofereceram os recursos técnicos para "re-[a}presentar" a espécie de comunidade imaginada que é a nação. se C tiver agido inteligentemente. * Eis a maneira admirável como começa:4l Essa potifona distingue decisivamente o romance moderno até mesmo de um precursor tSo brilhante quanto o Satyrícon. Não tem ideia alguma sobre o que estão fazendo em qualquer tempo. que seus membros (A e D) podem até mesmo ser descritos como passando um pelo outro na rua sem jamais se relacionarem e. urh enredo simples de romance. Detoe e Fielding é o inicio do século XVIII. Enquanto Encolpius lamenta a infidelidade de seu jovem amante. 41 José Hizal. Apenas'eíes. no qual um homem (A) possui uma esposa (B) e uma amante (C) que. 3S Então. 1 II NI D beba em urn bar A janta em casa com S C tem um sonho sinistro A discute com B C a D fazem amor A lelsfona a C ã vai és compras D joga sinuca Observe-se que. medido pelo relógio e pelo calendário. Yabes. de Petrônio. Noli Ma Tengere. da seguinte maneira: Tempo: Eventos. escreveu ò romance NoliMe Tangeré. a compreensão do enredo pode depender. estrutura típica não só das obras-primas de Balzac. 197. mas por atores que podem estar em grande medida despercebidos uns em relação aos outros. como Deus. estarem li15 gados. C e O não saibam o que se passa com os outras. como o tagato a o ilocano. p. também. As origens do jornal moderno encon* tram-sa nas gazetas do final do século XVII. p. traço tão carsctarístieodas antigas crónicas. mas também de qualquer romanceco contemporâneo. Considere-se primeiro a estrutura do romance à moda antiga. 39 Um norte-ámericano jamais encontrará. e podem na verdade não ter sequer conhecimento da existência um do outro. 37 Segundo. Apenas eles percebem os vínculos. no época. O fato de que todos esses atos são desempenhados no mesmo tempo. no correr dessa sequência. Talvez a perspectiva que estou sugerindo pareça menosabstrata se nos dedicarmos a examinar rapidamente quatro obras de ficção de diferentes culturas.

1570 a 1898". que ainda pode ser reconhecida.. desculpar-se polidamente por não haver chegado mais cedo onde presumivelmente sua presença era tão ansiosamente esperada. se houvesse ocasião. logo se tornou o tema das conversas em Bínondo. os quais Deus. às vezes se considera que eles estão contratados pelo governo exatamente para esse fim. ** Quase metade dos 399 quartetos são relatos da infância de Fiorante. e indicava que ele havia sido outrora o prefeito nativo de uma pequena cidade. satíricos ou nacionalistas.. esse obscuridade/celebridade tem tudo a ver com B disseminação do capitalismo editorial. 143 e 235. O jantar foi oferecido em uma casa na Rua Anloague. de seus anos de estudo em Atenas e de 4Í O reverso da obscuridade anónima dos leitores foi/é B celebridade Imediata do autor. *Mbid. 44 Ibid. que não se conhecem entre si. De modo que a notícia de seu jantar correu como um choque elétrico por toda a comunidade de filantes. Lumbera. Alguns deles puseram-se em busca de polimento para suas botas. contrariando seu costume. escreve para eles com uma intimidade irónica.". a imprensa foi mantida sob estrito controla eclesiástico. evoca imediatamente a comunidade imaginada. E na frase "uma casa na Rua Anloague. quem reconhece somos nós-os-leitores-fílipinos. Baltazar. Já em 1593. de tal modo que a história completa só nos chega mediante uma série de falas que servem como/fos/ibacks". a menos que tenha vindo abaixo com algum terremoto. embora talvez já tivesse sido escrita em 1838. do tempo "interior" do romance. A história começa In medias rés. apenas para aumentar a grandiosidade e a sonoridade de sua linguagem poética. metseqs. parasitas e penetras.37 Don Santiago de los Santos oferecia um jantar festivo numa noite de fins de outubro da década de 1880. B por séculos. de botões de colarinho e gravatas. logo de início. aristocrata persa muçulmano ("mouro") — só nos lembram as Filipinas pela ligação cristão-mouro.. 35.. Observe-se também o tom. A liberalização só teve Inicio na década de 1860. mistura expressões espanholas em seus quartetos em tagalo. 205-6. Embora Rizal não tenha a menor ideia da identidade de cada um de seus leitores. jamais fechava suas portas — exceto.42 Não há o que ofereça maior sentimento foucaultiano das abruptas descontinuidades da consciência do que comparar Noli com a mais célebre obra literária anterior de um "índio". um nobre albanês cristão. a imagem (inteiramente nova na literatura filipina) de um jantar que é discutido por centenas de pessoas anónimas. abran- gendo personagens. Na verdade. p. só cr tenha anunciado na tarde do mesmo dia. o mundo de sua obra-prima é. "Tradition and Influer. isso se deixa em geral para Deus e a Natureza. é claro. A partir de então. "o desenrolar do enredo não segue uma ordem cronológica. Seus heróis — Florante. nas Filipinas. não intencionalmente. para o tempo "exterior" da vida quotidiana do leitor de Manila oferece uma confirmação hipnótica da solidez de uma comunidade singular. . ele tinha reputação de pródigo. como seu país. Don Santiago era mais conhecido como Capitão Tiago — a patente não era militar mas política. Embora.. A passagem natural dessa casa. p. porém. Todos sabiam que sua casa. onde ele morava. p. Certamente não é necessário um longo comentário. Ver Blenvenido L. Noli foi feito para ser lido. 43 Pois embora Baltazar ainda fosse vivo quando nasceu Rizal. estranho ao de Noli. como se seu relacionamento com eles não fosse nem um pouco problemático. para ser declamado em voz alta. e até mesmo na cidadela espanhola de Intramuros. Basta que se observe que.. a Pmagdaanang Buhay nl Florante at w Loura sã Cahariang Albânia [A história de Florante e Laura no Reino da Albânia].velha amizade. que ainda pode ser reconhecida. Naquele tempo. ou. em outros distritos de Manila. que se movem para diante pelo tempo do calendário. havia criado e generosamente multiplicado em Manila. O mais chocante é o manuseio do tempo por Baltazar. cuja primeira edição impressa data de 1861. autor e leitores. Enquanto Rizal salpica deliberadamente sua prosa espanhola com palavras de tagalo para obter efeitos "realistas". em Sua infinita sabedoria. num determinado mês de uma determinada década. e seu amigo íntimo Aladin. ao comércio e a qualquer ideia que fosse nova ou ousada. em diferentes bairros de Manila. Como observa Lumbera. dominicanos ativos haviam publicado em Manila a Doctrina CMstiana. Como varemos. outros. enquanto Florante at Laura. mas cada um deles dedicou o melhor de seu pensamento à maneira como poderiam saudar seu anfitrião com a fingida intimidade de. Seu cenário — uma Albânia medieval fictícia — é completamente distante no tempo e no espaço da Binondo da década de 1880. quanto a tudo o que tem de básico. Certamente não terá sido demolida por seu proprietário.ces in tha Development of Tagatog Postry.

4S O "flashback falado" foi. e não pela estrutura do poema. negros — não é porém um tour du monde. sua mãe satisfaz seus caprichos. O horizonte é claramente delimitado: é o do México colonial. mas todas representativas (em sua existência simultânea e distinta) da tirania desta colónia. sucessivamente. uma história escrita pelo malfadado jovem indonésio nacionalista-comunista. médico. José Joaquín Fernandez de Lizardi escreveu um romance chamado El periquillo sarmento [O papagaio sarnentoj. Vemos aqui novamente a "imaginação nacional" funcionando nas andanças de um herói solitário por uma paisagem sociológica de uma ... após seis anos de confinamento. ladrão. Quão distante está essa técnica da do romance: "Naquela mesma primavera. prisões. ao mesmo tempo. 50 Essa deslocamento de um herói solitário por uma paisagem social adamantina é típico de muitos dos antigos romances (antí)coloniais. %. seu defensor. mas Lumbera demonstra. martela num ponto importante — que o governo espanhol e o sistema de educação estimula m o parasitismo e a preguiça. Aladin era expulso da corte de seu soberano. fornecidos pelo herói em conversa com Aladin.. funcionário numa cidade do interior. em 1924:31 49 45 A técnica é semelhante à da Homaro. por terem Rizal e Lizardi escrito ambos em espanhol. Esse tour d'horison picaresco — hospitais. para afastar a possibilidade de que. jogador. o papagaio sarnemo) é exposto a • más influências — criadas ignorantes incutem superstições. p. Mas Marco Kartodikromo. monastérios. e'sse texto é "uma feroz acusação à administração espanhola no México: ignorância. An tntroifuction to Spsnish-Arnerícsn Literature." Essa famosa estrofe tem sido às vezes interpretada corno uma vetada afirmação de patriotismo filipino. ÍB Ibid. [o herói. nos longínquos pântanos interiores do oeste da Nova Guiné.. superstição e corrupção são vistas como suas mais notáveis características". cusa mang pinatay/ sã iyo. manda o filho para a universidade e assegura assim que ele irá aprender apenas disparates supersticiosos. p. está magicamente solitária. Grifos nossos. muito embora depare com muita gente boa e sábia. a única alternativa de uma narrativa direta. Elas não são nunca imaginadas como típicas desta ou daquela sociedade. brutalidade e decepção!/ Eu. tão competentemente exposta por Auerbach. Alterei ligeiramente o texto em tagalo apresentada por ele.. Periquillo continua incorrigivelmente ignorante. 1890-1932) ou L'&Jucation Politique". ou discuti-los com seu público. monastérios. Grifos nossos. eis aqui o início de Semarang Hitaw [O Semarang negro]. A tradução para o inglês é da Lumbera. padre. 34. prisões."/ "Adeus. 51 Segundo tradução de Paul Tickell em seu Three Early Indonesian Short Stories t>y Mas Marco Kartodikromo (s. bangis caliluhan. p. e se torna. como jornalista radical. "Tradition and Influenoes". a não ser pelo fluxo melífluo dos polissílabos em tagalo.45 (Contraponham-se as prisões da Bíblia. enquanto. . {890-1932Í. da crueldade.. Esses episódios permitem que o autor descreva hospitais. As aventuras de Periquillo levam-no diversas vezes a estar entre índios e negros. Marco foi internado pelas autoridades coloniais holandesas em Boven Digul. enquanto Florante ainda estudava em Atenas. aldeias longínquas. aprendiz de farmácia. para Baltazar.. baseada na impressão de 1861. linear. Nas palavras de um crítico. meteórica. o destino que te coube. como aquela em que Salomé seduziu-se por João Batista. p. Nada nos assegura mais dessa solidez sociológica do que a sucessão de plurais. De fato.". Como também não há muito de "filipino" nesse texto. Al! morreu em 1932. nem para levar nada a sério. Henrl Chambert-Loir. Mimesis. aldeias longínquas.. é a supermãe de Periquillo que ganha a parada. cap. nunca ocorre a Baltazar "situar" seus protagonistas na "sociedade". as estruturas que temos estudado sejam algo "europeias". E embora seu pai seja um homem inteligente que quer que o filho se dedique a uma profissão útil.estabilidade que funde o mundo de dentro do romance com o mundo de fora. 47 Jean Franco. um dos mais antigos campos de concentração do mundo. sua ligação apenas se dá pelas vozes em conversa. Albânia. i. índios. setenta anos antes de Noli ser escrito. p. que agora tu assassinas/ lamento. 46 "Paalam Albaniang pinamamayanam/ ng casama.. agora reino/ do mal..) Finalmente. 7. para ajustá-lo a uma edição da 1973 do poema. que tal interpretação ô anacrónica.lupit. Cada uma delas. malaquf ang panghihinavang. Após uma carreira curta. "Mas Marco Kartodikromo (c. evidentemente a primeira obra latino-americana desse género.suas subsequentes proezas militares. de maneira convincente. seus professores ou não tinham vocação. 203. 50 publicada em folhetim. in Littératures contemporaines de l'A$ia du Sud-£st. 1 ("Odysseus1 Scar"). 214-15. i./ acong tangulan mo. Pois eles evocam um espaço social cheio de prisões comparáveis. A forma essencial desse romance "nacionalista" está na seguinte descrição de seu conteúdo: 4S Desde o inicio. nenhuma deJas por si só de qualquer importância singular.. 35-6'. porém. ao invés de ir engrossar as fileiras dos advogados e parasitas. Não tem disposição para trabalhar.. Se ficamos sabendo dos passados "simultâneos" de Florante e Aladin. ou não tinham capacidade para disciplinálo. ^ Em 1816.

como se pode ver pelo fato de que o ódio do jovem dirige-se "ao". não menos pela inovação. esperando talvez encontrar algo que o fizesse parar de se sentir tão miserável. estamos num mundo de plurais: oficinas. Chambert-Loir escreva que "não t a m ideia nenhuma tio sentido da palavra 'socialismo': não obstante. Observe-se que Marco não sente necessidade de especificar essa comunidade pelo nome: ele já está ali. em Semarang Hiíam. As estradas principais habitualmente abarrotadas de toda sorte de tráfico. implicitamente. sente um profundo mal-estar diarvte da organização social que o rodeia e sente necessidade de ampliar seus horizontes por dois métodos: viagem e leitura". não havia ninguém se mexendo. Sobre-o herói desse romance (que ele atribui erradamente a Marco]. É apropriado que. incitando o cavalo a tocar em frente — ou o clip-clop dos cascos dos cavalos puxando as carruagens. ali encontrare62 Aqui.40 41 Eram sete horas. Ele não encontra o cadáver do miserável vagabundo à beira de uma estrada peguenta de Semarang. Exatamente o caráter canhestro e a ingenuidade literária do texto confirmam a "sinceridade" não deliberada desse adjetivo pronominal. o "nosso jovem" de Marco. as calçadas habitualmente apinhadas de gente. vamos ficar chocados por seu profundo caráter ficcional. significa um jovem que. às vezes seu sorriso eram sinal certo de que estava profundamente interessado no que lia. 52 Ele também não se importa o mínimo com quem seja. não na vida pessoal. Se na ficção jocosa e elaborada da Europa dos séculos XVIII e XIX. o estalo de um chicote duma charrete. Semarang estava deserta. Em outro momento ainda. a manha de sábado era um momento de expectativa — expectativa do lazer e da alegria de circular pela cidade à noite. Repentinamente. o morto: ele pensa no corpo representativo. nós-os-Ieitores-indonésios mergulhamos imediatamente num tempo de calendário e numa paisagem familiar. Imaginava perfeitamente o sofrimento daquela pobre alma quando jazia moribunda à beira da estrada. mas coerentemente mencionado como "nosso jovem". digamos. se nos voltarmos agora para o jornal como produto cultural. mas dessa vez iriam se decepcionar — devido à letargia causada pelo mautempaeàsestradaspeguentas noskampongs. sábado à. deu com uma notícia intitulada: PROSPERIDADE Um miserável vagabundo f içara doente e morrera ao abandono à beira da estrada. pertence ao corpo coletivo dos leitores do Indonésio. . mós bem ter caminhado por aquelas "peguentas" estradas de Semarang.noite. escritórios.) O papagaio sarnento mudou-se para Java e para o século XX..dúvida quanto à referenda. Nem Marco. a luz clara das lâmpadas de gás se obscurecia. individualmente. porém. Como no caso de Noli. The New York Times. e assim. a comunidade imaginada confirma-se pela réplica de nossa leitura a respeito da leitura de nosso jovem.) Finalmente.. Às vezes sua irritação. p. apareça um jornal encravado na ficção. Vez por outra. todos haviam ficado em casa. Grilo nosso. O jovem comoveu-se com esse breve relato. ("Mas Marco". A seguir sentiu piedade. Um jovem estava sentado num longo sofá de vime. os Jovens de Semarang jamais ficavam em casa aos sábados à noite. eles estão excluídos de participar desse "nosso". têm qualquer. um herói solitário é sobreposto a uma paisagem social descrita em detalhes cuidadosos e gerais. mas imagina-o a partir do que está impresso num jornal. quando o vento soprava do leste. carruagens. sistema social. o tropo "nosso herói" simplesmente ressalta um jogo do autor com ura leitor (qualquer). enquanto tornava rico um pequeno grupo de pessoas. (Mesmo que os censores coloniais holandeses poliglotas se juntem a seus leitores. Estava totalmente absorvido. pois. seu ódio dirigiu-se ao sistema social que dava origem a tanta pobreza.. Nessa noite. kampongs e lâmpadas de gás. Virava as páginas do jornal. alguns de nós pode- Em 1924. De vez em quando. A luz das fileiras de lâmpadas de gás iluminava diretamente a estrada de asfalto brilhante. Mas há também algo de novo: um herói que nunca é chamado pelo nome. Pelo fato de que a pesada chuva durante o dia todo deixara as estradas encharcadas e muito escorregadias.' nem seus leitores.. um amigo Intimo e aliada político de Marco publicou um romanos intitulado Rasa Manlika [Samido llvro/O sentimento da libertada]. e não "a nosso". Para os trabalhadores de oficinas e escritórios. lendo um jornal. como em El periquillo sarmento. Uma vez mais. Qual a convenção literária fundamental do jornal? Se olharmos uma primeira página típica de. uma embrionária "comunidade imaginada" indonésia. 208. Por um momento sentiu um ódio explosivo bem dentro de si. tudo estava deserto.

fome em Mali. 'Poderia dizer-se que são best-sellers por um só dia. Ibíd. a marca peculiar mais importante que ele apresenta. A grande editora Plant n. Até mesmo a Bíblia de L'jtoro.000 edições produzidas em nada menos que 236 cidades. um horrível assassinato.260 exemplares. produziram-se ria Europa mais de 20. 56 Quanto a isto. p. no século XVI.182l 86 Ibid. "A partir daquela data. pode-$a dizer qua. 125. o livro sempre se distinguiu dos demais bens duráveis por seu mercado intrinsecamente limitado. 60 A obsolescência do jornal no dia seguinte ao de sua impressão — é curioso que uma das ss Lar um jornal é como ler um romance cujo autor tivesse deixado de lado qualquer ideia de um enredo coerente.5Í "Desde então. já fossem um espetáculo comum. os livros estavam prontamente à disposição de qualquer um que soubesse ler. e o mercado.. Mais adiante. Pode-se acrescentar que.)59 Desta perspectiva.' O formato de romance que tem o jornal lhes assegura que.000 de volumes impressos. aguardando sua reaparição seguinte no enredo. 8 em cada uma. "o mundo" caminha decididamente para a frente. o editor venaziano Aldus havia sido pioneiro no lançamento da uma "edição de bolso" portátil. esse número atingira entre 150 e 200 milhões.. Em 1455. auto-suficiente. p. o livro foi a primeira mercadoria industrial produzida em série no estilo moderno. na Bélgica e na Suíça. . porém — e.000 exemplares. as oficinas gráficas mais se assemelhavam a modernas oficinas de trabalho do que 53 a salas de trabalho monásticas da Idade Média. na Holanda e na Espanha. vinte anos depois. Comentam os autores que. um volume conveniente» não um objeto em si mesmo. se compararmos o livro com outros primeiros produtos industriais. 69 Além disso.42 43 mós reportagens sobre dissidentes soviéticos. fornece a conexão essencial — a marcação regular da passagem do tempo homo* gêneo e vazio." (p. 125). coleções pessoais de mercadorias produzidas em série. os dois tipos de bast-sellers costumavam ser méis estreitamente ligados do que hoje. como tecidos. havia gráficas em mais de 110 cidades. A tiragem média no século XIX era inferior a 2. em toda [sic] a Europa. o jornal não passa de uma "forma extrema" do livro.ele antecipa os produtos duráveis de nossa época — é um objeto bem definido. 60 Como demonstra o caso do Semanng W/tam. A segunda fonte de vinculação imaginada encontra-se na relação entre o jornal. 186. Dickens também publicava como folhetim em jamais populares seus romances populares. depois de dois dias de reportagens sobre a fome. Febvre e Martin. O sinal disso: se Mali desaparecer das páginas do The New York Times por meses a fio. um livro vendido em escala imensa. porém de popularidade efémera. o livro Impresso foi de uso universal. na Europa. sem que seus atores tivessem consciência uns dos outros. da importância fundamental para o desenvolvimento da Europa moderna. no século XVI.. Contudo. The Coming of lhe Book. tijolos. já no século XVI. o "personagem" Mali se movimenta silenciosamente. ou que a fome exterminou todos os seus cidadãos. como uma forma de'livro. equipado para a produção padronizada e. de Marshall McLuhan (p.54 Entre 1500 e 1600. Essa vinculação imaginada provém de duas fontes indiretamente relacionadas. Já em 1480. 2 na Boémia e 1 na Polónia. 50 das quais na hoje Itália. em algum lugar fora dali. teve uma primeira edíçflo de apenas 4. apenas quem lá checo comprará livros em checo. Calcula-se que. p. 262. nem por um momento os leitores imaginarão que Mali desapareceu. Quem quer que tenha dinheiro poda comprar carros checos. 9 na França. já em fins do século XV. Uma libra de açúcar^ é simplesmente uma quantidade. 5 em cada. as Bicões oram ainda relativamente pequenas. í7 O sentido que tenho em mente se revela. 218-20. (Não «admira que bibliotecas. em centros urbanos como Paris. no correr dos quarenta anos entre a publicação da Bíblia de Gutenberg e o final do século XV. Pois estas mercadorias são medidas em quantidades matemáticas (libras. se o mercado do livro tornouse pequeno diante dcs marcados de outras mercadorias. A arbitrariedade de sua inclusão e justaposição (uma edição posterior substituirá Mitterand pelo resulta1do de uni jogo de beisebol) demonstra que a vinculação entre eles é imaginada. grandes empresas gráficas funcionavam por toda parte. A primeira é simplesmente coincidência no calendário. Isso montava a não menos de 35. e um discurso de Mitterand. a descoberta de um fóssil raro no Zhnbábue. iremos examinar a importância ctsssa distinção. 54 Febvre e Martin. é óbvio que a maioria deles aconteceu independentemente. Ata o século XIX. sau papal estratégico na disseminação da ideias tornou-o. contudo. nisso. 57 Esse é um ponto bom estabelecido no meio das fantasias de Gutenberg Galaxy. golpe no Iraque.. controlava." 56 Em sentido muito especial. A data no alto do jornal.000. ou do que os outros estavam fazehdo. A primeira edição excepcionalmente grande da Encyc/opédie de Dlderot n5o foi além da 4. 4 na Inglaterra. reproduzido com exatidão em grande escala. Ao mesmo tempo. extraordinário best-seUet. ou açúcar. p. Por que se justapõem tais eventos? O que os liga uns aos outros? Não é mero capricho. da Antuérpia.000 exemplares. The Corning of lhe Book. 24 gráficas com mais de cem operários em cada uma delas. o principio é mais importante do que a escala de grandeza.53 Dentro daquele tempo.. O livro. 30 na Alemanha. cada livro possui uma auto-suficiência erèmítica própria. 5B Uma libra de açúcar confunderse com a seguinte. volumes ou unidades). Fust e Schoeffer já geriam um negócio.

O segundo era a crença de que a sociedade era organizada de maneira natural em torno de e sob centros elevados — monarcas que eram pessoas distintas dos outros seres humanos e que governavam por alguma forma de disposição cosmoiógica (divina). por toda parte. a ficção desliza silenciosa e continuamente para dentro da realidade. Mais ainda. ao correr do calendário. 61 Contudo. antes só encontra nas regularídadss diárias ds vida da imaginação. Talvez nada acelerasse mais essa busca. como a escrita sagrada. mas não fica atrasado. cravou uma firme cunha entre a cosmologia e a história. enraizavam firmemente as vidas humanas na própria natureza das coisas. de cuja existência está seguro.) A significação dessa cerimónia de massa — Hegel observava que os jornais são. deixaram de ter domínio axiomático sobre o pensamento dos homens. apenas neste dia. sendo essencialmente idênticas as origens do mundo e dos homens. fundamentalmente. em que a cosmologia e a história não se distinguiam. primeiro na Europa ocidental e. conferindo determinado sentido às fatalidades diárias da existência (sobretudo à morte. três conceitos culturais básicos. das "descobertas" (sociais e científicas). sente-se permanentemente tranquilo a respeito de que o mundo imaginado está visivelmente enraizado na vida quotidiana. "Some Conjectures about trie Impact of Prirjting on Western Society and Thought". Ajiecadência lenta e irregular dessas certezas encadeadas. da barbearia ou de sua casa. Antes de iniciar uma discussão das origens específicas do nacionalismo.44 45 mais antigas mercadorias produzidas em série fizesse antever assim a obsolescência implícita dos modernos produtos duráveis — cria. bem no fundo da cabeça. e se relacionarem com outras. depois. £4. de maneira profundamente renovada. cujo uso se processa num fluxo contínuo. The Break-up of Brítain. 42. um substituto das preces matinais — é paradoxal. Ao escrever sobre a relação entre a anarquia material da sociedade de classe média e uma ordem estatal política abstraia. poder e tempo de uma maneira significativa. no sentido de um novo modo de tornar a vincular fraternidade. por milhares (ou milhões) de outros. e do desenvolvimento cada vez mais rápido das comunicações. não cronometrado. associadas. o que de outro modo seria o caos dentro de urna nova legitimidade do Estado". era um ponto central de acesso à existência e a ela inerente. do que o capitalismo editorial. p. porque o governante. A geração da vontade impessoal. todos extremamente antigos. nem a tornasse mais frutífera. Ela se desenrola em silenciosa intimidade. à privação e à escravidão) e propiciando vários modos de libertar-se delas. sob o impacto da mudança económica. Foi essa ideia que permitiu que surgissem as grandes congregações transcontinentais da cristandade. é a marca de garantia das nações modernas. o leitor de jornal. Como se poderia representar ilustração mais vívida para a comunidade imaginada historicamente cronometrada? 62 Ao mesmo tempo. exatamente por essa razão. essa cerimónia é interminavelmente repetida a intervalos de um dia. Sem dúvida. Em terceiro lugar. será conveniente recapitular as principais proposições apresentadas até aqui. criando aquela notável segurança de comunidade anónima que. 61 s3 "Material impresso estimulava a adesão silenciosa a causas cujos defensores não podiam ser localizados em nenhuma localidade 9 que se dirigiam de longe a um público invisível. 40: 1 (março de 1968). As lealdades humanas eram necessariamente hierárquicas e centrípetas. vendo réplicas exatas de seu jornal sendo consumidas por seus vizinhos do metro. pensarem sobre si mesmas. e onde. penso eu. embora sobre cuja identidade não possua a menor ideia. a concepção de temporalidade. os egoísmos individuais em vontade coletiva impessoal. Não é pois surpresa que a busca se processasse. no entanto." Elizabeth L. . que tornou possível. simultaneamente. a um número cada vez maior de pessoas. para o homem moderno. por assim dizer. precisamente por ser parcela inseparável daquela verdade. Essas ideias. ou de meio dia. Sabemos que determinadas edições matinais e vespertinas serão esmagadoramente consumidas entre tal e tal hora. Eisenstein. que a possibilidade mesma de se imaginar a nação só surgiu historicamente quando. esta extraordinária cerimónia de massa: o consumo ("o imaginar") quase que. ele pode ficar ruim. Como em Noli Me Tangere. exatamente simultâneo do jornal-comoficção. cada um dos comungantes está bem cônscio de que a cerimónia que executa está sendo replicada. Afirmei. observa Nairn que "o mecanismo representativo converteu a desigualdade ds ciasse real no igualitartsmo abstraio de cidadãos. Jautri»! of Modern Hlstary. Mas o mecanismo representativo (eleições?) á uma festa rara e móvel. do isiamismo e as demais. O primeiro deles era a ideia de que uma determinada língua escrita oferecia acesso privilegiado à verdade ontológica. (Contraponha-se isso ao açúcar. p. e não em outro.

como hoje. p. potencialmente enormes. que ignorava fronteiras nacionais [sic]".que a proporção na população mundial de hoje e — não obstante o internacionalismo proletário — dos próximos séculos. quanto a isso. 2 Característico disso é o livro das viagens de Marco Polo. como crêem Febvre e Martin. p. "Mais do que em qualquer outro tempo" ela foi "uma grande indústria sob o controle de abastados capitalistas". Travsls.5 . porém. Assim sendo. 122.) 6 Ibid. Pode-se. Por que.000. 394. porém.47 AS ORIGENS DA CONSCIÊNCIA NACIONAL Se o desenvolvimento da imprensa-como-mercadoria é a chave da geração de ideias inteiramente novas de simultaneidade. A saturação desse mercado levou cerca de 150 anos.. criouse-uma verdadeira 'internacional' de editoras. O 1axtt> original fala ao capitalistas "puissants" (poderosos. 187. uma atapa no caminho para nassa atuo soc-iedsde de consuma da massa e de padronização. É certo que a Contra-Reforma estimulou um ressurgimento temporário da atividade editorial em latim. ' indicando o surgimento da "era da reprodução mecânica" de Benjamin. os mercados representados pelas massas monoglotas. (O textc original diz "une civilisation da masse et de standardisation". As primeiras gráficas instalaram filiais por toda a Europa: "desse modo. p. a atividade editorial participou da expansão geral. Como já foi assinalado. seriam o atrativo." Ibid. 194. Polo. pue melhor se traduziria por "civilização padronizada. XIII.000. 5 Naturalmente. 1 Sendo uma das mais antigas formas de empresa capitalista. ainda assim estamos simplesmente no ponto em que se tornam possíveis comunidades do tipo "horizontai-secular. em meados do século XVII. a lógica do capitalismo indicava que.. The Corning of the Book. ampla mas ténue camada de leitores do latim. 4 E cbmo os anos de 1500-1550 foram um período de prosperidade excepcional na Europa. conseqúentemente. L 'Apparitíon. pelo menos 20 milhões de livros já haviam sido impressos em 1500. defender com'vigor a primazia do capitalismo. 259-60. os "livreiros preocupavam-se primordialmente em conseguir lucro e em vender seiis produtos e. de massa". No século XVI.. o conhecimento impresso vivia da reprodutibilidade e da disseminação. "Some Conjectures". p. mas. é possível que 200 milhões de volumes já tivessem sido manufaturados por volta de 1600. 6 "Daf ter sido a introdução da imprensa. p. p. 3 Citado em Eisansteín. O fato decisivo quanto ao latim — fora sua sacralídade — é que ele era uma língua de biííngúes. 281. L'Apparitiorr. transversal ao tempo". a nação se tornou tão popular? Os fatores envolvidos são obviamente complexos e variados. Naquela época. L'AppBrition. o movimento esta4 Febvre o Martin. 248-9. muito provavelmente não maior do . a proporção de bilíngues na população total da Europa era muito pequena. p. que permaneceu em grande medida desconhecido até sua primeira impressão em 1559. não é de admirar que Francis Bacon julgasse que a imprensa havia alterado "a aparência e o estado do mundo". 3 A população da Europa em QU9 a imprensa era então conhecida era du cerca de 100. Relativamente poucos haviam nascido para falar em latim e menor número ainda. a edição de livros era afetada por toda a busca incessante de mercados do capitalismo. (O texto original. a grande massa da humanidade é de monoglotas. Se o conhecimento manuscrito era um saber escasso e misterioso. dentro desse tipo. p. fala simplesmente de "par-dessusles frorrtíères" í" por sobre as fronteiras"!. The Corning of Ifie Book. Febvre e Martin. 56. imagina-se. 6 O mercado inicial foi a Europa letrada. a nlo "abastados". p. uma vez que o mercado latino de elite estava saturado. 2 Se. sonhava em latim. buscavam primeiramente aquelas obras que fossem de interesse para o maior número possível de seus contemporâneos".

289-SO.. Graças ao labor dos humanistas. Ibid." 9 De fato. tendo em vista a reputação de seus autores no mercado.. p. Nesse meio tempo. Agora. em 1517. está em que. como prova disso. e nesta última data não havia menos de quarenta gráficas distintas trabalhando em horas extras. foram editados três vezes mais livros na Alemanha do que no período de 1500-1520. fazendo renascer a enorme literatura da antiguidade pré-cristã e disseminando-a por meio do mercado editorial. tornava-se obscuro devido ao que era escrito. 291-5. 8 Nas duas décadas de 1520-1540. elas foram impressas em tradução para o alemão e. em outras palavras. Lutero tornou-se o primeiro autor de grande vendagem conhecido como ta!.. Antes da era da imprensa. M Ibid. devido a seu status como texto. foram publicadas 430 edições (integrais ou parciais) de suas traduções da'Bíblia. ao mesmo tempo. Em segundo lugar. A partir desse ponto. 161. cada vez mais afastado da vida eclesiástica e da vida quotidiana. Para nos atermos à Genebra de Calvino: entre 1533 e 1540. deveu muito de seu êxito ao capitalismo editorial. na época. 195. e em última análise o menos importante. haviam sido publicadas ali apenas 42 edições. Dessa maneira. 8 Suas obras representaram nada menos do que um terço de iodos os livros em alemão vendidos entre 1518 e 1525. Roma ganhava facilmente todas as guerras contra a heresia na Europa ocidental. muito diversa da do latim da Igreja da época medieval. tornou-se patente. para a qual Lutero foi absolutamente fundamental. O primeiro deles. porém. uma verdadeira massa de leitores e uma literatura popular ao alcance de todo o mundo. s 10 p. Símbolo disso é o índex Llbrorum Prohibitorum do Vaticano — que não tinha correspondente no protestantismo —. que vedava a impressão de todo e qualquer livro em seu reino — sob pena de morte por enforcamento! A razão para essa proibição. foi uma alteração no caráter da própria língua latina. transformação espantosa. 10 Onde Lutero foi o primeiro. que as compravam como investimentos excelentes. catálogo singular que se fez necessário devido ao maciço volume de subversão impressa. enquanto que a Contra-Reforma defendia a cidadela do latim. mas apenas por ser inteiramente escrito.. ele adquiriu uma característica esotérica. no seio da//ltelUgentsia transeuropéia. e para sua inaplicabilidade. 7 lbid. uma escassez de dinheiro por toda a Europa levou as gráficas a pensar cada vez mais em vender edições baratas nas línguas vulgares. o primeiro escritor que vendia seus Sivros novos com base no próprio nome. O latim que agora se pretendia escrever tornava-se cada vez mais ciceroniano e. Pois o antigo-latim não era obscuro devido a seu conteúdo ou a seu estilo. dois dos quais contribuíram diretamente para o surgimento da consciência nacional. "Temos aí. uma nova forma de apreciar os elaborados resultados estilísticos dos antigos.. e saturadas as bibliotecas ardorosamente católicas. foi o impacto da Reforma que. Nada transmite melhor o sentido' dessa mentalidade de assédio do que a aterrorizante proibição de Francisco I. precisamente porque sabia como utilizar o crescente mercado da imprensa em língua vulgar que o capitalismo criava. Nessa gigantesca "luta para conquistar o pensamento dos homens' '. p. p. era só um passo pars a situação na França do século XVII. 310-5. as fronteiras orientais de seu reino estavam cercadas por Estados e cidades protestantes que produziam uma torrente maciça de material impresso contrabandeável. em 1535. Ibid. devido à linguagem em si mesma.aos editoras. outros rapidamente se seguiram. o protestantismo sempre esteve basicamente na ofensiva. "no espaço de quinze dias [haviam sido] conhecidas em todos os cantos do país". pela primeira vez. p. 7 O impulso revolucionário do capitalismo no sentido da utilização das línguas vulgares recebeu um ímpeto adicional de três fatores externos. onde Corrwllla. . porque sempre teve linhas internas de comunicação melhores que seus desafiantes. dando início à colossal propaganda religiosa que avassalou a Europa toda no correr do século seguinte. " Ibid.48 49 vá em decadência. Ou. Quando. Martinho Lutero afixou suas teses na porta da capela em Wittenberg. isto é. Molíèra s La Fomaine •vendiam suas tragédias e comédias manuscritas diretamente. mas esse número subiu para 527. entre 1550 e 1564. Entre 1522 e 1546.

ser encarado (pelo menos inicialmente) como fator independente na erosão da comunidade sagrada imaginada. o latim sobreviveu por muito mais tempo — sob os Habsburgos até bem tardiamente no século XIX. Como diz ironicamente Bloch. tivesse sido administrada originariamente ern inglês primitivo. teve lugar movimento semelhante. -É instrutivo o contraste com a China Imperial. O nascimento das línguas vulgares administrativas aã-. que tipicamente pouco ou nada. que explorava edições populares baratas. 48. por isso. Não se deve supor que a unificação da língua vulgar administrativa tenha sido realizada Imediatamente ou tis maneira completa. '«Ibid. em épocas diversas. O caso da "Inglaterra" — na periferia noroeste da Europa latina — é especialmente'esclarecedor. "o francês. Inevitavelmente. de línguas vulgares específicas como instrumento de centralização administrativa por determinados pseudomonarcas absolutos presuntivos bem posicionados. Netfons anrf Slates. francês normando. Como tal. l. virtualmente todos os documentos reais eram escritos em latim. dadeiro correspondente político. É conveniente que se lembre. e deve. Bloch. p. l5 Em outros reinos dinásticos. p. tecedeu tanto a imprensa quanto a revolução religiosa do século XVI. Netions and States. não há nada que indique que quaisquer impulsos ideológicos. É improvável que a Guiana. Feudal Society. esse latim ofi- ciai foi substituído pelo francês normando. línguas vulgares "estrangei'ras" se impuseram: no século XVIII. vale dizer uma Síngua que. Entre cerca de 1200 e 1350. em 1382. ainda. p. viesse a ser a língua da corte — e para a abertura do parlamento. M Bloch. mas também partes da Irlanda. Obviamente. da Escócia e da França. Feudai Sociery. Com efeito. após o colapso do Império do Ocidente. Ao mesmo tempo. desse modo. l. uma lenta fusão entre essa língua de uma classe dirigente estrangeira e o anglo-saxão da população submetida deu origem ao inglês primitivo. e não "nacionais". M apenas se tornou a língua oficial dos tribunais de justiça em 1539. 83. levou diversos séculos para erguer-se à dignidade literária". a fragmentação política da Europa ocidental. onde o âmbito da burocracia dos mandarins e a dos caracteres desenhados coincidiam em grande medida. criou rapidamente grandes públicos leitores novos — inclusive entre mercadores e mulheres. 75. que a universalidade do latim na Europa ocidental medieval jamais correspondeu a um sistema político universal. era o anglo-saxão. Enquanto isso. p. p. O mesmo terremoto produziu os primeiros Estados europeus não dinásticos e não cidades-Estado de importância. !6 Em todo caso. e que o Estado envolvido abrangia. Em outros. após 1362. ou inglês primitivo. No Sena. significava que nenhum soberano poderia monopolizar o latim e torná-lo sua língua oficial exclusiva e. 28-9.. (O pânico de Francisco I era tão político quanto religioso. para não dizer casual. quando Francisco I expediu o Edito de Villers-Cotterêts. Veio a seguir. conheciam de latim — e simultaneamente mobilizava-os para fins político-religíosos. ainda que em ritmo mais lento. profundamente arraigados estivessem subjacentes à utilização de línguas vulgares onde ela ocorreu. a língua da corte. de Wycliffe. havia a disseminação. sem falar em protonacionaís. governada a partir de Londres. que enfrentavam a ascensão 1S w Seton-Walso-ri. pragmático. 15 Seton-Walsoo. 98. as línguas da corte dos Romanovs eram o francês e o alemão. enormes parcelas das populações submetidas conheciam pouco ou nada de latim. a Bíblia manuscrita em língua vulgar. uma vez que era encarada meramente como forma adulterada do latim.) Em terceiro lugar.50 51 A coalizão entre o protestantismo e o capitalismo editorial. l3 Só depois de quase um século após a entronização política do inglês primitivo é que o poder de Londres foi varrido para fora da "França". Essa fusão tornou possível que a nova língua. Anteriormente à invasão normanda. não apenas a Inglaterra e o País de Gales de hoje. não era apenas a Igreja que se abalava em seus fundamentos. No correr do século e meio seguinte. u É fundamental que se tenha ern mente que essa sequência constituía uma série de línguas "de Estado". literária e administrativa. . a autoridade religiosa do latim nunca possuiu um ver-. aqui. na República da Holanda e na Comunidade dos Puritanos. lenta e geograficamente desigual. não deliberado. era inteiramente diferente das políticas linguísticas deliberadas perseguidas pelos dinastas do século XIX.. a "escolha" da língua parece constituir-se num desenvolvimento gradual.

mas não havia. estivesse presente. nem há. seria equivocado fazer equivaler essa fatalidade àquele elemento comum às ideologias nacionalistas. >ía Europa pré-imprensa e. Embora seja essencial manter em mente uma ideia de fatalidade. entre um sistema de produção e de relações produtivas (capitalismo). em Paris. 1 Digo "nada ssrvíu. primordialmente em sentido negativo — como tendo contribuído para o destronamento do latim e para a erosão da comunidade sagrada da cristandade. O essencial é a influência recíproca entre fatalidade. Nessa contexto.52 53 de nacionalismos linguísticos populares hostis. que enfatiza a fatalidade primordial de determinadas línguas e de sua associação a unidades territoriais determinadas. quatro anos depois. uma tecnologia de comunicações (a imprensa) e a fatalidade da diversidade linguística do homem. Proveitosa exposição sobre essa questão encontra-se em S.19 Determinadas línguas podem morrer ou ser exterminadas. Pois por mais que o capitalismo fosse capaz de feitos sobre-humanos. nSo teve qualquer impacto de maior importância. agora padrão. no sentido de condição geral de diversidade linguística irremediável. eram concorrentes do latim (o francês. onde. de fato. . era imensa. em certo sentido. naturalmente. Mas o papel náo era Invenção europeia. H. Num sentido positivo.por intermédio do mundo Islâmico.. mais do que o capitalismo" intencionalmente. por sua própria conveniência interna. O fato do o signo. 22. criou línguas impressas mecanicamente reproduzidas. possibilidade de uma unificação linguística geral do homem. 5. Tfte Caming of t/ie Book. Não havia qualquer ideia de se impor sistematicamente a língua às diversas populações submetidas ao dihasta. neste contexto. rougfi. Cap. Tanto Stelnberg 1 quanto Eisenstein chegam muito perto de teornorf liar "a imprensa" que imprensa como c gânio da história moderna. " 'Não obstante. em Londres). como vimos. Contudo. por detrás da imprensa.20 (Ao mesmo tempo. quanto mais ideográficos os signos. passando pelo chinês e pelo inglês. fé: do francês a língua de sua cortei Esse não foi a primeiro "acidente" dessa natureza. possivelrrvante quinhentas anos antes de. passíveis de disseminação pelo mercado. rnuito menos revolucionário — precisamente devida â ausência do capitalismo ia. em número muito menor de línguas impressas! . Chegou ali vindo de uma outra história — a da China . cap. Quanto a isso. (Ver mais adiante. ele encontrou na morte e nas línguas dois tenazes adversários. o que tornou imagináveis as novas comunidades foi uma interação semifortuita. Itxigh. Steinberg. dentro dos limites impostos pelas gramáticas e sintaxes. a diversidade das línguas faladas. embora Já existisse uma burguesia perceptível na Europa. p.. tecnologia e capitalismo. No fundo. que se o capitalismo editorial buscasse explorar cada mercado potencial de língua vulgar oral. Mas esses idioletos variados eram passíveis de se agruparem. a Reforma e o desenvolvimento casual das línguas vulgares administrativas sejam significativos. contribuiu à sua maneira para a decadência da comunidade imaginada da cristandade. essa incompreensibilidade recíproca era historicamente apenas de 17 ligeira importância. o papel não tevo uso generalizado antes do -final do século XIV. dentro de limites definidos. estio 33 gráficas e 35 companhias editoras. 21 zo 18 15 Confirmação compatível dessa afi/mação ofereça-nos Francisco ! que. tanto mais vasta a zona de agrupamento potencial. talvez nenhum deles. Five Hundfett V&sra cfPrinting.) Nada serviu para "agrupar" línguas vulgares correíatas mais do que o capitalismo que.seu aparecimento na Europa. 30 e 45. proibiu toda e qualquer impressão de livros em 1535 e. 6. a promoção dessas línguas vulgares ao stattts de línguas-do-poder. é provável que a esoterização do latim. eram (e são) a trama e a urdidura de suas vidas. até os silabários regulares do francês ou do indonésio. vale lembrar que embora a imprensa tivesse sido Inventada primeiro na China. sem que algum deles. ough ser pronunciado diferentemente nas palavras althaugh. Febvre e Martin observam que. quanto a característica ideográfica do produto final.A própria arbitrariedade de qualquer sistema de signos para sons facilitava o processo de agrupamento. em outras partes do mundo. o inglês [primitivo]. Somente a superfície bem lisa do pape! tornou possível a reprodução maciça de textos o figuras — e Isso não ocorreu senão apôs outros setenta e cinco anos.) Sinal claro dessa diferença é que as antigas línguas administrativas eram precisamente isto: línguas utilizadas pelo mundo oficial. É perfeitamente possível conceber o surgimento das novas comunidades nacionais imaginadas. Febvre e Martin (amais se esquecem de que. em fins do século XIII. pode-se descobrir uma espécie de hierarquia descendente partindo da álgebra. até que o capitalismo e a imprensa criassem os maciços públicos leitores monoglotas. tão imensa. IS O elemento de fatalidade é fundamental. teria permanecido um capitalismo de proporções insignificantes. para seus falantes. N5o temos ainda multinacionais gigantes no mundo editorial. bough. mas explosiva. aquelas línguas que. cougti e hiccough demonstra tanto a variedade idiolâtica da qual proveio a ortografia Inglesa.

a proporção de mudança diminuiu decisivamente no século XVI. o capitalismo editorial criou Ifaguasde-poder de uma espécie diversa da das antigas línguas vulgares administrativas. o tai central foram consequentemente elevados a uma nova proeminência político-cultural.e. as línguas nacionais mostram-se cristalizadas por toda parta. Antes de mais nada. seus ancestrais do século XII. criaram campos unificados de intercâmbio e comunicação abaixo do latim e acima das línguas vulgares faladas. tornaram-se capazes de compreender-se via imprensa e papel. p. a que estavam ligados pela imprensa. a tec-. Ira. p. que apenas essas centenas de milhares. de modo geral. passível de reprodução virtualmente infinita. na Europa desse fim do século XX. par o nacionalismo turco ern linha com a c iu Tire cie madeira. e de desenvolver publicações em suas próprias línguas: esse mesmo governo é em grande medida indiferente ao que essas minorias falam. em sua visível invisibilidade secular e peculiar. essas línguas impressas estabilizadas foram se sedimentando. o livro impresso mantém uma forma permanente. até mesmo milhões. temporal e espacialmente. Como nos fazem lembrar Febvre e Martin. dentro de uma ortografia arábica. formavam. Hoje em dia.) Resta apenas salientar que. ramanítada. •. que. O "alemão do noroeste" tornou-se o Platt Deutsch. processos não. a iongo prazo. Esses co-leitores.de mais nada por não serem bem-sucedidas (ou serem apenas relativamente bem-sucedidas) ao insistir em suas próprias formas impressas. o inglês do rei e. a ele pertenciam. conscientemenle exploradas dentro de um espírito maquiavélico. elas se tornavam modelos formais a serem imitados e. intencionais que resultaram da interação explosiva entre o capitalismo. Em segundo lugar. enquanto o francês do século XII distinguia-se acentuadamente do francês escrito por Víllon no século XV. The Age of Nationalism. largamente falado. de determinadas "sub "-nacionalidades para alterarem seu síaíus subordinado forçando vigorosamente a entrada na imprensa -—• e no rádio. por ess." 22 Em outras palavras. como tanta coisa mais na história do nacionalismo. p. o embrião da comunidade nacionalmente imaginada. Já não estava mais sujeito aos hábitos individualizadores e "inconscientemente modernizadores" dos escribas monásticos. ou até mesmo impossível. porque era assimilável ao alemão impresso de uma maneira em que não o era o checo falado da Boémia. perdeu aquela unidade em consequência de manipulações deliberadas. outrora agrupável por toda parte. ou milhões. quando vantajoso. compreender-se reciprocamente em conversa. assumido suas formas modernas."! Hans Korin. tornaram-se gradativamente conscientes das centenas de milhares. Suas parentes em desvantagem.54 55 Essas línguas impressas lançaram as bases para a consciência nacional de três modos diferentes. Mas. Família de línguas faladas. inglesas. o governo tai desestimula ativamente as tentativas de missionários estrangeiros de oferecer a suas minorias tribais das montanhas sistemas próprios de transcrição.i (Daí as lutas. de pessoas existentes em seu determinado campo linguístico . ou espanholas. Determinados dialeíos estavam inevitavelmente "mais próximos" de cada língua impressa e domi52 navam suas formas finais. e portanto compreensível. nologia e a diversidade Linguística humana. O destino dos povos de fala túrquica nas zonas incorporadas à Turquia. Iraque e URSS atuais é especialmente exemplar. O alto alemão. a Villon. perdiam prestígio. Cf. no decorrer de três séculos. em suas origens. 23 As autoridades soviéticas. ainda assim assimiláveis à língua impressa que surgia. lês langues nationales apparaissant u n peu partout cristallisées". L'Apperition. 319. uma vez "ali". em grande medida. 108. "No século XVII as línguas da Europa haviam. tão essencial à ideia subjetiva de nação. . e assim um alemão subpadrão. mais tarde. que podiam achar difícil. as palavras de nossos antepassados do século XVII nos são acessíveis de um modo que não eram. ao mesmo tempo. da Europa ocidental. a fixação das línguas impressas e a diferenciação de status entre elas foram. seguiram o exemplo. Para exaltar a consciência nacional da Turquia turca em detrimento de qualquer identificação muçulmana mais ampla. Atatúrk impôs uma romanização compulsória. É provavelmente apenas justo acrescentar que K-crnal esperava lambam. primeiro corn uma romanização compulsória antimucul23 The Corning of the Book. antes. Desse modo. ajudou a construir aquela imagem de antiguidade. Os falantes da enorme variedade de línguas francesas. No correr do processo. Em terceiro lugar. 477: "Au XVII" siècle. ("No século XVII. o capitalismo editorial atribuiu nova fixidez à língua.e meio.

é necessário voltarse para o amplo conjunto das novas entidades políticas que brotaram no hemisfério ocidental entre 1776 e 1838. Em segundo lugar. a seguir. da tese de Nairn. prepara o cenário da nação moderna. constituídos e dirigidos por pessoas que compartilhavam uma língua e uma descendência comuns com aqueles contra os quais lutavam. por parecer quase impossível explicá-los em termos dos dois fatores que. ao mesmo tempo. é justo que se diga que a língua nunca foi sequer um tema nessas antigas lutas pela libertação nacional. mais tarde. consciências nacionais e Estados-nação.56 mana e antipersa e. não mantinha senão a mais fortuita relação com as fronteiras políticas existentes (que eram. dizendo que a convergência do capitalismo e da tecnologia da imprensa sobre a diversidade fatal das línguas humanas criou a possibilidade de uma nova forma de comunidade imaginada que. Para explicarse a descontinuidade-em-conexão entre línguas impressas. em grande parte do hemisfério ocidental. particularmente na África. em outras. Em primeiro lugar. ou os da "família anglo-saxônica" são exemplos notáveis do primeiro resultado. e segundo a qual: 2 1 Ji Seton-Watson. 24 Podemos resumir as conclusões que se podem tirar da exposição até este ponto. têm sido dominantes em muito do pensamento europeu a respeito do surgimento do nacionalismo. provavelmente por poderem ser facilmente deduzidos a partir dos nacionalismos da Europa de meados do século. do segundo. quer se pense no Brasil. Os Estados-nação da América Espanhola. p. com uma cirilização russificante compulsória. Todos eles. apenas uma fração mínima da população "usa" a língua nacional em conversa ou no papel. muitos ex-Estados coloniais. todas as quais se definiram conscientemente como nações e. como também o número delas e seu aparecimento simultâneo oferecem terreno fértil para um estudo comparativo. e por isso forneceram inevitavelmente os primeiros modelos reais de com que deveriam esses Estados "se parecerem". com a curiosa exceção do Brasil. NOVAS NAÇÕES Os novos Estados americanos do final do século XVIII e início do século XIX são de interesse incomum. a língua não era um elemento que os diferenciasse de suas respectivas metrópoles imperiais. há sérias razões para se duvidar da aplicabilidade. A extensão potencial dessas comunidades era inerentemente limitada e. em geral. 317. em sua morfologia básica. o ponto culminante dos expansionismos dinásticos). parem nascida na América rã. como republicas (não dinásticas). nos EUA ou nas antigas colónias da Espanha. Em outras palavras. p. . ] Na verdade. 41. por extensão. 2 77» Brsak-up ofõritein. é óbvio que. ANTIGOS IMPÉRIOS. Nations and States. muitas delas possuem essas línguas em comum e. embora hoje em dia quase todas as pretensas nações— e também as nações-Estado — possuam "línguas impressas nacionais". na década stalinista de 1930. Crioula — pessoa da descendência europeia pura [pelo menos teoricamente). eram Estados crioulos. a formação concreta dos Estados-nação contemporâneos não é de modo algum isomórfica com o alcance estabelecido de determinadas línguas impressas. srn qualquer lugar fora tia Europa!. inclusive os EUA. Pois não apenas eram elas historicamente os primeiros Estados desse tipo a surgir no mundo. Contudo. em outros casos convincente.

3 Como vimos.. p. Ele e seus seguidores (na maior parte índios. 11 Masur. ll Além disso. 2. os movimentos nacionalistas têm tido uma perspectiva invariavelmente populista e procurado arregimentar as classes inferiores para a vida política. ainda estavam vivas as lembranças da grande jacquerie liderada por Tu3 Gerhard 4 pac Amarú (1740-1781). "Trie Haart of Jelferson". p. 207. p. p. e que fora. Tho Spanfsli-Amaficori ftovolulions. Ainda que às vezes hostil à democracia. 5 (Esse medo só aumentou quando o "secretário do Espírito Mundial" de Hegel conquistou a Espanha em 1808. naquela. Em sua versão mais típica. s Quanto s isto. Os indícios . 8 O próprio Libertador Bolívar opinou. isto assu miu a forma de uma ciasse média e de uma liderança intelectual inquietas. Bolívar. p.. Essas proporções provem do faio de que as (unções comorciais o sdmirtistraiifas mais importantes oram em grande medida monopolizadas pelos espanhóis natos. e dos índios. The Spanfsíi-Americen fíevolutions. Como também não havia algo semelhante a uma intelligenisia. 17 d« agasto tfe 1&78. estimulou o impulso para a independência em relação a Madri. Na Venezuela —'• na verdade. 237. mais humanitária. que uma revolta de negros era "mil vezes pior que uma invasão espanhola". p. 224. em 1804. se irritaram com a proclamação do governador legalista que concedia Uberdade aos escravos que rompessem com seus senhores sediciosos. enquanto a propriedade cia terra era inteiramente aberta aos crioulos. The tJsw HM* Review -o/ Books. Madri expediu uma-no vá lei. sobre escravidão. especificando pormenorizadamente os direitos e os deveres dos senhores e dos escravos. foi ela ter conseguido o apoio dos escravos. o domínio sobre a longínqua Quito. a prolongada duração da luta continental contra a Espanha. Talvez seja notável qu« Tupac Amarú não lenha rapudiado completamenta a compromisso de fidelidade ao rei espanhol. 7 Quando.58 O advento do nacionalismo num sentido distintamente moderno esteve ligado ao batismo político das classes inferiores. em 1789.) No Peru. 59 Pelo menos na América do Sul e na América Central. o primeiro romance hispano-americano só foi publicado em 1816. que deu origem. funcionários locais e provinciais). 6 Em 1791. entre 1814 e 1816. um fator-chave. em casos tão importantes como a Venezuela. 201.que. Bolívar.snob da vida das pessoas". Edward 5. p. 4 Ao contrário de procurar "arregimentar . indica certa "fragilidade social" desses movimentos de independência latino-americanos. de início. Morgars. à segunda república independente do hemisfério ocidental — e aterrorizou os grandes fazendeiros da Venezuela. Lynch.Estados. era o medo de mobilizações políticas da "classe inferior": a saber. 10 . o México e o Peru. O próprio Thomas Jefferson estava entre os fazendeiros da Virgínia que. bem depois da deflagração das guerras de independência. mas também alguns brancos e mestiços) ínsurglram-se contra'a administração de Lima: Masur. Lyncri. 14-7 e flnssim. * Também não devemos esquecer que muitos dos líderes do movimento de independência das Treze Colónias eram magnatas agrários donos de escravos. albid. p. Toussaint L'Ouverture comandou uma insurreição de escravos negros. 17. há analogia evidente com o nacionalismo Bóer de um século mais tarde. 192. militares. Noticns and Síntes.as classes inferiores para a vida política". na época uma potência europeia de segunda ordem. 6 Masur. na década de 1770. rebeliões de índios ou'de escravos negros. certa vez. privando assim os crioulos de apoio militar da península em caso de emergência. até 1820. Simon Bolívar. The Spanish-Amef/can Revo/utíons. "os crioulos repudiaram a intervenção estatal com base em que os escravos eram propensos ao vício e à independência [!] e eram fundamentais para a economia. as "classes-médias" ao estilo europeu ainda eram insignificantes no final do século XVIII. tranquilos da colónia era pouca a leitura a interromper o ritmo faustoso e. donos de escravos. Pois "naqueles dias . 24. ela mesma. em aliança com um número muito menor de comerciantes e de diversos tipos de profissionais liberais (advogadas. que procuram incitar e canalizar as energias das classes populares para a sustentação dos novos . em sua luta contra os crioulos rebeldes. 10 É instrutivo que uma das razões pelas quais Madri conseguiu retornar com êxito à Venezuela. e manter. recentemente subjugada. 7 11 Seton-Wstson..p. por todo o Mar das Caraíbas espanhol — os fazendeiros se opuseram à lei e promoveram sua revogação em 1794". nesta. Lynch.sugerem claramente que a liderança estava nas mãos de ricos proprietários de terras.

em fins da década de 1770. também. porém. 276. 14 à qual estavam ligados de tantas maneiras. centralizou as hierarquias administrativas e promoveu intensa imigração de peninsulares. do próprio dinasta português. 125. ainda que fundamentais para a compreensão do impulso de resistência na América espanhola. em 1821. p. em parta. "no futuro. por vezes. Quando fugiu para o Haiti em 1816. o tarmo comum era ainda Lãs Espartas [As Espinhas] e não Espana (Espanha). os aborígenes não deverão ser chamados de índios. que tivera existência tranquila durante três séculos. Naquilo que. no início do século XVIII. na última metade do século XVIII. No finai do século. 4-17. deram origem a crioulos que. entre 1314 e 1316. de problemas fiscais crónicos a. " Ibid. até então. 206-7. restringiu em benefício próprio o comércio intra-hemisfério. 1B A Constituição da Primeira República Venezuelana t1B11) era. a agressividade de Madri e o espírito do liberalismo. A promessa foi cumprida em Caracas. p. Lynch. em 1808. em muitas partes. o nível da migração peninsular na década de 1780-1790 era cinco vezes maior do que havia sido entre 1710-1730. atingindo 14. 329 e 38B. Seton-Watson. O êxito da revolta das Treze Colónias. palavra por palavra. dos quais apenas 4. não deixaram de ter uma influência poderosa.000 eram utilizados no custeio da administração local. o capitalismo editorial não havia ainda chegado a esses analfabetos. em 1810. Bolívar mudou de opinião a respeito dos escravos 12 e San Martin. essa quantia quase quintuplicara. The Spanísh-American Revotutions. p. não expli15 Essa nova agressividade metropolitana era. 1759-1788) decepcionaram.000. tem sido sardonicamente chamado de segunda conquista das Américas. em parto. Bolívar. Bot/ver.18 Em parte alguma houve qualquer tentativa sé: ria de reinstaurar o princípio dinástico nas Américas. seu companheiro de luta pela libertação.000. por exemplo. além do fato de as diversas Américas compartilharem línguas e culturas com suas respectivas metrópoles. Elo libertou seus escravos pouco depois da declaração de independência da Venezuela. 13 Lynch.61 Contudo. irritaram e alarmaram cada vez mais a classe alta crioula. . a não ser no Brasil. * 18 Ibid. Quatro míriSBS iam para subsidiar a administracío de outras partes da América. enquanto seis milhões eram de puro lucro. significava transmissão relativamente rápida e fácil das novas doutrinas económicas e políticas que se estavam produzindo na Europa ocidental. tornou mais eficiente sua arrecadação. se deveram em parte è emancipação pela metrópole dos escravos leais. conseguiu ajuda militar do Presidente Alexandre Pétion. novos impostos. provia a Coroa com uma renda anual de cerca de 3. da dos Estados Unidos. "Não solicitara ao congresso que abolisse a escravatura.000 de pesos. " • Não há dúvida. e o começo da Revolução Francesa. Não há dúvida de que é verdade que as políticas implantadas pelo hábil "déspota esclarecido" Carlos III (r. Nada melhor para confirmar essa "revolução cultural" do que o republicanismo que impregnou as comunidades recém-independentes. em 1821. 1S O México.) Contudo. isso provavelmente não teria sido possível. Grifos nossos. (Ele permaneceu ali por treze anos e. por não querer atrair sobre si o ressentimento dos grandes proprietários de terra. em parta. P. em 1818 — mas é preciso lembrar que os êxitos de Madri na Venezuela. eles eram movimentos de independência nacional. teve seu filho coroado localmente como Pedro I do Brasil. deliberadarnente. não fosse a imigração..000. ao regressar. eles são filhos e cidadãos do Peru e deverão ser conhecidos como peruanos". que. The Spanisfi-Amerícan Revolutions. mesmo ali. p. produto das doutrinas do Iluminismo. p.) Eis então o enigma: por que precisamente as comunidades crioulas é que desenvolveram tão precocemente concepções de sua nation-ness — bem antes da maior parte da Europa? Por que essas províncias coloniais. 17. 16 Paralelamente à isso. Madri lançou 12 Não sem algumas idas e vindas. 14 Anacronismo. da guerra com a Inglaterra. torrada de emptíslímo. Naiions ertd States. 131. fortaleceu os monopólios comerciais metropolitanos. fragmentou-se tão subitamente em dezoito Estados distintos? Os dois fatores mais comumente mencionados como explicação são o enrijecimento do controle exercido por Madri e a disseminação das ideias liberalizantes do Iluminismo. Quando Bolívar sã tornou presidente da GrS-Colombia (Venezusta. abrangendo em geral grandes populações oprimidas que não falavam o espanhol. solicitou e obteve do Congresso uma lei libertando os filhos de escravos.. 53.000. redefiniram tais populações como compatriotas? E a Espanha. 301. de que a melhoria das comunicações através do Atlântico. 13 (Poderíamos acrescentar: a despeito do fato de que. como inimigo estrangeiro? Por que o Império hispáno-americano. Masur. Nova Granada e Equador). em troca da promessa de terminar com a escravidão em todos os territórios libertados. ou de nativos. p. em fins da de 1780." Masur. fugindo de Napoleão. decretou. No século XVIII. após 1779.

20) E outros tantos deram a vida voluntariamente pela causa. p. 24 Sua influência contribuiu também. tinham de fazer uma tortuosa viagem via portos espanhóis. TheForesíof Symbols. políticos e económicos. ano em que se haviam iniciado os movimentos pela independência''. A própria vastidão do Império hispano-americano. A configuração original das unidades administrativas americanas era. nove. sem dúvida. Não obstante. assinalando os limites espaciais de determinadas conquistas militares. a viagem por terra de Buenos Aires a Santiago demorava normalmente dois meses. Bolívar. é preciso examinar de que modo organizações administrativas criam significado. 'a* enorme variedade de seus solos e climas e. 20B. Bolívar. por si sós. as políticas comerciais de Madri resultavam em fazer das unidades administrativas zonas económicas separadas. e a Cartagena. Masur. (Apenas um exemplo: durante a contra-ofensiva de Madri. Aspecrsof Ndembít Ritual. and Pcvarty: Religi-ous Symbols c-f Cornmunitas"). p. síaíus e lugares. 678. O antropólogo Victor Turner tem escrito de maneira esclarecedora a respeito da "jornada". o da ideologia da Revolução de 1776. em curso de um lado a outro da América. não só na América como também em outras partes do mundo. p.1 sob a influência de fatores geográficos. Svmhotic Actron in Hatnan Soci&ty. Pois. entre tempos. a Venezuela e o México vieram a tornar-se emocionalmente plausíveis e politicamente viáveis. (Na época colonial. para a desintegração da efémera Grã-Colômbia de Bolívar e das Províncias Unidas do Rio da Prata em seus antigos elementos constitutivos (hoje em dia conhecidos como Venezuela-ColômbiaEquador e Argentina-Uruguai-Paraguai-Bolívia). Nem. 19 pulco levava quatro meses. em 1814-1816. sobretudo. afinal de contas. 25Ver. e a navegação espanhola tinha o monopólio do comércio com as colónias. especialmente a capítulo "BatwlM and Between: Thn Llminal Period ín ftius de Psssage". capítulo 5 ("Pilgiimages as Social Processes") e S ("Passagas. a imensa dificuldade de comunicações numa era pré-industriaí contribuíram para dar a essas unidades um caráter de auto-suficiência. apresentam a razão'dos verdadeiros sacrifícios que foram feitos." 23 Essas experiências ajudam à explicar por que "um dos princípios básicos da revolução americana" foi o do "utipossidetis. E então? O começo de uma resposta encontra-se no fato notável de que "cada' uma das novas repúblicas sulamericanas havia sido uma unidade administrativa entre os séculos XVI e XVIII". As mercadorias americanas. 22) Além disso. 21 Masur.e ern seu Dramas. por si sós. com o correr do tempo. saíramse muito bem com a independência ao longo do tempo. 2S Todas essas jor42 23 Lynch. prenunciaram os novos Estados da África e de partes da Ásia. p. arbitrária e fortuita. 19.de sua autoria. a jornada marítima de Buenos Aires a AcaO mesmo se pode dizer da postura de Londres diante das Treze Colónias. and Metaphors. The Spanish-AmericanRevotutíons. e a viagem de volta às vezes mais tempo. mercados regionais de caráter "natural"-geográfico ou político-administrativo. como uma experiência criadora de significado. 546. 21 Quanto a isso. 20Lynch. não criam lealdades. muitos membros concretos dessas classes. The Spanish-Amerícen Revolutions.62 63 cam. Fieids. Elaboração posterior mais e-nmplsxa ertcontra-s. Essa disposição ao sacrifício por parte de classes em situação confortável é matéria para reflexão. p. concebidas como formações sociais históricas. Margíns.. em meados do século XX. 25-6. por que entidades como o Chile. que viveram entre 1808 e 1828. Masur. S8-9 e 231. Quem estaria disposto a morrer pelo Comecon ou pela CEE? Para perceber de que modo unidades administrativas podem. elas desenvolveram uma realidade mais estável. ficaram financeiramente arruinados. e contrastam marcadamente com os novos Estados europeus do final do século XIX e início do século XX. em certa medida. embora seja certo que as classes altas crioulas. essas medidas eram apenas em parte executáveis e sempre continuou a haver certa porção de contrabando. p. "Toda competição com a mãe-pátria era vedada aos americanos e as distintas partes do continente não podiam sequer comerciar entre si. **lbid. vir a ser concebidas como pátrias. . porém. l9 nem por que San Martin devesse decretar que determinados aborígenes fossem identificados pelo neologismo "peruanos". Bolívar. Com o correr do tempo. segundo o qual cada nação manteria o status quo territorial de 1810. "mais de dois terços das famílias proprietárias de terras sofreram pesados confiscos''. Naturalmente. cf.

os funcionários dó absolutismo empreendiam jornadas que eram fundamentalmente diferentes das dos nobres feudais. assim. não podemos falar um com o outro?" Existe uma única resposta. Pôr certo. em oposição ao S ião.a Inglaterra. falantes de língua vulgar. onde a página impressa dificilmente penetrava. e leal a ele. Essas grandes instituições de fala latina congregavam o que hoje talvez víssemos como irlandeses. elas tinham. as mais importantes foram as diferentes viagens criadas pelo aparecimento das monarquias absolutas e. exatamente por essa razão. quando as aristocracias das províncias possuíam poder independente significativo . em oposição a uma nobreza feudal particularista e descentralizada. O berbere que encontra o malaio diante da caaba deve. 422 st saqs. finalmente. dinamarqueses. uma vez que se aprenda: "Porque nós. alemães e assim por diante. berberes e turcos em Meca é algo incompreensível sem uma noção de alguma forma de comunidade entre eles. Meca ou Benares fossem os centros de geografias sagradas. 27 Numa época pré-imprensa. 26 Como já assinalamos anteriormente. neste caso. ao descreve' corno "paregrincs" os agentes espectrais <Je Leopoldo II na profundeza das trevas. em comunidades cujo significado sagrado era diariamente revelado a partir da justaposição de seus membros no refeitório. '« Ver Bloch. através dos célebres "centros regionais" de aprendizado monástico. " Existe. sempre houve ura duplo aspecto da coreografia das grandes peregrinações religiosas: vasta multidão de analfabetos. indagar-se: "Por que esse homem está fazendo o que faço. e têm. 3° Essa diferença pode ser representada esquematicamente da seguinte maneira: na jornada modal feudal.64 65 nadas exigem interpretação (por exemplo. . Unificação significava permutabilidade interna de homens e documentos. mas também preciso. pronunciando as mesmas palavras que pronuncio e. O impulso inerente ao absolutismo era a criação de um aparato unificado de poder. a jornada modal é a peregrinação. a jornada do nascimento à morte deu origem a diversas concepções religiosas). A permutabilidade humana era favorecida peia arregimentação — naturalmente de extensão variável — de hominesnovi. Conrad estava sendo iionico. mas sim que sua centralidade era vivenciada e "realizada" (no sentido da arte cénica) pelo fluxo constante de peregrinos que se deslocavam em sua direção. "muçulmanos ou hindus. controlado diretamente pelo governante. executavam os ritos unificadores. no entanto. p. a estranha justaposição física de malaios. l.. o herdeiro do Nobre Á. Feudal Society. p.. e. os quais. Na verdade^ em certo sentido. Ssu papel nas revoluções vietnamita e indonésia e. em geral. Feudal Soctety. 29 Desse modo. 64. (c) os títulos não-dinâsticcsetam não só hersditárlos como conceptuais e legalmente distintas de postas administrativos: isto é." A "peregrinação secular" não deve ser tonada apenas como um tropo extravagante. dos impérios mundiais com centro na Europa. Embora as peregrinações religiosas sejam provavelmente as mais tocantes e grandiosas jornadas da imaginação. indianos. ascendia um degrau para ocupar o lugar daquele pai. por assim dizer. tem sido muito subestimado e muito mal estudado. (a) a monogamia era imposta pela religião B pela lei. persas. 23 Especialmente onde. Para nossos fins. enquanto que um pequeno segmento de iniciados letrados bilíngues. da cristandade ocidental em seu auge do que o fluxo espontâneo de fiéis seguidores vindos de toda parte da Europa para Roma.'não possuíam poder independente propriamente seu. os limites externos das antigas comunidades religiosas da imaginação eram determinados pelo tipo de peregrinação que as pessoas faziam. forneciam a densa realidade física da viagem cerimonial. Inventado apenas em 1895. as cidades de Roma. o rádio tornou possível ignorar a irnprensa e dar nascimento a uma representação auditiva da comunidade Imaginada. atuavam como emanações das vontades de seus senhores. na maioria analfabetos. na mente dos cristãos. equivalentes seculares mais modestos e limitados. Não é simplesmente que. nos nacionalismos da meados do século XX. somos muçulmanos". portugueses. interpretando para seus respectivos seguidores o significado de seu movimento coletivo.2S Para nossos fins. com a morte de seu pai. analogia evidente com os respectivos papéis ctas intetligentsias bilingues e dos operários a camponeses. justaposição que não se poderia explicar de qualquer outra maneira. Nada é mais impressionante a respeito ™ Ver Bloch. a realidade da comunidade religiosa imaginada dependia profundamente de inúmeras e contínuas viagens. oriundos 'de cada uma das comunidades de língua vulgar. vindos de localidades longínquas entre as quais não existia qualquer outra relação. II. (h) a primogenitura era a regra. Essa ascensão . na génese de determinadas movimentos nacionalistas — antes do advento do rádio.

O rancor e o sentimento de inferioridade d-e muitos crioulos em relação 9 metrópole iam-se tornando neles impulsos revolucionários". assumirem o monopólio. isso não aconteceu. até o centro para receber a investidura. se tornarão menores e mais firmes à medida que se aproxime do topo. Na verdade.Martin. Se os funcionários peninsulares podiam percorrer a rota de Saragoça a Cartagena. por al-gtim tempo. depara-se com companheiros de peregrinação igualmente ansiosos. para os domínios ancestrais. menos de 5% dos 3. é que traça sua carreira. obteve-se uma função centralizadora mais profunda. . O caso do Reino Unido. p. porém. parece não ter havido em momento algum mais de 400 sul-amerlcanps residentes na Espanha. e não a morte. pode retornar à capital no posto W. em vez do latim. toda pausa é provisória. 13 Na primeira década do século XIX. A permutabilidade de documentos. Escala suas geleiras por uma série de arcos que o circundam. Vê diante de si um cume e não urn centro. Às vésperas da revolução do México. Porém. em 1800. porém. não 16 deve exagerar essa racionalidade.000 indígenas) eram espanhóis nascidos na Espanha. Lima e de novo Madri.. em que os católicos foram Impedidos de exercer cargos públicos até 1829. como ele. Entre eles. que funcionários-peregrinos de Madri não fossem permutáveis com os de Paris. não é único. juntos!"). 18051 a "urn grupo de jovens suf-arnaricanos" qua.) Em princípio. dos 170 vice-reís da América espanhola antes de 1813. amante "americano" da rainha Maria Lulsa.000peninsulares. a seguir. Então. pela restrição do deslocamento dos funcionários de um so- berano para as máquinas de seus adversários: por assim dizer. com a experiência de tê-los como companheiros de viagem. em princípio. Por exemplo.66 67 exigia uma viagem de ida e volta. normando e inglês primitivo em Londres. quando soube ds sua declaração do Independênciaj e Ba II vá r qua. argumentar que.. Nessa jornada. que foi levado para a Espanha quando criança. contudo. "eram ricos. crioulo que ascendesse a um posto de importância oficial na Espanha. e termina sua peregrinação na capital no posto Z. ociosas s mal vistos na Corte. não há lugar seguro de repouso. se o funcionário A. oriundos de lugares e de famílias de que pouco ouviu falar e que espera certamente jamais ter de ver. onde aconteceu de línguas vulgares. da província C. The Spsnísh-Ameiican ftevolaiions. A racionalidade instrumental do aparato absolutista — sobretudo sua tendência a recrutar e promover com base no talento e não no nascimento — funcionou apenas intermitentemente para além do litoral oriental do Atlântico.. que fortalecia a permutabilidade humana. sobretudo quando todos compartilham de uma única língua-de-Estado. seus colegas funcionários. emerge uma consciência de conexão ("Por que estamos nós. 32 E não é preciso dizer que dificilmente se sabia de algum. pois ele não tem pátria com qualquer valor intrínseco. Masur conta que Bolívar pertencia [c. do século XI ao XIV. foi hóspede em Madri de Manuel Mello. Enviado para a municipalidade A no posto V.000 crioulos "brancos" do Império Ocidental (que se impunham aos cerca de 13. Como demonstra a imponente sucessão do anglo-saxão. Esses números são ainda mais impressionantes se observarmos que. melada eram soldados. O talento. apenas 4 foram crioulos. os próprios homens novos elaboram. (Pode-se. Madri. e de retorno à casa. o "argentino" San. o crioulo "mexicano" ou "chileno" típico presta31 Evidentemente. enquanto o funcionário D. desempenhar essa função — desde que se lhe atribuam direitos monopolísticos. Haverá quam duvide que essa prolongada exclusão tenha desempenhado papel Importante no fonalecirnanto do nacionalismo Irlandês? 11 Lynch. latim. vindo da província B.200. prossegue para o vice-reino C no posto Y. Botfver. para a província B no posto X. os quais. qualquer língua escrita pode. aqui. Para o novo funcionário. as coisas são mais complexas. espera. vai. 41-7 e 468-70 (San Marttn). 293. a expansão extra-européia dos grandes reinos do início da Europa moderna teria simplesmente ampliado o modelo acima ao desenvolver as enormes burocracias transcontinentais. tanto quanto o soberano. administra a província C. 18-9. ingressou na Academia Real para jovens fidalgos/ e desempenhou papel destacado na luta armada contra Napoleão antas de regressar à terra natal. A última coisa que o funcionário quer é regressar à pátria. embora os crioulos no vice-reinado superassem os peninsulares na proporção de 70 para 1. administra a província B — situação que o absolutismo começa a tornar provável — essa experiência de permutabilidade exige uma explicação própria: a ideologia do absolutismo que. as peregrinações de funcionários crioulos não eram barradas apenas verticalmente. 33 Além disso. Descerca de 1 S. p.700. só havia um bispo crioulo. garantindo.. e ali passou os 27 anos seguintes. nutria-se do desenvolvimento de uma língua-de-Estado padronizada.31 O padrão é muito evidente na América. E mais: em sua rota espiral de ascensão.

virtualmente a mesma rela. desempenharam papel cada vez mais crítico. Hoje em dia. em número cada vez maior e com crescente enraizamento a cada geração que se sucedia. iomò irremediavelmente contaminadorpara qualquer "branco". defendendo os portos venezuelanos contra os invasores. Da perspectiva do soberano. nascido na Espanha. "A Espanha não possuía nem dinheiro nem efetivos para manter grandes guarnicães do tropas regulares na América. origem familiar. distante treze mil quilómetros. (Masur. dispor prontamente dos recursos políticos. os quais acabavam por perceber que o companheirismo entre eles não se baseava apenas naquele determinado . religião.. pode-se observar certo paralelismo entre a posição dos magnatas crioulos e a dos barões feudais. em 1800) remotamente afastados da Europa. ergo. mas também eram essenciais à estabilidade do império. o "mulato" é peça de museu. que compartilhavam. sobreposto aos crioulos. a cristandade e a cultura europeia. em princípio. 3S Ainda que o vice-rei fosse uma pessoa eminente em sua terra andaluza. era a capital da unidade administrativa imperial em que se encontrava. nessa peregrinação limitada encontrava companheiros de viagem. quão irracional deve ter parecido sua rejeição! Não obstante. 10. os peninsulares enviados como vice-reis e bispos desempenhavam as mesmas funções que os hominesnovi das burocracias proto-absoluttstas. "eia axiomático que os sitos postos fossem praenchidos exclusivanrente por eSpanh-Sis naios". . em termos de língua.69 vá serviços nos territórios do México ou do Chile coloniais. o mesmo não se dava em relação aos crioulos. isto é. Bolívar. pelo menos nos Estados Unidos. à medida que se multiplicavam as incursões britânicas. p. sob o imperialismo. uma expressão da velha política do divide et impera. do século XVI em diante. não podia ser um verdadeiro espanhol. Consti." (Ibid. oculta na irracionalidade estava esta lógica: nascido na'América. Com isso em mente. Desse modo. 10. em novo cenário. o centro administrativo mais alto para o qual podia ser designado. Contudo. ò peninsular não podia ser um verdadeiro americano. Gilmore. Em outras palavras. O mais ligeiro traço de "sangue negro" torna a pessoa inteiramente negra. seu movimento lateral era tão tolhido quanto sua ascensão vertical. O próprio Bolívar. 34 maquiavelismo com o desenvolvimento de concepções de contaminação biológica e ecológica. apresentavam um problema político historicamente singular. e hio peças intercambiáveis de um aparato continental de segurança. po:diam. ou maneiras. O '. do nascimento trans-Atlântico. o acidente do nascimento na América destinava-o à subordinação — ainda que. J810-J910 capítulos 6 ("The Militia"! a 7 ("Thia Mllitary"). exclusão parecesse racional na metrópole? Sem dúvida a confluência de um venerável Com a correr do tempo. O equilíbrio tenso entre o funcionário peninsulaj e o magnata crioulo era. Boltvar. Não havia nada a fazer quanto a isso: ele era irremediavelmente um crioulo. com as armas. aqui.'sangue negro" — a nódoa negra — veio a ser visto. Inversões semelhantes ocorrem em reação ao racismo. foram ampliadas e reorganizadas.trecho da peregrinação. Masur. Desse modo. mas na fatalidade. que tinham. Da 1760 em diante. ís Dada a grande preocupação de Madri com que a administração das colónias estivasse em mios confiáveis. Ainda que tivesse nascido na primeira semana dep. p. CaudiUism antf Militarism ir> Venezuela. ele era efetivamente um homo novus inteiramente dependente de seu patrão metropolitano. 35 O que fazia com que essa. assim. VerRobert G. a partir de meados do século XVIII. o ápice de sua escalada espiral.ois da migração do pai. Se os indígenas podiam ser conquistados pelas armas e pelas doenças. as peregrinações militares tornaram-se tSo importantes quanto as civis. fundamentais para o poder do soberano. 30 e 381. 34 Contudo. fosse praticamente indistinguível de um espanhol nascido na Espanha. • ís Observe as transformações que a independência trouxe para os-americanos: os Imigrantas de primeira geração tornavam-se agora "os mais baixos" ao invés de "os mais altos". culturais e militares para se afirmarem com êxito. p. que se seguiram à disseminação planetária de europeus e do poder europeu.• cão >que os metropolitanos. f) contava principalmente com milícias coloniais que.. ele foi típico da muitos da primeira geração de lideras nacionalistas da Argentina: da Venezuela e do Chllê. os crioulos americanos. mas também uma ameaça a ele. e controlados pelos mistérios da cristandade e de uma cultura inteiramente estranha (bem como pôr' uma organização política avançada para a época). quando adolescente. Deviam ser economicamente subjugados e explorados.. Pela primeira vez. as metrópoles tinham que lidar com números — para aquela época — enormes de "patrícios europeus" (mais de três milhões na América espanhola.' tuíam simultaneamente uma comunidade colonial e uma classe superior. Quanto a isso. Compare isso com o programa otimista de miscigenação de Fermín e sua ausência de preocupação com a cor da descendência esperada. as doenças. aqueles mais contaminados por um local ds nascimento inevitável. O pai de Bolívar fora um aminônte comandante de milícia. servira na antiga unidade de seu pai.) Essas milícias eram inteiramente locais.

'havia perto de um milhão de escravos entre os cerca de 2. entre 1574 e 1606. eurafricanos.. p. nossa atenção tem-se concentrado nos interesses dos funcionários na América — importantes. combatendo veementemente a admissão de indianos e eurindianos ao sacerdócio. mas também em certas partes da África e da Ásia. The Portuguese Revotution ancf tfis Armed Forces Movement. (No entanto. 257-B. p. alegando que "mesmo quando nascidos de pais brancos puros. perniciosa tendência foi dada pelo renascimento da escravidão em larga escala (pela primeira vez na Europa. porque o tema principal de que estamos tratando é o surgimento do nacionalismo crioulo. 10% da população de Lisboa era de escravos. mais antigo dos conquistadores planetários da Europa. o autocrata esclarecido Pombal não só expulsou os jesuítas dos domínios portugueses. ainda assim. 1415-1825.. inadequados para cargos de maior importância. 41 Ainda mais tipicamente. em comparação com a prática anterior. porém. devemos aceitar muito pouco deles. a qual teve o pioneirismo de Portugal a partir de 1510. mestiços em número suficiente?) Analogamente. nem a disposição de uma metrópole n Só emeacada de proteger (-até ce-lo ponto) esses infelizes. 3»lbid. 40 Indiretamente. têm o sangue contaminado por toda a vida". uma vez que quanto mais sangue nativo possuem. portanto.000 habitantes do Brasil português. diferentes dos metropolitanos e inferiores a eles — e. *3 Até aqui. porém» encontramos Alexandre ^Valignano. assim. Justificou. Seu surgimento permitiu que prosperasse um estilo de pensamento que prenuncia o moderno racismo. mas como grupos sociais evidentes. <3 Tenho ríslçado aqui as distinções rací-sias entre peninsulares e crioulos. Isso não deve ser compreendido como minimização da crescimanto paralelo do racismo crioulo em relação a mestiços.. o crescimento das comunidades crioulas. mais se assemelham aos indianos e menos são estimados pelos portugueses. que afirmavam que o clima e a "ecologia" tinham efeito constitutivo sobre a cultura e o caráter. 253. até que suas extensões territoriais puderam ser imagi*° Rona Fields. Nationalism.' fornece uma ilustração adequada disso. Portugal. esse decreto citando antigas concepções romanas de cidadania imperial. tais como "negro" ou "mestiço" [sic]. Além disso. No curso de seus vinte e dois anos no poder (1755-1777). levou inevitavelmente ao aparecimento de eurasianos. D. 41 Boser. p. ou nenhum. p. eram. com seus conflitos entre peninsulares e crioulos. o Iluminismo influenciou também a cristalização de uma distinção irrevogável entre metropolitanos e crioulos. mas. especialmente com respeito aos mestiços. eram interesses que. 42 A partir daí.70 71 Ademais. o.. desde a antiguidade). pela própria natureza. negros e índios. era extremamente fácil fazer a dedução vulgar e conveniente de que os crioulos. 37 Menos de um século depois. os franciscanos portugueses de Goa combateram violentamente a admissão de crioulos na ordem. o grande reorganizador da missão jesuíta na Ásia. 15. bem como euramericanos. ' 9 lbld. Valignano estimulou ativamente a admissão de japoneses. nos seguintes termos: 3S -> Todas essas raças pardas são muito broncas e corrompidas e de índole a mais torpe. nascidos em um hemisfério selvagem. em 1800. antecipavam o aparecimento da consciência nacional americana dos fins do século XVIII. 39 Boxer demonstra que as barreiras e exclusões "raciais" aumentaram notavelmente no correr dos séculos XVII e XVIII. e não as doutrinas dos philosophes. The Portuguese Seaborne Empire. Manuel I pôde ainda "resolver" sua "questão judaica" pela conversão obrigatória em massa — sendo possivelmente o último governante europeu a considerar essa solução não só satisfatória como "natural". estrategicamente. coreanos.500. nessas regiões. The Portuguesa Seaborne Èmpirc. . *2 Kernilàinen. p. como também classificou como infração criminosa chamar os súditos "de cor" por nomes ofensivos. Já na década de 1550. Boxer. interesses menores. Pesada contribuição para essa ''Charles R. Na última década do século XV. chineses e "indochineses" à profissão sacerdotal — talvez por não haver ainda. não como curiosidades casuais. as obras de Rousseau e de Herder. 252. p. principalmente nas Américas. exerceram ampla influência. 286. 72-3. As peregrinações vice-reais limitadas não tiveram consequências decisivas. foram amamentados por aias indianas na primeira infância e. Quanto aos mestiços e castiços.

o jornal de Caracas. frequentemente. e sua produção era quase que exclusivamente ligada à Igreja. Um traço criativo desses jornais era sempre seu provincianismo. Os periódicos hispano-americanos que se desenvolveram no final do século XVIII eram compostos com plena consciência da existência de provincianos em mundos paralelos ao seu. mas muitos funcionários peninsulares. a mais valiosa das possessões da América espanhola. esta. de Buenos Aires e de Bogotá. um fenómeno essencialmente norte-americano.72 73 nadas como nações. porém. norte ou sul-americanos? Eles começavam fundamentalmente como prolongamentos do mercado. Na América espanhola.mais lento e intermitente. a alternância entre seu extenso âmbito e seu localismo particularista. criava uma comunidade imaginada entre uma determinada congregação de companheirosleitores. este preço cora aquele bispo. 47 De fato. Lembram-nos que "a imprensa de fato não se desenvolveu na América do Norte durante o século XVIII. 46 Quais eram as características dos primeiros jornais. porém. estavam no entanto perfeitamente conscientes de sua existência. na segunda metade do século XVIII. processo semelhante deu origem. à qual pertenciam esses navios. Na América do Norte protestante. casamentos dos ricos. as pessoas pen47 48 Franco. não leriam o que se produzia em Caracas se pudessem deixar de fazê-lo. de início. da menos de 2. não diria nada sobre seu mundo). 461 dos quais duraram por mais de dez anos. desenvolveu-se uma associação tão estreita com o agente do correio que. noivas. porém. corno nuestra América\m sido interpretado como revelador da vaidade dos crioulos locais que. -Os leitores de jornal da Cidade do México. 33. Uma vez que o principal problema enfrentado pelo gráfico-jornalista era atingir os leitores. porém. a imprensa praticamente não existiu nesse século. era a própria estrutura da administração e do sistema de mercado coloniais. . até o advento do capitalismo editorial. só se podia esperar que. Em outras palavras. se tivesse oportunidade. podia ler um jornal de Madri (o qual. ainda que não lessem os jornais uns dos outros. ainda que de modo. 44 A figura de Benjamin Franklin está indelevelmente associada ao nacionalismo crioulo na América do Norte. Um crioulo colonial. "'"'The Cornin9 of the Book'Pi 208"11 • Lvach. por ser o México. até que os impressores descobrissem uma nova fonte de renda — o-jornal". para que mercadorias. A importância de seu negócio. Naturalmente. corno nosotros los americanos e. em que portos). só havia gráficas na Cidade do México e em Lima.palavras. sobre seu país. Até fins do século XVII. Daí a conhecida duplicidade do nacionalismo hispano-arnericano primitivo. teve lugar uma verdadeira revolução. p. Entre 1691 e 1820. por toda a América espanhola. e assim por diante. pode ser menos evidente. Outro traço desse tipo era a pluralidade. em outras. se consideravam o centro do Novo Mundo. sobre si mesmos. The Spsnísk-AmerJcen fievaSulions. Daí ter a oficina gráfica surgido como o ponto chave das comunicações e da vida intelectual da comunidade nos EUA. bem como ordenações políticas coloniais. "5 Os gráficos que abriam novas oficinas incluíam sempre um jornal em sua produção. morando na mesma rua. No correr do século XVIII. do qual eram comumente o colaborador principal. aí entrassem elementos políticos. que podia repetir-se infinitamente em outras situações coloniais. senão único. o gráficojornalista foi. p. Desse modo.120 "jornais". foram editados na-. 28. às primeiras gráficas locais. com o correr do tempo. mas permaneceu durante dois séculos sob o estrito controle da coroa e da Igreja. Assim. na mesma página. eles se tornavam um só. de maneira muito natural e até mesmo apolítica. de longe. Os mais antigos jornais continham — ao lado de notícias sobre a metrópole — notícias comerciais (partidas e chegadas de navios. bispos e preços. Assimetria. Mais uma vez. O fato de os primeiros nacionalistas mexicanos escreverem. este casamento com aquele navio. o que colocava lado a lado. An Introduction. Febvre e Martin nos esclarecem. quais os preços. A imprensa chegou cedo à Nova Espanha.

49 do que a Venezuela e equivalente a um terço do tamanho da Argentina. pára atuar como uma Argentina em relação ao Peru das Treze Colónias? Até mesmo nos EUA. meses mais tarde. 200-1. é conveniente voltar a acentuar a pretensão limitada e específica da exposição que fizemos até aqui. e. 51 À guisa de conclusão provisória.78 savam em si mesmas como "americanas". não seria provável que tivesse surgido ali um Estado independente. p. há elementos de "fracasso" ou retração comparáveis — a não incorporação do Canadá de fala inglesa. à medida que populações antigas e novas se deslocaram rumo ao oeste a partir do núcleo litorâneo do leste.860. em quão importante é. os indígenas foram mais bem tratados do que em qualquer outra parte da América espanhola 9 o Guarani alcançou o steíus <Je língua impressa. uma ideia de simultaneidade firme e sólida através do tempo. Nova York e Filadélfia eram facilmente acessíveis uns aos outros e suas populações ligadas de maneira relativamente firme pela imprensa. digamos. tivesse existido uma comunidade de fala inglesa de bom tamanho na Califórnia. no século XVIII. feita por Márquaz em Cem anos de solidão. O que se pretende é menos explicar as bases socioeconômicas da resistência antinietropolitana no hemisfério ocidental entre. o "fracasso" da experiência hispanoamericana em gerar um nacionalismo de âmbito hispanoamericano permanente reflete. As Treze Colónias originárias compreendiam uma área menor "Um peão velo queixar-se de que um inspetor espanhol de sua estância havia batido nele.. a década de soberania independente do Texas (1835-1846). O Paraguai constitui um caso de excepcional interesse. Nesse sentido. não dos do Rio da Prata.776. vimos que a própria concepção do jornal implica na refracão de "eventos mundiais" idênticos em um determinado mundo imaginado de leitores na língua vulgar. veja sol Depois de três anos de revolução.74 .total das Tieze ColCnlas era de 835. das Províncias Unidas do Rio da Prata. um impacto significativo sobre seu alcance. hoje. mas isso se daria por intermédio dos jornais mexicanos. 49 Evocação fascinante da lonjura e do isolamento das populações hispano-americanas á a descrição da fabulosa Macondo. e o atraso "local" do capitalismo e da tecnologia na Espanha em relação à extensão administrativa do império. um maturrango [vulg. mesmo no caso dos EUA. -o território passou para o Rio de Praia. 87. o nível geral de desenvolvimento do capitalismo e da tecnologia em fins do século XVIII. Não será o nacionalismo indiano inseparável da unificação administrativa e de mercado da colónia.202 quilómetros quadrados. San Martin ficou indignado. mas multo tardiamente & por pouco mais de uma geração. A imensa extensão do Império hispano-americano e o isolamento de suas partes componentes tornavam difícil imaginar uma simultaneidade como essa. "8 Ao mesmo tempo. M Estando todas elas juntas geograficamente. (A época da história mundial em que nasce cada nacionalismo tem. a ponto de precipitar uma guerra de secessão quase um século depois da Declaração da Independência. realizada por poderes imperiais os mais terríveis e avançados?) Ao norte. e tais acontecimentos antes pareceriam "ser semelhantes aos" acontecimentos ocorridos no México. tanto quanto pelo comércio. 'Ora. p. da Argentina.. essa guerra nos faz lembrar vivamente as que separaram violentamente a Venezuela e o Equador da GrãColômbia. VarSaton-Watson.'Se. os crioulos protestantes de fala inglesa estavam em posição muito mais favorável para concretizar a ideia de "América" e.£3-0. 1760 e 1830. associados à rápida expansão da fronteira oeste e às contradições geradas entre as economias do norte e do sul. . e da América do Sul hispínica.439. uma vez que essa expressão denotava precisamente a fatalidade do nascimento extra-espanhol que compartilhavam. também. Graças à ditadura relativamente benevolente alt estabelecida pelos jesuítas em princípios do século XVII. Contudo. os mercados de Boston. tJaliorr$ ancf States. e. acabaram por ter êxito em apropriar-se do título habitual de "americanos". de acontecimentos ocorridos em Buenos Aires. na verdade. 8." Ibid. Os "Estados Unidos" puderam multiplicar gradativamente seu número no correr dos 183 anos seguintes. para essa comunidade imaginada. 2. ao mesmo tempo. provavelmente. do que "fazer parte deles". A da Venazuala. espanhol peninsular] se atreve a erguer a mão para um americano!'. em 1767. *9 Os crioulos mexicanos podiam saber. mas era antes uma indignação nacionalista do que socialista. os laços afetivos de nacionalismo foram suficientemente elásticos. após a Insurreição. 311. e o Uruguai e o Paraguai. Com a expulsão dos jesuítas da América espanhola pala Coroa.965 dui!õrnetros quadrados. do que a razão por que a resistência se concebeu sob formas 50 51 A superfície.

o grande Johann Gottfried von Herder (1744-1803) declarou. es liai seine National Bil- . algo a que se podia aspirar desde o início. o tipo. nem o Iluminismo podiam criar. que: "Denn/ecfes Volk i st Volk. p. de comunidade imaginada que se protegesse contra a espoliação daqueles regimes. 52 No cumprimento desta tarefa específica.76 nacionais "plurais" — e não de outras formas. Em primeiro lugar. nenhum deles proporcionou o quadro de uma nova consciência — a mal percebida periferia de sua visão. . ANTIGAS LÍNGUAS. todos tiveram condições de aluar a partir de modelos disponíveis propiciados por seus predecessores remotos e. ern outras palavras.após as convulsões da Revolução Francesa. 105. Com leviana despreocupação a respeito de alguns fatos evidentes extra-europeus. enquanto a patavra "nação" só aparece pola primeira vez na Constituição de 1789. Se considerarmos o caráter desses novos nacionalismos que. imprevistas. Netionslism. as "línguas impressas nacionais" foram de fundamental importância ideológica e política. ou criaram. como veremos. assim. alteraram a fisionomia do Velho Mundo. sobretudo propiciando um arsenal de crítica ideológica do regime imperial e dos anciens regimes. Por isso. obviamente. Os interesses económicos ern jogo são bem conhecidos e. entre 1820 e 1920. o centro de nossa análise será a língua impressa e o plágio. por si sós. de importância fundamental. Ela se tornou suscetível de plágio por mãos as mais variadas e. e não que se fosse definindo gradativamente. não tão remotos. Na verdade. O que estou sugerindo é que nem o interesse económico. Em segundo lugar. neste capítulo. O liberalismo e o Ihiminismo tiveram evidentemente um efeito muito forte. nem o liberalismo. os funcionários crioulos peregrinos e os homens de imprensa crioulos provincianos tiveram o papel histórico decisivo. O término do período de movimentos de libertação nacional bem-sucedidos na América coincidiu quase que exatamente com o início da época do nacionalismo na Europa. em fins do século XVIII. ou a forma. por vezes. A "nação" tornou-se. em quase todos.— em oposi-. cão ao que estava no foco central de sua admiração ou desagrado. NOVOS MODELOS 54 É ilustrativo que a Declaração da Independência de 1776 fale somente de "o povo". enquanto que o espanhol e o inglês jamais foram temas na América revolucionária.' Kcrnílãinen. dois traços notáveis os distinguem de seus precursores. a "nação" mostrou ser uma invenção que era impossível patentear.

' ["Assim. Voltaire e Rousseau que. cada vez mais. da cristandade. "Na época de Luís XIV. p. uma vez que foram compostas como críticas a sociedades contemporâneas. O desenvolvimento do que se pode chamar "história comparada" levou.78 79 dung wie seine Sprache". [Isso tornou impossível] restabelecer a vida autárquica natural da antiga cultura.) O impacto das "descobertas" pode ser aferido pelas geografias peculiares das sociedades imaginárias da época. com 69 anos. mais limitadamente. de Swift (1726).) Todas essas utopias enganosas. a "descoberta" feita pela Europa das grandiosas civilizações de que até então só se ouvira falar vagamente — na China. Observe que Auerbacn diz "cultuis" e não "língua".es e as ciências haviam atingido plena prosperidade em seu próprio tempo e lugar. Com seu programa de restauração das antigas formas de vida e de expressão. KemilâMen.. rettala um Imperador contemporâneo reinante n 358-1707]. em tempo e espaço. o período intermediário de trevas da Idade Média. e de modo algum necessariamente em benefício desta última. em 1497-1498. à concepção até então inaudita de uma "modernidade" explicitamente justaposta à "antiguidade". sobre esse pano de fundo. 4 No correr do século XVI. quando Charles Perra u't. Moníesquieu. há um claro contraste entre os cois famosos mongíis do teatro inglês. de Dtyden. Deveríamos também sar parcimoniosos. p. 3 Citando mais uma vez Auerbach. apresentava um mapa fictício de sua localização no Atlântico Sul. fictício ou real. Grifos nossos. mas como sociedades contemporâneas. . os franceses tiveram a 'coragem de considerar 1 2 3 sua própria cultura como um modelo válido em igualdade de condições com a dos antigos.esf" a assa "sua própria". o qual participara da expedição de Américo Vespúcio à América. publicou seu poema Síécíe de LQUIU lê Grend. Em sua maior parte.. nas teorias subsequentes sobre a natureza do nacionalismo. que teve início já no século XIV. 5 Analogamente. que afirmava que as ar. A majestosa Ilha dos Houyhnhnms. Sudeste da Ásia e no subcontinente indiano — ou que eram completamente desconhecidas — o México asteca e o Peru incaico — sugeria um irremediável pluralismo humano. bem como os da Bíblia. (Somente o tempo homogéneo e vazio permitiria acomodálas. simulava ser o relato de um marinheiro que o autor encontrou em Antuérpia. pela expansão planetária da Europa. surgida em 1516. Aurangieb \fàlfi). na verdade do homem: suas genealogias eram exteriores e inaâsimiláveis ao Éden. Poderia afirmar-se que tinham de ser assim. A Utopia de Thomas Morus. 42. ele possui sua formação nacional como possui sua língua". Viço. 282. Quais as origens desse sonho? O mais provável é que. descreve um fabuloso dirtasta morto desde 1407. M/mesis. não estavam separados do presente unicamente por uma extensão de tempo. e que as descobertas tinham dado fim à necessidade de buscar modelos em uma antiguidade desaparecida. Como bem o diz Auerbach: 2 Com a primeira alvorada do humanismo. Grifo nosso. "modeladas" sobre descobertas reais.8]. de maneira bastante paradoxal. Nstionalism. da Marlowe. o humanismo cria uma perspectiva histórica em profundidade tal como nenhuma época anterior de que temos conhecimento jamais possuiu: os humanistas vêem a antiguidade em profundidade histórica e. 343. Japão. p. A batalha se iniciou em 1639. ex* Mimesis. e impuseram essa opinião ao resto da Europa". (Ô significado desses cenários fica mais claro se se considerar quão inimaginável seria localizar a República de Platão em qualquer mapa. Tamburlaifia r/te Qraat (1587-158. ou a ingenuidade histórica dos séculos Xíl e XIII.se encontrem na profunda redução do mundo europeu. da antiguidade. com o tempo. todo povo é povo. A Nova Atlântida de Francis Bacon (1626) foi talvez original sobretudo porque se localizava no Oceano Pacífico. essas civilizações haviam-se desenvolvido completamente isoladas da história conhecida da Europa. são descritas. em atribuir "fisrton-r. A questão foi encarniçadamente debatida na "Batalha dos Antigos e Modernos" que dominou a vida intelectual francesa na última quarta parte do século • XVII.] Essa concepção notavelmente e«£-européia da nation-ness como algo vinculado a uma língua própria e exclusiva teve ampla influência na Europa do século XIX e. causado inicialmente pelas escavações dos humanistas e» posteriormente. vieram os astros do Ilumimsmo. não como Paraísos perdidos. mas também por condições completamente diversas de vida. 5 Na esteira dos utopistas. começou a havei1 um sentimento de que os eventos da história e da lenda clássicas.

6 No devido teiripo. ainda que com o risco de menor domínio da área. classificação de línguas em famílias e. Os rriourejadores visionários que dedicavam anos e anos à compilação dos dicionários eram necessariamente levados para as grandes bibliotecas dá Europa. de caráter científico. hoje em dia. pelos usuários da língua. Como nos mostra de maneira muito proveitosa SetonWatson. '? A vigorosa atividade desses intelectuais profissionais foi fundamen. em geral'. Mas por quem? Logicamente.Os dicionários raonolíngúes eram enormes compêndios do tesouro impresso de cada língua. dentro das capas do dicionário Checo-alemão/Alemão-checo. pôr seusnovps' donos: os falantes — e leitores — nativos de cada língua. sobretudo as das universidades. económica e social convencional. 9 0 A partir daquele momento. p. Pa conquista inglesa de Bengala se originaram as investigações pioneiras de William Jones sobre o sânscrito (1786). The Age of Revolulion. "que multiplicou a antiguidade extra-européia. um dos aspectos mais valiosos do texto de Seton-Wauon é exatamems a stençáo que dedica à historia da língua — embora se possa discordai do modo como a utiliza. por dedução científica.degradação anterior no mercado pelo capitalismo editorial. é quçtfné pareceu desejável associá-la a estas. as descobertas e conquistas causaram também uma revolução nas ideias europeias a respeito da língua. "Â língua tornouse menos urna continuidade entre um poder exterior e o falante humano do que um terreno interior criado e realizado. com seus estudos de gramática comparada. em princípio. que seriam reunidas em dicionários elementares. eram todas igualmente dignas de estudo e de admiração'. 11.ximador entre as línguas — fosse qual fosse a realidade política exterior. A marginalizarão do Império do Centro para o Extremo Oriente é simbólica desse processo. p. ali estava "a primeira ciência a encarar a evolução comp sua própria essência". é. realmente se iniciou. "Exatsmente porque a historiais língua. possuíam idêntico staíus. Mas somente em fins do século XVIII é que o estudo comparado de línguas. ' Hobsbawm. holandeses e espanhóis. reconstruções de "protolínguas" tiradas do esquecimento. lado alado. 337. De fato. mantida tão rigidamente separada da historia política. que levou a uma compreensão crescente de que." Nations and States. Se agora todas as línguas compartilhavam um status (intra)mundano comum. de estudantes universitários ou préuniversitários. na Europa e em sua periferia imediata." 8 Dessas descobertas surgiu a filologia. Otientatism. oficina para a escola. conversão. filologistas e literatos das línguas vulgares. as antigas línguas sagradas — o latim. em total contraste com a situação na América entre 1770 e 1830.. escritório para a casa. então. 8 Edward Said. ou a melhor. tornou-se possível pensar a Europa como apenas uma entre muitas civilizações. iam-se concebendo genealogias que só poderiam conciliar-se em um tempo homogéneo e vazio. p.• tal na moldagem dos nacionalismos europeus do século XIX. De lato. num movimento que complementava sua . outras civilizações se viam traumaticamente confrontadas por pluralismos que aniquilavam suas genealogias sagradas. p. gramáticos. uma idade do ouro para os lexicógrafos. e não necessariamente a Escolhida. Da expedição de Napoleão ao Egito veio a decifração dos hieróglifos por Champollion (1835). The Age of Revolution. Os dicionários bilíngues tornavam evidente um igualitarismo mais apro. 7 Progressos nos estudos semíticos abalaram a ideia de que o hebreu fosse singularmente antigo. do. marinheiros. A afirmação de Hobsbawm de que "o progresso das escolas e das universidades dá a medida do nacionalismo. comércio e guerra — colecionaram listas de palavras de línguas não-européias. o grego e o hebreu — foram obrigadas a misturar-se em condições de igualdade ontológica com variegada e plebeia multidão de línguas vulgares rivais. Desde os primeiros momentos. Como observa correiamente Hobsbawm. ou de proveniência divina. por motivos práticos — navegação.'. uma vez que agora nenhuma delas pertencia a Deus. 136. entre eles mesmos. e particularmente as 10 Assim. . o século XIX foi. que se podiam transportar (ainda que às vezes com dificuldade) da . comerciantes e soldados portugueses. exatamente como as escolas. a civilização indiana era muito mais antiga do que a da Grécia ou da Judéia. s Hobsbawm. ou por elas sustentados.80 81 pioraram uma não-Europa "real" para uma bateria de obras subversivas dirigidas contra as instituições sociais e políticas europeias então vigentes. Mais uma vez. enquanto o imperialismo europeu abria vigorosamente seu caminho descuidado pelo mundo. 337. não menos inevitavelmente. as línguas. missionários. E a maior parte de sua clientela imediata constituía-se.

ver Narions and States. o grande novo porto russo rfe grãos". escreve Ignotus ser ele um acontecimento "suficientemente recente no tempo: 1772. em fins do século XVIII. apareceram gramáticas.82 83 universidades. o extraordinário trabalho de estudiosos alemães. "The Present State of Cívilization In Greece" encontra-se nas p. franceses e ingleses não apenas havia tornado acessíveis. não lança os gregos no desespero: somos os descendentes dos gregos. p.000. Geschichte der bòhmische Sprache una ãltern Literatur. foi fundada "em Odessa. ou devemos tentar tornar-nos novamente dignos desse nome. p. numa população de 68. l5 Entre 1789 e 1794. o checo fosse ainda a língua apenas dos camponeses da Boémia (a nobreza e as classes médias ascendentes falavam o alemão). a sociedade secreta responsável sm grande medida pelo levante antiotomano de 1821. embora a educação se disseminasse rapidamente na primeirã metade da século XIX. O próprio Hobsbawm observa que. ano da publicação de algumas obras ilegíveis do versátil autor húngaro GyÕrgy Bessenyei. em 1848. se tornou um ardoroso lexícógrafo!). em 1814.000 estudantes universitários em toda a Europa. Em 1835-1839. em Paris. e um total aproximado da 48. p. a Academia Russa. eles n5o desempenharam virtualmente pape! algum na Revolução Francesa (p. até que a explosão total final transforma a noite em dia. fulgurante e firmemente pagã. esse grupo reduzido. porém.000 estudantes de lyoée na França. inicialmente bem-sucedido nos reinos dos Habsburgos e. proveitosamente. embora houvesse 6. No último quartel do século. ou não devemos ostentá-lo. Grifo nosso. esse "passado" tornouse cada vez mais acessível a um pequeno número de jovens intelectuais cristãos de fala grega. uma gramática oficial. seguidos de um movimento. p. p. a nação reconhece o espetáculc horroroso de sua ignorância e estremece ao avaliar a distância 11 que a separa da glória de seus ancestrais. em discurso para um público francês. quando cada pequena explosão acende outras. na época morando em Viena e trabalhando na escolta de Maria Teresa. se tornaram seus paladinos mais conscientes". A magna opera de Bessenyei destinava-se a provar que a língua húngara adaptava-se ao mais elevado género literário". l2 Entusiasmados pelo filo-helenismo dos centros da civilização europeia ocidental.000 da Rússia Imperial.000 estudantes universitários em Paris. empenharam-se em "desbarbarizar" os gregos modernos. o número de adolescentes nas escolas ainda era mínimo pelos padrões de hoje: não mais de 19. produziu um dicionário russo em seis volumes. reconstituir essa revolução lexicográfica como se poderia fazer com o estrondàr de um arsenal em chamas. Philike Hetairia. Embora. na análise que se segue baseei-me grandemente em Seton-Waison. dizem tacitamente a si mesmos. A respeito do romeno. na época. o padre católico Josef Dobrovsky (1753-1829) escreveu. já entrado o século XVIII. 43-4. 44. e. desempenhou papel essencial (p. porém. em prol da substituição do alfabeto cirílico pelo alfabeto romano (distinguindo nitidamente o romeno das vizinhas línguas eslavas ortodoxas). " Pode-se. mas seu ímpeto polémica era mais convincente do sue o valer estático dos exemplos que criou. 157-82. virtualmente todo o corpus existente dos clássicos gregos. em Viena. em formas impressas de fácil manejo. 1-1 Ibid. em 1842." Talvez valha a pena observar que assa passagem sã encontra em uma subsecão Intitulada "The Inventing of trie Hu-ngarian Nation". 16 Sobre o nascimento do nacionalismo húngaro. Adamantios Koraes (que mais tarde. * i 12 The Age a! Revolufion. certamente está correia em relação à Europa do século XIX. p. dicionários e histórias do romeno. primeira história sistemática da língua e da literatura checas. se não para outras épocas e lugares. Ambos representaram uma vitória da língua vulgar sobre a língua eslava da Igreja. Essa dolorosa descoberta. a que se seguiu.. . «> Ibid. Nas revoluções deste ano. nos dos otomanos. assim. Hungaty. "De fato o provou. 13 Símbolo dessa mudança de consciência são as seguintes palavras de um desses jovens. 17 Paul Ignoius. Ele também nos faj ver. em cinco volumes. mas estratégico. 150-3.. 15 • Os primeiros jornais gregos surgiram em 1784. 177.. a antiga civilização helénica. em 1802. Ele contém uma análise espantosamente moderna das bases sociológicas de nacionalismo grego. moldada na Academia Francesa. Em meados do século XVIII. em dezenas de livros. 166. 13 Ver a introdução de Elíe Kedouríe a Nalionalism ín Ásia en<j África. em 1803: M Pela primeira vez. em 1850. 167). n Estímulo ulterior foi propiciado Não pretendendo simular qualquer conhecimento especializado sobre a Europa Leste e Central. em transformá-los em seres dignos de Péricles e de Sócrates. de Josef Jungmann. 40. 166-7). isto é.000 alunos no secundário. O texto integrai de Koraes. foi publicado o dicionário pioneiro checo-alemão. em 1792. juntamente com os anexos filológicos e lexicográficos necessários. a maioria dos quais havia estudado ou viajado para fora dos limites do Império Otomano. Analogamente.. As instituições académicas não tiveram significado para os nacionalisrnos americanos. como também recriavam. . que se inicia com esta sugestiva frase: "Uma nação nasce quando algumas pessoas decidem que ata deve existir". que. posteriormente. 20.

que por muito tempo compartilhara uma língua escrita com os dinamarqueses. A reaçêo foi suficientemente violenta para persuadir seu sucessor. encorajaram um pouco os nacionalistas ucranianos na Galícia — para contrabalançar os poloneses. Nations and States. 16 nios do tzar. a cujo respeito observa Seton-Watson que "a formação de uma língua literária ucraniana aceita deve mais a ele do que a qualquer outro indivíduo. 72. 20 Os líderes do nascente movimento nacionalista finlandês eram ''pessoas cuja profissão consistia em grande medida no manejo da língua: escritores. Shevchenko foi destruído na Sibéria. língua oficial dinástica que misturava B ementas do turco.84 85 pelas inúmeras publicações de Ferenc Kazinczy (1759-1831). 2329261. em consequência do trabalho pioneiro de estudiosos locais. Em 1875. p. "o pai da literatura húngara". que se tornou rapidamente o centro de uma explosão da literatura ucraniana. o servo-croata e o búlgaro./Víf/ona/ís/n. houvesse acabado de vohar de cinco anos de estudos na França. No século XVIII. na década de 1780. na década de 1870. Hungary. apareceu a primeira gramática ucraniana — apenas 17 anos depois da gramática oficial russa. as obras de Taras Shevchenko. Ver também adiante. Ê típico que Ibrahlm Sinssi. e pela mudança. Leopoldo II (r. Em 1819. da pequena cidade provinciana de Trnava para Budapeste. 23 z°Kemilâinen. porém. Isso significava urna rejaiçSo do "otomano". encontramos o nacionalismo africâner a que deram início os pastores e literatos bóeres que. p. foi fundada a Universidade de Karkov. Em 1798. em 1784. p. Mas o "despertar" de um interesse pela língua finlandesa e pelo passado finlandês. na década de 1830. como língua principal da administração imperial. Se. foram bem-sucedidos em fazer do dialeto holandês local uma língua literária e denominando-a não mais como europeia. il No caso da Noruega. Os maronitas e os coptas. e de fato haviam participado do Movimento Ilírico. três línguas literárias diferentes se formaram ao norte dos Bálcãs: o esloveno. 19 Pouco tempo depois. pastores e advogados. p. p. em 1878 passaria a existir separadamente um Estado nacional búlgaro. outros lago o acompanharam. "Ibid. 137. havia sido geral a ideia de que os "búlgaros" eram da mesma nação dos servos e dos croatas. 18 No período de 1800-1850. 1E8-61. The Age of fjaííana!ism. SetoivWatson. textos que eram uma resposta e um estímulo às reivindicações de uma língua impressa especificamente norueguesa. a língua oficial tornou-se o russo. 21 p. o nacionalismo surgiu com a nova gramática (1848) e o novo dicionário (1850) noruegueses de Ivar Aasen. expresso de início por textos escritos em latim e em sueco. do persa e do áraba. Quando ele saiu à frente. a língua de Estado na Finlândia de hoje era o sueco. fundador do primeiro jornal desse tipo. 48). 208-15. na década de 1830. O uso dessa língua foi a etapa decisiva na formação de uma consciência nacional ucraniana". muitos deles produtos do American College de Beirute (fundado em 1866) e do College Jesuíta de São José (fundado em 1875) foram os que mais colaboraram para o renascimento do árabe clássico e para a disseminação do nacionalismo árabe. na década de 1870. em 1846. Nations and States. 1790-1792). Capitulo V). p. '9 Nations and States. . Não é preciso diíer que o Tzarismo liquidou rapidamente com essas passoas. ainda que com pronúncia completamente diferente. contra a decisão do imperador José II de substituir o latim pelo alemão. a restaurar o latim. nos anos iniciais do século XIX. Em outra parte. na década de 1820 passou a manifestar-se cada vez mais na língua vulgar. impressa]. professores. O estudo do folclore e a redescoberta e reconstituição da poesia épica popular caminhavam par a par com a publicação de gramáticas e dicionários e levava ao surgimento de periódicos que eram úteis para padronizar a língua finlandesa literária [isto é. do que viria a ser a Universidade de Budapeste. em 1809. a primeira organização nacionalista ucraniana foi fundada em Kiev — por um historiador! No século XVIII. Ivan Kotlarevsky escreveu sunAeneid. Após a união do território aos domíSeton-Watson. o ucraniano (o pequeno russo) era desdenhosamente tolerado como língua de caipiras. E vieram a seguir. 105-7. 23Kohrv. M E as sementes do nacionalismo turco podem ser facilmente descobertas no surgimento de uma ativa imprensa em língua vulgar em Istambul. É ilustrativo que Kazinczy tenha apoiado potiticamante José II nessa questão flgnotus.. porém. poema satírico extremamente popular sobre a vida ucraniana. Em 1804. havia sete diários em Ungua turca em Constantinopla. em nome da qual se poderia propor reivindicações políticas mais vigorosas". Os^absburgos. Sua primeira expressão política foi a reação hostil da nobreza magiar que falava o latim. em fins do século XVIII.

Dvorak e Janácek. elas eram. K Se a expansão das classes médias burocráticas foi um fenómeno relativamente uniforme. essa "ascensão" deve ser compreendida em suas relações com o capitalismo editorial em língua vulgar. DisfainedParfners. 229. ao público consumidor. p.86 87 E não se deve esquecer de que essa mesma época assistiu à popularização de outra forma de página impressa: a partitura. 70% na Áustria. eles produziam para o mercado da imprensa. Se observarmos que. os profissionais liberais. filólogos. quase 98%). ou. Quem eram esses consumidores? No sentido mais geral: as famílias das classes leitoras — não apenas o "pai que trabalhava". revelou-se a mesma tendência. em 1829. Eles não tinham uma razão necessária para conhecer a existência um do outro. Mas não importa onde tenha ocorrido. Nobres "franceses" podiamajudar reis "ingleses" contra monarcas "franceses". com base' em parentescos e amizades comuns. 75% nos EUA e mais de 90% nos Países Baixos". não com base na língua ou na cultura que compartilhassem. abriu as portas da nomeação oficial a números muito maiores e a origens sociais muito mais variadas do que até então. os Estados mais adiantados da Europa. indicam que sua coesão como classe era tão concreta quanto imaginada. da língua impressa. por intermédio desse silencioso bazar. que significou também especialização burocrática. mas também a esposa rodeada de criadas e os filhos em idade escolar. e se vinculavam. 112. e a personalização das relações políticas subentendidas nas relações sexuais e na herança. quase metade da população ainda era analfabeta (e na atrasada Rússia. não se casavam com a filha um do 25petei J. extremamente irregular — maciça e rápida em alguns lugares. tipicamente. Se o governante do Sião tomava uma'nobre malaia como concubina. e 35. "classes leitoras" significava gente de algum poder. ocorrendo em taxas comparáveis tanto nos Estados adiantados quanto atrasados da Europa. depois de Aasen. mesmo na^GrãBretanha e na França. Veja-se até mesmo a máquina estatal austro-húngara. a despeito da inexistência de qualquer guerra local de maior importância. passando por 27. e assim por diante pelo nosso século adentro. ainda em 1840. ou se o Rei da Inglaterra se casava com uma princesa espanhola — terão eles alguma vez conversado verdadeiramente um com o outro? As solidariedades eram produto do parentesco. 2* A expansão burocrática. Depois de Dobrovsky veio Smetana. plena de sinecuras e dominada pela nobreza: a porcentagem de homens originários da classe média nos postos mais elevados de "Hobsbawm. em 1804. Áustria and Germany sints WJ5. suas bases políticas estáveis. p. Mais concretamente. os cortesãos e membros do clero. O tamanho relativamente pequeno das aristocracias tradicionais. folcloristas. Afinal de contas. é patente que todos esses lexicógrafos. a despesa pública per capita aumentou de 25% na Espanha. da dependência e de lealdades pessoais. As classes dirigentes pré-burguesas geraram sua própria coesão em certo sentido independentemente da língua. . para 55. cálculos maquiavélicos à parte. a ascensão das burguesias comercial e industrial foi. e as burguesias comercial e industrial. lenta e interrompida em outros. The Age of Revotution. decrépita. além das antigas classes dirigentes da nobreza e da pequena nobreza fundiária. Béía Bártok. 40% na França. claro. falando figuradamente. sua metade civil subiu de O. em 1859. 44% na Rússia. pelo menos. jornalistas e compositores não desenvolviam suas atividades revolucionárias no vácuo. entre 1859 e 1918. Grieg. Nas forças armadas. Ao mesmo tempo. 50% na Bélgica.Mas e a burguesia? Eis aí uma classe que. Uma nobreza analfabeta ainda podia atuar como nobreza. em 1878. só veio a ser uma classe mediante muitas cópias. mas. "Entre 1830 e 1850. Um dono de fábrica em Lille só estava ligado á um dono de fábrica de Lyon por reverberação. ainda que tipicamente em ritmo mais lento e mais tardio: o componente de classe média do corpo de oficiais subiu de 10% para 75%. A Europa de meados do século XIX assistiu a um rápido aumento das despesas do Estado e das dimensões das burocracias estatais (civil e militar). gramáticos. Kateen&tein. as camadas médias ascendentes de pequenos funcionários plebeus. 74. depois de Kazinczy.

ser a língua dos negócios. contudo.pelos registros históricos. a preservação do húngaro impresso contra a maré montante do alemão era defendida por segmentos da nobreza menos importante e da pequena nobreza fundiária empobrecida. pode-se dormir com qualquer pessoa. Na Europa. Mas chegavam a visualizar de um modo geral a existência de milhares e milhares de outros como eles por intermédio da língua impressa. em que. das comunicações e das máquinas estatais. essas solidariedades tinham seu maior alcance limitado por legibilidades em língua vulgar. Mas tal clientela não estava plenamente realizada quase em parte alguma e as combinações dos consumidores concretos "variava consideravelmente de região pára região. como veremos adiante mais detalhadamente. Membros da nobreza. mas só se pode ler a escrita de um certo povo. e parecia ameaçador. mas cada vez mais letrado. que caracterizou o século XIX. em meados do século XIX. o. . Em reinos como a Grã-Bretanha e a França.88 89 outro. O latim se manteve como língua de Estado na Áustria-Hungria até inícios da década de 1840. as burguesias foram as primeiras classes a consumar solidariedades numa base essencialmente imaginada. especialmente num mundo em que essas /línguas se interpenetravam continuamente. seria lícito esperar que um nacionalismo cônscio de si mesmo surgisse por último. pequenos nobres fundiários. mas não poderia. Poderia ser a língua de Estado. então. século XIX.Hungary. língua vulgar. No casa do Beira Unida. Assim. numa Europa do. f>. profissionais liberais. ela mesma alemã como alguns podem considerá-la. Pois é difícil imaginar uma burguesia analfabeta. os consumidores potenciais da revolução filológica. onde virtualmente não existia uma burguesia magiar. pelo menos de início. era a coali26 Como vimos. mas uma de cada 8 pessoas reivindicava algum status aristocrático. Para perceber por que. Porém. em meados do século. ocorreu que houvesse. 165. onde. a exaltação do alemão no século XIX pela corte dos Habsburgos. & submissão militar do Gaeltactrt no início do Século XVIII B a depressão da década de 1B40 foram poderosos fstores concorrentes. Em outras palavras. porém. . 21 Pode-se dizer o mesmo dos leitores poloneses. por exemplo. (Em tais circunstâncias. funcionários e homens do mercado — eram estes. dos quais a Áustria-Hungria é provavelmente o exemplo extremo. uma vez que. da imprensa ou da literatura. a substituição do latim por qualquer língua vulgar. mas desapareceu quase imediatamente a seguir. Na Hungria. por razões absolutamente externas. 44-55: vertarnbCmJàszi. havia um isomorfismo quase perfeito entre o âmbito dos diversos impérios e o de suas línguas vulgares. Em seu vasto domínio desmantelado. o poder e a língua impressa mapeavam reinos distintos entre si. não tinha nada a ver com o nacionalismo alemão. da indústria. o latim fora vencido pelo capitalismo editorial em. das ciências. em cada reino dinástico. criou novos impulsos vigorosos no sentido da unificação das línguas vulgares dentro de cada reino dinástico. * O crescimento generalizado da alfabetização. aos que não a utilizassem. Excelente e pormenorizada exposição encontra-se em Ignotus. na mesma. Mais típica. esse tipo de coincidência era raro e os impérios dinásticos intra-europeus possuíam basicamente mais de uma língua vulgar em seu território.) Em muitos outros reinos. 27 Hobsbawm. uma coincidência relativamente alta entre língua de Esta» do e língua da população. (Esses casos aproximam-se! mais dos da América. no século XIX. há perto de dois séculos. em termos de história mundial.) Em termos das clientelas de nossos lexicógrafos. é preciso que se retorne ao contraste básico antes traçado entre a Europa e a América. nem herdavam as propriedades um do outro. a língua inglesa expulsou o gaélico da maior parte dai Irlanda. Assim. 224-5. as línguas de Estado vulgares assumiam cada vez mais poder e status em um processo que. Grifei a palavra qualquer. entre os naturais da terra que lessem a língua vulgar oficial. p. TheDissolution.francês limitou o âmbito do bretão e o castelhano compeliu o catalão à marginalidade. E tal expectativa é corroborada. era em grande medida não planejado. Nesse ínterim. do comércio.p. poliglota. The Age effíevolutlon. as consequências foram inevitavelmente explosivas. assegurava vantagens enormes àqueles de seus súditos que já utilizassem aquela língua impressa.proporção. Dizendo doutro modo. a adoça» de línguas vulgares corno Itnguss de Estado nesses dois reinos estava em andamento desde muito cedo. Na América. não admira pois que se encontrem conjuntos muito diferentes de clientes segundo as diferentes condições políticas. 26 a interpenetração geral a que aludimos acima não teve consequências políticas dramáticas.

Os ricos patrocinam a impressão de livros traduzidos do italiano. em que predominavam os intelectuais e os empresários: 2S Nas cidades que eram menos pobres. na qual. talvez. Mas será difícil perceber por que o convite parecia tão atraente. O agradável Koraes oferece-nos uma vinheta precisa da clientela inicial do nacionalismo grego. frequentemente.. Nutions and States. . com o avançar do século. e o convite tinha de ser escrito numa língua que elas entendessem" 3I — está correta. Kohn. a menos que nos voltemos finalmente para o plágio. 72 (Finlândia). na verdade. o que onçarã ds frente é Constantinopla. opuseorg. E3 (Egito) e 103 (Pérsia).. Por que "ela" irrompeu. do francês. p. dão a seus filhos melhor educação. 29 Em que medida as massas urbanas e rurais participavam das novas comunidades linguisticamente imaginadas naturalmente também variava muito. e próximo dele. Num extremo. como um modelo. enviam para a Europa. no sentido moderno. que possuíam alguns habitantes abastados e algumas escolas e. os segundos e terceiros. tornava-se mais fácil conseguir o apoio popular.90 91 zão entre os nobres menores. Outro extremo é sugerido pelo comentário irónico de Hobsbawm de que: "Os camponeses galicianos. os profissionais liberais e os homens de negócio.. 80. desenvolveram-se de maneira semelhante por toda a Europa Leste e Central e. a que "ela" visava. Até certo ponto. no devido tempo. Em algumas dessas cidades. conseqúèntemente. Q otomano nSo 6 contudo uma língua estrangeira. as escolas já estão sendo ampliadas e o estudo de línguas estrangeiras e até mesmo das ciências que são ensinadas na Europa [sic] está sendo introduzido nelas. Grifos nossos. aquela experiência foi modelada por milhões de palavras impressas como um "conceito" sobre a página impressa e. ingressou na memória acumuladora da imprensa. A irresistível e desconcertante concatenação de eventos experimentada por seus autores e por suas vítimas tornou-se uma "coisa" — e com um nome próprio: Revolução Francesa. as fuigras esposas som trabalho ingressam no mercado da impransa. p. desempenhava papel mediador essencial. por que "ela" foi bem-sucedida ou fracassou. 30 Mas por toda parte. 23 Para exemplos. mitos. 170. Isso dependia muito das relações entre essas massas e os missionários do nacionalismo. p. 28Kedourie. a suas expensas. alguns indivíduos que podiam pelo menos ler e compreender os autores antigos. ver Seton-Watson. em 1846. Ela nem mesmo projetou 'líderes' do tipo a que nos habituaram as revoluções do século XX. a impressionante formulação de Nairn -— "A nova intelligentsia de classe média do nacionalismo tinha de convidar as massas a entrar na história. Coalizões de leitores. e os últimos. à medida que era maior a alfabetização. do alemão e do inglês. Nationallsm in A$i» and África. tudo passa a ser tema de polémicas infindáveis por parte de partidários e de ad30 3' 3! TheAgecfRewkttion. poesia. pode-se indicar a Irlanda. com composições que se localizam de maneira diversa na gama de variação entre a húngara e a grega. os primeiros forneciam os líderes de "reputação". nem por homens que estivessem procurando levar a cabo um programa sistemático. Hobsbawm observa que "A Revolução Francesa não foi feita nem conduzida por um partido ou movimento organizado. os académicos. Do mesmo modo que uma imensa rocha informe se torna um penedo arredondado pela ação de inumeráveis gotas de água. 340. The Sreak-up ofSrítBrrt. The Age of fígvoàittón. a revolução começou mais cedo e pôde progredir mais rápida e animadoramente. Quando Koraes olha para a "Europa". 169. e por que alianças tão diversas eram capazes de emiti-lo (a intelligentsia de classe média de Nairn não era absolutamente o único anfitrião). p. jornais e formulações ideológicas. 3Z Mas uma vez que ela aconteceu. 145 (Bulgária). Tudo aqui é exemplar. p. 153 (Boémia) e 432 (Eslováquia). sem exclusão das meninas. preferindo massacrar os cavalheiros e confiar nos funcionários do Imperador". jovens ávidos de aprender. ram-se aos revolucionários poloneses. E . p. dinheiro e facilidades de mercado. ainda que estes houvessem de fato proclamado a abolição da servidão. pois. onde um clero oriundo do campesinato. quando o 'povo encontrava um novo motivo de orgulho na exaltação pela imprensa de línguas que haviam falado humildemente por tanto tempo. The Age of Nationalism. até que surgisse a figura pós-revolucionária de Napoleão". pelo Oriente Médio. á por sobre o ombro.

Na "realidade". o caráter "populista" dos primeiros nacionalismos europeus. J3 De modo muito semelhante. e assim por diante. ninguém jamais teve muita dúvida. Compare-sei "O próprio nome de RsvoluçSo Industrial reflete seu impacto relativamente tardio sobre a Europa. a validade e a generalidade do 'projeto se confirmaram indubitavelmente pelo pluralismo dos Estados independentes. No Início do século XIX. e da língua compartilhada das repúblicas "modais" da América do Sul. aparece como uma anomalia inconsequente. Hungtry. demagogicamente. bem coma do alemão vulgar. se não antes. no devido tempo. cidadania universal. a liquidação da servidão. pelos grupos sociais mais retrógrados. 34 (Os primeiros grupos a fazê-Io foram as coalizões de pessoas instruídas baseadas em línguas vulgares marginalizadas. p. vassalagens. a expansão do sufrágio.. na segunda década do século XIX. que este capítulo focalizou." Ignoius. a escravidão legal era inimaginável — também porque o modelo conceptual estava colocado num lugar inerradicável. Ibid. da ESrvio B do romano. era mais profundo do que na América: a servidão tinha que terminar. do que a "supressão" generalizada da escravidão maciça dos EUA "modais" do século XIX.. de tal modo que. e a liquidação de seus contrários: impérios dinásticos. Mas a "realidade observável" da França. instituições republicanas. 34 Seria. nobrezas hereditárias. então isso queria dizer "os húngaros". 3i queria dizer um Estado em que o locus fundamental da soberania tinha que ser a coletividade dos falantes e leitores húngaros.. provavelmente. atrasadas e 33 reacionárías. eram monarquias restauradas e o dinasticismo ersatz do sobrinhoneto de Napoleão. e. absolutismos. nesse contexto. impunha certos "padrões" em relação aos quais não se permitiam desvios muito acentuados. Se quiserem.92 versários: mas de que "ela" foi alguma coisa. .) Além disso. B nobreza media e infericr "conversava em um latim vulgar salpicado de expressões do magiar. Desse modo. soberania popular. provavelmente por analogia com a revolução política da França". o medo de Bolívar das insurreições de negros e a convocação de San Martin de seus indígenas à peruanidade chocam-se caoticamente. "projetos". Metade dos súdito» do reino da Hungria sra nõo-rnagiar. Ap&nas um terço dns servos falavo magiar.que'imediatamente. 35 • Não que isso fosso uma questão muito definida. de fato.. mas também 0. Não foi senso na década de 1820 que socialistas Ingleses e franceses — eles próprios um grupo sem precedentes — a inventaram. mesmo quando liderados. a promoção da educação popular. assim que se imprimiu a respeito deles.45-6 e 81. instituições monárquicas. seja o que for. (Nada mais chocante. a alta aristocracia magiar falava irancâs ou alemão. Da confusão americana brotam estas realidades imaginadas: Estados-nação. A coisa Isicl existia na Grã-Bretanha antes da palavra.) Mas exatamente porque era então um modelo conhecido. bandeiras e símbolos nacionais. Até mesmo as pequenas nobrezas húngara e polonesa. até depois de 1870.. os movimentos de independência na América se tornaram "conceitos". mais preciso dizer que o modelo era uma complexa mistura da si e mantos franceses e americanos. guetos. etc. p. todos eles. já havia um "modelo" "do" Estado nacional independente à disposição para ser plagiado. ainda que lembrado.0 eslovaco. "modelos" e. De fato. e assim por diante. Se "húngaros" mereciam um Estado nacional. Mas a palavra impressa eliminou o primeiro quase^. a lógica da peruanização de San Martín estava funcionando. servidões. tiveram grandes dificuldades em não realizar um espetáculo de "convidar a entrar" (ainda que apenas até a copa) seus compatriotas oprimidos. 45.

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