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Benedict Anderson

NAÇÃO E CONSCIÊNCIA NACIONAL
Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira

He regards it as his task to brush history against the grain* Walter Benjamin, fí/uminations Thus from a Mixture of ali kinds began, That Hefrogeneous Thing, An Englishman: In eager Rapes, and furious Lust begot, Betwixt a Painted Britton and a Scot. Whose gend'ring Offspring quickly learnt to bow, And yoke their Heifers to the Roman Plough: From whence a Mongrel half-bred Race there carne, • With neither Name nor Nation, Speech or Fame. In whose hot Veins new Mixtures quickly ran, !nfus'd betwixt a Saxon and a Dane. While their Rank Daughters, to their Parents just, Rece'iv'd ali Nations with Promiscuous Lust. This Nauseous Brood directly did contaín The well-extracted Blood of Engfíshmen...*" Excerto de Daniel Defoe, The True-Bom Englishman

SUMÁRIO

l Encara como tarefa sua contrariar o sentido da história. ' Assim da uma mistura de todos os tipos começou £ssa coisa heterogénea, um inglês; Gerado em estupros ardentes e arrebatada luxúria Entre um bretso sardento e um escocês'. ' Cuja prole procriadora logo aprendeu a curvar-se, E jungiu suas novilhas ao arado romano: .E dal uma raça mestiça impura se originou, Sem nome nem nação, sem fala ou fama. Em cujas vaias ardentes novas mesclas logo se fundiram. Infundidas entre um saxão e um dinamarquês. Enquanto suas filhas nobres, exatamente como os pais. Receberam todas as nações com promíscua luxúria. Essa raça repulsiva continha do fato diretamente O sangue de boa extração dos ingleses...

1. Introdução • 2. Raízes culturais 3. As origens da consciência nacional',, 4. Antigos impérios, novas nações 5. Antigas línguas, novos modelos 6. Nacionalismo oficial e imperialismo 7. A última onda _____________ 8. Patriotismo e racismo 9. O anjo da história Bibliografia __ índice alfabético

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INTRODUÇÃO

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Talvez não se tenha ainda percebido que está ocorrendo uma transformação fundamental na história do marxismo e dos movimentos marxistas. Seus sinais mais perceptíveis são as recentes guerras entre o Vietnã, o Camboja e a China. Essas guerras são de importância histórica mundial, por serem as primeiras a ocorrer entre regimes cuja independência e credenciais revolucionárias são inegáveis, e porque nenhum dos beligerantes procurou, senão perfunctoriamente, justificar o derramamento de sangue em termos de uma perspectiva teórica marxista aceitável. Embora fosse ainda perfeitamente possível interpretar os conflitos fronteiriços de 1969 entre a China e a União Soviética, as intervenções militares soviéticas na Alemanha (1953), na Hungria (1956), na Checoslováquia (1968) e no Afeganistão (1980), em termos de — conforme o gosto — "imperialismo social", "defesa do socialismo", etc., ninguém, penso eu, acreditará seriamente que esse tipo de vocabulário tenha muito a ver com o que ocorreu na Indochina. Se a invasão e a ocupação vietnamitas do Camboja, em dezembro de 1978 e janeiro de 1979, representaram a primeira guerra convencional em grande escala empreendida por um regime marxista revolucionário contra ou-

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iro. ' o ataque da China ao Vietnã, em fevereiro, confiras;/ rapidamente o precedente. Apenas os mais confiantes -•leriam apostar que, nos anos finais deste século, qualquer deflagração importante de hostilidades entre Estados encontrará a União Soviética e a China Popular — para não falar nos Estados socialistas menores — apoiando ou combatendo do mesmo lado. Quem pode estar seguro de que a lugoslávia e a Albânia não irão entrar em choque algum dia? Os variados grupos que pedem a retirada do Exército Vermelho de seus acampamentos na Europa Oriental devem recordar o quanto a presença dominante dessas forças tem evitado, desde 1945, conflitos armados entre os regimes marxistas da região. Essas considerações são úteis para salientar o fato de que, desde a Segunda Grande Guerra, cada uma das revoluções vitoriosas tem-se definido em termos nacionais — a República Popular da China, a República Socialista do Vietnã, e assim por diante — e, ao f aze-Io, basearam-se firmemente em um espaço territorial e social herdado do passado pré-revoliicionário. Ao contrário, o f ato de a União Soviética compartilhar com o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte o mérito incomum de não incluir a nacionalidade em sua denominação indica que ela tanto é a legatária dos Esta-r dos dinásticos pré-nacionais do século XIX, quanto a precursora de uma ordem internacionalista do século XXI. 2 Eric Hobsbawm está perfeitamente correto ao afirmar que "os movimentos e Estados marxistas tenderam a tor1

Exprimimo-nos dessa maneira apenas para enfatizar a escala e o estilo da luta, e não como censura. Para evitar possíveis mal-entendidos, é preciso dizer que a invasão de dezembro de 1978 originou-se de choques armados, possivelmente desde 1971, entre guerrilheiros dos dois movimentos revolucionários. Depois de abri! de 1977, ataques fronteiriços, iniciados pelos cambojanos, mas logo imitados pelos vietnamitas, aumentaram em grandeza e alcance, culminando na incursão vietnamita mais importante de dezembro de 1977, Nenhum desses ataques, porém, visava à derrubada do regime do inimigo, ou ã ocupação de granda extensão de território, bem como o número de soldados envolvidos n5o ers comparável ao que se deslocou om dezembro de 1978. A controvérsia a respeito das causas da guerra 6 investigada ponderadarnente em Stepnen P. Hader, "The Kampuchean-Vietnamese Confliet", in David W. P. Elliott, org., The Ttârd Indochina Confíict, p. 21-67; Anthony Batnett, "Inter-Communist Conflicts and Vietnam", Bvllstin of Concerned Asían Scbolars, 11:4 (outubro-dezembro de 1979), p, 2-9; e Laura Summers, "In Matters of War and Sccialism Anthony Barnett would Shsme and Honour Kampuchsa Too Much", ibid., p. 10-8. 3 Se alguém duvidar de que o Reino Unido merece asso tipo de paridade com a URSS, devaié Indagar-se que nacionalidade sã denota por oste nome: grâo-breto-irlandês?

nar-se nacionais não apenas na forma, mas também na substância, isto é, nacionalistas. Nada indica que essa tendência não persistirá". 3 E essa tendência não se limita ao mundo, socialista. Quase todos, os anos, as Nações Unidas admitem novos membros. E muitas das "velhas nações", antes consideradas plenamente Consolidadas, vêem-se ameaçadas por "sub"-nacionalismoâ no interior de suas fronteiras — nacipnalismos que, naturalmente, sonham com livrar-se algum dia dessa condição de "sub". A realidade é muito clara: o "fim dos tempos do nacionalismo", há tanto tempo profetizado, não está à vista, nem de longe. De fato, a nation-ness * constitui o valor mais universalmente legítimo na vida política de nossa era. Porém, se os fatos são evidentes, sua explicação continua sendo .tema de uma disputa há muito existente. Nação, nacionalidade, nacionalismo — todos têm-se demonstrado difíceis de definir, quanto mais de analisar. Em contraposição à enorme influência que o nacionalismo tem exercido no mundo moderno, é notoriamente escassa a teoria plausível a respeito de.le. Hugh Seton-Watson, autor do indubitavelmente melhor e mais abrangente texto em língua inglesa a respeito do nacionalismo, e herdeiro de vasta tradição da historiografia e da ciência social liberais, observa pesarosamente: "Desse modo, sou levado à conclusão de que não se pode estabelecer nenhuma 'definição científica1 de nação; contudo, o fenómeno tem existido e continua a existir". 4 Tom Nairn, autor da obra pioneira The Break-up of Britam, e herdeiro da não menos vasta tradição da historiografia e da ciência social marxistas, observa francamente: "A teoria do nacionalismo representa o grande fracasso histórico do marxismo", s Até mesmo essa confissão, porém, é algo enganadora, na medida em que se possa considerar
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Eric Hobsbawm, "Some Rofloctions on 'The Braak-up o.f Britain' ". tJeitr Lelt Review* 105 (setambro-outubro de 1977). p, 13. " O autor emprega diversas vezes a palavra nation-ness, por ele cunhada, em lugar de ' natlonalíly !cf. p, 12). Impossível criar um correspondente português; por isso, mantive em Inglês todas as vezes (MT). 4 Ver seu Nations and States, p. 5. Grifo nosso. 5 Ver seu "The Modern Jsnus", New Left Review, 94 Inovembro-dszembro do 1975), p. 3. Este ensaio foi incluído sem alterações como capitulo 9 do The Break-up of Brítsin (p. 329-63I.

Kemilâinen observa também que a palavra "nacionalismo" sá passou a ser amplamente empregada em fins do século XIX. tanto a teoria marxista quanto a liberal têmse debilitado em um tardio esforço ptolomaico para "salvar o fenómeno". Seria mais exato dizer que o nacionalismo tem se revelado uma incómoda anomalia para a teoria marxista e. A universalidade formal da nacionalidade como conceito sociocultural — no mundo moderno. argumentava persuasivamente em favor dessa datação. com urgência. inspiram uma legitimidade emocional tão profunda. com graus diversos de consciência e a grande variedade de terrenos sociais. mas que. uma reorientação de perspectiva num espírito por assim dizer copernicano. Conceitos e definições Antes de tratarmos das questões acima propostas. e "terá" uma nacionalidade. 3. nem Webers. Parto de que a nacionalidade. The Comrminist Manifesto. Os teóricos do nacionalismo têm. quanto a esse tema. a não ser por ideólogos nacionalistas em determinados países. são artefatos culturais de um tipo peculiar. tem sido amplamente evitado. esse "vazio" desperta. o nacionalismo jamais produziu grandes pensadores próprios:-nem Hobbes. l. naturalmente. a dupla de "pais" do estudo académico sobre o nacionalismo.12 que implica no resultado lastimável de uma busca prolongada e deliberada de clareza teórica. muitas vezes. ficado perplexos. 46. ' Como observa Aíra Kemilãlnen. 7 foi a destilação espontâ6 Karl nea de um "cruzamento" complexo de forcas históricas. por mais de um século. sem qualquer tentativa séria de justificar teoricamente a importância do adjetivo? Por que esta segmentação da burguesia — uma classe mundial. passíveis de serem transplantados. Nationalism. Grifo nosso. in Setscted Works. p. Minha impressão é que. bem como o nacionalismo. sua pobreza. Para compreendê-los adequadamente é preciso que consideremos com cuidado como se tornaram entidades históricas. tanto quanto terá um sexo — vs. por exemplo. de que modo seus significados se alteraram no correr do tempo. tal que. É típico que até mesmo um estudioso tão solidário com o nacionalismo quanto-Tom Nairn tenha no entanto podido escrever que: "o 'nacionalismo' é a patologia da moderna história do desenvolvimento. uma capacidade implícita semelhante para degenerar em demência. Facilmente. poder-se-ia sem dúvida concluir rapidamente que "lá não existe lá nenhum". para não dizer irritados. nem Marxs. a nacionalidade "grega" é sui generis. hoje em dia. Tentarei demonstrar que a criação desses artefatos. Em qualquer exegese teórica. visto que se define em termos das relações de produção — é teoricamente importante? O que este livro pretende é oferecer algumas sugestões exploratórias para uma ínterpretaçãp mais aceitável da "anomalia" do nacionalismo. 10. ajustar contas com sua própria burguesia"? 6 Como justificar doutro modo o emprego. para se incorporarem à variedade igualmente grande de constelações políticas e ideológicas. Marx e Friedrich Engels. parece aconselhável considerar sumariamente o conceito de "nação" e oferecer uma definição viável. A modernidade objetiva das nações aos olhos do historiador vs. não se refere com essa palavra senão a "sociedades" ou "Estados". todo mundo pode e deve "ter". Em outras palavras. mais do que enfrentado. Do mesmo modo que Gertrude Stein diante de Oakland. 33 e 48-9- . Quando Adam Srnith invoca a riqueza das "nações". uma vez criados. Como explicar de outro modo a falha do próprio Marx para explicar o pronome crucial em sua memorável formulação de 1848: "O proletariado de cada país deve. 2. e por que. do conceito de "burguesia nacional". em muitos dicionários correntes do século XIX. Procurarei também demonstrar por que esses artefatos culturais peculiares têm suscitado afetos tão profundos. devido às múltiplas significações dessa palavra. Aira Kemilãinen. a particularidade irremediável de suas manifestações concretas. Ela não aparece. entre intelectuais cosmopolitas e poliglotas. por volta dos fins do século XVIII. e que se requer. diversamente da maioria dos outros "ismos". Creio que suas conclusões não foram seriamente contestadas. antes de mais nada. filosófica. ou. como talvez se prefira dizer. nem Tocquevilles. O poder "político" dos nacionalismos vs. e até mesmo incoerência. naíion-ness. Hans Kohn e Carlaton Haves. p. a palavra "naturalmente" seria um sina) de alerta para o leitor entusiasmado. tão inevitável quanto a 'neurose' no indivíduo. exatarnente por essa razão. por definição. com estes três paradoxos: 1. trazendo consigo muito da mesma ambiguidade essencial. um certo ar de superioridade. tornaram-se "modulares". sua antiguidade subjetiva aos olhos dos nacionalistas.

De fato. Desse modo. à sua maneira suavemente sarcástica. digamos. todas as comunidades maiores do que as primitivas aldeias de contato face a face (e. Nio na dez famílias na Franca qua possam apresentar provas de origem franca. insinua que existem comunidades "verdadeiras" que se podem sobrepor vantajosamente às nações. lês massacres du Midi au XVIils siècle. para as sociedades). proponho. também.000. sonhassem com um planeta inteiramente cristão. por exemplo. possui fronteiras finitas. 10 Algo ferozmente.. Nem os nacionalistas mais messiânicos sonham com um dia em que todos os membros da raça humana se juntem a sua nação. Thought and Change. os massacres do Sul. 8 Parte da dificuldade é que as pessoas tendem inconscientemente a hipostasiar a existência do Nacionalismocom-N-grande — como se poderia fazer com Idade-com-Imaiúsculo — e. para além das quais encontram-se outras nações. contudo. Hoje podemos pensar na aristocracia francesa do ancien regime como uma classe. Acrescenta ele: "tout citoyen [rançais doit avoir oublié Ia SBint-Barthélemy. a classificá-"lo" como uma ideologia. a Idade não passa de uma expressão analítica.. 169. em 1789.) Creio que as coisas ficariam mais fáceis.. "o tio da Baronesa de Y". A nação é imaginada como limitada. embora na mente de cada um esteja viva a imagem de sua comunhão. se todo mundo tem uma idade. Até muito recentemente. \. 78). Grifo nosso. ou se comportam como se constituíssem uma nação". u O inconveniente dessa formulação. p. 8 8 tá tão ansioso em demonstrar que o nacionalismo se dissimula sob falsas aparências. p. 892. Seton-Watson.15 nos dilemas do desamparo imposto à maior par. Podemos traduzir "considera" por "Imagina". mais do que com "liberalismo" ou "fascismo". mas "o senhor de X". numa população de 23. "fixa" isso ao dizer que. mas certamente ela só foi imaginada desse modo muito tardiamente. et aussi que tous aient oublié bien dês choses". 5: "O qua posso dizer é que uma naçSo existe guando um número significativo de pessoas da uma comunidade considera que constituem uma nação. (Observe-se que.. Cf.. ainda que elásticas. Nenhuma nação se imagina coextensiva com a humanidade. então. p. a seguir. ao invés de assimilá-la a "imaginação" e "criação". a seguinte definição para nação: ela é uma comunidade política imaginada — e imaginada como implicitamente limitada e soberana. nem sequer ouvirão falar deles." (no texto: ". e em grande medida incurável". se ele fosse tratado como associado a "parentesco" e "religião". II n'y a pás en France dix familles qui puissent fournlr Ia preuve d'une origine franqua. p. Os aldeões javaneses sempre souberam que estavam ligados a pessoas que jamais haviam visto. a resposta normal teria sido. ou "um vassalo do Duque de Z". p. a essência de uma nação é que os indivíduos tenham muitas coisas em comum e. 10 Ernest Renan. porque até mesmo a maior delas.000 (ver seu The Age of Rcvolution. é que Geílner esThe Bre&k-up aí Britam. Atingindo a maturidade numa 12 Hobsbawm. até mesmo estas) são imaginadas. 3S9. que abarca talvez um bilhão de seres humanos. Mas essa descrição estatística da nobreza poderia ser pensada ao tampo do ancien régimoj . Dentro de um espírito antropológico. mas pelo estilo em que são imaginadas. Geílner insiste de maneira semelhante quando estabelece que "o nacionalismo não é o despertar das nações para a autoconsciência: ele inventa nações onde elas não existem". talvez. mas tais vínculos eram outrora imaginados de maneira particuiarista — como malhas indefinidamente extensas de parentesco e de dependência. porque o conceito nasceu numa época em que o Iluminismo e a Revolução estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico hierárquico. 9 Renan referiu-se a esse ato de imaginar.000 pessoas. no século XVIII. Nations antí States. É imaginada como soberana. nem os encontrarão. Ela é imaginada porque nem mesmo os membros das menores nações jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas. As comunidades não devem ser distinguidas por sua falsidade/autenticidade. ela montava a 400. quando escreveu que "Or l'essence d'une nation est que tous lês individus aient beaucoup de choses en commun. que assimila "invenção" a "contrafação" e "falsidade". 12 À pergunta "Quem é o Conde X?".") 11 Emest Gollnor.. não "um membro da aristocracia". divinamente instituído. do mesmo modo como foi possível que em certas épocas os cristãos. que todos tenham esquecido muitas coisas" — na nora: "todo cidadão francês deve ter esquecido a noite do S3o Bartolomeu. a língua javanesa não possuía uma palavra para significar a abstração "sociedade". "Qu'éít-ce qu'une nation?" in Oeuvres Completes.í do mundo (o equivalente do infantilismo.

. discurso perante' ^Academia Militar dos EUA. RAÍZES CULTURAIS Não há símbolo mais impressionante da moderna cultura do nacionalismo do que os cenotáfios e os túmulos de Soldados Desconhecidos. Em última análise. e com o alomorfismo entre os reclamos ontológicos de cada fé e o território ocupado por ela. mas também corno das mais Imaculadas [sicl. Considerem-se.2 (Razão por que nações as mais diversas pôs1 2 Os antigos gregos tinham cenotáfios." Douglas MacArthur. 12 da maio de 1962. "Minha avaliação Ido soldado norte-americano] formou-se no campo do batalha. Honour. em seu A Soldier Sp. no correr dos últimos dois séculos. por suas virtudes e porr MJ g s realizações. porém. as nações sonham em ser livres e. em caqui. não sã como e que possui es características militares mais perfeitas. Ele pertence á história como aquele que oferece um dos maiores exemplos de patriotismo bem-sucedido Isicl.16 etapa da história humana em que até mesmo os mais devotos adeptos de qualquer das religiões universais se defrontavam inevitavelmente com o pluralismo vivo de tais religiões. porém para indivíduos determinados. mas morram voluntariamente por imaginações tão limitadas. "A longa linha cinzenta jamais nos -faltou. honra. como uma das mais nobres figures do mundo. basta imaginar a reação geral a algum intrometido que "descobrisse" o nome do Soldado Desconhecido. conhecidos. a nação é sempre concebida como um companheirismo profundo e horizontal. precisamente porque estão deliberadamente vazios. 354 a 357. Devo essa informação a minha colega bizantinísta. essa fraternidade é que torna possível. a jamais se alterou. a nós. como o vejo agora. em azul e em cinzento se ergueriam de sob suas cruzes brancas. Seria um sacrilégio de estranha espécie. ' Para que se sinta a força dessa inovação. Se vocês fossem fazê-lo. Essas mortes lançam-nos abruptamente cara a cara com o problema fundamental proposto pelo nacionalismo: o que faz com que as minguadas imaginações da história recente (pouco mais de dois séculos) dêem origem a sacrifícios tão colossais? Creio que as origens de uma resposta encontram-se nas raízes culturais do nacionalismo. não pudessem ser recuperados para um enterro normal. Country". is. Ele pertence à posteridade como o mentor das futuras gerações nos princípios da independência e da liberdade. pátria. que tantos milhões de pessoas. um milhão de lantesmas em verda-oliva. saturados de fantasmagóricas imaginações nacionais. Finalmente. que seja diretamente. ou ninguém sabe quem jaz dentro deles. A reverência pública ritual outorgada a tais monumentos. não só matem. sem considerar a desigualdade e expioração que atualmente prevalecem em todas elas. muitos anos atrás.. West Point. não encontra precedentes em épocas passadas. O penhor e o símbolo dessa liberdade é o Estado soberano. ou almas imortais. "Duty. por exemplo. cujos corpos. Eu o via então. por uma ou outra razão. contemporânea! Por mais que esses túmulos estejam vazios de quaisquer restos mortais identificáveis. a nação é imaginada como comunidade porque. estes notáveis tropos: 1.. Ele pgrtance ao presente. Judith Herrin. p." í. bradando estas palavras mágicas: dever. eles estão. ou insistisse em introduzir dentro do cenotáfio alguns ossos de verdade. se sob as ordens de Deus.

do cristianismo ou do islamismo. pesar. Com o refluxo da fé religiosa. ou um cenotáfio para os Liberais mortos. sem sentir qualquer necessidade de especificar a nacionalidade de seus ocupantes ausentes. deve distinguir-se de seu papel na legitimação de sistemas específicos de dominação e de exploração) tem sido sua preocupação com o homem-nocosmos. de nosso sexo. o século XVIII assinala não apenas o raiar da era do nacionalismo. sem exclusão do marxismo. mutilação. trouxe consigo suas peculiares trevas modernas. vim a compreender que 03 trata de unia louvável tentativa de ser coerente: simplesmente a doutrina da evolução ara incompatível com os ensinamentos do Islã. O que se. ou argentinos. o mistério da reencarnação. A vida humana é cheia desse tipo de associação entre necessidade e acaso.. Que mais poderiam eles ser senão alemães. era uma transformação secular da fatalidade em continuidade. 109 Imaio-junho de 1978). por milhares de anos.. O século do Iluminismo. Régis Debray.. em geral transformando a fatalidade em continuidade (karma. idade e morte. "Timpanaro's Materialíst Chatlenge". por ser ela a última de toda uma escala de fatalidades. ?) O significado cultural de tais monumentos torna-se ainda mais claro. 3 Ao mesmo tempo. se preocupam muito com a morte e corn a imortalidade. se se procura imaginar. da secularidade racionalista. Por que nasci cego? Por que meu melhor amigo ficou paralítico? Por que minha filha é retardada? As religiões procuram explicar. Estamos todos cientes da contingência e inevitabilidade de nossa herança genética particular. A/etv Lett flewsw. na Europa ocidental. primordialmente porque. interpretei essa recusa como obscurantismo. Â razão disso é que nem o marxismo. e a contingência da vida.). p. Posteriormente. a revolução. ele se ocupa dos vínculos entre os mortos e os nascituros. ou ao que quer que seja? O abismo entre os pró tons e o proletariado não ocultaria uma nfio admitida concepção metafísica do homem? Veja porém os interessantes textos de Sebastiano Ttmpanaro. Não se poderia evitar um sentimento de absurdo. 3-17. de nossa língua maternaj e assim por diante. poucas coisas se adaptavam (se adaptam) melhor a essa finalidade do que uma ideia de nação. Quem vivência a concepção e o nascimento do próprio filho sem ter a in-definida sensação de uma mistura de conexão. . Desintegração do paraíso: nada torna a fatalidade mais arbitrária. o homem como ser específico. da contingência em significado. contudo. De início. "Marxism and the National Question". nem o liberalismo. digamos. naturalmente. do budismo. A extraordinária sobrevivência. então. Desse modo. On Materielisiw and The Freudian Sfíp: e a ponderada réplica de Ravmond Williams. e 6e diferentes modos. Se a imaginação nacionalista se preocupa tanto. 3 Cf. esforça-se tão pouco pá* rã ligar essas descobertas à luta de classes. O grande mérito das visões de mundo das religiões tradicionais (que.19 18 suem esse tipo de túmulos.demandava. de nosso potencial físico. No correr de uma pesquisa de campo na Indonésia. A grande fraqueza de todos os estilos evolucionários/progressistas de pensamento. Absurdo da salvação: nada torna mais necessário um outro estilo de continuidade. Que devemos nos fazer com um materialismo cientifico que formalmente admita as descobertas da física sobre a matéria e. 105 (setombro-outubro de 1977).) Trago à baila essas observações talvez simplórias. 29. mas também o crepúsculo das modalidades religiosas de pensamento. isto indica forte afinidade com as imaginações religiosas. o pensamento religioso reage também aos obscuros sinais de imortalidade. da época em que vivemos. um Túmulo do Marxista Desconhecido. pecado original. sua mortalidade é inevitável. será conveniente iniciar pela morte o exame das raízes culturais do nacionalismo. ou norté-americanos. não desapareceu o só-' frimento que a fé em parte mitigava. p. casualidade e fatalidade em uma linguagem de "continuidade"? (Também aqui a desvantagem do pensamento evolucionário/progressista é uma hostilidade quase heraclitiana a qualquer ideia de continuidade. na década de 1960. Se habitualmente parece arbitrária a maneira como um homem morre. Se é amplamente reconhecido que os Estados-nação são "novos" e "históricos". Wew Lett Ftevien. atesta sua resposta imaginativa à esmagadora carga de sofrimento humano — doença. em dezenas de formações sociais diversas. etc. Como veremos. chocou-me a deliberada recusa do muitos muçulmanos o m acoitar as ideias de Oarwin. Como essa afinidade não é absolutamente fortuita. é que tais perguntas são respondidas com um silêncio intolerante.

e do mundo budista. 13 (abril de 1972). embora hoje pensemos nele como chinês. e vice-versa. Para nossos objetivos. seriamente.) Contudo. considerar o que dava a esses sistemas culturais sua manifesta plausibilidade e. Oíponegoro. 158: e Ann Kumar. seus ancestrais turcos. devemos lembrar de Artur e Boadicéia. p. com Debray. o alcance do latim. Porém. mas. 103. Conseq-iientemente. Não é preciso dizer que não estou declarando que o aparecimento do nacionalismo em fins do século XVIII foi "produzido" pela erosão das certezas religiosas. (Na verdade. para nossos fins. ao mesmo tempo. a França é eterna". antes. O que proponho é que o nacionalismo deve ser compreendido pondo-o lado a lado. do árabe. possivelmente sem excluir o próprio Kemal. orgs. quanto mais morta a lingua escrita — quanto mais distante estivesse da fala — melhor: em princípio. Podemos dizer. Var Harry J. Nesse sentido. a linguagem matemática continua uma velha tradição. compreendem no entanto os ideogramas uns dos outros. por isso. Diferença essencial era a segurança das antigas comunidades quanto à sacralidade singular de suas línguas e. Bonda e John A. mas com os sistemas culturais amplos que o precederam.) Todas as grandes comunidades clássicas concebiám-se como cosmicamente centrais. . tais comunidades clássicas vinculadas por línguas sagradas tinham caráter distinto das comunidades imaginadas das nações modernas. e refletir sobre o êxito comercial das mitografias de Tolkien. é evidente que ele não tinha um conceito de "holandeses" como uma coletividade. Natlons and States. hoje em dia. do Paraguai ao Japão. mediante uma linguagem sagrada vinculada a uma ordem de poder supraterrestre. 259). não se imaginava como chinês. Grifo nosso. nos hititas e nos sumerianos. Basta tomar o exemplo do Islam: se maguindanaos e berberes se encontram em Meca. ou que essa erosão não exija. Como também não estou sugerindo que de alguma forma o nacionalismo "suplanta" historicamente a religião. É essencial. viarn e vêem. "Dtponegoro 117787-1855)". embora o próprio conceito de "Indonésia" seja ume invenção do século XX. do Sri Lanka à península coreana. mas uns e outros compreendem o símbolo. a Ummah Islam. pretendia "conquistar InSo ItbertarlJ Java". tanto quanto é. e a maior parte da In* donásia de hoje tenha sido conquistada pelos holandeses entre 1850 e 1910. Esses bancos são prósperos hoje em dia e não há razão pare duvidar-se de que muitos turcos. p. K em ai Ataturk deu a um de seus bancos estatais o nome de Eti Banka (Banco Hitita) s a outro. ela mesma.. hoje em dia. ilimitado. do que expulsar "os holandeses". e não a partir dos sons. é inteiramente acidental que eu tenha nascido francês. Os romenos não têm a menor ideia de como o sinal " + '' é chamado pelos tai. 4 A comunidade religiosa Poucas coisas causam maior impressão do que a enorme extensão territorial da Ummah Islam. (Assim. deslizam para um futuro ilimitado. teoricamente. De fato. eram aceitos como verdadeiros quadros de referência. Larkin. Entre os heróis nacionais da indonésia contemporânea tem primazia o príncipe javanês do início do século XIX. A mágica do nacionalismo consiste em transformar o acaso em destino. embora nada conheçam da língua um do outro e sejam incapazes de se comunicar oralmente. Banco Sumeriano (Seton-Watson. Os mandarins chineses encaravam com aprovação os bárbaros que penosamente aprendiam a desenhar os ideogramas do Império do Centro. uma explicação complexa. O falecido presidente Sukarno sempre falou com inteira sinceridade sobre os trezentas e cinquenta anos de colonialismo suportados por sua "Indonésia". em seu apogeu. e até mesmo o Império do Centro — o qual. da cristandade. Antes de começar a rir. o árabe escrito funcionou como os caracteres chineses para criar uma comunidade a partir dos signos. Pois ambos. a nacionalidade. ou do chinês escritos era. a cristandade. é permissível que incluamos o "confucionismo") incorporaram concepções de comunidades imensas. muito embora as próprias memórias desse prfncipe mostrem que ele. "Sim. As grandes culturas. afinal de contas. salientar determinados elementoschave de sua decomposição. sagradas (e. mas sim como central — eram imagináveis em grande parte mediante uma linguagem sagrada e um texto escrito. Analogamente. suas ideias a respeito da admissão de novos membros. p. porque os textos sagrados que compartilham só existem em árabe clássico. do páli.20 21 as nações a que eles dão expressão política assomam de um passado imemorial. do Marrocos ao Arquipélago Sulu. daí. 4 e. a partir dos quais — bem como contra os quais — passaram a existir. não com ideologias políticas abraçadas conscientemente. ainda mais importante. os dois sistemas culturais relevantes são a comunidade religiosa e o reino dinástico. The WbfltiofSoulheastAsia. todo mundo tem acesso a um mundo abstrato de signos. Indonésia.

Tfte Spanish-American Revoltitians. sendo declarados livres de . impregnadas de um impulso em grande medida estranho ao nacionalismo. e um "manchu". como qualquer outra pessoa. o Corão era literalmente intraduzível (e. ou o chinês dos exames. As razões desse "fracasso" s3o divorsns. Dal a equanimidade com que mongóis e manchus achinesados eram aceitos como Filhos do Céu. que jazem ignorados entre aquelas e estas. G "n oposição Ss "línguas sagradas" (NT). intercambiáveis). na Argentina e nos Estados Unidos começariam a fazer logo depois. porque a verdade de Alá somente era acessível mediante os insubstituíveis signos verdadeiros da língua árabe escri. mas uma absorção alquímica. "civilizado". nem limitada à antiguidade. aleatoriamente fabricadas. 5 Ser meio-civilizado era muitíssimo melhor do que ser 'bárbaro. o impulso para a conversão. pela miscigenação com os brancos. e coisas assim. o verdadeiro alcance e plausibilidade dessas comunidades não podem ser explicados apenas pelo texto sagrado: afinal. .23 22 Tais bárbaros já estavam a meio caminho da absorção completa. 6 Como é admirável que esse liberal ainda proponha "extinguir" seus índios em parte "declarando-os livres de impostos" e "atribuindo-lhes a propriedade privada da terra". a seguinte "política relativa aos bárbaros" formulada em princípios do século XIX pelo liberal colombiano Pedro Fermín de Vargas: Para expandir nossa agricultura seria necessário hispanizar nossos índios. os ilongo. maometanos. Os ideogramas da língua chinesa. Observe-se.) Contudo. impostos e outros encargos. p. Devo esse insight a Judith Herrin. De fato. Mas muito embora as línguas sagradas tornassem imagináveis comunidades como a cristandade. e o recebimento de propriedade privada. não era traduzido). seria muito desejável que os índios fossem extintos. pairando muito acima de todas as línguas vulgares. o enorme otimismo: em última análise. 6 John Lynch. Não existe. gurcas e haussas a "mestiços". até muito recentemente.. neste caso. 8 Michelas Brakespear assumiu o posto de pontífice entra 1154 e 1159.' ta.' não quero tanto dizer a aceitação de dogmas religiosos par' ticulares.um mundo tão desligado da língua que todas as línguas constituíssem para ele signos equidistantes (e. 1803-1826. mus um fator-ciiavo (01 corlamontu o falo do quo n Hngua grega continuou sendo uma fala vulgar viva (diferentemente do laiiml em grande parte do império Oriental. (Quão diferente é a atitude de Fermín da preferência dos imperialistas europeus posteriores por "autênticos" malaios. Por conversão. "wogs". por exemplo. (Contraste o prestígio dessas antigas línguas mundiais. humano é maleável do ponto de vista sagrado. Sua preguiça. se as mudas línguas sagradas eram o meio pelo qual as grandes comunidades globais do passado eram imaginadas. que o autor emprega para referir-se à língua utilizada pelo comum das pessoas. Os bárbaros tornaram-se "Império do Centro". Filho do Céu. do árabe do Cõrão. também. cristãos. Grifos nossos. a realidade ontológica somente é apreensível por meio de um sistema único e privilegiado de re-[a]presentação: a língua-verdade do latim da Igreja. paralelamente à condescendente crueldade.. o índio pode ser redimido — mediante fecundação com o sémen branco. ' A Igreja grega pareço n3o ter atingido o status de uma Kngua-vardade. como seus sucessores no Brasil. portanto. latina ou árabe eram emanações da s realidade e não representações suas. como línguas-verdade. Na tradição islâmica. foi essa possibilidade de conversão pela língua sagrada que tornou possível que um "inglês" se tornasse Papa 8. "nativos semi-instruídos". com o esperanto ou o volapúk. Essa atitude não era por certo peculiar aos chineses. nenhuma ideia de . A natureza toda do ser. por isso. os rif. sua estupidez e sua indiferença em relação aos empreendimentos humanos normais levam a pensar que provêm de uma raça degenerada que se deteriora à medida que se distancia de suas origens. 7 E. com o nome de Adriano IV."seus leitores eram pequeninos recifes letrados por sobre enormes ocea"Llngua vulgar" foi a tradução que adotamos para vsrnacular. e sendo-lhes atribuída a propriedade privada da terra. a realidade de tais aparições dependia de uma ideia em grande medida estranha ao pensamento ocidental contemporâneo: a não-arbitrariedade do signo. 260.) Afinal de contas. Todos conhecemos bem a longa disputa a respeito da língua adequada para as massas (latim ou língua vulgar"). è" não exterminando-os pelas armas e pelos micróbios. Observem.

o Evangelho não é lido. The Traveis of Marco Polo. 9 Uma explicação mais completa exige que se aluda à relação entre os homens de letras e suas sociedades. após obter essa memorável vitória. l. p. porque "quanto ao número de súditos. . "Aos olhos de todos os que eram capazes de refle xão. 10 As concepções básicas a respeito de "grupos sociais" eram centrípetas e hierárquicas. e agia semelhantemente nas festas dos sarracenos. O que liam. 83. nos analfabetos. Erich Auerbach. mediando entre a língua vulgar e o latim. desejo destacar apenas as duas que se relacionam diretamente com a sacralidade singular dessas comunidades. embora beijado. Sogomombar-kan.. com isso. os homens de letras eram iniciados. Esse era seu rnodo habitual de agir em cada uma das festas cristãs mais importantes. como a Páscoa e o Natal. 152.. ObserMarc Bloch lembra-nos que "a maioria dos senhores e muitos grandes barões (dos tempos medievais] eram administradores incapazes de examinar pessoalmente um relatório ou uma conta". " O processo já aparecia claramente no maior de todos os livros de viagem europeus. que contém os quatro evangelhos. em fins do século XIII:12 O grande cã. Quando lhe foi perguntado o motivo dessa conduta. no último dos quais era nossa festa da Páscoa. o mundo material era pouco mais do que uma espécie de máscara. retornou em grande pompa e triunfo à capital de Kanbalu. '3|bid. 10 Isso nlo quer dizer que os analfabetos não liam. "alargaram abruptamente o horizonte cultural e geográfico e. havia o efeito. Em primeiro lugar. os judeus. Feudal Society. Mimesis. o mais eminente de todos os seus ídolos. embora escrevendo para cristãos europeus seus iguais. que. Reverencio e mostro respeito a todos os quatro. ordenou que todos os cristãos fossem até ele. por detrás da qual tinham lugar todas as coisas realmente importamas. em seu esplendor. na Europa. Ciente de que essa era uma de nossas principais comemorações. da qual a intelligenísia bilíngue. também a concepção dos homens sobre as formas possíveis de vida humana". de maneira solene. ele supera qualquer soberano que haja existido ou que agora exista no mundo". Seria enganoso encarar aqueles como uma espécie de tecnocracia teológica. Após fazer com que ele fosse repetidas vezes perfumado com incenso. pela maneira pela qual sua majestade agia diante deles. sua coerência não deliberada desvaneceu-se rapidamente depois do final da Idade Média. de modo preponderante. é evidente que encarava a fé dos cristãos como a mais verdadeira e a melhor. em parte. Moisés. Ao invés disso. porém. qualificar Kublai de hipócrita ou idólatra. estratos estratégicos em uma hierarquia cosmológica cujo ápice era divino." Bloch. Maomé. Isso teve lugar no mês de novembro. destinada a expressar por meio de símbolos uma realidade mais profunda. dos judeus e dos idólatras. O espantoso poder do papado. e invoco para mim a ajuda de seja qual for demre eles que é verdadeiramente o supremo no céu".. p. disse ele: "Há quatro grandes profetas que são reverenciados e venerados pelas diversas classes de humanidade. Os cristãos encaram Jesus Cristo como sua divindade. Dentre as razões dessa decadência. servia de mediador entre a terra e o céu. p. feita pelo bom veneziano cristão Marco Polo. e os idólatras. não eram palavras. e não norteadas por fronteiras e horizontais. trazendo consigo seu Livro. só é compreensível em termos de uma classe transeuropéia de letrados em escrita latina e de uma concepção do mundo compartilhada virtualmente por todos. os sarracenos. beijou-o com devoção e determinou que o mesmo fizessem todos os seus nobres ali presentes. (O aterrador da excomunhão reflete essa cosmologia. 282. Porém. p. 158-3. ainda que obscuras. Observe-se que. Jamais lhe ocorre. 9 O que há de mais notável nessa passagem não é tanto o tranquilo relativismo religioso (ainda que um relativismo religioso) do grande -governante mongol. nada tinham da obscuridade preparada dos jargões dos advogados ou dos economistas. As línguas que eles sustinham. p. 81. como a atitude e a linguagem de Marco Polo.) n E na utilização inconsciente de "nosso" (que se torna "seu") e na re1J Marco Polo.) Apesar de toda a grandeza e poder das grandes comu^ nidades imaginadas religiosamente. à extensão do território e ao montante da receita. mas o mundo observável. Grifos nossos. das descobertas do mundo não-europeu. (Sem dúvida. à margem da ideia que a sociedade tem da realidade.24 25 vê a seguinte descrição reverente de Kublai Khan. e ali continuava a residir nos meses de fevereiro e março.'e!e lhes parecia também uma língua. mas de modo algum exclusivamente.

pois seu tesouro é imenso e eie tem um grande país sob seu controle. As razões dessa mudança não devem demorar-nos aqui: a importância 14 central do capitalismo editorial (print-capitalism) será discutida mais adiante. gradualmente se fragmentavam. mas virtualmente toda a de Voltaire (1694-1778) era em língua vulgar. Grifo nosso. p.. 81. Febvre e Martin calculam que 77% dos livros impressos antes de 1500 ainda eram em latim (o que significa. 13 Ibid. O original francês é mais modesto e historicamente exato: "landis que ]'on edite de mói n s en mgins cfouvrages en lati n. que 23% já eram em línguas vulgares). 16 Henti de Montesquieu. ("Uma vez que sã publicam cada vez menos obras em latim e uma proporção sempre maior de textos em língua nacional. em 1501. lô "Após 1640. integradas pelas antigas línguas sagradas. de V Paris. Descartes (1596-1650) e Pascal (1623-1662). Persian Leners. Shakespeare (1564-1616). Agora. Bloch observou que "o latim não era apenas a língua em que se ministrava o ensino.) Mas no século XVI tudo isso já se estava alterando rapidamente..26 ferência à fé dos cristãos como "mais verdadeira". Que contraste revelador oferece o começo da carta escrita pelo viajante persa "Rica" a seu amigo "Ibben". « Ibid. 77. p. pluralizavam e territorializavam. a hegemonia do latim tinha seu destino marcado. Outrora. 356. no entanto. ele amedrontava até mesmo os príncipes. Hobbes (1588-1678) foi uma figura de renome continental por escrever na línguada-verdade. p. o latim deixou de ser a língua da alta intelligenísia pan-européia. mas agora a "relativizacão" e a "territorializacão" são perfeitamente conscientes.. p. l5 (Este "única" demonstra muito claramente a sacralidade do latim — nenhuma outra língua era considerada digna de ser ensinada. 331-32. a atividade editorial foi deixando de ser . 330. 16 Bloch. e essa é por certo uma rica herança. um empreendimento internacional [sic]. As Lettres Persanes foram publicadas • pela primeira vez em 1721. As deliberadas e elaboradas invencionices do católico do século XVIII reproduzem o realismo ingénuo de seu predecessor do século XIII. Basta que nos lembremos de sua dimensão e ritmo. na identificação do Grande Satã feita pelo Ayaíollah Ruhollah Khomeini. os quase contemporâneos destes homens do outro lado do Canal da Mancha. chamado São Pedro. p. Não seria razoável que urna elaboração paradoxal dessa tradição. mas como uma nação! Em segundo lugar. lfi Se das oitenta e oito edições impressas em Paris. 14 O Papa é o chefe dos cristãos. depois de 1575 a maioria era sempre em francês. em "1712' i . 1B E se o inglês não se tivesse tornado. p. Lucien Febvre a Henri-Jean Martin. porém. que faz antever a linguagem de muitos nacionalistas ("nossa" nação é "a melhor" — em um campo comparativo. compondo suas obras em língua vulgar. p. com cada vez menos livros saindo em latim. E não falamos apenas da popularidade geral. Ele proclama ser o herdeiro de urn dos antigos cristãos. et une proportion toujours plus grande de taxtes an langue nationale. em vez de "verdadeira". 232-3. competitivo). Pouco depois. The Corning of the Book. a língua mais importante mundialmente. e cada vez mais nas línguas vulgares. ele era a única língua ensinada". é um ídolo antigo. em grande medida. Feudal Society.") 17 .. Ia commerca dia livre se morcelle en Europé". e coro intenção política. o comércio do livro segmentou-se na Europa. apenas •oito não eram em latim. pois podia depô-los tão facilmente quanto nossos magníficos sultãos depõem os reis da Iremécia ou da Geórgia. Escrevendo a respeito da Europa ocidental medieval. ninguém mais o teme. fosse vista'não como uma heresia. L'Apparítiofi tíu Livre. agora reverenciado por hábito. 321. 20 Ibid. p. mas em velocidade não menos vertiginosa. mantinham a maior parte de sua correspondência em latim. era virtualmente desconhecido do outro lado do Canal da Mancha. 248-49. nem mesmo como um personagem demoníaco (o pequenino Cárter dificilmente preencheria os requisitos). No século XVII. a decadência do latim exemplifica um vasto processo em que as comunidades sagradas. duzentos anos mais tarde. por outro lado. sua obscuridade insular do início? Enquanto isso. Ibid. l. não teria ele conservado. n Apesar de uma reaparição temporária durante a Contra-Reforma." 20 Em suma. foi uma deterioração gradual da própria língua sagrada. podem-se descobrir as sementes de uma tcrritorializacão das fés.

um certo Otto Forst publicou seu Ahnentafet Seiner Kaiserlichen una KõnigKchen Hoheft dês durchlauchíígsten Herrn Erzherzogs Fram Ferdiriend. "não sem um certo aspecto cómico. . Feldkirch. de várias maneiras essenciais. 52 poloneses. de União entre a Inglaterra e a Escócia. que esses antigos Estados monárquicos expandiam-se não só por meio da guerra. que alguém se coloque empaticamente dentro de um mundo em que o reino dinástico era visto pela maioria dos homens corno o único sistema "político" imaginável. afinal de contas. mas Interpreta o fenómeno de maneira muito estreita: os aristocratas locais preferem um monarca de fora. bastante paradoxalmente. Na concepção moderna. Eslavônia. a titulação dos últimos dinastas: 23 Imperador da Áustria.. porém. o Conquistador?). Nas monarquias. Lodomeria e Híria. etc. que corresponde a essa transformação. as linhagens reais muitas vezes derivavam seu prestígio. Num mundo de cidadãos. 20 Ingleses. p. era. e dos presidentes pelo seu último nome (qual era o nome de batismo de Ebert?!. à parte qualquer aura de divindade. Carniola e Bukovina.047 dos ancestrais do arquiducue prestes a ser assassinado. Friaui. também. todos eles teoricamente elegíveis para a presidência. p.28 O reino dinástico Talvez seja difícil.) Ainda assim. The Dissolution of Habsburg Monarchy. É típico que não tenha havido uma dinastia "inglesa" governando em Londres desde o século XI (se tanto). Como dizia o ditado. Servia. de Cartaro. Rei da Hungria. 23 Registramos aqui. onde o poder está restrito a um único sobrenome. De fato. Piacenza e Guastella. porém. poderíamos dizer. e as soberanias fundiam-se imperceptivelmente umas nas outras. n. o registro dos inúmeros casamentos. de Auschwitz e Sator. 22 Deve-se recordar. é difícil imaginar um arranjo dessa tipo sendo realizado entre as aristocracias de duas repúblicas. etc. Bregenz. da Dalmácia. negociatas e pilhagens dos Habsburgos". 125). O governo do rei organiza tudo em torno de um centro elevado. não cidadãos.. Grão-duque da Toscana e da Cracóvia. Grão-duque da Transilvânia.. etc. dentre os quais 1. no sentido do que os arquitetos da união (oram políticos aristocratas. a facilidade com que os impérios e reinos pré-modernos eram capazes de manter seu comando sobre populações enormemente heterogéneas. que. p. A concepção de um Reino Unido foi por certo o elemento mediador crucial que tornou poss-Vel esse entendimento. Croácia. Rei de Jerusalém.486 alemães. Esse "curioso documento" está citado em ibid. Caríntia. Isso. Nos reinos em que a poligínia era sancionada pela religião. Duque de Triento e Brizen. 136. 55 Gstlnar salienta o caráter tipicamente estrangeiro das dinastias. e muitas vezes sequer contíguas. Não posso deixar da citar aqui a admirável reacão do Franz Joseph à noticia do assassinato da seu excêntrico herdeiro necessário: "Dessa maneira. infelizmente. Ttiought snd Change.. da miscigenação. Arquiduque da Áustria [slcj. a monarquia "autêntica" é transversal a todas as concepções modernas de vida política. Pelo princípio geral da verticalidade. da Boémia. Gõrz e Gradisca. Grande Voivoda da Voivodina. 47 dinamarqueses. e que "nacionalidade" devemos atribuir aos Bourbons? 25 23 Observe-se 3 substituição na nomenclatura dos governantes. Quanto a isso. que Nairn certamente está certo ao descrever a Lei de 1707. as fronteiras eram porosas e indistintas. por longos períodos de tempo. de passagem. Senhor de Trieste. 24 Oscar Jâszi. e acima da Windish Mark. Parma. 124 franceses. são necessariamente os nomes "ds batismo". sistemas complexos de concubinato ordenado eram essenciais para a integração do reino. Bella gerant alH f u fel ix Áustria nube! A seguir. de Salzburgo. a Casa dos Habs51 burgos foi paradigmática.. ara atuante na Europa crista monogamica. Margrave da Alta e Baixa Lausitz e da Istria. bom como quatro outras nacionalidades. Gallcia. Duque de Lotaríngia. que relacionava 2. p.. (Ver sua lúcida exposição em The Break-up of Brítain. Pois. de Teschen. porém. porque ale não tomará partido em relação a suas rivalidades internas. 136 et seqs. os casamentos'dinásticos reuniam populações diversas sob novos dirigentes. acompanhados de números ou alcunhas. a soberania do Estado é plena. o número limitado de nomes "de batismo" torna-os inadequados como denominadores específicos.. De maneira a mais notável na Ásia pre-moderna. Sonnenberg. um poder superior restaurou aquela ordem que eu. categórica e uniformemente atuante sobre cada centímetro quadrado de um território legalmente demarcado. e não das populações. 89 espanhóis. Os escolares lembram-sa dos monarcas por seus primeiros nomes (qual era o sobrenome da Guilherme. O mesmo principio. Duque da Alta e Baixa Siiésia. Ragusa e Zara. MJPois tais misturas eram símbolos de um staíus superior. p. 136. Em 1910. de Kyburg. como um "arranjo entre nobres". 34.. observa Jászi com justeza. hoje em dia. Conde de Hohenembs. 21 Daí. 196 italianos. de modo algo resumido. 1. estava Incapaz de manter" (ibid. Conde Principesco de Habsburgo e Tirol. Margrave da Morávia.. No imaginar de antigamente. Estíria. são súditos. onde os Estados se definiam por centros. Sua legitimidade deriva da divindade. que propiciam as distinções necessárias. de Módena. mas também por uma política sexual — de espécie muito diversa da que hoje se pratica.

o Grande (r. tornou possível "pensar" a nação. desse modo "alinhando o Sião com as monarquias 'civilizadas' da Europa". p. em 1910. 1974. 92. 27 O novo sistema conduziu ao trono. Mais de mi! dos sete a oito mil homens do exército prussiano. Contudo. os de seu sobrinhoneto Frederico Guilherme III (r. o cliente que encomendou a obra. Para uma primeira impressão dessa mudança. Em 1649. "The Militarv. um homossexual caprichoso que certamente teria sido ignorado em outros tempos. "Os prussianos de classe média aram superados pelos estrangeiros am seu próprio exército. Gneisenau e Clausewitz. na França do Iluminismo. Grécia. durante o século XVII — por razões de que não nos ocuparemos agora — a legitimidade automática da monarquia sagrada começou sua lenta decadência na Europa ocidental. Os pastores que haviam acompanhado a estrela até a manjedoura' em que Cristo nasceu têm feições de camponeses da Borgonha. ins-. muitos dinastas já vinham há algum tempo adquirindo um cunho "nacional". em consequência das espetaculares reformas de Scharnhorst. 64 e 85. " Noel A.. a "monarquia" tornouse um modelo semipadronizado. Suécia. línguas e linhagens sagradas. Contudo. Tese de Doutoramento fPhDS. Por trás da decadência das comunidades. Cornell. mas.. que. O que hoje parece incongruente obviamente parecia inteiramente natural aos olhos dos devotos medievais."AlfredVagts. eram estrangeiros. Ana Stuart ainda estava curando os doentes pela superposição das mãos reais. corno assinalaremos pormenorizadamente mais adiante. em vez de um rei. ou as pinturas dos primeiros mestres italianos e flamengos. 1740-1786). vestido como burguês ou em trajes de nobre.29 Concepções do tempo ' Seria uma visão acanhada. porém. Tese de Doutoramento IPhD)." Em 1798. Rama V (Chulalongkorn) enviou seus filhos e sobrinhos para as cortes de São Petersburgo. porém. Universidade de Londres. 1971. tinha lugar uma mudança fundamental nos modos de apreender o mundo. a aprovação intermonárquica de sua ascensão ao trono como Rama VI foi ratificada pelo comparecimento a sua coroação de príncipes vindos da Grã-Bretanha.30 31 Contudo. aparece ajoelhado em adoração ao lado dos pastores. A cristandade assume sua forma universal mediante uma 29 Marc Bloch. tais como os relevos e os vitrais das igrejas medievais. os reformadores prussianos exigiram "redução è metade do número de estrangeiros que ainda representavamcercade 50% dos praças. tituiu o princípio indispensável da sucessão pela primogenitura legal. No longínquo Sião. . "Trai Governmsnt and Admiriistraticn in the Reign of Rama VI (1910-1925)". no correr da década de 1650. até o fim do ancien regime. Enquanto os exércitos de Frederico. pensar que as comunidades imaginadas das nações simplesmente tenham brotado das comunidades religiosas e dos reinos dinásticos e tomado seu lugar. 18St9phan Green. Traço característico dessas representações é algo enganosamente análogo à "aparência moderna". p. Carlos Stuart foi decapitado na primeira das revoluções do mundo moderno e. um dos Estados mais importantes da Europa foi governado por um Protetor plebeu. 270. os Estados dinásticos constituíam a maioria dos componentes do sistema político mundial. Estamos diante de um mundo em que a representação da realidade imaginada era irresistivelmente visual e auditiva. com o tempo.. em 1806. Tennõ e Filho do Céu tornaram-se "Imperadores". A Virgem Maria é representada como filha de um mercador toscano. 390 e 398-9. o princípio da Legitimidade tinha de ser defendido em alta voz e deliberadamente e. isso dava colorido ao dito de que a Prússia não era um pais que tinha um exército. mesmo ao tempo de Pope e Addison. mais do que qualquer outra coisa. eram em gran26 de parte formados por "estrangeiros". Em muitos quadros. Luís XV e XVI. Dinamarca — e Japão! 28 Ainda em 1914. curas executadas também pelos Bourbons. Battye. à medida que o antigo princípio da Legitimidade fenecia silenciosamente. Londres e Berlim para aprenderem as complexidades do modelo universal. Rússia. mas um exército que tinha um pais. Em 1887. p. podemo-nos voltar para as representações visuais das comunidades sagradas. Lês fíois Thaumarurges. exclusivamente "nacionais-prussianos". p. 26 Depois de 1789. Government and Society in Siam. 1868-1910". 1797-1840) já eram../Wsroryo/M/ffíansm.

estabelecese então uma conexão entre dois eventos que não se vinculam temporalmente. e o último "cumpre". nada estava mais distante de seus pensamentos do que a perspectiva de um longo futuro para uma raça humana jovem e vigorosa". e medida pelo relógio e pelo calendário. Ela encara o tempo como algo próximo do que Benjamin chama de tempo messiânico. llíaminsíions. Era pois natural que o grande cronista do século XII. p. a única capaz de traçar um plano de história como esse e fornecer a chave para sua compreensão. ele é simultaneamente algo que sempre existiu. no primeiro. Nossa própria concepção de simultaneidade tem estado em elaboração por muito tempo e sua emergência ligase certamente. 263. aquela fábula.. é algo eterno. 265. uma ideia de "tempo homogéneo e vazio". a expressão "enquanto isso" não pode ter significação real. l. de modo que. 32 Auerbach. 30 Bloch observa que o povo pensava que devia estar próximo o final dos tempos. Ele está certo em acentuar que tal ideia de simultaneidade é inteiramente estranha a nós mesmos.. valendo-nos novamente de Benjamin. a mediação de suas concepções para as massas iletradas. Bloch conclui. não era menos essencial. dimensão horizontal. sempre pessoais e particulares. Bloah. 84-6. dentro do espírito de restauração do museu moderno. e estritamente.32 infinidade de especifi cidades e de particularidades: este relevo. Para nos. modalado da trás para díanle pelo] futuro". aos olhos de Deus. aquela peça moral.. maneira metafórica de fazer equivaler passado e presente. p. se não a levarmos plenamente em conta. ao desenvolvimento das ciências seculares. bispo Oito de Freising. Representar a Virgem Maria com traços "semitas" ou vestimentas do "primeiro século".. era algo inimaginável. Essa nova ideia está tão arraigada que se poderia e f Irma r que todo conceito fundamental moderno baseia-se num conceito de "enquanto isso". p. 3I Auerbach oferece-nos um inesquecível esboço dessa forma de consciência: 32 30 31 Se um evento como o sacrifício de Isaac é interpretado como a prefiguração do sacrifício de Cristo. no qual a simultaneidade é como se fosse transversal ao tempo. acharemos difícil investigar a génese obscura do nacionalismo. aquele vitral. p. Ela só pode ser estabelecida se ambas as ocorrências estiverem verticalmente vinculadas à Divina Providência. " Dentro desse modo de ver as coisas. l. Citado em Bloch. 34 33 34 WaltBr Banjarnin. uma simultaneidade de passado e futuro em um presente momentâneo. Embora a classe letrada transeuropéia que lia era latim fosse um elemento essencial na estruturação da imaginação cristã. 64. como "a sombra do [isto é. o primeiro.. O humilde pároco cujos antepassados e cujas fraquezas eram conhecidos por todos os que assistiam a suas celebrações ainda assim era o intermediário direío entre seus paroquianos e o divino. e que será cumprido no futuro. de modos que precisam ainda ser bem estudados. se referisse seguidamente a "nós. por meio de criações vi^ suais e auditivas. Grifo nosso. mas por coincidência temporal. e sabia-se que era. nem oausalmente — conexão impossível de ser estabelecida pela razão na. algo já consumado na esfera do evento terreno fragmentário. suábias ou andaluzas. aquela relíquia. Mimeste. o aqui e agora não é mais um simples vinculo em uma corrente terrena de eventos. O que veio tomar o lugar da concepção medieval de simultaneidade longitudinal ao tempo é. 90. Mas é uma concepção de importância tão fundamental que. ela se manifestava de maneira diversa a comunidades particulares.que tão logo os homens medievais "entregavam-se à meditação.. Confronte a descrição do Velho Testamento. encontra-se o último como foi anunciado e prometido. como réplicas delas mesmas. porque o pensamento cristão medieval não possuía uma concepção de história como infindável corrente de causa e efeito ou de separação radical entre passado e presente. Ibid. por Santo Agostinho. este sermão. marcada não pela prefiguração e cumprimento. a ideia de "trajes modernos". p. Feudal Society. que fomos colocados no final dos tempos". no sentido de que a segunda vinda de Cristo poderia ocorrer a qualquer momento: São Paulo dissera que "o dia do Senhor chega como um ladrão no meio da noite".. algo onítemporal. é um reconhecimento iridireto de sua irrevogável distinção. . Essa justaposição do universal-cósmico e do particular-mundano significa que por maior que pudesse ser a cristandade. Feudal Society.

B. estarem li15 gados. nem mesmo saberá como se chama. de Petrônio. o que é que realmente liga A a D? Duas concepções complementares: primeiro. p. mas por atores que podem estar em grande medida despercebidos uns em relação aos outros. in Pierre-Bernard Lafcnt e Denys tombará (orgs. também. não ternos conhecimento simultaneamente de Gito na cama corn Ascyltus. M De fato. não apenas em espanhol. a compreensão do enredo pode depender. 1. que eles estão encravados em "sociedades" (Wessex. Apenas'eíes. a língua franca das elites euraslanas. no correr dessa sequência. lendas e livros sagrados. para fins de ilustração. Los Angeles). todas menos uma. . 41 José Hizal. 197. Em 1887. de qualquer romance histórico. Ela é evidentemente um instrumento para a apresentação da simultaneidade em um "tempo homogéneo e vazio". surgia também. que também é concebida como uma comunidade compacta que s'e move firmemente através da história. é recompensadora a comparação. Var Leopoldo Y. 39 Um norte-ámericano jamais encontrará. Tomemos. demonstra a novidade desse mundo imaginado evocado pelo autor nas mentes de seus leitores. medido pelo relógio e pelo calendário. da que A. com documentos ou relatos da época transformada em ficção. Littératures contemporaines de l'Asíe du Sud-Est. Foi. O fato de que todos esses atos são desempenhados no mesmo tempo. Noli Ma Tengere. B fazendo compras e D jogando sinuca. a época ds Richardson. 39 Nada demonstra melhor a Imersão do romance em um tempo homogéneo e vazio do que a ausSnela daquelas genealogias preliminares. Líibeck. no entanto. hoje considerado o melhor produto da literatura filipina moderna. da seguinte maneira: Tempo: Eventos. chegando multas veres até à origem do homem. tem um namorado (D). Yabes. como o tagato a o ilocano. Mas está absolutamente seguro de sua atividade constante. * Eis a maneira admirável como começa:4l Essa potifona distingue decisivamente o romance moderno até mesmo de um precursor tSo brilhante quanto o Satyrícon. uma imprensa "nacionalista". 3S Então. 40 ftizel escreveu esse romance na língua colonial (o espanhol). Enquanto Encolpius lamenta a infidelidade de seu jovem amante. p. o "Pai do Nacionalismo Filipino". um segmento de. A narrativa deste dessnróla-se linearmente. As origens do jornal moderno encon* tram-sa nas gazetas do final do século XVII. 38 A ideia de um organismo sociológico que se move pelo calendário através do tempo homogéneo e vazio apresenta uma analogia precisa corn a ideia de nação. A e D jamais se encontram. observam A telefonando a C. ainda assim. Podemos imaginar uma espécie de esquema temporal para esse segmento. Ao mesmo tempo que o romance. se C tiver agido inteligentemente. Detoe e Fielding é o inicio do século XVIII. escreveu ò romance NoliMe Tangeré. II e llt. 35 Pois essas formas ofereceram os recursos técnicos para "re-[a}presentar" a espécie de comunidade imaginada que é a nação. "The Modern literature of the Philippinss". p. Febvre e Martin. pela primeira vez.000.). Apenas eles percebem os vínculos. 37 Segundo. por sua vez. urh enredo simples de romance.35 Pode-se perceber bem melhor por que essa transformação seria tão importante para o nascimento da comunidade imaginada da nação se considerarmos a estrutura básica de duas formas de imaginar que pela primeira vez floresceram na Europa. indissoluvelmente ligadas a movimentos nacionalistas.000 de compatriotas. mais do que um pequeno número de seus 240. como Deus. Essas sociedades são entidades sociológicas de uma realidade tão firme e estável. o jornal só se torna uma categoria geral de material impresso após 1700. mas em línguas "aborígenes". tudo ao mesmo tempo. 287-302. traço tão carsctarístieodas antigas crónicas. e podem na verdade não ter sequer conhecimento da existência um do outro. que A e D estão encravados nas mentes dos leitores oniscientes. ou um comentário complexo sobre a expressão "enquanto isso". 37 Embora a Príncesse tíe CIÊves já tivesse sido publicada sm 1678. que era. 1 II NI D beba em urn bar A janta em casa com S C tem um sonho sinistro A discute com B C a D fazem amor A lelsfona a C ã vai és compras D joga sinuca Observe-se que. emlcamonte diversificadas. estrutura típica não só das obras-primas de Balzac. anónima e simultânea. mas também de qualquer romanceco contemporâneo. The Lost Éden. 38 Nesse contexto. no qual um homem (A) possui uma esposa (B) e uma amante (C) que. e da elite nativa. quase o primeiro romance escrito por um "índio". C e O não saibam o que se passa com os outras. que seus membros (A e D) podem até mesmo ser descritos como passando um pelo outro na rua sem jamais se relacionarem e. e de diferentes épocas. Talvez a perspectiva que estou sugerindo pareça menosabstrata se nos dedicarmos a examinar rapidamente quatro obras de ficção de diferentes culturas. no época. José Rizal. Considere-se primeiro a estrutura do romance à moda antiga. The Corning ofthe Book. porém. Não tem ideia alguma sobre o que estão fazendo em qualquer tempo. nos Tampos l. no século XVIII: o romance e o jornal.

isso se deixa em geral para Deus e a Natureza. logo de início. ao comércio e a qualquer ideia que fosse nova ou ousada.. Já em 1593. o mundo de sua obra-prima é. e até mesmo na cidadela espanhola de Intramuros. só cr tenha anunciado na tarde do mesmo dia. Noli foi feito para ser lido. é claro. Como varemos. a Pmagdaanang Buhay nl Florante at w Loura sã Cahariang Albânia [A história de Florante e Laura no Reino da Albânia]. 43 Pois embora Baltazar ainda fosse vivo quando nasceu Rizal. e indicava que ele havia sido outrora o prefeito nativo de uma pequena cidade... que se movem para diante pelo tempo do calendário. e seu amigo íntimo Aladin. jamais fechava suas portas — exceto. às vezes se considera que eles estão contratados pelo governo exatamente para esse fim. A liberalização só teve Inicio na década de 1860. não intencionalmente. 44 Ibid. mistura expressões espanholas em seus quartetos em tagalo. De modo que a notícia de seu jantar correu como um choque elétrico por toda a comunidade de filantes. satíricos ou nacionalistas. ou. 205-6. mas cada um deles dedicou o melhor de seu pensamento à maneira como poderiam saudar seu anfitrião com a fingida intimidade de. *Mbid. Seu cenário — uma Albânia medieval fictícia — é completamente distante no tempo e no espaço da Binondo da década de 1880.42 Não há o que ofereça maior sentimento foucaultiano das abruptas descontinuidades da consciência do que comparar Noli com a mais célebre obra literária anterior de um "índio". se houvesse ocasião. Na verdade. do tempo "interior" do romance. 1570 a 1898". os quais Deus. Como observa Lumbera. A passagem natural dessa casa. estranho ao de Noli. de tal modo que a história completa só nos chega mediante uma série de falas que servem como/fos/ibacks". onde ele morava.ces in tha Development of Tagatog Postry. esse obscuridade/celebridade tem tudo a ver com B disseminação do capitalismo editorial. Embora Rizal não tenha a menor ideia da identidade de cada um de seus leitores. desculpar-se polidamente por não haver chegado mais cedo onde presumivelmente sua presença era tão ansiosamente esperada. Basta que se observe que. havia criado e generosamente multiplicado em Manila. Certamente não terá sido demolida por seu proprietário. "o desenrolar do enredo não segue uma ordem cronológica. Certamente não é necessário um longo comentário. como seu país. porém. Baltazar. quanto a tudo o que tem de básico. A história começa In medias rés. . outros. p. em outros distritos de Manila. nas Filipinas. Seus heróis — Florante. Observe-se também o tom. para ser declamado em voz alta. que ainda pode ser reconhecida. num determinado mês de uma determinada década. ** Quase metade dos 399 quartetos são relatos da infância de Fiorante. "Tradition and Influer. O jantar foi oferecido em uma casa na Rua Anloague. parasitas e penetras. enquanto Florante at Laura. que ainda pode ser reconhecida. a menos que tenha vindo abaixo com algum terremoto. em diferentes bairros de Manila. A partir de então. um nobre albanês cristão. metseqs. 35.velha amizade. Naquele tempo. E na frase "uma casa na Rua Anloague.. Alguns deles puseram-se em busca de polimento para suas botas. O mais chocante é o manuseio do tempo por Baltazar. Enquanto Rizal salpica deliberadamente sua prosa espanhola com palavras de tagalo para obter efeitos "realistas". autor e leitores.37 Don Santiago de los Santos oferecia um jantar festivo numa noite de fins de outubro da década de 1880. a imagem (inteiramente nova na literatura filipina) de um jantar que é discutido por centenas de pessoas anónimas. logo se tornou o tema das conversas em Bínondo. que não se conhecem entre si. contrariando seu costume.. aristocrata persa muçulmano ("mouro") — só nos lembram as Filipinas pela ligação cristão-mouro. 143 e 235. de seus anos de estudo em Atenas e de 4Í O reverso da obscuridade anónima dos leitores foi/é B celebridade Imediata do autor.". para o tempo "exterior" da vida quotidiana do leitor de Manila oferece uma confirmação hipnótica da solidez de uma comunidade singular. Todos sabiam que sua casa. p.. como se seu relacionamento com eles não fosse nem um pouco problemático. quem reconhece somos nós-os-leitores-fílipinos. Lumbera. apenas para aumentar a grandiosidade e a sonoridade de sua linguagem poética. evoca imediatamente a comunidade imaginada. Don Santiago era mais conhecido como Capitão Tiago — a patente não era militar mas política. em Sua infinita sabedoria. de botões de colarinho e gravatas. B por séculos. dominicanos ativos haviam publicado em Manila a Doctrina CMstiana. abran- gendo personagens. Embora. Ver Blenvenido L. embora talvez já tivesse sido escrita em 1838. ele tinha reputação de pródigo. a imprensa foi mantida sob estrito controla eclesiástico. cuja primeira edição impressa data de 1861. p. escreve para eles com uma intimidade irónica.

35-6'. cap. sucessivamente. An tntroifuction to Spsnish-Arnerícsn Literature. O horizonte é claramente delimitado: é o do México colonial. e'sse texto é "uma feroz acusação à administração espanhola no México: ignorância. Albânia... Mimesis. Al! morreu em 1932. ou discuti-los com seu público. Marco foi internado pelas autoridades coloniais holandesas em Boven Digul. sua mãe satisfaz seus caprichos. i. as estruturas que temos estudado sejam algo "europeias". Nada nos assegura mais dessa solidez sociológica do que a sucessão de plurais. baseada na impressão de 1861. nos longínquos pântanos interiores do oeste da Nova Guiné.. ladrão. porém. padre. a única alternativa de uma narrativa direta.. está magicamente solitária.". como jornalista radical. 47 Jean Franco. aldeias longínquas. monastérios. Nas palavras de um crítico. 50 publicada em folhetim. 34. Esses episódios permitem que o autor descreva hospitais. é a supermãe de Periquillo que ganha a parada. um dos mais antigos campos de concentração do mundo. que agora tu assassinas/ lamento. fornecidos pelo herói em conversa com Aladin. como aquela em que Salomé seduziu-se por João Batista. muito embora depare com muita gente boa e sábia. brutalidade e decepção!/ Eu. ^ Em 1816. da crueldade. A forma essencial desse romance "nacionalista" está na seguinte descrição de seu conteúdo: 4S Desde o inicio. tão competentemente exposta por Auerbach. {890-1932Í.lupit. p. índios." Essa famosa estrofe tem sido às vezes interpretada corno uma vetada afirmação de patriotismo filipino. a não ser pelo fluxo melífluo dos polissílabos em tagalo. 214-15. Alterei ligeiramente o texto em tagalo apresentada por ele. 1890-1932) ou L'&Jucation Politique". médico.estabilidade que funde o mundo de dentro do romance com o mundo de fora. "Tradition and Influenoes". José Joaquín Fernandez de Lizardi escreveu um romance chamado El periquillo sarmento [O papagaio sarnentoj. o destino que te coube.. e se torna. negros — não é porém um tour du monde. linear. ao mesmo tempo. Mas Marco Kartodikromo. em 1924:31 49 45 A técnica é semelhante à da Homaro. meteórica. sua ligação apenas se dá pelas vozes em conversa. de maneira convincente.) Finalmente."/ "Adeus. Pois eles evocam um espaço social cheio de prisões comparáveis. 203. 1 ("Odysseus1 Scar"). prisões. p. p. nunca ocorre a Baltazar "situar" seus protagonistas na "sociedade". Após uma carreira curta. agora reino/ do mal. funcionário numa cidade do interior. cusa mang pinatay/ sã iyo. De fato./ acong tangulan mo. malaquf ang panghihinavang. seu defensor. E embora seu pai seja um homem inteligente que quer que o filho se dedique a uma profissão útil. Cada uma delas. após seis anos de confinamento.. Grifos nossos.. ÍB Ibid. "Mas Marco Kartodikromo (c.suas subsequentes proezas militares. aldeias longínquas. aprendiz de farmácia. prisões. in Littératures contemporaines de l'A$ia du Sud-£st. ao invés de ir engrossar as fileiras dos advogados e parasitas. enquanto Florante ainda estudava em Atenas. Se ficamos sabendo dos passados "simultâneos" de Florante e Aladin. bangis caliluhan. . evidentemente a primeira obra latino-americana desse género. 50 Essa deslocamento de um herói solitário por uma paisagem social adamantina é típico de muitos dos antigos romances (antí)coloniais. enquanto.. 51 Segundo tradução de Paul Tickell em seu Three Early Indonesian Short Stories t>y Mas Marco Kartodikromo (s. Como também não há muito de "filipino" nesse texto. Aladin era expulso da corte de seu soberano. que tal interpretação ô anacrónica. setenta anos antes de Noli ser escrito. Vemos aqui novamente a "imaginação nacional" funcionando nas andanças de um herói solitário por uma paisagem sociológica de uma . [o herói. mas todas representativas (em sua existência simultânea e distinta) da tirania desta colónia. uma história escrita pelo malfadado jovem indonésio nacionalista-comunista. seus professores ou não tinham vocação. Não tem disposição para trabalhar. p. eis aqui o início de Semarang Hitaw [O Semarang negro]. nenhuma deJas por si só de qualquer importância singular. manda o filho para a universidade e assegura assim que ele irá aprender apenas disparates supersticiosos. jogador. Grifos nossos.45 (Contraponham-se as prisões da Bíblia. martela num ponto importante — que o governo espanhol e o sistema de educação estimula m o parasitismo e a preguiça. para afastar a possibilidade de que.. e não pela estrutura do poema. para ajustá-lo a uma edição da 1973 do poema. Periquillo continua incorrigivelmente ignorante.. Quão distante está essa técnica da do romance: "Naquela mesma primavera. mas Lumbera demonstra. %. para Baltazar. Elas não são nunca imaginadas como típicas desta ou daquela sociedade. A tradução para o inglês é da Lumbera.. 7. i. o papagaio sarnemo) é exposto a • más influências — criadas ignorantes incutem superstições. superstição e corrupção são vistas como suas mais notáveis características". As aventuras de Periquillo levam-no diversas vezes a estar entre índios e negros. Henrl Chambert-Loir. nem para levar nada a sério. monastérios. ou não tinham capacidade para disciplinálo. p. por terem Rizal e Lizardi escrito ambos em espanhol. Esse tour d'horison picaresco — hospitais. 46 "Paalam Albaniang pinamamayanam/ ng casama.. 4S O "flashback falado" foi.

Por um momento sentiu um ódio explosivo bem dentro de si. o tropo "nosso herói" simplesmente ressalta um jogo do autor com ura leitor (qualquer). escritórios. a comunidade imaginada confirma-se pela réplica de nossa leitura a respeito da leitura de nosso jovem. Imaginava perfeitamente o sofrimento daquela pobre alma quando jazia moribunda à beira da estrada. Grilo nosso. tudo estava deserto. como em El periquillo sarmento. digamos. Chambert-Loir escreva que "não t a m ideia nenhuma tio sentido da palavra 'socialismo': não obstante. Ele não encontra o cadáver do miserável vagabundo à beira de uma estrada peguenta de Semarang. mós bem ter caminhado por aquelas "peguentas" estradas de Semarang. . O jovem comoveu-se com esse breve relato. Pelo fato de que a pesada chuva durante o dia todo deixara as estradas encharcadas e muito escorregadias. vamos ficar chocados por seu profundo caráter ficcional.dúvida quanto à referenda. nós-os-Ieitores-indonésios mergulhamos imediatamente num tempo de calendário e numa paisagem familiar. não havia ninguém se mexendo. sistema social. o morto: ele pensa no corpo representativo. têm qualquer. Se na ficção jocosa e elaborada da Europa dos séculos XVIII e XIX. a manha de sábado era um momento de expectativa — expectativa do lazer e da alegria de circular pela cidade à noite. em Semarang Hiíam. todos haviam ficado em casa. quando o vento soprava do leste. Às vezes sua irritação.) O papagaio sarnento mudou-se para Java e para o século XX. Estava totalmente absorvido. o "nosso jovem" de Marco. Sobre-o herói desse romance (que ele atribui erradamente a Marco]. De vez em quando. Mas há também algo de novo: um herói que nunca é chamado pelo nome. uma embrionária "comunidade imaginada" indonésia... significa um jovem que. (Mesmo que os censores coloniais holandeses poliglotas se juntem a seus leitores. não menos pela inovação. esperando talvez encontrar algo que o fizesse parar de se sentir tão miserável. A seguir sentiu piedade. mas coerentemente mencionado como "nosso jovem". 52 Ele também não se importa o mínimo com quem seja. Repentinamente. um amigo Intimo e aliada político de Marco publicou um romanos intitulado Rasa Manlika [Samido llvro/O sentimento da libertada]. mas dessa vez iriam se decepcionar — devido à letargia causada pelo mautempaeàsestradaspeguentas noskampongs.. Uma vez mais. Como no caso de Noli. estamos num mundo de plurais: oficinas.' nem seus leitores. implicitamente. e assim. sábado à. o estalo de um chicote duma charrete. Qual a convenção literária fundamental do jornal? Se olharmos uma primeira página típica de. não na vida pessoal. ("Mas Marco". um herói solitário é sobreposto a uma paisagem social descrita em detalhes cuidadosos e gerais. Semarang estava deserta.noite. a luz clara das lâmpadas de gás se obscurecia. pertence ao corpo coletivo dos leitores do Indonésio. eles estão excluídos de participar desse "nosso".) Finalmente. como se pode ver pelo fato de que o ódio do jovem dirige-se "ao". os Jovens de Semarang jamais ficavam em casa aos sábados à noite. Em outro momento ainda. apareça um jornal encravado na ficção. sente um profundo mal-estar diarvte da organização social que o rodeia e sente necessidade de ampliar seus horizontes por dois métodos: viagem e leitura". A luz das fileiras de lâmpadas de gás iluminava diretamente a estrada de asfalto brilhante. carruagens. Nessa noite. se nos voltarmos agora para o jornal como produto cultural. mas imagina-o a partir do que está impresso num jornal. seu ódio dirigiu-se ao sistema social que dava origem a tanta pobreza. enquanto tornava rico um pequeno grupo de pessoas. 208. lendo um jornal. Observe-se que Marco não sente necessidade de especificar essa comunidade pelo nome: ele já está ali.40 41 Eram sete horas. p. The New York Times. incitando o cavalo a tocar em frente — ou o clip-clop dos cascos dos cavalos puxando as carruagens. ali encontrare62 Aqui. deu com uma notícia intitulada: PROSPERIDADE Um miserável vagabundo f içara doente e morrera ao abandono à beira da estrada. alguns de nós pode- Em 1924. às vezes seu sorriso eram sinal certo de que estava profundamente interessado no que lia. As estradas principais habitualmente abarrotadas de toda sorte de tráfico.. as calçadas habitualmente apinhadas de gente. Vez por outra. Nem Marco. Para os trabalhadores de oficinas e escritórios. É apropriado que. e não "a nosso". Um jovem estava sentado num longo sofá de vime. pois. kampongs e lâmpadas de gás. porém. Exatamente o caráter canhestro e a ingenuidade literária do texto confirmam a "sinceridade" não deliberada desse adjetivo pronominal. individualmente. Virava as páginas do jornal.

Dickens também publicava como folhetim em jamais populares seus romances populares. se compararmos o livro com outros primeiros produtos industriais. equipado para a produção padronizada e. The Coming of lhe Book. nem por um momento os leitores imaginarão que Mali desapareceu. se o mercado do livro tornouse pequeno diante dcs marcados de outras mercadorias. Ibíd. pode-$a dizer qua. fome em Mali.)59 Desta perspectiva. auto-suficiente. iremos examinar a importância ctsssa distinção.260 exemplares.000 exemplares. Essa vinculação imaginada provém de duas fontes indiretamente relacionadas. ou açúcar. no correr dos quarenta anos entre a publicação da Bíblia de Gutenberg e o final do século XV. 30 na Alemanha. o livro foi a primeira mercadoria industrial produzida em série no estilo moderno. no século XVI. como uma forma de'livro. 69 Além disso. Febvre e Martin. como tecidos. em algum lugar fora dali. porém de popularidade efémera. da Antuérpia. sau papal estratégico na disseminação da ideias tornou-o...000. A tiragem média no século XIX era inferior a 2. um volume conveniente» não um objeto em si mesmo. 262. 5B Uma libra de açúcar confunderse com a seguinte. 186. Ata o século XIX.000 de volumes impressos. A data no alto do jornal. "o mundo" caminha decididamente para a frente.. 4 na Inglaterra. de Marshall McLuhan (p. vinte anos depois. teve uma primeira edíçflo de apenas 4. é óbvio que a maioria deles aconteceu independentemente. da importância fundamental para o desenvolvimento da Europa moderna. 125). o jornal não passa de uma "forma extrema" do livro. 50 das quais na hoje Itália. 'Poderia dizer-se que são best-sellers por um só dia. p. um horrível assassinato. "A partir daquela data. 2 na Boémia e 1 na Polónia. 60 A obsolescência do jornal no dia seguinte ao de sua impressão — é curioso que uma das ss Lar um jornal é como ler um romance cujo autor tivesse deixado de lado qualquer ideia de um enredo coerente. o editor venaziano Aldus havia sido pioneiro no lançamento da uma "edição de bolso" portátil. O sinal disso: se Mali desaparecer das páginas do The New York Times por meses a fio. í7 O sentido que tenho em mente se revela. o "personagem" Mali se movimenta silenciosamente.5Í "Desde então.ele antecipa os produtos duráveis de nossa época — é um objeto bem definido. porém — e. 9 na França." (p.53 Dentro daquele tempo. em toda [sic] a Europa. produziram-se ria Europa mais de 20. controlava. Uma libra de açúcar^ é simplesmente uma quantidade. extraordinário best-seUet. na Bélgica e na Suíça. A primeira edição excepcionalmente grande da Encyc/opédie de Dlderot n5o foi além da 4. Ao mesmo tempo.42 43 mós reportagens sobre dissidentes soviéticos. Até mesmo a Bíblia de L'jtoro. Mais adiante.' O formato de romance que tem o jornal lhes assegura que. Quem quer que tenha dinheiro poda comprar carros checos. 60 Como demonstra o caso do Semanng W/tam. Por que se justapõem tais eventos? O que os liga uns aos outros? Não é mero capricho. cada livro possui uma auto-suficiência erèmítica própria. na Europa. A segunda fonte de vinculação imaginada encontra-se na relação entre o jornal. um livro vendido em escala imensa. tijolos. Pode-se acrescentar que. Contudo. apenas quem lá checo comprará livros em checo. 125. 5 em cada. Já em 1480. ou do que os outros estavam fazehdo. já no século XVI. já fossem um espetáculo comum. Em 1455. grandes empresas gráficas funcionavam por toda parte. . as oficinas gráficas mais se assemelhavam a modernas oficinas de trabalho do que 53 a salas de trabalho monásticas da Idade Média.000 edições produzidas em nada menos que 236 cidades. o livro Impresso foi de uso universal." 56 Em sentido muito especial. depois de dois dias de reportagens sobre a fome. p. A grande editora Plant n. os livros estavam prontamente à disposição de qualquer um que soubesse ler. ou que a fome exterminou todos os seus cidadãos. 24 gráficas com mais de cem operários em cada uma delas. havia gráficas em mais de 110 cidades. 8 em cada uma.. golpe no Iraque. contudo. as Bicões oram ainda relativamente pequenas. reproduzido com exatidão em grande escala. no século XVI.000 exemplares. o principio é mais importante do que a escala de grandeza. O livro.. já em fins do século XV. nisso. aguardando sua reaparição seguinte no enredo. p. Isso montava a não menos de 35. Fust e Schoeffer já geriam um negócio. a descoberta de um fóssil raro no Zhnbábue. a marca peculiar mais importante que ele apresenta. e um discurso de Mitterand. em centros urbanos como Paris. The Corning of lhe Book. Calcula-se que.54 Entre 1500 e 1600. o livro sempre se distinguiu dos demais bens duráveis por seu mercado intrinsecamente limitado. A primeira é simplesmente coincidência no calendário.182l 86 Ibid. A arbitrariedade de sua inclusão e justaposição (uma edição posterior substituirá Mitterand pelo resulta1do de uni jogo de beisebol) demonstra que a vinculação entre eles é imaginada. 218-20. 56 Quanto a isto. (Não «admira que bibliotecas. 54 Febvre e Martin. volumes ou unidades). e o mercado. 57 Esse é um ponto bom estabelecido no meio das fantasias de Gutenberg Galaxy. fornece a conexão essencial — a marcação regular da passagem do tempo homo* gêneo e vazio. sem que seus atores tivessem consciência uns dos outros. p. esse número atingira entre 150 e 200 milhões. coleções pessoais de mercadorias produzidas em série. os dois tipos de bast-sellers costumavam ser méis estreitamente ligados do que hoje. Comentam os autores que. na Holanda e na Espanha. Pois estas mercadorias são medidas em quantidades matemáticas (libras.

os egoísmos individuais em vontade coletiva impessoal. conferindo determinado sentido às fatalidades diárias da existência (sobretudo à morte. Talvez nada acelerasse mais essa busca. O primeiro deles era a ideia de que uma determinada língua escrita oferecia acesso privilegiado à verdade ontológica. antes só encontra nas regularídadss diárias ds vida da imaginação. 42. 61 Contudo. Como em Noli Me Tangere. todos extremamente antigos. Como se poderia representar ilustração mais vívida para a comunidade imaginada historicamente cronometrada? 62 Ao mesmo tempo. cujo uso se processa num fluxo contínuo. associadas. 61 s3 "Material impresso estimulava a adesão silenciosa a causas cujos defensores não podiam ser localizados em nenhuma localidade 9 que se dirigiam de longe a um público invisível. da barbearia ou de sua casa. "Some Conjectures about trie Impact of Prirjting on Western Society and Thought". poder e tempo de uma maneira significativa. Eisenstein. 40: 1 (março de 1968). o que de outro modo seria o caos dentro de urna nova legitimidade do Estado". Ajiecadência lenta e irregular dessas certezas encadeadas. precisamente por ser parcela inseparável daquela verdade. a ficção desliza silenciosa e continuamente para dentro da realidade. primeiro na Europa ocidental e. no entanto. mas não fica atrasado. pensarem sobre si mesmas. exatamente por essa razão. ou de meio dia. penso eu. Jautri»! of Modern Hlstary. do isiamismo e as demais. um substituto das preces matinais — é paradoxal. como a escrita sagrada. a um número cada vez maior de pessoas. será conveniente recapitular as principais proposições apresentadas até aqui. embora sobre cuja identidade não possua a menor ideia. a concepção de temporalidade. p. bem no fundo da cabeça. das "descobertas" (sociais e científicas). essa cerimónia é interminavelmente repetida a intervalos de um dia. cada um dos comungantes está bem cônscio de que a cerimónia que executa está sendo replicada. Em terceiro lugar.44 45 mais antigas mercadorias produzidas em série fizesse antever assim a obsolescência implícita dos modernos produtos duráveis — cria." Elizabeth L. à privação e à escravidão) e propiciando vários modos de libertar-se delas. sente-se permanentemente tranquilo a respeito de que o mundo imaginado está visivelmente enraizado na vida quotidiana. e não em outro. Sabemos que determinadas edições matinais e vespertinas serão esmagadoramente consumidas entre tal e tal hora. . deixaram de ter domínio axiomático sobre o pensamento dos homens. era um ponto central de acesso à existência e a ela inerente. em que a cosmologia e a história não se distinguiam. sob o impacto da mudança económica. que tornou possível. é a marca de garantia das nações modernas. apenas neste dia.) A significação dessa cerimónia de massa — Hegel observava que os jornais são. para o homem moderno. três conceitos culturais básicos. Não é pois surpresa que a busca se processasse. nem a tornasse mais frutífera. exatamente simultâneo do jornal-comoficção. e onde. vendo réplicas exatas de seu jornal sendo consumidas por seus vizinhos do metro. O segundo era a crença de que a sociedade era organizada de maneira natural em torno de e sob centros elevados — monarcas que eram pessoas distintas dos outros seres humanos e que governavam por alguma forma de disposição cosmoiógica (divina). do que o capitalismo editorial. A geração da vontade impessoal. cravou uma firme cunha entre a cosmologia e a história. depois. e do desenvolvimento cada vez mais rápido das comunicações. As lealdades humanas eram necessariamente hierárquicas e centrípetas. esta extraordinária cerimónia de massa: o consumo ("o imaginar") quase que. Ao escrever sobre a relação entre a anarquia material da sociedade de classe média e uma ordem estatal política abstraia. que a possibilidade mesma de se imaginar a nação só surgiu historicamente quando. por assim dizer. de maneira profundamente renovada. observa Nairn que "o mecanismo representativo converteu a desigualdade ds ciasse real no igualitartsmo abstraio de cidadãos. ele pode ficar ruim. simultaneamente. no sentido de um novo modo de tornar a vincular fraternidade. The Break-up of Brítain. enraizavam firmemente as vidas humanas na própria natureza das coisas. Foi essa ideia que permitiu que surgissem as grandes congregações transcontinentais da cristandade. sendo essencialmente idênticas as origens do mundo e dos homens. o leitor de jornal. ao correr do calendário. (Contraponha-se isso ao açúcar. porque o governante. Sem dúvida. Ela se desenrola em silenciosa intimidade. não cronometrado. p. criando aquela notável segurança de comunidade anónima que. por milhares (ou milhões) de outros. Mais ainda. £4. e se relacionarem com outras. por toda parte. fundamentalmente. Mas o mecanismo representativo (eleições?) á uma festa rara e móvel. de cuja existência está seguro. Antes de iniciar uma discussão das origens específicas do nacionalismo. Afirmei. Essas ideias.

47 AS ORIGENS DA CONSCIÊNCIA NACIONAL Se o desenvolvimento da imprensa-como-mercadoria é a chave da geração de ideias inteiramente novas de simultaneidade. p. 187. uma vez que o mercado latino de elite estava saturado. a proporção de bilíngues na população total da Europa era muito pequena.5 . "Mais do que em qualquer outro tempo" ela foi "uma grande indústria sob o controle de abastados capitalistas". 259-60. potencialmente enormes.000. Febvre e Martin. p. 2 Característico disso é o livro das viagens de Marco Polo. L'Apparitiorr. uma atapa no caminho para nassa atuo soc-iedsde de consuma da massa e de padronização. porém.que a proporção na população mundial de hoje e — não obstante o internacionalismo proletário — dos próximos séculos. p. 3 Citado em Eisansteín. 2 Se. 5 Naturalmente. pue melhor se traduziria por "civilização padronizada. O fato decisivo quanto ao latim — fora sua sacralídade — é que ele era uma língua de biííngúes. Se o conhecimento manuscrito era um saber escasso e misterioso. 248-9. 194. a grande massa da humanidade é de monoglotas. 4 E cbmo os anos de 1500-1550 foram um período de prosperidade excepcional na Europa. o movimento esta4 Febvre o Martin. porém. os "livreiros preocupavam-se primordialmente em conseguir lucro e em vender seiis produtos e. buscavam primeiramente aquelas obras que fossem de interesse para o maior número possível de seus contemporâneos". p. Assim sendo. é possível que 200 milhões de volumes já tivessem sido manufaturados por volta de 1600. p. Relativamente poucos haviam nascido para falar em latim e menor número ainda. conseqúentemente. que ignorava fronteiras nacionais [sic]". criouse-uma verdadeira 'internacional' de editoras. transversal ao tempo". 56.) 6 Ibid. p. ampla mas ténue camada de leitores do latim. 281. mas. em meados do século XVII. 394. defender com'vigor a primazia do capitalismo. É certo que a Contra-Reforma estimulou um ressurgimento temporário da atividade editorial em latim. Como já foi assinalado. No século XVI. os mercados representados pelas massas monoglotas. seriam o atrativo. The Corning of Ifie Book. a lógica do capitalismo indicava que. Por que. ainda assim estamos simplesmente no ponto em que se tornam possíveis comunidades do tipo "horizontai-secular. 3 A população da Europa em QU9 a imprensa era então conhecida era du cerca de 100. (O texto original. não é de admirar que Francis Bacon julgasse que a imprensa havia alterado "a aparência e o estado do mundo". imagina-se. a atividade editorial participou da expansão geral. As primeiras gráficas instalaram filiais por toda a Europa: "desse modo. pelo menos 20 milhões de livros já haviam sido impressos em 1500. a edição de livros era afetada por toda a busca incessante de mercados do capitalismo. ' indicando o surgimento da "era da reprodução mecânica" de Benjamin. (O textc original diz "une civilisation da masse et de standardisation". quanto a isso. como crêem Febvre e Martin. A saturação desse mercado levou cerca de 150 anos..." Ibid. fala simplesmente de "par-dessusles frorrtíères" í" por sobre as fronteiras"!. de massa". Polo. a nlo "abastados". 122. Travsls. o conhecimento impresso vivia da reprodutibilidade e da disseminação. que permaneceu em grande medida desconhecido até sua primeira impressão em 1559. p. a nação se tornou tão popular? Os fatores envolvidos são obviamente complexos e variados. 6 "Daf ter sido a introdução da imprensa. XIII. Pode-se. muito provavelmente não maior do . sonhava em latim. como hoje. L'AppBrition.. "Some Conjectures". L 'Apparitíon. 1 Sendo uma das mais antigas formas de empresa capitalista. p. dentro desse tipo.000. 6 O mercado inicial foi a Europa letrada. Naquela época. The Corning of the Book. p. O 1axtt> original fala ao capitalistas "puissants" (poderosos.

cada vez mais afastado da vida eclesiástica e da vida quotidiana. fazendo renascer a enorme literatura da antiguidade pré-cristã e disseminando-a por meio do mercado editorial. foram publicadas 430 edições (integrais ou parciais) de suas traduções da'Bíblia. dois dos quais contribuíram diretamente para o surgimento da consciência nacional. p. uma nova forma de apreciar os elaborados resultados estilísticos dos antigos. 10 Onde Lutero foi o primeiro. Entre 1522 e 1546. " Ibid. Nesse meio tempo. e saturadas as bibliotecas ardorosamente católicas. tendo em vista a reputação de seus autores no mercado. 7 lbid. e em última análise o menos importante. Para nos atermos à Genebra de Calvino: entre 1533 e 1540. 310-5. o protestantismo sempre esteve basicamente na ofensiva. era só um passo pars a situação na França do século XVII. haviam sido publicadas ali apenas 42 edições. Quando. elas foram impressas em tradução para o alemão e. em outras palavras. outros rapidamente se seguiram. Símbolo disso é o índex Llbrorum Prohibitorum do Vaticano — que não tinha correspondente no protestantismo —. foram editados três vezes mais livros na Alemanha do que no período de 1500-1520. uma verdadeira massa de leitores e uma literatura popular ao alcance de todo o mundo.. foi uma alteração no caráter da própria língua latina. M Ibid. p. Martinho Lutero afixou suas teses na porta da capela em Wittenberg. devido a seu status como texto. Antes da era da imprensa. Em segundo lugar. O primeiro deles. o primeiro escritor que vendia seus Sivros novos com base no próprio nome. Nada transmite melhor o sentido' dessa mentalidade de assédio do que a aterrorizante proibição de Francisco I.. Agora. foi o impacto da Reforma que.aos editoras. Graças ao labor dos humanistas. precisamente porque sabia como utilizar o crescente mercado da imprensa em língua vulgar que o capitalismo criava. dando início à colossal propaganda religiosa que avassalou a Europa toda no correr do século seguinte. Ibid. Molíèra s La Fomaine •vendiam suas tragédias e comédias manuscritas diretamente. O latim que agora se pretendia escrever tornava-se cada vez mais ciceroniano e. e nesta última data não havia menos de quarenta gráficas distintas trabalhando em horas extras.48 49 vá em decadência. Lutero tornou-se o primeiro autor de grande vendagem conhecido como ta!. .. p. tornou-se patente. porque sempre teve linhas internas de comunicação melhores que seus desafiantes. 161. na época. Dessa maneira. devido à linguagem em si mesma. muito diversa da do latim da Igreja da época medieval. "no espaço de quinze dias [haviam sido] conhecidas em todos os cantos do país". entre 1550 e 1564. Ibid. Ou. 289-SO. onde Corrwllla. para a qual Lutero foi absolutamente fundamental. ele adquiriu uma característica esotérica. mas apenas por ser inteiramente escrito. A partir desse ponto. Pois o antigo-latim não era obscuro devido a seu conteúdo ou a seu estilo. pela primeira vez. que as compravam como investimentos excelentes. está em que. "Temos aí. s 10 p. 8 Nas duas décadas de 1520-1540. uma escassez de dinheiro por toda a Europa levou as gráficas a pensar cada vez mais em vender edições baratas nas línguas vulgares. 195. em 1517. p. e para sua inaplicabilidade.. que vedava a impressão de todo e qualquer livro em seu reino — sob pena de morte por enforcamento! A razão para essa proibição. enquanto que a Contra-Reforma defendia a cidadela do latim. deveu muito de seu êxito ao capitalismo editorial. catálogo singular que se fez necessário devido ao maciço volume de subversão impressa. Nessa gigantesca "luta para conquistar o pensamento dos homens' '. no seio da//ltelUgentsia transeuropéia. como prova disso.. ao mesmo tempo. transformação espantosa. Roma ganhava facilmente todas as guerras contra a heresia na Europa ocidental. tornava-se obscuro devido ao que era escrito. isto é. porém." 9 De fato. as fronteiras orientais de seu reino estavam cercadas por Estados e cidades protestantes que produziam uma torrente maciça de material impresso contrabandeável. 291-5. 8 Suas obras representaram nada menos do que um terço de iodos os livros em alemão vendidos entre 1518 e 1525. 7 O impulso revolucionário do capitalismo no sentido da utilização das línguas vulgares recebeu um ímpeto adicional de três fatores externos. em 1535. mas esse número subiu para 527.

O mesmo terremoto produziu os primeiros Estados europeus não dinásticos e não cidades-Estado de importância. virtualmente todos os documentos reais eram escritos em latim. pragmático. em épocas diversas. 98. teve lugar movimento semelhante. . não era apenas a Igreja que se abalava em seus fundamentos. desse modo. '«Ibid. criou rapidamente grandes públicos leitores novos — inclusive entre mercadores e mulheres.. da Escócia e da França. Em outros. era o anglo-saxão. onde o âmbito da burocracia dos mandarins e a dos caracteres desenhados coincidiam em grande medida. Entre cerca de 1200 e 1350. 83. -É instrutivo o contraste com a China Imperial. de Wycliffe. Netions and States. p. e não "nacionais". Feudal Society. enormes parcelas das populações submetidas conheciam pouco ou nada de latim.) Em terceiro lugar. l3 Só depois de quase um século após a entronização política do inglês primitivo é que o poder de Londres foi varrido para fora da "França". É improvável que a Guiana. as línguas da corte dos Romanovs eram o francês e o alemão. Essa fusão tornou possível que a nova língua. que explorava edições populares baratas. Netfons anrf Slates. tecedeu tanto a imprensa quanto a revolução religiosa do século XVI. após 1362. a autoridade religiosa do latim nunca possuiu um ver-. O nascimento das línguas vulgares administrativas aã-. 48.50 51 A coalizão entre o protestantismo e o capitalismo editorial. p. viesse a ser a língua da corte — e para a abertura do parlamento. literária e administrativa. que a universalidade do latim na Europa ocidental medieval jamais correspondeu a um sistema político universal. uma vez que era encarada meramente como forma adulterada do latim. a língua da corte. Ao mesmo tempo. p. Não se deve supor que a unificação da língua vulgar administrativa tenha sido realizada Imediatamente ou tis maneira completa. Obviamente. p. não há nada que indique que quaisquer impulsos ideológicos. ainda. Feudai Sociery. 15 Seton-Walsoo. Como tal. M apenas se tornou a língua oficial dos tribunais de justiça em 1539. a Bíblia manuscrita em língua vulgar. não apenas a Inglaterra e o País de Gales de hoje. É conveniente que se lembre. em 1382. Veio a seguir. de línguas vulgares específicas como instrumento de centralização administrativa por determinados pseudomonarcas absolutos presuntivos bem posicionados. significava que nenhum soberano poderia monopolizar o latim e torná-lo sua língua oficial exclusiva e. Inevitavelmente. esse latim ofi- ciai foi substituído pelo francês normando. a fragmentação política da Europa ocidental. Como diz ironicamente Bloch. na República da Holanda e na Comunidade dos Puritanos. ser encarado (pelo menos inicialmente) como fator independente na erosão da comunidade sagrada imaginada. u É fundamental que se tenha ern mente que essa sequência constituía uma série de línguas "de Estado". l. francês normando. para não dizer casual. No correr do século e meio seguinte. "o francês. Bloch. era inteiramente diferente das políticas linguísticas deliberadas perseguidas pelos dinastas do século XIX. ainda que em ritmo mais lento. !6 Em todo caso. Com efeito.. uma lenta fusão entre essa língua de uma classe dirigente estrangeira e o anglo-saxão da população submetida deu origem ao inglês primitivo. Anteriormente à invasão normanda. línguas vulgares "estrangei'ras" se impuseram: no século XVIII. l. l5 Em outros reinos dinásticos. p. havia a disseminação. sem falar em protonacionaís. e que o Estado envolvido abrangia. ou inglês primitivo. não deliberado. No Sena. aqui. Enquanto isso. que enfrentavam a ascensão 1S w Seton-Walso-ri. por isso. quando Francisco I expediu o Edito de Villers-Cotterêts. M Bloch. a "escolha" da língua parece constituir-se num desenvolvimento gradual. vale dizer uma Síngua que. dadeiro correspondente político. e deve. governada a partir de Londres. 75. tivesse sido administrada originariamente ern inglês primitivo. que tipicamente pouco ou nada. (O pânico de Francisco I era tão político quanto religioso. lenta e geograficamente desigual. O caso da "Inglaterra" — na periferia noroeste da Europa latina — é especialmente'esclarecedor. mas também partes da Irlanda. o latim sobreviveu por muito mais tempo — sob os Habsburgos até bem tardiamente no século XIX. levou diversos séculos para erguer-se à dignidade literária". após o colapso do Império do Ocidente. conheciam de latim — e simultaneamente mobilizava-os para fins político-religíosos. profundamente arraigados estivessem subjacentes à utilização de línguas vulgares onde ela ocorreu. 28-9.

52 53 de nacionalismos linguísticos populares hostis.20 (Ao mesmo tempo. Não havia qualquer ideia de se impor sistematicamente a língua às diversas populações submetidas ao dihasta. O fato do o signo. possibilidade de uma unificação linguística geral do homem. 22. Mas esses idioletos variados eram passíveis de se agruparem. que se o capitalismo editorial buscasse explorar cada mercado potencial de língua vulgar oral. teria permanecido um capitalismo de proporções insignificantes. p. mais do que o capitalismo" intencionalmente. tecnologia e capitalismo. É perfeitamente possível conceber o surgimento das novas comunidades nacionais imaginadas. cougti e hiccough demonstra tanto a variedade idiolâtica da qual proveio a ortografia Inglesa. em outras partes do mundo. 30 e 45. Quanto a isso. Num sentido positivo. seria equivocado fazer equivaler essa fatalidade àquele elemento comum às ideologias nacionalistas. até os silabários regulares do francês ou do indonésio. " 'Não obstante. Tanto Stelnberg 1 quanto Eisenstein chegam muito perto de teornorf liar "a imprensa" que imprensa como c gânio da história moderna. vale lembrar que embora a imprensa tivesse sido Inventada primeiro na China. era imensa. que enfatiza a fatalidade primordial de determinadas línguas e de sua associação a unidades territoriais determinadas.por intermédio do mundo Islâmico. Contudo. em número muito menor de línguas impressas! . 6. Steinberg. no sentido de condição geral de diversidade linguística irremediável. quanto a característica ideográfica do produto final. Cap. por detrás da imprensa. passando pelo chinês e pelo inglês. primordialmente em sentido negativo — como tendo contribuído para o destronamento do latim e para a erosão da comunidade sagrada da cristandade. passíveis de disseminação pelo mercado. possivelrrvante quinhentas anos antes de.seu aparecimento na Europa. neste contexto. rnuito menos revolucionário — precisamente devida â ausência do capitalismo ia. fé: do francês a língua de sua cortei Esse não foi a primeiro "acidente" dessa natureza. nSo teve qualquer impacto de maior importância. Five Hundfett V&sra cfPrinting. quatro anos depois. 5. (Ver mais adiante. agora padrão.) Nada serviu para "agrupar" línguas vulgares correíatas mais do que o capitalismo que. por sua própria conveniência interna.. H. dentro dos limites impostos pelas gramáticas e sintaxes. o papel não tevo uso generalizado antes do -final do século XIV. ough ser pronunciado diferentemente nas palavras althaugh. essa incompreensibilidade recíproca era historicamente apenas de 17 ligeira importância. cap. . naturalmente. embora Já existisse uma burguesia perceptível na Europa. Pois por mais que o capitalismo fosse capaz de feitos sobre-humanos. talvez nenhum deles. Embora seja essencial manter em mente uma ideia de fatalidade. o que tornou imagináveis as novas comunidades foi uma interação semifortuita. bough. Somente a superfície bem lisa do pape! tornou possível a reprodução maciça de textos o figuras — e Isso não ocorreu senão apôs outros setenta e cinco anos. Proveitosa exposição sobre essa questão encontra-se em S. para seus falantes. IS O elemento de fatalidade é fundamental. Chegou ali vindo de uma outra história — a da China . mas não havia. é provável que a esoterização do latim. O essencial é a influência recíproca entre fatalidade. Febvre e Martin (amais se esquecem de que. sem que algum deles. 1 Digo "nada ssrvíu. eram concorrentes do latim (o francês. a Reforma e o desenvolvimento casual das línguas vulgares administrativas sejam significativos. como vimos. em Paris. de fato. quanto mais ideográficos os signos. Tfte Caming of t/ie Book. uma tecnologia de comunicações (a imprensa) e a fatalidade da diversidade linguística do homem. a diversidade das línguas faladas. >ía Europa pré-imprensa e. a promoção dessas línguas vulgares ao stattts de línguas-do-poder. Febvre e Martin observam que. estio 33 gráficas e 35 companhias editoras. até que o capitalismo e a imprensa criassem os maciços públicos leitores monoglotas. onde. em fins do século XIII. N5o temos ainda multinacionais gigantes no mundo editorial. entre um sistema de produção e de relações produtivas (capitalismo).. dentro de limites definidos. No fundo. 21 zo 18 15 Confirmação compatível dessa afi/mação ofereça-nos Francisco ! que. o inglês [primitivo].19 Determinadas línguas podem morrer ou ser exterminadas. rougfi. estivesse presente. Nessa contexto. ele encontrou na morte e nas línguas dois tenazes adversários. tanto mais vasta a zona de agrupamento potencial. aquelas línguas que. nem há. tão imensa. eram (e são) a trama e a urdidura de suas vidas. em Londres). contribuiu à sua maneira para a decadência da comunidade imaginada da cristandade. Itxigh.) Sinal claro dessa diferença é que as antigas línguas administrativas eram precisamente isto: línguas utilizadas pelo mundo oficial. Mas o papel náo era Invenção europeia. proibiu toda e qualquer impressão de livros em 1535 e. em certo sentido.A própria arbitrariedade de qualquer sistema de signos para sons facilitava o processo de agrupamento. criou línguas impressas mecanicamente reproduzidas. pode-se descobrir uma espécie de hierarquia descendente partindo da álgebra. mas explosiva.

tornaram-se capazes de compreender-se via imprensa e papel. as palavras de nossos antepassados do século XVII nos são acessíveis de um modo que não eram. porque era assimilável ao alemão impresso de uma maneira em que não o era o checo falado da Boémia. o inglês do rei e. Para exaltar a consciência nacional da Turquia turca em detrimento de qualquer identificação muçulmana mais ampla. p. que. ou espanholas. É provavelmente apenas justo acrescentar que K-crnal esperava lambam. O destino dos povos de fala túrquica nas zonas incorporadas à Turquia. Atatúrk impôs uma romanização compulsória. e de desenvolver publicações em suas próprias línguas: esse mesmo governo é em grande medida indiferente ao que essas minorias falam. Desse modo. de pessoas existentes em seu determinado campo linguístico . Os falantes da enorme variedade de línguas francesas. processos não. Esses co-leitores. lês langues nationales apparaissant u n peu partout cristallisées". ramanítada. seus ancestrais do século XII. a fixação das línguas impressas e a diferenciação de status entre elas foram.i (Daí as lutas. nologia e a diversidade Linguística humana. par o nacionalismo turco ern linha com a c iu Tire cie madeira. Hoje em dia. da Europa ocidental. Antes de mais nada. o governo tai desestimula ativamente as tentativas de missionários estrangeiros de oferecer a suas minorias tribais das montanhas sistemas próprios de transcrição."! Hans Korin. por ess. tornaram-se gradativamente conscientes das centenas de milhares. o livro impresso mantém uma forma permanente. em grande medida. intencionais que resultaram da interação explosiva entre o capitalismo.e. inglesas. temporal e espacialmente. o tai central foram consequentemente elevados a uma nova proeminência político-cultural. L'Apperition. 319. O "alemão do noroeste" tornou-se o Platt Deutsch. o capitalismo editorial atribuiu nova fixidez à língua. na Europa desse fim do século XX. tão essencial à ideia subjetiva de nação. ao mesmo tempo. No correr do processo. ("No século XVII. elas se tornavam modelos formais a serem imitados e. ajudou a construir aquela imagem de antiguidade. p. formavam." 22 Em outras palavras. antes. outrora agrupável por toda parte. essas línguas impressas estabilizadas foram se sedimentando. a Villon. ainda assim assimiláveis à língua impressa que surgia. em sua visível invisibilidade secular e peculiar. perdeu aquela unidade em consequência de manipulações deliberadas. o capitalismo editorial criou Ifaguasde-poder de uma espécie diversa da das antigas línguas vulgares administrativas. quando vantajoso.) Resta apenas salientar que. em suas origens. Cf. enquanto o francês do século XII distinguia-se acentuadamente do francês escrito por Víllon no século XV. a ele pertenciam. ou até mesmo impossível. 108. compreender-se reciprocamente em conversa. a proporção de mudança diminuiu decisivamente no século XVI. "No século XVII as línguas da Europa haviam. Iraque e URSS atuais é especialmente exemplar. •. Como nos fazem lembrar Febvre e Martin. as línguas nacionais mostram-se cristalizadas por toda parta. a iongo prazo. seguiram o exemplo. O alto alemão. mais tarde. dentro de uma ortografia arábica.e meio.54 55 Essas línguas impressas lançaram as bases para a consciência nacional de três modos diferentes.de mais nada por não serem bem-sucedidas (ou serem apenas relativamente bem-sucedidas) ao insistir em suas próprias formas impressas. a tec-. The Age of Nationalism. e assim um alemão subpadrão. p. passível de reprodução virtualmente infinita. Ira. largamente falado. no decorrer de três séculos. ou milhões. Em segundo lugar. como tanta coisa mais na história do nacionalismo. assumido suas formas modernas. Em terceiro lugar. primeiro corn uma romanização compulsória antimucul23 The Corning of the Book. perdiam prestígio. . Já não estava mais sujeito aos hábitos individualizadores e "inconscientemente modernizadores" dos escribas monásticos. Determinados dialeíos estavam inevitavelmente "mais próximos" de cada língua impressa e domi52 navam suas formas finais. que podiam achar difícil. 23 As autoridades soviéticas. 477: "Au XVII" siècle. uma vez "ali". conscientemenle exploradas dentro de um espírito maquiavélico. de determinadas "sub "-nacionalidades para alterarem seu síaíus subordinado forçando vigorosamente a entrada na imprensa -—• e no rádio. Mas. até mesmo milhões. Suas parentes em desvantagem. de modo geral. que apenas essas centenas de milhares. e portanto compreensível. o embrião da comunidade nacionalmente imaginada. a que estavam ligados pela imprensa. Família de línguas faladas. criaram campos unificados de intercâmbio e comunicação abaixo do latim e acima das línguas vulgares faladas.

p. ou os da "família anglo-saxônica" são exemplos notáveis do primeiro resultado. na década stalinista de 1930. nos EUA ou nas antigas colónias da Espanha. Para explicarse a descontinuidade-em-conexão entre línguas impressas. quer se pense no Brasil. como republicas (não dinásticas). p. em grande parte do hemisfério ocidental. A extensão potencial dessas comunidades era inerentemente limitada e. todas as quais se definiram conscientemente como nações e. ANTIGOS IMPÉRIOS. prepara o cenário da nação moderna. em sua morfologia básica. Todos eles. NOVAS NAÇÕES Os novos Estados americanos do final do século XVIII e início do século XIX são de interesse incomum. a língua não era um elemento que os diferenciasse de suas respectivas metrópoles imperiais. o ponto culminante dos expansionismos dinásticos). Em outras palavras. não mantinha senão a mais fortuita relação com as fronteiras políticas existentes (que eram. em geral. eram Estados crioulos.56 mana e antipersa e. apenas uma fração mínima da população "usa" a língua nacional em conversa ou no papel. srn qualquer lugar fora tia Europa!. há sérias razões para se duvidar da aplicabilidade. com a curiosa exceção do Brasil. dizendo que a convergência do capitalismo e da tecnologia da imprensa sobre a diversidade fatal das línguas humanas criou a possibilidade de uma nova forma de comunidade imaginada que. a seguir. e por isso forneceram inevitavelmente os primeiros modelos reais de com que deveriam esses Estados "se parecerem". é necessário voltarse para o amplo conjunto das novas entidades políticas que brotaram no hemisfério ocidental entre 1776 e 1838. com uma cirilização russificante compulsória. particularmente na África. como também o número delas e seu aparecimento simultâneo oferecem terreno fértil para um estudo comparativo. Em segundo lugar. por parecer quase impossível explicá-los em termos dos dois fatores que. do segundo. provavelmente por poderem ser facilmente deduzidos a partir dos nacionalismos da Europa de meados do século. mais tarde. da tese de Nairn. têm sido dominantes em muito do pensamento europeu a respeito do surgimento do nacionalismo. Contudo. em outros casos convincente. 24 Podemos resumir as conclusões que se podem tirar da exposição até este ponto. Pois não apenas eram elas historicamente os primeiros Estados desse tipo a surgir no mundo. Os Estados-nação da América Espanhola. ao mesmo tempo. 2 77» Brsak-up ofõritein. inclusive os EUA. muitas delas possuem essas línguas em comum e. 317. a formação concreta dos Estados-nação contemporâneos não é de modo algum isomórfica com o alcance estabelecido de determinadas línguas impressas. parem nascida na América rã. . Crioula — pessoa da descendência europeia pura [pelo menos teoricamente). ] Na verdade. embora hoje em dia quase todas as pretensas nações— e também as nações-Estado — possuam "línguas impressas nacionais". consciências nacionais e Estados-nação. e segundo a qual: 2 1 Ji Seton-Watson. constituídos e dirigidos por pessoas que compartilhavam uma língua e uma descendência comuns com aqueles contra os quais lutavam. Nations and States. em outras. por extensão. é óbvio que. é justo que se diga que a língua nunca foi sequer um tema nessas antigas lutas pela libertação nacional. 41. muitos ex-Estados coloniais. Em primeiro lugar.

"Trie Haart of Jelferson". os movimentos nacionalistas têm tido uma perspectiva invariavelmente populista e procurado arregimentar as classes inferiores para a vida política. 59 Pelo menos na América do Sul e na América Central.sugerem claramente que a liderança estava nas mãos de ricos proprietários de terras.que.p. 5 (Esse medo só aumentou quando o "secretário do Espírito Mundial" de Hegel conquistou a Espanha em 1808. indica certa "fragilidade social" desses movimentos de independência latino-americanos. Tho Spanfsli-Amaficori ftovolulions. há analogia evidente com o nacionalismo Bóer de um século mais tarde.snob da vida das pessoas". em sua luta contra os crioulos rebeldes. e dos índios. 6 Masur. Madri expediu uma-no vá lei. Na Venezuela —'• na verdade. em casos tão importantes como a Venezuela. funcionários locais e provinciais). 207.. até 1820. 10 É instrutivo que uma das razões pelas quais Madri conseguiu retornar com êxito à Venezuela.. The Spanish-Amef/can Revo/utíons. 3 Como vimos. Ainda que às vezes hostil à democracia. Morgars. recentemente subjugada. bem depois da deflagração das guerras de independência. 17. p. The tJsw HM* Review -o/ Books. o México e o Peru. Talvez seja notável qu« Tupac Amarú não lenha rapudiado completamenta a compromisso de fidelidade ao rei espanhol. 201. Como também não havia algo semelhante a uma intelligenisia. nesta. 10 .58 O advento do nacionalismo num sentido distintamente moderno esteve ligado ao batismo político das classes inferiores. p. Ele e seus seguidores (na maior parte índios. Em sua versão mais típica. na década de 1770. à segunda república independente do hemisfério ocidental — e aterrorizou os grandes fazendeiros da Venezuela. O próprio Thomas Jefferson estava entre os fazendeiros da Virgínia que. 2. que uma revolta de negros era "mil vezes pior que uma invasão espanhola". ela mesma. ainda estavam vivas as lembranças da grande jacquerie liderada por Tu3 Gerhard 4 pac Amarú (1740-1781). Essas proporções provem do faio de que as (unções comorciais o sdmirtistraiifas mais importantes oram em grande medida monopolizadas pelos espanhóis natos. na época uma potência europeia de segunda ordem. Simon Bolívar. especificando pormenorizadamente os direitos e os deveres dos senhores e dos escravos. 237.. p. 8 O próprio Libertador Bolívar opinou. p. que procuram incitar e canalizar as energias das classes populares para a sustentação dos novos . e que fora. que deu origem. donos de escravos. 224. de início. Edward 5. Lynch. p. s Quanto s isto. Lyncri. mais humanitária. em 1804. militares.as classes inferiores para a vida política". 7 Quando. e manter. p. privando assim os crioulos de apoio militar da península em caso de emergência. em aliança com um número muito menor de comerciantes e de diversos tipos de profissionais liberais (advogadas. estimulou o impulso para a independência em relação a Madri. entre 1814 e 1816.) No Peru. um fator-chave. 4 Ao contrário de procurar "arregimentar . 14-7 e flnssim. o primeiro romance hispano-americano só foi publicado em 1816. tranquilos da colónia era pouca a leitura a interromper o ritmo faustoso e. "os crioulos repudiaram a intervenção estatal com base em que os escravos eram propensos ao vício e à independência [!] e eram fundamentais para a economia. certa vez. Pois "naqueles dias . foi ela ter conseguido o apoio dos escravos. 11 Masur.Estados. albid. enquanto a propriedade cia terra era inteiramente aberta aos crioulos. 24. The Spanfsíi-Americen fíevolutions. p. em 1789. 7 11 Seton-Wstson. se irritaram com a proclamação do governador legalista que concedia Uberdade aos escravos que rompessem com seus senhores sediciosos. rebeliões de índios ou'de escravos negros. por todo o Mar das Caraíbas espanhol — os fazendeiros se opuseram à lei e promoveram sua revogação em 1794". Os indícios . era o medo de mobilizações políticas da "classe inferior": a saber. a prolongada duração da luta continental contra a Espanha. 192. 17 d« agasto tfe 1&78. isto assu miu a forma de uma ciasse média e de uma liderança intelectual inquietas. Toussaint L'Ouverture comandou uma insurreição de escravos negros. Noticns and Síntes. naquela. mas também alguns brancos e mestiços) ínsurglram-se contra'a administração de Lima: Masur. Bolívar. 6 Em 1791. Lynch. p. sobre escravidão. * Também não devemos esquecer que muitos dos líderes do movimento de independência das Treze Colónias eram magnatas agrários donos de escravos. as "classes-médias" ao estilo europeu ainda eram insignificantes no final do século XVIII. Bolívar. o domínio sobre a longínqua Quito. ll Além disso.

restringiu em benefício próprio o comércio intra-hemisfério. por vezes. como inimigo estrangeiro? Por que o Império hispáno-americano. novos impostos. Quando Bolívar sã tornou presidente da GrS-Colombia (Venezusta. se deveram em parte è emancipação pela metrópole dos escravos leais. .18 Em parte alguma houve qualquer tentativa sé: ria de reinstaurar o princípio dinástico nas Américas. abrangendo em geral grandes populações oprimidas que não falavam o espanhol. por não querer atrair sobre si o ressentimento dos grandes proprietários de terra. que tivera existência tranquila durante três séculos. "no futuro.000. 301. Naiions ertd States. Nada melhor para confirmar essa "revolução cultural" do que o republicanismo que impregnou as comunidades recém-independentes. significava transmissão relativamente rápida e fácil das novas doutrinas económicas e políticas que se estavam produzindo na Europa ocidental. 206-7. 53. torrada de emptíslímo. * 18 Ibid. 13 (Poderíamos acrescentar: a despeito do fato de que. 329 e 38B. da dos Estados Unidos. irritaram e alarmaram cada vez mais a classe alta crioula. Quatro míriSBS iam para subsidiar a administracío de outras partes da América. "Não solicitara ao congresso que abolisse a escravatura. não expli15 Essa nova agressividade metropolitana era. 1759-1788) decepcionaram. 14 Anacronismo. em parta. 14 à qual estavam ligados de tantas maneiras. 125. 4-17. produto das doutrinas do Iluminismo. em fins da de 1780. o capitalismo editorial não havia ainda chegado a esses analfabetos. fugindo de Napoleão. até então. No século XVIII.000 eram utilizados no custeio da administração local. essa quantia quase quintuplicara. mesmo ali. Lynch. por exemplo. centralizou as hierarquias administrativas e promoveu intensa imigração de peninsulares. eles eram movimentos de independência nacional.) Eis então o enigma: por que precisamente as comunidades crioulas é que desenvolveram tão precocemente concepções de sua nation-ness — bem antes da maior parte da Europa? Por que essas províncias coloniais. O êxito da revolta das Treze Colónias.000.000 de pesos. no início do século XVIII. fortaleceu os monopólios comerciais metropolitanos. The Spanísh-American Revotutions. além do fato de as diversas Américas compartilharem línguas e culturas com suas respectivas metrópoles. em parta. em muitas partes. em 1821. 1B A Constituição da Primeira República Venezuelana t1B11) era. deliberadarnente. ou de nativos. dos quais apenas 4.. em 1808. o nível da migração peninsular na década de 1780-1790 era cinco vezes maior do que havia sido entre 1710-1730. 17. Seton-Watson. No finai do século. a não ser no Brasil. 16 Paralelamente à isso. em 1821.. " Ibid. que. p. os aborígenes não deverão ser chamados de índios. entre 1314 e 1316. 131. Elo libertou seus escravos pouco depois da declaração de independência da Venezuela. Quando fugiu para o Haiti em 1816. p." Masur. provia a Coroa com uma renda anual de cerca de 3. isso provavelmente não teria sido possível. ainda que fundamentais para a compreensão do impulso de resistência na América espanhola. palavra por palavra. e o começo da Revolução Francesa. The Spanisfi-Amerícan Revolutions. em 1818 — mas é preciso lembrar que os êxitos de Madri na Venezuela. na última metade do século XVIII. Nova Granada e Equador). da guerra com a Inglaterra. após 1779. tornou mais eficiente sua arrecadação. Bolívar mudou de opinião a respeito dos escravos 12 e San Martin. A promessa foi cumprida em Caracas. p. de problemas fiscais crónicos a. seu companheiro de luta pela libertação. deram origem a crioulos que. fragmentou-se tão subitamente em dezoito Estados distintos? Os dois fatores mais comumente mencionados como explicação são o enrijecimento do controle exercido por Madri e a disseminação das ideias liberalizantes do Iluminismo. Bot/ver.000. 1S O México. Madri lançou 12 Não sem algumas idas e vindas. em 1810.) Contudo. 276. o tarmo comum era ainda Lãs Espartas [As Espinhas] e não Espana (Espanha). eles são filhos e cidadãos do Peru e deverão ser conhecidos como peruanos". (Ele permaneceu ali por treze anos e. decretou. atingindo 14. Não há dúvida de que é verdade que as políticas implantadas pelo hábil "déspota esclarecido" Carlos III (r. P. conseguiu ajuda militar do Presidente Alexandre Pétion. solicitou e obteve do Congresso uma lei libertando os filhos de escravos. Naquilo que. teve seu filho coroado localmente como Pedro I do Brasil. ao regressar. também. Masur.61 Contudo. p. não fosse a imigração. em troca da promessa de terminar com a escravidão em todos os territórios libertados. tem sido sardonicamente chamado de segunda conquista das Américas. Bolívar. p. em parto. a agressividade de Madri e o espírito do liberalismo. não deixaram de ter uma influência poderosa. em fins da década de 1770. enquanto seis milhões eram de puro lucro. Grifos nossos. " • Não há dúvida. redefiniram tais populações como compatriotas? E a Espanha. 13 Lynch.000. p. de que a melhoria das comunicações através do Atlântico. porém. do próprio dinasta português.

em curso de um lado a outro da América. mercados regionais de caráter "natural"-geográfico ou político-administrativo. 19 pulco levava quatro meses. assinalando os limites espaciais de determinadas conquistas militares. A própria vastidão do Império hispano-americano. Nem. ano em que se haviam iniciado os movimentos pela independência''. segundo o qual cada nação manteria o status quo territorial de 1810. e a navegação espanhola tinha o monopólio do comércio com as colónias. The Spanish-AmericanRevotutíons.. Masur. Margíns. por si sós. Quem estaria disposto a morrer pelo Comecon ou pela CEE? Para perceber de que modo unidades administrativas podem. and Metaphors. p. por si sós. "Toda competição com a mãe-pátria era vedada aos americanos e as distintas partes do continente não podiam sequer comerciar entre si. e contrastam marcadamente com os novos Estados europeus do final do século XIX e início do século XX. O antropólogo Victor Turner tem escrito de maneira esclarecedora a respeito da "jornada". elas desenvolveram uma realidade mais estável." 23 Essas experiências ajudam à explicar por que "um dos princípios básicos da revolução americana" foi o do "utipossidetis. ficaram financeiramente arruinados. p. embora seja certo que as classes altas crioulas. sobretudo. Masur. o da ideologia da Revolução de 1776. 24 Sua influência contribuiu também. Bolívar. 546. p. capítulo 5 ("Pilgiimages as Social Processes") e S ("Passagas. **lbid. a imensa dificuldade de comunicações numa era pré-industriaí contribuíram para dar a essas unidades um caráter de auto-suficiência. 25Ver.e ern seu Dramas. e a Cartagena. muitos membros concretos dessas classes. porém. a jornada marítima de Buenos Aires a AcaO mesmo se pode dizer da postura de Londres diante das Treze Colónias. Com o correr do tempo. para a desintegração da efémera Grã-Colômbia de Bolívar e das Províncias Unidas do Rio da Prata em seus antigos elementos constitutivos (hoje em dia conhecidos como Venezuela-ColômbiaEquador e Argentina-Uruguai-Paraguai-Bolívia). TheForesíof Symbols. 21 Quanto a isso. Fieids. a viagem por terra de Buenos Aires a Santiago demorava normalmente dois meses.1 sob a influência de fatores geográficos. prenunciaram os novos Estados da África e de partes da Ásia. 22) Além disso. S8-9 e 231. em certa medida. 20B. The Spanish-Amerícen Revolutions. e a viagem de volta às vezes mais tempo. as políticas comerciais de Madri resultavam em fazer das unidades administrativas zonas económicas separadas. and Pcvarty: Religi-ous Symbols c-f Cornmunitas").62 63 cam. A configuração original das unidades administrativas americanas era. políticos e económicos. afinal de contas. 678. 20Lynch. p. que viveram entre 1808 e 1828. 21 Masur. As mercadorias americanas.de sua autoria. essas medidas eram apenas em parte executáveis e sempre continuou a haver certa porção de contrabando. (Na época colonial. p. Aspecrsof Ndembít Ritual. saíramse muito bem com a independência ao longo do tempo. l9 nem por que San Martin devesse decretar que determinados aborígenes fossem identificados pelo neologismo "peruanos". com o correr do tempo. Bolívar. não criam lealdades. E então? O começo de uma resposta encontra-se no fato notável de que "cada' uma das novas repúblicas sulamericanas havia sido uma unidade administrativa entre os séculos XVI e XVIII". como uma experiência criadora de significado. 20) E outros tantos deram a vida voluntariamente pela causa. cf. . Essa disposição ao sacrifício por parte de classes em situação confortável é matéria para reflexão. especialmente a capítulo "BatwlM and Between: Thn Llminal Period ín ftius de Psssage". apresentam a razão'dos verdadeiros sacrifícios que foram feitos. síaíus e lugares. a Venezuela e o México vieram a tornar-se emocionalmente plausíveis e politicamente viáveis. Svmhotic Actron in Hatnan Soci&ty. (Apenas um exemplo: durante a contra-ofensiva de Madri. 2S Todas essas jor42 23 Lynch. em 1814-1816. Não obstante. tinham de fazer uma tortuosa viagem via portos espanhóis. sem dúvida. arbitrária e fortuita. 19. por que entidades como o Chile. é preciso examinar de que modo organizações administrativas criam significado. Naturalmente. em meados do século XX. não só na América como também em outras partes do mundo. "mais de dois terços das famílias proprietárias de terras sofreram pesados confiscos''. Pois. p. nove. concebidas como formações sociais históricas. entre tempos. 25-6. vir a ser concebidas como pátrias. Elaboração posterior mais e-nmplsxa ertcontra-s. Bolívar. 'a* enorme variedade de seus solos e climas e.

a Inglaterra. Embora as peregrinações religiosas sejam provavelmente as mais tocantes e grandiosas jornadas da imaginação. ao descreve' corno "paregrincs" os agentes espectrais <Je Leopoldo II na profundeza das trevas. nos nacionalismos da meados do século XX. '« Ver Bloch. Meca ou Benares fossem os centros de geografias sagradas. A permutabilidade humana era favorecida peia arregimentação — naturalmente de extensão variável — de hominesnovi. berberes e turcos em Meca é algo incompreensível sem uma noção de alguma forma de comunidade entre eles. onde a página impressa dificilmente penetrava. neste caso. mas sim que sua centralidade era vivenciada e "realizada" (no sentido da arte cénica) pelo fluxo constante de peregrinos que se deslocavam em sua direção. em geral. em comunidades cujo significado sagrado era diariamente revelado a partir da justaposição de seus membros no refeitório. 26 Como já assinalamos anteriormente. o rádio tornou possível ignorar a irnprensa e dar nascimento a uma representação auditiva da comunidade Imaginada. indianos. p. e. ascendia um degrau para ocupar o lugar daquele pai. 64. a realidade da comunidade religiosa imaginada dependia profundamente de inúmeras e contínuas viagens. dinamarqueses. a jornada do nascimento à morte deu origem a diversas concepções religiosas). tem sido muito subestimado e muito mal estudado. 29 Desse modo. na génese de determinadas movimentos nacionalistas — antes do advento do rádio. Inventado apenas em 1895. e leal a ele. . os quais. com a morte de seu pai. Essa ascensão . 422 st saqs. vindos de localidades longínquas entre as quais não existia qualquer outra relação. em oposição a uma nobreza feudal particularista e descentralizada. Feudal Soctety. enquanto que um pequeno segmento de iniciados letrados bilíngues. Pôr certo. finalmente. Unificação significava permutabilidade interna de homens e documentos. " Existe. interpretando para seus respectivos seguidores o significado de seu movimento coletivo. Conrad estava sendo iionico. através dos célebres "centros regionais" de aprendizado monástico. o herdeiro do Nobre Á. controlado diretamente pelo governante. alemães e assim por diante. atuavam como emanações das vontades de seus senhores. as cidades de Roma. 23 Especialmente onde. os limites externos das antigas comunidades religiosas da imaginação eram determinados pelo tipo de peregrinação que as pessoas faziam. elas tinham. a estranha justaposição física de malaios. em oposição ao S ião." A "peregrinação secular" não deve ser tonada apenas como um tropo extravagante. (c) os títulos não-dinâsticcsetam não só hersditárlos como conceptuais e legalmente distintas de postas administrativos: isto é. por assim dizer. Não é simplesmente que. e têm. l. 27 Numa época pré-imprensa. "muçulmanos ou hindus. uma vez que se aprenda: "Porque nós.64 65 nadas exigem interpretação (por exemplo. quando as aristocracias das províncias possuíam poder independente significativo . não podemos falar um com o outro?" Existe uma única resposta. Essas grandes instituições de fala latina congregavam o que hoje talvez víssemos como irlandeses. 3° Essa diferença pode ser representada esquematicamente da seguinte maneira: na jornada modal feudal. dos impérios mundiais com centro na Europa. na mente dos cristãos. no entanto. mas também preciso. Para nossos fins. p.. assim. os funcionários dó absolutismo empreendiam jornadas que eram fundamentalmente diferentes das dos nobres feudais. Na verdade^ em certo sentido. exatamente por essa razão. (h) a primogenitura era a regra. O impulso inerente ao absolutismo era a criação de um aparato unificado de poder. Nada é mais impressionante a respeito ™ Ver Bloch. indagar-se: "Por que esse homem está fazendo o que faço. forneciam a densa realidade física da viagem cerimonial. a jornada modal é a peregrinação..2S Para nossos fins. analogia evidente com os respectivos papéis ctas intetligentsias bilingues e dos operários a camponeses. falantes de língua vulgar. as mais importantes foram as diferentes viagens criadas pelo aparecimento das monarquias absolutas e. equivalentes seculares mais modestos e limitados. persas. da cristandade ocidental em seu auge do que o fluxo espontâneo de fiéis seguidores vindos de toda parte da Europa para Roma. II.'não possuíam poder independente propriamente seu. executavam os ritos unificadores. (a) a monogamia era imposta pela religião B pela lei. somos muçulmanos". justaposição que não se poderia explicar de qualquer outra maneira. O berbere que encontra o malaio diante da caaba deve. sempre houve ura duplo aspecto da coreografia das grandes peregrinações religiosas: vasta multidão de analfabetos. Feudal Society. portugueses. oriundos 'de cada uma das comunidades de língua vulgar. pronunciando as mesmas palavras que pronuncio e. Ssu papel nas revoluções vietnamita e indonésia e. na maioria analfabetos.

da província C. Como demonstra a imponente sucessão do anglo-saxão. 18-9. menos de 5% dos 3. Para o novo funcionário. Haverá quam duvide que essa prolongada exclusão tenha desempenhado papel Importante no fonalecirnanto do nacionalismo Irlandês? 11 Lynch. O rancor e o sentimento de inferioridade d-e muitos crioulos em relação 9 metrópole iam-se tornando neles impulsos revolucionários". ingressou na Academia Real para jovens fidalgos/ e desempenhou papel destacado na luta armada contra Napoleão antas de regressar à terra natal. Madri. 18051 a "urn grupo de jovens suf-arnaricanos" qua. Descerca de 1 S. que funcionários-peregrinos de Madri não fossem permutáveis com os de Paris. 33 Além disso. 32 E não é preciso dizer que dificilmente se sabia de algum. Por exemplo. 293. (Pode-se.) Em princípio. Lima e de novo Madri. as coisas são mais complexas. as peregrinações de funcionários crioulos não eram barradas apenas verticalmente. parece não ter havido em momento algum mais de 400 sul-amerlcanps residentes na Espanha. garantindo. se o funcionário A. os próprios homens novos elaboram. em 1800. só havia um bispo crioulo. embora os crioulos no vice-reinado superassem os peninsulares na proporção de 70 para 1. "eram ricos. pois ele não tem pátria com qualquer valor intrínseco. e ali passou os 27 anos seguintes. melada eram soldados. a seguir. desempenhar essa função — desde que se lhe atribuam direitos monopolísticos. p. toda pausa é provisória. pela restrição do deslocamento dos funcionários de um so- berano para as máquinas de seus adversários: por assim dizer.700. pode retornar à capital no posto W.000 crioulos "brancos" do Império Ocidental (que se impunham aos cerca de 13. apenas 4 foram crioulos. assumirem o monopólio. os quais. porém. juntos!"). tanto quanto o soberano. onde aconteceu de línguas vulgares. e não a morte. que fortalecia a permutabilidade humana.000peninsulares. Então. que foi levado para a Espanha quando criança. Nessa jornada. como ele. The Spsnísh-Ameiican ftevolaiions. p. . foi hóspede em Madri de Manuel Mello. emerge uma consciência de conexão ("Por que estamos nós. em vez do latim. enquanto o funcionário D. Entre eles. A permutabilidade de documentos. Na verdade. Se os funcionários peninsulares podiam percorrer a rota de Saragoça a Cartagena. 41-7 e 468-70 (San Marttn). não há lugar seguro de repouso. e de retorno à casa. em que os católicos foram Impedidos de exercer cargos públicos até 1829. quando soube ds sua declaração do Independênciaj e Ba II vá r qua. argumentar que. Vê diante de si um cume e não urn centro. e termina sua peregrinação na capital no posto Z. O caso do Reino Unido. para os domínios ancestrais. é que traça sua carreira. obteve-se uma função centralizadora mais profunda. amante "americano" da rainha Maria Lulsa. Botfver. para a província B no posto X.Martin.000 indígenas) eram espanhóis nascidos na Espanha. nutria-se do desenvolvimento de uma língua-de-Estado padronizada. latim. se tornarão menores e mais firmes à medida que se aproxime do topo. prossegue para o vice-reino C no posto Y. Enviado para a municipalidade A no posto V. aqui. administra a província B — situação que o absolutismo começa a tornar provável — essa experiência de permutabilidade exige uma explicação própria: a ideologia do absolutismo que.. por al-gtim tempo. não é único. o crioulo "mexicano" ou "chileno" típico presta31 Evidentemente. isso não aconteceu. do século XI ao XIV. Às vésperas da revolução do México. com a experiência de tê-los como companheiros de viagem. a expansão extra-européia dos grandes reinos do início da Europa moderna teria simplesmente ampliado o modelo acima ao desenvolver as enormes burocracias transcontinentais. O talento. oriundos de lugares e de famílias de que pouco ouviu falar e que espera certamente jamais ter de ver. A racionalidade instrumental do aparato absolutista — sobretudo sua tendência a recrutar e promover com base no talento e não no nascimento — funcionou apenas intermitentemente para além do litoral oriental do Atlântico.. vai. ociosas s mal vistos na Corte. E mais: em sua rota espiral de ascensão.200. qualquer língua escrita pode.66 67 exigia uma viagem de ida e volta. não 16 deve exagerar essa racionalidade. 13 Na primeira década do século XIX. crioulo que ascendesse a um posto de importância oficial na Espanha. depara-se com companheiros de peregrinação igualmente ansiosos. Escala suas geleiras por uma série de arcos que o circundam. o "argentino" San. em princípio. seus colegas funcionários. sobretudo quando todos compartilham de uma única língua-de-Estado. Porém. vindo da província B. contudo. dos 170 vice-reís da América espanhola antes de 1813. espera. normando e inglês primitivo em Londres. administra a província C. Masur conta que Bolívar pertencia [c. A última coisa que o funcionário quer é regressar à pátria. até o centro para receber a investidura... Esses números são ainda mais impressionantes se observarmos que.31 O padrão é muito evidente na América. porém.

em 1800) remotamente afastados da Europa.ois da migração do pai. Com isso em mente. Hoje em dia. culturais e militares para se afirmarem com êxito. defendendo os portos venezuelanos contra os invasores. servira na antiga unidade de seu pai. do nascimento trans-Atlântico. as metrópoles tinham que lidar com números — para aquela época — enormes de "patrícios europeus" (mais de três milhões na América espanhola. Quanto a isso. fosse praticamente indistinguível de um espanhol nascido na Espanha. O pai de Bolívar fora um aminônte comandante de milícia. Contudo. O '. 3S Ainda que o vice-rei fosse uma pessoa eminente em sua terra andaluza. fundamentais para o poder do soberano. O equilíbrio tenso entre o funcionário peninsulaj e o magnata crioulo era. mas também eram essenciais à estabilidade do império. Da perspectiva do soberano. era a capital da unidade administrativa imperial em que se encontrava. quando adolescente. isto é. os quais acabavam por perceber que o companheirismo entre eles não se baseava apenas naquele determinado . aqueles mais contaminados por um local ds nascimento inevitável. não podia ser um verdadeiro espanhol. "A Espanha não possuía nem dinheiro nem efetivos para manter grandes guarnicães do tropas regulares na América. uma expressão da velha política do divide et impera. Pela primeira vez. as doenças.. 30 e 381. . 10. J810-J910 capítulos 6 ("The Militia"! a 7 ("Thia Mllitary"). em princípio. os peninsulares enviados como vice-reis e bispos desempenhavam as mesmas funções que os hominesnovi das burocracias proto-absoluttstas. o mesmo não se dava em relação aos crioulos. iomò irremediavelmente contaminadorpara qualquer "branco". sobreposto aos crioulos. à medida que se multiplicavam as incursões britânicas. ergo. Consti. o ápice de sua escalada espiral. Em outras palavras. e controlados pelos mistérios da cristandade e de uma cultura inteiramente estranha (bem como pôr' uma organização política avançada para a época). desempenharam papel cada vez mais crítico. em termos de língua. mas na fatalidade. seu movimento lateral era tão tolhido quanto sua ascensão vertical. Desse modo. em número cada vez maior e com crescente enraizamento a cada geração que se sucedia. que tinham.' tuíam simultaneamente uma comunidade colonial e uma classe superior. ò peninsular não podia ser um verdadeiro americano. virtualmente a mesma rela. O próprio Bolívar. Deviam ser economicamente subjugados e explorados. a cristandade e a cultura europeia. 10. Bolívar. foram ampliadas e reorganizadas.trecho da peregrinação. pode-se observar certo paralelismo entre a posição dos magnatas crioulos e a dos barões feudais. exclusão parecesse racional na metrópole? Sem dúvida a confluência de um venerável Com a correr do tempo.69 vá serviços nos territórios do México ou do Chile coloniais. do século XVI em diante. os crioulos americanos. "eia axiomático que os sitos postos fossem praenchidos exclusivanrente por eSpanh-Sis naios". o acidente do nascimento na América destinava-o à subordinação — ainda que. Inversões semelhantes ocorrem em reação ao racismo. aqui. O mais ligeiro traço de "sangue negro" torna a pessoa inteiramente negra. po:diam.• cão >que os metropolitanos. que se seguiram à disseminação planetária de europeus e do poder europeu. ou maneiras. sob o imperialismo. CaudiUism antf Militarism ir> Venezuela. p. que compartilhavam. 34 Contudo. ele era efetivamente um homo novus inteiramente dependente de seu patrão metropolitano. e hio peças intercambiáveis de um aparato continental de segurança. dispor prontamente dos recursos políticos. Da 1760 em diante.. Ainda que tivesse nascido na primeira semana dep. assim. pelo menos nos Estados Unidos. ele foi típico da muitos da primeira geração de lideras nacionalistas da Argentina: da Venezuela e do Chllê. Desse modo. • ís Observe as transformações que a independência trouxe para os-americanos: os Imigrantas de primeira geração tornavam-se agora "os mais baixos" ao invés de "os mais altos". mas também uma ameaça a ele. Masur. oculta na irracionalidade estava esta lógica: nascido na'América.'sangue negro" — a nódoa negra — veio a ser visto. f) contava principalmente com milícias coloniais que. 35 O que fazia com que essa. com as armas. p. em novo cenário. Boltvar.) Essas milícias eram inteiramente locais. Gilmore. a partir de meados do século XVIII. Não havia nada a fazer quanto a isso: ele era irremediavelmente um crioulo. religião. apresentavam um problema político historicamente singular. p. quão irracional deve ter parecido sua rejeição! Não obstante. (Masur.. o "mulato" é peça de museu. Compare isso com o programa otimista de miscigenação de Fermín e sua ausência de preocupação com a cor da descendência esperada. nascido na Espanha. distante treze mil quilómetros. as peregrinações militares tornaram-se tSo importantes quanto as civis. nessa peregrinação limitada encontrava companheiros de viagem. ís Dada a grande preocupação de Madri com que a administração das colónias estivasse em mios confiáveis. 34 maquiavelismo com o desenvolvimento de concepções de contaminação biológica e ecológica. origem familiar. o centro administrativo mais alto para o qual podia ser designado. Se os indígenas podiam ser conquistados pelas armas e pelas doenças." (Ibid. VerRobert G.

(No entanto.000 habitantes do Brasil português. especialmente com respeito aos mestiços. diferentes dos metropolitanos e inferiores a eles — e.. as obras de Rousseau e de Herder. alegando que "mesmo quando nascidos de pais brancos puros. <3 Tenho ríslçado aqui as distinções rací-sias entre peninsulares e crioulos. porque o tema principal de que estamos tratando é o surgimento do nacionalismo crioulo. o autocrata esclarecido Pombal não só expulsou os jesuítas dos domínios portugueses. 10% da população de Lisboa era de escravos. eram. nos seguintes termos: 3S -> Todas essas raças pardas são muito broncas e corrompidas e de índole a mais torpe. o grande reorganizador da missão jesuíta na Ásia. mais se assemelham aos indianos e menos são estimados pelos portugueses. estrategicamente. eurafricanos. 40 Indiretamente. o crescimento das comunidades crioulas. ' 9 lbld. 37 Menos de um século depois. Valignano estimulou ativamente a admissão de japoneses. 1415-1825.70 71 Ademais. 252. eram interesses que. Pesada contribuição para essa ''Charles R. e não as doutrinas dos philosophes.. Além disso. The Portuguese Revotution ancf tfis Armed Forces Movement. mais antigo dos conquistadores planetários da Europa. em 1800.' fornece uma ilustração adequada disso. 39 Boxer demonstra que as barreiras e exclusões "raciais" aumentaram notavelmente no correr dos séculos XVII e XVIII.500. ainda assim. Isso não deve ser compreendido como minimização da crescimanto paralelo do racismo crioulo em relação a mestiços. antecipavam o aparecimento da consciência nacional americana dos fins do século XVIII. Boxer. Manuel I pôde ainda "resolver" sua "questão judaica" pela conversão obrigatória em massa — sendo possivelmente o último governante europeu a considerar essa solução não só satisfatória como "natural". mas. 286. assim. Nationalism. Seu surgimento permitiu que prosperasse um estilo de pensamento que prenuncia o moderno racismo. The Portuguese Seaborne Empire. p. tais como "negro" ou "mestiço" [sic]. como também classificou como infração criminosa chamar os súditos "de cor" por nomes ofensivos. o Iluminismo influenciou também a cristalização de uma distinção irrevogável entre metropolitanos e crioulos. os franciscanos portugueses de Goa combateram violentamente a admissão de crioulos na ordem. 'havia perto de um milhão de escravos entre os cerca de 2. p. . pela própria natureza. era extremamente fácil fazer a dedução vulgar e conveniente de que os crioulos. uma vez que quanto mais sangue nativo possuem. portanto. com seus conflitos entre peninsulares e crioulos. em comparação com a prática anterior. *3 Até aqui. combatendo veementemente a admissão de indianos e eurindianos ao sacerdócio. porém» encontramos Alexandre ^Valignano. exerceram ampla influência. mestiços em número suficiente?) Analogamente. têm o sangue contaminado por toda a vida". Já na década de 1550. ou nenhum. chineses e "indochineses" à profissão sacerdotal — talvez por não haver ainda.. p. p. levou inevitavelmente ao aparecimento de eurasianos. esse decreto citando antigas concepções romanas de cidadania imperial. Quanto aos mestiços e castiços. D. p. foram amamentados por aias indianas na primeira infância e. até que suas extensões territoriais puderam ser imagi*° Rona Fields. 42 A partir daí. 41 Ainda mais tipicamente. mas como grupos sociais evidentes. devemos aceitar muito pouco deles. nascidos em um hemisfério selvagem. coreanos. desde a antiguidade).. p. The Portuguesa Seaborne Èmpirc. interesses menores. a qual teve o pioneirismo de Portugal a partir de 1510. nessas regiões. nem a disposição de uma metrópole n Só emeacada de proteger (-até ce-lo ponto) esses infelizes. 41 Boser. 253. 3»lbid. 257-B. que afirmavam que o clima e a "ecologia" tinham efeito constitutivo sobre a cultura e o caráter. não como curiosidades casuais. Justificou. mas também em certas partes da África e da Ásia. *2 Kernilàinen. Na última década do século XV. principalmente nas Américas. No curso de seus vinte e dois anos no poder (1755-1777). inadequados para cargos de maior importância. 15. negros e índios. o. Portugal. porém. As peregrinações vice-reais limitadas não tiveram consequências decisivas. bem como euramericanos. perniciosa tendência foi dada pelo renascimento da escravidão em larga escala (pela primeira vez na Europa. nossa atenção tem-se concentrado nos interesses dos funcionários na América — importantes. entre 1574 e 1606. 72-3.

porém. o gráficojornalista foi. pode ser menos evidente. e assim por diante. teve lugar uma verdadeira revolução. "5 Os gráficos que abriam novas oficinas incluíam sempre um jornal em sua produção. Assimetria. aí entrassem elementos políticos. de Buenos Aires e de Bogotá. The Spsnísk-AmerJcen fievaSulions. sobre seu país. na segunda metade do século XVIII. só se podia esperar que. No correr do século XVIII. à qual pertenciam esses navios. na mesma página. mas permaneceu durante dois séculos sob o estrito controle da coroa e da Igreja. de início. as pessoas pen47 48 Franco. até que os impressores descobrissem uma nova fonte de renda — o-jornal". de longe. Uma vez que o principal problema enfrentado pelo gráfico-jornalista era atingir os leitores. a imprensa praticamente não existiu nesse século. . p. se tivesse oportunidade. por toda a América espanhola. 46 Quais eram as características dos primeiros jornais. do qual eram comumente o colaborador principal. Desse modo. não leriam o que se produzia em Caracas se pudessem deixar de fazê-lo. bispos e preços. só havia gráficas na Cidade do México e em Lima.120 "jornais". ainda que de modo. desenvolveu-se uma associação tão estreita com o agente do correio que. Até fins do século XVII. criava uma comunidade imaginada entre uma determinada congregação de companheirosleitores. este casamento com aquele navio. a mais valiosa das possessões da América espanhola. Um traço criativo desses jornais era sempre seu provincianismo. o que colocava lado a lado.palavras. de maneira muito natural e até mesmo apolítica. morando na mesma rua. porém. o jornal de Caracas. mas muitos funcionários peninsulares. Outro traço desse tipo era a pluralidade. era a própria estrutura da administração e do sistema de mercado coloniais. An Introduction. em outras. Um crioulo colonial. casamentos dos ricos. "'"'The Cornin9 of the Book'Pi 208"11 • Lvach. Mais uma vez. p. corno nuestra América\m sido interpretado como revelador da vaidade dos crioulos locais que. este preço cora aquele bispo.72 73 nadas como nações. esta. Lembram-nos que "a imprensa de fato não se desenvolveu na América do Norte durante o século XVIII. 461 dos quais duraram por mais de dez anos. não diria nada sobre seu mundo). ainda que não lessem os jornais uns dos outros. frequentemente. Entre 1691 e 1820. estavam no entanto perfeitamente conscientes de sua existência. por ser o México. um fenómeno essencialmente norte-americano. A importância de seu negócio. 33. podia ler um jornal de Madri (o qual. A imprensa chegou cedo à Nova Espanha. foram editados na-. corno nosotros los americanos e. às primeiras gráficas locais. Febvre e Martin nos esclarecem. Os periódicos hispano-americanos que se desenvolveram no final do século XVIII eram compostos com plena consciência da existência de provincianos em mundos paralelos ao seu. 28. sobre si mesmos. Naturalmente. eles se tornavam um só. quais os preços. da menos de 2. senão único. O fato de os primeiros nacionalistas mexicanos escreverem. noivas. a alternância entre seu extenso âmbito e seu localismo particularista. Na América espanhola. Em outras palavras. que podia repetir-se infinitamente em outras situações coloniais. e sua produção era quase que exclusivamente ligada à Igreja. se consideravam o centro do Novo Mundo. 44 A figura de Benjamin Franklin está indelevelmente associada ao nacionalismo crioulo na América do Norte. processo semelhante deu origem. em que portos). Os mais antigos jornais continham — ao lado de notícias sobre a metrópole — notícias comerciais (partidas e chegadas de navios. norte ou sul-americanos? Eles começavam fundamentalmente como prolongamentos do mercado.mais lento e intermitente. 47 De fato. Daí a conhecida duplicidade do nacionalismo hispano-arnericano primitivo. bem como ordenações políticas coloniais. -Os leitores de jornal da Cidade do México. Assim. Na América do Norte protestante. para que mercadorias. com o correr do tempo. até o advento do capitalismo editorial. porém. porém. Daí ter a oficina gráfica surgido como o ponto chave das comunicações e da vida intelectual da comunidade nos EUA.

e da América do Sul hispínica. da Argentina.965 dui!õrnetros quadrados. 8. 'Ora. é conveniente voltar a acentuar a pretensão limitada e específica da exposição que fizemos até aqui. espanhol peninsular] se atreve a erguer a mão para um americano!'. San Martin ficou indignado. a ponto de precipitar uma guerra de secessão quase um século depois da Declaração da Independência. do que a razão por que a resistência se concebeu sob formas 50 51 A superfície. o "fracasso" da experiência hispanoamericana em gerar um nacionalismo de âmbito hispanoamericano permanente reflete. digamos. e o Uruguai e o Paraguai. *9 Os crioulos mexicanos podiam saber. Nesse sentido. O Paraguai constitui um caso de excepcional interesse. 2. os crioulos protestantes de fala inglesa estavam em posição muito mais favorável para concretizar a ideia de "América" e. "8 Ao mesmo tempo. uma ideia de simultaneidade firme e sólida através do tempo. As Treze Colónias originárias compreendiam uma área menor "Um peão velo queixar-se de que um inspetor espanhol de sua estância havia batido nele. após a Insurreição. há elementos de "fracasso" ou retração comparáveis — a não incorporação do Canadá de fala inglesa. para essa comunidade imaginada. Nova York e Filadélfia eram facilmente acessíveis uns aos outros e suas populações ligadas de maneira relativamente firme pela imprensa. feita por Márquaz em Cem anos de solidão. Com a expulsão dos jesuítas da América espanhola pala Coroa. (A época da história mundial em que nasce cada nacionalismo tem.'Se. mas multo tardiamente & por pouco mais de uma geração. e o atraso "local" do capitalismo e da tecnologia na Espanha em relação à extensão administrativa do império. os laços afetivos de nacionalismo foram suficientemente elásticos. realizada por poderes imperiais os mais terríveis e avançados?) Ao norte. do que "fazer parte deles". também. no século XVIII. mas isso se daria por intermédio dos jornais mexicanos. 311. Não será o nacionalismo indiano inseparável da unificação administrativa e de mercado da colónia. . 51 À guisa de conclusão provisória. mas era antes uma indignação nacionalista do que socialista. um impacto significativo sobre seu alcance. Contudo. meses mais tarde. em 1767.860. à medida que populações antigas e novas se deslocaram rumo ao oeste a partir do núcleo litorâneo do leste. 1760 e 1830. tanto quanto pelo comércio. associados à rápida expansão da fronteira oeste e às contradições geradas entre as economias do norte e do sul. essa guerra nos faz lembrar vivamente as que separaram violentamente a Venezuela e o Equador da GrãColômbia.. tivesse existido uma comunidade de fala inglesa de bom tamanho na Califórnia. na verdade. não seria provável que tivesse surgido ali um Estado independente. pára atuar como uma Argentina em relação ao Peru das Treze Colónias? Até mesmo nos EUA.202 quilómetros quadrados. e. 49 do que a Venezuela e equivalente a um terço do tamanho da Argentina. A da Venazuala. p. 87. tJaliorr$ ancf States. 49 Evocação fascinante da lonjura e do isolamento das populações hispano-americanas á a descrição da fabulosa Macondo. provavelmente. 200-1. uma vez que essa expressão denotava precisamente a fatalidade do nascimento extra-espanhol que compartilhavam. das Províncias Unidas do Rio da Prata. acabaram por ter êxito em apropriar-se do título habitual de "americanos". VarSaton-Watson. mesmo no caso dos EUA. Os "Estados Unidos" puderam multiplicar gradativamente seu número no correr dos 183 anos seguintes. O que se pretende é menos explicar as bases socioeconômicas da resistência antinietropolitana no hemisfério ocidental entre.439. veja sol Depois de três anos de revolução. -o território passou para o Rio de Praia. os indígenas foram mais bem tratados do que em qualquer outra parte da América espanhola 9 o Guarani alcançou o steíus <Je língua impressa. M Estando todas elas juntas geograficamente.. os mercados de Boston. de acontecimentos ocorridos em Buenos Aires. um maturrango [vulg. o nível geral de desenvolvimento do capitalismo e da tecnologia em fins do século XVIII. hoje. a década de soberania independente do Texas (1835-1846). e tais acontecimentos antes pareceriam "ser semelhantes aos" acontecimentos ocorridos no México.78 savam em si mesmas como "americanas". p.74 . vimos que a própria concepção do jornal implica na refracão de "eventos mundiais" idênticos em um determinado mundo imaginado de leitores na língua vulgar. e.£3-0. ao mesmo tempo. não dos do Rio da Prata. em quão importante é." Ibid. Graças à ditadura relativamente benevolente alt estabelecida pelos jesuítas em princípios do século XVII. A imensa extensão do Império hispano-americano e o isolamento de suas partes componentes tornavam difícil imaginar uma simultaneidade como essa.total das Tieze ColCnlas era de 835.776.

O que estou sugerindo é que nem o interesse económico. as "línguas impressas nacionais" foram de fundamental importância ideológica e política. ANTIGAS LÍNGUAS. . a "nação" mostrou ser uma invenção que era impossível patentear. como veremos. cão ao que estava no foco central de sua admiração ou desagrado. o centro de nossa análise será a língua impressa e o plágio. de comunidade imaginada que se protegesse contra a espoliação daqueles regimes. em fins do século XVIII. Por isso. de importância fundamental. ou criaram. imprevistas. o grande Johann Gottfried von Herder (1744-1803) declarou.76 nacionais "plurais" — e não de outras formas. Na verdade. 52 No cumprimento desta tarefa específica. os funcionários crioulos peregrinos e os homens de imprensa crioulos provincianos tiveram o papel histórico decisivo. Netionslism.— em oposi-. sobretudo propiciando um arsenal de crítica ideológica do regime imperial e dos anciens regimes. por si sós. todos tiveram condições de aluar a partir de modelos disponíveis propiciados por seus predecessores remotos e. ern outras palavras. NOVOS MODELOS 54 É ilustrativo que a Declaração da Independência de 1776 fale somente de "o povo". A "nação" tornou-se. O término do período de movimentos de libertação nacional bem-sucedidos na América coincidiu quase que exatamente com o início da época do nacionalismo na Europa. em quase todos. algo a que se podia aspirar desde o início. enquanto a patavra "nação" só aparece pola primeira vez na Constituição de 1789. Os interesses económicos ern jogo são bem conhecidos e. o tipo. nem o liberalismo. O liberalismo e o Ihiminismo tiveram evidentemente um efeito muito forte. Se considerarmos o caráter desses novos nacionalismos que. Em segundo lugar. 105. es liai seine National Bil- . nem o Iluminismo podiam criar. que: "Denn/ecfes Volk i st Volk. Em primeiro lugar. entre 1820 e 1920. neste capítulo.após as convulsões da Revolução Francesa. assim. Com leviana despreocupação a respeito de alguns fatos evidentes extra-europeus.' Kcrnílãinen. não tão remotos. e não que se fosse definindo gradativamente. alteraram a fisionomia do Velho Mundo. ou a forma. por vezes. Ela se tornou suscetível de plágio por mãos as mais variadas e. nenhum deles proporcionou o quadro de uma nova consciência — a mal percebida periferia de sua visão. enquanto que o espanhol e o inglês jamais foram temas na América revolucionária. dois traços notáveis os distinguem de seus precursores. obviamente. p.

(Somente o tempo homogéneo e vazio permitiria acomodálas. a "descoberta" feita pela Europa das grandiosas civilizações de que até então só se ouvira falar vagamente — na China. A Nova Atlântida de Francis Bacon (1626) foi talvez original sobretudo porque se localizava no Oceano Pacífico. Em sua maior parte. 42. são descritas. da Marlowe. sobre esse pano de fundo. Japão. 5 Analogamente. A majestosa Ilha dos Houyhnhnms.] Essa concepção notavelmente e«£-européia da nation-ness como algo vinculado a uma língua própria e exclusiva teve ampla influência na Europa do século XIX e. em 1497-1498. 343. começou a havei1 um sentimento de que os eventos da história e da lenda clássicas. A questão foi encarniçadamente debatida na "Batalha dos Antigos e Modernos" que dominou a vida intelectual francesa na última quarta parte do século • XVII. pela expansão planetária da Europa. à concepção até então inaudita de uma "modernidade" explicitamente justaposta à "antiguidade". em tempo e espaço. rettala um Imperador contemporâneo reinante n 358-1707].78 79 dung wie seine Sprache". bem como os da Bíblia. Grifos nossos. na verdade do homem: suas genealogias eram exteriores e inaâsimiláveis ao Éden. ex* Mimesis. Moníesquieu. que teve início já no século XIV. Viço.. Voltaire e Rousseau que. essas civilizações haviam-se desenvolvido completamente isoladas da história conhecida da Europa. da cristandade. mas também por condições completamente diversas de vida. em atribuir "fisrton-r. 282. A batalha se iniciou em 1639. nas teorias subsequentes sobre a natureza do nacionalismo. há um claro contraste entre os cois famosos mongíis do teatro inglês. Tamburlaifia r/te Qraat (1587-158. A Utopia de Thomas Morus.) Todas essas utopias enganosas. vieram os astros do Ilumimsmo. p. Nstionalism. Deveríamos também sar parcimoniosos. 5 Na esteira dos utopistas. não estavam separados do presente unicamente por uma extensão de tempo. ou a ingenuidade histórica dos séculos Xíl e XIII. os franceses tiveram a 'coragem de considerar 1 2 3 sua própria cultura como um modelo válido em igualdade de condições com a dos antigos. "Na época de Luís XIV. quando Charles Perra u't.es e as ciências haviam atingido plena prosperidade em seu próprio tempo e lugar. surgida em 1516. Sudeste da Ásia e no subcontinente indiano — ou que eram completamente desconhecidas — o México asteca e o Peru incaico — sugeria um irremediável pluralismo humano.esf" a assa "sua própria". fictício ou real. cada vez mais. e de modo algum necessariamente em benefício desta última. publicou seu poema Síécíe de LQUIU lê Grend. O desenvolvimento do que se pode chamar "história comparada" levou.. [Isso tornou impossível] restabelecer a vida autárquica natural da antiga cultura. Grifo nosso. mas como sociedades contemporâneas. Poderia afirmar-se que tinham de ser assim. Aurangieb \fàlfi). descreve um fabuloso dirtasta morto desde 1407. p. uma vez que foram compostas como críticas a sociedades contemporâneas. de maneira bastante paradoxal. o humanismo cria uma perspectiva histórica em profundidade tal como nenhuma época anterior de que temos conhecimento jamais possuiu: os humanistas vêem a antiguidade em profundidade histórica e. com o tempo. KemilâMen. com 69 anos. causado inicialmente pelas escavações dos humanistas e» posteriormente. 3 Citando mais uma vez Auerbach. Com seu programa de restauração das antigas formas de vida e de expressão. ' ["Assim. da antiguidade. "modeladas" sobre descobertas reais. apresentava um mapa fictício de sua localização no Atlântico Sul. e que as descobertas tinham dado fim à necessidade de buscar modelos em uma antiguidade desaparecida. simulava ser o relato de um marinheiro que o autor encontrou em Antuérpia.se encontrem na profunda redução do mundo europeu. não como Paraísos perdidos. M/mesis. e impuseram essa opinião ao resto da Europa". (Ô significado desses cenários fica mais claro se se considerar quão inimaginável seria localizar a República de Platão em qualquer mapa.8]. o período intermediário de trevas da Idade Média. . de Swift (1726). de Dtyden. ele possui sua formação nacional como possui sua língua". Observe que Auerbacn diz "cultuis" e não "língua". todo povo é povo. que afirmava que as ar. Como bem o diz Auerbach: 2 Com a primeira alvorada do humanismo. 4 No correr do século XVI.) O impacto das "descobertas" pode ser aferido pelas geografias peculiares das sociedades imaginárias da época. mais limitadamente. Quais as origens desse sonho? O mais provável é que. p. o qual participara da expedição de Américo Vespúcio à América.

The Age of Revolution. um dos aspectos mais valiosos do texto de Seton-Wauon é exatamems a stençáo que dedica à historia da língua — embora se possa discordai do modo como a utiliza. gramáticos. a civilização indiana era muito mais antiga do que a da Grécia ou da Judéia. Como nos mostra de maneira muito proveitosa SetonWatson. Desde os primeiros momentos.. as línguas. filologistas e literatos das línguas vulgares. que seriam reunidas em dicionários elementares. "Â língua tornouse menos urna continuidade entre um poder exterior e o falante humano do que um terreno interior criado e realizado. iam-se concebendo genealogias que só poderiam conciliar-se em um tempo homogéneo e vazio. Os rriourejadores visionários que dedicavam anos e anos à compilação dos dicionários eram necessariamente levados para as grandes bibliotecas dá Europa. p. em geral'. 9 0 A partir daquele momento. na Europa e em sua periferia imediata. enquanto o imperialismo europeu abria vigorosamente seu caminho descuidado pelo mundo. 6 No devido teiripo. com seus estudos de gramática comparada. por motivos práticos — navegação. ali estava "a primeira ciência a encarar a evolução comp sua própria essência". Se agora todas as línguas compartilhavam um status (intra)mundano comum. exatamente como as escolas. escritório para a casa. reconstruções de "protolínguas" tiradas do esquecimento.ximador entre as línguas — fosse qual fosse a realidade política exterior. uma idade do ouro para os lexicógrafos. ou a melhor. A afirmação de Hobsbawm de que "o progresso das escolas e das universidades dá a medida do nacionalismo. 337. as antigas línguas sagradas — o latim. The Age of Revolulion. e não necessariamente a Escolhida. 136. realmente se iniciou. é. uma vez que agora nenhuma delas pertencia a Deus. De lato. 337. classificação de línguas em famílias e. Mais uma vez. comércio e guerra — colecionaram listas de palavras de línguas não-européias.'. conversão. económica e social convencional. de estudantes universitários ou préuniversitários. em princípio. Pa conquista inglesa de Bengala se originaram as investigações pioneiras de William Jones sobre o sânscrito (1786). ou de proveniência divina. que levou a uma compreensão crescente de que. pôr seusnovps' donos: os falantes — e leitores — nativos de cada língua. lado alado. é quçtfné pareceu desejável associá-la a estas. de caráter científico. então. num movimento que complementava sua ." 8 Dessas descobertas surgiu a filologia. tornou-se possível pensar a Europa como apenas uma entre muitas civilizações. as descobertas e conquistas causaram também uma revolução nas ideias europeias a respeito da língua. o século XIX foi. ' Hobsbawm." Nations and States. hoje em dia. "que multiplicou a antiguidade extra-européia. Como observa correiamente Hobsbawm.Os dicionários raonolíngúes eram enormes compêndios do tesouro impresso de cada língua. p. por dedução científica. em total contraste com a situação na América entre 1770 e 1830. Da expedição de Napoleão ao Egito veio a decifração dos hieróglifos por Champollion (1835). De fato. oficina para a escola. 8 Edward Said. outras civilizações se viam traumaticamente confrontadas por pluralismos que aniquilavam suas genealogias sagradas. o grego e o hebreu — foram obrigadas a misturar-se em condições de igualdade ontológica com variegada e plebeia multidão de línguas vulgares rivais. ainda que com o risco de menor domínio da área. pelos usuários da língua. mantida tão rigidamente separada da historia política.80 81 pioraram uma não-Europa "real" para uma bateria de obras subversivas dirigidas contra as instituições sociais e políticas europeias então vigentes. . s Hobsbawm. Otientatism. "Exatsmente porque a historiais língua. ou por elas sustentados. eram todas igualmente dignas de estudo e de admiração'. do.• tal na moldagem dos nacionalismos europeus do século XIX. Mas somente em fins do século XVIII é que o estudo comparado de línguas. p. que se podiam transportar (ainda que às vezes com dificuldade) da . E a maior parte de sua clientela imediata constituía-se. missionários. 7 Progressos nos estudos semíticos abalaram a ideia de que o hebreu fosse singularmente antigo. Os dicionários bilíngues tornavam evidente um igualitarismo mais apro. A marginalizarão do Império do Centro para o Extremo Oriente é simbólica desse processo. comerciantes e soldados portugueses. marinheiros. 11. não menos inevitavelmente. sobretudo as das universidades. possuíam idêntico staíus. holandeses e espanhóis. Mas por quem? Logicamente. dentro das capas do dicionário Checo-alemão/Alemão-checo. p. e particularmente as 10 Assim. entre eles mesmos.degradação anterior no mercado pelo capitalismo editorial. '? A vigorosa atividade desses intelectuais profissionais foi fundamen.

000 estudantes universitários em toda a Europa.000. desempenhou papel essencial (p. Essa dolorosa descoberta. ou devemos tentar tornar-nos novamente dignos desse nome.000 alunos no secundário.. 177. seguidos de um movimento." Talvez valha a pena observar que assa passagem sã encontra em uma subsecão Intitulada "The Inventing of trie Hu-ngarian Nation". Grifo nosso. Adamantios Koraes (que mais tarde. escreve Ignotus ser ele um acontecimento "suficientemente recente no tempo: 1772.000 estudantes de lyoée na França. em cinco volumes. 13 Símbolo dessa mudança de consciência são as seguintes palavras de um desses jovens. foi publicado o dicionário pioneiro checo-alemão. «> Ibid. franceses e ingleses não apenas havia tornado acessíveis. As instituições académicas não tiveram significado para os nacionalisrnos americanos. a nação reconhece o espetáculc horroroso de sua ignorância e estremece ao avaliar a distância 11 que a separa da glória de seus ancestrais. em formas impressas de fácil manejo. dicionários e histórias do romeno.. o número de adolescentes nas escolas ainda era mínimo pelos padrões de hoje: não mais de 19. foi fundada "em Odessa.000 da Rússia Imperial. a Academia Russa. * i 12 The Age a! Revolufion. o padre católico Josef Dobrovsky (1753-1829) escreveu. se não para outras épocas e lugares. 167). Nas revoluções deste ano. l5 Entre 1789 e 1794. em 1814. 1-1 Ibid. p. apareceram gramáticas. e um total aproximado da 48. "De fato o provou. No último quartel do século. 40. Ele contém uma análise espantosamente moderna das bases sociológicas de nacionalismo grego. Em 1835-1839. Hungaty. dizem tacitamente a si mesmos. p. Philike Hetairia. em 1792. em 1848. na análise que se segue baseei-me grandemente em Seton-Waison. Em meados do século XVIII. 20. 44. . em 1842. em 1850.. como também recriavam. posteriormente. esse "passado" tornouse cada vez mais acessível a um pequeno número de jovens intelectuais cristãos de fala grega. e. primeira história sistemática da língua e da literatura checas.. até que a explosão total final transforma a noite em dia. p. p. reconstituir essa revolução lexicográfica como se poderia fazer com o estrondàr de um arsenal em chamas. o checo fosse ainda a língua apenas dos camponeses da Boémia (a nobreza e as classes médias ascendentes falavam o alemão). embora houvesse 6. em discurso para um público francês. mas estratégico. em Paris. proveitosamente. 13 Ver a introdução de Elíe Kedouríe a Nalionalism ín Ásia en<j África. 15 • Os primeiros jornais gregos surgiram em 1784. esse grupo reduzido. em dezenas de livros. p. virtualmente todo o corpus existente dos clássicos gregos. em fins do século XVIII. ou não devemos ostentá-lo. que se inicia com esta sugestiva frase: "Uma nação nasce quando algumas pessoas decidem que ata deve existir". Analogamente. fulgurante e firmemente pagã. se tornou um ardoroso lexícógrafo!). em 1803: M Pela primeira vez. p. 157-82. de Josef Jungmann. inicialmente bem-sucedido nos reinos dos Habsburgos e. o extraordinário trabalho de estudiosos alemães. Ambos representaram uma vitória da língua vulgar sobre a língua eslava da Igreja.82 83 universidades. " Pode-se. a maioria dos quais havia estudado ou viajado para fora dos limites do Império Otomano. a antiga civilização helénica. ver Narions and States.000 estudantes universitários em Paris. certamente está correia em relação à Europa do século XIX. assim. na época morando em Viena e trabalhando na escolta de Maria Teresa. em prol da substituição do alfabeto cirílico pelo alfabeto romano (distinguindo nitidamente o romeno das vizinhas línguas eslavas ortodoxas). moldada na Academia Francesa. porém. 43-4. Geschichte der bòhmische Sprache una ãltern Literatur. na época. se tornaram seus paladinos mais conscientes". 17 Paul Ignoius. n Estímulo ulterior foi propiciado Não pretendendo simular qualquer conhecimento especializado sobre a Europa Leste e Central. ano da publicação de algumas obras ilegíveis do versátil autor húngaro GyÕrgy Bessenyei. porém. nos dos otomanos. numa população de 68. mas seu ímpeto polémica era mais convincente do sue o valer estático dos exemplos que criou. 166. . eles n5o desempenharam virtualmente pape! algum na Revolução Francesa (p. o grande novo porto russo rfe grãos". juntamente com os anexos filológicos e lexicográficos necessários. a que se seguiu. isto é. em 1802. A magna opera de Bessenyei destinava-se a provar que a língua húngara adaptava-se ao mais elevado género literário". O texto integrai de Koraes. embora a educação se disseminasse rapidamente na primeirã metade da século XIX. em Viena. quando cada pequena explosão acende outras. A respeito do romeno. uma gramática oficial. que. "The Present State of Cívilization In Greece" encontra-se nas p. 166-7). O próprio Hobsbawm observa que. não lança os gregos no desespero: somos os descendentes dos gregos. 150-3. Ele também nos faj ver. 16 Sobre o nascimento do nacionalismo húngaro. em transformá-los em seres dignos de Péricles e de Sócrates. a sociedade secreta responsável sm grande medida pelo levante antiotomano de 1821. produziu um dicionário russo em seis volumes. empenharam-se em "desbarbarizar" os gregos modernos. já entrado o século XVIII. Embora. l2 Entusiasmados pelo filo-helenismo dos centros da civilização europeia ocidental.

nos anos iniciais do século XIX. Mas o "despertar" de um interesse pela língua finlandesa e pelo passado finlandês. Shevchenko foi destruído na Sibéria.84 85 pelas inúmeras publicações de Ferenc Kazinczy (1759-1831). apareceu a primeira gramática ucraniana — apenas 17 anos depois da gramática oficial russa. na década de 1870. e de fato haviam participado do Movimento Ilírico. Nations and States. Em outra parte. como língua principal da administração imperial. a restaurar o latim. o nacionalismo surgiu com a nova gramática (1848) e o novo dicionário (1850) noruegueses de Ivar Aasen. E vieram a seguir. M E as sementes do nacionalismo turco podem ser facilmente descobertas no surgimento de uma ativa imprensa em língua vulgar em Istambul. The Age of fjaííana!ism. Em 1798. língua oficial dinástica que misturava B ementas do turco. Isso significava urna rejaiçSo do "otomano". e pela mudança. houvesse acabado de vohar de cinco anos de estudos na França. professores. Se. Sua primeira expressão política foi a reação hostil da nobreza magiar que falava o latim. ainda que com pronúncia completamente diferente. . p. Nations and States. na década de 1820 passou a manifestar-se cada vez mais na língua vulgar. 1790-1792). em 1846. em 1784. foi fundada a Universidade de Karkov. do persa e do áraba. Ê típico que Ibrahlm Sinssi. Capitulo V). impressa]. que por muito tempo compartilhara uma língua escrita com os dinamarqueses. na década de 1830. Não é preciso diíer que o Tzarismo liquidou rapidamente com essas passoas. 2329261. p. na década de 1780. 21 p. Após a união do território aos domíSeton-Watson. 137. o servo-croata e o búlgaro. '9 Nations and States. a língua de Estado na Finlândia de hoje era o sueco. No século XVIII. em nome da qual se poderia propor reivindicações políticas mais vigorosas". Leopoldo II (r. porém. É ilustrativo que Kazinczy tenha apoiado potiticamante José II nessa questão flgnotus. 105-7. 18 No período de 1800-1850. Em 1804. 208-15. a primeira organização nacionalista ucraniana foi fundada em Kiev — por um historiador! No século XVIII. Hungary. p. 1E8-61. 19 Pouco tempo depois. três línguas literárias diferentes se formaram ao norte dos Bálcãs: o esloveno. A reaçêo foi suficientemente violenta para persuadir seu sucessor. porém. foram bem-sucedidos em fazer do dialeto holandês local uma língua literária e denominando-a não mais como europeia. "Ibid. havia sete diários em Ungua turca em Constantinopla. il No caso da Noruega. na década de 1870. as obras de Taras Shevchenko. contra a decisão do imperador José II de substituir o latim pelo alemão. havia sido geral a ideia de que os "búlgaros" eram da mesma nação dos servos e dos croatas. em 1878 passaria a existir separadamente um Estado nacional búlgaro. Ver também adiante. do que viria a ser a Universidade de Budapeste. o ucraniano (o pequeno russo) era desdenhosamente tolerado como língua de caipiras. muitos deles produtos do American College de Beirute (fundado em 1866) e do College Jesuíta de São José (fundado em 1875) foram os que mais colaboraram para o renascimento do árabe clássico e para a disseminação do nacionalismo árabe. p. SetoivWatson. poema satírico extremamente popular sobre a vida ucraniana. 16 nios do tzar. encorajaram um pouco os nacionalistas ucranianos na Galícia — para contrabalançar os poloneses. O estudo do folclore e a redescoberta e reconstituição da poesia épica popular caminhavam par a par com a publicação de gramáticas e dicionários e levava ao surgimento de periódicos que eram úteis para padronizar a língua finlandesa literária [isto é. Os^absburgos. Ivan Kotlarevsky escreveu sunAeneid. "o pai da literatura húngara". 20 Os líderes do nascente movimento nacionalista finlandês eram ''pessoas cuja profissão consistia em grande medida no manejo da língua: escritores. que se tornou rapidamente o centro de uma explosão da literatura ucraniana. em fins do século XVIII. encontramos o nacionalismo africâner a que deram início os pastores e literatos bóeres que. a língua oficial tornou-se o russo. 72. p. Em 1819. em 1809. outros lago o acompanharam./Víf/ona/ís/n. a cujo respeito observa Seton-Watson que "a formação de uma língua literária ucraniana aceita deve mais a ele do que a qualquer outro indivíduo. pastores e advogados. na década de 1830. textos que eram uma resposta e um estímulo às reivindicações de uma língua impressa especificamente norueguesa. 23Kohrv. 23 z°Kemilâinen. Quando ele saiu à frente. p.. Os maronitas e os coptas. 48). fundador do primeiro jornal desse tipo. expresso de início por textos escritos em latim e em sueco. O uso dessa língua foi a etapa decisiva na formação de uma consciência nacional ucraniana". Em 1875. da pequena cidade provinciana de Trnava para Budapeste. em consequência do trabalho pioneiro de estudiosos locais.

essa "ascensão" deve ser compreendida em suas relações com o capitalismo editorial em língua vulgar. ainda em 1840. falando figuradamente. e assim por diante pelo nosso século adentro. Mas não importa onde tenha ocorrido. em 1804. claro. As classes dirigentes pré-burguesas geraram sua própria coesão em certo sentido independentemente da língua. e 35. Dvorak e Janácek. depois de Kazinczy. Veja-se até mesmo a máquina estatal austro-húngara. A Europa de meados do século XIX assistiu a um rápido aumento das despesas do Estado e das dimensões das burocracias estatais (civil e militar). em 1859. Afinal de contas. decrépita. os cortesãos e membros do clero. Uma nobreza analfabeta ainda podia atuar como nobreza. a despeito da inexistência de qualquer guerra local de maior importância. Um dono de fábrica em Lille só estava ligado á um dono de fábrica de Lyon por reverberação. Béía Bártok. filólogos. em 1878. da língua impressa. ainda que tipicamente em ritmo mais lento e mais tardio: o componente de classe média do corpo de oficiais subiu de 10% para 75%. . Eles não tinham uma razão necessária para conhecer a existência um do outro. não com base na língua ou na cultura que compartilhassem. não se casavam com a filha um do 25petei J. jornalistas e compositores não desenvolviam suas atividades revolucionárias no vácuo. pelo menos. 70% na Áustria. 74. tipicamente. 112. 50% na Bélgica. DisfainedParfners. mas também a esposa rodeada de criadas e os filhos em idade escolar. Áustria and Germany sints WJ5.86 87 E não se deve esquecer de que essa mesma época assistiu à popularização de outra forma de página impressa: a partitura. 44% na Rússia. da dependência e de lealdades pessoais. suas bases políticas estáveis. indicam que sua coesão como classe era tão concreta quanto imaginada. que significou também especialização burocrática.Mas e a burguesia? Eis aí uma classe que. Quem eram esses consumidores? No sentido mais geral: as famílias das classes leitoras — não apenas o "pai que trabalhava". Se observarmos que. em 1829. só veio a ser uma classe mediante muitas cópias. Se o governante do Sião tomava uma'nobre malaia como concubina. com base' em parentescos e amizades comuns. Grieg. folcloristas. "Entre 1830 e 1850. além das antigas classes dirigentes da nobreza e da pequena nobreza fundiária. p. lenta e interrompida em outros. as camadas médias ascendentes de pequenos funcionários plebeus. plena de sinecuras e dominada pela nobreza: a porcentagem de homens originários da classe média nos postos mais elevados de "Hobsbawm. ou se o Rei da Inglaterra se casava com uma princesa espanhola — terão eles alguma vez conversado verdadeiramente um com o outro? As solidariedades eram produto do parentesco. sua metade civil subiu de O. eles produziam para o mercado da imprensa. abriu as portas da nomeação oficial a números muito maiores e a origens sociais muito mais variadas do que até então. e a personalização das relações políticas subentendidas nas relações sexuais e na herança. revelou-se a mesma tendência. ao público consumidor. os profissionais liberais. Nas forças armadas. 2* A expansão burocrática. mesmo na^GrãBretanha e na França. a ascensão das burguesias comercial e industrial foi. ocorrendo em taxas comparáveis tanto nos Estados adiantados quanto atrasados da Europa. The Age of Revotution. extremamente irregular — maciça e rápida em alguns lugares. 75% nos EUA e mais de 90% nos Países Baixos". p. Mais concretamente. "classes leitoras" significava gente de algum poder. para 55. e as burguesias comercial e industrial. a despesa pública per capita aumentou de 25% na Espanha. depois de Aasen. 40% na França. Ao mesmo tempo. 229. por intermédio desse silencioso bazar. Depois de Dobrovsky veio Smetana. O tamanho relativamente pequeno das aristocracias tradicionais. quase metade da população ainda era analfabeta (e na atrasada Rússia. os Estados mais adiantados da Europa. quase 98%). passando por 27. K Se a expansão das classes médias burocráticas foi um fenómeno relativamente uniforme. mas. gramáticos. é patente que todos esses lexicógrafos. Nobres "franceses" podiamajudar reis "ingleses" contra monarcas "franceses". elas eram. ou. e se vinculavam. Kateen&tein. cálculos maquiavélicos à parte. entre 1859 e 1918.

27 Hobsbawm. Dizendo doutro modo. pequenos nobres fundiários. especialmente num mundo em que essas /línguas se interpenetravam continuamente. Para perceber por que. E tal expectativa é corroborada. no século XIX. entre os naturais da terra que lessem a língua vulgar oficial.francês limitou o âmbito do bretão e o castelhano compeliu o catalão à marginalidade. século XIX. em meados do século XIX. ocorreu que houvesse.) Em termos das clientelas de nossos lexicógrafos. Assim. como veremos adiante mais detalhadamente. Na América. Em reinos como a Grã-Bretanha e a França. poliglota. Na Hungria. Em outras palavras. é preciso que se retorne ao contraste básico antes traçado entre a Europa e a América. e parecia ameaçador. p. . as burguesias foram as primeiras classes a consumar solidariedades numa base essencialmente imaginada. por exemplo. a língua inglesa expulsou o gaélico da maior parte dai Irlanda. uma vez que. No casa do Beira Unida. por razões absolutamente externas.p. a exaltação do alemão no século XIX pela corte dos Habsburgos. seria lícito esperar que um nacionalismo cônscio de si mesmo surgisse por último. numa Europa do. em meados do século. em que.88 89 outro. profissionais liberais. essas solidariedades tinham seu maior alcance limitado por legibilidades em língua vulgar. os consumidores potenciais da revolução filológica. mas cada vez mais letrado. & submissão militar do Gaeltactrt no início do Século XVIII B a depressão da década de 1B40 foram poderosos fstores concorrentes. a substituição do latim por qualquer língua vulgar. 165. Membros da nobreza. TheDissolution. Excelente e pormenorizada exposição encontra-se em Ignotus. Na Europa. porém. (Esses casos aproximam-se! mais dos da América. onde. funcionários e homens do mercado — eram estes. criou novos impulsos vigorosos no sentido da unificação das línguas vulgares dentro de cada reino dinástico. da indústria. havia um isomorfismo quase perfeito entre o âmbito dos diversos impérios e o de suas línguas vulgares. em termos de história mundial. esse tipo de coincidência era raro e os impérios dinásticos intra-europeus possuíam basicamente mais de uma língua vulgar em seu território. as línguas de Estado vulgares assumiam cada vez mais poder e status em um processo que. a adoça» de línguas vulgares corno Itnguss de Estado nesses dois reinos estava em andamento desde muito cedo. mas não poderia. 44-55: vertarnbCmJàszi. pelo menos de início. Nesse ínterim.pelos registros históricos. aos que não a utilizassem. onde virtualmente não existia uma burguesia magiar. Em seu vasto domínio desmantelado. era a coali26 Como vimos. que caracterizou o século XIX. Poderia ser a língua de Estado. não tinha nada a ver com o nacionalismo alemão. f>. Mas chegavam a visualizar de um modo geral a existência de milhares e milhares de outros como eles por intermédio da língua impressa. o. 26 a interpenetração geral a que aludimos acima não teve consequências políticas dramáticas. das ciências. Assim. Mas tal clientela não estava plenamente realizada quase em parte alguma e as combinações dos consumidores concretos "variava consideravelmente de região pára região. dos quais a Áustria-Hungria é provavelmente o exemplo extremo. era em grande medida não planejado. assegurava vantagens enormes àqueles de seus súditos que já utilizassem aquela língua impressa. * O crescimento generalizado da alfabetização. (Em tais circunstâncias. contudo. Mais típica.proporção. mas só se pode ler a escrita de um certo povo. Grifei a palavra qualquer. mas uma de cada 8 pessoas reivindicava algum status aristocrático. 21 Pode-se dizer o mesmo dos leitores poloneses.Hungary. então. Porém. do comércio. das comunicações e das máquinas estatais. pode-se dormir com qualquer pessoa. . O latim se manteve como língua de Estado na Áustria-Hungria até inícios da década de 1840. mas desapareceu quase imediatamente a seguir. da imprensa ou da literatura. uma coincidência relativamente alta entre língua de Esta» do e língua da população. o latim fora vencido pelo capitalismo editorial em. há perto de dois séculos. o poder e a língua impressa mapeavam reinos distintos entre si. ela mesma alemã como alguns podem considerá-la. 224-5. em cada reino dinástico. não admira pois que se encontrem conjuntos muito diferentes de clientes segundo as diferentes condições políticas. a preservação do húngaro impresso contra a maré montante do alemão era defendida por segmentos da nobreza menos importante e da pequena nobreza fundiária empobrecida. nem herdavam as propriedades um do outro. The Age effíevolutlon. Pois é difícil imaginar uma burguesia analfabeta. ser a língua dos negócios. na mesma. as consequências foram inevitavelmente explosivas. língua vulgar.) Em muitos outros reinos.

ram-se aos revolucionários poloneses. Isso dependia muito das relações entre essas massas e os missionários do nacionalismo. jovens ávidos de aprender. os profissionais liberais e os homens de negócio. 28Kedourie. tudo passa a ser tema de polémicas infindáveis por parte de partidários e de ad30 3' 3! TheAgecfRewkttion. ver Seton-Watson. 30 Mas por toda parte. E . o que onçarã ds frente é Constantinopla. Até certo ponto. 3Z Mas uma vez que ela aconteceu. dinheiro e facilidades de mercado. em 1846. aquela experiência foi modelada por milhões de palavras impressas como um "conceito" sobre a página impressa e. Grifos nossos. p. os académicos.. p. poesia. 145 (Bulgária). os primeiros forneciam os líderes de "reputação".. em que predominavam os intelectuais e os empresários: 2S Nas cidades que eram menos pobres. sem exclusão das meninas. alguns indivíduos que podiam pelo menos ler e compreender os autores antigos. O agradável Koraes oferece-nos uma vinheta precisa da clientela inicial do nacionalismo grego. pelo Oriente Médio. na qual. p. 153 (Boémia) e 432 (Eslováquia). Q otomano nSo 6 contudo uma língua estrangeira. do francês. até que surgisse a figura pós-revolucionária de Napoleão". e os últimos. dão a seus filhos melhor educação. onde um clero oriundo do campesinato. 169. . Hobsbawm observa que "A Revolução Francesa não foi feita nem conduzida por um partido ou movimento organizado. e por que alianças tão diversas eram capazes de emiti-lo (a intelligentsia de classe média de Nairn não era absolutamente o único anfitrião). com o avançar do século. 72 (Finlândia). conseqúèntemente. p. The Age of Nationalism. na verdade. talvez. os segundos e terceiros. nem por homens que estivessem procurando levar a cabo um programa sistemático. Em algumas dessas cidades. Kohn. p. por que "ela" foi bem-sucedida ou fracassou. Do mesmo modo que uma imensa rocha informe se torna um penedo arredondado pela ação de inumeráveis gotas de água. A irresistível e desconcertante concatenação de eventos experimentada por seus autores e por suas vítimas tornou-se uma "coisa" — e com um nome próprio: Revolução Francesa. The Age of fígvoàittón. Nutions and States. Ela nem mesmo projetou 'líderes' do tipo a que nos habituaram as revoluções do século XX. 340. jornais e formulações ideológicas. as fuigras esposas som trabalho ingressam no mercado da impransa. a impressionante formulação de Nairn -— "A nova intelligentsia de classe média do nacionalismo tinha de convidar as massas a entrar na história. Quando Koraes olha para a "Europa". como um modelo. que possuíam alguns habitantes abastados e algumas escolas e. desenvolveram-se de maneira semelhante por toda a Europa Leste e Central e. preferindo massacrar os cavalheiros e confiar nos funcionários do Imperador"..90 91 zão entre os nobres menores. mitos. Coalizões de leitores. ingressou na memória acumuladora da imprensa. a que "ela" visava. a menos que nos voltemos finalmente para o plágio. enviam para a Europa. e o convite tinha de ser escrito numa língua que elas entendessem" 3I — está correta. à medida que era maior a alfabetização. The Sreak-up ofSrítBrrt. pois. á por sobre o ombro. a suas expensas. 29 Em que medida as massas urbanas e rurais participavam das novas comunidades linguisticamente imaginadas naturalmente também variava muito. Num extremo. 23 Para exemplos. E3 (Egito) e 103 (Pérsia). pode-se indicar a Irlanda. a revolução começou mais cedo e pôde progredir mais rápida e animadoramente. no sentido moderno. quando o 'povo encontrava um novo motivo de orgulho na exaltação pela imprensa de línguas que haviam falado humildemente por tanto tempo. Mas será difícil perceber por que o convite parecia tão atraente. Tudo aqui é exemplar. Os ricos patrocinam a impressão de livros traduzidos do italiano. ainda que estes houvessem de fato proclamado a abolição da servidão. Nationallsm in A$i» and África. do alemão e do inglês. Outro extremo é sugerido pelo comentário irónico de Hobsbawm de que: "Os camponeses galicianos. desempenhava papel mediador essencial. as escolas já estão sendo ampliadas e o estudo de línguas estrangeiras e até mesmo das ciências que são ensinadas na Europa [sic] está sendo introduzido nelas. opuseorg. no devido tempo. 80. Por que "ela" irrompeu. frequentemente. com composições que se localizam de maneira diversa na gama de variação entre a húngara e a grega. tornava-se mais fácil conseguir o apoio popular. 170. e próximo dele. p.

Se "húngaros" mereciam um Estado nacional. p.0 eslovaco. (Nada mais chocante. no devido tempo. tiveram grandes dificuldades em não realizar um espetáculo de "convidar a entrar" (ainda que apenas até a copa) seus compatriotas oprimidos.. o medo de Bolívar das insurreições de negros e a convocação de San Martin de seus indígenas à peruanidade chocam-se caoticamente. Desse modo. e assim por diante." Ignoius. No Início do século XIX. e assim por diante. os movimentos de independência na América se tornaram "conceitos". Compare-sei "O próprio nome de RsvoluçSo Industrial reflete seu impacto relativamente tardio sobre a Europa. instituições monárquicas. Até mesmo as pequenas nobrezas húngara e polonesa. então isso queria dizer "os húngaros". Mas a palavra impressa eliminou o primeiro quase^. se não antes. eram monarquias restauradas e o dinasticismo ersatz do sobrinhoneto de Napoleão. 3i queria dizer um Estado em que o locus fundamental da soberania tinha que ser a coletividade dos falantes e leitores húngaros. Metade dos súdito» do reino da Hungria sra nõo-rnagiar. de tal modo que. cidadania universal. seja o que for.45-6 e 81. da ESrvio B do romano. mas também 0. e da língua compartilhada das repúblicas "modais" da América do Sul. do que a "supressão" generalizada da escravidão maciça dos EUA "modais" do século XIX.) Mas exatamente porque era então um modelo conhecido. provavelmente.. a expansão do sufrágio. ainda que lembrado. bandeiras e símbolos nacionais. absolutismos. demagogicamente. etc. atrasadas e 33 reacionárías. a alta aristocracia magiar falava irancâs ou alemão. guetos. . 35 • Não que isso fosso uma questão muito definida. a promoção da educação popular.. vassalagens. a lógica da peruanização de San Martín estava funcionando. até depois de 1870. aparece como uma anomalia inconsequente. o caráter "populista" dos primeiros nacionalismos europeus. nesse contexto. soberania popular. Ap&nas um terço dns servos falavo magiar. A coisa Isicl existia na Grã-Bretanha antes da palavra.que'imediatamente. provavelmente por analogia com a revolução política da França". mais preciso dizer que o modelo era uma complexa mistura da si e mantos franceses e americanos. bem coma do alemão vulgar. Hungtry. "projetos". a escravidão legal era inimaginável — também porque o modelo conceptual estava colocado num lugar inerradicável. era mais profundo do que na América: a servidão tinha que terminar.. de fato. p. B nobreza media e infericr "conversava em um latim vulgar salpicado de expressões do magiar.. Não foi senso na década de 1820 que socialistas Ingleses e franceses — eles próprios um grupo sem precedentes — a inventaram. todos eles. a validade e a generalidade do 'projeto se confirmaram indubitavelmente pelo pluralismo dos Estados independentes. e. De fato. 45. a liquidação da servidão. que este capítulo focalizou. impunha certos "padrões" em relação aos quais não se permitiam desvios muito acentuados. ninguém jamais teve muita dúvida. J3 De modo muito semelhante.92 versários: mas de que "ela" foi alguma coisa. instituições republicanas. na segunda década do século XIX. e a liquidação de seus contrários: impérios dinásticos. pelos grupos sociais mais retrógrados. já havia um "modelo" "do" Estado nacional independente à disposição para ser plagiado. Na "realidade". assim que se imprimiu a respeito deles. Ibid.) Além disso. "modelos" e. servidões. Se quiserem. 34 (Os primeiros grupos a fazê-Io foram as coalizões de pessoas instruídas baseadas em línguas vulgares marginalizadas. Da confusão americana brotam estas realidades imaginadas: Estados-nação. mesmo quando liderados. 34 Seria. Mas a "realidade observável" da França. nobrezas hereditárias.

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