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HUMANOS? Rogrio Abreu Para que o mal triunfe, basta que os homens bons no faam nada (Edmund Burke).

Um: um cachorrinho espancado at a morte na frente de uma criana. Dois: um cachorrinho amarrado pelo pescoo ao prachoque de um carro e arrastado por setecentos metros, sofrendo leses nas quatro patas. Trs: um cachorrinho espancado pelo dono, vindo a perder parte do maxilar, sendo submetido a uma cirurgia restauradora. Posso continuar contando, mas no creio que seja necessrio. Todos esses fatos, noticiados muito recentemente pela imprensa, so apenas uma pequena demonstrao do quanto a humanidade pode ser m. No se iludam: a insensibilidade com o sofrimento e o menosprezo pela vida so, sim, um atributo exclusivo daquilo que chamamos de humanidade, pois apenas os seres humanos ferem e matam por prazer, por maldade, por absolutamente nada. O que vai acontecer com os autores desses fatos? No sei. De acordo com nosso direito, alguma punio seria em tese cabvel, mas as penas previstas na lei so to pequenas que o desfecho , na prtica, muito previsvel. A verdade que o legislador valoriza muito pouco, mas muito pouco mesmo, a vida em si. Se a caracterstica de humanidade passa pela valorizao da vida, estejam certos de que ainda no chegamos a esse nvel sobrenatural. Mas no a lei a concretizao da vontade de um povo? E o que quer o nosso povo? Ser mesmo que nosso povo admite esse tipo de atrocidade como normal condio de ser humano? esse o tipo de ser humano que somos? Que no se compadece da vida? Que no se enoja com o sofrimento? Que no sente repulsa pela crueldade? Afinal de contas, somos seres humanos ou monstros humanos? Os animais no matam por prazer ou por maldade. Os animais no matam sem motivo. Mas ns, os humanos, temos escolha. Que espcie de humanos queremos ser: seres ou monstros? Creio que seja um timo momento para escolher. Se um animal martirizado at quase morrer e nossa legislao no nos permite punir uma atrocidade dessas de forma exemplar, somos todos monstros, pois a lei o reflexo oficial de nossa vontade. E para no deixar dvida sobre minhas intenes, no defendo a desobedincia lei, muito menos vinganas em nome de qualquer

bandeira. Defendo, isso sim, um urgente exame de conscincia acerca do conceito que temos sobre sermos humanos e tudo que isso implica em relao defesa da vida. E que concretizemos essas concluses em leis, para que essas leis reflitam o exato tipo de seres humanos que queremos ser.