Introdução Teoria é conhecimento ordenado, conhecimento sistematizado sobre um determinado assunto.

Conhecimento, além do mais, especulativo; ou seja, ordem de saber que se constrói sem imediata preocupação com a sua aplicabilidade aos casos concretos. Independente da prática, portanto. 2. Quando associado ao nome "Direito", para com ele formar a locução "Teoria do Direito", o substantivo de que estamos a falar é tipo articulado de conhecimento que busca isolar o Direito das outra realidades normativas. Explica o Direito como objeto cultural-normativo que se não confunde, verbi gratia, com a moral e a religião. E quando grafado de "Teoria da Constituição", é saber especulativo que opera no interior do próprio Direito, para separar o Direito Constitucional de qualquer outro setor ou província jurídica; melhor dizendo, para evidenciar em que a Constituição: a) é diploma jurídico-positivo diferente dos demais; b) é a parte central de um ramo jurídico também diferenciado das outras porções que se entroncam na grande árvore do Direito. 3. Este o nosso desafio: pensar a Constituição. Não esta ou aquela Constituição em separado, mas enquanto fenômeno jurídico-positivo comum à experiência dos povos que exercitaram, com êxito, a própria soberania. 4. O que estamos dizendo não é mais que isto: às Constituições em sentido objetivo (conjunto de normas jurídicas) corresponde esta nossa teorização em sentido subjetivo. Que somente vai buscar no material investigado, todavia, o que se apresentar como partes elementares de um todo orgânico; ou seja, como objetiva comprovação de que tudo é um. 5. Ainda à guisa de anotações preliminares a esta nossa monografia, um primeiro lembrete: não há apenas Constituições escritas, e mesmo as escritas nem sempre se enfeixaram (como ainda não se enfeixam) num único texto normativo. Elas também existem em documentos esparsos. E se umas são redigidas e promulgadas por órgãos especialmente eleitos pelo povo para esse mister, outras, no entanto, são aprovadas sem a eleição popular daqueles por cujo intelecto e força física elas ingressaram no mundo das positividades jurídicas. 6. Outra pequena lembrança está em que a nossa teorização não é repelente de nenhuma espécie de Constituição conhecida. Contudo, as especificidades ou características centrais que temos como exclusivas de um diploma constitucional, assim como as citações e ilustrações de que nos valemos amiúde, tudo tem por alvo o modelo de Constituição que terminou por se impor no interregno que vai do segundo após-guerra até os nossos dias: a Constituição escrita, redigida à moda de código e

produzida por um corpo de legisladores ungidos na pia batismal do voto popular. 7. Por último, incumbe-nos pontuar que esta nossa Teoria da Constituição começa pelo estudo do Poder Constituinte, que é a instância deliberativa de que ela, Constituição, é a obra resultante. O trabalho objetivamente feito. E que essa mesma Teoria passa pela esfera de conhecimentos que tem recebido o nome de "Hermenêutica Constitucional"; mas que preferimos, pessoalmente, designar por "Hermenêutica da Constituição", como no seu devido tempo explicaremos. Aracaju (SE), 23 de dezembro de 2002 Carlos Ayres Britto

Sumário
1.1. Deus: a instância transcendente que tudo pode, menos deixar de tudo poder 1.2. A limitabilidade intrínseca de Deus 1.3. A indistinção ontológica entre Deus e Sua onipotência 1.4. Deus enquanto norma normarum ou a fonte das fontes 1.5. A incontornável solidão da onipotência de Deus 1.6. O povo como a transubstanciação do poder imanente que tudo pode 1.7. A soberania popular ou o modo constituinte de ser do povo 1.8. O mundo de Deus e o mundo do Direito 1.1. Deus: a instância transcendente que tudo pode, menos deixar de tudo poder 1.1.1. O meu filho Marcel tinha cinco anos de idade, quando travou comigo o seguinte diálogo: - Meu pai, é verdade que Deus tudo pode? - É verdade, sim, meu filho. Deus tudo pode. - E se Deus quiser morrer? - Bem, aí você me obriga a recompor a idéia. Deus tudo pode, é certo, menos deixar de tudo poder. Logo, Deus tem que permanecer vivo, porque somente assim Ele vai prosseguir sendo Aquele que tudo pode. 1.1.2. Ao dar essa resposta de que Deus não podia morrer, terminei por confirmar uma coisa e afirmar outra. Confirmei a minha crença na existência de Deus e afirmei a limitabilidade intrínseca desse mesmo Deus de cuja existência eu estava a dar testemunho. 1.1.3. Com efeito, eu reproduzia para o meu filho: a) minha filosofia prevalecentemente idealista ou espiritualista, à moda hegeliana, segundo a qual a natureza ambiental e a sociedade humana são uma revelação, uma manifestação da Idéia Incriada; b) essa Idéia Incriada é o próprio Deus, tido como instância transcendente que tudo pode, mas com o acréscimo de idéia que eu estava a fazer: instância transcendente que tudo pode, sim, menos deixar de ser essa instância transcendente que tudo pode.1 1.2. A limitabilidade intrínseca de Deus 1.2.1. Sobre este último aspecto da limitabilidade inerente a um ser que tudo pode (a relativização possível da onipotência), a conversa com meu pequeno filho trouxe-me à cabeça a utilidade pedagógica de uma comparação entre Deus e o poder que, na Ciência Política e na Teoria da Constituição, é chamado de Poder Constituinte. Mais exatamente, pressentíamos (a partir de agora passaremos a usar o plural majestático "nós", em vez de pronome pessoal da primeira pessoa "eu") que refletir sobre algumas noções deístas mais correntes seria tarefa intelectual que abriria importantes espaços para a mais desembaraçada compreensão do poder que está na própria raiz da Constituição e do Ordenamento Jurídico: o Poder Constituinte. 1.2.2. Não que houvesse originalidade no fato em si da comparação (outros estudiosos do Direito, cada qual a seu modo e tempo, já confrontaram o Divino com o Poder Constituinte). Não que o acerto das proposições descritivas dos diversos ângulos da formação e manifestação do Poder Constituinte dependesse (nunca dependeu) do acerto das proposições reveladoras da existência e da natureza de Deus. Os conceitos

por ser a própria causa de tudo o mais. que chegou a dizer: "Quero conhecer o pensamento de Deus.tanto as que permitem quanto as que proíbem tal reforma . etc." E não se pode negar a realidade de que a invocação do nome de "Deus". Logo. Antevíamos até mesmo uma dimensão prática. funcionalmente.5.4.2.2 1. a mais vivamente fixar os contornos do constitucionalismo atual.2. uma utilidade mais que propriamente acadêmica na confrontação que estávamos a idealizar. Esta é a sua natureza. Noutros termos. ou "Ser Supremo" tem sido grafada nos preâmbulos de Constituições como as dos Estados Unidos da América. b) de outra banda. 1. o que se tem falado sobre Deus permeia pronunciamentos de cientistas do quilate de um EINSTEIN.são normas que podem servir de fundamento para a modificação delas próprias. ou "Divina Providência". pois o fato é que os estudos e reflexões em torno do Criador são em muito maior quantidade do que os elaborados ao derredor do Poder Constituinte. a ALCA e o MERCOSUL.. em última análise. Sem embargo. sua referibilidade às idéias mais assentes sobre Deus lhes propiciaria uma clareada de horizontes. Sua realidade prescinde da noção de causa. a ontologia e as manifestações do Todo Poderoso é de generalizada ou massiva aceitação (quantos homens e mulheres. o que nessa literatura se tem ajuizado sobre a existência. o seu núcleo duro (expressão muito ao gosto dos publicistas norteamericanos. já a título de execução do nosso pessoal estudo comparativo entre Deus e o Poder Constituinte. Mais até. O resto é detalhe. que é um constitucionalismo fraternal.acerca do Poder Constituinte gravitam em outra esfera de mentalização fenomenológica. Além dessa disponibilidade muitíssimas vezes maior da literatura sobre Deus. então. Nesta última dimensão do neoconstitucionalismo. Tudo a nos levar a presumir que uma objetiva demonstração de certa similitude entre os dois termos paradigmáticos (Deus e o Poder Constituinte) contribuiria para quebrantar as resistências doutrinárias mais recentes à tese de que há um espaço de conformação jurídico-positiva que somente pelo Poder Constituinte é passível de ocupação. . é exatamente este: aquele que tudo pode com inicialidade é a fonte mesma do seu e de qualquer outro poder. O primeiro juízo que passamos a formular. de modo quase invariável. Alemanha. de fato. notadamente). já podemos antecipar que os ângulos de estudo que nos parecem mais salientes dizem respeito à questão de saber: a) se as normas que tenham por objeto a reforma da Constituição .2. assim como nenhuma instância geratriz mundana pode assumir o papel de Deus naquilo que diz respeito à montagem das linhas mestras do universo e à substituição dessas linhas por outras. apanham a figura de Deus por um prisma subjetivado ou enquanto ser que se dota de uma vontade do tipo psicológico. ou "Juiz Supremo do Mundo". Venezuela. aquele que tudo pode com inicialidade só existe mesmo para tudo poder com inicialidade. É que a pretendida clareada de horizontes na compreensão do verdadeiro Poder Constituinte nos habilitaria: a) de uma parte. b) se a emergência de coletividades supranacionais pode ensejar a formação de um Direito superior à Constituição de cada país-membro de tais coletividades (a União Européia.3. Brasil. etc. também nenhum órgão ou sujeito simplesmente constituído pode se travestir de Poder Constituinte naqueles pontos que se põem como a própria fundação do Ordenamento Jurídico e como alteração das características centrais desse Ordenamento. Estudos e reflexões que. Argentina.2.. a melhor rebater os fundamentos daquilo que se vem chamando de neoconstitucionalismo. alemães e portugueses). se consideram ateus?). 1. da França. 1.6..

2. ou a sua foz. Circularmente. Impossível! A nascente de um rio de superfície (há rios que são subterrâneos) existe para vir à tona e liberar uma parte de si numa certa direção. O ser-corrente é seguir em frente. Até mesmo um micróbio. Ele é ao mesmo tempo o seu nascedouro. há pouco projetada.3. O rio é rio por inteiro. Ambos surgem no mesmo instante. o corpo humano é o conjunto de tais órgãos. senão. Esse tipo de poder não é algo que o sujeito possua. Deus. figuremos uma nascente d'água fluvial e sua própria corrente. O que é lógico supor é o poder que tudo pode a não fazer tudo sozinho.3 1.3.2. um vírus. uma bactéria. com o tempo. com a possibilidade de tais criaturas. no seu conjunto. Noutro dizer. Ainda recorrendo à imagem do rio. Se é assim. sendo criaturas.2.1. ora por amor à exigência intelectual de classificação ou compartimentação endógena das coisas. porém. O mister que lhes cabe é sempre o de coadjuvantes. 1. ora por incapacidade de compreender o todo. Com um pouco mais de interesse especulativo pelo tema. que a mente humana fragmenta. todos eles reagem o quanto podem ao remédio com que são eventualmente combatidos. É auto-evidente o consectário dessa afirmação de que existe um ser que tem no tudo poder com inicialidade a sua própria ratio essendi: o ser que só existe para tudo poder com inicialidade não pode se demitir do seu papel de tudo poder com inicialidade. adensando-lhe incessantemente o corpo e assim possibilitando ao rio (do qual fazem parte nascente e corrente) aquele final e interminável abraço com o mar. Ele inicia uma obra para outro completar. 1. a primeira a determinar à segunda que reflua por inteiro ao ponto de partida para nesse ponto de partida se esvair. Nada disso! O poder não é distinto do sujeito.3. É de SPINOZA a categórica asserção de que todo ser. ou a sua corrente. como o ser-nascente é ficar para trás da corrente. como o corpo humano já nasce com todos os seus órgãos elementares. Deus a se postar como refém daqueles que. na medida em que pode. continuamente.3. se esforça por se conservar ou permanecer tal como é. nascente e corrente existem para cumprir a destinação do rio de se encontrar perpetuamente com o mar. Esta só pode ser um ininterrupto caminhar para adiante da nascente. 1. Tudo é uma coisa só.7.3.9. por ser o próprio sujeito. Por comparação. a sua corrente e a sua embocadura. Tais órgãos são.8. avançamos no raciocínio para entender que o sujeito (à falta de melhor palavra para a qualificação ontológica de Deus) cuja natureza é a de tudo poder não tem o poder como algo distinto de sua subjetividade. Jamais. Não faz sentido que a fonte de todo o poder use do seu poder originário para se fazer secar enquanto fonte mesma. convocou a natureza e os seres humanos. de repente poderão se transformar em criadores do seu Criador. 1. 1. porque. assim destacadamente. ou com outro rio que no mar desemboque. no caso. o sujeito é o poder. para se tornarem co-criadores deste mundo terráqueo. e por isso é que um não . se ombrearem em tudo e por tudo ao seu Criador. elas colocarão o Criador sob o risco de se tornar criatura das suas criaturas. e não aos pedaços. no sentido de se colocar perante esse mesmo sujeito como um predicado ou uma virtude. gerando o fenômeno da corrente. Não há como conceber a substância de um ser a conspirar. o corpo humano. contra a sua própria conservação. criaturas Dele.2.aquilo que responde pela sua raison d'être. o poder é o sujeito. ele não é apenas a sua nascente. O dínamo do nosso Globo. A indistinção ontológica entre Deus e Sua onipotência 1. distanciar-se do seu nascedouro. sozinha (Deus está sempre sozinho enquanto "substância").

. O ser que tem na aptidão originária para tudo poder o próprio núcleo firme da sua natureza (forma). o místico e filósofo indiano OSHO assim fala da verdadeira sabedoria: "As pessoas caem sempre que estão nos pontos mais altos. Mais que isso. Retire-se-lhe o poder de tudo poder. em louvor à clareza do pensamento. destarte. não pode ser perdido. Convém dizer de outro modo. Não se trata de uma dualidade fenomênica. Se Deus existe (pouco importa se existe como sujeito processante. chamando-o de "Poder Público". pois. é eterno. Deus tem que ser a fonte primaz da vida.. a causa de todas as leis naturais que regem a vida por Ele criada ou na qual Ele se transfundiu. então. que o próprio Direito se encarregue de fundir com o Estado o poder que o Estado tem de legislar. consubstanciaria um autoesvaimento. no maravilhoso livro A SEMENTE DE MOSTARDA. p. que o ser desempenha e que o torna único entre os demais fenômenos. Por isso que. Um atentado ao próprio "instinto de conservação".3. O quebrantamento do poder absoluto arrastaria consigo o próprio sujeito absolutista. e o que sobra já é outra coisa em qualidade e essa outra coisa em qualidade pode até ser o nada.3. que. Sob este visual das coisas. Aquilo que o ser. Não é algo que você possua torna-se seu próprio ser e você não pode desconhecê-la (ÍCONE editora. e somente ele. o sujeito que tudo pode tem nesse tudo poder a sua causa formal. reitere-se.3. Não há querer. Tudo é uma só realidade. 1. A sabedoria não pode regredir . portanto. Deus é o poder de tudo poder.pode ser destacado do outro. mais cedo ou mais tarde será destronado.8. Em linguagem aristotélica. Uma implosão. no mundo interior. mais cedo ou mais tarde será difamado. negritos à parte).uma vez atingida.3. não existe o outro.5. mas de uma unidade ontológica.6. não são alturas verdadeiras. que é absolutista porque tudo pode e porque tudo pode é que é absolutista. 1. Uma absurda passagem de um poder que tudo pode. 230.4 1. tudo o que você alcança é para sempre. não há opção. de executar as leis e de julgar segundo essas mesmas leis. de que Deus. isto é. Se está num trono. 1. em rigor. enfim. 8º. se apartado do ser.4. 5º e inciso I do art. tal ser não pode decair dessa aptidão. e. negue-se-lhe o instinto de preservação. 1. de que dá sobejas demonstrações o arsenal prescritivo da Constituição brasileira de 1988 (inciso LXIX do art. Não é desarrazoado. porque essa renúncia. o Poder Público enquanto sinônimo de Estado. faz do ser uma outra coisa ou até uma coisa nenhuma?) 1. O deixar de ser fonte primaz é . como a flor e a sua corola. mais que renúncia. ou existe. No tema. ano de 1992. para nos expressarmos numa linguagem kelseniana).9. Se você tem fama. é capaz de fazer. Mas esses pontos pertencem ao vale. Tudo o que alcançar neste mundo lhe será tomado. porque dessa perda essencial restaria um outro ser. ou não existe.3. Ele não se põe como a fonte primaz da vida por assim optar pela condição de ser fonte primaz.7.3. ou como um processo em si mesmo substante). o Estado enquanto sinônimo de Poder Público. torna-se parte de você. Dá para concluir. então. Assentado fique o juízo. Mas. Entendendo-se por forma aquilo para que serve o ser. é preciso trabalhar com a idéia de que o centro subjetivado do poder que tudo pode tenha no fenômeno da onipotência mesma a impossibilidade da renúncia a tudo poder. o mar e as respectivas ondas (como entender enquanto predicado ou virtude aquilo que. se passarmos do plano da imanência (plano do mundo físico e cultural) para o plano da transcendência (que é o espaço dos seres espirituais ou "supra-humanos". A função específica. à moda de exemplo5). Deus não tem o poder de tudo poder. porque. para um poder que assume o risco de já não poder mais nada. em rigor.

Não há como deixarmos de nos inquirir sobre um tipo de instância que se ponha ali no próprio começo de tudo que pertença ao mundo do ser. Desta concepção extraem-se outras: se é absolutamente independente deve ser infinita.) são leis que se põem como a causa ou a fonte de muitas outras leis igualmente físicas. segundo o qual tudo que acontece é por efeito necessário de uma causa também necessária ou que não pode deixar de ser. e o flamboyant fica. Se prosseguirmos no exercício das perguntas sobre o fenômeno da concepção humana. Mais: é preciso mesmo que as flores caiam para depois rebrotar. Deus enquanto norma normarum ou a fonte das fontes 1. claro) por um espermatozóide (masculino. I. isto é. E é assim de indagação em indagação que iremos estacionar num ponto absolutamente irredutível a novas perguntas sobre a parte orgânica do corpo humano. como teremos que passar pela explicação do ovário . seqüenciando a intuição de que "nada pode surgir do nada" (PARMÊNIDES). Esse ponto é a lei ou o princípio da perpetuação da espécie. em cujo ponto de partida se encontra o conceito daquela Substância de que tudo deriva. vamos ter que responder que o ser humano proveio do fato inicial da fecundação de um óvulo (feminino. a seu turno. da atração e simultânea dispersão dos corpos. senão seria limitada por outras e não poderia ser independente. porque somente assim é que a árvore pode permanecer viva. etc. E neste passo vamos ter que reconhecer: para além da explicação racional. do qual deva ser formado. e aí o ser humano tem a necessidade de. ou outro nome que se dê à fonte das fontes ou a lei das leis ou a norma normarum. 1. se queremos saber a causa imediata do nascimento de um ser humano.por ser o ovário a glândula genital feminina que produz óvulos. que é um mundo regido pelo citado princípio da causalidade. igualmente naturais sabido que tais leis empíricas são encadeadamente regidas pelo princípio da causalidade -.4. a não-substância de que derivam todas as substâncias). 1. quem sabe.1. Agora. ministrada pela própria Ciência. é imperioso que nos perguntemos sobre a existência de um ponto de partida que seja comum a todas elas. só cabe mesmo apelar para uma instância geradora da própria lei da continuidade da vida em geral.4. no princípio da continuidade da vida em geral. que é a substância primária de que falava SPINOZA (ou. teremos que passar pela explicação dos testículos . ao menos no estádio atual das categorias lógicas com que trabalha a mente humana (e aqui tomamos em linha de conta as contribuições da lógica formal e da dialética hegeliana. por sua vez. Deus. que não é outro senão o conceito de Deus enquanto fonte das fontes ou norma normarum: "O que é em si e se concebe por si. traduzido na idéia de que a vida em geral é feita para a gestação e da gestação de infinitas formas (especiais) de vidas. As flores vêm e vão. que somente coincide .. contém o espermatozóide).2. v. 1. 3).4.esta última . da conservação da energia. continuamente.g.4. incessantemente. Por hipótese. é árvore feita para a produção de suas flores e da produção de suas flores. embutido. da mudança mecânica de estados. óbvio).. 1. . aquilo cujo conceito não tem necessidade do conceito de uma outra coisa. Tanto quanto o flamboyant. Eis a composição vernacular do sistema spinoziano do universo (ETHICA.incompatível com a idéia que se possa ter de Deus. cair nos braços de Deus. partindo do fato de que as leis naturais da vida (lei da gravidade.com a dialética marxista enquanto método6).3. da conexão universal dos fenômenos.4.por serem eles a glândula genital masculina que fabrica o esperma (que. é única em tudo.4..

1. todo chão?). Deus. pura e simplesmente. com Ele. Deus criaria um novo Deus. Nem de forma direta.4.5. na Sua onipotência. falar sobre Ele não é formular proposições deduzidas da análise de elementos objetivos que se conectam para formar um todo unitário. retornaríamos àquela já descartada hipotetização: Deus a sumir do mapa.5. 1. 14 do prefácio de MÁRCIO PUGLIERI ao "TRATADO POLÍTICO". este princípio imanente do universo é Deus ou Natureza" (p. em que abismo. não foi a partir da intuição da existência de uma norma fundamental simplesmente pensada. caso contrário dependeria de sua causadora. Um conceito que se intui a priori. primitivo Deus. precisa ser autodeterminada. É próprio do Ser onipotente. A incontornável solidão da onipotência de Deus 1. Se Deus pudesse criar um segundo Deus. um sósia. mas saltar imediatamente para uma conclusão.2. permanecer como a força que tudo pode. uma . sabido e ressabido que a existência mesma de Deus nem pode ser rigorosamente confirmada nem rigorosamente desconfirmada pela Ciência. todo mar. Poder único. uma energia completamente primária e insimilar. esse novo Deus onipotente destroçaria toda a obra do primeiro e assim decretaria a própria sentença de morte do Deus inicial.. de SPINOZA. enfim. ou até mesmo descriar o Primeiro?8 1. Um desses modos . Ícone Editora. à completa imagem e semelhança Dele. e. que HANS KELSEN pôde falar de uma Ciência do Direito? Uma ordem sistemática de conhecimentos que tem naquela hipotetização normativo-fundamental a sua própria condição inicial de possibilidade como esfera autônoma e científica de saber?7 1. decorrendo suas qualidades e ações de sua própria natureza (. nenhum costume. enfim). menos deixar de tudo poder.5. Terminemos este segmento reflexivo com a ponderação de que não desconhecemos o grande risco intelectual de quem se dispõe a falar sobre Deus.é a impossibilidade do suicídio direto ou instantâneo: Deus a bater em retirada. Não há como duas ou mais onipotências ocuparem o mesmo espaço. É também o poder de não deixar que outro poder tudo possa. Deus.3. a um só tempo. singular e incausado.5. onipotência e unipotência. está condenado à solidão.5. em que mar. nem pela convocação de um êmulo. Deus originário. Realmente. 1994).5. como é próprio de todo postulado. O outro modo é a impossibilidade do suicídio em dois tempos: num primeiro tempo. tão onipotente quanto Ele. Não seria exatamente assim com o Poder Constituinte? Uma força instintiva que não comporta sucedâneo.5.. portanto. 1. o próprio mapa a sumir (em que chão. para os intelectuais que O admitem é sempre uma hipótese de trabalho. Logo.também precisa ser causa sui. absolutamente inconvivível com outro poder de igual ontologia. em que céu. segundamente. uma norma fundamental hipotética.4. O desdobramento de idéia que nos esforçamos por transmitir é simplesmente este: a onipotência não é só o poder de tudo poder.). e. se a morte do "originário" Deus levaria de roldão todo abismo. Este novo título formal nos introduz na exposição dos dois modos lógicos de Deus perseverar como o poder que tudo pode. então. É. Ademais. nenhuma instância volitiva imanente. pressuposta (não efetivamente posta por nenhum órgão jurídico.1. existir em absoluta solidão. todo céu. um clone. eterno. Todavia. 1. Um postulado. num segundo momento. Este princípio necessário. com a entrada em cena de um segundo Deus. portanto: primeiramente.5. e por isso voltamos a ajuizar que a natureza de Deus está em ser o poder que tudo pode.já foi dito . o que impediria o novo Deus "onipotente" de refundir.

Sem o fenômeno da estatalização. quer no seu próprio território. animamo-nos a enunciar que boa parte do que dissemos a respeito do caráter de Deus. paulatinamente. com animus domini.4. forcejaremos por ministrar. Implica emancipação como a forma exteriorizada de uma soberania que é. Repisando a idéia. Enfim. Mas o ser-Estado. O povo só é povo. juridicamente. A originária força de possuir um Direito próprio. ou pelo menos o respeito. no plano transcendente. O povo como a transubstanciação do poder imanente que tudo pode 1. que um povo já existe. Se se prefere. por definição. c) força passagem para o seu ingresso na coletividade internacional de Estados.solitária potência do mundo do ser? Um poder que só pode ser concebido in natura.3. é dar conta do exercício vitorioso de uma emancipação política. naquele preciso momento da metamorfose do povo em Estado. começando por este capítulo e prosseguindo nos subseqüentes. já agora no plano imanente. ou étnico. antes da criação do Estado também não se pode. E tudo isto somente se consuma pelo fenômeno da estatalização. 1.5. Queremos dizer: é aplicável à natureza de cada povo soberanamente concebido. no plano territorial-interno. e que não é inferior a nenhum outro poder jurídico. exercitou uma soberania. para o povo grangear a adesão.6.6. única via lógica (não há outra) de o povo. de forma autoditada. Afirmar. É exprimir: o ser-povo significa poder existir sob a forma jurídica de Estado. segundamente. o já existir sob a forma jurídica de Estado.6. exclusivo. se auto-referir como sujeito de relações-de-Direito. porque somente assim estatalmente a se metamorfosear é que o povo: a) pode experimentar sua natureza de instância deliberativa soberana. Única maneira objetiva e permanente de o povo atuar como um centro personalizado de imputação jurídica. não há como entrever a face jurídica do povo. único modo prático-formal de o povo por inteiro se autoconferir um Ordenamento e uma personalidade jurídica. à natureza do povo. E isto já significa a emergência de um Ordenamento Jurídico próprio. quem especularia?). Se antes da criação da vida humana sequer era possível falar da existência de Deus.6. 1. falar da existência de um povo. etc.). dos demais povos soberanos. em termos jurídicos (não sob o prisma sociológico. e nunca de forma pasteurizada? É a resposta que. jurídicamente.2. b) se predispõe a protagonizar. para o povo impor o seu próprio Direito no âmbito do território de que se apodera. para uma coletividade humana. assim. com esta dúplice função: primeiramente. especular sobre Ele (quem falaria. Emancipação política (soberania) para o povo poder se irrogar tal Ordenamento. ou histórico. quer na esfera territorial que é comum aos demais Estados soberanos (a ordem internacional de Estados). que tem no Estado a sua própria condição de aplicabilidade e expansão. 1. É pressupor a soberania em ação. garantidamente. destarte.9 1.1. o que dissemos acerca da índole de Deus é de ser reproduzido quanto ao caráter de cada povo. incorpora o poder de se autodeterminar jurídicamente. pela importância do assunto: o ser-povo. é aplicável. no plano territorial-externo.6. 1.6. o que objetivamente revela? Revela a efetividade da emancipação ou soberania do povo. para o povo não mais se submeter ao Direito de outro povo. relações jurídicas internas. terceiramente. É dizer que o povo pôs em movimento. Atento ao relativismo que é próprio das comparações. quando pode dispor normativamente sobre si mesmo. superior a qualquer outro poder jurídico. Quando se autoqualifica juridicamente. .

seja para se assumir como a instância decisória interna mais importante, seja para ombrear-se às demais instâncias internacionais de Estados. Numa nova metáfora, o Estado é a borboleta em que se transformou a crisálida de uma sociedade humana aspirante a povo.10 1.6.6. O que verdadeiramente conta, nessa cruzada histórica do povo em busca de si mesmo, à cata de sua própria totalidade como ser jurídico, é o resultado. É a efetividade interna e externa da personalização jurídica do povo em um novo Estado. Não que a efetividade só exista, no plano interno e externo, a partir do reconhecimento unânime desse novo Estado pelas instituições aplicadoras do Direito, no plano interno, ou, então, pela sociedade internacional de Estados. Absolutamente! Basta que o número dos reconhecedores assegure ao novo Estado a perspectiva, o clima, a tendência natural de prosseguir obtendo novos reconhecimentos (ainda que tácitos), à medida que se vão escasseando as possibilidades de recuperação de terreno do Estado decaído ou daquilo que sobrou da antiga ordem estatal. É o que poderíamos designar por situação de efetividade global do Estado emergente, imagem de que se valeu HANS KELSEN para dizer que o Ordenamento Jurídico não perde a qualidade de Ordenamento pelo fato de uma ou outra de suas normas, embora válida, deixar de ser concretamente aplicada. O que interessa é que, no global, no geral, no plano daquilo que profusamente ocorre, a Ordem Jurídica seja respeitada. Ouçamos o maior expoente do positivismo jurídico da recém-passada centúria: "Uma ordem jurídica não perde, porém, a sua validade pelo facto de uma norma jurídica singular perder a sua eficácia, isto é, pelo facto de ela não ser aplicada em geral ou em casos isolados. Uma ordem jurídica é considerada válida quando as suas normas são, numa consideração global, eficazes, quer dizer, são de facto observadas e aplicadas" (ob. cit., p. 298). 1.6.7. Ainda insistindo na comparação possível entre Deus e o povo, devemos concluir que o povo também não tem, em rigor, o poder imanente de tudo poder. Ele, povo, assim juridicamente designado pelo fato de se organizar em Estado soberano, é o próprio poder de tudo poder, em termos jurídicos e no plano territorial interno. Dá-se, na imagem ideal do povo, a transubstanciação da soberania (do latim super omnia, a traduzir aquilo que está acima de tudo ou acima de todos), assim como na doutrina católica se dá a mudança de estado do pão e do vinho para o corpo e o sangue de Jesus Cristo, na Eucaristia (dogma definido no Concílio de Trento). Ou, numa exemplificação propriamente científica, a osmose que se processa entre o povo e a soberania é algo assim como o encontro de duas partículas de hidrogênio com uma de oxigênio, a determinar a mudança de natureza desses dois elementos químicos para a formação de um terceiro: a água. 1.6.8. Vistas as coisas por este ângulo, força é convir que a soberania outra coisa não é, na prática, senão o próprio modo estatal de ser do povo. É como inferir: no justo momento em que a transfiguração estatal se efetiva, já o é como resultado empírico da fusão do poder soberano com o povo (o que significa dizer que o povo e a soberania passam a compor uma só unidade fenomênica, pois o povo é um com a soberania e a soberania é uma com o povo). O povo, impessoalmente encarado, é o poder soberano, tanto quanto o poder soberano, subjetiva ou personalizadamente focado, é o povo. 1.6.9. Sem o povo, a soberania é forma pura, isenta de toda matéria, e, portanto, vazia. E sem a soberania, que é o povo? Matéria humana coletiva ainda juridicamente privada de sua definitiva forma. Um ser jurídico ainda carente de totalidade, a meio caminho da autoconsciência, porque, nele, a soberania permanece numa dimensão apenas virtual. Daí a asserção de que, sem a incorporação da soberania, o povo não dá

a si próprio uma Ordem Jurídica e deixa de se personalizar no Estado. E assim juridicamente incompleto e estatalmente irrealizado é que o povo não consegue superar o estágio político de simples população, que é o inconcluso estágio de crisálida. 1.6.10. Perguntamo-nos: mas o que faz o povo ser assim a fonte e o nervo da soberania? A própria subjetivação do poder mais alto em que a soberania consiste? É que o povo, no seu amálgama com o território de que se torna senhor, falando geralmente a mesma língua e vivenciando uma cultura própria, constitui o que se convencionou chamar de nação. Algo mais que sociedade humana, mais que população, muito mais que simples aglomerado de pessoas, por implicar uma verdadeira comunidade (de comum unidade); isto é, uma real comunhão de vida, no sentido de consciência coletiva quanto à partilha de um mesmo destino histórico, por se encontrarem todos em um mesmo barco. Logo, o mais abrangente e impessoal e permanente enlace humano (que é mais do que convivência hic et nunc), de sorte a plasmar um tipo de realidade social que só pode ser o começo de tudo, no plano da Política e do Direito. 1.7. A soberania popular ou o modo constituinte de ser do povo 1.7.1. O Poder Constituinte 1.7.1.1. É neste ponto de intelecção que vem à baila a figura do Poder Constituinte. Um poder que em nada discrepa da soberania de que vimos falando, por ser ele essa mesma soberania; ou seja, O Poder Constituinte é a soberania que se manifesta de modo inicial ou primário. Logo, o nome que a soberania toma, quando expressada com inicialidade. 1.7.1.2. Se falamos assim de primariedade expressional da soberania, é porque o povo-nação, já imerso no seu Estado, atua em outros momentos que o Direito Positivo costuma etiquetar como expressão de "soberania popular". É o caso da Constituição brasileira de 1988, cujo art. 14 faz dos institutos do sufrágio universal, do voto, do plebiscito, do referendo e da iniciativa das leis pelos cidadãos uma forma de exercício, justamente, da soberania.11 1.7.1.3. Uma outra razão existe para falarmos de momento inicial da soberania, e aqui já temos em vista a figura do próprio Estado. É que ele também recebe o qualificativo de soberano, na medida em que pode impor ou ditar um Direito comum a todos, no interior do seu próprio território. E no uso dessa aptidão para expedir um Direito de abrangência e acatamento geral, o fato é que nele mesmo, Estado, se dá a reedição daquela marca registrada que é do povo, soberanamente concebido: o poder de procriar um Direito a que ninguém escapa (no caso do povo enquanto fonte normativa, esse Direito é a própria Constituição; no do Estado, o Direito pós-Constituição). 1.7.1.4. Reexplica-se. Põe-se no Estado a designação de soberano porque ele, tanto quanto o povo-nação, produz um Direito de máxima e irrecusável abrangência pessoal e territorial. Com a diferença de que o povo assim o faz pela altissonante via da Constituição e no uso de uma força originária ou potência propriamente dita; ao passo que ele, Estado, só pode fazê-lo por normas que são posteriores à Constituição e no uso de uma potestade ou competência derivada (a potência se dilui em competências, e não em outra potência, como bem observam HART e VANOSSI). 1.7.1.5. É assim no uso de uma capacidade normante que o povo lhe delega, lhe cede,

lhe empresta, enfim (sempre por conduto da Constituição), que o Estado dita um Direito comum a todos e, pela efetividade desse Direito, passa a abrir os mais favoráveis espaços de reconhecimento internacional à "sua" (dele, Estado) soberania. 1.7.1.6. É de se perguntar, naturalmente: e quando ocorre aquela citada manifestação primária da soberania? Manifestação primária, essa, que estamos a identificar com o Poder Constituinte? Não com o Estado? 1.7.1.7. Resposta: a soberania que se manifesta como Poder Constituinte somente ocorre, formal ou oficialmente, no preciso instante da criação jurídica do Estado. Criação que se formaliza, hodiernamente, no corpo de um documento jurídico-positivo cujo nome é Constituição (palavra que, no vernáculo, significa a maneira particular de ser de cada coisa ou objeto de conhecimento). 1.7.1.8. Quanto à justificativa para o nome técnico "Poder Constituinte", é porque ele significa o poder de constituir a Constituição (releve-se a poluição auditiva), que termina sendo o poder de constituir o Estado e o poder de dar início à montagem do Ordenamento Jurídico do povo e do Estado mesmo.12 1.7.1.9. Note-se bem: acabamos de ajuizar que o Poder Constituinte é o poder de constituir a Constituição, e não o poder de constituir normas constitucionais. A diferença entre as duas coisas é muito importante, porque de qualidade. Se toda Constituição é um feixe de normas constitucionais, nem todo feixe de normas Constitucionais é uma Constituição. Queremos salientar: o poder de editar a Constituição não incorpora o poder de reformá-la, tanto quanto o poder de reformá-la não incorpora o poder de editá-la. Quem faz o todo, faz o todo, e não menos. Quem faz a parte, faz a parte, e não mais. 1.7.1.10. Tornando ao mote: se toda Constituição originária é um repositório de normas constitucionais, nem todo repositório de normas constitucionais é uma Constituição originária. Isto porque as emendas à Constituição pressupõem uma Constituição originária a emendar. Lógico! E tais emendas veiculam normas... constitucionais. Porém, sob um regime normativo que não é autoditado por elas, e, sim, pela própria Constituição emendada. 1.7.2. O Poder Desconstituinte 1.7.2.1. Chamando o feito à ordem: O Poder Constituinte, manifestação primária da soberania, faz a Constituição, que, a um só tempo, faz o Estado e inaugura o Ordenamento Jurídico. É esse Ordenamento que vai receber do Estado uma ininterrupta complementação (e garantia), de maneira a consubstanciar todo o mundo do Direito: de um canto, o Direito-Constituição, que o Estado originariamente não faz (a parte da Constituição que o Estado faz já é a veiculada por emendas); de outro canto, o Direito pós-Constituição, que o Estado faz, ou, então, reconhece. Não há um tertium genus. 1.7.2.2. Dizer que existe um Direito originário que o Estado não faz é também dizer que esse Direito é o único a não passar pelo crivo do Estado ou de qualquer outra pessoa jurídica. É que, no momento constituinte, a sociedade é concebida como se de pessoas coletivas não se formasse. Nem públicas nem privadas. Apenas as pessoas físicas é que se tornam protagonistas das ações políticas de que resultam o féretro de uma Constituição e o partejamento de outra. 1.7.2.3. É aqui mesmo o lugar apropriado para falarmos de um Poder Desconstituinte. Que é o poder correlato ao Constituinte ou imbricado com ele. Pois é de todo evidente que o poder de constituir um novo Estado implica o poder de

Instância humana primária e mais importante. A título de remate. necessariamente. Se é olhando para o Universo que reconhecemos a soberania de quem o fez. o povo. Se é possível promulgar uma nova Constituição.7. Outro. Como fazemos todos nós diante de um bom espelho de cristal. o que temos é o modo soberano de ser de uma coletividade humana. podemos dizer que há um modo empírico de Deus se fazer conhecido. portanto. de Estado e de Ordenamento Jurídico. De conseguinte. Temos.7. É esse modo constituinte de ser que faz do povo. de Constituição. São temas que se interpenetram. assim vinculadamente.2. a subjetivada figura do Estado.8. Quem inova o Ordenamento é o Direito .8. então.8. por completo. e pela necessária interpenetração é que se conceituam. Para fundar o Direito. se auto impõe as coordenadas de atuação legiferante.8. responsável pela criação da pessoa coletiva ou plural também mais importante (o Estado). É assim que se movimenta ou se materializa a potência. Para fundar o universo. 1.6. a nação é a única instância imanente capaz de partir de um marco zero jurídico para colocar uma Constituição em lugar de outra. Deus faz o que é próprio da potência em que Ele consiste: impõe a Si mesmo as próprias condições de "trabalho" (evidente que o vocábulo trabalho é usado por analogia com as empreitadas humanas de edificação de algo a partir de um imaginário ponto zero).4. há um modo jurídico de o povo se fazer conhecido. 1. que é um modo jurídico inicial ou constituinte de ser. neste passo. a dar início à criação do mundo em geral (a natureza e os seres humanos dão seqüência à obra de Deus).1. quem o conheceria para aquém das esferas da pura espiritualidade ou dos colmos angelicais?). na mesma pegada. Se é pelo dedo que se conhece o gigante. a nação encarna essa potência de abater o velho e erguer o novo Ordenamento Jurídico. dois poderes que tudo podem: Deus no céu e o Poder Constituinte na terra (que é um poder geminadamente constituinte/desconstituinte). por inteiro. nele. que é a Constituição por ele criada.8. 1.4.8. E também por inteiro. 1. a dar início à criação do mundo jurídico em particular e a prescrever o modo pelo qual esse mundo jurídico vai receber seus necessários e infinitos complementos. tanto quanto o Estado não funda esse Ordenamento. A Constituição inaugura o Ordenamento. 1. e com essa outra Constituição fazer o quê? Instituir um novo Ordenamento Jurídico e. Por igual. 1.2.desconstituir o velho. de povo (povo-nação) é falar de soberania.2. que não precisa mais do que a sua própria realidade para instaurar as relações que pretender. O mundo de Deus e o mundo do Direito 1. E.3. Um. que é o próprio mundo por Ele criado (senão. início lógico de todo o Direito Positivo. claro que isto se dá pela despromulgação daquela até então vigorante. 1. Falar. a produzir o Direito mais importante (que é a Constituição). sob o prisma político. de Poder Constituinte/Desconstituinte. a instância humana primeva por excelência. é também olhando para a Constituição que reconhecemos a soberania de quem a procriou como norma jurídica primária (a Constituição enquanto modo jurídico de o povo se fazer conhecido como instância exercente de uma soberania que vai além do estádio da pura virtualidade).5. Cada realidade a olhar nos olhos da outra para encontrar mais nitidamente refletida a própria imagem.5. 1. que se reitere a pacífica noção de que a Constituição não inova o Ordenamento Jurídico.8. Se se prefere.a primeira. apenas três considerações: I .

. a atividade do poder constituinte. não condicionada a amplitude de sua competência por lei preliminar.pós-Constituição. Deus não se serve de ninguém para criar o mundo. em si mesmos. A lei é que é o verdadeiro motor do Direito. não há como deixar esse órgão de atuar segundo pautas procedimentais adrede redigidas. e não do Estado à sociedade. desse modo. e. O instrumento convocatório da assembléia é apenas meio que proporciona. sobretudo por conduto da lei. ao qual não é dado estabelecer raias e vedações à tarefa inovadora. o poder constituinte originário não é regulado por direito anterior. pelo seu modo comparativamente simplificado de elaboração. por estar cerceada pelo ato de convocação. de elaboração estatal.a segunda consideração é a de que. sem a menor força intrínseca de inovar o próprio fundamento da Ordem Jurídica (a Constituição mesma). Quando a corporação parlamentar não opera com liberdade de decidir. 162). porque o Poder Constituinte bem pode se manifestar por um órgão plural ou coletivo de deliberação. O único instante em que o Direito se subtrai completamente ao Estado.a terceira e última consideração é esta: há um tipo de soberania que trata da Constituição (pois que a própria Constituição originária é que resulta do exercício dele). p. oriunda de outro órgão. 1989. III .. o qualificativo `originário'. Donde esta didática passagem do livro "ESTUDOS CONSTITUCIONAIS". pela eleição dos representantes do povo. (. Dotado de propriedade tão eminente. e um outro tipo de soberania de que trata a Constituição (pois inteiramente normado por ela). o timbre criador ou instituidor. ao contrário do sucedido com o Poder Constituinte. por se traduzir em singela aplicação dos conteúdos e valores da Constituição Positiva. falta-lhe a dimensão de assembléia constituinte. associa-se-lhe.)" (edição da Universidade Federal da Bahia. O dínamo do Direito. Seu agir ou Seu fazer já são. Daí que não obedeça a normas regimentais antecipadamente lançadas. Somente o primeiro a revelar o fato de que o Poder Constituinte é o único momento político-normativo que vai da sociedade ao Estado. comumente. se coloca entre Deus e Sua originária criação). Acentua-se-lhe. materialmente.regimento e respectiva aplicação -. II . singular ou colegiado. um fato-norma (nenhum órgão deliberativo. a partir de um dado formal e outro material: formalmente. da autoria de JOSAPHAT MARINHO. por natureza independente. É tão-somente no âmbito do Poder Constituinte que é possível distinguir as duas coisas . aí. . versando a dicotomia "Poder Constituinte e Poder de Reforma Constitucional: "Por ser um poder `fundador'.

O caráter político do Direito posto pelo Poder Constituinte 2. naqueles raros instantes em que a pólis se sobrepõe ao Estado para dizer. porque: I . Mais até.2. A sociedade política em SIEYÈS 2. II . . no rigor dos termos. e. na sua originária redação. O Poder Constituinte como o poder que pode o mais sem poder o menos. Quando pronunciamos a locução "Poder Constituinte". tão necessário ele é para a auto-afirmação histórica do povo. 2. "Constituição da Espanha".a Constituição é a primeira manifestação objetivo-sistemática daquele poder imanente que tudo pode. e o Poder Constituído como o poder que pode o menos sem poder o mais 2. A natureza política do Poder Constituinte 2.4. esse poder que.a Constituição. que é o povo enquanto ser ou realidade constituinte. Tão penetrado de povo. na outra. E não é por outra razão que toda Constituição Positiva toma o nome do Estado que ela põe no mundo das positividades jurídicas (daí "Constituição da República Federativa do Brasil".1. todo povo assim constituintemente dimensionado vai estruturar o seu Estado no bojo de um diploma jurídico-normativo que toma o sintomático nome de Constituição..1. que já não pode ser concebido senão como um poder que é parte do povo mesmo.3. O modo constituinte de ser do povo.2. O Poder Constituinte como realidade que fica do lado de fora da Constituição 2. O vínculo natural entre a sociedade política e a futuridade. por ela mesma. Donde podermos trocar a palavra "povo" pela expressão "poder constituinte". tão socialmente mais abrangente e tão superior aos outros poderes políticos.3.8. O povo enquanto sociedade política e enquanto sociedade civil 2. do Estado. A natureza política do Poder Constituinte 2. numa das mãos.4.1. porta o giz com que vai escrevendo nos espaços vazios dessa mesma lousa).1. não é feita pelo Estado.5.1. Ela é feita para o Estado. sob que tipo de Direito-Constituição quer viver. mantendo com esse Estado uma essencial relação de unha e carne.. Ela passa a transitar pelo mundo do ser (não do dever-ser jurídico) e por isso pode assumir-se como o amálgama do povo inteiro com o território sobre o qual esse povo inteiro vai constituir o seu particular Estado. sem dúvida que estamos a falar de um poder genuinamente político. é um poder simultaneamente constituinte e desconstituinte: zera a contabilidade jurídica até então existente e passa a começar tudo de novo (à feição de um professor que.1. a ponto de se poder afirmar que a cada nova Constituição corresponde um novo Estado (juridicamente falando. saca de um apagador para limpar completamente a lousa da sala de aula. desde o berço.9.Capítulo II . Constituição.A Lógica Própria do Poder Constituinte e a do Poder Constituído Sumário 2. estamos a falar de um poder exclusivamente político. 2. Pois bem.7. como sempre enfatiza MICHEL TEMER). O caráter democrático-formal do Direito posto pela sociedade política 2. a encarnar o que há de mais político no Direito e mais anatômico no Estado. porque originariamente imbricado em toda a pólis. é esse poder constituinte ou poder de constituir o Estado. tão incondicionado. E por que é assim? 2.1 2.6. de tão inicial.1. É assim. O inexistente vínculo entre "excesso de rigidez" e "Poder Constituinte Evolutivo" 2. "Constituição da República Popular da China".

1. Incisivamente. porque somente quem detém o poder . etc. porque enraizada e afinal transfundida na pólis. no preciso instante em que pronuncia o fiat lux mundano. Assim como Deus.9. por ser o Poder Constituinte uma força ou realidade exclusivamente política (sociológica. é uma instância exclusivamente política de deliberação.nele próprio se transfundindo -.7. e a essa esfera pré e metajurídica de poder bem assenta o nome de esfera política."Constituição dos Estados Unidos da América". mas o desempenho do poder que já se instituiu por virtude do Direito mesmo. que é a primeira voz do Direito aos ouvidos do povo. como sucede. a atestar a primazia da idéia sobre a matéria. o Código Comercial.3 2. o Código Eleitoral. 2. na visão de FERDINAND LASSALE). Não.1.1. É assim que o Poder Constituinte tem à sua mercê o Estado em particular e o Direito em geral. se jurídico fosse o Poder Constituinte. contudo. da consciência sobre a experiência. Pois que. o Estado. por conseqüência.). enfeixadas na Constituição. não poderia inaugurar o mundo das coisas jurídicas. Assim como Deus. a Consolidação das Leis do Trabalho. É coberto de razão que o positivismo analítico realça a anterioridade do Poder sobre o Direito. e. por conseguinte.5. Toda essa força que tem o Poder Constituinte para fazer o que bem entender do Direito só é possível. Poder e Direito são as duas faces de uma só moeda. o fato sociológico bruto (não-juridicamente lapidado). é que o Direito disciplina o exercício do poder. na figuração de NORBERTO BOBBIO. assim. de alguma forma.2 2. ao mundo teria que render vassalagem.1.1. que assim expõe o seu luminoso pensamento: "Creio não incorrer em pecado de presunção se disser que o fato de ter cultivado estudos jurídicos e políticos me permitiu analisar os mil e um complicados problemas da convivência humana a partir de pontos de vista que se integram. o puro poder. Como está à vontade para fazer da sua nova Constituição o início lógico de um novo Ordenamento Jurídico (o que sobrevive do antigo Ordenamento deixa de manter elo-causal com a Constituição sepultada e corre a buscar fundamento de validade na nova Carta Política). é gestada por ele e somente por ele. no estratégico momento em que elabora a Constituição. está à vontade para plasmar o Estado. 2. 2. porém. e não o contrário. etc. Poder Constituinte. ele já faria parte do Direito e ao Direito teria que se submeter. com o Código Civil. e não jurídica.10. pois o Direito mais inicial (que é a Constituição Positiva) deixaria de provir dele mesmo. a se manifestar por conduto de normas jurídicas originárias. O mesmo acontece na relação entre juristas internacionalistas e estudiosos das relações . a unitária potência. Notei muitas vezes que. tem que ser uma instância exclusivamente ideal ou transcendente. pois: se o Poder Constituinte fosse um poder jurídico. Há uma esfera de decisão anterior e superior a toda positividade jurídica. a jorrar daquele puro poder. Não o nome de um objetivo setor de relação jurídica ou atividade humana. cuida-se de esfera exclusivamente normante. pelo menos na Itália. E porque é assim.1. Esta. Uma vez instituído. e não simultaneamente normante e normada. agora sim. muitas vezes se ignoram reciprocamente.8. A própria Constituição originária. Exclusivamente política.6. o Código Penal. se já pertencesse ao mundo desde sempre. Ele é que tem a Constituição na mão. Encarna. juristas constitucionalistas e cientistas políticos que se ocupam do mesmo tema. 2. com todos os órgãos elementares desse Estado e respectivas funções. a toda estatalidade oficial. Temos por cognoscitivamente decisivo o que estamos a enunciar e por isso é que batemos na mesma tecla: o povo. o exercício daquele poder que tudo pode (acrescentamos). é quem faz o Direito. do espírito sobre o corpo.

internacionais quanto à análise da organização dos Estados. Os dois pontos de vista são, de um lado, o das regras ou das normas como preferem chamar os juristas, cuja observância é necessária para que a sociedade esteja bem organizada, e, de outro, o dos poderes necessários para que as regras ou normas sejam impostas e, uma vez impostas, observadas. A filosofia do direito ocupa-se das primeiras; a filosofia política, das segundas. Direito e poder são duas faces da mesma moeda. Uma sociedade bem organizada precisa das duas. Nos lugares onde o direito é impotente, a sociedade corre o risco de precipitar-se na anarquia; onde o poder não é controlado, corre o risco oposto, do despotismo. O modelo ideal do encontro entre direito e poder é o Estado democrático de direito, isto é, o Estado no qual, através de leis fundamentais, não há poder, do mais alto ao mais baixo, que não esteja submetido a normas, não seja regulado pelo direito, e no qual, ao mesmo tempo, a legitimidade do sistema de normas como um todo derive em última instância do consenso ativo dos cidadãos" (em DE SENECTUDE - O Tempo da Memória, Editora Campus, 1997, p. 169). 2.1.11. Como visto, BOBBIO abre uma necessária distinção entre o fazer e o garantir as normas jurídicas, permitindo-nos deduzir que, se o Estado não detém o monopólio da produção do Direito, é, no entanto, a única instância dotada do poder oficial de garanti-lo (garantir o cumprimento do Direito, entenda-se). O que levou KARL POPPER a formular este singelo e preciso enunciado: "Não existe liberdade que não seja garantida pelo Estado e, ao inverso, só um Estado controlado por cidadãos livres pode oferecer-lhes alguma dose razoável de segurança" (em THE SOCIETY AND ITS ENEMIES, 5ª edição, Revista Londres, 1966, pp. 50/51). 2.1.12. Em ultima ratio, poder e Direito são a primária dicotomia ou os dois mais elementares princípios de organização da vida social. Vida, que, sob o prisma jurídico, se constitui de relações verticais e de relações horizontais. Estas, pressupondo a igualdade de forças entre os respectivos protagonistas, e, aquelas, a superioridade de uma parte sobre a outra. De todo modo, relações que fazem do Direito o complexo das condições existenciais da sociedade, na propalada conceituação de IHERING. Ou como sentenciava TOBIAS BARRETO: "Perante a consciência moderna, o Direito é o modus vivendi, é a pacificação do antagonismo das forças sociais".4 2.2. O caráter político do Direito posto pelo Poder Constituinte 2.2.1. Complementemos a revelação dessa fotografia do poder e do Direito com a afirmação de que, em se tratando do poder político, é na Constituição Positiva que os dois fenômenos culturais se dão mais firmemente as mãos. A Constituição é o Direito que nasce daquele mais originário decisionismo, daquela vontade fundamentante que se contém no poder político. Donde a sua visualização como o primeiro ponto formal de encontro ou como o espaço inicial de integração das duas categorias sociais básicas (o poder e o Direito). 2.2.2. É este panorama de integração que subjaz ao visual da Constituição como "estatuto jurídico do fenômeno político" (CANOTILHO), ou como "estatuto jurídico do Estado" (JORGE MIRANDA). Não sendo à toa, portanto, o rótulo social e até jurisprudencial-doutrinário que toda Constituição porta de "Código Político" e de "Carta Política". 2.2.3. Em verdade, a Constituição é Código Político, sobretudo pela sua origem e pelo

seu objeto. Pela sua origem, por advir do único poder que funda o Ordenamento sem nesse Ordenamento mesmo se fundar sequer de modo reflexo (e já vimos que esse poder fundante do Ordenamento é eideticamente político). Pelo seu objeto, porque esse objeto, sendo essencialmente o Estado, carreia para a Constituição a politicidade que envolve tudo quanto se refira à estruturação estatal: o tipo unitário, ou federal... de Estado; a forma republicana, ou monárquica de governo... do Estado; o sistema parlamentar, ou presidencial de governo... do Estado; o modo independente e harmônico de relacionamento entre os órgãos elementares... do Estado; o sistema eleitoral de investidura dos titulares dos órgãos legislativo e executivo... do Estado; a representatividade popular dos órgãos eminentemente políticos... do Estado; a abertura dos espaços de movimentação da cidadania e de criação dos direitos públicos subjetivos como limites à atuação... do Estado, etc., etc. Nada resta, praticamente, nesse patamar da organização básica do Estado que não seja entranhadamente político. E quase tudo é entranhadamente político por dizer respeito a interesses que são de toda a coletividade. Interesses da pólis ou da civitas que no Estado se personaliza juridicamente, compondo, de modo formal, o reino do universal ou plurifinalístico; isto é, o reino do que há de mais abarcante, impessoal e permanente, que é o reino da política. 2.2.4. Se bem observarmos, toda Constituição Positiva se estrutura formalmente em partes que, ora diretamente, ora indiretamente, põem o Estado como tema de conformação. Ele, Estado, circula por todos os recônditos da Magna Lei, variando o seu regime jurídico pelo modo (direto, ou de esguelha) como a Constituição mesma dispõe sobre esse transitar institucional. Com o que ficamos inteiramente à vontade para imaginar a Constituição como a certidão de nascimento e a carteira de identidade do Estado. 2.2.5. Quanto à designação de "Código", referida à Constituição, entendemo-la perfeitamente ajustável às Constituições de um só texto ou corpo único de dispositivos. Não àquelas Constituições que se derramam por atos legislativos esparsos. Nas primeiras - Constituições que se escrevem num corpo único de dispositivos -, comparecem pelo menos dois dos elementos que se presentificam em toda codificação jurídica: a) a sistematização formal, traduzida na setorialização de temas afins, agrupados segundo o esquema relacional que vai do gênero à espécie; b) o propósito de substituir inteiramente a normatividade então vigorante sobre a matéria, de sorte que toda a prescritividade sobre tal matéria se contenha no novo e único ato legislativo, no momento da confecção desse ato. 2.2.6. Já no tocante ao apelido de "Carta Política", ele se explica por ser a Constituição uma carta ou estatuto de direitos e garantias fundamentais, tudo, naturalmente, perante o Estado e o Governo ou por intervenção deles. O que também confere a esse tema dos direitos e garantias fundamentais (neles também figurantes a nacionalidade, a soberania popular e a cidadania) uma vívida coloração política; pois é de toda a sociedade o interesse em que haja uma zona de especial proteção normativo-constitucional a tais situações jurídicas ativas.5 2.2.7. Nessa trajetória relacional do político para o jurídico, ou do Poder Constituinte para a Constituição, o fato que nos parece mais digno de nota reside em que o político não se deixa regrar pelo jurídico. Não se torna objeto das normas que passa a editar, ao reverso do que se dá com o poder já oriundo do Estado, que é um poder que se faz arqueiro e alvo das suas próprias setas normativas. 2.2.8. Façamo-nos melhor entender: o poder político por excelência, que é o Poder Constituinte, não se deixa mesmo regrar pelo Direito. Isto é correto. Mas não significa

estar ele completamente imune a parâmetros e até mesmo a freios sócio-culturais, no instante em que elabora a Constituição. O paralelo com a obra de Deus não pode ser feito senão com temperamentos ou moderação, pois salta à inteligência que o autor da Lei Maior sabe muito bem que as chances de efetividade da sua obra legislativa depende da estima social interna e do reconhecimento político externo que venha a obter (e quanto mais forte a primeira, mais provável o segundo). E é mesmo na expectativa da obtenção dessa dúplice "boas-vindas" à sua obra normativa que o legislador-mor tende a amainar em si os ímpetos de abusividade. 2.2.9. Tudo tem limite nas coisas ditas humanas e o Constituinte não escapa à contingência de ter que operar com um olho no padre e outro na missa; quer dizer, tanto compenetrado dos seus incondicionamentos formais e ilimitabilidade material quanto do risco da inefetividade global da sua obra. Meio termo, destarte, entre o desmarcado e o demarcado (o desmarcado, no campo da positividade jurídica; o marcado, no campo sócio-cultural). Razão pela qual já dissemos, alhures, que, sobre os limites do Poder Constituinte, é comum vê-los comentados enquanto expressão do Direito Natural (SIEYÈS), ou das concepções axiológicas mais assentadas na trajetória da humanidade (PAUL BASTID). Até porque "O poder precisa ser forte, mas sua fortaleza decorrerá tanto do mecanismo que o envolva como, sobretudo, do consenso nacional que logre despertar" (J. BLANCO ANDE, em "TEORIA DEL PODER", Madri, Ed. Pirámide, 1977, p. 144). 2.3. O Poder Constituinte como realidade que fica do lado de fora da Constituição 2.3.1. A insubmissão do Poder Constituinte à sua própria obra legislativa 2.3.1.1. Uma nova pergunta é de se fazer, com toda pertinência: e por que o Poder Constituinte não está submisso ao Direito já positivado, nesse Direito embutido o de índole constitucional originária? 2.3.1.2. Uma primeira resposta: porque o Poder Constituinte está do lado de fora da Constituição. Faz a Constituição, claro, mas sempre do lado externo a ela. Não entra no corpo dos dispositivos constitucionais, porque, se entrasse, aí, sim, passaria a ser uma realidade tão normante quanto normada. Conheceria condicionamentos formais e finitude material, como é próprio de toda instituição ou de todo instituto que se torna objeto de norma jurídica. Dedução: o poder que fica do lado de fora da Constituição, no ponto de partida, fica para sempre do lado de fora. Ao reverso, o poder que fica do lado de dentro da Constituição, no ponto de partida, fica para sempre do lado de dentro. 2.3.1.3. Uma segunda e complementar resposta: o Poder Constituinte fica do lado de fora da Constituição porque ele não é, nem pode ser, criatura da Constituição. É o criador, unicamente. O escultor que faz a escultura, sem a menor chance de se deixar fazer por ela. Seria assim como Deus a ter uma parte de Si mesmo feita pelo mundo que Ele criou, o que está fora de toda cogitação filosófica não-materialista. 2.3.1.4. E agora a terceira e definitiva resposta: o Poder Constituinte é o criador da Constituição porque ele, sendo a primeira manifestação da soberania, é o próprio povo. É a pólis por completo, no preciso instante histórico em que a pólis dá a si própria a mais radical das conformações jurídicas: a conformação inicial e superior a todas as outras. Um tipo de conformação que pressupõe a intransigente postura do começar tudo de novo, no plano lógico das coisas, que é um começar por inteiro. No atacado e de uma só vez (se assim preferir atuar o Poder Constituinte). Logo, a

é o preâmbulo de sua obra normativa. 2. cuja cabeça é devorada pela fêmea durante o acasalamento. embora não-diretamente nascido dos próprios órgãos do novo Estado.7. Já a Assembléia Constituída. com a nova Constituição rimam em conteúdo).1. diríamos: no momento em que a Assembléia ou Convenção Constituinte promulga sua obra legislativa (o Magno Texto). Só uma outra Assembléia ou Convenção Constituinte é que pode gestar uma outra Constituição. A única parte da Constituição Positiva em que o Poder Constituinte pode falar sobre si mesmo. Os outros momentos em que o povo legislativamente se reúne são momentos em que o povo já se paramenta ou usa a indumentária de um Poder simplesmente Constituído. Num novo esforço de síntese.8. É o momento. 2.1. porque o objetivo da reunião do povo em Poder Constituído é para a elaboração de um Direito pós-Constituição.3. seja pelo Estado garantido (caso do Direito Consuetudinário e daquelas normas jurídicas infraconstitucionais que.2. ou por esse Estado garantido. Daí a formação da seguinte dualidade básica: I .1. sente que tem a força de romper a sua habitual situação de reverência ao Direito posto pelo Estado até então existente. numa determinada quadra histórica. ou garante.3. A Assembléia Nacional Constituinte como órgão de presentação da sociedade .3. pode se auto-referir. no sentido de o novo Estado poder impor à coletividade. Aquele primeiro momento (momento constituinte) é o único instante que vai da sociedade civil ao Estado.a sociedade civil. É o mesmo que falar: sente.3.1. a diferença entre ele e o Poder Constituído. o Direito que nasce dos próprios órgãos dele. composta por agentes e instituições de natureza privada. é um dos muitos instantes que vão do Estado à sociedade civil. sim. de fora para dentro da Magna Carta.5.a sociedade estatal. é o espaço possível para o Poder Constituinte projetar. anteriores à nova Constituição. Aqui. o momento certo.6 2. o único momento logicamente cabível para o povo dizer que se reuniu em Assembléia Constituinte. 2. como condição lógica de elaboração constitucional. "Cortes Gerais" ou "Congresso Nacional". assumiu sua natureza constituinte.6. sem remissão.7 2. ou o Direito que. percebe a sociedade civil que ela própria é que pode impor um novo Direito a um novo Estado e assim é que passa a se levantar como povo para escrever a epopéia de sua auto-afirmação jurídica.3. sobretudo o contido na Constituição fundante do antigo Ordenamento.antessupor a desconsideração de todo o Direito preexistente. sem qualquer predeterminação quanto ao número de atos legislativo-materiais a produzir. Já o segundo momento (momento constituído). composta por agentes e instituições de natureza pública (e ao conjunto das ações que as pessoas naturais e os grupos particulares praticam é que se aplica o designativo de iniciativa privada ou setor privado. Tem o destino trágico (ou glorioso?) do louva-a-deus macho. ela morre de parto. por se tratar de uma ante-sala ou de um prefácio do corpo de dispositivos da Constituição. geralmente positivada com o nome de "Parlamento". Estado. Ela existe para operar em regime de permanência. II . pode dar à luz quantos rebentos legislativos quiser. Realidade populacional que tem por contraponto o Estado. no seguinte sentido: a sociedade civil percebe. renovadamente. Mas é claro que estamos a falar de sociedade civil como sociedade civilizadamente regida pelo Direito que o Estado põe. tanto quanto se reserva a expressão iniciativa pública ou setor público para o conjunto das ações que os agentes e as entidades estatais desencadeiam).

não pode ficar à mercê dessa mesma Constituição.3. Já os órgãos de representação.. 2.todo ato de uma autoridade delegada. Negá-lo importaria em afirmar que o delegado é superior ao comitente. A Assembléia Constituinte é órgão da sociedade..3. 2. Completa inversão de valores.. Editora CEJUP. fato que subjaz a formulações teóricas deste porte: "Não há proposição mais evidentemente verdadeira do que esta . cérebro. Fígado.. que. Por prescindir da intercalação do Estado entre ela (sociedade) e os respectivos componentes individuais e grupais. a Assembléia Constituída é órgão do Estado. por nenhum modo. Outra importante discriminação.3. nenhum ato legislativo. o distante. a propósito de outro assunto. indevida mescla do Poder Constituinte com as pessoas naturais que.2. porque são o corpo mesmo. que os representantes do povo têm mais faculdades que o próprio povo. Conseqüentemente. A seu turno.3. contrário aos termos da delegação em virtude da qual concedeu essa autoridade.1. coração. que homens que obram em virtude de poderes conferidos.3. O Poder Constituinte e sua impossibilidade de auto-regulação constitucional 2. a um outro ser que não o corpo social.2. ter-se-ia o quê? Uma geração a querer negar às demais a possibilidade de acordar em si mesmas a força geratriz da substituição de uma Constituição por outra. podem fazer não só o que os poderes outorgados não autorizam. 1998). É órgão encarregado da representação (não da presentação) da sociedade. E por ser a Assembléia Constituída um órgão de representação. o coração. em assembléia deliberativa.3.. A se trabalhar com a idéia da possibilidade de o Poder Constituinte se auto-referir normativamente. porque o Estado de que ela faz parte é o ser que personaliza juridicamente todo o corpo social. e não propriamente da sociedade. visível. tendo a Constituição inteiramente à sua mercê. Mas a obra do Poder Constituinte está logicamente impedida de falar sobre o seu autor. e não do Estado. figurativamente. pertencem. tudo se entronca no mesmo corpo físico. se referir ao seu editor (o Estado).. o ausente. já tenuemente reportada: as normas editadas pelo órgão ou Poder Constituído podem.3. Essa total inversão de valores acarretaria. E esse outro ser é o Estado. da muito boa lavra do jurista ZENO VELOSO. por dispensar a representação do Estado. estão para o corpo humano. para usarmos de vocábulo cunhado por PONTES DE MIRANDA. como afirmado.2.2. é nulo. 2.3. Afinal. Esta separação radical entre os dois órgãos legiferantes é da natureza das coisas. representar é tornar próximo.3. referido na página que antecede o sumário do livro "CONTROLE JURISDICIONAL DE CONSTITUCIONALIDADE". o . o invisível. infringente da Constituição. perfeitamente. Desse corpo eles não se distinguem. desde que nos marcos da Constituição. que o servo pode mais que o senhor.3. porque os órgãos de presentação estão para o corpo social assim como o fígado. pode ser válido.1. conhece condicionamentos e limites que não prevalecem para o órgão de presentação.2. 2.2. E se presenta. presente. enquanto a Constituição mesma não pode dispor sobre o Poder que sobre ela dispõe (o Poder Constituinte). de mais a mais.3. como o que proíbem" (PEDRO LESSA.3. Seria atentar contra a própria natureza do Poder Constituinte. o cérebro.3. pois a representação pressupõe duas entidades ou dois corpos distintos: o do representante e o do representado. É deduzir: o Direito pós-Constituição pode dispor sobre o Poder que sobre ele dispõe. É nela que a sociedade se "presenta". 2.

e muito menos na do Poder Constituído. teríamos o despautério de um legislador que já não se contenta em prescrever: quero atualmente o que o ser humano médio quer e provavelmente continuará a querer. a não ser naquela parte normativa por ela mesma nominada de "disposições transitórias".3. porque no cabe en los libros y rompe el cuadro de las Constituciones.3. É preciso não confundir.exercitam concretamente.3. si aparece alguna vez. ora de modo efetivo. pois o certo é que ele perpassa o tempo inteiro o corpo social.3. Sobrevive ao seu próprio labor (mas sempre do lado de fora) e é assim que pode gestar quantas Constituições quiser. portanto.7.4. É esse colégio de pessoas naturais que não sobrevive. 2.3.3.10. e a terceira fizesse o chamamento de uma quarta. Tem que permanecer no mundo dos fatos. 2. aparece como el rayo que rasga el seno de la nube. ora latente.9. contudo. pois o típico de quem exerce a função constituinte não é o poder de destroçar a Constituição preexistente? Zerar a contabilidade jurídica? Passar a borracha no Direito velho e com o lápis escrever o Direito novo. nem mesmo a prazo ou diferidamente. 2.3. seja para vedar sua transformação em assembléia constituída. Por isso que a Magna Carta pode dispor sobre o destino dele. não pode deixar de ficar do lado de fora da Constituição. A qualquer tempo. nada pode ser normado. de modo a se perder no infinito um tipo de regração que privaria o povo de se autoconvocar ou de ser por outra forma convocado . enquanto assembléia constituinte mesma. Caso pudesse embutir na sua Constituição uma cláusula de eficácia autodemolidora. E quando vem a se historicizar (é dizer: quando vem a se efetivar). exatamente para não recusar a cada geração o que é da natureza de cada geração: despertar em si. Caso o Poder Constituinte pudesse entrar na Constituição como criatura dela. Em termos quiçá mais elucidativos: conter a Constituição qualquer dispositivo sobre o exercício da função constituinte é convocar o próprio coveiro dela mesma. o fenômeno da revogação de uma Constituição por outra com a idéia de auto-revogação constitucional. para ressurgir Deus sabe quando (completamos). tudo na dimensão do atacado normativo? 2. É nascer o Magno Texto com sua explícita vocação para o suicídio. Semelhante pretensão de aprisionamento de todo o pensar coletivo do porvir seria um ato de insanidade tal que corresponderia a proibir o ser humano de respirar.5. por albergar ou potencializar ação que "no puede localizarse por el legislador.3.3.3. está logicamente proibida de ter eficácia autodemolidora. Sobre o destino do Poder Constituinte.8. à Constituição Positiva que ele vier a promulgar. Nenhuma eficácia teria esse tipo de normação. seja para permiti-lo. em qualquer período. hiere la víctima y se extingue" (DONOSO CORTES).6. 2. que o Poder Constituinte se auto-regulasse no corpo de sua própria obra legislativa. a força constituinte. a Assembléia Constituinte estaria a cometer o dislate de convocar outra assembléia igualmente constituinte para preencher o vácuo de Constituição e já nada mais impediria que essa outra assembléia convocasse uma terceira. inflama la atmósfera. A Lei Maior não pode ter. pois o Poder Constituinte é ser que não comporta transmutação em dever-ser. A primeira não tem nada a ver com a segunda. a qualquer instante. pois a segunda (auto-revogação do Magno Texto) é algo inteiramente impensável na fisiologia do Poder Constituinte.3. jamais.3. 2.3.3. Esse Poder não se exaure jamais na obra que edita. Seria um contra-senso. 2. para adotar esta outra fórmula de prisão perpétua do pensar dos pósteros: e quero também que a minha vontade atual seja toda a vontade que esse mesmo ser humano médio possa vir a ter pelos tempos a fora. ni formularse por el filósofo.

Era uma população. no justo momento em que a sociedade consegue dar a si mesma uma nova Constituição. porque só uma Constituição pode trocar o Estado por outro. que o campo divisional entre o Poder Constituinte e o próprio Poder Reformador tem que ser precisa e claramente demarcado.3. para que não se transija com o cientificamente intransigível: o Poder Constituinte é o poder de dispor sobre o todo da Constituição. E mais: o Direito feito para o Estado tem de permanecer o referencial do Direito feito pelo Estado. Assim como a água em estado líquido muda a sua forma para se transformar em vapor. O povo enquanto sociedade política e enquanto sociedade civil 2.para vivenciar seu momento constituinte. durante todo o tempo de vigência da obra que uma dada Assembléia Constituinte vier a promulgar. Neste novo segmento especulativo.3. um novo Estado e uma nova Ordem Jurídica. Poderia desrespeitá-la a qualquer momento. dotando-o do poder de se completar por conta própria. Por comparação. convenhamos. porém sem poder se substituir ao Criador. o orbe.4. uma vez criado. sob o efeito do aumento de sua temperatura a um determinado . e de repente sobe à dimensão de povo. 2. numa fala mais aproximativamente jurídica: a Constituição cria o Estado.4. contudo. o cosmos. Um órgão constituinte a repassar poderes para outro (?). de um único limite material lógico: o não . 2.11. deixar que esse Estado possa trocar de Constituição. sem nenhum controle por parte de órgão estatal. debaixo. no lastro formal da sua Constituição. Não um Estado a trocar a sua Constituição por outra. constituído) é o poder de dispor sobre partes da Constituição. mas de representação daquele primitivo órgão de sua convocação. 2. essa outra instância já não seria órgão de presentação do povo.4.3. Como se o momento constituinte não fosse uma realidade inexoravelmente situada no mundo do ser.3.1. Plantando no vazio. De mais além. quebrando o vínculo essencial (porque direto) entre o povo e a instância formal de elaboração do Magno Texto. o Poder Reformador (que é um poder estatal e. e não menos. Tudo isto é como dizer. 2. dispõe sobre si mesmo. Ela se transmuda em povo. O Criador. 2. o Poder Constituinte. pois não ficaria preso a tal normatividade. estaria semeando no ar. apagando a assinatura que o originário Autor deixou em Sua obra. e não mais.1. se uma determinada instância constituinte pudesse entronizar outra no palco das realidades jurídicas. O mundo vela por si. sociedade.3. Salta do meramente demográfico e econômico para o político e histórico.3. Este é que dispõe originariamente sobre o universo.4. mas não passa a cuidar do Criador. O Poder Constituinte e seu campo divisional com o Poder Constituído 2.1.1. ela. Acresça-se: o Poder Constituinte que viesse a dispor sobre si mesmo. comecemos por retomar a idéia de que. sem. portanto. já não é uma sociedade civil. pois todo novo querer normativo discrepante que ele viesse a externar teria sempre (como tem) a força de uma nova Constituição. Limitação intrínseca insuperável.3. averbemos que o mundo cuida de si próprio.2. Crise de existência versus existência de crise 2. Desponta claro.4. então.poder permitir que o mundo se transforme tanto por conta própria a ponto de dar a si mesmo um novo começo.4.4. contudo. O mundo é o Poder Constituído.

Editora Record. 1971. embora a água permaneça água .1. Tudo isto se traduz no desenho de uma quadra histórica em que o povo tem a certeza de que o Estado até então operante (mais certo seria dizer inoperante) já fez do presente um tempo que recende a passado. 2. não se acha onde se encontra o poder político. o modo empírico ou atual de ser já é diferente do imediatamente anterior. momento constituinte. que só pode ser um poder exclusivamente político. a última pá de cal. porque esse momento de excitação histórica única é um momento único de excitação histórica pelo mais grave dos motivos: o povo a tomar consciência de que está engolfado numa existência de crise. ou funcional.4. triunfante. por seu lado. Hora de fazer uma nova experiência global consigo mesmo. sentenciou HERMANN HESSE: "A sabedoria política. que é uma função indelegável (ninguém mais pode fazer experiência tão estrutural com todo o corpo social). funcional e político. do negar as instituições nascidas à sombra de um Estado sobre o qual é preciso jogar. Um poder que se aloja nos páramos da suprapositividade jurídica e da supraestatalidade oficial então vigentes.6. sem tardança. é a perfeita encarnação de uma sociedade que já não pode ser chamada de simplesmente civil. ou político. certa feita. Nesse contexto do puro poder político.5. Perderam a sua necessária condição de locomotivas sociais. Em estado vaporoso. a água só se movimenta por si mesma. ou seja.1. para tomarmos de empréstimo um verso do poeta goiano GABRIEL NASCENTES. que o povo é a encarnação da sociedade política. 2. apetite e responsabilidade para continuarem a serviço do bem comum.7. o povo experimenta a sua mais grave hora de fazer destino. Mais lógico é dizer. p.1. hoje em dia. Que pretendemos dizer com sociedade não-juridicamente civilizada? Queremos dar conta de uma sociedade que recupera o seu tônus politicamente selvagem (falemos assim) do começar tudo de novo.1.1. 2. à guisa do que. E a nova Constituição que desse momento constituinte irrompe. porque. na medida em que insubmissa ao Estado até então existente. por exclusão: a) uma sociedade temporal e excepcionalmente não-estatal. Esclerosaram-se ou esgotaram-se tanto no seu papel institucional de liderança que delas já não se espera senão empurrar cada vez mais a população para o pior dos abismos. que tem o aspecto bolorento das coisas caquéticas e sem a mínima condição de antecipar o futuro.4. que é o vácuo de poder. então.2. Por isso é que o povo proclama para si mesmo e para o orbe inteiro que é nele próprio que se encontra toda a sapiência política.4. É fundamental essa compreensão do povo enquanto instância que se assume como sociedade política.o seu modo de estar-no-mundo ou de se manifestar num dado momento já não é o mesmo). é o marco jurídico da superação da referida existência . que pode ser também um colapso a um só tempo ético.3. descendo. o povo se torna.1. que é algo passageiro e para cujo enfrentamento as instituições oficiais ainda dispõem de aptidão jurídica e vontade política. na medida em que juridicamente incivilizada. Isto porque as instituições estatais até àquele momento estruturadas entraram em colapso ético. Em estado líquido.4.grau.o salto químico não chega a ocorrer .4.4. Urge que toda uma corrente de inteligência e de intuição irrompa das camadas não oficiais. Não apenas numa crise de existência. quando se trata de impedir as catástrofes ou de atenuar-lhes os efeitos" (pensamento recolhido do livro PARA LER E PENSAR. de uma sociedade que se auto-reconhece como a subjetivação de um poder acima do Direito e do Estado. 15).8 2. subindo (prova de que. nela. O povo. b) uma sociedade também temporal e excepcionalmente não-civil.9 2. Do apagar todo o Direito preexistente. 9ª edição. isto é. Em momento que tal. 2.4.

Como certa feita escreveu MAQUIAVEL (terceiro livro de Tito Lívio). se o Estado é a sociedade política. como no corpo humano. o que sucede? O mal irá crescendo a tal ponto que já não poderá ser eliminado senão pela eliminação do próprio Estado.4.2. aquilo que só ele pode fazer. Entretanto. O momento constituinte como estado de plenificação decisória de um povo 2. de forma episódica ou excepcional . Só o Poder Constituinte pode agir no pressuposto do colapso cardíaco das instituições.nacional de crise. que o povo mais decididamente vive pela sua transmutação de sociedade civil em sociedade política. valores morais e ideais cívicos de que todos precisam para tocar um novo projeto global de vida. Todavia. há certos elementos que se ligam aos outros e cuja presença requer. BOBBIO e MARCELO CAETANO.2. como AUSTIN. nessas ocasiões (o pensador florentino é quem raciocina). 2. que é a mais alta expressão do atacado normativo de um povo. quando vista sob o prisma da sua personalização jurídica ou do poder constituído.4. são protuberantemente superiores ao tino e à coragem pessoal dos governantes? 2. da primária manifestação da soberania (cujo nome técnico é "Poder Constituinte"). pois contribui decisivamente para separar o joio do trigo.4.10 2.3. se a sociedade política é o Estado. pensamos que a sociedade humana que plenifica o seu próprio ser político e jurídico. GRAMSCI. Este o seu espaço irrepartido de ação jurídica.4. que uma intervenção recupere o Estado para os princípios sobre os quais o poder público está assentado. É a hora de fazer destino voltamos a dizê-lo -.1.4. É necessário. "Num Estado. b) sociedade estatal.1. Somente ele pode normar em termos iniciantemente (ou reiniciantemente) globais. 2. O que nos traz à memória esta passagem de velha música de IVAN LINS.2. que sinonimizam Estado e sociedade política. O único remédio capaz de debelar a enfermidade maior do vácuo de poder e que abre para o povo a perspectiva de uma vida de permanente auto-afirmação. cantor popular do Brasil: "Ô Madalena. no instante em que manifesta. forças da natureza ou da História (tanto faz). Essa generalizada compreensão de estado de falência das instituições como background da atuação constituinte é de grande relevo teórico. naquela situação concreta em que os lobos da política oficial já serraram todas as grades jurídicas das suas tocas? Ou naquelas situações em que as forças calamitosas do acaso.2. alçando-se à condição de povo. quando "civilizadamente" atuante nos marcos da sociedade estatal que se tornou efetiva por efeito. Assim é como o vemos na cotidianidade dos nossos dias.4. Uma espécie de luz no fim do túnel.2. é uma sociedade que se triparte em: a) sociedade política. Debaixo de todas as vênias. um tratamento clínico". a reaglutinar energias físicas.2. que nome dar à sociedade humana no preciso instante em que ela funda a própria sociedade estatal? Em que ela já não aceita permanecer como o cordeiro jurídico em que a sociedade "civil" termina sendo.4. de quando em quando. 2. pois o de que se trata é viver a epopéia do começar tudo de novo. Com este nosso modo pessoal de qualificar o povo como sociedade política. primariamente. Esta é a dualidade básica. É claro que o modo normal ou habitual de ser do povo é sob a forma de sociedade estatal e de sociedade civil. justamente. E se falta essa intervenção. durante o momento constituinte por ele experimentado. c) sociedade civil. o que é meu não se divide").8. a sua soberania. bem sabemos estar a dissentir de autores da mais forte compleição intelectual.

E é nesses instantes de legítima defesa da sua identidade e da sua sobrevivência.1. Uma realidade que se define por exclusão. sob a regência desse maestro ideológico de nome neoliberalismo. pela sua extrema importância. passamos a transcrever de modo quiçá excessivo. até que uma outra anormal elevação histórica de temperatura determine a sua metamorfose em sociedade política.5. ou de partida lunar. tal situação transicional somente se deu no distante ano de 1787. E ela assim permanece. imaginemos a processualidade daqueles dois estados líquido e vaporoso da água e melhor entendermos a dialética da relação que transcorre entre a sociedade civil e a sociedade política. um transe histórico verdadeiramente insólito. por efeito de uma alta. A água.5. desce sob a forma de chuva e assim recupera o seu estado líquido.2. ensejador da corporificação de uma sociedade que já não é nem estatal nem civil. esse instante máximo de feeling ou excitação histórica. 2. o povo desperta em si mesmo o poder (sempre adormecido ou latente ou virtual) de desconstituir a velha ordem estatal e de concomitantemente constituir a nova ordem. pp.de turbinada inquietação histórica. Há muita similitude entre o raciocínio aqui expendido e aquelas idéias básicas do famoso teórico e revolucionário francês. temos por sociedade política ou povo na sua dimensão constituinte. O que ele tinha por nação. com a serenidade dos ânimos ou o resfriamento da temperatura existencial (a nova Constituição que se faz globalmente efetiva é que recoloca as coisas em seu ponto de normalidade). Conotativamente.2. Todas estas coisas que estamos a predicar à sociedade política é aplicável. talvez. em larga medida. que o povo empunha o cetro de soberano e passa a atuar como sociedade exclusivamente política.5. Posteriormente. retoma o seu estado habitual de sociedade civil. 2. tentam esmaecer as linhas de confrontação entre o Poder Constituinte . por não ser nem a luz do dia nem a luz da noite. 113 e seguintes). um bumerangue.6. nestes escritos.2. é algo assim como a luz crepuscular. Apenas não temos um nome apropriado para colocar nessa fonte de luz que se não deixa ver pelo olho humano. já por efeito do maior frio das alturas e de outras condições atmosféricas. ascende à condição de sociedade política. 2. 2. mas que procede de uma causa. Tudo lembra um aparelho eletrônico auto-reverse. São idéias que. Com alguma similitude. a sociedade civil. A sociedade política em SIEYÈS 2. instantes de plenificação decisória do seu próprio ser. Uma luminosidade que parece destituída de qualquer fonte.4. mas que pensamos encontrar justificativa no fato de que elas parecem condenadas a cair no esquecimento daqueles juristas hodiernos que. É uma luz que ninguém sabe de onde vem. quando da transformação da confederação americana em federação). com a particularidade de que o estágio de sociedade civil só raramente avança para o estágio de sociedade política (nos Estados Unidos da América. nós.5. por efeito do calor da terra. Empós. estão lançadas no incendiário panfleto Q'U-EST-CE QUE LE TIERS ÉTAT? (Liber Juris. uma altíssima temperatura existencial. As idéias básicas do Abade. sim. aquelas de que nos servimos para os fins desta nossa monografia. Ainda por apego a figurações. porque não tem um ponto visível de partida solar. formando nuvens. evapora e vai se condensar na atmosfera. a propósito da diferença qualitativa entre o contingente humano que se faz matriz de um poder constituinte e esse mesmo contingente que se faz o berço de um poder apenas constituído. à realidade humana global a que SIEYÈS chamava de "nação".4. visto não ser nem estatal nem civil.

e toda nação deve ser livre . não tem necessidade de levar os caracteres naturais de uma vontade. Como existe somente na ordem natural. é necessário acrescentar o interesse que a nação tem em que o poder público delegado não possa nunca chegar a ser nocivo a seus comitentes. "Devemos conceber as nações sobre a terra como indivíduos fora do pacto social. mas porque os corpos que existem e agem por elas não podem tocá-las. "O poder só exerce um poder real enquanto é constitucional. "Um corpo submetido a formas constitutivas só pode decidir alguma coisa segundo a .só há uma forma de acabar com as diferenças que se produzem com respeito à Constituição. ela é a origem de tudo. o corpo dos representantes. é a própria lei. mas do poder constituinte. com que interesses se teria dado uma Constituição à própria nação? A nação existe antes de tudo. para surtir todo o seu efeito. no estado de natureza. Só é legal enquanto fiel às leis que foram impostas. quisesse dar uma constituição a seu governo. Antes dela e acima dela só existe o direito natural. Daí as inúmeras precauções políticas que foram introduzidas na Constituição. não age. "A esta necessidade de organizar o corpo do governo. devemos fazê-la. Esta só pode se mover nas formas e condições que lhe são impostas. a não ser por elas. Sua vontade é sempre legal. "Entretanto. as leis constitucionais que se dividem em duas partes: umas regulam a organização e as funções do corpo legislativo. sem as quais o exercício do poder se tornaria ilegal. a Constituição não é obra do poder constituído. e sua vontade é sempre a lei suprema. Nenhuma espécie de poder delegado pode mudar nada nas condições de sua delegação. não se dirige e não comanda. esta não seria completa se encontrasse um só caso para o qual não fosse possível indicar regras de conduta capazes de resolvê-lo". "Assim.e o Poder Constituído. só existe na forma que a nação quis lhe dar. só precisa de sua realidade para ser sempre legal: ela é a origem de toda legalidade. Não se trata de distinções inúteis. e que são outras tantas regras essenciais ao governo. A vontade nacional. "Não só a nação não está submetida a uma Constituição. "Não é próprio ao corpo dos delegados mudar os limites do poder que lhe foi confiado. a que está confiado o poder legislativo ou o exercício da vontade comum. como se diz. Não é aos notáveis que se deve recorrer. Qualquer que seja a forma que a nação quiser. Se quisermos ter uma idéia exata da série das leis positivas que só podem emanar de sua vontade. as outras determinam a organização e as funções dos diferentes corpos ativos. Ele não é nada sem suas formas constitutivas. Se precisamos de Constituição. não no sentido de que possam tornar-se independentes da vontade nacional. se quisermos que ele exista ou que aja. ela não deve estar. Essas leis são chamadas de fundamentais. O exercício de sua vontade é livre e independente de todas as formas civis. o que equivale a dizer que ela não está. Em cada parte. Todos os princípios que acabamos de citar são essenciais à ordem social. São poderes diferentes. se reúne e delibera como faria a própria nação se. sua vontade. A outra não está submetida a nenhuma forma em especial. Só a nação tem direito de fazê-la. ou. É neste sentido que as leis constitucionais são leis fundamentais. todas as formas são boas. Vejamo-las: "Em toda nação livre . é à própria nação. Achamos que esta faculdade seria contraditória consigo mesma. de acordo com que critérios. ao contrário. como ela não pode estar. "Mas é verdade que uma representação extraordinária não se parece em nada com a legislatura ordinária. basta que ela queira. em primeira linha. vemos. mesmo composta por um pequeno número de indivíduos.

de qualquer forma e qualquer condição".5. É o aqui e o agora da população de um País. Um enlace anímico da ancestralidade. não cansamos de repetir. O confronto entre o princípio da racionalidade constitucional e o princípio democrático 2. É o que se tem apelidado de paradoxo da onipotência. a consciência. Assim como se dá com os membros de uma família tradicional. A nação é muito mais. Só à nação pertence. Pergunte-se a um inglês se a Rainha da Inglaterra goza de legitimidade política. a festejada proclamação espiritual que RUY BARBOSA fez a respeito de pátria. o lar. tanto na Teoria da Constituição em geral quanto na Teoria do Poder Constituinte em especial. Diríamos. 2.1.6. que o abade EMMANUEL JOSEPH DE SIEYÈS falava de nação como até hoje a vivenciam os ingleses: uma coletividade humana intertemporal. Este direito pertence unicamente à nação. Paradoxo. A comunhão da lei. da língua e da liberdade. modificação pelo Poder Constituído. Deixa de existir a partir do momento em que se move. 2. O povo. uma linha imaginária entre o passado. nem uma forma de governo. a tradição. independente.Constituição. Pátria é o céu. que JOSÉ JOAQUIM GOMES CANOTILHO assim expõe: "Em teoria da Constituição o paradoxo aqui subjacente é o paradoxo da omnipotência: poderá um corpo soberano parlamentar com poder para fazer leis em qualquer momento limitar o seu próprio poder de fazer essas leis? No caso das normas constitucionais o paradoxo é evidente: as normas constitucionais irrevisíveis assegurariam a omnipotência dos seus autores sobre as gerações futuras o que será radicalmente contrário às regras da democracia. que faz da nação (o cacófato "danação" é inevitável) uma realidade eminentemente tradicional.6. o solo.6.1. Os Estados gerais. da coetaneidade e da posteridade. nestes escritos que reproduzimos de memória: Pátria não é um sistema. A esse panorama conceptual de nação bem se ajusta. A soma das pessoas vivas. mesmo quando reunidos. se as normas não se . porém a sabedoria. solarmente claro. Por outro lado. supomos.6. senão com severos limites. são incompetentes para decidir sobre a Constituição. 2.1. a verdadeira sapiência.3. que fala. inda mais representativo que o conceito de povo. é uma realidade presente. Cada nova geração é detentora de mais conhecimentos do que as anteriores.5. atua de forma diferente das que lhe foram impostas.4. então: a distância que vai da realidade populacional à realidade nacional é a mesma que vai do conhecimento à sabedoria. 2. O berço dos filhos e o túmulo dos antepassados.5. Que não se permite receber.5. é transgeracional. o clima. E aqui já começamos a enfrentar a recorrente questão de saber até que ponto existe legitimidade democrática numa Constituição que submete aos seus termos as gerações futuras. para eles. nem uma seita. o presente e o futuro de um povo. 2. A tradição como o forno ou o cadinho histórico no qual se tempera o aço da nacionalidade. que mantêm os brasões dos seus antepassados e tudo fazem para repassar tais insígnias (com tudo de particularmente honroso que elas simbolizam) às gerações porvindouras. nem um monopólio. Não pode dar-se outra.5. Parece-nos claro. O caráter democrático-formal do Direito posto pela sociedade política 2. porque adiciona ao presente a dimensão do passado e do futuro desse mesmo povo. A legitimidade que advém desse arraigado sentimento coletivo de nação como algo inda mais denso. e certamente ele responderá que sim.

o seu raciocínio (in O Paradoxo da Autorevisão no Direito Constitucional. Constituição. uma verdadeira comunidade. conclui-se que é permitida a sua auto-aplicação. pois não há como convalidar o vício processual de origem). Paradoxo e imutabilidade acabam assim por constituir um difícil dilema para os juristas e cidadãos das democracias ocidentais. quando se elege uma Assembléia Constituinte já se sabe que ela presenta a sociedade política ou nação. Parece que temos de prescindir. As normas da revisão aplicam-se elas próprias para a sua revisão. chegamos por esta via a um paradoxo e uma contradição. 6 e 7 da conferência OS HOMENS FAZEM AS CONSTITUIÇÕES MAS NÃO SABEM AS CONSTITUIÇÕES QUE FAZEM. à face da sua dimensão cristalinamente espiritual ou de autoconsciência. cuja característica nuclear é justamente a intertemporalidade (o espírito é atemporal). porque somente de conteúdo.3. se não existirem outras normas a fazê-lo. não ungida. Não há espaço psicológico para as novas gerações se sentirem democraticamente acuadas menos ainda castradas -. tácita ou não-expressa. pois: I . Vemo-lo mesmo como um falso problema. XXXI.1. Esse "inquietante" paradoxo da onipotência. mas se não são empregues para tal fim (e se não há uma norma superior a autorizar essa alteração) temos então normas imutáveis. ela já se impõe como documento jurídico de berço democrático. "o paradoxo da omnipotência"?11 2. traduzido no dilema de se ter que sacrificar. porém. recobre com o seu halo ou a sua aura castiçamente popular as sucessivas gerações de destinatários normativos. Sergipe. p.6. de sorte a poder conciliar na sua obra legislativa estrutural (a Constituição) interesses que traduzam reverência à cultura e à memória nacional. a questão democrática diz respeito é à própria Constituição. na pia batismal do voto popular. II .1. Ela. Peter Suber resume.encontrarem sujeitas a limites. pois. realizado em Aracaju. que é sempre uma legitimidade precária: legitimidade pela metade. 2. Com efeito. ou um elemento central da racionalidade jurídica (a irreformabilidade das cláusulas de reforma da própria Constituição). ou de um elemento central da racionalidade jurídica ou de um elemento central da teoria democrática" (pp. assim. Queremos dizer: é próprio desse tipo de organismo ou ente coletivo a aptidão de ultrapassar as barreiras do tempo. no sentido que o vocábulo "nação" era utilizado por SIEYÉS e que interpretamos como uma coletividade humana de superior estatura ou eminência ímpar. 1990. o atendimento das prementes necessidades da população viva e ainda por cima a .6.2. no período de 05 a 10 de maio de 1998). Uma comunidade. e. de maneira a somente ter a chance de ganhar legitimidade pelo seu prolongado exercício ou duradoura efetividade (legitimidade a posteriori. e não à sua reforma. e a bicentenária Constituição dos Estados Unidos da América bem o comprova: a mais sólida nação democrática do planeta a conviver com a mais antiga das constituições escritas. por isso. ou por qualquer forma imposta por um grupo que toma de assalto o Governo. distribuído pelo autor português aos participantes do VII SEMINÁRIO NACIONAL DE ESTUDOS JURÍDICOS-SENEJ. de uma Constituição votada por uma Assembléia ou Convenção Constituinte que se forme por eleição geral (é essa modalidade de colégio deliberativo que tem sido alvo desta nossa teorização). Vol. ou um elemento central do princípio democrático (a não-escravização normativa das futuras gerações) não nos parece inquietante por nenhum modo. é que já porta consigo o pecado original da não-participação popular. 99): se as normas jurídicas que autorizam a mudança podem ser utilizadas para se alterarem a si mesmas. Onde. portanto.em se tratando. in Boletim da Faculdade de Direito de Lisboa.em se tratando de uma Constituição geneticamente autoritária.

senão como fantasia de politólogos a serviço. e qualquer que seja a sua vontade.6.6... para o efeito prático de mudar de Constituição.6. 2. Agora. é aí que o povo se transforma em nação e lega à posteridade a imorredoura lição de que "a comunidade não se despoja do exercício de sua vontade. enfim. ela tende a permanecer a mesma e única nação ou sociedade política pelos tempos afora.6. cit. 118 e 119). Mas o fato é que a nação que elaborou a Constituição é tendencialmente a mesma que se decide por um outro Código Supremo. no momento constituído.2.. os pósteros.. ela pode sempre desobrigar-se de tal compromisso" (ob.reperguntamos -. (. Em segundo lugar: com quem se teria comprometido esta nação? Eu entendo que ela pode obrigar seus membros. histórico e também racionalmente jurídico da eleição de uma Assembléia que só é nacional por ser constituinte e só é constituinte por ser nacional. em presumível segurança. 115.6.1. Na sedutora linguagem de SIEYÈS. Como tantas vezes dito. ou ficar muito abaixo do padrão médio de moralidade e humanismo. Se o que vier a mudar no tempo for apenas a população. (.1.. Onde. embora com esta inescapável distinção: no momento constituinte. qual é a lição da História? A História nos diz que a sociedade civil toma por si mesma o comando do processo político-jurídico e parte para a formação de uma nova Assembléia Nacional Constituinte. porque representada. pode tirar a sua sesta. tudo envolucrado por uma só e exclusiva nação. de propósitos pouco edificantes.12 2. a nação está acordada. (. atuante. a ofensa ao princípio democrático. cair no descrédito geral e a sociedade civil passar a sentir aquele terrífico presságio de que está à beira do mais fundo abismo da ausência de poder. se desde a sua originária prescritividade.5. a sua vontade tivesse que esperar uma maneira de ser positiva. 2. da anomia do Ordenamento por inteiro.) Primeiramente.13 2. jamais sobrevém o desconforto domocrático de se ter que . cada geração ou simples sociedade civil. porque presentada. ela jaz adormecida. ao menos no plano formal ou da eleição dos membros da Constituinte? Sendo a nação ou sociedade política o modo constituinte de ser do povo. duas nações ou duas sociedades políticas: uma que fez a Constituição e outra que se sente oprimida por essa mesma Constituição. é aí que a sociedade civil se transmuda em sociedade política e passa a vivenciar a sua dimensão constituinte. por vezes. uma nação não pode nem alienar. em princípio. nem se proibir o direito de mudar. ou no transcurso do tempo. nunca o teria sido.) Seria ridículo supor a nação ligada pelas formalidades ou pela Constituição a que ela sujeitou seus mandatários. o contingente humano. mas será que ela pode impor deveres a si mesma? Sendo as duas partes a mesma vontade. Queremos dizer: não existe esse tipo de ditadura. Este o sentido psicossocial.2 Fricção entre nações versus sucessividade geracional no interior de uma mesma nação. ela não pode cercear o direito de mudança assim que o interesse geral o exigir.1. É sua propriedade inalienável.2.. pp. e tudo o que lhe pertence.) A nação é tudo o que ela pode ser somente pelo que ela é".4. Se para tornar-se uma nação. a Constituição vier a padecer do grave defeito de não haver costurado a unidade possível das ideologias. E por isso é que as gerações que se sucedem no tempo não vêem a Constituição como o símbolo da ditadura da primeira geração constituinte. 2. Só pode delegar o seu exercício.2. pois ..pavimentação da estrada pela qual transitarão. seus mandatários. pois não dissemos que o traço eidético da nação era (e é) a intertemporalidade? Não há.

2. Se tem a respaldá-la a mais indiscutível das legitimidades. como dantes explicado). porém. 2. Noutro modo de exprimir o mesmo pensamento: a segunda nação passa a deter um Poder Constituinte próprio e com esse Poder Constituinte já não pode deixar de entretecer uma relação de inerência (ele é ela. o estrelato do voto. propugna por uma atuação mais livre do Poder Judiciário sempre que se trate de atualizar as concepções de que decorrem os conceitos constitucionais: "Neste particular. a população ou sociedade civil tem na mutabilidade o seu espaço de significação ontológica. muito bem doutrina CLÉMERSON MERLIN CLÈVE.4.6. Uma legitimidade ainda mais densa que a ressaída de uma eleição geral comum para a renovação dos quadros políticos de qualquer Estado. numa eleição constituinte. de modo a culminar com a revolução triunfal de 7 de setembro de 1822. contanto que não impeça o novo corpo nacional de iniciar a sua própria experiência constitucional-positiva. pela mediação do Texto Magno. Só para si. Em verdade. Noutro dizer. secundando o importante constitucionalista norte-americano RONALD DWORKIN.6. juridicamente. Um só Estado personalizava. porque a primeira Constituição não é sentida como coisa própria. Não é assim. nestes escritos em que. Daí que o princípio majoritário que informa as decisões colegiadas passe a igualmente se discriminar em maioria permanente e maioria passageira. a partir deste essencial corte distintivo: numa eleição comum. conforme se trate.6. Animamo-nos a dizer: enquanto a nação ou sociedade política evoca a idéia de permanência. o povo elege aqueles que vão governar quem vai governar. sem que a mais recente não aspire à sua emancipação política).2.esta é a palavra de ordem dos que fazem a nova nação -. conforme. de uma assembléia de presentação do corpo nacional ou de uma assembléia de representação do corpo tão-somente populacional. mas por eficaz rebelião da segunda (a nação brasileira).2. 1988). não por decisão da primeira (a nação portuguesa) quanto a esse juízo de inconvivibilidade. 43. Exclusivamente sua. naturalmente contrária à primeira (duas nações ortodoxamente caracterizadas não podem conviver sob o mesmo Estado ou sob a mesma Constituição.5. mesmo elastecendo a sua tarefa. Que permaneça a primeira nação com a respectiva Lei Maior . a culminância da participação popular no processo político. Tal como se deu com o Brasil ante Portugal. se essa Constituição está assentada no sufrágio popular. é preciso lembrar de que a Corte Constitucional. que é a legitimidade do voto. ou sequer alterar a Constituição vigorante. naturalmente. a segunda nação não quer trocar de Constituição. 2. que é circunstancial" (em AS MODERNAS FORMAS DE INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL. ela é ele. O primeiro tipo de maioria a preponderar sobre o segundo. aliás. O que a segunda nação aspira é a uma Constituição estalando de nova.6.2. duas nações que já não podiam conviver no mesmo espaço político-jurídico. mas alheia.3. conferência publicada na coletânea "10 ANOS DE CONSTITUIÇÃO". respectivamente. p. está ainda defendendo a maioria permanente elaboradora da Constituição. essência mesma da Democracia. o povo elege aqueles que vão governar. irão governar de modo permanente aqueles que irão governar de modo transitório. Nesse tipo de prefiguração extrema ou hipótese-limite.2. pois a eleição dos elaboradores da Constituição é. para que o referido desconforto democrático exista é preciso que uma outra nação venha a se formar. em detrimento da maioria eventual.6.suportar uma Constituição formalmente rígida. Editora Celso Bastos. 2. . numa eleição constituinte o povo escolhe aqueles que.

Transgeracional. Ele se coloca é no plano das relações entre os dois corpos nacionais .. Não compartilhado com outra pólis. não pode ensejar a questão do desconforto democrático a que se reporta o neoconstitucionalismo. quando uma longa sucessão de abusos e usurpações. pela segunda.10. Por isso que. também a nação é uma só. na matéria. do momento em que se constitui até o sobrevir da última geração. o respeito devido ao juízo da Humanidade obriga-o a declarar as causas que o impelem para a separação. solenemente proclamamos e declaramos. 2. os representantes dos Estados Unidos da América. Nesse idealizado contexto de fricção nacional . é seu dever livrar-se de tal governo e tomar novas providências para bem da sua segurança. reunidos em congresso geral.) Mas.. nós.. e de direito devem ser. É dizer: não estando presente o sujeito. um princípio espiritual" (RENAN). dizendo respeito a uma outra região fenomenológica. E fora dessa hipótese-extrema da lenta formação de um corpo nacional contra outro? Bem. Assim como o rio é um só rio. este o mais alumiado contorno da aura de toda nação enquanto monolítica nação permanecer. E é claro que o problema do desconforto democrático não pode medrar no interior de uma nação cuja história constitucional mal começou.2.. da nascente à foz. enquanto se conservar como solitária nação no âmbito espacial de validade da sua Constituição e da territorialidade do seu Estado.) Por conseqüência. ou seja. 2.)".Daí que venha a se autoconferir uma Constituição mais que paralela.6. invocando o Supremo Juiz do Universo como testemunha da retidão das nossas intenções. em nome e por autoridade do bom povo destas colônias.6. visando invariavelmente ao mesmo fim. "(. Discurso mais eloqüente não pode haver. desde que já não vincule os membros da nova nacionalidade. após a elaboração constitucional. Por isso mesmo é que ela tem sido definida como "uma alma. se uma outra nação não se forma no espaço territorial da primeira. 2. é claro que tudo que juridicamente provenha da primeira nação seja concebido.fenômeno diferente da simples sucessividade geracional -. deixa de existir o próprio sujeito coletivo que poderia.6. "(.2.o dominante e o dominado -. e devem ficar. e que todos os laços políticos entre elas e o Estado da Grã-Bretanha ficam. da qual pinçamos os seguintes trechos: "Quando no decurso da história humana se torna necessário a um povo romper os laços políticos que o ligaram a outro e assumir entre as potências da Terra a posição separada e igual a que o habilitam as leis da Natureza e do Deus da Natureza. . Estados livres e independentes. todas tendo como direto objetivo o estabelecimento de uma tirania absoluta sobre estes Estados. no sentido de que um deles (o dominado) não reconhece como obra de uma sua primeira geração constituinte a Lei Maior "estrangeira" sob a qual se encontre. Foi este o paciente sofrimento destas colônias e é agora a necessidade que as constrange a alterar o seu antigo sistema de governo.8. que estas colônias unidas são. a se perpetuar na cambiância dos corpos populacionais que se sucedem no tempo. Como legislação que bem pode permanecer intocada.6. como coisa estranha. completamente dissolvidos (. do que a "Declaração de Independência dos Estados Unidos da América" (datada de 4 de julho de 1776). porque destinada a viger em âmbito pessoal e territorial próprio.2.. revela o desígnio de os submeter ao despotismo absoluto.2. A história do atual rei da Grã-Bretanha é a história de repetidas injúrias e usurpações.. concretamente. que elas se desligam de toda a obediência à Coroa Britânica. experimentar o desconforto democrático. como a sensação de desconforto pode estar? 2.7.9.

do Poder Constituinte. ou. Constituição comum a vários . e. uma: ou as supostas Constituições cosmopolitas não preponderam sobre as Constituições Nacionais. com os seus lógicos desdobramentos. Jamais. 2. ajuizemos de uma vez por todas o seguinte: se cada nação permanece com o seu Estado. se em nenhuma das nações "presentadas" foi aberto o processo democrático do voto popular para a eleição dos membros de tal Assembléia? Como submeter a essa Constituição-de-gabinete as Constituições democráticas de cada nação pactuante? Como aceitar uma Constituição que não plasma nenhum Estado em particular. 2.6.2. seja pela forma direta (Separação dos Poderes). além de não-popularmente eleitas para esse específico fim. Por fidelidade.3. que já não terá nação nem Estado isolado onde possa irromper e frutificar.3. E aqui se encontra o pano de fundo teórico para a nossa recusa ao tracejamento de uma "Constituição" ultranacional ou cosmopolita. quando as encontrei. nenhuma delas abdica de Constituição própria. da Democracia.6.6.6. 16 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. seja pela indireta (consagração dos direitos e garantias fundamentais)? Do princípio de constitucionalidade e.2. a acontecer o triunfo do novo e estranho modo de pensar o constitucionalismo. portanto.. Nesta suposição.3.6.1. Ora bem. como não colocar na etiologia da Constituição a metamorfose que resulta da passagem de uma sociedade civil para uma sociedade política? Metamorfose.6. aos elementos conceituais da nação. 2.3. com este conhecido desabafo: "passei a vida inteira procurando certas respostas.3. Multinacionalidade desse tipo e unicidade constitucional são como água e óleo: não se relacionam por osmose. também não se relacionam pelos imprescindíveis moldes do sistema de freios e contrapesos e ainda por cima não têm a balizá-las um catálogo mínimo de direitos humanos e respectivas garantias? Como explicar a titularidade plural de um poder (o Constituinte) que se define. pela unicidade do ser de que promana e em cuja ossatura afinal se transfunde? Como.das "Constituições" cosmopolitas ou ultranacionais 2.agora sim . enfim.4. do princípio democrático? 2. de 26 de agosto de 1789?14 Que atentado maior pode haver àquilo que se traduz na essência mesma da idéia de Constituição como o mais eficaz mecanismo jurídico de contenção do Poder. como pretendem ser os pactos formadores e regentes da União Européia (UE). E passaremos a ter Constituições Positivas sem vínculo operacional com a própria Democracia. se preponderam. as Constituições Nacionais é que deixarão de sê-lo. da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e do Mercado do Cone Sul (MERCOSUL). se a multinacionalidade se faz acompanhar da pluralidade de Estados soberanos. aceitar que os tratados internacionais é que servirão de fundamento de validade para a Constituição de cada Estado signatário. que se dá no seio de uma única nação aspirante à soberania? Como falar de uma Assembléia Constituinte Plurinacional. Das duas. Não há nem pode haver Constituição multinacional. justamente. traduzida no famoso art. Constituições não são.5.". e não mais o inverso? Isto não significa romper completamente com a idéia-força da própria constitucionalização do Direito. da Constituição e do Estado. Finalmente. Deveras. mudaram as perguntas. então. O paradoxo .. desaparecem também as nações originárias e respectivos Estados. simultaneamente. todavia. mas um holding de autoridades "supraestatais" que.3. como ficaremos todos? Ficaremos naquela atarantada situação de que falava o pensador.3.

então. Por natureza.Estados soberanos é uma contradição nos termos. 2. portanto. o dever de impor direcionamentos e até de intervir (ora por mecanismos de permanente fiscalização e sancionamento. pelo inciso IX do seu art. lazer. E que vão surgindo por efeito da evolução política de cada corpo nacional que se abre para tais ou quais vantagens comuns. São coisas diferentes. vestuário). Tendo por suporte jurídico-formal os tratados internacionais de sempre. que "é livre a expressão da atividade intelectual. exigência dele. Não sobre o controle estatal interno . Neste sítio.). Governo.3. O que é preciso entender é que instituições multilaterais como a União Européia e seus êmulos são as velhas e boas confederações de Estados.7. o holocausto só pode recair é sobre a globalização. pois nada mais falacioso que a teoria da mão invisível. a economia é manifestação do corpo. então. O risco passa a existir é quando o Estado se mete a monitorar a cultura. E como é verdade que um decidido controle estatal interno e globalização econômica são coisas antitéticas. de modo que a sua gradativa mundialização não significa propriamente um risco de perda do seu controle. ora pela eventual competição empresarial direta e ainda pelo estímulo). III .a cultura é manifestação do espírito. 2. deixemos gravado em alto relevo o nosso dissenso à equivocada identificação que o neoliberalismo vem fazendo entre mundialização cultural e globalização econômica. o melhor governo não é o que menos governa. como a própria soberania. segurança ecológica. tudo é absolutamente irrenunciável. pois a soberania de cada Estado se formaliza é numa Constituição não-compartilhada. Faz sentido.3. ela paira acima da organização estatal. ou uma intervenção. cerceando-lhe a intrínseca espontaneidade em qualquer das suas formas de exteriorização (daí a Constituição brasileira estatuir. contundentemente negada pelas iniqüidades sociais de todo o século XIX e dos primeiros dezessete anos do Século XX. transporte. seja no plano do bem-estar social (moradia. porém o que mais governa para que um número cada vez maior de pessoas deixe de precisar dele. independentemente de censura ou licença"). seja no plano da sobrevivência biológica do ser humano (alimentação.6. 5°.6. etc. e tende mesmo a traçar os contornos do próprio Estado. a partir destas considerações que temos como imperativos históricos: I .Se os deveres do Estado para com o setor cultural não podem significar jamais um dirigismo.de revés. porque o primeiro dever do Estado é com o atendimento das necessidades materiais da sua população. Não uma espontânea otimização de riquezas. E tudo é absolutamente irrenunciável porque sem a mediação do Estado a economia se torna uma espoliação organizada. o receio de que o Estado venha a perder o controle da sua economia (efeito próprio da globalização). que são justamente as referidas necessidades de sobrevivência individual e de bem-estar comunitário. Diante. Mas sempre nos termos da Constituição de cada Estado signatário. o mesmo não se pode dizer quanto à ordem econômica. assim. de ADAM SMITH. Não pode ficar acima do Estado. Ao contrário do que afirmava JEFFERSON. da consideração de que a teoria das Constituições regionalizadas (ou plurinacionais) tem mesmo a sua motivação factual na globalização da economia (que é a globalização dos mercados). abdicando. artística. na processualidade da vida. do poder-dever de organizar o aparelho produtivo do País na direção do máximo possível de auto-suficiência em bens e serviços. exigência dele. higiene. que entra e sai do pacto por sua espontânea e soberana vontade.6. usufruídos estes por um número cada vez maior de pessoas. científica e de comunicação. II . Exclusiva.

4. Se a nação apenas sai do estado de efetivo poder constituinte para uma quadra de virtual poder constituinte e vice-versa.7.quantas sejam . sendo uma nação. e só então.7. Se acontece. Mais que um simples produto inelástico ou de formas acabadas em todas as suas partes. modifica-se a Constituição apenas quanto aos mecanismos de que seus princípios estruturantes precisam para permanecer eficazes (e não é preciso encarecer que toda Constituição tem a cara dos seus princípios estruturantes).7. Este o seu modo especial e único de ser.7.3. no entanto. pois. De revés. de uma determinada geração vir a avaliar que já não dá para prosseguir sob o império do Magno Texto.2. Ideologicamente. E por ser nação o tempo inteiro. O vínculo natural entre a sociedade política e a futuridade 2.7. ela é nação o tempo inteiro. preponderar sobre os demais. então. porém.1. qual a Constituição que não dispõe sobre a sua própria reforma? Reforma. Se ela existe. Onde.7. consegue atingir um nível tão aceso de autoconsciência a ponto de desembaçar toda névoa que prejudique o límpido visual da futuridade. 2. Corporativamente. se necessidade houver.5. a querer. para. razão da autonomia conceptual de que desfruta. Para ROUSSEAU. empenhadas em produzir uma vontade final tão-somente grupal ou particular. ou a segunda. 2. que força humana vai impedir que ela convoque uma nova Assembléia Nacional Constituinte? Sabido que a mais nova geração nacional é tão nacional quanto a primeira? Logo.15 Ou. sem maior necessidade de alteração formal dos seus dispositivos. ou por uma terceira. por outra. ou por uma quarta geração . 2. 2. que deve assegurar a sobrevida da Constituição.no interior de uma única nação. se a Constituição rígida. por mais rígida que seja. possui legitimidade política e senso histórico de oportunidade para dar forma jurídica ao próprio futuro. a Constituição é fórmula normativa consubstanciadora de princípios que potencializam a abertura das janelas do Direito para o lado onde sopram os ventos da atualização de suas idéias centrais.da economia de cada povo. Numa recondução do pensamento de SIEYÉS a ROUSSEAU. essa vontade tende a ser não mais que o somatório mecânico das vontades de todas as pessoas vivas. essa vontade se torna a soma orgânica das vontades de todas as pessoas vivas. pois. e não o seu dobre de sinos. de saída. Ou. é da natureza da vontade . tanto quanto o próprio Deus. se colocar o problema da revogação constitucional. se a vontade é apenas da população. porém a desejar com os demais se interpenetrar ou dissolver numa só manifestação. Cada bloco de vontades a querer preponderar sobre os demais. A mesma geração que elaborou o Magno Texto. pensamos que. nem é preciso esperar por uma segunda. Insistamos.. ou a terceira. etc. nunca deixa de estar disponível para a nação?16 2. ou não existe. como de generalizada sabência. o paradoxo da onipotência (pela terceira vez perguntamos)? Como falar de antidemocraticidade a posteriori da Constituição rígida. no fundamento: a nação. Modifica-se a Constituição para que ela permaneça idêntica a si mesma naquela parte central da sua circunferência axiológica. muito mais fortemente empenhadas em produzir uma vontade final que seja uma "vontade geral" no sentido rousseauniano. ou existe. se a vontade a manifestar é mesmo da nação. Nenhum bloco de vontades. pode desertar de sua Constituição a qualquer momento. Interesseiramente. tem o poder de revogá-lo. É justamente o visceral compromisso com o porvir que faz a nação tornar a sua obra legislativa um verdadeiro processo. Até porque.

no segundo. resta para soma dessas diferenças a vontade geral". "as nações são mistérios. misteriosamente. sob pena de cair no baixo cômico. edição do governo de Sergipe).8. porém não quer isto dizer que as deliberações do povo tenham sempre a mesma retidão (. tirando estas mesmas vontades. A inconstitucionalidade da revisão de dupla face . A ensejar a qualificação do Magno Texto como norma-processo. Porém. de maneira a projetar na objetividade da sua obra tudo aquilo que a humanidade já produziu e ainda vai produzir (não é muito diferente o juízo que se vê em LUKÁCS. extraídas do livro O CONTRATO SOCIAL. se não é impossível que uma vontade particular concorde em algum ponto com a vontade geral. de maneira a recolher o que há de axiologicamente comum a todas elas para tudo sintetizar num só documento normativo de nome "Constituição".). é simplesmente uma vontade particular. e não é senão uma soma de vontades particulares. 2. Uma outra comparação nos parece elucidativa. É um discurso que se aproxima da dimensão das coisas universais e eternas. assim como os princípios estão para essa bíblia jurídico-positiva que é a Constituição. um ato de magistratura. pp. Cada uma é todo o mundo a sós". também a nação faz a ponte entre o passado. porque a vontade é ou não geral: é a de todo o povo ou a de uma parte dele. (. Leiamos estas passagens. ou corporativos. Deduz-se do que antecede que a vontade geral é sempre reta e tende constantemente à utilidade pública. cada nação é. tanto quanto é da natureza da vontade particular a busca dos interesses meramente privados. I. que hoje têm na própria Constituição a precisa indicação dos respectivos conteúdos e a possibilidade de operacionalização ao nível factual. É este o prevalente idioma jurídico-positivo da nação. enquanto a outra olha o interesse privado. 43 e seguintes: "Com efeito. à semelhança do que fez JESUS CRISTO com a metodologia comunicacional das parábolas.7.. O inexistente vínculo entre "excesso de rigidez" e "Poder Constituinte Evolutivo" 2.17 2. comentários de LEANDRO KONDER. p. essas. pp. por sua natureza. portanto. 2.1..7. 27/33 da obra "UM GALILEU NO SÉCULO XX".9. inerente a todas as caricaturas" (em Estudos de Direito. ano de 1996).8... esta vontade declarada é um ato de soberania e faz a lei.7. Enfim. Vale dizer. é indivisível. obra já referida um pouco mais atrás. magistralmente: "a um povo não é lícito repetir ou imitar nem a si mesmo. às preferências e a vontade geral à igualdade. 2. No primeiro caso. é impossível pelo menos que este acordo seja duradouro e constante. um decreto (. E Tobias Barreto.. quando muito. Assim como os artistas fazem a ponte entre o sujeito universal que é a humanidade e o sujeito individual que é cada ser humano. na Constituição. o presente e o futuro das suas gerações.6. Ela não sabe falar de outro modo principal. 109. Parábolas que estão para o evangelho de Cristo. E cujo efeito prático é a processualidade ou historicidade ou uma certa atemporalidade do que se pretende comunicar. que se destroem entre si. Há às vezes diferença entre a vontade de todos e a vontade geral: esta atende só ao interesse comum. Boitempo Editorial.) . vol. Normas-princípio.7.8. Essa linguagem sinótica ou sinérgica de valores torna-se possível. porque a vontade particular tende. pelo metódico uso das normas-princípio.) Pela mesma razão que a soberania é inalienável. como versejou Fernando Pessoa. 2..7. um mundo todo à parte. pois é falando por princípios que o seu discurso normativo exorciza os fantasmas da caducidade axiológica ou de conteúdo.geral rimar com o bem comum (por ser mais do que a simples adição das vontades parciais). ou.

os seus dispositivos.1. formalmente. faz um cento". que se faça das cláusulas de reforma constitucional o próprio fundamento para a sua modificabilidade (?). Contraditoriamente .permitimo-nos falar . do seu próprio regime? 2. com base na possibilidade de o legislador de revisão poder sempre ultrapassar esses limites mediante a técnica da dupla revisão. a revisão incidiria sobre as próprias normas de revisão. então a Constituição pode vir a perder até mesmo o seu caráter rígido.1. Lei "Fundamental".. Qual a solução que se entremostra na crítica ao "excesso de rigidez" e seu desaguar em mutações constitucionais do tipo informal? Dar às cláusulas pétreas uma interpretação light.. 2. ou seja. com o fraseado. pode assim proceder com todas as outras. para facilitar as emendas e revisões constitucionais. que o excesso de rigidez constitucional (quem faz o juízo de excessividade?) tem que pagar um preço. por isso mesmo. Almedina. caindo. como inelutável conseqüência do seu "excesso de rigidez". a revisão far-se-ia de acordo com as leis constitucionais que alteraram as normas de revisão. as disposições consideradas intangíveis pela constituição adquiririam um caráter mutável. 1138).2. Querendo dizer.8. eliminando ou alterando esses limites. É essa técnica da dupla revisão que nos parece o que há de mais atécnico. o raciocínio será o mesmo. ou aditar uma cláusula pétrea substantiva. 1922.2. a Constituição muda freqüentemente de sentido sem que se alterem. a resposta para o excesso de rigidez (suposto excesso) é o excesso de desconsideração pelas cláusulas intangíveis da Constituição.1. em virtude da eliminação da cláusula de intangibilidade operada pela revisão constitucional (. o fato é que o mecanismo da dupla revisão baralha inteiramente os campos de lídima expressão do Poder Constituído e do Poder Constituinte. 2ª Reimpressão. contestada por alguns autores. por conseguinte. suprimir. 5ª Edição. Num primeiro momento. p. num segundo momento. à luz de uma depurada Teoria da Constituição. a ponto de suprimi-las.8. 2. cada vez mais soft.o neoconstitucionalismo passa a acoimar de "poder constituinte evolutivo" a própria e necessária processualidade das Constituições principiológicas. Norma "Normarum" e outras qualificações que somente se justificam por aquela supremacia no plano hierárquico? Pela não-completa submissão do Magno Texto à sanha reformadora do Poder Constituído? É o mesmo que perguntar: como prosseguir chamando de Constituição o que Constituição já deixou de ser. Se nos transferirmos do campo das cláusulas pétreas formais para os domínios das cláusulas pétreas materiais. pois "cesteiro que faz um cesto. e que tal preço é a freqüente mutação informal da Constituição.8. pela total supressão da norma ou das normas constitucionais instituidoras da rigidez formal! E sem a rigidez formal. E se isto não for o suficiente para adaptar a Magna Lei à emergência de novos valores sociais.3. Código "Supremo". a começar por esta: se é possível reformar as próprias cláusulas constitucionais de reforma. quer dizer. Ainda que sob o color de mitigar o efeito "conservador" das cláusulas pétreas.8. porém. Quem pode modificar. como prosseguir chamando a Constituição de Carta "Magna". onde fica a identidade axiológica da Constituição? Onde ficam as principais "idéias de Direito" . em contradições incontornáveis.1.4. E com total ingerência do Poder Reformador nas cláusulas pétreas materiais. Desta forma. Revisão em dois tempos ou de dupla face.1. como preservar a superioridade hierárquica da Constituição sobre os demais espécimes legislativos? E sem tal superioridade. pois sem cláusula de rigidez formal a Constituição perde o controle do regime jurídico de suas emendas e.)" (em DIREITO CONSTITUCIONAL. num sentido assim explicado por GOMES CANOTILHO: "A existência de limites absolutos é.

Se se permitir ao Poder Constituído. mas indo além dos limites a ele originariamente impostos. Até porque é possível refundir uma cláusula pétrea para adensar o teor de proteção dos valores nela albergados. claro. 2.1.9. como garantia do avanço então obtido. Não fiquemos por aqui.1. E a se trabalhar com esta hipótese. o sex-appeal de um Diploma que surgiu. É necessário ter cuidado com as palavras. mais que vivenciar uma situação de crise de existência. 2. como visto. precisamente.8. então? A significar o único momento em que o Direito se subtrai ao Estado? Em que o Direito se torna maior do que o próprio ente estatal? 2. Fora disso. Diga-se mais: quem pode despetrealizar a Constituição. que singularidade restaria para uma Constituição que se tornou gato e sapato nas mãos do Poder Reformador? Sem mais nenhuma norma-de-fronteira que não provenha desse mesmo Poder Reformador"? 2.6. para seguir inverso roteiro.8. Ora.10. Como penhor de não-retrocesso das conquistas jurídicas a que democraticamente se chegou.1. Não.1. em verdade.(GEORGES BURDEAU) que serviram de mote à faina constituinte?18 2. o glamour. já está engolfado numa existência de crise). mas não se dá o mesmo nome a um Poder Reformador que se irroga a força da mutação formal dessa mesma Carta. evidentemente que pode se arrepender e voltar a petrealizá-la. pois. Ou. no exercício da função reformadora.5. ter-se-ia algo assim como o sentenciado criminal a dizer como.. foi estabelecido o pretenso excesso de rigidez. não! Esse tipo de juízo é exclusivo da nação. quem flexibiliza aqui. onde e por quanto tempo se disporia a cumprir sua pena.8. passando ele a ab-rogar a Magna Lei estará "destruindo o fundamento de sua competência"). como rotular de ideologicamente conservadora a função das cláusulas pétreas de tais diplomas? Tais cláusulas operam. e a forma jurídica de a nação avaliar tão global quanto radicalmente as coisas é a Constituição originária (assim como é exclusivo da nação dizer que o País.8.1. flexibiliza ali.8.7.8. que é uma das mais visíveis impressões digitais do Magno Texto? A sua principal função ou o primeiro dos seus históricos e lógicos diferenciais? Aquilo que é o próprio charme. para superar a idéia de autolimitação jurídica do Estado? Para impor ao Estado (com seu poder reformador e tudo o mais) balizas de trás para frente e de fora para dentro? Exógenas. aquele contra o qual existe a rigidez formal da Constituição está positivamente autorizado a medir o tamanho dessa rigidez? A avaliar o teor de razoabilidade. ou de proporcionalidade da contenção legislativa que lhe é imposta? A todas as luzes. como ainda conceituar a Constituição enquanto o mais estável dos documentos legislativos de uma Ordem Jurídico-Positiva? Como abrir mão das normas . Fingindo-se ignorar a grande distância que separa uma interpretação mais à solta da Constituição (porém nela mesma fundamentada) daquele ato legislativo de intervenção formal no Texto Magno. quando menos. justamente. como ficaria a idéia de limite formal. tudo fazer da originária Constituição (dizemos "tudo". a cargo de um Poder contra o qual. Se é próprio do Poder Constituinte democrático produzir constituições avançadas (pode-se dizer o contrário?). toma gosto no ofício e já não estaca por conta própria). sendo o Poder de Revisão uma criatura da Constituição. 2. o vigiado a determinar o tipo de armamento e o horário de ronda do seu próprio vigia (é também de BURDEAU a lembrança de que. As perplexidades se sucedem aos borbotões e o analista de pronto se pergunta: sem mais diques para represar o fluxo normativo do Poder Reformador..8. Que paradoxo! Chama-se pejorativamente de Poder Constituinte Evolutivo a mutação informal da Constituição.1.

até ser atendida a sua pretensão. incumbidos de defender e observar e mandar observar a paz e as liberdades por nós reconhecidas e confirmadas pela presente Carta. em qualquer circunstância. apoderando-se dos nossos castelos. pensamos que a válvula argumentativa do "Poder Constituinte Evolutivo" intenta disfarçar aquilo que na verdade sucede com a reteorização do Magno Texto e do Poder Constituinte: uma contra-revolução dogmática. no caso de estarmos fora do reino.11. 2. e. e à petição será dada satisfação sem demora. e os vinte e cinco barões. Antes. a partir da Constituição do México de 1917 (imediatamente seguida pela . se o Constituinte não anuncia que está a produzir uma Constituição garantida. A Teoria do Poder Constituinte foi o que de mais revolucionário ocorreu no pensamento jurídico de todos os tempos e o fato é que ela já não serve aos propósitos socialmente retrocessivos do neoliberalismo. Certamente precursora desse vínculo necessário entre a supremacia da Constituição e os mecanismos garantidores de tal supremacia é a própria "MAGNA CHARTA LIBERTATUM". para a nossa justiça. Não inculca no povo uma estima ou um sentimento de Constituição.12.1.8. para sua garantia. apontando as razões da queixa. concedemos e aceitamos. se estivermos ausentes do reino. e querendo torná-las sólidas e duradouras.1. a praticá-la. e não impediremos ninguém de fazer idêntico juramento". eles obedecer-nos-ão como antes. Para que ela se torne a própria condição da montagem de um Ordenamento que tenha na segurança das relações humanas o seu valor fundante por excelência. deixa de revelar estima pela sua obra e não induz o povo. mas sem ofenderem a nossa pessoa e as pessoas da nossa rainha e dos nossos filhos. Lá pelo fundo das coisas ou por trás dos bastidores (como soem falar os jornalistas). ipso facto. Ora. Um contradiscurso constituinte. O uso da idéia do "Poder Constituinte Evolutivo" como contradiscurso constitucional 2..) Considerando que foi para honra de Deus e bem do reino e para melhor aplanar o dissídio surgido entre nós e os nossos barões que outorgamos todas as coisas acabadas de referir.2. e nós damos pública e plena liberdade a quem quer que seja para assim agir. 2. que os barões elejam livremente um conselho de vinte e cinco barões do reino. juntamente com a comunidade de todo o reino (communa totiu terrae). terras e propriedades e utilizando quaisquer outros meios ao seu alcance. a petição não for satisfeita dentro de quarenta dias.2. poderão embargar-nos e incomodar-nos. E qualquer pessoa neste reino poderá jurar obedecer às ordens dos vinte e cinco barões e juntar-se a eles para nos atacar. de 15 de junho de 1215.1. e da ofensa for dada notícia a quatro barões escolhidos de entre os vinte e cinco para de tais fatos conhecerem.8. uma Constituição pra valer (e só é pra valer na medida em que petrealizada).constitucionais de autodefesa autogarantia (papel instrumental das cláusulas pétreas).8.. coloca-se como o mais lógico obstáculo ao desmonte do Estado Social que as Leis Maiores do Ocidente erigiram. os mesmos quatro barões apresentarão o pleito aos restantes barões. e se nós. se "não há Constituição sem supremacia e não há supremacia sem sua proteção"?19 2. a contar do tempo em que foi exposta a ofensa. a nossa justiça. deixarmos de respeitar essas liberdades em relação a qualquer pessoa ou violarmos alguma destas cláusulas de paz e segurança. tão necessário para que ela se torne uma instituição viva.8. os nossos bailios ou algum dos nossos oficiais. e se por nós ou pela nossa justiça. logo que tenha havido reparação. estes apelarão para nós ou. cuja parte final está assim redigida: "(.

2. Aqui.20 2. se já não se convoca uma nova Assembléia Constituinte e se já não se reteoriza a própria força constituinte. mediante lei. a imprescindível postura intervencionista e dirigente se traduzia em mais um limite real. 2. levando-o também a limitar o poder econômico. sem maior contradição no aproveitamento das teorizações do Iluminismo. preservação das conquistas liberais dos indivíduos e dos cidadãos contra o Estado. Valores de cujo indissolúvel casamento nasce a fraternidade. para que ele. não havia (e não há) como impedir os fenômenos corrrelatos da concentração de renda e da exclusão social. A luta político-jurídica foi sem tréguas e o constitucionalismo social veio a significar: a) por um lado. na prática).3. todo Estado liberal cai nos braços do poder econômico para formar com ele a mais desumana das parcerias (a opressão política a atar o seu corpo à exploração econômica). Uma coisa é partir de um Constitucionalismo liberal para um Constitucionalismo social. inação do Estado como condição de império do valor da liberdade e da cidadania. É que. nada mais natural que seqüenciar a faina constitucional de impor limites a toda forma de poder que implicasse dominação política e exploração econômica das massas. Sobremais. segundo a qual todo aquele que detém o poder tende a abusar dele. Logo.2. cada povo soberano teve que recorrer a uma nova manifestação formal do seu Poder Constituinte (salvante a nação norte-americana. pois o poder é coisa que não se amplia ou não se reforça. ação estatal para a realização do valor da igualdade. é sair de um Constitucionalismo social para voltar ao liberal. por influência do modelo britânico de Ordenamento Jurídico. era preciso fazer avançar o movimento racional e consciencial do constitucionalismo. Porém. para desancá-la. Matéria-prima explosiva. que se perfilou ao lado da liberdade e da fraternidade como bandeira de luta da própria burguesia revolucionária do século XVIII. ferido de morte ficaria (como fica) o princípio da igualdade. outra.8.8. e. Recorde-se que o liberalismo triunfou sobre o absolutismo porque limitar o poder político era (e é) a própria condição de defesa da liberdade e da cidadania. 2.4. então.8.Constituição Russa de 1918 e pela Constituição Alemã de 1919). a igualdade.2. Se é verdade que os dois valores básicos entretecem relações dialéticas. numa economia típica de mercado. as liberdades fundamentais não passam de ornamento gráfico na tessitura formal dos dispositivos constitucionais. diria MARCELO NEVES).2.6. Acrescente-se: longe de significar uma ampliação do poder estatal. 2. BOBBIO esclarece que prefere a expressão "vulto demoníaco do poder" a "alma demoníaca do poder". entregue a si mesmo. por efeito de uma Constituição que.5. instrumento que é de prepotências e iniqüidades de toda sorte. É explicar: para sair da democracia liberal para a social democracia. 2. Ali. pois que. sem essa limitação. sem . sem um mínimo de igualdade nas relações sociais de base (aquelas que definem o verdadeiro perfil da vida coletiva). de que a doutrina de SIEYÈS foi uma espécie de arremate jurídico.2. pela sua própria natureza (para além da famosíssima advertência de MONTESQUIEU.8. simplesmente porque o poder não tem alma). Uma normação apenas retórica ("simbólica". b) por outro. esse terceiro leit motiv da burguesia ascendente do final do século XVIII. autóctones e alóctones. desmanietação desse mesmo Estado frente aos proprietários dos bens de produção. É repetir: sem a limitação do poder econômico ou a aplicação de medidas saneadoras do mercado. A razão e a consciência humana assim o proclamavam (e proclamam).2. lastreia um tipo de Direito mais fortemente judicialista do que legalitário.8. assumisse postura intervencionista e dirigente em favor dos trabalhadores em particular e dos consumidores em geral. Justamente ela.

2. E porque a favor da vida..) É preciso haver.. porque a favor da vida (como tudo que decorre do trabalho a quatro mãos da consciência e da razão humanas). maior a cota de liberdade concreta de cada qual desses contingentes. 2. 4 e 5 do seu caderno "MAIS".apoio individual e familiar .2.7. recuar já significa avançar. Como observou JOHN KENNETH GALBRAITH reconhecidamente um dos maiores economistas do século XX. um salário mínimo humano. Receosos da cobrança que a sociedade política certamente lhes faria quanto a essa esdrúxula idéia de que. E também um imposto de renda decididamente progressivo. seguridade social e boa assistência à saúde são reconhecidamente uma parte da resposta. E viagem sem volta. O bolo da riqueza nacional tem uma lógica peculiar que o faz crescer. Retornar a uma genérica situação de exclusão econômica das massas despatrimonializadas e sem renda minimamente decente (este o invariável déficit social da contabilidade liberal do século XIX e do primeiro quartel do século XX) já sinaliza o definitivo ingresso "na era da modernidade". Como se a desnaturação. uma rede de segurança eficaz . E quanto maior o número de contingente de pessoas aproximativamente iguais. essa passagem do constitucionalismo liberal para o social.8. um golpe militar ou coisa que o valha.8. no entanto.aos que vivem nos limites inferiores do sistema. Hoje está claro que os Estados Unidos exercem uma liderança mundial negativa nesse sentido. continuamente. "(. deve. já representa para os países emergentes uma participação igualitária ou descolonializada na economia de mercado dos países tradicionalmente centrais. nada mais restringe a liberdade. Uma organização sindical forte e eficaz. e as que ainda são necessárias. Desfazer conquistas sociais já representa arejamento das Constituições. É o que se lê em alentada conferência que a Folha de São Paulo transcreveu às pp. Temerosos os novos teóricos da Constituição do debate aberto com a nação. ou abaixo deles. "(. fazê-lo de mãos dadas com a coordenação e a proteção da política nacional social e de assistência".. Mas tampouco pode haver um internacionalismo insensato que sacrifique as conquistas sociais do último século. e não no cenáculo ampliado do Poder Constituinte. à medida que é mais compassiva ou solidariamente dividido.dúvida que a primazia é para a igualdade (cuja essência está numa aproximativa distribuição de patrimônio e de renda). pois é muito mais plausível um povo igual vir a desembocar numa sociedade libertária real. acima de tudo. no sistema capitalista. O internacionalismo vai avançar. ou.8. numa mesma sociedade. desobrigar e até proibir o Estado-nação do controle de sua própria economia. Viagem sem volta. do que um povo livre vir a desembocar numa sociedade igualitária de fato. 2.. é que seu desfazimento no bojo do Estado neoliberal está a se verificar no forum restrito do Poder Reformador. Nada estabelece limites tão rígidos à liberdade de um cidadão quanto a absoluta falta de dinheiro. do que a falta absoluta de dinheiro. da qual reproduzimos estas preciosas considerações: "O sistema de mercado distribui a renda de forma altamente desigual. e também necessário para a liberdade humana. uma aventura armada.) Não há possibilidade de um compromisso estreito com a nação-Estado.. agora. edição de 20 de dezembro de 1998. principalmente na área do capital financeiro-especulativo (o pior vilão do final do século XX e do início deste milênio). pior . Enfim. Concordamos com isso. Isso é humanamente essencial. O mais curioso ainda é que uma parte dos defensores da interpretação light ou abrandada das cláusulas pétreas está convencida de que esse tipo de exegese tem o mérito de colocar a própria Constituição a salvo de uma quartelada. portanto..

o poder constituinte estaria a normar sobre ele mesmo (e não sobre um poder simplesmente constituído). ou o Poder Constituinte impõe a si próprio um campo exclusivo de atuação.1. que vimos em estudo da lavra de PAULO MODESTO. na matéria. 2. As fronteiras que separam as duas categorias têm que ser fixas. não pode deixar de ser maniqueísta. aí. publicado às pp." 2. mesmo naquelas hipóteses em que a Constituição autorizasse a sua total reforma. porque. que diferença faz entre golpeadores assumidos e golpeadores enrustidos.9.9. a supressão pura e simples de uma cláusula pétrea não fosse por si mesma um golpe. pela inescapável distinção entre o poder constituinte e o poder constituído. capítulos e demais técnicas legislativas de agrupamento lógico-operacional de temas afins. O Poder Constituinte como o poder que pode o mais sem poder o menos.1. Não pode fugir da radicalidade. procedimentos e valores que tornassem a Constituição autorizante um zero à esquerda. e o Poder Constituído como o poder que pode o menos sem poder o mais 2. como aquele preciso poder de fato que a Constituição quis evitar.. ele teria a possibilidade de se assumir como coveiro da Constituição que o fez nascer e aí privaria de sentido a própria e verdadeira função constituída. Esse paradoxo não deixaria de se configurar. ou perde a razão-de-ser da sua autonomia conceitual. e como sairia aparelhado esse poder de reforma? Sairia aparelhado com a energia assassina de poder se assumir. ano de 1994)? 2. pois o raciocínio técnico. a de impedir o surgimento de um poder revolucionário. a todo instante. aristotelicamente: "cada coisa em seu lugar". alternando a seu gosto os planos do ser e do dever-ser. Por dedução. tal autorização de reforma global só pode ter de global a possibilidade de opção por uma nova estrutura formal da Constituição. Que paradoxo então se apresentaria aos olhos incrédulos do estudioso dos fenômenos político-jurídicos! A Constituição originária criaria um poder cuja função seria a de reformá-la para que ela não perdesse a atualidade e assim atualizada pudesse inibir o surgimento de um poder de fato que a retirasse do mundo dos vivos. mesmo quando este venha a operar sob as vestes de um Poder Reformador. que é.2. uma nova distribuição de títulos. se ela já não sobrevive às ações de nenhuma das duas tipologias de constituicidas (metonímia do vocábulo "constituicídio". é o que . Deveras. a renumeração de dispositivos..8. como. fora daquele mencionada espaço preambular da Constituição (. O Poder Constituinte é o Poder Constituinte e o Poder Constituído é o Poder Constituído.2. 76/78 da Revista de n° 5 do Ministério Público da Bahia. pra não ser morta. É que. Afinal. Não flutuantes.9. A questão não é nova em nossa própria elaboração teórica.1.. para a Magna Carta.1. por exemplo. Todo este nosso esforço analítico é para dizer. sob o título de "A Reforma Constitucional e sua Intransponível Limitabilidade": "Se o poder constituído pudesse a qualquer momento se travestir de poder constituinte..).ainda.9. Nunca a opção por conteúdos.9. pois sobre ela assim já nos pronunciamos em estudo simultaneamente publicado em Espanha e Portugal. A superação da idéia de autolimitação como fundamento da sumissão do Estado a deveres 2. a roupagem linguística. como bem o disse o constitucionalista argentino REINALDO VANOSSI.

mais profilático nos quadrantes da Ciência Política e da Ciência Jurídica. 2. pois ele significa a força de elaborar a Constituição.1.5. sem perder de vista nenhum dos dois aspectos. 2. 2.6. O charme. jamais o nome "Constituição" passaria a verbete do vocabulário jurídico-positivo. no entanto. Ou ela possui a força de fazer algo sozinha. É desaprender a lição da História e reexibir um filme cujo tenebroso final já se conhece. E o Poder Constituído? É e sempre será o poder de fazer o menos sem nunca chegar a fazer o mais. 64 da obra "CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL". Não fosse para o cumprimento desse prioritário papel de dobrar a cerviz legislativa do Estado.2. 2.9.9. então.22 2. Aquelas.9. começando pelas cláusulas formais e terminando pelas materiais. se a Constituição fosse obra do Estado. 1996). Petrealidade necessariamente dúplice. ou decai da condição de documento jurídico supremo.9. mormente o Estado.8.1. no sentido de que ele detém a competência para reformar a Constituição. único mesmo. o glamour o sex-appeal da Constituição. nascido e reformável por um processo peculiar. tudo procede do fato de que somente ela pode impor eficazes limites a quem pode impor eficazes limites à população. se a Constituição já não provém de um poder capaz de dar a última palavra em matéria de limitação mesma? Afinal.3. mas não a potência para trocar essa Constituição por outra.4. com absoluta exclusividade.1. pois só cabe falar de unigenitariedade jurídica se se está diante de um modelo prescritivo que. citando HANS KELSEN (p.9. Qual a conseqüência teórica de um Estado que se autodeslimita a qualquer instante? O reconhecimento de que a Constituição desse Estado não é filha unigênita do Poder Constituinte coisa nenhuma. Contra tudo e contra todos. O Poder Constituinte e sua força de mesclar valores jusnaturalistas e valores positivistas .1. que é o sentido formal. mais propedêutico.9. 6ª edição. Bater nessa mesma tecla é o que há de mais didático.21 2. Não são meras palavras. a qualquer momento.1. de que falamos antes. 2. E como impor eficazes limites a quem pode impor eficazes limites à população. conforme se lê em PAULO BONAVIDES.sucede com a Magna Carta. E o Estado que se autolimita encontra em si mesmo o fundamento lógico de sua autodeslimitação.7. pois é dessa diferenciação que decorre todo o prestígio dogmático e sociológico da Constituição.9. a não ser no sentido puramente material de conjunto normativo que se refere "aos órgãos superiores e às relações dos súditos com o poder estatal".1. ainda há pouco mencionada). posicionando-se como condição e garantia destas últimas (do que deflui o descarte da astuta revisão constitucional em dois tempos. mas não a aptidão para reformá-la. Indisputavelmente. toda limitação a ele imposta não passaria de autolimitação. do sentido que mais conta para uma científica elaboração do conceito de Constituição. Privando-se. é pela sua força única de se impor ao Estado que a Magna Carta pode transitar das suas cláusulas formais de intangibilidade para as cláusulas materiais igualmente irreformáveis. mas toda uma lógica elementar que subjaz a essa intransigente distinção entre o que é constituinte e o que é constituído. tenha por principal função metodológica a de manter essa peculiaridade. O Poder Constituinte é e não pode deixar de ser o poder que pode o mais sem poder o menos. claro. E desconsiderar essa lógica estrutural do pensamento político e jurídico é assim como sobrepor à realista afirmação de que contra fatos não há argumentos o alienante juízo de que contra argumentos não há fatos. Malheiros Editores.

Um modo de se resguardar a Justiça pelo direto gradeamento da toca dos lobos.4. A Constituição melhor realiza a idéia do justo por si mesmo na medida em que pode dizer: I . ou do Bem Comum (devido ao carregado teor de subjetividade desses ideais). II . .9. na medida em que se lhe reconheça o laço unigênito que a prende ao Poder Constituinte. é o que de mais garantido se pode obter em defesa da Justiça. quais os conteúdos positivos da Justiça. Do quanto de objetivo pode se conter na Justiça como ideal de convivência humana. ou da Justiça. foi em atenção ao maravilhoso fato de que só a Constituição se tornou um definitivo ponto de encontro entre o postulado positivista da Ordem e o axioma jusnaturalista "da Justiça que advém da reta razão".2. acresça-se. a reduzir cada vez mais os espaços de inclusão popular na riqueza material do País. exatamente como da Ordem falava KELSEN? Claro que esse diploma normativo é a Constituição! Não pode ser outro! 2. Então. 2.que ações o Estado não pode praticar perante os indivíduos e os cidadãos (postulado advindo do pensamento liberal e que.9. limitar a ambos já significa fragilizar quem mais fragiliza aquele ideal de Justiça. o balizamento em si do Estado. com total objetividade. Esta. se o valor fundante do Direito não está nos valores da Paz. o seu oposto ou contravalor. e. é. 2. outra vez). de que ações efetivas depende a convivência em bases justas. a também sistematicamente encurtar os espaços de influência da população nos processos de tomada de decisão e funcionamento do Estado. E.2. é ainda a Constituição o documento-símbolo por excelência. quando se permite ao Estado tudo se permitir. Quando dissemos que a Magna Carta significou a maior revolução jurídica de todos os tempos . como desenganadamente são a opressão política e a exploração econômica.5. Ambas de incidência fatal.9. E como já se sabe que os inimigos figadais do justo-racional são esses dois poderes . se se põe como valor fundamental do Direito o postulado jusnaturalista do justo-racional.2.2. Vale dizer: sabe-se perfeitamente bem que determinados modos de agir são a negação mesma da Justiça. ao lado dos mecanismos realizadores do princípio da Separação dos Poderes.2. perfeitamente possível dizer que ações humanas são protuberantemente contrárias ao referido valor. do justo ditado pela reta razão. por tabela. 2. de modo a permitir a todos o conhecimento antecipado das conseqüências objetivas das próprias ações. que ações humanas concretizam ou materializam o ideal do Justo.que ações o Estado tem que praticar perante o poder econômico (postulado oriundo do pensamento social-democrata. do poder econômico. porém no valor objetivo da Ordem (que outros chamam de Segurança). Se não é possível dizer. no entanto. de fato. do "justo por si mesmo" (GEORGES BURDEAU. E a a fórmula operacional é simples.9. De outra parte. aquela. para não deixar que o Mercado passe de motor da História a mentor dessa mesma História).e que agora o mundo ocidental passa por uma obscurantista fase contra-revolucionária -. perguntamos: Qual o documento jurídico-positivo que melhor espelha a idéia de estabilidade em que a Ordem se traduz? O diploma que mais duradouramente lança as regras elementares do "contrato social". E esse papel axial só pode recair sobre a Constituição.1.2. tem por objeto impedir os abusos do poder político). Nenhum outro modelo jurídico-prescritivo serve melhor a essa idéia central do justo acima de qualquer suspeita.9.2. Combater os que mais combatem o justo por si mesmo.3.o poder econômico e o poder político -.

2. pela sua essencialidade. o seu campo divisional operativo. já no próximo capítulo. a viva consubstanciação desse balizamento. a Magna Carta se confunde com a própria função principal que lhe cabe cumprir. O tema que mais caracteristicamente recheia o conteúdo de suas normas.2. E assim altaneiramente postada. Aquilo que melhor define a sua requintada funcionalidade. O Código e sua principal função. É igual a concluir: mais que até mesmo balizar. a sua medula.7. Por isso que.9. a encarnação mesma. isto é. 2. conseguintemente. resumindo em si a estratégica função de limitar o Estado e o poder econômico. porque o balizamento é a sua natureza. .2. a Magna Lei tem nessa limitação a sua própria causa formal. Não pode deixar de ser.9.23 Assunto a retomar.6. passam a compor uma só realidade. Está aí a demonstração de que somente a Constituição pode se colocar enquanto ponto de convergência do que o juspositivismo e o jusnaturalismo têm de mais característico. a Constituição é a síntese possível. mais do que se tipificar pelo papel de balizar o Estado (a contenção do poder econômico vem por gravidade). a Constituição é balizamento.

de sorte . ou o que emenda a própria Constituição) e Poder Legislativo usual (o que elabora as leis complementares à Constituição. Como a Constituição não pode deixar de se por na linha de partida do Direito . uma nova ilação é de ser feita: a Constituição é um divisor jurídico de águas. mesmo que tal Direito se expresse por atos de reforma da Magna Carta.Capítulo III .filha unigênita que é do Poder Constituinte -. no sentido de que há um Direito-Constituição e um Direito pós-Constituição. E sendo estatal. discriminado este em Poder Reformador (o que revisa. O primeiro.8. nesse ou naquele aspecto. mais concorrem para demarcar os espaços de radical separação entre ela mesma e os atos de sua reforma. 3. indicaremos aquelas especificidades da Constituição que. A Constituição e sua retroeficácia de dupla face: em abstrato e em concreto 3.1. é porque não é constituinte (JORGE MIRANDA). o segundo. O fundamento supra-estatal e suprapositivo da Constituição 3.6. nele efetivamente se transfundindo e formalizando-o numa Constituição. mas sempre com a virtualidade de operar no atacado. O que dissemos ali reafirmamos aqui: a sociedade política ou nação é a única a experimentar o Poder Constituinte.1.3. 3. nascido do Poder Constituinte. as leis ordinárias e demais atos de formação da vontade normativa primária do Estado1). A Constituição como critério de classificação de todo o Direito 3.3. de ponta-a-ponta.2. A compulsão da rigidez formal da Constituição 3. A Constituição como atestado de efetiva soberania nacional 3. no global. desconstituir por inteiro o Estado preexistente). a primeira classificação que se faz sobre o Direito legislado é com os olhos postos na Constituição. A Constituição como a lei das leis 3.1. negamos o que em outros estudos afirmáramos: a existência de um Poder Constituinte de segunda geração ou de segundo grau. mas não criar um Estado zero quilômetro. Neste capítulo. O ponto inicial do novo estudo é precisamente a parte em que o capítulo anterior foi concluído. E sem esse poder de plasmar ex-novo e ab novo o Estado (que é o correlato poder de desmontar.1. o máximo que lhe cabe é retocar o Estado. ou seja. é porque sua ontologia é igualmente estatal. por inteiro e de uma só vez. então de poder constituinte já não se trata.1. 3. apelidado por boa parte da doutrina como Poder Constituinte Derivado. Como tantas vezes dissemos. se é um poder derivado. as leis delegadas. A Constituição como critério de hierarquização das próprias normas constitucionais 3.2. Se o poder é exercitado por órgão do Estado.1. ainda que para o fim de reformar a Constituição.4.7. querendo.4.1.5. Por isso mesmo é que somente ele é que irrompe no cenário político para a epopéia jurídica do começar tudo de novo. pela consideração elementar de que. Não existe esse Poder Constituinte Derivado. Forma de atuar. o verdadeiro e único Poder Constituinte é um poder de construção e ao mesmo tempo de demolição normativa. A Constituição e a fuga de suas normas a exame de validade 3. Com esta afirmativa de que o Direito pós-Constituição é sempre a manifestação de um Poder Constituído. nascido de um Poder Constituído.As Especificidades da Constituição Sumário 3. a nosso ver. A Constituição como critério de classificação de todo o Direito 3.

e quem reforma a Constituição está impedido de editá-la. Mas sempre na condição de um Poder Constituído.1. pois aquele que só existe para fazer o todo não pode fazer a parte e aquele que só existe para fazer a parte não pode fazer o todo (evidência palmar). no uso do seu poder reformador. Direito Comercial e demais "províncias" ou setores cientificamente autonomizados do Direito. mas em um outro sentido. no fundo.1. nem todo repositório de normas constitucionais é uma Constituição (basta que lembremos as normas transitórias que se veiculam por emenda.1.10.9. Mais até: se toda Constituição é um repositório de normas constitucionais. Se o critério de classificação dos ramos jurídicos em públicos e privados é a . Não a Constituição. incorrem no erro (venia concessa) de tomar a parte pelo todo. 3. ou por revisão. mas sem poder o mais (trocar uma Constituição por outra). que são normas destinadas a vigorar de forma paralela ao Magno Texto. 3. Uma parte.e daí em ramos públicos e privados do Direito -. Não-simplesmente normas constitucionais. Quando os jurisperitos bifurcam o Direito legislado em público e privado. que já é uma função de atualizar. Ora atua como produtor de normas gerais não-constitucionais (porque não destinadas a mexer na Constituição). É do nosso pensar que. O que esse Poder elabora é a Constituição (reiteremos o juízo. 3. da grande árvore jurídica. antes de comportar segmentação interna em províncias ou setores . já se põe como contraponto do Direito-Constituição. e não toda a árvore. O que se divide em público e privado é o Direito pós-Constituição. pela sua fundamentalidade).1. o Poder Reformador é o poder de constituir tão-somente normas constitucionais.1.6. apenas. A Constituição (e não suas emendas ou revisões) a se postar como inafastável critério de classificação de todo o Direito. Não é. ora atua como produtor de normas gerais constitucionais (porque destinadas a reformar a própria Constituição). Se o verdadeiro e único Poder Constituinte é um Poder que pode o mais (elaborar a Constituição). porque normas constitucionais o Estado também produz. categorizar como Poder Constituinte Derivado o poder de reforma da Constituição é cair numa ilusão de ótica: ver o Poder Constituinte Originário (o vocábulo "originário" é até dispensável. Mais enfaticamente: se o Poder Constituinte é o poder de constituir a Constituição não apenas normas constitucionais -. Direito Civil. 3. Só que essa parte do fenômeno jurídico-positivo. como realçado no capítulo precedente.2 3.1. e não dentro dele). o Poder Constituído é também ambivalente. porque estatal e positivamente exercitado. Na sua função de atuar debaixo da Constituição. Não para a função auxiliar do retoque na Constituição vigente. mas sem poder o menos (reformar a sua própria obra legislativa). É o segmento não-constitucional-originário do Direito. Se toda norma contida em dispositivo da Constituição originária é norma constitucional. nem toda norma constitucional é norma contida em dispositivo da Constituição originária. Direito Tributário. o Poder Constituído é um Poder que pode o menos (modificar a obra do Poder Constituinte).a trocar uma Constituição por outra e assim dar à totalidade do Ordenamento Jurídico um novo fundamento de validade. Tudo a espelhar: quem edita a Constituição está impedido de reformá-la.8.5. mas não de substituir o fundamento de validade do Ordenamento por inteiro.3 3. porque pleonástico ou redundante) como o poder de elaborar normas constitucionais. Donde a nossa afirmação de que o Direito legislado principia pelo Direito-Constituição e prossegue com o Direito pós-Constituição. Direito Penal. que já e um Direito elaborado pelo legislador constituído: Direito Administrativo.7.

O verbal a conviver com o não-verbal.2. enfim. é preciso tocar nas suas normas com a delicadeza de quem lida com peças de cristal. Ele ainda engloba as normas de reforma constitucional e o fato é que essas normas não têm a mesma hierarquia da Constituição. o silêncio que já não traduz a intenção do nada-dizer. lógico. seja qual for o ato de reforma constitucional. Conforme dissemos em nota de rodapé. O que nos estimula a formular a proposição de que o Direito Constitucional é ramo jurídico. 3.2.12.1. ora de tratamento paritário dos interesses das partes (Direito Privado). como a Constituição. Mudam-se algumas de suas partes para que o todo prossiga idêntico a si mesmo.2.nítida vertente que eles ostentam para compor relações. sim. que é uma coisa viva ou em movimento. na exata disposição de cada verso e de cada estrofe na ossatura do conjunto. É que ele tanto contém segmentos normativos de favorecimento das pessoas privadas perante aquele que simboliza os imediatos interesses da sociedade (e essa contraparte é a pessoa jurídica do Estado. não há como dizer a que bloco pertence o Direito Constitucional. a ponto de mais adiante demonstrarmos que. a serviço da mesma causa. o poema é o somatório de suas palavras. a Constituição. porque o Direito Constitucional como um todo tem na Constituição o seu necessário ponto de partida. ora de tratamento favorecido daquela parte que simboliza os imediatos interesses da sociedade (Direito Público). justamente. cumprindo o não-verbal o papel do silêncio-eloqüente. e passa à condição de simples água salobra. Ela consubstancia um tipo tão articulado de unidade que faz lembrar a composição e o sentido de um poema. 3. seccioná-las.1. fala pelas palavras nele grafadas e ainda fala por palavras que nele não foram grafadas. mas que se faz silêncio mesmo para poder melhor dizer. Tanto não têm que se assujeitam a exame de validade perante. hipoteticamente. Se este se constitui de palavras. Enfim. mas não o de chegada. destacá-las do conjunto. E tudo isto quer dizer que o poema.2. No caso da poesia. A Constituição como critério de hierarquização das próprias normas constitucionais 3. Ante a Constituição. é quase sempre repetir o fenômeno que decorre de se colocar. a teia invisível que vai de uma vocábulo a outro e de uma expressão a outra. substituí-las. que é uma coisa morta ou sem mobilidade própria.1. Adicione-se a esta particularidade (a de ser o Direito Constitucional infenso às categorias do público ou do privado) mais uma nota específica: a Constituição é documento normativo tão singular que não se confunde nem mesmo com o somatório mecânico de suas normas. como tantos outros. 3. Centremos agora as nossas atenções investigativas na distinção entre a Carta Magna e o Direito Constitucional como um todo. lato sensu) quanto o inverso. desde que veiculem . o que era a riqueza de um poema fica rebaixado à pobreza de simples vocábulos. Permutá-las. um pouco de qualquer das ondas do mar em um balde: a onda removida perde instantaneamente a qualidade de onda. as entrelinhas. porém diz mais que o somatório de suas palavras. 3. não se recusa aos atos de reforma constitucional a força de se incorporar ao documento reformado. tais palavras somente conservam íntegro o seu papel de servir a uma obra de arte se permanecerem no contexto da poesia e no exato lugar em que se encontrem. pois nele ainda contam os intervalos. ou seja. é verdade.11. a Constituição deve permanecer inteira em sua quintessência. mais do que perante qualquer outro diploma jurídico. Ela é mais que o resultado do ajuntamento linear das suas partes. porém nem rigorosamente público nem privado.

tudo se encarta de modo igualitário numa única província jurídica. ou de Direito Processual e Código Processual. ou da especialidade de assunto. os códigos por acaso existentes. Aqui. porque sindicável a todo instante quanto à sua validade. de Direito Penal e Código Penal. O critério dirimente é um só. 3. Por conseguinte. todavia.6. Se tal ocorresse. sem a necessidade de nova manifestação formal do Poder Reformador.2. Ora de forma definitiva (pela via do controle concentrado). é procedente a diferenciação nominal.8. Nos outros ramos jurídicos. (pense-se na intocabilidade das chamadas "cláusulas pétreas". Esse condicionamento ou essa precariedade de inserção no Magno Texto não significa.2.3. não têm o seu regime jurídico ditado pelo código mesmo.normas permanentes. Eles não podem se autoexcluir do controle de constitucionalidade e isto já comprova que o seu modo de entrar no santuário da Constituição é sempre condicionado. nascidas posteriormente ao código. pela cristalina razão de que as eventuais antinomias entre a Constituição e as normas constitucionais que lhe sejam posteriores já não se resolvem por aqueles dois critérios da posterioridade do espécime normativo. que somente depois de passar pelo crivo jurisdicional de validade é que todo ato de reforma constitucional ganha o status de norma de primeiro escalão jurídico. ou seja. por conseqüência. Não é esse o modelo de compreensão da dualidade temática Direito Constitucional/Constituição. o certo é que existe uma diferença qualitativa . as emendas e revisões constitucionais se privariam daquilo que nem às leis comuns e aos demais atos oficiais do Poder Público é recusado: a presunção de juridicidade.nunca é demais enfatizar . porque esse tratamento nominal diferenciado não tem a menor relevância interpretativa. assim. e. 3. não gozam. O que vem a significar ingresso menos altivo dos atos de reforma da Constituição no próprio documento reformado é que esse ingresso pode ser confiscado. 3.2. verbi gratia) ou se expõem à declaração judicial de invalidade. Leis extravagantes. As eventuais antinomias normativas se resolvem pelos conhecidos critérios da posterioridade (a lei mais nova prepondera sobre a mais velha). Por isso que não cabe falar. e ele é de ordem hierárquica: ou as normas de reforma da Constituição guardam aquela conformidade processual e material que lhes assinalou a própria Constituição. mas não o contrário). a Constituição é a parte superior desse ramo jurídico. É incorreto falar-se de qualquer dos códigos infraconstitucionais como lei das leis de sua própria reforma.2.5. se constituem a parte central de tais ramos. Fora do Direito Constitucional. Mas se trata de uma incorporação normativa sempre a título precário. que. Seja qual for a hipótese de desaplicação ou de desconsideração operacional do ato de reforma. então. 3. menos altivo. Coisa que não existe em nenhum outro ramo autonomizado do Direito.4. a norma que penetrou na Constituição pode sofrer cassação de eficácia. Mantém com ele o mesmo tipo . 3. verbi gratia. mais que segmento central do Direito Constitucional.2.2. 3. ou de Direito Mercantil e Código Mercantil. da especialidade material (a lei especial revoga a lei tematicamente geral.7. ora para um determinado caso (pelo trilho do controle difuso). ou.entre as normas constitucionais originárias e aquelas que se lhe seguirem temporalmente. à falta de hierarquia entre os respectivos comandos legais. ou complementação. de superioridade hierárquica frente às leis extravagantes (assim designadas por vagarem a latere do código). porque essa diferenciação repercute no campo hermenêutico. Do que decorre a impropriedade técnica de se buscar nos códigos infraconstitucionais o fundamento de validade das regras legislativas que se lhes sobrevierem. óbvio. E repercute.

pois como inovar uma coisa ou entrar em algo que só passa a existir. sendo a validade uma espécie de ticket ou bilhete que uma norma inferior recebe da que lhe seja imediatamente superior para ingresso na região das positividades jurídicas. não apenas superior. como anterior à norma qualificada. Ao cabo e em síntese. O que não significa dizer que exista diversidade hieráquica no interior da própria Constituição originária. pelo fato evidente de que a Constituição desconhece norma positiva que lhe seja anterior. que a Constituição dá origem ao conceito de validade como atestado de filiação de uma norma ao Ordenamento Jurídico. Bastaria que a norma existisse.hierarquizado de relação que entretece com o próprio Ordenamento como um todo.3. Ora. pelo critério da hierarquia. porém como algo situado do ângulo de cima. no mais alto patamar do esquema de supra-infra-ordenação em que o Direito consiste? 3. não entra em um anterior Ordenamento Jurídico. que é o . que a Lei das Leis é totalmente imune a exame de validade aclara a precedente afirmativa de que ela não inova o Ordenamento Jurídico. sim. e aí toda noção de validade seria praticamente vã. No fim das contas. todas as normas são paritariamente constitucionais. É uma das suas mais importantes especificidades. A Constituição faz parte do Ordenamento. Não que a Magna Carta vigore apenas ao lado do Ordenamento. se a Constituição Positiva já aparece como norma superior a todas as outras? Postada. 3. MERKL. E isto já inviabiliza qualquer tentativa de se impor à Constituição o exame de validade. não há como fazer o cotejo internormativo em que se exprime o juízo de validade. 3. se o modo de a Constituição fazer parte do Ordenamento não se dá por virtude de nenhuma outra norma (o Ordenamento é que principia com a Constituição. sendo a validade uma qualificação internormativa.3. na medida em que ela. no plano lógico.7.1.3.8.3. fosse produzida por uma autoridade do Sistema Normativo.3. Afirmar. dado que operante de uma norma para a outra. VERDROSS). o Ordenamento já não seria piramidal ou ortodoxamente hierarquizado.2. que. assim. Constituição. 3.3. é porque tem a força originária de dispor sobre o regime jurídico destas últimas. A cúpula do Ordenamento é que se objetiva na Constituição e esse estar por cima é o modo especialíssimo pelo qual se dá a interpenetração das duas realidades: a da Constituição e a do Ordenamento. 3. Constituição. e não simplesmente do ângulo de dentro.3. 3. Por outro aspecto. Aqui.9. e não a Constituição com o Ordenamento). o modo de ela mesma sair desse Ordenamento é igual àquele pelo qual entrou: a suprapositividade. Se ela é o início lógico de toda positividade jurídica (KELSEN. Por outra perspectiva. mas o exame de validade é que deita raízes na Constituição.4. para ao Sistema pertencer para sempre. não tem merecido da doutrina o devido realce.6. A Constituição e a fuga de suas normas a exame de validade 3. por virtude da Constituição mesma? 3.5 Sem ela. como um pouco mais à frente comentaremos. E só pode tê-lo. É mesmo por surgir no mundo cultural como o ponto mais alto da pirâmide jurídica. seja completamente insubmissa a exame de validade jurídica. solitariamente. se a Constituição não deixa que suas normas se nivelem às normas constitucionais que se lhe seguirem no tempo.3. como exigi-la para a Constituição Positiva.4 3.5. então. 3. todavia. Com efeito.2. logicamente. é preciso que a norma qualificante seja. nenhum ramo ordinário do Direito comporta o que o Direito Constitucional incorpora: a dicotomia entre as suas próprias normas.3. sem a companhia de qualquer outra norma. não é a Constituição que deita raízes no exame de validade.3. Paralela a ele.

não tenham sido geradas nem pelo Poder Constituinte nem . com a Constituição passe a entrar em rota de colisão no plano material. Desde que tudo se aloje num plano igualmente abstrato. após a nova Constituição. O princípio da recepção é seletivo por mais um título. Sem dúvida. sendo norma geral ou lei em sentido material.1. se tais normas apresentarem conteúdo discrepante daquele que timbra a nova regração constitucional. com os efeitos concretos dessa ou daquela regra antecedente. Com uma exceção. em alguns casos. gestada antes da Constituição. Ela pode conformar toda e qualquer matéria.4.6 3. Donde a compreensão de que todo ato de convocação ou de instalação de um órgão de deliberação constituinte só pode implicar rompimento constitucional no plano do dever-ser jurídico ("ruptura ou descontinuidade". E é precisamente por ter a Constituição a força de incidir. além de se revelarem acordes com a nova Lei Fundamental em conteúdo.3. 3. é indiscutível a prevalência automática do regramento de estirpe constitucional. pois a Constituição Positiva. as antigas normas gerais que entrarem em sintonia material com a nova Carta são instantaneamente carimbadas como normas sobreviventes. a Constituição originária se caracteriza pela força de romper compromisso com as normas jurídicas anteriores a ela. em suas disposições permanentes. conseguintemente. Ninguém melhor do que o Chefe da Escola de Viena para falar sobre a instantânea perda de eficácia de toda norma que. que normas igualmente abstratas continuem a gerar efeitos. de compromisso com a preservação de norma jurídica anterior. A subsunção que se passa a fazer no seio do Ordenamento.4.4.1. no preciso falar de CANOTILHO). A Constituição e sua retroeficácia de dupla face: em abstrato e em concreto 3. 3. é logicamente do tipo norma a norma. A questão que se põe não é essa.1. Do que deflui o primeiro sentido da retroeficácia da Constituição: ela não aceita. 3. que tanto comporta uma passagem traumática ou violenta de uma Constituição para outra quanto uma substituição consensual ou negociada. Cuidando-se de velhas normas gerais de natureza constitucional.2.1. isentando-se.1. 3. sejam as oriundas de reforma a essa Constituição precedente. Pelo ângulo reverso. Da lei infraconstitucional para a Lei Fundamental. nada sobrevive ao novo Texto Magno. não haveria mesmo de tolerar outras normas gerais com ela conflitantes em conteúdo (a não ser nos termos e condições em que o dissesse. todavia. explicitamente. e.9.1.4. A abstratividade. em abstrato 3. é o habitat ou espaço natural de existência da Carta Magna.3.reino da sempre originária manifestação do Poder Constituinte.4. pois ela chega para ocupar espaços que são próprios de todas as leis em sentido material. em dispositivo logicamente passageiro ou transitório). A retroeficácia da Constituição.4. sejam as regras iniciais da antiga Lei Maior. aduzimos que essa proposição está imbricada com outra: a aptidão que tem a Constituição originária para não conhecer tabus materiais. querendo. pois somente alcança aquelas normas gerais anteriores que. é precisamente por isso que se fala não haver direito adquirido contra ela. assim. Como derradeira ilação do fato de a Lei Maior eximir-se por completo de exame de validade. no interior do mesmo Ordenamento. Não necessariamente no plano do ser.4. até mesmo sobre relações jurídicas em concreto.

ora em regime de harmonia conteudística. de permeio com a própria vida. Ao contrário. É justamente para ressalvar a sua excepcional vontade objetiva de retroagir sobre essa ou aquela relação jurídica em concreto que toda Constituição Positiva se faz acompanhar de uma parte transitória de dispositivos (de parelha com a necessidade de indicar os casos. Realmente. pois o fato é que.4.4. E assim tem que fazê-lo. da sua postura no âmbito do confronto entre normas gerais (as da Constituição e as do Direito não-constitucional precedente). O silêncio da nova Carta já opera como cassação de eficácia das velhas normas gerais cujo conteúdo com os dela própria se tensionar. a liberdade. no mínimo. se tal ocorresse. ora em situação de desarmonia. pois expressamente passa a dizer que relações jurídicas são essas. pois. o teórico tem que se perguntar até que ponto um novo Código Supremo possui aptidão para desfazer efeitos que normas jurídicas anteriores já produziram à exaustão.2. sobre o qual nada é preciso dizer.2.4. uma das históricas razões-de-ser das Constituições escritas. No Brasil. Ela. o ato jurídico . Constituição. o novo Diploma Fundamental passaria a se caracterizar pela intransigente negação daquilo que é uma das impressões digitais de todo Magno Texto: operar como a parte mais estável do Ordenamento Jurídico.2. A retroeficácia da Constituição. ela mesma reconhece que se trata de aplicabilidade insólita. É falar: sempre que a nova Carta Política se deseja topicamente aplicável a relações já factualizadas por virtude de normas antecedentes. 3. O plano retroeficacial já não é o mesmo. institutos em que mais fortemente reluz o protoprincípio da segurança jurídica.6. invariavelmente erigido à condição de megaprincípio. agora. ou então para estancar efeitos que tais normas ainda estejam a produzir entre partes nominalmente identificáveis.4.4. 3. a igualdade e a propriedade (postulados liberais que marcam para sempre a trajetória das Constituições escritas). no gozo de sua condição ímpar de norma que provém de um poder que tudo pode. 5°. porque tais situações jurídicas são constitutivas do direito adquirido. em que a sua parte permanente deixa de incidir). ou da coisa julgada. quando o teórico se desloca do campo das precedentes normas gerais para o sítio das normas de efeitos concretos. Daí a freqüente positivação de todos eles como típicas figuras de Direito Constitucional. Tudo muda de perspectiva. ou do ato jurídico perfeito. porém.3. Aqui. 3. 3. Não! A retroeficácia constitucional não chega a tanto. ou o período. 3. ou.pelo Poder Reformador.1.5. a Constituição não mais está no seu habitat. mesmo. Ela não chega para atuar enquanto norma de efeitos concretos. nem por se traduzir na força de zerar a contabilidade jurídica a nova Carta há de ser interpretada como automaticamente inconvivível com toda e qualquer relação jurídica nascida e até resolvida à sombra do velho Ordenamento. para com outras normas de efeitos concretos se encontrar. por forma a revelar sua claríssima intenção retro-operante.2. para retroincidir sobre situações já consolidadas no universo jurídico-particular das pessoas tem que fazê-lo por explicitude. sempre que tais relações concretas se friccionarem com os novos comandos constitucionais.4. em concreto 3. A não ser que o diga por forma inequívoca. pois.1. segundo a qual "a lei não prejudicará o direito adquirido.1. Aquele pedaço do Direito que mais prestigia o princípio da segurança jurídica. a norma constitucional que versa a matéria (inciso XXXVI do art.2.

6. ainda que dela desbordantes. principalmente. a Constituição precisa dizê-lo. Colocaria a sociedade em polvorosa ou de pernas para cima. tanto quanto cumpre um papel de não-preservação dos modelos jurídicos apenas existentes no plano da abstratividade. 60).2. Dupla e díspare função do silêncio normativo-constitucional. pela sua estratégica importância. ao tempo da promulgação do Magno Texto. ou em dadas circunstâncias.reconheçamos . e que ainda são clausulados como tema insuscetível de nova conformação de menor carga protetiva do indivíduo.2. para manter por algum tempo. 3.2.4. nada precisou dizer. Direitos e garantias que vão compor uma paliçada defensiva dos particulares contra o Estado.para ressalvar a eficácia temporária de norma geral com ela (Constituição) em . na medida em que: I .2.para estancar a eficácia das normas gerais anteriores com ela discrepantes.4. é de se presumir como operante para as que se produziram antes da nova ordem constitucional. 3. se tais modelos se revelarem desafinados.7 3. Ora.e a freqüente imemorialidade de certas relações jurídicas em concreto (qual o marco temporal da retroação da nova Carta? A última Constituição? A penúltima? A primeira delas?). pois o febricitante revolver de sepulturas jurídicas teria que alcançar relações cujos autores seguramente já não estariam neste mundo de "aquém-túmulo" (MÁRIO DE ANDRADE. Salvo se regra transitória da nova Constituição lhes cassar por modo expresso a respectiva eficácia. com a nova regração constitucional. A Constituição Brasileira de 1988 é um bom retrato falado do que estamos a proposicionar.5. a estabilidade que a nova Constituição imprime àquelas que se produzirem a partir dela mesma. Principalmente se considerarmos o tempo médio de vida de uma Constituição .uma generalizada exumação de relações jurídicas em concreto faria do novo Código Político um diploma normativo tão confessadamente odioso que tocaria os debruns da insanidade. em conteúdo. Reiteremos o juízo.4.7. Tudo se resume em saber distinguir entre o que existia enquanto modelo jurídico em abstrato e enquanto modelo jurídico em concreto. o que terminaria por retirar da Constituição a própria possibilidade lógica (eficácia) e social (efetividade) de incidência.perfeito e a coisa julgada") faz parte do capítulo atinente aos direitos e garantias individuais e coletivos . Para sonegar eficácia às normas gerais anteriores e de conteúdo discrepante. 3. II .4. no desfrute dessa altaneira posição intra-sistêmica. O silêncio da nova Carta cumpre um papel de preservação do que já gozava de concretitividade. Do terrorismo normativo. Como precisa dizer que relações em concreto (já carimbadas pela velha Ordem como situações ativas de caráter permanente) passarão a sofrer desfazimento ou paralisia eficacial.que é expressivo . Como nada precisa dizer para manter íntegras as relações em concreto que vier a encontrar (desde que tais relações contenham o timbre da definitividade). uma norma geral anterior de conteúdo discrepante. portanto. Reversamente.4. Constituição. do ato jurídico perfeito e da coisa julgada exijam um tipo de interpretação que se traduza no seguinte: a garantia em que elas se constituem na nova Ordem há-de ser uma confirmação daquela igualmente reconhecida pelo velho Ordenamento. até mesmo por via de emenda constitucional (inciso 4° do § 4° do art. o poeta). a nova Constituição nada precisa dizer. Até porque . Como nada precisou dizer para preservar a operatividade daquelas não-discrepantes. ou se a parte permanente da mesma Carta agasalhar normação que prime pela hostilidade à continuação tipológica de qualquer delas. Em sede de relações concretas. natural que as três estelares figuras do direito adquirido.

a partir de cento e oitenta dias da promulgação da Constituição. quando o cotejo se dá entre a normatividade das emendas e as multirreferidas situações jurídicas em concreto (que são relações já permanentemente ornadas de subjetividade). ato jurídico perfeito. Todavia. ilustrativamente: a) atacou o direito adquirido. no prazo máximo de oito anos. de par com atos jurídicos perfeitos. decorrentes de quaisquer empréstimos concedidos por bancos e por instituições financeiras. § 7°. Percebemos.8 b) imiscuiu-se no conteúdo de decisões judiciais com trânsito em julgado. (.2. 3.)". b) "Art. no art.). é que tem o condão de se colocar para dentro ou para fora da faixa da retroincidência.3. que "Na liquidação dos débitos. 47. a partir de 1° de julho de 1989.8. desde que o Poder Judiciário não as declare inválidas.. Ficam revogados. 3. c) voltou a mexer no teor da coisa julgada. 27°. por decisão editada pelo Poder Executivo até cento e oitenta dias da promulgação da Constituição".estado de fricção material. Assim é que.)". para poder se autoexcluir. 33. ao prescrever. A retroeficácia apenas em abstrato das emendas à Constituição 3. Em Estados como o Brasil. sacou de preceitos desta espécie: a) "Art. O mencionado inciso XXXVI do art. não se admitindo. pois somente ela. contudo. todos os dispositivos legais que atribuam ou deleguem a órgão do Poder Executivo competência assinalada pela Constituição ao Congresso Nacional. Quando o confronto a fazer é entre as normas gerais das emendas e as normas gerais de vinco infraconstitucional. o Tribunal Federal de Recursos exercerá a competência a eles atribuída em todo o território nacional (. que deve ser recebida em termos ou sob a prudente cláusula do modus in rebus a asserção de que "não há direito adquirido contra a Constituição".. com atualização.. nem da coisa julgada.3. invocação de direito adquirido ou percepção de excesso a qualquer título".)".. por conduto do artigo 17. bem como os proventos de aposentadoria que estejam sendo percebidos em desacordo com a Constituição serão imediatamente reduzidos aos limites dela decorrentes.1. ao rezar que "Os vencimentos. as vantagens e os adicionais. 3.4. não deixou de se fazer explícita no seu corpo transitório de dispositivos. ou coisa julgada. de conseguinte. nem do ato jurídico perfeito. ou não. a remuneração. de confrontar situações em concreto com os atos de reforma constitucional.3. ao estatuir. que "Ressalvados os créditos de natureza alimentar. emenda não é a matriz normativa do direito adquirido. Tratando-se. poderá ser pago em moeda corrente. porque. neste caso. incluído o remanescente de juros e correção monetária. inclusive suas renegociações e composições. iguais e sucessivas. o olho do analista deve se deter é no originário modo pelo qual a Lei Maior dispôs sobre a matéria. 3. ainda que ajuizados.. o valor dos precatórios judiciais pendentes de pagamento na data da promulgação da Constituição. de incidência perante as três emblemáticas figuras. agora.3.2. 25. o equacionamento jurídico da questão muda acentuadamente de foco..4..3.4. Constituição originária. em prestações anuais. até o modus in rebus ("para cada coisa existe a sua medida própria") deixa de ser admitido..4.4. III . não existirá correção monetária desde que o empréstimo tenha sido concedido: (. é claro que a primazia é das emendas. 5° da Constituição de 1988 não nos .para rever o passado das pessoas que já encontrou na posição de partícipes de relações consubstanciadoras de direito adquirido. no art. sujeito este prazo a prorrogação por lei. Até que se instalem os Tribunais Regionais Federais. especialmente no que tange a (.

portanto. ou ter a sua carga protetiva quebrantada (por derrogação). Expliquemos. a repercutir no restrito universo de certos atores. pois. da suprema beleza. 3. gozarão igualmente de petrealidade. o corolário será aquele de que falava DOSTOIÉVSKI a respeito do próprio Deus: "Se Deus não existe. ou de ato jurídico perfeito. Aqueles efeitos que já se exteriorizaram sob a forma de direito adquirido. sobre ser de eficácia completa e aplicabilidade imediata ou não-di ferida. pois. se já não se proclama. porque restritamente subjetivo. paralisia. ou prolatada a res judicata. implica dois raciocínios jurídicos: I .4. Não! O que fica imune à retroatividade danosa da nova lei são determinados efeitos da velha regra legal.10 II .3. sejam aqueles que precisaram de confirmação pela via do ato jurídico dito perfeito. permanentes e identificáveis pelos nomes patronímicos ou nomes pessoais dos seus beneficiários. Ele consagra um tipo de garantia contra a função legiferante do Estado. Continuam. então. o que fica a salvo de retroatividade da lei não é o dispositivo sob cuja preceituação nasceu o direito apelidado de adquirido. porém num sentido tópico ou pontual. ou por reconhecimento de um ato jurídico que se aperfeiçoou nos seus elementos formadores (ato jurídico perfeito). . de pedaço de vida humana objetivada a pedaço de vida humana subjetivada.3. a existência desse princípio. a factualizar-se no processo de aplicação/criação do Direito Objetivo. A norma do inciso XXXVI do art.6. mas determinados titulares do direito por ela ensejado. no despenhadeiro da barbárie ou da guerra de todos contra todos. então tudo é permitido". é aquela dimensão da norma geral que passou. mas não veicula. agindo este assim no exercício da função legislativa usual como da função reformadora. ou ainda de uma decisão judicial em estado de irreformabilidade (coisa julgada). A distinção essencial é esta: a norma geral. ou coisa julgada. porque já não faz sentido vedar para os crentes coisa alguma. com toda ênfase. Tudo em homenagem ao basilar princípio da segurança jurídica. não admite revogação. já não podem sofrer desfazimento.5. quem sabe. rolando. O dispositivo em tela consigna "uma garantia" (PAULO MODESTO). da suprema verdade e da suprema justiça. O que se protege. dado que faz parte da relação dos direitos e garantias individuais.4. os atos jurídicos perfeitos e as coisas julgadas que vierem a ocorrer. Sejam os efeitos deflagrados imediata e exclusivamente pela norma em abstrato (direito adquirido). Note-se bem. E tudo é permitido (acrescentamos).7. por si mesmo. ou quebrantamento.9 3.o segundo raciocínio traduz-se em que os direitos adquiridos. pois já passaram de efeitos objetivos a subjetivos. enquanto "pedaço de vida humana objetivada" (RECASÉNS SICHES).deixa em desamparo argumentativo. mas não é exatamente isto o que sucede com todos os seus efeitos. eles perdem o referencial da suprema bondade.o primeiro. ou foi expedido o ato jurídico perfeito. O que fica intocável. ou de coisa julgada. nem ato jurídico perfeito. e. pode ir embora do Ordenamento (por revogação). é de que ela é uma cláusula pétrea em si mesma.4.4. mais que isso.8. Logo.3.11 3.3. propriamente). nenhum direito adquirido. sem Deus.4. Regra em si mesma ou objetivamente protegida contra a função legiferante do Estado. ou da decisão judicial que se transformou em coisa julgada. 5°.3. íntegros. em caráter definitivo. 3. já não é a norma geral. ou sequer derrogação amesquinhadora. esse direito assim qualificadamente adquirido será um direito completamente a salvo de prejuízo por lei posterior. 3. nem mesmo por emenda constitucional. Agora.4. O que ele proclama é a garantia de que o direito que se adquirir por virtude imediata da lei (direito adquirido.

a que vigia entre nós a respeito do divórcio. Ou no que tange à localização de um estabelecimento mercantil. Diga-se o mesmo do uso de um automóvel em via pública. pois que de direito adquirido não se tratava (não existia o direito subjetivo de não se divorciar . 3.renove-se o juízo -. porque. Queremos nos reportar a certas restrições diretamente constitucionais àquele tipo de liberdade contratual que não se orna de conteúdo econômico ou mercantil.4. como. por inversão de pensamento: onde tem que deixar de incidir a nova regra geral ou abstrata. Uma coisa a lembrar: certas situações jurídicas ativas são incompatíveis com a figura do direito adquirido porque têm a particularidade de nascer mais condicionadas pelos interesses da sociedade do que condicionando tais interesses. apenas. ou industrial. Ou quanto à detenção de certas competências administrativas perante o administrado. pois o exercício pode ficar pendente de pressupostos. os efeitos que já deflagrou ou ainda está a deflagrar na vida de determinados agentes. Titulares sempre em estado de precariedade. ou da res judicata. a nova não pode incidir. as prefigurações espocam e trazem à nossa mente outras situações que também parecem não se compadecer com a figura do direito adquirido. Outra coisa a lembrar é que o direito subjetivo que se eleva ao patamar do direito adquirido (o adquirido é um plus em relação ao direito subjetivo) pode até não se encontrar em fase de exercício. para essa norma geral. Logo.4.4. nominalmente identificáveis.3. que a liberdade de contrair novas núpcias estava constitucionalmente cerceada.4.4. O fenômeno da ultra-atividade. passível. Essa ultra-atividade ou ultra-operatividade é apenas tópica ou pontual (por isso que relativa).4. ou seqüencia (conforme o caso). o proprietário de um bem de produção jamais pode se eximir de normas legais quanto a certos modos de pôr o seu bem a render e quanto à fiscalização do Poder Público sobre esses modos econômicos de exercício de direito. Significava. Ou ao fato de servidores públicos se encontrarem sob determinado regime de trabalho. Em todas as três situações em concreto. por exemplo. mas conserva. Nem por isso deixa de ser direito adquirido. com a emenda n° 9/77 à Carta de 1967).1. na matéria 3. Isto não significava que as pessoas civilmente casadas tivessem o direito adquirido a permanecer privadas da possibilidade de se divorciarem (não há direito adquirido à privação ou à inibição do próprio fazer ou do agir).3.4. Ou.4. Razão pela qual os seus titulares nunca deixam de ser eventuais titulares. são normas gerais que se interpenetram no tempo. a qualquer tempo (como veio a suceder. mas a ausência do direito subjetivo de se divorciar. o que se tem é o fenômeno da "ultra-atividade" relativa da norma geral de que elas derivaram. na medida em que adstrita à subjetividade de atores em concreto. em nosso País.12 Enfim. ou do ato jurídico perfeito. de remoção por emenda constitucional. É compreender: onde continua a operar a velha regra geral ou abstrata. o que é bem diferente). 3.4. um novo marco temporal se estabelece: ela já não deflagra os efeitos inéditos que estava apta a deflagrar no universo particular de novos atores jurídicos. mas sem a possibilidade de se entrecruzar no espaço de movimentação daqueles sujeitos de relações que se tornaram ativas por virtude do direito adquirido.4. uma exceção à liberdade núbil das pessoas. continua operando a velha regra. se se modificam as leis de zoneamento do respectivo Município. O que vigorava era uma restrição. no entanto.4. Sem que nenhum dos membros da sociedade conjugal que se desfez pela via do desquite pudesse contrapor à retroincidência da emenda a tese do direito adquirido. a saber: .2. Por exemplo. 3.

estudo publicado no bojo da coletânea DIREITO ADMINISTRATIVO E CONSTITUCIONAL.4. por exemplo. por conveniência do respectivo empregador. de dizê-lo às expressas. Em tema de suas próprias emendas. Constituição. secreto. universal e periódico".I . 151/161). que. o ato jurídico perfeito e a coisa julgada"). vol. II. 3. sim. e. Dois momentos inconfundíveis de normatividade abstrata.daqui não se deduz.4. 3. como.a própria vontade do titular do direito.).5. ou seja. "a forma federativa de Estado".3. portanto. porque a emenda pode tudo que a Magna Carta reserva para as leis (pouca importa se leis ordinárias.tudo que a lei está habilitada a fazer fica inteiramente à mercê das emendas constitucionais. com as férias anuais de um trabalhador: são adquiridas a cada ano de trabalho.o aguardo do lapso temporal.5. o seguinte esquema de interpretação: I . impossível! Se a Constituição de 1988 fala a toda . é preciso distinguir entre a norma geral que indica os pressupostos de obtenção do direito. II . e a norma igualmente geral que dispõe sobre a implementação de termo ou de condição para a empírica fruição daquele mesmo direito que a primeira norma elementarizou. e os fundamentos então lançados parecem-nos resistir a contraditas.5. II .2. nesta oportunidade. quer referentemente aos direitos concedidos por regra constitucional. Malheiros Editores. Melhor técnica legislativa. jamais dizer sobre que matérias podem recair as emendas..5.4. podendo efetivamente se entronizar no gozo do que é seu. ou do preenchimento de certa condição. como requisitos do respectivo exercício.. prefere a inação. que tudo aquilo que a lei não esteja habilitada a fazer fica também interditado às emendas. 3. aduzimos que não tem relevância o fato de a legenda constitucional somente incluir a lei (não a emenda) como norma proibida de retroagir para prejudicá-los ("a lei não prejudicará o direito adquirido. Retornando a lidar com o bloco dos três institutos. ou delegadas. Ampliamo-los até. entretanto.4. sem que a Magna Carta necessite. somente será exercitado quando da expressa manifestação do respectivo titular (por isso que tal modalidade de aposentação é chamada de voluntária). Já enfrentamos academicamente a questão. A inclusão das emendas à Constituição no conceito genérico de "lei" 3. convencidos que estamos de que a Lex Legum encerra. Elas não podem incidir sobre as matérias clausuladas como pétreas ou intangíveis ou irreformáveis. Nada disso! As emendas constitucionais podem tudo que a lei pode e vão além: podem tudo que a lei não pode. quando o Código Político substitui o silêncio pela fala expressa é para dizer o que elas não podem. Ou como sucede com o direito à aposentadoria voluntária. prefixados pela própria norma geral. Mas prefixados. uma vez obtido. porém gozadas até o final do ano subseqüente. em parceria com VALMIR PONTES FILHO ("DIREITO ADQUIRIDO CONTRA AS EMENDAS CONSTITUCIONAIS".4.1. "o voto direto. por hipótese. na matéria. Não há necessidade da indicação desse vínculo entre determinadas matérias e a conformação normativa por via de emenda.5.4. quer os deferidos por outra modalidade de lei em sentido material). etc. ou complementares. pp. salvante recair sobre matérias clausuladas de petrealidade pela Constituição. que. Pronto! É esse racional esquema de exegese da Constituição que explica o fato de ela própria. "a separação dos Poderes" e "os direitos e garantias individuais" (de cuja relação a garantia dos direitos adquiridos faz parte. não como requisitos de obtenção do direito (matéria de outra norma). 3. como se dá. ano de 1997.

não! Diga-se o mesmo da norma constitucional que proíbe a lei de excluir da apreciação do Poder Judiciário "lesão ou ameaça a direito" (art. é porque já prescreveu. na matéria. nas entrelinhas. Remarque-se ainda que a regra-matriz do direito adquirido.5. 3. sempre que a Magna Carta impuser proibição ou simples limitação à faina legislativa do Estado. ato jurídico perfeito e coisa julgada. que permanece formalmente a mesma. ou negativo ("ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei"). nenhum mal existe em reqüestar a todo instante a lei porque a banalização da lei em nada trivializa a Constituição. se do seu conteúdo já não fazem parte o direito adquirido. 3.5.9. 3. insista-se. que a referência à lei. Fala é da lei e das decisões judiciais (inciso VII do art. que. .4. seja para interditá-los. Por isso que alcança todos os espécimes legislativos de que trata o art. inciso XXXV). é uma referência ao Direito-lei. 5°).7. seja para lhes franquear certos conteúdos.4. E nessa hipótese. não a emenda. quer no tocante à regra permanente que ela venha a embutir na Magna Carta. tintim por tintim) acarretaria a banalização do próprio Texto Magno. a aterradora pergunta que se faz é mesmo esta: de que vale o megaprincípio da segurança jurídica. o ato jurídico perfeito e a coisa julgada?14 3. 5°. está liberando qualquer delas para interditar o acesso de toda pessoa privada às instâncias judicantes. 59. E interditar as leis não é interditar as emendas.8.4. E o raciocínio é o mesmo: descumprida que seja qualquer emenda constitucional. que. 85). que já não seria formalmente o mesmo a cada emenda produzida. salvante.5.4. cairíamos todos numa contradição grotesca. fosse um abre-te sézamo para a edição das emendas.5. 34 e parte final do inciso IV do art. mas aqui mesmo nos permitimos retomar o que dissemos em co-autoria com VALMIR PONTES FILHO (ob. ainda ensejam a intervenção da União nos Estados e dos Estados nos Municípios (inciso VI do art. quer no tocante à regra simplesmente transitória que venha a aportar. nem por silenciar quanto às emendas. no capítulo "DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS". É que a nossa Constituição também só mencionou a lei.5. Daí que aceitar a retroação de emenda para desrespeitar o direito adquirido passe a significar a possibilidade de retroação também para o desrespeito às duas outras situações jurídicas ativas. De revés. em tema de direito adquirido.5. A Constituição não pode prestigiar tanto as suas emendas a ponto de dar a sua vida por elas.6. enquanto veículo de imposição de deveres de conteúdo positivo. que pedir o adjutório delas é reqüestar a edição das emendas. pois.13 3. 35).hora das leis.4. as conseqüências serão iguais às do descumprimento de lei ou de decisão judicial. O mutismo da Lex Legum quanto às emendas é de nenhuma importância hermenêutica. naquelas matérias que desfrutam de intangibilidade perante a ação legislativo-conformadora do Estado (que são matérias apropriadamente chamadas de pétreas). De outra parte. E a falta de menção às emendas significaria a imprestabilidade delas para obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa? A toda evidência. é a mesma do ato jurídico perfeito e da coisa julgada (inciso XXXI do art. a banalização das emendas (que fatalmente ocorreria pela técnica de se dizer tudo que a elas competisse. Que se entenda. embora a nossa Magna Carta não fale do descumprimento das emendas como fato-tipo do citado delito. em nossa Constituição. uma vez descumpridas.): se a referência constitucional apenas à lei. São estas premissas que nos permitem compreender que se constitui em crime de responsabilidade o ato do Presidente da República do Brasil que implicar descumprimento de qualquer emenda constitucional. O raciocínio será retomado no capítulo entrante. cit.

que o Magno Texto só é realmente magno por cumprir esse papel de dizer o que seja. Se os demais atos da ordem legislativa pudessem ditar o seu próprio regime jurídico. estruturar órgãos.1. ou o que não seja. É.1. O único cientificamente prestante. Esta nova disquisição tem que ser a continuidade de uma idéia já vertida para o papel.5. pois as leis de que a Constituição é a lei suprema são as leis emanadas do Estado. isto é. Não é por aí que a discriminação entre ela. 3. a função executiva e a função jurisdicional. e os demais espécimes jurídico-positivos pode ocorrer.5.15 3. a mais importante das limitações impostas ao Estado.2. Mesmo em se tratando de imputar deveres ao Estado e conceder direitos contra o Estado. ainda assim não se cuida de matéria privativamente constitucional. no fundo. 3. ou por ele recepcionadas.5. Tem a condição material objetiva de se autoqualificar ou se autonominar como Constituição. A Constituição e seu exclusivo papel de fundar e monitorar o Ordenamento Jurídico . Quais sejam. formal e materialmente. o reconhecimento da existência de uma lei que nasce para governar as outras leis.5. A Constituição como a lei das leis 3.5. pois os espécimes normativos sucessivamente editados não teriam que se reconduzir à unidade formal do primeiro deles: a Constituição Positiva. O que pertence. Essa particularidade que tem a Constituição de operar. E sem outra hierarquia internormativa que não fosse a da lei mais recente. ou o que não pertence. não podem pelo Poder Público mesmo ser legislativamente supressas. Ao contrário. como lei das leis é. sinta-se que não é exclusivo da Constituição o mister de conferir direitos. Tudo isto fica ao dispor de muitos outros atos que a própria Constituição menciona como veículos de normas jurídicas gerais. Logo. pela Constituição originária. Pois somente assim é que uma Constituição tem a força de ditar o seu próprio regime jurídico. então.16 3. a garantia de que as outras irrestritas limitações impostas ao Poder Público. 3. Seria superior apenas pelo critério temporal ou cronológico (a lei mais nova a preponderar sobre a lei mais velha no tempo). ou sequer atenuadas. ou pelo critério da especialidade. têm que permanecer como irrestritas limitações. é a própria base lógica da elaboração do conceito formal de Constituição. Reconheçamos. os atos de jurídica manifestação das três funções básicas do Estado por ele instituídas: a função legislativa. que é de ordem material. ou a da natureza das relações normadas. ou não sejam. prescrever finalidades e outros espaços de ocupação normativa. impor deveres. que é simplesmente esta: somente a Constituição tem a propriedade de ditar o seu próprio regime jurídico.1. sempre ele) ortodoxa ou unitária.2. o Sistema de Direito Positivo já não teria uma única norma-começo. ao Ordenamento Jurídico por ele inaugurado. o Ordenamento já não seria uno quanto ao modus faciendi dos elementos do seu repertório. Privar-se-ia da sua característica central de Ordem Jurídica de "supra-infra-ordenação" (KELSEN. pois nenhuma norma seria hierarquicamente superior a outra na dúplice dimensão formal e material. O exclusivo regime autoditado da Constituição 3. Constituição. enfim.as emendas no meio (inciso de n° I). perpetuamente.1. atribuir competências.5.5.4.1.3. uma norma de aplicação dele próprio.1.

Não! Ela também precisa do Ordenamento.3. enfim. ela tem que prescrever o regime das outras normas jurídicas. 3. então.5.6.3.. Logo. por ser a Constituição a parte que explica e até justifica o próprio todo (visto que o todo do Ordenamento está a serviço. isto é. não é tanto pelo conhecimento do Ordenamento que se conhece a Constituição. Subtraia-se da Constituição a exclusividade desse mister de fundar o Ordenamento e manter sob o seu controle o modus faciendi e o conteúdo dos outros modelos normativos. para implicar uma exigência de ininterrupta referência àquela parte do Ordenamento que se chama Constituição. 3. não de si mesmo. tem assegurada a sua contínua aplicação. porque pelas normas gerais e individuais do Ordenamento é que ela. ou seja.2.1. com o seu próprio nascimento. alterar esse regime.18 3.3. 3. devemos insistir no enunciado de que a Constituição Positiva não é Constituição Positiva por se fundar num Ordenamento Jurídico. 3.5.5. A Constituição é também carente do Ordenamento Jurídico. quer os negativos. a sua causa formal. em última análise). Sem demasia na comparação das coisas.7.2. por conta própria. bússola e ímã .2. traços ou valores para cuja proclamação teórica e persecução empírica a própria Constituição foi elaborada. 3. Não teria.5. à vida do Ordenamento. pois é fato que ela não depende somente da sua própria realidade para cumprir todos os seus desígnios. um reclamo de contínua referência ao Ordenamento. O Ordenamento Jurídico é que é Ordenamento Jurídico por se fundar numa Constituição Positiva. A parte a preponderar sobre o todo. assim.2. Esta a sua natureza. porque. A Constituição enquanto fonte. mas pelo conhecimento da Constituição é que se conhece o Ordenamento. se se deixa ao próprio sujeito limitado a possibilidade de tudo mudar pela via legislativa? Um mínimo de irreformabilidade há de conter a Constituição perante o Estado.5. ela não teria o que dirigir. Se é próprio da Constituição aplicar limites formais e materiais ao Estado. sem que tais normas possam. como tornar essa imposição concretamente eficaz. O método específico da Ciência Jurídica para conhecer o seu objeto deixa de significar. Constituição. o ortodoxo papel de norma-começo do Ordenamento só faz sentido se a Constituição permanecer dando as cartas no interior desse Ordenamento. Para tanto.5. porém da Constituição em que se inicia e para a qual se destina. Não que a Lei Maior venha a prescindir do Ordenamento. como se desdobrar em comandos necessariamente instrumentais dos seus comandos básicos. tem uma boa parte dos seus desideratos cumprida.5. a metodologia de trabalho que a torna primus inter pares.5.17 3.2. O campo divisional da Constituição perante as outras normas do Direito reside unicamente nisto: só a Constituição é que pode fundar o Ordenamento Jurídico e permanecer o tempo inteiro como referencial de todas as outras normas positivas que se integram nesse mesmo Ordenamento. quer os limites positivos. sem ele.5.4. De fato. e o que sucede? Uma mudança tal de qualidade a ponto de se poder proclamar que de Constituição já não se cuida. Não teria as outras leis e demais normas positivas sobre o que imperar. tanto alusivamente às condutas comissivas quanto as de absenteísmo. E é mesmo para o cumprimento dessa parte dos seus desígnios que ela dá início.2.2.. isto é.2. na exata medida em que isto signifique preservação daqueles traços que dão a ela uma identidade fisionômica.

a Constituição bem desempenha nos termos em que JESUS dirigiu aos seus discípulos esta vibrante mensagem: "Eu sou a Luz que está sobre todos. que a Constituição impede que cada um desses atos seja um fragmento vocal com pretensão à totalidade. tanto quanto o Poder Reformador tenta descambar.3. pp. pelo risco maior de ela vir a ser abalroada por ele. 115/116).3. 3. concomitantemente.5.3. sozinho. por sua conta.1. vol. Podemos até mesmo dizer que. e o Todo vem de mim.5. um unitário cosmos. esse Direito não pode atribuir a si mesmo aquilo que é a própria ratio essendi formal da Constituição: o existir como a norma normarum. Este último a ameaçar de invasão a área de competência daquele. a cota de poderes da procuração que lhe fora outorgada pelo seu cliente.4. portanto. 82). Mesmo quando se trate de revisões ou emendas à Constituição. Ainda que o Direito pós-Constituição promane de emenda ou revisão constitucional.5.3. um só. É a maior de todas as ênfases do discurso de SIEYÈS.3. reenviando-os a si mesma. A norma pós-Constituição não fala sozinha.3. mas um único. Esse tríplice mister de se colocar perante o Ordenamento como fonte.a comparação é nossa . e o Todo retorna a mim.2. bússola e ímã . a lex legum. Corte um pedaço de madeira e eu estarei lá. 3. o inarredável princípio está em que são irreformáveis as normas da Constituição Positiva sobre a própria reforma dessa Constituição Positiva (de parelha com outros aspectos de intangibilidade mais para a frente comentados). para a zona de conformação normativa que é apanágio do Poder Constituinte. a sua mensagem imperativa em si. Naquilo que é a própria causa formal ou a ratio essendi metodológica da Constituição. É perseverando no controle de todos os demais espécimes jurídico-positivos. Uma queda de braço com o Poder Reformador. como se o Ordenamento fosse uma pessoa incapaz de sair da menoridade.3.5. levante uma pedra e me encontrará lá" (em A SEMENTE DE MOSTARDA.5. para reverenciá-la. não uma pluralidade de cosmos (oriundos de numerosas e incontroláveis normas-começo). a Constituição tem que travar uma briga particular com suas emendas ou revisões.à absurda possibilidade de um advogado alterar para mais. A Constituição cria o Ordenamento. 3.5. cit. 3.3. II. segundo o qual o órgão delegado não pode. Mantém o Ordenamento sob tutela. os demais espécimes normativos têm que ficar para sempre submissos aos termos em que o Poder Constituinte veio a se formalizar. Essa alteração de limites corresponderia . Queremos dizer: o que dá pleno sentido a uma norma jurídica não é apenas o seu discurso prescritivo.. E é nesse rigoroso esquema de supra-infra-ordenação que a Constituição pode fazer do Ordenamento. para se manter como permanente referencial do Ordenamento. na linguagem religiosa do Antigo Testamento. p. historicamente. Ela conversa (graças à . "o cântico dos cânticos". Uma folha cujo talo se partiu e ainda assim pretenda sobreviver de sua própria seiva (?).5.6. Assim como já no interior da Constituição a briga particular é entre o Poder Legislativo e o Poder Executivo. Mudando-se as palavras para melhor transmitir o mesmo pensamento: o Direito pós-Constituição é um Direito sempre enlaçado à Constituição mesma. alterar os limites da própria delegação (ob. mas não o libera para crescer inteiramente à solta. 3. eu sou o Todo.

. essa. Com efeito. o Estado vem antes do Direito. a teoria do Estado de Direito.6. ou ele se autocontrai no plano dos direitos subjetivos que opõe a si mesmo (ultrapassando. Relação derivada ou secundária do Estado com o seu Direito. de toda obscuridade. ou ele nem se auto-expande nem se autocontrai. de uma relação que já não está na base da Teoria do Estado de Direito.19 3.2. objetivamente.6. logicamente. Ou ele se auto-expande no plano das competências a que se atribui (tendo sempre por calço a Constituição. ora para estabelecer relações jurídicas entre os particulares. a cota dos direitos subjetivos alheios consagrados pela Magna Carta). revogando-o. pois quem se autolimita. o princípio de que o Estado é obrigado a respeitar o Direito por ele próprio ditado. Cogita-se. O fundamento supra-estatal e suprapositivo da Constituição 3. formam o Ordenamento de um povo soberano. porque elaborada sob fundamentação lógica distinta daquela que prevalece para os demais modelos normativos. Daí a necessidade de o pensamento jurídico formular e implantar. Seja como for. e sua força mais irrefragavelmente vinculante.4. Este a significar. com ela. via de regra. Ora bem. Autolimitação estatal. O Direito a preceder o Estado.6.7. Como também é desse diálogo com o Ordenamento que a norma isolada se depura de toda incoerência.5. no plano político.6. Que fundamentação é esta? 3. porque transcorrente entre um Direito que o Estado não cria e o Estado mesmo. 3. o Estado gira em torno do seu próprio querer.3. Nesse preciso espaço da relação Estado/Direito. agora. desfazer do Direito. Estes outros modelos de prescritividade jurídica exprimem uma relação do Estado com o Direito que o Estado mesmo cria. mas exógeno ao Estado.6. ou seja. 3. ora para colocar a si mesmo em situação jurídica ativa (perdoe-se a cacofonia "cativa"). não é outro senão uma autolimitação.. por exemplo. Estamos no epicentro de uma distinção qualitativa que é a explicação de tudo o mais. todavia. se é que é possível falar de psicologia ou de psiquismo estatal quando se queira referir a um tipo de Direito que o Estado produz para além da autoaplicabilidade das normas que já estão lançadas no próprio lastro formal da Constituição. Direito que o Estado procria. Se o Estado pode desfazer o Direito. exclusivamente (postando-se ele do lado de fora de tais relações. porque sem nenhum compromisso com a preservação do tipo de Estado até então existente. no plano jurídico. bem pode se autodeslimitar (já o dissemos). ora para ficar em situação jurídica passiva. a imposição de um limite não mais endógeno. todavia). Em qualquer das três situações jurídicas.Constituição) com o todo do Ordenamento e é dessa confabulação com o todo que se extrai a sua definitiva mensagem. mas na base do Constitucionalismo. que sempre mantém os governados em situação de relativa insegurança jurídica. com o tempo. a relação que se passa entre a Constituição e o Estado exprime um outro vínculo operacional.1. o embasamento lógico da Constituição é diferente da fundamentação teórica dos demais espécimes jurídico-positivos que. 3. tudo transcorre nos meandros da psicologia ou do psiquismo estatal. enquanto aquela revogação não sobrevém.3. 3. no sentido de . não pode.5.6. O fundamento da submissão do Estado a direitos subjetivos oponíveis a ele mesmo. no âmbito da fenomenologia do Direito: a origem mais depuradamente legítima da Constituição. por conseqüência). e ainda tem a chance de ver preenchidas as suas eventuais lacunas. porque fica de fora da relação que passa a estabelecer entre pessoas outras.

isto não é o que sucede com a Norma Normarum. Constituição. Falar de rigidez constitucional. mas o poder-dever de não deixar que sua Constituição venha a cair. porque diferente do modo pelo qual os demais diplomas jurídicos ficam pela Constituição autorizados a receber reprocessamento ou reformulação ou recondicionamento. 3.4. o caráter rígido que a Lei Suprema necessariamente ostenta não é outra coisa senão a consagração de um regime jurídico mais cercado de solenidades ou dificuldades para a sua reformulação.3. não-coincidente. tornando o Poder Constituinte. por inteiro.2. é invocar uma noção . E mesmo no tocante à revogação pura e simples do Código Político (substituição de uma Constituição por outra).6. 3. porque sua fonte suprapositiva continua a mesma. É essa nova idéia de superação da teoria da autolimitação jurídica do Estado que vai possibilibitar a formação do juízo de que a primeira das cláusulas pétreas só pode ser de natureza formal. eis que processada ao nível das ocorrências fáticas ou exclusivamente políticas. porque tal revogação já não se dá por meios jurídicos ou no plano do dever-ser normativo. modificam-se e morrem pela mesma e monótona forma (o modo de produzir a lei é o mesmo que se observa para a respectiva alteração. assim. assim. portanto. Já em termos funcionais. Acontece à margem de toda juridicidade.7. não um singelo poder. ainda assim a originalidade permanece. firme. o modo pelo qual a Lei Maior dispõe sobre a sua própria reforma é insuscetível de reformulação. somente por um processo especialíssimo é que pode ser objeto de retomada legislativa pelo Estado. 3. não-pétrea. A se alojar. Se as leis subconstitucionais nascem. por residir no próprio esquema de reforma da Constituição. o primeiro título de nobreza da Constituição. c) que a outra parte. 3. o fundamento da autolimitação legiferante do Estado. com aquele seu próprio modo de nascer. ou seja. ainda por cima. 3. E por compulsão da rigidez só se pode entender um modo de normar sobre a reforma constitucional que permaneça originário e original.5.1. o Poder Constituinte incorpora a compulsão do permanente registro dessa memória. hirto. a ilação a que se chega é esta: o Poder Constituinte incorpora não-propriamente a opção de atribuir à sua obra legislativa um caráter rígido. que é a parte comumente chamada de pétrea ou intangível. ainda que tal insuscetibilidade não conste de dispositivo constitucional expresso. ou revogação). estável ou outro nome que se atribua ao fato de a Constituição conservar a memória de sua origem exclusivamente política ou suprapositiva. no particular. É a limitabilidade genética de que antes falamos.7. no mundo do ser.6. a suplantar. Muito bem! Se o fundamento lógico da Constituição é a suprapositividade.7. sem nenhuma mistura com outra nascente do fenômeno jurídico.7. A compulsão da rigidez formal da Constituição 3. Original.7. 3. na vala comum dos espécimes normativos que têm por fonte um órgão deliberativo já de Direito instituído. A compulsão da rigidez é. pois o cerne da rigidez está em que o Magno Texto não quer para o seu reprocessamento aquele jeito monocórdio e comparativamente simplificado de se trabalhar com a a lei infraconstitucional.que há um tipo de Direito: a) que o Estado não cria nem pode deixar de reconhecer como Direito. mais que isto. nasce por um modo comparativamente único e também se altera por uma forma que lhe é exclusiva. Ela. Originário. b) que tem uma parte dele imune ao cinzel legislativo do Estado.7. em derradeiro exame.

7. não-eterna. tais Constituições. e por conseqüência imutável. temporal. 3. Por isso que. durante algum tempo. a fatores de ordem processual. se a matéria é clausulada como pétrea. Essas dificuldades reformacionais de que tanto falamos dizem respeito. eterna.7. Ela é pétrea.8. Assim como o Rei Midas tornava ouro tudo em que tocava. a ponto de petrealizar umas e estabilizar outras? A resposta é intuitiva. eles comparecem para traduzir a idéia de que. rígida. isto é. ou circunstancial. pode acontecer ao . É o caso da Constituição da Inglaterra. ora uma rigidez mais ortodoxa. ainda assim. temporal e circunstancial. nenhum ato reformista da Constituição pode ser apresentado. como se diz aqui no Brasil.7. cuidando-se de matéria desprovida de petrealidade. a perda do status de tema constitucional. uma Constituição Positiva é mais ou menos firme. ora menos ortodoxa. no sentido de que pode ser. estável. é uma parte da Constituição que se garante com cláusula de estabilidade ou estado de firmeza se confrontada com as matérias constantes de leis outras. a Constituição torna especialmente relevante toda matéria sobre que recai. ou seja.7. cuja total flexibilidade decorre da consideração de não ser ela uma Constituição em sentido rigorosamente formal. portanto).9. ou seja. ou reconstitucionalização. sua defenestração do Magno Texto somente se dá por uma nova manifestação constituinte.20 3. o mais das vezes. com certos requisitos de iniciativa. Daí que a respectiva desconstitucionalização. porém estável. 3. venha o Poder Reformador a ficar liberado para submeter a si toda e qualquer relação social. Tal rigidez nasce com a Constituição Positiva. Não é assim. também opere pela fuga do lugar comum das revogações ou derrogações de Direito. particularmente zelosa com suas próprias matérias. É o caso de se perguntar: e por que a Lex Maxima é assim especialmente cuidadosa. ou mesmo seu recondicionamento (reconstitucionalização. Mas comporta graduação. caso contrário. De ordem processual. outra. Mas. 3.10. uma vez respeitadas as exigências constitucionais de ordem formal. O fato em si da constitucionalização de um dado campo relacional-humano já se traduz numa fuga ao lugar-comum da regulação jurídica. ou discutido (também se diz um requisito de tempo a exigência de intervalo entre uma e outra rodada de discussão e votação legislativa de matéria constitucional. A rigidez formal é a marca registrada das Constituições que inauguram o Ordenamento Jurídico de intransigente supra-infra-ordenação e que mantêm esse Ordenamento sob controle de qualidade. hirta. pois uma Constituição dita flexível é aquela que pode ser reformada pelo mesmo processo instituído para a produção e modificação de uma lei subconstitucional. A parte que não é eterna fica exposta aos atos legislativos de reforma. como de primário saber. ou debaixo de certos episódios.7. o reclamo de interstício entre reuniões legislativas de debate e votação final de matéria constitutiva de reforma da Lex Legum). porque as Constituições consagradoras do esquema de intransigente supra-infra-ordenação acrescem limitações materiais àquelas de cunho formal.oposta à de flexibilidade.6.7. A parte da Constituição que é eterna fica imune ao processo reformista. combinadamente. 3. a depender do grau de originalidade que imponha ao seu processo de reforma. assegura a supremacia internormativa do Magno Texto e só desaparece com o desaparecimento dele. no sentido de reclamar a proposta de reforma constitucional um quorum maior de votação parlamentar. Não se conclua. entretanto. que. circunstancial e temporal. em duas inconfundíveis porções: uma. Daí o discriminar-se. Já os fatores de ordem temporal e circunstancial.

está em que toda Lei Maior que se faz globalmente efetiva opera como atestado formal de soberania nacional. Assim estimada pelo povo como coisa inalienável dele. no plano territorial-interno. povo) e passa a gozar de estima geral como inalienável patrimônio jurídico. Ainda assim.11. 3. 3. de si para si. O mais formal e o mais solene dos atestados de que um determinado povo experimentou.4.7. Isto por ser a Constituição a fórmula jurídico-positiva que possibilita ao povo dar a si próprio uma nova Ordem Jurídica e ainda se fazer internacionalmente conhecido como instância coletiva que desfruta de uma soberania mais que virtual. conforme conhecido postulado positivista). Por esse prisma positivista de análise é que.3. independentemente do seu conteúdo. com êxito. b) "O definitivo enlace entre a Constituição Federal de 1988 e a Democracia". 3. Repetindo o discurso. a Constituição. vela para que nenhum documento com pretensão a "Carta Plurinacional" ou "Constituição Regional" venha a lhe servir de fundamento de validade. A Constituição como atestado de efetiva soberania nacional 3. E é mesmo a concreta aplicabilidade desse processo especialíssimo de dispor sobre matéria constitucional que vai alçar o Poder Constituído à dimensão de um Poder Reformador. a Constituição mais e mais monitora a elaboração das suas próprias emendas. E no plano territorial-externo. 3.7. E já não tem como arredar pé de sua altaneira posição de documento confirmador de uma soberania que é também inalienável.8. petrealidade e rigidez constitucional dão-se as mãos para possibilitar à Constituição o ganho de duas outras notas de especificidade. para que nenhuma delas lhe usurpe o trono de rainha das normas jurídicas. resolvemos discorrer sobre os dois temas (embora sem reservar para eles nenhuma epígrafe em particular) no âmbito do estudo que reservamos para os capítulos de n°s IV e V desta monografia. O traço final de especificidade da Constituição.dentre tantas que a Teoria da Constituição implica -. 3. independentemente do seu conteúdo (tanto quanto o Direito em geral de alguma forma vale por si próprio. único documento jurídico a atestar a .8.6. porque já tentada e consumada. a Constituição também pode ser vista enquanto modo pelo qual um certo povo proclama.nível do Poder de Reforma. 3.12. Em suma. a Constituição é tida pelo povo como galardão ou insígnia maior de sua própria independência (dele. a Constituição termina valendo por si mesma. Rigidez formal e Poder Reformador. por opção metodológica estritamente pessoal. Nessa medida. em certa medida.8. constituem mais uma necessária parelha temática . assim. Ou de sua plenitude política. 3. Não de um Poder Legislativo comum. por definição.8. que neste capítulo mesmo poderiam ser assim epigrafadas: a) "A Constituição como garantia de tudo e de si mesma". pois o poder de reforma da Magna Carta outra coisa não é senão atuar sob a regência das normas constitucionais originárias que formam. justamente. principalmente se nascida nos arejados cômodos de uma Casa Constituinte que teve por alicerce a vontade eleitoral dos cidadãos.2. que atingiu o pináculo de sua identificação jurídica. que nos parece útil aos fins a que nos propomos. o esquema da rigidez. Contudo. Esta é uma afirmativa que temos como categórica. o seu modo constituinte de ser.8.5.8. ou seja. debaixo de um processo particularmente solene. 3. na medida em que instituidor de uma ordem.8.1.

realmente) por elas estruturado. Porque aí. os ditames de uma "Constituição" da espécie plurinacional ou cosmopolita ingressam no mundo do dever-ser. assume-se como a Lei das Leis.soberania de um povo. externamente. sim. não por merecimento próprio. notadamente à face das suas emendas (a Constituição a cumprir o papel de não deixar que suas emendas cumpram o papel de atestar a soberania do povo).8. 3. O fecho do pensamento. por ilação. não reconhece outro Poder ou outro Organismo de que venha a fazer parte senão nos termos por ela mesma previstos.21 . mas pelas boas-vindas que eventualmente lhes dê a Constituição de cada Estado confederado. é este: não se vai cair no romantismo ou na ingenuidade de supor que as "Constituições Regionais" deixem de ditar as condições de participação de cada Estado-membro no tipo de confederação (pois é de confederação que se cuida. Mas o estabelecimento de tais condições vale apenas como imposição factual ou realidade do mundo do ser. Logo.7. internamente. insista-se. é como a soberania mesma: projeção do poder. até que se dê a sua recepção pela Magna Lei de cada povo. fora e dentro do território que o povo conquista com animus domini.

tais atos só podem ser interpretados como veículos formais de normas dominadas. A Constituição como sistema ou ordenamento por virtude própria 4. no entanto. Este o fiat lux da questão. A peculiar estrutura conceitual dos princípios constitucionais 4.3. A dualidade princípios/regras como base da nova Hermenêutica da Constituição 4. E não significa. As especificidades da Constituição como a razão de ser de uma Hermenêutica diferenciada 4. 4. seja quanto ao seu conteúdo e respectivo grau de eficácia. 4.10. porque a positividade constitucional é um gênero abarcante das normas que aparecem para o mundo do Direito por via da Constituição originária e mais aquelas que aparecem para o mundo jurídico por via dos atos de reforma da Constituição mesma. por inteiro.7. se em normas constitucionais se traduzem.1. e não de normas dominantes. deixam. E não sendo produzidos por um poder assim virginalmente fático. A inadequação do termo "Interpretação Constitucional" 4. do âmbito de uma genérica teoria da interpretação. Qual a conseqüência teórica dessa impossibilidade de os atos de reforma da Constituição ditarem o seu próprio regime jurídico? A conseqüência da não-definitiva autoqualificação nem da definitiva auto-hierarquização como norma de Direito.6. O que já significa dizer que. 4. são atos normativos que não têm a menor ensancha de livremente dispor sobre o seu regime jurídico. de se apresentar à Ciência do Direito como produzidos por um poder de fato ou supra-estatal ou suprapositivo. Os atos de reforma da Constituição (quantas vezes o dissemos?). O Direito Positivo como sistema ou ordenamento.1. com esta separação entre normas da Constituição e normas de reforma da Constituição.2.9. Não as segundas. O modo insimilar de viver da Constituição como segunda e definitiva causa de diferenciação hermenêutica 4. vistos sob o prisma do seu processo de elaboração e quanto à disciplina da matéria sobre que versam (com a respectiva dimensão eficacial). Seja quanto à sua forma de elaboração. isto é.1.4.Capítulo IV . que é a natureza do verdadeiro Poder Constituinte. A inadequação do termo "Interpretação Constitucional" 4. É ainda dizer: surpreendidos no seu regrado processo de elaboração jurídica. por virtude da Constituição 4. O tema da interpretação da Constituição exige de nossa parte uma prévia demarcação de conteúdo.1. tanto quanto no seu regrado poder de . a merecer o rótulo provisório de "Interpretação da Constituição". Ele não significa a formulação de uma teoria que encerre ou contenha diretrizes para a concreta interpretação de toda e qualquer norma constitucional positiva. O modo insimilar de nascer da Constituição como primeira causa de diferenciação hermenêutica 4. Queremos dizer.2. A imperiosa substituição do nome "Interpretação da Constituição" por "Hermenêutica da Constituição" 4.4.5.1. Teoria da Interpretação do Direito em geral. A Teoria da Interpretação do Direito em geral como antecedente da Interpretação da Constituição 4. que somente as primeiras é que se tornam objeto de uma centrada teoria da interpretação. porque destituídas de peculiaridades que as excluam.A Hermenêutica da Constituição Sumário 4.8.3.1.1.

O todo da Constituição inicial e respectivas partes. antecede aquilo a que se destina moldar. É uma qualificação e uma hieraquização que vêm de trás para frente. O regime jurídico dos atos de reforma da Constituição é um molde que a própria Constituição prepara. não têm sua importância reduzida pelo fato de as mesma pessoas que formam uma Assembléia Nacional Constituinte poderem se transformar. portanto. é que não tem molde ou fôrma a precedê-la. não se pondo na linha de partida do Direito (mas sempre a meio caminho dele). O seu real paradigma. um a posteriori. 4. formar. tão logo promulgada a Constituição (exatamente como se deu com a Lei Maior brasileira de 1988).1 4. E como todo molde.1. um a priori. Somente fica o órgão rebaixado. os atos de reforma da Constituição não se enquadram num esquema de interpretação em tudo e por tudo igual ao da própria Constituição. por que sua qualificação como norma jurídica é uma necessária e definitiva autoqualificação. que nos parecem necessárias para um claro entendimento da relação primária entre a Constituição e os atos de reforma constitucional. pelo fato evidente de que esta se formou há mais tempo como ordem autônoma de conhecimentos. só podem ter a sua qualificação e a sua hieraquização como norma jurídica por virtude de algo anterior a eles. 4. O objeto ou a coisa a moldar é sempre um conseqüente. necessariamente. como é o caso do Parlamento ou Poder Legislativo. Há um só molde. em membros de um Poder simplesmente instituído. desde que figurante da originária redação de um Magno Texto. No âmbito da Constituição originária.1.5.2.1. no particular. Repetindo: o objeto a sair do molde não pode plasmar o molde de que vai sair.6. à espera de que. todos eles encartados num processo legislativo que nasce com o originário Texto Magno. sim.1.1. E sua força impositiva frente às outras normas é. assim. É que a Assembléia Constituinte pode se auto-rebaixar para Assembléia Constituída. Aquele auto-rebaixamento é uma viagem sem retorno.9. Nasce de dentro da Constituição para fora e se impõe a todo o Ordenamento. A Interpretação da Constituição como tema de estudo nos empurra. Algo que se faz por ela mesma. tão-somente. toda fôrma. é o dos demais espécimes de Direito infraconstitucional. múltiplos objetos sejam moldados. sem possibilidade de reversão. Mas a Assembléia Constituída jamais pode se autopromover para Assembléia Constituinte. recortar. 4. enquanto o molde só pode ser concebido como um antecedente. uma necessária e definitiva auto-hierarquização. .7.conformar relações intersubjetivas materiais. o que nos caberia formular seriam os cânones presidentes da interpretação de todo e qualquer dispositivo constitucional. ou de fora para dentro.1.8.2. 4. por ele. todo figurino. para o âmbito mais dilargado da Teoria da Interpretação (ou Hermenêutica Jurídica em geral). pois Constituição em tudo e por tudo eles não são. pois o órgão que se auto-rebaixa desaparece para sempre dos quadrantes do Direito. todo molde é algo que nasce com ela. Sob o título de "Interpretação da Constituição". e não para ela. esta. Ao reverso do que sucede com os atos de sua própria reforma. A Teoria da Interpretação do Direito em geral como antecedente da Interpretação da Constituição 4. que. num seguinte e imediato instante. A Constituição inicial. Do que se deduz que nenhum dos objetos a sair do molde possa dar a si mesmo o próprio molde. 4. por igual. sim. Estas noções.

passam a constituir princípios hermenêuticos a aplicar no empírico processo da interpretação de uma determinada norma de Direito Positivo. é natural que a Teoria do Direito anteceda à Teoria da Constituição. Diga-se mais: como o centro do Direito em geral era o Direito Privado. dualidade norma/Ordenamento. é parte dessa Teoria: aquela parte que tem especial serventia para a interpretação jurídica em concreto. também se enlaça operacionalmente à Teoria do Direito.2. de 05 a 10 de maio de 1998. sabido que este último somente ganhou suas definitivas características a partir das Constituições que se promulgaram nas três últimas décadas do século XVIII. em estudo que principia pela correta asserção de que "Praticar a interpretação constitucional é diferente de interpretar a Constituição de acordo com os cânones tradicionais da hermenêutica jurídica" (primeiras linhas do texto que serviu de roteiro a conferência pronunciada em Aracaju. Hermenêutica. 4. reservando à segunda o papel seqüencial de aplicar à cognição dessa ou daquela norma de Direito Positivo os enunciados da primeira.3. porquanto aplicáveis a toda e qualquer norma-objeto de interpretação. Mas não somente com a Interpretação Jurídica é que a Hermenêutica mantém um necessário vínculo operacional. também natural seria que as coisas acontecessem como de fato aconteceram: os mais vivos contornos da Teoria da Interpretação foram esboçados à luz de um pensamento jurídico marcantemente privatista. É como dizer: a Hermenêutica é o capítulo da Teoria do Direito que vai centradamente orientar o processo de compreensão dessa ou daquela norma jurídico-positiva.4.8. pelo fato de que mais e mais os doutrinadores insistem na diferenciação entre hermenêutica e interpretação.6. Daí para o campo hermenêutico a dedução é instantânea: a Teoria da Interpretação lato sensu nasce bem antes do que a Teoria da Interpretação da Constituição stricto sensu. enquanto aquela a significar a busca de noções transpositivas. 4.2. por exemplo (que são categorias mentais elaboradas ao nível da Teoria Geral do Direito). E a esse empírico processo de compreensão é que se apõe o rótulo de Interpretação Jurídica.5.2. Por isso que a Interpretação da Constituição tem sido focada como subseção da Hermenêutica Jurídica em geral.2. 4. 4.2. no fundo. porque. 4. A imperiosa substituição do nome "Interpretação da Constituição" por "Hermenêutica da Constituição" . 4. lacunas da lei e modos de sua colmatação. Façamo-nos entender com mais clareza.2.2.3. Por essa diferenciação entre a hermenêutica e a interpretação jurídica. hierarquia internormativa. A comparação temporal entre as duas modalidades de teoria é a mesma que pode ser feita entre as idades do Direito como um todo e do Direito Constitucional em particular. Esta a significar a busca da revelação da mensagem aportada por uma particular norma de Direito.4. durante seminário que. os estudantes de Direito da Universidade Federal de Sergipe realizaram em homenagem ao primeiro decênio da Constituição da República Federativa do Brasil).2. É o que ressalta WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO.2 4. Ainda um tanto é de se dizer na matéria. a hermenêutica encerra um conjunto de noções preparatórias da interpretação. Assim é que noções de validade. Ela.7. eficacidade e efetividade. antinomias normativas e critérios de sua eliminação. Não estamos a dizer nada diferente do que isto: se o Direito como um todo antecede à Constituição.

o que vimos designando até agora de "Interpretação da Constituição" tem que mudar de nome. Num esforço de refinamento explicativo. destacando-a de qualquer outro diploma normativo ou ramo autonomizado do Direito. porque tem por objeto revelar da Teoria da Constituição apenas aqueles enunciados que sirvam para o concreto labor da compreensão de toda e qualquer norma constitucional-positiva originária. porque importa colocar em realce que a Hermenêutica Jurídica em geral ocupa um espaço de teorização de obrigatório trânsito pela Hermenêutica da Constituição.2. Donde a conclusão de que a operação mental do intérprete segue este necessário roteiro: começa pelas pré-compreensões que a Hermenêutica recolhe da Teoria da Constituição e desemboca na compreensão final (interpretação) de uma norma-objeto. esta é de menor abrangência no seu campo material de estudo. Mas esta nossa explicação é ainda incompleta. Logo. o histórico e o sistemático. Não somente para esta ou aquela específica norma constitucional-positiva originária. aí.3. A Interpretação.1. a ilação da dicotomia acima pontuada é intuitiva: ela. a Hermenêutica da Constituição faz-se de ponte entre a Teoria da Constituição como um todo e a interpretação de cada norma dessa ou daquela Constituição Positiva originária em separado.3.3. a saber: o literal. portanto). Sendo assim. Por esse ângulo de visada. Passa para "Hermenêutica da Constituição". Com o respectivo grau de eficácia. E nesse campo específico da Hermenêutica da Constituição.Já a Hermenêutica da Constituição. Porção que termina por formar pré-compreensões ou pré-interpretações de que se vale o aplicador da Lei Maior (que é o intérprete em concreto) para o trabalho final de apreensão do significado de uma determinada norma de elaboração genuinamente constituinte.3. O objeto da interpretação constitucional.4.4. Hermenêutica da Constituição.na medida em que existe para aproveitar da Teoria da Constituição apenas aqueles enunciados de especial préstimo para o labor da interpretação de todo e qualquer dispositivo constitucional originário (indistintamente. habitualmente). o que se tem já é o campo de incidência da Interpretação propriamente dita. As especificidades da Constituição como a razão de ser de uma Hermenêutica . de que falaremos a breve trecho.3. visto que a Hermenêutica em geral serve de instrumento é para a interpretação de toda e qualquer norma de Direito. e não para toda e qualquer norma da Constituição originária. o finalístico.4. 4. III . somente vale para uma dada norma-objeto. pensamos que tudo se aclara no bojo do seguinte sumário: I . 4. inserida no contexto de uma particular Constituição originária. exprime aquela porção da Teoria da Constituição que vai propiciar o facilitado entendimento de toda e qualquer norma em particular de Direito Constitucional originário. a Hermenêutica antecede o isolamento da norma-objeto (norma já positivada nessa ou naquela Constituição inicial) e por isso mesmo passa a valer para todo e qualquer dispositivo jurídico ou texto normativo-constitucional-originário em apartado. somente. porque.3 4. o lógico. II . Com o quê se diferencia da Teoria do Direito ou "Teoria Geral do Direito" (como também se diz. 4. É o indescartável espaço dos chamados métodos de interpretação jurídica. a Hermenêutica da Constituição passa a se diferençar da Hermenêutica em geral. portanto. Incompleta. bem ao contrário.a Teoria da Constituição tem por objeto elementarizar a Constituição como fenômeno jurídico.

Não há demasia na afirmação. justamente.4. precisamente.4.o da Constituição e o setor do Direito posterior a ela . a exigir metódicos instrumentos de análise também singulares. Quase tudo na Constituição é onticamente singular.4.1. Parte sem a qual o Direito não poderia ser visualizado como um todo fechado em si mesmo. a ponto de podermos separar . por fim. sobre a qual os chamados "Ramos do Direito" erguem a sua autonomia entitativa. 4. Já demonstramos que ela é muito mais do que a diversidade de campos materiais de incidência normativa (campo civil.como estamos separando desde o início desta nossa monografia . Não é a partir de técnicas gerais de compreensão do Direito que se vai conhecer aquela parte do Direito que mais explica o próprio Direito (que é. os vetores da comum hermenêutica do Direito já não tinham como dar conta do recado e por isso é que a doutrina passou a envidar os seus melhores esforços na fixação de novos paradigmas exegéticos ou recursos de uma argumentação propriamente constitucional. com a soma linear das normas que formam o seu próprio corpo de dispositivos. é claro que essa peculiaridade exegética só pode advir do fato de ser a Constituição uma realidade normativa que se marca por traços ontológicos próprios. É de tal monta essa diferenciação entre os dois setores . 4. Com o quê a Hermenêutica da Constituição está para a Teoria da Constituição assim como a Interpretação . afunilando ou direcionando as proposições dessa Teoria para a tarefa interpretativa de cada norma constitucional originária em particular. ou. pelo menos. por evidente). Não é uma diferença qualquer. a etiqueta e a moral). se estamos assim a nos comprometer com o acerto da proposição de que existe uma especificidade hermenêutico-constitucional.4. trabalhista. Se o papel da Teoria do Direito é apartar o Direito das outras realidades normativas (sobretudo a religião. como explicado no capítulo anterior. Ainda mais.3. A Constituição revolucionou mesmo o pensamento jurídico. As linhas que se seguem reforçarão os traços da Constituição como a parte do Direito que mais explica o próprio Direito. Ela nem se confunde com o Ordenamento Jurídico. a ponto de podermos dizer que a Constituição consegue ser diferente até mesmo da mecânica soma das suas próprias normas. porém. o pensamento jurídico a elaborar uma dogmática exegética superadora da tradicional.2. processual.). qual o primeiro papel da Hermenêutica especificamente constitucional? Dar seqüência ao papel diferenciador da Teoria da Constituição. etc. comercial.5. 4. se o papel da Teoria da Constituição é apartar a Constituição dos demais diplomas jurídicos (ou o Direito Constituição do Direito pós-Constituição). Tanto e tanto. nem com as normas de sua própria reforma.as normas da Constituição das normas de reforma constitucional. o papel de mostrar em quê a exegese de uma norma figurante da Constituição originária difere da exegese de uma norma não-figurante de tal Constituição. É como dizer: com o surgimento da Constituição (e estamos a falar da Constituição do tipo rígido. Logo. Aquilo que singulariza as normas da Constituição originária no contexto dos demais atos consubstanciadores de normas jurídicas é mesmo de qualidade.4. Ora. a Constituição).4 4.4. É por se peculiarizar perante o Direito em geral (e como!) que a Magna Lei justifica e exige para si uma metódica hermenêutica também peculiarizada. penal. como realidade tendente a esse fechamento autonômico.diferenciada 4. nem. numa perspectiva nova: a demonstração cabal de que é preciso um toque de especificidade interpretativa para um diploma (o Magno Texto) que nasce e vive por um modo absolutamente insimilar.que força.

com o respectivo grau de eficácia. A Hermenêutica. para se conhecer o conteúdo significante e o grau de eficácia do ser já aprovado pelo primeiro controle de qualidade jurídica. a primeira via de interpretação é descabida.1. Não! Esse modo de interpretar é aplicável somente a uma dada norma da Constituição originária.5 4.5. é a partir do modo pelo qual a Constituição é partejada que se percebe ser ela. ou não. dentro de um esquema de particularização progressiva de conceitos. A Constituição não é válida nem inválida. 4. naquilo que ela tem de apropriação dos conceitos que formam a Teoria da Constituição. Com efeito. Mas em quê o modo especialíssimo de nascer da Constituição implica mudança de vetor hermenêutico? No seguinte: quando se está diante de qualquer outra realidade normativa.3. É inferir: somente depois de passar por um exame de validade é que o espécime normativo sai dessa primeira via de interpretação para a segunda. outro. O exame comparativo entre o diploma jurídico objeto de interpretação e a Lei Maior. 4. É para isso que serve a distinção entre a Hermenêutica e a Interpretação da Constituição (entre outras serventias). para se avaliar a procedência. qualquer outro ser ou modelo prescritivo de conduta que se apresente com as vestes de uma regra jurídica.6. porém globalmente efetiva ou não. é preciso ainda ver se o documento jurídico de que faz parte a norma-objeto foi (ou não foi) produzido sem mácula processual e também . que já é propriamente conteudístico-eficacial. do caráter jurídico do ser investigado. 4.5. Perante as respectivas normas. 4. agora sim.5. faz-se o uso de dois tipos necessariamente sucessivos de interpretação: um. como se dá. 4. Hermenêutica da Constituição. Um centro decisório exclusivamente normante.5. para ver até que ponto se dá a compatiblidade formal e material do primeiro à segunda. Muito bem. com os demais atos expressionais do Direito. e não simultaneamente normante e normado. A interpretação de uma particular norma jurídica não se esgota na revelação da semântica ou significado lógico-idiomático por ela portado. exige que se faça exame de validade no momento do empírico processo de interpretação de toda norma que venha a se positivar após a Constituição mesma.Constitucional está para ela. O modo insimilar de nascer da Constituição como primeira causa de diferenciação hermenêutica 4. não-jurídica de deliberação. ela é aquele pedaço do Direito que menos identidade mantém com os demais.5. aquela porção do Direito que mais se diferencia de todas as outras. Constituição. E tudo começa mesmo é com a percepção de que só o Magno Texto (não tenhamos receio de incorrer em repetição de juízo) nasce de uma fonte exclusivamente política.2. Fora da Constituição originária.4.5. Não é assim com a Constituição originária. façamos a mais lógica das perguntas: qual a primeira especificidade da Constituição a repercutir no campo de uma métodica hermenêutica diferenciada? Respondemos: tudo o que justifica a dualidade de vetores ou diretrizes hermenêuticas principia pela insimilaridade do nascer da Constituição como realidade jurídico-positiva. Se se prefere. É muito simples o que intentamos dizer.5. Ela se "valida" pela efetividade. o que significa percorrer o itinerário inverso dos outros modelos jurídicos: estes somente podem obter o atributo da efetividade depois de obtido o atributo da validade. factual. Uma seqüenciando a outra ou tendo a outra como referencial. Uma fonte ou instância de poder que faz parte do mundo do ser. e não do mundo das normas.5. No fluxo desta nossa caminhada cognoscitiva.

2.1. perante qualquer diploma jurídico (inclusive o das emendas ou revisões constitucionais). 4. a forma pela qual a Constituição deixa o Ordenamento ou dele sai (finando-se com ele. E já dissemos que o modo de a Constituição Positiva fazer parte do Ordenamento Jurídico é absolutamente único. segundo. Não há outra (daí a distinção entre uma soberania que trata da Constituição. o exame de validade formal e material é intransigente: incide sobre todas as normas ali contidas.7. 4. O modo insimilar de viver da Constituição como segunda e definitiva causa de diferenciação hermenêutica 4.6.se a própria norma-objeto estava autorizada a se dotar do conteúdo e da eficácia com que positivamente nasceu. 4. absolutamente nenhuma. pondere-se) é a mesma pela qual entrou: a suprapositividade. assim como JESUS.o método filológico ou literal. É dizer: sem a intercalação de nenhuma outra instância produtora de norma jurídica. terceiro. que outra coisa não é senão o quê da norma . então. meio direto ou simplificado de se viabilizar o conhecimento da mensagem aportada por aquele discurso (mensagem. a Constituição é o único documento normativo que provém do Poder Constituinte por forma direta. para as religiões cristãs. diríamos que a Constituição também vive por um modo insimilar. e uma soberania de que trata a Constituição já elaborada).6.a partir da rigidez formal a que necessariamente se impõe . a radicalidade operacional é inversa: nenhuma norma constitucional originária. Logo. e não jurídico-positivas).6. é o filho unigênito de Deus (pois que gerado diretamente pelo Criador). Em suma.5. a maneira de a Constituição fazer parte do Ordenamento é se postando no topo desse Ordenamento.3. mas o Ordenamento é que principia com a Constituição. Por mais que nos deparemos com a cerrada oposição de autores densamente qualificados. elaborando-a. que opera pela revelação do significado comum ou dicionarizado das palavras e expressões em que se vaza o discurso jurídico-positivo. convicto estamos de que.9. porque: primeiro. tal qual JESUS CRISTO operou como um divisor de águas na esfera mais dilatada de toda a humanidade ocidental (antes e depois dele). 4. Daí porque opera como um divisor de águas na esfera jurídico-positiva. Mesmo que se trate de norma engastada em ato formal de emenda à Lei Maior. Ocorre que esse modo único de nascer da Constituição apenas faz sentido se se fizer acompanhar de um modo único de viver.com a mesma originalidade que marcou a trajetória existencial do filho unigênito de Deus no meio do homens. é submetida a exame de validade. incorpora os seguintes e englobados métodos de intelecção normativa: I . Ela prossegue pela vida afora do Direito . Nenhuma fica de fora.5. Nesse plano de radical exame de validade. E a causa eficiente da exclusão de tal exame prévio é o modo peculiar de nascer da Constituição. não é a Constituição que principia com o Ordenamento.8.6. Todas ficam de fora.6 4. a Lei Maior passa inteiramente ao largo do processo exegético ou da empírica interpretação normativa. Principiemos por lembrar que a dogmática hermenêutica. E outra vez por comparação com a figura ímpar de JESUS. É aqui mesmo que devemos fazer a outra decisiva pergunta: e em quê o modo único de viver da Constituição repercute no campo da tópica hermenêutica? Ah! Por vários aspectos! 4.5. Já diante da Constituição. e não apenas dentro dele. genericamente considerada (plano das considerações lógico-jurídicas.

o significado que a norma assume. então. O papel do intérprete. revelando-se.10 . por constituir a norma-em-si. e não o dicionário idiomático em geral). então. não enquanto ilha. quer dizer. decifrar o meramente verbal da comunicação normativa.positiva ou o objeto da relação positivamente instituída. Implica uma releitura. empregado para a captação do objetivo ou dos objetivos da norma interpretada (domínio do para quê normativo. é método voltado para o resgate do porquê da jurisdicização da matéria. para saber em que essa comunicação consiste. pois implica a revelação do significado técnico ou propriamente jurídico das palavras de que se venha a compor o dispositivo interpretado e ainda passa por uma obrigatória leitura das entrelinhas ou do não-verbal desse mesmo dispositivo. que é a conseqüência lógica do interpretar articulado (cada dispositivo em combinação com os demais. Por comparação com o método lógico. porém enquanto península ou parte que se atrela ao corpo de dispositivos do diploma em que se engasta. quando for o caso. Estas últimas são palavras-fim. mas de toda a lei ou de todo o código de que faça parte o dispositivo interpretado. ou.o método histórico. que é a mensagem-em-si em que ela se traduz. ao reverso. O que significa. isto é. reversamente. implicando o conhecimento do pomo factual de discórdia que gerou a necessidade da normatização jurídica. é ler nas próprias linhas do dispositivo.o método sistemático ou contextual. seja para substituir o sentido meramente coloquial dos signos linguísticos por um sentido propriamente jurídico ou da própria técnica do Direito (e aí o dicionário a que se recorre já é o vocabulário jurídico. cumprem nesse discurso um mister propriamente relacional ou intersubjetivo. para que a união de cada parte ao todo traga para o Direito a qualidade do todo.7 II . e não somente a qualidade de cada parte mesma). principalmente para o efeito do uso correto da interpretação dita extensiva. não desse ou daquele dispositivo em particular. Mas a sua utilidade específica permanece igual à serventia dos métodos literal e lógico de interpretação: conhecer e descrever o quê de cada norma-objeto. ainda é preciso considerar as linhas e entrelinhas da própria Constituição Positiva. da interpretação dita restritiva). com o seu específico tamanho eficacial).9 V . como o próprio instituto jurídico ou a figura de Direito que se procura conhecer. semantica e eficacialmente.o método teleológico ou finalístico. De todo modo. descambando para o histórico-evolutivo. agora o que importa é ler nas linhas e entrelinhas. Afinal. III . sua utilidade é a mesma do método literal: buscar a revelação do quê da norma. uma vista panorâmica do material investigado. palavras que encerram o núcleo mesmo da norma de Direito Positivo. Logo. E o papel da interpretação literal (toda interpretação começa por esse método) é saber que palavras cumprem no discurso jurídico-positivo um mister meramente vernacular (palavras-meio) e que palavras.o método lógico. voltado para a reciclagem ou o policiamento do método filológico. cuja prestimosidade está em conhecer a origem ou etiologia da norma. existe mesmo e não pode deixar de existir um vínculo funcional entre as palavras e o Direito-lei. bifurcado num para quê de ordem prática ou imediata e num para quê de ordem axiológica ou mediata). portanto: o método sistemático de interpretação jurídica é o único a possibilitar um visual de conjunto. E se essa lei ou esse Código for de Direito Infraconstitucional. a sua forma causal. que tem por função eidética procurar o sentido peninsular da norma jurídica.8 IV . seja para dimensionar com precisão o potencial de eficácia da norma interpretada (tarefa em que avulta a consideração do não-verbal ou das entrelinhas do dispositivo interpretado. então.

É no último deles.7.6.1. a sabenças: todo juízo de validade jurídica só alcança a dimensão de um juízo de validade absoluta (e não apenas relativa) depois que a norma-objeto se mostra compatível com a própria Constituição Positiva. é a Teoria da Constituição (mais que a Teoria do Direito em geral) que proclama. ou admita constrição de efeitos pela mesma via da legiferação de segundo escalão (normas de eficácia completável e normas de eficácia restringível. o método sistemático é mais abrangente: além de apanhar a norma investigada no contexto da lei. Afinal. uma interna.4. pois em tema de exame de validade jurídica a meta é a fonte.7. 1982). ou seja. porque a Constituição. Que sucede. ainda quando a eficácia de suas normas reclame acréscimo de prescritividade por uma legislação de menor hierarquia. Consideremos agora o seguinte: mesmo quando o método sistemático é aplicado ao Direito pós-Constituição. busca inseri-la no todo da Constituição. para nos valermos de expressão corretamente adotada por JOSÉ AFONSO DA SILVA para a nossa Constituição de 1988. Longe de querer servir à lei e aos demais espécimes de Direito Legislado. segundo a classificação que pessoalmente adotamos em parceria com CELSO RIBEIRO BASTOS. e.5. pois. reduzindo. o mais das vezes. E isto se dá pelo fato de ser a Constituição. Assim é que não basta a um decreto. e essa fonte primeira (fonte das fontes) é a Constituição positiva. Não tem que sair dos muros ou dos lindes que demarcam a normatividade constitucional originária. senão. outra. uma natureza.6. a Constituição passaria a servir ao Direito-lei.6. a Constituição quer servir é a si mesma. por hipótese. em verdade. Começa pelo diploma jurídico a que pertence a norma e vai em frente: sangra as barragens desse diploma para cotejar a norma com a própria Constituição. ao longo da monografia INTERPRETAÇÃO E APLICABILIDADE DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS (Editora Saraiva. 4. Por conseguinte. ele passa a ganhar uma qualidade. Para logo. 4.6. A Constituição prescinde do Direito posterior a ela para se fazer entendida quanto ao significado dos seus institutos e instituições. o ímpeto ou a "essência transformadora" da Magna Carta. ou do código. quando essa mesma técnica da contextualidade é aplicada à Constituição? Fica absolutamente confinada. respectivamente. se adequar à lei por ele aplicada. e não o Direito-lei a servir à Constituição. É preciso ainda que ele mantenha com a Constituição um vínculo de perfeita sintonia formal e material. ou da emenda. quando aplicado ao Direito posterior à Constituição. recicla todo o Direito Positivo e daí toda a Teoria Jurídica. E é para servir a si mesma que ela dispõe sobre a elaboração de todo o Direito posterior a ela. A Constituição enquanto base normativa permanente de todo o Processo . de que ela faça parte.7. Não o contrário. uma peça jurídico-positiva que se orienta por critérios de auto-referência ou de auto-explicação quanto ao seu próprio significado e tamanho da sua eficácia. O Direito Positivo como sistema ou ordenamento por virtude da Constituição 4. encerrada no corpo normativo da Constituição mesma. etc. O seu concreto uso muda de perspectiva. a derradeira das metas é a primeira das fontes. vê-se que não é no círculo dos quatro métodos iniciais que toma corpo a especificidade interpretativa que estamos a reivindicar para a Constituição. porque. E por que assim acontece? 4. 4.4. os institutos e as instituições de selo constitucional devem ter a sua conceituação elaborada a partir de elementos encontradiços na própria Constituição.. externa. É uma sistematicidade de dupla face. quando formalmente rígida.6. uma tonalidade nova. porém.

Constituição.1. 4. Com exclusividade. Pois bem. ao nascer. Para se manter assim hierarquicamente superior. com diferentes palavras. discriminação. 4. material e eficacialmente (com a referida suavização conteudístico-eficacial em tema de emenda ou revisão).1. Já em se tratando de outras modalidades de normas de aplicação primária da Constituição. por efeito mesmo de sua rigidez formal.1. Mais: a Constituição cria mecanismos de autodefesa quanto à fiel observância daquele processo e também quanto ao conteúdo mesmo e dimensão eficacial dos atos legislativos que a ela se seguirem. desde que formalmente rígida. esses. É sintetizar: a Constituição.4. ele fica acentuadamente suavizado: as emendas e revisões só não podem inovar em tema de cláusulas pétreas materiais. o conjunto normativo de hierarquia máxima. no entanto.2. Manter sob o seu mais próximo controle todos os atos de elaboração normativo-primária. Vamos repetir o juízo. e cada norma que se seguir . é documento normativo que exibe duas notas distintivas: primeiramente. é que pode dizer como se deseja primariamente aplicada. formal. aí o dever da compatibilidade vertical é absoluto: alcança tanto as cláusulas pétreas quanto as destituídas dessa qualificação (desde que se entenda por dever de compatibilidade vertical a não-contradição entre os comandos da legislação infraconstitucional e aqueles insertos na Constituição). A Constituição.5.1.7. E isto se dá pela instituição de um "processo legislativo" que recubra os atos jurídicos de imediata aplicação dela própria. para se autoproclamar como lei das leis ou norma normarum. a Constituição formalmente rígida é.1.7.7. Tem que ser a fonte das fontes normativas ou a lei das leis. Bem. Ora bem.1. pela consideração de que ela. é claro que ela tem que dispor sobre a edição das outras normas jurídicas gerais. depois.Legislativo 4. também dê à luz um Direito que se caracterize por somente absorver aquelas normas que tenham em outras normas imediatamente superiores a devida confirmação (fundamento de validade).3. só pode fazê-lo na medida em que se irrogue a força de ditar o regime jurídico de todo o Direito legislado (Direito-lei) que a ela se seguir. É exprimir: cada norma de imediata aplicação da Constituição tem que homenagear a própria Constituição. Esse último reclamo de compatibilidade material e eficacial demanda. a Constituição recicla todo o Direito Positivo e daí a própria Ciência Jurídica. formando com ele um segundo e complementar sistema. no confronto com as demais regras de Direito Positivo (inclusive os atos oficiais de reforma constitucional). a instituição de um processo legislativo-constitucional (que é formalmente pétreo por definição) e mais o reclamo de compatibilidade material e de eficácia já são suficientes para que a Constituição. o tempo todo. Cuidando-se de emenda ou revisão à Magna Carta. 4. ela é a própria condição lógica da montagem de um Direito Positivo de "supra-infra-ordenação". o que faz pela enumeração dos atos normativos que se integram no processo legislativo. porque é nessas cláusulas que o Texto Supremo se personaliza ou tem a sua identidade substancial (a Constituição tem os traços fisionômicos das suas cláusulas pétreas). que são produzidos por uma forma preestabelecida quanto à indicação dos respectivos editores (órgãos ou fontes legiferantes) e quanto ao encadeado itinerário de formação da vontade legislativa de tais editores.7. Atos jurídicos. que são atos de imediata aplicação dela própria. 4. ela é um sistema normativo em si.7. tanto do ponto de vista formal ou processual quanto do ponto de vista material ou de conteúdo e ainda eficacial. e somente ela. de sorte a impedir que tais atos se tornem ovelhas desgarradas.

formal e materialmente.2. E como uma parte da Constituição ainda é absolutamente imune a supressão ou a medida que tenda a tal supressão. É por ser formalmente rígida. Parêntese fechado. 4. O regime jurídico da rigidez é sempre originário e definitivo. Donde os conceitos de validade relativa e validade absoluta de norma jurídica. e não uma pluralidade contraditória e fragmentária de comandos (parodiando HERÓDOTO. imediata. averbamos que os atos de reforma da Constituição. Um conjunto ordenado. pois a Constituição forma com as regras infra e pós-constitucionais um só Direito Positivo. Se não instituído.1.7. mediata. ou seja. claro. Versos de rima dobrada. por nova manifestação constituinte). em última análise.2. ela já está a se categorizar como o segmento do Direito mais infenso a reforma. que é a norma geral de aplicação da Constituição. 4.7. 4. nesta última suposição. pensamos que a oportunidade é das melhores para também lembrar que outro efeito lógico da rigidez formal é a Constituição Positiva a se assumir como o documento normativo que mais persevera na sua originária formulação. Temos.7.6. cada fonte a jorrar de outra fonte e cada norma jurídica a buscar fundamento de validade material em outra norma jurídica. Se instituído pela Constituição. outra. patenteada fica a proposição de que ela. A título de parêntese.1. até o remonte final à Constituição. além de impedidos de tocar no originário esquema da rigidez formal. Um "Ordenamento". enfim. que a Constituição faz do Direito Positivo um todo encadeado de fontes normativas e respectivos comandos.2.7.àquelas de aplicação imediata da Constituição tem que ajustar o seu conteúdo e eficácia a tais normas de aplicação imediata da Constituição e ainda à Constituição mesma. da perdurabilidade . que a Constituição é hierarquicamente superior às demais normas jurídicas.1. O fato em si da rigidez formal já revela o compromisso que a Lei Maior assume com o movimento incessantemente pendular do Direito. um Direito Positivo tão hierarquizado nos elementos que formam o seu repertório. a pressupor interdependência de autoridades normativas e ausência de antinomias de comandos.11 4. que falou do Egito como um presente do Nilo. que é a Constituição em si.12 4. tanto formal quanto materialmente.7. E é por ser assim hierarquicamente superior.7. Constituição rígida.8. O caráter superlativamente estável da Constituição e suas conseqüências hermenêuticas 4. Se a Constituição apenas se permite inovar por um processo mais cerimonioso que o das outras normas gerais. nunca mais o será (a não ser. o segundo dos sistemas a que nos referimos: o sistema do Direito-com-a-Constituição. é aquele elemento de estabilidade sem o qual perderia sentido o reenvio de toda fonte e de todo comando jurídico-positivo à positividade do primeiro deles. por conseguinte. Tudo por efeito de uma hierarquia internormativa que deita raízes na rigidez formal que só a Constituição pode e deve (poder-dever) se autoconferir.2. não podem instituir por conta própria esse tipo de esquema para uma Constituição que se deslembre de instituí-lo. porque referidos a duas normas superiores: uma.1. diríamos que o Ordenamento de supra-infra-ordenação ortodoxa é um presente da Constituição rígida).7. torna-se automaticamente pétreo. Está aqui a razão pela qual HANS KELSEN fala desse tipo de Direito Positivo como "ordem normativa de supra-infra-ordenação". quer dizer. a ponto de formar com a Constituição um todo sistêmico. Uma unidade formal e material de estatuições.

O caso das emendas à Constituição é um caso à parte (como temos ressalvado). o papel da lei não é o de aplicar u'a emenda à Constituição. ou seja. Malheiros Editores. um refundir a própria norma-começo de todo o Ordenamento. Sua funcionalidade é um olhar para trás. reformada ou não reformada. sua fonte geradora na lei complementar? Absolutamente não! (em ELEMENTOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL. se hierarquia assim se conceitua é preciso indagar: lei ordinária. ao contrário da lei.4. em rigor técnico.5.2. mas aplicar a Constituição emendada. Constituição). Seja a Constituição antes de qualquer reforma. 4. mais nos convencemos de que se trata de um diálogo em separado.7. seja a Constituição depois de reformada. 4. Tanto isto é verdade que o Supremo Tribunal Federal. Um e outro momento. seu engate lógico. é do nosso juízo que os atos de reforma da Constituição não podem manter com a lei um vínculo operacional direto. Por isso que. seu ser. por acaso encontra seu fundamento de validade. o momento legal sempre se reconduz. podemos falar nesse instrumento chamado lei. Esta é que. momento vocacionado para a permanência deôntica. 4. litteris: "Hierarquia. E é neste passo que ressoam aos nossos ouvidos os mesmos argumentos que MICHEL TEMER esgrima para evidenciar o sem-sentido da tese que propugna pela existência de hierarquia entre a lei complementar e a lei ordinária. Fundamento imediato de validade das leis é sempre a Constituição.7. é a circunstância de uma norma encontrar sua nascente. Momento vocacionado para a mudança. para o Direito. A lei é hierarquicamente inferior à Constituição porque encontra nesta o seu fundamento de validade. lei não era'. . no âmbito mais restrito do próprio Direito Constitucional. àquele originário momento constitucional. dado que lei é instrumento criado pelo Texto Constitucional. aqui. entretece com a lei um necessário convívio. Aliás. tanto quanto as emendas o são). contudo. o que é sutilmente diverso. Pois bem.para a mutabilidade e vice-versa. Quanto mais analisamos a relação que a Lei das Leis mantém com as suas próprias emendas. seu fundamento de validade numa norma superior.3. ali. mas apenas com a Constituição. por exame de validade. pois as emendas constitucionais não se põem como o imediato fundamento de validade das leis (entendidas as leis como normas gerais de aplicação primária da Constituição. Sem o menor propósito objetivo de colocar tais atos de reforma como ocupantes de grau hierárquico intermediário entre a Constituição e as demais normas gerais de sua aplicação (dela. seu engate lógico. pois. elas não existem para renovar o Direito em geral. ao passo que a funcionalidade da lei é um olhar para a frente. sua fonte geradora. porque às leis é suficiente a Constituição tal como posta. E sendo assim. inferimos que não existe uma direta hierarquia entre emenda constitucional e lei. 8ª edição.2. um dar-se por satisfeito com a Constituição preexistente. passando a ter na lei o seu elemento de aceleração ou estado móvel de comandos. pois se o momento constitucional é que autoriza o momento legal. ao declarar que uma lei é inconstitucional está dizendo: `aquilo que todos pensaram que era lei. Na vertente deste nosso jeito pessoal de colocar os atos de reforma da Constituição no seu devido lugar. ou revisões. mas para atualizar a Constituição em particular. até porque as emendas não podem refundir o originário esquema constitucional de indicação das normas gerais que se integram no processo legislativo (cláusula tácita de intangibilidade). que é um Direito bifurcado em normas da Constituição originária e normas advindas do Poder Reformador. a se exigirem ininterruptamente. em reservado. sua razão de ser. o Direito Positivo tem na Constituição mesma o seu necessário ponto de frenação ou estado firme.7.2. porque a Constituição o cria.

superarem as outras pela aplicação dos dois multicitados critérios. entretanto. relembrando que algumas das primeiras Constituições escritas eram tão-somente semi-rígidas.2. pois ele revela um tipo de unidade de sentido que não se obtém sem o reenvio do Direito pós-Constituição à Constituição mesma. 4.10.7. o que se tem já é um sistema de comandos. Aquilo que faz uma Constituição Positiva ser diferente da que lhe antecedeu e também distinta da Constituição de qualquer outro povo. no sentido de que as sucesssivas normas-começo passam a girar.11. 4. na acepção de que. Com essa modalidade não-formalmente hierarquizada de sistema jurídico (o Direito visto de um ângulo não-referido a uma Constituição rígida). Crivo. 4. O Direito que só admitisse os dois referidos critérios da intertemporalidade e da especialidade material como técnicas de resolução de antinomias normativas seria um Direito.2. um novo ciclo absoluto de normas referentes e normas referidas se constitui. a saber: "a lei posterior derroga a anterior" (lex posterior derogat priori) e "a lei geral posterior não derroga a especial anterior" (lex generalis non derogat legi priori speciali). Daí havermos dito cuidar-se de um método que extravasa os diques do diploma a que pertence a norma interpretada para submeter a mesma norma ao crivo dos comandos genuinamente constitucionais. não em torno da Constituição. Todas estas considerações atestam que o método sistemático de interpretação jurídica recebe decisiva influência da Constituição. porque verdadeiramente pétreos. Numa frase. Mas um sistema de comandos de outra natureza. o que se tem é uma unidade do tipo: a) cíclico. 4. Com o que as Leis Supremas de cada Estado soberano adicionaram à sua identidade formal (implícita ou por definição) uma identidade material explícita.7.6. E com o resgate da unidade de sentido conteudístico dos elementos que formam o repertório do Direito. Com o tempo. do Poder Legislativo habitual ou cotidiano. Se não houvesse a Constituição do tipo rígido. pois onde houver critério de eliminação de antinomias normativas haverá unidade de sentido conteudístico.7. no tempo.2. porém diferente da espécie piramidal ou deslinear de Direito que se constrói a partir de uma Constituição rígida (norma-começo que não admite outras assim postadas no interior do mesmo Ordenamento). ou seja. a pouco e pouco reforçado com a técnica da expressa indicação de temas super-rígidos. o pensamento jurídico universal se abriu para a compreensão de que a constitucionalização de toda e qualquer matéria já significava um juízo político de qualidade superior de tais assuntos. sim.8. o Direito que só conhecesse os critérios da intertemporalidade e da especialidade material como técnicas de resolução de antinomias entre normas não deixaria de constituir um sistema. pois se contentavam em retirar do Poder Legislativo usual a disciplina das matérias versantes sobre a Separação dos Poderes e acerca dos direitos e garantias individuais. . a ponto de excluí-los. enfim.7.7. Era o traço complementar da rigidez material genérica. porque subtraídos à faina legislativa do próprio Poder Reformador.7. por certo que o método sistemático de exegese das normas jurídicas em geral restaria funcionalmente empobrecido.2.9. que tanto recai sobre quem faz a norma quanto sobre a norma feita (processo e conteúdo normativos). 4. 4.1991). mas delas próprias. pois não poderia ir adiante dos dois conhecidos critérios temporal e material de resolução de antinomias jurídicas. Coloquemos os pontos nos "is" deste subtema.2. O campo divisional. do legislar constituinte e do legislar constituído.7. b) circular. a cada nova regra-começo no interior do Ordenamento. automaticamente. ainda que este venha a se elevar à dimensão de um agir reformador da Magna Carta. pois inteiramente calçado em tantas normas-começo quantas forem as leis que.2.

se. insista-se no juízo. Dentro da Constituição. Da Constituição rígida para dentro. A dualidade princípios/regras como base da nova Hermenêutica da Constituição 4. Mas a Constituição consegue ser. Vale dizer: as normas que veiculam princípios desfrutam de maior envergadura sistêmica.4. o parâmetro de interação das normas constitucionais originárias consigo mesmas reside é na dualidade temática princípios/regras ou princípios/preceitos (regras comuns são preceitos.9. a segunda unidade. o método sistemático ou contextual de exegese muda de perspectiva quando tenha por objeto uma norma originariamente constitucional. sozinha (tanto antes quanto depois dos atos de sua reforma). a um só tempo. É por ser a Constituição um sistema que o Direito em sistema se transfunde. A hierarquia é um dos modos de relacionamento entre normas jurídicas (estrutura). já agora ao lado do Direito infraconstitucional.8.2. Como a precedência operacional é sempre da Constituição. no sentido de que uma não retira da outra o seu fundamento de validade. o Direito não é. Para sê-lo. um todo congruente de prescrições ela não fosse. antes.8. Todas elas têm o mesmo caráter impositivo e a mesma hierarquia.8. Elas enlaçam a si outras normas e passam a cumprir um papel de ímã e de norte. 4. Sem embaraço do fato de vir a constituir uma segunda e necessária unidade. os seus comandos são interpontuais. a uma outra diretriz. mas que somente se manifesta da Constituição rígida para fora.1. tem que se acoplar à Constituição. Noutro modo de dizer coisa igual. e não princípios). Logo.8. Duas caracterizadas unidades jurídico-positivas então se formam: a primeira unidade. materializada na Constituição (antes e depois de cada ato reformador. os atos de reforma constitucional (dado que voltados para a composição daquela primeira unidade sistêmica). A Constituição como sistema ou ordenamento por virtude própria 4.3. Não é por ser o Direito um sistema que a Constituição em sistema se transfunde. naturalmente. uma unidade sistêmica.1. uma unidade sistêmica do tipo formal e materialmente hierarquizado. entretanto.1. Não apenas pontuais.8. Realmente. com as normas veiculadoras de simples preceitos. agora sim.8.5. um todo congruente de prescrições. já o vimos.9. "não pode haver fronde em ordem com raízes em desordem". . pois a relação ou engate lógico de tais atos se dá é no âmbito específico da Constituição.4. ele se orienta por critérios cabalmente hierárquicos. 4. o modo de relacionamento internormativo obedece a um outro vetor. o que nos cumpre aduzir é patente: a Constituição não faria do Direito em geral um conjunto. e não propriamente do Direito em geral). todo ele cimentado na rigidez formal e conseqüente superioridade da Constituição. no interior da própria Constituição. Fora da Constituição. dele excluídos. o hermeneuta já não pode se servir desse tipo de critério. Voltando a trabalhar com o modelo cabalmente hierarquizado de unidade jurídica. 4. sozinho. Como diria CONFÚCIO. Os princípios como normas interreferentes 4. sim. pois as normas constitucionais originárias não se relacionam por graus hierárquicos. 4. como se dá.9. redivivo.1. materializada na Constituição com o Direito em geral. 4.

no sentido de que "onde há fumaça. ou fracamente referidas a outras normas-preceito. Ele apenas quer traduzir que.. a dicotomia princípio/subprincípio (como se dá entre o mesmo princípio republicano e o princípio da moralidade administrativa). no interior da Constituição rígida. se o princípio constitucional é daqueles que tem sua inter-referência marcada por complementação. é óbvio que ele se define por oposição ao princípio da "função social da propriedade". Ter-se-á.3. uma norma preceitual não leva a outra da mesma natureza. ou de outros. o outro. E os valores são quase sempre dialogantes ou interreferentes. Nesse estado-de-coisas é que vão pousar as normas-preceito.2.9. com as garantias constitucionais.1.9. então. que são normas de acentuado recheio fático e não-referidas. É que as normas principiais consubstanciam ou tipificam valores (Democracia. Ao contrário.1. República. Dignidade da Pessoa Humana. verbi gratia. Verbi gratia. isto é. um Ordenamento de vinco axiológico. Recolocando de forma ainda mais precisa a idéia. 4. os atos e fatos pontuais que se verbalizam em cada preceito (por exemplo. Elas são esses . o veto presidencial a projeto de lei. 4. porém.2. de par com o valor que lhe adensa a individualidade enquanto norma.. para o alcance de valores.2. com um direito subjetivo perante outro (não assim.1. A relação entre as duas categorias (princípios e preceitos) é de continente para conteúdo. cada princípio concorre para a significação de outro. entretanto. há fogo".13 4.4. Já o princípio da "propriedade privada". ambos têm a mesma dignidade sistêmica e por isso nenhum deles pode ser considerado um subprincípio do outro (e a primeira contraposição que nos ocorre é a do princípio da liberdade de informação frente à intimidade e à vida privada das pessoas naturais).9.1. os valores interagem fortemente e ainda são exigentes de um estado-de-coisas ora mais ora menos concreto para a sua realização. que são fins em si mesmos. para a sua própria causa. Advirta-se. Separação dos Poderes.14 4. se o princípio é daqueles que se definem por oposição a outro.). Ordenamento de vinco axiológico versus Ordenamento de vinco hierárquico 4. quer por efeito de contraposição. Cidadania. que são direitos subjetivos instrumentais de direitos subjetivos materiais).2. propriamente. conclua-se que é ao influxo de critérios axiológicos ou valorativos que a interpretação sistemática vê a realidade de cada norma da Constituição. diríamos: as normas principiológicas não consubstanciam meios ou providências (estado-pontual-de-coisas).4. quer dizer.9. que termina sendo uma relação entre a fumaça dos preceitos e o fogo dos princípios . E assim enxergando. que faz parte do esquema em que se viabiliza o princípio da Independência e Harmonia dos Poderes)..9. mantém a unidade material dessa mesma Constituição. um deles será o principal e. secundário. no exterior da Constituição rígida.2. que o diálogo interprincipial não infirma o significado próprio ou autonomizado de cada princípio dialogante. Ora bem. É raciocinar: os valores que se contêm nos princípios atraem para o seu próprio serviço. Com o que se tem. diferentemente do que sucede com as normas-princípio. Pluralismo Político. um Ordenamento de traço hierárquico. e quando o faz é numa dimensão muito modesta.9. como sucede. Quer por efeito de complementação. Tudo isto assentado. o princípio da impessoalidade (significando o dever que tem o Administrador Público de aplicar a lei sem incorrer em promoção ou marketing pessoal) é logicamente dedutível do princípio republicano (de res publica).

insista-se no fundamento).5. aquela superidéia central de Direito. em suma. sejam as que vimos chamando de preceituais.9. o valor-síntese. 4. que está para os demais valores como um dado ponto inicial e fixo no espaço está para a alavanca de ARCHIMEDES. `fórmula política de uma Constituição é a expressão ideológica que organiza a convivência política em uma estrutura social'" (texto remissionado. Mas é inegável que toda a principiologia fundamentante de uma Ordem Jurídica se inicia com a Constituição e daí é que se esparrama pelos demais setores do Direito. assim referido nestes comentários de WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO. mas que somente é da Constituição (por ser conatural a ela. E assim de preceito para princípio e de princípio menor para princípio maior.9. exclusivamente. Desenvolvimento. A tradução formal deles (Federação. cada norma vai buscar a sua justificativa axiológica e a sua raison d'être operacional em outra norma. bem no topo da pirâmide axiológica (não-hierárquica) da Constituição.4.2. do tipo material ou conteudístico.valores mesmos. onde cada norma encontra sua justificativa nos valores mais gerais. portanto. 4. são elas que tornam o Direito uma casa arrumada.2. 4.9.9. porém de mais dilargado raio de alcance material (pela sua maior densidade valorativa).15 4. o exegeta vai encontrar o valor dos valores. a Constituição auto-irroga-se a virtude da unidade sistêmica. fincando uma base de coerência material que é o apriori lógico da formulação de um pensamento dogmático. Dentro da Constituição. É uma dualidade que pode estar no outros diplomas jurídicos. Legalidade. Com efeito. Para o eminente catedrático da Universidade de Madri. retomando as clássicas lições de KONRAD HESSE sobre a tópica hermenêutico-constitucional: "O primeiro e principal princípio é o da unidade da Constituição.2.3. etc. o qual determina que se observe a interdependência das diversas normas da ordem constitucional. e. Moralidade Administrativa. Em qualquer das duas suposições. Uma unidade material ou de substância. tem a possibilidade de conferir a todas às suas normas um sentido de ordem ou estrutura. por eles. são as normas-princípio que fazem da Constituição uma densa rede axiológica de vasos comunicantes. não de hierarquia superior. o valor-continente por excelência. em contraposição à unidade concomitantemente formal e material do Direito pós-Constituição. as normas-princípio.). Soberania Popular. que o intérprete vai revelando o caráter sistêmico ou orgânico dela própria. É subindo dos valores menores para os valores maiores da Lei das Leis. p. Diferentemente das normas-preceito. até chegarmos ao mais alto desses valores. Daí por que têm a particularidade de irradiar o seu conteúdo exclusivamente axiológico para outras normas gerais. e assim sucessivamente. naquilo que PABLO LUCAS VERDU chama de fórmula política. sucessivamente. expresso na decisão fundamental do constituinte.9.2. 2). É como dizer: as normas-princípio conectam outras normas e assim formam um conjunto que vai possibilitar a própria formulação de um pensamento dogmático ou científico sobre esse conjunto.6. além de atribuir unidade axiológica ou . Nesse valor constitucional de estatura suprema o jurista espanhol PABLO LUCAS VERDU apõe o rótulo de "fórmula política". É claro que não apenas a Constituição encerra princípios.7. 4. de modo a que formem um sistema integrado. sejam mesmo aquelas veiculadoras de princípios menores ou subprincípios.2. Logo. que não têm ou quase sempre não têm a pretensão de enlaçar a si outras normas. Como inegável também é que sem a dualidade princípios/preceitos não há como conceber a natureza mesma da Constituição enquanto rígido modelo de Direito Positivo. expressos em outras normas. E lá.

Por este modo de ver o fenômeno da principiologia constitucional. Desde que tal mudança tenha o significado de aumentar a perspectiva de funcionalidade do núcleo mesmo. a operatividade da parte nuclear desse princípio mesmo). 1° e mais o artigo 3°).) se traduzem numa materialidade ou estrutura conceitual que em parte é atual e em parte é prospectiva. ambivalentemente. segundo a qual "Democracia é o governo do povo..10. ou assegurar. A peculiar estrutura conceitual dos princípios constitucionais 4. moral. enquanto a outra. pluralismo político. Há como que uma dialeticidade no próprio interior de certos princípios. A parte futura é aquela que vai buscar o seu conceito no modo como o povo passa a sentir e praticar o discurso normativo-constitucional ao longo do tempo. Logo. venha a rigidez a fazer das normas constitucionais conceitos jurídicos estratificantes. 4. O que estamos a enfatizar é que determinados princípios têm uma parte de si como janelas abertas para o porvir. essa é a parte que passa a legitimar todo tipo de alteração constitucional . dignidade da pessoa humana.. 4. 4. sem necessidade de o intérprete recorrer a elementos de compreensão que se situem no plano do sistema social genérico (sistema político. Na periferia. valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. militar.) ostentam um núcleo e uma periferia em sua própria circunferência deôntica. Já a periferia do conceito. Naquele núcleo. como é da natureza da vida mesma. desenvolvimento nacional. incluímos até mesmo a Democracia como possuidora do referido núcleo que é impermeável a mudanças e de uma periferia permeável. A tensão entre permanecer incólume e experimentar alterações ocorre no imo.3.. obrigando a que toda mutação da Constituição apenas se dê ao nível das emendas e revisões.material à Constituição rígida. A parte atual é de pronto formada com os dados-de-compreensão que afloram da própria tecnicalidade constitucional. 4.2. É que certos princípios (dignidade da pessoa humana. valorização do trabalho. como deslocamento espacial ou topográfico do povo.5. moralidade. 4. portanto. pelo povo e para o povo" (e que foi consagrada pela Carta de Outubro. religioso. etc. eficiência. combinadamente com todos os incisos do mesmo art. a imutabilidade.10. O núcleo impermeável é aquele que situa a Democracia no rigor lógico da famosa definição lincolniana.)..10. no recôndito de cada princípio mesmo e o atrito se resolve por uma solução endógena de compromisso que leva a Constituição a mudar para permanecer idêntica a si mesma (na medida em que a mutabilidade na periferia do princípio se faz é para robustecer. um caminhar para frente. concorrem para impedir que a própria rigidez venha a significar impermeabilidade conceitual dos valores de berço constitucional. é uma parte vocacionada para a mutabilidade. Com o que os princípios axiais da Constituição operam. econômico. 1°.10. isto é.4. Com efeito. para a imutabilidade. Democracia. a teor do parágrafo único do art.1. Eles fazem da Constituição um documento processual por excelência e que é o processo? Um seguir adiante. como fator de estabilidade e de atualização constitucional. fazendo com que a Lei das Leis ganhe essa possibilidade de se ajustar mais facilmente à irrupção de fatos novos ou a novas valorações de fatos velhos. a possibilidade de mudança. familiar. os princípios de que falamos (cidadania.10.10. que sai da platéia e passa a ocupar o palco de todas as decisões governamentais que lhe digam respeito. dotando a Constituição de plasticidade para se adaptar à evolução do modo social de conceber e experimentar a vida. no âmbito de sua própria circunferência semântica.

então.10. de tão metodologicamente importante.10. Por isso mesmo é que preferimos dar conta da matéria no capítulo que vem de imediato. Atenuando. a assimilar toda mudança que signifique proliferação dos núcleos sociais de participação na riqueza nacional e até no saber que se produz nas escolas oficiais. que. assim. com o nome de "A DUPLA CENTRALIDADE DA CONSTIUIÇÃO E DOS SEUS PRINCÍPIOS". a necessidade de alteração formal das normas constitucionais e contornando as dificuldades processuais que são próprias da reforma de tais normas. Noutra linguagem.formal que venha a se traduzir em descentralização ou desconcentração da autoridade política e em ampliação dos espaços de participação popular na escolha dos governantes e no exercício. Todos esses princípios. 4.6. controle e fiscalização do Governo. da riqueza e do saber). . aqui inseridas as universidades (para repetirmos antigo e sempre atual conceito da Democracia como divisão do poder. os princípios são os elementos que mais contribuem para dotar o sistema constitucional de uma espontânea flexibilidade ou jogo de cintura (permitimo-nos o prosaísmo da expressão). se tornou a nova base da Hermenêutica da Constituição. de sorte a colocar a Constituição em dia com os fatos sociais.7. Diga-se o mesmo da Democracia material ou de substância. 4. promovem a abertura das janelas da Constituição para o mundo circundante. Ainda estamos bem longe de explorar o potencial teórico dessa dualidade básica princípios/regras.

A identificação de todo o Texto Magno com o seu princípio maior 5. 5. . O ser da Constituição e seus valores mais próximos 5. Graças à natureza e à funcionalidade dos princípios materiais da Constituição.1. Mas a doutrina norteamericana. é que se pode afirmar que norma jurídica é uma categoria maior que regra.1. As conseqüências lógicas da Constituição enquanto suma de princípios 5. de regras ou preceitos. com mais razão. A eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica 5. 5. pois a conduta humana não-legislativamente imposta.auto-aplicáveis. b) o princípio da supremacia da Constituição.1. de um caráter eminentemente dinâmico ou processual. pensamos avultar a ontologia dos princípios constitucionais materiais como normas: I .7. V . já é antecipadamente qualificada como juridicamente permitida.4.1.axiológicas ou consubstanciadoras de valores. A Democracia como o valor constitucional por excelência 5. IV . seguida de perto pela doutrina alemã.4. A ascensão dos princípios como supernormas de Direito 5.2. seja por complementação.1. pensamos que eles são basicamente dois: a) o princípio da rigidez formal. Ontologia e funções dos princípios constitucionais 5.inter-referentes. b) estabilizam e ao mesmo tempo atualizam a Constituição. Já no plano das funções.5. 5.onivalentes. não deixa de embutir nesse rol dos princípios constitucionais instrumentais a interpretação conforme a Constituição e a presunção de constitucionalidade das leis. dessarte.5. II . III . que é uma função unificadora.6. e não apenas no interior de um determinado ramo jurídico.autoconceituáveis (no sentido de que seus conteúdos ou elementos de definição já constam da própria Constituição. seja por contraposição.1. exatamente porque prescindentes da lei quanto às suas expressões ou manifestações conteudísticas. se considerarmos pelo menos o princípio constitucional de que "ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei" (legado imperecível do constitucionalismo liberal). A significar. A necessária interpretação restritiva das normas constitucionais sobre o Poder Reformador 5. que a ausência da lei não implica ausência do Direito. Do quanto discorremos no capítulo precedente sobre a dicotomia básica princípios/preceitos. cumpridores de uma função instrumental. dotando-a. princípios constitucionais materiais: a) conferem unidade material à Lex Maxima. E que o Direito é maior do que a lei. portanto.2.A Dupla Centralidade da Constituição e dos seus Princípios Sumário 5. E nesses dois planos da ontologia e da funcionalidade é que as normas-princípio são dotadas de mais elevada estatura sistêmica. Ontologia e funções dos princípios constitucionais 5. pela clara razão de que operam de ponta a ponta do Ordenamento. 5. Servindo mesmo como perene critério de interpretação de princípios menores (subprincípios) e.3. eles. nesta segunda variante.3.1.8.1. Quanto aos princípios constitucionais de natureza formal.Capítulo V . ou não proibida. inquestionavelmente.

5.1 5. respectivamente). já nos anos de 1917. no bloco dos países constitutivos da Civil Law. destarte. a autores do porte de um KONRAD HESSE ("A Força Normativa da Constituição". Essa fenomenologia das Constituições esquálidas não embaraçou a evolução do mais importante país da Common Law (os EUA). que já é uma função verdadeiramente transformadora ou emancipatória.6. no plano da eficácia. graças à atuação normativamente integradora e até inovadora da Suprema Corte de Justiça americana. Toda essa mudança de paradigmas no âmago das Constituições filiadas ao sistema romano-germânico do Direito muito deve. mas não se dispunha a dar conta dos direitos sociais (invenção do constitucionalismo do México. A nova práxis ou fenomenologia constitucional-positiva que foi tomando corpo. o modo legislativo de escrever as primeiras Constituições ocidentais era muito parcimonioso. É igual a dizer: os dispositivos constitucionais não se desdobravam em subprincípios. Tudo resultando na supereficácia da própria Constituição. 1991) e de um .2. do meio ambiente e do urbanismo como Direitos Fundamentais). elas declaravam tais direitos.4. possível não era a conceituação de cada qual deles. E do labor de jurisconsultos do porte de um MARSHALL e. Princípios expressos havia . A ascensão dos princípios como supernormas de Direito 5. mais recentemente. Tinha-se que recorrer ao Direito infraconstitucional.2. era impossível conceituar cada princípio constitucional a partir de elementos encontradiços na própria Constituição. Veja-se que as primeiras Constituições escritas. ou mesmo em regras comuns suficientes.notadamente os materiais -. ou seja.3.7.2. 1918 e 1919. Ora.2. Ainda assim. E sem se conhecer o conteúdo ou os conteúdos de cada princípio constitucional. O que levava à subeficácia da própria Constituição. acrescente-se. os princípios jurídicos não surgiram de uma noite para o dia. em matéria de direitos subjetivos oponíveis ao Estado. somente continham direitos individuais. como subnormas.5. foi a da supereficácia das normas-princípio. Deveras. com o tempo. RONALD DWORKIN (cuja distinção entre regras e princípios jurídicos é o que existe de mais recorrente nos dias atuais). E só depois da Declaração Universal dos Direitos do Homem (Organização das Nações Unidas) é que as Leis Fundamentais de cada povo soberano foram ganhando uma funcionalidade fraternal (pelo decidido combate aos preconceitos sociais e pela afirmação do Desenvolvimento. por falta de indicação conteudística. 5. E foi justamente essa vontade coletiva de embutir nas Constituições regras e subprincípios densificadores de princípios materiais de superior envergadura (axiologica e funcionalmente) que as Magnas Cartas passaram também a normatizar assuntos que até então eram próprios de outros ramos jurídico-positivos. da Rússia e da Alemanha. Eles foram evoluindo com o próprio tamanho das Constituições e a forma jurisprudencial-doutrinária de interpretá-las.2. Assim como o Direito "não é filho do céu" (TOBIAS BARRETO).2. foi preciso que a evolução começasse com a robustez disposional e vernacular de cada princípio constitucional. naquilo mesmo em que a Constituição mais devia reluzir: a sua principiologia. Contudo.2. 5. 5.1. os princípios eram tidos.2. mas um produto da História.2. mas não os garantiam. Passaram a garanti-los. mormente os fundamentais ou estruturantes do Estado e do Governo. 5. 5. ao lado da crescente constitucionalização do Direito infraconstitucional. porém a excessiva economia de dispositivos e até dos vocábulos em que tais dispositivos se vazavam impedia a indicação dos conteúdos de cada norma principiológica.

acima de tudo. num crescendo que chega à superforça de ambas as categorias. A sua quintessência. É que o valor-dos-valores. senão o próprio ser da Constituição. é que ela passou a ocupar a centralidade do Ordenamento Jurídico. que é o valor para além do qual não pode haver outro senão já totalmente situado no mundo das coisas metajurídicas. estava criado o clima constitucional propiciador da dicotomia básica princípios/regras (ou princípios/preceitos) e o fato é que.3. Por ser o valor constitucional primário (gene).2 5.2. E assim recamada de princípios que são valores dignificantes de todo o Direito. que dentro da Constituição não conhece outro que se lhe iguale em importância funcional-sistêmica. foi justamente pelo seu caráter principiológico em novas bases que elas passaram a se dotar de supereficácia normativa. valor-síntese. ela mesma é ele. tanto quantos os princípios passaram a ocupar a centralidade da Constituição.3. Em síntese.3. Por um desses fenômenos desconcertantes que timbram a trajetória humana. uma relação de inerência: ele é ela mesma. É de conveniência didática a repetição: caso extirpado do Magno Texto o valor . agora eles se elevam ao patamar de supernormas de Direito Positivo.ROBERT ALEXY ("Teoria de los Derechos Fundamentales". 5.4. Esse movimento ascensional-interno tem um compromisso racional com um dado ponto de chegada. Aquilo que a Constituição é. para nós. a "fórmula política" de VERDU outra coisa não é. ambos da Alemanha. Esse valor-teto. esse princípio dos princípios mantém com a Constituição. se as Constituições padeciam de subeficácia pelo seu caráter principiológico.3. ou o gene do qual decorrem os mais vivos traços fisionômicos dos demais valores constitucionais. pois o fato é que o reconhecimento da força normativa dos princípios coincide com o reconhecimento da força normativa da Constituição.3. O que já significa dizer: caso extirpado da Constituição. 5. um novo salto de racionalidade já pode ser intentado: aquela característica do movimento ascensional-endógeno de fatos para valores e de valores de menor porte material para valores de maior envergadura igualmente material (tema do capítulo anterior) termina por fazer da Constituição algo plenamente identificado com o seu princípio de maior abrangência. Estrada de mão dupla. inelutavelmente deflagraria sobre a quase totalidade dos demais valores uma mudança qualitativa de tal ordem que chegaria às raias de um mortal efeito dominó. ele. Isto porque o auto-impulso axiológico da Magna Lei de um patamar inferior para um patamar superior não é de se perder no infindável.1.8. o valor-síntese da Constituição. 5. 5. E se aos princípios era recusado o status de verdadeiras normas. que mais e mais insistiram na metodologia hermenêutica de reconhecer à Constituição o máximo de aplicabilidade por si mesma.2.9.3. A identificação de todo o Texto Magno com o seu princípio maior 5.3. 5.5. O valor-continente por excelência.2. Aceita que seja a dicotomia princípios/preceitos como da essência das atuais Constituições do tipo formalmente rígido. 5. à sua dignidade formal a Constituição adicionou uma dignidade material. mais que uma relação de pertinência. Sendo que ALEXY foi quem retomou os fundamentos de RONALD DWORKIN para evidenciar as diferenças qualitativas entre normas veiculadoras de princípios e regras portadoras de simples preceitos. é precisamente aquele cuja existência é a principal justificativa material de quase todos os demais valores. 1977).

sobranceiro. esteja na Democracia.3.5. a começar pela mais importante das decisões coletivas. é o nome que assenta para o fenômeno da subida do povo ao podium das decisões coletivas de caráter imperativo. a simbolizar que ele mesmo é quem escreve a sua história de vida político-jurídica e assim toma as rédeas do seu próprio destino. em rigor. de cujo casamento por amor resulta o ansiado Estado de Justiça. que é "a decisão política fundamental" (locução de que se valia CARL SCHMITT para falar do ato de vontade gerador da Constituição e. em essência.6. de imediato. ou dos mais velhos.4. no curso da história humana.4.ungido. ou dos mais "nobres". a sua extirpação implicaria o absurdo de apartar a Constituição de si mesma. desse mesmo Texto. assim no Estado Democrático de Direito como no Estado de Direito Democrático.4.1.3 5. Deixa de ser resignado objeto de formal produção normativa de minorias (retratadas. 3º do mesmo Diploma Fundamental.2.4. expresso na idéia de que a maioria do corpo eleitoral de um País é quem faz o Direito comum a todos. Mas que valor-continente é esse? Que nome dar a um princípio que se coloca. reserva para si o poder de selecionar eleitoralmente os governantes.que não fizesse da Democracia a alma da Constituição por ele promulgada. no inequívoco sentido de troca de lugar ou mudança topográfica do povo. Ora. praticamente nada restaria. o que mais se faz presente na ontologia dos demais princípios. Da mesma Constituição já não se cuidaria. o povo a sair da passiva posição de espectador para a ativa posição de ator político. 1° da Carta de 1988) e em toda cláusula pétrea explícita da nossa atual experiência constitucional (incisos de I a IV do § 4° do art. Incorpora-se ao passado. Por isso que ele transluz em cada um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (incisos de I a V do art. do que já se despediu da vida. ou dos mais "cultos". A Democracia como o valor constitucional por excelência 5.que é a própria síntese da imensa maioria dos demais. concomitantemente. ou dos mais patrimonializados. 5. isto é. que é o mundo das evanescentes lembranças do que já existiu. Por que não repetir? Se o princípio por excelência é o que mais repassa a sua materialidade para os outros. ou dos mais hábeis em curas médicas ou pregações religiosas. É como dizer: faltando à Constituição o seu próprio ser. 5. esse megaprincípio é o da Democracia.4. a começar pela feitura da própria Constituição. nunca deixa de dividir com eles algumas funções de governo e ainda passa a controlar o modo pelo qual tais . pela casta dos mais valentes. e. 5. tudo o mais vai lhe faltar.4. É do nosso pensar que o ser das Constituições ocidentais. seja por forma direta ou participativa. Ou o caráter holístico de tais Constituições. sendo o princípio dos princípios o próprio ser da Constituição. pois. seja por forma indireta ou representativa. E Democracia.3. Tanto na Democracia formal quanto na material. pois. que da platéia passa para o palco das decisões que a ele digam respeito. Democracia. mas sempre u'a minoria) para fazer prosperar o que se tornou símbolo de status civilizatório: o princípio majoritário. com o tempo. pois a Constituição deixa de fazer parte das coisas presentes. É exigência da verdade o dizer-se que nos países do Ocidente não se conhece um só colegiado constituinte de livre investidura eleitoral . Além de justificar em todo o art. 5. ao menos daquelas nascidas do ventre de uma Assembléia Nacional Constituinte. 5.4. portanto. da Constituição em sentido material). ou seja. quem tem a força de subir ao podium das decisões coletivas de caráter imperativo. na pia batismal do mais límpido voto popular . à frente de toda a principiologia constitucional? Vejamo-lo. 60 da mesma "Constituição-cidadã").

e não apenas dúplice . a partilhar com eles o exercício do poder de criar o Direito e a acompanhar. 5. É a chamada Democracia Formal ou Estado Democrático de Direito. 5.falemos assim .4 5. não é difícil perceber que a Democracia é o único valor que perpassa os poros todos da axiologia constitucional (valor subjacente a tudo o mais). deixa de dizer que está a reverenciar.5. Assim incorporando uma dimensão processual (modo pelo qual o povo participa. de manifestação da própria consciência humana. 5. de sorte a desenhar nos horizonte da História o altaneiro perfil da Democracia Substancial ou "Estado de Direito Democrático" (a Constituição portuguesa de 1976 bem o diz.7. incorpora a positivação de valores que se marquem por uma densa vertente popular (tanto no campo institucional como na área das franquias individuais e dos direitos sociais). Mas o fato é que nenhuma Constituição ocidental. da produção e execução do Direito) e uma coloração material (compromisso das normas jurídicas gerais com a defesa e promoção dos indivíduos e daqueles que só podem ser concebidos como parcelas do todo social). 5. que.4. como o regime pelo qual o povo passa a eleger seus governantes. sejam quais forem os conteúdos dessa leis. Chegando-se a este patamar de intelecção. b) enquanto fim ou objetivo de toda norma jurídico-primária mesma (Democracia Substancial). porém nenhum povo conseguiu vivenciar algo melhor). a democracia não está isenta de defeitos. E aí já se pode falar de Democracia. Com o que passa a regime político de irrespondível superioridade sobre qualquer outro já experimentado (como a licitação e o concurso público. popularmente votada.da circunferência democrática. ora indiretamente. o modo de execução desse mesmo Direito. ora direta. com a virtualidade de atuar ao mesmo tempo: a) nas bases do corpo social e das próprias instituições públicas e privadas.4. em um ritmo ora mais lento. É certo que o teor de autenticidade democrática varia de cada experiência constitucional-positiva para outra. nos marcos da Constituição. criticamente. Com o requinte de muitas vezes clausular como pétreos aqueles valores mais próximos do centro .4. Que fique assentado. com o transcorrer dos anos.governantes se desincumbem do mandato ou do papel institucional que lhes é confiado. b) nas cúpulas do poder estatal e até mesmo das instituições privadas. Que o fechamento deste tópico seja a afirmação de que a teoria constitucional já dispõe de todos os elementos lógicos para reconhecer até mesmo uma tríplice . Passagem ideal de uma situação de democracia do Estado (no interior dele) para uma situação ainda mais abrangente de democracia na intimidade de todo o corpo social. no sentido de que: a) enquanto processo ou via de formação e deliberação de norma jurídico-primária (Democracia Formal).10. tanto quanto os princípios constitucionais estão no centro da Constituição e a Constituição está no centro do Sistema Jurídico. compreende e legitima a produção em si de todas as leis em sentido material. O ser da Constituição e seus valores mais próximos . para limitá-las perante as respectivas bases. acima de tudo.centralidade: a Democracia está no centro dos princípios constitucionais.4.4. portanto. para valorizá-las.9.6. a Democracia ganha a suprema virtude de legitimar por todos os ângulos o Poder. ser a Democracia um fluxo ou movimento ascendente do Poder (visto que parte de baixo para cima e não de cima para baixo). a Democracia. mais e mais serve de condição para que o Direito se caracterize também por uma vertente popular. nominalmente).8. O mérito de domar o poder e assim torná-lo serviente do Direito. 5. ora mais rápido.

Aquilo que se põe como justificativa prévia e explicação final da arquitetura estatal que substituiu o modelo autoritário da eufemisticamente chamada "Revolução de 1964". ao lado das cláusulas pétreas materiais expressas. sob as denominações de "forma federativa de Estado". Em linguagem figurada.3.se o pensamento se volta para a instituição do princípio da Separação dos Poderes. pois toda interpretação normativa que os confirmar será uma "interpretação conforme a Constituição". Também assim no § 4° do art. E sendo assim. "valores sociais do trabalho e da livre iniciativa" e "pluralismo político". Entre duas interpretações possíveis de uma norma constitucional.5. perceberemos que ela tem a sua mais funda justificação no fato de a Democracia incorporar um ingrediente de divisão espacial do poder político. autonomia governamental recíproca e indissolúvel atrelamento a uma terceira pessoa estatal abarcante de todas elas.2. É preciso intuir com essa força de gravidade do ser da Constituição. Se estamos a qualificar os fundamentos da República Federativa do Brasil como elementos conceituais da Democracia. estamos a lidar com "fundamentos" que outra coisa não são que princípios antecedentes a tudo mais que signifique nova montagem e funcionamento do Estado brasileiro em termos republicanos e federativos. como advertiam LOCKE e MONTESQUIEU.se tomarmos por referência a Federação como forma de Estado. mas orgânico. com os nomes de "soberania". pois o contrário é seco autoritarismo ou ditadura do Poder preponderante (sempre o Poder Executivo). o visual do todo inda mais aclara a visão de cada parte. Logo. portanto. 1°. 5.5. Vale dizer. 60. porque ele é uma porta aberta para a compreensão de cada parte da Lei das Leis e de todo o conjunto normativo-constitucional. deve-se prestigiar aquela que melhor assegure a eficácia do princípio que mais proximamente esteja do ser da Constituição (e tal ser é a Democracia.5. não territorial.se se intenta colocar no cerne da reflexão jurídica a figura mais abrangente da . Se o visual interligado das partes projeta a imagem do todo. os fundamentos da nossa República Federativa são os cromossomos nos quais se contêm os próprios genes ou suportes materiais da hereditariedade estatal brasileira. na acepção de que o povo nacional tem o poder de se decompor em unidades territoriais que se caracterizem pela personalização jurídica. secreto. como tantas vezes dito). concebemo-los como os principais conteúdos ou as principais manifestações dela mesma.5. universal e periódico". é pela imperiosa razão de que tais fundamentos são os pressupostos mesmos ou o a priori lógico da construção e balizamento de todo o Estado brasileiro. uma interpretação conforme o ser da Constituição. Esses valores mais próximos do núcleo da circunferência democrática têm nas atuais Constituições de Portugal e do Brasil uma indicação mais precisa. vamos encontrá-los expressamente citados nos incisos de I a V do art. "cidadania". eles passam a gozar de uma posição intra-sistêmica do mais alto relevo. III . "separação dos Poderes" e "direitos e garantias individuais". Esses valores mais próximos do centro da Democracia. Escolhendo a do Brasil como paradigma. a dedução flui no mesmo passo: a democracia postula mesmo a distribuição do poder político por um vetor complementar. "voto direto.1. como anteriormente falado. ou seja. especifica ou topicamente revelado nos valores que tais. "dignidade da pessoa humana". é preciso ratear o poder político entre os órgãos estruturais de uma mesma pessoa político-estatal em bases tão independentes quanto harmoniosas.5. Ilustremos com a própria Lei Maior de 1988: I .4. 5. II .5 5.

a par de outros conteúdos. vai-se notar que o laço entre eles e a Democracia é igualmente umbilical. E por detê-la. é no reconhecimento de cada indivíduo como um microcosmo que se intui com o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana (inciso III do art. ao lado dos direitos sociais à habitação. cada indivíduo é por natureza diferente dos demais e no que toca à experimentação de sua natureza em certas áreas de atividade . da Ordem Econômica e da Ordem Social de que trata a Carta de Outubro. quem os represente no papel de definir o que seja melhor para todos e como operacionalizar tal decisão (logo abaixo da Constituição. transporte. E conteúdo tão palpável que nos parece verdadeiro afirmar o seguinte: o próprio entendimento do que seja dignidade da pessoa humana depende de um ar de liberdade pessoal e de pluralismo ético-ideológico-religioso que somente se respira em atmosfera democrática. Daí também o necessário vínculo entre os direitos e garantias individuais e a Democracia. repita-se) e um dos mais palpáveis conteúdos da Democracia. se adensa. entenda-se).). trabalho. locomoção. pois. não pode deixar de se traduzir em respeito do todo (seja o Estado. ou da comunicação telegráfica. conjuminadamente. mas um todo à parte. religião. pois Democracia. também expressamente arrolados como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. a toada não muda se o alvo desse tipo de análise teórica se deslocar para "os valores sociais do trabalho". saúde. Foi o ponto de compreensão a que finalmente chegou o nosso constitucionalismo. Donde se falar de convivência com os contrários ou respeito às minorias. preferência sexual. Sendo assim.enfim. se o indivíduo não ganha sequer o suficiente para alugar uma residência? E o direito igualmente individual do sigilo da correspondência epistolar. constituindo-se mesmo numa totalidade em si. E que tais representantes só podem permanecer como representantes do povo por um determinado período e debaixo de uma responsabilidade político-jurídica de caráter pessoal. etc. por hipótese.6 IV .se o eixo do pensamento especulativo já se volta para o rol dos direitos e garantias individuais. de novo a justificativa para a positivação da matéria se encorpa. seja até mesmo o conjunto da sociedade) àquelas inatas diferenças de cada indivíduo. todo ser humano deve passar ao largo de controle estatal (não é de contenção do poder estatal que primeiro vive a Democracia?). mas algo à parte. 1° da Constituição brasileira de 1988. no sentido de que são os governados que detêm a propriedade da coisa pública ou a titularidade dos interesses gerais. realmente. Não apenas parte de um todo. associação. IV . etc. -. de que serve o direito individual de inviolabidade domiciliar. se a pessoa vive "debaixo da ponte" e a ponte não se presta como endereço oficial de ninguém? As prefigurações pululam em nossa mente e nos lembramos de que até .pensamento. Noutra forma de expor as coisas.República. pois a proclamação de tais direitos e garantias é o reconhecimento formal de que todo ser humano não é somente parte de algo. Daí o vínculo funcional entre a dignidade da pessoa humana e os chamados direitos e garantias individuais. Passar ao largo de controle estatal como condição de respeito a uma dignidade que não tem outro fato gerador que não a humanidade mesma que mora em cada indivíduo. eleitoralmente. e. não há concreta vivência dos direitos e garantias individuais sem o desfrute de franquias trabalhistas que possibilitem ao trabalhador e respectiva família um auto-sustento econômico. somente eles podem escolher. Se não há Democracia sem a devida observância dos direitos e garantias individuais (veículos formais do princípio da dignidade da pessoa humana. e até se plenifica pela idéia de uma partilha direta do poder político entre governantes e governados. educação.

o que a nossa Lei Maior quis deixar acima de qualquer dúvida não foi a irrevogabilidade do voto popular. O voto popular que a Lex Legum de 1988 teve em mira acautelar de danos foi o voto popular "direto" e mais que isso: também o voto popular "secreto". Contudo.5. Primeira resposta: em rigor.6. pelo fato de a Constituição não conter nenhum capítulo ou segmento normativo com o nome "Dos Direitos e Garantias Individuais".5. apenas falar do voto popular e dos direitos e garantias individuais como cláusulas pétreas materiais expressas? Como temas insuscetíveis de se tornar objeto de emenda tendente à sua abolição? 5. Com o que seguiu metodologia oposta à do voto popular. isto é. de modo a compor o capítulo que tem por designação vernacular "DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS" (CAPÍTULO I DO TÍTULO II. sem. 60.5. Logo. Mas para tornar a falar de Democracia. Seja algo que supere a própria razão. 5. por falta de uma casa para morar. brigar com a razão. Fechamos o parêntese para tornar a falar de Democracia. É possível e até provável que a plena compreensão da Democracia não seja um a priori lógico. a fim de lembrar que em nenhum momento nos comprometemos com o juízo de que a sua idéia completa já anteceda à jurisdicização dos institutos e das instituições que nela teoricamente se contêm.5. pelo fato de ele já estar contido no primeiro dos fundamentos explícitos da nossa República Federativa (esse fundamento explícito é "a soberania"). Segunda resposta: também em rigor. O que ela quis elucidar é que não basta manter incólume de emenda constitucional a abolição do voto popular. passam a compor um dos conteúdos do regime democrático. Tais direitos e garantias foram regrados de mistura ou mescladamente com deveres e também com a realidade das pessoas coletivas. entenda-se). albergados pela Constituição. se no campo do voto popular houve alargamento protetivo material. contudo. de fora a parte os princípios da forma federativa de Estado e da Separação dos Poderes. renove-se o juízo). no campo dos direitos e deveres individuais e coletivos houve estreitamento. o voto popular "universal" e o voto popular "periódico". porquanto já embutidos na locução "dignidade da pessoa humana".5. Cuidou. o vínculo operacional direto entre o princípio da dignidade da pessoa humana e os direitos e garantias individuais ficou prejudicado em sua clareza redacional. Somente se comprometeu com os direitos e garantias genuinamente individuais (em razão do mais direto vínculo entre estes e o princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. o sentido protetivo da Constituição foi de alargar os aspectos do voto popular que ficariam sob o guarda-chuva do § 4° do art. então. de proceder a um enxugamento ou depuração temática e por isso é que deixou de fora da tutela petrealizadora tudo que não portasse consigo a logomarca de direito ou garantia individual (mas somente nos marcos do capítulo versante sobre os direitos e deveres individuais e coletivos. a pessoa for obrigada a zanzar por aí feito barata tonta. 5. Pois bem.8.9.mesmo o direito individual da liberdade de locomoção perde toda substância se. Pois é assim por via indireta que os direitos sociais de índole trabalhista. Sabido que a compulsão do perambular já não se coaduna com a idéia de liberdade. o voto popular não precisaria de expressa menção como cláusula pétrea. o Constituinte de 1988 não quis petrealizar os deveres individuais e coletivos nem os direitos e garantias de natureza coletiva. 5.7 5.5. Todavia. Um parêntese: qual a razão de a Lei Maior de 1988. os direitos e garantias individuais dispensariam expressa dicção como cláusula pétrea material. este último sob a denominação "DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS").7. É possível e até provável (insistamos nas duas palavras) que a Democracia passe primeiro pela consciência antes de chegar .

5. As conseqüências lógicas da Constituição enquanto suma de princípios 5. dentre outras vias de conhecimento que. no exercício e no controle do Poder. Fale-se o que se quiser falar de mau da Democracia. sem que a noção perfeita e acabada de Democracia esteja no ponto de partida do puro pensamento lógico-jurídico.10. que já passa a responder pela unidade orgânica e movimento pendular desse Direito Positivo. a seu turno. 5. ela. assim. 5. No seu interior.5. nos seres humanos. Seja como for. E inaugural do pós-positivismo.12. É a rigidez. como visto. 5. da a-racionalidade (que é o plano da consciência ou do espírito. para. neste ponto fulcral dos princípios genuinamente constitucionais. Para desqualificação axiológica de ambos.6. essa parte elementar do discurso normativo só se deixa conhecer pela via igualmente consciencial do intérprete. Somente assim é que a norma se dá a conhecer por completo. em termos metodológicos ou funcionais (não finalísticos). são neutras à razão8).5. 5. um . 5.3.2. para ver a Democracia enquanto matéria disponível para um tipo de conformação normativa que tem um componente consciencial ainda maior do que o propriamente racional. Quando ela está presente na formação. Hierarquia suprema. que faz do Direito um instrumento de mera formalização de sua truculência. porém. quando da inserção de determinados valores no Ordenamento. Inclinamo-nos.5. E quais os corolários dessa posição de liderança internormativa? Desse papel eminente dos princípios no interior da Constituição? 5. melhor sentir na pulsação do presente as batidas do coração do futuro. que é uma via necessariamente recicladora do intelecto.11. sintomaticamente chamado de "Ordenamento". Tudo fica muito mais claro.1. o Poder e o Direito. exercício e controle do Poder? Ora. Bem.13.6. alçadas à dignidade operativa de primus inter pares. se há um componente consciencial em certas normas de Direito Positivo. subsidiando ou até mesmo policiando o intelecto. ou a proceder à margem da pura lógica. E que a vontade assim imediatamente derivada da consciência somente busque a razão como uma forma de justificativa para o que já se decidiu no plano. consciência. A consciência a ver as coisas primeiro do que a razão. Ou. ousamos verbalizar uma idéia certamente vocacionada para a formação de controvérsias no plano científico. que passa a ter no Poder um mecanismo de reverência: o Poder a serviço do Direito. por outra.6. Por derradeiro. quem tem a ganhar com isso é o Direito. figurativamente. mas não se lhe pode recusar a virtude de qualificar. quem tem a ganhar com isso é o Poder mesmo. que somente começa com a dicotomia básica dos princípios e regras. o que pretendemos dizer é que valores vão sendo positivados pelas Constituições como conteúdos ou manifestações plúrimas da Democracia.5. de uma só penada. E quando se dá o contrário? Quando a Democracia não tem o ensejo de se fazer presente naqueles decisivos instantes da formação. a norma de hierarquia suprema no todo do Direito Positivo. justamente. deve estar presente no instante da interpretação de tais valores. A idéia é esta: assim como a consciência deve servir de luzeiro à razão. a técnica primaz que torna a Constituição a lei das leis. já sabemos que a Constituição obtém sua unidade sistêmica por conduto das normas-princípio.à razão. quando se parte mesmo da rigidez formal como a pedra angular do Magno Texto. como que sinalizando para o exegeta a aplicação da conhecida máxima de LACORDAIRE (que outros atribuem a PASCAL): "Ciência sem consciência é ruína da alma".6. que é a única forma pela qual ele (Poder) se legitima.

Em diferentes palavras. a concreta política social e econômica do Estado ("políticas públicas".6. à guisa de metas oficiais a alcançar. quase que tão-somente. sem que o Ordenamento Jurídico experimente a sensação de tontura que sobreviria a uma Constituição demasiadamente refundida no seu aspecto formal. já assinalado. a escolha dos respectivos meios. independentemente da ideologia professada pela facção partidária que se encontrar no Poder. Daí que passem a encarnar valores em estado de fricção potencial ou latente.9. pela sua intrínseca materialidade prospectiva. que é a Constituição. um devir.3. ela não precisa tanto de reforma quanto o Ordenamento precisa. inevitavelmente. no jargão midiático e na Ciência da Administração). porém um ritmo de mutabilidade diferente do ritmo das leis em geral. o princípio do pluralismo político e o da fidelidade partidária. Todo o nosso esforço comunicativo.5.6. 5. o da independência dos Poderes e o da supremacia da lei. em oposição ao ritmo de cada lei menor em particular. os valores. E porque são desse . como.mundo de conseqüências teóricas toma corpo e começamos por frisar que são eles que fazem da Constituição um prevalente sistema de positivações axiológicas. então.6. Estes últimos a fazer da Constituição o mais estrutural dos projetos nacionais de vida. 5. processual.6. cuja resultante é ganhar a Constituição aquela compostura dinâmica. de que uma parte deles se define por contraposição. 5. que é própria da sociedade humana. É por isso que os Diplomas Fundamentais contemporâneos contêm cada vez mais as chamadas normas programáticas.8. E sendo mais processual por si mesma.7. Posto ainda de outra forma: sendo a Constituição o mais principiológico dos documentos jurídicos. que é um ritmo prevalecentemente exógeno. ditado por outra lei e mais outra e mais outra. tornam a Constituição um processo. o da imunidade parlamentar e o da responsabilidade funcional (tão característico da República). as grandes linhas de ação governamental já ficam previamente esboçadas. Ela se prefere dinamizada pela processualidade dos seus princípios estruturantes e é isto o que rebate ou compensa a rigidez formal e material a que se impõe.6. que é o Direito subsconstitucional? 5. histórica. Uma outra nota de especificidade dos princípios constitucionais está no fato.6. normas programáticas. o da integração do País aos mercados externos comuns e o da soberania nacional. Como exigir que o Direito axiológico por excelência. verbi gratia. cabendo à legislação ordinária. Ajunte-se que essa característica central da processualidade ou historicidade das Constituições principiológicas só pode ocorrer por efeito de normas consubstanciadoras de concepções filosóficas ou mundividências (tanto no campo ético-humanista quanto no ideológico ou político). Um vir-a-ser permanente. É concluir: tudo muda no Direito. Um ritmop preponderantemente endógeno. só que em diferentes ritmos. Por elas. quer dizer. o princípio da propriedade privada e o da função social da propriedade-bem-de-produção. a que se agregam impessoais programas de governo. Sua genérica estabilidade não significa estratificação.6. 5. Ou a colocação de ênfase nesse ou naquele meio já imposto pela própria Constituição. tenha a agilidade do Direito factual por excelência. é para evidenciar que a Lei das Leis se deseja fluir mais por conta própria do que por intervenção dos seus atos de reforma. o princípio da valorização do trabalho e o da livre iniciativa. pelo seu facilitado ajustamento ao corpo sempre cambiante da realidade social. destinadas a parametrar os empíricos programas de governo. 5. destarte. Positivações axiológicas ou filosóficas ou valorativas. ela é mais processual por si mesma do que o Ordenamento que nela se embasa.

Se a Constituição decide normatizar uma dada matéria. temo-lo como princípio constitucional inexpresso. ao lado de outras peculiaridades da Constituição.9 5.1. tem força normativa própria (CONRAD HESSE) e deve ser interpretada de acordo com a sua mais alta hierarquia. revisão) assim o disser. sendo toda norma constitucional uma norma jurídica.2.3. não faz parte das categorias metajurídicas. inequivocamente. A Constituição é norma em sentido material.7. 5. Em termos técnicos. à lei maior deve corresponder u'a maior eficácia. por exclusão. como normatizável por lei. ou seja. reconhecer à norma isolada o máximo de eficácia que a sua formulação linguística. a opção do exegeta só pode ser pela operância plena da regra maior. no ápice do dilema entre reconhecer a pleno-operância de uma norma constitucional e sua dependência de regração de menor estirpe. 5.7.10. porém. 5.7. ao nosso ver. suscitam um manejo bem mais cuidadoso dos métodos de hermenêutica jurídica no que toca à seleção daquele princípio que. existe. Ao contrário.5. É por isso que o intérprete. Por isso que. a sua logicidade. que é a Democracia (como tantas vezes dito). para cumprir uma função técnica de controle social. a hermenêutica busca impedir que os espaços de normatividade constitucional sejam indevidamente ocupados pela legislação inferior.7.4. É para desanuviar. Mas que. Mas se a Constituição deixa do lado de fora um dado campo fenomênico. pedir o adjutório de regra intercalar para a plenificação dos seus efeitos. essa área de empírico tensionamento entre as normas-princípio da Constituição que PAULO BONAVIDES pugna pelo emprego do que a teoria constitucional vem chamando de "princípio da proporcionalidade". Noutros termos.6. A eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica 5.jeito. Nessa recomendação de imprimir às normas constitucionais originárias o máximo de eficácia que os métodos acima indicados permitirem. Um princípio que é a decorrência lógica do tensionamento daqueles princípios materiais que se definem por contraposição. esse campo já se define. a sua história e a sua teleologia permitirem.7. como postura inicial. Exceto se a própria norma constitucional. 5.6. que é um princípio conciliador por excelência. deva preponderar sobre o outro. para que o juiz dos casos concretos sopese os fatos e opte por aquele princípio material que mais próximo estiver do valor dos valores. Todo este modo especial de ser das normas constitucionais principiológicas repercute (e como!) nos enunciados hermenêuticos. ao medir a extensão do quê de uma norma . Ou que menos lesione os princípios correlatos àqueles em concreto estado de fricção.11. 5. Servindo. pois. numa situação em concreto. do tipo instrumental. então. em última análise. que não tem sido objeto de realce doutrinário. qual o principal enunciado que a Hermenêutica recomenda ao processo da interpretação em concreto de uma norma constitucional originária? Pensamos que seja. essa matéria só pode decair do status de norma constitucional se outra norma constitucional (emenda. Este é um ponto central da Teoria da Constituição. justamente. tais normas pedem e até mesmo exigem uma correlata especificidade de intelecção ao nível do que vimos chamando de cânones hermenêuticos diferenciados. Isto por que é da natureza da Constituição passar adiante a conformação jurídica da matéria que deixar de regular por conta própria. 5.7.

pois tudo que favorecer à idéia de descentralização de autoridade serve melhor à Democracia. Sinta-se que o prejuízo que se causa à Constituição com uma interpretação indevidamente restritiva é maior do que o sofrido. ora de esguelha. o sacrifício a ser imposto é à competência dos Estados-membros. Defende a Lei Fundamental.9. exemplificativamente. e.7. Não se pode fazer cortesia com o chapéu da Constituição (outra vez não resistimos à tentação do prosaísmo). Deveras. ou não pôde reservar para si mesma com exclusividade. é de ser resolvida em favor da interpretação eficacial de maior porte. o impasse é de se resolver em proveito da mais próxima. da lei interpretada. 5. E a Democracia política vive é de técnicas restritivas do Poder. a dubiedade interpretativa se extingue pela opção que implicar o prestígio das unidades regionais em que os Estados-membros consistem. naqueles Ordenamentos que não admitem o chamado regulamento autônomo (como é o caso do Brasil. A matéria fica no aguardo de uma futura normação por via legal.7. 5. E se o confronto se der entre competências dos Estados-membros e respectivos Municípios. enquanto persistir o entendimento da lacuna total. 5. mas entre duas normas igualmente constitucionais. se uma exegese. Daí que recusar à lei o que à lei pertence não signifique presentear o Poder Executivo com uma competência legiferante residual. É que. Nessa mesma direção.7. deve estar ciente dos efeitos irradiantes dessa interpretação para o Direito que não se veicula por emenda ou por revisão constitucional. Agora. se o confronto se der. tiver que enfraquecer competência dos Estados-membros.7.10. o que se sonegar à primeira passa a pertencer à segunda. Por hipótese. ora diretamente. A contrario sensu.8. E não é isto o que sucede na relação entre a lei comum e o decreto executivo.6. 5. 5. O que se traduz em disparatada inversão de valores. imaginemos uma fundada hesitação exegética entre ampliar ou restringir a eficácia de uma norma constitucional que outorgue direito individual oponível ao Estado. pelo correlato fechamento .10 . no bojo da relação entre a Lei Maior e a lei menor (acabamos de dizer). e não de mecanismos ampliadores das competências governamentais para além dos estritos limites da necessidade do exercício delas.das áreas de conformação legislativa pós-Constituição.7. a outra. data venia de respeitáveis opiniões em contrário). A dúvida. ou parcial. para fortalecer dada competência da União.ou simples redução que seja . em linha de princípio. por uma lei comum também indevidamente interpretada de modo amesquinhado. É que esse Direito subconstitucional apanha as sobras do que a Lei maior não quis. que é a quintessência mesma da Constituição. porque isto seria transformar a lei maior em lei menor e a lei menor em lei maior. sabido que os direitos e garantias individuais cumprem o papel técnico e até mesmo histórico de afirmar o princípio da dignidade da pessoa humana e assim conter o Poder em certos limites. uma delas funcionalmente mais distante do ser da Constituição. mais próxima de tal ser.7. por exemplo. a que amplia aquela esfera de incidência direta de uma norma constitucional passa a fechar espaços para uma ocupação normativa de menor escalão e assim fortalece a Constituição mesma. não entre a Constituição e a lei. Qual a preferência do intérprete? A preferência é pelo fortalecimento eficacial da norma. Estas considerações apontam para a adoção de um critério seguro de resolução de eventual dúvida interpretativa quanto a maior ou menor compleição eficacial de uma norma genuinamente constitucional.constitucional. a exegese que diminua a esfera de alcance de uma norma Constitucional passa a abrir espaços para uma ocupação normativa de menor escalão.

não podendo tocar em nenhum dispositivo da Constituição. 5. ou alterabilidade das normas constitucionais originárias.2. E isto já significa o óbvio: somente quando cessa o papel da interpretação é que se inicia o da integração constitucional por atos formais de emenda. pela estabilidade: a Constituição. A necessária interpretação restritiva das normas constitucionais sobre o Poder Reformador 5. é conseqüência lógica da rigidez constitucional que os atos de reforma da Constituição Positiva sejam recebidos com desconfiança. ainda com mais forte razão há de prevalecer o prestígio à eficacidade da norma constitucional de berço. no caso brasileiro. contra ela (Constituição). Estado de Defesa e Estado de Sítio)? Tudo. e. medidas provisórias. no Brasil ao reverso de Portugal -. Ora bem. precisamente.8.1. ao menos no plano das emendas (já que. Veiculam normas constitucionais. Nenhuma outra norma jurídica ostenta em cores tão vivas o caráter de estabilidade que a Constituição rígida imprime ao Ordenamento. portanto). Eles. que darão à Constituição aquela primária aplicação que outra coisa não é senão a paulatina e ininterrupta dinamização de todo o Ordenamento. "impeachment". existem para mexer na Constituição.7.8. supressão. como enxotar uma eventual dúvida na aferição do tamanho eficacial da primeira ante a segunda? Ou da segunda perante a primeira? 5. das normas que dispõem sobre intervenção federal. evidentemente. Se a Magna Carta é mais dócil ou mais branda na regulação do processo de elaboração das outras normas gerais que não as emendas constitucionais. Aqui. Em linguagem diferenciada. É que os atos reformadores da Constituição têm. Constituição. ou de todas elas.8.3.5.4. nessa medida. De outra parte.e não simplesmente legais -. para que não haja necessidade do apelo extremo aos atos oficiais de reforma do seu próprio estoque de normas.11. por essa aplicação diuturna . e somente eles. mas com unívoco sentido: as leis existem para aplicar diuturna e reverentemente a Constituição. podendo mexer no corpo de dispositivos da Constituição. 5. ou revisão.7. nascem com o propósito de dissentir daquela parte da Constituição a que visam reformar. um potencial lógico de agressividade que as leis não têm. Uma desconfiança que já está na própria Constituição. para colocar a Magna Carta pari passu com o ritmo veloz da sociedade. Se as emendas e revisões estão autorizadas a aportar consigo normas constitucionais . as situações emergenciais do País (e aqui nos lembramos. qual a Constituição rígida que não busca resolver. já nascem com o indescartável compromisso de dar submissa prossecução aos comandos formais e materiais dela mesma. é no pressuposto do esgotamento dessa ou daquela norma-princípio da Constituição. É da natureza das coisas.6. 5. é exatamente porque: a) são normas que. Mais até do que dificultar o processo de sua própria reforma. sponte sua. b) são elas. se fizermos o cotejo entre uma norma da Constituição originária sobre o exercício do Poder Reformador e outra norma advinda desse concreto exercício (norma advinda de u'a emenda constitucional. e. a revisão foi admitida sob pautas processuais menos dificultosas11). Donde o corolário de se encarar com extremos de cautela toda medida de acréscimo.8. 5. regras editadas pelo Poder Legislativo comum. 5.8. que disciplina com rigor incomum o processo de sua própria reforma. as emendas e revisões alteram aquela porção do Ordenamento que se caracteriza.8.5. 5.8.8.

11. justamente quando do empírico uso do Poder Reformador. sim. Por isso que tais preceitos jazem à disposição do Poder Reformador. vitalizar o Direito em geral. pois não é racional que se postule a exegese restritiva das matérias que mais confirmam o caráter estabilizador da Magna Carta e ainda por cima revelam. que têm a ver com elas. a exigir quanto a elas (emendas e revisões) um tipo mais severo ou menos extensivo de exegese. pois redunda no mais intolerável tipo de banalização: a banalização da própria Lei Fundamental do País. é de se afastar o receio de que o prestígio exegético das cláusulas pétreas . sempre que houver dúvida fundada quanto à possibilidade de mácula à Constituição.12. desde que estas não portem consigo a mácula da inconstitucionalidade formal.8. então. porém.10. de par com as normas constitucionais que dão o conteúdo mínimo de cada qual dessas cláusulas de intangibilidade. ou material. passaria a ser encarado como cláusula pétrea). que fica muito mais vulnerável a agressões por via de emendas. 5. É que a postura interpretativa contrária é de muito maior gravidade sistêmica. mas. a saber: uma coisa é a indicação das matérias constitutivas de cláusulas pétreas. 5. 5. venha a significar banalização das mesmas (tudo. Sempre numa linha de inovação material que deve preservar (por isso que elas não implicam o exercício do Poder Reformador) a inteireza dos comandos todos da Constituição e até de suas eventuais reformas.8. da própria circunferência de cada cláusula pétrea. externamos o nosso pensar de que as emendas constitucionais. ou quase tudo. A primeira opção é a que temos por acertada. Por semelhante prisma analítico. de reforma constitucional.8. longe de constituir uma exceção ao poder de reforma constitucional. Ainda sem nenhum constrangimento acadêmico. então. Não temos o menor acanhamento intelectual em afirmar que os atos de reforma da Magna Carta. 5. A este respeito. Elas é que devem gozar do benefício da dúvida interpretativa. e. são.9. da circunferência democrática. Por isso mesmo é que a Lei Maior brasileira não diz o que as emendas podem fazer. até porque melhor nos habilita a afastar o temor da banalização. aquela parte da Constituição que nem mesmo admite a exceção do poder de reforma. Natural. são os preceitos constitucionais que estão a serviço das cláusulas pétreas. porém. notadamente as emendas.8. Regras periféricas. outra coisa. as cláusulas pétreas. A alternativa é radical: ou o hermeneuta prestigia as cláusulas pétreas e assim reduz a possibilidade de produção das emendas. constituem uma exceção àquela nota de estabilidade que é indissociável de toda Constituição rígida.nos casos de dúvida fundada. por maior proximidade com o protovalor da Democracia.8.8. sim. lógico -. não simplesmente o Direito. Cogitando-se. A inovação que se autoriza é quanto a um Direito que vige do lado de fora da Magna Carta e nela não pode entrar por nenhum modo. claro. o que não podem. que é a Constituição Positiva. Um tipo mais severo ou menos extensivo de exegese. desde que o resultado desse labor reformista seja o fotalecimento ou a rebustez da parte axiológica situada no centro da circunferência em causa (conforme anteriormente explicado). os respectivos atos já nascem com o explícito compromisso de inovar. a teor de Constituições como a brasileira. que os riscos de atentado à Magna Lei sejam maiores. mas sem a força de elementarizá-las. pois aí estamos diante dos princípios que mais estabilizam a Constituição e concomitantemente mais se aproximam do centro da circunferência democrática. ou prestigia as emendas e assim fragiliza a integridade das cláusulas pétreas.reverente.12 5. mas o próprio fundamento de validade desse Direito. com mais razão. são . em verdade. a própria alma da Constituição.

e o papel das emendas é sempre de um corretivo. desde a infância. neste sítio do mais delicado trato hermenêutico. emendas aditivas e emendas modificativas.normas gerais tão-somente suportáveis. então. seja qual for a modalidade de emenda. Enfim.17. a Constituição permanece como centro de apoio de uma abstrata alavanca de Arquimedes para a mais objetivamente justa transformação de toda sociedade humano-estatal. Uma comparação prosaica parece-nos vir a calhar. aditivo e modificativo). por significar um atestado formal de que a Constituição. supomos) as leis complementares e as de caráter ordinário. mas por avaliar que seu quadro clínico já não pode prosseguir sob cuidados próprios.15. na prática.8. da prótese e da obturação dentárias.13. ou por qualquer outra forma do que se tem chamando de "mutações constitucionais". respectivamente. Ainda assim. Mais tecnicamente falando. esse colocar a Constituição no centro do Ordenamento Jurídico é também um colocar essa mesma Constituição no centro do sistema social como um todo. por insuficiência de comando (males que se debelam. É dizer: muito mais que um simples esquema de procedimentos e organizações. ou por omissão.14. 5. Pois bem. não tem por que abdicar da sua fundamentalidade ao mesmo tempo jurídica e social genérica.8. já não cumpre a contento o seu histórico papel. em verdade. O que significa ajuizar que ela. tal como posta.no modo pelo qual a Constituição cuidou dos próprios dentes.8. quer. Tudo a justificar. Todas elas a significar um corretivo . 5. Tudo isto evidencia que o perigo de atentado à Constituição é sempre iminente. 5. as possibilidades de invasão pelo Poder Reformador são bem maiores. . ou por inadequação. E porque são linhas muito menos nítidas ou muito mais tênues. quer pelo fato de sua excessividade normativa. e com facilidade perceberemos que as emendas seguem a lógica da extração. quem não se questiona sobre o risco ou o perigo de estar a mexer naquilo que.16. respectivamente. tudo se traduz numa reconsideração de rumos da Magna Lei. pelas emendas do tipo supressivo. O recurso a elas é sempre uma ultima ratio. Já não é passível de atualização pela via da interpretação doutrinária e jurisprudencial.para não dizer uma reprimenda . Aqui. Assim é com as emendas. quer pela ocorrência de lacuna regratória. Pensemos em nossas periódicas visitas ao dentista. nenhum ser humano vai ao dentista por prazer. em razão da natureza dirigente que lhe é conatural. portanto. Alguma coisa na Lei Maior pecou por excesso. a postura da eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica opera pelo estreitamento (quando não pelo total fechamento) de espaços ao labor reformista do impropriamente chamado "Poder Constituinte Derivado". já estava bem cuidado? A dispensar. conforme sejam emendas supressivas. mesmo que se reconheça o caráter fortemente economista e técnico-político das sociedades pós-modernas. a rédea curta que estamos a reclamar como postura técnico-interpretativa das normas constitucionais originárias que se disponibilizam para a edição de emendas à Constituição. como desejáveis são (irrespondivelmente. Nunca desejáveis. 5. a sempre temida intervenção odontológica? 5. pela indescartável consideração de que. as linhas que separam o Poder Constituinte do Poder Reformador são muito menos nítidas do que as linhas demarcadoras da atuação do mesmo Poder Constituinte e do Poder Legislativo comum.8. enfim. Constituição Positiva.8.

1 6. sucessivamente. começamos por retomar o pensamento de TOBIAS BARRETO. Tudo começando. de parelha com a valorização dos assalariados diante do patronato (direitos econômicos ou trabalhistas). Assim é com o Direito. O método dialético de interpretação constitucional 6.Capítulo VI .4. segundo HERÁCLITO (540/480 a. O ser das coisas é o movimento. Só o impermanente é que é permanente.1.o menor deles.4.1. protetiva e simultaneamente promocional do ser humano perante o Estado e o Governo (direitos "civis" e direitos políticos).1. A imutável substância da Constituição 6. Uma. nessa condição. pois. dizia o expoente da escola jônica. Feita a ponderação.5. só a mudança é que não muda.A Constituição Fraternal Sumário 6. embora intelectualmente modesta. a figurar como o primeiro elo dessa corrente de que vieram a fazer parte. operando de modo a favorecer uma mais justa integração de todos os homens no conjunto da sociedade (direitos sociais genéricos).5. Como todo objeto cultural. 6. o Direito tem uma história pra contar.1. 6. O advento do Constitucionalismo fraternal 6.2. os dois primeiros e mais importantes momentos foram a Constituição liberal e a social.que esperamos venha a funcionar como aquele necessário ponto de arremate de uma obra que. na seara mesma do Constitucionalismo. Um pequeno conjunto . o Estado de Direito Democrático (eminentemente social) e agora o Estado de Justiça ou Estado holístico (assim nos permitimos cunhar. por conseguinte. 6. o Estado Democrático de Direito (liberal por excelência).1. A outra. A perene atualidade da faina interpretativa da Constituição 6.c.3. com a Magna Charta Libertatum de 1215. embrionariamente. Uma história que apresenta a sua linha de evolução e por isso é que. A processualidade heraclitiana da Constituição 6. A processualidade heraclitiana da Constituição 6. Vale dizer.2.1. naquela parte em que o jurisconsulto brasileiro e sergipano ajuizou: "O Direito não é um filho do céu". De processualidade. face à crescente densificação dos princípios constitucionais e da própria constitucionalização de temas antes reservados à legislação comum ou de segundo escalão). O contraponto parmenidiano de antiprocessualidade 6. inaugural do que depois veio a se chamar de Estado de Direito. Não é de se estranhar. Esta derradeira parte do nosso estudo não é um catálogo de conclusões extraídas dos capítulos anteriores.6. É um pequeno conjunto de idéias que não pudemos encaixar em nenhum desses capítulos precedentes. o Direito não é um regalo dos deuses. com as Constituições e com tudo o mais que existe de natural e de social. 6. que toda a história do Direito Constitucional seja permeada de fases. por seu turno.3.1.1.1. se pretende portadora de unidade material.6. um objeto cultural. naquela acepção heraclitiana de que "nenhum homem entra duas vezes nas águas de um mesmo rio". É um produto da experiência humana e. Que é um . e a Teoria Dialética do tipo hegeliano veio a afirmar que esse movimento decorre de uma força motriz ou energia que é liberada pelo tensionamento entre os pares de opostos (dicotomias) de que é formada a existência.). por sinal . Este. O que se pretende dizer com a lembrança dessas coisas é que o Direito faz parte da vida e a vida tem um reconhecido caráter de dinamicidade.

em toda parte. perenemente atual. cada vez mais se compõe.3.1. Constituição).1. somente depois dessa empreitada é que se deve cogitar da mutação formal dos seus dispositivos (dela. interpretação). Persevere no seu poder de facilitada adaptação à dinamicidade da vida. da Inviolabilidade da Vida Privada. Esse processo endógeno que é da natureza da Constituição não se traduz. 6. porque o Direito é feito para a vida e a vida é sempre atual. Ora.3. portanto. 6.. do explícito e do implícito. numa experiência de uma só vez. porque em espiral axiológica. 6. de roldão.1.2. obviamente. É mais uma forte razão para que a Constituição principiológica (e chega a ser redundante falar de Constituição principiológica) se atualize por si mesma.) e logo vai-se perceber que a interpretação jurídica é fortemente marcada pelo sentido que as palavras tenham no próprio momento do seu fazimento (dela.2.7. E somente depois que cessa ou que se malogra a tentativa de se colocar a Magna Lei em dia com os acontecimentos e o repensar das coisas. boa-fé. de palavras. também dissemos o seguinte: o movimento da . É que. O contraponto parmenidiano de antiprocessualidade 6. dialeticamente.4. em cuja esfera semântica de compreensão interage. em tema de interpretação jurídica do Direito legislado. da Moralidade e seus conteúdos de decoro. 6. da Justiça.1. à mutabilidade informal de toda a Constituição. Assim é que as coisas se passam. É por aqui mesmo que se dá o engate lógico entre a natureza processual da Constituição e a ontologia dos princípios de que ela. da Eficiência Administrativa. e que exige essa operação mental-consciencial a que chamamos interpretação (conforme discorremos no capítulo de n° V).Estado de funcionalidade fraternal. A perene atualidade da faina interpretativa da Constituição 6. o entendimento desse dispositivo é contemporâneo de quem o interpreta.2. Se se prefere. significando um seguir adiante ou um andar para a frente. 6. 6. e mais especificamente em tema de princípios constitucionais (pense-se nos princípios do Desenvolvimento.2.2. segundo vimos no capítulo de n° V. Mas não é só. por conseqüência. Idêntico ao processo da vida. E dessa dicotomia ou dualidade básica é que se desprende a energia que põe cada princípio em estado de mutabilidade. termina sendo um andar para cima. formada por um centro e uma periferia (como toda circunferência). A interpretação faz parte do circuito da existência e tende a ser. Para o alto.2. Mormente em tema de princípios. Acontece que. da Cidadania. há uma permanente fricção no próprio interior ou na própria circunferência de cada princípio constitucional. pela via da interpretação (renove-se a idéia). É impulso como que mecânico do intérprete desvendar os signos linguísticos a partir do significado que as palavras ostentem no instante mesmo da respectiva interpretação. ele se traduz numa jornada que. lealdade.8. da Valorização do Trabalho.. À processualidade endógena do seu discurso jurídico-positivo. a dualidade centro/periferia. 6. Palavras que se enlaçam na trama de um discurso entremeante do verbal e do não-verbal. reputação ilibada. Levando. Uma viagem qualificada.3. Os princípios constitucionais materiais se vazam numa estrutura de linguagem que é formada. assim como o dispositivo jurídico é contemporâneo de quem o redigiu. pela necessária identidade entre ela e os seus princípios fundamentais. linhas atrás.

essa dimensão emblematicamente estável da Constituição tem a ver. seqüenciadamente. uno.3. Uma ineliminável substância. tanto quanto se mantém estável com a imutabilidade da parte nuclear. Não em estado de permanente mutação. teríamos que buscar na Constituição como um todo (mais do que em cada princípio constitucional em particular) um substrato infenso à mudança. Pois bem. uma Constituição universalmente idêntica a si própria. E não falamos ser o Direito Constitucional o mais político dos ramos jurídicos? E a Constituição o mais anatômico dos diplomas de Direito legislado? 6. O oposto da Constituição. Este filósofo e poeta igualmente grego (540/450 a. segundo aquele movimento pendular de mutabilidade na periferia e de imutabilidade no centro da esfera semântica de cada qual deles. 6. 6. e não muda. Mas com os demais aspectos permeáveis à incessante mudança das coisas. 6. Esses demais aspectos ocorreriam no âmago de cada princípio constitucional originário.Constituição é pendular. pois a virtude está sempre no meio (medius in virtus).2.3. E argumentativamente concluiríamos que toda Constituição Positiva é tanto heraclitiana quanto parmenidiana (à falta de melhor palavra).3. porque. esse indescartável substrato só poderia residir em dois aspectos: a) primeiro. a Constituição é emblematicamente estável. 6. afinal. Tudo permanece idêntico a si mesmo. 6. mas com PARMÊNIDES. Chamando o feito à ordem. com os respectivos órgãos de governo. E tínhamos que ajuizar assim. proclamou que "nada de novo existe sob o sol". dizia ele.c. A imutável substância da Constituição 6. Pois o restante do Ordenamento é muito mais caracterizado pelo seu conjunto de regras do que pelo seu conjunto de princípios. Não uma coisa ou outra. Dialeticamente. que falava do universo como algo eterno. Coloca-se no ponto de conciliação ou de unidade orgânica entre as duas teorias.4. Dialeticamente.4. quer pelo fato de ser o fundamento de validade de todo o Ordenamento. Mas uma coisa e outra ao mesmo tempo. a Constituição muda por si mesma. pois a substância dos seres não muda.2. naquele sentido ambivalente de compromisso tanto com a mutabilidade quanto com a imutabilidade.1.). A Constituição muda por si mesma. sim. b) segundo. Daí por que falamos que o ritmo de mutação formal da Constituição deve ser mais lento do que o reclamado pelo restante do Ordenamento. Pois bem. assim. E porque pensava assim. já não com HERÁCLITO. sob o influxo das peculiaridades sócio-culturais de cada povo e de cada época. 6. e ao mesmo tempo não muda. A partir desse contraponto parmenidiano.4.3. como professavam os próprios helenos.4.3. na função constitucional originária de montar o aparelho de Estado. Teríamos. evolui com o movimento da parte periférica da circunferência de cada qual dos seus princípios.4.4. Devido a que o ritmo de mutabilidade informal (ou endógeno) do restante do Ordenamento é menor do que o ritmo que é próprio da Constituição. do poder econômico e do poder social como um todo (visto que o todo social desiguala materialmente e discrimina moralmente as pessoas e ainda sistematicamente conspurca o equilíbrio ambiental e a sadia ordenação dos espaços urbanos). sim. .4. Conota a idéia primaz de estabilidade. quer pela materialidade organizacional de suas normas à face do Estado e do Governo. o sentido histórico-filosófico de servir a Constituição como o único mecanismo jurídico de eficaz contenção aos excessos do poder político e. contínuo e imóvel.

à etapa fraternal da sua existência. bem ao contrário. 6. Há duas correntes jurídicas em permanente oposição quanto ao papel do intérprete do Direito. mas um a posteriori. Outra. mas a vontade objetiva da norma (engastada em um determinado dispositivo). 6. Se a lógica usual de cada regra jurídica "é a do tudo ou nada". E é tanto mais recomendável quanto se esteja diante de um princípio. Explicamo-nos. da mera proibição de preconceitos). Agora já podemos enfrentar o tema da progressiva formação do Estado Fraternal. como. os deficientes físicos e as mulheres (para além. tudo ao mesmo tempo.5. portanto.1. A lógica "do mais ou menos" ou do "vamos ver". Desde que entendamos por Constitucionalismo Fraternal esta fase em que as Constituições incorporam às franquias liberais e sociais de cada povo soberano a dimensão da Fraternidade. Que veio para transcender o Estado Social.3. nos dias presentes. fechando todos os espaços de manifestação mental/consciencial do seu próprio ser individual e ao mesmo tempo social. por exemplo. podemos facilmente ajuizar que ele foi liberal. a dimensão das ações estatais afirmativas. Não um a priori. é o que também sucede com o próprio labor interpretativo de cada dispositivo jurídico. 6.6. os negros. Implica uma descoberta e uma construção. portanto. inicialmente. ele se torna um personagem completamente autômato no referido circuito.1. mas sem o negar. na Constituição originária. Tanto quanto o Estado Social veio para superar o Estado Liberal. Se.4. que são atividades assecuratórias da abertura de oportunidades para os segmentos sociais historicamente desfavorecidos. a lógica usual de cada princípio é a da ponderação ou do sopesamento das circunstâncias presidentes de sua concreta aplicabilidade. 6. é certo. Uma. A norma a desentranhar dos signos linguísticos (dispositivos) é tanto um a priori quanto um a posteriori. e depois social. sabido que essa categoria de norma jurídica traduz-se em relato que é muito mais um mandado de otimização do que um mandado de definição (ALEXY). O advento do Constitucionalismo Fraternal 6. mas assim mesmo é que se processa o mistério da existência terrena. ao revés. Essa dialeticidade que termina sendo uma fuga dos extremos ou a conciliação possível entre eles.5. Do que resulta ser a norma jurídica o resultado da sua interpretação. ele se anula totalmente perante o dispositivo interpretado.5. mas também sem eliminar as respectivas conquistas (como é próprio de toda superação ou transcendência).6. o .5. transmuta-se em legislador. Chegando. Esteja ele. 6.6. 6.6. Efetivamente. De par com isso.2.2. isto é. proclamando que a interpretação deve ser rigorosamente objetiva. afirmando que a vontade ou o querer subjetivo do intérprete (condicionamentos psíquicos e sócio-culturais) é ineliminável do processo interpretativo.5. pois o que interessa não é o querer subjetivo do intérprete.5. se considerarmos a evolução histórica do Constitucionalismo. O método dialético de interpretação constitucional 6. Essa metodologia da conciliação implica a busca de um equilíbrio sempre instável. Personagem completamente autônomo no circuito da produção/aplicação do Direito. Nem exclusiva objetividade de um querer legislado que se impõe ao exegeta. A solução parece estar no meio. ou não esteja. nem exclusiva subjetividade de um exegeta que se impõe ao querer legislado. que é a lógica do concretamente possível.5. Se o intérprete faz do seu exclusivo pensar a vontade objetiva da norma.

da Democracia e até de certos aspectos do urbanismo como direitos fundamentais. a virtude está sempre no meio (medius in virtus). No plano do Direito Constitucional.6.6.2 6. e. do Meio Ambiente ecologicamente equilibrado. etc. a Fraternidade é o ponto de unidade a que se chega pela conciliação possível entre os extremos da Liberdade. Mais até que plenamente aceito. Deveras. que ele seja cabalmente experimentado e proclamado como valor absoluto. Uma dignificação de todos perante a vida. E nisso é que se exprime o núcleo de uma sociedade fraterna. não têm como escapar da mesma sorte ou destino histórico.7. isto é.6. visto ser ela .4.8. simplesmente. de que não se chega à unidade sem antes passar pelas dualidades.9. Se já não era possível um estado genérico de liberdade sem uma aproximativa igualdade entre os homens. Se a vida em sociedade é uma vida plural. pela simples razão de que não pode haver fraternidade senão entre os iguais. de um lado. 6. Tudo na perspectiva de se fazer da interação humana uma verdadeira comunidade.6. Aonde queremos chegar? Na compreensão de que a ideologia da igualdade social é a mais estratégica das ideologias. 6. Nesse novo e otimizado patamar da fraternidade como característica do Constitucionalismo contemporâneo.. 6. entendido o holismo como decidida opção existencial pela integração ou abrangência gradativa de tudo.potencialmente onitemática. O que já significa uma .6. a compassiva ou aproximativa igualdade social é a condição material objetiva para o desfrute de uma liberdade real.6. pois o fato é que ninguém é cópia fiel de ninguém. geográficas. a resvalar freqüentemente para o campo da humilhação dos hipossuficientes). Seletivamente onifinalista. Tanto quanto esse mesmo tipo de igualdade social é a condição material objetiva para o desfrute de uma fraternidade como característica central de qualquer povo (uma vez que. pois uma das maiores violências que se pode cometer contra os seres humanos é negar suas individualizadas preferências estéticas.6. todavia. Assim como não se pode recusar a ninguém o direito de experimentar o Desenvolvimento enquanto situação de compatibilidade entre a riqueza do País e a riqueza do povo. favor. É por aqui mesmo que se dá a penetração do holismo no Direito. compaixão. da Igualdade.constitucionalismo fraternal alcança a dimensão da luta pela afirmação do valor do Desenvolvimento. 6. sem igualdade aproximativa. Sendo esta o ponto ômega ou o pináculo da evolução político-jurídica. profissionais. também nos domínios do Direito e da Política. E não só nos escaninhos do Estado e do Governo. por ser a igualdade social a necessária ponte entre a Liberdade e a Fraternidade. tanto quanto o Amor é o ponto mais alto da evolução espiritual. A comprovação de que.3. o que se tem no plano da boa vontade dos mais favorecidos para com os menos favorecidos sócio-culturalmente não passa de caridade. as coisas se processaram numa seqüência lógica. Com a plena compreensão.5. culinárias. mais do que diante do Direito. Auto-sustentadamente ou sem temerária dependência externa. religiosas. então que esse pluralismo do mais largo espectro seja plenamente aceito. partidárias. pela consciência de que. 6.e somente ela . ideológicas. Não por coincidência. sexuais. o milagre da vida. E tinha de ser pelas portas mais largas da Constituição. condescendência. o mistério. uma comunhão de vida.6. etc. estando todos em um mesmo barco. também não era possível o alcance de uma vida coletiva em bases fraternais sem o gozo daquela mesma situação de igualdade social (ao menos aproximativamente). 6. Este o fascínio. o que se tem já é a democratização no interior da sociedade mesma. de outro.

). o financeiro. Enfim. Constituição. o econômico. está no fim de toda reflexão". . metamorfosear-se em normas de Direito Interno desse ou daquele Estado soberano. etc. Ela. para os cientistas. a permanecer como a fundamentalidade de todo o sistema jurídico interno e até mesmo do sistema social genérico (o militar.confirmação do seu papel dirigente e da sua inamovível posição de centralidade. consoante a máxima oracular do físico alemão Max Planck (1858/1947). louvado seja Deus! Esse Deus que. e só então. está no princípio de todas as coisas. pois as próprias fontes do Direito Internacional têm de receber as boas-vindas da Constituição para. o técnico. enquanto que. "para os crentes. A fundamentalidade das fundamentalidades. o familiar.

"Constituição e Mudança Constitucional". Saraiva. Revista Forense. Teoria del Poder. _______. Francis-Paul. _______. 10:365. 1996. ANDE. Milano. J. Direito Constitucional . Princípios Fundamentais do Direito Administrativo. Editora Revista dos Tribunais. 1996. CAPPELLETTI. Le Droit Administratif Français. De Senectude (O Tempo da Memória). Celso Ribeiro. Direito Constituiconal. Curso de Direito Tributário. Constituição da República Portuguesa Anotada. Interpretação e Aplicação da Constituição. 1992. 1986. 1997.. O Futuro da Democracia.. BORGES. BORGES. Clémerson Merlin. 1998. Saraiva. 1999. 1997. Générale de Droit et de Jurisprudence. set. Gomes. Giuffrè. _______. CARRAZZA. BASTOS. 1958. 1977. Fundacion BBV e Editorial Civitas S. Curso de direito constitucional. 2ª edição. Paz e Terra. 1975. COMPARATO. _______. Hermenêutica e Interpretação Constitucional. 1991. José Souto Maior. _______. Giappichelli. 5ª edição. Luis Roberto. BRITTO. 1995. Teoria della norma giuridica. Gomes. Droit Constitutionnel et Institutions Politiques. .Leis nacionais. Teoria dell'Ordinamento Giuridico. 1985. "Ensaio sobre o Juízo de Constitucionalidade de Políticas Públicas". 1997. 16ª edição. Lei Complementar. Curso de Direito Tributário. Almedina. Il controllo giudiziario de costituzionalità de principio. BRITTO. J. Coimbra Editora. _______. BONAVIDES. 1997. 1978. Celso Bastos Editor. Saraiva. Libr. ATALIBA. 1977. 1978. Almedina. Malheiros.Teoria da Constituição. Saraiva. Alice Gonzales. Malheiros. J. Paulo. Carlos Ayres. 1° da Constituição do Brasil". Giappichelli.Bibliografia ACCIOLI. BARROSO. 6ª edição. Campus. Blanco. J. em Direito Administrativo e Constitucional. 1978. "O Controle Judicial da Constitucionalidade das Leis e Atos Normativos Municipais". CLÈVE. Carmen Lúcia. Madri. Saraiva. "Normas Gerais na Constituição . Revista da Procuradoria-Geral do Município de Porto Alegre. Lei Complementar Tributária. Geraldo. BOBBIO. CARVALHO. CANOTILHO. 6ª edição. 1995. Curso de Direito Constitucional. Celso Ribeiro. CAETANO. Roque Antônio. Revista da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. leis federais e seu regime jurídico". _______. Editora Revista dos Tribunais. Wilson. 1997. J. Direito Constitucional. Paulo de Barros. ZNT Editora. Georges. Normas Gerais de Licitação e Contratos Administrativos. 1960. Carlos Ayres e BASTOS. Instituições de direito constitucional. Saraiva. Paris. ANTUNES ROCHA. A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos. Dalloz. CANOTILHO. Mauro. Estudos de Direito Tributário. Gomes e MOREIRA. "As Modernas Formas De Interpretação Constitucional". 1982. 1968. El Derecho Publico de Finales de Siglo. 1998. J. São Paulo. Fábio Konder. BURDEAU. "O Poder Judiciário e o Parágrafo Único do Art. A. Revista dos Tribunais. Marcelo. 1991. Forense. 1966. J. 343/359. Saraiva. Interpretação e Aplicabilidade das Normas Constitucionais. BÉNOIT. pp. 1993. _______. Forense. 1981. Editora Pirámide. _______. Vital. Noberto. CANOTILHO. _______. Madri. Torino. O Perfil Constitucional da Licitação. Torino.

. Eros Roberto. FIGUEIREDO. 1959. O Controle da Moralidade na Constituição. Marcelo.conferência publicada na coletânea 10 Anos de Constituição". Giuffrè. Hans. Juarez. 2ª edição. 1970. Emendas Constitucionais e Controle da Constitucionalidade. GALVÃO. Dalmo de Abreu. Ivo. _______. HESSE. _______. Carlos Augusto Alcântara. DALLARI. Record. Editora Saraiva. 1976. Teoria da norma jurídica. UTET. Ed. Estudos Constitucionais. 2002. CRISAFULLI. Genaro R. El concepto de derecho. FIGUEIREDO. Editora Revista dos Tribunais. Elementos de Teoria Geral do Estado. FERRAZ JÚNIOR. Coimbra. 1992. 1950. LAVAGNA. Montchrétien. LTr. _______. México. 1999. Malheiros. FREITAS. Os Direitos Sociais nas Constituições. Sérgio Antonio Fabris Editor. 2ª edição. LOEWENSTEIN. Saraiva. Efficacia delle norme costituzionali. Malheiros . GRAU. Saraiva. coletânea Perspectivas do Direito Público. São Paulo. Carlo. Abeledo-Perrot. 1964. O Direito Posto e o Direito Pressuposto. Dialética. Paulo Braga. Torino. GORDILLO. HAURIOU. 1961. 2000. 1995. Rio de Janeiro: Lumen Júris. O Mandado de Injunção. Archivo Penale. 1976. 2ª edição. Hermann. Edição da Universidade Federal da Bahia. Arménio Amado Ed. Editora Alas. Milano. 1977. Maria Helena. André. 9ª edição. Malheiros. Buenos Aires. Edicione Ciudad. 1988. 1995. 1978. Norma Constitucional e Seus Efeitos. Conceito de Sistema no Direito. 1998. A. 1991. Alejandro E. Forense. DINIZ. Del control jurisdiccional de constitucionalidad. GABARDO. Princípio Constitucional da Eficiência Administrativa. 1988. Carrió. Direito. MACHADO. Teoria pura do direito. MARINHO. RT. Los Jueces. 1995. Do Processo Legislativo. KELSEN.. A Interpretação Sistemática do Direito. A Força Normativa da Constituição. São Paulo. Agustin A. Para Ler e Pensar. 16a edição. Tércio Sampaio. Josaphat. Roberto. DANTAS. 1997. 1981. Teoria de la Constitución. Editora Revista dos Tribunais. maio/jun. Boitempo Editorial. Karl. Depalma. e Normas Jurídicas. HESSE. São Paulo. Teoria General del Estado. 1975. Droit constitutionel et institutions politiques. Emerson. FERREIRA FILHO. Editora Del Rey. Lúcia Valle. Sergio. Konrad. KONDER. HART. GHIGLIANI. FRANCHINI. 1996. . Herbert L. Vezio. 1991. 2ª ed. Um Galileu no Século XX. 1952. La Constituzione e le sue Disposizioni de Principio. 1966. 1998. Manoel Gonçalves. FERRAZ. Ariel. Istituzioni di Diritto Pubblico. "Controle Jurisdicional do Mérito do Ato Administrativo. 1952. Curso de Direito Administrativo. 1997. Conceitos. Editora Celso Bastos. Flamínio. Trad. Princípios Gerais de Direito Público. Malheiros. DROMI. Leandro. Barcelona. São Paulo. São Paulo. Direito Adquirido. Buenos Aires.

_______. Charles-Louis de Secondat. MORTATI. SIEYÈS. _______. El control de Constitucionalidad. Competência Concorrente Limitada . 1995. NERY. A Constituição Simbólica. Guy e CAVEING. 1981. SILVA. SCHMITT. II e III. Valmir e BRITTO. 1994. Celso Antônio Bandeira de. O Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade. Teoria do Estado e da Constituição. Teoría de la Constitución. Editora Revista dos Tribunais. Oswaldo Aranha Bandeira de. Manual de Direito Constitucional. POPPER. "Medidas Provisórias . Hermus Editora Ltda. RIL. 2002. Malheiros. Santi. Marcello. Editora UNB. Freitas Bastos. 1985. Curso de Direito Constitucional Positivo. Nacional. Napoli. PALLIERI. Malheiros Editores. Princípios de Direito Constitucional Geral. Max Limonad. Coimbra Editora. 1995. Revista dos Tribunais. Nelson de Souza. Malheiros. Jorge. Revista Da Procuradoria Geral Do Município De Fortaleza (CE). 1998. Maurice. 1997. O Contrato Social. Tomos I. Revista dos Tribunais. Direito. ROUSSEAU. Clèmerson. 1954. vol. Emmanuel Joseph de. 1a edição. _______. México-Buenos Aires. Bushatsky. Forense. SÁCHICA. RUFFIA. Editora Del Rey. 1955. Nuevas Filosofia de la Interpretación del Derecho. Milano. 1995. Luis Recasens. Líber Juris. MÜLLER. Fondo de Cultura Económica. Istituzioni di Diritto Pubblico.MAXIMILIANO. _______. Editora Acadêmica. 1996. Bahia. Karl. Limitada. O Poder de Reforma Constitucional. 2ª edição. Paolo Biscaretti di. 2ª edição. _______. . Carlos Ayres. 1956. Ato administrativo e direito dos administrados. SICHES. José Afonso da. MERLIN CLÈVE. G. Revista de Londres. II. 1994. RAMOS. 1968. POLITZER. Diritto Costituzionale. Friedrich. Nacional. 1970. Georges. Diritto constituzionale. 1993. Revista dos Tribunais. Princípios Fundamentais de Filosofia. Jean-Jacques. A Teoria das Constituições Rígidas. MELLO. Bogotá. "Direito Adquirido Contra as Emendas Constitucionais". Constantino. MIRANDA. 1970. Giuffrè. O Processo Legislativo. O Espírito das Leis. 1980. CEDAM. _______. 1978. Progresso. 14a edição. Diogo de Figueiredo Moreira. A Constituinte Burguesa. Ediouro. PONTES FILHO. NETO. Revista dos Tribunais. Violência (Elementos de uma Teoria Constitucional). 1986. 1995. 1997. Aplicabilidade das Normas Constitucionais. 1997. Ed. MONTESQUIEU. NEVES.O Problema da Conceituação das Normas Gerais. Editora Del Rey. Carlos Roberto. Carl. 1996. Curso de Direito Administrativo. 1965.Estados e Municípios". Balladore. Quem é o Povo? A Questão Fundamental da Democracia. Regina. BESSE. 2002. Carlos. A Fiscalização Abstrata de Constitucionalidade no Direito Brasileiro. MELLO. Da Medida Provisória. 5ª edição. Ed. Eugenio Jovene. 1967. México. estudo publicado no bojo da coletânea Direito Administrativo e Constitucional. Sergio Antonio Fabris Editor. Padova. Luis Carlos. Hermenêutica e Aplicação do Direito. 1951. Linguagem. The Society and Its Enemies. ROMANO. SAMPAIO.

4ª edizione. Paris. Giuffrè editore . Teoria constitucional. Zeno./dez. 16:289. Elementos de Direito Constitucional. São Paulo. 1986. Lourival. Revista da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. out.. Jorge Reinaldo. Diritto Amministrativo. "La Constitucion como Norma y como Ley". Goffredo. "Considerações sobre o Estado Federal". TELLES JÚNIOR. VIRGA. VANOSSI. Malheiros. Controle Jurisdicional da Constitucionalidade. Sirey. Saraiva. As Estruturas Lógicas e o Sistema do Direito Positivo. VILANOVA. a Assembléia Constituinte e o Congresso Nacional. 8ª edição. Pietro. Depalma. A Criação do Direito. Manuel Élémentaire de Droit Constitutionnel. VEDEL. Ícone Editora. VELOSO. 1999. 1983.SPINOZA. A Constituição. . 1953. Buenos Aires. 1977.Milano. Michel. Revista dos Tribunais. 1949. TEMER. _______. _______. Tratado Político. Editora Cejup. Revista de Informação Legislativa. 1975. XIFRA-HERAS. Jorge. 1994. Georges. 1991.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful