Introdução Teoria é conhecimento ordenado, conhecimento sistematizado sobre um determinado assunto.

Conhecimento, além do mais, especulativo; ou seja, ordem de saber que se constrói sem imediata preocupação com a sua aplicabilidade aos casos concretos. Independente da prática, portanto. 2. Quando associado ao nome "Direito", para com ele formar a locução "Teoria do Direito", o substantivo de que estamos a falar é tipo articulado de conhecimento que busca isolar o Direito das outra realidades normativas. Explica o Direito como objeto cultural-normativo que se não confunde, verbi gratia, com a moral e a religião. E quando grafado de "Teoria da Constituição", é saber especulativo que opera no interior do próprio Direito, para separar o Direito Constitucional de qualquer outro setor ou província jurídica; melhor dizendo, para evidenciar em que a Constituição: a) é diploma jurídico-positivo diferente dos demais; b) é a parte central de um ramo jurídico também diferenciado das outras porções que se entroncam na grande árvore do Direito. 3. Este o nosso desafio: pensar a Constituição. Não esta ou aquela Constituição em separado, mas enquanto fenômeno jurídico-positivo comum à experiência dos povos que exercitaram, com êxito, a própria soberania. 4. O que estamos dizendo não é mais que isto: às Constituições em sentido objetivo (conjunto de normas jurídicas) corresponde esta nossa teorização em sentido subjetivo. Que somente vai buscar no material investigado, todavia, o que se apresentar como partes elementares de um todo orgânico; ou seja, como objetiva comprovação de que tudo é um. 5. Ainda à guisa de anotações preliminares a esta nossa monografia, um primeiro lembrete: não há apenas Constituições escritas, e mesmo as escritas nem sempre se enfeixaram (como ainda não se enfeixam) num único texto normativo. Elas também existem em documentos esparsos. E se umas são redigidas e promulgadas por órgãos especialmente eleitos pelo povo para esse mister, outras, no entanto, são aprovadas sem a eleição popular daqueles por cujo intelecto e força física elas ingressaram no mundo das positividades jurídicas. 6. Outra pequena lembrança está em que a nossa teorização não é repelente de nenhuma espécie de Constituição conhecida. Contudo, as especificidades ou características centrais que temos como exclusivas de um diploma constitucional, assim como as citações e ilustrações de que nos valemos amiúde, tudo tem por alvo o modelo de Constituição que terminou por se impor no interregno que vai do segundo após-guerra até os nossos dias: a Constituição escrita, redigida à moda de código e

produzida por um corpo de legisladores ungidos na pia batismal do voto popular. 7. Por último, incumbe-nos pontuar que esta nossa Teoria da Constituição começa pelo estudo do Poder Constituinte, que é a instância deliberativa de que ela, Constituição, é a obra resultante. O trabalho objetivamente feito. E que essa mesma Teoria passa pela esfera de conhecimentos que tem recebido o nome de "Hermenêutica Constitucional"; mas que preferimos, pessoalmente, designar por "Hermenêutica da Constituição", como no seu devido tempo explicaremos. Aracaju (SE), 23 de dezembro de 2002 Carlos Ayres Britto

Sumário
1.1. Deus: a instância transcendente que tudo pode, menos deixar de tudo poder 1.2. A limitabilidade intrínseca de Deus 1.3. A indistinção ontológica entre Deus e Sua onipotência 1.4. Deus enquanto norma normarum ou a fonte das fontes 1.5. A incontornável solidão da onipotência de Deus 1.6. O povo como a transubstanciação do poder imanente que tudo pode 1.7. A soberania popular ou o modo constituinte de ser do povo 1.8. O mundo de Deus e o mundo do Direito 1.1. Deus: a instância transcendente que tudo pode, menos deixar de tudo poder 1.1.1. O meu filho Marcel tinha cinco anos de idade, quando travou comigo o seguinte diálogo: - Meu pai, é verdade que Deus tudo pode? - É verdade, sim, meu filho. Deus tudo pode. - E se Deus quiser morrer? - Bem, aí você me obriga a recompor a idéia. Deus tudo pode, é certo, menos deixar de tudo poder. Logo, Deus tem que permanecer vivo, porque somente assim Ele vai prosseguir sendo Aquele que tudo pode. 1.1.2. Ao dar essa resposta de que Deus não podia morrer, terminei por confirmar uma coisa e afirmar outra. Confirmei a minha crença na existência de Deus e afirmei a limitabilidade intrínseca desse mesmo Deus de cuja existência eu estava a dar testemunho. 1.1.3. Com efeito, eu reproduzia para o meu filho: a) minha filosofia prevalecentemente idealista ou espiritualista, à moda hegeliana, segundo a qual a natureza ambiental e a sociedade humana são uma revelação, uma manifestação da Idéia Incriada; b) essa Idéia Incriada é o próprio Deus, tido como instância transcendente que tudo pode, mas com o acréscimo de idéia que eu estava a fazer: instância transcendente que tudo pode, sim, menos deixar de ser essa instância transcendente que tudo pode.1 1.2. A limitabilidade intrínseca de Deus 1.2.1. Sobre este último aspecto da limitabilidade inerente a um ser que tudo pode (a relativização possível da onipotência), a conversa com meu pequeno filho trouxe-me à cabeça a utilidade pedagógica de uma comparação entre Deus e o poder que, na Ciência Política e na Teoria da Constituição, é chamado de Poder Constituinte. Mais exatamente, pressentíamos (a partir de agora passaremos a usar o plural majestático "nós", em vez de pronome pessoal da primeira pessoa "eu") que refletir sobre algumas noções deístas mais correntes seria tarefa intelectual que abriria importantes espaços para a mais desembaraçada compreensão do poder que está na própria raiz da Constituição e do Ordenamento Jurídico: o Poder Constituinte. 1.2.2. Não que houvesse originalidade no fato em si da comparação (outros estudiosos do Direito, cada qual a seu modo e tempo, já confrontaram o Divino com o Poder Constituinte). Não que o acerto das proposições descritivas dos diversos ângulos da formação e manifestação do Poder Constituinte dependesse (nunca dependeu) do acerto das proposições reveladoras da existência e da natureza de Deus. Os conceitos

1. Argentina. Nesta última dimensão do neoconstitucionalismo. alemães e portugueses).2. da França. Sem embargo. que é um constitucionalismo fraternal.acerca do Poder Constituinte gravitam em outra esfera de mentalização fenomenológica. em última análise. o seu núcleo duro (expressão muito ao gosto dos publicistas norteamericanos." E não se pode negar a realidade de que a invocação do nome de "Deus". Esta é a sua natureza. a mais vivamente fixar os contornos do constitucionalismo atual.são normas que podem servir de fundamento para a modificação delas próprias. que chegou a dizer: "Quero conhecer o pensamento de Deus. b) se a emergência de coletividades supranacionais pode ensejar a formação de um Direito superior à Constituição de cada país-membro de tais coletividades (a União Européia. ou "Ser Supremo" tem sido grafada nos preâmbulos de Constituições como as dos Estados Unidos da América. aquele que tudo pode com inicialidade só existe mesmo para tudo poder com inicialidade. Mais até. . já a título de execução do nosso pessoal estudo comparativo entre Deus e o Poder Constituinte. Brasil. Além dessa disponibilidade muitíssimas vezes maior da literatura sobre Deus. de fato. O resto é detalhe. então. notadamente).2. por ser a própria causa de tudo o mais. O primeiro juízo que passamos a formular.5. a melhor rebater os fundamentos daquilo que se vem chamando de neoconstitucionalismo. b) de outra banda. a ALCA e o MERCOSUL. sua referibilidade às idéias mais assentes sobre Deus lhes propiciaria uma clareada de horizontes. a ontologia e as manifestações do Todo Poderoso é de generalizada ou massiva aceitação (quantos homens e mulheres.. etc. 1. assim como nenhuma instância geratriz mundana pode assumir o papel de Deus naquilo que diz respeito à montagem das linhas mestras do universo e à substituição dessas linhas por outras. apanham a figura de Deus por um prisma subjetivado ou enquanto ser que se dota de uma vontade do tipo psicológico. 1. o que se tem falado sobre Deus permeia pronunciamentos de cientistas do quilate de um EINSTEIN. também nenhum órgão ou sujeito simplesmente constituído pode se travestir de Poder Constituinte naqueles pontos que se põem como a própria fundação do Ordenamento Jurídico e como alteração das características centrais desse Ordenamento.2. de modo quase invariável.. uma utilidade mais que propriamente acadêmica na confrontação que estávamos a idealizar.2. é exatamente este: aquele que tudo pode com inicialidade é a fonte mesma do seu e de qualquer outro poder. Alemanha. Logo. Sua realidade prescinde da noção de causa. se consideram ateus?). o que nessa literatura se tem ajuizado sobre a existência.4. funcionalmente. É que a pretendida clareada de horizontes na compreensão do verdadeiro Poder Constituinte nos habilitaria: a) de uma parte.. Venezuela.3.tanto as que permitem quanto as que proíbem tal reforma .6. Estudos e reflexões que. Tudo a nos levar a presumir que uma objetiva demonstração de certa similitude entre os dois termos paradigmáticos (Deus e o Poder Constituinte) contribuiria para quebrantar as resistências doutrinárias mais recentes à tese de que há um espaço de conformação jurídico-positiva que somente pelo Poder Constituinte é passível de ocupação. ou "Juiz Supremo do Mundo". Noutros termos. ou "Divina Providência". já podemos antecipar que os ângulos de estudo que nos parecem mais salientes dizem respeito à questão de saber: a) se as normas que tenham por objeto a reforma da Constituição . etc. pois o fato é que os estudos e reflexões em torno do Criador são em muito maior quantidade do que os elaborados ao derredor do Poder Constituinte. Antevíamos até mesmo uma dimensão prática.2 1.

uma bactéria. a primeira a determinar à segunda que reflua por inteiro ao ponto de partida para nesse ponto de partida se esvair. 1. Não faz sentido que a fonte de todo o poder use do seu poder originário para se fazer secar enquanto fonte mesma. O dínamo do nosso Globo.8.3. e por isso é que um não .2. convocou a natureza e os seres humanos. 1. o poder é o sujeito. adensando-lhe incessantemente o corpo e assim possibilitando ao rio (do qual fazem parte nascente e corrente) aquele final e interminável abraço com o mar. O ser-corrente é seguir em frente. criaturas Dele. contra a sua própria conservação. no sentido de se colocar perante esse mesmo sujeito como um predicado ou uma virtude. se esforça por se conservar ou permanecer tal como é. O rio é rio por inteiro. 1.3. ora por amor à exigência intelectual de classificação ou compartimentação endógena das coisas. assim destacadamente. a sua corrente e a sua embocadura. É auto-evidente o consectário dessa afirmação de que existe um ser que tem no tudo poder com inicialidade a sua própria ratio essendi: o ser que só existe para tudo poder com inicialidade não pode se demitir do seu papel de tudo poder com inicialidade. o corpo humano. sozinha (Deus está sempre sozinho enquanto "substância"). continuamente. porém. Tais órgãos são. o sujeito é o poder.9. O mister que lhes cabe é sempre o de coadjuvantes.3. distanciar-se do seu nascedouro. Ambos surgem no mesmo instante. Por comparação. Circularmente. ou com outro rio que no mar desemboque. Ainda recorrendo à imagem do rio. o corpo humano é o conjunto de tais órgãos. um vírus. para se tornarem co-criadores deste mundo terráqueo. no seu conjunto. 1. Esse tipo de poder não é algo que o sujeito possua. com a possibilidade de tais criaturas.3.7. Noutro dizer. porque. Jamais. Se é assim. Até mesmo um micróbio. ou a sua corrente. O que é lógico supor é o poder que tudo pode a não fazer tudo sozinho. nascente e corrente existem para cumprir a destinação do rio de se encontrar perpetuamente com o mar.3. É de SPINOZA a categórica asserção de que todo ser. Impossível! A nascente de um rio de superfície (há rios que são subterrâneos) existe para vir à tona e liberar uma parte de si numa certa direção. no caso. Ele é ao mesmo tempo o seu nascedouro. avançamos no raciocínio para entender que o sujeito (à falta de melhor palavra para a qualificação ontológica de Deus) cuja natureza é a de tudo poder não tem o poder como algo distinto de sua subjetividade. Esta só pode ser um ininterrupto caminhar para adiante da nascente.2. como o ser-nascente é ficar para trás da corrente. com o tempo. elas colocarão o Criador sob o risco de se tornar criatura das suas criaturas. ou a sua foz. todos eles reagem o quanto podem ao remédio com que são eventualmente combatidos. se ombrearem em tudo e por tudo ao seu Criador. há pouco projetada. sendo criaturas. Deus a se postar como refém daqueles que. que a mente humana fragmenta. figuremos uma nascente d'água fluvial e sua própria corrente. gerando o fenômeno da corrente. Com um pouco mais de interesse especulativo pelo tema. por ser o próprio sujeito.aquilo que responde pela sua raison d'être. e não aos pedaços. Tudo é uma coisa só. como o corpo humano já nasce com todos os seus órgãos elementares. ora por incapacidade de compreender o todo. Nada disso! O poder não é distinto do sujeito.2.3 1.1.2. 1. Ele inicia uma obra para outro completar. Deus. senão. ele não é apenas a sua nascente. A indistinção ontológica entre Deus e Sua onipotência 1. na medida em que pode. de repente poderão se transformar em criadores do seu Criador. Não há como conceber a substância de um ser a conspirar.

ou não existe. tudo o que você alcança é para sempre. o Estado enquanto sinônimo de Poder Público.6.3. em rigor. portanto.3. 1. 8º. no mundo interior. não são alturas verdadeiras. que. Mais que isso. Dá para concluir. para nos expressarmos numa linguagem kelseniana). a causa de todas as leis naturais que regem a vida por Ele criada ou na qual Ele se transfundiu. como a flor e a sua corola. negritos à parte).7. de que dá sobejas demonstrações o arsenal prescritivo da Constituição brasileira de 1988 (inciso LXIX do art. faz do ser uma outra coisa ou até uma coisa nenhuma?) 1. 230. mais cedo ou mais tarde será destronado. é preciso trabalhar com a idéia de que o centro subjetivado do poder que tudo pode tenha no fenômeno da onipotência mesma a impossibilidade da renúncia a tudo poder. o mar e as respectivas ondas (como entender enquanto predicado ou virtude aquilo que. O ser que tem na aptidão originária para tudo poder o próprio núcleo firme da sua natureza (forma). Em linguagem aristotélica. o sujeito que tudo pode tem nesse tudo poder a sua causa formal. se passarmos do plano da imanência (plano do mundo físico e cultural) para o plano da transcendência (que é o espaço dos seres espirituais ou "supra-humanos". O quebrantamento do poder absoluto arrastaria consigo o próprio sujeito absolutista. destarte. e. Deus é o poder de tudo poder. mais cedo ou mais tarde será difamado. em louvor à clareza do pensamento. Se Deus existe (pouco importa se existe como sujeito processante. enfim.. à moda de exemplo5). se apartado do ser.3. Mas. Não é desarrazoado. então.3. torna-se parte de você.pode ser destacado do outro. o Poder Público enquanto sinônimo de Estado. porque dessa perda essencial restaria um outro ser. tal ser não pode decair dessa aptidão. é capaz de fazer. ano de 1992. 1. de executar as leis e de julgar segundo essas mesmas leis.4 1. mais que renúncia. mas de uma unidade ontológica.3. é eterno. Não há querer. ou como um processo em si mesmo substante). reitere-se. então. Convém dizer de outro modo. Mas esses pontos pertencem ao vale. Retire-se-lhe o poder de tudo poder. de que Deus. Tudo o que alcançar neste mundo lhe será tomado.uma vez atingida. Se você tem fama. pois. Por isso que. negue-se-lhe o instinto de preservação. A sabedoria não pode regredir . Sob este visual das coisas. Deus não tem o poder de tudo poder. não há opção.5. e somente ele. e o que sobra já é outra coisa em qualidade e essa outra coisa em qualidade pode até ser o nada. A função específica. Não é algo que você possua torna-se seu próprio ser e você não pode desconhecê-la (ÍCONE editora. 1. Uma implosão. Se está num trono. No tema. não pode ser perdido. que é absolutista porque tudo pode e porque tudo pode é que é absolutista.8. Assentado fique o juízo. o místico e filósofo indiano OSHO assim fala da verdadeira sabedoria: "As pessoas caem sempre que estão nos pontos mais altos. porque. O deixar de ser fonte primaz é . no maravilhoso livro A SEMENTE DE MOSTARDA. Ele não se põe como a fonte primaz da vida por assim optar pela condição de ser fonte primaz. que o próprio Direito se encarregue de fundir com o Estado o poder que o Estado tem de legislar. Um atentado ao próprio "instinto de conservação". consubstanciaria um autoesvaimento. 5º e inciso I do art. ou existe. Deus tem que ser a fonte primaz da vida. para um poder que assume o risco de já não poder mais nada. Aquilo que o ser. não existe o outro. Não se trata de uma dualidade fenomênica. 1. que o ser desempenha e que o torna único entre os demais fenômenos. em rigor. p. porque essa renúncia. Entendendo-se por forma aquilo para que serve o ser.9. Uma absurda passagem de um poder que tudo pode.3.. chamando-o de "Poder Público". isto é. Tudo é uma só realidade.4.

Mais: é preciso mesmo que as flores caiam para depois rebrotar. incessantemente. que somente coincide . embutido..por ser o ovário a glândula genital feminina que produz óvulos. a não-substância de que derivam todas as substâncias). continuamente.1. I. As flores vêm e vão. é árvore feita para a produção de suas flores e da produção de suas flores. ou outro nome que se dê à fonte das fontes ou a lei das leis ou a norma normarum.4. Se prosseguirmos no exercício das perguntas sobre o fenômeno da concepção humana. Desta concepção extraem-se outras: se é absolutamente independente deve ser infinita. aquilo cujo conceito não tem necessidade do conceito de uma outra coisa. 1. que é um mundo regido pelo citado princípio da causalidade. ministrada pela própria Ciência. em cujo ponto de partida se encontra o conceito daquela Substância de que tudo deriva. Agora.) são leis que se põem como a causa ou a fonte de muitas outras leis igualmente físicas. e o flamboyant fica. claro) por um espermatozóide (masculino. partindo do fato de que as leis naturais da vida (lei da gravidade. v. 1. se queremos saber a causa imediata do nascimento de um ser humano. isto é. senão seria limitada por outras e não poderia ser independente. do qual deva ser formado. no princípio da continuidade da vida em geral. porque somente assim é que a árvore pode permanecer viva..3.4. Deus.com a dialética marxista enquanto método6).. Esse ponto é a lei ou o princípio da perpetuação da espécie. E neste passo vamos ter que reconhecer: para além da explicação racional. 3).g. da conexão universal dos fenômenos. 1. E é assim de indagação em indagação que iremos estacionar num ponto absolutamente irredutível a novas perguntas sobre a parte orgânica do corpo humano. Não há como deixarmos de nos inquirir sobre um tipo de instância que se ponha ali no próprio começo de tudo que pertença ao mundo do ser. Por hipótese. é imperioso que nos perguntemos sobre a existência de um ponto de partida que seja comum a todas elas. por sua vez. da conservação da energia. da atração e simultânea dispersão dos corpos. e aí o ser humano tem a necessidade de. só cabe mesmo apelar para uma instância geradora da própria lei da continuidade da vida em geral. etc.2.4. traduzido na idéia de que a vida em geral é feita para a gestação e da gestação de infinitas formas (especiais) de vidas. é única em tudo. Tanto quanto o flamboyant. que não é outro senão o conceito de Deus enquanto fonte das fontes ou norma normarum: "O que é em si e se concebe por si.por serem eles a glândula genital masculina que fabrica o esperma (que. . cair nos braços de Deus. 1. como teremos que passar pela explicação do ovário . que é a substância primária de que falava SPINOZA (ou. da mudança mecânica de estados. Deus enquanto norma normarum ou a fonte das fontes 1. segundo o qual tudo que acontece é por efeito necessário de uma causa também necessária ou que não pode deixar de ser.4.4. vamos ter que responder que o ser humano proveio do fato inicial da fecundação de um óvulo (feminino.incompatível com a idéia que se possa ter de Deus. a seu turno. seqüenciando a intuição de que "nada pode surgir do nada" (PARMÊNIDES). contém o espermatozóide).esta última .4. igualmente naturais sabido que tais leis empíricas são encadeadamente regidas pelo princípio da causalidade -. teremos que passar pela explicação dos testículos . óbvio). ao menos no estádio atual das categorias lógicas com que trabalha a mente humana (e aqui tomamos em linha de conta as contribuições da lógica formal e da dialética hegeliana. quem sabe. Eis a composição vernacular do sistema spinoziano do universo (ETHICA.

este princípio imanente do universo é Deus ou Natureza" (p. Poder único. o que impediria o novo Deus "onipotente" de refundir. Todavia. então. portanto. 1994). se a morte do "originário" Deus levaria de roldão todo abismo.3. Deus. mas saltar imediatamente para uma conclusão. e. portanto: primeiramente.5. ou até mesmo descriar o Primeiro?8 1. existir em absoluta solidão. Ademais. para os intelectuais que O admitem é sempre uma hipótese de trabalho. a um só tempo. que HANS KELSEN pôde falar de uma Ciência do Direito? Uma ordem sistemática de conhecimentos que tem naquela hipotetização normativo-fundamental a sua própria condição inicial de possibilidade como esfera autônoma e científica de saber?7 1. esse novo Deus onipotente destroçaria toda a obra do primeiro e assim decretaria a própria sentença de morte do Deus inicial. com Ele.5. Não seria exatamente assim com o Poder Constituinte? Uma força instintiva que não comporta sucedâneo. Terminemos este segmento reflexivo com a ponderação de que não desconhecemos o grande risco intelectual de quem se dispõe a falar sobre Deus. num segundo momento. 1. todo mar. segundamente. enfim). caso contrário dependeria de sua causadora. uma energia completamente primária e insimilar. Um desses modos .5. A incontornável solidão da onipotência de Deus 1.5. 1.2.4. absolutamente inconvivível com outro poder de igual ontologia. menos deixar de tudo poder. e por isso voltamos a ajuizar que a natureza de Deus está em ser o poder que tudo pode. nenhuma instância volitiva imanente. Ícone Editora. como é próprio de todo postulado. O desdobramento de idéia que nos esforçamos por transmitir é simplesmente este: a onipotência não é só o poder de tudo poder. Nem de forma direta.. singular e incausado. Um conceito que se intui a priori. Deus criaria um novo Deus. É próprio do Ser onipotente. nem pela convocação de um êmulo.já foi dito . retornaríamos àquela já descartada hipotetização: Deus a sumir do mapa.1. Logo. Realmente.). Um postulado. em que mar. enfim. decorrendo suas qualidades e ações de sua própria natureza (. onipotência e unipotência. Deus originário. uma . 1. à completa imagem e semelhança Dele. em que abismo. todo chão?). e. Deus. um sósia. sabido e ressabido que a existência mesma de Deus nem pode ser rigorosamente confirmada nem rigorosamente desconfirmada pela Ciência. 1. todo céu. está condenado à solidão. uma norma fundamental hipotética. É. o próprio mapa a sumir (em que chão. pura e simplesmente.5. permanecer como a força que tudo pode. eterno.5. Este novo título formal nos introduz na exposição dos dois modos lógicos de Deus perseverar como o poder que tudo pode. nenhum costume. O outro modo é a impossibilidade do suicídio em dois tempos: num primeiro tempo.4.é a impossibilidade do suicídio direto ou instantâneo: Deus a bater em retirada.. na Sua onipotência.também precisa ser causa sui. Este princípio necessário. precisa ser autodeterminada.5. em que céu. Não há como duas ou mais onipotências ocuparem o mesmo espaço. Se Deus pudesse criar um segundo Deus. pressuposta (não efetivamente posta por nenhum órgão jurídico. não foi a partir da intuição da existência de uma norma fundamental simplesmente pensada. tão onipotente quanto Ele.5. 14 do prefácio de MÁRCIO PUGLIERI ao "TRATADO POLÍTICO". de SPINOZA. com a entrada em cena de um segundo Deus. primitivo Deus. É também o poder de não deixar que outro poder tudo possa. um clone. falar sobre Ele não é formular proposições deduzidas da análise de elementos objetivos que se conectam para formar um todo unitário.

solitária potência do mundo do ser? Um poder que só pode ser concebido in natura. especular sobre Ele (quem falaria. ou étnico. começando por este capítulo e prosseguindo nos subseqüentes. É pressupor a soberania em ação.). com esta dúplice função: primeiramente. Se antes da criação da vida humana sequer era possível falar da existência de Deus. destarte. o que objetivamente revela? Revela a efetividade da emancipação ou soberania do povo. com animus domini. quem especularia?). para o povo grangear a adesão. se auto-referir como sujeito de relações-de-Direito. que um povo já existe. por definição. Emancipação política (soberania) para o povo poder se irrogar tal Ordenamento. quando pode dispor normativamente sobre si mesmo. animamo-nos a enunciar que boa parte do que dissemos a respeito do caráter de Deus. 1. pela importância do assunto: o ser-povo. ou pelo menos o respeito. dos demais povos soberanos. Sem o fenômeno da estatalização. em termos jurídicos (não sob o prisma sociológico. E tudo isto somente se consuma pelo fenômeno da estatalização. 1. no plano territorial-externo. terceiramente. Enfim. etc. e que não é inferior a nenhum outro poder jurídico. incorpora o poder de se autodeterminar jurídicamente. no plano transcendente.6.3.2. jurídicamente. paulatinamente. É exprimir: o ser-povo significa poder existir sob a forma jurídica de Estado.1. não há como entrever a face jurídica do povo. Atento ao relativismo que é próprio das comparações. Se se prefere. superior a qualquer outro poder jurídico. o já existir sob a forma jurídica de Estado. 1. quer na esfera territorial que é comum aos demais Estados soberanos (a ordem internacional de Estados). é dar conta do exercício vitorioso de uma emancipação política. já agora no plano imanente. forcejaremos por ministrar. único modo prático-formal de o povo por inteiro se autoconferir um Ordenamento e uma personalidade jurídica. O povo como a transubstanciação do poder imanente que tudo pode 1. Queremos dizer: é aplicável à natureza de cada povo soberanamente concebido. ou histórico. de forma autoditada. Implica emancipação como a forma exteriorizada de uma soberania que é. 1. garantidamente. É dizer que o povo pôs em movimento. falar da existência de um povo.9 1. A originária força de possuir um Direito próprio. que tem no Estado a sua própria condição de aplicabilidade e expansão. quer no seu próprio território. para o povo não mais se submeter ao Direito de outro povo. O povo só é povo. à natureza do povo.6. exclusivo. única via lógica (não há outra) de o povo. relações jurídicas internas. antes da criação do Estado também não se pode. para uma coletividade humana. Quando se autoqualifica juridicamente.6. Única maneira objetiva e permanente de o povo atuar como um centro personalizado de imputação jurídica. exercitou uma soberania. porque somente assim estatalmente a se metamorfosear é que o povo: a) pode experimentar sua natureza de instância deliberativa soberana. assim. no plano territorial-interno. naquele preciso momento da metamorfose do povo em Estado. o que dissemos acerca da índole de Deus é de ser reproduzido quanto ao caráter de cada povo.5. e nunca de forma pasteurizada? É a resposta que. . Afirmar.6. para o povo impor o seu próprio Direito no âmbito do território de que se apodera. Mas o ser-Estado. juridicamente. é aplicável.6.4. c) força passagem para o seu ingresso na coletividade internacional de Estados.6. b) se predispõe a protagonizar. Repisando a idéia. E isto já significa a emergência de um Ordenamento Jurídico próprio. segundamente.

seja para se assumir como a instância decisória interna mais importante, seja para ombrear-se às demais instâncias internacionais de Estados. Numa nova metáfora, o Estado é a borboleta em que se transformou a crisálida de uma sociedade humana aspirante a povo.10 1.6.6. O que verdadeiramente conta, nessa cruzada histórica do povo em busca de si mesmo, à cata de sua própria totalidade como ser jurídico, é o resultado. É a efetividade interna e externa da personalização jurídica do povo em um novo Estado. Não que a efetividade só exista, no plano interno e externo, a partir do reconhecimento unânime desse novo Estado pelas instituições aplicadoras do Direito, no plano interno, ou, então, pela sociedade internacional de Estados. Absolutamente! Basta que o número dos reconhecedores assegure ao novo Estado a perspectiva, o clima, a tendência natural de prosseguir obtendo novos reconhecimentos (ainda que tácitos), à medida que se vão escasseando as possibilidades de recuperação de terreno do Estado decaído ou daquilo que sobrou da antiga ordem estatal. É o que poderíamos designar por situação de efetividade global do Estado emergente, imagem de que se valeu HANS KELSEN para dizer que o Ordenamento Jurídico não perde a qualidade de Ordenamento pelo fato de uma ou outra de suas normas, embora válida, deixar de ser concretamente aplicada. O que interessa é que, no global, no geral, no plano daquilo que profusamente ocorre, a Ordem Jurídica seja respeitada. Ouçamos o maior expoente do positivismo jurídico da recém-passada centúria: "Uma ordem jurídica não perde, porém, a sua validade pelo facto de uma norma jurídica singular perder a sua eficácia, isto é, pelo facto de ela não ser aplicada em geral ou em casos isolados. Uma ordem jurídica é considerada válida quando as suas normas são, numa consideração global, eficazes, quer dizer, são de facto observadas e aplicadas" (ob. cit., p. 298). 1.6.7. Ainda insistindo na comparação possível entre Deus e o povo, devemos concluir que o povo também não tem, em rigor, o poder imanente de tudo poder. Ele, povo, assim juridicamente designado pelo fato de se organizar em Estado soberano, é o próprio poder de tudo poder, em termos jurídicos e no plano territorial interno. Dá-se, na imagem ideal do povo, a transubstanciação da soberania (do latim super omnia, a traduzir aquilo que está acima de tudo ou acima de todos), assim como na doutrina católica se dá a mudança de estado do pão e do vinho para o corpo e o sangue de Jesus Cristo, na Eucaristia (dogma definido no Concílio de Trento). Ou, numa exemplificação propriamente científica, a osmose que se processa entre o povo e a soberania é algo assim como o encontro de duas partículas de hidrogênio com uma de oxigênio, a determinar a mudança de natureza desses dois elementos químicos para a formação de um terceiro: a água. 1.6.8. Vistas as coisas por este ângulo, força é convir que a soberania outra coisa não é, na prática, senão o próprio modo estatal de ser do povo. É como inferir: no justo momento em que a transfiguração estatal se efetiva, já o é como resultado empírico da fusão do poder soberano com o povo (o que significa dizer que o povo e a soberania passam a compor uma só unidade fenomênica, pois o povo é um com a soberania e a soberania é uma com o povo). O povo, impessoalmente encarado, é o poder soberano, tanto quanto o poder soberano, subjetiva ou personalizadamente focado, é o povo. 1.6.9. Sem o povo, a soberania é forma pura, isenta de toda matéria, e, portanto, vazia. E sem a soberania, que é o povo? Matéria humana coletiva ainda juridicamente privada de sua definitiva forma. Um ser jurídico ainda carente de totalidade, a meio caminho da autoconsciência, porque, nele, a soberania permanece numa dimensão apenas virtual. Daí a asserção de que, sem a incorporação da soberania, o povo não dá

a si próprio uma Ordem Jurídica e deixa de se personalizar no Estado. E assim juridicamente incompleto e estatalmente irrealizado é que o povo não consegue superar o estágio político de simples população, que é o inconcluso estágio de crisálida. 1.6.10. Perguntamo-nos: mas o que faz o povo ser assim a fonte e o nervo da soberania? A própria subjetivação do poder mais alto em que a soberania consiste? É que o povo, no seu amálgama com o território de que se torna senhor, falando geralmente a mesma língua e vivenciando uma cultura própria, constitui o que se convencionou chamar de nação. Algo mais que sociedade humana, mais que população, muito mais que simples aglomerado de pessoas, por implicar uma verdadeira comunidade (de comum unidade); isto é, uma real comunhão de vida, no sentido de consciência coletiva quanto à partilha de um mesmo destino histórico, por se encontrarem todos em um mesmo barco. Logo, o mais abrangente e impessoal e permanente enlace humano (que é mais do que convivência hic et nunc), de sorte a plasmar um tipo de realidade social que só pode ser o começo de tudo, no plano da Política e do Direito. 1.7. A soberania popular ou o modo constituinte de ser do povo 1.7.1. O Poder Constituinte 1.7.1.1. É neste ponto de intelecção que vem à baila a figura do Poder Constituinte. Um poder que em nada discrepa da soberania de que vimos falando, por ser ele essa mesma soberania; ou seja, O Poder Constituinte é a soberania que se manifesta de modo inicial ou primário. Logo, o nome que a soberania toma, quando expressada com inicialidade. 1.7.1.2. Se falamos assim de primariedade expressional da soberania, é porque o povo-nação, já imerso no seu Estado, atua em outros momentos que o Direito Positivo costuma etiquetar como expressão de "soberania popular". É o caso da Constituição brasileira de 1988, cujo art. 14 faz dos institutos do sufrágio universal, do voto, do plebiscito, do referendo e da iniciativa das leis pelos cidadãos uma forma de exercício, justamente, da soberania.11 1.7.1.3. Uma outra razão existe para falarmos de momento inicial da soberania, e aqui já temos em vista a figura do próprio Estado. É que ele também recebe o qualificativo de soberano, na medida em que pode impor ou ditar um Direito comum a todos, no interior do seu próprio território. E no uso dessa aptidão para expedir um Direito de abrangência e acatamento geral, o fato é que nele mesmo, Estado, se dá a reedição daquela marca registrada que é do povo, soberanamente concebido: o poder de procriar um Direito a que ninguém escapa (no caso do povo enquanto fonte normativa, esse Direito é a própria Constituição; no do Estado, o Direito pós-Constituição). 1.7.1.4. Reexplica-se. Põe-se no Estado a designação de soberano porque ele, tanto quanto o povo-nação, produz um Direito de máxima e irrecusável abrangência pessoal e territorial. Com a diferença de que o povo assim o faz pela altissonante via da Constituição e no uso de uma força originária ou potência propriamente dita; ao passo que ele, Estado, só pode fazê-lo por normas que são posteriores à Constituição e no uso de uma potestade ou competência derivada (a potência se dilui em competências, e não em outra potência, como bem observam HART e VANOSSI). 1.7.1.5. É assim no uso de uma capacidade normante que o povo lhe delega, lhe cede,

lhe empresta, enfim (sempre por conduto da Constituição), que o Estado dita um Direito comum a todos e, pela efetividade desse Direito, passa a abrir os mais favoráveis espaços de reconhecimento internacional à "sua" (dele, Estado) soberania. 1.7.1.6. É de se perguntar, naturalmente: e quando ocorre aquela citada manifestação primária da soberania? Manifestação primária, essa, que estamos a identificar com o Poder Constituinte? Não com o Estado? 1.7.1.7. Resposta: a soberania que se manifesta como Poder Constituinte somente ocorre, formal ou oficialmente, no preciso instante da criação jurídica do Estado. Criação que se formaliza, hodiernamente, no corpo de um documento jurídico-positivo cujo nome é Constituição (palavra que, no vernáculo, significa a maneira particular de ser de cada coisa ou objeto de conhecimento). 1.7.1.8. Quanto à justificativa para o nome técnico "Poder Constituinte", é porque ele significa o poder de constituir a Constituição (releve-se a poluição auditiva), que termina sendo o poder de constituir o Estado e o poder de dar início à montagem do Ordenamento Jurídico do povo e do Estado mesmo.12 1.7.1.9. Note-se bem: acabamos de ajuizar que o Poder Constituinte é o poder de constituir a Constituição, e não o poder de constituir normas constitucionais. A diferença entre as duas coisas é muito importante, porque de qualidade. Se toda Constituição é um feixe de normas constitucionais, nem todo feixe de normas Constitucionais é uma Constituição. Queremos salientar: o poder de editar a Constituição não incorpora o poder de reformá-la, tanto quanto o poder de reformá-la não incorpora o poder de editá-la. Quem faz o todo, faz o todo, e não menos. Quem faz a parte, faz a parte, e não mais. 1.7.1.10. Tornando ao mote: se toda Constituição originária é um repositório de normas constitucionais, nem todo repositório de normas constitucionais é uma Constituição originária. Isto porque as emendas à Constituição pressupõem uma Constituição originária a emendar. Lógico! E tais emendas veiculam normas... constitucionais. Porém, sob um regime normativo que não é autoditado por elas, e, sim, pela própria Constituição emendada. 1.7.2. O Poder Desconstituinte 1.7.2.1. Chamando o feito à ordem: O Poder Constituinte, manifestação primária da soberania, faz a Constituição, que, a um só tempo, faz o Estado e inaugura o Ordenamento Jurídico. É esse Ordenamento que vai receber do Estado uma ininterrupta complementação (e garantia), de maneira a consubstanciar todo o mundo do Direito: de um canto, o Direito-Constituição, que o Estado originariamente não faz (a parte da Constituição que o Estado faz já é a veiculada por emendas); de outro canto, o Direito pós-Constituição, que o Estado faz, ou, então, reconhece. Não há um tertium genus. 1.7.2.2. Dizer que existe um Direito originário que o Estado não faz é também dizer que esse Direito é o único a não passar pelo crivo do Estado ou de qualquer outra pessoa jurídica. É que, no momento constituinte, a sociedade é concebida como se de pessoas coletivas não se formasse. Nem públicas nem privadas. Apenas as pessoas físicas é que se tornam protagonistas das ações políticas de que resultam o féretro de uma Constituição e o partejamento de outra. 1.7.2.3. É aqui mesmo o lugar apropriado para falarmos de um Poder Desconstituinte. Que é o poder correlato ao Constituinte ou imbricado com ele. Pois é de todo evidente que o poder de constituir um novo Estado implica o poder de

neste passo.7. a produzir o Direito mais importante (que é a Constituição). É esse modo constituinte de ser que faz do povo. o que temos é o modo soberano de ser de uma coletividade humana. Se é possível promulgar uma nova Constituição.4.2. de Constituição. Se é pelo dedo que se conhece o gigante. responsável pela criação da pessoa coletiva ou plural também mais importante (o Estado). a nação é a única instância imanente capaz de partir de um marco zero jurídico para colocar uma Constituição em lugar de outra. há um modo jurídico de o povo se fazer conhecido. Deus faz o que é próprio da potência em que Ele consiste: impõe a Si mesmo as próprias condições de "trabalho" (evidente que o vocábulo trabalho é usado por analogia com as empreitadas humanas de edificação de algo a partir de um imaginário ponto zero). a subjetivada figura do Estado.a primeira. Falar. então. de povo (povo-nação) é falar de soberania.3. dois poderes que tudo podem: Deus no céu e o Poder Constituinte na terra (que é um poder geminadamente constituinte/desconstituinte). Se se prefere. Se é olhando para o Universo que reconhecemos a soberania de quem o fez. tanto quanto o Estado não funda esse Ordenamento. Cada realidade a olhar nos olhos da outra para encontrar mais nitidamente refletida a própria imagem. Outro. 1. necessariamente. Um. que é a Constituição por ele criada. na mesma pegada. a nação encarna essa potência de abater o velho e erguer o novo Ordenamento Jurídico. De conseguinte. É assim que se movimenta ou se materializa a potência. início lógico de todo o Direito Positivo. Por igual.8. sob o prisma político. de Poder Constituinte/Desconstituinte. que se reitere a pacífica noção de que a Constituição não inova o Ordenamento Jurídico. quem o conheceria para aquém das esferas da pura espiritualidade ou dos colmos angelicais?). que é um modo jurídico inicial ou constituinte de ser. que é o próprio mundo por Ele criado (senão. por inteiro.2. portanto. claro que isto se dá pela despromulgação daquela até então vigorante. 1. 1. podemos dizer que há um modo empírico de Deus se fazer conhecido. São temas que se interpenetram. O mundo de Deus e o mundo do Direito 1. Para fundar o Direito. e com essa outra Constituição fazer o quê? Instituir um novo Ordenamento Jurídico e.desconstituir o velho.2. se auto impõe as coordenadas de atuação legiferante.8. por completo. apenas três considerações: I . Quem inova o Ordenamento é o Direito .5.6. E. o povo. de Estado e de Ordenamento Jurídico. é também olhando para a Constituição que reconhecemos a soberania de quem a procriou como norma jurídica primária (a Constituição enquanto modo jurídico de o povo se fazer conhecido como instância exercente de uma soberania que vai além do estádio da pura virtualidade).5.8. A título de remate. Para fundar o universo.8.1. 1. a dar início à criação do mundo jurídico em particular e a prescrever o modo pelo qual esse mundo jurídico vai receber seus necessários e infinitos complementos.7. E também por inteiro. 1. a instância humana primeva por excelência. 1.8. nele. a dar início à criação do mundo em geral (a natureza e os seres humanos dão seqüência à obra de Deus). que não precisa mais do que a sua própria realidade para instaurar as relações que pretender.8. 1.8. e pela necessária interpenetração é que se conceituam. A Constituição inaugura o Ordenamento.4. Instância humana primária e mais importante. assim vinculadamente. 1. Como fazemos todos nós diante de um bom espelho de cristal. Temos.

Acentua-se-lhe. II . Daí que não obedeça a normas regimentais antecipadamente lançadas. Seu agir ou Seu fazer já são. 162). A lei é que é o verdadeiro motor do Direito. O dínamo do Direito. pelo seu modo comparativamente simplificado de elaboração. sem a menor força intrínseca de inovar o próprio fundamento da Ordem Jurídica (a Constituição mesma). por natureza independente. sobretudo por conduto da lei. ao contrário do sucedido com o Poder Constituinte. Dotado de propriedade tão eminente.. da autoria de JOSAPHAT MARINHO. versando a dicotomia "Poder Constituinte e Poder de Reforma Constitucional: "Por ser um poder `fundador'. o poder constituinte originário não é regulado por direito anterior. o qualificativo `originário'. a partir de um dado formal e outro material: formalmente. Deus não se serve de ninguém para criar o mundo. p.a segunda consideração é a de que. falta-lhe a dimensão de assembléia constituinte. desse modo.. e. por se traduzir em singela aplicação dos conteúdos e valores da Constituição Positiva.pós-Constituição. por estar cerceada pelo ato de convocação.regimento e respectiva aplicação -. singular ou colegiado. associa-se-lhe.a terceira e última consideração é esta: há um tipo de soberania que trata da Constituição (pois que a própria Constituição originária é que resulta do exercício dele). não condicionada a amplitude de sua competência por lei preliminar. pela eleição dos representantes do povo. e não do Estado à sociedade. Somente o primeiro a revelar o fato de que o Poder Constituinte é o único momento político-normativo que vai da sociedade ao Estado. ao qual não é dado estabelecer raias e vedações à tarefa inovadora. materialmente. comumente. em si mesmos. Donde esta didática passagem do livro "ESTUDOS CONSTITUCIONAIS". e um outro tipo de soberania de que trata a Constituição (pois inteiramente normado por ela). oriunda de outro órgão. a atividade do poder constituinte. Quando a corporação parlamentar não opera com liberdade de decidir. É tão-somente no âmbito do Poder Constituinte que é possível distinguir as duas coisas . 1989. O instrumento convocatório da assembléia é apenas meio que proporciona. (. III . aí. não há como deixar esse órgão de atuar segundo pautas procedimentais adrede redigidas. o timbre criador ou instituidor. O único instante em que o Direito se subtrai completamente ao Estado. de elaboração estatal. um fato-norma (nenhum órgão deliberativo. porque o Poder Constituinte bem pode se manifestar por um órgão plural ou coletivo de deliberação.)" (edição da Universidade Federal da Bahia. . se coloca entre Deus e Sua originária criação).

Capítulo II . porta o giz com que vai escrevendo nos espaços vazios dessa mesma lousa). O modo constituinte de ser do povo. O povo enquanto sociedade política e enquanto sociedade civil 2. a encarnar o que há de mais político no Direito e mais anatômico no Estado. O inexistente vínculo entre "excesso de rigidez" e "Poder Constituinte Evolutivo" 2. II . Donde podermos trocar a palavra "povo" pela expressão "poder constituinte". é um poder simultaneamente constituinte e desconstituinte: zera a contabilidade jurídica até então existente e passa a começar tudo de novo (à feição de um professor que. no rigor dos termos.a Constituição é a primeira manifestação objetivo-sistemática daquele poder imanente que tudo pode.4. estamos a falar de um poder exclusivamente político. tão incondicionado. O Poder Constituinte como realidade que fica do lado de fora da Constituição 2. não é feita pelo Estado. A natureza política do Poder Constituinte 2. porque originariamente imbricado em toda a pólis. na sua originária redação. porque: I .4. Ela é feita para o Estado.2.1.8. "Constituição da Espanha".6.1. tão socialmente mais abrangente e tão superior aos outros poderes políticos.1. E por que é assim? 2.9. como sempre enfatiza MICHEL TEMER). O vínculo natural entre a sociedade política e a futuridade. E não é por outra razão que toda Constituição Positiva toma o nome do Estado que ela põe no mundo das positividades jurídicas (daí "Constituição da República Federativa do Brasil". 2. de tão inicial..A Lógica Própria do Poder Constituinte e a do Poder Constituído Sumário 2.a Constituição. 2. todo povo assim constituintemente dimensionado vai estruturar o seu Estado no bojo de um diploma jurídico-normativo que toma o sintomático nome de Constituição. saca de um apagador para limpar completamente a lousa da sala de aula. . que já não pode ser concebido senão como um poder que é parte do povo mesmo.1. numa das mãos.2.1. Quando pronunciamos a locução "Poder Constituinte". Tão penetrado de povo. por ela mesma. é esse poder constituinte ou poder de constituir o Estado. mantendo com esse Estado uma essencial relação de unha e carne.7. A sociedade política em SIEYÈS 2. O Poder Constituinte como o poder que pode o mais sem poder o menos. O caráter político do Direito posto pelo Poder Constituinte 2. e o Poder Constituído como o poder que pode o menos sem poder o mais 2. É assim. Ela passa a transitar pelo mundo do ser (não do dever-ser jurídico) e por isso pode assumir-se como o amálgama do povo inteiro com o território sobre o qual esse povo inteiro vai constituir o seu particular Estado. do Estado.1. que é o povo enquanto ser ou realidade constituinte. tão necessário ele é para a auto-afirmação histórica do povo. "Constituição da República Popular da China". esse poder que. naqueles raros instantes em que a pólis se sobrepõe ao Estado para dizer. sem dúvida que estamos a falar de um poder genuinamente político.1 2. Mais até. Pois bem. O caráter democrático-formal do Direito posto pela sociedade política 2.3.5.. A natureza política do Poder Constituinte 2.1. desde o berço. Constituição. e. a ponto de se poder afirmar que a cada nova Constituição corresponde um novo Estado (juridicamente falando.3. na outra. sob que tipo de Direito-Constituição quer viver.

o Código Penal.9. e não jurídica. etc. Esta. É coberto de razão que o positivismo analítico realça a anterioridade do Poder sobre o Direito. pois: se o Poder Constituinte fosse um poder jurídico. Assim como Deus. Poder Constituinte. Encarna. 2. é uma instância exclusivamente política de deliberação. o Estado. se já pertencesse ao mundo desde sempre. 2. Notei muitas vezes que. que é a primeira voz do Direito aos ouvidos do povo.2 2. contudo. que assim expõe o seu luminoso pensamento: "Creio não incorrer em pecado de presunção se disser que o fato de ter cultivado estudos jurídicos e políticos me permitiu analisar os mil e um complicados problemas da convivência humana a partir de pontos de vista que se integram. pelo menos na Itália. Não. é que o Direito disciplina o exercício do poder. e a essa esfera pré e metajurídica de poder bem assenta o nome de esfera política. não poderia inaugurar o mundo das coisas jurídicas. por conseguinte. é quem faz o Direito. Como está à vontade para fazer da sua nova Constituição o início lógico de um novo Ordenamento Jurídico (o que sobrevive do antigo Ordenamento deixa de manter elo-causal com a Constituição sepultada e corre a buscar fundamento de validade na nova Carta Política). juristas constitucionalistas e cientistas políticos que se ocupam do mesmo tema.6. porque somente quem detém o poder . como sucede. muitas vezes se ignoram reciprocamente. Uma vez instituído. e. tem que ser uma instância exclusivamente ideal ou transcendente.1. agora sim. Poder e Direito são as duas faces de uma só moeda.1. a toda estatalidade oficial. o fato sociológico bruto (não-juridicamente lapidado). a unitária potência. o exercício daquele poder que tudo pode (acrescentamos).1. Toda essa força que tem o Poder Constituinte para fazer o que bem entender do Direito só é possível. 2. o Código Eleitoral. na visão de FERDINAND LASSALE). e não simultaneamente normante e normada.8. com todos os órgãos elementares desse Estado e respectivas funções.7. porém. mas o desempenho do poder que já se instituiu por virtude do Direito mesmo. é gestada por ele e somente por ele. cuida-se de esfera exclusivamente normante. Pois que. o puro poder.1. pois o Direito mais inicial (que é a Constituição Positiva) deixaria de provir dele mesmo.1. A própria Constituição originária. O mesmo acontece na relação entre juristas internacionalistas e estudiosos das relações .). E porque é assim. Ele é que tem a Constituição na mão. porque enraizada e afinal transfundida na pólis. se jurídico fosse o Poder Constituinte.nele próprio se transfundindo -. enfeixadas na Constituição. por conseqüência. Exclusivamente política. está à vontade para plasmar o Estado. É assim que o Poder Constituinte tem à sua mercê o Estado em particular e o Direito em geral.10. assim. Não o nome de um objetivo setor de relação jurídica ou atividade humana. na figuração de NORBERTO BOBBIO. da consciência sobre a experiência. no estratégico momento em que elabora a Constituição. a Consolidação das Leis do Trabalho.5. a jorrar daquele puro poder. Temos por cognoscitivamente decisivo o que estamos a enunciar e por isso é que batemos na mesma tecla: o povo. Assim como Deus. a atestar a primazia da idéia sobre a matéria. com o Código Civil. Incisivamente. no preciso instante em que pronuncia o fiat lux mundano. por ser o Poder Constituinte uma força ou realidade exclusivamente política (sociológica. ao mundo teria que render vassalagem. Há uma esfera de decisão anterior e superior a toda positividade jurídica. a se manifestar por conduto de normas jurídicas originárias. de alguma forma. ele já faria parte do Direito e ao Direito teria que se submeter."Constituição dos Estados Unidos da América". etc. o Código Comercial. do espírito sobre o corpo.3 2. 2. e não o contrário.1.

internacionais quanto à análise da organização dos Estados. Os dois pontos de vista são, de um lado, o das regras ou das normas como preferem chamar os juristas, cuja observância é necessária para que a sociedade esteja bem organizada, e, de outro, o dos poderes necessários para que as regras ou normas sejam impostas e, uma vez impostas, observadas. A filosofia do direito ocupa-se das primeiras; a filosofia política, das segundas. Direito e poder são duas faces da mesma moeda. Uma sociedade bem organizada precisa das duas. Nos lugares onde o direito é impotente, a sociedade corre o risco de precipitar-se na anarquia; onde o poder não é controlado, corre o risco oposto, do despotismo. O modelo ideal do encontro entre direito e poder é o Estado democrático de direito, isto é, o Estado no qual, através de leis fundamentais, não há poder, do mais alto ao mais baixo, que não esteja submetido a normas, não seja regulado pelo direito, e no qual, ao mesmo tempo, a legitimidade do sistema de normas como um todo derive em última instância do consenso ativo dos cidadãos" (em DE SENECTUDE - O Tempo da Memória, Editora Campus, 1997, p. 169). 2.1.11. Como visto, BOBBIO abre uma necessária distinção entre o fazer e o garantir as normas jurídicas, permitindo-nos deduzir que, se o Estado não detém o monopólio da produção do Direito, é, no entanto, a única instância dotada do poder oficial de garanti-lo (garantir o cumprimento do Direito, entenda-se). O que levou KARL POPPER a formular este singelo e preciso enunciado: "Não existe liberdade que não seja garantida pelo Estado e, ao inverso, só um Estado controlado por cidadãos livres pode oferecer-lhes alguma dose razoável de segurança" (em THE SOCIETY AND ITS ENEMIES, 5ª edição, Revista Londres, 1966, pp. 50/51). 2.1.12. Em ultima ratio, poder e Direito são a primária dicotomia ou os dois mais elementares princípios de organização da vida social. Vida, que, sob o prisma jurídico, se constitui de relações verticais e de relações horizontais. Estas, pressupondo a igualdade de forças entre os respectivos protagonistas, e, aquelas, a superioridade de uma parte sobre a outra. De todo modo, relações que fazem do Direito o complexo das condições existenciais da sociedade, na propalada conceituação de IHERING. Ou como sentenciava TOBIAS BARRETO: "Perante a consciência moderna, o Direito é o modus vivendi, é a pacificação do antagonismo das forças sociais".4 2.2. O caráter político do Direito posto pelo Poder Constituinte 2.2.1. Complementemos a revelação dessa fotografia do poder e do Direito com a afirmação de que, em se tratando do poder político, é na Constituição Positiva que os dois fenômenos culturais se dão mais firmemente as mãos. A Constituição é o Direito que nasce daquele mais originário decisionismo, daquela vontade fundamentante que se contém no poder político. Donde a sua visualização como o primeiro ponto formal de encontro ou como o espaço inicial de integração das duas categorias sociais básicas (o poder e o Direito). 2.2.2. É este panorama de integração que subjaz ao visual da Constituição como "estatuto jurídico do fenômeno político" (CANOTILHO), ou como "estatuto jurídico do Estado" (JORGE MIRANDA). Não sendo à toa, portanto, o rótulo social e até jurisprudencial-doutrinário que toda Constituição porta de "Código Político" e de "Carta Política". 2.2.3. Em verdade, a Constituição é Código Político, sobretudo pela sua origem e pelo

seu objeto. Pela sua origem, por advir do único poder que funda o Ordenamento sem nesse Ordenamento mesmo se fundar sequer de modo reflexo (e já vimos que esse poder fundante do Ordenamento é eideticamente político). Pelo seu objeto, porque esse objeto, sendo essencialmente o Estado, carreia para a Constituição a politicidade que envolve tudo quanto se refira à estruturação estatal: o tipo unitário, ou federal... de Estado; a forma republicana, ou monárquica de governo... do Estado; o sistema parlamentar, ou presidencial de governo... do Estado; o modo independente e harmônico de relacionamento entre os órgãos elementares... do Estado; o sistema eleitoral de investidura dos titulares dos órgãos legislativo e executivo... do Estado; a representatividade popular dos órgãos eminentemente políticos... do Estado; a abertura dos espaços de movimentação da cidadania e de criação dos direitos públicos subjetivos como limites à atuação... do Estado, etc., etc. Nada resta, praticamente, nesse patamar da organização básica do Estado que não seja entranhadamente político. E quase tudo é entranhadamente político por dizer respeito a interesses que são de toda a coletividade. Interesses da pólis ou da civitas que no Estado se personaliza juridicamente, compondo, de modo formal, o reino do universal ou plurifinalístico; isto é, o reino do que há de mais abarcante, impessoal e permanente, que é o reino da política. 2.2.4. Se bem observarmos, toda Constituição Positiva se estrutura formalmente em partes que, ora diretamente, ora indiretamente, põem o Estado como tema de conformação. Ele, Estado, circula por todos os recônditos da Magna Lei, variando o seu regime jurídico pelo modo (direto, ou de esguelha) como a Constituição mesma dispõe sobre esse transitar institucional. Com o que ficamos inteiramente à vontade para imaginar a Constituição como a certidão de nascimento e a carteira de identidade do Estado. 2.2.5. Quanto à designação de "Código", referida à Constituição, entendemo-la perfeitamente ajustável às Constituições de um só texto ou corpo único de dispositivos. Não àquelas Constituições que se derramam por atos legislativos esparsos. Nas primeiras - Constituições que se escrevem num corpo único de dispositivos -, comparecem pelo menos dois dos elementos que se presentificam em toda codificação jurídica: a) a sistematização formal, traduzida na setorialização de temas afins, agrupados segundo o esquema relacional que vai do gênero à espécie; b) o propósito de substituir inteiramente a normatividade então vigorante sobre a matéria, de sorte que toda a prescritividade sobre tal matéria se contenha no novo e único ato legislativo, no momento da confecção desse ato. 2.2.6. Já no tocante ao apelido de "Carta Política", ele se explica por ser a Constituição uma carta ou estatuto de direitos e garantias fundamentais, tudo, naturalmente, perante o Estado e o Governo ou por intervenção deles. O que também confere a esse tema dos direitos e garantias fundamentais (neles também figurantes a nacionalidade, a soberania popular e a cidadania) uma vívida coloração política; pois é de toda a sociedade o interesse em que haja uma zona de especial proteção normativo-constitucional a tais situações jurídicas ativas.5 2.2.7. Nessa trajetória relacional do político para o jurídico, ou do Poder Constituinte para a Constituição, o fato que nos parece mais digno de nota reside em que o político não se deixa regrar pelo jurídico. Não se torna objeto das normas que passa a editar, ao reverso do que se dá com o poder já oriundo do Estado, que é um poder que se faz arqueiro e alvo das suas próprias setas normativas. 2.2.8. Façamo-nos melhor entender: o poder político por excelência, que é o Poder Constituinte, não se deixa mesmo regrar pelo Direito. Isto é correto. Mas não significa

estar ele completamente imune a parâmetros e até mesmo a freios sócio-culturais, no instante em que elabora a Constituição. O paralelo com a obra de Deus não pode ser feito senão com temperamentos ou moderação, pois salta à inteligência que o autor da Lei Maior sabe muito bem que as chances de efetividade da sua obra legislativa depende da estima social interna e do reconhecimento político externo que venha a obter (e quanto mais forte a primeira, mais provável o segundo). E é mesmo na expectativa da obtenção dessa dúplice "boas-vindas" à sua obra normativa que o legislador-mor tende a amainar em si os ímpetos de abusividade. 2.2.9. Tudo tem limite nas coisas ditas humanas e o Constituinte não escapa à contingência de ter que operar com um olho no padre e outro na missa; quer dizer, tanto compenetrado dos seus incondicionamentos formais e ilimitabilidade material quanto do risco da inefetividade global da sua obra. Meio termo, destarte, entre o desmarcado e o demarcado (o desmarcado, no campo da positividade jurídica; o marcado, no campo sócio-cultural). Razão pela qual já dissemos, alhures, que, sobre os limites do Poder Constituinte, é comum vê-los comentados enquanto expressão do Direito Natural (SIEYÈS), ou das concepções axiológicas mais assentadas na trajetória da humanidade (PAUL BASTID). Até porque "O poder precisa ser forte, mas sua fortaleza decorrerá tanto do mecanismo que o envolva como, sobretudo, do consenso nacional que logre despertar" (J. BLANCO ANDE, em "TEORIA DEL PODER", Madri, Ed. Pirámide, 1977, p. 144). 2.3. O Poder Constituinte como realidade que fica do lado de fora da Constituição 2.3.1. A insubmissão do Poder Constituinte à sua própria obra legislativa 2.3.1.1. Uma nova pergunta é de se fazer, com toda pertinência: e por que o Poder Constituinte não está submisso ao Direito já positivado, nesse Direito embutido o de índole constitucional originária? 2.3.1.2. Uma primeira resposta: porque o Poder Constituinte está do lado de fora da Constituição. Faz a Constituição, claro, mas sempre do lado externo a ela. Não entra no corpo dos dispositivos constitucionais, porque, se entrasse, aí, sim, passaria a ser uma realidade tão normante quanto normada. Conheceria condicionamentos formais e finitude material, como é próprio de toda instituição ou de todo instituto que se torna objeto de norma jurídica. Dedução: o poder que fica do lado de fora da Constituição, no ponto de partida, fica para sempre do lado de fora. Ao reverso, o poder que fica do lado de dentro da Constituição, no ponto de partida, fica para sempre do lado de dentro. 2.3.1.3. Uma segunda e complementar resposta: o Poder Constituinte fica do lado de fora da Constituição porque ele não é, nem pode ser, criatura da Constituição. É o criador, unicamente. O escultor que faz a escultura, sem a menor chance de se deixar fazer por ela. Seria assim como Deus a ter uma parte de Si mesmo feita pelo mundo que Ele criou, o que está fora de toda cogitação filosófica não-materialista. 2.3.1.4. E agora a terceira e definitiva resposta: o Poder Constituinte é o criador da Constituição porque ele, sendo a primeira manifestação da soberania, é o próprio povo. É a pólis por completo, no preciso instante histórico em que a pólis dá a si própria a mais radical das conformações jurídicas: a conformação inicial e superior a todas as outras. Um tipo de conformação que pressupõe a intransigente postura do começar tudo de novo, no plano lógico das coisas, que é um começar por inteiro. No atacado e de uma só vez (se assim preferir atuar o Poder Constituinte). Logo, a

no sentido de o novo Estado poder impor à coletividade. 2. geralmente positivada com o nome de "Parlamento".a sociedade civil. ou o Direito que. Tem o destino trágico (ou glorioso?) do louva-a-deus macho. a diferença entre ele e o Poder Constituído. é o espaço possível para o Poder Constituinte projetar.3.3. ela morre de parto. é o preâmbulo de sua obra normativa. Num novo esforço de síntese. Já o segundo momento (momento constituído). cuja cabeça é devorada pela fêmea durante o acasalamento. por se tratar de uma ante-sala ou de um prefácio do corpo de dispositivos da Constituição.a sociedade estatal. o Direito que nasce dos próprios órgãos dele.7 2. pode se auto-referir. embora não-diretamente nascido dos próprios órgãos do novo Estado. pode dar à luz quantos rebentos legislativos quiser. sem qualquer predeterminação quanto ao número de atos legislativo-materiais a produzir. 2. seja pelo Estado garantido (caso do Direito Consuetudinário e daquelas normas jurídicas infraconstitucionais que.1. Os outros momentos em que o povo legislativamente se reúne são momentos em que o povo já se paramenta ou usa a indumentária de um Poder simplesmente Constituído.1. o momento certo. ou garante. A única parte da Constituição Positiva em que o Poder Constituinte pode falar sobre si mesmo.8. A Assembléia Nacional Constituinte como órgão de presentação da sociedade .6. sem remissão. sim. como condição lógica de elaboração constitucional. com a nova Constituição rimam em conteúdo). Ela existe para operar em regime de permanência. assumiu sua natureza constituinte. composta por agentes e instituições de natureza privada.6 2. percebe a sociedade civil que ela própria é que pode impor um novo Direito a um novo Estado e assim é que passa a se levantar como povo para escrever a epopéia de sua auto-afirmação jurídica. Aquele primeiro momento (momento constituinte) é o único instante que vai da sociedade civil ao Estado. diríamos: no momento em que a Assembléia ou Convenção Constituinte promulga sua obra legislativa (o Magno Texto).3. é um dos muitos instantes que vão do Estado à sociedade civil.1. anteriores à nova Constituição. o único momento logicamente cabível para o povo dizer que se reuniu em Assembléia Constituinte.2. II . Só uma outra Assembléia ou Convenção Constituinte é que pode gestar uma outra Constituição. Mas é claro que estamos a falar de sociedade civil como sociedade civilizadamente regida pelo Direito que o Estado põe.3.5. "Cortes Gerais" ou "Congresso Nacional". sente que tem a força de romper a sua habitual situação de reverência ao Direito posto pelo Estado até então existente. renovadamente. numa determinada quadra histórica. Realidade populacional que tem por contraponto o Estado. Aqui. sobretudo o contido na Constituição fundante do antigo Ordenamento. ou por esse Estado garantido. composta por agentes e instituições de natureza pública (e ao conjunto das ações que as pessoas naturais e os grupos particulares praticam é que se aplica o designativo de iniciativa privada ou setor privado. É o momento. de fora para dentro da Magna Carta. 2. tanto quanto se reserva a expressão iniciativa pública ou setor público para o conjunto das ações que os agentes e as entidades estatais desencadeiam).3.antessupor a desconsideração de todo o Direito preexistente. Já a Assembléia Constituída. É o mesmo que falar: sente.1. no seguinte sentido: a sociedade civil percebe. Daí a formação da seguinte dualidade básica: I .7. Estado. porque o objetivo da reunião do povo em Poder Constituído é para a elaboração de um Direito pós-Constituição.

Conseqüentemente.2.3.2. que os representantes do povo têm mais faculdades que o próprio povo. estão para o corpo humano. pertencem. conhece condicionamentos e limites que não prevalecem para o órgão de presentação. que o servo pode mais que o senhor. que. porque são o corpo mesmo.3. e não do Estado. é nulo. pode ser válido. em assembléia deliberativa. Seria atentar contra a própria natureza do Poder Constituinte. se referir ao seu editor (o Estado). E se presenta. infringente da Constituição. Essa total inversão de valores acarretaria. A se trabalhar com a idéia da possibilidade de o Poder Constituinte se auto-referir normativamente.todo ato de uma autoridade delegada.2. figurativamente.2. o invisível. contrário aos termos da delegação em virtude da qual concedeu essa autoridade. pois a representação pressupõe duas entidades ou dois corpos distintos: o do representante e o do representado.3. É deduzir: o Direito pós-Constituição pode dispor sobre o Poder que sobre ele dispõe. coração.3. Mas a obra do Poder Constituinte está logicamente impedida de falar sobre o seu autor. O Poder Constituinte e sua impossibilidade de auto-regulação constitucional 2. o ausente. o . enquanto a Constituição mesma não pode dispor sobre o Poder que sobre ela dispõe (o Poder Constituinte).3. podem fazer não só o que os poderes outorgados não autorizam.3. A Assembléia Constituinte é órgão da sociedade.. E esse outro ser é o Estado. A seu turno.3.. como afirmado. o distante. Por prescindir da intercalação do Estado entre ela (sociedade) e os respectivos componentes individuais e grupais. a Assembléia Constituída é órgão do Estado. porque o Estado de que ela faz parte é o ser que personaliza juridicamente todo o corpo social.2. e não propriamente da sociedade. indevida mescla do Poder Constituinte com as pessoas naturais que. não pode ficar à mercê dessa mesma Constituição. da muito boa lavra do jurista ZENO VELOSO. Já os órgãos de representação.. Negá-lo importaria em afirmar que o delegado é superior ao comitente. Afinal. É órgão encarregado da representação (não da presentação) da sociedade. por dispensar a representação do Estado.1. porque os órgãos de presentação estão para o corpo social assim como o fígado. cérebro.3. E por ser a Assembléia Constituída um órgão de representação. 2. É nela que a sociedade se "presenta". fato que subjaz a formulações teóricas deste porte: "Não há proposição mais evidentemente verdadeira do que esta . já tenuemente reportada: as normas editadas pelo órgão ou Poder Constituído podem.1.. Editora CEJUP. para usarmos de vocábulo cunhado por PONTES DE MIRANDA. o cérebro. como o que proíbem" (PEDRO LESSA. representar é tornar próximo.. 2. nenhum ato legislativo.3. 1998). visível. o coração.3. presente.3. 2.2.. de mais a mais. desde que nos marcos da Constituição. referido na página que antecede o sumário do livro "CONTROLE JURISDICIONAL DE CONSTITUCIONALIDADE". a propósito de outro assunto.3. ter-se-ia o quê? Uma geração a querer negar às demais a possibilidade de acordar em si mesmas a força geratriz da substituição de uma Constituição por outra. que homens que obram em virtude de poderes conferidos. Outra importante discriminação. por nenhum modo.3. Fígado. tendo a Constituição inteiramente à sua mercê. Completa inversão de valores. Esta separação radical entre os dois órgãos legiferantes é da natureza das coisas. 2. tudo se entronca no mesmo corpo físico. 2. perfeitamente. a um outro ser que não o corpo social. Desse corpo eles não se distinguem.

Por isso que a Magna Carta pode dispor sobre o destino dele. ora de modo efetivo. que o Poder Constituinte se auto-regulasse no corpo de sua própria obra legislativa. e a terceira fizesse o chamamento de uma quarta. hiere la víctima y se extingue" (DONOSO CORTES).3.3. pois a segunda (auto-revogação do Magno Texto) é algo inteiramente impensável na fisiologia do Poder Constituinte. pois o certo é que ele perpassa o tempo inteiro o corpo social. exatamente para não recusar a cada geração o que é da natureza de cada geração: despertar em si. Semelhante pretensão de aprisionamento de todo o pensar coletivo do porvir seria um ato de insanidade tal que corresponderia a proibir o ser humano de respirar.3. porque no cabe en los libros y rompe el cuadro de las Constituciones. 2.3.9. É esse colégio de pessoas naturais que não sobrevive. e muito menos na do Poder Constituído. aparece como el rayo que rasga el seno de la nube. inflama la atmósfera.10. Esse Poder não se exaure jamais na obra que edita. ni formularse por el filósofo. É nascer o Magno Texto com sua explícita vocação para o suicídio.8. contudo. seja para vedar sua transformação em assembléia constituída. Seria um contra-senso. seja para permiti-lo. pois o Poder Constituinte é ser que não comporta transmutação em dever-ser.5. tudo na dimensão do atacado normativo? 2. 2.3. A primeira não tem nada a ver com a segunda.6. Sobrevive ao seu próprio labor (mas sempre do lado de fora) e é assim que pode gestar quantas Constituições quiser.3. para adotar esta outra fórmula de prisão perpétua do pensar dos pósteros: e quero também que a minha vontade atual seja toda a vontade que esse mesmo ser humano médio possa vir a ter pelos tempos a fora.3. pois o típico de quem exerce a função constituinte não é o poder de destroçar a Constituição preexistente? Zerar a contabilidade jurídica? Passar a borracha no Direito velho e com o lápis escrever o Direito novo.3. si aparece alguna vez. a qualquer instante. ora latente. está logicamente proibida de ter eficácia autodemolidora. a Assembléia Constituinte estaria a cometer o dislate de convocar outra assembléia igualmente constituinte para preencher o vácuo de Constituição e já nada mais impediria que essa outra assembléia convocasse uma terceira. 2.3.3.exercitam concretamente. 2.3. a não ser naquela parte normativa por ela mesma nominada de "disposições transitórias". teríamos o despautério de um legislador que já não se contenta em prescrever: quero atualmente o que o ser humano médio quer e provavelmente continuará a querer. nem mesmo a prazo ou diferidamente. a força constituinte. 2. enquanto assembléia constituinte mesma. A qualquer tempo.3. Tem que permanecer no mundo dos fatos. Caso o Poder Constituinte pudesse entrar na Constituição como criatura dela. Nenhuma eficácia teria esse tipo de normação.3. jamais. 2.7. por albergar ou potencializar ação que "no puede localizarse por el legislador. em qualquer período.3. à Constituição Positiva que ele vier a promulgar. Caso pudesse embutir na sua Constituição uma cláusula de eficácia autodemolidora. A Lei Maior não pode ter. o fenômeno da revogação de uma Constituição por outra com a idéia de auto-revogação constitucional. para ressurgir Deus sabe quando (completamos). nada pode ser normado. E quando vem a se historicizar (é dizer: quando vem a se efetivar). Sobre o destino do Poder Constituinte. Em termos quiçá mais elucidativos: conter a Constituição qualquer dispositivo sobre o exercício da função constituinte é convocar o próprio coveiro dela mesma. de modo a se perder no infinito um tipo de regração que privaria o povo de se autoconvocar ou de ser por outra forma convocado . não pode deixar de ficar do lado de fora da Constituição.4. portanto. É preciso não confundir.

contudo. Desponta claro. dispõe sobre si mesmo.3. De mais além. Era uma população. 2.para vivenciar seu momento constituinte. Assim como a água em estado líquido muda a sua forma para se transformar em vapor. Salta do meramente demográfico e econômico para o político e histórico. Crise de existência versus existência de crise 2. o Poder Reformador (que é um poder estatal e. 2. um novo Estado e uma nova Ordem Jurídica. Neste novo segmento especulativo. já não é uma sociedade civil. Por comparação. estaria semeando no ar. para que não se transija com o cientificamente intransigível: o Poder Constituinte é o poder de dispor sobre o todo da Constituição.3. E mais: o Direito feito para o Estado tem de permanecer o referencial do Direito feito pelo Estado.4. averbemos que o mundo cuida de si próprio. no lastro formal da sua Constituição. Não um Estado a trocar a sua Constituição por outra. se uma determinada instância constituinte pudesse entronizar outra no palco das realidades jurídicas. O povo enquanto sociedade política e enquanto sociedade civil 2.4.1. Poderia desrespeitá-la a qualquer momento. e não mais. O Poder Constituinte e seu campo divisional com o Poder Constituído 2. o Poder Constituinte. pois todo novo querer normativo discrepante que ele viesse a externar teria sempre (como tem) a força de uma nova Constituição.3. comecemos por retomar a idéia de que. O Criador. deixar que esse Estado possa trocar de Constituição.3.3.4.1. Ela se transmuda em povo.1. porém sem poder se substituir ao Criador. dotando-o do poder de se completar por conta própria. 2. mas não passa a cuidar do Criador.3. constituído) é o poder de dispor sobre partes da Constituição. Um órgão constituinte a repassar poderes para outro (?). porque só uma Constituição pode trocar o Estado por outro. 2. então.4. uma vez criado. 2. Como se o momento constituinte não fosse uma realidade inexoravelmente situada no mundo do ser. e de repente sobe à dimensão de povo. Plantando no vazio. essa outra instância já não seria órgão de presentação do povo. pois não ficaria preso a tal normatividade. sem. no justo momento em que a sociedade consegue dar a si mesma uma nova Constituição. de um único limite material lógico: o não . sociedade. O mundo é o Poder Constituído. durante todo o tempo de vigência da obra que uma dada Assembléia Constituinte vier a promulgar. mas de representação daquele primitivo órgão de sua convocação. portanto. e não menos.4.poder permitir que o mundo se transforme tanto por conta própria a ponto de dar a si mesmo um novo começo. o orbe. convenhamos.4.2. Este é que dispõe originariamente sobre o universo.11. sem nenhum controle por parte de órgão estatal. quebrando o vínculo essencial (porque direto) entre o povo e a instância formal de elaboração do Magno Texto.1. sob o efeito do aumento de sua temperatura a um determinado . ela. O mundo vela por si. debaixo.3.4. contudo. apagando a assinatura que o originário Autor deixou em Sua obra. o cosmos. que o campo divisional entre o Poder Constituinte e o próprio Poder Reformador tem que ser precisa e claramente demarcado. Acresça-se: o Poder Constituinte que viesse a dispor sobre si mesmo. Limitação intrínseca insuperável. Tudo isto é como dizer. numa fala mais aproximativamente jurídica: a Constituição cria o Estado.

ou seja. Por isso é que o povo proclama para si mesmo e para o orbe inteiro que é nele próprio que se encontra toda a sapiência política. Um poder que se aloja nos páramos da suprapositividade jurídica e da supraestatalidade oficial então vigentes. que é algo passageiro e para cujo enfrentamento as instituições oficiais ainda dispõem de aptidão jurídica e vontade política. triunfante. 1971. que o povo é a encarnação da sociedade política.o seu modo de estar-no-mundo ou de se manifestar num dado momento já não é o mesmo). certa feita. apetite e responsabilidade para continuarem a serviço do bem comum. Isto porque as instituições estatais até àquele momento estruturadas entraram em colapso ético. o modo empírico ou atual de ser já é diferente do imediatamente anterior.4. o povo se torna. Tudo isto se traduz no desenho de uma quadra histórica em que o povo tem a certeza de que o Estado até então operante (mais certo seria dizer inoperante) já fez do presente um tempo que recende a passado. 2. de uma sociedade que se auto-reconhece como a subjetivação de um poder acima do Direito e do Estado.1. Que pretendemos dizer com sociedade não-juridicamente civilizada? Queremos dar conta de uma sociedade que recupera o seu tônus politicamente selvagem (falemos assim) do começar tudo de novo. Hora de fazer uma nova experiência global consigo mesmo. Em estado vaporoso. sem tardança. à guisa do que. por exclusão: a) uma sociedade temporal e excepcionalmente não-estatal. 2.5.6. então.4. É fundamental essa compreensão do povo enquanto instância que se assume como sociedade política. nela. por seu lado. funcional e político. ou político. é o marco jurídico da superação da referida existência . na medida em que insubmissa ao Estado até então existente. Esclerosaram-se ou esgotaram-se tanto no seu papel institucional de liderança que delas já não se espera senão empurrar cada vez mais a população para o pior dos abismos. descendo. subindo (prova de que. Mais lógico é dizer.4. E a nova Constituição que desse momento constituinte irrompe. a última pá de cal. que tem o aspecto bolorento das coisas caquéticas e sem a mínima condição de antecipar o futuro.1. momento constituinte. Perderam a sua necessária condição de locomotivas sociais. Em estado líquido.9 2. não se acha onde se encontra o poder político. 2. porque. Urge que toda uma corrente de inteligência e de intuição irrompa das camadas não oficiais.3. p. isto é.4.4. que é o vácuo de poder. na medida em que juridicamente incivilizada. 9ª edição. é a perfeita encarnação de uma sociedade que já não pode ser chamada de simplesmente civil.1.1.8 2. a água só se movimenta por si mesma.o salto químico não chega a ocorrer . porque esse momento de excitação histórica única é um momento único de excitação histórica pelo mais grave dos motivos: o povo a tomar consciência de que está engolfado numa existência de crise. do negar as instituições nascidas à sombra de um Estado sobre o qual é preciso jogar. que pode ser também um colapso a um só tempo ético. quando se trata de impedir as catástrofes ou de atenuar-lhes os efeitos" (pensamento recolhido do livro PARA LER E PENSAR.1.grau. Nesse contexto do puro poder político. sentenciou HERMANN HESSE: "A sabedoria política.4. 15).2. 2. que é uma função indelegável (ninguém mais pode fazer experiência tão estrutural com todo o corpo social). b) uma sociedade também temporal e excepcionalmente não-civil.4. Editora Record. o povo experimenta a sua mais grave hora de fazer destino. embora a água permaneça água . ou funcional. que só pode ser um poder exclusivamente político. Não apenas numa crise de existência. Do apagar todo o Direito preexistente.1. hoje em dia. para tomarmos de empréstimo um verso do poeta goiano GABRIEL NASCENTES.7. Em momento que tal. O povo.

1. justamente. que uma intervenção recupere o Estado para os princípios sobre os quais o poder público está assentado. se a sociedade política é o Estado. alçando-se à condição de povo. cantor popular do Brasil: "Ô Madalena. E se falta essa intervenção. 2. GRAMSCI. no instante em que manifesta.4. da primária manifestação da soberania (cujo nome técnico é "Poder Constituinte").2.4.2. que o povo mais decididamente vive pela sua transmutação de sociedade civil em sociedade política. 2. Somente ele pode normar em termos iniciantemente (ou reiniciantemente) globais. Como certa feita escreveu MAQUIAVEL (terceiro livro de Tito Lívio). pois o de que se trata é viver a epopéia do começar tudo de novo. primariamente. valores morais e ideais cívicos de que todos precisam para tocar um novo projeto global de vida. de forma episódica ou excepcional . "Num Estado. o que é meu não se divide"). a sua soberania. 2. Assim é como o vemos na cotidianidade dos nossos dias. que sinonimizam Estado e sociedade política. pois contribui decisivamente para separar o joio do trigo. como AUSTIN.1.4. há certos elementos que se ligam aos outros e cuja presença requer.4.2. nessas ocasiões (o pensador florentino é quem raciocina).2. BOBBIO e MARCELO CAETANO. O único remédio capaz de debelar a enfermidade maior do vácuo de poder e que abre para o povo a perspectiva de uma vida de permanente auto-afirmação. Entretanto. que é a mais alta expressão do atacado normativo de um povo. O momento constituinte como estado de plenificação decisória de um povo 2.8. Essa generalizada compreensão de estado de falência das instituições como background da atuação constituinte é de grande relevo teórico. Com este nosso modo pessoal de qualificar o povo como sociedade política.3. Debaixo de todas as vênias.4. naquela situação concreta em que os lobos da política oficial já serraram todas as grades jurídicas das suas tocas? Ou naquelas situações em que as forças calamitosas do acaso. de quando em quando. se o Estado é a sociedade política. aquilo que só ele pode fazer. b) sociedade estatal. a reaglutinar energias físicas. é uma sociedade que se triparte em: a) sociedade política. bem sabemos estar a dissentir de autores da mais forte compleição intelectual. Este o seu espaço irrepartido de ação jurídica. É necessário. o que sucede? O mal irá crescendo a tal ponto que já não poderá ser eliminado senão pela eliminação do próprio Estado. pensamos que a sociedade humana que plenifica o seu próprio ser político e jurídico. c) sociedade civil.4.10 2.nacional de crise. quando vista sob o prisma da sua personalização jurídica ou do poder constituído. Só o Poder Constituinte pode agir no pressuposto do colapso cardíaco das instituições. como no corpo humano. que nome dar à sociedade humana no preciso instante em que ela funda a própria sociedade estatal? Em que ela já não aceita permanecer como o cordeiro jurídico em que a sociedade "civil" termina sendo.4.2. O que nos traz à memória esta passagem de velha música de IVAN LINS. quando "civilizadamente" atuante nos marcos da sociedade estatal que se tornou efetiva por efeito. durante o momento constituinte por ele experimentado. É claro que o modo normal ou habitual de ser do povo é sob a forma de sociedade estatal e de sociedade civil. são protuberantemente superiores ao tino e à coragem pessoal dos governantes? 2. um tratamento clínico". Uma espécie de luz no fim do túnel. É a hora de fazer destino voltamos a dizê-lo -. Esta é a dualidade básica. Todavia.2. forças da natureza ou da História (tanto faz).

2. até que uma outra anormal elevação histórica de temperatura determine a sua metamorfose em sociedade política. mas que pensamos encontrar justificativa no fato de que elas parecem condenadas a cair no esquecimento daqueles juristas hodiernos que. São idéias que. 2. Há muita similitude entre o raciocínio aqui expendido e aquelas idéias básicas do famoso teórico e revolucionário francês. instantes de plenificação decisória do seu próprio ser. esse instante máximo de feeling ou excitação histórica. nestes escritos. por efeito do calor da terra. visto não ser nem estatal nem civil.5. sob a regência desse maestro ideológico de nome neoliberalismo. com a serenidade dos ânimos ou o resfriamento da temperatura existencial (a nova Constituição que se faz globalmente efetiva é que recoloca as coisas em seu ponto de normalidade). Todas estas coisas que estamos a predicar à sociedade política é aplicável. passamos a transcrever de modo quiçá excessivo. imaginemos a processualidade daqueles dois estados líquido e vaporoso da água e melhor entendermos a dialética da relação que transcorre entre a sociedade civil e a sociedade política.2. ensejador da corporificação de uma sociedade que já não é nem estatal nem civil. As idéias básicas do Abade. 113 e seguintes).2. Conotativamente. Empós. ascende à condição de sociedade política. Ainda por apego a figurações. mas que procede de uma causa. Posteriormente. É uma luz que ninguém sabe de onde vem. A água. Apenas não temos um nome apropriado para colocar nessa fonte de luz que se não deixa ver pelo olho humano. por efeito de uma alta. já por efeito do maior frio das alturas e de outras condições atmosféricas. um bumerangue. por não ser nem a luz do dia nem a luz da noite. pp. 2.5. O que ele tinha por nação. estão lançadas no incendiário panfleto Q'U-EST-CE QUE LE TIERS ÉTAT? (Liber Juris. temos por sociedade política ou povo na sua dimensão constituinte. em larga medida.6.5. talvez. sim.4. pela sua extrema importância. E é nesses instantes de legítima defesa da sua identidade e da sua sobrevivência. a propósito da diferença qualitativa entre o contingente humano que se faz matriz de um poder constituinte e esse mesmo contingente que se faz o berço de um poder apenas constituído. porque não tem um ponto visível de partida solar. aquelas de que nos servimos para os fins desta nossa monografia.5.de turbinada inquietação histórica. formando nuvens. Uma realidade que se define por exclusão. evapora e vai se condensar na atmosfera. nós.1. E ela assim permanece. tentam esmaecer as linhas de confrontação entre o Poder Constituinte . quando da transformação da confederação americana em federação). o povo desperta em si mesmo o poder (sempre adormecido ou latente ou virtual) de desconstituir a velha ordem estatal e de concomitantemente constituir a nova ordem. desce sob a forma de chuva e assim recupera o seu estado líquido.4. Uma luminosidade que parece destituída de qualquer fonte. Tudo lembra um aparelho eletrônico auto-reverse. tal situação transicional somente se deu no distante ano de 1787. Com alguma similitude. é algo assim como a luz crepuscular. uma altíssima temperatura existencial. a sociedade civil. A sociedade política em SIEYÈS 2. retoma o seu estado habitual de sociedade civil. que o povo empunha o cetro de soberano e passa a atuar como sociedade exclusivamente política.2. à realidade humana global a que SIEYÈS chamava de "nação". um transe histórico verdadeiramente insólito. ou de partida lunar. com a particularidade de que o estágio de sociedade civil só raramente avança para o estágio de sociedade política (nos Estados Unidos da América. 2.

Antes dela e acima dela só existe o direito natural. basta que ela queira. as outras determinam a organização e as funções dos diferentes corpos ativos. Todos os princípios que acabamos de citar são essenciais à ordem social. vemos. mas do poder constituinte. ou. todas as formas são boas. ela é a origem de tudo. "Mas é verdade que uma representação extraordinária não se parece em nada com a legislatura ordinária. Essas leis são chamadas de fundamentais. a que está confiado o poder legislativo ou o exercício da vontade comum. como ela não pode estar.e toda nação deve ser livre . e sua vontade é sempre a lei suprema. a Constituição não é obra do poder constituído. Ele não é nada sem suas formas constitutivas. o que equivale a dizer que ela não está. esta não seria completa se encontrasse um só caso para o qual não fosse possível indicar regras de conduta capazes de resolvê-lo". A outra não está submetida a nenhuma forma em especial. se reúne e delibera como faria a própria nação se. Esta só pode se mover nas formas e condições que lhe são impostas. "Assim. É neste sentido que as leis constitucionais são leis fundamentais. Se precisamos de Constituição. Se quisermos ter uma idéia exata da série das leis positivas que só podem emanar de sua vontade. A vontade nacional. Sua vontade é sempre legal. "Não é próprio ao corpo dos delegados mudar os limites do poder que lhe foi confiado. O exercício de sua vontade é livre e independente de todas as formas civis. Só a nação tem direito de fazê-la. Só é legal enquanto fiel às leis que foram impostas. Em cada parte. não no sentido de que possam tornar-se independentes da vontade nacional. quisesse dar uma constituição a seu governo. Qualquer que seja a forma que a nação quiser. "Não só a nação não está submetida a uma Constituição. "Um corpo submetido a formas constitutivas só pode decidir alguma coisa segundo a . em primeira linha. as leis constitucionais que se dividem em duas partes: umas regulam a organização e as funções do corpo legislativo. para surtir todo o seu efeito. ao contrário. não age. devemos fazê-la. mesmo composta por um pequeno número de indivíduos. a não ser por elas. Achamos que esta faculdade seria contraditória consigo mesma. mas porque os corpos que existem e agem por elas não podem tocá-las. não tem necessidade de levar os caracteres naturais de uma vontade. é necessário acrescentar o interesse que a nação tem em que o poder público delegado não possa nunca chegar a ser nocivo a seus comitentes. "O poder só exerce um poder real enquanto é constitucional. como se diz. com que interesses se teria dado uma Constituição à própria nação? A nação existe antes de tudo. Vejamo-las: "Em toda nação livre . o corpo dos representantes.só há uma forma de acabar com as diferenças que se produzem com respeito à Constituição. de acordo com que critérios. "A esta necessidade de organizar o corpo do governo. Não é aos notáveis que se deve recorrer. "Devemos conceber as nações sobre a terra como indivíduos fora do pacto social. é a própria lei. é à própria nação. e que são outras tantas regras essenciais ao governo. se quisermos que ele exista ou que aja. sem as quais o exercício do poder se tornaria ilegal. Não se trata de distinções inúteis. no estado de natureza. Como existe somente na ordem natural. ela não deve estar. Nenhuma espécie de poder delegado pode mudar nada nas condições de sua delegação. "Entretanto. só precisa de sua realidade para ser sempre legal: ela é a origem de toda legalidade. sua vontade. só existe na forma que a nação quis lhe dar. não se dirige e não comanda.e o Poder Constituído. Daí as inúmeras precauções políticas que foram introduzidas na Constituição. São poderes diferentes.

Não pode dar-se outra.5. modificação pelo Poder Constituído.4. Deixa de existir a partir do momento em que se move. senão com severos limites.1.1. que fala. são incompetentes para decidir sobre a Constituição. o presente e o futuro de um povo. é uma realidade presente. porém a sabedoria. o solo. que faz da nação (o cacófato "danação" é inevitável) uma realidade eminentemente tradicional. o clima. Os Estados gerais. atua de forma diferente das que lhe foram impostas.6. 2. 2. solarmente claro.6.5. A legitimidade que advém desse arraigado sentimento coletivo de nação como algo inda mais denso. que JOSÉ JOAQUIM GOMES CANOTILHO assim expõe: "Em teoria da Constituição o paradoxo aqui subjacente é o paradoxo da omnipotência: poderá um corpo soberano parlamentar com poder para fazer leis em qualquer momento limitar o seu próprio poder de fazer essas leis? No caso das normas constitucionais o paradoxo é evidente: as normas constitucionais irrevisíveis assegurariam a omnipotência dos seus autores sobre as gerações futuras o que será radicalmente contrário às regras da democracia. independente. porque adiciona ao presente a dimensão do passado e do futuro desse mesmo povo. É o aqui e o agora da população de um País. E aqui já começamos a enfrentar a recorrente questão de saber até que ponto existe legitimidade democrática numa Constituição que submete aos seus termos as gerações futuras. a festejada proclamação espiritual que RUY BARBOSA fez a respeito de pátria. Parece-nos claro. Pergunte-se a um inglês se a Rainha da Inglaterra goza de legitimidade política. 2. e certamente ele responderá que sim. Por outro lado. Cada nova geração é detentora de mais conhecimentos do que as anteriores. Um enlace anímico da ancestralidade. não cansamos de repetir. É o que se tem apelidado de paradoxo da onipotência. A tradição como o forno ou o cadinho histórico no qual se tempera o aço da nacionalidade. que mantêm os brasões dos seus antepassados e tudo fazem para repassar tais insígnias (com tudo de particularmente honroso que elas simbolizam) às gerações porvindouras. O confronto entre o princípio da racionalidade constitucional e o princípio democrático 2. nestes escritos que reproduzimos de memória: Pátria não é um sistema. de qualquer forma e qualquer condição". da coetaneidade e da posteridade. nem um monopólio. a verdadeira sapiência. Diríamos. se as normas não se . da língua e da liberdade. 2. A comunhão da lei. Que não se permite receber. nem uma seita.Constituição. Só à nação pertence. nem uma forma de governo. a consciência. tanto na Teoria da Constituição em geral quanto na Teoria do Poder Constituinte em especial. uma linha imaginária entre o passado.5. Assim como se dá com os membros de uma família tradicional.3. Pátria é o céu.5. A soma das pessoas vivas.5. O berço dos filhos e o túmulo dos antepassados. supomos.1. 2. inda mais representativo que o conceito de povo. O caráter democrático-formal do Direito posto pela sociedade política 2. que o abade EMMANUEL JOSEPH DE SIEYÈS falava de nação como até hoje a vivenciam os ingleses: uma coletividade humana intertemporal.6. O povo.6. para eles. então: a distância que vai da realidade populacional à realidade nacional é a mesma que vai do conhecimento à sabedoria. A nação é muito mais. é transgeracional. a tradição. o lar. Paradoxo. mesmo quando reunidos. Este direito pertence unicamente à nação. A esse panorama conceptual de nação bem se ajusta.

3. se não existirem outras normas a fazê-lo. de sorte a poder conciliar na sua obra legislativa estrutural (a Constituição) interesses que traduzam reverência à cultura e à memória nacional. é que já porta consigo o pecado original da não-participação popular. in Boletim da Faculdade de Direito de Lisboa. Ela. Com efeito. que é sempre uma legitimidade precária: legitimidade pela metade. ou um elemento central do princípio democrático (a não-escravização normativa das futuras gerações) não nos parece inquietante por nenhum modo. II . não ungida. distribuído pelo autor português aos participantes do VII SEMINÁRIO NACIONAL DE ESTUDOS JURÍDICOS-SENEJ. porém.1. 6 e 7 da conferência OS HOMENS FAZEM AS CONSTITUIÇÕES MAS NÃO SABEM AS CONSTITUIÇÕES QUE FAZEM. ou um elemento central da racionalidade jurídica (a irreformabilidade das cláusulas de reforma da própria Constituição). pois. Constituição. Parece que temos de prescindir. Paradoxo e imutabilidade acabam assim por constituir um difícil dilema para os juristas e cidadãos das democracias ocidentais. traduzido no dilema de se ter que sacrificar. conclui-se que é permitida a sua auto-aplicação. e a bicentenária Constituição dos Estados Unidos da América bem o comprova: a mais sólida nação democrática do planeta a conviver com a mais antiga das constituições escritas. As normas da revisão aplicam-se elas próprias para a sua revisão. 99): se as normas jurídicas que autorizam a mudança podem ser utilizadas para se alterarem a si mesmas.em se tratando. tácita ou não-expressa. Sergipe. na pia batismal do voto popular. o seu raciocínio (in O Paradoxo da Autorevisão no Direito Constitucional. "o paradoxo da omnipotência"?11 2.6. no período de 05 a 10 de maio de 1998). porque somente de conteúdo. pois não há como convalidar o vício processual de origem). o atendimento das prementes necessidades da população viva e ainda por cima a . ou por qualquer forma imposta por um grupo que toma de assalto o Governo. de uma Constituição votada por uma Assembléia ou Convenção Constituinte que se forme por eleição geral (é essa modalidade de colégio deliberativo que tem sido alvo desta nossa teorização). Peter Suber resume. ela já se impõe como documento jurídico de berço democrático. recobre com o seu halo ou a sua aura castiçamente popular as sucessivas gerações de destinatários normativos. quando se elege uma Assembléia Constituinte já se sabe que ela presenta a sociedade política ou nação. XXXI. uma verdadeira comunidade.encontrarem sujeitas a limites. 2.em se tratando de uma Constituição geneticamente autoritária.6. assim. Queremos dizer: é próprio desse tipo de organismo ou ente coletivo a aptidão de ultrapassar as barreiras do tempo.1. pois: I . Onde. Esse "inquietante" paradoxo da onipotência. Uma comunidade. 1990. no sentido que o vocábulo "nação" era utilizado por SIEYÉS e que interpretamos como uma coletividade humana de superior estatura ou eminência ímpar. Vemo-lo mesmo como um falso problema. Vol. chegamos por esta via a um paradoxo e uma contradição. por isso. p. cuja característica nuclear é justamente a intertemporalidade (o espírito é atemporal). de maneira a somente ter a chance de ganhar legitimidade pelo seu prolongado exercício ou duradoura efetividade (legitimidade a posteriori. à face da sua dimensão cristalinamente espiritual ou de autoconsciência. portanto. mas se não são empregues para tal fim (e se não há uma norma superior a autorizar essa alteração) temos então normas imutáveis. Não há espaço psicológico para as novas gerações se sentirem democraticamente acuadas menos ainda castradas -.2. e não à sua reforma. ou de um elemento central da racionalidade jurídica ou de um elemento central da teoria democrática" (pp. a questão democrática diz respeito é à própria Constituição. realizado em Aracaju. e.

Queremos dizer: não existe esse tipo de ditadura. em presumível segurança. ao menos no plano formal ou da eleição dos membros da Constituinte? Sendo a nação ou sociedade política o modo constituinte de ser do povo. pois . o contingente humano. por vezes. em princípio. 115..6. pode tirar a sua sesta. se desde a sua originária prescritividade. ela não pode cercear o direito de mudança assim que o interesse geral o exigir. ela jaz adormecida. a sua vontade tivesse que esperar uma maneira de ser positiva. porque presentada. histórico e também racionalmente jurídico da eleição de uma Assembléia que só é nacional por ser constituinte e só é constituinte por ser nacional. É sua propriedade inalienável. é aí que o povo se transforma em nação e lega à posteridade a imorredoura lição de que "a comunidade não se despoja do exercício de sua vontade.12 2.2. embora com esta inescapável distinção: no momento constituinte. os pósteros.2. nem se proibir o direito de mudar. senão como fantasia de politólogos a serviço. a ofensa ao princípio democrático. Este o sentido psicossocial. ela tende a permanecer a mesma e única nação ou sociedade política pelos tempos afora. E por isso é que as gerações que se sucedem no tempo não vêem a Constituição como o símbolo da ditadura da primeira geração constituinte. Na sedutora linguagem de SIEYÈS. no momento constituído. 2. (. da anomia do Ordenamento por inteiro.. Agora. seus mandatários. enfim. porque representada. (. 2. (. pp. qual é a lição da História? A História nos diz que a sociedade civil toma por si mesma o comando do processo político-jurídico e parte para a formação de uma nova Assembléia Nacional Constituinte.. ela pode sempre desobrigar-se de tal compromisso" (ob. jamais sobrevém o desconforto domocrático de se ter que . atuante. Onde..) Primeiramente. é aí que a sociedade civil se transmuda em sociedade política e passa a vivenciar a sua dimensão constituinte.reperguntamos -. a nação está acordada. ou no transcurso do tempo. duas nações ou duas sociedades políticas: uma que fez a Constituição e outra que se sente oprimida por essa mesma Constituição.6. de propósitos pouco edificantes. uma nação não pode nem alienar. e tudo o que lhe pertence. cair no descrédito geral e a sociedade civil passar a sentir aquele terrífico presságio de que está à beira do mais fundo abismo da ausência de poder. mas será que ela pode impor deveres a si mesma? Sendo as duas partes a mesma vontade.6.5.13 2. 2..pavimentação da estrada pela qual transitarão. pois não dissemos que o traço eidético da nação era (e é) a intertemporalidade? Não há. Se o que vier a mudar no tempo for apenas a população.1. cada geração ou simples sociedade civil.) Seria ridículo supor a nação ligada pelas formalidades ou pela Constituição a que ela sujeitou seus mandatários.6. a Constituição vier a padecer do grave defeito de não haver costurado a unidade possível das ideologias. Como tantas vezes dito.2 Fricção entre nações versus sucessividade geracional no interior de uma mesma nação. cit.. 118 e 119). Em segundo lugar: com quem se teria comprometido esta nação? Eu entendo que ela pode obrigar seus membros. nunca o teria sido. para o efeito prático de mudar de Constituição.) A nação é tudo o que ela pode ser somente pelo que ela é".4.. ou ficar muito abaixo do padrão médio de moralidade e humanismo. Só pode delegar o seu exercício.2.6. e qualquer que seja a sua vontade. Mas o fato é que a nação que elaborou a Constituição é tendencialmente a mesma que se decide por um outro Código Supremo. Se para tornar-se uma nação.1. tudo envolucrado por uma só e exclusiva nação.1.

o povo elege aqueles que vão governar. Só para si. Uma legitimidade ainda mais densa que a ressaída de uma eleição geral comum para a renovação dos quadros políticos de qualquer Estado.2. numa eleição constituinte o povo escolhe aqueles que. Animamo-nos a dizer: enquanto a nação ou sociedade política evoca a idéia de permanência. irão governar de modo permanente aqueles que irão governar de modo transitório.6. naturalmente contrária à primeira (duas nações ortodoxamente caracterizadas não podem conviver sob o mesmo Estado ou sob a mesma Constituição. a culminância da participação popular no processo político. porque a primeira Constituição não é sentida como coisa própria.3. está ainda defendendo a maioria permanente elaboradora da Constituição. mas por eficaz rebelião da segunda (a nação brasileira).suportar uma Constituição formalmente rígida. juridicamente. contanto que não impeça o novo corpo nacional de iniciar a sua própria experiência constitucional-positiva. a população ou sociedade civil tem na mutabilidade o seu espaço de significação ontológica. Noutro modo de exprimir o mesmo pensamento: a segunda nação passa a deter um Poder Constituinte próprio e com esse Poder Constituinte já não pode deixar de entretecer uma relação de inerência (ele é ela. numa eleição constituinte. Daí que o princípio majoritário que informa as decisões colegiadas passe a igualmente se discriminar em maioria permanente e maioria passageira. 2. aliás.6. p. o povo elege aqueles que vão governar quem vai governar. é preciso lembrar de que a Corte Constitucional. naturalmente. se essa Constituição está assentada no sufrágio popular.2. não por decisão da primeira (a nação portuguesa) quanto a esse juízo de inconvivibilidade. Um só Estado personalizava. Nesse tipo de prefiguração extrema ou hipótese-limite. Em verdade. de uma assembléia de presentação do corpo nacional ou de uma assembléia de representação do corpo tão-somente populacional. 43. O que a segunda nação aspira é a uma Constituição estalando de nova. Exclusivamente sua. essência mesma da Democracia. pela mediação do Texto Magno.6.2.6. 2. Noutro dizer. 1988). sem que a mais recente não aspire à sua emancipação política). o estrelato do voto. propugna por uma atuação mais livre do Poder Judiciário sempre que se trate de atualizar as concepções de que decorrem os conceitos constitucionais: "Neste particular. mas alheia. 2. mesmo elastecendo a sua tarefa. Que permaneça a primeira nação com a respectiva Lei Maior . de modo a culminar com a revolução triunfal de 7 de setembro de 1822. respectivamente. conforme se trate. conforme. . Se tem a respaldá-la a mais indiscutível das legitimidades.2. conferência publicada na coletânea "10 ANOS DE CONSTITUIÇÃO". como dantes explicado).5. porém. a partir deste essencial corte distintivo: numa eleição comum.esta é a palavra de ordem dos que fazem a nova nação -. para que o referido desconforto democrático exista é preciso que uma outra nação venha a se formar. nestes escritos em que. O primeiro tipo de maioria a preponderar sobre o segundo. que é circunstancial" (em AS MODERNAS FORMAS DE INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL. que é a legitimidade do voto. pois a eleição dos elaboradores da Constituição é. muito bem doutrina CLÉMERSON MERLIN CLÈVE. 2. secundando o importante constitucionalista norte-americano RONALD DWORKIN. ou sequer alterar a Constituição vigorante.4. em detrimento da maioria eventual. Tal como se deu com o Brasil ante Portugal. Não é assim.6. duas nações que já não podiam conviver no mesmo espaço político-jurídico. a segunda nação não quer trocar de Constituição. ela é ele. Editora Celso Bastos.

na matéria. Nesse idealizado contexto de fricção nacional .6. após a elaboração constitucional.o dominante e o dominado -. e de direito devem ser. A história do atual rei da Grã-Bretanha é a história de repetidas injúrias e usurpações. da qual pinçamos os seguintes trechos: "Quando no decurso da história humana se torna necessário a um povo romper os laços políticos que o ligaram a outro e assumir entre as potências da Terra a posição separada e igual a que o habilitam as leis da Natureza e do Deus da Natureza. também a nação é uma só. Transgeracional. completamente dissolvidos (. 2. E fora dessa hipótese-extrema da lenta formação de um corpo nacional contra outro? Bem. Foi este o paciente sofrimento destas colônias e é agora a necessidade que as constrange a alterar o seu antigo sistema de governo. e devem ficar. como a sensação de desconforto pode estar? 2. Discurso mais eloqüente não pode haver. pela segunda. porque destinada a viger em âmbito pessoal e territorial próprio. deixa de existir o próprio sujeito coletivo que poderia.8.2.2. todas tendo como direto objetivo o estabelecimento de uma tirania absoluta sobre estes Estados. Ele se coloca é no plano das relações entre os dois corpos nacionais . Por isso mesmo é que ela tem sido definida como "uma alma. revela o desígnio de os submeter ao despotismo absoluto. em nome e por autoridade do bom povo destas colônias. um princípio espiritual" (RENAN). 2. não pode ensejar a questão do desconforto democrático a que se reporta o neoconstitucionalismo.. Assim como o rio é um só rio.6..) Por conseqüência. reunidos em congresso geral. do que a "Declaração de Independência dos Estados Unidos da América" (datada de 4 de julho de 1776).) Mas. do momento em que se constitui até o sobrevir da última geração. é seu dever livrar-se de tal governo e tomar novas providências para bem da sua segurança. "(. visando invariavelmente ao mesmo fim. no sentido de que um deles (o dominado) não reconhece como obra de uma sua primeira geração constituinte a Lei Maior "estrangeira" sob a qual se encontre. experimentar o desconforto democrático. que elas se desligam de toda a obediência à Coroa Britânica. enquanto se conservar como solitária nação no âmbito espacial de validade da sua Constituição e da territorialidade do seu Estado. E é claro que o problema do desconforto democrático não pode medrar no interior de uma nação cuja história constitucional mal começou. invocando o Supremo Juiz do Universo como testemunha da retidão das nossas intenções. a se perpetuar na cambiância dos corpos populacionais que se sucedem no tempo. quando uma longa sucessão de abusos e usurpações. 2.fenômeno diferente da simples sucessividade geracional -. os representantes dos Estados Unidos da América.)". este o mais alumiado contorno da aura de toda nação enquanto monolítica nação permanecer. solenemente proclamamos e declaramos.Daí que venha a se autoconferir uma Constituição mais que paralela.. como coisa estranha. e que todos os laços políticos entre elas e o Estado da Grã-Bretanha ficam.10. nós.. .7. da nascente à foz.. dizendo respeito a uma outra região fenomenológica.2. o respeito devido ao juízo da Humanidade obriga-o a declarar as causas que o impelem para a separação. Não compartilhado com outra pólis. Como legislação que bem pode permanecer intocada. "(.2.. Por isso que. que estas colônias unidas são. É dizer: não estando presente o sujeito. é claro que tudo que juridicamente provenha da primeira nação seja concebido.9. concretamente.6. ou seja. se uma outra nação não se forma no espaço territorial da primeira. desde que já não vincule os membros da nova nacionalidade. Estados livres e independentes.6.

com este conhecido desabafo: "passei a vida inteira procurando certas respostas..agora sim .das "Constituições" cosmopolitas ou ultranacionais 2. Jamais. da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e do Mercado do Cone Sul (MERCOSUL). ajuizemos de uma vez por todas o seguinte: se cada nação permanece com o seu Estado. Nesta suposição. E passaremos a ter Constituições Positivas sem vínculo operacional com a própria Democracia. 2. Ora bem. além de não-popularmente eleitas para esse específico fim.3. quando as encontrei. desaparecem também as nações originárias e respectivos Estados. com os seus lógicos desdobramentos.3. mas um holding de autoridades "supraestatais" que. se a multinacionalidade se faz acompanhar da pluralidade de Estados soberanos. a acontecer o triunfo do novo e estranho modo de pensar o constitucionalismo. mudaram as perguntas. uma: ou as supostas Constituições cosmopolitas não preponderam sobre as Constituições Nacionais. simultaneamente. O paradoxo .6. que já não terá nação nem Estado isolado onde possa irromper e frutificar.6. traduzida no famoso art. aos elementos conceituais da nação.6.3. seja pela forma direta (Separação dos Poderes). como pretendem ser os pactos formadores e regentes da União Européia (UE). se em nenhuma das nações "presentadas" foi aberto o processo democrático do voto popular para a eleição dos membros de tal Assembléia? Como submeter a essa Constituição-de-gabinete as Constituições democráticas de cada nação pactuante? Como aceitar uma Constituição que não plasma nenhum Estado em particular. Constituição comum a vários . 16 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.4. que se dá no seio de uma única nação aspirante à soberania? Como falar de uma Assembléia Constituinte Plurinacional.2. Finalmente. enfim. 2.1. como ficaremos todos? Ficaremos naquela atarantada situação de que falava o pensador. do Poder Constituinte. Das duas. Multinacionalidade desse tipo e unicidade constitucional são como água e óleo: não se relacionam por osmose. nenhuma delas abdica de Constituição própria. E aqui se encontra o pano de fundo teórico para a nossa recusa ao tracejamento de uma "Constituição" ultranacional ou cosmopolita. Por fidelidade. todavia. as Constituições Nacionais é que deixarão de sê-lo. também não se relacionam pelos imprescindíveis moldes do sistema de freios e contrapesos e ainda por cima não têm a balizá-las um catálogo mínimo de direitos humanos e respectivas garantias? Como explicar a titularidade plural de um poder (o Constituinte) que se define. então. se preponderam. de 26 de agosto de 1789?14 Que atentado maior pode haver àquilo que se traduz na essência mesma da idéia de Constituição como o mais eficaz mecanismo jurídico de contenção do Poder. justamente. aceitar que os tratados internacionais é que servirão de fundamento de validade para a Constituição de cada Estado signatário. 2.6.2. e. da Constituição e do Estado.6.3. do princípio democrático? 2.. Não há nem pode haver Constituição multinacional. pela unicidade do ser de que promana e em cuja ossatura afinal se transfunde? Como.".3. e não mais o inverso? Isto não significa romper completamente com a idéia-força da própria constitucionalização do Direito. da Democracia.3. como não colocar na etiologia da Constituição a metamorfose que resulta da passagem de uma sociedade civil para uma sociedade política? Metamorfose. ou.3. seja pela indireta (consagração dos direitos e garantias fundamentais)? Do princípio de constitucionalidade e.5. Deveras.6. portanto. Constituições não são.

ela paira acima da organização estatal. então. usufruídos estes por um número cada vez maior de pessoas. ou uma intervenção. etc. abdicando. higiene. vestuário). e tende mesmo a traçar os contornos do próprio Estado. científica e de comunicação. seja no plano do bem-estar social (moradia.6. segurança ecológica. o receio de que o Estado venha a perder o controle da sua economia (efeito próprio da globalização).3. Por natureza. Tendo por suporte jurídico-formal os tratados internacionais de sempre. Ao contrário do que afirmava JEFFERSON. 5°.6. transporte. contundentemente negada pelas iniqüidades sociais de todo o século XIX e dos primeiros dezessete anos do Século XX.de revés. exigência dele. Governo.3. porque o primeiro dever do Estado é com o atendimento das necessidades materiais da sua população. 2. que entra e sai do pacto por sua espontânea e soberana vontade.). então. E tudo é absolutamente irrenunciável porque sem a mediação do Estado a economia se torna uma espoliação organizada. cerceando-lhe a intrínseca espontaneidade em qualquer das suas formas de exteriorização (daí a Constituição brasileira estatuir. deixemos gravado em alto relevo o nosso dissenso à equivocada identificação que o neoliberalismo vem fazendo entre mundialização cultural e globalização econômica. E que vão surgindo por efeito da evolução política de cada corpo nacional que se abre para tais ou quais vantagens comuns.a cultura é manifestação do espírito. da consideração de que a teoria das Constituições regionalizadas (ou plurinacionais) tem mesmo a sua motivação factual na globalização da economia (que é a globalização dos mercados). O risco passa a existir é quando o Estado se mete a monitorar a cultura. lazer. assim.Estados soberanos é uma contradição nos termos. II . Exclusiva. São coisas diferentes. a economia é manifestação do corpo. portanto. Neste sítio. exigência dele. pois a soberania de cada Estado se formaliza é numa Constituição não-compartilhada. que são justamente as referidas necessidades de sobrevivência individual e de bem-estar comunitário. Diante. do poder-dever de organizar o aparelho produtivo do País na direção do máximo possível de auto-suficiência em bens e serviços. que "é livre a expressão da atividade intelectual. Não sobre o controle estatal interno . porém o que mais governa para que um número cada vez maior de pessoas deixe de precisar dele. Não uma espontânea otimização de riquezas.Se os deveres do Estado para com o setor cultural não podem significar jamais um dirigismo. 2. artística. de ADAM SMITH. Não pode ficar acima do Estado. como a própria soberania. a partir destas considerações que temos como imperativos históricos: I .7. tudo é absolutamente irrenunciável. E como é verdade que um decidido controle estatal interno e globalização econômica são coisas antitéticas. seja no plano da sobrevivência biológica do ser humano (alimentação. Mas sempre nos termos da Constituição de cada Estado signatário. o mesmo não se pode dizer quanto à ordem econômica. de modo que a sua gradativa mundialização não significa propriamente um risco de perda do seu controle. ora pela eventual competição empresarial direta e ainda pelo estímulo).6. pelo inciso IX do seu art. Faz sentido. o holocausto só pode recair é sobre a globalização. O que é preciso entender é que instituições multilaterais como a União Européia e seus êmulos são as velhas e boas confederações de Estados. o melhor governo não é o que menos governa. o dever de impor direcionamentos e até de intervir (ora por mecanismos de permanente fiscalização e sancionamento. III . pois nada mais falacioso que a teoria da mão invisível. independentemente de censura ou licença"). na processualidade da vida.

7.quantas sejam . Modifica-se a Constituição para que ela permaneça idêntica a si mesma naquela parte central da sua circunferência axiológica. ou existe. É justamente o visceral compromisso com o porvir que faz a nação tornar a sua obra legislativa um verdadeiro processo. essa vontade se torna a soma orgânica das vontades de todas as pessoas vivas. Nenhum bloco de vontades. nunca deixa de estar disponível para a nação?16 2. Cada bloco de vontades a querer preponderar sobre os demais. Corporativamente. A mesma geração que elaborou o Magno Texto. nem é preciso esperar por uma segunda.7. 2. ou por uma terceira.2. etc. é da natureza da vontade . essa vontade tende a ser não mais que o somatório mecânico das vontades de todas as pessoas vivas. a Constituição é fórmula normativa consubstanciadora de princípios que potencializam a abertura das janelas do Direito para o lado onde sopram os ventos da atualização de suas idéias centrais. empenhadas em produzir uma vontade final tão-somente grupal ou particular. Ou.no interior de uma única nação. porém a desejar com os demais se interpenetrar ou dissolver numa só manifestação. então. Para ROUSSEAU. de uma determinada geração vir a avaliar que já não dá para prosseguir sob o império do Magno Texto. se a vontade é apenas da população. Se ela existe. ou a terceira. E por ser nação o tempo inteiro. Até porque. se colocar o problema da revogação constitucional. no fundamento: a nação. por mais rígida que seja.7. Interesseiramente. O vínculo natural entre a sociedade política e a futuridade 2. Se a nação apenas sai do estado de efetivo poder constituinte para uma quadra de virtual poder constituinte e vice-versa. sem maior necessidade de alteração formal dos seus dispositivos. ela é nação o tempo inteiro. e não o seu dobre de sinos. sendo uma nação.7. razão da autonomia conceptual de que desfruta. Mais que um simples produto inelástico ou de formas acabadas em todas as suas partes.3. possui legitimidade política e senso histórico de oportunidade para dar forma jurídica ao próprio futuro. se a Constituição rígida.7. e só então.7. Se acontece. tanto quanto o próprio Deus. ou a segunda.15 Ou. pois. 2. que deve assegurar a sobrevida da Constituição.. modifica-se a Constituição apenas quanto aos mecanismos de que seus princípios estruturantes precisam para permanecer eficazes (e não é preciso encarecer que toda Constituição tem a cara dos seus princípios estruturantes). no entanto. porém. pois. qual a Constituição que não dispõe sobre a sua própria reforma? Reforma. para. pensamos que. ou por uma quarta geração . ou não existe. muito mais fortemente empenhadas em produzir uma vontade final que seja uma "vontade geral" no sentido rousseauniano. por outra. que força humana vai impedir que ela convoque uma nova Assembléia Nacional Constituinte? Sabido que a mais nova geração nacional é tão nacional quanto a primeira? Logo. 2. se a vontade a manifestar é mesmo da nação. o paradoxo da onipotência (pela terceira vez perguntamos)? Como falar de antidemocraticidade a posteriori da Constituição rígida. se necessidade houver. Ideologicamente. Este o seu modo especial e único de ser. de saída.da economia de cada povo. Onde. Numa recondução do pensamento de SIEYÉS a ROUSSEAU. Insistamos. 2. como de generalizada sabência. preponderar sobre os demais. tem o poder de revogá-lo. pode desertar de sua Constituição a qualquer momento.1. De revés. consegue atingir um nível tão aceso de autoconsciência a ponto de desembaçar toda névoa que prejudique o límpido visual da futuridade.5.4. a querer.

2. pp. às preferências e a vontade geral à igualdade. 2. (. 27/33 da obra "UM GALILEU NO SÉCULO XX". um decreto (. pelo metódico uso das normas-princípio. ou corporativos.8. Deduz-se do que antecede que a vontade geral é sempre reta e tende constantemente à utilidade pública. porém não quer isto dizer que as deliberações do povo tenham sempre a mesma retidão (. A ensejar a qualificação do Magno Texto como norma-processo. tirando estas mesmas vontades. no segundo.7. extraídas do livro O CONTRATO SOCIAL. de maneira a projetar na objetividade da sua obra tudo aquilo que a humanidade já produziu e ainda vai produzir (não é muito diferente o juízo que se vê em LUKÁCS.. que hoje têm na própria Constituição a precisa indicação dos respectivos conteúdos e a possibilidade de operacionalização ao nível factual. sob pena de cair no baixo cômico. que se destroem entre si. Parábolas que estão para o evangelho de Cristo. Vale dizer.17 2.. 2. 2.. Leiamos estas passagens. E cujo efeito prático é a processualidade ou historicidade ou uma certa atemporalidade do que se pretende comunicar. como versejou Fernando Pessoa. Uma outra comparação nos parece elucidativa.geral rimar com o bem comum (por ser mais do que a simples adição das vontades parciais).7. essas. é simplesmente uma vontade particular. o presente e o futuro das suas gerações. pp. E Tobias Barreto.8. enquanto a outra olha o interesse privado. Assim como os artistas fazem a ponte entre o sujeito universal que é a humanidade e o sujeito individual que é cada ser humano. é indivisível. Há às vezes diferença entre a vontade de todos e a vontade geral: esta atende só ao interesse comum. resta para soma dessas diferenças a vontade geral". de maneira a recolher o que há de axiologicamente comum a todas elas para tudo sintetizar num só documento normativo de nome "Constituição".9. obra já referida um pouco mais atrás. Normas-princípio. é impossível pelo menos que este acordo seja duradouro e constante. um mundo todo à parte. Essa linguagem sinótica ou sinérgica de valores torna-se possível. A inconstitucionalidade da revisão de dupla face . Ela não sabe falar de outro modo principal.7. "as nações são mistérios. É um discurso que se aproxima da dimensão das coisas universais e eternas. vol. à semelhança do que fez JESUS CRISTO com a metodologia comunicacional das parábolas. Boitempo Editorial. edição do governo de Sergipe). um ato de magistratura.8. misteriosamente. quando muito. No primeiro caso. portanto. também a nação faz a ponte entre o passado.) Pela mesma razão que a soberania é inalienável. 43 e seguintes: "Com efeito. e não é senão uma soma de vontades particulares.). É este o prevalente idioma jurídico-positivo da nação. pois é falando por princípios que o seu discurso normativo exorciza os fantasmas da caducidade axiológica ou de conteúdo. O inexistente vínculo entre "excesso de rigidez" e "Poder Constituinte Evolutivo" 2.. porque a vontade é ou não geral: é a de todo o povo ou a de uma parte dele. magistralmente: "a um povo não é lícito repetir ou imitar nem a si mesmo.) .7. esta vontade declarada é um ato de soberania e faz a lei. se não é impossível que uma vontade particular concorde em algum ponto com a vontade geral.7. comentários de LEANDRO KONDER. na Constituição. assim como os princípios estão para essa bíblia jurídico-positiva que é a Constituição. por sua natureza.6.1. inerente a todas as caricaturas" (em Estudos de Direito. Cada uma é todo o mundo a sós". porque a vontade particular tende.. cada nação é. Enfim. 109. Porém. p. ano de 1996).. tanto quanto é da natureza da vontade particular a busca dos interesses meramente privados. ou. I.

2. Se nos transferirmos do campo das cláusulas pétreas formais para os domínios das cláusulas pétreas materiais.1. e que tal preço é a freqüente mutação informal da Constituição. Código "Supremo". 2.. ou aditar uma cláusula pétrea substantiva. num sentido assim explicado por GOMES CANOTILHO: "A existência de limites absolutos é. que se faça das cláusulas de reforma constitucional o próprio fundamento para a sua modificabilidade (?). onde fica a identidade axiológica da Constituição? Onde ficam as principais "idéias de Direito" . Querendo dizer.1. ou seja. a revisão incidiria sobre as próprias normas de revisão. pela total supressão da norma ou das normas constitucionais instituidoras da rigidez formal! E sem a rigidez formal.. Revisão em dois tempos ou de dupla face. faz um cento". a começar por esta: se é possível reformar as próprias cláusulas constitucionais de reforma. a revisão far-se-ia de acordo com as leis constitucionais que alteraram as normas de revisão. porém. Lei "Fundamental". a Constituição muda freqüentemente de sentido sem que se alterem.permitimo-nos falar . a resposta para o excesso de rigidez (suposto excesso) é o excesso de desconsideração pelas cláusulas intangíveis da Constituição. com o fraseado. pois sem cláusula de rigidez formal a Constituição perde o controle do regime jurídico de suas emendas e. 1138).8. 5ª Edição. Norma "Normarum" e outras qualificações que somente se justificam por aquela supremacia no plano hierárquico? Pela não-completa submissão do Magno Texto à sanha reformadora do Poder Constituído? É o mesmo que perguntar: como prosseguir chamando de Constituição o que Constituição já deixou de ser. que o excesso de rigidez constitucional (quem faz o juízo de excessividade?) tem que pagar um preço. 1922. em virtude da eliminação da cláusula de intangibilidade operada pela revisão constitucional (.1. o fato é que o mecanismo da dupla revisão baralha inteiramente os campos de lídima expressão do Poder Constituído e do Poder Constituinte. caindo. É essa técnica da dupla revisão que nos parece o que há de mais atécnico. então a Constituição pode vir a perder até mesmo o seu caráter rígido.2.o neoconstitucionalismo passa a acoimar de "poder constituinte evolutivo" a própria e necessária processualidade das Constituições principiológicas. do seu próprio regime? 2.2. num segundo momento. Num primeiro momento. o raciocínio será o mesmo. contestada por alguns autores. os seus dispositivos. E com total ingerência do Poder Reformador nas cláusulas pétreas materiais. formalmente.8. 2ª Reimpressão. Almedina. por conseguinte. como preservar a superioridade hierárquica da Constituição sobre os demais espécimes legislativos? E sem tal superioridade. para facilitar as emendas e revisões constitucionais. como prosseguir chamando a Constituição de Carta "Magna". suprimir. E se isto não for o suficiente para adaptar a Magna Lei à emergência de novos valores sociais. Ainda que sob o color de mitigar o efeito "conservador" das cláusulas pétreas. à luz de uma depurada Teoria da Constituição.4. por isso mesmo. a ponto de suprimi-las. pois "cesteiro que faz um cesto. quer dizer.)" (em DIREITO CONSTITUCIONAL. p.1.8.8. Contraditoriamente . como inelutável conseqüência do seu "excesso de rigidez". eliminando ou alterando esses limites. as disposições consideradas intangíveis pela constituição adquiririam um caráter mutável. em contradições incontornáveis. Quem pode modificar.1. Desta forma. com base na possibilidade de o legislador de revisão poder sempre ultrapassar esses limites mediante a técnica da dupla revisão. Qual a solução que se entremostra na crítica ao "excesso de rigidez" e seu desaguar em mutações constitucionais do tipo informal? Dar às cláusulas pétreas uma interpretação light. cada vez mais soft.3. pode assim proceder com todas as outras.

As perplexidades se sucedem aos borbotões e o analista de pronto se pergunta: sem mais diques para represar o fluxo normativo do Poder Reformador. já está engolfado numa existência de crise).6. flexibiliza ali. como rotular de ideologicamente conservadora a função das cláusulas pétreas de tais diplomas? Tais cláusulas operam. no exercício da função reformadora. Não fiquemos por aqui. Como penhor de não-retrocesso das conquistas jurídicas a que democraticamente se chegou. 2. como ficaria a idéia de limite formal.1.8. Se se permitir ao Poder Constituído. como ainda conceituar a Constituição enquanto o mais estável dos documentos legislativos de uma Ordem Jurídico-Positiva? Como abrir mão das normas . ter-se-ia algo assim como o sentenciado criminal a dizer como. passando ele a ab-rogar a Magna Lei estará "destruindo o fundamento de sua competência"). Ou. Ora. como visto. foi estabelecido o pretenso excesso de rigidez.8.1. justamente. que singularidade restaria para uma Constituição que se tornou gato e sapato nas mãos do Poder Reformador? Sem mais nenhuma norma-de-fronteira que não provenha desse mesmo Poder Reformador"? 2. E a se trabalhar com esta hipótese.8. mas não se dá o mesmo nome a um Poder Reformador que se irroga a força da mutação formal dessa mesma Carta. tudo fazer da originária Constituição (dizemos "tudo". a cargo de um Poder contra o qual. 2. É necessário ter cuidado com as palavras.(GEORGES BURDEAU) que serviram de mote à faina constituinte?18 2. precisamente.7.. 2. toma gosto no ofício e já não estaca por conta própria). que é uma das mais visíveis impressões digitais do Magno Texto? A sua principal função ou o primeiro dos seus históricos e lógicos diferenciais? Aquilo que é o próprio charme. onde e por quanto tempo se disporia a cumprir sua pena.10. sendo o Poder de Revisão uma criatura da Constituição. aquele contra o qual existe a rigidez formal da Constituição está positivamente autorizado a medir o tamanho dessa rigidez? A avaliar o teor de razoabilidade.8. Fora disso. evidentemente que pode se arrepender e voltar a petrealizá-la. Não. Fingindo-se ignorar a grande distância que separa uma interpretação mais à solta da Constituição (porém nela mesma fundamentada) daquele ato legislativo de intervenção formal no Texto Magno. o glamour. quando menos.1. para superar a idéia de autolimitação jurídica do Estado? Para impor ao Estado (com seu poder reformador e tudo o mais) balizas de trás para frente e de fora para dentro? Exógenas. como garantia do avanço então obtido. o vigiado a determinar o tipo de armamento e o horário de ronda do seu próprio vigia (é também de BURDEAU a lembrança de que. claro. ou de proporcionalidade da contenção legislativa que lhe é imposta? A todas as luzes.5. o sex-appeal de um Diploma que surgiu. Até porque é possível refundir uma cláusula pétrea para adensar o teor de proteção dos valores nela albergados. Diga-se mais: quem pode despetrealizar a Constituição.9.. e a forma jurídica de a nação avaliar tão global quanto radicalmente as coisas é a Constituição originária (assim como é exclusivo da nação dizer que o País.8.1. mais que vivenciar uma situação de crise de existência. mas indo além dos limites a ele originariamente impostos.8.1. em verdade. quem flexibiliza aqui.8. para seguir inverso roteiro. Que paradoxo! Chama-se pejorativamente de Poder Constituinte Evolutivo a mutação informal da Constituição. não! Esse tipo de juízo é exclusivo da nação. então? A significar o único momento em que o Direito se subtrai ao Estado? Em que o Direito se torna maior do que o próprio ente estatal? 2.1. Se é próprio do Poder Constituinte democrático produzir constituições avançadas (pode-se dizer o contrário?). pois.

os nossos bailios ou algum dos nossos oficiais. e.12.1. terras e propriedades e utilizando quaisquer outros meios ao seu alcance. logo que tenha havido reparação. deixarmos de respeitar essas liberdades em relação a qualquer pessoa ou violarmos alguma destas cláusulas de paz e segurança. se "não há Constituição sem supremacia e não há supremacia sem sua proteção"?19 2. O uso da idéia do "Poder Constituinte Evolutivo" como contradiscurso constitucional 2. uma Constituição pra valer (e só é pra valer na medida em que petrealizada). apoderando-se dos nossos castelos. A Teoria do Poder Constituinte foi o que de mais revolucionário ocorreu no pensamento jurídico de todos os tempos e o fato é que ela já não serve aos propósitos socialmente retrocessivos do neoliberalismo.8. coloca-se como o mais lógico obstáculo ao desmonte do Estado Social que as Leis Maiores do Ocidente erigiram. incumbidos de defender e observar e mandar observar a paz e as liberdades por nós reconhecidas e confirmadas pela presente Carta.8. mas sem ofenderem a nossa pessoa e as pessoas da nossa rainha e dos nossos filhos.. que os barões elejam livremente um conselho de vinte e cinco barões do reino.2. deixa de revelar estima pela sua obra e não induz o povo. e à petição será dada satisfação sem demora. poderão embargar-nos e incomodar-nos. se o Constituinte não anuncia que está a produzir uma Constituição garantida. a contar do tempo em que foi exposta a ofensa. de 15 de junho de 1215.1. apontando as razões da queixa. Não inculca no povo uma estima ou um sentimento de Constituição. E qualquer pessoa neste reino poderá jurar obedecer às ordens dos vinte e cinco barões e juntar-se a eles para nos atacar. Antes. 2.) Considerando que foi para honra de Deus e bem do reino e para melhor aplanar o dissídio surgido entre nós e os nossos barões que outorgamos todas as coisas acabadas de referir. até ser atendida a sua pretensão. Um contradiscurso constituinte. e não impediremos ninguém de fazer idêntico juramento". se estivermos ausentes do reino. no caso de estarmos fora do reino. em qualquer circunstância. Certamente precursora desse vínculo necessário entre a supremacia da Constituição e os mecanismos garantidores de tal supremacia é a própria "MAGNA CHARTA LIBERTATUM".8. a praticá-la. os mesmos quatro barões apresentarão o pleito aos restantes barões. cuja parte final está assim redigida: "(.. 2. Ora. a petição não for satisfeita dentro de quarenta dias.11. juntamente com a comunidade de todo o reino (communa totiu terrae). concedemos e aceitamos. e da ofensa for dada notícia a quatro barões escolhidos de entre os vinte e cinco para de tais fatos conhecerem. pensamos que a válvula argumentativa do "Poder Constituinte Evolutivo" intenta disfarçar aquilo que na verdade sucede com a reteorização do Magno Texto e do Poder Constituinte: uma contra-revolução dogmática.8. a partir da Constituição do México de 1917 (imediatamente seguida pela . Lá pelo fundo das coisas ou por trás dos bastidores (como soem falar os jornalistas). e os vinte e cinco barões. a nossa justiça. e nós damos pública e plena liberdade a quem quer que seja para assim agir. para sua garantia. para a nossa justiça.constitucionais de autodefesa autogarantia (papel instrumental das cláusulas pétreas). Para que ela se torne a própria condição da montagem de um Ordenamento que tenha na segurança das relações humanas o seu valor fundante por excelência. e se nós. e se por nós ou pela nossa justiça. eles obedecer-nos-ão como antes.1. ipso facto. e querendo torná-las sólidas e duradouras. tão necessário para que ela se torne uma instituição viva.2. estes apelarão para nós ou.

8. inação do Estado como condição de império do valor da liberdade e da cidadania. Aqui. Porém.8. nada mais natural que seqüenciar a faina constitucional de impor limites a toda forma de poder que implicasse dominação política e exploração econômica das massas. Se é verdade que os dois valores básicos entretecem relações dialéticas. as liberdades fundamentais não passam de ornamento gráfico na tessitura formal dos dispositivos constitucionais. mediante lei. Uma normação apenas retórica ("simbólica". desmanietação desse mesmo Estado frente aos proprietários dos bens de produção. que se perfilou ao lado da liberdade e da fraternidade como bandeira de luta da própria burguesia revolucionária do século XVIII. sem um mínimo de igualdade nas relações sociais de base (aquelas que definem o verdadeiro perfil da vida coletiva). Logo. na prática). outra. b) por outro. entregue a si mesmo. esse terceiro leit motiv da burguesia ascendente do final do século XVIII. não havia (e não há) como impedir os fenômenos corrrelatos da concentração de renda e da exclusão social. sem essa limitação.8. Ali. autóctones e alóctones. Recorde-se que o liberalismo triunfou sobre o absolutismo porque limitar o poder político era (e é) a própria condição de defesa da liberdade e da cidadania. pois o poder é coisa que não se amplia ou não se reforça. preservação das conquistas liberais dos indivíduos e dos cidadãos contra o Estado. a imprescindível postura intervencionista e dirigente se traduzia em mais um limite real. assumisse postura intervencionista e dirigente em favor dos trabalhadores em particular e dos consumidores em geral.2. por efeito de uma Constituição que. Sobremais. de que a doutrina de SIEYÈS foi uma espécie de arremate jurídico. É explicar: para sair da democracia liberal para a social democracia. ferido de morte ficaria (como fica) o princípio da igualdade.4. segundo a qual todo aquele que detém o poder tende a abusar dele. Acrescente-se: longe de significar uma ampliação do poder estatal. todo Estado liberal cai nos braços do poder econômico para formar com ele a mais desumana das parcerias (a opressão política a atar o seu corpo à exploração econômica). 2. A luta político-jurídica foi sem tréguas e o constitucionalismo social veio a significar: a) por um lado. então. diria MARCELO NEVES).2.2. cada povo soberano teve que recorrer a uma nova manifestação formal do seu Poder Constituinte (salvante a nação norte-americana.20 2. sem . instrumento que é de prepotências e iniqüidades de toda sorte. A razão e a consciência humana assim o proclamavam (e proclamam). sem maior contradição no aproveitamento das teorizações do Iluminismo. Matéria-prima explosiva. ação estatal para a realização do valor da igualdade.8.3. numa economia típica de mercado. pois que.Constituição Russa de 1918 e pela Constituição Alemã de 1919). Valores de cujo indissolúvel casamento nasce a fraternidade. era preciso fazer avançar o movimento racional e consciencial do constitucionalismo. simplesmente porque o poder não tem alma). levando-o também a limitar o poder econômico.8. Justamente ela. pela sua própria natureza (para além da famosíssima advertência de MONTESQUIEU. 2. lastreia um tipo de Direito mais fortemente judicialista do que legalitário. É repetir: sem a limitação do poder econômico ou a aplicação de medidas saneadoras do mercado. é sair de um Constitucionalismo social para voltar ao liberal. Uma coisa é partir de um Constitucionalismo liberal para um Constitucionalismo social.6.5. a igualdade. e. se já não se convoca uma nova Assembléia Constituinte e se já não se reteoriza a própria força constituinte. 2. por influência do modelo britânico de Ordenamento Jurídico. 2.2.2. para que ele. BOBBIO esclarece que prefere a expressão "vulto demoníaco do poder" a "alma demoníaca do poder".2. para desancá-la. É que.

2. O mais curioso ainda é que uma parte dos defensores da interpretação light ou abrandada das cláusulas pétreas está convencida de que esse tipo de exegese tem o mérito de colocar a própria Constituição a salvo de uma quartelada. à medida que é mais compassiva ou solidariamente dividido. uma aventura armada. Como observou JOHN KENNETH GALBRAITH reconhecidamente um dos maiores economistas do século XX. Receosos da cobrança que a sociedade política certamente lhes faria quanto a essa esdrúxula idéia de que. uma rede de segurança eficaz ..aos que vivem nos limites inferiores do sistema. ou abaixo deles. ou. O bolo da riqueza nacional tem uma lógica peculiar que o faz crescer. Hoje está claro que os Estados Unidos exercem uma liderança mundial negativa nesse sentido. Isso é humanamente essencial.7. do que a falta absoluta de dinheiro. Desfazer conquistas sociais já representa arejamento das Constituições. portanto. principalmente na área do capital financeiro-especulativo (o pior vilão do final do século XX e do início deste milênio). agora. desobrigar e até proibir o Estado-nação do controle de sua própria economia. já representa para os países emergentes uma participação igualitária ou descolonializada na economia de mercado dos países tradicionalmente centrais. maior a cota de liberdade concreta de cada qual desses contingentes. Nada estabelece limites tão rígidos à liberdade de um cidadão quanto a absoluta falta de dinheiro.apoio individual e familiar . Temerosos os novos teóricos da Constituição do debate aberto com a nação.) É preciso haver. essa passagem do constitucionalismo liberal para o social. fazê-lo de mãos dadas com a coordenação e a proteção da política nacional social e de assistência"..2. porque a favor da vida (como tudo que decorre do trabalho a quatro mãos da consciência e da razão humanas). Viagem sem volta. e também necessário para a liberdade humana. Enfim.dúvida que a primazia é para a igualdade (cuja essência está numa aproximativa distribuição de patrimônio e de renda).8. da qual reproduzimos estas preciosas considerações: "O sistema de mercado distribui a renda de forma altamente desigual. 2. 2. no entanto. O internacionalismo vai avançar. nada mais restringe a liberdade.. pois é muito mais plausível um povo igual vir a desembocar numa sociedade libertária real. E quanto maior o número de contingente de pessoas aproximativamente iguais. seguridade social e boa assistência à saúde são reconhecidamente uma parte da resposta. Mas tampouco pode haver um internacionalismo insensato que sacrifique as conquistas sociais do último século. continuamente. um golpe militar ou coisa que o valha. Como se a desnaturação. no sistema capitalista. E também um imposto de renda decididamente progressivo... e não no cenáculo ampliado do Poder Constituinte. E viagem sem volta. pior . Concordamos com isso. e as que ainda são necessárias. acima de tudo. é que seu desfazimento no bojo do Estado neoliberal está a se verificar no forum restrito do Poder Reformador. Retornar a uma genérica situação de exclusão econômica das massas despatrimonializadas e sem renda minimamente decente (este o invariável déficit social da contabilidade liberal do século XIX e do primeiro quartel do século XX) já sinaliza o definitivo ingresso "na era da modernidade". É o que se lê em alentada conferência que a Folha de São Paulo transcreveu às pp. edição de 20 de dezembro de 1998.. recuar já significa avançar. um salário mínimo humano.8. E porque a favor da vida. deve. "(. 4 e 5 do seu caderno "MAIS". do que um povo livre vir a desembocar numa sociedade igualitária de fato.8.) Não há possibilidade de um compromisso estreito com a nação-Estado. numa mesma sociedade. "(. Uma organização sindical forte e eficaz.

Deveras.2. ele teria a possibilidade de se assumir como coveiro da Constituição que o fez nascer e aí privaria de sentido a própria e verdadeira função constituída. como aquele preciso poder de fato que a Constituição quis evitar.9. pra não ser morta. sob o título de "A Reforma Constitucional e sua Intransponível Limitabilidade": "Se o poder constituído pudesse a qualquer momento se travestir de poder constituinte. porque. 2. Afinal. A superação da idéia de autolimitação como fundamento da sumissão do Estado a deveres 2. A questão não é nova em nossa própria elaboração teórica. como. capítulos e demais técnicas legislativas de agrupamento lógico-operacional de temas afins. O Poder Constituinte é o Poder Constituinte e o Poder Constituído é o Poder Constituído. como bem o disse o constitucionalista argentino REINALDO VANOSSI. por exemplo. Nunca a opção por conteúdos. O Poder Constituinte como o poder que pode o mais sem poder o menos. a roupagem linguística.2.1.). se ela já não sobrevive às ações de nenhuma das duas tipologias de constituicidas (metonímia do vocábulo "constituicídio". As fronteiras que separam as duas categorias têm que ser fixas. Não flutuantes.1. ano de 1994)? 2. uma nova distribuição de títulos...9. pois o raciocínio técnico.9. para a Magna Carta. e como sairia aparelhado esse poder de reforma? Sairia aparelhado com a energia assassina de poder se assumir. mesmo naquelas hipóteses em que a Constituição autorizasse a sua total reforma. a supressão pura e simples de uma cláusula pétrea não fosse por si mesma um golpe. Por dedução. na matéria. Todo este nosso esforço analítico é para dizer. Que paradoxo então se apresentaria aos olhos incrédulos do estudioso dos fenômenos político-jurídicos! A Constituição originária criaria um poder cuja função seria a de reformá-la para que ela não perdesse a atualidade e assim atualizada pudesse inibir o surgimento de um poder de fato que a retirasse do mundo dos vivos. aí. ou o Poder Constituinte impõe a si próprio um campo exclusivo de atuação. Esse paradoxo não deixaria de se configurar. e o Poder Constituído como o poder que pode o menos sem poder o mais 2. é o que . tal autorização de reforma global só pode ter de global a possibilidade de opção por uma nova estrutura formal da Constituição. alternando a seu gosto os planos do ser e do dever-ser. pela inescapável distinção entre o poder constituinte e o poder constituído. a renumeração de dispositivos. Não pode fugir da radicalidade. a todo instante.9.. procedimentos e valores que tornassem a Constituição autorizante um zero à esquerda. que é. que diferença faz entre golpeadores assumidos e golpeadores enrustidos. É que.1. publicado às pp. não pode deixar de ser maniqueísta.8. fora daquele mencionada espaço preambular da Constituição (." 2. mesmo quando este venha a operar sob as vestes de um Poder Reformador. que vimos em estudo da lavra de PAULO MODESTO.ainda. 76/78 da Revista de n° 5 do Ministério Público da Bahia.9. a de impedir o surgimento de um poder revolucionário. pois sobre ela assim já nos pronunciamos em estudo simultaneamente publicado em Espanha e Portugal. ou perde a razão-de-ser da sua autonomia conceitual.1.. aristotelicamente: "cada coisa em seu lugar". o poder constituinte estaria a normar sobre ele mesmo (e não sobre um poder simplesmente constituído).

sem perder de vista nenhum dos dois aspectos. Ou ela possui a força de fazer algo sozinha. Petrealidade necessariamente dúplice.1.22 2. toda limitação a ele imposta não passaria de autolimitação.4. Indisputavelmente. 2. posicionando-se como condição e garantia destas últimas (do que deflui o descarte da astuta revisão constitucional em dois tempos. no entanto. Privando-se. mas não a potência para trocar essa Constituição por outra. O charme. se a Constituição fosse obra do Estado. pois ele significa a força de elaborar a Constituição. Malheiros Editores. Não fosse para o cumprimento desse prioritário papel de dobrar a cerviz legislativa do Estado. a não ser no sentido puramente material de conjunto normativo que se refere "aos órgãos superiores e às relações dos súditos com o poder estatal".9. ainda há pouco mencionada). tenha por principal função metodológica a de manter essa peculiaridade.1. mais propedêutico.1. então. Não são meras palavras. que é o sentido formal.9. a qualquer momento.2. pois é dessa diferenciação que decorre todo o prestígio dogmático e sociológico da Constituição. 2. citando HANS KELSEN (p.9. claro.5. Bater nessa mesma tecla é o que há de mais didático.7. E desconsiderar essa lógica estrutural do pensamento político e jurídico é assim como sobrepor à realista afirmação de que contra fatos não há argumentos o alienante juízo de que contra argumentos não há fatos. E o Poder Constituído? É e sempre será o poder de fazer o menos sem nunca chegar a fazer o mais. mas não a aptidão para reformá-la. conforme se lê em PAULO BONAVIDES. O Poder Constituinte e sua força de mesclar valores jusnaturalistas e valores positivistas .9. mais profilático nos quadrantes da Ciência Política e da Ciência Jurídica.1. 6ª edição. tudo procede do fato de que somente ela pode impor eficazes limites a quem pode impor eficazes limites à população. 64 da obra "CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL". 2. E o Estado que se autolimita encontra em si mesmo o fundamento lógico de sua autodeslimitação. mormente o Estado. E como impor eficazes limites a quem pode impor eficazes limites à população. É desaprender a lição da História e reexibir um filme cujo tenebroso final já se conhece.9.9. Qual a conseqüência teórica de um Estado que se autodeslimita a qualquer instante? O reconhecimento de que a Constituição desse Estado não é filha unigênita do Poder Constituinte coisa nenhuma. de que falamos antes.6. mas toda uma lógica elementar que subjaz a essa intransigente distinção entre o que é constituinte e o que é constituído.1.9. único mesmo. com absoluta exclusividade. é pela sua força única de se impor ao Estado que a Magna Carta pode transitar das suas cláusulas formais de intangibilidade para as cláusulas materiais igualmente irreformáveis. no sentido de que ele detém a competência para reformar a Constituição. pois só cabe falar de unigenitariedade jurídica se se está diante de um modelo prescritivo que. Aquelas. se a Constituição já não provém de um poder capaz de dar a última palavra em matéria de limitação mesma? Afinal. O Poder Constituinte é e não pode deixar de ser o poder que pode o mais sem poder o menos.8.1.3. nascido e reformável por um processo peculiar. começando pelas cláusulas formais e terminando pelas materiais. 2. Contra tudo e contra todos.sucede com a Magna Carta. 1996). 2. o glamour o sex-appeal da Constituição. jamais o nome "Constituição" passaria a verbete do vocabulário jurídico-positivo. do sentido que mais conta para uma científica elaboração do conceito de Constituição. ou decai da condição de documento jurídico supremo.21 2.

quando se permite ao Estado tudo se permitir.2. 2. Do quanto de objetivo pode se conter na Justiça como ideal de convivência humana. E como já se sabe que os inimigos figadais do justo-racional são esses dois poderes . por tabela. perguntamos: Qual o documento jurídico-positivo que melhor espelha a idéia de estabilidade em que a Ordem se traduz? O diploma que mais duradouramente lança as regras elementares do "contrato social". do justo ditado pela reta razão.9. Nenhum outro modelo jurídico-prescritivo serve melhor a essa idéia central do justo acima de qualquer suspeita. Esta.3. porém no valor objetivo da Ordem (que outros chamam de Segurança). foi em atenção ao maravilhoso fato de que só a Constituição se tornou um definitivo ponto de encontro entre o postulado positivista da Ordem e o axioma jusnaturalista "da Justiça que advém da reta razão". 2.e que agora o mundo ocidental passa por uma obscurantista fase contra-revolucionária -. E esse papel axial só pode recair sobre a Constituição. com total objetividade.o poder econômico e o poder político -. E a a fórmula operacional é simples. acresça-se. que ações humanas concretizam ou materializam o ideal do Justo. do poder econômico. outra vez).2. ou do Bem Comum (devido ao carregado teor de subjetividade desses ideais). exatamente como da Ordem falava KELSEN? Claro que esse diploma normativo é a Constituição! Não pode ser outro! 2. e. do "justo por si mesmo" (GEORGES BURDEAU. como desenganadamente são a opressão política e a exploração econômica. perfeitamente possível dizer que ações humanas são protuberantemente contrárias ao referido valor. quais os conteúdos positivos da Justiça.2. é.9. ao lado dos mecanismos realizadores do princípio da Separação dos Poderes. Se não é possível dizer.que ações o Estado não pode praticar perante os indivíduos e os cidadãos (postulado advindo do pensamento liberal e que. . de fato. no entanto.2.2.9. aquela. Vale dizer: sabe-se perfeitamente bem que determinados modos de agir são a negação mesma da Justiça.9. Então. limitar a ambos já significa fragilizar quem mais fragiliza aquele ideal de Justiça. é o que de mais garantido se pode obter em defesa da Justiça.9. Combater os que mais combatem o justo por si mesmo. o balizamento em si do Estado.4. A Constituição melhor realiza a idéia do justo por si mesmo na medida em que pode dizer: I . na medida em que se lhe reconheça o laço unigênito que a prende ao Poder Constituinte. a reduzir cada vez mais os espaços de inclusão popular na riqueza material do País. 2. II . E. se o valor fundante do Direito não está nos valores da Paz. De outra parte. se se põe como valor fundamental do Direito o postulado jusnaturalista do justo-racional. o seu oposto ou contravalor. para não deixar que o Mercado passe de motor da História a mentor dessa mesma História).que ações o Estado tem que praticar perante o poder econômico (postulado oriundo do pensamento social-democrata.5. Um modo de se resguardar a Justiça pelo direto gradeamento da toca dos lobos. é ainda a Constituição o documento-símbolo por excelência.2. tem por objeto impedir os abusos do poder político). de modo a permitir a todos o conhecimento antecipado das conseqüências objetivas das próprias ações. Ambas de incidência fatal.1. a também sistematicamente encurtar os espaços de influência da população nos processos de tomada de decisão e funcionamento do Estado. Quando dissemos que a Magna Carta significou a maior revolução jurídica de todos os tempos .2. de que ações efetivas depende a convivência em bases justas. ou da Justiça.

o seu campo divisional operativo. E assim altaneiramente postada. Está aí a demonstração de que somente a Constituição pode se colocar enquanto ponto de convergência do que o juspositivismo e o jusnaturalismo têm de mais característico.9.6. pela sua essencialidade. isto é.2. É igual a concluir: mais que até mesmo balizar. porque o balizamento é a sua natureza. resumindo em si a estratégica função de limitar o Estado e o poder econômico. mais do que se tipificar pelo papel de balizar o Estado (a contenção do poder econômico vem por gravidade).2. . O Código e sua principal função. a viva consubstanciação desse balizamento. a Constituição é a síntese possível. Por isso que.7. Não pode deixar de ser. a Magna Lei tem nessa limitação a sua própria causa formal. a encarnação mesma.9. a sua medula. passam a compor uma só realidade. 2. já no próximo capítulo. a Constituição é balizamento. O tema que mais caracteristicamente recheia o conteúdo de suas normas. conseguintemente. Aquilo que melhor define a sua requintada funcionalidade.23 Assunto a retomar. a Magna Carta se confunde com a própria função principal que lhe cabe cumprir.2.

as leis ordinárias e demais atos de formação da vontade normativa primária do Estado1). nascido de um Poder Constituído.1.1. Se o poder é exercitado por órgão do Estado.3. querendo.8. A Constituição como critério de classificação de todo o Direito 3.7. Não existe esse Poder Constituinte Derivado. uma nova ilação é de ser feita: a Constituição é um divisor jurídico de águas. mas sempre com a virtualidade de operar no atacado.1. no global. Por isso mesmo é que somente ele é que irrompe no cenário político para a epopéia jurídica do começar tudo de novo. apelidado por boa parte da doutrina como Poder Constituinte Derivado. por inteiro e de uma só vez.6. nascido do Poder Constituinte. é porque não é constituinte (JORGE MIRANDA). as leis delegadas.5. discriminado este em Poder Reformador (o que revisa. Forma de atuar. 3. desconstituir por inteiro o Estado preexistente). A Constituição e a fuga de suas normas a exame de validade 3. E sendo estatal. então de poder constituinte já não se trata. Como tantas vezes dissemos.1. se é um poder derivado. Com esta afirmativa de que o Direito pós-Constituição é sempre a manifestação de um Poder Constituído. A compulsão da rigidez formal da Constituição 3. mas não criar um Estado zero quilômetro.4. O fundamento supra-estatal e suprapositivo da Constituição 3. E sem esse poder de plasmar ex-novo e ab novo o Estado (que é o correlato poder de desmontar. nesse ou naquele aspecto. A Constituição como atestado de efetiva soberania nacional 3. ou o que emenda a própria Constituição) e Poder Legislativo usual (o que elabora as leis complementares à Constituição. no sentido de que há um Direito-Constituição e um Direito pós-Constituição. nele efetivamente se transfundindo e formalizando-o numa Constituição.1.3. o segundo. mais concorrem para demarcar os espaços de radical separação entre ela mesma e os atos de sua reforma. A Constituição e sua retroeficácia de dupla face: em abstrato e em concreto 3. ou seja. Neste capítulo. A Constituição como critério de hierarquização das próprias normas constitucionais 3.4. ainda que para o fim de reformar a Constituição. 3. indicaremos aquelas especificidades da Constituição que.filha unigênita que é do Poder Constituinte -.Capítulo III . o verdadeiro e único Poder Constituinte é um poder de construção e ao mesmo tempo de demolição normativa.1.2. pela consideração elementar de que. o máximo que lhe cabe é retocar o Estado. O ponto inicial do novo estudo é precisamente a parte em que o capítulo anterior foi concluído.2. a primeira classificação que se faz sobre o Direito legislado é com os olhos postos na Constituição. O que dissemos ali reafirmamos aqui: a sociedade política ou nação é a única a experimentar o Poder Constituinte. mesmo que tal Direito se expresse por atos de reforma da Magna Carta. negamos o que em outros estudos afirmáramos: a existência de um Poder Constituinte de segunda geração ou de segundo grau.1. A Constituição como critério de classificação de todo o Direito 3. a nosso ver. O primeiro. 3. de sorte . Como a Constituição não pode deixar de se por na linha de partida do Direito . A Constituição como a lei das leis 3. é porque sua ontologia é igualmente estatal. de ponta-a-ponta.As Especificidades da Constituição Sumário 3.

3 3. o Poder Constituído é um Poder que pode o menos (modificar a obra do Poder Constituinte). Mais até: se toda Constituição é um repositório de normas constitucionais. porque pleonástico ou redundante) como o poder de elaborar normas constitucionais.10. Se o verdadeiro e único Poder Constituinte é um Poder que pode o mais (elaborar a Constituição). mas sem poder o mais (trocar uma Constituição por outra). no fundo. A Constituição (e não suas emendas ou revisões) a se postar como inafastável critério de classificação de todo o Direito. e quem reforma a Constituição está impedido de editá-la.1. e não toda a árvore. da grande árvore jurídica. pois aquele que só existe para fazer o todo não pode fazer a parte e aquele que só existe para fazer a parte não pode fazer o todo (evidência palmar).5. Mas sempre na condição de um Poder Constituído.2 3. O que se divide em público e privado é o Direito pós-Constituição. pela sua fundamentalidade). Só que essa parte do fenômeno jurídico-positivo. o Poder Reformador é o poder de constituir tão-somente normas constitucionais. Mais enfaticamente: se o Poder Constituinte é o poder de constituir a Constituição não apenas normas constitucionais -. que já e um Direito elaborado pelo legislador constituído: Direito Administrativo. ou por revisão. mas sem poder o menos (reformar a sua própria obra legislativa). nem todo repositório de normas constitucionais é uma Constituição (basta que lembremos as normas transitórias que se veiculam por emenda.1. Ora atua como produtor de normas gerais não-constitucionais (porque não destinadas a mexer na Constituição). que já é uma função de atualizar. Não para a função auxiliar do retoque na Constituição vigente.1. 3. Donde a nossa afirmação de que o Direito legislado principia pelo Direito-Constituição e prossegue com o Direito pós-Constituição. É o segmento não-constitucional-originário do Direito.7.8. ora atua como produtor de normas gerais constitucionais (porque destinadas a reformar a própria Constituição). O que esse Poder elabora é a Constituição (reiteremos o juízo. 3.a trocar uma Constituição por outra e assim dar à totalidade do Ordenamento Jurídico um novo fundamento de validade. Não é.6. já se põe como contraponto do Direito-Constituição. e não dentro dele). porque estatal e positivamente exercitado. Se toda norma contida em dispositivo da Constituição originária é norma constitucional. como realçado no capítulo precedente. Quando os jurisperitos bifurcam o Direito legislado em público e privado. Direito Civil. o Poder Constituído é também ambivalente. porque normas constitucionais o Estado também produz. incorrem no erro (venia concessa) de tomar a parte pelo todo.1. Tudo a espelhar: quem edita a Constituição está impedido de reformá-la. no uso do seu poder reformador.1. Direito Penal. apenas. Uma parte. Não-simplesmente normas constitucionais. Direito Tributário.e daí em ramos públicos e privados do Direito -. categorizar como Poder Constituinte Derivado o poder de reforma da Constituição é cair numa ilusão de ótica: ver o Poder Constituinte Originário (o vocábulo "originário" é até dispensável. Se o critério de classificação dos ramos jurídicos em públicos e privados é a . É do nosso pensar que. nem toda norma constitucional é norma contida em dispositivo da Constituição originária.9. mas em um outro sentido. 3. que são normas destinadas a vigorar de forma paralela ao Magno Texto. Não a Constituição. Na sua função de atuar debaixo da Constituição. 3.1. antes de comportar segmentação interna em províncias ou setores . mas não de substituir o fundamento de validade do Ordenamento por inteiro. Direito Comercial e demais "províncias" ou setores cientificamente autonomizados do Direito.

é preciso tocar nas suas normas com a delicadeza de quem lida com peças de cristal. 3. não se recusa aos atos de reforma constitucional a força de se incorporar ao documento reformado.1. é quase sempre repetir o fenômeno que decorre de se colocar. porém diz mais que o somatório de suas palavras. ou seja.12. o que era a riqueza de um poema fica rebaixado à pobreza de simples vocábulos. 3.nítida vertente que eles ostentam para compor relações.2. pois nele ainda contam os intervalos. na exata disposição de cada verso e de cada estrofe na ossatura do conjunto. Permutá-las. substituí-las. É que ele tanto contém segmentos normativos de favorecimento das pessoas privadas perante aquele que simboliza os imediatos interesses da sociedade (e essa contraparte é a pessoa jurídica do Estado.1. Ele ainda engloba as normas de reforma constitucional e o fato é que essas normas não têm a mesma hierarquia da Constituição. ora de tratamento favorecido daquela parte que simboliza os imediatos interesses da sociedade (Direito Público).2. a Constituição. O que nos estimula a formular a proposição de que o Direito Constitucional é ramo jurídico. seccioná-las. como tantos outros. que é uma coisa viva ou em movimento. mas não o de chegada. hipoteticamente. lógico. como a Constituição. enfim. mais do que perante qualquer outro diploma jurídico. E tudo isto quer dizer que o poema. que é uma coisa morta ou sem mobilidade própria. fala pelas palavras nele grafadas e ainda fala por palavras que nele não foram grafadas. um pouco de qualquer das ondas do mar em um balde: a onda removida perde instantaneamente a qualidade de onda. o poema é o somatório de suas palavras.2. Conforme dissemos em nota de rodapé. a serviço da mesma causa. não há como dizer a que bloco pertence o Direito Constitucional. Ela é mais que o resultado do ajuntamento linear das suas partes. desde que veiculem .11. Ela consubstancia um tipo tão articulado de unidade que faz lembrar a composição e o sentido de um poema.2. tais palavras somente conservam íntegro o seu papel de servir a uma obra de arte se permanecerem no contexto da poesia e no exato lugar em que se encontrem. sim. Mudam-se algumas de suas partes para que o todo prossiga idêntico a si mesmo.1. as entrelinhas. A Constituição como critério de hierarquização das próprias normas constitucionais 3. e passa à condição de simples água salobra. O verbal a conviver com o não-verbal. a Constituição deve permanecer inteira em sua quintessência. mas que se faz silêncio mesmo para poder melhor dizer. a ponto de mais adiante demonstrarmos que. 3. porém nem rigorosamente público nem privado. o silêncio que já não traduz a intenção do nada-dizer. No caso da poesia. Enfim. ora de tratamento paritário dos interesses das partes (Direito Privado). seja qual for o ato de reforma constitucional. lato sensu) quanto o inverso. justamente. é verdade. cumprindo o não-verbal o papel do silêncio-eloqüente. destacá-las do conjunto. Tanto não têm que se assujeitam a exame de validade perante. Se este se constitui de palavras. a teia invisível que vai de uma vocábulo a outro e de uma expressão a outra. Ante a Constituição. Centremos agora as nossas atenções investigativas na distinção entre a Carta Magna e o Direito Constitucional como um todo. Adicione-se a esta particularidade (a de ser o Direito Constitucional infenso às categorias do público ou do privado) mais uma nota específica: a Constituição é documento normativo tão singular que não se confunde nem mesmo com o somatório mecânico de suas normas. porque o Direito Constitucional como um todo tem na Constituição o seu necessário ponto de partida. 3.

nunca é demais enfatizar . da especialidade material (a lei especial revoga a lei tematicamente geral. e. 3. ou complementação. 3. Eles não podem se autoexcluir do controle de constitucionalidade e isto já comprova que o seu modo de entrar no santuário da Constituição é sempre condicionado. mas não o contrário). menos altivo. ou de Direito Processual e Código Processual.2. 3. (pense-se na intocabilidade das chamadas "cláusulas pétreas". Fora do Direito Constitucional. os códigos por acaso existentes. que somente depois de passar pelo crivo jurisdicional de validade é que todo ato de reforma constitucional ganha o status de norma de primeiro escalão jurídico. a Constituição é a parte superior desse ramo jurídico. ou de Direito Mercantil e Código Mercantil. não têm o seu regime jurídico ditado pelo código mesmo. à falta de hierarquia entre os respectivos comandos legais. por conseqüência. se constituem a parte central de tais ramos. Esse condicionamento ou essa precariedade de inserção no Magno Texto não significa. porque esse tratamento nominal diferenciado não tem a menor relevância interpretativa. tudo se encarta de modo igualitário numa única província jurídica. Se tal ocorresse. Coisa que não existe em nenhum outro ramo autonomizado do Direito. sem a necessidade de nova manifestação formal do Poder Reformador. 3.3. Mas se trata de uma incorporação normativa sempre a título precário. mais que segmento central do Direito Constitucional. Aqui. as emendas e revisões constitucionais se privariam daquilo que nem às leis comuns e aos demais atos oficiais do Poder Público é recusado: a presunção de juridicidade.5. As eventuais antinomias normativas se resolvem pelos conhecidos critérios da posterioridade (a lei mais nova prepondera sobre a mais velha). ou. Leis extravagantes.6.2. Nos outros ramos jurídicos. ou da especialidade de assunto.8. que. todavia. E repercute. verbi gratia) ou se expõem à declaração judicial de invalidade. Mantém com ele o mesmo tipo . Seja qual for a hipótese de desaplicação ou de desconsideração operacional do ato de reforma. ora para um determinado caso (pelo trilho do controle difuso). pela cristalina razão de que as eventuais antinomias entre a Constituição e as normas constitucionais que lhe sejam posteriores já não se resolvem por aqueles dois critérios da posterioridade do espécime normativo. verbi gratia. Ora de forma definitiva (pela via do controle concentrado). Não é esse o modelo de compreensão da dualidade temática Direito Constitucional/Constituição. de superioridade hierárquica frente às leis extravagantes (assim designadas por vagarem a latere do código).2. 3. nascidas posteriormente ao código. então. não gozam.normas permanentes. ou seja.2. É incorreto falar-se de qualquer dos códigos infraconstitucionais como lei das leis de sua própria reforma. O critério dirimente é um só.2.7. porque sindicável a todo instante quanto à sua validade. assim. e ele é de ordem hierárquica: ou as normas de reforma da Constituição guardam aquela conformidade processual e material que lhes assinalou a própria Constituição.2. Por isso que não cabe falar.entre as normas constitucionais originárias e aquelas que se lhe seguirem temporalmente. porque essa diferenciação repercute no campo hermenêutico. a norma que penetrou na Constituição pode sofrer cassação de eficácia. 3. Por conseguinte. Do que decorre a impropriedade técnica de se buscar nos códigos infraconstitucionais o fundamento de validade das regras legislativas que se lhes sobrevierem. o certo é que existe uma diferença qualitativa . óbvio.4. é procedente a diferenciação nominal. de Direito Penal e Código Penal. O que vem a significar ingresso menos altivo dos atos de reforma da Constituição no próprio documento reformado é que esse ingresso pode ser confiscado.

3.2. por virtude da Constituição mesma? 3. sendo a validade uma qualificação internormativa. O que não significa dizer que exista diversidade hieráquica no interior da própria Constituição originária. Constituição.8. na medida em que ela. que. como anterior à norma qualificada. 3. E só pode tê-lo. e aí toda noção de validade seria praticamente vã. todas as normas são paritariamente constitucionais. se o modo de a Constituição fazer parte do Ordenamento não se dá por virtude de nenhuma outra norma (o Ordenamento é que principia com a Constituição. dado que operante de uma norma para a outra. não é a Constituição que deita raízes no exame de validade. Constituição. 3.5.1. 3. assim. todavia. e não a Constituição com o Ordenamento). sem a companhia de qualquer outra norma.3. A Constituição faz parte do Ordenamento. seja completamente insubmissa a exame de validade jurídica. Ao cabo e em síntese. É mesmo por surgir no mundo cultural como o ponto mais alto da pirâmide jurídica. mas o exame de validade é que deita raízes na Constituição. porém como algo situado do ângulo de cima.9.3. não tem merecido da doutrina o devido realce. sim. Aqui. Com efeito. se a Constituição Positiva já aparece como norma superior a todas as outras? Postada.3. o modo de ela mesma sair desse Ordenamento é igual àquele pelo qual entrou: a suprapositividade. pelo fato evidente de que a Constituição desconhece norma positiva que lhe seja anterior. pois como inovar uma coisa ou entrar em algo que só passa a existir. o Ordenamento já não seria piramidal ou ortodoxamente hierarquizado. no mais alto patamar do esquema de supra-infra-ordenação em que o Direito consiste? 3. que a Constituição dá origem ao conceito de validade como atestado de filiação de uma norma ao Ordenamento Jurídico. no plano lógico. como um pouco mais à frente comentaremos. se a Constituição não deixa que suas normas se nivelem às normas constitucionais que se lhe seguirem no tempo. que a Lei das Leis é totalmente imune a exame de validade aclara a precedente afirmativa de que ela não inova o Ordenamento Jurídico.6. É uma das suas mais importantes especificidades. então.3.7. para ao Sistema pertencer para sempre. nenhum ramo ordinário do Direito comporta o que o Direito Constitucional incorpora: a dicotomia entre as suas próprias normas. fosse produzida por uma autoridade do Sistema Normativo. é preciso que a norma qualificante seja.3. não apenas superior. E isto já inviabiliza qualquer tentativa de se impor à Constituição o exame de validade. Não que a Magna Carta vigore apenas ao lado do Ordenamento.4.3.5 Sem ela. MERKL. Se ela é o início lógico de toda positividade jurídica (KELSEN. Por outra perspectiva.3. Afirmar. pelo critério da hierarquia. como exigi-la para a Constituição Positiva. 3.4 3. não entra em um anterior Ordenamento Jurídico. é porque tem a força originária de dispor sobre o regime jurídico destas últimas. logicamente. não há como fazer o cotejo internormativo em que se exprime o juízo de validade.3. solitariamente. A cúpula do Ordenamento é que se objetiva na Constituição e esse estar por cima é o modo especialíssimo pelo qual se dá a interpenetração das duas realidades: a da Constituição e a do Ordenamento. Bastaria que a norma existisse.3. que é o . Paralela a ele. VERDROSS). No fim das contas.3. Ora. Por outro aspecto.2.hierarquizado de relação que entretece com o próprio Ordenamento como um todo. A Constituição e a fuga de suas normas a exame de validade 3. e não simplesmente do ângulo de dentro. 3. sendo a validade uma espécie de ticket ou bilhete que uma norma inferior recebe da que lhe seja imediatamente superior para ingresso na região das positividades jurídicas.

3. querendo. Cuidando-se de velhas normas gerais de natureza constitucional.4.1. é o habitat ou espaço natural de existência da Carta Magna. pois a Constituição Positiva.reino da sempre originária manifestação do Poder Constituinte. se tais normas apresentarem conteúdo discrepante daquele que timbra a nova regração constitucional. Não necessariamente no plano do ser. A questão que se põe não é essa. 3.4. com os efeitos concretos dessa ou daquela regra antecedente. sendo norma geral ou lei em sentido material. em dispositivo logicamente passageiro ou transitório).3. Do que deflui o primeiro sentido da retroeficácia da Constituição: ela não aceita.4. pois somente alcança aquelas normas gerais anteriores que. Com uma exceção. 3. não haveria mesmo de tolerar outras normas gerais com ela conflitantes em conteúdo (a não ser nos termos e condições em que o dissesse. E é precisamente por ter a Constituição a força de incidir.4. 3. Ela pode conformar toda e qualquer matéria.1. todavia. em suas disposições permanentes. até mesmo sobre relações jurídicas em concreto.4. de compromisso com a preservação de norma jurídica anterior. Pelo ângulo reverso. que tanto comporta uma passagem traumática ou violenta de uma Constituição para outra quanto uma substituição consensual ou negociada. além de se revelarem acordes com a nova Lei Fundamental em conteúdo. é logicamente do tipo norma a norma. no preciso falar de CANOTILHO). assim. é precisamente por isso que se fala não haver direito adquirido contra ela. Como derradeira ilação do fato de a Lei Maior eximir-se por completo de exame de validade. as antigas normas gerais que entrarem em sintonia material com a nova Carta são instantaneamente carimbadas como normas sobreviventes.1. após a nova Constituição. isentando-se. não tenham sido geradas nem pelo Poder Constituinte nem . no interior do mesmo Ordenamento. Desde que tudo se aloje num plano igualmente abstrato. é indiscutível a prevalência automática do regramento de estirpe constitucional. que normas igualmente abstratas continuem a gerar efeitos.4. Sem dúvida.2.6 3. O princípio da recepção é seletivo por mais um título. gestada antes da Constituição. com a Constituição passe a entrar em rota de colisão no plano material. A subsunção que se passa a fazer no seio do Ordenamento. explicitamente. a Constituição originária se caracteriza pela força de romper compromisso com as normas jurídicas anteriores a ela. A abstratividade. em alguns casos. conseguintemente. aduzimos que essa proposição está imbricada com outra: a aptidão que tem a Constituição originária para não conhecer tabus materiais. em abstrato 3.9. Da lei infraconstitucional para a Lei Fundamental. pois ela chega para ocupar espaços que são próprios de todas as leis em sentido material. e. Ninguém melhor do que o Chefe da Escola de Viena para falar sobre a instantânea perda de eficácia de toda norma que.1. A Constituição e sua retroeficácia de dupla face: em abstrato e em concreto 3.1.4.3. nada sobrevive ao novo Texto Magno. Donde a compreensão de que todo ato de convocação ou de instalação de um órgão de deliberação constituinte só pode implicar rompimento constitucional no plano do dever-ser jurídico ("ruptura ou descontinuidade". sejam as oriundas de reforma a essa Constituição precedente. sejam as regras iniciais da antiga Lei Maior.1. A retroeficácia da Constituição.

4. No Brasil. A não ser que o diga por forma inequívoca. Tudo muda de perspectiva. 3.2. em que a sua parte permanente deixa de incidir).3. 3. 5°. Daí a freqüente positivação de todos eles como típicas figuras de Direito Constitucional. de permeio com a própria vida. 3. por forma a revelar sua claríssima intenção retro-operante.2. O silêncio da nova Carta já opera como cassação de eficácia das velhas normas gerais cujo conteúdo com os dela própria se tensionar. pois.pelo Poder Reformador. o teórico tem que se perguntar até que ponto um novo Código Supremo possui aptidão para desfazer efeitos que normas jurídicas anteriores já produziram à exaustão. Ao contrário.5. a Constituição não mais está no seu habitat. em concreto 3. uma das históricas razões-de-ser das Constituições escritas. ou da coisa julgada.1.4.1. invariavelmente erigido à condição de megaprincípio.4. ou do ato jurídico perfeito. a liberdade. ou. E assim tem que fazê-lo.2. para retroincidir sobre situações já consolidadas no universo jurídico-particular das pessoas tem que fazê-lo por explicitude. a norma constitucional que versa a matéria (inciso XXXVI do art. no gozo de sua condição ímpar de norma que provém de um poder que tudo pode. ora em situação de desarmonia. mesmo. É falar: sempre que a nova Carta Política se deseja topicamente aplicável a relações já factualizadas por virtude de normas antecedentes. Aqui. quando o teórico se desloca do campo das precedentes normas gerais para o sítio das normas de efeitos concretos. ora em regime de harmonia conteudística. institutos em que mais fortemente reluz o protoprincípio da segurança jurídica. É justamente para ressalvar a sua excepcional vontade objetiva de retroagir sobre essa ou aquela relação jurídica em concreto que toda Constituição Positiva se faz acompanhar de uma parte transitória de dispositivos (de parelha com a necessidade de indicar os casos. o ato jurídico . nem por se traduzir na força de zerar a contabilidade jurídica a nova Carta há de ser interpretada como automaticamente inconvivível com toda e qualquer relação jurídica nascida e até resolvida à sombra do velho Ordenamento. pois o fato é que. para com outras normas de efeitos concretos se encontrar. ela mesma reconhece que se trata de aplicabilidade insólita. da sua postura no âmbito do confronto entre normas gerais (as da Constituição e as do Direito não-constitucional precedente). Não! A retroeficácia constitucional não chega a tanto.4. Aquele pedaço do Direito que mais prestigia o princípio da segurança jurídica. ou então para estancar efeitos que tais normas ainda estejam a produzir entre partes nominalmente identificáveis. 3. sobre o qual nada é preciso dizer.2. Ela. segundo a qual "a lei não prejudicará o direito adquirido. 3. porque tais situações jurídicas são constitutivas do direito adquirido. Realmente. pois. Ela não chega para atuar enquanto norma de efeitos concretos. O plano retroeficacial já não é o mesmo. sempre que tais relações concretas se friccionarem com os novos comandos constitucionais. ou o período. o novo Diploma Fundamental passaria a se caracterizar pela intransigente negação daquilo que é uma das impressões digitais de todo Magno Texto: operar como a parte mais estável do Ordenamento Jurídico.4. se tal ocorresse.2.6. porém. agora.1. A retroeficácia da Constituição.4. Constituição. pois expressamente passa a dizer que relações jurídicas são essas. a igualdade e a propriedade (postulados liberais que marcam para sempre a trajetória das Constituições escritas). no mínimo.

3. a estabilidade que a nova Constituição imprime àquelas que se produzirem a partir dela mesma. Até porque . 60). Em sede de relações concretas. Colocaria a sociedade em polvorosa ou de pernas para cima.4.4. uma norma geral anterior de conteúdo discrepante. até mesmo por via de emenda constitucional (inciso 4° do § 4° do art. ao tempo da promulgação do Magno Texto.para ressalvar a eficácia temporária de norma geral com ela (Constituição) em . e que ainda são clausulados como tema insuscetível de nova conformação de menor carga protetiva do indivíduo. para manter por algum tempo. Constituição. na medida em que: I .7 3. pela sua estratégica importância.7.uma generalizada exumação de relações jurídicas em concreto faria do novo Código Político um diploma normativo tão confessadamente odioso que tocaria os debruns da insanidade. Como nada precisa dizer para manter íntegras as relações em concreto que vier a encontrar (desde que tais relações contenham o timbre da definitividade). a Constituição precisa dizê-lo. o poeta). Tudo se resume em saber distinguir entre o que existia enquanto modelo jurídico em abstrato e enquanto modelo jurídico em concreto. no desfrute dessa altaneira posição intra-sistêmica.perfeito e a coisa julgada") faz parte do capítulo atinente aos direitos e garantias individuais e coletivos . Reiteremos o juízo.reconheçamos .2. Para sonegar eficácia às normas gerais anteriores e de conteúdo discrepante. pois o febricitante revolver de sepulturas jurídicas teria que alcançar relações cujos autores seguramente já não estariam neste mundo de "aquém-túmulo" (MÁRIO DE ANDRADE. Como precisa dizer que relações em concreto (já carimbadas pela velha Ordem como situações ativas de caráter permanente) passarão a sofrer desfazimento ou paralisia eficacial.2. do ato jurídico perfeito e da coisa julgada exijam um tipo de interpretação que se traduza no seguinte: a garantia em que elas se constituem na nova Ordem há-de ser uma confirmação daquela igualmente reconhecida pelo velho Ordenamento. Principalmente se considerarmos o tempo médio de vida de uma Constituição . se tais modelos se revelarem desafinados. o que terminaria por retirar da Constituição a própria possibilidade lógica (eficácia) e social (efetividade) de incidência.4.4.2. é de se presumir como operante para as que se produziram antes da nova ordem constitucional.6. 3. ou se a parte permanente da mesma Carta agasalhar normação que prime pela hostilidade à continuação tipológica de qualquer delas.e a freqüente imemorialidade de certas relações jurídicas em concreto (qual o marco temporal da retroação da nova Carta? A última Constituição? A penúltima? A primeira delas?). Reversamente. Direitos e garantias que vão compor uma paliçada defensiva dos particulares contra o Estado. a nova Constituição nada precisa dizer. II . 3. portanto. O silêncio da nova Carta cumpre um papel de preservação do que já gozava de concretitividade. nada precisou dizer. Salvo se regra transitória da nova Constituição lhes cassar por modo expresso a respectiva eficácia. Dupla e díspare função do silêncio normativo-constitucional.que é expressivo .5. natural que as três estelares figuras do direito adquirido. ainda que dela desbordantes.4. com a nova regração constitucional. Ora. principalmente.para estancar a eficácia das normas gerais anteriores com ela discrepantes.2. ou em dadas circunstâncias. A Constituição Brasileira de 1988 é um bom retrato falado do que estamos a proposicionar. Como nada precisou dizer para preservar a operatividade daquelas não-discrepantes. em conteúdo. tanto quanto cumpre um papel de não-preservação dos modelos jurídicos apenas existentes no plano da abstratividade. Do terrorismo normativo.

33.. especialmente no que tange a (. Constituição originária. bem como os proventos de aposentadoria que estejam sendo percebidos em desacordo com a Constituição serão imediatamente reduzidos aos limites dela decorrentes. ao estatuir. incluído o remanescente de juros e correção monetária. A retroeficácia apenas em abstrato das emendas à Constituição 3. ao prescrever. 3. emenda não é a matriz normativa do direito adquirido. ou coisa julgada..3.8 b) imiscuiu-se no conteúdo de decisões judiciais com trânsito em julgado. no art.4. ainda que ajuizados. que "Ressalvados os créditos de natureza alimentar. porque..4. que "Na liquidação dos débitos. 3. a remuneração.estado de fricção material. Todavia. § 7°. é que tem o condão de se colocar para dentro ou para fora da faixa da retroincidência. Até que se instalem os Tribunais Regionais Federais. o olho do analista deve se deter é no originário modo pelo qual a Lei Maior dispôs sobre a matéria.)". ilustrativamente: a) atacou o direito adquirido. 47. todos os dispositivos legais que atribuam ou deleguem a órgão do Poder Executivo competência assinalada pela Constituição ao Congresso Nacional. o equacionamento jurídico da questão muda acentuadamente de foco. para poder se autoexcluir.para rever o passado das pessoas que já encontrou na posição de partícipes de relações consubstanciadoras de direito adquirido.3. Assim é que. sacou de preceitos desta espécie: a) "Art. ou não. nem do ato jurídico perfeito. com atualização. III . que deve ser recebida em termos ou sob a prudente cláusula do modus in rebus a asserção de que "não há direito adquirido contra a Constituição". agora.4. O mencionado inciso XXXVI do art.3. não existirá correção monetária desde que o empréstimo tenha sido concedido: (. sujeito este prazo a prorrogação por lei. invocação de direito adquirido ou percepção de excesso a qualquer título". inclusive suas renegociações e composições. não se admitindo.3. poderá ser pago em moeda corrente. contudo. de conseguinte. desde que o Poder Judiciário não as declare inválidas. (.)".)". Ficam revogados. Tratando-se. c) voltou a mexer no teor da coisa julgada. ao rezar que "Os vencimentos. por decisão editada pelo Poder Executivo até cento e oitenta dias da promulgação da Constituição".4. b) "Art. nem da coisa julgada. ato jurídico perfeito. a partir de 1° de julho de 1989. não deixou de se fazer explícita no seu corpo transitório de dispositivos.4.. Em Estados como o Brasil. pois somente ela. as vantagens e os adicionais.2. neste caso. o Tribunal Federal de Recursos exercerá a competência a eles atribuída em todo o território nacional (. até o modus in rebus ("para cada coisa existe a sua medida própria") deixa de ser admitido. 3. em prestações anuais. por conduto do artigo 17...3. a partir de cento e oitenta dias da promulgação da Constituição. quando o cotejo se dá entre a normatividade das emendas e as multirreferidas situações jurídicas em concreto (que são relações já permanentemente ornadas de subjetividade). Quando o confronto a fazer é entre as normas gerais das emendas e as normas gerais de vinco infraconstitucional. 27°. decorrentes de quaisquer empréstimos concedidos por bancos e por instituições financeiras. de incidência perante as três emblemáticas figuras. 25. 3.. de confrontar situações em concreto com os atos de reforma constitucional. iguais e sucessivas. o valor dos precatórios judiciais pendentes de pagamento na data da promulgação da Constituição..2. é claro que a primazia é das emendas.8. no art. no prazo máximo de oito anos. Percebemos.). 5° da Constituição de 1988 não nos . de par com atos jurídicos perfeitos.1.

O dispositivo em tela consigna "uma garantia" (PAULO MODESTO). no despenhadeiro da barbárie ou da guerra de todos contra todos. a factualizar-se no processo de aplicação/criação do Direito Objetivo.9 3. já não podem sofrer desfazimento. de pedaço de vida humana objetivada a pedaço de vida humana subjetivada. O que se protege. ou prolatada a res judicata. Regra em si mesma ou objetivamente protegida contra a função legiferante do Estado. 3. pois.4. pois já passaram de efeitos objetivos a subjetivos. 3. dado que faz parte da relação dos direitos e garantias individuais.3. sem Deus. ou da decisão judicial que se transformou em coisa julgada. a repercutir no restrito universo de certos atores. mais que isso.o primeiro.6. Sejam os efeitos deflagrados imediata e exclusivamente pela norma em abstrato (direito adquirido).4.8. nem ato jurídico perfeito. quem sabe. . agindo este assim no exercício da função legislativa usual como da função reformadora.5. enquanto "pedaço de vida humana objetivada" (RECASÉNS SICHES). ou de ato jurídico perfeito. ou de coisa julgada. íntegros. nenhum direito adquirido. ou ter a sua carga protetiva quebrantada (por derrogação). O que fica intocável. mas não veicula. Note-se bem. então tudo é permitido". ou coisa julgada. Logo. gozarão igualmente de petrealidade.3. é aquela dimensão da norma geral que passou. 5°. ou sequer derrogação amesquinhadora. nem mesmo por emenda constitucional. da suprema beleza.7.4. A distinção essencial é esta: a norma geral. ou por reconhecimento de um ato jurídico que se aperfeiçoou nos seus elementos formadores (ato jurídico perfeito). paralisia. E tudo é permitido (acrescentamos). então. da suprema verdade e da suprema justiça. Continuam. o corolário será aquele de que falava DOSTOIÉVSKI a respeito do próprio Deus: "Se Deus não existe. porque já não faz sentido vedar para os crentes coisa alguma. 3.3. ou ainda de uma decisão judicial em estado de irreformabilidade (coisa julgada). já não é a norma geral.o segundo raciocínio traduz-se em que os direitos adquiridos. Tudo em homenagem ao basilar princípio da segurança jurídica. mas não é exatamente isto o que sucede com todos os seus efeitos. ou quebrantamento. Aqueles efeitos que já se exteriorizaram sob a forma de direito adquirido. O que ele proclama é a garantia de que o direito que se adquirir por virtude imediata da lei (direito adquirido. propriamente). rolando. portanto. Agora. com toda ênfase. pois.4.10 II .4. eles perdem o referencial da suprema bondade. sobre ser de eficácia completa e aplicabilidade imediata ou não-di ferida.3. porque restritamente subjetivo. Não! O que fica imune à retroatividade danosa da nova lei são determinados efeitos da velha regra legal. permanentes e identificáveis pelos nomes patronímicos ou nomes pessoais dos seus beneficiários. em caráter definitivo. ou foi expedido o ato jurídico perfeito.11 3. A norma do inciso XXXVI do art. implica dois raciocínios jurídicos: I . não admite revogação. por si mesmo. esse direito assim qualificadamente adquirido será um direito completamente a salvo de prejuízo por lei posterior. Expliquemos. Ele consagra um tipo de garantia contra a função legiferante do Estado. e. a existência desse princípio.3. se já não se proclama.4. porém num sentido tópico ou pontual.deixa em desamparo argumentativo. sejam aqueles que precisaram de confirmação pela via do ato jurídico dito perfeito. mas determinados titulares do direito por ela ensejado. é de que ela é uma cláusula pétrea em si mesma. pode ir embora do Ordenamento (por revogação). o que fica a salvo de retroatividade da lei não é o dispositivo sob cuja preceituação nasceu o direito apelidado de adquirido. os atos jurídicos perfeitos e as coisas julgadas que vierem a ocorrer.

uma exceção à liberdade núbil das pessoas. ou industrial. Ou no que tange à localização de um estabelecimento mercantil.renove-se o juízo -.4. os efeitos que já deflagrou ou ainda está a deflagrar na vida de determinados agentes. ou do ato jurídico perfeito. Nem por isso deixa de ser direito adquirido. para essa norma geral. pois que de direito adquirido não se tratava (não existia o direito subjetivo de não se divorciar . Diga-se o mesmo do uso de um automóvel em via pública. É compreender: onde continua a operar a velha regra geral ou abstrata. Por exemplo. Uma coisa a lembrar: certas situações jurídicas ativas são incompatíveis com a figura do direito adquirido porque têm a particularidade de nascer mais condicionadas pelos interesses da sociedade do que condicionando tais interesses. apenas. Essa ultra-atividade ou ultra-operatividade é apenas tópica ou pontual (por isso que relativa). O fenômeno da ultra-atividade. Ou quanto à detenção de certas competências administrativas perante o administrado. 3. que a liberdade de contrair novas núpcias estava constitucionalmente cerceada. a que vigia entre nós a respeito do divórcio. passível.4. o proprietário de um bem de produção jamais pode se eximir de normas legais quanto a certos modos de pôr o seu bem a render e quanto à fiscalização do Poder Público sobre esses modos econômicos de exercício de direito.4.4. Em todas as três situações em concreto. Ou ao fato de servidores públicos se encontrarem sob determinado regime de trabalho. 3. na matéria 3.3. em nosso País. Outra coisa a lembrar é que o direito subjetivo que se eleva ao patamar do direito adquirido (o adquirido é um plus em relação ao direito subjetivo) pode até não se encontrar em fase de exercício. pois o exercício pode ficar pendente de pressupostos.12 Enfim. mas conserva. na medida em que adstrita à subjetividade de atores em concreto.4. a qualquer tempo (como veio a suceder. a nova não pode incidir. porque. 3.2. o que se tem é o fenômeno da "ultra-atividade" relativa da norma geral de que elas derivaram. no entanto.4. Logo.4. mas a ausência do direito subjetivo de se divorciar. por exemplo. Titulares sempre em estado de precariedade. O que vigorava era uma restrição. de remoção por emenda constitucional. como. Isto não significava que as pessoas civilmente casadas tivessem o direito adquirido a permanecer privadas da possibilidade de se divorciarem (não há direito adquirido à privação ou à inibição do próprio fazer ou do agir). Razão pela qual os seus titulares nunca deixam de ser eventuais titulares. as prefigurações espocam e trazem à nossa mente outras situações que também parecem não se compadecer com a figura do direito adquirido. Queremos nos reportar a certas restrições diretamente constitucionais àquele tipo de liberdade contratual que não se orna de conteúdo econômico ou mercantil.4.3. por inversão de pensamento: onde tem que deixar de incidir a nova regra geral ou abstrata.4. Significava. ou seqüencia (conforme o caso). com a emenda n° 9/77 à Carta de 1967). se se modificam as leis de zoneamento do respectivo Município.4. o que é bem diferente). ou da res judicata. mas sem a possibilidade de se entrecruzar no espaço de movimentação daqueles sujeitos de relações que se tornaram ativas por virtude do direito adquirido.4.1. a saber: . um novo marco temporal se estabelece: ela já não deflagra os efeitos inéditos que estava apta a deflagrar no universo particular de novos atores jurídicos. Ou. continua operando a velha regra. são normas gerais que se interpenetram no tempo. Sem que nenhum dos membros da sociedade conjugal que se desfez pela via do desquite pudesse contrapor à retroincidência da emenda a tese do direito adquirido. nominalmente identificáveis.

3. porque a emenda pode tudo que a Magna Carta reserva para as leis (pouca importa se leis ordinárias.5. Em tema de suas próprias emendas. como. o ato jurídico perfeito e a coisa julgada"). Melhor técnica legislativa.5. ou delegadas. podendo efetivamente se entronizar no gozo do que é seu. e os fundamentos então lançados parecem-nos resistir a contraditas. Não há necessidade da indicação desse vínculo entre determinadas matérias e a conformação normativa por via de emenda. sim. ano de 1997. 3. 151/161). salvante recair sobre matérias clausuladas de petrealidade pela Constituição. na matéria..4.4. o seguinte esquema de interpretação: I . não como requisitos de obtenção do direito (matéria de outra norma). ou do preenchimento de certa condição. "a separação dos Poderes" e "os direitos e garantias individuais" (de cuja relação a garantia dos direitos adquiridos faz parte. II . 3. etc. como se dá. pp. Elas não podem incidir sobre as matérias clausuladas como pétreas ou intangíveis ou irreformáveis. II .). quando o Código Político substitui o silêncio pela fala expressa é para dizer o que elas não podem. prefixados pela própria norma geral. quer referentemente aos direitos concedidos por regra constitucional. Retornando a lidar com o bloco dos três institutos.. Mas prefixados.4. porém gozadas até o final do ano subseqüente. que tudo aquilo que a lei não esteja habilitada a fazer fica também interditado às emendas.3.5. nesta oportunidade. Malheiros Editores. Ou como sucede com o direito à aposentadoria voluntária.4.o aguardo do lapso temporal. Pronto! É esse racional esquema de exegese da Constituição que explica o fato de ela própria. Ampliamo-los até. ou seja. estudo publicado no bojo da coletânea DIREITO ADMINISTRATIVO E CONSTITUCIONAL.4.a própria vontade do titular do direito. com as férias anuais de um trabalhador: são adquiridas a cada ano de trabalho. convencidos que estamos de que a Lex Legum encerra. Já enfrentamos academicamente a questão.tudo que a lei está habilitada a fazer fica inteiramente à mercê das emendas constitucionais. é preciso distinguir entre a norma geral que indica os pressupostos de obtenção do direito.daqui não se deduz. em parceria com VALMIR PONTES FILHO ("DIREITO ADQUIRIDO CONTRA AS EMENDAS CONSTITUCIONAIS". que. Constituição. "a forma federativa de Estado". secreto. Nada disso! As emendas constitucionais podem tudo que a lei pode e vão além: podem tudo que a lei não pode. sem que a Magna Carta necessite. "o voto direto. aduzimos que não tem relevância o fato de a legenda constitucional somente incluir a lei (não a emenda) como norma proibida de retroagir para prejudicá-los ("a lei não prejudicará o direito adquirido. somente será exercitado quando da expressa manifestação do respectivo titular (por isso que tal modalidade de aposentação é chamada de voluntária).2.5. jamais dizer sobre que matérias podem recair as emendas. quer os deferidos por outra modalidade de lei em sentido material). prefere a inação. e. como requisitos do respectivo exercício. Dois momentos inconfundíveis de normatividade abstrata. que. uma vez obtido. entretanto. por exemplo. impossível! Se a Constituição de 1988 fala a toda . por conveniência do respectivo empregador.1. de dizê-lo às expressas. portanto. ou complementares.I . A inclusão das emendas à Constituição no conceito genérico de "lei" 3. II. vol. e a norma igualmente geral que dispõe sobre a implementação de termo ou de condição para a empírica fruição daquele mesmo direito que a primeira norma elementarizou. 3.4. por hipótese.5. universal e periódico".

4. no capítulo "DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS". que pedir o adjutório delas é reqüestar a edição das emendas. naquelas matérias que desfrutam de intangibilidade perante a ação legislativo-conformadora do Estado (que são matérias apropriadamente chamadas de pétreas). E o raciocínio é o mesmo: descumprida que seja qualquer emenda constitucional.5. 34 e parte final do inciso IV do art.5. De outra parte. nenhum mal existe em reqüestar a todo instante a lei porque a banalização da lei em nada trivializa a Constituição. 3. seja para lhes franquear certos conteúdos. tintim por tintim) acarretaria a banalização do próprio Texto Magno. quer no tocante à regra permanente que ela venha a embutir na Magna Carta. Fala é da lei e das decisões judiciais (inciso VII do art. 5°. uma vez descumpridas. na matéria. Daí que aceitar a retroação de emenda para desrespeitar o direito adquirido passe a significar a possibilidade de retroação também para o desrespeito às duas outras situações jurídicas ativas. E interditar as leis não é interditar as emendas. 3. ou negativo ("ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei"). salvante. 5°).5. Que se entenda. a aterradora pergunta que se faz é mesmo esta: de que vale o megaprincípio da segurança jurídica. É que a nossa Constituição também só mencionou a lei. não a emenda.5. mas aqui mesmo nos permitimos retomar o que dissemos em co-autoria com VALMIR PONTES FILHO (ob.6. não! Diga-se o mesmo da norma constitucional que proíbe a lei de excluir da apreciação do Poder Judiciário "lesão ou ameaça a direito" (art.4. que já não seria formalmente o mesmo a cada emenda produzida. sempre que a Magna Carta impuser proibição ou simples limitação à faina legislativa do Estado. nem por silenciar quanto às emendas. em tema de direito adquirido. ainda ensejam a intervenção da União nos Estados e dos Estados nos Municípios (inciso VI do art. a banalização das emendas (que fatalmente ocorreria pela técnica de se dizer tudo que a elas competisse.4. De revés. 85). O mutismo da Lex Legum quanto às emendas é de nenhuma importância hermenêutica. 35).13 3.8. ato jurídico perfeito e coisa julgada. 59. é a mesma do ato jurídico perfeito e da coisa julgada (inciso XXXI do art. 3. insista-se. cit. seja para interditá-los. E nessa hipótese.9. O raciocínio será retomado no capítulo entrante.4. que a referência à lei. é porque já prescreveu. que permanece formalmente a mesma. que. as conseqüências serão iguais às do descumprimento de lei ou de decisão judicial.): se a referência constitucional apenas à lei. inciso XXXV). enquanto veículo de imposição de deveres de conteúdo positivo.5.5. Remarque-se ainda que a regra-matriz do direito adquirido. que. Por isso que alcança todos os espécimes legislativos de que trata o art. E a falta de menção às emendas significaria a imprestabilidade delas para obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa? A toda evidência.hora das leis. A Constituição não pode prestigiar tanto as suas emendas a ponto de dar a sua vida por elas. se do seu conteúdo já não fazem parte o direito adquirido. São estas premissas que nos permitem compreender que se constitui em crime de responsabilidade o ato do Presidente da República do Brasil que implicar descumprimento de qualquer emenda constitucional. é uma referência ao Direito-lei. o ato jurídico perfeito e a coisa julgada?14 3. quer no tocante à regra simplesmente transitória que venha a aportar. em nossa Constituição. . embora a nossa Magna Carta não fale do descumprimento das emendas como fato-tipo do citado delito. pois. cairíamos todos numa contradição grotesca.7. está liberando qualquer delas para interditar o acesso de toda pessoa privada às instâncias judicantes. fosse um abre-te sézamo para a edição das emendas. nas entrelinhas.4.

5. sempre ele) ortodoxa ou unitária. pois as leis de que a Constituição é a lei suprema são as leis emanadas do Estado. E sem outra hierarquia internormativa que não fosse a da lei mais recente. ao Ordenamento Jurídico por ele inaugurado. então. Tudo isto fica ao dispor de muitos outros atos que a própria Constituição menciona como veículos de normas jurídicas gerais.2.2. pela Constituição originária. impor deveres. têm que permanecer como irrestritas limitações. como lei das leis é. Constituição.5. Mesmo em se tratando de imputar deveres ao Estado e conceder direitos contra o Estado. estruturar órgãos. O exclusivo regime autoditado da Constituição 3. a mais importante das limitações impostas ao Estado. 3. Logo. Esta nova disquisição tem que ser a continuidade de uma idéia já vertida para o papel. que o Magno Texto só é realmente magno por cumprir esse papel de dizer o que seja.1. ou por ele recepcionadas.5. A Constituição e seu exclusivo papel de fundar e monitorar o Ordenamento Jurídico . Reconheçamos. o reconhecimento da existência de uma lei que nasce para governar as outras leis. Não é por aí que a discriminação entre ela.1. sinta-se que não é exclusivo da Constituição o mister de conferir direitos. atribuir competências. ou o que não pertence. ou pelo critério da especialidade. ainda assim não se cuida de matéria privativamente constitucional. perpetuamente. Quais sejam. prescrever finalidades e outros espaços de ocupação normativa.5.5. ou a da natureza das relações normadas. Seria superior apenas pelo critério temporal ou cronológico (a lei mais nova a preponderar sobre a lei mais velha no tempo). no fundo.5. a garantia de que as outras irrestritas limitações impostas ao Poder Público. enfim. Privar-se-ia da sua característica central de Ordem Jurídica de "supra-infra-ordenação" (KELSEN. 3. a função executiva e a função jurisdicional.16 3. É. 3. A Constituição como a lei das leis 3.1. uma norma de aplicação dele próprio. ou não sejam. Ao contrário. Tem a condição material objetiva de se autoqualificar ou se autonominar como Constituição.1. não podem pelo Poder Público mesmo ser legislativamente supressas. é a própria base lógica da elaboração do conceito formal de Constituição. e os demais espécimes jurídico-positivos pode ocorrer. formal e materialmente.4. isto é. Se os demais atos da ordem legislativa pudessem ditar o seu próprio regime jurídico. Pois somente assim é que uma Constituição tem a força de ditar o seu próprio regime jurídico.1. ou o que não seja. O que pertence. ou sequer atenuadas. Essa particularidade que tem a Constituição de operar. os atos de jurídica manifestação das três funções básicas do Estado por ele instituídas: a função legislativa.as emendas no meio (inciso de n° I). pois os espécimes normativos sucessivamente editados não teriam que se reconduzir à unidade formal do primeiro deles: a Constituição Positiva.15 3. o Ordenamento já não seria uno quanto ao modus faciendi dos elementos do seu repertório. pois nenhuma norma seria hierarquicamente superior a outra na dúplice dimensão formal e material.5. que é de ordem material. que é simplesmente esta: somente a Constituição tem a propriedade de ditar o seu próprio regime jurídico. O único cientificamente prestante.3. o Sistema de Direito Positivo já não teria uma única norma-começo.1.

2. na exata medida em que isto signifique preservação daqueles traços que dão a ela uma identidade fisionômica.2. Se é próprio da Constituição aplicar limites formais e materiais ao Estado.5. não de si mesmo. ou seja.2. assim.5. a metodologia de trabalho que a torna primus inter pares. enfim. 3. Não que a Lei Maior venha a prescindir do Ordenamento.3. em última análise). devemos insistir no enunciado de que a Constituição Positiva não é Constituição Positiva por se fundar num Ordenamento Jurídico. por conta própria. como tornar essa imposição concretamente eficaz.7. porque pelas normas gerais e individuais do Ordenamento é que ela. E é mesmo para o cumprimento dessa parte dos seus desígnios que ela dá início.2.. como se desdobrar em comandos necessariamente instrumentais dos seus comandos básicos. Logo. tem uma boa parte dos seus desideratos cumprida. O método específico da Ciência Jurídica para conhecer o seu objeto deixa de significar.4. isto é.5.2. Não teria as outras leis e demais normas positivas sobre o que imperar. 3.17 3. alterar esse regime.3. pois é fato que ela não depende somente da sua própria realidade para cumprir todos os seus desígnios. a sua causa formal.2. porque.2.5.5. não é tanto pelo conhecimento do Ordenamento que se conhece a Constituição. A Constituição é também carente do Ordenamento Jurídico. Sem demasia na comparação das coisas. mas pelo conhecimento da Constituição é que se conhece o Ordenamento. com o seu próprio nascimento. quer os negativos. Para tanto.3. se se deixa ao próprio sujeito limitado a possibilidade de tudo mudar pela via legislativa? Um mínimo de irreformabilidade há de conter a Constituição perante o Estado. Não! Ela também precisa do Ordenamento. para implicar uma exigência de ininterrupta referência àquela parte do Ordenamento que se chama Constituição. bússola e ímã . isto é.18 3. ela não teria o que dirigir. 3. tem assegurada a sua contínua aplicação. o ortodoxo papel de norma-começo do Ordenamento só faz sentido se a Constituição permanecer dando as cartas no interior desse Ordenamento. à vida do Ordenamento. traços ou valores para cuja proclamação teórica e persecução empírica a própria Constituição foi elaborada.5.1.5.. 3. quer os limites positivos. Esta a sua natureza. e o que sucede? Uma mudança tal de qualidade a ponto de se poder proclamar que de Constituição já não se cuida. Não teria. Constituição. sem ele. sem que tais normas possam.6. A Constituição enquanto fonte. A parte a preponderar sobre o todo. porém da Constituição em que se inicia e para a qual se destina. O Ordenamento Jurídico é que é Ordenamento Jurídico por se fundar numa Constituição Positiva.5. por ser a Constituição a parte que explica e até justifica o próprio todo (visto que o todo do Ordenamento está a serviço.2. um reclamo de contínua referência ao Ordenamento. ela tem que prescrever o regime das outras normas jurídicas. 3. Subtraia-se da Constituição a exclusividade desse mister de fundar o Ordenamento e manter sob o seu controle o modus faciendi e o conteúdo dos outros modelos normativos. então. O campo divisional da Constituição perante as outras normas do Direito reside unicamente nisto: só a Constituição é que pode fundar o Ordenamento Jurídico e permanecer o tempo inteiro como referencial de todas as outras normas positivas que se integram nesse mesmo Ordenamento. tanto alusivamente às condutas comissivas quanto as de absenteísmo.5. De fato.

cit.a comparação é nossa . na linguagem religiosa do Antigo Testamento. 3. E é nesse rigoroso esquema de supra-infra-ordenação que a Constituição pode fazer do Ordenamento. Corte um pedaço de madeira e eu estarei lá. por sua conta. eu sou o Todo. Esse tríplice mister de se colocar perante o Ordenamento como fonte. como se o Ordenamento fosse uma pessoa incapaz de sair da menoridade. mas um único.. a cota de poderes da procuração que lhe fora outorgada pelo seu cliente.6.2. Ela conversa (graças à . A norma pós-Constituição não fala sozinha. não uma pluralidade de cosmos (oriundos de numerosas e incontroláveis normas-começo). bússola e ímã . mas não o libera para crescer inteiramente à solta. tanto quanto o Poder Reformador tenta descambar. 115/116).5. segundo o qual o órgão delegado não pode. Uma queda de braço com o Poder Reformador.5. 3.à absurda possibilidade de um advogado alterar para mais. alterar os limites da própria delegação (ob. para a zona de conformação normativa que é apanágio do Poder Constituinte.3.3. Queremos dizer: o que dá pleno sentido a uma norma jurídica não é apenas o seu discurso prescritivo. Naquilo que é a própria causa formal ou a ratio essendi metodológica da Constituição. pelo risco maior de ela vir a ser abalroada por ele.5. É perseverando no controle de todos os demais espécimes jurídico-positivos.3. um só. "o cântico dos cânticos". reenviando-os a si mesma. e o Todo retorna a mim. a Constituição bem desempenha nos termos em que JESUS dirigiu aos seus discípulos esta vibrante mensagem: "Eu sou a Luz que está sobre todos.5. pp. Mudando-se as palavras para melhor transmitir o mesmo pensamento: o Direito pós-Constituição é um Direito sempre enlaçado à Constituição mesma. sozinho. a Constituição tem que travar uma briga particular com suas emendas ou revisões. Uma folha cujo talo se partiu e ainda assim pretenda sobreviver de sua própria seiva (?). historicamente. Essa alteração de limites corresponderia . 3. 3. p. o inarredável princípio está em que são irreformáveis as normas da Constituição Positiva sobre a própria reforma dessa Constituição Positiva (de parelha com outros aspectos de intangibilidade mais para a frente comentados). um unitário cosmos. A Constituição cria o Ordenamento.3. concomitantemente.5. esse Direito não pode atribuir a si mesmo aquilo que é a própria ratio essendi formal da Constituição: o existir como a norma normarum. Podemos até mesmo dizer que. Assim como já no interior da Constituição a briga particular é entre o Poder Legislativo e o Poder Executivo. 82). levante uma pedra e me encontrará lá" (em A SEMENTE DE MOSTARDA. que a Constituição impede que cada um desses atos seja um fragmento vocal com pretensão à totalidade.3.1. para se manter como permanente referencial do Ordenamento. os demais espécimes normativos têm que ficar para sempre submissos aos termos em que o Poder Constituinte veio a se formalizar. 3. II. portanto. a lex legum.4. vol.3.3. e o Todo vem de mim. Mesmo quando se trate de revisões ou emendas à Constituição. Ainda que o Direito pós-Constituição promane de emenda ou revisão constitucional.3.5. Este último a ameaçar de invasão a área de competência daquele.5. É a maior de todas as ênfases do discurso de SIEYÈS. Mantém o Ordenamento sob tutela. para reverenciá-la. a sua mensagem imperativa em si.

mas exógeno ao Estado. Daí a necessidade de o pensamento jurídico formular e implantar. de toda obscuridade.6. Nesse preciso espaço da relação Estado/Direito. Seja como for. agora. Direito que o Estado procria. o embasamento lógico da Constituição é diferente da fundamentação teórica dos demais espécimes jurídico-positivos que. por exemplo. não pode. Em qualquer das três situações jurídicas. bem pode se autodeslimitar (já o dissemos). o Estado gira em torno do seu próprio querer. todavia. que sempre mantém os governados em situação de relativa insegurança jurídica. Autolimitação estatal.6. se é que é possível falar de psicologia ou de psiquismo estatal quando se queira referir a um tipo de Direito que o Estado produz para além da autoaplicabilidade das normas que já estão lançadas no próprio lastro formal da Constituição. ora para colocar a si mesmo em situação jurídica ativa (perdoe-se a cacofonia "cativa").Constituição) com o todo do Ordenamento e é dessa confabulação com o todo que se extrai a sua definitiva mensagem.5. porque fica de fora da relação que passa a estabelecer entre pessoas outras. no âmbito da fenomenologia do Direito: a origem mais depuradamente legítima da Constituição.5. pois quem se autolimita. 3. tudo transcorre nos meandros da psicologia ou do psiquismo estatal. Ora bem.6.3. 3. com o tempo.2. o Estado vem antes do Direito. essa. porque sem nenhum compromisso com a preservação do tipo de Estado até então existente. porque elaborada sob fundamentação lógica distinta daquela que prevalece para os demais modelos normativos. formam o Ordenamento de um povo soberano.. e sua força mais irrefragavelmente vinculante. via de regra. objetivamente. e ainda tem a chance de ver preenchidas as suas eventuais lacunas. no plano político. O fundamento da submissão do Estado a direitos subjetivos oponíveis a ele mesmo. com ela. ou ele nem se auto-expande nem se autocontrai..6. Cogita-se. porque transcorrente entre um Direito que o Estado não cria e o Estado mesmo. Como também é desse diálogo com o Ordenamento que a norma isolada se depura de toda incoerência. desfazer do Direito.19 3. a imposição de um limite não mais endógeno. a relação que se passa entre a Constituição e o Estado exprime um outro vínculo operacional. O Direito a preceder o Estado.6. ora para ficar em situação jurídica passiva. mas na base do Constitucionalismo.4. não é outro senão uma autolimitação. Com efeito. Relação derivada ou secundária do Estado com o seu Direito. ora para estabelecer relações jurídicas entre os particulares. Ou ele se auto-expande no plano das competências a que se atribui (tendo sempre por calço a Constituição. Estes outros modelos de prescritividade jurídica exprimem uma relação do Estado com o Direito que o Estado mesmo cria.7.3. ou seja. por conseqüência). a teoria do Estado de Direito. de uma relação que já não está na base da Teoria do Estado de Direito. Que fundamentação é esta? 3. no sentido de .6. o princípio de que o Estado é obrigado a respeitar o Direito por ele próprio ditado. O fundamento supra-estatal e suprapositivo da Constituição 3. revogando-o. Estamos no epicentro de uma distinção qualitativa que é a explicação de tudo o mais. enquanto aquela revogação não sobrevém. 3. ou ele se autocontrai no plano dos direitos subjetivos que opõe a si mesmo (ultrapassando. Se o Estado pode desfazer o Direito. 3. todavia). exclusivamente (postando-se ele do lado de fora de tais relações.1. Este a significar. no plano jurídico. logicamente. a cota dos direitos subjetivos alheios consagrados pela Magna Carta).

Acontece à margem de toda juridicidade.que há um tipo de Direito: a) que o Estado não cria nem pode deixar de reconhecer como Direito. com aquele seu próprio modo de nascer. nasce por um modo comparativamente único e também se altera por uma forma que lhe é exclusiva. sem nenhuma mistura com outra nascente do fenômeno jurídico. ainda que tal insuscetibilidade não conste de dispositivo constitucional expresso. E por compulsão da rigidez só se pode entender um modo de normar sobre a reforma constitucional que permaneça originário e original. modificam-se e morrem pela mesma e monótona forma (o modo de produzir a lei é o mesmo que se observa para a respectiva alteração. c) que a outra parte. em derradeiro exame. isto não é o que sucede com a Norma Normarum. que é a parte comumente chamada de pétrea ou intangível. 3. no mundo do ser. porque diferente do modo pelo qual os demais diplomas jurídicos ficam pela Constituição autorizados a receber reprocessamento ou reformulação ou recondicionamento.6. não-coincidente. tornando o Poder Constituinte. 3. Original. porque sua fonte suprapositiva continua a mesma. E mesmo no tocante à revogação pura e simples do Código Político (substituição de uma Constituição por outra).7.7. é invocar uma noção . 3. A compulsão da rigidez formal da Constituição 3.1. Originário. o fundamento da autolimitação legiferante do Estado. Constituição. a suplantar. firme. É a limitabilidade genética de que antes falamos. o Poder Constituinte incorpora a compulsão do permanente registro dessa memória. Já em termos funcionais. 3. hirto. ainda assim a originalidade permanece.4. não-pétrea. somente por um processo especialíssimo é que pode ser objeto de retomada legislativa pelo Estado. mais que isto.7. É essa nova idéia de superação da teoria da autolimitação jurídica do Estado que vai possibilibitar a formação do juízo de que a primeira das cláusulas pétreas só pode ser de natureza formal.7. o primeiro título de nobreza da Constituição. a ilação a que se chega é esta: o Poder Constituinte incorpora não-propriamente a opção de atribuir à sua obra legislativa um caráter rígido. assim. mas o poder-dever de não deixar que sua Constituição venha a cair.6.5. eis que processada ao nível das ocorrências fáticas ou exclusivamente políticas. pois o cerne da rigidez está em que o Magno Texto não quer para o seu reprocessamento aquele jeito monocórdio e comparativamente simplificado de se trabalhar com a a lei infraconstitucional. Muito bem! Se o fundamento lógico da Constituição é a suprapositividade. porque tal revogação já não se dá por meios jurídicos ou no plano do dever-ser normativo. não um singelo poder.3.2. Falar de rigidez constitucional. na vala comum dos espécimes normativos que têm por fonte um órgão deliberativo já de Direito instituído.7. A se alojar. b) que tem uma parte dele imune ao cinzel legislativo do Estado. A compulsão da rigidez é. no particular. 3. por residir no próprio esquema de reforma da Constituição. Se as leis subconstitucionais nascem. portanto. o caráter rígido que a Lei Suprema necessariamente ostenta não é outra coisa senão a consagração de um regime jurídico mais cercado de solenidades ou dificuldades para a sua reformulação. assim. ou revogação).7. o modo pelo qual a Lei Maior dispõe sobre a sua própria reforma é insuscetível de reformulação. por inteiro. ainda por cima. estável ou outro nome que se atribua ao fato de a Constituição conservar a memória de sua origem exclusivamente política ou suprapositiva. ou seja. Ela. 3.

3. 3. eles comparecem para traduzir a idéia de que. pode acontecer ao . a Constituição torna especialmente relevante toda matéria sobre que recai. A parte que não é eterna fica exposta aos atos legislativos de reforma.oposta à de flexibilidade. temporal e circunstancial. ou seja. ainda assim. Mas. Ela é pétrea. É o caso da Constituição da Inglaterra. tais Constituições. particularmente zelosa com suas próprias matérias. como se diz aqui no Brasil.10. o reclamo de interstício entre reuniões legislativas de debate e votação final de matéria constitutiva de reforma da Lex Legum). Por isso que. ou circunstancial. porque as Constituições consagradoras do esquema de intransigente supra-infra-ordenação acrescem limitações materiais àquelas de cunho formal. ou debaixo de certos episódios. em duas inconfundíveis porções: uma. como de primário saber. que. 3. também opere pela fuga do lugar comum das revogações ou derrogações de Direito. outra. é uma parte da Constituição que se garante com cláusula de estabilidade ou estado de firmeza se confrontada com as matérias constantes de leis outras. a depender do grau de originalidade que imponha ao seu processo de reforma. uma Constituição Positiva é mais ou menos firme. temporal. a ponto de petrealizar umas e estabilizar outras? A resposta é intuitiva. nenhum ato reformista da Constituição pode ser apresentado. portanto). com certos requisitos de iniciativa.7. ou reconstitucionalização.9. durante algum tempo. cuidando-se de matéria desprovida de petrealidade. Assim como o Rei Midas tornava ouro tudo em que tocava. De ordem processual. O fato em si da constitucionalização de um dado campo relacional-humano já se traduz numa fuga ao lugar-comum da regulação jurídica.20 3. ora uma rigidez mais ortodoxa. ou seja. uma vez respeitadas as exigências constitucionais de ordem formal. a fatores de ordem processual. Não se conclua. se a matéria é clausulada como pétrea. hirta. É o caso de se perguntar: e por que a Lex Maxima é assim especialmente cuidadosa. Daí o discriminar-se. A rigidez formal é a marca registrada das Constituições que inauguram o Ordenamento Jurídico de intransigente supra-infra-ordenação e que mantêm esse Ordenamento sob controle de qualidade.7. rígida. pois uma Constituição dita flexível é aquela que pode ser reformada pelo mesmo processo instituído para a produção e modificação de uma lei subconstitucional. entretanto. o mais das vezes.7. porém estável. cuja total flexibilidade decorre da consideração de não ser ela uma Constituição em sentido rigorosamente formal. Essas dificuldades reformacionais de que tanto falamos dizem respeito. estável. ora menos ortodoxa. e por conseqüência imutável. no sentido de reclamar a proposta de reforma constitucional um quorum maior de votação parlamentar. Mas comporta graduação. assegura a supremacia internormativa do Magno Texto e só desaparece com o desaparecimento dele. venha o Poder Reformador a ficar liberado para submeter a si toda e qualquer relação social.8. ou mesmo seu recondicionamento (reconstitucionalização. combinadamente. circunstancial e temporal. sua defenestração do Magno Texto somente se dá por uma nova manifestação constituinte.7. Tal rigidez nasce com a Constituição Positiva.7. A parte da Constituição que é eterna fica imune ao processo reformista.6. eterna. isto é. no sentido de que pode ser. a perda do status de tema constitucional. caso contrário. 3. ou discutido (também se diz um requisito de tempo a exigência de intervalo entre uma e outra rodada de discussão e votação legislativa de matéria constitucional. Não é assim. Já os fatores de ordem temporal e circunstancial.7. Daí que a respectiva desconstitucionalização. não-eterna.

o seu modo constituinte de ser. 3. ou seja.8. E é mesmo a concreta aplicabilidade desse processo especialíssimo de dispor sobre matéria constitucional que vai alçar o Poder Constituído à dimensão de um Poder Reformador. único documento jurídico a atestar a . porque já tentada e consumada. de si para si. por opção metodológica estritamente pessoal. principalmente se nascida nos arejados cômodos de uma Casa Constituinte que teve por alicerce a vontade eleitoral dos cidadãos. justamente. em certa medida. Ainda assim. Isto por ser a Constituição a fórmula jurídico-positiva que possibilita ao povo dar a si próprio uma nova Ordem Jurídica e ainda se fazer internacionalmente conhecido como instância coletiva que desfruta de uma soberania mais que virtual. a Constituição também pode ser vista enquanto modo pelo qual um certo povo proclama. Por esse prisma positivista de análise é que. por definição. independentemente do seu conteúdo (tanto quanto o Direito em geral de alguma forma vale por si próprio.dentre tantas que a Teoria da Constituição implica -. o esquema da rigidez.4. Repetindo o discurso.12. a Constituição mais e mais monitora a elaboração das suas próprias emendas. que atingiu o pináculo de sua identificação jurídica. a Constituição termina valendo por si mesma. resolvemos discorrer sobre os dois temas (embora sem reservar para eles nenhuma epígrafe em particular) no âmbito do estudo que reservamos para os capítulos de n°s IV e V desta monografia.8. 3. vela para que nenhum documento com pretensão a "Carta Plurinacional" ou "Constituição Regional" venha a lhe servir de fundamento de validade.8. 3. pois o poder de reforma da Magna Carta outra coisa não é senão atuar sob a regência das normas constitucionais originárias que formam. O mais formal e o mais solene dos atestados de que um determinado povo experimentou. Ou de sua plenitude política.nível do Poder de Reforma. Assim estimada pelo povo como coisa inalienável dele. que nos parece útil aos fins a que nos propomos.1. no plano territorial-interno. conforme conhecido postulado positivista). 3.7. está em que toda Lei Maior que se faz globalmente efetiva opera como atestado formal de soberania nacional. Esta é uma afirmativa que temos como categórica.3. independentemente do seu conteúdo. 3. que neste capítulo mesmo poderiam ser assim epigrafadas: a) "A Constituição como garantia de tudo e de si mesma". A Constituição como atestado de efetiva soberania nacional 3. petrealidade e rigidez constitucional dão-se as mãos para possibilitar à Constituição o ganho de duas outras notas de especificidade. Em suma. 3.7. Não de um Poder Legislativo comum.8. E já não tem como arredar pé de sua altaneira posição de documento confirmador de uma soberania que é também inalienável. assim.8. 3. debaixo de um processo particularmente solene. a Constituição é tida pelo povo como galardão ou insígnia maior de sua própria independência (dele. para que nenhuma delas lhe usurpe o trono de rainha das normas jurídicas. b) "O definitivo enlace entre a Constituição Federal de 1988 e a Democracia". Rigidez formal e Poder Reformador. 3.2.8. Contudo. O traço final de especificidade da Constituição.8. Nessa medida.11. povo) e passa a gozar de estima geral como inalienável patrimônio jurídico. constituem mais uma necessária parelha temática . com êxito.6. na medida em que instituidor de uma ordem. a Constituição. E no plano territorial-externo.5.

soberania de um povo. realmente) por elas estruturado. sim. é este: não se vai cair no romantismo ou na ingenuidade de supor que as "Constituições Regionais" deixem de ditar as condições de participação de cada Estado-membro no tipo de confederação (pois é de confederação que se cuida.8. os ditames de uma "Constituição" da espécie plurinacional ou cosmopolita ingressam no mundo do dever-ser. Mas o estabelecimento de tais condições vale apenas como imposição factual ou realidade do mundo do ser. é como a soberania mesma: projeção do poder. internamente. não reconhece outro Poder ou outro Organismo de que venha a fazer parte senão nos termos por ela mesma previstos. não por merecimento próprio. 3. até que se dê a sua recepção pela Magna Lei de cada povo. externamente. Porque aí. insista-se. Logo. notadamente à face das suas emendas (a Constituição a cumprir o papel de não deixar que suas emendas cumpram o papel de atestar a soberania do povo). fora e dentro do território que o povo conquista com animus domini. assume-se como a Lei das Leis. por ilação.21 . mas pelas boas-vindas que eventualmente lhes dê a Constituição de cada Estado confederado.7. O fecho do pensamento.

O modo insimilar de nascer da Constituição como primeira causa de diferenciação hermenêutica 4. porque a positividade constitucional é um gênero abarcante das normas que aparecem para o mundo do Direito por via da Constituição originária e mais aquelas que aparecem para o mundo jurídico por via dos atos de reforma da Constituição mesma. no entanto.1. O tema da interpretação da Constituição exige de nossa parte uma prévia demarcação de conteúdo. por virtude da Constituição 4. que é a natureza do verdadeiro Poder Constituinte.A Hermenêutica da Constituição Sumário 4.8. deixam.1. vistos sob o prisma do seu processo de elaboração e quanto à disciplina da matéria sobre que versam (com a respectiva dimensão eficacial).4. se em normas constitucionais se traduzem.6.1. O Direito Positivo como sistema ou ordenamento. são atos normativos que não têm a menor ensancha de livremente dispor sobre o seu regime jurídico. A dualidade princípios/regras como base da nova Hermenêutica da Constituição 4.2. A peculiar estrutura conceitual dos princípios constitucionais 4.3.5.7. 4. Queremos dizer. E não sendo produzidos por um poder assim virginalmente fático. Qual a conseqüência teórica dessa impossibilidade de os atos de reforma da Constituição ditarem o seu próprio regime jurídico? A conseqüência da não-definitiva autoqualificação nem da definitiva auto-hierarquização como norma de Direito. A inadequação do termo "Interpretação Constitucional" 4.3. tais atos só podem ser interpretados como veículos formais de normas dominadas. 4. com esta separação entre normas da Constituição e normas de reforma da Constituição. porque destituídas de peculiaridades que as excluam. É ainda dizer: surpreendidos no seu regrado processo de elaboração jurídica. de se apresentar à Ciência do Direito como produzidos por um poder de fato ou supra-estatal ou suprapositivo. A imperiosa substituição do nome "Interpretação da Constituição" por "Hermenêutica da Constituição" 4.1. Teoria da Interpretação do Direito em geral. que somente as primeiras é que se tornam objeto de uma centrada teoria da interpretação. A Teoria da Interpretação do Direito em geral como antecedente da Interpretação da Constituição 4. A inadequação do termo "Interpretação Constitucional" 4. Não as segundas.10. e não de normas dominantes. E não significa. As especificidades da Constituição como a razão de ser de uma Hermenêutica diferenciada 4. do âmbito de uma genérica teoria da interpretação. O modo insimilar de viver da Constituição como segunda e definitiva causa de diferenciação hermenêutica 4.1. a merecer o rótulo provisório de "Interpretação da Constituição". O que já significa dizer que. seja quanto ao seu conteúdo e respectivo grau de eficácia. tanto quanto no seu regrado poder de . Os atos de reforma da Constituição (quantas vezes o dissemos?).1.4.1. 4. isto é.2. Este o fiat lux da questão.9. Seja quanto à sua forma de elaboração. Ele não significa a formulação de uma teoria que encerre ou contenha diretrizes para a concreta interpretação de toda e qualquer norma constitucional positiva. por inteiro. A Constituição como sistema ou ordenamento por virtude própria 4.Capítulo IV .

não se pondo na linha de partida do Direito (mas sempre a meio caminho dele). Algo que se faz por ela mesma.9. tão-somente. O seu real paradigma.conformar relações intersubjetivas materiais. todo figurino. 4. e não para ela. por igual. Mas a Assembléia Constituída jamais pode se autopromover para Assembléia Constituinte. O regime jurídico dos atos de reforma da Constituição é um molde que a própria Constituição prepara. formar. Sob o título de "Interpretação da Constituição". 4. E sua força impositiva frente às outras normas é. por ele. uma necessária e definitiva auto-hierarquização. necessariamente. O todo da Constituição inicial e respectivas partes. pois Constituição em tudo e por tudo eles não são. pois o órgão que se auto-rebaixa desaparece para sempre dos quadrantes do Direito. A Teoria da Interpretação do Direito em geral como antecedente da Interpretação da Constituição 4. que nos parecem necessárias para um claro entendimento da relação primária entre a Constituição e os atos de reforma constitucional. só podem ter a sua qualificação e a sua hieraquização como norma jurídica por virtude de algo anterior a eles. sim. assim. sem possibilidade de reversão. Ao reverso do que sucede com os atos de sua própria reforma. enquanto o molde só pode ser concebido como um antecedente. 4. em membros de um Poder simplesmente instituído. que. portanto.7. É que a Assembléia Constituinte pode se auto-rebaixar para Assembléia Constituída.1.1. Aquele auto-rebaixamento é uma viagem sem retorno. todo molde é algo que nasce com ela. os atos de reforma da Constituição não se enquadram num esquema de interpretação em tudo e por tudo igual ao da própria Constituição.8. no particular. múltiplos objetos sejam moldados.6.1. é o dos demais espécimes de Direito infraconstitucional. como é o caso do Parlamento ou Poder Legislativo.2.1.5. por que sua qualificação como norma jurídica é uma necessária e definitiva autoqualificação. Repetindo: o objeto a sair do molde não pode plasmar o molde de que vai sair. Do que se deduz que nenhum dos objetos a sair do molde possa dar a si mesmo o próprio molde.1 4. pelo fato evidente de que esta se formou há mais tempo como ordem autônoma de conhecimentos. toda fôrma. tão logo promulgada a Constituição (exatamente como se deu com a Lei Maior brasileira de 1988). E como todo molde. Nasce de dentro da Constituição para fora e se impõe a todo o Ordenamento. Há um só molde. à espera de que. . Somente fica o órgão rebaixado. 4. para o âmbito mais dilargado da Teoria da Interpretação (ou Hermenêutica Jurídica em geral). A Interpretação da Constituição como tema de estudo nos empurra.1. ou de fora para dentro. esta. No âmbito da Constituição originária. é que não tem molde ou fôrma a precedê-la. A Constituição inicial. um a priori. Estas noções. O objeto ou a coisa a moldar é sempre um conseqüente. o que nos caberia formular seriam os cânones presidentes da interpretação de todo e qualquer dispositivo constitucional.1.2. É uma qualificação e uma hieraquização que vêm de trás para frente. sim. recortar. um a posteriori. 4. antecede aquilo a que se destina moldar. num seguinte e imediato instante. desde que figurante da originária redação de um Magno Texto. não têm sua importância reduzida pelo fato de as mesma pessoas que formam uma Assembléia Nacional Constituinte poderem se transformar. todos eles encartados num processo legislativo que nasce com o originário Texto Magno.

em estudo que principia pela correta asserção de que "Praticar a interpretação constitucional é diferente de interpretar a Constituição de acordo com os cânones tradicionais da hermenêutica jurídica" (primeiras linhas do texto que serviu de roteiro a conferência pronunciada em Aracaju. enquanto aquela a significar a busca de noções transpositivas. 4. É como dizer: a Hermenêutica é o capítulo da Teoria do Direito que vai centradamente orientar o processo de compreensão dessa ou daquela norma jurídico-positiva. no fundo. é natural que a Teoria do Direito anteceda à Teoria da Constituição. Façamo-nos entender com mais clareza. por exemplo (que são categorias mentais elaboradas ao nível da Teoria Geral do Direito).2. dualidade norma/Ordenamento. pelo fato de que mais e mais os doutrinadores insistem na diferenciação entre hermenêutica e interpretação. É o que ressalta WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO. reservando à segunda o papel seqüencial de aplicar à cognição dessa ou daquela norma de Direito Positivo os enunciados da primeira. durante seminário que. porque. 4.3.6. a hermenêutica encerra um conjunto de noções preparatórias da interpretação.2 4. Ela. hierarquia internormativa. Assim é que noções de validade. de 05 a 10 de maio de 1998. Ainda um tanto é de se dizer na matéria.2. Por essa diferenciação entre a hermenêutica e a interpretação jurídica.4. antinomias normativas e critérios de sua eliminação. E a esse empírico processo de compreensão é que se apõe o rótulo de Interpretação Jurídica. porquanto aplicáveis a toda e qualquer norma-objeto de interpretação. Hermenêutica.3.2. é parte dessa Teoria: aquela parte que tem especial serventia para a interpretação jurídica em concreto. sabido que este último somente ganhou suas definitivas características a partir das Constituições que se promulgaram nas três últimas décadas do século XVIII. eficacidade e efetividade.2. Diga-se mais: como o centro do Direito em geral era o Direito Privado.2.2. A comparação temporal entre as duas modalidades de teoria é a mesma que pode ser feita entre as idades do Direito como um todo e do Direito Constitucional em particular. A imperiosa substituição do nome "Interpretação da Constituição" por "Hermenêutica da Constituição" . 4. Esta a significar a busca da revelação da mensagem aportada por uma particular norma de Direito.4. lacunas da lei e modos de sua colmatação. 4. 4. também natural seria que as coisas acontecessem como de fato aconteceram: os mais vivos contornos da Teoria da Interpretação foram esboçados à luz de um pensamento jurídico marcantemente privatista.5.2.7.2. 4. Não estamos a dizer nada diferente do que isto: se o Direito como um todo antecede à Constituição. Daí para o campo hermenêutico a dedução é instantânea: a Teoria da Interpretação lato sensu nasce bem antes do que a Teoria da Interpretação da Constituição stricto sensu.8. passam a constituir princípios hermenêuticos a aplicar no empírico processo da interpretação de uma determinada norma de Direito Positivo. Mas não somente com a Interpretação Jurídica é que a Hermenêutica mantém um necessário vínculo operacional. os estudantes de Direito da Universidade Federal de Sergipe realizaram em homenagem ao primeiro decênio da Constituição da República Federativa do Brasil). também se enlaça operacionalmente à Teoria do Direito. Por isso que a Interpretação da Constituição tem sido focada como subseção da Hermenêutica Jurídica em geral.

3.3. O objeto da interpretação constitucional. exprime aquela porção da Teoria da Constituição que vai propiciar o facilitado entendimento de toda e qualquer norma em particular de Direito Constitucional originário. somente. esta é de menor abrangência no seu campo material de estudo. o histórico e o sistemático. o que vimos designando até agora de "Interpretação da Constituição" tem que mudar de nome. Num esforço de refinamento explicativo. A Interpretação. a Hermenêutica da Constituição faz-se de ponte entre a Teoria da Constituição como um todo e a interpretação de cada norma dessa ou daquela Constituição Positiva originária em separado. habitualmente). bem ao contrário.1. Logo.na medida em que existe para aproveitar da Teoria da Constituição apenas aqueles enunciados de especial préstimo para o labor da interpretação de todo e qualquer dispositivo constitucional originário (indistintamente. porque importa colocar em realce que a Hermenêutica Jurídica em geral ocupa um espaço de teorização de obrigatório trânsito pela Hermenêutica da Constituição. Porção que termina por formar pré-compreensões ou pré-interpretações de que se vale o aplicador da Lei Maior (que é o intérprete em concreto) para o trabalho final de apreensão do significado de uma determinada norma de elaboração genuinamente constituinte. Mas esta nossa explicação é ainda incompleta. III . Não somente para esta ou aquela específica norma constitucional-positiva originária. porque tem por objeto revelar da Teoria da Constituição apenas aqueles enunciados que sirvam para o concreto labor da compreensão de toda e qualquer norma constitucional-positiva originária.a Teoria da Constituição tem por objeto elementarizar a Constituição como fenômeno jurídico.4. Incompleta. portanto). Sendo assim. destacando-a de qualquer outro diploma normativo ou ramo autonomizado do Direito. 4.3. somente vale para uma dada norma-objeto. 4. Com o quê se diferencia da Teoria do Direito ou "Teoria Geral do Direito" (como também se diz.3 4. de que falaremos a breve trecho.4. a Hermenêutica antecede o isolamento da norma-objeto (norma já positivada nessa ou naquela Constituição inicial) e por isso mesmo passa a valer para todo e qualquer dispositivo jurídico ou texto normativo-constitucional-originário em apartado. inserida no contexto de uma particular Constituição originária. 4. pensamos que tudo se aclara no bojo do seguinte sumário: I . a Hermenêutica da Constituição passa a se diferençar da Hermenêutica em geral.3. porque. aí. o finalístico. Hermenêutica da Constituição. E nesse campo específico da Hermenêutica da Constituição.Já a Hermenêutica da Constituição. Passa para "Hermenêutica da Constituição".4.3. portanto. a saber: o literal. o lógico. Com o respectivo grau de eficácia. a ilação da dicotomia acima pontuada é intuitiva: ela. e não para toda e qualquer norma da Constituição originária. o que se tem já é o campo de incidência da Interpretação propriamente dita. II .2. As especificidades da Constituição como a razão de ser de uma Hermenêutica . Donde a conclusão de que a operação mental do intérprete segue este necessário roteiro: começa pelas pré-compreensões que a Hermenêutica recolhe da Teoria da Constituição e desemboca na compreensão final (interpretação) de uma norma-objeto. Por esse ângulo de visada. É o indescartável espaço dos chamados métodos de interpretação jurídica. visto que a Hermenêutica em geral serve de instrumento é para a interpretação de toda e qualquer norma de Direito.

Se o papel da Teoria do Direito é apartar o Direito das outras realidades normativas (sobretudo a religião.4. se o papel da Teoria da Constituição é apartar a Constituição dos demais diplomas jurídicos (ou o Direito Constituição do Direito pós-Constituição). a ponto de podermos dizer que a Constituição consegue ser diferente até mesmo da mecânica soma das suas próprias normas. pelo menos. os vetores da comum hermenêutica do Direito já não tinham como dar conta do recado e por isso é que a doutrina passou a envidar os seus melhores esforços na fixação de novos paradigmas exegéticos ou recursos de uma argumentação propriamente constitucional. Aquilo que singulariza as normas da Constituição originária no contexto dos demais atos consubstanciadores de normas jurídicas é mesmo de qualidade. Já demonstramos que ela é muito mais do que a diversidade de campos materiais de incidência normativa (campo civil. Logo. como explicado no capítulo anterior.que força. É por se peculiarizar perante o Direito em geral (e como!) que a Magna Lei justifica e exige para si uma metódica hermenêutica também peculiarizada. processual. Não há demasia na afirmação. nem.4. sobre a qual os chamados "Ramos do Direito" erguem a sua autonomia entitativa. porém. É de tal monta essa diferenciação entre os dois setores . 4.4. por evidente).4 4. Não é uma diferença qualquer. é claro que essa peculiaridade exegética só pode advir do fato de ser a Constituição uma realidade normativa que se marca por traços ontológicos próprios.4.). Não é a partir de técnicas gerais de compreensão do Direito que se vai conhecer aquela parte do Direito que mais explica o próprio Direito (que é. precisamente. o papel de mostrar em quê a exegese de uma norma figurante da Constituição originária difere da exegese de uma norma não-figurante de tal Constituição. Parte sem a qual o Direito não poderia ser visualizado como um todo fechado em si mesmo.2. Ora. Ela nem se confunde com o Ordenamento Jurídico. ou. a Constituição). comercial.4. se estamos assim a nos comprometer com o acerto da proposição de que existe uma especificidade hermenêutico-constitucional. a exigir metódicos instrumentos de análise também singulares.1. As linhas que se seguem reforçarão os traços da Constituição como a parte do Direito que mais explica o próprio Direito. qual o primeiro papel da Hermenêutica especificamente constitucional? Dar seqüência ao papel diferenciador da Teoria da Constituição. o pensamento jurídico a elaborar uma dogmática exegética superadora da tradicional. Ainda mais.diferenciada 4. afunilando ou direcionando as proposições dessa Teoria para a tarefa interpretativa de cada norma constitucional originária em particular. a ponto de podermos separar . 4. Quase tudo na Constituição é onticamente singular. numa perspectiva nova: a demonstração cabal de que é preciso um toque de especificidade interpretativa para um diploma (o Magno Texto) que nasce e vive por um modo absolutamente insimilar. 4. Com o quê a Hermenêutica da Constituição está para a Teoria da Constituição assim como a Interpretação .5. Tanto e tanto. com a soma linear das normas que formam o seu próprio corpo de dispositivos. A Constituição revolucionou mesmo o pensamento jurídico.como estamos separando desde o início desta nossa monografia . justamente. a etiqueta e a moral).as normas da Constituição das normas de reforma constitucional. penal. etc.3. É como dizer: com o surgimento da Constituição (e estamos a falar da Constituição do tipo rígido. nem com as normas de sua própria reforma.o da Constituição e o setor do Direito posterior a ela . trabalhista. por fim. como realidade tendente a esse fechamento autonômico.4.

4.5. Fora da Constituição originária. é a partir do modo pelo qual a Constituição é partejada que se percebe ser ela. não-jurídica de deliberação.1.5. Uma seqüenciando a outra ou tendo a outra como referencial.5. e não do mundo das normas. outro. agora sim. qualquer outro ser ou modelo prescritivo de conduta que se apresente com as vestes de uma regra jurídica. Ela se "valida" pela efetividade. Mas em quê o modo especialíssimo de nascer da Constituição implica mudança de vetor hermenêutico? No seguinte: quando se está diante de qualquer outra realidade normativa. É para isso que serve a distinção entre a Hermenêutica e a Interpretação da Constituição (entre outras serventias). Muito bem. Não é assim com a Constituição originária. é preciso ainda ver se o documento jurídico de que faz parte a norma-objeto foi (ou não foi) produzido sem mácula processual e também .5. com o respectivo grau de eficácia. para se avaliar a procedência.5. 4. O modo insimilar de nascer da Constituição como primeira causa de diferenciação hermenêutica 4.5. exige que se faça exame de validade no momento do empírico processo de interpretação de toda norma que venha a se positivar após a Constituição mesma. aquela porção do Direito que mais se diferencia de todas as outras.3. Constituição. E tudo começa mesmo é com a percepção de que só o Magno Texto (não tenhamos receio de incorrer em repetição de juízo) nasce de uma fonte exclusivamente política. do caráter jurídico do ser investigado. Uma fonte ou instância de poder que faz parte do mundo do ser. Não! Esse modo de interpretar é aplicável somente a uma dada norma da Constituição originária. O exame comparativo entre o diploma jurídico objeto de interpretação e a Lei Maior. para ver até que ponto se dá a compatiblidade formal e material do primeiro à segunda. faz-se o uso de dois tipos necessariamente sucessivos de interpretação: um. No fluxo desta nossa caminhada cognoscitiva. Se se prefere. 4. A interpretação de uma particular norma jurídica não se esgota na revelação da semântica ou significado lógico-idiomático por ela portado. o que significa percorrer o itinerário inverso dos outros modelos jurídicos: estes somente podem obter o atributo da efetividade depois de obtido o atributo da validade. Com efeito. e não simultaneamente normante e normado.2. ela é aquele pedaço do Direito que menos identidade mantém com os demais. naquilo que ela tem de apropriação dos conceitos que formam a Teoria da Constituição. como se dá.4. 4. 4. façamos a mais lógica das perguntas: qual a primeira especificidade da Constituição a repercutir no campo de uma métodica hermenêutica diferenciada? Respondemos: tudo o que justifica a dualidade de vetores ou diretrizes hermenêuticas principia pela insimilaridade do nascer da Constituição como realidade jurídico-positiva. com os demais atos expressionais do Direito. porém globalmente efetiva ou não. Hermenêutica da Constituição. Perante as respectivas normas. que já é propriamente conteudístico-eficacial. ou não. para se conhecer o conteúdo significante e o grau de eficácia do ser já aprovado pelo primeiro controle de qualidade jurídica. A Hermenêutica. A Constituição não é válida nem inválida. dentro de um esquema de particularização progressiva de conceitos.5 4. factual.5. É inferir: somente depois de passar por um exame de validade é que o espécime normativo sai dessa primeira via de interpretação para a segunda.Constitucional está para ela.6. a primeira via de interpretação é descabida. Um centro decisório exclusivamente normante. É muito simples o que intentamos dizer.5.

porque: primeiro. genericamente considerada (plano das considerações lógico-jurídicas.6. Em suma.5. Nenhuma fica de fora. meio direto ou simplificado de se viabilizar o conhecimento da mensagem aportada por aquele discurso (mensagem.1. e não apenas dentro dele. perante qualquer diploma jurídico (inclusive o das emendas ou revisões constitucionais). E já dissemos que o modo de a Constituição Positiva fazer parte do Ordenamento Jurídico é absolutamente único.6. Ela prossegue pela vida afora do Direito . a maneira de a Constituição fazer parte do Ordenamento é se postando no topo desse Ordenamento. a forma pela qual a Constituição deixa o Ordenamento ou dele sai (finando-se com ele. Logo. o exame de validade formal e material é intransigente: incide sobre todas as normas ali contidas. Mesmo que se trate de norma engastada em ato formal de emenda à Lei Maior.9. terceiro.5. Ocorre que esse modo único de nascer da Constituição apenas faz sentido se se fizer acompanhar de um modo único de viver. a radicalidade operacional é inversa: nenhuma norma constitucional originária.6. que opera pela revelação do significado comum ou dicionarizado das palavras e expressões em que se vaza o discurso jurídico-positivo.o método filológico ou literal. a Lei Maior passa inteiramente ao largo do processo exegético ou da empírica interpretação normativa. elaborando-a. que outra coisa não é senão o quê da norma . mas o Ordenamento é que principia com a Constituição.6. Nesse plano de radical exame de validade. 4. tal qual JESUS CRISTO operou como um divisor de águas na esfera mais dilatada de toda a humanidade ocidental (antes e depois dele). então.6 4. absolutamente nenhuma. pondere-se) é a mesma pela qual entrou: a suprapositividade. Não há outra (daí a distinção entre uma soberania que trata da Constituição. a Constituição é o único documento normativo que provém do Poder Constituinte por forma direta. assim como JESUS.7.se a própria norma-objeto estava autorizada a se dotar do conteúdo e da eficácia com que positivamente nasceu. É aqui mesmo que devemos fazer a outra decisiva pergunta: e em quê o modo único de viver da Constituição repercute no campo da tópica hermenêutica? Ah! Por vários aspectos! 4. 4. e não jurídico-positivas). Todas ficam de fora.5. segundo. não é a Constituição que principia com o Ordenamento.3. Já diante da Constituição. e uma soberania de que trata a Constituição já elaborada). O modo insimilar de viver da Constituição como segunda e definitiva causa de diferenciação hermenêutica 4.a partir da rigidez formal a que necessariamente se impõe . E outra vez por comparação com a figura ímpar de JESUS. Por mais que nos deparemos com a cerrada oposição de autores densamente qualificados.com a mesma originalidade que marcou a trajetória existencial do filho unigênito de Deus no meio do homens. para as religiões cristãs. convicto estamos de que. E a causa eficiente da exclusão de tal exame prévio é o modo peculiar de nascer da Constituição. incorpora os seguintes e englobados métodos de intelecção normativa: I . É dizer: sem a intercalação de nenhuma outra instância produtora de norma jurídica. é o filho unigênito de Deus (pois que gerado diretamente pelo Criador). Daí porque opera como um divisor de águas na esfera jurídico-positiva. 4.2.8. é submetida a exame de validade. diríamos que a Constituição também vive por um modo insimilar. 4. Principiemos por lembrar que a dogmática hermenêutica.

então. ainda é preciso considerar as linhas e entrelinhas da própria Constituição Positiva.8 IV . revelando-se. O papel do intérprete.10 . seja para substituir o sentido meramente coloquial dos signos linguísticos por um sentido propriamente jurídico ou da própria técnica do Direito (e aí o dicionário a que se recorre já é o vocabulário jurídico. com o seu específico tamanho eficacial). agora o que importa é ler nas linhas e entrelinhas. para saber em que essa comunicação consiste. reversamente. cuja prestimosidade está em conhecer a origem ou etiologia da norma. decifrar o meramente verbal da comunicação normativa. como o próprio instituto jurídico ou a figura de Direito que se procura conhecer. não desse ou daquele dispositivo em particular. palavras que encerram o núcleo mesmo da norma de Direito Positivo. então. uma vista panorâmica do material investigado. por constituir a norma-em-si. então. e não somente a qualidade de cada parte mesma). e não o dicionário idiomático em geral). Por comparação com o método lógico. pois implica a revelação do significado técnico ou propriamente jurídico das palavras de que se venha a compor o dispositivo interpretado e ainda passa por uma obrigatória leitura das entrelinhas ou do não-verbal desse mesmo dispositivo. Estas últimas são palavras-fim. da interpretação dita restritiva).o método sistemático ou contextual. que é a conseqüência lógica do interpretar articulado (cada dispositivo em combinação com os demais. a sua forma causal. Logo. é ler nas próprias linhas do dispositivo. E o papel da interpretação literal (toda interpretação começa por esse método) é saber que palavras cumprem no discurso jurídico-positivo um mister meramente vernacular (palavras-meio) e que palavras. III . De todo modo. E se essa lei ou esse Código for de Direito Infraconstitucional. Afinal. quer dizer. empregado para a captação do objetivo ou dos objetivos da norma interpretada (domínio do para quê normativo. semantica e eficacialmente. Mas a sua utilidade específica permanece igual à serventia dos métodos literal e lógico de interpretação: conhecer e descrever o quê de cada norma-objeto.o método lógico. O que significa. Implica uma releitura.o método teleológico ou finalístico. quando for o caso. não enquanto ilha. implicando o conhecimento do pomo factual de discórdia que gerou a necessidade da normatização jurídica. mas de toda a lei ou de todo o código de que faça parte o dispositivo interpretado. portanto: o método sistemático de interpretação jurídica é o único a possibilitar um visual de conjunto. ao reverso. existe mesmo e não pode deixar de existir um vínculo funcional entre as palavras e o Direito-lei.o método histórico. que é a mensagem-em-si em que ela se traduz. porém enquanto península ou parte que se atrela ao corpo de dispositivos do diploma em que se engasta. seja para dimensionar com precisão o potencial de eficácia da norma interpretada (tarefa em que avulta a consideração do não-verbal ou das entrelinhas do dispositivo interpretado. para que a união de cada parte ao todo traga para o Direito a qualidade do todo.positiva ou o objeto da relação positivamente instituída. o significado que a norma assume.9 V . isto é. ou. sua utilidade é a mesma do método literal: buscar a revelação do quê da norma. principalmente para o efeito do uso correto da interpretação dita extensiva. voltado para a reciclagem ou o policiamento do método filológico. cumprem nesse discurso um mister propriamente relacional ou intersubjetivo. descambando para o histórico-evolutivo.7 II . é método voltado para o resgate do porquê da jurisdicização da matéria. que tem por função eidética procurar o sentido peninsular da norma jurídica. bifurcado num para quê de ordem prática ou imediata e num para quê de ordem axiológica ou mediata).

ele passa a ganhar uma qualidade. porque a Constituição. pois em tema de exame de validade jurídica a meta é a fonte. 4. ou seja. Não tem que sair dos muros ou dos lindes que demarcam a normatividade constitucional originária. etc.6. ou do código.5. senão. ou admita constrição de efeitos pela mesma via da legiferação de segundo escalão (normas de eficácia completável e normas de eficácia restringível. É uma sistematicidade de dupla face. quando essa mesma técnica da contextualidade é aplicada à Constituição? Fica absolutamente confinada. ainda quando a eficácia de suas normas reclame acréscimo de prescritividade por uma legislação de menor hierarquia.4. uma natureza.6.6. É no último deles. E por que assim acontece? 4. encerrada no corpo normativo da Constituição mesma. uma interna. a Constituição passaria a servir ao Direito-lei. Afinal. a sabenças: todo juízo de validade jurídica só alcança a dimensão de um juízo de validade absoluta (e não apenas relativa) depois que a norma-objeto se mostra compatível com a própria Constituição Positiva.4.7. o método sistemático é mais abrangente: além de apanhar a norma investigada no contexto da lei. e. o mais das vezes. Que sucede. A Constituição enquanto base normativa permanente de todo o Processo . busca inseri-la no todo da Constituição. por hipótese. 4. externa. Longe de querer servir à lei e aos demais espécimes de Direito Legislado. O seu concreto uso muda de perspectiva. e não o Direito-lei a servir à Constituição. Por conseguinte. Começa pelo diploma jurídico a que pertence a norma e vai em frente: sangra as barragens desse diploma para cotejar a norma com a própria Constituição. ou da emenda. E isto se dá pelo fato de ser a Constituição. ao longo da monografia INTERPRETAÇÃO E APLICABILIDADE DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS (Editora Saraiva. É preciso ainda que ele mantenha com a Constituição um vínculo de perfeita sintonia formal e material. Não o contrário. E é para servir a si mesma que ela dispõe sobre a elaboração de todo o Direito posterior a ela. de que ela faça parte. recicla todo o Direito Positivo e daí toda a Teoria Jurídica. porém. vê-se que não é no círculo dos quatro métodos iniciais que toma corpo a especificidade interpretativa que estamos a reivindicar para a Constituição. respectivamente. em verdade. se adequar à lei por ele aplicada. outra. Para logo. é a Teoria da Constituição (mais que a Teoria do Direito em geral) que proclama.1. a derradeira das metas é a primeira das fontes. Consideremos agora o seguinte: mesmo quando o método sistemático é aplicado ao Direito pós-Constituição. porque. 4. O Direito Positivo como sistema ou ordenamento por virtude da Constituição 4.. uma tonalidade nova.6.7.7. reduzindo. segundo a classificação que pessoalmente adotamos em parceria com CELSO RIBEIRO BASTOS.6. A Constituição prescinde do Direito posterior a ela para se fazer entendida quanto ao significado dos seus institutos e instituições. os institutos e as instituições de selo constitucional devem ter a sua conceituação elaborada a partir de elementos encontradiços na própria Constituição. Assim é que não basta a um decreto. a Constituição quer servir é a si mesma. quando aplicado ao Direito posterior à Constituição. o ímpeto ou a "essência transformadora" da Magna Carta. e essa fonte primeira (fonte das fontes) é a Constituição positiva. quando formalmente rígida. para nos valermos de expressão corretamente adotada por JOSÉ AFONSO DA SILVA para a nossa Constituição de 1988. pois. 1982). uma peça jurídico-positiva que se orienta por critérios de auto-referência ou de auto-explicação quanto ao seu próprio significado e tamanho da sua eficácia.

1. É exprimir: cada norma de imediata aplicação da Constituição tem que homenagear a própria Constituição. o que faz pela enumeração dos atos normativos que se integram no processo legislativo. que são produzidos por uma forma preestabelecida quanto à indicação dos respectivos editores (órgãos ou fontes legiferantes) e quanto ao encadeado itinerário de formação da vontade legislativa de tais editores. a Constituição recicla todo o Direito Positivo e daí a própria Ciência Jurídica.Legislativo 4. ela é a própria condição lógica da montagem de um Direito Positivo de "supra-infra-ordenação". porque é nessas cláusulas que o Texto Supremo se personaliza ou tem a sua identidade substancial (a Constituição tem os traços fisionômicos das suas cláusulas pétreas). Bem. é claro que ela tem que dispor sobre a edição das outras normas jurídicas gerais. Vamos repetir o juízo. depois.1. no entanto. ela é um sistema normativo em si. só pode fazê-lo na medida em que se irrogue a força de ditar o regime jurídico de todo o Direito legislado (Direito-lei) que a ela se seguir. A Constituição. Constituição. por efeito mesmo de sua rigidez formal. e somente ela. esses.2. aí o dever da compatibilidade vertical é absoluto: alcança tanto as cláusulas pétreas quanto as destituídas dessa qualificação (desde que se entenda por dever de compatibilidade vertical a não-contradição entre os comandos da legislação infraconstitucional e aqueles insertos na Constituição). Cuidando-se de emenda ou revisão à Magna Carta. formando com ele um segundo e complementar sistema. ao nascer. discriminação. o conjunto normativo de hierarquia máxima. é documento normativo que exibe duas notas distintivas: primeiramente. ele fica acentuadamente suavizado: as emendas e revisões só não podem inovar em tema de cláusulas pétreas materiais. a instituição de um processo legislativo-constitucional (que é formalmente pétreo por definição) e mais o reclamo de compatibilidade material e de eficácia já são suficientes para que a Constituição.4. material e eficacialmente (com a referida suavização conteudístico-eficacial em tema de emenda ou revisão). 4. Já em se tratando de outras modalidades de normas de aplicação primária da Constituição. é que pode dizer como se deseja primariamente aplicada.1.1. Manter sob o seu mais próximo controle todos os atos de elaboração normativo-primária.7. desde que formalmente rígida. E isto se dá pela instituição de um "processo legislativo" que recubra os atos jurídicos de imediata aplicação dela própria.7. a Constituição formalmente rígida é.3. e cada norma que se seguir .1. Tem que ser a fonte das fontes normativas ou a lei das leis. 4. Ora bem.1. 4. Atos jurídicos. tanto do ponto de vista formal ou processual quanto do ponto de vista material ou de conteúdo e ainda eficacial. para se autoproclamar como lei das leis ou norma normarum. Pois bem. 4.7. de sorte a impedir que tais atos se tornem ovelhas desgarradas. É sintetizar: a Constituição.7. Mais: a Constituição cria mecanismos de autodefesa quanto à fiel observância daquele processo e também quanto ao conteúdo mesmo e dimensão eficacial dos atos legislativos que a ela se seguirem. formal. no confronto com as demais regras de Direito Positivo (inclusive os atos oficiais de reforma constitucional). Para se manter assim hierarquicamente superior. Esse último reclamo de compatibilidade material e eficacial demanda. Com exclusividade. que são atos de imediata aplicação dela própria.7. pela consideração de que ela.5. o tempo todo. também dê à luz um Direito que se caracterize por somente absorver aquelas normas que tenham em outras normas imediatamente superiores a devida confirmação (fundamento de validade). com diferentes palavras.

7.7. nunca mais o será (a não ser. Se a Constituição apenas se permite inovar por um processo mais cerimonioso que o das outras normas gerais. mediata. que falou do Egito como um presente do Nilo. que a Constituição é hierarquicamente superior às demais normas jurídicas. não podem instituir por conta própria esse tipo de esquema para uma Constituição que se deslembre de instituí-lo. 4. A título de parêntese. Parêntese fechado. que é a norma geral de aplicação da Constituição. claro.7. quer dizer. a pressupor interdependência de autoridades normativas e ausência de antinomias de comandos. enfim. Se instituído pela Constituição. torna-se automaticamente pétreo. por conseguinte. pensamos que a oportunidade é das melhores para também lembrar que outro efeito lógico da rigidez formal é a Constituição Positiva a se assumir como o documento normativo que mais persevera na sua originária formulação. patenteada fica a proposição de que ela. cada fonte a jorrar de outra fonte e cada norma jurídica a buscar fundamento de validade material em outra norma jurídica.1.2.2. O caráter superlativamente estável da Constituição e suas conseqüências hermenêuticas 4.7.12 4. formal e materialmente. E é por ser assim hierarquicamente superior. da perdurabilidade . Tudo por efeito de uma hierarquia internormativa que deita raízes na rigidez formal que só a Constituição pode e deve (poder-dever) se autoconferir. averbamos que os atos de reforma da Constituição.2. Está aqui a razão pela qual HANS KELSEN fala desse tipo de Direito Positivo como "ordem normativa de supra-infra-ordenação". que é a Constituição em si. 4.11 4. Um conjunto ordenado. ela já está a se categorizar como o segmento do Direito mais infenso a reforma. porque referidos a duas normas superiores: uma. Uma unidade formal e material de estatuições. outra. pois a Constituição forma com as regras infra e pós-constitucionais um só Direito Positivo. além de impedidos de tocar no originário esquema da rigidez formal. ou seja. um Direito Positivo tão hierarquizado nos elementos que formam o seu repertório. O regime jurídico da rigidez é sempre originário e definitivo.7.1. e não uma pluralidade contraditória e fragmentária de comandos (parodiando HERÓDOTO. nesta última suposição. Donde os conceitos de validade relativa e validade absoluta de norma jurídica.àquelas de aplicação imediata da Constituição tem que ajustar o seu conteúdo e eficácia a tais normas de aplicação imediata da Constituição e ainda à Constituição mesma. o segundo dos sistemas a que nos referimos: o sistema do Direito-com-a-Constituição. Temos. O fato em si da rigidez formal já revela o compromisso que a Lei Maior assume com o movimento incessantemente pendular do Direito. Versos de rima dobrada.1. em última análise. que a Constituição faz do Direito Positivo um todo encadeado de fontes normativas e respectivos comandos. É por ser formalmente rígida.8.6. Constituição rígida. é aquele elemento de estabilidade sem o qual perderia sentido o reenvio de toda fonte e de todo comando jurídico-positivo à positividade do primeiro deles. tanto formal quanto materialmente. Um "Ordenamento". a ponto de formar com a Constituição um todo sistêmico.7. diríamos que o Ordenamento de supra-infra-ordenação ortodoxa é um presente da Constituição rígida). até o remonte final à Constituição.7. por nova manifestação constituinte). Se não instituído. 4. imediata. E como uma parte da Constituição ainda é absolutamente imune a supressão ou a medida que tenda a tal supressão.1.2.

por exame de validade. passando a ter na lei o seu elemento de aceleração ou estado móvel de comandos. seu fundamento de validade numa norma superior.2. o momento legal sempre se reconduz. seja a Constituição depois de reformada. Quanto mais analisamos a relação que a Lei das Leis mantém com as suas próprias emendas. Pois bem. lei não era'. E é neste passo que ressoam aos nossos ouvidos os mesmos argumentos que MICHEL TEMER esgrima para evidenciar o sem-sentido da tese que propugna pela existência de hierarquia entre a lei complementar e a lei ordinária. o que é sutilmente diverso.4. ali. é do nosso juízo que os atos de reforma da Constituição não podem manter com a lei um vínculo operacional direto. por acaso encontra seu fundamento de validade. no âmbito mais restrito do próprio Direito Constitucional. sua fonte geradora. em rigor técnico. podemos falar nesse instrumento chamado lei. mas para atualizar a Constituição em particular.2. A lei é hierarquicamente inferior à Constituição porque encontra nesta o seu fundamento de validade. ao declarar que uma lei é inconstitucional está dizendo: `aquilo que todos pensaram que era lei. seu ser. a se exigirem ininterruptamente. porque às leis é suficiente a Constituição tal como posta.7. até porque as emendas não podem refundir o originário esquema constitucional de indicação das normas gerais que se integram no processo legislativo (cláusula tácita de intangibilidade). sua fonte geradora na lei complementar? Absolutamente não! (em ELEMENTOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL. tanto quanto as emendas o são). E sendo assim. um dar-se por satisfeito com a Constituição preexistente. 8ª edição. o Direito Positivo tem na Constituição mesma o seu necessário ponto de frenação ou estado firme. que é um Direito bifurcado em normas da Constituição originária e normas advindas do Poder Reformador. em reservado. Um e outro momento. pois as emendas constitucionais não se põem como o imediato fundamento de validade das leis (entendidas as leis como normas gerais de aplicação primária da Constituição. pois. mais nos convencemos de que se trata de um diálogo em separado. seu engate lógico. litteris: "Hierarquia. O caso das emendas à Constituição é um caso à parte (como temos ressalvado). dado que lei é instrumento criado pelo Texto Constitucional. Malheiros Editores. pois se o momento constitucional é que autoriza o momento legal. o papel da lei não é o de aplicar u'a emenda à Constituição. inferimos que não existe uma direta hierarquia entre emenda constitucional e lei. é a circunstância de uma norma encontrar sua nascente. ou revisões. 4. Por isso que.7. Momento vocacionado para a mudança. se hierarquia assim se conceitua é preciso indagar: lei ordinária. sua razão de ser. um refundir a própria norma-começo de todo o Ordenamento. mas apenas com a Constituição. Constituição). ao passo que a funcionalidade da lei é um olhar para a frente. 4.5. . Fundamento imediato de validade das leis é sempre a Constituição. reformada ou não reformada. 4. Tanto isto é verdade que o Supremo Tribunal Federal. para o Direito.para a mutabilidade e vice-versa. elas não existem para renovar o Direito em geral. Sem o menor propósito objetivo de colocar tais atos de reforma como ocupantes de grau hierárquico intermediário entre a Constituição e as demais normas gerais de sua aplicação (dela. ao contrário da lei.3. mas aplicar a Constituição emendada. àquele originário momento constitucional. momento vocacionado para a permanência deôntica. ou seja. porque a Constituição o cria. Aliás.2. entretece com a lei um necessário convívio. Esta é que. Sua funcionalidade é um olhar para trás. contudo. aqui.7. Seja a Constituição antes de qualquer reforma. seu engate lógico. Na vertente deste nosso jeito pessoal de colocar os atos de reforma da Constituição no seu devido lugar.

10.11. Se não houvesse a Constituição do tipo rígido. porque subtraídos à faina legislativa do próprio Poder Reformador. 4. o que se tem é uma unidade do tipo: a) cíclico.8.9. Com essa modalidade não-formalmente hierarquizada de sistema jurídico (o Direito visto de um ângulo não-referido a uma Constituição rígida). por certo que o método sistemático de exegese das normas jurídicas em geral restaria funcionalmente empobrecido. que tanto recai sobre quem faz a norma quanto sobre a norma feita (processo e conteúdo normativos). no tempo. . a pouco e pouco reforçado com a técnica da expressa indicação de temas super-rígidos. ainda que este venha a se elevar à dimensão de um agir reformador da Magna Carta.7. Aquilo que faz uma Constituição Positiva ser diferente da que lhe antecedeu e também distinta da Constituição de qualquer outro povo. na acepção de que.1991). 4. b) circular. O Direito que só admitisse os dois referidos critérios da intertemporalidade e da especialidade material como técnicas de resolução de antinomias normativas seria um Direito. a cada nova regra-começo no interior do Ordenamento.6. O campo divisional. o que se tem já é um sistema de comandos.2. E com o resgate da unidade de sentido conteudístico dos elementos que formam o repertório do Direito. Com o que as Leis Supremas de cada Estado soberano adicionaram à sua identidade formal (implícita ou por definição) uma identidade material explícita. Era o traço complementar da rigidez material genérica. 4. mas delas próprias. Com o tempo.7. superarem as outras pela aplicação dos dois multicitados critérios. Daí havermos dito cuidar-se de um método que extravasa os diques do diploma a que pertence a norma interpretada para submeter a mesma norma ao crivo dos comandos genuinamente constitucionais. porque verdadeiramente pétreos.7. enfim. no sentido de que as sucesssivas normas-começo passam a girar. do legislar constituinte e do legislar constituído. 4.2. do Poder Legislativo habitual ou cotidiano. Mas um sistema de comandos de outra natureza. não em torno da Constituição.2. ou seja. pois se contentavam em retirar do Poder Legislativo usual a disciplina das matérias versantes sobre a Separação dos Poderes e acerca dos direitos e garantias individuais. pois não poderia ir adiante dos dois conhecidos critérios temporal e material de resolução de antinomias jurídicas.7. pois ele revela um tipo de unidade de sentido que não se obtém sem o reenvio do Direito pós-Constituição à Constituição mesma. porém diferente da espécie piramidal ou deslinear de Direito que se constrói a partir de uma Constituição rígida (norma-começo que não admite outras assim postadas no interior do mesmo Ordenamento). entretanto.7. pois onde houver critério de eliminação de antinomias normativas haverá unidade de sentido conteudístico. o Direito que só conhecesse os critérios da intertemporalidade e da especialidade material como técnicas de resolução de antinomias entre normas não deixaria de constituir um sistema. automaticamente. a ponto de excluí-los. Coloquemos os pontos nos "is" deste subtema. Numa frase.2.7.2. relembrando que algumas das primeiras Constituições escritas eram tão-somente semi-rígidas. a saber: "a lei posterior derroga a anterior" (lex posterior derogat priori) e "a lei geral posterior não derroga a especial anterior" (lex generalis non derogat legi priori speciali).2. Todas estas considerações atestam que o método sistemático de interpretação jurídica recebe decisiva influência da Constituição. Crivo. 4. 4. o pensamento jurídico universal se abriu para a compreensão de que a constitucionalização de toda e qualquer matéria já significava um juízo político de qualidade superior de tais assuntos. sim.7. pois inteiramente calçado em tantas normas-começo quantas forem as leis que. um novo ciclo absoluto de normas referentes e normas referidas se constitui.

uma unidade sistêmica do tipo formal e materialmente hierarquizado. Logo. A Constituição como sistema ou ordenamento por virtude própria 4. Mas a Constituição consegue ser. o parâmetro de interação das normas constitucionais originárias consigo mesmas reside é na dualidade temática princípios/regras ou princípios/preceitos (regras comuns são preceitos. Não é por ser o Direito um sistema que a Constituição em sistema se transfunde.4. 4.1. os atos de reforma constitucional (dado que voltados para a composição daquela primeira unidade sistêmica). o hermeneuta já não pode se servir desse tipo de critério. e não propriamente do Direito em geral). . "não pode haver fronde em ordem com raízes em desordem". sim. tem que se acoplar à Constituição.4. Realmente. A hierarquia é um dos modos de relacionamento entre normas jurídicas (estrutura). o método sistemático ou contextual de exegese muda de perspectiva quando tenha por objeto uma norma originariamente constitucional. Como diria CONFÚCIO. Para sê-lo.1. Dentro da Constituição. antes. 4.9.8. entretanto. uma unidade sistêmica. já o vimos. o modo de relacionamento internormativo obedece a um outro vetor.1. o Direito não é. a um só tempo. Duas caracterizadas unidades jurídico-positivas então se formam: a primeira unidade.8. agora sim. Todas elas têm o mesmo caráter impositivo e a mesma hierarquia. Elas enlaçam a si outras normas e passam a cumprir um papel de ímã e de norte. mas que somente se manifesta da Constituição rígida para fora.1. Sem embaraço do fato de vir a constituir uma segunda e necessária unidade. materializada na Constituição com o Direito em geral. Como a precedência operacional é sempre da Constituição. a segunda unidade. Vale dizer: as normas que veiculam princípios desfrutam de maior envergadura sistêmica.8.3. dele excluídos. pois as normas constitucionais originárias não se relacionam por graus hierárquicos.2. insista-se no juízo.8. sozinha (tanto antes quanto depois dos atos de sua reforma). 4. ele se orienta por critérios cabalmente hierárquicos. e não princípios). materializada na Constituição (antes e depois de cada ato reformador. os seus comandos são interpontuais. a uma outra diretriz. no sentido de que uma não retira da outra o seu fundamento de validade. no interior da própria Constituição. sozinho. Os princípios como normas interreferentes 4. já agora ao lado do Direito infraconstitucional. com as normas veiculadoras de simples preceitos. se. um todo congruente de prescrições ela não fosse. redivivo. como se dá. Voltando a trabalhar com o modelo cabalmente hierarquizado de unidade jurídica. naturalmente. Noutro modo de dizer coisa igual. 4.9. Não apenas pontuais.8. A dualidade princípios/regras como base da nova Hermenêutica da Constituição 4.5. pois a relação ou engate lógico de tais atos se dá é no âmbito específico da Constituição. um todo congruente de prescrições.8. É por ser a Constituição um sistema que o Direito em sistema se transfunde. o que nos cumpre aduzir é patente: a Constituição não faria do Direito em geral um conjunto. 4.9. Fora da Constituição. todo ele cimentado na rigidez formal e conseqüente superioridade da Constituição. Da Constituição rígida para dentro.

Separação dos Poderes. ou fracamente referidas a outras normas-preceito.14 4.. verbi gratia.2. diferentemente do que sucede com as normas-princípio. que são direitos subjetivos instrumentais de direitos subjetivos materiais).3. que são normas de acentuado recheio fático e não-referidas. E assim enxergando. Advirta-se. Dignidade da Pessoa Humana. que são fins em si mesmos. Ao contrário. diríamos: as normas principiológicas não consubstanciam meios ou providências (estado-pontual-de-coisas). Ordenamento de vinco axiológico versus Ordenamento de vinco hierárquico 4.4.9. que o diálogo interprincipial não infirma o significado próprio ou autonomizado de cada princípio dialogante. 4.9. A relação entre as duas categorias (princípios e preceitos) é de continente para conteúdo. Com o que se tem. como sucede.9.2. então.4. e quando o faz é numa dimensão muito modesta. no sentido de que "onde há fumaça.2. ou de outros. É raciocinar: os valores que se contêm nos princípios atraem para o seu próprio serviço. secundário. quer por efeito de contraposição. quer dizer. Recolocando de forma ainda mais precisa a idéia. entretanto. É que as normas principiais consubstanciam ou tipificam valores (Democracia. no exterior da Constituição rígida.9. de par com o valor que lhe adensa a individualidade enquanto norma. com um direito subjetivo perante outro (não assim. um Ordenamento de vinco axiológico. Pluralismo Político. com as garantias constitucionais. propriamente. a dicotomia princípio/subprincípio (como se dá entre o mesmo princípio republicano e o princípio da moralidade administrativa). Ter-se-á. os atos e fatos pontuais que se verbalizam em cada preceito (por exemplo. conclua-se que é ao influxo de critérios axiológicos ou valorativos que a interpretação sistemática vê a realidade de cada norma da Constituição.1.2. Verbi gratia. é óbvio que ele se define por oposição ao princípio da "função social da propriedade". porém. cada princípio concorre para a significação de outro.. Quer por efeito de complementação. para o alcance de valores. Nesse estado-de-coisas é que vão pousar as normas-preceito. Elas são esses . 4.9. os valores interagem fortemente e ainda são exigentes de um estado-de-coisas ora mais ora menos concreto para a sua realização. ambos têm a mesma dignidade sistêmica e por isso nenhum deles pode ser considerado um subprincípio do outro (e a primeira contraposição que nos ocorre é a do princípio da liberdade de informação frente à intimidade e à vida privada das pessoas naturais).1. para a sua própria causa.2. se o princípio é daqueles que se definem por oposição a outro. Cidadania. um Ordenamento de traço hierárquico. E os valores são quase sempre dialogantes ou interreferentes. Ele apenas quer traduzir que. há fogo".)..1. Já o princípio da "propriedade privada".1. se o princípio constitucional é daqueles que tem sua inter-referência marcada por complementação.9. mantém a unidade material dessa mesma Constituição. República. Tudo isto assentado. uma norma preceitual não leva a outra da mesma natureza. o princípio da impessoalidade (significando o dever que tem o Administrador Público de aplicar a lei sem incorrer em promoção ou marketing pessoal) é logicamente dedutível do princípio republicano (de res publica). que faz parte do esquema em que se viabiliza o princípio da Independência e Harmonia dos Poderes). no interior da Constituição rígida. Ora bem. isto é. um deles será o principal e. o veto presidencial a projeto de lei.13 4. o outro. que termina sendo uma relação entre a fumaça dos preceitos e o fogo dos princípios .

sejam mesmo aquelas veiculadoras de princípios menores ou subprincípios. É subindo dos valores menores para os valores maiores da Lei das Leis.9. Diferentemente das normas-preceito. Com efeito. sucessivamente. que está para os demais valores como um dado ponto inicial e fixo no espaço está para a alavanca de ARCHIMEDES. em suma. É como dizer: as normas-princípio conectam outras normas e assim formam um conjunto que vai possibilitar a própria formulação de um pensamento dogmático ou científico sobre esse conjunto. são as normas-princípio que fazem da Constituição uma densa rede axiológica de vasos comunicantes. expresso na decisão fundamental do constituinte. 4. Daí por que têm a particularidade de irradiar o seu conteúdo exclusivamente axiológico para outras normas gerais. não de hierarquia superior. É uma dualidade que pode estar no outros diplomas jurídicos. Moralidade Administrativa. Dentro da Constituição. 4. Nesse valor constitucional de estatura suprema o jurista espanhol PABLO LUCAS VERDU apõe o rótulo de "fórmula política". que não têm ou quase sempre não têm a pretensão de enlaçar a si outras normas.2. até chegarmos ao mais alto desses valores. mas que somente é da Constituição (por ser conatural a ela. o exegeta vai encontrar o valor dos valores. o valor-síntese. o valor-continente por excelência. e. que o intérprete vai revelando o caráter sistêmico ou orgânico dela própria. E assim de preceito para princípio e de princípio menor para princípio maior.2. etc. retomando as clássicas lições de KONRAD HESSE sobre a tópica hermenêutico-constitucional: "O primeiro e principal princípio é o da unidade da Constituição.9.4.).2.5. Desenvolvimento. Soberania Popular.2. são elas que tornam o Direito uma casa arrumada. aquela superidéia central de Direito. Mas é inegável que toda a principiologia fundamentante de uma Ordem Jurídica se inicia com a Constituição e daí é que se esparrama pelos demais setores do Direito.3.2. assim referido nestes comentários de WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO. além de atribuir unidade axiológica ou . Uma unidade material ou de substância. Legalidade.15 4. Como inegável também é que sem a dualidade princípios/preceitos não há como conceber a natureza mesma da Constituição enquanto rígido modelo de Direito Positivo. onde cada norma encontra sua justificativa nos valores mais gerais. exclusivamente. de modo a que formem um sistema integrado. sejam as que vimos chamando de preceituais. Logo. bem no topo da pirâmide axiológica (não-hierárquica) da Constituição. A tradução formal deles (Federação. 4.7. naquilo que PABLO LUCAS VERDU chama de fórmula política. por eles. Em qualquer das duas suposições. insista-se no fundamento). É claro que não apenas a Constituição encerra princípios.6. p.9.9. em contraposição à unidade concomitantemente formal e material do Direito pós-Constituição. tem a possibilidade de conferir a todas às suas normas um sentido de ordem ou estrutura. 2). a Constituição auto-irroga-se a virtude da unidade sistêmica. do tipo material ou conteudístico. E lá. fincando uma base de coerência material que é o apriori lógico da formulação de um pensamento dogmático. cada norma vai buscar a sua justificativa axiológica e a sua raison d'être operacional em outra norma. expressos em outras normas. as normas-princípio. Para o eminente catedrático da Universidade de Madri. e assim sucessivamente. portanto. o qual determina que se observe a interdependência das diversas normas da ordem constitucional. porém de mais dilargado raio de alcance material (pela sua maior densidade valorativa).9. 4.valores mesmos. `fórmula política de uma Constituição é a expressão ideológica que organiza a convivência política em uma estrutura social'" (texto remissionado.

Democracia.3. A peculiar estrutura conceitual dos princípios constitucionais 4.) se traduzem numa materialidade ou estrutura conceitual que em parte é atual e em parte é prospectiva. O que estamos a enfatizar é que determinados princípios têm uma parte de si como janelas abertas para o porvir. ambivalentemente.4. isto é. essa é a parte que passa a legitimar todo tipo de alteração constitucional . moral. obrigando a que toda mutação da Constituição apenas se dê ao nível das emendas e revisões. Naquele núcleo. 4. os princípios de que falamos (cidadania. valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. econômico. é uma parte vocacionada para a mutabilidade. Há como que uma dialeticidade no próprio interior de certos princípios. a operatividade da parte nuclear desse princípio mesmo).10. no âmbito de sua própria circunferência semântica. a imutabilidade. militar. pluralismo político.2. A parte futura é aquela que vai buscar o seu conceito no modo como o povo passa a sentir e praticar o discurso normativo-constitucional ao longo do tempo. Na periferia. incluímos até mesmo a Democracia como possuidora do referido núcleo que é impermeável a mudanças e de uma periferia permeável.10. como deslocamento espacial ou topográfico do povo. Eles fazem da Constituição um documento processual por excelência e que é o processo? Um seguir adiante.. enquanto a outra. dignidade da pessoa humana.10. pelo povo e para o povo" (e que foi consagrada pela Carta de Outubro.10. etc. para a imutabilidade.).10. 4. 4. ou assegurar.1. a teor do parágrafo único do art. dotando a Constituição de plasticidade para se adaptar à evolução do modo social de conceber e experimentar a vida. O núcleo impermeável é aquele que situa a Democracia no rigor lógico da famosa definição lincolniana. desenvolvimento nacional. eficiência. como é da natureza da vida mesma. 1°.material à Constituição rígida. Desde que tal mudança tenha o significado de aumentar a perspectiva de funcionalidade do núcleo mesmo.. valorização do trabalho. combinadamente com todos os incisos do mesmo art. Com o que os princípios axiais da Constituição operam. moralidade. sem necessidade de o intérprete recorrer a elementos de compreensão que se situem no plano do sistema social genérico (sistema político. segundo a qual "Democracia é o governo do povo. portanto. a possibilidade de mudança. 4. no recôndito de cada princípio mesmo e o atrito se resolve por uma solução endógena de compromisso que leva a Constituição a mudar para permanecer idêntica a si mesma (na medida em que a mutabilidade na periferia do princípio se faz é para robustecer. familiar. 4. que sai da platéia e passa a ocupar o palco de todas as decisões governamentais que lhe digam respeito.10. religioso. fazendo com que a Lei das Leis ganhe essa possibilidade de se ajustar mais facilmente à irrupção de fatos novos ou a novas valorações de fatos velhos. A parte atual é de pronto formada com os dados-de-compreensão que afloram da própria tecnicalidade constitucional. Com efeito. Já a periferia do conceito. como fator de estabilidade e de atualização constitucional. concorrem para impedir que a própria rigidez venha a significar impermeabilidade conceitual dos valores de berço constitucional.. A tensão entre permanecer incólume e experimentar alterações ocorre no imo. Logo. É que certos princípios (dignidade da pessoa humana. um caminhar para frente. 1° e mais o artigo 3°). venha a rigidez a fazer das normas constitucionais conceitos jurídicos estratificantes..) ostentam um núcleo e uma periferia em sua própria circunferência deôntica.5. Por este modo de ver o fenômeno da principiologia constitucional.

10. que. assim. então. Todos esses princípios. a necessidade de alteração formal das normas constitucionais e contornando as dificuldades processuais que são próprias da reforma de tais normas. a assimilar toda mudança que signifique proliferação dos núcleos sociais de participação na riqueza nacional e até no saber que se produz nas escolas oficiais. os princípios são os elementos que mais contribuem para dotar o sistema constitucional de uma espontânea flexibilidade ou jogo de cintura (permitimo-nos o prosaísmo da expressão).formal que venha a se traduzir em descentralização ou desconcentração da autoridade política e em ampliação dos espaços de participação popular na escolha dos governantes e no exercício. controle e fiscalização do Governo. se tornou a nova base da Hermenêutica da Constituição. 4. Noutra linguagem. Diga-se o mesmo da Democracia material ou de substância. Atenuando.6. 4. de tão metodologicamente importante. promovem a abertura das janelas da Constituição para o mundo circundante. Ainda estamos bem longe de explorar o potencial teórico dessa dualidade básica princípios/regras.7. com o nome de "A DUPLA CENTRALIDADE DA CONSTIUIÇÃO E DOS SEUS PRINCÍPIOS". da riqueza e do saber). .10. Por isso mesmo é que preferimos dar conta da matéria no capítulo que vem de imediato. aqui inseridas as universidades (para repetirmos antigo e sempre atual conceito da Democracia como divisão do poder. de sorte a colocar a Constituição em dia com os fatos sociais.

onivalentes.1. 5. Ontologia e funções dos princípios constitucionais 5.axiológicas ou consubstanciadoras de valores. se considerarmos pelo menos o princípio constitucional de que "ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei" (legado imperecível do constitucionalismo liberal). Ontologia e funções dos princípios constitucionais 5.autoconceituáveis (no sentido de que seus conteúdos ou elementos de definição já constam da própria Constituição. que a ausência da lei não implica ausência do Direito. Graças à natureza e à funcionalidade dos princípios materiais da Constituição.5.1. As conseqüências lógicas da Constituição enquanto suma de princípios 5. dotando-a. exatamente porque prescindentes da lei quanto às suas expressões ou manifestações conteudísticas. pela clara razão de que operam de ponta a ponta do Ordenamento. pensamos avultar a ontologia dos princípios constitucionais materiais como normas: I .1. de um caráter eminentemente dinâmico ou processual.inter-referentes. 5. que é uma função unificadora.2.1. 5.auto-aplicáveis. A ascensão dos princípios como supernormas de Direito 5. é que se pode afirmar que norma jurídica é uma categoria maior que regra. Quanto aos princípios constitucionais de natureza formal. b) o princípio da supremacia da Constituição.4.1. A Democracia como o valor constitucional por excelência 5. de regras ou preceitos. seja por complementação. seguida de perto pela doutrina alemã. princípios constitucionais materiais: a) conferem unidade material à Lex Maxima.1. seja por contraposição. não deixa de embutir nesse rol dos princípios constitucionais instrumentais a interpretação conforme a Constituição e a presunção de constitucionalidade das leis.8. eles.4.1. dessarte. portanto. III . Do quanto discorremos no capítulo precedente sobre a dicotomia básica princípios/preceitos. O ser da Constituição e seus valores mais próximos 5. pois a conduta humana não-legislativamente imposta. A necessária interpretação restritiva das normas constitucionais sobre o Poder Reformador 5.3. já é antecipadamente qualificada como juridicamente permitida. com mais razão. Já no plano das funções. cumpridores de uma função instrumental.7. e não apenas no interior de um determinado ramo jurídico. inquestionavelmente. A significar.3. V . E que o Direito é maior do que a lei. E nesses dois planos da ontologia e da funcionalidade é que as normas-princípio são dotadas de mais elevada estatura sistêmica. b) estabilizam e ao mesmo tempo atualizam a Constituição. Mas a doutrina norteamericana. IV . Servindo mesmo como perene critério de interpretação de princípios menores (subprincípios) e.A Dupla Centralidade da Constituição e dos seus Princípios Sumário 5. .5. A identificação de todo o Texto Magno com o seu princípio maior 5. 5. A eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica 5.2.6. pensamos que eles são basicamente dois: a) o princípio da rigidez formal. ou não proibida.1.Capítulo V . II . nesta segunda variante.

2. como subnormas. 1918 e 1919. 5. Passaram a garanti-los.notadamente os materiais -.5. Ainda assim. Deveras. 5.2. E foi justamente essa vontade coletiva de embutir nas Constituições regras e subprincípios densificadores de princípios materiais de superior envergadura (axiologica e funcionalmente) que as Magnas Cartas passaram também a normatizar assuntos que até então eram próprios de outros ramos jurídico-positivos. destarte. em matéria de direitos subjetivos oponíveis ao Estado. naquilo mesmo em que a Constituição mais devia reluzir: a sua principiologia.5. Essa fenomenologia das Constituições esquálidas não embaraçou a evolução do mais importante país da Common Law (os EUA).7. O que levava à subeficácia da própria Constituição. do meio ambiente e do urbanismo como Direitos Fundamentais). mais recentemente. ao lado da crescente constitucionalização do Direito infraconstitucional. era impossível conceituar cada princípio constitucional a partir de elementos encontradiços na própria Constituição. os princípios eram tidos. E sem se conhecer o conteúdo ou os conteúdos de cada princípio constitucional.2.2. E do labor de jurisconsultos do porte de um MARSHALL e. E só depois da Declaração Universal dos Direitos do Homem (Organização das Nações Unidas) é que as Leis Fundamentais de cada povo soberano foram ganhando uma funcionalidade fraternal (pelo decidido combate aos preconceitos sociais e pela afirmação do Desenvolvimento. 5. acrescente-se. Tinha-se que recorrer ao Direito infraconstitucional. Eles foram evoluindo com o próprio tamanho das Constituições e a forma jurisprudencial-doutrinária de interpretá-las.2.3. Assim como o Direito "não é filho do céu" (TOBIAS BARRETO).2. mas um produto da História. A nova práxis ou fenomenologia constitucional-positiva que foi tomando corpo. elas declaravam tais direitos. 5. Princípios expressos havia . possível não era a conceituação de cada qual deles. Contudo. porém a excessiva economia de dispositivos e até dos vocábulos em que tais dispositivos se vazavam impedia a indicação dos conteúdos de cada norma principiológica.1 5. os princípios jurídicos não surgiram de uma noite para o dia. o modo legislativo de escrever as primeiras Constituições ocidentais era muito parcimonioso. mas não se dispunha a dar conta dos direitos sociais (invenção do constitucionalismo do México. já nos anos de 1917. Veja-se que as primeiras Constituições escritas. somente continham direitos individuais.2. Tudo resultando na supereficácia da própria Constituição. foi a da supereficácia das normas-princípio. mormente os fundamentais ou estruturantes do Estado e do Governo. da Rússia e da Alemanha. É igual a dizer: os dispositivos constitucionais não se desdobravam em subprincípios. no bloco dos países constitutivos da Civil Law. respectivamente). a autores do porte de um KONRAD HESSE ("A Força Normativa da Constituição". Ora. graças à atuação normativamente integradora e até inovadora da Suprema Corte de Justiça americana. que já é uma função verdadeiramente transformadora ou emancipatória.1. com o tempo.2. 1991) e de um . Toda essa mudança de paradigmas no âmago das Constituições filiadas ao sistema romano-germânico do Direito muito deve.6. mas não os garantiam. ou seja. foi preciso que a evolução começasse com a robustez disposional e vernacular de cada princípio constitucional.2. A ascensão dos princípios como supernormas de Direito 5. ou mesmo em regras comuns suficientes. RONALD DWORKIN (cuja distinção entre regras e princípios jurídicos é o que existe de mais recorrente nos dias atuais).4. no plano da eficácia. por falta de indicação conteudística. 5.

2. 5.2. A identificação de todo o Texto Magno com o seu princípio maior 5. 1977). 5. Aquilo que a Constituição é. A sua quintessência. senão o próprio ser da Constituição. que mais e mais insistiram na metodologia hermenêutica de reconhecer à Constituição o máximo de aplicabilidade por si mesma.5. ambos da Alemanha. que é o valor para além do qual não pode haver outro senão já totalmente situado no mundo das coisas metajurídicas. agora eles se elevam ao patamar de supernormas de Direito Positivo. 5. uma relação de inerência: ele é ela mesma.3.3. à sua dignidade formal a Constituição adicionou uma dignidade material. acima de tudo. pois o fato é que o reconhecimento da força normativa dos princípios coincide com o reconhecimento da força normativa da Constituição. ela mesma é ele.2. Sendo que ALEXY foi quem retomou os fundamentos de RONALD DWORKIN para evidenciar as diferenças qualitativas entre normas veiculadoras de princípios e regras portadoras de simples preceitos. a "fórmula política" de VERDU outra coisa não é. para nós. Esse valor-teto. esse princípio dos princípios mantém com a Constituição.3.4. tanto quantos os princípios passaram a ocupar a centralidade da Constituição. mais que uma relação de pertinência.1.3.3. E assim recamada de princípios que são valores dignificantes de todo o Direito. Esse movimento ascensional-interno tem um compromisso racional com um dado ponto de chegada.3. ele. foi justamente pelo seu caráter principiológico em novas bases que elas passaram a se dotar de supereficácia normativa. um novo salto de racionalidade já pode ser intentado: aquela característica do movimento ascensional-endógeno de fatos para valores e de valores de menor porte material para valores de maior envergadura igualmente material (tema do capítulo anterior) termina por fazer da Constituição algo plenamente identificado com o seu princípio de maior abrangência. ou o gene do qual decorrem os mais vivos traços fisionômicos dos demais valores constitucionais.3. E se aos princípios era recusado o status de verdadeiras normas. o valor-síntese da Constituição. Isto porque o auto-impulso axiológico da Magna Lei de um patamar inferior para um patamar superior não é de se perder no infindável. é que ela passou a ocupar a centralidade do Ordenamento Jurídico. É que o valor-dos-valores. estava criado o clima constitucional propiciador da dicotomia básica princípios/regras (ou princípios/preceitos) e o fato é que.ROBERT ALEXY ("Teoria de los Derechos Fundamentales". 5.8. Aceita que seja a dicotomia princípios/preceitos como da essência das atuais Constituições do tipo formalmente rígido.9. O que já significa dizer: caso extirpado da Constituição. 5. Em síntese. Por um desses fenômenos desconcertantes que timbram a trajetória humana. é precisamente aquele cuja existência é a principal justificativa material de quase todos os demais valores. inelutavelmente deflagraria sobre a quase totalidade dos demais valores uma mudança qualitativa de tal ordem que chegaria às raias de um mortal efeito dominó.2 5. que dentro da Constituição não conhece outro que se lhe iguale em importância funcional-sistêmica. O valor-continente por excelência. É de conveniência didática a repetição: caso extirpado do Magno Texto o valor . valor-síntese. Estrada de mão dupla. Por ser o valor constitucional primário (gene). 5. se as Constituições padeciam de subeficácia pelo seu caráter principiológico. num crescendo que chega à superforça de ambas as categorias.

Ora.3 5. que é "a decisão política fundamental" (locução de que se valia CARL SCHMITT para falar do ato de vontade gerador da Constituição e.6.4. Por isso que ele transluz em cada um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (incisos de I a V do art. Por que não repetir? Se o princípio por excelência é o que mais repassa a sua materialidade para os outros. concomitantemente.ungido. sendo o princípio dos princípios o próprio ser da Constituição. reserva para si o poder de selecionar eleitoralmente os governantes. Além de justificar em todo o art. a começar pela mais importante das decisões coletivas. é o nome que assenta para o fenômeno da subida do povo ao podium das decisões coletivas de caráter imperativo. que é o mundo das evanescentes lembranças do que já existiu. ou dos mais "nobres". 3º do mesmo Diploma Fundamental. ou seja. mas sempre u'a minoria) para fazer prosperar o que se tornou símbolo de status civilizatório: o princípio majoritário. isto é. de imediato. à frente de toda a principiologia constitucional? Vejamo-lo.4. assim no Estado Democrático de Direito como no Estado de Direito Democrático. 1° da Carta de 1988) e em toda cláusula pétrea explícita da nossa atual experiência constitucional (incisos de I a IV do § 4° do art. de cujo casamento por amor resulta o ansiado Estado de Justiça. seja por forma indireta ou representativa.3.que é a própria síntese da imensa maioria dos demais. e.4.1. do que já se despediu da vida. esse megaprincípio é o da Democracia. Deixa de ser resignado objeto de formal produção normativa de minorias (retratadas.3.5. pois. a simbolizar que ele mesmo é quem escreve a sua história de vida político-jurídica e assim toma as rédeas do seu próprio destino. É como dizer: faltando à Constituição o seu próprio ser. em rigor. esteja na Democracia.2. ou dos mais "cultos". pois a Constituição deixa de fazer parte das coisas presentes. sobranceiro. na pia batismal do mais límpido voto popular . quem tem a força de subir ao podium das decisões coletivas de caráter imperativo. Ou o caráter holístico de tais Constituições. que da platéia passa para o palco das decisões que a ele digam respeito. o povo a sair da passiva posição de espectador para a ativa posição de ator político. nunca deixa de dividir com eles algumas funções de governo e ainda passa a controlar o modo pelo qual tais . E Democracia. ou dos mais patrimonializados.4. 5. 60 da mesma "Constituição-cidadã"). tudo o mais vai lhe faltar.4. A Democracia como o valor constitucional por excelência 5. expresso na idéia de que a maioria do corpo eleitoral de um País é quem faz o Direito comum a todos. Incorpora-se ao passado. ou dos mais velhos. praticamente nada restaria. 5. Mas que valor-continente é esse? Que nome dar a um princípio que se coloca. pela casta dos mais valentes.que não fizesse da Democracia a alma da Constituição por ele promulgada. 5. com o tempo. É do nosso pensar que o ser das Constituições ocidentais. desse mesmo Texto. Democracia. pois. da Constituição em sentido material). ou dos mais hábeis em curas médicas ou pregações religiosas. Da mesma Constituição já não se cuidaria. 5. no curso da história humana. a começar pela feitura da própria Constituição. Tanto na Democracia formal quanto na material. seja por forma direta ou participativa. ao menos daquelas nascidas do ventre de uma Assembléia Nacional Constituinte. É exigência da verdade o dizer-se que nos países do Ocidente não se conhece um só colegiado constituinte de livre investidura eleitoral . portanto.4. em essência. 5. a sua extirpação implicaria o absurdo de apartar a Constituição de si mesma.4. no inequívoco sentido de troca de lugar ou mudança topográfica do povo. o que mais se faz presente na ontologia dos demais princípios.

porém nenhum povo conseguiu vivenciar algo melhor). ora direta.falemos assim . deixa de dizer que está a reverenciar. a democracia não está isenta de defeitos. Assim incorporando uma dimensão processual (modo pelo qual o povo participa. O ser da Constituição e seus valores mais próximos . 5. a partilhar com eles o exercício do poder de criar o Direito e a acompanhar. ora indiretamente. nominalmente).10. acima de tudo. da produção e execução do Direito) e uma coloração material (compromisso das normas jurídicas gerais com a defesa e promoção dos indivíduos e daqueles que só podem ser concebidos como parcelas do todo social). o modo de execução desse mesmo Direito. 5.governantes se desincumbem do mandato ou do papel institucional que lhes é confiado. de manifestação da própria consciência humana. É certo que o teor de autenticidade democrática varia de cada experiência constitucional-positiva para outra.4. a Democracia.4 5.e não apenas dúplice . O mérito de domar o poder e assim torná-lo serviente do Direito. não é difícil perceber que a Democracia é o único valor que perpassa os poros todos da axiologia constitucional (valor subjacente a tudo o mais). de sorte a desenhar nos horizonte da História o altaneiro perfil da Democracia Substancial ou "Estado de Direito Democrático" (a Constituição portuguesa de 1976 bem o diz. Que o fechamento deste tópico seja a afirmação de que a teoria constitucional já dispõe de todos os elementos lógicos para reconhecer até mesmo uma tríplice . popularmente votada.5.centralidade: a Democracia está no centro dos princípios constitucionais.da circunferência democrática.4.4. 5. b) nas cúpulas do poder estatal e até mesmo das instituições privadas.8. em um ritmo ora mais lento. como o regime pelo qual o povo passa a eleger seus governantes. sejam quais forem os conteúdos dessa leis. criticamente. que. mais e mais serve de condição para que o Direito se caracterize também por uma vertente popular. para limitá-las perante as respectivas bases.4. Com o que passa a regime político de irrespondível superioridade sobre qualquer outro já experimentado (como a licitação e o concurso público. 5. ora mais rápido. 5. Mas o fato é que nenhuma Constituição ocidental. E aí já se pode falar de Democracia. incorpora a positivação de valores que se marquem por uma densa vertente popular (tanto no campo institucional como na área das franquias individuais e dos direitos sociais). nos marcos da Constituição.7. para valorizá-las. É a chamada Democracia Formal ou Estado Democrático de Direito.9.6. b) enquanto fim ou objetivo de toda norma jurídico-primária mesma (Democracia Substancial). no sentido de que: a) enquanto processo ou via de formação e deliberação de norma jurídico-primária (Democracia Formal). Que fique assentado. Com o requinte de muitas vezes clausular como pétreos aqueles valores mais próximos do centro . Passagem ideal de uma situação de democracia do Estado (no interior dele) para uma situação ainda mais abrangente de democracia na intimidade de todo o corpo social. a Democracia ganha a suprema virtude de legitimar por todos os ângulos o Poder.4. ser a Democracia um fluxo ou movimento ascendente do Poder (visto que parte de baixo para cima e não de cima para baixo). compreende e legitima a produção em si de todas as leis em sentido material. portanto. tanto quanto os princípios constitucionais estão no centro da Constituição e a Constituição está no centro do Sistema Jurídico. Chegando-se a este patamar de intelecção. com a virtualidade de atuar ao mesmo tempo: a) nas bases do corpo social e das próprias instituições públicas e privadas. com o transcorrer dos anos.

como advertiam LOCKE e MONTESQUIEU. III .4. Vale dizer. o visual do todo inda mais aclara a visão de cada parte. É preciso intuir com essa força de gravidade do ser da Constituição. Se estamos a qualificar os fundamentos da República Federativa do Brasil como elementos conceituais da Democracia. ao lado das cláusulas pétreas materiais expressas. "cidadania". na acepção de que o povo nacional tem o poder de se decompor em unidades territoriais que se caracterizem pela personalização jurídica. pois o contrário é seco autoritarismo ou ditadura do Poder preponderante (sempre o Poder Executivo). perceberemos que ela tem a sua mais funda justificação no fato de a Democracia incorporar um ingrediente de divisão espacial do poder político. Escolhendo a do Brasil como paradigma. não territorial. 1°. como anteriormente falado. mas orgânico. Esses valores mais próximos do centro da Democracia.se se intenta colocar no cerne da reflexão jurídica a figura mais abrangente da . Ilustremos com a própria Lei Maior de 1988: I . 5. secreto. 5. Entre duas interpretações possíveis de uma norma constitucional.se tomarmos por referência a Federação como forma de Estado.5. "dignidade da pessoa humana".1. Em linguagem figurada.5. a dedução flui no mesmo passo: a democracia postula mesmo a distribuição do poder político por um vetor complementar. é pela imperiosa razão de que tais fundamentos são os pressupostos mesmos ou o a priori lógico da construção e balizamento de todo o Estado brasileiro. com os nomes de "soberania".5. E sendo assim. "separação dos Poderes" e "direitos e garantias individuais". portanto. Logo. eles passam a gozar de uma posição intra-sistêmica do mais alto relevo. vamos encontrá-los expressamente citados nos incisos de I a V do art. Aquilo que se põe como justificativa prévia e explicação final da arquitetura estatal que substituiu o modelo autoritário da eufemisticamente chamada "Revolução de 1964". autonomia governamental recíproca e indissolúvel atrelamento a uma terceira pessoa estatal abarcante de todas elas. "valores sociais do trabalho e da livre iniciativa" e "pluralismo político". Esses valores mais próximos do núcleo da circunferência democrática têm nas atuais Constituições de Portugal e do Brasil uma indicação mais precisa. concebemo-los como os principais conteúdos ou as principais manifestações dela mesma.5 5.5. pois toda interpretação normativa que os confirmar será uma "interpretação conforme a Constituição". como tantas vezes dito).2. sob as denominações de "forma federativa de Estado".5. II . universal e periódico". Também assim no § 4° do art. porque ele é uma porta aberta para a compreensão de cada parte da Lei das Leis e de todo o conjunto normativo-constitucional.se o pensamento se volta para a instituição do princípio da Separação dos Poderes. "voto direto. os fundamentos da nossa República Federativa são os cromossomos nos quais se contêm os próprios genes ou suportes materiais da hereditariedade estatal brasileira. 60. ou seja. deve-se prestigiar aquela que melhor assegure a eficácia do princípio que mais proximamente esteja do ser da Constituição (e tal ser é a Democracia. estamos a lidar com "fundamentos" que outra coisa não são que princípios antecedentes a tudo mais que signifique nova montagem e funcionamento do Estado brasileiro em termos republicanos e federativos. Se o visual interligado das partes projeta a imagem do todo. é preciso ratear o poder político entre os órgãos estruturais de uma mesma pessoa político-estatal em bases tão independentes quanto harmoniosas.3. especifica ou topicamente revelado nos valores que tais. uma interpretação conforme o ser da Constituição.

República. E que tais representantes só podem permanecer como representantes do povo por um determinado período e debaixo de uma responsabilidade político-jurídica de caráter pessoal. a toada não muda se o alvo desse tipo de análise teórica se deslocar para "os valores sociais do trabalho". ou da comunicação telegráfica. etc. pois a proclamação de tais direitos e garantias é o reconhecimento formal de que todo ser humano não é somente parte de algo. vai-se notar que o laço entre eles e a Democracia é igualmente umbilical. se a pessoa vive "debaixo da ponte" e a ponte não se presta como endereço oficial de ninguém? As prefigurações pululam em nossa mente e nos lembramos de que até .6 IV . por hipótese. também expressamente arrolados como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. Não apenas parte de um todo. 1° da Constituição brasileira de 1988.pensamento. religião. Foi o ponto de compreensão a que finalmente chegou o nosso constitucionalismo. mas um todo à parte. não há concreta vivência dos direitos e garantias individuais sem o desfrute de franquias trabalhistas que possibilitem ao trabalhador e respectiva família um auto-sustento econômico. locomoção.enfim. associação. todo ser humano deve passar ao largo de controle estatal (não é de contenção do poder estatal que primeiro vive a Democracia?). saúde. é no reconhecimento de cada indivíduo como um microcosmo que se intui com o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana (inciso III do art. Daí o vínculo funcional entre a dignidade da pessoa humana e os chamados direitos e garantias individuais. da Ordem Econômica e da Ordem Social de que trata a Carta de Outubro. Passar ao largo de controle estatal como condição de respeito a uma dignidade que não tem outro fato gerador que não a humanidade mesma que mora em cada indivíduo. preferência sexual. educação. eleitoralmente. Se não há Democracia sem a devida observância dos direitos e garantias individuais (veículos formais do princípio da dignidade da pessoa humana. trabalho. Noutra forma de expor as coisas.se o eixo do pensamento especulativo já se volta para o rol dos direitos e garantias individuais. Daí também o necessário vínculo entre os direitos e garantias individuais e a Democracia. quem os represente no papel de definir o que seja melhor para todos e como operacionalizar tal decisão (logo abaixo da Constituição.). de que serve o direito individual de inviolabidade domiciliar. a par de outros conteúdos. seja até mesmo o conjunto da sociedade) àquelas inatas diferenças de cada indivíduo. etc. -. e. no sentido de que são os governados que detêm a propriedade da coisa pública ou a titularidade dos interesses gerais. entenda-se). de novo a justificativa para a positivação da matéria se encorpa. mas algo à parte. E por detê-la. não pode deixar de se traduzir em respeito do todo (seja o Estado. realmente. se adensa. constituindo-se mesmo numa totalidade em si. se o indivíduo não ganha sequer o suficiente para alugar uma residência? E o direito igualmente individual do sigilo da correspondência epistolar. pois Democracia. Sendo assim. repita-se) e um dos mais palpáveis conteúdos da Democracia. pois. ao lado dos direitos sociais à habitação. E conteúdo tão palpável que nos parece verdadeiro afirmar o seguinte: o próprio entendimento do que seja dignidade da pessoa humana depende de um ar de liberdade pessoal e de pluralismo ético-ideológico-religioso que somente se respira em atmosfera democrática. IV . somente eles podem escolher. cada indivíduo é por natureza diferente dos demais e no que toca à experimentação de sua natureza em certas áreas de atividade . Donde se falar de convivência com os contrários ou respeito às minorias. conjuminadamente. e até se plenifica pela idéia de uma partilha direta do poder político entre governantes e governados. transporte.

5. 5. o voto popular não precisaria de expressa menção como cláusula pétrea.9. Cuidou. Todavia. Tais direitos e garantias foram regrados de mistura ou mescladamente com deveres e também com a realidade das pessoas coletivas. de modo a compor o capítulo que tem por designação vernacular "DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS" (CAPÍTULO I DO TÍTULO II. Primeira resposta: em rigor. Segunda resposta: também em rigor. renove-se o juízo).5. a fim de lembrar que em nenhum momento nos comprometemos com o juízo de que a sua idéia completa já anteceda à jurisdicização dos institutos e das instituições que nela teoricamente se contêm. Com o que seguiu metodologia oposta à do voto popular.5.8. no campo dos direitos e deveres individuais e coletivos houve estreitamento. É possível e até provável que a plena compreensão da Democracia não seja um a priori lógico. brigar com a razão. Somente se comprometeu com os direitos e garantias genuinamente individuais (em razão do mais direto vínculo entre estes e o princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. a pessoa for obrigada a zanzar por aí feito barata tonta. apenas falar do voto popular e dos direitos e garantias individuais como cláusulas pétreas materiais expressas? Como temas insuscetíveis de se tornar objeto de emenda tendente à sua abolição? 5. Contudo. por falta de uma casa para morar. O voto popular que a Lex Legum de 1988 teve em mira acautelar de danos foi o voto popular "direto" e mais que isso: também o voto popular "secreto".5.5. É possível e até provável (insistamos nas duas palavras) que a Democracia passe primeiro pela consciência antes de chegar . Fechamos o parêntese para tornar a falar de Democracia. O que ela quis elucidar é que não basta manter incólume de emenda constitucional a abolição do voto popular. passam a compor um dos conteúdos do regime democrático.6. este último sob a denominação "DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS"). Pois bem.mesmo o direito individual da liberdade de locomoção perde toda substância se. o Constituinte de 1988 não quis petrealizar os deveres individuais e coletivos nem os direitos e garantias de natureza coletiva. Sabido que a compulsão do perambular já não se coaduna com a idéia de liberdade. Um parêntese: qual a razão de a Lei Maior de 1988.7 5. o que a nossa Lei Maior quis deixar acima de qualquer dúvida não foi a irrevogabilidade do voto popular. contudo. sem. Seja algo que supere a própria razão.7. albergados pela Constituição. pelo fato de a Constituição não conter nenhum capítulo ou segmento normativo com o nome "Dos Direitos e Garantias Individuais". o vínculo operacional direto entre o princípio da dignidade da pessoa humana e os direitos e garantias individuais ficou prejudicado em sua clareza redacional. então. 60. o sentido protetivo da Constituição foi de alargar os aspectos do voto popular que ficariam sob o guarda-chuva do § 4° do art. o voto popular "universal" e o voto popular "periódico". pelo fato de ele já estar contido no primeiro dos fundamentos explícitos da nossa República Federativa (esse fundamento explícito é "a soberania"). entenda-se). porquanto já embutidos na locução "dignidade da pessoa humana". de fora a parte os princípios da forma federativa de Estado e da Separação dos Poderes. Logo.5. de proceder a um enxugamento ou depuração temática e por isso é que deixou de fora da tutela petrealizadora tudo que não portasse consigo a logomarca de direito ou garantia individual (mas somente nos marcos do capítulo versante sobre os direitos e deveres individuais e coletivos. Pois é assim por via indireta que os direitos sociais de índole trabalhista. isto é.5. os direitos e garantias individuais dispensariam expressa dicção como cláusula pétrea material. se no campo do voto popular houve alargamento protetivo material. Mas para tornar a falar de Democracia. 5.

A consciência a ver as coisas primeiro do que a razão. Bem. 5. como visto. Quando ela está presente na formação. mas não se lhe pode recusar a virtude de qualificar. Hierarquia suprema. essa parte elementar do discurso normativo só se deixa conhecer pela via igualmente consciencial do intérprete. a norma de hierarquia suprema no todo do Direito Positivo. E quais os corolários dessa posição de liderança internormativa? Desse papel eminente dos princípios no interior da Constituição? 5.10. quem tem a ganhar com isso é o Poder mesmo. a seu turno.5. Por derradeiro. Seja como for. Somente assim é que a norma se dá a conhecer por completo. quando da inserção de determinados valores no Ordenamento. que faz do Direito um instrumento de mera formalização de sua truculência.6.1.6.3. sintomaticamente chamado de "Ordenamento".12. dentre outras vias de conhecimento que. 5. assim. As conseqüências lógicas da Constituição enquanto suma de princípios 5. porém. exercício e controle do Poder? Ora. já sabemos que a Constituição obtém sua unidade sistêmica por conduto das normas-princípio. um . quando se parte mesmo da rigidez formal como a pedra angular do Magno Texto.11. ousamos verbalizar uma idéia certamente vocacionada para a formação de controvérsias no plano científico. Para desqualificação axiológica de ambos. figurativamente. É a rigidez.5. quem tem a ganhar com isso é o Direito. em termos metodológicos ou funcionais (não finalísticos). 5. para. como que sinalizando para o exegeta a aplicação da conhecida máxima de LACORDAIRE (que outros atribuem a PASCAL): "Ciência sem consciência é ruína da alma". a técnica primaz que torna a Constituição a lei das leis. que é uma via necessariamente recicladora do intelecto. o que pretendemos dizer é que valores vão sendo positivados pelas Constituições como conteúdos ou manifestações plúrimas da Democracia. E que a vontade assim imediatamente derivada da consciência somente busque a razão como uma forma de justificativa para o que já se decidiu no plano. consciência. de uma só penada. que somente começa com a dicotomia básica dos princípios e regras. Fale-se o que se quiser falar de mau da Democracia. que passa a ter no Poder um mecanismo de reverência: o Poder a serviço do Direito. melhor sentir na pulsação do presente as batidas do coração do futuro. para ver a Democracia enquanto matéria disponível para um tipo de conformação normativa que tem um componente consciencial ainda maior do que o propriamente racional. justamente. no exercício e no controle do Poder.6. o Poder e o Direito.à razão.6. da a-racionalidade (que é o plano da consciência ou do espírito.5. neste ponto fulcral dos princípios genuinamente constitucionais. 5. E quando se dá o contrário? Quando a Democracia não tem o ensejo de se fazer presente naqueles decisivos instantes da formação. que já passa a responder pela unidade orgânica e movimento pendular desse Direito Positivo. sem que a noção perfeita e acabada de Democracia esteja no ponto de partida do puro pensamento lógico-jurídico. são neutras à razão8). por outra. Inclinamo-nos. subsidiando ou até mesmo policiando o intelecto. E inaugural do pós-positivismo. ou a proceder à margem da pura lógica. 5.2. Tudo fica muito mais claro. A idéia é esta: assim como a consciência deve servir de luzeiro à razão. Ou. alçadas à dignidade operativa de primus inter pares. se há um componente consciencial em certas normas de Direito Positivo. nos seres humanos.5. ela. deve estar presente no instante da interpretação de tais valores.13. 5. que é a única forma pela qual ele (Poder) se legitima. No seu interior.

E porque são desse . 5. 5. as grandes linhas de ação governamental já ficam previamente esboçadas. Ou a colocação de ênfase nesse ou naquele meio já imposto pela própria Constituição. É concluir: tudo muda no Direito. que é o Direito subsconstitucional? 5. o da imunidade parlamentar e o da responsabilidade funcional (tão característico da República). cuja resultante é ganhar a Constituição aquela compostura dinâmica. quer dizer. Daí que passem a encarnar valores em estado de fricção potencial ou latente. o princípio da propriedade privada e o da função social da propriedade-bem-de-produção. inevitavelmente. que é própria da sociedade humana.6. processual. à guisa de metas oficiais a alcançar. ela é mais processual por si mesma do que o Ordenamento que nela se embasa. a concreta política social e econômica do Estado ("políticas públicas". Sua genérica estabilidade não significa estratificação.6. E sendo mais processual por si mesma. 5. 5. Um ritmop preponderantemente endógeno. é para evidenciar que a Lei das Leis se deseja fluir mais por conta própria do que por intervenção dos seus atos de reforma. É por isso que os Diplomas Fundamentais contemporâneos contêm cada vez mais as chamadas normas programáticas. tenha a agilidade do Direito factual por excelência.8. os valores.7. um devir.9. quase que tão-somente. tornam a Constituição um processo.3. ditado por outra lei e mais outra e mais outra.6. Ela se prefere dinamizada pela processualidade dos seus princípios estruturantes e é isto o que rebate ou compensa a rigidez formal e material a que se impõe. verbi gratia. o da independência dos Poderes e o da supremacia da lei. Uma outra nota de especificidade dos princípios constitucionais está no fato.mundo de conseqüências teóricas toma corpo e começamos por frisar que são eles que fazem da Constituição um prevalente sistema de positivações axiológicas. independentemente da ideologia professada pela facção partidária que se encontrar no Poder. então. Positivações axiológicas ou filosóficas ou valorativas. Em diferentes palavras. o da integração do País aos mercados externos comuns e o da soberania nacional. Todo o nosso esforço comunicativo. destarte.6. ela não precisa tanto de reforma quanto o Ordenamento precisa. normas programáticas. Posto ainda de outra forma: sendo a Constituição o mais principiológico dos documentos jurídicos. porém um ritmo de mutabilidade diferente do ritmo das leis em geral. Estes últimos a fazer da Constituição o mais estrutural dos projetos nacionais de vida. de que uma parte deles se define por contraposição. pelo seu facilitado ajustamento ao corpo sempre cambiante da realidade social. cabendo à legislação ordinária. no jargão midiático e na Ciência da Administração).6. Por elas. Ajunte-se que essa característica central da processualidade ou historicidade das Constituições principiológicas só pode ocorrer por efeito de normas consubstanciadoras de concepções filosóficas ou mundividências (tanto no campo ético-humanista quanto no ideológico ou político). a escolha dos respectivos meios.6. em oposição ao ritmo de cada lei menor em particular. o princípio da valorização do trabalho e o da livre iniciativa. que é um ritmo prevalecentemente exógeno. só que em diferentes ritmos. destinadas a parametrar os empíricos programas de governo.5. o princípio do pluralismo político e o da fidelidade partidária. Como exigir que o Direito axiológico por excelência. Um vir-a-ser permanente. que é a Constituição. pela sua intrínseca materialidade prospectiva.6. como. 5. já assinalado. histórica. a que se agregam impessoais programas de governo. sem que o Ordenamento Jurídico experimente a sensação de tontura que sobreviria a uma Constituição demasiadamente refundida no seu aspecto formal.

em última análise. no ápice do dilema entre reconhecer a pleno-operância de uma norma constitucional e sua dependência de regração de menor estirpe. do tipo instrumental.7. numa situação em concreto.2. ao lado de outras peculiaridades da Constituição.7. pedir o adjutório de regra intercalar para a plenificação dos seus efeitos.4. Um princípio que é a decorrência lógica do tensionamento daqueles princípios materiais que se definem por contraposição.3. tais normas pedem e até mesmo exigem uma correlata especificidade de intelecção ao nível do que vimos chamando de cânones hermenêuticos diferenciados.6. 5. 5. 5. à lei maior deve corresponder u'a maior eficácia. para que o juiz dos casos concretos sopese os fatos e opte por aquele princípio material que mais próximo estiver do valor dos valores. ao medir a extensão do quê de uma norma . porém. existe. suscitam um manejo bem mais cuidadoso dos métodos de hermenêutica jurídica no que toca à seleção daquele princípio que. inequivocamente. essa área de empírico tensionamento entre as normas-princípio da Constituição que PAULO BONAVIDES pugna pelo emprego do que a teoria constitucional vem chamando de "princípio da proporcionalidade". por exclusão. temo-lo como princípio constitucional inexpresso. Isto por que é da natureza da Constituição passar adiante a conformação jurídica da matéria que deixar de regular por conta própria.9 5. Nessa recomendação de imprimir às normas constitucionais originárias o máximo de eficácia que os métodos acima indicados permitirem.6. pois. 5. Mas que.7. ou seja. que é a Democracia (como tantas vezes dito). a opção do exegeta só pode ser pela operância plena da regra maior.5. 5. justamente. qual o principal enunciado que a Hermenêutica recomenda ao processo da interpretação em concreto de uma norma constitucional originária? Pensamos que seja.11. Ou que menos lesione os princípios correlatos àqueles em concreto estado de fricção. Este é um ponto central da Teoria da Constituição.jeito.7.1.7. a sua história e a sua teleologia permitirem. deva preponderar sobre o outro. A Constituição é norma em sentido material.7. É para desanuviar. que não tem sido objeto de realce doutrinário. para cumprir uma função técnica de controle social. Todo este modo especial de ser das normas constitucionais principiológicas repercute (e como!) nos enunciados hermenêuticos. tem força normativa própria (CONRAD HESSE) e deve ser interpretada de acordo com a sua mais alta hierarquia. Mas se a Constituição deixa do lado de fora um dado campo fenomênico. a hermenêutica busca impedir que os espaços de normatividade constitucional sejam indevidamente ocupados pela legislação inferior. como normatizável por lei. sendo toda norma constitucional uma norma jurídica. como postura inicial. Se a Constituição decide normatizar uma dada matéria. 5. É por isso que o intérprete. ao nosso ver. Servindo. então. essa matéria só pode decair do status de norma constitucional se outra norma constitucional (emenda. Noutros termos. esse campo já se define. revisão) assim o disser. reconhecer à norma isolada o máximo de eficácia que a sua formulação linguística. que é um princípio conciliador por excelência. Em termos técnicos. Exceto se a própria norma constitucional.10. A eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica 5. a sua logicidade. Ao contrário. não faz parte das categorias metajurídicas. Por isso que.

10. É que. A contrario sensu. Nessa mesma direção.7.7. o sacrifício a ser imposto é à competência dos Estados-membros. ora de esguelha. 5. É que esse Direito subconstitucional apanha as sobras do que a Lei maior não quis. A matéria fica no aguardo de uma futura normação por via legal. em linha de princípio. pois tudo que favorecer à idéia de descentralização de autoridade serve melhor à Democracia. deve estar ciente dos efeitos irradiantes dessa interpretação para o Direito que não se veicula por emenda ou por revisão constitucional. exemplificativamente. a exegese que diminua a esfera de alcance de uma norma Constitucional passa a abrir espaços para uma ocupação normativa de menor escalão. Deveras. Daí que recusar à lei o que à lei pertence não signifique presentear o Poder Executivo com uma competência legiferante residual.10 .ou simples redução que seja . é de ser resolvida em favor da interpretação eficacial de maior porte.6. O que se traduz em disparatada inversão de valores. naqueles Ordenamentos que não admitem o chamado regulamento autônomo (como é o caso do Brasil.9. A dúvida. se uma exegese. Por hipótese. no bojo da relação entre a Lei Maior e a lei menor (acabamos de dizer).7. não entre a Constituição e a lei. Qual a preferência do intérprete? A preferência é pelo fortalecimento eficacial da norma. data venia de respeitáveis opiniões em contrário). da lei interpretada. Agora. a outra. E a Democracia política vive é de técnicas restritivas do Poder.7.8. ou parcial. Estas considerações apontam para a adoção de um critério seguro de resolução de eventual dúvida interpretativa quanto a maior ou menor compleição eficacial de uma norma genuinamente constitucional. imaginemos uma fundada hesitação exegética entre ampliar ou restringir a eficácia de uma norma constitucional que outorgue direito individual oponível ao Estado. tiver que enfraquecer competência dos Estados-membros. E não é isto o que sucede na relação entre a lei comum e o decreto executivo. que é a quintessência mesma da Constituição. 5. 5. 5. se o confronto se der. Defende a Lei Fundamental.constitucional.7. o impasse é de se resolver em proveito da mais próxima. uma delas funcionalmente mais distante do ser da Constituição. 5. Não se pode fazer cortesia com o chapéu da Constituição (outra vez não resistimos à tentação do prosaísmo). mais próxima de tal ser. enquanto persistir o entendimento da lacuna total. Sinta-se que o prejuízo que se causa à Constituição com uma interpretação indevidamente restritiva é maior do que o sofrido. pelo correlato fechamento . o que se sonegar à primeira passa a pertencer à segunda. a dubiedade interpretativa se extingue pela opção que implicar o prestígio das unidades regionais em que os Estados-membros consistem.7. a que amplia aquela esfera de incidência direta de uma norma constitucional passa a fechar espaços para uma ocupação normativa de menor escalão e assim fortalece a Constituição mesma.das áreas de conformação legislativa pós-Constituição. e não de mecanismos ampliadores das competências governamentais para além dos estritos limites da necessidade do exercício delas. e. por uma lei comum também indevidamente interpretada de modo amesquinhado. porque isto seria transformar a lei maior em lei menor e a lei menor em lei maior. E se o confronto se der entre competências dos Estados-membros e respectivos Municípios. para fortalecer dada competência da União. sabido que os direitos e garantias individuais cumprem o papel técnico e até mesmo histórico de afirmar o princípio da dignidade da pessoa humana e assim conter o Poder em certos limites. por exemplo. mas entre duas normas igualmente constitucionais. ora diretamente. ou não pôde reservar para si mesma com exclusividade.

Nenhuma outra norma jurídica ostenta em cores tão vivas o caráter de estabilidade que a Constituição rígida imprime ao Ordenamento. e. mas com unívoco sentido: as leis existem para aplicar diuturna e reverentemente a Constituição. 5.11.8. Eles. 5.e não simplesmente legais -. É que os atos reformadores da Constituição têm. para colocar a Magna Carta pari passu com o ritmo veloz da sociedade. Veiculam normas constitucionais. Constituição.8. ainda com mais forte razão há de prevalecer o prestígio à eficacidade da norma constitucional de berço. Estado de Defesa e Estado de Sítio)? Tudo.8. sponte sua. nascem com o propósito de dissentir daquela parte da Constituição a que visam reformar. das normas que dispõem sobre intervenção federal. evidentemente.3. existem para mexer na Constituição. as situações emergenciais do País (e aqui nos lembramos. É da natureza das coisas. Ora bem. supressão. já nascem com o indescartável compromisso de dar submissa prossecução aos comandos formais e materiais dela mesma. nessa medida.7. medidas provisórias. Aqui. Se as emendas e revisões estão autorizadas a aportar consigo normas constitucionais . Em linguagem diferenciada. pela estabilidade: a Constituição.1. "impeachment".2. como enxotar uma eventual dúvida na aferição do tamanho eficacial da primeira ante a segunda? Ou da segunda perante a primeira? 5. por essa aplicação diuturna . e. é no pressuposto do esgotamento dessa ou daquela norma-princípio da Constituição. não podendo tocar em nenhum dispositivo da Constituição. que disciplina com rigor incomum o processo de sua própria reforma. é conseqüência lógica da rigidez constitucional que os atos de reforma da Constituição Positiva sejam recebidos com desconfiança. qual a Constituição rígida que não busca resolver.8. E isto já significa o óbvio: somente quando cessa o papel da interpretação é que se inicia o da integração constitucional por atos formais de emenda. Mais até do que dificultar o processo de sua própria reforma. 5. 5.8. um potencial lógico de agressividade que as leis não têm. A necessária interpretação restritiva das normas constitucionais sobre o Poder Reformador 5. ou alterabilidade das normas constitucionais originárias.8.5. 5.6. no Brasil ao reverso de Portugal -.4. a revisão foi admitida sob pautas processuais menos dificultosas11). e somente eles. as emendas e revisões alteram aquela porção do Ordenamento que se caracteriza. é exatamente porque: a) são normas que. se fizermos o cotejo entre uma norma da Constituição originária sobre o exercício do Poder Reformador e outra norma advinda desse concreto exercício (norma advinda de u'a emenda constitucional. contra ela (Constituição). b) são elas. De outra parte. podendo mexer no corpo de dispositivos da Constituição. ou de todas elas. Se a Magna Carta é mais dócil ou mais branda na regulação do processo de elaboração das outras normas gerais que não as emendas constitucionais.8.5. ou revisão.7. portanto). no caso brasileiro. precisamente. regras editadas pelo Poder Legislativo comum. 5. ao menos no plano das emendas (já que. Uma desconfiança que já está na própria Constituição.8. que darão à Constituição aquela primária aplicação que outra coisa não é senão a paulatina e ininterrupta dinamização de todo o Ordenamento. para que não haja necessidade do apelo extremo aos atos oficiais de reforma do seu próprio estoque de normas. Donde o corolário de se encarar com extremos de cautela toda medida de acréscimo.

lógico -. outra coisa. 5. Regras periféricas. notadamente as emendas. que têm a ver com elas. mas sem a força de elementarizá-las. de reforma constitucional. a saber: uma coisa é a indicação das matérias constitutivas de cláusulas pétreas. passaria a ser encarado como cláusula pétrea). são.nos casos de dúvida fundada. com mais razão. então. o que não podem. as cláusulas pétreas. 5. desde que estas não portem consigo a mácula da inconstitucionalidade formal. da própria circunferência de cada cláusula pétrea. de par com as normas constitucionais que dão o conteúdo mínimo de cada qual dessas cláusulas de intangibilidade. justamente quando do empírico uso do Poder Reformador. Por isso que tais preceitos jazem à disposição do Poder Reformador.12 5. e. é de se afastar o receio de que o prestígio exegético das cláusulas pétreas .8. longe de constituir uma exceção ao poder de reforma constitucional. ou material. sempre que houver dúvida fundada quanto à possibilidade de mácula à Constituição.10. A alternativa é radical: ou o hermeneuta prestigia as cláusulas pétreas e assim reduz a possibilidade de produção das emendas. venha a significar banalização das mesmas (tudo. por maior proximidade com o protovalor da Democracia. pois redunda no mais intolerável tipo de banalização: a banalização da própria Lei Fundamental do País. então. Cogitando-se. mas. são . porém.reverente. Um tipo mais severo ou menos extensivo de exegese. desde que o resultado desse labor reformista seja o fotalecimento ou a rebustez da parte axiológica situada no centro da circunferência em causa (conforme anteriormente explicado). Elas é que devem gozar do benefício da dúvida interpretativa. em verdade. pois não é racional que se postule a exegese restritiva das matérias que mais confirmam o caráter estabilizador da Magna Carta e ainda por cima revelam. que é a Constituição Positiva. porém. a teor de Constituições como a brasileira.8. pois aí estamos diante dos princípios que mais estabilizam a Constituição e concomitantemente mais se aproximam do centro da circunferência democrática.12. não simplesmente o Direito. Natural. os respectivos atos já nascem com o explícito compromisso de inovar. Ainda sem nenhum constrangimento acadêmico. A este respeito.9. Sempre numa linha de inovação material que deve preservar (por isso que elas não implicam o exercício do Poder Reformador) a inteireza dos comandos todos da Constituição e até de suas eventuais reformas. vitalizar o Direito em geral. mas o próprio fundamento de validade desse Direito. ou quase tudo. É que a postura interpretativa contrária é de muito maior gravidade sistêmica. a exigir quanto a elas (emendas e revisões) um tipo mais severo ou menos extensivo de exegese. até porque melhor nos habilita a afastar o temor da banalização. 5. constituem uma exceção àquela nota de estabilidade que é indissociável de toda Constituição rígida. da circunferência democrática.11.8. sim. A inovação que se autoriza é quanto a um Direito que vige do lado de fora da Magna Carta e nela não pode entrar por nenhum modo.8. ou prestigia as emendas e assim fragiliza a integridade das cláusulas pétreas. a própria alma da Constituição. Não temos o menor acanhamento intelectual em afirmar que os atos de reforma da Magna Carta. 5. sim. que fica muito mais vulnerável a agressões por via de emendas. são os preceitos constitucionais que estão a serviço das cláusulas pétreas.8. A primeira opção é a que temos por acertada.8. claro. Por semelhante prisma analítico. que os riscos de atentado à Magna Lei sejam maiores. externamos o nosso pensar de que as emendas constitucionais. Por isso mesmo é que a Lei Maior brasileira não diz o que as emendas podem fazer. aquela parte da Constituição que nem mesmo admite a exceção do poder de reforma.

Enfim. Nunca desejáveis. mas por avaliar que seu quadro clínico já não pode prosseguir sob cuidados próprios. por insuficiência de comando (males que se debelam. em verdade. Assim é com as emendas.8.15. 5. 5. enfim. desde a infância. seja qual for a modalidade de emenda. na prática. por significar um atestado formal de que a Constituição.8. quem não se questiona sobre o risco ou o perigo de estar a mexer naquilo que. quer. Já não é passível de atualização pela via da interpretação doutrinária e jurisprudencial. 5. já não cumpre a contento o seu histórico papel. Mais tecnicamente falando. já estava bem cuidado? A dispensar. tal como posta.para não dizer uma reprimenda . .17. É dizer: muito mais que um simples esquema de procedimentos e organizações. Aqui.no modo pelo qual a Constituição cuidou dos próprios dentes. 5. Pois bem. quer pelo fato de sua excessividade normativa. Ainda assim. neste sítio do mais delicado trato hermenêutico. as linhas que separam o Poder Constituinte do Poder Reformador são muito menos nítidas do que as linhas demarcadoras da atuação do mesmo Poder Constituinte e do Poder Legislativo comum. então. nenhum ser humano vai ao dentista por prazer. respectivamente. emendas aditivas e emendas modificativas. O que significa ajuizar que ela. ou por qualquer outra forma do que se tem chamando de "mutações constitucionais". aditivo e modificativo). ou por inadequação. não tem por que abdicar da sua fundamentalidade ao mesmo tempo jurídica e social genérica. ou por omissão. da prótese e da obturação dentárias. em razão da natureza dirigente que lhe é conatural.14. Tudo isto evidencia que o perigo de atentado à Constituição é sempre iminente.13. supomos) as leis complementares e as de caráter ordinário. pelas emendas do tipo supressivo. mesmo que se reconheça o caráter fortemente economista e técnico-político das sociedades pós-modernas. Uma comparação prosaica parece-nos vir a calhar. Tudo a justificar.8.8. quer pela ocorrência de lacuna regratória. E porque são linhas muito menos nítidas ou muito mais tênues. e o papel das emendas é sempre de um corretivo.16. esse colocar a Constituição no centro do Ordenamento Jurídico é também um colocar essa mesma Constituição no centro do sistema social como um todo. como desejáveis são (irrespondivelmente. e com facilidade perceberemos que as emendas seguem a lógica da extração. pela indescartável consideração de que. O recurso a elas é sempre uma ultima ratio. tudo se traduz numa reconsideração de rumos da Magna Lei. as possibilidades de invasão pelo Poder Reformador são bem maiores. Constituição Positiva. a Constituição permanece como centro de apoio de uma abstrata alavanca de Arquimedes para a mais objetivamente justa transformação de toda sociedade humano-estatal. a sempre temida intervenção odontológica? 5. a postura da eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica opera pelo estreitamento (quando não pelo total fechamento) de espaços ao labor reformista do impropriamente chamado "Poder Constituinte Derivado". Alguma coisa na Lei Maior pecou por excesso. a rédea curta que estamos a reclamar como postura técnico-interpretativa das normas constitucionais originárias que se disponibilizam para a edição de emendas à Constituição. Pensemos em nossas periódicas visitas ao dentista. portanto. Todas elas a significar um corretivo .8.normas gerais tão-somente suportáveis. respectivamente. conforme sejam emendas supressivas.

Vale dizer. O contraponto parmenidiano de antiprocessualidade 6. A processualidade heraclitiana da Constituição 6.3. por seu turno. se pretende portadora de unidade material. na seara mesma do Constitucionalismo. A outra.3. o Direito tem uma história pra contar.que esperamos venha a funcionar como aquele necessário ponto de arremate de uma obra que. que toda a história do Direito Constitucional seja permeada de fases. É um produto da experiência humana e. 6.c. 6. face à crescente densificação dos princípios constitucionais e da própria constitucionalização de temas antes reservados à legislação comum ou de segundo escalão). Este.6. Uma história que apresenta a sua linha de evolução e por isso é que.5.1. sucessivamente.1.6. O advento do Constitucionalismo fraternal 6. De processualidade. inaugural do que depois veio a se chamar de Estado de Direito. embrionariamente. só a mudança é que não muda.1. os dois primeiros e mais importantes momentos foram a Constituição liberal e a social. de parelha com a valorização dos assalariados diante do patronato (direitos econômicos ou trabalhistas). Que é um .4.1. operando de modo a favorecer uma mais justa integração de todos os homens no conjunto da sociedade (direitos sociais genéricos). 6. O método dialético de interpretação constitucional 6. dizia o expoente da escola jônica.2. Assim é com o Direito. Um pequeno conjunto .1. naquela parte em que o jurisconsulto brasileiro e sergipano ajuizou: "O Direito não é um filho do céu". Feita a ponderação. embora intelectualmente modesta. segundo HERÁCLITO (540/480 a. A imutável substância da Constituição 6.4.o menor deles. protetiva e simultaneamente promocional do ser humano perante o Estado e o Governo (direitos "civis" e direitos políticos).Capítulo VI . o Estado de Direito Democrático (eminentemente social) e agora o Estado de Justiça ou Estado holístico (assim nos permitimos cunhar.1. naquela acepção heraclitiana de que "nenhum homem entra duas vezes nas águas de um mesmo rio". 6. por conseguinte. pois. Uma. O ser das coisas é o movimento. A processualidade heraclitiana da Constituição 6. A perene atualidade da faina interpretativa da Constituição 6. É um pequeno conjunto de idéias que não pudemos encaixar em nenhum desses capítulos precedentes. e a Teoria Dialética do tipo hegeliano veio a afirmar que esse movimento decorre de uma força motriz ou energia que é liberada pelo tensionamento entre os pares de opostos (dicotomias) de que é formada a existência.A Constituição Fraternal Sumário 6. começamos por retomar o pensamento de TOBIAS BARRETO. Não é de se estranhar.2.1 6. o Estado Democrático de Direito (liberal por excelência).1. com as Constituições e com tudo o mais que existe de natural e de social. O que se pretende dizer com a lembrança dessas coisas é que o Direito faz parte da vida e a vida tem um reconhecido caráter de dinamicidade.). com a Magna Charta Libertatum de 1215.5. o Direito não é um regalo dos deuses. Só o impermanente é que é permanente. a figurar como o primeiro elo dessa corrente de que vieram a fazer parte. por sinal . um objeto cultural.1. Como todo objeto cultural. Tudo começando. Esta derradeira parte do nosso estudo não é um catálogo de conclusões extraídas dos capítulos anteriores.1. nessa condição.

porque o Direito é feito para a vida e a vida é sempre atual. Ora. Mormente em tema de princípios. também dissemos o seguinte: o movimento da . Levando. lealdade.1.2. E somente depois que cessa ou que se malogra a tentativa de se colocar a Magna Lei em dia com os acontecimentos e o repensar das coisas. É impulso como que mecânico do intérprete desvendar os signos linguísticos a partir do significado que as palavras ostentem no instante mesmo da respectiva interpretação. 6. reputação ilibada. Assim é que as coisas se passam. de palavras.2. À processualidade endógena do seu discurso jurídico-positivo.. porque em espiral axiológica..3. Se se prefere. da Eficiência Administrativa. em toda parte. em cuja esfera semântica de compreensão interage. 6. linhas atrás. da Inviolabilidade da Vida Privada. 6.2. obviamente. 6. segundo vimos no capítulo de n° V. ele se traduz numa jornada que.4. assim como o dispositivo jurídico é contemporâneo de quem o redigiu. É que. Acontece que.7. 6. por conseqüência. o entendimento desse dispositivo é contemporâneo de quem o interpreta. à mutabilidade informal de toda a Constituição. A interpretação faz parte do circuito da existência e tende a ser. Mas não é só. cada vez mais se compõe. termina sendo um andar para cima. há uma permanente fricção no próprio interior ou na própria circunferência de cada princípio constitucional. da Cidadania. numa experiência de uma só vez.3.) e logo vai-se perceber que a interpretação jurídica é fortemente marcada pelo sentido que as palavras tenham no próprio momento do seu fazimento (dela.8. portanto. Os princípios constitucionais materiais se vazam numa estrutura de linguagem que é formada. formada por um centro e uma periferia (como toda circunferência). É mais uma forte razão para que a Constituição principiológica (e chega a ser redundante falar de Constituição principiológica) se atualize por si mesma.1. Constituição). E dessa dicotomia ou dualidade básica é que se desprende a energia que põe cada princípio em estado de mutabilidade. Para o alto.Estado de funcionalidade fraternal. da Valorização do Trabalho. perenemente atual. Palavras que se enlaçam na trama de um discurso entremeante do verbal e do não-verbal. Persevere no seu poder de facilitada adaptação à dinamicidade da vida.2. interpretação). da Moralidade e seus conteúdos de decoro. dialeticamente. somente depois dessa empreitada é que se deve cogitar da mutação formal dos seus dispositivos (dela. pela via da interpretação (renove-se a idéia). 6. boa-fé. É por aqui mesmo que se dá o engate lógico entre a natureza processual da Constituição e a ontologia dos princípios de que ela. do explícito e do implícito. 6. da Justiça. e mais especificamente em tema de princípios constitucionais (pense-se nos princípios do Desenvolvimento.1. Idêntico ao processo da vida. Uma viagem qualificada. Esse processo endógeno que é da natureza da Constituição não se traduz. significando um seguir adiante ou um andar para a frente. de roldão. O contraponto parmenidiano de antiprocessualidade 6.3.1.2. e que exige essa operação mental-consciencial a que chamamos interpretação (conforme discorremos no capítulo de n° V). a dualidade centro/periferia. A perene atualidade da faina interpretativa da Constituição 6. pela necessária identidade entre ela e os seus princípios fundamentais. em tema de interpretação jurídica do Direito legislado.2.

como professavam os próprios helenos. uno.3. A Constituição muda por si mesma.3.4.2.4. Mas com os demais aspectos permeáveis à incessante mudança das coisas. E porque pensava assim. quer pelo fato de ser o fundamento de validade de todo o Ordenamento. 6. sim. Coloca-se no ponto de conciliação ou de unidade orgânica entre as duas teorias. porque. Não em estado de permanente mutação. essa dimensão emblematicamente estável da Constituição tem a ver. sim. que falava do universo como algo eterno. Não uma coisa ou outra. Daí por que falamos que o ritmo de mutação formal da Constituição deve ser mais lento do que o reclamado pelo restante do Ordenamento. 6. 6. Mas uma coisa e outra ao mesmo tempo. com os respectivos órgãos de governo. Conota a idéia primaz de estabilidade. evolui com o movimento da parte periférica da circunferência de cada qual dos seus princípios.Constituição é pendular. pois a virtude está sempre no meio (medius in virtus).).4. seqüenciadamente. pois a substância dos seres não muda. dizia ele. mas com PARMÊNIDES. uma Constituição universalmente idêntica a si própria. Pois o restante do Ordenamento é muito mais caracterizado pelo seu conjunto de regras do que pelo seu conjunto de princípios. a Constituição muda por si mesma. já não com HERÁCLITO. 6. teríamos que buscar na Constituição como um todo (mais do que em cada princípio constitucional em particular) um substrato infenso à mudança. A imutável substância da Constituição 6. proclamou que "nada de novo existe sob o sol". assim. E não falamos ser o Direito Constitucional o mais político dos ramos jurídicos? E a Constituição o mais anatômico dos diplomas de Direito legislado? 6.4. tanto quanto se mantém estável com a imutabilidade da parte nuclear. . naquele sentido ambivalente de compromisso tanto com a mutabilidade quanto com a imutabilidade. e não muda. esse indescartável substrato só poderia residir em dois aspectos: a) primeiro.3. Esses demais aspectos ocorreriam no âmago de cada princípio constitucional originário.c. sob o influxo das peculiaridades sócio-culturais de cada povo e de cada época. A partir desse contraponto parmenidiano. contínuo e imóvel. 6. a Constituição é emblematicamente estável. e ao mesmo tempo não muda. 6.3. afinal. o sentido histórico-filosófico de servir a Constituição como o único mecanismo jurídico de eficaz contenção aos excessos do poder político e. Chamando o feito à ordem.2. b) segundo. do poder econômico e do poder social como um todo (visto que o todo social desiguala materialmente e discrimina moralmente as pessoas e ainda sistematicamente conspurca o equilíbrio ambiental e a sadia ordenação dos espaços urbanos). Pois bem. quer pela materialidade organizacional de suas normas à face do Estado e do Governo. Devido a que o ritmo de mutabilidade informal (ou endógeno) do restante do Ordenamento é menor do que o ritmo que é próprio da Constituição. E argumentativamente concluiríamos que toda Constituição Positiva é tanto heraclitiana quanto parmenidiana (à falta de melhor palavra). Teríamos. Uma ineliminável substância. segundo aquele movimento pendular de mutabilidade na periferia e de imutabilidade no centro da esfera semântica de cada qual deles. O oposto da Constituição. na função constitucional originária de montar o aparelho de Estado.3.4. Dialeticamente. E tínhamos que ajuizar assim.4.4. Pois bem. Dialeticamente. Este filósofo e poeta igualmente grego (540/450 a.1. Tudo permanece idêntico a si mesmo.

mas também sem eliminar as respectivas conquistas (como é próprio de toda superação ou transcendência). Não um a priori. Do que resulta ser a norma jurídica o resultado da sua interpretação. sabido que essa categoria de norma jurídica traduz-se em relato que é muito mais um mandado de otimização do que um mandado de definição (ALEXY). 6. tudo ao mesmo tempo. nos dias presentes. Essa metodologia da conciliação implica a busca de um equilíbrio sempre instável. Há duas correntes jurídicas em permanente oposição quanto ao papel do intérprete do Direito. é o que também sucede com o próprio labor interpretativo de cada dispositivo jurídico. mas sem o negar. 6. transmuta-se em legislador. 6. A lógica "do mais ou menos" ou do "vamos ver". Se. Uma. portanto. 6. a lógica usual de cada princípio é a da ponderação ou do sopesamento das circunstâncias presidentes de sua concreta aplicabilidade. é certo.5.5. ele se anula totalmente perante o dispositivo interpretado. a dimensão das ações estatais afirmativas. Esteja ele. mas assim mesmo é que se processa o mistério da existência terrena. podemos facilmente ajuizar que ele foi liberal. Chegando.2.6.3. Se o intérprete faz do seu exclusivo pensar a vontade objetiva da norma. como. portanto. por exemplo. que é a lógica do concretamente possível.1. Efetivamente. ao revés. ele se torna um personagem completamente autômato no referido circuito.5. Essa dialeticidade que termina sendo uma fuga dos extremos ou a conciliação possível entre eles. 6. Que veio para transcender o Estado Social. afirmando que a vontade ou o querer subjetivo do intérprete (condicionamentos psíquicos e sócio-culturais) é ineliminável do processo interpretativo. da mera proibição de preconceitos).6. os negros. e depois social. De par com isso.6. se considerarmos a evolução histórica do Constitucionalismo. E é tanto mais recomendável quanto se esteja diante de um princípio. 6. mas a vontade objetiva da norma (engastada em um determinado dispositivo). fechando todos os espaços de manifestação mental/consciencial do seu próprio ser individual e ao mesmo tempo social.2. Agora já podemos enfrentar o tema da progressiva formação do Estado Fraternal.5. isto é.5. Desde que entendamos por Constitucionalismo Fraternal esta fase em que as Constituições incorporam às franquias liberais e sociais de cada povo soberano a dimensão da Fraternidade. mas um a posteriori. inicialmente. à etapa fraternal da sua existência.6. Tanto quanto o Estado Social veio para superar o Estado Liberal.1. proclamando que a interpretação deve ser rigorosamente objetiva. o . que são atividades assecuratórias da abertura de oportunidades para os segmentos sociais historicamente desfavorecidos.4. Nem exclusiva objetividade de um querer legislado que se impõe ao exegeta.5. Se a lógica usual de cada regra jurídica "é a do tudo ou nada". nem exclusiva subjetividade de um exegeta que se impõe ao querer legislado. O método dialético de interpretação constitucional 6. pois o que interessa não é o querer subjetivo do intérprete. A solução parece estar no meio. Implica uma descoberta e uma construção. A norma a desentranhar dos signos linguísticos (dispositivos) é tanto um a priori quanto um a posteriori. ou não esteja. Personagem completamente autônomo no circuito da produção/aplicação do Direito. Outra.5. Explicamo-nos. na Constituição originária. os deficientes físicos e as mulheres (para além. bem ao contrário. O advento do Constitucionalismo Fraternal 6.

6. 6..6. sexuais. de que não se chega à unidade sem antes passar pelas dualidades. por ser a igualdade social a necessária ponte entre a Liberdade e a Fraternidade. também nos domínios do Direito e da Política. da Igualdade. Mais até que plenamente aceito. sem igualdade aproximativa.9. então que esse pluralismo do mais largo espectro seja plenamente aceito. A comprovação de que. pois o fato é que ninguém é cópia fiel de ninguém. Se a vida em sociedade é uma vida plural. estando todos em um mesmo barco. todavia. também não era possível o alcance de uma vida coletiva em bases fraternais sem o gozo daquela mesma situação de igualdade social (ao menos aproximativamente). Deveras.6. a virtude está sempre no meio (medius in virtus). Auto-sustentadamente ou sem temerária dependência externa. E tinha de ser pelas portas mais largas da Constituição. No plano do Direito Constitucional. Uma dignificação de todos perante a vida. da Democracia e até de certos aspectos do urbanismo como direitos fundamentais. favor. Sendo esta o ponto ômega ou o pináculo da evolução político-jurídica. religiosas. do Meio Ambiente ecologicamente equilibrado. as coisas se processaram numa seqüência lógica. É por aqui mesmo que se dá a penetração do holismo no Direito. visto ser ela . Assim como não se pode recusar a ninguém o direito de experimentar o Desenvolvimento enquanto situação de compatibilidade entre a riqueza do País e a riqueza do povo. E nisso é que se exprime o núcleo de uma sociedade fraterna. tanto quanto o Amor é o ponto mais alto da evolução espiritual. 6. 6. entendido o holismo como decidida opção existencial pela integração ou abrangência gradativa de tudo. a resvalar freqüentemente para o campo da humilhação dos hipossuficientes).6. E não só nos escaninhos do Estado e do Governo. 6. Nesse novo e otimizado patamar da fraternidade como característica do Constitucionalismo contemporâneo. simplesmente.4. culinárias. o milagre da vida. Tanto quanto esse mesmo tipo de igualdade social é a condição material objetiva para o desfrute de uma fraternidade como característica central de qualquer povo (uma vez que. e. Este o fascínio. partidárias. pois uma das maiores violências que se pode cometer contra os seres humanos é negar suas individualizadas preferências estéticas. que ele seja cabalmente experimentado e proclamado como valor absoluto. etc. de um lado. mais do que diante do Direito.3.7. Se já não era possível um estado genérico de liberdade sem uma aproximativa igualdade entre os homens. o que se tem já é a democratização no interior da sociedade mesma. O que já significa uma .8. 6. o que se tem no plano da boa vontade dos mais favorecidos para com os menos favorecidos sócio-culturalmente não passa de caridade.6. o mistério.5. geográficas. compaixão. de outro. a compassiva ou aproximativa igualdade social é a condição material objetiva para o desfrute de uma liberdade real.2 6.6.constitucionalismo fraternal alcança a dimensão da luta pela afirmação do valor do Desenvolvimento. Com a plena compreensão.potencialmente onitemática. Seletivamente onifinalista. Aonde queremos chegar? Na compreensão de que a ideologia da igualdade social é a mais estratégica das ideologias. pela consciência de que.6. ideológicas. condescendência.e somente ela . pela simples razão de que não pode haver fraternidade senão entre os iguais. Tudo na perspectiva de se fazer da interação humana uma verdadeira comunidade. 6. isto é. profissionais. etc. uma comunhão de vida. a Fraternidade é o ponto de unidade a que se chega pela conciliação possível entre os extremos da Liberdade. não têm como escapar da mesma sorte ou destino histórico. Não por coincidência.6.

consoante a máxima oracular do físico alemão Max Planck (1858/1947). a permanecer como a fundamentalidade de todo o sistema jurídico interno e até mesmo do sistema social genérico (o militar. Enfim.confirmação do seu papel dirigente e da sua inamovível posição de centralidade. está no fim de toda reflexão". o familiar. "para os crentes. pois as próprias fontes do Direito Internacional têm de receber as boas-vindas da Constituição para. Constituição.). louvado seja Deus! Esse Deus que. e só então. o financeiro. . metamorfosear-se em normas de Direito Interno desse ou daquele Estado soberano. enquanto que. para os cientistas. A fundamentalidade das fundamentalidades. Ela. etc. o econômico. o técnico. está no princípio de todas as coisas.

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