Introdução Teoria é conhecimento ordenado, conhecimento sistematizado sobre um determinado assunto.

Conhecimento, além do mais, especulativo; ou seja, ordem de saber que se constrói sem imediata preocupação com a sua aplicabilidade aos casos concretos. Independente da prática, portanto. 2. Quando associado ao nome "Direito", para com ele formar a locução "Teoria do Direito", o substantivo de que estamos a falar é tipo articulado de conhecimento que busca isolar o Direito das outra realidades normativas. Explica o Direito como objeto cultural-normativo que se não confunde, verbi gratia, com a moral e a religião. E quando grafado de "Teoria da Constituição", é saber especulativo que opera no interior do próprio Direito, para separar o Direito Constitucional de qualquer outro setor ou província jurídica; melhor dizendo, para evidenciar em que a Constituição: a) é diploma jurídico-positivo diferente dos demais; b) é a parte central de um ramo jurídico também diferenciado das outras porções que se entroncam na grande árvore do Direito. 3. Este o nosso desafio: pensar a Constituição. Não esta ou aquela Constituição em separado, mas enquanto fenômeno jurídico-positivo comum à experiência dos povos que exercitaram, com êxito, a própria soberania. 4. O que estamos dizendo não é mais que isto: às Constituições em sentido objetivo (conjunto de normas jurídicas) corresponde esta nossa teorização em sentido subjetivo. Que somente vai buscar no material investigado, todavia, o que se apresentar como partes elementares de um todo orgânico; ou seja, como objetiva comprovação de que tudo é um. 5. Ainda à guisa de anotações preliminares a esta nossa monografia, um primeiro lembrete: não há apenas Constituições escritas, e mesmo as escritas nem sempre se enfeixaram (como ainda não se enfeixam) num único texto normativo. Elas também existem em documentos esparsos. E se umas são redigidas e promulgadas por órgãos especialmente eleitos pelo povo para esse mister, outras, no entanto, são aprovadas sem a eleição popular daqueles por cujo intelecto e força física elas ingressaram no mundo das positividades jurídicas. 6. Outra pequena lembrança está em que a nossa teorização não é repelente de nenhuma espécie de Constituição conhecida. Contudo, as especificidades ou características centrais que temos como exclusivas de um diploma constitucional, assim como as citações e ilustrações de que nos valemos amiúde, tudo tem por alvo o modelo de Constituição que terminou por se impor no interregno que vai do segundo após-guerra até os nossos dias: a Constituição escrita, redigida à moda de código e

produzida por um corpo de legisladores ungidos na pia batismal do voto popular. 7. Por último, incumbe-nos pontuar que esta nossa Teoria da Constituição começa pelo estudo do Poder Constituinte, que é a instância deliberativa de que ela, Constituição, é a obra resultante. O trabalho objetivamente feito. E que essa mesma Teoria passa pela esfera de conhecimentos que tem recebido o nome de "Hermenêutica Constitucional"; mas que preferimos, pessoalmente, designar por "Hermenêutica da Constituição", como no seu devido tempo explicaremos. Aracaju (SE), 23 de dezembro de 2002 Carlos Ayres Britto

Sumário
1.1. Deus: a instância transcendente que tudo pode, menos deixar de tudo poder 1.2. A limitabilidade intrínseca de Deus 1.3. A indistinção ontológica entre Deus e Sua onipotência 1.4. Deus enquanto norma normarum ou a fonte das fontes 1.5. A incontornável solidão da onipotência de Deus 1.6. O povo como a transubstanciação do poder imanente que tudo pode 1.7. A soberania popular ou o modo constituinte de ser do povo 1.8. O mundo de Deus e o mundo do Direito 1.1. Deus: a instância transcendente que tudo pode, menos deixar de tudo poder 1.1.1. O meu filho Marcel tinha cinco anos de idade, quando travou comigo o seguinte diálogo: - Meu pai, é verdade que Deus tudo pode? - É verdade, sim, meu filho. Deus tudo pode. - E se Deus quiser morrer? - Bem, aí você me obriga a recompor a idéia. Deus tudo pode, é certo, menos deixar de tudo poder. Logo, Deus tem que permanecer vivo, porque somente assim Ele vai prosseguir sendo Aquele que tudo pode. 1.1.2. Ao dar essa resposta de que Deus não podia morrer, terminei por confirmar uma coisa e afirmar outra. Confirmei a minha crença na existência de Deus e afirmei a limitabilidade intrínseca desse mesmo Deus de cuja existência eu estava a dar testemunho. 1.1.3. Com efeito, eu reproduzia para o meu filho: a) minha filosofia prevalecentemente idealista ou espiritualista, à moda hegeliana, segundo a qual a natureza ambiental e a sociedade humana são uma revelação, uma manifestação da Idéia Incriada; b) essa Idéia Incriada é o próprio Deus, tido como instância transcendente que tudo pode, mas com o acréscimo de idéia que eu estava a fazer: instância transcendente que tudo pode, sim, menos deixar de ser essa instância transcendente que tudo pode.1 1.2. A limitabilidade intrínseca de Deus 1.2.1. Sobre este último aspecto da limitabilidade inerente a um ser que tudo pode (a relativização possível da onipotência), a conversa com meu pequeno filho trouxe-me à cabeça a utilidade pedagógica de uma comparação entre Deus e o poder que, na Ciência Política e na Teoria da Constituição, é chamado de Poder Constituinte. Mais exatamente, pressentíamos (a partir de agora passaremos a usar o plural majestático "nós", em vez de pronome pessoal da primeira pessoa "eu") que refletir sobre algumas noções deístas mais correntes seria tarefa intelectual que abriria importantes espaços para a mais desembaraçada compreensão do poder que está na própria raiz da Constituição e do Ordenamento Jurídico: o Poder Constituinte. 1.2.2. Não que houvesse originalidade no fato em si da comparação (outros estudiosos do Direito, cada qual a seu modo e tempo, já confrontaram o Divino com o Poder Constituinte). Não que o acerto das proposições descritivas dos diversos ângulos da formação e manifestação do Poder Constituinte dependesse (nunca dependeu) do acerto das proposições reveladoras da existência e da natureza de Deus. Os conceitos

Esta é a sua natureza. da França. sua referibilidade às idéias mais assentes sobre Deus lhes propiciaria uma clareada de horizontes. 1. b) de outra banda. Antevíamos até mesmo uma dimensão prática.acerca do Poder Constituinte gravitam em outra esfera de mentalização fenomenológica. aquele que tudo pode com inicialidade só existe mesmo para tudo poder com inicialidade. b) se a emergência de coletividades supranacionais pode ensejar a formação de um Direito superior à Constituição de cada país-membro de tais coletividades (a União Européia. então. a mais vivamente fixar os contornos do constitucionalismo atual..2 1.. de modo quase invariável. que chegou a dizer: "Quero conhecer o pensamento de Deus. que é um constitucionalismo fraternal.2. é exatamente este: aquele que tudo pode com inicialidade é a fonte mesma do seu e de qualquer outro poder. pois o fato é que os estudos e reflexões em torno do Criador são em muito maior quantidade do que os elaborados ao derredor do Poder Constituinte. a ALCA e o MERCOSUL. ou "Juiz Supremo do Mundo". de fato. já podemos antecipar que os ângulos de estudo que nos parecem mais salientes dizem respeito à questão de saber: a) se as normas que tenham por objeto a reforma da Constituição . 1.3. o que nessa literatura se tem ajuizado sobre a existência. É que a pretendida clareada de horizontes na compreensão do verdadeiro Poder Constituinte nos habilitaria: a) de uma parte. apanham a figura de Deus por um prisma subjetivado ou enquanto ser que se dota de uma vontade do tipo psicológico. o que se tem falado sobre Deus permeia pronunciamentos de cientistas do quilate de um EINSTEIN. O resto é detalhe. etc. Tudo a nos levar a presumir que uma objetiva demonstração de certa similitude entre os dois termos paradigmáticos (Deus e o Poder Constituinte) contribuiria para quebrantar as resistências doutrinárias mais recentes à tese de que há um espaço de conformação jurídico-positiva que somente pelo Poder Constituinte é passível de ocupação. uma utilidade mais que propriamente acadêmica na confrontação que estávamos a idealizar. ou "Divina Providência". 1. em última análise. etc. Brasil. ou "Ser Supremo" tem sido grafada nos preâmbulos de Constituições como as dos Estados Unidos da América. notadamente). Logo. por ser a própria causa de tudo o mais.são normas que podem servir de fundamento para a modificação delas próprias.6. Mais até. se consideram ateus?). Noutros termos. a melhor rebater os fundamentos daquilo que se vem chamando de neoconstitucionalismo. alemães e portugueses).5.tanto as que permitem quanto as que proíbem tal reforma . Sua realidade prescinde da noção de causa. Estudos e reflexões que. assim como nenhuma instância geratriz mundana pode assumir o papel de Deus naquilo que diz respeito à montagem das linhas mestras do universo e à substituição dessas linhas por outras.2. também nenhum órgão ou sujeito simplesmente constituído pode se travestir de Poder Constituinte naqueles pontos que se põem como a própria fundação do Ordenamento Jurídico e como alteração das características centrais desse Ordenamento." E não se pode negar a realidade de que a invocação do nome de "Deus". Alemanha. o seu núcleo duro (expressão muito ao gosto dos publicistas norteamericanos. Sem embargo. .2. a ontologia e as manifestações do Todo Poderoso é de generalizada ou massiva aceitação (quantos homens e mulheres.2. funcionalmente.. já a título de execução do nosso pessoal estudo comparativo entre Deus e o Poder Constituinte. Além dessa disponibilidade muitíssimas vezes maior da literatura sobre Deus. Venezuela. Argentina. O primeiro juízo que passamos a formular. Nesta última dimensão do neoconstitucionalismo.4.

Deus. com o tempo.2. Tais órgãos são. o corpo humano. Ambos surgem no mesmo instante. Noutro dizer.7.2. ele não é apenas a sua nascente. Se é assim. a sua corrente e a sua embocadura. Ele é ao mesmo tempo o seu nascedouro. ou com outro rio que no mar desemboque. na medida em que pode. figuremos uma nascente d'água fluvial e sua própria corrente. distanciar-se do seu nascedouro. porque. O rio é rio por inteiro. 1. ou a sua corrente. convocou a natureza e os seres humanos. Jamais. com a possibilidade de tais criaturas. A indistinção ontológica entre Deus e Sua onipotência 1. 1. e não aos pedaços. O dínamo do nosso Globo. Deus a se postar como refém daqueles que.3. Circularmente. porém. senão. se esforça por se conservar ou permanecer tal como é. por ser o próprio sujeito. assim destacadamente. criaturas Dele. ou a sua foz. há pouco projetada.3 1. O que é lógico supor é o poder que tudo pode a não fazer tudo sozinho. Ele inicia uma obra para outro completar. Ainda recorrendo à imagem do rio. O ser-corrente é seguir em frente.1. se ombrearem em tudo e por tudo ao seu Criador. no caso. Não faz sentido que a fonte de todo o poder use do seu poder originário para se fazer secar enquanto fonte mesma. que a mente humana fragmenta. Por comparação. no sentido de se colocar perante esse mesmo sujeito como um predicado ou uma virtude. ora por incapacidade de compreender o todo. e por isso é que um não . Com um pouco mais de interesse especulativo pelo tema. um vírus. 1. Esta só pode ser um ininterrupto caminhar para adiante da nascente. O mister que lhes cabe é sempre o de coadjuvantes. como o ser-nascente é ficar para trás da corrente. Não há como conceber a substância de um ser a conspirar. como o corpo humano já nasce com todos os seus órgãos elementares. sozinha (Deus está sempre sozinho enquanto "substância"). no seu conjunto. para se tornarem co-criadores deste mundo terráqueo. de repente poderão se transformar em criadores do seu Criador. o poder é o sujeito. É auto-evidente o consectário dessa afirmação de que existe um ser que tem no tudo poder com inicialidade a sua própria ratio essendi: o ser que só existe para tudo poder com inicialidade não pode se demitir do seu papel de tudo poder com inicialidade.9. Impossível! A nascente de um rio de superfície (há rios que são subterrâneos) existe para vir à tona e liberar uma parte de si numa certa direção. ora por amor à exigência intelectual de classificação ou compartimentação endógena das coisas.8. continuamente. sendo criaturas. É de SPINOZA a categórica asserção de que todo ser. avançamos no raciocínio para entender que o sujeito (à falta de melhor palavra para a qualificação ontológica de Deus) cuja natureza é a de tudo poder não tem o poder como algo distinto de sua subjetividade.3. contra a sua própria conservação. Tudo é uma coisa só. uma bactéria.2.3.2.3. 1. todos eles reagem o quanto podem ao remédio com que são eventualmente combatidos. adensando-lhe incessantemente o corpo e assim possibilitando ao rio (do qual fazem parte nascente e corrente) aquele final e interminável abraço com o mar. Nada disso! O poder não é distinto do sujeito. o sujeito é o poder. 1. nascente e corrente existem para cumprir a destinação do rio de se encontrar perpetuamente com o mar.3. Até mesmo um micróbio. Esse tipo de poder não é algo que o sujeito possua. gerando o fenômeno da corrente. a primeira a determinar à segunda que reflua por inteiro ao ponto de partida para nesse ponto de partida se esvair.aquilo que responde pela sua raison d'être. o corpo humano é o conjunto de tais órgãos. elas colocarão o Criador sob o risco de se tornar criatura das suas criaturas.

Se está num trono.9. o Poder Público enquanto sinônimo de Estado.3. de que Deus.3. em rigor. O ser que tem na aptidão originária para tudo poder o próprio núcleo firme da sua natureza (forma). O deixar de ser fonte primaz é . 1. negritos à parte). Aquilo que o ser. então. porque. 1. negue-se-lhe o instinto de preservação. Assentado fique o juízo. Tudo o que alcançar neste mundo lhe será tomado.3. é capaz de fazer. e. pois. No tema. mais cedo ou mais tarde será destronado. Mas. Deus tem que ser a fonte primaz da vida. Se Deus existe (pouco importa se existe como sujeito processante. Uma absurda passagem de um poder que tudo pode. para nos expressarmos numa linguagem kelseniana). Por isso que. que. no maravilhoso livro A SEMENTE DE MOSTARDA. Um atentado ao próprio "instinto de conservação".3. porque essa renúncia. Não se trata de uma dualidade fenomênica. Ele não se põe como a fonte primaz da vida por assim optar pela condição de ser fonte primaz. chamando-o de "Poder Público". de que dá sobejas demonstrações o arsenal prescritivo da Constituição brasileira de 1988 (inciso LXIX do art.pode ser destacado do outro.uma vez atingida. tal ser não pode decair dessa aptidão. não pode ser perdido. e o que sobra já é outra coisa em qualidade e essa outra coisa em qualidade pode até ser o nada. e somente ele. a causa de todas as leis naturais que regem a vida por Ele criada ou na qual Ele se transfundiu. 8º. 5º e inciso I do art. Não é desarrazoado.4. é preciso trabalhar com a idéia de que o centro subjetivado do poder que tudo pode tenha no fenômeno da onipotência mesma a impossibilidade da renúncia a tudo poder. enfim. que é absolutista porque tudo pode e porque tudo pode é que é absolutista. é eterno. mais cedo ou mais tarde será difamado. A sabedoria não pode regredir . que o próprio Direito se encarregue de fundir com o Estado o poder que o Estado tem de legislar. ou como um processo em si mesmo substante). em rigor. se passarmos do plano da imanência (plano do mundo físico e cultural) para o plano da transcendência (que é o espaço dos seres espirituais ou "supra-humanos". 230. para um poder que assume o risco de já não poder mais nada.8. como a flor e a sua corola. Dá para concluir.5. Convém dizer de outro modo. torna-se parte de você. p. não são alturas verdadeiras. ano de 1992.4 1. consubstanciaria um autoesvaimento. o místico e filósofo indiano OSHO assim fala da verdadeira sabedoria: "As pessoas caem sempre que estão nos pontos mais altos. portanto.3. o sujeito que tudo pode tem nesse tudo poder a sua causa formal. tudo o que você alcança é para sempre. reitere-se. em louvor à clareza do pensamento.7. Retire-se-lhe o poder de tudo poder. mas de uma unidade ontológica. Entendendo-se por forma aquilo para que serve o ser. 1. ou existe. Não é algo que você possua torna-se seu próprio ser e você não pode desconhecê-la (ÍCONE editora. o Estado enquanto sinônimo de Poder Público. Não há querer. Deus é o poder de tudo poder. não existe o outro. 1.6.3. Deus não tem o poder de tudo poder. Se você tem fama. não há opção. O quebrantamento do poder absoluto arrastaria consigo o próprio sujeito absolutista.. à moda de exemplo5). faz do ser uma outra coisa ou até uma coisa nenhuma?) 1. Mas esses pontos pertencem ao vale. se apartado do ser. A função específica. de executar as leis e de julgar segundo essas mesmas leis. destarte. Tudo é uma só realidade. no mundo interior. Em linguagem aristotélica. Sob este visual das coisas. isto é. o mar e as respectivas ondas (como entender enquanto predicado ou virtude aquilo que. ou não existe. porque dessa perda essencial restaria um outro ser. Mais que isso. que o ser desempenha e que o torna único entre os demais fenômenos. mais que renúncia. Uma implosão. então..

. que não é outro senão o conceito de Deus enquanto fonte das fontes ou norma normarum: "O que é em si e se concebe por si.) são leis que se põem como a causa ou a fonte de muitas outras leis igualmente físicas. Desta concepção extraem-se outras: se é absolutamente independente deve ser infinita. embutido. e aí o ser humano tem a necessidade de. segundo o qual tudo que acontece é por efeito necessário de uma causa também necessária ou que não pode deixar de ser. 3). 1. Tanto quanto o flamboyant. a não-substância de que derivam todas as substâncias). v.3. Eis a composição vernacular do sistema spinoziano do universo (ETHICA. Deus. igualmente naturais sabido que tais leis empíricas são encadeadamente regidas pelo princípio da causalidade -. da conexão universal dos fenômenos. que somente coincide . da atração e simultânea dispersão dos corpos. quem sabe. I. partindo do fato de que as leis naturais da vida (lei da gravidade. por sua vez. que é um mundo regido pelo citado princípio da causalidade.4.com a dialética marxista enquanto método6). cair nos braços de Deus. teremos que passar pela explicação dos testículos . Agora.4.4. E é assim de indagação em indagação que iremos estacionar num ponto absolutamente irredutível a novas perguntas sobre a parte orgânica do corpo humano.1.incompatível com a idéia que se possa ter de Deus. é imperioso que nos perguntemos sobre a existência de um ponto de partida que seja comum a todas elas. Esse ponto é a lei ou o princípio da perpetuação da espécie. Não há como deixarmos de nos inquirir sobre um tipo de instância que se ponha ali no próprio começo de tudo que pertença ao mundo do ser. Mais: é preciso mesmo que as flores caiam para depois rebrotar.. no princípio da continuidade da vida em geral. contém o espermatozóide). E neste passo vamos ter que reconhecer: para além da explicação racional. 1.4. vamos ter que responder que o ser humano proveio do fato inicial da fecundação de um óvulo (feminino. . senão seria limitada por outras e não poderia ser independente. Se prosseguirmos no exercício das perguntas sobre o fenômeno da concepção humana. aquilo cujo conceito não tem necessidade do conceito de uma outra coisa. continuamente. é árvore feita para a produção de suas flores e da produção de suas flores. seqüenciando a intuição de que "nada pode surgir do nada" (PARMÊNIDES). 1. é única em tudo. Por hipótese.por ser o ovário a glândula genital feminina que produz óvulos.2.4. óbvio). ou outro nome que se dê à fonte das fontes ou a lei das leis ou a norma normarum. que é a substância primária de que falava SPINOZA (ou. se queremos saber a causa imediata do nascimento de um ser humano. 1. incessantemente. da conservação da energia. em cujo ponto de partida se encontra o conceito daquela Substância de que tudo deriva.4. a seu turno.g. ao menos no estádio atual das categorias lógicas com que trabalha a mente humana (e aqui tomamos em linha de conta as contribuições da lógica formal e da dialética hegeliana. da mudança mecânica de estados. etc. do qual deva ser formado. só cabe mesmo apelar para uma instância geradora da própria lei da continuidade da vida em geral.esta última . ministrada pela própria Ciência.. Deus enquanto norma normarum ou a fonte das fontes 1. como teremos que passar pela explicação do ovário . traduzido na idéia de que a vida em geral é feita para a gestação e da gestação de infinitas formas (especiais) de vidas. As flores vêm e vão.por serem eles a glândula genital masculina que fabrica o esperma (que. e o flamboyant fica. claro) por um espermatozóide (masculino. porque somente assim é que a árvore pode permanecer viva. isto é.

menos deixar de tudo poder. nem pela convocação de um êmulo.também precisa ser causa sui. O desdobramento de idéia que nos esforçamos por transmitir é simplesmente este: a onipotência não é só o poder de tudo poder. enfim. e. Deus originário.5.5. Deus criaria um novo Deus. uma energia completamente primária e insimilar.4. então. Nem de forma direta. Deus. É também o poder de não deixar que outro poder tudo possa. Este princípio necessário. A incontornável solidão da onipotência de Deus 1. Um desses modos . todo céu. O outro modo é a impossibilidade do suicídio em dois tempos: num primeiro tempo. uma . Realmente. 1. que HANS KELSEN pôde falar de uma Ciência do Direito? Uma ordem sistemática de conhecimentos que tem naquela hipotetização normativo-fundamental a sua própria condição inicial de possibilidade como esfera autônoma e científica de saber?7 1. a um só tempo. mas saltar imediatamente para uma conclusão. portanto: primeiramente.). um sósia.5. Não há como duas ou mais onipotências ocuparem o mesmo espaço.5. em que mar. na Sua onipotência. em que abismo. falar sobre Ele não é formular proposições deduzidas da análise de elementos objetivos que se conectam para formar um todo unitário. está condenado à solidão. para os intelectuais que O admitem é sempre uma hipótese de trabalho. uma norma fundamental hipotética.já foi dito .1. não foi a partir da intuição da existência de uma norma fundamental simplesmente pensada. É. se a morte do "originário" Deus levaria de roldão todo abismo. o que impediria o novo Deus "onipotente" de refundir.. segundamente. pura e simplesmente. 14 do prefácio de MÁRCIO PUGLIERI ao "TRATADO POLÍTICO". enfim).5. esse novo Deus onipotente destroçaria toda a obra do primeiro e assim decretaria a própria sentença de morte do Deus inicial. permanecer como a força que tudo pode. nenhuma instância volitiva imanente. Não seria exatamente assim com o Poder Constituinte? Uma força instintiva que não comporta sucedâneo. tão onipotente quanto Ele. 1. Um postulado. retornaríamos àquela já descartada hipotetização: Deus a sumir do mapa.é a impossibilidade do suicídio direto ou instantâneo: Deus a bater em retirada. o próprio mapa a sumir (em que chão. sabido e ressabido que a existência mesma de Deus nem pode ser rigorosamente confirmada nem rigorosamente desconfirmada pela Ciência. Se Deus pudesse criar um segundo Deus. pressuposta (não efetivamente posta por nenhum órgão jurídico. e por isso voltamos a ajuizar que a natureza de Deus está em ser o poder que tudo pode. Este novo título formal nos introduz na exposição dos dois modos lógicos de Deus perseverar como o poder que tudo pode.2. Ícone Editora. Um conceito que se intui a priori. Logo. com a entrada em cena de um segundo Deus.5. com Ele. à completa imagem e semelhança Dele. todo chão?). todo mar. 1. 1994). Terminemos este segmento reflexivo com a ponderação de que não desconhecemos o grande risco intelectual de quem se dispõe a falar sobre Deus. em que céu.4. nenhum costume. e. Poder único.5. um clone. Deus.. singular e incausado.5. portanto. de SPINOZA. este princípio imanente do universo é Deus ou Natureza" (p.3. Ademais. Todavia. precisa ser autodeterminada. É próprio do Ser onipotente. como é próprio de todo postulado. num segundo momento. ou até mesmo descriar o Primeiro?8 1. absolutamente inconvivível com outro poder de igual ontologia. primitivo Deus. eterno. onipotência e unipotência. existir em absoluta solidão. caso contrário dependeria de sua causadora. 1. decorrendo suas qualidades e ações de sua própria natureza (.

falar da existência de um povo. quer na esfera territorial que é comum aos demais Estados soberanos (a ordem internacional de Estados). que tem no Estado a sua própria condição de aplicabilidade e expansão.1. ou histórico. quer no seu próprio território. Queremos dizer: é aplicável à natureza de cada povo soberanamente concebido. incorpora o poder de se autodeterminar jurídicamente. é dar conta do exercício vitorioso de uma emancipação política. já agora no plano imanente. para uma coletividade humana. É exprimir: o ser-povo significa poder existir sob a forma jurídica de Estado. E tudo isto somente se consuma pelo fenômeno da estatalização.3. É dizer que o povo pôs em movimento. quando pode dispor normativamente sobre si mesmo. Quando se autoqualifica juridicamente. paulatinamente.5. destarte. à natureza do povo.6. no plano territorial-externo. ou étnico. para o povo não mais se submeter ao Direito de outro povo. forcejaremos por ministrar. c) força passagem para o seu ingresso na coletividade internacional de Estados. com esta dúplice função: primeiramente. Única maneira objetiva e permanente de o povo atuar como um centro personalizado de imputação jurídica. É pressupor a soberania em ação. superior a qualquer outro poder jurídico. A originária força de possuir um Direito próprio. o que objetivamente revela? Revela a efetividade da emancipação ou soberania do povo. O povo só é povo. começando por este capítulo e prosseguindo nos subseqüentes. exercitou uma soberania. relações jurídicas internas. pela importância do assunto: o ser-povo. jurídicamente.6. Sem o fenômeno da estatalização. se auto-referir como sujeito de relações-de-Direito. não há como entrever a face jurídica do povo. exclusivo. é aplicável. que um povo já existe. b) se predispõe a protagonizar. quem especularia?).4. 1.6. 1. dos demais povos soberanos. Se antes da criação da vida humana sequer era possível falar da existência de Deus. segundamente. Repisando a idéia. etc. o já existir sob a forma jurídica de Estado. naquele preciso momento da metamorfose do povo em Estado.6. Emancipação política (soberania) para o povo poder se irrogar tal Ordenamento.2. para o povo grangear a adesão. no plano territorial-interno. Implica emancipação como a forma exteriorizada de uma soberania que é.). o que dissemos acerca da índole de Deus é de ser reproduzido quanto ao caráter de cada povo. e nunca de forma pasteurizada? É a resposta que. Enfim. especular sobre Ele (quem falaria. O povo como a transubstanciação do poder imanente que tudo pode 1. E isto já significa a emergência de um Ordenamento Jurídico próprio.6. e que não é inferior a nenhum outro poder jurídico. ou pelo menos o respeito. 1. em termos jurídicos (não sob o prisma sociológico.6. Mas o ser-Estado. animamo-nos a enunciar que boa parte do que dissemos a respeito do caráter de Deus. terceiramente. de forma autoditada. por definição. porque somente assim estatalmente a se metamorfosear é que o povo: a) pode experimentar sua natureza de instância deliberativa soberana.solitária potência do mundo do ser? Um poder que só pode ser concebido in natura. juridicamente. Afirmar. único modo prático-formal de o povo por inteiro se autoconferir um Ordenamento e uma personalidade jurídica.9 1. no plano transcendente. garantidamente. para o povo impor o seu próprio Direito no âmbito do território de que se apodera. com animus domini. única via lógica (não há outra) de o povo. . assim. Se se prefere. antes da criação do Estado também não se pode. 1. Atento ao relativismo que é próprio das comparações.

seja para se assumir como a instância decisória interna mais importante, seja para ombrear-se às demais instâncias internacionais de Estados. Numa nova metáfora, o Estado é a borboleta em que se transformou a crisálida de uma sociedade humana aspirante a povo.10 1.6.6. O que verdadeiramente conta, nessa cruzada histórica do povo em busca de si mesmo, à cata de sua própria totalidade como ser jurídico, é o resultado. É a efetividade interna e externa da personalização jurídica do povo em um novo Estado. Não que a efetividade só exista, no plano interno e externo, a partir do reconhecimento unânime desse novo Estado pelas instituições aplicadoras do Direito, no plano interno, ou, então, pela sociedade internacional de Estados. Absolutamente! Basta que o número dos reconhecedores assegure ao novo Estado a perspectiva, o clima, a tendência natural de prosseguir obtendo novos reconhecimentos (ainda que tácitos), à medida que se vão escasseando as possibilidades de recuperação de terreno do Estado decaído ou daquilo que sobrou da antiga ordem estatal. É o que poderíamos designar por situação de efetividade global do Estado emergente, imagem de que se valeu HANS KELSEN para dizer que o Ordenamento Jurídico não perde a qualidade de Ordenamento pelo fato de uma ou outra de suas normas, embora válida, deixar de ser concretamente aplicada. O que interessa é que, no global, no geral, no plano daquilo que profusamente ocorre, a Ordem Jurídica seja respeitada. Ouçamos o maior expoente do positivismo jurídico da recém-passada centúria: "Uma ordem jurídica não perde, porém, a sua validade pelo facto de uma norma jurídica singular perder a sua eficácia, isto é, pelo facto de ela não ser aplicada em geral ou em casos isolados. Uma ordem jurídica é considerada válida quando as suas normas são, numa consideração global, eficazes, quer dizer, são de facto observadas e aplicadas" (ob. cit., p. 298). 1.6.7. Ainda insistindo na comparação possível entre Deus e o povo, devemos concluir que o povo também não tem, em rigor, o poder imanente de tudo poder. Ele, povo, assim juridicamente designado pelo fato de se organizar em Estado soberano, é o próprio poder de tudo poder, em termos jurídicos e no plano territorial interno. Dá-se, na imagem ideal do povo, a transubstanciação da soberania (do latim super omnia, a traduzir aquilo que está acima de tudo ou acima de todos), assim como na doutrina católica se dá a mudança de estado do pão e do vinho para o corpo e o sangue de Jesus Cristo, na Eucaristia (dogma definido no Concílio de Trento). Ou, numa exemplificação propriamente científica, a osmose que se processa entre o povo e a soberania é algo assim como o encontro de duas partículas de hidrogênio com uma de oxigênio, a determinar a mudança de natureza desses dois elementos químicos para a formação de um terceiro: a água. 1.6.8. Vistas as coisas por este ângulo, força é convir que a soberania outra coisa não é, na prática, senão o próprio modo estatal de ser do povo. É como inferir: no justo momento em que a transfiguração estatal se efetiva, já o é como resultado empírico da fusão do poder soberano com o povo (o que significa dizer que o povo e a soberania passam a compor uma só unidade fenomênica, pois o povo é um com a soberania e a soberania é uma com o povo). O povo, impessoalmente encarado, é o poder soberano, tanto quanto o poder soberano, subjetiva ou personalizadamente focado, é o povo. 1.6.9. Sem o povo, a soberania é forma pura, isenta de toda matéria, e, portanto, vazia. E sem a soberania, que é o povo? Matéria humana coletiva ainda juridicamente privada de sua definitiva forma. Um ser jurídico ainda carente de totalidade, a meio caminho da autoconsciência, porque, nele, a soberania permanece numa dimensão apenas virtual. Daí a asserção de que, sem a incorporação da soberania, o povo não dá

a si próprio uma Ordem Jurídica e deixa de se personalizar no Estado. E assim juridicamente incompleto e estatalmente irrealizado é que o povo não consegue superar o estágio político de simples população, que é o inconcluso estágio de crisálida. 1.6.10. Perguntamo-nos: mas o que faz o povo ser assim a fonte e o nervo da soberania? A própria subjetivação do poder mais alto em que a soberania consiste? É que o povo, no seu amálgama com o território de que se torna senhor, falando geralmente a mesma língua e vivenciando uma cultura própria, constitui o que se convencionou chamar de nação. Algo mais que sociedade humana, mais que população, muito mais que simples aglomerado de pessoas, por implicar uma verdadeira comunidade (de comum unidade); isto é, uma real comunhão de vida, no sentido de consciência coletiva quanto à partilha de um mesmo destino histórico, por se encontrarem todos em um mesmo barco. Logo, o mais abrangente e impessoal e permanente enlace humano (que é mais do que convivência hic et nunc), de sorte a plasmar um tipo de realidade social que só pode ser o começo de tudo, no plano da Política e do Direito. 1.7. A soberania popular ou o modo constituinte de ser do povo 1.7.1. O Poder Constituinte 1.7.1.1. É neste ponto de intelecção que vem à baila a figura do Poder Constituinte. Um poder que em nada discrepa da soberania de que vimos falando, por ser ele essa mesma soberania; ou seja, O Poder Constituinte é a soberania que se manifesta de modo inicial ou primário. Logo, o nome que a soberania toma, quando expressada com inicialidade. 1.7.1.2. Se falamos assim de primariedade expressional da soberania, é porque o povo-nação, já imerso no seu Estado, atua em outros momentos que o Direito Positivo costuma etiquetar como expressão de "soberania popular". É o caso da Constituição brasileira de 1988, cujo art. 14 faz dos institutos do sufrágio universal, do voto, do plebiscito, do referendo e da iniciativa das leis pelos cidadãos uma forma de exercício, justamente, da soberania.11 1.7.1.3. Uma outra razão existe para falarmos de momento inicial da soberania, e aqui já temos em vista a figura do próprio Estado. É que ele também recebe o qualificativo de soberano, na medida em que pode impor ou ditar um Direito comum a todos, no interior do seu próprio território. E no uso dessa aptidão para expedir um Direito de abrangência e acatamento geral, o fato é que nele mesmo, Estado, se dá a reedição daquela marca registrada que é do povo, soberanamente concebido: o poder de procriar um Direito a que ninguém escapa (no caso do povo enquanto fonte normativa, esse Direito é a própria Constituição; no do Estado, o Direito pós-Constituição). 1.7.1.4. Reexplica-se. Põe-se no Estado a designação de soberano porque ele, tanto quanto o povo-nação, produz um Direito de máxima e irrecusável abrangência pessoal e territorial. Com a diferença de que o povo assim o faz pela altissonante via da Constituição e no uso de uma força originária ou potência propriamente dita; ao passo que ele, Estado, só pode fazê-lo por normas que são posteriores à Constituição e no uso de uma potestade ou competência derivada (a potência se dilui em competências, e não em outra potência, como bem observam HART e VANOSSI). 1.7.1.5. É assim no uso de uma capacidade normante que o povo lhe delega, lhe cede,

lhe empresta, enfim (sempre por conduto da Constituição), que o Estado dita um Direito comum a todos e, pela efetividade desse Direito, passa a abrir os mais favoráveis espaços de reconhecimento internacional à "sua" (dele, Estado) soberania. 1.7.1.6. É de se perguntar, naturalmente: e quando ocorre aquela citada manifestação primária da soberania? Manifestação primária, essa, que estamos a identificar com o Poder Constituinte? Não com o Estado? 1.7.1.7. Resposta: a soberania que se manifesta como Poder Constituinte somente ocorre, formal ou oficialmente, no preciso instante da criação jurídica do Estado. Criação que se formaliza, hodiernamente, no corpo de um documento jurídico-positivo cujo nome é Constituição (palavra que, no vernáculo, significa a maneira particular de ser de cada coisa ou objeto de conhecimento). 1.7.1.8. Quanto à justificativa para o nome técnico "Poder Constituinte", é porque ele significa o poder de constituir a Constituição (releve-se a poluição auditiva), que termina sendo o poder de constituir o Estado e o poder de dar início à montagem do Ordenamento Jurídico do povo e do Estado mesmo.12 1.7.1.9. Note-se bem: acabamos de ajuizar que o Poder Constituinte é o poder de constituir a Constituição, e não o poder de constituir normas constitucionais. A diferença entre as duas coisas é muito importante, porque de qualidade. Se toda Constituição é um feixe de normas constitucionais, nem todo feixe de normas Constitucionais é uma Constituição. Queremos salientar: o poder de editar a Constituição não incorpora o poder de reformá-la, tanto quanto o poder de reformá-la não incorpora o poder de editá-la. Quem faz o todo, faz o todo, e não menos. Quem faz a parte, faz a parte, e não mais. 1.7.1.10. Tornando ao mote: se toda Constituição originária é um repositório de normas constitucionais, nem todo repositório de normas constitucionais é uma Constituição originária. Isto porque as emendas à Constituição pressupõem uma Constituição originária a emendar. Lógico! E tais emendas veiculam normas... constitucionais. Porém, sob um regime normativo que não é autoditado por elas, e, sim, pela própria Constituição emendada. 1.7.2. O Poder Desconstituinte 1.7.2.1. Chamando o feito à ordem: O Poder Constituinte, manifestação primária da soberania, faz a Constituição, que, a um só tempo, faz o Estado e inaugura o Ordenamento Jurídico. É esse Ordenamento que vai receber do Estado uma ininterrupta complementação (e garantia), de maneira a consubstanciar todo o mundo do Direito: de um canto, o Direito-Constituição, que o Estado originariamente não faz (a parte da Constituição que o Estado faz já é a veiculada por emendas); de outro canto, o Direito pós-Constituição, que o Estado faz, ou, então, reconhece. Não há um tertium genus. 1.7.2.2. Dizer que existe um Direito originário que o Estado não faz é também dizer que esse Direito é o único a não passar pelo crivo do Estado ou de qualquer outra pessoa jurídica. É que, no momento constituinte, a sociedade é concebida como se de pessoas coletivas não se formasse. Nem públicas nem privadas. Apenas as pessoas físicas é que se tornam protagonistas das ações políticas de que resultam o féretro de uma Constituição e o partejamento de outra. 1.7.2.3. É aqui mesmo o lugar apropriado para falarmos de um Poder Desconstituinte. Que é o poder correlato ao Constituinte ou imbricado com ele. Pois é de todo evidente que o poder de constituir um novo Estado implica o poder de

4. Para fundar o Direito. 1.a primeira.7. na mesma pegada.8. a nação encarna essa potência de abater o velho e erguer o novo Ordenamento Jurídico. necessariamente. é também olhando para a Constituição que reconhecemos a soberania de quem a procriou como norma jurídica primária (a Constituição enquanto modo jurídico de o povo se fazer conhecido como instância exercente de uma soberania que vai além do estádio da pura virtualidade). e pela necessária interpenetração é que se conceituam. nele.2. Se é possível promulgar uma nova Constituição. tanto quanto o Estado não funda esse Ordenamento. Se se prefere. por inteiro. 1. então.2. Para fundar o universo.8. Cada realidade a olhar nos olhos da outra para encontrar mais nitidamente refletida a própria imagem. há um modo jurídico de o povo se fazer conhecido. 1. e com essa outra Constituição fazer o quê? Instituir um novo Ordenamento Jurídico e. 1. o que temos é o modo soberano de ser de uma coletividade humana.8. quem o conheceria para aquém das esferas da pura espiritualidade ou dos colmos angelicais?). a subjetivada figura do Estado. de Poder Constituinte/Desconstituinte. de Constituição. Temos. que se reitere a pacífica noção de que a Constituição não inova o Ordenamento Jurídico. assim vinculadamente.5. 1.7. Se é pelo dedo que se conhece o gigante. a instância humana primeva por excelência.6. que é a Constituição por ele criada. Outro. claro que isto se dá pela despromulgação daquela até então vigorante. se auto impõe as coordenadas de atuação legiferante. por completo. 1. de povo (povo-nação) é falar de soberania.8. A Constituição inaugura o Ordenamento. a dar início à criação do mundo em geral (a natureza e os seres humanos dão seqüência à obra de Deus). a produzir o Direito mais importante (que é a Constituição). Por igual. a nação é a única instância imanente capaz de partir de um marco zero jurídico para colocar uma Constituição em lugar de outra.8.3. Instância humana primária e mais importante. E. E também por inteiro. início lógico de todo o Direito Positivo. que é o próprio mundo por Ele criado (senão. neste passo.1. É esse modo constituinte de ser que faz do povo. responsável pela criação da pessoa coletiva ou plural também mais importante (o Estado). sob o prisma político. 1. 1. que não precisa mais do que a sua própria realidade para instaurar as relações que pretender.5. podemos dizer que há um modo empírico de Deus se fazer conhecido. O mundo de Deus e o mundo do Direito 1. São temas que se interpenetram. portanto. a dar início à criação do mundo jurídico em particular e a prescrever o modo pelo qual esse mundo jurídico vai receber seus necessários e infinitos complementos.4.2. o povo. Como fazemos todos nós diante de um bom espelho de cristal. que é um modo jurídico inicial ou constituinte de ser. De conseguinte. É assim que se movimenta ou se materializa a potência. Quem inova o Ordenamento é o Direito . A título de remate. Se é olhando para o Universo que reconhecemos a soberania de quem o fez. Deus faz o que é próprio da potência em que Ele consiste: impõe a Si mesmo as próprias condições de "trabalho" (evidente que o vocábulo trabalho é usado por analogia com as empreitadas humanas de edificação de algo a partir de um imaginário ponto zero). apenas três considerações: I . dois poderes que tudo podem: Deus no céu e o Poder Constituinte na terra (que é um poder geminadamente constituinte/desconstituinte). Um. de Estado e de Ordenamento Jurídico. Falar.8.desconstituir o velho.8.

comumente. materialmente.a terceira e última consideração é esta: há um tipo de soberania que trata da Constituição (pois que a própria Constituição originária é que resulta do exercício dele). p.)" (edição da Universidade Federal da Bahia.. O dínamo do Direito. 1989. 162).. e um outro tipo de soberania de que trata a Constituição (pois inteiramente normado por ela). da autoria de JOSAPHAT MARINHO. Deus não se serve de ninguém para criar o mundo. de elaboração estatal. Seu agir ou Seu fazer já são. Acentua-se-lhe. desse modo. Dotado de propriedade tão eminente. sem a menor força intrínseca de inovar o próprio fundamento da Ordem Jurídica (a Constituição mesma).a segunda consideração é a de que. . O único instante em que o Direito se subtrai completamente ao Estado. pelo seu modo comparativamente simplificado de elaboração. singular ou colegiado. II . em si mesmos. (. o timbre criador ou instituidor. por natureza independente. associa-se-lhe. sobretudo por conduto da lei. aí. e. pela eleição dos representantes do povo. A lei é que é o verdadeiro motor do Direito. porque o Poder Constituinte bem pode se manifestar por um órgão plural ou coletivo de deliberação. falta-lhe a dimensão de assembléia constituinte. O instrumento convocatório da assembléia é apenas meio que proporciona. Donde esta didática passagem do livro "ESTUDOS CONSTITUCIONAIS". Daí que não obedeça a normas regimentais antecipadamente lançadas. não condicionada a amplitude de sua competência por lei preliminar. o qualificativo `originário'. por estar cerceada pelo ato de convocação. ao qual não é dado estabelecer raias e vedações à tarefa inovadora.pós-Constituição. não há como deixar esse órgão de atuar segundo pautas procedimentais adrede redigidas. o poder constituinte originário não é regulado por direito anterior. oriunda de outro órgão. e não do Estado à sociedade. por se traduzir em singela aplicação dos conteúdos e valores da Constituição Positiva. É tão-somente no âmbito do Poder Constituinte que é possível distinguir as duas coisas . versando a dicotomia "Poder Constituinte e Poder de Reforma Constitucional: "Por ser um poder `fundador'. se coloca entre Deus e Sua originária criação).regimento e respectiva aplicação -. um fato-norma (nenhum órgão deliberativo. Quando a corporação parlamentar não opera com liberdade de decidir. a partir de um dado formal e outro material: formalmente. ao contrário do sucedido com o Poder Constituinte. III . a atividade do poder constituinte. Somente o primeiro a revelar o fato de que o Poder Constituinte é o único momento político-normativo que vai da sociedade ao Estado.

. saca de um apagador para limpar completamente a lousa da sala de aula. 2. não é feita pelo Estado.1 2. O modo constituinte de ser do povo. "Constituição da República Popular da China". tão necessário ele é para a auto-afirmação histórica do povo. "Constituição da Espanha". que já não pode ser concebido senão como um poder que é parte do povo mesmo. na sua originária redação. é um poder simultaneamente constituinte e desconstituinte: zera a contabilidade jurídica até então existente e passa a começar tudo de novo (à feição de um professor que. II . que é o povo enquanto ser ou realidade constituinte. O Poder Constituinte como o poder que pode o mais sem poder o menos. mantendo com esse Estado uma essencial relação de unha e carne. na outra. a encarnar o que há de mais político no Direito e mais anatômico no Estado. do Estado. no rigor dos termos. todo povo assim constituintemente dimensionado vai estruturar o seu Estado no bojo de um diploma jurídico-normativo que toma o sintomático nome de Constituição. O caráter político do Direito posto pelo Poder Constituinte 2.8.2. por ela mesma.7. 2.1. sem dúvida que estamos a falar de um poder genuinamente político.3.A Lógica Própria do Poder Constituinte e a do Poder Constituído Sumário 2. porque originariamente imbricado em toda a pólis. tão socialmente mais abrangente e tão superior aos outros poderes políticos.6.9. O Poder Constituinte como realidade que fica do lado de fora da Constituição 2. Constituição.4.1. porque: I . naqueles raros instantes em que a pólis se sobrepõe ao Estado para dizer. O povo enquanto sociedade política e enquanto sociedade civil 2. E por que é assim? 2. Mais até. como sempre enfatiza MICHEL TEMER). sob que tipo de Direito-Constituição quer viver. numa das mãos.1. A natureza política do Poder Constituinte 2.2. É assim. O vínculo natural entre a sociedade política e a futuridade. e o Poder Constituído como o poder que pode o menos sem poder o mais 2.1. Tão penetrado de povo.1.a Constituição é a primeira manifestação objetivo-sistemática daquele poder imanente que tudo pode. porta o giz com que vai escrevendo nos espaços vazios dessa mesma lousa). tão incondicionado.Capítulo II . a ponto de se poder afirmar que a cada nova Constituição corresponde um novo Estado (juridicamente falando. de tão inicial. desde o berço. A sociedade política em SIEYÈS 2. O caráter democrático-formal do Direito posto pela sociedade política 2.. e. A natureza política do Poder Constituinte 2.4.5. Quando pronunciamos a locução "Poder Constituinte". Ela é feita para o Estado. esse poder que.. Ela passa a transitar pelo mundo do ser (não do dever-ser jurídico) e por isso pode assumir-se como o amálgama do povo inteiro com o território sobre o qual esse povo inteiro vai constituir o seu particular Estado.1.a Constituição. é esse poder constituinte ou poder de constituir o Estado. Donde podermos trocar a palavra "povo" pela expressão "poder constituinte". Pois bem. O inexistente vínculo entre "excesso de rigidez" e "Poder Constituinte Evolutivo" 2.1. estamos a falar de um poder exclusivamente político. E não é por outra razão que toda Constituição Positiva toma o nome do Estado que ela põe no mundo das positividades jurídicas (daí "Constituição da República Federativa do Brasil".3.

o exercício daquele poder que tudo pode (acrescentamos). no estratégico momento em que elabora a Constituição.1. o Código Comercial. contudo. é quem faz o Direito. do espírito sobre o corpo. Temos por cognoscitivamente decisivo o que estamos a enunciar e por isso é que batemos na mesma tecla: o povo. porque somente quem detém o poder . É assim que o Poder Constituinte tem à sua mercê o Estado em particular e o Direito em geral. Ele é que tem a Constituição na mão. Notei muitas vezes que. É coberto de razão que o positivismo analítico realça a anterioridade do Poder sobre o Direito. se já pertencesse ao mundo desde sempre. com o Código Civil. o fato sociológico bruto (não-juridicamente lapidado). e não jurídica.5.9. da consciência sobre a experiência. Assim como Deus. é que o Direito disciplina o exercício do poder. o puro poder. e.1. O mesmo acontece na relação entre juristas internacionalistas e estudiosos das relações .1. a se manifestar por conduto de normas jurídicas originárias. A própria Constituição originária. 2. a atestar a primazia da idéia sobre a matéria."Constituição dos Estados Unidos da América". e a essa esfera pré e metajurídica de poder bem assenta o nome de esfera política. a jorrar daquele puro poder. por ser o Poder Constituinte uma força ou realidade exclusivamente política (sociológica. Exclusivamente política.3 2. o Estado. é uma instância exclusivamente política de deliberação. Esta. se jurídico fosse o Poder Constituinte. Há uma esfera de decisão anterior e superior a toda positividade jurídica. Poder Constituinte. e não simultaneamente normante e normada.2 2. o Código Penal. pois o Direito mais inicial (que é a Constituição Positiva) deixaria de provir dele mesmo. Incisivamente. 2.7. com todos os órgãos elementares desse Estado e respectivas funções. o Código Eleitoral. ao mundo teria que render vassalagem. etc. 2. etc. Encarna. porque enraizada e afinal transfundida na pólis. cuida-se de esfera exclusivamente normante. 2. por conseguinte. na figuração de NORBERTO BOBBIO. agora sim. como sucede. está à vontade para plasmar o Estado. mas o desempenho do poder que já se instituiu por virtude do Direito mesmo.10. porém. no preciso instante em que pronuncia o fiat lux mundano.1. e não o contrário. por conseqüência. muitas vezes se ignoram reciprocamente. Poder e Direito são as duas faces de uma só moeda. que assim expõe o seu luminoso pensamento: "Creio não incorrer em pecado de presunção se disser que o fato de ter cultivado estudos jurídicos e políticos me permitiu analisar os mil e um complicados problemas da convivência humana a partir de pontos de vista que se integram. que é a primeira voz do Direito aos ouvidos do povo. Não.). na visão de FERDINAND LASSALE). juristas constitucionalistas e cientistas políticos que se ocupam do mesmo tema. E porque é assim. é gestada por ele e somente por ele. pois: se o Poder Constituinte fosse um poder jurídico. não poderia inaugurar o mundo das coisas jurídicas.6. Não o nome de um objetivo setor de relação jurídica ou atividade humana.nele próprio se transfundindo -. Toda essa força que tem o Poder Constituinte para fazer o que bem entender do Direito só é possível. a toda estatalidade oficial. tem que ser uma instância exclusivamente ideal ou transcendente. a Consolidação das Leis do Trabalho. a unitária potência. enfeixadas na Constituição.1. ele já faria parte do Direito e ao Direito teria que se submeter. Assim como Deus. Como está à vontade para fazer da sua nova Constituição o início lógico de um novo Ordenamento Jurídico (o que sobrevive do antigo Ordenamento deixa de manter elo-causal com a Constituição sepultada e corre a buscar fundamento de validade na nova Carta Política). Uma vez instituído.8. Pois que. de alguma forma.1. assim. pelo menos na Itália.

internacionais quanto à análise da organização dos Estados. Os dois pontos de vista são, de um lado, o das regras ou das normas como preferem chamar os juristas, cuja observância é necessária para que a sociedade esteja bem organizada, e, de outro, o dos poderes necessários para que as regras ou normas sejam impostas e, uma vez impostas, observadas. A filosofia do direito ocupa-se das primeiras; a filosofia política, das segundas. Direito e poder são duas faces da mesma moeda. Uma sociedade bem organizada precisa das duas. Nos lugares onde o direito é impotente, a sociedade corre o risco de precipitar-se na anarquia; onde o poder não é controlado, corre o risco oposto, do despotismo. O modelo ideal do encontro entre direito e poder é o Estado democrático de direito, isto é, o Estado no qual, através de leis fundamentais, não há poder, do mais alto ao mais baixo, que não esteja submetido a normas, não seja regulado pelo direito, e no qual, ao mesmo tempo, a legitimidade do sistema de normas como um todo derive em última instância do consenso ativo dos cidadãos" (em DE SENECTUDE - O Tempo da Memória, Editora Campus, 1997, p. 169). 2.1.11. Como visto, BOBBIO abre uma necessária distinção entre o fazer e o garantir as normas jurídicas, permitindo-nos deduzir que, se o Estado não detém o monopólio da produção do Direito, é, no entanto, a única instância dotada do poder oficial de garanti-lo (garantir o cumprimento do Direito, entenda-se). O que levou KARL POPPER a formular este singelo e preciso enunciado: "Não existe liberdade que não seja garantida pelo Estado e, ao inverso, só um Estado controlado por cidadãos livres pode oferecer-lhes alguma dose razoável de segurança" (em THE SOCIETY AND ITS ENEMIES, 5ª edição, Revista Londres, 1966, pp. 50/51). 2.1.12. Em ultima ratio, poder e Direito são a primária dicotomia ou os dois mais elementares princípios de organização da vida social. Vida, que, sob o prisma jurídico, se constitui de relações verticais e de relações horizontais. Estas, pressupondo a igualdade de forças entre os respectivos protagonistas, e, aquelas, a superioridade de uma parte sobre a outra. De todo modo, relações que fazem do Direito o complexo das condições existenciais da sociedade, na propalada conceituação de IHERING. Ou como sentenciava TOBIAS BARRETO: "Perante a consciência moderna, o Direito é o modus vivendi, é a pacificação do antagonismo das forças sociais".4 2.2. O caráter político do Direito posto pelo Poder Constituinte 2.2.1. Complementemos a revelação dessa fotografia do poder e do Direito com a afirmação de que, em se tratando do poder político, é na Constituição Positiva que os dois fenômenos culturais se dão mais firmemente as mãos. A Constituição é o Direito que nasce daquele mais originário decisionismo, daquela vontade fundamentante que se contém no poder político. Donde a sua visualização como o primeiro ponto formal de encontro ou como o espaço inicial de integração das duas categorias sociais básicas (o poder e o Direito). 2.2.2. É este panorama de integração que subjaz ao visual da Constituição como "estatuto jurídico do fenômeno político" (CANOTILHO), ou como "estatuto jurídico do Estado" (JORGE MIRANDA). Não sendo à toa, portanto, o rótulo social e até jurisprudencial-doutrinário que toda Constituição porta de "Código Político" e de "Carta Política". 2.2.3. Em verdade, a Constituição é Código Político, sobretudo pela sua origem e pelo

seu objeto. Pela sua origem, por advir do único poder que funda o Ordenamento sem nesse Ordenamento mesmo se fundar sequer de modo reflexo (e já vimos que esse poder fundante do Ordenamento é eideticamente político). Pelo seu objeto, porque esse objeto, sendo essencialmente o Estado, carreia para a Constituição a politicidade que envolve tudo quanto se refira à estruturação estatal: o tipo unitário, ou federal... de Estado; a forma republicana, ou monárquica de governo... do Estado; o sistema parlamentar, ou presidencial de governo... do Estado; o modo independente e harmônico de relacionamento entre os órgãos elementares... do Estado; o sistema eleitoral de investidura dos titulares dos órgãos legislativo e executivo... do Estado; a representatividade popular dos órgãos eminentemente políticos... do Estado; a abertura dos espaços de movimentação da cidadania e de criação dos direitos públicos subjetivos como limites à atuação... do Estado, etc., etc. Nada resta, praticamente, nesse patamar da organização básica do Estado que não seja entranhadamente político. E quase tudo é entranhadamente político por dizer respeito a interesses que são de toda a coletividade. Interesses da pólis ou da civitas que no Estado se personaliza juridicamente, compondo, de modo formal, o reino do universal ou plurifinalístico; isto é, o reino do que há de mais abarcante, impessoal e permanente, que é o reino da política. 2.2.4. Se bem observarmos, toda Constituição Positiva se estrutura formalmente em partes que, ora diretamente, ora indiretamente, põem o Estado como tema de conformação. Ele, Estado, circula por todos os recônditos da Magna Lei, variando o seu regime jurídico pelo modo (direto, ou de esguelha) como a Constituição mesma dispõe sobre esse transitar institucional. Com o que ficamos inteiramente à vontade para imaginar a Constituição como a certidão de nascimento e a carteira de identidade do Estado. 2.2.5. Quanto à designação de "Código", referida à Constituição, entendemo-la perfeitamente ajustável às Constituições de um só texto ou corpo único de dispositivos. Não àquelas Constituições que se derramam por atos legislativos esparsos. Nas primeiras - Constituições que se escrevem num corpo único de dispositivos -, comparecem pelo menos dois dos elementos que se presentificam em toda codificação jurídica: a) a sistematização formal, traduzida na setorialização de temas afins, agrupados segundo o esquema relacional que vai do gênero à espécie; b) o propósito de substituir inteiramente a normatividade então vigorante sobre a matéria, de sorte que toda a prescritividade sobre tal matéria se contenha no novo e único ato legislativo, no momento da confecção desse ato. 2.2.6. Já no tocante ao apelido de "Carta Política", ele se explica por ser a Constituição uma carta ou estatuto de direitos e garantias fundamentais, tudo, naturalmente, perante o Estado e o Governo ou por intervenção deles. O que também confere a esse tema dos direitos e garantias fundamentais (neles também figurantes a nacionalidade, a soberania popular e a cidadania) uma vívida coloração política; pois é de toda a sociedade o interesse em que haja uma zona de especial proteção normativo-constitucional a tais situações jurídicas ativas.5 2.2.7. Nessa trajetória relacional do político para o jurídico, ou do Poder Constituinte para a Constituição, o fato que nos parece mais digno de nota reside em que o político não se deixa regrar pelo jurídico. Não se torna objeto das normas que passa a editar, ao reverso do que se dá com o poder já oriundo do Estado, que é um poder que se faz arqueiro e alvo das suas próprias setas normativas. 2.2.8. Façamo-nos melhor entender: o poder político por excelência, que é o Poder Constituinte, não se deixa mesmo regrar pelo Direito. Isto é correto. Mas não significa

estar ele completamente imune a parâmetros e até mesmo a freios sócio-culturais, no instante em que elabora a Constituição. O paralelo com a obra de Deus não pode ser feito senão com temperamentos ou moderação, pois salta à inteligência que o autor da Lei Maior sabe muito bem que as chances de efetividade da sua obra legislativa depende da estima social interna e do reconhecimento político externo que venha a obter (e quanto mais forte a primeira, mais provável o segundo). E é mesmo na expectativa da obtenção dessa dúplice "boas-vindas" à sua obra normativa que o legislador-mor tende a amainar em si os ímpetos de abusividade. 2.2.9. Tudo tem limite nas coisas ditas humanas e o Constituinte não escapa à contingência de ter que operar com um olho no padre e outro na missa; quer dizer, tanto compenetrado dos seus incondicionamentos formais e ilimitabilidade material quanto do risco da inefetividade global da sua obra. Meio termo, destarte, entre o desmarcado e o demarcado (o desmarcado, no campo da positividade jurídica; o marcado, no campo sócio-cultural). Razão pela qual já dissemos, alhures, que, sobre os limites do Poder Constituinte, é comum vê-los comentados enquanto expressão do Direito Natural (SIEYÈS), ou das concepções axiológicas mais assentadas na trajetória da humanidade (PAUL BASTID). Até porque "O poder precisa ser forte, mas sua fortaleza decorrerá tanto do mecanismo que o envolva como, sobretudo, do consenso nacional que logre despertar" (J. BLANCO ANDE, em "TEORIA DEL PODER", Madri, Ed. Pirámide, 1977, p. 144). 2.3. O Poder Constituinte como realidade que fica do lado de fora da Constituição 2.3.1. A insubmissão do Poder Constituinte à sua própria obra legislativa 2.3.1.1. Uma nova pergunta é de se fazer, com toda pertinência: e por que o Poder Constituinte não está submisso ao Direito já positivado, nesse Direito embutido o de índole constitucional originária? 2.3.1.2. Uma primeira resposta: porque o Poder Constituinte está do lado de fora da Constituição. Faz a Constituição, claro, mas sempre do lado externo a ela. Não entra no corpo dos dispositivos constitucionais, porque, se entrasse, aí, sim, passaria a ser uma realidade tão normante quanto normada. Conheceria condicionamentos formais e finitude material, como é próprio de toda instituição ou de todo instituto que se torna objeto de norma jurídica. Dedução: o poder que fica do lado de fora da Constituição, no ponto de partida, fica para sempre do lado de fora. Ao reverso, o poder que fica do lado de dentro da Constituição, no ponto de partida, fica para sempre do lado de dentro. 2.3.1.3. Uma segunda e complementar resposta: o Poder Constituinte fica do lado de fora da Constituição porque ele não é, nem pode ser, criatura da Constituição. É o criador, unicamente. O escultor que faz a escultura, sem a menor chance de se deixar fazer por ela. Seria assim como Deus a ter uma parte de Si mesmo feita pelo mundo que Ele criou, o que está fora de toda cogitação filosófica não-materialista. 2.3.1.4. E agora a terceira e definitiva resposta: o Poder Constituinte é o criador da Constituição porque ele, sendo a primeira manifestação da soberania, é o próprio povo. É a pólis por completo, no preciso instante histórico em que a pólis dá a si própria a mais radical das conformações jurídicas: a conformação inicial e superior a todas as outras. Um tipo de conformação que pressupõe a intransigente postura do começar tudo de novo, no plano lógico das coisas, que é um começar por inteiro. No atacado e de uma só vez (se assim preferir atuar o Poder Constituinte). Logo, a

como condição lógica de elaboração constitucional. Só uma outra Assembléia ou Convenção Constituinte é que pode gestar uma outra Constituição. Já a Assembléia Constituída.6. Estado.a sociedade estatal. II . no sentido de o novo Estado poder impor à coletividade. sim. "Cortes Gerais" ou "Congresso Nacional". anteriores à nova Constituição.1. Já o segundo momento (momento constituído). pode se auto-referir. sente que tem a força de romper a sua habitual situação de reverência ao Direito posto pelo Estado até então existente.3.7 2. composta por agentes e instituições de natureza pública (e ao conjunto das ações que as pessoas naturais e os grupos particulares praticam é que se aplica o designativo de iniciativa privada ou setor privado. Realidade populacional que tem por contraponto o Estado. é um dos muitos instantes que vão do Estado à sociedade civil.1. assumiu sua natureza constituinte. o Direito que nasce dos próprios órgãos dele. 2.antessupor a desconsideração de todo o Direito preexistente. de fora para dentro da Magna Carta. ou o Direito que. 2. tanto quanto se reserva a expressão iniciativa pública ou setor público para o conjunto das ações que os agentes e as entidades estatais desencadeiam).3. por se tratar de uma ante-sala ou de um prefácio do corpo de dispositivos da Constituição.2. A única parte da Constituição Positiva em que o Poder Constituinte pode falar sobre si mesmo.a sociedade civil. a diferença entre ele e o Poder Constituído. Aquele primeiro momento (momento constituinte) é o único instante que vai da sociedade civil ao Estado. seja pelo Estado garantido (caso do Direito Consuetudinário e daquelas normas jurídicas infraconstitucionais que. renovadamente. É o momento.5. diríamos: no momento em que a Assembléia ou Convenção Constituinte promulga sua obra legislativa (o Magno Texto).6 2. pode dar à luz quantos rebentos legislativos quiser.3. numa determinada quadra histórica. percebe a sociedade civil que ela própria é que pode impor um novo Direito a um novo Estado e assim é que passa a se levantar como povo para escrever a epopéia de sua auto-afirmação jurídica. porque o objetivo da reunião do povo em Poder Constituído é para a elaboração de um Direito pós-Constituição. Num novo esforço de síntese. ou por esse Estado garantido. o único momento logicamente cabível para o povo dizer que se reuniu em Assembléia Constituinte. A Assembléia Nacional Constituinte como órgão de presentação da sociedade . Daí a formação da seguinte dualidade básica: I . Ela existe para operar em regime de permanência.8. no seguinte sentido: a sociedade civil percebe. sem qualquer predeterminação quanto ao número de atos legislativo-materiais a produzir. cuja cabeça é devorada pela fêmea durante o acasalamento. com a nova Constituição rimam em conteúdo). 2. Aqui.3. o momento certo. Mas é claro que estamos a falar de sociedade civil como sociedade civilizadamente regida pelo Direito que o Estado põe. é o preâmbulo de sua obra normativa. Tem o destino trágico (ou glorioso?) do louva-a-deus macho. composta por agentes e instituições de natureza privada. ou garante.7. geralmente positivada com o nome de "Parlamento". ela morre de parto. embora não-diretamente nascido dos próprios órgãos do novo Estado. Os outros momentos em que o povo legislativamente se reúne são momentos em que o povo já se paramenta ou usa a indumentária de um Poder simplesmente Constituído. sobretudo o contido na Constituição fundante do antigo Ordenamento. sem remissão.3.1. É o mesmo que falar: sente.1. é o espaço possível para o Poder Constituinte projetar.

enquanto a Constituição mesma não pode dispor sobre o Poder que sobre ela dispõe (o Poder Constituinte). de mais a mais. indevida mescla do Poder Constituinte com as pessoas naturais que.. como afirmado.3. podem fazer não só o que os poderes outorgados não autorizam. o invisível. Esta separação radical entre os dois órgãos legiferantes é da natureza das coisas. Já os órgãos de representação.3. a Assembléia Constituída é órgão do Estado. conhece condicionamentos e limites que não prevalecem para o órgão de presentação. que o servo pode mais que o senhor. o ausente. É órgão encarregado da representação (não da presentação) da sociedade. em assembléia deliberativa. por dispensar a representação do Estado. E por ser a Assembléia Constituída um órgão de representação.1.3. presente. Essa total inversão de valores acarretaria. se referir ao seu editor (o Estado). O Poder Constituinte e sua impossibilidade de auto-regulação constitucional 2. cérebro. a propósito de outro assunto.2.3. 2.2. Editora CEJUP. coração. infringente da Constituição. que homens que obram em virtude de poderes conferidos. Conseqüentemente... porque os órgãos de presentação estão para o corpo social assim como o fígado. 2. tudo se entronca no mesmo corpo físico. o . A seu turno. que.todo ato de uma autoridade delegada. figurativamente.2. Seria atentar contra a própria natureza do Poder Constituinte. contrário aos termos da delegação em virtude da qual concedeu essa autoridade. tendo a Constituição inteiramente à sua mercê. Completa inversão de valores. referido na página que antecede o sumário do livro "CONTROLE JURISDICIONAL DE CONSTITUCIONALIDADE". E se presenta. Por prescindir da intercalação do Estado entre ela (sociedade) e os respectivos componentes individuais e grupais. como o que proíbem" (PEDRO LESSA.3. é nulo. Negá-lo importaria em afirmar que o delegado é superior ao comitente. A se trabalhar com a idéia da possibilidade de o Poder Constituinte se auto-referir normativamente. pois a representação pressupõe duas entidades ou dois corpos distintos: o do representante e o do representado..3. 2.3..2.3. por nenhum modo. A Assembléia Constituinte é órgão da sociedade. para usarmos de vocábulo cunhado por PONTES DE MIRANDA. ter-se-ia o quê? Uma geração a querer negar às demais a possibilidade de acordar em si mesmas a força geratriz da substituição de uma Constituição por outra.3. fato que subjaz a formulações teóricas deste porte: "Não há proposição mais evidentemente verdadeira do que esta .3.2. a um outro ser que não o corpo social. e não propriamente da sociedade. porque são o corpo mesmo. nenhum ato legislativo. Desse corpo eles não se distinguem. É deduzir: o Direito pós-Constituição pode dispor sobre o Poder que sobre ele dispõe. Mas a obra do Poder Constituinte está logicamente impedida de falar sobre o seu autor. pertencem. desde que nos marcos da Constituição.3.3.3.1. o coração. o cérebro. estão para o corpo humano. já tenuemente reportada: as normas editadas pelo órgão ou Poder Constituído podem.. Afinal. Fígado. que os representantes do povo têm mais faculdades que o próprio povo. e não do Estado. É nela que a sociedade se "presenta". porque o Estado de que ela faz parte é o ser que personaliza juridicamente todo o corpo social. 1998). E esse outro ser é o Estado. não pode ficar à mercê dessa mesma Constituição. pode ser válido. perfeitamente. visível. da muito boa lavra do jurista ZENO VELOSO. representar é tornar próximo.2. 2. o distante. 2. Outra importante discriminação.

teríamos o despautério de um legislador que já não se contenta em prescrever: quero atualmente o que o ser humano médio quer e provavelmente continuará a querer. pois a segunda (auto-revogação do Magno Texto) é algo inteiramente impensável na fisiologia do Poder Constituinte.3. ni formularse por el filósofo.3. hiere la víctima y se extingue" (DONOSO CORTES).exercitam concretamente. seja para permiti-lo.7. nada pode ser normado. 2. Caso o Poder Constituinte pudesse entrar na Constituição como criatura dela. porque no cabe en los libros y rompe el cuadro de las Constituciones. portanto. de modo a se perder no infinito um tipo de regração que privaria o povo de se autoconvocar ou de ser por outra forma convocado . que o Poder Constituinte se auto-regulasse no corpo de sua própria obra legislativa.3. exatamente para não recusar a cada geração o que é da natureza de cada geração: despertar em si. 2. 2. em qualquer período. ora de modo efetivo.6. e a terceira fizesse o chamamento de uma quarta. É nascer o Magno Texto com sua explícita vocação para o suicídio. pois o Poder Constituinte é ser que não comporta transmutação em dever-ser. Caso pudesse embutir na sua Constituição uma cláusula de eficácia autodemolidora. Por isso que a Magna Carta pode dispor sobre o destino dele.4. É preciso não confundir. Sobrevive ao seu próprio labor (mas sempre do lado de fora) e é assim que pode gestar quantas Constituições quiser. É esse colégio de pessoas naturais que não sobrevive. e muito menos na do Poder Constituído.8. A qualquer tempo.3. Em termos quiçá mais elucidativos: conter a Constituição qualquer dispositivo sobre o exercício da função constituinte é convocar o próprio coveiro dela mesma. Semelhante pretensão de aprisionamento de todo o pensar coletivo do porvir seria um ato de insanidade tal que corresponderia a proibir o ser humano de respirar. para adotar esta outra fórmula de prisão perpétua do pensar dos pósteros: e quero também que a minha vontade atual seja toda a vontade que esse mesmo ser humano médio possa vir a ter pelos tempos a fora. enquanto assembléia constituinte mesma.9. Sobre o destino do Poder Constituinte. está logicamente proibida de ter eficácia autodemolidora. Esse Poder não se exaure jamais na obra que edita. si aparece alguna vez. inflama la atmósfera. ora latente. o fenômeno da revogação de uma Constituição por outra com a idéia de auto-revogação constitucional.3. Seria um contra-senso. E quando vem a se historicizar (é dizer: quando vem a se efetivar). 2. Nenhuma eficácia teria esse tipo de normação. pois o certo é que ele perpassa o tempo inteiro o corpo social.10. pois o típico de quem exerce a função constituinte não é o poder de destroçar a Constituição preexistente? Zerar a contabilidade jurídica? Passar a borracha no Direito velho e com o lápis escrever o Direito novo.3. 2.3. seja para vedar sua transformação em assembléia constituída.5. tudo na dimensão do atacado normativo? 2. nem mesmo a prazo ou diferidamente. aparece como el rayo que rasga el seno de la nube. a Assembléia Constituinte estaria a cometer o dislate de convocar outra assembléia igualmente constituinte para preencher o vácuo de Constituição e já nada mais impediria que essa outra assembléia convocasse uma terceira.3.3. jamais. Tem que permanecer no mundo dos fatos. A primeira não tem nada a ver com a segunda. a força constituinte. A Lei Maior não pode ter. a qualquer instante.3.3. para ressurgir Deus sabe quando (completamos). contudo. não pode deixar de ficar do lado de fora da Constituição. a não ser naquela parte normativa por ela mesma nominada de "disposições transitórias".3. 2.3. à Constituição Positiva que ele vier a promulgar. por albergar ou potencializar ação que "no puede localizarse por el legislador.3.

essa outra instância já não seria órgão de presentação do povo. então. contudo. Por comparação. 2. Poderia desrespeitá-la a qualquer momento. Ela se transmuda em povo. E mais: o Direito feito para o Estado tem de permanecer o referencial do Direito feito pelo Estado.3. sem nenhum controle por parte de órgão estatal. O Poder Constituinte e seu campo divisional com o Poder Constituído 2. averbemos que o mundo cuida de si próprio.4. convenhamos. Tudo isto é como dizer.4. ela.3. no justo momento em que a sociedade consegue dar a si mesma uma nova Constituição. 2. constituído) é o poder de dispor sobre partes da Constituição. e não mais. Este é que dispõe originariamente sobre o universo.para vivenciar seu momento constituinte. durante todo o tempo de vigência da obra que uma dada Assembléia Constituinte vier a promulgar. sob o efeito do aumento de sua temperatura a um determinado .3.1. o cosmos. pois não ficaria preso a tal normatividade. O mundo vela por si. sem.11. comecemos por retomar a idéia de que. O povo enquanto sociedade política e enquanto sociedade civil 2. De mais além. 2. apagando a assinatura que o originário Autor deixou em Sua obra.1. porque só uma Constituição pode trocar o Estado por outro. Plantando no vazio. estaria semeando no ar.3. portanto. que o campo divisional entre o Poder Constituinte e o próprio Poder Reformador tem que ser precisa e claramente demarcado. no lastro formal da sua Constituição. contudo. o orbe.3. O Criador.3.4.4. já não é uma sociedade civil. o Poder Constituinte. o Poder Reformador (que é um poder estatal e.3. dotando-o do poder de se completar por conta própria. O mundo é o Poder Constituído. numa fala mais aproximativamente jurídica: a Constituição cria o Estado. Desponta claro. de um único limite material lógico: o não . e não menos.4. porém sem poder se substituir ao Criador.4. dispõe sobre si mesmo. Como se o momento constituinte não fosse uma realidade inexoravelmente situada no mundo do ser. 2.2. um novo Estado e uma nova Ordem Jurídica.1. 2. para que não se transija com o cientificamente intransigível: o Poder Constituinte é o poder de dispor sobre o todo da Constituição. Acresça-se: o Poder Constituinte que viesse a dispor sobre si mesmo. sociedade. se uma determinada instância constituinte pudesse entronizar outra no palco das realidades jurídicas.1. mas de representação daquele primitivo órgão de sua convocação. Um órgão constituinte a repassar poderes para outro (?). mas não passa a cuidar do Criador. pois todo novo querer normativo discrepante que ele viesse a externar teria sempre (como tem) a força de uma nova Constituição. debaixo. uma vez criado. Assim como a água em estado líquido muda a sua forma para se transformar em vapor. quebrando o vínculo essencial (porque direto) entre o povo e a instância formal de elaboração do Magno Texto.4. Era uma população. Salta do meramente demográfico e econômico para o político e histórico. Limitação intrínseca insuperável. Crise de existência versus existência de crise 2. deixar que esse Estado possa trocar de Constituição. Não um Estado a trocar a sua Constituição por outra.poder permitir que o mundo se transforme tanto por conta própria a ponto de dar a si mesmo um novo começo. e de repente sobe à dimensão de povo. Neste novo segmento especulativo.

Mais lógico é dizer. Não apenas numa crise de existência.4. Tudo isto se traduz no desenho de uma quadra histórica em que o povo tem a certeza de que o Estado até então operante (mais certo seria dizer inoperante) já fez do presente um tempo que recende a passado. por exclusão: a) uma sociedade temporal e excepcionalmente não-estatal. do negar as instituições nascidas à sombra de um Estado sobre o qual é preciso jogar. o povo se torna. embora a água permaneça água . 9ª edição. descendo. É fundamental essa compreensão do povo enquanto instância que se assume como sociedade política. b) uma sociedade também temporal e excepcionalmente não-civil. Um poder que se aloja nos páramos da suprapositividade jurídica e da supraestatalidade oficial então vigentes.6. Urge que toda uma corrente de inteligência e de intuição irrompa das camadas não oficiais. Em estado vaporoso. E a nova Constituição que desse momento constituinte irrompe.4. não se acha onde se encontra o poder político. a água só se movimenta por si mesma. que só pode ser um poder exclusivamente político.1. que é o vácuo de poder. sem tardança.2. O povo. Nesse contexto do puro poder político. ou funcional.4. 2. porque esse momento de excitação histórica única é um momento único de excitação histórica pelo mais grave dos motivos: o povo a tomar consciência de que está engolfado numa existência de crise.grau. apetite e responsabilidade para continuarem a serviço do bem comum.4.1. Do apagar todo o Direito preexistente. então. na medida em que juridicamente incivilizada.1. Em estado líquido.8 2. porque. 2.7. isto é. para tomarmos de empréstimo um verso do poeta goiano GABRIEL NASCENTES. ou político. na medida em que insubmissa ao Estado até então existente. momento constituinte. Por isso é que o povo proclama para si mesmo e para o orbe inteiro que é nele próprio que se encontra toda a sapiência política. que pode ser também um colapso a um só tempo ético. por seu lado. subindo (prova de que. Esclerosaram-se ou esgotaram-se tanto no seu papel institucional de liderança que delas já não se espera senão empurrar cada vez mais a população para o pior dos abismos. hoje em dia.1. sentenciou HERMANN HESSE: "A sabedoria política. Isto porque as instituições estatais até àquele momento estruturadas entraram em colapso ético. 15).3.1. 1971. que é uma função indelegável (ninguém mais pode fazer experiência tão estrutural com todo o corpo social). 2. Em momento que tal. à guisa do que.9 2. triunfante.4. Perderam a sua necessária condição de locomotivas sociais. 2. Hora de fazer uma nova experiência global consigo mesmo. ou seja. Editora Record.o salto químico não chega a ocorrer . nela.1. Que pretendemos dizer com sociedade não-juridicamente civilizada? Queremos dar conta de uma sociedade que recupera o seu tônus politicamente selvagem (falemos assim) do começar tudo de novo.4.5. de uma sociedade que se auto-reconhece como a subjetivação de um poder acima do Direito e do Estado. o povo experimenta a sua mais grave hora de fazer destino. que é algo passageiro e para cujo enfrentamento as instituições oficiais ainda dispõem de aptidão jurídica e vontade política. a última pá de cal. p. é a perfeita encarnação de uma sociedade que já não pode ser chamada de simplesmente civil. que tem o aspecto bolorento das coisas caquéticas e sem a mínima condição de antecipar o futuro.o seu modo de estar-no-mundo ou de se manifestar num dado momento já não é o mesmo). quando se trata de impedir as catástrofes ou de atenuar-lhes os efeitos" (pensamento recolhido do livro PARA LER E PENSAR.4. funcional e político. o modo empírico ou atual de ser já é diferente do imediatamente anterior. que o povo é a encarnação da sociedade política. é o marco jurídico da superação da referida existência . certa feita.

no instante em que manifesta.4. se a sociedade política é o Estado. Assim é como o vemos na cotidianidade dos nossos dias. da primária manifestação da soberania (cujo nome técnico é "Poder Constituinte"). aquilo que só ele pode fazer. pensamos que a sociedade humana que plenifica o seu próprio ser político e jurídico.4. Todavia. GRAMSCI. pois o de que se trata é viver a epopéia do começar tudo de novo. 2. que é a mais alta expressão do atacado normativo de um povo. Como certa feita escreveu MAQUIAVEL (terceiro livro de Tito Lívio). nessas ocasiões (o pensador florentino é quem raciocina).2. Esta é a dualidade básica. b) sociedade estatal. c) sociedade civil. como no corpo humano. quando vista sob o prisma da sua personalização jurídica ou do poder constituído.4. Uma espécie de luz no fim do túnel.4.8. E se falta essa intervenção.4. É necessário. forças da natureza ou da História (tanto faz).4. é uma sociedade que se triparte em: a) sociedade política. valores morais e ideais cívicos de que todos precisam para tocar um novo projeto global de vida. pois contribui decisivamente para separar o joio do trigo. É claro que o modo normal ou habitual de ser do povo é sob a forma de sociedade estatal e de sociedade civil.2. primariamente. de forma episódica ou excepcional . É a hora de fazer destino voltamos a dizê-lo -.3. a reaglutinar energias físicas. quando "civilizadamente" atuante nos marcos da sociedade estatal que se tornou efetiva por efeito. são protuberantemente superiores ao tino e à coragem pessoal dos governantes? 2. naquela situação concreta em que os lobos da política oficial já serraram todas as grades jurídicas das suas tocas? Ou naquelas situações em que as forças calamitosas do acaso. BOBBIO e MARCELO CAETANO. O único remédio capaz de debelar a enfermidade maior do vácuo de poder e que abre para o povo a perspectiva de uma vida de permanente auto-afirmação. há certos elementos que se ligam aos outros e cuja presença requer. o que sucede? O mal irá crescendo a tal ponto que já não poderá ser eliminado senão pela eliminação do próprio Estado. que sinonimizam Estado e sociedade política. Debaixo de todas as vênias. Com este nosso modo pessoal de qualificar o povo como sociedade política.1. alçando-se à condição de povo.4.2. Só o Poder Constituinte pode agir no pressuposto do colapso cardíaco das instituições. 2. que nome dar à sociedade humana no preciso instante em que ela funda a própria sociedade estatal? Em que ela já não aceita permanecer como o cordeiro jurídico em que a sociedade "civil" termina sendo. 2.1.nacional de crise. O que nos traz à memória esta passagem de velha música de IVAN LINS. Somente ele pode normar em termos iniciantemente (ou reiniciantemente) globais. O momento constituinte como estado de plenificação decisória de um povo 2. que o povo mais decididamente vive pela sua transmutação de sociedade civil em sociedade política. Essa generalizada compreensão de estado de falência das instituições como background da atuação constituinte é de grande relevo teórico. o que é meu não se divide"). se o Estado é a sociedade política. Entretanto.2. Este o seu espaço irrepartido de ação jurídica.10 2. de quando em quando. "Num Estado. cantor popular do Brasil: "Ô Madalena. que uma intervenção recupere o Estado para os princípios sobre os quais o poder público está assentado.2.2. justamente. um tratamento clínico". como AUSTIN. durante o momento constituinte por ele experimentado. a sua soberania. bem sabemos estar a dissentir de autores da mais forte compleição intelectual.

por efeito do calor da terra. 2. Com alguma similitude. Há muita similitude entre o raciocínio aqui expendido e aquelas idéias básicas do famoso teórico e revolucionário francês. aquelas de que nos servimos para os fins desta nossa monografia. E é nesses instantes de legítima defesa da sua identidade e da sua sobrevivência. 113 e seguintes). As idéias básicas do Abade. talvez. nós. desce sob a forma de chuva e assim recupera o seu estado líquido. evapora e vai se condensar na atmosfera.5. a propósito da diferença qualitativa entre o contingente humano que se faz matriz de um poder constituinte e esse mesmo contingente que se faz o berço de um poder apenas constituído. mas que pensamos encontrar justificativa no fato de que elas parecem condenadas a cair no esquecimento daqueles juristas hodiernos que. Uma luminosidade que parece destituída de qualquer fonte. formando nuvens. tentam esmaecer as linhas de confrontação entre o Poder Constituinte . o povo desperta em si mesmo o poder (sempre adormecido ou latente ou virtual) de desconstituir a velha ordem estatal e de concomitantemente constituir a nova ordem. São idéias que. temos por sociedade política ou povo na sua dimensão constituinte. sob a regência desse maestro ideológico de nome neoliberalismo.4. O que ele tinha por nação. porque não tem um ponto visível de partida solar. 2. esse instante máximo de feeling ou excitação histórica. imaginemos a processualidade daqueles dois estados líquido e vaporoso da água e melhor entendermos a dialética da relação que transcorre entre a sociedade civil e a sociedade política.5. Uma realidade que se define por exclusão. em larga medida.5. que o povo empunha o cetro de soberano e passa a atuar como sociedade exclusivamente política. Tudo lembra um aparelho eletrônico auto-reverse. É uma luz que ninguém sabe de onde vem. pp. Todas estas coisas que estamos a predicar à sociedade política é aplicável. uma altíssima temperatura existencial. Empós. um bumerangue. ascende à condição de sociedade política. até que uma outra anormal elevação histórica de temperatura determine a sua metamorfose em sociedade política. Apenas não temos um nome apropriado para colocar nessa fonte de luz que se não deixa ver pelo olho humano. pela sua extrema importância.de turbinada inquietação histórica. ou de partida lunar. ensejador da corporificação de uma sociedade que já não é nem estatal nem civil. estão lançadas no incendiário panfleto Q'U-EST-CE QUE LE TIERS ÉTAT? (Liber Juris. 2. por não ser nem a luz do dia nem a luz da noite. E ela assim permanece. um transe histórico verdadeiramente insólito.2.6.2. passamos a transcrever de modo quiçá excessivo.2. quando da transformação da confederação americana em federação). tal situação transicional somente se deu no distante ano de 1787. Ainda por apego a figurações. A água. Conotativamente. por efeito de uma alta. nestes escritos.4. retoma o seu estado habitual de sociedade civil. à realidade humana global a que SIEYÈS chamava de "nação". visto não ser nem estatal nem civil. A sociedade política em SIEYÈS 2. já por efeito do maior frio das alturas e de outras condições atmosféricas. a sociedade civil. mas que procede de uma causa.1. com a serenidade dos ânimos ou o resfriamento da temperatura existencial (a nova Constituição que se faz globalmente efetiva é que recoloca as coisas em seu ponto de normalidade). com a particularidade de que o estágio de sociedade civil só raramente avança para o estágio de sociedade política (nos Estados Unidos da América. Posteriormente.5. é algo assim como a luz crepuscular. sim. 2. instantes de plenificação decisória do seu próprio ser.

A outra não está submetida a nenhuma forma em especial. Não é aos notáveis que se deve recorrer. "O poder só exerce um poder real enquanto é constitucional. Ele não é nada sem suas formas constitutivas. "Não é próprio ao corpo dos delegados mudar os limites do poder que lhe foi confiado. Daí as inúmeras precauções políticas que foram introduzidas na Constituição. de acordo com que critérios. "Devemos conceber as nações sobre a terra como indivíduos fora do pacto social.só há uma forma de acabar com as diferenças que se produzem com respeito à Constituição. é necessário acrescentar o interesse que a nação tem em que o poder público delegado não possa nunca chegar a ser nocivo a seus comitentes. o que equivale a dizer que ela não está. não tem necessidade de levar os caracteres naturais de uma vontade. O exercício de sua vontade é livre e independente de todas as formas civis. e que são outras tantas regras essenciais ao governo. ela é a origem de tudo. as leis constitucionais que se dividem em duas partes: umas regulam a organização e as funções do corpo legislativo. a Constituição não é obra do poder constituído. mas porque os corpos que existem e agem por elas não podem tocá-las. "Um corpo submetido a formas constitutivas só pode decidir alguma coisa segundo a . mas do poder constituinte. Essas leis são chamadas de fundamentais. em primeira linha. ao contrário. "Assim. se reúne e delibera como faria a própria nação se. se quisermos que ele exista ou que aja. Em cada parte. A vontade nacional. Se quisermos ter uma idéia exata da série das leis positivas que só podem emanar de sua vontade. para surtir todo o seu efeito. não se dirige e não comanda. sem as quais o exercício do poder se tornaria ilegal. o corpo dos representantes. Antes dela e acima dela só existe o direito natural. É neste sentido que as leis constitucionais são leis fundamentais. Não se trata de distinções inúteis. "A esta necessidade de organizar o corpo do governo. quisesse dar uma constituição a seu governo. Como existe somente na ordem natural. não age. Só a nação tem direito de fazê-la. só precisa de sua realidade para ser sempre legal: ela é a origem de toda legalidade. Todos os princípios que acabamos de citar são essenciais à ordem social. vemos. "Mas é verdade que uma representação extraordinária não se parece em nada com a legislatura ordinária. Esta só pode se mover nas formas e condições que lhe são impostas. não no sentido de que possam tornar-se independentes da vontade nacional. Só é legal enquanto fiel às leis que foram impostas. Se precisamos de Constituição. Sua vontade é sempre legal. "Entretanto. esta não seria completa se encontrasse um só caso para o qual não fosse possível indicar regras de conduta capazes de resolvê-lo". ela não deve estar. sua vontade. basta que ela queira. no estado de natureza. a que está confiado o poder legislativo ou o exercício da vontade comum. devemos fazê-la. com que interesses se teria dado uma Constituição à própria nação? A nação existe antes de tudo. é à própria nação.e toda nação deve ser livre . a não ser por elas. Achamos que esta faculdade seria contraditória consigo mesma. "Não só a nação não está submetida a uma Constituição. Qualquer que seja a forma que a nação quiser. só existe na forma que a nação quis lhe dar. mesmo composta por um pequeno número de indivíduos. como se diz. e sua vontade é sempre a lei suprema. é a própria lei.e o Poder Constituído. as outras determinam a organização e as funções dos diferentes corpos ativos. São poderes diferentes. Vejamo-las: "Em toda nação livre . ou. como ela não pode estar. todas as formas são boas. Nenhuma espécie de poder delegado pode mudar nada nas condições de sua delegação.

é uma realidade presente. É o que se tem apelidado de paradoxo da onipotência. nem uma forma de governo. Pergunte-se a um inglês se a Rainha da Inglaterra goza de legitimidade política. de qualquer forma e qualquer condição". são incompetentes para decidir sobre a Constituição. 2. Este direito pertence unicamente à nação. então: a distância que vai da realidade populacional à realidade nacional é a mesma que vai do conhecimento à sabedoria. Um enlace anímico da ancestralidade.5. Parece-nos claro. supomos.5.Constituição. Só à nação pertence. O povo. para eles. O berço dos filhos e o túmulo dos antepassados.6. 2. A esse panorama conceptual de nação bem se ajusta. a tradição. modificação pelo Poder Constituído. mesmo quando reunidos.1.6.1.5. porém a sabedoria. tanto na Teoria da Constituição em geral quanto na Teoria do Poder Constituinte em especial. Assim como se dá com os membros de uma família tradicional. A nação é muito mais. não cansamos de repetir.1. inda mais representativo que o conceito de povo. porque adiciona ao presente a dimensão do passado e do futuro desse mesmo povo. nestes escritos que reproduzimos de memória: Pátria não é um sistema.4. 2. nem um monopólio. A legitimidade que advém desse arraigado sentimento coletivo de nação como algo inda mais denso.5. a consciência. Deixa de existir a partir do momento em que se move. 2. Cada nova geração é detentora de mais conhecimentos do que as anteriores. da língua e da liberdade. da coetaneidade e da posteridade.6. a festejada proclamação espiritual que RUY BARBOSA fez a respeito de pátria. que fala. Os Estados gerais. 2. Paradoxo.3. Não pode dar-se outra. senão com severos limites. o lar. Que não se permite receber. Diríamos. solarmente claro. que mantêm os brasões dos seus antepassados e tudo fazem para repassar tais insígnias (com tudo de particularmente honroso que elas simbolizam) às gerações porvindouras. nem uma seita. e certamente ele responderá que sim. o presente e o futuro de um povo. A soma das pessoas vivas. A tradição como o forno ou o cadinho histórico no qual se tempera o aço da nacionalidade. atua de forma diferente das que lhe foram impostas.5. que faz da nação (o cacófato "danação" é inevitável) uma realidade eminentemente tradicional.6. É o aqui e o agora da população de um País. independente. Pátria é o céu. O caráter democrático-formal do Direito posto pela sociedade política 2. se as normas não se . a verdadeira sapiência. que JOSÉ JOAQUIM GOMES CANOTILHO assim expõe: "Em teoria da Constituição o paradoxo aqui subjacente é o paradoxo da omnipotência: poderá um corpo soberano parlamentar com poder para fazer leis em qualquer momento limitar o seu próprio poder de fazer essas leis? No caso das normas constitucionais o paradoxo é evidente: as normas constitucionais irrevisíveis assegurariam a omnipotência dos seus autores sobre as gerações futuras o que será radicalmente contrário às regras da democracia. o solo. que o abade EMMANUEL JOSEPH DE SIEYÈS falava de nação como até hoje a vivenciam os ingleses: uma coletividade humana intertemporal. O confronto entre o princípio da racionalidade constitucional e o princípio democrático 2. E aqui já começamos a enfrentar a recorrente questão de saber até que ponto existe legitimidade democrática numa Constituição que submete aos seus termos as gerações futuras. A comunhão da lei. é transgeracional. Por outro lado. o clima. uma linha imaginária entre o passado.

e não à sua reforma. traduzido no dilema de se ter que sacrificar. assim.em se tratando. Esse "inquietante" paradoxo da onipotência. recobre com o seu halo ou a sua aura castiçamente popular as sucessivas gerações de destinatários normativos. Onde.em se tratando de uma Constituição geneticamente autoritária.1. pois: I . p. se não existirem outras normas a fazê-lo. "o paradoxo da omnipotência"?11 2. Vol. Não há espaço psicológico para as novas gerações se sentirem democraticamente acuadas menos ainda castradas -. cuja característica nuclear é justamente a intertemporalidade (o espírito é atemporal). Paradoxo e imutabilidade acabam assim por constituir um difícil dilema para os juristas e cidadãos das democracias ocidentais. Queremos dizer: é próprio desse tipo de organismo ou ente coletivo a aptidão de ultrapassar as barreiras do tempo. no sentido que o vocábulo "nação" era utilizado por SIEYÉS e que interpretamos como uma coletividade humana de superior estatura ou eminência ímpar.2. in Boletim da Faculdade de Direito de Lisboa. o seu raciocínio (in O Paradoxo da Autorevisão no Direito Constitucional.3. uma verdadeira comunidade. quando se elege uma Assembléia Constituinte já se sabe que ela presenta a sociedade política ou nação. distribuído pelo autor português aos participantes do VII SEMINÁRIO NACIONAL DE ESTUDOS JURÍDICOS-SENEJ. conclui-se que é permitida a sua auto-aplicação.encontrarem sujeitas a limites. o atendimento das prementes necessidades da população viva e ainda por cima a . Parece que temos de prescindir. e. Uma comunidade. no período de 05 a 10 de maio de 1998). Vemo-lo mesmo como um falso problema. 6 e 7 da conferência OS HOMENS FAZEM AS CONSTITUIÇÕES MAS NÃO SABEM AS CONSTITUIÇÕES QUE FAZEM. porém. II .6. de uma Constituição votada por uma Assembléia ou Convenção Constituinte que se forme por eleição geral (é essa modalidade de colégio deliberativo que tem sido alvo desta nossa teorização). Constituição. pois não há como convalidar o vício processual de origem). Ela. de sorte a poder conciliar na sua obra legislativa estrutural (a Constituição) interesses que traduzam reverência à cultura e à memória nacional. As normas da revisão aplicam-se elas próprias para a sua revisão.6. 99): se as normas jurídicas que autorizam a mudança podem ser utilizadas para se alterarem a si mesmas. ou um elemento central do princípio democrático (a não-escravização normativa das futuras gerações) não nos parece inquietante por nenhum modo. que é sempre uma legitimidade precária: legitimidade pela metade. XXXI. na pia batismal do voto popular. Peter Suber resume. ou por qualquer forma imposta por um grupo que toma de assalto o Governo. ela já se impõe como documento jurídico de berço democrático.1. tácita ou não-expressa. 2. à face da sua dimensão cristalinamente espiritual ou de autoconsciência. porque somente de conteúdo. de maneira a somente ter a chance de ganhar legitimidade pelo seu prolongado exercício ou duradoura efetividade (legitimidade a posteriori. é que já porta consigo o pecado original da não-participação popular. pois. realizado em Aracaju. Com efeito. ou de um elemento central da racionalidade jurídica ou de um elemento central da teoria democrática" (pp. por isso. não ungida. Sergipe. portanto. e a bicentenária Constituição dos Estados Unidos da América bem o comprova: a mais sólida nação democrática do planeta a conviver com a mais antiga das constituições escritas. mas se não são empregues para tal fim (e se não há uma norma superior a autorizar essa alteração) temos então normas imutáveis. chegamos por esta via a um paradoxo e uma contradição. 1990. a questão democrática diz respeito é à própria Constituição. ou um elemento central da racionalidade jurídica (a irreformabilidade das cláusulas de reforma da própria Constituição).

) Seria ridículo supor a nação ligada pelas formalidades ou pela Constituição a que ela sujeitou seus mandatários. Agora.. mas será que ela pode impor deveres a si mesma? Sendo as duas partes a mesma vontade.1. Só pode delegar o seu exercício.2. histórico e também racionalmente jurídico da eleição de uma Assembléia que só é nacional por ser constituinte e só é constituinte por ser nacional. para o efeito prático de mudar de Constituição.2.2. em presumível segurança. nem se proibir o direito de mudar. ela não pode cercear o direito de mudança assim que o interesse geral o exigir. é aí que o povo se transforma em nação e lega à posteridade a imorredoura lição de que "a comunidade não se despoja do exercício de sua vontade. a nação está acordada. o contingente humano.6.6. cit. cair no descrédito geral e a sociedade civil passar a sentir aquele terrífico presságio de que está à beira do mais fundo abismo da ausência de poder. É sua propriedade inalienável. no momento constituído. a sua vontade tivesse que esperar uma maneira de ser positiva. jamais sobrevém o desconforto domocrático de se ter que . Na sedutora linguagem de SIEYÈS. Como tantas vezes dito.. (. tudo envolucrado por uma só e exclusiva nação. ela jaz adormecida. ela pode sempre desobrigar-se de tal compromisso" (ob. (.6. Mas o fato é que a nação que elaborou a Constituição é tendencialmente a mesma que se decide por um outro Código Supremo. se desde a sua originária prescritividade. Em segundo lugar: com quem se teria comprometido esta nação? Eu entendo que ela pode obrigar seus membros. senão como fantasia de politólogos a serviço. ao menos no plano formal ou da eleição dos membros da Constituinte? Sendo a nação ou sociedade política o modo constituinte de ser do povo. 2. enfim. por vezes... os pósteros. qual é a lição da História? A História nos diz que a sociedade civil toma por si mesma o comando do processo político-jurídico e parte para a formação de uma nova Assembléia Nacional Constituinte.12 2. pois .pavimentação da estrada pela qual transitarão. Onde...1.5.6. pode tirar a sua sesta..4. embora com esta inescapável distinção: no momento constituinte. é aí que a sociedade civil se transmuda em sociedade política e passa a vivenciar a sua dimensão constituinte. uma nação não pode nem alienar. porque presentada.1.reperguntamos -. ela tende a permanecer a mesma e única nação ou sociedade política pelos tempos afora. (. 115. Se o que vier a mudar no tempo for apenas a população. duas nações ou duas sociedades políticas: uma que fez a Constituição e outra que se sente oprimida por essa mesma Constituição. de propósitos pouco edificantes. atuante. seus mandatários. 2. nunca o teria sido. Queremos dizer: não existe esse tipo de ditadura. ou ficar muito abaixo do padrão médio de moralidade e humanismo. pois não dissemos que o traço eidético da nação era (e é) a intertemporalidade? Não há. a ofensa ao princípio democrático. e tudo o que lhe pertence.13 2. ou no transcurso do tempo. a Constituição vier a padecer do grave defeito de não haver costurado a unidade possível das ideologias. 2.) Primeiramente. cada geração ou simples sociedade civil. Este o sentido psicossocial. 118 e 119). E por isso é que as gerações que se sucedem no tempo não vêem a Constituição como o símbolo da ditadura da primeira geração constituinte.2 Fricção entre nações versus sucessividade geracional no interior de uma mesma nação. porque representada. e qualquer que seja a sua vontade.) A nação é tudo o que ela pode ser somente pelo que ela é". em princípio. da anomia do Ordenamento por inteiro. pp.6. Se para tornar-se uma nação.

duas nações que já não podiam conviver no mesmo espaço político-jurídico. conforme se trate.2. ela é ele. Uma legitimidade ainda mais densa que a ressaída de uma eleição geral comum para a renovação dos quadros políticos de qualquer Estado. propugna por uma atuação mais livre do Poder Judiciário sempre que se trate de atualizar as concepções de que decorrem os conceitos constitucionais: "Neste particular. naturalmente contrária à primeira (duas nações ortodoxamente caracterizadas não podem conviver sob o mesmo Estado ou sob a mesma Constituição. Que permaneça a primeira nação com a respectiva Lei Maior . nestes escritos em que. Noutro dizer. 2. pois a eleição dos elaboradores da Constituição é. a população ou sociedade civil tem na mutabilidade o seu espaço de significação ontológica. em detrimento da maioria eventual. Tal como se deu com o Brasil ante Portugal. O que a segunda nação aspira é a uma Constituição estalando de nova. se essa Constituição está assentada no sufrágio popular. Editora Celso Bastos.3. essência mesma da Democracia. Noutro modo de exprimir o mesmo pensamento: a segunda nação passa a deter um Poder Constituinte próprio e com esse Poder Constituinte já não pode deixar de entretecer uma relação de inerência (ele é ela. está ainda defendendo a maioria permanente elaboradora da Constituição. conferência publicada na coletânea "10 ANOS DE CONSTITUIÇÃO". Em verdade.4.6. numa eleição constituinte. Nesse tipo de prefiguração extrema ou hipótese-limite. p.6. juridicamente. porque a primeira Constituição não é sentida como coisa própria.2. naturalmente. 43. ou sequer alterar a Constituição vigorante. é preciso lembrar de que a Corte Constitucional. Se tem a respaldá-la a mais indiscutível das legitimidades. porém. Um só Estado personalizava. o povo elege aqueles que vão governar quem vai governar. a segunda nação não quer trocar de Constituição. pela mediação do Texto Magno. o estrelato do voto. mesmo elastecendo a sua tarefa. como dantes explicado). a culminância da participação popular no processo político. Só para si.5. muito bem doutrina CLÉMERSON MERLIN CLÈVE.esta é a palavra de ordem dos que fazem a nova nação -. O primeiro tipo de maioria a preponderar sobre o segundo. 2. que é circunstancial" (em AS MODERNAS FORMAS DE INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL. respectivamente.6. aliás. mas por eficaz rebelião da segunda (a nação brasileira).6.2. de modo a culminar com a revolução triunfal de 7 de setembro de 1822. a partir deste essencial corte distintivo: numa eleição comum. numa eleição constituinte o povo escolhe aqueles que. . 2. sem que a mais recente não aspire à sua emancipação política). Daí que o princípio majoritário que informa as decisões colegiadas passe a igualmente se discriminar em maioria permanente e maioria passageira. para que o referido desconforto democrático exista é preciso que uma outra nação venha a se formar. conforme. irão governar de modo permanente aqueles que irão governar de modo transitório.suportar uma Constituição formalmente rígida. contanto que não impeça o novo corpo nacional de iniciar a sua própria experiência constitucional-positiva. Exclusivamente sua.6. Animamo-nos a dizer: enquanto a nação ou sociedade política evoca a idéia de permanência. 1988). que é a legitimidade do voto. de uma assembléia de presentação do corpo nacional ou de uma assembléia de representação do corpo tão-somente populacional. mas alheia. Não é assim.2. o povo elege aqueles que vão governar. secundando o importante constitucionalista norte-americano RONALD DWORKIN. não por decisão da primeira (a nação portuguesa) quanto a esse juízo de inconvivibilidade. 2.

este o mais alumiado contorno da aura de toda nação enquanto monolítica nação permanecer. completamente dissolvidos (. do momento em que se constitui até o sobrevir da última geração. a se perpetuar na cambiância dos corpos populacionais que se sucedem no tempo. Foi este o paciente sofrimento destas colônias e é agora a necessidade que as constrange a alterar o seu antigo sistema de governo.o dominante e o dominado -. também a nação é uma só. 2. invocando o Supremo Juiz do Universo como testemunha da retidão das nossas intenções. enquanto se conservar como solitária nação no âmbito espacial de validade da sua Constituição e da territorialidade do seu Estado. é claro que tudo que juridicamente provenha da primeira nação seja concebido. após a elaboração constitucional. na matéria. no sentido de que um deles (o dominado) não reconhece como obra de uma sua primeira geração constituinte a Lei Maior "estrangeira" sob a qual se encontre. "(.. 2. da qual pinçamos os seguintes trechos: "Quando no decurso da história humana se torna necessário a um povo romper os laços políticos que o ligaram a outro e assumir entre as potências da Terra a posição separada e igual a que o habilitam as leis da Natureza e do Deus da Natureza. experimentar o desconforto democrático. Como legislação que bem pode permanecer intocada. E é claro que o problema do desconforto democrático não pode medrar no interior de uma nação cuja história constitucional mal começou. desde que já não vincule os membros da nova nacionalidade.. e de direito devem ser.)". É dizer: não estando presente o sujeito. o respeito devido ao juízo da Humanidade obriga-o a declarar as causas que o impelem para a separação. não pode ensejar a questão do desconforto democrático a que se reporta o neoconstitucionalismo. Discurso mais eloqüente não pode haver. se uma outra nação não se forma no espaço territorial da primeira. como a sensação de desconforto pode estar? 2. reunidos em congresso geral. da nascente à foz. é seu dever livrar-se de tal governo e tomar novas providências para bem da sua segurança. Não compartilhado com outra pólis.8. e devem ficar. que estas colônias unidas são. Por isso que. todas tendo como direto objetivo o estabelecimento de uma tirania absoluta sobre estes Estados. pela segunda. quando uma longa sucessão de abusos e usurpações.6. que elas se desligam de toda a obediência à Coroa Britânica. ou seja. e que todos os laços políticos entre elas e o Estado da Grã-Bretanha ficam.. em nome e por autoridade do bom povo destas colônias. nós. do que a "Declaração de Independência dos Estados Unidos da América" (datada de 4 de julho de 1776). deixa de existir o próprio sujeito coletivo que poderia.) Mas.Daí que venha a se autoconferir uma Constituição mais que paralela. A história do atual rei da Grã-Bretanha é a história de repetidas injúrias e usurpações.2. dizendo respeito a uma outra região fenomenológica.. concretamente.9.2.10. E fora dessa hipótese-extrema da lenta formação de um corpo nacional contra outro? Bem.. Ele se coloca é no plano das relações entre os dois corpos nacionais . os representantes dos Estados Unidos da América. Nesse idealizado contexto de fricção nacional . 2. como coisa estranha. Estados livres e independentes. Transgeracional. um princípio espiritual" (RENAN). Por isso mesmo é que ela tem sido definida como "uma alma.6. "(. ..fenômeno diferente da simples sucessividade geracional -. porque destinada a viger em âmbito pessoal e territorial próprio.6. revela o desígnio de os submeter ao despotismo absoluto.2. Assim como o rio é um só rio.6. visando invariavelmente ao mesmo fim.2. solenemente proclamamos e declaramos.) Por conseqüência.7.

E aqui se encontra o pano de fundo teórico para a nossa recusa ao tracejamento de uma "Constituição" ultranacional ou cosmopolita. que já não terá nação nem Estado isolado onde possa irromper e frutificar. desaparecem também as nações originárias e respectivos Estados. Nesta suposição.5. e não mais o inverso? Isto não significa romper completamente com a idéia-força da própria constitucionalização do Direito. E passaremos a ter Constituições Positivas sem vínculo operacional com a própria Democracia. justamente. que se dá no seio de uma única nação aspirante à soberania? Como falar de uma Assembléia Constituinte Plurinacional. Multinacionalidade desse tipo e unicidade constitucional são como água e óleo: não se relacionam por osmose. mas um holding de autoridades "supraestatais" que. pela unicidade do ser de que promana e em cuja ossatura afinal se transfunde? Como. as Constituições Nacionais é que deixarão de sê-lo.3. 16 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Das duas.2. além de não-popularmente eleitas para esse específico fim. seja pela indireta (consagração dos direitos e garantias fundamentais)? Do princípio de constitucionalidade e. como ficaremos todos? Ficaremos naquela atarantada situação de que falava o pensador. O paradoxo . aceitar que os tratados internacionais é que servirão de fundamento de validade para a Constituição de cada Estado signatário. então..agora sim .das "Constituições" cosmopolitas ou ultranacionais 2. seja pela forma direta (Separação dos Poderes). Não há nem pode haver Constituição multinacional. com os seus lógicos desdobramentos.6.6. uma: ou as supostas Constituições cosmopolitas não preponderam sobre as Constituições Nacionais. da Democracia. quando as encontrei. como pretendem ser os pactos formadores e regentes da União Européia (UE). Constituição comum a vários . 2. enfim.6. com este conhecido desabafo: "passei a vida inteira procurando certas respostas.2. nenhuma delas abdica de Constituição própria. aos elementos conceituais da nação. Deveras.3.". todavia. também não se relacionam pelos imprescindíveis moldes do sistema de freios e contrapesos e ainda por cima não têm a balizá-las um catálogo mínimo de direitos humanos e respectivas garantias? Como explicar a titularidade plural de um poder (o Constituinte) que se define. ajuizemos de uma vez por todas o seguinte: se cada nação permanece com o seu Estado. se a multinacionalidade se faz acompanhar da pluralidade de Estados soberanos.3.1. traduzida no famoso art. de 26 de agosto de 1789?14 Que atentado maior pode haver àquilo que se traduz na essência mesma da idéia de Constituição como o mais eficaz mecanismo jurídico de contenção do Poder. a acontecer o triunfo do novo e estranho modo de pensar o constitucionalismo.6. da Constituição e do Estado.3. como não colocar na etiologia da Constituição a metamorfose que resulta da passagem de uma sociedade civil para uma sociedade política? Metamorfose. ou. simultaneamente. se em nenhuma das nações "presentadas" foi aberto o processo democrático do voto popular para a eleição dos membros de tal Assembléia? Como submeter a essa Constituição-de-gabinete as Constituições democráticas de cada nação pactuante? Como aceitar uma Constituição que não plasma nenhum Estado em particular.3. do princípio democrático? 2. se preponderam. Ora bem. portanto.3. do Poder Constituinte. Constituições não são..6.6. e. 2. Por fidelidade.4. Jamais.3. da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e do Mercado do Cone Sul (MERCOSUL). mudaram as perguntas. Finalmente. 2.

Mas sempre nos termos da Constituição de cada Estado signatário.de revés.7. etc. São coisas diferentes. E que vão surgindo por efeito da evolução política de cada corpo nacional que se abre para tais ou quais vantagens comuns. E tudo é absolutamente irrenunciável porque sem a mediação do Estado a economia se torna uma espoliação organizada.Estados soberanos é uma contradição nos termos. ela paira acima da organização estatal. que "é livre a expressão da atividade intelectual.6. Tendo por suporte jurídico-formal os tratados internacionais de sempre. científica e de comunicação. então. Ao contrário do que afirmava JEFFERSON. pois a soberania de cada Estado se formaliza é numa Constituição não-compartilhada. 5°. cerceando-lhe a intrínseca espontaneidade em qualquer das suas formas de exteriorização (daí a Constituição brasileira estatuir. portanto. Não sobre o controle estatal interno . lazer. e tende mesmo a traçar os contornos do próprio Estado. Neste sítio. de ADAM SMITH. higiene. deixemos gravado em alto relevo o nosso dissenso à equivocada identificação que o neoliberalismo vem fazendo entre mundialização cultural e globalização econômica. da consideração de que a teoria das Constituições regionalizadas (ou plurinacionais) tem mesmo a sua motivação factual na globalização da economia (que é a globalização dos mercados). E como é verdade que um decidido controle estatal interno e globalização econômica são coisas antitéticas. exigência dele.a cultura é manifestação do espírito. de modo que a sua gradativa mundialização não significa propriamente um risco de perda do seu controle. o holocausto só pode recair é sobre a globalização. então. tudo é absolutamente irrenunciável. que são justamente as referidas necessidades de sobrevivência individual e de bem-estar comunitário. o mesmo não se pode dizer quanto à ordem econômica.). O que é preciso entender é que instituições multilaterais como a União Européia e seus êmulos são as velhas e boas confederações de Estados.3. Faz sentido. III . Por natureza. o melhor governo não é o que menos governa. pois nada mais falacioso que a teoria da mão invisível.6. independentemente de censura ou licença"). usufruídos estes por um número cada vez maior de pessoas. Não pode ficar acima do Estado. Governo. O risco passa a existir é quando o Estado se mete a monitorar a cultura. artística. Não uma espontânea otimização de riquezas. vestuário). ou uma intervenção. segurança ecológica. II . que entra e sai do pacto por sua espontânea e soberana vontade. a economia é manifestação do corpo. seja no plano do bem-estar social (moradia.6.3. Exclusiva. 2. exigência dele. transporte. como a própria soberania. contundentemente negada pelas iniqüidades sociais de todo o século XIX e dos primeiros dezessete anos do Século XX. 2. a partir destas considerações que temos como imperativos históricos: I . na processualidade da vida.Se os deveres do Estado para com o setor cultural não podem significar jamais um dirigismo. pelo inciso IX do seu art. porém o que mais governa para que um número cada vez maior de pessoas deixe de precisar dele. abdicando. Diante. ora pela eventual competição empresarial direta e ainda pelo estímulo). o dever de impor direcionamentos e até de intervir (ora por mecanismos de permanente fiscalização e sancionamento. porque o primeiro dever do Estado é com o atendimento das necessidades materiais da sua população. o receio de que o Estado venha a perder o controle da sua economia (efeito próprio da globalização). do poder-dever de organizar o aparelho produtivo do País na direção do máximo possível de auto-suficiência em bens e serviços. seja no plano da sobrevivência biológica do ser humano (alimentação. assim.

Interesseiramente. nunca deixa de estar disponível para a nação?16 2. modifica-se a Constituição apenas quanto aos mecanismos de que seus princípios estruturantes precisam para permanecer eficazes (e não é preciso encarecer que toda Constituição tem a cara dos seus princípios estruturantes). se a vontade a manifestar é mesmo da nação. no fundamento: a nação.15 Ou. De revés. a querer. que deve assegurar a sobrevida da Constituição. sendo uma nação.7. tem o poder de revogá-lo. E por ser nação o tempo inteiro. Nenhum bloco de vontades. ou existe.2. então. possui legitimidade política e senso histórico de oportunidade para dar forma jurídica ao próprio futuro. Para ROUSSEAU. por mais rígida que seja. 2. ou a terceira. empenhadas em produzir uma vontade final tão-somente grupal ou particular. muito mais fortemente empenhadas em produzir uma vontade final que seja uma "vontade geral" no sentido rousseauniano. Modifica-se a Constituição para que ela permaneça idêntica a si mesma naquela parte central da sua circunferência axiológica. porém a desejar com os demais se interpenetrar ou dissolver numa só manifestação.7. tanto quanto o próprio Deus. de saída. Se acontece.7. essa vontade tende a ser não mais que o somatório mecânico das vontades de todas as pessoas vivas. É justamente o visceral compromisso com o porvir que faz a nação tornar a sua obra legislativa um verdadeiro processo. 2. ela é nação o tempo inteiro. nem é preciso esperar por uma segunda. se a Constituição rígida. pode desertar de sua Constituição a qualquer momento. Onde. e não o seu dobre de sinos. é da natureza da vontade . ou por uma terceira.5. Insistamos.. Corporativamente. A mesma geração que elaborou o Magno Texto. se necessidade houver. Até porque. que força humana vai impedir que ela convoque uma nova Assembléia Nacional Constituinte? Sabido que a mais nova geração nacional é tão nacional quanto a primeira? Logo. pensamos que. porém.7. no entanto. ou não existe. de uma determinada geração vir a avaliar que já não dá para prosseguir sob o império do Magno Texto. como de generalizada sabência. etc.no interior de uma única nação. Se a nação apenas sai do estado de efetivo poder constituinte para uma quadra de virtual poder constituinte e vice-versa.da economia de cada povo. Cada bloco de vontades a querer preponderar sobre os demais. razão da autonomia conceptual de que desfruta. para.1. Se ela existe.4. 2. o paradoxo da onipotência (pela terceira vez perguntamos)? Como falar de antidemocraticidade a posteriori da Constituição rígida. preponderar sobre os demais. ou por uma quarta geração . essa vontade se torna a soma orgânica das vontades de todas as pessoas vivas. pois. e só então. por outra. consegue atingir um nível tão aceso de autoconsciência a ponto de desembaçar toda névoa que prejudique o límpido visual da futuridade.3. se colocar o problema da revogação constitucional.7. ou a segunda. Mais que um simples produto inelástico ou de formas acabadas em todas as suas partes.7. qual a Constituição que não dispõe sobre a sua própria reforma? Reforma. 2. Numa recondução do pensamento de SIEYÉS a ROUSSEAU. a Constituição é fórmula normativa consubstanciadora de princípios que potencializam a abertura das janelas do Direito para o lado onde sopram os ventos da atualização de suas idéias centrais. sem maior necessidade de alteração formal dos seus dispositivos. Este o seu modo especial e único de ser. O vínculo natural entre a sociedade política e a futuridade 2.quantas sejam . pois. Ideologicamente. se a vontade é apenas da população. Ou.

É este o prevalente idioma jurídico-positivo da nação. (. I.) Pela mesma razão que a soberania é inalienável. quando muito. de maneira a projetar na objetividade da sua obra tudo aquilo que a humanidade já produziu e ainda vai produzir (não é muito diferente o juízo que se vê em LUKÁCS. E Tobias Barreto. ano de 1996).9. tirando estas mesmas vontades. É um discurso que se aproxima da dimensão das coisas universais e eternas. portanto. Porém. 2. E cujo efeito prático é a processualidade ou historicidade ou uma certa atemporalidade do que se pretende comunicar..8. essas. é simplesmente uma vontade particular. extraídas do livro O CONTRATO SOCIAL.7. 43 e seguintes: "Com efeito. inerente a todas as caricaturas" (em Estudos de Direito. como versejou Fernando Pessoa. que se destroem entre si. pelo metódico uso das normas-princípio.7. vol. "as nações são mistérios. 2. O inexistente vínculo entre "excesso de rigidez" e "Poder Constituinte Evolutivo" 2. Leiamos estas passagens. também a nação faz a ponte entre o passado. edição do governo de Sergipe). é indivisível. Uma outra comparação nos parece elucidativa. Enfim. um ato de magistratura. porque a vontade é ou não geral: é a de todo o povo ou a de uma parte dele.8. Deduz-se do que antecede que a vontade geral é sempre reta e tende constantemente à utilidade pública. o presente e o futuro das suas gerações. à semelhança do que fez JESUS CRISTO com a metodologia comunicacional das parábolas. porque a vontade particular tende. magistralmente: "a um povo não é lícito repetir ou imitar nem a si mesmo. no segundo.. esta vontade declarada é um ato de soberania e faz a lei. é impossível pelo menos que este acordo seja duradouro e constante. 27/33 da obra "UM GALILEU NO SÉCULO XX". Essa linguagem sinótica ou sinérgica de valores torna-se possível. comentários de LEANDRO KONDER. p.) . A inconstitucionalidade da revisão de dupla face . às preferências e a vontade geral à igualdade. Vale dizer. enquanto a outra olha o interesse privado. Cada uma é todo o mundo a sós". 2. Boitempo Editorial. Assim como os artistas fazem a ponte entre o sujeito universal que é a humanidade e o sujeito individual que é cada ser humano. cada nação é. Normas-princípio.6..8.17 2. Ela não sabe falar de outro modo principal.. ou corporativos. um decreto (.).. se não é impossível que uma vontade particular concorde em algum ponto com a vontade geral. por sua natureza. pp. No primeiro caso.. pois é falando por princípios que o seu discurso normativo exorciza os fantasmas da caducidade axiológica ou de conteúdo. na Constituição.7.7. sob pena de cair no baixo cômico. 109. A ensejar a qualificação do Magno Texto como norma-processo. e não é senão uma soma de vontades particulares. resta para soma dessas diferenças a vontade geral". assim como os princípios estão para essa bíblia jurídico-positiva que é a Constituição. de maneira a recolher o que há de axiologicamente comum a todas elas para tudo sintetizar num só documento normativo de nome "Constituição".7. pp.geral rimar com o bem comum (por ser mais do que a simples adição das vontades parciais).1. Parábolas que estão para o evangelho de Cristo. que hoje têm na própria Constituição a precisa indicação dos respectivos conteúdos e a possibilidade de operacionalização ao nível factual. obra já referida um pouco mais atrás. misteriosamente. Há às vezes diferença entre a vontade de todos e a vontade geral: esta atende só ao interesse comum. tanto quanto é da natureza da vontade particular a busca dos interesses meramente privados. porém não quer isto dizer que as deliberações do povo tenham sempre a mesma retidão (. ou. um mundo todo à parte. 2.

4. Revisão em dois tempos ou de dupla face.)" (em DIREITO CONSTITUCIONAL. 2. por conseguinte. então a Constituição pode vir a perder até mesmo o seu caráter rígido. Se nos transferirmos do campo das cláusulas pétreas formais para os domínios das cláusulas pétreas materiais. cada vez mais soft. como prosseguir chamando a Constituição de Carta "Magna". a começar por esta: se é possível reformar as próprias cláusulas constitucionais de reforma. os seus dispositivos. em virtude da eliminação da cláusula de intangibilidade operada pela revisão constitucional (. com base na possibilidade de o legislador de revisão poder sempre ultrapassar esses limites mediante a técnica da dupla revisão. 2. Ainda que sob o color de mitigar o efeito "conservador" das cláusulas pétreas.1. caindo. 1138).8. num sentido assim explicado por GOMES CANOTILHO: "A existência de limites absolutos é.3. à luz de uma depurada Teoria da Constituição. Norma "Normarum" e outras qualificações que somente se justificam por aquela supremacia no plano hierárquico? Pela não-completa submissão do Magno Texto à sanha reformadora do Poder Constituído? É o mesmo que perguntar: como prosseguir chamando de Constituição o que Constituição já deixou de ser.8.8. Quem pode modificar. eliminando ou alterando esses limites. do seu próprio regime? 2. o fato é que o mecanismo da dupla revisão baralha inteiramente os campos de lídima expressão do Poder Constituído e do Poder Constituinte. Almedina. Qual a solução que se entremostra na crítica ao "excesso de rigidez" e seu desaguar em mutações constitucionais do tipo informal? Dar às cláusulas pétreas uma interpretação light. com o fraseado. que se faça das cláusulas de reforma constitucional o próprio fundamento para a sua modificabilidade (?). a revisão incidiria sobre as próprias normas de revisão. E com total ingerência do Poder Reformador nas cláusulas pétreas materiais. p. Num primeiro momento. 5ª Edição. em contradições incontornáveis. faz um cento". num segundo momento. 2ª Reimpressão. ou seja. pela total supressão da norma ou das normas constitucionais instituidoras da rigidez formal! E sem a rigidez formal.o neoconstitucionalismo passa a acoimar de "poder constituinte evolutivo" a própria e necessária processualidade das Constituições principiológicas. 1922. Código "Supremo". e que tal preço é a freqüente mutação informal da Constituição. Lei "Fundamental". como preservar a superioridade hierárquica da Constituição sobre os demais espécimes legislativos? E sem tal superioridade. formalmente. para facilitar as emendas e revisões constitucionais.. a Constituição muda freqüentemente de sentido sem que se alterem. porém. ou aditar uma cláusula pétrea substantiva. a ponto de suprimi-las. por isso mesmo. a resposta para o excesso de rigidez (suposto excesso) é o excesso de desconsideração pelas cláusulas intangíveis da Constituição. as disposições consideradas intangíveis pela constituição adquiririam um caráter mutável. E se isto não for o suficiente para adaptar a Magna Lei à emergência de novos valores sociais.2.8.. o raciocínio será o mesmo. pois "cesteiro que faz um cesto. pode assim proceder com todas as outras. É essa técnica da dupla revisão que nos parece o que há de mais atécnico.1. quer dizer.1. suprimir.1. Contraditoriamente . onde fica a identidade axiológica da Constituição? Onde ficam as principais "idéias de Direito" .permitimo-nos falar .1.2. como inelutável conseqüência do seu "excesso de rigidez". pois sem cláusula de rigidez formal a Constituição perde o controle do regime jurídico de suas emendas e. a revisão far-se-ia de acordo com as leis constitucionais que alteraram as normas de revisão. que o excesso de rigidez constitucional (quem faz o juízo de excessividade?) tem que pagar um preço. contestada por alguns autores. Querendo dizer. Desta forma.

Diga-se mais: quem pode despetrealizar a Constituição. ou de proporcionalidade da contenção legislativa que lhe é imposta? A todas as luzes.7.6. As perplexidades se sucedem aos borbotões e o analista de pronto se pergunta: sem mais diques para represar o fluxo normativo do Poder Reformador.1. Se é próprio do Poder Constituinte democrático produzir constituições avançadas (pode-se dizer o contrário?).1. 2. Ora.8. É necessário ter cuidado com as palavras. para seguir inverso roteiro. Fingindo-se ignorar a grande distância que separa uma interpretação mais à solta da Constituição (porém nela mesma fundamentada) daquele ato legislativo de intervenção formal no Texto Magno.8. 2. em verdade. 2. toma gosto no ofício e já não estaca por conta própria)..8. onde e por quanto tempo se disporia a cumprir sua pena.9.1. precisamente. Que paradoxo! Chama-se pejorativamente de Poder Constituinte Evolutivo a mutação informal da Constituição. evidentemente que pode se arrepender e voltar a petrealizá-la. no exercício da função reformadora. flexibiliza ali. não! Esse tipo de juízo é exclusivo da nação. e a forma jurídica de a nação avaliar tão global quanto radicalmente as coisas é a Constituição originária (assim como é exclusivo da nação dizer que o País.8. o sex-appeal de um Diploma que surgiu. quando menos. aquele contra o qual existe a rigidez formal da Constituição está positivamente autorizado a medir o tamanho dessa rigidez? A avaliar o teor de razoabilidade. mas indo além dos limites a ele originariamente impostos.5. o vigiado a determinar o tipo de armamento e o horário de ronda do seu próprio vigia (é também de BURDEAU a lembrança de que. então? A significar o único momento em que o Direito se subtrai ao Estado? Em que o Direito se torna maior do que o próprio ente estatal? 2. como garantia do avanço então obtido. que singularidade restaria para uma Constituição que se tornou gato e sapato nas mãos do Poder Reformador? Sem mais nenhuma norma-de-fronteira que não provenha desse mesmo Poder Reformador"? 2.8. a cargo de um Poder contra o qual.1. mas não se dá o mesmo nome a um Poder Reformador que se irroga a força da mutação formal dessa mesma Carta.8. pois. já está engolfado numa existência de crise). como rotular de ideologicamente conservadora a função das cláusulas pétreas de tais diplomas? Tais cláusulas operam. tudo fazer da originária Constituição (dizemos "tudo". ter-se-ia algo assim como o sentenciado criminal a dizer como..(GEORGES BURDEAU) que serviram de mote à faina constituinte?18 2. como ainda conceituar a Constituição enquanto o mais estável dos documentos legislativos de uma Ordem Jurídico-Positiva? Como abrir mão das normas . foi estabelecido o pretenso excesso de rigidez. Se se permitir ao Poder Constituído. para superar a idéia de autolimitação jurídica do Estado? Para impor ao Estado (com seu poder reformador e tudo o mais) balizas de trás para frente e de fora para dentro? Exógenas. como visto. justamente. Até porque é possível refundir uma cláusula pétrea para adensar o teor de proteção dos valores nela albergados. Ou. mais que vivenciar uma situação de crise de existência. como ficaria a idéia de limite formal.8.1. que é uma das mais visíveis impressões digitais do Magno Texto? A sua principal função ou o primeiro dos seus históricos e lógicos diferenciais? Aquilo que é o próprio charme. sendo o Poder de Revisão uma criatura da Constituição.10. o glamour. Fora disso. passando ele a ab-rogar a Magna Lei estará "destruindo o fundamento de sua competência").1. quem flexibiliza aqui. Não. claro. Não fiquemos por aqui. Como penhor de não-retrocesso das conquistas jurídicas a que democraticamente se chegou. E a se trabalhar com esta hipótese.

Certamente precursora desse vínculo necessário entre a supremacia da Constituição e os mecanismos garantidores de tal supremacia é a própria "MAGNA CHARTA LIBERTATUM". uma Constituição pra valer (e só é pra valer na medida em que petrealizada).8. a contar do tempo em que foi exposta a ofensa. para a nossa justiça. se o Constituinte não anuncia que está a produzir uma Constituição garantida. Não inculca no povo uma estima ou um sentimento de Constituição.constitucionais de autodefesa autogarantia (papel instrumental das cláusulas pétreas). poderão embargar-nos e incomodar-nos. que os barões elejam livremente um conselho de vinte e cinco barões do reino. e à petição será dada satisfação sem demora. a praticá-la. pensamos que a válvula argumentativa do "Poder Constituinte Evolutivo" intenta disfarçar aquilo que na verdade sucede com a reteorização do Magno Texto e do Poder Constituinte: uma contra-revolução dogmática. logo que tenha havido reparação.. os mesmos quatro barões apresentarão o pleito aos restantes barões.2. terras e propriedades e utilizando quaisquer outros meios ao seu alcance. em qualquer circunstância. ipso facto. 2. juntamente com a comunidade de todo o reino (communa totiu terrae). a partir da Constituição do México de 1917 (imediatamente seguida pela .1.) Considerando que foi para honra de Deus e bem do reino e para melhor aplanar o dissídio surgido entre nós e os nossos barões que outorgamos todas as coisas acabadas de referir. e nós damos pública e plena liberdade a quem quer que seja para assim agir. para sua garantia.8. os nossos bailios ou algum dos nossos oficiais. e. apoderando-se dos nossos castelos. eles obedecer-nos-ão como antes. se estivermos ausentes do reino. deixa de revelar estima pela sua obra e não induz o povo. incumbidos de defender e observar e mandar observar a paz e as liberdades por nós reconhecidas e confirmadas pela presente Carta. concedemos e aceitamos. O uso da idéia do "Poder Constituinte Evolutivo" como contradiscurso constitucional 2. A Teoria do Poder Constituinte foi o que de mais revolucionário ocorreu no pensamento jurídico de todos os tempos e o fato é que ela já não serve aos propósitos socialmente retrocessivos do neoliberalismo. estes apelarão para nós ou.12. 2. Para que ela se torne a própria condição da montagem de um Ordenamento que tenha na segurança das relações humanas o seu valor fundante por excelência. de 15 de junho de 1215. Antes.2. tão necessário para que ela se torne uma instituição viva. e os vinte e cinco barões. coloca-se como o mais lógico obstáculo ao desmonte do Estado Social que as Leis Maiores do Ocidente erigiram. apontando as razões da queixa. cuja parte final está assim redigida: "(. e não impediremos ninguém de fazer idêntico juramento".1.. deixarmos de respeitar essas liberdades em relação a qualquer pessoa ou violarmos alguma destas cláusulas de paz e segurança.8. e querendo torná-las sólidas e duradouras. E qualquer pessoa neste reino poderá jurar obedecer às ordens dos vinte e cinco barões e juntar-se a eles para nos atacar. e se nós. se "não há Constituição sem supremacia e não há supremacia sem sua proteção"?19 2. no caso de estarmos fora do reino.11. a petição não for satisfeita dentro de quarenta dias.8. e da ofensa for dada notícia a quatro barões escolhidos de entre os vinte e cinco para de tais fatos conhecerem. mas sem ofenderem a nossa pessoa e as pessoas da nossa rainha e dos nossos filhos. a nossa justiça. e se por nós ou pela nossa justiça. Um contradiscurso constituinte. Lá pelo fundo das coisas ou por trás dos bastidores (como soem falar os jornalistas).1. até ser atendida a sua pretensão. Ora.

2. a igualdade. assumisse postura intervencionista e dirigente em favor dos trabalhadores em particular e dos consumidores em geral. todo Estado liberal cai nos braços do poder econômico para formar com ele a mais desumana das parcerias (a opressão política a atar o seu corpo à exploração econômica). 2.Constituição Russa de 1918 e pela Constituição Alemã de 1919). sem um mínimo de igualdade nas relações sociais de base (aquelas que definem o verdadeiro perfil da vida coletiva). É que. ação estatal para a realização do valor da igualdade. Valores de cujo indissolúvel casamento nasce a fraternidade.8. cada povo soberano teve que recorrer a uma nova manifestação formal do seu Poder Constituinte (salvante a nação norte-americana.2. Sobremais. sem essa limitação. A razão e a consciência humana assim o proclamavam (e proclamam). Se é verdade que os dois valores básicos entretecem relações dialéticas. Uma coisa é partir de um Constitucionalismo liberal para um Constitucionalismo social. numa economia típica de mercado. outra. 2.5. a imprescindível postura intervencionista e dirigente se traduzia em mais um limite real. para que ele. 2. instrumento que é de prepotências e iniqüidades de toda sorte. é sair de um Constitucionalismo social para voltar ao liberal.2. era preciso fazer avançar o movimento racional e consciencial do constitucionalismo. na prática). se já não se convoca uma nova Assembléia Constituinte e se já não se reteoriza a própria força constituinte. segundo a qual todo aquele que detém o poder tende a abusar dele. Recorde-se que o liberalismo triunfou sobre o absolutismo porque limitar o poder político era (e é) a própria condição de defesa da liberdade e da cidadania. Acrescente-se: longe de significar uma ampliação do poder estatal. lastreia um tipo de Direito mais fortemente judicialista do que legalitário. pela sua própria natureza (para além da famosíssima advertência de MONTESQUIEU. entregue a si mesmo. simplesmente porque o poder não tem alma). para desancá-la. sem . BOBBIO esclarece que prefere a expressão "vulto demoníaco do poder" a "alma demoníaca do poder". desmanietação desse mesmo Estado frente aos proprietários dos bens de produção.3. autóctones e alóctones. A luta político-jurídica foi sem tréguas e o constitucionalismo social veio a significar: a) por um lado. Porém.8. de que a doutrina de SIEYÈS foi uma espécie de arremate jurídico.2. então. Aqui.8.20 2. e. pois que. preservação das conquistas liberais dos indivíduos e dos cidadãos contra o Estado. por influência do modelo britânico de Ordenamento Jurídico. Matéria-prima explosiva. b) por outro. Justamente ela. não havia (e não há) como impedir os fenômenos corrrelatos da concentração de renda e da exclusão social. mediante lei. que se perfilou ao lado da liberdade e da fraternidade como bandeira de luta da própria burguesia revolucionária do século XVIII.8. Ali. as liberdades fundamentais não passam de ornamento gráfico na tessitura formal dos dispositivos constitucionais.8. pois o poder é coisa que não se amplia ou não se reforça.4. por efeito de uma Constituição que. Uma normação apenas retórica ("simbólica". ferido de morte ficaria (como fica) o princípio da igualdade. 2. esse terceiro leit motiv da burguesia ascendente do final do século XVIII. É repetir: sem a limitação do poder econômico ou a aplicação de medidas saneadoras do mercado. nada mais natural que seqüenciar a faina constitucional de impor limites a toda forma de poder que implicasse dominação política e exploração econômica das massas. inação do Estado como condição de império do valor da liberdade e da cidadania.2. levando-o também a limitar o poder econômico.6. diria MARCELO NEVES).2. Logo. É explicar: para sair da democracia liberal para a social democracia. sem maior contradição no aproveitamento das teorizações do Iluminismo.

O mais curioso ainda é que uma parte dos defensores da interpretação light ou abrandada das cláusulas pétreas está convencida de que esse tipo de exegese tem o mérito de colocar a própria Constituição a salvo de uma quartelada. Como observou JOHN KENNETH GALBRAITH reconhecidamente um dos maiores economistas do século XX. Viagem sem volta. continuamente.. É o que se lê em alentada conferência que a Folha de São Paulo transcreveu às pp. portanto. um salário mínimo humano.8. nada mais restringe a liberdade. fazê-lo de mãos dadas com a coordenação e a proteção da política nacional social e de assistência". à medida que é mais compassiva ou solidariamente dividido. uma rede de segurança eficaz .7.) É preciso haver. maior a cota de liberdade concreta de cada qual desses contingentes. pior .8. essa passagem do constitucionalismo liberal para o social. deve. acima de tudo. Temerosos os novos teóricos da Constituição do debate aberto com a nação. E porque a favor da vida. do que um povo livre vir a desembocar numa sociedade igualitária de fato. O internacionalismo vai avançar.. e também necessário para a liberdade humana. e as que ainda são necessárias.. um golpe militar ou coisa que o valha. ou. numa mesma sociedade. no sistema capitalista. edição de 20 de dezembro de 1998. Concordamos com isso. Enfim. do que a falta absoluta de dinheiro. ou abaixo deles. Desfazer conquistas sociais já representa arejamento das Constituições. E quanto maior o número de contingente de pessoas aproximativamente iguais. porque a favor da vida (como tudo que decorre do trabalho a quatro mãos da consciência e da razão humanas).8. 4 e 5 do seu caderno "MAIS". 2. Receosos da cobrança que a sociedade política certamente lhes faria quanto a essa esdrúxula idéia de que.) Não há possibilidade de um compromisso estreito com a nação-Estado. pois é muito mais plausível um povo igual vir a desembocar numa sociedade libertária real. Hoje está claro que os Estados Unidos exercem uma liderança mundial negativa nesse sentido.. 2. "(. Como se a desnaturação. O bolo da riqueza nacional tem uma lógica peculiar que o faz crescer. E também um imposto de renda decididamente progressivo. E viagem sem volta. é que seu desfazimento no bojo do Estado neoliberal está a se verificar no forum restrito do Poder Reformador.apoio individual e familiar . Retornar a uma genérica situação de exclusão econômica das massas despatrimonializadas e sem renda minimamente decente (este o invariável déficit social da contabilidade liberal do século XIX e do primeiro quartel do século XX) já sinaliza o definitivo ingresso "na era da modernidade". recuar já significa avançar. no entanto. e não no cenáculo ampliado do Poder Constituinte..2.2. Uma organização sindical forte e eficaz. desobrigar e até proibir o Estado-nação do controle de sua própria economia. já representa para os países emergentes uma participação igualitária ou descolonializada na economia de mercado dos países tradicionalmente centrais.. Nada estabelece limites tão rígidos à liberdade de um cidadão quanto a absoluta falta de dinheiro. da qual reproduzimos estas preciosas considerações: "O sistema de mercado distribui a renda de forma altamente desigual.dúvida que a primazia é para a igualdade (cuja essência está numa aproximativa distribuição de patrimônio e de renda). agora. "(. Isso é humanamente essencial. uma aventura armada. seguridade social e boa assistência à saúde são reconhecidamente uma parte da resposta. principalmente na área do capital financeiro-especulativo (o pior vilão do final do século XX e do início deste milênio). Mas tampouco pode haver um internacionalismo insensato que sacrifique as conquistas sociais do último século.aos que vivem nos limites inferiores do sistema.

2. a renumeração de dispositivos. como. aí. ou o Poder Constituinte impõe a si próprio um campo exclusivo de atuação. o poder constituinte estaria a normar sobre ele mesmo (e não sobre um poder simplesmente constituído).8. Todo este nosso esforço analítico é para dizer.1. Deveras. fora daquele mencionada espaço preambular da Constituição (. capítulos e demais técnicas legislativas de agrupamento lógico-operacional de temas afins. É que. porque. sob o título de "A Reforma Constitucional e sua Intransponível Limitabilidade": "Se o poder constituído pudesse a qualquer momento se travestir de poder constituinte. pois sobre ela assim já nos pronunciamos em estudo simultaneamente publicado em Espanha e Portugal. ele teria a possibilidade de se assumir como coveiro da Constituição que o fez nascer e aí privaria de sentido a própria e verdadeira função constituída.9.9.1. 76/78 da Revista de n° 5 do Ministério Público da Bahia. Afinal. para a Magna Carta. não pode deixar de ser maniqueísta.1. como bem o disse o constitucionalista argentino REINALDO VANOSSI. Não flutuantes. Esse paradoxo não deixaria de se configurar.9.). pois o raciocínio técnico. e o Poder Constituído como o poder que pode o menos sem poder o mais 2... que diferença faz entre golpeadores assumidos e golpeadores enrustidos. na matéria.. a todo instante.2. Não pode fugir da radicalidade. a supressão pura e simples de uma cláusula pétrea não fosse por si mesma um golpe. e como sairia aparelhado esse poder de reforma? Sairia aparelhado com a energia assassina de poder se assumir.9. Que paradoxo então se apresentaria aos olhos incrédulos do estudioso dos fenômenos político-jurídicos! A Constituição originária criaria um poder cuja função seria a de reformá-la para que ela não perdesse a atualidade e assim atualizada pudesse inibir o surgimento de um poder de fato que a retirasse do mundo dos vivos.1. publicado às pp. se ela já não sobrevive às ações de nenhuma das duas tipologias de constituicidas (metonímia do vocábulo "constituicídio". O Poder Constituinte é o Poder Constituinte e o Poder Constituído é o Poder Constituído. pra não ser morta. procedimentos e valores que tornassem a Constituição autorizante um zero à esquerda. por exemplo. aristotelicamente: "cada coisa em seu lugar". a de impedir o surgimento de um poder revolucionário. pela inescapável distinção entre o poder constituinte e o poder constituído. ou perde a razão-de-ser da sua autonomia conceitual. a roupagem linguística.. mesmo naquelas hipóteses em que a Constituição autorizasse a sua total reforma.9. Nunca a opção por conteúdos. A questão não é nova em nossa própria elaboração teórica. As fronteiras que separam as duas categorias têm que ser fixas. Por dedução. O Poder Constituinte como o poder que pode o mais sem poder o menos. mesmo quando este venha a operar sob as vestes de um Poder Reformador." 2. A superação da idéia de autolimitação como fundamento da sumissão do Estado a deveres 2. alternando a seu gosto os planos do ser e do dever-ser. que é. que vimos em estudo da lavra de PAULO MODESTO. uma nova distribuição de títulos. ano de 1994)? 2. tal autorização de reforma global só pode ter de global a possibilidade de opção por uma nova estrutura formal da Constituição.2. como aquele preciso poder de fato que a Constituição quis evitar.ainda. é o que .

9. a qualquer momento. mais profilático nos quadrantes da Ciência Política e da Ciência Jurídica. E o Poder Constituído? É e sempre será o poder de fazer o menos sem nunca chegar a fazer o mais. único mesmo.1. pois ele significa a força de elaborar a Constituição. posicionando-se como condição e garantia destas últimas (do que deflui o descarte da astuta revisão constitucional em dois tempos. Malheiros Editores. E como impor eficazes limites a quem pode impor eficazes limites à população. mormente o Estado.5. sem perder de vista nenhum dos dois aspectos. 2. Ou ela possui a força de fazer algo sozinha. 64 da obra "CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL".4. Bater nessa mesma tecla é o que há de mais didático.1.9. mas não a potência para trocar essa Constituição por outra. mas toda uma lógica elementar que subjaz a essa intransigente distinção entre o que é constituinte e o que é constituído.22 2. 6ª edição. É desaprender a lição da História e reexibir um filme cujo tenebroso final já se conhece. Não são meras palavras. citando HANS KELSEN (p. O charme. E o Estado que se autolimita encontra em si mesmo o fundamento lógico de sua autodeslimitação. Indisputavelmente. ainda há pouco mencionada). mais propedêutico.9. O Poder Constituinte e sua força de mesclar valores jusnaturalistas e valores positivistas . no entanto. 2. Qual a conseqüência teórica de um Estado que se autodeslimita a qualquer instante? O reconhecimento de que a Constituição desse Estado não é filha unigênita do Poder Constituinte coisa nenhuma.3. Não fosse para o cumprimento desse prioritário papel de dobrar a cerviz legislativa do Estado.9. se a Constituição já não provém de um poder capaz de dar a última palavra em matéria de limitação mesma? Afinal. 1996). jamais o nome "Constituição" passaria a verbete do vocabulário jurídico-positivo. pois só cabe falar de unigenitariedade jurídica se se está diante de um modelo prescritivo que. 2. se a Constituição fosse obra do Estado. Privando-se. Aquelas. 2. no sentido de que ele detém a competência para reformar a Constituição.7. Contra tudo e contra todos. 2. mas não a aptidão para reformá-la. começando pelas cláusulas formais e terminando pelas materiais.1.sucede com a Magna Carta. então.6.1.9.1.8.9.9. o glamour o sex-appeal da Constituição. é pela sua força única de se impor ao Estado que a Magna Carta pode transitar das suas cláusulas formais de intangibilidade para as cláusulas materiais igualmente irreformáveis. Petrealidade necessariamente dúplice. toda limitação a ele imposta não passaria de autolimitação. de que falamos antes. E desconsiderar essa lógica estrutural do pensamento político e jurídico é assim como sobrepor à realista afirmação de que contra fatos não há argumentos o alienante juízo de que contra argumentos não há fatos. tenha por principal função metodológica a de manter essa peculiaridade. tudo procede do fato de que somente ela pode impor eficazes limites a quem pode impor eficazes limites à população. conforme se lê em PAULO BONAVIDES. que é o sentido formal. ou decai da condição de documento jurídico supremo.1.2.21 2. nascido e reformável por um processo peculiar. claro. do sentido que mais conta para uma científica elaboração do conceito de Constituição. a não ser no sentido puramente material de conjunto normativo que se refere "aos órgãos superiores e às relações dos súditos com o poder estatal". O Poder Constituinte é e não pode deixar de ser o poder que pode o mais sem poder o menos. pois é dessa diferenciação que decorre todo o prestígio dogmático e sociológico da Constituição. com absoluta exclusividade.

é o que de mais garantido se pode obter em defesa da Justiça. outra vez). do justo ditado pela reta razão. no entanto. se o valor fundante do Direito não está nos valores da Paz. e. porém no valor objetivo da Ordem (que outros chamam de Segurança). 2. exatamente como da Ordem falava KELSEN? Claro que esse diploma normativo é a Constituição! Não pode ser outro! 2.9. E. é. do poder econômico.5.3. perfeitamente possível dizer que ações humanas são protuberantemente contrárias ao referido valor. tem por objeto impedir os abusos do poder político).que ações o Estado tem que praticar perante o poder econômico (postulado oriundo do pensamento social-democrata.o poder econômico e o poder político -. Vale dizer: sabe-se perfeitamente bem que determinados modos de agir são a negação mesma da Justiça.9. Então. como desenganadamente são a opressão política e a exploração econômica. Se não é possível dizer. se se põe como valor fundamental do Direito o postulado jusnaturalista do justo-racional. aquela.2. Do quanto de objetivo pode se conter na Justiça como ideal de convivência humana. E como já se sabe que os inimigos figadais do justo-racional são esses dois poderes . a também sistematicamente encurtar os espaços de influência da população nos processos de tomada de decisão e funcionamento do Estado. 2. é ainda a Constituição o documento-símbolo por excelência. limitar a ambos já significa fragilizar quem mais fragiliza aquele ideal de Justiça. Esta. . acresça-se. por tabela.2. ao lado dos mecanismos realizadores do princípio da Separação dos Poderes.e que agora o mundo ocidental passa por uma obscurantista fase contra-revolucionária -.9.2. II . E a a fórmula operacional é simples. que ações humanas concretizam ou materializam o ideal do Justo. Um modo de se resguardar a Justiça pelo direto gradeamento da toca dos lobos. de que ações efetivas depende a convivência em bases justas. A Constituição melhor realiza a idéia do justo por si mesmo na medida em que pode dizer: I . Nenhum outro modelo jurídico-prescritivo serve melhor a essa idéia central do justo acima de qualquer suspeita. para não deixar que o Mercado passe de motor da História a mentor dessa mesma História). De outra parte. a reduzir cada vez mais os espaços de inclusão popular na riqueza material do País. com total objetividade.2. de fato. do "justo por si mesmo" (GEORGES BURDEAU. quais os conteúdos positivos da Justiça. foi em atenção ao maravilhoso fato de que só a Constituição se tornou um definitivo ponto de encontro entre o postulado positivista da Ordem e o axioma jusnaturalista "da Justiça que advém da reta razão".4. E esse papel axial só pode recair sobre a Constituição. na medida em que se lhe reconheça o laço unigênito que a prende ao Poder Constituinte. Quando dissemos que a Magna Carta significou a maior revolução jurídica de todos os tempos . 2.9. quando se permite ao Estado tudo se permitir. ou do Bem Comum (devido ao carregado teor de subjetividade desses ideais). Ambas de incidência fatal. Combater os que mais combatem o justo por si mesmo.1.2. o seu oposto ou contravalor. de modo a permitir a todos o conhecimento antecipado das conseqüências objetivas das próprias ações. ou da Justiça.que ações o Estado não pode praticar perante os indivíduos e os cidadãos (postulado advindo do pensamento liberal e que.2.9. perguntamos: Qual o documento jurídico-positivo que melhor espelha a idéia de estabilidade em que a Ordem se traduz? O diploma que mais duradouramente lança as regras elementares do "contrato social".2. o balizamento em si do Estado.

a Magna Lei tem nessa limitação a sua própria causa formal. o seu campo divisional operativo. passam a compor uma só realidade. porque o balizamento é a sua natureza. isto é.2. O tema que mais caracteristicamente recheia o conteúdo de suas normas. .6.2. resumindo em si a estratégica função de limitar o Estado e o poder econômico. Está aí a demonstração de que somente a Constituição pode se colocar enquanto ponto de convergência do que o juspositivismo e o jusnaturalismo têm de mais característico. pela sua essencialidade. mais do que se tipificar pelo papel de balizar o Estado (a contenção do poder econômico vem por gravidade).9. a viva consubstanciação desse balizamento. Não pode deixar de ser. Por isso que. a Magna Carta se confunde com a própria função principal que lhe cabe cumprir. 2. a encarnação mesma. O Código e sua principal função.9. E assim altaneiramente postada. Aquilo que melhor define a sua requintada funcionalidade. a Constituição é balizamento.7.23 Assunto a retomar. a sua medula.2. já no próximo capítulo. conseguintemente. É igual a concluir: mais que até mesmo balizar. a Constituição é a síntese possível.

A Constituição como critério de classificação de todo o Direito 3. nele efetivamente se transfundindo e formalizando-o numa Constituição. o segundo. no global. de sorte . o verdadeiro e único Poder Constituinte é um poder de construção e ao mesmo tempo de demolição normativa. nascido de um Poder Constituído.5. a primeira classificação que se faz sobre o Direito legislado é com os olhos postos na Constituição. as leis delegadas. O primeiro. indicaremos aquelas especificidades da Constituição que.1. se é um poder derivado. uma nova ilação é de ser feita: a Constituição é um divisor jurídico de águas.3. negamos o que em outros estudos afirmáramos: a existência de um Poder Constituinte de segunda geração ou de segundo grau. A Constituição como atestado de efetiva soberania nacional 3. O que dissemos ali reafirmamos aqui: a sociedade política ou nação é a única a experimentar o Poder Constituinte. 3. a nosso ver. nesse ou naquele aspecto.2.1. Como tantas vezes dissemos.1.1. é porque sua ontologia é igualmente estatal. E sem esse poder de plasmar ex-novo e ab novo o Estado (que é o correlato poder de desmontar.As Especificidades da Constituição Sumário 3.8. nascido do Poder Constituinte.1. E sendo estatal.4. A Constituição como critério de classificação de todo o Direito 3. A Constituição como a lei das leis 3. de ponta-a-ponta. Forma de atuar. no sentido de que há um Direito-Constituição e um Direito pós-Constituição. é porque não é constituinte (JORGE MIRANDA).1. então de poder constituinte já não se trata.6.filha unigênita que é do Poder Constituinte -. O fundamento supra-estatal e suprapositivo da Constituição 3. por inteiro e de uma só vez. ou o que emenda a própria Constituição) e Poder Legislativo usual (o que elabora as leis complementares à Constituição. A compulsão da rigidez formal da Constituição 3. Como a Constituição não pode deixar de se por na linha de partida do Direito . Por isso mesmo é que somente ele é que irrompe no cenário político para a epopéia jurídica do começar tudo de novo. querendo. Se o poder é exercitado por órgão do Estado. pela consideração elementar de que. Com esta afirmativa de que o Direito pós-Constituição é sempre a manifestação de um Poder Constituído. ainda que para o fim de reformar a Constituição. A Constituição e a fuga de suas normas a exame de validade 3.Capítulo III . 3. O ponto inicial do novo estudo é precisamente a parte em que o capítulo anterior foi concluído. as leis ordinárias e demais atos de formação da vontade normativa primária do Estado1).4.2. mas sempre com a virtualidade de operar no atacado. discriminado este em Poder Reformador (o que revisa. A Constituição como critério de hierarquização das próprias normas constitucionais 3. A Constituição e sua retroeficácia de dupla face: em abstrato e em concreto 3. 3. apelidado por boa parte da doutrina como Poder Constituinte Derivado. mas não criar um Estado zero quilômetro. desconstituir por inteiro o Estado preexistente).7. mais concorrem para demarcar os espaços de radical separação entre ela mesma e os atos de sua reforma. o máximo que lhe cabe é retocar o Estado. ou seja. Neste capítulo. mesmo que tal Direito se expresse por atos de reforma da Magna Carta.3.1. Não existe esse Poder Constituinte Derivado.

da grande árvore jurídica. porque estatal e positivamente exercitado. pela sua fundamentalidade). Direito Tributário. Mais enfaticamente: se o Poder Constituinte é o poder de constituir a Constituição não apenas normas constitucionais -. Direito Comercial e demais "províncias" ou setores cientificamente autonomizados do Direito. É do nosso pensar que. ora atua como produtor de normas gerais constitucionais (porque destinadas a reformar a própria Constituição).7. Ora atua como produtor de normas gerais não-constitucionais (porque não destinadas a mexer na Constituição).1. O que esse Poder elabora é a Constituição (reiteremos o juízo. Só que essa parte do fenômeno jurídico-positivo. que são normas destinadas a vigorar de forma paralela ao Magno Texto. que já e um Direito elaborado pelo legislador constituído: Direito Administrativo. Na sua função de atuar debaixo da Constituição.e daí em ramos públicos e privados do Direito -. Donde a nossa afirmação de que o Direito legislado principia pelo Direito-Constituição e prossegue com o Direito pós-Constituição. 3.6. no fundo. Se o verdadeiro e único Poder Constituinte é um Poder que pode o mais (elaborar a Constituição). o Poder Reformador é o poder de constituir tão-somente normas constitucionais.8.1.1. nem todo repositório de normas constitucionais é uma Constituição (basta que lembremos as normas transitórias que se veiculam por emenda. É o segmento não-constitucional-originário do Direito. mas em um outro sentido. apenas. Direito Civil. mas sem poder o mais (trocar uma Constituição por outra). Não para a função auxiliar do retoque na Constituição vigente. Mas sempre na condição de um Poder Constituído. mas sem poder o menos (reformar a sua própria obra legislativa). incorrem no erro (venia concessa) de tomar a parte pelo todo. A Constituição (e não suas emendas ou revisões) a se postar como inafastável critério de classificação de todo o Direito. ou por revisão. Tudo a espelhar: quem edita a Constituição está impedido de reformá-la. Uma parte.1.2 3. Não é. Quando os jurisperitos bifurcam o Direito legislado em público e privado. Não a Constituição. 3. Direito Penal. e quem reforma a Constituição está impedido de editá-la. 3. e não dentro dele). categorizar como Poder Constituinte Derivado o poder de reforma da Constituição é cair numa ilusão de ótica: ver o Poder Constituinte Originário (o vocábulo "originário" é até dispensável. nem toda norma constitucional é norma contida em dispositivo da Constituição originária. que já é uma função de atualizar. O que se divide em público e privado é o Direito pós-Constituição. 3.10.1. Se o critério de classificação dos ramos jurídicos em públicos e privados é a . pois aquele que só existe para fazer o todo não pode fazer a parte e aquele que só existe para fazer a parte não pode fazer o todo (evidência palmar). Não-simplesmente normas constitucionais. já se põe como contraponto do Direito-Constituição. o Poder Constituído é também ambivalente. Se toda norma contida em dispositivo da Constituição originária é norma constitucional. Mais até: se toda Constituição é um repositório de normas constitucionais.1. e não toda a árvore.9. antes de comportar segmentação interna em províncias ou setores .5. o Poder Constituído é um Poder que pode o menos (modificar a obra do Poder Constituinte). porque pleonástico ou redundante) como o poder de elaborar normas constitucionais. porque normas constitucionais o Estado também produz.a trocar uma Constituição por outra e assim dar à totalidade do Ordenamento Jurídico um novo fundamento de validade.3 3. mas não de substituir o fundamento de validade do Ordenamento por inteiro. no uso do seu poder reformador. como realçado no capítulo precedente.

ou seja.2. 3. justamente. Centremos agora as nossas atenções investigativas na distinção entre a Carta Magna e o Direito Constitucional como um todo. tais palavras somente conservam íntegro o seu papel de servir a uma obra de arte se permanecerem no contexto da poesia e no exato lugar em que se encontrem. o que era a riqueza de um poema fica rebaixado à pobreza de simples vocábulos. substituí-las. não há como dizer a que bloco pertence o Direito Constitucional. um pouco de qualquer das ondas do mar em um balde: a onda removida perde instantaneamente a qualidade de onda.1. e passa à condição de simples água salobra. Ela é mais que o resultado do ajuntamento linear das suas partes. é preciso tocar nas suas normas com a delicadeza de quem lida com peças de cristal. que é uma coisa morta ou sem mobilidade própria. Ele ainda engloba as normas de reforma constitucional e o fato é que essas normas não têm a mesma hierarquia da Constituição. Tanto não têm que se assujeitam a exame de validade perante. seja qual for o ato de reforma constitucional. O verbal a conviver com o não-verbal. destacá-las do conjunto. No caso da poesia. sim. na exata disposição de cada verso e de cada estrofe na ossatura do conjunto. é verdade. ora de tratamento favorecido daquela parte que simboliza os imediatos interesses da sociedade (Direito Público).12. a Constituição. porque o Direito Constitucional como um todo tem na Constituição o seu necessário ponto de partida. A Constituição como critério de hierarquização das próprias normas constitucionais 3. Se este se constitui de palavras.nítida vertente que eles ostentam para compor relações. cumprindo o não-verbal o papel do silêncio-eloqüente. como tantos outros. Adicione-se a esta particularidade (a de ser o Direito Constitucional infenso às categorias do público ou do privado) mais uma nota específica: a Constituição é documento normativo tão singular que não se confunde nem mesmo com o somatório mecânico de suas normas. pois nele ainda contam os intervalos. as entrelinhas. que é uma coisa viva ou em movimento.11. como a Constituição.2. Enfim. 3.2. a ponto de mais adiante demonstrarmos que. O que nos estimula a formular a proposição de que o Direito Constitucional é ramo jurídico. Conforme dissemos em nota de rodapé. o poema é o somatório de suas palavras. não se recusa aos atos de reforma constitucional a força de se incorporar ao documento reformado. seccioná-las. porém diz mais que o somatório de suas palavras. mas que se faz silêncio mesmo para poder melhor dizer. a Constituição deve permanecer inteira em sua quintessência.1.2. mais do que perante qualquer outro diploma jurídico. a teia invisível que vai de uma vocábulo a outro e de uma expressão a outra. Permutá-las. o silêncio que já não traduz a intenção do nada-dizer. lato sensu) quanto o inverso. Mudam-se algumas de suas partes para que o todo prossiga idêntico a si mesmo. desde que veiculem . 3. Ante a Constituição. E tudo isto quer dizer que o poema. 3. ora de tratamento paritário dos interesses das partes (Direito Privado). fala pelas palavras nele grafadas e ainda fala por palavras que nele não foram grafadas. hipoteticamente. a serviço da mesma causa. porém nem rigorosamente público nem privado.1. Ela consubstancia um tipo tão articulado de unidade que faz lembrar a composição e o sentido de um poema. É que ele tanto contém segmentos normativos de favorecimento das pessoas privadas perante aquele que simboliza os imediatos interesses da sociedade (e essa contraparte é a pessoa jurídica do Estado. enfim. mas não o de chegada. lógico. é quase sempre repetir o fenômeno que decorre de se colocar.

Aqui.8.2.2. O critério dirimente é um só. que somente depois de passar pelo crivo jurisdicional de validade é que todo ato de reforma constitucional ganha o status de norma de primeiro escalão jurídico. e ele é de ordem hierárquica: ou as normas de reforma da Constituição guardam aquela conformidade processual e material que lhes assinalou a própria Constituição. Se tal ocorresse. o certo é que existe uma diferença qualitativa . não têm o seu regime jurídico ditado pelo código mesmo. óbvio. 3. os códigos por acaso existentes.6.entre as normas constitucionais originárias e aquelas que se lhe seguirem temporalmente. as emendas e revisões constitucionais se privariam daquilo que nem às leis comuns e aos demais atos oficiais do Poder Público é recusado: a presunção de juridicidade. verbi gratia) ou se expõem à declaração judicial de invalidade. ou. Seja qual for a hipótese de desaplicação ou de desconsideração operacional do ato de reforma. ou complementação.2. não gozam. tudo se encarta de modo igualitário numa única província jurídica. Esse condicionamento ou essa precariedade de inserção no Magno Texto não significa. 3. verbi gratia. de superioridade hierárquica frente às leis extravagantes (assim designadas por vagarem a latere do código). ora para um determinado caso (pelo trilho do controle difuso).2. 3. então. da especialidade material (a lei especial revoga a lei tematicamente geral. se constituem a parte central de tais ramos. Nos outros ramos jurídicos. Do que decorre a impropriedade técnica de se buscar nos códigos infraconstitucionais o fundamento de validade das regras legislativas que se lhes sobrevierem. assim. porque sindicável a todo instante quanto à sua validade. Eles não podem se autoexcluir do controle de constitucionalidade e isto já comprova que o seu modo de entrar no santuário da Constituição é sempre condicionado. Mantém com ele o mesmo tipo . 3.2. por conseqüência. mas não o contrário). nascidas posteriormente ao código. E repercute. sem a necessidade de nova manifestação formal do Poder Reformador. porque essa diferenciação repercute no campo hermenêutico. é procedente a diferenciação nominal.normas permanentes. O que vem a significar ingresso menos altivo dos atos de reforma da Constituição no próprio documento reformado é que esse ingresso pode ser confiscado. que. É incorreto falar-se de qualquer dos códigos infraconstitucionais como lei das leis de sua própria reforma. porque esse tratamento nominal diferenciado não tem a menor relevância interpretativa. ou de Direito Mercantil e Código Mercantil.3. menos altivo. Por isso que não cabe falar. (pense-se na intocabilidade das chamadas "cláusulas pétreas".2. Mas se trata de uma incorporação normativa sempre a título precário. Coisa que não existe em nenhum outro ramo autonomizado do Direito.nunca é demais enfatizar . ou de Direito Processual e Código Processual. a norma que penetrou na Constituição pode sofrer cassação de eficácia. e. a Constituição é a parte superior desse ramo jurídico. todavia.5. Não é esse o modelo de compreensão da dualidade temática Direito Constitucional/Constituição. Fora do Direito Constitucional. ou da especialidade de assunto. de Direito Penal e Código Penal. Ora de forma definitiva (pela via do controle concentrado). As eventuais antinomias normativas se resolvem pelos conhecidos critérios da posterioridade (a lei mais nova prepondera sobre a mais velha).7. à falta de hierarquia entre os respectivos comandos legais. 3. Por conseguinte. ou seja.4. mais que segmento central do Direito Constitucional. Leis extravagantes. 3. pela cristalina razão de que as eventuais antinomias entre a Constituição e as normas constitucionais que lhe sejam posteriores já não se resolvem por aqueles dois critérios da posterioridade do espécime normativo.

4 3. e não simplesmente do ângulo de dentro. no mais alto patamar do esquema de supra-infra-ordenação em que o Direito consiste? 3. A Constituição e a fuga de suas normas a exame de validade 3. todavia. A Constituição faz parte do Ordenamento. solitariamente. 3. que a Lei das Leis é totalmente imune a exame de validade aclara a precedente afirmativa de que ela não inova o Ordenamento Jurídico.3.3.3. Afirmar. é porque tem a força originária de dispor sobre o regime jurídico destas últimas. nenhum ramo ordinário do Direito comporta o que o Direito Constitucional incorpora: a dicotomia entre as suas próprias normas. E só pode tê-lo.2. não apenas superior. 3. 3. 3. porém como algo situado do ângulo de cima. Não que a Magna Carta vigore apenas ao lado do Ordenamento.8. pois como inovar uma coisa ou entrar em algo que só passa a existir. fosse produzida por uma autoridade do Sistema Normativo. e não a Constituição com o Ordenamento).7. dado que operante de uma norma para a outra. seja completamente insubmissa a exame de validade jurídica. Ora. não entra em um anterior Ordenamento Jurídico.3.3.3. por virtude da Constituição mesma? 3.9. como exigi-la para a Constituição Positiva. não há como fazer o cotejo internormativo em que se exprime o juízo de validade. Ao cabo e em síntese. MERKL. E isto já inviabiliza qualquer tentativa de se impor à Constituição o exame de validade. VERDROSS). então. sendo a validade uma qualificação internormativa.5. se a Constituição Positiva já aparece como norma superior a todas as outras? Postada.1. assim. Se ela é o início lógico de toda positividade jurídica (KELSEN. No fim das contas. o Ordenamento já não seria piramidal ou ortodoxamente hierarquizado. se a Constituição não deixa que suas normas se nivelem às normas constitucionais que se lhe seguirem no tempo. o modo de ela mesma sair desse Ordenamento é igual àquele pelo qual entrou: a suprapositividade. é preciso que a norma qualificante seja. pelo fato evidente de que a Constituição desconhece norma positiva que lhe seja anterior. pelo critério da hierarquia. Aqui. sim. para ao Sistema pertencer para sempre. como anterior à norma qualificada. É uma das suas mais importantes especificidades.3.3. na medida em que ela. A cúpula do Ordenamento é que se objetiva na Constituição e esse estar por cima é o modo especialíssimo pelo qual se dá a interpenetração das duas realidades: a da Constituição e a do Ordenamento. Por outra perspectiva. que a Constituição dá origem ao conceito de validade como atestado de filiação de uma norma ao Ordenamento Jurídico. Constituição.3. se o modo de a Constituição fazer parte do Ordenamento não se dá por virtude de nenhuma outra norma (o Ordenamento é que principia com a Constituição. não é a Constituição que deita raízes no exame de validade. sem a companhia de qualquer outra norma.3. e aí toda noção de validade seria praticamente vã.4. no plano lógico. 3. O que não significa dizer que exista diversidade hieráquica no interior da própria Constituição originária.6. Constituição. não tem merecido da doutrina o devido realce. Com efeito.5 Sem ela. 3. que. Por outro aspecto.2.hierarquizado de relação que entretece com o próprio Ordenamento como um todo. sendo a validade uma espécie de ticket ou bilhete que uma norma inferior recebe da que lhe seja imediatamente superior para ingresso na região das positividades jurídicas. Bastaria que a norma existisse. logicamente. mas o exame de validade é que deita raízes na Constituição. que é o . É mesmo por surgir no mundo cultural como o ponto mais alto da pirâmide jurídica. como um pouco mais à frente comentaremos. Paralela a ele. todas as normas são paritariamente constitucionais.

3. todavia. sejam as regras iniciais da antiga Lei Maior. em alguns casos.4.4.9. não tenham sido geradas nem pelo Poder Constituinte nem . querendo. até mesmo sobre relações jurídicas em concreto.1. a Constituição originária se caracteriza pela força de romper compromisso com as normas jurídicas anteriores a ela. pois a Constituição Positiva. Como derradeira ilação do fato de a Lei Maior eximir-se por completo de exame de validade. E é precisamente por ter a Constituição a força de incidir. além de se revelarem acordes com a nova Lei Fundamental em conteúdo. conseguintemente.1. assim. A subsunção que se passa a fazer no seio do Ordenamento. com os efeitos concretos dessa ou daquela regra antecedente. no interior do mesmo Ordenamento.2. Com uma exceção. Cuidando-se de velhas normas gerais de natureza constitucional. se tais normas apresentarem conteúdo discrepante daquele que timbra a nova regração constitucional. 3. que tanto comporta uma passagem traumática ou violenta de uma Constituição para outra quanto uma substituição consensual ou negociada. Desde que tudo se aloje num plano igualmente abstrato. e. em dispositivo logicamente passageiro ou transitório).4. A Constituição e sua retroeficácia de dupla face: em abstrato e em concreto 3. Não necessariamente no plano do ser.1. Ela pode conformar toda e qualquer matéria. Do que deflui o primeiro sentido da retroeficácia da Constituição: ela não aceita. no preciso falar de CANOTILHO). de compromisso com a preservação de norma jurídica anterior. não haveria mesmo de tolerar outras normas gerais com ela conflitantes em conteúdo (a não ser nos termos e condições em que o dissesse. Da lei infraconstitucional para a Lei Fundamental. em abstrato 3. Donde a compreensão de que todo ato de convocação ou de instalação de um órgão de deliberação constituinte só pode implicar rompimento constitucional no plano do dever-ser jurídico ("ruptura ou descontinuidade". que normas igualmente abstratas continuem a gerar efeitos. nada sobrevive ao novo Texto Magno.1.1.4. isentando-se. em suas disposições permanentes. aduzimos que essa proposição está imbricada com outra: a aptidão que tem a Constituição originária para não conhecer tabus materiais. é indiscutível a prevalência automática do regramento de estirpe constitucional. as antigas normas gerais que entrarem em sintonia material com a nova Carta são instantaneamente carimbadas como normas sobreviventes. sendo norma geral ou lei em sentido material. Sem dúvida. é o habitat ou espaço natural de existência da Carta Magna.3.3. A retroeficácia da Constituição.1. Pelo ângulo reverso. 3. A abstratividade. sejam as oriundas de reforma a essa Constituição precedente.4. pois ela chega para ocupar espaços que são próprios de todas as leis em sentido material. é precisamente por isso que se fala não haver direito adquirido contra ela.4.4. A questão que se põe não é essa. com a Constituição passe a entrar em rota de colisão no plano material. após a nova Constituição. O princípio da recepção é seletivo por mais um título.reino da sempre originária manifestação do Poder Constituinte. 3.6 3. é logicamente do tipo norma a norma. Ninguém melhor do que o Chefe da Escola de Viena para falar sobre a instantânea perda de eficácia de toda norma que. explicitamente. pois somente alcança aquelas normas gerais anteriores que. gestada antes da Constituição.

ou da coisa julgada.2. A retroeficácia da Constituição. 3. 3. Ao contrário. pois.3. a liberdade. em concreto 3.4. mesmo. ou o período. por forma a revelar sua claríssima intenção retro-operante. agora. quando o teórico se desloca do campo das precedentes normas gerais para o sítio das normas de efeitos concretos. 3. o ato jurídico .pelo Poder Reformador.4. Tudo muda de perspectiva.2. Ela não chega para atuar enquanto norma de efeitos concretos. A não ser que o diga por forma inequívoca. sobre o qual nada é preciso dizer.1. segundo a qual "a lei não prejudicará o direito adquirido. Constituição. a Constituição não mais está no seu habitat. O silêncio da nova Carta já opera como cassação de eficácia das velhas normas gerais cujo conteúdo com os dela própria se tensionar.4. Daí a freqüente positivação de todos eles como típicas figuras de Direito Constitucional. ora em situação de desarmonia. uma das históricas razões-de-ser das Constituições escritas. no gozo de sua condição ímpar de norma que provém de um poder que tudo pode. Não! A retroeficácia constitucional não chega a tanto. o novo Diploma Fundamental passaria a se caracterizar pela intransigente negação daquilo que é uma das impressões digitais de todo Magno Texto: operar como a parte mais estável do Ordenamento Jurídico.1.2. É falar: sempre que a nova Carta Política se deseja topicamente aplicável a relações já factualizadas por virtude de normas antecedentes. para retroincidir sobre situações já consolidadas no universo jurídico-particular das pessoas tem que fazê-lo por explicitude. em que a sua parte permanente deixa de incidir). nem por se traduzir na força de zerar a contabilidade jurídica a nova Carta há de ser interpretada como automaticamente inconvivível com toda e qualquer relação jurídica nascida e até resolvida à sombra do velho Ordenamento.1. O plano retroeficacial já não é o mesmo.4.5.2. invariavelmente erigido à condição de megaprincípio. É justamente para ressalvar a sua excepcional vontade objetiva de retroagir sobre essa ou aquela relação jurídica em concreto que toda Constituição Positiva se faz acompanhar de uma parte transitória de dispositivos (de parelha com a necessidade de indicar os casos. se tal ocorresse. de permeio com a própria vida. porque tais situações jurídicas são constitutivas do direito adquirido. ou então para estancar efeitos que tais normas ainda estejam a produzir entre partes nominalmente identificáveis. ora em regime de harmonia conteudística. pois expressamente passa a dizer que relações jurídicas são essas. Aquele pedaço do Direito que mais prestigia o princípio da segurança jurídica. ou do ato jurídico perfeito. a norma constitucional que versa a matéria (inciso XXXVI do art. pois.4. o teórico tem que se perguntar até que ponto um novo Código Supremo possui aptidão para desfazer efeitos que normas jurídicas anteriores já produziram à exaustão. 3. institutos em que mais fortemente reluz o protoprincípio da segurança jurídica. da sua postura no âmbito do confronto entre normas gerais (as da Constituição e as do Direito não-constitucional precedente). 3. no mínimo. Realmente. ou. a igualdade e a propriedade (postulados liberais que marcam para sempre a trajetória das Constituições escritas). ela mesma reconhece que se trata de aplicabilidade insólita. pois o fato é que.6.4. para com outras normas de efeitos concretos se encontrar. sempre que tais relações concretas se friccionarem com os novos comandos constitucionais. porém. 5°.2. E assim tem que fazê-lo. Aqui. No Brasil. Ela.

em conteúdo.4. com a nova regração constitucional.uma generalizada exumação de relações jurídicas em concreto faria do novo Código Político um diploma normativo tão confessadamente odioso que tocaria os debruns da insanidade.7. uma norma geral anterior de conteúdo discrepante. na medida em que: I .7 3.que é expressivo . a estabilidade que a nova Constituição imprime àquelas que se produzirem a partir dela mesma. é de se presumir como operante para as que se produziram antes da nova ordem constitucional. Do terrorismo normativo. o que terminaria por retirar da Constituição a própria possibilidade lógica (eficácia) e social (efetividade) de incidência.para ressalvar a eficácia temporária de norma geral com ela (Constituição) em . até mesmo por via de emenda constitucional (inciso 4° do § 4° do art. Colocaria a sociedade em polvorosa ou de pernas para cima. do ato jurídico perfeito e da coisa julgada exijam um tipo de interpretação que se traduza no seguinte: a garantia em que elas se constituem na nova Ordem há-de ser uma confirmação daquela igualmente reconhecida pelo velho Ordenamento. Reversamente. ou se a parte permanente da mesma Carta agasalhar normação que prime pela hostilidade à continuação tipológica de qualquer delas.4. para manter por algum tempo.2. ou em dadas circunstâncias. pois o febricitante revolver de sepulturas jurídicas teria que alcançar relações cujos autores seguramente já não estariam neste mundo de "aquém-túmulo" (MÁRIO DE ANDRADE. no desfrute dessa altaneira posição intra-sistêmica. principalmente. Ora. Para sonegar eficácia às normas gerais anteriores e de conteúdo discrepante. a nova Constituição nada precisa dizer. ao tempo da promulgação do Magno Texto. O silêncio da nova Carta cumpre um papel de preservação do que já gozava de concretitividade.5.2.para estancar a eficácia das normas gerais anteriores com ela discrepantes. Como nada precisou dizer para preservar a operatividade daquelas não-discrepantes. o poeta).6. ainda que dela desbordantes.2. Direitos e garantias que vão compor uma paliçada defensiva dos particulares contra o Estado. Em sede de relações concretas.4.4.reconheçamos . natural que as três estelares figuras do direito adquirido. 3. e que ainda são clausulados como tema insuscetível de nova conformação de menor carga protetiva do indivíduo. 60). A Constituição Brasileira de 1988 é um bom retrato falado do que estamos a proposicionar. 3. Principalmente se considerarmos o tempo médio de vida de uma Constituição . portanto. II . 3.perfeito e a coisa julgada") faz parte do capítulo atinente aos direitos e garantias individuais e coletivos . Como precisa dizer que relações em concreto (já carimbadas pela velha Ordem como situações ativas de caráter permanente) passarão a sofrer desfazimento ou paralisia eficacial. se tais modelos se revelarem desafinados. Salvo se regra transitória da nova Constituição lhes cassar por modo expresso a respectiva eficácia.2. a Constituição precisa dizê-lo. Até porque .4. Tudo se resume em saber distinguir entre o que existia enquanto modelo jurídico em abstrato e enquanto modelo jurídico em concreto. Dupla e díspare função do silêncio normativo-constitucional. Reiteremos o juízo. nada precisou dizer. Como nada precisa dizer para manter íntegras as relações em concreto que vier a encontrar (desde que tais relações contenham o timbre da definitividade). tanto quanto cumpre um papel de não-preservação dos modelos jurídicos apenas existentes no plano da abstratividade. Constituição.e a freqüente imemorialidade de certas relações jurídicas em concreto (qual o marco temporal da retroação da nova Carta? A última Constituição? A penúltima? A primeira delas?). pela sua estratégica importância.

desde que o Poder Judiciário não as declare inválidas. o Tribunal Federal de Recursos exercerá a competência a eles atribuída em todo o território nacional (. todos os dispositivos legais que atribuam ou deleguem a órgão do Poder Executivo competência assinalada pela Constituição ao Congresso Nacional. que "Na liquidação dos débitos. não existirá correção monetária desde que o empréstimo tenha sido concedido: (. 3. 3. sacou de preceitos desta espécie: a) "Art. ato jurídico perfeito. ilustrativamente: a) atacou o direito adquirido. pois somente ela.4.)". incluído o remanescente de juros e correção monetária. no prazo máximo de oito anos. com atualização. por decisão editada pelo Poder Executivo até cento e oitenta dias da promulgação da Constituição". ou coisa julgada.. não se admitindo. para poder se autoexcluir. de par com atos jurídicos perfeitos. agora. até o modus in rebus ("para cada coisa existe a sua medida própria") deixa de ser admitido.. especialmente no que tange a (. no art. o equacionamento jurídico da questão muda acentuadamente de foco.1. 33. o olho do analista deve se deter é no originário modo pelo qual a Lei Maior dispôs sobre a matéria. que deve ser recebida em termos ou sob a prudente cláusula do modus in rebus a asserção de que "não há direito adquirido contra a Constituição".3. em prestações anuais.4. O mencionado inciso XXXVI do art. de incidência perante as três emblemáticas figuras.3. ao rezar que "Os vencimentos. nem da coisa julgada. iguais e sucessivas.estado de fricção material. Percebemos. quando o cotejo se dá entre a normatividade das emendas e as multirreferidas situações jurídicas em concreto (que são relações já permanentemente ornadas de subjetividade). é claro que a primazia é das emendas. 5° da Constituição de 1988 não nos . Assim é que..3.3. § 7°. A retroeficácia apenas em abstrato das emendas à Constituição 3. emenda não é a matriz normativa do direito adquirido. Constituição originária. 47.)". b) "Art. é que tem o condão de se colocar para dentro ou para fora da faixa da retroincidência.4.8 b) imiscuiu-se no conteúdo de decisões judiciais com trânsito em julgado.)". que "Ressalvados os créditos de natureza alimentar. neste caso. porque. ou não. por conduto do artigo 17. contudo. a remuneração. III . (. a partir de cento e oitenta dias da promulgação da Constituição. poderá ser pago em moeda corrente. decorrentes de quaisquer empréstimos concedidos por bancos e por instituições financeiras. as vantagens e os adicionais. nem do ato jurídico perfeito. ao estatuir. Todavia.8. ao prescrever. sujeito este prazo a prorrogação por lei. 3.. Até que se instalem os Tribunais Regionais Federais.3.). bem como os proventos de aposentadoria que estejam sendo percebidos em desacordo com a Constituição serão imediatamente reduzidos aos limites dela decorrentes.2. não deixou de se fazer explícita no seu corpo transitório de dispositivos. Em Estados como o Brasil. de conseguinte.. Ficam revogados.4.. ainda que ajuizados.. o valor dos precatórios judiciais pendentes de pagamento na data da promulgação da Constituição. Quando o confronto a fazer é entre as normas gerais das emendas e as normas gerais de vinco infraconstitucional. 3.. a partir de 1° de julho de 1989. de confrontar situações em concreto com os atos de reforma constitucional. 25. inclusive suas renegociações e composições.para rever o passado das pessoas que já encontrou na posição de partícipes de relações consubstanciadoras de direito adquirido. 27°. Tratando-se. no art.2. c) voltou a mexer no teor da coisa julgada.4. invocação de direito adquirido ou percepção de excesso a qualquer título".

5°. ou ainda de uma decisão judicial em estado de irreformabilidade (coisa julgada). a repercutir no restrito universo de certos atores. eles perdem o referencial da suprema bondade. não admite revogação. E tudo é permitido (acrescentamos). dado que faz parte da relação dos direitos e garantias individuais. ou por reconhecimento de um ato jurídico que se aperfeiçoou nos seus elementos formadores (ato jurídico perfeito). os atos jurídicos perfeitos e as coisas julgadas que vierem a ocorrer. é de que ela é uma cláusula pétrea em si mesma. ou prolatada a res judicata. mas não veicula.deixa em desamparo argumentativo. já não podem sofrer desfazimento. Logo. no despenhadeiro da barbárie ou da guerra de todos contra todos. O que fica intocável.3.6.4. porque já não faz sentido vedar para os crentes coisa alguma. com toda ênfase. 3. nem ato jurídico perfeito. da suprema verdade e da suprema justiça. já não é a norma geral. se já não se proclama. A norma do inciso XXXVI do art.5. ou coisa julgada. da suprema beleza. Tudo em homenagem ao basilar princípio da segurança jurídica. enquanto "pedaço de vida humana objetivada" (RECASÉNS SICHES). de pedaço de vida humana objetivada a pedaço de vida humana subjetivada. nem mesmo por emenda constitucional. sobre ser de eficácia completa e aplicabilidade imediata ou não-di ferida. em caráter definitivo. 3.4. O que ele proclama é a garantia de que o direito que se adquirir por virtude imediata da lei (direito adquirido. pois. porque restritamente subjetivo. Ele consagra um tipo de garantia contra a função legiferante do Estado.10 II . Sejam os efeitos deflagrados imediata e exclusivamente pela norma em abstrato (direito adquirido). ou quebrantamento. ou de coisa julgada. Agora. por si mesmo. permanentes e identificáveis pelos nomes patronímicos ou nomes pessoais dos seus beneficiários.9 3. mas não é exatamente isto o que sucede com todos os seus efeitos. Continuam. e. ou da decisão judicial que se transformou em coisa julgada.3.8.7. O dispositivo em tela consigna "uma garantia" (PAULO MODESTO). a existência desse princípio. é aquela dimensão da norma geral que passou. quem sabe. sem Deus. sejam aqueles que precisaram de confirmação pela via do ato jurídico dito perfeito.4. ou sequer derrogação amesquinhadora. gozarão igualmente de petrealidade.11 3. agindo este assim no exercício da função legislativa usual como da função reformadora. a factualizar-se no processo de aplicação/criação do Direito Objetivo. o que fica a salvo de retroatividade da lei não é o dispositivo sob cuja preceituação nasceu o direito apelidado de adquirido. mais que isso. o corolário será aquele de que falava DOSTOIÉVSKI a respeito do próprio Deus: "Se Deus não existe. pois.3.3.4. . Aqueles efeitos que já se exteriorizaram sob a forma de direito adquirido. A distinção essencial é esta: a norma geral. Não! O que fica imune à retroatividade danosa da nova lei são determinados efeitos da velha regra legal. porém num sentido tópico ou pontual. ou de ato jurídico perfeito. Expliquemos. propriamente). rolando. pode ir embora do Ordenamento (por revogação). paralisia. mas determinados titulares do direito por ela ensejado. ou ter a sua carga protetiva quebrantada (por derrogação).o primeiro. Note-se bem. esse direito assim qualificadamente adquirido será um direito completamente a salvo de prejuízo por lei posterior.4.4. íntegros. Regra em si mesma ou objetivamente protegida contra a função legiferante do Estado. O que se protege.o segundo raciocínio traduz-se em que os direitos adquiridos. 3. ou foi expedido o ato jurídico perfeito. então tudo é permitido".3. portanto. nenhum direito adquirido. implica dois raciocínios jurídicos: I . pois já passaram de efeitos objetivos a subjetivos. então.

na matéria 3. Queremos nos reportar a certas restrições diretamente constitucionais àquele tipo de liberdade contratual que não se orna de conteúdo econômico ou mercantil.4.3. são normas gerais que se interpenetram no tempo. mas sem a possibilidade de se entrecruzar no espaço de movimentação daqueles sujeitos de relações que se tornaram ativas por virtude do direito adquirido. ou industrial. a saber: . Titulares sempre em estado de precariedade.4. na medida em que adstrita à subjetividade de atores em concreto.4. as prefigurações espocam e trazem à nossa mente outras situações que também parecem não se compadecer com a figura do direito adquirido. 3.4. mas conserva. Nem por isso deixa de ser direito adquirido. Por exemplo. Uma coisa a lembrar: certas situações jurídicas ativas são incompatíveis com a figura do direito adquirido porque têm a particularidade de nascer mais condicionadas pelos interesses da sociedade do que condicionando tais interesses. O fenômeno da ultra-atividade.2. Razão pela qual os seus titulares nunca deixam de ser eventuais titulares. o que é bem diferente).4.4. É compreender: onde continua a operar a velha regra geral ou abstrata. os efeitos que já deflagrou ou ainda está a deflagrar na vida de determinados agentes. uma exceção à liberdade núbil das pessoas. para essa norma geral. a que vigia entre nós a respeito do divórcio. nominalmente identificáveis.4.4. Diga-se o mesmo do uso de um automóvel em via pública. se se modificam as leis de zoneamento do respectivo Município. mas a ausência do direito subjetivo de se divorciar.12 Enfim. de remoção por emenda constitucional. Ou.4.1. apenas. Significava. Essa ultra-atividade ou ultra-operatividade é apenas tópica ou pontual (por isso que relativa). 3. Em todas as três situações em concreto. pois o exercício pode ficar pendente de pressupostos. pois que de direito adquirido não se tratava (não existia o direito subjetivo de não se divorciar . porque. o que se tem é o fenômeno da "ultra-atividade" relativa da norma geral de que elas derivaram. passível. Ou no que tange à localização de um estabelecimento mercantil.4. com a emenda n° 9/77 à Carta de 1967). Outra coisa a lembrar é que o direito subjetivo que se eleva ao patamar do direito adquirido (o adquirido é um plus em relação ao direito subjetivo) pode até não se encontrar em fase de exercício. a nova não pode incidir.renove-se o juízo -. ou seqüencia (conforme o caso).3. que a liberdade de contrair novas núpcias estava constitucionalmente cerceada. como.4. O que vigorava era uma restrição. ou da res judicata. Isto não significava que as pessoas civilmente casadas tivessem o direito adquirido a permanecer privadas da possibilidade de se divorciarem (não há direito adquirido à privação ou à inibição do próprio fazer ou do agir). por exemplo. 3. um novo marco temporal se estabelece: ela já não deflagra os efeitos inéditos que estava apta a deflagrar no universo particular de novos atores jurídicos. Ou ao fato de servidores públicos se encontrarem sob determinado regime de trabalho. Ou quanto à detenção de certas competências administrativas perante o administrado. o proprietário de um bem de produção jamais pode se eximir de normas legais quanto a certos modos de pôr o seu bem a render e quanto à fiscalização do Poder Público sobre esses modos econômicos de exercício de direito. Sem que nenhum dos membros da sociedade conjugal que se desfez pela via do desquite pudesse contrapor à retroincidência da emenda a tese do direito adquirido. por inversão de pensamento: onde tem que deixar de incidir a nova regra geral ou abstrata. continua operando a velha regra. ou do ato jurídico perfeito. a qualquer tempo (como veio a suceder. Logo. no entanto. em nosso País.

não como requisitos de obtenção do direito (matéria de outra norma).daqui não se deduz.5. que. e os fundamentos então lançados parecem-nos resistir a contraditas. o seguinte esquema de interpretação: I .1. quer referentemente aos direitos concedidos por regra constitucional. "a separação dos Poderes" e "os direitos e garantias individuais" (de cuja relação a garantia dos direitos adquiridos faz parte. 151/161). em parceria com VALMIR PONTES FILHO ("DIREITO ADQUIRIDO CONTRA AS EMENDAS CONSTITUCIONAIS".4. como se dá. Nada disso! As emendas constitucionais podem tudo que a lei pode e vão além: podem tudo que a lei não pode. "a forma federativa de Estado". por conveniência do respectivo empregador. e a norma igualmente geral que dispõe sobre a implementação de termo ou de condição para a empírica fruição daquele mesmo direito que a primeira norma elementarizou. por hipótese. quando o Código Político substitui o silêncio pela fala expressa é para dizer o que elas não podem. podendo efetivamente se entronizar no gozo do que é seu. Melhor técnica legislativa.tudo que a lei está habilitada a fazer fica inteiramente à mercê das emendas constitucionais. o ato jurídico perfeito e a coisa julgada"). Pronto! É esse racional esquema de exegese da Constituição que explica o fato de ela própria.4. 3. ano de 1997. convencidos que estamos de que a Lex Legum encerra.. prefere a inação. II. ou do preenchimento de certa condição. Ou como sucede com o direito à aposentadoria voluntária.3.5. Constituição. por exemplo. impossível! Se a Constituição de 1988 fala a toda . que tudo aquilo que a lei não esteja habilitada a fazer fica também interditado às emendas. "o voto direto. porém gozadas até o final do ano subseqüente. 3. aduzimos que não tem relevância o fato de a legenda constitucional somente incluir a lei (não a emenda) como norma proibida de retroagir para prejudicá-los ("a lei não prejudicará o direito adquirido.5. de dizê-lo às expressas. Já enfrentamos academicamente a questão. secreto. Elas não podem incidir sobre as matérias clausuladas como pétreas ou intangíveis ou irreformáveis. como. quer os deferidos por outra modalidade de lei em sentido material). e.I . estudo publicado no bojo da coletânea DIREITO ADMINISTRATIVO E CONSTITUCIONAL. é preciso distinguir entre a norma geral que indica os pressupostos de obtenção do direito. ou delegadas. etc. universal e periódico".o aguardo do lapso temporal. ou seja. A inclusão das emendas à Constituição no conceito genérico de "lei" 3. na matéria. Mas prefixados. II .4. Retornando a lidar com o bloco dos três institutos. prefixados pela própria norma geral. Ampliamo-los até.4. sem que a Magna Carta necessite. nesta oportunidade. 3. Malheiros Editores.2. Em tema de suas próprias emendas.4. que. II . somente será exercitado quando da expressa manifestação do respectivo titular (por isso que tal modalidade de aposentação é chamada de voluntária).).. Não há necessidade da indicação desse vínculo entre determinadas matérias e a conformação normativa por via de emenda.a própria vontade do titular do direito.5. vol. ou complementares. jamais dizer sobre que matérias podem recair as emendas.5.4. pp. portanto. com as férias anuais de um trabalhador: são adquiridas a cada ano de trabalho. porque a emenda pode tudo que a Magna Carta reserva para as leis (pouca importa se leis ordinárias. como requisitos do respectivo exercício. 3. uma vez obtido. salvante recair sobre matérias clausuladas de petrealidade pela Constituição. Dois momentos inconfundíveis de normatividade abstrata. sim. entretanto.

está liberando qualquer delas para interditar o acesso de toda pessoa privada às instâncias judicantes.9. O raciocínio será retomado no capítulo entrante.4. naquelas matérias que desfrutam de intangibilidade perante a ação legislativo-conformadora do Estado (que são matérias apropriadamente chamadas de pétreas). que a referência à lei.7. 3. em nossa Constituição.4. seja para interditá-los. cit. E nessa hipótese.13 3. sempre que a Magna Carta impuser proibição ou simples limitação à faina legislativa do Estado. O mutismo da Lex Legum quanto às emendas é de nenhuma importância hermenêutica. 5°.5. na matéria. a banalização das emendas (que fatalmente ocorreria pela técnica de se dizer tudo que a elas competisse. ato jurídico perfeito e coisa julgada. mas aqui mesmo nos permitimos retomar o que dissemos em co-autoria com VALMIR PONTES FILHO (ob.5. que. enquanto veículo de imposição de deveres de conteúdo positivo. pois. É que a nossa Constituição também só mencionou a lei. que permanece formalmente a mesma. 85).4. Daí que aceitar a retroação de emenda para desrespeitar o direito adquirido passe a significar a possibilidade de retroação também para o desrespeito às duas outras situações jurídicas ativas.5.5. não! Diga-se o mesmo da norma constitucional que proíbe a lei de excluir da apreciação do Poder Judiciário "lesão ou ameaça a direito" (art. Remarque-se ainda que a regra-matriz do direito adquirido. cairíamos todos numa contradição grotesca. Por isso que alcança todos os espécimes legislativos de que trata o art. Fala é da lei e das decisões judiciais (inciso VII do art. E a falta de menção às emendas significaria a imprestabilidade delas para obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa? A toda evidência. quer no tocante à regra permanente que ela venha a embutir na Magna Carta. . E o raciocínio é o mesmo: descumprida que seja qualquer emenda constitucional. De outra parte. em tema de direito adquirido. Que se entenda. tintim por tintim) acarretaria a banalização do próprio Texto Magno. 35). uma vez descumpridas. nas entrelinhas. é uma referência ao Direito-lei. 3. inciso XXXV). quer no tocante à regra simplesmente transitória que venha a aportar. A Constituição não pode prestigiar tanto as suas emendas a ponto de dar a sua vida por elas.hora das leis. no capítulo "DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS". 34 e parte final do inciso IV do art.5. o ato jurídico perfeito e a coisa julgada?14 3. as conseqüências serão iguais às do descumprimento de lei ou de decisão judicial. é a mesma do ato jurídico perfeito e da coisa julgada (inciso XXXI do art. não a emenda.5. nem por silenciar quanto às emendas. 3. 59. se do seu conteúdo já não fazem parte o direito adquirido. que pedir o adjutório delas é reqüestar a edição das emendas. De revés. fosse um abre-te sézamo para a edição das emendas. insista-se. ou negativo ("ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei"). ainda ensejam a intervenção da União nos Estados e dos Estados nos Municípios (inciso VI do art. é porque já prescreveu.8. salvante. a aterradora pergunta que se faz é mesmo esta: de que vale o megaprincípio da segurança jurídica.6. seja para lhes franquear certos conteúdos. 5°).4. E interditar as leis não é interditar as emendas. São estas premissas que nos permitem compreender que se constitui em crime de responsabilidade o ato do Presidente da República do Brasil que implicar descumprimento de qualquer emenda constitucional. que. embora a nossa Magna Carta não fale do descumprimento das emendas como fato-tipo do citado delito. nenhum mal existe em reqüestar a todo instante a lei porque a banalização da lei em nada trivializa a Constituição.): se a referência constitucional apenas à lei. que já não seria formalmente o mesmo a cada emenda produzida.4.

estruturar órgãos. ao Ordenamento Jurídico por ele inaugurado. formal e materialmente. a função executiva e a função jurisdicional. como lei das leis é. É. Logo. ou a da natureza das relações normadas.1. ainda assim não se cuida de matéria privativamente constitucional. Constituição. os atos de jurídica manifestação das três funções básicas do Estado por ele instituídas: a função legislativa.5. O único cientificamente prestante. ou pelo critério da especialidade. O que pertence. atribuir competências.16 3. Ao contrário. Tem a condição material objetiva de se autoqualificar ou se autonominar como Constituição.5. ou o que não seja. que o Magno Texto só é realmente magno por cumprir esse papel de dizer o que seja. não podem pelo Poder Público mesmo ser legislativamente supressas.5. isto é.3.4. a garantia de que as outras irrestritas limitações impostas ao Poder Público. que é de ordem material.15 3. Esta nova disquisição tem que ser a continuidade de uma idéia já vertida para o papel. e os demais espécimes jurídico-positivos pode ocorrer.5. sempre ele) ortodoxa ou unitária. pois os espécimes normativos sucessivamente editados não teriam que se reconduzir à unidade formal do primeiro deles: a Constituição Positiva. impor deveres. ou por ele recepcionadas. prescrever finalidades e outros espaços de ocupação normativa.5. Reconheçamos. o Sistema de Direito Positivo já não teria uma única norma-começo. é a própria base lógica da elaboração do conceito formal de Constituição. pois as leis de que a Constituição é a lei suprema são as leis emanadas do Estado. Se os demais atos da ordem legislativa pudessem ditar o seu próprio regime jurídico. perpetuamente.5. Pois somente assim é que uma Constituição tem a força de ditar o seu próprio regime jurídico. que é simplesmente esta: somente a Constituição tem a propriedade de ditar o seu próprio regime jurídico. ou sequer atenuadas. Seria superior apenas pelo critério temporal ou cronológico (a lei mais nova a preponderar sobre a lei mais velha no tempo). Tudo isto fica ao dispor de muitos outros atos que a própria Constituição menciona como veículos de normas jurídicas gerais. pela Constituição originária. têm que permanecer como irrestritas limitações. O exclusivo regime autoditado da Constituição 3. A Constituição e seu exclusivo papel de fundar e monitorar o Ordenamento Jurídico . no fundo. o reconhecimento da existência de uma lei que nasce para governar as outras leis. Mesmo em se tratando de imputar deveres ao Estado e conceder direitos contra o Estado. A Constituição como a lei das leis 3.1. 3.1.5. pois nenhuma norma seria hierarquicamente superior a outra na dúplice dimensão formal e material.2. enfim.1. E sem outra hierarquia internormativa que não fosse a da lei mais recente. uma norma de aplicação dele próprio. Privar-se-ia da sua característica central de Ordem Jurídica de "supra-infra-ordenação" (KELSEN. 3. a mais importante das limitações impostas ao Estado.as emendas no meio (inciso de n° I). então. ou não sejam.2. ou o que não pertence. Não é por aí que a discriminação entre ela.1.1. o Ordenamento já não seria uno quanto ao modus faciendi dos elementos do seu repertório. 3. Essa particularidade que tem a Constituição de operar. Quais sejam. sinta-se que não é exclusivo da Constituição o mister de conferir direitos.

traços ou valores para cuja proclamação teórica e persecução empírica a própria Constituição foi elaborada. De fato.5.2. A Constituição é também carente do Ordenamento Jurídico.2. assim. por conta própria.. 3.5.2. sem que tais normas possam. à vida do Ordenamento. O Ordenamento Jurídico é que é Ordenamento Jurídico por se fundar numa Constituição Positiva.17 3.18 3. e o que sucede? Uma mudança tal de qualidade a ponto de se poder proclamar que de Constituição já não se cuida. o ortodoxo papel de norma-começo do Ordenamento só faz sentido se a Constituição permanecer dando as cartas no interior desse Ordenamento.2.2. tem uma boa parte dos seus desideratos cumprida.5.5. isto é. alterar esse regime.3. então.2. a metodologia de trabalho que a torna primus inter pares. um reclamo de contínua referência ao Ordenamento. O método específico da Ciência Jurídica para conhecer o seu objeto deixa de significar. 3. 3. porque pelas normas gerais e individuais do Ordenamento é que ela.5.3.4. Logo.3. se se deixa ao próprio sujeito limitado a possibilidade de tudo mudar pela via legislativa? Um mínimo de irreformabilidade há de conter a Constituição perante o Estado. a sua causa formal. ou seja. O campo divisional da Constituição perante as outras normas do Direito reside unicamente nisto: só a Constituição é que pode fundar o Ordenamento Jurídico e permanecer o tempo inteiro como referencial de todas as outras normas positivas que se integram nesse mesmo Ordenamento. porque.5.5. não de si mesmo. isto é. Não teria. Não! Ela também precisa do Ordenamento. Constituição. pois é fato que ela não depende somente da sua própria realidade para cumprir todos os seus desígnios. tanto alusivamente às condutas comissivas quanto as de absenteísmo. Se é próprio da Constituição aplicar limites formais e materiais ao Estado. A Constituição enquanto fonte.2.6. com o seu próprio nascimento. 3. em última análise). Não que a Lei Maior venha a prescindir do Ordenamento. devemos insistir no enunciado de que a Constituição Positiva não é Constituição Positiva por se fundar num Ordenamento Jurídico. Sem demasia na comparação das coisas.5. como se desdobrar em comandos necessariamente instrumentais dos seus comandos básicos. Subtraia-se da Constituição a exclusividade desse mister de fundar o Ordenamento e manter sob o seu controle o modus faciendi e o conteúdo dos outros modelos normativos. não é tanto pelo conhecimento do Ordenamento que se conhece a Constituição.7. Esta a sua natureza. Não teria as outras leis e demais normas positivas sobre o que imperar. tem assegurada a sua contínua aplicação. para implicar uma exigência de ininterrupta referência àquela parte do Ordenamento que se chama Constituição. Para tanto. porém da Constituição em que se inicia e para a qual se destina.1. 3.5. como tornar essa imposição concretamente eficaz. quer os limites positivos. bússola e ímã .. sem ele. enfim. ela não teria o que dirigir. E é mesmo para o cumprimento dessa parte dos seus desígnios que ela dá início. mas pelo conhecimento da Constituição é que se conhece o Ordenamento. na exata medida em que isto signifique preservação daqueles traços que dão a ela uma identidade fisionômica. por ser a Constituição a parte que explica e até justifica o próprio todo (visto que o todo do Ordenamento está a serviço. ela tem que prescrever o regime das outras normas jurídicas.2. quer os negativos. A parte a preponderar sobre o todo.

. os demais espécimes normativos têm que ficar para sempre submissos aos termos em que o Poder Constituinte veio a se formalizar. p. Queremos dizer: o que dá pleno sentido a uma norma jurídica não é apenas o seu discurso prescritivo.3.6. na linguagem religiosa do Antigo Testamento. É perseverando no controle de todos os demais espécimes jurídico-positivos. para reverenciá-la.3. Mesmo quando se trate de revisões ou emendas à Constituição. vol. segundo o qual o órgão delegado não pode. a lex legum. 82). esse Direito não pode atribuir a si mesmo aquilo que é a própria ratio essendi formal da Constituição: o existir como a norma normarum.4. Uma folha cujo talo se partiu e ainda assim pretenda sobreviver de sua própria seiva (?). por sua conta. como se o Ordenamento fosse uma pessoa incapaz de sair da menoridade. Esse tríplice mister de se colocar perante o Ordenamento como fonte. mas não o libera para crescer inteiramente à solta.5. um só. para se manter como permanente referencial do Ordenamento. pp.5.5. tanto quanto o Poder Reformador tenta descambar.5. historicamente. E é nesse rigoroso esquema de supra-infra-ordenação que a Constituição pode fazer do Ordenamento. 3. 3. A norma pós-Constituição não fala sozinha. reenviando-os a si mesma. portanto. Podemos até mesmo dizer que. A Constituição cria o Ordenamento. 3. para a zona de conformação normativa que é apanágio do Poder Constituinte. 115/116).5.a comparação é nossa . Naquilo que é a própria causa formal ou a ratio essendi metodológica da Constituição. Assim como já no interior da Constituição a briga particular é entre o Poder Legislativo e o Poder Executivo. Ainda que o Direito pós-Constituição promane de emenda ou revisão constitucional.5. e o Todo vem de mim. Uma queda de braço com o Poder Reformador.3. bússola e ímã . É a maior de todas as ênfases do discurso de SIEYÈS. 3.2. a Constituição bem desempenha nos termos em que JESUS dirigiu aos seus discípulos esta vibrante mensagem: "Eu sou a Luz que está sobre todos. Corte um pedaço de madeira e eu estarei lá. sozinho.3. Mantém o Ordenamento sob tutela. o inarredável princípio está em que são irreformáveis as normas da Constituição Positiva sobre a própria reforma dessa Constituição Positiva (de parelha com outros aspectos de intangibilidade mais para a frente comentados). a Constituição tem que travar uma briga particular com suas emendas ou revisões.à absurda possibilidade de um advogado alterar para mais. e o Todo retorna a mim.1.3. um unitário cosmos. Essa alteração de limites corresponderia . "o cântico dos cânticos". a sua mensagem imperativa em si.3. não uma pluralidade de cosmos (oriundos de numerosas e incontroláveis normas-começo). Ela conversa (graças à . levante uma pedra e me encontrará lá" (em A SEMENTE DE MOSTARDA. eu sou o Todo. 3.3. mas um único. pelo risco maior de ela vir a ser abalroada por ele. Mudando-se as palavras para melhor transmitir o mesmo pensamento: o Direito pós-Constituição é um Direito sempre enlaçado à Constituição mesma.5. II. alterar os limites da própria delegação (ob. Este último a ameaçar de invasão a área de competência daquele. concomitantemente. que a Constituição impede que cada um desses atos seja um fragmento vocal com pretensão à totalidade. cit.3. a cota de poderes da procuração que lhe fora outorgada pelo seu cliente.

ou ele nem se auto-expande nem se autocontrai. logicamente.2. todavia. a cota dos direitos subjetivos alheios consagrados pela Magna Carta). de uma relação que já não está na base da Teoria do Estado de Direito. no plano jurídico. ou ele se autocontrai no plano dos direitos subjetivos que opõe a si mesmo (ultrapassando. a teoria do Estado de Direito. agora. exclusivamente (postando-se ele do lado de fora de tais relações. no sentido de .19 3. o Estado gira em torno do seu próprio querer. Ora bem. Que fundamentação é esta? 3. pois quem se autolimita. enquanto aquela revogação não sobrevém. 3. 3. revogando-o.6. porque fica de fora da relação que passa a estabelecer entre pessoas outras. e ainda tem a chance de ver preenchidas as suas eventuais lacunas.3. não pode. O fundamento supra-estatal e suprapositivo da Constituição 3. Como também é desse diálogo com o Ordenamento que a norma isolada se depura de toda incoerência.3. 3. Se o Estado pode desfazer o Direito.6. bem pode se autodeslimitar (já o dissemos). com ela.7. Estes outros modelos de prescritividade jurídica exprimem uma relação do Estado com o Direito que o Estado mesmo cria. de toda obscuridade. Cogita-se. Relação derivada ou secundária do Estado com o seu Direito. porque sem nenhum compromisso com a preservação do tipo de Estado até então existente. com o tempo. ora para ficar em situação jurídica passiva. todavia). formam o Ordenamento de um povo soberano. ora para colocar a si mesmo em situação jurídica ativa (perdoe-se a cacofonia "cativa"). porque transcorrente entre um Direito que o Estado não cria e o Estado mesmo. por conseqüência).5. tudo transcorre nos meandros da psicologia ou do psiquismo estatal. se é que é possível falar de psicologia ou de psiquismo estatal quando se queira referir a um tipo de Direito que o Estado produz para além da autoaplicabilidade das normas que já estão lançadas no próprio lastro formal da Constituição. via de regra. Seja como for. por exemplo. O Direito a preceder o Estado. no âmbito da fenomenologia do Direito: a origem mais depuradamente legítima da Constituição. mas na base do Constitucionalismo. não é outro senão uma autolimitação.6. que sempre mantém os governados em situação de relativa insegurança jurídica. ora para estabelecer relações jurídicas entre os particulares.. essa. Em qualquer das três situações jurídicas. a relação que se passa entre a Constituição e o Estado exprime um outro vínculo operacional. ou seja. objetivamente. 3. Nesse preciso espaço da relação Estado/Direito. Ou ele se auto-expande no plano das competências a que se atribui (tendo sempre por calço a Constituição.4. porque elaborada sob fundamentação lógica distinta daquela que prevalece para os demais modelos normativos. O fundamento da submissão do Estado a direitos subjetivos oponíveis a ele mesmo. mas exógeno ao Estado. Direito que o Estado procria. Estamos no epicentro de uma distinção qualitativa que é a explicação de tudo o mais.6.. no plano político.6. o Estado vem antes do Direito. o embasamento lógico da Constituição é diferente da fundamentação teórica dos demais espécimes jurídico-positivos que. o princípio de que o Estado é obrigado a respeitar o Direito por ele próprio ditado.6.1. Este a significar.5. e sua força mais irrefragavelmente vinculante. a imposição de um limite não mais endógeno. Autolimitação estatal.Constituição) com o todo do Ordenamento e é dessa confabulação com o todo que se extrai a sua definitiva mensagem. Daí a necessidade de o pensamento jurídico formular e implantar. desfazer do Direito. Com efeito.

a ilação a que se chega é esta: o Poder Constituinte incorpora não-propriamente a opção de atribuir à sua obra legislativa um caráter rígido. A se alojar. É essa nova idéia de superação da teoria da autolimitação jurídica do Estado que vai possibilibitar a formação do juízo de que a primeira das cláusulas pétreas só pode ser de natureza formal.7. isto não é o que sucede com a Norma Normarum. o primeiro título de nobreza da Constituição.4. Ela.5. A compulsão da rigidez é. firme. Constituição. porque sua fonte suprapositiva continua a mesma. Falar de rigidez constitucional. Original. no mundo do ser. 3. estável ou outro nome que se atribua ao fato de a Constituição conservar a memória de sua origem exclusivamente política ou suprapositiva. tornando o Poder Constituinte. porque tal revogação já não se dá por meios jurídicos ou no plano do dever-ser normativo.1. A compulsão da rigidez formal da Constituição 3. o Poder Constituinte incorpora a compulsão do permanente registro dessa memória. a suplantar. 3. Muito bem! Se o fundamento lógico da Constituição é a suprapositividade. nasce por um modo comparativamente único e também se altera por uma forma que lhe é exclusiva. com aquele seu próprio modo de nascer.6. pois o cerne da rigidez está em que o Magno Texto não quer para o seu reprocessamento aquele jeito monocórdio e comparativamente simplificado de se trabalhar com a a lei infraconstitucional. no particular. E por compulsão da rigidez só se pode entender um modo de normar sobre a reforma constitucional que permaneça originário e original. 3.7.3.que há um tipo de Direito: a) que o Estado não cria nem pode deixar de reconhecer como Direito. que é a parte comumente chamada de pétrea ou intangível. 3. mas o poder-dever de não deixar que sua Constituição venha a cair. em derradeiro exame. c) que a outra parte. Acontece à margem de toda juridicidade. ainda por cima.7. somente por um processo especialíssimo é que pode ser objeto de retomada legislativa pelo Estado. eis que processada ao nível das ocorrências fáticas ou exclusivamente políticas.7. na vala comum dos espécimes normativos que têm por fonte um órgão deliberativo já de Direito instituído. É a limitabilidade genética de que antes falamos. porque diferente do modo pelo qual os demais diplomas jurídicos ficam pela Constituição autorizados a receber reprocessamento ou reformulação ou recondicionamento. Se as leis subconstitucionais nascem. sem nenhuma mistura com outra nascente do fenômeno jurídico. o caráter rígido que a Lei Suprema necessariamente ostenta não é outra coisa senão a consagração de um regime jurídico mais cercado de solenidades ou dificuldades para a sua reformulação. mais que isto. Já em termos funcionais. ou seja. E mesmo no tocante à revogação pura e simples do Código Político (substituição de uma Constituição por outra).7. o modo pelo qual a Lei Maior dispõe sobre a sua própria reforma é insuscetível de reformulação.6. Originário.2. 3. ainda que tal insuscetibilidade não conste de dispositivo constitucional expresso. modificam-se e morrem pela mesma e monótona forma (o modo de produzir a lei é o mesmo que se observa para a respectiva alteração. não-pétrea. ainda assim a originalidade permanece.7. o fundamento da autolimitação legiferante do Estado. não um singelo poder. por residir no próprio esquema de reforma da Constituição. portanto. hirto. 3. ou revogação). assim. é invocar uma noção . b) que tem uma parte dele imune ao cinzel legislativo do Estado. por inteiro. assim. não-coincidente.

De ordem processual. temporal. venha o Poder Reformador a ficar liberado para submeter a si toda e qualquer relação social. ou circunstancial. a ponto de petrealizar umas e estabilizar outras? A resposta é intuitiva. É o caso de se perguntar: e por que a Lex Maxima é assim especialmente cuidadosa. portanto). particularmente zelosa com suas próprias matérias.7. a depender do grau de originalidade que imponha ao seu processo de reforma.7. pois uma Constituição dita flexível é aquela que pode ser reformada pelo mesmo processo instituído para a produção e modificação de uma lei subconstitucional. no sentido de reclamar a proposta de reforma constitucional um quorum maior de votação parlamentar. se a matéria é clausulada como pétrea. ou seja. durante algum tempo. Já os fatores de ordem temporal e circunstancial. a Constituição torna especialmente relevante toda matéria sobre que recai.7. Mas. nenhum ato reformista da Constituição pode ser apresentado. Daí que a respectiva desconstitucionalização. também opere pela fuga do lugar comum das revogações ou derrogações de Direito. cuidando-se de matéria desprovida de petrealidade. ou discutido (também se diz um requisito de tempo a exigência de intervalo entre uma e outra rodada de discussão e votação legislativa de matéria constitucional. A rigidez formal é a marca registrada das Constituições que inauguram o Ordenamento Jurídico de intransigente supra-infra-ordenação e que mantêm esse Ordenamento sob controle de qualidade. é uma parte da Constituição que se garante com cláusula de estabilidade ou estado de firmeza se confrontada com as matérias constantes de leis outras. a perda do status de tema constitucional. Mas comporta graduação.7. A parte da Constituição que é eterna fica imune ao processo reformista. eterna. A parte que não é eterna fica exposta aos atos legislativos de reforma. que. entretanto. ou debaixo de certos episódios. temporal e circunstancial. assegura a supremacia internormativa do Magno Texto e só desaparece com o desaparecimento dele. Tal rigidez nasce com a Constituição Positiva. rígida. 3.10. uma Constituição Positiva é mais ou menos firme.7.20 3. o reclamo de interstício entre reuniões legislativas de debate e votação final de matéria constitutiva de reforma da Lex Legum). combinadamente.8. outra. estável.oposta à de flexibilidade. 3. ora menos ortodoxa. caso contrário. porém estável. Ela é pétrea. a fatores de ordem processual. ora uma rigidez mais ortodoxa.9.7. sua defenestração do Magno Texto somente se dá por uma nova manifestação constituinte. circunstancial e temporal. ou reconstitucionalização. O fato em si da constitucionalização de um dado campo relacional-humano já se traduz numa fuga ao lugar-comum da regulação jurídica.6. ainda assim. com certos requisitos de iniciativa. como se diz aqui no Brasil. Assim como o Rei Midas tornava ouro tudo em que tocava. Não é assim. Daí o discriminar-se. pode acontecer ao . Por isso que. eles comparecem para traduzir a idéia de que. tais Constituições. hirta. ou mesmo seu recondicionamento (reconstitucionalização. no sentido de que pode ser. ou seja. e por conseqüência imutável. em duas inconfundíveis porções: uma. Não se conclua. 3. cuja total flexibilidade decorre da consideração de não ser ela uma Constituição em sentido rigorosamente formal. uma vez respeitadas as exigências constitucionais de ordem formal. É o caso da Constituição da Inglaterra. o mais das vezes. porque as Constituições consagradoras do esquema de intransigente supra-infra-ordenação acrescem limitações materiais àquelas de cunho formal. isto é. Essas dificuldades reformacionais de que tanto falamos dizem respeito. 3. como de primário saber. não-eterna.

8. que neste capítulo mesmo poderiam ser assim epigrafadas: a) "A Constituição como garantia de tudo e de si mesma".8. a Constituição. Rigidez formal e Poder Reformador.5.7. conforme conhecido postulado positivista). 3. 3.2. A Constituição como atestado de efetiva soberania nacional 3. E é mesmo a concreta aplicabilidade desse processo especialíssimo de dispor sobre matéria constitucional que vai alçar o Poder Constituído à dimensão de um Poder Reformador. a Constituição mais e mais monitora a elaboração das suas próprias emendas. povo) e passa a gozar de estima geral como inalienável patrimônio jurídico. 3. por opção metodológica estritamente pessoal. único documento jurídico a atestar a . petrealidade e rigidez constitucional dão-se as mãos para possibilitar à Constituição o ganho de duas outras notas de especificidade.8.3.7. Por esse prisma positivista de análise é que. o esquema da rigidez.6.8. O traço final de especificidade da Constituição.nível do Poder de Reforma. com êxito. Assim estimada pelo povo como coisa inalienável dele. Não de um Poder Legislativo comum. Esta é uma afirmativa que temos como categórica. principalmente se nascida nos arejados cômodos de uma Casa Constituinte que teve por alicerce a vontade eleitoral dos cidadãos. independentemente do seu conteúdo. por definição. resolvemos discorrer sobre os dois temas (embora sem reservar para eles nenhuma epígrafe em particular) no âmbito do estudo que reservamos para os capítulos de n°s IV e V desta monografia. que atingiu o pináculo de sua identificação jurídica. está em que toda Lei Maior que se faz globalmente efetiva opera como atestado formal de soberania nacional. E no plano territorial-externo. independentemente do seu conteúdo (tanto quanto o Direito em geral de alguma forma vale por si próprio. Ainda assim.8. ou seja. assim. debaixo de um processo particularmente solene. O mais formal e o mais solene dos atestados de que um determinado povo experimentou. 3. Isto por ser a Constituição a fórmula jurídico-positiva que possibilita ao povo dar a si próprio uma nova Ordem Jurídica e ainda se fazer internacionalmente conhecido como instância coletiva que desfruta de uma soberania mais que virtual. E já não tem como arredar pé de sua altaneira posição de documento confirmador de uma soberania que é também inalienável. Contudo. 3. pois o poder de reforma da Magna Carta outra coisa não é senão atuar sob a regência das normas constitucionais originárias que formam. Ou de sua plenitude política. b) "O definitivo enlace entre a Constituição Federal de 1988 e a Democracia".8. em certa medida.11. 3. vela para que nenhum documento com pretensão a "Carta Plurinacional" ou "Constituição Regional" venha a lhe servir de fundamento de validade. no plano territorial-interno.8. 3. a Constituição termina valendo por si mesma. 3. que nos parece útil aos fins a que nos propomos.12.1. justamente. a Constituição é tida pelo povo como galardão ou insígnia maior de sua própria independência (dele. para que nenhuma delas lhe usurpe o trono de rainha das normas jurídicas. constituem mais uma necessária parelha temática .dentre tantas que a Teoria da Constituição implica -. Repetindo o discurso. Nessa medida.4. porque já tentada e consumada. a Constituição também pode ser vista enquanto modo pelo qual um certo povo proclama. na medida em que instituidor de uma ordem. Em suma. de si para si. o seu modo constituinte de ser.

realmente) por elas estruturado. por ilação. não reconhece outro Poder ou outro Organismo de que venha a fazer parte senão nos termos por ela mesma previstos. não por merecimento próprio. assume-se como a Lei das Leis. 3. externamente. Porque aí.8. O fecho do pensamento. Mas o estabelecimento de tais condições vale apenas como imposição factual ou realidade do mundo do ser. Logo. notadamente à face das suas emendas (a Constituição a cumprir o papel de não deixar que suas emendas cumpram o papel de atestar a soberania do povo). os ditames de uma "Constituição" da espécie plurinacional ou cosmopolita ingressam no mundo do dever-ser.soberania de um povo. fora e dentro do território que o povo conquista com animus domini. até que se dê a sua recepção pela Magna Lei de cada povo. é como a soberania mesma: projeção do poder.21 . é este: não se vai cair no romantismo ou na ingenuidade de supor que as "Constituições Regionais" deixem de ditar as condições de participação de cada Estado-membro no tipo de confederação (pois é de confederação que se cuida. sim. mas pelas boas-vindas que eventualmente lhes dê a Constituição de cada Estado confederado. internamente. insista-se.7.

É ainda dizer: surpreendidos no seu regrado processo de elaboração jurídica.2. que somente as primeiras é que se tornam objeto de uma centrada teoria da interpretação. 4. A Constituição como sistema ou ordenamento por virtude própria 4. por inteiro.4. que é a natureza do verdadeiro Poder Constituinte. A imperiosa substituição do nome "Interpretação da Constituição" por "Hermenêutica da Constituição" 4. A inadequação do termo "Interpretação Constitucional" 4.2. A Teoria da Interpretação do Direito em geral como antecedente da Interpretação da Constituição 4. A inadequação do termo "Interpretação Constitucional" 4.3. Qual a conseqüência teórica dessa impossibilidade de os atos de reforma da Constituição ditarem o seu próprio regime jurídico? A conseqüência da não-definitiva autoqualificação nem da definitiva auto-hierarquização como norma de Direito. no entanto. Este o fiat lux da questão.1. E não sendo produzidos por um poder assim virginalmente fático. tais atos só podem ser interpretados como veículos formais de normas dominadas. 4. O modo insimilar de nascer da Constituição como primeira causa de diferenciação hermenêutica 4. Teoria da Interpretação do Direito em geral. Os atos de reforma da Constituição (quantas vezes o dissemos?). Não as segundas. O tema da interpretação da Constituição exige de nossa parte uma prévia demarcação de conteúdo.5. seja quanto ao seu conteúdo e respectivo grau de eficácia. vistos sob o prisma do seu processo de elaboração e quanto à disciplina da matéria sobre que versam (com a respectiva dimensão eficacial). do âmbito de uma genérica teoria da interpretação. Ele não significa a formulação de uma teoria que encerre ou contenha diretrizes para a concreta interpretação de toda e qualquer norma constitucional positiva.1. 4. isto é.1. deixam. por virtude da Constituição 4. são atos normativos que não têm a menor ensancha de livremente dispor sobre o seu regime jurídico. Queremos dizer. tanto quanto no seu regrado poder de . porque a positividade constitucional é um gênero abarcante das normas que aparecem para o mundo do Direito por via da Constituição originária e mais aquelas que aparecem para o mundo jurídico por via dos atos de reforma da Constituição mesma. A dualidade princípios/regras como base da nova Hermenêutica da Constituição 4. Seja quanto à sua forma de elaboração.1. porque destituídas de peculiaridades que as excluam.9.A Hermenêutica da Constituição Sumário 4. de se apresentar à Ciência do Direito como produzidos por um poder de fato ou supra-estatal ou suprapositivo.8.7.4. O que já significa dizer que.Capítulo IV . com esta separação entre normas da Constituição e normas de reforma da Constituição.6. As especificidades da Constituição como a razão de ser de uma Hermenêutica diferenciada 4.1. O Direito Positivo como sistema ou ordenamento.1. O modo insimilar de viver da Constituição como segunda e definitiva causa de diferenciação hermenêutica 4. a merecer o rótulo provisório de "Interpretação da Constituição".3.10. e não de normas dominantes. se em normas constitucionais se traduzem. A peculiar estrutura conceitual dos princípios constitucionais 4. E não significa.1.

1. 4. O todo da Constituição inicial e respectivas partes. sim. e não para ela. por ele. A Teoria da Interpretação do Direito em geral como antecedente da Interpretação da Constituição 4. pois Constituição em tudo e por tudo eles não são. num seguinte e imediato instante. Mas a Assembléia Constituída jamais pode se autopromover para Assembléia Constituinte. não se pondo na linha de partida do Direito (mas sempre a meio caminho dele).1. é que não tem molde ou fôrma a precedê-la. que. Algo que se faz por ela mesma. 4.5. todos eles encartados num processo legislativo que nasce com o originário Texto Magno. O regime jurídico dos atos de reforma da Constituição é um molde que a própria Constituição prepara.1 4. Estas noções. pelo fato evidente de que esta se formou há mais tempo como ordem autônoma de conhecimentos. Aquele auto-rebaixamento é uma viagem sem retorno.conformar relações intersubjetivas materiais. no particular. portanto.1. 4. Somente fica o órgão rebaixado. .1. múltiplos objetos sejam moldados.7. tão logo promulgada a Constituição (exatamente como se deu com a Lei Maior brasileira de 1988). 4. A Constituição inicial. enquanto o molde só pode ser concebido como um antecedente. sim. toda fôrma.9. sem possibilidade de reversão. Há um só molde. assim. desde que figurante da originária redação de um Magno Texto. recortar. como é o caso do Parlamento ou Poder Legislativo.2. Sob o título de "Interpretação da Constituição". E sua força impositiva frente às outras normas é.1. por igual. é o dos demais espécimes de Direito infraconstitucional. ou de fora para dentro. Ao reverso do que sucede com os atos de sua própria reforma. No âmbito da Constituição originária. um a priori. necessariamente. não têm sua importância reduzida pelo fato de as mesma pessoas que formam uma Assembléia Nacional Constituinte poderem se transformar. uma necessária e definitiva auto-hierarquização. para o âmbito mais dilargado da Teoria da Interpretação (ou Hermenêutica Jurídica em geral). formar. pois o órgão que se auto-rebaixa desaparece para sempre dos quadrantes do Direito. A Interpretação da Constituição como tema de estudo nos empurra.1. tão-somente. 4. um a posteriori. O objeto ou a coisa a moldar é sempre um conseqüente. Do que se deduz que nenhum dos objetos a sair do molde possa dar a si mesmo o próprio molde. à espera de que.8. todo molde é algo que nasce com ela. que nos parecem necessárias para um claro entendimento da relação primária entre a Constituição e os atos de reforma constitucional. em membros de um Poder simplesmente instituído. só podem ter a sua qualificação e a sua hieraquização como norma jurídica por virtude de algo anterior a eles. Repetindo: o objeto a sair do molde não pode plasmar o molde de que vai sair. esta. O seu real paradigma. antecede aquilo a que se destina moldar.2. É uma qualificação e uma hieraquização que vêm de trás para frente. por que sua qualificação como norma jurídica é uma necessária e definitiva autoqualificação. E como todo molde. É que a Assembléia Constituinte pode se auto-rebaixar para Assembléia Constituída. o que nos caberia formular seriam os cânones presidentes da interpretação de todo e qualquer dispositivo constitucional. todo figurino. os atos de reforma da Constituição não se enquadram num esquema de interpretação em tudo e por tudo igual ao da própria Constituição.6. Nasce de dentro da Constituição para fora e se impõe a todo o Ordenamento.

5. Façamo-nos entender com mais clareza.2.6. porquanto aplicáveis a toda e qualquer norma-objeto de interpretação. Ela. também natural seria que as coisas acontecessem como de fato aconteceram: os mais vivos contornos da Teoria da Interpretação foram esboçados à luz de um pensamento jurídico marcantemente privatista. Por isso que a Interpretação da Constituição tem sido focada como subseção da Hermenêutica Jurídica em geral. Ainda um tanto é de se dizer na matéria. a hermenêutica encerra um conjunto de noções preparatórias da interpretação. Daí para o campo hermenêutico a dedução é instantânea: a Teoria da Interpretação lato sensu nasce bem antes do que a Teoria da Interpretação da Constituição stricto sensu. durante seminário que. eficacidade e efetividade.8. E a esse empírico processo de compreensão é que se apõe o rótulo de Interpretação Jurídica.4. Diga-se mais: como o centro do Direito em geral era o Direito Privado. porque.2. lacunas da lei e modos de sua colmatação.3.7. em estudo que principia pela correta asserção de que "Praticar a interpretação constitucional é diferente de interpretar a Constituição de acordo com os cânones tradicionais da hermenêutica jurídica" (primeiras linhas do texto que serviu de roteiro a conferência pronunciada em Aracaju. reservando à segunda o papel seqüencial de aplicar à cognição dessa ou daquela norma de Direito Positivo os enunciados da primeira. 4. É como dizer: a Hermenêutica é o capítulo da Teoria do Direito que vai centradamente orientar o processo de compreensão dessa ou daquela norma jurídico-positiva. A comparação temporal entre as duas modalidades de teoria é a mesma que pode ser feita entre as idades do Direito como um todo e do Direito Constitucional em particular. Por essa diferenciação entre a hermenêutica e a interpretação jurídica. Esta a significar a busca da revelação da mensagem aportada por uma particular norma de Direito. pelo fato de que mais e mais os doutrinadores insistem na diferenciação entre hermenêutica e interpretação. A imperiosa substituição do nome "Interpretação da Constituição" por "Hermenêutica da Constituição" . no fundo. 4. Mas não somente com a Interpretação Jurídica é que a Hermenêutica mantém um necessário vínculo operacional. de 05 a 10 de maio de 1998. Assim é que noções de validade. Hermenêutica. 4.2. 4.2.2 4. é natural que a Teoria do Direito anteceda à Teoria da Constituição.2. sabido que este último somente ganhou suas definitivas características a partir das Constituições que se promulgaram nas três últimas décadas do século XVIII. É o que ressalta WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO. também se enlaça operacionalmente à Teoria do Direito.3. hierarquia internormativa. 4. enquanto aquela a significar a busca de noções transpositivas.2. por exemplo (que são categorias mentais elaboradas ao nível da Teoria Geral do Direito). é parte dessa Teoria: aquela parte que tem especial serventia para a interpretação jurídica em concreto.2. passam a constituir princípios hermenêuticos a aplicar no empírico processo da interpretação de uma determinada norma de Direito Positivo.4.2. os estudantes de Direito da Universidade Federal de Sergipe realizaram em homenagem ao primeiro decênio da Constituição da República Federativa do Brasil). dualidade norma/Ordenamento. Não estamos a dizer nada diferente do que isto: se o Direito como um todo antecede à Constituição. antinomias normativas e critérios de sua eliminação. 4.

o finalístico.4.3. Mas esta nossa explicação é ainda incompleta. Num esforço de refinamento explicativo. destacando-a de qualquer outro diploma normativo ou ramo autonomizado do Direito. pensamos que tudo se aclara no bojo do seguinte sumário: I . o histórico e o sistemático. III . inserida no contexto de uma particular Constituição originária. o que se tem já é o campo de incidência da Interpretação propriamente dita. 4. 4. esta é de menor abrangência no seu campo material de estudo. Com o respectivo grau de eficácia. Incompleta.3. porque. O objeto da interpretação constitucional. exprime aquela porção da Teoria da Constituição que vai propiciar o facilitado entendimento de toda e qualquer norma em particular de Direito Constitucional originário. Porção que termina por formar pré-compreensões ou pré-interpretações de que se vale o aplicador da Lei Maior (que é o intérprete em concreto) para o trabalho final de apreensão do significado de uma determinada norma de elaboração genuinamente constituinte. Passa para "Hermenêutica da Constituição".4. bem ao contrário.2. É o indescartável espaço dos chamados métodos de interpretação jurídica. II .1. o que vimos designando até agora de "Interpretação da Constituição" tem que mudar de nome. Logo. Com o quê se diferencia da Teoria do Direito ou "Teoria Geral do Direito" (como também se diz.3. E nesse campo específico da Hermenêutica da Constituição.3. e não para toda e qualquer norma da Constituição originária.3 4.na medida em que existe para aproveitar da Teoria da Constituição apenas aqueles enunciados de especial préstimo para o labor da interpretação de todo e qualquer dispositivo constitucional originário (indistintamente. a saber: o literal. Hermenêutica da Constituição. a Hermenêutica da Constituição faz-se de ponte entre a Teoria da Constituição como um todo e a interpretação de cada norma dessa ou daquela Constituição Positiva originária em separado. habitualmente). a Hermenêutica antecede o isolamento da norma-objeto (norma já positivada nessa ou naquela Constituição inicial) e por isso mesmo passa a valer para todo e qualquer dispositivo jurídico ou texto normativo-constitucional-originário em apartado. Por esse ângulo de visada. a ilação da dicotomia acima pontuada é intuitiva: ela. somente vale para uma dada norma-objeto. porque tem por objeto revelar da Teoria da Constituição apenas aqueles enunciados que sirvam para o concreto labor da compreensão de toda e qualquer norma constitucional-positiva originária.3. Não somente para esta ou aquela específica norma constitucional-positiva originária. somente. Sendo assim. A Interpretação. portanto).a Teoria da Constituição tem por objeto elementarizar a Constituição como fenômeno jurídico. portanto. aí.4. 4.Já a Hermenêutica da Constituição. As especificidades da Constituição como a razão de ser de uma Hermenêutica . de que falaremos a breve trecho. o lógico. visto que a Hermenêutica em geral serve de instrumento é para a interpretação de toda e qualquer norma de Direito. porque importa colocar em realce que a Hermenêutica Jurídica em geral ocupa um espaço de teorização de obrigatório trânsito pela Hermenêutica da Constituição. a Hermenêutica da Constituição passa a se diferençar da Hermenêutica em geral. Donde a conclusão de que a operação mental do intérprete segue este necessário roteiro: começa pelas pré-compreensões que a Hermenêutica recolhe da Teoria da Constituição e desemboca na compreensão final (interpretação) de uma norma-objeto.

Ainda mais.5. 4. ou. a ponto de podermos dizer que a Constituição consegue ser diferente até mesmo da mecânica soma das suas próprias normas. Parte sem a qual o Direito não poderia ser visualizado como um todo fechado em si mesmo. É por se peculiarizar perante o Direito em geral (e como!) que a Magna Lei justifica e exige para si uma metódica hermenêutica também peculiarizada. nem com as normas de sua própria reforma. Não é uma diferença qualquer. como realidade tendente a esse fechamento autonômico.4. por fim.como estamos separando desde o início desta nossa monografia .4. Não é a partir de técnicas gerais de compreensão do Direito que se vai conhecer aquela parte do Direito que mais explica o próprio Direito (que é.diferenciada 4.que força. Tanto e tanto. a exigir metódicos instrumentos de análise também singulares. Ela nem se confunde com o Ordenamento Jurídico.2. comercial.o da Constituição e o setor do Direito posterior a ela . Não há demasia na afirmação. 4. Com o quê a Hermenêutica da Constituição está para a Teoria da Constituição assim como a Interpretação .4. afunilando ou direcionando as proposições dessa Teoria para a tarefa interpretativa de cada norma constitucional originária em particular. o papel de mostrar em quê a exegese de uma norma figurante da Constituição originária difere da exegese de uma norma não-figurante de tal Constituição.4. a ponto de podermos separar . Se o papel da Teoria do Direito é apartar o Direito das outras realidades normativas (sobretudo a religião. penal.). sobre a qual os chamados "Ramos do Direito" erguem a sua autonomia entitativa. o pensamento jurídico a elaborar uma dogmática exegética superadora da tradicional.as normas da Constituição das normas de reforma constitucional. etc. os vetores da comum hermenêutica do Direito já não tinham como dar conta do recado e por isso é que a doutrina passou a envidar os seus melhores esforços na fixação de novos paradigmas exegéticos ou recursos de uma argumentação propriamente constitucional.1. Já demonstramos que ela é muito mais do que a diversidade de campos materiais de incidência normativa (campo civil.4. é claro que essa peculiaridade exegética só pode advir do fato de ser a Constituição uma realidade normativa que se marca por traços ontológicos próprios. se o papel da Teoria da Constituição é apartar a Constituição dos demais diplomas jurídicos (ou o Direito Constituição do Direito pós-Constituição). justamente. Ora. com a soma linear das normas que formam o seu próprio corpo de dispositivos. É como dizer: com o surgimento da Constituição (e estamos a falar da Constituição do tipo rígido. numa perspectiva nova: a demonstração cabal de que é preciso um toque de especificidade interpretativa para um diploma (o Magno Texto) que nasce e vive por um modo absolutamente insimilar. trabalhista. A Constituição revolucionou mesmo o pensamento jurídico. É de tal monta essa diferenciação entre os dois setores . qual o primeiro papel da Hermenêutica especificamente constitucional? Dar seqüência ao papel diferenciador da Teoria da Constituição. As linhas que se seguem reforçarão os traços da Constituição como a parte do Direito que mais explica o próprio Direito.4. precisamente. a Constituição).3. como explicado no capítulo anterior. Quase tudo na Constituição é onticamente singular. a etiqueta e a moral). pelo menos. Aquilo que singulariza as normas da Constituição originária no contexto dos demais atos consubstanciadores de normas jurídicas é mesmo de qualidade. nem. por evidente). se estamos assim a nos comprometer com o acerto da proposição de que existe uma especificidade hermenêutico-constitucional. Logo. processual. 4.4 4. porém.

6. Constituição.5. É para isso que serve a distinção entre a Hermenêutica e a Interpretação da Constituição (entre outras serventias). ela é aquele pedaço do Direito que menos identidade mantém com os demais. Com efeito. No fluxo desta nossa caminhada cognoscitiva. Mas em quê o modo especialíssimo de nascer da Constituição implica mudança de vetor hermenêutico? No seguinte: quando se está diante de qualquer outra realidade normativa. 4. naquilo que ela tem de apropriação dos conceitos que formam a Teoria da Constituição. para ver até que ponto se dá a compatiblidade formal e material do primeiro à segunda. a primeira via de interpretação é descabida. Muito bem. Hermenêutica da Constituição. que já é propriamente conteudístico-eficacial. Uma fonte ou instância de poder que faz parte do mundo do ser. com os demais atos expressionais do Direito. Uma seqüenciando a outra ou tendo a outra como referencial.5. 4. A Constituição não é válida nem inválida. Um centro decisório exclusivamente normante. dentro de um esquema de particularização progressiva de conceitos.5.5. do caráter jurídico do ser investigado. porém globalmente efetiva ou não.4. Ela se "valida" pela efetividade. para se avaliar a procedência.5 4. 4.5. É muito simples o que intentamos dizer. ou não. A interpretação de uma particular norma jurídica não se esgota na revelação da semântica ou significado lógico-idiomático por ela portado. Não é assim com a Constituição originária.Constitucional está para ela.2. o que significa percorrer o itinerário inverso dos outros modelos jurídicos: estes somente podem obter o atributo da efetividade depois de obtido o atributo da validade.3. como se dá. factual. O modo insimilar de nascer da Constituição como primeira causa de diferenciação hermenêutica 4. É inferir: somente depois de passar por um exame de validade é que o espécime normativo sai dessa primeira via de interpretação para a segunda.5.5. 4. agora sim. é preciso ainda ver se o documento jurídico de que faz parte a norma-objeto foi (ou não foi) produzido sem mácula processual e também . Fora da Constituição originária. exige que se faça exame de validade no momento do empírico processo de interpretação de toda norma que venha a se positivar após a Constituição mesma. qualquer outro ser ou modelo prescritivo de conduta que se apresente com as vestes de uma regra jurídica. façamos a mais lógica das perguntas: qual a primeira especificidade da Constituição a repercutir no campo de uma métodica hermenêutica diferenciada? Respondemos: tudo o que justifica a dualidade de vetores ou diretrizes hermenêuticas principia pela insimilaridade do nascer da Constituição como realidade jurídico-positiva. é a partir do modo pelo qual a Constituição é partejada que se percebe ser ela. aquela porção do Direito que mais se diferencia de todas as outras. não-jurídica de deliberação. outro. A Hermenêutica. e não simultaneamente normante e normado. Não! Esse modo de interpretar é aplicável somente a uma dada norma da Constituição originária. para se conhecer o conteúdo significante e o grau de eficácia do ser já aprovado pelo primeiro controle de qualidade jurídica. com o respectivo grau de eficácia. faz-se o uso de dois tipos necessariamente sucessivos de interpretação: um. Perante as respectivas normas.5. e não do mundo das normas. 4. Se se prefere.1. O exame comparativo entre o diploma jurídico objeto de interpretação e a Lei Maior. E tudo começa mesmo é com a percepção de que só o Magno Texto (não tenhamos receio de incorrer em repetição de juízo) nasce de uma fonte exclusivamente política.

e não jurídico-positivas).5.7. porque: primeiro. Não há outra (daí a distinção entre uma soberania que trata da Constituição. a maneira de a Constituição fazer parte do Ordenamento é se postando no topo desse Ordenamento.8. Já diante da Constituição. diríamos que a Constituição também vive por um modo insimilar.9. então. 4.5.com a mesma originalidade que marcou a trajetória existencial do filho unigênito de Deus no meio do homens.6. a Lei Maior passa inteiramente ao largo do processo exegético ou da empírica interpretação normativa. Nenhuma fica de fora. E a causa eficiente da exclusão de tal exame prévio é o modo peculiar de nascer da Constituição. Daí porque opera como um divisor de águas na esfera jurídico-positiva. É dizer: sem a intercalação de nenhuma outra instância produtora de norma jurídica. a radicalidade operacional é inversa: nenhuma norma constitucional originária. 4. Principiemos por lembrar que a dogmática hermenêutica. convicto estamos de que. e não apenas dentro dele.2. é o filho unigênito de Deus (pois que gerado diretamente pelo Criador). meio direto ou simplificado de se viabilizar o conhecimento da mensagem aportada por aquele discurso (mensagem. absolutamente nenhuma. 4.3.5. a forma pela qual a Constituição deixa o Ordenamento ou dele sai (finando-se com ele. Ela prossegue pela vida afora do Direito . a Constituição é o único documento normativo que provém do Poder Constituinte por forma direta. elaborando-a.o método filológico ou literal. genericamente considerada (plano das considerações lógico-jurídicas. Por mais que nos deparemos com a cerrada oposição de autores densamente qualificados. que opera pela revelação do significado comum ou dicionarizado das palavras e expressões em que se vaza o discurso jurídico-positivo. Em suma. É aqui mesmo que devemos fazer a outra decisiva pergunta: e em quê o modo único de viver da Constituição repercute no campo da tópica hermenêutica? Ah! Por vários aspectos! 4. pondere-se) é a mesma pela qual entrou: a suprapositividade. assim como JESUS. e uma soberania de que trata a Constituição já elaborada). não é a Constituição que principia com o Ordenamento. E outra vez por comparação com a figura ímpar de JESUS.6 4. O modo insimilar de viver da Constituição como segunda e definitiva causa de diferenciação hermenêutica 4. Logo. perante qualquer diploma jurídico (inclusive o das emendas ou revisões constitucionais). Nesse plano de radical exame de validade. tal qual JESUS CRISTO operou como um divisor de águas na esfera mais dilatada de toda a humanidade ocidental (antes e depois dele).1. Todas ficam de fora.a partir da rigidez formal a que necessariamente se impõe . Ocorre que esse modo único de nascer da Constituição apenas faz sentido se se fizer acompanhar de um modo único de viver. para as religiões cristãs. que outra coisa não é senão o quê da norma . incorpora os seguintes e englobados métodos de intelecção normativa: I . mas o Ordenamento é que principia com a Constituição. E já dissemos que o modo de a Constituição Positiva fazer parte do Ordenamento Jurídico é absolutamente único.6. 4.se a própria norma-objeto estava autorizada a se dotar do conteúdo e da eficácia com que positivamente nasceu.6. Mesmo que se trate de norma engastada em ato formal de emenda à Lei Maior. terceiro. é submetida a exame de validade. o exame de validade formal e material é intransigente: incide sobre todas as normas ali contidas.6. segundo.

Por comparação com o método lógico. e não o dicionário idiomático em geral). quer dizer. Mas a sua utilidade específica permanece igual à serventia dos métodos literal e lógico de interpretação: conhecer e descrever o quê de cada norma-objeto.o método histórico. não desse ou daquele dispositivo em particular. por constituir a norma-em-si. sua utilidade é a mesma do método literal: buscar a revelação do quê da norma. decifrar o meramente verbal da comunicação normativa. pois implica a revelação do significado técnico ou propriamente jurídico das palavras de que se venha a compor o dispositivo interpretado e ainda passa por uma obrigatória leitura das entrelinhas ou do não-verbal desse mesmo dispositivo. não enquanto ilha. ainda é preciso considerar as linhas e entrelinhas da própria Constituição Positiva.9 V . revelando-se. então. palavras que encerram o núcleo mesmo da norma de Direito Positivo. ou. seja para substituir o sentido meramente coloquial dos signos linguísticos por um sentido propriamente jurídico ou da própria técnica do Direito (e aí o dicionário a que se recorre já é o vocabulário jurídico. o significado que a norma assume. voltado para a reciclagem ou o policiamento do método filológico. isto é. principalmente para o efeito do uso correto da interpretação dita extensiva.10 . portanto: o método sistemático de interpretação jurídica é o único a possibilitar um visual de conjunto. como o próprio instituto jurídico ou a figura de Direito que se procura conhecer.8 IV . Estas últimas são palavras-fim. é ler nas próprias linhas do dispositivo. da interpretação dita restritiva). E o papel da interpretação literal (toda interpretação começa por esse método) é saber que palavras cumprem no discurso jurídico-positivo um mister meramente vernacular (palavras-meio) e que palavras.7 II . III . O papel do intérprete. Logo. Implica uma releitura. De todo modo. reversamente.positiva ou o objeto da relação positivamente instituída. então. agora o que importa é ler nas linhas e entrelinhas. existe mesmo e não pode deixar de existir um vínculo funcional entre as palavras e o Direito-lei. para saber em que essa comunicação consiste. a sua forma causal. uma vista panorâmica do material investigado. seja para dimensionar com precisão o potencial de eficácia da norma interpretada (tarefa em que avulta a consideração do não-verbal ou das entrelinhas do dispositivo interpretado. que tem por função eidética procurar o sentido peninsular da norma jurídica. descambando para o histórico-evolutivo. O que significa. Afinal. mas de toda a lei ou de todo o código de que faça parte o dispositivo interpretado. cuja prestimosidade está em conhecer a origem ou etiologia da norma. empregado para a captação do objetivo ou dos objetivos da norma interpretada (domínio do para quê normativo. que é a conseqüência lógica do interpretar articulado (cada dispositivo em combinação com os demais. E se essa lei ou esse Código for de Direito Infraconstitucional. com o seu específico tamanho eficacial).o método lógico. semantica e eficacialmente. bifurcado num para quê de ordem prática ou imediata e num para quê de ordem axiológica ou mediata). porém enquanto península ou parte que se atrela ao corpo de dispositivos do diploma em que se engasta. que é a mensagem-em-si em que ela se traduz. para que a união de cada parte ao todo traga para o Direito a qualidade do todo.o método teleológico ou finalístico. cumprem nesse discurso um mister propriamente relacional ou intersubjetivo. implicando o conhecimento do pomo factual de discórdia que gerou a necessidade da normatização jurídica.o método sistemático ou contextual. e não somente a qualidade de cada parte mesma). quando for o caso. então. é método voltado para o resgate do porquê da jurisdicização da matéria. ao reverso.

se adequar à lei por ele aplicada. É no último deles. A Constituição prescinde do Direito posterior a ela para se fazer entendida quanto ao significado dos seus institutos e instituições. uma natureza.6. ainda quando a eficácia de suas normas reclame acréscimo de prescritividade por uma legislação de menor hierarquia. pois. uma interna. etc. Consideremos agora o seguinte: mesmo quando o método sistemático é aplicado ao Direito pós-Constituição. Que sucede. É uma sistematicidade de dupla face. em verdade. externa. o ímpeto ou a "essência transformadora" da Magna Carta.6. E por que assim acontece? 4. os institutos e as instituições de selo constitucional devem ter a sua conceituação elaborada a partir de elementos encontradiços na própria Constituição. e essa fonte primeira (fonte das fontes) é a Constituição positiva. quando aplicado ao Direito posterior à Constituição. encerrada no corpo normativo da Constituição mesma. senão. para nos valermos de expressão corretamente adotada por JOSÉ AFONSO DA SILVA para a nossa Constituição de 1988.7.1. é a Teoria da Constituição (mais que a Teoria do Direito em geral) que proclama..5. a Constituição passaria a servir ao Direito-lei. E isto se dá pelo fato de ser a Constituição. É preciso ainda que ele mantenha com a Constituição um vínculo de perfeita sintonia formal e material.6. Para logo. porém. E é para servir a si mesma que ela dispõe sobre a elaboração de todo o Direito posterior a ela. 4. vê-se que não é no círculo dos quatro métodos iniciais que toma corpo a especificidade interpretativa que estamos a reivindicar para a Constituição. 4. ou admita constrição de efeitos pela mesma via da legiferação de segundo escalão (normas de eficácia completável e normas de eficácia restringível. ele passa a ganhar uma qualidade. ou do código. quando essa mesma técnica da contextualidade é aplicada à Constituição? Fica absolutamente confinada. O Direito Positivo como sistema ou ordenamento por virtude da Constituição 4. Por conseguinte. pois em tema de exame de validade jurídica a meta é a fonte. recicla todo o Direito Positivo e daí toda a Teoria Jurídica.7. uma tonalidade nova. a derradeira das metas é a primeira das fontes. 1982). ou seja. e. e não o Direito-lei a servir à Constituição. ao longo da monografia INTERPRETAÇÃO E APLICABILIDADE DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS (Editora Saraiva. Não tem que sair dos muros ou dos lindes que demarcam a normatividade constitucional originária. a sabenças: todo juízo de validade jurídica só alcança a dimensão de um juízo de validade absoluta (e não apenas relativa) depois que a norma-objeto se mostra compatível com a própria Constituição Positiva. respectivamente. Não o contrário.7. busca inseri-la no todo da Constituição. quando formalmente rígida.6.4. reduzindo. Longe de querer servir à lei e aos demais espécimes de Direito Legislado. Começa pelo diploma jurídico a que pertence a norma e vai em frente: sangra as barragens desse diploma para cotejar a norma com a própria Constituição. Afinal. ou da emenda. A Constituição enquanto base normativa permanente de todo o Processo . a Constituição quer servir é a si mesma. porque. por hipótese. de que ela faça parte.4. uma peça jurídico-positiva que se orienta por critérios de auto-referência ou de auto-explicação quanto ao seu próprio significado e tamanho da sua eficácia. o mais das vezes. outra.6. 4. porque a Constituição. segundo a classificação que pessoalmente adotamos em parceria com CELSO RIBEIRO BASTOS. o método sistemático é mais abrangente: além de apanhar a norma investigada no contexto da lei. Assim é que não basta a um decreto. O seu concreto uso muda de perspectiva.

7. é documento normativo que exibe duas notas distintivas: primeiramente. Atos jurídicos. porque é nessas cláusulas que o Texto Supremo se personaliza ou tem a sua identidade substancial (a Constituição tem os traços fisionômicos das suas cláusulas pétreas). 4. Bem. o que faz pela enumeração dos atos normativos que se integram no processo legislativo. de sorte a impedir que tais atos se tornem ovelhas desgarradas. depois. ao nascer. tanto do ponto de vista formal ou processual quanto do ponto de vista material ou de conteúdo e ainda eficacial. no entanto. Com exclusividade. É exprimir: cada norma de imediata aplicação da Constituição tem que homenagear a própria Constituição. Vamos repetir o juízo. ele fica acentuadamente suavizado: as emendas e revisões só não podem inovar em tema de cláusulas pétreas materiais. que são produzidos por uma forma preestabelecida quanto à indicação dos respectivos editores (órgãos ou fontes legiferantes) e quanto ao encadeado itinerário de formação da vontade legislativa de tais editores. a instituição de um processo legislativo-constitucional (que é formalmente pétreo por definição) e mais o reclamo de compatibilidade material e de eficácia já são suficientes para que a Constituição.3. É sintetizar: a Constituição. Esse último reclamo de compatibilidade material e eficacial demanda. Constituição. que são atos de imediata aplicação dela própria. material e eficacialmente (com a referida suavização conteudístico-eficacial em tema de emenda ou revisão).7. discriminação.4. pela consideração de que ela.1. a Constituição formalmente rígida é. formando com ele um segundo e complementar sistema.1. Manter sob o seu mais próximo controle todos os atos de elaboração normativo-primária. A Constituição. e cada norma que se seguir .1. a Constituição recicla todo o Direito Positivo e daí a própria Ciência Jurídica.1. ela é a própria condição lógica da montagem de um Direito Positivo de "supra-infra-ordenação". no confronto com as demais regras de Direito Positivo (inclusive os atos oficiais de reforma constitucional). E isto se dá pela instituição de um "processo legislativo" que recubra os atos jurídicos de imediata aplicação dela própria. Cuidando-se de emenda ou revisão à Magna Carta. é claro que ela tem que dispor sobre a edição das outras normas jurídicas gerais.5.7. Tem que ser a fonte das fontes normativas ou a lei das leis. Pois bem.1. o tempo todo.1. com diferentes palavras. formal. Para se manter assim hierarquicamente superior.7. é que pode dizer como se deseja primariamente aplicada. 4. esses. Ora bem. aí o dever da compatibilidade vertical é absoluto: alcança tanto as cláusulas pétreas quanto as destituídas dessa qualificação (desde que se entenda por dever de compatibilidade vertical a não-contradição entre os comandos da legislação infraconstitucional e aqueles insertos na Constituição). só pode fazê-lo na medida em que se irrogue a força de ditar o regime jurídico de todo o Direito legislado (Direito-lei) que a ela se seguir. Já em se tratando de outras modalidades de normas de aplicação primária da Constituição. Mais: a Constituição cria mecanismos de autodefesa quanto à fiel observância daquele processo e também quanto ao conteúdo mesmo e dimensão eficacial dos atos legislativos que a ela se seguirem. ela é um sistema normativo em si.2. por efeito mesmo de sua rigidez formal. também dê à luz um Direito que se caracterize por somente absorver aquelas normas que tenham em outras normas imediatamente superiores a devida confirmação (fundamento de validade).Legislativo 4. 4. desde que formalmente rígida. o conjunto normativo de hierarquia máxima. e somente ela.7. para se autoproclamar como lei das leis ou norma normarum. 4.

Donde os conceitos de validade relativa e validade absoluta de norma jurídica. porque referidos a duas normas superiores: uma. por nova manifestação constituinte).12 4.2. imediata. diríamos que o Ordenamento de supra-infra-ordenação ortodoxa é um presente da Constituição rígida). que a Constituição é hierarquicamente superior às demais normas jurídicas. em última análise. 4.1. Temos. ela já está a se categorizar como o segmento do Direito mais infenso a reforma. averbamos que os atos de reforma da Constituição. pensamos que a oportunidade é das melhores para também lembrar que outro efeito lógico da rigidez formal é a Constituição Positiva a se assumir como o documento normativo que mais persevera na sua originária formulação. torna-se automaticamente pétreo. O caráter superlativamente estável da Constituição e suas conseqüências hermenêuticas 4.7. Constituição rígida. O regime jurídico da rigidez é sempre originário e definitivo. Se não instituído. É por ser formalmente rígida. ou seja.7.11 4. Uma unidade formal e material de estatuições.7. Um conjunto ordenado.2.àquelas de aplicação imediata da Constituição tem que ajustar o seu conteúdo e eficácia a tais normas de aplicação imediata da Constituição e ainda à Constituição mesma.1. é aquele elemento de estabilidade sem o qual perderia sentido o reenvio de toda fonte e de todo comando jurídico-positivo à positividade do primeiro deles. outra.7. Parêntese fechado. da perdurabilidade . cada fonte a jorrar de outra fonte e cada norma jurídica a buscar fundamento de validade material em outra norma jurídica.7.1.7. 4. patenteada fica a proposição de que ela. e não uma pluralidade contraditória e fragmentária de comandos (parodiando HERÓDOTO.1. pois a Constituição forma com as regras infra e pós-constitucionais um só Direito Positivo. um Direito Positivo tão hierarquizado nos elementos que formam o seu repertório. além de impedidos de tocar no originário esquema da rigidez formal. mediata. que a Constituição faz do Direito Positivo um todo encadeado de fontes normativas e respectivos comandos. Versos de rima dobrada. o segundo dos sistemas a que nos referimos: o sistema do Direito-com-a-Constituição. Um "Ordenamento". formal e materialmente.8. que é a norma geral de aplicação da Constituição. Se instituído pela Constituição. A título de parêntese. enfim. Se a Constituição apenas se permite inovar por um processo mais cerimonioso que o das outras normas gerais. a ponto de formar com a Constituição um todo sistêmico. Tudo por efeito de uma hierarquia internormativa que deita raízes na rigidez formal que só a Constituição pode e deve (poder-dever) se autoconferir. nesta última suposição. E como uma parte da Constituição ainda é absolutamente imune a supressão ou a medida que tenda a tal supressão. a pressupor interdependência de autoridades normativas e ausência de antinomias de comandos. até o remonte final à Constituição. claro. que é a Constituição em si. quer dizer.2.7. Está aqui a razão pela qual HANS KELSEN fala desse tipo de Direito Positivo como "ordem normativa de supra-infra-ordenação". tanto formal quanto materialmente. O fato em si da rigidez formal já revela o compromisso que a Lei Maior assume com o movimento incessantemente pendular do Direito. não podem instituir por conta própria esse tipo de esquema para uma Constituição que se deslembre de instituí-lo. nunca mais o será (a não ser. que falou do Egito como um presente do Nilo. E é por ser assim hierarquicamente superior. por conseguinte.6.2. 4.

Pois bem. dado que lei é instrumento criado pelo Texto Constitucional.4. sua fonte geradora. Um e outro momento. em reservado. seu engate lógico. até porque as emendas não podem refundir o originário esquema constitucional de indicação das normas gerais que se integram no processo legislativo (cláusula tácita de intangibilidade).7. o papel da lei não é o de aplicar u'a emenda à Constituição. Fundamento imediato de validade das leis é sempre a Constituição. porque a Constituição o cria. Sua funcionalidade é um olhar para trás. ao declarar que uma lei é inconstitucional está dizendo: `aquilo que todos pensaram que era lei. litteris: "Hierarquia. lei não era'. pois.7. mas para atualizar a Constituição em particular. momento vocacionado para a permanência deôntica. A lei é hierarquicamente inferior à Constituição porque encontra nesta o seu fundamento de validade. inferimos que não existe uma direta hierarquia entre emenda constitucional e lei. o momento legal sempre se reconduz. seja a Constituição depois de reformada.5. seu ser. ou revisões. Momento vocacionado para a mudança. 4. passando a ter na lei o seu elemento de aceleração ou estado móvel de comandos. pois as emendas constitucionais não se põem como o imediato fundamento de validade das leis (entendidas as leis como normas gerais de aplicação primária da Constituição. podemos falar nesse instrumento chamado lei. 4. é do nosso juízo que os atos de reforma da Constituição não podem manter com a lei um vínculo operacional direto. aqui. em rigor técnico. O caso das emendas à Constituição é um caso à parte (como temos ressalvado).para a mutabilidade e vice-versa. elas não existem para renovar o Direito em geral. o que é sutilmente diverso.3. por exame de validade.7. ou seja. . para o Direito. se hierarquia assim se conceitua é preciso indagar: lei ordinária. entretece com a lei um necessário convívio. que é um Direito bifurcado em normas da Constituição originária e normas advindas do Poder Reformador. mas aplicar a Constituição emendada. porque às leis é suficiente a Constituição tal como posta. Quanto mais analisamos a relação que a Lei das Leis mantém com as suas próprias emendas. por acaso encontra seu fundamento de validade. seu engate lógico. um dar-se por satisfeito com a Constituição preexistente. mais nos convencemos de que se trata de um diálogo em separado. àquele originário momento constitucional. 4. 8ª edição. Por isso que. E sendo assim. E é neste passo que ressoam aos nossos ouvidos os mesmos argumentos que MICHEL TEMER esgrima para evidenciar o sem-sentido da tese que propugna pela existência de hierarquia entre a lei complementar e a lei ordinária. no âmbito mais restrito do próprio Direito Constitucional. ao contrário da lei. é a circunstância de uma norma encontrar sua nascente. Esta é que. Malheiros Editores. Constituição). Tanto isto é verdade que o Supremo Tribunal Federal. ali. sua fonte geradora na lei complementar? Absolutamente não! (em ELEMENTOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL. o Direito Positivo tem na Constituição mesma o seu necessário ponto de frenação ou estado firme. Aliás. Seja a Constituição antes de qualquer reforma.2. a se exigirem ininterruptamente.2. contudo. Sem o menor propósito objetivo de colocar tais atos de reforma como ocupantes de grau hierárquico intermediário entre a Constituição e as demais normas gerais de sua aplicação (dela. tanto quanto as emendas o são). seu fundamento de validade numa norma superior. ao passo que a funcionalidade da lei é um olhar para a frente. pois se o momento constitucional é que autoriza o momento legal.2. mas apenas com a Constituição. Na vertente deste nosso jeito pessoal de colocar os atos de reforma da Constituição no seu devido lugar. sua razão de ser. reformada ou não reformada. um refundir a própria norma-começo de todo o Ordenamento.

que tanto recai sobre quem faz a norma quanto sobre a norma feita (processo e conteúdo normativos). a cada nova regra-começo no interior do Ordenamento. Daí havermos dito cuidar-se de um método que extravasa os diques do diploma a que pertence a norma interpretada para submeter a mesma norma ao crivo dos comandos genuinamente constitucionais. O campo divisional. o que se tem é uma unidade do tipo: a) cíclico. entretanto. porque verdadeiramente pétreos. superarem as outras pela aplicação dos dois multicitados critérios.8. 4. a pouco e pouco reforçado com a técnica da expressa indicação de temas super-rígidos.2. pois se contentavam em retirar do Poder Legislativo usual a disciplina das matérias versantes sobre a Separação dos Poderes e acerca dos direitos e garantias individuais. a ponto de excluí-los. a saber: "a lei posterior derroga a anterior" (lex posterior derogat priori) e "a lei geral posterior não derroga a especial anterior" (lex generalis non derogat legi priori speciali). Crivo.1991).2. 4. pois inteiramente calçado em tantas normas-começo quantas forem as leis que. do Poder Legislativo habitual ou cotidiano.7. o Direito que só conhecesse os critérios da intertemporalidade e da especialidade material como técnicas de resolução de antinomias entre normas não deixaria de constituir um sistema. pois ele revela um tipo de unidade de sentido que não se obtém sem o reenvio do Direito pós-Constituição à Constituição mesma. enfim. não em torno da Constituição. 4. do legislar constituinte e do legislar constituído. Com essa modalidade não-formalmente hierarquizada de sistema jurídico (o Direito visto de um ângulo não-referido a uma Constituição rígida). Coloquemos os pontos nos "is" deste subtema. por certo que o método sistemático de exegese das normas jurídicas em geral restaria funcionalmente empobrecido. . ou seja. um novo ciclo absoluto de normas referentes e normas referidas se constitui. no sentido de que as sucesssivas normas-começo passam a girar.7. pois não poderia ir adiante dos dois conhecidos critérios temporal e material de resolução de antinomias jurídicas. ainda que este venha a se elevar à dimensão de um agir reformador da Magna Carta.7.7.2. 4. no tempo. na acepção de que. 4.10. O Direito que só admitisse os dois referidos critérios da intertemporalidade e da especialidade material como técnicas de resolução de antinomias normativas seria um Direito. automaticamente.7. Numa frase.2. mas delas próprias. 4.11. relembrando que algumas das primeiras Constituições escritas eram tão-somente semi-rígidas. Todas estas considerações atestam que o método sistemático de interpretação jurídica recebe decisiva influência da Constituição. E com o resgate da unidade de sentido conteudístico dos elementos que formam o repertório do Direito. b) circular. pois onde houver critério de eliminação de antinomias normativas haverá unidade de sentido conteudístico.9.7. Era o traço complementar da rigidez material genérica. Se não houvesse a Constituição do tipo rígido. Com o que as Leis Supremas de cada Estado soberano adicionaram à sua identidade formal (implícita ou por definição) uma identidade material explícita. Com o tempo. porque subtraídos à faina legislativa do próprio Poder Reformador.6.2.7. porém diferente da espécie piramidal ou deslinear de Direito que se constrói a partir de uma Constituição rígida (norma-começo que não admite outras assim postadas no interior do mesmo Ordenamento). o pensamento jurídico universal se abriu para a compreensão de que a constitucionalização de toda e qualquer matéria já significava um juízo político de qualidade superior de tais assuntos. Mas um sistema de comandos de outra natureza. o que se tem já é um sistema de comandos.2. sim. Aquilo que faz uma Constituição Positiva ser diferente da que lhe antecedeu e também distinta da Constituição de qualquer outro povo.

9. Vale dizer: as normas que veiculam princípios desfrutam de maior envergadura sistêmica. A dualidade princípios/regras como base da nova Hermenêutica da Constituição 4. e não propriamente do Direito em geral).5. uma unidade sistêmica.9. entretanto.8. Não é por ser o Direito um sistema que a Constituição em sistema se transfunde. o método sistemático ou contextual de exegese muda de perspectiva quando tenha por objeto uma norma originariamente constitucional. 4. Da Constituição rígida para dentro. sozinha (tanto antes quanto depois dos atos de sua reforma). o parâmetro de interação das normas constitucionais originárias consigo mesmas reside é na dualidade temática princípios/regras ou princípios/preceitos (regras comuns são preceitos. com as normas veiculadoras de simples preceitos. Como a precedência operacional é sempre da Constituição. tem que se acoplar à Constituição. a uma outra diretriz. 4.2. materializada na Constituição com o Direito em geral. pois a relação ou engate lógico de tais atos se dá é no âmbito específico da Constituição. no sentido de que uma não retira da outra o seu fundamento de validade. dele excluídos.3. A hierarquia é um dos modos de relacionamento entre normas jurídicas (estrutura). todo ele cimentado na rigidez formal e conseqüente superioridade da Constituição. o modo de relacionamento internormativo obedece a um outro vetor.1. Para sê-lo.9. agora sim. Não apenas pontuais. Elas enlaçam a si outras normas e passam a cumprir um papel de ímã e de norte. a um só tempo. Duas caracterizadas unidades jurídico-positivas então se formam: a primeira unidade.1. antes. Voltando a trabalhar com o modelo cabalmente hierarquizado de unidade jurídica.8. sozinho.8. se. A Constituição como sistema ou ordenamento por virtude própria 4. o Direito não é. mas que somente se manifesta da Constituição rígida para fora. "não pode haver fronde em ordem com raízes em desordem". redivivo. Dentro da Constituição.4. já o vimos. um todo congruente de prescrições. já agora ao lado do Direito infraconstitucional. no interior da própria Constituição.1. um todo congruente de prescrições ela não fosse. Como diria CONFÚCIO.1. como se dá. 4.8. Sem embaraço do fato de vir a constituir uma segunda e necessária unidade. ele se orienta por critérios cabalmente hierárquicos. Mas a Constituição consegue ser. materializada na Constituição (antes e depois de cada ato reformador. a segunda unidade. sim.8. É por ser a Constituição um sistema que o Direito em sistema se transfunde. Todas elas têm o mesmo caráter impositivo e a mesma hierarquia. pois as normas constitucionais originárias não se relacionam por graus hierárquicos. Logo.8. os atos de reforma constitucional (dado que voltados para a composição daquela primeira unidade sistêmica). e não princípios). Os princípios como normas interreferentes 4. 4. naturalmente.4. Noutro modo de dizer coisa igual. 4. o que nos cumpre aduzir é patente: a Constituição não faria do Direito em geral um conjunto. Fora da Constituição. . Realmente. os seus comandos são interpontuais. uma unidade sistêmica do tipo formal e materialmente hierarquizado. insista-se no juízo. o hermeneuta já não pode se servir desse tipo de critério.

9. Quer por efeito de complementação. um Ordenamento de traço hierárquico. mantém a unidade material dessa mesma Constituição. cada princípio concorre para a significação de outro.1. se o princípio é daqueles que se definem por oposição a outro. Dignidade da Pessoa Humana. ambos têm a mesma dignidade sistêmica e por isso nenhum deles pode ser considerado um subprincípio do outro (e a primeira contraposição que nos ocorre é a do princípio da liberdade de informação frente à intimidade e à vida privada das pessoas naturais). há fogo".9. que são direitos subjetivos instrumentais de direitos subjetivos materiais). no exterior da Constituição rígida. Ter-se-á. com um direito subjetivo perante outro (não assim. que são normas de acentuado recheio fático e não-referidas. que o diálogo interprincipial não infirma o significado próprio ou autonomizado de cada princípio dialogante.9. os atos e fatos pontuais que se verbalizam em cada preceito (por exemplo. Cidadania. um deles será o principal e. e quando o faz é numa dimensão muito modesta. Já o princípio da "propriedade privada". Ordenamento de vinco axiológico versus Ordenamento de vinco hierárquico 4.1. Pluralismo Político. A relação entre as duas categorias (princípios e preceitos) é de continente para conteúdo. diríamos: as normas principiológicas não consubstanciam meios ou providências (estado-pontual-de-coisas).4. Ao contrário. porém. Advirta-se. o princípio da impessoalidade (significando o dever que tem o Administrador Público de aplicar a lei sem incorrer em promoção ou marketing pessoal) é logicamente dedutível do princípio republicano (de res publica). Verbi gratia. Recolocando de forma ainda mais precisa a idéia.3. 4. Elas são esses .2.2. secundário.13 4.. que faz parte do esquema em que se viabiliza o princípio da Independência e Harmonia dos Poderes). que são fins em si mesmos.).9. para a sua própria causa. no sentido de que "onde há fumaça.2. ou fracamente referidas a outras normas-preceito. ou de outros. o veto presidencial a projeto de lei. É raciocinar: os valores que se contêm nos princípios atraem para o seu próprio serviço. propriamente. um Ordenamento de vinco axiológico. República. diferentemente do que sucede com as normas-princípio.4.14 4.. se o princípio constitucional é daqueles que tem sua inter-referência marcada por complementação. com as garantias constitucionais. a dicotomia princípio/subprincípio (como se dá entre o mesmo princípio republicano e o princípio da moralidade administrativa). E assim enxergando. Nesse estado-de-coisas é que vão pousar as normas-preceito. 4. de par com o valor que lhe adensa a individualidade enquanto norma. Tudo isto assentado..2. entretanto. Separação dos Poderes. o outro.2. Com o que se tem. quer dizer. quer por efeito de contraposição. E os valores são quase sempre dialogantes ou interreferentes. verbi gratia. como sucede. É que as normas principiais consubstanciam ou tipificam valores (Democracia. Ora bem. Ele apenas quer traduzir que.1. os valores interagem fortemente e ainda são exigentes de um estado-de-coisas ora mais ora menos concreto para a sua realização.1. que termina sendo uma relação entre a fumaça dos preceitos e o fogo dos princípios . para o alcance de valores.9. então. uma norma preceitual não leva a outra da mesma natureza. conclua-se que é ao influxo de critérios axiológicos ou valorativos que a interpretação sistemática vê a realidade de cada norma da Constituição. no interior da Constituição rígida.9. é óbvio que ele se define por oposição ao princípio da "função social da propriedade". isto é.

Nesse valor constitucional de estatura suprema o jurista espanhol PABLO LUCAS VERDU apõe o rótulo de "fórmula política". `fórmula política de uma Constituição é a expressão ideológica que organiza a convivência política em uma estrutura social'" (texto remissionado. o valor-continente por excelência. são elas que tornam o Direito uma casa arrumada. fincando uma base de coerência material que é o apriori lógico da formulação de um pensamento dogmático.5. exclusivamente. Soberania Popular. É claro que não apenas a Constituição encerra princípios. etc. p. 2).3. bem no topo da pirâmide axiológica (não-hierárquica) da Constituição. aquela superidéia central de Direito. a Constituição auto-irroga-se a virtude da unidade sistêmica. cada norma vai buscar a sua justificativa axiológica e a sua raison d'être operacional em outra norma. o exegeta vai encontrar o valor dos valores. o valor-síntese. É subindo dos valores menores para os valores maiores da Lei das Leis. e assim sucessivamente. Para o eminente catedrático da Universidade de Madri. E lá. Moralidade Administrativa. assim referido nestes comentários de WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO. 4.2. retomando as clássicas lições de KONRAD HESSE sobre a tópica hermenêutico-constitucional: "O primeiro e principal princípio é o da unidade da Constituição. em contraposição à unidade concomitantemente formal e material do Direito pós-Constituição. expresso na decisão fundamental do constituinte. além de atribuir unidade axiológica ou . sejam as que vimos chamando de preceituais. Em qualquer das duas suposições.2.9. 4. e. que não têm ou quase sempre não têm a pretensão de enlaçar a si outras normas.). Com efeito. É uma dualidade que pode estar no outros diplomas jurídicos. que o intérprete vai revelando o caráter sistêmico ou orgânico dela própria. até chegarmos ao mais alto desses valores.9.9. as normas-princípio.valores mesmos. do tipo material ou conteudístico. onde cada norma encontra sua justificativa nos valores mais gerais. sucessivamente. Logo.9. em suma. de modo a que formem um sistema integrado. Daí por que têm a particularidade de irradiar o seu conteúdo exclusivamente axiológico para outras normas gerais. 4. mas que somente é da Constituição (por ser conatural a ela.2.7. portanto.2. insista-se no fundamento). por eles. expressos em outras normas.2. Dentro da Constituição. tem a possibilidade de conferir a todas às suas normas um sentido de ordem ou estrutura.15 4. são as normas-princípio que fazem da Constituição uma densa rede axiológica de vasos comunicantes. 4. porém de mais dilargado raio de alcance material (pela sua maior densidade valorativa).9.4. Mas é inegável que toda a principiologia fundamentante de uma Ordem Jurídica se inicia com a Constituição e daí é que se esparrama pelos demais setores do Direito. E assim de preceito para princípio e de princípio menor para princípio maior. É como dizer: as normas-princípio conectam outras normas e assim formam um conjunto que vai possibilitar a própria formulação de um pensamento dogmático ou científico sobre esse conjunto. Desenvolvimento.6. Uma unidade material ou de substância. que está para os demais valores como um dado ponto inicial e fixo no espaço está para a alavanca de ARCHIMEDES. não de hierarquia superior. Como inegável também é que sem a dualidade princípios/preceitos não há como conceber a natureza mesma da Constituição enquanto rígido modelo de Direito Positivo. Legalidade. o qual determina que se observe a interdependência das diversas normas da ordem constitucional. sejam mesmo aquelas veiculadoras de princípios menores ou subprincípios. naquilo que PABLO LUCAS VERDU chama de fórmula política. A tradução formal deles (Federação. Diferentemente das normas-preceito.

como deslocamento espacial ou topográfico do povo.10.. Logo. como fator de estabilidade e de atualização constitucional. a imutabilidade. no âmbito de sua própria circunferência semântica.) se traduzem numa materialidade ou estrutura conceitual que em parte é atual e em parte é prospectiva. Há como que uma dialeticidade no próprio interior de certos princípios. ou assegurar. Desde que tal mudança tenha o significado de aumentar a perspectiva de funcionalidade do núcleo mesmo. que sai da platéia e passa a ocupar o palco de todas as decisões governamentais que lhe digam respeito. a operatividade da parte nuclear desse princípio mesmo).2. É que certos princípios (dignidade da pessoa humana. a possibilidade de mudança.5. familiar. 1°. O que estamos a enfatizar é que determinados princípios têm uma parte de si como janelas abertas para o porvir. no recôndito de cada princípio mesmo e o atrito se resolve por uma solução endógena de compromisso que leva a Constituição a mudar para permanecer idêntica a si mesma (na medida em que a mutabilidade na periferia do princípio se faz é para robustecer. valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. Naquele núcleo.material à Constituição rígida. A parte futura é aquela que vai buscar o seu conceito no modo como o povo passa a sentir e praticar o discurso normativo-constitucional ao longo do tempo. Eles fazem da Constituição um documento processual por excelência e que é o processo? Um seguir adiante.). A parte atual é de pronto formada com os dados-de-compreensão que afloram da própria tecnicalidade constitucional. dignidade da pessoa humana.10. A tensão entre permanecer incólume e experimentar alterações ocorre no imo. essa é a parte que passa a legitimar todo tipo de alteração constitucional . econômico. religioso. fazendo com que a Lei das Leis ganhe essa possibilidade de se ajustar mais facilmente à irrupção de fatos novos ou a novas valorações de fatos velhos. moralidade. um caminhar para frente. eficiência. Democracia. moral. militar. Já a periferia do conceito. combinadamente com todos os incisos do mesmo art.4. para a imutabilidade. pelo povo e para o povo" (e que foi consagrada pela Carta de Outubro. 4.10. Na periferia. 4.) ostentam um núcleo e uma periferia em sua própria circunferência deôntica.. A peculiar estrutura conceitual dos princípios constitucionais 4.1. 4. Com efeito. venha a rigidez a fazer das normas constitucionais conceitos jurídicos estratificantes. isto é. Por este modo de ver o fenômeno da principiologia constitucional. 4. incluímos até mesmo a Democracia como possuidora do referido núcleo que é impermeável a mudanças e de uma periferia permeável. sem necessidade de o intérprete recorrer a elementos de compreensão que se situem no plano do sistema social genérico (sistema político. a teor do parágrafo único do art. Com o que os princípios axiais da Constituição operam. etc. é uma parte vocacionada para a mutabilidade. ambivalentemente. 1° e mais o artigo 3°). dotando a Constituição de plasticidade para se adaptar à evolução do modo social de conceber e experimentar a vida. obrigando a que toda mutação da Constituição apenas se dê ao nível das emendas e revisões. pluralismo político...10.10. como é da natureza da vida mesma. 4.10. segundo a qual "Democracia é o governo do povo. O núcleo impermeável é aquele que situa a Democracia no rigor lógico da famosa definição lincolniana. valorização do trabalho. enquanto a outra. desenvolvimento nacional.3. portanto. os princípios de que falamos (cidadania. concorrem para impedir que a própria rigidez venha a significar impermeabilidade conceitual dos valores de berço constitucional.

10. Por isso mesmo é que preferimos dar conta da matéria no capítulo que vem de imediato. Atenuando. assim. os princípios são os elementos que mais contribuem para dotar o sistema constitucional de uma espontânea flexibilidade ou jogo de cintura (permitimo-nos o prosaísmo da expressão). Ainda estamos bem longe de explorar o potencial teórico dessa dualidade básica princípios/regras. aqui inseridas as universidades (para repetirmos antigo e sempre atual conceito da Democracia como divisão do poder. com o nome de "A DUPLA CENTRALIDADE DA CONSTIUIÇÃO E DOS SEUS PRINCÍPIOS". que. Todos esses princípios. a necessidade de alteração formal das normas constitucionais e contornando as dificuldades processuais que são próprias da reforma de tais normas. 4.10. Diga-se o mesmo da Democracia material ou de substância. de sorte a colocar a Constituição em dia com os fatos sociais. Noutra linguagem. 4. . se tornou a nova base da Hermenêutica da Constituição. então. a assimilar toda mudança que signifique proliferação dos núcleos sociais de participação na riqueza nacional e até no saber que se produz nas escolas oficiais.6.7. controle e fiscalização do Governo. promovem a abertura das janelas da Constituição para o mundo circundante. da riqueza e do saber).formal que venha a se traduzir em descentralização ou desconcentração da autoridade política e em ampliação dos espaços de participação popular na escolha dos governantes e no exercício. de tão metodologicamente importante.

pois a conduta humana não-legislativamente imposta. ou não proibida. de regras ou preceitos.7. E nesses dois planos da ontologia e da funcionalidade é que as normas-princípio são dotadas de mais elevada estatura sistêmica.1. A eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica 5. que é uma função unificadora. II . seja por contraposição.3. eles.1. seguida de perto pela doutrina alemã.3.Capítulo V . cumpridores de uma função instrumental. As conseqüências lógicas da Constituição enquanto suma de princípios 5. A Democracia como o valor constitucional por excelência 5.1. V . Do quanto discorremos no capítulo precedente sobre a dicotomia básica princípios/preceitos. Ontologia e funções dos princípios constitucionais 5. pensamos avultar a ontologia dos princípios constitucionais materiais como normas: I . b) estabilizam e ao mesmo tempo atualizam a Constituição. pensamos que eles são basicamente dois: a) o princípio da rigidez formal.A Dupla Centralidade da Constituição e dos seus Princípios Sumário 5. Ontologia e funções dos princípios constitucionais 5. não deixa de embutir nesse rol dos princípios constitucionais instrumentais a interpretação conforme a Constituição e a presunção de constitucionalidade das leis. 5. 5. é que se pode afirmar que norma jurídica é uma categoria maior que regra. III .4. .2. dotando-a. E que o Direito é maior do que a lei. seja por complementação. Servindo mesmo como perene critério de interpretação de princípios menores (subprincípios) e.6. nesta segunda variante. 5. com mais razão. e não apenas no interior de um determinado ramo jurídico.autoconceituáveis (no sentido de que seus conteúdos ou elementos de definição já constam da própria Constituição. A ascensão dos princípios como supernormas de Direito 5.1.axiológicas ou consubstanciadoras de valores. Quanto aos princípios constitucionais de natureza formal. de um caráter eminentemente dinâmico ou processual.2. inquestionavelmente.onivalentes. 5.1. pela clara razão de que operam de ponta a ponta do Ordenamento. Já no plano das funções. já é antecipadamente qualificada como juridicamente permitida. que a ausência da lei não implica ausência do Direito.1. princípios constitucionais materiais: a) conferem unidade material à Lex Maxima. exatamente porque prescindentes da lei quanto às suas expressões ou manifestações conteudísticas. portanto.8. b) o princípio da supremacia da Constituição. dessarte.5.auto-aplicáveis.1. IV . A necessária interpretação restritiva das normas constitucionais sobre o Poder Reformador 5. O ser da Constituição e seus valores mais próximos 5. se considerarmos pelo menos o princípio constitucional de que "ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei" (legado imperecível do constitucionalismo liberal). Mas a doutrina norteamericana.5.4. A identificação de todo o Texto Magno com o seu princípio maior 5.inter-referentes. A significar. Graças à natureza e à funcionalidade dos princípios materiais da Constituição.1.

a autores do porte de um KONRAD HESSE ("A Força Normativa da Constituição". ou mesmo em regras comuns suficientes. Eles foram evoluindo com o próprio tamanho das Constituições e a forma jurisprudencial-doutrinária de interpretá-las. o modo legislativo de escrever as primeiras Constituições ocidentais era muito parcimonioso.3. mais recentemente. Ainda assim. graças à atuação normativamente integradora e até inovadora da Suprema Corte de Justiça americana.5. Princípios expressos havia . era impossível conceituar cada princípio constitucional a partir de elementos encontradiços na própria Constituição. 5. 5.2. Tudo resultando na supereficácia da própria Constituição. Assim como o Direito "não é filho do céu" (TOBIAS BARRETO).6. mormente os fundamentais ou estruturantes do Estado e do Governo.2.4. ou seja. E só depois da Declaração Universal dos Direitos do Homem (Organização das Nações Unidas) é que as Leis Fundamentais de cada povo soberano foram ganhando uma funcionalidade fraternal (pelo decidido combate aos preconceitos sociais e pela afirmação do Desenvolvimento. mas não os garantiam. Ora. E foi justamente essa vontade coletiva de embutir nas Constituições regras e subprincípios densificadores de princípios materiais de superior envergadura (axiologica e funcionalmente) que as Magnas Cartas passaram também a normatizar assuntos que até então eram próprios de outros ramos jurídico-positivos. Veja-se que as primeiras Constituições escritas. destarte. Tinha-se que recorrer ao Direito infraconstitucional. mas um produto da História. foi a da supereficácia das normas-princípio. mas não se dispunha a dar conta dos direitos sociais (invenção do constitucionalismo do México. A nova práxis ou fenomenologia constitucional-positiva que foi tomando corpo. É igual a dizer: os dispositivos constitucionais não se desdobravam em subprincípios.5. respectivamente). 5. O que levava à subeficácia da própria Constituição. 5. do meio ambiente e do urbanismo como Direitos Fundamentais). elas declaravam tais direitos. possível não era a conceituação de cada qual deles. porém a excessiva economia de dispositivos e até dos vocábulos em que tais dispositivos se vazavam impedia a indicação dos conteúdos de cada norma principiológica.2. acrescente-se. somente continham direitos individuais.2.2. por falta de indicação conteudística. 1991) e de um . 5.7. com o tempo. no bloco dos países constitutivos da Civil Law. Toda essa mudança de paradigmas no âmago das Constituições filiadas ao sistema romano-germânico do Direito muito deve. em matéria de direitos subjetivos oponíveis ao Estado. já nos anos de 1917.2. Passaram a garanti-los. ao lado da crescente constitucionalização do Direito infraconstitucional. no plano da eficácia. como subnormas.2. Deveras. os princípios jurídicos não surgiram de uma noite para o dia. E sem se conhecer o conteúdo ou os conteúdos de cada princípio constitucional.1. Essa fenomenologia das Constituições esquálidas não embaraçou a evolução do mais importante país da Common Law (os EUA). os princípios eram tidos.1 5. naquilo mesmo em que a Constituição mais devia reluzir: a sua principiologia. A ascensão dos princípios como supernormas de Direito 5. Contudo. 1918 e 1919. RONALD DWORKIN (cuja distinção entre regras e princípios jurídicos é o que existe de mais recorrente nos dias atuais).notadamente os materiais -. que já é uma função verdadeiramente transformadora ou emancipatória. E do labor de jurisconsultos do porte de um MARSHALL e.2. foi preciso que a evolução começasse com a robustez disposional e vernacular de cada princípio constitucional. da Rússia e da Alemanha.2.

Aceita que seja a dicotomia princípios/preceitos como da essência das atuais Constituições do tipo formalmente rígido. mais que uma relação de pertinência. Aquilo que a Constituição é.4. 5.9.2. tanto quantos os princípios passaram a ocupar a centralidade da Constituição. num crescendo que chega à superforça de ambas as categorias. acima de tudo. valor-síntese. 5. Esse valor-teto.2. esse princípio dos princípios mantém com a Constituição. Por um desses fenômenos desconcertantes que timbram a trajetória humana. E assim recamada de princípios que são valores dignificantes de todo o Direito. a "fórmula política" de VERDU outra coisa não é. se as Constituições padeciam de subeficácia pelo seu caráter principiológico.3.ROBERT ALEXY ("Teoria de los Derechos Fundamentales". é precisamente aquele cuja existência é a principal justificativa material de quase todos os demais valores.3. senão o próprio ser da Constituição. 5. o valor-síntese da Constituição. foi justamente pelo seu caráter principiológico em novas bases que elas passaram a se dotar de supereficácia normativa. Por ser o valor constitucional primário (gene). pois o fato é que o reconhecimento da força normativa dos princípios coincide com o reconhecimento da força normativa da Constituição.8. O que já significa dizer: caso extirpado da Constituição. para nós. ela mesma é ele. Sendo que ALEXY foi quem retomou os fundamentos de RONALD DWORKIN para evidenciar as diferenças qualitativas entre normas veiculadoras de princípios e regras portadoras de simples preceitos. que é o valor para além do qual não pode haver outro senão já totalmente situado no mundo das coisas metajurídicas. à sua dignidade formal a Constituição adicionou uma dignidade material. ambos da Alemanha. agora eles se elevam ao patamar de supernormas de Direito Positivo. 1977). 5.2. ele.1. estava criado o clima constitucional propiciador da dicotomia básica princípios/regras (ou princípios/preceitos) e o fato é que.3.3. É de conveniência didática a repetição: caso extirpado do Magno Texto o valor . ou o gene do qual decorrem os mais vivos traços fisionômicos dos demais valores constitucionais. que mais e mais insistiram na metodologia hermenêutica de reconhecer à Constituição o máximo de aplicabilidade por si mesma.3. 5. É que o valor-dos-valores. 5.2 5.5. E se aos princípios era recusado o status de verdadeiras normas. Em síntese.3. que dentro da Constituição não conhece outro que se lhe iguale em importância funcional-sistêmica. Esse movimento ascensional-interno tem um compromisso racional com um dado ponto de chegada. A sua quintessência. Isto porque o auto-impulso axiológico da Magna Lei de um patamar inferior para um patamar superior não é de se perder no infindável. A identificação de todo o Texto Magno com o seu princípio maior 5. inelutavelmente deflagraria sobre a quase totalidade dos demais valores uma mudança qualitativa de tal ordem que chegaria às raias de um mortal efeito dominó. um novo salto de racionalidade já pode ser intentado: aquela característica do movimento ascensional-endógeno de fatos para valores e de valores de menor porte material para valores de maior envergadura igualmente material (tema do capítulo anterior) termina por fazer da Constituição algo plenamente identificado com o seu princípio de maior abrangência. é que ela passou a ocupar a centralidade do Ordenamento Jurídico. O valor-continente por excelência. uma relação de inerência: ele é ela mesma. Estrada de mão dupla.3.

a simbolizar que ele mesmo é quem escreve a sua história de vida político-jurídica e assim toma as rédeas do seu próprio destino. ou dos mais "nobres". mas sempre u'a minoria) para fazer prosperar o que se tornou símbolo de status civilizatório: o princípio majoritário. Mas que valor-continente é esse? Que nome dar a um princípio que se coloca. seja por forma indireta ou representativa.4. esteja na Democracia. ou dos mais hábeis em curas médicas ou pregações religiosas. esse megaprincípio é o da Democracia. 5. concomitantemente. a sua extirpação implicaria o absurdo de apartar a Constituição de si mesma. que da platéia passa para o palco das decisões que a ele digam respeito.que é a própria síntese da imensa maioria dos demais. o que mais se faz presente na ontologia dos demais princípios.4. na pia batismal do mais límpido voto popular . A Democracia como o valor constitucional por excelência 5. pois. Democracia. de cujo casamento por amor resulta o ansiado Estado de Justiça.3. Ora. em essência.4. pela casta dos mais valentes. praticamente nada restaria. Da mesma Constituição já não se cuidaria. o povo a sair da passiva posição de espectador para a ativa posição de ator político. desse mesmo Texto. ou dos mais velhos. 1° da Carta de 1988) e em toda cláusula pétrea explícita da nossa atual experiência constitucional (incisos de I a IV do § 4° do art. seja por forma direta ou participativa. 5. E Democracia. Por que não repetir? Se o princípio por excelência é o que mais repassa a sua materialidade para os outros. sobranceiro. ou seja.que não fizesse da Democracia a alma da Constituição por ele promulgada. 3º do mesmo Diploma Fundamental. Incorpora-se ao passado. em rigor. e. de imediato.4. 60 da mesma "Constituição-cidadã"). Além de justificar em todo o art. que é o mundo das evanescentes lembranças do que já existiu. expresso na idéia de que a maioria do corpo eleitoral de um País é quem faz o Direito comum a todos. Tanto na Democracia formal quanto na material.5.4. reserva para si o poder de selecionar eleitoralmente os governantes. que é "a decisão política fundamental" (locução de que se valia CARL SCHMITT para falar do ato de vontade gerador da Constituição e. É exigência da verdade o dizer-se que nos países do Ocidente não se conhece um só colegiado constituinte de livre investidura eleitoral .ungido. é o nome que assenta para o fenômeno da subida do povo ao podium das decisões coletivas de caráter imperativo. É do nosso pensar que o ser das Constituições ocidentais. quem tem a força de subir ao podium das decisões coletivas de caráter imperativo. à frente de toda a principiologia constitucional? Vejamo-lo. no curso da história humana. tudo o mais vai lhe faltar. nunca deixa de dividir com eles algumas funções de governo e ainda passa a controlar o modo pelo qual tais . com o tempo. no inequívoco sentido de troca de lugar ou mudança topográfica do povo. ao menos daquelas nascidas do ventre de uma Assembléia Nacional Constituinte.4.4. Por isso que ele transluz em cada um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (incisos de I a V do art. isto é.6. Ou o caráter holístico de tais Constituições. Deixa de ser resignado objeto de formal produção normativa de minorias (retratadas.2. a começar pela feitura da própria Constituição. pois. portanto. 5. ou dos mais "cultos". pois a Constituição deixa de fazer parte das coisas presentes. 5. da Constituição em sentido material). É como dizer: faltando à Constituição o seu próprio ser. a começar pela mais importante das decisões coletivas. ou dos mais patrimonializados.1. assim no Estado Democrático de Direito como no Estado de Direito Democrático. do que já se despediu da vida. sendo o princípio dos princípios o próprio ser da Constituição.3. 5.3 5.

da circunferência democrática. Assim incorporando uma dimensão processual (modo pelo qual o povo participa.falemos assim . Com o requinte de muitas vezes clausular como pétreos aqueles valores mais próximos do centro .e não apenas dúplice . com o transcorrer dos anos.governantes se desincumbem do mandato ou do papel institucional que lhes é confiado. O mérito de domar o poder e assim torná-lo serviente do Direito. em um ritmo ora mais lento. tanto quanto os princípios constitucionais estão no centro da Constituição e a Constituição está no centro do Sistema Jurídico. compreende e legitima a produção em si de todas as leis em sentido material. ora mais rápido. porém nenhum povo conseguiu vivenciar algo melhor). o modo de execução desse mesmo Direito. a Democracia. 5. ser a Democracia um fluxo ou movimento ascendente do Poder (visto que parte de baixo para cima e não de cima para baixo).10. Passagem ideal de uma situação de democracia do Estado (no interior dele) para uma situação ainda mais abrangente de democracia na intimidade de todo o corpo social.4. Com o que passa a regime político de irrespondível superioridade sobre qualquer outro já experimentado (como a licitação e o concurso público. popularmente votada.5. É certo que o teor de autenticidade democrática varia de cada experiência constitucional-positiva para outra.4. O ser da Constituição e seus valores mais próximos . portanto. de manifestação da própria consciência humana. da produção e execução do Direito) e uma coloração material (compromisso das normas jurídicas gerais com a defesa e promoção dos indivíduos e daqueles que só podem ser concebidos como parcelas do todo social). como o regime pelo qual o povo passa a eleger seus governantes. Que fique assentado.4.4. para limitá-las perante as respectivas bases. criticamente. Mas o fato é que nenhuma Constituição ocidental.8.centralidade: a Democracia está no centro dos princípios constitucionais. mais e mais serve de condição para que o Direito se caracterize também por uma vertente popular. não é difícil perceber que a Democracia é o único valor que perpassa os poros todos da axiologia constitucional (valor subjacente a tudo o mais). acima de tudo. 5. ora indiretamente. a Democracia ganha a suprema virtude de legitimar por todos os ângulos o Poder. para valorizá-las. 5. É a chamada Democracia Formal ou Estado Democrático de Direito. 5. incorpora a positivação de valores que se marquem por uma densa vertente popular (tanto no campo institucional como na área das franquias individuais e dos direitos sociais). E aí já se pode falar de Democracia. b) nas cúpulas do poder estatal e até mesmo das instituições privadas.4. b) enquanto fim ou objetivo de toda norma jurídico-primária mesma (Democracia Substancial).7. Chegando-se a este patamar de intelecção. de sorte a desenhar nos horizonte da História o altaneiro perfil da Democracia Substancial ou "Estado de Direito Democrático" (a Constituição portuguesa de 1976 bem o diz. ora direta.4 5. no sentido de que: a) enquanto processo ou via de formação e deliberação de norma jurídico-primária (Democracia Formal). sejam quais forem os conteúdos dessa leis. a partilhar com eles o exercício do poder de criar o Direito e a acompanhar.6. 5. nominalmente). com a virtualidade de atuar ao mesmo tempo: a) nas bases do corpo social e das próprias instituições públicas e privadas. deixa de dizer que está a reverenciar.9. que. nos marcos da Constituição. a democracia não está isenta de defeitos. Que o fechamento deste tópico seja a afirmação de que a teoria constitucional já dispõe de todos os elementos lógicos para reconhecer até mesmo uma tríplice .

5. universal e periódico". "dignidade da pessoa humana". Escolhendo a do Brasil como paradigma.4. sob as denominações de "forma federativa de Estado". os fundamentos da nossa República Federativa são os cromossomos nos quais se contêm os próprios genes ou suportes materiais da hereditariedade estatal brasileira. Em linguagem figurada.se se intenta colocar no cerne da reflexão jurídica a figura mais abrangente da . pois toda interpretação normativa que os confirmar será uma "interpretação conforme a Constituição". especifica ou topicamente revelado nos valores que tais. mas orgânico. na acepção de que o povo nacional tem o poder de se decompor em unidades territoriais que se caracterizem pela personalização jurídica. E sendo assim. portanto.5. ou seja. ao lado das cláusulas pétreas materiais expressas. Esses valores mais próximos do centro da Democracia. perceberemos que ela tem a sua mais funda justificação no fato de a Democracia incorporar um ingrediente de divisão espacial do poder político. é preciso ratear o poder político entre os órgãos estruturais de uma mesma pessoa político-estatal em bases tão independentes quanto harmoniosas. Logo. 5. autonomia governamental recíproca e indissolúvel atrelamento a uma terceira pessoa estatal abarcante de todas elas. estamos a lidar com "fundamentos" que outra coisa não são que princípios antecedentes a tudo mais que signifique nova montagem e funcionamento do Estado brasileiro em termos republicanos e federativos. Também assim no § 4° do art. não territorial. concebemo-los como os principais conteúdos ou as principais manifestações dela mesma. "valores sociais do trabalho e da livre iniciativa" e "pluralismo político". É preciso intuir com essa força de gravidade do ser da Constituição. secreto. 1°.5 5. a dedução flui no mesmo passo: a democracia postula mesmo a distribuição do poder político por um vetor complementar.5.5. pois o contrário é seco autoritarismo ou ditadura do Poder preponderante (sempre o Poder Executivo). é pela imperiosa razão de que tais fundamentos são os pressupostos mesmos ou o a priori lógico da construção e balizamento de todo o Estado brasileiro. Se o visual interligado das partes projeta a imagem do todo. porque ele é uma porta aberta para a compreensão de cada parte da Lei das Leis e de todo o conjunto normativo-constitucional. 60.5. III .se tomarmos por referência a Federação como forma de Estado. como anteriormente falado. "voto direto. com os nomes de "soberania". o visual do todo inda mais aclara a visão de cada parte. deve-se prestigiar aquela que melhor assegure a eficácia do princípio que mais proximamente esteja do ser da Constituição (e tal ser é a Democracia.se o pensamento se volta para a instituição do princípio da Separação dos Poderes. Vale dizer. vamos encontrá-los expressamente citados nos incisos de I a V do art. "cidadania". como tantas vezes dito). Ilustremos com a própria Lei Maior de 1988: I . Se estamos a qualificar os fundamentos da República Federativa do Brasil como elementos conceituais da Democracia. eles passam a gozar de uma posição intra-sistêmica do mais alto relevo.2.5. II . Entre duas interpretações possíveis de uma norma constitucional. "separação dos Poderes" e "direitos e garantias individuais". Aquilo que se põe como justificativa prévia e explicação final da arquitetura estatal que substituiu o modelo autoritário da eufemisticamente chamada "Revolução de 1964". Esses valores mais próximos do núcleo da circunferência democrática têm nas atuais Constituições de Portugal e do Brasil uma indicação mais precisa.3. como advertiam LOCKE e MONTESQUIEU. uma interpretação conforme o ser da Constituição.1.

todo ser humano deve passar ao largo de controle estatal (não é de contenção do poder estatal que primeiro vive a Democracia?). religião. Passar ao largo de controle estatal como condição de respeito a uma dignidade que não tem outro fato gerador que não a humanidade mesma que mora em cada indivíduo. Daí também o necessário vínculo entre os direitos e garantias individuais e a Democracia. -. pois Democracia. a par de outros conteúdos. se adensa. se a pessoa vive "debaixo da ponte" e a ponte não se presta como endereço oficial de ninguém? As prefigurações pululam em nossa mente e nos lembramos de que até . constituindo-se mesmo numa totalidade em si. pois a proclamação de tais direitos e garantias é o reconhecimento formal de que todo ser humano não é somente parte de algo. cada indivíduo é por natureza diferente dos demais e no que toca à experimentação de sua natureza em certas áreas de atividade . Foi o ponto de compreensão a que finalmente chegou o nosso constitucionalismo. e. mas algo à parte.se o eixo do pensamento especulativo já se volta para o rol dos direitos e garantias individuais. Noutra forma de expor as coisas.). seja até mesmo o conjunto da sociedade) àquelas inatas diferenças de cada indivíduo. somente eles podem escolher. Daí o vínculo funcional entre a dignidade da pessoa humana e os chamados direitos e garantias individuais. no sentido de que são os governados que detêm a propriedade da coisa pública ou a titularidade dos interesses gerais.pensamento. e até se plenifica pela idéia de uma partilha direta do poder político entre governantes e governados. eleitoralmente. trabalho. Se não há Democracia sem a devida observância dos direitos e garantias individuais (veículos formais do princípio da dignidade da pessoa humana. por hipótese. não há concreta vivência dos direitos e garantias individuais sem o desfrute de franquias trabalhistas que possibilitem ao trabalhador e respectiva família um auto-sustento econômico. quem os represente no papel de definir o que seja melhor para todos e como operacionalizar tal decisão (logo abaixo da Constituição.6 IV . E conteúdo tão palpável que nos parece verdadeiro afirmar o seguinte: o próprio entendimento do que seja dignidade da pessoa humana depende de um ar de liberdade pessoal e de pluralismo ético-ideológico-religioso que somente se respira em atmosfera democrática. ou da comunicação telegráfica. repita-se) e um dos mais palpáveis conteúdos da Democracia. etc. educação. de novo a justificativa para a positivação da matéria se encorpa. preferência sexual. é no reconhecimento de cada indivíduo como um microcosmo que se intui com o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana (inciso III do art. não pode deixar de se traduzir em respeito do todo (seja o Estado.República.enfim. saúde. pois. se o indivíduo não ganha sequer o suficiente para alugar uma residência? E o direito igualmente individual do sigilo da correspondência epistolar. vai-se notar que o laço entre eles e a Democracia é igualmente umbilical. 1° da Constituição brasileira de 1988. associação. também expressamente arrolados como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. da Ordem Econômica e da Ordem Social de que trata a Carta de Outubro. IV . Donde se falar de convivência com os contrários ou respeito às minorias. de que serve o direito individual de inviolabidade domiciliar. E que tais representantes só podem permanecer como representantes do povo por um determinado período e debaixo de uma responsabilidade político-jurídica de caráter pessoal. ao lado dos direitos sociais à habitação. conjuminadamente. transporte. entenda-se). locomoção. mas um todo à parte. Sendo assim. a toada não muda se o alvo desse tipo de análise teórica se deslocar para "os valores sociais do trabalho". etc. E por detê-la. Não apenas parte de um todo. realmente.

5. albergados pela Constituição. 5. É possível e até provável (insistamos nas duas palavras) que a Democracia passe primeiro pela consciência antes de chegar . O voto popular que a Lex Legum de 1988 teve em mira acautelar de danos foi o voto popular "direto" e mais que isso: também o voto popular "secreto". de modo a compor o capítulo que tem por designação vernacular "DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS" (CAPÍTULO I DO TÍTULO II.8. Fechamos o parêntese para tornar a falar de Democracia. os direitos e garantias individuais dispensariam expressa dicção como cláusula pétrea material. 5. a fim de lembrar que em nenhum momento nos comprometemos com o juízo de que a sua idéia completa já anteceda à jurisdicização dos institutos e das instituições que nela teoricamente se contêm.mesmo o direito individual da liberdade de locomoção perde toda substância se. É possível e até provável que a plena compreensão da Democracia não seja um a priori lógico. Sabido que a compulsão do perambular já não se coaduna com a idéia de liberdade. Pois é assim por via indireta que os direitos sociais de índole trabalhista. sem. o sentido protetivo da Constituição foi de alargar os aspectos do voto popular que ficariam sob o guarda-chuva do § 4° do art. o que a nossa Lei Maior quis deixar acima de qualquer dúvida não foi a irrevogabilidade do voto popular. Primeira resposta: em rigor. Um parêntese: qual a razão de a Lei Maior de 1988.5. passam a compor um dos conteúdos do regime democrático. Cuidou. Tais direitos e garantias foram regrados de mistura ou mescladamente com deveres e também com a realidade das pessoas coletivas. 60.5. brigar com a razão.6. a pessoa for obrigada a zanzar por aí feito barata tonta. de fora a parte os princípios da forma federativa de Estado e da Separação dos Poderes. pelo fato de ele já estar contido no primeiro dos fundamentos explícitos da nossa República Federativa (esse fundamento explícito é "a soberania"). no campo dos direitos e deveres individuais e coletivos houve estreitamento. este último sob a denominação "DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS"). O que ela quis elucidar é que não basta manter incólume de emenda constitucional a abolição do voto popular. porquanto já embutidos na locução "dignidade da pessoa humana". de proceder a um enxugamento ou depuração temática e por isso é que deixou de fora da tutela petrealizadora tudo que não portasse consigo a logomarca de direito ou garantia individual (mas somente nos marcos do capítulo versante sobre os direitos e deveres individuais e coletivos. isto é.7 5.5. Com o que seguiu metodologia oposta à do voto popular. o vínculo operacional direto entre o princípio da dignidade da pessoa humana e os direitos e garantias individuais ficou prejudicado em sua clareza redacional.9. Todavia.5. entenda-se). então. Pois bem. apenas falar do voto popular e dos direitos e garantias individuais como cláusulas pétreas materiais expressas? Como temas insuscetíveis de se tornar objeto de emenda tendente à sua abolição? 5. 5. o Constituinte de 1988 não quis petrealizar os deveres individuais e coletivos nem os direitos e garantias de natureza coletiva. se no campo do voto popular houve alargamento protetivo material. Logo.5. Contudo. renove-se o juízo). Seja algo que supere a própria razão. Mas para tornar a falar de Democracia. pelo fato de a Constituição não conter nenhum capítulo ou segmento normativo com o nome "Dos Direitos e Garantias Individuais".7. Somente se comprometeu com os direitos e garantias genuinamente individuais (em razão do mais direto vínculo entre estes e o princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. por falta de uma casa para morar. o voto popular não precisaria de expressa menção como cláusula pétrea. Segunda resposta: também em rigor. contudo. o voto popular "universal" e o voto popular "periódico".

E quando se dá o contrário? Quando a Democracia não tem o ensejo de se fazer presente naqueles decisivos instantes da formação. figurativamente. melhor sentir na pulsação do presente as batidas do coração do futuro. já sabemos que a Constituição obtém sua unidade sistêmica por conduto das normas-princípio. em termos metodológicos ou funcionais (não finalísticos). se há um componente consciencial em certas normas de Direito Positivo. essa parte elementar do discurso normativo só se deixa conhecer pela via igualmente consciencial do intérprete. que passa a ter no Poder um mecanismo de reverência: o Poder a serviço do Direito. que é a única forma pela qual ele (Poder) se legitima. E que a vontade assim imediatamente derivada da consciência somente busque a razão como uma forma de justificativa para o que já se decidiu no plano. para ver a Democracia enquanto matéria disponível para um tipo de conformação normativa que tem um componente consciencial ainda maior do que o propriamente racional. a seu turno. 5. Para desqualificação axiológica de ambos.3. quando se parte mesmo da rigidez formal como a pedra angular do Magno Texto. no exercício e no controle do Poder.6. consciência. 5. 5.6.11. da a-racionalidade (que é o plano da consciência ou do espírito.12. nos seres humanos. 5. Fale-se o que se quiser falar de mau da Democracia. quem tem a ganhar com isso é o Poder mesmo. de uma só penada. Por derradeiro. que é uma via necessariamente recicladora do intelecto.1. porém.6. sem que a noção perfeita e acabada de Democracia esteja no ponto de partida do puro pensamento lógico-jurídico. E quais os corolários dessa posição de liderança internormativa? Desse papel eminente dos princípios no interior da Constituição? 5. A consciência a ver as coisas primeiro do que a razão. exercício e controle do Poder? Ora. E inaugural do pós-positivismo. a norma de hierarquia suprema no todo do Direito Positivo. Seja como for.6. É a rigidez. Hierarquia suprema. Quando ela está presente na formação. ousamos verbalizar uma idéia certamente vocacionada para a formação de controvérsias no plano científico.à razão. para. quando da inserção de determinados valores no Ordenamento. o Poder e o Direito. assim. deve estar presente no instante da interpretação de tais valores. dentre outras vias de conhecimento que.10. um . mas não se lhe pode recusar a virtude de qualificar. o que pretendemos dizer é que valores vão sendo positivados pelas Constituições como conteúdos ou manifestações plúrimas da Democracia.5. A idéia é esta: assim como a consciência deve servir de luzeiro à razão.5. a técnica primaz que torna a Constituição a lei das leis. ela. como visto. No seu interior. como que sinalizando para o exegeta a aplicação da conhecida máxima de LACORDAIRE (que outros atribuem a PASCAL): "Ciência sem consciência é ruína da alma". que já passa a responder pela unidade orgânica e movimento pendular desse Direito Positivo. As conseqüências lógicas da Constituição enquanto suma de princípios 5. sintomaticamente chamado de "Ordenamento". são neutras à razão8).5. 5. ou a proceder à margem da pura lógica.13.5. quem tem a ganhar com isso é o Direito. por outra. Inclinamo-nos. Tudo fica muito mais claro. Bem. que faz do Direito um instrumento de mera formalização de sua truculência. justamente. alçadas à dignidade operativa de primus inter pares. subsidiando ou até mesmo policiando o intelecto. que somente começa com a dicotomia básica dos princípios e regras. neste ponto fulcral dos princípios genuinamente constitucionais.2. Ou. 5. Somente assim é que a norma se dá a conhecer por completo.

que é o Direito subsconstitucional? 5. a que se agregam impessoais programas de governo. no jargão midiático e na Ciência da Administração). ela não precisa tanto de reforma quanto o Ordenamento precisa. Posto ainda de outra forma: sendo a Constituição o mais principiológico dos documentos jurídicos. é para evidenciar que a Lei das Leis se deseja fluir mais por conta própria do que por intervenção dos seus atos de reforma.5. destarte. Um vir-a-ser permanente. o da imunidade parlamentar e o da responsabilidade funcional (tão característico da República). Uma outra nota de especificidade dos princípios constitucionais está no fato. inevitavelmente. ditado por outra lei e mais outra e mais outra. que é própria da sociedade humana. porém um ritmo de mutabilidade diferente do ritmo das leis em geral. Ou a colocação de ênfase nesse ou naquele meio já imposto pela própria Constituição. Ajunte-se que essa característica central da processualidade ou historicidade das Constituições principiológicas só pode ocorrer por efeito de normas consubstanciadoras de concepções filosóficas ou mundividências (tanto no campo ético-humanista quanto no ideológico ou político). já assinalado. quer dizer.6. 5.6. Em diferentes palavras. de que uma parte deles se define por contraposição.3. quase que tão-somente. as grandes linhas de ação governamental já ficam previamente esboçadas.6.8. só que em diferentes ritmos. o princípio do pluralismo político e o da fidelidade partidária.6. histórica. 5. destinadas a parametrar os empíricos programas de governo. É por isso que os Diplomas Fundamentais contemporâneos contêm cada vez mais as chamadas normas programáticas. 5. então.6.6. Daí que passem a encarnar valores em estado de fricção potencial ou latente. 5. a escolha dos respectivos meios. Estes últimos a fazer da Constituição o mais estrutural dos projetos nacionais de vida. os valores. normas programáticas. sem que o Ordenamento Jurídico experimente a sensação de tontura que sobreviria a uma Constituição demasiadamente refundida no seu aspecto formal. que é um ritmo prevalecentemente exógeno. a concreta política social e econômica do Estado ("políticas públicas". o da independência dos Poderes e o da supremacia da lei. Sua genérica estabilidade não significa estratificação. como. o princípio da valorização do trabalho e o da livre iniciativa. cabendo à legislação ordinária. E sendo mais processual por si mesma. tenha a agilidade do Direito factual por excelência. E porque são desse .mundo de conseqüências teóricas toma corpo e começamos por frisar que são eles que fazem da Constituição um prevalente sistema de positivações axiológicas. verbi gratia.9. Por elas. em oposição ao ritmo de cada lei menor em particular.7. Um ritmop preponderantemente endógeno. 5. Todo o nosso esforço comunicativo. o princípio da propriedade privada e o da função social da propriedade-bem-de-produção.6. pelo seu facilitado ajustamento ao corpo sempre cambiante da realidade social. tornam a Constituição um processo. Positivações axiológicas ou filosóficas ou valorativas. um devir. processual. cuja resultante é ganhar a Constituição aquela compostura dinâmica. Ela se prefere dinamizada pela processualidade dos seus princípios estruturantes e é isto o que rebate ou compensa a rigidez formal e material a que se impõe. independentemente da ideologia professada pela facção partidária que se encontrar no Poder. pela sua intrínseca materialidade prospectiva. à guisa de metas oficiais a alcançar. o da integração do País aos mercados externos comuns e o da soberania nacional. que é a Constituição. ela é mais processual por si mesma do que o Ordenamento que nela se embasa. Como exigir que o Direito axiológico por excelência. É concluir: tudo muda no Direito.

7.10. numa situação em concreto. não faz parte das categorias metajurídicas. A Constituição é norma em sentido material.9 5. temo-lo como princípio constitucional inexpresso. É para desanuviar. ao medir a extensão do quê de uma norma .3. que é a Democracia (como tantas vezes dito). que é um princípio conciliador por excelência. pedir o adjutório de regra intercalar para a plenificação dos seus efeitos. a sua logicidade. É por isso que o intérprete. Servindo.6. suscitam um manejo bem mais cuidadoso dos métodos de hermenêutica jurídica no que toca à seleção daquele princípio que. 5. A eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica 5. 5. ao lado de outras peculiaridades da Constituição. que não tem sido objeto de realce doutrinário. revisão) assim o disser. tem força normativa própria (CONRAD HESSE) e deve ser interpretada de acordo com a sua mais alta hierarquia. Em termos técnicos. Mas se a Constituição deixa do lado de fora um dado campo fenomênico.4. Por isso que. a hermenêutica busca impedir que os espaços de normatividade constitucional sejam indevidamente ocupados pela legislação inferior. Nessa recomendação de imprimir às normas constitucionais originárias o máximo de eficácia que os métodos acima indicados permitirem. Um princípio que é a decorrência lógica do tensionamento daqueles princípios materiais que se definem por contraposição. Todo este modo especial de ser das normas constitucionais principiológicas repercute (e como!) nos enunciados hermenêuticos. Isto por que é da natureza da Constituição passar adiante a conformação jurídica da matéria que deixar de regular por conta própria. Mas que. a sua história e a sua teleologia permitirem. do tipo instrumental. por exclusão. em última análise. Exceto se a própria norma constitucional. essa área de empírico tensionamento entre as normas-princípio da Constituição que PAULO BONAVIDES pugna pelo emprego do que a teoria constitucional vem chamando de "princípio da proporcionalidade". ou seja. Noutros termos. como postura inicial.5.7. pois.7. 5. então.1. ao nosso ver. para cumprir uma função técnica de controle social. 5. para que o juiz dos casos concretos sopese os fatos e opte por aquele princípio material que mais próximo estiver do valor dos valores. Ou que menos lesione os princípios correlatos àqueles em concreto estado de fricção. justamente.6. sendo toda norma constitucional uma norma jurídica. porém. qual o principal enunciado que a Hermenêutica recomenda ao processo da interpretação em concreto de uma norma constitucional originária? Pensamos que seja.jeito. à lei maior deve corresponder u'a maior eficácia. deva preponderar sobre o outro. 5. Ao contrário. Este é um ponto central da Teoria da Constituição. como normatizável por lei. inequivocamente.7. no ápice do dilema entre reconhecer a pleno-operância de uma norma constitucional e sua dependência de regração de menor estirpe.2. Se a Constituição decide normatizar uma dada matéria. a opção do exegeta só pode ser pela operância plena da regra maior.7. 5. reconhecer à norma isolada o máximo de eficácia que a sua formulação linguística.11. tais normas pedem e até mesmo exigem uma correlata especificidade de intelecção ao nível do que vimos chamando de cânones hermenêuticos diferenciados. essa matéria só pode decair do status de norma constitucional se outra norma constitucional (emenda. existe.7. esse campo já se define.

ou parcial.constitucional. E a Democracia política vive é de técnicas restritivas do Poder. mais próxima de tal ser. ora diretamente. porque isto seria transformar a lei maior em lei menor e a lei menor em lei maior. 5. Sinta-se que o prejuízo que se causa à Constituição com uma interpretação indevidamente restritiva é maior do que o sofrido. da lei interpretada. tiver que enfraquecer competência dos Estados-membros. uma delas funcionalmente mais distante do ser da Constituição. data venia de respeitáveis opiniões em contrário). É que. se uma exegese. Daí que recusar à lei o que à lei pertence não signifique presentear o Poder Executivo com uma competência legiferante residual. Estas considerações apontam para a adoção de um critério seguro de resolução de eventual dúvida interpretativa quanto a maior ou menor compleição eficacial de uma norma genuinamente constitucional. a exegese que diminua a esfera de alcance de uma norma Constitucional passa a abrir espaços para uma ocupação normativa de menor escalão. 5. A dúvida. ora de esguelha. a que amplia aquela esfera de incidência direta de uma norma constitucional passa a fechar espaços para uma ocupação normativa de menor escalão e assim fortalece a Constituição mesma.7. Defende a Lei Fundamental. o que se sonegar à primeira passa a pertencer à segunda. pelo correlato fechamento .das áreas de conformação legislativa pós-Constituição. A matéria fica no aguardo de uma futura normação por via legal. a outra. mas entre duas normas igualmente constitucionais. 5. E se o confronto se der entre competências dos Estados-membros e respectivos Municípios. sabido que os direitos e garantias individuais cumprem o papel técnico e até mesmo histórico de afirmar o princípio da dignidade da pessoa humana e assim conter o Poder em certos limites. deve estar ciente dos efeitos irradiantes dessa interpretação para o Direito que não se veicula por emenda ou por revisão constitucional. Qual a preferência do intérprete? A preferência é pelo fortalecimento eficacial da norma. Nessa mesma direção. para fortalecer dada competência da União. naqueles Ordenamentos que não admitem o chamado regulamento autônomo (como é o caso do Brasil. Não se pode fazer cortesia com o chapéu da Constituição (outra vez não resistimos à tentação do prosaísmo). 5.7. por exemplo.10 . Por hipótese. o impasse é de se resolver em proveito da mais próxima. pois tudo que favorecer à idéia de descentralização de autoridade serve melhor à Democracia.7. é de ser resolvida em favor da interpretação eficacial de maior porte. O que se traduz em disparatada inversão de valores. A contrario sensu.7. no bojo da relação entre a Lei Maior e a lei menor (acabamos de dizer). em linha de princípio.7. Deveras. o sacrifício a ser imposto é à competência dos Estados-membros.6.8. Agora.9. a dubiedade interpretativa se extingue pela opção que implicar o prestígio das unidades regionais em que os Estados-membros consistem. e não de mecanismos ampliadores das competências governamentais para além dos estritos limites da necessidade do exercício delas. E não é isto o que sucede na relação entre a lei comum e o decreto executivo. por uma lei comum também indevidamente interpretada de modo amesquinhado. enquanto persistir o entendimento da lacuna total.ou simples redução que seja .10. exemplificativamente. É que esse Direito subconstitucional apanha as sobras do que a Lei maior não quis. 5. imaginemos uma fundada hesitação exegética entre ampliar ou restringir a eficácia de uma norma constitucional que outorgue direito individual oponível ao Estado. não entre a Constituição e a lei. se o confronto se der. ou não pôde reservar para si mesma com exclusividade.7. e. que é a quintessência mesma da Constituição.

no caso brasileiro. Uma desconfiança que já está na própria Constituição. ou de todas elas.2. por essa aplicação diuturna .4.11. Veiculam normas constitucionais.8.8. nascem com o propósito de dissentir daquela parte da Constituição a que visam reformar. para que não haja necessidade do apelo extremo aos atos oficiais de reforma do seu próprio estoque de normas. 5. que darão à Constituição aquela primária aplicação que outra coisa não é senão a paulatina e ininterrupta dinamização de todo o Ordenamento.5. Se as emendas e revisões estão autorizadas a aportar consigo normas constitucionais . Constituição. Em linguagem diferenciada. qual a Constituição rígida que não busca resolver. ao menos no plano das emendas (já que. b) são elas. medidas provisórias. existem para mexer na Constituição. é exatamente porque: a) são normas que. É que os atos reformadores da Constituição têm. não podendo tocar em nenhum dispositivo da Constituição.8. Nenhuma outra norma jurídica ostenta em cores tão vivas o caráter de estabilidade que a Constituição rígida imprime ao Ordenamento. é conseqüência lógica da rigidez constitucional que os atos de reforma da Constituição Positiva sejam recebidos com desconfiança. e somente eles.7.8. das normas que dispõem sobre intervenção federal. a revisão foi admitida sob pautas processuais menos dificultosas11). e.6. 5. nessa medida. já nascem com o indescartável compromisso de dar submissa prossecução aos comandos formais e materiais dela mesma. Mais até do que dificultar o processo de sua própria reforma. pela estabilidade: a Constituição. 5. Se a Magna Carta é mais dócil ou mais branda na regulação do processo de elaboração das outras normas gerais que não as emendas constitucionais.8. 5. para colocar a Magna Carta pari passu com o ritmo veloz da sociedade. É da natureza das coisas. é no pressuposto do esgotamento dessa ou daquela norma-princípio da Constituição. E isto já significa o óbvio: somente quando cessa o papel da interpretação é que se inicia o da integração constitucional por atos formais de emenda. Ora bem.8. evidentemente. Donde o corolário de se encarar com extremos de cautela toda medida de acréscimo.8. A necessária interpretação restritiva das normas constitucionais sobre o Poder Reformador 5.3. Aqui. contra ela (Constituição). De outra parte. as emendas e revisões alteram aquela porção do Ordenamento que se caracteriza. podendo mexer no corpo de dispositivos da Constituição. se fizermos o cotejo entre uma norma da Constituição originária sobre o exercício do Poder Reformador e outra norma advinda desse concreto exercício (norma advinda de u'a emenda constitucional. mas com unívoco sentido: as leis existem para aplicar diuturna e reverentemente a Constituição. precisamente.e não simplesmente legais -. as situações emergenciais do País (e aqui nos lembramos.7. regras editadas pelo Poder Legislativo comum. "impeachment". sponte sua. ou revisão. um potencial lógico de agressividade que as leis não têm. Estado de Defesa e Estado de Sítio)? Tudo. 5. supressão.5. portanto).8. como enxotar uma eventual dúvida na aferição do tamanho eficacial da primeira ante a segunda? Ou da segunda perante a primeira? 5. ou alterabilidade das normas constitucionais originárias. Eles. ainda com mais forte razão há de prevalecer o prestígio à eficacidade da norma constitucional de berço. 5. no Brasil ao reverso de Portugal -. que disciplina com rigor incomum o processo de sua própria reforma.1. e.

8. 5. A primeira opção é a que temos por acertada. 5. desde que o resultado desse labor reformista seja o fotalecimento ou a rebustez da parte axiológica situada no centro da circunferência em causa (conforme anteriormente explicado). Elas é que devem gozar do benefício da dúvida interpretativa. de reforma constitucional. É que a postura interpretativa contrária é de muito maior gravidade sistêmica. são. Regras periféricas. de par com as normas constitucionais que dão o conteúdo mínimo de cada qual dessas cláusulas de intangibilidade.reverente. longe de constituir uma exceção ao poder de reforma constitucional. as cláusulas pétreas. não simplesmente o Direito. são os preceitos constitucionais que estão a serviço das cláusulas pétreas. porém. os respectivos atos já nascem com o explícito compromisso de inovar.8.12. então. A este respeito. 5. aquela parte da Constituição que nem mesmo admite a exceção do poder de reforma.9. mas. mas sem a força de elementarizá-las. desde que estas não portem consigo a mácula da inconstitucionalidade formal. claro. ou material.nos casos de dúvida fundada.12 5. Natural. a própria alma da Constituição. mas o próprio fundamento de validade desse Direito. outra coisa. ou quase tudo. pois não é racional que se postule a exegese restritiva das matérias que mais confirmam o caráter estabilizador da Magna Carta e ainda por cima revelam. Por isso mesmo é que a Lei Maior brasileira não diz o que as emendas podem fazer.8. Sempre numa linha de inovação material que deve preservar (por isso que elas não implicam o exercício do Poder Reformador) a inteireza dos comandos todos da Constituição e até de suas eventuais reformas. pois aí estamos diante dos princípios que mais estabilizam a Constituição e concomitantemente mais se aproximam do centro da circunferência democrática. pois redunda no mais intolerável tipo de banalização: a banalização da própria Lei Fundamental do País. porém.11. Por semelhante prisma analítico. a teor de Constituições como a brasileira. o que não podem. por maior proximidade com o protovalor da Democracia. justamente quando do empírico uso do Poder Reformador. passaria a ser encarado como cláusula pétrea).8. que é a Constituição Positiva.8. sim. que os riscos de atentado à Magna Lei sejam maiores. que fica muito mais vulnerável a agressões por via de emendas. e. Cogitando-se. sim. da circunferência democrática. são . ou prestigia as emendas e assim fragiliza a integridade das cláusulas pétreas. A inovação que se autoriza é quanto a um Direito que vige do lado de fora da Magna Carta e nela não pode entrar por nenhum modo. sempre que houver dúvida fundada quanto à possibilidade de mácula à Constituição. A alternativa é radical: ou o hermeneuta prestigia as cláusulas pétreas e assim reduz a possibilidade de produção das emendas. venha a significar banalização das mesmas (tudo. então. Um tipo mais severo ou menos extensivo de exegese. da própria circunferência de cada cláusula pétrea. a exigir quanto a elas (emendas e revisões) um tipo mais severo ou menos extensivo de exegese. com mais razão. externamos o nosso pensar de que as emendas constitucionais. que têm a ver com elas.10. lógico -. Não temos o menor acanhamento intelectual em afirmar que os atos de reforma da Magna Carta. constituem uma exceção àquela nota de estabilidade que é indissociável de toda Constituição rígida. a saber: uma coisa é a indicação das matérias constitutivas de cláusulas pétreas. em verdade. Ainda sem nenhum constrangimento acadêmico. vitalizar o Direito em geral. até porque melhor nos habilita a afastar o temor da banalização. 5. notadamente as emendas. é de se afastar o receio de que o prestígio exegético das cláusulas pétreas . Por isso que tais preceitos jazem à disposição do Poder Reformador.8.

aditivo e modificativo). da prótese e da obturação dentárias. a sempre temida intervenção odontológica? 5. emendas aditivas e emendas modificativas. e o papel das emendas é sempre de um corretivo. Nunca desejáveis. pela indescartável consideração de que.8. em verdade. conforme sejam emendas supressivas. 5. desde a infância. . mas por avaliar que seu quadro clínico já não pode prosseguir sob cuidados próprios. a postura da eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica opera pelo estreitamento (quando não pelo total fechamento) de espaços ao labor reformista do impropriamente chamado "Poder Constituinte Derivado". Uma comparação prosaica parece-nos vir a calhar. Já não é passível de atualização pela via da interpretação doutrinária e jurisprudencial. Todas elas a significar um corretivo . e com facilidade perceberemos que as emendas seguem a lógica da extração. seja qual for a modalidade de emenda. ou por inadequação. mesmo que se reconheça o caráter fortemente economista e técnico-político das sociedades pós-modernas. quer pelo fato de sua excessividade normativa.15. esse colocar a Constituição no centro do Ordenamento Jurídico é também um colocar essa mesma Constituição no centro do sistema social como um todo. tal como posta. tudo se traduz numa reconsideração de rumos da Magna Lei. já não cumpre a contento o seu histórico papel. neste sítio do mais delicado trato hermenêutico.8.16.no modo pelo qual a Constituição cuidou dos próprios dentes. Mais tecnicamente falando.8. as possibilidades de invasão pelo Poder Reformador são bem maiores. 5.14. Ainda assim. enfim. É dizer: muito mais que um simples esquema de procedimentos e organizações. por significar um atestado formal de que a Constituição. 5. quer pela ocorrência de lacuna regratória. na prática. Alguma coisa na Lei Maior pecou por excesso. as linhas que separam o Poder Constituinte do Poder Reformador são muito menos nítidas do que as linhas demarcadoras da atuação do mesmo Poder Constituinte e do Poder Legislativo comum. O recurso a elas é sempre uma ultima ratio. quem não se questiona sobre o risco ou o perigo de estar a mexer naquilo que. 5. Assim é com as emendas. por insuficiência de comando (males que se debelam. Tudo isto evidencia que o perigo de atentado à Constituição é sempre iminente.8. Enfim. Constituição Positiva.13. supomos) as leis complementares e as de caráter ordinário. Tudo a justificar. não tem por que abdicar da sua fundamentalidade ao mesmo tempo jurídica e social genérica. então. nenhum ser humano vai ao dentista por prazer. portanto.8. respectivamente. como desejáveis são (irrespondivelmente.17. pelas emendas do tipo supressivo. Aqui. em razão da natureza dirigente que lhe é conatural.normas gerais tão-somente suportáveis. Pois bem. ou por omissão. a Constituição permanece como centro de apoio de uma abstrata alavanca de Arquimedes para a mais objetivamente justa transformação de toda sociedade humano-estatal. Pensemos em nossas periódicas visitas ao dentista.para não dizer uma reprimenda . ou por qualquer outra forma do que se tem chamando de "mutações constitucionais". E porque são linhas muito menos nítidas ou muito mais tênues. respectivamente. quer. a rédea curta que estamos a reclamar como postura técnico-interpretativa das normas constitucionais originárias que se disponibilizam para a edição de emendas à Constituição. já estava bem cuidado? A dispensar. O que significa ajuizar que ela.

É um produto da experiência humana e. nessa condição. começamos por retomar o pensamento de TOBIAS BARRETO.6. Este. na seara mesma do Constitucionalismo. Não é de se estranhar. que toda a história do Direito Constitucional seja permeada de fases.1.4. embrionariamente. o Estado Democrático de Direito (liberal por excelência). É um pequeno conjunto de idéias que não pudemos encaixar em nenhum desses capítulos precedentes.que esperamos venha a funcionar como aquele necessário ponto de arremate de uma obra que.1. a figurar como o primeiro elo dessa corrente de que vieram a fazer parte.1.2. Tudo começando. com a Magna Charta Libertatum de 1215. se pretende portadora de unidade material.1. O contraponto parmenidiano de antiprocessualidade 6. com as Constituições e com tudo o mais que existe de natural e de social.1. Assim é com o Direito. sucessivamente. operando de modo a favorecer uma mais justa integração de todos os homens no conjunto da sociedade (direitos sociais genéricos). por seu turno.3.2. Um pequeno conjunto . A imutável substância da Constituição 6. Vale dizer. segundo HERÁCLITO (540/480 a.A Constituição Fraternal Sumário 6. naquela parte em que o jurisconsulto brasileiro e sergipano ajuizou: "O Direito não é um filho do céu".5. O método dialético de interpretação constitucional 6. 6. Só o impermanente é que é permanente. de parelha com a valorização dos assalariados diante do patronato (direitos econômicos ou trabalhistas).6. 6. por conseguinte.1.3. Que é um . um objeto cultural. Como todo objeto cultural.1 6. naquela acepção heraclitiana de que "nenhum homem entra duas vezes nas águas de um mesmo rio". O ser das coisas é o movimento. 6. Uma história que apresenta a sua linha de evolução e por isso é que. o Estado de Direito Democrático (eminentemente social) e agora o Estado de Justiça ou Estado holístico (assim nos permitimos cunhar. inaugural do que depois veio a se chamar de Estado de Direito. Feita a ponderação. 6. A perene atualidade da faina interpretativa da Constituição 6. pois. protetiva e simultaneamente promocional do ser humano perante o Estado e o Governo (direitos "civis" e direitos políticos).1. os dois primeiros e mais importantes momentos foram a Constituição liberal e a social. O que se pretende dizer com a lembrança dessas coisas é que o Direito faz parte da vida e a vida tem um reconhecido caráter de dinamicidade. De processualidade. embora intelectualmente modesta. Uma.). Esta derradeira parte do nosso estudo não é um catálogo de conclusões extraídas dos capítulos anteriores. por sinal . o Direito não é um regalo dos deuses. só a mudança é que não muda.4. A outra. o Direito tem uma história pra contar.c. face à crescente densificação dos princípios constitucionais e da própria constitucionalização de temas antes reservados à legislação comum ou de segundo escalão). dizia o expoente da escola jônica.1.o menor deles. A processualidade heraclitiana da Constituição 6. e a Teoria Dialética do tipo hegeliano veio a afirmar que esse movimento decorre de uma força motriz ou energia que é liberada pelo tensionamento entre os pares de opostos (dicotomias) de que é formada a existência.Capítulo VI .1. O advento do Constitucionalismo fraternal 6.5. A processualidade heraclitiana da Constituição 6.

Ora.2. À processualidade endógena do seu discurso jurídico-positivo. O contraponto parmenidiano de antiprocessualidade 6.1. de roldão.2. reputação ilibada. 6. Assim é que as coisas se passam. numa experiência de uma só vez. segundo vimos no capítulo de n° V. cada vez mais se compõe. Palavras que se enlaçam na trama de um discurso entremeante do verbal e do não-verbal. por conseqüência. Persevere no seu poder de facilitada adaptação à dinamicidade da vida.3. porque o Direito é feito para a vida e a vida é sempre atual. formada por um centro e uma periferia (como toda circunferência). 6. lealdade. E dessa dicotomia ou dualidade básica é que se desprende a energia que põe cada princípio em estado de mutabilidade. portanto.4. da Moralidade e seus conteúdos de decoro. Constituição). 6.3. Acontece que. assim como o dispositivo jurídico é contemporâneo de quem o redigiu. e que exige essa operação mental-consciencial a que chamamos interpretação (conforme discorremos no capítulo de n° V). É por aqui mesmo que se dá o engate lógico entre a natureza processual da Constituição e a ontologia dos princípios de que ela. Idêntico ao processo da vida. interpretação). ele se traduz numa jornada que. Levando. termina sendo um andar para cima. Para o alto. há uma permanente fricção no próprio interior ou na própria circunferência de cada princípio constitucional. Mormente em tema de princípios. também dissemos o seguinte: o movimento da . linhas atrás. à mutabilidade informal de toda a Constituição. Uma viagem qualificada.1. E somente depois que cessa ou que se malogra a tentativa de se colocar a Magna Lei em dia com os acontecimentos e o repensar das coisas. porque em espiral axiológica. Esse processo endógeno que é da natureza da Constituição não se traduz. perenemente atual.3. do explícito e do implícito. somente depois dessa empreitada é que se deve cogitar da mutação formal dos seus dispositivos (dela. 6. A interpretação faz parte do circuito da existência e tende a ser.) e logo vai-se perceber que a interpretação jurídica é fortemente marcada pelo sentido que as palavras tenham no próprio momento do seu fazimento (dela. É mais uma forte razão para que a Constituição principiológica (e chega a ser redundante falar de Constituição principiológica) se atualize por si mesma. em toda parte. pela via da interpretação (renove-se a idéia). e mais especificamente em tema de princípios constitucionais (pense-se nos princípios do Desenvolvimento. significando um seguir adiante ou um andar para a frente. da Valorização do Trabalho.1. É impulso como que mecânico do intérprete desvendar os signos linguísticos a partir do significado que as palavras ostentem no instante mesmo da respectiva interpretação.. 6. da Justiça. obviamente. boa-fé.2. A perene atualidade da faina interpretativa da Constituição 6. da Cidadania. 6. 6. pela necessária identidade entre ela e os seus princípios fundamentais. em tema de interpretação jurídica do Direito legislado. de palavras. Mas não é só. Os princípios constitucionais materiais se vazam numa estrutura de linguagem que é formada. da Eficiência Administrativa.1.8. o entendimento desse dispositivo é contemporâneo de quem o interpreta.. da Inviolabilidade da Vida Privada. Se se prefere. dialeticamente.2.2.Estado de funcionalidade fraternal. a dualidade centro/periferia.7. É que.2. em cuja esfera semântica de compreensão interage.

Não em estado de permanente mutação. e não muda. quer pelo fato de ser o fundamento de validade de todo o Ordenamento. Daí por que falamos que o ritmo de mutação formal da Constituição deve ser mais lento do que o reclamado pelo restante do Ordenamento. 6. E porque pensava assim. proclamou que "nada de novo existe sob o sol".3. uma Constituição universalmente idêntica a si própria.4. porque.4. naquele sentido ambivalente de compromisso tanto com a mutabilidade quanto com a imutabilidade. O oposto da Constituição. Coloca-se no ponto de conciliação ou de unidade orgânica entre as duas teorias. e ao mesmo tempo não muda. Devido a que o ritmo de mutabilidade informal (ou endógeno) do restante do Ordenamento é menor do que o ritmo que é próprio da Constituição. 6.3. Esses demais aspectos ocorreriam no âmago de cada princípio constitucional originário.2. E argumentativamente concluiríamos que toda Constituição Positiva é tanto heraclitiana quanto parmenidiana (à falta de melhor palavra).4. Chamando o feito à ordem. afinal. a Constituição é emblematicamente estável. E não falamos ser o Direito Constitucional o mais político dos ramos jurídicos? E a Constituição o mais anatômico dos diplomas de Direito legislado? 6. 6. Dialeticamente. A partir desse contraponto parmenidiano. uno. Pois bem. teríamos que buscar na Constituição como um todo (mais do que em cada princípio constitucional em particular) um substrato infenso à mudança. quer pela materialidade organizacional de suas normas à face do Estado e do Governo.4. mas com PARMÊNIDES. do poder econômico e do poder social como um todo (visto que o todo social desiguala materialmente e discrimina moralmente as pessoas e ainda sistematicamente conspurca o equilíbrio ambiental e a sadia ordenação dos espaços urbanos). segundo aquele movimento pendular de mutabilidade na periferia e de imutabilidade no centro da esfera semântica de cada qual deles. Teríamos. 6. Pois bem.). Conota a idéia primaz de estabilidade. na função constitucional originária de montar o aparelho de Estado. pois a virtude está sempre no meio (medius in virtus). o sentido histórico-filosófico de servir a Constituição como o único mecanismo jurídico de eficaz contenção aos excessos do poder político e.1.c. a Constituição muda por si mesma. com os respectivos órgãos de governo.2. . pois a substância dos seres não muda. esse indescartável substrato só poderia residir em dois aspectos: a) primeiro. que falava do universo como algo eterno.4. A imutável substância da Constituição 6. tanto quanto se mantém estável com a imutabilidade da parte nuclear. A Constituição muda por si mesma. b) segundo. Dialeticamente.3. sim. Tudo permanece idêntico a si mesmo. evolui com o movimento da parte periférica da circunferência de cada qual dos seus princípios.4. 6.4. seqüenciadamente.3. assim.3. Pois o restante do Ordenamento é muito mais caracterizado pelo seu conjunto de regras do que pelo seu conjunto de princípios. Mas uma coisa e outra ao mesmo tempo. Este filósofo e poeta igualmente grego (540/450 a. Uma ineliminável substância.Constituição é pendular. dizia ele. 6. já não com HERÁCLITO. como professavam os próprios helenos. essa dimensão emblematicamente estável da Constituição tem a ver. Mas com os demais aspectos permeáveis à incessante mudança das coisas. E tínhamos que ajuizar assim. sob o influxo das peculiaridades sócio-culturais de cada povo e de cada época. Não uma coisa ou outra. sim. contínuo e imóvel.

que é a lógica do concretamente possível. Tanto quanto o Estado Social veio para superar o Estado Liberal.1. Que veio para transcender o Estado Social.5. tudo ao mesmo tempo. Explicamo-nos. a dimensão das ações estatais afirmativas. portanto. 6. podemos facilmente ajuizar que ele foi liberal. Desde que entendamos por Constitucionalismo Fraternal esta fase em que as Constituições incorporam às franquias liberais e sociais de cada povo soberano a dimensão da Fraternidade. Há duas correntes jurídicas em permanente oposição quanto ao papel do intérprete do Direito.2. à etapa fraternal da sua existência. Do que resulta ser a norma jurídica o resultado da sua interpretação.6. que são atividades assecuratórias da abertura de oportunidades para os segmentos sociais historicamente desfavorecidos. é o que também sucede com o próprio labor interpretativo de cada dispositivo jurídico. Personagem completamente autônomo no circuito da produção/aplicação do Direito. isto é. Se a lógica usual de cada regra jurídica "é a do tudo ou nada". ele se torna um personagem completamente autômato no referido circuito. mas um a posteriori. A solução parece estar no meio. os deficientes físicos e as mulheres (para além. ele se anula totalmente perante o dispositivo interpretado. Implica uma descoberta e uma construção.3.6.5.6.1. Chegando. 6. portanto. mas assim mesmo é que se processa o mistério da existência terrena. o .5. Efetivamente.2. Se o intérprete faz do seu exclusivo pensar a vontade objetiva da norma.6. E é tanto mais recomendável quanto se esteja diante de um princípio. pois o que interessa não é o querer subjetivo do intérprete. 6. os negros. na Constituição originária. mas a vontade objetiva da norma (engastada em um determinado dispositivo). O advento do Constitucionalismo Fraternal 6. O método dialético de interpretação constitucional 6.5. Se.4. fechando todos os espaços de manifestação mental/consciencial do seu próprio ser individual e ao mesmo tempo social. e depois social. Esteja ele. Essa dialeticidade que termina sendo uma fuga dos extremos ou a conciliação possível entre eles. Uma. afirmando que a vontade ou o querer subjetivo do intérprete (condicionamentos psíquicos e sócio-culturais) é ineliminável do processo interpretativo. da mera proibição de preconceitos). A lógica "do mais ou menos" ou do "vamos ver". como. a lógica usual de cada princípio é a da ponderação ou do sopesamento das circunstâncias presidentes de sua concreta aplicabilidade. Essa metodologia da conciliação implica a busca de um equilíbrio sempre instável. é certo. por exemplo. inicialmente. A norma a desentranhar dos signos linguísticos (dispositivos) é tanto um a priori quanto um a posteriori. nem exclusiva subjetividade de um exegeta que se impõe ao querer legislado. sabido que essa categoria de norma jurídica traduz-se em relato que é muito mais um mandado de otimização do que um mandado de definição (ALEXY). proclamando que a interpretação deve ser rigorosamente objetiva. Nem exclusiva objetividade de um querer legislado que se impõe ao exegeta. transmuta-se em legislador. Outra. ou não esteja. 6.5.5. se considerarmos a evolução histórica do Constitucionalismo. 6. De par com isso. ao revés. nos dias presentes. mas sem o negar. Agora já podemos enfrentar o tema da progressiva formação do Estado Fraternal. bem ao contrário. mas também sem eliminar as respectivas conquistas (como é próprio de toda superação ou transcendência). 6.5. Não um a priori.

Tudo na perspectiva de se fazer da interação humana uma verdadeira comunidade. pois uma das maiores violências que se pode cometer contra os seres humanos é negar suas individualizadas preferências estéticas. o que se tem já é a democratização no interior da sociedade mesma. por ser a igualdade social a necessária ponte entre a Liberdade e a Fraternidade. o mistério. etc. estando todos em um mesmo barco. de um lado. É por aqui mesmo que se dá a penetração do holismo no Direito. Assim como não se pode recusar a ninguém o direito de experimentar o Desenvolvimento enquanto situação de compatibilidade entre a riqueza do País e a riqueza do povo. E nisso é que se exprime o núcleo de uma sociedade fraterna.6. Se a vida em sociedade é uma vida plural. de outro. Mais até que plenamente aceito. não têm como escapar da mesma sorte ou destino histórico. sexuais.constitucionalismo fraternal alcança a dimensão da luta pela afirmação do valor do Desenvolvimento. da Igualdade. E não só nos escaninhos do Estado e do Governo. uma comunhão de vida.6. Com a plena compreensão. profissionais. então que esse pluralismo do mais largo espectro seja plenamente aceito.7.8. 6. culinárias. condescendência. Se já não era possível um estado genérico de liberdade sem uma aproximativa igualdade entre os homens. Nesse novo e otimizado patamar da fraternidade como característica do Constitucionalismo contemporâneo. a virtude está sempre no meio (medius in virtus). E tinha de ser pelas portas mais largas da Constituição.9.potencialmente onitemática. pela simples razão de que não pode haver fraternidade senão entre os iguais. as coisas se processaram numa seqüência lógica. ideológicas. O que já significa uma . isto é. 6. tanto quanto o Amor é o ponto mais alto da evolução espiritual. o milagre da vida. Seletivamente onifinalista. No plano do Direito Constitucional. A comprovação de que. 6. pela consciência de que. a compassiva ou aproximativa igualdade social é a condição material objetiva para o desfrute de uma liberdade real.6. Não por coincidência. pois o fato é que ninguém é cópia fiel de ninguém. Sendo esta o ponto ômega ou o pináculo da evolução político-jurídica. a Fraternidade é o ponto de unidade a que se chega pela conciliação possível entre os extremos da Liberdade. partidárias. etc.2 6. Uma dignificação de todos perante a vida. 6. geográficas. do Meio Ambiente ecologicamente equilibrado. religiosas. favor.4. Tanto quanto esse mesmo tipo de igualdade social é a condição material objetiva para o desfrute de uma fraternidade como característica central de qualquer povo (uma vez que. a resvalar freqüentemente para o campo da humilhação dos hipossuficientes). todavia. simplesmente.3. Aonde queremos chegar? Na compreensão de que a ideologia da igualdade social é a mais estratégica das ideologias.6.6. visto ser ela .. Deveras. compaixão. entendido o holismo como decidida opção existencial pela integração ou abrangência gradativa de tudo. mais do que diante do Direito. e. de que não se chega à unidade sem antes passar pelas dualidades. sem igualdade aproximativa.6. 6. Auto-sustentadamente ou sem temerária dependência externa. Este o fascínio.6.6.e somente ela . também não era possível o alcance de uma vida coletiva em bases fraternais sem o gozo daquela mesma situação de igualdade social (ao menos aproximativamente). 6. da Democracia e até de certos aspectos do urbanismo como direitos fundamentais. que ele seja cabalmente experimentado e proclamado como valor absoluto.5. o que se tem no plano da boa vontade dos mais favorecidos para com os menos favorecidos sócio-culturalmente não passa de caridade. também nos domínios do Direito e da Política.

consoante a máxima oracular do físico alemão Max Planck (1858/1947). a permanecer como a fundamentalidade de todo o sistema jurídico interno e até mesmo do sistema social genérico (o militar. o financeiro. metamorfosear-se em normas de Direito Interno desse ou daquele Estado soberano. o econômico.). o familiar. Ela.confirmação do seu papel dirigente e da sua inamovível posição de centralidade. o técnico. louvado seja Deus! Esse Deus que. Constituição. e só então. etc. para os cientistas. está no princípio de todas as coisas. está no fim de toda reflexão". Enfim. "para os crentes. A fundamentalidade das fundamentalidades. . pois as próprias fontes do Direito Internacional têm de receber as boas-vindas da Constituição para. enquanto que.

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