Introdução Teoria é conhecimento ordenado, conhecimento sistematizado sobre um determinado assunto.

Conhecimento, além do mais, especulativo; ou seja, ordem de saber que se constrói sem imediata preocupação com a sua aplicabilidade aos casos concretos. Independente da prática, portanto. 2. Quando associado ao nome "Direito", para com ele formar a locução "Teoria do Direito", o substantivo de que estamos a falar é tipo articulado de conhecimento que busca isolar o Direito das outra realidades normativas. Explica o Direito como objeto cultural-normativo que se não confunde, verbi gratia, com a moral e a religião. E quando grafado de "Teoria da Constituição", é saber especulativo que opera no interior do próprio Direito, para separar o Direito Constitucional de qualquer outro setor ou província jurídica; melhor dizendo, para evidenciar em que a Constituição: a) é diploma jurídico-positivo diferente dos demais; b) é a parte central de um ramo jurídico também diferenciado das outras porções que se entroncam na grande árvore do Direito. 3. Este o nosso desafio: pensar a Constituição. Não esta ou aquela Constituição em separado, mas enquanto fenômeno jurídico-positivo comum à experiência dos povos que exercitaram, com êxito, a própria soberania. 4. O que estamos dizendo não é mais que isto: às Constituições em sentido objetivo (conjunto de normas jurídicas) corresponde esta nossa teorização em sentido subjetivo. Que somente vai buscar no material investigado, todavia, o que se apresentar como partes elementares de um todo orgânico; ou seja, como objetiva comprovação de que tudo é um. 5. Ainda à guisa de anotações preliminares a esta nossa monografia, um primeiro lembrete: não há apenas Constituições escritas, e mesmo as escritas nem sempre se enfeixaram (como ainda não se enfeixam) num único texto normativo. Elas também existem em documentos esparsos. E se umas são redigidas e promulgadas por órgãos especialmente eleitos pelo povo para esse mister, outras, no entanto, são aprovadas sem a eleição popular daqueles por cujo intelecto e força física elas ingressaram no mundo das positividades jurídicas. 6. Outra pequena lembrança está em que a nossa teorização não é repelente de nenhuma espécie de Constituição conhecida. Contudo, as especificidades ou características centrais que temos como exclusivas de um diploma constitucional, assim como as citações e ilustrações de que nos valemos amiúde, tudo tem por alvo o modelo de Constituição que terminou por se impor no interregno que vai do segundo após-guerra até os nossos dias: a Constituição escrita, redigida à moda de código e

produzida por um corpo de legisladores ungidos na pia batismal do voto popular. 7. Por último, incumbe-nos pontuar que esta nossa Teoria da Constituição começa pelo estudo do Poder Constituinte, que é a instância deliberativa de que ela, Constituição, é a obra resultante. O trabalho objetivamente feito. E que essa mesma Teoria passa pela esfera de conhecimentos que tem recebido o nome de "Hermenêutica Constitucional"; mas que preferimos, pessoalmente, designar por "Hermenêutica da Constituição", como no seu devido tempo explicaremos. Aracaju (SE), 23 de dezembro de 2002 Carlos Ayres Britto

Sumário
1.1. Deus: a instância transcendente que tudo pode, menos deixar de tudo poder 1.2. A limitabilidade intrínseca de Deus 1.3. A indistinção ontológica entre Deus e Sua onipotência 1.4. Deus enquanto norma normarum ou a fonte das fontes 1.5. A incontornável solidão da onipotência de Deus 1.6. O povo como a transubstanciação do poder imanente que tudo pode 1.7. A soberania popular ou o modo constituinte de ser do povo 1.8. O mundo de Deus e o mundo do Direito 1.1. Deus: a instância transcendente que tudo pode, menos deixar de tudo poder 1.1.1. O meu filho Marcel tinha cinco anos de idade, quando travou comigo o seguinte diálogo: - Meu pai, é verdade que Deus tudo pode? - É verdade, sim, meu filho. Deus tudo pode. - E se Deus quiser morrer? - Bem, aí você me obriga a recompor a idéia. Deus tudo pode, é certo, menos deixar de tudo poder. Logo, Deus tem que permanecer vivo, porque somente assim Ele vai prosseguir sendo Aquele que tudo pode. 1.1.2. Ao dar essa resposta de que Deus não podia morrer, terminei por confirmar uma coisa e afirmar outra. Confirmei a minha crença na existência de Deus e afirmei a limitabilidade intrínseca desse mesmo Deus de cuja existência eu estava a dar testemunho. 1.1.3. Com efeito, eu reproduzia para o meu filho: a) minha filosofia prevalecentemente idealista ou espiritualista, à moda hegeliana, segundo a qual a natureza ambiental e a sociedade humana são uma revelação, uma manifestação da Idéia Incriada; b) essa Idéia Incriada é o próprio Deus, tido como instância transcendente que tudo pode, mas com o acréscimo de idéia que eu estava a fazer: instância transcendente que tudo pode, sim, menos deixar de ser essa instância transcendente que tudo pode.1 1.2. A limitabilidade intrínseca de Deus 1.2.1. Sobre este último aspecto da limitabilidade inerente a um ser que tudo pode (a relativização possível da onipotência), a conversa com meu pequeno filho trouxe-me à cabeça a utilidade pedagógica de uma comparação entre Deus e o poder que, na Ciência Política e na Teoria da Constituição, é chamado de Poder Constituinte. Mais exatamente, pressentíamos (a partir de agora passaremos a usar o plural majestático "nós", em vez de pronome pessoal da primeira pessoa "eu") que refletir sobre algumas noções deístas mais correntes seria tarefa intelectual que abriria importantes espaços para a mais desembaraçada compreensão do poder que está na própria raiz da Constituição e do Ordenamento Jurídico: o Poder Constituinte. 1.2.2. Não que houvesse originalidade no fato em si da comparação (outros estudiosos do Direito, cada qual a seu modo e tempo, já confrontaram o Divino com o Poder Constituinte). Não que o acerto das proposições descritivas dos diversos ângulos da formação e manifestação do Poder Constituinte dependesse (nunca dependeu) do acerto das proposições reveladoras da existência e da natureza de Deus. Os conceitos

" E não se pode negar a realidade de que a invocação do nome de "Deus". sua referibilidade às idéias mais assentes sobre Deus lhes propiciaria uma clareada de horizontes. funcionalmente. alemães e portugueses).2. 1. Noutros termos.2 1. de fato. O primeiro juízo que passamos a formular. já a título de execução do nosso pessoal estudo comparativo entre Deus e o Poder Constituinte. Brasil. Mais até. Esta é a sua natureza. ou "Ser Supremo" tem sido grafada nos preâmbulos de Constituições como as dos Estados Unidos da América. aquele que tudo pode com inicialidade só existe mesmo para tudo poder com inicialidade. 1. a ontologia e as manifestações do Todo Poderoso é de generalizada ou massiva aceitação (quantos homens e mulheres. ou "Juiz Supremo do Mundo". pois o fato é que os estudos e reflexões em torno do Criador são em muito maior quantidade do que os elaborados ao derredor do Poder Constituinte. 1.4.tanto as que permitem quanto as que proíbem tal reforma . da França. etc. Alemanha. Argentina. Estudos e reflexões que. o seu núcleo duro (expressão muito ao gosto dos publicistas norteamericanos.. assim como nenhuma instância geratriz mundana pode assumir o papel de Deus naquilo que diz respeito à montagem das linhas mestras do universo e à substituição dessas linhas por outras.5. Antevíamos até mesmo uma dimensão prática.2.são normas que podem servir de fundamento para a modificação delas próprias. Tudo a nos levar a presumir que uma objetiva demonstração de certa similitude entre os dois termos paradigmáticos (Deus e o Poder Constituinte) contribuiria para quebrantar as resistências doutrinárias mais recentes à tese de que há um espaço de conformação jurídico-positiva que somente pelo Poder Constituinte é passível de ocupação. Além dessa disponibilidade muitíssimas vezes maior da literatura sobre Deus. Nesta última dimensão do neoconstitucionalismo.6. uma utilidade mais que propriamente acadêmica na confrontação que estávamos a idealizar. . de modo quase invariável. É que a pretendida clareada de horizontes na compreensão do verdadeiro Poder Constituinte nos habilitaria: a) de uma parte. a ALCA e o MERCOSUL. então.2.acerca do Poder Constituinte gravitam em outra esfera de mentalização fenomenológica. Logo. que chegou a dizer: "Quero conhecer o pensamento de Deus. a melhor rebater os fundamentos daquilo que se vem chamando de neoconstitucionalismo. ou "Divina Providência". já podemos antecipar que os ângulos de estudo que nos parecem mais salientes dizem respeito à questão de saber: a) se as normas que tenham por objeto a reforma da Constituição . b) se a emergência de coletividades supranacionais pode ensejar a formação de um Direito superior à Constituição de cada país-membro de tais coletividades (a União Européia.. notadamente). em última análise. a mais vivamente fixar os contornos do constitucionalismo atual. é exatamente este: aquele que tudo pode com inicialidade é a fonte mesma do seu e de qualquer outro poder. etc. Venezuela.. se consideram ateus?). também nenhum órgão ou sujeito simplesmente constituído pode se travestir de Poder Constituinte naqueles pontos que se põem como a própria fundação do Ordenamento Jurídico e como alteração das características centrais desse Ordenamento.2. Sem embargo. o que se tem falado sobre Deus permeia pronunciamentos de cientistas do quilate de um EINSTEIN. que é um constitucionalismo fraternal. apanham a figura de Deus por um prisma subjetivado ou enquanto ser que se dota de uma vontade do tipo psicológico. por ser a própria causa de tudo o mais. O resto é detalhe. Sua realidade prescinde da noção de causa. o que nessa literatura se tem ajuizado sobre a existência. b) de outra banda.3.

e não aos pedaços. porque.3. na medida em que pode. 1. 1. 1. Circularmente. Com um pouco mais de interesse especulativo pelo tema.3. Deus. o corpo humano é o conjunto de tais órgãos. Tudo é uma coisa só. Por comparação. sendo criaturas. criaturas Dele.3. Ele é ao mesmo tempo o seu nascedouro. por ser o próprio sujeito. nascente e corrente existem para cumprir a destinação do rio de se encontrar perpetuamente com o mar.9. Se é assim. Noutro dizer. Ainda recorrendo à imagem do rio. se ombrearem em tudo e por tudo ao seu Criador. o corpo humano.3 1. senão. distanciar-se do seu nascedouro.aquilo que responde pela sua raison d'être. o sujeito é o poder. porém.2.8. a sua corrente e a sua embocadura. elas colocarão o Criador sob o risco de se tornar criatura das suas criaturas. com a possibilidade de tais criaturas. assim destacadamente. o poder é o sujeito. Tais órgãos são. convocou a natureza e os seres humanos.7. O rio é rio por inteiro. se esforça por se conservar ou permanecer tal como é. que a mente humana fragmenta. uma bactéria. Deus a se postar como refém daqueles que. com o tempo. O ser-corrente é seguir em frente. como o ser-nascente é ficar para trás da corrente. a primeira a determinar à segunda que reflua por inteiro ao ponto de partida para nesse ponto de partida se esvair. O dínamo do nosso Globo. O que é lógico supor é o poder que tudo pode a não fazer tudo sozinho. avançamos no raciocínio para entender que o sujeito (à falta de melhor palavra para a qualificação ontológica de Deus) cuja natureza é a de tudo poder não tem o poder como algo distinto de sua subjetividade. no seu conjunto. A indistinção ontológica entre Deus e Sua onipotência 1. Esta só pode ser um ininterrupto caminhar para adiante da nascente. sozinha (Deus está sempre sozinho enquanto "substância"). gerando o fenômeno da corrente.3. Jamais. há pouco projetada. continuamente. contra a sua própria conservação. Não faz sentido que a fonte de todo o poder use do seu poder originário para se fazer secar enquanto fonte mesma.1. O mister que lhes cabe é sempre o de coadjuvantes. e por isso é que um não . ou a sua foz.2. adensando-lhe incessantemente o corpo e assim possibilitando ao rio (do qual fazem parte nascente e corrente) aquele final e interminável abraço com o mar. Ele inicia uma obra para outro completar. Impossível! A nascente de um rio de superfície (há rios que são subterrâneos) existe para vir à tona e liberar uma parte de si numa certa direção. de repente poderão se transformar em criadores do seu Criador. ele não é apenas a sua nascente. 1. Até mesmo um micróbio. É de SPINOZA a categórica asserção de que todo ser.2. Esse tipo de poder não é algo que o sujeito possua. ou a sua corrente. 1. Não há como conceber a substância de um ser a conspirar. como o corpo humano já nasce com todos os seus órgãos elementares.3. ora por amor à exigência intelectual de classificação ou compartimentação endógena das coisas. Ambos surgem no mesmo instante. figuremos uma nascente d'água fluvial e sua própria corrente.2. um vírus. no caso. ora por incapacidade de compreender o todo. ou com outro rio que no mar desemboque. Nada disso! O poder não é distinto do sujeito. todos eles reagem o quanto podem ao remédio com que são eventualmente combatidos. no sentido de se colocar perante esse mesmo sujeito como um predicado ou uma virtude. É auto-evidente o consectário dessa afirmação de que existe um ser que tem no tudo poder com inicialidade a sua própria ratio essendi: o ser que só existe para tudo poder com inicialidade não pode se demitir do seu papel de tudo poder com inicialidade. para se tornarem co-criadores deste mundo terráqueo.

Mas esses pontos pertencem ao vale. e o que sobra já é outra coisa em qualidade e essa outra coisa em qualidade pode até ser o nada. não existe o outro. Um atentado ao próprio "instinto de conservação". Convém dizer de outro modo..3. em rigor.3. mais cedo ou mais tarde será destronado. Retire-se-lhe o poder de tudo poder. Não é desarrazoado. mais cedo ou mais tarde será difamado. Não há querer.8.7. Deus não tem o poder de tudo poder. 230. para nos expressarmos numa linguagem kelseniana). 8º. Ele não se põe como a fonte primaz da vida por assim optar pela condição de ser fonte primaz. Entendendo-se por forma aquilo para que serve o ser. ou como um processo em si mesmo substante). consubstanciaria um autoesvaimento. O deixar de ser fonte primaz é .pode ser destacado do outro. No tema. destarte. se apartado do ser. como a flor e a sua corola. que o próprio Direito se encarregue de fundir com o Estado o poder que o Estado tem de legislar. é capaz de fazer. pois. é preciso trabalhar com a idéia de que o centro subjetivado do poder que tudo pode tenha no fenômeno da onipotência mesma a impossibilidade da renúncia a tudo poder. 1. O quebrantamento do poder absoluto arrastaria consigo o próprio sujeito absolutista. se passarmos do plano da imanência (plano do mundo físico e cultural) para o plano da transcendência (que é o espaço dos seres espirituais ou "supra-humanos". Aquilo que o ser. Assentado fique o juízo. não há opção.9. p. o Estado enquanto sinônimo de Poder Público. A função específica. no maravilhoso livro A SEMENTE DE MOSTARDA. Por isso que.3.uma vez atingida. isto é. Se você tem fama. Não é algo que você possua torna-se seu próprio ser e você não pode desconhecê-la (ÍCONE editora. Tudo o que alcançar neste mundo lhe será tomado. Tudo é uma só realidade.6. Em linguagem aristotélica. Não se trata de uma dualidade fenomênica. não pode ser perdido. que. 1. o Poder Público enquanto sinônimo de Estado. o sujeito que tudo pode tem nesse tudo poder a sua causa formal. Mais que isso. porque. então. não são alturas verdadeiras. torna-se parte de você. A sabedoria não pode regredir . Deus tem que ser a fonte primaz da vida. o mar e as respectivas ondas (como entender enquanto predicado ou virtude aquilo que. tudo o que você alcança é para sempre. de executar as leis e de julgar segundo essas mesmas leis.4. O ser que tem na aptidão originária para tudo poder o próprio núcleo firme da sua natureza (forma).3. à moda de exemplo5). negritos à parte).3. Se Deus existe (pouco importa se existe como sujeito processante. de que dá sobejas demonstrações o arsenal prescritivo da Constituição brasileira de 1988 (inciso LXIX do art. é eterno. o místico e filósofo indiano OSHO assim fala da verdadeira sabedoria: "As pessoas caem sempre que estão nos pontos mais altos. 1.4 1. faz do ser uma outra coisa ou até uma coisa nenhuma?) 1. porque dessa perda essencial restaria um outro ser. tal ser não pode decair dessa aptidão. negue-se-lhe o instinto de preservação. Sob este visual das coisas. para um poder que assume o risco de já não poder mais nada. mas de uma unidade ontológica.. ano de 1992. que é absolutista porque tudo pode e porque tudo pode é que é absolutista. então. 1. Uma implosão.5. em rigor. que o ser desempenha e que o torna único entre os demais fenômenos. Dá para concluir. de que Deus. mais que renúncia. em louvor à clareza do pensamento. Se está num trono. no mundo interior. porque essa renúncia. Uma absurda passagem de um poder que tudo pode. ou não existe. chamando-o de "Poder Público". Deus é o poder de tudo poder. ou existe. enfim. 5º e inciso I do art. e. Mas. a causa de todas as leis naturais que regem a vida por Ele criada ou na qual Ele se transfundiu. reitere-se. portanto.3. e somente ele.

Deus enquanto norma normarum ou a fonte das fontes 1. a não-substância de que derivam todas as substâncias). contém o espermatozóide). 1.4. vamos ter que responder que o ser humano proveio do fato inicial da fecundação de um óvulo (feminino. que é um mundo regido pelo citado princípio da causalidade. como teremos que passar pela explicação do ovário . da atração e simultânea dispersão dos corpos. continuamente. isto é. óbvio). seqüenciando a intuição de que "nada pode surgir do nada" (PARMÊNIDES). cair nos braços de Deus. As flores vêm e vão. é árvore feita para a produção de suas flores e da produção de suas flores. E neste passo vamos ter que reconhecer: para além da explicação racional. Mais: é preciso mesmo que as flores caiam para depois rebrotar. v.. e o flamboyant fica. Tanto quanto o flamboyant. ministrada pela própria Ciência. aquilo cujo conceito não tem necessidade do conceito de uma outra coisa. é única em tudo. ao menos no estádio atual das categorias lógicas com que trabalha a mente humana (e aqui tomamos em linha de conta as contribuições da lógica formal e da dialética hegeliana. que não é outro senão o conceito de Deus enquanto fonte das fontes ou norma normarum: "O que é em si e se concebe por si. é imperioso que nos perguntemos sobre a existência de um ponto de partida que seja comum a todas elas. no princípio da continuidade da vida em geral. Deus. partindo do fato de que as leis naturais da vida (lei da gravidade. igualmente naturais sabido que tais leis empíricas são encadeadamente regidas pelo princípio da causalidade -.por ser o ovário a glândula genital feminina que produz óvulos. Esse ponto é a lei ou o princípio da perpetuação da espécie. por sua vez. Se prosseguirmos no exercício das perguntas sobre o fenômeno da concepção humana. Não há como deixarmos de nos inquirir sobre um tipo de instância que se ponha ali no próprio começo de tudo que pertença ao mundo do ser.. da conservação da energia. da mudança mecânica de estados. Agora. em cujo ponto de partida se encontra o conceito daquela Substância de que tudo deriva. Eis a composição vernacular do sistema spinoziano do universo (ETHICA.4.4. a seu turno. se queremos saber a causa imediata do nascimento de um ser humano. incessantemente. da conexão universal dos fenômenos. que é a substância primária de que falava SPINOZA (ou. .1.4. etc. só cabe mesmo apelar para uma instância geradora da própria lei da continuidade da vida em geral. 1. E é assim de indagação em indagação que iremos estacionar num ponto absolutamente irredutível a novas perguntas sobre a parte orgânica do corpo humano. traduzido na idéia de que a vida em geral é feita para a gestação e da gestação de infinitas formas (especiais) de vidas. 1.incompatível com a idéia que se possa ter de Deus. e aí o ser humano tem a necessidade de. segundo o qual tudo que acontece é por efeito necessário de uma causa também necessária ou que não pode deixar de ser. ou outro nome que se dê à fonte das fontes ou a lei das leis ou a norma normarum..com a dialética marxista enquanto método6).) são leis que se põem como a causa ou a fonte de muitas outras leis igualmente físicas.4. porque somente assim é que a árvore pode permanecer viva. senão seria limitada por outras e não poderia ser independente.3. Desta concepção extraem-se outras: se é absolutamente independente deve ser infinita. 3). 1. embutido. teremos que passar pela explicação dos testículos . do qual deva ser formado.por serem eles a glândula genital masculina que fabrica o esperma (que. claro) por um espermatozóide (masculino. quem sabe.2.esta última . Por hipótese. I.4.g. que somente coincide .

Um conceito que se intui a priori.é a impossibilidade do suicídio direto ou instantâneo: Deus a bater em retirada. não foi a partir da intuição da existência de uma norma fundamental simplesmente pensada.3. permanecer como a força que tudo pode.5. e por isso voltamos a ajuizar que a natureza de Deus está em ser o poder que tudo pode.5. Ademais. 14 do prefácio de MÁRCIO PUGLIERI ao "TRATADO POLÍTICO".5. Terminemos este segmento reflexivo com a ponderação de que não desconhecemos o grande risco intelectual de quem se dispõe a falar sobre Deus. Não há como duas ou mais onipotências ocuparem o mesmo espaço. decorrendo suas qualidades e ações de sua própria natureza (. todo mar. Deus originário. existir em absoluta solidão. Deus. nenhum costume. primitivo Deus. uma norma fundamental hipotética.. 1994). Todavia. nenhuma instância volitiva imanente. a um só tempo.5. Deus criaria um novo Deus. enfim. em que céu. com a entrada em cena de um segundo Deus. com Ele. falar sobre Ele não é formular proposições deduzidas da análise de elementos objetivos que se conectam para formar um todo unitário. esse novo Deus onipotente destroçaria toda a obra do primeiro e assim decretaria a própria sentença de morte do Deus inicial. nem pela convocação de um êmulo. ou até mesmo descriar o Primeiro?8 1. retornaríamos àquela já descartada hipotetização: Deus a sumir do mapa. sabido e ressabido que a existência mesma de Deus nem pode ser rigorosamente confirmada nem rigorosamente desconfirmada pela Ciência.5. mas saltar imediatamente para uma conclusão. como é próprio de todo postulado. onipotência e unipotência. Não seria exatamente assim com o Poder Constituinte? Uma força instintiva que não comporta sucedâneo. É também o poder de não deixar que outro poder tudo possa. Este princípio necessário. O desdobramento de idéia que nos esforçamos por transmitir é simplesmente este: a onipotência não é só o poder de tudo poder. Deus. O outro modo é a impossibilidade do suicídio em dois tempos: num primeiro tempo. uma . 1. e.5. segundamente. menos deixar de tudo poder. caso contrário dependeria de sua causadora.2. É próprio do Ser onipotente. Um postulado. todo céu. então. à completa imagem e semelhança Dele.5. um clone. o que impediria o novo Deus "onipotente" de refundir.também precisa ser causa sui. singular e incausado. o próprio mapa a sumir (em que chão. Este novo título formal nos introduz na exposição dos dois modos lógicos de Deus perseverar como o poder que tudo pode.já foi dito . Realmente. Nem de forma direta. eterno. na Sua onipotência. de SPINOZA. se a morte do "originário" Deus levaria de roldão todo abismo. Logo. uma energia completamente primária e insimilar. enfim). Se Deus pudesse criar um segundo Deus.). precisa ser autodeterminada.4. para os intelectuais que O admitem é sempre uma hipótese de trabalho. tão onipotente quanto Ele. todo chão?). Poder único.5. Um desses modos . em que mar. em que abismo.1. pura e simplesmente. 1. está condenado à solidão. pressuposta (não efetivamente posta por nenhum órgão jurídico. absolutamente inconvivível com outro poder de igual ontologia.4. portanto: primeiramente. e. 1. num segundo momento. um sósia. Ícone Editora. 1. este princípio imanente do universo é Deus ou Natureza" (p. É. que HANS KELSEN pôde falar de uma Ciência do Direito? Uma ordem sistemática de conhecimentos que tem naquela hipotetização normativo-fundamental a sua própria condição inicial de possibilidade como esfera autônoma e científica de saber?7 1.. A incontornável solidão da onipotência de Deus 1. portanto.

Implica emancipação como a forma exteriorizada de uma soberania que é. que um povo já existe. para o povo não mais se submeter ao Direito de outro povo. o já existir sob a forma jurídica de Estado. paulatinamente. garantidamente. superior a qualquer outro poder jurídico. quando pode dispor normativamente sobre si mesmo.6. exclusivo. especular sobre Ele (quem falaria. incorpora o poder de se autodeterminar jurídicamente. 1. destarte.2. É dizer que o povo pôs em movimento. começando por este capítulo e prosseguindo nos subseqüentes. Queremos dizer: é aplicável à natureza de cada povo soberanamente concebido.4. única via lógica (não há outra) de o povo. único modo prático-formal de o povo por inteiro se autoconferir um Ordenamento e uma personalidade jurídica.6.9 1. relações jurídicas internas. É exprimir: o ser-povo significa poder existir sob a forma jurídica de Estado. Enfim. assim. para uma coletividade humana. 1. O povo só é povo. etc. jurídicamente. que tem no Estado a sua própria condição de aplicabilidade e expansão. juridicamente. Quando se autoqualifica juridicamente. 1. à natureza do povo. no plano territorial-externo. por definição. para o povo grangear a adesão. antes da criação do Estado também não se pode. com animus domini.5. já agora no plano imanente.6.6. no plano territorial-interno. de forma autoditada. o que objetivamente revela? Revela a efetividade da emancipação ou soberania do povo. quer no seu próprio território. O povo como a transubstanciação do poder imanente que tudo pode 1. Atento ao relativismo que é próprio das comparações. Única maneira objetiva e permanente de o povo atuar como um centro personalizado de imputação jurídica. É pressupor a soberania em ação. é aplicável.solitária potência do mundo do ser? Um poder que só pode ser concebido in natura. dos demais povos soberanos. com esta dúplice função: primeiramente. Repisando a idéia.6. ou pelo menos o respeito. falar da existência de um povo. forcejaremos por ministrar. . animamo-nos a enunciar que boa parte do que dissemos a respeito do caráter de Deus. o que dissemos acerca da índole de Deus é de ser reproduzido quanto ao caráter de cada povo.3.6. A originária força de possuir um Direito próprio.). Emancipação política (soberania) para o povo poder se irrogar tal Ordenamento. Se se prefere. ou histórico. E tudo isto somente se consuma pelo fenômeno da estatalização. é dar conta do exercício vitorioso de uma emancipação política. no plano transcendente. e que não é inferior a nenhum outro poder jurídico. não há como entrever a face jurídica do povo. naquele preciso momento da metamorfose do povo em Estado. Se antes da criação da vida humana sequer era possível falar da existência de Deus. b) se predispõe a protagonizar. Afirmar. c) força passagem para o seu ingresso na coletividade internacional de Estados. 1. pela importância do assunto: o ser-povo. se auto-referir como sujeito de relações-de-Direito. terceiramente.1. exercitou uma soberania. quer na esfera territorial que é comum aos demais Estados soberanos (a ordem internacional de Estados). Sem o fenômeno da estatalização. para o povo impor o seu próprio Direito no âmbito do território de que se apodera. e nunca de forma pasteurizada? É a resposta que. ou étnico. Mas o ser-Estado. E isto já significa a emergência de um Ordenamento Jurídico próprio. segundamente. porque somente assim estatalmente a se metamorfosear é que o povo: a) pode experimentar sua natureza de instância deliberativa soberana. quem especularia?). em termos jurídicos (não sob o prisma sociológico.

seja para se assumir como a instância decisória interna mais importante, seja para ombrear-se às demais instâncias internacionais de Estados. Numa nova metáfora, o Estado é a borboleta em que se transformou a crisálida de uma sociedade humana aspirante a povo.10 1.6.6. O que verdadeiramente conta, nessa cruzada histórica do povo em busca de si mesmo, à cata de sua própria totalidade como ser jurídico, é o resultado. É a efetividade interna e externa da personalização jurídica do povo em um novo Estado. Não que a efetividade só exista, no plano interno e externo, a partir do reconhecimento unânime desse novo Estado pelas instituições aplicadoras do Direito, no plano interno, ou, então, pela sociedade internacional de Estados. Absolutamente! Basta que o número dos reconhecedores assegure ao novo Estado a perspectiva, o clima, a tendência natural de prosseguir obtendo novos reconhecimentos (ainda que tácitos), à medida que se vão escasseando as possibilidades de recuperação de terreno do Estado decaído ou daquilo que sobrou da antiga ordem estatal. É o que poderíamos designar por situação de efetividade global do Estado emergente, imagem de que se valeu HANS KELSEN para dizer que o Ordenamento Jurídico não perde a qualidade de Ordenamento pelo fato de uma ou outra de suas normas, embora válida, deixar de ser concretamente aplicada. O que interessa é que, no global, no geral, no plano daquilo que profusamente ocorre, a Ordem Jurídica seja respeitada. Ouçamos o maior expoente do positivismo jurídico da recém-passada centúria: "Uma ordem jurídica não perde, porém, a sua validade pelo facto de uma norma jurídica singular perder a sua eficácia, isto é, pelo facto de ela não ser aplicada em geral ou em casos isolados. Uma ordem jurídica é considerada válida quando as suas normas são, numa consideração global, eficazes, quer dizer, são de facto observadas e aplicadas" (ob. cit., p. 298). 1.6.7. Ainda insistindo na comparação possível entre Deus e o povo, devemos concluir que o povo também não tem, em rigor, o poder imanente de tudo poder. Ele, povo, assim juridicamente designado pelo fato de se organizar em Estado soberano, é o próprio poder de tudo poder, em termos jurídicos e no plano territorial interno. Dá-se, na imagem ideal do povo, a transubstanciação da soberania (do latim super omnia, a traduzir aquilo que está acima de tudo ou acima de todos), assim como na doutrina católica se dá a mudança de estado do pão e do vinho para o corpo e o sangue de Jesus Cristo, na Eucaristia (dogma definido no Concílio de Trento). Ou, numa exemplificação propriamente científica, a osmose que se processa entre o povo e a soberania é algo assim como o encontro de duas partículas de hidrogênio com uma de oxigênio, a determinar a mudança de natureza desses dois elementos químicos para a formação de um terceiro: a água. 1.6.8. Vistas as coisas por este ângulo, força é convir que a soberania outra coisa não é, na prática, senão o próprio modo estatal de ser do povo. É como inferir: no justo momento em que a transfiguração estatal se efetiva, já o é como resultado empírico da fusão do poder soberano com o povo (o que significa dizer que o povo e a soberania passam a compor uma só unidade fenomênica, pois o povo é um com a soberania e a soberania é uma com o povo). O povo, impessoalmente encarado, é o poder soberano, tanto quanto o poder soberano, subjetiva ou personalizadamente focado, é o povo. 1.6.9. Sem o povo, a soberania é forma pura, isenta de toda matéria, e, portanto, vazia. E sem a soberania, que é o povo? Matéria humana coletiva ainda juridicamente privada de sua definitiva forma. Um ser jurídico ainda carente de totalidade, a meio caminho da autoconsciência, porque, nele, a soberania permanece numa dimensão apenas virtual. Daí a asserção de que, sem a incorporação da soberania, o povo não dá

a si próprio uma Ordem Jurídica e deixa de se personalizar no Estado. E assim juridicamente incompleto e estatalmente irrealizado é que o povo não consegue superar o estágio político de simples população, que é o inconcluso estágio de crisálida. 1.6.10. Perguntamo-nos: mas o que faz o povo ser assim a fonte e o nervo da soberania? A própria subjetivação do poder mais alto em que a soberania consiste? É que o povo, no seu amálgama com o território de que se torna senhor, falando geralmente a mesma língua e vivenciando uma cultura própria, constitui o que se convencionou chamar de nação. Algo mais que sociedade humana, mais que população, muito mais que simples aglomerado de pessoas, por implicar uma verdadeira comunidade (de comum unidade); isto é, uma real comunhão de vida, no sentido de consciência coletiva quanto à partilha de um mesmo destino histórico, por se encontrarem todos em um mesmo barco. Logo, o mais abrangente e impessoal e permanente enlace humano (que é mais do que convivência hic et nunc), de sorte a plasmar um tipo de realidade social que só pode ser o começo de tudo, no plano da Política e do Direito. 1.7. A soberania popular ou o modo constituinte de ser do povo 1.7.1. O Poder Constituinte 1.7.1.1. É neste ponto de intelecção que vem à baila a figura do Poder Constituinte. Um poder que em nada discrepa da soberania de que vimos falando, por ser ele essa mesma soberania; ou seja, O Poder Constituinte é a soberania que se manifesta de modo inicial ou primário. Logo, o nome que a soberania toma, quando expressada com inicialidade. 1.7.1.2. Se falamos assim de primariedade expressional da soberania, é porque o povo-nação, já imerso no seu Estado, atua em outros momentos que o Direito Positivo costuma etiquetar como expressão de "soberania popular". É o caso da Constituição brasileira de 1988, cujo art. 14 faz dos institutos do sufrágio universal, do voto, do plebiscito, do referendo e da iniciativa das leis pelos cidadãos uma forma de exercício, justamente, da soberania.11 1.7.1.3. Uma outra razão existe para falarmos de momento inicial da soberania, e aqui já temos em vista a figura do próprio Estado. É que ele também recebe o qualificativo de soberano, na medida em que pode impor ou ditar um Direito comum a todos, no interior do seu próprio território. E no uso dessa aptidão para expedir um Direito de abrangência e acatamento geral, o fato é que nele mesmo, Estado, se dá a reedição daquela marca registrada que é do povo, soberanamente concebido: o poder de procriar um Direito a que ninguém escapa (no caso do povo enquanto fonte normativa, esse Direito é a própria Constituição; no do Estado, o Direito pós-Constituição). 1.7.1.4. Reexplica-se. Põe-se no Estado a designação de soberano porque ele, tanto quanto o povo-nação, produz um Direito de máxima e irrecusável abrangência pessoal e territorial. Com a diferença de que o povo assim o faz pela altissonante via da Constituição e no uso de uma força originária ou potência propriamente dita; ao passo que ele, Estado, só pode fazê-lo por normas que são posteriores à Constituição e no uso de uma potestade ou competência derivada (a potência se dilui em competências, e não em outra potência, como bem observam HART e VANOSSI). 1.7.1.5. É assim no uso de uma capacidade normante que o povo lhe delega, lhe cede,

lhe empresta, enfim (sempre por conduto da Constituição), que o Estado dita um Direito comum a todos e, pela efetividade desse Direito, passa a abrir os mais favoráveis espaços de reconhecimento internacional à "sua" (dele, Estado) soberania. 1.7.1.6. É de se perguntar, naturalmente: e quando ocorre aquela citada manifestação primária da soberania? Manifestação primária, essa, que estamos a identificar com o Poder Constituinte? Não com o Estado? 1.7.1.7. Resposta: a soberania que se manifesta como Poder Constituinte somente ocorre, formal ou oficialmente, no preciso instante da criação jurídica do Estado. Criação que se formaliza, hodiernamente, no corpo de um documento jurídico-positivo cujo nome é Constituição (palavra que, no vernáculo, significa a maneira particular de ser de cada coisa ou objeto de conhecimento). 1.7.1.8. Quanto à justificativa para o nome técnico "Poder Constituinte", é porque ele significa o poder de constituir a Constituição (releve-se a poluição auditiva), que termina sendo o poder de constituir o Estado e o poder de dar início à montagem do Ordenamento Jurídico do povo e do Estado mesmo.12 1.7.1.9. Note-se bem: acabamos de ajuizar que o Poder Constituinte é o poder de constituir a Constituição, e não o poder de constituir normas constitucionais. A diferença entre as duas coisas é muito importante, porque de qualidade. Se toda Constituição é um feixe de normas constitucionais, nem todo feixe de normas Constitucionais é uma Constituição. Queremos salientar: o poder de editar a Constituição não incorpora o poder de reformá-la, tanto quanto o poder de reformá-la não incorpora o poder de editá-la. Quem faz o todo, faz o todo, e não menos. Quem faz a parte, faz a parte, e não mais. 1.7.1.10. Tornando ao mote: se toda Constituição originária é um repositório de normas constitucionais, nem todo repositório de normas constitucionais é uma Constituição originária. Isto porque as emendas à Constituição pressupõem uma Constituição originária a emendar. Lógico! E tais emendas veiculam normas... constitucionais. Porém, sob um regime normativo que não é autoditado por elas, e, sim, pela própria Constituição emendada. 1.7.2. O Poder Desconstituinte 1.7.2.1. Chamando o feito à ordem: O Poder Constituinte, manifestação primária da soberania, faz a Constituição, que, a um só tempo, faz o Estado e inaugura o Ordenamento Jurídico. É esse Ordenamento que vai receber do Estado uma ininterrupta complementação (e garantia), de maneira a consubstanciar todo o mundo do Direito: de um canto, o Direito-Constituição, que o Estado originariamente não faz (a parte da Constituição que o Estado faz já é a veiculada por emendas); de outro canto, o Direito pós-Constituição, que o Estado faz, ou, então, reconhece. Não há um tertium genus. 1.7.2.2. Dizer que existe um Direito originário que o Estado não faz é também dizer que esse Direito é o único a não passar pelo crivo do Estado ou de qualquer outra pessoa jurídica. É que, no momento constituinte, a sociedade é concebida como se de pessoas coletivas não se formasse. Nem públicas nem privadas. Apenas as pessoas físicas é que se tornam protagonistas das ações políticas de que resultam o féretro de uma Constituição e o partejamento de outra. 1.7.2.3. É aqui mesmo o lugar apropriado para falarmos de um Poder Desconstituinte. Que é o poder correlato ao Constituinte ou imbricado com ele. Pois é de todo evidente que o poder de constituir um novo Estado implica o poder de

Se é olhando para o Universo que reconhecemos a soberania de quem o fez. o povo. E. a subjetivada figura do Estado. dois poderes que tudo podem: Deus no céu e o Poder Constituinte na terra (que é um poder geminadamente constituinte/desconstituinte). e pela necessária interpenetração é que se conceituam. tanto quanto o Estado não funda esse Ordenamento. assim vinculadamente. quem o conheceria para aquém das esferas da pura espiritualidade ou dos colmos angelicais?). Um.a primeira.8. Quem inova o Ordenamento é o Direito . 1.7.8. São temas que se interpenetram.1. na mesma pegada. A Constituição inaugura o Ordenamento. Para fundar o Direito. E também por inteiro. nele.3.2. 1. que é o próprio mundo por Ele criado (senão. a nação é a única instância imanente capaz de partir de um marco zero jurídico para colocar uma Constituição em lugar de outra.4. a produzir o Direito mais importante (que é a Constituição). Falar. 1. que é um modo jurídico inicial ou constituinte de ser. 1. então. É esse modo constituinte de ser que faz do povo. portanto.2. por inteiro.2. necessariamente. que se reitere a pacífica noção de que a Constituição não inova o Ordenamento Jurídico. 1. Se é possível promulgar uma nova Constituição. por completo.desconstituir o velho. Como fazemos todos nós diante de um bom espelho de cristal. o que temos é o modo soberano de ser de uma coletividade humana. que é a Constituição por ele criada. de Poder Constituinte/Desconstituinte. de povo (povo-nação) é falar de soberania. a dar início à criação do mundo jurídico em particular e a prescrever o modo pelo qual esse mundo jurídico vai receber seus necessários e infinitos complementos.8. sob o prisma político. início lógico de todo o Direito Positivo. responsável pela criação da pessoa coletiva ou plural também mais importante (o Estado). de Constituição. e com essa outra Constituição fazer o quê? Instituir um novo Ordenamento Jurídico e.8.8. Deus faz o que é próprio da potência em que Ele consiste: impõe a Si mesmo as próprias condições de "trabalho" (evidente que o vocábulo trabalho é usado por analogia com as empreitadas humanas de edificação de algo a partir de um imaginário ponto zero). a nação encarna essa potência de abater o velho e erguer o novo Ordenamento Jurídico. 1. que não precisa mais do que a sua própria realidade para instaurar as relações que pretender. É assim que se movimenta ou se materializa a potência. apenas três considerações: I . neste passo. 1. Temos. 1. A título de remate. Instância humana primária e mais importante.8.5. Se se prefere.4. podemos dizer que há um modo empírico de Deus se fazer conhecido. se auto impõe as coordenadas de atuação legiferante. Cada realidade a olhar nos olhos da outra para encontrar mais nitidamente refletida a própria imagem. a instância humana primeva por excelência. Se é pelo dedo que se conhece o gigante. de Estado e de Ordenamento Jurídico. Outro.6. Por igual. a dar início à criação do mundo em geral (a natureza e os seres humanos dão seqüência à obra de Deus).7. claro que isto se dá pela despromulgação daquela até então vigorante.8. De conseguinte. é também olhando para a Constituição que reconhecemos a soberania de quem a procriou como norma jurídica primária (a Constituição enquanto modo jurídico de o povo se fazer conhecido como instância exercente de uma soberania que vai além do estádio da pura virtualidade). há um modo jurídico de o povo se fazer conhecido.5. Para fundar o universo. O mundo de Deus e o mundo do Direito 1.

oriunda de outro órgão. . pela eleição dos representantes do povo. se coloca entre Deus e Sua originária criação). por se traduzir em singela aplicação dos conteúdos e valores da Constituição Positiva. versando a dicotomia "Poder Constituinte e Poder de Reforma Constitucional: "Por ser um poder `fundador'. não há como deixar esse órgão de atuar segundo pautas procedimentais adrede redigidas. sobretudo por conduto da lei. associa-se-lhe.a terceira e última consideração é esta: há um tipo de soberania que trata da Constituição (pois que a própria Constituição originária é que resulta do exercício dele). por estar cerceada pelo ato de convocação.pós-Constituição. ao qual não é dado estabelecer raias e vedações à tarefa inovadora. um fato-norma (nenhum órgão deliberativo. 162). o qualificativo `originário'. o poder constituinte originário não é regulado por direito anterior. e um outro tipo de soberania de que trata a Constituição (pois inteiramente normado por ela). e.)" (edição da Universidade Federal da Bahia. É tão-somente no âmbito do Poder Constituinte que é possível distinguir as duas coisas . Quando a corporação parlamentar não opera com liberdade de decidir.. por natureza independente. a partir de um dado formal e outro material: formalmente.a segunda consideração é a de que. (. III . Acentua-se-lhe. o timbre criador ou instituidor. não condicionada a amplitude de sua competência por lei preliminar. O instrumento convocatório da assembléia é apenas meio que proporciona.regimento e respectiva aplicação -. Somente o primeiro a revelar o fato de que o Poder Constituinte é o único momento político-normativo que vai da sociedade ao Estado. A lei é que é o verdadeiro motor do Direito. singular ou colegiado. O único instante em que o Direito se subtrai completamente ao Estado. aí. comumente. 1989. Deus não se serve de ninguém para criar o mundo. e não do Estado à sociedade. porque o Poder Constituinte bem pode se manifestar por um órgão plural ou coletivo de deliberação. II . de elaboração estatal. da autoria de JOSAPHAT MARINHO. falta-lhe a dimensão de assembléia constituinte. em si mesmos. Seu agir ou Seu fazer já são.. O dínamo do Direito. materialmente. desse modo. Dotado de propriedade tão eminente. Daí que não obedeça a normas regimentais antecipadamente lançadas. p. Donde esta didática passagem do livro "ESTUDOS CONSTITUCIONAIS". pelo seu modo comparativamente simplificado de elaboração. ao contrário do sucedido com o Poder Constituinte. sem a menor força intrínseca de inovar o próprio fundamento da Ordem Jurídica (a Constituição mesma). a atividade do poder constituinte.

1. O inexistente vínculo entre "excesso de rigidez" e "Poder Constituinte Evolutivo" 2. A natureza política do Poder Constituinte 2. a ponto de se poder afirmar que a cada nova Constituição corresponde um novo Estado (juridicamente falando.. esse poder que.1.3. O caráter político do Direito posto pelo Poder Constituinte 2. é esse poder constituinte ou poder de constituir o Estado. não é feita pelo Estado. Pois bem. porque originariamente imbricado em toda a pólis.A Lógica Própria do Poder Constituinte e a do Poder Constituído Sumário 2. é um poder simultaneamente constituinte e desconstituinte: zera a contabilidade jurídica até então existente e passa a começar tudo de novo (à feição de um professor que. que já não pode ser concebido senão como um poder que é parte do povo mesmo.4.4. Quando pronunciamos a locução "Poder Constituinte".a Constituição é a primeira manifestação objetivo-sistemática daquele poder imanente que tudo pode.1.1 2. "Constituição da República Popular da China". Mais até. na outra. como sempre enfatiza MICHEL TEMER). a encarnar o que há de mais político no Direito e mais anatômico no Estado. estamos a falar de um poder exclusivamente político. que é o povo enquanto ser ou realidade constituinte. mantendo com esse Estado uma essencial relação de unha e carne. O povo enquanto sociedade política e enquanto sociedade civil 2. Ela é feita para o Estado.1.a Constituição. "Constituição da Espanha". sob que tipo de Direito-Constituição quer viver. e o Poder Constituído como o poder que pode o menos sem poder o mais 2. numa das mãos. no rigor dos termos. todo povo assim constituintemente dimensionado vai estruturar o seu Estado no bojo de um diploma jurídico-normativo que toma o sintomático nome de Constituição. de tão inicial. . Donde podermos trocar a palavra "povo" pela expressão "poder constituinte". tão necessário ele é para a auto-afirmação histórica do povo. O modo constituinte de ser do povo. 2.1. naqueles raros instantes em que a pólis se sobrepõe ao Estado para dizer.. sem dúvida que estamos a falar de um poder genuinamente político.2. A natureza política do Poder Constituinte 2. tão socialmente mais abrangente e tão superior aos outros poderes políticos. E não é por outra razão que toda Constituição Positiva toma o nome do Estado que ela põe no mundo das positividades jurídicas (daí "Constituição da República Federativa do Brasil".5. O vínculo natural entre a sociedade política e a futuridade. O Poder Constituinte como o poder que pode o mais sem poder o menos. Constituição.1.6. E por que é assim? 2. porta o giz com que vai escrevendo nos espaços vazios dessa mesma lousa). II . tão incondicionado. do Estado. 2. É assim.9. O caráter democrático-formal do Direito posto pela sociedade política 2.Capítulo II . e.2.1. O Poder Constituinte como realidade que fica do lado de fora da Constituição 2. Tão penetrado de povo.3. desde o berço. saca de um apagador para limpar completamente a lousa da sala de aula. A sociedade política em SIEYÈS 2. na sua originária redação.8. por ela mesma. porque: I .7. Ela passa a transitar pelo mundo do ser (não do dever-ser jurídico) e por isso pode assumir-se como o amálgama do povo inteiro com o território sobre o qual esse povo inteiro vai constituir o seu particular Estado.

8. que é a primeira voz do Direito aos ouvidos do povo. Há uma esfera de decisão anterior e superior a toda positividade jurídica. É coberto de razão que o positivismo analítico realça a anterioridade do Poder sobre o Direito.nele próprio se transfundindo -. por ser o Poder Constituinte uma força ou realidade exclusivamente política (sociológica. juristas constitucionalistas e cientistas políticos que se ocupam do mesmo tema. enfeixadas na Constituição. é quem faz o Direito. ele já faria parte do Direito e ao Direito teria que se submeter. O mesmo acontece na relação entre juristas internacionalistas e estudiosos das relações . assim. Não o nome de um objetivo setor de relação jurídica ou atividade humana. É assim que o Poder Constituinte tem à sua mercê o Estado em particular e o Direito em geral. Ele é que tem a Constituição na mão. Notei muitas vezes que. Assim como Deus. a unitária potência. e a essa esfera pré e metajurídica de poder bem assenta o nome de esfera política. e não jurídica. por conseqüência. que assim expõe o seu luminoso pensamento: "Creio não incorrer em pecado de presunção se disser que o fato de ter cultivado estudos jurídicos e políticos me permitiu analisar os mil e um complicados problemas da convivência humana a partir de pontos de vista que se integram. agora sim. o Código Eleitoral. porque somente quem detém o poder . o Código Comercial. o puro poder. etc. o Código Penal. o exercício daquele poder que tudo pode (acrescentamos). na figuração de NORBERTO BOBBIO. e não o contrário. Uma vez instituído.). o fato sociológico bruto (não-juridicamente lapidado). porém. se jurídico fosse o Poder Constituinte. pois o Direito mais inicial (que é a Constituição Positiva) deixaria de provir dele mesmo. e. cuida-se de esfera exclusivamente normante. não poderia inaugurar o mundo das coisas jurídicas.1. no preciso instante em que pronuncia o fiat lux mundano. está à vontade para plasmar o Estado. Poder Constituinte. A própria Constituição originária. etc."Constituição dos Estados Unidos da América". E porque é assim. Temos por cognoscitivamente decisivo o que estamos a enunciar e por isso é que batemos na mesma tecla: o povo.10. a jorrar daquele puro poder. 2. de alguma forma. Esta.6.1. por conseguinte. a se manifestar por conduto de normas jurídicas originárias. ao mundo teria que render vassalagem.9. é uma instância exclusivamente política de deliberação. Pois que. e não simultaneamente normante e normada. a atestar a primazia da idéia sobre a matéria.5. Assim como Deus. mas o desempenho do poder que já se instituiu por virtude do Direito mesmo.1. Como está à vontade para fazer da sua nova Constituição o início lógico de um novo Ordenamento Jurídico (o que sobrevive do antigo Ordenamento deixa de manter elo-causal com a Constituição sepultada e corre a buscar fundamento de validade na nova Carta Política).1. tem que ser uma instância exclusivamente ideal ou transcendente. Encarna. é gestada por ele e somente por ele. porque enraizada e afinal transfundida na pólis. Não. contudo. Poder e Direito são as duas faces de uma só moeda. 2. Toda essa força que tem o Poder Constituinte para fazer o que bem entender do Direito só é possível. da consciência sobre a experiência.7. pelo menos na Itália.3 2.1. a toda estatalidade oficial. é que o Direito disciplina o exercício do poder. se já pertencesse ao mundo desde sempre. na visão de FERDINAND LASSALE). a Consolidação das Leis do Trabalho. no estratégico momento em que elabora a Constituição. muitas vezes se ignoram reciprocamente. como sucede. 2. Incisivamente. o Estado. Exclusivamente política.2 2. com o Código Civil. com todos os órgãos elementares desse Estado e respectivas funções. pois: se o Poder Constituinte fosse um poder jurídico. do espírito sobre o corpo.1. 2.

internacionais quanto à análise da organização dos Estados. Os dois pontos de vista são, de um lado, o das regras ou das normas como preferem chamar os juristas, cuja observância é necessária para que a sociedade esteja bem organizada, e, de outro, o dos poderes necessários para que as regras ou normas sejam impostas e, uma vez impostas, observadas. A filosofia do direito ocupa-se das primeiras; a filosofia política, das segundas. Direito e poder são duas faces da mesma moeda. Uma sociedade bem organizada precisa das duas. Nos lugares onde o direito é impotente, a sociedade corre o risco de precipitar-se na anarquia; onde o poder não é controlado, corre o risco oposto, do despotismo. O modelo ideal do encontro entre direito e poder é o Estado democrático de direito, isto é, o Estado no qual, através de leis fundamentais, não há poder, do mais alto ao mais baixo, que não esteja submetido a normas, não seja regulado pelo direito, e no qual, ao mesmo tempo, a legitimidade do sistema de normas como um todo derive em última instância do consenso ativo dos cidadãos" (em DE SENECTUDE - O Tempo da Memória, Editora Campus, 1997, p. 169). 2.1.11. Como visto, BOBBIO abre uma necessária distinção entre o fazer e o garantir as normas jurídicas, permitindo-nos deduzir que, se o Estado não detém o monopólio da produção do Direito, é, no entanto, a única instância dotada do poder oficial de garanti-lo (garantir o cumprimento do Direito, entenda-se). O que levou KARL POPPER a formular este singelo e preciso enunciado: "Não existe liberdade que não seja garantida pelo Estado e, ao inverso, só um Estado controlado por cidadãos livres pode oferecer-lhes alguma dose razoável de segurança" (em THE SOCIETY AND ITS ENEMIES, 5ª edição, Revista Londres, 1966, pp. 50/51). 2.1.12. Em ultima ratio, poder e Direito são a primária dicotomia ou os dois mais elementares princípios de organização da vida social. Vida, que, sob o prisma jurídico, se constitui de relações verticais e de relações horizontais. Estas, pressupondo a igualdade de forças entre os respectivos protagonistas, e, aquelas, a superioridade de uma parte sobre a outra. De todo modo, relações que fazem do Direito o complexo das condições existenciais da sociedade, na propalada conceituação de IHERING. Ou como sentenciava TOBIAS BARRETO: "Perante a consciência moderna, o Direito é o modus vivendi, é a pacificação do antagonismo das forças sociais".4 2.2. O caráter político do Direito posto pelo Poder Constituinte 2.2.1. Complementemos a revelação dessa fotografia do poder e do Direito com a afirmação de que, em se tratando do poder político, é na Constituição Positiva que os dois fenômenos culturais se dão mais firmemente as mãos. A Constituição é o Direito que nasce daquele mais originário decisionismo, daquela vontade fundamentante que se contém no poder político. Donde a sua visualização como o primeiro ponto formal de encontro ou como o espaço inicial de integração das duas categorias sociais básicas (o poder e o Direito). 2.2.2. É este panorama de integração que subjaz ao visual da Constituição como "estatuto jurídico do fenômeno político" (CANOTILHO), ou como "estatuto jurídico do Estado" (JORGE MIRANDA). Não sendo à toa, portanto, o rótulo social e até jurisprudencial-doutrinário que toda Constituição porta de "Código Político" e de "Carta Política". 2.2.3. Em verdade, a Constituição é Código Político, sobretudo pela sua origem e pelo

seu objeto. Pela sua origem, por advir do único poder que funda o Ordenamento sem nesse Ordenamento mesmo se fundar sequer de modo reflexo (e já vimos que esse poder fundante do Ordenamento é eideticamente político). Pelo seu objeto, porque esse objeto, sendo essencialmente o Estado, carreia para a Constituição a politicidade que envolve tudo quanto se refira à estruturação estatal: o tipo unitário, ou federal... de Estado; a forma republicana, ou monárquica de governo... do Estado; o sistema parlamentar, ou presidencial de governo... do Estado; o modo independente e harmônico de relacionamento entre os órgãos elementares... do Estado; o sistema eleitoral de investidura dos titulares dos órgãos legislativo e executivo... do Estado; a representatividade popular dos órgãos eminentemente políticos... do Estado; a abertura dos espaços de movimentação da cidadania e de criação dos direitos públicos subjetivos como limites à atuação... do Estado, etc., etc. Nada resta, praticamente, nesse patamar da organização básica do Estado que não seja entranhadamente político. E quase tudo é entranhadamente político por dizer respeito a interesses que são de toda a coletividade. Interesses da pólis ou da civitas que no Estado se personaliza juridicamente, compondo, de modo formal, o reino do universal ou plurifinalístico; isto é, o reino do que há de mais abarcante, impessoal e permanente, que é o reino da política. 2.2.4. Se bem observarmos, toda Constituição Positiva se estrutura formalmente em partes que, ora diretamente, ora indiretamente, põem o Estado como tema de conformação. Ele, Estado, circula por todos os recônditos da Magna Lei, variando o seu regime jurídico pelo modo (direto, ou de esguelha) como a Constituição mesma dispõe sobre esse transitar institucional. Com o que ficamos inteiramente à vontade para imaginar a Constituição como a certidão de nascimento e a carteira de identidade do Estado. 2.2.5. Quanto à designação de "Código", referida à Constituição, entendemo-la perfeitamente ajustável às Constituições de um só texto ou corpo único de dispositivos. Não àquelas Constituições que se derramam por atos legislativos esparsos. Nas primeiras - Constituições que se escrevem num corpo único de dispositivos -, comparecem pelo menos dois dos elementos que se presentificam em toda codificação jurídica: a) a sistematização formal, traduzida na setorialização de temas afins, agrupados segundo o esquema relacional que vai do gênero à espécie; b) o propósito de substituir inteiramente a normatividade então vigorante sobre a matéria, de sorte que toda a prescritividade sobre tal matéria se contenha no novo e único ato legislativo, no momento da confecção desse ato. 2.2.6. Já no tocante ao apelido de "Carta Política", ele se explica por ser a Constituição uma carta ou estatuto de direitos e garantias fundamentais, tudo, naturalmente, perante o Estado e o Governo ou por intervenção deles. O que também confere a esse tema dos direitos e garantias fundamentais (neles também figurantes a nacionalidade, a soberania popular e a cidadania) uma vívida coloração política; pois é de toda a sociedade o interesse em que haja uma zona de especial proteção normativo-constitucional a tais situações jurídicas ativas.5 2.2.7. Nessa trajetória relacional do político para o jurídico, ou do Poder Constituinte para a Constituição, o fato que nos parece mais digno de nota reside em que o político não se deixa regrar pelo jurídico. Não se torna objeto das normas que passa a editar, ao reverso do que se dá com o poder já oriundo do Estado, que é um poder que se faz arqueiro e alvo das suas próprias setas normativas. 2.2.8. Façamo-nos melhor entender: o poder político por excelência, que é o Poder Constituinte, não se deixa mesmo regrar pelo Direito. Isto é correto. Mas não significa

estar ele completamente imune a parâmetros e até mesmo a freios sócio-culturais, no instante em que elabora a Constituição. O paralelo com a obra de Deus não pode ser feito senão com temperamentos ou moderação, pois salta à inteligência que o autor da Lei Maior sabe muito bem que as chances de efetividade da sua obra legislativa depende da estima social interna e do reconhecimento político externo que venha a obter (e quanto mais forte a primeira, mais provável o segundo). E é mesmo na expectativa da obtenção dessa dúplice "boas-vindas" à sua obra normativa que o legislador-mor tende a amainar em si os ímpetos de abusividade. 2.2.9. Tudo tem limite nas coisas ditas humanas e o Constituinte não escapa à contingência de ter que operar com um olho no padre e outro na missa; quer dizer, tanto compenetrado dos seus incondicionamentos formais e ilimitabilidade material quanto do risco da inefetividade global da sua obra. Meio termo, destarte, entre o desmarcado e o demarcado (o desmarcado, no campo da positividade jurídica; o marcado, no campo sócio-cultural). Razão pela qual já dissemos, alhures, que, sobre os limites do Poder Constituinte, é comum vê-los comentados enquanto expressão do Direito Natural (SIEYÈS), ou das concepções axiológicas mais assentadas na trajetória da humanidade (PAUL BASTID). Até porque "O poder precisa ser forte, mas sua fortaleza decorrerá tanto do mecanismo que o envolva como, sobretudo, do consenso nacional que logre despertar" (J. BLANCO ANDE, em "TEORIA DEL PODER", Madri, Ed. Pirámide, 1977, p. 144). 2.3. O Poder Constituinte como realidade que fica do lado de fora da Constituição 2.3.1. A insubmissão do Poder Constituinte à sua própria obra legislativa 2.3.1.1. Uma nova pergunta é de se fazer, com toda pertinência: e por que o Poder Constituinte não está submisso ao Direito já positivado, nesse Direito embutido o de índole constitucional originária? 2.3.1.2. Uma primeira resposta: porque o Poder Constituinte está do lado de fora da Constituição. Faz a Constituição, claro, mas sempre do lado externo a ela. Não entra no corpo dos dispositivos constitucionais, porque, se entrasse, aí, sim, passaria a ser uma realidade tão normante quanto normada. Conheceria condicionamentos formais e finitude material, como é próprio de toda instituição ou de todo instituto que se torna objeto de norma jurídica. Dedução: o poder que fica do lado de fora da Constituição, no ponto de partida, fica para sempre do lado de fora. Ao reverso, o poder que fica do lado de dentro da Constituição, no ponto de partida, fica para sempre do lado de dentro. 2.3.1.3. Uma segunda e complementar resposta: o Poder Constituinte fica do lado de fora da Constituição porque ele não é, nem pode ser, criatura da Constituição. É o criador, unicamente. O escultor que faz a escultura, sem a menor chance de se deixar fazer por ela. Seria assim como Deus a ter uma parte de Si mesmo feita pelo mundo que Ele criou, o que está fora de toda cogitação filosófica não-materialista. 2.3.1.4. E agora a terceira e definitiva resposta: o Poder Constituinte é o criador da Constituição porque ele, sendo a primeira manifestação da soberania, é o próprio povo. É a pólis por completo, no preciso instante histórico em que a pólis dá a si própria a mais radical das conformações jurídicas: a conformação inicial e superior a todas as outras. Um tipo de conformação que pressupõe a intransigente postura do começar tudo de novo, no plano lógico das coisas, que é um começar por inteiro. No atacado e de uma só vez (se assim preferir atuar o Poder Constituinte). Logo, a

Estado. por se tratar de uma ante-sala ou de um prefácio do corpo de dispositivos da Constituição. sente que tem a força de romper a sua habitual situação de reverência ao Direito posto pelo Estado até então existente. 2. Tem o destino trágico (ou glorioso?) do louva-a-deus macho.1. numa determinada quadra histórica.3. Ela existe para operar em regime de permanência.1. pode dar à luz quantos rebentos legislativos quiser. de fora para dentro da Magna Carta. sim. no seguinte sentido: a sociedade civil percebe.2.3. Aqui. sem remissão. geralmente positivada com o nome de "Parlamento". sobretudo o contido na Constituição fundante do antigo Ordenamento.6 2. seja pelo Estado garantido (caso do Direito Consuetudinário e daquelas normas jurídicas infraconstitucionais que. II .1. é o espaço possível para o Poder Constituinte projetar. ou o Direito que. Num novo esforço de síntese. pode se auto-referir. o Direito que nasce dos próprios órgãos dele. assumiu sua natureza constituinte. tanto quanto se reserva a expressão iniciativa pública ou setor público para o conjunto das ações que os agentes e as entidades estatais desencadeiam). o momento certo. Daí a formação da seguinte dualidade básica: I .antessupor a desconsideração de todo o Direito preexistente. É o momento.3. Mas é claro que estamos a falar de sociedade civil como sociedade civilizadamente regida pelo Direito que o Estado põe. "Cortes Gerais" ou "Congresso Nacional". com a nova Constituição rimam em conteúdo). é o preâmbulo de sua obra normativa. diríamos: no momento em que a Assembléia ou Convenção Constituinte promulga sua obra legislativa (o Magno Texto). sem qualquer predeterminação quanto ao número de atos legislativo-materiais a produzir.7 2. embora não-diretamente nascido dos próprios órgãos do novo Estado. Os outros momentos em que o povo legislativamente se reúne são momentos em que o povo já se paramenta ou usa a indumentária de um Poder simplesmente Constituído. composta por agentes e instituições de natureza pública (e ao conjunto das ações que as pessoas naturais e os grupos particulares praticam é que se aplica o designativo de iniciativa privada ou setor privado. no sentido de o novo Estado poder impor à coletividade.6. Já a Assembléia Constituída.7. ou por esse Estado garantido. cuja cabeça é devorada pela fêmea durante o acasalamento. 2. anteriores à nova Constituição. ela morre de parto.3.8. Só uma outra Assembléia ou Convenção Constituinte é que pode gestar uma outra Constituição. renovadamente. porque o objetivo da reunião do povo em Poder Constituído é para a elaboração de um Direito pós-Constituição. é um dos muitos instantes que vão do Estado à sociedade civil.a sociedade estatal. percebe a sociedade civil que ela própria é que pode impor um novo Direito a um novo Estado e assim é que passa a se levantar como povo para escrever a epopéia de sua auto-afirmação jurídica. o único momento logicamente cabível para o povo dizer que se reuniu em Assembléia Constituinte.5. Realidade populacional que tem por contraponto o Estado. Aquele primeiro momento (momento constituinte) é o único instante que vai da sociedade civil ao Estado. como condição lógica de elaboração constitucional.3. A única parte da Constituição Positiva em que o Poder Constituinte pode falar sobre si mesmo. ou garante. A Assembléia Nacional Constituinte como órgão de presentação da sociedade . 2. Já o segundo momento (momento constituído).1.a sociedade civil. composta por agentes e instituições de natureza privada. É o mesmo que falar: sente. a diferença entre ele e o Poder Constituído.

Já os órgãos de representação.3. a um outro ser que não o corpo social. Fígado. A seu turno. Completa inversão de valores. fato que subjaz a formulações teóricas deste porte: "Não há proposição mais evidentemente verdadeira do que esta . Negá-lo importaria em afirmar que o delegado é superior ao comitente. não pode ficar à mercê dessa mesma Constituição. o . A Assembléia Constituinte é órgão da sociedade. Afinal.3. pode ser válido. referido na página que antecede o sumário do livro "CONTROLE JURISDICIONAL DE CONSTITUCIONALIDADE".. que o servo pode mais que o senhor. e não do Estado. o coração. porque o Estado de que ela faz parte é o ser que personaliza juridicamente todo o corpo social.2. para usarmos de vocábulo cunhado por PONTES DE MIRANDA.2..3.. que. por nenhum modo. Seria atentar contra a própria natureza do Poder Constituinte.1. que os representantes do povo têm mais faculdades que o próprio povo. que homens que obram em virtude de poderes conferidos.2. contrário aos termos da delegação em virtude da qual concedeu essa autoridade. desde que nos marcos da Constituição.3. o cérebro. e não propriamente da sociedade. figurativamente. Conseqüentemente.. representar é tornar próximo. o distante. Mas a obra do Poder Constituinte está logicamente impedida de falar sobre o seu autor. da muito boa lavra do jurista ZENO VELOSO. como o que proíbem" (PEDRO LESSA. tendo a Constituição inteiramente à sua mercê. o ausente. Por prescindir da intercalação do Estado entre ela (sociedade) e os respectivos componentes individuais e grupais. em assembléia deliberativa. por dispensar a representação do Estado. como afirmado. É nela que a sociedade se "presenta".3.3. tudo se entronca no mesmo corpo físico. pertencem.3. a propósito de outro assunto.2.2. coração.3. Desse corpo eles não se distinguem. indevida mescla do Poder Constituinte com as pessoas naturais que. nenhum ato legislativo.3. É deduzir: o Direito pós-Constituição pode dispor sobre o Poder que sobre ele dispõe. O Poder Constituinte e sua impossibilidade de auto-regulação constitucional 2.. infringente da Constituição. podem fazer não só o que os poderes outorgados não autorizam. porque os órgãos de presentação estão para o corpo social assim como o fígado. conhece condicionamentos e limites que não prevalecem para o órgão de presentação. perfeitamente.3. 1998). ter-se-ia o quê? Uma geração a querer negar às demais a possibilidade de acordar em si mesmas a força geratriz da substituição de uma Constituição por outra.3. porque são o corpo mesmo. é nulo. estão para o corpo humano.3. o invisível. se referir ao seu editor (o Estado). 2. de mais a mais.. E se presenta. E por ser a Assembléia Constituída um órgão de representação. já tenuemente reportada: as normas editadas pelo órgão ou Poder Constituído podem. a Assembléia Constituída é órgão do Estado.todo ato de uma autoridade delegada.1. A se trabalhar com a idéia da possibilidade de o Poder Constituinte se auto-referir normativamente. cérebro. Esta separação radical entre os dois órgãos legiferantes é da natureza das coisas. presente. enquanto a Constituição mesma não pode dispor sobre o Poder que sobre ela dispõe (o Poder Constituinte). Outra importante discriminação. É órgão encarregado da representação (não da presentação) da sociedade. visível. 2. pois a representação pressupõe duas entidades ou dois corpos distintos: o do representante e o do representado. Editora CEJUP. 2. 2. Essa total inversão de valores acarretaria.2.3. 2. E esse outro ser é o Estado.

jamais. 2. Caso pudesse embutir na sua Constituição uma cláusula de eficácia autodemolidora. por albergar ou potencializar ação que "no puede localizarse por el legislador.3. enquanto assembléia constituinte mesma. em qualquer período. e a terceira fizesse o chamamento de uma quarta. para adotar esta outra fórmula de prisão perpétua do pensar dos pósteros: e quero também que a minha vontade atual seja toda a vontade que esse mesmo ser humano médio possa vir a ter pelos tempos a fora. É preciso não confundir. teríamos o despautério de um legislador que já não se contenta em prescrever: quero atualmente o que o ser humano médio quer e provavelmente continuará a querer. 2. inflama la atmósfera. o fenômeno da revogação de uma Constituição por outra com a idéia de auto-revogação constitucional. que o Poder Constituinte se auto-regulasse no corpo de sua própria obra legislativa. a não ser naquela parte normativa por ela mesma nominada de "disposições transitórias". Semelhante pretensão de aprisionamento de todo o pensar coletivo do porvir seria um ato de insanidade tal que corresponderia a proibir o ser humano de respirar. nada pode ser normado. A primeira não tem nada a ver com a segunda. contudo. de modo a se perder no infinito um tipo de regração que privaria o povo de se autoconvocar ou de ser por outra forma convocado .7.3. Em termos quiçá mais elucidativos: conter a Constituição qualquer dispositivo sobre o exercício da função constituinte é convocar o próprio coveiro dela mesma. Tem que permanecer no mundo dos fatos. E quando vem a se historicizar (é dizer: quando vem a se efetivar). hiere la víctima y se extingue" (DONOSO CORTES). a Assembléia Constituinte estaria a cometer o dislate de convocar outra assembléia igualmente constituinte para preencher o vácuo de Constituição e já nada mais impediria que essa outra assembléia convocasse uma terceira. 2.3.3.3.3.3. está logicamente proibida de ter eficácia autodemolidora. A Lei Maior não pode ter.10. Por isso que a Magna Carta pode dispor sobre o destino dele.3.9.3. nem mesmo a prazo ou diferidamente. seja para vedar sua transformação em assembléia constituída. tudo na dimensão do atacado normativo? 2.3.5. 2. ora de modo efetivo. É esse colégio de pessoas naturais que não sobrevive. seja para permiti-lo. Esse Poder não se exaure jamais na obra que edita. não pode deixar de ficar do lado de fora da Constituição. pois o certo é que ele perpassa o tempo inteiro o corpo social.4.3. si aparece alguna vez. Sobrevive ao seu próprio labor (mas sempre do lado de fora) e é assim que pode gestar quantas Constituições quiser. pois o típico de quem exerce a função constituinte não é o poder de destroçar a Constituição preexistente? Zerar a contabilidade jurídica? Passar a borracha no Direito velho e com o lápis escrever o Direito novo.exercitam concretamente. porque no cabe en los libros y rompe el cuadro de las Constituciones.3. a qualquer instante. A qualquer tempo.3.8. Caso o Poder Constituinte pudesse entrar na Constituição como criatura dela.6. portanto. 2. ni formularse por el filósofo. e muito menos na do Poder Constituído. exatamente para não recusar a cada geração o que é da natureza de cada geração: despertar em si. Nenhuma eficácia teria esse tipo de normação. 2. a força constituinte. Sobre o destino do Poder Constituinte. pois o Poder Constituinte é ser que não comporta transmutação em dever-ser. pois a segunda (auto-revogação do Magno Texto) é algo inteiramente impensável na fisiologia do Poder Constituinte. ora latente. à Constituição Positiva que ele vier a promulgar. para ressurgir Deus sabe quando (completamos). Seria um contra-senso. É nascer o Magno Texto com sua explícita vocação para o suicídio.3. aparece como el rayo que rasga el seno de la nube.

sem nenhum controle por parte de órgão estatal. Neste novo segmento especulativo.3. se uma determinada instância constituinte pudesse entronizar outra no palco das realidades jurídicas. 2. Limitação intrínseca insuperável. 2.2. 2.11. deixar que esse Estado possa trocar de Constituição. De mais além.4.3. Plantando no vazio. debaixo. porque só uma Constituição pode trocar o Estado por outro. numa fala mais aproximativamente jurídica: a Constituição cria o Estado.4. no justo momento em que a sociedade consegue dar a si mesma uma nova Constituição.3.4. então.4. e não menos. pois todo novo querer normativo discrepante que ele viesse a externar teria sempre (como tem) a força de uma nova Constituição. porém sem poder se substituir ao Criador. contudo. pois não ficaria preso a tal normatividade. essa outra instância já não seria órgão de presentação do povo.1. sob o efeito do aumento de sua temperatura a um determinado . um novo Estado e uma nova Ordem Jurídica.1. Não um Estado a trocar a sua Constituição por outra. e de repente sobe à dimensão de povo. Ela se transmuda em povo. Desponta claro. o cosmos.1. Como se o momento constituinte não fosse uma realidade inexoravelmente situada no mundo do ser. sem. para que não se transija com o cientificamente intransigível: o Poder Constituinte é o poder de dispor sobre o todo da Constituição. comecemos por retomar a idéia de que. estaria semeando no ar. quebrando o vínculo essencial (porque direto) entre o povo e a instância formal de elaboração do Magno Texto. O povo enquanto sociedade política e enquanto sociedade civil 2. Acresça-se: o Poder Constituinte que viesse a dispor sobre si mesmo. Tudo isto é como dizer.4. O Poder Constituinte e seu campo divisional com o Poder Constituído 2.3. já não é uma sociedade civil. Era uma população. o Poder Constituinte. Assim como a água em estado líquido muda a sua forma para se transformar em vapor.3. convenhamos. apagando a assinatura que o originário Autor deixou em Sua obra. que o campo divisional entre o Poder Constituinte e o próprio Poder Reformador tem que ser precisa e claramente demarcado.3. O mundo é o Poder Constituído. constituído) é o poder de dispor sobre partes da Constituição. averbemos que o mundo cuida de si próprio. o orbe. Um órgão constituinte a repassar poderes para outro (?). Este é que dispõe originariamente sobre o universo. de um único limite material lógico: o não .1. e não mais. Salta do meramente demográfico e econômico para o político e histórico. Por comparação.para vivenciar seu momento constituinte. Poderia desrespeitá-la a qualquer momento. 2. mas de representação daquele primitivo órgão de sua convocação.4. 2. portanto. contudo. Crise de existência versus existência de crise 2.poder permitir que o mundo se transforme tanto por conta própria a ponto de dar a si mesmo um novo começo. E mais: o Direito feito para o Estado tem de permanecer o referencial do Direito feito pelo Estado. dotando-o do poder de se completar por conta própria.3. uma vez criado. O Criador. ela. mas não passa a cuidar do Criador. sociedade. o Poder Reformador (que é um poder estatal e. dispõe sobre si mesmo.4. durante todo o tempo de vigência da obra que uma dada Assembléia Constituinte vier a promulgar. no lastro formal da sua Constituição. O mundo vela por si.

por exclusão: a) uma sociedade temporal e excepcionalmente não-estatal. ou funcional. o povo experimenta a sua mais grave hora de fazer destino. quando se trata de impedir as catástrofes ou de atenuar-lhes os efeitos" (pensamento recolhido do livro PARA LER E PENSAR. Urge que toda uma corrente de inteligência e de intuição irrompa das camadas não oficiais. 1971. subindo (prova de que. 2. o povo se torna. Hora de fazer uma nova experiência global consigo mesmo. b) uma sociedade também temporal e excepcionalmente não-civil.o seu modo de estar-no-mundo ou de se manifestar num dado momento já não é o mesmo). É fundamental essa compreensão do povo enquanto instância que se assume como sociedade política. sentenciou HERMANN HESSE: "A sabedoria política. que é algo passageiro e para cujo enfrentamento as instituições oficiais ainda dispõem de aptidão jurídica e vontade política. Isto porque as instituições estatais até àquele momento estruturadas entraram em colapso ético. que é o vácuo de poder.1. não se acha onde se encontra o poder político. que tem o aspecto bolorento das coisas caquéticas e sem a mínima condição de antecipar o futuro. hoje em dia. 2.3. funcional e político. nela. Por isso é que o povo proclama para si mesmo e para o orbe inteiro que é nele próprio que se encontra toda a sapiência política. Perderam a sua necessária condição de locomotivas sociais.8 2. do negar as instituições nascidas à sombra de um Estado sobre o qual é preciso jogar. momento constituinte. na medida em que juridicamente incivilizada. ou político. embora a água permaneça água . Em estado líquido. 2.5. na medida em que insubmissa ao Estado até então existente. sem tardança. então. que pode ser também um colapso a um só tempo ético. Esclerosaram-se ou esgotaram-se tanto no seu papel institucional de liderança que delas já não se espera senão empurrar cada vez mais a população para o pior dos abismos. Tudo isto se traduz no desenho de uma quadra histórica em que o povo tem a certeza de que o Estado até então operante (mais certo seria dizer inoperante) já fez do presente um tempo que recende a passado.1.1.o salto químico não chega a ocorrer . que só pode ser um poder exclusivamente político. Um poder que se aloja nos páramos da suprapositividade jurídica e da supraestatalidade oficial então vigentes. triunfante.grau. a última pá de cal. 15). Não apenas numa crise de existência.9 2. descendo. Em estado vaporoso. por seu lado. de uma sociedade que se auto-reconhece como a subjetivação de um poder acima do Direito e do Estado. que o povo é a encarnação da sociedade política.4.4.2. para tomarmos de empréstimo um verso do poeta goiano GABRIEL NASCENTES.4.4. 2.1.1. E a nova Constituição que desse momento constituinte irrompe. à guisa do que. é a perfeita encarnação de uma sociedade que já não pode ser chamada de simplesmente civil. Em momento que tal. a água só se movimenta por si mesma.7. certa feita.4. Que pretendemos dizer com sociedade não-juridicamente civilizada? Queremos dar conta de uma sociedade que recupera o seu tônus politicamente selvagem (falemos assim) do começar tudo de novo. porque. ou seja. o modo empírico ou atual de ser já é diferente do imediatamente anterior. O povo. é o marco jurídico da superação da referida existência . Do apagar todo o Direito preexistente. p.4. Editora Record.4. Mais lógico é dizer. isto é.1. apetite e responsabilidade para continuarem a serviço do bem comum. 9ª edição. Nesse contexto do puro poder político. porque esse momento de excitação histórica única é um momento único de excitação histórica pelo mais grave dos motivos: o povo a tomar consciência de que está engolfado numa existência de crise.6. que é uma função indelegável (ninguém mais pode fazer experiência tão estrutural com todo o corpo social).

que é a mais alta expressão do atacado normativo de um povo. que uma intervenção recupere o Estado para os princípios sobre os quais o poder público está assentado. naquela situação concreta em que os lobos da política oficial já serraram todas as grades jurídicas das suas tocas? Ou naquelas situações em que as forças calamitosas do acaso. Assim é como o vemos na cotidianidade dos nossos dias. BOBBIO e MARCELO CAETANO.2. b) sociedade estatal. é uma sociedade que se triparte em: a) sociedade política.2. Só o Poder Constituinte pode agir no pressuposto do colapso cardíaco das instituições. O único remédio capaz de debelar a enfermidade maior do vácuo de poder e que abre para o povo a perspectiva de uma vida de permanente auto-afirmação. É claro que o modo normal ou habitual de ser do povo é sob a forma de sociedade estatal e de sociedade civil. valores morais e ideais cívicos de que todos precisam para tocar um novo projeto global de vida. bem sabemos estar a dissentir de autores da mais forte compleição intelectual.4. GRAMSCI. pois o de que se trata é viver a epopéia do começar tudo de novo. como no corpo humano. como AUSTIN. Esta é a dualidade básica. Essa generalizada compreensão de estado de falência das instituições como background da atuação constituinte é de grande relevo teórico. quando vista sob o prisma da sua personalização jurídica ou do poder constituído. 2.1. a reaglutinar energias físicas. durante o momento constituinte por ele experimentado. O momento constituinte como estado de plenificação decisória de um povo 2. há certos elementos que se ligam aos outros e cuja presença requer. "Num Estado.10 2. se o Estado é a sociedade política.3. de quando em quando.2. pois contribui decisivamente para separar o joio do trigo. 2. Este o seu espaço irrepartido de ação jurídica. Todavia. Entretanto. no instante em que manifesta. primariamente. são protuberantemente superiores ao tino e à coragem pessoal dos governantes? 2. c) sociedade civil. alçando-se à condição de povo.nacional de crise. Uma espécie de luz no fim do túnel.2.4.4.4. que nome dar à sociedade humana no preciso instante em que ela funda a própria sociedade estatal? Em que ela já não aceita permanecer como o cordeiro jurídico em que a sociedade "civil" termina sendo. o que é meu não se divide"). um tratamento clínico". quando "civilizadamente" atuante nos marcos da sociedade estatal que se tornou efetiva por efeito.1. É necessário. da primária manifestação da soberania (cujo nome técnico é "Poder Constituinte"). 2.2.4. o que sucede? O mal irá crescendo a tal ponto que já não poderá ser eliminado senão pela eliminação do próprio Estado. É a hora de fazer destino voltamos a dizê-lo -. justamente. O que nos traz à memória esta passagem de velha música de IVAN LINS. Debaixo de todas as vênias.4. aquilo que só ele pode fazer.2. forças da natureza ou da História (tanto faz).4. Como certa feita escreveu MAQUIAVEL (terceiro livro de Tito Lívio). que sinonimizam Estado e sociedade política.8. se a sociedade política é o Estado. pensamos que a sociedade humana que plenifica o seu próprio ser político e jurídico. a sua soberania. Somente ele pode normar em termos iniciantemente (ou reiniciantemente) globais. de forma episódica ou excepcional . cantor popular do Brasil: "Ô Madalena. Com este nosso modo pessoal de qualificar o povo como sociedade política. nessas ocasiões (o pensador florentino é quem raciocina). E se falta essa intervenção. que o povo mais decididamente vive pela sua transmutação de sociedade civil em sociedade política.

pp. Com alguma similitude. 2. Uma realidade que se define por exclusão. Ainda por apego a figurações. com a serenidade dos ânimos ou o resfriamento da temperatura existencial (a nova Constituição que se faz globalmente efetiva é que recoloca as coisas em seu ponto de normalidade). Tudo lembra um aparelho eletrônico auto-reverse. A água. pela sua extrema importância. sob a regência desse maestro ideológico de nome neoliberalismo. nestes escritos.2. O que ele tinha por nação.4. mas que pensamos encontrar justificativa no fato de que elas parecem condenadas a cair no esquecimento daqueles juristas hodiernos que. talvez. um bumerangue.de turbinada inquietação histórica. tentam esmaecer as linhas de confrontação entre o Poder Constituinte . uma altíssima temperatura existencial. 2. porque não tem um ponto visível de partida solar. E é nesses instantes de legítima defesa da sua identidade e da sua sobrevivência. passamos a transcrever de modo quiçá excessivo.5. esse instante máximo de feeling ou excitação histórica. nós.2. o povo desperta em si mesmo o poder (sempre adormecido ou latente ou virtual) de desconstituir a velha ordem estatal e de concomitantemente constituir a nova ordem. quando da transformação da confederação americana em federação). à realidade humana global a que SIEYÈS chamava de "nação".1. ou de partida lunar. instantes de plenificação decisória do seu próprio ser. já por efeito do maior frio das alturas e de outras condições atmosféricas.5. aquelas de que nos servimos para os fins desta nossa monografia. É uma luz que ninguém sabe de onde vem. com a particularidade de que o estágio de sociedade civil só raramente avança para o estágio de sociedade política (nos Estados Unidos da América. As idéias básicas do Abade. retoma o seu estado habitual de sociedade civil. por efeito do calor da terra.6. visto não ser nem estatal nem civil. sim. estão lançadas no incendiário panfleto Q'U-EST-CE QUE LE TIERS ÉTAT? (Liber Juris.2.5. a sociedade civil. E ela assim permanece. 113 e seguintes). por não ser nem a luz do dia nem a luz da noite. até que uma outra anormal elevação histórica de temperatura determine a sua metamorfose em sociedade política.4. ensejador da corporificação de uma sociedade que já não é nem estatal nem civil. temos por sociedade política ou povo na sua dimensão constituinte. por efeito de uma alta. ascende à condição de sociedade política. Empós.5. desce sob a forma de chuva e assim recupera o seu estado líquido. que o povo empunha o cetro de soberano e passa a atuar como sociedade exclusivamente política. Apenas não temos um nome apropriado para colocar nessa fonte de luz que se não deixa ver pelo olho humano. em larga medida. a propósito da diferença qualitativa entre o contingente humano que se faz matriz de um poder constituinte e esse mesmo contingente que se faz o berço de um poder apenas constituído. 2. é algo assim como a luz crepuscular. imaginemos a processualidade daqueles dois estados líquido e vaporoso da água e melhor entendermos a dialética da relação que transcorre entre a sociedade civil e a sociedade política. formando nuvens. Há muita similitude entre o raciocínio aqui expendido e aquelas idéias básicas do famoso teórico e revolucionário francês. Posteriormente. evapora e vai se condensar na atmosfera. Todas estas coisas que estamos a predicar à sociedade política é aplicável. mas que procede de uma causa. São idéias que. A sociedade política em SIEYÈS 2. Conotativamente. Uma luminosidade que parece destituída de qualquer fonte. um transe histórico verdadeiramente insólito. 2. tal situação transicional somente se deu no distante ano de 1787.

ao contrário. é a própria lei. Como existe somente na ordem natural. Antes dela e acima dela só existe o direito natural. Vejamo-las: "Em toda nação livre . e que são outras tantas regras essenciais ao governo. só precisa de sua realidade para ser sempre legal: ela é a origem de toda legalidade. as leis constitucionais que se dividem em duas partes: umas regulam a organização e as funções do corpo legislativo. como ela não pode estar. ela é a origem de tudo. "A esta necessidade de organizar o corpo do governo. de acordo com que critérios. Todos os princípios que acabamos de citar são essenciais à ordem social. não age. no estado de natureza. em primeira linha. mas porque os corpos que existem e agem por elas não podem tocá-las. Não é aos notáveis que se deve recorrer. "Mas é verdade que uma representação extraordinária não se parece em nada com a legislatura ordinária. Só a nação tem direito de fazê-la. o corpo dos representantes. Qualquer que seja a forma que a nação quiser. como se diz. as outras determinam a organização e as funções dos diferentes corpos ativos. se reúne e delibera como faria a própria nação se.e o Poder Constituído. "Devemos conceber as nações sobre a terra como indivíduos fora do pacto social. A vontade nacional. Ele não é nada sem suas formas constitutivas. quisesse dar uma constituição a seu governo. sem as quais o exercício do poder se tornaria ilegal. se quisermos que ele exista ou que aja. só existe na forma que a nação quis lhe dar. "Não é próprio ao corpo dos delegados mudar os limites do poder que lhe foi confiado. todas as formas são boas. Se precisamos de Constituição. São poderes diferentes. Se quisermos ter uma idéia exata da série das leis positivas que só podem emanar de sua vontade. vemos. não tem necessidade de levar os caracteres naturais de uma vontade. mesmo composta por um pequeno número de indivíduos. a não ser por elas. É neste sentido que as leis constitucionais são leis fundamentais. basta que ela queira. sua vontade. e sua vontade é sempre a lei suprema. a que está confiado o poder legislativo ou o exercício da vontade comum. a Constituição não é obra do poder constituído. para surtir todo o seu efeito. mas do poder constituinte. ela não deve estar. Daí as inúmeras precauções políticas que foram introduzidas na Constituição. não no sentido de que possam tornar-se independentes da vontade nacional. ou. com que interesses se teria dado uma Constituição à própria nação? A nação existe antes de tudo. Em cada parte. Não se trata de distinções inúteis. O exercício de sua vontade é livre e independente de todas as formas civis. é necessário acrescentar o interesse que a nação tem em que o poder público delegado não possa nunca chegar a ser nocivo a seus comitentes. Achamos que esta faculdade seria contraditória consigo mesma. Essas leis são chamadas de fundamentais. "Entretanto. Só é legal enquanto fiel às leis que foram impostas.e toda nação deve ser livre . não se dirige e não comanda. Sua vontade é sempre legal. "O poder só exerce um poder real enquanto é constitucional. "Assim. Nenhuma espécie de poder delegado pode mudar nada nas condições de sua delegação. devemos fazê-la. "Não só a nação não está submetida a uma Constituição. o que equivale a dizer que ela não está. esta não seria completa se encontrasse um só caso para o qual não fosse possível indicar regras de conduta capazes de resolvê-lo". "Um corpo submetido a formas constitutivas só pode decidir alguma coisa segundo a .só há uma forma de acabar com as diferenças que se produzem com respeito à Constituição. A outra não está submetida a nenhuma forma em especial. Esta só pode se mover nas formas e condições que lhe são impostas. é à própria nação.

senão com severos limites. é uma realidade presente. Assim como se dá com os membros de uma família tradicional. Um enlace anímico da ancestralidade. o solo.5.1. é transgeracional. da coetaneidade e da posteridade. que mantêm os brasões dos seus antepassados e tudo fazem para repassar tais insígnias (com tudo de particularmente honroso que elas simbolizam) às gerações porvindouras.1. A nação é muito mais. Deixa de existir a partir do momento em que se move.1. solarmente claro. que JOSÉ JOAQUIM GOMES CANOTILHO assim expõe: "Em teoria da Constituição o paradoxo aqui subjacente é o paradoxo da omnipotência: poderá um corpo soberano parlamentar com poder para fazer leis em qualquer momento limitar o seu próprio poder de fazer essas leis? No caso das normas constitucionais o paradoxo é evidente: as normas constitucionais irrevisíveis assegurariam a omnipotência dos seus autores sobre as gerações futuras o que será radicalmente contrário às regras da democracia. que fala. O berço dos filhos e o túmulo dos antepassados. uma linha imaginária entre o passado. que faz da nação (o cacófato "danação" é inevitável) uma realidade eminentemente tradicional. Pergunte-se a um inglês se a Rainha da Inglaterra goza de legitimidade política. 2.5. o clima. O caráter democrático-formal do Direito posto pela sociedade política 2. a verdadeira sapiência.5. Não pode dar-se outra. E aqui já começamos a enfrentar a recorrente questão de saber até que ponto existe legitimidade democrática numa Constituição que submete aos seus termos as gerações futuras. então: a distância que vai da realidade populacional à realidade nacional é a mesma que vai do conhecimento à sabedoria. para eles. inda mais representativo que o conceito de povo. e certamente ele responderá que sim. Os Estados gerais. A comunhão da lei. É o aqui e o agora da população de um País. O povo.3. Este direito pertence unicamente à nação.5. o presente e o futuro de um povo. Parece-nos claro. Cada nova geração é detentora de mais conhecimentos do que as anteriores. nem uma forma de governo. porque adiciona ao presente a dimensão do passado e do futuro desse mesmo povo. A legitimidade que advém desse arraigado sentimento coletivo de nação como algo inda mais denso. da língua e da liberdade.4.6. de qualquer forma e qualquer condição". se as normas não se . a consciência. mesmo quando reunidos. Diríamos. não cansamos de repetir. É o que se tem apelidado de paradoxo da onipotência. porém a sabedoria.6.6. nestes escritos que reproduzimos de memória: Pátria não é um sistema. tanto na Teoria da Constituição em geral quanto na Teoria do Poder Constituinte em especial. atua de forma diferente das que lhe foram impostas. Pátria é o céu. 2. A esse panorama conceptual de nação bem se ajusta. o lar. 2. A soma das pessoas vivas.6. Só à nação pertence. A tradição como o forno ou o cadinho histórico no qual se tempera o aço da nacionalidade. Por outro lado. a festejada proclamação espiritual que RUY BARBOSA fez a respeito de pátria. independente. modificação pelo Poder Constituído. 2. 2. nem um monopólio. Paradoxo. são incompetentes para decidir sobre a Constituição. Que não se permite receber. O confronto entre o princípio da racionalidade constitucional e o princípio democrático 2. supomos. nem uma seita. a tradição. que o abade EMMANUEL JOSEPH DE SIEYÈS falava de nação como até hoje a vivenciam os ingleses: uma coletividade humana intertemporal.5.Constituição.

ou de um elemento central da racionalidade jurídica ou de um elemento central da teoria democrática" (pp. porém. ou um elemento central do princípio democrático (a não-escravização normativa das futuras gerações) não nos parece inquietante por nenhum modo. realizado em Aracaju. de sorte a poder conciliar na sua obra legislativa estrutural (a Constituição) interesses que traduzam reverência à cultura e à memória nacional.3. Esse "inquietante" paradoxo da onipotência. ou por qualquer forma imposta por um grupo que toma de assalto o Governo. Sergipe. pois. é que já porta consigo o pecado original da não-participação popular. no período de 05 a 10 de maio de 1998).em se tratando de uma Constituição geneticamente autoritária. na pia batismal do voto popular. pois não há como convalidar o vício processual de origem). Vol. o seu raciocínio (in O Paradoxo da Autorevisão no Direito Constitucional. recobre com o seu halo ou a sua aura castiçamente popular as sucessivas gerações de destinatários normativos. e a bicentenária Constituição dos Estados Unidos da América bem o comprova: a mais sólida nação democrática do planeta a conviver com a mais antiga das constituições escritas. assim. e. tácita ou não-expressa. porque somente de conteúdo. Onde. II . p. por isso. portanto. 99): se as normas jurídicas que autorizam a mudança podem ser utilizadas para se alterarem a si mesmas.1. Vemo-lo mesmo como um falso problema. Ela.2. e não à sua reforma. traduzido no dilema de se ter que sacrificar.6. Queremos dizer: é próprio desse tipo de organismo ou ente coletivo a aptidão de ultrapassar as barreiras do tempo.1. 2. cuja característica nuclear é justamente a intertemporalidade (o espírito é atemporal). não ungida.encontrarem sujeitas a limites. in Boletim da Faculdade de Direito de Lisboa. o atendimento das prementes necessidades da população viva e ainda por cima a . Constituição. que é sempre uma legitimidade precária: legitimidade pela metade. à face da sua dimensão cristalinamente espiritual ou de autoconsciência. ou um elemento central da racionalidade jurídica (a irreformabilidade das cláusulas de reforma da própria Constituição). chegamos por esta via a um paradoxo e uma contradição. 6 e 7 da conferência OS HOMENS FAZEM AS CONSTITUIÇÕES MAS NÃO SABEM AS CONSTITUIÇÕES QUE FAZEM. As normas da revisão aplicam-se elas próprias para a sua revisão. mas se não são empregues para tal fim (e se não há uma norma superior a autorizar essa alteração) temos então normas imutáveis. uma verdadeira comunidade. distribuído pelo autor português aos participantes do VII SEMINÁRIO NACIONAL DE ESTUDOS JURÍDICOS-SENEJ. no sentido que o vocábulo "nação" era utilizado por SIEYÉS e que interpretamos como uma coletividade humana de superior estatura ou eminência ímpar. de uma Constituição votada por uma Assembléia ou Convenção Constituinte que se forme por eleição geral (é essa modalidade de colégio deliberativo que tem sido alvo desta nossa teorização). a questão democrática diz respeito é à própria Constituição. de maneira a somente ter a chance de ganhar legitimidade pelo seu prolongado exercício ou duradoura efetividade (legitimidade a posteriori. se não existirem outras normas a fazê-lo. conclui-se que é permitida a sua auto-aplicação. Parece que temos de prescindir. pois: I . Não há espaço psicológico para as novas gerações se sentirem democraticamente acuadas menos ainda castradas -. Uma comunidade. "o paradoxo da omnipotência"?11 2. XXXI.em se tratando. 1990. ela já se impõe como documento jurídico de berço democrático.6. Peter Suber resume. Com efeito. quando se elege uma Assembléia Constituinte já se sabe que ela presenta a sociedade política ou nação. Paradoxo e imutabilidade acabam assim por constituir um difícil dilema para os juristas e cidadãos das democracias ocidentais.

6. É sua propriedade inalienável. em presumível segurança. qual é a lição da História? A História nos diz que a sociedade civil toma por si mesma o comando do processo político-jurídico e parte para a formação de uma nova Assembléia Nacional Constituinte.5. ou no transcurso do tempo. porque representada. é aí que a sociedade civil se transmuda em sociedade política e passa a vivenciar a sua dimensão constituinte. Na sedutora linguagem de SIEYÈS.) Seria ridículo supor a nação ligada pelas formalidades ou pela Constituição a que ela sujeitou seus mandatários. ela pode sempre desobrigar-se de tal compromisso" (ob. ela não pode cercear o direito de mudança assim que o interesse geral o exigir. atuante. da anomia do Ordenamento por inteiro.13 2. E por isso é que as gerações que se sucedem no tempo não vêem a Constituição como o símbolo da ditadura da primeira geração constituinte. Queremos dizer: não existe esse tipo de ditadura. (. Se para tornar-se uma nação.6. nunca o teria sido.pavimentação da estrada pela qual transitarão. embora com esta inescapável distinção: no momento constituinte.1. a Constituição vier a padecer do grave defeito de não haver costurado a unidade possível das ideologias. Só pode delegar o seu exercício.. os pósteros. 2. ou ficar muito abaixo do padrão médio de moralidade e humanismo.2. senão como fantasia de politólogos a serviço. Agora.. Mas o fato é que a nação que elaborou a Constituição é tendencialmente a mesma que se decide por um outro Código Supremo.2 Fricção entre nações versus sucessividade geracional no interior de uma mesma nação.2. cit. no momento constituído.6.reperguntamos -. a nação está acordada. enfim. ela jaz adormecida. para o efeito prático de mudar de Constituição. nem se proibir o direito de mudar.) Primeiramente. uma nação não pode nem alienar.1. se desde a sua originária prescritividade.. jamais sobrevém o desconforto domocrático de se ter que . cada geração ou simples sociedade civil. (. Como tantas vezes dito.. e tudo o que lhe pertence.6. e qualquer que seja a sua vontade.4. Onde. a sua vontade tivesse que esperar uma maneira de ser positiva.. 115. em princípio. pode tirar a sua sesta. Este o sentido psicossocial.. histórico e também racionalmente jurídico da eleição de uma Assembléia que só é nacional por ser constituinte e só é constituinte por ser nacional. 2. cair no descrédito geral e a sociedade civil passar a sentir aquele terrífico presságio de que está à beira do mais fundo abismo da ausência de poder. ela tende a permanecer a mesma e única nação ou sociedade política pelos tempos afora.2. por vezes.6. pois . a ofensa ao princípio democrático. o contingente humano. (. pp. Se o que vier a mudar no tempo for apenas a população. pois não dissemos que o traço eidético da nação era (e é) a intertemporalidade? Não há.) A nação é tudo o que ela pode ser somente pelo que ela é". porque presentada. ao menos no plano formal ou da eleição dos membros da Constituinte? Sendo a nação ou sociedade política o modo constituinte de ser do povo. duas nações ou duas sociedades políticas: uma que fez a Constituição e outra que se sente oprimida por essa mesma Constituição. tudo envolucrado por uma só e exclusiva nação. 118 e 119).. de propósitos pouco edificantes. mas será que ela pode impor deveres a si mesma? Sendo as duas partes a mesma vontade. é aí que o povo se transforma em nação e lega à posteridade a imorredoura lição de que "a comunidade não se despoja do exercício de sua vontade. 2. seus mandatários. Em segundo lugar: com quem se teria comprometido esta nação? Eu entendo que ela pode obrigar seus membros.1.12 2.

2.3. de modo a culminar com a revolução triunfal de 7 de setembro de 1822. ou sequer alterar a Constituição vigorante. Exclusivamente sua. que é a legitimidade do voto. Que permaneça a primeira nação com a respectiva Lei Maior . O primeiro tipo de maioria a preponderar sobre o segundo.6. contanto que não impeça o novo corpo nacional de iniciar a sua própria experiência constitucional-positiva. ela é ele.2. conferência publicada na coletânea "10 ANOS DE CONSTITUIÇÃO". 1988). Animamo-nos a dizer: enquanto a nação ou sociedade política evoca a idéia de permanência. como dantes explicado). a população ou sociedade civil tem na mutabilidade o seu espaço de significação ontológica. conforme. a segunda nação não quer trocar de Constituição. irão governar de modo permanente aqueles que irão governar de modo transitório. secundando o importante constitucionalista norte-americano RONALD DWORKIN. aliás. se essa Constituição está assentada no sufrágio popular.2. muito bem doutrina CLÉMERSON MERLIN CLÈVE. naturalmente contrária à primeira (duas nações ortodoxamente caracterizadas não podem conviver sob o mesmo Estado ou sob a mesma Constituição.suportar uma Constituição formalmente rígida. Tal como se deu com o Brasil ante Portugal. não por decisão da primeira (a nação portuguesa) quanto a esse juízo de inconvivibilidade. naturalmente. O que a segunda nação aspira é a uma Constituição estalando de nova. de uma assembléia de presentação do corpo nacional ou de uma assembléia de representação do corpo tão-somente populacional. para que o referido desconforto democrático exista é preciso que uma outra nação venha a se formar. pois a eleição dos elaboradores da Constituição é. 43. o povo elege aqueles que vão governar quem vai governar. sem que a mais recente não aspire à sua emancipação política). mesmo elastecendo a sua tarefa. Daí que o princípio majoritário que informa as decisões colegiadas passe a igualmente se discriminar em maioria permanente e maioria passageira. a partir deste essencial corte distintivo: numa eleição comum. mas alheia. essência mesma da Democracia. respectivamente. propugna por uma atuação mais livre do Poder Judiciário sempre que se trate de atualizar as concepções de que decorrem os conceitos constitucionais: "Neste particular.6. numa eleição constituinte. Uma legitimidade ainda mais densa que a ressaída de uma eleição geral comum para a renovação dos quadros políticos de qualquer Estado. porém. é preciso lembrar de que a Corte Constitucional. p. conforme se trate.6.4. 2. Noutro dizer. duas nações que já não podiam conviver no mesmo espaço político-jurídico. . Noutro modo de exprimir o mesmo pensamento: a segunda nação passa a deter um Poder Constituinte próprio e com esse Poder Constituinte já não pode deixar de entretecer uma relação de inerência (ele é ela. Editora Celso Bastos. Se tem a respaldá-la a mais indiscutível das legitimidades.esta é a palavra de ordem dos que fazem a nova nação -. Em verdade. que é circunstancial" (em AS MODERNAS FORMAS DE INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL. Não é assim. 2. o povo elege aqueles que vão governar. porque a primeira Constituição não é sentida como coisa própria.2. 2.6. Só para si. nestes escritos em que. 2.5. o estrelato do voto. numa eleição constituinte o povo escolhe aqueles que. Nesse tipo de prefiguração extrema ou hipótese-limite. está ainda defendendo a maioria permanente elaboradora da Constituição. Um só Estado personalizava. a culminância da participação popular no processo político. pela mediação do Texto Magno. juridicamente. mas por eficaz rebelião da segunda (a nação brasileira). em detrimento da maioria eventual.6.

) Por conseqüência.2.. se uma outra nação não se forma no espaço territorial da primeira. Transgeracional.6. deixa de existir o próprio sujeito coletivo que poderia. concretamente. pela segunda. como a sensação de desconforto pode estar? 2. reunidos em congresso geral. dizendo respeito a uma outra região fenomenológica. 2.9. que estas colônias unidas são.6. Não compartilhado com outra pólis. solenemente proclamamos e declaramos.2. experimentar o desconforto democrático.6. "(. como coisa estranha. nós. quando uma longa sucessão de abusos e usurpações.2. e que todos os laços políticos entre elas e o Estado da Grã-Bretanha ficam. completamente dissolvidos (.) Mas. visando invariavelmente ao mesmo fim. Estados livres e independentes. e devem ficar. porque destinada a viger em âmbito pessoal e territorial próprio. invocando o Supremo Juiz do Universo como testemunha da retidão das nossas intenções. desde que já não vincule os membros da nova nacionalidade. do que a "Declaração de Independência dos Estados Unidos da América" (datada de 4 de julho de 1776). Discurso mais eloqüente não pode haver.. E é claro que o problema do desconforto democrático não pode medrar no interior de uma nação cuja história constitucional mal começou. no sentido de que um deles (o dominado) não reconhece como obra de uma sua primeira geração constituinte a Lei Maior "estrangeira" sob a qual se encontre. Por isso mesmo é que ela tem sido definida como "uma alma.2.)".8. "(. um princípio espiritual" (RENAN)..fenômeno diferente da simples sucessividade geracional -. É dizer: não estando presente o sujeito. Como legislação que bem pode permanecer intocada. enquanto se conservar como solitária nação no âmbito espacial de validade da sua Constituição e da territorialidade do seu Estado. e de direito devem ser.6.Daí que venha a se autoconferir uma Constituição mais que paralela. este o mais alumiado contorno da aura de toda nação enquanto monolítica nação permanecer. a se perpetuar na cambiância dos corpos populacionais que se sucedem no tempo. que elas se desligam de toda a obediência à Coroa Britânica. . A história do atual rei da Grã-Bretanha é a história de repetidas injúrias e usurpações. na matéria. após a elaboração constitucional. não pode ensejar a questão do desconforto democrático a que se reporta o neoconstitucionalismo. 2. também a nação é uma só. os representantes dos Estados Unidos da América.. ou seja.7. Por isso que. Assim como o rio é um só rio. revela o desígnio de os submeter ao despotismo absoluto. da nascente à foz. 2. Nesse idealizado contexto de fricção nacional . é seu dever livrar-se de tal governo e tomar novas providências para bem da sua segurança.. Ele se coloca é no plano das relações entre os dois corpos nacionais .10.o dominante e o dominado -. E fora dessa hipótese-extrema da lenta formação de um corpo nacional contra outro? Bem. Foi este o paciente sofrimento destas colônias e é agora a necessidade que as constrange a alterar o seu antigo sistema de governo. é claro que tudo que juridicamente provenha da primeira nação seja concebido. do momento em que se constitui até o sobrevir da última geração. da qual pinçamos os seguintes trechos: "Quando no decurso da história humana se torna necessário a um povo romper os laços políticos que o ligaram a outro e assumir entre as potências da Terra a posição separada e igual a que o habilitam as leis da Natureza e do Deus da Natureza. em nome e por autoridade do bom povo destas colônias. todas tendo como direto objetivo o estabelecimento de uma tirania absoluta sobre estes Estados.. o respeito devido ao juízo da Humanidade obriga-o a declarar as causas que o impelem para a separação.

como ficaremos todos? Ficaremos naquela atarantada situação de que falava o pensador. 16 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. e. 2.3.1. do Poder Constituinte. ajuizemos de uma vez por todas o seguinte: se cada nação permanece com o seu Estado. Constituição comum a vários . da Constituição e do Estado. E aqui se encontra o pano de fundo teórico para a nossa recusa ao tracejamento de uma "Constituição" ultranacional ou cosmopolita. do princípio democrático? 2. E passaremos a ter Constituições Positivas sem vínculo operacional com a própria Democracia. de 26 de agosto de 1789?14 Que atentado maior pode haver àquilo que se traduz na essência mesma da idéia de Constituição como o mais eficaz mecanismo jurídico de contenção do Poder. seja pela forma direta (Separação dos Poderes). da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e do Mercado do Cone Sul (MERCOSUL).2.das "Constituições" cosmopolitas ou ultranacionais 2. Não há nem pode haver Constituição multinacional. Ora bem. Nesta suposição.. com este conhecido desabafo: "passei a vida inteira procurando certas respostas.6. as Constituições Nacionais é que deixarão de sê-lo. nenhuma delas abdica de Constituição própria. desaparecem também as nações originárias e respectivos Estados. além de não-popularmente eleitas para esse específico fim. ou..6. 2. aceitar que os tratados internacionais é que servirão de fundamento de validade para a Constituição de cada Estado signatário.3. Por fidelidade. pela unicidade do ser de que promana e em cuja ossatura afinal se transfunde? Como. a acontecer o triunfo do novo e estranho modo de pensar o constitucionalismo. mas um holding de autoridades "supraestatais" que. simultaneamente. como pretendem ser os pactos formadores e regentes da União Européia (UE).4. O paradoxo . mudaram as perguntas. se a multinacionalidade se faz acompanhar da pluralidade de Estados soberanos.3. que já não terá nação nem Estado isolado onde possa irromper e frutificar. uma: ou as supostas Constituições cosmopolitas não preponderam sobre as Constituições Nacionais. como não colocar na etiologia da Constituição a metamorfose que resulta da passagem de uma sociedade civil para uma sociedade política? Metamorfose.". Jamais. também não se relacionam pelos imprescindíveis moldes do sistema de freios e contrapesos e ainda por cima não têm a balizá-las um catálogo mínimo de direitos humanos e respectivas garantias? Como explicar a titularidade plural de um poder (o Constituinte) que se define.6.5. então. e não mais o inverso? Isto não significa romper completamente com a idéia-força da própria constitucionalização do Direito. portanto. que se dá no seio de uma única nação aspirante à soberania? Como falar de uma Assembléia Constituinte Plurinacional. traduzida no famoso art.3. se preponderam. se em nenhuma das nações "presentadas" foi aberto o processo democrático do voto popular para a eleição dos membros de tal Assembléia? Como submeter a essa Constituição-de-gabinete as Constituições democráticas de cada nação pactuante? Como aceitar uma Constituição que não plasma nenhum Estado em particular. Finalmente. aos elementos conceituais da nação. Constituições não são. Das duas. 2.6. seja pela indireta (consagração dos direitos e garantias fundamentais)? Do princípio de constitucionalidade e. enfim.3.6. todavia. com os seus lógicos desdobramentos. quando as encontrei.2.3.3. Deveras. da Democracia. Multinacionalidade desse tipo e unicidade constitucional são como água e óleo: não se relacionam por osmose. justamente.agora sim .6.

de revés. porque o primeiro dever do Estado é com o atendimento das necessidades materiais da sua população. etc. o melhor governo não é o que menos governa. e tende mesmo a traçar os contornos do próprio Estado. que são justamente as referidas necessidades de sobrevivência individual e de bem-estar comunitário. Por natureza. 2. O que é preciso entender é que instituições multilaterais como a União Européia e seus êmulos são as velhas e boas confederações de Estados.6.6. Governo. o mesmo não se pode dizer quanto à ordem econômica. O risco passa a existir é quando o Estado se mete a monitorar a cultura. então. que "é livre a expressão da atividade intelectual. assim. seja no plano do bem-estar social (moradia. pois nada mais falacioso que a teoria da mão invisível. do poder-dever de organizar o aparelho produtivo do País na direção do máximo possível de auto-suficiência em bens e serviços. transporte. de modo que a sua gradativa mundialização não significa propriamente um risco de perda do seu controle. segurança ecológica. o receio de que o Estado venha a perder o controle da sua economia (efeito próprio da globalização). deixemos gravado em alto relevo o nosso dissenso à equivocada identificação que o neoliberalismo vem fazendo entre mundialização cultural e globalização econômica. Neste sítio.Estados soberanos é uma contradição nos termos. científica e de comunicação. 2. contundentemente negada pelas iniqüidades sociais de todo o século XIX e dos primeiros dezessete anos do Século XX. Faz sentido. a partir destas considerações que temos como imperativos históricos: I . ora pela eventual competição empresarial direta e ainda pelo estímulo). pois a soberania de cada Estado se formaliza é numa Constituição não-compartilhada. 5°. o holocausto só pode recair é sobre a globalização.3. a economia é manifestação do corpo.a cultura é manifestação do espírito. seja no plano da sobrevivência biológica do ser humano (alimentação. tudo é absolutamente irrenunciável. Exclusiva. abdicando. então. vestuário). E como é verdade que um decidido controle estatal interno e globalização econômica são coisas antitéticas. que entra e sai do pacto por sua espontânea e soberana vontade. E tudo é absolutamente irrenunciável porque sem a mediação do Estado a economia se torna uma espoliação organizada.). ela paira acima da organização estatal. usufruídos estes por um número cada vez maior de pessoas.7. Não uma espontânea otimização de riquezas. independentemente de censura ou licença"). exigência dele. portanto. de ADAM SMITH. porém o que mais governa para que um número cada vez maior de pessoas deixe de precisar dele. cerceando-lhe a intrínseca espontaneidade em qualquer das suas formas de exteriorização (daí a Constituição brasileira estatuir. Tendo por suporte jurídico-formal os tratados internacionais de sempre. higiene.3. Ao contrário do que afirmava JEFFERSON. Não sobre o controle estatal interno . Não pode ficar acima do Estado. Diante. III . E que vão surgindo por efeito da evolução política de cada corpo nacional que se abre para tais ou quais vantagens comuns. São coisas diferentes. na processualidade da vida. ou uma intervenção. II . artística. lazer. exigência dele.6.Se os deveres do Estado para com o setor cultural não podem significar jamais um dirigismo. pelo inciso IX do seu art. como a própria soberania. o dever de impor direcionamentos e até de intervir (ora por mecanismos de permanente fiscalização e sancionamento. da consideração de que a teoria das Constituições regionalizadas (ou plurinacionais) tem mesmo a sua motivação factual na globalização da economia (que é a globalização dos mercados). Mas sempre nos termos da Constituição de cada Estado signatário.

Até porque. Se ela existe. E por ser nação o tempo inteiro. nunca deixa de estar disponível para a nação?16 2. Cada bloco de vontades a querer preponderar sobre os demais. qual a Constituição que não dispõe sobre a sua própria reforma? Reforma. A mesma geração que elaborou o Magno Texto.7.1. então. ou existe. ou a segunda. Mais que um simples produto inelástico ou de formas acabadas em todas as suas partes. pois. ou por uma quarta geração . empenhadas em produzir uma vontade final tão-somente grupal ou particular.no interior de uma única nação. consegue atingir um nível tão aceso de autoconsciência a ponto de desembaçar toda névoa que prejudique o límpido visual da futuridade. no fundamento: a nação. tanto quanto o próprio Deus. Corporativamente. Para ROUSSEAU.7. 2. Se acontece. se a vontade a manifestar é mesmo da nação. como de generalizada sabência. Modifica-se a Constituição para que ela permaneça idêntica a si mesma naquela parte central da sua circunferência axiológica. a Constituição é fórmula normativa consubstanciadora de princípios que potencializam a abertura das janelas do Direito para o lado onde sopram os ventos da atualização de suas idéias centrais. O vínculo natural entre a sociedade política e a futuridade 2. razão da autonomia conceptual de que desfruta. etc. por mais rígida que seja. É justamente o visceral compromisso com o porvir que faz a nação tornar a sua obra legislativa um verdadeiro processo. Nenhum bloco de vontades. ou a terceira.7. Se a nação apenas sai do estado de efetivo poder constituinte para uma quadra de virtual poder constituinte e vice-versa. 2. que força humana vai impedir que ela convoque uma nova Assembléia Nacional Constituinte? Sabido que a mais nova geração nacional é tão nacional quanto a primeira? Logo. essa vontade se torna a soma orgânica das vontades de todas as pessoas vivas. De revés. 2. sendo uma nação. ou não existe.5. se a Constituição rígida. Ideologicamente.7.2. e não o seu dobre de sinos. essa vontade tende a ser não mais que o somatório mecânico das vontades de todas as pessoas vivas. tem o poder de revogá-lo.7. de saída. no entanto. Numa recondução do pensamento de SIEYÉS a ROUSSEAU. Interesseiramente. que deve assegurar a sobrevida da Constituição.. porém a desejar com os demais se interpenetrar ou dissolver numa só manifestação. se a vontade é apenas da população. por outra.15 Ou. muito mais fortemente empenhadas em produzir uma vontade final que seja uma "vontade geral" no sentido rousseauniano.7. 2. se necessidade houver. preponderar sobre os demais. Insistamos. Ou. pois. modifica-se a Constituição apenas quanto aos mecanismos de que seus princípios estruturantes precisam para permanecer eficazes (e não é preciso encarecer que toda Constituição tem a cara dos seus princípios estruturantes). o paradoxo da onipotência (pela terceira vez perguntamos)? Como falar de antidemocraticidade a posteriori da Constituição rígida.quantas sejam . pode desertar de sua Constituição a qualquer momento. pensamos que. possui legitimidade política e senso histórico de oportunidade para dar forma jurídica ao próprio futuro. sem maior necessidade de alteração formal dos seus dispositivos. Onde. de uma determinada geração vir a avaliar que já não dá para prosseguir sob o império do Magno Texto.4. a querer. e só então.da economia de cada povo. se colocar o problema da revogação constitucional. porém. é da natureza da vontade . ou por uma terceira. ela é nação o tempo inteiro. para. nem é preciso esperar por uma segunda. Este o seu modo especial e único de ser.3.

magistralmente: "a um povo não é lícito repetir ou imitar nem a si mesmo.17 2. assim como os princípios estão para essa bíblia jurídico-positiva que é a Constituição. E cujo efeito prático é a processualidade ou historicidade ou uma certa atemporalidade do que se pretende comunicar. é indivisível. porém não quer isto dizer que as deliberações do povo tenham sempre a mesma retidão (. resta para soma dessas diferenças a vontade geral".7. Leiamos estas passagens. 27/33 da obra "UM GALILEU NO SÉCULO XX".8. pp. extraídas do livro O CONTRATO SOCIAL.. quando muito.7.. Uma outra comparação nos parece elucidativa. "as nações são mistérios.8. Essa linguagem sinótica ou sinérgica de valores torna-se possível.geral rimar com o bem comum (por ser mais do que a simples adição das vontades parciais).7.1. também a nação faz a ponte entre o passado. porque a vontade particular tende. Cada uma é todo o mundo a sós". 2. Boitempo Editorial. ou. essas. Ela não sabe falar de outro modo principal.. 2.8. 2. Vale dizer. 2. enquanto a outra olha o interesse privado.6.. pois é falando por princípios que o seu discurso normativo exorciza os fantasmas da caducidade axiológica ou de conteúdo.). à semelhança do que fez JESUS CRISTO com a metodologia comunicacional das parábolas. é simplesmente uma vontade particular. inerente a todas as caricaturas" (em Estudos de Direito. que hoje têm na própria Constituição a precisa indicação dos respectivos conteúdos e a possibilidade de operacionalização ao nível factual. de maneira a recolher o que há de axiologicamente comum a todas elas para tudo sintetizar num só documento normativo de nome "Constituição". É um discurso que se aproxima da dimensão das coisas universais e eternas. pelo metódico uso das normas-princípio. A inconstitucionalidade da revisão de dupla face . Assim como os artistas fazem a ponte entre o sujeito universal que é a humanidade e o sujeito individual que é cada ser humano. porque a vontade é ou não geral: é a de todo o povo ou a de uma parte dele. Deduz-se do que antecede que a vontade geral é sempre reta e tende constantemente à utilidade pública. tirando estas mesmas vontades.. Enfim. comentários de LEANDRO KONDER. A ensejar a qualificação do Magno Texto como norma-processo. no segundo. por sua natureza. sob pena de cair no baixo cômico..) Pela mesma razão que a soberania é inalienável. É este o prevalente idioma jurídico-positivo da nação. cada nação é. pp. ano de 1996).9. um mundo todo à parte. na Constituição. Parábolas que estão para o evangelho de Cristo. tanto quanto é da natureza da vontade particular a busca dos interesses meramente privados. Porém. vol. que se destroem entre si. é impossível pelo menos que este acordo seja duradouro e constante. o presente e o futuro das suas gerações. esta vontade declarada é um ato de soberania e faz a lei. edição do governo de Sergipe). como versejou Fernando Pessoa. Normas-princípio. No primeiro caso. p. de maneira a projetar na objetividade da sua obra tudo aquilo que a humanidade já produziu e ainda vai produzir (não é muito diferente o juízo que se vê em LUKÁCS.7. e não é senão uma soma de vontades particulares. Há às vezes diferença entre a vontade de todos e a vontade geral: esta atende só ao interesse comum. se não é impossível que uma vontade particular concorde em algum ponto com a vontade geral. I. às preferências e a vontade geral à igualdade. 43 e seguintes: "Com efeito. 109. E Tobias Barreto.) . um decreto (.7. obra já referida um pouco mais atrás. O inexistente vínculo entre "excesso de rigidez" e "Poder Constituinte Evolutivo" 2. portanto. (. misteriosamente. um ato de magistratura. ou corporativos.

Qual a solução que se entremostra na crítica ao "excesso de rigidez" e seu desaguar em mutações constitucionais do tipo informal? Dar às cláusulas pétreas uma interpretação light. num segundo momento. eliminando ou alterando esses limites. que o excesso de rigidez constitucional (quem faz o juízo de excessividade?) tem que pagar um preço. E se isto não for o suficiente para adaptar a Magna Lei à emergência de novos valores sociais. onde fica a identidade axiológica da Constituição? Onde ficam as principais "idéias de Direito" . Num primeiro momento.o neoconstitucionalismo passa a acoimar de "poder constituinte evolutivo" a própria e necessária processualidade das Constituições principiológicas.2. Código "Supremo". Desta forma. pode assim proceder com todas as outras. do seu próprio regime? 2.4. como inelutável conseqüência do seu "excesso de rigidez". a resposta para o excesso de rigidez (suposto excesso) é o excesso de desconsideração pelas cláusulas intangíveis da Constituição. Revisão em dois tempos ou de dupla face. para facilitar as emendas e revisões constitucionais. Ainda que sob o color de mitigar o efeito "conservador" das cláusulas pétreas. Almedina. como preservar a superioridade hierárquica da Constituição sobre os demais espécimes legislativos? E sem tal superioridade. os seus dispositivos. 1138). pois sem cláusula de rigidez formal a Constituição perde o controle do regime jurídico de suas emendas e. cada vez mais soft. faz um cento". Quem pode modificar. Norma "Normarum" e outras qualificações que somente se justificam por aquela supremacia no plano hierárquico? Pela não-completa submissão do Magno Texto à sanha reformadora do Poder Constituído? É o mesmo que perguntar: como prosseguir chamando de Constituição o que Constituição já deixou de ser.3. as disposições consideradas intangíveis pela constituição adquiririam um caráter mutável. por isso mesmo. formalmente. em contradições incontornáveis.permitimo-nos falar . suprimir.8. a ponto de suprimi-las. caindo.2. ou seja. e que tal preço é a freqüente mutação informal da Constituição. a Constituição muda freqüentemente de sentido sem que se alterem. quer dizer.)" (em DIREITO CONSTITUCIONAL. como prosseguir chamando a Constituição de Carta "Magna".1. porém.1.. 2.8. É essa técnica da dupla revisão que nos parece o que há de mais atécnico.. Lei "Fundamental". Contraditoriamente . num sentido assim explicado por GOMES CANOTILHO: "A existência de limites absolutos é. 2. contestada por alguns autores. Se nos transferirmos do campo das cláusulas pétreas formais para os domínios das cláusulas pétreas materiais. a começar por esta: se é possível reformar as próprias cláusulas constitucionais de reforma. com base na possibilidade de o legislador de revisão poder sempre ultrapassar esses limites mediante a técnica da dupla revisão. ou aditar uma cláusula pétrea substantiva. que se faça das cláusulas de reforma constitucional o próprio fundamento para a sua modificabilidade (?). à luz de uma depurada Teoria da Constituição. 1922. a revisão incidiria sobre as próprias normas de revisão. então a Constituição pode vir a perder até mesmo o seu caráter rígido. por conseguinte. 5ª Edição. em virtude da eliminação da cláusula de intangibilidade operada pela revisão constitucional (. pois "cesteiro que faz um cesto.8. E com total ingerência do Poder Reformador nas cláusulas pétreas materiais. a revisão far-se-ia de acordo com as leis constitucionais que alteraram as normas de revisão.1. pela total supressão da norma ou das normas constitucionais instituidoras da rigidez formal! E sem a rigidez formal.8. 2ª Reimpressão.1.1. o fato é que o mecanismo da dupla revisão baralha inteiramente os campos de lídima expressão do Poder Constituído e do Poder Constituinte. Querendo dizer. p. com o fraseado. o raciocínio será o mesmo.

claro. Até porque é possível refundir uma cláusula pétrea para adensar o teor de proteção dos valores nela albergados. 2. para seguir inverso roteiro. ou de proporcionalidade da contenção legislativa que lhe é imposta? A todas as luzes. mas indo além dos limites a ele originariamente impostos. para superar a idéia de autolimitação jurídica do Estado? Para impor ao Estado (com seu poder reformador e tudo o mais) balizas de trás para frente e de fora para dentro? Exógenas. a cargo de um Poder contra o qual. 2. quando menos. Se se permitir ao Poder Constituído. toma gosto no ofício e já não estaca por conta própria). mais que vivenciar uma situação de crise de existência. Ou. onde e por quanto tempo se disporia a cumprir sua pena. como ficaria a idéia de limite formal. foi estabelecido o pretenso excesso de rigidez. 2. quem flexibiliza aqui.7.1. não! Esse tipo de juízo é exclusivo da nação.. E a se trabalhar com esta hipótese.1. como visto. É necessário ter cuidado com as palavras. em verdade.1. flexibiliza ali.8.9. Fingindo-se ignorar a grande distância que separa uma interpretação mais à solta da Constituição (porém nela mesma fundamentada) daquele ato legislativo de intervenção formal no Texto Magno. e a forma jurídica de a nação avaliar tão global quanto radicalmente as coisas é a Constituição originária (assim como é exclusivo da nação dizer que o País. Como penhor de não-retrocesso das conquistas jurídicas a que democraticamente se chegou.8.1. como rotular de ideologicamente conservadora a função das cláusulas pétreas de tais diplomas? Tais cláusulas operam.8. Não fiquemos por aqui. evidentemente que pode se arrepender e voltar a petrealizá-la. como ainda conceituar a Constituição enquanto o mais estável dos documentos legislativos de uma Ordem Jurídico-Positiva? Como abrir mão das normas .(GEORGES BURDEAU) que serviram de mote à faina constituinte?18 2. passando ele a ab-rogar a Magna Lei estará "destruindo o fundamento de sua competência"). Não. no exercício da função reformadora. que é uma das mais visíveis impressões digitais do Magno Texto? A sua principal função ou o primeiro dos seus históricos e lógicos diferenciais? Aquilo que é o próprio charme.5.8.10. tudo fazer da originária Constituição (dizemos "tudo".8.1. o vigiado a determinar o tipo de armamento e o horário de ronda do seu próprio vigia (é também de BURDEAU a lembrança de que. pois. Fora disso. Que paradoxo! Chama-se pejorativamente de Poder Constituinte Evolutivo a mutação informal da Constituição. que singularidade restaria para uma Constituição que se tornou gato e sapato nas mãos do Poder Reformador? Sem mais nenhuma norma-de-fronteira que não provenha desse mesmo Poder Reformador"? 2.1. então? A significar o único momento em que o Direito se subtrai ao Estado? Em que o Direito se torna maior do que o próprio ente estatal? 2. mas não se dá o mesmo nome a um Poder Reformador que se irroga a força da mutação formal dessa mesma Carta. como garantia do avanço então obtido.8.. precisamente. As perplexidades se sucedem aos borbotões e o analista de pronto se pergunta: sem mais diques para represar o fluxo normativo do Poder Reformador. Diga-se mais: quem pode despetrealizar a Constituição. aquele contra o qual existe a rigidez formal da Constituição está positivamente autorizado a medir o tamanho dessa rigidez? A avaliar o teor de razoabilidade. o glamour.8. Ora. ter-se-ia algo assim como o sentenciado criminal a dizer como. já está engolfado numa existência de crise). justamente. o sex-appeal de um Diploma que surgiu. sendo o Poder de Revisão uma criatura da Constituição.6. Se é próprio do Poder Constituinte democrático produzir constituições avançadas (pode-se dizer o contrário?).

cuja parte final está assim redigida: "(. coloca-se como o mais lógico obstáculo ao desmonte do Estado Social que as Leis Maiores do Ocidente erigiram. a praticá-la. terras e propriedades e utilizando quaisquer outros meios ao seu alcance. poderão embargar-nos e incomodar-nos.1. os mesmos quatro barões apresentarão o pleito aos restantes barões. a nossa justiça. em qualquer circunstância. e se por nós ou pela nossa justiça. deixa de revelar estima pela sua obra e não induz o povo. O uso da idéia do "Poder Constituinte Evolutivo" como contradiscurso constitucional 2.2. apontando as razões da queixa. os nossos bailios ou algum dos nossos oficiais. Lá pelo fundo das coisas ou por trás dos bastidores (como soem falar os jornalistas).12.1. a contar do tempo em que foi exposta a ofensa. a petição não for satisfeita dentro de quarenta dias. e não impediremos ninguém de fazer idêntico juramento". tão necessário para que ela se torne uma instituição viva. e. apoderando-se dos nossos castelos.) Considerando que foi para honra de Deus e bem do reino e para melhor aplanar o dissídio surgido entre nós e os nossos barões que outorgamos todas as coisas acabadas de referir. Um contradiscurso constituinte. e nós damos pública e plena liberdade a quem quer que seja para assim agir. concedemos e aceitamos.1. 2.8. Certamente precursora desse vínculo necessário entre a supremacia da Constituição e os mecanismos garantidores de tal supremacia é a própria "MAGNA CHARTA LIBERTATUM". pensamos que a válvula argumentativa do "Poder Constituinte Evolutivo" intenta disfarçar aquilo que na verdade sucede com a reteorização do Magno Texto e do Poder Constituinte: uma contra-revolução dogmática. e da ofensa for dada notícia a quatro barões escolhidos de entre os vinte e cinco para de tais fatos conhecerem. juntamente com a comunidade de todo o reino (communa totiu terrae).. a partir da Constituição do México de 1917 (imediatamente seguida pela . Antes.8.8. Ora. Não inculca no povo uma estima ou um sentimento de Constituição. uma Constituição pra valer (e só é pra valer na medida em que petrealizada). mas sem ofenderem a nossa pessoa e as pessoas da nossa rainha e dos nossos filhos. logo que tenha havido reparação. deixarmos de respeitar essas liberdades em relação a qualquer pessoa ou violarmos alguma destas cláusulas de paz e segurança. para a nossa justiça. para sua garantia. no caso de estarmos fora do reino. até ser atendida a sua pretensão. eles obedecer-nos-ão como antes. incumbidos de defender e observar e mandar observar a paz e as liberdades por nós reconhecidas e confirmadas pela presente Carta. de 15 de junho de 1215. e os vinte e cinco barões. se estivermos ausentes do reino. Para que ela se torne a própria condição da montagem de um Ordenamento que tenha na segurança das relações humanas o seu valor fundante por excelência. 2.11.constitucionais de autodefesa autogarantia (papel instrumental das cláusulas pétreas).8.2. se "não há Constituição sem supremacia e não há supremacia sem sua proteção"?19 2. e se nós. se o Constituinte não anuncia que está a produzir uma Constituição garantida.. estes apelarão para nós ou. ipso facto. e querendo torná-las sólidas e duradouras. E qualquer pessoa neste reino poderá jurar obedecer às ordens dos vinte e cinco barões e juntar-se a eles para nos atacar. que os barões elejam livremente um conselho de vinte e cinco barões do reino. e à petição será dada satisfação sem demora. A Teoria do Poder Constituinte foi o que de mais revolucionário ocorreu no pensamento jurídico de todos os tempos e o fato é que ela já não serve aos propósitos socialmente retrocessivos do neoliberalismo.

as liberdades fundamentais não passam de ornamento gráfico na tessitura formal dos dispositivos constitucionais. autóctones e alóctones. se já não se convoca uma nova Assembléia Constituinte e se já não se reteoriza a própria força constituinte. 2. levando-o também a limitar o poder econômico. preservação das conquistas liberais dos indivíduos e dos cidadãos contra o Estado. sem maior contradição no aproveitamento das teorizações do Iluminismo. entregue a si mesmo. é sair de um Constitucionalismo social para voltar ao liberal. segundo a qual todo aquele que detém o poder tende a abusar dele. esse terceiro leit motiv da burguesia ascendente do final do século XVIII. É que. 2.Constituição Russa de 1918 e pela Constituição Alemã de 1919). Acrescente-se: longe de significar uma ampliação do poder estatal. por efeito de uma Constituição que.2. na prática). pela sua própria natureza (para além da famosíssima advertência de MONTESQUIEU. simplesmente porque o poder não tem alma).8. mediante lei. outra. pois que. BOBBIO esclarece que prefere a expressão "vulto demoníaco do poder" a "alma demoníaca do poder".2. sem essa limitação. era preciso fazer avançar o movimento racional e consciencial do constitucionalismo. A luta político-jurídica foi sem tréguas e o constitucionalismo social veio a significar: a) por um lado.2. Aqui. todo Estado liberal cai nos braços do poder econômico para formar com ele a mais desumana das parcerias (a opressão política a atar o seu corpo à exploração econômica). nada mais natural que seqüenciar a faina constitucional de impor limites a toda forma de poder que implicasse dominação política e exploração econômica das massas.8. e. Porém. Uma normação apenas retórica ("simbólica". diria MARCELO NEVES). Logo.3. por influência do modelo britânico de Ordenamento Jurídico. para que ele. cada povo soberano teve que recorrer a uma nova manifestação formal do seu Poder Constituinte (salvante a nação norte-americana.8. Ali. numa economia típica de mercado.5. Sobremais. então. lastreia um tipo de Direito mais fortemente judicialista do que legalitário. Se é verdade que os dois valores básicos entretecem relações dialéticas. ferido de morte ficaria (como fica) o princípio da igualdade. 2. instrumento que é de prepotências e iniqüidades de toda sorte. É repetir: sem a limitação do poder econômico ou a aplicação de medidas saneadoras do mercado.4. ação estatal para a realização do valor da igualdade. Valores de cujo indissolúvel casamento nasce a fraternidade. É explicar: para sair da democracia liberal para a social democracia. Recorde-se que o liberalismo triunfou sobre o absolutismo porque limitar o poder político era (e é) a própria condição de defesa da liberdade e da cidadania. não havia (e não há) como impedir os fenômenos corrrelatos da concentração de renda e da exclusão social. a imprescindível postura intervencionista e dirigente se traduzia em mais um limite real.2. desmanietação desse mesmo Estado frente aos proprietários dos bens de produção.20 2. sem . Justamente ela. que se perfilou ao lado da liberdade e da fraternidade como bandeira de luta da própria burguesia revolucionária do século XVIII. b) por outro.2. Matéria-prima explosiva. Uma coisa é partir de um Constitucionalismo liberal para um Constitucionalismo social.2.6. de que a doutrina de SIEYÈS foi uma espécie de arremate jurídico.8. sem um mínimo de igualdade nas relações sociais de base (aquelas que definem o verdadeiro perfil da vida coletiva). A razão e a consciência humana assim o proclamavam (e proclamam). para desancá-la. a igualdade. 2.8. inação do Estado como condição de império do valor da liberdade e da cidadania. pois o poder é coisa que não se amplia ou não se reforça. assumisse postura intervencionista e dirigente em favor dos trabalhadores em particular e dos consumidores em geral.

desobrigar e até proibir o Estado-nação do controle de sua própria economia. nada mais restringe a liberdade.2. essa passagem do constitucionalismo liberal para o social. da qual reproduzimos estas preciosas considerações: "O sistema de mercado distribui a renda de forma altamente desigual. Isso é humanamente essencial. um golpe militar ou coisa que o valha..apoio individual e familiar .. portanto. O bolo da riqueza nacional tem uma lógica peculiar que o faz crescer.aos que vivem nos limites inferiores do sistema. e não no cenáculo ampliado do Poder Constituinte. "(. já representa para os países emergentes uma participação igualitária ou descolonializada na economia de mercado dos países tradicionalmente centrais.. é que seu desfazimento no bojo do Estado neoliberal está a se verificar no forum restrito do Poder Reformador. um salário mínimo humano. pior . 4 e 5 do seu caderno "MAIS". Retornar a uma genérica situação de exclusão econômica das massas despatrimonializadas e sem renda minimamente decente (este o invariável déficit social da contabilidade liberal do século XIX e do primeiro quartel do século XX) já sinaliza o definitivo ingresso "na era da modernidade". E porque a favor da vida. Nada estabelece limites tão rígidos à liberdade de um cidadão quanto a absoluta falta de dinheiro. Como se a desnaturação. ou abaixo deles. Como observou JOHN KENNETH GALBRAITH reconhecidamente um dos maiores economistas do século XX.8. do que um povo livre vir a desembocar numa sociedade igualitária de fato. no sistema capitalista. edição de 20 de dezembro de 1998.. E quanto maior o número de contingente de pessoas aproximativamente iguais. Concordamos com isso.2. ou. deve.. e as que ainda são necessárias. acima de tudo. no entanto. fazê-lo de mãos dadas com a coordenação e a proteção da política nacional social e de assistência". porque a favor da vida (como tudo que decorre do trabalho a quatro mãos da consciência e da razão humanas). maior a cota de liberdade concreta de cada qual desses contingentes. Desfazer conquistas sociais já representa arejamento das Constituições. Mas tampouco pode haver um internacionalismo insensato que sacrifique as conquistas sociais do último século. O mais curioso ainda é que uma parte dos defensores da interpretação light ou abrandada das cláusulas pétreas está convencida de que esse tipo de exegese tem o mérito de colocar a própria Constituição a salvo de uma quartelada. "(.. continuamente. 2. agora. É o que se lê em alentada conferência que a Folha de São Paulo transcreveu às pp. uma aventura armada. numa mesma sociedade.) É preciso haver. Receosos da cobrança que a sociedade política certamente lhes faria quanto a essa esdrúxula idéia de que.8. seguridade social e boa assistência à saúde são reconhecidamente uma parte da resposta. Viagem sem volta.8. uma rede de segurança eficaz .) Não há possibilidade de um compromisso estreito com a nação-Estado. pois é muito mais plausível um povo igual vir a desembocar numa sociedade libertária real. recuar já significa avançar.dúvida que a primazia é para a igualdade (cuja essência está numa aproximativa distribuição de patrimônio e de renda). 2. Uma organização sindical forte e eficaz. à medida que é mais compassiva ou solidariamente dividido. Temerosos os novos teóricos da Constituição do debate aberto com a nação. O internacionalismo vai avançar. e também necessário para a liberdade humana. Enfim. Hoje está claro que os Estados Unidos exercem uma liderança mundial negativa nesse sentido. E viagem sem volta. do que a falta absoluta de dinheiro. E também um imposto de renda decididamente progressivo.7. principalmente na área do capital financeiro-especulativo (o pior vilão do final do século XX e do início deste milênio).

como aquele preciso poder de fato que a Constituição quis evitar.9.. a todo instante. capítulos e demais técnicas legislativas de agrupamento lógico-operacional de temas afins. publicado às pp. a supressão pura e simples de uma cláusula pétrea não fosse por si mesma um golpe.9. Não flutuantes. e o Poder Constituído como o poder que pode o menos sem poder o mais 2. a renumeração de dispositivos." 2. ano de 1994)? 2. uma nova distribuição de títulos. ou perde a razão-de-ser da sua autonomia conceitual. Que paradoxo então se apresentaria aos olhos incrédulos do estudioso dos fenômenos político-jurídicos! A Constituição originária criaria um poder cuja função seria a de reformá-la para que ela não perdesse a atualidade e assim atualizada pudesse inibir o surgimento de um poder de fato que a retirasse do mundo dos vivos. Por dedução. tal autorização de reforma global só pode ter de global a possibilidade de opção por uma nova estrutura formal da Constituição. é o que . Deveras. que vimos em estudo da lavra de PAULO MODESTO.9. O Poder Constituinte como o poder que pode o mais sem poder o menos..2. Não pode fugir da radicalidade. Todo este nosso esforço analítico é para dizer. mesmo naquelas hipóteses em que a Constituição autorizasse a sua total reforma. que diferença faz entre golpeadores assumidos e golpeadores enrustidos.ainda. a de impedir o surgimento de um poder revolucionário. pois o raciocínio técnico. A questão não é nova em nossa própria elaboração teórica.1. aí.2.1. 2. O Poder Constituinte é o Poder Constituinte e o Poder Constituído é o Poder Constituído. fora daquele mencionada espaço preambular da Constituição (. pra não ser morta. a roupagem linguística. sob o título de "A Reforma Constitucional e sua Intransponível Limitabilidade": "Se o poder constituído pudesse a qualquer momento se travestir de poder constituinte.. É que. pois sobre ela assim já nos pronunciamos em estudo simultaneamente publicado em Espanha e Portugal. para a Magna Carta. Nunca a opção por conteúdos.). A superação da idéia de autolimitação como fundamento da sumissão do Estado a deveres 2. porque.9. 76/78 da Revista de n° 5 do Ministério Público da Bahia. procedimentos e valores que tornassem a Constituição autorizante um zero à esquerda.1. Esse paradoxo não deixaria de se configurar.9. As fronteiras que separam as duas categorias têm que ser fixas. pela inescapável distinção entre o poder constituinte e o poder constituído. Afinal. ele teria a possibilidade de se assumir como coveiro da Constituição que o fez nascer e aí privaria de sentido a própria e verdadeira função constituída. mesmo quando este venha a operar sob as vestes de um Poder Reformador. se ela já não sobrevive às ações de nenhuma das duas tipologias de constituicidas (metonímia do vocábulo "constituicídio". que é. aristotelicamente: "cada coisa em seu lugar".1. não pode deixar de ser maniqueísta. e como sairia aparelhado esse poder de reforma? Sairia aparelhado com a energia assassina de poder se assumir. por exemplo. na matéria.8.. como. alternando a seu gosto os planos do ser e do dever-ser. o poder constituinte estaria a normar sobre ele mesmo (e não sobre um poder simplesmente constituído). ou o Poder Constituinte impõe a si próprio um campo exclusivo de atuação. como bem o disse o constitucionalista argentino REINALDO VANOSSI.

O Poder Constituinte é e não pode deixar de ser o poder que pode o mais sem poder o menos.9. é pela sua força única de se impor ao Estado que a Magna Carta pode transitar das suas cláusulas formais de intangibilidade para as cláusulas materiais igualmente irreformáveis.9. Petrealidade necessariamente dúplice. 2. O charme. ainda há pouco mencionada).6. Contra tudo e contra todos. o glamour o sex-appeal da Constituição. se a Constituição fosse obra do Estado.1.2. pois ele significa a força de elaborar a Constituição. Indisputavelmente.7. E o Poder Constituído? É e sempre será o poder de fazer o menos sem nunca chegar a fazer o mais. 2.4. pois é dessa diferenciação que decorre todo o prestígio dogmático e sociológico da Constituição. jamais o nome "Constituição" passaria a verbete do vocabulário jurídico-positivo.21 2. com absoluta exclusividade.22 2. sem perder de vista nenhum dos dois aspectos. no entanto. se a Constituição já não provém de um poder capaz de dar a última palavra em matéria de limitação mesma? Afinal. tudo procede do fato de que somente ela pode impor eficazes limites a quem pode impor eficazes limites à população. Qual a conseqüência teórica de um Estado que se autodeslimita a qualquer instante? O reconhecimento de que a Constituição desse Estado não é filha unigênita do Poder Constituinte coisa nenhuma. mais profilático nos quadrantes da Ciência Política e da Ciência Jurídica.8. a não ser no sentido puramente material de conjunto normativo que se refere "aos órgãos superiores e às relações dos súditos com o poder estatal".1. posicionando-se como condição e garantia destas últimas (do que deflui o descarte da astuta revisão constitucional em dois tempos. conforme se lê em PAULO BONAVIDES. 2. claro. Privando-se. E o Estado que se autolimita encontra em si mesmo o fundamento lógico de sua autodeslimitação. 2. mas toda uma lógica elementar que subjaz a essa intransigente distinção entre o que é constituinte e o que é constituído. mormente o Estado.5.sucede com a Magna Carta.1. mais propedêutico.1. no sentido de que ele detém a competência para reformar a Constituição. começando pelas cláusulas formais e terminando pelas materiais. a qualquer momento.1. Bater nessa mesma tecla é o que há de mais didático. pois só cabe falar de unigenitariedade jurídica se se está diante de um modelo prescritivo que. Malheiros Editores. O Poder Constituinte e sua força de mesclar valores jusnaturalistas e valores positivistas . nascido e reformável por um processo peculiar. ou decai da condição de documento jurídico supremo. 2. toda limitação a ele imposta não passaria de autolimitação.9. que é o sentido formal. Não são meras palavras. 64 da obra "CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL". E como impor eficazes limites a quem pode impor eficazes limites à população.3. então. 1996). Não fosse para o cumprimento desse prioritário papel de dobrar a cerviz legislativa do Estado. do sentido que mais conta para uma científica elaboração do conceito de Constituição. único mesmo.9.9. tenha por principal função metodológica a de manter essa peculiaridade. citando HANS KELSEN (p. 6ª edição.9. mas não a aptidão para reformá-la.9. E desconsiderar essa lógica estrutural do pensamento político e jurídico é assim como sobrepor à realista afirmação de que contra fatos não há argumentos o alienante juízo de que contra argumentos não há fatos. de que falamos antes. Ou ela possui a força de fazer algo sozinha.1. Aquelas. mas não a potência para trocar essa Constituição por outra. É desaprender a lição da História e reexibir um filme cujo tenebroso final já se conhece.

9.5. limitar a ambos já significa fragilizar quem mais fragiliza aquele ideal de Justiça. a também sistematicamente encurtar os espaços de influência da população nos processos de tomada de decisão e funcionamento do Estado. Ambas de incidência fatal. II . se o valor fundante do Direito não está nos valores da Paz. com total objetividade. 2.2. foi em atenção ao maravilhoso fato de que só a Constituição se tornou um definitivo ponto de encontro entre o postulado positivista da Ordem e o axioma jusnaturalista "da Justiça que advém da reta razão". se se põe como valor fundamental do Direito o postulado jusnaturalista do justo-racional. Vale dizer: sabe-se perfeitamente bem que determinados modos de agir são a negação mesma da Justiça. De outra parte. E. a reduzir cada vez mais os espaços de inclusão popular na riqueza material do País. como desenganadamente são a opressão política e a exploração econômica.que ações o Estado não pode praticar perante os indivíduos e os cidadãos (postulado advindo do pensamento liberal e que. E esse papel axial só pode recair sobre a Constituição. ao lado dos mecanismos realizadores do princípio da Separação dos Poderes. de fato. que ações humanas concretizam ou materializam o ideal do Justo. aquela.que ações o Estado tem que praticar perante o poder econômico (postulado oriundo do pensamento social-democrata. ou da Justiça. quando se permite ao Estado tudo se permitir. perguntamos: Qual o documento jurídico-positivo que melhor espelha a idéia de estabilidade em que a Ordem se traduz? O diploma que mais duradouramente lança as regras elementares do "contrato social". por tabela. ou do Bem Comum (devido ao carregado teor de subjetividade desses ideais).3.2.2. Então. perfeitamente possível dizer que ações humanas são protuberantemente contrárias ao referido valor. quais os conteúdos positivos da Justiça.2. do "justo por si mesmo" (GEORGES BURDEAU. E a a fórmula operacional é simples. Quando dissemos que a Magna Carta significou a maior revolução jurídica de todos os tempos .2.1.4. Esta. no entanto. A Constituição melhor realiza a idéia do justo por si mesmo na medida em que pode dizer: I . . Combater os que mais combatem o justo por si mesmo. Se não é possível dizer. e. Nenhum outro modelo jurídico-prescritivo serve melhor a essa idéia central do justo acima de qualquer suspeita.e que agora o mundo ocidental passa por uma obscurantista fase contra-revolucionária -. Do quanto de objetivo pode se conter na Justiça como ideal de convivência humana.9. acresça-se. do justo ditado pela reta razão. tem por objeto impedir os abusos do poder político).2. do poder econômico.2. é.9. Um modo de se resguardar a Justiça pelo direto gradeamento da toca dos lobos.o poder econômico e o poder político -. outra vez). porém no valor objetivo da Ordem (que outros chamam de Segurança). é ainda a Constituição o documento-símbolo por excelência. é o que de mais garantido se pode obter em defesa da Justiça. de modo a permitir a todos o conhecimento antecipado das conseqüências objetivas das próprias ações. exatamente como da Ordem falava KELSEN? Claro que esse diploma normativo é a Constituição! Não pode ser outro! 2.9. 2. para não deixar que o Mercado passe de motor da História a mentor dessa mesma História). E como já se sabe que os inimigos figadais do justo-racional são esses dois poderes .9. o balizamento em si do Estado. na medida em que se lhe reconheça o laço unigênito que a prende ao Poder Constituinte. o seu oposto ou contravalor. de que ações efetivas depende a convivência em bases justas. 2.

a Constituição é a síntese possível.2. porque o balizamento é a sua natureza. isto é.9. E assim altaneiramente postada.9. a Magna Carta se confunde com a própria função principal que lhe cabe cumprir. O Código e sua principal função. a viva consubstanciação desse balizamento. Está aí a demonstração de que somente a Constituição pode se colocar enquanto ponto de convergência do que o juspositivismo e o jusnaturalismo têm de mais característico.6. a encarnação mesma. conseguintemente. a Constituição é balizamento. O tema que mais caracteristicamente recheia o conteúdo de suas normas. já no próximo capítulo.2. É igual a concluir: mais que até mesmo balizar. Não pode deixar de ser. Aquilo que melhor define a sua requintada funcionalidade. o seu campo divisional operativo.23 Assunto a retomar. a sua medula. resumindo em si a estratégica função de limitar o Estado e o poder econômico. . a Magna Lei tem nessa limitação a sua própria causa formal. passam a compor uma só realidade. Por isso que. pela sua essencialidade. mais do que se tipificar pelo papel de balizar o Estado (a contenção do poder econômico vem por gravidade).2.7. 2.

indicaremos aquelas especificidades da Constituição que. mas sempre com a virtualidade de operar no atacado. O fundamento supra-estatal e suprapositivo da Constituição 3. pela consideração elementar de que. discriminado este em Poder Reformador (o que revisa. negamos o que em outros estudos afirmáramos: a existência de um Poder Constituinte de segunda geração ou de segundo grau.filha unigênita que é do Poder Constituinte -.8. Com esta afirmativa de que o Direito pós-Constituição é sempre a manifestação de um Poder Constituído. por inteiro e de uma só vez. é porque não é constituinte (JORGE MIRANDA). A Constituição e sua retroeficácia de dupla face: em abstrato e em concreto 3. nesse ou naquele aspecto. a nosso ver.2.As Especificidades da Constituição Sumário 3. as leis ordinárias e demais atos de formação da vontade normativa primária do Estado1). no global.3. A Constituição como atestado de efetiva soberania nacional 3. desconstituir por inteiro o Estado preexistente). de ponta-a-ponta.1.2. A Constituição como critério de hierarquização das próprias normas constitucionais 3.1. se é um poder derivado. 3.1. o segundo.1. ainda que para o fim de reformar a Constituição. é porque sua ontologia é igualmente estatal. uma nova ilação é de ser feita: a Constituição é um divisor jurídico de águas. mais concorrem para demarcar os espaços de radical separação entre ela mesma e os atos de sua reforma. mas não criar um Estado zero quilômetro.3. a primeira classificação que se faz sobre o Direito legislado é com os olhos postos na Constituição. o verdadeiro e único Poder Constituinte é um poder de construção e ao mesmo tempo de demolição normativa.4. nele efetivamente se transfundindo e formalizando-o numa Constituição. apelidado por boa parte da doutrina como Poder Constituinte Derivado. E sem esse poder de plasmar ex-novo e ab novo o Estado (que é o correlato poder de desmontar. no sentido de que há um Direito-Constituição e um Direito pós-Constituição. de sorte . A Constituição como critério de classificação de todo o Direito 3.5. Neste capítulo. 3. o máximo que lhe cabe é retocar o Estado. Se o poder é exercitado por órgão do Estado. querendo. A Constituição como a lei das leis 3.1.4. A Constituição e a fuga de suas normas a exame de validade 3. Como a Constituição não pode deixar de se por na linha de partida do Direito . as leis delegadas. ou seja.1.1. mesmo que tal Direito se expresse por atos de reforma da Magna Carta. Como tantas vezes dissemos. O ponto inicial do novo estudo é precisamente a parte em que o capítulo anterior foi concluído. A compulsão da rigidez formal da Constituição 3. A Constituição como critério de classificação de todo o Direito 3. Por isso mesmo é que somente ele é que irrompe no cenário político para a epopéia jurídica do começar tudo de novo. 3.Capítulo III . nascido de um Poder Constituído.6. O primeiro. E sendo estatal. então de poder constituinte já não se trata. Não existe esse Poder Constituinte Derivado. nascido do Poder Constituinte. Forma de atuar. ou o que emenda a própria Constituição) e Poder Legislativo usual (o que elabora as leis complementares à Constituição.7. O que dissemos ali reafirmamos aqui: a sociedade política ou nação é a única a experimentar o Poder Constituinte.

Se o verdadeiro e único Poder Constituinte é um Poder que pode o mais (elaborar a Constituição). Direito Penal. nem toda norma constitucional é norma contida em dispositivo da Constituição originária. Não-simplesmente normas constitucionais. Direito Tributário.10.3 3. que já e um Direito elaborado pelo legislador constituído: Direito Administrativo. no uso do seu poder reformador. o Poder Reformador é o poder de constituir tão-somente normas constitucionais. Ora atua como produtor de normas gerais não-constitucionais (porque não destinadas a mexer na Constituição). ou por revisão. da grande árvore jurídica. 3. Mas sempre na condição de um Poder Constituído.9. Na sua função de atuar debaixo da Constituição.e daí em ramos públicos e privados do Direito -. Direito Comercial e demais "províncias" ou setores cientificamente autonomizados do Direito.a trocar uma Constituição por outra e assim dar à totalidade do Ordenamento Jurídico um novo fundamento de validade. incorrem no erro (venia concessa) de tomar a parte pelo todo.5.1. Tudo a espelhar: quem edita a Constituição está impedido de reformá-la. apenas.1.1.8. Uma parte. porque normas constitucionais o Estado também produz. ora atua como produtor de normas gerais constitucionais (porque destinadas a reformar a própria Constituição).1. Se toda norma contida em dispositivo da Constituição originária é norma constitucional. Direito Civil. Mais enfaticamente: se o Poder Constituinte é o poder de constituir a Constituição não apenas normas constitucionais -. mas sem poder o mais (trocar uma Constituição por outra). porque pleonástico ou redundante) como o poder de elaborar normas constitucionais. nem todo repositório de normas constitucionais é uma Constituição (basta que lembremos as normas transitórias que se veiculam por emenda. Só que essa parte do fenômeno jurídico-positivo.1.6. pois aquele que só existe para fazer o todo não pode fazer a parte e aquele que só existe para fazer a parte não pode fazer o todo (evidência palmar). É o segmento não-constitucional-originário do Direito. e não dentro dele). 3. A Constituição (e não suas emendas ou revisões) a se postar como inafastável critério de classificação de todo o Direito. e quem reforma a Constituição está impedido de editá-la. porque estatal e positivamente exercitado. O que se divide em público e privado é o Direito pós-Constituição. Não para a função auxiliar do retoque na Constituição vigente. já se põe como contraponto do Direito-Constituição. Não é. pela sua fundamentalidade). Se o critério de classificação dos ramos jurídicos em públicos e privados é a . antes de comportar segmentação interna em províncias ou setores .7. Quando os jurisperitos bifurcam o Direito legislado em público e privado. categorizar como Poder Constituinte Derivado o poder de reforma da Constituição é cair numa ilusão de ótica: ver o Poder Constituinte Originário (o vocábulo "originário" é até dispensável. mas em um outro sentido.2 3. que são normas destinadas a vigorar de forma paralela ao Magno Texto. e não toda a árvore. O que esse Poder elabora é a Constituição (reiteremos o juízo. o Poder Constituído é também ambivalente.1. o Poder Constituído é um Poder que pode o menos (modificar a obra do Poder Constituinte). Mais até: se toda Constituição é um repositório de normas constitucionais. como realçado no capítulo precedente. Donde a nossa afirmação de que o Direito legislado principia pelo Direito-Constituição e prossegue com o Direito pós-Constituição. 3. mas não de substituir o fundamento de validade do Ordenamento por inteiro. 3. no fundo. É do nosso pensar que. mas sem poder o menos (reformar a sua própria obra legislativa). que já é uma função de atualizar. Não a Constituição.

seja qual for o ato de reforma constitucional. 3. porém nem rigorosamente público nem privado.2. porque o Direito Constitucional como um todo tem na Constituição o seu necessário ponto de partida.2. Centremos agora as nossas atenções investigativas na distinção entre a Carta Magna e o Direito Constitucional como um todo. mas que se faz silêncio mesmo para poder melhor dizer. fala pelas palavras nele grafadas e ainda fala por palavras que nele não foram grafadas. não se recusa aos atos de reforma constitucional a força de se incorporar ao documento reformado. destacá-las do conjunto. as entrelinhas. o silêncio que já não traduz a intenção do nada-dizer. Ela consubstancia um tipo tão articulado de unidade que faz lembrar a composição e o sentido de um poema. é quase sempre repetir o fenômeno que decorre de se colocar. Se este se constitui de palavras.12.2. como a Constituição. a Constituição. Permutá-las. cumprindo o não-verbal o papel do silêncio-eloqüente. como tantos outros. lato sensu) quanto o inverso. ora de tratamento favorecido daquela parte que simboliza os imediatos interesses da sociedade (Direito Público).1. Ela é mais que o resultado do ajuntamento linear das suas partes. a serviço da mesma causa. um pouco de qualquer das ondas do mar em um balde: a onda removida perde instantaneamente a qualidade de onda. pois nele ainda contam os intervalos. ora de tratamento paritário dos interesses das partes (Direito Privado). Enfim. O que nos estimula a formular a proposição de que o Direito Constitucional é ramo jurídico. e passa à condição de simples água salobra. Ele ainda engloba as normas de reforma constitucional e o fato é que essas normas não têm a mesma hierarquia da Constituição. Conforme dissemos em nota de rodapé. mais do que perante qualquer outro diploma jurídico. substituí-las. 3. O verbal a conviver com o não-verbal. que é uma coisa viva ou em movimento. mas não o de chegada. 3. a Constituição deve permanecer inteira em sua quintessência. é preciso tocar nas suas normas com a delicadeza de quem lida com peças de cristal. Adicione-se a esta particularidade (a de ser o Direito Constitucional infenso às categorias do público ou do privado) mais uma nota específica: a Constituição é documento normativo tão singular que não se confunde nem mesmo com o somatório mecânico de suas normas. a ponto de mais adiante demonstrarmos que. na exata disposição de cada verso e de cada estrofe na ossatura do conjunto. não há como dizer a que bloco pertence o Direito Constitucional.1. É que ele tanto contém segmentos normativos de favorecimento das pessoas privadas perante aquele que simboliza os imediatos interesses da sociedade (e essa contraparte é a pessoa jurídica do Estado. hipoteticamente. Mudam-se algumas de suas partes para que o todo prossiga idêntico a si mesmo. o que era a riqueza de um poema fica rebaixado à pobreza de simples vocábulos. A Constituição como critério de hierarquização das próprias normas constitucionais 3.1. seccioná-las. desde que veiculem .nítida vertente que eles ostentam para compor relações. 3. justamente. é verdade. E tudo isto quer dizer que o poema. sim. Ante a Constituição.11. enfim.2. Tanto não têm que se assujeitam a exame de validade perante. lógico. tais palavras somente conservam íntegro o seu papel de servir a uma obra de arte se permanecerem no contexto da poesia e no exato lugar em que se encontrem. o poema é o somatório de suas palavras. a teia invisível que vai de uma vocábulo a outro e de uma expressão a outra. que é uma coisa morta ou sem mobilidade própria. No caso da poesia. porém diz mais que o somatório de suas palavras. ou seja.

Mantém com ele o mesmo tipo . 3. mas não o contrário). (pense-se na intocabilidade das chamadas "cláusulas pétreas". 3. não gozam.normas permanentes. sem a necessidade de nova manifestação formal do Poder Reformador.2. assim. Seja qual for a hipótese de desaplicação ou de desconsideração operacional do ato de reforma.3. Não é esse o modelo de compreensão da dualidade temática Direito Constitucional/Constituição. É incorreto falar-se de qualquer dos códigos infraconstitucionais como lei das leis de sua própria reforma. é procedente a diferenciação nominal.6. então. ou complementação.2.8. ou seja. ou de Direito Mercantil e Código Mercantil. todavia. óbvio. verbi gratia. 3. ora para um determinado caso (pelo trilho do controle difuso). o certo é que existe uma diferença qualitativa . pela cristalina razão de que as eventuais antinomias entre a Constituição e as normas constitucionais que lhe sejam posteriores já não se resolvem por aqueles dois critérios da posterioridade do espécime normativo. se constituem a parte central de tais ramos. 3. por conseqüência.5.2. Ora de forma definitiva (pela via do controle concentrado). porque esse tratamento nominal diferenciado não tem a menor relevância interpretativa. porque sindicável a todo instante quanto à sua validade. Por conseguinte. a Constituição é a parte superior desse ramo jurídico. 3. a norma que penetrou na Constituição pode sofrer cassação de eficácia.4.nunca é demais enfatizar . Leis extravagantes. as emendas e revisões constitucionais se privariam daquilo que nem às leis comuns e aos demais atos oficiais do Poder Público é recusado: a presunção de juridicidade. E repercute. Se tal ocorresse. Do que decorre a impropriedade técnica de se buscar nos códigos infraconstitucionais o fundamento de validade das regras legislativas que se lhes sobrevierem. O critério dirimente é um só. os códigos por acaso existentes. não têm o seu regime jurídico ditado pelo código mesmo. tudo se encarta de modo igualitário numa única província jurídica. e. Aqui.7. de Direito Penal e Código Penal. que somente depois de passar pelo crivo jurisdicional de validade é que todo ato de reforma constitucional ganha o status de norma de primeiro escalão jurídico. verbi gratia) ou se expõem à declaração judicial de invalidade. e ele é de ordem hierárquica: ou as normas de reforma da Constituição guardam aquela conformidade processual e material que lhes assinalou a própria Constituição. 3.entre as normas constitucionais originárias e aquelas que se lhe seguirem temporalmente. Esse condicionamento ou essa precariedade de inserção no Magno Texto não significa. da especialidade material (a lei especial revoga a lei tematicamente geral. Eles não podem se autoexcluir do controle de constitucionalidade e isto já comprova que o seu modo de entrar no santuário da Constituição é sempre condicionado. Mas se trata de uma incorporação normativa sempre a título precário. As eventuais antinomias normativas se resolvem pelos conhecidos critérios da posterioridade (a lei mais nova prepondera sobre a mais velha). Coisa que não existe em nenhum outro ramo autonomizado do Direito. nascidas posteriormente ao código. ou da especialidade de assunto. que. ou de Direito Processual e Código Processual. O que vem a significar ingresso menos altivo dos atos de reforma da Constituição no próprio documento reformado é que esse ingresso pode ser confiscado. porque essa diferenciação repercute no campo hermenêutico. Fora do Direito Constitucional. Por isso que não cabe falar. à falta de hierarquia entre os respectivos comandos legais.2. Nos outros ramos jurídicos.2.2. mais que segmento central do Direito Constitucional. menos altivo. ou. de superioridade hierárquica frente às leis extravagantes (assim designadas por vagarem a latere do código).

fosse produzida por uma autoridade do Sistema Normativo.3. Não que a Magna Carta vigore apenas ao lado do Ordenamento.9. todavia. como um pouco mais à frente comentaremos. 3. e aí toda noção de validade seria praticamente vã. nenhum ramo ordinário do Direito comporta o que o Direito Constitucional incorpora: a dicotomia entre as suas próprias normas. assim. A Constituição faz parte do Ordenamento. o modo de ela mesma sair desse Ordenamento é igual àquele pelo qual entrou: a suprapositividade. não entra em um anterior Ordenamento Jurídico. logicamente. Com efeito. No fim das contas.2. É mesmo por surgir no mundo cultural como o ponto mais alto da pirâmide jurídica. E isto já inviabiliza qualquer tentativa de se impor à Constituição o exame de validade. Se ela é o início lógico de toda positividade jurídica (KELSEN. O que não significa dizer que exista diversidade hieráquica no interior da própria Constituição originária. na medida em que ela. 3. no plano lógico. o Ordenamento já não seria piramidal ou ortodoxamente hierarquizado.3. como exigi-la para a Constituição Positiva. se o modo de a Constituição fazer parte do Ordenamento não se dá por virtude de nenhuma outra norma (o Ordenamento é que principia com a Constituição.5 Sem ela. pelo fato evidente de que a Constituição desconhece norma positiva que lhe seja anterior. É uma das suas mais importantes especificidades. porém como algo situado do ângulo de cima. não tem merecido da doutrina o devido realce. 3.4. no mais alto patamar do esquema de supra-infra-ordenação em que o Direito consiste? 3. é preciso que a norma qualificante seja.4 3. Aqui. Ora. que é o .6. que a Lei das Leis é totalmente imune a exame de validade aclara a precedente afirmativa de que ela não inova o Ordenamento Jurídico. sem a companhia de qualquer outra norma.2. se a Constituição Positiva já aparece como norma superior a todas as outras? Postada.3. que. Por outro aspecto. para ao Sistema pertencer para sempre. 3. então. Bastaria que a norma existisse. que a Constituição dá origem ao conceito de validade como atestado de filiação de uma norma ao Ordenamento Jurídico. Constituição. 3. como anterior à norma qualificada. todas as normas são paritariamente constitucionais. solitariamente.8.3. VERDROSS). sendo a validade uma espécie de ticket ou bilhete que uma norma inferior recebe da que lhe seja imediatamente superior para ingresso na região das positividades jurídicas.3.1.5. não apenas superior. por virtude da Constituição mesma? 3. não há como fazer o cotejo internormativo em que se exprime o juízo de validade. MERKL. A Constituição e a fuga de suas normas a exame de validade 3. Por outra perspectiva. mas o exame de validade é que deita raízes na Constituição.3. Paralela a ele. pelo critério da hierarquia. não é a Constituição que deita raízes no exame de validade. seja completamente insubmissa a exame de validade jurídica. E só pode tê-lo.3.3. é porque tem a força originária de dispor sobre o regime jurídico destas últimas. pois como inovar uma coisa ou entrar em algo que só passa a existir. dado que operante de uma norma para a outra.3. Constituição. 3. e não a Constituição com o Ordenamento). sim. Afirmar.3.7. sendo a validade uma qualificação internormativa. e não simplesmente do ângulo de dentro. A cúpula do Ordenamento é que se objetiva na Constituição e esse estar por cima é o modo especialíssimo pelo qual se dá a interpenetração das duas realidades: a da Constituição e a do Ordenamento. se a Constituição não deixa que suas normas se nivelem às normas constitucionais que se lhe seguirem no tempo.hierarquizado de relação que entretece com o próprio Ordenamento como um todo. Ao cabo e em síntese.

isentando-se. Do que deflui o primeiro sentido da retroeficácia da Constituição: ela não aceita. sejam as regras iniciais da antiga Lei Maior. pois somente alcança aquelas normas gerais anteriores que. pois a Constituição Positiva. sendo norma geral ou lei em sentido material.reino da sempre originária manifestação do Poder Constituinte.1. é precisamente por isso que se fala não haver direito adquirido contra ela. Pelo ângulo reverso.1. assim. com os efeitos concretos dessa ou daquela regra antecedente. é logicamente do tipo norma a norma. 3.6 3.1. explicitamente. não tenham sido geradas nem pelo Poder Constituinte nem .4. O princípio da recepção é seletivo por mais um título. Desde que tudo se aloje num plano igualmente abstrato.3. querendo. A Constituição e sua retroeficácia de dupla face: em abstrato e em concreto 3. Da lei infraconstitucional para a Lei Fundamental. pois ela chega para ocupar espaços que são próprios de todas as leis em sentido material. A abstratividade. todavia. E é precisamente por ter a Constituição a força de incidir. que tanto comporta uma passagem traumática ou violenta de uma Constituição para outra quanto uma substituição consensual ou negociada.9. 3. Como derradeira ilação do fato de a Lei Maior eximir-se por completo de exame de validade. A questão que se põe não é essa. gestada antes da Constituição. Cuidando-se de velhas normas gerais de natureza constitucional. não haveria mesmo de tolerar outras normas gerais com ela conflitantes em conteúdo (a não ser nos termos e condições em que o dissesse.4. em abstrato 3. as antigas normas gerais que entrarem em sintonia material com a nova Carta são instantaneamente carimbadas como normas sobreviventes.4. nada sobrevive ao novo Texto Magno. 3.4. A subsunção que se passa a fazer no seio do Ordenamento. após a nova Constituição. em suas disposições permanentes. em alguns casos.2. até mesmo sobre relações jurídicas em concreto. 3. com a Constituição passe a entrar em rota de colisão no plano material. se tais normas apresentarem conteúdo discrepante daquele que timbra a nova regração constitucional. e. que normas igualmente abstratas continuem a gerar efeitos. Donde a compreensão de que todo ato de convocação ou de instalação de um órgão de deliberação constituinte só pode implicar rompimento constitucional no plano do dever-ser jurídico ("ruptura ou descontinuidade". de compromisso com a preservação de norma jurídica anterior. Sem dúvida. A retroeficácia da Constituição. aduzimos que essa proposição está imbricada com outra: a aptidão que tem a Constituição originária para não conhecer tabus materiais. Não necessariamente no plano do ser.4. a Constituição originária se caracteriza pela força de romper compromisso com as normas jurídicas anteriores a ela.1.4. conseguintemente. no interior do mesmo Ordenamento. é indiscutível a prevalência automática do regramento de estirpe constitucional.1. Com uma exceção. no preciso falar de CANOTILHO). é o habitat ou espaço natural de existência da Carta Magna. além de se revelarem acordes com a nova Lei Fundamental em conteúdo. em dispositivo logicamente passageiro ou transitório). Ninguém melhor do que o Chefe da Escola de Viena para falar sobre a instantânea perda de eficácia de toda norma que.4.1. Ela pode conformar toda e qualquer matéria.3. sejam as oriundas de reforma a essa Constituição precedente.

pois o fato é que. a liberdade. no gozo de sua condição ímpar de norma que provém de um poder que tudo pode. Realmente. o ato jurídico .2.6.5. É falar: sempre que a nova Carta Política se deseja topicamente aplicável a relações já factualizadas por virtude de normas antecedentes. 3. sempre que tais relações concretas se friccionarem com os novos comandos constitucionais. em que a sua parte permanente deixa de incidir). agora.1. ou do ato jurídico perfeito. 5°. se tal ocorresse. segundo a qual "a lei não prejudicará o direito adquirido.2. No Brasil. E assim tem que fazê-lo. 3. o novo Diploma Fundamental passaria a se caracterizar pela intransigente negação daquilo que é uma das impressões digitais de todo Magno Texto: operar como a parte mais estável do Ordenamento Jurídico.4. mesmo.pelo Poder Reformador. pois. no mínimo. A retroeficácia da Constituição. Ela não chega para atuar enquanto norma de efeitos concretos. 3. ou da coisa julgada. sobre o qual nada é preciso dizer.3. a Constituição não mais está no seu habitat. 3.2. Ao contrário. Daí a freqüente positivação de todos eles como típicas figuras de Direito Constitucional. invariavelmente erigido à condição de megaprincípio. pois expressamente passa a dizer que relações jurídicas são essas. Ela. institutos em que mais fortemente reluz o protoprincípio da segurança jurídica.1. ou então para estancar efeitos que tais normas ainda estejam a produzir entre partes nominalmente identificáveis. ora em regime de harmonia conteudística.4.4. O silêncio da nova Carta já opera como cassação de eficácia das velhas normas gerais cujo conteúdo com os dela própria se tensionar. para retroincidir sobre situações já consolidadas no universo jurídico-particular das pessoas tem que fazê-lo por explicitude. Constituição.2.4. da sua postura no âmbito do confronto entre normas gerais (as da Constituição e as do Direito não-constitucional precedente). por forma a revelar sua claríssima intenção retro-operante. ou o período. para com outras normas de efeitos concretos se encontrar. de permeio com a própria vida. uma das históricas razões-de-ser das Constituições escritas. o teórico tem que se perguntar até que ponto um novo Código Supremo possui aptidão para desfazer efeitos que normas jurídicas anteriores já produziram à exaustão. ou. porém.2. a norma constitucional que versa a matéria (inciso XXXVI do art. Aqui. A não ser que o diga por forma inequívoca. nem por se traduzir na força de zerar a contabilidade jurídica a nova Carta há de ser interpretada como automaticamente inconvivível com toda e qualquer relação jurídica nascida e até resolvida à sombra do velho Ordenamento. Não! A retroeficácia constitucional não chega a tanto. Aquele pedaço do Direito que mais prestigia o princípio da segurança jurídica. 3. pois. Tudo muda de perspectiva. porque tais situações jurídicas são constitutivas do direito adquirido.4. ela mesma reconhece que se trata de aplicabilidade insólita. em concreto 3. O plano retroeficacial já não é o mesmo. ora em situação de desarmonia. a igualdade e a propriedade (postulados liberais que marcam para sempre a trajetória das Constituições escritas). quando o teórico se desloca do campo das precedentes normas gerais para o sítio das normas de efeitos concretos. É justamente para ressalvar a sua excepcional vontade objetiva de retroagir sobre essa ou aquela relação jurídica em concreto que toda Constituição Positiva se faz acompanhar de uma parte transitória de dispositivos (de parelha com a necessidade de indicar os casos.1.4.

em conteúdo. Ora. Dupla e díspare função do silêncio normativo-constitucional.que é expressivo . ou em dadas circunstâncias.4. nada precisou dizer. a Constituição precisa dizê-lo. principalmente.7 3. e que ainda são clausulados como tema insuscetível de nova conformação de menor carga protetiva do indivíduo. Principalmente se considerarmos o tempo médio de vida de uma Constituição . a nova Constituição nada precisa dizer. para manter por algum tempo. O silêncio da nova Carta cumpre um papel de preservação do que já gozava de concretitividade. na medida em que: I . pois o febricitante revolver de sepulturas jurídicas teria que alcançar relações cujos autores seguramente já não estariam neste mundo de "aquém-túmulo" (MÁRIO DE ANDRADE. ainda que dela desbordantes. se tais modelos se revelarem desafinados.4.4. Até porque . A Constituição Brasileira de 1988 é um bom retrato falado do que estamos a proposicionar. 3. Como nada precisa dizer para manter íntegras as relações em concreto que vier a encontrar (desde que tais relações contenham o timbre da definitividade). II .2. Reiteremos o juízo. 3.5.2. tanto quanto cumpre um papel de não-preservação dos modelos jurídicos apenas existentes no plano da abstratividade. portanto.para ressalvar a eficácia temporária de norma geral com ela (Constituição) em . ou se a parte permanente da mesma Carta agasalhar normação que prime pela hostilidade à continuação tipológica de qualquer delas. o poeta).2. Direitos e garantias que vão compor uma paliçada defensiva dos particulares contra o Estado. natural que as três estelares figuras do direito adquirido. Como nada precisou dizer para preservar a operatividade daquelas não-discrepantes.uma generalizada exumação de relações jurídicas em concreto faria do novo Código Político um diploma normativo tão confessadamente odioso que tocaria os debruns da insanidade. Como precisa dizer que relações em concreto (já carimbadas pela velha Ordem como situações ativas de caráter permanente) passarão a sofrer desfazimento ou paralisia eficacial. Para sonegar eficácia às normas gerais anteriores e de conteúdo discrepante. Em sede de relações concretas. 60). até mesmo por via de emenda constitucional (inciso 4° do § 4° do art.4. Constituição. pela sua estratégica importância. é de se presumir como operante para as que se produziram antes da nova ordem constitucional. com a nova regração constitucional.7.4.6. Tudo se resume em saber distinguir entre o que existia enquanto modelo jurídico em abstrato e enquanto modelo jurídico em concreto. Colocaria a sociedade em polvorosa ou de pernas para cima. 3. ao tempo da promulgação do Magno Texto. uma norma geral anterior de conteúdo discrepante. Reversamente. Salvo se regra transitória da nova Constituição lhes cassar por modo expresso a respectiva eficácia.para estancar a eficácia das normas gerais anteriores com ela discrepantes. Do terrorismo normativo. do ato jurídico perfeito e da coisa julgada exijam um tipo de interpretação que se traduza no seguinte: a garantia em que elas se constituem na nova Ordem há-de ser uma confirmação daquela igualmente reconhecida pelo velho Ordenamento. no desfrute dessa altaneira posição intra-sistêmica.2. a estabilidade que a nova Constituição imprime àquelas que se produzirem a partir dela mesma.e a freqüente imemorialidade de certas relações jurídicas em concreto (qual o marco temporal da retroação da nova Carta? A última Constituição? A penúltima? A primeira delas?).reconheçamos . o que terminaria por retirar da Constituição a própria possibilidade lógica (eficácia) e social (efetividade) de incidência.perfeito e a coisa julgada") faz parte do capítulo atinente aos direitos e garantias individuais e coletivos .

. nem da coisa julgada. para poder se autoexcluir.estado de fricção material.. O mencionado inciso XXXVI do art.8. Tratando-se. § 7°. até o modus in rebus ("para cada coisa existe a sua medida própria") deixa de ser admitido.. agora.8 b) imiscuiu-se no conteúdo de decisões judiciais com trânsito em julgado. ato jurídico perfeito.4. Até que se instalem os Tribunais Regionais Federais. Quando o confronto a fazer é entre as normas gerais das emendas e as normas gerais de vinco infraconstitucional. que "Na liquidação dos débitos. o Tribunal Federal de Recursos exercerá a competência a eles atribuída em todo o território nacional (. desde que o Poder Judiciário não as declare inválidas. com atualização. (. de par com atos jurídicos perfeitos.4. ainda que ajuizados. no prazo máximo de oito anos. por conduto do artigo 17. Constituição originária. emenda não é a matriz normativa do direito adquirido. iguais e sucessivas.4.2.2. A retroeficácia apenas em abstrato das emendas à Constituição 3.)". no art. não existirá correção monetária desde que o empréstimo tenha sido concedido: (. 33. ilustrativamente: a) atacou o direito adquirido. quando o cotejo se dá entre a normatividade das emendas e as multirreferidas situações jurídicas em concreto (que são relações já permanentemente ornadas de subjetividade). contudo. no art. a partir de cento e oitenta dias da promulgação da Constituição. o olho do analista deve se deter é no originário modo pelo qual a Lei Maior dispôs sobre a matéria. poderá ser pago em moeda corrente. todos os dispositivos legais que atribuam ou deleguem a órgão do Poder Executivo competência assinalada pela Constituição ao Congresso Nacional.1.4. é que tem o condão de se colocar para dentro ou para fora da faixa da retroincidência. nem do ato jurídico perfeito. ao prescrever. Assim é que. que "Ressalvados os créditos de natureza alimentar. porque. b) "Art..)". não deixou de se fazer explícita no seu corpo transitório de dispositivos.. invocação de direito adquirido ou percepção de excesso a qualquer título". por decisão editada pelo Poder Executivo até cento e oitenta dias da promulgação da Constituição". incluído o remanescente de juros e correção monetária. especialmente no que tange a (. de conseguinte. decorrentes de quaisquer empréstimos concedidos por bancos e por instituições financeiras. ou coisa julgada. a remuneração. 47. é claro que a primazia é das emendas. não se admitindo. Ficam revogados.. sujeito este prazo a prorrogação por lei. 3. Todavia.). Percebemos.)". bem como os proventos de aposentadoria que estejam sendo percebidos em desacordo com a Constituição serão imediatamente reduzidos aos limites dela decorrentes.. Em Estados como o Brasil. ao estatuir.3. 3. a partir de 1° de julho de 1989.3. 3. III . 5° da Constituição de 1988 não nos . ao rezar que "Os vencimentos. sacou de preceitos desta espécie: a) "Art. 3.3. o valor dos precatórios judiciais pendentes de pagamento na data da promulgação da Constituição. neste caso.para rever o passado das pessoas que já encontrou na posição de partícipes de relações consubstanciadoras de direito adquirido.3. de confrontar situações em concreto com os atos de reforma constitucional. em prestações anuais. 25. o equacionamento jurídico da questão muda acentuadamente de foco. ou não.4.3. as vantagens e os adicionais.. de incidência perante as três emblemáticas figuras. inclusive suas renegociações e composições. 27°. pois somente ela. que deve ser recebida em termos ou sob a prudente cláusula do modus in rebus a asserção de que "não há direito adquirido contra a Constituição". c) voltou a mexer no teor da coisa julgada.

da suprema beleza. porém num sentido tópico ou pontual.4. A norma do inciso XXXVI do art.9 3.o primeiro. de pedaço de vida humana objetivada a pedaço de vida humana subjetivada.4. pois já passaram de efeitos objetivos a subjetivos. ou coisa julgada. O que se protege. O dispositivo em tela consigna "uma garantia" (PAULO MODESTO).3. Tudo em homenagem ao basilar princípio da segurança jurídica. já não podem sofrer desfazimento. porque restritamente subjetivo. Continuam. Agora. quem sabe. esse direito assim qualificadamente adquirido será um direito completamente a salvo de prejuízo por lei posterior. Regra em si mesma ou objetivamente protegida contra a função legiferante do Estado. ou sequer derrogação amesquinhadora. em caráter definitivo.6.8. pode ir embora do Ordenamento (por revogação). ou ter a sua carga protetiva quebrantada (por derrogação). O que fica intocável.4. é aquela dimensão da norma geral que passou. então. ou foi expedido o ato jurídico perfeito.3. e.3.10 II . já não é a norma geral. ou de coisa julgada. o corolário será aquele de que falava DOSTOIÉVSKI a respeito do próprio Deus: "Se Deus não existe. no despenhadeiro da barbárie ou da guerra de todos contra todos. por si mesmo. ou de ato jurídico perfeito. eles perdem o referencial da suprema bondade. ou prolatada a res judicata. paralisia. portanto. Ele consagra um tipo de garantia contra a função legiferante do Estado. Note-se bem. com toda ênfase. porque já não faz sentido vedar para os crentes coisa alguma.4. Sejam os efeitos deflagrados imediata e exclusivamente pela norma em abstrato (direito adquirido).4. mas determinados titulares do direito por ela ensejado. é de que ela é uma cláusula pétrea em si mesma. 3. implica dois raciocínios jurídicos: I . ou quebrantamento. sem Deus. agindo este assim no exercício da função legislativa usual como da função reformadora. Não! O que fica imune à retroatividade danosa da nova lei são determinados efeitos da velha regra legal. E tudo é permitido (acrescentamos). pois. mais que isso. sejam aqueles que precisaram de confirmação pela via do ato jurídico dito perfeito. a repercutir no restrito universo de certos atores. ou da decisão judicial que se transformou em coisa julgada. se já não se proclama. Expliquemos. nem ato jurídico perfeito. 5°. mas não é exatamente isto o que sucede com todos os seus efeitos. o que fica a salvo de retroatividade da lei não é o dispositivo sob cuja preceituação nasceu o direito apelidado de adquirido.deixa em desamparo argumentativo.3. então tudo é permitido". enquanto "pedaço de vida humana objetivada" (RECASÉNS SICHES). a existência desse princípio. O que ele proclama é a garantia de que o direito que se adquirir por virtude imediata da lei (direito adquirido. Aqueles efeitos que já se exteriorizaram sob a forma de direito adquirido. gozarão igualmente de petrealidade. nenhum direito adquirido. mas não veicula. . a factualizar-se no processo de aplicação/criação do Direito Objetivo.5. da suprema verdade e da suprema justiça. pois.3. 3. propriamente). Logo.11 3.o segundo raciocínio traduz-se em que os direitos adquiridos. ou ainda de uma decisão judicial em estado de irreformabilidade (coisa julgada).4. A distinção essencial é esta: a norma geral. os atos jurídicos perfeitos e as coisas julgadas que vierem a ocorrer.7. 3. nem mesmo por emenda constitucional. dado que faz parte da relação dos direitos e garantias individuais. íntegros. sobre ser de eficácia completa e aplicabilidade imediata ou não-di ferida. não admite revogação. rolando. ou por reconhecimento de um ato jurídico que se aperfeiçoou nos seus elementos formadores (ato jurídico perfeito). permanentes e identificáveis pelos nomes patronímicos ou nomes pessoais dos seus beneficiários.

se se modificam as leis de zoneamento do respectivo Município. ou industrial. O que vigorava era uma restrição. porque. uma exceção à liberdade núbil das pessoas.2. que a liberdade de contrair novas núpcias estava constitucionalmente cerceada. Por exemplo.4. 3. na matéria 3. por inversão de pensamento: onde tem que deixar de incidir a nova regra geral ou abstrata. mas conserva.renove-se o juízo -. É compreender: onde continua a operar a velha regra geral ou abstrata.4.3. são normas gerais que se interpenetram no tempo. Ou quanto à detenção de certas competências administrativas perante o administrado. para essa norma geral. a que vigia entre nós a respeito do divórcio. no entanto. apenas. Queremos nos reportar a certas restrições diretamente constitucionais àquele tipo de liberdade contratual que não se orna de conteúdo econômico ou mercantil. passível. o que se tem é o fenômeno da "ultra-atividade" relativa da norma geral de que elas derivaram. as prefigurações espocam e trazem à nossa mente outras situações que também parecem não se compadecer com a figura do direito adquirido. Significava. em nosso País. os efeitos que já deflagrou ou ainda está a deflagrar na vida de determinados agentes. Diga-se o mesmo do uso de um automóvel em via pública.3. Ou no que tange à localização de um estabelecimento mercantil. nominalmente identificáveis.12 Enfim. Sem que nenhum dos membros da sociedade conjugal que se desfez pela via do desquite pudesse contrapor à retroincidência da emenda a tese do direito adquirido. Nem por isso deixa de ser direito adquirido. ou seqüencia (conforme o caso).4. Essa ultra-atividade ou ultra-operatividade é apenas tópica ou pontual (por isso que relativa). Outra coisa a lembrar é que o direito subjetivo que se eleva ao patamar do direito adquirido (o adquirido é um plus em relação ao direito subjetivo) pode até não se encontrar em fase de exercício. Logo.4. a saber: . Ou. a qualquer tempo (como veio a suceder. a nova não pode incidir. ou do ato jurídico perfeito. na medida em que adstrita à subjetividade de atores em concreto. Razão pela qual os seus titulares nunca deixam de ser eventuais titulares.4. o que é bem diferente). O fenômeno da ultra-atividade.1.4.4. Uma coisa a lembrar: certas situações jurídicas ativas são incompatíveis com a figura do direito adquirido porque têm a particularidade de nascer mais condicionadas pelos interesses da sociedade do que condicionando tais interesses. como. Em todas as três situações em concreto.4. pois que de direito adquirido não se tratava (não existia o direito subjetivo de não se divorciar .4. Titulares sempre em estado de precariedade.4. continua operando a velha regra. o proprietário de um bem de produção jamais pode se eximir de normas legais quanto a certos modos de pôr o seu bem a render e quanto à fiscalização do Poder Público sobre esses modos econômicos de exercício de direito. 3. Ou ao fato de servidores públicos se encontrarem sob determinado regime de trabalho. com a emenda n° 9/77 à Carta de 1967). de remoção por emenda constitucional. por exemplo. Isto não significava que as pessoas civilmente casadas tivessem o direito adquirido a permanecer privadas da possibilidade de se divorciarem (não há direito adquirido à privação ou à inibição do próprio fazer ou do agir). ou da res judicata. pois o exercício pode ficar pendente de pressupostos. 3. um novo marco temporal se estabelece: ela já não deflagra os efeitos inéditos que estava apta a deflagrar no universo particular de novos atores jurídicos. mas a ausência do direito subjetivo de se divorciar.4. mas sem a possibilidade de se entrecruzar no espaço de movimentação daqueles sujeitos de relações que se tornaram ativas por virtude do direito adquirido.

"o voto direto. quer referentemente aos direitos concedidos por regra constitucional. Malheiros Editores. que tudo aquilo que a lei não esteja habilitada a fazer fica também interditado às emendas. A inclusão das emendas à Constituição no conceito genérico de "lei" 3. por conveniência do respectivo empregador.. ou complementares. porém gozadas até o final do ano subseqüente. II.5. universal e periódico". não como requisitos de obtenção do direito (matéria de outra norma).2. sem que a Magna Carta necessite. etc.4. por exemplo. 3.a própria vontade do titular do direito. prefere a inação.5. Constituição. quer os deferidos por outra modalidade de lei em sentido material).tudo que a lei está habilitada a fazer fica inteiramente à mercê das emendas constitucionais.4. secreto. vol. 3. e a norma igualmente geral que dispõe sobre a implementação de termo ou de condição para a empírica fruição daquele mesmo direito que a primeira norma elementarizou.5. Nada disso! As emendas constitucionais podem tudo que a lei pode e vão além: podem tudo que a lei não pode. "a separação dos Poderes" e "os direitos e garantias individuais" (de cuja relação a garantia dos direitos adquiridos faz parte. "a forma federativa de Estado". Já enfrentamos academicamente a questão. como requisitos do respectivo exercício. II . 3. II . somente será exercitado quando da expressa manifestação do respectivo titular (por isso que tal modalidade de aposentação é chamada de voluntária). impossível! Se a Constituição de 1988 fala a toda . portanto.o aguardo do lapso temporal. quando o Código Político substitui o silêncio pela fala expressa é para dizer o que elas não podem. Ampliamo-los até. convencidos que estamos de que a Lex Legum encerra. é preciso distinguir entre a norma geral que indica os pressupostos de obtenção do direito. uma vez obtido. Melhor técnica legislativa. o ato jurídico perfeito e a coisa julgada"). por hipótese. que. como se dá. 151/161).4. ou seja. estudo publicado no bojo da coletânea DIREITO ADMINISTRATIVO E CONSTITUCIONAL. Elas não podem incidir sobre as matérias clausuladas como pétreas ou intangíveis ou irreformáveis. pp.5.daqui não se deduz. 3. nesta oportunidade. na matéria. Pronto! É esse racional esquema de exegese da Constituição que explica o fato de ela própria.1. com as férias anuais de um trabalhador: são adquiridas a cada ano de trabalho.4. Retornando a lidar com o bloco dos três institutos. ou do preenchimento de certa condição. porque a emenda pode tudo que a Magna Carta reserva para as leis (pouca importa se leis ordinárias.5. sim. como. ano de 1997. Em tema de suas próprias emendas.).I . aduzimos que não tem relevância o fato de a legenda constitucional somente incluir a lei (não a emenda) como norma proibida de retroagir para prejudicá-los ("a lei não prejudicará o direito adquirido. Não há necessidade da indicação desse vínculo entre determinadas matérias e a conformação normativa por via de emenda. Dois momentos inconfundíveis de normatividade abstrata.3. Mas prefixados. e os fundamentos então lançados parecem-nos resistir a contraditas.4. prefixados pela própria norma geral.4. de dizê-lo às expressas. e. Ou como sucede com o direito à aposentadoria voluntária. em parceria com VALMIR PONTES FILHO ("DIREITO ADQUIRIDO CONTRA AS EMENDAS CONSTITUCIONAIS". salvante recair sobre matérias clausuladas de petrealidade pela Constituição. ou delegadas. podendo efetivamente se entronizar no gozo do que é seu.. o seguinte esquema de interpretação: I . entretanto. que. jamais dizer sobre que matérias podem recair as emendas.

quer no tocante à regra permanente que ela venha a embutir na Magna Carta. embora a nossa Magna Carta não fale do descumprimento das emendas como fato-tipo do citado delito. é porque já prescreveu.5. se do seu conteúdo já não fazem parte o direito adquirido. na matéria.5.4.5. insista-se. sempre que a Magna Carta impuser proibição ou simples limitação à faina legislativa do Estado. que permanece formalmente a mesma.4. E o raciocínio é o mesmo: descumprida que seja qualquer emenda constitucional. E a falta de menção às emendas significaria a imprestabilidade delas para obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa? A toda evidência. que a referência à lei.): se a referência constitucional apenas à lei. que pedir o adjutório delas é reqüestar a edição das emendas. ainda ensejam a intervenção da União nos Estados e dos Estados nos Municípios (inciso VI do art.7.hora das leis. a banalização das emendas (que fatalmente ocorreria pela técnica de se dizer tudo que a elas competisse. seja para lhes franquear certos conteúdos. mas aqui mesmo nos permitimos retomar o que dissemos em co-autoria com VALMIR PONTES FILHO (ob. uma vez descumpridas. 85). cit. Remarque-se ainda que a regra-matriz do direito adquirido. Que se entenda. . nenhum mal existe em reqüestar a todo instante a lei porque a banalização da lei em nada trivializa a Constituição. 5°). não! Diga-se o mesmo da norma constitucional que proíbe a lei de excluir da apreciação do Poder Judiciário "lesão ou ameaça a direito" (art. 3. 34 e parte final do inciso IV do art. 59. as conseqüências serão iguais às do descumprimento de lei ou de decisão judicial.9. nem por silenciar quanto às emendas.8. 3. o ato jurídico perfeito e a coisa julgada?14 3.5. Por isso que alcança todos os espécimes legislativos de que trata o art. fosse um abre-te sézamo para a edição das emendas. que já não seria formalmente o mesmo a cada emenda produzida. que. enquanto veículo de imposição de deveres de conteúdo positivo. De revés.4. ato jurídico perfeito e coisa julgada. 35). em tema de direito adquirido.13 3. 3. nas entrelinhas. O raciocínio será retomado no capítulo entrante. não a emenda. em nossa Constituição.4. Fala é da lei e das decisões judiciais (inciso VII do art. que. inciso XXXV). está liberando qualquer delas para interditar o acesso de toda pessoa privada às instâncias judicantes. seja para interditá-los. naquelas matérias que desfrutam de intangibilidade perante a ação legislativo-conformadora do Estado (que são matérias apropriadamente chamadas de pétreas).6. É que a nossa Constituição também só mencionou a lei. E nessa hipótese. pois.5. E interditar as leis não é interditar as emendas. cairíamos todos numa contradição grotesca. São estas premissas que nos permitem compreender que se constitui em crime de responsabilidade o ato do Presidente da República do Brasil que implicar descumprimento de qualquer emenda constitucional. no capítulo "DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS".4. De outra parte. A Constituição não pode prestigiar tanto as suas emendas a ponto de dar a sua vida por elas.5. salvante. quer no tocante à regra simplesmente transitória que venha a aportar. tintim por tintim) acarretaria a banalização do próprio Texto Magno. a aterradora pergunta que se faz é mesmo esta: de que vale o megaprincípio da segurança jurídica. 5°. O mutismo da Lex Legum quanto às emendas é de nenhuma importância hermenêutica. Daí que aceitar a retroação de emenda para desrespeitar o direito adquirido passe a significar a possibilidade de retroação também para o desrespeito às duas outras situações jurídicas ativas. ou negativo ("ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei"). é uma referência ao Direito-lei. é a mesma do ato jurídico perfeito e da coisa julgada (inciso XXXI do art.

3. o reconhecimento da existência de uma lei que nasce para governar as outras leis. E sem outra hierarquia internormativa que não fosse a da lei mais recente. que é de ordem material. ao Ordenamento Jurídico por ele inaugurado. têm que permanecer como irrestritas limitações. estruturar órgãos.4. é a própria base lógica da elaboração do conceito formal de Constituição. 3. Se os demais atos da ordem legislativa pudessem ditar o seu próprio regime jurídico.5. Privar-se-ia da sua característica central de Ordem Jurídica de "supra-infra-ordenação" (KELSEN. 3.2. ainda assim não se cuida de matéria privativamente constitucional. Reconheçamos. a mais importante das limitações impostas ao Estado.5. não podem pelo Poder Público mesmo ser legislativamente supressas. como lei das leis é.5.15 3. Ao contrário.16 3. a garantia de que as outras irrestritas limitações impostas ao Poder Público. isto é. ou pelo critério da especialidade. ou o que não pertence. Seria superior apenas pelo critério temporal ou cronológico (a lei mais nova a preponderar sobre a lei mais velha no tempo). pois as leis de que a Constituição é a lei suprema são as leis emanadas do Estado.5. O único cientificamente prestante.1. impor deveres. a função executiva e a função jurisdicional. no fundo. então.5. o Sistema de Direito Positivo já não teria uma única norma-começo. ou o que não seja. sinta-se que não é exclusivo da Constituição o mister de conferir direitos. enfim. sempre ele) ortodoxa ou unitária. Não é por aí que a discriminação entre ela. uma norma de aplicação dele próprio.5. e os demais espécimes jurídico-positivos pode ocorrer. É. perpetuamente. pela Constituição originária. ou não sejam.1. Essa particularidade que tem a Constituição de operar.2. prescrever finalidades e outros espaços de ocupação normativa. A Constituição como a lei das leis 3. Quais sejam. pois nenhuma norma seria hierarquicamente superior a outra na dúplice dimensão formal e material.1. O exclusivo regime autoditado da Constituição 3. Constituição. pois os espécimes normativos sucessivamente editados não teriam que se reconduzir à unidade formal do primeiro deles: a Constituição Positiva. que é simplesmente esta: somente a Constituição tem a propriedade de ditar o seu próprio regime jurídico. Tem a condição material objetiva de se autoqualificar ou se autonominar como Constituição. A Constituição e seu exclusivo papel de fundar e monitorar o Ordenamento Jurídico .1. Pois somente assim é que uma Constituição tem a força de ditar o seu próprio regime jurídico. Logo.as emendas no meio (inciso de n° I). atribuir competências. ou a da natureza das relações normadas.1. formal e materialmente.5. o Ordenamento já não seria uno quanto ao modus faciendi dos elementos do seu repertório. Mesmo em se tratando de imputar deveres ao Estado e conceder direitos contra o Estado. 3. que o Magno Texto só é realmente magno por cumprir esse papel de dizer o que seja. Tudo isto fica ao dispor de muitos outros atos que a própria Constituição menciona como veículos de normas jurídicas gerais.1. ou por ele recepcionadas. Esta nova disquisição tem que ser a continuidade de uma idéia já vertida para o papel. os atos de jurídica manifestação das três funções básicas do Estado por ele instituídas: a função legislativa. ou sequer atenuadas. O que pertence.

como se desdobrar em comandos necessariamente instrumentais dos seus comandos básicos.2. Não que a Lei Maior venha a prescindir do Ordenamento. O campo divisional da Constituição perante as outras normas do Direito reside unicamente nisto: só a Constituição é que pode fundar o Ordenamento Jurídico e permanecer o tempo inteiro como referencial de todas as outras normas positivas que se integram nesse mesmo Ordenamento.2. porém da Constituição em que se inicia e para a qual se destina. assim. quer os limites positivos.5.7. Subtraia-se da Constituição a exclusividade desse mister de fundar o Ordenamento e manter sob o seu controle o modus faciendi e o conteúdo dos outros modelos normativos.3. devemos insistir no enunciado de que a Constituição Positiva não é Constituição Positiva por se fundar num Ordenamento Jurídico.5. Não teria as outras leis e demais normas positivas sobre o que imperar. tem uma boa parte dos seus desideratos cumprida. tem assegurada a sua contínua aplicação.5.5.3. ou seja. A parte a preponderar sobre o todo. por ser a Constituição a parte que explica e até justifica o próprio todo (visto que o todo do Ordenamento está a serviço. porque. Não! Ela também precisa do Ordenamento.5. em última análise).5. o ortodoxo papel de norma-começo do Ordenamento só faz sentido se a Constituição permanecer dando as cartas no interior desse Ordenamento. Se é próprio da Constituição aplicar limites formais e materiais ao Estado. por conta própria. O método específico da Ciência Jurídica para conhecer o seu objeto deixa de significar. Sem demasia na comparação das coisas.2. porque pelas normas gerais e individuais do Ordenamento é que ela. isto é.4. pois é fato que ela não depende somente da sua própria realidade para cumprir todos os seus desígnios. sem que tais normas possam.6. tanto alusivamente às condutas comissivas quanto as de absenteísmo. isto é.17 3. na exata medida em que isto signifique preservação daqueles traços que dão a ela uma identidade fisionômica. para implicar uma exigência de ininterrupta referência àquela parte do Ordenamento que se chama Constituição. com o seu próprio nascimento. E é mesmo para o cumprimento dessa parte dos seus desígnios que ela dá início.2. traços ou valores para cuja proclamação teórica e persecução empírica a própria Constituição foi elaborada. então. Logo. 3.18 3. a metodologia de trabalho que a torna primus inter pares. Para tanto. De fato. alterar esse regime. Constituição.5.1. A Constituição é também carente do Ordenamento Jurídico. Esta a sua natureza.3. se se deixa ao próprio sujeito limitado a possibilidade de tudo mudar pela via legislativa? Um mínimo de irreformabilidade há de conter a Constituição perante o Estado. bússola e ímã .2. Não teria..2. não de si mesmo. 3. a sua causa formal. e o que sucede? Uma mudança tal de qualidade a ponto de se poder proclamar que de Constituição já não se cuida. A Constituição enquanto fonte. não é tanto pelo conhecimento do Ordenamento que se conhece a Constituição. enfim. 3. ela tem que prescrever o regime das outras normas jurídicas. 3.. quer os negativos.2. ela não teria o que dirigir.5.5. mas pelo conhecimento da Constituição é que se conhece o Ordenamento. à vida do Ordenamento. 3. sem ele. como tornar essa imposição concretamente eficaz. um reclamo de contínua referência ao Ordenamento.2. O Ordenamento Jurídico é que é Ordenamento Jurídico por se fundar numa Constituição Positiva.

cit.3. concomitantemente. os demais espécimes normativos têm que ficar para sempre submissos aos termos em que o Poder Constituinte veio a se formalizar. sozinho. e o Todo retorna a mim. alterar os limites da própria delegação (ob. esse Direito não pode atribuir a si mesmo aquilo que é a própria ratio essendi formal da Constituição: o existir como a norma normarum. um unitário cosmos. por sua conta. segundo o qual o órgão delegado não pode. levante uma pedra e me encontrará lá" (em A SEMENTE DE MOSTARDA. "o cântico dos cânticos". Assim como já no interior da Constituição a briga particular é entre o Poder Legislativo e o Poder Executivo.4. Ainda que o Direito pós-Constituição promane de emenda ou revisão constitucional. pp.a comparação é nossa . Mesmo quando se trate de revisões ou emendas à Constituição. Naquilo que é a própria causa formal ou a ratio essendi metodológica da Constituição.3. É a maior de todas as ênfases do discurso de SIEYÈS.3. a cota de poderes da procuração que lhe fora outorgada pelo seu cliente.à absurda possibilidade de um advogado alterar para mais.5.3. e o Todo vem de mim.5. um só..5. 3. reenviando-os a si mesma. portanto.5. para reverenciá-la. na linguagem religiosa do Antigo Testamento.3. Uma queda de braço com o Poder Reformador. E é nesse rigoroso esquema de supra-infra-ordenação que a Constituição pode fazer do Ordenamento.5. 3. 3. Esse tríplice mister de se colocar perante o Ordenamento como fonte. Mantém o Ordenamento sob tutela.1. Este último a ameaçar de invasão a área de competência daquele. Mudando-se as palavras para melhor transmitir o mesmo pensamento: o Direito pós-Constituição é um Direito sempre enlaçado à Constituição mesma. eu sou o Todo. a lex legum.5. Essa alteração de limites corresponderia . pelo risco maior de ela vir a ser abalroada por ele. 3. II. Queremos dizer: o que dá pleno sentido a uma norma jurídica não é apenas o seu discurso prescritivo.6. Podemos até mesmo dizer que. A norma pós-Constituição não fala sozinha. o inarredável princípio está em que são irreformáveis as normas da Constituição Positiva sobre a própria reforma dessa Constituição Positiva (de parelha com outros aspectos de intangibilidade mais para a frente comentados). 115/116).2. a sua mensagem imperativa em si. bússola e ímã .5. 82). É perseverando no controle de todos os demais espécimes jurídico-positivos. tanto quanto o Poder Reformador tenta descambar. mas um único. que a Constituição impede que cada um desses atos seja um fragmento vocal com pretensão à totalidade. a Constituição bem desempenha nos termos em que JESUS dirigiu aos seus discípulos esta vibrante mensagem: "Eu sou a Luz que está sobre todos. 3. vol. para se manter como permanente referencial do Ordenamento. Ela conversa (graças à .3.3. mas não o libera para crescer inteiramente à solta. para a zona de conformação normativa que é apanágio do Poder Constituinte. A Constituição cria o Ordenamento. a Constituição tem que travar uma briga particular com suas emendas ou revisões.3. Corte um pedaço de madeira e eu estarei lá. como se o Ordenamento fosse uma pessoa incapaz de sair da menoridade. não uma pluralidade de cosmos (oriundos de numerosas e incontroláveis normas-começo). p. Uma folha cujo talo se partiu e ainda assim pretenda sobreviver de sua própria seiva (?). historicamente.

de uma relação que já não está na base da Teoria do Estado de Direito.4. ora para ficar em situação jurídica passiva. por exemplo. o Estado vem antes do Direito. não é outro senão uma autolimitação. pois quem se autolimita. a relação que se passa entre a Constituição e o Estado exprime um outro vínculo operacional. O Direito a preceder o Estado. Estamos no epicentro de uma distinção qualitativa que é a explicação de tudo o mais. enquanto aquela revogação não sobrevém. que sempre mantém os governados em situação de relativa insegurança jurídica. objetivamente. Autolimitação estatal. de toda obscuridade. Que fundamentação é esta? 3.5. ou ele se autocontrai no plano dos direitos subjetivos que opõe a si mesmo (ultrapassando. a imposição de um limite não mais endógeno. tudo transcorre nos meandros da psicologia ou do psiquismo estatal. ora para colocar a si mesmo em situação jurídica ativa (perdoe-se a cacofonia "cativa").6. Se o Estado pode desfazer o Direito. porque fica de fora da relação que passa a estabelecer entre pessoas outras. o embasamento lógico da Constituição é diferente da fundamentação teórica dos demais espécimes jurídico-positivos que. a teoria do Estado de Direito. 3. mas exógeno ao Estado. Este a significar. 3. Ora bem. o Estado gira em torno do seu próprio querer. Relação derivada ou secundária do Estado com o seu Direito. porque elaborada sob fundamentação lógica distinta daquela que prevalece para os demais modelos normativos. logicamente.3. se é que é possível falar de psicologia ou de psiquismo estatal quando se queira referir a um tipo de Direito que o Estado produz para além da autoaplicabilidade das normas que já estão lançadas no próprio lastro formal da Constituição. porque transcorrente entre um Direito que o Estado não cria e o Estado mesmo. não pode.6. O fundamento da submissão do Estado a direitos subjetivos oponíveis a ele mesmo. e sua força mais irrefragavelmente vinculante. todavia.2. 3. no plano político. ou ele nem se auto-expande nem se autocontrai. Direito que o Estado procria. formam o Ordenamento de um povo soberano. mas na base do Constitucionalismo. via de regra. o princípio de que o Estado é obrigado a respeitar o Direito por ele próprio ditado.5. Cogita-se. porque sem nenhum compromisso com a preservação do tipo de Estado até então existente.1. ora para estabelecer relações jurídicas entre os particulares. a cota dos direitos subjetivos alheios consagrados pela Magna Carta). com o tempo. Seja como for. Como também é desse diálogo com o Ordenamento que a norma isolada se depura de toda incoerência. agora.6.19 3.6. Nesse preciso espaço da relação Estado/Direito. Em qualquer das três situações jurídicas. 3. exclusivamente (postando-se ele do lado de fora de tais relações. no âmbito da fenomenologia do Direito: a origem mais depuradamente legítima da Constituição.Constituição) com o todo do Ordenamento e é dessa confabulação com o todo que se extrai a sua definitiva mensagem.6. ou seja. bem pode se autodeslimitar (já o dissemos).3. com ela. por conseqüência). no sentido de . Com efeito. desfazer do Direito. Estes outros modelos de prescritividade jurídica exprimem uma relação do Estado com o Direito que o Estado mesmo cria. Daí a necessidade de o pensamento jurídico formular e implantar.7. e ainda tem a chance de ver preenchidas as suas eventuais lacunas. essa. Ou ele se auto-expande no plano das competências a que se atribui (tendo sempre por calço a Constituição. O fundamento supra-estatal e suprapositivo da Constituição 3.. todavia). no plano jurídico..6. revogando-o.

A se alojar. Falar de rigidez constitucional.3. 3. A compulsão da rigidez formal da Constituição 3. somente por um processo especialíssimo é que pode ser objeto de retomada legislativa pelo Estado. o Poder Constituinte incorpora a compulsão do permanente registro dessa memória.1. b) que tem uma parte dele imune ao cinzel legislativo do Estado. pois o cerne da rigidez está em que o Magno Texto não quer para o seu reprocessamento aquele jeito monocórdio e comparativamente simplificado de se trabalhar com a a lei infraconstitucional. Original. por residir no próprio esquema de reforma da Constituição. Constituição. porque sua fonte suprapositiva continua a mesma. mas o poder-dever de não deixar que sua Constituição venha a cair. o fundamento da autolimitação legiferante do Estado. ainda por cima. no mundo do ser. 3. ainda assim a originalidade permanece.que há um tipo de Direito: a) que o Estado não cria nem pode deixar de reconhecer como Direito.2. isto não é o que sucede com a Norma Normarum. c) que a outra parte. ou seja. Acontece à margem de toda juridicidade. o primeiro título de nobreza da Constituição. É a limitabilidade genética de que antes falamos. o caráter rígido que a Lei Suprema necessariamente ostenta não é outra coisa senão a consagração de um regime jurídico mais cercado de solenidades ou dificuldades para a sua reformulação. sem nenhuma mistura com outra nascente do fenômeno jurídico. o modo pelo qual a Lei Maior dispõe sobre a sua própria reforma é insuscetível de reformulação. firme. é invocar uma noção . 3. por inteiro. a suplantar.7. Se as leis subconstitucionais nascem.4. tornando o Poder Constituinte.7. na vala comum dos espécimes normativos que têm por fonte um órgão deliberativo já de Direito instituído. A compulsão da rigidez é. estável ou outro nome que se atribua ao fato de a Constituição conservar a memória de sua origem exclusivamente política ou suprapositiva. assim. não-coincidente. É essa nova idéia de superação da teoria da autolimitação jurídica do Estado que vai possibilibitar a formação do juízo de que a primeira das cláusulas pétreas só pode ser de natureza formal. 3. Já em termos funcionais. não um singelo poder.6. nasce por um modo comparativamente único e também se altera por uma forma que lhe é exclusiva. 3. portanto. Originário. eis que processada ao nível das ocorrências fáticas ou exclusivamente políticas. em derradeiro exame.7. a ilação a que se chega é esta: o Poder Constituinte incorpora não-propriamente a opção de atribuir à sua obra legislativa um caráter rígido. hirto. modificam-se e morrem pela mesma e monótona forma (o modo de produzir a lei é o mesmo que se observa para a respectiva alteração.6. no particular. ainda que tal insuscetibilidade não conste de dispositivo constitucional expresso.7. com aquele seu próprio modo de nascer. E mesmo no tocante à revogação pura e simples do Código Político (substituição de uma Constituição por outra). Ela. porque tal revogação já não se dá por meios jurídicos ou no plano do dever-ser normativo. assim. que é a parte comumente chamada de pétrea ou intangível. mais que isto. não-pétrea. porque diferente do modo pelo qual os demais diplomas jurídicos ficam pela Constituição autorizados a receber reprocessamento ou reformulação ou recondicionamento.5.7.7. E por compulsão da rigidez só se pode entender um modo de normar sobre a reforma constitucional que permaneça originário e original. ou revogação). 3. Muito bem! Se o fundamento lógico da Constituição é a suprapositividade.

ainda assim.9. Por isso que. eterna. não-eterna. hirta.8. cuidando-se de matéria desprovida de petrealidade. É o caso de se perguntar: e por que a Lex Maxima é assim especialmente cuidadosa. 3. também opere pela fuga do lugar comum das revogações ou derrogações de Direito. A rigidez formal é a marca registrada das Constituições que inauguram o Ordenamento Jurídico de intransigente supra-infra-ordenação e que mantêm esse Ordenamento sob controle de qualidade. pode acontecer ao . Assim como o Rei Midas tornava ouro tudo em que tocava. O fato em si da constitucionalização de um dado campo relacional-humano já se traduz numa fuga ao lugar-comum da regulação jurídica. e por conseqüência imutável. circunstancial e temporal.7.7. temporal e circunstancial. Não se conclua. Ela é pétrea.6. combinadamente. uma Constituição Positiva é mais ou menos firme. particularmente zelosa com suas próprias matérias. A parte da Constituição que é eterna fica imune ao processo reformista. ou reconstitucionalização. uma vez respeitadas as exigências constitucionais de ordem formal. ora uma rigidez mais ortodoxa. tais Constituições. que. ou seja.7. rígida. pois uma Constituição dita flexível é aquela que pode ser reformada pelo mesmo processo instituído para a produção e modificação de uma lei subconstitucional. cuja total flexibilidade decorre da consideração de não ser ela uma Constituição em sentido rigorosamente formal. a ponto de petrealizar umas e estabilizar outras? A resposta é intuitiva. outra.10. Já os fatores de ordem temporal e circunstancial.20 3. Daí que a respectiva desconstitucionalização. sua defenestração do Magno Texto somente se dá por uma nova manifestação constituinte. Mas comporta graduação. entretanto. ou circunstancial. De ordem processual. É o caso da Constituição da Inglaterra. Mas. nenhum ato reformista da Constituição pode ser apresentado. com certos requisitos de iniciativa. a fatores de ordem processual.oposta à de flexibilidade. portanto). Essas dificuldades reformacionais de que tanto falamos dizem respeito. no sentido de que pode ser. durante algum tempo. Não é assim. como se diz aqui no Brasil. Tal rigidez nasce com a Constituição Positiva. a Constituição torna especialmente relevante toda matéria sobre que recai. Daí o discriminar-se. A parte que não é eterna fica exposta aos atos legislativos de reforma. ora menos ortodoxa. estável. a perda do status de tema constitucional. em duas inconfundíveis porções: uma. 3. caso contrário. eles comparecem para traduzir a idéia de que. 3. ou mesmo seu recondicionamento (reconstitucionalização. o reclamo de interstício entre reuniões legislativas de debate e votação final de matéria constitutiva de reforma da Lex Legum). o mais das vezes. ou seja. temporal.7. 3. como de primário saber. venha o Poder Reformador a ficar liberado para submeter a si toda e qualquer relação social. ou discutido (também se diz um requisito de tempo a exigência de intervalo entre uma e outra rodada de discussão e votação legislativa de matéria constitucional. é uma parte da Constituição que se garante com cláusula de estabilidade ou estado de firmeza se confrontada com as matérias constantes de leis outras. porém estável. se a matéria é clausulada como pétrea.7. porque as Constituições consagradoras do esquema de intransigente supra-infra-ordenação acrescem limitações materiais àquelas de cunho formal. assegura a supremacia internormativa do Magno Texto e só desaparece com o desaparecimento dele. ou debaixo de certos episódios.7. no sentido de reclamar a proposta de reforma constitucional um quorum maior de votação parlamentar. isto é. a depender do grau de originalidade que imponha ao seu processo de reforma.

Contudo. 3. a Constituição. 3.3. b) "O definitivo enlace entre a Constituição Federal de 1988 e a Democracia". ou seja.dentre tantas que a Teoria da Constituição implica -. 3. E no plano territorial-externo. Repetindo o discurso. com êxito. povo) e passa a gozar de estima geral como inalienável patrimônio jurídico.nível do Poder de Reforma. no plano territorial-interno.7.7. na medida em que instituidor de uma ordem.2. independentemente do seu conteúdo (tanto quanto o Direito em geral de alguma forma vale por si próprio. que nos parece útil aos fins a que nos propomos. Isto por ser a Constituição a fórmula jurídico-positiva que possibilita ao povo dar a si próprio uma nova Ordem Jurídica e ainda se fazer internacionalmente conhecido como instância coletiva que desfruta de uma soberania mais que virtual. conforme conhecido postulado positivista). o esquema da rigidez. principalmente se nascida nos arejados cômodos de uma Casa Constituinte que teve por alicerce a vontade eleitoral dos cidadãos. Rigidez formal e Poder Reformador.8.8. a Constituição também pode ser vista enquanto modo pelo qual um certo povo proclama. 3. que atingiu o pináculo de sua identificação jurídica. por definição. Nessa medida. assim.8. 3. vela para que nenhum documento com pretensão a "Carta Plurinacional" ou "Constituição Regional" venha a lhe servir de fundamento de validade. único documento jurídico a atestar a . para que nenhuma delas lhe usurpe o trono de rainha das normas jurídicas. Não de um Poder Legislativo comum. 3. justamente. a Constituição mais e mais monitora a elaboração das suas próprias emendas. E é mesmo a concreta aplicabilidade desse processo especialíssimo de dispor sobre matéria constitucional que vai alçar o Poder Constituído à dimensão de um Poder Reformador. E já não tem como arredar pé de sua altaneira posição de documento confirmador de uma soberania que é também inalienável.8. o seu modo constituinte de ser. Assim estimada pelo povo como coisa inalienável dele.1. resolvemos discorrer sobre os dois temas (embora sem reservar para eles nenhuma epígrafe em particular) no âmbito do estudo que reservamos para os capítulos de n°s IV e V desta monografia. Ou de sua plenitude política.12. de si para si. Ainda assim. porque já tentada e consumada. está em que toda Lei Maior que se faz globalmente efetiva opera como atestado formal de soberania nacional. petrealidade e rigidez constitucional dão-se as mãos para possibilitar à Constituição o ganho de duas outras notas de especificidade. independentemente do seu conteúdo. pois o poder de reforma da Magna Carta outra coisa não é senão atuar sob a regência das normas constitucionais originárias que formam.8. a Constituição é tida pelo povo como galardão ou insígnia maior de sua própria independência (dele. O traço final de especificidade da Constituição.8. 3.11. que neste capítulo mesmo poderiam ser assim epigrafadas: a) "A Constituição como garantia de tudo e de si mesma". constituem mais uma necessária parelha temática .5.8. Por esse prisma positivista de análise é que. Esta é uma afirmativa que temos como categórica. 3. em certa medida. O mais formal e o mais solene dos atestados de que um determinado povo experimentou.6.4. por opção metodológica estritamente pessoal. a Constituição termina valendo por si mesma. debaixo de um processo particularmente solene. Em suma. A Constituição como atestado de efetiva soberania nacional 3.

realmente) por elas estruturado. é como a soberania mesma: projeção do poder. Mas o estabelecimento de tais condições vale apenas como imposição factual ou realidade do mundo do ser. externamente. Porque aí.soberania de um povo.21 . fora e dentro do território que o povo conquista com animus domini. por ilação. até que se dê a sua recepção pela Magna Lei de cada povo. O fecho do pensamento. Logo. insista-se.7. assume-se como a Lei das Leis. não reconhece outro Poder ou outro Organismo de que venha a fazer parte senão nos termos por ela mesma previstos. 3. mas pelas boas-vindas que eventualmente lhes dê a Constituição de cada Estado confederado. é este: não se vai cair no romantismo ou na ingenuidade de supor que as "Constituições Regionais" deixem de ditar as condições de participação de cada Estado-membro no tipo de confederação (pois é de confederação que se cuida. internamente. não por merecimento próprio. notadamente à face das suas emendas (a Constituição a cumprir o papel de não deixar que suas emendas cumpram o papel de atestar a soberania do povo).8. sim. os ditames de uma "Constituição" da espécie plurinacional ou cosmopolita ingressam no mundo do dever-ser.

1.4. isto é. por inteiro. são atos normativos que não têm a menor ensancha de livremente dispor sobre o seu regime jurídico. do âmbito de uma genérica teoria da interpretação. A inadequação do termo "Interpretação Constitucional" 4. Seja quanto à sua forma de elaboração. Qual a conseqüência teórica dessa impossibilidade de os atos de reforma da Constituição ditarem o seu próprio regime jurídico? A conseqüência da não-definitiva autoqualificação nem da definitiva auto-hierarquização como norma de Direito. tais atos só podem ser interpretados como veículos formais de normas dominadas. no entanto.2.A Hermenêutica da Constituição Sumário 4.8. Ele não significa a formulação de uma teoria que encerre ou contenha diretrizes para a concreta interpretação de toda e qualquer norma constitucional positiva. A peculiar estrutura conceitual dos princípios constitucionais 4. O modo insimilar de nascer da Constituição como primeira causa de diferenciação hermenêutica 4. 4.3. A Teoria da Interpretação do Direito em geral como antecedente da Interpretação da Constituição 4.4.9. porque destituídas de peculiaridades que as excluam. Os atos de reforma da Constituição (quantas vezes o dissemos?). e não de normas dominantes. E não significa. a merecer o rótulo provisório de "Interpretação da Constituição". As especificidades da Constituição como a razão de ser de uma Hermenêutica diferenciada 4.3. porque a positividade constitucional é um gênero abarcante das normas que aparecem para o mundo do Direito por via da Constituição originária e mais aquelas que aparecem para o mundo jurídico por via dos atos de reforma da Constituição mesma.1. O Direito Positivo como sistema ou ordenamento.1.1.7. E não sendo produzidos por um poder assim virginalmente fático. 4. A imperiosa substituição do nome "Interpretação da Constituição" por "Hermenêutica da Constituição" 4. de se apresentar à Ciência do Direito como produzidos por um poder de fato ou supra-estatal ou suprapositivo. seja quanto ao seu conteúdo e respectivo grau de eficácia. A dualidade princípios/regras como base da nova Hermenêutica da Constituição 4. É ainda dizer: surpreendidos no seu regrado processo de elaboração jurídica. Este o fiat lux da questão. se em normas constitucionais se traduzem. que é a natureza do verdadeiro Poder Constituinte.2.1. Queremos dizer.Capítulo IV . A inadequação do termo "Interpretação Constitucional" 4. A Constituição como sistema ou ordenamento por virtude própria 4. tanto quanto no seu regrado poder de . por virtude da Constituição 4. O modo insimilar de viver da Constituição como segunda e definitiva causa de diferenciação hermenêutica 4. Teoria da Interpretação do Direito em geral. deixam. O tema da interpretação da Constituição exige de nossa parte uma prévia demarcação de conteúdo. O que já significa dizer que.6. Não as segundas.5.1.10. 4.1. que somente as primeiras é que se tornam objeto de uma centrada teoria da interpretação. vistos sob o prisma do seu processo de elaboração e quanto à disciplina da matéria sobre que versam (com a respectiva dimensão eficacial). com esta separação entre normas da Constituição e normas de reforma da Constituição.

No âmbito da Constituição originária.1.2. num seguinte e imediato instante. A Interpretação da Constituição como tema de estudo nos empurra. é que não tem molde ou fôrma a precedê-la. antecede aquilo a que se destina moldar.conformar relações intersubjetivas materiais. sem possibilidade de reversão. O todo da Constituição inicial e respectivas partes. Algo que se faz por ela mesma. O regime jurídico dos atos de reforma da Constituição é um molde que a própria Constituição prepara.6. sim. o que nos caberia formular seriam os cânones presidentes da interpretação de todo e qualquer dispositivo constitucional. pois o órgão que se auto-rebaixa desaparece para sempre dos quadrantes do Direito. A Teoria da Interpretação do Direito em geral como antecedente da Interpretação da Constituição 4. para o âmbito mais dilargado da Teoria da Interpretação (ou Hermenêutica Jurídica em geral). não se pondo na linha de partida do Direito (mas sempre a meio caminho dele). Do que se deduz que nenhum dos objetos a sair do molde possa dar a si mesmo o próprio molde. Repetindo: o objeto a sair do molde não pode plasmar o molde de que vai sair. Nasce de dentro da Constituição para fora e se impõe a todo o Ordenamento. . E sua força impositiva frente às outras normas é.1. 4.7. toda fôrma. É uma qualificação e uma hieraquização que vêm de trás para frente. E como todo molde. 4.5. à espera de que. e não para ela. é o dos demais espécimes de Direito infraconstitucional. por ele. 4. em membros de um Poder simplesmente instituído. múltiplos objetos sejam moldados. 4. É que a Assembléia Constituinte pode se auto-rebaixar para Assembléia Constituída. O seu real paradigma. os atos de reforma da Constituição não se enquadram num esquema de interpretação em tudo e por tudo igual ao da própria Constituição. por que sua qualificação como norma jurídica é uma necessária e definitiva autoqualificação. Mas a Assembléia Constituída jamais pode se autopromover para Assembléia Constituinte. Aquele auto-rebaixamento é uma viagem sem retorno.8. sim.2. que nos parecem necessárias para um claro entendimento da relação primária entre a Constituição e os atos de reforma constitucional.1. assim. enquanto o molde só pode ser concebido como um antecedente. pelo fato evidente de que esta se formou há mais tempo como ordem autônoma de conhecimentos. que. tão-somente. portanto. Ao reverso do que sucede com os atos de sua própria reforma. esta. um a priori.1. formar. pois Constituição em tudo e por tudo eles não são. Somente fica o órgão rebaixado. A Constituição inicial. Há um só molde. desde que figurante da originária redação de um Magno Texto. no particular. por igual. todos eles encartados num processo legislativo que nasce com o originário Texto Magno. como é o caso do Parlamento ou Poder Legislativo. uma necessária e definitiva auto-hierarquização. todo figurino.9. Sob o título de "Interpretação da Constituição".1.1. O objeto ou a coisa a moldar é sempre um conseqüente. Estas noções. tão logo promulgada a Constituição (exatamente como se deu com a Lei Maior brasileira de 1988). recortar. todo molde é algo que nasce com ela. não têm sua importância reduzida pelo fato de as mesma pessoas que formam uma Assembléia Nacional Constituinte poderem se transformar.1 4. 4. só podem ter a sua qualificação e a sua hieraquização como norma jurídica por virtude de algo anterior a eles. necessariamente. ou de fora para dentro. um a posteriori.

é parte dessa Teoria: aquela parte que tem especial serventia para a interpretação jurídica em concreto. A imperiosa substituição do nome "Interpretação da Constituição" por "Hermenêutica da Constituição" .4. Daí para o campo hermenêutico a dedução é instantânea: a Teoria da Interpretação lato sensu nasce bem antes do que a Teoria da Interpretação da Constituição stricto sensu. no fundo. enquanto aquela a significar a busca de noções transpositivas. A comparação temporal entre as duas modalidades de teoria é a mesma que pode ser feita entre as idades do Direito como um todo e do Direito Constitucional em particular. também se enlaça operacionalmente à Teoria do Direito. reservando à segunda o papel seqüencial de aplicar à cognição dessa ou daquela norma de Direito Positivo os enunciados da primeira. Mas não somente com a Interpretação Jurídica é que a Hermenêutica mantém um necessário vínculo operacional.6. dualidade norma/Ordenamento. Diga-se mais: como o centro do Direito em geral era o Direito Privado. Ainda um tanto é de se dizer na matéria. é natural que a Teoria do Direito anteceda à Teoria da Constituição. pelo fato de que mais e mais os doutrinadores insistem na diferenciação entre hermenêutica e interpretação. hierarquia internormativa. É o que ressalta WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO. Não estamos a dizer nada diferente do que isto: se o Direito como um todo antecede à Constituição. de 05 a 10 de maio de 1998. 4.2. lacunas da lei e modos de sua colmatação.2.2 4. porque. Façamo-nos entender com mais clareza.5.2.2.3. Por essa diferenciação entre a hermenêutica e a interpretação jurídica. durante seminário que. por exemplo (que são categorias mentais elaboradas ao nível da Teoria Geral do Direito).2. passam a constituir princípios hermenêuticos a aplicar no empírico processo da interpretação de uma determinada norma de Direito Positivo.8. também natural seria que as coisas acontecessem como de fato aconteceram: os mais vivos contornos da Teoria da Interpretação foram esboçados à luz de um pensamento jurídico marcantemente privatista.7. Hermenêutica. em estudo que principia pela correta asserção de que "Praticar a interpretação constitucional é diferente de interpretar a Constituição de acordo com os cânones tradicionais da hermenêutica jurídica" (primeiras linhas do texto que serviu de roteiro a conferência pronunciada em Aracaju.4. E a esse empírico processo de compreensão é que se apõe o rótulo de Interpretação Jurídica. 4. porquanto aplicáveis a toda e qualquer norma-objeto de interpretação.2. Assim é que noções de validade. 4. os estudantes de Direito da Universidade Federal de Sergipe realizaram em homenagem ao primeiro decênio da Constituição da República Federativa do Brasil). Esta a significar a busca da revelação da mensagem aportada por uma particular norma de Direito.3.2. sabido que este último somente ganhou suas definitivas características a partir das Constituições que se promulgaram nas três últimas décadas do século XVIII. eficacidade e efetividade. Ela. É como dizer: a Hermenêutica é o capítulo da Teoria do Direito que vai centradamente orientar o processo de compreensão dessa ou daquela norma jurídico-positiva. 4. a hermenêutica encerra um conjunto de noções preparatórias da interpretação.2. 4. Por isso que a Interpretação da Constituição tem sido focada como subseção da Hermenêutica Jurídica em geral. antinomias normativas e critérios de sua eliminação. 4.

a Teoria da Constituição tem por objeto elementarizar a Constituição como fenômeno jurídico. de que falaremos a breve trecho. e não para toda e qualquer norma da Constituição originária. Porção que termina por formar pré-compreensões ou pré-interpretações de que se vale o aplicador da Lei Maior (que é o intérprete em concreto) para o trabalho final de apreensão do significado de uma determinada norma de elaboração genuinamente constituinte. aí.4.3. Passa para "Hermenêutica da Constituição".3. Por esse ângulo de visada.3. o finalístico. Sendo assim. Não somente para esta ou aquela específica norma constitucional-positiva originária. III . habitualmente). II .3 4. pensamos que tudo se aclara no bojo do seguinte sumário: I . o que vimos designando até agora de "Interpretação da Constituição" tem que mudar de nome. esta é de menor abrangência no seu campo material de estudo.1. Donde a conclusão de que a operação mental do intérprete segue este necessário roteiro: começa pelas pré-compreensões que a Hermenêutica recolhe da Teoria da Constituição e desemboca na compreensão final (interpretação) de uma norma-objeto. a ilação da dicotomia acima pontuada é intuitiva: ela. O objeto da interpretação constitucional. porque importa colocar em realce que a Hermenêutica Jurídica em geral ocupa um espaço de teorização de obrigatório trânsito pela Hermenêutica da Constituição. porque. exprime aquela porção da Teoria da Constituição que vai propiciar o facilitado entendimento de toda e qualquer norma em particular de Direito Constitucional originário. bem ao contrário.4. a Hermenêutica antecede o isolamento da norma-objeto (norma já positivada nessa ou naquela Constituição inicial) e por isso mesmo passa a valer para todo e qualquer dispositivo jurídico ou texto normativo-constitucional-originário em apartado. o que se tem já é o campo de incidência da Interpretação propriamente dita.2. A Interpretação. 4. portanto). Incompleta. 4. o lógico. destacando-a de qualquer outro diploma normativo ou ramo autonomizado do Direito.3. inserida no contexto de uma particular Constituição originária. É o indescartável espaço dos chamados métodos de interpretação jurídica.Já a Hermenêutica da Constituição. o histórico e o sistemático. portanto. a Hermenêutica da Constituição passa a se diferençar da Hermenêutica em geral. Logo. a saber: o literal. Com o respectivo grau de eficácia.4. porque tem por objeto revelar da Teoria da Constituição apenas aqueles enunciados que sirvam para o concreto labor da compreensão de toda e qualquer norma constitucional-positiva originária. Hermenêutica da Constituição. somente vale para uma dada norma-objeto. E nesse campo específico da Hermenêutica da Constituição. visto que a Hermenêutica em geral serve de instrumento é para a interpretação de toda e qualquer norma de Direito. 4. Mas esta nossa explicação é ainda incompleta. somente. Num esforço de refinamento explicativo.na medida em que existe para aproveitar da Teoria da Constituição apenas aqueles enunciados de especial préstimo para o labor da interpretação de todo e qualquer dispositivo constitucional originário (indistintamente.3. As especificidades da Constituição como a razão de ser de uma Hermenêutica . Com o quê se diferencia da Teoria do Direito ou "Teoria Geral do Direito" (como também se diz. a Hermenêutica da Constituição faz-se de ponte entre a Teoria da Constituição como um todo e a interpretação de cada norma dessa ou daquela Constituição Positiva originária em separado.

nem. Não há demasia na afirmação. trabalhista. Aquilo que singulariza as normas da Constituição originária no contexto dos demais atos consubstanciadores de normas jurídicas é mesmo de qualidade. 4. a exigir metódicos instrumentos de análise também singulares.5. etc. justamente. afunilando ou direcionando as proposições dessa Teoria para a tarefa interpretativa de cada norma constitucional originária em particular. É por se peculiarizar perante o Direito em geral (e como!) que a Magna Lei justifica e exige para si uma metódica hermenêutica também peculiarizada. ou.o da Constituição e o setor do Direito posterior a ela . Não é a partir de técnicas gerais de compreensão do Direito que se vai conhecer aquela parte do Direito que mais explica o próprio Direito (que é. nem com as normas de sua própria reforma. Quase tudo na Constituição é onticamente singular. pelo menos. processual.4. É como dizer: com o surgimento da Constituição (e estamos a falar da Constituição do tipo rígido. A Constituição revolucionou mesmo o pensamento jurídico. Ela nem se confunde com o Ordenamento Jurídico. Parte sem a qual o Direito não poderia ser visualizado como um todo fechado em si mesmo. porém.2.3.).4.diferenciada 4. como explicado no capítulo anterior. Tanto e tanto. a ponto de podermos separar . Com o quê a Hermenêutica da Constituição está para a Teoria da Constituição assim como a Interpretação . precisamente. como realidade tendente a esse fechamento autonômico. a ponto de podermos dizer que a Constituição consegue ser diferente até mesmo da mecânica soma das suas próprias normas.4. sobre a qual os chamados "Ramos do Direito" erguem a sua autonomia entitativa. comercial.1.4. se estamos assim a nos comprometer com o acerto da proposição de que existe uma especificidade hermenêutico-constitucional. a Constituição). se o papel da Teoria da Constituição é apartar a Constituição dos demais diplomas jurídicos (ou o Direito Constituição do Direito pós-Constituição). 4.4. penal. Ainda mais. Logo. Já demonstramos que ela é muito mais do que a diversidade de campos materiais de incidência normativa (campo civil. por fim. qual o primeiro papel da Hermenêutica especificamente constitucional? Dar seqüência ao papel diferenciador da Teoria da Constituição. com a soma linear das normas que formam o seu próprio corpo de dispositivos. por evidente). o papel de mostrar em quê a exegese de uma norma figurante da Constituição originária difere da exegese de uma norma não-figurante de tal Constituição.como estamos separando desde o início desta nossa monografia . é claro que essa peculiaridade exegética só pode advir do fato de ser a Constituição uma realidade normativa que se marca por traços ontológicos próprios. As linhas que se seguem reforçarão os traços da Constituição como a parte do Direito que mais explica o próprio Direito. Não é uma diferença qualquer.que força. 4. a etiqueta e a moral). É de tal monta essa diferenciação entre os dois setores . os vetores da comum hermenêutica do Direito já não tinham como dar conta do recado e por isso é que a doutrina passou a envidar os seus melhores esforços na fixação de novos paradigmas exegéticos ou recursos de uma argumentação propriamente constitucional.4.as normas da Constituição das normas de reforma constitucional. Ora. o pensamento jurídico a elaborar uma dogmática exegética superadora da tradicional. numa perspectiva nova: a demonstração cabal de que é preciso um toque de especificidade interpretativa para um diploma (o Magno Texto) que nasce e vive por um modo absolutamente insimilar.4 4. Se o papel da Teoria do Direito é apartar o Direito das outras realidades normativas (sobretudo a religião.

Uma seqüenciando a outra ou tendo a outra como referencial. com o respectivo grau de eficácia. A interpretação de uma particular norma jurídica não se esgota na revelação da semântica ou significado lógico-idiomático por ela portado. naquilo que ela tem de apropriação dos conceitos que formam a Teoria da Constituição. A Hermenêutica. factual. é a partir do modo pelo qual a Constituição é partejada que se percebe ser ela. E tudo começa mesmo é com a percepção de que só o Magno Texto (não tenhamos receio de incorrer em repetição de juízo) nasce de uma fonte exclusivamente política. Fora da Constituição originária. dentro de um esquema de particularização progressiva de conceitos. exige que se faça exame de validade no momento do empírico processo de interpretação de toda norma que venha a se positivar após a Constituição mesma. do caráter jurídico do ser investigado.1. O modo insimilar de nascer da Constituição como primeira causa de diferenciação hermenêutica 4. para ver até que ponto se dá a compatiblidade formal e material do primeiro à segunda. ou não.5. qualquer outro ser ou modelo prescritivo de conduta que se apresente com as vestes de uma regra jurídica. a primeira via de interpretação é descabida.3. Muito bem. 4.5. e não do mundo das normas.4. outro. O exame comparativo entre o diploma jurídico objeto de interpretação e a Lei Maior. Não! Esse modo de interpretar é aplicável somente a uma dada norma da Constituição originária. É inferir: somente depois de passar por um exame de validade é que o espécime normativo sai dessa primeira via de interpretação para a segunda.5.6. para se avaliar a procedência. Uma fonte ou instância de poder que faz parte do mundo do ser. 4. Ela se "valida" pela efetividade.5. Mas em quê o modo especialíssimo de nascer da Constituição implica mudança de vetor hermenêutico? No seguinte: quando se está diante de qualquer outra realidade normativa. Constituição. Perante as respectivas normas. com os demais atos expressionais do Direito.5. Com efeito. 4.Constitucional está para ela. como se dá. façamos a mais lógica das perguntas: qual a primeira especificidade da Constituição a repercutir no campo de uma métodica hermenêutica diferenciada? Respondemos: tudo o que justifica a dualidade de vetores ou diretrizes hermenêuticas principia pela insimilaridade do nascer da Constituição como realidade jurídico-positiva.5. Se se prefere. Um centro decisório exclusivamente normante. 4.5. ela é aquele pedaço do Direito que menos identidade mantém com os demais. aquela porção do Direito que mais se diferencia de todas as outras. que já é propriamente conteudístico-eficacial. A Constituição não é válida nem inválida. É muito simples o que intentamos dizer.2. No fluxo desta nossa caminhada cognoscitiva. faz-se o uso de dois tipos necessariamente sucessivos de interpretação: um. o que significa percorrer o itinerário inverso dos outros modelos jurídicos: estes somente podem obter o atributo da efetividade depois de obtido o atributo da validade. Não é assim com a Constituição originária. porém globalmente efetiva ou não. agora sim. Hermenêutica da Constituição. 4. e não simultaneamente normante e normado. não-jurídica de deliberação. É para isso que serve a distinção entre a Hermenêutica e a Interpretação da Constituição (entre outras serventias). para se conhecer o conteúdo significante e o grau de eficácia do ser já aprovado pelo primeiro controle de qualidade jurídica.5 4.5. é preciso ainda ver se o documento jurídico de que faz parte a norma-objeto foi (ou não foi) produzido sem mácula processual e também .

É aqui mesmo que devemos fazer a outra decisiva pergunta: e em quê o modo único de viver da Constituição repercute no campo da tópica hermenêutica? Ah! Por vários aspectos! 4. E outra vez por comparação com a figura ímpar de JESUS. a radicalidade operacional é inversa: nenhuma norma constitucional originária. Todas ficam de fora. Nesse plano de radical exame de validade. 4. perante qualquer diploma jurídico (inclusive o das emendas ou revisões constitucionais).6. Já diante da Constituição.6 4. elaborando-a.5. é submetida a exame de validade.9. Ela prossegue pela vida afora do Direito . Ocorre que esse modo único de nascer da Constituição apenas faz sentido se se fizer acompanhar de um modo único de viver. para as religiões cristãs. meio direto ou simplificado de se viabilizar o conhecimento da mensagem aportada por aquele discurso (mensagem. não é a Constituição que principia com o Ordenamento. absolutamente nenhuma. porque: primeiro. e não apenas dentro dele. segundo. Principiemos por lembrar que a dogmática hermenêutica. é o filho unigênito de Deus (pois que gerado diretamente pelo Criador). a maneira de a Constituição fazer parte do Ordenamento é se postando no topo desse Ordenamento.7. E a causa eficiente da exclusão de tal exame prévio é o modo peculiar de nascer da Constituição. O modo insimilar de viver da Constituição como segunda e definitiva causa de diferenciação hermenêutica 4. assim como JESUS.a partir da rigidez formal a que necessariamente se impõe . Mesmo que se trate de norma engastada em ato formal de emenda à Lei Maior. Em suma. que opera pela revelação do significado comum ou dicionarizado das palavras e expressões em que se vaza o discurso jurídico-positivo. 4. pondere-se) é a mesma pela qual entrou: a suprapositividade. diríamos que a Constituição também vive por um modo insimilar.2. 4. Nenhuma fica de fora.com a mesma originalidade que marcou a trajetória existencial do filho unigênito de Deus no meio do homens. a Lei Maior passa inteiramente ao largo do processo exegético ou da empírica interpretação normativa.5.8. Logo.5. mas o Ordenamento é que principia com a Constituição.3. Por mais que nos deparemos com a cerrada oposição de autores densamente qualificados.1. então. convicto estamos de que. genericamente considerada (plano das considerações lógico-jurídicas. e não jurídico-positivas).6. terceiro.o método filológico ou literal. Daí porque opera como um divisor de águas na esfera jurídico-positiva. incorpora os seguintes e englobados métodos de intelecção normativa: I . E já dissemos que o modo de a Constituição Positiva fazer parte do Ordenamento Jurídico é absolutamente único. que outra coisa não é senão o quê da norma . É dizer: sem a intercalação de nenhuma outra instância produtora de norma jurídica.6.6. a forma pela qual a Constituição deixa o Ordenamento ou dele sai (finando-se com ele.se a própria norma-objeto estava autorizada a se dotar do conteúdo e da eficácia com que positivamente nasceu. a Constituição é o único documento normativo que provém do Poder Constituinte por forma direta. e uma soberania de que trata a Constituição já elaborada). 4. o exame de validade formal e material é intransigente: incide sobre todas as normas ali contidas. Não há outra (daí a distinção entre uma soberania que trata da Constituição. tal qual JESUS CRISTO operou como um divisor de águas na esfera mais dilatada de toda a humanidade ocidental (antes e depois dele).

que tem por função eidética procurar o sentido peninsular da norma jurídica. revelando-se. e não o dicionário idiomático em geral). para saber em que essa comunicação consiste. seja para dimensionar com precisão o potencial de eficácia da norma interpretada (tarefa em que avulta a consideração do não-verbal ou das entrelinhas do dispositivo interpretado. Afinal. existe mesmo e não pode deixar de existir um vínculo funcional entre as palavras e o Direito-lei. bifurcado num para quê de ordem prática ou imediata e num para quê de ordem axiológica ou mediata). por constituir a norma-em-si. Estas últimas são palavras-fim. O papel do intérprete. semantica e eficacialmente. Por comparação com o método lógico.9 V . então. mas de toda a lei ou de todo o código de que faça parte o dispositivo interpretado.o método lógico. descambando para o histórico-evolutivo. implicando o conhecimento do pomo factual de discórdia que gerou a necessidade da normatização jurídica. decifrar o meramente verbal da comunicação normativa.10 . reversamente. De todo modo. isto é. palavras que encerram o núcleo mesmo da norma de Direito Positivo. ao reverso. como o próprio instituto jurídico ou a figura de Direito que se procura conhecer. para que a união de cada parte ao todo traga para o Direito a qualidade do todo. quando for o caso. que é a conseqüência lógica do interpretar articulado (cada dispositivo em combinação com os demais. portanto: o método sistemático de interpretação jurídica é o único a possibilitar um visual de conjunto. Logo. empregado para a captação do objetivo ou dos objetivos da norma interpretada (domínio do para quê normativo.o método teleológico ou finalístico.8 IV .o método histórico.o método sistemático ou contextual. da interpretação dita restritiva).7 II . Implica uma releitura. O que significa. principalmente para o efeito do uso correto da interpretação dita extensiva. é ler nas próprias linhas do dispositivo.positiva ou o objeto da relação positivamente instituída. com o seu específico tamanho eficacial). a sua forma causal. é método voltado para o resgate do porquê da jurisdicização da matéria. pois implica a revelação do significado técnico ou propriamente jurídico das palavras de que se venha a compor o dispositivo interpretado e ainda passa por uma obrigatória leitura das entrelinhas ou do não-verbal desse mesmo dispositivo. ainda é preciso considerar as linhas e entrelinhas da própria Constituição Positiva. agora o que importa é ler nas linhas e entrelinhas. III . uma vista panorâmica do material investigado. E o papel da interpretação literal (toda interpretação começa por esse método) é saber que palavras cumprem no discurso jurídico-positivo um mister meramente vernacular (palavras-meio) e que palavras. sua utilidade é a mesma do método literal: buscar a revelação do quê da norma. e não somente a qualidade de cada parte mesma). E se essa lei ou esse Código for de Direito Infraconstitucional. não enquanto ilha. quer dizer. ou. então. Mas a sua utilidade específica permanece igual à serventia dos métodos literal e lógico de interpretação: conhecer e descrever o quê de cada norma-objeto. que é a mensagem-em-si em que ela se traduz. cumprem nesse discurso um mister propriamente relacional ou intersubjetivo. voltado para a reciclagem ou o policiamento do método filológico. então. seja para substituir o sentido meramente coloquial dos signos linguísticos por um sentido propriamente jurídico ou da própria técnica do Direito (e aí o dicionário a que se recorre já é o vocabulário jurídico. porém enquanto península ou parte que se atrela ao corpo de dispositivos do diploma em que se engasta. não desse ou daquele dispositivo em particular. o significado que a norma assume. cuja prestimosidade está em conhecer a origem ou etiologia da norma.

o mais das vezes. para nos valermos de expressão corretamente adotada por JOSÉ AFONSO DA SILVA para a nossa Constituição de 1988. e. ou do código.6. ele passa a ganhar uma qualidade. por hipótese. Longe de querer servir à lei e aos demais espécimes de Direito Legislado. Para logo.4.7. porque. porque a Constituição. e essa fonte primeira (fonte das fontes) é a Constituição positiva. O Direito Positivo como sistema ou ordenamento por virtude da Constituição 4.6. o ímpeto ou a "essência transformadora" da Magna Carta. ao longo da monografia INTERPRETAÇÃO E APLICABILIDADE DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS (Editora Saraiva. 4. Não o contrário. Consideremos agora o seguinte: mesmo quando o método sistemático é aplicado ao Direito pós-Constituição. ou admita constrição de efeitos pela mesma via da legiferação de segundo escalão (normas de eficácia completável e normas de eficácia restringível. E isto se dá pelo fato de ser a Constituição. vê-se que não é no círculo dos quatro métodos iniciais que toma corpo a especificidade interpretativa que estamos a reivindicar para a Constituição. E por que assim acontece? 4. uma peça jurídico-positiva que se orienta por critérios de auto-referência ou de auto-explicação quanto ao seu próprio significado e tamanho da sua eficácia. quando aplicado ao Direito posterior à Constituição. uma natureza.5. outra. a Constituição quer servir é a si mesma. 4. A Constituição prescinde do Direito posterior a ela para se fazer entendida quanto ao significado dos seus institutos e instituições.6. porém. busca inseri-la no todo da Constituição.1. segundo a classificação que pessoalmente adotamos em parceria com CELSO RIBEIRO BASTOS. a Constituição passaria a servir ao Direito-lei.7. uma tonalidade nova. uma interna. encerrada no corpo normativo da Constituição mesma. quando essa mesma técnica da contextualidade é aplicada à Constituição? Fica absolutamente confinada. a derradeira das metas é a primeira das fontes. Afinal. os institutos e as instituições de selo constitucional devem ter a sua conceituação elaborada a partir de elementos encontradiços na própria Constituição. 1982). senão. Por conseguinte. ainda quando a eficácia de suas normas reclame acréscimo de prescritividade por uma legislação de menor hierarquia. É no último deles. a sabenças: todo juízo de validade jurídica só alcança a dimensão de um juízo de validade absoluta (e não apenas relativa) depois que a norma-objeto se mostra compatível com a própria Constituição Positiva.6. é a Teoria da Constituição (mais que a Teoria do Direito em geral) que proclama. e não o Direito-lei a servir à Constituição.6. É preciso ainda que ele mantenha com a Constituição um vínculo de perfeita sintonia formal e material. ou da emenda. É uma sistematicidade de dupla face. 4.4. O seu concreto uso muda de perspectiva. E é para servir a si mesma que ela dispõe sobre a elaboração de todo o Direito posterior a ela. pois. Não tem que sair dos muros ou dos lindes que demarcam a normatividade constitucional originária. Começa pelo diploma jurídico a que pertence a norma e vai em frente: sangra as barragens desse diploma para cotejar a norma com a própria Constituição. etc.7. respectivamente. pois em tema de exame de validade jurídica a meta é a fonte. recicla todo o Direito Positivo e daí toda a Teoria Jurídica. reduzindo. se adequar à lei por ele aplicada. Assim é que não basta a um decreto. em verdade. quando formalmente rígida. Que sucede. o método sistemático é mais abrangente: além de apanhar a norma investigada no contexto da lei. ou seja. A Constituição enquanto base normativa permanente de todo o Processo . de que ela faça parte. externa..

Atos jurídicos. com diferentes palavras.3. para se autoproclamar como lei das leis ou norma normarum. o conjunto normativo de hierarquia máxima. tanto do ponto de vista formal ou processual quanto do ponto de vista material ou de conteúdo e ainda eficacial. é que pode dizer como se deseja primariamente aplicada. é claro que ela tem que dispor sobre a edição das outras normas jurídicas gerais.1. ela é um sistema normativo em si. e cada norma que se seguir . Ora bem. o que faz pela enumeração dos atos normativos que se integram no processo legislativo. a Constituição formalmente rígida é. e somente ela. material e eficacialmente (com a referida suavização conteudístico-eficacial em tema de emenda ou revisão). A Constituição. Constituição. Já em se tratando de outras modalidades de normas de aplicação primária da Constituição.Legislativo 4.7. também dê à luz um Direito que se caracterize por somente absorver aquelas normas que tenham em outras normas imediatamente superiores a devida confirmação (fundamento de validade). Bem. que são atos de imediata aplicação dela própria. esses. Com exclusividade. porque é nessas cláusulas que o Texto Supremo se personaliza ou tem a sua identidade substancial (a Constituição tem os traços fisionômicos das suas cláusulas pétreas). aí o dever da compatibilidade vertical é absoluto: alcança tanto as cláusulas pétreas quanto as destituídas dessa qualificação (desde que se entenda por dever de compatibilidade vertical a não-contradição entre os comandos da legislação infraconstitucional e aqueles insertos na Constituição).1.1. de sorte a impedir que tais atos se tornem ovelhas desgarradas.7. formal. ela é a própria condição lógica da montagem de um Direito Positivo de "supra-infra-ordenação".5. ao nascer. ele fica acentuadamente suavizado: as emendas e revisões só não podem inovar em tema de cláusulas pétreas materiais. que são produzidos por uma forma preestabelecida quanto à indicação dos respectivos editores (órgãos ou fontes legiferantes) e quanto ao encadeado itinerário de formação da vontade legislativa de tais editores. no confronto com as demais regras de Direito Positivo (inclusive os atos oficiais de reforma constitucional).2.1. Para se manter assim hierarquicamente superior. desde que formalmente rígida. Mais: a Constituição cria mecanismos de autodefesa quanto à fiel observância daquele processo e também quanto ao conteúdo mesmo e dimensão eficacial dos atos legislativos que a ela se seguirem. Esse último reclamo de compatibilidade material e eficacial demanda.7. Pois bem.4. Manter sob o seu mais próximo controle todos os atos de elaboração normativo-primária. 4. E isto se dá pela instituição de um "processo legislativo" que recubra os atos jurídicos de imediata aplicação dela própria. a Constituição recicla todo o Direito Positivo e daí a própria Ciência Jurídica. Tem que ser a fonte das fontes normativas ou a lei das leis. Cuidando-se de emenda ou revisão à Magna Carta. 4. o tempo todo. 4. é documento normativo que exibe duas notas distintivas: primeiramente. no entanto. discriminação. depois. por efeito mesmo de sua rigidez formal. pela consideração de que ela. 4.7. formando com ele um segundo e complementar sistema. É sintetizar: a Constituição.7. Vamos repetir o juízo.1. a instituição de um processo legislativo-constitucional (que é formalmente pétreo por definição) e mais o reclamo de compatibilidade material e de eficácia já são suficientes para que a Constituição. É exprimir: cada norma de imediata aplicação da Constituição tem que homenagear a própria Constituição.1. só pode fazê-lo na medida em que se irrogue a força de ditar o regime jurídico de todo o Direito legislado (Direito-lei) que a ela se seguir.

6. Tudo por efeito de uma hierarquia internormativa que deita raízes na rigidez formal que só a Constituição pode e deve (poder-dever) se autoconferir. mediata. cada fonte a jorrar de outra fonte e cada norma jurídica a buscar fundamento de validade material em outra norma jurídica.7. da perdurabilidade . imediata. torna-se automaticamente pétreo. Parêntese fechado. ou seja. outra. quer dizer.1. formal e materialmente. Se instituído pela Constituição. patenteada fica a proposição de que ela. um Direito Positivo tão hierarquizado nos elementos que formam o seu repertório.7. enfim.7.7. A título de parêntese. Uma unidade formal e material de estatuições. E como uma parte da Constituição ainda é absolutamente imune a supressão ou a medida que tenda a tal supressão.1. 4. Constituição rígida. que é a Constituição em si. Está aqui a razão pela qual HANS KELSEN fala desse tipo de Direito Positivo como "ordem normativa de supra-infra-ordenação". a pressupor interdependência de autoridades normativas e ausência de antinomias de comandos.2. O fato em si da rigidez formal já revela o compromisso que a Lei Maior assume com o movimento incessantemente pendular do Direito.2. porque referidos a duas normas superiores: uma.8.2.11 4.12 4. O regime jurídico da rigidez é sempre originário e definitivo. 4. nunca mais o será (a não ser. que falou do Egito como um presente do Nilo. claro. diríamos que o Ordenamento de supra-infra-ordenação ortodoxa é um presente da Constituição rígida). O caráter superlativamente estável da Constituição e suas conseqüências hermenêuticas 4. Um "Ordenamento". por nova manifestação constituinte). Se não instituído. 4. E é por ser assim hierarquicamente superior. por conseguinte. em última análise. ela já está a se categorizar como o segmento do Direito mais infenso a reforma. Um conjunto ordenado. nesta última suposição. não podem instituir por conta própria esse tipo de esquema para uma Constituição que se deslembre de instituí-lo. que é a norma geral de aplicação da Constituição. pois a Constituição forma com as regras infra e pós-constitucionais um só Direito Positivo.1. É por ser formalmente rígida.1.7. o segundo dos sistemas a que nos referimos: o sistema do Direito-com-a-Constituição. averbamos que os atos de reforma da Constituição. tanto formal quanto materialmente. pensamos que a oportunidade é das melhores para também lembrar que outro efeito lógico da rigidez formal é a Constituição Positiva a se assumir como o documento normativo que mais persevera na sua originária formulação. e não uma pluralidade contraditória e fragmentária de comandos (parodiando HERÓDOTO. até o remonte final à Constituição. além de impedidos de tocar no originário esquema da rigidez formal.7. é aquele elemento de estabilidade sem o qual perderia sentido o reenvio de toda fonte e de todo comando jurídico-positivo à positividade do primeiro deles.àquelas de aplicação imediata da Constituição tem que ajustar o seu conteúdo e eficácia a tais normas de aplicação imediata da Constituição e ainda à Constituição mesma.2. Se a Constituição apenas se permite inovar por um processo mais cerimonioso que o das outras normas gerais. Donde os conceitos de validade relativa e validade absoluta de norma jurídica.7. que a Constituição faz do Direito Positivo um todo encadeado de fontes normativas e respectivos comandos. Temos. a ponto de formar com a Constituição um todo sistêmico. que a Constituição é hierarquicamente superior às demais normas jurídicas. Versos de rima dobrada.

tanto quanto as emendas o são). 4. Constituição). pois as emendas constitucionais não se põem como o imediato fundamento de validade das leis (entendidas as leis como normas gerais de aplicação primária da Constituição. Sem o menor propósito objetivo de colocar tais atos de reforma como ocupantes de grau hierárquico intermediário entre a Constituição e as demais normas gerais de sua aplicação (dela. por exame de validade. se hierarquia assim se conceitua é preciso indagar: lei ordinária.7. porque às leis é suficiente a Constituição tal como posta. seja a Constituição depois de reformada. seu ser. Na vertente deste nosso jeito pessoal de colocar os atos de reforma da Constituição no seu devido lugar.2. pois se o momento constitucional é que autoriza o momento legal. o papel da lei não é o de aplicar u'a emenda à Constituição.4. ali. reformada ou não reformada. um dar-se por satisfeito com a Constituição preexistente. Por isso que. ou seja. 8ª edição. Fundamento imediato de validade das leis é sempre a Constituição. ao passo que a funcionalidade da lei é um olhar para a frente. ou revisões. litteris: "Hierarquia. sua razão de ser. mas apenas com a Constituição. ao contrário da lei.2. Esta é que. mas para atualizar a Constituição em particular. Quanto mais analisamos a relação que a Lei das Leis mantém com as suas próprias emendas. no âmbito mais restrito do próprio Direito Constitucional. até porque as emendas não podem refundir o originário esquema constitucional de indicação das normas gerais que se integram no processo legislativo (cláusula tácita de intangibilidade). o Direito Positivo tem na Constituição mesma o seu necessário ponto de frenação ou estado firme. A lei é hierarquicamente inferior à Constituição porque encontra nesta o seu fundamento de validade. dado que lei é instrumento criado pelo Texto Constitucional. Sua funcionalidade é um olhar para trás. elas não existem para renovar o Direito em geral. 4.2. para o Direito.5. seu engate lógico. o que é sutilmente diverso. seu engate lógico. porque a Constituição o cria. em reservado. àquele originário momento constitucional. que é um Direito bifurcado em normas da Constituição originária e normas advindas do Poder Reformador. Malheiros Editores. sua fonte geradora. um refundir a própria norma-começo de todo o Ordenamento. Tanto isto é verdade que o Supremo Tribunal Federal. 4. E sendo assim. a se exigirem ininterruptamente. passando a ter na lei o seu elemento de aceleração ou estado móvel de comandos. Seja a Constituição antes de qualquer reforma. aqui.7. momento vocacionado para a permanência deôntica. mas aplicar a Constituição emendada. pois. inferimos que não existe uma direta hierarquia entre emenda constitucional e lei. em rigor técnico. mais nos convencemos de que se trata de um diálogo em separado. o momento legal sempre se reconduz. . Pois bem. Aliás. por acaso encontra seu fundamento de validade. seu fundamento de validade numa norma superior. sua fonte geradora na lei complementar? Absolutamente não! (em ELEMENTOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL.para a mutabilidade e vice-versa. Momento vocacionado para a mudança. podemos falar nesse instrumento chamado lei. Um e outro momento. entretece com a lei um necessário convívio. E é neste passo que ressoam aos nossos ouvidos os mesmos argumentos que MICHEL TEMER esgrima para evidenciar o sem-sentido da tese que propugna pela existência de hierarquia entre a lei complementar e a lei ordinária. O caso das emendas à Constituição é um caso à parte (como temos ressalvado).3.7. contudo. ao declarar que uma lei é inconstitucional está dizendo: `aquilo que todos pensaram que era lei. lei não era'. é do nosso juízo que os atos de reforma da Constituição não podem manter com a lei um vínculo operacional direto. é a circunstância de uma norma encontrar sua nascente.

4. 4. 4. O Direito que só admitisse os dois referidos critérios da intertemporalidade e da especialidade material como técnicas de resolução de antinomias normativas seria um Direito. pois ele revela um tipo de unidade de sentido que não se obtém sem o reenvio do Direito pós-Constituição à Constituição mesma.7. Com o que as Leis Supremas de cada Estado soberano adicionaram à sua identidade formal (implícita ou por definição) uma identidade material explícita. relembrando que algumas das primeiras Constituições escritas eram tão-somente semi-rígidas.2.7. o pensamento jurídico universal se abriu para a compreensão de que a constitucionalização de toda e qualquer matéria já significava um juízo político de qualidade superior de tais assuntos. Todas estas considerações atestam que o método sistemático de interpretação jurídica recebe decisiva influência da Constituição. Aquilo que faz uma Constituição Positiva ser diferente da que lhe antecedeu e também distinta da Constituição de qualquer outro povo. b) circular. do legislar constituinte e do legislar constituído. mas delas próprias. que tanto recai sobre quem faz a norma quanto sobre a norma feita (processo e conteúdo normativos). ainda que este venha a se elevar à dimensão de um agir reformador da Magna Carta. E com o resgate da unidade de sentido conteudístico dos elementos que formam o repertório do Direito. a cada nova regra-começo no interior do Ordenamento.8. pois inteiramente calçado em tantas normas-começo quantas forem as leis que. pois onde houver critério de eliminação de antinomias normativas haverá unidade de sentido conteudístico.11. Mas um sistema de comandos de outra natureza. pois se contentavam em retirar do Poder Legislativo usual a disciplina das matérias versantes sobre a Separação dos Poderes e acerca dos direitos e garantias individuais. Coloquemos os pontos nos "is" deste subtema. ou seja. na acepção de que. porque subtraídos à faina legislativa do próprio Poder Reformador.7. O campo divisional. . 4. Era o traço complementar da rigidez material genérica. o que se tem já é um sistema de comandos. enfim. Crivo.10.2. 4. porque verdadeiramente pétreos. não em torno da Constituição. o Direito que só conhecesse os critérios da intertemporalidade e da especialidade material como técnicas de resolução de antinomias entre normas não deixaria de constituir um sistema. entretanto. automaticamente.2.7. Com o tempo. porém diferente da espécie piramidal ou deslinear de Direito que se constrói a partir de uma Constituição rígida (norma-começo que não admite outras assim postadas no interior do mesmo Ordenamento). pois não poderia ir adiante dos dois conhecidos critérios temporal e material de resolução de antinomias jurídicas. Com essa modalidade não-formalmente hierarquizada de sistema jurídico (o Direito visto de um ângulo não-referido a uma Constituição rígida).2.9. sim. superarem as outras pela aplicação dos dois multicitados critérios. Se não houvesse a Constituição do tipo rígido.6.1991). o que se tem é uma unidade do tipo: a) cíclico. no sentido de que as sucesssivas normas-começo passam a girar. a ponto de excluí-los.7. 4. a pouco e pouco reforçado com a técnica da expressa indicação de temas super-rígidos.7. no tempo. Daí havermos dito cuidar-se de um método que extravasa os diques do diploma a que pertence a norma interpretada para submeter a mesma norma ao crivo dos comandos genuinamente constitucionais.2.7. a saber: "a lei posterior derroga a anterior" (lex posterior derogat priori) e "a lei geral posterior não derroga a especial anterior" (lex generalis non derogat legi priori speciali). Numa frase. do Poder Legislativo habitual ou cotidiano. por certo que o método sistemático de exegese das normas jurídicas em geral restaria funcionalmente empobrecido.2. um novo ciclo absoluto de normas referentes e normas referidas se constitui.

Elas enlaçam a si outras normas e passam a cumprir um papel de ímã e de norte. Realmente. o que nos cumpre aduzir é patente: a Constituição não faria do Direito em geral um conjunto. pois a relação ou engate lógico de tais atos se dá é no âmbito específico da Constituição. materializada na Constituição com o Direito em geral. Como diria CONFÚCIO. Para sê-lo. a uma outra diretriz.1. .8. um todo congruente de prescrições ela não fosse. redivivo. dele excluídos. os seus comandos são interpontuais. sim. É por ser a Constituição um sistema que o Direito em sistema se transfunde. A Constituição como sistema ou ordenamento por virtude própria 4. 4. Não é por ser o Direito um sistema que a Constituição em sistema se transfunde. o modo de relacionamento internormativo obedece a um outro vetor. materializada na Constituição (antes e depois de cada ato reformador.1. mas que somente se manifesta da Constituição rígida para fora. se. um todo congruente de prescrições. sozinho. Fora da Constituição. 4. Não apenas pontuais. Mas a Constituição consegue ser. e não propriamente do Direito em geral). e não princípios). os atos de reforma constitucional (dado que voltados para a composição daquela primeira unidade sistêmica). todo ele cimentado na rigidez formal e conseqüente superioridade da Constituição. uma unidade sistêmica do tipo formal e materialmente hierarquizado. Noutro modo de dizer coisa igual.9. Dentro da Constituição. Voltando a trabalhar com o modelo cabalmente hierarquizado de unidade jurídica.3. 4. o Direito não é.8. no interior da própria Constituição.4.4. naturalmente.8. a segunda unidade. no sentido de que uma não retira da outra o seu fundamento de validade. insista-se no juízo. Como a precedência operacional é sempre da Constituição. já o vimos. "não pode haver fronde em ordem com raízes em desordem". Da Constituição rígida para dentro. 4. tem que se acoplar à Constituição. entretanto.9. antes.8. Vale dizer: as normas que veiculam princípios desfrutam de maior envergadura sistêmica. já agora ao lado do Direito infraconstitucional. Todas elas têm o mesmo caráter impositivo e a mesma hierarquia. A hierarquia é um dos modos de relacionamento entre normas jurídicas (estrutura). Duas caracterizadas unidades jurídico-positivas então se formam: a primeira unidade. agora sim. Sem embaraço do fato de vir a constituir uma segunda e necessária unidade. o método sistemático ou contextual de exegese muda de perspectiva quando tenha por objeto uma norma originariamente constitucional. Logo.5.9.2. como se dá. a um só tempo. o parâmetro de interação das normas constitucionais originárias consigo mesmas reside é na dualidade temática princípios/regras ou princípios/preceitos (regras comuns são preceitos. 4.8. A dualidade princípios/regras como base da nova Hermenêutica da Constituição 4.8. sozinha (tanto antes quanto depois dos atos de sua reforma).1. ele se orienta por critérios cabalmente hierárquicos. com as normas veiculadoras de simples preceitos. uma unidade sistêmica. pois as normas constitucionais originárias não se relacionam por graus hierárquicos. o hermeneuta já não pode se servir desse tipo de critério.1. Os princípios como normas interreferentes 4.

Cidadania. ou fracamente referidas a outras normas-preceito. se o princípio é daqueles que se definem por oposição a outro.9. com as garantias constitucionais.1. Advirta-se.13 4. ou de outros. diríamos: as normas principiológicas não consubstanciam meios ou providências (estado-pontual-de-coisas). que termina sendo uma relação entre a fumaça dos preceitos e o fogo dos princípios .9.2. diferentemente do que sucede com as normas-princípio. para o alcance de valores. e quando o faz é numa dimensão muito modesta. É raciocinar: os valores que se contêm nos princípios atraem para o seu próprio serviço... Verbi gratia.. que são normas de acentuado recheio fático e não-referidas. Pluralismo Político.2. cada princípio concorre para a significação de outro. ambos têm a mesma dignidade sistêmica e por isso nenhum deles pode ser considerado um subprincípio do outro (e a primeira contraposição que nos ocorre é a do princípio da liberdade de informação frente à intimidade e à vida privada das pessoas naturais). É que as normas principiais consubstanciam ou tipificam valores (Democracia. um deles será o principal e.2.4. Nesse estado-de-coisas é que vão pousar as normas-preceito.14 4. no interior da Constituição rígida. para a sua própria causa. o veto presidencial a projeto de lei. Ele apenas quer traduzir que. Recolocando de forma ainda mais precisa a idéia. República. Dignidade da Pessoa Humana. a dicotomia princípio/subprincípio (como se dá entre o mesmo princípio republicano e o princípio da moralidade administrativa). E os valores são quase sempre dialogantes ou interreferentes. E assim enxergando. que são direitos subjetivos instrumentais de direitos subjetivos materiais). porém. Ter-se-á. no sentido de que "onde há fumaça. secundário.2. quer por efeito de contraposição. conclua-se que é ao influxo de critérios axiológicos ou valorativos que a interpretação sistemática vê a realidade de cada norma da Constituição.). quer dizer.9. Quer por efeito de complementação.2. 4. o princípio da impessoalidade (significando o dever que tem o Administrador Público de aplicar a lei sem incorrer em promoção ou marketing pessoal) é logicamente dedutível do princípio republicano (de res publica). o outro.1. verbi gratia. que o diálogo interprincipial não infirma o significado próprio ou autonomizado de cada princípio dialogante. uma norma preceitual não leva a outra da mesma natureza.4. entretanto. propriamente. se o princípio constitucional é daqueles que tem sua inter-referência marcada por complementação. que faz parte do esquema em que se viabiliza o princípio da Independência e Harmonia dos Poderes).1. Tudo isto assentado. Ordenamento de vinco axiológico versus Ordenamento de vinco hierárquico 4. então. como sucede. um Ordenamento de vinco axiológico. os valores interagem fortemente e ainda são exigentes de um estado-de-coisas ora mais ora menos concreto para a sua realização. Com o que se tem.9. que são fins em si mesmos.3. é óbvio que ele se define por oposição ao princípio da "função social da propriedade". Elas são esses . Ora bem. Separação dos Poderes. de par com o valor que lhe adensa a individualidade enquanto norma. há fogo". 4. isto é. Ao contrário. os atos e fatos pontuais que se verbalizam em cada preceito (por exemplo. com um direito subjetivo perante outro (não assim. A relação entre as duas categorias (princípios e preceitos) é de continente para conteúdo. Já o princípio da "propriedade privada". um Ordenamento de traço hierárquico. mantém a unidade material dessa mesma Constituição. no exterior da Constituição rígida.9.1.9.

É claro que não apenas a Constituição encerra princípios. Com efeito. e assim sucessivamente. Uma unidade material ou de substância. 2). retomando as clássicas lições de KONRAD HESSE sobre a tópica hermenêutico-constitucional: "O primeiro e principal princípio é o da unidade da Constituição. etc. do tipo material ou conteudístico. porém de mais dilargado raio de alcance material (pela sua maior densidade valorativa). são as normas-princípio que fazem da Constituição uma densa rede axiológica de vasos comunicantes.9.2. fincando uma base de coerência material que é o apriori lógico da formulação de um pensamento dogmático.9. assim referido nestes comentários de WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO. expressos em outras normas. Para o eminente catedrático da Universidade de Madri. o valor-síntese. sejam mesmo aquelas veiculadoras de princípios menores ou subprincípios.15 4.9. até chegarmos ao mais alto desses valores.4. Nesse valor constitucional de estatura suprema o jurista espanhol PABLO LUCAS VERDU apõe o rótulo de "fórmula política". p. de modo a que formem um sistema integrado. o qual determina que se observe a interdependência das diversas normas da ordem constitucional. 4. insista-se no fundamento).6.9. a Constituição auto-irroga-se a virtude da unidade sistêmica. Logo. Mas é inegável que toda a principiologia fundamentante de uma Ordem Jurídica se inicia com a Constituição e daí é que se esparrama pelos demais setores do Direito.2. E lá. por eles. que não têm ou quase sempre não têm a pretensão de enlaçar a si outras normas. É uma dualidade que pode estar no outros diplomas jurídicos. Como inegável também é que sem a dualidade princípios/preceitos não há como conceber a natureza mesma da Constituição enquanto rígido modelo de Direito Positivo. exclusivamente.9.2. expresso na decisão fundamental do constituinte. aquela superidéia central de Direito. É subindo dos valores menores para os valores maiores da Lei das Leis.).2. Moralidade Administrativa. 4.3. onde cada norma encontra sua justificativa nos valores mais gerais. `fórmula política de uma Constituição é a expressão ideológica que organiza a convivência política em uma estrutura social'" (texto remissionado. em suma. mas que somente é da Constituição (por ser conatural a ela. cada norma vai buscar a sua justificativa axiológica e a sua raison d'être operacional em outra norma. Em qualquer das duas suposições. E assim de preceito para princípio e de princípio menor para princípio maior. naquilo que PABLO LUCAS VERDU chama de fórmula política. que o intérprete vai revelando o caráter sistêmico ou orgânico dela própria. que está para os demais valores como um dado ponto inicial e fixo no espaço está para a alavanca de ARCHIMEDES. são elas que tornam o Direito uma casa arrumada.2. tem a possibilidade de conferir a todas às suas normas um sentido de ordem ou estrutura. Diferentemente das normas-preceito. É como dizer: as normas-princípio conectam outras normas e assim formam um conjunto que vai possibilitar a própria formulação de um pensamento dogmático ou científico sobre esse conjunto. Soberania Popular. 4. portanto.7.5. em contraposição à unidade concomitantemente formal e material do Direito pós-Constituição. não de hierarquia superior. Daí por que têm a particularidade de irradiar o seu conteúdo exclusivamente axiológico para outras normas gerais. Legalidade. e. sejam as que vimos chamando de preceituais. o exegeta vai encontrar o valor dos valores. o valor-continente por excelência. Dentro da Constituição. além de atribuir unidade axiológica ou . as normas-princípio. bem no topo da pirâmide axiológica (não-hierárquica) da Constituição. sucessivamente. Desenvolvimento.valores mesmos. A tradução formal deles (Federação. 4.

no recôndito de cada princípio mesmo e o atrito se resolve por uma solução endógena de compromisso que leva a Constituição a mudar para permanecer idêntica a si mesma (na medida em que a mutabilidade na periferia do princípio se faz é para robustecer. Por este modo de ver o fenômeno da principiologia constitucional.material à Constituição rígida.1.2. Já a periferia do conceito.). para a imutabilidade. essa é a parte que passa a legitimar todo tipo de alteração constitucional . 4.. dignidade da pessoa humana. 1° e mais o artigo 3°). A parte futura é aquela que vai buscar o seu conceito no modo como o povo passa a sentir e praticar o discurso normativo-constitucional ao longo do tempo. fazendo com que a Lei das Leis ganhe essa possibilidade de se ajustar mais facilmente à irrupção de fatos novos ou a novas valorações de fatos velhos. a operatividade da parte nuclear desse princípio mesmo). moral. familiar.10.) se traduzem numa materialidade ou estrutura conceitual que em parte é atual e em parte é prospectiva. os princípios de que falamos (cidadania. religioso. como é da natureza da vida mesma.10.10. Democracia. a imutabilidade. ou assegurar. A tensão entre permanecer incólume e experimentar alterações ocorre no imo.4. que sai da platéia e passa a ocupar o palco de todas as decisões governamentais que lhe digam respeito. um caminhar para frente. obrigando a que toda mutação da Constituição apenas se dê ao nível das emendas e revisões. portanto. pluralismo político. 4. moralidade. A peculiar estrutura conceitual dos princípios constitucionais 4. econômico. 4. Desde que tal mudança tenha o significado de aumentar a perspectiva de funcionalidade do núcleo mesmo. enquanto a outra. incluímos até mesmo a Democracia como possuidora do referido núcleo que é impermeável a mudanças e de uma periferia permeável. pelo povo e para o povo" (e que foi consagrada pela Carta de Outubro. a possibilidade de mudança. Na periferia. Logo. como deslocamento espacial ou topográfico do povo. venha a rigidez a fazer das normas constitucionais conceitos jurídicos estratificantes. valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.3. 4.10. desenvolvimento nacional. a teor do parágrafo único do art. É que certos princípios (dignidade da pessoa humana. militar. concorrem para impedir que a própria rigidez venha a significar impermeabilidade conceitual dos valores de berço constitucional. O que estamos a enfatizar é que determinados princípios têm uma parte de si como janelas abertas para o porvir. sem necessidade de o intérprete recorrer a elementos de compreensão que se situem no plano do sistema social genérico (sistema político.. combinadamente com todos os incisos do mesmo art.10. isto é. Eles fazem da Constituição um documento processual por excelência e que é o processo? Um seguir adiante. Há como que uma dialeticidade no próprio interior de certos princípios. A parte atual é de pronto formada com os dados-de-compreensão que afloram da própria tecnicalidade constitucional. Naquele núcleo. O núcleo impermeável é aquele que situa a Democracia no rigor lógico da famosa definição lincolniana.10. Com o que os princípios axiais da Constituição operam.. valorização do trabalho.) ostentam um núcleo e uma periferia em sua própria circunferência deôntica. dotando a Constituição de plasticidade para se adaptar à evolução do modo social de conceber e experimentar a vida. ambivalentemente. é uma parte vocacionada para a mutabilidade. Com efeito. segundo a qual "Democracia é o governo do povo. etc. no âmbito de sua própria circunferência semântica. eficiência.5. 1°.. como fator de estabilidade e de atualização constitucional. 4.

a necessidade de alteração formal das normas constitucionais e contornando as dificuldades processuais que são próprias da reforma de tais normas. de tão metodologicamente importante. Por isso mesmo é que preferimos dar conta da matéria no capítulo que vem de imediato. com o nome de "A DUPLA CENTRALIDADE DA CONSTIUIÇÃO E DOS SEUS PRINCÍPIOS". os princípios são os elementos que mais contribuem para dotar o sistema constitucional de uma espontânea flexibilidade ou jogo de cintura (permitimo-nos o prosaísmo da expressão). então. Diga-se o mesmo da Democracia material ou de substância.7. Todos esses princípios. a assimilar toda mudança que signifique proliferação dos núcleos sociais de participação na riqueza nacional e até no saber que se produz nas escolas oficiais. 4. controle e fiscalização do Governo. de sorte a colocar a Constituição em dia com os fatos sociais. . 4.10. Ainda estamos bem longe de explorar o potencial teórico dessa dualidade básica princípios/regras. aqui inseridas as universidades (para repetirmos antigo e sempre atual conceito da Democracia como divisão do poder. Noutra linguagem.formal que venha a se traduzir em descentralização ou desconcentração da autoridade política e em ampliação dos espaços de participação popular na escolha dos governantes e no exercício. promovem a abertura das janelas da Constituição para o mundo circundante. da riqueza e do saber).10.6. que. Atenuando. assim. se tornou a nova base da Hermenêutica da Constituição.

já é antecipadamente qualificada como juridicamente permitida.3. não deixa de embutir nesse rol dos princípios constitucionais instrumentais a interpretação conforme a Constituição e a presunção de constitucionalidade das leis.1.1.onivalentes. portanto. Mas a doutrina norteamericana. seja por complementação. Ontologia e funções dos princípios constitucionais 5. V .Capítulo V . dessarte. exatamente porque prescindentes da lei quanto às suas expressões ou manifestações conteudísticas. 5.3. .4.1. E nesses dois planos da ontologia e da funcionalidade é que as normas-princípio são dotadas de mais elevada estatura sistêmica. e não apenas no interior de um determinado ramo jurídico. pois a conduta humana não-legislativamente imposta. O ser da Constituição e seus valores mais próximos 5. pensamos que eles são basicamente dois: a) o princípio da rigidez formal. Do quanto discorremos no capítulo precedente sobre a dicotomia básica princípios/preceitos.5. que é uma função unificadora. pela clara razão de que operam de ponta a ponta do Ordenamento. 5. Graças à natureza e à funcionalidade dos princípios materiais da Constituição. Ontologia e funções dos princípios constitucionais 5.1. Quanto aos princípios constitucionais de natureza formal.auto-aplicáveis. eles.2. com mais razão.1. Servindo mesmo como perene critério de interpretação de princípios menores (subprincípios) e. b) estabilizam e ao mesmo tempo atualizam a Constituição. III . princípios constitucionais materiais: a) conferem unidade material à Lex Maxima. IV .2. inquestionavelmente. cumpridores de uma função instrumental. A eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica 5. A ascensão dos princípios como supernormas de Direito 5. pensamos avultar a ontologia dos princípios constitucionais materiais como normas: I .1.inter-referentes.1. E que o Direito é maior do que a lei. se considerarmos pelo menos o princípio constitucional de que "ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei" (legado imperecível do constitucionalismo liberal). de regras ou preceitos. A Democracia como o valor constitucional por excelência 5. é que se pode afirmar que norma jurídica é uma categoria maior que regra. Já no plano das funções. A significar. nesta segunda variante. seguida de perto pela doutrina alemã.6. As conseqüências lógicas da Constituição enquanto suma de princípios 5. ou não proibida. 5.5. A identificação de todo o Texto Magno com o seu princípio maior 5. 5. seja por contraposição.8.4. A necessária interpretação restritiva das normas constitucionais sobre o Poder Reformador 5.axiológicas ou consubstanciadoras de valores. dotando-a.autoconceituáveis (no sentido de que seus conteúdos ou elementos de definição já constam da própria Constituição. de um caráter eminentemente dinâmico ou processual. II .1.7.A Dupla Centralidade da Constituição e dos seus Princípios Sumário 5. que a ausência da lei não implica ausência do Direito. b) o princípio da supremacia da Constituição.

3. por falta de indicação conteudística. em matéria de direitos subjetivos oponíveis ao Estado.2. foi preciso que a evolução começasse com a robustez disposional e vernacular de cada princípio constitucional.2. RONALD DWORKIN (cuja distinção entre regras e princípios jurídicos é o que existe de mais recorrente nos dias atuais). era impossível conceituar cada princípio constitucional a partir de elementos encontradiços na própria Constituição. Veja-se que as primeiras Constituições escritas. a autores do porte de um KONRAD HESSE ("A Força Normativa da Constituição".notadamente os materiais -.1 5. Ora. ou seja. foi a da supereficácia das normas-princípio. Essa fenomenologia das Constituições esquálidas não embaraçou a evolução do mais importante país da Common Law (os EUA). que já é uma função verdadeiramente transformadora ou emancipatória. Tudo resultando na supereficácia da própria Constituição. acrescente-se. no bloco dos países constitutivos da Civil Law. somente continham direitos individuais. elas declaravam tais direitos. E foi justamente essa vontade coletiva de embutir nas Constituições regras e subprincípios densificadores de princípios materiais de superior envergadura (axiologica e funcionalmente) que as Magnas Cartas passaram também a normatizar assuntos que até então eram próprios de outros ramos jurídico-positivos. Contudo. É igual a dizer: os dispositivos constitucionais não se desdobravam em subprincípios. ou mesmo em regras comuns suficientes.2. Ainda assim. mas não os garantiam. E só depois da Declaração Universal dos Direitos do Homem (Organização das Nações Unidas) é que as Leis Fundamentais de cada povo soberano foram ganhando uma funcionalidade fraternal (pelo decidido combate aos preconceitos sociais e pela afirmação do Desenvolvimento. mas não se dispunha a dar conta dos direitos sociais (invenção do constitucionalismo do México. com o tempo.2. respectivamente). o modo legislativo de escrever as primeiras Constituições ocidentais era muito parcimonioso. Tinha-se que recorrer ao Direito infraconstitucional.1. 1991) e de um . 5. os princípios eram tidos. mas um produto da História. O que levava à subeficácia da própria Constituição. Assim como o Direito "não é filho do céu" (TOBIAS BARRETO). destarte.2. já nos anos de 1917.6. no plano da eficácia. mormente os fundamentais ou estruturantes do Estado e do Governo. mais recentemente. da Rússia e da Alemanha.5. E do labor de jurisconsultos do porte de um MARSHALL e. A nova práxis ou fenomenologia constitucional-positiva que foi tomando corpo.7.2. Deveras.4. Toda essa mudança de paradigmas no âmago das Constituições filiadas ao sistema romano-germânico do Direito muito deve. os princípios jurídicos não surgiram de uma noite para o dia. A ascensão dos princípios como supernormas de Direito 5. graças à atuação normativamente integradora e até inovadora da Suprema Corte de Justiça americana.5. porém a excessiva economia de dispositivos e até dos vocábulos em que tais dispositivos se vazavam impedia a indicação dos conteúdos de cada norma principiológica. como subnormas. 5.2. 5. 5.2. 5. Princípios expressos havia . Eles foram evoluindo com o próprio tamanho das Constituições e a forma jurisprudencial-doutrinária de interpretá-las. do meio ambiente e do urbanismo como Direitos Fundamentais). 1918 e 1919. Passaram a garanti-los. possível não era a conceituação de cada qual deles. ao lado da crescente constitucionalização do Direito infraconstitucional. naquilo mesmo em que a Constituição mais devia reluzir: a sua principiologia.2. E sem se conhecer o conteúdo ou os conteúdos de cada princípio constitucional.

5. uma relação de inerência: ele é ela mesma.4.2 5. É de conveniência didática a repetição: caso extirpado do Magno Texto o valor . Em síntese. a "fórmula política" de VERDU outra coisa não é.2. A sua quintessência. 5. Esse movimento ascensional-interno tem um compromisso racional com um dado ponto de chegada. tanto quantos os princípios passaram a ocupar a centralidade da Constituição. ou o gene do qual decorrem os mais vivos traços fisionômicos dos demais valores constitucionais. o valor-síntese da Constituição. Por um desses fenômenos desconcertantes que timbram a trajetória humana. pois o fato é que o reconhecimento da força normativa dos princípios coincide com o reconhecimento da força normativa da Constituição. mais que uma relação de pertinência.8.3. 5.3. O que já significa dizer: caso extirpado da Constituição.3. E se aos princípios era recusado o status de verdadeiras normas. agora eles se elevam ao patamar de supernormas de Direito Positivo.3. Sendo que ALEXY foi quem retomou os fundamentos de RONALD DWORKIN para evidenciar as diferenças qualitativas entre normas veiculadoras de princípios e regras portadoras de simples preceitos. para nós.2. ele. É que o valor-dos-valores. 1977). ela mesma é ele. O valor-continente por excelência. à sua dignidade formal a Constituição adicionou uma dignidade material.ROBERT ALEXY ("Teoria de los Derechos Fundamentales".1. Aceita que seja a dicotomia princípios/preceitos como da essência das atuais Constituições do tipo formalmente rígido. E assim recamada de princípios que são valores dignificantes de todo o Direito. Esse valor-teto. 5. Por ser o valor constitucional primário (gene). um novo salto de racionalidade já pode ser intentado: aquela característica do movimento ascensional-endógeno de fatos para valores e de valores de menor porte material para valores de maior envergadura igualmente material (tema do capítulo anterior) termina por fazer da Constituição algo plenamente identificado com o seu princípio de maior abrangência. estava criado o clima constitucional propiciador da dicotomia básica princípios/regras (ou princípios/preceitos) e o fato é que. foi justamente pelo seu caráter principiológico em novas bases que elas passaram a se dotar de supereficácia normativa. se as Constituições padeciam de subeficácia pelo seu caráter principiológico.3. Aquilo que a Constituição é. inelutavelmente deflagraria sobre a quase totalidade dos demais valores uma mudança qualitativa de tal ordem que chegaria às raias de um mortal efeito dominó. é que ela passou a ocupar a centralidade do Ordenamento Jurídico. senão o próprio ser da Constituição. 5. 5. Estrada de mão dupla. que dentro da Constituição não conhece outro que se lhe iguale em importância funcional-sistêmica. ambos da Alemanha. que mais e mais insistiram na metodologia hermenêutica de reconhecer à Constituição o máximo de aplicabilidade por si mesma.9. acima de tudo.5.3. Isto porque o auto-impulso axiológico da Magna Lei de um patamar inferior para um patamar superior não é de se perder no infindável. A identificação de todo o Texto Magno com o seu princípio maior 5.3. que é o valor para além do qual não pode haver outro senão já totalmente situado no mundo das coisas metajurídicas.2. valor-síntese. esse princípio dos princípios mantém com a Constituição. é precisamente aquele cuja existência é a principal justificativa material de quase todos os demais valores. num crescendo que chega à superforça de ambas as categorias.

em essência. 1° da Carta de 1988) e em toda cláusula pétrea explícita da nossa atual experiência constitucional (incisos de I a IV do § 4° do art. mas sempre u'a minoria) para fazer prosperar o que se tornou símbolo de status civilizatório: o princípio majoritário. o povo a sair da passiva posição de espectador para a ativa posição de ator político. concomitantemente. seja por forma indireta ou representativa. E Democracia. 5.ungido. e.4. que é o mundo das evanescentes lembranças do que já existiu. pois. sendo o princípio dos princípios o próprio ser da Constituição. praticamente nada restaria.que não fizesse da Democracia a alma da Constituição por ele promulgada. a simbolizar que ele mesmo é quem escreve a sua história de vida político-jurídica e assim toma as rédeas do seu próprio destino. que da platéia passa para o palco das decisões que a ele digam respeito.2.3. Incorpora-se ao passado. no inequívoco sentido de troca de lugar ou mudança topográfica do povo. 3º do mesmo Diploma Fundamental.4. a começar pela mais importante das decisões coletivas. sobranceiro. pois. tudo o mais vai lhe faltar. É do nosso pensar que o ser das Constituições ocidentais.3. Além de justificar em todo o art. reserva para si o poder de selecionar eleitoralmente os governantes. a sua extirpação implicaria o absurdo de apartar a Constituição de si mesma.4. ou dos mais patrimonializados.que é a própria síntese da imensa maioria dos demais. ou dos mais hábeis em curas médicas ou pregações religiosas.5. A Democracia como o valor constitucional por excelência 5. nunca deixa de dividir com eles algumas funções de governo e ainda passa a controlar o modo pelo qual tais . à frente de toda a principiologia constitucional? Vejamo-lo. Deixa de ser resignado objeto de formal produção normativa de minorias (retratadas. de cujo casamento por amor resulta o ansiado Estado de Justiça. ao menos daquelas nascidas do ventre de uma Assembléia Nacional Constituinte. É como dizer: faltando à Constituição o seu próprio ser. desse mesmo Texto. isto é.4. é o nome que assenta para o fenômeno da subida do povo ao podium das decisões coletivas de caráter imperativo.4.4. Tanto na Democracia formal quanto na material. a começar pela feitura da própria Constituição. ou dos mais "cultos". Democracia. em rigor. Da mesma Constituição já não se cuidaria. Ou o caráter holístico de tais Constituições. Ora. 5. esteja na Democracia. do que já se despediu da vida. da Constituição em sentido material). ou dos mais velhos. 5. pois a Constituição deixa de fazer parte das coisas presentes. 5. Por que não repetir? Se o princípio por excelência é o que mais repassa a sua materialidade para os outros. que é "a decisão política fundamental" (locução de que se valia CARL SCHMITT para falar do ato de vontade gerador da Constituição e. portanto. Por isso que ele transluz em cada um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (incisos de I a V do art. Mas que valor-continente é esse? Que nome dar a um princípio que se coloca. esse megaprincípio é o da Democracia. quem tem a força de subir ao podium das decisões coletivas de caráter imperativo.1. com o tempo.6. de imediato. assim no Estado Democrático de Direito como no Estado de Direito Democrático. seja por forma direta ou participativa.4.3 5. expresso na idéia de que a maioria do corpo eleitoral de um País é quem faz o Direito comum a todos. o que mais se faz presente na ontologia dos demais princípios. pela casta dos mais valentes. 5. ou dos mais "nobres". na pia batismal do mais límpido voto popular . ou seja. no curso da história humana. É exigência da verdade o dizer-se que nos países do Ocidente não se conhece um só colegiado constituinte de livre investidura eleitoral . 60 da mesma "Constituição-cidadã").

Chegando-se a este patamar de intelecção. a partilhar com eles o exercício do poder de criar o Direito e a acompanhar. O mérito de domar o poder e assim torná-lo serviente do Direito. É certo que o teor de autenticidade democrática varia de cada experiência constitucional-positiva para outra.5. 5. Passagem ideal de uma situação de democracia do Estado (no interior dele) para uma situação ainda mais abrangente de democracia na intimidade de todo o corpo social.e não apenas dúplice . a Democracia. em um ritmo ora mais lento. portanto. para valorizá-las. nos marcos da Constituição.4. a democracia não está isenta de defeitos. no sentido de que: a) enquanto processo ou via de formação e deliberação de norma jurídico-primária (Democracia Formal). ora mais rápido. ser a Democracia um fluxo ou movimento ascendente do Poder (visto que parte de baixo para cima e não de cima para baixo). b) enquanto fim ou objetivo de toda norma jurídico-primária mesma (Democracia Substancial). 5. que. Com o requinte de muitas vezes clausular como pétreos aqueles valores mais próximos do centro . para limitá-las perante as respectivas bases. mais e mais serve de condição para que o Direito se caracterize também por uma vertente popular. ora direta. com a virtualidade de atuar ao mesmo tempo: a) nas bases do corpo social e das próprias instituições públicas e privadas. Mas o fato é que nenhuma Constituição ocidental.6.10. da produção e execução do Direito) e uma coloração material (compromisso das normas jurídicas gerais com a defesa e promoção dos indivíduos e daqueles que só podem ser concebidos como parcelas do todo social). E aí já se pode falar de Democracia.8. não é difícil perceber que a Democracia é o único valor que perpassa os poros todos da axiologia constitucional (valor subjacente a tudo o mais). como o regime pelo qual o povo passa a eleger seus governantes.4.4. o modo de execução desse mesmo Direito. com o transcorrer dos anos. tanto quanto os princípios constitucionais estão no centro da Constituição e a Constituição está no centro do Sistema Jurídico. Assim incorporando uma dimensão processual (modo pelo qual o povo participa. 5. popularmente votada.4. Com o que passa a regime político de irrespondível superioridade sobre qualquer outro já experimentado (como a licitação e o concurso público. acima de tudo. sejam quais forem os conteúdos dessa leis.4. b) nas cúpulas do poder estatal e até mesmo das instituições privadas.7. Que o fechamento deste tópico seja a afirmação de que a teoria constitucional já dispõe de todos os elementos lógicos para reconhecer até mesmo uma tríplice . de sorte a desenhar nos horizonte da História o altaneiro perfil da Democracia Substancial ou "Estado de Direito Democrático" (a Constituição portuguesa de 1976 bem o diz. deixa de dizer que está a reverenciar.9. de manifestação da própria consciência humana. a Democracia ganha a suprema virtude de legitimar por todos os ângulos o Poder. 5. criticamente.governantes se desincumbem do mandato ou do papel institucional que lhes é confiado.falemos assim . ora indiretamente.4 5. É a chamada Democracia Formal ou Estado Democrático de Direito. Que fique assentado. O ser da Constituição e seus valores mais próximos .centralidade: a Democracia está no centro dos princípios constitucionais. compreende e legitima a produção em si de todas as leis em sentido material. 5. nominalmente). porém nenhum povo conseguiu vivenciar algo melhor).da circunferência democrática. incorpora a positivação de valores que se marquem por uma densa vertente popular (tanto no campo institucional como na área das franquias individuais e dos direitos sociais).

eles passam a gozar de uma posição intra-sistêmica do mais alto relevo. como advertiam LOCKE e MONTESQUIEU. concebemo-los como os principais conteúdos ou as principais manifestações dela mesma. Em linguagem figurada. ao lado das cláusulas pétreas materiais expressas. pois toda interpretação normativa que os confirmar será uma "interpretação conforme a Constituição".5 5. a dedução flui no mesmo passo: a democracia postula mesmo a distribuição do poder político por um vetor complementar.3. ou seja.4.se se intenta colocar no cerne da reflexão jurídica a figura mais abrangente da . 5. é pela imperiosa razão de que tais fundamentos são os pressupostos mesmos ou o a priori lógico da construção e balizamento de todo o Estado brasileiro. o visual do todo inda mais aclara a visão de cada parte. Esses valores mais próximos do núcleo da circunferência democrática têm nas atuais Constituições de Portugal e do Brasil uma indicação mais precisa. Ilustremos com a própria Lei Maior de 1988: I . Esses valores mais próximos do centro da Democracia. Se o visual interligado das partes projeta a imagem do todo. É preciso intuir com essa força de gravidade do ser da Constituição. "voto direto.se tomarmos por referência a Federação como forma de Estado. não territorial. Também assim no § 4° do art.1. secreto. sob as denominações de "forma federativa de Estado". porque ele é uma porta aberta para a compreensão de cada parte da Lei das Leis e de todo o conjunto normativo-constitucional. III . especifica ou topicamente revelado nos valores que tais. é preciso ratear o poder político entre os órgãos estruturais de uma mesma pessoa político-estatal em bases tão independentes quanto harmoniosas. vamos encontrá-los expressamente citados nos incisos de I a V do art. II . os fundamentos da nossa República Federativa são os cromossomos nos quais se contêm os próprios genes ou suportes materiais da hereditariedade estatal brasileira. 60. autonomia governamental recíproca e indissolúvel atrelamento a uma terceira pessoa estatal abarcante de todas elas.5. "valores sociais do trabalho e da livre iniciativa" e "pluralismo político". com os nomes de "soberania". portanto. E sendo assim.5. Entre duas interpretações possíveis de uma norma constitucional. "cidadania". universal e periódico". estamos a lidar com "fundamentos" que outra coisa não são que princípios antecedentes a tudo mais que signifique nova montagem e funcionamento do Estado brasileiro em termos republicanos e federativos. uma interpretação conforme o ser da Constituição. perceberemos que ela tem a sua mais funda justificação no fato de a Democracia incorporar um ingrediente de divisão espacial do poder político. "dignidade da pessoa humana". Aquilo que se põe como justificativa prévia e explicação final da arquitetura estatal que substituiu o modelo autoritário da eufemisticamente chamada "Revolução de 1964". como anteriormente falado. como tantas vezes dito). Se estamos a qualificar os fundamentos da República Federativa do Brasil como elementos conceituais da Democracia. Vale dizer. mas orgânico. deve-se prestigiar aquela que melhor assegure a eficácia do princípio que mais proximamente esteja do ser da Constituição (e tal ser é a Democracia. 5.5. Logo.5.5. "separação dos Poderes" e "direitos e garantias individuais".2. na acepção de que o povo nacional tem o poder de se decompor em unidades territoriais que se caracterizem pela personalização jurídica.se o pensamento se volta para a instituição do princípio da Separação dos Poderes. Escolhendo a do Brasil como paradigma. pois o contrário é seco autoritarismo ou ditadura do Poder preponderante (sempre o Poder Executivo). 1°.

não há concreta vivência dos direitos e garantias individuais sem o desfrute de franquias trabalhistas que possibilitem ao trabalhador e respectiva família um auto-sustento econômico. E por detê-la. transporte. associação. Passar ao largo de controle estatal como condição de respeito a uma dignidade que não tem outro fato gerador que não a humanidade mesma que mora em cada indivíduo. realmente. por hipótese. Foi o ponto de compreensão a que finalmente chegou o nosso constitucionalismo. entenda-se). mas algo à parte. Daí também o necessário vínculo entre os direitos e garantias individuais e a Democracia. IV .República. preferência sexual. locomoção. somente eles podem escolher. de que serve o direito individual de inviolabidade domiciliar. eleitoralmente. conjuminadamente. e até se plenifica pela idéia de uma partilha direta do poder político entre governantes e governados. Se não há Democracia sem a devida observância dos direitos e garantias individuais (veículos formais do princípio da dignidade da pessoa humana. é no reconhecimento de cada indivíduo como um microcosmo que se intui com o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana (inciso III do art. da Ordem Econômica e da Ordem Social de que trata a Carta de Outubro. Noutra forma de expor as coisas. pois a proclamação de tais direitos e garantias é o reconhecimento formal de que todo ser humano não é somente parte de algo. quem os represente no papel de definir o que seja melhor para todos e como operacionalizar tal decisão (logo abaixo da Constituição.6 IV . Daí o vínculo funcional entre a dignidade da pessoa humana e os chamados direitos e garantias individuais. de novo a justificativa para a positivação da matéria se encorpa. Não apenas parte de um todo. vai-se notar que o laço entre eles e a Democracia é igualmente umbilical. e. E que tais representantes só podem permanecer como representantes do povo por um determinado período e debaixo de uma responsabilidade político-jurídica de caráter pessoal. -. também expressamente arrolados como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. todo ser humano deve passar ao largo de controle estatal (não é de contenção do poder estatal que primeiro vive a Democracia?). etc. Donde se falar de convivência com os contrários ou respeito às minorias. seja até mesmo o conjunto da sociedade) àquelas inatas diferenças de cada indivíduo. educação. etc. Sendo assim.se o eixo do pensamento especulativo já se volta para o rol dos direitos e garantias individuais. religião. saúde.pensamento. pois Democracia. repita-se) e um dos mais palpáveis conteúdos da Democracia. trabalho. cada indivíduo é por natureza diferente dos demais e no que toca à experimentação de sua natureza em certas áreas de atividade . 1° da Constituição brasileira de 1988. mas um todo à parte. a par de outros conteúdos.enfim. no sentido de que são os governados que detêm a propriedade da coisa pública ou a titularidade dos interesses gerais. se adensa. se o indivíduo não ganha sequer o suficiente para alugar uma residência? E o direito igualmente individual do sigilo da correspondência epistolar. a toada não muda se o alvo desse tipo de análise teórica se deslocar para "os valores sociais do trabalho". não pode deixar de se traduzir em respeito do todo (seja o Estado.). se a pessoa vive "debaixo da ponte" e a ponte não se presta como endereço oficial de ninguém? As prefigurações pululam em nossa mente e nos lembramos de que até . constituindo-se mesmo numa totalidade em si. E conteúdo tão palpável que nos parece verdadeiro afirmar o seguinte: o próprio entendimento do que seja dignidade da pessoa humana depende de um ar de liberdade pessoal e de pluralismo ético-ideológico-religioso que somente se respira em atmosfera democrática. ao lado dos direitos sociais à habitação. ou da comunicação telegráfica. pois.

O voto popular que a Lex Legum de 1988 teve em mira acautelar de danos foi o voto popular "direto" e mais que isso: também o voto popular "secreto". Somente se comprometeu com os direitos e garantias genuinamente individuais (em razão do mais direto vínculo entre estes e o princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. contudo. Fechamos o parêntese para tornar a falar de Democracia. Pois bem. brigar com a razão. o voto popular "universal" e o voto popular "periódico". apenas falar do voto popular e dos direitos e garantias individuais como cláusulas pétreas materiais expressas? Como temas insuscetíveis de se tornar objeto de emenda tendente à sua abolição? 5. o sentido protetivo da Constituição foi de alargar os aspectos do voto popular que ficariam sob o guarda-chuva do § 4° do art. Segunda resposta: também em rigor. É possível e até provável que a plena compreensão da Democracia não seja um a priori lógico. O que ela quis elucidar é que não basta manter incólume de emenda constitucional a abolição do voto popular.5. Todavia. o que a nossa Lei Maior quis deixar acima de qualquer dúvida não foi a irrevogabilidade do voto popular. entenda-se). Pois é assim por via indireta que os direitos sociais de índole trabalhista. no campo dos direitos e deveres individuais e coletivos houve estreitamento.5. Tais direitos e garantias foram regrados de mistura ou mescladamente com deveres e também com a realidade das pessoas coletivas. os direitos e garantias individuais dispensariam expressa dicção como cláusula pétrea material.7. renove-se o juízo).8. de modo a compor o capítulo que tem por designação vernacular "DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS" (CAPÍTULO I DO TÍTULO II. a pessoa for obrigada a zanzar por aí feito barata tonta. pelo fato de ele já estar contido no primeiro dos fundamentos explícitos da nossa República Federativa (esse fundamento explícito é "a soberania"). 60. Um parêntese: qual a razão de a Lei Maior de 1988. pelo fato de a Constituição não conter nenhum capítulo ou segmento normativo com o nome "Dos Direitos e Garantias Individuais".5. passam a compor um dos conteúdos do regime democrático. o vínculo operacional direto entre o princípio da dignidade da pessoa humana e os direitos e garantias individuais ficou prejudicado em sua clareza redacional. por falta de uma casa para morar. Logo. a fim de lembrar que em nenhum momento nos comprometemos com o juízo de que a sua idéia completa já anteceda à jurisdicização dos institutos e das instituições que nela teoricamente se contêm. de fora a parte os princípios da forma federativa de Estado e da Separação dos Poderes. É possível e até provável (insistamos nas duas palavras) que a Democracia passe primeiro pela consciência antes de chegar .5. Contudo. de proceder a um enxugamento ou depuração temática e por isso é que deixou de fora da tutela petrealizadora tudo que não portasse consigo a logomarca de direito ou garantia individual (mas somente nos marcos do capítulo versante sobre os direitos e deveres individuais e coletivos. Sabido que a compulsão do perambular já não se coaduna com a idéia de liberdade.7 5.mesmo o direito individual da liberdade de locomoção perde toda substância se. Cuidou. 5. sem. Mas para tornar a falar de Democracia. isto é. 5. Primeira resposta: em rigor.5.9. então.5. porquanto já embutidos na locução "dignidade da pessoa humana". o Constituinte de 1988 não quis petrealizar os deveres individuais e coletivos nem os direitos e garantias de natureza coletiva. albergados pela Constituição. Seja algo que supere a própria razão. este último sob a denominação "DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS"). se no campo do voto popular houve alargamento protetivo material. o voto popular não precisaria de expressa menção como cláusula pétrea. 5. Com o que seguiu metodologia oposta à do voto popular.6.

justamente. no exercício e no controle do Poder. ousamos verbalizar uma idéia certamente vocacionada para a formação de controvérsias no plano científico. que somente começa com a dicotomia básica dos princípios e regras. E quais os corolários dessa posição de liderança internormativa? Desse papel eminente dos princípios no interior da Constituição? 5. da a-racionalidade (que é o plano da consciência ou do espírito. assim. A consciência a ver as coisas primeiro do que a razão.5. No seu interior. As conseqüências lógicas da Constituição enquanto suma de princípios 5. que é uma via necessariamente recicladora do intelecto. já sabemos que a Constituição obtém sua unidade sistêmica por conduto das normas-princípio. figurativamente. a seu turno. 5.5. dentre outras vias de conhecimento que.3. É a rigidez. sem que a noção perfeita e acabada de Democracia esteja no ponto de partida do puro pensamento lógico-jurídico. sintomaticamente chamado de "Ordenamento". Tudo fica muito mais claro. Bem. que passa a ter no Poder um mecanismo de reverência: o Poder a serviço do Direito. subsidiando ou até mesmo policiando o intelecto. Quando ela está presente na formação. quando se parte mesmo da rigidez formal como a pedra angular do Magno Texto. Hierarquia suprema. consciência. quem tem a ganhar com isso é o Direito. para. alçadas à dignidade operativa de primus inter pares. o que pretendemos dizer é que valores vão sendo positivados pelas Constituições como conteúdos ou manifestações plúrimas da Democracia. E que a vontade assim imediatamente derivada da consciência somente busque a razão como uma forma de justificativa para o que já se decidiu no plano. Fale-se o que se quiser falar de mau da Democracia.5. de uma só penada.12. Somente assim é que a norma se dá a conhecer por completo.11. que faz do Direito um instrumento de mera formalização de sua truculência. quem tem a ganhar com isso é o Poder mesmo. Para desqualificação axiológica de ambos. como que sinalizando para o exegeta a aplicação da conhecida máxima de LACORDAIRE (que outros atribuem a PASCAL): "Ciência sem consciência é ruína da alma".2. deve estar presente no instante da interpretação de tais valores. a técnica primaz que torna a Constituição a lei das leis. quando da inserção de determinados valores no Ordenamento. 5. um . A idéia é esta: assim como a consciência deve servir de luzeiro à razão. 5.à razão. melhor sentir na pulsação do presente as batidas do coração do futuro. ou a proceder à margem da pura lógica. mas não se lhe pode recusar a virtude de qualificar. como visto. se há um componente consciencial em certas normas de Direito Positivo. são neutras à razão8). Seja como for. o Poder e o Direito. Inclinamo-nos.10. a norma de hierarquia suprema no todo do Direito Positivo.6. Ou.6. para ver a Democracia enquanto matéria disponível para um tipo de conformação normativa que tem um componente consciencial ainda maior do que o propriamente racional.6. E quando se dá o contrário? Quando a Democracia não tem o ensejo de se fazer presente naqueles decisivos instantes da formação. essa parte elementar do discurso normativo só se deixa conhecer pela via igualmente consciencial do intérprete. 5. porém.1. que é a única forma pela qual ele (Poder) se legitima. E inaugural do pós-positivismo. 5. em termos metodológicos ou funcionais (não finalísticos). Por derradeiro. nos seres humanos. ela.13. exercício e controle do Poder? Ora. que já passa a responder pela unidade orgânica e movimento pendular desse Direito Positivo.6. neste ponto fulcral dos princípios genuinamente constitucionais. por outra. 5.5.

normas programáticas. É concluir: tudo muda no Direito. Todo o nosso esforço comunicativo. o princípio do pluralismo político e o da fidelidade partidária. tenha a agilidade do Direito factual por excelência.6. as grandes linhas de ação governamental já ficam previamente esboçadas. é para evidenciar que a Lei das Leis se deseja fluir mais por conta própria do que por intervenção dos seus atos de reforma. a escolha dos respectivos meios.8.6. Uma outra nota de especificidade dos princípios constitucionais está no fato. E sendo mais processual por si mesma.mundo de conseqüências teóricas toma corpo e começamos por frisar que são eles que fazem da Constituição um prevalente sistema de positivações axiológicas. o princípio da valorização do trabalho e o da livre iniciativa.6. que é o Direito subsconstitucional? 5. processual. 5. independentemente da ideologia professada pela facção partidária que se encontrar no Poder. a concreta política social e econômica do Estado ("políticas públicas". cabendo à legislação ordinária. que é um ritmo prevalecentemente exógeno. em oposição ao ritmo de cada lei menor em particular. Posto ainda de outra forma: sendo a Constituição o mais principiológico dos documentos jurídicos. Sua genérica estabilidade não significa estratificação. 5. Em diferentes palavras. cuja resultante é ganhar a Constituição aquela compostura dinâmica. então. histórica. Positivações axiológicas ou filosóficas ou valorativas. ela não precisa tanto de reforma quanto o Ordenamento precisa. pela sua intrínseca materialidade prospectiva. que é a Constituição. Ela se prefere dinamizada pela processualidade dos seus princípios estruturantes e é isto o que rebate ou compensa a rigidez formal e material a que se impõe.5. só que em diferentes ritmos.6.3. Como exigir que o Direito axiológico por excelência. a que se agregam impessoais programas de governo. já assinalado. Daí que passem a encarnar valores em estado de fricção potencial ou latente. Ajunte-se que essa característica central da processualidade ou historicidade das Constituições principiológicas só pode ocorrer por efeito de normas consubstanciadoras de concepções filosóficas ou mundividências (tanto no campo ético-humanista quanto no ideológico ou político). quer dizer.9. um devir. Estes últimos a fazer da Constituição o mais estrutural dos projetos nacionais de vida. os valores. que é própria da sociedade humana. tornam a Constituição um processo. destinadas a parametrar os empíricos programas de governo. de que uma parte deles se define por contraposição. no jargão midiático e na Ciência da Administração). Um ritmop preponderantemente endógeno. pelo seu facilitado ajustamento ao corpo sempre cambiante da realidade social. porém um ritmo de mutabilidade diferente do ritmo das leis em geral. ela é mais processual por si mesma do que o Ordenamento que nela se embasa.6. Por elas. o da integração do País aos mercados externos comuns e o da soberania nacional.6. 5. destarte. quase que tão-somente. 5. ditado por outra lei e mais outra e mais outra. verbi gratia.7. É por isso que os Diplomas Fundamentais contemporâneos contêm cada vez mais as chamadas normas programáticas. à guisa de metas oficiais a alcançar. sem que o Ordenamento Jurídico experimente a sensação de tontura que sobreviria a uma Constituição demasiadamente refundida no seu aspecto formal. Um vir-a-ser permanente. o da independência dos Poderes e o da supremacia da lei. E porque são desse .6. Ou a colocação de ênfase nesse ou naquele meio já imposto pela própria Constituição. como. o princípio da propriedade privada e o da função social da propriedade-bem-de-produção. o da imunidade parlamentar e o da responsabilidade funcional (tão característico da República). inevitavelmente. 5.

esse campo já se define. que não tem sido objeto de realce doutrinário. 5. Se a Constituição decide normatizar uma dada matéria. a opção do exegeta só pode ser pela operância plena da regra maior. sendo toda norma constitucional uma norma jurídica. numa situação em concreto. a hermenêutica busca impedir que os espaços de normatividade constitucional sejam indevidamente ocupados pela legislação inferior. Nessa recomendação de imprimir às normas constitucionais originárias o máximo de eficácia que os métodos acima indicados permitirem.1. suscitam um manejo bem mais cuidadoso dos métodos de hermenêutica jurídica no que toca à seleção daquele princípio que. qual o principal enunciado que a Hermenêutica recomenda ao processo da interpretação em concreto de uma norma constitucional originária? Pensamos que seja. Em termos técnicos.6. que é um princípio conciliador por excelência. deva preponderar sobre o outro.7. à lei maior deve corresponder u'a maior eficácia. para que o juiz dos casos concretos sopese os fatos e opte por aquele princípio material que mais próximo estiver do valor dos valores. essa área de empírico tensionamento entre as normas-princípio da Constituição que PAULO BONAVIDES pugna pelo emprego do que a teoria constitucional vem chamando de "princípio da proporcionalidade". existe. É por isso que o intérprete. temo-lo como princípio constitucional inexpresso.10. Exceto se a própria norma constitucional. Mas se a Constituição deixa do lado de fora um dado campo fenomênico.7. porém. então. essa matéria só pode decair do status de norma constitucional se outra norma constitucional (emenda.5. Mas que. A Constituição é norma em sentido material. Servindo. ao medir a extensão do quê de uma norma .3.6. como postura inicial. pois. 5. como normatizável por lei.7.4. Isto por que é da natureza da Constituição passar adiante a conformação jurídica da matéria que deixar de regular por conta própria. 5. no ápice do dilema entre reconhecer a pleno-operância de uma norma constitucional e sua dependência de regração de menor estirpe. que é a Democracia (como tantas vezes dito). 5. para cumprir uma função técnica de controle social. tem força normativa própria (CONRAD HESSE) e deve ser interpretada de acordo com a sua mais alta hierarquia. por exclusão. a sua logicidade. inequivocamente. É para desanuviar. 5.jeito.2. Este é um ponto central da Teoria da Constituição.7. justamente. Ou que menos lesione os princípios correlatos àqueles em concreto estado de fricção.7. Por isso que. 5. ao lado de outras peculiaridades da Constituição. Todo este modo especial de ser das normas constitucionais principiológicas repercute (e como!) nos enunciados hermenêuticos. Ao contrário. ou seja. ao nosso ver. a sua história e a sua teleologia permitirem.9 5. A eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica 5.11. Noutros termos. não faz parte das categorias metajurídicas. pedir o adjutório de regra intercalar para a plenificação dos seus efeitos. tais normas pedem e até mesmo exigem uma correlata especificidade de intelecção ao nível do que vimos chamando de cânones hermenêuticos diferenciados. em última análise. Um princípio que é a decorrência lógica do tensionamento daqueles princípios materiais que se definem por contraposição. reconhecer à norma isolada o máximo de eficácia que a sua formulação linguística. revisão) assim o disser.7. do tipo instrumental.

E se o confronto se der entre competências dos Estados-membros e respectivos Municípios. o sacrifício a ser imposto é à competência dos Estados-membros. Não se pode fazer cortesia com o chapéu da Constituição (outra vez não resistimos à tentação do prosaísmo). A contrario sensu. da lei interpretada. Sinta-se que o prejuízo que se causa à Constituição com uma interpretação indevidamente restritiva é maior do que o sofrido. Nessa mesma direção. É que.7. 5. por uma lei comum também indevidamente interpretada de modo amesquinhado. ou parcial.ou simples redução que seja . E não é isto o que sucede na relação entre a lei comum e o decreto executivo. imaginemos uma fundada hesitação exegética entre ampliar ou restringir a eficácia de uma norma constitucional que outorgue direito individual oponível ao Estado. o que se sonegar à primeira passa a pertencer à segunda. mas entre duas normas igualmente constitucionais. E a Democracia política vive é de técnicas restritivas do Poder. uma delas funcionalmente mais distante do ser da Constituição. para fortalecer dada competência da União.6. Defende a Lei Fundamental. no bojo da relação entre a Lei Maior e a lei menor (acabamos de dizer). O que se traduz em disparatada inversão de valores. 5. a que amplia aquela esfera de incidência direta de uma norma constitucional passa a fechar espaços para uma ocupação normativa de menor escalão e assim fortalece a Constituição mesma.7. porque isto seria transformar a lei maior em lei menor e a lei menor em lei maior. Agora. A dúvida. ou não pôde reservar para si mesma com exclusividade. deve estar ciente dos efeitos irradiantes dessa interpretação para o Direito que não se veicula por emenda ou por revisão constitucional. Estas considerações apontam para a adoção de um critério seguro de resolução de eventual dúvida interpretativa quanto a maior ou menor compleição eficacial de uma norma genuinamente constitucional. tiver que enfraquecer competência dos Estados-membros.7.7. não entre a Constituição e a lei. se o confronto se der. Qual a preferência do intérprete? A preferência é pelo fortalecimento eficacial da norma.10 .constitucional. Daí que recusar à lei o que à lei pertence não signifique presentear o Poder Executivo com uma competência legiferante residual.das áreas de conformação legislativa pós-Constituição. Por hipótese. enquanto persistir o entendimento da lacuna total. Deveras. 5. sabido que os direitos e garantias individuais cumprem o papel técnico e até mesmo histórico de afirmar o princípio da dignidade da pessoa humana e assim conter o Poder em certos limites. e. data venia de respeitáveis opiniões em contrário). em linha de princípio. ora de esguelha. A matéria fica no aguardo de uma futura normação por via legal.10. naqueles Ordenamentos que não admitem o chamado regulamento autônomo (como é o caso do Brasil. que é a quintessência mesma da Constituição.7. por exemplo. a dubiedade interpretativa se extingue pela opção que implicar o prestígio das unidades regionais em que os Estados-membros consistem. 5. a exegese que diminua a esfera de alcance de uma norma Constitucional passa a abrir espaços para uma ocupação normativa de menor escalão. 5. é de ser resolvida em favor da interpretação eficacial de maior porte.7. mais próxima de tal ser. pois tudo que favorecer à idéia de descentralização de autoridade serve melhor à Democracia. ora diretamente. exemplificativamente.9. e não de mecanismos ampliadores das competências governamentais para além dos estritos limites da necessidade do exercício delas. pelo correlato fechamento . o impasse é de se resolver em proveito da mais próxima. se uma exegese.8. É que esse Direito subconstitucional apanha as sobras do que a Lei maior não quis. a outra.

mas com unívoco sentido: as leis existem para aplicar diuturna e reverentemente a Constituição. Ora bem. 5. e. Mais até do que dificultar o processo de sua própria reforma.4. precisamente.5. Aqui. ou revisão.8. Estado de Defesa e Estado de Sítio)? Tudo. "impeachment".7. medidas provisórias. Constituição. A necessária interpretação restritiva das normas constitucionais sobre o Poder Reformador 5. Nenhuma outra norma jurídica ostenta em cores tão vivas o caráter de estabilidade que a Constituição rígida imprime ao Ordenamento.8.e não simplesmente legais -. Eles. já nascem com o indescartável compromisso de dar submissa prossecução aos comandos formais e materiais dela mesma. nessa medida. é no pressuposto do esgotamento dessa ou daquela norma-princípio da Constituição. podendo mexer no corpo de dispositivos da Constituição. É da natureza das coisas. qual a Constituição rígida que não busca resolver. é conseqüência lógica da rigidez constitucional que os atos de reforma da Constituição Positiva sejam recebidos com desconfiança.5. pela estabilidade: a Constituição. 5.1.8. que disciplina com rigor incomum o processo de sua própria reforma. e somente eles. das normas que dispõem sobre intervenção federal. sponte sua. é exatamente porque: a) são normas que.2. contra ela (Constituição). É que os atos reformadores da Constituição têm. não podendo tocar em nenhum dispositivo da Constituição. supressão. ainda com mais forte razão há de prevalecer o prestígio à eficacidade da norma constitucional de berço. as emendas e revisões alteram aquela porção do Ordenamento que se caracteriza. 5.8. nascem com o propósito de dissentir daquela parte da Constituição a que visam reformar. Donde o corolário de se encarar com extremos de cautela toda medida de acréscimo. existem para mexer na Constituição. que darão à Constituição aquela primária aplicação que outra coisa não é senão a paulatina e ininterrupta dinamização de todo o Ordenamento. no Brasil ao reverso de Portugal -. por essa aplicação diuturna .8.8. e.7.8. as situações emergenciais do País (e aqui nos lembramos. Veiculam normas constitucionais.3.6. ou de todas elas. 5. 5. Em linguagem diferenciada. a revisão foi admitida sob pautas processuais menos dificultosas11). 5.8. b) são elas. Se a Magna Carta é mais dócil ou mais branda na regulação do processo de elaboração das outras normas gerais que não as emendas constitucionais. ou alterabilidade das normas constitucionais originárias. De outra parte. para que não haja necessidade do apelo extremo aos atos oficiais de reforma do seu próprio estoque de normas. se fizermos o cotejo entre uma norma da Constituição originária sobre o exercício do Poder Reformador e outra norma advinda desse concreto exercício (norma advinda de u'a emenda constitucional. Se as emendas e revisões estão autorizadas a aportar consigo normas constitucionais . para colocar a Magna Carta pari passu com o ritmo veloz da sociedade.11. evidentemente. portanto). regras editadas pelo Poder Legislativo comum. E isto já significa o óbvio: somente quando cessa o papel da interpretação é que se inicia o da integração constitucional por atos formais de emenda. um potencial lógico de agressividade que as leis não têm. ao menos no plano das emendas (já que. no caso brasileiro. Uma desconfiança que já está na própria Constituição. como enxotar uma eventual dúvida na aferição do tamanho eficacial da primeira ante a segunda? Ou da segunda perante a primeira? 5.

sim. de reforma constitucional. então.8.8. pois não é racional que se postule a exegese restritiva das matérias que mais confirmam o caráter estabilizador da Magna Carta e ainda por cima revelam. externamos o nosso pensar de que as emendas constitucionais. o que não podem. não simplesmente o Direito. sim. ou material. Não temos o menor acanhamento intelectual em afirmar que os atos de reforma da Magna Carta. sempre que houver dúvida fundada quanto à possibilidade de mácula à Constituição. a saber: uma coisa é a indicação das matérias constitutivas de cláusulas pétreas. a teor de Constituições como a brasileira.10.11. de par com as normas constitucionais que dão o conteúdo mínimo de cada qual dessas cláusulas de intangibilidade. Ainda sem nenhum constrangimento acadêmico. e. os respectivos atos já nascem com o explícito compromisso de inovar. É que a postura interpretativa contrária é de muito maior gravidade sistêmica. que têm a ver com elas. porém. que fica muito mais vulnerável a agressões por via de emendas. outra coisa. até porque melhor nos habilita a afastar o temor da banalização. pois redunda no mais intolerável tipo de banalização: a banalização da própria Lei Fundamental do País. mas. Um tipo mais severo ou menos extensivo de exegese.8. que é a Constituição Positiva. passaria a ser encarado como cláusula pétrea). da circunferência democrática. da própria circunferência de cada cláusula pétrea. Sempre numa linha de inovação material que deve preservar (por isso que elas não implicam o exercício do Poder Reformador) a inteireza dos comandos todos da Constituição e até de suas eventuais reformas. Regras periféricas. vitalizar o Direito em geral.8. ou quase tudo. são os preceitos constitucionais que estão a serviço das cláusulas pétreas. venha a significar banalização das mesmas (tudo. A inovação que se autoriza é quanto a um Direito que vige do lado de fora da Magna Carta e nela não pode entrar por nenhum modo.9.12. a própria alma da Constituição. notadamente as emendas. justamente quando do empírico uso do Poder Reformador. constituem uma exceção àquela nota de estabilidade que é indissociável de toda Constituição rígida. é de se afastar o receio de que o prestígio exegético das cláusulas pétreas . a exigir quanto a elas (emendas e revisões) um tipo mais severo ou menos extensivo de exegese. Elas é que devem gozar do benefício da dúvida interpretativa. então. Por isso mesmo é que a Lei Maior brasileira não diz o que as emendas podem fazer. 5. Por semelhante prisma analítico. mas sem a força de elementarizá-las. ou prestigia as emendas e assim fragiliza a integridade das cláusulas pétreas. lógico -. em verdade. longe de constituir uma exceção ao poder de reforma constitucional. aquela parte da Constituição que nem mesmo admite a exceção do poder de reforma.8. porém. A alternativa é radical: ou o hermeneuta prestigia as cláusulas pétreas e assim reduz a possibilidade de produção das emendas. pois aí estamos diante dos princípios que mais estabilizam a Constituição e concomitantemente mais se aproximam do centro da circunferência democrática. desde que estas não portem consigo a mácula da inconstitucionalidade formal. desde que o resultado desse labor reformista seja o fotalecimento ou a rebustez da parte axiológica situada no centro da circunferência em causa (conforme anteriormente explicado). A este respeito. com mais razão. 5.12 5.nos casos de dúvida fundada. Natural. A primeira opção é a que temos por acertada. são . claro. são.8. Cogitando-se. por maior proximidade com o protovalor da Democracia. mas o próprio fundamento de validade desse Direito.reverente. 5. Por isso que tais preceitos jazem à disposição do Poder Reformador. as cláusulas pétreas. 5. que os riscos de atentado à Magna Lei sejam maiores.

5. e com facilidade perceberemos que as emendas seguem a lógica da extração. respectivamente. Nunca desejáveis. por significar um atestado formal de que a Constituição. Enfim. Tudo isto evidencia que o perigo de atentado à Constituição é sempre iminente. Uma comparação prosaica parece-nos vir a calhar. a rédea curta que estamos a reclamar como postura técnico-interpretativa das normas constitucionais originárias que se disponibilizam para a edição de emendas à Constituição. Aqui.8.14. Já não é passível de atualização pela via da interpretação doutrinária e jurisprudencial. 5. seja qual for a modalidade de emenda.para não dizer uma reprimenda .8. emendas aditivas e emendas modificativas. O que significa ajuizar que ela. Tudo a justificar. quem não se questiona sobre o risco ou o perigo de estar a mexer naquilo que. da prótese e da obturação dentárias. então. as possibilidades de invasão pelo Poder Reformador são bem maiores. supomos) as leis complementares e as de caráter ordinário. Todas elas a significar um corretivo .no modo pelo qual a Constituição cuidou dos próprios dentes. e o papel das emendas é sempre de um corretivo. aditivo e modificativo). as linhas que separam o Poder Constituinte do Poder Reformador são muito menos nítidas do que as linhas demarcadoras da atuação do mesmo Poder Constituinte e do Poder Legislativo comum. Ainda assim. quer pelo fato de sua excessividade normativa. nenhum ser humano vai ao dentista por prazer. Mais tecnicamente falando. já estava bem cuidado? A dispensar. respectivamente. já não cumpre a contento o seu histórico papel. O recurso a elas é sempre uma ultima ratio. a Constituição permanece como centro de apoio de uma abstrata alavanca de Arquimedes para a mais objetivamente justa transformação de toda sociedade humano-estatal. É dizer: muito mais que um simples esquema de procedimentos e organizações.17.8.13. conforme sejam emendas supressivas. pelas emendas do tipo supressivo. ou por inadequação.8. Pois bem. neste sítio do mais delicado trato hermenêutico. Constituição Positiva. não tem por que abdicar da sua fundamentalidade ao mesmo tempo jurídica e social genérica. a sempre temida intervenção odontológica? 5. enfim.16. portanto. tudo se traduz numa reconsideração de rumos da Magna Lei.normas gerais tão-somente suportáveis. ou por omissão. em verdade.8.15. esse colocar a Constituição no centro do Ordenamento Jurídico é também um colocar essa mesma Constituição no centro do sistema social como um todo. tal como posta. na prática. como desejáveis são (irrespondivelmente. ou por qualquer outra forma do que se tem chamando de "mutações constitucionais". E porque são linhas muito menos nítidas ou muito mais tênues. Assim é com as emendas. mesmo que se reconheça o caráter fortemente economista e técnico-político das sociedades pós-modernas. Pensemos em nossas periódicas visitas ao dentista. 5. mas por avaliar que seu quadro clínico já não pode prosseguir sob cuidados próprios. quer pela ocorrência de lacuna regratória. em razão da natureza dirigente que lhe é conatural. desde a infância. por insuficiência de comando (males que se debelam. quer. Alguma coisa na Lei Maior pecou por excesso. pela indescartável consideração de que. 5. a postura da eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica opera pelo estreitamento (quando não pelo total fechamento) de espaços ao labor reformista do impropriamente chamado "Poder Constituinte Derivado". .

só a mudança é que não muda. operando de modo a favorecer uma mais justa integração de todos os homens no conjunto da sociedade (direitos sociais genéricos). com as Constituições e com tudo o mais que existe de natural e de social. nessa condição. O ser das coisas é o movimento. a figurar como o primeiro elo dessa corrente de que vieram a fazer parte.2. começamos por retomar o pensamento de TOBIAS BARRETO. Não é de se estranhar.3. 6. embrionariamente. Que é um . Só o impermanente é que é permanente. 6. por seu turno. o Direito não é um regalo dos deuses.que esperamos venha a funcionar como aquele necessário ponto de arremate de uma obra que. embora intelectualmente modesta. Uma.5. dizia o expoente da escola jônica. Um pequeno conjunto .1. o Direito tem uma história pra contar. de parelha com a valorização dos assalariados diante do patronato (direitos econômicos ou trabalhistas).1. que toda a história do Direito Constitucional seja permeada de fases. protetiva e simultaneamente promocional do ser humano perante o Estado e o Governo (direitos "civis" e direitos políticos). face à crescente densificação dos princípios constitucionais e da própria constitucionalização de temas antes reservados à legislação comum ou de segundo escalão).). o Estado de Direito Democrático (eminentemente social) e agora o Estado de Justiça ou Estado holístico (assim nos permitimos cunhar.1. Esta derradeira parte do nosso estudo não é um catálogo de conclusões extraídas dos capítulos anteriores.2.5.A Constituição Fraternal Sumário 6.Capítulo VI . A perene atualidade da faina interpretativa da Constituição 6. Uma história que apresenta a sua linha de evolução e por isso é que. um objeto cultural.o menor deles. segundo HERÁCLITO (540/480 a. sucessivamente.c. A processualidade heraclitiana da Constituição 6. A outra.1. inaugural do que depois veio a se chamar de Estado de Direito. Este.3.1 6. por conseguinte. De processualidade. Tudo começando. e a Teoria Dialética do tipo hegeliano veio a afirmar que esse movimento decorre de uma força motriz ou energia que é liberada pelo tensionamento entre os pares de opostos (dicotomias) de que é formada a existência. O que se pretende dizer com a lembrança dessas coisas é que o Direito faz parte da vida e a vida tem um reconhecido caráter de dinamicidade. É um produto da experiência humana e. É um pequeno conjunto de idéias que não pudemos encaixar em nenhum desses capítulos precedentes. Vale dizer.1. O contraponto parmenidiano de antiprocessualidade 6. os dois primeiros e mais importantes momentos foram a Constituição liberal e a social.1.1. com a Magna Charta Libertatum de 1215. se pretende portadora de unidade material.1. na seara mesma do Constitucionalismo. por sinal . A processualidade heraclitiana da Constituição 6. pois. Como todo objeto cultural. Feita a ponderação.6. O método dialético de interpretação constitucional 6. naquela acepção heraclitiana de que "nenhum homem entra duas vezes nas águas de um mesmo rio". naquela parte em que o jurisconsulto brasileiro e sergipano ajuizou: "O Direito não é um filho do céu".1.6. Assim é com o Direito. A imutável substância da Constituição 6. O advento do Constitucionalismo fraternal 6. 6. 6.4. o Estado Democrático de Direito (liberal por excelência).4.

numa experiência de uma só vez. O contraponto parmenidiano de antiprocessualidade 6. linhas atrás. 6. por conseqüência. Palavras que se enlaçam na trama de um discurso entremeante do verbal e do não-verbal. do explícito e do implícito.1. E dessa dicotomia ou dualidade básica é que se desprende a energia que põe cada princípio em estado de mutabilidade. e que exige essa operação mental-consciencial a que chamamos interpretação (conforme discorremos no capítulo de n° V).. lealdade. assim como o dispositivo jurídico é contemporâneo de quem o redigiu. obviamente. Levando. Se se prefere. a dualidade centro/periferia. da Justiça. de roldão. Uma viagem qualificada.4.2. Acontece que. É impulso como que mecânico do intérprete desvendar os signos linguísticos a partir do significado que as palavras ostentem no instante mesmo da respectiva interpretação. perenemente atual. Os princípios constitucionais materiais se vazam numa estrutura de linguagem que é formada.3.3. o entendimento desse dispositivo é contemporâneo de quem o interpreta. da Eficiência Administrativa. também dissemos o seguinte: o movimento da . pela via da interpretação (renove-se a idéia). somente depois dessa empreitada é que se deve cogitar da mutação formal dos seus dispositivos (dela. dialeticamente. e mais especificamente em tema de princípios constitucionais (pense-se nos princípios do Desenvolvimento.2. Idêntico ao processo da vida. em toda parte. interpretação). É por aqui mesmo que se dá o engate lógico entre a natureza processual da Constituição e a ontologia dos princípios de que ela. Ora.) e logo vai-se perceber que a interpretação jurídica é fortemente marcada pelo sentido que as palavras tenham no próprio momento do seu fazimento (dela. portanto. termina sendo um andar para cima. 6. significando um seguir adiante ou um andar para a frente.1. Constituição).3. Mormente em tema de princípios. porque o Direito é feito para a vida e a vida é sempre atual. É mais uma forte razão para que a Constituição principiológica (e chega a ser redundante falar de Constituição principiológica) se atualize por si mesma. 6. boa-fé. em tema de interpretação jurídica do Direito legislado. segundo vimos no capítulo de n° V. A interpretação faz parte do circuito da existência e tende a ser.. 6. cada vez mais se compõe. É que. da Moralidade e seus conteúdos de decoro. Para o alto. ele se traduz numa jornada que. Assim é que as coisas se passam.1.8. Mas não é só.2. há uma permanente fricção no próprio interior ou na própria circunferência de cada princípio constitucional.2. 6. formada por um centro e uma periferia (como toda circunferência). 6. da Valorização do Trabalho. À processualidade endógena do seu discurso jurídico-positivo. 6. Esse processo endógeno que é da natureza da Constituição não se traduz. A perene atualidade da faina interpretativa da Constituição 6.7. da Cidadania. E somente depois que cessa ou que se malogra a tentativa de se colocar a Magna Lei em dia com os acontecimentos e o repensar das coisas. da Inviolabilidade da Vida Privada. em cuja esfera semântica de compreensão interage.Estado de funcionalidade fraternal.1. à mutabilidade informal de toda a Constituição. pela necessária identidade entre ela e os seus princípios fundamentais.2. de palavras. reputação ilibada. Persevere no seu poder de facilitada adaptação à dinamicidade da vida. porque em espiral axiológica.2.

6. contínuo e imóvel. evolui com o movimento da parte periférica da circunferência de cada qual dos seus princípios. Esses demais aspectos ocorreriam no âmago de cada princípio constitucional originário. na função constitucional originária de montar o aparelho de Estado. e não muda. Teríamos. 6. O oposto da Constituição. E não falamos ser o Direito Constitucional o mais político dos ramos jurídicos? E a Constituição o mais anatômico dos diplomas de Direito legislado? 6.). Mas com os demais aspectos permeáveis à incessante mudança das coisas. assim. a Constituição é emblematicamente estável. naquele sentido ambivalente de compromisso tanto com a mutabilidade quanto com a imutabilidade. como professavam os próprios helenos. E tínhamos que ajuizar assim. Pois bem. pois a substância dos seres não muda. dizia ele. Dialeticamente. já não com HERÁCLITO. Mas uma coisa e outra ao mesmo tempo. com os respectivos órgãos de governo. do poder econômico e do poder social como um todo (visto que o todo social desiguala materialmente e discrimina moralmente as pessoas e ainda sistematicamente conspurca o equilíbrio ambiental e a sadia ordenação dos espaços urbanos). segundo aquele movimento pendular de mutabilidade na periferia e de imutabilidade no centro da esfera semântica de cada qual deles. seqüenciadamente. Conota a idéia primaz de estabilidade.3. Coloca-se no ponto de conciliação ou de unidade orgânica entre as duas teorias. 6.2. quer pelo fato de ser o fundamento de validade de todo o Ordenamento. Chamando o feito à ordem. A imutável substância da Constituição 6.4.3. E argumentativamente concluiríamos que toda Constituição Positiva é tanto heraclitiana quanto parmenidiana (à falta de melhor palavra).4. Devido a que o ritmo de mutabilidade informal (ou endógeno) do restante do Ordenamento é menor do que o ritmo que é próprio da Constituição.4. 6.3. uma Constituição universalmente idêntica a si própria. Não em estado de permanente mutação. tanto quanto se mantém estável com a imutabilidade da parte nuclear. A Constituição muda por si mesma. que falava do universo como algo eterno. pois a virtude está sempre no meio (medius in virtus). e ao mesmo tempo não muda.4. Dialeticamente.3. proclamou que "nada de novo existe sob o sol". . teríamos que buscar na Constituição como um todo (mais do que em cada princípio constitucional em particular) um substrato infenso à mudança. 6. sim.c. Daí por que falamos que o ritmo de mutação formal da Constituição deve ser mais lento do que o reclamado pelo restante do Ordenamento. A partir desse contraponto parmenidiano. o sentido histórico-filosófico de servir a Constituição como o único mecanismo jurídico de eficaz contenção aos excessos do poder político e. esse indescartável substrato só poderia residir em dois aspectos: a) primeiro.2. sim. quer pela materialidade organizacional de suas normas à face do Estado e do Governo.Constituição é pendular. sob o influxo das peculiaridades sócio-culturais de cada povo e de cada época.4. Este filósofo e poeta igualmente grego (540/450 a.1. porque. Tudo permanece idêntico a si mesmo. b) segundo. Pois bem. Não uma coisa ou outra. a Constituição muda por si mesma. essa dimensão emblematicamente estável da Constituição tem a ver. afinal. mas com PARMÊNIDES.3. Pois o restante do Ordenamento é muito mais caracterizado pelo seu conjunto de regras do que pelo seu conjunto de princípios.4. E porque pensava assim. uno. Uma ineliminável substância.4. 6.

os deficientes físicos e as mulheres (para além.5. tudo ao mesmo tempo. A norma a desentranhar dos signos linguísticos (dispositivos) é tanto um a priori quanto um a posteriori. na Constituição originária. O método dialético de interpretação constitucional 6. Do que resulta ser a norma jurídica o resultado da sua interpretação. ou não esteja. mas também sem eliminar as respectivas conquistas (como é próprio de toda superação ou transcendência). mas a vontade objetiva da norma (engastada em um determinado dispositivo). a lógica usual de cada princípio é a da ponderação ou do sopesamento das circunstâncias presidentes de sua concreta aplicabilidade. Agora já podemos enfrentar o tema da progressiva formação do Estado Fraternal. Essa metodologia da conciliação implica a busca de um equilíbrio sempre instável. Implica uma descoberta e uma construção. ele se torna um personagem completamente autômato no referido circuito. ao revés. Tanto quanto o Estado Social veio para superar o Estado Liberal.5. E é tanto mais recomendável quanto se esteja diante de um princípio.6.6. que é a lógica do concretamente possível. que são atividades assecuratórias da abertura de oportunidades para os segmentos sociais historicamente desfavorecidos. Nem exclusiva objetividade de um querer legislado que se impõe ao exegeta. nos dias presentes.5.5. mas sem o negar. 6. como. a dimensão das ações estatais afirmativas. fechando todos os espaços de manifestação mental/consciencial do seu próprio ser individual e ao mesmo tempo social. é o que também sucede com o próprio labor interpretativo de cada dispositivo jurídico. inicialmente.2. mas um a posteriori. afirmando que a vontade ou o querer subjetivo do intérprete (condicionamentos psíquicos e sócio-culturais) é ineliminável do processo interpretativo. Esteja ele. Se o intérprete faz do seu exclusivo pensar a vontade objetiva da norma. Efetivamente. à etapa fraternal da sua existência. da mera proibição de preconceitos). podemos facilmente ajuizar que ele foi liberal. Que veio para transcender o Estado Social. isto é. por exemplo. O advento do Constitucionalismo Fraternal 6. Há duas correntes jurídicas em permanente oposição quanto ao papel do intérprete do Direito. 6. Se.5. Outra. e depois social. 6. A solução parece estar no meio. 6. A lógica "do mais ou menos" ou do "vamos ver".3. Uma. pois o que interessa não é o querer subjetivo do intérprete. Se a lógica usual de cada regra jurídica "é a do tudo ou nada". se considerarmos a evolução histórica do Constitucionalismo. mas assim mesmo é que se processa o mistério da existência terrena. transmuta-se em legislador. os negros. Personagem completamente autônomo no circuito da produção/aplicação do Direito. é certo. proclamando que a interpretação deve ser rigorosamente objetiva.5. Explicamo-nos.6. Não um a priori. portanto.1. 6. sabido que essa categoria de norma jurídica traduz-se em relato que é muito mais um mandado de otimização do que um mandado de definição (ALEXY). 6. bem ao contrário.6. Essa dialeticidade que termina sendo uma fuga dos extremos ou a conciliação possível entre eles. ele se anula totalmente perante o dispositivo interpretado. Desde que entendamos por Constitucionalismo Fraternal esta fase em que as Constituições incorporam às franquias liberais e sociais de cada povo soberano a dimensão da Fraternidade. De par com isso. nem exclusiva subjetividade de um exegeta que se impõe ao querer legislado. portanto. o .5.1. Chegando.2.4.

todavia. Não por coincidência. compaixão. 6. a compassiva ou aproximativa igualdade social é a condição material objetiva para o desfrute de uma liberdade real. simplesmente.7.potencialmente onitemática.e somente ela . 6. pois uma das maiores violências que se pode cometer contra os seres humanos é negar suas individualizadas preferências estéticas. profissionais. 6. então que esse pluralismo do mais largo espectro seja plenamente aceito. Tudo na perspectiva de se fazer da interação humana uma verdadeira comunidade. geográficas. que ele seja cabalmente experimentado e proclamado como valor absoluto. tanto quanto o Amor é o ponto mais alto da evolução espiritual. Tanto quanto esse mesmo tipo de igualdade social é a condição material objetiva para o desfrute de uma fraternidade como característica central de qualquer povo (uma vez que. 6. 6.2 6. O que já significa uma . Auto-sustentadamente ou sem temerária dependência externa. Nesse novo e otimizado patamar da fraternidade como característica do Constitucionalismo contemporâneo. por ser a igualdade social a necessária ponte entre a Liberdade e a Fraternidade.3. Seletivamente onifinalista. também não era possível o alcance de uma vida coletiva em bases fraternais sem o gozo daquela mesma situação de igualdade social (ao menos aproximativamente). sexuais. entendido o holismo como decidida opção existencial pela integração ou abrangência gradativa de tudo.6. a Fraternidade é o ponto de unidade a que se chega pela conciliação possível entre os extremos da Liberdade. o que se tem no plano da boa vontade dos mais favorecidos para com os menos favorecidos sócio-culturalmente não passa de caridade. a virtude está sempre no meio (medius in virtus). estando todos em um mesmo barco. E não só nos escaninhos do Estado e do Governo.. Aonde queremos chegar? Na compreensão de que a ideologia da igualdade social é a mais estratégica das ideologias. uma comunhão de vida. Assim como não se pode recusar a ninguém o direito de experimentar o Desenvolvimento enquanto situação de compatibilidade entre a riqueza do País e a riqueza do povo. isto é. Se já não era possível um estado genérico de liberdade sem uma aproximativa igualdade entre os homens. E tinha de ser pelas portas mais largas da Constituição. o que se tem já é a democratização no interior da sociedade mesma. não têm como escapar da mesma sorte ou destino histórico. da Igualdade. Mais até que plenamente aceito. pela consciência de que. visto ser ela . sem igualdade aproximativa. pela simples razão de que não pode haver fraternidade senão entre os iguais. 6. ideológicas. Uma dignificação de todos perante a vida.6. da Democracia e até de certos aspectos do urbanismo como direitos fundamentais. mais do que diante do Direito. etc. A comprovação de que. e. pois o fato é que ninguém é cópia fiel de ninguém. de que não se chega à unidade sem antes passar pelas dualidades. favor. culinárias. Se a vida em sociedade é uma vida plural. É por aqui mesmo que se dá a penetração do holismo no Direito.9.6. as coisas se processaram numa seqüência lógica. o milagre da vida.6.constitucionalismo fraternal alcança a dimensão da luta pela afirmação do valor do Desenvolvimento. etc.6. E nisso é que se exprime o núcleo de uma sociedade fraterna. também nos domínios do Direito e da Política.5.6. de outro. No plano do Direito Constitucional. a resvalar freqüentemente para o campo da humilhação dos hipossuficientes). o mistério. Sendo esta o ponto ômega ou o pináculo da evolução político-jurídica.8. partidárias.4. Com a plena compreensão. religiosas. condescendência. do Meio Ambiente ecologicamente equilibrado.6. Este o fascínio.6. de um lado. Deveras.

consoante a máxima oracular do físico alemão Max Planck (1858/1947). Constituição. Enfim. pois as próprias fontes do Direito Internacional têm de receber as boas-vindas da Constituição para. metamorfosear-se em normas de Direito Interno desse ou daquele Estado soberano. está no fim de toda reflexão". a permanecer como a fundamentalidade de todo o sistema jurídico interno e até mesmo do sistema social genérico (o militar. o financeiro. Ela. "para os crentes. etc. enquanto que. A fundamentalidade das fundamentalidades. . e só então. o técnico. louvado seja Deus! Esse Deus que.confirmação do seu papel dirigente e da sua inamovível posição de centralidade. para os cientistas. o econômico. está no princípio de todas as coisas.). o familiar.

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