Introdução Teoria é conhecimento ordenado, conhecimento sistematizado sobre um determinado assunto.

Conhecimento, além do mais, especulativo; ou seja, ordem de saber que se constrói sem imediata preocupação com a sua aplicabilidade aos casos concretos. Independente da prática, portanto. 2. Quando associado ao nome "Direito", para com ele formar a locução "Teoria do Direito", o substantivo de que estamos a falar é tipo articulado de conhecimento que busca isolar o Direito das outra realidades normativas. Explica o Direito como objeto cultural-normativo que se não confunde, verbi gratia, com a moral e a religião. E quando grafado de "Teoria da Constituição", é saber especulativo que opera no interior do próprio Direito, para separar o Direito Constitucional de qualquer outro setor ou província jurídica; melhor dizendo, para evidenciar em que a Constituição: a) é diploma jurídico-positivo diferente dos demais; b) é a parte central de um ramo jurídico também diferenciado das outras porções que se entroncam na grande árvore do Direito. 3. Este o nosso desafio: pensar a Constituição. Não esta ou aquela Constituição em separado, mas enquanto fenômeno jurídico-positivo comum à experiência dos povos que exercitaram, com êxito, a própria soberania. 4. O que estamos dizendo não é mais que isto: às Constituições em sentido objetivo (conjunto de normas jurídicas) corresponde esta nossa teorização em sentido subjetivo. Que somente vai buscar no material investigado, todavia, o que se apresentar como partes elementares de um todo orgânico; ou seja, como objetiva comprovação de que tudo é um. 5. Ainda à guisa de anotações preliminares a esta nossa monografia, um primeiro lembrete: não há apenas Constituições escritas, e mesmo as escritas nem sempre se enfeixaram (como ainda não se enfeixam) num único texto normativo. Elas também existem em documentos esparsos. E se umas são redigidas e promulgadas por órgãos especialmente eleitos pelo povo para esse mister, outras, no entanto, são aprovadas sem a eleição popular daqueles por cujo intelecto e força física elas ingressaram no mundo das positividades jurídicas. 6. Outra pequena lembrança está em que a nossa teorização não é repelente de nenhuma espécie de Constituição conhecida. Contudo, as especificidades ou características centrais que temos como exclusivas de um diploma constitucional, assim como as citações e ilustrações de que nos valemos amiúde, tudo tem por alvo o modelo de Constituição que terminou por se impor no interregno que vai do segundo após-guerra até os nossos dias: a Constituição escrita, redigida à moda de código e

produzida por um corpo de legisladores ungidos na pia batismal do voto popular. 7. Por último, incumbe-nos pontuar que esta nossa Teoria da Constituição começa pelo estudo do Poder Constituinte, que é a instância deliberativa de que ela, Constituição, é a obra resultante. O trabalho objetivamente feito. E que essa mesma Teoria passa pela esfera de conhecimentos que tem recebido o nome de "Hermenêutica Constitucional"; mas que preferimos, pessoalmente, designar por "Hermenêutica da Constituição", como no seu devido tempo explicaremos. Aracaju (SE), 23 de dezembro de 2002 Carlos Ayres Britto

Sumário
1.1. Deus: a instância transcendente que tudo pode, menos deixar de tudo poder 1.2. A limitabilidade intrínseca de Deus 1.3. A indistinção ontológica entre Deus e Sua onipotência 1.4. Deus enquanto norma normarum ou a fonte das fontes 1.5. A incontornável solidão da onipotência de Deus 1.6. O povo como a transubstanciação do poder imanente que tudo pode 1.7. A soberania popular ou o modo constituinte de ser do povo 1.8. O mundo de Deus e o mundo do Direito 1.1. Deus: a instância transcendente que tudo pode, menos deixar de tudo poder 1.1.1. O meu filho Marcel tinha cinco anos de idade, quando travou comigo o seguinte diálogo: - Meu pai, é verdade que Deus tudo pode? - É verdade, sim, meu filho. Deus tudo pode. - E se Deus quiser morrer? - Bem, aí você me obriga a recompor a idéia. Deus tudo pode, é certo, menos deixar de tudo poder. Logo, Deus tem que permanecer vivo, porque somente assim Ele vai prosseguir sendo Aquele que tudo pode. 1.1.2. Ao dar essa resposta de que Deus não podia morrer, terminei por confirmar uma coisa e afirmar outra. Confirmei a minha crença na existência de Deus e afirmei a limitabilidade intrínseca desse mesmo Deus de cuja existência eu estava a dar testemunho. 1.1.3. Com efeito, eu reproduzia para o meu filho: a) minha filosofia prevalecentemente idealista ou espiritualista, à moda hegeliana, segundo a qual a natureza ambiental e a sociedade humana são uma revelação, uma manifestação da Idéia Incriada; b) essa Idéia Incriada é o próprio Deus, tido como instância transcendente que tudo pode, mas com o acréscimo de idéia que eu estava a fazer: instância transcendente que tudo pode, sim, menos deixar de ser essa instância transcendente que tudo pode.1 1.2. A limitabilidade intrínseca de Deus 1.2.1. Sobre este último aspecto da limitabilidade inerente a um ser que tudo pode (a relativização possível da onipotência), a conversa com meu pequeno filho trouxe-me à cabeça a utilidade pedagógica de uma comparação entre Deus e o poder que, na Ciência Política e na Teoria da Constituição, é chamado de Poder Constituinte. Mais exatamente, pressentíamos (a partir de agora passaremos a usar o plural majestático "nós", em vez de pronome pessoal da primeira pessoa "eu") que refletir sobre algumas noções deístas mais correntes seria tarefa intelectual que abriria importantes espaços para a mais desembaraçada compreensão do poder que está na própria raiz da Constituição e do Ordenamento Jurídico: o Poder Constituinte. 1.2.2. Não que houvesse originalidade no fato em si da comparação (outros estudiosos do Direito, cada qual a seu modo e tempo, já confrontaram o Divino com o Poder Constituinte). Não que o acerto das proposições descritivas dos diversos ângulos da formação e manifestação do Poder Constituinte dependesse (nunca dependeu) do acerto das proposições reveladoras da existência e da natureza de Deus. Os conceitos

É que a pretendida clareada de horizontes na compreensão do verdadeiro Poder Constituinte nos habilitaria: a) de uma parte. se consideram ateus?). etc. Esta é a sua natureza.2 1. então. uma utilidade mais que propriamente acadêmica na confrontação que estávamos a idealizar. Estudos e reflexões que. Sua realidade prescinde da noção de causa. Brasil. ou "Juiz Supremo do Mundo". Venezuela.4." E não se pode negar a realidade de que a invocação do nome de "Deus". . pois o fato é que os estudos e reflexões em torno do Criador são em muito maior quantidade do que os elaborados ao derredor do Poder Constituinte. da França.. é exatamente este: aquele que tudo pode com inicialidade é a fonte mesma do seu e de qualquer outro poder. o seu núcleo duro (expressão muito ao gosto dos publicistas norteamericanos. etc. de modo quase invariável. Sem embargo. ou "Ser Supremo" tem sido grafada nos preâmbulos de Constituições como as dos Estados Unidos da América. a melhor rebater os fundamentos daquilo que se vem chamando de neoconstitucionalismo.3. Alemanha. 1. Mais até. sua referibilidade às idéias mais assentes sobre Deus lhes propiciaria uma clareada de horizontes. também nenhum órgão ou sujeito simplesmente constituído pode se travestir de Poder Constituinte naqueles pontos que se põem como a própria fundação do Ordenamento Jurídico e como alteração das características centrais desse Ordenamento. Noutros termos.5. Tudo a nos levar a presumir que uma objetiva demonstração de certa similitude entre os dois termos paradigmáticos (Deus e o Poder Constituinte) contribuiria para quebrantar as resistências doutrinárias mais recentes à tese de que há um espaço de conformação jurídico-positiva que somente pelo Poder Constituinte é passível de ocupação. já a título de execução do nosso pessoal estudo comparativo entre Deus e o Poder Constituinte. b) se a emergência de coletividades supranacionais pode ensejar a formação de um Direito superior à Constituição de cada país-membro de tais coletividades (a União Européia. Nesta última dimensão do neoconstitucionalismo. ou "Divina Providência". de fato.. a mais vivamente fixar os contornos do constitucionalismo atual. 1. aquele que tudo pode com inicialidade só existe mesmo para tudo poder com inicialidade. a ontologia e as manifestações do Todo Poderoso é de generalizada ou massiva aceitação (quantos homens e mulheres. o que nessa literatura se tem ajuizado sobre a existência.tanto as que permitem quanto as que proíbem tal reforma . que é um constitucionalismo fraternal. em última análise.2. 1.são normas que podem servir de fundamento para a modificação delas próprias. já podemos antecipar que os ângulos de estudo que nos parecem mais salientes dizem respeito à questão de saber: a) se as normas que tenham por objeto a reforma da Constituição . que chegou a dizer: "Quero conhecer o pensamento de Deus. O primeiro juízo que passamos a formular. Logo. por ser a própria causa de tudo o mais.2. Antevíamos até mesmo uma dimensão prática. alemães e portugueses). a ALCA e o MERCOSUL.acerca do Poder Constituinte gravitam em outra esfera de mentalização fenomenológica. funcionalmente. o que se tem falado sobre Deus permeia pronunciamentos de cientistas do quilate de um EINSTEIN..6. O resto é detalhe. apanham a figura de Deus por um prisma subjetivado ou enquanto ser que se dota de uma vontade do tipo psicológico. b) de outra banda. notadamente).2.2. Além dessa disponibilidade muitíssimas vezes maior da literatura sobre Deus. Argentina. assim como nenhuma instância geratriz mundana pode assumir o papel de Deus naquilo que diz respeito à montagem das linhas mestras do universo e à substituição dessas linhas por outras.

O dínamo do nosso Globo. por ser o próprio sujeito. Por comparação. Até mesmo um micróbio. adensando-lhe incessantemente o corpo e assim possibilitando ao rio (do qual fazem parte nascente e corrente) aquele final e interminável abraço com o mar. convocou a natureza e os seres humanos. como o ser-nascente é ficar para trás da corrente. um vírus.2. com a possibilidade de tais criaturas. Não faz sentido que a fonte de todo o poder use do seu poder originário para se fazer secar enquanto fonte mesma. Ainda recorrendo à imagem do rio. a sua corrente e a sua embocadura. que a mente humana fragmenta. 1. com o tempo. se esforça por se conservar ou permanecer tal como é. Noutro dizer. 1. avançamos no raciocínio para entender que o sujeito (à falta de melhor palavra para a qualificação ontológica de Deus) cuja natureza é a de tudo poder não tem o poder como algo distinto de sua subjetividade. no sentido de se colocar perante esse mesmo sujeito como um predicado ou uma virtude. o poder é o sujeito. criaturas Dele. 1.2.7.3. Ele é ao mesmo tempo o seu nascedouro. É de SPINOZA a categórica asserção de que todo ser. todos eles reagem o quanto podem ao remédio com que são eventualmente combatidos.8. A indistinção ontológica entre Deus e Sua onipotência 1. Circularmente. o corpo humano. O que é lógico supor é o poder que tudo pode a não fazer tudo sozinho.9. Nada disso! O poder não é distinto do sujeito. a primeira a determinar à segunda que reflua por inteiro ao ponto de partida para nesse ponto de partida se esvair. para se tornarem co-criadores deste mundo terráqueo. ou a sua foz. e não aos pedaços. Tudo é uma coisa só. Deus. Ele inicia uma obra para outro completar. e por isso é que um não . no seu conjunto. de repente poderão se transformar em criadores do seu Criador. senão. sozinha (Deus está sempre sozinho enquanto "substância"). Impossível! A nascente de um rio de superfície (há rios que são subterrâneos) existe para vir à tona e liberar uma parte de si numa certa direção. Esse tipo de poder não é algo que o sujeito possua. há pouco projetada. 1. o sujeito é o poder. O mister que lhes cabe é sempre o de coadjuvantes. ele não é apenas a sua nascente.2. continuamente. ou com outro rio que no mar desemboque. gerando o fenômeno da corrente. Com um pouco mais de interesse especulativo pelo tema. Não há como conceber a substância de um ser a conspirar. É auto-evidente o consectário dessa afirmação de que existe um ser que tem no tudo poder com inicialidade a sua própria ratio essendi: o ser que só existe para tudo poder com inicialidade não pode se demitir do seu papel de tudo poder com inicialidade. uma bactéria. O ser-corrente é seguir em frente. Esta só pode ser um ininterrupto caminhar para adiante da nascente. porém.aquilo que responde pela sua raison d'être.3. porque. figuremos uma nascente d'água fluvial e sua própria corrente.1. elas colocarão o Criador sob o risco de se tornar criatura das suas criaturas. Ambos surgem no mesmo instante. na medida em que pode. O rio é rio por inteiro.2. Tais órgãos são. ou a sua corrente. no caso.3.3. Deus a se postar como refém daqueles que.3. sendo criaturas. nascente e corrente existem para cumprir a destinação do rio de se encontrar perpetuamente com o mar. Se é assim. 1. ora por incapacidade de compreender o todo. como o corpo humano já nasce com todos os seus órgãos elementares. Jamais. ora por amor à exigência intelectual de classificação ou compartimentação endógena das coisas. assim destacadamente. se ombrearem em tudo e por tudo ao seu Criador. distanciar-se do seu nascedouro. contra a sua própria conservação. o corpo humano é o conjunto de tais órgãos.3 1.

5º e inciso I do art. para um poder que assume o risco de já não poder mais nada. Se está num trono. o místico e filósofo indiano OSHO assim fala da verdadeira sabedoria: "As pessoas caem sempre que estão nos pontos mais altos. Não se trata de uma dualidade fenomênica. ou não existe. como a flor e a sua corola. Deus tem que ser a fonte primaz da vida. e somente ele. Por isso que. que. faz do ser uma outra coisa ou até uma coisa nenhuma?) 1. não são alturas verdadeiras. Convém dizer de outro modo. e o que sobra já é outra coisa em qualidade e essa outra coisa em qualidade pode até ser o nada. Não há querer. p. Tudo o que alcançar neste mundo lhe será tomado. de que dá sobejas demonstrações o arsenal prescritivo da Constituição brasileira de 1988 (inciso LXIX do art. a causa de todas as leis naturais que regem a vida por Ele criada ou na qual Ele se transfundiu. porque. O quebrantamento do poder absoluto arrastaria consigo o próprio sujeito absolutista. à moda de exemplo5). Retire-se-lhe o poder de tudo poder. que o próprio Direito se encarregue de fundir com o Estado o poder que o Estado tem de legislar. o Estado enquanto sinônimo de Poder Público. Deus não tem o poder de tudo poder. o Poder Público enquanto sinônimo de Estado.3. que é absolutista porque tudo pode e porque tudo pode é que é absolutista. de que Deus.. consubstanciaria um autoesvaimento.4 1. mais cedo ou mais tarde será destronado.3. ano de 1992. Tudo é uma só realidade. Não é desarrazoado. mais cedo ou mais tarde será difamado.. negritos à parte). porque dessa perda essencial restaria um outro ser.3. chamando-o de "Poder Público". A sabedoria não pode regredir . o sujeito que tudo pode tem nesse tudo poder a sua causa formal. se apartado do ser. e. Ele não se põe como a fonte primaz da vida por assim optar pela condição de ser fonte primaz. é preciso trabalhar com a idéia de que o centro subjetivado do poder que tudo pode tenha no fenômeno da onipotência mesma a impossibilidade da renúncia a tudo poder. ou existe. 230. Mais que isso.7. então. no mundo interior. não há opção. Mas esses pontos pertencem ao vale. de executar as leis e de julgar segundo essas mesmas leis. Se Deus existe (pouco importa se existe como sujeito processante. que o ser desempenha e que o torna único entre os demais fenômenos. em louvor à clareza do pensamento. Deus é o poder de tudo poder. não existe o outro. em rigor. não pode ser perdido. isto é. Se você tem fama. tudo o que você alcança é para sempre. Entendendo-se por forma aquilo para que serve o ser. Não é algo que você possua torna-se seu próprio ser e você não pode desconhecê-la (ÍCONE editora. Uma absurda passagem de um poder que tudo pode. No tema.4. enfim. O ser que tem na aptidão originária para tudo poder o próprio núcleo firme da sua natureza (forma). 1. O deixar de ser fonte primaz é .6. 1.9. Mas. então. reitere-se. mas de uma unidade ontológica. no maravilhoso livro A SEMENTE DE MOSTARDA. Sob este visual das coisas. ou como um processo em si mesmo substante). porque essa renúncia. em rigor.8. Assentado fique o juízo. negue-se-lhe o instinto de preservação. 1.3. destarte. Em linguagem aristotélica. Um atentado ao próprio "instinto de conservação". se passarmos do plano da imanência (plano do mundo físico e cultural) para o plano da transcendência (que é o espaço dos seres espirituais ou "supra-humanos". mais que renúncia. para nos expressarmos numa linguagem kelseniana). A função específica.uma vez atingida. portanto. é capaz de fazer. Dá para concluir. Uma implosão.3. Aquilo que o ser. 8º. tal ser não pode decair dessa aptidão. torna-se parte de você. o mar e as respectivas ondas (como entender enquanto predicado ou virtude aquilo que.3.pode ser destacado do outro. 1.5. é eterno. pois.

em cujo ponto de partida se encontra o conceito daquela Substância de que tudo deriva. que é a substância primária de que falava SPINOZA (ou. por sua vez. contém o espermatozóide).com a dialética marxista enquanto método6). incessantemente. da mudança mecânica de estados. Deus enquanto norma normarum ou a fonte das fontes 1.. quem sabe. do qual deva ser formado. . óbvio). senão seria limitada por outras e não poderia ser independente.4. 1. ou outro nome que se dê à fonte das fontes ou a lei das leis ou a norma normarum.) são leis que se põem como a causa ou a fonte de muitas outras leis igualmente físicas. e aí o ser humano tem a necessidade de. vamos ter que responder que o ser humano proveio do fato inicial da fecundação de um óvulo (feminino. no princípio da continuidade da vida em geral.4. partindo do fato de que as leis naturais da vida (lei da gravidade. Eis a composição vernacular do sistema spinoziano do universo (ETHICA. cair nos braços de Deus. 3). é imperioso que nos perguntemos sobre a existência de um ponto de partida que seja comum a todas elas. segundo o qual tudo que acontece é por efeito necessário de uma causa também necessária ou que não pode deixar de ser. Mais: é preciso mesmo que as flores caiam para depois rebrotar. Se prosseguirmos no exercício das perguntas sobre o fenômeno da concepção humana.. como teremos que passar pela explicação do ovário .por ser o ovário a glândula genital feminina que produz óvulos. Não há como deixarmos de nos inquirir sobre um tipo de instância que se ponha ali no próprio começo de tudo que pertença ao mundo do ser. Desta concepção extraem-se outras: se é absolutamente independente deve ser infinita. etc. Deus. claro) por um espermatozóide (masculino. da conexão universal dos fenômenos. ministrada pela própria Ciência. porque somente assim é que a árvore pode permanecer viva. que somente coincide . Agora. Por hipótese.4. 1. I. ao menos no estádio atual das categorias lógicas com que trabalha a mente humana (e aqui tomamos em linha de conta as contribuições da lógica formal e da dialética hegeliana.por serem eles a glândula genital masculina que fabrica o esperma (que. a seu turno.1.4. isto é. 1.3. seqüenciando a intuição de que "nada pode surgir do nada" (PARMÊNIDES). que é um mundo regido pelo citado princípio da causalidade.2. da conservação da energia.esta última . E é assim de indagação em indagação que iremos estacionar num ponto absolutamente irredutível a novas perguntas sobre a parte orgânica do corpo humano. aquilo cujo conceito não tem necessidade do conceito de uma outra coisa. v. é árvore feita para a produção de suas flores e da produção de suas flores.g.4. que não é outro senão o conceito de Deus enquanto fonte das fontes ou norma normarum: "O que é em si e se concebe por si. é única em tudo. Tanto quanto o flamboyant. embutido. Esse ponto é a lei ou o princípio da perpetuação da espécie. traduzido na idéia de que a vida em geral é feita para a gestação e da gestação de infinitas formas (especiais) de vidas. só cabe mesmo apelar para uma instância geradora da própria lei da continuidade da vida em geral. E neste passo vamos ter que reconhecer: para além da explicação racional. igualmente naturais sabido que tais leis empíricas são encadeadamente regidas pelo princípio da causalidade -. As flores vêm e vão. e o flamboyant fica. continuamente.4. 1. teremos que passar pela explicação dos testículos ..incompatível com a idéia que se possa ter de Deus. da atração e simultânea dispersão dos corpos. a não-substância de que derivam todas as substâncias). se queremos saber a causa imediata do nascimento de um ser humano.

em que abismo. todo céu. nem pela convocação de um êmulo. Deus. todo mar.. Um desses modos . num segundo momento. um clone. caso contrário dependeria de sua causadora. Todavia. então.4. todo chão?). Este princípio necessário.5. que HANS KELSEN pôde falar de uma Ciência do Direito? Uma ordem sistemática de conhecimentos que tem naquela hipotetização normativo-fundamental a sua própria condição inicial de possibilidade como esfera autônoma e científica de saber?7 1.5.5. Deus. Poder único. decorrendo suas qualidades e ações de sua própria natureza (. pressuposta (não efetivamente posta por nenhum órgão jurídico. 1. Nem de forma direta. 1994). absolutamente inconvivível com outro poder de igual ontologia. e.5. enfim). Um conceito que se intui a priori.5. um sósia. na Sua onipotência. este princípio imanente do universo é Deus ou Natureza" (p. Ademais. tão onipotente quanto Ele. Deus criaria um novo Deus. com Ele.4.também precisa ser causa sui. o que impediria o novo Deus "onipotente" de refundir.já foi dito . mas saltar imediatamente para uma conclusão. Se Deus pudesse criar um segundo Deus. e por isso voltamos a ajuizar que a natureza de Deus está em ser o poder que tudo pode. Não seria exatamente assim com o Poder Constituinte? Uma força instintiva que não comporta sucedâneo.5. Ícone Editora.5. Um postulado. É também o poder de não deixar que outro poder tudo possa. falar sobre Ele não é formular proposições deduzidas da análise de elementos objetivos que se conectam para formar um todo unitário. a um só tempo. uma energia completamente primária e insimilar. uma norma fundamental hipotética. não foi a partir da intuição da existência de uma norma fundamental simplesmente pensada.).1. precisa ser autodeterminada. com a entrada em cena de um segundo Deus. uma . ou até mesmo descriar o Primeiro?8 1. 1. o próprio mapa a sumir (em que chão.5. singular e incausado. 14 do prefácio de MÁRCIO PUGLIERI ao "TRATADO POLÍTICO". segundamente. O outro modo é a impossibilidade do suicídio em dois tempos: num primeiro tempo. menos deixar de tudo poder. nenhum costume. Este novo título formal nos introduz na exposição dos dois modos lógicos de Deus perseverar como o poder que tudo pode. permanecer como a força que tudo pode. sabido e ressabido que a existência mesma de Deus nem pode ser rigorosamente confirmada nem rigorosamente desconfirmada pela Ciência. Terminemos este segmento reflexivo com a ponderação de que não desconhecemos o grande risco intelectual de quem se dispõe a falar sobre Deus.3. se a morte do "originário" Deus levaria de roldão todo abismo. Realmente. O desdobramento de idéia que nos esforçamos por transmitir é simplesmente este: a onipotência não é só o poder de tudo poder. eterno. como é próprio de todo postulado. A incontornável solidão da onipotência de Deus 1. Deus originário. É próprio do Ser onipotente. para os intelectuais que O admitem é sempre uma hipótese de trabalho. e. pura e simplesmente. Logo. 1. É. enfim. à completa imagem e semelhança Dele. primitivo Deus. em que céu. nenhuma instância volitiva imanente. retornaríamos àquela já descartada hipotetização: Deus a sumir do mapa. onipotência e unipotência. 1. de SPINOZA.. está condenado à solidão.é a impossibilidade do suicídio direto ou instantâneo: Deus a bater em retirada. em que mar. portanto: primeiramente. portanto.2. existir em absoluta solidão. Não há como duas ou mais onipotências ocuparem o mesmo espaço. esse novo Deus onipotente destroçaria toda a obra do primeiro e assim decretaria a própria sentença de morte do Deus inicial.

Sem o fenômeno da estatalização. no plano territorial-interno. porque somente assim estatalmente a se metamorfosear é que o povo: a) pode experimentar sua natureza de instância deliberativa soberana. A originária força de possuir um Direito próprio.4. que tem no Estado a sua própria condição de aplicabilidade e expansão. É dizer que o povo pôs em movimento. exclusivo.6. forcejaremos por ministrar. Emancipação política (soberania) para o povo poder se irrogar tal Ordenamento. segundamente. etc. 1. para o povo impor o seu próprio Direito no âmbito do território de que se apodera. Se antes da criação da vida humana sequer era possível falar da existência de Deus. e nunca de forma pasteurizada? É a resposta que. destarte. Enfim. é aplicável. com animus domini. E tudo isto somente se consuma pelo fenômeno da estatalização. para uma coletividade humana. 1. dos demais povos soberanos. para o povo grangear a adesão.1. Queremos dizer: é aplicável à natureza de cada povo soberanamente concebido. paulatinamente. relações jurídicas internas. assim. ou étnico. O povo como a transubstanciação do poder imanente que tudo pode 1. É pressupor a soberania em ação. antes da criação do Estado também não se pode. com esta dúplice função: primeiramente. . pela importância do assunto: o ser-povo. superior a qualquer outro poder jurídico. c) força passagem para o seu ingresso na coletividade internacional de Estados. exercitou uma soberania. 1. o já existir sob a forma jurídica de Estado. animamo-nos a enunciar que boa parte do que dissemos a respeito do caráter de Deus. começando por este capítulo e prosseguindo nos subseqüentes. já agora no plano imanente. em termos jurídicos (não sob o prisma sociológico. ou pelo menos o respeito. o que objetivamente revela? Revela a efetividade da emancipação ou soberania do povo. quando pode dispor normativamente sobre si mesmo. única via lógica (não há outra) de o povo.6. Mas o ser-Estado. Afirmar. que um povo já existe. É exprimir: o ser-povo significa poder existir sob a forma jurídica de Estado. quer no seu próprio território. e que não é inferior a nenhum outro poder jurídico.6. por definição. 1.).3. especular sobre Ele (quem falaria. falar da existência de um povo. Repisando a idéia. à natureza do povo. o que dissemos acerca da índole de Deus é de ser reproduzido quanto ao caráter de cada povo. ou histórico. incorpora o poder de se autodeterminar jurídicamente. de forma autoditada. terceiramente. O povo só é povo. b) se predispõe a protagonizar. não há como entrever a face jurídica do povo. garantidamente. para o povo não mais se submeter ao Direito de outro povo.solitária potência do mundo do ser? Um poder que só pode ser concebido in natura.6.6. quem especularia?). Se se prefere. juridicamente. jurídicamente.9 1. naquele preciso momento da metamorfose do povo em Estado.2. no plano transcendente. no plano territorial-externo.6. único modo prático-formal de o povo por inteiro se autoconferir um Ordenamento e uma personalidade jurídica. E isto já significa a emergência de um Ordenamento Jurídico próprio. Única maneira objetiva e permanente de o povo atuar como um centro personalizado de imputação jurídica. é dar conta do exercício vitorioso de uma emancipação política. Implica emancipação como a forma exteriorizada de uma soberania que é. se auto-referir como sujeito de relações-de-Direito.5. quer na esfera territorial que é comum aos demais Estados soberanos (a ordem internacional de Estados). Quando se autoqualifica juridicamente. Atento ao relativismo que é próprio das comparações.

seja para se assumir como a instância decisória interna mais importante, seja para ombrear-se às demais instâncias internacionais de Estados. Numa nova metáfora, o Estado é a borboleta em que se transformou a crisálida de uma sociedade humana aspirante a povo.10 1.6.6. O que verdadeiramente conta, nessa cruzada histórica do povo em busca de si mesmo, à cata de sua própria totalidade como ser jurídico, é o resultado. É a efetividade interna e externa da personalização jurídica do povo em um novo Estado. Não que a efetividade só exista, no plano interno e externo, a partir do reconhecimento unânime desse novo Estado pelas instituições aplicadoras do Direito, no plano interno, ou, então, pela sociedade internacional de Estados. Absolutamente! Basta que o número dos reconhecedores assegure ao novo Estado a perspectiva, o clima, a tendência natural de prosseguir obtendo novos reconhecimentos (ainda que tácitos), à medida que se vão escasseando as possibilidades de recuperação de terreno do Estado decaído ou daquilo que sobrou da antiga ordem estatal. É o que poderíamos designar por situação de efetividade global do Estado emergente, imagem de que se valeu HANS KELSEN para dizer que o Ordenamento Jurídico não perde a qualidade de Ordenamento pelo fato de uma ou outra de suas normas, embora válida, deixar de ser concretamente aplicada. O que interessa é que, no global, no geral, no plano daquilo que profusamente ocorre, a Ordem Jurídica seja respeitada. Ouçamos o maior expoente do positivismo jurídico da recém-passada centúria: "Uma ordem jurídica não perde, porém, a sua validade pelo facto de uma norma jurídica singular perder a sua eficácia, isto é, pelo facto de ela não ser aplicada em geral ou em casos isolados. Uma ordem jurídica é considerada válida quando as suas normas são, numa consideração global, eficazes, quer dizer, são de facto observadas e aplicadas" (ob. cit., p. 298). 1.6.7. Ainda insistindo na comparação possível entre Deus e o povo, devemos concluir que o povo também não tem, em rigor, o poder imanente de tudo poder. Ele, povo, assim juridicamente designado pelo fato de se organizar em Estado soberano, é o próprio poder de tudo poder, em termos jurídicos e no plano territorial interno. Dá-se, na imagem ideal do povo, a transubstanciação da soberania (do latim super omnia, a traduzir aquilo que está acima de tudo ou acima de todos), assim como na doutrina católica se dá a mudança de estado do pão e do vinho para o corpo e o sangue de Jesus Cristo, na Eucaristia (dogma definido no Concílio de Trento). Ou, numa exemplificação propriamente científica, a osmose que se processa entre o povo e a soberania é algo assim como o encontro de duas partículas de hidrogênio com uma de oxigênio, a determinar a mudança de natureza desses dois elementos químicos para a formação de um terceiro: a água. 1.6.8. Vistas as coisas por este ângulo, força é convir que a soberania outra coisa não é, na prática, senão o próprio modo estatal de ser do povo. É como inferir: no justo momento em que a transfiguração estatal se efetiva, já o é como resultado empírico da fusão do poder soberano com o povo (o que significa dizer que o povo e a soberania passam a compor uma só unidade fenomênica, pois o povo é um com a soberania e a soberania é uma com o povo). O povo, impessoalmente encarado, é o poder soberano, tanto quanto o poder soberano, subjetiva ou personalizadamente focado, é o povo. 1.6.9. Sem o povo, a soberania é forma pura, isenta de toda matéria, e, portanto, vazia. E sem a soberania, que é o povo? Matéria humana coletiva ainda juridicamente privada de sua definitiva forma. Um ser jurídico ainda carente de totalidade, a meio caminho da autoconsciência, porque, nele, a soberania permanece numa dimensão apenas virtual. Daí a asserção de que, sem a incorporação da soberania, o povo não dá

a si próprio uma Ordem Jurídica e deixa de se personalizar no Estado. E assim juridicamente incompleto e estatalmente irrealizado é que o povo não consegue superar o estágio político de simples população, que é o inconcluso estágio de crisálida. 1.6.10. Perguntamo-nos: mas o que faz o povo ser assim a fonte e o nervo da soberania? A própria subjetivação do poder mais alto em que a soberania consiste? É que o povo, no seu amálgama com o território de que se torna senhor, falando geralmente a mesma língua e vivenciando uma cultura própria, constitui o que se convencionou chamar de nação. Algo mais que sociedade humana, mais que população, muito mais que simples aglomerado de pessoas, por implicar uma verdadeira comunidade (de comum unidade); isto é, uma real comunhão de vida, no sentido de consciência coletiva quanto à partilha de um mesmo destino histórico, por se encontrarem todos em um mesmo barco. Logo, o mais abrangente e impessoal e permanente enlace humano (que é mais do que convivência hic et nunc), de sorte a plasmar um tipo de realidade social que só pode ser o começo de tudo, no plano da Política e do Direito. 1.7. A soberania popular ou o modo constituinte de ser do povo 1.7.1. O Poder Constituinte 1.7.1.1. É neste ponto de intelecção que vem à baila a figura do Poder Constituinte. Um poder que em nada discrepa da soberania de que vimos falando, por ser ele essa mesma soberania; ou seja, O Poder Constituinte é a soberania que se manifesta de modo inicial ou primário. Logo, o nome que a soberania toma, quando expressada com inicialidade. 1.7.1.2. Se falamos assim de primariedade expressional da soberania, é porque o povo-nação, já imerso no seu Estado, atua em outros momentos que o Direito Positivo costuma etiquetar como expressão de "soberania popular". É o caso da Constituição brasileira de 1988, cujo art. 14 faz dos institutos do sufrágio universal, do voto, do plebiscito, do referendo e da iniciativa das leis pelos cidadãos uma forma de exercício, justamente, da soberania.11 1.7.1.3. Uma outra razão existe para falarmos de momento inicial da soberania, e aqui já temos em vista a figura do próprio Estado. É que ele também recebe o qualificativo de soberano, na medida em que pode impor ou ditar um Direito comum a todos, no interior do seu próprio território. E no uso dessa aptidão para expedir um Direito de abrangência e acatamento geral, o fato é que nele mesmo, Estado, se dá a reedição daquela marca registrada que é do povo, soberanamente concebido: o poder de procriar um Direito a que ninguém escapa (no caso do povo enquanto fonte normativa, esse Direito é a própria Constituição; no do Estado, o Direito pós-Constituição). 1.7.1.4. Reexplica-se. Põe-se no Estado a designação de soberano porque ele, tanto quanto o povo-nação, produz um Direito de máxima e irrecusável abrangência pessoal e territorial. Com a diferença de que o povo assim o faz pela altissonante via da Constituição e no uso de uma força originária ou potência propriamente dita; ao passo que ele, Estado, só pode fazê-lo por normas que são posteriores à Constituição e no uso de uma potestade ou competência derivada (a potência se dilui em competências, e não em outra potência, como bem observam HART e VANOSSI). 1.7.1.5. É assim no uso de uma capacidade normante que o povo lhe delega, lhe cede,

lhe empresta, enfim (sempre por conduto da Constituição), que o Estado dita um Direito comum a todos e, pela efetividade desse Direito, passa a abrir os mais favoráveis espaços de reconhecimento internacional à "sua" (dele, Estado) soberania. 1.7.1.6. É de se perguntar, naturalmente: e quando ocorre aquela citada manifestação primária da soberania? Manifestação primária, essa, que estamos a identificar com o Poder Constituinte? Não com o Estado? 1.7.1.7. Resposta: a soberania que se manifesta como Poder Constituinte somente ocorre, formal ou oficialmente, no preciso instante da criação jurídica do Estado. Criação que se formaliza, hodiernamente, no corpo de um documento jurídico-positivo cujo nome é Constituição (palavra que, no vernáculo, significa a maneira particular de ser de cada coisa ou objeto de conhecimento). 1.7.1.8. Quanto à justificativa para o nome técnico "Poder Constituinte", é porque ele significa o poder de constituir a Constituição (releve-se a poluição auditiva), que termina sendo o poder de constituir o Estado e o poder de dar início à montagem do Ordenamento Jurídico do povo e do Estado mesmo.12 1.7.1.9. Note-se bem: acabamos de ajuizar que o Poder Constituinte é o poder de constituir a Constituição, e não o poder de constituir normas constitucionais. A diferença entre as duas coisas é muito importante, porque de qualidade. Se toda Constituição é um feixe de normas constitucionais, nem todo feixe de normas Constitucionais é uma Constituição. Queremos salientar: o poder de editar a Constituição não incorpora o poder de reformá-la, tanto quanto o poder de reformá-la não incorpora o poder de editá-la. Quem faz o todo, faz o todo, e não menos. Quem faz a parte, faz a parte, e não mais. 1.7.1.10. Tornando ao mote: se toda Constituição originária é um repositório de normas constitucionais, nem todo repositório de normas constitucionais é uma Constituição originária. Isto porque as emendas à Constituição pressupõem uma Constituição originária a emendar. Lógico! E tais emendas veiculam normas... constitucionais. Porém, sob um regime normativo que não é autoditado por elas, e, sim, pela própria Constituição emendada. 1.7.2. O Poder Desconstituinte 1.7.2.1. Chamando o feito à ordem: O Poder Constituinte, manifestação primária da soberania, faz a Constituição, que, a um só tempo, faz o Estado e inaugura o Ordenamento Jurídico. É esse Ordenamento que vai receber do Estado uma ininterrupta complementação (e garantia), de maneira a consubstanciar todo o mundo do Direito: de um canto, o Direito-Constituição, que o Estado originariamente não faz (a parte da Constituição que o Estado faz já é a veiculada por emendas); de outro canto, o Direito pós-Constituição, que o Estado faz, ou, então, reconhece. Não há um tertium genus. 1.7.2.2. Dizer que existe um Direito originário que o Estado não faz é também dizer que esse Direito é o único a não passar pelo crivo do Estado ou de qualquer outra pessoa jurídica. É que, no momento constituinte, a sociedade é concebida como se de pessoas coletivas não se formasse. Nem públicas nem privadas. Apenas as pessoas físicas é que se tornam protagonistas das ações políticas de que resultam o féretro de uma Constituição e o partejamento de outra. 1.7.2.3. É aqui mesmo o lugar apropriado para falarmos de um Poder Desconstituinte. Que é o poder correlato ao Constituinte ou imbricado com ele. Pois é de todo evidente que o poder de constituir um novo Estado implica o poder de

8. Instância humana primária e mais importante.4.2. É esse modo constituinte de ser que faz do povo. A Constituição inaugura o Ordenamento.8. a nação é a única instância imanente capaz de partir de um marco zero jurídico para colocar uma Constituição em lugar de outra. quem o conheceria para aquém das esferas da pura espiritualidade ou dos colmos angelicais?). de povo (povo-nação) é falar de soberania. que é o próprio mundo por Ele criado (senão. Outro. Para fundar o universo. portanto. E. responsável pela criação da pessoa coletiva ou plural também mais importante (o Estado). que é a Constituição por ele criada. E também por inteiro. 1. é também olhando para a Constituição que reconhecemos a soberania de quem a procriou como norma jurídica primária (a Constituição enquanto modo jurídico de o povo se fazer conhecido como instância exercente de uma soberania que vai além do estádio da pura virtualidade). o que temos é o modo soberano de ser de uma coletividade humana. por completo.8. há um modo jurídico de o povo se fazer conhecido. De conseguinte. nele. de Poder Constituinte/Desconstituinte.4. início lógico de todo o Direito Positivo. 1. sob o prisma político. Falar. na mesma pegada. a dar início à criação do mundo jurídico em particular e a prescrever o modo pelo qual esse mundo jurídico vai receber seus necessários e infinitos complementos. podemos dizer que há um modo empírico de Deus se fazer conhecido. que não precisa mais do que a sua própria realidade para instaurar as relações que pretender.8. a subjetivada figura do Estado. Se é olhando para o Universo que reconhecemos a soberania de quem o fez.8. o povo. 1. Se é possível promulgar uma nova Constituição.8.7.2. então.8.1. A título de remate.7. que é um modo jurídico inicial ou constituinte de ser. 1. 1. a instância humana primeva por excelência. Por igual. de Constituição. Se é pelo dedo que se conhece o gigante.5. dois poderes que tudo podem: Deus no céu e o Poder Constituinte na terra (que é um poder geminadamente constituinte/desconstituinte). O mundo de Deus e o mundo do Direito 1. Quem inova o Ordenamento é o Direito . São temas que se interpenetram.5. de Estado e de Ordenamento Jurídico. Para fundar o Direito. assim vinculadamente. apenas três considerações: I . e pela necessária interpenetração é que se conceituam. a produzir o Direito mais importante (que é a Constituição). 1. e com essa outra Constituição fazer o quê? Instituir um novo Ordenamento Jurídico e.desconstituir o velho. claro que isto se dá pela despromulgação daquela até então vigorante. que se reitere a pacífica noção de que a Constituição não inova o Ordenamento Jurídico.3. necessariamente. Como fazemos todos nós diante de um bom espelho de cristal. se auto impõe as coordenadas de atuação legiferante. por inteiro. neste passo. É assim que se movimenta ou se materializa a potência. Se se prefere. Deus faz o que é próprio da potência em que Ele consiste: impõe a Si mesmo as próprias condições de "trabalho" (evidente que o vocábulo trabalho é usado por analogia com as empreitadas humanas de edificação de algo a partir de um imaginário ponto zero).a primeira. 1.2. tanto quanto o Estado não funda esse Ordenamento. Temos. Cada realidade a olhar nos olhos da outra para encontrar mais nitidamente refletida a própria imagem. 1.6. a dar início à criação do mundo em geral (a natureza e os seres humanos dão seqüência à obra de Deus). Um. a nação encarna essa potência de abater o velho e erguer o novo Ordenamento Jurídico.

sem a menor força intrínseca de inovar o próprio fundamento da Ordem Jurídica (a Constituição mesma). versando a dicotomia "Poder Constituinte e Poder de Reforma Constitucional: "Por ser um poder `fundador'. aí. associa-se-lhe. O único instante em que o Direito se subtrai completamente ao Estado. ao contrário do sucedido com o Poder Constituinte.. Daí que não obedeça a normas regimentais antecipadamente lançadas. Seu agir ou Seu fazer já são. e não do Estado à sociedade. a atividade do poder constituinte. É tão-somente no âmbito do Poder Constituinte que é possível distinguir as duas coisas . por natureza independente. não condicionada a amplitude de sua competência por lei preliminar. a partir de um dado formal e outro material: formalmente. o poder constituinte originário não é regulado por direito anterior. O dínamo do Direito. não há como deixar esse órgão de atuar segundo pautas procedimentais adrede redigidas. oriunda de outro órgão. III . o timbre criador ou instituidor. p. (. desse modo. e um outro tipo de soberania de que trata a Constituição (pois inteiramente normado por ela). porque o Poder Constituinte bem pode se manifestar por um órgão plural ou coletivo de deliberação. em si mesmos. sobretudo por conduto da lei. e. pela eleição dos representantes do povo. 162). A lei é que é o verdadeiro motor do Direito.regimento e respectiva aplicação -.a terceira e última consideração é esta: há um tipo de soberania que trata da Constituição (pois que a própria Constituição originária é que resulta do exercício dele). 1989.. Donde esta didática passagem do livro "ESTUDOS CONSTITUCIONAIS". O instrumento convocatório da assembléia é apenas meio que proporciona. singular ou colegiado. ao qual não é dado estabelecer raias e vedações à tarefa inovadora. por estar cerceada pelo ato de convocação. um fato-norma (nenhum órgão deliberativo. comumente. materialmente. o qualificativo `originário'. Acentua-se-lhe.)" (edição da Universidade Federal da Bahia. Somente o primeiro a revelar o fato de que o Poder Constituinte é o único momento político-normativo que vai da sociedade ao Estado. por se traduzir em singela aplicação dos conteúdos e valores da Constituição Positiva. falta-lhe a dimensão de assembléia constituinte.a segunda consideração é a de que. pelo seu modo comparativamente simplificado de elaboração. se coloca entre Deus e Sua originária criação).pós-Constituição. Deus não se serve de ninguém para criar o mundo. . da autoria de JOSAPHAT MARINHO. II . Quando a corporação parlamentar não opera com liberdade de decidir. de elaboração estatal. Dotado de propriedade tão eminente.

como sempre enfatiza MICHEL TEMER)..6. Quando pronunciamos a locução "Poder Constituinte". O caráter político do Direito posto pelo Poder Constituinte 2. O caráter democrático-formal do Direito posto pela sociedade política 2. numa das mãos.1. todo povo assim constituintemente dimensionado vai estruturar o seu Estado no bojo de um diploma jurídico-normativo que toma o sintomático nome de Constituição.A Lógica Própria do Poder Constituinte e a do Poder Constituído Sumário 2. II . O Poder Constituinte como realidade que fica do lado de fora da Constituição 2. no rigor dos termos. mantendo com esse Estado uma essencial relação de unha e carne. Mais até. e o Poder Constituído como o poder que pode o menos sem poder o mais 2.8.3. na outra.1. porta o giz com que vai escrevendo nos espaços vazios dessa mesma lousa).Capítulo II .2. tão incondicionado. porque originariamente imbricado em toda a pólis. O inexistente vínculo entre "excesso de rigidez" e "Poder Constituinte Evolutivo" 2. na sua originária redação.1. que já não pode ser concebido senão como um poder que é parte do povo mesmo. que é o povo enquanto ser ou realidade constituinte. Pois bem. sem dúvida que estamos a falar de um poder genuinamente político.5.a Constituição é a primeira manifestação objetivo-sistemática daquele poder imanente que tudo pode. a ponto de se poder afirmar que a cada nova Constituição corresponde um novo Estado (juridicamente falando.4.1. do Estado. 2. esse poder que.. Donde podermos trocar a palavra "povo" pela expressão "poder constituinte".2.4. O modo constituinte de ser do povo.1. Ela passa a transitar pelo mundo do ser (não do dever-ser jurídico) e por isso pode assumir-se como o amálgama do povo inteiro com o território sobre o qual esse povo inteiro vai constituir o seu particular Estado. naqueles raros instantes em que a pólis se sobrepõe ao Estado para dizer.3.7. O vínculo natural entre a sociedade política e a futuridade. sob que tipo de Direito-Constituição quer viver.1. saca de um apagador para limpar completamente a lousa da sala de aula. estamos a falar de um poder exclusivamente político.a Constituição. é um poder simultaneamente constituinte e desconstituinte: zera a contabilidade jurídica até então existente e passa a começar tudo de novo (à feição de um professor que. a encarnar o que há de mais político no Direito e mais anatômico no Estado. tão necessário ele é para a auto-afirmação histórica do povo. É assim. e. é esse poder constituinte ou poder de constituir o Estado.1 2. A natureza política do Poder Constituinte 2. O povo enquanto sociedade política e enquanto sociedade civil 2.9. E não é por outra razão que toda Constituição Positiva toma o nome do Estado que ela põe no mundo das positividades jurídicas (daí "Constituição da República Federativa do Brasil". O Poder Constituinte como o poder que pode o mais sem poder o menos. A natureza política do Poder Constituinte 2. porque: I . desde o berço. Constituição. por ela mesma. Tão penetrado de povo. A sociedade política em SIEYÈS 2. não é feita pelo Estado.1. E por que é assim? 2. 2. de tão inicial. "Constituição da Espanha". tão socialmente mais abrangente e tão superior aos outros poderes políticos. Ela é feita para o Estado. . "Constituição da República Popular da China".

é uma instância exclusivamente política de deliberação. Esta.1. por ser o Poder Constituinte uma força ou realidade exclusivamente política (sociológica. a toda estatalidade oficial. Assim como Deus. 2. assim. e. Temos por cognoscitivamente decisivo o que estamos a enunciar e por isso é que batemos na mesma tecla: o povo.8.1. 2. Não o nome de um objetivo setor de relação jurídica ou atividade humana.3 2. o fato sociológico bruto (não-juridicamente lapidado). ao mundo teria que render vassalagem."Constituição dos Estados Unidos da América". Não. pois: se o Poder Constituinte fosse um poder jurídico. a unitária potência.5. tem que ser uma instância exclusivamente ideal ou transcendente. a atestar a primazia da idéia sobre a matéria.1.1. 2. se já pertencesse ao mundo desde sempre. como sucede. mas o desempenho do poder que já se instituiu por virtude do Direito mesmo. a se manifestar por conduto de normas jurídicas originárias. juristas constitucionalistas e cientistas políticos que se ocupam do mesmo tema. Notei muitas vezes que. Exclusivamente política.7.nele próprio se transfundindo -. Toda essa força que tem o Poder Constituinte para fazer o que bem entender do Direito só é possível. Poder Constituinte. é gestada por ele e somente por ele. com o Código Civil.2 2. se jurídico fosse o Poder Constituinte. a jorrar daquele puro poder. o Código Penal. é que o Direito disciplina o exercício do poder. A própria Constituição originária. É assim que o Poder Constituinte tem à sua mercê o Estado em particular e o Direito em geral. na figuração de NORBERTO BOBBIO.6. de alguma forma. da consciência sobre a experiência. Ele é que tem a Constituição na mão.1.9. Incisivamente. etc.1. Assim como Deus. por conseqüência. a Consolidação das Leis do Trabalho. o puro poder. Pois que. porque somente quem detém o poder . o Estado. e a essa esfera pré e metajurídica de poder bem assenta o nome de esfera política.10. porém. Encarna. Há uma esfera de decisão anterior e superior a toda positividade jurídica. contudo. o Código Eleitoral. o exercício daquele poder que tudo pode (acrescentamos). pois o Direito mais inicial (que é a Constituição Positiva) deixaria de provir dele mesmo. E porque é assim. está à vontade para plasmar o Estado. que assim expõe o seu luminoso pensamento: "Creio não incorrer em pecado de presunção se disser que o fato de ter cultivado estudos jurídicos e políticos me permitiu analisar os mil e um complicados problemas da convivência humana a partir de pontos de vista que se integram. é quem faz o Direito. 2. no estratégico momento em que elabora a Constituição. pelo menos na Itália. no preciso instante em que pronuncia o fiat lux mundano. na visão de FERDINAND LASSALE). e não simultaneamente normante e normada. agora sim. do espírito sobre o corpo. e não o contrário. É coberto de razão que o positivismo analítico realça a anterioridade do Poder sobre o Direito. Como está à vontade para fazer da sua nova Constituição o início lógico de um novo Ordenamento Jurídico (o que sobrevive do antigo Ordenamento deixa de manter elo-causal com a Constituição sepultada e corre a buscar fundamento de validade na nova Carta Política). não poderia inaugurar o mundo das coisas jurídicas. porque enraizada e afinal transfundida na pólis. etc. e não jurídica. enfeixadas na Constituição. Uma vez instituído. O mesmo acontece na relação entre juristas internacionalistas e estudiosos das relações . muitas vezes se ignoram reciprocamente. cuida-se de esfera exclusivamente normante. com todos os órgãos elementares desse Estado e respectivas funções. por conseguinte.). o Código Comercial. Poder e Direito são as duas faces de uma só moeda. ele já faria parte do Direito e ao Direito teria que se submeter. que é a primeira voz do Direito aos ouvidos do povo.

internacionais quanto à análise da organização dos Estados. Os dois pontos de vista são, de um lado, o das regras ou das normas como preferem chamar os juristas, cuja observância é necessária para que a sociedade esteja bem organizada, e, de outro, o dos poderes necessários para que as regras ou normas sejam impostas e, uma vez impostas, observadas. A filosofia do direito ocupa-se das primeiras; a filosofia política, das segundas. Direito e poder são duas faces da mesma moeda. Uma sociedade bem organizada precisa das duas. Nos lugares onde o direito é impotente, a sociedade corre o risco de precipitar-se na anarquia; onde o poder não é controlado, corre o risco oposto, do despotismo. O modelo ideal do encontro entre direito e poder é o Estado democrático de direito, isto é, o Estado no qual, através de leis fundamentais, não há poder, do mais alto ao mais baixo, que não esteja submetido a normas, não seja regulado pelo direito, e no qual, ao mesmo tempo, a legitimidade do sistema de normas como um todo derive em última instância do consenso ativo dos cidadãos" (em DE SENECTUDE - O Tempo da Memória, Editora Campus, 1997, p. 169). 2.1.11. Como visto, BOBBIO abre uma necessária distinção entre o fazer e o garantir as normas jurídicas, permitindo-nos deduzir que, se o Estado não detém o monopólio da produção do Direito, é, no entanto, a única instância dotada do poder oficial de garanti-lo (garantir o cumprimento do Direito, entenda-se). O que levou KARL POPPER a formular este singelo e preciso enunciado: "Não existe liberdade que não seja garantida pelo Estado e, ao inverso, só um Estado controlado por cidadãos livres pode oferecer-lhes alguma dose razoável de segurança" (em THE SOCIETY AND ITS ENEMIES, 5ª edição, Revista Londres, 1966, pp. 50/51). 2.1.12. Em ultima ratio, poder e Direito são a primária dicotomia ou os dois mais elementares princípios de organização da vida social. Vida, que, sob o prisma jurídico, se constitui de relações verticais e de relações horizontais. Estas, pressupondo a igualdade de forças entre os respectivos protagonistas, e, aquelas, a superioridade de uma parte sobre a outra. De todo modo, relações que fazem do Direito o complexo das condições existenciais da sociedade, na propalada conceituação de IHERING. Ou como sentenciava TOBIAS BARRETO: "Perante a consciência moderna, o Direito é o modus vivendi, é a pacificação do antagonismo das forças sociais".4 2.2. O caráter político do Direito posto pelo Poder Constituinte 2.2.1. Complementemos a revelação dessa fotografia do poder e do Direito com a afirmação de que, em se tratando do poder político, é na Constituição Positiva que os dois fenômenos culturais se dão mais firmemente as mãos. A Constituição é o Direito que nasce daquele mais originário decisionismo, daquela vontade fundamentante que se contém no poder político. Donde a sua visualização como o primeiro ponto formal de encontro ou como o espaço inicial de integração das duas categorias sociais básicas (o poder e o Direito). 2.2.2. É este panorama de integração que subjaz ao visual da Constituição como "estatuto jurídico do fenômeno político" (CANOTILHO), ou como "estatuto jurídico do Estado" (JORGE MIRANDA). Não sendo à toa, portanto, o rótulo social e até jurisprudencial-doutrinário que toda Constituição porta de "Código Político" e de "Carta Política". 2.2.3. Em verdade, a Constituição é Código Político, sobretudo pela sua origem e pelo

seu objeto. Pela sua origem, por advir do único poder que funda o Ordenamento sem nesse Ordenamento mesmo se fundar sequer de modo reflexo (e já vimos que esse poder fundante do Ordenamento é eideticamente político). Pelo seu objeto, porque esse objeto, sendo essencialmente o Estado, carreia para a Constituição a politicidade que envolve tudo quanto se refira à estruturação estatal: o tipo unitário, ou federal... de Estado; a forma republicana, ou monárquica de governo... do Estado; o sistema parlamentar, ou presidencial de governo... do Estado; o modo independente e harmônico de relacionamento entre os órgãos elementares... do Estado; o sistema eleitoral de investidura dos titulares dos órgãos legislativo e executivo... do Estado; a representatividade popular dos órgãos eminentemente políticos... do Estado; a abertura dos espaços de movimentação da cidadania e de criação dos direitos públicos subjetivos como limites à atuação... do Estado, etc., etc. Nada resta, praticamente, nesse patamar da organização básica do Estado que não seja entranhadamente político. E quase tudo é entranhadamente político por dizer respeito a interesses que são de toda a coletividade. Interesses da pólis ou da civitas que no Estado se personaliza juridicamente, compondo, de modo formal, o reino do universal ou plurifinalístico; isto é, o reino do que há de mais abarcante, impessoal e permanente, que é o reino da política. 2.2.4. Se bem observarmos, toda Constituição Positiva se estrutura formalmente em partes que, ora diretamente, ora indiretamente, põem o Estado como tema de conformação. Ele, Estado, circula por todos os recônditos da Magna Lei, variando o seu regime jurídico pelo modo (direto, ou de esguelha) como a Constituição mesma dispõe sobre esse transitar institucional. Com o que ficamos inteiramente à vontade para imaginar a Constituição como a certidão de nascimento e a carteira de identidade do Estado. 2.2.5. Quanto à designação de "Código", referida à Constituição, entendemo-la perfeitamente ajustável às Constituições de um só texto ou corpo único de dispositivos. Não àquelas Constituições que se derramam por atos legislativos esparsos. Nas primeiras - Constituições que se escrevem num corpo único de dispositivos -, comparecem pelo menos dois dos elementos que se presentificam em toda codificação jurídica: a) a sistematização formal, traduzida na setorialização de temas afins, agrupados segundo o esquema relacional que vai do gênero à espécie; b) o propósito de substituir inteiramente a normatividade então vigorante sobre a matéria, de sorte que toda a prescritividade sobre tal matéria se contenha no novo e único ato legislativo, no momento da confecção desse ato. 2.2.6. Já no tocante ao apelido de "Carta Política", ele se explica por ser a Constituição uma carta ou estatuto de direitos e garantias fundamentais, tudo, naturalmente, perante o Estado e o Governo ou por intervenção deles. O que também confere a esse tema dos direitos e garantias fundamentais (neles também figurantes a nacionalidade, a soberania popular e a cidadania) uma vívida coloração política; pois é de toda a sociedade o interesse em que haja uma zona de especial proteção normativo-constitucional a tais situações jurídicas ativas.5 2.2.7. Nessa trajetória relacional do político para o jurídico, ou do Poder Constituinte para a Constituição, o fato que nos parece mais digno de nota reside em que o político não se deixa regrar pelo jurídico. Não se torna objeto das normas que passa a editar, ao reverso do que se dá com o poder já oriundo do Estado, que é um poder que se faz arqueiro e alvo das suas próprias setas normativas. 2.2.8. Façamo-nos melhor entender: o poder político por excelência, que é o Poder Constituinte, não se deixa mesmo regrar pelo Direito. Isto é correto. Mas não significa

estar ele completamente imune a parâmetros e até mesmo a freios sócio-culturais, no instante em que elabora a Constituição. O paralelo com a obra de Deus não pode ser feito senão com temperamentos ou moderação, pois salta à inteligência que o autor da Lei Maior sabe muito bem que as chances de efetividade da sua obra legislativa depende da estima social interna e do reconhecimento político externo que venha a obter (e quanto mais forte a primeira, mais provável o segundo). E é mesmo na expectativa da obtenção dessa dúplice "boas-vindas" à sua obra normativa que o legislador-mor tende a amainar em si os ímpetos de abusividade. 2.2.9. Tudo tem limite nas coisas ditas humanas e o Constituinte não escapa à contingência de ter que operar com um olho no padre e outro na missa; quer dizer, tanto compenetrado dos seus incondicionamentos formais e ilimitabilidade material quanto do risco da inefetividade global da sua obra. Meio termo, destarte, entre o desmarcado e o demarcado (o desmarcado, no campo da positividade jurídica; o marcado, no campo sócio-cultural). Razão pela qual já dissemos, alhures, que, sobre os limites do Poder Constituinte, é comum vê-los comentados enquanto expressão do Direito Natural (SIEYÈS), ou das concepções axiológicas mais assentadas na trajetória da humanidade (PAUL BASTID). Até porque "O poder precisa ser forte, mas sua fortaleza decorrerá tanto do mecanismo que o envolva como, sobretudo, do consenso nacional que logre despertar" (J. BLANCO ANDE, em "TEORIA DEL PODER", Madri, Ed. Pirámide, 1977, p. 144). 2.3. O Poder Constituinte como realidade que fica do lado de fora da Constituição 2.3.1. A insubmissão do Poder Constituinte à sua própria obra legislativa 2.3.1.1. Uma nova pergunta é de se fazer, com toda pertinência: e por que o Poder Constituinte não está submisso ao Direito já positivado, nesse Direito embutido o de índole constitucional originária? 2.3.1.2. Uma primeira resposta: porque o Poder Constituinte está do lado de fora da Constituição. Faz a Constituição, claro, mas sempre do lado externo a ela. Não entra no corpo dos dispositivos constitucionais, porque, se entrasse, aí, sim, passaria a ser uma realidade tão normante quanto normada. Conheceria condicionamentos formais e finitude material, como é próprio de toda instituição ou de todo instituto que se torna objeto de norma jurídica. Dedução: o poder que fica do lado de fora da Constituição, no ponto de partida, fica para sempre do lado de fora. Ao reverso, o poder que fica do lado de dentro da Constituição, no ponto de partida, fica para sempre do lado de dentro. 2.3.1.3. Uma segunda e complementar resposta: o Poder Constituinte fica do lado de fora da Constituição porque ele não é, nem pode ser, criatura da Constituição. É o criador, unicamente. O escultor que faz a escultura, sem a menor chance de se deixar fazer por ela. Seria assim como Deus a ter uma parte de Si mesmo feita pelo mundo que Ele criou, o que está fora de toda cogitação filosófica não-materialista. 2.3.1.4. E agora a terceira e definitiva resposta: o Poder Constituinte é o criador da Constituição porque ele, sendo a primeira manifestação da soberania, é o próprio povo. É a pólis por completo, no preciso instante histórico em que a pólis dá a si própria a mais radical das conformações jurídicas: a conformação inicial e superior a todas as outras. Um tipo de conformação que pressupõe a intransigente postura do começar tudo de novo, no plano lógico das coisas, que é um começar por inteiro. No atacado e de uma só vez (se assim preferir atuar o Poder Constituinte). Logo, a

antessupor a desconsideração de todo o Direito preexistente.1. o único momento logicamente cabível para o povo dizer que se reuniu em Assembléia Constituinte. por se tratar de uma ante-sala ou de um prefácio do corpo de dispositivos da Constituição.3. a diferença entre ele e o Poder Constituído. cuja cabeça é devorada pela fêmea durante o acasalamento. sente que tem a força de romper a sua habitual situação de reverência ao Direito posto pelo Estado até então existente. sobretudo o contido na Constituição fundante do antigo Ordenamento. Num novo esforço de síntese.5. 2. sim. assumiu sua natureza constituinte. no seguinte sentido: a sociedade civil percebe. ou por esse Estado garantido. É o momento. A Assembléia Nacional Constituinte como órgão de presentação da sociedade . Realidade populacional que tem por contraponto o Estado. é o espaço possível para o Poder Constituinte projetar. Ela existe para operar em regime de permanência. o momento certo.8. como condição lógica de elaboração constitucional. no sentido de o novo Estado poder impor à coletividade. Aqui.3.1. pode se auto-referir. renovadamente. sem remissão. é um dos muitos instantes que vão do Estado à sociedade civil.1. composta por agentes e instituições de natureza privada. Já o segundo momento (momento constituído). é o preâmbulo de sua obra normativa. ou garante. "Cortes Gerais" ou "Congresso Nacional". percebe a sociedade civil que ela própria é que pode impor um novo Direito a um novo Estado e assim é que passa a se levantar como povo para escrever a epopéia de sua auto-afirmação jurídica. É o mesmo que falar: sente. A única parte da Constituição Positiva em que o Poder Constituinte pode falar sobre si mesmo.3.3. 2. seja pelo Estado garantido (caso do Direito Consuetudinário e daquelas normas jurídicas infraconstitucionais que. pode dar à luz quantos rebentos legislativos quiser.6. porque o objetivo da reunião do povo em Poder Constituído é para a elaboração de um Direito pós-Constituição. geralmente positivada com o nome de "Parlamento". Daí a formação da seguinte dualidade básica: I . o Direito que nasce dos próprios órgãos dele. Já a Assembléia Constituída. Tem o destino trágico (ou glorioso?) do louva-a-deus macho. composta por agentes e instituições de natureza pública (e ao conjunto das ações que as pessoas naturais e os grupos particulares praticam é que se aplica o designativo de iniciativa privada ou setor privado. diríamos: no momento em que a Assembléia ou Convenção Constituinte promulga sua obra legislativa (o Magno Texto).2.a sociedade civil. Só uma outra Assembléia ou Convenção Constituinte é que pode gestar uma outra Constituição.a sociedade estatal.1.7 2.7. Os outros momentos em que o povo legislativamente se reúne são momentos em que o povo já se paramenta ou usa a indumentária de um Poder simplesmente Constituído. numa determinada quadra histórica. ou o Direito que. de fora para dentro da Magna Carta. com a nova Constituição rimam em conteúdo). II . sem qualquer predeterminação quanto ao número de atos legislativo-materiais a produzir. Aquele primeiro momento (momento constituinte) é o único instante que vai da sociedade civil ao Estado. tanto quanto se reserva a expressão iniciativa pública ou setor público para o conjunto das ações que os agentes e as entidades estatais desencadeiam). ela morre de parto.3.6 2. anteriores à nova Constituição. Mas é claro que estamos a falar de sociedade civil como sociedade civilizadamente regida pelo Direito que o Estado põe. Estado. 2. embora não-diretamente nascido dos próprios órgãos do novo Estado.

É nela que a sociedade se "presenta". porque o Estado de que ela faz parte é o ser que personaliza juridicamente todo o corpo social.3. Editora CEJUP. 2. Mas a obra do Poder Constituinte está logicamente impedida de falar sobre o seu autor. Conseqüentemente.3.. a um outro ser que não o corpo social. Afinal. como afirmado.3. para usarmos de vocábulo cunhado por PONTES DE MIRANDA.2. por nenhum modo. de mais a mais. O Poder Constituinte e sua impossibilidade de auto-regulação constitucional 2. A seu turno. já tenuemente reportada: as normas editadas pelo órgão ou Poder Constituído podem. porque os órgãos de presentação estão para o corpo social assim como o fígado. 2.3.todo ato de uma autoridade delegada. da muito boa lavra do jurista ZENO VELOSO.3. Completa inversão de valores. não pode ficar à mercê dessa mesma Constituição. Outra importante discriminação. é nulo. indevida mescla do Poder Constituinte com as pessoas naturais que. pode ser válido. ter-se-ia o quê? Uma geração a querer negar às demais a possibilidade de acordar em si mesmas a força geratriz da substituição de uma Constituição por outra. a Assembléia Constituída é órgão do Estado. Seria atentar contra a própria natureza do Poder Constituinte. como o que proíbem" (PEDRO LESSA.. conhece condicionamentos e limites que não prevalecem para o órgão de presentação. que os representantes do povo têm mais faculdades que o próprio povo. desde que nos marcos da Constituição. o . Fígado.3. e não propriamente da sociedade. Esta separação radical entre os dois órgãos legiferantes é da natureza das coisas. o coração. enquanto a Constituição mesma não pode dispor sobre o Poder que sobre ela dispõe (o Poder Constituinte). fato que subjaz a formulações teóricas deste porte: "Não há proposição mais evidentemente verdadeira do que esta .2. Já os órgãos de representação. A Assembléia Constituinte é órgão da sociedade. tudo se entronca no mesmo corpo físico. que homens que obram em virtude de poderes conferidos.. que. e não do Estado. A se trabalhar com a idéia da possibilidade de o Poder Constituinte se auto-referir normativamente. nenhum ato legislativo. E por ser a Assembléia Constituída um órgão de representação. em assembléia deliberativa. referido na página que antecede o sumário do livro "CONTROLE JURISDICIONAL DE CONSTITUCIONALIDADE".2. representar é tornar próximo. cérebro. Essa total inversão de valores acarretaria. visível. É deduzir: o Direito pós-Constituição pode dispor sobre o Poder que sobre ele dispõe. porque são o corpo mesmo.3. coração.. tendo a Constituição inteiramente à sua mercê.1. 1998). 2.3. E se presenta.1. estão para o corpo humano. que o servo pode mais que o senhor. pois a representação pressupõe duas entidades ou dois corpos distintos: o do representante e o do representado. presente. podem fazer não só o que os poderes outorgados não autorizam. E esse outro ser é o Estado. por dispensar a representação do Estado. Negá-lo importaria em afirmar que o delegado é superior ao comitente. perfeitamente.. o ausente. o distante.2.3. figurativamente. 2. se referir ao seu editor (o Estado).3.2. contrário aos termos da delegação em virtude da qual concedeu essa autoridade. o cérebro. o invisível. a propósito de outro assunto. infringente da Constituição.2.. pertencem.3. É órgão encarregado da representação (não da presentação) da sociedade.3. Por prescindir da intercalação do Estado entre ela (sociedade) e os respectivos componentes individuais e grupais.3. 2. Desse corpo eles não se distinguem.

É preciso não confundir.9.7. exatamente para não recusar a cada geração o que é da natureza de cada geração: despertar em si.3. teríamos o despautério de um legislador que já não se contenta em prescrever: quero atualmente o que o ser humano médio quer e provavelmente continuará a querer.3. 2. Sobrevive ao seu próprio labor (mas sempre do lado de fora) e é assim que pode gestar quantas Constituições quiser.3. a força constituinte. que o Poder Constituinte se auto-regulasse no corpo de sua própria obra legislativa.3. portanto. de modo a se perder no infinito um tipo de regração que privaria o povo de se autoconvocar ou de ser por outra forma convocado . está logicamente proibida de ter eficácia autodemolidora. si aparece alguna vez. A Lei Maior não pode ter. A primeira não tem nada a ver com a segunda. pois o Poder Constituinte é ser que não comporta transmutação em dever-ser. para ressurgir Deus sabe quando (completamos). contudo.6. para adotar esta outra fórmula de prisão perpétua do pensar dos pósteros: e quero também que a minha vontade atual seja toda a vontade que esse mesmo ser humano médio possa vir a ter pelos tempos a fora. 2. Nenhuma eficácia teria esse tipo de normação. à Constituição Positiva que ele vier a promulgar. Seria um contra-senso.3. não pode deixar de ficar do lado de fora da Constituição. ni formularse por el filósofo.3. em qualquer período. a não ser naquela parte normativa por ela mesma nominada de "disposições transitórias".3.3.3.10. nada pode ser normado. 2. o fenômeno da revogação de uma Constituição por outra com a idéia de auto-revogação constitucional. Tem que permanecer no mundo dos fatos. aparece como el rayo que rasga el seno de la nube. por albergar ou potencializar ação que "no puede localizarse por el legislador. ora latente. Caso o Poder Constituinte pudesse entrar na Constituição como criatura dela.3. seja para permiti-lo. Caso pudesse embutir na sua Constituição uma cláusula de eficácia autodemolidora. É esse colégio de pessoas naturais que não sobrevive. a Assembléia Constituinte estaria a cometer o dislate de convocar outra assembléia igualmente constituinte para preencher o vácuo de Constituição e já nada mais impediria que essa outra assembléia convocasse uma terceira. nem mesmo a prazo ou diferidamente. tudo na dimensão do atacado normativo? 2. porque no cabe en los libros y rompe el cuadro de las Constituciones. 2. Em termos quiçá mais elucidativos: conter a Constituição qualquer dispositivo sobre o exercício da função constituinte é convocar o próprio coveiro dela mesma.3. Sobre o destino do Poder Constituinte.3. 2.3. 2.5. pois o típico de quem exerce a função constituinte não é o poder de destroçar a Constituição preexistente? Zerar a contabilidade jurídica? Passar a borracha no Direito velho e com o lápis escrever o Direito novo. seja para vedar sua transformação em assembléia constituída. inflama la atmósfera. e muito menos na do Poder Constituído. e a terceira fizesse o chamamento de uma quarta.8. enquanto assembléia constituinte mesma. Por isso que a Magna Carta pode dispor sobre o destino dele. E quando vem a se historicizar (é dizer: quando vem a se efetivar). pois o certo é que ele perpassa o tempo inteiro o corpo social. pois a segunda (auto-revogação do Magno Texto) é algo inteiramente impensável na fisiologia do Poder Constituinte.3. ora de modo efetivo. jamais.4. Esse Poder não se exaure jamais na obra que edita. A qualquer tempo. Semelhante pretensão de aprisionamento de todo o pensar coletivo do porvir seria um ato de insanidade tal que corresponderia a proibir o ser humano de respirar. É nascer o Magno Texto com sua explícita vocação para o suicídio. a qualquer instante. hiere la víctima y se extingue" (DONOSO CORTES).exercitam concretamente.

O povo enquanto sociedade política e enquanto sociedade civil 2.4.3. Como se o momento constituinte não fosse uma realidade inexoravelmente situada no mundo do ser. 2.11. Plantando no vazio.3. portanto.3. debaixo. porque só uma Constituição pode trocar o Estado por outro. já não é uma sociedade civil.1. se uma determinada instância constituinte pudesse entronizar outra no palco das realidades jurídicas.3.para vivenciar seu momento constituinte. Acresça-se: o Poder Constituinte que viesse a dispor sobre si mesmo. dotando-o do poder de se completar por conta própria. estaria semeando no ar. durante todo o tempo de vigência da obra que uma dada Assembléia Constituinte vier a promulgar.1.3.4. Um órgão constituinte a repassar poderes para outro (?). Salta do meramente demográfico e econômico para o político e histórico. comecemos por retomar a idéia de que. essa outra instância já não seria órgão de presentação do povo. sem. averbemos que o mundo cuida de si próprio. uma vez criado.4. Neste novo segmento especulativo. Ela se transmuda em povo. numa fala mais aproximativamente jurídica: a Constituição cria o Estado. contudo. O mundo vela por si. O Criador. dispõe sobre si mesmo.4. e não menos. o orbe. O mundo é o Poder Constituído. Era uma população.3.1.4. Assim como a água em estado líquido muda a sua forma para se transformar em vapor.2. O Poder Constituinte e seu campo divisional com o Poder Constituído 2. 2. ela. o Poder Constituinte. apagando a assinatura que o originário Autor deixou em Sua obra.4. no lastro formal da sua Constituição. porém sem poder se substituir ao Criador. sociedade. 2. 2.3. deixar que esse Estado possa trocar de Constituição. pois não ficaria preso a tal normatividade. um novo Estado e uma nova Ordem Jurídica. Este é que dispõe originariamente sobre o universo.poder permitir que o mundo se transforme tanto por conta própria a ponto de dar a si mesmo um novo começo. Não um Estado a trocar a sua Constituição por outra. De mais além. constituído) é o poder de dispor sobre partes da Constituição. Por comparação. que o campo divisional entre o Poder Constituinte e o próprio Poder Reformador tem que ser precisa e claramente demarcado. convenhamos. contudo. sem nenhum controle por parte de órgão estatal. o cosmos. mas não passa a cuidar do Criador. quebrando o vínculo essencial (porque direto) entre o povo e a instância formal de elaboração do Magno Texto. e de repente sobe à dimensão de povo.1. Desponta claro. 2. Crise de existência versus existência de crise 2. Tudo isto é como dizer. pois todo novo querer normativo discrepante que ele viesse a externar teria sempre (como tem) a força de uma nova Constituição. sob o efeito do aumento de sua temperatura a um determinado . no justo momento em que a sociedade consegue dar a si mesma uma nova Constituição. Poderia desrespeitá-la a qualquer momento. então. E mais: o Direito feito para o Estado tem de permanecer o referencial do Direito feito pelo Estado. mas de representação daquele primitivo órgão de sua convocação. de um único limite material lógico: o não .4. o Poder Reformador (que é um poder estatal e. para que não se transija com o cientificamente intransigível: o Poder Constituinte é o poder de dispor sobre o todo da Constituição. e não mais. Limitação intrínseca insuperável.

Do apagar todo o Direito preexistente. b) uma sociedade também temporal e excepcionalmente não-civil.4. porque esse momento de excitação histórica única é um momento único de excitação histórica pelo mais grave dos motivos: o povo a tomar consciência de que está engolfado numa existência de crise. Tudo isto se traduz no desenho de uma quadra histórica em que o povo tem a certeza de que o Estado até então operante (mais certo seria dizer inoperante) já fez do presente um tempo que recende a passado. para tomarmos de empréstimo um verso do poeta goiano GABRIEL NASCENTES. Hora de fazer uma nova experiência global consigo mesmo. 1971. por exclusão: a) uma sociedade temporal e excepcionalmente não-estatal. ou político.4. que é algo passageiro e para cujo enfrentamento as instituições oficiais ainda dispõem de aptidão jurídica e vontade política. não se acha onde se encontra o poder político. o povo experimenta a sua mais grave hora de fazer destino. que é o vácuo de poder. Mais lógico é dizer. é a perfeita encarnação de uma sociedade que já não pode ser chamada de simplesmente civil. Que pretendemos dizer com sociedade não-juridicamente civilizada? Queremos dar conta de uma sociedade que recupera o seu tônus politicamente selvagem (falemos assim) do começar tudo de novo. o povo se torna. Em estado vaporoso. à guisa do que. nela. 2. É fundamental essa compreensão do povo enquanto instância que se assume como sociedade política. Perderam a sua necessária condição de locomotivas sociais. é o marco jurídico da superação da referida existência . na medida em que juridicamente incivilizada. hoje em dia. porque. que só pode ser um poder exclusivamente político. ou seja. sem tardança. certa feita.2. Em momento que tal. 9ª edição. na medida em que insubmissa ao Estado até então existente. então.1.4. ou funcional.4. Um poder que se aloja nos páramos da suprapositividade jurídica e da supraestatalidade oficial então vigentes.grau. a última pá de cal.3. que é uma função indelegável (ninguém mais pode fazer experiência tão estrutural com todo o corpo social). O povo. funcional e político. que pode ser também um colapso a um só tempo ético.4. Urge que toda uma corrente de inteligência e de intuição irrompa das camadas não oficiais. apetite e responsabilidade para continuarem a serviço do bem comum. embora a água permaneça água .1. Nesse contexto do puro poder político. de uma sociedade que se auto-reconhece como a subjetivação de um poder acima do Direito e do Estado. p. triunfante. 2. 2. a água só se movimenta por si mesma.9 2. que o povo é a encarnação da sociedade política.1. por seu lado. Em estado líquido. o modo empírico ou atual de ser já é diferente do imediatamente anterior. subindo (prova de que. 15). quando se trata de impedir as catástrofes ou de atenuar-lhes os efeitos" (pensamento recolhido do livro PARA LER E PENSAR.4.o seu modo de estar-no-mundo ou de se manifestar num dado momento já não é o mesmo). momento constituinte.1. isto é.7.o salto químico não chega a ocorrer .5. E a nova Constituição que desse momento constituinte irrompe. que tem o aspecto bolorento das coisas caquéticas e sem a mínima condição de antecipar o futuro. descendo.1. Editora Record. Por isso é que o povo proclama para si mesmo e para o orbe inteiro que é nele próprio que se encontra toda a sapiência política.6. Não apenas numa crise de existência.1. Esclerosaram-se ou esgotaram-se tanto no seu papel institucional de liderança que delas já não se espera senão empurrar cada vez mais a população para o pior dos abismos. sentenciou HERMANN HESSE: "A sabedoria política.4.8 2. do negar as instituições nascidas à sombra de um Estado sobre o qual é preciso jogar. Isto porque as instituições estatais até àquele momento estruturadas entraram em colapso ético. 2.

Todavia. É necessário. quando "civilizadamente" atuante nos marcos da sociedade estatal que se tornou efetiva por efeito. justamente. b) sociedade estatal. E se falta essa intervenção. há certos elementos que se ligam aos outros e cuja presença requer.10 2.2. aquilo que só ele pode fazer.2.4. Essa generalizada compreensão de estado de falência das instituições como background da atuação constituinte é de grande relevo teórico. Com este nosso modo pessoal de qualificar o povo como sociedade política. durante o momento constituinte por ele experimentado. pensamos que a sociedade humana que plenifica o seu próprio ser político e jurídico. 2. a reaglutinar energias físicas. pois o de que se trata é viver a epopéia do começar tudo de novo. Esta é a dualidade básica. naquela situação concreta em que os lobos da política oficial já serraram todas as grades jurídicas das suas tocas? Ou naquelas situações em que as forças calamitosas do acaso. forças da natureza ou da História (tanto faz). Uma espécie de luz no fim do túnel. É claro que o modo normal ou habitual de ser do povo é sob a forma de sociedade estatal e de sociedade civil.4. da primária manifestação da soberania (cujo nome técnico é "Poder Constituinte"). o que sucede? O mal irá crescendo a tal ponto que já não poderá ser eliminado senão pela eliminação do próprio Estado. É a hora de fazer destino voltamos a dizê-lo -. a sua soberania. de forma episódica ou excepcional . bem sabemos estar a dissentir de autores da mais forte compleição intelectual. c) sociedade civil. quando vista sob o prisma da sua personalização jurídica ou do poder constituído. Como certa feita escreveu MAQUIAVEL (terceiro livro de Tito Lívio). O que nos traz à memória esta passagem de velha música de IVAN LINS. Somente ele pode normar em termos iniciantemente (ou reiniciantemente) globais.nacional de crise. cantor popular do Brasil: "Ô Madalena. Assim é como o vemos na cotidianidade dos nossos dias. nessas ocasiões (o pensador florentino é quem raciocina). Este o seu espaço irrepartido de ação jurídica.4. que sinonimizam Estado e sociedade política. é uma sociedade que se triparte em: a) sociedade política.3.8. Só o Poder Constituinte pode agir no pressuposto do colapso cardíaco das instituições. que é a mais alta expressão do atacado normativo de um povo. como AUSTIN. valores morais e ideais cívicos de que todos precisam para tocar um novo projeto global de vida. O momento constituinte como estado de plenificação decisória de um povo 2.2. BOBBIO e MARCELO CAETANO.1. que uma intervenção recupere o Estado para os princípios sobre os quais o poder público está assentado.4.2.4.1. de quando em quando. O único remédio capaz de debelar a enfermidade maior do vácuo de poder e que abre para o povo a perspectiva de uma vida de permanente auto-afirmação. pois contribui decisivamente para separar o joio do trigo. no instante em que manifesta. são protuberantemente superiores ao tino e à coragem pessoal dos governantes? 2.2.4. se a sociedade política é o Estado.2. 2. Entretanto. como no corpo humano. "Num Estado.4. 2. primariamente. se o Estado é a sociedade política. que o povo mais decididamente vive pela sua transmutação de sociedade civil em sociedade política. o que é meu não se divide"). Debaixo de todas as vênias. alçando-se à condição de povo. um tratamento clínico". GRAMSCI. que nome dar à sociedade humana no preciso instante em que ela funda a própria sociedade estatal? Em que ela já não aceita permanecer como o cordeiro jurídico em que a sociedade "civil" termina sendo.

por não ser nem a luz do dia nem a luz da noite. Tudo lembra um aparelho eletrônico auto-reverse.5. mas que procede de uma causa. nestes escritos.2.2. quando da transformação da confederação americana em federação). mas que pensamos encontrar justificativa no fato de que elas parecem condenadas a cair no esquecimento daqueles juristas hodiernos que. desce sob a forma de chuva e assim recupera o seu estado líquido. Todas estas coisas que estamos a predicar à sociedade política é aplicável. Apenas não temos um nome apropriado para colocar nessa fonte de luz que se não deixa ver pelo olho humano. nós. passamos a transcrever de modo quiçá excessivo. instantes de plenificação decisória do seu próprio ser. um transe histórico verdadeiramente insólito. por efeito do calor da terra. tentam esmaecer as linhas de confrontação entre o Poder Constituinte . já por efeito do maior frio das alturas e de outras condições atmosféricas. Empós. visto não ser nem estatal nem civil. à realidade humana global a que SIEYÈS chamava de "nação". 2.de turbinada inquietação histórica. A água. evapora e vai se condensar na atmosfera. temos por sociedade política ou povo na sua dimensão constituinte. E é nesses instantes de legítima defesa da sua identidade e da sua sobrevivência. ascende à condição de sociedade política. É uma luz que ninguém sabe de onde vem.5. As idéias básicas do Abade. um bumerangue. 2. tal situação transicional somente se deu no distante ano de 1787. Com alguma similitude. Uma realidade que se define por exclusão. talvez. ou de partida lunar.6.5. ensejador da corporificação de uma sociedade que já não é nem estatal nem civil. retoma o seu estado habitual de sociedade civil. imaginemos a processualidade daqueles dois estados líquido e vaporoso da água e melhor entendermos a dialética da relação que transcorre entre a sociedade civil e a sociedade política. sim. o povo desperta em si mesmo o poder (sempre adormecido ou latente ou virtual) de desconstituir a velha ordem estatal e de concomitantemente constituir a nova ordem. que o povo empunha o cetro de soberano e passa a atuar como sociedade exclusivamente política. com a serenidade dos ânimos ou o resfriamento da temperatura existencial (a nova Constituição que se faz globalmente efetiva é que recoloca as coisas em seu ponto de normalidade). 2. com a particularidade de que o estágio de sociedade civil só raramente avança para o estágio de sociedade política (nos Estados Unidos da América. E ela assim permanece. Posteriormente. uma altíssima temperatura existencial. formando nuvens. a sociedade civil. porque não tem um ponto visível de partida solar.5. Conotativamente. 113 e seguintes). em larga medida. A sociedade política em SIEYÈS 2. 2. aquelas de que nos servimos para os fins desta nossa monografia. Ainda por apego a figurações. O que ele tinha por nação. é algo assim como a luz crepuscular. sob a regência desse maestro ideológico de nome neoliberalismo. pela sua extrema importância. Há muita similitude entre o raciocínio aqui expendido e aquelas idéias básicas do famoso teórico e revolucionário francês.4. por efeito de uma alta. esse instante máximo de feeling ou excitação histórica.4.2. até que uma outra anormal elevação histórica de temperatura determine a sua metamorfose em sociedade política. pp.1. a propósito da diferença qualitativa entre o contingente humano que se faz matriz de um poder constituinte e esse mesmo contingente que se faz o berço de um poder apenas constituído. estão lançadas no incendiário panfleto Q'U-EST-CE QUE LE TIERS ÉTAT? (Liber Juris. São idéias que. Uma luminosidade que parece destituída de qualquer fonte.

Qualquer que seja a forma que a nação quiser. sem as quais o exercício do poder se tornaria ilegal. A outra não está submetida a nenhuma forma em especial. vemos.e o Poder Constituído. as outras determinam a organização e as funções dos diferentes corpos ativos. Antes dela e acima dela só existe o direito natural. "Assim. mesmo composta por um pequeno número de indivíduos. mas do poder constituinte. todas as formas são boas. e que são outras tantas regras essenciais ao governo. Se precisamos de Constituição. como se diz. a Constituição não é obra do poder constituído. Todos os princípios que acabamos de citar são essenciais à ordem social. Como existe somente na ordem natural. "Não só a nação não está submetida a uma Constituição. no estado de natureza. Nenhuma espécie de poder delegado pode mudar nada nas condições de sua delegação. a que está confiado o poder legislativo ou o exercício da vontade comum. Só a nação tem direito de fazê-la. só existe na forma que a nação quis lhe dar. Achamos que esta faculdade seria contraditória consigo mesma. Vejamo-las: "Em toda nação livre . "Entretanto. em primeira linha. só precisa de sua realidade para ser sempre legal: ela é a origem de toda legalidade. a não ser por elas. A vontade nacional. É neste sentido que as leis constitucionais são leis fundamentais. O exercício de sua vontade é livre e independente de todas as formas civis. não tem necessidade de levar os caracteres naturais de uma vontade. não se dirige e não comanda. Em cada parte. "Não é próprio ao corpo dos delegados mudar os limites do poder que lhe foi confiado. com que interesses se teria dado uma Constituição à própria nação? A nação existe antes de tudo. se reúne e delibera como faria a própria nação se. ela não deve estar.e toda nação deve ser livre . quisesse dar uma constituição a seu governo. sua vontade. ou. "A esta necessidade de organizar o corpo do governo. Só é legal enquanto fiel às leis que foram impostas. São poderes diferentes. "O poder só exerce um poder real enquanto é constitucional. para surtir todo o seu efeito.só há uma forma de acabar com as diferenças que se produzem com respeito à Constituição. Daí as inúmeras precauções políticas que foram introduzidas na Constituição. o corpo dos representantes. Ele não é nada sem suas formas constitutivas. é necessário acrescentar o interesse que a nação tem em que o poder público delegado não possa nunca chegar a ser nocivo a seus comitentes. ao contrário. como ela não pode estar. o que equivale a dizer que ela não está. Se quisermos ter uma idéia exata da série das leis positivas que só podem emanar de sua vontade. devemos fazê-la. as leis constitucionais que se dividem em duas partes: umas regulam a organização e as funções do corpo legislativo. Sua vontade é sempre legal. "Mas é verdade que uma representação extraordinária não se parece em nada com a legislatura ordinária. basta que ela queira. mas porque os corpos que existem e agem por elas não podem tocá-las. esta não seria completa se encontrasse um só caso para o qual não fosse possível indicar regras de conduta capazes de resolvê-lo". de acordo com que critérios. Essas leis são chamadas de fundamentais. "Devemos conceber as nações sobre a terra como indivíduos fora do pacto social. Esta só pode se mover nas formas e condições que lhe são impostas. se quisermos que ele exista ou que aja. é a própria lei. Não é aos notáveis que se deve recorrer. "Um corpo submetido a formas constitutivas só pode decidir alguma coisa segundo a . ela é a origem de tudo. é à própria nação. e sua vontade é sempre a lei suprema. não no sentido de que possam tornar-se independentes da vontade nacional. não age. Não se trata de distinções inúteis.

2. porém a sabedoria. Que não se permite receber. atua de forma diferente das que lhe foram impostas. que mantêm os brasões dos seus antepassados e tudo fazem para repassar tais insígnias (com tudo de particularmente honroso que elas simbolizam) às gerações porvindouras. A comunhão da lei. É o que se tem apelidado de paradoxo da onipotência. Só à nação pertence. nem um monopólio. se as normas não se . É o aqui e o agora da população de um País. solarmente claro. a consciência. Por outro lado. mesmo quando reunidos. Assim como se dá com os membros de uma família tradicional. a verdadeira sapiência. A esse panorama conceptual de nação bem se ajusta. Cada nova geração é detentora de mais conhecimentos do que as anteriores. Pátria é o céu. A nação é muito mais.3. é transgeracional. e certamente ele responderá que sim.5. Paradoxo. tanto na Teoria da Constituição em geral quanto na Teoria do Poder Constituinte em especial. a festejada proclamação espiritual que RUY BARBOSA fez a respeito de pátria. o presente e o futuro de um povo. porque adiciona ao presente a dimensão do passado e do futuro desse mesmo povo. A soma das pessoas vivas.4. A tradição como o forno ou o cadinho histórico no qual se tempera o aço da nacionalidade. inda mais representativo que o conceito de povo. O povo. Pergunte-se a um inglês se a Rainha da Inglaterra goza de legitimidade política. O caráter democrático-formal do Direito posto pela sociedade política 2.6. da coetaneidade e da posteridade. que fala. que JOSÉ JOAQUIM GOMES CANOTILHO assim expõe: "Em teoria da Constituição o paradoxo aqui subjacente é o paradoxo da omnipotência: poderá um corpo soberano parlamentar com poder para fazer leis em qualquer momento limitar o seu próprio poder de fazer essas leis? No caso das normas constitucionais o paradoxo é evidente: as normas constitucionais irrevisíveis assegurariam a omnipotência dos seus autores sobre as gerações futuras o que será radicalmente contrário às regras da democracia. para eles. Diríamos. 2. é uma realidade presente.1.6. Os Estados gerais. Um enlace anímico da ancestralidade. supomos. O confronto entre o princípio da racionalidade constitucional e o princípio democrático 2. de qualquer forma e qualquer condição". E aqui já começamos a enfrentar a recorrente questão de saber até que ponto existe legitimidade democrática numa Constituição que submete aos seus termos as gerações futuras. nem uma seita. que faz da nação (o cacófato "danação" é inevitável) uma realidade eminentemente tradicional.1.6.Constituição.5. O berço dos filhos e o túmulo dos antepassados. então: a distância que vai da realidade populacional à realidade nacional é a mesma que vai do conhecimento à sabedoria. a tradição. o solo.6. não cansamos de repetir.5.1. A legitimidade que advém desse arraigado sentimento coletivo de nação como algo inda mais denso. 2. Parece-nos claro. da língua e da liberdade. o lar. Não pode dar-se outra. que o abade EMMANUEL JOSEPH DE SIEYÈS falava de nação como até hoje a vivenciam os ingleses: uma coletividade humana intertemporal. uma linha imaginária entre o passado.5. 2.5. senão com severos limites. são incompetentes para decidir sobre a Constituição. nestes escritos que reproduzimos de memória: Pátria não é um sistema. Este direito pertence unicamente à nação. 2. o clima. modificação pelo Poder Constituído. independente. Deixa de existir a partir do momento em que se move. nem uma forma de governo.

a questão democrática diz respeito é à própria Constituição. XXXI. na pia batismal do voto popular. Vol. que é sempre uma legitimidade precária: legitimidade pela metade. conclui-se que é permitida a sua auto-aplicação. quando se elege uma Assembléia Constituinte já se sabe que ela presenta a sociedade política ou nação. portanto.em se tratando de uma Constituição geneticamente autoritária. ou por qualquer forma imposta por um grupo que toma de assalto o Governo. Esse "inquietante" paradoxo da onipotência. As normas da revisão aplicam-se elas próprias para a sua revisão. uma verdadeira comunidade. Ela. assim. de maneira a somente ter a chance de ganhar legitimidade pelo seu prolongado exercício ou duradoura efetividade (legitimidade a posteriori.6. ela já se impõe como documento jurídico de berço democrático.2. pois não há como convalidar o vício processual de origem). Vemo-lo mesmo como um falso problema. realizado em Aracaju. no sentido que o vocábulo "nação" era utilizado por SIEYÉS e que interpretamos como uma coletividade humana de superior estatura ou eminência ímpar.1. mas se não são empregues para tal fim (e se não há uma norma superior a autorizar essa alteração) temos então normas imutáveis. chegamos por esta via a um paradoxo e uma contradição. II . p. ou um elemento central da racionalidade jurídica (a irreformabilidade das cláusulas de reforma da própria Constituição). Sergipe. porque somente de conteúdo. ou um elemento central do princípio democrático (a não-escravização normativa das futuras gerações) não nos parece inquietante por nenhum modo. in Boletim da Faculdade de Direito de Lisboa. 99): se as normas jurídicas que autorizam a mudança podem ser utilizadas para se alterarem a si mesmas. pois. Peter Suber resume. Uma comunidade. e a bicentenária Constituição dos Estados Unidos da América bem o comprova: a mais sólida nação democrática do planeta a conviver com a mais antiga das constituições escritas. cuja característica nuclear é justamente a intertemporalidade (o espírito é atemporal). o atendimento das prementes necessidades da população viva e ainda por cima a . tácita ou não-expressa. Queremos dizer: é próprio desse tipo de organismo ou ente coletivo a aptidão de ultrapassar as barreiras do tempo. não ungida. Não há espaço psicológico para as novas gerações se sentirem democraticamente acuadas menos ainda castradas -. é que já porta consigo o pecado original da não-participação popular. ou de um elemento central da racionalidade jurídica ou de um elemento central da teoria democrática" (pp. de sorte a poder conciliar na sua obra legislativa estrutural (a Constituição) interesses que traduzam reverência à cultura e à memória nacional.em se tratando. porém. Com efeito. 1990. e não à sua reforma. e.3. no período de 05 a 10 de maio de 1998). por isso. Constituição. de uma Constituição votada por uma Assembléia ou Convenção Constituinte que se forme por eleição geral (é essa modalidade de colégio deliberativo que tem sido alvo desta nossa teorização). pois: I . Parece que temos de prescindir.6. Onde. traduzido no dilema de se ter que sacrificar. 2. se não existirem outras normas a fazê-lo.1. Paradoxo e imutabilidade acabam assim por constituir um difícil dilema para os juristas e cidadãos das democracias ocidentais. o seu raciocínio (in O Paradoxo da Autorevisão no Direito Constitucional. à face da sua dimensão cristalinamente espiritual ou de autoconsciência. distribuído pelo autor português aos participantes do VII SEMINÁRIO NACIONAL DE ESTUDOS JURÍDICOS-SENEJ. "o paradoxo da omnipotência"?11 2. recobre com o seu halo ou a sua aura castiçamente popular as sucessivas gerações de destinatários normativos.encontrarem sujeitas a limites. 6 e 7 da conferência OS HOMENS FAZEM AS CONSTITUIÇÕES MAS NÃO SABEM AS CONSTITUIÇÕES QUE FAZEM.

6. 115. Se o que vier a mudar no tempo for apenas a população. e tudo o que lhe pertence. pp. Se para tornar-se uma nação.4. Como tantas vezes dito. É sua propriedade inalienável.. seus mandatários. a nação está acordada.2. Em segundo lugar: com quem se teria comprometido esta nação? Eu entendo que ela pode obrigar seus membros.) A nação é tudo o que ela pode ser somente pelo que ela é"... cair no descrédito geral e a sociedade civil passar a sentir aquele terrífico presságio de que está à beira do mais fundo abismo da ausência de poder. histórico e também racionalmente jurídico da eleição de uma Assembléia que só é nacional por ser constituinte e só é constituinte por ser nacional. cit. os pósteros. é aí que a sociedade civil se transmuda em sociedade política e passa a vivenciar a sua dimensão constituinte. duas nações ou duas sociedades políticas: uma que fez a Constituição e outra que se sente oprimida por essa mesma Constituição.6. a sua vontade tivesse que esperar uma maneira de ser positiva. ou ficar muito abaixo do padrão médio de moralidade e humanismo.1. mas será que ela pode impor deveres a si mesma? Sendo as duas partes a mesma vontade. é aí que o povo se transforma em nação e lega à posteridade a imorredoura lição de que "a comunidade não se despoja do exercício de sua vontade. embora com esta inescapável distinção: no momento constituinte.2 Fricção entre nações versus sucessividade geracional no interior de uma mesma nação.1. (. pois não dissemos que o traço eidético da nação era (e é) a intertemporalidade? Não há. porque representada. (. Agora. de propósitos pouco edificantes. nunca o teria sido. Na sedutora linguagem de SIEYÈS. Queremos dizer: não existe esse tipo de ditadura. porque presentada. ou no transcurso do tempo. em presumível segurança. Mas o fato é que a nação que elaborou a Constituição é tendencialmente a mesma que se decide por um outro Código Supremo. cada geração ou simples sociedade civil. em princípio. a Constituição vier a padecer do grave defeito de não haver costurado a unidade possível das ideologias.6.1.2. enfim. ela jaz adormecida. 2.) Primeiramente. ela tende a permanecer a mesma e única nação ou sociedade política pelos tempos afora. pode tirar a sua sesta. jamais sobrevém o desconforto domocrático de se ter que . por vezes.2. ela pode sempre desobrigar-se de tal compromisso" (ob.pavimentação da estrada pela qual transitarão. qual é a lição da História? A História nos diz que a sociedade civil toma por si mesma o comando do processo político-jurídico e parte para a formação de uma nova Assembléia Nacional Constituinte. senão como fantasia de politólogos a serviço. tudo envolucrado por uma só e exclusiva nação.13 2. para o efeito prático de mudar de Constituição.reperguntamos -...5. no momento constituído. atuante. Onde. E por isso é que as gerações que se sucedem no tempo não vêem a Constituição como o símbolo da ditadura da primeira geração constituinte. e qualquer que seja a sua vontade.. ela não pode cercear o direito de mudança assim que o interesse geral o exigir. Só pode delegar o seu exercício. (. Este o sentido psicossocial.6. da anomia do Ordenamento por inteiro.12 2. ao menos no plano formal ou da eleição dos membros da Constituinte? Sendo a nação ou sociedade política o modo constituinte de ser do povo. a ofensa ao princípio democrático. pois .6. 118 e 119). se desde a sua originária prescritividade. 2.) Seria ridículo supor a nação ligada pelas formalidades ou pela Constituição a que ela sujeitou seus mandatários. 2. nem se proibir o direito de mudar.. o contingente humano. uma nação não pode nem alienar.

5. se essa Constituição está assentada no sufrágio popular.2. duas nações que já não podiam conviver no mesmo espaço político-jurídico. 2. para que o referido desconforto democrático exista é preciso que uma outra nação venha a se formar.6.6. secundando o importante constitucionalista norte-americano RONALD DWORKIN. 2.4.2. mas por eficaz rebelião da segunda (a nação brasileira). 2. conforme se trate. sem que a mais recente não aspire à sua emancipação política). Que permaneça a primeira nação com a respectiva Lei Maior . o povo elege aqueles que vão governar. Um só Estado personalizava.2.suportar uma Constituição formalmente rígida. naturalmente. Só para si.esta é a palavra de ordem dos que fazem a nova nação -. a culminância da participação popular no processo político. . propugna por uma atuação mais livre do Poder Judiciário sempre que se trate de atualizar as concepções de que decorrem os conceitos constitucionais: "Neste particular. Uma legitimidade ainda mais densa que a ressaída de uma eleição geral comum para a renovação dos quadros políticos de qualquer Estado. naturalmente contrária à primeira (duas nações ortodoxamente caracterizadas não podem conviver sob o mesmo Estado ou sob a mesma Constituição. pela mediação do Texto Magno. Editora Celso Bastos. Em verdade. aliás. o estrelato do voto. Tal como se deu com o Brasil ante Portugal. 43. a segunda nação não quer trocar de Constituição. Exclusivamente sua. de uma assembléia de presentação do corpo nacional ou de uma assembléia de representação do corpo tão-somente populacional. conforme. como dantes explicado). porque a primeira Constituição não é sentida como coisa própria.3.2. Se tem a respaldá-la a mais indiscutível das legitimidades. a partir deste essencial corte distintivo: numa eleição comum. 1988). irão governar de modo permanente aqueles que irão governar de modo transitório.6. 2. não por decisão da primeira (a nação portuguesa) quanto a esse juízo de inconvivibilidade. porém. O primeiro tipo de maioria a preponderar sobre o segundo. essência mesma da Democracia. conferência publicada na coletânea "10 ANOS DE CONSTITUIÇÃO". o povo elege aqueles que vão governar quem vai governar. O que a segunda nação aspira é a uma Constituição estalando de nova. é preciso lembrar de que a Corte Constitucional. Daí que o princípio majoritário que informa as decisões colegiadas passe a igualmente se discriminar em maioria permanente e maioria passageira. numa eleição constituinte. Noutro dizer. contanto que não impeça o novo corpo nacional de iniciar a sua própria experiência constitucional-positiva.6. de modo a culminar com a revolução triunfal de 7 de setembro de 1822. que é a legitimidade do voto. a população ou sociedade civil tem na mutabilidade o seu espaço de significação ontológica. Não é assim. está ainda defendendo a maioria permanente elaboradora da Constituição. mesmo elastecendo a sua tarefa. ou sequer alterar a Constituição vigorante. mas alheia. Nesse tipo de prefiguração extrema ou hipótese-limite. em detrimento da maioria eventual. numa eleição constituinte o povo escolhe aqueles que. Animamo-nos a dizer: enquanto a nação ou sociedade política evoca a idéia de permanência. respectivamente.6. ela é ele. nestes escritos em que. juridicamente. Noutro modo de exprimir o mesmo pensamento: a segunda nação passa a deter um Poder Constituinte próprio e com esse Poder Constituinte já não pode deixar de entretecer uma relação de inerência (ele é ela. pois a eleição dos elaboradores da Constituição é. p. que é circunstancial" (em AS MODERNAS FORMAS DE INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL. muito bem doutrina CLÉMERSON MERLIN CLÈVE.

Discurso mais eloqüente não pode haver. o respeito devido ao juízo da Humanidade obriga-o a declarar as causas que o impelem para a separação. que estas colônias unidas são.. Assim como o rio é um só rio.Daí que venha a se autoconferir uma Constituição mais que paralela.6.2. dizendo respeito a uma outra região fenomenológica. porque destinada a viger em âmbito pessoal e territorial próprio.9. Transgeracional. experimentar o desconforto democrático. .2. invocando o Supremo Juiz do Universo como testemunha da retidão das nossas intenções. se uma outra nação não se forma no espaço territorial da primeira. Não compartilhado com outra pólis. reunidos em congresso geral... Foi este o paciente sofrimento destas colônias e é agora a necessidade que as constrange a alterar o seu antigo sistema de governo. da qual pinçamos os seguintes trechos: "Quando no decurso da história humana se torna necessário a um povo romper os laços políticos que o ligaram a outro e assumir entre as potências da Terra a posição separada e igual a que o habilitam as leis da Natureza e do Deus da Natureza. Como legislação que bem pode permanecer intocada. os representantes dos Estados Unidos da América. "(. concretamente.10. 2. do momento em que se constitui até o sobrevir da última geração. E é claro que o problema do desconforto democrático não pode medrar no interior de uma nação cuja história constitucional mal começou. quando uma longa sucessão de abusos e usurpações. ou seja. e que todos os laços políticos entre elas e o Estado da Grã-Bretanha ficam. completamente dissolvidos (. não pode ensejar a questão do desconforto democrático a que se reporta o neoconstitucionalismo. na matéria. "(. pela segunda. E fora dessa hipótese-extrema da lenta formação de um corpo nacional contra outro? Bem. a se perpetuar na cambiância dos corpos populacionais que se sucedem no tempo.o dominante e o dominado -. Por isso mesmo é que ela tem sido definida como "uma alma. da nascente à foz.2.)".6. enquanto se conservar como solitária nação no âmbito espacial de validade da sua Constituição e da territorialidade do seu Estado.6. nós. Ele se coloca é no plano das relações entre os dois corpos nacionais . Nesse idealizado contexto de fricção nacional .7. desde que já não vincule os membros da nova nacionalidade. e de direito devem ser. este o mais alumiado contorno da aura de toda nação enquanto monolítica nação permanecer. 2. deixa de existir o próprio sujeito coletivo que poderia.. Por isso que. também a nação é uma só.2. é claro que tudo que juridicamente provenha da primeira nação seja concebido.8. 2. no sentido de que um deles (o dominado) não reconhece como obra de uma sua primeira geração constituinte a Lei Maior "estrangeira" sob a qual se encontre. em nome e por autoridade do bom povo destas colônias.. após a elaboração constitucional.) Mas. que elas se desligam de toda a obediência à Coroa Britânica. é seu dever livrar-se de tal governo e tomar novas providências para bem da sua segurança. É dizer: não estando presente o sujeito. como coisa estranha. A história do atual rei da Grã-Bretanha é a história de repetidas injúrias e usurpações.. um princípio espiritual" (RENAN).) Por conseqüência. solenemente proclamamos e declaramos. visando invariavelmente ao mesmo fim.6. do que a "Declaração de Independência dos Estados Unidos da América" (datada de 4 de julho de 1776). Estados livres e independentes. todas tendo como direto objetivo o estabelecimento de uma tirania absoluta sobre estes Estados. revela o desígnio de os submeter ao despotismo absoluto.fenômeno diferente da simples sucessividade geracional -. como a sensação de desconforto pode estar? 2. e devem ficar.

16 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Constituições não são. O paradoxo .6. que se dá no seio de uma única nação aspirante à soberania? Como falar de uma Assembléia Constituinte Plurinacional. justamente.3.4. portanto.2.6. da Democracia. Multinacionalidade desse tipo e unicidade constitucional são como água e óleo: não se relacionam por osmose. todavia. com os seus lógicos desdobramentos. as Constituições Nacionais é que deixarão de sê-lo. Finalmente. E passaremos a ter Constituições Positivas sem vínculo operacional com a própria Democracia.5. simultaneamente. ou. de 26 de agosto de 1789?14 Que atentado maior pode haver àquilo que se traduz na essência mesma da idéia de Constituição como o mais eficaz mecanismo jurídico de contenção do Poder. Jamais. ajuizemos de uma vez por todas o seguinte: se cada nação permanece com o seu Estado. da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e do Mercado do Cone Sul (MERCOSUL). com este conhecido desabafo: "passei a vida inteira procurando certas respostas. Não há nem pode haver Constituição multinacional. do princípio democrático? 2. enfim. Por fidelidade. mas um holding de autoridades "supraestatais" que.2.agora sim .3. Constituição comum a vários . Ora bem.3.das "Constituições" cosmopolitas ou ultranacionais 2. seja pela forma direta (Separação dos Poderes). seja pela indireta (consagração dos direitos e garantias fundamentais)? Do princípio de constitucionalidade e.3. E aqui se encontra o pano de fundo teórico para a nossa recusa ao tracejamento de uma "Constituição" ultranacional ou cosmopolita. Nesta suposição. como pretendem ser os pactos formadores e regentes da União Européia (UE).6. desaparecem também as nações originárias e respectivos Estados.3. se a multinacionalidade se faz acompanhar da pluralidade de Estados soberanos. quando as encontrei. então. uma: ou as supostas Constituições cosmopolitas não preponderam sobre as Constituições Nacionais. além de não-popularmente eleitas para esse específico fim.3. 2.3. 2. aceitar que os tratados internacionais é que servirão de fundamento de validade para a Constituição de cada Estado signatário.6. Deveras.. se preponderam. e. a acontecer o triunfo do novo e estranho modo de pensar o constitucionalismo. mudaram as perguntas. e não mais o inverso? Isto não significa romper completamente com a idéia-força da própria constitucionalização do Direito. do Poder Constituinte. como ficaremos todos? Ficaremos naquela atarantada situação de que falava o pensador. também não se relacionam pelos imprescindíveis moldes do sistema de freios e contrapesos e ainda por cima não têm a balizá-las um catálogo mínimo de direitos humanos e respectivas garantias? Como explicar a titularidade plural de um poder (o Constituinte) que se define.6.". da Constituição e do Estado. 2. nenhuma delas abdica de Constituição própria.6. traduzida no famoso art. pela unicidade do ser de que promana e em cuja ossatura afinal se transfunde? Como.1.. como não colocar na etiologia da Constituição a metamorfose que resulta da passagem de uma sociedade civil para uma sociedade política? Metamorfose. se em nenhuma das nações "presentadas" foi aberto o processo democrático do voto popular para a eleição dos membros de tal Assembléia? Como submeter a essa Constituição-de-gabinete as Constituições democráticas de cada nação pactuante? Como aceitar uma Constituição que não plasma nenhum Estado em particular. que já não terá nação nem Estado isolado onde possa irromper e frutificar. aos elementos conceituais da nação. Das duas.

Se os deveres do Estado para com o setor cultural não podem significar jamais um dirigismo.).de revés. do poder-dever de organizar o aparelho produtivo do País na direção do máximo possível de auto-suficiência em bens e serviços. Ao contrário do que afirmava JEFFERSON. científica e de comunicação. E tudo é absolutamente irrenunciável porque sem a mediação do Estado a economia se torna uma espoliação organizada. pelo inciso IX do seu art. Por natureza.3. então. deixemos gravado em alto relevo o nosso dissenso à equivocada identificação que o neoliberalismo vem fazendo entre mundialização cultural e globalização econômica. segurança ecológica. vestuário). o mesmo não se pode dizer quanto à ordem econômica. tudo é absolutamente irrenunciável. da consideração de que a teoria das Constituições regionalizadas (ou plurinacionais) tem mesmo a sua motivação factual na globalização da economia (que é a globalização dos mercados). a economia é manifestação do corpo. Faz sentido.Estados soberanos é uma contradição nos termos.6. higiene. Não uma espontânea otimização de riquezas. Governo. II .6. portanto. transporte. que são justamente as referidas necessidades de sobrevivência individual e de bem-estar comunitário. que entra e sai do pacto por sua espontânea e soberana vontade. E que vão surgindo por efeito da evolução política de cada corpo nacional que se abre para tais ou quais vantagens comuns. 2. que "é livre a expressão da atividade intelectual. 5°. Mas sempre nos termos da Constituição de cada Estado signatário. como a própria soberania. exigência dele.7. a partir destas considerações que temos como imperativos históricos: I . na processualidade da vida. o melhor governo não é o que menos governa. Tendo por suporte jurídico-formal os tratados internacionais de sempre. Exclusiva. então. pois a soberania de cada Estado se formaliza é numa Constituição não-compartilhada. usufruídos estes por um número cada vez maior de pessoas. e tende mesmo a traçar os contornos do próprio Estado. etc. o holocausto só pode recair é sobre a globalização. Neste sítio. o dever de impor direcionamentos e até de intervir (ora por mecanismos de permanente fiscalização e sancionamento. assim. porém o que mais governa para que um número cada vez maior de pessoas deixe de precisar dele. O risco passa a existir é quando o Estado se mete a monitorar a cultura. ora pela eventual competição empresarial direta e ainda pelo estímulo). exigência dele. de ADAM SMITH.3. E como é verdade que um decidido controle estatal interno e globalização econômica são coisas antitéticas. ou uma intervenção. Diante. O que é preciso entender é que instituições multilaterais como a União Européia e seus êmulos são as velhas e boas confederações de Estados. abdicando. artística. Não pode ficar acima do Estado. 2. contundentemente negada pelas iniqüidades sociais de todo o século XIX e dos primeiros dezessete anos do Século XX. independentemente de censura ou licença"). pois nada mais falacioso que a teoria da mão invisível. lazer. porque o primeiro dever do Estado é com o atendimento das necessidades materiais da sua população.6. cerceando-lhe a intrínseca espontaneidade em qualquer das suas formas de exteriorização (daí a Constituição brasileira estatuir. São coisas diferentes. de modo que a sua gradativa mundialização não significa propriamente um risco de perda do seu controle. seja no plano da sobrevivência biológica do ser humano (alimentação. ela paira acima da organização estatal. III .a cultura é manifestação do espírito. seja no plano do bem-estar social (moradia. o receio de que o Estado venha a perder o controle da sua economia (efeito próprio da globalização). Não sobre o controle estatal interno .

se a Constituição rígida. por outra. Mais que um simples produto inelástico ou de formas acabadas em todas as suas partes. 2. Corporativamente. Até porque. para. no entanto. então. Se acontece.7. pensamos que.2. a Constituição é fórmula normativa consubstanciadora de princípios que potencializam a abertura das janelas do Direito para o lado onde sopram os ventos da atualização de suas idéias centrais. preponderar sobre os demais. porém. ela é nação o tempo inteiro. Numa recondução do pensamento de SIEYÉS a ROUSSEAU. se colocar o problema da revogação constitucional.7. Se ela existe. sendo uma nação.quantas sejam . e só então. ou a segunda. se necessidade houver. Interesseiramente.7. 2. Ideologicamente. Ou. sem maior necessidade de alteração formal dos seus dispositivos.15 Ou. pois. É justamente o visceral compromisso com o porvir que faz a nação tornar a sua obra legislativa um verdadeiro processo..5. Nenhum bloco de vontades. De revés. Se a nação apenas sai do estado de efetivo poder constituinte para uma quadra de virtual poder constituinte e vice-versa. ou por uma quarta geração . modifica-se a Constituição apenas quanto aos mecanismos de que seus princípios estruturantes precisam para permanecer eficazes (e não é preciso encarecer que toda Constituição tem a cara dos seus princípios estruturantes). nunca deixa de estar disponível para a nação?16 2. se a vontade é apenas da população. Onde.7. como de generalizada sabência. que força humana vai impedir que ela convoque uma nova Assembléia Nacional Constituinte? Sabido que a mais nova geração nacional é tão nacional quanto a primeira? Logo. ou a terceira.7. Modifica-se a Constituição para que ela permaneça idêntica a si mesma naquela parte central da sua circunferência axiológica. Insistamos. qual a Constituição que não dispõe sobre a sua própria reforma? Reforma. essa vontade se torna a soma orgânica das vontades de todas as pessoas vivas.3.4. Este o seu modo especial e único de ser. E por ser nação o tempo inteiro. nem é preciso esperar por uma segunda. ou por uma terceira. se a vontade a manifestar é mesmo da nação. de saída. essa vontade tende a ser não mais que o somatório mecânico das vontades de todas as pessoas vivas. o paradoxo da onipotência (pela terceira vez perguntamos)? Como falar de antidemocraticidade a posteriori da Constituição rígida. 2. A mesma geração que elaborou o Magno Texto.no interior de uma única nação. porém a desejar com os demais se interpenetrar ou dissolver numa só manifestação. tem o poder de revogá-lo. Para ROUSSEAU. etc. ou existe. muito mais fortemente empenhadas em produzir uma vontade final que seja uma "vontade geral" no sentido rousseauniano.da economia de cada povo.7. Cada bloco de vontades a querer preponderar sobre os demais. O vínculo natural entre a sociedade política e a futuridade 2. 2. tanto quanto o próprio Deus. de uma determinada geração vir a avaliar que já não dá para prosseguir sob o império do Magno Texto. razão da autonomia conceptual de que desfruta. que deve assegurar a sobrevida da Constituição. pode desertar de sua Constituição a qualquer momento. pois.1. ou não existe. consegue atingir um nível tão aceso de autoconsciência a ponto de desembaçar toda névoa que prejudique o límpido visual da futuridade. a querer. é da natureza da vontade . no fundamento: a nação. por mais rígida que seja. possui legitimidade política e senso histórico de oportunidade para dar forma jurídica ao próprio futuro. e não o seu dobre de sinos. empenhadas em produzir uma vontade final tão-somente grupal ou particular.

Cada uma é todo o mundo a sós". Boitempo Editorial. ou corporativos. ano de 1996). No primeiro caso.7. misteriosamente. "as nações são mistérios. no segundo. às preferências e a vontade geral à igualdade. p. obra já referida um pouco mais atrás. extraídas do livro O CONTRATO SOCIAL. Vale dizer. Porém. 2. magistralmente: "a um povo não é lícito repetir ou imitar nem a si mesmo. 27/33 da obra "UM GALILEU NO SÉCULO XX". vol.8. Uma outra comparação nos parece elucidativa. à semelhança do que fez JESUS CRISTO com a metodologia comunicacional das parábolas. pp. é indivisível. cada nação é. pelo metódico uso das normas-princípio. Essa linguagem sinótica ou sinérgica de valores torna-se possível. quando muito.) .)... porém não quer isto dizer que as deliberações do povo tenham sempre a mesma retidão (. Leiamos estas passagens. tirando estas mesmas vontades.. na Constituição. Normas-princípio. 2.1. E Tobias Barreto.8. de maneira a projetar na objetividade da sua obra tudo aquilo que a humanidade já produziu e ainda vai produzir (não é muito diferente o juízo que se vê em LUKÁCS. comentários de LEANDRO KONDER. pp. 2. essas. porque a vontade é ou não geral: é a de todo o povo ou a de uma parte dele. Parábolas que estão para o evangelho de Cristo. inerente a todas as caricaturas" (em Estudos de Direito. E cujo efeito prático é a processualidade ou historicidade ou uma certa atemporalidade do que se pretende comunicar. o presente e o futuro das suas gerações. um mundo todo à parte..6.17 2. que hoje têm na própria Constituição a precisa indicação dos respectivos conteúdos e a possibilidade de operacionalização ao nível factual. portanto. 2. Deduz-se do que antecede que a vontade geral é sempre reta e tende constantemente à utilidade pública.. Há às vezes diferença entre a vontade de todos e a vontade geral: esta atende só ao interesse comum. edição do governo de Sergipe).9. um ato de magistratura. sob pena de cair no baixo cômico. por sua natureza. é simplesmente uma vontade particular.) Pela mesma razão que a soberania é inalienável. 43 e seguintes: "Com efeito. É um discurso que se aproxima da dimensão das coisas universais e eternas.7. enquanto a outra olha o interesse privado.. também a nação faz a ponte entre o passado. A ensejar a qualificação do Magno Texto como norma-processo. se não é impossível que uma vontade particular concorde em algum ponto com a vontade geral. resta para soma dessas diferenças a vontade geral". como versejou Fernando Pessoa. A inconstitucionalidade da revisão de dupla face . O inexistente vínculo entre "excesso de rigidez" e "Poder Constituinte Evolutivo" 2. assim como os princípios estão para essa bíblia jurídico-positiva que é a Constituição.7. pois é falando por princípios que o seu discurso normativo exorciza os fantasmas da caducidade axiológica ou de conteúdo. Enfim. esta vontade declarada é um ato de soberania e faz a lei. É este o prevalente idioma jurídico-positivo da nação. de maneira a recolher o que há de axiologicamente comum a todas elas para tudo sintetizar num só documento normativo de nome "Constituição". I. que se destroem entre si. um decreto (. ou. (. tanto quanto é da natureza da vontade particular a busca dos interesses meramente privados. Ela não sabe falar de outro modo principal.7. 109. e não é senão uma soma de vontades particulares. é impossível pelo menos que este acordo seja duradouro e constante. porque a vontade particular tende.7.geral rimar com o bem comum (por ser mais do que a simples adição das vontades parciais).8. Assim como os artistas fazem a ponte entre o sujeito universal que é a humanidade e o sujeito individual que é cada ser humano.

com base na possibilidade de o legislador de revisão poder sempre ultrapassar esses limites mediante a técnica da dupla revisão. do seu próprio regime? 2. pode assim proceder com todas as outras. então a Constituição pode vir a perder até mesmo o seu caráter rígido. pois "cesteiro que faz um cesto. os seus dispositivos.8. por isso mesmo. o raciocínio será o mesmo. a revisão far-se-ia de acordo com as leis constitucionais que alteraram as normas de revisão. ou seja. por conseguinte. caindo. E se isto não for o suficiente para adaptar a Magna Lei à emergência de novos valores sociais. em virtude da eliminação da cláusula de intangibilidade operada pela revisão constitucional (. 1922. p.permitimo-nos falar . Num primeiro momento. a resposta para o excesso de rigidez (suposto excesso) é o excesso de desconsideração pelas cláusulas intangíveis da Constituição.8. a começar por esta: se é possível reformar as próprias cláusulas constitucionais de reforma. Desta forma. a Constituição muda freqüentemente de sentido sem que se alterem. à luz de uma depurada Teoria da Constituição. que se faça das cláusulas de reforma constitucional o próprio fundamento para a sua modificabilidade (?). Se nos transferirmos do campo das cláusulas pétreas formais para os domínios das cláusulas pétreas materiais. que o excesso de rigidez constitucional (quem faz o juízo de excessividade?) tem que pagar um preço. Ainda que sob o color de mitigar o efeito "conservador" das cláusulas pétreas.2. a ponto de suprimi-las. Revisão em dois tempos ou de dupla face.. E com total ingerência do Poder Reformador nas cláusulas pétreas materiais. o fato é que o mecanismo da dupla revisão baralha inteiramente os campos de lídima expressão do Poder Constituído e do Poder Constituinte. em contradições incontornáveis. formalmente. como prosseguir chamando a Constituição de Carta "Magna". quer dizer. pela total supressão da norma ou das normas constitucionais instituidoras da rigidez formal! E sem a rigidez formal. Qual a solução que se entremostra na crítica ao "excesso de rigidez" e seu desaguar em mutações constitucionais do tipo informal? Dar às cláusulas pétreas uma interpretação light. Código "Supremo". faz um cento". Lei "Fundamental". contestada por alguns autores. eliminando ou alterando esses limites. Querendo dizer.. 2. onde fica a identidade axiológica da Constituição? Onde ficam as principais "idéias de Direito" . a revisão incidiria sobre as próprias normas de revisão. suprimir. 2. 5ª Edição. Quem pode modificar. como preservar a superioridade hierárquica da Constituição sobre os demais espécimes legislativos? E sem tal superioridade.1.3. pois sem cláusula de rigidez formal a Constituição perde o controle do regime jurídico de suas emendas e. num segundo momento.1. com o fraseado. Norma "Normarum" e outras qualificações que somente se justificam por aquela supremacia no plano hierárquico? Pela não-completa submissão do Magno Texto à sanha reformadora do Poder Constituído? É o mesmo que perguntar: como prosseguir chamando de Constituição o que Constituição já deixou de ser.8. e que tal preço é a freqüente mutação informal da Constituição. cada vez mais soft. 2ª Reimpressão. como inelutável conseqüência do seu "excesso de rigidez". ou aditar uma cláusula pétrea substantiva. as disposições consideradas intangíveis pela constituição adquiririam um caráter mutável. num sentido assim explicado por GOMES CANOTILHO: "A existência de limites absolutos é.1. Almedina.o neoconstitucionalismo passa a acoimar de "poder constituinte evolutivo" a própria e necessária processualidade das Constituições principiológicas. 1138). Contraditoriamente . porém.2.8. É essa técnica da dupla revisão que nos parece o que há de mais atécnico.1.1.4.)" (em DIREITO CONSTITUCIONAL. para facilitar as emendas e revisões constitucionais.

8. então? A significar o único momento em que o Direito se subtrai ao Estado? Em que o Direito se torna maior do que o próprio ente estatal? 2.(GEORGES BURDEAU) que serviram de mote à faina constituinte?18 2.1. não! Esse tipo de juízo é exclusivo da nação. como ainda conceituar a Constituição enquanto o mais estável dos documentos legislativos de uma Ordem Jurídico-Positiva? Como abrir mão das normas . como garantia do avanço então obtido. Que paradoxo! Chama-se pejorativamente de Poder Constituinte Evolutivo a mutação informal da Constituição.1. 2.1. Ora. no exercício da função reformadora. flexibiliza ali. tudo fazer da originária Constituição (dizemos "tudo"..8.8. a cargo de um Poder contra o qual. Fingindo-se ignorar a grande distância que separa uma interpretação mais à solta da Constituição (porém nela mesma fundamentada) daquele ato legislativo de intervenção formal no Texto Magno. evidentemente que pode se arrepender e voltar a petrealizá-la. É necessário ter cuidado com as palavras.8.10. pois.6. para superar a idéia de autolimitação jurídica do Estado? Para impor ao Estado (com seu poder reformador e tudo o mais) balizas de trás para frente e de fora para dentro? Exógenas. Diga-se mais: quem pode despetrealizar a Constituição. quando menos. E a se trabalhar com esta hipótese. como visto. Se se permitir ao Poder Constituído. o vigiado a determinar o tipo de armamento e o horário de ronda do seu próprio vigia (é também de BURDEAU a lembrança de que. que singularidade restaria para uma Constituição que se tornou gato e sapato nas mãos do Poder Reformador? Sem mais nenhuma norma-de-fronteira que não provenha desse mesmo Poder Reformador"? 2.1. Não fiquemos por aqui.1. o sex-appeal de um Diploma que surgiu. Ou. Se é próprio do Poder Constituinte democrático produzir constituições avançadas (pode-se dizer o contrário?). quem flexibiliza aqui. 2. como ficaria a idéia de limite formal. mas indo além dos limites a ele originariamente impostos. aquele contra o qual existe a rigidez formal da Constituição está positivamente autorizado a medir o tamanho dessa rigidez? A avaliar o teor de razoabilidade.8. Como penhor de não-retrocesso das conquistas jurídicas a que democraticamente se chegou. Não.7. mais que vivenciar uma situação de crise de existência. já está engolfado numa existência de crise). e a forma jurídica de a nação avaliar tão global quanto radicalmente as coisas é a Constituição originária (assim como é exclusivo da nação dizer que o País. ter-se-ia algo assim como o sentenciado criminal a dizer como.1. precisamente. claro. que é uma das mais visíveis impressões digitais do Magno Texto? A sua principal função ou o primeiro dos seus históricos e lógicos diferenciais? Aquilo que é o próprio charme..5.8. Fora disso. As perplexidades se sucedem aos borbotões e o analista de pronto se pergunta: sem mais diques para represar o fluxo normativo do Poder Reformador. sendo o Poder de Revisão uma criatura da Constituição. mas não se dá o mesmo nome a um Poder Reformador que se irroga a força da mutação formal dessa mesma Carta. em verdade. como rotular de ideologicamente conservadora a função das cláusulas pétreas de tais diplomas? Tais cláusulas operam.9. onde e por quanto tempo se disporia a cumprir sua pena. justamente. toma gosto no ofício e já não estaca por conta própria). passando ele a ab-rogar a Magna Lei estará "destruindo o fundamento de sua competência"). ou de proporcionalidade da contenção legislativa que lhe é imposta? A todas as luzes. 2. o glamour.8. foi estabelecido o pretenso excesso de rigidez. Até porque é possível refundir uma cláusula pétrea para adensar o teor de proteção dos valores nela albergados. para seguir inverso roteiro.

2. em qualquer circunstância. e. E qualquer pessoa neste reino poderá jurar obedecer às ordens dos vinte e cinco barões e juntar-se a eles para nos atacar. poderão embargar-nos e incomodar-nos. deixarmos de respeitar essas liberdades em relação a qualquer pessoa ou violarmos alguma destas cláusulas de paz e segurança.1.1.2. e da ofensa for dada notícia a quatro barões escolhidos de entre os vinte e cinco para de tais fatos conhecerem.constitucionais de autodefesa autogarantia (papel instrumental das cláusulas pétreas). e se nós. os nossos bailios ou algum dos nossos oficiais. até ser atendida a sua pretensão.8. se estivermos ausentes do reino.12. Antes. terras e propriedades e utilizando quaisquer outros meios ao seu alcance. os mesmos quatro barões apresentarão o pleito aos restantes barões. a praticá-la. se "não há Constituição sem supremacia e não há supremacia sem sua proteção"?19 2. concedemos e aceitamos. e querendo torná-las sólidas e duradouras. 2. para a nossa justiça. incumbidos de defender e observar e mandar observar a paz e as liberdades por nós reconhecidas e confirmadas pela presente Carta.11.8. mas sem ofenderem a nossa pessoa e as pessoas da nossa rainha e dos nossos filhos. no caso de estarmos fora do reino. ipso facto. Ora. apontando as razões da queixa.. deixa de revelar estima pela sua obra e não induz o povo. e não impediremos ninguém de fazer idêntico juramento". a petição não for satisfeita dentro de quarenta dias. Lá pelo fundo das coisas ou por trás dos bastidores (como soem falar os jornalistas).8. O uso da idéia do "Poder Constituinte Evolutivo" como contradiscurso constitucional 2. estes apelarão para nós ou.) Considerando que foi para honra de Deus e bem do reino e para melhor aplanar o dissídio surgido entre nós e os nossos barões que outorgamos todas as coisas acabadas de referir. e os vinte e cinco barões. Não inculca no povo uma estima ou um sentimento de Constituição. que os barões elejam livremente um conselho de vinte e cinco barões do reino. eles obedecer-nos-ão como antes. Certamente precursora desse vínculo necessário entre a supremacia da Constituição e os mecanismos garantidores de tal supremacia é a própria "MAGNA CHARTA LIBERTATUM". tão necessário para que ela se torne uma instituição viva. Um contradiscurso constituinte. para sua garantia. a nossa justiça. e nós damos pública e plena liberdade a quem quer que seja para assim agir. a contar do tempo em que foi exposta a ofensa. a partir da Constituição do México de 1917 (imediatamente seguida pela . e à petição será dada satisfação sem demora. Para que ela se torne a própria condição da montagem de um Ordenamento que tenha na segurança das relações humanas o seu valor fundante por excelência. uma Constituição pra valer (e só é pra valer na medida em que petrealizada). A Teoria do Poder Constituinte foi o que de mais revolucionário ocorreu no pensamento jurídico de todos os tempos e o fato é que ela já não serve aos propósitos socialmente retrocessivos do neoliberalismo. logo que tenha havido reparação.. apoderando-se dos nossos castelos.8.2. se o Constituinte não anuncia que está a produzir uma Constituição garantida. pensamos que a válvula argumentativa do "Poder Constituinte Evolutivo" intenta disfarçar aquilo que na verdade sucede com a reteorização do Magno Texto e do Poder Constituinte: uma contra-revolução dogmática. cuja parte final está assim redigida: "(. coloca-se como o mais lógico obstáculo ao desmonte do Estado Social que as Leis Maiores do Ocidente erigiram. e se por nós ou pela nossa justiça. juntamente com a comunidade de todo o reino (communa totiu terrae). de 15 de junho de 1215.1.

2. segundo a qual todo aquele que detém o poder tende a abusar dele. Acrescente-se: longe de significar uma ampliação do poder estatal. cada povo soberano teve que recorrer a uma nova manifestação formal do seu Poder Constituinte (salvante a nação norte-americana. não havia (e não há) como impedir os fenômenos corrrelatos da concentração de renda e da exclusão social. Se é verdade que os dois valores básicos entretecem relações dialéticas. b) por outro. É repetir: sem a limitação do poder econômico ou a aplicação de medidas saneadoras do mercado.2. sem um mínimo de igualdade nas relações sociais de base (aquelas que definem o verdadeiro perfil da vida coletiva).6. instrumento que é de prepotências e iniqüidades de toda sorte. então. levando-o também a limitar o poder econômico. nada mais natural que seqüenciar a faina constitucional de impor limites a toda forma de poder que implicasse dominação política e exploração econômica das massas. Matéria-prima explosiva. 2. 2.8. todo Estado liberal cai nos braços do poder econômico para formar com ele a mais desumana das parcerias (a opressão política a atar o seu corpo à exploração econômica). Recorde-se que o liberalismo triunfou sobre o absolutismo porque limitar o poder político era (e é) a própria condição de defesa da liberdade e da cidadania. diria MARCELO NEVES). Sobremais.8. Ali. desmanietação desse mesmo Estado frente aos proprietários dos bens de produção. ferido de morte ficaria (como fica) o princípio da igualdade. para que ele. BOBBIO esclarece que prefere a expressão "vulto demoníaco do poder" a "alma demoníaca do poder".8. autóctones e alóctones. preservação das conquistas liberais dos indivíduos e dos cidadãos contra o Estado.20 2.8. outra. pois que. pois o poder é coisa que não se amplia ou não se reforça. ação estatal para a realização do valor da igualdade. mediante lei. 2.3. simplesmente porque o poder não tem alma). Logo. sem essa limitação.8. de que a doutrina de SIEYÈS foi uma espécie de arremate jurídico.2. que se perfilou ao lado da liberdade e da fraternidade como bandeira de luta da própria burguesia revolucionária do século XVIII. era preciso fazer avançar o movimento racional e consciencial do constitucionalismo.2. É que. a imprescindível postura intervencionista e dirigente se traduzia em mais um limite real. Justamente ela. lastreia um tipo de Direito mais fortemente judicialista do que legalitário.2. e. Uma coisa é partir de um Constitucionalismo liberal para um Constitucionalismo social. por influência do modelo britânico de Ordenamento Jurídico. Porém.2. assumisse postura intervencionista e dirigente em favor dos trabalhadores em particular e dos consumidores em geral.2. esse terceiro leit motiv da burguesia ascendente do final do século XVIII. A razão e a consciência humana assim o proclamavam (e proclamam).5. A luta político-jurídica foi sem tréguas e o constitucionalismo social veio a significar: a) por um lado. Uma normação apenas retórica ("simbólica". inação do Estado como condição de império do valor da liberdade e da cidadania. Aqui. numa economia típica de mercado. sem maior contradição no aproveitamento das teorizações do Iluminismo. na prática). por efeito de uma Constituição que. as liberdades fundamentais não passam de ornamento gráfico na tessitura formal dos dispositivos constitucionais. É explicar: para sair da democracia liberal para a social democracia. entregue a si mesmo. Valores de cujo indissolúvel casamento nasce a fraternidade. a igualdade. se já não se convoca uma nova Assembléia Constituinte e se já não se reteoriza a própria força constituinte. é sair de um Constitucionalismo social para voltar ao liberal. pela sua própria natureza (para além da famosíssima advertência de MONTESQUIEU. para desancá-la.Constituição Russa de 1918 e pela Constituição Alemã de 1919).4. sem .

no sistema capitalista. agora. pois é muito mais plausível um povo igual vir a desembocar numa sociedade libertária real. uma aventura armada. da qual reproduzimos estas preciosas considerações: "O sistema de mercado distribui a renda de forma altamente desigual. O internacionalismo vai avançar.2. 2. fazê-lo de mãos dadas com a coordenação e a proteção da política nacional social e de assistência". uma rede de segurança eficaz . E porque a favor da vida.aos que vivem nos limites inferiores do sistema. e também necessário para a liberdade humana. Uma organização sindical forte e eficaz. já representa para os países emergentes uma participação igualitária ou descolonializada na economia de mercado dos países tradicionalmente centrais.) É preciso haver. "(.2. porque a favor da vida (como tudo que decorre do trabalho a quatro mãos da consciência e da razão humanas).7. 2. E quanto maior o número de contingente de pessoas aproximativamente iguais. Como se a desnaturação. e não no cenáculo ampliado do Poder Constituinte. pior . O bolo da riqueza nacional tem uma lógica peculiar que o faz crescer. maior a cota de liberdade concreta de cada qual desses contingentes. numa mesma sociedade. do que a falta absoluta de dinheiro. nada mais restringe a liberdade. Enfim. "(. essa passagem do constitucionalismo liberal para o social... Hoje está claro que os Estados Unidos exercem uma liderança mundial negativa nesse sentido.) Não há possibilidade de um compromisso estreito com a nação-Estado. seguridade social e boa assistência à saúde são reconhecidamente uma parte da resposta. Viagem sem volta. ou. desobrigar e até proibir o Estado-nação do controle de sua própria economia. do que um povo livre vir a desembocar numa sociedade igualitária de fato. acima de tudo. principalmente na área do capital financeiro-especulativo (o pior vilão do final do século XX e do início deste milênio). e as que ainda são necessárias. Como observou JOHN KENNETH GALBRAITH reconhecidamente um dos maiores economistas do século XX. E viagem sem volta.dúvida que a primazia é para a igualdade (cuja essência está numa aproximativa distribuição de patrimônio e de renda).. recuar já significa avançar. é que seu desfazimento no bojo do Estado neoliberal está a se verificar no forum restrito do Poder Reformador.apoio individual e familiar . Isso é humanamente essencial. E também um imposto de renda decididamente progressivo..8. um golpe militar ou coisa que o valha. ou abaixo deles. um salário mínimo humano. deve. Mas tampouco pode haver um internacionalismo insensato que sacrifique as conquistas sociais do último século. É o que se lê em alentada conferência que a Folha de São Paulo transcreveu às pp.8. continuamente. portanto. O mais curioso ainda é que uma parte dos defensores da interpretação light ou abrandada das cláusulas pétreas está convencida de que esse tipo de exegese tem o mérito de colocar a própria Constituição a salvo de uma quartelada. Temerosos os novos teóricos da Constituição do debate aberto com a nação. no entanto. 4 e 5 do seu caderno "MAIS". Retornar a uma genérica situação de exclusão econômica das massas despatrimonializadas e sem renda minimamente decente (este o invariável déficit social da contabilidade liberal do século XIX e do primeiro quartel do século XX) já sinaliza o definitivo ingresso "na era da modernidade".. Concordamos com isso. à medida que é mais compassiva ou solidariamente dividido. edição de 20 de dezembro de 1998. Nada estabelece limites tão rígidos à liberdade de um cidadão quanto a absoluta falta de dinheiro..8. Receosos da cobrança que a sociedade política certamente lhes faria quanto a essa esdrúxula idéia de que. Desfazer conquistas sociais já representa arejamento das Constituições.

Que paradoxo então se apresentaria aos olhos incrédulos do estudioso dos fenômenos político-jurídicos! A Constituição originária criaria um poder cuja função seria a de reformá-la para que ela não perdesse a atualidade e assim atualizada pudesse inibir o surgimento de um poder de fato que a retirasse do mundo dos vivos.1. Afinal. ou o Poder Constituinte impõe a si próprio um campo exclusivo de atuação. Nunca a opção por conteúdos.ainda. O Poder Constituinte como o poder que pode o mais sem poder o menos.2. fora daquele mencionada espaço preambular da Constituição (. mesmo naquelas hipóteses em que a Constituição autorizasse a sua total reforma..1." 2. é o que .9.9. a todo instante.8. a roupagem linguística. a renumeração de dispositivos. pela inescapável distinção entre o poder constituinte e o poder constituído. porque. Não pode fugir da radicalidade. As fronteiras que separam as duas categorias têm que ser fixas. o poder constituinte estaria a normar sobre ele mesmo (e não sobre um poder simplesmente constituído).). ele teria a possibilidade de se assumir como coveiro da Constituição que o fez nascer e aí privaria de sentido a própria e verdadeira função constituída. A questão não é nova em nossa própria elaboração teórica. que é. e como sairia aparelhado esse poder de reforma? Sairia aparelhado com a energia assassina de poder se assumir. a de impedir o surgimento de um poder revolucionário. Todo este nosso esforço analítico é para dizer. não pode deixar de ser maniqueísta. mesmo quando este venha a operar sob as vestes de um Poder Reformador. A superação da idéia de autolimitação como fundamento da sumissão do Estado a deveres 2.9. que vimos em estudo da lavra de PAULO MODESTO. como bem o disse o constitucionalista argentino REINALDO VANOSSI.. como aquele preciso poder de fato que a Constituição quis evitar.. É que. aristotelicamente: "cada coisa em seu lugar".1. na matéria. por exemplo. uma nova distribuição de títulos. 2. e o Poder Constituído como o poder que pode o menos sem poder o mais 2.9. publicado às pp.. para a Magna Carta. procedimentos e valores que tornassem a Constituição autorizante um zero à esquerda. se ela já não sobrevive às ações de nenhuma das duas tipologias de constituicidas (metonímia do vocábulo "constituicídio". capítulos e demais técnicas legislativas de agrupamento lógico-operacional de temas afins. alternando a seu gosto os planos do ser e do dever-ser. pois sobre ela assim já nos pronunciamos em estudo simultaneamente publicado em Espanha e Portugal. pois o raciocínio técnico.1.2. Esse paradoxo não deixaria de se configurar. como. ano de 1994)? 2. Por dedução. Deveras. Não flutuantes. pra não ser morta. a supressão pura e simples de uma cláusula pétrea não fosse por si mesma um golpe. tal autorização de reforma global só pode ter de global a possibilidade de opção por uma nova estrutura formal da Constituição.9. O Poder Constituinte é o Poder Constituinte e o Poder Constituído é o Poder Constituído. que diferença faz entre golpeadores assumidos e golpeadores enrustidos. ou perde a razão-de-ser da sua autonomia conceitual. aí. sob o título de "A Reforma Constitucional e sua Intransponível Limitabilidade": "Se o poder constituído pudesse a qualquer momento se travestir de poder constituinte. 76/78 da Revista de n° 5 do Ministério Público da Bahia.

pois ele significa a força de elaborar a Constituição. 2.1. 6ª edição.8.1. se a Constituição já não provém de um poder capaz de dar a última palavra em matéria de limitação mesma? Afinal. Aquelas. sem perder de vista nenhum dos dois aspectos.9. Bater nessa mesma tecla é o que há de mais didático.2. pois é dessa diferenciação que decorre todo o prestígio dogmático e sociológico da Constituição. Ou ela possui a força de fazer algo sozinha. Malheiros Editores. toda limitação a ele imposta não passaria de autolimitação. 1996). o glamour o sex-appeal da Constituição.4.1.22 2. É desaprender a lição da História e reexibir um filme cujo tenebroso final já se conhece. Indisputavelmente. nascido e reformável por um processo peculiar. do sentido que mais conta para uma científica elaboração do conceito de Constituição. no sentido de que ele detém a competência para reformar a Constituição. Contra tudo e contra todos.7. a qualquer momento. que é o sentido formal. Petrealidade necessariamente dúplice. com absoluta exclusividade. mormente o Estado. posicionando-se como condição e garantia destas últimas (do que deflui o descarte da astuta revisão constitucional em dois tempos.9. Qual a conseqüência teórica de um Estado que se autodeslimita a qualquer instante? O reconhecimento de que a Constituição desse Estado não é filha unigênita do Poder Constituinte coisa nenhuma. 2. claro. começando pelas cláusulas formais e terminando pelas materiais.21 2. O Poder Constituinte e sua força de mesclar valores jusnaturalistas e valores positivistas .5. E desconsiderar essa lógica estrutural do pensamento político e jurídico é assim como sobrepor à realista afirmação de que contra fatos não há argumentos o alienante juízo de que contra argumentos não há fatos.1.9. Privando-se. tudo procede do fato de que somente ela pode impor eficazes limites a quem pode impor eficazes limites à população. mas toda uma lógica elementar que subjaz a essa intransigente distinção entre o que é constituinte e o que é constituído. de que falamos antes. pois só cabe falar de unigenitariedade jurídica se se está diante de um modelo prescritivo que. 2. E o Estado que se autolimita encontra em si mesmo o fundamento lógico de sua autodeslimitação. conforme se lê em PAULO BONAVIDES. O charme. então. único mesmo. mas não a aptidão para reformá-la.9. é pela sua força única de se impor ao Estado que a Magna Carta pode transitar das suas cláusulas formais de intangibilidade para as cláusulas materiais igualmente irreformáveis. 2. E o Poder Constituído? É e sempre será o poder de fazer o menos sem nunca chegar a fazer o mais.3.6.9.9. O Poder Constituinte é e não pode deixar de ser o poder que pode o mais sem poder o menos.9.1. Não são meras palavras. mais profilático nos quadrantes da Ciência Política e da Ciência Jurídica. citando HANS KELSEN (p. jamais o nome "Constituição" passaria a verbete do vocabulário jurídico-positivo. mas não a potência para trocar essa Constituição por outra. no entanto.1. Não fosse para o cumprimento desse prioritário papel de dobrar a cerviz legislativa do Estado. ainda há pouco mencionada). E como impor eficazes limites a quem pode impor eficazes limites à população. se a Constituição fosse obra do Estado. tenha por principal função metodológica a de manter essa peculiaridade. mais propedêutico. 64 da obra "CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL". ou decai da condição de documento jurídico supremo. a não ser no sentido puramente material de conjunto normativo que se refere "aos órgãos superiores e às relações dos súditos com o poder estatal".sucede com a Magna Carta. 2.

para não deixar que o Mercado passe de motor da História a mentor dessa mesma História). ao lado dos mecanismos realizadores do princípio da Separação dos Poderes.5.o poder econômico e o poder político -. do justo ditado pela reta razão. E a a fórmula operacional é simples. de fato. de modo a permitir a todos o conhecimento antecipado das conseqüências objetivas das próprias ações.3. A Constituição melhor realiza a idéia do justo por si mesmo na medida em que pode dizer: I . ou do Bem Comum (devido ao carregado teor de subjetividade desses ideais). que ações humanas concretizam ou materializam o ideal do Justo. o seu oposto ou contravalor. perguntamos: Qual o documento jurídico-positivo que melhor espelha a idéia de estabilidade em que a Ordem se traduz? O diploma que mais duradouramente lança as regras elementares do "contrato social". o balizamento em si do Estado. se se põe como valor fundamental do Direito o postulado jusnaturalista do justo-racional. quando se permite ao Estado tudo se permitir. é. Combater os que mais combatem o justo por si mesmo. 2. a também sistematicamente encurtar os espaços de influência da população nos processos de tomada de decisão e funcionamento do Estado.2.que ações o Estado não pode praticar perante os indivíduos e os cidadãos (postulado advindo do pensamento liberal e que. limitar a ambos já significa fragilizar quem mais fragiliza aquele ideal de Justiça. Vale dizer: sabe-se perfeitamente bem que determinados modos de agir são a negação mesma da Justiça. Quando dissemos que a Magna Carta significou a maior revolução jurídica de todos os tempos . . Esta. E como já se sabe que os inimigos figadais do justo-racional são esses dois poderes . se o valor fundante do Direito não está nos valores da Paz.9. ou da Justiça.9. foi em atenção ao maravilhoso fato de que só a Constituição se tornou um definitivo ponto de encontro entre o postulado positivista da Ordem e o axioma jusnaturalista "da Justiça que advém da reta razão". Um modo de se resguardar a Justiça pelo direto gradeamento da toca dos lobos. de que ações efetivas depende a convivência em bases justas. aquela. outra vez). tem por objeto impedir os abusos do poder político).2. 2.2.9. a reduzir cada vez mais os espaços de inclusão popular na riqueza material do País.que ações o Estado tem que praticar perante o poder econômico (postulado oriundo do pensamento social-democrata. E esse papel axial só pode recair sobre a Constituição.4.9. II . quais os conteúdos positivos da Justiça.2. Ambas de incidência fatal.2. acresça-se. De outra parte. perfeitamente possível dizer que ações humanas são protuberantemente contrárias ao referido valor. Se não é possível dizer.2. 2. do poder econômico. é ainda a Constituição o documento-símbolo por excelência.9. por tabela. como desenganadamente são a opressão política e a exploração econômica. na medida em que se lhe reconheça o laço unigênito que a prende ao Poder Constituinte. E. com total objetividade. Nenhum outro modelo jurídico-prescritivo serve melhor a essa idéia central do justo acima de qualquer suspeita. exatamente como da Ordem falava KELSEN? Claro que esse diploma normativo é a Constituição! Não pode ser outro! 2.2. porém no valor objetivo da Ordem (que outros chamam de Segurança).1. do "justo por si mesmo" (GEORGES BURDEAU. Então. no entanto. e. Do quanto de objetivo pode se conter na Justiça como ideal de convivência humana. é o que de mais garantido se pode obter em defesa da Justiça.e que agora o mundo ocidental passa por uma obscurantista fase contra-revolucionária -.

a Magna Lei tem nessa limitação a sua própria causa formal.2. o seu campo divisional operativo. já no próximo capítulo. Aquilo que melhor define a sua requintada funcionalidade. E assim altaneiramente postada. a Magna Carta se confunde com a própria função principal que lhe cabe cumprir.2. Não pode deixar de ser. a sua medula.2. resumindo em si a estratégica função de limitar o Estado e o poder econômico. Por isso que. 2. É igual a concluir: mais que até mesmo balizar. conseguintemente. a encarnação mesma. a Constituição é balizamento.7. a Constituição é a síntese possível. isto é. a viva consubstanciação desse balizamento. mais do que se tipificar pelo papel de balizar o Estado (a contenção do poder econômico vem por gravidade).23 Assunto a retomar. O Código e sua principal função. O tema que mais caracteristicamente recheia o conteúdo de suas normas. pela sua essencialidade.6. passam a compor uma só realidade.9. Está aí a demonstração de que somente a Constituição pode se colocar enquanto ponto de convergência do que o juspositivismo e o jusnaturalismo têm de mais característico. porque o balizamento é a sua natureza.9. .

3.5. por inteiro e de uma só vez. as leis delegadas. E sendo estatal.2. O primeiro. de sorte . mas não criar um Estado zero quilômetro. apelidado por boa parte da doutrina como Poder Constituinte Derivado. nascido do Poder Constituinte. é porque não é constituinte (JORGE MIRANDA). nele efetivamente se transfundindo e formalizando-o numa Constituição. A Constituição e a fuga de suas normas a exame de validade 3. mas sempre com a virtualidade de operar no atacado. no sentido de que há um Direito-Constituição e um Direito pós-Constituição.1. E sem esse poder de plasmar ex-novo e ab novo o Estado (que é o correlato poder de desmontar. A compulsão da rigidez formal da Constituição 3. ainda que para o fim de reformar a Constituição. uma nova ilação é de ser feita: a Constituição é um divisor jurídico de águas.4. discriminado este em Poder Reformador (o que revisa. nascido de um Poder Constituído. nesse ou naquele aspecto.1. A Constituição como critério de classificação de todo o Direito 3.Capítulo III .1. ou seja. Forma de atuar. A Constituição como critério de hierarquização das próprias normas constitucionais 3. o máximo que lhe cabe é retocar o Estado. A Constituição e sua retroeficácia de dupla face: em abstrato e em concreto 3. negamos o que em outros estudos afirmáramos: a existência de um Poder Constituinte de segunda geração ou de segundo grau. Como tantas vezes dissemos. O fundamento supra-estatal e suprapositivo da Constituição 3.2. Se o poder é exercitado por órgão do Estado.As Especificidades da Constituição Sumário 3.1.1. Não existe esse Poder Constituinte Derivado. as leis ordinárias e demais atos de formação da vontade normativa primária do Estado1).3. querendo. então de poder constituinte já não se trata. Neste capítulo. a primeira classificação que se faz sobre o Direito legislado é com os olhos postos na Constituição.4.filha unigênita que é do Poder Constituinte -. Como a Constituição não pode deixar de se por na linha de partida do Direito . pela consideração elementar de que.8. 3. desconstituir por inteiro o Estado preexistente). Com esta afirmativa de que o Direito pós-Constituição é sempre a manifestação de um Poder Constituído. de ponta-a-ponta. o verdadeiro e único Poder Constituinte é um poder de construção e ao mesmo tempo de demolição normativa. O que dissemos ali reafirmamos aqui: a sociedade política ou nação é a única a experimentar o Poder Constituinte.1. ou o que emenda a própria Constituição) e Poder Legislativo usual (o que elabora as leis complementares à Constituição. A Constituição como critério de classificação de todo o Direito 3. a nosso ver. se é um poder derivado. A Constituição como atestado de efetiva soberania nacional 3. é porque sua ontologia é igualmente estatal. 3.6. Por isso mesmo é que somente ele é que irrompe no cenário político para a epopéia jurídica do começar tudo de novo. no global. mais concorrem para demarcar os espaços de radical separação entre ela mesma e os atos de sua reforma.7. indicaremos aquelas especificidades da Constituição que. o segundo.1. O ponto inicial do novo estudo é precisamente a parte em que o capítulo anterior foi concluído. 3. mesmo que tal Direito se expresse por atos de reforma da Magna Carta. A Constituição como a lei das leis 3.

3 3. o Poder Constituído é também ambivalente. o Poder Constituído é um Poder que pode o menos (modificar a obra do Poder Constituinte). porque estatal e positivamente exercitado.1. Ora atua como produtor de normas gerais não-constitucionais (porque não destinadas a mexer na Constituição). no uso do seu poder reformador.1. nem todo repositório de normas constitucionais é uma Constituição (basta que lembremos as normas transitórias que se veiculam por emenda. Direito Penal. o Poder Reformador é o poder de constituir tão-somente normas constitucionais. Não para a função auxiliar do retoque na Constituição vigente. como realçado no capítulo precedente.6. Donde a nossa afirmação de que o Direito legislado principia pelo Direito-Constituição e prossegue com o Direito pós-Constituição. Se toda norma contida em dispositivo da Constituição originária é norma constitucional. O que esse Poder elabora é a Constituição (reiteremos o juízo.1. Não-simplesmente normas constitucionais. antes de comportar segmentação interna em províncias ou setores .a trocar uma Constituição por outra e assim dar à totalidade do Ordenamento Jurídico um novo fundamento de validade. já se põe como contraponto do Direito-Constituição. Tudo a espelhar: quem edita a Constituição está impedido de reformá-la.9. pois aquele que só existe para fazer o todo não pode fazer a parte e aquele que só existe para fazer a parte não pode fazer o todo (evidência palmar). Direito Comercial e demais "províncias" ou setores cientificamente autonomizados do Direito. mas sem poder o mais (trocar uma Constituição por outra). Se o verdadeiro e único Poder Constituinte é um Poder que pode o mais (elaborar a Constituição). Na sua função de atuar debaixo da Constituição. 3. Mas sempre na condição de um Poder Constituído. 3. Só que essa parte do fenômeno jurídico-positivo. Não a Constituição. apenas. Direito Tributário. 3. É o segmento não-constitucional-originário do Direito.2 3.e daí em ramos públicos e privados do Direito -.1. no fundo. categorizar como Poder Constituinte Derivado o poder de reforma da Constituição é cair numa ilusão de ótica: ver o Poder Constituinte Originário (o vocábulo "originário" é até dispensável. 3. que já é uma função de atualizar. É do nosso pensar que. O que se divide em público e privado é o Direito pós-Constituição. incorrem no erro (venia concessa) de tomar a parte pelo todo. mas em um outro sentido. que são normas destinadas a vigorar de forma paralela ao Magno Texto. Mais até: se toda Constituição é um repositório de normas constitucionais.8. e quem reforma a Constituição está impedido de editá-la. mas não de substituir o fundamento de validade do Ordenamento por inteiro. da grande árvore jurídica.10.1. que já e um Direito elaborado pelo legislador constituído: Direito Administrativo. Direito Civil. porque normas constitucionais o Estado também produz.7. Uma parte. porque pleonástico ou redundante) como o poder de elaborar normas constitucionais.5. nem toda norma constitucional é norma contida em dispositivo da Constituição originária. A Constituição (e não suas emendas ou revisões) a se postar como inafastável critério de classificação de todo o Direito. Quando os jurisperitos bifurcam o Direito legislado em público e privado. e não dentro dele). ou por revisão. ora atua como produtor de normas gerais constitucionais (porque destinadas a reformar a própria Constituição). mas sem poder o menos (reformar a sua própria obra legislativa). Não é. e não toda a árvore. Mais enfaticamente: se o Poder Constituinte é o poder de constituir a Constituição não apenas normas constitucionais -. Se o critério de classificação dos ramos jurídicos em públicos e privados é a . pela sua fundamentalidade).1.

e passa à condição de simples água salobra. não se recusa aos atos de reforma constitucional a força de se incorporar ao documento reformado. como tantos outros. a teia invisível que vai de uma vocábulo a outro e de uma expressão a outra. não há como dizer a que bloco pertence o Direito Constitucional. lato sensu) quanto o inverso. Permutá-las. a Constituição.11. é verdade. porém nem rigorosamente público nem privado. fala pelas palavras nele grafadas e ainda fala por palavras que nele não foram grafadas. desde que veiculem . o silêncio que já não traduz a intenção do nada-dizer.2. enfim. como a Constituição. É que ele tanto contém segmentos normativos de favorecimento das pessoas privadas perante aquele que simboliza os imediatos interesses da sociedade (e essa contraparte é a pessoa jurídica do Estado. O que nos estimula a formular a proposição de que o Direito Constitucional é ramo jurídico. ora de tratamento paritário dos interesses das partes (Direito Privado). que é uma coisa viva ou em movimento. seccioná-las. 3. lógico. sim. 3.2. Se este se constitui de palavras. mais do que perante qualquer outro diploma jurídico. 3. a Constituição deve permanecer inteira em sua quintessência. justamente.12. pois nele ainda contam os intervalos. destacá-las do conjunto. Conforme dissemos em nota de rodapé. Ela é mais que o resultado do ajuntamento linear das suas partes. porém diz mais que o somatório de suas palavras. Centremos agora as nossas atenções investigativas na distinção entre a Carta Magna e o Direito Constitucional como um todo. Enfim. E tudo isto quer dizer que o poema.2. ora de tratamento favorecido daquela parte que simboliza os imediatos interesses da sociedade (Direito Público).1. 3. substituí-las. O verbal a conviver com o não-verbal. Mudam-se algumas de suas partes para que o todo prossiga idêntico a si mesmo. o poema é o somatório de suas palavras.nítida vertente que eles ostentam para compor relações. Tanto não têm que se assujeitam a exame de validade perante. porque o Direito Constitucional como um todo tem na Constituição o seu necessário ponto de partida. A Constituição como critério de hierarquização das próprias normas constitucionais 3. na exata disposição de cada verso e de cada estrofe na ossatura do conjunto. mas não o de chegada. tais palavras somente conservam íntegro o seu papel de servir a uma obra de arte se permanecerem no contexto da poesia e no exato lugar em que se encontrem. Ante a Constituição. que é uma coisa morta ou sem mobilidade própria. a ponto de mais adiante demonstrarmos que. as entrelinhas. é preciso tocar nas suas normas com a delicadeza de quem lida com peças de cristal. Ela consubstancia um tipo tão articulado de unidade que faz lembrar a composição e o sentido de um poema. seja qual for o ato de reforma constitucional.1.1.2. é quase sempre repetir o fenômeno que decorre de se colocar. No caso da poesia. hipoteticamente. Ele ainda engloba as normas de reforma constitucional e o fato é que essas normas não têm a mesma hierarquia da Constituição. ou seja. um pouco de qualquer das ondas do mar em um balde: a onda removida perde instantaneamente a qualidade de onda. a serviço da mesma causa. o que era a riqueza de um poema fica rebaixado à pobreza de simples vocábulos. cumprindo o não-verbal o papel do silêncio-eloqüente. mas que se faz silêncio mesmo para poder melhor dizer. Adicione-se a esta particularidade (a de ser o Direito Constitucional infenso às categorias do público ou do privado) mais uma nota específica: a Constituição é documento normativo tão singular que não se confunde nem mesmo com o somatório mecânico de suas normas.

mas não o contrário). verbi gratia. os códigos por acaso existentes.2. não têm o seu regime jurídico ditado pelo código mesmo. é procedente a diferenciação nominal. 3. porque sindicável a todo instante quanto à sua validade. Eles não podem se autoexcluir do controle de constitucionalidade e isto já comprova que o seu modo de entrar no santuário da Constituição é sempre condicionado.2. pela cristalina razão de que as eventuais antinomias entre a Constituição e as normas constitucionais que lhe sejam posteriores já não se resolvem por aqueles dois critérios da posterioridade do espécime normativo. o certo é que existe uma diferença qualitativa .2.6.5. ou da especialidade de assunto. mais que segmento central do Direito Constitucional. sem a necessidade de nova manifestação formal do Poder Reformador. não gozam. O que vem a significar ingresso menos altivo dos atos de reforma da Constituição no próprio documento reformado é que esse ingresso pode ser confiscado. de Direito Penal e Código Penal. 3. ou de Direito Mercantil e Código Mercantil. Do que decorre a impropriedade técnica de se buscar nos códigos infraconstitucionais o fundamento de validade das regras legislativas que se lhes sobrevierem. nascidas posteriormente ao código.8. 3.3. Fora do Direito Constitucional. menos altivo. que. as emendas e revisões constitucionais se privariam daquilo que nem às leis comuns e aos demais atos oficiais do Poder Público é recusado: a presunção de juridicidade. ou complementação. Mas se trata de uma incorporação normativa sempre a título precário. assim. se constituem a parte central de tais ramos.4. a norma que penetrou na Constituição pode sofrer cassação de eficácia. porque essa diferenciação repercute no campo hermenêutico. As eventuais antinomias normativas se resolvem pelos conhecidos critérios da posterioridade (a lei mais nova prepondera sobre a mais velha). Ora de forma definitiva (pela via do controle concentrado). e ele é de ordem hierárquica: ou as normas de reforma da Constituição guardam aquela conformidade processual e material que lhes assinalou a própria Constituição.7. Se tal ocorresse. Nos outros ramos jurídicos. 3. Por isso que não cabe falar. Aqui. Esse condicionamento ou essa precariedade de inserção no Magno Texto não significa. ou seja. óbvio. (pense-se na intocabilidade das chamadas "cláusulas pétreas". à falta de hierarquia entre os respectivos comandos legais. O critério dirimente é um só. Mantém com ele o mesmo tipo .2. por conseqüência.2. ora para um determinado caso (pelo trilho do controle difuso). a Constituição é a parte superior desse ramo jurídico.normas permanentes. que somente depois de passar pelo crivo jurisdicional de validade é que todo ato de reforma constitucional ganha o status de norma de primeiro escalão jurídico. da especialidade material (a lei especial revoga a lei tematicamente geral. porque esse tratamento nominal diferenciado não tem a menor relevância interpretativa. tudo se encarta de modo igualitário numa única província jurídica. ou. então. Coisa que não existe em nenhum outro ramo autonomizado do Direito. Não é esse o modelo de compreensão da dualidade temática Direito Constitucional/Constituição. Leis extravagantes. todavia.entre as normas constitucionais originárias e aquelas que se lhe seguirem temporalmente. 3. e. E repercute. verbi gratia) ou se expõem à declaração judicial de invalidade. 3. de superioridade hierárquica frente às leis extravagantes (assim designadas por vagarem a latere do código). Seja qual for a hipótese de desaplicação ou de desconsideração operacional do ato de reforma.2.nunca é demais enfatizar . É incorreto falar-se de qualquer dos códigos infraconstitucionais como lei das leis de sua própria reforma. ou de Direito Processual e Código Processual. Por conseguinte.

Ora. que a Lei das Leis é totalmente imune a exame de validade aclara a precedente afirmativa de que ela não inova o Ordenamento Jurídico. A Constituição e a fuga de suas normas a exame de validade 3. Por outra perspectiva. no plano lógico. A cúpula do Ordenamento é que se objetiva na Constituição e esse estar por cima é o modo especialíssimo pelo qual se dá a interpenetração das duas realidades: a da Constituição e a do Ordenamento. solitariamente.4. E isto já inviabiliza qualquer tentativa de se impor à Constituição o exame de validade. 3.hierarquizado de relação que entretece com o próprio Ordenamento como um todo.3. sim.3. Ao cabo e em síntese.3.8. é preciso que a norma qualificante seja. o Ordenamento já não seria piramidal ou ortodoxamente hierarquizado. o modo de ela mesma sair desse Ordenamento é igual àquele pelo qual entrou: a suprapositividade.5 Sem ela. 3. se a Constituição não deixa que suas normas se nivelem às normas constitucionais que se lhe seguirem no tempo. por virtude da Constituição mesma? 3. seja completamente insubmissa a exame de validade jurídica. sendo a validade uma qualificação internormativa. que é o . Bastaria que a norma existisse. não apenas superior. e aí toda noção de validade seria praticamente vã. Afirmar. pelo critério da hierarquia. Aqui. VERDROSS).3. nenhum ramo ordinário do Direito comporta o que o Direito Constitucional incorpora: a dicotomia entre as suas próprias normas. Com efeito. Se ela é o início lógico de toda positividade jurídica (KELSEN.3. E só pode tê-lo. todas as normas são paritariamente constitucionais. MERKL.3. todavia. na medida em que ela.7. não entra em um anterior Ordenamento Jurídico. Não que a Magna Carta vigore apenas ao lado do Ordenamento.2. sendo a validade uma espécie de ticket ou bilhete que uma norma inferior recebe da que lhe seja imediatamente superior para ingresso na região das positividades jurídicas.3. pelo fato evidente de que a Constituição desconhece norma positiva que lhe seja anterior.3. se o modo de a Constituição fazer parte do Ordenamento não se dá por virtude de nenhuma outra norma (o Ordenamento é que principia com a Constituição. Paralela a ele. pois como inovar uma coisa ou entrar em algo que só passa a existir. no mais alto patamar do esquema de supra-infra-ordenação em que o Direito consiste? 3. fosse produzida por uma autoridade do Sistema Normativo. A Constituição faz parte do Ordenamento. que. logicamente.4 3. É uma das suas mais importantes especificidades.3.5. 3. assim. e não simplesmente do ângulo de dentro. porém como algo situado do ângulo de cima.1. não tem merecido da doutrina o devido realce. Por outro aspecto. se a Constituição Positiva já aparece como norma superior a todas as outras? Postada. No fim das contas.9. 3. Constituição. sem a companhia de qualquer outra norma. dado que operante de uma norma para a outra. Constituição. 3. e não a Constituição com o Ordenamento). não é a Constituição que deita raízes no exame de validade.3. como exigi-la para a Constituição Positiva. para ao Sistema pertencer para sempre. então. como anterior à norma qualificada. como um pouco mais à frente comentaremos. não há como fazer o cotejo internormativo em que se exprime o juízo de validade. É mesmo por surgir no mundo cultural como o ponto mais alto da pirâmide jurídica.6. é porque tem a força originária de dispor sobre o regime jurídico destas últimas.2. que a Constituição dá origem ao conceito de validade como atestado de filiação de uma norma ao Ordenamento Jurídico. O que não significa dizer que exista diversidade hieráquica no interior da própria Constituição originária. mas o exame de validade é que deita raízes na Constituição. 3.

Não necessariamente no plano do ser.reino da sempre originária manifestação do Poder Constituinte. não haveria mesmo de tolerar outras normas gerais com ela conflitantes em conteúdo (a não ser nos termos e condições em que o dissesse.1. nada sobrevive ao novo Texto Magno. 3.1. todavia. Sem dúvida.6 3. assim. gestada antes da Constituição. é precisamente por isso que se fala não haver direito adquirido contra ela. querendo.9. A Constituição e sua retroeficácia de dupla face: em abstrato e em concreto 3. no preciso falar de CANOTILHO). Como derradeira ilação do fato de a Lei Maior eximir-se por completo de exame de validade. após a nova Constituição. é o habitat ou espaço natural de existência da Carta Magna. O princípio da recepção é seletivo por mais um título. a Constituição originária se caracteriza pela força de romper compromisso com as normas jurídicas anteriores a ela.3. sejam as oriundas de reforma a essa Constituição precedente. de compromisso com a preservação de norma jurídica anterior. 3. em suas disposições permanentes.4.4. Ninguém melhor do que o Chefe da Escola de Viena para falar sobre a instantânea perda de eficácia de toda norma que. conseguintemente. A questão que se põe não é essa. e.3. E é precisamente por ter a Constituição a força de incidir.1.1. é logicamente do tipo norma a norma.4. pois somente alcança aquelas normas gerais anteriores que. que tanto comporta uma passagem traumática ou violenta de uma Constituição para outra quanto uma substituição consensual ou negociada. Desde que tudo se aloje num plano igualmente abstrato. até mesmo sobre relações jurídicas em concreto. pois a Constituição Positiva. Do que deflui o primeiro sentido da retroeficácia da Constituição: ela não aceita.4. pois ela chega para ocupar espaços que são próprios de todas as leis em sentido material. é indiscutível a prevalência automática do regramento de estirpe constitucional.4. que normas igualmente abstratas continuem a gerar efeitos. Da lei infraconstitucional para a Lei Fundamental. se tais normas apresentarem conteúdo discrepante daquele que timbra a nova regração constitucional. Donde a compreensão de que todo ato de convocação ou de instalação de um órgão de deliberação constituinte só pode implicar rompimento constitucional no plano do dever-ser jurídico ("ruptura ou descontinuidade". em abstrato 3. A subsunção que se passa a fazer no seio do Ordenamento. sendo norma geral ou lei em sentido material. Pelo ângulo reverso. aduzimos que essa proposição está imbricada com outra: a aptidão que tem a Constituição originária para não conhecer tabus materiais. A abstratividade. as antigas normas gerais que entrarem em sintonia material com a nova Carta são instantaneamente carimbadas como normas sobreviventes. em alguns casos. em dispositivo logicamente passageiro ou transitório). 3. Ela pode conformar toda e qualquer matéria. no interior do mesmo Ordenamento.1. A retroeficácia da Constituição. com a Constituição passe a entrar em rota de colisão no plano material. 3. Cuidando-se de velhas normas gerais de natureza constitucional. com os efeitos concretos dessa ou daquela regra antecedente. não tenham sido geradas nem pelo Poder Constituinte nem . sejam as regras iniciais da antiga Lei Maior.4. além de se revelarem acordes com a nova Lei Fundamental em conteúdo.2. Com uma exceção. explicitamente.4. isentando-se.1.

a norma constitucional que versa a matéria (inciso XXXVI do art. o novo Diploma Fundamental passaria a se caracterizar pela intransigente negação daquilo que é uma das impressões digitais de todo Magno Texto: operar como a parte mais estável do Ordenamento Jurídico.2. pois.2. ou o período. ora em situação de desarmonia.4. Realmente.5. ou do ato jurídico perfeito. 3. 3. institutos em que mais fortemente reluz o protoprincípio da segurança jurídica.pelo Poder Reformador. A não ser que o diga por forma inequívoca. ou. para com outras normas de efeitos concretos se encontrar. uma das históricas razões-de-ser das Constituições escritas. sempre que tais relações concretas se friccionarem com os novos comandos constitucionais. 3. ela mesma reconhece que se trata de aplicabilidade insólita. a igualdade e a propriedade (postulados liberais que marcam para sempre a trajetória das Constituições escritas).1. ora em regime de harmonia conteudística. porém. pois expressamente passa a dizer que relações jurídicas são essas. 5°. em concreto 3.4. a Constituição não mais está no seu habitat.4.4. Aqui. segundo a qual "a lei não prejudicará o direito adquirido. É falar: sempre que a nova Carta Política se deseja topicamente aplicável a relações já factualizadas por virtude de normas antecedentes. E assim tem que fazê-lo. Ela não chega para atuar enquanto norma de efeitos concretos. pois. quando o teórico se desloca do campo das precedentes normas gerais para o sítio das normas de efeitos concretos. porque tais situações jurídicas são constitutivas do direito adquirido. a liberdade. Daí a freqüente positivação de todos eles como típicas figuras de Direito Constitucional.4. em que a sua parte permanente deixa de incidir). Ela. nem por se traduzir na força de zerar a contabilidade jurídica a nova Carta há de ser interpretada como automaticamente inconvivível com toda e qualquer relação jurídica nascida e até resolvida à sombra do velho Ordenamento. Aquele pedaço do Direito que mais prestigia o princípio da segurança jurídica.3. 3. mesmo. o teórico tem que se perguntar até que ponto um novo Código Supremo possui aptidão para desfazer efeitos que normas jurídicas anteriores já produziram à exaustão.2. agora.1.2. ou então para estancar efeitos que tais normas ainda estejam a produzir entre partes nominalmente identificáveis.4. O silêncio da nova Carta já opera como cassação de eficácia das velhas normas gerais cujo conteúdo com os dela própria se tensionar. se tal ocorresse. de permeio com a própria vida. da sua postura no âmbito do confronto entre normas gerais (as da Constituição e as do Direito não-constitucional precedente). no mínimo. o ato jurídico . O plano retroeficacial já não é o mesmo. A retroeficácia da Constituição. invariavelmente erigido à condição de megaprincípio. Tudo muda de perspectiva. por forma a revelar sua claríssima intenção retro-operante. Ao contrário. para retroincidir sobre situações já consolidadas no universo jurídico-particular das pessoas tem que fazê-lo por explicitude. sobre o qual nada é preciso dizer. ou da coisa julgada. É justamente para ressalvar a sua excepcional vontade objetiva de retroagir sobre essa ou aquela relação jurídica em concreto que toda Constituição Positiva se faz acompanhar de uma parte transitória de dispositivos (de parelha com a necessidade de indicar os casos. Não! A retroeficácia constitucional não chega a tanto. No Brasil. pois o fato é que.6.2. no gozo de sua condição ímpar de norma que provém de um poder que tudo pode.1. 3. Constituição.

2.2.7 3. Principalmente se considerarmos o tempo médio de vida de uma Constituição .4. se tais modelos se revelarem desafinados. II .perfeito e a coisa julgada") faz parte do capítulo atinente aos direitos e garantias individuais e coletivos . uma norma geral anterior de conteúdo discrepante. Como precisa dizer que relações em concreto (já carimbadas pela velha Ordem como situações ativas de caráter permanente) passarão a sofrer desfazimento ou paralisia eficacial. e que ainda são clausulados como tema insuscetível de nova conformação de menor carga protetiva do indivíduo. em conteúdo. Reversamente. o que terminaria por retirar da Constituição a própria possibilidade lógica (eficácia) e social (efetividade) de incidência. pois o febricitante revolver de sepulturas jurídicas teria que alcançar relações cujos autores seguramente já não estariam neste mundo de "aquém-túmulo" (MÁRIO DE ANDRADE. do ato jurídico perfeito e da coisa julgada exijam um tipo de interpretação que se traduza no seguinte: a garantia em que elas se constituem na nova Ordem há-de ser uma confirmação daquela igualmente reconhecida pelo velho Ordenamento. Como nada precisou dizer para preservar a operatividade daquelas não-discrepantes.6. ou em dadas circunstâncias. 60).5. a nova Constituição nada precisa dizer. O silêncio da nova Carta cumpre um papel de preservação do que já gozava de concretitividade. Até porque . Constituição. 3. 3. é de se presumir como operante para as que se produziram antes da nova ordem constitucional. com a nova regração constitucional. Em sede de relações concretas. Ora. Para sonegar eficácia às normas gerais anteriores e de conteúdo discrepante. ou se a parte permanente da mesma Carta agasalhar normação que prime pela hostilidade à continuação tipológica de qualquer delas. Do terrorismo normativo. na medida em que: I . Reiteremos o juízo.para ressalvar a eficácia temporária de norma geral com ela (Constituição) em .para estancar a eficácia das normas gerais anteriores com ela discrepantes.7.4.que é expressivo . a Constituição precisa dizê-lo. ainda que dela desbordantes. Colocaria a sociedade em polvorosa ou de pernas para cima.2. portanto. até mesmo por via de emenda constitucional (inciso 4° do § 4° do art.4. Como nada precisa dizer para manter íntegras as relações em concreto que vier a encontrar (desde que tais relações contenham o timbre da definitividade).4.reconheçamos . para manter por algum tempo. nada precisou dizer. pela sua estratégica importância. no desfrute dessa altaneira posição intra-sistêmica. Tudo se resume em saber distinguir entre o que existia enquanto modelo jurídico em abstrato e enquanto modelo jurídico em concreto. tanto quanto cumpre um papel de não-preservação dos modelos jurídicos apenas existentes no plano da abstratividade.uma generalizada exumação de relações jurídicas em concreto faria do novo Código Político um diploma normativo tão confessadamente odioso que tocaria os debruns da insanidade.e a freqüente imemorialidade de certas relações jurídicas em concreto (qual o marco temporal da retroação da nova Carta? A última Constituição? A penúltima? A primeira delas?). principalmente. 3. ao tempo da promulgação do Magno Texto. o poeta). Salvo se regra transitória da nova Constituição lhes cassar por modo expresso a respectiva eficácia.4. Direitos e garantias que vão compor uma paliçada defensiva dos particulares contra o Estado. Dupla e díspare função do silêncio normativo-constitucional. A Constituição Brasileira de 1988 é um bom retrato falado do que estamos a proposicionar. natural que as três estelares figuras do direito adquirido.2. a estabilidade que a nova Constituição imprime àquelas que se produzirem a partir dela mesma.

3.)". Quando o confronto a fazer é entre as normas gerais das emendas e as normas gerais de vinco infraconstitucional. 47. no art. (.4.)".8 b) imiscuiu-se no conteúdo de decisões judiciais com trânsito em julgado. que "Na liquidação dos débitos. a partir de 1° de julho de 1989. decorrentes de quaisquer empréstimos concedidos por bancos e por instituições financeiras.. neste caso. bem como os proventos de aposentadoria que estejam sendo percebidos em desacordo com a Constituição serão imediatamente reduzidos aos limites dela decorrentes. desde que o Poder Judiciário não as declare inválidas. a remuneração. não existirá correção monetária desde que o empréstimo tenha sido concedido: (. especialmente no que tange a (. Em Estados como o Brasil.. não se admitindo. de conseguinte. porque.estado de fricção material. contudo. sacou de preceitos desta espécie: a) "Art. de par com atos jurídicos perfeitos. com atualização. Constituição originária.4. Percebemos. ilustrativamente: a) atacou o direito adquirido. o equacionamento jurídico da questão muda acentuadamente de foco. em prestações anuais. invocação de direito adquirido ou percepção de excesso a qualquer título".. por conduto do artigo 17. incluído o remanescente de juros e correção monetária. Todavia.3.3. emenda não é a matriz normativa do direito adquirido. ou coisa julgada.8.)". ao prescrever. Ficam revogados. o Tribunal Federal de Recursos exercerá a competência a eles atribuída em todo o território nacional (. agora.4.para rever o passado das pessoas que já encontrou na posição de partícipes de relações consubstanciadoras de direito adquirido.4. de incidência perante as três emblemáticas figuras. Até que se instalem os Tribunais Regionais Federais.4. O mencionado inciso XXXVI do art. no art. 3.3. 3. sujeito este prazo a prorrogação por lei. que deve ser recebida em termos ou sob a prudente cláusula do modus in rebus a asserção de que "não há direito adquirido contra a Constituição".. para poder se autoexcluir. 3. ato jurídico perfeito. é que tem o condão de se colocar para dentro ou para fora da faixa da retroincidência. ou não. as vantagens e os adicionais. é claro que a primazia é das emendas. Tratando-se. III . no prazo máximo de oito anos. 33. todos os dispositivos legais que atribuam ou deleguem a órgão do Poder Executivo competência assinalada pela Constituição ao Congresso Nacional. c) voltou a mexer no teor da coisa julgada. nem da coisa julgada.3. 27°. 5° da Constituição de 1988 não nos .2. 25.2. até o modus in rebus ("para cada coisa existe a sua medida própria") deixa de ser admitido. não deixou de se fazer explícita no seu corpo transitório de dispositivos. pois somente ela..). o olho do analista deve se deter é no originário modo pelo qual a Lei Maior dispôs sobre a matéria.1. por decisão editada pelo Poder Executivo até cento e oitenta dias da promulgação da Constituição". ainda que ajuizados.3. ao estatuir. ao rezar que "Os vencimentos. A retroeficácia apenas em abstrato das emendas à Constituição 3. que "Ressalvados os créditos de natureza alimentar.. inclusive suas renegociações e composições. de confrontar situações em concreto com os atos de reforma constitucional. o valor dos precatórios judiciais pendentes de pagamento na data da promulgação da Constituição. Assim é que. a partir de cento e oitenta dias da promulgação da Constituição. b) "Art. quando o cotejo se dá entre a normatividade das emendas e as multirreferidas situações jurídicas em concreto (que são relações já permanentemente ornadas de subjetividade)... poderá ser pago em moeda corrente. nem do ato jurídico perfeito. iguais e sucessivas. § 7°.

por si mesmo. Sejam os efeitos deflagrados imediata e exclusivamente pela norma em abstrato (direito adquirido). . ou sequer derrogação amesquinhadora. em caráter definitivo. mas não é exatamente isto o que sucede com todos os seus efeitos. Tudo em homenagem ao basilar princípio da segurança jurídica. da suprema verdade e da suprema justiça. rolando. ou quebrantamento. gozarão igualmente de petrealidade. pois já passaram de efeitos objetivos a subjetivos. ou prolatada a res judicata. então. a repercutir no restrito universo de certos atores.deixa em desamparo argumentativo. Agora. então tudo é permitido". 3. Note-se bem.4. já não podem sofrer desfazimento.3. O que fica intocável. é aquela dimensão da norma geral que passou. 3. propriamente). não admite revogação. mais que isso.4. porém num sentido tópico ou pontual. enquanto "pedaço de vida humana objetivada" (RECASÉNS SICHES).6.3. sem Deus. da suprema beleza. Expliquemos. nem ato jurídico perfeito. E tudo é permitido (acrescentamos).5. ou de ato jurídico perfeito. sejam aqueles que precisaram de confirmação pela via do ato jurídico dito perfeito. O que ele proclama é a garantia de que o direito que se adquirir por virtude imediata da lei (direito adquirido. de pedaço de vida humana objetivada a pedaço de vida humana subjetivada. 3.3. 5°. mas determinados titulares do direito por ela ensejado.7. quem sabe. esse direito assim qualificadamente adquirido será um direito completamente a salvo de prejuízo por lei posterior. ou ainda de uma decisão judicial em estado de irreformabilidade (coisa julgada). porque restritamente subjetivo.11 3.4. ou de coisa julgada. íntegros.4. Continuam. ou coisa julgada. se já não se proclama. eles perdem o referencial da suprema bondade.4. ou da decisão judicial que se transformou em coisa julgada. paralisia.3.8. ou ter a sua carga protetiva quebrantada (por derrogação). ou foi expedido o ato jurídico perfeito. agindo este assim no exercício da função legislativa usual como da função reformadora. a existência desse princípio. os atos jurídicos perfeitos e as coisas julgadas que vierem a ocorrer. ou por reconhecimento de um ato jurídico que se aperfeiçoou nos seus elementos formadores (ato jurídico perfeito).3.o segundo raciocínio traduz-se em que os direitos adquiridos. implica dois raciocínios jurídicos: I . Regra em si mesma ou objetivamente protegida contra a função legiferante do Estado. a factualizar-se no processo de aplicação/criação do Direito Objetivo. O que se protege. pode ir embora do Ordenamento (por revogação).4. Ele consagra um tipo de garantia contra a função legiferante do Estado. Não! O que fica imune à retroatividade danosa da nova lei são determinados efeitos da velha regra legal. Logo. pois. e. no despenhadeiro da barbárie ou da guerra de todos contra todos. A distinção essencial é esta: a norma geral. com toda ênfase. A norma do inciso XXXVI do art. portanto. é de que ela é uma cláusula pétrea em si mesma. nem mesmo por emenda constitucional. O dispositivo em tela consigna "uma garantia" (PAULO MODESTO). dado que faz parte da relação dos direitos e garantias individuais. mas não veicula. sobre ser de eficácia completa e aplicabilidade imediata ou não-di ferida. pois. já não é a norma geral. o corolário será aquele de que falava DOSTOIÉVSKI a respeito do próprio Deus: "Se Deus não existe. permanentes e identificáveis pelos nomes patronímicos ou nomes pessoais dos seus beneficiários.10 II . nenhum direito adquirido.o primeiro. Aqueles efeitos que já se exteriorizaram sob a forma de direito adquirido. o que fica a salvo de retroatividade da lei não é o dispositivo sob cuja preceituação nasceu o direito apelidado de adquirido. porque já não faz sentido vedar para os crentes coisa alguma.9 3.

Por exemplo.4. passível.4. 3. Razão pela qual os seus titulares nunca deixam de ser eventuais titulares. no entanto.3. Logo.4. são normas gerais que se interpenetram no tempo. Nem por isso deixa de ser direito adquirido. Outra coisa a lembrar é que o direito subjetivo que se eleva ao patamar do direito adquirido (o adquirido é um plus em relação ao direito subjetivo) pode até não se encontrar em fase de exercício. os efeitos que já deflagrou ou ainda está a deflagrar na vida de determinados agentes. ou seqüencia (conforme o caso). Queremos nos reportar a certas restrições diretamente constitucionais àquele tipo de liberdade contratual que não se orna de conteúdo econômico ou mercantil. as prefigurações espocam e trazem à nossa mente outras situações que também parecem não se compadecer com a figura do direito adquirido. a saber: .2. a nova não pode incidir. o proprietário de um bem de produção jamais pode se eximir de normas legais quanto a certos modos de pôr o seu bem a render e quanto à fiscalização do Poder Público sobre esses modos econômicos de exercício de direito.4. nominalmente identificáveis. a que vigia entre nós a respeito do divórcio. em nosso País. Isto não significava que as pessoas civilmente casadas tivessem o direito adquirido a permanecer privadas da possibilidade de se divorciarem (não há direito adquirido à privação ou à inibição do próprio fazer ou do agir). mas a ausência do direito subjetivo de se divorciar. continua operando a velha regra. como. mas conserva. Ou ao fato de servidores públicos se encontrarem sob determinado regime de trabalho. Sem que nenhum dos membros da sociedade conjugal que se desfez pela via do desquite pudesse contrapor à retroincidência da emenda a tese do direito adquirido. Em todas as três situações em concreto. pois o exercício pode ficar pendente de pressupostos.4. uma exceção à liberdade núbil das pessoas. por inversão de pensamento: onde tem que deixar de incidir a nova regra geral ou abstrata.4. na matéria 3. ou da res judicata. Titulares sempre em estado de precariedade. um novo marco temporal se estabelece: ela já não deflagra os efeitos inéditos que estava apta a deflagrar no universo particular de novos atores jurídicos. Ou no que tange à localização de um estabelecimento mercantil. Diga-se o mesmo do uso de um automóvel em via pública. 3.12 Enfim. Ou quanto à detenção de certas competências administrativas perante o administrado.renove-se o juízo -. ou do ato jurídico perfeito. por exemplo.4. mas sem a possibilidade de se entrecruzar no espaço de movimentação daqueles sujeitos de relações que se tornaram ativas por virtude do direito adquirido.4.4. É compreender: onde continua a operar a velha regra geral ou abstrata. na medida em que adstrita à subjetividade de atores em concreto.1. O fenômeno da ultra-atividade. Significava.3. o que é bem diferente). Essa ultra-atividade ou ultra-operatividade é apenas tópica ou pontual (por isso que relativa). de remoção por emenda constitucional.4. ou industrial. Uma coisa a lembrar: certas situações jurídicas ativas são incompatíveis com a figura do direito adquirido porque têm a particularidade de nascer mais condicionadas pelos interesses da sociedade do que condicionando tais interesses. porque. a qualquer tempo (como veio a suceder. que a liberdade de contrair novas núpcias estava constitucionalmente cerceada. para essa norma geral. Ou. pois que de direito adquirido não se tratava (não existia o direito subjetivo de não se divorciar . se se modificam as leis de zoneamento do respectivo Município. O que vigorava era uma restrição. 3. o que se tem é o fenômeno da "ultra-atividade" relativa da norma geral de que elas derivaram. apenas. com a emenda n° 9/77 à Carta de 1967).4.

Retornando a lidar com o bloco dos três institutos. que tudo aquilo que a lei não esteja habilitada a fazer fica também interditado às emendas. uma vez obtido. nesta oportunidade. porque a emenda pode tudo que a Magna Carta reserva para as leis (pouca importa se leis ordinárias.5. ou complementares. ou delegadas.4.tudo que a lei está habilitada a fazer fica inteiramente à mercê das emendas constitucionais. "o voto direto. Nada disso! As emendas constitucionais podem tudo que a lei pode e vão além: podem tudo que a lei não pode. convencidos que estamos de que a Lex Legum encerra.4. que. não como requisitos de obtenção do direito (matéria de outra norma).5. Melhor técnica legislativa. e os fundamentos então lançados parecem-nos resistir a contraditas. e. Já enfrentamos academicamente a questão. 3. na matéria. por hipótese. Não há necessidade da indicação desse vínculo entre determinadas matérias e a conformação normativa por via de emenda. etc. é preciso distinguir entre a norma geral que indica os pressupostos de obtenção do direito. prefere a inação. A inclusão das emendas à Constituição no conceito genérico de "lei" 3. sim. por conveniência do respectivo empregador. vol. Mas prefixados. prefixados pela própria norma geral. pp. II . universal e periódico". quer referentemente aos direitos concedidos por regra constitucional. de dizê-lo às expressas. que. Constituição.2.4. ou do preenchimento de certa condição. quando o Código Político substitui o silêncio pela fala expressa é para dizer o que elas não podem. ano de 1997. impossível! Se a Constituição de 1988 fala a toda . em parceria com VALMIR PONTES FILHO ("DIREITO ADQUIRIDO CONTRA AS EMENDAS CONSTITUCIONAIS".a própria vontade do titular do direito.o aguardo do lapso temporal.5..I . Em tema de suas próprias emendas. entretanto. 3. jamais dizer sobre que matérias podem recair as emendas. II . e a norma igualmente geral que dispõe sobre a implementação de termo ou de condição para a empírica fruição daquele mesmo direito que a primeira norma elementarizou. quer os deferidos por outra modalidade de lei em sentido material).daqui não se deduz. Pronto! É esse racional esquema de exegese da Constituição que explica o fato de ela própria. como. porém gozadas até o final do ano subseqüente. Ou como sucede com o direito à aposentadoria voluntária. Ampliamo-los até. Malheiros Editores. como requisitos do respectivo exercício. 3. 151/161). II.). salvante recair sobre matérias clausuladas de petrealidade pela Constituição. estudo publicado no bojo da coletânea DIREITO ADMINISTRATIVO E CONSTITUCIONAL.5. o seguinte esquema de interpretação: I .4.4. Elas não podem incidir sobre as matérias clausuladas como pétreas ou intangíveis ou irreformáveis. ou seja.1.3. por exemplo. "a forma federativa de Estado".5. sem que a Magna Carta necessite.. o ato jurídico perfeito e a coisa julgada"). portanto. somente será exercitado quando da expressa manifestação do respectivo titular (por isso que tal modalidade de aposentação é chamada de voluntária). Dois momentos inconfundíveis de normatividade abstrata. podendo efetivamente se entronizar no gozo do que é seu. com as férias anuais de um trabalhador: são adquiridas a cada ano de trabalho. como se dá. secreto. 3. "a separação dos Poderes" e "os direitos e garantias individuais" (de cuja relação a garantia dos direitos adquiridos faz parte.4. aduzimos que não tem relevância o fato de a legenda constitucional somente incluir a lei (não a emenda) como norma proibida de retroagir para prejudicá-los ("a lei não prejudicará o direito adquirido.

seja para lhes franquear certos conteúdos. cairíamos todos numa contradição grotesca. O mutismo da Lex Legum quanto às emendas é de nenhuma importância hermenêutica. que.5. quer no tocante à regra simplesmente transitória que venha a aportar. não! Diga-se o mesmo da norma constitucional que proíbe a lei de excluir da apreciação do Poder Judiciário "lesão ou ameaça a direito" (art. Fala é da lei e das decisões judiciais (inciso VII do art. na matéria.5. é a mesma do ato jurídico perfeito e da coisa julgada (inciso XXXI do art.8. 5°. ou negativo ("ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei").13 3. quer no tocante à regra permanente que ela venha a embutir na Magna Carta.5. 5°).hora das leis. cit.4.5. É que a nossa Constituição também só mencionou a lei. as conseqüências serão iguais às do descumprimento de lei ou de decisão judicial. que já não seria formalmente o mesmo a cada emenda produzida.6. 3. que. Por isso que alcança todos os espécimes legislativos de que trata o art. nem por silenciar quanto às emendas. E nessa hipótese. nenhum mal existe em reqüestar a todo instante a lei porque a banalização da lei em nada trivializa a Constituição. que permanece formalmente a mesma. a banalização das emendas (que fatalmente ocorreria pela técnica de se dizer tudo que a elas competisse.4. 34 e parte final do inciso IV do art. o ato jurídico perfeito e a coisa julgada?14 3. insista-se.): se a referência constitucional apenas à lei. enquanto veículo de imposição de deveres de conteúdo positivo. ainda ensejam a intervenção da União nos Estados e dos Estados nos Municípios (inciso VI do art. . uma vez descumpridas. 3. Que se entenda. tintim por tintim) acarretaria a banalização do próprio Texto Magno.9.4. E interditar as leis não é interditar as emendas. em tema de direito adquirido. salvante. São estas premissas que nos permitem compreender que se constitui em crime de responsabilidade o ato do Presidente da República do Brasil que implicar descumprimento de qualquer emenda constitucional. a aterradora pergunta que se faz é mesmo esta: de que vale o megaprincípio da segurança jurídica. Daí que aceitar a retroação de emenda para desrespeitar o direito adquirido passe a significar a possibilidade de retroação também para o desrespeito às duas outras situações jurídicas ativas. O raciocínio será retomado no capítulo entrante. 59. 35). ato jurídico perfeito e coisa julgada. Remarque-se ainda que a regra-matriz do direito adquirido.4. naquelas matérias que desfrutam de intangibilidade perante a ação legislativo-conformadora do Estado (que são matérias apropriadamente chamadas de pétreas). E a falta de menção às emendas significaria a imprestabilidade delas para obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa? A toda evidência. pois. E o raciocínio é o mesmo: descumprida que seja qualquer emenda constitucional.7.5. está liberando qualquer delas para interditar o acesso de toda pessoa privada às instâncias judicantes. inciso XXXV). embora a nossa Magna Carta não fale do descumprimento das emendas como fato-tipo do citado delito. fosse um abre-te sézamo para a edição das emendas.4. seja para interditá-los. 3. que pedir o adjutório delas é reqüestar a edição das emendas. não a emenda. que a referência à lei. A Constituição não pode prestigiar tanto as suas emendas a ponto de dar a sua vida por elas.5. sempre que a Magna Carta impuser proibição ou simples limitação à faina legislativa do Estado. é uma referência ao Direito-lei. é porque já prescreveu. em nossa Constituição. 85). De outra parte. se do seu conteúdo já não fazem parte o direito adquirido. De revés. no capítulo "DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS". mas aqui mesmo nos permitimos retomar o que dissemos em co-autoria com VALMIR PONTES FILHO (ob. nas entrelinhas.

impor deveres. prescrever finalidades e outros espaços de ocupação normativa. os atos de jurídica manifestação das três funções básicas do Estado por ele instituídas: a função legislativa. como lei das leis é. que é simplesmente esta: somente a Constituição tem a propriedade de ditar o seu próprio regime jurídico. O exclusivo regime autoditado da Constituição 3. Quais sejam. têm que permanecer como irrestritas limitações.1. Ao contrário. pela Constituição originária.1. atribuir competências. o Sistema de Direito Positivo já não teria uma única norma-começo.5. ou por ele recepcionadas. 3. E sem outra hierarquia internormativa que não fosse a da lei mais recente. A Constituição como a lei das leis 3. Tudo isto fica ao dispor de muitos outros atos que a própria Constituição menciona como veículos de normas jurídicas gerais.4. pois nenhuma norma seria hierarquicamente superior a outra na dúplice dimensão formal e material. Não é por aí que a discriminação entre ela. Essa particularidade que tem a Constituição de operar. no fundo.1. ou não sejam.15 3.1. Pois somente assim é que uma Constituição tem a força de ditar o seu próprio regime jurídico. ou pelo critério da especialidade. ou o que não seja. Seria superior apenas pelo critério temporal ou cronológico (a lei mais nova a preponderar sobre a lei mais velha no tempo). Mesmo em se tratando de imputar deveres ao Estado e conceder direitos contra o Estado. ao Ordenamento Jurídico por ele inaugurado. então. a garantia de que as outras irrestritas limitações impostas ao Poder Público. Constituição. Tem a condição material objetiva de se autoqualificar ou se autonominar como Constituição.3.1. a função executiva e a função jurisdicional. que é de ordem material. a mais importante das limitações impostas ao Estado. formal e materialmente. O que pertence.2.1.5. Logo. sinta-se que não é exclusivo da Constituição o mister de conferir direitos. o reconhecimento da existência de uma lei que nasce para governar as outras leis. A Constituição e seu exclusivo papel de fundar e monitorar o Ordenamento Jurídico . enfim. Privar-se-ia da sua característica central de Ordem Jurídica de "supra-infra-ordenação" (KELSEN.5. é a própria base lógica da elaboração do conceito formal de Constituição. 3. Se os demais atos da ordem legislativa pudessem ditar o seu próprio regime jurídico. ainda assim não se cuida de matéria privativamente constitucional.5. sempre ele) ortodoxa ou unitária.5. o Ordenamento já não seria uno quanto ao modus faciendi dos elementos do seu repertório. 3. que o Magno Texto só é realmente magno por cumprir esse papel de dizer o que seja.5. É. Reconheçamos. e os demais espécimes jurídico-positivos pode ocorrer. ou sequer atenuadas. isto é. ou a da natureza das relações normadas. Esta nova disquisição tem que ser a continuidade de uma idéia já vertida para o papel. perpetuamente. ou o que não pertence. uma norma de aplicação dele próprio.2.16 3. não podem pelo Poder Público mesmo ser legislativamente supressas.as emendas no meio (inciso de n° I).5. O único cientificamente prestante. pois os espécimes normativos sucessivamente editados não teriam que se reconduzir à unidade formal do primeiro deles: a Constituição Positiva. estruturar órgãos. pois as leis de que a Constituição é a lei suprema são as leis emanadas do Estado.

5. ou seja. ela tem que prescrever o regime das outras normas jurídicas. isto é. Logo.18 3.4. bússola e ímã .2. o ortodoxo papel de norma-começo do Ordenamento só faz sentido se a Constituição permanecer dando as cartas no interior desse Ordenamento. De fato. sem que tais normas possam. Não que a Lei Maior venha a prescindir do Ordenamento. 3.5. isto é. Não teria. não de si mesmo. mas pelo conhecimento da Constituição é que se conhece o Ordenamento. sem ele. pois é fato que ela não depende somente da sua própria realidade para cumprir todos os seus desígnios.7. Subtraia-se da Constituição a exclusividade desse mister de fundar o Ordenamento e manter sob o seu controle o modus faciendi e o conteúdo dos outros modelos normativos. 3. um reclamo de contínua referência ao Ordenamento. não é tanto pelo conhecimento do Ordenamento que se conhece a Constituição. em última análise).5. enfim. A Constituição enquanto fonte.6. devemos insistir no enunciado de que a Constituição Positiva não é Constituição Positiva por se fundar num Ordenamento Jurídico. Não! Ela também precisa do Ordenamento.5. tem uma boa parte dos seus desideratos cumprida. e o que sucede? Uma mudança tal de qualidade a ponto de se poder proclamar que de Constituição já não se cuida. assim. 3. se se deixa ao próprio sujeito limitado a possibilidade de tudo mudar pela via legislativa? Um mínimo de irreformabilidade há de conter a Constituição perante o Estado.2. a metodologia de trabalho que a torna primus inter pares.. A Constituição é também carente do Ordenamento Jurídico.2. porque pelas normas gerais e individuais do Ordenamento é que ela. na exata medida em que isto signifique preservação daqueles traços que dão a ela uma identidade fisionômica. então. Esta a sua natureza. com o seu próprio nascimento. por ser a Constituição a parte que explica e até justifica o próprio todo (visto que o todo do Ordenamento está a serviço. alterar esse regime. tem assegurada a sua contínua aplicação. para implicar uma exigência de ininterrupta referência àquela parte do Ordenamento que se chama Constituição. 3. O Ordenamento Jurídico é que é Ordenamento Jurídico por se fundar numa Constituição Positiva. traços ou valores para cuja proclamação teórica e persecução empírica a própria Constituição foi elaborada.5.17 3.3.5.3. quer os negativos. Sem demasia na comparação das coisas. Não teria as outras leis e demais normas positivas sobre o que imperar. tanto alusivamente às condutas comissivas quanto as de absenteísmo.5. O campo divisional da Constituição perante as outras normas do Direito reside unicamente nisto: só a Constituição é que pode fundar o Ordenamento Jurídico e permanecer o tempo inteiro como referencial de todas as outras normas positivas que se integram nesse mesmo Ordenamento. à vida do Ordenamento.2. porém da Constituição em que se inicia e para a qual se destina. por conta própria.2. quer os limites positivos. Se é próprio da Constituição aplicar limites formais e materiais ao Estado. ela não teria o que dirigir.5. Constituição.2. Para tanto.3.5. porque.2. A parte a preponderar sobre o todo. 3.. a sua causa formal.1. como se desdobrar em comandos necessariamente instrumentais dos seus comandos básicos. como tornar essa imposição concretamente eficaz.2. O método específico da Ciência Jurídica para conhecer o seu objeto deixa de significar. E é mesmo para o cumprimento dessa parte dos seus desígnios que ela dá início.

II. 115/116).3. 3. a lex legum. pelo risco maior de ela vir a ser abalroada por ele.a comparação é nossa .5. alterar os limites da própria delegação (ob. um só. Uma folha cujo talo se partiu e ainda assim pretenda sobreviver de sua própria seiva (?). Este último a ameaçar de invasão a área de competência daquele.5. tanto quanto o Poder Reformador tenta descambar. por sua conta. a Constituição bem desempenha nos termos em que JESUS dirigiu aos seus discípulos esta vibrante mensagem: "Eu sou a Luz que está sobre todos.3. na linguagem religiosa do Antigo Testamento. levante uma pedra e me encontrará lá" (em A SEMENTE DE MOSTARDA. "o cântico dos cânticos". e o Todo vem de mim.3. Naquilo que é a própria causa formal ou a ratio essendi metodológica da Constituição. 82). Mudando-se as palavras para melhor transmitir o mesmo pensamento: o Direito pós-Constituição é um Direito sempre enlaçado à Constituição mesma.3. e o Todo retorna a mim. a sua mensagem imperativa em si. Ainda que o Direito pós-Constituição promane de emenda ou revisão constitucional.1. bússola e ímã . para reverenciá-la. A Constituição cria o Ordenamento. É a maior de todas as ênfases do discurso de SIEYÈS.5. sozinho. 3. como se o Ordenamento fosse uma pessoa incapaz de sair da menoridade. pp. Uma queda de braço com o Poder Reformador.3. um unitário cosmos. para a zona de conformação normativa que é apanágio do Poder Constituinte. o inarredável princípio está em que são irreformáveis as normas da Constituição Positiva sobre a própria reforma dessa Constituição Positiva (de parelha com outros aspectos de intangibilidade mais para a frente comentados).3.3. mas um único..à absurda possibilidade de um advogado alterar para mais.4. É perseverando no controle de todos os demais espécimes jurídico-positivos. Corte um pedaço de madeira e eu estarei lá. não uma pluralidade de cosmos (oriundos de numerosas e incontroláveis normas-começo). a Constituição tem que travar uma briga particular com suas emendas ou revisões. eu sou o Todo. cit. Ela conversa (graças à .5. Mesmo quando se trate de revisões ou emendas à Constituição.3. 3.5. os demais espécimes normativos têm que ficar para sempre submissos aos termos em que o Poder Constituinte veio a se formalizar. que a Constituição impede que cada um desses atos seja um fragmento vocal com pretensão à totalidade. 3. p. portanto.5. Assim como já no interior da Constituição a briga particular é entre o Poder Legislativo e o Poder Executivo. a cota de poderes da procuração que lhe fora outorgada pelo seu cliente. esse Direito não pode atribuir a si mesmo aquilo que é a própria ratio essendi formal da Constituição: o existir como a norma normarum.6. Essa alteração de limites corresponderia . A norma pós-Constituição não fala sozinha. para se manter como permanente referencial do Ordenamento. concomitantemente. Podemos até mesmo dizer que. 3.2.5. segundo o qual o órgão delegado não pode. reenviando-os a si mesma. historicamente. E é nesse rigoroso esquema de supra-infra-ordenação que a Constituição pode fazer do Ordenamento. Mantém o Ordenamento sob tutela. Queremos dizer: o que dá pleno sentido a uma norma jurídica não é apenas o seu discurso prescritivo. Esse tríplice mister de se colocar perante o Ordenamento como fonte. mas não o libera para crescer inteiramente à solta. vol.

formam o Ordenamento de um povo soberano.. Direito que o Estado procria.4. 3.3. Relação derivada ou secundária do Estado com o seu Direito. não pode. porque transcorrente entre um Direito que o Estado não cria e o Estado mesmo.. no âmbito da fenomenologia do Direito: a origem mais depuradamente legítima da Constituição. tudo transcorre nos meandros da psicologia ou do psiquismo estatal. por conseqüência).6. no sentido de . desfazer do Direito. 3. exclusivamente (postando-se ele do lado de fora de tais relações. todavia). ora para ficar em situação jurídica passiva. que sempre mantém os governados em situação de relativa insegurança jurídica. com o tempo. Ora bem.1. se é que é possível falar de psicologia ou de psiquismo estatal quando se queira referir a um tipo de Direito que o Estado produz para além da autoaplicabilidade das normas que já estão lançadas no próprio lastro formal da Constituição. e sua força mais irrefragavelmente vinculante.19 3.3. O Direito a preceder o Estado. Como também é desse diálogo com o Ordenamento que a norma isolada se depura de toda incoerência. Em qualquer das três situações jurídicas. agora. Se o Estado pode desfazer o Direito. porque elaborada sob fundamentação lógica distinta daquela que prevalece para os demais modelos normativos.6. o princípio de que o Estado é obrigado a respeitar o Direito por ele próprio ditado. objetivamente. de toda obscuridade.Constituição) com o todo do Ordenamento e é dessa confabulação com o todo que se extrai a sua definitiva mensagem.2. porque fica de fora da relação que passa a estabelecer entre pessoas outras. por exemplo. Ou ele se auto-expande no plano das competências a que se atribui (tendo sempre por calço a Constituição. ora para colocar a si mesmo em situação jurídica ativa (perdoe-se a cacofonia "cativa"). revogando-o. O fundamento supra-estatal e suprapositivo da Constituição 3. o Estado vem antes do Direito. pois quem se autolimita. essa. Autolimitação estatal. a imposição de um limite não mais endógeno.6. logicamente.6. Daí a necessidade de o pensamento jurídico formular e implantar. e ainda tem a chance de ver preenchidas as suas eventuais lacunas. bem pode se autodeslimitar (já o dissemos). a relação que se passa entre a Constituição e o Estado exprime um outro vínculo operacional. porque sem nenhum compromisso com a preservação do tipo de Estado até então existente. todavia. Que fundamentação é esta? 3. 3.5. de uma relação que já não está na base da Teoria do Estado de Direito. o embasamento lógico da Constituição é diferente da fundamentação teórica dos demais espécimes jurídico-positivos que. mas exógeno ao Estado. Estamos no epicentro de uma distinção qualitativa que é a explicação de tudo o mais. O fundamento da submissão do Estado a direitos subjetivos oponíveis a ele mesmo. ora para estabelecer relações jurídicas entre os particulares. ou ele nem se auto-expande nem se autocontrai.6. Estes outros modelos de prescritividade jurídica exprimem uma relação do Estado com o Direito que o Estado mesmo cria. enquanto aquela revogação não sobrevém. no plano político. 3. Este a significar.7. não é outro senão uma autolimitação. Com efeito. Seja como for. a cota dos direitos subjetivos alheios consagrados pela Magna Carta). a teoria do Estado de Direito. Nesse preciso espaço da relação Estado/Direito. com ela. ou seja. Cogita-se.5. ou ele se autocontrai no plano dos direitos subjetivos que opõe a si mesmo (ultrapassando. via de regra. no plano jurídico. mas na base do Constitucionalismo. o Estado gira em torno do seu próprio querer.6.

ou seja. porque tal revogação já não se dá por meios jurídicos ou no plano do dever-ser normativo.que há um tipo de Direito: a) que o Estado não cria nem pode deixar de reconhecer como Direito. o fundamento da autolimitação legiferante do Estado. não-coincidente. porque sua fonte suprapositiva continua a mesma. ainda por cima. Originário.7. estável ou outro nome que se atribua ao fato de a Constituição conservar a memória de sua origem exclusivamente política ou suprapositiva. o modo pelo qual a Lei Maior dispõe sobre a sua própria reforma é insuscetível de reformulação. assim. nasce por um modo comparativamente único e também se altera por uma forma que lhe é exclusiva. Falar de rigidez constitucional. Se as leis subconstitucionais nascem. hirto.2. E por compulsão da rigidez só se pode entender um modo de normar sobre a reforma constitucional que permaneça originário e original. não um singelo poder. o primeiro título de nobreza da Constituição. 3.6. É essa nova idéia de superação da teoria da autolimitação jurídica do Estado que vai possibilibitar a formação do juízo de que a primeira das cláusulas pétreas só pode ser de natureza formal. isto não é o que sucede com a Norma Normarum. o Poder Constituinte incorpora a compulsão do permanente registro dessa memória.1. E mesmo no tocante à revogação pura e simples do Código Político (substituição de uma Constituição por outra). tornando o Poder Constituinte.5. a suplantar. 3. não-pétrea. assim. por residir no próprio esquema de reforma da Constituição. firme.4. b) que tem uma parte dele imune ao cinzel legislativo do Estado. 3. eis que processada ao nível das ocorrências fáticas ou exclusivamente políticas. A se alojar. a ilação a que se chega é esta: o Poder Constituinte incorpora não-propriamente a opção de atribuir à sua obra legislativa um caráter rígido. Ela. Muito bem! Se o fundamento lógico da Constituição é a suprapositividade. portanto.3. Já em termos funcionais. mas o poder-dever de não deixar que sua Constituição venha a cair.6. modificam-se e morrem pela mesma e monótona forma (o modo de produzir a lei é o mesmo que se observa para a respectiva alteração. é invocar uma noção . 3. Acontece à margem de toda juridicidade. ou revogação). c) que a outra parte. porque diferente do modo pelo qual os demais diplomas jurídicos ficam pela Constituição autorizados a receber reprocessamento ou reformulação ou recondicionamento. Constituição. somente por um processo especialíssimo é que pode ser objeto de retomada legislativa pelo Estado. sem nenhuma mistura com outra nascente do fenômeno jurídico. pois o cerne da rigidez está em que o Magno Texto não quer para o seu reprocessamento aquele jeito monocórdio e comparativamente simplificado de se trabalhar com a a lei infraconstitucional. ainda assim a originalidade permanece. É a limitabilidade genética de que antes falamos. com aquele seu próprio modo de nascer. no particular. 3.7. por inteiro.7. no mundo do ser. mais que isto. que é a parte comumente chamada de pétrea ou intangível. ainda que tal insuscetibilidade não conste de dispositivo constitucional expresso. A compulsão da rigidez é.7. em derradeiro exame. Original. na vala comum dos espécimes normativos que têm por fonte um órgão deliberativo já de Direito instituído. o caráter rígido que a Lei Suprema necessariamente ostenta não é outra coisa senão a consagração de um regime jurídico mais cercado de solenidades ou dificuldades para a sua reformulação. A compulsão da rigidez formal da Constituição 3.7. 3.7.

3. ora uma rigidez mais ortodoxa. Ela é pétrea.7. Mas. é uma parte da Constituição que se garante com cláusula de estabilidade ou estado de firmeza se confrontada com as matérias constantes de leis outras. porque as Constituições consagradoras do esquema de intransigente supra-infra-ordenação acrescem limitações materiais àquelas de cunho formal. assegura a supremacia internormativa do Magno Texto e só desaparece com o desaparecimento dele. e por conseqüência imutável. 3. A parte que não é eterna fica exposta aos atos legislativos de reforma. como se diz aqui no Brasil. não-eterna. sua defenestração do Magno Texto somente se dá por uma nova manifestação constituinte. circunstancial e temporal. Essas dificuldades reformacionais de que tanto falamos dizem respeito. Tal rigidez nasce com a Constituição Positiva. temporal. ou mesmo seu recondicionamento (reconstitucionalização. uma vez respeitadas as exigências constitucionais de ordem formal. a Constituição torna especialmente relevante toda matéria sobre que recai. 3.7. tais Constituições. caso contrário. hirta. É o caso de se perguntar: e por que a Lex Maxima é assim especialmente cuidadosa. a perda do status de tema constitucional. pois uma Constituição dita flexível é aquela que pode ser reformada pelo mesmo processo instituído para a produção e modificação de uma lei subconstitucional. que. cuja total flexibilidade decorre da consideração de não ser ela uma Constituição em sentido rigorosamente formal.10. A parte da Constituição que é eterna fica imune ao processo reformista. ou seja.7. Já os fatores de ordem temporal e circunstancial. ainda assim. A rigidez formal é a marca registrada das Constituições que inauguram o Ordenamento Jurídico de intransigente supra-infra-ordenação e que mantêm esse Ordenamento sob controle de qualidade. eterna. como de primário saber. ou seja. a ponto de petrealizar umas e estabilizar outras? A resposta é intuitiva. estável.8. O fato em si da constitucionalização de um dado campo relacional-humano já se traduz numa fuga ao lugar-comum da regulação jurídica.7. durante algum tempo. particularmente zelosa com suas próprias matérias. portanto). com certos requisitos de iniciativa. se a matéria é clausulada como pétrea. a fatores de ordem processual. ou circunstancial. outra. Por isso que. pode acontecer ao . o mais das vezes. combinadamente. também opere pela fuga do lugar comum das revogações ou derrogações de Direito. no sentido de reclamar a proposta de reforma constitucional um quorum maior de votação parlamentar. Daí que a respectiva desconstitucionalização. entretanto. ou debaixo de certos episódios.oposta à de flexibilidade. temporal e circunstancial. De ordem processual. Assim como o Rei Midas tornava ouro tudo em que tocava.7. Não se conclua. cuidando-se de matéria desprovida de petrealidade. o reclamo de interstício entre reuniões legislativas de debate e votação final de matéria constitutiva de reforma da Lex Legum). ou reconstitucionalização. É o caso da Constituição da Inglaterra. eles comparecem para traduzir a idéia de que.20 3.9. no sentido de que pode ser. uma Constituição Positiva é mais ou menos firme. a depender do grau de originalidade que imponha ao seu processo de reforma.7. isto é. porém estável. nenhum ato reformista da Constituição pode ser apresentado.6. 3. rígida. em duas inconfundíveis porções: uma. venha o Poder Reformador a ficar liberado para submeter a si toda e qualquer relação social. Daí o discriminar-se. Mas comporta graduação. ora menos ortodoxa. Não é assim. ou discutido (também se diz um requisito de tempo a exigência de intervalo entre uma e outra rodada de discussão e votação legislativa de matéria constitucional.

Não de um Poder Legislativo comum.2. na medida em que instituidor de uma ordem. debaixo de um processo particularmente solene. a Constituição também pode ser vista enquanto modo pelo qual um certo povo proclama.5. único documento jurídico a atestar a . O mais formal e o mais solene dos atestados de que um determinado povo experimentou. de si para si. porque já tentada e consumada. E é mesmo a concreta aplicabilidade desse processo especialíssimo de dispor sobre matéria constitucional que vai alçar o Poder Constituído à dimensão de um Poder Reformador. Ou de sua plenitude política.nível do Poder de Reforma. em certa medida. Em suma. resolvemos discorrer sobre os dois temas (embora sem reservar para eles nenhuma epígrafe em particular) no âmbito do estudo que reservamos para os capítulos de n°s IV e V desta monografia. Nessa medida. Por esse prisma positivista de análise é que. E já não tem como arredar pé de sua altaneira posição de documento confirmador de uma soberania que é também inalienável. por definição. b) "O definitivo enlace entre a Constituição Federal de 1988 e a Democracia". Repetindo o discurso. E no plano territorial-externo. que atingiu o pináculo de sua identificação jurídica. 3. Assim estimada pelo povo como coisa inalienável dele. vela para que nenhum documento com pretensão a "Carta Plurinacional" ou "Constituição Regional" venha a lhe servir de fundamento de validade.8.8. a Constituição mais e mais monitora a elaboração das suas próprias emendas. o seu modo constituinte de ser. independentemente do seu conteúdo (tanto quanto o Direito em geral de alguma forma vale por si próprio. A Constituição como atestado de efetiva soberania nacional 3. que neste capítulo mesmo poderiam ser assim epigrafadas: a) "A Constituição como garantia de tudo e de si mesma". principalmente se nascida nos arejados cômodos de uma Casa Constituinte que teve por alicerce a vontade eleitoral dos cidadãos. com êxito.8. Contudo.12. Ainda assim. ou seja. Rigidez formal e Poder Reformador.8. justamente. para que nenhuma delas lhe usurpe o trono de rainha das normas jurídicas. no plano territorial-interno. 3. constituem mais uma necessária parelha temática . 3. petrealidade e rigidez constitucional dão-se as mãos para possibilitar à Constituição o ganho de duas outras notas de especificidade.8.3. 3.8. pois o poder de reforma da Magna Carta outra coisa não é senão atuar sob a regência das normas constitucionais originárias que formam. 3.7. a Constituição é tida pelo povo como galardão ou insígnia maior de sua própria independência (dele. conforme conhecido postulado positivista). 3. assim.11. povo) e passa a gozar de estima geral como inalienável patrimônio jurídico. está em que toda Lei Maior que se faz globalmente efetiva opera como atestado formal de soberania nacional.7.8.6. o esquema da rigidez. a Constituição termina valendo por si mesma. a Constituição. independentemente do seu conteúdo. Esta é uma afirmativa que temos como categórica. que nos parece útil aos fins a que nos propomos. O traço final de especificidade da Constituição. 3.4. 3.dentre tantas que a Teoria da Constituição implica -. Isto por ser a Constituição a fórmula jurídico-positiva que possibilita ao povo dar a si próprio uma nova Ordem Jurídica e ainda se fazer internacionalmente conhecido como instância coletiva que desfruta de uma soberania mais que virtual. por opção metodológica estritamente pessoal.1.

insista-se.8. por ilação. O fecho do pensamento. mas pelas boas-vindas que eventualmente lhes dê a Constituição de cada Estado confederado. realmente) por elas estruturado. é este: não se vai cair no romantismo ou na ingenuidade de supor que as "Constituições Regionais" deixem de ditar as condições de participação de cada Estado-membro no tipo de confederação (pois é de confederação que se cuida. os ditames de uma "Constituição" da espécie plurinacional ou cosmopolita ingressam no mundo do dever-ser. sim. Mas o estabelecimento de tais condições vale apenas como imposição factual ou realidade do mundo do ser.7. Porque aí. 3. fora e dentro do território que o povo conquista com animus domini. internamente. notadamente à face das suas emendas (a Constituição a cumprir o papel de não deixar que suas emendas cumpram o papel de atestar a soberania do povo). externamente. não por merecimento próprio. não reconhece outro Poder ou outro Organismo de que venha a fazer parte senão nos termos por ela mesma previstos. é como a soberania mesma: projeção do poder. assume-se como a Lei das Leis. até que se dê a sua recepção pela Magna Lei de cada povo. Logo.21 .soberania de um povo.

A Teoria da Interpretação do Direito em geral como antecedente da Interpretação da Constituição 4. E não sendo produzidos por um poder assim virginalmente fático. se em normas constitucionais se traduzem.8. Os atos de reforma da Constituição (quantas vezes o dissemos?). no entanto. 4. a merecer o rótulo provisório de "Interpretação da Constituição". A imperiosa substituição do nome "Interpretação da Constituição" por "Hermenêutica da Constituição" 4. É ainda dizer: surpreendidos no seu regrado processo de elaboração jurídica. Seja quanto à sua forma de elaboração. deixam. são atos normativos que não têm a menor ensancha de livremente dispor sobre o seu regime jurídico.2. isto é.7.3.2. de se apresentar à Ciência do Direito como produzidos por um poder de fato ou supra-estatal ou suprapositivo. A dualidade princípios/regras como base da nova Hermenêutica da Constituição 4. com esta separação entre normas da Constituição e normas de reforma da Constituição.1. vistos sob o prisma do seu processo de elaboração e quanto à disciplina da matéria sobre que versam (com a respectiva dimensão eficacial). Queremos dizer. que é a natureza do verdadeiro Poder Constituinte. que somente as primeiras é que se tornam objeto de uma centrada teoria da interpretação. e não de normas dominantes. A inadequação do termo "Interpretação Constitucional" 4. 4.1.5. Ele não significa a formulação de uma teoria que encerre ou contenha diretrizes para a concreta interpretação de toda e qualquer norma constitucional positiva. O tema da interpretação da Constituição exige de nossa parte uma prévia demarcação de conteúdo. Não as segundas.1.4. O modo insimilar de viver da Constituição como segunda e definitiva causa de diferenciação hermenêutica 4.6. A peculiar estrutura conceitual dos princípios constitucionais 4. por inteiro. O que já significa dizer que. A inadequação do termo "Interpretação Constitucional" 4.9. tanto quanto no seu regrado poder de . 4. E não significa.1. A Constituição como sistema ou ordenamento por virtude própria 4.Capítulo IV .1. As especificidades da Constituição como a razão de ser de uma Hermenêutica diferenciada 4. do âmbito de uma genérica teoria da interpretação.4.10. Teoria da Interpretação do Direito em geral. porque a positividade constitucional é um gênero abarcante das normas que aparecem para o mundo do Direito por via da Constituição originária e mais aquelas que aparecem para o mundo jurídico por via dos atos de reforma da Constituição mesma. Qual a conseqüência teórica dessa impossibilidade de os atos de reforma da Constituição ditarem o seu próprio regime jurídico? A conseqüência da não-definitiva autoqualificação nem da definitiva auto-hierarquização como norma de Direito. por virtude da Constituição 4.3.A Hermenêutica da Constituição Sumário 4. seja quanto ao seu conteúdo e respectivo grau de eficácia. Este o fiat lux da questão. tais atos só podem ser interpretados como veículos formais de normas dominadas.1. O Direito Positivo como sistema ou ordenamento.1. porque destituídas de peculiaridades que as excluam. O modo insimilar de nascer da Constituição como primeira causa de diferenciação hermenêutica 4.

ou de fora para dentro. 4. A Interpretação da Constituição como tema de estudo nos empurra. assim.1. Nasce de dentro da Constituição para fora e se impõe a todo o Ordenamento. um a posteriori. O objeto ou a coisa a moldar é sempre um conseqüente. Mas a Assembléia Constituída jamais pode se autopromover para Assembléia Constituinte. sem possibilidade de reversão. Há um só molde. todo molde é algo que nasce com ela. O seu real paradigma.1.1.1. tão logo promulgada a Constituição (exatamente como se deu com a Lei Maior brasileira de 1988). é que não tem molde ou fôrma a precedê-la. por que sua qualificação como norma jurídica é uma necessária e definitiva autoqualificação.conformar relações intersubjetivas materiais. Algo que se faz por ela mesma. num seguinte e imediato instante. e não para ela. 4. por ele. Repetindo: o objeto a sair do molde não pode plasmar o molde de que vai sair. desde que figurante da originária redação de um Magno Texto. sim. não se pondo na linha de partida do Direito (mas sempre a meio caminho dele). E sua força impositiva frente às outras normas é. esta. O regime jurídico dos atos de reforma da Constituição é um molde que a própria Constituição prepara. tão-somente. A Teoria da Interpretação do Direito em geral como antecedente da Interpretação da Constituição 4. toda fôrma. que. pois Constituição em tudo e por tudo eles não são. por igual. sim. Ao reverso do que sucede com os atos de sua própria reforma. Aquele auto-rebaixamento é uma viagem sem retorno.7. pelo fato evidente de que esta se formou há mais tempo como ordem autônoma de conhecimentos. 4. portanto. é o dos demais espécimes de Direito infraconstitucional.2. os atos de reforma da Constituição não se enquadram num esquema de interpretação em tudo e por tudo igual ao da própria Constituição. Sob o título de "Interpretação da Constituição". Estas noções. todo figurino. como é o caso do Parlamento ou Poder Legislativo.1. . O todo da Constituição inicial e respectivas partes. A Constituição inicial. no particular.5. 4. em membros de um Poder simplesmente instituído. não têm sua importância reduzida pelo fato de as mesma pessoas que formam uma Assembléia Nacional Constituinte poderem se transformar.8. formar. enquanto o molde só pode ser concebido como um antecedente. necessariamente. para o âmbito mais dilargado da Teoria da Interpretação (ou Hermenêutica Jurídica em geral). uma necessária e definitiva auto-hierarquização. E como todo molde. pois o órgão que se auto-rebaixa desaparece para sempre dos quadrantes do Direito. Do que se deduz que nenhum dos objetos a sair do molde possa dar a si mesmo o próprio molde. só podem ter a sua qualificação e a sua hieraquização como norma jurídica por virtude de algo anterior a eles. múltiplos objetos sejam moldados. o que nos caberia formular seriam os cânones presidentes da interpretação de todo e qualquer dispositivo constitucional. 4. todos eles encartados num processo legislativo que nasce com o originário Texto Magno.9. No âmbito da Constituição originária. É uma qualificação e uma hieraquização que vêm de trás para frente. É que a Assembléia Constituinte pode se auto-rebaixar para Assembléia Constituída. antecede aquilo a que se destina moldar. que nos parecem necessárias para um claro entendimento da relação primária entre a Constituição e os atos de reforma constitucional.2. um a priori. Somente fica o órgão rebaixado.1. recortar. à espera de que.6.1 4.

3. por exemplo (que são categorias mentais elaboradas ao nível da Teoria Geral do Direito). antinomias normativas e critérios de sua eliminação. Por isso que a Interpretação da Constituição tem sido focada como subseção da Hermenêutica Jurídica em geral.8. A comparação temporal entre as duas modalidades de teoria é a mesma que pode ser feita entre as idades do Direito como um todo e do Direito Constitucional em particular. 4.3. Diga-se mais: como o centro do Direito em geral era o Direito Privado. é parte dessa Teoria: aquela parte que tem especial serventia para a interpretação jurídica em concreto. pelo fato de que mais e mais os doutrinadores insistem na diferenciação entre hermenêutica e interpretação. Por essa diferenciação entre a hermenêutica e a interpretação jurídica.2 4. Mas não somente com a Interpretação Jurídica é que a Hermenêutica mantém um necessário vínculo operacional. Ela. 4.6.2. reservando à segunda o papel seqüencial de aplicar à cognição dessa ou daquela norma de Direito Positivo os enunciados da primeira. Hermenêutica. enquanto aquela a significar a busca de noções transpositivas. os estudantes de Direito da Universidade Federal de Sergipe realizaram em homenagem ao primeiro decênio da Constituição da República Federativa do Brasil). eficacidade e efetividade. porquanto aplicáveis a toda e qualquer norma-objeto de interpretação.4. sabido que este último somente ganhou suas definitivas características a partir das Constituições que se promulgaram nas três últimas décadas do século XVIII. Ainda um tanto é de se dizer na matéria.4.2. 4.5. lacunas da lei e modos de sua colmatação. É o que ressalta WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO. porque. 4. hierarquia internormativa. durante seminário que. de 05 a 10 de maio de 1998. Daí para o campo hermenêutico a dedução é instantânea: a Teoria da Interpretação lato sensu nasce bem antes do que a Teoria da Interpretação da Constituição stricto sensu. no fundo. 4. também se enlaça operacionalmente à Teoria do Direito.7. É como dizer: a Hermenêutica é o capítulo da Teoria do Direito que vai centradamente orientar o processo de compreensão dessa ou daquela norma jurídico-positiva. Façamo-nos entender com mais clareza. também natural seria que as coisas acontecessem como de fato aconteceram: os mais vivos contornos da Teoria da Interpretação foram esboçados à luz de um pensamento jurídico marcantemente privatista.2. é natural que a Teoria do Direito anteceda à Teoria da Constituição.2.2. dualidade norma/Ordenamento. Não estamos a dizer nada diferente do que isto: se o Direito como um todo antecede à Constituição. passam a constituir princípios hermenêuticos a aplicar no empírico processo da interpretação de uma determinada norma de Direito Positivo. 4. em estudo que principia pela correta asserção de que "Praticar a interpretação constitucional é diferente de interpretar a Constituição de acordo com os cânones tradicionais da hermenêutica jurídica" (primeiras linhas do texto que serviu de roteiro a conferência pronunciada em Aracaju. E a esse empírico processo de compreensão é que se apõe o rótulo de Interpretação Jurídica. Assim é que noções de validade.2. Esta a significar a busca da revelação da mensagem aportada por uma particular norma de Direito. A imperiosa substituição do nome "Interpretação da Constituição" por "Hermenêutica da Constituição" .2.2. a hermenêutica encerra um conjunto de noções preparatórias da interpretação.

3. habitualmente). o que vimos designando até agora de "Interpretação da Constituição" tem que mudar de nome. a ilação da dicotomia acima pontuada é intuitiva: ela. Sendo assim. porque tem por objeto revelar da Teoria da Constituição apenas aqueles enunciados que sirvam para o concreto labor da compreensão de toda e qualquer norma constitucional-positiva originária. o finalístico. porque. somente. esta é de menor abrangência no seu campo material de estudo. Hermenêutica da Constituição. Donde a conclusão de que a operação mental do intérprete segue este necessário roteiro: começa pelas pré-compreensões que a Hermenêutica recolhe da Teoria da Constituição e desemboca na compreensão final (interpretação) de uma norma-objeto. O objeto da interpretação constitucional. Logo. o histórico e o sistemático.3. Num esforço de refinamento explicativo.4.2. E nesse campo específico da Hermenêutica da Constituição. As especificidades da Constituição como a razão de ser de uma Hermenêutica . inserida no contexto de uma particular Constituição originária. Passa para "Hermenêutica da Constituição". e não para toda e qualquer norma da Constituição originária. Não somente para esta ou aquela específica norma constitucional-positiva originária.3 4. Com o quê se diferencia da Teoria do Direito ou "Teoria Geral do Direito" (como também se diz.a Teoria da Constituição tem por objeto elementarizar a Constituição como fenômeno jurídico. 4.4. Com o respectivo grau de eficácia.3. III . Porção que termina por formar pré-compreensões ou pré-interpretações de que se vale o aplicador da Lei Maior (que é o intérprete em concreto) para o trabalho final de apreensão do significado de uma determinada norma de elaboração genuinamente constituinte. a saber: o literal. a Hermenêutica da Constituição passa a se diferençar da Hermenêutica em geral. II . de que falaremos a breve trecho. aí. exprime aquela porção da Teoria da Constituição que vai propiciar o facilitado entendimento de toda e qualquer norma em particular de Direito Constitucional originário. 4.4. Mas esta nossa explicação é ainda incompleta. porque importa colocar em realce que a Hermenêutica Jurídica em geral ocupa um espaço de teorização de obrigatório trânsito pela Hermenêutica da Constituição. É o indescartável espaço dos chamados métodos de interpretação jurídica. a Hermenêutica antecede o isolamento da norma-objeto (norma já positivada nessa ou naquela Constituição inicial) e por isso mesmo passa a valer para todo e qualquer dispositivo jurídico ou texto normativo-constitucional-originário em apartado. a Hermenêutica da Constituição faz-se de ponte entre a Teoria da Constituição como um todo e a interpretação de cada norma dessa ou daquela Constituição Positiva originária em separado. bem ao contrário. somente vale para uma dada norma-objeto. Por esse ângulo de visada. pensamos que tudo se aclara no bojo do seguinte sumário: I .Já a Hermenêutica da Constituição.3. destacando-a de qualquer outro diploma normativo ou ramo autonomizado do Direito. Incompleta. portanto.3. o que se tem já é o campo de incidência da Interpretação propriamente dita. A Interpretação.na medida em que existe para aproveitar da Teoria da Constituição apenas aqueles enunciados de especial préstimo para o labor da interpretação de todo e qualquer dispositivo constitucional originário (indistintamente. visto que a Hermenêutica em geral serve de instrumento é para a interpretação de toda e qualquer norma de Direito.1. o lógico. 4. portanto).

se o papel da Teoria da Constituição é apartar a Constituição dos demais diplomas jurídicos (ou o Direito Constituição do Direito pós-Constituição). Já demonstramos que ela é muito mais do que a diversidade de campos materiais de incidência normativa (campo civil. porém. Tanto e tanto. a Constituição). Quase tudo na Constituição é onticamente singular. nem. sobre a qual os chamados "Ramos do Direito" erguem a sua autonomia entitativa. se estamos assim a nos comprometer com o acerto da proposição de que existe uma especificidade hermenêutico-constitucional.1. Aquilo que singulariza as normas da Constituição originária no contexto dos demais atos consubstanciadores de normas jurídicas é mesmo de qualidade.4. nem com as normas de sua própria reforma. Se o papel da Teoria do Direito é apartar o Direito das outras realidades normativas (sobretudo a religião. o papel de mostrar em quê a exegese de uma norma figurante da Constituição originária difere da exegese de uma norma não-figurante de tal Constituição.o da Constituição e o setor do Direito posterior a ela . ou. por evidente). Parte sem a qual o Direito não poderia ser visualizado como um todo fechado em si mesmo. Ora.5. Ela nem se confunde com o Ordenamento Jurídico. a ponto de podermos separar .que força. a etiqueta e a moral). qual o primeiro papel da Hermenêutica especificamente constitucional? Dar seqüência ao papel diferenciador da Teoria da Constituição. é claro que essa peculiaridade exegética só pode advir do fato de ser a Constituição uma realidade normativa que se marca por traços ontológicos próprios. como realidade tendente a esse fechamento autonômico. Não é a partir de técnicas gerais de compreensão do Direito que se vai conhecer aquela parte do Direito que mais explica o próprio Direito (que é.4. por fim. pelo menos.3. o pensamento jurídico a elaborar uma dogmática exegética superadora da tradicional.4.2. comercial. penal. Ainda mais.4. processual. Logo. afunilando ou direcionando as proposições dessa Teoria para a tarefa interpretativa de cada norma constitucional originária em particular.4.4. numa perspectiva nova: a demonstração cabal de que é preciso um toque de especificidade interpretativa para um diploma (o Magno Texto) que nasce e vive por um modo absolutamente insimilar. com a soma linear das normas que formam o seu próprio corpo de dispositivos.). 4. 4. trabalhista. justamente. É de tal monta essa diferenciação entre os dois setores . Não há demasia na afirmação.diferenciada 4. As linhas que se seguem reforçarão os traços da Constituição como a parte do Direito que mais explica o próprio Direito.como estamos separando desde o início desta nossa monografia . Com o quê a Hermenêutica da Constituição está para a Teoria da Constituição assim como a Interpretação .as normas da Constituição das normas de reforma constitucional. 4. a exigir metódicos instrumentos de análise também singulares. os vetores da comum hermenêutica do Direito já não tinham como dar conta do recado e por isso é que a doutrina passou a envidar os seus melhores esforços na fixação de novos paradigmas exegéticos ou recursos de uma argumentação propriamente constitucional. etc. como explicado no capítulo anterior. precisamente. É por se peculiarizar perante o Direito em geral (e como!) que a Magna Lei justifica e exige para si uma metódica hermenêutica também peculiarizada. Não é uma diferença qualquer. É como dizer: com o surgimento da Constituição (e estamos a falar da Constituição do tipo rígido. a ponto de podermos dizer que a Constituição consegue ser diferente até mesmo da mecânica soma das suas próprias normas. A Constituição revolucionou mesmo o pensamento jurídico.4 4.

com os demais atos expressionais do Direito. porém globalmente efetiva ou não. No fluxo desta nossa caminhada cognoscitiva. para se conhecer o conteúdo significante e o grau de eficácia do ser já aprovado pelo primeiro controle de qualidade jurídica. façamos a mais lógica das perguntas: qual a primeira especificidade da Constituição a repercutir no campo de uma métodica hermenêutica diferenciada? Respondemos: tudo o que justifica a dualidade de vetores ou diretrizes hermenêuticas principia pela insimilaridade do nascer da Constituição como realidade jurídico-positiva. é preciso ainda ver se o documento jurídico de que faz parte a norma-objeto foi (ou não foi) produzido sem mácula processual e também .5. 4. A Constituição não é válida nem inválida.5. a primeira via de interpretação é descabida. Constituição. factual. A Hermenêutica. dentro de um esquema de particularização progressiva de conceitos. para ver até que ponto se dá a compatiblidade formal e material do primeiro à segunda. 4. Hermenêutica da Constituição.5.1. Não! Esse modo de interpretar é aplicável somente a uma dada norma da Constituição originária. Uma fonte ou instância de poder que faz parte do mundo do ser. O exame comparativo entre o diploma jurídico objeto de interpretação e a Lei Maior. naquilo que ela tem de apropriação dos conceitos que formam a Teoria da Constituição. Se se prefere.6.5. É muito simples o que intentamos dizer. A interpretação de uma particular norma jurídica não se esgota na revelação da semântica ou significado lógico-idiomático por ela portado.5 4. com o respectivo grau de eficácia.5. o que significa percorrer o itinerário inverso dos outros modelos jurídicos: estes somente podem obter o atributo da efetividade depois de obtido o atributo da validade. É para isso que serve a distinção entre a Hermenêutica e a Interpretação da Constituição (entre outras serventias). aquela porção do Direito que mais se diferencia de todas as outras. agora sim. 4. do caráter jurídico do ser investigado. outro.4.5. qualquer outro ser ou modelo prescritivo de conduta que se apresente com as vestes de uma regra jurídica. é a partir do modo pelo qual a Constituição é partejada que se percebe ser ela.5. O modo insimilar de nascer da Constituição como primeira causa de diferenciação hermenêutica 4. Uma seqüenciando a outra ou tendo a outra como referencial. não-jurídica de deliberação. e não do mundo das normas. ela é aquele pedaço do Direito que menos identidade mantém com os demais. para se avaliar a procedência. Mas em quê o modo especialíssimo de nascer da Constituição implica mudança de vetor hermenêutico? No seguinte: quando se está diante de qualquer outra realidade normativa. Fora da Constituição originária. E tudo começa mesmo é com a percepção de que só o Magno Texto (não tenhamos receio de incorrer em repetição de juízo) nasce de uma fonte exclusivamente política.5. e não simultaneamente normante e normado. Muito bem.3. Perante as respectivas normas. 4.Constitucional está para ela. Ela se "valida" pela efetividade. Um centro decisório exclusivamente normante. 4.2. faz-se o uso de dois tipos necessariamente sucessivos de interpretação: um. É inferir: somente depois de passar por um exame de validade é que o espécime normativo sai dessa primeira via de interpretação para a segunda. como se dá. que já é propriamente conteudístico-eficacial. Com efeito. exige que se faça exame de validade no momento do empírico processo de interpretação de toda norma que venha a se positivar após a Constituição mesma. ou não. Não é assim com a Constituição originária.

1. diríamos que a Constituição também vive por um modo insimilar. meio direto ou simplificado de se viabilizar o conhecimento da mensagem aportada por aquele discurso (mensagem. o exame de validade formal e material é intransigente: incide sobre todas as normas ali contidas.6 4. genericamente considerada (plano das considerações lógico-jurídicas.9. Já diante da Constituição. Logo. e uma soberania de que trata a Constituição já elaborada). então. a radicalidade operacional é inversa: nenhuma norma constitucional originária. a Lei Maior passa inteiramente ao largo do processo exegético ou da empírica interpretação normativa. Nenhuma fica de fora. porque: primeiro. Ela prossegue pela vida afora do Direito . Não há outra (daí a distinção entre uma soberania que trata da Constituição. que opera pela revelação do significado comum ou dicionarizado das palavras e expressões em que se vaza o discurso jurídico-positivo. a forma pela qual a Constituição deixa o Ordenamento ou dele sai (finando-se com ele.5.2.5. mas o Ordenamento é que principia com a Constituição. E a causa eficiente da exclusão de tal exame prévio é o modo peculiar de nascer da Constituição. a Constituição é o único documento normativo que provém do Poder Constituinte por forma direta.8. e não apenas dentro dele. terceiro. E já dissemos que o modo de a Constituição Positiva fazer parte do Ordenamento Jurídico é absolutamente único. É dizer: sem a intercalação de nenhuma outra instância produtora de norma jurídica.6.3. 4. 4. a maneira de a Constituição fazer parte do Ordenamento é se postando no topo desse Ordenamento.6.com a mesma originalidade que marcou a trajetória existencial do filho unigênito de Deus no meio do homens. que outra coisa não é senão o quê da norma . 4.o método filológico ou literal.7. Em suma. convicto estamos de que. elaborando-a.se a própria norma-objeto estava autorizada a se dotar do conteúdo e da eficácia com que positivamente nasceu. tal qual JESUS CRISTO operou como um divisor de águas na esfera mais dilatada de toda a humanidade ocidental (antes e depois dele). Principiemos por lembrar que a dogmática hermenêutica. Mesmo que se trate de norma engastada em ato formal de emenda à Lei Maior. pondere-se) é a mesma pela qual entrou: a suprapositividade. Por mais que nos deparemos com a cerrada oposição de autores densamente qualificados. é o filho unigênito de Deus (pois que gerado diretamente pelo Criador). não é a Constituição que principia com o Ordenamento. absolutamente nenhuma. é submetida a exame de validade. Todas ficam de fora. É aqui mesmo que devemos fazer a outra decisiva pergunta: e em quê o modo único de viver da Constituição repercute no campo da tópica hermenêutica? Ah! Por vários aspectos! 4. e não jurídico-positivas).a partir da rigidez formal a que necessariamente se impõe . E outra vez por comparação com a figura ímpar de JESUS.5. Ocorre que esse modo único de nascer da Constituição apenas faz sentido se se fizer acompanhar de um modo único de viver. 4. Nesse plano de radical exame de validade. O modo insimilar de viver da Constituição como segunda e definitiva causa de diferenciação hermenêutica 4. incorpora os seguintes e englobados métodos de intelecção normativa: I . assim como JESUS.6.6. para as religiões cristãs. perante qualquer diploma jurídico (inclusive o das emendas ou revisões constitucionais). Daí porque opera como um divisor de águas na esfera jurídico-positiva. segundo.

e não somente a qualidade de cada parte mesma). sua utilidade é a mesma do método literal: buscar a revelação do quê da norma. E o papel da interpretação literal (toda interpretação começa por esse método) é saber que palavras cumprem no discurso jurídico-positivo um mister meramente vernacular (palavras-meio) e que palavras. porém enquanto península ou parte que se atrela ao corpo de dispositivos do diploma em que se engasta. não enquanto ilha.9 V . O papel do intérprete.10 . mas de toda a lei ou de todo o código de que faça parte o dispositivo interpretado. empregado para a captação do objetivo ou dos objetivos da norma interpretada (domínio do para quê normativo. que é a mensagem-em-si em que ela se traduz. O que significa. ou. De todo modo. ainda é preciso considerar as linhas e entrelinhas da própria Constituição Positiva.o método teleológico ou finalístico.o método sistemático ou contextual. Afinal. por constituir a norma-em-si. principalmente para o efeito do uso correto da interpretação dita extensiva. cumprem nesse discurso um mister propriamente relacional ou intersubjetivo. para saber em que essa comunicação consiste. implicando o conhecimento do pomo factual de discórdia que gerou a necessidade da normatização jurídica. existe mesmo e não pode deixar de existir um vínculo funcional entre as palavras e o Direito-lei. Estas últimas são palavras-fim. semantica e eficacialmente. quer dizer. então. III . para que a união de cada parte ao todo traga para o Direito a qualidade do todo.positiva ou o objeto da relação positivamente instituída. com o seu específico tamanho eficacial). voltado para a reciclagem ou o policiamento do método filológico. é ler nas próprias linhas do dispositivo.o método histórico. Por comparação com o método lógico. E se essa lei ou esse Código for de Direito Infraconstitucional.7 II . revelando-se. descambando para o histórico-evolutivo. isto é. Mas a sua utilidade específica permanece igual à serventia dos métodos literal e lógico de interpretação: conhecer e descrever o quê de cada norma-objeto. que tem por função eidética procurar o sentido peninsular da norma jurídica. agora o que importa é ler nas linhas e entrelinhas. ao reverso. quando for o caso. a sua forma causal. então. o significado que a norma assume. palavras que encerram o núcleo mesmo da norma de Direito Positivo. Logo. e não o dicionário idiomático em geral). então.8 IV . decifrar o meramente verbal da comunicação normativa. cuja prestimosidade está em conhecer a origem ou etiologia da norma. é método voltado para o resgate do porquê da jurisdicização da matéria. uma vista panorâmica do material investigado. Implica uma releitura. da interpretação dita restritiva). como o próprio instituto jurídico ou a figura de Direito que se procura conhecer. seja para substituir o sentido meramente coloquial dos signos linguísticos por um sentido propriamente jurídico ou da própria técnica do Direito (e aí o dicionário a que se recorre já é o vocabulário jurídico. não desse ou daquele dispositivo em particular. portanto: o método sistemático de interpretação jurídica é o único a possibilitar um visual de conjunto. seja para dimensionar com precisão o potencial de eficácia da norma interpretada (tarefa em que avulta a consideração do não-verbal ou das entrelinhas do dispositivo interpretado. bifurcado num para quê de ordem prática ou imediata e num para quê de ordem axiológica ou mediata).o método lógico. que é a conseqüência lógica do interpretar articulado (cada dispositivo em combinação com os demais. pois implica a revelação do significado técnico ou propriamente jurídico das palavras de que se venha a compor o dispositivo interpretado e ainda passa por uma obrigatória leitura das entrelinhas ou do não-verbal desse mesmo dispositivo. reversamente.

pois. O seu concreto uso muda de perspectiva. É no último deles..4. externa. 4. Não o contrário. ele passa a ganhar uma qualidade. e. o ímpeto ou a "essência transformadora" da Magna Carta. uma peça jurídico-positiva que se orienta por critérios de auto-referência ou de auto-explicação quanto ao seu próprio significado e tamanho da sua eficácia. A Constituição enquanto base normativa permanente de todo o Processo . E por que assim acontece? 4. Consideremos agora o seguinte: mesmo quando o método sistemático é aplicado ao Direito pós-Constituição. reduzindo. etc. pois em tema de exame de validade jurídica a meta é a fonte.6. outra. A Constituição prescinde do Direito posterior a ela para se fazer entendida quanto ao significado dos seus institutos e instituições. Não tem que sair dos muros ou dos lindes que demarcam a normatividade constitucional originária.7.6.6. em verdade. porque a Constituição. encerrada no corpo normativo da Constituição mesma. vê-se que não é no círculo dos quatro métodos iniciais que toma corpo a especificidade interpretativa que estamos a reivindicar para a Constituição. uma interna. É uma sistematicidade de dupla face. Afinal. 1982). ou seja.7. e não o Direito-lei a servir à Constituição. por hipótese. a derradeira das metas é a primeira das fontes.7. os institutos e as instituições de selo constitucional devem ter a sua conceituação elaborada a partir de elementos encontradiços na própria Constituição. É preciso ainda que ele mantenha com a Constituição um vínculo de perfeita sintonia formal e material. para nos valermos de expressão corretamente adotada por JOSÉ AFONSO DA SILVA para a nossa Constituição de 1988. 4. Começa pelo diploma jurídico a que pertence a norma e vai em frente: sangra as barragens desse diploma para cotejar a norma com a própria Constituição. 4. Assim é que não basta a um decreto. porém. recicla todo o Direito Positivo e daí toda a Teoria Jurídica. Longe de querer servir à lei e aos demais espécimes de Direito Legislado. ou da emenda. Que sucede. segundo a classificação que pessoalmente adotamos em parceria com CELSO RIBEIRO BASTOS.6. e essa fonte primeira (fonte das fontes) é a Constituição positiva. O Direito Positivo como sistema ou ordenamento por virtude da Constituição 4. porque. a Constituição passaria a servir ao Direito-lei. o mais das vezes. se adequar à lei por ele aplicada. quando aplicado ao Direito posterior à Constituição. uma natureza. E isto se dá pelo fato de ser a Constituição. uma tonalidade nova. o método sistemático é mais abrangente: além de apanhar a norma investigada no contexto da lei. ainda quando a eficácia de suas normas reclame acréscimo de prescritividade por uma legislação de menor hierarquia. a Constituição quer servir é a si mesma. E é para servir a si mesma que ela dispõe sobre a elaboração de todo o Direito posterior a ela. ao longo da monografia INTERPRETAÇÃO E APLICABILIDADE DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS (Editora Saraiva.1. Por conseguinte. busca inseri-la no todo da Constituição.4. a sabenças: todo juízo de validade jurídica só alcança a dimensão de um juízo de validade absoluta (e não apenas relativa) depois que a norma-objeto se mostra compatível com a própria Constituição Positiva. é a Teoria da Constituição (mais que a Teoria do Direito em geral) que proclama. senão. ou do código. respectivamente.5.6. quando formalmente rígida. Para logo. de que ela faça parte. ou admita constrição de efeitos pela mesma via da legiferação de segundo escalão (normas de eficácia completável e normas de eficácia restringível. quando essa mesma técnica da contextualidade é aplicada à Constituição? Fica absolutamente confinada.

É exprimir: cada norma de imediata aplicação da Constituição tem que homenagear a própria Constituição.1. Pois bem. também dê à luz um Direito que se caracterize por somente absorver aquelas normas que tenham em outras normas imediatamente superiores a devida confirmação (fundamento de validade).7. e cada norma que se seguir . Manter sob o seu mais próximo controle todos os atos de elaboração normativo-primária. Esse último reclamo de compatibilidade material e eficacial demanda. 4. Tem que ser a fonte das fontes normativas ou a lei das leis. que são atos de imediata aplicação dela própria.4. o tempo todo. Vamos repetir o juízo. É sintetizar: a Constituição.7. 4. Mais: a Constituição cria mecanismos de autodefesa quanto à fiel observância daquele processo e também quanto ao conteúdo mesmo e dimensão eficacial dos atos legislativos que a ela se seguirem. a instituição de um processo legislativo-constitucional (que é formalmente pétreo por definição) e mais o reclamo de compatibilidade material e de eficácia já são suficientes para que a Constituição. no confronto com as demais regras de Direito Positivo (inclusive os atos oficiais de reforma constitucional). depois. porque é nessas cláusulas que o Texto Supremo se personaliza ou tem a sua identidade substancial (a Constituição tem os traços fisionômicos das suas cláusulas pétreas). só pode fazê-lo na medida em que se irrogue a força de ditar o regime jurídico de todo o Direito legislado (Direito-lei) que a ela se seguir. Constituição. Já em se tratando de outras modalidades de normas de aplicação primária da Constituição.7. Para se manter assim hierarquicamente superior. A Constituição. a Constituição recicla todo o Direito Positivo e daí a própria Ciência Jurídica. Atos jurídicos. desde que formalmente rígida. Bem. Cuidando-se de emenda ou revisão à Magna Carta.1. formando com ele um segundo e complementar sistema. que são produzidos por uma forma preestabelecida quanto à indicação dos respectivos editores (órgãos ou fontes legiferantes) e quanto ao encadeado itinerário de formação da vontade legislativa de tais editores. esses.1.1. discriminação. a Constituição formalmente rígida é. é documento normativo que exibe duas notas distintivas: primeiramente.1. pela consideração de que ela. tanto do ponto de vista formal ou processual quanto do ponto de vista material ou de conteúdo e ainda eficacial. e somente ela. material e eficacialmente (com a referida suavização conteudístico-eficacial em tema de emenda ou revisão). com diferentes palavras. formal.7.3. no entanto. 4. 4. aí o dever da compatibilidade vertical é absoluto: alcança tanto as cláusulas pétreas quanto as destituídas dessa qualificação (desde que se entenda por dever de compatibilidade vertical a não-contradição entre os comandos da legislação infraconstitucional e aqueles insertos na Constituição).Legislativo 4. Com exclusividade. E isto se dá pela instituição de um "processo legislativo" que recubra os atos jurídicos de imediata aplicação dela própria. o conjunto normativo de hierarquia máxima.7. para se autoproclamar como lei das leis ou norma normarum. ela é um sistema normativo em si. ele fica acentuadamente suavizado: as emendas e revisões só não podem inovar em tema de cláusulas pétreas materiais. é que pode dizer como se deseja primariamente aplicada. o que faz pela enumeração dos atos normativos que se integram no processo legislativo. de sorte a impedir que tais atos se tornem ovelhas desgarradas.5. ao nascer. por efeito mesmo de sua rigidez formal.2. é claro que ela tem que dispor sobre a edição das outras normas jurídicas gerais. ela é a própria condição lógica da montagem de um Direito Positivo de "supra-infra-ordenação".1. Ora bem.

mediata. além de impedidos de tocar no originário esquema da rigidez formal.7. Temos. tanto formal quanto materialmente. porque referidos a duas normas superiores: uma. 4. quer dizer. Se a Constituição apenas se permite inovar por um processo mais cerimonioso que o das outras normas gerais.7. torna-se automaticamente pétreo.àquelas de aplicação imediata da Constituição tem que ajustar o seu conteúdo e eficácia a tais normas de aplicação imediata da Constituição e ainda à Constituição mesma. e não uma pluralidade contraditória e fragmentária de comandos (parodiando HERÓDOTO.11 4.7. Se não instituído. claro. Um conjunto ordenado. por conseguinte.2. Parêntese fechado. O fato em si da rigidez formal já revela o compromisso que a Lei Maior assume com o movimento incessantemente pendular do Direito. em última análise.7. cada fonte a jorrar de outra fonte e cada norma jurídica a buscar fundamento de validade material em outra norma jurídica. que a Constituição faz do Direito Positivo um todo encadeado de fontes normativas e respectivos comandos.1. o segundo dos sistemas a que nos referimos: o sistema do Direito-com-a-Constituição. Uma unidade formal e material de estatuições. patenteada fica a proposição de que ela. imediata. ela já está a se categorizar como o segmento do Direito mais infenso a reforma. Se instituído pela Constituição. até o remonte final à Constituição. nunca mais o será (a não ser. é aquele elemento de estabilidade sem o qual perderia sentido o reenvio de toda fonte e de todo comando jurídico-positivo à positividade do primeiro deles. É por ser formalmente rígida. E é por ser assim hierarquicamente superior. que é a Constituição em si. da perdurabilidade .1. Constituição rígida. averbamos que os atos de reforma da Constituição. enfim.2.12 4. O caráter superlativamente estável da Constituição e suas conseqüências hermenêuticas 4.7. Versos de rima dobrada. 4. E como uma parte da Constituição ainda é absolutamente imune a supressão ou a medida que tenda a tal supressão. por nova manifestação constituinte). não podem instituir por conta própria esse tipo de esquema para uma Constituição que se deslembre de instituí-lo.7. diríamos que o Ordenamento de supra-infra-ordenação ortodoxa é um presente da Constituição rígida). 4. um Direito Positivo tão hierarquizado nos elementos que formam o seu repertório. formal e materialmente. que falou do Egito como um presente do Nilo. que é a norma geral de aplicação da Constituição. a pressupor interdependência de autoridades normativas e ausência de antinomias de comandos.2. A título de parêntese.1. Está aqui a razão pela qual HANS KELSEN fala desse tipo de Direito Positivo como "ordem normativa de supra-infra-ordenação". pensamos que a oportunidade é das melhores para também lembrar que outro efeito lógico da rigidez formal é a Constituição Positiva a se assumir como o documento normativo que mais persevera na sua originária formulação.2. nesta última suposição.7. Um "Ordenamento". ou seja. O regime jurídico da rigidez é sempre originário e definitivo. Tudo por efeito de uma hierarquia internormativa que deita raízes na rigidez formal que só a Constituição pode e deve (poder-dever) se autoconferir.6. Donde os conceitos de validade relativa e validade absoluta de norma jurídica. a ponto de formar com a Constituição um todo sistêmico.8.1. pois a Constituição forma com as regras infra e pós-constitucionais um só Direito Positivo. outra. que a Constituição é hierarquicamente superior às demais normas jurídicas.

o Direito Positivo tem na Constituição mesma o seu necessário ponto de frenação ou estado firme. A lei é hierarquicamente inferior à Constituição porque encontra nesta o seu fundamento de validade. ou seja. Na vertente deste nosso jeito pessoal de colocar os atos de reforma da Constituição no seu devido lugar.para a mutabilidade e vice-versa. em rigor técnico.5. E é neste passo que ressoam aos nossos ouvidos os mesmos argumentos que MICHEL TEMER esgrima para evidenciar o sem-sentido da tese que propugna pela existência de hierarquia entre a lei complementar e a lei ordinária. entretece com a lei um necessário convívio. Constituição). sua fonte geradora na lei complementar? Absolutamente não! (em ELEMENTOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL. contudo. dado que lei é instrumento criado pelo Texto Constitucional. ao passo que a funcionalidade da lei é um olhar para a frente. mas aplicar a Constituição emendada. pois as emendas constitucionais não se põem como o imediato fundamento de validade das leis (entendidas as leis como normas gerais de aplicação primária da Constituição. no âmbito mais restrito do próprio Direito Constitucional. mais nos convencemos de que se trata de um diálogo em separado. sua fonte geradora. elas não existem para renovar o Direito em geral. E sendo assim. seja a Constituição depois de reformada. ao contrário da lei. Seja a Constituição antes de qualquer reforma. Quanto mais analisamos a relação que a Lei das Leis mantém com as suas próprias emendas. O caso das emendas à Constituição é um caso à parte (como temos ressalvado). a se exigirem ininterruptamente. para o Direito.7.4. mas apenas com a Constituição. 4. o que é sutilmente diverso. aqui. porque a Constituição o cria. Sua funcionalidade é um olhar para trás. seu engate lógico. Momento vocacionado para a mudança. em reservado. um refundir a própria norma-começo de todo o Ordenamento. pois se o momento constitucional é que autoriza o momento legal.2. Malheiros Editores. pois. litteris: "Hierarquia. passando a ter na lei o seu elemento de aceleração ou estado móvel de comandos. ao declarar que uma lei é inconstitucional está dizendo: `aquilo que todos pensaram que era lei. por acaso encontra seu fundamento de validade.3.2. seu fundamento de validade numa norma superior. seu ser. Um e outro momento. Por isso que. reformada ou não reformada.7. porque às leis é suficiente a Constituição tal como posta. àquele originário momento constitucional. um dar-se por satisfeito com a Constituição preexistente. seu engate lógico. Sem o menor propósito objetivo de colocar tais atos de reforma como ocupantes de grau hierárquico intermediário entre a Constituição e as demais normas gerais de sua aplicação (dela. lei não era'. . mas para atualizar a Constituição em particular. ali. Pois bem. se hierarquia assim se conceitua é preciso indagar: lei ordinária. Fundamento imediato de validade das leis é sempre a Constituição. o momento legal sempre se reconduz. podemos falar nesse instrumento chamado lei. é a circunstância de uma norma encontrar sua nascente. 4. sua razão de ser. inferimos que não existe uma direta hierarquia entre emenda constitucional e lei.2. momento vocacionado para a permanência deôntica. é do nosso juízo que os atos de reforma da Constituição não podem manter com a lei um vínculo operacional direto. ou revisões. Esta é que. o papel da lei não é o de aplicar u'a emenda à Constituição. por exame de validade. 4. 8ª edição. Aliás.7. que é um Direito bifurcado em normas da Constituição originária e normas advindas do Poder Reformador. tanto quanto as emendas o são). Tanto isto é verdade que o Supremo Tribunal Federal. até porque as emendas não podem refundir o originário esquema constitucional de indicação das normas gerais que se integram no processo legislativo (cláusula tácita de intangibilidade).

O Direito que só admitisse os dois referidos critérios da intertemporalidade e da especialidade material como técnicas de resolução de antinomias normativas seria um Direito. Aquilo que faz uma Constituição Positiva ser diferente da que lhe antecedeu e também distinta da Constituição de qualquer outro povo.2. o Direito que só conhecesse os critérios da intertemporalidade e da especialidade material como técnicas de resolução de antinomias entre normas não deixaria de constituir um sistema. que tanto recai sobre quem faz a norma quanto sobre a norma feita (processo e conteúdo normativos). Com essa modalidade não-formalmente hierarquizada de sistema jurídico (o Direito visto de um ângulo não-referido a uma Constituição rígida).2. .2. relembrando que algumas das primeiras Constituições escritas eram tão-somente semi-rígidas. mas delas próprias. O campo divisional. Com o tempo.2.6. 4. enfim. por certo que o método sistemático de exegese das normas jurídicas em geral restaria funcionalmente empobrecido. pois inteiramente calçado em tantas normas-começo quantas forem as leis que. o que se tem já é um sistema de comandos.11. 4. a pouco e pouco reforçado com a técnica da expressa indicação de temas super-rígidos. a ponto de excluí-los. um novo ciclo absoluto de normas referentes e normas referidas se constitui. porque subtraídos à faina legislativa do próprio Poder Reformador.9. pois onde houver critério de eliminação de antinomias normativas haverá unidade de sentido conteudístico. não em torno da Constituição. na acepção de que. no tempo. do legislar constituinte e do legislar constituído. ou seja. Era o traço complementar da rigidez material genérica. superarem as outras pela aplicação dos dois multicitados critérios.2. Se não houvesse a Constituição do tipo rígido.2. pois não poderia ir adiante dos dois conhecidos critérios temporal e material de resolução de antinomias jurídicas. Numa frase.7. 4. porque verdadeiramente pétreos. pois se contentavam em retirar do Poder Legislativo usual a disciplina das matérias versantes sobre a Separação dos Poderes e acerca dos direitos e garantias individuais. no sentido de que as sucesssivas normas-começo passam a girar. a saber: "a lei posterior derroga a anterior" (lex posterior derogat priori) e "a lei geral posterior não derroga a especial anterior" (lex generalis non derogat legi priori speciali).7.7. entretanto. Crivo.1991). porém diferente da espécie piramidal ou deslinear de Direito que se constrói a partir de uma Constituição rígida (norma-começo que não admite outras assim postadas no interior do mesmo Ordenamento). ainda que este venha a se elevar à dimensão de um agir reformador da Magna Carta. E com o resgate da unidade de sentido conteudístico dos elementos que formam o repertório do Direito. b) circular. sim. Com o que as Leis Supremas de cada Estado soberano adicionaram à sua identidade formal (implícita ou por definição) uma identidade material explícita.8. do Poder Legislativo habitual ou cotidiano.7. 4. automaticamente. Todas estas considerações atestam que o método sistemático de interpretação jurídica recebe decisiva influência da Constituição. o pensamento jurídico universal se abriu para a compreensão de que a constitucionalização de toda e qualquer matéria já significava um juízo político de qualidade superior de tais assuntos. a cada nova regra-começo no interior do Ordenamento.7. Coloquemos os pontos nos "is" deste subtema. 4. 4.7. pois ele revela um tipo de unidade de sentido que não se obtém sem o reenvio do Direito pós-Constituição à Constituição mesma.10.7. Mas um sistema de comandos de outra natureza. o que se tem é uma unidade do tipo: a) cíclico. Daí havermos dito cuidar-se de um método que extravasa os diques do diploma a que pertence a norma interpretada para submeter a mesma norma ao crivo dos comandos genuinamente constitucionais.

1. Vale dizer: as normas que veiculam princípios desfrutam de maior envergadura sistêmica. mas que somente se manifesta da Constituição rígida para fora. sozinha (tanto antes quanto depois dos atos de sua reforma).9. 4. e não princípios). pois a relação ou engate lógico de tais atos se dá é no âmbito específico da Constituição. redivivo. ele se orienta por critérios cabalmente hierárquicos. Como diria CONFÚCIO. Elas enlaçam a si outras normas e passam a cumprir um papel de ímã e de norte. 4.8. Sem embaraço do fato de vir a constituir uma segunda e necessária unidade. e não propriamente do Direito em geral). os atos de reforma constitucional (dado que voltados para a composição daquela primeira unidade sistêmica). Logo. entretanto. materializada na Constituição com o Direito em geral. Para sê-lo. . pois as normas constitucionais originárias não se relacionam por graus hierárquicos. Não apenas pontuais. materializada na Constituição (antes e depois de cada ato reformador. sozinho. como se dá. A hierarquia é um dos modos de relacionamento entre normas jurídicas (estrutura). o modo de relacionamento internormativo obedece a um outro vetor. naturalmente. insista-se no juízo. Duas caracterizadas unidades jurídico-positivas então se formam: a primeira unidade.9.4. 4. a uma outra diretriz. Os princípios como normas interreferentes 4. Como a precedência operacional é sempre da Constituição. 4. sim.8. Mas a Constituição consegue ser. os seus comandos são interpontuais.9. É por ser a Constituição um sistema que o Direito em sistema se transfunde. no sentido de que uma não retira da outra o seu fundamento de validade. dele excluídos. Dentro da Constituição. o Direito não é.8. Fora da Constituição.8. Realmente. o que nos cumpre aduzir é patente: a Constituição não faria do Direito em geral um conjunto.4. Noutro modo de dizer coisa igual. Da Constituição rígida para dentro. tem que se acoplar à Constituição. "não pode haver fronde em ordem com raízes em desordem". A Constituição como sistema ou ordenamento por virtude própria 4.8. todo ele cimentado na rigidez formal e conseqüente superioridade da Constituição. 4. uma unidade sistêmica. Todas elas têm o mesmo caráter impositivo e a mesma hierarquia. uma unidade sistêmica do tipo formal e materialmente hierarquizado. já agora ao lado do Direito infraconstitucional. Voltando a trabalhar com o modelo cabalmente hierarquizado de unidade jurídica. o parâmetro de interação das normas constitucionais originárias consigo mesmas reside é na dualidade temática princípios/regras ou princípios/preceitos (regras comuns são preceitos.1.8. se. já o vimos. um todo congruente de prescrições.3. com as normas veiculadoras de simples preceitos. a segunda unidade. antes. no interior da própria Constituição. o método sistemático ou contextual de exegese muda de perspectiva quando tenha por objeto uma norma originariamente constitucional.2. A dualidade princípios/regras como base da nova Hermenêutica da Constituição 4.1. Não é por ser o Direito um sistema que a Constituição em sistema se transfunde.5. agora sim. a um só tempo. o hermeneuta já não pode se servir desse tipo de critério.1. um todo congruente de prescrições ela não fosse.

que faz parte do esquema em que se viabiliza o princípio da Independência e Harmonia dos Poderes).1. mantém a unidade material dessa mesma Constituição. porém. Ter-se-á. Verbi gratia.2. o veto presidencial a projeto de lei. 4. se o princípio é daqueles que se definem por oposição a outro. a dicotomia princípio/subprincípio (como se dá entre o mesmo princípio republicano e o princípio da moralidade administrativa). Recolocando de forma ainda mais precisa a idéia.9. um Ordenamento de traço hierárquico. Separação dos Poderes. os atos e fatos pontuais que se verbalizam em cada preceito (por exemplo. Ao contrário. diferentemente do que sucede com as normas-princípio. de par com o valor que lhe adensa a individualidade enquanto norma. diríamos: as normas principiológicas não consubstanciam meios ou providências (estado-pontual-de-coisas).4. isto é. A relação entre as duas categorias (princípios e preceitos) é de continente para conteúdo. que são direitos subjetivos instrumentais de direitos subjetivos materiais). verbi gratia.). uma norma preceitual não leva a outra da mesma natureza.13 4.9. e quando o faz é numa dimensão muito modesta. no exterior da Constituição rígida..1. Pluralismo Político. com as garantias constitucionais. propriamente. com um direito subjetivo perante outro (não assim. que são normas de acentuado recheio fático e não-referidas.1. para a sua própria causa.2. no interior da Constituição rígida. ou de outros. E assim enxergando. Ora bem. um Ordenamento de vinco axiológico.4. que são fins em si mesmos.3.. 4. é óbvio que ele se define por oposição ao princípio da "função social da propriedade". República. Com o que se tem. o princípio da impessoalidade (significando o dever que tem o Administrador Público de aplicar a lei sem incorrer em promoção ou marketing pessoal) é logicamente dedutível do princípio republicano (de res publica). Já o princípio da "propriedade privada".2. ambos têm a mesma dignidade sistêmica e por isso nenhum deles pode ser considerado um subprincípio do outro (e a primeira contraposição que nos ocorre é a do princípio da liberdade de informação frente à intimidade e à vida privada das pessoas naturais).9. como sucede. que termina sendo uma relação entre a fumaça dos preceitos e o fogo dos princípios . há fogo". Tudo isto assentado. o outro. ou fracamente referidas a outras normas-preceito. cada princípio concorre para a significação de outro.9. Dignidade da Pessoa Humana. É que as normas principiais consubstanciam ou tipificam valores (Democracia. entretanto.14 4. Nesse estado-de-coisas é que vão pousar as normas-preceito. quer dizer. para o alcance de valores. E os valores são quase sempre dialogantes ou interreferentes. no sentido de que "onde há fumaça. conclua-se que é ao influxo de critérios axiológicos ou valorativos que a interpretação sistemática vê a realidade de cada norma da Constituição. então. Ordenamento de vinco axiológico versus Ordenamento de vinco hierárquico 4.9. É raciocinar: os valores que se contêm nos princípios atraem para o seu próprio serviço. Quer por efeito de complementação. se o princípio constitucional é daqueles que tem sua inter-referência marcada por complementação.2. um deles será o principal e.2. quer por efeito de contraposição. Ele apenas quer traduzir que. os valores interagem fortemente e ainda são exigentes de um estado-de-coisas ora mais ora menos concreto para a sua realização. Elas são esses .1. Advirta-se..9. Cidadania. secundário. que o diálogo interprincipial não infirma o significado próprio ou autonomizado de cada princípio dialogante.

porém de mais dilargado raio de alcance material (pela sua maior densidade valorativa). Mas é inegável que toda a principiologia fundamentante de uma Ordem Jurídica se inicia com a Constituição e daí é que se esparrama pelos demais setores do Direito. É claro que não apenas a Constituição encerra princípios. mas que somente é da Constituição (por ser conatural a ela. bem no topo da pirâmide axiológica (não-hierárquica) da Constituição.9. o qual determina que se observe a interdependência das diversas normas da ordem constitucional.9.9. exclusivamente. Para o eminente catedrático da Universidade de Madri. 4. expressos em outras normas. aquela superidéia central de Direito. 4.9. as normas-princípio.3.7. Legalidade. E lá. que o intérprete vai revelando o caráter sistêmico ou orgânico dela própria. fincando uma base de coerência material que é o apriori lógico da formulação de um pensamento dogmático. do tipo material ou conteudístico. de modo a que formem um sistema integrado. onde cada norma encontra sua justificativa nos valores mais gerais. Dentro da Constituição. o valor-continente por excelência. em suma. É uma dualidade que pode estar no outros diplomas jurídicos. p. Desenvolvimento. tem a possibilidade de conferir a todas às suas normas um sentido de ordem ou estrutura. E assim de preceito para princípio e de princípio menor para princípio maior.5.4. Em qualquer das duas suposições. 4. É como dizer: as normas-princípio conectam outras normas e assim formam um conjunto que vai possibilitar a própria formulação de um pensamento dogmático ou científico sobre esse conjunto. portanto. É subindo dos valores menores para os valores maiores da Lei das Leis. 2). são as normas-princípio que fazem da Constituição uma densa rede axiológica de vasos comunicantes. A tradução formal deles (Federação. o valor-síntese. até chegarmos ao mais alto desses valores. `fórmula política de uma Constituição é a expressão ideológica que organiza a convivência política em uma estrutura social'" (texto remissionado. Nesse valor constitucional de estatura suprema o jurista espanhol PABLO LUCAS VERDU apõe o rótulo de "fórmula política". naquilo que PABLO LUCAS VERDU chama de fórmula política. insista-se no fundamento). sucessivamente. a Constituição auto-irroga-se a virtude da unidade sistêmica. Diferentemente das normas-preceito. etc. Logo.valores mesmos.9. são elas que tornam o Direito uma casa arrumada. 4.2. expresso na decisão fundamental do constituinte.2.2. Soberania Popular. em contraposição à unidade concomitantemente formal e material do Direito pós-Constituição. que está para os demais valores como um dado ponto inicial e fixo no espaço está para a alavanca de ARCHIMEDES. que não têm ou quase sempre não têm a pretensão de enlaçar a si outras normas. sejam as que vimos chamando de preceituais. o exegeta vai encontrar o valor dos valores. por eles.6. e. Com efeito. cada norma vai buscar a sua justificativa axiológica e a sua raison d'être operacional em outra norma. além de atribuir unidade axiológica ou . Daí por que têm a particularidade de irradiar o seu conteúdo exclusivamente axiológico para outras normas gerais. retomando as clássicas lições de KONRAD HESSE sobre a tópica hermenêutico-constitucional: "O primeiro e principal princípio é o da unidade da Constituição. assim referido nestes comentários de WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO. Uma unidade material ou de substância.2. Moralidade Administrativa. Como inegável também é que sem a dualidade princípios/preceitos não há como conceber a natureza mesma da Constituição enquanto rígido modelo de Direito Positivo. e assim sucessivamente. sejam mesmo aquelas veiculadoras de princípios menores ou subprincípios. não de hierarquia superior.2.15 4.).

valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. etc. familiar.10. econômico.material à Constituição rígida. moralidade. militar. Naquele núcleo. como é da natureza da vida mesma. A peculiar estrutura conceitual dos princípios constitucionais 4. pelo povo e para o povo" (e que foi consagrada pela Carta de Outubro.3. A parte atual é de pronto formada com os dados-de-compreensão que afloram da própria tecnicalidade constitucional.5. enquanto a outra. essa é a parte que passa a legitimar todo tipo de alteração constitucional . como fator de estabilidade e de atualização constitucional.10.). isto é. 4. O núcleo impermeável é aquele que situa a Democracia no rigor lógico da famosa definição lincolniana. a teor do parágrafo único do art. religioso. Com efeito. a operatividade da parte nuclear desse princípio mesmo). para a imutabilidade. a possibilidade de mudança. 4. venha a rigidez a fazer das normas constitucionais conceitos jurídicos estratificantes. obrigando a que toda mutação da Constituição apenas se dê ao nível das emendas e revisões. que sai da platéia e passa a ocupar o palco de todas as decisões governamentais que lhe digam respeito.10.10.. no recôndito de cada princípio mesmo e o atrito se resolve por uma solução endógena de compromisso que leva a Constituição a mudar para permanecer idêntica a si mesma (na medida em que a mutabilidade na periferia do princípio se faz é para robustecer. 4. Logo. um caminhar para frente. É que certos princípios (dignidade da pessoa humana. dignidade da pessoa humana. incluímos até mesmo a Democracia como possuidora do referido núcleo que é impermeável a mudanças e de uma periferia permeável. a imutabilidade. Eles fazem da Constituição um documento processual por excelência e que é o processo? Um seguir adiante..10.10. segundo a qual "Democracia é o governo do povo. fazendo com que a Lei das Leis ganhe essa possibilidade de se ajustar mais facilmente à irrupção de fatos novos ou a novas valorações de fatos velhos. os princípios de que falamos (cidadania. valorização do trabalho. 4. ambivalentemente. no âmbito de sua própria circunferência semântica..4. como deslocamento espacial ou topográfico do povo. 4. Há como que uma dialeticidade no próprio interior de certos princípios. Já a periferia do conceito. portanto.1. desenvolvimento nacional. Com o que os princípios axiais da Constituição operam. moral. 1° e mais o artigo 3°). Democracia. pluralismo político.. Na periferia.) se traduzem numa materialidade ou estrutura conceitual que em parte é atual e em parte é prospectiva. eficiência.) ostentam um núcleo e uma periferia em sua própria circunferência deôntica. A parte futura é aquela que vai buscar o seu conceito no modo como o povo passa a sentir e praticar o discurso normativo-constitucional ao longo do tempo. O que estamos a enfatizar é que determinados princípios têm uma parte de si como janelas abertas para o porvir. combinadamente com todos os incisos do mesmo art. ou assegurar. 1°. concorrem para impedir que a própria rigidez venha a significar impermeabilidade conceitual dos valores de berço constitucional. sem necessidade de o intérprete recorrer a elementos de compreensão que se situem no plano do sistema social genérico (sistema político. Desde que tal mudança tenha o significado de aumentar a perspectiva de funcionalidade do núcleo mesmo. é uma parte vocacionada para a mutabilidade. dotando a Constituição de plasticidade para se adaptar à evolução do modo social de conceber e experimentar a vida. Por este modo de ver o fenômeno da principiologia constitucional.2. A tensão entre permanecer incólume e experimentar alterações ocorre no imo.

Todos esses princípios. . aqui inseridas as universidades (para repetirmos antigo e sempre atual conceito da Democracia como divisão do poder. 4. Por isso mesmo é que preferimos dar conta da matéria no capítulo que vem de imediato. Atenuando. de sorte a colocar a Constituição em dia com os fatos sociais. a necessidade de alteração formal das normas constitucionais e contornando as dificuldades processuais que são próprias da reforma de tais normas. promovem a abertura das janelas da Constituição para o mundo circundante. 4. que.6.7. Noutra linguagem. Ainda estamos bem longe de explorar o potencial teórico dessa dualidade básica princípios/regras. com o nome de "A DUPLA CENTRALIDADE DA CONSTIUIÇÃO E DOS SEUS PRINCÍPIOS". de tão metodologicamente importante. a assimilar toda mudança que signifique proliferação dos núcleos sociais de participação na riqueza nacional e até no saber que se produz nas escolas oficiais. assim.10.10. os princípios são os elementos que mais contribuem para dotar o sistema constitucional de uma espontânea flexibilidade ou jogo de cintura (permitimo-nos o prosaísmo da expressão). controle e fiscalização do Governo. da riqueza e do saber). Diga-se o mesmo da Democracia material ou de substância.formal que venha a se traduzir em descentralização ou desconcentração da autoridade política e em ampliação dos espaços de participação popular na escolha dos governantes e no exercício. se tornou a nova base da Hermenêutica da Constituição. então.

1. pensamos avultar a ontologia dos princípios constitucionais materiais como normas: I . pela clara razão de que operam de ponta a ponta do Ordenamento. Servindo mesmo como perene critério de interpretação de princípios menores (subprincípios) e.1. princípios constitucionais materiais: a) conferem unidade material à Lex Maxima.4. que a ausência da lei não implica ausência do Direito. pensamos que eles são basicamente dois: a) o princípio da rigidez formal. já é antecipadamente qualificada como juridicamente permitida. seja por complementação.axiológicas ou consubstanciadoras de valores. E que o Direito é maior do que a lei. Já no plano das funções. A identificação de todo o Texto Magno com o seu princípio maior 5.inter-referentes. com mais razão. pois a conduta humana não-legislativamente imposta. b) estabilizam e ao mesmo tempo atualizam a Constituição. A Democracia como o valor constitucional por excelência 5.1. 5. As conseqüências lógicas da Constituição enquanto suma de princípios 5. 5.5.1.1. cumpridores de uma função instrumental. nesta segunda variante.3. exatamente porque prescindentes da lei quanto às suas expressões ou manifestações conteudísticas. e não apenas no interior de um determinado ramo jurídico.2.1.2. O ser da Constituição e seus valores mais próximos 5. que é uma função unificadora.onivalentes.6. V . Mas a doutrina norteamericana. não deixa de embutir nesse rol dos princípios constitucionais instrumentais a interpretação conforme a Constituição e a presunção de constitucionalidade das leis. eles. . A ascensão dos princípios como supernormas de Direito 5. E nesses dois planos da ontologia e da funcionalidade é que as normas-princípio são dotadas de mais elevada estatura sistêmica. II . A eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica 5.8. 5. Do quanto discorremos no capítulo precedente sobre a dicotomia básica princípios/preceitos. Ontologia e funções dos princípios constitucionais 5. de regras ou preceitos. seguida de perto pela doutrina alemã. se considerarmos pelo menos o princípio constitucional de que "ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei" (legado imperecível do constitucionalismo liberal). portanto. Graças à natureza e à funcionalidade dos princípios materiais da Constituição.7.autoconceituáveis (no sentido de que seus conteúdos ou elementos de definição já constam da própria Constituição. inquestionavelmente. é que se pode afirmar que norma jurídica é uma categoria maior que regra.5.Capítulo V . A necessária interpretação restritiva das normas constitucionais sobre o Poder Reformador 5. 5.auto-aplicáveis.1. A significar.4. de um caráter eminentemente dinâmico ou processual. IV . III . b) o princípio da supremacia da Constituição. ou não proibida. dotando-a.1. seja por contraposição.A Dupla Centralidade da Constituição e dos seus Princípios Sumário 5. Ontologia e funções dos princípios constitucionais 5.3. dessarte. Quanto aos princípios constitucionais de natureza formal.

E do labor de jurisconsultos do porte de um MARSHALL e. possível não era a conceituação de cada qual deles. Passaram a garanti-los.2. O que levava à subeficácia da própria Constituição. Veja-se que as primeiras Constituições escritas. E foi justamente essa vontade coletiva de embutir nas Constituições regras e subprincípios densificadores de princípios materiais de superior envergadura (axiologica e funcionalmente) que as Magnas Cartas passaram também a normatizar assuntos que até então eram próprios de outros ramos jurídico-positivos. 5.2.1. 1918 e 1919. Contudo. ou mesmo em regras comuns suficientes. ou seja. era impossível conceituar cada princípio constitucional a partir de elementos encontradiços na própria Constituição. destarte.6. Assim como o Direito "não é filho do céu" (TOBIAS BARRETO). naquilo mesmo em que a Constituição mais devia reluzir: a sua principiologia.5. Tudo resultando na supereficácia da própria Constituição. A nova práxis ou fenomenologia constitucional-positiva que foi tomando corpo. em matéria de direitos subjetivos oponíveis ao Estado.2. os princípios jurídicos não surgiram de uma noite para o dia.2. acrescente-se. somente continham direitos individuais.2. como subnormas. com o tempo. no bloco dos países constitutivos da Civil Law. já nos anos de 1917. RONALD DWORKIN (cuja distinção entre regras e princípios jurídicos é o que existe de mais recorrente nos dias atuais). Toda essa mudança de paradigmas no âmago das Constituições filiadas ao sistema romano-germânico do Direito muito deve. foi a da supereficácia das normas-princípio. elas declaravam tais direitos. E sem se conhecer o conteúdo ou os conteúdos de cada princípio constitucional.notadamente os materiais -. mas um produto da História. E só depois da Declaração Universal dos Direitos do Homem (Organização das Nações Unidas) é que as Leis Fundamentais de cada povo soberano foram ganhando uma funcionalidade fraternal (pelo decidido combate aos preconceitos sociais e pela afirmação do Desenvolvimento. o modo legislativo de escrever as primeiras Constituições ocidentais era muito parcimonioso. É igual a dizer: os dispositivos constitucionais não se desdobravam em subprincípios. 5. Ora. 5. da Rússia e da Alemanha.2. Deveras. que já é uma função verdadeiramente transformadora ou emancipatória. mormente os fundamentais ou estruturantes do Estado e do Governo.7. Princípios expressos havia . respectivamente). os princípios eram tidos.2. porém a excessiva economia de dispositivos e até dos vocábulos em que tais dispositivos se vazavam impedia a indicação dos conteúdos de cada norma principiológica. 1991) e de um .4.5. graças à atuação normativamente integradora e até inovadora da Suprema Corte de Justiça americana. Ainda assim.3. mas não os garantiam. ao lado da crescente constitucionalização do Direito infraconstitucional. do meio ambiente e do urbanismo como Direitos Fundamentais). 5. a autores do porte de um KONRAD HESSE ("A Força Normativa da Constituição".2.1 5. mas não se dispunha a dar conta dos direitos sociais (invenção do constitucionalismo do México.2. por falta de indicação conteudística. mais recentemente. Tinha-se que recorrer ao Direito infraconstitucional. A ascensão dos princípios como supernormas de Direito 5. foi preciso que a evolução começasse com a robustez disposional e vernacular de cada princípio constitucional. no plano da eficácia. 5. Essa fenomenologia das Constituições esquálidas não embaraçou a evolução do mais importante país da Common Law (os EUA). Eles foram evoluindo com o próprio tamanho das Constituições e a forma jurisprudencial-doutrinária de interpretá-las.

3.8.9.3. ele. valor-síntese. 5.3. 5. o valor-síntese da Constituição. a "fórmula política" de VERDU outra coisa não é.ROBERT ALEXY ("Teoria de los Derechos Fundamentales". E se aos princípios era recusado o status de verdadeiras normas. pois o fato é que o reconhecimento da força normativa dos princípios coincide com o reconhecimento da força normativa da Constituição.4. Em síntese.2. 5. ou o gene do qual decorrem os mais vivos traços fisionômicos dos demais valores constitucionais.2. O valor-continente por excelência. A sua quintessência. Aceita que seja a dicotomia princípios/preceitos como da essência das atuais Constituições do tipo formalmente rígido. Esse movimento ascensional-interno tem um compromisso racional com um dado ponto de chegada. Por ser o valor constitucional primário (gene). agora eles se elevam ao patamar de supernormas de Direito Positivo.3. senão o próprio ser da Constituição.3. E assim recamada de princípios que são valores dignificantes de todo o Direito. esse princípio dos princípios mantém com a Constituição.2. mais que uma relação de pertinência. É que o valor-dos-valores.3. Aquilo que a Constituição é. à sua dignidade formal a Constituição adicionou uma dignidade material.5. 5. O que já significa dizer: caso extirpado da Constituição.3. 5. para nós. estava criado o clima constitucional propiciador da dicotomia básica princípios/regras (ou princípios/preceitos) e o fato é que. A identificação de todo o Texto Magno com o seu princípio maior 5.1. 1977). ambos da Alemanha. acima de tudo. tanto quantos os princípios passaram a ocupar a centralidade da Constituição. Estrada de mão dupla. É de conveniência didática a repetição: caso extirpado do Magno Texto o valor . é precisamente aquele cuja existência é a principal justificativa material de quase todos os demais valores. Por um desses fenômenos desconcertantes que timbram a trajetória humana. que dentro da Constituição não conhece outro que se lhe iguale em importância funcional-sistêmica. uma relação de inerência: ele é ela mesma. se as Constituições padeciam de subeficácia pelo seu caráter principiológico. Esse valor-teto. um novo salto de racionalidade já pode ser intentado: aquela característica do movimento ascensional-endógeno de fatos para valores e de valores de menor porte material para valores de maior envergadura igualmente material (tema do capítulo anterior) termina por fazer da Constituição algo plenamente identificado com o seu princípio de maior abrangência. que mais e mais insistiram na metodologia hermenêutica de reconhecer à Constituição o máximo de aplicabilidade por si mesma. inelutavelmente deflagraria sobre a quase totalidade dos demais valores uma mudança qualitativa de tal ordem que chegaria às raias de um mortal efeito dominó. foi justamente pelo seu caráter principiológico em novas bases que elas passaram a se dotar de supereficácia normativa. ela mesma é ele.2 5. é que ela passou a ocupar a centralidade do Ordenamento Jurídico. Isto porque o auto-impulso axiológico da Magna Lei de um patamar inferior para um patamar superior não é de se perder no infindável. 5. Sendo que ALEXY foi quem retomou os fundamentos de RONALD DWORKIN para evidenciar as diferenças qualitativas entre normas veiculadoras de princípios e regras portadoras de simples preceitos. num crescendo que chega à superforça de ambas as categorias. que é o valor para além do qual não pode haver outro senão já totalmente situado no mundo das coisas metajurídicas.

que é o mundo das evanescentes lembranças do que já existiu.4. ou seja. Além de justificar em todo o art. de imediato. Incorpora-se ao passado. Por que não repetir? Se o princípio por excelência é o que mais repassa a sua materialidade para os outros. com o tempo. a simbolizar que ele mesmo é quem escreve a sua história de vida político-jurídica e assim toma as rédeas do seu próprio destino. expresso na idéia de que a maioria do corpo eleitoral de um País é quem faz o Direito comum a todos. na pia batismal do mais límpido voto popular . Deixa de ser resignado objeto de formal produção normativa de minorias (retratadas. 1° da Carta de 1988) e em toda cláusula pétrea explícita da nossa atual experiência constitucional (incisos de I a IV do § 4° do art. sendo o princípio dos princípios o próprio ser da Constituição.que é a própria síntese da imensa maioria dos demais. tudo o mais vai lhe faltar. reserva para si o poder de selecionar eleitoralmente os governantes. sobranceiro.que não fizesse da Democracia a alma da Constituição por ele promulgada. a sua extirpação implicaria o absurdo de apartar a Constituição de si mesma. isto é. esse megaprincípio é o da Democracia. 5. em essência. ou dos mais velhos. É do nosso pensar que o ser das Constituições ocidentais. 5. 5. ou dos mais "nobres". Ou o caráter holístico de tais Constituições. 5. do que já se despediu da vida. pela casta dos mais valentes. e. assim no Estado Democrático de Direito como no Estado de Direito Democrático. ou dos mais patrimonializados. É como dizer: faltando à Constituição o seu próprio ser. seja por forma direta ou participativa. de cujo casamento por amor resulta o ansiado Estado de Justiça. a começar pela mais importante das decisões coletivas. esteja na Democracia.4. a começar pela feitura da própria Constituição. 60 da mesma "Constituição-cidadã"). no inequívoco sentido de troca de lugar ou mudança topográfica do povo. Da mesma Constituição já não se cuidaria. Democracia. da Constituição em sentido material).2. Por isso que ele transluz em cada um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (incisos de I a V do art.1. portanto. Mas que valor-continente é esse? Que nome dar a um princípio que se coloca.3 5.4. E Democracia. pois. É exigência da verdade o dizer-se que nos países do Ocidente não se conhece um só colegiado constituinte de livre investidura eleitoral . 3º do mesmo Diploma Fundamental. ao menos daquelas nascidas do ventre de uma Assembléia Nacional Constituinte. em rigor.4. à frente de toda a principiologia constitucional? Vejamo-lo. A Democracia como o valor constitucional por excelência 5. nunca deixa de dividir com eles algumas funções de governo e ainda passa a controlar o modo pelo qual tais .ungido. concomitantemente. que da platéia passa para o palco das decisões que a ele digam respeito. ou dos mais hábeis em curas médicas ou pregações religiosas. pois a Constituição deixa de fazer parte das coisas presentes. no curso da história humana. o povo a sair da passiva posição de espectador para a ativa posição de ator político. mas sempre u'a minoria) para fazer prosperar o que se tornou símbolo de status civilizatório: o princípio majoritário. quem tem a força de subir ao podium das decisões coletivas de caráter imperativo.6.5. Tanto na Democracia formal quanto na material.4. pois. é o nome que assenta para o fenômeno da subida do povo ao podium das decisões coletivas de caráter imperativo. ou dos mais "cultos".3. o que mais se faz presente na ontologia dos demais princípios. 5. seja por forma indireta ou representativa. praticamente nada restaria. Ora. desse mesmo Texto. que é "a decisão política fundamental" (locução de que se valia CARL SCHMITT para falar do ato de vontade gerador da Constituição e.4.3.4.

falemos assim . nos marcos da Constituição. sejam quais forem os conteúdos dessa leis. a Democracia ganha a suprema virtude de legitimar por todos os ângulos o Poder. Passagem ideal de uma situação de democracia do Estado (no interior dele) para uma situação ainda mais abrangente de democracia na intimidade de todo o corpo social. 5. a Democracia. criticamente. b) nas cúpulas do poder estatal e até mesmo das instituições privadas. compreende e legitima a produção em si de todas as leis em sentido material. não é difícil perceber que a Democracia é o único valor que perpassa os poros todos da axiologia constitucional (valor subjacente a tudo o mais).da circunferência democrática. com a virtualidade de atuar ao mesmo tempo: a) nas bases do corpo social e das próprias instituições públicas e privadas. que. no sentido de que: a) enquanto processo ou via de formação e deliberação de norma jurídico-primária (Democracia Formal). Com o que passa a regime político de irrespondível superioridade sobre qualquer outro já experimentado (como a licitação e o concurso público. tanto quanto os princípios constitucionais estão no centro da Constituição e a Constituição está no centro do Sistema Jurídico. de manifestação da própria consciência humana. com o transcorrer dos anos. É a chamada Democracia Formal ou Estado Democrático de Direito. incorpora a positivação de valores que se marquem por uma densa vertente popular (tanto no campo institucional como na área das franquias individuais e dos direitos sociais). 5. para valorizá-las. Que fique assentado. da produção e execução do Direito) e uma coloração material (compromisso das normas jurídicas gerais com a defesa e promoção dos indivíduos e daqueles que só podem ser concebidos como parcelas do todo social). b) enquanto fim ou objetivo de toda norma jurídico-primária mesma (Democracia Substancial). Assim incorporando uma dimensão processual (modo pelo qual o povo participa. acima de tudo.9. em um ritmo ora mais lento. popularmente votada. ora direta.10.7. Com o requinte de muitas vezes clausular como pétreos aqueles valores mais próximos do centro . Que o fechamento deste tópico seja a afirmação de que a teoria constitucional já dispõe de todos os elementos lógicos para reconhecer até mesmo uma tríplice . como o regime pelo qual o povo passa a eleger seus governantes. portanto. a democracia não está isenta de defeitos.5. 5.governantes se desincumbem do mandato ou do papel institucional que lhes é confiado. O ser da Constituição e seus valores mais próximos .4. O mérito de domar o poder e assim torná-lo serviente do Direito.4. 5. o modo de execução desse mesmo Direito.4.4. Mas o fato é que nenhuma Constituição ocidental. ora mais rápido.centralidade: a Democracia está no centro dos princípios constitucionais. de sorte a desenhar nos horizonte da História o altaneiro perfil da Democracia Substancial ou "Estado de Direito Democrático" (a Constituição portuguesa de 1976 bem o diz. ora indiretamente. Chegando-se a este patamar de intelecção.4 5. E aí já se pode falar de Democracia. porém nenhum povo conseguiu vivenciar algo melhor).8.4.6.e não apenas dúplice . ser a Democracia um fluxo ou movimento ascendente do Poder (visto que parte de baixo para cima e não de cima para baixo). 5. É certo que o teor de autenticidade democrática varia de cada experiência constitucional-positiva para outra. deixa de dizer que está a reverenciar. mais e mais serve de condição para que o Direito se caracterize também por uma vertente popular. para limitá-las perante as respectivas bases. nominalmente). a partilhar com eles o exercício do poder de criar o Direito e a acompanhar.

os fundamentos da nossa República Federativa são os cromossomos nos quais se contêm os próprios genes ou suportes materiais da hereditariedade estatal brasileira.5.5. II .3. sob as denominações de "forma federativa de Estado". o visual do todo inda mais aclara a visão de cada parte. deve-se prestigiar aquela que melhor assegure a eficácia do princípio que mais proximamente esteja do ser da Constituição (e tal ser é a Democracia. 1°. porque ele é uma porta aberta para a compreensão de cada parte da Lei das Leis e de todo o conjunto normativo-constitucional. Logo.5. Vale dizer. Em linguagem figurada. "voto direto. universal e periódico". secreto.se o pensamento se volta para a instituição do princípio da Separação dos Poderes. Esses valores mais próximos do núcleo da circunferência democrática têm nas atuais Constituições de Portugal e do Brasil uma indicação mais precisa. como tantas vezes dito). 5.5 5.5. eles passam a gozar de uma posição intra-sistêmica do mais alto relevo.se tomarmos por referência a Federação como forma de Estado. "valores sociais do trabalho e da livre iniciativa" e "pluralismo político". Entre duas interpretações possíveis de uma norma constitucional. E sendo assim.4. portanto. Escolhendo a do Brasil como paradigma. Esses valores mais próximos do centro da Democracia. 5. na acepção de que o povo nacional tem o poder de se decompor em unidades territoriais que se caracterizem pela personalização jurídica. vamos encontrá-los expressamente citados nos incisos de I a V do art. III . perceberemos que ela tem a sua mais funda justificação no fato de a Democracia incorporar um ingrediente de divisão espacial do poder político. Aquilo que se põe como justificativa prévia e explicação final da arquitetura estatal que substituiu o modelo autoritário da eufemisticamente chamada "Revolução de 1964". não territorial.1. Ilustremos com a própria Lei Maior de 1988: I . Se o visual interligado das partes projeta a imagem do todo. estamos a lidar com "fundamentos" que outra coisa não são que princípios antecedentes a tudo mais que signifique nova montagem e funcionamento do Estado brasileiro em termos republicanos e federativos. especifica ou topicamente revelado nos valores que tais. "dignidade da pessoa humana". É preciso intuir com essa força de gravidade do ser da Constituição. como advertiam LOCKE e MONTESQUIEU. pois toda interpretação normativa que os confirmar será uma "interpretação conforme a Constituição". a dedução flui no mesmo passo: a democracia postula mesmo a distribuição do poder político por um vetor complementar. "cidadania". é pela imperiosa razão de que tais fundamentos são os pressupostos mesmos ou o a priori lógico da construção e balizamento de todo o Estado brasileiro. pois o contrário é seco autoritarismo ou ditadura do Poder preponderante (sempre o Poder Executivo). autonomia governamental recíproca e indissolúvel atrelamento a uma terceira pessoa estatal abarcante de todas elas. Também assim no § 4° do art. Se estamos a qualificar os fundamentos da República Federativa do Brasil como elementos conceituais da Democracia. uma interpretação conforme o ser da Constituição. "separação dos Poderes" e "direitos e garantias individuais". ou seja. é preciso ratear o poder político entre os órgãos estruturais de uma mesma pessoa político-estatal em bases tão independentes quanto harmoniosas. com os nomes de "soberania". ao lado das cláusulas pétreas materiais expressas. como anteriormente falado. concebemo-los como os principais conteúdos ou as principais manifestações dela mesma.5.se se intenta colocar no cerne da reflexão jurídica a figura mais abrangente da .2. 60. mas orgânico.

repita-se) e um dos mais palpáveis conteúdos da Democracia. todo ser humano deve passar ao largo de controle estatal (não é de contenção do poder estatal que primeiro vive a Democracia?). constituindo-se mesmo numa totalidade em si. quem os represente no papel de definir o que seja melhor para todos e como operacionalizar tal decisão (logo abaixo da Constituição. não há concreta vivência dos direitos e garantias individuais sem o desfrute de franquias trabalhistas que possibilitem ao trabalhador e respectiva família um auto-sustento econômico. realmente. Sendo assim. -. IV . se adensa. locomoção. também expressamente arrolados como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. vai-se notar que o laço entre eles e a Democracia é igualmente umbilical. pois a proclamação de tais direitos e garantias é o reconhecimento formal de que todo ser humano não é somente parte de algo. se o indivíduo não ganha sequer o suficiente para alugar uma residência? E o direito igualmente individual do sigilo da correspondência epistolar. mas algo à parte. entenda-se). ou da comunicação telegráfica. E por detê-la. de que serve o direito individual de inviolabidade domiciliar. E conteúdo tão palpável que nos parece verdadeiro afirmar o seguinte: o próprio entendimento do que seja dignidade da pessoa humana depende de um ar de liberdade pessoal e de pluralismo ético-ideológico-religioso que somente se respira em atmosfera democrática. saúde. eleitoralmente. associação.enfim. religião. Daí o vínculo funcional entre a dignidade da pessoa humana e os chamados direitos e garantias individuais.República. 1° da Constituição brasileira de 1988.). não pode deixar de se traduzir em respeito do todo (seja o Estado. pois Democracia. mas um todo à parte. a par de outros conteúdos. conjuminadamente. e até se plenifica pela idéia de uma partilha direta do poder político entre governantes e governados. a toada não muda se o alvo desse tipo de análise teórica se deslocar para "os valores sociais do trabalho". E que tais representantes só podem permanecer como representantes do povo por um determinado período e debaixo de uma responsabilidade político-jurídica de caráter pessoal. por hipótese. Não apenas parte de um todo. somente eles podem escolher. transporte. de novo a justificativa para a positivação da matéria se encorpa. ao lado dos direitos sociais à habitação.pensamento. Passar ao largo de controle estatal como condição de respeito a uma dignidade que não tem outro fato gerador que não a humanidade mesma que mora em cada indivíduo. e. educação. preferência sexual. seja até mesmo o conjunto da sociedade) àquelas inatas diferenças de cada indivíduo. Noutra forma de expor as coisas. no sentido de que são os governados que detêm a propriedade da coisa pública ou a titularidade dos interesses gerais. pois. trabalho.6 IV . se a pessoa vive "debaixo da ponte" e a ponte não se presta como endereço oficial de ninguém? As prefigurações pululam em nossa mente e nos lembramos de que até . cada indivíduo é por natureza diferente dos demais e no que toca à experimentação de sua natureza em certas áreas de atividade . Foi o ponto de compreensão a que finalmente chegou o nosso constitucionalismo. Donde se falar de convivência com os contrários ou respeito às minorias. etc. etc. Daí também o necessário vínculo entre os direitos e garantias individuais e a Democracia. Se não há Democracia sem a devida observância dos direitos e garantias individuais (veículos formais do princípio da dignidade da pessoa humana. da Ordem Econômica e da Ordem Social de que trata a Carta de Outubro. é no reconhecimento de cada indivíduo como um microcosmo que se intui com o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana (inciso III do art.se o eixo do pensamento especulativo já se volta para o rol dos direitos e garantias individuais.

de modo a compor o capítulo que tem por designação vernacular "DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS" (CAPÍTULO I DO TÍTULO II. o sentido protetivo da Constituição foi de alargar os aspectos do voto popular que ficariam sob o guarda-chuva do § 4° do art.8. Pois é assim por via indireta que os direitos sociais de índole trabalhista. o Constituinte de 1988 não quis petrealizar os deveres individuais e coletivos nem os direitos e garantias de natureza coletiva. Pois bem. os direitos e garantias individuais dispensariam expressa dicção como cláusula pétrea material.5.5.9. por falta de uma casa para morar. Fechamos o parêntese para tornar a falar de Democracia. pelo fato de a Constituição não conter nenhum capítulo ou segmento normativo com o nome "Dos Direitos e Garantias Individuais". no campo dos direitos e deveres individuais e coletivos houve estreitamento. este último sob a denominação "DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS"). Seja algo que supere a própria razão. Contudo. Primeira resposta: em rigor.7 5. 5. isto é. contudo.mesmo o direito individual da liberdade de locomoção perde toda substância se. 5. Tais direitos e garantias foram regrados de mistura ou mescladamente com deveres e também com a realidade das pessoas coletivas. Um parêntese: qual a razão de a Lei Maior de 1988. 5. Todavia. apenas falar do voto popular e dos direitos e garantias individuais como cláusulas pétreas materiais expressas? Como temas insuscetíveis de se tornar objeto de emenda tendente à sua abolição? 5. É possível e até provável (insistamos nas duas palavras) que a Democracia passe primeiro pela consciência antes de chegar . É possível e até provável que a plena compreensão da Democracia não seja um a priori lógico. pelo fato de ele já estar contido no primeiro dos fundamentos explícitos da nossa República Federativa (esse fundamento explícito é "a soberania"). Com o que seguiu metodologia oposta à do voto popular. porquanto já embutidos na locução "dignidade da pessoa humana". Somente se comprometeu com os direitos e garantias genuinamente individuais (em razão do mais direto vínculo entre estes e o princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. o voto popular "universal" e o voto popular "periódico".5. a pessoa for obrigada a zanzar por aí feito barata tonta. então. entenda-se).5.5. Segunda resposta: também em rigor.7. O que ela quis elucidar é que não basta manter incólume de emenda constitucional a abolição do voto popular. Logo. passam a compor um dos conteúdos do regime democrático.6. brigar com a razão. sem. se no campo do voto popular houve alargamento protetivo material. albergados pela Constituição. de fora a parte os princípios da forma federativa de Estado e da Separação dos Poderes. Cuidou. 60. de proceder a um enxugamento ou depuração temática e por isso é que deixou de fora da tutela petrealizadora tudo que não portasse consigo a logomarca de direito ou garantia individual (mas somente nos marcos do capítulo versante sobre os direitos e deveres individuais e coletivos. o que a nossa Lei Maior quis deixar acima de qualquer dúvida não foi a irrevogabilidade do voto popular. o vínculo operacional direto entre o princípio da dignidade da pessoa humana e os direitos e garantias individuais ficou prejudicado em sua clareza redacional. Sabido que a compulsão do perambular já não se coaduna com a idéia de liberdade. o voto popular não precisaria de expressa menção como cláusula pétrea. Mas para tornar a falar de Democracia. O voto popular que a Lex Legum de 1988 teve em mira acautelar de danos foi o voto popular "direto" e mais que isso: também o voto popular "secreto". a fim de lembrar que em nenhum momento nos comprometemos com o juízo de que a sua idéia completa já anteceda à jurisdicização dos institutos e das instituições que nela teoricamente se contêm.5. renove-se o juízo).

1. para ver a Democracia enquanto matéria disponível para um tipo de conformação normativa que tem um componente consciencial ainda maior do que o propriamente racional. Hierarquia suprema.6. 5.6. 5. ou a proceder à margem da pura lógica. que somente começa com a dicotomia básica dos princípios e regras.11. quando se parte mesmo da rigidez formal como a pedra angular do Magno Texto. As conseqüências lógicas da Constituição enquanto suma de princípios 5.5.2.5. o Poder e o Direito. assim. No seu interior. se há um componente consciencial em certas normas de Direito Positivo. em termos metodológicos ou funcionais (não finalísticos). por outra. dentre outras vias de conhecimento que. quem tem a ganhar com isso é o Direito. sem que a noção perfeita e acabada de Democracia esteja no ponto de partida do puro pensamento lógico-jurídico. que é uma via necessariamente recicladora do intelecto. neste ponto fulcral dos princípios genuinamente constitucionais. no exercício e no controle do Poder.à razão. que faz do Direito um instrumento de mera formalização de sua truculência. ousamos verbalizar uma idéia certamente vocacionada para a formação de controvérsias no plano científico. 5. E inaugural do pós-positivismo. são neutras à razão8).6. 5. da a-racionalidade (que é o plano da consciência ou do espírito. Por derradeiro.10. de uma só penada. como que sinalizando para o exegeta a aplicação da conhecida máxima de LACORDAIRE (que outros atribuem a PASCAL): "Ciência sem consciência é ruína da alma". que é a única forma pela qual ele (Poder) se legitima. ela. Seja como for. a norma de hierarquia suprema no todo do Direito Positivo. porém. deve estar presente no instante da interpretação de tais valores. É a rigidez. Ou. Bem. A consciência a ver as coisas primeiro do que a razão. melhor sentir na pulsação do presente as batidas do coração do futuro. consciência. para. já sabemos que a Constituição obtém sua unidade sistêmica por conduto das normas-princípio. E que a vontade assim imediatamente derivada da consciência somente busque a razão como uma forma de justificativa para o que já se decidiu no plano. figurativamente. E quando se dá o contrário? Quando a Democracia não tem o ensejo de se fazer presente naqueles decisivos instantes da formação. a técnica primaz que torna a Constituição a lei das leis. E quais os corolários dessa posição de liderança internormativa? Desse papel eminente dos princípios no interior da Constituição? 5. Quando ela está presente na formação. 5. sintomaticamente chamado de "Ordenamento". Fale-se o que se quiser falar de mau da Democracia. mas não se lhe pode recusar a virtude de qualificar. como visto. nos seres humanos.6. Para desqualificação axiológica de ambos. Somente assim é que a norma se dá a conhecer por completo.5. quem tem a ganhar com isso é o Poder mesmo.13. essa parte elementar do discurso normativo só se deixa conhecer pela via igualmente consciencial do intérprete.12. Inclinamo-nos. alçadas à dignidade operativa de primus inter pares. Tudo fica muito mais claro. justamente.5. que passa a ter no Poder um mecanismo de reverência: o Poder a serviço do Direito. a seu turno.3. que já passa a responder pela unidade orgânica e movimento pendular desse Direito Positivo. o que pretendemos dizer é que valores vão sendo positivados pelas Constituições como conteúdos ou manifestações plúrimas da Democracia. 5. quando da inserção de determinados valores no Ordenamento. A idéia é esta: assim como a consciência deve servir de luzeiro à razão. um . exercício e controle do Poder? Ora. subsidiando ou até mesmo policiando o intelecto.

Por elas. a escolha dos respectivos meios. Sua genérica estabilidade não significa estratificação. que é o Direito subsconstitucional? 5. porém um ritmo de mutabilidade diferente do ritmo das leis em geral. destarte. a que se agregam impessoais programas de governo. em oposição ao ritmo de cada lei menor em particular. Como exigir que o Direito axiológico por excelência.5. um devir. os valores.8. o da imunidade parlamentar e o da responsabilidade funcional (tão característico da República). ela não precisa tanto de reforma quanto o Ordenamento precisa. quer dizer. Ajunte-se que essa característica central da processualidade ou historicidade das Constituições principiológicas só pode ocorrer por efeito de normas consubstanciadoras de concepções filosóficas ou mundividências (tanto no campo ético-humanista quanto no ideológico ou político). como. no jargão midiático e na Ciência da Administração). 5. o princípio da propriedade privada e o da função social da propriedade-bem-de-produção. as grandes linhas de ação governamental já ficam previamente esboçadas.6. quase que tão-somente. então.3. inevitavelmente. Um ritmop preponderantemente endógeno. Um vir-a-ser permanente. 5. cabendo à legislação ordinária. independentemente da ideologia professada pela facção partidária que se encontrar no Poder.6. só que em diferentes ritmos. Ou a colocação de ênfase nesse ou naquele meio já imposto pela própria Constituição. E porque são desse . que é própria da sociedade humana. pelo seu facilitado ajustamento ao corpo sempre cambiante da realidade social.7. verbi gratia. E sendo mais processual por si mesma. já assinalado. É por isso que os Diplomas Fundamentais contemporâneos contêm cada vez mais as chamadas normas programáticas. normas programáticas. tenha a agilidade do Direito factual por excelência. Uma outra nota de especificidade dos princípios constitucionais está no fato. o princípio do pluralismo político e o da fidelidade partidária.mundo de conseqüências teóricas toma corpo e começamos por frisar que são eles que fazem da Constituição um prevalente sistema de positivações axiológicas. Posto ainda de outra forma: sendo a Constituição o mais principiológico dos documentos jurídicos. ela é mais processual por si mesma do que o Ordenamento que nela se embasa. 5. que é um ritmo prevalecentemente exógeno. Estes últimos a fazer da Constituição o mais estrutural dos projetos nacionais de vida. destinadas a parametrar os empíricos programas de governo.6.9. Em diferentes palavras. o da independência dos Poderes e o da supremacia da lei.6. de que uma parte deles se define por contraposição. a concreta política social e econômica do Estado ("políticas públicas". pela sua intrínseca materialidade prospectiva. processual. 5. Todo o nosso esforço comunicativo. sem que o Ordenamento Jurídico experimente a sensação de tontura que sobreviria a uma Constituição demasiadamente refundida no seu aspecto formal. histórica. É concluir: tudo muda no Direito. ditado por outra lei e mais outra e mais outra. à guisa de metas oficiais a alcançar. 5. o da integração do País aos mercados externos comuns e o da soberania nacional. é para evidenciar que a Lei das Leis se deseja fluir mais por conta própria do que por intervenção dos seus atos de reforma. o princípio da valorização do trabalho e o da livre iniciativa. Daí que passem a encarnar valores em estado de fricção potencial ou latente. Positivações axiológicas ou filosóficas ou valorativas.6.6. cuja resultante é ganhar a Constituição aquela compostura dinâmica. tornam a Constituição um processo.6. Ela se prefere dinamizada pela processualidade dos seus princípios estruturantes e é isto o que rebate ou compensa a rigidez formal e material a que se impõe. que é a Constituição.

a sua história e a sua teleologia permitirem. que é um princípio conciliador por excelência.4. essa área de empírico tensionamento entre as normas-princípio da Constituição que PAULO BONAVIDES pugna pelo emprego do que a teoria constitucional vem chamando de "princípio da proporcionalidade". Um princípio que é a decorrência lógica do tensionamento daqueles princípios materiais que se definem por contraposição. suscitam um manejo bem mais cuidadoso dos métodos de hermenêutica jurídica no que toca à seleção daquele princípio que.7. então.6. não faz parte das categorias metajurídicas.11. Por isso que. justamente. esse campo já se define. no ápice do dilema entre reconhecer a pleno-operância de uma norma constitucional e sua dependência de regração de menor estirpe. que não tem sido objeto de realce doutrinário.1. a hermenêutica busca impedir que os espaços de normatividade constitucional sejam indevidamente ocupados pela legislação inferior. Noutros termos.7. Nessa recomendação de imprimir às normas constitucionais originárias o máximo de eficácia que os métodos acima indicados permitirem. 5. porém. A eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica 5. revisão) assim o disser. Mas se a Constituição deixa do lado de fora um dado campo fenomênico. essa matéria só pode decair do status de norma constitucional se outra norma constitucional (emenda. A Constituição é norma em sentido material. que é a Democracia (como tantas vezes dito).9 5. por exclusão. 5.2. numa situação em concreto.7. ao lado de outras peculiaridades da Constituição. a sua logicidade. do tipo instrumental. Ou que menos lesione os princípios correlatos àqueles em concreto estado de fricção. sendo toda norma constitucional uma norma jurídica.7. 5. a opção do exegeta só pode ser pela operância plena da regra maior.5. Em termos técnicos. existe. Mas que.7. 5. ou seja. ao nosso ver. à lei maior deve corresponder u'a maior eficácia. inequivocamente. tem força normativa própria (CONRAD HESSE) e deve ser interpretada de acordo com a sua mais alta hierarquia.3. para cumprir uma função técnica de controle social.6.jeito. em última análise. Ao contrário. 5. como normatizável por lei.10. para que o juiz dos casos concretos sopese os fatos e opte por aquele princípio material que mais próximo estiver do valor dos valores. temo-lo como princípio constitucional inexpresso. pois. tais normas pedem e até mesmo exigem uma correlata especificidade de intelecção ao nível do que vimos chamando de cânones hermenêuticos diferenciados. Exceto se a própria norma constitucional. reconhecer à norma isolada o máximo de eficácia que a sua formulação linguística. deva preponderar sobre o outro. Se a Constituição decide normatizar uma dada matéria. ao medir a extensão do quê de uma norma . pedir o adjutório de regra intercalar para a plenificação dos seus efeitos. Todo este modo especial de ser das normas constitucionais principiológicas repercute (e como!) nos enunciados hermenêuticos. É por isso que o intérprete. qual o principal enunciado que a Hermenêutica recomenda ao processo da interpretação em concreto de uma norma constitucional originária? Pensamos que seja. Isto por que é da natureza da Constituição passar adiante a conformação jurídica da matéria que deixar de regular por conta própria. Este é um ponto central da Teoria da Constituição. Servindo. como postura inicial.7. 5. É para desanuviar.

ora diretamente.7. tiver que enfraquecer competência dos Estados-membros. porque isto seria transformar a lei maior em lei menor e a lei menor em lei maior. a exegese que diminua a esfera de alcance de uma norma Constitucional passa a abrir espaços para uma ocupação normativa de menor escalão.constitucional. O que se traduz em disparatada inversão de valores. E a Democracia política vive é de técnicas restritivas do Poder.ou simples redução que seja . e não de mecanismos ampliadores das competências governamentais para além dos estritos limites da necessidade do exercício delas. 5. da lei interpretada. pois tudo que favorecer à idéia de descentralização de autoridade serve melhor à Democracia.7. no bojo da relação entre a Lei Maior e a lei menor (acabamos de dizer). Por hipótese. mais próxima de tal ser. que é a quintessência mesma da Constituição. Agora. naqueles Ordenamentos que não admitem o chamado regulamento autônomo (como é o caso do Brasil. A contrario sensu. Deveras. Qual a preferência do intérprete? A preferência é pelo fortalecimento eficacial da norma. data venia de respeitáveis opiniões em contrário). a dubiedade interpretativa se extingue pela opção que implicar o prestígio das unidades regionais em que os Estados-membros consistem. por uma lei comum também indevidamente interpretada de modo amesquinhado.7. pelo correlato fechamento .10. não entre a Constituição e a lei. a outra.10 . enquanto persistir o entendimento da lacuna total. Nessa mesma direção. É que. se uma exegese.7. Defende a Lei Fundamental.7. Não se pode fazer cortesia com o chapéu da Constituição (outra vez não resistimos à tentação do prosaísmo). o impasse é de se resolver em proveito da mais próxima. ora de esguelha.das áreas de conformação legislativa pós-Constituição. o que se sonegar à primeira passa a pertencer à segunda. E se o confronto se der entre competências dos Estados-membros e respectivos Municípios.6. sabido que os direitos e garantias individuais cumprem o papel técnico e até mesmo histórico de afirmar o princípio da dignidade da pessoa humana e assim conter o Poder em certos limites. por exemplo. 5. deve estar ciente dos efeitos irradiantes dessa interpretação para o Direito que não se veicula por emenda ou por revisão constitucional. e. a que amplia aquela esfera de incidência direta de uma norma constitucional passa a fechar espaços para uma ocupação normativa de menor escalão e assim fortalece a Constituição mesma. o sacrifício a ser imposto é à competência dos Estados-membros. uma delas funcionalmente mais distante do ser da Constituição.9. 5. E não é isto o que sucede na relação entre a lei comum e o decreto executivo.7. ou não pôde reservar para si mesma com exclusividade. Estas considerações apontam para a adoção de um critério seguro de resolução de eventual dúvida interpretativa quanto a maior ou menor compleição eficacial de uma norma genuinamente constitucional. 5. Sinta-se que o prejuízo que se causa à Constituição com uma interpretação indevidamente restritiva é maior do que o sofrido. imaginemos uma fundada hesitação exegética entre ampliar ou restringir a eficácia de uma norma constitucional que outorgue direito individual oponível ao Estado.8. para fortalecer dada competência da União. em linha de princípio. É que esse Direito subconstitucional apanha as sobras do que a Lei maior não quis. mas entre duas normas igualmente constitucionais. A dúvida. Daí que recusar à lei o que à lei pertence não signifique presentear o Poder Executivo com uma competência legiferante residual. se o confronto se der. é de ser resolvida em favor da interpretação eficacial de maior porte. 5. ou parcial. A matéria fica no aguardo de uma futura normação por via legal. exemplificativamente.

Ora bem. Constituição.8. Uma desconfiança que já está na própria Constituição. não podendo tocar em nenhum dispositivo da Constituição.2. ainda com mais forte razão há de prevalecer o prestígio à eficacidade da norma constitucional de berço.1.8.8. é conseqüência lógica da rigidez constitucional que os atos de reforma da Constituição Positiva sejam recebidos com desconfiança. Em linguagem diferenciada. qual a Constituição rígida que não busca resolver. regras editadas pelo Poder Legislativo comum.e não simplesmente legais -. evidentemente. Mais até do que dificultar o processo de sua própria reforma.4.6. 5.5. A necessária interpretação restritiva das normas constitucionais sobre o Poder Reformador 5. as situações emergenciais do País (e aqui nos lembramos. Estado de Defesa e Estado de Sítio)? Tudo. "impeachment". podendo mexer no corpo de dispositivos da Constituição. 5. mas com unívoco sentido: as leis existem para aplicar diuturna e reverentemente a Constituição. 5. a revisão foi admitida sob pautas processuais menos dificultosas11). se fizermos o cotejo entre uma norma da Constituição originária sobre o exercício do Poder Reformador e outra norma advinda desse concreto exercício (norma advinda de u'a emenda constitucional. É da natureza das coisas. por essa aplicação diuturna . Se a Magna Carta é mais dócil ou mais branda na regulação do processo de elaboração das outras normas gerais que não as emendas constitucionais.8. é no pressuposto do esgotamento dessa ou daquela norma-princípio da Constituição. b) são elas. é exatamente porque: a) são normas que. e. 5.8.8. Eles. Aqui. precisamente. contra ela (Constituição). no Brasil ao reverso de Portugal -. Veiculam normas constitucionais. supressão. que disciplina com rigor incomum o processo de sua própria reforma. pela estabilidade: a Constituição. para colocar a Magna Carta pari passu com o ritmo veloz da sociedade. e somente eles. e.5.8.3. ou alterabilidade das normas constitucionais originárias. nessa medida. 5. ou revisão. Donde o corolário de se encarar com extremos de cautela toda medida de acréscimo.7. 5. um potencial lógico de agressividade que as leis não têm. para que não haja necessidade do apelo extremo aos atos oficiais de reforma do seu próprio estoque de normas. E isto já significa o óbvio: somente quando cessa o papel da interpretação é que se inicia o da integração constitucional por atos formais de emenda. das normas que dispõem sobre intervenção federal. já nascem com o indescartável compromisso de dar submissa prossecução aos comandos formais e materiais dela mesma. sponte sua. como enxotar uma eventual dúvida na aferição do tamanho eficacial da primeira ante a segunda? Ou da segunda perante a primeira? 5. as emendas e revisões alteram aquela porção do Ordenamento que se caracteriza. medidas provisórias. De outra parte. que darão à Constituição aquela primária aplicação que outra coisa não é senão a paulatina e ininterrupta dinamização de todo o Ordenamento. existem para mexer na Constituição. no caso brasileiro. É que os atos reformadores da Constituição têm. ao menos no plano das emendas (já que. Nenhuma outra norma jurídica ostenta em cores tão vivas o caráter de estabilidade que a Constituição rígida imprime ao Ordenamento. ou de todas elas.7.11.8. Se as emendas e revisões estão autorizadas a aportar consigo normas constitucionais . portanto). nascem com o propósito de dissentir daquela parte da Constituição a que visam reformar.

a exigir quanto a elas (emendas e revisões) um tipo mais severo ou menos extensivo de exegese. sempre que houver dúvida fundada quanto à possibilidade de mácula à Constituição.11. as cláusulas pétreas. Sempre numa linha de inovação material que deve preservar (por isso que elas não implicam o exercício do Poder Reformador) a inteireza dos comandos todos da Constituição e até de suas eventuais reformas. passaria a ser encarado como cláusula pétrea). com mais razão. de par com as normas constitucionais que dão o conteúdo mínimo de cada qual dessas cláusulas de intangibilidade. ou quase tudo. A inovação que se autoriza é quanto a um Direito que vige do lado de fora da Magna Carta e nela não pode entrar por nenhum modo.reverente. Cogitando-se. então. pois aí estamos diante dos princípios que mais estabilizam a Constituição e concomitantemente mais se aproximam do centro da circunferência democrática. É que a postura interpretativa contrária é de muito maior gravidade sistêmica. sim. A alternativa é radical: ou o hermeneuta prestigia as cláusulas pétreas e assim reduz a possibilidade de produção das emendas. Por isso mesmo é que a Lei Maior brasileira não diz o que as emendas podem fazer.8. Um tipo mais severo ou menos extensivo de exegese. sim. aquela parte da Constituição que nem mesmo admite a exceção do poder de reforma.9. que é a Constituição Positiva. desde que estas não portem consigo a mácula da inconstitucionalidade formal. Natural. pois redunda no mais intolerável tipo de banalização: a banalização da própria Lei Fundamental do País.12 5. a própria alma da Constituição. externamos o nosso pensar de que as emendas constitucionais. o que não podem. os respectivos atos já nascem com o explícito compromisso de inovar. são. que os riscos de atentado à Magna Lei sejam maiores. Não temos o menor acanhamento intelectual em afirmar que os atos de reforma da Magna Carta. ou prestigia as emendas e assim fragiliza a integridade das cláusulas pétreas. Regras periféricas. mas o próprio fundamento de validade desse Direito. porém. a saber: uma coisa é a indicação das matérias constitutivas de cláusulas pétreas. 5.8. Por semelhante prisma analítico. vitalizar o Direito em geral. claro. notadamente as emendas. então. da própria circunferência de cada cláusula pétrea. mas sem a força de elementarizá-las. 5. que fica muito mais vulnerável a agressões por via de emendas. 5. porém.8. Elas é que devem gozar do benefício da dúvida interpretativa. não simplesmente o Direito. venha a significar banalização das mesmas (tudo. em verdade. A este respeito. outra coisa. por maior proximidade com o protovalor da Democracia. Ainda sem nenhum constrangimento acadêmico. são os preceitos constitucionais que estão a serviço das cláusulas pétreas. da circunferência democrática. justamente quando do empírico uso do Poder Reformador. que têm a ver com elas.8. lógico -. e. desde que o resultado desse labor reformista seja o fotalecimento ou a rebustez da parte axiológica situada no centro da circunferência em causa (conforme anteriormente explicado).10. de reforma constitucional. longe de constituir uma exceção ao poder de reforma constitucional. é de se afastar o receio de que o prestígio exegético das cláusulas pétreas . Por isso que tais preceitos jazem à disposição do Poder Reformador. pois não é racional que se postule a exegese restritiva das matérias que mais confirmam o caráter estabilizador da Magna Carta e ainda por cima revelam.12. 5. mas. ou material. são .8. a teor de Constituições como a brasileira. A primeira opção é a que temos por acertada. constituem uma exceção àquela nota de estabilidade que é indissociável de toda Constituição rígida. até porque melhor nos habilita a afastar o temor da banalização.nos casos de dúvida fundada.8.

quem não se questiona sobre o risco ou o perigo de estar a mexer naquilo que.8. esse colocar a Constituição no centro do Ordenamento Jurídico é também um colocar essa mesma Constituição no centro do sistema social como um todo.para não dizer uma reprimenda . supomos) as leis complementares e as de caráter ordinário. desde a infância. ou por omissão. a sempre temida intervenção odontológica? 5. a Constituição permanece como centro de apoio de uma abstrata alavanca de Arquimedes para a mais objetivamente justa transformação de toda sociedade humano-estatal.16. 5. conforme sejam emendas supressivas. enfim. as linhas que separam o Poder Constituinte do Poder Reformador são muito menos nítidas do que as linhas demarcadoras da atuação do mesmo Poder Constituinte e do Poder Legislativo comum.14. Pois bem. mas por avaliar que seu quadro clínico já não pode prosseguir sob cuidados próprios. respectivamente. como desejáveis são (irrespondivelmente. nenhum ser humano vai ao dentista por prazer. em razão da natureza dirigente que lhe é conatural. em verdade. 5. aditivo e modificativo). Uma comparação prosaica parece-nos vir a calhar. tal como posta. quer. O que significa ajuizar que ela. ou por qualquer outra forma do que se tem chamando de "mutações constitucionais".no modo pelo qual a Constituição cuidou dos próprios dentes.8. na prática. as possibilidades de invasão pelo Poder Reformador são bem maiores. É dizer: muito mais que um simples esquema de procedimentos e organizações. por insuficiência de comando (males que se debelam. Já não é passível de atualização pela via da interpretação doutrinária e jurisprudencial. por significar um atestado formal de que a Constituição. Assim é com as emendas. Aqui. emendas aditivas e emendas modificativas. 5. tudo se traduz numa reconsideração de rumos da Magna Lei. a postura da eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica opera pelo estreitamento (quando não pelo total fechamento) de espaços ao labor reformista do impropriamente chamado "Poder Constituinte Derivado". então. Tudo isto evidencia que o perigo de atentado à Constituição é sempre iminente. mesmo que se reconheça o caráter fortemente economista e técnico-político das sociedades pós-modernas. E porque são linhas muito menos nítidas ou muito mais tênues.8.8. pela indescartável consideração de que. e com facilidade perceberemos que as emendas seguem a lógica da extração. Ainda assim.17. Tudo a justificar. já não cumpre a contento o seu histórico papel. seja qual for a modalidade de emenda. da prótese e da obturação dentárias. já estava bem cuidado? A dispensar. O recurso a elas é sempre uma ultima ratio. Todas elas a significar um corretivo . neste sítio do mais delicado trato hermenêutico.13. ou por inadequação.8. Alguma coisa na Lei Maior pecou por excesso. . e o papel das emendas é sempre de um corretivo. a rédea curta que estamos a reclamar como postura técnico-interpretativa das normas constitucionais originárias que se disponibilizam para a edição de emendas à Constituição. Pensemos em nossas periódicas visitas ao dentista. portanto.15. pelas emendas do tipo supressivo. respectivamente. quer pela ocorrência de lacuna regratória. Enfim. não tem por que abdicar da sua fundamentalidade ao mesmo tempo jurídica e social genérica. quer pelo fato de sua excessividade normativa. Mais tecnicamente falando. Constituição Positiva.normas gerais tão-somente suportáveis. Nunca desejáveis. 5.

por conseguinte. A outra. na seara mesma do Constitucionalismo.o menor deles. o Estado Democrático de Direito (liberal por excelência). dizia o expoente da escola jônica. por sinal .5.que esperamos venha a funcionar como aquele necessário ponto de arremate de uma obra que.A Constituição Fraternal Sumário 6. Uma. por seu turno. inaugural do que depois veio a se chamar de Estado de Direito. 6. É um produto da experiência humana e. Assim é com o Direito.1.4. embrionariamente.1. face à crescente densificação dos princípios constitucionais e da própria constitucionalização de temas antes reservados à legislação comum ou de segundo escalão). 6. O ser das coisas é o movimento. O que se pretende dizer com a lembrança dessas coisas é que o Direito faz parte da vida e a vida tem um reconhecido caráter de dinamicidade.6. naquela parte em que o jurisconsulto brasileiro e sergipano ajuizou: "O Direito não é um filho do céu". e a Teoria Dialética do tipo hegeliano veio a afirmar que esse movimento decorre de uma força motriz ou energia que é liberada pelo tensionamento entre os pares de opostos (dicotomias) de que é formada a existência. Só o impermanente é que é permanente. um objeto cultural. A imutável substância da Constituição 6. Um pequeno conjunto . De processualidade. pois. O contraponto parmenidiano de antiprocessualidade 6. Como todo objeto cultural. O advento do Constitucionalismo fraternal 6. se pretende portadora de unidade material. nessa condição. Este.1.1.4. protetiva e simultaneamente promocional do ser humano perante o Estado e o Governo (direitos "civis" e direitos políticos).Capítulo VI . o Direito tem uma história pra contar. Tudo começando.5.1. sucessivamente. Feita a ponderação. Que é um .1 6. O método dialético de interpretação constitucional 6.6.1.c. É um pequeno conjunto de idéias que não pudemos encaixar em nenhum desses capítulos precedentes. segundo HERÁCLITO (540/480 a.).1. de parelha com a valorização dos assalariados diante do patronato (direitos econômicos ou trabalhistas). Esta derradeira parte do nosso estudo não é um catálogo de conclusões extraídas dos capítulos anteriores. com as Constituições e com tudo o mais que existe de natural e de social. com a Magna Charta Libertatum de 1215. A processualidade heraclitiana da Constituição 6.2. que toda a história do Direito Constitucional seja permeada de fases.2. a figurar como o primeiro elo dessa corrente de que vieram a fazer parte.3.1. os dois primeiros e mais importantes momentos foram a Constituição liberal e a social. 6. Uma história que apresenta a sua linha de evolução e por isso é que. embora intelectualmente modesta. operando de modo a favorecer uma mais justa integração de todos os homens no conjunto da sociedade (direitos sociais genéricos). Não é de se estranhar. A processualidade heraclitiana da Constituição 6. A perene atualidade da faina interpretativa da Constituição 6. o Direito não é um regalo dos deuses. só a mudança é que não muda. 6.1. começamos por retomar o pensamento de TOBIAS BARRETO.3. naquela acepção heraclitiana de que "nenhum homem entra duas vezes nas águas de um mesmo rio". o Estado de Direito Democrático (eminentemente social) e agora o Estado de Justiça ou Estado holístico (assim nos permitimos cunhar. Vale dizer.

) e logo vai-se perceber que a interpretação jurídica é fortemente marcada pelo sentido que as palavras tenham no próprio momento do seu fazimento (dela. do explícito e do implícito. da Cidadania. linhas atrás. A interpretação faz parte do circuito da existência e tende a ser. da Inviolabilidade da Vida Privada. E somente depois que cessa ou que se malogra a tentativa de se colocar a Magna Lei em dia com os acontecimentos e o repensar das coisas. 6. Se se prefere. Ora.1. Constituição). Persevere no seu poder de facilitada adaptação à dinamicidade da vida. 6. segundo vimos no capítulo de n° V. À processualidade endógena do seu discurso jurídico-positivo. de roldão. reputação ilibada.2. porque em espiral axiológica.2. a dualidade centro/periferia.1. É por aqui mesmo que se dá o engate lógico entre a natureza processual da Constituição e a ontologia dos princípios de que ela. lealdade. portanto. boa-fé. também dissemos o seguinte: o movimento da . porque o Direito é feito para a vida e a vida é sempre atual. à mutabilidade informal de toda a Constituição. Para o alto. interpretação).7. Mas não é só. Mormente em tema de princípios. em cuja esfera semântica de compreensão interage.2. Levando. Palavras que se enlaçam na trama de um discurso entremeante do verbal e do não-verbal. da Eficiência Administrativa. 6.Estado de funcionalidade fraternal. Acontece que. 6.2. por conseqüência. 6. dialeticamente. o entendimento desse dispositivo é contemporâneo de quem o interpreta. significando um seguir adiante ou um andar para a frente. Assim é que as coisas se passam. 6. e mais especificamente em tema de princípios constitucionais (pense-se nos princípios do Desenvolvimento. em toda parte.. e que exige essa operação mental-consciencial a que chamamos interpretação (conforme discorremos no capítulo de n° V). da Justiça. da Moralidade e seus conteúdos de decoro. cada vez mais se compõe. O contraponto parmenidiano de antiprocessualidade 6. de palavras. pela necessária identidade entre ela e os seus princípios fundamentais. É mais uma forte razão para que a Constituição principiológica (e chega a ser redundante falar de Constituição principiológica) se atualize por si mesma. É impulso como que mecânico do intérprete desvendar os signos linguísticos a partir do significado que as palavras ostentem no instante mesmo da respectiva interpretação. 6.3. numa experiência de uma só vez. Os princípios constitucionais materiais se vazam numa estrutura de linguagem que é formada. da Valorização do Trabalho.3.8. somente depois dessa empreitada é que se deve cogitar da mutação formal dos seus dispositivos (dela. há uma permanente fricção no próprio interior ou na própria circunferência de cada princípio constitucional. E dessa dicotomia ou dualidade básica é que se desprende a energia que põe cada princípio em estado de mutabilidade. Uma viagem qualificada. em tema de interpretação jurídica do Direito legislado.2. Idêntico ao processo da vida. termina sendo um andar para cima.3. obviamente.4.2. pela via da interpretação (renove-se a idéia). É que.. formada por um centro e uma periferia (como toda circunferência). assim como o dispositivo jurídico é contemporâneo de quem o redigiu. ele se traduz numa jornada que.1. A perene atualidade da faina interpretativa da Constituição 6.1. Esse processo endógeno que é da natureza da Constituição não se traduz. perenemente atual.

E tínhamos que ajuizar assim.2. sim. Pois bem. pois a substância dos seres não muda.3. sob o influxo das peculiaridades sócio-culturais de cada povo e de cada época. Daí por que falamos que o ritmo de mutação formal da Constituição deve ser mais lento do que o reclamado pelo restante do Ordenamento. 6. pois a virtude está sempre no meio (medius in virtus). 6.4. segundo aquele movimento pendular de mutabilidade na periferia e de imutabilidade no centro da esfera semântica de cada qual deles. essa dimensão emblematicamente estável da Constituição tem a ver. uma Constituição universalmente idêntica a si própria. 6.4. 6.3. Uma ineliminável substância. seqüenciadamente.3. afinal. E porque pensava assim. evolui com o movimento da parte periférica da circunferência de cada qual dos seus princípios. A partir desse contraponto parmenidiano. o sentido histórico-filosófico de servir a Constituição como o único mecanismo jurídico de eficaz contenção aos excessos do poder político e. teríamos que buscar na Constituição como um todo (mais do que em cada princípio constitucional em particular) um substrato infenso à mudança.Constituição é pendular.c. assim.1. Dialeticamente. esse indescartável substrato só poderia residir em dois aspectos: a) primeiro. . já não com HERÁCLITO. e não muda. Teríamos. quer pelo fato de ser o fundamento de validade de todo o Ordenamento. Mas com os demais aspectos permeáveis à incessante mudança das coisas. mas com PARMÊNIDES. a Constituição muda por si mesma. Este filósofo e poeta igualmente grego (540/450 a.3. 6. como professavam os próprios helenos. Esses demais aspectos ocorreriam no âmago de cada princípio constitucional originário. Conota a idéia primaz de estabilidade. 6. Devido a que o ritmo de mutabilidade informal (ou endógeno) do restante do Ordenamento é menor do que o ritmo que é próprio da Constituição. Dialeticamente. E não falamos ser o Direito Constitucional o mais político dos ramos jurídicos? E a Constituição o mais anatômico dos diplomas de Direito legislado? 6. Pois bem. tanto quanto se mantém estável com a imutabilidade da parte nuclear. O oposto da Constituição. quer pela materialidade organizacional de suas normas à face do Estado e do Governo. porque.). que falava do universo como algo eterno.4. b) segundo. na função constitucional originária de montar o aparelho de Estado. A imutável substância da Constituição 6. dizia ele.4. Não em estado de permanente mutação. do poder econômico e do poder social como um todo (visto que o todo social desiguala materialmente e discrimina moralmente as pessoas e ainda sistematicamente conspurca o equilíbrio ambiental e a sadia ordenação dos espaços urbanos). Chamando o feito à ordem. com os respectivos órgãos de governo.3. naquele sentido ambivalente de compromisso tanto com a mutabilidade quanto com a imutabilidade. Não uma coisa ou outra. sim. uno.4. A Constituição muda por si mesma. e ao mesmo tempo não muda. proclamou que "nada de novo existe sob o sol".4. contínuo e imóvel.2. a Constituição é emblematicamente estável.4. Coloca-se no ponto de conciliação ou de unidade orgânica entre as duas teorias. Mas uma coisa e outra ao mesmo tempo. Pois o restante do Ordenamento é muito mais caracterizado pelo seu conjunto de regras do que pelo seu conjunto de princípios. Tudo permanece idêntico a si mesmo. E argumentativamente concluiríamos que toda Constituição Positiva é tanto heraclitiana quanto parmenidiana (à falta de melhor palavra).

2. é o que também sucede com o próprio labor interpretativo de cada dispositivo jurídico. se considerarmos a evolução histórica do Constitucionalismo.5. mas a vontade objetiva da norma (engastada em um determinado dispositivo).1. mas também sem eliminar as respectivas conquistas (como é próprio de toda superação ou transcendência). podemos facilmente ajuizar que ele foi liberal. pois o que interessa não é o querer subjetivo do intérprete. Há duas correntes jurídicas em permanente oposição quanto ao papel do intérprete do Direito. A lógica "do mais ou menos" ou do "vamos ver". ele se anula totalmente perante o dispositivo interpretado. a lógica usual de cada princípio é a da ponderação ou do sopesamento das circunstâncias presidentes de sua concreta aplicabilidade.6.5. à etapa fraternal da sua existência. Implica uma descoberta e uma construção. A norma a desentranhar dos signos linguísticos (dispositivos) é tanto um a priori quanto um a posteriori. Esteja ele. Chegando. 6. E é tanto mais recomendável quanto se esteja diante de um princípio. Agora já podemos enfrentar o tema da progressiva formação do Estado Fraternal. nos dias presentes. como. afirmando que a vontade ou o querer subjetivo do intérprete (condicionamentos psíquicos e sócio-culturais) é ineliminável do processo interpretativo. Que veio para transcender o Estado Social. Outra. a dimensão das ações estatais afirmativas.5. isto é. Se. Tanto quanto o Estado Social veio para superar o Estado Liberal. Uma. Nem exclusiva objetividade de um querer legislado que se impõe ao exegeta. que é a lógica do concretamente possível. é certo. que são atividades assecuratórias da abertura de oportunidades para os segmentos sociais historicamente desfavorecidos. na Constituição originária. da mera proibição de preconceitos). por exemplo. tudo ao mesmo tempo. portanto. sabido que essa categoria de norma jurídica traduz-se em relato que é muito mais um mandado de otimização do que um mandado de definição (ALEXY). transmuta-se em legislador.2.3. Explicamo-nos. proclamando que a interpretação deve ser rigorosamente objetiva.5. Essa dialeticidade que termina sendo uma fuga dos extremos ou a conciliação possível entre eles.5.1.6. Do que resulta ser a norma jurídica o resultado da sua interpretação. 6. Essa metodologia da conciliação implica a busca de um equilíbrio sempre instável.5. 6. Se a lógica usual de cada regra jurídica "é a do tudo ou nada". De par com isso. Desde que entendamos por Constitucionalismo Fraternal esta fase em que as Constituições incorporam às franquias liberais e sociais de cada povo soberano a dimensão da Fraternidade. fechando todos os espaços de manifestação mental/consciencial do seu próprio ser individual e ao mesmo tempo social. Se o intérprete faz do seu exclusivo pensar a vontade objetiva da norma. Não um a priori. os deficientes físicos e as mulheres (para além. mas um a posteriori. O método dialético de interpretação constitucional 6. e depois social. mas assim mesmo é que se processa o mistério da existência terrena.6. inicialmente. o . ou não esteja.4. ele se torna um personagem completamente autômato no referido circuito. 6. Personagem completamente autônomo no circuito da produção/aplicação do Direito. bem ao contrário. 6.5. O advento do Constitucionalismo Fraternal 6.6. nem exclusiva subjetividade de um exegeta que se impõe ao querer legislado. portanto. ao revés. A solução parece estar no meio. mas sem o negar. Efetivamente. 6. os negros.

favor.3.6. culinárias. e. pois o fato é que ninguém é cópia fiel de ninguém. partidárias. Não por coincidência.6. o mistério. O que já significa uma . isto é.e somente ela . Assim como não se pode recusar a ninguém o direito de experimentar o Desenvolvimento enquanto situação de compatibilidade entre a riqueza do País e a riqueza do povo. ideológicas. estando todos em um mesmo barco.. Uma dignificação de todos perante a vida. de um lado.8. Tanto quanto esse mesmo tipo de igualdade social é a condição material objetiva para o desfrute de uma fraternidade como característica central de qualquer povo (uma vez que. a resvalar freqüentemente para o campo da humilhação dos hipossuficientes). não têm como escapar da mesma sorte ou destino histórico. Tudo na perspectiva de se fazer da interação humana uma verdadeira comunidade. Sendo esta o ponto ômega ou o pináculo da evolução político-jurídica. mais do que diante do Direito. compaixão. as coisas se processaram numa seqüência lógica. 6. 6. também não era possível o alcance de uma vida coletiva em bases fraternais sem o gozo daquela mesma situação de igualdade social (ao menos aproximativamente). E tinha de ser pelas portas mais largas da Constituição. Seletivamente onifinalista. Se já não era possível um estado genérico de liberdade sem uma aproximativa igualdade entre os homens. Aonde queremos chegar? Na compreensão de que a ideologia da igualdade social é a mais estratégica das ideologias. profissionais. 6. Auto-sustentadamente ou sem temerária dependência externa. da Democracia e até de certos aspectos do urbanismo como direitos fundamentais.6. Se a vida em sociedade é uma vida plural. todavia. E nisso é que se exprime o núcleo de uma sociedade fraterna. entendido o holismo como decidida opção existencial pela integração ou abrangência gradativa de tudo. pois uma das maiores violências que se pode cometer contra os seres humanos é negar suas individualizadas preferências estéticas. o que se tem já é a democratização no interior da sociedade mesma. pela consciência de que. sexuais.6. 6. visto ser ela . sem igualdade aproximativa. por ser a igualdade social a necessária ponte entre a Liberdade e a Fraternidade.7. Este o fascínio. Deveras. E não só nos escaninhos do Estado e do Governo. simplesmente. pela simples razão de que não pode haver fraternidade senão entre os iguais. 6. também nos domínios do Direito e da Política. que ele seja cabalmente experimentado e proclamado como valor absoluto. uma comunhão de vida. religiosas. condescendência. de outro. etc. o que se tem no plano da boa vontade dos mais favorecidos para com os menos favorecidos sócio-culturalmente não passa de caridade.9. a virtude está sempre no meio (medius in virtus).6.potencialmente onitemática. do Meio Ambiente ecologicamente equilibrado. da Igualdade. geográficas. a Fraternidade é o ponto de unidade a que se chega pela conciliação possível entre os extremos da Liberdade. Mais até que plenamente aceito.6. 6.6. É por aqui mesmo que se dá a penetração do holismo no Direito. A comprovação de que.6. tanto quanto o Amor é o ponto mais alto da evolução espiritual. Com a plena compreensão. No plano do Direito Constitucional. então que esse pluralismo do mais largo espectro seja plenamente aceito.constitucionalismo fraternal alcança a dimensão da luta pela afirmação do valor do Desenvolvimento. o milagre da vida. etc.2 6.4. de que não se chega à unidade sem antes passar pelas dualidades.5. Nesse novo e otimizado patamar da fraternidade como característica do Constitucionalismo contemporâneo. a compassiva ou aproximativa igualdade social é a condição material objetiva para o desfrute de uma liberdade real.

Enfim. para os cientistas. consoante a máxima oracular do físico alemão Max Planck (1858/1947). louvado seja Deus! Esse Deus que. metamorfosear-se em normas de Direito Interno desse ou daquele Estado soberano. Ela. enquanto que. . o econômico. está no fim de toda reflexão". "para os crentes. pois as próprias fontes do Direito Internacional têm de receber as boas-vindas da Constituição para. A fundamentalidade das fundamentalidades. Constituição.confirmação do seu papel dirigente e da sua inamovível posição de centralidade. etc.). a permanecer como a fundamentalidade de todo o sistema jurídico interno e até mesmo do sistema social genérico (o militar. o técnico. o familiar. está no princípio de todas as coisas. o financeiro. e só então.

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