P. 1
Teoria da Constituição - Carlos Ayres Brito

Teoria da Constituição - Carlos Ayres Brito

|Views: 2.827|Likes:
Publicado porArthur Agostinho

More info:

Published by: Arthur Agostinho on Dec 19, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOCX, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

01/17/2015

pdf

text

original

Introdução Teoria é conhecimento ordenado, conhecimento sistematizado sobre um determinado assunto.

Conhecimento, além do mais, especulativo; ou seja, ordem de saber que se constrói sem imediata preocupação com a sua aplicabilidade aos casos concretos. Independente da prática, portanto. 2. Quando associado ao nome "Direito", para com ele formar a locução "Teoria do Direito", o substantivo de que estamos a falar é tipo articulado de conhecimento que busca isolar o Direito das outra realidades normativas. Explica o Direito como objeto cultural-normativo que se não confunde, verbi gratia, com a moral e a religião. E quando grafado de "Teoria da Constituição", é saber especulativo que opera no interior do próprio Direito, para separar o Direito Constitucional de qualquer outro setor ou província jurídica; melhor dizendo, para evidenciar em que a Constituição: a) é diploma jurídico-positivo diferente dos demais; b) é a parte central de um ramo jurídico também diferenciado das outras porções que se entroncam na grande árvore do Direito. 3. Este o nosso desafio: pensar a Constituição. Não esta ou aquela Constituição em separado, mas enquanto fenômeno jurídico-positivo comum à experiência dos povos que exercitaram, com êxito, a própria soberania. 4. O que estamos dizendo não é mais que isto: às Constituições em sentido objetivo (conjunto de normas jurídicas) corresponde esta nossa teorização em sentido subjetivo. Que somente vai buscar no material investigado, todavia, o que se apresentar como partes elementares de um todo orgânico; ou seja, como objetiva comprovação de que tudo é um. 5. Ainda à guisa de anotações preliminares a esta nossa monografia, um primeiro lembrete: não há apenas Constituições escritas, e mesmo as escritas nem sempre se enfeixaram (como ainda não se enfeixam) num único texto normativo. Elas também existem em documentos esparsos. E se umas são redigidas e promulgadas por órgãos especialmente eleitos pelo povo para esse mister, outras, no entanto, são aprovadas sem a eleição popular daqueles por cujo intelecto e força física elas ingressaram no mundo das positividades jurídicas. 6. Outra pequena lembrança está em que a nossa teorização não é repelente de nenhuma espécie de Constituição conhecida. Contudo, as especificidades ou características centrais que temos como exclusivas de um diploma constitucional, assim como as citações e ilustrações de que nos valemos amiúde, tudo tem por alvo o modelo de Constituição que terminou por se impor no interregno que vai do segundo após-guerra até os nossos dias: a Constituição escrita, redigida à moda de código e

produzida por um corpo de legisladores ungidos na pia batismal do voto popular. 7. Por último, incumbe-nos pontuar que esta nossa Teoria da Constituição começa pelo estudo do Poder Constituinte, que é a instância deliberativa de que ela, Constituição, é a obra resultante. O trabalho objetivamente feito. E que essa mesma Teoria passa pela esfera de conhecimentos que tem recebido o nome de "Hermenêutica Constitucional"; mas que preferimos, pessoalmente, designar por "Hermenêutica da Constituição", como no seu devido tempo explicaremos. Aracaju (SE), 23 de dezembro de 2002 Carlos Ayres Britto

Sumário
1.1. Deus: a instância transcendente que tudo pode, menos deixar de tudo poder 1.2. A limitabilidade intrínseca de Deus 1.3. A indistinção ontológica entre Deus e Sua onipotência 1.4. Deus enquanto norma normarum ou a fonte das fontes 1.5. A incontornável solidão da onipotência de Deus 1.6. O povo como a transubstanciação do poder imanente que tudo pode 1.7. A soberania popular ou o modo constituinte de ser do povo 1.8. O mundo de Deus e o mundo do Direito 1.1. Deus: a instância transcendente que tudo pode, menos deixar de tudo poder 1.1.1. O meu filho Marcel tinha cinco anos de idade, quando travou comigo o seguinte diálogo: - Meu pai, é verdade que Deus tudo pode? - É verdade, sim, meu filho. Deus tudo pode. - E se Deus quiser morrer? - Bem, aí você me obriga a recompor a idéia. Deus tudo pode, é certo, menos deixar de tudo poder. Logo, Deus tem que permanecer vivo, porque somente assim Ele vai prosseguir sendo Aquele que tudo pode. 1.1.2. Ao dar essa resposta de que Deus não podia morrer, terminei por confirmar uma coisa e afirmar outra. Confirmei a minha crença na existência de Deus e afirmei a limitabilidade intrínseca desse mesmo Deus de cuja existência eu estava a dar testemunho. 1.1.3. Com efeito, eu reproduzia para o meu filho: a) minha filosofia prevalecentemente idealista ou espiritualista, à moda hegeliana, segundo a qual a natureza ambiental e a sociedade humana são uma revelação, uma manifestação da Idéia Incriada; b) essa Idéia Incriada é o próprio Deus, tido como instância transcendente que tudo pode, mas com o acréscimo de idéia que eu estava a fazer: instância transcendente que tudo pode, sim, menos deixar de ser essa instância transcendente que tudo pode.1 1.2. A limitabilidade intrínseca de Deus 1.2.1. Sobre este último aspecto da limitabilidade inerente a um ser que tudo pode (a relativização possível da onipotência), a conversa com meu pequeno filho trouxe-me à cabeça a utilidade pedagógica de uma comparação entre Deus e o poder que, na Ciência Política e na Teoria da Constituição, é chamado de Poder Constituinte. Mais exatamente, pressentíamos (a partir de agora passaremos a usar o plural majestático "nós", em vez de pronome pessoal da primeira pessoa "eu") que refletir sobre algumas noções deístas mais correntes seria tarefa intelectual que abriria importantes espaços para a mais desembaraçada compreensão do poder que está na própria raiz da Constituição e do Ordenamento Jurídico: o Poder Constituinte. 1.2.2. Não que houvesse originalidade no fato em si da comparação (outros estudiosos do Direito, cada qual a seu modo e tempo, já confrontaram o Divino com o Poder Constituinte). Não que o acerto das proposições descritivas dos diversos ângulos da formação e manifestação do Poder Constituinte dependesse (nunca dependeu) do acerto das proposições reveladoras da existência e da natureza de Deus. Os conceitos

assim como nenhuma instância geratriz mundana pode assumir o papel de Deus naquilo que diz respeito à montagem das linhas mestras do universo e à substituição dessas linhas por outras.. etc. Além dessa disponibilidade muitíssimas vezes maior da literatura sobre Deus.são normas que podem servir de fundamento para a modificação delas próprias. b) se a emergência de coletividades supranacionais pode ensejar a formação de um Direito superior à Constituição de cada país-membro de tais coletividades (a União Européia.. Antevíamos até mesmo uma dimensão prática. Sem embargo. É que a pretendida clareada de horizontes na compreensão do verdadeiro Poder Constituinte nos habilitaria: a) de uma parte. . O primeiro juízo que passamos a formular. alemães e portugueses).2. Sua realidade prescinde da noção de causa. 1.. Venezuela. Mais até. ou "Juiz Supremo do Mundo". já a título de execução do nosso pessoal estudo comparativo entre Deus e o Poder Constituinte. que chegou a dizer: "Quero conhecer o pensamento de Deus. b) de outra banda.acerca do Poder Constituinte gravitam em outra esfera de mentalização fenomenológica. a mais vivamente fixar os contornos do constitucionalismo atual. Esta é a sua natureza.tanto as que permitem quanto as que proíbem tal reforma . ou "Divina Providência". então. Logo. que é um constitucionalismo fraternal. Brasil. Tudo a nos levar a presumir que uma objetiva demonstração de certa similitude entre os dois termos paradigmáticos (Deus e o Poder Constituinte) contribuiria para quebrantar as resistências doutrinárias mais recentes à tese de que há um espaço de conformação jurídico-positiva que somente pelo Poder Constituinte é passível de ocupação. já podemos antecipar que os ângulos de estudo que nos parecem mais salientes dizem respeito à questão de saber: a) se as normas que tenham por objeto a reforma da Constituição . aquele que tudo pode com inicialidade só existe mesmo para tudo poder com inicialidade. a ALCA e o MERCOSUL. de modo quase invariável. é exatamente este: aquele que tudo pode com inicialidade é a fonte mesma do seu e de qualquer outro poder. 1. etc. sua referibilidade às idéias mais assentes sobre Deus lhes propiciaria uma clareada de horizontes. Nesta última dimensão do neoconstitucionalismo. também nenhum órgão ou sujeito simplesmente constituído pode se travestir de Poder Constituinte naqueles pontos que se põem como a própria fundação do Ordenamento Jurídico e como alteração das características centrais desse Ordenamento. pois o fato é que os estudos e reflexões em torno do Criador são em muito maior quantidade do que os elaborados ao derredor do Poder Constituinte. apanham a figura de Deus por um prisma subjetivado ou enquanto ser que se dota de uma vontade do tipo psicológico. por ser a própria causa de tudo o mais. se consideram ateus?). o seu núcleo duro (expressão muito ao gosto dos publicistas norteamericanos.6.2." E não se pode negar a realidade de que a invocação do nome de "Deus". Alemanha. a melhor rebater os fundamentos daquilo que se vem chamando de neoconstitucionalismo. uma utilidade mais que propriamente acadêmica na confrontação que estávamos a idealizar. notadamente). O resto é detalhe. da França.5.3. Noutros termos. de fato. em última análise.2. o que nessa literatura se tem ajuizado sobre a existência. o que se tem falado sobre Deus permeia pronunciamentos de cientistas do quilate de um EINSTEIN. Argentina. ou "Ser Supremo" tem sido grafada nos preâmbulos de Constituições como as dos Estados Unidos da América.2 1.4. a ontologia e as manifestações do Todo Poderoso é de generalizada ou massiva aceitação (quantos homens e mulheres.2. 1. Estudos e reflexões que. funcionalmente.

com a possibilidade de tais criaturas. convocou a natureza e os seres humanos. Por comparação. Até mesmo um micróbio. de repente poderão se transformar em criadores do seu Criador. Esta só pode ser um ininterrupto caminhar para adiante da nascente. senão. porém. 1. se ombrearem em tudo e por tudo ao seu Criador.8. avançamos no raciocínio para entender que o sujeito (à falta de melhor palavra para a qualificação ontológica de Deus) cuja natureza é a de tudo poder não tem o poder como algo distinto de sua subjetividade. Tudo é uma coisa só. a sua corrente e a sua embocadura. Nada disso! O poder não é distinto do sujeito. o corpo humano é o conjunto de tais órgãos. Circularmente. e por isso é que um não . com o tempo. uma bactéria. O dínamo do nosso Globo. na medida em que pode. ou com outro rio que no mar desemboque. Impossível! A nascente de um rio de superfície (há rios que são subterrâneos) existe para vir à tona e liberar uma parte de si numa certa direção. distanciar-se do seu nascedouro.3. se esforça por se conservar ou permanecer tal como é. ora por amor à exigência intelectual de classificação ou compartimentação endógena das coisas. no seu conjunto.1. ou a sua foz. ele não é apenas a sua nascente. O rio é rio por inteiro. no caso.2.3.7. porque. Jamais. para se tornarem co-criadores deste mundo terráqueo.9. ou a sua corrente. adensando-lhe incessantemente o corpo e assim possibilitando ao rio (do qual fazem parte nascente e corrente) aquele final e interminável abraço com o mar. há pouco projetada. Deus a se postar como refém daqueles que. Noutro dizer. elas colocarão o Criador sob o risco de se tornar criatura das suas criaturas. sendo criaturas. O que é lógico supor é o poder que tudo pode a não fazer tudo sozinho. o sujeito é o poder. figuremos uma nascente d'água fluvial e sua própria corrente. gerando o fenômeno da corrente. como o ser-nascente é ficar para trás da corrente. A indistinção ontológica entre Deus e Sua onipotência 1. sozinha (Deus está sempre sozinho enquanto "substância"). criaturas Dele. Ele é ao mesmo tempo o seu nascedouro. contra a sua própria conservação.2.2. O mister que lhes cabe é sempre o de coadjuvantes. O ser-corrente é seguir em frente.3. nascente e corrente existem para cumprir a destinação do rio de se encontrar perpetuamente com o mar.3. Tais órgãos são. por ser o próprio sujeito. o corpo humano. no sentido de se colocar perante esse mesmo sujeito como um predicado ou uma virtude. Esse tipo de poder não é algo que o sujeito possua.2.3. um vírus. e não aos pedaços. que a mente humana fragmenta. 1. todos eles reagem o quanto podem ao remédio com que são eventualmente combatidos. Ele inicia uma obra para outro completar. Deus. o poder é o sujeito. Não faz sentido que a fonte de todo o poder use do seu poder originário para se fazer secar enquanto fonte mesma. assim destacadamente. como o corpo humano já nasce com todos os seus órgãos elementares. Ainda recorrendo à imagem do rio. Com um pouco mais de interesse especulativo pelo tema. a primeira a determinar à segunda que reflua por inteiro ao ponto de partida para nesse ponto de partida se esvair. É auto-evidente o consectário dessa afirmação de que existe um ser que tem no tudo poder com inicialidade a sua própria ratio essendi: o ser que só existe para tudo poder com inicialidade não pode se demitir do seu papel de tudo poder com inicialidade. 1. Não há como conceber a substância de um ser a conspirar.3 1. 1. É de SPINOZA a categórica asserção de que todo ser. continuamente.aquilo que responde pela sua raison d'être. Se é assim. ora por incapacidade de compreender o todo. 1. Ambos surgem no mesmo instante.

No tema. mais que renúncia.3. que. Aquilo que o ser. O quebrantamento do poder absoluto arrastaria consigo o próprio sujeito absolutista. a causa de todas as leis naturais que regem a vida por Ele criada ou na qual Ele se transfundiu. porque. Se está num trono.3.pode ser destacado do outro. 1. portanto.. 1. Sob este visual das coisas. enfim. Um atentado ao próprio "instinto de conservação". em rigor. o Poder Público enquanto sinônimo de Estado. o sujeito que tudo pode tem nesse tudo poder a sua causa formal. A função específica. no maravilhoso livro A SEMENTE DE MOSTARDA. Deus não tem o poder de tudo poder. Não é desarrazoado. porque essa renúncia. à moda de exemplo5). para um poder que assume o risco de já não poder mais nada.3. não são alturas verdadeiras. A sabedoria não pode regredir . e. 8º. negue-se-lhe o instinto de preservação. Entendendo-se por forma aquilo para que serve o ser. é preciso trabalhar com a idéia de que o centro subjetivado do poder que tudo pode tenha no fenômeno da onipotência mesma a impossibilidade da renúncia a tudo poder. que o próprio Direito se encarregue de fundir com o Estado o poder que o Estado tem de legislar. Não é algo que você possua torna-se seu próprio ser e você não pode desconhecê-la (ÍCONE editora. Se você tem fama.3. que é absolutista porque tudo pode e porque tudo pode é que é absolutista. e o que sobra já é outra coisa em qualidade e essa outra coisa em qualidade pode até ser o nada.uma vez atingida. de que Deus.9. para nos expressarmos numa linguagem kelseniana). ou não existe. pois. se passarmos do plano da imanência (plano do mundo físico e cultural) para o plano da transcendência (que é o espaço dos seres espirituais ou "supra-humanos". Mas esses pontos pertencem ao vale. e somente ele. faz do ser uma outra coisa ou até uma coisa nenhuma?) 1. é eterno. não há opção.8. no mundo interior. em rigor. o místico e filósofo indiano OSHO assim fala da verdadeira sabedoria: "As pessoas caem sempre que estão nos pontos mais altos.. Tudo é uma só realidade. destarte. Ele não se põe como a fonte primaz da vida por assim optar pela condição de ser fonte primaz. então. Uma implosão. Não se trata de uma dualidade fenomênica. é capaz de fazer. O deixar de ser fonte primaz é . chamando-o de "Poder Público". negritos à parte). Assentado fique o juízo. tal ser não pode decair dessa aptidão. isto é. 5º e inciso I do art. Mais que isso.4. tudo o que você alcança é para sempre. ou existe.3. mais cedo ou mais tarde será destronado. mas de uma unidade ontológica. Não há querer. Mas.3. Retire-se-lhe o poder de tudo poder.6. Por isso que. em louvor à clareza do pensamento. o Estado enquanto sinônimo de Poder Público. reitere-se. torna-se parte de você. consubstanciaria um autoesvaimento. mais cedo ou mais tarde será difamado. ano de 1992. porque dessa perda essencial restaria um outro ser.7. Deus tem que ser a fonte primaz da vida. 230. Deus é o poder de tudo poder. Dá para concluir. Uma absurda passagem de um poder que tudo pode. Convém dizer de outro modo. de que dá sobejas demonstrações o arsenal prescritivo da Constituição brasileira de 1988 (inciso LXIX do art. O ser que tem na aptidão originária para tudo poder o próprio núcleo firme da sua natureza (forma). de executar as leis e de julgar segundo essas mesmas leis. como a flor e a sua corola.4 1. 1. Se Deus existe (pouco importa se existe como sujeito processante. então. ou como um processo em si mesmo substante).5. se apartado do ser. não existe o outro. não pode ser perdido. Em linguagem aristotélica. o mar e as respectivas ondas (como entender enquanto predicado ou virtude aquilo que. p. Tudo o que alcançar neste mundo lhe será tomado. que o ser desempenha e que o torna único entre os demais fenômenos. 1.

incompatível com a idéia que se possa ter de Deus. Mais: é preciso mesmo que as flores caiam para depois rebrotar. incessantemente. E neste passo vamos ter que reconhecer: para além da explicação racional. Não há como deixarmos de nos inquirir sobre um tipo de instância que se ponha ali no próprio começo de tudo que pertença ao mundo do ser. cair nos braços de Deus.g. embutido. Desta concepção extraem-se outras: se é absolutamente independente deve ser infinita. e aí o ser humano tem a necessidade de. etc. 1. se queremos saber a causa imediata do nascimento de um ser humano. em cujo ponto de partida se encontra o conceito daquela Substância de que tudo deriva. é imperioso que nos perguntemos sobre a existência de um ponto de partida que seja comum a todas elas..esta última . do qual deva ser formado. isto é.4.. 3). senão seria limitada por outras e não poderia ser independente. traduzido na idéia de que a vida em geral é feita para a gestação e da gestação de infinitas formas (especiais) de vidas. porque somente assim é que a árvore pode permanecer viva. que somente coincide . da mudança mecânica de estados. Deus. que é a substância primária de que falava SPINOZA (ou. da conservação da energia.4. e o flamboyant fica. que não é outro senão o conceito de Deus enquanto fonte das fontes ou norma normarum: "O que é em si e se concebe por si. 1. 1. Tanto quanto o flamboyant.por serem eles a glândula genital masculina que fabrica o esperma (que. quem sabe. que é um mundo regido pelo citado princípio da causalidade. ao menos no estádio atual das categorias lógicas com que trabalha a mente humana (e aqui tomamos em linha de conta as contribuições da lógica formal e da dialética hegeliana. vamos ter que responder que o ser humano proveio do fato inicial da fecundação de um óvulo (feminino. contém o espermatozóide). partindo do fato de que as leis naturais da vida (lei da gravidade.3. Eis a composição vernacular do sistema spinoziano do universo (ETHICA. I.por ser o ovário a glândula genital feminina que produz óvulos. Por hipótese. Se prosseguirmos no exercício das perguntas sobre o fenômeno da concepção humana.1. a não-substância de que derivam todas as substâncias). aquilo cujo conceito não tem necessidade do conceito de uma outra coisa.4. segundo o qual tudo que acontece é por efeito necessário de uma causa também necessária ou que não pode deixar de ser. . a seu turno. óbvio). seqüenciando a intuição de que "nada pode surgir do nada" (PARMÊNIDES).4. teremos que passar pela explicação dos testículos . só cabe mesmo apelar para uma instância geradora da própria lei da continuidade da vida em geral. é única em tudo. ministrada pela própria Ciência. claro) por um espermatozóide (masculino. v. da atração e simultânea dispersão dos corpos.4. por sua vez. Deus enquanto norma normarum ou a fonte das fontes 1. é árvore feita para a produção de suas flores e da produção de suas flores. E é assim de indagação em indagação que iremos estacionar num ponto absolutamente irredutível a novas perguntas sobre a parte orgânica do corpo humano. como teremos que passar pela explicação do ovário .4.com a dialética marxista enquanto método6). igualmente naturais sabido que tais leis empíricas são encadeadamente regidas pelo princípio da causalidade -.2. continuamente. ou outro nome que se dê à fonte das fontes ou a lei das leis ou a norma normarum. As flores vêm e vão. da conexão universal dos fenômenos. no princípio da continuidade da vida em geral. 1. Agora. Esse ponto é a lei ou o princípio da perpetuação da espécie..) são leis que se põem como a causa ou a fonte de muitas outras leis igualmente físicas.

5. Deus. está condenado à solidão. em que mar. ou até mesmo descriar o Primeiro?8 1.3. absolutamente inconvivível com outro poder de igual ontologia. todo chão?). e por isso voltamos a ajuizar que a natureza de Deus está em ser o poder que tudo pode. na Sua onipotência. Um postulado. É próprio do Ser onipotente. portanto. Ícone Editora. 1. 14 do prefácio de MÁRCIO PUGLIERI ao "TRATADO POLÍTICO". permanecer como a força que tudo pode. 1994). uma energia completamente primária e insimilar. Deus originário.é a impossibilidade do suicídio direto ou instantâneo: Deus a bater em retirada.5. decorrendo suas qualidades e ações de sua própria natureza (. que HANS KELSEN pôde falar de uma Ciência do Direito? Uma ordem sistemática de conhecimentos que tem naquela hipotetização normativo-fundamental a sua própria condição inicial de possibilidade como esfera autônoma e científica de saber?7 1. de SPINOZA. Este novo título formal nos introduz na exposição dos dois modos lógicos de Deus perseverar como o poder que tudo pode. O desdobramento de idéia que nos esforçamos por transmitir é simplesmente este: a onipotência não é só o poder de tudo poder. precisa ser autodeterminada. portanto: primeiramente.4. É também o poder de não deixar que outro poder tudo possa.5. eterno. nenhum costume. Não seria exatamente assim com o Poder Constituinte? Uma força instintiva que não comporta sucedâneo. enfim). Se Deus pudesse criar um segundo Deus. num segundo momento. falar sobre Ele não é formular proposições deduzidas da análise de elementos objetivos que se conectam para formar um todo unitário. Poder único. retornaríamos àquela já descartada hipotetização: Deus a sumir do mapa.5. Um desses modos . pura e simplesmente. Ademais. em que abismo.5.. e.também precisa ser causa sui. Deus. para os intelectuais que O admitem é sempre uma hipótese de trabalho. então. Deus criaria um novo Deus. à completa imagem e semelhança Dele. Nem de forma direta.5. se a morte do "originário" Deus levaria de roldão todo abismo. mas saltar imediatamente para uma conclusão. como é próprio de todo postulado. Logo. todo céu. o próprio mapa a sumir (em que chão. menos deixar de tudo poder. É. caso contrário dependeria de sua causadora. e. tão onipotente quanto Ele.4.). Realmente. não foi a partir da intuição da existência de uma norma fundamental simplesmente pensada.5. existir em absoluta solidão. nem pela convocação de um êmulo. Terminemos este segmento reflexivo com a ponderação de que não desconhecemos o grande risco intelectual de quem se dispõe a falar sobre Deus. um sósia.. segundamente. nenhuma instância volitiva imanente. pressuposta (não efetivamente posta por nenhum órgão jurídico. 1. todo mar. o que impediria o novo Deus "onipotente" de refundir. em que céu. A incontornável solidão da onipotência de Deus 1.já foi dito . esse novo Deus onipotente destroçaria toda a obra do primeiro e assim decretaria a própria sentença de morte do Deus inicial. a um só tempo. 1. este princípio imanente do universo é Deus ou Natureza" (p.2. onipotência e unipotência. sabido e ressabido que a existência mesma de Deus nem pode ser rigorosamente confirmada nem rigorosamente desconfirmada pela Ciência. Todavia. Este princípio necessário.1. Um conceito que se intui a priori. com Ele. 1. com a entrada em cena de um segundo Deus.5. Não há como duas ou mais onipotências ocuparem o mesmo espaço. singular e incausado. uma . um clone. O outro modo é a impossibilidade do suicídio em dois tempos: num primeiro tempo. uma norma fundamental hipotética. enfim. primitivo Deus.

E tudo isto somente se consuma pelo fenômeno da estatalização. para o povo grangear a adesão. Enfim. O povo como a transubstanciação do poder imanente que tudo pode 1. Sem o fenômeno da estatalização. exercitou uma soberania. superior a qualquer outro poder jurídico. 1.2. que tem no Estado a sua própria condição de aplicabilidade e expansão. no plano territorial-interno. E isto já significa a emergência de um Ordenamento Jurídico próprio. que um povo já existe. o que dissemos acerca da índole de Deus é de ser reproduzido quanto ao caráter de cada povo. à natureza do povo. única via lógica (não há outra) de o povo. em termos jurídicos (não sob o prisma sociológico. b) se predispõe a protagonizar. etc. ou pelo menos o respeito. . Emancipação política (soberania) para o povo poder se irrogar tal Ordenamento. é aplicável. antes da criação do Estado também não se pode. Única maneira objetiva e permanente de o povo atuar como um centro personalizado de imputação jurídica. É exprimir: o ser-povo significa poder existir sob a forma jurídica de Estado. Quando se autoqualifica juridicamente. especular sobre Ele (quem falaria.6. começando por este capítulo e prosseguindo nos subseqüentes. ou histórico. É dizer que o povo pôs em movimento. para o povo impor o seu próprio Direito no âmbito do território de que se apodera.3. Atento ao relativismo que é próprio das comparações.6. dos demais povos soberanos. É pressupor a soberania em ação. com animus domini. o já existir sob a forma jurídica de Estado.9 1.6. Mas o ser-Estado. Repisando a idéia. garantidamente. com esta dúplice função: primeiramente. e que não é inferior a nenhum outro poder jurídico. paulatinamente. 1. não há como entrever a face jurídica do povo.6. por definição. 1. Queremos dizer: é aplicável à natureza de cada povo soberanamente concebido. para uma coletividade humana.4. e nunca de forma pasteurizada? É a resposta que.6. quando pode dispor normativamente sobre si mesmo. falar da existência de um povo. Se antes da criação da vida humana sequer era possível falar da existência de Deus. relações jurídicas internas.). único modo prático-formal de o povo por inteiro se autoconferir um Ordenamento e uma personalidade jurídica. pela importância do assunto: o ser-povo. exclusivo. quem especularia?). segundamente. Se se prefere. c) força passagem para o seu ingresso na coletividade internacional de Estados. animamo-nos a enunciar que boa parte do que dissemos a respeito do caráter de Deus. quer na esfera territorial que é comum aos demais Estados soberanos (a ordem internacional de Estados). 1. forcejaremos por ministrar. juridicamente. naquele preciso momento da metamorfose do povo em Estado. jurídicamente. incorpora o poder de se autodeterminar jurídicamente. quer no seu próprio território. para o povo não mais se submeter ao Direito de outro povo. O povo só é povo. de forma autoditada. destarte. assim. terceiramente. porque somente assim estatalmente a se metamorfosear é que o povo: a) pode experimentar sua natureza de instância deliberativa soberana. se auto-referir como sujeito de relações-de-Direito. já agora no plano imanente. no plano territorial-externo.5. Implica emancipação como a forma exteriorizada de uma soberania que é. é dar conta do exercício vitorioso de uma emancipação política.1. Afirmar. ou étnico.6. o que objetivamente revela? Revela a efetividade da emancipação ou soberania do povo. A originária força de possuir um Direito próprio.solitária potência do mundo do ser? Um poder que só pode ser concebido in natura. no plano transcendente.

seja para se assumir como a instância decisória interna mais importante, seja para ombrear-se às demais instâncias internacionais de Estados. Numa nova metáfora, o Estado é a borboleta em que se transformou a crisálida de uma sociedade humana aspirante a povo.10 1.6.6. O que verdadeiramente conta, nessa cruzada histórica do povo em busca de si mesmo, à cata de sua própria totalidade como ser jurídico, é o resultado. É a efetividade interna e externa da personalização jurídica do povo em um novo Estado. Não que a efetividade só exista, no plano interno e externo, a partir do reconhecimento unânime desse novo Estado pelas instituições aplicadoras do Direito, no plano interno, ou, então, pela sociedade internacional de Estados. Absolutamente! Basta que o número dos reconhecedores assegure ao novo Estado a perspectiva, o clima, a tendência natural de prosseguir obtendo novos reconhecimentos (ainda que tácitos), à medida que se vão escasseando as possibilidades de recuperação de terreno do Estado decaído ou daquilo que sobrou da antiga ordem estatal. É o que poderíamos designar por situação de efetividade global do Estado emergente, imagem de que se valeu HANS KELSEN para dizer que o Ordenamento Jurídico não perde a qualidade de Ordenamento pelo fato de uma ou outra de suas normas, embora válida, deixar de ser concretamente aplicada. O que interessa é que, no global, no geral, no plano daquilo que profusamente ocorre, a Ordem Jurídica seja respeitada. Ouçamos o maior expoente do positivismo jurídico da recém-passada centúria: "Uma ordem jurídica não perde, porém, a sua validade pelo facto de uma norma jurídica singular perder a sua eficácia, isto é, pelo facto de ela não ser aplicada em geral ou em casos isolados. Uma ordem jurídica é considerada válida quando as suas normas são, numa consideração global, eficazes, quer dizer, são de facto observadas e aplicadas" (ob. cit., p. 298). 1.6.7. Ainda insistindo na comparação possível entre Deus e o povo, devemos concluir que o povo também não tem, em rigor, o poder imanente de tudo poder. Ele, povo, assim juridicamente designado pelo fato de se organizar em Estado soberano, é o próprio poder de tudo poder, em termos jurídicos e no plano territorial interno. Dá-se, na imagem ideal do povo, a transubstanciação da soberania (do latim super omnia, a traduzir aquilo que está acima de tudo ou acima de todos), assim como na doutrina católica se dá a mudança de estado do pão e do vinho para o corpo e o sangue de Jesus Cristo, na Eucaristia (dogma definido no Concílio de Trento). Ou, numa exemplificação propriamente científica, a osmose que se processa entre o povo e a soberania é algo assim como o encontro de duas partículas de hidrogênio com uma de oxigênio, a determinar a mudança de natureza desses dois elementos químicos para a formação de um terceiro: a água. 1.6.8. Vistas as coisas por este ângulo, força é convir que a soberania outra coisa não é, na prática, senão o próprio modo estatal de ser do povo. É como inferir: no justo momento em que a transfiguração estatal se efetiva, já o é como resultado empírico da fusão do poder soberano com o povo (o que significa dizer que o povo e a soberania passam a compor uma só unidade fenomênica, pois o povo é um com a soberania e a soberania é uma com o povo). O povo, impessoalmente encarado, é o poder soberano, tanto quanto o poder soberano, subjetiva ou personalizadamente focado, é o povo. 1.6.9. Sem o povo, a soberania é forma pura, isenta de toda matéria, e, portanto, vazia. E sem a soberania, que é o povo? Matéria humana coletiva ainda juridicamente privada de sua definitiva forma. Um ser jurídico ainda carente de totalidade, a meio caminho da autoconsciência, porque, nele, a soberania permanece numa dimensão apenas virtual. Daí a asserção de que, sem a incorporação da soberania, o povo não dá

a si próprio uma Ordem Jurídica e deixa de se personalizar no Estado. E assim juridicamente incompleto e estatalmente irrealizado é que o povo não consegue superar o estágio político de simples população, que é o inconcluso estágio de crisálida. 1.6.10. Perguntamo-nos: mas o que faz o povo ser assim a fonte e o nervo da soberania? A própria subjetivação do poder mais alto em que a soberania consiste? É que o povo, no seu amálgama com o território de que se torna senhor, falando geralmente a mesma língua e vivenciando uma cultura própria, constitui o que se convencionou chamar de nação. Algo mais que sociedade humana, mais que população, muito mais que simples aglomerado de pessoas, por implicar uma verdadeira comunidade (de comum unidade); isto é, uma real comunhão de vida, no sentido de consciência coletiva quanto à partilha de um mesmo destino histórico, por se encontrarem todos em um mesmo barco. Logo, o mais abrangente e impessoal e permanente enlace humano (que é mais do que convivência hic et nunc), de sorte a plasmar um tipo de realidade social que só pode ser o começo de tudo, no plano da Política e do Direito. 1.7. A soberania popular ou o modo constituinte de ser do povo 1.7.1. O Poder Constituinte 1.7.1.1. É neste ponto de intelecção que vem à baila a figura do Poder Constituinte. Um poder que em nada discrepa da soberania de que vimos falando, por ser ele essa mesma soberania; ou seja, O Poder Constituinte é a soberania que se manifesta de modo inicial ou primário. Logo, o nome que a soberania toma, quando expressada com inicialidade. 1.7.1.2. Se falamos assim de primariedade expressional da soberania, é porque o povo-nação, já imerso no seu Estado, atua em outros momentos que o Direito Positivo costuma etiquetar como expressão de "soberania popular". É o caso da Constituição brasileira de 1988, cujo art. 14 faz dos institutos do sufrágio universal, do voto, do plebiscito, do referendo e da iniciativa das leis pelos cidadãos uma forma de exercício, justamente, da soberania.11 1.7.1.3. Uma outra razão existe para falarmos de momento inicial da soberania, e aqui já temos em vista a figura do próprio Estado. É que ele também recebe o qualificativo de soberano, na medida em que pode impor ou ditar um Direito comum a todos, no interior do seu próprio território. E no uso dessa aptidão para expedir um Direito de abrangência e acatamento geral, o fato é que nele mesmo, Estado, se dá a reedição daquela marca registrada que é do povo, soberanamente concebido: o poder de procriar um Direito a que ninguém escapa (no caso do povo enquanto fonte normativa, esse Direito é a própria Constituição; no do Estado, o Direito pós-Constituição). 1.7.1.4. Reexplica-se. Põe-se no Estado a designação de soberano porque ele, tanto quanto o povo-nação, produz um Direito de máxima e irrecusável abrangência pessoal e territorial. Com a diferença de que o povo assim o faz pela altissonante via da Constituição e no uso de uma força originária ou potência propriamente dita; ao passo que ele, Estado, só pode fazê-lo por normas que são posteriores à Constituição e no uso de uma potestade ou competência derivada (a potência se dilui em competências, e não em outra potência, como bem observam HART e VANOSSI). 1.7.1.5. É assim no uso de uma capacidade normante que o povo lhe delega, lhe cede,

lhe empresta, enfim (sempre por conduto da Constituição), que o Estado dita um Direito comum a todos e, pela efetividade desse Direito, passa a abrir os mais favoráveis espaços de reconhecimento internacional à "sua" (dele, Estado) soberania. 1.7.1.6. É de se perguntar, naturalmente: e quando ocorre aquela citada manifestação primária da soberania? Manifestação primária, essa, que estamos a identificar com o Poder Constituinte? Não com o Estado? 1.7.1.7. Resposta: a soberania que se manifesta como Poder Constituinte somente ocorre, formal ou oficialmente, no preciso instante da criação jurídica do Estado. Criação que se formaliza, hodiernamente, no corpo de um documento jurídico-positivo cujo nome é Constituição (palavra que, no vernáculo, significa a maneira particular de ser de cada coisa ou objeto de conhecimento). 1.7.1.8. Quanto à justificativa para o nome técnico "Poder Constituinte", é porque ele significa o poder de constituir a Constituição (releve-se a poluição auditiva), que termina sendo o poder de constituir o Estado e o poder de dar início à montagem do Ordenamento Jurídico do povo e do Estado mesmo.12 1.7.1.9. Note-se bem: acabamos de ajuizar que o Poder Constituinte é o poder de constituir a Constituição, e não o poder de constituir normas constitucionais. A diferença entre as duas coisas é muito importante, porque de qualidade. Se toda Constituição é um feixe de normas constitucionais, nem todo feixe de normas Constitucionais é uma Constituição. Queremos salientar: o poder de editar a Constituição não incorpora o poder de reformá-la, tanto quanto o poder de reformá-la não incorpora o poder de editá-la. Quem faz o todo, faz o todo, e não menos. Quem faz a parte, faz a parte, e não mais. 1.7.1.10. Tornando ao mote: se toda Constituição originária é um repositório de normas constitucionais, nem todo repositório de normas constitucionais é uma Constituição originária. Isto porque as emendas à Constituição pressupõem uma Constituição originária a emendar. Lógico! E tais emendas veiculam normas... constitucionais. Porém, sob um regime normativo que não é autoditado por elas, e, sim, pela própria Constituição emendada. 1.7.2. O Poder Desconstituinte 1.7.2.1. Chamando o feito à ordem: O Poder Constituinte, manifestação primária da soberania, faz a Constituição, que, a um só tempo, faz o Estado e inaugura o Ordenamento Jurídico. É esse Ordenamento que vai receber do Estado uma ininterrupta complementação (e garantia), de maneira a consubstanciar todo o mundo do Direito: de um canto, o Direito-Constituição, que o Estado originariamente não faz (a parte da Constituição que o Estado faz já é a veiculada por emendas); de outro canto, o Direito pós-Constituição, que o Estado faz, ou, então, reconhece. Não há um tertium genus. 1.7.2.2. Dizer que existe um Direito originário que o Estado não faz é também dizer que esse Direito é o único a não passar pelo crivo do Estado ou de qualquer outra pessoa jurídica. É que, no momento constituinte, a sociedade é concebida como se de pessoas coletivas não se formasse. Nem públicas nem privadas. Apenas as pessoas físicas é que se tornam protagonistas das ações políticas de que resultam o féretro de uma Constituição e o partejamento de outra. 1.7.2.3. É aqui mesmo o lugar apropriado para falarmos de um Poder Desconstituinte. Que é o poder correlato ao Constituinte ou imbricado com ele. Pois é de todo evidente que o poder de constituir um novo Estado implica o poder de

sob o prisma político. A Constituição inaugura o Ordenamento.8. que é um modo jurídico inicial ou constituinte de ser. a instância humana primeva por excelência. nele. a dar início à criação do mundo em geral (a natureza e os seres humanos dão seqüência à obra de Deus). quem o conheceria para aquém das esferas da pura espiritualidade ou dos colmos angelicais?). claro que isto se dá pela despromulgação daquela até então vigorante. 1. 1. portanto.8. 1. se auto impõe as coordenadas de atuação legiferante. a nação é a única instância imanente capaz de partir de um marco zero jurídico para colocar uma Constituição em lugar de outra. 1.a primeira. É assim que se movimenta ou se materializa a potência. Por igual. há um modo jurídico de o povo se fazer conhecido.6. que é a Constituição por ele criada.7. Para fundar o Direito.8. a nação encarna essa potência de abater o velho e erguer o novo Ordenamento Jurídico. assim vinculadamente. responsável pela criação da pessoa coletiva ou plural também mais importante (o Estado). E também por inteiro. Como fazemos todos nós diante de um bom espelho de cristal. que é o próprio mundo por Ele criado (senão. início lógico de todo o Direito Positivo. Outro. na mesma pegada. É esse modo constituinte de ser que faz do povo.7. dois poderes que tudo podem: Deus no céu e o Poder Constituinte na terra (que é um poder geminadamente constituinte/desconstituinte). a subjetivada figura do Estado. Se é pelo dedo que se conhece o gigante.8. e com essa outra Constituição fazer o quê? Instituir um novo Ordenamento Jurídico e. de Estado e de Ordenamento Jurídico. o povo.4.2.4. Deus faz o que é próprio da potência em que Ele consiste: impõe a Si mesmo as próprias condições de "trabalho" (evidente que o vocábulo trabalho é usado por analogia com as empreitadas humanas de edificação de algo a partir de um imaginário ponto zero). E.desconstituir o velho. a dar início à criação do mundo jurídico em particular e a prescrever o modo pelo qual esse mundo jurídico vai receber seus necessários e infinitos complementos. por inteiro. a produzir o Direito mais importante (que é a Constituição). São temas que se interpenetram. de Poder Constituinte/Desconstituinte. o que temos é o modo soberano de ser de uma coletividade humana. apenas três considerações: I . tanto quanto o Estado não funda esse Ordenamento.2.1. 1. necessariamente. Se se prefere. 1.2. Falar.3. Um. que se reitere a pacífica noção de que a Constituição não inova o Ordenamento Jurídico. Se é possível promulgar uma nova Constituição.8. e pela necessária interpenetração é que se conceituam. 1.5. que não precisa mais do que a sua própria realidade para instaurar as relações que pretender. De conseguinte. de Constituição. então.8. por completo. O mundo de Deus e o mundo do Direito 1. neste passo. de povo (povo-nação) é falar de soberania. 1.5. A título de remate. Para fundar o universo. Instância humana primária e mais importante. Cada realidade a olhar nos olhos da outra para encontrar mais nitidamente refletida a própria imagem. é também olhando para a Constituição que reconhecemos a soberania de quem a procriou como norma jurídica primária (a Constituição enquanto modo jurídico de o povo se fazer conhecido como instância exercente de uma soberania que vai além do estádio da pura virtualidade). Se é olhando para o Universo que reconhecemos a soberania de quem o fez.8. podemos dizer que há um modo empírico de Deus se fazer conhecido. Temos. Quem inova o Ordenamento é o Direito .

por natureza independente. aí. não há como deixar esse órgão de atuar segundo pautas procedimentais adrede redigidas. III . 162).. comumente.regimento e respectiva aplicação -. II . de elaboração estatal. o poder constituinte originário não é regulado por direito anterior.a terceira e última consideração é esta: há um tipo de soberania que trata da Constituição (pois que a própria Constituição originária é que resulta do exercício dele). se coloca entre Deus e Sua originária criação). 1989. pelo seu modo comparativamente simplificado de elaboração. oriunda de outro órgão. Acentua-se-lhe. a atividade do poder constituinte. É tão-somente no âmbito do Poder Constituinte que é possível distinguir as duas coisas . p. associa-se-lhe. Dotado de propriedade tão eminente. e não do Estado à sociedade. materialmente. Donde esta didática passagem do livro "ESTUDOS CONSTITUCIONAIS". o qualificativo `originário'. desse modo. versando a dicotomia "Poder Constituinte e Poder de Reforma Constitucional: "Por ser um poder `fundador'. sem a menor força intrínseca de inovar o próprio fundamento da Ordem Jurídica (a Constituição mesma). O instrumento convocatório da assembléia é apenas meio que proporciona..a segunda consideração é a de que. Seu agir ou Seu fazer já são. Deus não se serve de ninguém para criar o mundo. por estar cerceada pelo ato de convocação. um fato-norma (nenhum órgão deliberativo. não condicionada a amplitude de sua competência por lei preliminar. ao qual não é dado estabelecer raias e vedações à tarefa inovadora. em si mesmos. Quando a corporação parlamentar não opera com liberdade de decidir.pós-Constituição. ao contrário do sucedido com o Poder Constituinte. porque o Poder Constituinte bem pode se manifestar por um órgão plural ou coletivo de deliberação. O único instante em que o Direito se subtrai completamente ao Estado. da autoria de JOSAPHAT MARINHO. O dínamo do Direito. Daí que não obedeça a normas regimentais antecipadamente lançadas. (.)" (edição da Universidade Federal da Bahia. e. . sobretudo por conduto da lei. e um outro tipo de soberania de que trata a Constituição (pois inteiramente normado por ela). por se traduzir em singela aplicação dos conteúdos e valores da Constituição Positiva. o timbre criador ou instituidor. a partir de um dado formal e outro material: formalmente. pela eleição dos representantes do povo. falta-lhe a dimensão de assembléia constituinte. singular ou colegiado. A lei é que é o verdadeiro motor do Direito. Somente o primeiro a revelar o fato de que o Poder Constituinte é o único momento político-normativo que vai da sociedade ao Estado.

e. a ponto de se poder afirmar que a cada nova Constituição corresponde um novo Estado (juridicamente falando.a Constituição. II .1. Donde podermos trocar a palavra "povo" pela expressão "poder constituinte". esse poder que. 2. A natureza política do Poder Constituinte 2. como sempre enfatiza MICHEL TEMER).1. tão socialmente mais abrangente e tão superior aos outros poderes políticos.1.1.6. de tão inicial. sem dúvida que estamos a falar de um poder genuinamente político. Quando pronunciamos a locução "Poder Constituinte". desde o berço. e o Poder Constituído como o poder que pode o menos sem poder o mais 2. é esse poder constituinte ou poder de constituir o Estado. Ela passa a transitar pelo mundo do ser (não do dever-ser jurídico) e por isso pode assumir-se como o amálgama do povo inteiro com o território sobre o qual esse povo inteiro vai constituir o seu particular Estado. é um poder simultaneamente constituinte e desconstituinte: zera a contabilidade jurídica até então existente e passa a começar tudo de novo (à feição de um professor que. Tão penetrado de povo. "Constituição da Espanha".3.. a encarnar o que há de mais político no Direito e mais anatômico no Estado. O Poder Constituinte como o poder que pode o mais sem poder o menos. Ela é feita para o Estado. na sua originária redação. estamos a falar de um poder exclusivamente político. 2.2.5. tão incondicionado. É assim. numa das mãos. A sociedade política em SIEYÈS 2. no rigor dos termos. O povo enquanto sociedade política e enquanto sociedade civil 2.1.9.2. tão necessário ele é para a auto-afirmação histórica do povo.1.A Lógica Própria do Poder Constituinte e a do Poder Constituído Sumário 2.4. O caráter democrático-formal do Direito posto pela sociedade política 2. não é feita pelo Estado. . na outra.1. do Estado.7. que é o povo enquanto ser ou realidade constituinte. saca de um apagador para limpar completamente a lousa da sala de aula. porque: I . A natureza política do Poder Constituinte 2. porta o giz com que vai escrevendo nos espaços vazios dessa mesma lousa). por ela mesma. Pois bem. O vínculo natural entre a sociedade política e a futuridade. O Poder Constituinte como realidade que fica do lado de fora da Constituição 2. naqueles raros instantes em que a pólis se sobrepõe ao Estado para dizer. sob que tipo de Direito-Constituição quer viver. porque originariamente imbricado em toda a pólis..Capítulo II . Constituição. O inexistente vínculo entre "excesso de rigidez" e "Poder Constituinte Evolutivo" 2.4.a Constituição é a primeira manifestação objetivo-sistemática daquele poder imanente que tudo pode. Mais até.3. que já não pode ser concebido senão como um poder que é parte do povo mesmo. "Constituição da República Popular da China". O modo constituinte de ser do povo. mantendo com esse Estado uma essencial relação de unha e carne. E não é por outra razão que toda Constituição Positiva toma o nome do Estado que ela põe no mundo das positividades jurídicas (daí "Constituição da República Federativa do Brasil". E por que é assim? 2. O caráter político do Direito posto pelo Poder Constituinte 2.1 2. todo povo assim constituintemente dimensionado vai estruturar o seu Estado no bojo de um diploma jurídico-normativo que toma o sintomático nome de Constituição.8.

é que o Direito disciplina o exercício do poder. 2. Pois que. Assim como Deus. Incisivamente. por conseguinte. enfeixadas na Constituição. e não jurídica. por ser o Poder Constituinte uma força ou realidade exclusivamente política (sociológica. da consciência sobre a experiência.10.7. Poder Constituinte.6. É assim que o Poder Constituinte tem à sua mercê o Estado em particular e o Direito em geral."Constituição dos Estados Unidos da América". 2. se já pertencesse ao mundo desde sempre. na figuração de NORBERTO BOBBIO. pois: se o Poder Constituinte fosse um poder jurídico. É coberto de razão que o positivismo analítico realça a anterioridade do Poder sobre o Direito. Não o nome de um objetivo setor de relação jurídica ou atividade humana. Uma vez instituído. o Código Penal.1. como sucede. Notei muitas vezes que. a se manifestar por conduto de normas jurídicas originárias. está à vontade para plasmar o Estado. de alguma forma. Esta. cuida-se de esfera exclusivamente normante. pois o Direito mais inicial (que é a Constituição Positiva) deixaria de provir dele mesmo. 2. no estratégico momento em que elabora a Constituição. com todos os órgãos elementares desse Estado e respectivas funções. o puro poder. E porque é assim. pelo menos na Itália. agora sim. Temos por cognoscitivamente decisivo o que estamos a enunciar e por isso é que batemos na mesma tecla: o povo.1. e não simultaneamente normante e normada. o Código Eleitoral.1. a unitária potência. porque somente quem detém o poder . mas o desempenho do poder que já se instituiu por virtude do Direito mesmo. e não o contrário.nele próprio se transfundindo -.1.3 2. e a essa esfera pré e metajurídica de poder bem assenta o nome de esfera política.5. Há uma esfera de decisão anterior e superior a toda positividade jurídica. no preciso instante em que pronuncia o fiat lux mundano. o exercício daquele poder que tudo pode (acrescentamos). é quem faz o Direito. Toda essa força que tem o Poder Constituinte para fazer o que bem entender do Direito só é possível. tem que ser uma instância exclusivamente ideal ou transcendente. assim.). juristas constitucionalistas e cientistas políticos que se ocupam do mesmo tema.1. muitas vezes se ignoram reciprocamente. o Código Comercial. etc. porém. é uma instância exclusivamente política de deliberação. Como está à vontade para fazer da sua nova Constituição o início lógico de um novo Ordenamento Jurídico (o que sobrevive do antigo Ordenamento deixa de manter elo-causal com a Constituição sepultada e corre a buscar fundamento de validade na nova Carta Política). Poder e Direito são as duas faces de uma só moeda. A própria Constituição originária. é gestada por ele e somente por ele. Exclusivamente política. Não. ao mundo teria que render vassalagem. não poderia inaugurar o mundo das coisas jurídicas. ele já faria parte do Direito e ao Direito teria que se submeter. porque enraizada e afinal transfundida na pólis.2 2. O mesmo acontece na relação entre juristas internacionalistas e estudiosos das relações . do espírito sobre o corpo. 2. Assim como Deus. se jurídico fosse o Poder Constituinte. com o Código Civil. e.1. Ele é que tem a Constituição na mão. que assim expõe o seu luminoso pensamento: "Creio não incorrer em pecado de presunção se disser que o fato de ter cultivado estudos jurídicos e políticos me permitiu analisar os mil e um complicados problemas da convivência humana a partir de pontos de vista que se integram. a toda estatalidade oficial. contudo. o Estado. o fato sociológico bruto (não-juridicamente lapidado). na visão de FERDINAND LASSALE). etc. Encarna. a jorrar daquele puro poder. que é a primeira voz do Direito aos ouvidos do povo. por conseqüência.9. a atestar a primazia da idéia sobre a matéria. a Consolidação das Leis do Trabalho.8.

internacionais quanto à análise da organização dos Estados. Os dois pontos de vista são, de um lado, o das regras ou das normas como preferem chamar os juristas, cuja observância é necessária para que a sociedade esteja bem organizada, e, de outro, o dos poderes necessários para que as regras ou normas sejam impostas e, uma vez impostas, observadas. A filosofia do direito ocupa-se das primeiras; a filosofia política, das segundas. Direito e poder são duas faces da mesma moeda. Uma sociedade bem organizada precisa das duas. Nos lugares onde o direito é impotente, a sociedade corre o risco de precipitar-se na anarquia; onde o poder não é controlado, corre o risco oposto, do despotismo. O modelo ideal do encontro entre direito e poder é o Estado democrático de direito, isto é, o Estado no qual, através de leis fundamentais, não há poder, do mais alto ao mais baixo, que não esteja submetido a normas, não seja regulado pelo direito, e no qual, ao mesmo tempo, a legitimidade do sistema de normas como um todo derive em última instância do consenso ativo dos cidadãos" (em DE SENECTUDE - O Tempo da Memória, Editora Campus, 1997, p. 169). 2.1.11. Como visto, BOBBIO abre uma necessária distinção entre o fazer e o garantir as normas jurídicas, permitindo-nos deduzir que, se o Estado não detém o monopólio da produção do Direito, é, no entanto, a única instância dotada do poder oficial de garanti-lo (garantir o cumprimento do Direito, entenda-se). O que levou KARL POPPER a formular este singelo e preciso enunciado: "Não existe liberdade que não seja garantida pelo Estado e, ao inverso, só um Estado controlado por cidadãos livres pode oferecer-lhes alguma dose razoável de segurança" (em THE SOCIETY AND ITS ENEMIES, 5ª edição, Revista Londres, 1966, pp. 50/51). 2.1.12. Em ultima ratio, poder e Direito são a primária dicotomia ou os dois mais elementares princípios de organização da vida social. Vida, que, sob o prisma jurídico, se constitui de relações verticais e de relações horizontais. Estas, pressupondo a igualdade de forças entre os respectivos protagonistas, e, aquelas, a superioridade de uma parte sobre a outra. De todo modo, relações que fazem do Direito o complexo das condições existenciais da sociedade, na propalada conceituação de IHERING. Ou como sentenciava TOBIAS BARRETO: "Perante a consciência moderna, o Direito é o modus vivendi, é a pacificação do antagonismo das forças sociais".4 2.2. O caráter político do Direito posto pelo Poder Constituinte 2.2.1. Complementemos a revelação dessa fotografia do poder e do Direito com a afirmação de que, em se tratando do poder político, é na Constituição Positiva que os dois fenômenos culturais se dão mais firmemente as mãos. A Constituição é o Direito que nasce daquele mais originário decisionismo, daquela vontade fundamentante que se contém no poder político. Donde a sua visualização como o primeiro ponto formal de encontro ou como o espaço inicial de integração das duas categorias sociais básicas (o poder e o Direito). 2.2.2. É este panorama de integração que subjaz ao visual da Constituição como "estatuto jurídico do fenômeno político" (CANOTILHO), ou como "estatuto jurídico do Estado" (JORGE MIRANDA). Não sendo à toa, portanto, o rótulo social e até jurisprudencial-doutrinário que toda Constituição porta de "Código Político" e de "Carta Política". 2.2.3. Em verdade, a Constituição é Código Político, sobretudo pela sua origem e pelo

seu objeto. Pela sua origem, por advir do único poder que funda o Ordenamento sem nesse Ordenamento mesmo se fundar sequer de modo reflexo (e já vimos que esse poder fundante do Ordenamento é eideticamente político). Pelo seu objeto, porque esse objeto, sendo essencialmente o Estado, carreia para a Constituição a politicidade que envolve tudo quanto se refira à estruturação estatal: o tipo unitário, ou federal... de Estado; a forma republicana, ou monárquica de governo... do Estado; o sistema parlamentar, ou presidencial de governo... do Estado; o modo independente e harmônico de relacionamento entre os órgãos elementares... do Estado; o sistema eleitoral de investidura dos titulares dos órgãos legislativo e executivo... do Estado; a representatividade popular dos órgãos eminentemente políticos... do Estado; a abertura dos espaços de movimentação da cidadania e de criação dos direitos públicos subjetivos como limites à atuação... do Estado, etc., etc. Nada resta, praticamente, nesse patamar da organização básica do Estado que não seja entranhadamente político. E quase tudo é entranhadamente político por dizer respeito a interesses que são de toda a coletividade. Interesses da pólis ou da civitas que no Estado se personaliza juridicamente, compondo, de modo formal, o reino do universal ou plurifinalístico; isto é, o reino do que há de mais abarcante, impessoal e permanente, que é o reino da política. 2.2.4. Se bem observarmos, toda Constituição Positiva se estrutura formalmente em partes que, ora diretamente, ora indiretamente, põem o Estado como tema de conformação. Ele, Estado, circula por todos os recônditos da Magna Lei, variando o seu regime jurídico pelo modo (direto, ou de esguelha) como a Constituição mesma dispõe sobre esse transitar institucional. Com o que ficamos inteiramente à vontade para imaginar a Constituição como a certidão de nascimento e a carteira de identidade do Estado. 2.2.5. Quanto à designação de "Código", referida à Constituição, entendemo-la perfeitamente ajustável às Constituições de um só texto ou corpo único de dispositivos. Não àquelas Constituições que se derramam por atos legislativos esparsos. Nas primeiras - Constituições que se escrevem num corpo único de dispositivos -, comparecem pelo menos dois dos elementos que se presentificam em toda codificação jurídica: a) a sistematização formal, traduzida na setorialização de temas afins, agrupados segundo o esquema relacional que vai do gênero à espécie; b) o propósito de substituir inteiramente a normatividade então vigorante sobre a matéria, de sorte que toda a prescritividade sobre tal matéria se contenha no novo e único ato legislativo, no momento da confecção desse ato. 2.2.6. Já no tocante ao apelido de "Carta Política", ele se explica por ser a Constituição uma carta ou estatuto de direitos e garantias fundamentais, tudo, naturalmente, perante o Estado e o Governo ou por intervenção deles. O que também confere a esse tema dos direitos e garantias fundamentais (neles também figurantes a nacionalidade, a soberania popular e a cidadania) uma vívida coloração política; pois é de toda a sociedade o interesse em que haja uma zona de especial proteção normativo-constitucional a tais situações jurídicas ativas.5 2.2.7. Nessa trajetória relacional do político para o jurídico, ou do Poder Constituinte para a Constituição, o fato que nos parece mais digno de nota reside em que o político não se deixa regrar pelo jurídico. Não se torna objeto das normas que passa a editar, ao reverso do que se dá com o poder já oriundo do Estado, que é um poder que se faz arqueiro e alvo das suas próprias setas normativas. 2.2.8. Façamo-nos melhor entender: o poder político por excelência, que é o Poder Constituinte, não se deixa mesmo regrar pelo Direito. Isto é correto. Mas não significa

estar ele completamente imune a parâmetros e até mesmo a freios sócio-culturais, no instante em que elabora a Constituição. O paralelo com a obra de Deus não pode ser feito senão com temperamentos ou moderação, pois salta à inteligência que o autor da Lei Maior sabe muito bem que as chances de efetividade da sua obra legislativa depende da estima social interna e do reconhecimento político externo que venha a obter (e quanto mais forte a primeira, mais provável o segundo). E é mesmo na expectativa da obtenção dessa dúplice "boas-vindas" à sua obra normativa que o legislador-mor tende a amainar em si os ímpetos de abusividade. 2.2.9. Tudo tem limite nas coisas ditas humanas e o Constituinte não escapa à contingência de ter que operar com um olho no padre e outro na missa; quer dizer, tanto compenetrado dos seus incondicionamentos formais e ilimitabilidade material quanto do risco da inefetividade global da sua obra. Meio termo, destarte, entre o desmarcado e o demarcado (o desmarcado, no campo da positividade jurídica; o marcado, no campo sócio-cultural). Razão pela qual já dissemos, alhures, que, sobre os limites do Poder Constituinte, é comum vê-los comentados enquanto expressão do Direito Natural (SIEYÈS), ou das concepções axiológicas mais assentadas na trajetória da humanidade (PAUL BASTID). Até porque "O poder precisa ser forte, mas sua fortaleza decorrerá tanto do mecanismo que o envolva como, sobretudo, do consenso nacional que logre despertar" (J. BLANCO ANDE, em "TEORIA DEL PODER", Madri, Ed. Pirámide, 1977, p. 144). 2.3. O Poder Constituinte como realidade que fica do lado de fora da Constituição 2.3.1. A insubmissão do Poder Constituinte à sua própria obra legislativa 2.3.1.1. Uma nova pergunta é de se fazer, com toda pertinência: e por que o Poder Constituinte não está submisso ao Direito já positivado, nesse Direito embutido o de índole constitucional originária? 2.3.1.2. Uma primeira resposta: porque o Poder Constituinte está do lado de fora da Constituição. Faz a Constituição, claro, mas sempre do lado externo a ela. Não entra no corpo dos dispositivos constitucionais, porque, se entrasse, aí, sim, passaria a ser uma realidade tão normante quanto normada. Conheceria condicionamentos formais e finitude material, como é próprio de toda instituição ou de todo instituto que se torna objeto de norma jurídica. Dedução: o poder que fica do lado de fora da Constituição, no ponto de partida, fica para sempre do lado de fora. Ao reverso, o poder que fica do lado de dentro da Constituição, no ponto de partida, fica para sempre do lado de dentro. 2.3.1.3. Uma segunda e complementar resposta: o Poder Constituinte fica do lado de fora da Constituição porque ele não é, nem pode ser, criatura da Constituição. É o criador, unicamente. O escultor que faz a escultura, sem a menor chance de se deixar fazer por ela. Seria assim como Deus a ter uma parte de Si mesmo feita pelo mundo que Ele criou, o que está fora de toda cogitação filosófica não-materialista. 2.3.1.4. E agora a terceira e definitiva resposta: o Poder Constituinte é o criador da Constituição porque ele, sendo a primeira manifestação da soberania, é o próprio povo. É a pólis por completo, no preciso instante histórico em que a pólis dá a si própria a mais radical das conformações jurídicas: a conformação inicial e superior a todas as outras. Um tipo de conformação que pressupõe a intransigente postura do começar tudo de novo, no plano lógico das coisas, que é um começar por inteiro. No atacado e de uma só vez (se assim preferir atuar o Poder Constituinte). Logo, a

7 2. embora não-diretamente nascido dos próprios órgãos do novo Estado. Estado.7. ou garante.3. ela morre de parto. é um dos muitos instantes que vão do Estado à sociedade civil. percebe a sociedade civil que ela própria é que pode impor um novo Direito a um novo Estado e assim é que passa a se levantar como povo para escrever a epopéia de sua auto-afirmação jurídica. diríamos: no momento em que a Assembléia ou Convenção Constituinte promulga sua obra legislativa (o Magno Texto).5. 2.1.3. anteriores à nova Constituição. renovadamente.antessupor a desconsideração de todo o Direito preexistente. Só uma outra Assembléia ou Convenção Constituinte é que pode gestar uma outra Constituição. Num novo esforço de síntese. a diferença entre ele e o Poder Constituído. o momento certo. Daí a formação da seguinte dualidade básica: I . com a nova Constituição rimam em conteúdo). no sentido de o novo Estado poder impor à coletividade. sem remissão. 2. A Assembléia Nacional Constituinte como órgão de presentação da sociedade . Já a Assembléia Constituída. II . sim. composta por agentes e instituições de natureza pública (e ao conjunto das ações que as pessoas naturais e os grupos particulares praticam é que se aplica o designativo de iniciativa privada ou setor privado. assumiu sua natureza constituinte. Aquele primeiro momento (momento constituinte) é o único instante que vai da sociedade civil ao Estado. ou por esse Estado garantido.1. o único momento logicamente cabível para o povo dizer que se reuniu em Assembléia Constituinte. Ela existe para operar em regime de permanência. no seguinte sentido: a sociedade civil percebe. É o momento.6 2. Realidade populacional que tem por contraponto o Estado. Os outros momentos em que o povo legislativamente se reúne são momentos em que o povo já se paramenta ou usa a indumentária de um Poder simplesmente Constituído. É o mesmo que falar: sente.1.a sociedade civil.6.3. 2. A única parte da Constituição Positiva em que o Poder Constituinte pode falar sobre si mesmo. "Cortes Gerais" ou "Congresso Nacional". sobretudo o contido na Constituição fundante do antigo Ordenamento. cuja cabeça é devorada pela fêmea durante o acasalamento.2.3. pode se auto-referir. tanto quanto se reserva a expressão iniciativa pública ou setor público para o conjunto das ações que os agentes e as entidades estatais desencadeiam). é o preâmbulo de sua obra normativa. seja pelo Estado garantido (caso do Direito Consuetudinário e daquelas normas jurídicas infraconstitucionais que. numa determinada quadra histórica.a sociedade estatal. porque o objetivo da reunião do povo em Poder Constituído é para a elaboração de um Direito pós-Constituição. Tem o destino trágico (ou glorioso?) do louva-a-deus macho. o Direito que nasce dos próprios órgãos dele. é o espaço possível para o Poder Constituinte projetar. Aqui. Mas é claro que estamos a falar de sociedade civil como sociedade civilizadamente regida pelo Direito que o Estado põe. pode dar à luz quantos rebentos legislativos quiser. ou o Direito que.1.8. Já o segundo momento (momento constituído). geralmente positivada com o nome de "Parlamento". sem qualquer predeterminação quanto ao número de atos legislativo-materiais a produzir. composta por agentes e instituições de natureza privada. por se tratar de uma ante-sala ou de um prefácio do corpo de dispositivos da Constituição.3. sente que tem a força de romper a sua habitual situação de reverência ao Direito posto pelo Estado até então existente. de fora para dentro da Magna Carta. como condição lógica de elaboração constitucional.

. de mais a mais.. A se trabalhar com a idéia da possibilidade de o Poder Constituinte se auto-referir normativamente. conhece condicionamentos e limites que não prevalecem para o órgão de presentação. indevida mescla do Poder Constituinte com as pessoas naturais que. se referir ao seu editor (o Estado). por dispensar a representação do Estado. pode ser válido. como o que proíbem" (PEDRO LESSA. referido na página que antecede o sumário do livro "CONTROLE JURISDICIONAL DE CONSTITUCIONALIDADE". E se presenta. que. figurativamente. desde que nos marcos da Constituição. Outra importante discriminação. como afirmado.3.todo ato de uma autoridade delegada. Mas a obra do Poder Constituinte está logicamente impedida de falar sobre o seu autor. É órgão encarregado da representação (não da presentação) da sociedade.2. 2. É deduzir: o Direito pós-Constituição pode dispor sobre o Poder que sobre ele dispõe. contrário aos termos da delegação em virtude da qual concedeu essa autoridade.. tudo se entronca no mesmo corpo físico.3. a propósito de outro assunto.3.2. Negá-lo importaria em afirmar que o delegado é superior ao comitente. A seu turno. podem fazer não só o que os poderes outorgados não autorizam.3..3. visível. por nenhum modo. o cérebro.. Desse corpo eles não se distinguem. o invisível. Por prescindir da intercalação do Estado entre ela (sociedade) e os respectivos componentes individuais e grupais. da muito boa lavra do jurista ZENO VELOSO. Editora CEJUP.3.3. a um outro ser que não o corpo social. e não propriamente da sociedade. Completa inversão de valores.2. não pode ficar à mercê dessa mesma Constituição. porque o Estado de que ela faz parte é o ser que personaliza juridicamente todo o corpo social. o . E esse outro ser é o Estado. pertencem.1. estão para o corpo humano. o coração. porque são o corpo mesmo. porque os órgãos de presentação estão para o corpo social assim como o fígado. enquanto a Constituição mesma não pode dispor sobre o Poder que sobre ela dispõe (o Poder Constituinte). Seria atentar contra a própria natureza do Poder Constituinte. ter-se-ia o quê? Uma geração a querer negar às demais a possibilidade de acordar em si mesmas a força geratriz da substituição de uma Constituição por outra.3. a Assembléia Constituída é órgão do Estado. coração. nenhum ato legislativo. E por ser a Assembléia Constituída um órgão de representação. o ausente.3. Essa total inversão de valores acarretaria. Já os órgãos de representação..1. Conseqüentemente. Esta separação radical entre os dois órgãos legiferantes é da natureza das coisas. é nulo. 1998). 2. infringente da Constituição.2. O Poder Constituinte e sua impossibilidade de auto-regulação constitucional 2. pois a representação pressupõe duas entidades ou dois corpos distintos: o do representante e o do representado. tendo a Constituição inteiramente à sua mercê. É nela que a sociedade se "presenta". para usarmos de vocábulo cunhado por PONTES DE MIRANDA.3. e não do Estado. já tenuemente reportada: as normas editadas pelo órgão ou Poder Constituído podem. cérebro. Afinal. Fígado. o distante. representar é tornar próximo.3. 2. fato que subjaz a formulações teóricas deste porte: "Não há proposição mais evidentemente verdadeira do que esta .3. em assembléia deliberativa. A Assembléia Constituinte é órgão da sociedade. que o servo pode mais que o senhor. que os representantes do povo têm mais faculdades que o próprio povo. 2. 2. perfeitamente.2.2. que homens que obram em virtude de poderes conferidos.3. presente.

2. o fenômeno da revogação de uma Constituição por outra com a idéia de auto-revogação constitucional. Em termos quiçá mais elucidativos: conter a Constituição qualquer dispositivo sobre o exercício da função constituinte é convocar o próprio coveiro dela mesma.7. É preciso não confundir. seja para permiti-lo. para adotar esta outra fórmula de prisão perpétua do pensar dos pósteros: e quero também que a minha vontade atual seja toda a vontade que esse mesmo ser humano médio possa vir a ter pelos tempos a fora. 2. A qualquer tempo. de modo a se perder no infinito um tipo de regração que privaria o povo de se autoconvocar ou de ser por outra forma convocado . não pode deixar de ficar do lado de fora da Constituição. Tem que permanecer no mundo dos fatos. teríamos o despautério de um legislador que já não se contenta em prescrever: quero atualmente o que o ser humano médio quer e provavelmente continuará a querer. hiere la víctima y se extingue" (DONOSO CORTES). É esse colégio de pessoas naturais que não sobrevive. Semelhante pretensão de aprisionamento de todo o pensar coletivo do porvir seria um ato de insanidade tal que corresponderia a proibir o ser humano de respirar. 2. ora latente. para ressurgir Deus sabe quando (completamos). e a terceira fizesse o chamamento de uma quarta. a qualquer instante. seja para vedar sua transformação em assembléia constituída.9. 2. porque no cabe en los libros y rompe el cuadro de las Constituciones. nem mesmo a prazo ou diferidamente.3.3.3.8. Caso pudesse embutir na sua Constituição uma cláusula de eficácia autodemolidora.3.3. Seria um contra-senso. ora de modo efetivo.3.6. 2. tudo na dimensão do atacado normativo? 2. a Assembléia Constituinte estaria a cometer o dislate de convocar outra assembléia igualmente constituinte para preencher o vácuo de Constituição e já nada mais impediria que essa outra assembléia convocasse uma terceira. e muito menos na do Poder Constituído. aparece como el rayo que rasga el seno de la nube. inflama la atmósfera.4. está logicamente proibida de ter eficácia autodemolidora.3.exercitam concretamente. pois a segunda (auto-revogação do Magno Texto) é algo inteiramente impensável na fisiologia do Poder Constituinte. Por isso que a Magna Carta pode dispor sobre o destino dele.3. enquanto assembléia constituinte mesma.3. E quando vem a se historicizar (é dizer: quando vem a se efetivar). si aparece alguna vez.3. portanto. Sobrevive ao seu próprio labor (mas sempre do lado de fora) e é assim que pode gestar quantas Constituições quiser.3.5. nada pode ser normado. a não ser naquela parte normativa por ela mesma nominada de "disposições transitórias". Esse Poder não se exaure jamais na obra que edita. pois o típico de quem exerce a função constituinte não é o poder de destroçar a Constituição preexistente? Zerar a contabilidade jurídica? Passar a borracha no Direito velho e com o lápis escrever o Direito novo. que o Poder Constituinte se auto-regulasse no corpo de sua própria obra legislativa.3. Sobre o destino do Poder Constituinte. Caso o Poder Constituinte pudesse entrar na Constituição como criatura dela.3. É nascer o Magno Texto com sua explícita vocação para o suicídio. Nenhuma eficácia teria esse tipo de normação. contudo. em qualquer período. A Lei Maior não pode ter. à Constituição Positiva que ele vier a promulgar. A primeira não tem nada a ver com a segunda. por albergar ou potencializar ação que "no puede localizarse por el legislador. 2.3. ni formularse por el filósofo. jamais. pois o certo é que ele perpassa o tempo inteiro o corpo social. pois o Poder Constituinte é ser que não comporta transmutação em dever-ser.10. exatamente para não recusar a cada geração o que é da natureza de cada geração: despertar em si. a força constituinte.

Desponta claro. pois todo novo querer normativo discrepante que ele viesse a externar teria sempre (como tem) a força de uma nova Constituição.1.2. sob o efeito do aumento de sua temperatura a um determinado . O povo enquanto sociedade política e enquanto sociedade civil 2. um novo Estado e uma nova Ordem Jurídica. contudo. Um órgão constituinte a repassar poderes para outro (?). o Poder Reformador (que é um poder estatal e.4. uma vez criado.4.3. O Criador. debaixo.3. Crise de existência versus existência de crise 2. constituído) é o poder de dispor sobre partes da Constituição.4.11. quebrando o vínculo essencial (porque direto) entre o povo e a instância formal de elaboração do Magno Texto. O Poder Constituinte e seu campo divisional com o Poder Constituído 2.1.para vivenciar seu momento constituinte. Limitação intrínseca insuperável. estaria semeando no ar. já não é uma sociedade civil. durante todo o tempo de vigência da obra que uma dada Assembléia Constituinte vier a promulgar. contudo. o Poder Constituinte.3. no lastro formal da sua Constituição. porém sem poder se substituir ao Criador. convenhamos. deixar que esse Estado possa trocar de Constituição. Ela se transmuda em povo. o cosmos. mas de representação daquele primitivo órgão de sua convocação.4. apagando a assinatura que o originário Autor deixou em Sua obra. de um único limite material lógico: o não . De mais além. sem nenhum controle por parte de órgão estatal. Era uma população. averbemos que o mundo cuida de si próprio. sem. portanto. Poderia desrespeitá-la a qualquer momento. e de repente sobe à dimensão de povo. então. 2. no justo momento em que a sociedade consegue dar a si mesma uma nova Constituição. E mais: o Direito feito para o Estado tem de permanecer o referencial do Direito feito pelo Estado.3. que o campo divisional entre o Poder Constituinte e o próprio Poder Reformador tem que ser precisa e claramente demarcado. o orbe.1. O mundo é o Poder Constituído. porque só uma Constituição pode trocar o Estado por outro. se uma determinada instância constituinte pudesse entronizar outra no palco das realidades jurídicas.1. comecemos por retomar a idéia de que. sociedade.poder permitir que o mundo se transforme tanto por conta própria a ponto de dar a si mesmo um novo começo. ela.4. numa fala mais aproximativamente jurídica: a Constituição cria o Estado. para que não se transija com o cientificamente intransigível: o Poder Constituinte é o poder de dispor sobre o todo da Constituição.3. Como se o momento constituinte não fosse uma realidade inexoravelmente situada no mundo do ser. Plantando no vazio. dispõe sobre si mesmo.4. dotando-o do poder de se completar por conta própria. O mundo vela por si. Neste novo segmento especulativo. Salta do meramente demográfico e econômico para o político e histórico. Tudo isto é como dizer. pois não ficaria preso a tal normatividade.4. 2. Por comparação. e não mais. Este é que dispõe originariamente sobre o universo. Acresça-se: o Poder Constituinte que viesse a dispor sobre si mesmo.3. Assim como a água em estado líquido muda a sua forma para se transformar em vapor. Não um Estado a trocar a sua Constituição por outra.3. 2. e não menos. mas não passa a cuidar do Criador. 2. 2. essa outra instância já não seria órgão de presentação do povo.

É fundamental essa compreensão do povo enquanto instância que se assume como sociedade política. descendo. 2. porque esse momento de excitação histórica única é um momento único de excitação histórica pelo mais grave dos motivos: o povo a tomar consciência de que está engolfado numa existência de crise.1. para tomarmos de empréstimo um verso do poeta goiano GABRIEL NASCENTES. Por isso é que o povo proclama para si mesmo e para o orbe inteiro que é nele próprio que se encontra toda a sapiência política. o povo se torna.6. a água só se movimenta por si mesma. 9ª edição. porque. O povo. Isto porque as instituições estatais até àquele momento estruturadas entraram em colapso ético. Perderam a sua necessária condição de locomotivas sociais. p. Em estado vaporoso. subindo (prova de que.4.1.4. triunfante. do negar as instituições nascidas à sombra de um Estado sobre o qual é preciso jogar.2. que o povo é a encarnação da sociedade política.4. que é uma função indelegável (ninguém mais pode fazer experiência tão estrutural com todo o corpo social). por exclusão: a) uma sociedade temporal e excepcionalmente não-estatal. Que pretendemos dizer com sociedade não-juridicamente civilizada? Queremos dar conta de uma sociedade que recupera o seu tônus politicamente selvagem (falemos assim) do começar tudo de novo. que pode ser também um colapso a um só tempo ético.8 2. na medida em que insubmissa ao Estado até então existente. Esclerosaram-se ou esgotaram-se tanto no seu papel institucional de liderança que delas já não se espera senão empurrar cada vez mais a população para o pior dos abismos. a última pá de cal. por seu lado. à guisa do que. 15).4. ou político. 2. ou seja. que é o vácuo de poder. Não apenas numa crise de existência. Em momento que tal. certa feita. 2. na medida em que juridicamente incivilizada. Nesse contexto do puro poder político.1. não se acha onde se encontra o poder político. E a nova Constituição que desse momento constituinte irrompe. Mais lógico é dizer. que tem o aspecto bolorento das coisas caquéticas e sem a mínima condição de antecipar o futuro. Um poder que se aloja nos páramos da suprapositividade jurídica e da supraestatalidade oficial então vigentes. é a perfeita encarnação de uma sociedade que já não pode ser chamada de simplesmente civil. quando se trata de impedir as catástrofes ou de atenuar-lhes os efeitos" (pensamento recolhido do livro PARA LER E PENSAR. Editora Record.3. Tudo isto se traduz no desenho de uma quadra histórica em que o povo tem a certeza de que o Estado até então operante (mais certo seria dizer inoperante) já fez do presente um tempo que recende a passado.1. b) uma sociedade também temporal e excepcionalmente não-civil. de uma sociedade que se auto-reconhece como a subjetivação de um poder acima do Direito e do Estado.grau. que só pode ser um poder exclusivamente político. embora a água permaneça água .9 2.5. nela.1.o salto químico não chega a ocorrer . o povo experimenta a sua mais grave hora de fazer destino.4. momento constituinte.1.o seu modo de estar-no-mundo ou de se manifestar num dado momento já não é o mesmo). funcional e político. Em estado líquido. Do apagar todo o Direito preexistente. ou funcional. sem tardança. hoje em dia. que é algo passageiro e para cujo enfrentamento as instituições oficiais ainda dispõem de aptidão jurídica e vontade política.4. é o marco jurídico da superação da referida existência . sentenciou HERMANN HESSE: "A sabedoria política. Urge que toda uma corrente de inteligência e de intuição irrompa das camadas não oficiais.4. 1971. 2. o modo empírico ou atual de ser já é diferente do imediatamente anterior. então.7. isto é. Hora de fazer uma nova experiência global consigo mesmo. apetite e responsabilidade para continuarem a serviço do bem comum.

E se falta essa intervenção. cantor popular do Brasil: "Ô Madalena. pensamos que a sociedade humana que plenifica o seu próprio ser político e jurídico. O que nos traz à memória esta passagem de velha música de IVAN LINS. a sua soberania. c) sociedade civil. BOBBIO e MARCELO CAETANO.2. aquilo que só ele pode fazer. se a sociedade política é o Estado. são protuberantemente superiores ao tino e à coragem pessoal dos governantes? 2.2. como AUSTIN. forças da natureza ou da História (tanto faz). Todavia. o que é meu não se divide").10 2. É necessário. 2. é uma sociedade que se triparte em: a) sociedade política. 2. Só o Poder Constituinte pode agir no pressuposto do colapso cardíaco das instituições. a reaglutinar energias físicas. o que sucede? O mal irá crescendo a tal ponto que já não poderá ser eliminado senão pela eliminação do próprio Estado. no instante em que manifesta. Entretanto. nessas ocasiões (o pensador florentino é quem raciocina).4. O momento constituinte como estado de plenificação decisória de um povo 2.3. Essa generalizada compreensão de estado de falência das instituições como background da atuação constituinte é de grande relevo teórico. b) sociedade estatal. Como certa feita escreveu MAQUIAVEL (terceiro livro de Tito Lívio). que é a mais alta expressão do atacado normativo de um povo.2.4.2. um tratamento clínico". Somente ele pode normar em termos iniciantemente (ou reiniciantemente) globais.nacional de crise. primariamente. Com este nosso modo pessoal de qualificar o povo como sociedade política. GRAMSCI. Uma espécie de luz no fim do túnel. de quando em quando. quando vista sob o prisma da sua personalização jurídica ou do poder constituído. que uma intervenção recupere o Estado para os princípios sobre os quais o poder público está assentado. 2. É a hora de fazer destino voltamos a dizê-lo -. bem sabemos estar a dissentir de autores da mais forte compleição intelectual. da primária manifestação da soberania (cujo nome técnico é "Poder Constituinte"). se o Estado é a sociedade política.1. "Num Estado. que sinonimizam Estado e sociedade política. quando "civilizadamente" atuante nos marcos da sociedade estatal que se tornou efetiva por efeito.1. É claro que o modo normal ou habitual de ser do povo é sob a forma de sociedade estatal e de sociedade civil. durante o momento constituinte por ele experimentado. valores morais e ideais cívicos de que todos precisam para tocar um novo projeto global de vida. naquela situação concreta em que os lobos da política oficial já serraram todas as grades jurídicas das suas tocas? Ou naquelas situações em que as forças calamitosas do acaso. Esta é a dualidade básica. há certos elementos que se ligam aos outros e cuja presença requer. como no corpo humano. Este o seu espaço irrepartido de ação jurídica.4. que o povo mais decididamente vive pela sua transmutação de sociedade civil em sociedade política.4.2. Debaixo de todas as vênias.8. que nome dar à sociedade humana no preciso instante em que ela funda a própria sociedade estatal? Em que ela já não aceita permanecer como o cordeiro jurídico em que a sociedade "civil" termina sendo. de forma episódica ou excepcional . justamente. pois o de que se trata é viver a epopéia do começar tudo de novo.4. pois contribui decisivamente para separar o joio do trigo. alçando-se à condição de povo. O único remédio capaz de debelar a enfermidade maior do vácuo de poder e que abre para o povo a perspectiva de uma vida de permanente auto-afirmação.2.4. Assim é como o vemos na cotidianidade dos nossos dias.4.

Posteriormente. 2. sob a regência desse maestro ideológico de nome neoliberalismo. até que uma outra anormal elevação histórica de temperatura determine a sua metamorfose em sociedade política. porque não tem um ponto visível de partida solar. tentam esmaecer as linhas de confrontação entre o Poder Constituinte . a propósito da diferença qualitativa entre o contingente humano que se faz matriz de um poder constituinte e esse mesmo contingente que se faz o berço de um poder apenas constituído.1.2. Conotativamente.4. ensejador da corporificação de uma sociedade que já não é nem estatal nem civil.5. evapora e vai se condensar na atmosfera. por efeito de uma alta.5. retoma o seu estado habitual de sociedade civil. estão lançadas no incendiário panfleto Q'U-EST-CE QUE LE TIERS ÉTAT? (Liber Juris. A sociedade política em SIEYÈS 2. Há muita similitude entre o raciocínio aqui expendido e aquelas idéias básicas do famoso teórico e revolucionário francês. A água. temos por sociedade política ou povo na sua dimensão constituinte. Tudo lembra um aparelho eletrônico auto-reverse. esse instante máximo de feeling ou excitação histórica. mas que procede de uma causa. 2. instantes de plenificação decisória do seu próprio ser. visto não ser nem estatal nem civil. nestes escritos. Uma luminosidade que parece destituída de qualquer fonte. desce sob a forma de chuva e assim recupera o seu estado líquido. É uma luz que ninguém sabe de onde vem. ascende à condição de sociedade política. tal situação transicional somente se deu no distante ano de 1787. quando da transformação da confederação americana em federação).de turbinada inquietação histórica.5. Empós. 113 e seguintes). 2. uma altíssima temperatura existencial. em larga medida. imaginemos a processualidade daqueles dois estados líquido e vaporoso da água e melhor entendermos a dialética da relação que transcorre entre a sociedade civil e a sociedade política. formando nuvens. um bumerangue. com a particularidade de que o estágio de sociedade civil só raramente avança para o estágio de sociedade política (nos Estados Unidos da América. é algo assim como a luz crepuscular. Com alguma similitude. ou de partida lunar.2. E é nesses instantes de legítima defesa da sua identidade e da sua sobrevivência. As idéias básicas do Abade. pp. mas que pensamos encontrar justificativa no fato de que elas parecem condenadas a cair no esquecimento daqueles juristas hodiernos que. que o povo empunha o cetro de soberano e passa a atuar como sociedade exclusivamente política. já por efeito do maior frio das alturas e de outras condições atmosféricas. Todas estas coisas que estamos a predicar à sociedade política é aplicável. Apenas não temos um nome apropriado para colocar nessa fonte de luz que se não deixa ver pelo olho humano. aquelas de que nos servimos para os fins desta nossa monografia. talvez. por não ser nem a luz do dia nem a luz da noite. por efeito do calor da terra. passamos a transcrever de modo quiçá excessivo.2. à realidade humana global a que SIEYÈS chamava de "nação". com a serenidade dos ânimos ou o resfriamento da temperatura existencial (a nova Constituição que se faz globalmente efetiva é que recoloca as coisas em seu ponto de normalidade).6.5. pela sua extrema importância. um transe histórico verdadeiramente insólito. sim. nós. O que ele tinha por nação. Ainda por apego a figurações. o povo desperta em si mesmo o poder (sempre adormecido ou latente ou virtual) de desconstituir a velha ordem estatal e de concomitantemente constituir a nova ordem. a sociedade civil. 2.4. Uma realidade que se define por exclusão. São idéias que. E ela assim permanece.

só existe na forma que a nação quis lhe dar. no estado de natureza. Ele não é nada sem suas formas constitutivas. se quisermos que ele exista ou que aja. quisesse dar uma constituição a seu governo. com que interesses se teria dado uma Constituição à própria nação? A nação existe antes de tudo. "Devemos conceber as nações sobre a terra como indivíduos fora do pacto social. Essas leis são chamadas de fundamentais. se reúne e delibera como faria a própria nação se. Achamos que esta faculdade seria contraditória consigo mesma. ela não deve estar. Nenhuma espécie de poder delegado pode mudar nada nas condições de sua delegação. a não ser por elas. sua vontade. basta que ela queira. É neste sentido que as leis constitucionais são leis fundamentais. "A esta necessidade de organizar o corpo do governo. devemos fazê-la. Vejamo-las: "Em toda nação livre . todas as formas são boas. Todos os princípios que acabamos de citar são essenciais à ordem social. A vontade nacional. Se quisermos ter uma idéia exata da série das leis positivas que só podem emanar de sua vontade. é a própria lei. como ela não pode estar. não age. Daí as inúmeras precauções políticas que foram introduzidas na Constituição. Não se trata de distinções inúteis. Não é aos notáveis que se deve recorrer. sem as quais o exercício do poder se tornaria ilegal. "Não é próprio ao corpo dos delegados mudar os limites do poder que lhe foi confiado. só precisa de sua realidade para ser sempre legal: ela é a origem de toda legalidade. "Um corpo submetido a formas constitutivas só pode decidir alguma coisa segundo a . e que são outras tantas regras essenciais ao governo. Antes dela e acima dela só existe o direito natural. "O poder só exerce um poder real enquanto é constitucional. as outras determinam a organização e as funções dos diferentes corpos ativos.e toda nação deve ser livre . esta não seria completa se encontrasse um só caso para o qual não fosse possível indicar regras de conduta capazes de resolvê-lo". vemos. ao contrário. "Assim. é necessário acrescentar o interesse que a nação tem em que o poder público delegado não possa nunca chegar a ser nocivo a seus comitentes. Qualquer que seja a forma que a nação quiser. "Entretanto. "Não só a nação não está submetida a uma Constituição. mas porque os corpos que existem e agem por elas não podem tocá-las. O exercício de sua vontade é livre e independente de todas as formas civis. e sua vontade é sempre a lei suprema. é à própria nação. "Mas é verdade que uma representação extraordinária não se parece em nada com a legislatura ordinária. Só a nação tem direito de fazê-la. Esta só pode se mover nas formas e condições que lhe são impostas. não tem necessidade de levar os caracteres naturais de uma vontade. mesmo composta por um pequeno número de indivíduos. Só é legal enquanto fiel às leis que foram impostas. em primeira linha. para surtir todo o seu efeito. Se precisamos de Constituição. o corpo dos representantes. A outra não está submetida a nenhuma forma em especial. ou. as leis constitucionais que se dividem em duas partes: umas regulam a organização e as funções do corpo legislativo. não no sentido de que possam tornar-se independentes da vontade nacional. mas do poder constituinte. a que está confiado o poder legislativo ou o exercício da vontade comum. como se diz. Sua vontade é sempre legal. o que equivale a dizer que ela não está.só há uma forma de acabar com as diferenças que se produzem com respeito à Constituição. São poderes diferentes.e o Poder Constituído. de acordo com que critérios. a Constituição não é obra do poder constituído. não se dirige e não comanda. Em cada parte. Como existe somente na ordem natural. ela é a origem de tudo.

6. e certamente ele responderá que sim. nem uma forma de governo. a tradição. nestes escritos que reproduzimos de memória: Pátria não é um sistema. que mantêm os brasões dos seus antepassados e tudo fazem para repassar tais insígnias (com tudo de particularmente honroso que elas simbolizam) às gerações porvindouras. que faz da nação (o cacófato "danação" é inevitável) uma realidade eminentemente tradicional. Os Estados gerais. porque adiciona ao presente a dimensão do passado e do futuro desse mesmo povo. 2. A comunhão da lei. são incompetentes para decidir sobre a Constituição.Constituição.1. supomos.6. Por outro lado. é uma realidade presente.1. 2. da língua e da liberdade.5. que o abade EMMANUEL JOSEPH DE SIEYÈS falava de nação como até hoje a vivenciam os ingleses: uma coletividade humana intertemporal. mesmo quando reunidos. O confronto entre o princípio da racionalidade constitucional e o princípio democrático 2.5.3. 2. Cada nova geração é detentora de mais conhecimentos do que as anteriores. é transgeracional. Pátria é o céu. É o aqui e o agora da população de um País. de qualquer forma e qualquer condição". a consciência.6. Assim como se dá com os membros de uma família tradicional. que JOSÉ JOAQUIM GOMES CANOTILHO assim expõe: "Em teoria da Constituição o paradoxo aqui subjacente é o paradoxo da omnipotência: poderá um corpo soberano parlamentar com poder para fazer leis em qualquer momento limitar o seu próprio poder de fazer essas leis? No caso das normas constitucionais o paradoxo é evidente: as normas constitucionais irrevisíveis assegurariam a omnipotência dos seus autores sobre as gerações futuras o que será radicalmente contrário às regras da democracia. Paradoxo. independente.6. O berço dos filhos e o túmulo dos antepassados. 2. que fala. o lar.4.5. para eles. Diríamos. A tradição como o forno ou o cadinho histórico no qual se tempera o aço da nacionalidade. A nação é muito mais. atua de forma diferente das que lhe foram impostas. senão com severos limites. O povo. Parece-nos claro. o clima. nem um monopólio. A legitimidade que advém desse arraigado sentimento coletivo de nação como algo inda mais denso. modificação pelo Poder Constituído. A soma das pessoas vivas. tanto na Teoria da Constituição em geral quanto na Teoria do Poder Constituinte em especial. porém a sabedoria. Só à nação pertence. a festejada proclamação espiritual que RUY BARBOSA fez a respeito de pátria. o presente e o futuro de um povo. A esse panorama conceptual de nação bem se ajusta. Deixa de existir a partir do momento em que se move. uma linha imaginária entre o passado. E aqui já começamos a enfrentar a recorrente questão de saber até que ponto existe legitimidade democrática numa Constituição que submete aos seus termos as gerações futuras. Um enlace anímico da ancestralidade. o solo. não cansamos de repetir. Que não se permite receber.5. Não pode dar-se outra. então: a distância que vai da realidade populacional à realidade nacional é a mesma que vai do conhecimento à sabedoria. a verdadeira sapiência.1.5. solarmente claro. Pergunte-se a um inglês se a Rainha da Inglaterra goza de legitimidade política. É o que se tem apelidado de paradoxo da onipotência. O caráter democrático-formal do Direito posto pela sociedade política 2. da coetaneidade e da posteridade. 2. Este direito pertence unicamente à nação. se as normas não se . inda mais representativo que o conceito de povo. nem uma seita.

Queremos dizer: é próprio desse tipo de organismo ou ente coletivo a aptidão de ultrapassar as barreiras do tempo. porque somente de conteúdo. assim. na pia batismal do voto popular. ou por qualquer forma imposta por um grupo que toma de assalto o Governo. é que já porta consigo o pecado original da não-participação popular. realizado em Aracaju. ou um elemento central do princípio democrático (a não-escravização normativa das futuras gerações) não nos parece inquietante por nenhum modo. Esse "inquietante" paradoxo da onipotência.3. Peter Suber resume. de maneira a somente ter a chance de ganhar legitimidade pelo seu prolongado exercício ou duradoura efetividade (legitimidade a posteriori. e a bicentenária Constituição dos Estados Unidos da América bem o comprova: a mais sólida nação democrática do planeta a conviver com a mais antiga das constituições escritas. por isso. Ela. tácita ou não-expressa. 99): se as normas jurídicas que autorizam a mudança podem ser utilizadas para se alterarem a si mesmas. conclui-se que é permitida a sua auto-aplicação. Uma comunidade. Vol. ou de um elemento central da racionalidade jurídica ou de um elemento central da teoria democrática" (pp. Constituição. à face da sua dimensão cristalinamente espiritual ou de autoconsciência. uma verdadeira comunidade. Não há espaço psicológico para as novas gerações se sentirem democraticamente acuadas menos ainda castradas -. XXXI.1. Parece que temos de prescindir. e. chegamos por esta via a um paradoxo e uma contradição. ela já se impõe como documento jurídico de berço democrático. o atendimento das prementes necessidades da população viva e ainda por cima a . de sorte a poder conciliar na sua obra legislativa estrutural (a Constituição) interesses que traduzam reverência à cultura e à memória nacional. e não à sua reforma. pois: I .6. portanto. quando se elege uma Assembléia Constituinte já se sabe que ela presenta a sociedade política ou nação. in Boletim da Faculdade de Direito de Lisboa. porém. que é sempre uma legitimidade precária: legitimidade pela metade. se não existirem outras normas a fazê-lo.2. distribuído pelo autor português aos participantes do VII SEMINÁRIO NACIONAL DE ESTUDOS JURÍDICOS-SENEJ. II .1. 2. o seu raciocínio (in O Paradoxo da Autorevisão no Direito Constitucional. "o paradoxo da omnipotência"?11 2.em se tratando de uma Constituição geneticamente autoritária. Com efeito. pois. a questão democrática diz respeito é à própria Constituição. traduzido no dilema de se ter que sacrificar. Sergipe. no sentido que o vocábulo "nação" era utilizado por SIEYÉS e que interpretamos como uma coletividade humana de superior estatura ou eminência ímpar.encontrarem sujeitas a limites. 6 e 7 da conferência OS HOMENS FAZEM AS CONSTITUIÇÕES MAS NÃO SABEM AS CONSTITUIÇÕES QUE FAZEM. no período de 05 a 10 de maio de 1998). pois não há como convalidar o vício processual de origem).6. cuja característica nuclear é justamente a intertemporalidade (o espírito é atemporal). mas se não são empregues para tal fim (e se não há uma norma superior a autorizar essa alteração) temos então normas imutáveis. Paradoxo e imutabilidade acabam assim por constituir um difícil dilema para os juristas e cidadãos das democracias ocidentais. Onde. ou um elemento central da racionalidade jurídica (a irreformabilidade das cláusulas de reforma da própria Constituição). Vemo-lo mesmo como um falso problema. de uma Constituição votada por uma Assembléia ou Convenção Constituinte que se forme por eleição geral (é essa modalidade de colégio deliberativo que tem sido alvo desta nossa teorização). recobre com o seu halo ou a sua aura castiçamente popular as sucessivas gerações de destinatários normativos. não ungida.em se tratando. 1990. p. As normas da revisão aplicam-se elas próprias para a sua revisão.

6. a Constituição vier a padecer do grave defeito de não haver costurado a unidade possível das ideologias. a nação está acordada. cit.. 115. qual é a lição da História? A História nos diz que a sociedade civil toma por si mesma o comando do processo político-jurídico e parte para a formação de uma nova Assembléia Nacional Constituinte.2 Fricção entre nações versus sucessividade geracional no interior de uma mesma nação. Como tantas vezes dito. e tudo o que lhe pertence.6. duas nações ou duas sociedades políticas: uma que fez a Constituição e outra que se sente oprimida por essa mesma Constituição. jamais sobrevém o desconforto domocrático de se ter que . por vezes. Mas o fato é que a nação que elaborou a Constituição é tendencialmente a mesma que se decide por um outro Código Supremo. porque presentada. 2. Agora. Se o que vier a mudar no tempo for apenas a população. pp. (. (. nunca o teria sido.5. Onde. a sua vontade tivesse que esperar uma maneira de ser positiva. o contingente humano. ou no transcurso do tempo. cair no descrédito geral e a sociedade civil passar a sentir aquele terrífico presságio de que está à beira do mais fundo abismo da ausência de poder. os pósteros. para o efeito prático de mudar de Constituição.2. e qualquer que seja a sua vontade. no momento constituído. mas será que ela pode impor deveres a si mesma? Sendo as duas partes a mesma vontade. ela jaz adormecida. em presumível segurança. (.2. embora com esta inescapável distinção: no momento constituinte.2.6. pode tirar a sua sesta. Queremos dizer: não existe esse tipo de ditadura. a ofensa ao princípio democrático. ao menos no plano formal ou da eleição dos membros da Constituinte? Sendo a nação ou sociedade política o modo constituinte de ser do povo.. ela pode sempre desobrigar-se de tal compromisso" (ob.13 2. Só pode delegar o seu exercício.1. em princípio. pois . Em segundo lugar: com quem se teria comprometido esta nação? Eu entendo que ela pode obrigar seus membros.6. 118 e 119)... histórico e também racionalmente jurídico da eleição de uma Assembléia que só é nacional por ser constituinte e só é constituinte por ser nacional.. se desde a sua originária prescritividade. enfim. ela não pode cercear o direito de mudança assim que o interesse geral o exigir. atuante. seus mandatários.) Primeiramente. é aí que a sociedade civil se transmuda em sociedade política e passa a vivenciar a sua dimensão constituinte. E por isso é que as gerações que se sucedem no tempo não vêem a Constituição como o símbolo da ditadura da primeira geração constituinte.reperguntamos -.1. cada geração ou simples sociedade civil.) A nação é tudo o que ela pode ser somente pelo que ela é". da anomia do Ordenamento por inteiro. tudo envolucrado por uma só e exclusiva nação.. pois não dissemos que o traço eidético da nação era (e é) a intertemporalidade? Não há.) Seria ridículo supor a nação ligada pelas formalidades ou pela Constituição a que ela sujeitou seus mandatários. ela tende a permanecer a mesma e única nação ou sociedade política pelos tempos afora.pavimentação da estrada pela qual transitarão.4. 2.6. é aí que o povo se transforma em nação e lega à posteridade a imorredoura lição de que "a comunidade não se despoja do exercício de sua vontade. nem se proibir o direito de mudar. de propósitos pouco edificantes. Se para tornar-se uma nação.12 2.. 2. senão como fantasia de politólogos a serviço. porque representada. ou ficar muito abaixo do padrão médio de moralidade e humanismo.1. É sua propriedade inalienável. Este o sentido psicossocial. uma nação não pode nem alienar. Na sedutora linguagem de SIEYÈS.

2. conforme se trate. naturalmente. nestes escritos em que. O primeiro tipo de maioria a preponderar sobre o segundo. 2. mas alheia. Nesse tipo de prefiguração extrema ou hipótese-limite. como dantes explicado). está ainda defendendo a maioria permanente elaboradora da Constituição. Não é assim. 2. O que a segunda nação aspira é a uma Constituição estalando de nova. conforme. porque a primeira Constituição não é sentida como coisa própria. . o povo elege aqueles que vão governar.3. Em verdade. essência mesma da Democracia. a segunda nação não quer trocar de Constituição. juridicamente. naturalmente contrária à primeira (duas nações ortodoxamente caracterizadas não podem conviver sob o mesmo Estado ou sob a mesma Constituição. a partir deste essencial corte distintivo: numa eleição comum. numa eleição constituinte o povo escolhe aqueles que.6.6. Uma legitimidade ainda mais densa que a ressaída de uma eleição geral comum para a renovação dos quadros políticos de qualquer Estado. numa eleição constituinte. 1988). muito bem doutrina CLÉMERSON MERLIN CLÈVE. secundando o importante constitucionalista norte-americano RONALD DWORKIN. 2. Tal como se deu com o Brasil ante Portugal. o estrelato do voto. Noutro dizer.2. 2. de modo a culminar com a revolução triunfal de 7 de setembro de 1822.5. Só para si. se essa Constituição está assentada no sufrágio popular. pois a eleição dos elaboradores da Constituição é. conferência publicada na coletânea "10 ANOS DE CONSTITUIÇÃO".6. de uma assembléia de presentação do corpo nacional ou de uma assembléia de representação do corpo tão-somente populacional. é preciso lembrar de que a Corte Constitucional. Se tem a respaldá-la a mais indiscutível das legitimidades.6. pela mediação do Texto Magno. duas nações que já não podiam conviver no mesmo espaço político-jurídico. p. que é circunstancial" (em AS MODERNAS FORMAS DE INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL.suportar uma Constituição formalmente rígida. a culminância da participação popular no processo político. ou sequer alterar a Constituição vigorante. que é a legitimidade do voto. Que permaneça a primeira nação com a respectiva Lei Maior . Editora Celso Bastos. ela é ele. Animamo-nos a dizer: enquanto a nação ou sociedade política evoca a idéia de permanência.2.4. Daí que o princípio majoritário que informa as decisões colegiadas passe a igualmente se discriminar em maioria permanente e maioria passageira. porém. em detrimento da maioria eventual. para que o referido desconforto democrático exista é preciso que uma outra nação venha a se formar. não por decisão da primeira (a nação portuguesa) quanto a esse juízo de inconvivibilidade. irão governar de modo permanente aqueles que irão governar de modo transitório. Um só Estado personalizava. aliás. Exclusivamente sua. sem que a mais recente não aspire à sua emancipação política). o povo elege aqueles que vão governar quem vai governar. 43. respectivamente. Noutro modo de exprimir o mesmo pensamento: a segunda nação passa a deter um Poder Constituinte próprio e com esse Poder Constituinte já não pode deixar de entretecer uma relação de inerência (ele é ela. propugna por uma atuação mais livre do Poder Judiciário sempre que se trate de atualizar as concepções de que decorrem os conceitos constitucionais: "Neste particular. contanto que não impeça o novo corpo nacional de iniciar a sua própria experiência constitucional-positiva.esta é a palavra de ordem dos que fazem a nova nação -. mesmo elastecendo a sua tarefa. mas por eficaz rebelião da segunda (a nação brasileira). a população ou sociedade civil tem na mutabilidade o seu espaço de significação ontológica.6.2.

o respeito devido ao juízo da Humanidade obriga-o a declarar as causas que o impelem para a separação. não pode ensejar a questão do desconforto democrático a que se reporta o neoconstitucionalismo.fenômeno diferente da simples sucessividade geracional -. Estados livres e independentes... os representantes dos Estados Unidos da América.8. porque destinada a viger em âmbito pessoal e territorial próprio. ou seja. enquanto se conservar como solitária nação no âmbito espacial de validade da sua Constituição e da territorialidade do seu Estado. Assim como o rio é um só rio. É dizer: não estando presente o sujeito. como coisa estranha. A história do atual rei da Grã-Bretanha é a história de repetidas injúrias e usurpações.)". também a nação é uma só. concretamente. 2. do que a "Declaração de Independência dos Estados Unidos da América" (datada de 4 de julho de 1776). Nesse idealizado contexto de fricção nacional . invocando o Supremo Juiz do Universo como testemunha da retidão das nossas intenções.6. desde que já não vincule os membros da nova nacionalidade. reunidos em congresso geral.Daí que venha a se autoconferir uma Constituição mais que paralela. é seu dever livrar-se de tal governo e tomar novas providências para bem da sua segurança. Não compartilhado com outra pólis. no sentido de que um deles (o dominado) não reconhece como obra de uma sua primeira geração constituinte a Lei Maior "estrangeira" sob a qual se encontre. da nascente à foz.6..) Mas. é claro que tudo que juridicamente provenha da primeira nação seja concebido. em nome e por autoridade do bom povo destas colônias. a se perpetuar na cambiância dos corpos populacionais que se sucedem no tempo. .10. E fora dessa hipótese-extrema da lenta formação de um corpo nacional contra outro? Bem. "(.6. 2.. se uma outra nação não se forma no espaço territorial da primeira. Como legislação que bem pode permanecer intocada.7. e de direito devem ser. completamente dissolvidos (. na matéria. "(. como a sensação de desconforto pode estar? 2. que estas colônias unidas são. Discurso mais eloqüente não pode haver. este o mais alumiado contorno da aura de toda nação enquanto monolítica nação permanecer. que elas se desligam de toda a obediência à Coroa Britânica. um princípio espiritual" (RENAN). do momento em que se constitui até o sobrevir da última geração. experimentar o desconforto democrático. todas tendo como direto objetivo o estabelecimento de uma tirania absoluta sobre estes Estados. revela o desígnio de os submeter ao despotismo absoluto. deixa de existir o próprio sujeito coletivo que poderia. Foi este o paciente sofrimento destas colônias e é agora a necessidade que as constrange a alterar o seu antigo sistema de governo.. e devem ficar. Transgeracional.6.2. Por isso mesmo é que ela tem sido definida como "uma alma. dizendo respeito a uma outra região fenomenológica.o dominante e o dominado -. nós. Ele se coloca é no plano das relações entre os dois corpos nacionais . E é claro que o problema do desconforto democrático não pode medrar no interior de uma nação cuja história constitucional mal começou. após a elaboração constitucional.9. visando invariavelmente ao mesmo fim. quando uma longa sucessão de abusos e usurpações. e que todos os laços políticos entre elas e o Estado da Grã-Bretanha ficam.2. solenemente proclamamos e declaramos. da qual pinçamos os seguintes trechos: "Quando no decurso da história humana se torna necessário a um povo romper os laços políticos que o ligaram a outro e assumir entre as potências da Terra a posição separada e igual a que o habilitam as leis da Natureza e do Deus da Natureza.) Por conseqüência. pela segunda. Por isso que..2.2. 2.

". Ora bem. aceitar que os tratados internacionais é que servirão de fundamento de validade para a Constituição de cada Estado signatário.2. se preponderam. Não há nem pode haver Constituição multinacional. Por fidelidade. a acontecer o triunfo do novo e estranho modo de pensar o constitucionalismo. mudaram as perguntas. 2. além de não-popularmente eleitas para esse específico fim. ou. de 26 de agosto de 1789?14 Que atentado maior pode haver àquilo que se traduz na essência mesma da idéia de Constituição como o mais eficaz mecanismo jurídico de contenção do Poder.3.2.3. se a multinacionalidade se faz acompanhar da pluralidade de Estados soberanos. Deveras. nenhuma delas abdica de Constituição própria. da Constituição e do Estado. da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e do Mercado do Cone Sul (MERCOSUL). seja pela indireta (consagração dos direitos e garantias fundamentais)? Do princípio de constitucionalidade e. Constituições não são. que já não terá nação nem Estado isolado onde possa irromper e frutificar. E passaremos a ter Constituições Positivas sem vínculo operacional com a própria Democracia. uma: ou as supostas Constituições cosmopolitas não preponderam sobre as Constituições Nacionais. quando as encontrei. do Poder Constituinte. também não se relacionam pelos imprescindíveis moldes do sistema de freios e contrapesos e ainda por cima não têm a balizá-las um catálogo mínimo de direitos humanos e respectivas garantias? Como explicar a titularidade plural de um poder (o Constituinte) que se define. Das duas. mas um holding de autoridades "supraestatais" que. todavia. com os seus lógicos desdobramentos.6. e.4.3. e não mais o inverso? Isto não significa romper completamente com a idéia-força da própria constitucionalização do Direito. ajuizemos de uma vez por todas o seguinte: se cada nação permanece com o seu Estado.6. se em nenhuma das nações "presentadas" foi aberto o processo democrático do voto popular para a eleição dos membros de tal Assembléia? Como submeter a essa Constituição-de-gabinete as Constituições democráticas de cada nação pactuante? Como aceitar uma Constituição que não plasma nenhum Estado em particular.6.3.6. Multinacionalidade desse tipo e unicidade constitucional são como água e óleo: não se relacionam por osmose. Finalmente.3.5. portanto. O paradoxo . Jamais. como pretendem ser os pactos formadores e regentes da União Européia (UE). que se dá no seio de uma única nação aspirante à soberania? Como falar de uma Assembléia Constituinte Plurinacional. 2. enfim. seja pela forma direta (Separação dos Poderes).6. as Constituições Nacionais é que deixarão de sê-lo. justamente.1. com este conhecido desabafo: "passei a vida inteira procurando certas respostas. do princípio democrático? 2.6. da Democracia.das "Constituições" cosmopolitas ou ultranacionais 2. Nesta suposição. então. 2. E aqui se encontra o pano de fundo teórico para a nossa recusa ao tracejamento de uma "Constituição" ultranacional ou cosmopolita. simultaneamente.3. Constituição comum a vários .. como ficaremos todos? Ficaremos naquela atarantada situação de que falava o pensador.agora sim . 16 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. desaparecem também as nações originárias e respectivos Estados. aos elementos conceituais da nação. como não colocar na etiologia da Constituição a metamorfose que resulta da passagem de uma sociedade civil para uma sociedade política? Metamorfose. traduzida no famoso art. pela unicidade do ser de que promana e em cuja ossatura afinal se transfunde? Como.3..

Mas sempre nos termos da Constituição de cada Estado signatário.3. E como é verdade que um decidido controle estatal interno e globalização econômica são coisas antitéticas. exigência dele. etc. o melhor governo não é o que menos governa. usufruídos estes por um número cada vez maior de pessoas. Diante.Se os deveres do Estado para com o setor cultural não podem significar jamais um dirigismo.a cultura é manifestação do espírito. tudo é absolutamente irrenunciável. O que é preciso entender é que instituições multilaterais como a União Européia e seus êmulos são as velhas e boas confederações de Estados. científica e de comunicação. independentemente de censura ou licença"). cerceando-lhe a intrínseca espontaneidade em qualquer das suas formas de exteriorização (daí a Constituição brasileira estatuir. que são justamente as referidas necessidades de sobrevivência individual e de bem-estar comunitário. pelo inciso IX do seu art. Ao contrário do que afirmava JEFFERSON. o receio de que o Estado venha a perder o controle da sua economia (efeito próprio da globalização). Não sobre o controle estatal interno . porém o que mais governa para que um número cada vez maior de pessoas deixe de precisar dele.6. da consideração de que a teoria das Constituições regionalizadas (ou plurinacionais) tem mesmo a sua motivação factual na globalização da economia (que é a globalização dos mercados). 2. pois nada mais falacioso que a teoria da mão invisível. higiene. seja no plano do bem-estar social (moradia. deixemos gravado em alto relevo o nosso dissenso à equivocada identificação que o neoliberalismo vem fazendo entre mundialização cultural e globalização econômica. então. portanto. Neste sítio. artística. de ADAM SMITH. E que vão surgindo por efeito da evolução política de cada corpo nacional que se abre para tais ou quais vantagens comuns. 2. exigência dele. de modo que a sua gradativa mundialização não significa propriamente um risco de perda do seu controle. abdicando. Não pode ficar acima do Estado.). que entra e sai do pacto por sua espontânea e soberana vontade. contundentemente negada pelas iniqüidades sociais de todo o século XIX e dos primeiros dezessete anos do Século XX. ela paira acima da organização estatal. transporte. na processualidade da vida. o holocausto só pode recair é sobre a globalização. Exclusiva. Governo. lazer. vestuário). o dever de impor direcionamentos e até de intervir (ora por mecanismos de permanente fiscalização e sancionamento. porque o primeiro dever do Estado é com o atendimento das necessidades materiais da sua população. São coisas diferentes.de revés. do poder-dever de organizar o aparelho produtivo do País na direção do máximo possível de auto-suficiência em bens e serviços. assim. Não uma espontânea otimização de riquezas. III .3. que "é livre a expressão da atividade intelectual. II . como a própria soberania.Estados soberanos é uma contradição nos termos. então. Faz sentido. seja no plano da sobrevivência biológica do ser humano (alimentação.6. E tudo é absolutamente irrenunciável porque sem a mediação do Estado a economia se torna uma espoliação organizada. Por natureza. O risco passa a existir é quando o Estado se mete a monitorar a cultura. pois a soberania de cada Estado se formaliza é numa Constituição não-compartilhada. a partir destas considerações que temos como imperativos históricos: I .7.6. 5°. o mesmo não se pode dizer quanto à ordem econômica. ora pela eventual competição empresarial direta e ainda pelo estímulo). segurança ecológica. a economia é manifestação do corpo. ou uma intervenção. e tende mesmo a traçar os contornos do próprio Estado. Tendo por suporte jurídico-formal os tratados internacionais de sempre.

Ou. porém a desejar com os demais se interpenetrar ou dissolver numa só manifestação. Se a nação apenas sai do estado de efetivo poder constituinte para uma quadra de virtual poder constituinte e vice-versa.4. De revés. pode desertar de sua Constituição a qualquer momento. Se ela existe. a querer. Nenhum bloco de vontades. se a Constituição rígida.15 Ou. Corporativamente. de saída.7. 2.7. e só então. etc. nunca deixa de estar disponível para a nação?16 2.quantas sejam . nem é preciso esperar por uma segunda. possui legitimidade política e senso histórico de oportunidade para dar forma jurídica ao próprio futuro. Cada bloco de vontades a querer preponderar sobre os demais. tem o poder de revogá-lo.5. ela é nação o tempo inteiro. empenhadas em produzir uma vontade final tão-somente grupal ou particular. se a vontade a manifestar é mesmo da nação. o paradoxo da onipotência (pela terceira vez perguntamos)? Como falar de antidemocraticidade a posteriori da Constituição rígida. E por ser nação o tempo inteiro. e não o seu dobre de sinos. consegue atingir um nível tão aceso de autoconsciência a ponto de desembaçar toda névoa que prejudique o límpido visual da futuridade. O vínculo natural entre a sociedade política e a futuridade 2. É justamente o visceral compromisso com o porvir que faz a nação tornar a sua obra legislativa um verdadeiro processo. Este o seu modo especial e único de ser. se colocar o problema da revogação constitucional. por mais rígida que seja. razão da autonomia conceptual de que desfruta.2. porém. tanto quanto o próprio Deus. como de generalizada sabência. ou a terceira. para. Numa recondução do pensamento de SIEYÉS a ROUSSEAU. essa vontade tende a ser não mais que o somatório mecânico das vontades de todas as pessoas vivas. pensamos que. por outra. A mesma geração que elaborou o Magno Texto. preponderar sobre os demais. Mais que um simples produto inelástico ou de formas acabadas em todas as suas partes. é da natureza da vontade . ou por uma quarta geração . muito mais fortemente empenhadas em produzir uma vontade final que seja uma "vontade geral" no sentido rousseauniano. sem maior necessidade de alteração formal dos seus dispositivos. Ideologicamente. 2. 2.7. ou a segunda. de uma determinada geração vir a avaliar que já não dá para prosseguir sob o império do Magno Texto.7. então. no fundamento: a nação. se necessidade houver. Interesseiramente.. a Constituição é fórmula normativa consubstanciadora de princípios que potencializam a abertura das janelas do Direito para o lado onde sopram os ventos da atualização de suas idéias centrais. Insistamos.7. Para ROUSSEAU. 2.1. modifica-se a Constituição apenas quanto aos mecanismos de que seus princípios estruturantes precisam para permanecer eficazes (e não é preciso encarecer que toda Constituição tem a cara dos seus princípios estruturantes). se a vontade é apenas da população.da economia de cada povo.7. ou não existe. que deve assegurar a sobrevida da Constituição. sendo uma nação. no entanto. que força humana vai impedir que ela convoque uma nova Assembléia Nacional Constituinte? Sabido que a mais nova geração nacional é tão nacional quanto a primeira? Logo.no interior de uma única nação. Onde. qual a Constituição que não dispõe sobre a sua própria reforma? Reforma. essa vontade se torna a soma orgânica das vontades de todas as pessoas vivas. Se acontece. Até porque. ou por uma terceira. ou existe. pois.3. pois. Modifica-se a Constituição para que ela permaneça idêntica a si mesma naquela parte central da sua circunferência axiológica.

7. como versejou Fernando Pessoa. Parábolas que estão para o evangelho de Cristo.)..8. esta vontade declarada é um ato de soberania e faz a lei. 27/33 da obra "UM GALILEU NO SÉCULO XX". à semelhança do que fez JESUS CRISTO com a metodologia comunicacional das parábolas. de maneira a projetar na objetividade da sua obra tudo aquilo que a humanidade já produziu e ainda vai produzir (não é muito diferente o juízo que se vê em LUKÁCS. O inexistente vínculo entre "excesso de rigidez" e "Poder Constituinte Evolutivo" 2. de maneira a recolher o que há de axiologicamente comum a todas elas para tudo sintetizar num só documento normativo de nome "Constituição". um ato de magistratura. um mundo todo à parte. um decreto (. o presente e o futuro das suas gerações. misteriosamente.6. Enfim. é simplesmente uma vontade particular. 2. pp. 109. portanto. ou. se não é impossível que uma vontade particular concorde em algum ponto com a vontade geral. Há às vezes diferença entre a vontade de todos e a vontade geral: esta atende só ao interesse comum.8. resta para soma dessas diferenças a vontade geral". Essa linguagem sinótica ou sinérgica de valores torna-se possível.geral rimar com o bem comum (por ser mais do que a simples adição das vontades parciais).) . também a nação faz a ponte entre o passado. Assim como os artistas fazem a ponte entre o sujeito universal que é a humanidade e o sujeito individual que é cada ser humano.7. 2. 43 e seguintes: "Com efeito. é indivisível.) Pela mesma razão que a soberania é inalienável. obra já referida um pouco mais atrás. porque a vontade particular tende.. ano de 1996). inerente a todas as caricaturas" (em Estudos de Direito. cada nação é. Leiamos estas passagens. É um discurso que se aproxima da dimensão das coisas universais e eternas. às preferências e a vontade geral à igualdade. p. extraídas do livro O CONTRATO SOCIAL.17 2. No primeiro caso.8. ou corporativos. pelo metódico uso das normas-princípio. E cujo efeito prático é a processualidade ou historicidade ou uma certa atemporalidade do que se pretende comunicar. tirando estas mesmas vontades. vol. Deduz-se do que antecede que a vontade geral é sempre reta e tende constantemente à utilidade pública. assim como os princípios estão para essa bíblia jurídico-positiva que é a Constituição.7.7. comentários de LEANDRO KONDER. Uma outra comparação nos parece elucidativa. quando muito.. 2. no segundo. I. e não é senão uma soma de vontades particulares. "as nações são mistérios. pois é falando por princípios que o seu discurso normativo exorciza os fantasmas da caducidade axiológica ou de conteúdo. por sua natureza. essas. Cada uma é todo o mundo a sós".9. que se destroem entre si. (. tanto quanto é da natureza da vontade particular a busca dos interesses meramente privados. na Constituição. pp. Normas-princípio. é impossível pelo menos que este acordo seja duradouro e constante. 2.. Porém. Vale dizer. que hoje têm na própria Constituição a precisa indicação dos respectivos conteúdos e a possibilidade de operacionalização ao nível factual. sob pena de cair no baixo cômico. Ela não sabe falar de outro modo principal. E Tobias Barreto. porque a vontade é ou não geral: é a de todo o povo ou a de uma parte dele. porém não quer isto dizer que as deliberações do povo tenham sempre a mesma retidão (. edição do governo de Sergipe).1.7.. enquanto a outra olha o interesse privado.. É este o prevalente idioma jurídico-positivo da nação. A ensejar a qualificação do Magno Texto como norma-processo. Boitempo Editorial. magistralmente: "a um povo não é lícito repetir ou imitar nem a si mesmo. A inconstitucionalidade da revisão de dupla face .

em contradições incontornáveis. Almedina. a Constituição muda freqüentemente de sentido sem que se alterem.permitimo-nos falar .8. num segundo momento.1.1. pois "cesteiro que faz um cesto. por conseguinte. a revisão incidiria sobre as próprias normas de revisão. Código "Supremo". 5ª Edição. É essa técnica da dupla revisão que nos parece o que há de mais atécnico.1. a revisão far-se-ia de acordo com as leis constitucionais que alteraram as normas de revisão. 1138). o fato é que o mecanismo da dupla revisão baralha inteiramente os campos de lídima expressão do Poder Constituído e do Poder Constituinte. faz um cento".8. por isso mesmo. o raciocínio será o mesmo. suprimir.1. 2ª Reimpressão. E se isto não for o suficiente para adaptar a Magna Lei à emergência de novos valores sociais..8. Querendo dizer. que o excesso de rigidez constitucional (quem faz o juízo de excessividade?) tem que pagar um preço.. 2.)" (em DIREITO CONSTITUCIONAL. 2. com o fraseado. quer dizer. eliminando ou alterando esses limites.4. os seus dispositivos. Desta forma. Ainda que sob o color de mitigar o efeito "conservador" das cláusulas pétreas. Qual a solução que se entremostra na crítica ao "excesso de rigidez" e seu desaguar em mutações constitucionais do tipo informal? Dar às cláusulas pétreas uma interpretação light. que se faça das cláusulas de reforma constitucional o próprio fundamento para a sua modificabilidade (?). do seu próprio regime? 2. Contraditoriamente . caindo. porém. onde fica a identidade axiológica da Constituição? Onde ficam as principais "idéias de Direito" . a ponto de suprimi-las. Se nos transferirmos do campo das cláusulas pétreas formais para os domínios das cláusulas pétreas materiais. pela total supressão da norma ou das normas constitucionais instituidoras da rigidez formal! E sem a rigidez formal.8. pode assim proceder com todas as outras. a começar por esta: se é possível reformar as próprias cláusulas constitucionais de reforma. como preservar a superioridade hierárquica da Constituição sobre os demais espécimes legislativos? E sem tal superioridade. então a Constituição pode vir a perder até mesmo o seu caráter rígido. como prosseguir chamando a Constituição de Carta "Magna".2.o neoconstitucionalismo passa a acoimar de "poder constituinte evolutivo" a própria e necessária processualidade das Constituições principiológicas. E com total ingerência do Poder Reformador nas cláusulas pétreas materiais. em virtude da eliminação da cláusula de intangibilidade operada pela revisão constitucional (. p. formalmente. as disposições consideradas intangíveis pela constituição adquiririam um caráter mutável.2. num sentido assim explicado por GOMES CANOTILHO: "A existência de limites absolutos é. 1922. com base na possibilidade de o legislador de revisão poder sempre ultrapassar esses limites mediante a técnica da dupla revisão. Quem pode modificar. a resposta para o excesso de rigidez (suposto excesso) é o excesso de desconsideração pelas cláusulas intangíveis da Constituição. Lei "Fundamental". e que tal preço é a freqüente mutação informal da Constituição.1. ou aditar uma cláusula pétrea substantiva. Revisão em dois tempos ou de dupla face.3. Num primeiro momento. como inelutável conseqüência do seu "excesso de rigidez". cada vez mais soft. Norma "Normarum" e outras qualificações que somente se justificam por aquela supremacia no plano hierárquico? Pela não-completa submissão do Magno Texto à sanha reformadora do Poder Constituído? É o mesmo que perguntar: como prosseguir chamando de Constituição o que Constituição já deixou de ser. ou seja. à luz de uma depurada Teoria da Constituição. pois sem cláusula de rigidez formal a Constituição perde o controle do regime jurídico de suas emendas e. contestada por alguns autores. para facilitar as emendas e revisões constitucionais.

1. para seguir inverso roteiro.8. mas não se dá o mesmo nome a um Poder Reformador que se irroga a força da mutação formal dessa mesma Carta. e a forma jurídica de a nação avaliar tão global quanto radicalmente as coisas é a Constituição originária (assim como é exclusivo da nação dizer que o País. justamente. o vigiado a determinar o tipo de armamento e o horário de ronda do seu próprio vigia (é também de BURDEAU a lembrança de que. Não fiquemos por aqui.1. quem flexibiliza aqui.8.8. aquele contra o qual existe a rigidez formal da Constituição está positivamente autorizado a medir o tamanho dessa rigidez? A avaliar o teor de razoabilidade. passando ele a ab-rogar a Magna Lei estará "destruindo o fundamento de sua competência").8. como ficaria a idéia de limite formal.7. ter-se-ia algo assim como o sentenciado criminal a dizer como. 2.8. o sex-appeal de um Diploma que surgiu. 2. ou de proporcionalidade da contenção legislativa que lhe é imposta? A todas as luzes. Ou. Não. Se se permitir ao Poder Constituído. como garantia do avanço então obtido. que é uma das mais visíveis impressões digitais do Magno Texto? A sua principal função ou o primeiro dos seus históricos e lógicos diferenciais? Aquilo que é o próprio charme. sendo o Poder de Revisão uma criatura da Constituição. o glamour. precisamente.1. em verdade.1. para superar a idéia de autolimitação jurídica do Estado? Para impor ao Estado (com seu poder reformador e tudo o mais) balizas de trás para frente e de fora para dentro? Exógenas. tudo fazer da originária Constituição (dizemos "tudo". Fora disso. E a se trabalhar com esta hipótese.8. mais que vivenciar uma situação de crise de existência. Se é próprio do Poder Constituinte democrático produzir constituições avançadas (pode-se dizer o contrário?).6.(GEORGES BURDEAU) que serviram de mote à faina constituinte?18 2. toma gosto no ofício e já não estaca por conta própria).5. evidentemente que pode se arrepender e voltar a petrealizá-la. como visto.8.1. flexibiliza ali.10. como ainda conceituar a Constituição enquanto o mais estável dos documentos legislativos de uma Ordem Jurídico-Positiva? Como abrir mão das normas . não! Esse tipo de juízo é exclusivo da nação.. como rotular de ideologicamente conservadora a função das cláusulas pétreas de tais diplomas? Tais cláusulas operam. onde e por quanto tempo se disporia a cumprir sua pena. Ora. As perplexidades se sucedem aos borbotões e o analista de pronto se pergunta: sem mais diques para represar o fluxo normativo do Poder Reformador. 2. foi estabelecido o pretenso excesso de rigidez. pois. então? A significar o único momento em que o Direito se subtrai ao Estado? Em que o Direito se torna maior do que o próprio ente estatal? 2. Como penhor de não-retrocesso das conquistas jurídicas a que democraticamente se chegou. Diga-se mais: quem pode despetrealizar a Constituição. que singularidade restaria para uma Constituição que se tornou gato e sapato nas mãos do Poder Reformador? Sem mais nenhuma norma-de-fronteira que não provenha desse mesmo Poder Reformador"? 2. mas indo além dos limites a ele originariamente impostos. quando menos..9. Que paradoxo! Chama-se pejorativamente de Poder Constituinte Evolutivo a mutação informal da Constituição. já está engolfado numa existência de crise). no exercício da função reformadora. É necessário ter cuidado com as palavras.1. a cargo de um Poder contra o qual. Até porque é possível refundir uma cláusula pétrea para adensar o teor de proteção dos valores nela albergados. Fingindo-se ignorar a grande distância que separa uma interpretação mais à solta da Constituição (porém nela mesma fundamentada) daquele ato legislativo de intervenção formal no Texto Magno. claro.

se o Constituinte não anuncia que está a produzir uma Constituição garantida. e os vinte e cinco barões. poderão embargar-nos e incomodar-nos. Lá pelo fundo das coisas ou por trás dos bastidores (como soem falar os jornalistas). uma Constituição pra valer (e só é pra valer na medida em que petrealizada). e se nós.1. O uso da idéia do "Poder Constituinte Evolutivo" como contradiscurso constitucional 2. Para que ela se torne a própria condição da montagem de um Ordenamento que tenha na segurança das relações humanas o seu valor fundante por excelência. no caso de estarmos fora do reino.2. em qualquer circunstância. a petição não for satisfeita dentro de quarenta dias. até ser atendida a sua pretensão.8. cuja parte final está assim redigida: "(. deixarmos de respeitar essas liberdades em relação a qualquer pessoa ou violarmos alguma destas cláusulas de paz e segurança. ipso facto.. e à petição será dada satisfação sem demora. e. se estivermos ausentes do reino.12. pensamos que a válvula argumentativa do "Poder Constituinte Evolutivo" intenta disfarçar aquilo que na verdade sucede com a reteorização do Magno Texto e do Poder Constituinte: uma contra-revolução dogmática. terras e propriedades e utilizando quaisquer outros meios ao seu alcance. eles obedecer-nos-ão como antes.constitucionais de autodefesa autogarantia (papel instrumental das cláusulas pétreas). A Teoria do Poder Constituinte foi o que de mais revolucionário ocorreu no pensamento jurídico de todos os tempos e o fato é que ela já não serve aos propósitos socialmente retrocessivos do neoliberalismo. Um contradiscurso constituinte.1. tão necessário para que ela se torne uma instituição viva. 2. concedemos e aceitamos.. incumbidos de defender e observar e mandar observar a paz e as liberdades por nós reconhecidas e confirmadas pela presente Carta. e se por nós ou pela nossa justiça. juntamente com a comunidade de todo o reino (communa totiu terrae).8. deixa de revelar estima pela sua obra e não induz o povo. a contar do tempo em que foi exposta a ofensa.8. que os barões elejam livremente um conselho de vinte e cinco barões do reino. e não impediremos ninguém de fazer idêntico juramento". a nossa justiça. Certamente precursora desse vínculo necessário entre a supremacia da Constituição e os mecanismos garantidores de tal supremacia é a própria "MAGNA CHARTA LIBERTATUM". a praticá-la. Antes.1. para sua garantia. os mesmos quatro barões apresentarão o pleito aos restantes barões. e nós damos pública e plena liberdade a quem quer que seja para assim agir.2. de 15 de junho de 1215. E qualquer pessoa neste reino poderá jurar obedecer às ordens dos vinte e cinco barões e juntar-se a eles para nos atacar.) Considerando que foi para honra de Deus e bem do reino e para melhor aplanar o dissídio surgido entre nós e os nossos barões que outorgamos todas as coisas acabadas de referir. e da ofensa for dada notícia a quatro barões escolhidos de entre os vinte e cinco para de tais fatos conhecerem. coloca-se como o mais lógico obstáculo ao desmonte do Estado Social que as Leis Maiores do Ocidente erigiram. a partir da Constituição do México de 1917 (imediatamente seguida pela . para a nossa justiça. e querendo torná-las sólidas e duradouras. apontando as razões da queixa.11. 2. mas sem ofenderem a nossa pessoa e as pessoas da nossa rainha e dos nossos filhos. estes apelarão para nós ou.8. Ora. se "não há Constituição sem supremacia e não há supremacia sem sua proteção"?19 2. logo que tenha havido reparação. Não inculca no povo uma estima ou um sentimento de Constituição. apoderando-se dos nossos castelos. os nossos bailios ou algum dos nossos oficiais.

instrumento que é de prepotências e iniqüidades de toda sorte. ferido de morte ficaria (como fica) o princípio da igualdade.8.8. entregue a si mesmo. é sair de um Constitucionalismo social para voltar ao liberal.2. nada mais natural que seqüenciar a faina constitucional de impor limites a toda forma de poder que implicasse dominação política e exploração econômica das massas. não havia (e não há) como impedir os fenômenos corrrelatos da concentração de renda e da exclusão social. Recorde-se que o liberalismo triunfou sobre o absolutismo porque limitar o poder político era (e é) a própria condição de defesa da liberdade e da cidadania. Logo. cada povo soberano teve que recorrer a uma nova manifestação formal do seu Poder Constituinte (salvante a nação norte-americana. que se perfilou ao lado da liberdade e da fraternidade como bandeira de luta da própria burguesia revolucionária do século XVIII. BOBBIO esclarece que prefere a expressão "vulto demoníaco do poder" a "alma demoníaca do poder". Uma normação apenas retórica ("simbólica". A luta político-jurídica foi sem tréguas e o constitucionalismo social veio a significar: a) por um lado. para desancá-la. ação estatal para a realização do valor da igualdade. autóctones e alóctones. por efeito de uma Constituição que.20 2.2. de que a doutrina de SIEYÈS foi uma espécie de arremate jurídico.3. 2. sem maior contradição no aproveitamento das teorizações do Iluminismo. Valores de cujo indissolúvel casamento nasce a fraternidade. Ali.6. 2. diria MARCELO NEVES). 2. pela sua própria natureza (para além da famosíssima advertência de MONTESQUIEU. É explicar: para sair da democracia liberal para a social democracia. se já não se convoca uma nova Assembléia Constituinte e se já não se reteoriza a própria força constituinte. Justamente ela. todo Estado liberal cai nos braços do poder econômico para formar com ele a mais desumana das parcerias (a opressão política a atar o seu corpo à exploração econômica). levando-o também a limitar o poder econômico. por influência do modelo britânico de Ordenamento Jurídico. É repetir: sem a limitação do poder econômico ou a aplicação de medidas saneadoras do mercado. Se é verdade que os dois valores básicos entretecem relações dialéticas.8. Acrescente-se: longe de significar uma ampliação do poder estatal. sem essa limitação.2. desmanietação desse mesmo Estado frente aos proprietários dos bens de produção. A razão e a consciência humana assim o proclamavam (e proclamam).4.2. era preciso fazer avançar o movimento racional e consciencial do constitucionalismo.2.Constituição Russa de 1918 e pela Constituição Alemã de 1919). pois que. a imprescindível postura intervencionista e dirigente se traduzia em mais um limite real. Matéria-prima explosiva. lastreia um tipo de Direito mais fortemente judicialista do que legalitário. simplesmente porque o poder não tem alma). numa economia típica de mercado. Aqui. as liberdades fundamentais não passam de ornamento gráfico na tessitura formal dos dispositivos constitucionais. Uma coisa é partir de um Constitucionalismo liberal para um Constitucionalismo social.2. sem um mínimo de igualdade nas relações sociais de base (aquelas que definem o verdadeiro perfil da vida coletiva). a igualdade. Sobremais. então. b) por outro. para que ele.5. assumisse postura intervencionista e dirigente em favor dos trabalhadores em particular e dos consumidores em geral. sem . inação do Estado como condição de império do valor da liberdade e da cidadania. mediante lei. esse terceiro leit motiv da burguesia ascendente do final do século XVIII. preservação das conquistas liberais dos indivíduos e dos cidadãos contra o Estado. na prática).8.8. pois o poder é coisa que não se amplia ou não se reforça. segundo a qual todo aquele que detém o poder tende a abusar dele. É que. outra. 2. Porém. e.

e não no cenáculo ampliado do Poder Constituinte. E porque a favor da vida. O bolo da riqueza nacional tem uma lógica peculiar que o faz crescer. E também um imposto de renda decididamente progressivo. seguridade social e boa assistência à saúde são reconhecidamente uma parte da resposta.8. "(. E viagem sem volta.) É preciso haver. ou. Temerosos os novos teóricos da Constituição do debate aberto com a nação. agora. Enfim. à medida que é mais compassiva ou solidariamente dividido. principalmente na área do capital financeiro-especulativo (o pior vilão do final do século XX e do início deste milênio). no sistema capitalista. pior . 2. fazê-lo de mãos dadas com a coordenação e a proteção da política nacional social e de assistência". Retornar a uma genérica situação de exclusão econômica das massas despatrimonializadas e sem renda minimamente decente (este o invariável déficit social da contabilidade liberal do século XIX e do primeiro quartel do século XX) já sinaliza o definitivo ingresso "na era da modernidade". do que um povo livre vir a desembocar numa sociedade igualitária de fato.) Não há possibilidade de um compromisso estreito com a nação-Estado. uma rede de segurança eficaz . edição de 20 de dezembro de 1998. Uma organização sindical forte e eficaz. nada mais restringe a liberdade. pois é muito mais plausível um povo igual vir a desembocar numa sociedade libertária real.. essa passagem do constitucionalismo liberal para o social. do que a falta absoluta de dinheiro. e também necessário para a liberdade humana. 4 e 5 do seu caderno "MAIS". Mas tampouco pode haver um internacionalismo insensato que sacrifique as conquistas sociais do último século. Isso é humanamente essencial. 2.7. E quanto maior o número de contingente de pessoas aproximativamente iguais.dúvida que a primazia é para a igualdade (cuja essência está numa aproximativa distribuição de patrimônio e de renda).2. ou abaixo deles. continuamente. O internacionalismo vai avançar.. e as que ainda são necessárias.2. porque a favor da vida (como tudo que decorre do trabalho a quatro mãos da consciência e da razão humanas). acima de tudo. já representa para os países emergentes uma participação igualitária ou descolonializada na economia de mercado dos países tradicionalmente centrais. desobrigar e até proibir o Estado-nação do controle de sua própria economia.. "(. Receosos da cobrança que a sociedade política certamente lhes faria quanto a essa esdrúxula idéia de que. um salário mínimo humano. no entanto. maior a cota de liberdade concreta de cada qual desses contingentes. O mais curioso ainda é que uma parte dos defensores da interpretação light ou abrandada das cláusulas pétreas está convencida de que esse tipo de exegese tem o mérito de colocar a própria Constituição a salvo de uma quartelada.. Hoje está claro que os Estados Unidos exercem uma liderança mundial negativa nesse sentido. deve.8..apoio individual e familiar . portanto. Nada estabelece limites tão rígidos à liberdade de um cidadão quanto a absoluta falta de dinheiro. da qual reproduzimos estas preciosas considerações: "O sistema de mercado distribui a renda de forma altamente desigual.. Como observou JOHN KENNETH GALBRAITH reconhecidamente um dos maiores economistas do século XX. recuar já significa avançar. É o que se lê em alentada conferência que a Folha de São Paulo transcreveu às pp.8. é que seu desfazimento no bojo do Estado neoliberal está a se verificar no forum restrito do Poder Reformador. numa mesma sociedade. uma aventura armada. Como se a desnaturação. Concordamos com isso. Desfazer conquistas sociais já representa arejamento das Constituições. um golpe militar ou coisa que o valha. Viagem sem volta.aos que vivem nos limites inferiores do sistema.

. não pode deixar de ser maniqueísta.1. aristotelicamente: "cada coisa em seu lugar". ano de 1994)? 2.1. a de impedir o surgimento de um poder revolucionário.9." 2. o poder constituinte estaria a normar sobre ele mesmo (e não sobre um poder simplesmente constituído). ou o Poder Constituinte impõe a si próprio um campo exclusivo de atuação. 76/78 da Revista de n° 5 do Ministério Público da Bahia. capítulos e demais técnicas legislativas de agrupamento lógico-operacional de temas afins. tal autorização de reforma global só pode ter de global a possibilidade de opção por uma nova estrutura formal da Constituição.. Não flutuantes. uma nova distribuição de títulos.ainda. mesmo quando este venha a operar sob as vestes de um Poder Reformador. sob o título de "A Reforma Constitucional e sua Intransponível Limitabilidade": "Se o poder constituído pudesse a qualquer momento se travestir de poder constituinte.2. a supressão pura e simples de uma cláusula pétrea não fosse por si mesma um golpe. que vimos em estudo da lavra de PAULO MODESTO. que é. e o Poder Constituído como o poder que pode o menos sem poder o mais 2. mesmo naquelas hipóteses em que a Constituição autorizasse a sua total reforma. Não pode fugir da radicalidade. pela inescapável distinção entre o poder constituinte e o poder constituído.9. a renumeração de dispositivos.2. ou perde a razão-de-ser da sua autonomia conceitual. porque. aí. Por dedução. como bem o disse o constitucionalista argentino REINALDO VANOSSI. é o que . para a Magna Carta.1. que diferença faz entre golpeadores assumidos e golpeadores enrustidos. Deveras.8.9. O Poder Constituinte como o poder que pode o mais sem poder o menos. pois o raciocínio técnico. na matéria. publicado às pp. Todo este nosso esforço analítico é para dizer. Afinal. pois sobre ela assim já nos pronunciamos em estudo simultaneamente publicado em Espanha e Portugal. 2.). As fronteiras que separam as duas categorias têm que ser fixas.. e como sairia aparelhado esse poder de reforma? Sairia aparelhado com a energia assassina de poder se assumir. como aquele preciso poder de fato que a Constituição quis evitar. Esse paradoxo não deixaria de se configurar. procedimentos e valores que tornassem a Constituição autorizante um zero à esquerda. como. É que. a roupagem linguística. a todo instante. Que paradoxo então se apresentaria aos olhos incrédulos do estudioso dos fenômenos político-jurídicos! A Constituição originária criaria um poder cuja função seria a de reformá-la para que ela não perdesse a atualidade e assim atualizada pudesse inibir o surgimento de um poder de fato que a retirasse do mundo dos vivos. A superação da idéia de autolimitação como fundamento da sumissão do Estado a deveres 2.1. Nunca a opção por conteúdos. pra não ser morta. por exemplo. O Poder Constituinte é o Poder Constituinte e o Poder Constituído é o Poder Constituído. A questão não é nova em nossa própria elaboração teórica. alternando a seu gosto os planos do ser e do dever-ser. se ela já não sobrevive às ações de nenhuma das duas tipologias de constituicidas (metonímia do vocábulo "constituicídio". fora daquele mencionada espaço preambular da Constituição (.. ele teria a possibilidade de se assumir como coveiro da Constituição que o fez nascer e aí privaria de sentido a própria e verdadeira função constituída.9.9.

pois é dessa diferenciação que decorre todo o prestígio dogmático e sociológico da Constituição. É desaprender a lição da História e reexibir um filme cujo tenebroso final já se conhece.9. Aquelas. o glamour o sex-appeal da Constituição. mormente o Estado.7. Malheiros Editores. Bater nessa mesma tecla é o que há de mais didático.9. O Poder Constituinte é e não pode deixar de ser o poder que pode o mais sem poder o menos. 2. pois só cabe falar de unigenitariedade jurídica se se está diante de um modelo prescritivo que.9.8.1. E o Estado que se autolimita encontra em si mesmo o fundamento lógico de sua autodeslimitação. Indisputavelmente. ainda há pouco mencionada). Petrealidade necessariamente dúplice. conforme se lê em PAULO BONAVIDES. é pela sua força única de se impor ao Estado que a Magna Carta pode transitar das suas cláusulas formais de intangibilidade para as cláusulas materiais igualmente irreformáveis.2. se a Constituição já não provém de um poder capaz de dar a última palavra em matéria de limitação mesma? Afinal. sem perder de vista nenhum dos dois aspectos. único mesmo.1. Não fosse para o cumprimento desse prioritário papel de dobrar a cerviz legislativa do Estado. Ou ela possui a força de fazer algo sozinha. então. pois ele significa a força de elaborar a Constituição.1. nascido e reformável por um processo peculiar.9. citando HANS KELSEN (p. a qualquer momento. no entanto. E como impor eficazes limites a quem pode impor eficazes limites à população. no sentido de que ele detém a competência para reformar a Constituição. a não ser no sentido puramente material de conjunto normativo que se refere "aos órgãos superiores e às relações dos súditos com o poder estatal".1. Não são meras palavras. de que falamos antes.1.3. 2. tudo procede do fato de que somente ela pode impor eficazes limites a quem pode impor eficazes limites à população.9. claro. que é o sentido formal. Contra tudo e contra todos. 2.6. 2.21 2. começando pelas cláusulas formais e terminando pelas materiais. com absoluta exclusividade. mais profilático nos quadrantes da Ciência Política e da Ciência Jurídica.4.9. 2. 6ª edição. O Poder Constituinte e sua força de mesclar valores jusnaturalistas e valores positivistas . toda limitação a ele imposta não passaria de autolimitação. 64 da obra "CURSO DE DIREITO CONSTITUCIONAL".sucede com a Magna Carta. mas não a potência para trocar essa Constituição por outra. mas toda uma lógica elementar que subjaz a essa intransigente distinção entre o que é constituinte e o que é constituído. E desconsiderar essa lógica estrutural do pensamento político e jurídico é assim como sobrepor à realista afirmação de que contra fatos não há argumentos o alienante juízo de que contra argumentos não há fatos.22 2. se a Constituição fosse obra do Estado.9.5. do sentido que mais conta para uma científica elaboração do conceito de Constituição. posicionando-se como condição e garantia destas últimas (do que deflui o descarte da astuta revisão constitucional em dois tempos. 1996). mas não a aptidão para reformá-la. Privando-se. Qual a conseqüência teórica de um Estado que se autodeslimita a qualquer instante? O reconhecimento de que a Constituição desse Estado não é filha unigênita do Poder Constituinte coisa nenhuma. O charme.1. E o Poder Constituído? É e sempre será o poder de fazer o menos sem nunca chegar a fazer o mais. tenha por principal função metodológica a de manter essa peculiaridade. jamais o nome "Constituição" passaria a verbete do vocabulário jurídico-positivo. mais propedêutico. ou decai da condição de documento jurídico supremo.

aquela. Nenhum outro modelo jurídico-prescritivo serve melhor a essa idéia central do justo acima de qualquer suspeita. se o valor fundante do Direito não está nos valores da Paz. perfeitamente possível dizer que ações humanas são protuberantemente contrárias ao referido valor. 2. Vale dizer: sabe-se perfeitamente bem que determinados modos de agir são a negação mesma da Justiça. foi em atenção ao maravilhoso fato de que só a Constituição se tornou um definitivo ponto de encontro entre o postulado positivista da Ordem e o axioma jusnaturalista "da Justiça que advém da reta razão". de fato. a reduzir cada vez mais os espaços de inclusão popular na riqueza material do País. . do justo ditado pela reta razão. Um modo de se resguardar a Justiça pelo direto gradeamento da toca dos lobos. II .9. Quando dissemos que a Magna Carta significou a maior revolução jurídica de todos os tempos .o poder econômico e o poder político -. Se não é possível dizer.2. de que ações efetivas depende a convivência em bases justas. 2. Ambas de incidência fatal. 2. quando se permite ao Estado tudo se permitir. porém no valor objetivo da Ordem (que outros chamam de Segurança). é.1. como desenganadamente são a opressão política e a exploração econômica. E como já se sabe que os inimigos figadais do justo-racional são esses dois poderes . perguntamos: Qual o documento jurídico-positivo que melhor espelha a idéia de estabilidade em que a Ordem se traduz? O diploma que mais duradouramente lança as regras elementares do "contrato social".que ações o Estado tem que praticar perante o poder econômico (postulado oriundo do pensamento social-democrata. por tabela. se se põe como valor fundamental do Direito o postulado jusnaturalista do justo-racional.2. a também sistematicamente encurtar os espaços de influência da população nos processos de tomada de decisão e funcionamento do Estado.2. na medida em que se lhe reconheça o laço unigênito que a prende ao Poder Constituinte. ao lado dos mecanismos realizadores do princípio da Separação dos Poderes. é ainda a Constituição o documento-símbolo por excelência. E. do "justo por si mesmo" (GEORGES BURDEAU. tem por objeto impedir os abusos do poder político).9. é o que de mais garantido se pode obter em defesa da Justiça. De outra parte.que ações o Estado não pode praticar perante os indivíduos e os cidadãos (postulado advindo do pensamento liberal e que.9. E a a fórmula operacional é simples. o balizamento em si do Estado. ou da Justiça.2. limitar a ambos já significa fragilizar quem mais fragiliza aquele ideal de Justiça. com total objetividade. que ações humanas concretizam ou materializam o ideal do Justo. o seu oposto ou contravalor.e que agora o mundo ocidental passa por uma obscurantista fase contra-revolucionária -. para não deixar que o Mercado passe de motor da História a mentor dessa mesma História). acresça-se. Do quanto de objetivo pode se conter na Justiça como ideal de convivência humana. e. Esta. Combater os que mais combatem o justo por si mesmo. do poder econômico.3. no entanto.9.2. ou do Bem Comum (devido ao carregado teor de subjetividade desses ideais). exatamente como da Ordem falava KELSEN? Claro que esse diploma normativo é a Constituição! Não pode ser outro! 2. outra vez). Então. A Constituição melhor realiza a idéia do justo por si mesmo na medida em que pode dizer: I .9. E esse papel axial só pode recair sobre a Constituição.2. de modo a permitir a todos o conhecimento antecipado das conseqüências objetivas das próprias ações.5. quais os conteúdos positivos da Justiça.2.4.

a sua medula. já no próximo capítulo. passam a compor uma só realidade. pela sua essencialidade. o seu campo divisional operativo. Está aí a demonstração de que somente a Constituição pode se colocar enquanto ponto de convergência do que o juspositivismo e o jusnaturalismo têm de mais característico. resumindo em si a estratégica função de limitar o Estado e o poder econômico. conseguintemente. O Código e sua principal função. . isto é. a encarnação mesma. a Magna Lei tem nessa limitação a sua própria causa formal.2. porque o balizamento é a sua natureza. Não pode deixar de ser. É igual a concluir: mais que até mesmo balizar. a Constituição é balizamento.9. mais do que se tipificar pelo papel de balizar o Estado (a contenção do poder econômico vem por gravidade). E assim altaneiramente postada. a Constituição é a síntese possível.23 Assunto a retomar.2. a Magna Carta se confunde com a própria função principal que lhe cabe cumprir. O tema que mais caracteristicamente recheia o conteúdo de suas normas. Por isso que. Aquilo que melhor define a sua requintada funcionalidade.2.7. 2.6.9. a viva consubstanciação desse balizamento.

é porque não é constituinte (JORGE MIRANDA). as leis ordinárias e demais atos de formação da vontade normativa primária do Estado1). 3.7. por inteiro e de uma só vez. Por isso mesmo é que somente ele é que irrompe no cenário político para a epopéia jurídica do começar tudo de novo. o segundo.Capítulo III . mas sempre com a virtualidade de operar no atacado. mesmo que tal Direito se expresse por atos de reforma da Magna Carta.2.2. uma nova ilação é de ser feita: a Constituição é um divisor jurídico de águas. Não existe esse Poder Constituinte Derivado. Como tantas vezes dissemos.4.filha unigênita que é do Poder Constituinte -. E sendo estatal.3. nascido de um Poder Constituído. o máximo que lhe cabe é retocar o Estado. O ponto inicial do novo estudo é precisamente a parte em que o capítulo anterior foi concluído. então de poder constituinte já não se trata.1.1. E sem esse poder de plasmar ex-novo e ab novo o Estado (que é o correlato poder de desmontar. A Constituição como critério de hierarquização das próprias normas constitucionais 3. mais concorrem para demarcar os espaços de radical separação entre ela mesma e os atos de sua reforma. se é um poder derivado.1. A Constituição e a fuga de suas normas a exame de validade 3. nele efetivamente se transfundindo e formalizando-o numa Constituição. O que dissemos ali reafirmamos aqui: a sociedade política ou nação é a única a experimentar o Poder Constituinte. pela consideração elementar de que. Como a Constituição não pode deixar de se por na linha de partida do Direito . A compulsão da rigidez formal da Constituição 3. Forma de atuar. O primeiro. a nosso ver. de sorte .6. A Constituição como critério de classificação de todo o Direito 3. ou o que emenda a própria Constituição) e Poder Legislativo usual (o que elabora as leis complementares à Constituição. as leis delegadas. de ponta-a-ponta. apelidado por boa parte da doutrina como Poder Constituinte Derivado. A Constituição como a lei das leis 3. A Constituição e sua retroeficácia de dupla face: em abstrato e em concreto 3.1.3. nesse ou naquele aspecto.5. 3. ou seja. querendo. mas não criar um Estado zero quilômetro. o verdadeiro e único Poder Constituinte é um poder de construção e ao mesmo tempo de demolição normativa.1. 3. nascido do Poder Constituinte. Se o poder é exercitado por órgão do Estado. é porque sua ontologia é igualmente estatal. no sentido de que há um Direito-Constituição e um Direito pós-Constituição.As Especificidades da Constituição Sumário 3.1. Com esta afirmativa de que o Direito pós-Constituição é sempre a manifestação de um Poder Constituído. no global. a primeira classificação que se faz sobre o Direito legislado é com os olhos postos na Constituição. negamos o que em outros estudos afirmáramos: a existência de um Poder Constituinte de segunda geração ou de segundo grau.1.4. O fundamento supra-estatal e suprapositivo da Constituição 3. A Constituição como critério de classificação de todo o Direito 3. ainda que para o fim de reformar a Constituição. desconstituir por inteiro o Estado preexistente). discriminado este em Poder Reformador (o que revisa.8. Neste capítulo. indicaremos aquelas especificidades da Constituição que. A Constituição como atestado de efetiva soberania nacional 3.

Não a Constituição. Direito Civil.3 3. mas em um outro sentido. mas não de substituir o fundamento de validade do Ordenamento por inteiro. antes de comportar segmentação interna em províncias ou setores . 3. incorrem no erro (venia concessa) de tomar a parte pelo todo. É do nosso pensar que. Quando os jurisperitos bifurcam o Direito legislado em público e privado.8. que já e um Direito elaborado pelo legislador constituído: Direito Administrativo. Mas sempre na condição de um Poder Constituído.e daí em ramos públicos e privados do Direito -.1. que são normas destinadas a vigorar de forma paralela ao Magno Texto. ou por revisão. no fundo. É o segmento não-constitucional-originário do Direito. nem toda norma constitucional é norma contida em dispositivo da Constituição originária. Não para a função auxiliar do retoque na Constituição vigente. Direito Comercial e demais "províncias" ou setores cientificamente autonomizados do Direito. da grande árvore jurídica. categorizar como Poder Constituinte Derivado o poder de reforma da Constituição é cair numa ilusão de ótica: ver o Poder Constituinte Originário (o vocábulo "originário" é até dispensável.1. Ora atua como produtor de normas gerais não-constitucionais (porque não destinadas a mexer na Constituição). Mais enfaticamente: se o Poder Constituinte é o poder de constituir a Constituição não apenas normas constitucionais -. como realçado no capítulo precedente. o Poder Constituído é também ambivalente. pois aquele que só existe para fazer o todo não pode fazer a parte e aquele que só existe para fazer a parte não pode fazer o todo (evidência palmar). apenas. Não é. Direito Penal.1. 3. O que se divide em público e privado é o Direito pós-Constituição. e quem reforma a Constituição está impedido de editá-la. Uma parte. Tudo a espelhar: quem edita a Constituição está impedido de reformá-la. que já é uma função de atualizar. Mais até: se toda Constituição é um repositório de normas constitucionais. mas sem poder o menos (reformar a sua própria obra legislativa). e não dentro dele).7. já se põe como contraponto do Direito-Constituição. 3. ora atua como produtor de normas gerais constitucionais (porque destinadas a reformar a própria Constituição). o Poder Reformador é o poder de constituir tão-somente normas constitucionais. porque estatal e positivamente exercitado. A Constituição (e não suas emendas ou revisões) a se postar como inafastável critério de classificação de todo o Direito.5.a trocar uma Constituição por outra e assim dar à totalidade do Ordenamento Jurídico um novo fundamento de validade. Não-simplesmente normas constitucionais. mas sem poder o mais (trocar uma Constituição por outra).1. porque normas constitucionais o Estado também produz. pela sua fundamentalidade). Se o verdadeiro e único Poder Constituinte é um Poder que pode o mais (elaborar a Constituição). Só que essa parte do fenômeno jurídico-positivo. no uso do seu poder reformador.1. Se toda norma contida em dispositivo da Constituição originária é norma constitucional.9.10.2 3. Donde a nossa afirmação de que o Direito legislado principia pelo Direito-Constituição e prossegue com o Direito pós-Constituição. Direito Tributário.6. Se o critério de classificação dos ramos jurídicos em públicos e privados é a . porque pleonástico ou redundante) como o poder de elaborar normas constitucionais. o Poder Constituído é um Poder que pode o menos (modificar a obra do Poder Constituinte).1. O que esse Poder elabora é a Constituição (reiteremos o juízo. 3. nem todo repositório de normas constitucionais é uma Constituição (basta que lembremos as normas transitórias que se veiculam por emenda. Na sua função de atuar debaixo da Constituição. e não toda a árvore.

porém nem rigorosamente público nem privado. tais palavras somente conservam íntegro o seu papel de servir a uma obra de arte se permanecerem no contexto da poesia e no exato lugar em que se encontrem. não se recusa aos atos de reforma constitucional a força de se incorporar ao documento reformado. porque o Direito Constitucional como um todo tem na Constituição o seu necessário ponto de partida. que é uma coisa morta ou sem mobilidade própria. como a Constituição.1.2. Se este se constitui de palavras. o que era a riqueza de um poema fica rebaixado à pobreza de simples vocábulos. é preciso tocar nas suas normas com a delicadeza de quem lida com peças de cristal. desde que veiculem . na exata disposição de cada verso e de cada estrofe na ossatura do conjunto. Ele ainda engloba as normas de reforma constitucional e o fato é que essas normas não têm a mesma hierarquia da Constituição. lato sensu) quanto o inverso. O que nos estimula a formular a proposição de que o Direito Constitucional é ramo jurídico. não há como dizer a que bloco pertence o Direito Constitucional.1. mas que se faz silêncio mesmo para poder melhor dizer. justamente. No caso da poesia. e passa à condição de simples água salobra. Tanto não têm que se assujeitam a exame de validade perante. 3. como tantos outros. E tudo isto quer dizer que o poema. ou seja. Ela é mais que o resultado do ajuntamento linear das suas partes.11. a teia invisível que vai de uma vocábulo a outro e de uma expressão a outra. Ante a Constituição. 3.1. um pouco de qualquer das ondas do mar em um balde: a onda removida perde instantaneamente a qualidade de onda. a ponto de mais adiante demonstrarmos que. 3. mais do que perante qualquer outro diploma jurídico. fala pelas palavras nele grafadas e ainda fala por palavras que nele não foram grafadas. que é uma coisa viva ou em movimento. ora de tratamento favorecido daquela parte que simboliza os imediatos interesses da sociedade (Direito Público). substituí-las. Centremos agora as nossas atenções investigativas na distinção entre a Carta Magna e o Direito Constitucional como um todo. O verbal a conviver com o não-verbal. ora de tratamento paritário dos interesses das partes (Direito Privado). a serviço da mesma causa. a Constituição. enfim.12. o poema é o somatório de suas palavras. A Constituição como critério de hierarquização das próprias normas constitucionais 3. pois nele ainda contam os intervalos.2. É que ele tanto contém segmentos normativos de favorecimento das pessoas privadas perante aquele que simboliza os imediatos interesses da sociedade (e essa contraparte é a pessoa jurídica do Estado. porém diz mais que o somatório de suas palavras. Ela consubstancia um tipo tão articulado de unidade que faz lembrar a composição e o sentido de um poema. Mudam-se algumas de suas partes para que o todo prossiga idêntico a si mesmo. seccioná-las. seja qual for o ato de reforma constitucional.2.nítida vertente que eles ostentam para compor relações.2. Adicione-se a esta particularidade (a de ser o Direito Constitucional infenso às categorias do público ou do privado) mais uma nota específica: a Constituição é documento normativo tão singular que não se confunde nem mesmo com o somatório mecânico de suas normas. cumprindo o não-verbal o papel do silêncio-eloqüente. Enfim. as entrelinhas. Conforme dissemos em nota de rodapé. sim. mas não o de chegada. 3. é quase sempre repetir o fenômeno que decorre de se colocar. é verdade. Permutá-las. a Constituição deve permanecer inteira em sua quintessência. o silêncio que já não traduz a intenção do nada-dizer. hipoteticamente. lógico. destacá-las do conjunto.

tudo se encarta de modo igualitário numa única província jurídica. ou seja. que somente depois de passar pelo crivo jurisdicional de validade é que todo ato de reforma constitucional ganha o status de norma de primeiro escalão jurídico. 3. todavia. o certo é que existe uma diferença qualitativa . e ele é de ordem hierárquica: ou as normas de reforma da Constituição guardam aquela conformidade processual e material que lhes assinalou a própria Constituição. a Constituição é a parte superior desse ramo jurídico. (pense-se na intocabilidade das chamadas "cláusulas pétreas".7. Se tal ocorresse. 3. O que vem a significar ingresso menos altivo dos atos de reforma da Constituição no próprio documento reformado é que esse ingresso pode ser confiscado.6. Ora de forma definitiva (pela via do controle concentrado). à falta de hierarquia entre os respectivos comandos legais. Aqui. Eles não podem se autoexcluir do controle de constitucionalidade e isto já comprova que o seu modo de entrar no santuário da Constituição é sempre condicionado.entre as normas constitucionais originárias e aquelas que se lhe seguirem temporalmente. verbi gratia. a norma que penetrou na Constituição pode sofrer cassação de eficácia.5. Nos outros ramos jurídicos. ou de Direito Processual e Código Processual. porque esse tratamento nominal diferenciado não tem a menor relevância interpretativa. 3. E repercute. as emendas e revisões constitucionais se privariam daquilo que nem às leis comuns e aos demais atos oficiais do Poder Público é recusado: a presunção de juridicidade. é procedente a diferenciação nominal. As eventuais antinomias normativas se resolvem pelos conhecidos critérios da posterioridade (a lei mais nova prepondera sobre a mais velha).3. então. da especialidade material (a lei especial revoga a lei tematicamente geral.2.2. É incorreto falar-se de qualquer dos códigos infraconstitucionais como lei das leis de sua própria reforma. Coisa que não existe em nenhum outro ramo autonomizado do Direito. Fora do Direito Constitucional. ou complementação.8. ora para um determinado caso (pelo trilho do controle difuso). O critério dirimente é um só. ou de Direito Mercantil e Código Mercantil. Por isso que não cabe falar.nunca é demais enfatizar . 3.2.2. mais que segmento central do Direito Constitucional. ou da especialidade de assunto. sem a necessidade de nova manifestação formal do Poder Reformador. Mantém com ele o mesmo tipo . porque essa diferenciação repercute no campo hermenêutico.2. Mas se trata de uma incorporação normativa sempre a título precário. Do que decorre a impropriedade técnica de se buscar nos códigos infraconstitucionais o fundamento de validade das regras legislativas que se lhes sobrevierem. nascidas posteriormente ao código. Não é esse o modelo de compreensão da dualidade temática Direito Constitucional/Constituição.2. não têm o seu regime jurídico ditado pelo código mesmo. verbi gratia) ou se expõem à declaração judicial de invalidade. porque sindicável a todo instante quanto à sua validade. e. ou. não gozam. 3. 3. que. de Direito Penal e Código Penal. óbvio.4. se constituem a parte central de tais ramos. pela cristalina razão de que as eventuais antinomias entre a Constituição e as normas constitucionais que lhe sejam posteriores já não se resolvem por aqueles dois critérios da posterioridade do espécime normativo. Esse condicionamento ou essa precariedade de inserção no Magno Texto não significa. os códigos por acaso existentes. de superioridade hierárquica frente às leis extravagantes (assim designadas por vagarem a latere do código). menos altivo. Leis extravagantes.normas permanentes. assim. Por conseguinte. Seja qual for a hipótese de desaplicação ou de desconsideração operacional do ato de reforma. por conseqüência. mas não o contrário).

3.4 3. que. E isto já inviabiliza qualquer tentativa de se impor à Constituição o exame de validade. O que não significa dizer que exista diversidade hieráquica no interior da própria Constituição originária. seja completamente insubmissa a exame de validade jurídica.3. A Constituição faz parte do Ordenamento. 3.3. é preciso que a norma qualificante seja. 3. como exigi-la para a Constituição Positiva. como um pouco mais à frente comentaremos.5. solitariamente. por virtude da Constituição mesma? 3. Por outra perspectiva. não entra em um anterior Ordenamento Jurídico. assim. Bastaria que a norma existisse. e não a Constituição com o Ordenamento). e não simplesmente do ângulo de dentro. na medida em que ela. Se ela é o início lógico de toda positividade jurídica (KELSEN. 3. sendo a validade uma qualificação internormativa.3. É uma das suas mais importantes especificidades. sem a companhia de qualquer outra norma. logicamente. é porque tem a força originária de dispor sobre o regime jurídico destas últimas.3. não apenas superior. pelo critério da hierarquia. no plano lógico. 3. todavia. se a Constituição não deixa que suas normas se nivelem às normas constitucionais que se lhe seguirem no tempo. fosse produzida por uma autoridade do Sistema Normativo. Aqui. como anterior à norma qualificada. porém como algo situado do ângulo de cima. o modo de ela mesma sair desse Ordenamento é igual àquele pelo qual entrou: a suprapositividade. não é a Constituição que deita raízes no exame de validade. e aí toda noção de validade seria praticamente vã. Ao cabo e em síntese.9.hierarquizado de relação que entretece com o próprio Ordenamento como um todo.3.1. Por outro aspecto.8. É mesmo por surgir no mundo cultural como o ponto mais alto da pirâmide jurídica. sim. Paralela a ele. todas as normas são paritariamente constitucionais. nenhum ramo ordinário do Direito comporta o que o Direito Constitucional incorpora: a dicotomia entre as suas próprias normas. 3. não há como fazer o cotejo internormativo em que se exprime o juízo de validade.2. Afirmar.7.3.6. mas o exame de validade é que deita raízes na Constituição. para ao Sistema pertencer para sempre.3. que a Lei das Leis é totalmente imune a exame de validade aclara a precedente afirmativa de que ela não inova o Ordenamento Jurídico. se o modo de a Constituição fazer parte do Ordenamento não se dá por virtude de nenhuma outra norma (o Ordenamento é que principia com a Constituição. E só pode tê-lo. Não que a Magna Carta vigore apenas ao lado do Ordenamento. A cúpula do Ordenamento é que se objetiva na Constituição e esse estar por cima é o modo especialíssimo pelo qual se dá a interpenetração das duas realidades: a da Constituição e a do Ordenamento. não tem merecido da doutrina o devido realce.3. MERKL.3. A Constituição e a fuga de suas normas a exame de validade 3. que é o . Constituição. VERDROSS). o Ordenamento já não seria piramidal ou ortodoxamente hierarquizado. que a Constituição dá origem ao conceito de validade como atestado de filiação de uma norma ao Ordenamento Jurídico. Ora. então.3.4. pois como inovar uma coisa ou entrar em algo que só passa a existir. Constituição. pelo fato evidente de que a Constituição desconhece norma positiva que lhe seja anterior. No fim das contas.2. Com efeito.5 Sem ela. sendo a validade uma espécie de ticket ou bilhete que uma norma inferior recebe da que lhe seja imediatamente superior para ingresso na região das positividades jurídicas. no mais alto patamar do esquema de supra-infra-ordenação em que o Direito consiste? 3. dado que operante de uma norma para a outra. se a Constituição Positiva já aparece como norma superior a todas as outras? Postada.

é logicamente do tipo norma a norma. além de se revelarem acordes com a nova Lei Fundamental em conteúdo. no interior do mesmo Ordenamento. em abstrato 3. em dispositivo logicamente passageiro ou transitório). 3. se tais normas apresentarem conteúdo discrepante daquele que timbra a nova regração constitucional. explicitamente. Donde a compreensão de que todo ato de convocação ou de instalação de um órgão de deliberação constituinte só pode implicar rompimento constitucional no plano do dever-ser jurídico ("ruptura ou descontinuidade". Cuidando-se de velhas normas gerais de natureza constitucional. e.4. Não necessariamente no plano do ser. em alguns casos.1. em suas disposições permanentes. isentando-se.4. no preciso falar de CANOTILHO). Desde que tudo se aloje num plano igualmente abstrato. gestada antes da Constituição. sejam as regras iniciais da antiga Lei Maior. até mesmo sobre relações jurídicas em concreto. 3.2. sejam as oriundas de reforma a essa Constituição precedente. assim.4. 3. todavia.9. A subsunção que se passa a fazer no seio do Ordenamento. com os efeitos concretos dessa ou daquela regra antecedente.4.3. as antigas normas gerais que entrarem em sintonia material com a nova Carta são instantaneamente carimbadas como normas sobreviventes. O princípio da recepção é seletivo por mais um título.4. é indiscutível a prevalência automática do regramento de estirpe constitucional. Como derradeira ilação do fato de a Lei Maior eximir-se por completo de exame de validade. é o habitat ou espaço natural de existência da Carta Magna.4.1.1. após a nova Constituição. pois ela chega para ocupar espaços que são próprios de todas as leis em sentido material. aduzimos que essa proposição está imbricada com outra: a aptidão que tem a Constituição originária para não conhecer tabus materiais. de compromisso com a preservação de norma jurídica anterior. Ninguém melhor do que o Chefe da Escola de Viena para falar sobre a instantânea perda de eficácia de toda norma que. que normas igualmente abstratas continuem a gerar efeitos.1. a Constituição originária se caracteriza pela força de romper compromisso com as normas jurídicas anteriores a ela.1. com a Constituição passe a entrar em rota de colisão no plano material. sendo norma geral ou lei em sentido material. Sem dúvida. querendo. não tenham sido geradas nem pelo Poder Constituinte nem .reino da sempre originária manifestação do Poder Constituinte. A retroeficácia da Constituição. E é precisamente por ter a Constituição a força de incidir. pois a Constituição Positiva. Da lei infraconstitucional para a Lei Fundamental. pois somente alcança aquelas normas gerais anteriores que. A abstratividade.3. é precisamente por isso que se fala não haver direito adquirido contra ela. A Constituição e sua retroeficácia de dupla face: em abstrato e em concreto 3. nada sobrevive ao novo Texto Magno. Do que deflui o primeiro sentido da retroeficácia da Constituição: ela não aceita. Pelo ângulo reverso. não haveria mesmo de tolerar outras normas gerais com ela conflitantes em conteúdo (a não ser nos termos e condições em que o dissesse. 3. conseguintemente. que tanto comporta uma passagem traumática ou violenta de uma Constituição para outra quanto uma substituição consensual ou negociada. Ela pode conformar toda e qualquer matéria.6 3.4. Com uma exceção. A questão que se põe não é essa.1.

a norma constitucional que versa a matéria (inciso XXXVI do art. o novo Diploma Fundamental passaria a se caracterizar pela intransigente negação daquilo que é uma das impressões digitais de todo Magno Texto: operar como a parte mais estável do Ordenamento Jurídico.3. ora em regime de harmonia conteudística. pois expressamente passa a dizer que relações jurídicas são essas. A retroeficácia da Constituição. porque tais situações jurídicas são constitutivas do direito adquirido.4. o teórico tem que se perguntar até que ponto um novo Código Supremo possui aptidão para desfazer efeitos que normas jurídicas anteriores já produziram à exaustão. ora em situação de desarmonia.4. para retroincidir sobre situações já consolidadas no universo jurídico-particular das pessoas tem que fazê-lo por explicitude. ou o período. quando o teórico se desloca do campo das precedentes normas gerais para o sítio das normas de efeitos concretos.2. por forma a revelar sua claríssima intenção retro-operante. de permeio com a própria vida.1. em que a sua parte permanente deixa de incidir). ou.1.1. da sua postura no âmbito do confronto entre normas gerais (as da Constituição e as do Direito não-constitucional precedente). 3.pelo Poder Reformador.2. Tudo muda de perspectiva. Não! A retroeficácia constitucional não chega a tanto. O plano retroeficacial já não é o mesmo. segundo a qual "a lei não prejudicará o direito adquirido.2.2. Realmente. pois o fato é que. a liberdade. se tal ocorresse.5. no gozo de sua condição ímpar de norma que provém de um poder que tudo pode. em concreto 3. Aqui. o ato jurídico . É justamente para ressalvar a sua excepcional vontade objetiva de retroagir sobre essa ou aquela relação jurídica em concreto que toda Constituição Positiva se faz acompanhar de uma parte transitória de dispositivos (de parelha com a necessidade de indicar os casos. invariavelmente erigido à condição de megaprincípio. ou da coisa julgada. sobre o qual nada é preciso dizer. nem por se traduzir na força de zerar a contabilidade jurídica a nova Carta há de ser interpretada como automaticamente inconvivível com toda e qualquer relação jurídica nascida e até resolvida à sombra do velho Ordenamento. mesmo. uma das históricas razões-de-ser das Constituições escritas. 3. ou então para estancar efeitos que tais normas ainda estejam a produzir entre partes nominalmente identificáveis. ou do ato jurídico perfeito.2. 3. 5°. O silêncio da nova Carta já opera como cassação de eficácia das velhas normas gerais cujo conteúdo com os dela própria se tensionar. A não ser que o diga por forma inequívoca.4.4.6. pois. Ela. No Brasil.4. agora. no mínimo. Constituição.4. É falar: sempre que a nova Carta Política se deseja topicamente aplicável a relações já factualizadas por virtude de normas antecedentes. Daí a freqüente positivação de todos eles como típicas figuras de Direito Constitucional. ela mesma reconhece que se trata de aplicabilidade insólita. porém. E assim tem que fazê-lo. sempre que tais relações concretas se friccionarem com os novos comandos constitucionais. pois. para com outras normas de efeitos concretos se encontrar. Ela não chega para atuar enquanto norma de efeitos concretos. 3. a igualdade e a propriedade (postulados liberais que marcam para sempre a trajetória das Constituições escritas). Ao contrário. Aquele pedaço do Direito que mais prestigia o princípio da segurança jurídica. 3. a Constituição não mais está no seu habitat. institutos em que mais fortemente reluz o protoprincípio da segurança jurídica.

perfeito e a coisa julgada") faz parte do capítulo atinente aos direitos e garantias individuais e coletivos . e que ainda são clausulados como tema insuscetível de nova conformação de menor carga protetiva do indivíduo. no desfrute dessa altaneira posição intra-sistêmica. pela sua estratégica importância.6. Como nada precisou dizer para preservar a operatividade daquelas não-discrepantes.4. Até porque . ou se a parte permanente da mesma Carta agasalhar normação que prime pela hostilidade à continuação tipológica de qualquer delas. Colocaria a sociedade em polvorosa ou de pernas para cima. 3. para manter por algum tempo.e a freqüente imemorialidade de certas relações jurídicas em concreto (qual o marco temporal da retroação da nova Carta? A última Constituição? A penúltima? A primeira delas?).4. portanto. O silêncio da nova Carta cumpre um papel de preservação do que já gozava de concretitividade. Do terrorismo normativo. Reversamente.7. em conteúdo. Para sonegar eficácia às normas gerais anteriores e de conteúdo discrepante. ao tempo da promulgação do Magno Texto.para estancar a eficácia das normas gerais anteriores com ela discrepantes.para ressalvar a eficácia temporária de norma geral com ela (Constituição) em . 60). Dupla e díspare função do silêncio normativo-constitucional. a Constituição precisa dizê-lo.2.reconheçamos .2. o poeta).4. Em sede de relações concretas. a nova Constituição nada precisa dizer. Tudo se resume em saber distinguir entre o que existia enquanto modelo jurídico em abstrato e enquanto modelo jurídico em concreto. Principalmente se considerarmos o tempo médio de vida de uma Constituição .2. ou em dadas circunstâncias. Constituição.4. nada precisou dizer. Como precisa dizer que relações em concreto (já carimbadas pela velha Ordem como situações ativas de caráter permanente) passarão a sofrer desfazimento ou paralisia eficacial. ainda que dela desbordantes. 3. é de se presumir como operante para as que se produziram antes da nova ordem constitucional.2. Como nada precisa dizer para manter íntegras as relações em concreto que vier a encontrar (desde que tais relações contenham o timbre da definitividade). a estabilidade que a nova Constituição imprime àquelas que se produzirem a partir dela mesma.que é expressivo . o que terminaria por retirar da Constituição a própria possibilidade lógica (eficácia) e social (efetividade) de incidência. Ora.4. com a nova regração constitucional. uma norma geral anterior de conteúdo discrepante.7 3. pois o febricitante revolver de sepulturas jurídicas teria que alcançar relações cujos autores seguramente já não estariam neste mundo de "aquém-túmulo" (MÁRIO DE ANDRADE. 3. principalmente. do ato jurídico perfeito e da coisa julgada exijam um tipo de interpretação que se traduza no seguinte: a garantia em que elas se constituem na nova Ordem há-de ser uma confirmação daquela igualmente reconhecida pelo velho Ordenamento. Reiteremos o juízo. se tais modelos se revelarem desafinados. natural que as três estelares figuras do direito adquirido. II . na medida em que: I .5. A Constituição Brasileira de 1988 é um bom retrato falado do que estamos a proposicionar. Direitos e garantias que vão compor uma paliçada defensiva dos particulares contra o Estado.uma generalizada exumação de relações jurídicas em concreto faria do novo Código Político um diploma normativo tão confessadamente odioso que tocaria os debruns da insanidade. até mesmo por via de emenda constitucional (inciso 4° do § 4° do art. tanto quanto cumpre um papel de não-preservação dos modelos jurídicos apenas existentes no plano da abstratividade. Salvo se regra transitória da nova Constituição lhes cassar por modo expresso a respectiva eficácia.

47. neste caso. a partir de 1° de julho de 1989.)". ato jurídico perfeito. a remuneração.. 3. que "Ressalvados os créditos de natureza alimentar. contudo. invocação de direito adquirido ou percepção de excesso a qualquer título". o valor dos precatórios judiciais pendentes de pagamento na data da promulgação da Constituição. 33. é que tem o condão de se colocar para dentro ou para fora da faixa da retroincidência. § 7°. desde que o Poder Judiciário não as declare inválidas. em prestações anuais. 25. Ficam revogados.. 3. b) "Art. não deixou de se fazer explícita no seu corpo transitório de dispositivos. as vantagens e os adicionais. agora.).para rever o passado das pessoas que já encontrou na posição de partícipes de relações consubstanciadoras de direito adquirido. emenda não é a matriz normativa do direito adquirido. todos os dispositivos legais que atribuam ou deleguem a órgão do Poder Executivo competência assinalada pela Constituição ao Congresso Nacional. c) voltou a mexer no teor da coisa julgada. de incidência perante as três emblemáticas figuras.1.)". 27°. ao estatuir.2.3. no prazo máximo de oito anos. que "Na liquidação dos débitos. é claro que a primazia é das emendas.)". Percebemos. ilustrativamente: a) atacou o direito adquirido. no art. pois somente ela.3. nem da coisa julgada. inclusive suas renegociações e composições.3.3. não se admitindo. 3. de par com atos jurídicos perfeitos. 5° da Constituição de 1988 não nos . Em Estados como o Brasil.3.. a partir de cento e oitenta dias da promulgação da Constituição. o olho do analista deve se deter é no originário modo pelo qual a Lei Maior dispôs sobre a matéria. (.8. sacou de preceitos desta espécie: a) "Art.. de conseguinte. por conduto do artigo 17. que deve ser recebida em termos ou sob a prudente cláusula do modus in rebus a asserção de que "não há direito adquirido contra a Constituição". o Tribunal Federal de Recursos exercerá a competência a eles atribuída em todo o território nacional (.4... iguais e sucessivas. nem do ato jurídico perfeito. III . bem como os proventos de aposentadoria que estejam sendo percebidos em desacordo com a Constituição serão imediatamente reduzidos aos limites dela decorrentes. até o modus in rebus ("para cada coisa existe a sua medida própria") deixa de ser admitido. Tratando-se. O mencionado inciso XXXVI do art. quando o cotejo se dá entre a normatividade das emendas e as multirreferidas situações jurídicas em concreto (que são relações já permanentemente ornadas de subjetividade). 3.2. Assim é que. incluído o remanescente de juros e correção monetária.. Até que se instalem os Tribunais Regionais Federais. especialmente no que tange a (. Todavia. A retroeficácia apenas em abstrato das emendas à Constituição 3. o equacionamento jurídico da questão muda acentuadamente de foco. Constituição originária. por decisão editada pelo Poder Executivo até cento e oitenta dias da promulgação da Constituição".8 b) imiscuiu-se no conteúdo de decisões judiciais com trânsito em julgado. ou não. ou coisa julgada.4.. ao rezar que "Os vencimentos. no art. para poder se autoexcluir.4. com atualização. Quando o confronto a fazer é entre as normas gerais das emendas e as normas gerais de vinco infraconstitucional. sujeito este prazo a prorrogação por lei. de confrontar situações em concreto com os atos de reforma constitucional. ainda que ajuizados. porque. decorrentes de quaisquer empréstimos concedidos por bancos e por instituições financeiras. poderá ser pago em moeda corrente. ao prescrever. não existirá correção monetária desde que o empréstimo tenha sido concedido: (.estado de fricção material.4.4.

permanentes e identificáveis pelos nomes patronímicos ou nomes pessoais dos seus beneficiários. da suprema verdade e da suprema justiça. no despenhadeiro da barbárie ou da guerra de todos contra todos. quem sabe. Note-se bem. portanto. gozarão igualmente de petrealidade.4. o corolário será aquele de que falava DOSTOIÉVSKI a respeito do próprio Deus: "Se Deus não existe. O que se protege. Expliquemos.10 II . propriamente). O que ele proclama é a garantia de que o direito que se adquirir por virtude imediata da lei (direito adquirido. ou ter a sua carga protetiva quebrantada (por derrogação). rolando. .o primeiro.4. da suprema beleza. sem Deus. a factualizar-se no processo de aplicação/criação do Direito Objetivo. de pedaço de vida humana objetivada a pedaço de vida humana subjetivada.6. já não podem sofrer desfazimento. a repercutir no restrito universo de certos atores. porém num sentido tópico ou pontual. ou por reconhecimento de um ato jurídico que se aperfeiçoou nos seus elementos formadores (ato jurídico perfeito).3. nem mesmo por emenda constitucional. não admite revogação. Ele consagra um tipo de garantia contra a função legiferante do Estado.3. sobre ser de eficácia completa e aplicabilidade imediata ou não-di ferida. com toda ênfase. se já não se proclama. 5°. o que fica a salvo de retroatividade da lei não é o dispositivo sob cuja preceituação nasceu o direito apelidado de adquirido. ou quebrantamento. ou ainda de uma decisão judicial em estado de irreformabilidade (coisa julgada). ou da decisão judicial que se transformou em coisa julgada. E tudo é permitido (acrescentamos). 3. ou foi expedido o ato jurídico perfeito. enquanto "pedaço de vida humana objetivada" (RECASÉNS SICHES).3. Regra em si mesma ou objetivamente protegida contra a função legiferante do Estado.9 3.o segundo raciocínio traduz-se em que os direitos adquiridos.deixa em desamparo argumentativo.11 3. ou de ato jurídico perfeito. Não! O que fica imune à retroatividade danosa da nova lei são determinados efeitos da velha regra legal.4. e. O que fica intocável. implica dois raciocínios jurídicos: I . mas não veicula. Aqueles efeitos que já se exteriorizaram sob a forma de direito adquirido. Continuam. já não é a norma geral. Agora. mas determinados titulares do direito por ela ensejado. então. agindo este assim no exercício da função legislativa usual como da função reformadora.7. 3. pois.4. paralisia.3. sejam aqueles que precisaram de confirmação pela via do ato jurídico dito perfeito. dado que faz parte da relação dos direitos e garantias individuais. pois já passaram de efeitos objetivos a subjetivos.4. ou sequer derrogação amesquinhadora. A norma do inciso XXXVI do art. O dispositivo em tela consigna "uma garantia" (PAULO MODESTO). A distinção essencial é esta: a norma geral. ou coisa julgada. em caráter definitivo. mais que isso. ou prolatada a res judicata. íntegros.3. porque restritamente subjetivo. a existência desse princípio. então tudo é permitido". nem ato jurídico perfeito. pois.4. mas não é exatamente isto o que sucede com todos os seus efeitos. ou de coisa julgada. é aquela dimensão da norma geral que passou. é de que ela é uma cláusula pétrea em si mesma. eles perdem o referencial da suprema bondade. os atos jurídicos perfeitos e as coisas julgadas que vierem a ocorrer.8. por si mesmo. Tudo em homenagem ao basilar princípio da segurança jurídica.5. nenhum direito adquirido. pode ir embora do Ordenamento (por revogação). Sejam os efeitos deflagrados imediata e exclusivamente pela norma em abstrato (direito adquirido). porque já não faz sentido vedar para os crentes coisa alguma. Logo. 3. esse direito assim qualificadamente adquirido será um direito completamente a salvo de prejuízo por lei posterior.

1. 3. o que se tem é o fenômeno da "ultra-atividade" relativa da norma geral de que elas derivaram. em nosso País. Uma coisa a lembrar: certas situações jurídicas ativas são incompatíveis com a figura do direito adquirido porque têm a particularidade de nascer mais condicionadas pelos interesses da sociedade do que condicionando tais interesses. de remoção por emenda constitucional. Diga-se o mesmo do uso de um automóvel em via pública. a saber: . as prefigurações espocam e trazem à nossa mente outras situações que também parecem não se compadecer com a figura do direito adquirido.4. pois o exercício pode ficar pendente de pressupostos. Titulares sempre em estado de precariedade. nominalmente identificáveis. Nem por isso deixa de ser direito adquirido. continua operando a velha regra.4. a nova não pode incidir. a que vigia entre nós a respeito do divórcio. ou da res judicata. Ou quanto à detenção de certas competências administrativas perante o administrado. 3. Ou. que a liberdade de contrair novas núpcias estava constitucionalmente cerceada. porque. um novo marco temporal se estabelece: ela já não deflagra os efeitos inéditos que estava apta a deflagrar no universo particular de novos atores jurídicos. Em todas as três situações em concreto. se se modificam as leis de zoneamento do respectivo Município. por inversão de pensamento: onde tem que deixar de incidir a nova regra geral ou abstrata. ou industrial. como.2. para essa norma geral. Logo. Outra coisa a lembrar é que o direito subjetivo que se eleva ao patamar do direito adquirido (o adquirido é um plus em relação ao direito subjetivo) pode até não se encontrar em fase de exercício. os efeitos que já deflagrou ou ainda está a deflagrar na vida de determinados agentes.4. mas sem a possibilidade de se entrecruzar no espaço de movimentação daqueles sujeitos de relações que se tornaram ativas por virtude do direito adquirido.4. a qualquer tempo (como veio a suceder.4.4.renove-se o juízo -. 3. Ou no que tange à localização de um estabelecimento mercantil. Por exemplo. O que vigorava era uma restrição.4. ou seqüencia (conforme o caso). com a emenda n° 9/77 à Carta de 1967). ou do ato jurídico perfeito. na medida em que adstrita à subjetividade de atores em concreto.4. mas a ausência do direito subjetivo de se divorciar.12 Enfim. o que é bem diferente). o proprietário de um bem de produção jamais pode se eximir de normas legais quanto a certos modos de pôr o seu bem a render e quanto à fiscalização do Poder Público sobre esses modos econômicos de exercício de direito. Sem que nenhum dos membros da sociedade conjugal que se desfez pela via do desquite pudesse contrapor à retroincidência da emenda a tese do direito adquirido. por exemplo. são normas gerais que se interpenetram no tempo. Queremos nos reportar a certas restrições diretamente constitucionais àquele tipo de liberdade contratual que não se orna de conteúdo econômico ou mercantil. na matéria 3. passível. Essa ultra-atividade ou ultra-operatividade é apenas tópica ou pontual (por isso que relativa). pois que de direito adquirido não se tratava (não existia o direito subjetivo de não se divorciar . O fenômeno da ultra-atividade.3. Razão pela qual os seus titulares nunca deixam de ser eventuais titulares. apenas.4. Ou ao fato de servidores públicos se encontrarem sob determinado regime de trabalho. É compreender: onde continua a operar a velha regra geral ou abstrata.4. Significava.3.4. no entanto. uma exceção à liberdade núbil das pessoas. Isto não significava que as pessoas civilmente casadas tivessem o direito adquirido a permanecer privadas da possibilidade de se divorciarem (não há direito adquirido à privação ou à inibição do próprio fazer ou do agir). mas conserva.

151/161). e os fundamentos então lançados parecem-nos resistir a contraditas. Melhor técnica legislativa.I . Elas não podem incidir sobre as matérias clausuladas como pétreas ou intangíveis ou irreformáveis. Dois momentos inconfundíveis de normatividade abstrata. Retornando a lidar com o bloco dos três institutos. 3. ou delegadas. como se dá. o seguinte esquema de interpretação: I . na matéria.). II . como requisitos do respectivo exercício. Constituição.4. ou do preenchimento de certa condição. como. 3.2. por exemplo. Nada disso! As emendas constitucionais podem tudo que a lei pode e vão além: podem tudo que a lei não pode. que tudo aquilo que a lei não esteja habilitada a fazer fica também interditado às emendas.5. somente será exercitado quando da expressa manifestação do respectivo titular (por isso que tal modalidade de aposentação é chamada de voluntária). com as férias anuais de um trabalhador: são adquiridas a cada ano de trabalho. impossível! Se a Constituição de 1988 fala a toda . "o voto direto. II .. que.5. o ato jurídico perfeito e a coisa julgada"). quer referentemente aos direitos concedidos por regra constitucional. Ampliamo-los até. não como requisitos de obtenção do direito (matéria de outra norma). "a forma federativa de Estado". uma vez obtido. Pronto! É esse racional esquema de exegese da Constituição que explica o fato de ela própria. Ou como sucede com o direito à aposentadoria voluntária. em parceria com VALMIR PONTES FILHO ("DIREITO ADQUIRIDO CONTRA AS EMENDAS CONSTITUCIONAIS". entretanto. e a norma igualmente geral que dispõe sobre a implementação de termo ou de condição para a empírica fruição daquele mesmo direito que a primeira norma elementarizou.o aguardo do lapso temporal.tudo que a lei está habilitada a fazer fica inteiramente à mercê das emendas constitucionais. quando o Código Político substitui o silêncio pela fala expressa é para dizer o que elas não podem. ou seja. porém gozadas até o final do ano subseqüente. II.4.4. portanto. estudo publicado no bojo da coletânea DIREITO ADMINISTRATIVO E CONSTITUCIONAL.5.3.1. Mas prefixados. ou complementares. "a separação dos Poderes" e "os direitos e garantias individuais" (de cuja relação a garantia dos direitos adquiridos faz parte. 3.4. de dizê-lo às expressas.4. sem que a Magna Carta necessite. por hipótese.4. por conveniência do respectivo empregador. sim. Não há necessidade da indicação desse vínculo entre determinadas matérias e a conformação normativa por via de emenda. quer os deferidos por outra modalidade de lei em sentido material). aduzimos que não tem relevância o fato de a legenda constitucional somente incluir a lei (não a emenda) como norma proibida de retroagir para prejudicá-los ("a lei não prejudicará o direito adquirido. prefere a inação. 3.a própria vontade do titular do direito.5.daqui não se deduz. pp. salvante recair sobre matérias clausuladas de petrealidade pela Constituição. etc. Malheiros Editores. nesta oportunidade. ano de 1997. A inclusão das emendas à Constituição no conceito genérico de "lei" 3. podendo efetivamente se entronizar no gozo do que é seu. secreto. porque a emenda pode tudo que a Magna Carta reserva para as leis (pouca importa se leis ordinárias. e. que. Em tema de suas próprias emendas.5.. jamais dizer sobre que matérias podem recair as emendas. vol. Já enfrentamos academicamente a questão. é preciso distinguir entre a norma geral que indica os pressupostos de obtenção do direito. universal e periódico". convencidos que estamos de que a Lex Legum encerra. prefixados pela própria norma geral.

está liberando qualquer delas para interditar o acesso de toda pessoa privada às instâncias judicantes. se do seu conteúdo já não fazem parte o direito adquirido. insista-se.5.8.4. que já não seria formalmente o mesmo a cada emenda produzida. nas entrelinhas. E interditar as leis não é interditar as emendas.): se a referência constitucional apenas à lei. o ato jurídico perfeito e a coisa julgada?14 3.hora das leis. em tema de direito adquirido. quer no tocante à regra simplesmente transitória que venha a aportar.4. que a referência à lei. 3.9. ou negativo ("ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei"). O mutismo da Lex Legum quanto às emendas é de nenhuma importância hermenêutica. nenhum mal existe em reqüestar a todo instante a lei porque a banalização da lei em nada trivializa a Constituição. .5. nem por silenciar quanto às emendas. mas aqui mesmo nos permitimos retomar o que dissemos em co-autoria com VALMIR PONTES FILHO (ob.7. 34 e parte final do inciso IV do art. E o raciocínio é o mesmo: descumprida que seja qualquer emenda constitucional. uma vez descumpridas. naquelas matérias que desfrutam de intangibilidade perante a ação legislativo-conformadora do Estado (que são matérias apropriadamente chamadas de pétreas).4. 59.5. cairíamos todos numa contradição grotesca. Por isso que alcança todos os espécimes legislativos de que trata o art. tintim por tintim) acarretaria a banalização do próprio Texto Magno. enquanto veículo de imposição de deveres de conteúdo positivo. que. no capítulo "DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS". é porque já prescreveu. inciso XXXV). 5°). 3.6. 85). sempre que a Magna Carta impuser proibição ou simples limitação à faina legislativa do Estado. em nossa Constituição. é uma referência ao Direito-lei. na matéria. 3. ainda ensejam a intervenção da União nos Estados e dos Estados nos Municípios (inciso VI do art. São estas premissas que nos permitem compreender que se constitui em crime de responsabilidade o ato do Presidente da República do Brasil que implicar descumprimento de qualquer emenda constitucional. Fala é da lei e das decisões judiciais (inciso VII do art.13 3. Remarque-se ainda que a regra-matriz do direito adquirido. a banalização das emendas (que fatalmente ocorreria pela técnica de se dizer tudo que a elas competisse. O raciocínio será retomado no capítulo entrante. Daí que aceitar a retroação de emenda para desrespeitar o direito adquirido passe a significar a possibilidade de retroação também para o desrespeito às duas outras situações jurídicas ativas. não! Diga-se o mesmo da norma constitucional que proíbe a lei de excluir da apreciação do Poder Judiciário "lesão ou ameaça a direito" (art.5. E a falta de menção às emendas significaria a imprestabilidade delas para obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa? A toda evidência.4.5. E nessa hipótese. que permanece formalmente a mesma. A Constituição não pode prestigiar tanto as suas emendas a ponto de dar a sua vida por elas. não a emenda. De revés. seja para lhes franquear certos conteúdos. seja para interditá-los. 35). Que se entenda. É que a nossa Constituição também só mencionou a lei. que pedir o adjutório delas é reqüestar a edição das emendas. salvante. que. De outra parte. é a mesma do ato jurídico perfeito e da coisa julgada (inciso XXXI do art. pois.4. a aterradora pergunta que se faz é mesmo esta: de que vale o megaprincípio da segurança jurídica. fosse um abre-te sézamo para a edição das emendas.5. as conseqüências serão iguais às do descumprimento de lei ou de decisão judicial. embora a nossa Magna Carta não fale do descumprimento das emendas como fato-tipo do citado delito. ato jurídico perfeito e coisa julgada. 5°. quer no tocante à regra permanente que ela venha a embutir na Magna Carta. cit.

pois as leis de que a Constituição é a lei suprema são as leis emanadas do Estado. como lei das leis é. 3. perpetuamente. então.1. O exclusivo regime autoditado da Constituição 3. ao Ordenamento Jurídico por ele inaugurado. que o Magno Texto só é realmente magno por cumprir esse papel de dizer o que seja. sempre ele) ortodoxa ou unitária. 3.2.15 3. os atos de jurídica manifestação das três funções básicas do Estado por ele instituídas: a função legislativa. atribuir competências. ou o que não pertence.1.5. Esta nova disquisição tem que ser a continuidade de uma idéia já vertida para o papel. ou não sejam.5. Reconheçamos.16 3. uma norma de aplicação dele próprio. Não é por aí que a discriminação entre ela.5. Quais sejam. enfim. Se os demais atos da ordem legislativa pudessem ditar o seu próprio regime jurídico. Privar-se-ia da sua característica central de Ordem Jurídica de "supra-infra-ordenação" (KELSEN.5. impor deveres. Ao contrário.as emendas no meio (inciso de n° I). a mais importante das limitações impostas ao Estado. O que pertence.1.5. prescrever finalidades e outros espaços de ocupação normativa. que é simplesmente esta: somente a Constituição tem a propriedade de ditar o seu próprio regime jurídico. ou sequer atenuadas. no fundo. que é de ordem material. e os demais espécimes jurídico-positivos pode ocorrer. É. A Constituição e seu exclusivo papel de fundar e monitorar o Ordenamento Jurídico . Seria superior apenas pelo critério temporal ou cronológico (a lei mais nova a preponderar sobre a lei mais velha no tempo).1. o Sistema de Direito Positivo já não teria uma única norma-começo. 3. Constituição. Pois somente assim é que uma Constituição tem a força de ditar o seu próprio regime jurídico. Tem a condição material objetiva de se autoqualificar ou se autonominar como Constituição. E sem outra hierarquia internormativa que não fosse a da lei mais recente. pois os espécimes normativos sucessivamente editados não teriam que se reconduzir à unidade formal do primeiro deles: a Constituição Positiva. Logo.1. o Ordenamento já não seria uno quanto ao modus faciendi dos elementos do seu repertório. formal e materialmente.5. têm que permanecer como irrestritas limitações. ou por ele recepcionadas. Essa particularidade que tem a Constituição de operar. Mesmo em se tratando de imputar deveres ao Estado e conceder direitos contra o Estado. estruturar órgãos. isto é. A Constituição como a lei das leis 3. ou a da natureza das relações normadas. O único cientificamente prestante. é a própria base lógica da elaboração do conceito formal de Constituição. ou o que não seja.1.4. o reconhecimento da existência de uma lei que nasce para governar as outras leis. sinta-se que não é exclusivo da Constituição o mister de conferir direitos. pela Constituição originária. pois nenhuma norma seria hierarquicamente superior a outra na dúplice dimensão formal e material. não podem pelo Poder Público mesmo ser legislativamente supressas. ainda assim não se cuida de matéria privativamente constitucional. a garantia de que as outras irrestritas limitações impostas ao Poder Público.3. a função executiva e a função jurisdicional.5. ou pelo critério da especialidade. Tudo isto fica ao dispor de muitos outros atos que a própria Constituição menciona como veículos de normas jurídicas gerais.2.

O campo divisional da Constituição perante as outras normas do Direito reside unicamente nisto: só a Constituição é que pode fundar o Ordenamento Jurídico e permanecer o tempo inteiro como referencial de todas as outras normas positivas que se integram nesse mesmo Ordenamento. à vida do Ordenamento. porque. sem que tais normas possam. devemos insistir no enunciado de que a Constituição Positiva não é Constituição Positiva por se fundar num Ordenamento Jurídico. na exata medida em que isto signifique preservação daqueles traços que dão a ela uma identidade fisionômica.5.2. a metodologia de trabalho que a torna primus inter pares. com o seu próprio nascimento. tem assegurada a sua contínua aplicação. pois é fato que ela não depende somente da sua própria realidade para cumprir todos os seus desígnios. enfim. porém da Constituição em que se inicia e para a qual se destina. bússola e ímã .5. ou seja. e o que sucede? Uma mudança tal de qualidade a ponto de se poder proclamar que de Constituição já não se cuida. Sem demasia na comparação das coisas.2. Não teria as outras leis e demais normas positivas sobre o que imperar.2.18 3. para implicar uma exigência de ininterrupta referência àquela parte do Ordenamento que se chama Constituição. A Constituição é também carente do Ordenamento Jurídico. ela não teria o que dirigir. mas pelo conhecimento da Constituição é que se conhece o Ordenamento. 3. A Constituição enquanto fonte.7. Subtraia-se da Constituição a exclusividade desse mister de fundar o Ordenamento e manter sob o seu controle o modus faciendi e o conteúdo dos outros modelos normativos. Logo. Constituição.5. Para tanto.5. Não teria.17 3. por conta própria. quer os negativos.4. então. O Ordenamento Jurídico é que é Ordenamento Jurídico por se fundar numa Constituição Positiva. como se desdobrar em comandos necessariamente instrumentais dos seus comandos básicos. tem uma boa parte dos seus desideratos cumprida. O método específico da Ciência Jurídica para conhecer o seu objeto deixa de significar. 3. 3. 3.1. Esta a sua natureza. a sua causa formal. não é tanto pelo conhecimento do Ordenamento que se conhece a Constituição.5.5.2. isto é. Se é próprio da Constituição aplicar limites formais e materiais ao Estado.5. um reclamo de contínua referência ao Ordenamento.3.5. sem ele. 3.. A parte a preponderar sobre o todo. De fato. o ortodoxo papel de norma-começo do Ordenamento só faz sentido se a Constituição permanecer dando as cartas no interior desse Ordenamento. ela tem que prescrever o regime das outras normas jurídicas. por ser a Constituição a parte que explica e até justifica o próprio todo (visto que o todo do Ordenamento está a serviço. isto é. quer os limites positivos. E é mesmo para o cumprimento dessa parte dos seus desígnios que ela dá início. Não! Ela também precisa do Ordenamento.3. alterar esse regime. não de si mesmo.2.2. porque pelas normas gerais e individuais do Ordenamento é que ela. traços ou valores para cuja proclamação teórica e persecução empírica a própria Constituição foi elaborada.6.3. tanto alusivamente às condutas comissivas quanto as de absenteísmo.2.. em última análise). como tornar essa imposição concretamente eficaz. se se deixa ao próprio sujeito limitado a possibilidade de tudo mudar pela via legislativa? Um mínimo de irreformabilidade há de conter a Constituição perante o Estado.5.2. Não que a Lei Maior venha a prescindir do Ordenamento. assim.

para se manter como permanente referencial do Ordenamento. para a zona de conformação normativa que é apanágio do Poder Constituinte. a cota de poderes da procuração que lhe fora outorgada pelo seu cliente. Mantém o Ordenamento sob tutela. Naquilo que é a própria causa formal ou a ratio essendi metodológica da Constituição. esse Direito não pode atribuir a si mesmo aquilo que é a própria ratio essendi formal da Constituição: o existir como a norma normarum. 3. a Constituição tem que travar uma briga particular com suas emendas ou revisões. 3. não uma pluralidade de cosmos (oriundos de numerosas e incontroláveis normas-começo).1. para reverenciá-la. É perseverando no controle de todos os demais espécimes jurídico-positivos.4. 115/116). a lex legum. reenviando-os a si mesma. pelo risco maior de ela vir a ser abalroada por ele. um só. pp. na linguagem religiosa do Antigo Testamento. a Constituição bem desempenha nos termos em que JESUS dirigiu aos seus discípulos esta vibrante mensagem: "Eu sou a Luz que está sobre todos. o inarredável princípio está em que são irreformáveis as normas da Constituição Positiva sobre a própria reforma dessa Constituição Positiva (de parelha com outros aspectos de intangibilidade mais para a frente comentados). Assim como já no interior da Constituição a briga particular é entre o Poder Legislativo e o Poder Executivo. II. mas não o libera para crescer inteiramente à solta. eu sou o Todo. levante uma pedra e me encontrará lá" (em A SEMENTE DE MOSTARDA.3.3.3. 3. e o Todo vem de mim. sozinho.5. A norma pós-Constituição não fala sozinha. Corte um pedaço de madeira e eu estarei lá. Ainda que o Direito pós-Constituição promane de emenda ou revisão constitucional. 3. E é nesse rigoroso esquema de supra-infra-ordenação que a Constituição pode fazer do Ordenamento. A Constituição cria o Ordenamento.3.5. bússola e ímã . Esse tríplice mister de se colocar perante o Ordenamento como fonte.5. por sua conta. Este último a ameaçar de invasão a área de competência daquele.5. portanto. cit. e o Todo retorna a mim. como se o Ordenamento fosse uma pessoa incapaz de sair da menoridade.6. um unitário cosmos. É a maior de todas as ênfases do discurso de SIEYÈS. tanto quanto o Poder Reformador tenta descambar. Podemos até mesmo dizer que.5. Mudando-se as palavras para melhor transmitir o mesmo pensamento: o Direito pós-Constituição é um Direito sempre enlaçado à Constituição mesma. a sua mensagem imperativa em si.5. Ela conversa (graças à . "o cântico dos cânticos".2.3.à absurda possibilidade de um advogado alterar para mais. alterar os limites da própria delegação (ob. Uma folha cujo talo se partiu e ainda assim pretenda sobreviver de sua própria seiva (?).3. Uma queda de braço com o Poder Reformador. vol. p. Essa alteração de limites corresponderia . segundo o qual o órgão delegado não pode. que a Constituição impede que cada um desses atos seja um fragmento vocal com pretensão à totalidade. 3.3. os demais espécimes normativos têm que ficar para sempre submissos aos termos em que o Poder Constituinte veio a se formalizar. Queremos dizer: o que dá pleno sentido a uma norma jurídica não é apenas o seu discurso prescritivo. Mesmo quando se trate de revisões ou emendas à Constituição.3. historicamente. mas um único. concomitantemente. 82)..5.a comparação é nossa .

6. mas exógeno ao Estado. Seja como for. o Estado vem antes do Direito. se é que é possível falar de psicologia ou de psiquismo estatal quando se queira referir a um tipo de Direito que o Estado produz para além da autoaplicabilidade das normas que já estão lançadas no próprio lastro formal da Constituição. todavia. com ela.19 3. a teoria do Estado de Direito. 3... pois quem se autolimita. via de regra. exclusivamente (postando-se ele do lado de fora de tais relações. Se o Estado pode desfazer o Direito. O fundamento da submissão do Estado a direitos subjetivos oponíveis a ele mesmo.6. Em qualquer das três situações jurídicas. mas na base do Constitucionalismo. a cota dos direitos subjetivos alheios consagrados pela Magna Carta). Estamos no epicentro de uma distinção qualitativa que é a explicação de tudo o mais. o princípio de que o Estado é obrigado a respeitar o Direito por ele próprio ditado. objetivamente. Direito que o Estado procria. revogando-o. com o tempo. desfazer do Direito. que sempre mantém os governados em situação de relativa insegurança jurídica. ora para colocar a si mesmo em situação jurídica ativa (perdoe-se a cacofonia "cativa"). de uma relação que já não está na base da Teoria do Estado de Direito. Que fundamentação é esta? 3. no plano jurídico. agora. enquanto aquela revogação não sobrevém. por exemplo.6. porque fica de fora da relação que passa a estabelecer entre pessoas outras. Com efeito. 3. ou seja. no sentido de . porque sem nenhum compromisso com a preservação do tipo de Estado até então existente. O fundamento supra-estatal e suprapositivo da Constituição 3. Cogita-se. Daí a necessidade de o pensamento jurídico formular e implantar. e ainda tem a chance de ver preenchidas as suas eventuais lacunas. logicamente. 3. ora para estabelecer relações jurídicas entre os particulares.2. Ou ele se auto-expande no plano das competências a que se atribui (tendo sempre por calço a Constituição.6.5. Nesse preciso espaço da relação Estado/Direito. por conseqüência). não é outro senão uma autolimitação. Como também é desse diálogo com o Ordenamento que a norma isolada se depura de toda incoerência. todavia).6. de toda obscuridade.3. o embasamento lógico da Constituição é diferente da fundamentação teórica dos demais espécimes jurídico-positivos que.4. ou ele se autocontrai no plano dos direitos subjetivos que opõe a si mesmo (ultrapassando. porque transcorrente entre um Direito que o Estado não cria e o Estado mesmo. formam o Ordenamento de um povo soberano. no âmbito da fenomenologia do Direito: a origem mais depuradamente legítima da Constituição. ora para ficar em situação jurídica passiva.Constituição) com o todo do Ordenamento e é dessa confabulação com o todo que se extrai a sua definitiva mensagem. O Direito a preceder o Estado. a relação que se passa entre a Constituição e o Estado exprime um outro vínculo operacional.6. Estes outros modelos de prescritividade jurídica exprimem uma relação do Estado com o Direito que o Estado mesmo cria.5. não pode. ou ele nem se auto-expande nem se autocontrai. bem pode se autodeslimitar (já o dissemos). e sua força mais irrefragavelmente vinculante.7.3. Este a significar.1. tudo transcorre nos meandros da psicologia ou do psiquismo estatal. a imposição de um limite não mais endógeno. no plano político. Autolimitação estatal. o Estado gira em torno do seu próprio querer. porque elaborada sob fundamentação lógica distinta daquela que prevalece para os demais modelos normativos. essa. Relação derivada ou secundária do Estado com o seu Direito. 3. Ora bem.

1. tornando o Poder Constituinte. assim.2. nasce por um modo comparativamente único e também se altera por uma forma que lhe é exclusiva.3. o fundamento da autolimitação legiferante do Estado. é invocar uma noção . que é a parte comumente chamada de pétrea ou intangível. em derradeiro exame. Originário. Ela. Falar de rigidez constitucional. A compulsão da rigidez formal da Constituição 3. porque tal revogação já não se dá por meios jurídicos ou no plano do dever-ser normativo. b) que tem uma parte dele imune ao cinzel legislativo do Estado. 3.que há um tipo de Direito: a) que o Estado não cria nem pode deixar de reconhecer como Direito.6. hirto. não-coincidente. ou revogação). Muito bem! Se o fundamento lógico da Constituição é a suprapositividade. na vala comum dos espécimes normativos que têm por fonte um órgão deliberativo já de Direito instituído. ainda assim a originalidade permanece. 3. a suplantar. com aquele seu próprio modo de nascer.7. Já em termos funcionais. Original. no mundo do ser. Acontece à margem de toda juridicidade.7.7. assim.6. ainda por cima. E mesmo no tocante à revogação pura e simples do Código Político (substituição de uma Constituição por outra). não-pétrea. modificam-se e morrem pela mesma e monótona forma (o modo de produzir a lei é o mesmo que se observa para a respectiva alteração. por residir no próprio esquema de reforma da Constituição. ainda que tal insuscetibilidade não conste de dispositivo constitucional expresso. 3. 3. no particular. a ilação a que se chega é esta: o Poder Constituinte incorpora não-propriamente a opção de atribuir à sua obra legislativa um caráter rígido. estável ou outro nome que se atribua ao fato de a Constituição conservar a memória de sua origem exclusivamente política ou suprapositiva. É a limitabilidade genética de que antes falamos. o caráter rígido que a Lei Suprema necessariamente ostenta não é outra coisa senão a consagração de um regime jurídico mais cercado de solenidades ou dificuldades para a sua reformulação.7. firme. portanto. mais que isto.5. por inteiro. o modo pelo qual a Lei Maior dispõe sobre a sua própria reforma é insuscetível de reformulação. É essa nova idéia de superação da teoria da autolimitação jurídica do Estado que vai possibilibitar a formação do juízo de que a primeira das cláusulas pétreas só pode ser de natureza formal. mas o poder-dever de não deixar que sua Constituição venha a cair. Se as leis subconstitucionais nascem. 3. ou seja. pois o cerne da rigidez está em que o Magno Texto não quer para o seu reprocessamento aquele jeito monocórdio e comparativamente simplificado de se trabalhar com a a lei infraconstitucional. Constituição. sem nenhuma mistura com outra nascente do fenômeno jurídico. c) que a outra parte. porque diferente do modo pelo qual os demais diplomas jurídicos ficam pela Constituição autorizados a receber reprocessamento ou reformulação ou recondicionamento. E por compulsão da rigidez só se pode entender um modo de normar sobre a reforma constitucional que permaneça originário e original.4. porque sua fonte suprapositiva continua a mesma. isto não é o que sucede com a Norma Normarum.7. A compulsão da rigidez é. eis que processada ao nível das ocorrências fáticas ou exclusivamente políticas. o primeiro título de nobreza da Constituição. não um singelo poder. somente por um processo especialíssimo é que pode ser objeto de retomada legislativa pelo Estado. A se alojar.7. 3. o Poder Constituinte incorpora a compulsão do permanente registro dessa memória.

no sentido de que pode ser.7. durante algum tempo. hirta. ou debaixo de certos episódios. 3. eterna.7. sua defenestração do Magno Texto somente se dá por uma nova manifestação constituinte. que. com certos requisitos de iniciativa.6. combinadamente. como de primário saber.8. também opere pela fuga do lugar comum das revogações ou derrogações de Direito.7. 3. Mas comporta graduação. Essas dificuldades reformacionais de que tanto falamos dizem respeito. ou mesmo seu recondicionamento (reconstitucionalização. o reclamo de interstício entre reuniões legislativas de debate e votação final de matéria constitutiva de reforma da Lex Legum). a perda do status de tema constitucional. Daí o discriminar-se. Por isso que.10. cuidando-se de matéria desprovida de petrealidade. cuja total flexibilidade decorre da consideração de não ser ela uma Constituição em sentido rigorosamente formal. portanto). particularmente zelosa com suas próprias matérias. em duas inconfundíveis porções: uma. porém estável. pode acontecer ao . Já os fatores de ordem temporal e circunstancial. uma Constituição Positiva é mais ou menos firme. ou seja. nenhum ato reformista da Constituição pode ser apresentado. A parte da Constituição que é eterna fica imune ao processo reformista. Assim como o Rei Midas tornava ouro tudo em que tocava. como se diz aqui no Brasil.9. circunstancial e temporal. pois uma Constituição dita flexível é aquela que pode ser reformada pelo mesmo processo instituído para a produção e modificação de uma lei subconstitucional. 3. ainda assim. temporal. isto é. caso contrário. É o caso da Constituição da Inglaterra. tais Constituições. temporal e circunstancial. uma vez respeitadas as exigências constitucionais de ordem formal.7. estável. De ordem processual. ora menos ortodoxa. A parte que não é eterna fica exposta aos atos legislativos de reforma. não-eterna. outra.7. Mas. A rigidez formal é a marca registrada das Constituições que inauguram o Ordenamento Jurídico de intransigente supra-infra-ordenação e que mantêm esse Ordenamento sob controle de qualidade. entretanto. no sentido de reclamar a proposta de reforma constitucional um quorum maior de votação parlamentar. ora uma rigidez mais ortodoxa. porque as Constituições consagradoras do esquema de intransigente supra-infra-ordenação acrescem limitações materiais àquelas de cunho formal. ou seja. e por conseqüência imutável. é uma parte da Constituição que se garante com cláusula de estabilidade ou estado de firmeza se confrontada com as matérias constantes de leis outras. ou reconstitucionalização.7. ou discutido (também se diz um requisito de tempo a exigência de intervalo entre uma e outra rodada de discussão e votação legislativa de matéria constitucional. É o caso de se perguntar: e por que a Lex Maxima é assim especialmente cuidadosa. a ponto de petrealizar umas e estabilizar outras? A resposta é intuitiva. ou circunstancial. Tal rigidez nasce com a Constituição Positiva.oposta à de flexibilidade. rígida. venha o Poder Reformador a ficar liberado para submeter a si toda e qualquer relação social. eles comparecem para traduzir a idéia de que. Não é assim. Ela é pétrea. O fato em si da constitucionalização de um dado campo relacional-humano já se traduz numa fuga ao lugar-comum da regulação jurídica. a fatores de ordem processual. Daí que a respectiva desconstitucionalização. o mais das vezes. assegura a supremacia internormativa do Magno Texto e só desaparece com o desaparecimento dele. se a matéria é clausulada como pétrea.20 3. Não se conclua. a Constituição torna especialmente relevante toda matéria sobre que recai. a depender do grau de originalidade que imponha ao seu processo de reforma. 3.

2.8. Em suma. Contudo. E no plano territorial-externo. a Constituição termina valendo por si mesma. conforme conhecido postulado positivista). que nos parece útil aos fins a que nos propomos. a Constituição mais e mais monitora a elaboração das suas próprias emendas. 3. por opção metodológica estritamente pessoal.3. 3. vela para que nenhum documento com pretensão a "Carta Plurinacional" ou "Constituição Regional" venha a lhe servir de fundamento de validade.8.1. Não de um Poder Legislativo comum.8.8. a Constituição.8. Esta é uma afirmativa que temos como categórica.7.11. de si para si. 3. ou seja. assim. Rigidez formal e Poder Reformador. está em que toda Lei Maior que se faz globalmente efetiva opera como atestado formal de soberania nacional. E é mesmo a concreta aplicabilidade desse processo especialíssimo de dispor sobre matéria constitucional que vai alçar o Poder Constituído à dimensão de um Poder Reformador. Por esse prisma positivista de análise é que.12.nível do Poder de Reforma. a Constituição também pode ser vista enquanto modo pelo qual um certo povo proclama. b) "O definitivo enlace entre a Constituição Federal de 1988 e a Democracia". Nessa medida. justamente. debaixo de um processo particularmente solene. o seu modo constituinte de ser.dentre tantas que a Teoria da Constituição implica -. povo) e passa a gozar de estima geral como inalienável patrimônio jurídico. A Constituição como atestado de efetiva soberania nacional 3. Ainda assim. E já não tem como arredar pé de sua altaneira posição de documento confirmador de uma soberania que é também inalienável. com êxito. 3. resolvemos discorrer sobre os dois temas (embora sem reservar para eles nenhuma epígrafe em particular) no âmbito do estudo que reservamos para os capítulos de n°s IV e V desta monografia. Repetindo o discurso. Isto por ser a Constituição a fórmula jurídico-positiva que possibilita ao povo dar a si próprio uma nova Ordem Jurídica e ainda se fazer internacionalmente conhecido como instância coletiva que desfruta de uma soberania mais que virtual.6. pois o poder de reforma da Magna Carta outra coisa não é senão atuar sob a regência das normas constitucionais originárias que formam. por definição. 3. independentemente do seu conteúdo.4. Assim estimada pelo povo como coisa inalienável dele.8. que atingiu o pináculo de sua identificação jurídica. que neste capítulo mesmo poderiam ser assim epigrafadas: a) "A Constituição como garantia de tudo e de si mesma". na medida em que instituidor de uma ordem. petrealidade e rigidez constitucional dão-se as mãos para possibilitar à Constituição o ganho de duas outras notas de especificidade. porque já tentada e consumada.5. principalmente se nascida nos arejados cômodos de uma Casa Constituinte que teve por alicerce a vontade eleitoral dos cidadãos. O traço final de especificidade da Constituição. o esquema da rigidez. independentemente do seu conteúdo (tanto quanto o Direito em geral de alguma forma vale por si próprio. constituem mais uma necessária parelha temática . em certa medida. para que nenhuma delas lhe usurpe o trono de rainha das normas jurídicas. 3. Ou de sua plenitude política. 3. no plano territorial-interno. 3. O mais formal e o mais solene dos atestados de que um determinado povo experimentou.8. a Constituição é tida pelo povo como galardão ou insígnia maior de sua própria independência (dele. único documento jurídico a atestar a .7.

externamente. até que se dê a sua recepção pela Magna Lei de cada povo. os ditames de uma "Constituição" da espécie plurinacional ou cosmopolita ingressam no mundo do dever-ser. não por merecimento próprio. mas pelas boas-vindas que eventualmente lhes dê a Constituição de cada Estado confederado.soberania de um povo. assume-se como a Lei das Leis. fora e dentro do território que o povo conquista com animus domini. insista-se. Porque aí. internamente. 3. é como a soberania mesma: projeção do poder.21 . não reconhece outro Poder ou outro Organismo de que venha a fazer parte senão nos termos por ela mesma previstos. Mas o estabelecimento de tais condições vale apenas como imposição factual ou realidade do mundo do ser. Logo.7.8. por ilação. notadamente à face das suas emendas (a Constituição a cumprir o papel de não deixar que suas emendas cumpram o papel de atestar a soberania do povo). O fecho do pensamento. realmente) por elas estruturado. é este: não se vai cair no romantismo ou na ingenuidade de supor que as "Constituições Regionais" deixem de ditar as condições de participação de cada Estado-membro no tipo de confederação (pois é de confederação que se cuida. sim.

por inteiro. Ele não significa a formulação de uma teoria que encerre ou contenha diretrizes para a concreta interpretação de toda e qualquer norma constitucional positiva. tanto quanto no seu regrado poder de . A peculiar estrutura conceitual dos princípios constitucionais 4.1.A Hermenêutica da Constituição Sumário 4.1. O que já significa dizer que. A Teoria da Interpretação do Direito em geral como antecedente da Interpretação da Constituição 4.9.1. se em normas constitucionais se traduzem.2. no entanto.10. por virtude da Constituição 4. porque destituídas de peculiaridades que as excluam.1. porque a positividade constitucional é um gênero abarcante das normas que aparecem para o mundo do Direito por via da Constituição originária e mais aquelas que aparecem para o mundo jurídico por via dos atos de reforma da Constituição mesma. A imperiosa substituição do nome "Interpretação da Constituição" por "Hermenêutica da Constituição" 4.1.2. Queremos dizer. 4. Não as segundas. Qual a conseqüência teórica dessa impossibilidade de os atos de reforma da Constituição ditarem o seu próprio regime jurídico? A conseqüência da não-definitiva autoqualificação nem da definitiva auto-hierarquização como norma de Direito. seja quanto ao seu conteúdo e respectivo grau de eficácia.8. Teoria da Interpretação do Direito em geral. que somente as primeiras é que se tornam objeto de uma centrada teoria da interpretação. E não sendo produzidos por um poder assim virginalmente fático. 4. E não significa. Seja quanto à sua forma de elaboração. O modo insimilar de viver da Constituição como segunda e definitiva causa de diferenciação hermenêutica 4. e não de normas dominantes. do âmbito de uma genérica teoria da interpretação.4.3.6.1. a merecer o rótulo provisório de "Interpretação da Constituição". 4. vistos sob o prisma do seu processo de elaboração e quanto à disciplina da matéria sobre que versam (com a respectiva dimensão eficacial). As especificidades da Constituição como a razão de ser de uma Hermenêutica diferenciada 4.4.7. O Direito Positivo como sistema ou ordenamento. isto é. O modo insimilar de nascer da Constituição como primeira causa de diferenciação hermenêutica 4. É ainda dizer: surpreendidos no seu regrado processo de elaboração jurídica. que é a natureza do verdadeiro Poder Constituinte. A dualidade princípios/regras como base da nova Hermenêutica da Constituição 4. A Constituição como sistema ou ordenamento por virtude própria 4.1. A inadequação do termo "Interpretação Constitucional" 4. tais atos só podem ser interpretados como veículos formais de normas dominadas.Capítulo IV . O tema da interpretação da Constituição exige de nossa parte uma prévia demarcação de conteúdo. A inadequação do termo "Interpretação Constitucional" 4. com esta separação entre normas da Constituição e normas de reforma da Constituição. Os atos de reforma da Constituição (quantas vezes o dissemos?). são atos normativos que não têm a menor ensancha de livremente dispor sobre o seu regime jurídico.5.3. Este o fiat lux da questão. deixam. de se apresentar à Ciência do Direito como produzidos por um poder de fato ou supra-estatal ou suprapositivo.

os atos de reforma da Constituição não se enquadram num esquema de interpretação em tudo e por tudo igual ao da própria Constituição. ou de fora para dentro. O objeto ou a coisa a moldar é sempre um conseqüente. por que sua qualificação como norma jurídica é uma necessária e definitiva autoqualificação. . esta. portanto. o que nos caberia formular seriam os cânones presidentes da interpretação de todo e qualquer dispositivo constitucional. só podem ter a sua qualificação e a sua hieraquização como norma jurídica por virtude de algo anterior a eles. 4. uma necessária e definitiva auto-hierarquização. sim. O seu real paradigma. por ele. E sua força impositiva frente às outras normas é. Aquele auto-rebaixamento é uma viagem sem retorno.1. Sob o título de "Interpretação da Constituição". antecede aquilo a que se destina moldar. sem possibilidade de reversão. à espera de que. A Teoria da Interpretação do Direito em geral como antecedente da Interpretação da Constituição 4. pelo fato evidente de que esta se formou há mais tempo como ordem autônoma de conhecimentos. desde que figurante da originária redação de um Magno Texto. é que não tem molde ou fôrma a precedê-la. Somente fica o órgão rebaixado. Algo que se faz por ela mesma. todo molde é algo que nasce com ela. pois o órgão que se auto-rebaixa desaparece para sempre dos quadrantes do Direito. Estas noções. assim.1.7.conformar relações intersubjetivas materiais. toda fôrma.8.6. Há um só molde. 4. No âmbito da Constituição originária. 4. 4.1 4. tão-somente. A Interpretação da Constituição como tema de estudo nos empurra. pois Constituição em tudo e por tudo eles não são. A Constituição inicial.9. necessariamente. por igual. que. sim. O regime jurídico dos atos de reforma da Constituição é um molde que a própria Constituição prepara. para o âmbito mais dilargado da Teoria da Interpretação (ou Hermenêutica Jurídica em geral). todo figurino. num seguinte e imediato instante. Repetindo: o objeto a sair do molde não pode plasmar o molde de que vai sair. um a priori.5. É que a Assembléia Constituinte pode se auto-rebaixar para Assembléia Constituída. recortar. Do que se deduz que nenhum dos objetos a sair do molde possa dar a si mesmo o próprio molde. E como todo molde.1. todos eles encartados num processo legislativo que nasce com o originário Texto Magno.1. tão logo promulgada a Constituição (exatamente como se deu com a Lei Maior brasileira de 1988). um a posteriori. Nasce de dentro da Constituição para fora e se impõe a todo o Ordenamento. É uma qualificação e uma hieraquização que vêm de trás para frente. que nos parecem necessárias para um claro entendimento da relação primária entre a Constituição e os atos de reforma constitucional. O todo da Constituição inicial e respectivas partes. não têm sua importância reduzida pelo fato de as mesma pessoas que formam uma Assembléia Nacional Constituinte poderem se transformar. é o dos demais espécimes de Direito infraconstitucional. não se pondo na linha de partida do Direito (mas sempre a meio caminho dele). como é o caso do Parlamento ou Poder Legislativo. no particular. e não para ela.1. em membros de um Poder simplesmente instituído. múltiplos objetos sejam moldados.2. formar. Mas a Assembléia Constituída jamais pode se autopromover para Assembléia Constituinte. 4.2.1. Ao reverso do que sucede com os atos de sua própria reforma. enquanto o molde só pode ser concebido como um antecedente.

sabido que este último somente ganhou suas definitivas características a partir das Constituições que se promulgaram nas três últimas décadas do século XVIII.2. dualidade norma/Ordenamento.7. 4. Mas não somente com a Interpretação Jurídica é que a Hermenêutica mantém um necessário vínculo operacional.4. Ela. Não estamos a dizer nada diferente do que isto: se o Direito como um todo antecede à Constituição.2. A comparação temporal entre as duas modalidades de teoria é a mesma que pode ser feita entre as idades do Direito como um todo e do Direito Constitucional em particular. Esta a significar a busca da revelação da mensagem aportada por uma particular norma de Direito. durante seminário que. Por isso que a Interpretação da Constituição tem sido focada como subseção da Hermenêutica Jurídica em geral. E a esse empírico processo de compreensão é que se apõe o rótulo de Interpretação Jurídica.8.3. Façamo-nos entender com mais clareza. antinomias normativas e critérios de sua eliminação. 4. no fundo. enquanto aquela a significar a busca de noções transpositivas. pelo fato de que mais e mais os doutrinadores insistem na diferenciação entre hermenêutica e interpretação.2 4. Hermenêutica. A imperiosa substituição do nome "Interpretação da Constituição" por "Hermenêutica da Constituição" . porquanto aplicáveis a toda e qualquer norma-objeto de interpretação.4. hierarquia internormativa. Assim é que noções de validade. 4.2.6. por exemplo (que são categorias mentais elaboradas ao nível da Teoria Geral do Direito). em estudo que principia pela correta asserção de que "Praticar a interpretação constitucional é diferente de interpretar a Constituição de acordo com os cânones tradicionais da hermenêutica jurídica" (primeiras linhas do texto que serviu de roteiro a conferência pronunciada em Aracaju. Por essa diferenciação entre a hermenêutica e a interpretação jurídica. reservando à segunda o papel seqüencial de aplicar à cognição dessa ou daquela norma de Direito Positivo os enunciados da primeira. é parte dessa Teoria: aquela parte que tem especial serventia para a interpretação jurídica em concreto. Daí para o campo hermenêutico a dedução é instantânea: a Teoria da Interpretação lato sensu nasce bem antes do que a Teoria da Interpretação da Constituição stricto sensu. porque. eficacidade e efetividade. É como dizer: a Hermenêutica é o capítulo da Teoria do Direito que vai centradamente orientar o processo de compreensão dessa ou daquela norma jurídico-positiva.5.2. lacunas da lei e modos de sua colmatação. também natural seria que as coisas acontecessem como de fato aconteceram: os mais vivos contornos da Teoria da Interpretação foram esboçados à luz de um pensamento jurídico marcantemente privatista.2. de 05 a 10 de maio de 1998.3. também se enlaça operacionalmente à Teoria do Direito. 4. 4. 4. passam a constituir princípios hermenêuticos a aplicar no empírico processo da interpretação de uma determinada norma de Direito Positivo.2. Diga-se mais: como o centro do Direito em geral era o Direito Privado. Ainda um tanto é de se dizer na matéria. os estudantes de Direito da Universidade Federal de Sergipe realizaram em homenagem ao primeiro decênio da Constituição da República Federativa do Brasil).2.2. a hermenêutica encerra um conjunto de noções preparatórias da interpretação. É o que ressalta WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO. é natural que a Teoria do Direito anteceda à Teoria da Constituição.

inserida no contexto de uma particular Constituição originária. habitualmente). porque. Incompleta.3 4. Sendo assim.3. e não para toda e qualquer norma da Constituição originária. III . Num esforço de refinamento explicativo. destacando-a de qualquer outro diploma normativo ou ramo autonomizado do Direito. 4.3. II . Logo.3. 4. As especificidades da Constituição como a razão de ser de uma Hermenêutica . Passa para "Hermenêutica da Constituição". o que se tem já é o campo de incidência da Interpretação propriamente dita. O objeto da interpretação constitucional. Mas esta nossa explicação é ainda incompleta. É o indescartável espaço dos chamados métodos de interpretação jurídica. o histórico e o sistemático. Porção que termina por formar pré-compreensões ou pré-interpretações de que se vale o aplicador da Lei Maior (que é o intérprete em concreto) para o trabalho final de apreensão do significado de uma determinada norma de elaboração genuinamente constituinte. a Hermenêutica da Constituição faz-se de ponte entre a Teoria da Constituição como um todo e a interpretação de cada norma dessa ou daquela Constituição Positiva originária em separado. bem ao contrário. o lógico. somente. a Hermenêutica da Constituição passa a se diferençar da Hermenêutica em geral. Não somente para esta ou aquela específica norma constitucional-positiva originária. a saber: o literal. o que vimos designando até agora de "Interpretação da Constituição" tem que mudar de nome. Donde a conclusão de que a operação mental do intérprete segue este necessário roteiro: começa pelas pré-compreensões que a Hermenêutica recolhe da Teoria da Constituição e desemboca na compreensão final (interpretação) de uma norma-objeto. a ilação da dicotomia acima pontuada é intuitiva: ela. o finalístico.4.a Teoria da Constituição tem por objeto elementarizar a Constituição como fenômeno jurídico. Com o quê se diferencia da Teoria do Direito ou "Teoria Geral do Direito" (como também se diz. A Interpretação.na medida em que existe para aproveitar da Teoria da Constituição apenas aqueles enunciados de especial préstimo para o labor da interpretação de todo e qualquer dispositivo constitucional originário (indistintamente. Com o respectivo grau de eficácia.1. portanto. portanto). visto que a Hermenêutica em geral serve de instrumento é para a interpretação de toda e qualquer norma de Direito. exprime aquela porção da Teoria da Constituição que vai propiciar o facilitado entendimento de toda e qualquer norma em particular de Direito Constitucional originário.2. esta é de menor abrangência no seu campo material de estudo.3.Já a Hermenêutica da Constituição. Por esse ângulo de visada.3. somente vale para uma dada norma-objeto. E nesse campo específico da Hermenêutica da Constituição. porque importa colocar em realce que a Hermenêutica Jurídica em geral ocupa um espaço de teorização de obrigatório trânsito pela Hermenêutica da Constituição.4.4. a Hermenêutica antecede o isolamento da norma-objeto (norma já positivada nessa ou naquela Constituição inicial) e por isso mesmo passa a valer para todo e qualquer dispositivo jurídico ou texto normativo-constitucional-originário em apartado. aí. porque tem por objeto revelar da Teoria da Constituição apenas aqueles enunciados que sirvam para o concreto labor da compreensão de toda e qualquer norma constitucional-positiva originária. Hermenêutica da Constituição. pensamos que tudo se aclara no bojo do seguinte sumário: I . 4. de que falaremos a breve trecho.

os vetores da comum hermenêutica do Direito já não tinham como dar conta do recado e por isso é que a doutrina passou a envidar os seus melhores esforços na fixação de novos paradigmas exegéticos ou recursos de uma argumentação propriamente constitucional.4.4. numa perspectiva nova: a demonstração cabal de que é preciso um toque de especificidade interpretativa para um diploma (o Magno Texto) que nasce e vive por um modo absolutamente insimilar. A Constituição revolucionou mesmo o pensamento jurídico. Quase tudo na Constituição é onticamente singular. Já demonstramos que ela é muito mais do que a diversidade de campos materiais de incidência normativa (campo civil. justamente. É por se peculiarizar perante o Direito em geral (e como!) que a Magna Lei justifica e exige para si uma metódica hermenêutica também peculiarizada. é claro que essa peculiaridade exegética só pode advir do fato de ser a Constituição uma realidade normativa que se marca por traços ontológicos próprios. 4. o pensamento jurídico a elaborar uma dogmática exegética superadora da tradicional. com a soma linear das normas que formam o seu próprio corpo de dispositivos. Não há demasia na afirmação. por evidente). Não é a partir de técnicas gerais de compreensão do Direito que se vai conhecer aquela parte do Direito que mais explica o próprio Direito (que é. Tanto e tanto. É como dizer: com o surgimento da Constituição (e estamos a falar da Constituição do tipo rígido. sobre a qual os chamados "Ramos do Direito" erguem a sua autonomia entitativa. penal. porém.4. Ainda mais.as normas da Constituição das normas de reforma constitucional. a etiqueta e a moral). 4. como realidade tendente a esse fechamento autonômico.3. Aquilo que singulariza as normas da Constituição originária no contexto dos demais atos consubstanciadores de normas jurídicas é mesmo de qualidade. É de tal monta essa diferenciação entre os dois setores .1.4.o da Constituição e o setor do Direito posterior a ela . por fim. como explicado no capítulo anterior. a ponto de podermos separar . Com o quê a Hermenêutica da Constituição está para a Teoria da Constituição assim como a Interpretação . a exigir metódicos instrumentos de análise também singulares.diferenciada 4. pelo menos. comercial. Se o papel da Teoria do Direito é apartar o Direito das outras realidades normativas (sobretudo a religião. processual.). ou. Ela nem se confunde com o Ordenamento Jurídico.4 4. nem. nem com as normas de sua própria reforma. precisamente. se o papel da Teoria da Constituição é apartar a Constituição dos demais diplomas jurídicos (ou o Direito Constituição do Direito pós-Constituição). As linhas que se seguem reforçarão os traços da Constituição como a parte do Direito que mais explica o próprio Direito. se estamos assim a nos comprometer com o acerto da proposição de que existe uma especificidade hermenêutico-constitucional.4. Não é uma diferença qualquer. Logo. trabalhista. qual o primeiro papel da Hermenêutica especificamente constitucional? Dar seqüência ao papel diferenciador da Teoria da Constituição. 4. a Constituição).que força. Parte sem a qual o Direito não poderia ser visualizado como um todo fechado em si mesmo.como estamos separando desde o início desta nossa monografia .5. o papel de mostrar em quê a exegese de uma norma figurante da Constituição originária difere da exegese de uma norma não-figurante de tal Constituição. etc. afunilando ou direcionando as proposições dessa Teoria para a tarefa interpretativa de cada norma constitucional originária em particular. Ora.4. a ponto de podermos dizer que a Constituição consegue ser diferente até mesmo da mecânica soma das suas próprias normas.2.

do caráter jurídico do ser investigado. não-jurídica de deliberação. para se conhecer o conteúdo significante e o grau de eficácia do ser já aprovado pelo primeiro controle de qualidade jurídica.5. Uma seqüenciando a outra ou tendo a outra como referencial. naquilo que ela tem de apropriação dos conceitos que formam a Teoria da Constituição.5. aquela porção do Direito que mais se diferencia de todas as outras. É muito simples o que intentamos dizer. com o respectivo grau de eficácia. dentro de um esquema de particularização progressiva de conceitos. 4.Constitucional está para ela.5. porém globalmente efetiva ou não. A interpretação de uma particular norma jurídica não se esgota na revelação da semântica ou significado lógico-idiomático por ela portado. é preciso ainda ver se o documento jurídico de que faz parte a norma-objeto foi (ou não foi) produzido sem mácula processual e também .3. e não simultaneamente normante e normado. para se avaliar a procedência. Com efeito. E tudo começa mesmo é com a percepção de que só o Magno Texto (não tenhamos receio de incorrer em repetição de juízo) nasce de uma fonte exclusivamente política.4. façamos a mais lógica das perguntas: qual a primeira especificidade da Constituição a repercutir no campo de uma métodica hermenêutica diferenciada? Respondemos: tudo o que justifica a dualidade de vetores ou diretrizes hermenêuticas principia pela insimilaridade do nascer da Constituição como realidade jurídico-positiva.5. qualquer outro ser ou modelo prescritivo de conduta que se apresente com as vestes de uma regra jurídica. Se se prefere. 4. para ver até que ponto se dá a compatiblidade formal e material do primeiro à segunda. Um centro decisório exclusivamente normante. O modo insimilar de nascer da Constituição como primeira causa de diferenciação hermenêutica 4. É para isso que serve a distinção entre a Hermenêutica e a Interpretação da Constituição (entre outras serventias). exige que se faça exame de validade no momento do empírico processo de interpretação de toda norma que venha a se positivar após a Constituição mesma. o que significa percorrer o itinerário inverso dos outros modelos jurídicos: estes somente podem obter o atributo da efetividade depois de obtido o atributo da validade.5. Hermenêutica da Constituição. é a partir do modo pelo qual a Constituição é partejada que se percebe ser ela. 4.5. Muito bem. e não do mundo das normas. Constituição. como se dá. ela é aquele pedaço do Direito que menos identidade mantém com os demais. É inferir: somente depois de passar por um exame de validade é que o espécime normativo sai dessa primeira via de interpretação para a segunda. agora sim. No fluxo desta nossa caminhada cognoscitiva. que já é propriamente conteudístico-eficacial. com os demais atos expressionais do Direito. ou não.5. 4. Não é assim com a Constituição originária.6. faz-se o uso de dois tipos necessariamente sucessivos de interpretação: um. Não! Esse modo de interpretar é aplicável somente a uma dada norma da Constituição originária. Fora da Constituição originária. a primeira via de interpretação é descabida.5 4. Mas em quê o modo especialíssimo de nascer da Constituição implica mudança de vetor hermenêutico? No seguinte: quando se está diante de qualquer outra realidade normativa.5.1. A Constituição não é válida nem inválida. 4. Uma fonte ou instância de poder que faz parte do mundo do ser. outro. Ela se "valida" pela efetividade. O exame comparativo entre o diploma jurídico objeto de interpretação e a Lei Maior. Perante as respectivas normas. factual.2. A Hermenêutica.

1. Ela prossegue pela vida afora do Direito . Por mais que nos deparemos com a cerrada oposição de autores densamente qualificados. que opera pela revelação do significado comum ou dicionarizado das palavras e expressões em que se vaza o discurso jurídico-positivo. elaborando-a.com a mesma originalidade que marcou a trajetória existencial do filho unigênito de Deus no meio do homens. mas o Ordenamento é que principia com a Constituição. Daí porque opera como um divisor de águas na esfera jurídico-positiva. terceiro.a partir da rigidez formal a que necessariamente se impõe . E outra vez por comparação com a figura ímpar de JESUS. não é a Constituição que principia com o Ordenamento. a maneira de a Constituição fazer parte do Ordenamento é se postando no topo desse Ordenamento. o exame de validade formal e material é intransigente: incide sobre todas as normas ali contidas. tal qual JESUS CRISTO operou como um divisor de águas na esfera mais dilatada de toda a humanidade ocidental (antes e depois dele). absolutamente nenhuma.6. Nenhuma fica de fora. perante qualquer diploma jurídico (inclusive o das emendas ou revisões constitucionais).6 4. a Constituição é o único documento normativo que provém do Poder Constituinte por forma direta. Em suma.se a própria norma-objeto estava autorizada a se dotar do conteúdo e da eficácia com que positivamente nasceu.5. Não há outra (daí a distinção entre uma soberania que trata da Constituição. Ocorre que esse modo único de nascer da Constituição apenas faz sentido se se fizer acompanhar de um modo único de viver. porque: primeiro.9.3.6.2. é o filho unigênito de Deus (pois que gerado diretamente pelo Criador). Principiemos por lembrar que a dogmática hermenêutica. E a causa eficiente da exclusão de tal exame prévio é o modo peculiar de nascer da Constituição. a radicalidade operacional é inversa: nenhuma norma constitucional originária. incorpora os seguintes e englobados métodos de intelecção normativa: I . Todas ficam de fora.o método filológico ou literal. e não apenas dentro dele. É dizer: sem a intercalação de nenhuma outra instância produtora de norma jurídica. diríamos que a Constituição também vive por um modo insimilar. Logo. É aqui mesmo que devemos fazer a outra decisiva pergunta: e em quê o modo único de viver da Constituição repercute no campo da tópica hermenêutica? Ah! Por vários aspectos! 4. 4. genericamente considerada (plano das considerações lógico-jurídicas.8. 4. então. a forma pela qual a Constituição deixa o Ordenamento ou dele sai (finando-se com ele. O modo insimilar de viver da Constituição como segunda e definitiva causa de diferenciação hermenêutica 4.5. E já dissemos que o modo de a Constituição Positiva fazer parte do Ordenamento Jurídico é absolutamente único.7. Nesse plano de radical exame de validade. Mesmo que se trate de norma engastada em ato formal de emenda à Lei Maior. para as religiões cristãs. Já diante da Constituição. assim como JESUS. é submetida a exame de validade. meio direto ou simplificado de se viabilizar o conhecimento da mensagem aportada por aquele discurso (mensagem. e não jurídico-positivas). pondere-se) é a mesma pela qual entrou: a suprapositividade. convicto estamos de que. a Lei Maior passa inteiramente ao largo do processo exegético ou da empírica interpretação normativa. e uma soberania de que trata a Constituição já elaborada). 4.6. segundo.6. 4.5. que outra coisa não é senão o quê da norma .

8 IV . O papel do intérprete. cuja prestimosidade está em conhecer a origem ou etiologia da norma. empregado para a captação do objetivo ou dos objetivos da norma interpretada (domínio do para quê normativo. então.10 .o método lógico. E se essa lei ou esse Código for de Direito Infraconstitucional.9 V . então. é ler nas próprias linhas do dispositivo. implicando o conhecimento do pomo factual de discórdia que gerou a necessidade da normatização jurídica. existe mesmo e não pode deixar de existir um vínculo funcional entre as palavras e o Direito-lei. voltado para a reciclagem ou o policiamento do método filológico. não enquanto ilha. descambando para o histórico-evolutivo. ainda é preciso considerar as linhas e entrelinhas da própria Constituição Positiva. para que a união de cada parte ao todo traga para o Direito a qualidade do todo. então. e não o dicionário idiomático em geral). por constituir a norma-em-si. Estas últimas são palavras-fim. sua utilidade é a mesma do método literal: buscar a revelação do quê da norma.7 II . E o papel da interpretação literal (toda interpretação começa por esse método) é saber que palavras cumprem no discurso jurídico-positivo um mister meramente vernacular (palavras-meio) e que palavras. uma vista panorâmica do material investigado. mas de toda a lei ou de todo o código de que faça parte o dispositivo interpretado.o método teleológico ou finalístico. que tem por função eidética procurar o sentido peninsular da norma jurídica. para saber em que essa comunicação consiste. que é a conseqüência lógica do interpretar articulado (cada dispositivo em combinação com os demais. o significado que a norma assume. Afinal. De todo modo. ou. portanto: o método sistemático de interpretação jurídica é o único a possibilitar um visual de conjunto. Implica uma releitura. seja para substituir o sentido meramente coloquial dos signos linguísticos por um sentido propriamente jurídico ou da própria técnica do Direito (e aí o dicionário a que se recorre já é o vocabulário jurídico. que é a mensagem-em-si em que ela se traduz. bifurcado num para quê de ordem prática ou imediata e num para quê de ordem axiológica ou mediata). Por comparação com o método lógico. com o seu específico tamanho eficacial). como o próprio instituto jurídico ou a figura de Direito que se procura conhecer. cumprem nesse discurso um mister propriamente relacional ou intersubjetivo. ao reverso. Mas a sua utilidade específica permanece igual à serventia dos métodos literal e lógico de interpretação: conhecer e descrever o quê de cada norma-objeto. principalmente para o efeito do uso correto da interpretação dita extensiva. agora o que importa é ler nas linhas e entrelinhas. pois implica a revelação do significado técnico ou propriamente jurídico das palavras de que se venha a compor o dispositivo interpretado e ainda passa por uma obrigatória leitura das entrelinhas ou do não-verbal desse mesmo dispositivo. a sua forma causal.positiva ou o objeto da relação positivamente instituída. Logo. III .o método histórico. quando for o caso. é método voltado para o resgate do porquê da jurisdicização da matéria. seja para dimensionar com precisão o potencial de eficácia da norma interpretada (tarefa em que avulta a consideração do não-verbal ou das entrelinhas do dispositivo interpretado. não desse ou daquele dispositivo em particular. isto é. da interpretação dita restritiva). revelando-se. reversamente. palavras que encerram o núcleo mesmo da norma de Direito Positivo. quer dizer. e não somente a qualidade de cada parte mesma). decifrar o meramente verbal da comunicação normativa. O que significa. semantica e eficacialmente. porém enquanto península ou parte que se atrela ao corpo de dispositivos do diploma em que se engasta.o método sistemático ou contextual.

ou da emenda. Que sucede.6. É preciso ainda que ele mantenha com a Constituição um vínculo de perfeita sintonia formal e material. Para logo. externa. Não o contrário. e essa fonte primeira (fonte das fontes) é a Constituição positiva.6. Não tem que sair dos muros ou dos lindes que demarcam a normatividade constitucional originária. a Constituição passaria a servir ao Direito-lei. Assim é que não basta a um decreto. Por conseguinte. de que ela faça parte. uma interna. respectivamente. ainda quando a eficácia de suas normas reclame acréscimo de prescritividade por uma legislação de menor hierarquia. Longe de querer servir à lei e aos demais espécimes de Direito Legislado. busca inseri-la no todo da Constituição.7. a Constituição quer servir é a si mesma. ou admita constrição de efeitos pela mesma via da legiferação de segundo escalão (normas de eficácia completável e normas de eficácia restringível. 4. pois em tema de exame de validade jurídica a meta é a fonte.7. porém. e não o Direito-lei a servir à Constituição. uma peça jurídico-positiva que se orienta por critérios de auto-referência ou de auto-explicação quanto ao seu próprio significado e tamanho da sua eficácia.4. É no último deles. outra. A Constituição prescinde do Direito posterior a ela para se fazer entendida quanto ao significado dos seus institutos e instituições. É uma sistematicidade de dupla face.. uma tonalidade nova. pois. os institutos e as instituições de selo constitucional devem ter a sua conceituação elaborada a partir de elementos encontradiços na própria Constituição.6. E é para servir a si mesma que ela dispõe sobre a elaboração de todo o Direito posterior a ela.6. vê-se que não é no círculo dos quatro métodos iniciais que toma corpo a especificidade interpretativa que estamos a reivindicar para a Constituição. porque a Constituição. o método sistemático é mais abrangente: além de apanhar a norma investigada no contexto da lei. segundo a classificação que pessoalmente adotamos em parceria com CELSO RIBEIRO BASTOS. O Direito Positivo como sistema ou ordenamento por virtude da Constituição 4. recicla todo o Direito Positivo e daí toda a Teoria Jurídica. senão. quando aplicado ao Direito posterior à Constituição. o ímpeto ou a "essência transformadora" da Magna Carta. O seu concreto uso muda de perspectiva. ou seja. uma natureza. ao longo da monografia INTERPRETAÇÃO E APLICABILIDADE DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS (Editora Saraiva. porque.4. por hipótese. Afinal. ou do código.7.6. encerrada no corpo normativo da Constituição mesma. quando formalmente rígida. A Constituição enquanto base normativa permanente de todo o Processo . o mais das vezes. reduzindo. em verdade. é a Teoria da Constituição (mais que a Teoria do Direito em geral) que proclama.5. E isto se dá pelo fato de ser a Constituição. a sabenças: todo juízo de validade jurídica só alcança a dimensão de um juízo de validade absoluta (e não apenas relativa) depois que a norma-objeto se mostra compatível com a própria Constituição Positiva. Consideremos agora o seguinte: mesmo quando o método sistemático é aplicado ao Direito pós-Constituição. e. a derradeira das metas é a primeira das fontes. ele passa a ganhar uma qualidade. se adequar à lei por ele aplicada. E por que assim acontece? 4. quando essa mesma técnica da contextualidade é aplicada à Constituição? Fica absolutamente confinada. 1982). para nos valermos de expressão corretamente adotada por JOSÉ AFONSO DA SILVA para a nossa Constituição de 1988. Começa pelo diploma jurídico a que pertence a norma e vai em frente: sangra as barragens desse diploma para cotejar a norma com a própria Constituição. 4.1. etc. 4.

4. é que pode dizer como se deseja primariamente aplicada. que são atos de imediata aplicação dela própria. o conjunto normativo de hierarquia máxima. Vamos repetir o juízo. 4. A Constituição.4. ao nascer. E isto se dá pela instituição de um "processo legislativo" que recubra os atos jurídicos de imediata aplicação dela própria. ela é um sistema normativo em si.7. depois. de sorte a impedir que tais atos se tornem ovelhas desgarradas.7. Para se manter assim hierarquicamente superior. ela é a própria condição lógica da montagem de um Direito Positivo de "supra-infra-ordenação". por efeito mesmo de sua rigidez formal.1. também dê à luz um Direito que se caracterize por somente absorver aquelas normas que tenham em outras normas imediatamente superiores a devida confirmação (fundamento de validade). a Constituição recicla todo o Direito Positivo e daí a própria Ciência Jurídica.3. material e eficacialmente (com a referida suavização conteudístico-eficacial em tema de emenda ou revisão). a Constituição formalmente rígida é.1. Com exclusividade. é claro que ela tem que dispor sobre a edição das outras normas jurídicas gerais. Bem.2.Legislativo 4.7. no entanto. é documento normativo que exibe duas notas distintivas: primeiramente. desde que formalmente rígida.7. e cada norma que se seguir . a instituição de um processo legislativo-constitucional (que é formalmente pétreo por definição) e mais o reclamo de compatibilidade material e de eficácia já são suficientes para que a Constituição. Mais: a Constituição cria mecanismos de autodefesa quanto à fiel observância daquele processo e também quanto ao conteúdo mesmo e dimensão eficacial dos atos legislativos que a ela se seguirem. pela consideração de que ela.1. com diferentes palavras.5. Ora bem. formal. Cuidando-se de emenda ou revisão à Magna Carta. no confronto com as demais regras de Direito Positivo (inclusive os atos oficiais de reforma constitucional). formando com ele um segundo e complementar sistema. É exprimir: cada norma de imediata aplicação da Constituição tem que homenagear a própria Constituição. aí o dever da compatibilidade vertical é absoluto: alcança tanto as cláusulas pétreas quanto as destituídas dessa qualificação (desde que se entenda por dever de compatibilidade vertical a não-contradição entre os comandos da legislação infraconstitucional e aqueles insertos na Constituição). Tem que ser a fonte das fontes normativas ou a lei das leis. o tempo todo. Esse último reclamo de compatibilidade material e eficacial demanda. Já em se tratando de outras modalidades de normas de aplicação primária da Constituição.1. só pode fazê-lo na medida em que se irrogue a força de ditar o regime jurídico de todo o Direito legislado (Direito-lei) que a ela se seguir. esses. ele fica acentuadamente suavizado: as emendas e revisões só não podem inovar em tema de cláusulas pétreas materiais. para se autoproclamar como lei das leis ou norma normarum. porque é nessas cláusulas que o Texto Supremo se personaliza ou tem a sua identidade substancial (a Constituição tem os traços fisionômicos das suas cláusulas pétreas). É sintetizar: a Constituição. discriminação. e somente ela. o que faz pela enumeração dos atos normativos que se integram no processo legislativo.1.1. Constituição. 4. 4. que são produzidos por uma forma preestabelecida quanto à indicação dos respectivos editores (órgãos ou fontes legiferantes) e quanto ao encadeado itinerário de formação da vontade legislativa de tais editores. tanto do ponto de vista formal ou processual quanto do ponto de vista material ou de conteúdo e ainda eficacial. Pois bem. Manter sob o seu mais próximo controle todos os atos de elaboração normativo-primária. Atos jurídicos.7.

12 4. nunca mais o será (a não ser. por conseguinte.1. Um "Ordenamento". Temos. Constituição rígida.7. é aquele elemento de estabilidade sem o qual perderia sentido o reenvio de toda fonte e de todo comando jurídico-positivo à positividade do primeiro deles. a ponto de formar com a Constituição um todo sistêmico. a pressupor interdependência de autoridades normativas e ausência de antinomias de comandos.2.7. mediata.1.1. imediata. Se não instituído. que falou do Egito como um presente do Nilo. tanto formal quanto materialmente. Versos de rima dobrada. outra. Donde os conceitos de validade relativa e validade absoluta de norma jurídica. ou seja. não podem instituir por conta própria esse tipo de esquema para uma Constituição que se deslembre de instituí-lo.1. o segundo dos sistemas a que nos referimos: o sistema do Direito-com-a-Constituição. E como uma parte da Constituição ainda é absolutamente imune a supressão ou a medida que tenda a tal supressão. ela já está a se categorizar como o segmento do Direito mais infenso a reforma. diríamos que o Ordenamento de supra-infra-ordenação ortodoxa é um presente da Constituição rígida). cada fonte a jorrar de outra fonte e cada norma jurídica a buscar fundamento de validade material em outra norma jurídica. em última análise.7. que é a Constituição em si.7. O caráter superlativamente estável da Constituição e suas conseqüências hermenêuticas 4. O regime jurídico da rigidez é sempre originário e definitivo.7.7.2. pensamos que a oportunidade é das melhores para também lembrar que outro efeito lógico da rigidez formal é a Constituição Positiva a se assumir como o documento normativo que mais persevera na sua originária formulação. claro. e não uma pluralidade contraditória e fragmentária de comandos (parodiando HERÓDOTO. torna-se automaticamente pétreo. O fato em si da rigidez formal já revela o compromisso que a Lei Maior assume com o movimento incessantemente pendular do Direito.7. E é por ser assim hierarquicamente superior.11 4. Uma unidade formal e material de estatuições. que a Constituição é hierarquicamente superior às demais normas jurídicas. da perdurabilidade . que é a norma geral de aplicação da Constituição. além de impedidos de tocar no originário esquema da rigidez formal. um Direito Positivo tão hierarquizado nos elementos que formam o seu repertório. quer dizer.2. 4.6. averbamos que os atos de reforma da Constituição. que a Constituição faz do Direito Positivo um todo encadeado de fontes normativas e respectivos comandos. porque referidos a duas normas superiores: uma. Um conjunto ordenado. A título de parêntese.8. 4. 4. Se a Constituição apenas se permite inovar por um processo mais cerimonioso que o das outras normas gerais. Tudo por efeito de uma hierarquia internormativa que deita raízes na rigidez formal que só a Constituição pode e deve (poder-dever) se autoconferir. enfim. até o remonte final à Constituição. nesta última suposição. por nova manifestação constituinte). pois a Constituição forma com as regras infra e pós-constitucionais um só Direito Positivo. patenteada fica a proposição de que ela. Está aqui a razão pela qual HANS KELSEN fala desse tipo de Direito Positivo como "ordem normativa de supra-infra-ordenação". É por ser formalmente rígida.àquelas de aplicação imediata da Constituição tem que ajustar o seu conteúdo e eficácia a tais normas de aplicação imediata da Constituição e ainda à Constituição mesma. Se instituído pela Constituição. formal e materialmente. Parêntese fechado.2.

até porque as emendas não podem refundir o originário esquema constitucional de indicação das normas gerais que se integram no processo legislativo (cláusula tácita de intangibilidade). é do nosso juízo que os atos de reforma da Constituição não podem manter com a lei um vínculo operacional direto. em reservado. o que é sutilmente diverso.7. seu ser. litteris: "Hierarquia. que é um Direito bifurcado em normas da Constituição originária e normas advindas do Poder Reformador. Fundamento imediato de validade das leis é sempre a Constituição. A lei é hierarquicamente inferior à Constituição porque encontra nesta o seu fundamento de validade. contudo. mas aplicar a Constituição emendada. pois. lei não era'. aqui. por exame de validade. Esta é que. 4. Malheiros Editores. se hierarquia assim se conceitua é preciso indagar: lei ordinária. ao declarar que uma lei é inconstitucional está dizendo: `aquilo que todos pensaram que era lei. 8ª edição. 4. um refundir a própria norma-começo de todo o Ordenamento. mais nos convencemos de que se trata de um diálogo em separado.7. ao passo que a funcionalidade da lei é um olhar para a frente. Sua funcionalidade é um olhar para trás. o Direito Positivo tem na Constituição mesma o seu necessário ponto de frenação ou estado firme. 4. sua razão de ser. Por isso que.7. seu fundamento de validade numa norma superior. Aliás. pois se o momento constitucional é que autoriza o momento legal. podemos falar nesse instrumento chamado lei.para a mutabilidade e vice-versa. elas não existem para renovar o Direito em geral. momento vocacionado para a permanência deôntica. por acaso encontra seu fundamento de validade. àquele originário momento constitucional. o papel da lei não é o de aplicar u'a emenda à Constituição. seu engate lógico. seja a Constituição depois de reformada. para o Direito. Constituição). ali. . Sem o menor propósito objetivo de colocar tais atos de reforma como ocupantes de grau hierárquico intermediário entre a Constituição e as demais normas gerais de sua aplicação (dela. dado que lei é instrumento criado pelo Texto Constitucional.2. é a circunstância de uma norma encontrar sua nascente. o momento legal sempre se reconduz. passando a ter na lei o seu elemento de aceleração ou estado móvel de comandos. E é neste passo que ressoam aos nossos ouvidos os mesmos argumentos que MICHEL TEMER esgrima para evidenciar o sem-sentido da tese que propugna pela existência de hierarquia entre a lei complementar e a lei ordinária. sua fonte geradora na lei complementar? Absolutamente não! (em ELEMENTOS DE DIREITO CONSTITUCIONAL. Seja a Constituição antes de qualquer reforma. mas para atualizar a Constituição em particular. Pois bem. E sendo assim. O caso das emendas à Constituição é um caso à parte (como temos ressalvado). porque a Constituição o cria. pois as emendas constitucionais não se põem como o imediato fundamento de validade das leis (entendidas as leis como normas gerais de aplicação primária da Constituição. seu engate lógico.4.2.5. inferimos que não existe uma direta hierarquia entre emenda constitucional e lei. Tanto isto é verdade que o Supremo Tribunal Federal. ao contrário da lei. no âmbito mais restrito do próprio Direito Constitucional. a se exigirem ininterruptamente. Momento vocacionado para a mudança. tanto quanto as emendas o são). sua fonte geradora. Na vertente deste nosso jeito pessoal de colocar os atos de reforma da Constituição no seu devido lugar. ou seja.2. porque às leis é suficiente a Constituição tal como posta. em rigor técnico. entretece com a lei um necessário convívio. Um e outro momento. mas apenas com a Constituição. Quanto mais analisamos a relação que a Lei das Leis mantém com as suas próprias emendas. um dar-se por satisfeito com a Constituição preexistente.3. reformada ou não reformada. ou revisões.

sim.10. Todas estas considerações atestam que o método sistemático de interpretação jurídica recebe decisiva influência da Constituição.2. na acepção de que.2.7. mas delas próprias. Se não houvesse a Constituição do tipo rígido. porque subtraídos à faina legislativa do próprio Poder Reformador. pois ele revela um tipo de unidade de sentido que não se obtém sem o reenvio do Direito pós-Constituição à Constituição mesma. 4.2.2. pois se contentavam em retirar do Poder Legislativo usual a disciplina das matérias versantes sobre a Separação dos Poderes e acerca dos direitos e garantias individuais.7. Com o que as Leis Supremas de cada Estado soberano adicionaram à sua identidade formal (implícita ou por definição) uma identidade material explícita. porém diferente da espécie piramidal ou deslinear de Direito que se constrói a partir de uma Constituição rígida (norma-começo que não admite outras assim postadas no interior do mesmo Ordenamento). Numa frase. Com o tempo. pois não poderia ir adiante dos dois conhecidos critérios temporal e material de resolução de antinomias jurídicas. . 4. superarem as outras pela aplicação dos dois multicitados critérios. O Direito que só admitisse os dois referidos critérios da intertemporalidade e da especialidade material como técnicas de resolução de antinomias normativas seria um Direito. Crivo. do Poder Legislativo habitual ou cotidiano. Daí havermos dito cuidar-se de um método que extravasa os diques do diploma a que pertence a norma interpretada para submeter a mesma norma ao crivo dos comandos genuinamente constitucionais. pois inteiramente calçado em tantas normas-começo quantas forem as leis que. 4. E com o resgate da unidade de sentido conteudístico dos elementos que formam o repertório do Direito.7.7. 4. que tanto recai sobre quem faz a norma quanto sobre a norma feita (processo e conteúdo normativos).1991). entretanto.2. a cada nova regra-começo no interior do Ordenamento. Mas um sistema de comandos de outra natureza. Com essa modalidade não-formalmente hierarquizada de sistema jurídico (o Direito visto de um ângulo não-referido a uma Constituição rígida).6. o Direito que só conhecesse os critérios da intertemporalidade e da especialidade material como técnicas de resolução de antinomias entre normas não deixaria de constituir um sistema. 4. a pouco e pouco reforçado com a técnica da expressa indicação de temas super-rígidos. enfim.2.8. ainda que este venha a se elevar à dimensão de um agir reformador da Magna Carta. Coloquemos os pontos nos "is" deste subtema. O campo divisional.7. ou seja. não em torno da Constituição. o pensamento jurídico universal se abriu para a compreensão de que a constitucionalização de toda e qualquer matéria já significava um juízo político de qualidade superior de tais assuntos.9. do legislar constituinte e do legislar constituído.7. pois onde houver critério de eliminação de antinomias normativas haverá unidade de sentido conteudístico. o que se tem já é um sistema de comandos. um novo ciclo absoluto de normas referentes e normas referidas se constitui. porque verdadeiramente pétreos. relembrando que algumas das primeiras Constituições escritas eram tão-somente semi-rígidas. Aquilo que faz uma Constituição Positiva ser diferente da que lhe antecedeu e também distinta da Constituição de qualquer outro povo. no tempo. por certo que o método sistemático de exegese das normas jurídicas em geral restaria funcionalmente empobrecido. b) circular. a saber: "a lei posterior derroga a anterior" (lex posterior derogat priori) e "a lei geral posterior não derroga a especial anterior" (lex generalis non derogat legi priori speciali).7. a ponto de excluí-los. 4. no sentido de que as sucesssivas normas-começo passam a girar.11. automaticamente. Era o traço complementar da rigidez material genérica. o que se tem é uma unidade do tipo: a) cíclico.

mas que somente se manifesta da Constituição rígida para fora. Não apenas pontuais. 4. a segunda unidade.9. Fora da Constituição. 4.1. e não propriamente do Direito em geral). agora sim. naturalmente. A dualidade princípios/regras como base da nova Hermenêutica da Constituição 4. pois as normas constitucionais originárias não se relacionam por graus hierárquicos. Duas caracterizadas unidades jurídico-positivas então se formam: a primeira unidade. no interior da própria Constituição.5.1. como se dá. o que nos cumpre aduzir é patente: a Constituição não faria do Direito em geral um conjunto. a uma outra diretriz. todo ele cimentado na rigidez formal e conseqüente superioridade da Constituição. um todo congruente de prescrições.4. uma unidade sistêmica. A hierarquia é um dos modos de relacionamento entre normas jurídicas (estrutura). uma unidade sistêmica do tipo formal e materialmente hierarquizado. Vale dizer: as normas que veiculam princípios desfrutam de maior envergadura sistêmica. Como diria CONFÚCIO. o hermeneuta já não pode se servir desse tipo de critério. Os princípios como normas interreferentes 4.8.8. Não é por ser o Direito um sistema que a Constituição em sistema se transfunde.2. com as normas veiculadoras de simples preceitos. o método sistemático ou contextual de exegese muda de perspectiva quando tenha por objeto uma norma originariamente constitucional. Voltando a trabalhar com o modelo cabalmente hierarquizado de unidade jurídica. ele se orienta por critérios cabalmente hierárquicos.9. Elas enlaçam a si outras normas e passam a cumprir um papel de ímã e de norte. 4. o modo de relacionamento internormativo obedece a um outro vetor. se. o parâmetro de interação das normas constitucionais originárias consigo mesmas reside é na dualidade temática princípios/regras ou princípios/preceitos (regras comuns são preceitos. dele excluídos. 4.4. no sentido de que uma não retira da outra o seu fundamento de validade.9. "não pode haver fronde em ordem com raízes em desordem". antes. Noutro modo de dizer coisa igual. .1. tem que se acoplar à Constituição. a um só tempo. os atos de reforma constitucional (dado que voltados para a composição daquela primeira unidade sistêmica). e não princípios). Da Constituição rígida para dentro. É por ser a Constituição um sistema que o Direito em sistema se transfunde. Logo. já o vimos. sozinha (tanto antes quanto depois dos atos de sua reforma).8. entretanto. A Constituição como sistema ou ordenamento por virtude própria 4. Para sê-lo.1. um todo congruente de prescrições ela não fosse. sim. os seus comandos são interpontuais. o Direito não é.8. Dentro da Constituição. Todas elas têm o mesmo caráter impositivo e a mesma hierarquia.8. insista-se no juízo. já agora ao lado do Direito infraconstitucional. Realmente.8. Mas a Constituição consegue ser. redivivo.3. Sem embaraço do fato de vir a constituir uma segunda e necessária unidade. pois a relação ou engate lógico de tais atos se dá é no âmbito específico da Constituição. materializada na Constituição (antes e depois de cada ato reformador. materializada na Constituição com o Direito em geral. 4. Como a precedência operacional é sempre da Constituição. sozinho.

há fogo". com um direito subjetivo perante outro (não assim. o veto presidencial a projeto de lei. um Ordenamento de vinco axiológico. Nesse estado-de-coisas é que vão pousar as normas-preceito.). 4.2. os valores interagem fortemente e ainda são exigentes de um estado-de-coisas ora mais ora menos concreto para a sua realização. a dicotomia princípio/subprincípio (como se dá entre o mesmo princípio republicano e o princípio da moralidade administrativa). se o princípio é daqueles que se definem por oposição a outro. isto é. que o diálogo interprincipial não infirma o significado próprio ou autonomizado de cada princípio dialogante. que são fins em si mesmos. Cidadania. Elas são esses . Com o que se tem. ambos têm a mesma dignidade sistêmica e por isso nenhum deles pode ser considerado um subprincípio do outro (e a primeira contraposição que nos ocorre é a do princípio da liberdade de informação frente à intimidade e à vida privada das pessoas naturais).3. os atos e fatos pontuais que se verbalizam em cada preceito (por exemplo.2. uma norma preceitual não leva a outra da mesma natureza. se o princípio constitucional é daqueles que tem sua inter-referência marcada por complementação. E os valores são quase sempre dialogantes ou interreferentes.2.14 4. Advirta-se. propriamente. ou de outros.9. quer por efeito de contraposição. Ordenamento de vinco axiológico versus Ordenamento de vinco hierárquico 4. diferentemente do que sucede com as normas-princípio. que são normas de acentuado recheio fático e não-referidas.9. um Ordenamento de traço hierárquico. Ora bem.2. com as garantias constitucionais. conclua-se que é ao influxo de critérios axiológicos ou valorativos que a interpretação sistemática vê a realidade de cada norma da Constituição. Dignidade da Pessoa Humana. 4. Ele apenas quer traduzir que. Ao contrário. no exterior da Constituição rígida. Já o princípio da "propriedade privada". cada princípio concorre para a significação de outro. diríamos: as normas principiológicas não consubstanciam meios ou providências (estado-pontual-de-coisas).9. que são direitos subjetivos instrumentais de direitos subjetivos materiais).9.9. para o alcance de valores.1. É raciocinar: os valores que se contêm nos princípios atraem para o seu próprio serviço. Recolocando de forma ainda mais precisa a idéia. verbi gratia. Ter-se-á.. quer dizer. então. o outro. A relação entre as duas categorias (princípios e preceitos) é de continente para conteúdo. entretanto.2. E assim enxergando. que termina sendo uma relação entre a fumaça dos preceitos e o fogo dos princípios . um deles será o principal e. É que as normas principiais consubstanciam ou tipificam valores (Democracia.1. mantém a unidade material dessa mesma Constituição..9.. secundário. no interior da Constituição rígida. que faz parte do esquema em que se viabiliza o princípio da Independência e Harmonia dos Poderes). como sucede.4. Verbi gratia.13 4.1. no sentido de que "onde há fumaça. é óbvio que ele se define por oposição ao princípio da "função social da propriedade". de par com o valor que lhe adensa a individualidade enquanto norma. Pluralismo Político. o princípio da impessoalidade (significando o dever que tem o Administrador Público de aplicar a lei sem incorrer em promoção ou marketing pessoal) é logicamente dedutível do princípio republicano (de res publica).1. Tudo isto assentado. Quer por efeito de complementação. ou fracamente referidas a outras normas-preceito. para a sua própria causa.4. e quando o faz é numa dimensão muito modesta. República. porém. Separação dos Poderes.

tem a possibilidade de conferir a todas às suas normas um sentido de ordem ou estrutura. Diferentemente das normas-preceito. o valor-continente por excelência. Em qualquer das duas suposições. Moralidade Administrativa.15 4. sejam as que vimos chamando de preceituais. além de atribuir unidade axiológica ou . em contraposição à unidade concomitantemente formal e material do Direito pós-Constituição. 2).valores mesmos. Nesse valor constitucional de estatura suprema o jurista espanhol PABLO LUCAS VERDU apõe o rótulo de "fórmula política". as normas-princípio. são as normas-princípio que fazem da Constituição uma densa rede axiológica de vasos comunicantes.9. retomando as clássicas lições de KONRAD HESSE sobre a tópica hermenêutico-constitucional: "O primeiro e principal princípio é o da unidade da Constituição. expresso na decisão fundamental do constituinte.9. que não têm ou quase sempre não têm a pretensão de enlaçar a si outras normas. exclusivamente. Para o eminente catedrático da Universidade de Madri.5.9. 4. e assim sucessivamente. Dentro da Constituição. etc. aquela superidéia central de Direito. portanto. Logo. que está para os demais valores como um dado ponto inicial e fixo no espaço está para a alavanca de ARCHIMEDES. Com efeito. e. 4. 4. a Constituição auto-irroga-se a virtude da unidade sistêmica. até chegarmos ao mais alto desses valores.7. sucessivamente. A tradução formal deles (Federação. Legalidade. insista-se no fundamento). cada norma vai buscar a sua justificativa axiológica e a sua raison d'être operacional em outra norma.9. Daí por que têm a particularidade de irradiar o seu conteúdo exclusivamente axiológico para outras normas gerais. porém de mais dilargado raio de alcance material (pela sua maior densidade valorativa). não de hierarquia superior.9. E lá.3.2.2. que o intérprete vai revelando o caráter sistêmico ou orgânico dela própria. são elas que tornam o Direito uma casa arrumada. por eles. É como dizer: as normas-princípio conectam outras normas e assim formam um conjunto que vai possibilitar a própria formulação de um pensamento dogmático ou científico sobre esse conjunto. o valor-síntese.2. sejam mesmo aquelas veiculadoras de princípios menores ou subprincípios. mas que somente é da Constituição (por ser conatural a ela. o qual determina que se observe a interdependência das diversas normas da ordem constitucional. naquilo que PABLO LUCAS VERDU chama de fórmula política. Soberania Popular. em suma. o exegeta vai encontrar o valor dos valores.2.6. É uma dualidade que pode estar no outros diplomas jurídicos. bem no topo da pirâmide axiológica (não-hierárquica) da Constituição.4. onde cada norma encontra sua justificativa nos valores mais gerais. Desenvolvimento. Mas é inegável que toda a principiologia fundamentante de uma Ordem Jurídica se inicia com a Constituição e daí é que se esparrama pelos demais setores do Direito. expressos em outras normas. É subindo dos valores menores para os valores maiores da Lei das Leis. fincando uma base de coerência material que é o apriori lógico da formulação de um pensamento dogmático. assim referido nestes comentários de WILLIS SANTIAGO GUERRA FILHO. p. do tipo material ou conteudístico. de modo a que formem um sistema integrado.). `fórmula política de uma Constituição é a expressão ideológica que organiza a convivência política em uma estrutura social'" (texto remissionado.2. Uma unidade material ou de substância. 4. Como inegável também é que sem a dualidade princípios/preceitos não há como conceber a natureza mesma da Constituição enquanto rígido modelo de Direito Positivo. E assim de preceito para princípio e de princípio menor para princípio maior. É claro que não apenas a Constituição encerra princípios.

a possibilidade de mudança. enquanto a outra.10. econômico.. religioso.10. a imutabilidade. Na periferia. A peculiar estrutura conceitual dos princípios constitucionais 4. venha a rigidez a fazer das normas constitucionais conceitos jurídicos estratificantes. É que certos princípios (dignidade da pessoa humana. combinadamente com todos os incisos do mesmo art. incluímos até mesmo a Democracia como possuidora do referido núcleo que é impermeável a mudanças e de uma periferia permeável. um caminhar para frente. fazendo com que a Lei das Leis ganhe essa possibilidade de se ajustar mais facilmente à irrupção de fatos novos ou a novas valorações de fatos velhos. como deslocamento espacial ou topográfico do povo. sem necessidade de o intérprete recorrer a elementos de compreensão que se situem no plano do sistema social genérico (sistema político. os princípios de que falamos (cidadania. Logo.. 4. Com o que os princípios axiais da Constituição operam. desenvolvimento nacional.10. Naquele núcleo.2.10. O que estamos a enfatizar é que determinados princípios têm uma parte de si como janelas abertas para o porvir.1. A parte atual é de pronto formada com os dados-de-compreensão que afloram da própria tecnicalidade constitucional.10. 4. valorização do trabalho. é uma parte vocacionada para a mutabilidade. O núcleo impermeável é aquele que situa a Democracia no rigor lógico da famosa definição lincolniana. Por este modo de ver o fenômeno da principiologia constitucional. 1°.material à Constituição rígida. no recôndito de cada princípio mesmo e o atrito se resolve por uma solução endógena de compromisso que leva a Constituição a mudar para permanecer idêntica a si mesma (na medida em que a mutabilidade na periferia do princípio se faz é para robustecer. isto é. eficiência. pelo povo e para o povo" (e que foi consagrada pela Carta de Outubro. dotando a Constituição de plasticidade para se adaptar à evolução do modo social de conceber e experimentar a vida.5.3.10. a operatividade da parte nuclear desse princípio mesmo). que sai da platéia e passa a ocupar o palco de todas as decisões governamentais que lhe digam respeito. para a imutabilidade. como é da natureza da vida mesma. 1° e mais o artigo 3°). Eles fazem da Constituição um documento processual por excelência e que é o processo? Um seguir adiante.) ostentam um núcleo e uma periferia em sua própria circunferência deôntica. ambivalentemente. etc. pluralismo político. Democracia. dignidade da pessoa humana. Com efeito. moralidade. 4. familiar. Desde que tal mudança tenha o significado de aumentar a perspectiva de funcionalidade do núcleo mesmo. ou assegurar.. essa é a parte que passa a legitimar todo tipo de alteração constitucional . segundo a qual "Democracia é o governo do povo.4. Há como que uma dialeticidade no próprio interior de certos princípios. militar. Já a periferia do conceito. valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.. moral. obrigando a que toda mutação da Constituição apenas se dê ao nível das emendas e revisões.). a teor do parágrafo único do art. A parte futura é aquela que vai buscar o seu conceito no modo como o povo passa a sentir e praticar o discurso normativo-constitucional ao longo do tempo.) se traduzem numa materialidade ou estrutura conceitual que em parte é atual e em parte é prospectiva. como fator de estabilidade e de atualização constitucional. no âmbito de sua própria circunferência semântica. A tensão entre permanecer incólume e experimentar alterações ocorre no imo. 4. concorrem para impedir que a própria rigidez venha a significar impermeabilidade conceitual dos valores de berço constitucional. 4. portanto.

formal que venha a se traduzir em descentralização ou desconcentração da autoridade política e em ampliação dos espaços de participação popular na escolha dos governantes e no exercício. os princípios são os elementos que mais contribuem para dotar o sistema constitucional de uma espontânea flexibilidade ou jogo de cintura (permitimo-nos o prosaísmo da expressão). Diga-se o mesmo da Democracia material ou de substância. de tão metodologicamente importante. Atenuando.10. aqui inseridas as universidades (para repetirmos antigo e sempre atual conceito da Democracia como divisão do poder. de sorte a colocar a Constituição em dia com os fatos sociais. com o nome de "A DUPLA CENTRALIDADE DA CONSTIUIÇÃO E DOS SEUS PRINCÍPIOS". da riqueza e do saber). promovem a abertura das janelas da Constituição para o mundo circundante. . Ainda estamos bem longe de explorar o potencial teórico dessa dualidade básica princípios/regras. Todos esses princípios.7.10. se tornou a nova base da Hermenêutica da Constituição. então.6. a necessidade de alteração formal das normas constitucionais e contornando as dificuldades processuais que são próprias da reforma de tais normas. 4. Noutra linguagem. assim. que. 4. controle e fiscalização do Governo. Por isso mesmo é que preferimos dar conta da matéria no capítulo que vem de imediato. a assimilar toda mudança que signifique proliferação dos núcleos sociais de participação na riqueza nacional e até no saber que se produz nas escolas oficiais.

E nesses dois planos da ontologia e da funcionalidade é que as normas-princípio são dotadas de mais elevada estatura sistêmica.1. não deixa de embutir nesse rol dos princípios constitucionais instrumentais a interpretação conforme a Constituição e a presunção de constitucionalidade das leis.autoconceituáveis (no sentido de que seus conteúdos ou elementos de definição já constam da própria Constituição. Do quanto discorremos no capítulo precedente sobre a dicotomia básica princípios/preceitos.1. Graças à natureza e à funcionalidade dos princípios materiais da Constituição. exatamente porque prescindentes da lei quanto às suas expressões ou manifestações conteudísticas. V .3. portanto.onivalentes.4. Ontologia e funções dos princípios constitucionais 5. princípios constitucionais materiais: a) conferem unidade material à Lex Maxima. A necessária interpretação restritiva das normas constitucionais sobre o Poder Reformador 5. A identificação de todo o Texto Magno com o seu princípio maior 5. pensamos avultar a ontologia dos princípios constitucionais materiais como normas: I . pela clara razão de que operam de ponta a ponta do Ordenamento.7. b) estabilizam e ao mesmo tempo atualizam a Constituição. seguida de perto pela doutrina alemã. com mais razão. Já no plano das funções.inter-referentes.3.1. 5.4. e não apenas no interior de um determinado ramo jurídico. Quanto aos princípios constitucionais de natureza formal. inquestionavelmente. seja por complementação. ou não proibida. eles. pensamos que eles são basicamente dois: a) o princípio da rigidez formal. 5. de regras ou preceitos.2.axiológicas ou consubstanciadoras de valores.8. A significar.1. de um caráter eminentemente dinâmico ou processual.Capítulo V . é que se pode afirmar que norma jurídica é uma categoria maior que regra. que a ausência da lei não implica ausência do Direito.A Dupla Centralidade da Constituição e dos seus Princípios Sumário 5.6. que é uma função unificadora. já é antecipadamente qualificada como juridicamente permitida. Servindo mesmo como perene critério de interpretação de princípios menores (subprincípios) e. A ascensão dos princípios como supernormas de Direito 5. E que o Direito é maior do que a lei.1. As conseqüências lógicas da Constituição enquanto suma de princípios 5. II .1. IV .5. cumpridores de uma função instrumental. dessarte. . A eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica 5. b) o princípio da supremacia da Constituição.5. 5. III .auto-aplicáveis. dotando-a. A Democracia como o valor constitucional por excelência 5. se considerarmos pelo menos o princípio constitucional de que "ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei" (legado imperecível do constitucionalismo liberal). Ontologia e funções dos princípios constitucionais 5.1.1. pois a conduta humana não-legislativamente imposta. seja por contraposição. O ser da Constituição e seus valores mais próximos 5. nesta segunda variante. 5.2. Mas a doutrina norteamericana.

mormente os fundamentais ou estruturantes do Estado e do Governo. mas não os garantiam. por falta de indicação conteudística.2.3. mais recentemente. Tinha-se que recorrer ao Direito infraconstitucional. já nos anos de 1917. Contudo. É igual a dizer: os dispositivos constitucionais não se desdobravam em subprincípios.5. com o tempo.2. graças à atuação normativamente integradora e até inovadora da Suprema Corte de Justiça americana. Passaram a garanti-los. era impossível conceituar cada princípio constitucional a partir de elementos encontradiços na própria Constituição. que já é uma função verdadeiramente transformadora ou emancipatória. em matéria de direitos subjetivos oponíveis ao Estado. ao lado da crescente constitucionalização do Direito infraconstitucional. ou mesmo em regras comuns suficientes. 5. Princípios expressos havia . os princípios jurídicos não surgiram de uma noite para o dia. E foi justamente essa vontade coletiva de embutir nas Constituições regras e subprincípios densificadores de princípios materiais de superior envergadura (axiologica e funcionalmente) que as Magnas Cartas passaram também a normatizar assuntos que até então eram próprios de outros ramos jurídico-positivos. Tudo resultando na supereficácia da própria Constituição. 1918 e 1919. mas não se dispunha a dar conta dos direitos sociais (invenção do constitucionalismo do México.4. 5. A nova práxis ou fenomenologia constitucional-positiva que foi tomando corpo. naquilo mesmo em que a Constituição mais devia reluzir: a sua principiologia. Eles foram evoluindo com o próprio tamanho das Constituições e a forma jurisprudencial-doutrinária de interpretá-las. ou seja. 1991) e de um . da Rússia e da Alemanha. respectivamente). Ora. acrescente-se. 5. A ascensão dos princípios como supernormas de Direito 5.2.2. RONALD DWORKIN (cuja distinção entre regras e princípios jurídicos é o que existe de mais recorrente nos dias atuais). O que levava à subeficácia da própria Constituição. como subnormas. o modo legislativo de escrever as primeiras Constituições ocidentais era muito parcimonioso. os princípios eram tidos.notadamente os materiais -. elas declaravam tais direitos.2. foi preciso que a evolução começasse com a robustez disposional e vernacular de cada princípio constitucional. Veja-se que as primeiras Constituições escritas. somente continham direitos individuais. 5.2.1 5. Toda essa mudança de paradigmas no âmago das Constituições filiadas ao sistema romano-germânico do Direito muito deve.6. mas um produto da História.2.2. porém a excessiva economia de dispositivos e até dos vocábulos em que tais dispositivos se vazavam impedia a indicação dos conteúdos de cada norma principiológica.7. a autores do porte de um KONRAD HESSE ("A Força Normativa da Constituição". E sem se conhecer o conteúdo ou os conteúdos de cada princípio constitucional.1. no bloco dos países constitutivos da Civil Law. E só depois da Declaração Universal dos Direitos do Homem (Organização das Nações Unidas) é que as Leis Fundamentais de cada povo soberano foram ganhando uma funcionalidade fraternal (pelo decidido combate aos preconceitos sociais e pela afirmação do Desenvolvimento. no plano da eficácia.5. Ainda assim. Assim como o Direito "não é filho do céu" (TOBIAS BARRETO). 5. Deveras. Essa fenomenologia das Constituições esquálidas não embaraçou a evolução do mais importante país da Common Law (os EUA). E do labor de jurisconsultos do porte de um MARSHALL e. destarte. possível não era a conceituação de cada qual deles. foi a da supereficácia das normas-princípio. do meio ambiente e do urbanismo como Direitos Fundamentais).2.

Esse movimento ascensional-interno tem um compromisso racional com um dado ponto de chegada.4. A sua quintessência. ambos da Alemanha. 5.1. Isto porque o auto-impulso axiológico da Magna Lei de um patamar inferior para um patamar superior não é de se perder no infindável. acima de tudo. à sua dignidade formal a Constituição adicionou uma dignidade material. é que ela passou a ocupar a centralidade do Ordenamento Jurídico. o valor-síntese da Constituição. que dentro da Constituição não conhece outro que se lhe iguale em importância funcional-sistêmica. A identificação de todo o Texto Magno com o seu princípio maior 5. 5.3.2.3.3. se as Constituições padeciam de subeficácia pelo seu caráter principiológico. valor-síntese. O valor-continente por excelência. que mais e mais insistiram na metodologia hermenêutica de reconhecer à Constituição o máximo de aplicabilidade por si mesma. Por ser o valor constitucional primário (gene). 5. pois o fato é que o reconhecimento da força normativa dos princípios coincide com o reconhecimento da força normativa da Constituição.8. 1977). senão o próprio ser da Constituição. ela mesma é ele.3. tanto quantos os princípios passaram a ocupar a centralidade da Constituição. uma relação de inerência: ele é ela mesma. O que já significa dizer: caso extirpado da Constituição. um novo salto de racionalidade já pode ser intentado: aquela característica do movimento ascensional-endógeno de fatos para valores e de valores de menor porte material para valores de maior envergadura igualmente material (tema do capítulo anterior) termina por fazer da Constituição algo plenamente identificado com o seu princípio de maior abrangência. Esse valor-teto. num crescendo que chega à superforça de ambas as categorias. Por um desses fenômenos desconcertantes que timbram a trajetória humana. estava criado o clima constitucional propiciador da dicotomia básica princípios/regras (ou princípios/preceitos) e o fato é que. Sendo que ALEXY foi quem retomou os fundamentos de RONALD DWORKIN para evidenciar as diferenças qualitativas entre normas veiculadoras de princípios e regras portadoras de simples preceitos. E se aos princípios era recusado o status de verdadeiras normas.9. foi justamente pelo seu caráter principiológico em novas bases que elas passaram a se dotar de supereficácia normativa.3. 5. 5.ROBERT ALEXY ("Teoria de los Derechos Fundamentales". 5. inelutavelmente deflagraria sobre a quase totalidade dos demais valores uma mudança qualitativa de tal ordem que chegaria às raias de um mortal efeito dominó.2.3. para nós. Aceita que seja a dicotomia princípios/preceitos como da essência das atuais Constituições do tipo formalmente rígido. esse princípio dos princípios mantém com a Constituição. É de conveniência didática a repetição: caso extirpado do Magno Texto o valor . ou o gene do qual decorrem os mais vivos traços fisionômicos dos demais valores constitucionais. mais que uma relação de pertinência. é precisamente aquele cuja existência é a principal justificativa material de quase todos os demais valores. Estrada de mão dupla.5. que é o valor para além do qual não pode haver outro senão já totalmente situado no mundo das coisas metajurídicas.2.3. É que o valor-dos-valores. ele. Aquilo que a Constituição é. a "fórmula política" de VERDU outra coisa não é. agora eles se elevam ao patamar de supernormas de Direito Positivo. E assim recamada de princípios que são valores dignificantes de todo o Direito. Em síntese.2 5.

é o nome que assenta para o fenômeno da subida do povo ao podium das decisões coletivas de caráter imperativo.6. seja por forma direta ou participativa. reserva para si o poder de selecionar eleitoralmente os governantes. o povo a sair da passiva posição de espectador para a ativa posição de ator político. ou dos mais "cultos". expresso na idéia de que a maioria do corpo eleitoral de um País é quem faz o Direito comum a todos. o que mais se faz presente na ontologia dos demais princípios. ou dos mais hábeis em curas médicas ou pregações religiosas. pois. Da mesma Constituição já não se cuidaria. E Democracia. A Democracia como o valor constitucional por excelência 5. 60 da mesma "Constituição-cidadã"). 5. É exigência da verdade o dizer-se que nos países do Ocidente não se conhece um só colegiado constituinte de livre investidura eleitoral . tudo o mais vai lhe faltar. praticamente nada restaria. a sua extirpação implicaria o absurdo de apartar a Constituição de si mesma. da Constituição em sentido material). desse mesmo Texto. Tanto na Democracia formal quanto na material.4. seja por forma indireta ou representativa. Ou o caráter holístico de tais Constituições. nunca deixa de dividir com eles algumas funções de governo e ainda passa a controlar o modo pelo qual tais . 5.que não fizesse da Democracia a alma da Constituição por ele promulgada.3. 3º do mesmo Diploma Fundamental. concomitantemente. a começar pela mais importante das decisões coletivas.4. ao menos daquelas nascidas do ventre de uma Assembléia Nacional Constituinte. no curso da história humana. isto é. pois. sobranceiro. 5. de cujo casamento por amor resulta o ansiado Estado de Justiça.4. no inequívoco sentido de troca de lugar ou mudança topográfica do povo.3 5. a simbolizar que ele mesmo é quem escreve a sua história de vida político-jurídica e assim toma as rédeas do seu próprio destino.4. Por isso que ele transluz em cada um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (incisos de I a V do art. Ora. É do nosso pensar que o ser das Constituições ocidentais. pela casta dos mais valentes. 5. ou dos mais "nobres". na pia batismal do mais límpido voto popular . quem tem a força de subir ao podium das decisões coletivas de caráter imperativo. ou dos mais patrimonializados. que é "a decisão política fundamental" (locução de que se valia CARL SCHMITT para falar do ato de vontade gerador da Constituição e. assim no Estado Democrático de Direito como no Estado de Direito Democrático. Por que não repetir? Se o princípio por excelência é o que mais repassa a sua materialidade para os outros. de imediato. Incorpora-se ao passado. esse megaprincípio é o da Democracia. com o tempo. esteja na Democracia.4. Democracia. ou seja. sendo o princípio dos princípios o próprio ser da Constituição. ou dos mais velhos.ungido. pois a Constituição deixa de fazer parte das coisas presentes. É como dizer: faltando à Constituição o seu próprio ser. em rigor. a começar pela feitura da própria Constituição. Deixa de ser resignado objeto de formal produção normativa de minorias (retratadas. do que já se despediu da vida.3. em essência. 5. e. mas sempre u'a minoria) para fazer prosperar o que se tornou símbolo de status civilizatório: o princípio majoritário. que é o mundo das evanescentes lembranças do que já existiu.1. Mas que valor-continente é esse? Que nome dar a um princípio que se coloca.4.4.2.que é a própria síntese da imensa maioria dos demais. à frente de toda a principiologia constitucional? Vejamo-lo. portanto.5. que da platéia passa para o palco das decisões que a ele digam respeito. Além de justificar em todo o art. 1° da Carta de 1988) e em toda cláusula pétrea explícita da nossa atual experiência constitucional (incisos de I a IV do § 4° do art.

Mas o fato é que nenhuma Constituição ocidental. Com o que passa a regime político de irrespondível superioridade sobre qualquer outro já experimentado (como a licitação e o concurso público.e não apenas dúplice . Passagem ideal de uma situação de democracia do Estado (no interior dele) para uma situação ainda mais abrangente de democracia na intimidade de todo o corpo social. 5. Com o requinte de muitas vezes clausular como pétreos aqueles valores mais próximos do centro . compreende e legitima a produção em si de todas as leis em sentido material. para valorizá-las. em um ritmo ora mais lento.4. ora indiretamente.falemos assim . E aí já se pode falar de Democracia. de manifestação da própria consciência humana. mais e mais serve de condição para que o Direito se caracterize também por uma vertente popular.7. criticamente. sejam quais forem os conteúdos dessa leis. a Democracia. ora mais rápido. tanto quanto os princípios constitucionais estão no centro da Constituição e a Constituição está no centro do Sistema Jurídico. com a virtualidade de atuar ao mesmo tempo: a) nas bases do corpo social e das próprias instituições públicas e privadas. a Democracia ganha a suprema virtude de legitimar por todos os ângulos o Poder. Assim incorporando uma dimensão processual (modo pelo qual o povo participa. O ser da Constituição e seus valores mais próximos . nominalmente).4.10. O mérito de domar o poder e assim torná-lo serviente do Direito. É certo que o teor de autenticidade democrática varia de cada experiência constitucional-positiva para outra.da circunferência democrática. Chegando-se a este patamar de intelecção. como o regime pelo qual o povo passa a eleger seus governantes. acima de tudo. para limitá-las perante as respectivas bases.9. b) enquanto fim ou objetivo de toda norma jurídico-primária mesma (Democracia Substancial). ser a Democracia um fluxo ou movimento ascendente do Poder (visto que parte de baixo para cima e não de cima para baixo).centralidade: a Democracia está no centro dos princípios constitucionais. popularmente votada. É a chamada Democracia Formal ou Estado Democrático de Direito. b) nas cúpulas do poder estatal e até mesmo das instituições privadas. deixa de dizer que está a reverenciar. 5.6. de sorte a desenhar nos horizonte da História o altaneiro perfil da Democracia Substancial ou "Estado de Direito Democrático" (a Constituição portuguesa de 1976 bem o diz.4. da produção e execução do Direito) e uma coloração material (compromisso das normas jurídicas gerais com a defesa e promoção dos indivíduos e daqueles que só podem ser concebidos como parcelas do todo social). 5.5. Que fique assentado. 5. a democracia não está isenta de defeitos. 5. portanto. que. porém nenhum povo conseguiu vivenciar algo melhor). no sentido de que: a) enquanto processo ou via de formação e deliberação de norma jurídico-primária (Democracia Formal).4. a partilhar com eles o exercício do poder de criar o Direito e a acompanhar. Que o fechamento deste tópico seja a afirmação de que a teoria constitucional já dispõe de todos os elementos lógicos para reconhecer até mesmo uma tríplice . o modo de execução desse mesmo Direito.4 5. ora direta. não é difícil perceber que a Democracia é o único valor que perpassa os poros todos da axiologia constitucional (valor subjacente a tudo o mais). nos marcos da Constituição. com o transcorrer dos anos.4.governantes se desincumbem do mandato ou do papel institucional que lhes é confiado. incorpora a positivação de valores que se marquem por uma densa vertente popular (tanto no campo institucional como na área das franquias individuais e dos direitos sociais).8.

vamos encontrá-los expressamente citados nos incisos de I a V do art.se tomarmos por referência a Federação como forma de Estado.3. Esses valores mais próximos do centro da Democracia.5.5. como anteriormente falado. É preciso intuir com essa força de gravidade do ser da Constituição. Entre duas interpretações possíveis de uma norma constitucional. "dignidade da pessoa humana". 1°. 5. "cidadania".se se intenta colocar no cerne da reflexão jurídica a figura mais abrangente da . a dedução flui no mesmo passo: a democracia postula mesmo a distribuição do poder político por um vetor complementar. é preciso ratear o poder político entre os órgãos estruturais de uma mesma pessoa político-estatal em bases tão independentes quanto harmoniosas. autonomia governamental recíproca e indissolúvel atrelamento a uma terceira pessoa estatal abarcante de todas elas. ou seja. Se o visual interligado das partes projeta a imagem do todo. porque ele é uma porta aberta para a compreensão de cada parte da Lei das Leis e de todo o conjunto normativo-constitucional. "valores sociais do trabalho e da livre iniciativa" e "pluralismo político". 5. II . III . ao lado das cláusulas pétreas materiais expressas. com os nomes de "soberania". como tantas vezes dito).5. Esses valores mais próximos do núcleo da circunferência democrática têm nas atuais Constituições de Portugal e do Brasil uma indicação mais precisa. E sendo assim. sob as denominações de "forma federativa de Estado". Também assim no § 4° do art.se o pensamento se volta para a instituição do princípio da Separação dos Poderes. "separação dos Poderes" e "direitos e garantias individuais". o visual do todo inda mais aclara a visão de cada parte. não territorial. Escolhendo a do Brasil como paradigma. na acepção de que o povo nacional tem o poder de se decompor em unidades territoriais que se caracterizem pela personalização jurídica. os fundamentos da nossa República Federativa são os cromossomos nos quais se contêm os próprios genes ou suportes materiais da hereditariedade estatal brasileira. deve-se prestigiar aquela que melhor assegure a eficácia do princípio que mais proximamente esteja do ser da Constituição (e tal ser é a Democracia. Ilustremos com a própria Lei Maior de 1988: I . pois toda interpretação normativa que os confirmar será uma "interpretação conforme a Constituição".5 5. Aquilo que se põe como justificativa prévia e explicação final da arquitetura estatal que substituiu o modelo autoritário da eufemisticamente chamada "Revolução de 1964". 60. uma interpretação conforme o ser da Constituição. universal e periódico". secreto.2.5. Vale dizer. perceberemos que ela tem a sua mais funda justificação no fato de a Democracia incorporar um ingrediente de divisão espacial do poder político. como advertiam LOCKE e MONTESQUIEU. portanto. é pela imperiosa razão de que tais fundamentos são os pressupostos mesmos ou o a priori lógico da construção e balizamento de todo o Estado brasileiro. pois o contrário é seco autoritarismo ou ditadura do Poder preponderante (sempre o Poder Executivo). especifica ou topicamente revelado nos valores que tais. concebemo-los como os principais conteúdos ou as principais manifestações dela mesma. Logo. mas orgânico. estamos a lidar com "fundamentos" que outra coisa não são que princípios antecedentes a tudo mais que signifique nova montagem e funcionamento do Estado brasileiro em termos republicanos e federativos. "voto direto. eles passam a gozar de uma posição intra-sistêmica do mais alto relevo. Em linguagem figurada.1.5. Se estamos a qualificar os fundamentos da República Federativa do Brasil como elementos conceituais da Democracia.4.

se adensa. cada indivíduo é por natureza diferente dos demais e no que toca à experimentação de sua natureza em certas áreas de atividade .6 IV . se a pessoa vive "debaixo da ponte" e a ponte não se presta como endereço oficial de ninguém? As prefigurações pululam em nossa mente e nos lembramos de que até . associação. IV . a par de outros conteúdos. eleitoralmente. também expressamente arrolados como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. e até se plenifica pela idéia de uma partilha direta do poder político entre governantes e governados.enfim. de novo a justificativa para a positivação da matéria se encorpa. Donde se falar de convivência com os contrários ou respeito às minorias. realmente. Não apenas parte de um todo. trabalho.República. mas algo à parte. somente eles podem escolher. Foi o ponto de compreensão a que finalmente chegou o nosso constitucionalismo. pois Democracia. E que tais representantes só podem permanecer como representantes do povo por um determinado período e debaixo de uma responsabilidade político-jurídica de caráter pessoal. transporte. Daí também o necessário vínculo entre os direitos e garantias individuais e a Democracia. seja até mesmo o conjunto da sociedade) àquelas inatas diferenças de cada indivíduo. etc. quem os represente no papel de definir o que seja melhor para todos e como operacionalizar tal decisão (logo abaixo da Constituição. no sentido de que são os governados que detêm a propriedade da coisa pública ou a titularidade dos interesses gerais. de que serve o direito individual de inviolabidade domiciliar. Noutra forma de expor as coisas. Passar ao largo de controle estatal como condição de respeito a uma dignidade que não tem outro fato gerador que não a humanidade mesma que mora em cada indivíduo. etc. entenda-se). locomoção. não pode deixar de se traduzir em respeito do todo (seja o Estado. vai-se notar que o laço entre eles e a Democracia é igualmente umbilical. E por detê-la. não há concreta vivência dos direitos e garantias individuais sem o desfrute de franquias trabalhistas que possibilitem ao trabalhador e respectiva família um auto-sustento econômico. educação. todo ser humano deve passar ao largo de controle estatal (não é de contenção do poder estatal que primeiro vive a Democracia?).). repita-se) e um dos mais palpáveis conteúdos da Democracia. se o indivíduo não ganha sequer o suficiente para alugar uma residência? E o direito igualmente individual do sigilo da correspondência epistolar. saúde. por hipótese.pensamento. preferência sexual. ou da comunicação telegráfica. 1° da Constituição brasileira de 1988.se o eixo do pensamento especulativo já se volta para o rol dos direitos e garantias individuais. Daí o vínculo funcional entre a dignidade da pessoa humana e os chamados direitos e garantias individuais. conjuminadamente. da Ordem Econômica e da Ordem Social de que trata a Carta de Outubro. mas um todo à parte. religião. ao lado dos direitos sociais à habitação. Se não há Democracia sem a devida observância dos direitos e garantias individuais (veículos formais do princípio da dignidade da pessoa humana. a toada não muda se o alvo desse tipo de análise teórica se deslocar para "os valores sociais do trabalho". pois a proclamação de tais direitos e garantias é o reconhecimento formal de que todo ser humano não é somente parte de algo. pois. Sendo assim. é no reconhecimento de cada indivíduo como um microcosmo que se intui com o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana (inciso III do art. -. e. constituindo-se mesmo numa totalidade em si. E conteúdo tão palpável que nos parece verdadeiro afirmar o seguinte: o próprio entendimento do que seja dignidade da pessoa humana depende de um ar de liberdade pessoal e de pluralismo ético-ideológico-religioso que somente se respira em atmosfera democrática.

5.9. Todavia. contudo. Somente se comprometeu com os direitos e garantias genuinamente individuais (em razão do mais direto vínculo entre estes e o princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. É possível e até provável que a plena compreensão da Democracia não seja um a priori lógico. 5. se no campo do voto popular houve alargamento protetivo material.7.8. Seja algo que supere a própria razão. 60. Mas para tornar a falar de Democracia. o que a nossa Lei Maior quis deixar acima de qualquer dúvida não foi a irrevogabilidade do voto popular. porquanto já embutidos na locução "dignidade da pessoa humana". apenas falar do voto popular e dos direitos e garantias individuais como cláusulas pétreas materiais expressas? Como temas insuscetíveis de se tornar objeto de emenda tendente à sua abolição? 5. Pois é assim por via indireta que os direitos sociais de índole trabalhista. Segunda resposta: também em rigor. no campo dos direitos e deveres individuais e coletivos houve estreitamento. Sabido que a compulsão do perambular já não se coaduna com a idéia de liberdade. então.5. os direitos e garantias individuais dispensariam expressa dicção como cláusula pétrea material. o voto popular não precisaria de expressa menção como cláusula pétrea. Fechamos o parêntese para tornar a falar de Democracia. Cuidou.5. a fim de lembrar que em nenhum momento nos comprometemos com o juízo de que a sua idéia completa já anteceda à jurisdicização dos institutos e das instituições que nela teoricamente se contêm. o voto popular "universal" e o voto popular "periódico". o Constituinte de 1988 não quis petrealizar os deveres individuais e coletivos nem os direitos e garantias de natureza coletiva. entenda-se). o vínculo operacional direto entre o princípio da dignidade da pessoa humana e os direitos e garantias individuais ficou prejudicado em sua clareza redacional. de proceder a um enxugamento ou depuração temática e por isso é que deixou de fora da tutela petrealizadora tudo que não portasse consigo a logomarca de direito ou garantia individual (mas somente nos marcos do capítulo versante sobre os direitos e deveres individuais e coletivos.7 5. por falta de uma casa para morar. Um parêntese: qual a razão de a Lei Maior de 1988. Tais direitos e garantias foram regrados de mistura ou mescladamente com deveres e também com a realidade das pessoas coletivas. passam a compor um dos conteúdos do regime democrático. Logo. 5. O voto popular que a Lex Legum de 1988 teve em mira acautelar de danos foi o voto popular "direto" e mais que isso: também o voto popular "secreto".mesmo o direito individual da liberdade de locomoção perde toda substância se. O que ela quis elucidar é que não basta manter incólume de emenda constitucional a abolição do voto popular. Contudo. este último sob a denominação "DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS"). pelo fato de ele já estar contido no primeiro dos fundamentos explícitos da nossa República Federativa (esse fundamento explícito é "a soberania"). o sentido protetivo da Constituição foi de alargar os aspectos do voto popular que ficariam sob o guarda-chuva do § 4° do art.5. brigar com a razão. isto é. Com o que seguiu metodologia oposta à do voto popular.5. renove-se o juízo).6. pelo fato de a Constituição não conter nenhum capítulo ou segmento normativo com o nome "Dos Direitos e Garantias Individuais".5. Pois bem. a pessoa for obrigada a zanzar por aí feito barata tonta. de fora a parte os princípios da forma federativa de Estado e da Separação dos Poderes. sem. albergados pela Constituição. Primeira resposta: em rigor. de modo a compor o capítulo que tem por designação vernacular "DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS" (CAPÍTULO I DO TÍTULO II. 5. É possível e até provável (insistamos nas duas palavras) que a Democracia passe primeiro pela consciência antes de chegar .

ou a proceder à margem da pura lógica.5. em termos metodológicos ou funcionais (não finalísticos). figurativamente. como que sinalizando para o exegeta a aplicação da conhecida máxima de LACORDAIRE (que outros atribuem a PASCAL): "Ciência sem consciência é ruína da alma". sem que a noção perfeita e acabada de Democracia esteja no ponto de partida do puro pensamento lógico-jurídico. a norma de hierarquia suprema no todo do Direito Positivo. 5. por outra. da a-racionalidade (que é o plano da consciência ou do espírito. que passa a ter no Poder um mecanismo de reverência: o Poder a serviço do Direito.13. no exercício e no controle do Poder. E inaugural do pós-positivismo. 5. quem tem a ganhar com isso é o Direito. melhor sentir na pulsação do presente as batidas do coração do futuro.11. sintomaticamente chamado de "Ordenamento". E quais os corolários dessa posição de liderança internormativa? Desse papel eminente dos princípios no interior da Constituição? 5. 5.2.1. Tudo fica muito mais claro. Seja como for. nos seres humanos. quem tem a ganhar com isso é o Poder mesmo. neste ponto fulcral dos princípios genuinamente constitucionais.6. Ou. um . que é uma via necessariamente recicladora do intelecto. que é a única forma pela qual ele (Poder) se legitima. que somente começa com a dicotomia básica dos princípios e regras.6.5. ousamos verbalizar uma idéia certamente vocacionada para a formação de controvérsias no plano científico. dentre outras vias de conhecimento que.5.10.à razão. 5. que faz do Direito um instrumento de mera formalização de sua truculência. para ver a Democracia enquanto matéria disponível para um tipo de conformação normativa que tem um componente consciencial ainda maior do que o propriamente racional. subsidiando ou até mesmo policiando o intelecto. de uma só penada. alçadas à dignidade operativa de primus inter pares. que já passa a responder pela unidade orgânica e movimento pendular desse Direito Positivo. ela. Para desqualificação axiológica de ambos. já sabemos que a Constituição obtém sua unidade sistêmica por conduto das normas-princípio. exercício e controle do Poder? Ora. Fale-se o que se quiser falar de mau da Democracia.6. a seu turno.5. 5. E que a vontade assim imediatamente derivada da consciência somente busque a razão como uma forma de justificativa para o que já se decidiu no plano. como visto.12. quando se parte mesmo da rigidez formal como a pedra angular do Magno Texto. o que pretendemos dizer é que valores vão sendo positivados pelas Constituições como conteúdos ou manifestações plúrimas da Democracia. para. consciência.3. quando da inserção de determinados valores no Ordenamento. essa parte elementar do discurso normativo só se deixa conhecer pela via igualmente consciencial do intérprete.6. As conseqüências lógicas da Constituição enquanto suma de princípios 5. É a rigidez. se há um componente consciencial em certas normas de Direito Positivo. Hierarquia suprema. assim. 5. deve estar presente no instante da interpretação de tais valores. Quando ela está presente na formação. porém. A idéia é esta: assim como a consciência deve servir de luzeiro à razão. são neutras à razão8). o Poder e o Direito. mas não se lhe pode recusar a virtude de qualificar. justamente. Inclinamo-nos. a técnica primaz que torna a Constituição a lei das leis. Somente assim é que a norma se dá a conhecer por completo. No seu interior. E quando se dá o contrário? Quando a Democracia não tem o ensejo de se fazer presente naqueles decisivos instantes da formação. Bem. Por derradeiro. A consciência a ver as coisas primeiro do que a razão.

8. o da imunidade parlamentar e o da responsabilidade funcional (tão característico da República). E sendo mais processual por si mesma. um devir. inevitavelmente. tornam a Constituição um processo. que é a Constituição.6. as grandes linhas de ação governamental já ficam previamente esboçadas. verbi gratia. Ela se prefere dinamizada pela processualidade dos seus princípios estruturantes e é isto o que rebate ou compensa a rigidez formal e material a que se impõe. como. Sua genérica estabilidade não significa estratificação. 5. Daí que passem a encarnar valores em estado de fricção potencial ou latente. destarte. ela é mais processual por si mesma do que o Ordenamento que nela se embasa. 5. o da integração do País aos mercados externos comuns e o da soberania nacional. destinadas a parametrar os empíricos programas de governo. a concreta política social e econômica do Estado ("políticas públicas". E porque são desse . Ajunte-se que essa característica central da processualidade ou historicidade das Constituições principiológicas só pode ocorrer por efeito de normas consubstanciadoras de concepções filosóficas ou mundividências (tanto no campo ético-humanista quanto no ideológico ou político). pela sua intrínseca materialidade prospectiva. a escolha dos respectivos meios. cuja resultante é ganhar a Constituição aquela compostura dinâmica. em oposição ao ritmo de cada lei menor em particular. o princípio da valorização do trabalho e o da livre iniciativa. a que se agregam impessoais programas de governo. Ou a colocação de ênfase nesse ou naquele meio já imposto pela própria Constituição. 5. histórica. sem que o Ordenamento Jurídico experimente a sensação de tontura que sobreviria a uma Constituição demasiadamente refundida no seu aspecto formal.6. cabendo à legislação ordinária. Estes últimos a fazer da Constituição o mais estrutural dos projetos nacionais de vida. quase que tão-somente.6. Por elas. então. já assinalado. que é um ritmo prevalecentemente exógeno.mundo de conseqüências teóricas toma corpo e começamos por frisar que são eles que fazem da Constituição um prevalente sistema de positivações axiológicas. ela não precisa tanto de reforma quanto o Ordenamento precisa. Um vir-a-ser permanente.7. Positivações axiológicas ou filosóficas ou valorativas. Posto ainda de outra forma: sendo a Constituição o mais principiológico dos documentos jurídicos. o princípio da propriedade privada e o da função social da propriedade-bem-de-produção. que é própria da sociedade humana. Todo o nosso esforço comunicativo.5. à guisa de metas oficiais a alcançar. independentemente da ideologia professada pela facção partidária que se encontrar no Poder. É concluir: tudo muda no Direito. de que uma parte deles se define por contraposição. É por isso que os Diplomas Fundamentais contemporâneos contêm cada vez mais as chamadas normas programáticas. ditado por outra lei e mais outra e mais outra.9. no jargão midiático e na Ciência da Administração). só que em diferentes ritmos.6. 5. que é o Direito subsconstitucional? 5.6. normas programáticas. o da independência dos Poderes e o da supremacia da lei. porém um ritmo de mutabilidade diferente do ritmo das leis em geral.6. é para evidenciar que a Lei das Leis se deseja fluir mais por conta própria do que por intervenção dos seus atos de reforma. Um ritmop preponderantemente endógeno. Como exigir que o Direito axiológico por excelência. os valores. o princípio do pluralismo político e o da fidelidade partidária. Em diferentes palavras. tenha a agilidade do Direito factual por excelência.3. pelo seu facilitado ajustamento ao corpo sempre cambiante da realidade social. quer dizer.6. Uma outra nota de especificidade dos princípios constitucionais está no fato. 5. processual.

4. para cumprir uma função técnica de controle social. justamente. sendo toda norma constitucional uma norma jurídica.1.7. a opção do exegeta só pode ser pela operância plena da regra maior. Noutros termos.7.7. temo-lo como princípio constitucional inexpresso. como postura inicial. ao medir a extensão do quê de uma norma . deva preponderar sobre o outro. à lei maior deve corresponder u'a maior eficácia. 5. suscitam um manejo bem mais cuidadoso dos métodos de hermenêutica jurídica no que toca à seleção daquele princípio que. É para desanuviar. Um princípio que é a decorrência lógica do tensionamento daqueles princípios materiais que se definem por contraposição. revisão) assim o disser.10. Exceto se a própria norma constitucional. Ou que menos lesione os princípios correlatos àqueles em concreto estado de fricção. a sua história e a sua teleologia permitirem. existe.6. 5. a hermenêutica busca impedir que os espaços de normatividade constitucional sejam indevidamente ocupados pela legislação inferior. no ápice do dilema entre reconhecer a pleno-operância de uma norma constitucional e sua dependência de regração de menor estirpe. ao lado de outras peculiaridades da Constituição. A eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica 5. Em termos técnicos. reconhecer à norma isolada o máximo de eficácia que a sua formulação linguística.3. a sua logicidade. Por isso que.7. então. que não tem sido objeto de realce doutrinário. porém.11.6. esse campo já se define. tais normas pedem e até mesmo exigem uma correlata especificidade de intelecção ao nível do que vimos chamando de cânones hermenêuticos diferenciados. para que o juiz dos casos concretos sopese os fatos e opte por aquele princípio material que mais próximo estiver do valor dos valores. 5. essa matéria só pode decair do status de norma constitucional se outra norma constitucional (emenda. Ao contrário.5. que é a Democracia (como tantas vezes dito). 5. Todo este modo especial de ser das normas constitucionais principiológicas repercute (e como!) nos enunciados hermenêuticos. pois.jeito. Isto por que é da natureza da Constituição passar adiante a conformação jurídica da matéria que deixar de regular por conta própria.7. Este é um ponto central da Teoria da Constituição.7. Se a Constituição decide normatizar uma dada matéria. por exclusão. 5. A Constituição é norma em sentido material. ao nosso ver.2. tem força normativa própria (CONRAD HESSE) e deve ser interpretada de acordo com a sua mais alta hierarquia. Servindo. Mas que. É por isso que o intérprete. qual o principal enunciado que a Hermenêutica recomenda ao processo da interpretação em concreto de uma norma constitucional originária? Pensamos que seja. ou seja. pedir o adjutório de regra intercalar para a plenificação dos seus efeitos. Nessa recomendação de imprimir às normas constitucionais originárias o máximo de eficácia que os métodos acima indicados permitirem.9 5. numa situação em concreto. essa área de empírico tensionamento entre as normas-princípio da Constituição que PAULO BONAVIDES pugna pelo emprego do que a teoria constitucional vem chamando de "princípio da proporcionalidade". em última análise. 5. que é um princípio conciliador por excelência. como normatizável por lei. do tipo instrumental. Mas se a Constituição deixa do lado de fora um dado campo fenomênico. não faz parte das categorias metajurídicas. inequivocamente.

o impasse é de se resolver em proveito da mais próxima. 5. que é a quintessência mesma da Constituição.8. da lei interpretada.6. ora diretamente. E se o confronto se der entre competências dos Estados-membros e respectivos Municípios. Sinta-se que o prejuízo que se causa à Constituição com uma interpretação indevidamente restritiva é maior do que o sofrido.7. É que esse Direito subconstitucional apanha as sobras do que a Lei maior não quis.10 .9.10. ora de esguelha. 5. a que amplia aquela esfera de incidência direta de uma norma constitucional passa a fechar espaços para uma ocupação normativa de menor escalão e assim fortalece a Constituição mesma. O que se traduz em disparatada inversão de valores. é de ser resolvida em favor da interpretação eficacial de maior porte. o sacrifício a ser imposto é à competência dos Estados-membros. Nessa mesma direção. data venia de respeitáveis opiniões em contrário). Daí que recusar à lei o que à lei pertence não signifique presentear o Poder Executivo com uma competência legiferante residual. em linha de princípio. imaginemos uma fundada hesitação exegética entre ampliar ou restringir a eficácia de uma norma constitucional que outorgue direito individual oponível ao Estado. no bojo da relação entre a Lei Maior e a lei menor (acabamos de dizer). uma delas funcionalmente mais distante do ser da Constituição.ou simples redução que seja . A dúvida. tiver que enfraquecer competência dos Estados-membros. E não é isto o que sucede na relação entre a lei comum e o decreto executivo. exemplificativamente. ou não pôde reservar para si mesma com exclusividade. Agora. mais próxima de tal ser. A contrario sensu. a exegese que diminua a esfera de alcance de uma norma Constitucional passa a abrir espaços para uma ocupação normativa de menor escalão. A matéria fica no aguardo de uma futura normação por via legal. E a Democracia política vive é de técnicas restritivas do Poder. Qual a preferência do intérprete? A preferência é pelo fortalecimento eficacial da norma. 5.constitucional. naqueles Ordenamentos que não admitem o chamado regulamento autônomo (como é o caso do Brasil. o que se sonegar à primeira passa a pertencer à segunda. Defende a Lei Fundamental. por exemplo. Deveras. 5. ou parcial. a outra. se o confronto se der. se uma exegese.7. pelo correlato fechamento . pois tudo que favorecer à idéia de descentralização de autoridade serve melhor à Democracia. Não se pode fazer cortesia com o chapéu da Constituição (outra vez não resistimos à tentação do prosaísmo).das áreas de conformação legislativa pós-Constituição. por uma lei comum também indevidamente interpretada de modo amesquinhado. porque isto seria transformar a lei maior em lei menor e a lei menor em lei maior. para fortalecer dada competência da União. mas entre duas normas igualmente constitucionais. Estas considerações apontam para a adoção de um critério seguro de resolução de eventual dúvida interpretativa quanto a maior ou menor compleição eficacial de uma norma genuinamente constitucional.7. É que. não entre a Constituição e a lei.7. Por hipótese. e.7. deve estar ciente dos efeitos irradiantes dessa interpretação para o Direito que não se veicula por emenda ou por revisão constitucional. 5.7. sabido que os direitos e garantias individuais cumprem o papel técnico e até mesmo histórico de afirmar o princípio da dignidade da pessoa humana e assim conter o Poder em certos limites. enquanto persistir o entendimento da lacuna total. e não de mecanismos ampliadores das competências governamentais para além dos estritos limites da necessidade do exercício delas. a dubiedade interpretativa se extingue pela opção que implicar o prestígio das unidades regionais em que os Estados-membros consistem.

Em linguagem diferenciada. De outra parte. nessa medida. E isto já significa o óbvio: somente quando cessa o papel da interpretação é que se inicia o da integração constitucional por atos formais de emenda.e não simplesmente legais -. qual a Constituição rígida que não busca resolver. no Brasil ao reverso de Portugal -.8. ao menos no plano das emendas (já que. 5.8. Uma desconfiança que já está na própria Constituição. existem para mexer na Constituição. A necessária interpretação restritiva das normas constitucionais sobre o Poder Reformador 5. nascem com o propósito de dissentir daquela parte da Constituição a que visam reformar. 5. Mais até do que dificultar o processo de sua própria reforma. Donde o corolário de se encarar com extremos de cautela toda medida de acréscimo. ou alterabilidade das normas constitucionais originárias.8. contra ela (Constituição).7.5.8. 5. b) são elas. as emendas e revisões alteram aquela porção do Ordenamento que se caracteriza. Aqui. para que não haja necessidade do apelo extremo aos atos oficiais de reforma do seu próprio estoque de normas. e. é exatamente porque: a) são normas que. e somente eles. Nenhuma outra norma jurídica ostenta em cores tão vivas o caráter de estabilidade que a Constituição rígida imprime ao Ordenamento. Eles. um potencial lógico de agressividade que as leis não têm. por essa aplicação diuturna . Veiculam normas constitucionais. é no pressuposto do esgotamento dessa ou daquela norma-princípio da Constituição. Constituição. das normas que dispõem sobre intervenção federal. para colocar a Magna Carta pari passu com o ritmo veloz da sociedade. não podendo tocar em nenhum dispositivo da Constituição. a revisão foi admitida sob pautas processuais menos dificultosas11). as situações emergenciais do País (e aqui nos lembramos. pela estabilidade: a Constituição. Estado de Defesa e Estado de Sítio)? Tudo. como enxotar uma eventual dúvida na aferição do tamanho eficacial da primeira ante a segunda? Ou da segunda perante a primeira? 5.7. que disciplina com rigor incomum o processo de sua própria reforma. Ora bem. é conseqüência lógica da rigidez constitucional que os atos de reforma da Constituição Positiva sejam recebidos com desconfiança.11. ou de todas elas.8. se fizermos o cotejo entre uma norma da Constituição originária sobre o exercício do Poder Reformador e outra norma advinda desse concreto exercício (norma advinda de u'a emenda constitucional. "impeachment". evidentemente. e. 5. medidas provisórias. Se a Magna Carta é mais dócil ou mais branda na regulação do processo de elaboração das outras normas gerais que não as emendas constitucionais. precisamente. ou revisão. Se as emendas e revisões estão autorizadas a aportar consigo normas constitucionais . sponte sua. mas com unívoco sentido: as leis existem para aplicar diuturna e reverentemente a Constituição. 5.6. regras editadas pelo Poder Legislativo comum. 5. portanto).8. supressão.1.8. podendo mexer no corpo de dispositivos da Constituição. É da natureza das coisas.3. que darão à Constituição aquela primária aplicação que outra coisa não é senão a paulatina e ininterrupta dinamização de todo o Ordenamento. ainda com mais forte razão há de prevalecer o prestígio à eficacidade da norma constitucional de berço.8.2. no caso brasileiro.5. já nascem com o indescartável compromisso de dar submissa prossecução aos comandos formais e materiais dela mesma.4. É que os atos reformadores da Constituição têm.

A inovação que se autoriza é quanto a um Direito que vige do lado de fora da Magna Carta e nela não pode entrar por nenhum modo. vitalizar o Direito em geral. e. não simplesmente o Direito. ou material. a teor de Constituições como a brasileira. pois aí estamos diante dos princípios que mais estabilizam a Constituição e concomitantemente mais se aproximam do centro da circunferência democrática. claro.8. Regras periféricas. a saber: uma coisa é a indicação das matérias constitutivas de cláusulas pétreas. justamente quando do empírico uso do Poder Reformador. 5. É que a postura interpretativa contrária é de muito maior gravidade sistêmica. venha a significar banalização das mesmas (tudo. lógico -.8. são os preceitos constitucionais que estão a serviço das cláusulas pétreas. até porque melhor nos habilita a afastar o temor da banalização. 5. ou prestigia as emendas e assim fragiliza a integridade das cláusulas pétreas. em verdade. 5. aquela parte da Constituição que nem mesmo admite a exceção do poder de reforma. de reforma constitucional. notadamente as emendas. a própria alma da Constituição. sim. 5. Por isso que tais preceitos jazem à disposição do Poder Reformador. A alternativa é radical: ou o hermeneuta prestigia as cláusulas pétreas e assim reduz a possibilidade de produção das emendas. porém. mas. Por semelhante prisma analítico. passaria a ser encarado como cláusula pétrea). externamos o nosso pensar de que as emendas constitucionais. Natural. Elas é que devem gozar do benefício da dúvida interpretativa. então. da circunferência democrática. com mais razão. da própria circunferência de cada cláusula pétrea. longe de constituir uma exceção ao poder de reforma constitucional. Um tipo mais severo ou menos extensivo de exegese.8. que os riscos de atentado à Magna Lei sejam maiores.8.8. constituem uma exceção àquela nota de estabilidade que é indissociável de toda Constituição rígida. que fica muito mais vulnerável a agressões por via de emendas. Por isso mesmo é que a Lei Maior brasileira não diz o que as emendas podem fazer. são. pois redunda no mais intolerável tipo de banalização: a banalização da própria Lei Fundamental do País. por maior proximidade com o protovalor da Democracia. A primeira opção é a que temos por acertada. a exigir quanto a elas (emendas e revisões) um tipo mais severo ou menos extensivo de exegese. ou quase tudo. Sempre numa linha de inovação material que deve preservar (por isso que elas não implicam o exercício do Poder Reformador) a inteireza dos comandos todos da Constituição e até de suas eventuais reformas.12 5. outra coisa. desde que o resultado desse labor reformista seja o fotalecimento ou a rebustez da parte axiológica situada no centro da circunferência em causa (conforme anteriormente explicado). é de se afastar o receio de que o prestígio exegético das cláusulas pétreas .10. Ainda sem nenhum constrangimento acadêmico. mas sem a força de elementarizá-las. desde que estas não portem consigo a mácula da inconstitucionalidade formal.reverente. são .nos casos de dúvida fundada. que têm a ver com elas. de par com as normas constitucionais que dão o conteúdo mínimo de cada qual dessas cláusulas de intangibilidade. então. sim. pois não é racional que se postule a exegese restritiva das matérias que mais confirmam o caráter estabilizador da Magna Carta e ainda por cima revelam. Não temos o menor acanhamento intelectual em afirmar que os atos de reforma da Magna Carta. as cláusulas pétreas. porém. que é a Constituição Positiva.11.9. o que não podem.12. Cogitando-se. sempre que houver dúvida fundada quanto à possibilidade de mácula à Constituição.8. A este respeito. mas o próprio fundamento de validade desse Direito. os respectivos atos já nascem com o explícito compromisso de inovar.

em verdade.17.16. da prótese e da obturação dentárias. Ainda assim.para não dizer uma reprimenda . Nunca desejáveis. Enfim. em razão da natureza dirigente que lhe é conatural. 5. Alguma coisa na Lei Maior pecou por excesso. as linhas que separam o Poder Constituinte do Poder Reformador são muito menos nítidas do que as linhas demarcadoras da atuação do mesmo Poder Constituinte e do Poder Legislativo comum. . tal como posta. ou por inadequação.8. já não cumpre a contento o seu histórico papel. supomos) as leis complementares e as de caráter ordinário. tudo se traduz numa reconsideração de rumos da Magna Lei. 5.13. O recurso a elas é sempre uma ultima ratio. aditivo e modificativo). a postura da eficácia máxima da Constituição como principal diretriz hermenêutica opera pelo estreitamento (quando não pelo total fechamento) de espaços ao labor reformista do impropriamente chamado "Poder Constituinte Derivado". Assim é com as emendas.8. e com facilidade perceberemos que as emendas seguem a lógica da extração. Uma comparação prosaica parece-nos vir a calhar. por significar um atestado formal de que a Constituição.normas gerais tão-somente suportáveis. Tudo isto evidencia que o perigo de atentado à Constituição é sempre iminente. não tem por que abdicar da sua fundamentalidade ao mesmo tempo jurídica e social genérica. conforme sejam emendas supressivas. mesmo que se reconheça o caráter fortemente economista e técnico-político das sociedades pós-modernas. a Constituição permanece como centro de apoio de uma abstrata alavanca de Arquimedes para a mais objetivamente justa transformação de toda sociedade humano-estatal.14. O que significa ajuizar que ela. respectivamente. pela indescartável consideração de que. a sempre temida intervenção odontológica? 5. Todas elas a significar um corretivo . por insuficiência de comando (males que se debelam. quer pela ocorrência de lacuna regratória. Pois bem.8. Pensemos em nossas periódicas visitas ao dentista. quem não se questiona sobre o risco ou o perigo de estar a mexer naquilo que. mas por avaliar que seu quadro clínico já não pode prosseguir sob cuidados próprios.no modo pelo qual a Constituição cuidou dos próprios dentes. pelas emendas do tipo supressivo.15. seja qual for a modalidade de emenda. Tudo a justificar. as possibilidades de invasão pelo Poder Reformador são bem maiores. Já não é passível de atualização pela via da interpretação doutrinária e jurisprudencial. portanto. 5. emendas aditivas e emendas modificativas. neste sítio do mais delicado trato hermenêutico. enfim.8. ou por omissão. quer. E porque são linhas muito menos nítidas ou muito mais tênues. como desejáveis são (irrespondivelmente. É dizer: muito mais que um simples esquema de procedimentos e organizações. na prática. respectivamente. e o papel das emendas é sempre de um corretivo. já estava bem cuidado? A dispensar. nenhum ser humano vai ao dentista por prazer. então.8. ou por qualquer outra forma do que se tem chamando de "mutações constitucionais". desde a infância. Constituição Positiva. esse colocar a Constituição no centro do Ordenamento Jurídico é também um colocar essa mesma Constituição no centro do sistema social como um todo. Mais tecnicamente falando. 5. quer pelo fato de sua excessividade normativa. Aqui. a rédea curta que estamos a reclamar como postura técnico-interpretativa das normas constitucionais originárias que se disponibilizam para a edição de emendas à Constituição.

Este. O advento do Constitucionalismo fraternal 6.2. nessa condição. Não é de se estranhar. o Direito não é um regalo dos deuses.1. Vale dizer.c. o Direito tem uma história pra contar. Como todo objeto cultural. inaugural do que depois veio a se chamar de Estado de Direito. protetiva e simultaneamente promocional do ser humano perante o Estado e o Governo (direitos "civis" e direitos políticos). A outra. A processualidade heraclitiana da Constituição 6. o Estado de Direito Democrático (eminentemente social) e agora o Estado de Justiça ou Estado holístico (assim nos permitimos cunhar. por seu turno. com as Constituições e com tudo o mais que existe de natural e de social. o Estado Democrático de Direito (liberal por excelência). Só o impermanente é que é permanente.1 6.4. Uma.Capítulo VI . se pretende portadora de unidade material.1. só a mudança é que não muda. Uma história que apresenta a sua linha de evolução e por isso é que.5.1. com a Magna Charta Libertatum de 1215. Um pequeno conjunto .A Constituição Fraternal Sumário 6. O ser das coisas é o movimento. 6. operando de modo a favorecer uma mais justa integração de todos os homens no conjunto da sociedade (direitos sociais genéricos). naquela acepção heraclitiana de que "nenhum homem entra duas vezes nas águas de um mesmo rio". Esta derradeira parte do nosso estudo não é um catálogo de conclusões extraídas dos capítulos anteriores.que esperamos venha a funcionar como aquele necessário ponto de arremate de uma obra que.1. e a Teoria Dialética do tipo hegeliano veio a afirmar que esse movimento decorre de uma força motriz ou energia que é liberada pelo tensionamento entre os pares de opostos (dicotomias) de que é formada a existência. segundo HERÁCLITO (540/480 a. na seara mesma do Constitucionalismo. Feita a ponderação.1. De processualidade. face à crescente densificação dos princípios constitucionais e da própria constitucionalização de temas antes reservados à legislação comum ou de segundo escalão). pois. um objeto cultural. naquela parte em que o jurisconsulto brasileiro e sergipano ajuizou: "O Direito não é um filho do céu". os dois primeiros e mais importantes momentos foram a Constituição liberal e a social. por sinal .).3.1. embrionariamente. Assim é com o Direito.2.1. 6. A imutável substância da Constituição 6. O método dialético de interpretação constitucional 6.1.4. Tudo começando. dizia o expoente da escola jônica.o menor deles. É um produto da experiência humana e. começamos por retomar o pensamento de TOBIAS BARRETO. 6. O contraponto parmenidiano de antiprocessualidade 6. O que se pretende dizer com a lembrança dessas coisas é que o Direito faz parte da vida e a vida tem um reconhecido caráter de dinamicidade. embora intelectualmente modesta. por conseguinte.6. a figurar como o primeiro elo dessa corrente de que vieram a fazer parte. de parelha com a valorização dos assalariados diante do patronato (direitos econômicos ou trabalhistas). que toda a história do Direito Constitucional seja permeada de fases.6.5.1.3. Que é um . A perene atualidade da faina interpretativa da Constituição 6. A processualidade heraclitiana da Constituição 6. sucessivamente. É um pequeno conjunto de idéias que não pudemos encaixar em nenhum desses capítulos precedentes. 6.

6. do explícito e do implícito. E somente depois que cessa ou que se malogra a tentativa de se colocar a Magna Lei em dia com os acontecimentos e o repensar das coisas. 6. A perene atualidade da faina interpretativa da Constituição 6. E dessa dicotomia ou dualidade básica é que se desprende a energia que põe cada princípio em estado de mutabilidade.8. ele se traduz numa jornada que. pela necessária identidade entre ela e os seus princípios fundamentais.3. segundo vimos no capítulo de n° V. É que. dialeticamente. Para o alto. à mutabilidade informal de toda a Constituição. porque em espiral axiológica. Persevere no seu poder de facilitada adaptação à dinamicidade da vida. de palavras.4. À processualidade endógena do seu discurso jurídico-positivo. cada vez mais se compõe. pela via da interpretação (renove-se a idéia). perenemente atual. Mas não é só. somente depois dessa empreitada é que se deve cogitar da mutação formal dos seus dispositivos (dela. Esse processo endógeno que é da natureza da Constituição não se traduz. de roldão. A interpretação faz parte do circuito da existência e tende a ser. em cuja esfera semântica de compreensão interage.2. Levando.. significando um seguir adiante ou um andar para a frente. 6. linhas atrás. É mais uma forte razão para que a Constituição principiológica (e chega a ser redundante falar de Constituição principiológica) se atualize por si mesma. por conseqüência.2. 6. Acontece que. É por aqui mesmo que se dá o engate lógico entre a natureza processual da Constituição e a ontologia dos princípios de que ela. interpretação). boa-fé. reputação ilibada. assim como o dispositivo jurídico é contemporâneo de quem o redigiu. o entendimento desse dispositivo é contemporâneo de quem o interpreta. da Inviolabilidade da Vida Privada. Idêntico ao processo da vida. 6.2.2. É impulso como que mecânico do intérprete desvendar os signos linguísticos a partir do significado que as palavras ostentem no instante mesmo da respectiva interpretação. da Valorização do Trabalho. há uma permanente fricção no próprio interior ou na própria circunferência de cada princípio constitucional.7. também dissemos o seguinte: o movimento da . Ora.3. portanto. e mais especificamente em tema de princípios constitucionais (pense-se nos princípios do Desenvolvimento. porque o Direito é feito para a vida e a vida é sempre atual. obviamente. lealdade. Uma viagem qualificada. Constituição). em toda parte. a dualidade centro/periferia.. Se se prefere. e que exige essa operação mental-consciencial a que chamamos interpretação (conforme discorremos no capítulo de n° V). da Eficiência Administrativa. Mormente em tema de princípios. da Moralidade e seus conteúdos de decoro. Os princípios constitucionais materiais se vazam numa estrutura de linguagem que é formada. Assim é que as coisas se passam. em tema de interpretação jurídica do Direito legislado. termina sendo um andar para cima. 6.1. Palavras que se enlaçam na trama de um discurso entremeante do verbal e do não-verbal. da Justiça. formada por um centro e uma periferia (como toda circunferência). O contraponto parmenidiano de antiprocessualidade 6.3.2.1.) e logo vai-se perceber que a interpretação jurídica é fortemente marcada pelo sentido que as palavras tenham no próprio momento do seu fazimento (dela.1.Estado de funcionalidade fraternal.1. 6. numa experiência de uma só vez.2. da Cidadania.

4. Chamando o feito à ordem. sim.4. sim. 6. na função constitucional originária de montar o aparelho de Estado. Teríamos. esse indescartável substrato só poderia residir em dois aspectos: a) primeiro.4. e não muda. Dialeticamente. segundo aquele movimento pendular de mutabilidade na periferia e de imutabilidade no centro da esfera semântica de cada qual deles. quer pela materialidade organizacional de suas normas à face do Estado e do Governo. já não com HERÁCLITO. E argumentativamente concluiríamos que toda Constituição Positiva é tanto heraclitiana quanto parmenidiana (à falta de melhor palavra). dizia ele.2. que falava do universo como algo eterno. pois a virtude está sempre no meio (medius in virtus). essa dimensão emblematicamente estável da Constituição tem a ver. e ao mesmo tempo não muda. Conota a idéia primaz de estabilidade. . com os respectivos órgãos de governo. do poder econômico e do poder social como um todo (visto que o todo social desiguala materialmente e discrimina moralmente as pessoas e ainda sistematicamente conspurca o equilíbrio ambiental e a sadia ordenação dos espaços urbanos). contínuo e imóvel.3.Constituição é pendular. como professavam os próprios helenos. uma Constituição universalmente idêntica a si própria. b) segundo. 6. Dialeticamente. Uma ineliminável substância. a Constituição muda por si mesma. 6. Pois bem. Não uma coisa ou outra. E tínhamos que ajuizar assim.4. E porque pensava assim. sob o influxo das peculiaridades sócio-culturais de cada povo e de cada época. Daí por que falamos que o ritmo de mutação formal da Constituição deve ser mais lento do que o reclamado pelo restante do Ordenamento. Esses demais aspectos ocorreriam no âmago de cada princípio constitucional originário. tanto quanto se mantém estável com a imutabilidade da parte nuclear. mas com PARMÊNIDES. evolui com o movimento da parte periférica da circunferência de cada qual dos seus princípios. O oposto da Constituição. Pois o restante do Ordenamento é muito mais caracterizado pelo seu conjunto de regras do que pelo seu conjunto de princípios. Mas uma coisa e outra ao mesmo tempo. Mas com os demais aspectos permeáveis à incessante mudança das coisas.c. Não em estado de permanente mutação. E não falamos ser o Direito Constitucional o mais político dos ramos jurídicos? E a Constituição o mais anatômico dos diplomas de Direito legislado? 6. A imutável substância da Constituição 6. A partir desse contraponto parmenidiano. Tudo permanece idêntico a si mesmo. o sentido histórico-filosófico de servir a Constituição como o único mecanismo jurídico de eficaz contenção aos excessos do poder político e. porque. uno. assim. teríamos que buscar na Constituição como um todo (mais do que em cada princípio constitucional em particular) um substrato infenso à mudança.4.). afinal. Coloca-se no ponto de conciliação ou de unidade orgânica entre as duas teorias. 6.3. pois a substância dos seres não muda.3.4. seqüenciadamente. proclamou que "nada de novo existe sob o sol". quer pelo fato de ser o fundamento de validade de todo o Ordenamento. Pois bem. 6.2.3.3. naquele sentido ambivalente de compromisso tanto com a mutabilidade quanto com a imutabilidade. Este filósofo e poeta igualmente grego (540/450 a.1. 6. A Constituição muda por si mesma.4. a Constituição é emblematicamente estável. Devido a que o ritmo de mutabilidade informal (ou endógeno) do restante do Ordenamento é menor do que o ritmo que é próprio da Constituição.

5.6. os negros. ele se torna um personagem completamente autômato no referido circuito. é certo. Efetivamente. o .5. Se. da mera proibição de preconceitos). Desde que entendamos por Constitucionalismo Fraternal esta fase em que as Constituições incorporam às franquias liberais e sociais de cada povo soberano a dimensão da Fraternidade.6. nos dias presentes. Implica uma descoberta e uma construção. tudo ao mesmo tempo. fechando todos os espaços de manifestação mental/consciencial do seu próprio ser individual e ao mesmo tempo social. O advento do Constitucionalismo Fraternal 6. Se o intérprete faz do seu exclusivo pensar a vontade objetiva da norma. é o que também sucede com o próprio labor interpretativo de cada dispositivo jurídico. se considerarmos a evolução histórica do Constitucionalismo. podemos facilmente ajuizar que ele foi liberal. Chegando. proclamando que a interpretação deve ser rigorosamente objetiva. O método dialético de interpretação constitucional 6. afirmando que a vontade ou o querer subjetivo do intérprete (condicionamentos psíquicos e sócio-culturais) é ineliminável do processo interpretativo. Personagem completamente autônomo no circuito da produção/aplicação do Direito. Há duas correntes jurídicas em permanente oposição quanto ao papel do intérprete do Direito. como. 6.6.5. Uma. isto é. nem exclusiva subjetividade de um exegeta que se impõe ao querer legislado. E é tanto mais recomendável quanto se esteja diante de um princípio. Essa dialeticidade que termina sendo uma fuga dos extremos ou a conciliação possível entre eles.2. ao revés.4. mas assim mesmo é que se processa o mistério da existência terrena. portanto. que são atividades assecuratórias da abertura de oportunidades para os segmentos sociais historicamente desfavorecidos. 6.5. mas um a posteriori. a lógica usual de cada princípio é a da ponderação ou do sopesamento das circunstâncias presidentes de sua concreta aplicabilidade.2.3. A norma a desentranhar dos signos linguísticos (dispositivos) é tanto um a priori quanto um a posteriori. Esteja ele. Do que resulta ser a norma jurídica o resultado da sua interpretação. bem ao contrário. que é a lógica do concretamente possível.5. Agora já podemos enfrentar o tema da progressiva formação do Estado Fraternal. Nem exclusiva objetividade de um querer legislado que se impõe ao exegeta.1. 6. A lógica "do mais ou menos" ou do "vamos ver". Outra.5. 6. à etapa fraternal da sua existência. mas também sem eliminar as respectivas conquistas (como é próprio de toda superação ou transcendência). ou não esteja.6. inicialmente. mas sem o negar. por exemplo. portanto. os deficientes físicos e as mulheres (para além. a dimensão das ações estatais afirmativas. ele se anula totalmente perante o dispositivo interpretado. transmuta-se em legislador. e depois social. A solução parece estar no meio. 6.5. mas a vontade objetiva da norma (engastada em um determinado dispositivo). sabido que essa categoria de norma jurídica traduz-se em relato que é muito mais um mandado de otimização do que um mandado de definição (ALEXY).1. 6. Não um a priori. Tanto quanto o Estado Social veio para superar o Estado Liberal. Essa metodologia da conciliação implica a busca de um equilíbrio sempre instável. Explicamo-nos. Se a lógica usual de cada regra jurídica "é a do tudo ou nada". pois o que interessa não é o querer subjetivo do intérprete. Que veio para transcender o Estado Social. De par com isso. na Constituição originária.

6. condescendência. o milagre da vida. Seletivamente onifinalista. pois uma das maiores violências que se pode cometer contra os seres humanos é negar suas individualizadas preferências estéticas. as coisas se processaram numa seqüência lógica.6. de que não se chega à unidade sem antes passar pelas dualidades. do Meio Ambiente ecologicamente equilibrado. pois o fato é que ninguém é cópia fiel de ninguém.6.8. entendido o holismo como decidida opção existencial pela integração ou abrangência gradativa de tudo. Com a plena compreensão. todavia. 6. Se já não era possível um estado genérico de liberdade sem uma aproximativa igualdade entre os homens.2 6. Auto-sustentadamente ou sem temerária dependência externa. então que esse pluralismo do mais largo espectro seja plenamente aceito. tanto quanto o Amor é o ponto mais alto da evolução espiritual.6. É por aqui mesmo que se dá a penetração do holismo no Direito. a Fraternidade é o ponto de unidade a que se chega pela conciliação possível entre os extremos da Liberdade. E tinha de ser pelas portas mais largas da Constituição. O que já significa uma .constitucionalismo fraternal alcança a dimensão da luta pela afirmação do valor do Desenvolvimento. Uma dignificação de todos perante a vida. da Igualdade. que ele seja cabalmente experimentado e proclamado como valor absoluto. o que se tem no plano da boa vontade dos mais favorecidos para com os menos favorecidos sócio-culturalmente não passa de caridade. Deveras. isto é.6.e somente ela . não têm como escapar da mesma sorte ou destino histórico. 6. a resvalar freqüentemente para o campo da humilhação dos hipossuficientes). também nos domínios do Direito e da Política. etc. pela consciência de que.3. uma comunhão de vida. culinárias. 6. 6. sem igualdade aproximativa. de um lado. mais do que diante do Direito. Mais até que plenamente aceito. simplesmente. de outro. E nisso é que se exprime o núcleo de uma sociedade fraterna. A comprovação de que. Este o fascínio. partidárias. e. Tudo na perspectiva de se fazer da interação humana uma verdadeira comunidade. a virtude está sempre no meio (medius in virtus). da Democracia e até de certos aspectos do urbanismo como direitos fundamentais.7. Assim como não se pode recusar a ninguém o direito de experimentar o Desenvolvimento enquanto situação de compatibilidade entre a riqueza do País e a riqueza do povo. Aonde queremos chegar? Na compreensão de que a ideologia da igualdade social é a mais estratégica das ideologias. etc.4. compaixão.9. Não por coincidência. pela simples razão de que não pode haver fraternidade senão entre os iguais. por ser a igualdade social a necessária ponte entre a Liberdade e a Fraternidade. Sendo esta o ponto ômega ou o pináculo da evolução político-jurídica. Se a vida em sociedade é uma vida plural.6. geográficas.6. favor. Tanto quanto esse mesmo tipo de igualdade social é a condição material objetiva para o desfrute de uma fraternidade como característica central de qualquer povo (uma vez que. o mistério.potencialmente onitemática.5.6. sexuais. 6. ideológicas. visto ser ela . a compassiva ou aproximativa igualdade social é a condição material objetiva para o desfrute de uma liberdade real. No plano do Direito Constitucional. E não só nos escaninhos do Estado e do Governo.6. profissionais. o que se tem já é a democratização no interior da sociedade mesma. também não era possível o alcance de uma vida coletiva em bases fraternais sem o gozo daquela mesma situação de igualdade social (ao menos aproximativamente). Nesse novo e otimizado patamar da fraternidade como característica do Constitucionalismo contemporâneo. religiosas. estando todos em um mesmo barco..

o econômico. metamorfosear-se em normas de Direito Interno desse ou daquele Estado soberano. o familiar. o financeiro.confirmação do seu papel dirigente e da sua inamovível posição de centralidade. e só então. pois as próprias fontes do Direito Internacional têm de receber as boas-vindas da Constituição para. "para os crentes.). para os cientistas. Constituição. Ela. consoante a máxima oracular do físico alemão Max Planck (1858/1947). o técnico. louvado seja Deus! Esse Deus que. está no fim de toda reflexão". enquanto que. a permanecer como a fundamentalidade de todo o sistema jurídico interno e até mesmo do sistema social genérico (o militar. A fundamentalidade das fundamentalidades. etc. . está no princípio de todas as coisas. Enfim.

Revista da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. . BONAVIDES. 1986.. Georges. BARROSO. Gomes. 1997. Luis Roberto. Constituição da República Portuguesa Anotada.. 1998. Malheiros. Gomes. _______. em Direito Administrativo e Constitucional. _______. CANOTILHO. Dalloz. Saraiva. O Futuro da Democracia. 1998. Normas Gerais de Licitação e Contratos Administrativos. BOBBIO. 1997. _______. Editora Pirámide. CANOTILHO. Almedina. "Ensaio sobre o Juízo de Constitucionalidade de Políticas Públicas". Forense. 1977. Clémerson Merlin. "O Controle Judicial da Constitucionalidade das Leis e Atos Normativos Municipais". Libr. 1968. 1996. Paz e Terra. 1985. A. leis federais e seu regime jurídico". Carmen Lúcia. Fundacion BBV e Editorial Civitas S. "As Modernas Formas De Interpretação Constitucional". Celso Ribeiro. ANTUNES ROCHA. BÉNOIT. Lei Complementar. Droit Constitutionnel et Institutions Politiques. 1981. Princípios Fundamentais do Direito Administrativo. Madri. 1996. De Senectude (O Tempo da Memória). Instituições de direito constitucional. _______. Alice Gonzales. Direito Constitucional. Saraiva. Fábio Konder. Curso de Direito Constitucional. BRITTO. Le Droit Administratif Français. Wilson. Saraiva. CAETANO. Giuffrè. Interpretação e Aplicabilidade das Normas Constitucionais. Marcelo. 1991. Revista da Procuradoria-Geral do Município de Porto Alegre. Malheiros. Interpretação e Aplicação da Constituição. 1997. 343/359. Lei Complementar Tributária. Teoria dell'Ordinamento Giuridico. set. 1978. BRITTO. BURDEAU. BORGES. Coimbra Editora. Mauro. Curso de direito constitucional. Milano. 1992. 1982. Paulo. J.Bibliografia ACCIOLI. Paulo de Barros. CARVALHO. 1995. Curso de Direito Tributário. Curso de Direito Tributário. Geraldo. _______. São Paulo. Almedina. Vital.Leis nacionais. 1995.Teoria da Constituição. Roque Antônio. pp. Giappichelli. 1966. Saraiva. Torino. Générale de Droit et de Jurisprudence. Direito Constituiconal. Editora Revista dos Tribunais. 1977. 1997. J. Campus. Giappichelli. _______. Madri. Teoria della norma giuridica. ATALIBA. Blanco. 1999. J. BASTOS. Editora Revista dos Tribunais. CANOTILHO. COMPARATO. Gomes e MOREIRA. O Perfil Constitucional da Licitação. J. ZNT Editora. _______. Estudos de Direito Tributário. Revista Forense. José Souto Maior. Carlos Ayres. "Normas Gerais na Constituição . _______. Francis-Paul. 1975. Celso Ribeiro. Forense. 5ª edição. 1978. J. 1993. El Derecho Publico de Finales de Siglo. 6ª edição. Teoria del Poder. 1997. Celso Bastos Editor. J. "O Poder Judiciário e o Parágrafo Único do Art. BORGES. CLÈVE. _______. 1978. 2ª edição. Direito Constitucional . Paris. "Constituição e Mudança Constitucional". 1960. Torino. _______. A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos. ANDE. Saraiva. 16ª edição. 1958. Il controllo giudiziario de costituzionalità de principio. Saraiva. Noberto. Carlos Ayres e BASTOS. CARRAZZA. Hermenêutica e Interpretação Constitucional. CAPPELLETTI. Saraiva. 1991. J. Revista dos Tribunais. 1° da Constituição do Brasil". 6ª edição. 10:365.

1964. DALLARI. Vezio. Teoria pura do direito. Editora Celso Bastos. 1998. A Interpretação Sistemática do Direito. São Paulo. 2ª ed. Editora Revista dos Tribunais. 1988. Teoria da norma jurídica. A Força Normativa da Constituição. FRANCHINI. São Paulo. 1961. Buenos Aires. 1952. Agustin A. O Controle da Moralidade na Constituição. CRISAFULLI. MACHADO. FERREIRA FILHO. Manoel Gonçalves. 1997. Montchrétien. São Paulo. Efficacia delle norme costituzionali. HAURIOU. 1995. Tércio Sampaio. 2ª edição. Rio de Janeiro: Lumen Júris. GORDILLO. GABARDO. Karl. 1997. Forense. Konrad.. 2ª edição. Buenos Aires. Los Jueces. 1975. Alejandro E. Arménio Amado Ed. São Paulo. Hermann. Paulo Braga. Norma Constitucional e Seus Efeitos. Droit constitutionel et institutions politiques. Direito Adquirido. Boitempo Editorial. Dialética. Teoria de la Constitución. LOEWENSTEIN. Malheiros. Emendas Constitucionais e Controle da Constitucionalidade. Editora Saraiva. e Normas Jurídicas. 2002. FERRAZ JÚNIOR. Abeledo-Perrot. Record. 1992. 1976. Ariel. HESSE. Josaphat. Coimbra. GRAU. Elementos de Teoria Geral do Estado. 1952. El concepto de derecho. _______. GALVÃO. FIGUEIREDO. 1999. Estudos Constitucionais. MARINHO. Editora Revista dos Tribunais. 1976. 1998. coletânea Perspectivas do Direito Público. 1991. DINIZ. 1977. _______. FERRAZ. 1978. maio/jun. Edicione Ciudad. Trad. Os Direitos Sociais nas Constituições. HESSE. 1991. 9ª edição. Editora Alas. Saraiva. Sergio. Carrió. 16a edição. Leandro. Emerson. Princípio Constitucional da Eficiência Administrativa. Marcelo. Barcelona. 1970. Depalma. Para Ler e Pensar. Milano. 1950. Princípios Gerais de Direito Público. La Constituzione e le sue Disposizioni de Principio. Direito. Dalmo de Abreu. 1996. Ivo. 2ª edição. Teoria General del Estado. DANTAS. Carlos Augusto Alcântara. Herbert L. Istituzioni di Diritto Pubblico. FIGUEIREDO. HART. O Mandado de Injunção. 1995. A. Eros Roberto. Hans. 1995. 1966.. Flamínio. KELSEN. São Paulo. "Controle Jurisdicional do Mérito do Ato Administrativo. Giuffrè. 1981. Sérgio Antonio Fabris Editor. O Direito Posto e o Direito Pressuposto. RT. Malheiros. 1988. Editora Del Rey. Ed. Edição da Universidade Federal da Bahia. Lúcia Valle. Do Processo Legislativo. LAVAGNA. UTET. GHIGLIANI. Conceitos. Torino. Juarez. Del control jurisdiccional de constitucionalidad. Um Galileu no Século XX. Genaro R. . KONDER. DROMI. Carlo. _______. 1959. Malheiros . LTr. Curso de Direito Administrativo. 2000. Archivo Penale. Saraiva. FREITAS. Roberto. México. Maria Helena. Malheiros. Conceito de Sistema no Direito. André.conferência publicada na coletânea 10 Anos de Constituição".

2002. Revista dos Tribunais. Carlos Ayres. Revista dos Tribunais. BESSE. 1965. México-Buenos Aires. 1954. Freitas Bastos. O Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade. Ed. 1978.MAXIMILIANO. Carl. 1997. vol. 1995. Limitada. Paolo Biscaretti di. Carlos. Editora UNB. Ediouro. 1997. Giuffrè. A Teoria das Constituições Rígidas. Aplicabilidade das Normas Constitucionais. Violência (Elementos de uma Teoria Constitucional). Editora Acadêmica. 1986. Ato administrativo e direito dos administrados. MELLO. Nacional. _______. 1970. El control de Constitucionalidad. O Poder de Reforma Constitucional. MORTATI. 1967. 1996. estudo publicado no bojo da coletânea Direito Administrativo e Constitucional. G. Revista dos Tribunais. 1955. Bahia. Revista dos Tribunais. 1951. _______. Revista Da Procuradoria Geral Do Município De Fortaleza (CE). Competência Concorrente Limitada . SIEYÈS. MONTESQUIEU. Santi. Sergio Antonio Fabris Editor. MIRANDA. Tomos I. Hermenêutica e Aplicação do Direito. POLITZER. Georges. Bushatsky. POPPER. Milano. Istituzioni di Diritto Pubblico. 1996. 5ª edição. Luis Carlos. 1956. SICHES. Editora Del Rey. Nacional. "Medidas Provisórias . Max Limonad. 1997. 1995. Friedrich. NERY. Linguagem. MÜLLER. Manual de Direito Constitucional. Diogo de Figueiredo Moreira. CEDAM. Editora Del Rey. Hermus Editora Ltda. 1970. Ed. SAMPAIO. "Direito Adquirido Contra as Emendas Constitucionais". Celso Antônio Bandeira de. RIL. Malheiros Editores. _______. Teoria do Estado e da Constituição. Revista de Londres. Regina. NEVES. Carlos Roberto. Direito. PALLIERI. Forense. _______. Napoli. 2ª edição. _______. A Fiscalização Abstrata de Constitucionalidade no Direito Brasileiro. Teoría de la Constitución. Coimbra Editora. Princípios Fundamentais de Filosofia. SÁCHICA. Quem é o Povo? A Questão Fundamental da Democracia. Diritto Costituzionale. 14a edição. PONTES FILHO. A Constituição Simbólica. 1981. 1995. II e III. Maurice. Guy e CAVEING. SCHMITT.Estados e Municípios". Karl. Emmanuel Joseph de. 1993. Editora Revista dos Tribunais. MELLO. José Afonso da. O Espírito das Leis. . 1994. Balladore. Malheiros. Clèmerson. 1968. O Processo Legislativo. Da Medida Provisória. Bogotá. 1980. Malheiros. Diritto constituzionale. 1985. Nelson de Souza. II.O Problema da Conceituação das Normas Gerais. Curso de Direito Administrativo. Eugenio Jovene. Jorge. The Society and Its Enemies. Luis Recasens. Fondo de Cultura Económica. Valmir e BRITTO. Progresso. Líber Juris. O Contrato Social. RUFFIA. ROUSSEAU. 1994. SILVA. A Constituinte Burguesa. Marcello. 1995. Princípios de Direito Constitucional Geral. 1a edição. RAMOS. 1998. MERLIN CLÈVE. Nuevas Filosofia de la Interpretación del Derecho. _______. Padova. Curso de Direito Constitucional Positivo. Oswaldo Aranha Bandeira de. México. Charles-Louis de Secondat. Jean-Jacques. Constantino. NETO. 2ª edição. ROMANO. 2002.

"La Constitucion como Norma y como Ley". São Paulo. Manuel Élémentaire de Droit Constitutionnel. Paris. VILANOVA. A Constituição. As Estruturas Lógicas e o Sistema do Direito Positivo. Revista da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. _______. A Criação do Direito. . a Assembléia Constituinte e o Congresso Nacional. 1986. Revista de Informação Legislativa. VIRGA. 16:289. Jorge. Teoria constitucional. TEMER./dez. Lourival. 1975. Elementos de Direito Constitucional.. Buenos Aires. Controle Jurisdicional da Constitucionalidade. Michel. 8ª edição. Revista dos Tribunais. out.SPINOZA. 1991. 1949.Milano. Georges. Giuffrè editore . Editora Cejup. VELOSO. 1953. VANOSSI. Saraiva. TELLES JÚNIOR. Pietro. Jorge Reinaldo. 1977. "Considerações sobre o Estado Federal". Goffredo. Malheiros. 1994. Depalma. Tratado Político. _______. 4ª edizione. 1983. 1999. Ícone Editora. VEDEL. Zeno. Sirey. XIFRA-HERAS. Diritto Amministrativo.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->