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O Homem Que Plantava Arvores - Jean Giono

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O HOMEM QUE PLANTAVA ÁRVORES Jean Giono

Em 1913 fiz uma longa caminhada através de serras desconhecidas dos turistas, naquela antiga região onde os Alpes caem em direção à Provença, no sul da França. Naquela época, tudo ali era terra estéril e incolor. Nenhuma vegetação, além da lavanda silvestre. Eu atravessei a região em sua parte mais ampla e, após caminhar três dias, encontrei-me em meio à mais completa desolação. Acampei perto dos vestígios de uma aldeia abandonada. A água que levava acabara na véspera, e precisava encontrar alguma. Aquelas casas agrupadas, apesar de serem apenas ruínas, semelhantes a um velho ninho de marimbondos, sugeriam que deveria haver ali uma fonte, ou um chafariz. Havia, de fato, uma fonte, mas estava seca. As cinco ou seis casas, destelhadas, roídas pelo vento e pela chuva, a pequena capela com sua torre desmoronada, se situavam como casas e capelas de uma aldeia abandonada. Tive que mudar o acampamento. Após cinco horas de marcha, ainda não encontrara água nem sinal algum que me fizesse esperar encontrá-la. Ao meu redor tudo era seco; por todo lado, o mesmo capim grosseiro. Pareceu-me ver ao longe uma pequena silhueta escura, ereta; tomei-a por um tronco de árvore isolada. De qualquer maneira, dirigi-me em sua direção. Era um pastor. Trinta ovelhas estavam deitadas ao seu redor, sobre a terra quente e seca. Ofereceu-me um gole de seu cantil e, mais tarde, levou-me ao seu abrigo. Ele tirava sua água - excelente água - de um poço natural muito profundo, por cima do qual havia construído uma primitiva manivela. O homem falava pouco. É o hábito dos que vivem sós. Sentiase que estava seguro de si, e confiante em sua segurança, o que era surpreendente naquela terra estéril. Ele não vivia num barraco, mas em uma verdadeira casa de pedras, que revelava claramente os esforços que empenhara em recuperar a ruína que

vendo o cuidado que ele dedicava ao que fazia. uma por uma. Nossa conversa limitou-se a isso. Uma ambição irracional atingia proporções desordenadas sob o constante desejo de fuga. ou melhor. então. E sobre tudo isso soprava o vento. As famílias. servil. vivendo num clima excessivamente rude. Eu fumava meu cachimbo. perguntei-lhe se poderia descansar ali mais um dia. a ponto de serem quase invisíveis os remendos. parou sua tarefa e fomos dormir. eu estava perfeitamente familiarizado com o tipo das raras aldeias daquela região. Tendo selecionado. cem sementes perfeitas. a desgastar os nervos. Reinava a paz ao redor desse homem. separando as boas das más. a aldeia mais próxima ficava a mais de um dia e meio de viagem. As mulheres cultivavam seus desgostos. não conseguiam escapar de constantes brigas entre si. realmente. que sua roupa tinha os botões bem presos e que estava remendada meticulosamente. Os homens levavam à cidade suas cargas de carvão e regressavam. O lugar estava arrumado. Ocorriam epidemias de suicídio. não insisti. assim. Começou a examiná-las. Ofereci-lhe minha ajuda. tanto no inverno quanto no verão. Após ter separado um monte de sementes aprovadas. E. silencioso como o dono. Seu cão. sobre o preço do carvão. era amistoso sem ser. Aliás. muito concentrado. etc. e eram freqüentes os casos de insanidade mental. Desde logo ficou subentendido que eu pousaria ali naquela noite. que ele estava de barba feita. Ele disse que era tarefa sua. Percebi. deu-me a impressão de que nada . eliminando ainda algumas pequenas ou ligeiramente machucadas. O pastor foi buscar um pequeno saco e derramou sobre a mesa um punhado se sementes de carvalho. a louça lavada. pois agora as examinava mais de perto. Reinava rivalidade a qualquer propósito. a sopa fervia no caldeirão da lareira. Repartiu comigo sua sopa. incessante. geralmente levando a homicídios. somente quatro ou cinco. No dia seguinte. sobre o banco reservado na igreja. o chão varrido. aglomeradas. ele as dividiu em montinhos de dez. no entanto.ali havia encontrado. Ele achou o pedido natural.

Mas o próprio fato de . mas estava enganado. Destas. acompanhado de seu cão e de suas ovelhas. Retirara-se então para essa solidão. Havia três anos que ele estava plantando árvores naquele deserto. E. Perdera o filho único e. apesar de jovem. Ele respondeu que não. caminhando por uma trilha paralela à dele. Das 20. ele calculava que ainda perderia a metade por causa de animais roedores ou das intenções imprevisíveis do Destino. Ali começou a furar a terra com seu bastão.000. O pasto ficava num vale.000 árvores a crescer onde nada crescera antes. Eu. Notei que o bastão que levava era uma vara de ferro da espessura de um polegar e de um metro e pouco de comprimento. ou talvez pertencesse a pessoas desinteressadas. Estava plantando carvalhos. levava naquela época uma vida solitária. Ele abriu o cercado e levou suas ovelhas ao pasto. por isso. Pensei que iria censurar minha indiscrição. disse-me ele. Ali vivera sua vida. abrindo um buraco no qual plantou uma semente. Tinha mais que cinqüenta e cinco.000 haviam brotado. era o caminho que ele queria trilhar e convidou-me a acompanhá-lo. a cerca de 100 metros. Ele deixou o pequeno rebanho aos cuidados do cão e subiu em direção ao lugar onde eu estava. Plantou suas cem sementes com extremo cuidado. Perguntei-lhe se a terra lhe pertencia. Depois do almoço recomeçou a plantar. Achava que essa terra estava morrendo por falta de árvores. Supunha que fossem propriedades do governo. Galgou o topo da elevação. depois. pois ele me respondeu. Eu descansava. Possuira uma fazenda na planície. Quem era o proprietário? Ele não sabia. Acho que insisti bastante em minhas perguntas. Já plantara 100. em seguida cobriu o buraco com terra. mas estava interessado. 20. também a mulher. lidar com gente solitária.poderia surpreendê-lo. Antes de partir. não tendo nada de urgente a fazer para si mesmo. Ele não se preocupava em saber de quem era a terra. Seu nome era Elzéard Bouffier. Restariam 10. Foi então que comecei a pensar sobre a idade que poderia ter esse homem. resolvera remediar essa situação. e sabia.000. e desejava saber mais sobre ele. Eu não precisava tanto de repouso. mergulhou as sementes selecionadas e contadas num balde com água.

era preciso cavar poços para obter um pouco de água. muito viçosas. num lugar onde. vi água correndo nos leitos de riachos secos desde tempos imemoriais. À medida em que a água reaparecia. ressurgiam também salgueiros. tão absoluta que. Algumas das tristes aldeias que mencionei haviam sido construídas no local de antigos acampamentos romanos. mas o atribuíram a algum capricho da terra. Para formar-se uma idéia aproximada daquele caráter excepcional. É verdade que os caçadores. junco. não deve ser esquecido o fato de ele ter trabalhado em solidão absoluta. Bouffier não se importava. com uma certa procura da felicidade. poderia ter sonhado com tal perseverança. tinham encontrado anzóis. Ninguém. As faias já estavam crescendo no vale. nas aldeias ou na administração. perdeu o hábito da fala. jardins e flores. se Deus lhe concedesse vida. ele estava pensando em também plantar faias e bétulas. nascida de tão magnífica generosidade. Disse-lhe que seus 10. Eis porque ninguém interferiu no trabalho de Bouffier. Além disso. com perseverança e determinação. cujos vestígios ainda existiam. Mas a transformação ocorria aos poucos. simplesmente prosseguia sua tarefa. logo teria surgido uma oposição. Não o descobriram. tive desejo de rever o solitário pastor. Se tivesse despertado a atenção. Ao voltarmos em direção à aldeia. escalando os penhascos desertos à procura de lebres ou javalis.000 carvalhos estariam magníficos após trinta anos. Anos mais tarde.ser jovem fazia-me encarar o futuro em relação a mim mesmo e. modificando o ambiente sem causar surpresa. pesquisando na região. Admirei-me com a transformação. . dentro de trinta anos ele teria plantado tantos carvalhos que esses 10. não mais a achasse necessária. Os riachos ressecados já haviam carregado água. e os arqueólogos. Parecia ter sido desencadeada uma criação em série. prados. Foi esse o mais impressionante resultado de reação em série que eu já havia visto. há muito tempo. Ele respondeu simplesmente que. e as bétulas estavam bem desenvolvidas. No dia seguinte nos despedimos. e um certo sentido para a vida. O vento também espalhava sementes. na velhice.000 seriam como uma gota de água no oceano. Ou talvez. no século XX. notavam o crescimento súbito de pequenas árvores.

Ele era um dos atletas de Deus. pela primeira vez ouvia falar em uma floresta que crescia por conta própria. O trabalho regular e tranquilo. Nessa época. Em 1935. Não insistiu. Na direção de onde viéramos. Expliquei-lhe o mistério. os três. fomos ambos visitar Bouffier. Um amigo meu.. Entreguei a Bouffier os ovos que trouxera como presente. recebeu a visita de um guarda florestal. Um dia. a paisagem. felizmente. Encontramo-lo trabalhando arduamente.Em 1933. Almoçamos juntos. Houveram muitas conversas ineficientes. toda a floresta foi colocada sob a proteção do governo e proibiu-se a carvoagem. Lembrei-me do que ali havia em 1913: um deserto. a cerca de 10 quilômetros do local onde havia sido feita a inspeção. funcionário do Serviço Florestal. Após . meu amigo simplesmente fez alguma sugestão quanto a certas espécies de árvores. que. as encostas estavam cobertas de árvores que mediam entre 7 a 8 metros. Pela simples razão. E sabia manter silêncio. pois era impossível não se ficar cativado pela beleza dessas jovens árvores em pleno desenvolvimento. fazia parte daquela delegação. Antes de partir. inocentemente.planejou a construção de um abrigo de pedra no sítio da plantação. o vigoroso ar da montanha. Esse funcionário sabia perceber o valor das coisas. disse-me ele mais tarde: que Bouffier entende mais disto do que eu. o espírito sereno. Decidiu-se que algo tinha que ser feito e. Para evitar constantes caminhadas pois já estava com 75 anos . em silêncio. e passamos várias horas a contemplar. Bouffier estava se preparando para plantar faias a cerca de 12 quilômetros de sua cabana. para as quais o solo parecia apropriado. haviam dotado aquele velho com uma saúde que inspirava respeito. No ano seguinte realizou esse plano. para proteger o crescimento daquela floresta natural. O homem disse ao guarda. nada se fez além da única medida útil. toda uma delegação do governo chegou para examinar a floresta natural. que lhe transmitiu uma ordem: proibição de acender fogo ao ar livre. a frugalidade e. Fiquei imaginando quantos acres ele ainda iria cobrir de árvores. sobretudo.. na semana seguinte.

Da montanha descia um som semelhante .caminharmos mais de uma hora . soprava uma brisa suave. Ao invés do vento seco e áspero que me atacara. Em 1913. carregada de perfume. Nada mais lhes restava. Os restos das casas abandonadas estavam cobertos de urtigas. Os carros eram movidos a gasogênio (geradores alimentados por lenha) e sempre faltava lenha. Foi somente ao ver o nome de uma aldeia que me convenci de estar realmente naquela região. Ele descobriu um modo maravilhoso de ser feliz. trabalhando em paz. mas apesar da desordem deixada pela guerra. Designou para aquela região três guardas florestais aos quais incutiu tanto medo. senão esperar pela morte situação que dificilmente podia predispô-los à virtude. sem tomar conhecimento da guerra de 1939. das condições do homem pré-histórico. Eram criaturas selvagens. Tudo agora estava mudado. que eles ficaram insubornáveis. Vi Elzéard Bouffier pela última vez em junho de 1945. Estava a 30 quilômetros dali. O ônibus deixou-me em Vergons. O pastor nada tinha visto. tinha três habitantes. por mais litros de vinho que lhes oferecessem os carvoeiros. Começaram a derrubar os carvalhos.e tendo meditado sobre aquilo disse ainda: Ele sabe muito mais do que qualquer outro. havia agora um ônibus que passava entre o vale da Durance e a montanha. física e moralmente. que antes era só ruínas e desolação. essa aldeia de dez ou onze casas. Atribuí 'a relativa velocidade do transporte o fato de não reconhecer as paisagens de minhas viagens anteriores. viviam de caça por armadilhas e pouco e distanciavam. o empreendimento se revelou financeiramente insustentável e foi abandonado. Eu resolvera atravessar novamente o caminho daquelas terras áridas. A única vez em que o trabalho de Bouffier ficou seriamente ameaçado foi durante a guerra de 1939. como fizera também em 1914. mas como a região era muito afastada de qualquer via férrea. Até mesmo o ar. Foi graças a esse funcionário que ficou protegida a floresta.. odiavam-se mutuamente. Ele completara 87 anos. A condição daquela gente não admitia qualquer esperança.

e. as aldeias foram reconstruídas. Aos poucos. Em cada propriedade rural. Além disso. repolhos e rosas. uma tília. entre os quais quatro jovens casais. correm novamente os riachos. movimento. em apenas oito anos. havia voltado. caindo num tanque. munido unicamente de seus próprios recursos físicos e morais. surpresa ainda maior. sinto um respeito .ao da água. coberta de folhas. e o que mais me emocionou . Quando penso que um homem. a cidadezinha Vergons apresentava os sinais evidentes de trabalho.000 pessoas devem a sua felicidade a Elzéard Bouffier (sem o saber). funcho e anêmonas. sinto a convicção de que. estavam cercadas de jardins onde cresciam. alimentados pelas chuvas e pela neve que a floresta conserva. Era agora uma aldeia onde se gostaria de viver. ao lado do chafariz. vi que havia sido construído um chafariz. Desde então. trazendo juventude. Águas foram canalizadas. de fato. a tília. em conjunto. irreconhecível agora. onde o terreno é caro. onde a água corria livremente. Incluindo a população anterior. veio estabelece-se aqui. As ruínas haviam sido afastadas e cinco casas estavam restauradas. e que redescobriram o sabor dos convescotes. As casas novas. apesar de tudo. a humanidade é digna de admiração. ouvi um ruído de água. Ao longo das estradas encontram-se homens e mulheres sadios. era o vento na floresta. portanto.alguém plantara. foi capaz de fazer nascer desse deserto uma tal Canaã. que devia ter uns quatro anos. alho-porró. era o símbolo incontestável da ressurreição. entre pequenos bosques. Mas. evolução. quando calculo a infalível grandeza de espírito e a tenacidade da benevolência necessária para alcançar esse resultado. verduras e flores. a viver confortavelmente. que só empreende quem tem esperança. meninos e meninas que sabem rir. Eram agora vinte e oito os habitantes. Nos antigos leitos. Gente da planície. A esperança. recém rebocadas. toda a região passou a irradiar saúde e prosperidade. há fontes cujas águas transbordam sobre tapetes de hortelã. mais de 10.

Jean Giono . no asilo de Banon. Elzéard Bouffier morreu em paz. em 1947. que foi capaz de completar uma obra digna para Deus.imenso pelo velho camponês sem instrução.

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