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UNIÃO HOMOAFETIVA: adoção e paternidade homoparental no Brasil contemporâneo.

VALDEMAR ALVES FERREIRA, Graduado em Serviço Social, Pós –graduando em Trabalho Social com Famílias. Participação em diversos congressos internacionais sobre Direitos Humanos, na qualidade congressista expositor e apresentação de posters. No Brasil foi voluntário do GAPA, fez parte de várias atividades do movimento LGBT, principalmente como palestrante em eventos municipais, estaduais e interestaduais. Teve a oportunidade de fazer vários cursos na área de Direitos Humanos em Barcelona, El Salvador e Trininad and Tobago e outros cursos no Brasil.

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INTRODUÇÃO
"Nenhuma luta haverá jamais de me embrutecer, nenhum cotidiano será tão pesado a ponto de me esmagar, nenhuma carga me fará baixar a cabeça. Quero ser diferente, eu sou, e se não for, me farei”.(Caio Fernando Abreu). Na contemporaneidade, os homossexuais vêm requisitando para si direitos jurídicos antes sonegados àqueles que ao assumirem uma orientação sexual divergente da heterossexualidade. Entre estes destaca-se o direito à paternidade e maternidade conjunta ou isoladamente. No Brasil, este direito vem ganhando destaque na pauta de reivindicações do movimento de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) 1 que, por sua vez, tem trazido para o cenário político e social a luta pelos direitos de cidadania das lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. O presente trabalho trata a homoparentalidade como um novo paradigma de família pós-tradicional que, desassociando a ideia de reprodução de filiação, dá ênfase a socioafetividade. Aborda o direito à paternidade e à maternidade, examinando a possibilidade de seu reconhecimento no Direito brasileiro de hoje, bem como a viabilidade de seu exercício através do instituto da adoção. Através da análise dos princípios constitucionais do pluralismo, da igualdade, da nãodiscriminação e do respeito à dignidade da pessoa humana, conclui pela possibilidade de reconhecimento do direito de homossexuais serem pais e mães, podendo este direito tornar-se efetivo pelos meios oferecidos pelo Estado Democrático de Direito. A importância de estudar o tema assenta-se no entendimento das contribuições com o compromisso ético-político da categoria dos/as Assistentes Sociais, sobre o sentido da liberdade e a necessidade histórica da categoria profissional de se posicionar apoiando reivindicações e lutas dos indivíduos LGBT sobre sua afetividade e sexualidade, tornando-se relevante compreender a
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A denominação LGBT aqui usada segue a fórmula recentemente aprovada pela I Conferência Nacional GLBT, referindo-se a lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Antes disso, o XII Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Transgêneros, de 2005, incluiu oficialmente o B de bissexuais e convencionou que o “T” referia-se a Travestis, Transexuais e Transgêneros. Embora com a deliberação da I Conferência nacional, a sigla LGBT venha predominando nos meios ativistas, ela eventualmente assume outras variantes, que invertem a ordem das letras (colocando o “T” “a frente do “B”), duplicam o “T” (para distinguir entre travestis e transexuais, por exemplo) (Simões e Facchini, 2009 p. 15)

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problemática, bem como os caminhos que o Serviço Social percorre na efetivação dos direitos já constituídos pela população LGBT, respeitando a identidade de cada indivíduo e os direitos civis, políticos e sociais garantidos constitucionalmente, sendo imprescindível conhecer as necessidades desta parcela da população, conforme nos diz Guerra ao afirmar que:
Se as demandas com as quais trabalhamos são totalidades saturadas de determinações (econômicas, políticas, culturais, ideológicas) então elas exigem mais do que ações imediatas, instrumentais, manipulatórias. Elas implicam em intervenções que emanem de escolhas, que passem pelos condutos da razão crítica e da vontade dos sujeitos, que se inscrevem nos campos dos valores universais (éticos morais e políticos). Mas ainda, ações que estejam conectadas a projetos profissionais aos quais subjazem referenciais teóricos metodológicos e princípios ético-político (2000, p.11).

A adoção não é um fato contemporâneo. Há relatos que ela seja anterior a era cristã, para tanto temos a lenda dos gêmeos Rômulo e Remo, que foram abandonados sobre o leito do Rio Tibre. A lenda narra que após o abandono por sua genitora os gêmeos foram acolhidos por uma loba, que lhes proporcionou todas as condições para se desenvolverem, e quando adultos fundaram a cidade de Roma. Voltando da mitologia para os dias atuais, observa-se que o abandono de crianças não se trata de um fato recente, e que a necessidade de um lar para estas é fator imprescindível. A criança e o adolescente são pessoas dotadas de direitos e deveres, o direito à convivência familiar deve ser a eles assegurado. Para tanto, a Carta Magna de 1988, trouxe para a família um capítulo inteiro, em que estão garantidos todos os direitos e responsabilidades de cada ente familiar. Mesmo tendo amparo legal, ainda hoje, o que mais preocupa, são os altos índices diários de crianças e adolescentes que são desrespeitados pelos seus genitores. Estes desrespeitos envolvem o trabalho forçado e escravo, casos de abuso sexual familiar, abandono nas ruas ou instituições e até mesmo a exploração sexual de subsistência, muitas vezes incentivada pelos pais. Contudo o que mais indigna, é ver o estado miserável que estas são submetidas, tendo muito dos seus direitos privados, como o de brincar, praticar esportes e se divertir, elencados no artigo 16 da lei nº 8.069, de 13/07/1990- Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Estes vilipêndios refletem diretamente no aumento de crianças que fogem de casa, causando assim um índice cada vez maior de crianças e adolescentes em situação de rua. Muitos destes infantes são acolhidos ou encaminhados para instituições de apoio a criança, onde aguardam adoção. Por outro lado o Estado é

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omisso, pois não investe em serviços de proteção e de políticas públicas que dêem suporte para as famílias e, também não investe em capacitação continuada dos profissionais envolvidos na rede de atendimento. A superação dos limites impostos ao exercício do direito de paternidade ou de maternidade pelos homossexuais masculinos e femininos passa, assim, necessariamente, pelo rompimento do senso comum conservador e preconceituoso que ainda permeia nossa sociedade, sendo a homossexualidade tratada, ainda muitas vezes, como um tabu, na concepção dada por Freud:
Por trás de todas essas proibições parece haver algo como uma teoria de que elas são necessárias porque certas pessoas e coisas estão carregadas de um poder perigoso que pode ser transferido através do contato com elas, quase como uma infecção infecto contagiosa (FREUD, 1974. V.XIII. p.41)

Em 2004, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou nota sobre o número exorbitante de crianças abandonadas em instituições à espera de adoção, estima-se que há aproximadamente 200 mil crianças no Brasil sem família. Em contrapartida existe uma fila de espera para adoção de 6100 mil casais, isso só no estado de São Paulo. A demora na adoção ocorre pela burocracia das Varas da Infância e da Juventude. Cerca de 20% dos casos, entre o primeiro impulso de adoção e o desfecho, passam-se mais de duas décadas. Outros fatos que atrasam a adoção é a procura por crianças com até uma determinada idade, no máximo 2 anos, e também a procura por crianças com as mesmas características físicas dos pais adotivos (ÉPOCA, 2004). A adoção por casais do mesmo sexo, todavia, tem surpreendido as estatísticas, pois estes são os que menos se preocupam com a idade ou aparência física da criança, pois os que estes futuros pais e mães procuram é proporcionar ao filho o amor e afeto e não uma desigualdade pela diversidade de gêneros (DIAS, 2006). Dificultar ou restringir o direito a adoção por casais homoafetivos, é também privar uma criança de receber afeto e de ter a convivência familiar, direitos estes elencados no artigo 227 da Carta Magna. Sobretudo estaria sendo infligido o artigo 3º, inciso IV da Constituição Federal, que faz menção a um dos objetivos fundamentais do Estado, que é, “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outra forma de discriminação“ (FIGUEIREDO, 2002). Entende-se o motivo de tanta

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precaução ao se falar na adoção por casais do mesmo sexo, teme-se que no futuro esta criança venha a ter uma orientação sexual influenciada, em decorrência do convívio com esta nova espécie de entidade familiar. Deveras, pensar desta maneira seria uma grande incongruência, pois, das crianças que se tornam homossexuais na fase adulta, a maioria são originarias de famílias heterossexuais. Ressalva-se o que está em questão é busca por um lar que proporcione um ambiente estável e seguro à criança, evitando assim a institucionalização e o descaso por causa de um preconceito sem fundamento. A adoção por casais do mesmo sexo é um tema que tem encontrado grande espaço em debate na atualidade, dentro e fora do Brasil. No Brasil corre uma discussão sobre novas medidas e leis onde mais do que nunca essa questão sublinha nossos traços de homofobia. Correntes religiosas se colocam em bloco contra a aprovação de qualquer brecha que permita uma flexibilização maior para a adoção feita por casais homossexuais. Fica a pergunta: que “cuidado” é esse que prefere uma criança institucionalizada a adotada por um casal homoparental amoroso e dedicado à formação dessa criança? A adoção torna-se, assim, um dos dispositivos que legitima a paternidade homossexual, haja vista que é um ato legal garantido institucionalmente, pela justiça da infância e juventude. Esta forma de acesso a homoparentalidade2 consiste no acionamento do poder judiciário na tentativa de legitimar juridicamente a nova família como prevê o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA).

Metodologia
Este estudo caracteriza-se como bibliográfico de caráter exploratório, no qual se buscou analisar as principais contribuições identificadas na literatura nacional no campo dos direitos dos homossexuais, em especial sobre a paternidade e maternidade. De abordagem qualitativa, teve como objetivo analisar a evolução da sociedade, e as propostas do legislador no campo dos direitos civis e sociais no
Trata-se de uma denominação criada no contexto francês, em 1997, pela Associação de Pais e Futuros Pais Gays e Lésbicas, que designa uma situação na qual pelo menos um adulto que se reconhece como homossexual cria pelo menos uma criança. ZAMBRANO, Elizabeth. O direito à homoparentalidade: cartilha sobre famílias constituídas por pais homossexuais. In www.homoparentalidade.blogspot.com e www.esnips.com/doc/14c0a2b9-a9cc-4d14-bce062747e6ba86b/zambrano-et-al-homoparentalidade.pdf.
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âmbito das relações homoparentais, como também identificar as contribuições do Serviço Social com relação às uniões homoafetivas e o direito à adoção. A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. A análise bibliográfica foi efetivada tendo como referência concreta o estudo realizado através da produção cientifica já existente sobre o tema, ou seja, livros, artigos, trabalhos de pesquisa, periódicos e outros.

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CAPÍTULO 1 - Homoparentalidade: um novo paradigma de família
Num prisma histórico-político, pode-se questionar “qual o papel que tem para a sociedade a manutenção dos padrões de dominação nas relações entre os sexos”.3 Pode-se, inclusive, questionar o porquê da interiorização da dominação, para que a mesma seja aceita como natural4, ou o porquê da manutenção dos padrões da família tradicional ou da heterossexualidade. Mas o detalhe é que o paradigma de dominação ainda é masculino, o que permite, ainda que implicitamente, a depreciação do que se aproxima do feminino e se afasta da nobreza de ser homem.5 É necessário, pois, perceber, como exposto por Pierre Bourdieu, o quanto “as mulheres ficaram durante muito tempo confinadas ao universo doméstico e às atividades associadas à reprodução biológica e social da descendência” a fim de “manter a solidariedade e a integração da família, sustentando relações de parentesco e todo o capital social”,6 para compreender – diante da dificuldade ainda presente de se pensar, principalmente, numa família composta por dois homens e uma criança, sem o referencial materno– o quanto a homoparentalidade radicaliza com tudo isto, exigindo uma revisão dos papéis de gênero dentro da família, uma vez que pela divisão sexual do trabalho as relações de parentesco e reprodução estão simbolicamente e tradicionalmente ligadas à mulher, que agrega valor ao status do homem provedor. A dominação simbólica é uma construção social que foi naturalizada, só se tornando um discurso legitimado porque o reproduzimos. Mudanças visíveis ainda mascaram a permanência de estruturas invisíveis só podem ser esclarecidas através de um pensamento relacional sobre a divisão de poderes na economia doméstica e no mercado de trabalho.7

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ALVES, Branca Moreira. Ideologia e feminismo: a luta da mulher pelo voto no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1980. p. 13. 4 Idem. p. 26. 5 BOURDIEU, Pierre. Op. cit. p. 46, 47, 71, 75, 98 e 127. 6 Idem. p. 116. 7 Idem. p. 107 e 108.

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Em conformidade com Pierre Bourdieu
Embora a inércia dos habitus , e do direito, ultrapassando as transformações da família real, tenda a perpetuar o modelo dominante da estrutura familiar e, no mesmo ato, o da sexualidade legítima, heterossexual e orientada para a reprodução; embora se organize tacitamente em relação a ela a socialização e, simultaneamente, a transmissão dos princípios de divisão tradicionais, o surgimento de novos tipos de família, como as famílias compostas e o acesso à visibilidade pública de novos modelos de sexualidade (sobretudo os homossexuais), contribuem para quebrar a dóxa e ampliar o espaço das possibilidades em matéria de que sexualidade. Do mesmo modo, e mais banalmente, o aumento do número de mulheres que trabalham não pode deixar de afetar a divisão das tarefas domésticas e, ao mesmo tempo, os modelos tradicionais masculinos e femininos, acarretando, sem dúvida, conseqüências na aquisição de posições sexualmente diferenciadas no 9 seio da família. (BOURDIEU, 2003,p 64)
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Neste sentido, Anthony Giddens expõe sobre a luta feminina para se libertar de papéis sexuais preexistentes, sobre a reivindicação de movimentos e grupos pela aceitação social e legitimidade legal para os homossexuais como direitos de autoexpressão no contexto do Estado democrático e sobre a contestação homossexual dos estereótipos heterossexuais dominantes.10 Dispõe, então, que “ainda não atingimos um estágio em que a heterossexualidade é aceita como apenas uma preferência entre outras, mas esta é a implicação da socialização da reprodução”, o que remete à sexualidade plástica que propicia a diferenciação entre o sexo e as exigências da reprodução.11 Nos relacionamentos homossexuais, pode-se testemunhar a sexualidade completamente desvinculada da reprodução. Outrossim, pode-se desassociar maternidade de feminilidade, ou seja, desprender a imagem da mulher como esposa e mãe típica do “modelo de ‘dois sexos’ das atividades e dos sentimentos”.12 A separação da sexualidade da reprodução e a socialização da reprodução desenvolvem-se com toda a sua riqueza e seus desequilíbrios de gênero, que se

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O conceito de habitus foi desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu com o objetivo de pôr fim à antinomia indivíduo/sociedade dentro da sociologia estruturalista. Relaciona-se à capacidade de uma determinada estrutura social ser incorporada pelos agentes por meio de disposições para sentir, pensar e agir.

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BOURDIEU, Pierre. Op. cit. p. 46, 47, 71, 75, 98 e 127. GIDDENS, Anthony. A transformação da identidade. Op. cit. p. 38, 41, 43 - 45. 11 Idem. p. 10, 37, 38 e 45. 12 Idem. p. 53, 54, 107, 158 e 193.
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pauta numa linha divisória entre razão e emoção, entre ativo e passivo, entre público e privado. Ao mesmo tempo, à medida que o que costumava ser “natural” torna-se cada vez mais socializado, e em parte como um resultado direto dessa socialização, os domínios da atividade pessoal e da interação começam a ser fundamentalmente alterados. E, assim, a sexualidade passa a funcionar como uma metáfora para estas mudanças e se torna o foco para sua expressão, até porque, a emancipação sexual, como meio para conseguir uma reorganização emocional mais abrangente da vida social, como uma forma de democratizar a vida pessoal, consiste na integração da sexualidade plástica com o projeto reflexivo do eu.13 Nota-se que enquanto o movimento feminista separou sexualidade de reprodução, o movimento gay, numa continuidade, está dissociando reprodução de filiação.
Através da homopaternidade – pais homossexuais e mães lésbicas –, os quais, ao assumir abertamente a paternidade e a maternidade como uma ficção cultural (artefato) e não apenas uma evidência natural, radicalizam a 14 questão da vontade (e não a vontade do corpo) na questão da filiação.

Frisa-se, então, que “as características fundamentais de uma sociedade de alta reflexividade são o caráter ‘aberto’ de auto-identidade e a natureza reflexiva do corpo”15 e que pensar na reflexividade é entender que estas mudanças atingem a nós mesmos e a sociedade toda, transformando-nos, reordenando-a. A contínua incorporação reflexiva não apenas se introduz na brecha, mas e também globais da ação.16
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proporciona

precisamente um ímpeto básico às mudanças que ocorrem nos contextos pessoais,

Idem. p. 139, 196, 198, 200, 212 e 218. BORRILLO, Daniel. De como a homossexualidade radicaliza os valores da modernidade na relação consigo, com o outro e com a sua descendência. In Resenha distribuída na palestra ministrada na Faculdade de Direito de Campos, no dia 19/08/05. 15 GIDDENS, Anthony. A transformação da identidade. Op. cit. p. 41-42. 16 Idem. p. 39. O fenômeno é “reflexivo no sentido de que os termos introduzidos para descrever a vida social habitualmente chegam e a transformam – não como um processo mecânico, nem necessariamente de uma maneira controlada, mas porque tornam-se parte das formas de ação adotadas pelos indivíduos ou pelos grupos”. Ibdem. A propósito, o mesmo autor esclarece que “a reflexividade da vida social moderna consiste no fato de que as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz de informação renovada sobre estas próprias práticas, alterando assim constitutivamente seu caráter (...) Desta forma, virtualmente todos que consideram o casamento têm alguma idéia de como as instituições familiares vêm mudando, mudanças na posição social relativa e no poder do homem e da mulher, alterações nos costumes sexuais etc. – tudo isto entrando nos processos de mudança ulterior que reflexivamente informa. O casamento e a família não seriam o que são hoje se não fossem inteiramente ‘sociologizados’ e ‘psicologizados’”. GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1991. p. 45 e 49. Ulrich Beck já define “modernização reflexiva” como

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Neste contexto, torna-se necessário ultrapassar dualismos que estão profundamente enraizados nas estruturas e nos corpos, afinal, os gêneros, “longe de serem simples ‘papéis’ com que se poderia jogar à vontade (à maneira das drag queens), estão inscritos nos corpos e em todo um universo do qual extraem sua força”.17 É a ordem de gênero que a homoparentalidade desencaixa, propiciando uma crise dos próprios paradigmas. A justificativa biológica para a heterossexualidade como sendo o “normal” perde sentido. O que era tido como perversão torna-se forma de expressão de como a sexualidade pode ser legitimamente revelada e a auto-identidade definida. O reconhecimento de múltiplas tendências sexuais satisfaz a aceitação de uma ampla possibilidade de estilos de vida, o que implica uma atitude política de anuência da pluralidade.18 Ao constatar que homossexuais, homens e mulheres, manifestam o desejo de se “normalizar” e, para tanto, reivindicam o direito ao casamento, à adoção e à procriação assistida, Elisabeth Roudinesco indaga: o que teria ocorrido na sociedade ocidental, nas últimas décadas, para que antigas minorias perseguidas desejem ser reconhecidas, não mais negando ou rompendo com a ordem familiar que tanto contribuiu para seu infortúnio; ao contrário, procurando nela integrar-se? Considerando que a homossexualidade sempre foi repelida da instituição do casamento e da filiação, a ponto de se tornar, ao longo dos séculos, o significante maior de um princípio de exclusão, por que o desejo de família? E, neste contexto, expõe que, “curiosamente, não é mais a contestação do modelo familiar que incomoda os conservadores, mas sim a vontade de a ele se submeter”. 19 Ocorre que tal vontade, manifesta na reivindicação de se incluirem no conceito de família é coerente e legítima, afinal, a homoparentalidade não é contra

autoconfrontação e auto-aplicação, expondo que a sociedade torna-se reflexiva quando “ela se torna um tema e um problema para ela própria”. BECK, Ulrich. A reinvenção da política: rumo a uma teoria da modernização reflexiva. In BECK, Ulrich, GIDDENS, Anthony e LASH, Scott. Modernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. UNESP. p. 16, 19 e 45. 17 BOURDIEU, Pierre. Op. cit. p. 122. 18 GIDDENS, Anthony. A transformação da identidade. Op. cit. p. 197 19 ROUDINESCO, Elisabeth. A família em desordem.Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 7 e 10.

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“a família”, só propicia a continuidade da mesma através dos filhos desejados20, em outros parâmetros. Como evidenciado por Daniel Borrillo,
A resistência à igualdade das sexualidades (no plano civil, com o reconhecimento do casamento e da homopaternidade) pode ser interpretada como uma incapacidade do poder para integrar valores próprios à modernidade, como a autonomia do indivíduo, a igualdade dos sexos, a contratualização dos laços familiares e a desbiologização da 21 paternidade e da maternidade.

Na verdade, ainda não vivemos num universo social totalmente pós-moderno, mas já vemos a emergência de modos de vida e maneiras de organização social que divergem das criadas pelas instituições modernas.22 Não podemos esquecer que instituições e significações são criadas, embora haja uma tentativa de ocultamento desta criação para pensarmos que as coisas sempre foram do mesmo jeito.23 Logo, por um lado, a luta homossexual para consolidar sua cidadania, ainda perpassa pela efetivação de direitos civis de liberdade e igualdade que significa um mesmo ordenamento jurídico para todas as pessoas e pela concretização de direitos personalíssimos que têm respaldo na dignidade da pessoa humana enquanto fundamento da República. Mas, por outro ponto de vista, já traz a baila e incorpora o debate atual de democratização de famílias num viés de solidariedade e socioafetividade, bem como de utilização de técnicas de reprodução assistida.24 O fato é que num Estado Democrático de Direito, a orientação sexual não pode implicar na perda ou limitação de direitos fundamentais.

ZAMBRANO, Elizabeth. Op. cit. p. 100. BORRILLO, Daniel. De como a homossexualidade radicaliza os valores da modernidade na relação consigo, com o outro e com a sua descendência. In Resenha distribuída na palestra ministrada na Faculdade de Direito de Campos, no dia 19/08/05. 22 GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. Op. cit. p. 58. 23 BAUMAN, Zygmunt. Em busca da política. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. p. 86-87.De acordo com o autor, a conseqüência da autonomia ou independência “é a consciência de que as instituições da sociedade poderiam ser diferentes, talvez melhores do que são, de modo que nenhuma das instituições existentes, por mais antigas ou veneráveis, pode pretender estar imune à análise, reexame, crítica e revalidação”. Ibdem. 24 A propósito, Anthony Giddens aborda os efeitos da destradicionalização e da tecnologia citando a fertilização in vitro e o transplante de embriões como bons exemplos das várias possibilidades e dilemas que se abrem em relação às categorias e identidades de parentesco estabelecidas. GIDDENS, Anthony. A vida em uma sociedade pós-tradicional. Op. cit. p. 99.
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1.1 Construção histórica da homossexualidade no Brasil
“O afeto merece ser visto como uma realidade digna de tutela”. (MARIA BERENICE DIAS) Segundo dados do Censo demográfico realizado pelo IBGE em 2010, o Brasil é composto por 27 Unidades da Federação e 5 565 municípios, com uma população de 190.732.694 pessoas, composta por 97.342.162 do gênero feminino e 93.390.532 do gênero masculino, contudo a única pesquisa utilizada como referência pelo movimento homossexual para quantificar a população de gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis, é o Relatório Kinsey que a partir da pesquisa feita com os estadunidenses, pelo cientista norte-americano Alfred Charles Kinsey que teve o primeiro volume do relatório publicado em 1948 sobre homens e o segundo volume em 1953 sobre mulheres, o qual estima que 10% da população mundial tem práticas sexuais com pessoas do mesmo gênero. Com base nesta pesquisa o movimento LGBT brasileiro considera que no Brasil há mais de 19 milhões de brasileiros e brasileiras dos quais sua orientação sexual ou identidade de gênero não são compatíveis com o padrão dominante heterossexual. Observamos, porém que esta pesquisa apesar de ser aceita pelo movimento LGBT não pode ser utilizada como fonte segura de dados, pois trata-se de uma pesquisa por amostragem que não compreende a complexidade da diversidade sexual e aqui é citada apenas para corroborar a dificuldade e a necessidade de conhecer essa população e suas necessidades. O ano de 1977 pode ser considerado como a data inicial do movimento homossexual brasileiro: nesse ano, a convite do advogado gaúcho-carioca, João Antônio Mascarenhas, o editor do jornal estadunidense Gay Sunshine, Winston Leyland, fez uma visita ao Brasil, sendo cancelada sua conferência na Universidade Pontifícia Católica do Rio Grande do Sul - Brasil, mas recebendo enorme divulgação na imprensa nacional. Estimulados por este fato, alguns intelectuais gays do Rio de Janeiro e São Paulo fundaram em abril de 1978 o primeiro e até hoje principal jornal homossexual brasileiro, O Lampião da Esquina, que na época abordava temas ligados á sexualidade, cultura, gênero e discriminação racial. O qual serviu de veículo e reforço para a fundação em São Paulo, no mesmo ano do primeiro grupo brasileiro de militância gay - o Somos, que adotou o mesmo nome da pioneira

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revista homossexual publicada na América do Sul pela Frente de Libertação Homossexual da Argentina. Nessas mais de três décadas de afirmação homossexual, mais de uma dezena de intelectuais gays publicaram artigos e livros tendo a homossexualidade como tema – ensaios literários, pesquisas e estudos sobre diferentes aspectos da subcultura gay no Brasil. Mais da metade desses autores ostentam em comum, além da orientação homossexual, a particularidade de terem em algum tempo de suas vidas militado no MHB - o movimento homossexual brasileiro - ou participado de jornais e revistas de afirmação homossexual. Entre esses autores, destacam-se: Darci Penteado, Herbert Daniel, João Silvério Trevisan,Luiz Mott e Richard Parker. A sexualidade humana teve como parâmetro a heterossexualidade como norma, reforçando assim práticas homofóbicas perante as sociedades, o reflexo disso são inúmeras teorias que tentam elucidar a origem da homossexualidade, tratando- a como doença e buscando a sua cura, conforme análise de WUSTHOF:
Antigamente, a medicina rotulava a homossexualidade de doença, sentindo-se responsável por encontrar a sua cura. Como se fosse possível descobrir alguma pílula que neutralizasse desejos. Recentemente surgiu uma versão moderna para explicar a “doença”. Com sensacionalismo foi anunciada uma descoberta de médicos nos Estados Unidos: o hipotálamo dos homossexuais, a região do cérebro que controla as emoções, teria uma variação anatômica por obra da genética (1998, p. 106).

O emprego da palavra homossexual é recente, originária do século XIX vem do grego homo (igual) e do latim sexus, igual + sexo. O termo de acordo com a 3º edição de 1993 publicada do dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, fica voltado à atração e/ou comportamento sexuais entre indivíduos do mesmo sexo. Já o termo homofobia, criado pelo psicólogo George Weinberg em 1971, neologismo da junção das palavras gregas phobos ("fobia"), com o prefixo homo (“igual”), como remissão à palavra "homossexual", é utilizado para identificar o ódio, a aversão ou a discriminação de uma pessoa contra homossexuais e, consequentemente, contra a homossexualidade, e no caso dos próprios homossexuais a auto-aversão. Para o Professor Enézio de Deus Silva Júnior, homossexualidade:
É uma prática sempre presente na história da humanidade, por se constituir uma das possíveis orientações afetivo-sexuais humanas – caracterizada pela predominância ou manifestação de desejos por pessoas do mesmo sexo biológico que não se reduz a [sic] simples escolha ou opção. (2008, p.55)

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Atualmente, a relação de afetividade entre homossexuais começa a receber, doutrinariamente, um novo sinônimo: homoafetividade. Este vocábulo está sendo introduzido pela desembargadora e jurista Maria Berenice Dias, a qual defende que o afeto é o fator mais relevante na atração que uma pessoa sente pelo mesmo sexo. Segundo ela, "Não se trata apenas de buscar palavras politicamente corretas, mas – sobretudo – posturas humanas e sociais, democráticas e libertárias corretas”.

1.2 Religiões e a construção homofóbica da homossexualidade
Sem dúvida alguma na idade média, a tradição Judaico- Cristã contribuiu para a alienação do pensamento humano, quando este enraizou, que as relações sexuais deveriam ter um único objetivo, a procriação. Desde o período da colonização, “o pecado nefando” a “sodomia” ou a “sujidade”, como eram denominadas na época a relação entre pessoas do mesmo sexo, foi considerado um pecado devasso entre os cristãos. Em 1549, o Padre Manoel da Nóbrega25, “ficou completamente chocado ao ver que muitos colonos tinham índios como mulheres. Foi o primeiro a observar a prática da sodomia no Brasil”, (TREVISAN 2000, p.65). O Santo Ofício da Inquisição (1217-1821), apesar de não ter instituído no Brasil um Tribunal, nos moldes de Portugal e da América Espanhola, teve uma profunda penetração na sociedade. A Igreja detinha o poder, de condenar à morte os praticantes do crime de traição nacional, quem confeccionasse moedas falsas, os hereges e os homossexuais. Desde então, a sexualidade, o sexo e o prazer proveniente a ele foram associados com o ato pecaminoso, a homossexualidade ficou estigmatizada como anomalia, pecado e até sem-vergonhice ou atitude doentia, resultando na materialização de diferentes modalidades de preconceito e, conseqüentemente, na imposição e naturalização da invisibilidade das práticas afetivo-sexuais entre pessoas do mesmo sexo.

Manoel da Nóbrega, jesuíta português nascido em Entre-Douro-e-Minho em 1517, chefe da primeira missão jesuítica à América, cujas cartas que enviava para sua ordem servem como documentos históricos sobre o Brasil colonial e a ação jesuítica no século XVI. Participou da fundação de Salvador e do Rio de Janeiro e também na luta contra os franceses como conselheiro de Mem de Sá. Morreu na cidade do Rio de Janeiro. Disponível em http://www.institutoandreluiz.org/manoel_da_nobrega.html. Acesso em 21/04/2010 às 12:05h.

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Lutas travadas em prol da libertação sexual nos anos de 1880 até os anos 30 do século XX foram protagonizadas pelo movimento socialista europeu, o qual garantiu inúmeras conquistas contra o preconceito, no entanto dois meses após a Revolução Russa de 1917, estas conquistas foram drasticamente abolidas, o governo dos bolcheviques tornou a homossexualidade ilegal e assim permanece até os dias de hoje na Rússia. Os autores Simões e Facchini relatam a década de 30 como uns dos momentos mais sombrios e repressivos para o movimento europeu, tendo em vista que:
Concomitantemente, deu-se o recrudescimento das condenações por homossexualidade e o envio de prisioneiros homossexuais para campos de concentração, onde eram obrigados a portar uniforme costurado com a marca de um triângulo rosa, submetidos a um regime de trabalhos forçados e passíveis de castração. A Rússia soviética, sob Stalin, também passaria a promover violentas campanhas contra a homossexualidade, restabelecendo punições legais que justificavam a perseguição a homossexuais como traidores, espiões e contra revolucionários (2009, p. 43).

Uma nova onda de lutas pelos direitos humanos desenvolveu-se na Europa no ano de 1948, sendo proclamada neste mesmo ano pelas Nações Unidas a Declaração Universal dos Direitos Humanos. O surgimento do movimento homossexual ficou marcado por uma série de mobilizações desses grupos, que lutavam pela proibição da discriminação devido à orientação sexual e à conquista da igualdade de direitos em relação aos heterossexuais no caso da união civil. Porém, o marco do início do movimento LGBT no mundo se deu a partir da Rebelião de Stonewall, um bar situado na cidade de Nova York frequentado por gays, lésbica, travestis e afins, os quais cansados e indignados com as freqüentes investidas policiais marcadas por humilhações e forte repressão, iniciaram no dia 28 de junho de 1969 transformado, desde então, em Dia Internacional do Orgulho Gay, uma resistência aberta contra homofobia e em busca da visibilidade, a qual durou três dias e marcou virada do atual movimento perante as sociedades. No Brasil, posto que desde 1821, com a extinção do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, e de 1824, com a promulgação da primeira Constituição do Brasil, a sodomia tenha deixado de ser crime, os homossexuais ainda eram vitimas de um complô entre médicos, legistas e policiais que se utilizavam de leis contra vadiagem e práticas de atos obscenos em público para justificar as prisões e violências contra os homossexuais. No que se refere a esta época Simões e Facchini nos diz que:

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Embora a homossexualidade não fosse punida pelo Código Penal Brasileiro, as leis contra vadiagem, perturbação da ordem pública e prática de atos obscenos em público davam espaço a repressão policial que atingia sobre tudo os mais pobres e os de pele escura. No Rio de Janeiro dos 1950 e 1960, a perseguição policial aos homossexuais, encarnada na figura do delegado Raimundo Padilha, que encabeçou campanhas de prisão homossexuais destinadas a limpar o Centro da Cidade e a Zona Sul (2009, p.65).

Segundo, Beraldo Lopes Figueiredo, estudioso do assunto Espiritualismo e Projeção do corpo Astral:
As religiões ainda não descobriram, que a sexualidade não é uma opção, não é fruto da criação doméstica do habitat é na verdade uma imposição da natureza. Longe de ser uma doença, distante de ser um vício é de fato uma alternativa da evolução, tão importante como a heterossexualidade. Não se escolhe a sexualidade, se nasce com ela.

Na ausência de leis explícitas de condenação à homossexualidade, médicos e legistas agiam em estreita colaboração com a polícia nos esforços de prescrever ações correcionais que, acrescidas à punição pelos crimes previstos na lei, amplia indefinidamente o tempo de privação da liberdade daqueles que vinham a ser diagnosticados como homossexuais.

1.3 Início do movimento LGBT no Brasil
A atuação do Grupo Somos em 1978 e a criação do jornal “O Lampião da Esquina”, em São Paulo, são considerados como marcos no início da luta política dos homossexuais no Brasil (MacRAE, 1990). Lésbicas, gays, travestis e transexuais não são apenas discriminados. Eles são criminalizados, alvos de atentados à vida, são perseguidos e morrem em atentados de grupos fascistas e nazistas. A articulação do movimento brasileiro contra o regime militar teve início somente no final da década de 70, os homossexuais aliados a outros grupos estigmatizados, segundo Simões e Facchini (2009 p.81) “juntavam-se a sua maneira ao coro de oposição a ditadura”, como resposta a opressão, assassinatos e torturas impostos pelo regime militar, a militância LGBT tem como foco a visibilidade exigindo o respeito à diversidade sexual e garantias de dignidade e igualdade de direitos aos homossexuais, cansados de viverem “dentro do armário” ou na clandestinidade dos bares noturnos, unem-se contra as injustiças sociais conforme nos diz Facchini:

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Os grupos de militância homossexual no Brasil surgiram somente no final da década de 1970, não somente o movimento homossexual, mas outros grupos sociais, nesta época, articulavam-se pela defesa da visibilidade, pela construção de novas formas de conhecimento, de cidadania plena e pela luta por direitos civis ao grande movimento da oposição à ditadura militar. (2005, p.13)

No ano de 1978, com a fundação do jornal “O Lampião da Esquina” considerado na época "o porta-voz dos homossexuais", a comunidade passou a manifestar suas opiniões em meio a um regime militar tornando este o principal veículo de comunicação da população homossexual. Novamente, começaram a surgir os grupos organizados em todo o país. Em 1978 surge, em São Paulo, o primeiro grupo: o Somos - Comunicação, Saúde e Sexualidade, sendo um dos primeiros a tratar da homossexualidade como questão social e política. Depois vieram o Somos/RJ, Atobá e Triângulo Rosa no Rio, GGB-Grupo Gay da Bahia, Dialogay de Sergipe, Um Outro Olhar de São Paulo, Grupo Dignidade de Curitiba, Grupo Gay do Amazonas, Grupo Lésbico da Bahia, Nuances de Porto Alegre, Grupo Arco-Íris do Rio, entre outros, sendo que, atualmente, existem aproximadamente 70 grupos espalhados por todo o Brasil. Sobre o movimento homossexual no Brasil Facchini discorre:
O surgimento do movimento homossexual no Brasil é associado à Fundação do Grupo Somos, em São Paulo, em 1978. E é entendido aqui como conjunto das associações e entidades, mais ou menos institucionalizadas, constituídas com o objetivo de defender e garantir direitos relacionados à livre orientação sexual e/ou reunir com finalidades não exclusivamente, mas necessariamente, políticas sexuais tomadas como sujeito deste movimento. (movimento homossexual no Brasil: recompondo um histórico Cadernos Arquivo Edgard Leuenroth (UNICAMP), Campinas, v. 10, n. 18/19, p. 79123, 2003.

Esta organização da sociedade civil alcançou resultados não só ao movimento homossexual, mas para a conquista de um estado de direitos de fato a todos os cidadãos brasileiros, não podemos negar que foi um passo pequeno na luta por conquistas sociais, mas um exemplo de que o único caminho para mudar o que está posto em uma dada realidade são os movimentos sociais organizados em prol de um objetivo maior. No ano de 1973 a APA - Associação de Psiquiatria Americana, retirou a homossexualidade do rol dos distúrbios mentais, sendo que somente em 1985 deixou de se catalogada no CID - Código Internacional de Doenças ainda que a Organização Mundial de Saúde – OMS tenha retirado sufixo “ismo” do termo

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“homossexualismo”, o qual remetia a relação entre pessoas do mesmo sexo como doença, adotando então o sufixo “dade”, como relevância ao modo e a orientação. O movimento homossexual brasileiro trata de uma série de manifestações sócio-político-culturais em favor do reconhecimento da diversidade sexual, e pela promoção dos interesses dos homossexuais diante da sociedade brasileira com a constituição das políticas públicas, o triângulo rosa utilizado para demarcar os homossexuais durante o nazismo ainda hoje é reconhecido como um dos símbolos do movimento, assim como a bandeira26 inspirada no arco-íris que foi adotada pela comunidade homossexual. Desenhada pelo artista plástico Gilbert Bakerem no ano de 1977, a bandeira original era composta por oito cores e atualmente tem seis, uma a menos que o arco-íris, cada cor representa um conceito. O roxo representa vida; laranja, coração; amarelo, sol; verde, natureza; azul anil, harmonia e violeta, espírito. Toda essa mistura de cores representa, respectivamente, a diversidade sexual humana. Devido ao alto custo da impressão em grande escala, foram excluídas as cores rosa e turquesa as quais representavam sexo e arte.

Figura 1 - Bandeira símbolo do Movimento LGBT no Brasil - Fonte: www.google.com/imagens

Através de dados retirados do site oficial da Parada do Orgulho27 Gay em São Paulo fazemos breve histórico das atuações do movimento por meio de algumas edições paradas que acontecem anualmente na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo, permeando o enfrentamento do preconceito á garantia dos direitos da população LGBT no caminho da construção social do arco-íris.

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Bandeira com arco-íris é principal símbolo dos homossexuais. Informações disponíveis em http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada. Acesso em 23/04/2010 27 www.paradasp.org.br

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CAPÍTULO 2- História das paradas LGTB
A primeira Parada do Orgulho LGT ocorreu em 28/06/1997 com o tema: “Somos muitos, estamos em todas as profissões” tratando de percurso inevitavelmente marcado por tensões, disputas e rompimentos entre seus integrantes teve como foco principalmente temáticas ligadas à visibilidade LGBT e se consolidando como manifestação política do movimento. Foi criada a Associação Parada do Orgulho de Gays, Lésbicas e Travestis (APOGLBT/SP). como denominada à época, foi fruto do trabalho dos grupos CORSA, Núcleo de Gays e Lésbicas do PT (Partido dos Trabalhadores) de São Paulo, CAHEUSP (Centro Acadêmico de Estudos Homoeróticos da Universidade de São Paulo), Etc. e Tal, APTA (Associação para Prevenção e Tratamento da Aids), AnarcoPunks e Núcleo GLTT do PSTU. A segunda edição da Parada do Orgulho GLT ocorreu em 28/06/1998 com o tema “Os direitos de gays, lésbicas e travestis são direitos humanos” passou de 100 mil a 500 mil participantes e tomou por temática principal o desenvolvimento da idéia de diversidade, de modo a não somente visibilizar a população LGBT, mas envolver a sociedade como um todo a partir do conceito de respeito à diversidade. É nesse período que as atividades em torno da parada começam a se multiplicar, de modo a dar origem ao Mês do Orgulho LGBT. A partir da terceira edição em São Paulo a Parada do Orgulho GLBT realizada em 27/06/1999 com o tema: “Orgulho Gay no Brasil, rumo ao ano 2000” foram alcançados os objetivos de visibilidade da população LGBT e da participação da sociedade, começando uma nova fase em que a Parada, já plenamente consolidada como manifestação de um campo social crescente, passa a ser utilizada a fim de refletir sobre as demandas da comunidade e como forma de pressão política pelo reconhecimento e garantia efetiva de direitos humanos de LGBT. Alçando a Parada de São Paulo ao título de maior manifestação pública pelo movimento já realizada no país. Foi também o primeiro ano em que a sigla GLBT foi usada, dando visibilidade social e política para os bissexuais (B), travestis e transexuais (T). A nona parada do Orgulho GLBT ocorrida em 29/05/2005 teve como tema “Parceria civil, já! Direitos iguais: nem mais, nem menos” com público estimado de 2,5 milhões de pessoas. Após o grande marco da Parada anterior, tendo em vista

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o reconhecimento internacional atingido pelo movimento, tanto pelos governos como pela mídia, a APOGLBT SP decidiu enfatizar as demais atividades ligadas à manifestação, divulgando o conjunto de ações oficialmente como o “Mês do Orgulho GLBT de São Paulo”. Nesse ano, a organização contou com o apoio financeiro do Ministério da Cultura e patrocínio de projetos de prevenção às DST/Aids pelo Ministério da Saúde. A prefeitura de São Paulo também colaborou com apoio logístico ao evento. Com o tema, o movimento cobrou do Legislativo a aprovação do Projeto de Parceria Civil entre pessoas do mesmo sexo, que tramitava no Congresso Nacional há dez anos, expondo a necessidade de se construir uma legislação que garantisse igualdade aos LGBT.

Figura 2 – 15ª Parada LGBT - Fonte: www.band.com.br/jornalismo/galeria.asp?id

A 15ª Edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo 2011, teve como consigna “Amai-vos uns aos outros: basta de homofobia! – 10 anos da Lei Estadual 10.948/01”. A maior parada gay do mundo comemora os 10 anos da lei que criminaliza a homofobia no estado de São Paulo e questiona os religiosos fundamentalistas que lutam contra os direitos dos homossexuais no país. Exemplo deste fundamentalismo religioso encontra-se a Universidade Presbiteriana Mackenzie que divulgou em seu site, no mês em que é realizada a Parada, uma nota contra o PL 122 que criminaliza a homofobia. De acordo com o comunicado, assinado pelo chanceler [reitor] Augustus Nicodemus Lopes, “ensinar e pregar contra a prática do homossexualismo (sic) não é homofobia, por entender que uma lei dessa natureza maximiza direitos a um determinado grupo de cidadãos.” A lei

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torna crime manifestações contrárias aos homossexuais. Segundo o Mackenzie, “as Escrituras Sagradas, sobre as quais a Igreja Presbiteriana do Brasil [controladora da instituição] firma suas crenças e práticas, ensinam que Deus criou a humanidade com uma diferenciação sexual (homem e mulher) e com propósitos heterossexuais específicos que envolvem o casamento, a unidade sexual e a procriação”. A postura do Mackenzie lembra tempos da Idade Média. Nesta Edição da Parada o objetivo foi questionar a moral religiosa conservadora, que vem se reafirmando como uma das principais oposições ao avanço da cidadania e dos direitos humanos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) no Brasil e no mundo. O lema também celebra a primeira década da lei paulista anti-homofobia e destaca a necessidade de ampliação da conquista para o nível federal. Há 15 anos, os temas propostos pela Parada de São Paulo refletem as necessidades da comunidade LGBT brasileira. Analisá-los possibilita identificar como a Parada interferiu nos conceitos morais da sociedade e quais mudanças sociais já ocorreram, pois a homossexualidade ao invés de ser estudada deve ser aceita como uma das variantes da diversidade sexual. A mesma deve ser compreendida como uma manifestação pública de caráter político, pois as conquistas do movimento ao longo dos anos reforçam a importância da visibilidade perante a sociedade e o Estado para este segmento em especial. A mídia nos apresenta uma Parada banalizada, sem enfoque, sem causa, como se todos viessem apenas para um carnaval fora de época na cidade de São Paulo. As grandes manchetes na mídia, já nos dias que antecede infelizmente a preocupação da maioria dos jornalistas que cobre o evento tem sido com o espetáculo: fotos exuberantes, de homens e mulheres se beijando. O tema da intolerância, do preconceito e da violência simbólica28, pauta de parte dos grupos organizadores, fica sempre nas entrelinhas. Como já nos disse Einstein “é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”. De fato carecemos reconhecer que a nossa história foi repleta de violência e repressão contra as militâncias em diferentes tempos históricos, talvez então, ai se encontre o motivo da nossa resistência ou até mesmo espanto ao nos darmos conta
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Violência simbólica é um conceito elaborado pelo sociólogo Pierre Bourdieu. Ela se funda na fabricação contínua de crenças no processo de socialização, que induzem o indivíduo a se posicionar no espaço social seguindo critérios e padrões do discurso dominante.

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de que é possível a manifestação de maneira alegre, protestando sim por tudo que ainda almejamos, mas com toda certeza celebrando como o “Orgulho Gay” todas as conquistas ao longo desta luta cheia de cores e de dores. A militância LGBT nos serve de exemplo, apesar das diferenças internas do movimento não alcançado a unidade, a Parada LGBT de São Paulo, é considerada desde 2004 a maior manifestação do gênero no mundo. Demonstrando assim a responsabilidade da construção social que seus membros assumiram desde a ditadura, os quais todos os anos saem às ruas em busca de “mais direitos, mais respeito, mais dignidade”, traçando o caminho oposto dos muitos movimentos sociais que se institucionalizaram e se acomodaram reconhecendo no Estado um parceiro e não o seu algoz, mesmo que este seja responsável pela manutenção das desigualdades e injustiças sociais. A luta do movimento LGBT é uma luta de caráter universal, tendo em vista, que as restrições sexuais atingem a nossa intimidade, nossas escolhas, perpetuam através de gerações em especial para as mulheres de forma machista, pois se as relações sexuais devem ter como norma as relações heterossexuais com o único objetivo de procriar, tirando-nos o direito fundamental a liberdade e consequentemente o livre arbítrio de nossas escolhas, de sentirmos desejo, não exercendo assim a sexualidade plena e sem restrições, portando, apesar de vivermos em uma sociedade “dita” democrática, vivenciamos atualmente a ditadura do sexo, posto que, a sexualidade humana é dimensão relevante na constituição da individualidade e qualquer tentativa de impedimento a vivência afetivo-sexual entre pessoas do mesmo sexo configura-se concretamente a violação dos direitos humanos. É necessário prestar mais atenção a este grupo social que sofre diariamente o preconceito, em razão da orientação sexual, que lhe é natural, assim como deve ser o direito a liberdade e a vida privada, mas estes sofrem por não terem assegurados devido a sua condição sexual, direitos básicos, como por exemplo: o reconhecimento da união estável pelo Poder Legislativo, a sucessão, a adoção, entre outros. Os Juízes devem superar “lacuna legal” e reconhecer a união homoafetiva. É claro que o direito não regula sentimentos, mas define relações com base nele geradas.

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Figura 3- Ato no Cristo Redentor, Celebração do Dia Mundial do Orgulho LGBT, Rio de Janeiro 29/06/2009; Fonte: www.naohomofobia.com.br

2.1 A família para além da heterossexualidade
As relações familiares são restritas ao âmbito do privado e não do público, mesmo que o Estado brasileiro dedique à família proteção social “especial”. Logo, como construto sócio-histórico da esfera privada cabe a sociedade sua normatização, uma vez que, se cairmos no lapso da tentativa de normatizar as relações familiares e os laços de parentesco, de certo, desqualificaremos várias alternativas de se constituir família. Entretanto, quando isso ocorre acaba-se falando em crise daquela ou então em “decadência” da mesma, o que resultará em estigmatizações dos variados processos de organização das estruturas familiares que não se encaixam no modelo pai-mãe-filhos. Entre as novas formas de se compreender família que são rechaçadas de preconceito destacam-se as compostas por casais homossexuais, as homoparentais (TARNOVSKI, 2002) ou homoafetivas (DIAS, 2000). Isso em função do preconceito discriminatório que muito objurga as relações homossexuais, principalmente após a cristianização do Ocidente, onde as práticas homoeróticas passaram a ser marginalizadas e colocadas abaixo da moralidade judaico-cristã sendo consideradas

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atos anormais. O padrão normal de comportamento pressupõe-se que partiria do referencial heterossexual29. O estabelecimento do normal e anormal é um delinear complicado colocando os “ditos anormais” em uma situação marginal. Assim, ocorre com as famílias homoparentais que longe da estrutura sacra do conceito de família, que historicamente é associada ao casamento derivado de um relacionamento heterossexual que gerará filhos (DIAS, 2000), são caracterizadas como forma anormal pelo imaginário social. Se olharmos para dentro das estruturas homoparentais será que não há, em hipótese alguma, algo que as faça merecedoras do status de família? Interrogar-se, assim, é o fator preponderante que possibilita a formulação de um entendimento de família para além da heterossexualidade aceita como norma. Para tanto, este capítulo trabalhará com a construção teórica do que vem a ser, hoje, a categoria homossexual [homossexualidade] na tentativa de oportunizar a descoberta do por que negar aos casais homossexuais o direito a ser e ter família, já que “as uniões homoafetivas são uma realidade que se impõe e não podem ser negadas, estando a reclamar a tutela jurídica30”.

2.2 A homossexualidade como variante da sexualidade humana
Iniciar a defesa da homossexualidade como uma variante da sexualidade humana exige uma discussão longa através da história do ser humano, mas para esta análise optar-se-á pela sumarização dos fatos sem perder a real essência do transcorrer histórico, político e social pelos quais a categoria homossexualidade vem passando ao longo do tempo, até os dias atuais. Em primeira linha, esclarece-se que a prática sexual entre pessoas do mesmo sexo é antiga, mas o termo em si, homossexualidade é novo – datando do final dos anos de 1980 – e, também, que a prática em si não carregava em sua gênese o real efetivo de prazer sexual, realização de um desejo, como uma
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Ver Dias (2000), Mello (1999) e Ribeiro (2005) DIAS, 2000, p.19

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orientação sexual. Será percorrido um caminho que possa contemplar a real gênese do preconceito que se estabeleceu aos homossexuais, em muitos casos, chegando a não respeitá-los como cidadãos. O que os colocaram – e os colocam – em situação marginal. Na Grécia Antiga – visa-se Atenas – a pederastia consistia em uma prática reconhecida socialmente a qual um homem mais experiente cortejaria um jovem e caso a corte fosse aceita, o adulto seria uma espécie de preceptor do adolescente, pois o primeiro ensinaria o segundo o valor da estética [o belo], iniciaria-o na arte do amor, complementaria seus estudos na área da filosofia e a da moral. Contudo, não era qualquer homem adulto que poderia exercer tal função, ou seja, para que um indivíduo mantivesse algum tipo de relação sexual com um adolescente, esse deveria ter certo grau de status social indicando que o adulto deveria possuir ascendência intelectual, cultural e econômica sobre o adolescente, por muitas vezes, estes homens mais velhos eram os anciãos das Cidades-Estado. A prática sexual ocorria ao se acreditar que por meio do sêmen eram transmitidos os dotes dos “preceptores” aos jovens (GUIMARÃES, 2005). A pederastia não implicava na anulação da vida conjugal dos pederastas, já que a prática sexual entre dois adultos do mesmo sexo não era vista com “bons olhos” perante a sociedade, que permitia apenas a prática sexual como forma de um homem adulto educar um jovem. Logo, o pederasta, em sua maioria, tinha esposa e o fato de se relacionar com garotos não implicava na anulação do casamento, já que se tratava de uma prática educacional. Sobre a homossexualidade na Grécia Antiga discorre Dias:
A bissexualidade estava inserida no contexto social, e a heterossexualidade aparecia como uma preferência de certo modo inferior e reservada à procriação. A homossexualidade era vista como uma necessidade natural, não se tratando de uma negação moral, um acidente, um vício (DIAS, 2000, p. 24).

A relação entre pessoas do mesmo sexo em Esparta continha um sentido diferente da cidade ateniense, pois as relações de pederastia eram estimuladas entre os componentes do exército espartano como uma tática bélica para torná-los mais fortes. Isso decorria do fato de acreditarem que um amante, além de lutar, jamais abandonaria o outro no campo de batalha e a morte de um do

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par resultaria na fúria por vingança o que o levaria o exército espartano a vitória (GUIMARÃES, 2005). Embora fosse permitido manter relações sexuais entre homens com idades díspares sendo que um deles deveria ter idade entre quatorze e dezesseis anos, em Atenas, ao completarem os dezessete, dezoito anos ou então ao aparecerem com características marcantes da masculinidade, como barba, voz mais grave, a relação entre eles deveria terminar. O não cumprimento desta norma resultaria em reprovação social, principalmente para os homens com maior idade. Portanto, na Cidades-Estado de Atenas a prática sexual entre homens era um ritual cultural de troca: um homem mais velho daria a sua sabedora a um jovem em troca de sua vitalidade, beleza e juventude. Porém, a relação sexual entre dois homens adultos não era aceita em Atenas, pois ao homem, ser ativo, não cabia o ato de passividade, como bem destacou Foucault (2006) em seus escritos sobre a História da Sexualidade. Contudo, a maior margem de preconceito ao se tratar das relações sexuais entre iguais surgiu com base nas religiões. Principalmente com a tradição Judaico-Cristã que atribui um alto valor moral e espiritual as relações entre os pares, bastante diferente da conduta pagã dos Antigos. Na órbita da religião cristã, qualquer relação sexual que fosse pautada, apenas, pelo desejo, manifestação da satisfação da carne por meio do sexo era tida como imoral, incorreta. Segundo Foucault:
O valor do próprio ato sexual: o cristianismo o teria associado ao mal, ao pecado, à queda, à morte, ao que a antiguidade o teria dotado de significações positivas. [...] A desqualificação das relações entre indivíduos do mesmo sexo: o cristianismo as teria excluído rigorosamente, ao passo que a Grécia as teria exaltado – e Roma aceito – pelo menos entre homens (2006, p. 17).

Foucault (2006) já havia problematizado a questão da sexualidade entre os homens. Ele mostrou o porquê do medo que a Igreja tinha ao hipotetisar a perda do sêmen pelo homem. Isso decorria do fato que toda a atividade sexual tinha que possuir a finalidade de procriação, não poderia haver perda do sêmen, pois infringiria o mandamento “crescei e multiplicai-vos”, além de ser pecado todo o ato sexual que tivesse uma finalidade diferente da reprodução de seres humanos (DIAS, 2000).

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Nesta última hipótese destaca Foucault:
Os jovens com uma perda do sêmen carregam em todos os hábitos do corpo a marca da caducidade e da velhice; eles se tornam relaxados, sem força, entorpecidos, estúpidos, prostrados, curvados, incapazes de qualquer coisa, com a tez pálida, branca, efeminada, sem apetite, sem calor, os membros pesados, as pernas dormentes, uma extrema fraqueza, enfim, numa palavra, quase que totalmente perdidos (2006, p. 18).

A Igreja Católica propagou essa ideia durante anos e em muitos lugares, ainda, se faz presente como afirma Dias,
[A Igreja Católica] considera a homossexualidade uma verdadeira perversão, uma aberração da natureza. Tem como antinatural, até hoje, a masturbação e o sexo infértil. Qualquer tipo de relação sexual prazerosa é vista como uma transgressão à ordem natural (2000, p. 26).

A Igreja cultua uma série de normas morais, muita por terra já caída ou desconstruídas no ocidente, como o princípio da virgindade, da fidelidade conjugal e o princípio procriador das relações entre pares. Porém, ainda, persistem alguns resquícios da imprudência cristã como todo o seu princípio moralista de punir, repudiar a prática sexual que não fosse marital e procriadora, que é justamente a disseminação do preconceito, da discriminação as relações homossexuais. O poder que a Igreja exercia sobre o ordenamento político com o avançar do tempo passa a declinar no processo denominado de laicização do Estado, ou seja, fala-se do início do século XVII, do Estado Moderno. Neste momento, observa-se a decadência da influência da Igreja Católica o que resultaria em queda do sentimento de culpa em se ter uma vida sexual pontuada só pelo prazer, a dessacralização do casamento, no qual o Estado passa a oficializá-lo. Mas o maior ganho deu-se no campo da sexualidade, já que “a orientação sexual começou a se caracterizar como uma opção e não como um ilícito ou uma culpa” (CZAJKOWSKI, apud, DIAS, 2000, p. 28).

2.3 A família a partir da conjugalidade homossexual: o movimento LGBT e a luta pelo direito à família

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A discussão acerca da constituição da família a partir da conjugalidade homossexual ou homoparentalidade é algo recente dentro das ciências sociais e humanas: “As pesquisas sobre famílias constituídas por gays e lésbicas no Brasil, muito embora estejam apenas iniciando, vem progressivamente conquistando o interesse acadêmico. O momento atual é de mapeamento e constituição de modelos de análise” (TARNOVSKI, 2002.p 01b). O aporte para a produção de conhecimentos sobre a homoparentalidade, como objeto de reflexão acadêmica, pode-se dizer que adveio da incessante busca por visibilidade dos homossexuais por meio de grupos organizados que passaram a reivindicar o “direito a ter direito” (LEFORT apud TELLES, 1994) e mesmo pelo Projeto de Lei Nº 1.15131 de 1995 que visa o reconhecimento da união civil entre pessoas do mesmo sexo. O movimento formado por lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais contribuiu e vem contribuindo para o aprofundamento teórico e político da questão. As universidades cada vez mais estão se interessando por esta linha de reflexão, mesmo que haja:
A (quase) ausência do debate sobre o gênero nesse campo – ausência essa que parece se ampliar nos últimos anos. A saliência desse fato se deve à presumível proximidade entre os estudos sobre a homossexualidade e as questões do campo feminino em que o conceito de gênero foi mais densamente elaborado (GÓIS, 2003, p.02).

Contudo,

salienta-se

que

o

real

objetivo

dos

estudos

na

contemporaneidade, especificamente a partir da década de 1970, transformou-se ao rejeitar a busca pelas origens ou causas possíveis para homossexualidade, bem como, os malefícios advindos pelas práticas homoeróticas e partiu para a:
Reflexão sobre a construção social dos significados associados a ela e das dificuldades enfrentadas pelos homossexuais na sociedade brasileira. Outrossim, buscou-se também analisar as estratégias individuais e coletivas voltadas à superação da opressão por eles enfrentada (GÓIS, 2003, p. 01).

Com

relação

a

isso,

se

destaca

o

debate

referente

à

homoparentalidade que desmistifica o magma solidificado dentro da instituição família associada a valores cristãos e bioconsanguíneos, a qual se associava – e ainda se associa – a “noção de honra, com rígida demarcação de papéis de gênero e controle estrito da conduta feminina” (HEILBORN, 2004, p. 107). Porém, pontuar
Projeto de lei de autoria da ex-deputada Marta Suplicy – PT que disciplina a união civil entre pessoas do mesmo sexo e dá outras providências
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um debate sobre a conjugalidade homo requer adentrar e analisar o que vem a ser conjugalidade. Além disso, há que se entender que o reconhecimento da conjugalidade entre pessoas do mesmo sexo e seu possível status de família não é uma luta isolada de indivíduos em si só, mas um movimento de um grupo que sofreu e continua a sofrer restrições de direitos civis e sociais ao se assumir com uma orientação sexual divergente da heterossexual.

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CAPÍTULO 3 - Adoção por casais homossexuais: um caminho possível?
Nossa sociedade ocidental, ainda, não consegue perceber em toda a sua completude que a homossexualidade é uma das alternativas possíveis no
Campo polimorfo e múltiplo das vivências amorosas humanas, e não uma modalidade nefasta do conjunto das perversidades psicossociais, a luta de gays e lésbicas pelo direito à socialização de crianças continuará a encontrar fortes resistências (MELLO, 1999, p. 107).

As resistências em alguns casos podem ocorrer de modo velado ou manifesto, pois dependerá de como se dará o acesso a parentalidade em se tratando de homossexuais. Para tanto esse tópico será abordado a partir de reflexões de Tarnovski (2002a, 2002b, 2004). Na guisa das reflexões elaboradas por Tarnovski há quatro possibilidades de um homossexual acessar à parentalidade, a saber:
1)recomposição familiar após uma união heterossexual, 2)coparentalidade, onde a criança é gerada sem que exista um comprometimento conjugal entre o pai e a mãe, 3)adoção e 4)novas tecnologias reprodutivas, quer se trate de inseminação artificial, no caso das lésbicas, ou de barriga de 32 aluguel, no caso dos gays (CADORET apud TARNOVSKI, 2004, p. 388) .

Para cada forma de se acessar a parentalidade há uma singular implicação sobre os aspectos de parentesco. Mas, aqui, tange a crítica sobre a homoparentalidade com cerne na adoção. Tarnovski (2002a) em pesquisa realizada na região sul da França conseguiu observar duas formas de acesso a por recomposição e por “convite”.
Em minhas pesquisas encontrei basicamente dois tipos de pais, consoante ao modo de estabelecimento da paternidade: de um lado, aqueles que após uma união heterossexual e o nascimento do (a) filho (a) se separaram e se assumiram homossexuais e, de outro, aqueles que, já assumidos, foram
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Encontram-se, igualmente, estas notas nos trabalhos publicados por Tarnovski em 2002 com os respectivos nomes “PAIS ASSUMIDOS”: adoção e parentalidade homossexual no Brasil contemporâneo e Homoparentalidade à brasileira: paternmidade homossexual em contextos relacionais.

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convidados a serem pais por mulheres já grávidas. A minha discussão se voltará apenas para os últimos (TARNOVSKI, 2002a, p. 02).

O antropólogo postula que o homem homossexual ao receber o convite para ser pai esse convite se apresenta como uma dádiva, materializada por meio do significado da criança em sua vida. A paternidade torna-se a concretização de um desejo antigo (TARNOVISKI, 2002b). Ele amparado pelos escritos de Fonseca ratifica que essa [homoparentalidade] seria sim, uma representação da família “pósmoderna”, para tanto se utiliza do seguinte escrito:
Seguindo a análise de Claudia Fonseca, os sujeitos desta pesquisa seriam os verdadeiros representantes da família ‘pós-moderna’, com sua ênfase na afeição e na escolha onde: [...] as crianças adotadas, enquanto filhos ‘escolhidos’ podem ser considerados como, de alguma maneira, mais valiosas do que aquelas que são simplesmente nascidas de seus pais. Da mesma forma, parceiros do mesmo sexo ganharam um espaço importante; se a afeição é a verdadeira base do relacionamento, por que o casal seria limitado a um relacionamento heterossexual centrado em torno da reprodução biológica? (Fonseca, 2001:03) A ‘opção’ enquanto valor tem sido apontada como uma marca de contextos igualitários modernos (ou pós-modernos), transformando a esfera da reprodução também em uma questão de ‘escolha’ (2002b, p. 50).

Nota-se que mais uma vez o termo “escolha” surge em meio às relações entre pares iguais ressaltando que em sua categoria os avanços da modernidade se fazem presentes, bem como, foi demonstrado em fatores de conjugalidade. Portanto, pode-se afirmar que é uma característica que as escolhas adquirem de alguma forma valor central chegando a circunscrever as relações amorosas, conjugais e parentais dos homossexuais. A “escolha” faz parte de seu processo, porém ser homossexual não é uma escolha, caso se entenda como tal recobraremos o sentido estrito da homossexualidade. Nesse processo de escolha a paternidade surge com o mecanismo de “adoção à brasileira” (FONSECA, 2006). A “adoção à brasileira” é a forma na qual pais biológicos dão seus filhos a outrem para que cuidem, dêem abrigo, alimentos, carinho e educação, segundo Fonseca. De onde os laços com a família biológica não são desfeitos, no contexto de Fonseca, no entanto, há casos em que tal tipo de adoção implica a dissolução dos laços com a família biológica e o registro ilegal de uma criança por terceiros que fazem se passar por família biológica da criança.
[A adoção à brasileira] É um processo irrevogável (os pais que quiserem voltar atrás têm que reconhecer que cometeram um crime) que integra a

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criança inteiramente na sua nova família, conferindo-lhe direitos em igualdade com as crianças ‘legítimas’ (FONSECA, 2006, p. 129).

Mesmo que se reconheça que a forma de adoção apontada por Fonseca seja ilegal, no Brasil é algo recorrente, “já que a ‘adoção à brasileira’ continuará a imperar em detrimento da adoção legal” (SZNICK 1993, p. 438), por se considerar o processo de adoção legal demorado e burocrático. Percebe-se que é permitida a “adoção à brasileira” por homossexual, como uma forma de ser pai, a partir do convite que lhe é feito para que assuma a paternidade de uma criança, com o consentimento da mãe biológica por não ter o pai biológico em virtude de uma possível separação (TARNOVSKI, 2002a, 2002b, 2004). Em sua essência, neste caso, a criança residirá com o homem que aceitou ser seu “pai social” e com o seu companheiro. Entretanto, a situação arrolada pelo princípio da adoção legal seria possível se pensar o mesmo, ou seja, a adoção ocorrendo por (par) gay ou lésbico que coabitará o mesmo espaço com a criança?

3. 1 Ordenamento jurídico sobre a adoção
Tentando trazer os desenvolvimentos anteriores para esta nova pauta de discussão que vem a ser a possibilidade de concessão de adoção em favor dos casais homossexuais, pode-se dizer que não há nenhuma circunstância legal que prive os homossexuais do direito de adotar, uma vez que, para se adotar uma criança ou adolescente no Brasil é necessário “preencher alguns requisitos”, tais como: • Ser maior de 18 anos, independente de seu estado civil, com exceção

das avós ou irmãos de adotando; • adotando; • Tem que oferecer um ambiente familiar adequado ao pleno O adotante tem que ser, pelo menos, 16 anos mais velho do que o

desenvolvimento da criança ou adolescente, além de outros estabelecidos no artigo 42 do Estatuto da Criança e do Adolescente.

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No Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei Nº. 8.069, de 13 de julho de 1990 – não se encontra nenhum dispositivo legal que negue a adoção por questões referente à etnia, credo, condições físicas, inserção social ou mesmo orientação sexual do adotante, pois a mesma tenta assegurar como princípio fundamental que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” (art. 5º, CF 88). Logo, todos são possíveis adotantes, desde que atenda a normativa estabelecida pelo artigo 42 do Estatuto que faz referência a poder adotar os maiores de 18 anos independentes do estado civil 33. A faculdade de adotar é outorgada tanto ao homem como à mulher, bem como a ambos conjunta ou isoladamente. A capacidade para a adoção não pode ser limitada ao ser heterossexual, já que deve haver um distanciamento entre moral, valores ou qualquer outro condicionante social que possa denegrir a imagem de alguém por questões relacionadas à sua orientação sexual. Destarte, o fato de uma pessoa se apresentar com orientação sexual dessemelhante da heterossexualidade e requerer para si a adoção de uma criança ou adolescente não pode ser tachado como ilegal, uma vez que, é perfeitamente legal pelas leis que abrange a matéria.
Quando um homossexual masculino ou feminino vem a pleitear a adoção, este não pode sofrer nenhuma ação que caracterize discriminação, pois o que vale é a idoneidade do candidato e a sua capacidade para assumir os encargos decorrentes de uma paternidade/maternidade adotiva, sem ser o centro de discussões a possível orientação sexual dos adotantes (SILVA, 2000). No Brasil, a adoção legal ou plena, consiste em “um procedimento irrevogável pelo qual a filiação adotiva passa, de direito, a substituir a filiação biológica” (FONSECA, 2006, p. 124), o que não restringe o direito de um homossexual em adotar, haja vista que: Pela natureza social do Estatuto da Criança e do Adolescente, ainda é mais visível à possibilidade da adoção por homossexuais, pois configura interesse do ECA resguardar e zelar pela dignidade da criança e do adolescente, para garantir-lhe um lar seguro, propiciando amor e carinho sem discutir a orientação sexual dos adotantes (AD, www.direitogay.com).

Todavia, a questão é mais complexa quando se refere à adoção em conjunto por homossexuais. Apesar do Estatuto da Criança e do Adolescente não apresentar – implicitamente ou explicitamente – nenhum impedimento legal à adoção por casal homossexual, o (Novo) Código Civil Brasileiro já impõe restrições
No ECA usado como referência a idade mínima é de 21 anos, mas como consta no Novo Código Civil a idade passou a ser 18 anos a partir do ano de 2003. Ver Novo Código Civil, Capítulo IV da adoção art. 1.618.
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ao dispor que: “ninguém pode ser adotado por duas pessoas, salvo se forem marido e mulher, ou se viverem em união estável” (Art. 1622). Este artigo mesmo que não explicite, coloca entraves legais, pois a legislação brasileira não permite o casamento e tão pouco reconhece a união estável entre pessoas do mesmo sexo, excluindo-os do direito já assegurado aos casais heterossexuais, o de adotar em conjunto34. Infelizmente o exemplo da Holanda, onde a equiparação de direitos é total, sendo este o único país do mundo em que casais do mesmo sexo pode adotar em conjunto e a certidão do adotando vem com a filiação “pai e pai” ou “mãe e mãe”, ainda, não foi adotada pela legislação/legisladores brasileiros. Estes fatos mostram, em um simples resumo, que o Congresso e os parlamentares, ainda, estão no papel de assumir a postura não política e sim de cunho próprio35, colocando os homossexuais relações como cidadãos exemplo marginalizados notórios da por orientação sexual. Os em parlamentares poderiam observar que a sociedade em si apresenta em suas cotidianas conjugalidade homossexual consonância com a criação de crianças. O legislativo num todo precisa ficar a par das discussões que subscrevem o tema família e educação dos filhos, já que:
Mais importante do que a estrutura familiar é a maneira como os adultos educam a criança: com amor ou indiferença, com cuidado ou desleixo, com atenção ou abandono, em paz ou com violência, já que não se sabe como os filhos desta união se comportaram, já que cada filho dá um sentido único e pessoal a tudo o que observa ao seu redor, às experiências que vive, ao jeito de seus pais, ao relacionamento com eles. É também por isso que filhos educados pelos mesmos pais são tão diferentes. Assim será com as crianças que crescerem com pais homossexuais (SAYÃO, 2002, p. 35).

Ao perceberem a importância de se instituir a adoção por casais do mesmo sexo, já que esta seria uma das formas encontradas para se legitimar uma família e ao mesmo tempo garantir o princípio de igualdade entre hetero e homossexuais, além de mostrar que os modelos familiares, hoje, são diversos, que a jurista Maria Berenice Dias, em seu artigo “Amor não tem sexo”, diz:
Há uma realidade da qual não se pode fugir. Crianças que vivem com parceiros do mesmo sexo, quer por serem concebidas de forma assistida, Ver a Constituição de 1988 artigo 226. Ver Mello, “O tesouro embaixo do arco-íris”. Artigo vinculado na página eletrônica do site da Universidade de Brasília em 2005.
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quer por serem filhos de somente um deles. Presente a convivência, a negativa de adoção veda a possibilidade do surgimento de um vínculo jurídico com ambos, o que, ao invés de benefícios, só acarretará prejuízos ao filho. Mesmo tendo dois pais ou duas mães, a vedação de chancelar dita situação serve tão só para impedir, em caso de morte, a percepção de direitos sucessórios ou benefícios previdenciários. Se ocorrer a separação, não haverá direito a alimentos, não se podendo garantir o direito de visitas. Por isso é que merece ser louvada a iniciativa da Holanda, que, de forma corajosa, pensou muito mais no interesse dos menores do que nos preconceitos da sociedade. Garantiu o nascimento de filhos frutos do afeto, gerados de forma responsável, cercando-os da proteção legal. Essa é, com certeza, a consagração do amor sem estigmas e sem medos, concedendo a muitos menores abandonados a chance de se criarem de forma saudável e feliz, pois cercados de um amor que já não tem mais medo de dizer seu nome e no seio de uma família que merece ser chamada de homoafetiva (2001).

Deste modo, a sociedade poderia tentar desconstruir os preconceitos e buscar compreender e conhecer essa nova forma de organização familiar que está se estabelecendo na atual fase da constituição social brasileira – exemplo o caso “Chicão”36 -, porque não será pela força das leis brasileiras que essas famílias deixarão de existir. Ainda mais, que o princípio constitutivo delas parte do afeto e da cumplicidade dispensadas para se formar um ambiente familiar adequado. Ambiente esse longe de violência, vícios para que se possa constituir um lar, onde os filhos lá existentes possam ter um ambiente seguro, tranquilo, com os devidos cuidados necessários para um bom desenvolvimento. Mas, isso não significa dizer que o fato de uma criança ser adotada por um casal homossexual o seu ambiente de convivência seja o mais adequado, em uma visão romântica de uma vida (FIGUEIRÊDO, 2001). Percebe-se que as relações sociais pertencentes à temática família perpassam pela instituição judiciária, principalmente quando se trata da adoção legal. Há profissionais que se deparam cotidianamente com o processo de colocação em família substituta de crianças e, ou adolescentes cujos pais foram destituídos do poder familiar. Entre estes profissionais destaca-se o assistente social que tem o judiciário como uma instituição que legitima seu trabalho (IAMAMOTO, 2004) e a família como objeto primeiro de sua intervenção desde o surgimento da profissão no Brasil (MIOTO, 1997). Será que este profissional compreende a vicissitude do seu trabalho
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Assim ficou conhecido o caso do pedido de guarda do filho de Cássia Eller, após sua morte, por sua companheira durante 14 anos, Maria Eugênia Vieira Martins.

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enquanto responsável por auxiliar um casal ou uma pessoa individualmente a ter para si o status de família? Do mesmo modo, vale se interrogar se o assistente social está capacitado teoricamente, tecnicamente e metodologicamente para subsidiar os casos os quais casais homossexuais reivindicam para si o direito a constituírem família a partir do princípio legal da adoção.

3.2 A adoção por casais homossexuais e o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA
O Estatuto da Criança e do Adolescente, não traz nenhum impedimento de adoção por casais homossexuais, pois a capacidade para a adoção nada tem a ver com a sexualidade do adotante, sendo expresso o art. 42 ao dizer: "Podem adotar os maiores de 21 anos, independentemente do estado civil". Devendo prevalecer o princípio do art. 43: "A adoção será deferida quando apresentar reais vantagens para o adotando e fundar-se em motivo legítimo". No Brasil já existem algumas adoções por casais homossexuais. O primeiro caso de casal de homossexuais do sexo masculino a conseguir a guarda de criança ocorreu em 2006 na cidade de Catanduva, no interior do Estado de São Paulo. Anteriormente, apenas três casais de lésbicas haviam obtido a permissão, dois do Rio Grande do Sul, e outro do Rio de Janeiro. A adoção homoafetiva conjunta, além de recente e polêmica, é pouco difundida no Brasil. Desde o primeiro caso relatado no país, em Bagé, Rio Grande do Sul em 2005, há cerca de dez casos concluídos ou em fase final de adoção, segundo levantamento feito pelo Jornal Folha de São Paulo37 com informações obtidas nos juizados. É evidente que adoção por homossexuais é possível e também justa. Não se pode negar, principalmente àqueles que são órfãos, o direito de fazer parte de uma
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http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u412544.shtml

Acesso em: 12/10/2011

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família, de receber proteção e amor. E esses atributos são inerentes a qualquer ser humano, seja ele hetero ou homossexual. A inadmissibilidade da adoção de crianças por casais homossexuais, só vem em prejuízo à criança, principalmente quanto o aspecto patrimonial, já que, sendo filho, passa a ter todos os direitos pertinentes à filiação, guarda, alimentos e sucessórios, que ao invés de ter em relação a duas pessoas, terá apenas em relação ao adotante.

3.3 Criminalização da homofobia no Direito Brasileiro
Nada melhor para ilustrar a homofobia e a hipocrisia da sociedade em que vivemos - na qual a maioria das pessoas defende os direitos humanos - do que a frase de Leonardo Matlovich, soldado da Força Aérea Norte - Americana condecorado por sua atuação na Guerra do Vietnã e expulso da corporação em 1975 por homossexualidade: "A Força Aérea me condecorou por matar dois homens no Vietnã e me expulsou por amar um." (Trecho do livro “A Cama na Varanda,” Regina Navarro Lins – RJ-2006). Constituição da República Federativa do Brasil promulgada em 5 de outubro de 1988 afirma que “todos são iguais perante a lei”. A homofobia (ódio contra homossexuais) é uma realidade cotidiana no Brasil. E lamentavelmente, o Congresso Nacional, por pressão de deputados e senadores católicos e evangélicos homofóbicos têm imposto barreiras à aprovação definitiva do Projeto de Lei Complementar número 122/2006 (PLC-122/06) que, em regra geral, criminaliza a homofobia. Enquanto o PLC-122/06 não é aprovado, anualmente, de acordo com a ONG “Grupo Gay da Bahia (GGB)”, um cidadão homossexual é assassinado a cada dois dias simplesmente por ter sua orientação sexual diversa da maioria da população brasileira. No mundo do trabalho é corriqueira a notícia de demissão, perseguição, não contratação de pessoas pelo fato de não terem a orientação sexual hegemônica. Na ilegalidade, muitas casas de "recuperação”, algumas mantidas com repasses de recursos públicos e com omissão do Ministério Público, e dirigidas por religiosos dogmáticos evangélicos ou católicos, usam de técnicas torturantes para tentar

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"tratar” LGBT. Com raríssimas exceções, as igrejas de origem abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo) do Deus Único, pregam o tempo todo que "amam o pecador (LGBT), mas não o pecado (a prática sexual entre pessoas do mesmo sexo genital). O Ministério da Educação (MEC) e as secretarias de educação não possuem nenhuma política de enfrentamento à violência homofóbica e ao bullying38 no contexto escolar. Seguranças Privados de shoppings, cinemas, festas tratam o afeto entre LGBT com violência verbal e física, sem nenhuma fiscalização por parte da Polícia Federal ou de Delegados de Polícia. A lista de violências homofóbicas é imensa. O grupo de parlamentares, oriundos de igrejas especialmente católicas e evangélicas, e outros de direita viúvos da ditadura militar, os mesmos que sempre defendem castração para o que chamam de "bandidos pedófilos”, prisão para médicos e mulheres que procedem o aborto legal, redução da maioridade penal , pena de morte agora se arvoram em dizer que no Brasil não é necessário uma lei para criminalizar a Homofobia. De repente viraram os paladinos da teoria abolicionista. Este grupo usa meios de comunicação, com concessão pública, para, de forma unilateral, afirmarem que gays querem privilégios criando uma lei só para eles, ou que querem prender pastores, ou que a homossexualidade não é natural e por isso mesmo, não pode ser penalizado aquele que propõe que ela seja uma doença ou que os LGBT precisam de tratamento psicológico, mais do que leis que os protejam. Desde os primórdios da humanidade, os humanos tem se progredido em todos os sentidos. Através do desenvolvimento da razão, dom não atribuído a nenhum outro animal, exceto à espécie humana, o homem e a mulher tem sempre estado organizado em grupos ou sociedades. No entanto, a interação social nem sempre é harmônica, pois nela os seres humanos revelam o seu lado instintivo: a agressividade. Na história do direito penal tivemos o período da vingança privada (olho por olho, dente por dente), divina Levítico - 24, 17 – “Todo aquele que ferir mortalmente um homem será morto”, pública (Crimes ao Estado, à sociedade),
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Bullying é um termo inglês utilizado para descrever atos de violência física, simbólica ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo (bully ou "valentão") ou grupo de indivíduos com o objetivo de intimidar ou agredir outro indivíduo (ou grupo de indivíduos).

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período humanitário (O homem deve conhecer a justiça) com a presença de Montesquieu, Voltaire, Russeau e D'Alembert, período cientifico ou criminológico ("A justiça deve conhecer o homem") com as polêmicas dos evangelistas: Cesare Lombroso,Enrico Ferri e Rafael Garófalo e agora o período do Direito penal positivo no qual obra de Beccaria (dos Delitos e das Penas), foi inspirada, sem sombra de dúvidas, nas condições desumanas que eram aplicadas no sistema penal de sua época. No Brasil vigora o Princípio da Legalidade Penal: não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal - Inciso XXXIX do art 5º da C.F. de 1988. O Alemão e positivista Anselmo Von Feuerbach opina que o fim do Estado é a convivência dos homens conforme as leis jurídicas. A pena, segundo ele, coagiria física e psicologicamente para punir e evitar o crime. Também, o positivista e italiano Francisco Carrrara defende a concepção do delito como ente jurídico, constituído por duas forças: a física (movimento corpóreo e dano causado pelo crime) e a moral (vontade livre e consciente do delinquente). Define o crime como sendo "a infração da lei do Estado, promulgada para proteger a segurança dos cidadãos, resultante de um ato externo do homem, positivo ou negativo, moralmente imputável e politicamente danoso". Em 1º de Janeiro de 1942 passa a vigorar no Brasil o atual Código Penal, que não criminaliza a prática da Homossexualidade, mas também não protege lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais das consequencias da homofobia. E como não há crime, sem lei anterior que o defina, o movimento LGBT cobrou e foi proposto o projeto de lei 5003/2001 , substituído depois pelo PLC 122/2006 que tenta, há mais de uma década no Brasil, tornar crime a homofobia. Diferente do que é apregoado nos quatro cantos deste país por religiosos dogmáticos, o PLC 122 não é uma lei para beneficiar apenas os Gays. O PLC 122 vai punir a discriminação ou preconceito por Origem ( contra nordestinos, nortistas, estrangeiros,...), Idosos ( Brasileiros/as com mais de 60 anos ),Deficiência ( Física, Auditiva, Visual, Mental e múltipla ) , Raça/Cor ( Negros/as), Etnia ( Povos Indígenas), Religião ( Pessoas católicas, evangélicas, espíritas, umbandistas, candomblecistas, judaicas,...), gênero ( feminino ou masculino ) , orientação sexual ( Heterossexuais, homossexuais e Bissexuais ), Identidade de Gênero ( Travestis e Transexuais ).

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Outra inverdade apregoada pelos religiosos dogmáticos é a de que o movimento quer com o PLC 122 mandar para a prisão as pessoas que agredirem com piadas, desacatos, humilhações os LGBT. O PLC 122 punirá com penas de 1 a 3 anos quem impedir o acesso ou recusar atendimento em restaurantes, bares ou locais semelhantes abertos ao público por causa da idade, da religião, da homossexualidade, da etnia e ou deficiência de uma pessoa. O PLC 122 irá punir com penas de 1 a 3 anos quem praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, origem, condição de pessoa idosa ou com deficiência, gênero, sexo, orientação sexual ou identidade de gênero. Este é o PLC 122, criando penas de 1 a 3 anos para os crimes de homofobia, machismo, xenofobia e como se sabe, no Brasil penalidades com menos de 3 anos acabam em cumprimento em liberdade com pagamento de cesta básica ou prestação de serviço voluntário. Parlamentares dogmáticos religiosos não gostam de ler em público o PLC 122, pois sabem que ele desmonta as alegações que armaram em torno da falsa ideia de que se aprovado irá lotar as cadeias de pessoas que discriminarem homossexuais no País. O que precisa ser dito é que a Lei Federal (LEI Nº 7.716, DE 5 DE JANEIRO DE 1989) atual e não o PLC 122, já pune crimes raciais com penas de 2 a cinco anos.Portanto, uma coisa é o PLC 122 que cria penas de 1 a 3 anos e outra é a lei atual, que não inclui Homossexuais, idosos, travestis, transexuais, pessoas com deficiências,mulheres, evangélicos, católicos e pune, com toda assertividade, com mais rigor o preconceito e discriminação por raça no Brasil. O que se pleiteia é o fim do preconceito e discriminação de brasileiros e brasileiras, quer seja por causa de sua raça, cor, etnia, origem, idade, condição física ou mental, gênero, orientação sexual e identidade de gênero. E o que querem os parlamentares dogmáticos religiosos? Impedir que 19 milhões de cidadãos e cidadãs LGBT brasileiros tenham os mesmo direitos que outros cidadãos e cidadãs brasileiras e que se perpetue os assassinatos, o constrangimento, a humilhação, a evasão escolar, a expulsão de casa, a demissão no trabalho. Portanto, país rico é país sem pobreza e com LGBT protegido.

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CAPÍTULO 4- É possível equiparar a união homossexual à união estável?
A partir da concepção da família moderna como uma entidade baseada essencialmente no afeto, surge uma questão de grande polêmica e controvérsia: o reconhecimento da união homossexual como entidade familiar. Afinal, os homossexuais que mantenham relações de afeto, duradouras, públicas e com o intuito de formar uma família, podem ter esse relacionamento equiparado à união estável? Há demonstrações de que as relações homossexuais possam comparar-se, no quesito estabilidade, às relações heterossexuais: os jornais e as revistas39 estão repletos de exemplos de pessoas do mesmo sexo que vivem juntas, estabelecem um patrimônio comum, criam filhos. Por outro lado, no Judiciário, embora as decisões que as reconheçam ainda constituam exceção40, há uma visível tendência no sentido de admiti-las como sociedade de fato nos casos em que o casal amealhou bens durante a relação, deferindo a partilha ao parceiro sobrevivente, e, em alguns casos, determinando o julgamento desses feitos pelas varas de família41. Apesar disso, o que realmente parece impedir a equiparação da união homossexual à união estável é o pressuposto da diversidade de sexos. Além do fato de o projeto de autoria da ex-deputada Marta Suplicy42 ainda não ter sido votado até hoje, é certo que na esfera do Judiciário, com apoio em

Vide, a título de exemplo, Família arco-íris, Folha de S. Paulo, p. C3-C4, de 31.03.2002, e Casamento cor-de-rosa, Revista Isto É de 15.01.1997 (www.zaz.com.br/istoe/comport/142507.htm). 40 No sentido da equiparação da união homossexual à união estável, destaca-se a posição pioneira do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (Ap. Cível 598362655, 8.ª Câmara Cível, Rel. Des. José Ataídes Siqueira Trindade, j. 1º.03.2000). 41 TJRS: CC 70000992156, 8.ª Câmara Cível, Rel. Des. José Ataídes Siqueira Trindade, j. 29.06.2000; Ap. Cível 599348562, 8.ª Câmara Cível, Rel. Antônio Carlos Stangler Pereira, j. 25.11.1999; Ap.Cível 598362655, 6.ª Câmara Cível, Rel. Desa. Marilene Bonzanini Bernardi, j. 15.09.1999; AI 599075496, 8.ª Câmara Cível, Rel. Des. Breno Moreira Mussi, j. 17.06.1999. TJRJ: Ap. Cível 2000.001.10704, 3.ª Câmara Cível, Rel. Des. Antônio Eduardo F. Duarte, j. 07.11.2000. 42 Trata-se do Projeto n.º 1.151/95, que visa instituir a parceria civil entre pessoas do mesmo sexo. Tal projeto, muitas vezes compreendido, equivocadamente, como sendo o reconhecimento do “casamento homossexual”, refere-se exclusivamente a direitos patrimoniais (registro de contrato de parceria civil, extensão dos efeitos da lei do bem de família a essas uniões, direitos previdenciários, direitos de sucessão, exercício de curatela), não reconhecendo outros que são deferidos à união estável,como o de alimentos e o de adoção.

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grandes nomes da doutrina43, o não-reconhecimento das uniões homossexuais baseia-se, precipuamente, no argumento de que a Constituição Federal bem como a legislação infraconstitucional referem-se, expressamente, ao par constituído por homem e mulher, pressuposto este, evidentemente, impossível de ser satisfeito por casais homossexuais. Embora a interdição constitucional alegada seja parcialmente procedente, uma vez que da análise gramatical do § 3.º do art. 226 da Constituição Federal e do art. 1.º da Lei n. 9.278/96 (Lei dos Companheiros) resulta tal conclusão, tem-se, por outro lado, que o referido dispositivo não pode ser encarado de forma isolada, seja dentro do próprio artigo, seja dentro do texto constitucional como um todo44. E é justamente adotando uma visão integrada do § 3.º do art. 226 com as demais disposições da Constituição que se verifica a possibilidade de equiparação da união estável à união homossexual: primeiro, por força de seu caput, que prevê “especial proteção do Estado” à família; em segundo, pelos direitos fundamentais assegurados pela Carta e os objetivos e fundamentos da República. Regra geral estabelecida pelo caput do art. 226 refere-se à proteção da família, ali genericamente definida como “base da sociedade”.

Nesse sentido, vide Álvaro Villaça Azevedo, União de pessoas do mesmo sexo, in A família na travessia do milênio – Anais do II Congresso Brasileiro de Direito de Família, coord. Rodrigo da Cunha Pereira, Belo Horizonte, IBDFAM, 2000, p. 141-160; Miguel Reale, O direito de família no Projeto de Código Civil: à frente da Constituição de 1988, e Ricardo Fiúza, Reforma do Código – O novo Código Civil e a união de pessoas do mesmo sexo, artigos extraídos da página eletrônica Jus Navigandi (www.jus.com.br). 44 Segundo Celso Ribeiro Bastos (Curso de direito constitucional, 18. ed., São Paulo, Saraiva, 1997, p. 62), pelo princípio da unidade da Constituição, “é necessário que o intérprete procure as recíprocas implicações de preceitos e princípios, até chegar a uma vontade unitária da Constituição. Ele terá de evitar as contradições, antagonismos e antinomias. As Constituições, compromissórias sobretudo, apresentam princípios que expressam ideologias diferentes. Se, portanto, do ponto de vista estritamente lógico, elas podem encerrar verdadeiras contradições, do ponto de vista jurídico são sem dúvida passíveis de harmonização desde que se utilizem as técnicas próprias de direito”.

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Tal dispositivo, ao contrário dos seus antecessores45, não definiu a família, senão pela fórmula genérica ora aludida. Outrossim, ao dispor nos §§ 3.º e 4.º que são entidades familiares a união estável e a família monoparental, não parece ter estabelecido um rol taxativo, porquanto ao “reconhecer” a união estável como entidade familiar, e “entender” assim também a família monoparental, a linguagem empregada não leva, necessariamente, à exclusão de outras entidades, mas, quando muito, somente à explicitação de que aquelas ali arroladas se incluem no conceito de família. Nesse sentido, não parece ser de boa técnica entender que a família protegida pelo caput do art. 226 seja apenas a constituída pelo casamento, pela união estável e a monoparental. Até porque, se considerarmos que o modelo do caput é bastante amplo, para a limitação de seu conteúdo exclusivamente àquelas entidades, seria necessário mais do que afirmar que os modelos nele elencados são entidades familiares, mas certamente explicitar, de forma taxativa, que sua noção de família se circunscreveria única e exclusivamente àquelas, eliminando qualquer interpretação mais elástica do dispositivo. Ademais, mais do que uma interpretação estritamente gramatical do dispositivo é necessário contextualizá-lo à realidade presente, tendo em conta, precipuamente, a moderna proposta de família, ou seja, da família como um laço de afeto. Deveras, como aponta Paulo Luiz Neto Lôbo, sobre a nova entidade familiar da Constituição de 1988:
A família é, no presente, muito mais do que antes, o espaço de realização pessoal, afetiva, despatrimonializada. (...) Rentes à realidade social, as propostas populares e de entidades representativas da sociedade civil partiram da família concreta, e não da família sacralizada ou mítica ou patriarcal. Visaram, sobretudo, a garantia das condições reais de igualdade 46 e liberdade, como pressupostos da realização afetiva .

CF/1937: “Art. 124. A família, constituída pelo casamento indissolúvel, está sob a proteção especial do Estado. Às famílias numerosas serão atribuídas compensações na proporção dos seus encargos”; CF/1946: “Art. 163. A família é constituída pelo casamento de vínculo indissolúvel e terá direito à proteção especial do Estado”; CF/1967: “Art. 167. A família é constituída pelo casamento e terá direito à proteção dos Poderes Públicos. § 1.º O casamento é indissolúvel”; CF/1969: “Art. 175. A família é constituída pelo casamento e terá direito à proteção dos Poderes Públicos. § 1.º O casamento somente poderá ser dissolvido nos casos expressos em lei, , desde que haja prévia separação judicial por mais de três anos”. Apud Rodrigo da Cunha Pereira, Direito de família – uma abordagem psicanalítica, Belo Horizonte, Del Rey, 1997, p. 21, e Yussef Said Cahali, Divórcio e separação, tomo 1, São Paulo, Revista dos Tribunais, 7. ed., p. 44. 46 O direito de família e a Constituição de 1988, São Paulo, Saraiva, coord. Carlos Alberto Bittar, 1989, p. 74.

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Dessa maneira, se de um lado não resta possível afirmar, via interpretação estritamente gramatical do art. 226, que no conceito de família contido no caput estejam protegidos apenas os modelos descritos nos parágrafos, e de outro, na elaboração de uma exegese evolutiva do dispositivo47, considerando que a proposta da família moderna se baseia numa estrutura que enfatiza, acima de quaisquer modelos rigidamente estabelecidos, a existência do afeto, a busca pelo real e exato sentido do mencionado dispositivo não pode encontrar naquela exegese restritiva o seu ponto final e ser tomado por verdade absoluta. Há de ir além, tanto pela observação da realidade concreta em que se insere essa nova família, como também estabelecendo uma leitura conjugada do artigo, seus parágrafos e demais dispositivos constitucionais, especialmente à luz do direito fundamental de igualdade, base de qualquer Estado democrático de direito.

4.1 Conceito atual de família
Atualmente, a família tem um conceito diferenciado do conceito tradicional histórico, os atuais modelos de constituição familiar não advêm obrigatoriamente do casamento, pois se apresenta sob inúmeras formas e variações, que o legislador deve levar em conta, quando tenta regulamentar e protegê-la. O número de casamentos caiu de forma significativa, os indivíduos têm procurado formas de constituição de família alternativa, na maioria das vezes marcada pela informalidade, e delimitadas por fatos sociais, econômicos e jurídicos. A sociedade se desenvolve de acordo com o momento histórico que vive sendo assim o Direito não cria a realidade, são as situações fáticas que se tornam tão evidentes ao ponto do legislador regulamentá-las. Existe um anseio social muito grande em priorizar a vontade do indivíduo frente ao moralismo rigoroso das normas, visando à liberdade de cada um em busca da realização afetiva e da

Segundo Anna Candida da Cunha Ferraz (Processos informais de mudança na Constituição: mutações constitucionais e mutações inconstitucionais, Max Limonad, 1986, p. 45), configura-se como interpretação evolutiva aquela “dada a uma norma formulada, na origem, com base em um conceito de conteúdo elástico ou indeterminado – assim, por exemplo, ‘bons costumes, ordem pública, interesse público’ – capazes de assumir conteúdo historicamente variável e determinar, em conseqüência, variação na época de aplicação da norma”.

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felicidade, sem o risco da exclusão causada pelo preconceito do moralismo, surgindo assim um novo perfil nas entidades familiares, que se molda dia a dia. As uniões extra-matrimoniais têm como característica principal a realização afetiva, mesma característica das uniões matrimoniais, visto que todos são iguais diante da lei, ou seja, os requisitos para a caracterização das uniões extramatrimoniais, independe de etnia, raça, sexo, cor ou qualquer outro critério que diferencie um ser humano do outro. O vinculo afetivo que tem relevância social na formação da família brasileira, originando o princípio da solidariedade, reciprocidade. O justo conceito que respeite os princípios constitucionais básicos da família brasileira nos dias atuais, seria, caracterizá-la como união de duas pessoas, com convivência duradoura e contínua, baseada no respeito e companheirismo próprios da cumplicidade, com objetivo da realização afetiva independente da sexualidade. O formato hierárquico da família cedeu lugar à sua democratização, e as relações são muito mais de igualdade e de respeito mútuo. O traço fundamental é a lealdade.

4.2 O Primeiro passo para regularização
Tendo o Direito um fim “social”, não é justo que o mesmo deixe alguns a margem da sociedade condenando os a desigualdade de tratamento, é fato que o Direito regula vidas, e tais vidas estão sempre em constantes mudanças. Portanto, o papel maior de uma lei é acompanhar estas evoluções regulando aquilo que está acontecendo, porém percebemos exatamente o oposto, ou seja, vidas estão afetadas por leis que estão estáticas, em total desacordo com as reais situações. Percebe-se que a maior barreira contra a regulamentação da convivência de casais homossexuais é o preconceito, sendo que a maior carga advém da Igreja Católica que só admite a família constituída pelo casamento, como se esta modalidade fosse a única dotada de legitimidade. A homossexualidade existe e não tem que ser explicada, apenas existe e merece o respeito mútuo da sociedade. Seguindo essa linha de raciocínio, acabaria com alguns problemas causadores de

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infelicidade e frustrações na vida das pessoas que sofrem com a discriminação preconceito. Não é de agora que as uniões entre pessoas do mesmo sexo se formam em múltiplos números, e no ordenamento pátrio ainda se encontram à margem da lei, da mesma forma que já estiveram às uniões estáveis antes do reconhecimento estatal. Entendendo isso, não haveria porque não legalizar as relações afetivas já existentes, ou seja, devemos exigir do legislador soluções efetivas para a realidade social, não devendo esta ser ignorada, pois não há dúvidas que o tratamento diferenciado aos homossexuais configura evidente discriminação. Por outro lado a evolução da Ordem Jurídica neste tema sofreu e sofre grandes obstáculos face às características da nossa sociedade, fortemente influenciada pela religião católica, a qual impõe certos limites, notadamente porque o Direito de Família é talvez o ramo de Direito mais sensível às influencias dos costumes locais e princípios religiosos. Isto porque conforme a doutrina Cristã, a homossexualidade representa um pecado, é vista como um desvio dos padrões éticos de conduta, além de ser considerada como um comportamento ultrajante nas sociedades que se pautam na moral e bons costumes. A tendência de nossa legislação sempre foi no sentido de proteger ou resguardar o casamento entre homem e mulher, fruto de uma sociedade conservadora. De fato é uma evolução muito lenta, mas já se tem diversas jurisprudências que trazem algumas mudanças favoráveis, como por exemplo, em 2004 – Parecer da Corregedoria Geral do Tribunal de Justiça permite que cartórios gaúchos registrem a união de casais homossexuais; em 2002 a Justiça Federal gaúcha anuncia sentença que entende garantias previdenciárias como pensão por morte e auxílio-reclusão a casais homossexuais. O INSS - Instituto Nacional de Seguro Social fica obrigado a reconhecer companheiros do mesmo sexo como dependentes previdenciais dos segurados do Regime Geral de Previdência. Essas evoluções são grandes conquistas, todavia, é um passo muito modesto para uma civilização que considera-se evoluída em termos sociais. O ser humano anseia por liberdade de modo geral, principalmente a liberdade de ter seus direitos

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respeitados, suas “diferenças sexuais” sendo respeitadas, pois a falta deste é fruto de grande preconceito, e também uma forma de imensa crueldade. Está na hora de se ter um ordenamento mais justo e livre de injustiças, pois o que os homossexuais reivindicam é poder ter acesso aos direitos da parceria legalmente reconhecida. Além disso, tal aceitação representaria um avanço no reconhecimento como cidadãos, visto que, o Direito deve acompanhar as transformações ocorridas e, em favor delas, afastar o preconceito e criar leis em nível de compatibilidade com os reais interesses da sociedade.

4.3 O Reconhecimento das uniões homoafetivas pelo Supremo Tribunal Federal
"Uma sociedade decente é uma sociedade que não humilha seus integrantes" (Ministra Ellen Gracie) O não-reconhecimento dos direitos do segmento LGBT é notório, sendo-lhes negados até aqueles previstos em nossa Constituição Federal, como o direito à igualdade, liberdade, dignidade, dentre outros. Bastaria nossos legisladores reconhecerem a união estável entre pessoas do mesmo sexo e isso já será o bilhete para acesso a outros tantos direitos dela decorrentes, como o direito à sucessão e à partilha de bens. Mas, enquanto nada, ou quase nada, lhes é assegurado por lei, o Poder Judiciário vem sendo chamado a agir em diversas oportunidades, sobre os mais variados temas. Pela decisão do Supremo, os casais homossexuais têm os mesmos direitos e deveres que a legislação brasileira já estabelece para os casais heterossexuais. A partir da decisão do Supremo Tribunal Federal, a união civil entre pessoas do mesmo sexo será permitida e essas uniões passam a ser tratadas como um novo tipo de família. O julgamento do Supremo, que aprovou por unanimidade o reconhecimento legal da união homoafetiva, torna praticamente automáticos os direitos que até então, eram obtidos com dificuldades na Justiça e põe fim à discriminação legal dos homossexuais.

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O reconhecimento, portanto, pelo tribunal, desses direitos, responde a um grupo de pessoas que durante longo tempo foram humilhadas, cujos direitos foram ignorados, cuja dignidade foi ofendida, cuja identidade foi denegada e cuja liberdade foi oprimida (Ministra Ellen Gracie, STF, 2011).

Pela decisão do Supremo, os homossexuais passam a ter reconhecido o direito de receber pensão alimentícia, ter acesso à herança de seu companheiro em caso de morte, podem ser incluídos como dependentes nos planos de saúde, poderão adotar filhos e registrá-los em seus nomes, dentre outros direitos. As uniões homoafetivas serão colocadas com a decisão do tribunal ao lado dos três tipos de família já reconhecidos pela Constituição: a família convencional formada com o casamento, a família decorrente da união estável e a família formada, por exemplo, pela mãe solteira e seus filhos. E como entidade familiar, as uniões de pessoas do mesmo sexo passam a merecer a mesma proteção do Estado. Os casais homossexuais estarão submetidos às mesmas obrigações e cautelas impostas para os casais heterossexuais. Por exemplo: para ter direito à pensão por morte, terá de comprovar que mantinha com o companheiro que morreu uma união em regime estável. Pela legislação atual e por decisões de alguns tribunais, as uniões de pessoas de mesmo sexo eram tratadas como uma sociedade de fato, como se fosse um negócio. Assim, em caso de separação, não havia direito a pensão, por exemplo. E a partilha de bens era feita medindo-se o esforço de cada um para a formação do patrimônio adquirido. A união estável, prevista na Constituição Federal (art. 226, parágrafo terceiro) e no Código Civil (art.1723), é tratada como uma entidade familiar e, por isso, regida pelo direito da família. É essa nova interpretação que se estende aos casais gays pela decisão do STF. O Brasil é um Estado laico desde 1889, portanto nenhuma religião deve se envolver em política com o objetivo de disseminar o preconceito. Quando o Brasil era um estado católico, antes da república, qualquer pessoa que não seguisse a religião era destituída de direitos civis, nem registro em cartório podia ter.

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A decisão do STF é justa, e se depender dele para decidir problemas que o legislativo tem inaptidão para resolver, então que sejam bem aventurados os juristas em usar da razão ao invés da emoção, como neste caso.

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CAPÍTULO 5 - Relação pública, duradoura e contínua
Agora, para ser considerada uma união estável, assim como para os casais heterossexuais, serão necessários alguns requisitos. Não há um prazo mínimo de convivência, mas a relação precisa ser uma convivência pública, duradoura, contínua, ter a característica de lealdade e com a intenção de se constituir família, segundo o próprio Código Civil de 2002. Com a decisão do STF, estende-se à união homoafetiva todos os direitos que até então eram exclusivos dos casais heterossexuais que vivem juntos. Muitos desses direitos, porém, já vinham sendo garantidos por outros tribunais em casos isolados e até mesmo por órgãos do governo. Desde 2010 a Previdência Social passou a conceder ao parceiro gay a pensão por morte e permitir a declaração conjunta do imposto de renda. Assim como a Receita Federal, passou a aceitar declarações conjuntas de gays.

Figura 4 - Plenário do Supremo Tribunal Federal durante o julgamento da União Estável Homoafetiva. Fonte: www.estadao.com.br

5.1 Sociedade brasileira e adoção por casais homoafetivos
Numa pesquisa do Datafolha (Instituto de Pesquisa pertencente ao Grupo Folha) realizada com 2.660 entrevistados em maio de 2010 em todo o País aponta que a maioria da população brasileira é contra a adoção por casal homoafetivo. 51%

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dos brasileiros dizem ser contra essa prática. Outros 39% são favoráveis à adoção por gays48. As mulheres são mais tolerantes à adoção por homossexuais que os homens: 44% contra 33%. Da mesma forma que os jovens em relação aos idosos: na faixa etária entre 16 e 24 anos, a prática é apoiada por 58%, enquanto que entre os que têm 60 anos ou mais, por apenas 19%. A taxa de pessoas favoráveis à adoção por homossexuais cresce com a renda (49% entre os que recebem mais de dez salários mínimos contra 35% entre os que ganham até dois mínimos) e a escolaridade (50% entre os com nível superior e 28%, com ensino fundamental). Entre as religiões, os católicos são os mais "progressistas": 41% se declaram a favor da adoção por homossexuais e 47%, contrários. Entre os evangélicos pentecostais, a desaprovação alcança o maior índice: 71%, contra somente 22% favoráveis. O padre Luiz Antônio Bento49, assessor da comissão para vida e família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), afirma que a adoção por homossexuais fere o direito de a criança crescer em um ambiente familiar, formado por pai e mãe, e isso pode trazer "problemas psicológicos à criança". A psicóloga Ana Bahia Bock, professora da PUC de São Paulo, diz que "A questão é cultural. Se a criança convive com pessoas que encaram com naturalidade [a sexualidade dos pais], ela atribui um significado positivo à experiência." Em outra pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística - Ibope50 em julho de 2011, depois da decisão do STF mostra que 55% dos brasileiros são contra união estável entre homossexuais.

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Pesquisa Datafolha realizada com 2.660 entrevistados em todo o país. Maio de 2010. http://www.ogalileo.com.br/noticias/nacional/maioria-e-contra-adocao-de-criancas-por-casais-gay. Acesso em: 12/10/2011 49 http://www.ogalileo.com.br/noticias/nacional/maioria-e-contra-adocao-de-criancas-por-casais-gay A pesquisa foi realizada entre os dias 14 e 18 de julho e ouviu 2.002 pessoas com mais de 16 anos de todas as regiões do país. A margem de erro amostral é de dois pontos percentuais.
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A pesquisa em que revela que 55% dos brasileiros se declararam contra a união estável entre pessoas do mesmo sexo. Os dados demonstram que a maioria discorda da decisão do Supremo Tribunal Federal que, reconheceu por unanimidade a união civil entre homossexuais.

Figura 5 fonte: http://blogs.estadao.com.br/vox-publica/2011/07/28/brasileiros-divergem-debrasileiras-sobre-casamento-de-homossexuais/Acesso em 22/10/11

Figura 6 fonte: http://blogs.estadao.com.br/vox-publica/2011/07/28/brasileiros-divergem-debrasileiras-sobre-casamento-de-homossexuais/Acesso em 22/10/11

Entre os evangélicos, 77% não aprovam a decisão do STF. Os católicos ficaram divididos: 50% afirmaram ser contra e 50% a favor da união estável entre gays. Já 63% dos homens disseram ser contra. Entre as mulheres, esse percentual é de 48%. No grupo de jovens de 16 a 24 anos, 60% disseram ser favoráveis e, entre os maiores de 50 anos, 73% são contrários.

Fonte:http://oglobo.globo.com/pais/mat/2011/07/28/pesquisa-do-ibope-mostra-que-55-dos-brasileirossao-contra-uniao-estavel-entre-homossexuais-924993515.asp

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Figura 7 fonte: http://blogs.estadao.com.br/vox-publica/2011/07/28/brasileiros-divergem-debrasileiras-sobre-casamento-de-homossexuais/Acesso em 22/10/11

Entre as pessoas com formação até a quarta série do fundamental, 68% são contrários à decisão do STF. Na parcela da população com nível superior, apenas 40% não são favoráveis à medida. Territorialmente, as regiões Nordeste e Norte/Centro-Oeste dividem a mesma opinião: 60% são contra. No Sul, 54% das pessoas são contra e, no Sudeste, o índice cai para 51%.

Figura 8 fonte: http://blogs.estadao.com.br/vox-publica/2011/07/28/brasileiros-divergem-debrasileiras-sobre-casamento-de-homossexuais/Acesso em 22/10/11

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Figura 9 fonte: http://blogs.estadao.com.br/vox-publica/2011/07/28/brasileiros-divergem-debrasileiras-sobre-casamento-de-homossexuais/Acesso em 22/10/11

A pesquisa também fez perguntas sobre a opinião dos entrevistados com relação à adoção de crianças por casais homossexuais: 55% se declaram contrários. Entre os homens, 62% disseram não concordar que parceiros do mesmo sexo adotem uma criança. Entre as mulheres, esse percentual é de 49%. Entre os católicos, 51% disseram ser contra. Já 72% dos evangélicos e protestantes não concordam que casais gays adotem uma criança. O Ibope também perguntou a opinião dos entrevistados sobre o nível de aceitação a amigos homossexuais, assim como a tolerância a médicos, policiais ou professores gays. Ao tratar de amizade, 73% dos brasileiros disseram que essa hipótese não os afastariam em nada de pessoas próximas. Outros 24% disseram que afastariam muito ou pouco e 2% não souberam responder. Em relação à aceitação de homossexuais trabalharem como médicos no serviço público, policiais ou professores de ensino fundamental, apenas 14% se disseram total ou parcialmente contra gays trabalharem como médicos, 24% como policiais e 22% como professores. A parcela dos brasileiros que são parcial ou totalmente favoráveis é de 84% para o caso de médicos, 74% para policiais e 76% para professores. Os dados apresentados pela pesquisa mostram que, de uma maneira geral, o brasileiro não tem restrições em lidar com homossexuais no seu dia a dia, tais como profissionais ou amigos que se assumam homossexuais, mas ainda se mostra resistente a medidas que possam denotar algum tipo de apoio da sociedade a essa questão, como o caso da institucionalização da união estável ou o direito à adoção de crianças.

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Figura 10- Casal de homossexuais com filhas de 6 e 8 anos que adotaram juntos no Rio de Janeiro. Fonte:www.folha.uol.com.br

5.2 CFESS/CRESS e Políticas afirmativas para população LGBT
Desde 2006, quando o Conjunto CFESS-CRESS51 lançou a campanha pela liberdade de orientação e expressão sexual, em parceria com as entidades políticas LGBT, e publicou a Resolução 489/2006, "que estabelece normas vedando condutas discriminatórias ou preconceituosas, por orientação e expressão sexual por pessoas do mesmo sexo, no exercício profissional do assistente social", o CFESS tem acompanhado às demandas desses sujeitos coletivos e apoiado ações que contribuam para superar preconceitos e violações de direitos. O Conjunto de CFESS - CRESS além de realizar os debates necessários, incluindo os direitos LGBT e o combate a todas as formas de preconceito, tem estabelecido importantes articulações, como por exemplo, participando na agenda oficial da Parada do Orgulho Gay e compondo Fórum Paulista LGBT.

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Conselho Federal de Serviço Social e Conselho Regional de Serviço Social.

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A Marcha Nacional contra a homofobia realizada em maio de 2010 em Brasília foi mais um momento importante da sociedade para combater o preconceito. Foi um espaço político importante de fortalecimento e visibilidade das lutas dos movimentos LGBT. A Marcha exigiu das autoridades que perpassaram no palanque um posicionamento político pela garantia dos direitos da população LBGT, do respeito e valorização da diversidade humana. A participação do CFESS - CRESS com a faixa "assistentes sociais na luta contra a homofobia" foi no sentido de defender e reafirmar o posicionamento político na defesa do PLC 122/2006, do Estado laico e da garantia dos direitos destes sujeitos políticos na direção da superação de todas as formas de opressão, de violência e preconceitos.

O PLC 122 visa a coibir manifestações notadamente discriminatórias, ofensivas ou de desprezo. Manifestações que induzam ou legitimem o ódio, ou que igualem a homossexualidade à doença. Particularmente, o projeto visa a proibir os discursos que incitem a violência contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.

Figura 11- Cartaz da campanha pela aprovação do PLC 122/06. Fonte: www.cfess.org.br

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Figura 12 - Marcha Nacional contra a homofobia - CFESS, DF/2010. Fonte: www.cfess.org.br

Ainda em 2010 0 Conjunto do CFESS – CRESS e o CRESS-SP mantiveram a defesa da inclusão do nome na Cédula de Identidade emitida pelo Conselho como efetivo respeito à identidade de gênero de travestis e transexuais. Essa medida visa identificar a pessoa pelo nome construído socialmente e não pelo registro civil. (Ação Jornal do CRESS-SP. f. 05) 02 ação 66, 2010). Em 2011 o CFESS publicou a resolução nº 594, que altera o Código de Ética do/a Assistente Social, introduzindo aperfeiçoamentos formais, gramaticais e conceituais em seu texto e garantindo a linguagem de gênero. Percebe –se que o conjunto do CFESS/CRESS tem mantido posições firmes a favor da igualdade de direitos entre homossexuais e heterossexuais, sobretudo na questão do direito à união estável e à adoção por casais de pessoas do mesmo sexo. Nesse sentido, é fundamental e deve ser aprofundada, cotidianamente, essa aliança estratégica entre o movimento LGBT organizado e o CFESS/ CRESS.

5.3 Assistentes Sociais e Cidadania LGBT
Ao aludimos à cidadania queremos ressaltar não apenas o caráter jurídico de direitos e deveres, mas a necessidade de reverter à lógica da relação entre a

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população e o Estado, que se encontra impregnada de clientelismo e assistencialismo. A palavra cidadania foi usada na Roma antiga para indicar a situação política de uma pessoa e os direitos que essa pessoa tinha ou podia exercer. Segundo Dalmo Dallari:
A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. Quem não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de decisões, ficando numa posição de inferioridade dentro do grupo social (DALARI. 1998, p. 14).

Os direitos que temos não nos foram conferidos, mas conquistados. Muitas vezes compreendemos os direitos como uma concessão, um favor de quem está em cima para os que estão em baixo. Contudo, a cidadania não nos é dada, ela é construída e conquistada a partir da nossa capacidade de organização, participação e intervenção social. A defesa, a garantia e a efetivação dos direitos humanos incluem o combate a todas as formas de discriminação e de violência e, portanto, a concretização dos direitos humanos dos LGBT, sendo um compromisso não só do Estado e da sociedade como um todo, mas de responsabilidade ética- profissional do assistente social, atuando principalmente nos serviços de prevenção à homofobia. Devemos repensar a discussão da sexualidade, deixando “cair por terra” os dogmas anteriormente estabelecidos. Essa é uma luta do projeto ético – político dos assistentes sociais, sendo os profissionais base, que atuam na “ponta” das Políticas Públicas, sendo muitas vezes os que elaboram, executam e avaliam as mesmas. Devendo por fim construir e partilhar de um mesmo projeto societário voltado para a igualdade no campo dos direitos, de maneira a não discriminarmos e segregarmos com políticas focalistas e reducionista esta parcela da população.

5.4 Assistentes Sociais e a adoção por casais homoafetivos
A atuação do assistente social na área sociojurídica “dispõe de larga tradição e representatividade no universo profissional. A presença do Serviço Social na área sociojurídica acompanha o processo de institucionalização da profissão no País”

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(IAMAMOTO, 2004, p. 262). Ainda, segundo a autora, na atualidade, a esfera sociojurídica, absorve um amplo contingente de profissionais – assistentes sociais – que dispõe de destacada importância na efetivação dos direitos de cidadania (IAMAMOTO, 2004). De tal modo, compreende-se que desde a década de 1930, o assistente social esta inserido no campo do judiciário, mesmo não dispondo de poder de decisão sobre os autos, ele se coloca na condição de especialista (IAMAMOTO, 2004; FÁVERO, 2005), desempenhando a função de perito social, ou seja, um assessor, “como parte de uma equipe interprofissional, contribuindo para a informação dos processos” (IAMAMOTO, 2004, p. 288). Mesmo subordinado administrativamente a um juiz de direito,
O assistente social é autônomo no exercício de suas funções, o que se legitima, fundamentalmente, pela competência teórico-metodológica e éticopolítica por meio da qual executa o seu trabalho. Autonomia garantida legalmente, com base no Código de Ética Profissional, na lei que regulamenta a profissão, no próprio ECA, na legislação civil (FÁVERO, 2005, p. 30-31).

Na área sociojurídica o assistente social inscreve sua prática na “órbita dos direitos sociais: em sua viabilização e no acesso aos meios de exercê-los” (IAMAMOTO, 2004, p. 263). Para tanto, não basta apenas compreender a função do judiciário, mas, também, da Vara de Infância e Juventude, bem como ter uma clara concepção do que vem a ser a categoria direito.

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Considerações finais:
Constatou-se com o presente estudo bibliográfico que a paternidade socioafetiva surge, como conseqüência da evolução dos hábitos e pensamentos da sociedade, a partir do momento em que as pessoas começam a se desvincular das amarras de um pensamento tradicional e inflexível quanto à família e a aceitar e buscar o amor como aspecto imprescindível e preponderante na constituição das relações travadas entre os seres humanos. Conclui-se também, que a paternidade socioafetiva deve ser considerada, sim, como uma das novas manifestações familiares instituídas por meio do afeto, sem o qual nenhuma base familiar pode resistir. Também deve ter sua importância reconhecida tal como sempre aconteceu em relação à paternidade biológica ou jurídica, pois com estas modalidades ela não guarda maiores diferenças, a não ser no que se refere à sua origem. Assim, não há como se negar que a paternidade constituída sob a forma socioafetiva é digna de reconhecimento jurídico e social, além do respeito e da transposição de preconceitos que só fazem por desconsiderar a forma mais sublime de alavancar sentimentos e relações humanas: o afeto. Não se pode mais deixar de reconhecer em nossa sociedade a existência de relações homoafetivas, não se pode mais deixar de reconhecer que é o afeto que une não só essas pessoas, mas sim, todo e qualquer ser humano, não se pode mais deixar de reconhecer o direito subjetivo à paternidade dos pares homossexuais. A união de pessoas do mesmo sexo, tem como objetivo de vida, como em todos de sua espécie, a busca da felicidade, logo não se pode mais deixar de reconhecer as questões patrimoniais e sua característica de entidade familiar, advindos da solidariedade e do afeto existentes nesses relacionamentos. É incompreensível o comportamento de nosso legislador, explicável tão somente, sob o argumento nada técnico do preconceito, o fato de se manter reticente, e o que é pior, na maioria das vezes, inerte diante das enormes dificuldades encontradas por esses “novos sujeitos de direito”, em verem tutelado e efetivado um direito fundamental, máxime, porque se tratam de cidadãos.

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Imperioso se faz que, o Poder Legislativo abandone, de uma vez por todas, os paradigmas alicerçados em razão do preconceito, a fim de que com isso, se possa atribuir efetividade a princípios basilares encartados no texto constitucional de 1988: o da dignidade da pessoa humana e da igualdade, o que implica a pensar o ser humano a partir de suas diferenças. Conclui-se com a reflexão sobre qual seria o ambiente adequando para engajar uma criança abandonada. Independente de ser uma família estruturada por um casal heterossexual ou um casal homossexual, o que importa é como estes irão se portar perante esta criança, devendo manter a moral e os bons costumes, proporcionando a elas respeito e dignidade, uma boa educação e alimentação, com conforto e bem estar, pois estes sim são fatores importantes a serem avaliados no momento da adoção. Ou seria conveniente a criança ficar pelas ruas, sem um lar e, muitas vezes, sem alimentação, sem escola, sendo negado a ela um lar e o afeto familiar. Um ambiente adequado é aquele, que a criança ou o adolescente possa adaptar-se, onde se sinta seguro, amado, e que este lar o proporcione principalmente bem estar, independente de qual seja a orientação sexual das pessoas que lhe dão esse tratamento de carinho e afeição. Vê-se que, se não todo, ao menos um pouco do preconceito já foi superado por alguns magistrados, e por alguns olhares menos incrédulos. Porém, ainda há muito que se fazer, não apenas pelos juízes ou desembargadores, mas também pelos legisladores, doutrinadores, ou, melhor dizendo, por cada cidadão deste país. Cabe principalmente ao estudioso e profissional de direito a tarefa de tomar a iniciativa em tratar os homossexuais da mesma forma que os outros, encarando com naturalidade as nuances de uma orientação não tradicional ou estigmatizada. Desde o atendimento no escritório, no gabinete ou no Fórum, até o convívio social, no supermercado, na universidade. Mas, fundamentalmente não ter medo de difundir esta ideia, porque seu papel é, sem dúvida, o de difusor das ideias novas e de romper barreiras. Porque assim como a mulher precisou lutar por seu espaço tanto no mundo profissional, quanto precisou mostrar de que era capaz tanto quanto o homem, em todas as áreas da vida humana, assim os homossexuais acabarão por demonstrar

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que sua orientação sexual não os impede de viver da mesma forma que todos os outros seres humanos. É sábia a afirmação de Giselda Hironaka:
Biológica ou não, oriunda do casamento ou não, matrilinear ou patrilinear, monogâmica ou poligâmica, monoparental ou poliparental, não importa. Nem importa o lugar que o indivíduo ocupe no seu âmago, se o de pai, se o de mãe, se o de filho; o que importa é pertencer ao seu âmago, é estar naquele idealizado lugar onde é possível integrar sentimentos, esperanças, valores, e se sentir, por isso, a caminho da realização de seu projeto de felicidade pessoal. (In: Revista Brasileira de Direito de Família – n.º 1, 1999).

A lição que fica é de que a coisa mais bonita é o sentimento que norteia uma criança no caminho do respeito a si mesma, do respeito aos outros e ao mundo, na busca por futuro mais tranquilo, com profissão definida e sem violência. A verdade jurídica deverá ceder vez à imperiosa passagem e instalação da verdade da vida. Então, a adoção, se tomada por ato de amor e doação pode ser concedida também aos homossexuais individualmente ou aos parceiros homoafetivos. O enfrentamento da homofobia no Brasil além da educação sexual requer alteridade em todos os graus escolares, ensinando a todas as crianças, jovens e adultos que o homossexual é um ser humano, é digno de respeito e que a livre orientação sexual é um direito inalienável de cidadania. Faz-se também necessária a adoção de leis que punam exemplarmente os que discriminam, violentam e assassinam gays, travestis e lésbicas, capacitando a polícia e a justiça a investigar, julgar e punir com exemplar severidade os autores de crimes homofóbicos. Iniciativas governamentais como o “Programa Brasil Sem Homofobia” e o “Plano Nacional de Combate a Homofobia”, são respostas as crescentes pressões do movimento LGBT brasileiro, reivindicando a transversalidade do tema nas ações das esferas e níveis governamentais, concretizando uma conquista histórica e comprovação que só mudamos uma da realidade, quando trazemos as reivindicações e lutas da sociedade civil para a arena política. É importante romper com o tratamento da sexualidade em sua dimensão estritamente biológica e dogmática e colocar na cena política reivindicações pelo direito à livre orientação e expressão sexual, possibilita atuação profissional

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disseminar o questionamento da moral conservadora, expressa na compreensão da família nuclear; na negação e violação dos direitos reprodutivos e dos direitos sexuais. O principal objetivo do Assistente Social é contribuir com a melhoria da qualidade de vida dos sujeitos com o qual atua. Seu campo de atuação é diversificado e amplo, o profissional pode trabalhar em diversos contextos organizacionais que variam de acordo com o lugar que o profissional ocupa no mercado de trabalho. Compreendemos que de fato os profissionais devem estar abertos a esta diversidade, se despindo de preconceitos e discriminações, buscando sair do campo do assistencialismo, dos imediatismos para as políticas públicas de caráter preventivo, entendemos que muitas vezes se faz necessário o imediatismo para suprir as necessidades básicas dos usuários, como a fome, o frio as doenças. Mas o que queremos de fato é enfatizar a necessidade de trabalhar o sujeito político, através do fortalecimento dos movimentos sociais reivindicatórios, do qual o próprio profissional deve fazer parte enquanto classe trabalhadora. Não adianta continuamente discorrer sobre a importância de se ter direitos, quando na realidade o direito só pode existir no exercício da prática, já que, muitas pessoas desconhecem os mesmos ou não possuem meios de defesa para reagir perante as injustiças sociais e perdem a possibilidade da efetivação do direito. Destaca-se a importância da atuação de um profissional crítico, ético, reflexivo, criativo, dinâmico, na compreensão da realidade social e de contradições, no enfrentamento das diversas expressões da questão social (violência, discriminação, desemprego, evasão escolar, fome, dificuldade no aprendizado e outras) que se manifestam no cotidiano da população LGBT, com um sentido ético e político voltado para contribuir na luta pela igualdade social, pela cidadania e pela efetivação da democracia. Diante do exposto, é importante refletir que o Serviço Social ganhou destaque e relevância como profissão de intervenção na realidade social e humanista, reafirmando a significação social de uma profissão cada vez mais interventiva e investigativa, ratificando a importância de um projeto de formação profissional embasado na aquisição de novos conhecimentos teóricos e metodológicos em diferentes áreas do conhecimento da humanidade.

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A certeza de que esta pesquisa trouxe, dentre outras, é a de que o direito a adoção por casais homoafetivos, a liberdade de livre orientação sexual ou identidade de gênero, deve se fazer presente no senso comum, para que de fato a inclusão LGBT se constitua num padrão de dignidade exigido pela sociedade para todos os brasileiros.

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