FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE DE BRASILIA CONSELHO DIRETOR Abílio Machado Filho Amadeu Cury Aristides Azevedo Pacheco Leão Isaac Kerstenetzky José Carlos de Almeida Azevedo -Reitor José Carlos Vieira de Figueiredo José Ephim Mindlin José Vieira de Vasconcellos EDITORA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA CONSELHO EDITORIAL Afonso Arinos de Melo Franco Antônio Paim Arnaldo Machado Camargo Filho Cândido Mendes de Almeida Carlos Castello Branco Geraldo Severo de Souza Ávila Heitor Aquino Ferreira Hélio Jaguaribe Josaphat Marinho José Francisco Paes Landim José Honório Rodrigues Luiz Viana Filho Miguel Reale Octaciano Nogueira Tércio Sampaio Ferraz Júnior Vamireh Chacon de Albuquerque Nascimento Vicente de Paulo Barretto

Presidente: Carlos Henrique Cardim

ENEIDA
Tradução de Carlos Alberto Nunes

Editora Universidade de Brasília

FUNDAÇÃ O ROBERTO MARINHO

280 p. Laís Serra Bátor. Rosas Saltarelli Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da UnB Controladores de Texto: Vergilius Maro. A Montanha.Brasília . 1983. Wilma G.910. Fernanda Borges. Publius V497a Eneida. Maria Helena Miranda. Editora Universidade de Brasília. Manuel Montenegro da Cruz. Maria Riza Baptista Dutra e Maria Rosa Magalhães Elmano Rodrigues Pinheiro Supervisor Gráfico: José Reis Supervisor de Revisão: Antônio Carlos Aires Maranhão. São Paulo.Distrito Federal EQUIPE TÉCNICA Editores: Lúcio Reiner. Título original: Aeneis 871-1 V497a t . Trad.Este livro ou qualquer parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização escrita do Editor Impresso no Brasil Editora Universidade de Brasília Campus Universitário — Asa Norte 70. Brasília. de Carlos Alberto Nunes. Thelma Rosane Pereira de Souza. Mônica Fernandes Guimarães. Carla Patrícia Frade Nogueira Lopes. Clarice Santos. Patrícia Maria Silva de Assis. Maria dei Puy Diez de Uré Heiinger.

PÚBLIO VERGÍLIO MARÃO ENEIDA Tradução portuguesa de CARLOS ALBERTO NUNES no metro original A MONTANHA Edições .

Edição comemorativa do Segundo Milenário do falecimento de VERGÍLIO que é incluída nas comemorações promovidas pela ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS no III ANO da Presidência do Acadêmico FRANCISCO MARINS São Paulo 1981 .

maestro".VERGÍLIO O MAIOR dos poetas latinos — Publius Vergilius Maro . . produzindo mesmo seu melhor fruto na Idade Média ao gerar o poeta do Cristianismo. traduzido. Vergílio. Há. chamando-o "duca. um Eliot.. Na verdade é o caso de indagar-se se cabe falar em morte de um poeta que há vinte séculos vem sendo lido. mais do que um clássico é o clássico por definição de nossa cultura greco-latina. em Brindisi. o que é mais notável. estendeu-se soberanamente. é o "vates" por excelência da Latinidade. um segredo nessa mais do que milenar sobrevivência. comentado em todo o Ocidente. antes. na Itália meridional.C. com pouco mais de cinqüenta anos. enfim.Vergílio — morreu há dois mil anos. e esse segredo é simples: Vergílio é ao mesmo tempo o mais poderoso dos poetas da idade antiga. estudado. judaico-cristã. em Mântua. nascido que fora a 15 de outubro de 70. como luminosamente explicam um SainteBeuve. exatamente a 21 de setembro de 19 a. Dante. um Theodor Haecker. sua influência não se restringiu ao universo pré-cristão. E. indiscutivelmente. signore. que o venera quase como um profeta.

ao Lâcio. o trabalho da terra. e. Obra capital. vivo interesse cultural e cívico. predestinado aos mais. rura. a imperiosa Amata. mas é ao mesmo tempo epopéia nacional e religiosa.C. duces": os campos. o fiel Acates. finalmente. Augusto. herói másculo e piedoso. o ruido das armas que se ouve repercutir ao longe da Ilíada. no qual trabalhou obstinadamente durante cerca de dez anos e que. Euríalo e Niso. . que ofereciam. as Geórgicas. agonizante. Palinuro. A cada um desses temas corresponde. a é uma soberba estrutura épica concebida segundo o modelo das rapsódias homéricas. Lauso. o jovem Ascânio.No epitáfio que terá composto para seu túmulo. Eneida É Enéias. toda uma galeria de imagens que fazem parte de nossa mitologia literária e.C. . brilhante e vasto cortejo de figurantes desfila imortalmente por seus versos: o venerável Anquises. o poeta resumiu a imensa criação de seu gênio em apenas três palavras. Evandro. preservando para os tempos um dos livros mais altos já escritos no Ocidente. que compreendem dez composições arcádicas elaboradas entre 41 e 39 a. . a ciumenta Juno. os combates. efetivamente. Camila virgem amazona. um de seus livros: as Bucólicas. declarando haver cantado "pascua. os penates e os grandes deuses de Tróia. a misérrima Dido. Turno. poema da fundação de Roma. fosse queimado. do "epos'' eterno.. não tendo podido polir como desejara. Mesêncio e Aletes. mais do que isso. viril figura de Enéias. dos arquétipos de nossa cultura. divididas em quatro livros compostos de 37 a 30 a. a dominar e reger o universoOs seis primeiros cantos do poema recordam a Odisseia com seu fascinante relato de aventuras terrestres e de atribulações no mar. da pátria vencida. gloriosos destinos. ordenou. Seu tema essencial são as origens primeiras da raça e do culto romanos. os heróis. a Sibila e os mistérios tremendos do antro em que o herói inicia a peregrinação pelo Tártaro e pelos Campos Elísios. a fim de instala-los no solo itálico. Caieta. Tendo no centro a límpida. a Eneida. os adolescentes mortos: Palante. os seis últimos. a mais ousada das obras vergilianas. as operações estratégicas. no momento em que Augusto lançava bases do império. em cujo louvor e por cuja ordem a Eneida havia sido escrita impediu essa perda irremediável. Lavínia. filho de Vênus e de Anquises que transporta. tal como os relatavam as antigas tradições latinas.

entre nós. discípulo de Vergílio. Vergílio lusitano. NOGUEIRA MOUTINHO da Academia Paulista de Letras . é esta a primeira vez que os hexâmetros de religiosa beleza e guerreira solenidade do poema maior de Roma encontram. acolhida na língua de Camões. Depois da empresa levada a efeito no século passado por Manuel Odorico Mendes.Não poderia haver melhor homenagem a Vergílio no bi-milenário de sua morte do que esta versão da Eneida feita pelo Professor Carlos Alberto Nunes.

DANTE .O degli altri poeti onore e lume. Vagliami il lungo studio e il grande amore Che m'ha fatto cercar lo tuo volume.

ENEIDA Livro I As armas canto e o varão que. para desgraça da Líbia. da qual um povo haveria nascer. fugindo das plagas de Tróia por injunções do Destino. A impulso dos deuses por muito tempo nos mares e em terras vagou sob as iras de Juno. dos colonos de Tiro povoada. forte Cartago. Porém ouvira falar numa raça provinda dos troas que. as muralhas dos tírios ao chão lançariam. Lá teve as armas. andando o tempo. guerras sem fim sustentou para as bases lançar da Cidade e ao Lácio os deuses trazer — o começo da gente latina. Isso as Parcas já haviam tecido. dos pais albanos primevos e os muros de Roma altanados. instalou-se na Itália primeiro e de Lavínio nas praias. rica de todo comércio. por qual ofensa a rainha dos deuses levou um guerreiro tão religioso a enfrentar sem descanso esses duros trabalhos? Cabe tão fero rancor no imo peito dos deuses eternos? Cidade antiga existiu. até mesmo em confronto com Samos dileta. então. e lembrada a Satúrnia da guerra primeira . distante da Itália e das bocas do Tibre. Musa ! recorda-me as causas da guerra. o carro guardava e o projeto ambicioso de fazer dela a senhora dos povos. 1 -23 De medo. de grande maldade na guerra. Contam que Juno a habitava e por ela especial preferência manifestara. se os Fados anuíssem. a deidade agravada. belicoso e arrogante.

a Éolia chamada. o julgamento de Páris. o ódio aos troianos e as honras ao belo escanção Ganimedes: por isso tudo exaltada. dos Austros feros. Tão grande empresa era as bases lançar da progênie romana ! Mal a Sicília perderam de vista e contentes rumavam para o alto mar.10 ENEIDA que contra Tróia movera a favor dos seus caros argivos. apartando com as quilhas as ondas salobres. revolvendo com os ventos as ondas. obediente ao seu mando. O Onipotente. sem resultado. a sangrar-lhe no peito a ferida. seus brios aplaca e os tempera. e ao infeliz. com montes enormes por cima. com duros ferros e cárcere. E ainda haverá quem ao nume de Juno preste homenagens ou grata oferenda no altar lhe deponha? Tais pensamentos volvendo no peito inflamado. e o próprio céu. mantinha afastados do Lácio como joguete das ondas os teucros escapos dos gregos e do terrível Aquiles. cauteloso os comprime em profundas escuridões de caverna. o rei Éolo as tempestades sonoras domina. vinham cortando sem rumo desde anos o mar infinito. soberana dos deuses. como também um monarca lhes deu. Aqui. a todos impondo o seu jugo. pelo espaço varrendo-os sem rumo nem nada. Mas. conforme o ordenasse. . a injúria à sua forma impecável. sofrimento indizível de ofensas passadas. em pessoa. Sentado na rocha altaneira Éolo se acha com o cetro. na agonia final. ainda guardada no peito bem viva a lembrança das causas do seu rancor. há tantos anos guerreio um só povo. todo o peito abrasado. porém. os quais. as naus destroçou. numa furna espaçosa. sem conseguir afastar dessa Itália o caudilho troiano? Os Fados o obstam. Juno potente. acossados dos Fados. Palas não pôde queimar os navios desarvorados dos gregos. Se o não fizesse. e os sacrílegos atos da sua demência? Ela. e a montanha retumba com a turbulência dos presos. a deidade baixa até à pátria dos ventos furiosos. irmã e consorte do próprio Júpiter. ao passo que eu. Bramam os ventos em torno à prisão. arrojou desde as nuvens o rápido fogo de Jove. consigo levaram as terras e os mares. por culpa tão-só de um aquivo. os impávidos ventos. conversa consigo mesma: — Aceitar o fracasso no início da empresa. num torvelinho o apanhou espetando-o em agudo penedo. para encurtar ou soltar mais as rédeas. Ajaz Oileu.

Negra noite o mar todo recobre. no mesmo ponto em que Heitor sucumbiu sob a lança de Aquiles. valente Tidida. e o violento Aquilão em reforço à tormenta bate de frente na vela maior e até aos astros a atira. por entre fundos suspiros. respondeu: — A ti cabe. e pai te tornes de prole sadia e invejada de todos. abalando-o até ao fundo sem luzes Noto mais Euro potentes e. gente inimiga me sulca o Tirreno. Num pronto.L. formados em turbilhões. dizer-me quanto desejas. em tropel. Assim falando. O meu reinar a ti devo. logo logo cumprir o que ordenas. as nuvens retiram da vista dos teucros a bela luz da manhã. Éolo. fértil em grandes procelas. onde tantos escudos lascados e capacetes e corpos de heróis o Simoente carrega ! Não acabara. 64 -103 . a mais gentil. Força nos ventos insufla. a mim. empurrou para o lado com a ponta do cetro monte escavado. três vezes e quatro felizes os que morreram à vista dos pais. No jeito de tropas. este cetro e a aquiescência de Jove. I V R O I 11 Súplice. Deiopéia. deixando-os paralisados. preço do grande favor que me prestas. dada a porta irromperam por essa abertura. o alto céu. Juno lhe fala. dar-te-ei como esposa extremada. Tudo à visão dos troianos são formas variadas da Morte. Em rolos seguidos as ondas às praias investem. o mais forte dos filhos de Dânao ! Não ter eu tido a ventura. aos raios freqüentes o mar se ilumina. Dás-me também freqüentar os festins das deidades eternas e árbitro ser todo o tempo das chuvas no mar tempestuoso. levando consigo Tróia e os vencidos penates em busca da Itália distante. ao lutar nas campinas de Tróia de perecer sob os golpes dos teus fulminantes ataques. enxárcias sibilam. aos astros as mãos elevando. bradou: — Oh. enunciando as seguintes palavras: Éolo. Áfrico. submerge essas naus alquebradas ou as dispersa no mar infinito e os seus corpos afunda. o frio percorre de Enéias os membros. então. Súbito. Eis se levanta a celeuma dos nautas. a fim de que more perpetuamente contigo no mais harmonioso consórcio. os ventos. Rainha. onde Sarpédone ingente. Jogam-se ao mar. a quem deu o pai e monarca dos deuses e do homem as ondas bravas deter e acalmar a insolência dos ventos. Troam os poios. sob os muros de Tróia ! Ó tu. No meu cortejo se encontram quatorze belíssimas ninfas.

a de Aletes. Orgulhe-se dos seus domínios Éolo e mande no cárcere em que vos sentis como servos. assoberbados das ondas os teucros. Euro e Zéfiro chama e destarte lhes fala: De tanto orgulho vos incha a confiança na própria linhagem. Comovido. Logo percebe tratar-se dos dolos da irmã rancorosa. Netuno sentiu pelos surdos mugidos do mar profundo que no alto a tormenta a campear se encontrava. surpreso. caindo de cheio na popa. Euro. dura meseta a que os ítalos deram o nome de Altares. em fuga os negros bulcões. de cabeça o piloto mergulha no oceano. Juno potente. as ondas brabas três vezes o casco anegrado volteiam. a serena cabeça põe fora d'água e. do imo cachões a brotar. Nesse entrementes. sem demora ! e ao rei vosso levai o recado de que o domínio do mar e o tridente não são propriedade dele. . Montanha escarpada desfaz-se nos mastros.12 ENEIDA quebram-se os remos. o céu arruinado. tantas serras ergueis nos meus reinos? Sem mais conversas. três outros arrasta do mar encrespado Euro aos estreitos e sirtes do fundo — espetáculo triste! — nesses baixios os prende e os circunda de bancos de areia. mansões de vós todos. deixando os costados à mercê d'água. pertencem-me. armas e quadros. Porém o que importa é compor a tormenta. ventos audazes? Sem me consultardes. . observou toda a esquadra de Enéias. entram nelas furiosas as águas por quantas rimas encontrem nas frouxas junturas dos lenhos. Impere naqueles penhascos imensos. dispersa. a mais do que todas possante. a proa se volta. Antes do fim do discurso o mar bravo ficara sereno. observou o que então ocorria: no equóreo campo. Uns marinheiros se agarram na crista das ondas. À vista mesmo de Enéias uma onda o navio surpreende do fido Oronte e seus lícios. Vários ainda a nadar aparecem no pélago imenso. a esquipada com os homens de Acates robusto. Noto a três barcos impele de encontro a uns rochedos ocultos. despojos salvados da teucra opulência. a terra e o céu vasto num todo informe arrolais. té ser tragado num ápice por um voraz torvelinho. a tempestade as domou. cuja areia sem pausa referve. Mais para diante tereis o castigo de tanta ousadia. de Ilioneu. Parte-se a nau. Fora daqui. quase submersos. o fundo outros enxergam do mar. . a luz bela do sol resplandece. A nau de Abante.

e Cimótoe as naves libertam das pedras. repousa sem movimento o mar fundo. 144 -183 . dos grandes trabalhos da viagem. os sócios de Enéias à praia mais próxima tendem. os perigosos abrolhos com o próprio tridente remove. tenteia a rédea e completa uma volta na extensa planície. uma grota se abre. Ao fundo. até grande distância. Ali. Lassos. na base. mas. já voam pedras e fachos. retiram o úmido trigo e os agrestes de Ceres. e amparando-as com áridos ramos. com fontes amenas e assentos talhados na rocha é a moradia das ninfas. uma esplêndida selva com negro bosque em que os ramos inquietos o medo suscitam. primeiro de todos. De um lado e do outro. centelhas. as armas a luta improvisa. dois picos irmãos ante o céu se levantam. os troianos. ao olhar para as ondas. as proas viram no rumo da costa da Líbia. sirtes acalma. Como por vezes ocorre em cidades de muitos vizinhos. pelos dois flancos formado de uma ilha em que as ondas se quebram. no intuito de a parte sã triturar com pedrinhas e ao fogo tostar alguns deles. Logo. ou mesmo Cápis ou as armas na popa do nobre Caíco. ameaçadores. Impacientes de o solo pisarem. com o céu já sereno. onde uma enseada discreta e profunda bom porto oferece. com seu discurso as vontades compõe. trabalhado dos ventos. Lambem as ondas as rodas ligeiras do carro marinho. O mar vasto se torna de súbito manso. do mar distante provindas. que em folhas secas recolhe. dois golfos distintos e certos. conquanto alquebrados da viagem. Lá no alto. sob uma abóboda toda de pedra. Tritão. as frigias birremes. quando rebenta revolta e dispara o povinho sem brio. Nessa caverna o Troiano penetra com sete navios. e na vasta campina líquida o olhar alongou para ver se alcançava o navio do forte Anteu. todos calam e atentos o escutam. Sobe o caudilho troiano a um rochedo. restos da grande flotilha. sofregamente os troianos na areia das praias os membros intumescidos distendem. a um gesto da divindade. um fogaréu logo apronta com chamas vivazes por tudo. se de súbito surge um varão de aparência tranqüila e comprovado valor. ali perto.LIVRO I 13 Ele. o furor dulcifica: da mesma forma cessou o barulho das vagas. De um pedernal tira Acates. os cansados navios não necessitam de amarras nem de âncoras para prendê-los.

igualando com isso os navios recurvos. Outros dispõem caldeiras na praia e as fogueiras despertam. lançando a mão ao arco das setas velozes. as carnes desnudam. Vós os atroantes escolhos de Cila enfrentar já soubestes e o seu furor desmedido. na relva se espalham. chora o destino de Amico. Por entre casos variados. Saciada a fome e desfeitos os últimos toques da mesa. lhes fala.223 . a desgraça de Oronte lamenta. então. várias escolhe. perigos sem conta. que os ramos vistosos no alto agitavam. Entre esperança temor. com todos reparte. Refeitos todos com a boa pitança. Criai ânimo. Do melhor vinho que Acestes lhe dera ao partir da Trinácria. três cervos errantes na praia somente enxerga. depois. em bons pedaços as cortam. no peito concentra-se dor indizível. o frio. seu fiel companheiro. se encaminha e entre os sócios a caça divide. Estes o couro das costas retiram. escapastes também dos ciclópeos antros sem dano maior. o desastre de Lico indizível. em longas práticas choram a perda dos sócios ausentes. Deus há de pôr fim a tão grandes canseiras. Antes de todos. fartos do vinho precioso. Claro ainda estava. Tudo isso há de ser recordado algum dia. Voltai a ser o que sois. a que toda a manada acompanha. na fronte luze a esperança. em tropel buliçoso. trazia-as Acates. ou se na extrema agonia não ouvem a voz dos que os chamam. do incontrastável Cloanto e também o de Gias valente. Máxime Enéias. Assim falou. o pálido medo deixai de lado. não desiste o Troiano. nenhuma. cheios os vastos porões dos navios. Todos atiram-se às presas da caça e ao festim dão começo. onde os Fados nos mostram o ambicionado descanso nos reinos futuros de Tróia. Pára ali mesmo. os guieiros abate. se perguntam se acaso ainda vivem. trabalhos mais árduos do que estes já suportastes. e do ponto mais alto do céu contemplava 184 . da carne sucosa dos cervos. oprimido de tantos cuidados. e. amenizar procurando os trabalhos com termos afáveis: Ó companheiros. Ao porto. a miuçalha. e aguardai um futuro risonho. mui longe. que logo à sombra se acolhem dos bosques de frondes inquietas. até ver atiradas por terra vítimas sete. prado. alegremente a pastar pelo. dispersos a tiros. trementes no espeto as enfiam.14 ENEIDA Naves à vista. Mas. avançamos na direção prometida do Lácio.

povos de ânimo fero 224 .263 . que o destino dos homens. uma vez que tais cuidos te agitam. e os espantas com raios atroantes: em quê te pôde ofender meu Enéias. até se deter no espectac'lo visto do Olimpo. tantos navios perdemos — oh dor! — por capricho somente de uma das deusas. em quê meus troianos. Vênus. e a morada dos seus troianos. Enquanto nós. as terras jacentes. tomando de longe vou revolver o futuro e os arcanos do Fado mostrar-te. praias e povos remotos.LIVRO I 15 Jove o mar vasto cruzado de velas. Genitor. Mas. para. cortar pelos reinos libúrnios. imutáveis encontram-se os Fados. das tristes ruinas de Tróia me consolava equilíbrio buscando nos Fados opostos. caindo de penhas altivas. por nove bocarras ele se atira no mar. Guerras terríveis ele há de enfrentar. dos deuses diriges do alto do teu poderio. tua gente. Quando. deste modo falou-lhe: Acalma-te. a quem dás ter assento no Olimpo. disse: — ó tu. Senhor. Qual a razão. oprimindo com as ondas o campo. e sempre afastados das costas da Itália. Esse é o penhor da piedade? a promessa de reinos futuros? Sorrindo. escapando das forças argivas. o peito angustiado e de lágrimas cheios os olhos. o pai dos mortais e dos deuses a filha aconchega com o mesmo gesto sereno com que tranqüiliza as tormentas do céu revolto e dos mares. os caminhos de acesso à Itália por mares e terras lhes sejam vedados? Foi muito clara a promessa: volvidos os anos. seguro. Mudança não houve no meu pensamento. Citeréia. de onde. Ora dorme no seio da paz almejada. dos plainos ferazes do reino da Líbia. haviam de originar-se dos filhos de Teucro os romanos robustos que no mar vasto e na terra o comando teriam das gentes. depois de vencerem trabalhos sem conta. no golfo da Ilíria entrar e. de te haveres mudado a esse ponto? Essa esperança em verdade. Quando na mente volvia cuidados de tal magnitude. para. Ali também a cidade de Pádua fundou. Depois. como te disse. afinal. e até aos astros o nome elevar-se de Enéias de alma sublime. porás término a seus infindáveis trabalhos? Pôde Antenor. Ainda verás a cidade e as muralhas da forte Lavínio. avançar até às fontes do rio Timavo. deu nome à colônia e os troféus de Ilio forte no alto fixou. Mas a Fortuna até agora aos varões incansável avexa.

Há de a idade chegar. assentado sobre armas fatais. Então. mudada em melhor há de em breve os romanos favorecer. aquietam-se os ásperos sec'los. seu reino. dominará nestes povos e o burgo mavórcio' erigindo. Tendo assim dito. despem-se os penos do gênio feroz. quando. amarradas as mãos nas costas.16 ENEIDA domar no jugo. e a capital de Lavínio. de fortes muros. à luz há de dar os dois gêmeos preditos. ditarão leis. até que a princesa Ília. Cumpre de pronto o mandado. Mercúrio désliza e detém-se nos lindes da Líbia. e dentro o ímpio Furor. sacerdotisa. César de Tróia. até às águas do Oceano vai estender-se. seu nome dará aos romanos ditosos. Rômulo. um mês depois do outro. de Marte grávida. guarnecida de grandes muralhas. hás de um dia no Olimpo acolhê-lo. três anos corridos. de par com o irmão seu. insciente dos Fados. Até Juno. a cidade. predispondo-se Dido 264 . ao nascido de Maia deu ordens precisas para que os vastos domínios da nova Cartago acolhessem os trabalhados troianos. Não fosse impedir-lhes a entrada Dido em seus reinos. reinar no Lácio e abater a fereza dos rútulos fortes. Levado das asas lestes. a seus homens dar leis e cidades muradas. A boa Fé. esbraveja. sua fama há de aos astros chegar dentro em pouco. a boca a espumar só de sangue. Seu fíIho Ascânio — o c o g n o m e de Iulo lhe foi acrescido quando ainda no orbe sabia-se de ílio e da sua presença — governará por trinta anos. então. mui vaidoso da pele fulgente da loba. os terríveis portões do Castelo da Guerra serão trancados com traves e ferros ingentes. que à terra. ao céu e ao mar bravo trabalhos sem pausa ocasiona com seus temores. Quirino. Dou-lhes o império sem fim. os senhores do mundo. estios e invernos gelados. a deidade ofendida. Do claro nome de Iulo provém o cognome de Júlio. Livre do medo infundado. suspensas as guerras. em que a família de Assáraco à ilustre Micenas e Ftia dominará. Prazo nem metas imponho às conquistas do povo escolhido. esse povo togado.303 . na carreira dos lustros. rico de espólios do Oriente. Invocado vai ser pelos homens. aumentado de muito para Alba alfim mudará. e sobre Argos vencida há de impor o seu jugo. Vesta e Remo. Nestes domínios a gente de Heitor manterá o comando trezentos anos. de origem tão clara. Assim me apraz. Obedientes às ordens de cima.

Durante a noite. o pio Enéias. Uso é das tírias donzelas a aljava trazer sempre ao lado.343 . um nó bem posto segura-lhe no alto o vestido flutuante. Casada foi com Siqueu. não vistes. os joelhos à mostra. soltas aos ventos as belas madeixas. aljava a tiracolo. nem mesmo a voz. nos mares vagamos. em resposta: Nenhuma. com pele de lince manchado nos ombros. veloz a cavalo em disparada mais que Euro ao passar no seu rápido curso. no meio da mata ao encontro saiu-lhe a genitora. munidas de pontas de ferro. À aventura. virgem de tuas irmãs encontrei nestas matas. as praias adonde arribara. mal surge a alma luz. no gesto e nas armas. Parte. 304 . variados os fatos. irmã de Febo. opulento fenício em domínios. de tanta honraria. as praias a que o destino nos trouxe. a nós sê propícia. seguido somente de Acates. talvez. um povo intratável na guerra. volvendo na mente cuidados e planos. resolveu pessoalmente inspecionar os contornos. Nos reinos púnicos te achas. em tudo lembrava virgem da Esparta ou Harpálice trácia. A Dido o império pertence. Vênus falou: — Não sou digna. sem ter notícias de nada: os lugares. pois arco e flecha dos ombros pendiam-lhe qual caçadora. bem protegidos os pés por coturnos de púrpura fina. minora os trabalhos de nossa gente e nos dize a que céu arribamos. e o filho lhe disse o seguinte. dos tírios.LIVRO I 17 a receber os troianos com mostras de muita amizade. oh ! quem direi? pois não tens de mortal nem o fino semblante. uma das minhas irmãs a vagar nestes ermos. Longa é a injúria. Subitamente. Foi a primeira a falar: — Olá. exilada de Tiro potente. para livrar-se do irmão. jovens. para saber se eram de homens ou feras as terras incultas em que se achava. com duas hastes na destra. e de volta aos seus homens contar o que vira. A frota esconde no cavo de um bosque situado na base de grande pedra que as sombras horrentes da mata encobriam. em verdade. ou provéns da linhagem das Ninfas? Quem quer que sejas. uma deusa. seu fiel ajudante. os homens. ou na carreira a acossar com seus gritos javardo espumante? Falara Vénus. Em teus altares viremos depor muito gratas of'rendas. fim dos líbios. Recordarei tão-somente por cima o que mais interessa. acaso. Certamente és da corte celeste. cidade erigida por Agenor.

Com vinte naus percorri grandes mares da Frigia. obediente aos decretos de cima. e revelou toda a trama do que no palácio ocorrera. O pio Enéias eu sou. prepara a saída e alicia mais gente para o seu plano. Aconselhou-a a fugir. o pai a entregara ao marido e os unira felizes sob os primeiros auspícios. Enéias suspira profundamente. e responde às perguntas nos termos seguintes: Ó deusa ! se do princípio eu contasse os trabalhos passados. a exilar-se da pátria querida.18 ENEIDA a quem amor dedicava entranhável a bela consorte. as famosas riquezas de Pigmalião. Apenas sete nos restam. Meu nome até aos astros se evola. quem sois? de que terra partistes? adonde vos dirigis? e o caminho? — A tais vozes. 344 . Porém em sonhos a sombra do esposo ela viu. bem como a marca do ferro deixado no peito desnudo. Entre eles dois reina a Fúria. carregam-nas de ouro. Da antiga Tróia partidos — se acaso aos ouvidos chegou-vos o nome ao menos de Tróia — depois de vagar pelos mares uma terrível borrasca nas costas da Líbia jogou-nos. provieram. Em Tiro reinava entretanto Pigmalião. que as aras sangrentas lhe mostra. Porém vós outros. donde lhe veio o cognome de Birsa. Tomadas de assalto umas naves acaso prestes. Virgem. ora levo comigo os penates salvos do imigo implacável. Compram dos donos o solo que um couro taurino cercasse. e vos sobrasse vagar para ouvir os anais dessas lidas. dos homens o mais celerado.383 . Os fugitivos ao ponto chegaram da costa em que logo verás os muros ingentes da nova Cartago e o castelo. cegado da sede do ouro. das ondas e de Euro batidas. Dido. Véspero o dia encerrara no Olimpo bem antes do termo. ante os próprios altares. e o tirano. ouro e prata aos montões para a viagem. Por muito tempo escondeu o seu crime. irmão dela. guiado pela deidade materna. e com mil subterfúgios soube iludir com fingidas histórias a esposa inocente. sem a menor reverência à dor grande da irmã sofredora. de origem fenícia. movidos de horror ao tirano ou até mesmo de puro medo levados. que havia escondido. de incalculável valor. imolou a Siqueu desarmado. Procuro a Itália nativa. insepulto. A aventura por uma mulher é chefiada. alarmada. os avós do alto Jove . de palidez aflitiva. sobre tesouros antigos mostrar-lhe.

423 . perfeita. avançam. e à fuginte persegue. e ao virar-se. ignoto. em voz alta a gritar-lhe: Por que me iludes assim. Em frente. onde a morada revê. De tudo admira-se Enéias. seguindo o caminho indicado. Não de outro modo teus barcos. dirige-se para a cidade. as asas agitam sonoras. ou já no porto se encontram ou. a nata especiosa dos teucros. Por esse tempo. jubilosa com um cento de altares a que o perfume sabeu e festões variegados enfeitam. esta Líbia percorro. com belas portas. Vênus. o guerreiro troiano reconheceu-a. 384 . carente de tudo. Nessa hora. completando seus giros em torno do polo. Até aos pés. . os dois galgam um teso próximo. desatadas. de onde a paisagem dominam. em colóquio amistoso contigo? Dessa maneira. muros ciclópeos levantam. Daqui já distingues os paços da rainha Dido. trazidos dos ventos agora propícios. Deusa no porte. parece que já alcançaram o pouso escolhido ou para isso se aprestam. as muralhas contemplam de frente. com enganosas imagens? Por que não trocarmos apertos de mão. e ouvir-te não posso. Ora reunidos. Ali. transfulge-lhe o colo de rosa e perfume. ao teu próprio filho. bulício de gente. Os fortes tírios agitam-se. que a a v e de Júpiter no éter sereno encalçava até há pouco. No teu caminho prossegue. porém. nos vastos plainos de cima. enquanto isso. tantas vezes. envolveu os viandantes de espessa neblina. as vestes lhe descem. Cheiro de ambória divina espalharam no ambiente os cabelos soltos da diva. pelo éter librando-se atira-se a Pafos. das toscas choupanas de outrora. dispostos em fila. não creio que os deuses de ti se apartassen uma vez que eles te guiaram para esta cidade dos tírios. e dirige teus passos por este caminho. queixoso. à volta deles mais névoa adensando.LIVRO I 19 Eu próprio. . Ela. vês doze cisnes em álacre vôo. A notícia te dou de que os sócios e a esquadra salvos se encontram. porque ninguém viesse embaraçá-los ou neles tocar ou fazer-lhes perguntas sobre o motivo da sua presença naquelas paragens. o traçado das ruas. pois. Disse. e nela sobressaindo-se aos mais. Interrompe-o no meio da dor e lhe fala: Quem quer que sejas. velas tufadas. — Não mais pôde Vênus as queixa do filho ouvir. e o canto soltam joviais. a menos que seja vão tudo quanto aprendi sobre augúrios na arte paterna. da Europa e da Ásia excluído.

de sua pujança. onde os penos primeiro. e os graves e fiéis senadores. Outros. mais adiante outros cuidam das bases de um grande teatro. ou em densas colunas longe do asilo atirar a indolente cambada de zangãos. a esperar pela nobre rainha. flagelo de ambos em Tróia. nota as batalhas já divulgadas pelo orbe. e de néctar os favos encher perfumados. de bronze. no instante de novas colônias fundar com a prole crescida. sem deter-se. Afortunados aqueles que vêem seus muros erguerem-se ! exclama Enéias. vigas do mesmo metal. nascente. magistrados. estas cenas te servem também de consolo. ferve o trabalho por tudo. colunas enormes nas duras canteiras talham em série. olha a Príamo e a Aquiles. Foi nesse bosque que Enéias sinais encontrou de certeza de que seus males estavam no fim e que lícito lhe era alimentar esperanças de sorte melhor no futuro. ou receber das que chegam a carga. Nesse lugar construíra a rainha sidônia um grandioso templo de Juno. o primor dos trabalhos já feitos e a agilidade dos hábeis artífices. quando a máquina ingente do templo de perto admirava. piedade. Bane o terror. ornamento soberbo de cenas futuras. a fortuna rara daquela cidade. com sulcos demarcam as suas futuras moradas. Cava-se um porto acolá. pois. Um bosquezinho de sombra agradável havia no centro da cidadela. Os "dois Atridas admira. sem nenhum dos presentes notar o que passa. com a efígie da deusa. à mão tente penedos removem. nos campos floridos. e. prova do gênio guerreiro dos penos. coisa por coisa. de dons opulento. a olhar os trabalhos do burgo. a tomilho a colméia rescende. para os desastres. de bronze. detendo-se: — Acates. 424 . ringem quícios nas portas de bronze. A escadaria. E. os portais reluzentes. depois de vencidos os temporais e trabalhos nas ondas.463 . ao sol. a que ponto da terra extensa não foi a notícia da nossa desdita? Príamo vês. para o infortúnio. mistura-se — coisa admirável! — com o povo de derredor. da guerra de Tróia destruída. até aqui a virtude recebe seu prêmio: lágrimas. sinal encontraram por Juno amiga indicado: a cabeça de um belo cavalo. Tal como abelhas que na primavera o trabalho exercitam. Leis.20 ENEIDA a sobranceira almeidina. ou na faina de o mel derretido deixar mais denso. elegem. e. pergunta.

de pronto assoladas no sono primeiro pelo Tidida feroz. frescas armas do negro Menão. e os próprios frígios adiante. vê os esquadrões orientais. Dido. seguida de turba indescritível de Oréadas: pende-lhe a aljava dos ombros. um belo manto lhe ofertam. Virgem guerreira.503 (escreve. Depois de haver por três vezes Aquiles à volta dos muros de Tróia o corpo de Heitor arrastado. a deidade. e enquanto a alma apascenta com a vista de vãs pinturas. na luta travada junto dos muros de Pérgamo. Em outra parte a Troílo revê despojado das armas. Perto dali. de forma belíssima. salpicado até aos pés da sangueira do morticínio. Competição infeliz com Aquiles. o cadáver do amigo. infensa a Tróia. A si também reconhece a lutar contra os fortes aquivos. acompanhada de enorme cortejo de moços da terra. Indescritível prazer no imo peito a Latona animava: tal era Dido no meio dos seus. antes de o pasto provarem de Tróia e beberem do Xanto. pende do carro vazio. Enquanto Enéias dardânío admirava esses quadros sublimes. premidos do carro de Aquiles. olhos fixos no chão. armadas de escudos lunados. no peito com as mãos percutiam. . a chorar reconhece os cavalos de Reso. Pentesiléia terrível. Como nas margens do Eurotas ou cume do Cinto vistoso os coros Diana dirige na dança. Áureo boldrié traz por baixo da mama desnuda.LIVRO I 21 Dessa maneira falou. de prantos o rosto banhando. Cabelos ao vento. de aspecto tristonho. inermes. às demais divindades no garbo se exalta. a fugir os aquivos. Os cavalos levou para o campo dos gregos. as ilíadas se dirigiam ao templo de Palas. soluça. mui caro o vendia. elegante. atrevia-se agora a lutar contra os homens. a hasta um sulco na poeira ainda Nisso. a ativar o trabalho 464 . Geme o caudilho troiano do fundo do peito dorido. entra a Rainha no templo. com a cabeleira o chão varre. ao avançar. na pugna entre as mais se distingue. Vê neste lance. Torva. em brancas tendas. As Amazonas. seus próprios cavalos o levam. o carro. dirige-as. instados os jovens dardânios. não dá mostras de vê-las. herói sem entranhas: pelo chão duro arrastado. nas mãos ainda as rédeas segura. Príamo além» para o céu levantava as mãos brancas. ao perceber os espólios. sem conseguir desfazer o estupor de que fora tomado.

Medo e alegria a um só tempo. dos ventos jogados por todos os mares. depois de alcançada licença para falar. sê branda no teu julgamento. Poucos. de solo ubertoso. esperar decidiram para saber do destino dos seus e da esquadra.22 ENEIDA dos operários. Outro é nosso ânimo. ditosa a cuidar do futuro do reino. forte nas armas. Dessa maneira. desejam falar-lhes. os pleitos julga. por ondas mil dispersando-nos. o que esperam no ensejo. 504 . nem para os barcos levamos as presas roubadas. jogando-os para outras paragens. honrai ao menos os numes. pedras ingentes. Nem devastar intentamos com ferro os penates da Líbia. As naves nos poupa das chamas vorazes. rodeada do corpo da guarda. a quem Júpiter deu construir uma nova comunidade e com leis refrear a insolência dos povos ! Míseros teucros. Mas. de repente Orião borrascosa nas ondas se abate e nuns baixios ocultos os austros protervos nos jogam. a nado alcançamos com muito trabalho estas praias. terra antiqüíssima. qual o destino daquela consulta. as tarefas indica ou sorteia.543 . apertos de mão trocar. senta-se no sólio excelso. debaixo da abóbada grande. Região existe. e amparados da névoa. com Acates o mesmo acontece. homens piedosos acolhe. do nome de um rei dessa gente famosa. Foi quando Enéias notou que no meio daquele concurso vinha Sergesto de par com Anteu. mas a própria estranheza do caso os conteve. Que geração aqui mora ou que pátria tais usos admite? pois nem sequer nos permitem saltar em paragens desertas. Se desprezais os mortais e seus fracos engenhos de morte. te suplicamos. ora a Itália dos seus descendentes denominada. pelos enótrios povoada. Para ela vínhamos. dos gregos vetustos Hespéria chamada. sentenças prescreve e também compartilha da atividaide geral. Logo na entrada do templo. Ilioneu com serena postura expressou-se: Nobre Rainha. adentrar um pouquinho nos vedam. mais o forte Cloanto e os demais teucros que a força dos ventos durante a tormenta no mar revolto açoitara. presentes ali se encontram seletos caudilhos de cada unidade. guerra declaram de início. atentos ao bem e à impiedade. Quando admitido no templo. sem rumo. Emudeceu de estupor. em peitos vencidos não mora a soberba.

se nas ondas ficaste e esperança de Iulo não. permitido os navios esparsos reunirmos. de onde partimos faz pouco e de Acestes busquemos o amparo. na Sicília deixamos cidades e aliados de monta. Mas. até nos confins mais esconsas da Líbia. é o que vemos. mastros falcar nos teus bosques. ponde os navios em terra. Enéias. não somos tão bárbaros como pensastes. cidade. ou mesmo aos reinos de Acestes nos términos do monte de Érix. de comprovado valor nos combates. ó pai excelso dos teucros ! sem nada no mundo a amparar-nos. de remos e antenas provê-los. em tudo. Dessa maneira Ilioneu se expressou. temos. ledos busquemos aquelas regiões e no Lácio saltemos. troianos. Acates e o forte caudilho dos altos troas. Prouvera aos céus que chegasse a este porto trazido dos ventos o próprio Enéias ! Já já mandarei explorar toda a costa por nossos homens. medo não temos de nada nem tu de nos teres salvado. a armada segura. Se os Fados ainda o conservam e as auras vitais ele aspira. os sócios. pois. do peito o temor. sem para as trevas terríveis haver até agora baixado. o mais justo e piedoso dos homens. Primeiro dos dois disse a Enéias Acates: Filho da deusa. depois de tudo isto. Com tal discurso animados. senão mesmo a própria necessidade me impõem rigor na patrulha da costa. caso ele se ache nalguma floresta ou povoado distante. Seja-nos.583 23 . Se nos for dado ir à Itália com os sócios e o rei prestigioso. Em igualdade quereis compartir do meu reino nascente? Esta cidade pertence-vos. Se os largos campos visais de Saturno ou da Hespéria grandiosa. a proverbial resistência dos teucros. Quem desconhece a ascendência de Enéias. campos de lavras e o ínclito Acestes de sangue troiano. horrores da guerra? Nós. Com sussurro de apoio manifestaram-se os troas. nem junge o Sol seus cavalos mui longe da nossa. com a minha ajuda e o recurso dos penos segui confortados. As duras leis do começo de um reino. Com os olhos baixos. que pensas do caso? Tudo foi salvo. em termos concisos lhe fala a Rainha: Bani. Não haverá distinção entre os penos antigos e os teucros. expulsai os cuidados. a queda de Tróia. Sim. de muito romper desejavam a densa nuvem. 544 .LIVRO I Enéias foi nosso rei. o primeiro. ao menos seja-nos dado voltar à Sicília troiana. os fenícios.

dos tristes restos escapos dos dânaos. Tal como infunde mais brilho ao marfim a mão sábia do artista. Que século viu o teu berço? os pais ilustres que o teu nascimento ditoso abençoaram? Enquanto os rios o mar procurarem.34 ENEIDA Falta um. que Fado inditoso por tantos perigos te urge a esse ponto? Que força te trouxe a paragens tão duras? És. emprestando-lhe aos olhos. a Rainha espantou-se. até agora perdido. no entanto. À aparição subitânea do herói. a direita dá ao amigo Ilioneu. que a dor compartilhas dos grande trabalhos de Tróia. a Seresto a sinistra. — Depois de falar. e de Ânquises troiano? Lembro-me bem que uma vez Teucro foi à cidade de Tiro. ó Dido. já livre das ondas bravias da Líbia.623 . teu nome e fama hão de sempre durar onde quer que eu me veja pelo Destino jogado. falou-lhe: Filho de Vênus. no nosso triste fadário. é dizer-te quanto nos vai no imo peito. e a neblina desfez-se de pronto no espaço. Serena. Desde esse tempo me são conhecidos teu nome aureolado. que as ondas tragaram na nossa presença. gestas dos cabos da Grécia. apenas. de Vênus divina. 584 . e em seguida ao forte Gias. nascido nas margens claras do belo Simoente. tinha de um novo reino fundar com a ajuda de Belo. de improviso. pois Vênus ornara seu filho amado. ainda mesmo que aqui se encontrassem todos os teucros dispersos nos longos caminhos do mundo. Resplandecente na luz repentina apresenta-se Enéias como um dos deuses na forma e no gesto. se ainda há justiça no mundo e consciência do próprio respeito — prêmio para esta vitória. aos belos cabelos um resplendor purpurino. as sombras dos montes. meu pai. para dizer-lhes: — Eu sou quem buscais. pois. da sua grande desdita. Mal terminara. Impossível. ó tu. a vivaz louçania dos moços. Enéias aquele. dos lindes pátrios expulso. lar próprio e muros a quem já perdeu tudo quanto possuía. e dás acolhida. a Cloanto valente e aos demais companheiros. Tudo o mais se acha de acordo com o que nos predisse a deidade.ele. ficando os dois homens visíveis a todos. Dêem-te os deuses — se houver divindade que os bons recompensem. a intenção . infortúnios de Tróia vencida. que então Chipre vastado havia e o domínio dessa ilha obtivera de pouco. subitamente. o teucro Enéias. e o ouro flavo encastoa na prata ou no mármor de Paros: de igual maneira aparece o Troiano aos demais.

A Citeréia no entanto revolve na mente conselhos e novos planos. Juno implacável lhe queima as entranhas de noite e de dia. no litoral. 25 624 . O amor de pai não consente que Enéias tranqüilo. A prataria resplende na mesa. para que a Ascânio apanhasse e o trouxesse direito à cidade. belo colar de alvas per'las e áurea coroa com duas fileiras de gemas preciosas. que Ilioneu outrora empunhara. pelo cinzel trabalhadas. no afã de Cupido trocar de aparência com o doce Ascânio. Nesse entrementes. aprendi a ser boa com todos. e também fino véu contornado de folhas de acanto. nas do centro o banquete com ricos aprestos. pois em Ascânio cifrava-se todo o desvelo paterno. salvos das ruínas de Tróia. a saber: rico manto bordado de ouro. inestimável presente de Leda. pelo proibido himeneu atraída até ao burgo de Tróia. jovens. Cedo. preparam-se as salas do régio palácio para o festim. no rosto e no gesto. além disso. Um cetro traz.663 . Por fado igual perseguida. ficasse momento algum. Sem demora. e cordeiros com suas mães outros tantos. Da falsidade se teme dos tírios. raros tecidos de preço. subindo até à origem de antiga linhagem. e ordens transmite por que sacrifícios aos deuses se façam. por que se insinue na alma incendiada de Dido e até aos ossos seu fogo alimente. entrai sem detença no nosso palácio. Ao mesmo tempo trazer recomenda presentes valiosos. e mais a alegria das festas: muitos pichéis de bom vinho. do paço inconstante.LIVRO I Conquanto imigo dos troas. conduz o Troiano ao palácio. Passo estugado. em baixelas douradas. belas alfombras de púrpura. depois de trabalhos sem conta me concedeu a Fortuna fixar-me afinal nestas plagas. javalis corpulentos um cento. ao mesmo tempo que envia bois vinte aos consócios de Enéias. minha alta potência. e se dizia oriundo da raça de antigos troianos. lembrança materna. dirige-se Acates às naves na praia. aos navios Acates envia. da argiva Helena trazidos aquando saiu de Micenas. ao alígero Amor se dirige e lhe diz o seguinte: Filho. realçava-lhes Teucro o prestígio. filha a mais velha de Príamo. Por isso. Tendo o discurso acabado. os feitos reluzem dos nobres antepassados. Por ter passado por isso. em quem cifro minha única força.

O infante régio. de cestas as dádivas tiram de Ceres. ouve atento o que passo a dizer-te. Ora ele se acha com Dido fenícia. conforme meu pai ordenara. belas toalhas dispõem de fino pelo. que mais do que todos me é caro. Como já sabes. teu pobre irmão não descansa. e num sono tranqüilo o conserva. Acates o guia. mortais a Tifeu. quando Dido. seu todo assimila.26 ENEIDA pois não te temes dos dardos paternos. se apresta para ir à grande cidade sidónia levando presentes salvos do mar e das chamas. o inebriante perfume do néctar.703 . No interior do palácio. aprestado no meio dos outros. atirado de um lado para outro. onde o rodeia de sombras e flores o suave perfume da manjerona. errante nos mares por ordem de Juno. contra o seu peito apertar-te durante o régio festim. Sempre nas minhas agruras te doeste do que eu padecesse. Chega no instante em que Dido assumira o seu posto. Calmo sopor pelos membros de Ascânio infundiu a deidade. quietinho. inclinados em leitos purpúreos. recorro a ti nesta agrura e teu nume depreco insistente. e te cobrir de dulcíssimos beijos e ternos amplexos. Vou sepultá-lo num sono profundo e levá-lo a Citera ou ao bosque Idálio. Quanto ao que espero de ti. No mesmo ponto Cupido obedece aos conselhos maternos. que o prende em colóquios intermináveis. alegríssima. Decerto esta pensa nalguma vantagem. obra de Juno. para Cartago levava os presentes. fogo invisível lhe inspires com teus enganosos venenos. 664 . Pois. Cupido. Quero vencê-la em seu próprio arraial e inflamar a Rainha de ardente amor. das asas despe-se e os passos imita contente de Iulo. sem que nume nenhum transmudá-la consiga e a mim se prenda por meio do afeto que a Enéias eu voto. Nesse entrementes. obediente aos preceitos maternos. para que nada lhe ocorra de mal nem ninguém o descubra. onde oculto o conserve em lugar consagrado. Água nas mãos deitam fâmulos. não mais. Porém tenho dúvidas sobre a acolhida. Por uma noite somente. e em seu regaço abrigado o levou para os bosques Idálios. cinqüenta donzelas em filas cuidam dos finos manjares e a chama do lar alimentam. seguido da mocidade troiana. num leito de esplendoroso dossel. menino como ele. a figura de Ascânio para isso assume. O pai Enéias também seu lugar ocupara.

e que nossos netos com ela se ocupem. Pasmam dos raros presentes de Enéias. Outros magnatas beberam. as duas Ursas. as Híadas de águas perenes. começou: Júpiter ! já que presides à hospitalidade. a geração dos mortais e dos brutos. e o manto e o véu enfeitado de folhas de acanto amarelo. Na cítara de ouro o crinito Iopas dedilha e descanta o que Atlante a tocar lhe ensinara. nada remisso. nos seja propício e a alma Vênus. num coração desafeito a bater de concerto com outro. também são chamados para tomarem assento nos leitos de finos lavores. conforme dizem. e de inundar de ternura o imo peito do pai presuntivo. ó tírios. Os próprios tírios. de pé pelas portas. de quando em quando apertando-o no peito — coitada ! — inconsciente da divindade que a abrasa. esquecida de tais sentimentos. 704 . logo a espumante cratera esgotou e do vinho banhou-se. Quando concluído o serviço e a primeira coberta afastada. e a encheu de vinho. depois de pender algum tempo do colo de Enéias. com vinho as coroam. como era de praxe. e a gracejar a passou para Bícias. que nele se embebe e o devora com os olhos. vai para Dido. belas crateras ali são trazidas. já tocada da peste que há de abrasá-la. uni-vos comigo em louvor desta festa. Canta os eclipses do sol. Baco. a um só tempo abalada pela influição do menino e os presentes então recebidos. E vós. levando aos lábios a copa ao de leve. Principalmente a Rainha infeliz. fautor de alegria. as palavras fingidas. derrama na mesa a usual libação. Este. Assim dizendo. Estrepitosa algazarra pelo átrio espaçoso se eleva. Dido ordenou que trouxessem a copa de gemas e de ouro por onde Belo bebia e seus filhos e mais descendentes. Aos pouquinhos o aluno de Vênus procura a imagem riscar de Siqueu e vivaz labareda numa alma fria acender. que. que seja esta festa lembrada de tírios e teucros aqui chegados. as mudanças constantes da lua. seu brilho divino. dos toques do belo rosto de Ascânio. as chuvas e o fogo. Pedido silêncio geral.743 . não cansa de olhá-lo. e Arcturo.LIVRO I 27 Mais cem mocinhas e número igual de rapazes se ocupam de carregar as travessas e as mesas de copos proverem. Das arquitraves douradas os lustres acesos esplendem e a noite escura transmudam num ápice em luz e alegria.

a força de Aquiles. Por sua vez a Rainha infeliz todo o tempo gastava em longas práticas. este vagar sem descanso nem termo por mais de sete anos em toda a terra infinita. Batem-lhe as palmas os tírios. muito de Heitor. do início.755 . nas ondas inquietas. os teucros o exemplo lhes seguem. as artimanhas dos dânaos. Hóspede — fala-lhe — conta-nos tudo por ordem. desditas dos teus companheiros. fonte instancável de amor insidioso. 744 .28 ENEIDA qual a razão de no inverno banharem-se os sóis no Oceano e de tão longas então se mostrarem nessa época as noites. por tudo. muito i n q u i r i n d o r e s p e i t o de Príamo. e de Diomedes os belos cavalos. qual o feitio das armas do filho da Aurora divina.

então. 1-23 . os cabos de guerra da Grécia com a ajuda da arte de Palas construíram na praia um cavalo alto como uma montanha. dispostos a ouvi-lo. exordiou do seu leito elevado: Mandas. breve relato do lance postremo da guerra de Tróia. rica no tempo em que o império de Príamo ainda existia. Tênedo. Voto de pronto regresso era a máquina L todos diziam. espantosa catástrofe que eu vi de perto.ENEIDA Livro II Prontos à escuta calaram-se todos. os guerreiros de mais valor ingressaram. e as estrelas. com armas e gente escolhida de guerra. mirmídone ou dólope ou cabo de Aquiles? A úmida noite do céu já descamba. ilha famosa se encontra defronte de Tróia. caindo devagarinho no poente. como os aquivos a grande potência dos teucros destruíram. de bojo com tábuas de. — Pela guerra alquebrados. Mas. Rainha. Quem fora capaz de conter-se sem chorar muito. bem que a lembrança de tantos horrores me deixe angustiado. os mortais ao repouso convidam. ora uma enseada de pouco valor ou nenhum para as naves. tirados por sorte. num ápice enchendo as entranhas daquele monstro. principiarei. se realmente desejas ouvir esses tristes eventos. Nessa medonha caverna. O pai Enéias. abeto. e de que fui grande parte. reino infeliz. contar-te o sofrer indizível dos nossos. dos Fados repulsos em tantos anos corridos.

Nesse entretanto. no qual se encrava. da sobranceira almeidina desceu para a praia. então. com o ferro. o paço luxuoso de Príamo. abaladas no fundo as entranhas do monstro. até quando trazem presentes. Oh ! se não fosse a vontade dos deuses e a nossa cegueira. a fim de seus planos levar a cabo e franquear os portões da cidade aos aquivos. ou fabricada ela foi para dano de nossas muralhas. desconhecido. ou que seus dons sejam limpos? A Ulisses. as praias desertas agora: O ponto era este dos dólopes. A mocidade troiana curiosa de vê-lo converge 24-63 . Qualquer insídia contém. estarias. Muitos pasmavam de ver o presente ominoso da deusa. troianos ! Seja o que for. seguido de enorme cortejo. Abrem-se as portas. e outros mais de melhor parecer insistiam para que ao mar atirássemos logo a armadilha dos dânaos.30 ENEIDA Prestes mudaram-se os dânaos. ó Tróia. Timetes. e devassar nossas casas ou do alto cair na cidade. aconselhou derrubarmos o muro e direto o postarmos na cidadela. a tal ponto desconheceis? Ou esconde esta máquina muitos guerreiros. que insânia vos cega? Imaginais porventura que os gregos já foram de volta. fogo deitássemos nela ou que ao menos o ventre do monstro fosse explorado ou sondadas as vísceras sem mais reservas. e arrojou com pujança viril um venab'lo dos grandes contra os costados e o ventre abaulado do monstro da praia. temo os dânaos. deixaríamos frustra a malícia dos gregos. então. uns pastores troianos com grande alarido trazem ao rei um mancebo com as mãos amarradas nas costas. Com isso a Têucria respira mais leve no luto penoso. e de longe mesmo gritou: — Cidadãos infelizes. o vulgo inconstante oscilava entre vários alvitres. primeiro de todos. eis onde Aquiles se achava. e em pé. sacudida com o baque. Nisso. Cápis. no valor próprio confiado e igualmente disposto a valer-se das artimanhas nativas ou a morte enfrentar decidido. ou por dolo isso fosse ou dos Fados previsto. Laocoonte ardoroso. a tremer. a caverna solta um gemido. porém. surtos na terra. entregara-se aos nossos. na praia deserta se ocultam. Disse. Assim. Nós os supúnhamos longe. a imensidão do cavalo. o campo em que as hostes lutavam. alegram-se os troas de ver mais de espaço o acampamento dos dórios. Não confieis no cavalo. a caminho da rica Micenas. os navios.

o temor. senhor.LIVRO II 31 de toda a parte. entre os próprios argivos vingá-lo da morte infame. por meio do sábio Calcante. o princípio. basta isso que eu disse. Mas.. Louco ! não soube calar. bom preço obtereis dos Atridas. a fim de adestrar-me no ofício das armas. A Fortuna criou a Sinão sem ventura. enfim. o falso — só o que é notório vos digo — o tirou do convívio dos homens.. em que terra. sem ventura nenhuma? pois. Não negarei que sou de Argos. se entre os gregos não tenho acolhida. contar-te-ei a verdade. Ah ! exclamou. Com isso chamei sobre mim ódio imenso. o castigo aplicai-me. Deposto. 64 -103 . à morte me votam. da fama de Palamedes. caso voltasse à pátria algum dia. logo se acalmam. ou o que mais resta a um coitado como eu. da seguinte maneira falou-nos: Seja o que for que me espera. Porém. A que se explique o incitamos. a que mar poderia acolher-me. A esses gemidos mudaram-se os ânimos. de novas calúnias Ulisses sempre assacar-me. E não parou senão quando. Torvo. levados por falsos indícios. A conhecer ora aprende as insídias dos dânaos e julga por este os outros. em que confia. da multidão que o cercava. porém jamais o fará pusilânime e rico em mentiras. por sermos aparentados. principiou para mim esta vida de prantos e luto. por ser contrário — eis o crime ! — a esta guerra infeliz desde cedo. muito jovem. sem armas. parando algum tempo no meio dos nossos. quando a inveja de Ulisses. declare-nos sua ascendência. É o que o Itacense deseja. de lá minha estirpe descende. e entre o vulgo espalhar umas vozes um tanto ambíguas. meu sangue reclamam. Tal foi a origem da minha desgraça. Talvez já tenhas ouvido falar do alto nome. exacerbada com a dor da desgraça do amigo inocente. doestos no preso atiravam. os troianos em peso me são contrários. à porfia. nascido de Belo. alguma vantagem do seu grande nome me aproveitava. os motivos da sua prisão voluntária. Enquanto vivo ele esteve e gozou de bom crédito junto dos governantes. para que revolver na memória um passado tão triste? Por que deter-vos a ouvir-me? Se a todos os gregos na mesma conta tiverdes. A esse guerreiro entregou-me meu pai. e firmei o propósito. a fim de aprestar-me um futuro ominoso. Esse. que os próprios aquivos à morte infame votaram. contempla as colunas dos frígios.

Ora esperanças não tenho de a pátria rever. não o oculto: da morte esquivei-me. o Itacense com grande tumulto arrastou para o meio da multidão o adivinho Calcante. concluído o cavalo de fortes madeiros. o frumento salgado. Em tal aperto. 104 -143 . acossado por fim dos ingentes clamores de Ulisses. o combinado com ele contou e aos altares me vota. Sim. Por isso. consternação.32 ENEIDA Isso ainda mais nos desperta o desejo de tudo sabermos. O dia infando chegou. Máxime. Medo fingindo de nós. sem suspeitar até onde ia a perfídia e a maldade de um grego. os argivos cansados de guerra tão longa. de vítima nobre aplacastes os ventos para ir a Tróia. as ligaduras. Rompendo meus laços. já na fase final os aprestos do sacrifício. com sangue outra vez obtereis o retorno: precisareis imolar um dos gregos das vossas fileiras. Diversos já tinham sabido da trama cruel e em silêncio previam meu fado inditoso. sem declarar nenhum nome e ao silêncio da Morte entregá-lo. nos olhos a venda. velejar para a Grécia longínqua. pelos numes conscientes de toda a verdade. nos quais talvez os argivos se vinguem da minha fugida. quando. se é que partiram. Mas. e lhe manda dizer-nos quem a deidade apontara. apiada-te do meu sofrer indizível. Apolo a quem chama e o Destino sorteia? Nisso. Todos de pronto o aplaudiram. mais espantosos trovões retumbaram pelo éter sombrio. durante uma noite entre os juncos do charco pude esconder-me. geral foi o espanto. se intemerata confiança ainda existe entre os homens pequenos. que sem demora as sinistras palavras nos trouxe. e os austros de medo a voltar os obrigam. simples resquícios. indeciso. pois quem tinha medo de ver-se fadado à Morte. mandamos Eurípilo ao templo de Apolo. em resposta: Com sangue. deste infeliz apanhado sem culpa nas malhas da Sorte. Por cinco sóis e mais cinco. nem nunca jamais abraçá-los. continuou no seu falso relato: Mais uma vez. tremor nos ossos. enquanto eles se foram. Quando essa voz se espalhou pelo povo. Calcante emudece. o pai extremoso. para cobrar dos coitados a pena do meu grande crime. que no peito de todos o brio congela. ó dânaos. Rei. de acordo se mostra com a minha desdita. os queridos filhos. ao cerco intentam pôr fim. Ah ! Oxalá que o fizessem ! Borrascas freqüentes as vias do mar lhes cortam.

Sinão. em tom brando e amigável lhe fala: Quem quer que sejas. despidas dos ferros: Eternos fogos. Nosso és agora. do nume ofendido. divulgar suas tramas ocultas. exclama. as sentinelas matando primeiro da excelsa almeidina e a sacra efígie levaram. as cordas lhe retirassem. e por três vezes ao solo saltou — coisa incrível! — nas duas mãos segurando a tremer o broquel e a hasta longa de bronze. com mãos sujas de sangue as faixas virgíneas da deusa — impiedade sem nome ! — a decair começou pouco a pouco a esperança. longe já se acham. me protejas neste perigo e me pagues o grande serviço de agora. dos gregos esquece-te. Sincero responde ao que vou perguntar-te: Por que construíram tamanho cavalo? E o inventor. e. Mal colocaram a estátua no campo. vendas sacras que a fronte me havíeis ornado ! Seja-me lícito os laços romper sacrossantos dos gregos. Logo a Tritônia nos deu manifestos sinais da mudança. recruzando o mal alto. porque. Depois. Esse. dos olhos abertos chispas saíram. e vós. nas artes pelasgas. a promessa. ademais. Rei. 144 -183 33 . Porém.LIVRO II Compadecidos da sua desdita lhe demos a vida. Pronto Calcante anunciou que se tente o implacável Oceano. dês que Ulisses. tocando. Minerva. armas e sócios aprestam. lhes disse. Tróia. Toda a esperança dos dânaos e a grande confiança na guerra firmou-se sempre no auxílio de Palas. Obrigações já não tenho com a pátria. para o alto céu levantando as mãos livres. que longe de mim joguei. sem renovarem em Argos os votos e o nume de novo reconduzirmos nos belos navios de proas recurvas. e tu. quem seria? A quê o destinam? Será religião ou artifício de guerra? Disse. até o ponto de esvaecer-se o vigor para a luta. de todo mal o inventor. Pérgamo não tombará sob o impacto violento dos gregos. a invioláveis deidades dicados. e o ímpio filho do velho Tideu imaginaram roubar o sagrado Paládio do templo. E mais: em vez do Paládio. E ora que os ventos a todos levaram à pátria Micenas. a todos eles odiar. contanto que cumpras. salgados humores banhando-lhe as faces. servida por mim. contra eles. um simulacro levantem. surjam aqui de improviso. à guisa de pia oferenda. algemas nefandas. o voto do sábio Calcante. O próprio Príamo logo ordenou que as algemas. grande sábio em tramóias. altares sagrados.

Primeiro. 184 . com dolos e prantos dos que não foram dobrados nem mesmo pelo alto Tidida. praga iminente cairia — que os deuses o triste presságio contra ele próprio convertam ! — no império de Príamo e os teucros. muito por cima as cabeças lhes sobram. de fogo e sangue injetados os olhos medonhos. tal como o touro. já já se aproximam da praia. Pois. sangue a escorrer e veneno anegrado das vendas da fronte. com roscas tamanhas barafustava no fundo. a arrasar a cidade de Pélope. corria no auxílio de ambos. ao mesmo tempo que aos astros atira clamores horrendos. ponto em que. Tenta Laocoonte os fatídicos nós desmanchar. dez longos anos.223 . os dois monstros. por próprio impulso a Laocoonte se atiram. Mas. os corpinhos dos dois meninos enredam no abraço das rodas gigantes e os tenros membros retalham com suas dentadas sinistras. Tais juramentos do falso Sinão. se violásseis com as mãos o presente fatal de Minerva. se essas mãos a pusessem sem dano no centro de Tróia. a crista sangüínea por cima das ondas as ultrapassam.34 ENEIDA Em desagravo da deusa. no altar de Netuno solenemente imolava o mais belo dos touros. os colos altivos. espetac'lo fugimos. nem conseguísseis jamais para dentro dos muros levá-la. mui facilmente a confiança venceram. Aquiles feroz e mil barcos de guerra. que o sacerdote imperito na dura cerviz assestara. e desse modo alcançásseis o amparo perdido dos deuses. porque não passasse nas portas. mais tremendo que tudo. Diante de tal. no rumo da costa depressa avançavam. armado de frechas. de medo. a língua silva e sibila na goela disforme. o cutelo sacode . eis quando — só de contar me horrorizo ! — à flor d'água de Tênedo nadam duas serpentes de voltas imensas por baixo do espelho. triste fadário que iria cair sobre os nossos bisnetos. do altar a fugir. as insídias e manhas. emparelhadas. O sacerdote sorteado. no. aparece para toldar e abalar as impróvidas mentes dos teucros. o resto do corpo. Troa o mar bravo e espumoso. a avançar pelas águas furiosas. Laocoonte. Calcante esta máquina imensa mandou alçar até às nuvens. a Ásia todinha baixara. sem proveito. a lamber-lhe os contornos. Logo. a ele investem. Peitos erguidos. Mas. nas dobras enormes o apertam. e havendo por duas vezes o corpo cingido. um prodígio maior. o pescoço outras duas.

prenhe de fortes guerreiros. o cavalo devolve para o ar os homens. Por quatro vezes o monstro pára na entrada.LIVRO II Nesse entrementes. E apenas brilhou na alta popa da capitânia o fanal. 224 . Novo temor e pavor indizível a todos gelaram o coração. Meninos à volta. avançava até ao centro da bela cidade. por uma corda. Acamante e Toante valentes os seguem. Mas. À faina todos concorrem. mas Apolo impediu que lhe déssemos crédito. calam-se os teucros. morada dos deuses ! famosa na guerra. fabricante ardiloso do engenho. a par os dragões escaparam. Enquanto nós. cai a Noite no Oceano. ó pátria ! ó Ílio. rastreando na direção do santuário de Palas severa. A uma voz declararam ter sido Laocoonte mui justamente punido. Franqueada a saída. e o temível Ulisses. e dos mirmídones toda a maldade. Ameaçador. por disparar contra o grande cavalo sua lança impiedosa. por quatro no ventre se ouviram tinir armas. Espalhados nas casas. cabos de guerra. dos corpos cansados o sono se apossa. escapam do cavo escond'rijo Tesandro e Estênelo. pela cidade enfeitávamos arcos e templos com flores. infelizes. mais o Pelida Neoptólemo filho de Aquiles. favorecida da ausência da lua silente. Sinão abre a furto a prisão de madeira dos feros dânaos. esquecidos de tudo o levamos — cegueira incurável! — e colocamos o monstro no próprio sacrário de Tróia ! Abriu a boca nessa hora Cassandra e falou sobre os fatos ainda por vir. Na melhor ordem de Tênedo a argiva falange partira. donzelas hinos cantavam. Nesse entremeio virou o alto céu. ultrajara o sagrado madeiro. e se acolhem aos pés da deusa. o firmamento recobre de trevas espessas a terra. Muros deitamos por terra. forte baluarte dos dárdanos. cordas de cânhamo forte ao redor do pescoço lhe passam. Em coro clamam que ao templo de Palas o bruto removam e a divindade com preces se aplaque. folgando de as mãos encostar no cabresto. no asilo eficaz do broquel abaulado. Assim transpôs as muralhas de Tróia o fatal maquinismo.263 35 . chegados ao último dia. pelo fado amparado dos deuses e a nós infenso. o recinto do burgo franqueamos. debaixo dos pés lhes põem rodas. no rumo das conhecidas ribeiras. Macáone e Menelau com Epeu. Alegres.

sem mexer-me um tantinho. entretanto. de ouças atentas me pus a escutar. cada vez mais o ruído das vozes. no santuário profundo. Assim como o vi. a derramar quentes lágrimas pelo semblante tristonho. todas. desolada. vi pareceu-me. e o mirante galgando do belo palácio.SC ENEIDA Todos. Tróia te entrega os seus deuses e os sacros objetos do culto. quando austro furioso nas searas o fogo 264 . Mas. de muito ali postos à espera. feridas e cicatrizes sem conta. pareceu-me que o interroguei por primeiro com estas palavras doridas: Ó luz dardânia ! fortíssimo esteio dos homens de Tróia ! Por que voltaste tão tarde? A razão. de ficares por tanto tempo naquelas regiões. a chorar. meu terno pai. depois «dos trabalhos da pátria. fosse longe e cercada por denso arvoredo. e entregou-me as sagradas insígnias e Vesta. filho de uma deidade. ante os olhos a sombra de Heitor. Muito já demos a Príamo e à pátria. de massacrados os seus defensores? Que mão criminosa desfjgurou-te? E as feridas do corpo. indizíveis.303 . da guerra em defesa da pátria. o sangue a empastar os cabelos. procura morada para eles. das armas se ouvia. Disse. tal como esteve antes disso. onde e quando as sofreste? Nada falou em resposta a essas fúteis perguntas do amigo. a barba esquálida. e os sócios acolhem. à uma. Não de outra forma. precisamente na hora em que para os mortais estafados coa nos membros o grato sopor. Leva contigo esses sócios. quando entrava vestido do espólio de Aquiles. grande cidade. Se a Pérgamo a destra de algo valesse. ressoavam lamentos confusos. e embora a morada de Anquises. na biga arrastado à matroca. no sono e no vinho como que imersos. pelos dois pés arroxeados por forte e inamável correia. caro Heitor. a cidade invadiram. estas mãos se imporiam na sua defesa. e o fogo eterno que ardia no lar. hoje Tróia extinguiu-se. do imo peito emitindo um gemido profundo me disse: Foge daqui. cada vez mais acentuados. em torno ao muros. Quão diferente — ai de mim! — era então do outro Heitor que eu corria sempre encontrar. ou quando o fogo dos frígios jogava nas naus dos acaios. Sacudo o sono. doce prêmio dos deuses. as portas arrombam. Dentro dos muros campeia o inimigo. depois de cortares o mar tormentoso. do incêndio te livra. Pela cidade. para agora te vermos em tal estado. os guardas massacram.

Ílio santa deixou de existir. sem compreender o que passa. bem próximo ardia Ucalegonte. sacerdote de Febo. No burgo abrasado ora os gregos imperam. Fora de mim. Outros. e as próprias matas carrega: perplexo. ornatos do culto. clamor que até aos astros ecoa. Uma idéia somente nos exaltava: era belo morrer em defesa da pátria. a grega perfídia.343 . O desmedido cavalo. ou a torrente aumentada com as águas dos montes arrasa os campos. O Sigeu com o reflexo do fogo esplendia. à força de Marte se opõem. que a Tróia viera de pouco. corria até casa a buscar-me. arrancou do mais fundo um gemido abafado: O último dia chegou da fatal extinção dos troianos. A mim se agrega Rifeu juntamente com Êpito. Panto. tal multidão como nunca mandou-nos a forte Micenas.LIVRO I í 31 por tudo espalha. o toque atroador das trombetas. nas trevas envoltos. de nada nos servem. onde a luta é mais forte? Ainda temos alguma defesa? Mal lhe falara. no cimo de um monte. A essas palavras do Otríada e aos próprios ditames dos deuses corro ao encontro das armas. o pastor se admira do que ouve. Um pensamento a nós todos anima: voar para os pontos onde a batalha mais forte estrondava. dos bois o trabalho. do luar amparados. os primeiros guardas. um netinho. do amor desvairado trazido da profetisa Cassandra. e o insultante Sinão onde passa semeia incêndios. ao grande estrondo dos ferros. o grande e venerável guerreiro. seguido do jovem Corebo Migdônida. a bela colheita. mais Hípanis o alto Dimante. noutra. do centro vital da cidade lança esquadrões sobre nós. Com muito trabalho. nas portas abertas. O gume do aço brilhante e eriçado de pontas. Panto nessa hora ao encontro me sai. do fogo. atordoado. filho de Otrias possante. sem rebuços. a auxiliar como genro a defesa da fortaleza de Príamo e seus contingentes da Frigia. Ouvem-se gritos dos homens. Tróia caiu. seguiam-no rente os aquivos. das tristes Erínias. 304 . Júpiter fero aos aquivos transferiu tudo. pelo furor de Vulcano arruinado. Já se encontrava por terra o palácio do forte Deífobo. Numa das mãos traz os deuses vencidos. as ruas estreitas entopem de flechas sangrentas. Era patente a traição. a alta glória dos descendentes de Dárdano. logo as armas procuro. inúmeros dânaos. a morte de toda a parte nos manda.

344 . quase loucura. por vezes.38 ENEIDA Infeliz moço. renasce o vigor primitivo. desgraças. de espadas. colheu-os a Morte. assentou numa cobra quase escondida entre as pedras e salta a tremer quando a enxerga meio enrolada. quando outros argivos já estão saqueando os palácios em chamas de Pérgamo altiva? Somente agora deixastes as naves de proas recurvas? Apenas isso. bem vedes para onde a Fortuna bandeou-se: Todos os deuses. calou-se de pronto e recuou para o grupo. Arremetemos contra ele. Correis em defesa de ruinas e escombros em labaredas. Quem poderia narrar os horrores. nas casas amplas. Corpos sem vida aos montões se acumulam por todos os lados. até ao centro da grande Tróia. a imagem da Morte em diversas posturas. tomados de brio. rapazes ! Por que a sair demorastes do esconderijo? Por que essa preguiça. de improviso. Foi o primeiro a of'recer-se a nosso ímpeto Andrógeo valente. os santuários e altares já abandonaram. Com essas palavras inflamo até ao máximo o peito dos jovens. onde os filhinhos o aguardam com fauces sedentas. cauteloso. então ! Avancemos sem medo ! Para os vencidos só há salvação na esperança perdida. lamentos. nas ruas. a um só tempo. Atra noite por cima de nós circunvoa. ou com o pranto igualar o trabalho dos teucros? Caiu por terra uma antiga cidade. disse-lhes: — Jovens de inútil esforço e ousadia ! No caso de me acolherdes o apelo para uma entrepresa arriscada. Em terra estranha. Mas. Por tudo. por dardos. tomados de susto. que vinha à frente de muitos guerreiros e nos confundira com combatentes argivos. Tal como lobos rapaces que cegos de fome imperiosa saem de noite à procura de presa e da cova se afastam. o atroz morticínio daquela noite. e os vencedores também pereciam. por hostes densas rompemos no rumo da Morte. luto. que ouvidos não teve de ouvir os prenúncios da sua amada ! Vendo-os dispostos a entrar na peleja. pois nos vencidos. Morramos. rainha das outras. com o bote já prestes: assim Andrógeo ao nos ver se dispõe a fugir.383 . e o cerco apertamos. esteios da pátria. de colo cerúleo. Em tom amigável falou-nos: Mais pressa nisso. a investida e o discurso. no sólio dos templos sagrados. Como o viandante que o pé. tendo notado no que lhe dissemos algo suspeito. interrompendo de medo.

retrocedemos. Dada a superioridade do número. de Príamo filha dileta. tudo vale no trato de imigos. Cegos de dor e de raiva por terem perdido Cassandra. misturamo-nos com os próprios dânaos. tomados de baixos temores. apenas. Eles as armas nos dão. Todos se armam de espólios recentes. Vêm atacar-nos os mesmos que nós antes disso espalhamos pela cidade. Nisso. e de lado ajustou linda espada da Grécia. e o exército inteiro dos dólopes feros. o grupo da mocidade jovial. empunhando belo tridente Nereu espumoso o mar fundo remexe. Corebo não pôde conter a fúria e. num batalhão bem formado investimos. 384 . escondidos nas dobras do manto da Noite. que as mãos delicadas os laços prendiam. os Atridas como dois gêmeos. os belos olhos para o alto estendia. outros. Cheio de dor ante a vista do quadro. Ou por astúcia ou valor. adiante ! Sigamos o próprio caminho da salvação que os benévolos Fados agora mostraram. logo o mesmo fizeram. Nossos escudos troquemos. Rifeu. movidos do engano das armaduras dos gregos. Eis que de súbito vemos a virgem Cassandra. A floresta estrondeia. olhos. com cascos de belos penachos. Ah ! sem a ajuda dos deuses de nada nos vale a Fortuna. Dimante e outros mais. a fim de abrigarem-se no conhecido reduto. a gente graia acomete: o terrível Ajaz. Não de outra forma engalfinham-se ventos contrários em luta. primeiro de todos o engano percebem. o riquíssimo escudo embraça. Zéfiro e Noto e mais Euro galhardo. vistamos as gregas insígnias. a fala de acentos estranhos. Brigam deveras. Muitos às naves se acolhem.LIVRO II 39 Favoreceu-nos a deusa Fortuna no nosso improviso. Acompanhamo-lo. disposto a morrer. então. buscando refúgio na praia. — Disse. e logo enfiou na cabeça o capacete de belo penacho de Andrógeo. vaidoso com a posse dos corredores da Aurora. a cair sobre nós do telhado do templo começam dardos sem conta que no alvo acertavam. cabelos esparsos. troca de escudos e glaivos. arrastada do templo. de novo ao cavalo sobem.423 . Com tal sucesso exultando. à procura de amparo. entre os dânaos jogou-se. Sem numes pátrios. Corebo se anima e nos grita: Caros amigos. e quase às cegas de noite em sangrentos recontros mandamos récuas e récuas de aquivos para o Orco ainda mais tenebroso.

Outros. reforço aos vivos trazer. vir costumava sem guarda nenhuma trazendo o filhinho. ferido foi Pélias de um dardo de Ulisses. no peitoril com a direita seguros. Logo a atenção nos chamou grande estrondo nos paços de Príamo. onde a batalha se trava com tanto furor. aos poucos avançam. insígnias dos priscos monarcas. com esforço conjunto a impelimos 424 . junto do altar de Minerva potente. Marte indomável por tudo seu grande furor espalhava. qual se noutras partes a calma reinasse. Fortes escadas nos muros engancham. Torre construída na borda do teto e inclinada. Astianacte infeliz. Por essa porta subi ao ponto alto da casa. degraus sobem lestes. também tombou. pela mão do viril Peneleu. duplicar o vigor dos vencidos. Rifeu. em visita ao avô carinhoso. gládios na destra. Com tartarugas formadas de escudos os gregos as portas assediavam. lugar de onde os troas olhar costumavam o acampamento dos gregos. sem vítima alguma nem perdas. projéteis descobrem com que defender-se: são vigamentos dourados. no afã de ganhar o telhado das casas. Panto ilustríssimo. lá se encontrava. Era Ifito bastante idoso. o homem justo. Cinzas ilíacas. firmes na esquerda os broquéis. contra os dardos amparo eficiente. os troianos de cima as cumeeiras e as torres jogam abaixo. e as ínfulas sacras puderam salvar-te. das duras armas dos dânaos. e que se o Destino me impunha morrer na guerra. em formações adensadas a entrada aos estranhos impedem. ajuda assentamos levar ao palácio. as naves de proas recurvas. onde os pobres teucros seus írritos dardos jogavam no campo inimigo. dos troianos o mais acatado e virtuoso. postados nas portas. com sobra o meu braço tal prêmio exigia. por onde Andrômaca. Mais animados. nem tua piedade. comunicante com as outras moradas. onde as junturas cediam. Porta secreta existia por trás do palácio de Príamo. Mas.463 . Dali me afasto. tudo lhes serve.40 ENEIDA Logo Corebo caiu. parece. ao tempo em que Tróia ao fastígio ascendera. Na sua base assentando alavancas nos pontos mais fracos. os eternos assim não pensavam. seguido de Pélias e de Ifito. chamas da última pira dos teucros ! sois testemunhas de como jamais me esquivei de perigos. oculta aos argivos. Por outro lado. Dimante mais Hípanis tombam às mãos dos seus próprios amigos.

e o próprio gado carrega no bojo das águas. com aparência de jovem o colo e a cabeça exaltasse. pórticos de ouro luzente. gente da guarda também. Hécuba. Num ápice. Desde o portal do vestíbulo Pirro exultante campeava. Com a mesma fúria do pai. batentes se quebram. Pirro na frente dos outros armado de dura bipene deixa em pedaços os fortes umbrais. do mesmo modo que à luz aparece do dia uma cobra. os dois Atridas irmãos na soleira do paço postados. miserável tumulto nas salas internas. Com menos fúria a represa espumante seus diques estoura. lamentos dilacerantes por tudo. longe os terrenos alaga e os currais alinhados. e ora. Pirro a ação predatória dirige. Tudo são ais. depois larga entrada aos aquivos apresta. Não param de chover dardos e pedras.LIVRO II e da alta sede a arrancamos. resplandecente com o brilho invulgar de sua bela armadura.503 . dos gonzos escapam. tudo 464 . nas belas portas se encostam. promessa de bela colheita. que fachos acesos nos tetos jogavam. de ervas danihas nutrida no inverno debaixo da terra. suas cem noras e Príamo junto das aras com sangue fresco a irrigar as fogueiras por ele apagadas. brecha primeiro. até ao céu estrelado se elevam. de pele mudada. Pelos salões as matronas de pávido aspecto vagueiam. sem que barreiras nem guardas consigam detê-lo. apostados naquela defesa. Cinqüenta leitos de núpcias. quadros de dor e de angústia. Logo esses claros preenchem com gente mais fresca. e arrebentando as barreiras que o passo impedir lhe tentavam. de beijos sentidos as cobrem. o dardo tríplice agita e sibila na boca ardorosa. os aposentos de Príamo e nossos antigos monarcas. Automedonte. às batidas crebras do aríete as portas já cedem. com grande estrondo cai para a frente. À força estradas alargam. mais os fortes mancebos da bela Escíria. despojos dos bárbaros. abalados os quícios e as bronzeadas couceiras e roto um dos fortes batentes. sem vida tombam os guardas. Ao lado seu Perifante se encontra e o escudeiro de Aquiles. assolando até longe as falanges dos gregos. O filho de Aquiles. seus pórticos amplos. já livre do frio enervante. os dânaos avançam e as salas inundam. Eis que aparece o interior do palácio. o ululado femíneo. cocheiro também.

mostrou-se pio. e acatou os direitos de um velho pedinte. pois presencear me fizeste o trespasso de um filho inocente. o cadáver de Heitor entregou-me. destruídas as portas soberbas. não se portou desse modo com Príamo imigo. o castigo devido. tais extremos de inútil crueldade. hasta no alto. um grande altar se encontrava ladeado de antigo loureiro. E quando alfim chega à vista de Príamo e Hécuba. punam-te os deuses — se houver mesmo deuses para esses abusos — a recompensa te dêem merecida. Ou vem conosco morrer. os átrios desertos perpassa na fuga. Acomoda-te aqui. o próprio lar profanado e desfeito por gente inimiga. Hécuba com suas noras em torno do altar se apertavam inutilmente. que as divindades do lar abrigava com a fronde vetusta. E tomando o Velhinho pela mão trêmula. tomba. desabafou com palavras de cólera e dor represadas: Por este crime.42 ENEIDA lama e ruínas. Vendo a cidade tomada. esvaído de sangue.543 . defesa mais forte. no jeito de um bando de pombas em fuga de ameaçadora tormenta. às golfadas. — Assim disse. o Velhinho arrojou com a mão débil o dardo 504 . o venerável monarca nos trêmulos ombros enverga sua armadura antiquada. exclamou. O próprio Aquiles. com o sangue limpo do filho as feições de um pai velho manchaste. da espada sem gume se apossa. Nem a presença do meu caro Heitor poderia salvar-nos neste momento. este altar nos ampara. Provavelmente desejas saber o destino de Príamo. corre por meio dos dardos. Ao perceber o marido vestido com as armas de moço: Mísero esposo. deixando que para Tróia eu voltasse. No encalço do moço Polites vai Pirro. O ferro dos dânaos o incêndio alimenta. Nesse momento. Polites. fê-lo sentar no recinto sagrado. então — meio morto já estava — não pôde conter-se. abraçadas à efígie da deusa. fugindo do gládio de Pirro. louco de fúria. em frente mesmo dos pais. que delírio insensato te obriga a usar a velha armadura? Para onde te arrastas sem forças? A situação ora pede outras armas. exclamou. ao ar livre no pátio. dos inimigos. Príamo. e por último o alcança de cheio. No centro mesmo do belo palácio. Ao dizer isso. um dos rebentos de Príamo. a perder sangue. de quem falsamente te dizem nascido. e decidido a morrer se dirige ao encontro do imigo.

portanto. Como ! exclamei. abraçar pais e filhos. Sozinho estava. com os traços de um rei tão idoso quanto ele. Pirro falou: — Pois então vai tu mesmo contar ao Pelida. O fim foi este de Príamo. e com a espada firme na destra. governador inconteste de tantas regiões florescentes. a seu esposo reunir-se. Hoje. A vez primeira foi essa em que horror indizível do peito se me apodera. num triunfo insolente? Reconciliada reentrar no palácio. dos povos d'Ásia. Mas antes disso aqui morre. punir de uma vez tantos crimes. na casa incendiada. Pensei outrossim em Creusa ao desamparo. com mostras de muito medo e calada. degenerado. atiram-se dos altos muros alguns ou na imensa fogueira. que ali morrera ultrajado. ainda vivos. um corpo sem nome jogado na praia e separadas dos ombros as cãs venerandas de um velho. A imagem do pai queridíssimo. em Iulo sozinho. 544 . da queda de Pérgamo. sem castigo. morrido já haviam todos. à vista mesmo do incêndio de Tróia. Por entre os clarões da fogueira. ficando inutilmente suspenso no forro do escudo abaulado.583 43 . não será. o ódio dos teucros temia. Com a mão esquerda segura os cabelos do Ancião. na qualidade de esposa de um rei. arrastou para junto do altar o tremente Velho. no altar a abrigar-se correra. enquanto Príamo aqui trucidaram. enterrou-a até os copos no peito. seguida de turba imensa de escravos da Frigia e de teucros. do esposo ultrajado. em vingança do incêndio de Tróia. Assim falando. Se é desdouro punir uma vil criminosa. o fado trazido do berço. a luzir. no fogo arrasada foi Tróia? E tantas vezes banhadas de sangue estas praias ficaram? Não. uma idéia somente me ocorre: vingar a pátria destruída. mas nisso diviso na entrada do belo templo a Tindárida em busca de um canto discreto para esconder-se. dos seus patrícios também se arreceava. meu nobre pai. me ocorre à mente. há de a pátria Micenas rever. Anquises. ou fosse cansaço ou desânimo. que os pés resvalava no sangue empapado do filho. passeava com a vista por tudo. Olho ao redor para ver com que gente eu contava. Minha alma em fúria se inflama.LIVRO II que pelo rouco metal repelido foi logo. as proezas sem glória do filho pequeno. Neoptólemo. aborrecida de todos. Calamidade comum para os gregos e para os troianos. à família e os filhinhos.

a diva inclemência. por que te exasperas e a cólera assim te domina? sem te lembrares de mim para nada. Logo deixou de falar e ocultou-se nas trevas da Noite. não vaciles um nada em seguir-lhe os conselhos. quando. não digna de aplausos. o velho Anquises. E com o seu hálito róseo me disse as palavras aladas: Filho. Vagam sem tino.623 . com planos terríveis. e desde 584 . a brilhar como nunca e a inundar toda a Noite divina de claridade celeste. de seus fundamentos arranca a incomparável cidade. Aqueles blocos não vês sotopostos a blocos maiores. e no escudo a ameaçar-nos a Górgona terribilíssima. os demais deuses concita a alistarem-se contra Dardânia. Não ! Essa filha de Tíndaro não é culpada. que venham depressa das naves recurvas para ajudá-la. Por toda a parte os rodeiam as hostes furiosas dos gregos. sequer de contar-se. Não fosse a afeição que a eles todos dedico. tomado de fúria. Assim me achava.44 ENEIDA ação inglória. A distinguir comecei as terríveis feições das deidades a Tróia infensas. subverte a grandeza de Tróia. apoio ao menos terei por haver dado à Morte este monstro de iniqüidade e a vergonha vingado dos manes queridos. de guarda nas portas Céias a lança a girar. dos deuses odientos. Sevíssima. Juno. Contive-me logo. grandes penhascos envoltos em nuvens de poeira e de fumo? Pois nesse ponto Netuno com o forte tridente percute os alicerces de Tróia. Foge. deusa veraz. Jove também aos acaios anima. já pelo fogo teriam morrido ou nos glaivos argivos. grita às hostes amigas. Pela destra me toma. meu filho. a quem odeias e increpàs. a divina ! digo. arremata esse esforço improfícuo e sem glória. nem Páris. dos entes queridos? Cuida primeiro em saber onde se acha teu pai venerando. se Creúsa ainda vive ou o teu filho pequeno. Sem medo nenhum cumpre as ordens de tua mãe. vi minha mãe com estes olhos. ao paterno solar vou levar-te. Ílio então vi devorada das chamas vivazes. com seus atavios de deusa. tal como jamais a enxergara. Olha para o alto: no cimo da torre já vês a Tritônia Palas em nuvem brilhante. vou tirar a cortina que de úmidas sombras teus mortais olhos empana. Sempre estarei ao teu lado. aos feros dânaos. Presta atenção.

no intento primeiro insistia. meu pai ! supuseste que eu fosse capaz de deixar-te desamparado? Palavras tão feias um pai proferi-las? Se os imortais decidiram que nada de Tróia perdure. Nisso teimáva. que belo espólio imagine. Nada o arredava daquilo. e nisso estás: bem abertos os nossos portões ora se acham. a fronde vacila. à porfia. sobreviver à tomada da minha cidade nativa. o adeus último agora nos demos. vencido aos pouquinhos de tanto sofrer. manchado do sangue de Príamo. Já basta. dos eternos. eu e Creúsa com o filho Ascânio e as pessoas de casa. pedimos-lhe para não trabalhar contra nós ou agravar o pesado destino. com as batidas no tronco. Da nossa parte. e à destruição da cidade acrescentas a tua e a dos teucros. Logo que o pátrio solar alcancei. o mesmo que mata o filho ante os olhos do pai e ao pai velho nas aras. prazer encontrando nas suas lembranças. disposto a morrer ali mesmo. a morada sabida dos meus maiores. do ferro e das chamas escapo. das chamas. Pirro vem perto. que em toda a pujança da mocidade ainda estais. senhor dos mortais pequeninos soprou-me a pele e tocou-me de leve com o fogo do raio. Volto a lançar mão das armas. algum tempo ele ainda resiste. Acabarei aqui mesmo. — A vós outros. com sobras. a primeira pessoa que em busca eu partira. Desço. derradeiro gemido solta e desaba. banhados em lágrimas. Eu próprio a Morte hei de achar ou o inimigo de mim apiedado. incessantes. há muito a existência inamável arrasto. se recusou a seguir-me no exílio e à ruína de Tróia sobreviver. as chamas recuavam. e com o amparo divino. é que cumpre no meio dos riscos pensar na fuga. meu pai.LIVRO II seus fundamentos a Tróia Netúnia cair aos pedaços. tal como o roble nos cumes altivos que os fortes campônios de machadinhas armados golpeiam de rijo. sem tomar fôlego quase. Que mais podia esperar da fereza do Fado tão duro? Como. desde que o rej. Odioso aos deuses. Mãe generosa ! livraste-me de tantos dardos. arrastando na queda o que encontra. Diante de mim apartavam-se as lanças. Insepulto ficar é o de menos. té que.663 45 . 624 . exclama. minha morada teriam guardado. que eu pensava em levar para os montes da redondeza. Se os imortais resolvessem premiar-me com vida mais longa.

deixai-me rever os combates enrubecidos. meu pai se levanta. Com isso. Mas. o filhinho querido ao seu pai apresenta: Se à Morte corres. não mais. as deidades invoca do alto e lhes fala. o broquel na sinistra. vinguemo-nos deles. para mostrar o caminho a seguirmos. o pai velho. não partas sozinho. Apavorados. a quem deixas Iulo pequeno. tomados de espanto. meu filho Ascânio. Vimo-la.703 . a nadarem no sangue anegrado uns dos outros? Trazei-me as armas ! A luz derradeira já chama aos vencidos. O sulco rebrilha por algum tempo. na espessa floresta do monte. quando. e jogamos água nas chamas sagradas. vimos de subido alçar-se de sua cabeça uma chama que mui por cima os cabelos lambia. meu filho. a um prodígio assombroso assistimos. cuida primeiro da casa. confirma este augúrio feliz e nos salva ! Mal de falar acabara. a morte apressemos. sem dano fazer-lhes.46 ENEIDA para encontrar minha casa invadida. contigo nos leva. a espada de novo seguro. então. Pelo prodígio vencido. Enquanto Ascânio se achava nos braços dos pais. nem faço objeção em seguir-te. corremos a fim de salvá-lo. os pés me abraça. O pai Anquises. guardai esta casa. se ainda tens esperança na força e nos braços. e se inclina ante a estrela sagrada. vê nossa angústia premente. todo prantos. sim. quando se me atravessou justamente no umbral minha esposa. e parecia adensar-se um pouquinho na fronte pequena. e sem dó nem piedade assassinados achar minha esposa Creúsa. jamais contemplada. salvai meu netinho. Pronto ! partamos ! agora ! depressa ! para onde quiserdes ! Ó pátrios deuses. O agoiro é vosso. e um trovão retumbou pelos vales do lado esquerdo. e se acaso piedade te merecemos. 664 . no tempo em que as trevas da noite uma estrela de claridade inefável cortava. Reconduzi-me aos aquivos. sob vossa potência está Tróia segura. em falta de novos recursos. Não mais resisto. deslizar pelos tetos das casas bem feitas e no Ida augusto apagar-se. transbordante de júbilo os olhos volve para o alto e elevando as mãos ambos alegre falou-nos: Júpiter onipotente ! se as preces dos homens te abalam. bem adaptado. nas armas. teu velho pai e a que um dia chamaste de esposa extremosa? Com tais queixumes enchia de dor até ao teto o aposento. Na sala percebe-se cheiro de enxofre. E já ia transpor a soleira de casa.

atemorizo-me agora com o mais leve sopro. por fim. Tu. e me espanto com um barulhinho. venha o que vier. e pouco atrás a consorte me siga de perto. brinquedo de criança é o teu peso. de fortes e densas colunas. ao filhinho querido.743 17 . à matroca. Vamos. por injunção do Destino ou rendida talvez de cansaço. e por vielas esconsas tomando. por causa da carga e dos meus companheiros. passei no pescoço e nas largas espáduas o manto e a pele de um fulvo leão. correremos perigos iguais. Por diferentes caminhos devemos reunir-nos lá mesmo. E eu. caro pai. Iulo procura igualar-me na marcha. Meu pai. Assim falando. 704 . que até há pouco enfrentava sem medo os projéteis dos gregos e os batalhões de inimigos. Não sei dizer. Nunca mais estes olhos puderam revê-la. que a devoção dos troianos conserva com todo o respeito. E quanto a vós. Ao meu lado acompanhe-me Ascânio. as espadas reluzem no escuro ! Desde esse instante não sei que deidade inimiga turvou-me o entendimento. O pensamento ou o olhar não volvi para trás um momento. parece-me. sem medo. me gritou: — Foge. não poderei tocar neles enquanto nas águas de um rio não me lavar.LIVRO II Disse. leva os pátrios penates e objetos do culto. Passando os caminhos sabidos sem vê-los. Desta matança terrível havendo eu saído de pouco. somente ela entre todos faltava aos companheiros de fuga. té não chegarmos ao teso indicado e o sacrário de Ceres. Atrás a esposa me segue. mísero ! minha mulher extraviou-se. Da mão me tomando do lado direito. recebo a carga. Vou carregar-te nos ombros. sem tino. Creúsa querida. pois para ambos a salvação será a mesma. mui crente de havermos ultrapassado os perigos. filho ! Depressa ! Estão perto ! Vejo brilhar os broquéis. esforçando-se para ver claro na escuridão. À vista já me encontrava da porta. e abaixando-me um pouco. ao marido. amiudando os passinhos. paizinho ! Segura-te no meu pescoço e não caias. servidores. Ali reunidos. passos precipitados. ouvi quanto passo a dizer-vos Numa colina ao sair da cidade há um templo de Ceres abandonado. e eis que ouço. Destarte marchamos no escuro. e ali junto um cipreste de muitos invernos. no tempo em que as fortes muralhas aos poucos cediam e os turbilhões da fogueira até perto de nós rodopiavam.

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ENEIDA

Fora de mim, a que deus não culpei, a quem mais entre os homens? Calamidade maior onde eu vira nas ruinas de Tróia? O pai Anquises, Ascânio, os troianos penates aos sócios logo encomendo e os abrigo na curva de um vale sombrio, e a fulgurante armadura vestindo, retorno à cidade, disposto a os riscos de novo enfrentar, percorrer toda a Tróia, e sobre a minha cabeça chamar novamente os perigos. Primeiramente, às muralhas retorno e à passagem secreta por nós usada à saída, e no escuro procuro vestígios de nossos passos, a vista alongando por todos os lados. Horror é tudo; o silêncio geral nos aterra e deprime. A minha casa, depois; quem nos diz que ela não se tivesse lá refugiado? Tomada dos gregos, os quartos vazios. As labaredas, agora tocadas dos ventos, subiam até à cumieira; ultrapassam-na; somem no céu escampado. Vou mais além e revejo o palácio e o castelo de Príamo. Logo na entrada, no asilo de Juno e nos pórticos ermos, Fênix e Ulisses, o mau, como guardas ali se encontravam do espólio opimo. Amontoada, a riqueza de Tróia se via, templos saqueados, as mesas dos deuses, as mais belas copas de ouro existentes, e vestes e adornos dos pobres cativos. Ao derredor, em fileiras, morrendo de medo, os meninos, mães desoladas. Aventurei-me até mesmo a gritar no deserto sombrio; naquelas ruas vazias, tomado de angústia indizível chamei, chamei muitas vezes Creúsa, a bradar por Creúsa ! E enquanto assim me excedia, a rever os palácios e as casas, um simulacro infeliz ante os olhos me surge, a inefável sombra da minha Creúsa, de muito maior estatura. Tolhe-me o susto, os cabelos se eriçam, a voz se me embarga. Ela, afinal, me falou, procurando alentar-me com isso: Por que te entregas, esposo querido, a essa dor excessiva? Tudo o que agora acontece se passa de acordo com os planos das divindades. Levar não podias de Tróia a Creúsa por companheira. Isso impede o senhor poderoso do Olimpo. Longos exílios te estão reservados, o mar infinito. À terra Hespéria porém chegarás, onde o Tibre da Lídia corre sinuoso em campinas povoadas por fortes guerreiros. Ali te aguardam sucessos felizes, um reino e uma esposa de régia estirpe. Consola-te, pois, de perderes Creúsa. 744 - 783

LIVRO II Não entrarei nas soberbas moradas dos dólopes feros, na dos mirmidones, nem servirei às matronas argivas, pois, natural de Dardânia, sou nora de Vênus augusta. A grande Mãe das deidades do Olimpo aqui mesmo me guarda. É tempo; adeus ! O filhinho comum, guarda-o bem no imo peito. Tendo assim dito, deixou-me choroso e querendo dizer-lhe quanto no peito abrigava. Nas auras sumiu de repente. Três vezes quis apertá-la no peito, cingi-la nos braços; três me escapou dentre os dedos, no instante em que a tinha bem presa, tal como a brisa sutil ou imagem vazia dos sonhos. A Noite ao fim já chegara quando eu retornei para os sócios, tendo observado que o número deles crescera por modo extraordinário, de espanto causar: mães idosas, guerreiros, gente mais nova, infeliz multidão para o exílio dispostos. De toda a parte acorriam com os restos salvados da guerra, todos dispostos a irem comigo para onde os levasse. O matutino luzeiro já do Ida alcançara as alturas e conduzira a manhã. As estradas os gregos guardavam. De resistência já não nos restava nenhuma esperança. Cedi à sorte; e a meu pai carregando, subi para o monte.

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e ao mar alto me entrego.ENEIDA Livro III Quando aos eternos aprouve destruir sem motivo o invejável império d'Ásia e a progênie de Príamo. nada sabendo dos Fados. por injunção dos agouros nos vimos lançados no exílio. com cerejeiras silvestres e mirto de ramos trançados. Um combro havia ali junto. os penates e os deuses maiores de Tróia. que os trácios aram regida. conforme o meu nome. enquanto boa a Fortuna nos foi. ao longe. com os sócios. e em ruinas ardentes a Tróia netúnia mudada. e meu pai insistir para os panos soltarmos. em terra a soberba Ilio. e a os habitantes Enéadas chamo. Para lá me dirijo e na praia curva o traçado risquei de um povoado. A mãe Dionéia e às demais divindades do início das obras fiz sacrifícios na praia sonora e imolei à deidade máxima dos moradores do céu um belíssimo touro. a chorar. o filho amado. se encontra uma terra dicada a Mavorte. Defronte. exilado. sem próspero auspício. do fero Licurgo. Reunimos gente. de moitas variadas coberto. e ao notarmos sinais de certeza de início da primavera. faz tempo. da terra por todos ansiada. deixo os portos as praias e os campos onde foi Tróia. Ao pé justamente de Antandro e do Ida augusto da Frigia navios bastantes construímos. para buscar novas terras. grato agasalho dos nossos nos lares amigos. sem rumo certo. 1-23 .

ENEIDA Nele me achei certa vez; porém quando tentava alguns ramos do solo pingue arrancar para as aras cobrir de folhagem, prodígio horrendo me surge ante os olhos, tolhendo-me a fala: ao fazer força e arrancar do chão duro o primeiro raminho, gotas de sangue anegrado escorreram, manchando de pronto todo o terreno de pingos escuros. Horror tiritante gela-me os braços; o sangue sem vida coagula nas veias. Mais uma vez tento um ramo puxar de outro arbusto ali perto, para auscultar o segredo latente daquele prodígio: gotas mais negras escorrem do galho sacado com força. Mil pensamentos me ocorrem; às ninfas agrestes suplico, ao pai Gradivo que os campos fecundos dos getas protege, para que aquele presságio trocassem em próspero evento. Mas, na terceira investida, ao forçar o raminho mais firme, na areia branca os joelhos fincando, apoio seguro — di-lo-ei ou não? — do mais fundo da terra saiu um gemido lacrimejante, e aos ouvidos me chegam palavras sentidas: Por que laceras, Enéias, um ser infeliz? A um sepulcro poupa; não manches com um crime essas mãos abençoadas. Em Tróia também nascido, não somos estranhos. As plantas não sangram. Ai ! Foge destas paragens malditas, da terra mesquinha. Sou Polidoro; caí neste ponta crivado de dardos, que no meu corpo cresceram demais, para meu sofrimento. De horror tomado indizível, e o peito oprimido, de espanto não me mexi; os cabelos em pé, não dizia palavra. Foi este filho de Príamo aquele infeliz Polidoro que, havia tempo, com um grande tesouro o monarca mandara para o rei trácio educar, quando o cerco de Tróia apertava cada vez mais e ele o fim desastrado bem perto sentia. O rei, tão logo os sinais percebeu da mudança dos Fados, às vencedoras falanges aquivas aliando-se, as hostes agamemnônias, os pactos quebranta, degola o menino e do tesouro se apossa. A que extremos não forças os homens, fome execrável do ouro ! — Refeito algum tanto do susto, procuro os chefes eleitos do povo, a meu pai antes deles, e lhes relato o prodígio, pedindo um conselho para isso. A uma voz dizem todos que o solo poluído deixemos, o santo hospício manchado, e que as naves de novo se empeguem. A PoIidoro, primeiro, prestamos as honras funéreas. Monte elevado de Terra erigimos, altares aos manes, 24-63

LIVRO III

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infulas de cor azul para o luto e ciprestes escuros: ao derredor, as ilíadas, soltos os belos cabelos como de praxe; crateras de tépido leite vertemos. sangue das vítimas sacrificadas. Na tumba encerramos a alma do amigo e em voz alta lhe demos o adeus derradeiro. Mal adquirimos confiança no mar, quando os ventos às ondas deram sossego e o sussurro dos austros a todos chamava, os companheiros as praias encheram e as naves soltaram. Ao longe o porto nos fica; deixamos a terra e as cidades. Ilha graciosa se eleva no m e i o do mar, dedicada à mãe das belas. Nereidas, ao divo Netuno do Egeu. Antes, errava por costas e praias, até que o potente Asseteador a fixou entre Giaro aprazível e Mícone, para que, imóvel ficando, aprendesse a enfrentar as tormentas. Desembarcados ali, recebeu no seu porto tranqüilo os navegantes cansados. .Saudamos o burgo de Apolo. Ânio, de Pelos o rei, sacerdote de Febo ali mesmo, fronte cingida do régio diadema, do louro sagrado, veio encontrar-nos e a Anquises de pronto, seu velho comparsa reconheceu. Apertamos as mãos; ao palácio subimos. Adoro Apolo em seu templo vetusto e esta prece lhe envio: Morada própria, Timbreu, nos concede, socorro aos feridos, às gerações pouso estável. Em nós, outra Pérgamo salva, restos roubados aos gregos, à cólera imana de Aquiles. A quem seguimos? Aonde ir aconselhas? A sede assentarmos? Dá-nos agouro, Senhor ! ilumina estas mentes cansadas. Mal concluíra, e de súbito quis parecer-me que tudo tremia à volta, a porta do templo, o loureiro divino, o próprio monte em redor, a mugir a cortina lá dentro. Tontos, prostramo-nos; estas palavras então percebemos: Valentes filhos de Dárdano ! a terra primeira que a estirpe de vossos pais engendrou há de em breve ao seu seio acolher-vos, quando voltardes para ela. Buscai, pois, a mãe primitiva. Ali a casa de Enéias o mundo de um polo a outro polo dominará, de seus filhos os netos e seus descendentes. Essas palavras a todos reanima. A uma voz perguntamos para onde fosse preciso guiar nossos passos errantes, a fim de a terra alcançarmos da origem dos nossos maiores. Então, meu pai, evocando memórias da própria família: Chefes troianos, nos diz, conhecei vossas íntimas vozes ! 64 -103

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ENEIDA

A ilha de Creta se encontra no meio do mar, do alto Jove pátria sagrada; no centro, o monte Ida, dos nossos o berço, por cem cidades formosas povoada e de solo ubertoso. Teucro, o mais velho dos nossos avós, caso ainda me lembre de quanto ouvi, foi quem viu antes de outro as paragens retéias e os fundamentos lançou do seu reino. Nem Ílio nem Pérgamo ainda existiam; os homens moravam nos vales profundos. Daí nos veio de Cibele o culto, os timbales sonoros dos coribantes, mistérios do Ideu, o silêncio sagrado, e a bela junta de leões atrelados ao carro da deusa. Adiante, pois ! e cumpramos confiantes as ordens divinas. Propiciemos os ventos, e os reinos de Creta busquemos. Não distam muito; contanto que Júpiter nos favoreça, na luz terceira estarão nossos barcos nas praias cretenses. Disse; e nas aras imola o holocausto devido às deidades: touro a Netuno do mar; para ti, belo Apolo, mais outro; à tempestade uma negra cordeira, e uma branca aos bons ventos. Corre a notícia recente que, expulso dos reinos paternos, Idomeneu se ausentara, deixando desertas as praias da ilha de Creta, vazias as casas, o imigo distante. Do porto ortígio saímos, e o mar perigoso cortando, Naxo deixamos com suas bacantes, a verde Donisa, a nívea Paros, Oléaro e o mar salpicado das Cicladas, e multidão de outras ilhas e estreitos que ao longo se perdem. Os marinheiros, no seu entusiasmo à porfia conclamam para chegarmos à Creta dos nossos avós sem demora. Com vento à popa, reforço abençoado, emissário celeste, prosperamente chegamos às praias dos fortes Curetas. Sem perder tempo, assentamos as bases do burgo auspicioso, de nome Pergamo. Alegres os moços com o nome escolhido, exorto todos a um belo castelo construir ali mesmo. A maior parte dos nossos navios já estava no seco, e a mocidade, nas lidas do campo e do amor ocupada, dando-lhes eu casa e leis, quando em cima de nós, de inopino, nos cais um ano pestífero, os ares corruptos, nocivos aos seres vivos, às árvores, às sementeiras mofinas. Os que ainda vivem, minados de doenças mal podem mover-se. O ardente Sírio com os raios os campos estéreis arrasa; secam-se as ervas; queimadas, as searas seus frutos nos negam. Nessa aflição, exortou-me meu pai a que os mares de novo 104 -143

acorda ! e ao pai velho transmite sem mora a notícia alvissareira. na bela Ausônia. de lá saiu Dárdano e nosso ascendente Iásio. e no lar sacrossanto dons puros derramo.L I V R O I II 85 corte e consulte na Ortígia os oráculos de Febo Apolo. com ternas palavras. ao fundir numa só duas terras diversas. Nisso. nem disse que fosses a Creta. forte nas armas. A ambígua prole de pronto assinala. pois Jove te nega as campinas de Creta. Para isso enviou-nos à tua morada. sim. de um forte caudilho primevo. recompondo-se. para contar-lhe por ordem dos fatos o que se passara. que pela janela dos aposentos entrava. Atarantado com aquela visão e as palavras dos deuses — não se tratava de sonho. nem Febo indicou-te estas plagas para a cidade fundares. que tudo confirma: dirija-se a Córito. Vamos. teus netos poremos acima dos astros e á sua pátria daremos o império do mundo. corro a Anquises. Força é mudares de assento. terra antiqüíssima. porém de figuras verazes diante de mim. aliviar procuravam meus grandes cuidados: Tudo o que Apolo frecheiro queria dizer-te. Cumprido esse grato dever. 144 -183 . Por isso mesmo. pelos enótrios outrora povoada e que seus descendentes o nome Itália puseram. Mas. bem nítidos. por efeito da claridade da lua então cheia. de frutos opimos. os penates dos frígios. Eis nossa pátria. para o alto céu. os fados adversos de ílio te oprimem. presto falou: — Filho. os mortais se entregavam ao sono agradável. Nós. as mãos ambas levanto. progênie mui certa dos fortes maiores de antanho. Levanta novas muralhas: não cedas jamais ao cansaço do exílio. Há uma região muito fértil. conhecidas feições. Somente Cassandra tais coisas me disse. meus votos ardentes. a Dardânia incendiada. me apareceram em sonhos. ora manda 'que te anunciemos. sacras vendas na fronte. seu novo engano. abordarmos. gélido suor me banhava nessa hora dos pés à cabeça — salto do leito. a que praia. os trabalhos das armas contigo participamos e o risco enfrentamos das ondas revoltas. clemência implore. o remate nos diga de tantos trabalhos. dos gregos Hespéria chamada. segundo me parecera. afinal. como alcançarmos remédio. Noite serena. os sacros penates dos deuses que eu carregara de Tróia através da cidade incendiada. como de praxe. os dois troncos da casa.

por serem morada da crua Celeno e outras harpias funestas. Salvo das ondas. o amplo céu e água funda — surge por cima de minha cabeça uma nuvem cerúlea. o vento as águas agita.56 ENEIDA lembro-me bem. alguns montes e nuvens de fumo. Depois. Com Eebo por guia. avistamos nas belas campinas gratas manadas de boi sem nenhum pegureiro. Ao Fado obedientes. espumas batem com força. Assim falou. Velas soltamos. três dias sem sol. Assim. quem diria que um dia os troianos à Hespéria chegassem? E acreditar quem podia nas falas da pobre Cassandra? Obedeçamos. monstro mais triste nem peste execrável: cara de virgem em corpo de pássaro. do céu nos afasta o aguaceiro. Mal nos pegamos em terra. varrendo a cerúlea campina. Deixando o rumo sabido. meio às tontas vogamos nos mares. jogados nos vimos de um lado para outro. A cerração. por ordem dos deuses na sua cólera. as mãos têm como garras. As trevas as ondas cobriram. No quarto dia porém acertamos de ver no horizonte sinais de terra: mui longe. fétido fluxo lhes sai do ventre. três noites feias erramos sem uso fazermos dos astros. nem do roteiro podia lembrar-se no meio das ondas. Quando já estávamos longe. espalhados por toda a parte. ininterruptos relâmpagos traçam seus riscos nas nuvens. com a noite escura e tormentas. outro rumo tomemos. no Jônio vastíssimo. assim pelos gregos denominadas.223 . Nem Palinuro consegue saber quando é dia ou se é noite. e rebanhos de cabras nos pastos virentes. uns poucos ficaram. Os marinheiros as velas amainam. por vezes de Itália. fugiram. dos remos se apossam. que ela por vezes chamava de Hespéria. Jamais saíra das águas do Estige. primeiro as Estrófades me receberam. duas ao todo. depois de se verem privadas da mesa farta do velho Fineu. só de medo. sem mais indícios de terra alguma — por tudo em redor. e aos deuses — a Jove primeiro — parte da presa ofertamos. Todos nós o aplaudimos. Dispersa a armada. pela praia recurva 184 . o rosto denota fome canina. com os lenhos cavados varremos as ondas. De espada em punho investimos. cobre o dia. Mas. no mar tenebroso vogamos. ao falar destes reinos devidos aos nossos. abandonamos depressa tais sítios. no pélago. para o alto atirando ondas grandes.

Mal acabou de falar.263 . donde. fizeram. galgando as alturas celestes. do reino dos seus genitores? Ouvi. que foi assentar-se no pico da rocha. surge o bulhento cardume de seus buracos. com sombra discreta lá dentro. O ânimo lhes faleceu. bem distante dali refizemos a mesa. quereis expulsar-nos. apartai esta ameaça ! De tal desventura. no meio das ervas rasteiras ocultam suas espadas. do meio da praia levanta as mãos ambas. antes mesmo de vossa cidade querida dos deuses de muros altos cingirdes. por cima. para com votos e preces pedir paz condigna. e logo me revelou. Com prósperos ventos heis de alcançar por sem dúvida a Itália longínqua. Mas. Mais uma vez. Vossos anseios à Itália vos levam. então. determino pegar em armas e guerra sem tréguas levar a esses monstros. às inocentes Harpias. tudo emporcalha com as unhas. com vôo estridente de um bater de asas medonho as Harpias. quer sejam deusas aquelas criaturas ou aves nocivas e imundas. quando menos cuidávamos. vos conto. na praia a rolar. Restou Celeno. Os troianos investem e luta iniciam jamais sabida: com ferro ferir umas aves nojentas. Meus companheiros. conjuntamente com o fogo e os altares em gruta profunda. e a presa desfalcada abandonam. infeliz profetisa. haveis de roer até as mesas. e voando por cima da nossa comida. das Fúrias a mais poderosa. rapidamente se esquivam. Porém a espessa plumage' as livrava dos golpes certeiros. e grasnidos. de medo sentiram gelar-se-lhe o sangue. de árvores grossas fechada. eu. mal ouviu do seu posto de esculca Miseno o barulho tão conhecido. Aos sócios. invoca os numes e as honras prescreve que o caso exigia: Deuses do céu. Mas. broquéis ajeitados para isso. E. Meu pai Anquises. de todo poluída. Tudo o que Apolo aprendeu com o mais forte dos deuses. Mas. então. da trombeta recurva solta o sinal. tudo corrompem.LIVRO III 57 leitos pusemos e alegres o opimo manjar devoramos. de lutar com suas armas desistem. fedor espalhando ao redor. de repente dos montes nos baixam. com ódio e amargura externou-se : Guerras? depois de matardes meus bois e vistosas ovelhas. progênie de Laomedonte? E. que tudo desmancham. 224 . sem nada ocultar-vos. Tal como eu disse. o que tenho a dizer-vos. alça o vôo e à floresta se acolhe.

Fiquei pasmado. o sol concluíra seu circulo grande. Noto enfunou logo as velas. Batem os sócios o mar à porfia. Ledos de em terra pisar contra toda a esperança. e um só verso lhe aponho: Este troféu por Enéias foi ganho na guerra dos gregos. à praia abicamos. não longe do burgo. Soltas as âncoras. e o negro inverno com ventos furiosos o mar encrespava. que Abante apenas usara. Subo à cidade. Logo da liniha nos surge Leucate de cumes nimbosos e o promontório de Apolo. ao burgo modesto subimos. ele o cetro também ganhara. temido dos nossos marujos. Nesse entrementes. filho de Príamo. a planície varreram. e senti no imo peito desejo veemente de com Heleno falar e saber a verdade daquilo. sem risco. alegres de terem passado por tantas cidades gregas. of'recemos votos a Jove e acendemos as chamas lustrais nos altares.303 . na direção prosseguindo que o vento e o piloto indicaram. Na praia de Áccio os desportos troianos então celebramos: os companheiros. a outro esposo troiano ligara-se Andrômaca. proas enfeitam as praias sonoras. votos solenes a oferecer e presentes funéreos às cinzas de Heitor. 264 . formado de céspede verde. ferimos as ondas espúmeas. Já pelas ondas banhada aparece a selvosa Zacintos. Nas portas cravo do templo um escudo de côncavo bronze. Lassos. Mando os remeiros o porto deixar e ocupar os seus bancos. em gregas cidades reinava.58 ENEIDA deuses. Logo perdemos de vista os merlões altanados dos feácios. desnudos os corpos e untados de azeite. de seus arrecifes. deixando na praia os navios recurvos. permanente motivo de choro. travam-se. Com desposar a viúva do eácida Pirro. livrai-nos ! Salvai nossos filhos ! — E logo dá ordem para as amarras de terra colher e soltar o velame. amaldiçoada por todos. com dois altares a par. Por belo acaso. nas margens de um falso rio Simoente encontrava-se Andrômaca. De Itaca reino de Laertes fugimos. e pelas costas do Epiro seguindo chegamos ao belo porto Caônio e dali sem demora à cidade Butroto. a pátria de Ulisses nefando. o gigante. Mais do que estranhos rumores enão os ouvidos nos ferem: que Heleno. sobre o seu túmulo inane. e escapado da fúria dos fortes argivos. Dulíquio e Samos e Nérito toda cercada de rochas.

ao lado das aras o mata. condenada a morrer sobre um túmulo imigo. Recordações dolorosas conserva da mãe falecida? O nobre exemplo de Enéias. que é de Heitor? Assim dizendo. O calor abandona-lhe os membros. nisso saiu das muralhas Heleno. mal consegui formular as seguintes palavras sem nexo: Ainda e sempre amarrado a uma vida de dor e trabalhos. Andrômaca: Heitor já não tendo. havendo corrido atrás de Hermione neta de Leda. Confuso com o seu sofrimento. sobre construir neste cerro outra Pérgamo. . do varão Cáone. seus territórios em parte couberam ao próprio Heleno. a chorar sem parada e proveito se desfazia. caiu de inopino sobre o ímpio filho de Aquiles. Ah ! de que modo caíste da altura a que havias chegado com teu marido? Ou que acaso feliz te premiou novamente? Dize-me. e o de Heitor. que o nome de Caônia impôs logo a esta terra. a dor sofri de parir como escrava. sem mesmo o saberes? O que foi feito de Ascânio? Ainda vive? Ares puros respira? Nasceu no tempo em que Tróia. debaixo dos altos muros de Tróia. recobrada do susto. forte troiano. num pranto incontido explodiu e o vizinho bosque inundou de clamores. filho de Príamo. nem foi sorteada nem nunca na qualidade de escrava subiu para o leito de um dânao. podes crer-me. a serviço da imensa brutalidade do filho de Aquiles. ilíacos muros. Mas. seu pai. levada por mares sem conta. que Fados amigos aqui te trouxeram? Ou que deidade atirou-te a estas plagas. e de pronto a armadura troiana reconheceu. Porém. . Só muito tempo depois. pois. pertences a Pirro? Rosto abatido. Morto Neoptólemo. que. e pelas Fúrias Orestes tomado. 304 . filho da deusa? Ainda vives? Se morto iá estás. Porém furioso por ver que lhe roubam a noiva extremada. aterrada com a vista daquele fantasma. Perdida a pátria nas chamas. em voz baixa me deu a seguinte resposta: Mais do que todas feliz foi a virgem nascida de Príamo. Sim. sou eu. que ventos. me disse: É tua. mesmo.L I V R O I I I Quando me viu a avançar. estuporada caiu.343 . também tio o esforço antigo e a ombridade a imitar porventura o estimula? Dessa maneira a coitada. a figura? Notícias verídicas trazes. elegeu uma esposa lacedemônia e a Heleno seu servo me deu como escrava.

para que mares amigos e certos encontres nas tuas divagações e consigas fundear num dos portos da Ausônia. essa Itália almejada e tão perto. o outro Xanto. Taças em punho libavam a Baco no meio da sala. Essa é a ordem das coisas. falou-me: Filho da deusa. com mais força no cárbaso sopra-nos Austro. Para contar do começo. impossível de crer-se: a adominável ameaça da fome que nunca se farta. com sua linguagem nefasta. todos os numes concitam-me a ir em demanda da Itália. Em pratos de ouro é servido aos troianos um lauto banquete. Pouco há de ser. Perto dali uma Tróia modesta revejo e muralhas baixas de Pérgamo e o leito arenoso de um riacho. inspirado. Febo Apolo. então. os troianos se regozijam com a vista daquela cidade tão nossa. que nos revelas o pensamento de Febo nos lauros de Claros e a trípode. entrecortando com lágrimas as expressões de amizade. as auras convidam a navegar. Somente a harpia Celeno. ante cuja solenidade senti-me acanhado. pós haver imolado de acordo com o rito algumas reses. do teu santuário. Os oráculos boa viagem me auguram. silentes. As portas Céias abraço. longos caminhos e mares impérvios de ti os separam. no vôo e no canto das aves ! Fala e me instrui.60 ENEIDA filho de Príamo. Assim seus desígnios o pai dos deuses dispõe e sorteia. Da mesma maneira. pois as Parcas e Juno Satúrnia mo impedem. Pouco direi dentre o muito que fora preciso saberes. aos seus reconhece e com júbilo ao paço os dirige. e os vários portos que entrar imaginas. os auspícios mais altos me dão a certeza de que amparado o mar fundo navegas. dos deuses intérprete. a ajuda dos deuses depreca. e pela mão me tomando conduz-me ao limiar. 344 . Então. E. Como fazer para alfim sobrepor-me a tão grandes trabalhos? Heleno. seguido de séquito grande. para encontrar em paragens remotas a pátria dos sonhos. De pronto. O rei a todos recebe num pórtico de ampla acolhida. dirijo-me ao Vate e lhe faço as seguintes perguntas: Filho de Tróia. da fronte desata as ínfulas. teus remos terão de dobrar-se nas ondas trinácrias e teus navios riscar as salgadas planícies da Ausônia.383 . por serem vizinhos. nas cintilantes estrelas. é certo. me prenunciou um prodígio inaudito. Passa-se um dia e outro dia. Antes.

sem descansar. habitadas estão por acaios maldosos. cujas ondas agora as campinas açoitam de ambos os lados. caudilho extremado de Melibéia. mas separaram-se súbito num rompimento espantoso — tão poderosa é a passagem dos anos para essas mudanças ! — da costa Hespéria ficando a Sicília ali mesmo apartada por um canal. três vezes para o alto as atira. 384 . e a estreita abertura do cabo Peloro. escondida no bojo de negra espelunca. grande circuito farás sempre à esquerda. açoitando com elas os astros distantes. Quando os navios. enquanto Cila. da bela Sicília. deitados no chão a mamar com sossego: esse será o local da cidade. levarem-te os ventos às plagas sicilianas. Quando apreensivo esüveres nas margens de um rio sem nome. cobre os cabelos na forma ritual com um véu purpurino. Mais além. Não te preocupes por causa da fome de roer até as mesas. e para os votos cumprir te aprestares.LIVRO III 61 do Inferno os lagos passar e também a ilha eéia de Circe. è deparares deitada na sombra de bela azinheira uma alva porca com trinta leitões ao seu lado. Dizem que outrora estes dois continentes um todo faziam. cidades da Hespéria. ao deixares o Epiro. singrando nos mares do lado esquerdo. na praia. evita estas plagas. três vezes as ondas atrai para o báratro escuro. Foge daqui. e com fervor religioso o costume os vindoiros preservem. terminado já houverem seu curso. e as salentinas planícies ocupam os homens do líctio Idomeneu. hão de os Fados achar o remédio adequado. Esta. da mesma cor da mãe branca. pedras atira. porém. abruptamente a chupá-las. na memória os retém. Contigo Apolo. Cila domina à direita. Contudo. da costa acautela-te à tua direita. o descanso almejado. Teus companheiros e tu observai essa prática sempre. já salvo. Petília fundou de vizinhos distante.423 . por nossos mares banhadas no seu balanceio diuturno. para evitar que entre as chamas sagradas em honra dos deuses se te apresente algum rosto inimigo e o agouro perturbe. Dou-te os sinais. para que alfim a cidade consigas fundar no chão firme. Filoctetes. Quando. Ali os locros Narícia fundaram. bota a cabeça de fora e os navios às. na esquerda a implacável Caribde. as terras da Itália aqui perto. de fortes muralhas. como é justo fazeres.

e a profetisa inspirada que as coisas futuras conhece. ela os coordena. Com tua súplica e dons numerosos. apenas dir-te-ei uma coisa. não mais se importa a Sibila de as folhas repor na mesma ordem de antes. sem se moverem dali. variados objetos de prata. Mas. a boa-vontade daquela deusa angaria.463 . 424 . belo marfim trabalhado. Nunca lastimes o tempo exigido para esses rodeios. sendo que Apolo. té que resolva a falar-te e sem peias te mostre o futuro. Os povos todos da Itália. Heleno a seus homens manda levar para as naves de proas recurvas muito ouro. porque finalmente consigas. terás boa viagem. dileto filho de Vênus. teus votos dirige ferventes a Juno. as batalhas em que hás de medir-te. Eis tudo quanto me é lícito neste momento dizer-te. Aconselhável será. como evitar os trabalhos ou o meio melhor de sofrê-los. por baixo. Além do mais. muito embora isso alongue o percurso. Pós ter falado as palavras amigas. e senso emprestar aceitável aos seus vaticínios. a cidade de Cumas procura. moção favorável por tudo soprando. deixando-os depois arrumados na cova. Antes de todas. Se souberes falar-lhe. lagos divinos. Antes de ouvir a Sibila não partas. cetáceo disforme. e até meio corpo. quando a porta se entreabre e algum vento essas folhas remove do lugar certo e as dispersa por tudo no vasto aposento. os bosques do Averno de sons agradáveis. Em terra-firme de novo. pragas jogando à Sibila. me inspira e na mente me infunde seus vaticínios. Os consulentes retiram-se. Vai.62 ENEIDA Tem a primeira feições quase humanas. na Itália saltar sem trabalhos. te contará. a ver de longe uma vez a terrível caverna de Cila com seus cachorros marinhos e os ladros difíceis de ouvires. busto de virgem donosa. em verdade. ainda que teus companheiros murmurem e os ventos convidem a soltar velas. sob uma rocha e os orac'los transcreve em folhinhas delgadas. ir até ao cabo Paquino e estender à Sicília o roteiro. Os vaticínios guardados assim pela virgem nas folhas. com cauda dupla de lobo em barriga de imano golfinho. com teus atos eleva até os astros o nome de Tróia. os seus vaticínios. deixando atrás a Sicília. na mesma ordem do início persistem. se concedes a Heleno saber e prudência. que importa explicar-te com muita insistência.

vai tomá-la nas naves. desse modo falava. com seus moradores. E mais: cavalos. ó vós que alcançastes a paz almejada. delícia dos olhos. pilotos. as mãos. que já foste salvo das ruínas de Pérgamo por duas vezes: a Ausônia está ali. pois ambas de Dárdano vieram. querido das divindades. um capacete de insigne cimeira com crista de crina. disse: Caro menino. supre os sócios das armas precisas. dodôneos vasos do louro metal. não mais navegar longos mares precisareis. no convés amontoados a rodo. em tudo unânimes. pai venturoso de um filho de tanta piedade ! Por que me ponho a falar-te. terás de cortar muitas águas bravias. telas de fino lavor. Nosso destino nos leva a vogar por paragens ignotas.503 .LIVRO III 63 uma loriga de tríplice malha dourada. recebe estas prendas por mim trabalhadas. Fique mais isso aos cuidados dos netos. Só tu a imagem me lembras do meu falecido Astianacte: assim. São dons dos teus últimos primos. de iguais reveses provados. Mas. Na adolescência risonha de agora contigo entraria. Andrômaca trouxe não menos ricos presentes. antes disso. e sem perigo de um dia cair sob o assalto dos gregos. Se me for dado alcançar algum dia as paragens do Tibre. também. para que os ventos de bem navegar em ação logo entrassem. armas de Pirro tudo isso. despedi-me de todos com estas palavras: Vivei felizes. de saudades. Tendes à vista uma imagem do Xanto. Era no tempo em que Anquises mandava aprestar os navios. Adiante. vestidos com áureos bordados. e para Ascânio uma clâmide frigia. 464 . E para ele voltando-se. Dá-nos remeiros também. esposa de Heitor. O sacerdote de Febo com vozes corteses lhe fala: Ó tu. esposo acatado de Vênus. e de sua sempre lembrada amizade. Anquises. quero que nossas cidades. impedindo que os ventos te ajudem? Acabrunhada. as muralhas da Tróia por vós aqui construída com muitos e belos auspícios. e ver os campos que os Fados prometem aos meus descendentes. o Epiro conjuntamente com a Hespéria. Sem se conter. Tranqüilidade já tendes. como lembrança de Andrômaca. esse rosto era o dele. nem buscar essa Ausônia que sempre nos foge. uma única Tróia construam. Meu pai ganhou prêmios valiosos. longe ainda se acha a paragem da Itália que Apolo indicou-te.

de vinho repleta. Com o véu da Frigia. as Ursas unidas. levada das Horas ao meio chegara do seu percurso. eis que avistamos ao longe os oiteiros modestos da Itália. 504 . então. bela esperança de paz. Escorraçados os astros com a vinda do carro da Aurora. Nem bem a Noite. Minerva.543 . ó terra bendita! Guerra os cavalos inculcam. para isso é que os brutos se prestam. que como torres se alongam. Um belo porto ao nascente se arqueia. A todos o Sono cuidoso restaura. o murmúrio das auras escuta. a primeira a escutar-nos.64 ENEIDA Soltamos velas. No alto vê-se o santuário da deusa Minerva. bons ventos soprai-nos agora ! A viração nesse em meio cresceu. chamou pelos deuses do alto da popa: Deuses do mar e da terra. ao freio. só parecendo que o templo se afasta da praia sonora. brancos de neve. Meu pai Anquises. as Hiadas núncias das chuvas. Os marinheiros as velas recolhem. abicam na praia. e puxar na lavoura a carroça. soltou da popa o seu toque sonoro. exclamam. das procelas ! próspera viagem cedei-nos. soberba aparência. uma copa de grande formato engrinaldou e. batido das ondas. os mares tentamos. o sutil Palinuro saltando da cama todos os ventos explora. os remeiros da guarda sorteamos para velar. caminho curto por mar para a Itália almejada alcançarmos. Desembarcados por fim. Itália ! a uma voz. Porém talvez estes mesmos acabem com o tempo a habituar-se. E o pai Anquises: — A guerra anuncias. Antes de todos. de novo alegres. diante do qual dois escolhos banhados de espuma se opõem. no jugo unidos. despertados. Como primeiro presságio vi quatro cavalos pascendo num prado próximo. a brandir sua espada fulgente. patenteia-se o porto perto dali. sem descuidar-se de Õrião. senhor dos tufões. e no grêmio da terra querida. Seus companheiros. no jeito de duplas muralhas. Vendo tão certos sinais de que o céu se mostrava sereno. sombreando as montanhas da costa. Animaram-se as tendas. Nesse entretanto o sol baixa. infladas as velas. ao repouso nos entregamos. Itália ! gritou para os sócios Anquises. — Na mesma hora invocamos o nume da divindade potente. defronte do altar a cabeça cobrimos. costeando de perto os penhascos ceráunios. o curso observa no céu silencioso dos astros errantes: Arcturo.

O golfo. o escolho terrível que Heleno predisse. Durante a noite. Por vezes lança para o alto uma nuvem de pez e de fumo. Sem mais. três mil partiram-se as ondas. rociados de pingos os astros. ento: — Certamente esta é aquela Caribde. à Juno argiva prestamos as honras sem tudo devidas. rebaixada. Três vezes soa nas pedras de baixo o clamor das cavernas. do fundo escuro arrancadas. a fornalha gigante tais flamas expira. com grande estrondo. acalmaram-se os ventos inquietos. Rota a cratera. Contam que o corpo de Encélado. mas o Etna troa ali perto. caído de chofre sobre ele. à esquerda.LIVRO III 65 tal como Heleno o indicara. depois. e abrigado dos ventos. faz-nos descer num momento às moradas dos mares profundos. E. companheiros ! Aos remos agora apliquemo-nos todos. escondidos na mata observamos aqueles inenarráveis prodígios. é certo. Obedecemos-lhe pronto. vomitam penhascos. como o ordenara. de medo de haver ali gregos. e adotando seu máximo alvitre. Bramidos fortes do mar enraivado à distância se escutam. o Cilaceu de passagem difícil e os muros de Cáulone. Palinuro se apresta para cortar o mar bravo à sinistra da proa recurva. vozes das penhas batidas das ondas em luta perene. no meio de enormes ruínas. ou os lança para o ar. pretenda virar-se de ilharga. de Tarento avistamos e a bela cidade de Héracles. saltamos nas praias dos feros Ciclopes. estas as rochas. todos. viramos as velas nas suas antenas e atrás deixamos as ribas. e o templo de Juno lacínea. Sem perder tempo. Do mar ignaros. Porto sereno e espaçoso. segundo dizem. turbilhonam. então. Sus. Ao por do Sol. as areias sem pausa a girar. pois nem os ventos se viam. com remos e vela à porfia se esforçam. cinzas ardentes e chamas que os astros mui longe incendeiám. Meu pai Anquises. outras. finalmente. uma vez concluídos os votos solenes. Uma onda grande até aos astros nos leva. as vísceras brutas dos montes. sob o Etna se acha oprimido. quantas vezes. gemendo sem pausa as entranhas do abismo. liqüefeitos. toda a Trinácria murmura. Ferve o mar fundo. nem mesmo a menor claridade 544 . de envolta sempre com brancas fagulhas em giro contínuo. na bela Trinácria.583 . cobrindo-se o céu de fumaça. cansado. sem nunca atinarmos-lhe a causa. meio queimado de um raio. O Etna avista-se ao longe da praia.

o desgraçado. para a praia correu. abraçava-me os joelhos. negra espelunca e espaçosa. sem dar um passo. jogai meu corpo. sem maiores delongas a destra dá ao mancebo. livrai nossa terra desse flagelo ! — Ninguém o conversa nem pode encará-lo. Vemo-lo: imundo até ao cerne.66 ENEIDA o firmamento enfeitava. dos meus companheiros. Se vos parece tão grande o meu crime. quando ele com a mão enorme apanhou dois dos nossos mais fortes guerreiros e na parede os jogou. de extrema magreza e exterior repulsivo. De tal altura é o seu dono.623 . súplice as mãos dirigindo a nós outros na praia sonora. como no solo encravado. no abismo insondável. tirai-me daqui e levai-me para onde quiserdes. Eu mesmo o vi ressupino na furna medonha. dos que saíram da pátria empenhados no cerco de Tróia. sem trato cabelos e barba. Passado o medo inicial. depois de picado. Noite importuna envolvia de sombras a lua distante. Dar-me-ei por pago se vier a morrer pela ação de outros homens. Mal despontara no oriente a manhã com a luz nova do dia e a bela Aurora expulsara do céu a umidade das sombras. que o céu alcança. O próprio Anquises. inundando de sangue o chão duro. ao notar nossas armas de longe. manto seguro com espinha de peixe. Só se alimenta de entranhas das vítimas. suja de sangue e com postas de carne por todos os cantos. — Poderes celestes. rolava no chão. era grego. meu pai. sangue anegrado. Não nego que fui marinehiro da armada grega. Vim para Tróia com meu pai. Aquemênides chamo-me. na justa marcial entre os sacros penates de Tróia. Oxalá continuasse assim sempre ! No açodamento da fuga. Depois. e com esse penhor de confiança o reanima. nos falou da seguinte maneira: Sou natural da ilha de ítaca e um dos soldados de Ulisses. teucros. na cova do imano Ciclope meus companheiros deixaram-me. Isso me basta. despavorido deteve-se um pouco. ficando a mirar-nos. Mas. por tudo espalhavam-se as trevas. No mais. atavios dardânios. desfazendo-se em pranto amargo. 584 . Assim falando. Insistimos a que nos dissesse de onde provinha. que Fados adversos o oprimem. quando de súbito surge das selvas espessas um vulto desconhecido. brutesco animal. pobre de bens. pelas deidades celestes e este ar que a nós todos anima. e de joelhos falou-nos: — Por todos os astros. seu nome. sem medida.

repleto de carne e do vinho atordoado dobra no chão a cerviz. a expelir pela boca. consolo na desventura. Já por três vezes a lua seus cornos encheu de luz nova. Ervas também arrancadas do chão. de um monte aqui perto. e observo. a baixar para as notas ribeiras. aos numes depois de orar e sorteados os postos. que então recoberto da pálpebra estava. ao devorar ele os membros sangrentos dos meus companheiros. avistei vossa armada no rumo da costa próxima. a saída desses gigantes. desmesurado. monstro horroroso. vazado de pouco. Porém fugi. disforme gigante privado da vista. Deixar este inferno era tudo. Nas vossas mãos é vantagem morrer. não ficou sem castigo. (Do colo lhe pende uma flauta campestre) Quando se achava adentrado no mar e tocava nas ondas. com ele se orienta. Bagas. Sempre a escrutar o horizonte. em atroz pesadelo sujos despojos de envolta com vinho: nós outros. sem perguntar quem seríeis. centenas de outros Ciclopes ferozes como ele vagueiam por estas praias recurvas e têm seus refúgios nos montes de em torno. tal como o disco do sol ou escudo redondo dos gregos. Logo que o bruto. e cortai sem demora as amarras dos vossos barcos. pobre gente.LIVRO III 67 Vi palpitar-lhe entre os dentes a carne ainda quente de vida. Rangem-lhe os dentes. Cercam-no as rudes ovelhas.663 . me servem. Como o feroz Polifemo com suas ovelhas lanzudas munge na escura caverna e enche os tarros de leite. 624 . E assim vingamos alegres os manes dos nossos amigos. e logo assentei para ela passar-me. estendido na imensa caverna. pouco importa a maneira. Mas. Ainda sabe que Ulisses se chama. com raízes. lavou a sânie que do olho escorria. desde que arrasto a existência nas selvas. por entre as desertas tocas de feras. tremendo de vê-los e ouvir-lhes os passos. nem pôde o Itacense tão grande barbaridade agüentar. Num desbastado pinheiro se apoia. de dor. seu único alívio. Mal terminara. cerejas de duros caroços são meu alimento. avistamos mover-se no cimo de um monte com seu rebanho de ovelhas a ingente e intratável figura de Polifemo pastor. e mal chega-lhe o mar a banhar a cintura. Avançou até ao meio das ondas d'água profunda. de todos os lados nos arrojamos sobre ele e com uma haste aguçada furamos-lhe o olho gigante.

nos lucos de Diana. Por Selinunte palmosa transportam-nos. com as ondas do mar da Sicília. A esse barulho. sobre os remos dobrados. rio da Élide grega vias subtérreas percorre até vir a final a reunir-se na tua boca. filhos do Etna. percebendo que lhe era impossível chegar até aos barcos rapidamente levados nas ondas velozes do Jônio. Fronteira ao rio Plemírio. Ao longe também Camarina avistamos. e as planícies do Gela. Fiéis a Heleno. Outro roteiro escolhemos. para o lado das vozes os passos dirige. a geração dos Ciclopes. a fim de apressarmos a fuga. Concílio horrendo quais aéreos carvalhos. È fama que o Alfeu. Algo ele ouviu. e as campinas das margens baixas passamos do Heloro. das matas ocorre. com o nome do rio. Inenarrável pavor nos levou a soltar vela aos ventos. com olhos ferozes a contemplar-nos de longe. Acragas alcantilada mais longe seus muros ostenta.68 ENEIDA Apavorados. No céu lhes entesta a cabeça. 664 . quando de súbito Bóreas começa a soprar do Peloro. nesse instante ocorreu-nos o sábio conselho de Heleno. desimpedidos os cabos. do golfo de Mégara. por ele inundadas. o companheiro do mísero Ulisses. quando na sua elegância as mais belas alturas atingem. vista imponente. para o caminho entre Cila e Caribde evitar perigoso. varremos o mar à porfia. na entrada da bela baía de Siracusa há uma ilha a que o nome de Ortígia puseram seus moradores. Vimos nessa hora os irmãos. Aretusa. soltou um berro tão forte por cima das águas revoltas. a geradora de antanho de belos e fortes cavalos. Perda fatal aguardava-nos. para levar-nos além do Pantágias de rochas abruptas. a fuga apressamos depois de acolhermos o suplicante. Essas particularidades nos foram contadas in loco por Aquemênides. ciprestes coníferos que nas florestas de Jove cresceram. da humilde Tapso. de estarrecer até as bases medrosas da bela Trinácria e de obrigar a mugir o próprio Etna nas suas cavernas. fadada pelo Destino a ficar sempre fixa. dos montes mais altos.703 . Mis. que as praias e o porto logo enchem. bem como Gela. Mas. ventos ponteiros. Em sílencio cortamos as fortes amarras e. mais os rochedos do cabo Paquino com suas salientes pedras. cidade mui grande. adoramos os deuses da terra.

Anquises. Esta. sem norte na vida escabrosa. me jogou nestas praias. o adivinho que tantos horrores predisse. salvo de tantos perigos.LIVRO III 69 e a Lilibéia de muitos perigos com cegos penedos. Drépano aqui me acolheu no seu porto e funestas ribeiras. açoitado por tantas e tais tempestades. Pondo remate na história animada. meu único amparo e consolo na adversidade. O pai Enéias assim revelava a uma atenta assembléia suas andanças. a mais cruel desventura. perdi meu pai. não me falou desse luto. o Fado a que os deuses o haviam cingido.716 . Sozinho deixaste-me. pai extremoso. ao repouso acolheu-se. então. Um dos deuses. Nesse lugar. sim. 704 . nem mesmo a funesta Celeno. O próprio Heleno. o remate da minha penosa navegação.

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a úmida sombra do polo com a sua presença esfazendo. De tantos cuidados não dorme. se ao toro e aos fachos jugais não sentisse indizível repulsa. mas este. suspensa me encontro por sonhos horríveis. e que braço! Creio — e bem certa estou disso — ser ele de origem divina. em verdade. 1-23 . e os penates manchados de cruel fratricídio. dês que a Morte frustrou meu amor inocente. confesso-o. Baixa extração logo o medo revela. a esta primeira fraqueza talvez sucumbir eu pudesse. no imo peito gravadas conserva suas palavras. por quantos golpes do Fado não foi agitado ! E as batalhas de há pouco? Se dentro d'alma já não mantivesse bem fixa a imutável resolução de não mais me prender com ninguém nas cadeias matrimoniais. nutre nas veias a chaga e no oculto braseiro se fina. este. meu caro esposo. os sentidos tocou-me e a vontade oscilante venceu de todo. Que hóspede novo transpôs de inopino a soleira da porta? Como é galhardo ! Quão forte guerreiro. o gesto. Ana. a alta linhagem do herói. Fala a Rainha ferida de morte à irmã.ENEIDA Livro IV Quanto à Rainha. depois de Siqueu me ter sido roubado. ferida de cega paixão desde muito. A nova aurora com a tocha de Febo alumiava o horizonte. O calor sinto agora da chama primeira. somente. a revolver de contínuo na mente o valor do guerreiro. de almas gêmeas: Ana querida.

terror dos vizinhos. escancare-se a terra e no abismo eu mergulhe. com tal consórcio ! A que altura insondável a glória dos penos se elevaria. cerca-te a forte Getúlia. no túmulo as guarde. E a guerra com Tiro. até à Noite profunda. na região mais deserta por falta d'água. Pudor. do outro. e de súbito banha de lágrimas ternas o peito. Esse discurso o braseiro ainda mais avivou-lhe no peito. nutre. imolam bidentes ovelhas do rito. quanto o reino. ou o Padre sumo com um raio me atire no reino das sombras pálidas. númidas feros que montam sem freios. iminente? E as tropelias do irmão? Creio em verdade que o vento impeliu a estas costas os teucros. e. A formosíssima Dido tomando na destra uma copa. Ana responde: — Ó irmã. Inicialmente. temida na guerra. dias designa de tais sacrifícios.72 ENEIDA Antes. no Érebo logo eu baixando. verte-a de pronto entre os cornos de branca novilha sem mancha. o pudor desatou-lhe. consigo as conserve. ao padre Lieu e à legífera Ceres. fértil em triunfos. os delubros visitam. eu violar-te e infringir teus preceitos sagrados. e a indômita Sirtes. sob os auspícios dos deuses e o amparo ostensivo de Juno. o céu hostil permanece e partidos os barcos se encontram. ainda. a Febo. do que. Disse. Como verás a cidade crescer. E ora queres opor-te a um desejo tão grato? Não consideras a terra a que vieste bater de pouquinho? De um lado. os deuses imploram nos seus altares. isso mesmo com Jarbas acontecendo e com tantos caudilhos que esta África. porém. prima na hospitalidade. se a ajuda alcançasses das armas troianas? Cuida de os deuses propícios deixar. ou majestosa passeia na frente dos pingues altares. os ferozes barceus. pretextos inventa de tê-los junto de nós todo o tempo em que Orião nossos mares encrespa. Quem contra o peito achegou-me e colheu minhas caras primícias na mocidade. mais querida que a luz tão preciosa ! Na solidão e em perpétua viuvez murcharás tanto viço. cara irmã. as reses abertas 24-63 . Juno. sem conheceres doçuras maternas e os dons da alma Vênus? Crês que isso importa aos sepulcros e às cinzas dos manes dos mortos? Em tua dor enjeitaste pedidos de muitos esposos. na própria Tiro e na Líbia depois. eficaz protetora dos vínculos do matrimônio. sacrifícios completa. deu esperanças à mente indecisa.

então. retém a Ascânio no colo. a famosa opulência dos tírios. na ausência do amado ainda o vê.LIVRO IV e as palpitantes entranhas. com uma flecha. não mais se exercitam moços esbeltos nos jogos da guerra. à noitinha. novos banquetes lhe apresta no fim da jornada. Ora percorre as muralhas com o cabo de guerra troiano. Tanto que a viu pela peste atacada a consorte de Jove. vencendo florestas do Dicte e arvoredos. logo a Satúrnia dirige-se a Vênus com estas palavras: Alto louvor alcançais. a este o dote 64 -103 73 . O volátil caniço ali fica. sem rumo certo. por esse modo pensando iludir a paixão absorvente. tu própria e teu filho. interrompidas as obras. ansiosa. pende da boca outra vez do orador eloqüente e bem posto. na faina dos portos. tal como veadinha nos bosques de Creta que o caçador transfixou. memorável façanha nos tempos vindoiros. sem que ele consciência então tivesse do fato. o himeneu realizarmos? Já conseguiste o que tanto querias. o céu das ameaças descansa. a medula enlanguesce e no imo peito a ferida se alastra sem ser pressentida. quanto receio já sentes dos paços da nobre Cartago ! Aonde tudo isto vai dar? Qual o fim do conflito iminente? Por que razão não firmar paz eterna. Ó ciência vâ dos agouros ! Quê somam delubros e votos para os delírios do amor? Enquanto isso. mostra-lhe o burgo nascente. No seu delírio. mas sempre ao lado encravada sentindo a fatal mensageira. Arde a Rainha infeliz. vaga insana por toda a cidade. na imagem paterna se embebe. sem que pudesse até a Fama eloqüente antepor-se-lhe à fúria. outra vez quer ouvir os desastres de Tróia. irrefreável. nome sem par. separados no ponto em que a lua nos priva do claro lume e ao repouso as cadentes estrelas convidam. Inacabadas. Ambas. no leito se deita que ele ocupara. ainda o escuta. merlões. de espaço examina. as torres pararam. por acabar as ameias. o fim desejado: Dido até aos ossos se abrasa de intensa paixão. ser uma fraca mulher por dois numes agora vencida ! Não me escapou todo o medo que nossas muralhas te inspiram. Pouco depois. com auspícios iguais os dois povos rejamos: Permite a Dido servir a um marido da Frigia. toda a fábrica altiva. corre a coitada. ora começa a falar e interrompe no meio o discurso. geme por ver-se sozinha na sala. grande espólio.

se a idéia me aceitas. És sua esposa. A juventude seleta nos largos portões se apinhava. a Aurora saía do leito do Oceano. A comitiva se perde. Porém duvido que os Fados ou Jove concorde em reunirmos numa cidade os de Tiro e os de Tróia exilados de pouco. áurea faretra de lado. no manto da Noite envolvidos. venab'los de ponta de ferro. a real divindade: Tomo isso a mim. eu te sigo. na crástina aurora. a ti cumpre sondá-lo do modo mais hábil. — Responde-lhe Juno. Vênus. no consumado himeneu. em resistentes liames os dois atarei para sempre. para que os reinos da Itália transfira às paragens da Líbia. por ter aventado a artimanha. Pela demora da nobre Rainha no tálamo odoro. Dido e o caudilho troiano na mesma caverna se abrigam. sidônia clâmide a cobre. para negar-te um pedido ou enfrentar-te no campo da luta? Resta saber se a Fortuna estará também nisso de acordo. os principais a aguardavam. Sai finalmente a Rainha na frente de séquito grande. — Ao projeto acedeu Citeréia. porque alcancemos o fim cobiçado. Porém. e. Ora presta atenção ao que vou explicar-te sucintamente. por esses montes. espumando o bocal mastigava. Seguem-na os frígios da terra. ao deixar Lícia hiberna e a corrente do Xanto.74 ENEIDA com tua destra em mão própria darás: os guerreiros de Tiro. de granizo e de chuva. nos louros cabelos a coifa. 104 -143 . exultante. mal surja no oriente o esplendoroso Titã com seus raios e o mundo ilumine. aos sócios agrega-se Enéias. de vária e sutil bordadura. atarantados. para. os dois bandos se unirem num grande cortejo. com redes raras e cordas. sentindo de longe a malícia daquele discurso. dissimulando um sorriso. por tudo. os afamados ginetes massílios e cães de bom faro. desta maneira lhe fala: — Quem fora demente a esse ponto. negra tormenta farei desabar. Anda. afinal. fivela de ouro sustenta-lhe no ombro o vestido purpúreo. Presente estarei. mais belo de todos. Nesse entrementes. De púrpura e ouro ajaezado seu palafrêm generoso. acompanha-os Iulo. Tal como Apolo. nessa mistura de etnias distintas por ti sugerida. crebros trovões em tropel retumbando lá ao longe. Para a caçada prepara-se Enéias e a mísera Dido. Enquanto as alas se afanam e o mato circundam com as redes.

a própria Fama. furtivo amor não lhe chama. Monstro horrendíssimo. Tímida e fraca a princípio. Eis saltam cabras montesas. Aos altos montes chegaram. última irmã. Do falso decoro não cuida. línguas e bocas falantes e orelhas ao máximo alertas. A comitiva dos tírios e os moços esbeltos de Tróia. Dido e o caudilho troiano se acolhem à mesma caverna. crebros relâmpagos brilham e o éter se inflama. ingente. que escondem olhos em número igual — maravilha ! — sem pausa acordados. pulando dos picos mais altos. Esse o primeiro dos dias letais. deixando matas e montes os cervos ligeiros planícies recortam. com asas nefárias e escuras. pelas cumíadas do Cinto se adianta. de Encélado e Céo gigantescos. logo seguido de um forte aguaceiro e de infindo granizo. o princípio de todas as desventuras de Dido. A própria terra e depois Juno prônuba as juras confirmam. aqueloutros no curso ultrapassa. de plumas coberto. de pés velozes dotada. cretenses e dríopes. Mais rápida praga do que esta nunca houve. Ribeiras despencam das altas montanhas. a terra sagrada do seu nascimento. do lado contrário. caminhos impérvios por tudo. a cabeça entre as nuvens oculta. Ascânio menino em fogoso ginete a estes pretere. Em correria sem tino. de pouco até aos astros se eleva. fazendo votos aos deuses que em meio daqueles rebanhos medrosos surja um javardo a espumar ou dos montes um leão se apresente. na aljava ressoavam-lhe os dardos. comporta-se como casada. mobilidade é sua essência. conscientes daquele enlace ulularam nos picos mais altos as ninfas. Cortando vales. e ajeitando os cabelos soltos ao vento os sujeita com áurea grinalda de folhas: de não menor formosura esplendia o semblante de Enéias com varonil imponência. inocentar-se pensando da culpa com um rótulo falso. mais forças adquire. bem como o neto de Vênus. Corre num ápice a Fama as cidades extensas da Líbia. Dizem que a Terra a engendrou. ao que consta. transidos de medo. no solo os pés afirmando. nos campos se dispersaram. e em polvoroso tropel muito ao longe em manadas se reúnem. irritada com a ira dos deuses.LIVRO IV para ir a Delos. correndo. Com grande estrondo de súbito o céu principia a embrulhar-se. 144 -183 75 . em torno das aras fremindo. e de agatirsos pintados. coros instaura de turba mesclada.

ou que teus relâmpagos aterrorantes. Tais invenções a feíssima deusa espalhou pela boca do povo ignaro. os dons de Lieu. Para Mercúrio voltando-se. de perfumados cabelos. que a vista volveu para a régia morada. por tantas nuvens ocultos. olvidados dos reinos. repelindo as alianças propostas. engrinaldadas as portas estavam. indiferente contando a verdade e o que nunca se dera: Chegara Enéias. num curto desvio. se escoa entre a sombra da Terra e o céu distante. de sangue constantemente empapado se achava o chão duro. Vária e palreira. que os teus raios agora vibras inócuos. do rapto se goza. de longe escutou-o o Onipotente. oriundo de sangue troiano. no luxo torpe embebidos. associa-te aos Zéfiros. até dar no rei Jarbas. fala do modo seguinte: Vai. Durante o dia se instala nas torres e tetos mais altos. caro filho. para chegares 184 . eternas vigias dos deuses. E ora esse Páris. estridente.223 . caudilho com quem dignara juntar-se de pronto a pulquérrima Dido. nos belos leitos deitados. do que é verdadeiro. no mento enlaçada. sem dano nenhum estrondeiam? Essa mulher. cem fogos vivos. cuidando de diversões. jamais fecha os olhos ao sono agradável. Filho de Hamão era Jarbas. Fora de si.76 ENEIDA A moio espaço. cem templos grandiosos fundara em seus reinos.os. porém. dizem que em meio das belas estátuas dos deuses alçara súplice as mãos para Jove supremo e falou-lhe destarte: Júpiter onipotente. dos próprios deveres. onde arasse quanto quisesse. fronte cingida com mitra da Meônia. das reses. compraz-se em semear entre o povo mil boatos. por tudo eram flores. a quem libam nesta hora os marúsi. tua glória vazia eu cultivo? A suplicar abraçado nas aras. amedronta as cidades de mais movimento. aos dois amantes. Como a senhor de seus reinos a Enéias agora se prende. seguido de um bando de gente somenos. comprou por vil preço faixa de terra para uma cidade pequena. e inflamado por tantos rumores sem nexo. aqui vinda sem rumo. dons imprestáveis te oferto. o inverno passavam. grande pai. núncia tenaz do que é falso e inventado. E enquanto isso. sempre gratos ! Reparas nisto? Dar-se-á. do grato renome de todo esquecidos. nascido de ninfa roubada dos garamantes. e assim lhe inflama e revolta suscita com suas palavras. sempre a espreitar.

ele os áureos talares ataca. longe nas águas infindas. a quem leis judiciosas daria.LIVRO IV rápido ao chefe troiano que se acha na tíria Cartago. com esta ele as almas evoca desde o Orco. Não de outra sorte. de Atlante. de guerras grávida. por cima da terra espaçosa. dá sono e o tira. paradas. como a avezinha que as praias rasando. a qual levaria mui longe a progênie dos teucros na direção de todo o orbe. de cor purpúrea. Disse. que o peso do céu na cabeça agüentava. eis em suma o recado. sem se lembrar dos futuros ausônios. cuja fronte pinífera sempre rodeada de negras nuvens se encontra. Se o não inflama a ambição de tão belo futuro. sim. depois de deixar os pináculos brancos do avô materno. No vôo distingue o alto cimo e as encostas do forte Atlante. dos ombros pendia-lhe manto da Tíria. pálidas sombras. Mercúrio dispõe-se a cumprir o mandado do Padre sumo. se nada pensa intentar em louvor de si próprio.263 77 . por ventos e chuva açoitada. afanando-se agora. Neves eternas nos ombros lhe pesam. Primeiro. e abre os olhos que a Morte da luz já privara. Leva-lhe da minha parte a seguinte mensagem. Transmite-o depressa. sim. presente valioso de Dido. Mercúrio cortava seguro os empuxos da ventania na praia arenosa da Líbia distante. dos campos lavínios? Faça-se à vela. com a própria 224 . A vara empunha. frustrar quer de Ascânio a grande glória de pai vir a ser da grandeza romana? Quê faz? Quê espera entre gente inimiga. De súbito. que o levam rapidamente qual sopro de vento passando mansinho. prometeu que ele o império da Itália teria. nem para isso o livrou duas vezes das armas dos gregos. Uma espada cingia com jaspe esverdeado na empunhadura. Só nessa altura Mercúrio deteve-se. Mal tinha as plantas aladas roçado nalgumas palhoças. ou as joga mais baixo que o Tártaro triste. do queixo do Velho rios despencam. Nele apoiando-se. joga-se às ondas. sem se lembrar das cidades que os Fados propícios lhe deram. a barba tem sempre ouriçada de gelo. os piscosos rochedos humildemente transvoa sem neles tocar nem de leve. as asas o amparam. os ventos divide e dispersa as borrascas aglomeradas. a Enéias viu a fundar fortalezas e erguer novas casas na sede augusta. há urgência: Essa não foi a promessa da mãe mais que todas formosa. em equilíbrio.

executam. nas esperanças de lulo. pois ele. a ruptura dos laços de tanto amor. — Depois de falar. na idade mais bela de todas. e que tragam Seresto consigo. 264 . excitada.303 . aventa quanto ocorria. a ponto todas as ordens lhe acatam e o plano. por várias partes detendo-se. deixa-o sem tino e disposto a fugir das paragens amenas. entrementes. de teus ascendentes. percorre a cidade. os navios esquipem. Fora de si. em delírio. Quem pode esquivar-se da suspicácia da amante? Primeira de todos. da antiga pátria de todo esquecido e dos teus interesses? O próprio rei inconteste dos numes. durante a noite e segui-lo nas matas profundas do monte. de quadros de traço esquisito. para dos olhos de Enéias sumir dissipado no ar puro. O inesperado do aviso. ao ouvir os clamores de Baco. Estarrecido a tais vozes Enéias ficou. resolve tomar o seguinte partido: chama Mnesteu e Sergesto. Muito em segredo se reúnam na praia. Duvida de tudo. Ah ! que fazer? De que jeito sondar a Rainha alarmada com tal suspeita? Que exórdio usará para alfim convencê-la? Veloz divide ora aqui ora ali o pensamento indeciso. pensa em Ascânio menino. estimulada tal como a bacante nas sacras orgias do Citerão. sem mais. a quem deves os reinos da Itália. do expresso mandado do nume. Mas a Rainha pressente a tramóia. que a terra dirige como lhe apraz e o alto céu. despojou-se da forma humana Mercúrio. me impôs a incumbência de percorrer tanto espaço nas auras e dar-te um recado: Em quê te ocupas? Que tempo precioso esbanjado na Líbia ! Se não te move a ambição do porvir prometido. cortando de chofre a conversa. Contentes. Pronto o interpela: — Que fazes? As bases assentas possantes da alta Cartago com o teu mulherengo pendor para as coisas. enquanto nada suspeita a boníssima Dido. presas na boca as palavras. A própria Fama levou-lhe a notícia da fuga da armada. hirta a coma.78 ENEIDA mão adornado todo ele. sem decidir coisa alguma. e a causa daqueles preparativos ocultem. desde o Olimpo. das coisas mais certas. nenhuma do encerro lhe escapa. armas aprontem sem serem notados. como sair-se de tal apertura. Nesta alternância. a esperança de algo fazer em louvor de ti mesmo. o momento oportuno há de achar de falar-lhe. os altos muros de Roma. trienais.

todos os tírios. por quanto tempo consciência tiver de mim mesmo e com vida eu mover-me. o palácio de Príamo ainda 79 304 . Então. se algo mereço de ti ou se alguma ventura me deves. o sagrado himeneu que de pouco nos une. inamável. nem campos. querido hóspede? Sim. os tiranos númidas. e outros muitos de que me recordas. Muda de idéia. cultivar as relíquias tão caras a todos nós. Por tua causa me odeia esta gente da Líbia. Senhora. Se a meu arbítrio deixasse o Destino dispor do futuro como eu quisesse. navegarias no rumo de Tróia e o mar bravo cortaras? Foges de mim? Por meu pranto e também pela mão que me deste — Mísera ! pois perdi tudo. A quem entregas uma moribunda como eu. Fala-lhe alfim por maneira sucinta: — Jamais negaria tantos favores. sem nada me ter reservado — por nosso enlace. Quanto ao que ocorre. Disse. quadra infeliz. contigo semelho nos traços. e nos paços brincasse comigo um outro Enéias-menino. ou o próprio Jarbas getúlio me arraste daqui como escrava? Se pelo menos deixasses na fuga um produto do nosso inesquecível amor. teus barcos aprestas no inverno. direi simplesmente: intenção nunca tive de retirar-me à ocultas — apaga essa idéia — nem menos planos forgei de casar ou de alianças contigo firmarmos. sim. abandonada. apiada-te ao menos de um lar ora esfeito. nem nunca a imagem de Elisa sairá do meu peito.343 .LIVRO IV Topa afinal com Enéias e em termos violentos o aturde: Pérfido ! Então esperavas de mim ocultar essa infâmia. pretendendo cortar os furiosos embates dos aquilões? Que crueldade ! Se acaso moradas estranhas não procurasses. tão próxima já do seu termo? Como se nada isso fora. e às escondidas deixares meus reinos sem nada dizer-me? Não te abalou nem a destra que outrora te dei. e Tróia ainda em pé se encontrasse. Que mais espero? Que o irmão Pigmalião me derrube estes muros. e aquela fama que aos astros meu nome impoluto levara. esse é o único nome de quem me chamou de consorte. e sozinha não me julgaria. por ti a vergonha deixou-me. nem a morte que a Dido aguarda. doces lembranças. no caso de as preces contigo valerem. Obediente ao mandado de Jove tinha ele no solo fixos os olhos e a custo a emoção no imo peito guardava. em verdade. o primeiro cuidado seria a cidade dos meus troianos reerguer.

Não há fé pura. me arrastam. ou quando se elevam fulgentes os astros. mamaste nos peitos das tigres da Hircânia ! Para que dissimular por mais tempo? Que injúrias mais graves agüentarei? Reservou-me uma lágrima? Ao menos olhou-me? Chegou meu pranto a abalá-lo e de mim apiedado mostrou-se? Que afronta há mais dolorosa? Nem Juno. o recolhi — quanta insânia ! — e no reino lhe dei parte ativa. Se a ti. Agora os augúrios do próprio Apolo. O mensageiro dos deuses da parte de Jove agorinha mesmo me trouxe um recado pelo ar — por aqueles o juro. por que motivo impedires que os teucros na Ausônia se instalem? É de justiça buscarmos também novos reinos por longe. eu próprio o enxerguei quando o burgo no resplendor. (adentrava. nem mesmo o filho do velho Saturno isto vê com bons olhos. possante deidade. furiosa o despeito externou deste modo: Não tens por mãe uma deusa nem vens de linhagem dardãnia. me aterra. carente de tudo. Oh dor ! As Fúrias me abrasam. mirando-o de alto a baixo. como também a lembrança de Ascânio. pérfido ! A vida também a tiraste do Cáucaso adusto. Se os justos deuses nos ouvem. Finalmente. quando as úmidas sombras ã terra baixam. agravar minha mágoa — e a tua — com brigas. o amor. procura teus reinos nas ondas. sua pálida imagem nos sonhos me admoesta. te agradam belos palácios e os muros construir na africana Cartago. nem brigo. sim. essa Itália que os vates da Lícia apontaram. da terra anunciada.383 . Noites seguidas Anquises. rico em penhascos. a pátria. Durante a fala de Enéias manteve-se Dido alheada. sua voz ainda soa-me nos ouvidos. salvei-lhe da morte a maruja. Vai ! Segue os ventos da Itália. Ascânio e Anquises —. ali. querida cabeça. esta ordem terrível lhe trazem nas auras ! Como se os deuses cuidassem de nugas e o tempo esbanjassem do ócio divino ! Pois parte ! não peço que fiques. Desbaratados os barcos. Porém Apolo de Grínia ordenou-me há pouquinho buscarmos a Grande Itália. da Fenícia. Jogado na praia. Não busco a Itália por gosto. Ali. que do seu reino na Hespéria eu defraudo. Não venhas. pois. espero que um dia hás de a morte nas duras rochas sorver e que o nome de Dido mil vezes 344 . e estas mãos outra Pérgamo a todos construíra.80 ENEIDA de pé estaria. da Lícia as sentenças e até' mensageiros das divindades. meu pai. virando a vista de cá para lá.

no leito a depondo aprestado para isso. Tu. e algum consolo lhe dar com palavras de muito carinho. incumbem-se algumas das hostes em marcha e as retardadas castigam. Se eu fui capaz de prever este golpe. quando do inverno mais perto e a seus paços escuros o levam: vai pelos campos o negro esquadrão carregando a pilhagem pelas picadas da relva. Pelos portões da cidade os vereis apressados correrem como formigas no ponto em que um monte de trigo saqueiam. até ao tálamo todo de mármore as servas a carregaram. Mas. não se esquece das ordens do nume. para que os teucros redobrem de esforços e as naus desencalhem na praia ao longo. umas tantas. Ana. as popas das naus já coroaram. por tudo estarei. súplicas novas. alegres. O pio Enéias. conquanto deseje acalmar-lhe o infortúnio. ao veres do cimo das torres do teu palácio animarem-se as praias com o estranho alarido daquela turba. Pagar-me-ás. quais foram os teus pensamentos. os grãos mais pesados levam nos ombros. As carinas breadas flutuam. Dido. miserável. A trilha com a faina referve. depois que minha alma dos membros a Morte separe. Sombra terrível. deixando-o confuso entre o muito que se dispunha a dizer e o que o medo prudente o impedia. Esse pérfido distinguia como a ninguem. das matas carregam frondentes galhos. Do afã da fuga tocados. Desfalecida. Os marinheiros. Corta no meio o sermão sem resposta aguardar e. para de tudo valer-se pouco antes de a Morte alcançá-la.LIVRO IV invocarás. um pedido. Ana amiga.423 . quantos gemidos soltavas. desta infeliz satisfaze. para abrandá-lo. também poderia na hora presente agüentá-lo. de envolta com o surdo marulho lá ao longe? Ímprobo Amor ! Que de estragos não causas no peito dos homens? De novo tenta o recurso das lágrimas. confiava-te seus pensamentos mais caros. geme de dor ante os golpes violentos da sua desdita. essa traição. fugindo mesta. da luz se retira. ao amor seu orgulho nativo rebaixa. sem falta. não vês tanta azáfama em torno da praia? A maruja corre de todos os lados. sabias falar-lhe e a ocasião mais propícia para isso. A esse espetáculo. somente. Hei de ouvir teu clamor desde os manes profundos. as velas aos ventos apelam. Mesmo ausente hei de os passos seguir-te com atros fachos. 81 384 . revista as trirremes. só. à guisa de remos.

se perdem.82 ENEIDA Vai. Mas. somente um pouco de tempo para a ira acalmar. a lamentar-se. Tal como quando à porfia nos Alpes os ventos se opõem a um venerável carvalho na força da idade. De tua irmã compadece-te nesta aflição desmedida. no intento de deslocá-lo da terra e. Nesse local. e a solitária coruja. ao seu marido dicado.463 . de que ela cuidava com mimo. nem à irmã. sempre adornado de cândidos véus e guirlandas festivas. Não disse nada a ninguém. do que vira nas aras. o imo peito se abala. pousada nas torres mais altas. frustras. 424 . ou arranquei do sepulcro de Anquisés as cinzas e os manes. Essas. pensou na morte. e tão alto nas auras serenas eleva a copa. Se isto alcançares. inteiramente insensível se mostra a pedidos e queixas. Não lhe reclamo o himeneu que juramos. a este golpe tão duro. e fala a esse tipo de tanta soberba. E para mais reforçar-lhe a intenção de privar-se da vida. julga ouvir vozes ou mesmo palavras do esposo defunto. emitindo gemidos no canto agourento. na guerra de Tróia. os deuses lhe tapam as ouças amigas. porém a mente é inflexível e as lágrimas. porém bem preso ele se acha. mana. os Fados obstam. Jamais em Áulide estive com os dânaos. abalando-o o chão todo recobrem de folhas secas e galhos à força arancados da fronde. nem que do Lácio formoso desista e por mim perca um reino. a luz bela do dia a angustia e deprime. nem aprestei meus navios para irem lutar contra Pérgamo. Foi quando Dido. por ele traído. Não de outra forma o guerreiro assaltado se vê por assíduas imprecações. a infeliz. as súplicas. as embaixadas da dor que a irmã dócil leva e releva Troiano. umas tréguas para afeiçoar-me ao meu triste destino. com juros de morte esta dívida eu saldo. não foi tudo: de mármore um templo existia no paço. Para que cerra os ouvidos tão duros às minhas palavras? Por que essa pressa? A esta amante infeliz conceda a última graça: Fuga mais fácil aguarde e mais prósperos ventos: eis tudo. viu que os Fados contra ela se achavam. tal como no Tártaro afinca as raízes. quando a Noite sem luzes a terra ensombrava. precisamente no instante de incenso queimar nos altares. porém nada as preces o abalam. viu — pavoroso presságio ! — anegrar-se nos vasos o leite dos sacrifícios e em sangue estragado mudarem-se os vinhos. repassado de dor.

Dissimulando o projeto com rosto sereno e sem mostras do que no peito abrigava. ou como Orestes. e sempre sozinha vê-se. Como Penteu dementado. resolve dar corpo à idéia. que o persegue com fachos e negras serpentes. ao ar livre. Secretamente levanta no pátio de casa. dirige-se à irmã consternada: Os parabéns. Ana de nada suspeita nem crê que os aprestos funéreos graves intentos encubram da irmã. As feições de palor se tingiram. guarda dos ramos sacros. a maneira acertar e o momento para isso. ou as vingadoras Erínias. Sabe evocar dos sepulcros os manes noturnos. Tendo isso dito.LIVRO IV As predições muito antigas dos vates a deixam sem tino. Abolir ora intento os nefandos rastros desse homem. O testemunho dos deuses invoco. 83 464 . que tem a incumbência de dar ao dragão alimentos com dormideiras e mel preparados. e se julga a vagar sem ninguém ao seu lado. nem transtornos mais sérios dos ocorridos na morte do esposo Siqueu.503 . percebe as Eumênidas torvas. já faz muito. calou-se. E mais: até mesmo o Troiano sem coração a persegue nos sonhos. o filho do Atrida. pira para isso adequada. junto do leito fatal. sacerdotisa do altar das Hespéridas. na cena. dois sóis no espaço a abrasá-la e também duas Tebas ao longe. ouvirás. me veio de lá uma velha massília. calmante de preço. sem seus terríveis avisos. das montanhas os olmos despencam. à procura dos tírios seus em regiões desoladas. querida irmã. a terra geme a seus pés. deter o curso dos rios e os astros forçar de tornada. cara irmã ! Descobri o remédio mais fácil de conquistá-lo ou curar-me da louca paixão que lhe voto. Recomendada. também. As ordens dadas. ou deixá-lo num pronto de amor tresvariado. de tudo carentes. de tua cabeça. Do desespero dobrada e a morrer decidida. de que contra a vontade a tais artes recorro. no ponente. Essa mulher com seus carmes promete sarar os tormentos do peito amante. Tal foi o mandado da maga vidente. correndo de sua mãe. na portada do templo. Lá para o fim do Oceano e do curso do sol. e sobre ela deponhas as armas desse infiel e os despojos deixados por ele no quarto. cumpriu-as. entre os etíopes últimos há um lugar onde o Atlante máximo faz sobre os ombros girar o edifício estrelado.

a roupagem. haverá quem me queira e me acolha na nave soberba. bem sabe o futuro que a espera. Dido em pessoa. Diana também de três faces. alegando ser água das fontes do Averno. descalço um dos pés. Caso haja um deus vingador dos amantes traídos. com achas de pinho e azinheira decora lodo o recinto. ao sono entregues e à guarda zelosa da plácida Noite. bem como o sumo violento de certas plantinhas lanudas. a espada. tão logo no pátio. Memória invejável ! Mas. junto às aras se posta.H4 ENEIDA Mas a Rainha. os cabelos soltos. sob o amparo dos nautas. nem o sossego a visita. cuidados de amor mais violentos. invoca sua justiça e depreca-lhe a ajuda no transe postremo. com ramos funéreos. No alto da pira o seu leito coloca. os campos todos silentes o gado os voláteis vistosos e os moradores dos lagos. o Caos. para evocar as deidades e os astros cientes de tudo. arrancado de um potro à nascença. antes de a mãe o apanhar. Por fim se acalma e a si mesma interpela com estas palavras: Como fazer? Ao ridículo expor-me dos meus pretendentes para consorte. Noite fechada. vistosas guirlandas. realmente ! A gratidão deles todos é um fato. a tríplice Hécate. antes as penas redobram. evoca três vezes as cem divindades do Érebo. das matas sombrias repousam. sendo de todos odiada? Infeliz ! Não vês nisso a progénie de Laomedonte. com podadeiras de cobre cortadas em noite de lua. demais celebrada por ser sem palavra? Mais uma vez: quê fazer? Irei só. qual serva de nenhum préstimo? Grandes serviços me devem. elevou-se pira adequada. nem nunca anoitecem-lhe os olhos. Líquido asperge. Vários altares a pira rodeiam. ao ar livre. nas mãos piedosas a mola ritual. A isso ela o hipómane ajunta. quando as estrelas se encontram no meio da rota prevista. de meus tírios seguida.543 . ao cortejo dos troas me agrego? 504 . (Das duras lides de todo esquecidos agora descansam) Somente na alma da pobre Fenissa o repouso não cala. e mais a efígie de Enéias. ou. No sono aprazível os corpos cansados grato repouso desfrutam na terra na selva nos mares. enquanto o peito transborda nos estos da cólera viva. depois de os haver rejeitado a eles todos? Ou seguirei num dos barcos da armada troiana. desatadas as vestes. a maga.

com o ferro essa dor aniquila. vencida das minhas lágrimas. varrendo a cerúlea campina. que o mereces. que aos estos da ruria a cada hora se alteram. os guerreiros à faina concorrem. cara irmã. na esbelteza do porte. de súbito Enéias se livra do sonho.LIVRO IV Ou novamente aos perigos exponho dos mares e ventos quantos com tanto trabalho arranquei da Sidônia distante? Morre. as pás espuma levantam. corta certeiro de um golpe as amarras possantes do barco. Já tudo pronto e acertada a partida. Nisto. mui semelhante a Mercúrio na voz. sem nunca sentir esta cruel apertura ! Os juramentos e as cinzas quebrar de Siqueu bem-amado ! Dessa maneira exprimia-se Dido no seu infortúnio. a Rainha no peito revolve projetos calamitosos. Sé-nos propícia na viagem e faustas estrelas nos manda. Logo. Despavorido. guerreiros ! Cada um no seu banco. Já a nova Aurora saltara do leito do cróceo Titono para a luz bela espargir pelo mundo e de cores orná-lo 544 . e livre passar o tempo. na cabeleira alourada e no gesto confiante dos moços: Filho da deusa. quem quer que tu sejas. Divindade celeste. Vence a preguiça ! Levanta-te ! Toda mulher é volúvel. já te seguimos ! De grado acatamos a tua mensagem. Ah ! não viver como as feras sem tálamos ricos. Disse e desapareceu. se o tempo o convida? Logo verás estas plagas turvarem-se com seus navios.583 85 . tens a culpa de tudo. confundido nas sombras da Noite. ao imigo sem fé me entregaste. de naves as águas se cobrem. referver a ribeira de chamas sem conta. Tu. sem perceber os perigos que em frente de ti se acumulam? Disposta a tudo. desta obsessão. percebe a figura da mesma deidade que já antes lhe aparecera num sonho e advertência dos deuses trouxera. é possível dormires com tanto sossego. na popa altanada da capitânea o caudilho troiano entregara-se ao sono. Cheios do mesmo entusiasmo. Não precipitas a tua partida. é rnelhor. os companheiros desperta e aos trabalhos concita do dia: Todos a postos. depressa ! Velas aos ventos ! De novo um dos deuses me trouxe recado do alto. desertas as praias. e sacando da espada fulminea. para guiar-nos. — Falou. A voz lhe ouvi. cortemos os cabos ligeiro. tocnas luzir. Apressemos a fuga. caso te atrases e a Aurora te encontre por estas paragens.

quando Dido avistou desde a sua atalaia. tendidas as velas. escapar-me. em boa ordem a esquadra afastar-se. vindo a obter paz vergonhosa. quatro vezes o peito formoso golpeando. seu filho mimado. Sol. Essa. a palavra de quem carregara os penates nos ombros. Mais valeria o saberes. atirá-lo em pedaços nas ondas.86 ENEIDA no alvorecer. e Ascânio. quem nas espáduas o peso sentiu da velhice paterna? E não poder apanhá-lo. e deuses de Elisa expirante ! Minhas palavras ouvi.623 . sé o Fado impassível resolve que chegue ao porto esse monstro. sempre invocada nas encruzilhadas. do mal vingadoras. e eu por último. trazei fogo. Três. Júpiter? Esse estrangeiro. —Há de esse homem. voai. que o universo iluminas e todas as coisas perlustras ! Juno. de quem pode temer-se? Incendiara de pronto seu arraial. que ao menos seja acossado por gente guerreira e. aos gritos ! Fúrias. no dia em que o cetro lhe deste. ao próprio pai num banquete ofertar como prato excelente ! Mas. nesse encontro a vitória estaria ao meu lado? Que importa? Quem vai morrer. Nenhuma aliança jamais aproxime os dois povos imigos. banido da Itália. bem como as praias vazias e sem remadores os portos. privado dos braços queridos de Iulo. e contra os malvados os vosso numes volvei ! Mas. e de um golpe extinguira o pai com o filho. e zombar de mim própria em meu reino? Não se armarão meus guerreiros e toda a cidade não corre no rastro dele? Dos seus estaleiros os barcos não tiram? Ide. dai velas. ora sentes o peso da tua desgraça. que profiro? Onde estou? que desvairo me cega a esse ponto? Dido infeliz. gritou. se isso os decretos de Júpiter o determinam. E. minhas preces. os remos empunhem ! Mas. da luz suspirada. mas prematuro pereça e insepulto na areia se esfaça ! Ê o que vos peço. com o sangue vos lanço este apelo supremo. ajudante consciente da minha indizível desgraça ! Hécate. fogo às naus lhe pusera. auxilio implore e contemple o extermínio dos seus companheiros. do apetecido reinado não goze. vague sem rumo. e é forçoso pisar no chão firme. Há de nascer-me dos ossos quem possa vingar-me esta afronta 584 . morte sem glória de todos. passar à espada seus homens. ufana. e os cabelos louros em fúria a puxar. essa raça maldita. Tírios ! Vosso ódio infinito em seu filho e nos seus descendentes extravasai ! é o que esperam de vós minhas cinzas ardentes.

sacando da espada do chefe dardânio. pelo interior do palácio irrompeu e postou-se. a meu esposo vinguei. A Velhinha apressou-se com passos tardonhos. vi suas fortes muralhas. Do clamor das mulheres os átrios atroam. assim baixarei para as sombras.LIVRO IV com ferro e fogo. enxergando as ilíacas vestes e o leito. Nessa postura. já começados. manchadas as lívidas faces. 87 624 . estas últimas queixas profere: Ó doces prendas enquanto um dos deuses e o Fado quiseram. ah ! demasiadamente o seria se as naves desses guerreiros troianos aqui nunca houvessem chegado ! Disse. Por fim. Tingidas de sangue espumante tinha ela as mãos. no toro excelso inclinada. para. Hoje. virando os olhos sanguíneos. Não se demore. briguem praias com praias e as ondas entre elas. Muito feliz. até os últimos netos com forças ! Assim falando. Assim falou. armas de guerra por tudo. e na alma negra o presságio carregue da minha desgraça. Cheia de glória. por último. prenda jamais destinada para uso de tanta fereza. volvia no peito projetos sem conta. no alto da pira. castiguei um irmão inimigo. visto que a sua ficara enterrada na pátria distante. E no leito tocando com os lábios: Morremos inulta? — torna a falar — Pois morramos. Traga também as ovelhas e as vítimas expiatórias. Dido. Mal tinha acabado. na fronte usa a fita sagrada.lançar na fogueira. a fim de curar-me de atroz sofrimento. A Jove Estígio pretendo ofertar sacrifícios solenes. pós recolher-se algum tempo. Enquanto isso. Uma cidade grandiosa fundei. a palidez do trespasse futuro na cute mimosa. a efígie do teucro .663 . por próprio impulso. para cortar o mais breve possível a trama da vida. convulsa e obstinada no seu tenebroso projeto. quem limpe o meu nome com sangue dardânio. Disse. as donzelas caída a percebem. Vai procurar minha irmã. esta sombra ora baixa aos domínios subtérreos. Veja o Dardânio de longe o espetáculo desta fogueira. no momento mais certo em que o acaso os ajunte e força houver. de Siqueu a velha ama. iracunda. a Barce resolve chamai. Vivi bastante e perfiz o caminho previsto dos Fados. querida ama. banhados de lágrima os olhos. e lhe dize que ponha pressa em se purificar na água limpa do rio aqui perto. minha pobre alma acolhei e de cruel pesadelo livrai-me. no ferro. amanhã.

Sobre a cabeça de Dido detém-se: — Cumprindo o mandado que recebi. busca no céu a luz bela do sol e. Foi-se o calor. sem forças ouve Ana os clamores da turba. apoiando-se nos cotovelos. orvalhadas as asas. nem sua cabeça votara às deidades do Inferno. da sua morte penosa. os templos derruídos dos deuses. Íris. Três vezes tenta sentar-se. Fremem os tetos. te desligo do corpo e a Plutão vou levar-te. afeiando o gracioso semblante. para soltar aquela alma do nexo pesado dos membros. lamentações e gemidos. Foi quando Juno potente. moribunda: Este era. carpe-se. o minuto supremo ! Com minhas mãos levantei esta pira. o ulular feminino. encontrando-a. cortou com a direita o cabelo cor de ouro. 664-703 . no alto o éter ressoa com tanto alarido. na minha boca o recolho. três sobre o leito ela torna a cair. em chama envoltas as casas. o pranto incontido de todas. a pira. o senado. Dai-me água. de novo desfaleceu a Rainha. visto não ser decorrente este excídio do Fado ou de culpa muito pessoal. E galgando a alta pira. tua cidade sidônia. então. corre. irmã. se a irmã não me quis ao seu lado no próprio instante da morte. no espaço desliza. — Assim falando. ao querer levantar a cabeça. o sacrifício aprestado? Quiseste lograr-me? Isto as fogueiras forjaram. Com muito esforço. Despavorida. no peito aperta a cabeça donosa da irmã moribunda. o rosto a arranhar. suspira. um ferro. como se a própria Cartago ou a cidade de Tiro mais velha viessem por terra aos embates de turmas furiosas de imigos. No peito a ferida estertora. Se um simples vestígio de alento ainda mostre. os altareâ dos deuses? De quê primeiro queixar-me. ainda Prosérpina não lhe cortara da fronte o cabelo louro. chamei pelos deuses pátrios. mataste-me. sarapintadas as penas com o brilho do sol esplendente. apiedada da longa agonia. ao povo. com o peplo afastava os cruores escuros. Com os olhos errantes. e tudo porque te finasses de mim afastada? Com tua morte. associadas no mesmo destino? Uma só dor para as duas. prematura e de súbito acesso tomada. querida. porque lavar possa suas feridas. e nas auras o espírito logo diluiu-se. Entre gemidos. a íris rápida enviou do alto Olimpo. atropela as pessoas. por Dido a chamar. — Assim disse.» h ENEIDA Percorre a Fama a cidade aterrada.

1-23 . e destarte se expressa: Ínclito Enéias. não saberia dizê-lo. somente o mar vasto e o céu claro por tudo. Tudo é trevas nas ondas. Qual fosse o motivo do incêndio. sempre com os olhos nas fortes muralhas que ao longe a fogueira da infeliz Dido aclarava. da popa alto exclamou: — Por que as nuvens o céu de tal modo escurecem Quê nos preparas. nuvem sombria trazendo no bojo atra noite e a tormenta sobre a cabeça de Enéias parou. conhecendo o que pode no desespero a mulher ultrajada e a paixão sem ventura. nem mais se avistava terra nenhuma. amainar logo ordena as brancas velas e o esforço conjunto aplicarem nos remos. o que manda a Fortuna. Enéias. para onde ela aponta. Os ventos se acham trocados. apartava a cerúlea planície. Quando os navios ao largo sumiram. triste presságio os troianos agora daquilo tiravam. do poente anegrado eles forçam pelas ilhargas as naves. levado pelo aquilão generoso. Nem conseguimos as ondas romper. Porém. o sagaz Palinuro. O próprio mestre do leme. ainda que Júpiter me assegurasse. com um tempo destes jamais saltaremos nas praias da Itália. sem vacilar avancemos. Não longe das praias estamos.ENEIDA Livro V Nesse entrementes. já certo do rumo. nem parados ficamos. pois. Há nuvens escuras por tudo. Netuno? — Dito isso. Façamos. Obliquamente oferece-se ao vento.