FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE DE BRASILIA CONSELHO DIRETOR Abílio Machado Filho Amadeu Cury Aristides Azevedo Pacheco Leão Isaac Kerstenetzky José Carlos de Almeida Azevedo -Reitor José Carlos Vieira de Figueiredo José Ephim Mindlin José Vieira de Vasconcellos EDITORA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA CONSELHO EDITORIAL Afonso Arinos de Melo Franco Antônio Paim Arnaldo Machado Camargo Filho Cândido Mendes de Almeida Carlos Castello Branco Geraldo Severo de Souza Ávila Heitor Aquino Ferreira Hélio Jaguaribe Josaphat Marinho José Francisco Paes Landim José Honório Rodrigues Luiz Viana Filho Miguel Reale Octaciano Nogueira Tércio Sampaio Ferraz Júnior Vamireh Chacon de Albuquerque Nascimento Vicente de Paulo Barretto

Presidente: Carlos Henrique Cardim

ENEIDA
Tradução de Carlos Alberto Nunes

Editora Universidade de Brasília

FUNDAÇÃ O ROBERTO MARINHO

Laís Serra Bátor. Trad. Brasília. Rosas Saltarelli Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da UnB Controladores de Texto: Vergilius Maro. Maria Helena Miranda. Wilma G. Publius V497a Eneida. 1983. Título original: Aeneis 871-1 V497a t . Mônica Fernandes Guimarães. Thelma Rosane Pereira de Souza. Clarice Santos. 280 p.910. Maria dei Puy Diez de Uré Heiinger. Fernanda Borges. São Paulo. Manuel Montenegro da Cruz. Editora Universidade de Brasília. de Carlos Alberto Nunes.Este livro ou qualquer parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização escrita do Editor Impresso no Brasil Editora Universidade de Brasília Campus Universitário — Asa Norte 70.Distrito Federal EQUIPE TÉCNICA Editores: Lúcio Reiner. Carla Patrícia Frade Nogueira Lopes. Maria Riza Baptista Dutra e Maria Rosa Magalhães Elmano Rodrigues Pinheiro Supervisor Gráfico: José Reis Supervisor de Revisão: Antônio Carlos Aires Maranhão. A Montanha.Brasília . Patrícia Maria Silva de Assis.

PÚBLIO VERGÍLIO MARÃO ENEIDA Tradução portuguesa de CARLOS ALBERTO NUNES no metro original A MONTANHA Edições .

Edição comemorativa do Segundo Milenário do falecimento de VERGÍLIO que é incluída nas comemorações promovidas pela ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS no III ANO da Presidência do Acadêmico FRANCISCO MARINS São Paulo 1981 .

mais do que um clássico é o clássico por definição de nossa cultura greco-latina. Há.Vergílio — morreu há dois mil anos. nascido que fora a 15 de outubro de 70. Vergílio. e esse segredo é simples: Vergílio é ao mesmo tempo o mais poderoso dos poetas da idade antiga. produzindo mesmo seu melhor fruto na Idade Média ao gerar o poeta do Cristianismo. que o venera quase como um profeta.VERGÍLIO O MAIOR dos poetas latinos — Publius Vergilius Maro .. E. comentado em todo o Ocidente. maestro". . judaico-cristã. Dante. em Brindisi. signore. é o "vates" por excelência da Latinidade. estudado. chamando-o "duca. traduzido. um segredo nessa mais do que milenar sobrevivência. na Itália meridional. indiscutivelmente. em Mântua. exatamente a 21 de setembro de 19 a. Na verdade é o caso de indagar-se se cabe falar em morte de um poeta que há vinte séculos vem sendo lido.C. enfim. sua influência não se restringiu ao universo pré-cristão. estendeu-se soberanamente. como luminosamente explicam um SainteBeuve. o que é mais notável. com pouco mais de cinqüenta anos. antes. um Eliot. um Theodor Haecker.

o ruido das armas que se ouve repercutir ao longe da Ilíada. que ofereciam. Caieta. a mais ousada das obras vergilianas. Lavínia. um de seus livros: as Bucólicas. Obra capital. ordenou.C. divididas em quatro livros compostos de 37 a 30 a. duces": os campos. vivo interesse cultural e cívico. gloriosos destinos. Seu tema essencial são as origens primeiras da raça e do culto romanos. os penates e os grandes deuses de Tróia. Palinuro. a fim de instala-los no solo itálico. Turno. dos arquétipos de nossa cultura. toda uma galeria de imagens que fazem parte de nossa mitologia literária e. preservando para os tempos um dos livros mais altos já escritos no Ocidente. os heróis. ao Lâcio. a ciumenta Juno. a é uma soberba estrutura épica concebida segundo o modelo das rapsódias homéricas. do "epos'' eterno. fosse queimado. em cujo louvor e por cuja ordem a Eneida havia sido escrita impediu essa perda irremediável. os combates. a Eneida. a imperiosa Amata. . rura. e. viril figura de Enéias. brilhante e vasto cortejo de figurantes desfila imortalmente por seus versos: o venerável Anquises. agonizante. Evandro. tal como os relatavam as antigas tradições latinas. as operações estratégicas. o trabalho da terra. mais do que isso. que compreendem dez composições arcádicas elaboradas entre 41 e 39 a. Tendo no centro a límpida. a Sibila e os mistérios tremendos do antro em que o herói inicia a peregrinação pelo Tártaro e pelos Campos Elísios.. Eneida É Enéias. no qual trabalhou obstinadamente durante cerca de dez anos e que. da pátria vencida. filho de Vênus e de Anquises que transporta. o poeta resumiu a imensa criação de seu gênio em apenas três palavras. A cada um desses temas corresponde.C. Euríalo e Niso. mas é ao mesmo tempo epopéia nacional e religiosa.No epitáfio que terá composto para seu túmulo. os seis últimos. . finalmente. os adolescentes mortos: Palante. Mesêncio e Aletes. . não tendo podido polir como desejara. Augusto. a dominar e reger o universoOs seis primeiros cantos do poema recordam a Odisseia com seu fascinante relato de aventuras terrestres e de atribulações no mar. declarando haver cantado "pascua. Lauso. poema da fundação de Roma. o jovem Ascânio. herói másculo e piedoso. a misérrima Dido. o fiel Acates. Camila virgem amazona. efetivamente. as Geórgicas. predestinado aos mais. no momento em que Augusto lançava bases do império.

NOGUEIRA MOUTINHO da Academia Paulista de Letras .Não poderia haver melhor homenagem a Vergílio no bi-milenário de sua morte do que esta versão da Eneida feita pelo Professor Carlos Alberto Nunes. Vergílio lusitano. discípulo de Vergílio. Depois da empresa levada a efeito no século passado por Manuel Odorico Mendes. acolhida na língua de Camões. é esta a primeira vez que os hexâmetros de religiosa beleza e guerreira solenidade do poema maior de Roma encontram. entre nós.

O degli altri poeti onore e lume. Vagliami il lungo studio e il grande amore Che m'ha fatto cercar lo tuo volume. DANTE .

Contam que Juno a habitava e por ela especial preferência manifestara. belicoso e arrogante. 1 -23 De medo. da qual um povo haveria nascer. Musa ! recorda-me as causas da guerra. as muralhas dos tírios ao chão lançariam. dos colonos de Tiro povoada. Porém ouvira falar numa raça provinda dos troas que. o carro guardava e o projeto ambicioso de fazer dela a senhora dos povos. por qual ofensa a rainha dos deuses levou um guerreiro tão religioso a enfrentar sem descanso esses duros trabalhos? Cabe tão fero rancor no imo peito dos deuses eternos? Cidade antiga existiu. se os Fados anuíssem. então. e lembrada a Satúrnia da guerra primeira . forte Cartago.ENEIDA Livro I As armas canto e o varão que. dos pais albanos primevos e os muros de Roma altanados. A impulso dos deuses por muito tempo nos mares e em terras vagou sob as iras de Juno. andando o tempo. a deidade agravada. distante da Itália e das bocas do Tibre. Isso as Parcas já haviam tecido. para desgraça da Líbia. de grande maldade na guerra. rica de todo comércio. guerras sem fim sustentou para as bases lançar da Cidade e ao Lácio os deuses trazer — o começo da gente latina. até mesmo em confronto com Samos dileta. fugindo das plagas de Tróia por injunções do Destino. instalou-se na Itália primeiro e de Lavínio nas praias. Lá teve as armas.

Juno potente. e o próprio céu. pelo espaço varrendo-os sem rumo nem nada. ao passo que eu. soberana dos deuses. conforme o ordenasse. e ao infeliz. irmã e consorte do próprio Júpiter. consigo levaram as terras e os mares. num torvelinho o apanhou espetando-o em agudo penedo. a Éolia chamada. todo o peito abrasado. Se o não fizesse. e a montanha retumba com a turbulência dos presos. as naus destroçou. revolvendo com os ventos as ondas. há tantos anos guerreio um só povo. a sangrar-lhe no peito a ferida. os impávidos ventos. apartando com as quilhas as ondas salobres.10 ENEIDA que contra Tróia movera a favor dos seus caros argivos. . como também um monarca lhes deu. com montes enormes por cima. Aqui. Sentado na rocha altaneira Éolo se acha com o cetro. arrojou desde as nuvens o rápido fogo de Jove. obediente ao seu mando. ainda guardada no peito bem viva a lembrança das causas do seu rancor. com duros ferros e cárcere. numa furna espaçosa. vinham cortando sem rumo desde anos o mar infinito. sem resultado. porém. em pessoa. a todos impondo o seu jugo. o julgamento de Páris. acossados dos Fados. Mas. e os sacrílegos atos da sua demência? Ela. por culpa tão-só de um aquivo. dos Austros feros. a injúria à sua forma impecável. a deidade baixa até à pátria dos ventos furiosos. Tão grande empresa era as bases lançar da progênie romana ! Mal a Sicília perderam de vista e contentes rumavam para o alto mar. Palas não pôde queimar os navios desarvorados dos gregos. para encurtar ou soltar mais as rédeas. seus brios aplaca e os tempera. Bramam os ventos em torno à prisão. os quais. o rei Éolo as tempestades sonoras domina. na agonia final. conversa consigo mesma: — Aceitar o fracasso no início da empresa. sem conseguir afastar dessa Itália o caudilho troiano? Os Fados o obstam. Ajaz Oileu. mantinha afastados do Lácio como joguete das ondas os teucros escapos dos gregos e do terrível Aquiles. o ódio aos troianos e as honras ao belo escanção Ganimedes: por isso tudo exaltada. sofrimento indizível de ofensas passadas. O Onipotente. E ainda haverá quem ao nume de Juno preste homenagens ou grata oferenda no altar lhe deponha? Tais pensamentos volvendo no peito inflamado. cauteloso os comprime em profundas escuridões de caverna.

o alto céu. deixando-os paralisados.L. e pai te tornes de prole sadia e invejada de todos. ao lutar nas campinas de Tróia de perecer sob os golpes dos teus fulminantes ataques. o mais forte dos filhos de Dânao ! Não ter eu tido a ventura. os ventos. a quem deu o pai e monarca dos deuses e do homem as ondas bravas deter e acalmar a insolência dos ventos. este cetro e a aquiescência de Jove. dizer-me quanto desejas. No meu cortejo se encontram quatorze belíssimas ninfas. No jeito de tropas. Deiopéia. três vezes e quatro felizes os que morreram à vista dos pais. 64 -103 . enunciando as seguintes palavras: Éolo. gente inimiga me sulca o Tirreno. onde tantos escudos lascados e capacetes e corpos de heróis o Simoente carrega ! Não acabara. então. enxárcias sibilam. dada a porta irromperam por essa abertura. empurrou para o lado com a ponta do cetro monte escavado. Em rolos seguidos as ondas às praias investem. formados em turbilhões. por entre fundos suspiros. Súbito. Eis se levanta a celeuma dos nautas. Negra noite o mar todo recobre. Éolo. dar-te-ei como esposa extremada. logo logo cumprir o que ordenas. respondeu: — A ti cabe. a mim. Jogam-se ao mar. fértil em grandes procelas. preço do grande favor que me prestas. a fim de que more perpetuamente contigo no mais harmonioso consórcio. Assim falando. as nuvens retiram da vista dos teucros a bela luz da manhã. a mais gentil. Num pronto. Áfrico. I V R O I 11 Súplice. aos astros as mãos elevando. levando consigo Tróia e os vencidos penates em busca da Itália distante. o frio percorre de Enéias os membros. bradou: — Oh. onde Sarpédone ingente. sob os muros de Tróia ! Ó tu. abalando-o até ao fundo sem luzes Noto mais Euro potentes e. Troam os poios. e o violento Aquilão em reforço à tormenta bate de frente na vela maior e até aos astros a atira. O meu reinar a ti devo. aos raios freqüentes o mar se ilumina. Dás-me também freqüentar os festins das deidades eternas e árbitro ser todo o tempo das chuvas no mar tempestuoso. submerge essas naus alquebradas ou as dispersa no mar infinito e os seus corpos afunda. Força nos ventos insufla. valente Tidida. Rainha. em tropel. Juno lhe fala. Tudo à visão dos troianos são formas variadas da Morte. no mesmo ponto em que Heitor sucumbiu sob a lança de Aquiles.

Juno potente. sem demora ! e ao rei vosso levai o recado de que o domínio do mar e o tridente não são propriedade dele. Impere naqueles penhascos imensos. de cabeça o piloto mergulha no oceano. Logo percebe tratar-se dos dolos da irmã rancorosa.12 ENEIDA quebram-se os remos. o fundo outros enxergam do mar. três outros arrasta do mar encrespado Euro aos estreitos e sirtes do fundo — espetáculo triste! — nesses baixios os prende e os circunda de bancos de areia. . A nau de Abante. armas e quadros. Parte-se a nau. caindo de cheio na popa. cuja areia sem pausa referve. Montanha escarpada desfaz-se nos mastros. Euro e Zéfiro chama e destarte lhes fala: De tanto orgulho vos incha a confiança na própria linhagem. tantas serras ergueis nos meus reinos? Sem mais conversas. as ondas brabas três vezes o casco anegrado volteiam. observou toda a esquadra de Enéias. a mais do que todas possante. Mais para diante tereis o castigo de tanta ousadia. dispersa. a tempestade as domou. assoberbados das ondas os teucros. a de Aletes. té ser tragado num ápice por um voraz torvelinho. dura meseta a que os ítalos deram o nome de Altares. Noto a três barcos impele de encontro a uns rochedos ocultos. em fuga os negros bulcões. Euro. deixando os costados à mercê d'água. ventos audazes? Sem me consultardes. Comovido. a terra e o céu vasto num todo informe arrolais. mansões de vós todos. a proa se volta. Orgulhe-se dos seus domínios Éolo e mande no cárcere em que vos sentis como servos. Porém o que importa é compor a tormenta. de Ilioneu. observou o que então ocorria: no equóreo campo. Uns marinheiros se agarram na crista das ondas. . Nesse entrementes. Vários ainda a nadar aparecem no pélago imenso. o céu arruinado. . a serena cabeça põe fora d'água e. pertencem-me. surpreso. do imo cachões a brotar. Netuno sentiu pelos surdos mugidos do mar profundo que no alto a tormenta a campear se encontrava. Fora daqui. quase submersos. despojos salvados da teucra opulência. Antes do fim do discurso o mar bravo ficara sereno. a luz bela do sol resplandece. À vista mesmo de Enéias uma onda o navio surpreende do fido Oronte e seus lícios. a esquipada com os homens de Acates robusto. entram nelas furiosas as águas por quantas rimas encontrem nas frouxas junturas dos lenhos.

os perigosos abrolhos com o próprio tridente remove. que em folhas secas recolhe. uma grota se abre. Impacientes de o solo pisarem. do mar distante provindas. quando rebenta revolta e dispara o povinho sem brio. Sobe o caudilho troiano a um rochedo. 144 -183 . primeiro de todos. Ali. Logo. centelhas. até grande distância. Lá no alto. as proas viram no rumo da costa da Líbia. repousa sem movimento o mar fundo. com fontes amenas e assentos talhados na rocha é a moradia das ninfas. todos calam e atentos o escutam. dos grandes trabalhos da viagem. uma esplêndida selva com negro bosque em que os ramos inquietos o medo suscitam. ou mesmo Cápis ou as armas na popa do nobre Caíco. sob uma abóboda toda de pedra. retiram o úmido trigo e os agrestes de Ceres. pelos dois flancos formado de uma ilha em que as ondas se quebram. Tritão. o furor dulcifica: da mesma forma cessou o barulho das vagas. já voam pedras e fachos. ali perto. Ao fundo. com o céu já sereno. O mar vasto se torna de súbito manso. Lassos. as frigias birremes. com seu discurso as vontades compõe. dois golfos distintos e certos. sirtes acalma. a um gesto da divindade. os troianos. sofregamente os troianos na areia das praias os membros intumescidos distendem. trabalhado dos ventos. tenteia a rédea e completa uma volta na extensa planície. conquanto alquebrados da viagem. os sócios de Enéias à praia mais próxima tendem. e Cimótoe as naves libertam das pedras. ameaçadores. dois picos irmãos ante o céu se levantam. se de súbito surge um varão de aparência tranqüila e comprovado valor. onde uma enseada discreta e profunda bom porto oferece.LIVRO I 13 Ele. e na vasta campina líquida o olhar alongou para ver se alcançava o navio do forte Anteu. De um lado e do outro. na base. as armas a luta improvisa. e amparando-as com áridos ramos. um fogaréu logo apronta com chamas vivazes por tudo. restos da grande flotilha. Como por vezes ocorre em cidades de muitos vizinhos. Nessa caverna o Troiano penetra com sete navios. De um pedernal tira Acates. Lambem as ondas as rodas ligeiras do carro marinho. os cansados navios não necessitam de amarras nem de âncoras para prendê-los. no intuito de a parte sã triturar com pedrinhas e ao fogo tostar alguns deles. ao olhar para as ondas. mas.

em longas práticas choram a perda dos sócios ausentes. chora o destino de Amico. as carnes desnudam. o pálido medo deixai de lado. e aguardai um futuro risonho. oprimido de tantos cuidados. que logo à sombra se acolhem dos bosques de frondes inquietas. lançando a mão ao arco das setas velozes. não desiste o Troiano. Estes o couro das costas retiram. Refeitos todos com a boa pitança. trementes no espeto as enfiam. se perguntam se acaso ainda vivem. amenizar procurando os trabalhos com termos afáveis: Ó companheiros. cheios os vastos porões dos navios. Voltai a ser o que sois. seu fiel companheiro. Tudo isso há de ser recordado algum dia.14 ENEIDA Naves à vista. Ao porto. os guieiros abate. três cervos errantes na praia somente enxerga. alegremente a pastar pelo. várias escolhe. Mas. o desastre de Lico indizível. Pára ali mesmo. Antes de todos. ou se na extrema agonia não ouvem a voz dos que os chamam. nenhuma. Criai ânimo. então. Deus há de pôr fim a tão grandes canseiras. na fronte luze a esperança. trazia-as Acates. Saciada a fome e desfeitos os últimos toques da mesa. a desgraça de Oronte lamenta. fartos do vinho precioso. Entre esperança temor. lhes fala. a miuçalha. perigos sem conta. Todos atiram-se às presas da caça e ao festim dão começo. trabalhos mais árduos do que estes já suportastes. Outros dispõem caldeiras na praia e as fogueiras despertam. depois. no peito concentra-se dor indizível. Por entre casos variados. Assim falou. escapastes também dos ciclópeos antros sem dano maior. a que toda a manada acompanha. Claro ainda estava. onde os Fados nos mostram o ambicionado descanso nos reinos futuros de Tróia. avançamos na direção prometida do Lácio.223 . em bons pedaços as cortam. na relva se espalham. Do melhor vinho que Acestes lhe dera ao partir da Trinácria. que os ramos vistosos no alto agitavam. da carne sucosa dos cervos. igualando com isso os navios recurvos. em tropel buliçoso. Vós os atroantes escolhos de Cila enfrentar já soubestes e o seu furor desmedido. dispersos a tiros. e do ponto mais alto do céu contemplava 184 . se encaminha e entre os sócios a caça divide. o frio. com todos reparte. e. até ver atiradas por terra vítimas sete. mui longe. do incontrastável Cloanto e também o de Gias valente. prado. Máxime Enéias.

Depois. como te disse. Genitor. os caminhos de acesso à Itália por mares e terras lhes sejam vedados? Foi muito clara a promessa: volvidos os anos. uma vez que tais cuidos te agitam. para. Mas a Fortuna até agora aos varões incansável avexa. no golfo da Ilíria entrar e. e até aos astros o nome elevar-se de Enéias de alma sublime. povos de ânimo fero 224 . Citeréia. imutáveis encontram-se os Fados. Vênus. praias e povos remotos. de te haveres mudado a esse ponto? Essa esperança em verdade. tantos navios perdemos — oh dor! — por capricho somente de uma das deusas. o pai dos mortais e dos deuses a filha aconchega com o mesmo gesto sereno com que tranqüiliza as tormentas do céu revolto e dos mares. de onde. oprimindo com as ondas o campo. deu nome à colônia e os troféus de Ilio forte no alto fixou. e a morada dos seus troianos. até se deter no espectac'lo visto do Olimpo. a quem dás ter assento no Olimpo. Quando. seguro. Ora dorme no seio da paz almejada. disse: — ó tu. em quê meus troianos.LIVRO I 15 Jove o mar vasto cruzado de velas. por nove bocarras ele se atira no mar. tomando de longe vou revolver o futuro e os arcanos do Fado mostrar-te. porás término a seus infindáveis trabalhos? Pôde Antenor. cortar pelos reinos libúrnios. avançar até às fontes do rio Timavo. e os espantas com raios atroantes: em quê te pôde ofender meu Enéias. Qual a razão. Ali também a cidade de Pádua fundou. Esse é o penhor da piedade? a promessa de reinos futuros? Sorrindo.263 . dos plainos ferazes do reino da Líbia. tua gente. afinal. escapando das forças argivas. que o destino dos homens. Enquanto nós. Ainda verás a cidade e as muralhas da forte Lavínio. deste modo falou-lhe: Acalma-te. das tristes ruinas de Tróia me consolava equilíbrio buscando nos Fados opostos. Mudança não houve no meu pensamento. Mas. as terras jacentes. para. Senhor. dos deuses diriges do alto do teu poderio. caindo de penhas altivas. Quando na mente volvia cuidados de tal magnitude. depois de vencerem trabalhos sem conta. e sempre afastados das costas da Itália. Guerras terríveis ele há de enfrentar. haviam de originar-se dos filhos de Teucro os romanos robustos que no mar vasto e na terra o comando teriam das gentes. o peito angustiado e de lágrimas cheios os olhos.

sacerdotisa. sua fama há de aos astros chegar dentro em pouco. Até Juno. seu nome dará aos romanos ditosos. Dou-lhes o império sem fim. Tendo assim dito. mudada em melhor há de em breve os romanos favorecer. até que a princesa Ília. quando. dominará nestes povos e o burgo mavórcio' erigindo. A boa Fé. Assim me apraz. esbraveja. Obedientes às ordens de cima. e dentro o ímpio Furor. assentado sobre armas fatais. despem-se os penos do gênio feroz. reinar no Lácio e abater a fereza dos rútulos fortes. ao céu e ao mar bravo trabalhos sem pausa ocasiona com seus temores. até às águas do Oceano vai estender-se. Mercúrio désliza e detém-se nos lindes da Líbia. a seus homens dar leis e cidades muradas. insciente dos Fados. de origem tão clara. na carreira dos lustros. guarnecida de grandes muralhas. suspensas as guerras. e sobre Argos vencida há de impor o seu jugo. os terríveis portões do Castelo da Guerra serão trancados com traves e ferros ingentes. Há de a idade chegar. a deidade ofendida. Então. César de Tróia. Do claro nome de Iulo provém o cognome de Júlio. Levado das asas lestes. três anos corridos. Não fosse impedir-lhes a entrada Dido em seus reinos. Cumpre de pronto o mandado. predispondo-se Dido 264 . ao nascido de Maia deu ordens precisas para que os vastos domínios da nova Cartago acolhessem os trabalhados troianos. de Marte grávida. Nestes domínios a gente de Heitor manterá o comando trezentos anos. à luz há de dar os dois gêmeos preditos. hás de um dia no Olimpo acolhê-lo. a cidade. aquietam-se os ásperos sec'los. Vesta e Remo. Quirino. Prazo nem metas imponho às conquistas do povo escolhido. Invocado vai ser pelos homens. então. Rômulo. em que a família de Assáraco à ilustre Micenas e Ftia dominará. Livre do medo infundado. que à terra. a boca a espumar só de sangue. rico de espólios do Oriente. seu reino. de par com o irmão seu.16 ENEIDA domar no jugo. aumentado de muito para Alba alfim mudará. os senhores do mundo. Seu fíIho Ascânio — o c o g n o m e de Iulo lhe foi acrescido quando ainda no orbe sabia-se de ílio e da sua presença — governará por trinta anos. um mês depois do outro.303 . e a capital de Lavínio. esse povo togado. ditarão leis. de fortes muros. mui vaidoso da pele fulgente da loba. amarradas as mãos nas costas. estios e invernos gelados.

mal surge a alma luz. talvez. com duas hastes na destra. À aventura. uma deusa. cidade erigida por Agenor. veloz a cavalo em disparada mais que Euro ao passar no seu rápido curso. e o filho lhe disse o seguinte. aljava a tiracolo. virgem de tuas irmãs encontrei nestas matas. ou provéns da linhagem das Ninfas? Quem quer que sejas. o pio Enéias. nos mares vagamos. Longa é a injúria. Recordarei tão-somente por cima o que mais interessa. exilada de Tiro potente. opulento fenício em domínios. munidas de pontas de ferro. 304 . Foi a primeira a falar: — Olá. resolveu pessoalmente inspecionar os contornos. irmã de Febo. sem ter notícias de nada: os lugares. dos tírios. A Dido o império pertence. uma das minhas irmãs a vagar nestes ermos. as praias adonde arribara. seu fiel ajudante. volvendo na mente cuidados e planos. ou na carreira a acossar com seus gritos javardo espumante? Falara Vénus. oh ! quem direi? pois não tens de mortal nem o fino semblante. de tanta honraria. com pele de lince manchado nos ombros. um povo intratável na guerra. soltas aos ventos as belas madeixas. e de volta aos seus homens contar o que vira. as praias a que o destino nos trouxe. não vistes. em resposta: Nenhuma. pois arco e flecha dos ombros pendiam-lhe qual caçadora. minora os trabalhos de nossa gente e nos dize a que céu arribamos. para saber se eram de homens ou feras as terras incultas em que se achava. nem mesmo a voz. para livrar-se do irmão. no gesto e nas armas. Durante a noite. variados os fatos.343 . a nós sê propícia. os joelhos à mostra. Vênus falou: — Não sou digna. acaso. Parte. Uso é das tírias donzelas a aljava trazer sempre ao lado. bem protegidos os pés por coturnos de púrpura fina.LIVRO I 17 a receber os troianos com mostras de muita amizade. A frota esconde no cavo de um bosque situado na base de grande pedra que as sombras horrentes da mata encobriam. jovens. em tudo lembrava virgem da Esparta ou Harpálice trácia. os homens. Subitamente. seguido somente de Acates. Nos reinos púnicos te achas. no meio da mata ao encontro saiu-lhe a genitora. em verdade. fim dos líbios. Certamente és da corte celeste. Em teus altares viremos depor muito gratas of'rendas. Casada foi com Siqueu. um nó bem posto segura-lhe no alto o vestido flutuante.

que havia escondido. prepara a saída e alicia mais gente para o seu plano. cegado da sede do ouro. movidos de horror ao tirano ou até mesmo de puro medo levados. de origem fenícia. ouro e prata aos montões para a viagem. e responde às perguntas nos termos seguintes: Ó deusa ! se do princípio eu contasse os trabalhos passados. sem a menor reverência à dor grande da irmã sofredora. carregam-nas de ouro.383 . guiado pela deidade materna. imolou a Siqueu desarmado. O pio Enéias eu sou. o pai a entregara ao marido e os unira felizes sob os primeiros auspícios. irmão dela. ora levo comigo os penates salvos do imigo implacável. Aconselhou-a a fugir. Da antiga Tróia partidos — se acaso aos ouvidos chegou-vos o nome ao menos de Tróia — depois de vagar pelos mares uma terrível borrasca nas costas da Líbia jogou-nos. Com vinte naus percorri grandes mares da Frigia. Apenas sete nos restam. que as aras sangrentas lhe mostra. Procuro a Itália nativa.18 ENEIDA a quem amor dedicava entranhável a bela consorte. alarmada. de incalculável valor. Compram dos donos o solo que um couro taurino cercasse. 344 . Porém em sonhos a sombra do esposo ela viu. quem sois? de que terra partistes? adonde vos dirigis? e o caminho? — A tais vozes. a exilar-se da pátria querida. os avós do alto Jove . Entre eles dois reina a Fúria. Em Tiro reinava entretanto Pigmalião. de palidez aflitiva. Virgem. e revelou toda a trama do que no palácio ocorrera. provieram. A aventura por uma mulher é chefiada. insepulto. Dido. bem como a marca do ferro deixado no peito desnudo. ante os próprios altares. Porém vós outros. das ondas e de Euro batidas. Tomadas de assalto umas naves acaso prestes. Enéias suspira profundamente. donde lhe veio o cognome de Birsa. Por muito tempo escondeu o seu crime. e vos sobrasse vagar para ouvir os anais dessas lidas. Meu nome até aos astros se evola. Véspero o dia encerrara no Olimpo bem antes do termo. dos homens o mais celerado. as famosas riquezas de Pigmalião. obediente aos decretos de cima. e com mil subterfúgios soube iludir com fingidas histórias a esposa inocente. sobre tesouros antigos mostrar-lhe. Os fugitivos ao ponto chegaram da costa em que logo verás os muros ingentes da nova Cartago e o castelo. e o tirano.

Daqui já distingues os paços da rainha Dido. . em colóquio amistoso contigo? Dessa maneira. vês doze cisnes em álacre vôo. Vênus. o traçado das ruas. De tudo admira-se Enéias. as vestes lhe descem. completando seus giros em torno do polo. 384 . das toscas choupanas de outrora. em voz alta a gritar-lhe: Por que me iludes assim. e dirige teus passos por este caminho. com enganosas imagens? Por que não trocarmos apertos de mão. onde a morada revê. não creio que os deuses de ti se apartassen uma vez que eles te guiaram para esta cidade dos tírios. tantas vezes. A notícia te dou de que os sócios e a esquadra salvos se encontram. dispostos em fila. a menos que seja vão tudo quanto aprendi sobre augúrios na arte paterna. que a a v e de Júpiter no éter sereno encalçava até há pouco. . bulício de gente. seguindo o caminho indicado. e nela sobressaindo-se aos mais. e à fuginte persegue. o guerreiro troiano reconheceu-a. parece que já alcançaram o pouso escolhido ou para isso se aprestam. Em frente. velas tufadas. desatadas.423 . Ela. à volta deles mais névoa adensando. envolveu os viandantes de espessa neblina. queixoso. Ali. e ouvir-te não posso. ao teu próprio filho. pois. Não de outro modo teus barcos. com belas portas. a nata especiosa dos teucros. — Não mais pôde Vênus as queixa do filho ouvir. e o canto soltam joviais. trazidos dos ventos agora propícios. Disse. de onde a paisagem dominam. dirige-se para a cidade. as muralhas contemplam de frente. transfulge-lhe o colo de rosa e perfume. muros ciclópeos levantam. Deusa no porte. Os fortes tírios agitam-se. Cheiro de ambória divina espalharam no ambiente os cabelos soltos da diva. avançam. Até aos pés. Nessa hora. No teu caminho prossegue. Ora reunidos. perfeita. esta Líbia percorro. carente de tudo. Por esse tempo. e ao virar-se. nos vastos plainos de cima. os dois galgam um teso próximo.LIVRO I 19 Eu próprio. porque ninguém viesse embaraçá-los ou neles tocar ou fazer-lhes perguntas sobre o motivo da sua presença naquelas paragens. Interrompe-o no meio da dor e lhe fala: Quem quer que sejas. enquanto isso. as asas agitam sonoras. pelo éter librando-se atira-se a Pafos. porém. ou já no porto se encontram ou. da Europa e da Ásia excluído. jubilosa com um cento de altares a que o perfume sabeu e festões variegados enfeitam. ignoto.

463 . detendo-se: — Acates. a fortuna rara daquela cidade. Os "dois Atridas admira. vigas do mesmo metal. coisa por coisa. e de néctar os favos encher perfumados. nota as batalhas já divulgadas pelo orbe. da guerra de Tróia destruída. nascente. os portais reluzentes. com sulcos demarcam as suas futuras moradas. prova do gênio guerreiro dos penos. ao sol. piedade. E. Um bosquezinho de sombra agradável havia no centro da cidadela. depois de vencidos os temporais e trabalhos nas ondas. à mão tente penedos removem. estas cenas te servem também de consolo. quando a máquina ingente do templo de perto admirava. sem deter-se. ornamento soberbo de cenas futuras. até aqui a virtude recebe seu prêmio: lágrimas. colunas enormes nas duras canteiras talham em série. Leis. ou receber das que chegam a carga. elegem. Nesse lugar construíra a rainha sidônia um grandioso templo de Juno. Outros. mistura-se — coisa admirável! — com o povo de derredor. magistrados. e. para o infortúnio. sem nenhum dos presentes notar o que passa. 424 . ferve o trabalho por tudo. Cava-se um porto acolá. sinal encontraram por Juno amiga indicado: a cabeça de um belo cavalo. nos campos floridos. a tomilho a colméia rescende. ou na faina de o mel derretido deixar mais denso. pergunta. com a efígie da deusa. Afortunados aqueles que vêem seus muros erguerem-se ! exclama Enéias. Tal como abelhas que na primavera o trabalho exercitam. de bronze. Bane o terror. olha a Príamo e a Aquiles. mais adiante outros cuidam das bases de um grande teatro. de bronze. Foi nesse bosque que Enéias sinais encontrou de certeza de que seus males estavam no fim e que lícito lhe era alimentar esperanças de sorte melhor no futuro. onde os penos primeiro. no instante de novas colônias fundar com a prole crescida. e os graves e fiéis senadores. e. o primor dos trabalhos já feitos e a agilidade dos hábeis artífices. A escadaria. a que ponto da terra extensa não foi a notícia da nossa desdita? Príamo vês. a esperar pela nobre rainha. pois. ringem quícios nas portas de bronze. de dons opulento. a olhar os trabalhos do burgo. flagelo de ambos em Tróia. para os desastres. de sua pujança. ou em densas colunas longe do asilo atirar a indolente cambada de zangãos.20 ENEIDA a sobranceira almeidina.

frescas armas do negro Menão. Geme o caudilho troiano do fundo do peito dorido. Como nas margens do Eurotas ou cume do Cinto vistoso os coros Diana dirige na dança. o carro.503 (escreve. a chorar reconhece os cavalos de Reso. a ativar o trabalho 464 . de prantos o rosto banhando. Pentesiléia terrível. Em outra parte a Troílo revê despojado das armas. elegante. . seus próprios cavalos o levam. premidos do carro de Aquiles. o cadáver do amigo. armadas de escudos lunados. soluça. de pronto assoladas no sono primeiro pelo Tidida feroz. e os próprios frígios adiante. na pugna entre as mais se distingue. atrevia-se agora a lutar contra os homens. Enquanto Enéias dardânío admirava esses quadros sublimes. sem conseguir desfazer o estupor de que fora tomado. um belo manto lhe ofertam. Perto dali. Virgem guerreira. entra a Rainha no templo. Dido. de forma belíssima. vê os esquadrões orientais. no peito com as mãos percutiam. Áureo boldrié traz por baixo da mama desnuda. Príamo além» para o céu levantava as mãos brancas. ao avançar. instados os jovens dardânios. Vê neste lance. Competição infeliz com Aquiles. mui caro o vendia. A si também reconhece a lutar contra os fortes aquivos. Os cavalos levou para o campo dos gregos. em brancas tendas. infensa a Tróia. as ilíadas se dirigiam ao templo de Palas. a deidade. com a cabeleira o chão varre.LIVRO I 21 Dessa maneira falou. Indescritível prazer no imo peito a Latona animava: tal era Dido no meio dos seus. As Amazonas. Torva. seguida de turba indescritível de Oréadas: pende-lhe a aljava dos ombros. não dá mostras de vê-las. e enquanto a alma apascenta com a vista de vãs pinturas. Cabelos ao vento. pende do carro vazio. dirige-as. inermes. ao perceber os espólios. Depois de haver por três vezes Aquiles à volta dos muros de Tróia o corpo de Heitor arrastado. olhos fixos no chão. antes de o pasto provarem de Tróia e beberem do Xanto. salpicado até aos pés da sangueira do morticínio. herói sem entranhas: pelo chão duro arrastado. a fugir os aquivos. às demais divindades no garbo se exalta. na luta travada junto dos muros de Pérgamo. de aspecto tristonho. acompanhada de enorme cortejo de moços da terra. a hasta um sulco na poeira ainda Nisso. nas mãos ainda as rédeas segura.

apertos de mão trocar. jogando-os para outras paragens. mais o forte Cloanto e os demais teucros que a força dos ventos durante a tormenta no mar revolto açoitara. Outro é nosso ânimo. de repente Orião borrascosa nas ondas se abate e nuns baixios ocultos os austros protervos nos jogam. guerra declaram de início. atentos ao bem e à impiedade. mas a própria estranheza do caso os conteve. debaixo da abóbada grande.543 . 504 . Se desprezais os mortais e seus fracos engenhos de morte. pedras ingentes. Ilioneu com serena postura expressou-se: Nobre Rainha. nem para os barcos levamos as presas roubadas. com Acates o mesmo acontece. Foi quando Enéias notou que no meio daquele concurso vinha Sergesto de par com Anteu. o que esperam no ensejo. do nome de um rei dessa gente famosa. depois de alcançada licença para falar. por ondas mil dispersando-nos. adentrar um pouquinho nos vedam. Logo na entrada do templo. sê branda no teu julgamento. Para ela vínhamos. as tarefas indica ou sorteia. terra antiqüíssima. forte nas armas. Quando admitido no templo. Mas. Que geração aqui mora ou que pátria tais usos admite? pois nem sequer nos permitem saltar em paragens desertas. qual o destino daquela consulta. honrai ao menos os numes. senta-se no sólio excelso. Dessa maneira. dos gregos vetustos Hespéria chamada. Medo e alegria a um só tempo. pelos enótrios povoada. Poucos.22 ENEIDA dos operários. de solo ubertoso. em peitos vencidos não mora a soberba. ora a Itália dos seus descendentes denominada. Região existe. e amparados da névoa. te suplicamos. sentenças prescreve e também compartilha da atividaide geral. homens piedosos acolhe. a quem Júpiter deu construir uma nova comunidade e com leis refrear a insolência dos povos ! Míseros teucros. rodeada do corpo da guarda. presentes ali se encontram seletos caudilhos de cada unidade. ditosa a cuidar do futuro do reino. As naves nos poupa das chamas vorazes. dos ventos jogados por todos os mares. esperar decidiram para saber do destino dos seus e da esquadra. desejam falar-lhes. Emudeceu de estupor. a nado alcançamos com muito trabalho estas praias. Nem devastar intentamos com ferro os penates da Líbia. os pleitos julga. sem rumo.

de remos e antenas provê-los. Com os olhos baixos. Com sussurro de apoio manifestaram-se os troas. campos de lavras e o ínclito Acestes de sangue troiano. Acates e o forte caudilho dos altos troas. o mais justo e piedoso dos homens. ó pai excelso dos teucros ! sem nada no mundo a amparar-nos. até nos confins mais esconsas da Líbia. em tudo. a queda de Tróia. As duras leis do começo de um reino. cidade. Primeiro dos dois disse a Enéias Acates: Filho da deusa. pois. em termos concisos lhe fala a Rainha: Bani. permitido os navios esparsos reunirmos. se nas ondas ficaste e esperança de Iulo não. de comprovado valor nos combates. ponde os navios em terra. 544 . os fenícios. ou mesmo aos reinos de Acestes nos términos do monte de Érix.583 23 . Em igualdade quereis compartir do meu reino nascente? Esta cidade pertence-vos. do peito o temor. temos. que pensas do caso? Tudo foi salvo. a proverbial resistência dos teucros. troianos. os sócios. de onde partimos faz pouco e de Acestes busquemos o amparo. Sim. de muito romper desejavam a densa nuvem. senão mesmo a própria necessidade me impõem rigor na patrulha da costa. depois de tudo isto. ledos busquemos aquelas regiões e no Lácio saltemos. a armada segura. sem para as trevas terríveis haver até agora baixado. Com tal discurso animados. ao menos seja-nos dado voltar à Sicília troiana. nem junge o Sol seus cavalos mui longe da nossa. não somos tão bárbaros como pensastes. Se os largos campos visais de Saturno ou da Hespéria grandiosa. Se os Fados ainda o conservam e as auras vitais ele aspira. Prouvera aos céus que chegasse a este porto trazido dos ventos o próprio Enéias ! Já já mandarei explorar toda a costa por nossos homens.LIVRO I Enéias foi nosso rei. mastros falcar nos teus bosques. Seja-nos. com a minha ajuda e o recurso dos penos segui confortados. o primeiro. na Sicília deixamos cidades e aliados de monta. medo não temos de nada nem tu de nos teres salvado. expulsai os cuidados. é o que vemos. Quem desconhece a ascendência de Enéias. Dessa maneira Ilioneu se expressou. Se nos for dado ir à Itália com os sócios e o rei prestigioso. horrores da guerra? Nós. caso ele se ache nalguma floresta ou povoado distante. Mas. Enéias. Não haverá distinção entre os penos antigos e os teucros.

a Cloanto valente e aos demais companheiros. Impossível. que então Chipre vastado havia e o domínio dessa ilha obtivera de pouco. o teucro Enéias. ó tu. Resplandecente na luz repentina apresenta-se Enéias como um dos deuses na forma e no gesto. pois. e em seguida ao forte Gias. que a dor compartilhas dos grande trabalhos de Tróia. a vivaz louçania dos moços. já livre das ondas bravias da Líbia. no entanto. apenas.623 . e a neblina desfez-se de pronto no espaço. da sua grande desdita. a Seresto a sinistra. gestas dos cabos da Grécia. Enéias aquele. Que século viu o teu berço? os pais ilustres que o teu nascimento ditoso abençoaram? Enquanto os rios o mar procurarem. nascido nas margens claras do belo Simoente. e de Ânquises troiano? Lembro-me bem que uma vez Teucro foi à cidade de Tiro. À aparição subitânea do herói. Serena. a direita dá ao amigo Ilioneu. a Rainha espantou-se. Dêem-te os deuses — se houver divindade que os bons recompensem. Tal como infunde mais brilho ao marfim a mão sábia do artista. que Fado inditoso por tantos perigos te urge a esse ponto? Que força te trouxe a paragens tão duras? És.34 ENEIDA Falta um. para dizer-lhes: — Eu sou quem buscais. se ainda há justiça no mundo e consciência do próprio respeito — prêmio para esta vitória. infortúnios de Tróia vencida. dos lindes pátrios expulso. emprestando-lhe aos olhos. a intenção . e dás acolhida.ele. de improviso. ficando os dois homens visíveis a todos. e o ouro flavo encastoa na prata ou no mármor de Paros: de igual maneira aparece o Troiano aos demais. no nosso triste fadário. de Vênus divina. teu nome e fama hão de sempre durar onde quer que eu me veja pelo Destino jogado. lar próprio e muros a quem já perdeu tudo quanto possuía. falou-lhe: Filho de Vênus. Desde esse tempo me são conhecidos teu nome aureolado. pois Vênus ornara seu filho amado. ainda mesmo que aqui se encontrassem todos os teucros dispersos nos longos caminhos do mundo. — Depois de falar. que as ondas tragaram na nossa presença. é dizer-te quanto nos vai no imo peito. ó Dido. subitamente. Mal terminara. Tudo o mais se acha de acordo com o que nos predisse a deidade. aos belos cabelos um resplendor purpurino. dos tristes restos escapos dos dânaos. tinha de um novo reino fundar com a ajuda de Belo. as sombras dos montes. até agora perdido. 584 . meu pai.

dirige-se Acates às naves na praia. Por fado igual perseguida. Por ter passado por isso. Um cetro traz. Nesse entrementes. Por isso. javalis corpulentos um cento. aprendi a ser boa com todos. da argiva Helena trazidos aquando saiu de Micenas. que Ilioneu outrora empunhara. aos navios Acates envia. jovens. conduz o Troiano ao palácio. subindo até à origem de antiga linhagem. ao mesmo tempo que envia bois vinte aos consócios de Enéias. além disso. do paço inconstante. Tendo o discurso acabado. Juno implacável lhe queima as entranhas de noite e de dia. em baixelas douradas. preparam-se as salas do régio palácio para o festim. pelo cinzel trabalhadas. e mais a alegria das festas: muitos pichéis de bom vinho. Passo estugado. e se dizia oriundo da raça de antigos troianos. Cedo. no afã de Cupido trocar de aparência com o doce Ascânio. ficasse momento algum. belo colar de alvas per'las e áurea coroa com duas fileiras de gemas preciosas. os feitos reluzem dos nobres antepassados. para que a Ascânio apanhasse e o trouxesse direito à cidade. nas do centro o banquete com ricos aprestos. Sem demora. pois em Ascânio cifrava-se todo o desvelo paterno. e ordens transmite por que sacrifícios aos deuses se façam. pelo proibido himeneu atraída até ao burgo de Tróia. inestimável presente de Leda. A prataria resplende na mesa. ao alígero Amor se dirige e lhe diz o seguinte: Filho. O amor de pai não consente que Enéias tranqüilo. e cordeiros com suas mães outros tantos. Da falsidade se teme dos tírios. em quem cifro minha única força. por que se insinue na alma incendiada de Dido e até aos ossos seu fogo alimente. lembrança materna. depois de trabalhos sem conta me concedeu a Fortuna fixar-me afinal nestas plagas. no rosto e no gesto. minha alta potência. belas alfombras de púrpura. entrai sem detença no nosso palácio. salvos das ruínas de Tróia.LIVRO I Conquanto imigo dos troas. A Citeréia no entanto revolve na mente conselhos e novos planos. raros tecidos de preço. Ao mesmo tempo trazer recomenda presentes valiosos. a saber: rico manto bordado de ouro. filha a mais velha de Príamo.663 . 25 624 . e também fino véu contornado de folhas de acanto. realçava-lhes Teucro o prestígio. no litoral.

que mais do que todos me é caro. e num sono tranqüilo o conserva. sem que nume nenhum transmudá-la consiga e a mim se prenda por meio do afeto que a Enéias eu voto. inclinados em leitos purpúreos. menino como ele. onde oculto o conserve em lugar consagrado. para Cartago levava os presentes. Calmo sopor pelos membros de Ascânio infundiu a deidade.26 ENEIDA pois não te temes dos dardos paternos. Quero vencê-la em seu próprio arraial e inflamar a Rainha de ardente amor. conforme meu pai ordenara. aprestado no meio dos outros. das asas despe-se e os passos imita contente de Iulo. Nesse entrementes. belas toalhas dispõem de fino pelo. o inebriante perfume do néctar. e em seu regaço abrigado o levou para os bosques Idálios. num leito de esplendoroso dossel. Ora ele se acha com Dido fenícia. Vou sepultá-lo num sono profundo e levá-lo a Citera ou ao bosque Idálio. recorro a ti nesta agrura e teu nume depreco insistente. cinqüenta donzelas em filas cuidam dos finos manjares e a chama do lar alimentam.703 . Porém tenho dúvidas sobre a acolhida. Quanto ao que espero de ti. seu todo assimila. quando Dido. a figura de Ascânio para isso assume. No interior do palácio. para que nada lhe ocorra de mal nem ninguém o descubra. quietinho. fogo invisível lhe inspires com teus enganosos venenos. Acates o guia. Por uma noite somente. seguido da mocidade troiana. se apresta para ir à grande cidade sidónia levando presentes salvos do mar e das chamas. obediente aos preceitos maternos. Água nas mãos deitam fâmulos. O pai Enéias também seu lugar ocupara. No mesmo ponto Cupido obedece aos conselhos maternos. Chega no instante em que Dido assumira o seu posto. Sempre nas minhas agruras te doeste do que eu padecesse. 664 . onde o rodeia de sombras e flores o suave perfume da manjerona. atirado de um lado para outro. O infante régio. teu pobre irmão não descansa. obra de Juno. de cestas as dádivas tiram de Ceres. contra o seu peito apertar-te durante o régio festim. que o prende em colóquios intermináveis. errante nos mares por ordem de Juno. e te cobrir de dulcíssimos beijos e ternos amplexos. Decerto esta pensa nalguma vantagem. alegríssima. não mais. mortais a Tifeu. Pois. Como já sabes. Cupido. ouve atento o que passo a dizer-te.

belas crateras ali são trazidas. de pé pelas portas. dos toques do belo rosto de Ascânio. também são chamados para tomarem assento nos leitos de finos lavores. uni-vos comigo em louvor desta festa. Baco. logo a espumante cratera esgotou e do vinho banhou-se. 704 . Na cítara de ouro o crinito Iopas dedilha e descanta o que Atlante a tocar lhe ensinara. Pedido silêncio geral. que seja esta festa lembrada de tírios e teucros aqui chegados. Das arquitraves douradas os lustres acesos esplendem e a noite escura transmudam num ápice em luz e alegria. Aos pouquinhos o aluno de Vênus procura a imagem riscar de Siqueu e vivaz labareda numa alma fria acender. que. Assim dizendo. Pasmam dos raros presentes de Enéias. as Híadas de águas perenes. Este. as palavras fingidas. como era de praxe. e Arcturo.LIVRO I 27 Mais cem mocinhas e número igual de rapazes se ocupam de carregar as travessas e as mesas de copos proverem. as mudanças constantes da lua. nada remisso. não cansa de olhá-lo. esquecida de tais sentimentos. a um só tempo abalada pela influição do menino e os presentes então recebidos. Canta os eclipses do sol. seu brilho divino. Estrepitosa algazarra pelo átrio espaçoso se eleva. Os próprios tírios. conforme dizem. Dido ordenou que trouxessem a copa de gemas e de ouro por onde Belo bebia e seus filhos e mais descendentes. depois de pender algum tempo do colo de Enéias. Principalmente a Rainha infeliz. as duas Ursas. e que nossos netos com ela se ocupem.743 . a geração dos mortais e dos brutos. derrama na mesa a usual libação. e a encheu de vinho. as chuvas e o fogo. e de inundar de ternura o imo peito do pai presuntivo. e o manto e o véu enfeitado de folhas de acanto amarelo. com vinho as coroam. de quando em quando apertando-o no peito — coitada ! — inconsciente da divindade que a abrasa. já tocada da peste que há de abrasá-la. fautor de alegria. e a gracejar a passou para Bícias. num coração desafeito a bater de concerto com outro. levando aos lábios a copa ao de leve. E vós. Quando concluído o serviço e a primeira coberta afastada. começou: Júpiter ! já que presides à hospitalidade. nos seja propício e a alma Vênus. Outros magnatas beberam. que nele se embebe e o devora com os olhos. vai para Dido. ó tírios.

744 . os teucros o exemplo lhes seguem.28 ENEIDA qual a razão de no inverno banharem-se os sóis no Oceano e de tão longas então se mostrarem nessa época as noites. muito de Heitor. desditas dos teus companheiros. por tudo. a força de Aquiles. do início. Por sua vez a Rainha infeliz todo o tempo gastava em longas práticas. e de Diomedes os belos cavalos. fonte instancável de amor insidioso. qual o feitio das armas do filho da Aurora divina. Batem-lhe as palmas os tírios. este vagar sem descanso nem termo por mais de sete anos em toda a terra infinita. nas ondas inquietas.755 . muito i n q u i r i n d o r e s p e i t o de Príamo. Hóspede — fala-lhe — conta-nos tudo por ordem. as artimanhas dos dânaos.

Rainha. os mortais ao repouso convidam. ilha famosa se encontra defronte de Tróia. mirmídone ou dólope ou cabo de Aquiles? A úmida noite do céu já descamba. caindo devagarinho no poente. com armas e gente escolhida de guerra. bem que a lembrança de tantos horrores me deixe angustiado. abeto. então. como os aquivos a grande potência dos teucros destruíram. de bojo com tábuas de. e as estrelas. os guerreiros de mais valor ingressaram. se realmente desejas ouvir esses tristes eventos. num ápice enchendo as entranhas daquele monstro. contar-te o sofrer indizível dos nossos. 1-23 . principiarei. dispostos a ouvi-lo. Quem fora capaz de conter-se sem chorar muito. Voto de pronto regresso era a máquina L todos diziam. tirados por sorte. exordiou do seu leito elevado: Mandas. breve relato do lance postremo da guerra de Tróia. rica no tempo em que o império de Príamo ainda existia. Mas. Nessa medonha caverna. reino infeliz. Tênedo.ENEIDA Livro II Prontos à escuta calaram-se todos. dos Fados repulsos em tantos anos corridos. O pai Enéias. e de que fui grande parte. espantosa catástrofe que eu vi de perto. ora uma enseada de pouco valor ou nenhum para as naves. os cabos de guerra da Grécia com a ajuda da arte de Palas construíram na praia um cavalo alto como uma montanha. — Pela guerra alquebrados.

Oh ! se não fosse a vontade dos deuses e a nossa cegueira. então. ó Tróia. uns pastores troianos com grande alarido trazem ao rei um mancebo com as mãos amarradas nas costas. o vulgo inconstante oscilava entre vários alvitres. Qualquer insídia contém. A mocidade troiana curiosa de vê-lo converge 24-63 . a caminho da rica Micenas. então. sacudida com o baque. Muitos pasmavam de ver o presente ominoso da deusa. ou por dolo isso fosse ou dos Fados previsto. ou que seus dons sejam limpos? A Ulisses. entregara-se aos nossos. na praia deserta se ocultam. surtos na terra. deixaríamos frustra a malícia dos gregos. primeiro de todos. e em pé. e arrojou com pujança viril um venab'lo dos grandes contra os costados e o ventre abaulado do monstro da praia. no valor próprio confiado e igualmente disposto a valer-se das artimanhas nativas ou a morte enfrentar decidido. eis onde Aquiles se achava. e de longe mesmo gritou: — Cidadãos infelizes. desconhecido. ou fabricada ela foi para dano de nossas muralhas. Assim.30 ENEIDA Prestes mudaram-se os dânaos. Abrem-se as portas. a tremer. a tal ponto desconheceis? Ou esconde esta máquina muitos guerreiros. que insânia vos cega? Imaginais porventura que os gregos já foram de volta. e outros mais de melhor parecer insistiam para que ao mar atirássemos logo a armadilha dos dânaos. temo os dânaos. Cápis. a fim de seus planos levar a cabo e franquear os portões da cidade aos aquivos. Nós os supúnhamos longe. aconselhou derrubarmos o muro e direto o postarmos na cidadela. com o ferro. Com isso a Têucria respira mais leve no luto penoso. Disse. Não confieis no cavalo. no qual se encrava. troianos ! Seja o que for. o campo em que as hostes lutavam. da sobranceira almeidina desceu para a praia. até quando trazem presentes. Laocoonte ardoroso. a caverna solta um gemido. as praias desertas agora: O ponto era este dos dólopes. a imensidão do cavalo. abaladas no fundo as entranhas do monstro. Nisso. o paço luxuoso de Príamo. porém. e devassar nossas casas ou do alto cair na cidade. alegram-se os troas de ver mais de espaço o acampamento dos dórios. Timetes. Nesse entretanto. seguido de enorme cortejo. os navios. estarias. fogo deitássemos nela ou que ao menos o ventre do monstro fosse explorado ou sondadas as vísceras sem mais reservas.

da multidão que o cercava. o temor. ou o que mais resta a um coitado como eu. parando algum tempo no meio dos nossos. sem armas. contempla as colunas dos frígios. Talvez já tenhas ouvido falar do alto nome.. Mas. a que mar poderia acolher-me. caso voltasse à pátria algum dia. para que revolver na memória um passado tão triste? Por que deter-vos a ouvir-me? Se a todos os gregos na mesma conta tiverdes. muito jovem. A que se explique o incitamos. em que confia. logo se acalmam. Porém. basta isso que eu disse. contar-te-ei a verdade. por sermos aparentados. a fim de aprestar-me um futuro ominoso. meu sangue reclamam. Ah ! exclamou. alguma vantagem do seu grande nome me aproveitava. e firmei o propósito. à porfia. bom preço obtereis dos Atridas. a fim de adestrar-me no ofício das armas. que os próprios aquivos à morte infame votaram. da fama de Palamedes. E não parou senão quando. à morte me votam. o castigo aplicai-me. declare-nos sua ascendência. Enquanto vivo ele esteve e gozou de bom crédito junto dos governantes. Torvo. enfim. Não negarei que sou de Argos. É o que o Itacense deseja. os motivos da sua prisão voluntária. Tal foi a origem da minha desgraça. principiou para mim esta vida de prantos e luto. entre os próprios argivos vingá-lo da morte infame. por ser contrário — eis o crime ! — a esta guerra infeliz desde cedo. de novas calúnias Ulisses sempre assacar-me. Deposto. A conhecer ora aprende as insídias dos dânaos e julga por este os outros. o princípio. sem ventura nenhuma? pois. por meio do sábio Calcante. A esses gemidos mudaram-se os ânimos. se entre os gregos não tenho acolhida. quando a inveja de Ulisses. da seguinte maneira falou-nos: Seja o que for que me espera. senhor. nascido de Belo. 64 -103 . exacerbada com a dor da desgraça do amigo inocente. porém jamais o fará pusilânime e rico em mentiras. Esse. o falso — só o que é notório vos digo — o tirou do convívio dos homens. A esse guerreiro entregou-me meu pai. em que terra.LIVRO II 31 de toda a parte. A Fortuna criou a Sinão sem ventura. de lá minha estirpe descende. os troianos em peso me são contrários. Com isso chamei sobre mim ódio imenso. levados por falsos indícios. doestos no preso atiravam. e entre o vulgo espalhar umas vozes um tanto ambíguas. Louco ! não soube calar..

quando. O dia infando chegou. acossado por fim dos ingentes clamores de Ulisses. não o oculto: da morte esquivei-me. mais espantosos trovões retumbaram pelo éter sombrio. Máxime. ó dânaos. ao cerco intentam pôr fim. o pai extremoso. Diversos já tinham sabido da trama cruel e em silêncio previam meu fado inditoso. Calcante emudece. durante uma noite entre os juncos do charco pude esconder-me. Quando essa voz se espalhou pelo povo. o Itacense com grande tumulto arrastou para o meio da multidão o adivinho Calcante. em resposta: Com sangue. sem suspeitar até onde ia a perfídia e a maldade de um grego. continuou no seu falso relato: Mais uma vez. o frumento salgado. os queridos filhos. Por cinco sóis e mais cinco. deste infeliz apanhado sem culpa nas malhas da Sorte. 104 -143 . Apolo a quem chama e o Destino sorteia? Nisso. concluído o cavalo de fortes madeiros. tremor nos ossos. com sangue outra vez obtereis o retorno: precisareis imolar um dos gregos das vossas fileiras. geral foi o espanto. e os austros de medo a voltar os obrigam. o combinado com ele contou e aos altares me vota. de acordo se mostra com a minha desdita. Medo fingindo de nós. para cobrar dos coitados a pena do meu grande crime. Rompendo meus laços. que no peito de todos o brio congela. Ora esperanças não tenho de a pátria rever. Por isso. de vítima nobre aplacastes os ventos para ir a Tróia. pois quem tinha medo de ver-se fadado à Morte. que sem demora as sinistras palavras nos trouxe. nos quais talvez os argivos se vinguem da minha fugida. já na fase final os aprestos do sacrifício. Sim. enquanto eles se foram. Rei. velejar para a Grécia longínqua. mandamos Eurípilo ao templo de Apolo. se intemerata confiança ainda existe entre os homens pequenos. Mas. apiada-te do meu sofrer indizível. nos olhos a venda. os argivos cansados de guerra tão longa. nem nunca jamais abraçá-los.32 ENEIDA Isso ainda mais nos desperta o desejo de tudo sabermos. consternação. e lhe manda dizer-nos quem a deidade apontara. pelos numes conscientes de toda a verdade. se é que partiram. sem declarar nenhum nome e ao silêncio da Morte entregá-lo. as ligaduras. indeciso. Em tal aperto. Ah ! Oxalá que o fizessem ! Borrascas freqüentes as vias do mar lhes cortam. simples resquícios. Todos de pronto o aplaudiram.

lhes disse. as cordas lhe retirassem. longe já se acham. servida por mim. divulgar suas tramas ocultas.LIVRO II Compadecidos da sua desdita lhe demos a vida. vendas sacras que a fronte me havíeis ornado ! Seja-me lícito os laços romper sacrossantos dos gregos. Sinão. e. Obrigações já não tenho com a pátria. Porém. e vós. à guisa de pia oferenda. as sentinelas matando primeiro da excelsa almeidina e a sacra efígie levaram. e o ímpio filho do velho Tideu imaginaram roubar o sagrado Paládio do templo. até o ponto de esvaecer-se o vigor para a luta. Mal colocaram a estátua no campo. Tróia. Esse. de todo mal o inventor. me protejas neste perigo e me pagues o grande serviço de agora. salgados humores banhando-lhe as faces. o voto do sábio Calcante. para o alto céu levantando as mãos livres. algemas nefandas. Minerva. exclama. Pérgamo não tombará sob o impacto violento dos gregos. Rei. Pronto Calcante anunciou que se tente o implacável Oceano. Logo a Tritônia nos deu manifestos sinais da mudança. O próprio Príamo logo ordenou que as algemas. a promessa. contanto que cumpras. recruzando o mal alto. Nosso és agora. dos gregos esquece-te. um simulacro levantem. nas artes pelasgas. dos olhos abertos chispas saíram. tocando. e tu. quem seria? A quê o destinam? Será religião ou artifício de guerra? Disse. despidas dos ferros: Eternos fogos. porque. contra eles. e por três vezes ao solo saltou — coisa incrível! — nas duas mãos segurando a tremer o broquel e a hasta longa de bronze. E mais: em vez do Paládio. 144 -183 33 . em tom brando e amigável lhe fala: Quem quer que sejas. do nume ofendido. sem renovarem em Argos os votos e o nume de novo reconduzirmos nos belos navios de proas recurvas. Depois. a todos eles odiar. ademais. E ora que os ventos a todos levaram à pátria Micenas. Toda a esperança dos dânaos e a grande confiança na guerra firmou-se sempre no auxílio de Palas. a invioláveis deidades dicados. Sincero responde ao que vou perguntar-te: Por que construíram tamanho cavalo? E o inventor. altares sagrados. grande sábio em tramóias. surjam aqui de improviso. que longe de mim joguei. armas e sócios aprestam. dês que Ulisses. com mãos sujas de sangue as faixas virgíneas da deusa — impiedade sem nome ! — a decair começou pouco a pouco a esperança.

armado de frechas. a avançar pelas águas furiosas. e havendo por duas vezes o corpo cingido.34 ENEIDA Em desagravo da deusa. que o sacerdote imperito na dura cerviz assestara. a crista sangüínea por cima das ondas as ultrapassam. corria no auxílio de ambos. no altar de Netuno solenemente imolava o mais belo dos touros. a arrasar a cidade de Pélope. a língua silva e sibila na goela disforme. o resto do corpo. com roscas tamanhas barafustava no fundo.223 . Laocoonte. dez longos anos. e desse modo alcançásseis o amparo perdido dos deuses. mais tremendo que tudo. nas dobras enormes o apertam. as insídias e manhas. um prodígio maior. já já se aproximam da praia. Tais juramentos do falso Sinão. de medo. ao mesmo tempo que aos astros atira clamores horrendos. Aquiles feroz e mil barcos de guerra. O sacerdote sorteado. os colos altivos. com dolos e prantos dos que não foram dobrados nem mesmo pelo alto Tidida. Mas. Logo. o cutelo sacode . os dois monstros. se violásseis com as mãos o presente fatal de Minerva. porque não passasse nas portas. muito por cima as cabeças lhes sobram. mui facilmente a confiança venceram. o pescoço outras duas. aparece para toldar e abalar as impróvidas mentes dos teucros. de fogo e sangue injetados os olhos medonhos. ponto em que. tal como o touro. no. a Ásia todinha baixara. Calcante esta máquina imensa mandou alçar até às nuvens. triste fadário que iria cair sobre os nossos bisnetos. Mas. a lamber-lhe os contornos. 184 . os corpinhos dos dois meninos enredam no abraço das rodas gigantes e os tenros membros retalham com suas dentadas sinistras. a ele investem. Tenta Laocoonte os fatídicos nós desmanchar. sem proveito. Primeiro. Troa o mar bravo e espumoso. se essas mãos a pusessem sem dano no centro de Tróia. sangue a escorrer e veneno anegrado das vendas da fronte. Peitos erguidos. Diante de tal. nem conseguísseis jamais para dentro dos muros levá-la. espetac'lo fugimos. Pois. do altar a fugir. no rumo da costa depressa avançavam. eis quando — só de contar me horrorizo ! — à flor d'água de Tênedo nadam duas serpentes de voltas imensas por baixo do espelho. emparelhadas. praga iminente cairia — que os deuses o triste presságio contra ele próprio convertam ! — no império de Príamo e os teucros. por próprio impulso a Laocoonte se atiram.

Assim transpôs as muralhas de Tróia o fatal maquinismo. e dos mirmídones toda a maldade. por quatro no ventre se ouviram tinir armas. A uma voz declararam ter sido Laocoonte mui justamente punido. Nesse entremeio virou o alto céu. escapam do cavo escond'rijo Tesandro e Estênelo. Novo temor e pavor indizível a todos gelaram o coração. por disparar contra o grande cavalo sua lança impiedosa. fabricante ardiloso do engenho. ultrajara o sagrado madeiro. Meninos à volta. por uma corda. pela cidade enfeitávamos arcos e templos com flores.LIVRO II Nesse entrementes. ó pátria ! ó Ílio. donzelas hinos cantavam. esquecidos de tudo o levamos — cegueira incurável! — e colocamos o monstro no próprio sacrário de Tróia ! Abriu a boca nessa hora Cassandra e falou sobre os fatos ainda por vir. o recinto do burgo franqueamos. e se acolhem aos pés da deusa. calam-se os teucros. À faina todos concorrem. cai a Noite no Oceano. a par os dragões escaparam. debaixo dos pés lhes põem rodas. Muros deitamos por terra. Mas. Espalhados nas casas. pelo fado amparado dos deuses e a nós infenso. E apenas brilhou na alta popa da capitânia o fanal. Por quatro vezes o monstro pára na entrada. forte baluarte dos dárdanos. Sinão abre a furto a prisão de madeira dos feros dânaos. infelizes. o firmamento recobre de trevas espessas a terra. no rumo das conhecidas ribeiras. morada dos deuses ! famosa na guerra. mas Apolo impediu que lhe déssemos crédito. Ameaçador. Em coro clamam que ao templo de Palas o bruto removam e a divindade com preces se aplaque. no asilo eficaz do broquel abaulado. mais o Pelida Neoptólemo filho de Aquiles. e o temível Ulisses. cabos de guerra.263 35 . o cavalo devolve para o ar os homens. dos corpos cansados o sono se apossa. Na melhor ordem de Tênedo a argiva falange partira. Alegres. Acamante e Toante valentes os seguem. favorecida da ausência da lua silente. Macáone e Menelau com Epeu. rastreando na direção do santuário de Palas severa. Enquanto nós. Franqueada a saída. cordas de cânhamo forte ao redor do pescoço lhe passam. folgando de as mãos encostar no cabresto. avançava até ao centro da bela cidade. chegados ao último dia. 224 . prenhe de fortes guerreiros.

caro Heitor. os guardas massacram. depois de cortares o mar tormentoso. grande cidade. Sacudo o sono. do incêndio te livra. procura morada para eles. Quão diferente — ai de mim! — era então do outro Heitor que eu corria sempre encontrar. e entregou-me as sagradas insígnias e Vesta. para agora te vermos em tal estado. sem mexer-me um tantinho. precisamente na hora em que para os mortais estafados coa nos membros o grato sopor. as portas arrombam. quando entrava vestido do espólio de Aquiles. no santuário profundo. Leva contigo esses sócios. Disse. e embora a morada de Anquises. filho de uma deidade. do imo peito emitindo um gemido profundo me disse: Foge daqui. de muito ali postos à espera. a barba esquálida. Dentro dos muros campeia o inimigo. à uma. desolada. pelos dois pés arroxeados por forte e inamável correia. Mas. onde e quando as sofreste? Nada falou em resposta a essas fúteis perguntas do amigo. ante os olhos a sombra de Heitor. em torno ao muros. no sono e no vinho como que imersos. depois «dos trabalhos da pátria.303 . da guerra em defesa da pátria. Assim como o vi. quando austro furioso nas searas o fogo 264 . meu terno pai. na biga arrastado à matroca. entretanto. hoje Tróia extinguiu-se. ressoavam lamentos confusos. de ficares por tanto tempo naquelas regiões. cada vez mais acentuados. a cidade invadiram. Não de outra forma. e o mirante galgando do belo palácio. a chorar. cada vez mais o ruído das vozes. o sangue a empastar os cabelos. Pela cidade. pareceu-me que o interroguei por primeiro com estas palavras doridas: Ó luz dardânia ! fortíssimo esteio dos homens de Tróia ! Por que voltaste tão tarde? A razão. e os sócios acolhem. Tróia te entrega os seus deuses e os sacros objetos do culto. vi pareceu-me. a derramar quentes lágrimas pelo semblante tristonho. de ouças atentas me pus a escutar.SC ENEIDA Todos. de massacrados os seus defensores? Que mão criminosa desfjgurou-te? E as feridas do corpo. feridas e cicatrizes sem conta. Muito já demos a Príamo e à pátria. estas mãos se imporiam na sua defesa. fosse longe e cercada por denso arvoredo. todas. das armas se ouvia. ou quando o fogo dos frígios jogava nas naus dos acaios. e o fogo eterno que ardia no lar. tal como esteve antes disso. Se a Pérgamo a destra de algo valesse. doce prêmio dos deuses. indizíveis.

clamor que até aos astros ecoa. a morte de toda a parte nos manda. O desmedido cavalo. do luar amparados. nas portas abertas. de nada nos servem. seguido do jovem Corebo Migdônida. O gume do aço brilhante e eriçado de pontas. arrancou do mais fundo um gemido abafado: O último dia chegou da fatal extinção dos troianos.LIVRO I í 31 por tudo espalha. Panto. a alta glória dos descendentes de Dárdano. um netinho. Uma idéia somente nos exaltava: era belo morrer em defesa da pátria. Era patente a traição. Com muito trabalho. tal multidão como nunca mandou-nos a forte Micenas. noutra. mais Hípanis o alto Dimante. onde a luta é mais forte? Ainda temos alguma defesa? Mal lhe falara. O Sigeu com o reflexo do fogo esplendia. 304 . o toque atroador das trombetas. do centro vital da cidade lança esquadrões sobre nós. ou a torrente aumentada com as águas dos montes arrasa os campos. do amor desvairado trazido da profetisa Cassandra. filho de Otrias possante. do fogo. Numa das mãos traz os deuses vencidos. seguiam-no rente os aquivos. que a Tróia viera de pouco. Júpiter fero aos aquivos transferiu tudo. Outros. ao grande estrondo dos ferros. A mim se agrega Rifeu juntamente com Êpito. pelo furor de Vulcano arruinado. sem rebuços. Fora de mim. o grande e venerável guerreiro. a grega perfídia. à força de Marte se opõem. inúmeros dânaos. as ruas estreitas entopem de flechas sangrentas. Ílio santa deixou de existir. Ouvem-se gritos dos homens. a bela colheita. Um pensamento a nós todos anima: voar para os pontos onde a batalha mais forte estrondava. o pastor se admira do que ouve. No burgo abrasado ora os gregos imperam. dos bois o trabalho. Tróia caiu. os primeiros guardas. das tristes Erínias. e as próprias matas carrega: perplexo. corria até casa a buscar-me. ornatos do culto. Panto nessa hora ao encontro me sai.343 . no cimo de um monte. sem compreender o que passa. logo as armas procuro. e o insultante Sinão onde passa semeia incêndios. sacerdote de Febo. atordoado. nas trevas envoltos. Já se encontrava por terra o palácio do forte Deífobo. A essas palavras do Otríada e aos próprios ditames dos deuses corro ao encontro das armas. bem próximo ardia Ucalegonte. a auxiliar como genro a defesa da fortaleza de Príamo e seus contingentes da Frigia.

por vezes. tomados de susto. lamentos. cauteloso. Mas. até ao centro da grande Tróia.383 . nas ruas. Corpos sem vida aos montões se acumulam por todos os lados. 344 . Morramos. desgraças. de colo cerúleo. a imagem da Morte em diversas posturas. de improviso. que vinha à frente de muitos guerreiros e nos confundira com combatentes argivos. onde os filhinhos o aguardam com fauces sedentas. Em terra estranha. tendo notado no que lhe dissemos algo suspeito. Atra noite por cima de nós circunvoa. quase loucura. a investida e o discurso. rainha das outras. Com essas palavras inflamo até ao máximo o peito dos jovens. por dardos. quando outros argivos já estão saqueando os palácios em chamas de Pérgamo altiva? Somente agora deixastes as naves de proas recurvas? Apenas isso. e os vencedores também pereciam. nas casas amplas.38 ENEIDA Infeliz moço. no sólio dos templos sagrados. luto. rapazes ! Por que a sair demorastes do esconderijo? Por que essa preguiça. de espadas. Por tudo. bem vedes para onde a Fortuna bandeou-se: Todos os deuses. Tal como lobos rapaces que cegos de fome imperiosa saem de noite à procura de presa e da cova se afastam. com o bote já prestes: assim Andrógeo ao nos ver se dispõe a fugir. Correis em defesa de ruinas e escombros em labaredas. interrompendo de medo. o atroz morticínio daquela noite. e o cerco apertamos. ou com o pranto igualar o trabalho dos teucros? Caiu por terra uma antiga cidade. por hostes densas rompemos no rumo da Morte. Arremetemos contra ele. Foi o primeiro a of'recer-se a nosso ímpeto Andrógeo valente. assentou numa cobra quase escondida entre as pedras e salta a tremer quando a enxerga meio enrolada. a um só tempo. então ! Avancemos sem medo ! Para os vencidos só há salvação na esperança perdida. que ouvidos não teve de ouvir os prenúncios da sua amada ! Vendo-os dispostos a entrar na peleja. Como o viandante que o pé. Em tom amigável falou-nos: Mais pressa nisso. renasce o vigor primitivo. disse-lhes: — Jovens de inútil esforço e ousadia ! No caso de me acolherdes o apelo para uma entrepresa arriscada. calou-se de pronto e recuou para o grupo. colheu-os a Morte. esteios da pátria. tomados de brio. pois nos vencidos. os santuários e altares já abandonaram. Quem poderia narrar os horrores.

troca de escudos e glaivos. disposto a morrer. Sem numes pátrios. Eles as armas nos dão. cabelos esparsos. Nisso. tudo vale no trato de imigos. Cegos de dor e de raiva por terem perdido Cassandra. a fala de acentos estranhos. Não de outra forma engalfinham-se ventos contrários em luta. buscando refúgio na praia. logo o mesmo fizeram. primeiro de todos o engano percebem. de Príamo filha dileta.LIVRO II 39 Favoreceu-nos a deusa Fortuna no nosso improviso. Muitos às naves se acolhem. A floresta estrondeia. que as mãos delicadas os laços prendiam. e quase às cegas de noite em sangrentos recontros mandamos récuas e récuas de aquivos para o Orco ainda mais tenebroso. entre os dânaos jogou-se. misturamo-nos com os próprios dânaos. movidos do engano das armaduras dos gregos. arrastada do templo. Corebo se anima e nos grita: Caros amigos. com cascos de belos penachos. Brigam deveras. Vêm atacar-nos os mesmos que nós antes disso espalhamos pela cidade. vistamos as gregas insígnias. Ou por astúcia ou valor. os Atridas como dois gêmeos.423 . a fim de abrigarem-se no conhecido reduto. Eis que de súbito vemos a virgem Cassandra. tomados de baixos temores. num batalhão bem formado investimos. a cair sobre nós do telhado do templo começam dardos sem conta que no alvo acertavam. e logo enfiou na cabeça o capacete de belo penacho de Andrógeo. 384 . adiante ! Sigamos o próprio caminho da salvação que os benévolos Fados agora mostraram. a gente graia acomete: o terrível Ajaz. o grupo da mocidade jovial. Zéfiro e Noto e mais Euro galhardo. Corebo não pôde conter a fúria e. Ah ! sem a ajuda dos deuses de nada nos vale a Fortuna. Dada a superioridade do número. escondidos nas dobras do manto da Noite. outros. e de lado ajustou linda espada da Grécia. apenas. então. Rifeu. Acompanhamo-lo. olhos. os belos olhos para o alto estendia. empunhando belo tridente Nereu espumoso o mar fundo remexe. vaidoso com a posse dos corredores da Aurora. Com tal sucesso exultando. Nossos escudos troquemos. o riquíssimo escudo embraça. e o exército inteiro dos dólopes feros. Dimante e outros mais. Todos se armam de espólios recentes. à procura de amparo. de novo ao cavalo sobem. — Disse. Cheio de dor ante a vista do quadro. retrocedemos.

nem tua piedade. contra os dardos amparo eficiente. gládios na destra. Astianacte infeliz. Marte indomável por tudo seu grande furor espalhava. das duras armas dos dânaos. em visita ao avô carinhoso. ao tempo em que Tróia ao fastígio ascendera. chamas da última pira dos teucros ! sois testemunhas de como jamais me esquivei de perigos. Panto ilustríssimo. onde os pobres teucros seus írritos dardos jogavam no campo inimigo. Torre construída na borda do teto e inclinada. no peitoril com a direita seguros. junto do altar de Minerva potente. Era Ifito bastante idoso. e as ínfulas sacras puderam salvar-te. onde as junturas cediam. Na sua base assentando alavancas nos pontos mais fracos. comunicante com as outras moradas. ferido foi Pélias de um dardo de Ulisses. Fortes escadas nos muros engancham. os eternos assim não pensavam. tudo lhes serve. por onde Andrômaca. firmes na esquerda os broquéis.40 ENEIDA Logo Corebo caiu. Rifeu. Por outro lado. qual se noutras partes a calma reinasse. no afã de ganhar o telhado das casas. com sobra o meu braço tal prêmio exigia. o homem justo. reforço aos vivos trazer. Porta secreta existia por trás do palácio de Príamo. e que se o Destino me impunha morrer na guerra. os troianos de cima as cumeeiras e as torres jogam abaixo. aos poucos avançam. Cinzas ilíacas. vir costumava sem guarda nenhuma trazendo o filhinho. Dali me afasto. Logo a atenção nos chamou grande estrondo nos paços de Príamo. dos troianos o mais acatado e virtuoso. Com tartarugas formadas de escudos os gregos as portas assediavam. pela mão do viril Peneleu. lugar de onde os troas olhar costumavam o acampamento dos gregos. parece. ajuda assentamos levar ao palácio. oculta aos argivos. com esforço conjunto a impelimos 424 . duplicar o vigor dos vencidos. degraus sobem lestes. as naves de proas recurvas. seguido de Pélias e de Ifito. Mas. lá se encontrava. Outros. projéteis descobrem com que defender-se: são vigamentos dourados. Mais animados. postados nas portas. sem vítima alguma nem perdas.463 . insígnias dos priscos monarcas. Dimante mais Hípanis tombam às mãos dos seus próprios amigos. também tombou. em formações adensadas a entrada aos estranhos impedem. Por essa porta subi ao ponto alto da casa. onde a batalha se trava com tanto furor.

e o próprio gado carrega no bojo das águas. sem vida tombam os guardas. lamentos dilacerantes por tudo. o dardo tríplice agita e sibila na boca ardorosa. o ululado femíneo. resplandecente com o brilho invulgar de sua bela armadura. nas belas portas se encostam. pórticos de ouro luzente. Pirro a ação predatória dirige. apostados naquela defesa. e ora. seus pórticos amplos. Logo esses claros preenchem com gente mais fresca. quadros de dor e de angústia. Automedonte. batentes se quebram. Cinqüenta leitos de núpcias. Tudo são ais. assolando até longe as falanges dos gregos. Hécuba. de ervas danihas nutrida no inverno debaixo da terra. longe os terrenos alaga e os currais alinhados. Ao lado seu Perifante se encontra e o escudeiro de Aquiles. às batidas crebras do aríete as portas já cedem.503 . os dois Atridas irmãos na soleira do paço postados. Com a mesma fúria do pai. Eis que aparece o interior do palácio. de pele mudada. cocheiro também. mais os fortes mancebos da bela Escíria. Pelos salões as matronas de pávido aspecto vagueiam. já livre do frio enervante. que fachos acesos nos tetos jogavam. abalados os quícios e as bronzeadas couceiras e roto um dos fortes batentes. de beijos sentidos as cobrem. até ao céu estrelado se elevam. À força estradas alargam. brecha primeiro. O filho de Aquiles. promessa de bela colheita. miserável tumulto nas salas internas. e arrebentando as barreiras que o passo impedir lhe tentavam. os dânaos avançam e as salas inundam. sem que barreiras nem guardas consigam detê-lo. Pirro na frente dos outros armado de dura bipene deixa em pedaços os fortes umbrais. com grande estrondo cai para a frente. Num ápice. com aparência de jovem o colo e a cabeça exaltasse. Não param de chover dardos e pedras. despojos dos bárbaros. gente da guarda também. dos gonzos escapam. Com menos fúria a represa espumante seus diques estoura. os aposentos de Príamo e nossos antigos monarcas. suas cem noras e Príamo junto das aras com sangue fresco a irrigar as fogueiras por ele apagadas. depois larga entrada aos aquivos apresta. tudo 464 . do mesmo modo que à luz aparece do dia uma cobra. Desde o portal do vestíbulo Pirro exultante campeava.LIVRO II e da alta sede a arrancamos.

fê-lo sentar no recinto sagrado.42 ENEIDA lama e ruínas. Provavelmente desejas saber o destino de Príamo. não se portou desse modo com Príamo imigo. Ao perceber o marido vestido com as armas de moço: Mísero esposo. Ao dizer isso. então — meio morto já estava — não pôde conter-se. E tomando o Velhinho pela mão trêmula. destruídas as portas soberbas. dos inimigos. tomba. Ou vem conosco morrer. pois presencear me fizeste o trespasso de um filho inocente. o venerável monarca nos trêmulos ombros enverga sua armadura antiquada. mostrou-se pio. no jeito de um bando de pombas em fuga de ameaçadora tormenta. os átrios desertos perpassa na fuga. e por último o alcança de cheio. em frente mesmo dos pais. com o sangue limpo do filho as feições de um pai velho manchaste. a perder sangue. No encalço do moço Polites vai Pirro. Príamo. Polites. que delírio insensato te obriga a usar a velha armadura? Para onde te arrastas sem forças? A situação ora pede outras armas. da espada sem gume se apossa. um dos rebentos de Príamo. e decidido a morrer se dirige ao encontro do imigo. punam-te os deuses — se houver mesmo deuses para esses abusos — a recompensa te dêem merecida. um grande altar se encontrava ladeado de antigo loureiro. exclamou. tais extremos de inútil crueldade.543 . este altar nos ampara. o Velhinho arrojou com a mão débil o dardo 504 . de quem falsamente te dizem nascido. defesa mais forte. o cadáver de Heitor entregou-me. que as divindades do lar abrigava com a fronde vetusta. Nesse momento. exclamou. abraçadas à efígie da deusa. O próprio Aquiles. Acomoda-te aqui. fugindo do gládio de Pirro. Nem a presença do meu caro Heitor poderia salvar-nos neste momento. Vendo a cidade tomada. No centro mesmo do belo palácio. ao ar livre no pátio. Hécuba com suas noras em torno do altar se apertavam inutilmente. O ferro dos dânaos o incêndio alimenta. e acatou os direitos de um velho pedinte. às golfadas. o castigo devido. deixando que para Tróia eu voltasse. louco de fúria. corre por meio dos dardos. o próprio lar profanado e desfeito por gente inimiga. E quando alfim chega à vista de Príamo e Hécuba. esvaído de sangue. — Assim disse. desabafou com palavras de cólera e dor represadas: Por este crime. hasta no alto.

que ali morrera ultrajado. dos povos d'Ásia. um corpo sem nome jogado na praia e separadas dos ombros as cãs venerandas de um velho. Se é desdouro punir uma vil criminosa. Minha alma em fúria se inflama. o ódio dos teucros temia. Sozinho estava. aborrecida de todos. meu nobre pai. Neoptólemo. com os traços de um rei tão idoso quanto ele. Hoje. uma idéia somente me ocorre: vingar a pátria destruída. enterrou-a até os copos no peito. Olho ao redor para ver com que gente eu contava. O fim foi este de Príamo. enquanto Príamo aqui trucidaram. portanto. da queda de Pérgamo. mas nisso diviso na entrada do belo templo a Tindárida em busca de um canto discreto para esconder-se. Pirro falou: — Pois então vai tu mesmo contar ao Pelida. a luzir. seguida de turba imensa de escravos da Frigia e de teucros.583 43 .LIVRO II que pelo rouco metal repelido foi logo. ficando inutilmente suspenso no forro do escudo abaulado. não será. Por entre os clarões da fogueira. em vingança do incêndio de Tróia. à família e os filhinhos. arrastou para junto do altar o tremente Velho. morrido já haviam todos. num triunfo insolente? Reconciliada reentrar no palácio. governador inconteste de tantas regiões florescentes. as proezas sem glória do filho pequeno. no altar a abrigar-se correra. Como ! exclamei. degenerado. sem castigo. há de a pátria Micenas rever. Pensei outrossim em Creusa ao desamparo. com mostras de muito medo e calada. punir de uma vez tantos crimes. Assim falando. me ocorre à mente. Mas antes disso aqui morre. ou fosse cansaço ou desânimo. abraçar pais e filhos. ainda vivos. na qualidade de esposa de um rei. atiram-se dos altos muros alguns ou na imensa fogueira. dos seus patrícios também se arreceava. Com a mão esquerda segura os cabelos do Ancião. do esposo ultrajado. no fogo arrasada foi Tróia? E tantas vezes banhadas de sangue estas praias ficaram? Não. o fado trazido do berço. A imagem do pai queridíssimo. e com a espada firme na destra. à vista mesmo do incêndio de Tróia. Anquises. passeava com a vista por tudo. A vez primeira foi essa em que horror indizível do peito se me apodera. que os pés resvalava no sangue empapado do filho. na casa incendiada. 544 . Calamidade comum para os gregos e para os troianos. a seu esposo reunir-se. em Iulo sozinho.

Sevíssima. nem Páris.623 . aos feros dânaos. Ílio então vi devorada das chamas vivazes. a diva inclemência. Vagam sem tino. de guarda nas portas Céias a lança a girar. Por toda a parte os rodeiam as hostes furiosas dos gregos. grita às hostes amigas. a quem odeias e increpàs. Sem medo nenhum cumpre as ordens de tua mãe. sequer de contar-se. os demais deuses concita a alistarem-se contra Dardânia. apoio ao menos terei por haver dado à Morte este monstro de iniqüidade e a vergonha vingado dos manes queridos. com seus atavios de deusa. o velho Anquises. se Creúsa ainda vive ou o teu filho pequeno. vi minha mãe com estes olhos. arremata esse esforço improfícuo e sem glória. por que te exasperas e a cólera assim te domina? sem te lembrares de mim para nada.44 ENEIDA ação inglória. tomado de fúria. dos deuses odientos. Contive-me logo. deusa veraz. Foge. subverte a grandeza de Tróia. Olha para o alto: no cimo da torre já vês a Tritônia Palas em nuvem brilhante. meu filho. que venham depressa das naves recurvas para ajudá-la. Sempre estarei ao teu lado. não digna de aplausos. A distinguir comecei as terríveis feições das deidades a Tróia infensas. Jove também aos acaios anima. Logo deixou de falar e ocultou-se nas trevas da Noite. Pela destra me toma. E com o seu hálito róseo me disse as palavras aladas: Filho. grandes penhascos envoltos em nuvens de poeira e de fumo? Pois nesse ponto Netuno com o forte tridente percute os alicerces de Tróia. não vaciles um nada em seguir-lhe os conselhos. Juno. Presta atenção. Não fosse a afeição que a eles todos dedico. de seus fundamentos arranca a incomparável cidade. já pelo fogo teriam morrido ou nos glaivos argivos. tal como jamais a enxergara. a brilhar como nunca e a inundar toda a Noite divina de claridade celeste. quando. Não ! Essa filha de Tíndaro não é culpada. a divina ! digo. dos entes queridos? Cuida primeiro em saber onde se acha teu pai venerando. e desde 584 . e no escudo a ameaçar-nos a Górgona terribilíssima. Aqueles blocos não vês sotopostos a blocos maiores. ao paterno solar vou levar-te. com planos terríveis. Assim me achava. vou tirar a cortina que de úmidas sombras teus mortais olhos empana.

à porfia. a fronde vacila. algum tempo ele ainda resiste. manchado do sangue de Príamo. Se os imortais resolvessem premiar-me com vida mais longa. exclama. e à destruição da cidade acrescentas a tua e a dos teucros. no intento primeiro insistia. disposto a morrer ali mesmo. o adeus último agora nos demos. Diante de mim apartavam-se as lanças. com as batidas no tronco. a morada sabida dos meus maiores. Odioso aos deuses. pedimos-lhe para não trabalhar contra nós ou agravar o pesado destino. do ferro e das chamas escapo. Que mais podia esperar da fereza do Fado tão duro? Como. se recusou a seguir-me no exílio e à ruína de Tróia sobreviver. Logo que o pátrio solar alcancei. arrastando na queda o que encontra. Pirro vem perto. Nisso teimáva. e nisso estás: bem abertos os nossos portões ora se acham. dos eternos. prazer encontrando nas suas lembranças. a primeira pessoa que em busca eu partira. e com o amparo divino. das chamas. há muito a existência inamável arrasto. meu pai ! supuseste que eu fosse capaz de deixar-te desamparado? Palavras tão feias um pai proferi-las? Se os imortais decidiram que nada de Tróia perdure. Acabarei aqui mesmo. as chamas recuavam. minha morada teriam guardado.663 45 . meu pai. Mãe generosa ! livraste-me de tantos dardos. com sobras. banhados em lágrimas. senhor dos mortais pequeninos soprou-me a pele e tocou-me de leve com o fogo do raio. Insepulto ficar é o de menos. eu e Creúsa com o filho Ascânio e as pessoas de casa. Volto a lançar mão das armas. Da nossa parte. desde que o rej. é que cumpre no meio dos riscos pensar na fuga. Desço. sem tomar fôlego quase.LIVRO II seus fundamentos a Tróia Netúnia cair aos pedaços. té que. vencido aos pouquinhos de tanto sofrer. que belo espólio imagine. que eu pensava em levar para os montes da redondeza. Eu próprio a Morte hei de achar ou o inimigo de mim apiedado. sobreviver à tomada da minha cidade nativa. derradeiro gemido solta e desaba. Nada o arredava daquilo. — A vós outros. 624 . tal como o roble nos cumes altivos que os fortes campônios de machadinhas armados golpeiam de rijo. Já basta. que em toda a pujança da mocidade ainda estais. o mesmo que mata o filho ante os olhos do pai e ao pai velho nas aras. incessantes.

Reconduzi-me aos aquivos. contigo nos leva. nas armas. quando. O sulco rebrilha por algum tempo. vê nossa angústia premente. a quem deixas Iulo pequeno. jamais contemplada. O pai Anquises. deslizar pelos tetos das casas bem feitas e no Ida augusto apagar-se. tomados de espanto. a nadarem no sangue anegrado uns dos outros? Trazei-me as armas ! A luz derradeira já chama aos vencidos. Enquanto Ascânio se achava nos braços dos pais. o pai velho. os pés me abraça. sob vossa potência está Tróia segura. Pronto ! partamos ! agora ! depressa ! para onde quiserdes ! Ó pátrios deuses. Pelo prodígio vencido. confirma este augúrio feliz e nos salva ! Mal de falar acabara. corremos a fim de salvá-lo. cuida primeiro da casa. O agoiro é vosso. 664 . meu filho Ascânio. e parecia adensar-se um pouquinho na fronte pequena. Com isso. o filhinho querido ao seu pai apresenta: Se à Morte corres. não partas sozinho. E já ia transpor a soleira de casa. a um prodígio assombroso assistimos. então. e jogamos água nas chamas sagradas. e se inclina ante a estrela sagrada. salvai meu netinho. sem dano fazer-lhes. transbordante de júbilo os olhos volve para o alto e elevando as mãos ambos alegre falou-nos: Júpiter onipotente ! se as preces dos homens te abalam. para mostrar o caminho a seguirmos. Mas. meu filho. e sem dó nem piedade assassinados achar minha esposa Creúsa. teu velho pai e a que um dia chamaste de esposa extremosa? Com tais queixumes enchia de dor até ao teto o aposento. se ainda tens esperança na força e nos braços. sim. em falta de novos recursos. o broquel na sinistra. no tempo em que as trevas da noite uma estrela de claridade inefável cortava. não mais. Apavorados.703 . guardai esta casa. na espessa floresta do monte. a morte apressemos. Vimo-la. as deidades invoca do alto e lhes fala. Na sala percebe-se cheiro de enxofre.46 ENEIDA para encontrar minha casa invadida. e um trovão retumbou pelos vales do lado esquerdo. a espada de novo seguro. quando se me atravessou justamente no umbral minha esposa. nem faço objeção em seguir-te. Não mais resisto. bem adaptado. deixai-me rever os combates enrubecidos. todo prantos. vinguemo-nos deles. vimos de subido alçar-se de sua cabeça uma chama que mui por cima os cabelos lambia. e se acaso piedade te merecemos. meu pai se levanta.

Creúsa querida. por injunção do Destino ou rendida talvez de cansaço. servidores. que até há pouco enfrentava sem medo os projéteis dos gregos e os batalhões de inimigos. venha o que vier. me gritou: — Foge. ouvi quanto passo a dizer-vos Numa colina ao sair da cidade há um templo de Ceres abandonado. mísero ! minha mulher extraviou-se. Da mão me tomando do lado direito. Atrás a esposa me segue. e me espanto com um barulhinho. no tempo em que as fortes muralhas aos poucos cediam e os turbilhões da fogueira até perto de nós rodopiavam. atemorizo-me agora com o mais leve sopro. Passando os caminhos sabidos sem vê-los. Por diferentes caminhos devemos reunir-nos lá mesmo. filho ! Depressa ! Estão perto ! Vejo brilhar os broquéis. Assim falando. E quanto a vós. sem tino. té não chegarmos ao teso indicado e o sacrário de Ceres. Ao meu lado acompanhe-me Ascânio. mui crente de havermos ultrapassado os perigos. Iulo procura igualar-me na marcha. Não sei dizer. pois para ambos a salvação será a mesma. correremos perigos iguais. Meu pai. e ali junto um cipreste de muitos invernos. E eu. sem medo. Ali reunidos. à matroca. Vamos. Nunca mais estes olhos puderam revê-la. e eis que ouço. leva os pátrios penates e objetos do culto. não poderei tocar neles enquanto nas águas de um rio não me lavar. de fortes e densas colunas. caro pai. as espadas reluzem no escuro ! Desde esse instante não sei que deidade inimiga turvou-me o entendimento. e pouco atrás a consorte me siga de perto. esforçando-se para ver claro na escuridão. ao filhinho querido. brinquedo de criança é o teu peso. parece-me. que a devoção dos troianos conserva com todo o respeito.LIVRO II Disse. ao marido. Tu. Desta matança terrível havendo eu saído de pouco. e abaixando-me um pouco. paizinho ! Segura-te no meu pescoço e não caias. recebo a carga. 704 . por causa da carga e dos meus companheiros. Destarte marchamos no escuro. Vou carregar-te nos ombros. somente ela entre todos faltava aos companheiros de fuga. passei no pescoço e nas largas espáduas o manto e a pele de um fulvo leão. e por vielas esconsas tomando. O pensamento ou o olhar não volvi para trás um momento.743 17 . amiudando os passinhos. passos precipitados. À vista já me encontrava da porta. por fim.

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Fora de mim, a que deus não culpei, a quem mais entre os homens? Calamidade maior onde eu vira nas ruinas de Tróia? O pai Anquises, Ascânio, os troianos penates aos sócios logo encomendo e os abrigo na curva de um vale sombrio, e a fulgurante armadura vestindo, retorno à cidade, disposto a os riscos de novo enfrentar, percorrer toda a Tróia, e sobre a minha cabeça chamar novamente os perigos. Primeiramente, às muralhas retorno e à passagem secreta por nós usada à saída, e no escuro procuro vestígios de nossos passos, a vista alongando por todos os lados. Horror é tudo; o silêncio geral nos aterra e deprime. A minha casa, depois; quem nos diz que ela não se tivesse lá refugiado? Tomada dos gregos, os quartos vazios. As labaredas, agora tocadas dos ventos, subiam até à cumieira; ultrapassam-na; somem no céu escampado. Vou mais além e revejo o palácio e o castelo de Príamo. Logo na entrada, no asilo de Juno e nos pórticos ermos, Fênix e Ulisses, o mau, como guardas ali se encontravam do espólio opimo. Amontoada, a riqueza de Tróia se via, templos saqueados, as mesas dos deuses, as mais belas copas de ouro existentes, e vestes e adornos dos pobres cativos. Ao derredor, em fileiras, morrendo de medo, os meninos, mães desoladas. Aventurei-me até mesmo a gritar no deserto sombrio; naquelas ruas vazias, tomado de angústia indizível chamei, chamei muitas vezes Creúsa, a bradar por Creúsa ! E enquanto assim me excedia, a rever os palácios e as casas, um simulacro infeliz ante os olhos me surge, a inefável sombra da minha Creúsa, de muito maior estatura. Tolhe-me o susto, os cabelos se eriçam, a voz se me embarga. Ela, afinal, me falou, procurando alentar-me com isso: Por que te entregas, esposo querido, a essa dor excessiva? Tudo o que agora acontece se passa de acordo com os planos das divindades. Levar não podias de Tróia a Creúsa por companheira. Isso impede o senhor poderoso do Olimpo. Longos exílios te estão reservados, o mar infinito. À terra Hespéria porém chegarás, onde o Tibre da Lídia corre sinuoso em campinas povoadas por fortes guerreiros. Ali te aguardam sucessos felizes, um reino e uma esposa de régia estirpe. Consola-te, pois, de perderes Creúsa. 744 - 783

LIVRO II Não entrarei nas soberbas moradas dos dólopes feros, na dos mirmidones, nem servirei às matronas argivas, pois, natural de Dardânia, sou nora de Vênus augusta. A grande Mãe das deidades do Olimpo aqui mesmo me guarda. É tempo; adeus ! O filhinho comum, guarda-o bem no imo peito. Tendo assim dito, deixou-me choroso e querendo dizer-lhe quanto no peito abrigava. Nas auras sumiu de repente. Três vezes quis apertá-la no peito, cingi-la nos braços; três me escapou dentre os dedos, no instante em que a tinha bem presa, tal como a brisa sutil ou imagem vazia dos sonhos. A Noite ao fim já chegara quando eu retornei para os sócios, tendo observado que o número deles crescera por modo extraordinário, de espanto causar: mães idosas, guerreiros, gente mais nova, infeliz multidão para o exílio dispostos. De toda a parte acorriam com os restos salvados da guerra, todos dispostos a irem comigo para onde os levasse. O matutino luzeiro já do Ida alcançara as alturas e conduzira a manhã. As estradas os gregos guardavam. De resistência já não nos restava nenhuma esperança. Cedi à sorte; e a meu pai carregando, subi para o monte.

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e ao mar alto me entrego. A mãe Dionéia e às demais divindades do início das obras fiz sacrifícios na praia sonora e imolei à deidade máxima dos moradores do céu um belíssimo touro. sem próspero auspício. em terra a soberba Ilio. o filho amado. se encontra uma terra dicada a Mavorte. do fero Licurgo. conforme o meu nome. da terra por todos ansiada. Ao pé justamente de Antandro e do Ida augusto da Frigia navios bastantes construímos. exilado. Um combro havia ali junto. os penates e os deuses maiores de Tróia.ENEIDA Livro III Quando aos eternos aprouve destruir sem motivo o invejável império d'Ásia e a progênie de Príamo. com cerejeiras silvestres e mirto de ramos trançados. Defronte. por injunção dos agouros nos vimos lançados no exílio. com os sócios. 1-23 . faz tempo. ao longe. Reunimos gente. a chorar. deixo os portos as praias e os campos onde foi Tróia. Para lá me dirijo e na praia curva o traçado risquei de um povoado. para buscar novas terras. sem rumo certo. e meu pai insistir para os panos soltarmos. e a os habitantes Enéadas chamo. e em ruinas ardentes a Tróia netúnia mudada. nada sabendo dos Fados. e ao notarmos sinais de certeza de início da primavera. grato agasalho dos nossos nos lares amigos. que os trácios aram regida. enquanto boa a Fortuna nos foi. de moitas variadas coberto.

ENEIDA Nele me achei certa vez; porém quando tentava alguns ramos do solo pingue arrancar para as aras cobrir de folhagem, prodígio horrendo me surge ante os olhos, tolhendo-me a fala: ao fazer força e arrancar do chão duro o primeiro raminho, gotas de sangue anegrado escorreram, manchando de pronto todo o terreno de pingos escuros. Horror tiritante gela-me os braços; o sangue sem vida coagula nas veias. Mais uma vez tento um ramo puxar de outro arbusto ali perto, para auscultar o segredo latente daquele prodígio: gotas mais negras escorrem do galho sacado com força. Mil pensamentos me ocorrem; às ninfas agrestes suplico, ao pai Gradivo que os campos fecundos dos getas protege, para que aquele presságio trocassem em próspero evento. Mas, na terceira investida, ao forçar o raminho mais firme, na areia branca os joelhos fincando, apoio seguro — di-lo-ei ou não? — do mais fundo da terra saiu um gemido lacrimejante, e aos ouvidos me chegam palavras sentidas: Por que laceras, Enéias, um ser infeliz? A um sepulcro poupa; não manches com um crime essas mãos abençoadas. Em Tróia também nascido, não somos estranhos. As plantas não sangram. Ai ! Foge destas paragens malditas, da terra mesquinha. Sou Polidoro; caí neste ponta crivado de dardos, que no meu corpo cresceram demais, para meu sofrimento. De horror tomado indizível, e o peito oprimido, de espanto não me mexi; os cabelos em pé, não dizia palavra. Foi este filho de Príamo aquele infeliz Polidoro que, havia tempo, com um grande tesouro o monarca mandara para o rei trácio educar, quando o cerco de Tróia apertava cada vez mais e ele o fim desastrado bem perto sentia. O rei, tão logo os sinais percebeu da mudança dos Fados, às vencedoras falanges aquivas aliando-se, as hostes agamemnônias, os pactos quebranta, degola o menino e do tesouro se apossa. A que extremos não forças os homens, fome execrável do ouro ! — Refeito algum tanto do susto, procuro os chefes eleitos do povo, a meu pai antes deles, e lhes relato o prodígio, pedindo um conselho para isso. A uma voz dizem todos que o solo poluído deixemos, o santo hospício manchado, e que as naves de novo se empeguem. A PoIidoro, primeiro, prestamos as honras funéreas. Monte elevado de Terra erigimos, altares aos manes, 24-63

LIVRO III

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infulas de cor azul para o luto e ciprestes escuros: ao derredor, as ilíadas, soltos os belos cabelos como de praxe; crateras de tépido leite vertemos. sangue das vítimas sacrificadas. Na tumba encerramos a alma do amigo e em voz alta lhe demos o adeus derradeiro. Mal adquirimos confiança no mar, quando os ventos às ondas deram sossego e o sussurro dos austros a todos chamava, os companheiros as praias encheram e as naves soltaram. Ao longe o porto nos fica; deixamos a terra e as cidades. Ilha graciosa se eleva no m e i o do mar, dedicada à mãe das belas. Nereidas, ao divo Netuno do Egeu. Antes, errava por costas e praias, até que o potente Asseteador a fixou entre Giaro aprazível e Mícone, para que, imóvel ficando, aprendesse a enfrentar as tormentas. Desembarcados ali, recebeu no seu porto tranqüilo os navegantes cansados. .Saudamos o burgo de Apolo. Ânio, de Pelos o rei, sacerdote de Febo ali mesmo, fronte cingida do régio diadema, do louro sagrado, veio encontrar-nos e a Anquises de pronto, seu velho comparsa reconheceu. Apertamos as mãos; ao palácio subimos. Adoro Apolo em seu templo vetusto e esta prece lhe envio: Morada própria, Timbreu, nos concede, socorro aos feridos, às gerações pouso estável. Em nós, outra Pérgamo salva, restos roubados aos gregos, à cólera imana de Aquiles. A quem seguimos? Aonde ir aconselhas? A sede assentarmos? Dá-nos agouro, Senhor ! ilumina estas mentes cansadas. Mal concluíra, e de súbito quis parecer-me que tudo tremia à volta, a porta do templo, o loureiro divino, o próprio monte em redor, a mugir a cortina lá dentro. Tontos, prostramo-nos; estas palavras então percebemos: Valentes filhos de Dárdano ! a terra primeira que a estirpe de vossos pais engendrou há de em breve ao seu seio acolher-vos, quando voltardes para ela. Buscai, pois, a mãe primitiva. Ali a casa de Enéias o mundo de um polo a outro polo dominará, de seus filhos os netos e seus descendentes. Essas palavras a todos reanima. A uma voz perguntamos para onde fosse preciso guiar nossos passos errantes, a fim de a terra alcançarmos da origem dos nossos maiores. Então, meu pai, evocando memórias da própria família: Chefes troianos, nos diz, conhecei vossas íntimas vozes ! 64 -103

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ENEIDA

A ilha de Creta se encontra no meio do mar, do alto Jove pátria sagrada; no centro, o monte Ida, dos nossos o berço, por cem cidades formosas povoada e de solo ubertoso. Teucro, o mais velho dos nossos avós, caso ainda me lembre de quanto ouvi, foi quem viu antes de outro as paragens retéias e os fundamentos lançou do seu reino. Nem Ílio nem Pérgamo ainda existiam; os homens moravam nos vales profundos. Daí nos veio de Cibele o culto, os timbales sonoros dos coribantes, mistérios do Ideu, o silêncio sagrado, e a bela junta de leões atrelados ao carro da deusa. Adiante, pois ! e cumpramos confiantes as ordens divinas. Propiciemos os ventos, e os reinos de Creta busquemos. Não distam muito; contanto que Júpiter nos favoreça, na luz terceira estarão nossos barcos nas praias cretenses. Disse; e nas aras imola o holocausto devido às deidades: touro a Netuno do mar; para ti, belo Apolo, mais outro; à tempestade uma negra cordeira, e uma branca aos bons ventos. Corre a notícia recente que, expulso dos reinos paternos, Idomeneu se ausentara, deixando desertas as praias da ilha de Creta, vazias as casas, o imigo distante. Do porto ortígio saímos, e o mar perigoso cortando, Naxo deixamos com suas bacantes, a verde Donisa, a nívea Paros, Oléaro e o mar salpicado das Cicladas, e multidão de outras ilhas e estreitos que ao longo se perdem. Os marinheiros, no seu entusiasmo à porfia conclamam para chegarmos à Creta dos nossos avós sem demora. Com vento à popa, reforço abençoado, emissário celeste, prosperamente chegamos às praias dos fortes Curetas. Sem perder tempo, assentamos as bases do burgo auspicioso, de nome Pergamo. Alegres os moços com o nome escolhido, exorto todos a um belo castelo construir ali mesmo. A maior parte dos nossos navios já estava no seco, e a mocidade, nas lidas do campo e do amor ocupada, dando-lhes eu casa e leis, quando em cima de nós, de inopino, nos cais um ano pestífero, os ares corruptos, nocivos aos seres vivos, às árvores, às sementeiras mofinas. Os que ainda vivem, minados de doenças mal podem mover-se. O ardente Sírio com os raios os campos estéreis arrasa; secam-se as ervas; queimadas, as searas seus frutos nos negam. Nessa aflição, exortou-me meu pai a que os mares de novo 104 -143

com ternas palavras. presto falou: — Filho. na bela Ausônia. pois Jove te nega as campinas de Creta. clemência implore. para contar-lhe por ordem dos fatos o que se passara. Somente Cassandra tais coisas me disse. ora manda 'que te anunciemos. porém de figuras verazes diante de mim. Cumprido esse grato dever. que tudo confirma: dirija-se a Córito. A ambígua prole de pronto assinala. a Dardânia incendiada. pelos enótrios outrora povoada e que seus descendentes o nome Itália puseram. seu novo engano. Por isso mesmo. de frutos opimos. Eis nossa pátria. abordarmos. os trabalhos das armas contigo participamos e o risco enfrentamos das ondas revoltas.L I V R O I II 85 corte e consulte na Ortígia os oráculos de Febo Apolo. para o alto céu. conhecidas feições. os sacros penates dos deuses que eu carregara de Tróia através da cidade incendiada. nem disse que fosses a Creta. acorda ! e ao pai velho transmite sem mora a notícia alvissareira. Força é mudares de assento. 144 -183 . sim. por efeito da claridade da lua então cheia. dos gregos Hespéria chamada. os dois troncos da casa. meus votos ardentes. os mortais se entregavam ao sono agradável. Nós. forte nas armas. nem Febo indicou-te estas plagas para a cidade fundares. os fados adversos de ílio te oprimem. como alcançarmos remédio. a que praia. aliviar procuravam meus grandes cuidados: Tudo o que Apolo frecheiro queria dizer-te. de um forte caudilho primevo. teus netos poremos acima dos astros e á sua pátria daremos o império do mundo. afinal. Levanta novas muralhas: não cedas jamais ao cansaço do exílio. de lá saiu Dárdano e nosso ascendente Iásio. Noite serena. terra antiqüíssima. Nisso. gélido suor me banhava nessa hora dos pés à cabeça — salto do leito. corro a Anquises. Há uma região muito fértil. as mãos ambas levanto. bem nítidos. os penates dos frígios. sacras vendas na fronte. e no lar sacrossanto dons puros derramo. Vamos. Para isso enviou-nos à tua morada. como de praxe. progênie mui certa dos fortes maiores de antanho. o remate nos diga de tantos trabalhos. que pela janela dos aposentos entrava. segundo me parecera. Mas. ao fundir numa só duas terras diversas. Atarantado com aquela visão e as palavras dos deuses — não se tratava de sonho. recompondo-se. me apareceram em sonhos.

Jamais saíra das águas do Estige. Depois. nem do roteiro podia lembrar-se no meio das ondas. com a noite escura e tormentas.56 ENEIDA lembro-me bem. As trevas as ondas cobriram. meio às tontas vogamos nos mares. e aos deuses — a Jove primeiro — parte da presa ofertamos. só de medo. pela praia recurva 184 . Todos nós o aplaudimos. três noites feias erramos sem uso fazermos dos astros. monstro mais triste nem peste execrável: cara de virgem em corpo de pássaro. fugiram. espalhados por toda a parte. no mar tenebroso vogamos. no pélago. e rebanhos de cabras nos pastos virentes. que ela por vezes chamava de Hespéria. abandonamos depressa tais sítios. por vezes de Itália. ao falar destes reinos devidos aos nossos. avistamos nas belas campinas gratas manadas de boi sem nenhum pegureiro. A cerração. Os marinheiros as velas amainam. por ordem dos deuses na sua cólera. Quando já estávamos longe. primeiro as Estrófades me receberam. uns poucos ficaram. três dias sem sol. para o alto atirando ondas grandes. o vento as águas agita. No quarto dia porém acertamos de ver no horizonte sinais de terra: mui longe. Dispersa a armada. Deixando o rumo sabido. sem mais indícios de terra alguma — por tudo em redor. Assim falou. cobre o dia. as mãos têm como garras. quem diria que um dia os troianos à Hespéria chegassem? E acreditar quem podia nas falas da pobre Cassandra? Obedeçamos. depois de se verem privadas da mesa farta do velho Fineu. com os lenhos cavados varremos as ondas. do céu nos afasta o aguaceiro. Mal nos pegamos em terra. espumas batem com força. De espada em punho investimos. dos remos se apossam. duas ao todo. Velas soltamos. no Jônio vastíssimo. Assim. varrendo a cerúlea campina. ininterruptos relâmpagos traçam seus riscos nas nuvens. por serem morada da crua Celeno e outras harpias funestas. fétido fluxo lhes sai do ventre. Nem Palinuro consegue saber quando é dia ou se é noite. Ao Fado obedientes. assim pelos gregos denominadas. Com Eebo por guia.223 . jogados nos vimos de um lado para outro. Salvo das ondas. alguns montes e nuvens de fumo. outro rumo tomemos. Mas. o amplo céu e água funda — surge por cima de minha cabeça uma nuvem cerúlea. o rosto denota fome canina.

e grasnidos. fedor espalhando ao redor. Restou Celeno. e logo me revelou. Meu pai Anquises. e a presa desfalcada abandonam. alça o vôo e à floresta se acolhe. de árvores grossas fechada. rapidamente se esquivam. invoca os numes e as honras prescreve que o caso exigia: Deuses do céu. eu.LIVRO III 57 leitos pusemos e alegres o opimo manjar devoramos. galgando as alturas celestes. do meio da praia levanta as mãos ambas. Com prósperos ventos heis de alcançar por sem dúvida a Itália longínqua. Porém a espessa plumage' as livrava dos golpes certeiros. Tal como eu disse. que foi assentar-se no pico da rocha. então. fizeram. tudo corrompem. Tudo o que Apolo aprendeu com o mais forte dos deuses. progênie de Laomedonte? E. infeliz profetisa. vos conto. Vossos anseios à Itália vos levam. conjuntamente com o fogo e os altares em gruta profunda. no meio das ervas rasteiras ocultam suas espadas. com ódio e amargura externou-se : Guerras? depois de matardes meus bois e vistosas ovelhas. quer sejam deusas aquelas criaturas ou aves nocivas e imundas. mal ouviu do seu posto de esculca Miseno o barulho tão conhecido. E. então. às inocentes Harpias. e voando por cima da nossa comida.263 . surge o bulhento cardume de seus buracos. na praia a rolar. para com votos e preces pedir paz condigna. o que tenho a dizer-vos. de todo poluída. quando menos cuidávamos. Mais uma vez. de lutar com suas armas desistem. determino pegar em armas e guerra sem tréguas levar a esses monstros. com vôo estridente de um bater de asas medonho as Harpias. haveis de roer até as mesas. donde. Mas. Mas. do reino dos seus genitores? Ouvi. com sombra discreta lá dentro. bem distante dali refizemos a mesa. das Fúrias a mais poderosa. por cima. que tudo desmancham. de medo sentiram gelar-se-lhe o sangue. 224 . Aos sócios. de repente dos montes nos baixam. tudo emporcalha com as unhas. apartai esta ameaça ! De tal desventura. Mal acabou de falar. Mas. quereis expulsar-nos. antes mesmo de vossa cidade querida dos deuses de muros altos cingirdes. Os troianos investem e luta iniciam jamais sabida: com ferro ferir umas aves nojentas. O ânimo lhes faleceu. Meus companheiros. sem nada ocultar-vos. broquéis ajeitados para isso. da trombeta recurva solta o sinal.

Dulíquio e Samos e Nérito toda cercada de rochas. à praia abicamos. Ledos de em terra pisar contra toda a esperança. ferimos as ondas espúmeas. a planície varreram. a pátria de Ulisses nefando. desnudos os corpos e untados de azeite.58 ENEIDA deuses. Logo perdemos de vista os merlões altanados dos feácios. Fiquei pasmado. Soltas as âncoras. Por belo acaso. Com desposar a viúva do eácida Pirro. Logo da liniha nos surge Leucate de cumes nimbosos e o promontório de Apolo. sem risco. ao burgo modesto subimos. nas margens de um falso rio Simoente encontrava-se Andrômaca. formado de céspede verde. a outro esposo troiano ligara-se Andrômaca. permanente motivo de choro. e escapado da fúria dos fortes argivos. travam-se. em gregas cidades reinava. que Abante apenas usara. of'recemos votos a Jove e acendemos as chamas lustrais nos altares. Subo à cidade. alegres de terem passado por tantas cidades gregas. e pelas costas do Epiro seguindo chegamos ao belo porto Caônio e dali sem demora à cidade Butroto. de seus arrecifes. De Itaca reino de Laertes fugimos. ele o cetro também ganhara. Lassos. o gigante. amaldiçoada por todos. votos solenes a oferecer e presentes funéreos às cinzas de Heitor. livrai-nos ! Salvai nossos filhos ! — E logo dá ordem para as amarras de terra colher e soltar o velame. o sol concluíra seu circulo grande. filho de Príamo. Mais do que estranhos rumores enão os ouvidos nos ferem: que Heleno.303 . Mando os remeiros o porto deixar e ocupar os seus bancos. Já pelas ondas banhada aparece a selvosa Zacintos. Nesse entrementes. na direção prosseguindo que o vento e o piloto indicaram. proas enfeitam as praias sonoras. sobre o seu túmulo inane. temido dos nossos marujos. Na praia de Áccio os desportos troianos então celebramos: os companheiros. Batem os sócios o mar à porfia. Noto enfunou logo as velas. e senti no imo peito desejo veemente de com Heleno falar e saber a verdade daquilo. não longe do burgo. e o negro inverno com ventos furiosos o mar encrespava. Nas portas cravo do templo um escudo de côncavo bronze. 264 . com dois altares a par. deixando na praia os navios recurvos. e um só verso lhe aponho: Este troféu por Enéias foi ganho na guerra dos gregos.

sobre construir neste cerro outra Pérgamo. em voz baixa me deu a seguinte resposta: Mais do que todas feliz foi a virgem nascida de Príamo. debaixo dos altos muros de Tróia. havendo corrido atrás de Hermione neta de Leda. O calor abandona-lhe os membros. Mas. . Só muito tempo depois. podes crer-me. a figura? Notícias verídicas trazes. a chorar sem parada e proveito se desfazia. mal consegui formular as seguintes palavras sem nexo: Ainda e sempre amarrado a uma vida de dor e trabalhos. levada por mares sem conta. Sim. nem foi sorteada nem nunca na qualidade de escrava subiu para o leito de um dânao. Porém furioso por ver que lhe roubam a noiva extremada. nisso saiu das muralhas Heleno. do varão Cáone. Morto Neoptólemo.343 . recobrada do susto. e pelas Fúrias Orestes tomado. que. filho de Príamo. ilíacos muros. a dor sofri de parir como escrava. Andrômaca: Heitor já não tendo. estuporada caiu. ao lado das aras o mata. mesmo. que o nome de Caônia impôs logo a esta terra. aterrada com a vista daquele fantasma. pois. 304 . elegeu uma esposa lacedemônia e a Heleno seu servo me deu como escrava. seus territórios em parte couberam ao próprio Heleno. seu pai. forte troiano. que ventos. e o de Heitor. também tio o esforço antigo e a ombridade a imitar porventura o estimula? Dessa maneira a coitada. que Fados amigos aqui te trouxeram? Ou que deidade atirou-te a estas plagas. Recordações dolorosas conserva da mãe falecida? O nobre exemplo de Enéias. a serviço da imensa brutalidade do filho de Aquiles. me disse: É tua. sou eu. sem mesmo o saberes? O que foi feito de Ascânio? Ainda vive? Ares puros respira? Nasceu no tempo em que Tróia. Perdida a pátria nas chamas. pertences a Pirro? Rosto abatido.L I V R O I I I Quando me viu a avançar. condenada a morrer sobre um túmulo imigo. filho da deusa? Ainda vives? Se morto iá estás. caiu de inopino sobre o ímpio filho de Aquiles. Ah ! de que modo caíste da altura a que havias chegado com teu marido? Ou que acaso feliz te premiou novamente? Dize-me. Confuso com o seu sofrimento. e de pronto a armadura troiana reconheceu. que é de Heitor? Assim dizendo. . Porém. num pranto incontido explodiu e o vizinho bosque inundou de clamores.

então. com sua linguagem nefasta. as auras convidam a navegar. nas cintilantes estrelas. falou-me: Filho da deusa. dos deuses intérprete. me prenunciou um prodígio inaudito. os auspícios mais altos me dão a certeza de que amparado o mar fundo navegas. entrecortando com lágrimas as expressões de amizade. impossível de crer-se: a adominável ameaça da fome que nunca se farta. Como fazer para alfim sobrepor-me a tão grandes trabalhos? Heleno. e os vários portos que entrar imaginas. para que mares amigos e certos encontres nas tuas divagações e consigas fundear num dos portos da Ausônia. pois as Parcas e Juno Satúrnia mo impedem. todos os numes concitam-me a ir em demanda da Itália. Antes. é certo. Da mesma maneira. Perto dali uma Tróia modesta revejo e muralhas baixas de Pérgamo e o leito arenoso de um riacho. O rei a todos recebe num pórtico de ampla acolhida. silentes. Pouco direi dentre o muito que fora preciso saberes. 344 . os troianos se regozijam com a vista daquela cidade tão nossa. no vôo e no canto das aves ! Fala e me instrui. Somente a harpia Celeno. essa Itália almejada e tão perto. por serem vizinhos. Então. e pela mão me tomando conduz-me ao limiar. E. com mais força no cárbaso sopra-nos Austro. Em pratos de ouro é servido aos troianos um lauto banquete. teus remos terão de dobrar-se nas ondas trinácrias e teus navios riscar as salgadas planícies da Ausônia. o outro Xanto. dirijo-me ao Vate e lhe faço as seguintes perguntas: Filho de Tróia. que nos revelas o pensamento de Febo nos lauros de Claros e a trípode.383 .60 ENEIDA filho de Príamo. ante cuja solenidade senti-me acanhado. inspirado. aos seus reconhece e com júbilo ao paço os dirige. do teu santuário. Taças em punho libavam a Baco no meio da sala. para encontrar em paragens remotas a pátria dos sonhos. longos caminhos e mares impérvios de ti os separam. Os oráculos boa viagem me auguram. a ajuda dos deuses depreca. De pronto. da fronte desata as ínfulas. seguido de séquito grande. Pouco há de ser. Para contar do começo. pós haver imolado de acordo com o rito algumas reses. Assim seus desígnios o pai dos deuses dispõe e sorteia. As portas Céias abraço. Febo Apolo. Passa-se um dia e outro dia. Essa é a ordem das coisas.

mas separaram-se súbito num rompimento espantoso — tão poderosa é a passagem dos anos para essas mudanças ! — da costa Hespéria ficando a Sicília ali mesmo apartada por um canal. Quando os navios. Mais além. è deparares deitada na sombra de bela azinheira uma alva porca com trinta leitões ao seu lado.423 . para que alfim a cidade consigas fundar no chão firme. Filoctetes. já salvo. evita estas plagas. por nossos mares banhadas no seu balanceio diuturno. cujas ondas agora as campinas açoitam de ambos os lados. Teus companheiros e tu observai essa prática sempre. na esquerda a implacável Caribde. escondida no bojo de negra espelunca. grande circuito farás sempre à esquerda. Quando apreensivo esüveres nas margens de um rio sem nome. e a estreita abertura do cabo Peloro. para evitar que entre as chamas sagradas em honra dos deuses se te apresente algum rosto inimigo e o agouro perturbe. da bela Sicília. 384 . da costa acautela-te à tua direita.LIVRO III 61 do Inferno os lagos passar e também a ilha eéia de Circe. caudilho extremado de Melibéia. Dou-te os sinais. e as salentinas planícies ocupam os homens do líctio Idomeneu. de fortes muralhas. três vezes para o alto as atira. Não te preocupes por causa da fome de roer até as mesas. deitados no chão a mamar com sossego: esse será o local da cidade. abruptamente a chupá-las. bota a cabeça de fora e os navios às. Quando. três vezes as ondas atrai para o báratro escuro. habitadas estão por acaios maldosos. terminado já houverem seu curso. Contigo Apolo. singrando nos mares do lado esquerdo. Contudo. como é justo fazeres. e com fervor religioso o costume os vindoiros preservem. as terras da Itália aqui perto. o descanso almejado. da mesma cor da mãe branca. pedras atira. Petília fundou de vizinhos distante. na praia. açoitando com elas os astros distantes. cobre os cabelos na forma ritual com um véu purpurino. Cila domina à direita. Esta. Dizem que outrora estes dois continentes um todo faziam. ao deixares o Epiro. levarem-te os ventos às plagas sicilianas. na memória os retém. Ali os locros Narícia fundaram. hão de os Fados achar o remédio adequado. e para os votos cumprir te aprestares. porém. cidades da Hespéria. sem descansar. Foge daqui. enquanto Cila.

deixando atrás a Sicília. deixando-os depois arrumados na cova. na mesma ordem do início persistem. Os povos todos da Itália. na Itália saltar sem trabalhos. lagos divinos. com teus atos eleva até os astros o nome de Tróia. terás boa viagem. muito embora isso alongue o percurso. se concedes a Heleno saber e prudência. sob uma rocha e os orac'los transcreve em folhinhas delgadas. porque finalmente consigas. a ver de longe uma vez a terrível caverna de Cila com seus cachorros marinhos e os ladros difíceis de ouvires. quando a porta se entreabre e algum vento essas folhas remove do lugar certo e as dispersa por tudo no vasto aposento. a cidade de Cumas procura. como evitar os trabalhos ou o meio melhor de sofrê-los.62 ENEIDA Tem a primeira feições quase humanas. Em terra-firme de novo. Se souberes falar-lhe. te contará. Antes de ouvir a Sibila não partas. moção favorável por tudo soprando. Mas. com cauda dupla de lobo em barriga de imano golfinho. teus votos dirige ferventes a Juno. me inspira e na mente me infunde seus vaticínios. dileto filho de Vênus. os bosques do Averno de sons agradáveis.463 . 424 . variados objetos de prata. Aconselhável será. e a profetisa inspirada que as coisas futuras conhece. sendo que Apolo. por baixo. pragas jogando à Sibila. té que resolva a falar-te e sem peias te mostre o futuro. as batalhas em que hás de medir-te. cetáceo disforme. a boa-vontade daquela deusa angaria. busto de virgem donosa. belo marfim trabalhado. e senso emprestar aceitável aos seus vaticínios. Além do mais. Os consulentes retiram-se. Antes de todas. Os vaticínios guardados assim pela virgem nas folhas. que importa explicar-te com muita insistência. Pós ter falado as palavras amigas. em verdade. ainda que teus companheiros murmurem e os ventos convidem a soltar velas. ela os coordena. Eis tudo quanto me é lícito neste momento dizer-te. os seus vaticínios. e até meio corpo. ir até ao cabo Paquino e estender à Sicília o roteiro. Vai. apenas dir-te-ei uma coisa. Heleno a seus homens manda levar para as naves de proas recurvas muito ouro. não mais se importa a Sibila de as folhas repor na mesma ordem de antes. sem se moverem dali. Nunca lastimes o tempo exigido para esses rodeios. Com tua súplica e dons numerosos.

o Epiro conjuntamente com a Hespéria. Fique mais isso aos cuidados dos netos. Se me for dado alcançar algum dia as paragens do Tibre. para que os ventos de bem navegar em ação logo entrassem. impedindo que os ventos te ajudem? Acabrunhada. terás de cortar muitas águas bravias. esse rosto era o dele. Na adolescência risonha de agora contigo entraria. Só tu a imagem me lembras do meu falecido Astianacte: assim. antes disso. Dá-nos remeiros também. desse modo falava. despedi-me de todos com estas palavras: Vivei felizes. Andrômaca trouxe não menos ricos presentes. Era no tempo em que Anquises mandava aprestar os navios. Sem se conter. quero que nossas cidades. ó vós que alcançastes a paz almejada. O sacerdote de Febo com vozes corteses lhe fala: Ó tu. também. de saudades. Meu pai ganhou prêmios valiosos. e de sua sempre lembrada amizade. Adiante. Nosso destino nos leva a vogar por paragens ignotas. no convés amontoados a rodo. supre os sócios das armas precisas. vestidos com áureos bordados. de iguais reveses provados. vai tomá-la nas naves.LIVRO III 63 uma loriga de tríplice malha dourada. nem buscar essa Ausônia que sempre nos foge. 464 . Mas. Tendes à vista uma imagem do Xanto. esposa de Heitor. esposo acatado de Vênus. São dons dos teus últimos primos. Anquises. como lembrança de Andrômaca. dodôneos vasos do louro metal. não mais navegar longos mares precisareis. em tudo unânimes. e sem perigo de um dia cair sob o assalto dos gregos. as mãos. as muralhas da Tróia por vós aqui construída com muitos e belos auspícios. e ver os campos que os Fados prometem aos meus descendentes.503 . armas de Pirro tudo isso. disse: Caro menino. querido das divindades. recebe estas prendas por mim trabalhadas. telas de fino lavor. um capacete de insigne cimeira com crista de crina. pilotos. E para ele voltando-se. que já foste salvo das ruínas de Pérgamo por duas vezes: a Ausônia está ali. e para Ascânio uma clâmide frigia. delícia dos olhos. pois ambas de Dárdano vieram. com seus moradores. pai venturoso de um filho de tanta piedade ! Por que me ponho a falar-te. longe ainda se acha a paragem da Itália que Apolo indicou-te. Tranqüilidade já tendes. E mais: cavalos. uma única Tróia construam.

Os marinheiros as velas recolhem. senhor dos tufões. e puxar na lavoura a carroça. o murmúrio das auras escuta. brancos de neve. batido das ondas. Um belo porto ao nascente se arqueia. soberba aparência. Antes de todos. Meu pai Anquises. A todos o Sono cuidoso restaura. caminho curto por mar para a Itália almejada alcançarmos. soltou da popa o seu toque sonoro. patenteia-se o porto perto dali. para isso é que os brutos se prestam. Itália ! gritou para os sócios Anquises. e no grêmio da terra querida. abicam na praia. no jeito de duplas muralhas. Itália ! a uma voz. os remeiros da guarda sorteamos para velar. Nem bem a Noite. Minerva. Seus companheiros. sombreando as montanhas da costa. no jugo unidos. só parecendo que o templo se afasta da praia sonora. defronte do altar a cabeça cobrimos. costeando de perto os penhascos ceráunios. ó terra bendita! Guerra os cavalos inculcam. sem descuidar-se de Õrião. No alto vê-se o santuário da deusa Minerva. uma copa de grande formato engrinaldou e. levada das Horas ao meio chegara do seu percurso. Porém talvez estes mesmos acabem com o tempo a habituar-se. bela esperança de paz. Desembarcados por fim. Animaram-se as tendas. Com o véu da Frigia. o sutil Palinuro saltando da cama todos os ventos explora. 504 . os mares tentamos. a primeira a escutar-nos. de vinho repleta. o curso observa no céu silencioso dos astros errantes: Arcturo. Como primeiro presságio vi quatro cavalos pascendo num prado próximo. então. que como torres se alongam. as Ursas unidas. Vendo tão certos sinais de que o céu se mostrava sereno. E o pai Anquises: — A guerra anuncias. a brandir sua espada fulgente. das procelas ! próspera viagem cedei-nos.64 ENEIDA Soltamos velas. ao repouso nos entregamos. Escorraçados os astros com a vinda do carro da Aurora. eis que avistamos ao longe os oiteiros modestos da Itália. ao freio. despertados. diante do qual dois escolhos banhados de espuma se opõem. chamou pelos deuses do alto da popa: Deuses do mar e da terra. infladas as velas. — Na mesma hora invocamos o nume da divindade potente. bons ventos soprai-nos agora ! A viração nesse em meio cresceu.543 . exclamam. Nesse entretanto o sol baixa. de novo alegres. as Hiadas núncias das chuvas.

e o templo de Juno lacínea. ento: — Certamente esta é aquela Caribde. Sem mais. Sus. faz-nos descer num momento às moradas dos mares profundos. mas o Etna troa ali perto. no meio de enormes ruínas. do fundo escuro arrancadas. quantas vezes. três mil partiram-se as ondas.LIVRO III 65 tal como Heleno o indicara. liqüefeitos. E. Bramidos fortes do mar enraivado à distância se escutam. sem nunca atinarmos-lhe a causa. nem mesmo a menor claridade 544 . Obedecemos-lhe pronto. pois nem os ventos se viam. Durante a noite. Ferve o mar fundo. na bela Trinácria. turbilhonam. outras. e abrigado dos ventos. com remos e vela à porfia se esforçam. Rota a cratera. O golfo.583 . escondidos na mata observamos aqueles inenarráveis prodígios. O Etna avista-se ao longe da praia. cinzas ardentes e chamas que os astros mui longe incendeiám. todos. Ao por do Sol. pretenda virar-se de ilharga. de medo de haver ali gregos. o escolho terrível que Heleno predisse. então. cobrindo-se o céu de fumaça. companheiros ! Aos remos agora apliquemo-nos todos. Por vezes lança para o alto uma nuvem de pez e de fumo. as vísceras brutas dos montes. é certo. como o ordenara. vozes das penhas batidas das ondas em luta perene. meio queimado de um raio. depois. toda a Trinácria murmura. e adotando seu máximo alvitre. acalmaram-se os ventos inquietos. Do mar ignaros. viramos as velas nas suas antenas e atrás deixamos as ribas. finalmente. Palinuro se apresta para cortar o mar bravo à sinistra da proa recurva. gemendo sem pausa as entranhas do abismo. a fornalha gigante tais flamas expira. saltamos nas praias dos feros Ciclopes. rociados de pingos os astros. à esquerda. de envolta sempre com brancas fagulhas em giro contínuo. caído de chofre sobre ele. Três vezes soa nas pedras de baixo o clamor das cavernas. Sem perder tempo. segundo dizem. rebaixada. ou os lança para o ar. o Cilaceu de passagem difícil e os muros de Cáulone. Uma onda grande até aos astros nos leva. Porto sereno e espaçoso. uma vez concluídos os votos solenes. as areias sem pausa a girar. cansado. estas as rochas. vomitam penhascos. Contam que o corpo de Encélado. com grande estrondo. à Juno argiva prestamos as honras sem tudo devidas. sob o Etna se acha oprimido. Meu pai Anquises. de Tarento avistamos e a bela cidade de Héracles.

dos que saíram da pátria empenhados no cerco de Tróia. despavorido deteve-se um pouco. sem trato cabelos e barba. inundando de sangue o chão duro. sem dar um passo. brutesco animal. como no solo encravado. desfazendo-se em pranto amargo. Eu mesmo o vi ressupino na furna medonha. pelas deidades celestes e este ar que a nós todos anima. teucros. No mais. Oxalá continuasse assim sempre ! No açodamento da fuga. Só se alimenta de entranhas das vítimas. quando de súbito surge das selvas espessas um vulto desconhecido. Vemo-lo: imundo até ao cerne. na cova do imano Ciclope meus companheiros deixaram-me. Mas. nos falou da seguinte maneira: Sou natural da ilha de ítaca e um dos soldados de Ulisses. na justa marcial entre os sacros penates de Tróia. dos meus companheiros. Insistimos a que nos dissesse de onde provinha. Dar-me-ei por pago se vier a morrer pela ação de outros homens. ao notar nossas armas de longe. depois de picado.66 ENEIDA o firmamento enfeitava. negra espelunca e espaçosa. — Poderes celestes. e de joelhos falou-nos: — Por todos os astros. sem maiores delongas a destra dá ao mancebo. De tal altura é o seu dono. que o céu alcança. súplice as mãos dirigindo a nós outros na praia sonora. e com esse penhor de confiança o reanima. quando ele com a mão enorme apanhou dois dos nossos mais fortes guerreiros e na parede os jogou. tirai-me daqui e levai-me para onde quiserdes. para a praia correu. no abismo insondável. era grego. rolava no chão. Mal despontara no oriente a manhã com a luz nova do dia e a bela Aurora expulsara do céu a umidade das sombras. o desgraçado. livrai nossa terra desse flagelo ! — Ninguém o conversa nem pode encará-lo. 584 . Vim para Tróia com meu pai. suja de sangue e com postas de carne por todos os cantos. O próprio Anquises. manto seguro com espinha de peixe. jogai meu corpo. Depois. Passado o medo inicial. Assim falando. Noite importuna envolvia de sombras a lua distante. meu pai. atavios dardânios. ficando a mirar-nos. pobre de bens. Não nego que fui marinehiro da armada grega. sem medida. de extrema magreza e exterior repulsivo. abraçava-me os joelhos. Aquemênides chamo-me. por tudo espalhavam-se as trevas. que Fados adversos o oprimem. sangue anegrado. seu nome.623 . Isso me basta. Se vos parece tão grande o meu crime.

em atroz pesadelo sujos despojos de envolta com vinho: nós outros. pobre gente. Bagas. Nas vossas mãos é vantagem morrer. aos numes depois de orar e sorteados os postos. a expelir pela boca. cerejas de duros caroços são meu alimento. a baixar para as notas ribeiras. de dor. e mal chega-lhe o mar a banhar a cintura. Ervas também arrancadas do chão. E assim vingamos alegres os manes dos nossos amigos. Rangem-lhe os dentes. monstro horroroso. avistei vossa armada no rumo da costa próxima. Porém fugi. tremendo de vê-los e ouvir-lhes os passos. pouco importa a maneira. repleto de carne e do vinho atordoado dobra no chão a cerviz. Avançou até ao meio das ondas d'água profunda. Mas. de todos os lados nos arrojamos sobre ele e com uma haste aguçada furamos-lhe o olho gigante. desmesurado. e cortai sem demora as amarras dos vossos barcos. Sempre a escrutar o horizonte. 624 . desde que arrasto a existência nas selvas. avistamos mover-se no cimo de um monte com seu rebanho de ovelhas a ingente e intratável figura de Polifemo pastor. seu único alívio. ao devorar ele os membros sangrentos dos meus companheiros. nem pôde o Itacense tão grande barbaridade agüentar. me servem. Deixar este inferno era tudo. Já por três vezes a lua seus cornos encheu de luz nova. a saída desses gigantes. e observo. de um monte aqui perto. disforme gigante privado da vista. Logo que o bruto. centenas de outros Ciclopes ferozes como ele vagueiam por estas praias recurvas e têm seus refúgios nos montes de em torno. Ainda sabe que Ulisses se chama. com ele se orienta. Mal terminara. Num desbastado pinheiro se apoia. sem perguntar quem seríeis.663 . estendido na imensa caverna. Como o feroz Polifemo com suas ovelhas lanzudas munge na escura caverna e enche os tarros de leite. vazado de pouco. lavou a sânie que do olho escorria.LIVRO III 67 Vi palpitar-lhe entre os dentes a carne ainda quente de vida. Cercam-no as rudes ovelhas. e logo assentei para ela passar-me. tal como o disco do sol ou escudo redondo dos gregos. por entre as desertas tocas de feras. consolo na desventura. (Do colo lhe pende uma flauta campestre) Quando se achava adentrado no mar e tocava nas ondas. que então recoberto da pálpebra estava. com raízes. não ficou sem castigo.

a geração dos Ciclopes. Acragas alcantilada mais longe seus muros ostenta. quando de súbito Bóreas começa a soprar do Peloro. que as praias e o porto logo enchem. nesse instante ocorreu-nos o sábio conselho de Heleno. È fama que o Alfeu. A esse barulho. Em sílencio cortamos as fortes amarras e. Fronteira ao rio Plemírio. Fiéis a Heleno. Algo ele ouviu. rio da Élide grega vias subtérreas percorre até vir a final a reunir-se na tua boca. soltou um berro tão forte por cima das águas revoltas. Aretusa. a fim de apressarmos a fuga. de estarrecer até as bases medrosas da bela Trinácria e de obrigar a mugir o próprio Etna nas suas cavernas. Outro roteiro escolhemos. adoramos os deuses da terra. Inenarrável pavor nos levou a soltar vela aos ventos. com o nome do rio. do golfo de Mégara.703 . bem como Gela. varremos o mar à porfia. para o lado das vozes os passos dirige. com as ondas do mar da Sicília. Por Selinunte palmosa transportam-nos. ventos ponteiros. com olhos ferozes a contemplar-nos de longe. por ele inundadas. a geradora de antanho de belos e fortes cavalos. e as planícies do Gela. o companheiro do mísero Ulisses. Concílio horrendo quais aéreos carvalhos. Mas. nos lucos de Diana. Perda fatal aguardava-nos. para levar-nos além do Pantágias de rochas abruptas. para o caminho entre Cila e Caribde evitar perigoso. percebendo que lhe era impossível chegar até aos barcos rapidamente levados nas ondas velozes do Jônio. e as campinas das margens baixas passamos do Heloro. filhos do Etna.68 ENEIDA Apavorados. No céu lhes entesta a cabeça. Vimos nessa hora os irmãos. na entrada da bela baía de Siracusa há uma ilha a que o nome de Ortígia puseram seus moradores. Essas particularidades nos foram contadas in loco por Aquemênides. fadada pelo Destino a ficar sempre fixa. das matas ocorre. ciprestes coníferos que nas florestas de Jove cresceram. mais os rochedos do cabo Paquino com suas salientes pedras. vista imponente. quando na sua elegância as mais belas alturas atingem. Ao longe também Camarina avistamos. cidade mui grande. desimpedidos os cabos. dos montes mais altos. sobre os remos dobrados. da humilde Tapso. 664 . a fuga apressamos depois de acolhermos o suplicante. Mis.

não me falou desse luto. me jogou nestas praias. pai extremoso. sim. Pondo remate na história animada. o adivinho que tantos horrores predisse. Um dos deuses. 704 . a mais cruel desventura. Anquises. O pai Enéias assim revelava a uma atenta assembléia suas andanças. sem norte na vida escabrosa. açoitado por tantas e tais tempestades. meu único amparo e consolo na adversidade. Sozinho deixaste-me.LIVRO III 69 e a Lilibéia de muitos perigos com cegos penedos. O próprio Heleno. o remate da minha penosa navegação. Nesse lugar. então. perdi meu pai. o Fado a que os deuses o haviam cingido. Drépano aqui me acolheu no seu porto e funestas ribeiras. salvo de tantos perigos. nem mesmo a funesta Celeno. Esta.716 . ao repouso acolheu-se.

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de almas gêmeas: Ana querida. a alta linhagem do herói. depois de Siqueu me ter sido roubado. dês que a Morte frustrou meu amor inocente. este. a esta primeira fraqueza talvez sucumbir eu pudesse. a úmida sombra do polo com a sua presença esfazendo. o gesto. por quantos golpes do Fado não foi agitado ! E as batalhas de há pouco? Se dentro d'alma já não mantivesse bem fixa a imutável resolução de não mais me prender com ninguém nas cadeias matrimoniais.ENEIDA Livro IV Quanto à Rainha. Que hóspede novo transpôs de inopino a soleira da porta? Como é galhardo ! Quão forte guerreiro. mas este. De tantos cuidados não dorme. ferida de cega paixão desde muito. e que braço! Creio — e bem certa estou disso — ser ele de origem divina. em verdade. os sentidos tocou-me e a vontade oscilante venceu de todo. nutre nas veias a chaga e no oculto braseiro se fina. Ana. Baixa extração logo o medo revela. 1-23 . no imo peito gravadas conserva suas palavras. O calor sinto agora da chama primeira. Fala a Rainha ferida de morte à irmã. se ao toro e aos fachos jugais não sentisse indizível repulsa. suspensa me encontro por sonhos horríveis. somente. confesso-o. meu caro esposo. e os penates manchados de cruel fratricídio. A nova aurora com a tocha de Febo alumiava o horizonte. a revolver de contínuo na mente o valor do guerreiro.

porém. Inicialmente. eu violar-te e infringir teus preceitos sagrados. com tal consórcio ! A que altura insondável a glória dos penos se elevaria. númidas feros que montam sem freios. os ferozes barceus. isso mesmo com Jarbas acontecendo e com tantos caudilhos que esta África. imolam bidentes ovelhas do rito. cerca-te a forte Getúlia. nutre. deu esperanças à mente indecisa. do outro. E a guerra com Tiro. ao padre Lieu e à legífera Ceres. Disse. quanto o reino. e de súbito banha de lágrimas ternas o peito. A formosíssima Dido tomando na destra uma copa. as reses abertas 24-63 . consigo as conserve. Esse discurso o braseiro ainda mais avivou-lhe no peito. na própria Tiro e na Líbia depois. eficaz protetora dos vínculos do matrimônio. os deuses imploram nos seus altares. o céu hostil permanece e partidos os barcos se encontram. cara irmã. Ana responde: — Ó irmã. iminente? E as tropelias do irmão? Creio em verdade que o vento impeliu a estas costas os teucros. fértil em triunfos. pretextos inventa de tê-los junto de nós todo o tempo em que Orião nossos mares encrespa. E ora queres opor-te a um desejo tão grato? Não consideras a terra a que vieste bater de pouquinho? De um lado. Juno. Como verás a cidade crescer. e a indômita Sirtes. escancare-se a terra e no abismo eu mergulhe. dias designa de tais sacrifícios. os delubros visitam. sacrifícios completa. temida na guerra. na região mais deserta por falta d'água. do que. no túmulo as guarde. e. Pudor. verte-a de pronto entre os cornos de branca novilha sem mancha. o pudor desatou-lhe. a Febo. Quem contra o peito achegou-me e colheu minhas caras primícias na mocidade. prima na hospitalidade. ou o Padre sumo com um raio me atire no reino das sombras pálidas. mais querida que a luz tão preciosa ! Na solidão e em perpétua viuvez murcharás tanto viço. ou majestosa passeia na frente dos pingues altares. no Érebo logo eu baixando. ainda. sem conheceres doçuras maternas e os dons da alma Vênus? Crês que isso importa aos sepulcros e às cinzas dos manes dos mortos? Em tua dor enjeitaste pedidos de muitos esposos. se a ajuda alcançasses das armas troianas? Cuida de os deuses propícios deixar.72 ENEIDA Antes. sob os auspícios dos deuses e o amparo ostensivo de Juno. terror dos vizinhos. até à Noite profunda.

geme por ver-se sozinha na sala. pende da boca outra vez do orador eloqüente e bem posto. mostra-lhe o burgo nascente. Pouco depois. tal como veadinha nos bosques de Creta que o caçador transfixou. à noitinha. sem rumo certo. corre a coitada. ora começa a falar e interrompe no meio o discurso. logo a Satúrnia dirige-se a Vênus com estas palavras: Alto louvor alcançais. mas sempre ao lado encravada sentindo a fatal mensageira.LIVRO IV e as palpitantes entranhas. grande espólio. com uma flecha. as torres pararam. no leito se deita que ele ocupara. Inacabadas. vencendo florestas do Dicte e arvoredos. Ó ciência vâ dos agouros ! Quê somam delubros e votos para os delírios do amor? Enquanto isso. sem que pudesse até a Fama eloqüente antepor-se-lhe à fúria. vaga insana por toda a cidade. memorável façanha nos tempos vindoiros. o fim desejado: Dido até aos ossos se abrasa de intensa paixão. de espaço examina. sem que ele consciência então tivesse do fato. toda a fábrica altiva. No seu delírio. por esse modo pensando iludir a paixão absorvente. com auspícios iguais os dois povos rejamos: Permite a Dido servir a um marido da Frigia. separados no ponto em que a lua nos priva do claro lume e ao repouso as cadentes estrelas convidam. então. o céu das ameaças descansa. por acabar as ameias. na faina dos portos. Tanto que a viu pela peste atacada a consorte de Jove. merlões. novos banquetes lhe apresta no fim da jornada. Ambas. ainda o escuta. na imagem paterna se embebe. ansiosa. tu própria e teu filho. a este o dote 64 -103 73 . Ora percorre as muralhas com o cabo de guerra troiano. retém a Ascânio no colo. a famosa opulência dos tírios. outra vez quer ouvir os desastres de Tróia. a medula enlanguesce e no imo peito a ferida se alastra sem ser pressentida. Arde a Rainha infeliz. O volátil caniço ali fica. interrompidas as obras. o himeneu realizarmos? Já conseguiste o que tanto querias. não mais se exercitam moços esbeltos nos jogos da guerra. nome sem par. irrefreável. ser uma fraca mulher por dois numes agora vencida ! Não me escapou todo o medo que nossas muralhas te inspiram. na ausência do amado ainda o vê. quanto receio já sentes dos paços da nobre Cartago ! Aonde tudo isto vai dar? Qual o fim do conflito iminente? Por que razão não firmar paz eterna.

74 ENEIDA com tua destra em mão própria darás: os guerreiros de Tiro. Para a caçada prepara-se Enéias e a mísera Dido. por tudo. De púrpura e ouro ajaezado seu palafrêm generoso. negra tormenta farei desabar. ao deixar Lícia hiberna e a corrente do Xanto. com redes raras e cordas. os afamados ginetes massílios e cães de bom faro. desta maneira lhe fala: — Quem fora demente a esse ponto. crebros trovões em tropel retumbando lá ao longe. para negar-te um pedido ou enfrentar-te no campo da luta? Resta saber se a Fortuna estará também nisso de acordo. És sua esposa. fivela de ouro sustenta-lhe no ombro o vestido purpúreo. 104 -143 . os principais a aguardavam. a Aurora saía do leito do Oceano. A juventude seleta nos largos portões se apinhava. se a idéia me aceitas. nessa mistura de etnias distintas por ti sugerida. Vênus. Nesse entrementes. na crástina aurora. a real divindade: Tomo isso a mim. Enquanto as alas se afanam e o mato circundam com as redes. mais belo de todos. Anda. Pela demora da nobre Rainha no tálamo odoro. porque alcancemos o fim cobiçado. de granizo e de chuva. exultante. aos sócios agrega-se Enéias. A comitiva se perde. acompanha-os Iulo. Sai finalmente a Rainha na frente de séquito grande. a ti cumpre sondá-lo do modo mais hábil. por esses montes. — Ao projeto acedeu Citeréia. áurea faretra de lado. espumando o bocal mastigava. nos louros cabelos a coifa. eu te sigo. Porém. mal surja no oriente o esplendoroso Titã com seus raios e o mundo ilumine. sentindo de longe a malícia daquele discurso. atarantados. em resistentes liames os dois atarei para sempre. de vária e sutil bordadura. afinal. Seguem-na os frígios da terra. venab'los de ponta de ferro. — Responde-lhe Juno. Tal como Apolo. por ter aventado a artimanha. os dois bandos se unirem num grande cortejo. no consumado himeneu. para que os reinos da Itália transfira às paragens da Líbia. Presente estarei. sidônia clâmide a cobre. no manto da Noite envolvidos. e. dissimulando um sorriso. Porém duvido que os Fados ou Jove concorde em reunirmos numa cidade os de Tiro e os de Tróia exilados de pouco. Ora presta atenção ao que vou explicar-te sucintamente. para. Dido e o caudilho troiano na mesma caverna se abrigam.

Em correria sem tino. a própria Fama. Aos altos montes chegaram. ingente. no solo os pés afirmando. transidos de medo. de plumas coberto. furtivo amor não lhe chama. comporta-se como casada. nos campos se dispersaram. fazendo votos aos deuses que em meio daqueles rebanhos medrosos surja um javardo a espumar ou dos montes um leão se apresente. Esse o primeiro dos dias letais. de pés velozes dotada. crebros relâmpagos brilham e o éter se inflama. mobilidade é sua essência. conscientes daquele enlace ulularam nos picos mais altos as ninfas. logo seguido de um forte aguaceiro e de infindo granizo. aqueloutros no curso ultrapassa. do lado contrário. e de agatirsos pintados. bem como o neto de Vênus. a cabeça entre as nuvens oculta. coros instaura de turba mesclada. cretenses e dríopes. de pouco até aos astros se eleva. Eis saltam cabras montesas. Cortando vales. Dizem que a Terra a engendrou. pulando dos picos mais altos. a terra sagrada do seu nascimento. línguas e bocas falantes e orelhas ao máximo alertas. Dido e o caudilho troiano se acolhem à mesma caverna.LIVRO IV para ir a Delos. Com grande estrondo de súbito o céu principia a embrulhar-se. que escondem olhos em número igual — maravilha ! — sem pausa acordados. na aljava ressoavam-lhe os dardos. deixando matas e montes os cervos ligeiros planícies recortam. A comitiva dos tírios e os moços esbeltos de Tróia. Monstro horrendíssimo. Tímida e fraca a princípio. A própria terra e depois Juno prônuba as juras confirmam. pelas cumíadas do Cinto se adianta. correndo. última irmã. de Encélado e Céo gigantescos. mais forças adquire. inocentar-se pensando da culpa com um rótulo falso. com asas nefárias e escuras. Do falso decoro não cuida. ao que consta. e em polvoroso tropel muito ao longe em manadas se reúnem. em torno das aras fremindo. 144 -183 75 . Corre num ápice a Fama as cidades extensas da Líbia. Ribeiras despencam das altas montanhas. e ajeitando os cabelos soltos ao vento os sujeita com áurea grinalda de folhas: de não menor formosura esplendia o semblante de Enéias com varonil imponência. Mais rápida praga do que esta nunca houve. o princípio de todas as desventuras de Dido. caminhos impérvios por tudo. Ascânio menino em fogoso ginete a estes pretere. irritada com a ira dos deuses.

dizem que em meio das belas estátuas dos deuses alçara súplice as mãos para Jove supremo e falou-lhe destarte: Júpiter onipotente. compraz-se em semear entre o povo mil boatos. associa-te aos Zéfiros. núncia tenaz do que é falso e inventado. do que é verdadeiro. caudilho com quem dignara juntar-se de pronto a pulquérrima Dido. cem fogos vivos. do rapto se goza. amedronta as cidades de mais movimento. engrinaldadas as portas estavam. do grato renome de todo esquecidos.223 . de sangue constantemente empapado se achava o chão duro. dons imprestáveis te oferto. e assim lhe inflama e revolta suscita com suas palavras. tua glória vazia eu cultivo? A suplicar abraçado nas aras. das reses. num curto desvio. Para Mercúrio voltando-se. Vária e palreira.76 ENEIDA A moio espaço. por tantas nuvens ocultos. indiferente contando a verdade e o que nunca se dera: Chegara Enéias. e inflamado por tantos rumores sem nexo. Tais invenções a feíssima deusa espalhou pela boca do povo ignaro. comprou por vil preço faixa de terra para uma cidade pequena. E enquanto isso. jamais fecha os olhos ao sono agradável. nascido de ninfa roubada dos garamantes. o inverno passavam. sempre gratos ! Reparas nisto? Dar-se-á. oriundo de sangue troiano. Como a senhor de seus reinos a Enéias agora se prende. ou que teus relâmpagos aterrorantes. cuidando de diversões. a quem libam nesta hora os marúsi. grande pai. Fora de si. Durante o dia se instala nas torres e tetos mais altos. fala do modo seguinte: Vai. caro filho. estridente. E ora esse Páris. que a vista volveu para a régia morada. seguido de um bando de gente somenos. nos belos leitos deitados.os. para chegares 184 . de longe escutou-o o Onipotente. até dar no rei Jarbas. no luxo torpe embebidos. onde arasse quanto quisesse. sem dano nenhum estrondeiam? Essa mulher. olvidados dos reinos. aos dois amantes. dos próprios deveres. repelindo as alianças propostas. se escoa entre a sombra da Terra e o céu distante. no mento enlaçada. eternas vigias dos deuses. de perfumados cabelos. porém. que os teus raios agora vibras inócuos. por tudo eram flores. aqui vinda sem rumo. os dons de Lieu. sempre a espreitar. Filho de Hamão era Jarbas. cem templos grandiosos fundara em seus reinos. fronte cingida com mitra da Meônia.

por cima da terra espaçosa. dos ombros pendia-lhe manto da Tíria. do queixo do Velho rios despencam. com esta ele as almas evoca desde o Orco. afanando-se agora. de cor purpúrea. Uma espada cingia com jaspe esverdeado na empunhadura. A vara empunha. que o levam rapidamente qual sopro de vento passando mansinho. sim.LIVRO IV rápido ao chefe troiano que se acha na tíria Cartago. Mercúrio dispõe-se a cumprir o mandado do Padre sumo. Primeiro. prometeu que ele o império da Itália teria. as asas o amparam. sem se lembrar das cidades que os Fados propícios lhe deram. ou as joga mais baixo que o Tártaro triste. por ventos e chuva açoitada. a quem leis judiciosas daria. a qual levaria mui longe a progênie dos teucros na direção de todo o orbe. frustrar quer de Ascânio a grande glória de pai vir a ser da grandeza romana? Quê faz? Quê espera entre gente inimiga. No vôo distingue o alto cimo e as encostas do forte Atlante. joga-se às ondas. eis em suma o recado. a Enéias viu a fundar fortalezas e erguer novas casas na sede augusta. Disse. depois de deixar os pináculos brancos do avô materno. Só nessa altura Mercúrio deteve-se. de Atlante. com a própria 224 . pálidas sombras. dá sono e o tira. de guerras grávida. cuja fronte pinífera sempre rodeada de negras nuvens se encontra. sim. presente valioso de Dido. nem para isso o livrou duas vezes das armas dos gregos. longe nas águas infindas. e abre os olhos que a Morte da luz já privara. que o peso do céu na cabeça agüentava. os ventos divide e dispersa as borrascas aglomeradas. Se o não inflama a ambição de tão belo futuro. sem se lembrar dos futuros ausônios. como a avezinha que as praias rasando. em equilíbrio. Leva-lhe da minha parte a seguinte mensagem. Transmite-o depressa. ele os áureos talares ataca. há urgência: Essa não foi a promessa da mãe mais que todas formosa. a barba tem sempre ouriçada de gelo. Mercúrio cortava seguro os empuxos da ventania na praia arenosa da Líbia distante. os piscosos rochedos humildemente transvoa sem neles tocar nem de leve. Mal tinha as plantas aladas roçado nalgumas palhoças.263 77 . Neves eternas nos ombros lhe pesam. se nada pensa intentar em louvor de si próprio. paradas. dos campos lavínios? Faça-se à vela. De súbito. Nele apoiando-se. Não de outra sorte.

de teus ascendentes. Quem pode esquivar-se da suspicácia da amante? Primeira de todos. sem mais. resolve tomar o seguinte partido: chama Mnesteu e Sergesto. Contentes. despojou-se da forma humana Mercúrio. excitada. armas aprontem sem serem notados. A própria Fama levou-lhe a notícia da fuga da armada. como sair-se de tal apertura. o momento oportuno há de achar de falar-lhe. Duvida de tudo. pensa em Ascânio menino. Estarrecido a tais vozes Enéias ficou.303 . e a causa daqueles preparativos ocultem. em delírio. a esperança de algo fazer em louvor de ti mesmo. Ah ! que fazer? De que jeito sondar a Rainha alarmada com tal suspeita? Que exórdio usará para alfim convencê-la? Veloz divide ora aqui ora ali o pensamento indeciso. cortando de chofre a conversa. durante a noite e segui-lo nas matas profundas do monte. Muito em segredo se reúnam na praia. do expresso mandado do nume. estimulada tal como a bacante nas sacras orgias do Citerão. a quem deves os reinos da Itália. desde o Olimpo. na idade mais bela de todas. os altos muros de Roma. me impôs a incumbência de percorrer tanto espaço nas auras e dar-te um recado: Em quê te ocupas? Que tempo precioso esbanjado na Líbia ! Se não te move a ambição do porvir prometido. de quadros de traço esquisito. enquanto nada suspeita a boníssima Dido. pois ele. 264 . a ponto todas as ordens lhe acatam e o plano. por várias partes detendo-se. sem decidir coisa alguma. entrementes. Mas a Rainha pressente a tramóia. e que tragam Seresto consigo. executam. O inesperado do aviso. a ruptura dos laços de tanto amor. deixa-o sem tino e disposto a fugir das paragens amenas. nenhuma do encerro lhe escapa. para dos olhos de Enéias sumir dissipado no ar puro. da antiga pátria de todo esquecido e dos teus interesses? O próprio rei inconteste dos numes. — Depois de falar. Fora de si. aventa quanto ocorria. nas esperanças de lulo. os navios esquipem. ao ouvir os clamores de Baco. que a terra dirige como lhe apraz e o alto céu. trienais. hirta a coma. percorre a cidade. presas na boca as palavras. das coisas mais certas. Nesta alternância.78 ENEIDA mão adornado todo ele. Pronto o interpela: — Que fazes? As bases assentas possantes da alta Cartago com o teu mulherengo pendor para as coisas.

cultivar as relíquias tão caras a todos nós. quadra infeliz. teus barcos aprestas no inverno.LIVRO IV Topa afinal com Enéias e em termos violentos o aturde: Pérfido ! Então esperavas de mim ocultar essa infâmia. Quanto ao que ocorre. e aquela fama que aos astros meu nome impoluto levara. Muda de idéia. abandonada. e sozinha não me julgaria. direi simplesmente: intenção nunca tive de retirar-me à ocultas — apaga essa idéia — nem menos planos forgei de casar ou de alianças contigo firmarmos. Então. contigo semelho nos traços. e outros muitos de que me recordas. se algo mereço de ti ou se alguma ventura me deves. os tiranos númidas. pretendendo cortar os furiosos embates dos aquilões? Que crueldade ! Se acaso moradas estranhas não procurasses. tão próxima já do seu termo? Como se nada isso fora. apiada-te ao menos de um lar ora esfeito. Por tua causa me odeia esta gente da Líbia. e às escondidas deixares meus reinos sem nada dizer-me? Não te abalou nem a destra que outrora te dei. todos os tírios. por ti a vergonha deixou-me. o primeiro cuidado seria a cidade dos meus troianos reerguer. ou o próprio Jarbas getúlio me arraste daqui como escrava? Se pelo menos deixasses na fuga um produto do nosso inesquecível amor. navegarias no rumo de Tróia e o mar bravo cortaras? Foges de mim? Por meu pranto e também pela mão que me deste — Mísera ! pois perdi tudo.343 . A quem entregas uma moribunda como eu. esse é o único nome de quem me chamou de consorte. nem nunca a imagem de Elisa sairá do meu peito. e Tróia ainda em pé se encontrasse. nem campos. Obediente ao mandado de Jove tinha ele no solo fixos os olhos e a custo a emoção no imo peito guardava. Fala-lhe alfim por maneira sucinta: — Jamais negaria tantos favores. o sagrado himeneu que de pouco nos une. Disse. Senhora. inamável. sim. nem a morte que a Dido aguarda. Se a meu arbítrio deixasse o Destino dispor do futuro como eu quisesse. Que mais espero? Que o irmão Pigmalião me derrube estes muros. doces lembranças. e nos paços brincasse comigo um outro Enéias-menino. no caso de as preces contigo valerem. querido hóspede? Sim. em verdade. por quanto tempo consciência tiver de mim mesmo e com vida eu mover-me. o palácio de Príamo ainda 79 304 . sem nada me ter reservado — por nosso enlace.

sim. Vai ! Segue os ventos da Itália. quando as úmidas sombras ã terra baixam. Finalmente. rico em penhascos. me arrastam. Não busco a Itália por gosto.383 . salvei-lhe da morte a maruja. (adentrava. te agradam belos palácios e os muros construir na africana Cartago. Ascânio e Anquises —. Durante a fala de Enéias manteve-se Dido alheada. nem brigo. da Fenícia. meu pai. Oh dor ! As Fúrias me abrasam. O mensageiro dos deuses da parte de Jove agorinha mesmo me trouxe um recado pelo ar — por aqueles o juro. possante deidade. Não venhas. o recolhi — quanta insânia ! — e no reino lhe dei parte ativa. querida cabeça. Se a ti. sua pálida imagem nos sonhos me admoesta. ali. como também a lembrança de Ascânio. e estas mãos outra Pérgamo a todos construíra. nem mesmo o filho do velho Saturno isto vê com bons olhos. ou quando se elevam fulgentes os astros. Jogado na praia. essa Itália que os vates da Lícia apontaram. pois. esta ordem terrível lhe trazem nas auras ! Como se os deuses cuidassem de nugas e o tempo esbanjassem do ócio divino ! Pois parte ! não peço que fiques. o amor. Agora os augúrios do próprio Apolo. que do seu reino na Hespéria eu defraudo. furiosa o despeito externou deste modo: Não tens por mãe uma deusa nem vens de linhagem dardãnia. carente de tudo. Noites seguidas Anquises. Não há fé pura. Se os justos deuses nos ouvem.80 ENEIDA de pé estaria. me aterra. da terra anunciada. mamaste nos peitos das tigres da Hircânia ! Para que dissimular por mais tempo? Que injúrias mais graves agüentarei? Reservou-me uma lágrima? Ao menos olhou-me? Chegou meu pranto a abalá-lo e de mim apiedado mostrou-se? Que afronta há mais dolorosa? Nem Juno. procura teus reinos nas ondas. Porém Apolo de Grínia ordenou-me há pouquinho buscarmos a Grande Itália. a pátria. eu próprio o enxerguei quando o burgo no resplendor. virando a vista de cá para lá. agravar minha mágoa — e a tua — com brigas. mirando-o de alto a baixo. Ali. por que motivo impedires que os teucros na Ausônia se instalem? É de justiça buscarmos também novos reinos por longe. da Lícia as sentenças e até' mensageiros das divindades. Desbaratados os barcos. pérfido ! A vida também a tiraste do Cáucaso adusto. espero que um dia hás de a morte nas duras rochas sorver e que o nome de Dido mil vezes 344 . sua voz ainda soa-me nos ouvidos.

umas tantas. súplicas novas. no leito a depondo aprestado para isso. sabias falar-lhe e a ocasião mais propícia para isso. quando do inverno mais perto e a seus paços escuros o levam: vai pelos campos o negro esquadrão carregando a pilhagem pelas picadas da relva. quantos gemidos soltavas. das matas carregam frondentes galhos. não se esquece das ordens do nume. revista as trirremes. Do afã da fuga tocados. miserável. ao veres do cimo das torres do teu palácio animarem-se as praias com o estranho alarido daquela turba. Hei de ouvir teu clamor desde os manes profundos.LIVRO IV invocarás. os grãos mais pesados levam nos ombros. não vês tanta azáfama em torno da praia? A maruja corre de todos os lados. as velas aos ventos apelam. para abrandá-lo. até ao tálamo todo de mármore as servas a carregaram. Ana amiga. para que os teucros redobrem de esforços e as naus desencalhem na praia ao longo. só. Corta no meio o sermão sem resposta aguardar e. depois que minha alma dos membros a Morte separe. por tudo estarei.423 . quais foram os teus pensamentos. e algum consolo lhe dar com palavras de muito carinho. incumbem-se algumas das hostes em marcha e as retardadas castigam. também poderia na hora presente agüentá-lo. fugindo mesta. As carinas breadas flutuam. as popas das naus já coroaram. para de tudo valer-se pouco antes de a Morte alcançá-la. essa traição. A esse espetáculo. O pio Enéias. deixando-o confuso entre o muito que se dispunha a dizer e o que o medo prudente o impedia. Pelos portões da cidade os vereis apressados correrem como formigas no ponto em que um monte de trigo saqueiam. geme de dor ante os golpes violentos da sua desdita. da luz se retira. somente. um pedido. Ana. desta infeliz satisfaze. alegres. Se eu fui capaz de prever este golpe. de envolta com o surdo marulho lá ao longe? Ímprobo Amor ! Que de estragos não causas no peito dos homens? De novo tenta o recurso das lágrimas. Tu. conquanto deseje acalmar-lhe o infortúnio. sem falta. A trilha com a faina referve. 81 384 . confiava-te seus pensamentos mais caros. Dido. à guisa de remos. Mesmo ausente hei de os passos seguir-te com atros fachos. Os marinheiros. Pagar-me-ás. Sombra terrível. Mas. Desfalecida. ao amor seu orgulho nativo rebaixa. Esse pérfido distinguia como a ninguem.

pensou na morte. emitindo gemidos no canto agourento. Não de outra forma o guerreiro assaltado se vê por assíduas imprecações. a lamentar-se. repassado de dor. os deuses lhe tapam as ouças amigas. Não disse nada a ninguém. viu — pavoroso presságio ! — anegrar-se nos vasos o leite dos sacrifícios e em sangue estragado mudarem-se os vinhos. E para mais reforçar-lhe a intenção de privar-se da vida.463 . porém a mente é inflexível e as lágrimas. ou arranquei do sepulcro de Anquisés as cinzas e os manes. e a solitária coruja. julga ouvir vozes ou mesmo palavras do esposo defunto. nem à irmã. quando a Noite sem luzes a terra ensombrava. o imo peito se abala. na guerra de Tróia. nem aprestei meus navios para irem lutar contra Pérgamo. de que ela cuidava com mimo. a este golpe tão duro. as embaixadas da dor que a irmã dócil leva e releva Troiano. viu que os Fados contra ela se achavam. precisamente no instante de incenso queimar nos altares. Essas. com juros de morte esta dívida eu saldo. abalando-o o chão todo recobrem de folhas secas e galhos à força arancados da fronde. somente um pouco de tempo para a ira acalmar. Foi quando Dido. do que vira nas aras. Para que cerra os ouvidos tão duros às minhas palavras? Por que essa pressa? A esta amante infeliz conceda a última graça: Fuga mais fácil aguarde e mais prósperos ventos: eis tudo. a luz bela do dia a angustia e deprime. Se isto alcançares. a infeliz. sempre adornado de cândidos véus e guirlandas festivas. Jamais em Áulide estive com os dânaos. Mas. e tão alto nas auras serenas eleva a copa. mana. Não lhe reclamo o himeneu que juramos. porém bem preso ele se acha. pousada nas torres mais altas. no intento de deslocá-lo da terra e. inteiramente insensível se mostra a pedidos e queixas.82 ENEIDA Vai. não foi tudo: de mármore um templo existia no paço. as súplicas. se perdem. Nesse local. ao seu marido dicado. umas tréguas para afeiçoar-me ao meu triste destino. 424 . tal como no Tártaro afinca as raízes. De tua irmã compadece-te nesta aflição desmedida. Tal como quando à porfia nos Alpes os ventos se opõem a um venerável carvalho na força da idade. frustras. os Fados obstam. porém nada as preces o abalam. e fala a esse tipo de tanta soberba. por ele traído. nem que do Lácio formoso desista e por mim perca um reino.

no ponente. a terra geme a seus pés. 83 464 . Do desespero dobrada e a morrer decidida. das montanhas os olmos despencam. que o persegue com fachos e negras serpentes. Ana de nada suspeita nem crê que os aprestos funéreos graves intentos encubram da irmã. de que contra a vontade a tais artes recorro. a maneira acertar e o momento para isso. correndo de sua mãe. ouvirás. guarda dos ramos sacros. querida irmã. Tendo isso dito. na portada do templo. na cena. Tal foi o mandado da maga vidente. Dissimulando o projeto com rosto sereno e sem mostras do que no peito abrigava. ou as vingadoras Erínias. nem transtornos mais sérios dos ocorridos na morte do esposo Siqueu. Como Penteu dementado. cumpriu-as. que tem a incumbência de dar ao dragão alimentos com dormideiras e mel preparados. Abolir ora intento os nefandos rastros desse homem. calmante de preço. já faz muito. e sobre ela deponhas as armas desse infiel e os despojos deixados por ele no quarto. à procura dos tírios seus em regiões desoladas. Recomendada. junto do leito fatal. dirige-se à irmã consternada: Os parabéns. deter o curso dos rios e os astros forçar de tornada. sacerdotisa do altar das Hespéridas. pira para isso adequada. As feições de palor se tingiram. entre os etíopes últimos há um lugar onde o Atlante máximo faz sobre os ombros girar o edifício estrelado. percebe as Eumênidas torvas. O testemunho dos deuses invoco. As ordens dadas. o filho do Atrida. sem seus terríveis avisos. E mais: até mesmo o Troiano sem coração a persegue nos sonhos. e sempre sozinha vê-se.503 . Lá para o fim do Oceano e do curso do sol. também. Essa mulher com seus carmes promete sarar os tormentos do peito amante. calou-se.LIVRO IV As predições muito antigas dos vates a deixam sem tino. ou deixá-lo num pronto de amor tresvariado. resolve dar corpo à idéia. e se julga a vagar sem ninguém ao seu lado. dois sóis no espaço a abrasá-la e também duas Tebas ao longe. ou como Orestes. de tua cabeça. cara irmã ! Descobri o remédio mais fácil de conquistá-lo ou curar-me da louca paixão que lhe voto. ao ar livre. me veio de lá uma velha massília. Sabe evocar dos sepulcros os manes noturnos. de tudo carentes. Secretamente levanta no pátio de casa.

ao ar livre. antes as penas redobram. ao sono entregues e à guarda zelosa da plácida Noite. quando as estrelas se encontram no meio da rota prevista. Vários altares a pira rodeiam. e mais a efígie de Enéias. a roupagem. Líquido asperge. Dido em pessoa.543 . elevou-se pira adequada. No sono aprazível os corpos cansados grato repouso desfrutam na terra na selva nos mares. arrancado de um potro à nascença. os campos todos silentes o gado os voláteis vistosos e os moradores dos lagos. Caso haja um deus vingador dos amantes traídos. junto às aras se posta. com achas de pinho e azinheira decora lodo o recinto. Noite fechada. haverá quem me queira e me acolha na nave soberba. demais celebrada por ser sem palavra? Mais uma vez: quê fazer? Irei só. com ramos funéreos. a tríplice Hécate. No alto da pira o seu leito coloca. (Das duras lides de todo esquecidos agora descansam) Somente na alma da pobre Fenissa o repouso não cala. das matas sombrias repousam. descalço um dos pés. a maga. depois de os haver rejeitado a eles todos? Ou seguirei num dos barcos da armada troiana. o Caos. bem sabe o futuro que a espera. ou. sob o amparo dos nautas. para evocar as deidades e os astros cientes de tudo. a espada. evoca três vezes as cem divindades do Érebo.H4 ENEIDA Mas a Rainha. ao cortejo dos troas me agrego? 504 . A isso ela o hipómane ajunta. antes de a mãe o apanhar. enquanto o peito transborda nos estos da cólera viva. de meus tírios seguida. Memória invejável ! Mas. sendo de todos odiada? Infeliz ! Não vês nisso a progénie de Laomedonte. desatadas as vestes. alegando ser água das fontes do Averno. bem como o sumo violento de certas plantinhas lanudas. qual serva de nenhum préstimo? Grandes serviços me devem. Por fim se acalma e a si mesma interpela com estas palavras: Como fazer? Ao ridículo expor-me dos meus pretendentes para consorte. com podadeiras de cobre cortadas em noite de lua. realmente ! A gratidão deles todos é um fato. vistosas guirlandas. tão logo no pátio. invoca sua justiça e depreca-lhe a ajuda no transe postremo. cuidados de amor mais violentos. Diana também de três faces. nas mãos piedosas a mola ritual. os cabelos soltos. nem o sossego a visita. nem nunca anoitecem-lhe os olhos.

mui semelhante a Mercúrio na voz. se o tempo o convida? Logo verás estas plagas turvarem-se com seus navios. sem perceber os perigos que em frente de ti se acumulam? Disposta a tudo. Vence a preguiça ! Levanta-te ! Toda mulher é volúvel. sem nunca sentir esta cruel apertura ! Os juramentos e as cinzas quebrar de Siqueu bem-amado ! Dessa maneira exprimia-se Dido no seu infortúnio. Tu. cortemos os cabos ligeiro. para guiar-nos. Disse e desapareceu. Apressemos a fuga. na popa altanada da capitânea o caudilho troiano entregara-se ao sono. Não precipitas a tua partida. guerreiros ! Cada um no seu banco. na cabeleira alourada e no gesto confiante dos moços: Filho da deusa. a Rainha no peito revolve projetos calamitosos. Divindade celeste. é rnelhor.LIVRO IV Ou novamente aos perigos exponho dos mares e ventos quantos com tanto trabalho arranquei da Sidônia distante? Morre. e livre passar o tempo. Logo. caso te atrases e a Aurora te encontre por estas paragens. na esbelteza do porte. os guerreiros à faina concorrem.583 85 . e sacando da espada fulminea. já te seguimos ! De grado acatamos a tua mensagem. A voz lhe ouvi. Já tudo pronto e acertada a partida. Nisto. que o mereces. os companheiros desperta e aos trabalhos concita do dia: Todos a postos. ao imigo sem fé me entregaste. com o ferro essa dor aniquila. de naves as águas se cobrem. Sé-nos propícia na viagem e faustas estrelas nos manda. Ah ! não viver como as feras sem tálamos ricos. tocnas luzir. é possível dormires com tanto sossego. Despavorido. quem quer que tu sejas. vencida das minhas lágrimas. — Falou. tens a culpa de tudo. varrendo a cerúlea campina. desta obsessão. desertas as praias. as pás espuma levantam. cara irmã. depressa ! Velas aos ventos ! De novo um dos deuses me trouxe recado do alto. Cheios do mesmo entusiasmo. percebe a figura da mesma deidade que já antes lhe aparecera num sonho e advertência dos deuses trouxera. confundido nas sombras da Noite. corta certeiro de um golpe as amarras possantes do barco. de súbito Enéias se livra do sonho. que aos estos da ruria a cada hora se alteram. Já a nova Aurora saltara do leito do cróceo Titono para a luz bela espargir pelo mundo e de cores orná-lo 544 . referver a ribeira de chamas sem conta.

vague sem rumo. e eu por último. e zombar de mim própria em meu reino? Não se armarão meus guerreiros e toda a cidade não corre no rastro dele? Dos seus estaleiros os barcos não tiram? Ide. ao próprio pai num banquete ofertar como prato excelente ! Mas. gritou. ora sentes o peso da tua desgraça. com o sangue vos lanço este apelo supremo. quem nas espáduas o peso sentiu da velhice paterna? E não poder apanhá-lo. os remos empunhem ! Mas. e os cabelos louros em fúria a puxar. morte sem glória de todos. a palavra de quem carregara os penates nos ombros. banido da Itália. no dia em que o cetro lhe deste. quando Dido avistou desde a sua atalaia. vindo a obter paz vergonhosa. voai. e é forçoso pisar no chão firme. fogo às naus lhe pusera. em boa ordem a esquadra afastar-se. do mal vingadoras. Sol. Três. bem como as praias vazias e sem remadores os portos. privado dos braços queridos de Iulo. mas prematuro pereça e insepulto na areia se esfaça ! Ê o que vos peço. Júpiter? Esse estrangeiro. passar à espada seus homens. e de um golpe extinguira o pai com o filho. quatro vezes o peito formoso golpeando. escapar-me. Tírios ! Vosso ódio infinito em seu filho e nos seus descendentes extravasai ! é o que esperam de vós minhas cinzas ardentes. da luz suspirada. e contra os malvados os vosso numes volvei ! Mas. do apetecido reinado não goze. e Ascânio. —Há de esse homem. aos gritos ! Fúrias. sempre invocada nas encruzilhadas. Nenhuma aliança jamais aproxime os dois povos imigos. nesse encontro a vitória estaria ao meu lado? Que importa? Quem vai morrer. e deuses de Elisa expirante ! Minhas palavras ouvi. essa raça maldita. Essa. que profiro? Onde estou? que desvairo me cega a esse ponto? Dido infeliz. auxilio implore e contemple o extermínio dos seus companheiros. se isso os decretos de Júpiter o determinam. ufana. trazei fogo. Há de nascer-me dos ossos quem possa vingar-me esta afronta 584 . seu filho mimado. de quem pode temer-se? Incendiara de pronto seu arraial. sé o Fado impassível resolve que chegue ao porto esse monstro. E. tendidas as velas.623 . dai velas. minhas preces. atirá-lo em pedaços nas ondas. Mais valeria o saberes. ajudante consciente da minha indizível desgraça ! Hécate. que o universo iluminas e todas as coisas perlustras ! Juno. que ao menos seja acossado por gente guerreira e.86 ENEIDA no alvorecer.

visto que a sua ficara enterrada na pátria distante. A Velhinha apressou-se com passos tardonhos.lançar na fogueira. Enquanto isso. a Barce resolve chamai. Cheia de glória. volvia no peito projetos sem conta. e na alma negra o presságio carregue da minha desgraça. convulsa e obstinada no seu tenebroso projeto. a efígie do teucro . prenda jamais destinada para uso de tanta fereza. enxergando as ilíacas vestes e o leito. até os últimos netos com forças ! Assim falando. para cortar o mais breve possível a trama da vida. a palidez do trespasse futuro na cute mimosa. esta sombra ora baixa aos domínios subtérreos. por próprio impulso. quem limpe o meu nome com sangue dardânio. Hoje. A Jove Estígio pretendo ofertar sacrifícios solenes. armas de guerra por tudo. no toro excelso inclinada. E no leito tocando com os lábios: Morremos inulta? — torna a falar — Pois morramos. as donzelas caída a percebem. banhados de lágrima os olhos. a fim de curar-me de atroz sofrimento. Uma cidade grandiosa fundei. pelo interior do palácio irrompeu e postou-se. castiguei um irmão inimigo. sacando da espada do chefe dardânio. Assim falou. minha pobre alma acolhei e de cruel pesadelo livrai-me. Vivi bastante e perfiz o caminho previsto dos Fados. Traga também as ovelhas e as vítimas expiatórias. querida ama. no ferro. Não se demore. Dido. briguem praias com praias e as ondas entre elas. Do clamor das mulheres os átrios atroam. ah ! demasiadamente o seria se as naves desses guerreiros troianos aqui nunca houvessem chegado ! Disse. e lhe dize que ponha pressa em se purificar na água limpa do rio aqui perto. virando os olhos sanguíneos. estas últimas queixas profere: Ó doces prendas enquanto um dos deuses e o Fado quiseram. Vai procurar minha irmã. amanhã. manchadas as lívidas faces. Disse.663 . 87 624 . já começados. assim baixarei para as sombras. na fronte usa a fita sagrada. de Siqueu a velha ama. a meu esposo vinguei. Tingidas de sangue espumante tinha ela as mãos. no alto da pira. Mal tinha acabado. iracunda. pós recolher-se algum tempo. por último. Nessa postura. para. Por fim.LIVRO IV com ferro e fogo. no momento mais certo em que o acaso os ajunte e força houver. Veja o Dardânio de longe o espetáculo desta fogueira. vi suas fortes muralhas. Muito feliz.

o senado. — Assim disse. e tudo porque te finasses de mim afastada? Com tua morte. a íris rápida enviou do alto Olimpo. a pira. um ferro. E galgando a alta pira. com o peplo afastava os cruores escuros. Dai-me água. atropela as pessoas. lamentações e gemidos. corre. cortou com a direita o cabelo cor de ouro. Despavorida. sarapintadas as penas com o brilho do sol esplendente. por Dido a chamar. no peito aperta a cabeça donosa da irmã moribunda. os templos derruídos dos deuses. o pranto incontido de todas. Foi-se o calor. três sobre o leito ela torna a cair. — Assim falando. Três vezes tenta sentar-se. carpe-se. No peito a ferida estertora. o minuto supremo ! Com minhas mãos levantei esta pira. o ulular feminino. para soltar aquela alma do nexo pesado dos membros. Fremem os tetos. o rosto a arranhar. afeiando o gracioso semblante. visto não ser decorrente este excídio do Fado ou de culpa muito pessoal. os altareâ dos deuses? De quê primeiro queixar-me. apoiando-se nos cotovelos. então. te desligo do corpo e a Plutão vou levar-te. Com muito esforço. e nas auras o espírito logo diluiu-se. Se um simples vestígio de alento ainda mostre. da sua morte penosa. prematura e de súbito acesso tomada. de novo desfaleceu a Rainha. no espaço desliza. ainda Prosérpina não lhe cortara da fronte o cabelo louro. se a irmã não me quis ao seu lado no próprio instante da morte. Íris. Sobre a cabeça de Dido detém-se: — Cumprindo o mandado que recebi. na minha boca o recolho. encontrando-a. como se a própria Cartago ou a cidade de Tiro mais velha viessem por terra aos embates de turmas furiosas de imigos. ao querer levantar a cabeça. chamei pelos deuses pátrios.» h ENEIDA Percorre a Fama a cidade aterrada. no alto o éter ressoa com tanto alarido. Com os olhos errantes. mataste-me. 664-703 . querida. moribunda: Este era. tua cidade sidônia. busca no céu a luz bela do sol e. sem forças ouve Ana os clamores da turba. orvalhadas as asas. porque lavar possa suas feridas. Foi quando Juno potente. apiedada da longa agonia. em chama envoltas as casas. associadas no mesmo destino? Uma só dor para as duas. ao povo. suspira. o sacrifício aprestado? Quiseste lograr-me? Isto as fogueiras forjaram. nem sua cabeça votara às deidades do Inferno. Entre gemidos. irmã.

somente o mar vasto e o céu claro por tudo. Obliquamente oferece-se ao vento. sempre com os olhos nas fortes muralhas que ao longe a fogueira da infeliz Dido aclarava. Quando os navios ao largo sumiram. Qual fosse o motivo do incêndio. conhecendo o que pode no desespero a mulher ultrajada e a paixão sem ventura. triste presságio os troianos agora daquilo tiravam.ENEIDA Livro V Nesse entrementes. O próprio mestre do leme. Não longe das praias estamos. nuvem sombria trazendo no bojo atra noite e a tormenta sobre a cabeça de Enéias parou. do poente anegrado eles forçam pelas ilhargas as naves. Façamos. o que manda a Fortuna. da popa alto exclamou: — Por que as nuvens o céu de tal modo escurecem Quê nos preparas. Há nuvens escuras por tudo. sem vacilar avancemos. Os ventos se acham trocados. levado pelo aquilão generoso. Tudo é trevas nas ondas. não saberia dizê-lo. nem parados ficamos. ainda que Júpiter me assegurasse. e destarte se expressa: Ínclito Enéias. nem mais se avistava terra nenhuma. já certo do rumo. amainar logo ordena as brancas velas e o esforço conjunto aplicarem nos remos. Nem conseguimos as ondas romper. para onde ela aponta. pois. Netuno? — Dito isso. 1-23 . Porém. o sagaz Palinuro. com um tempo destes jamais saltaremos nas praias da Itália. Enéias. apartava a cerúlea planície.

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