FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE DE BRASILIA CONSELHO DIRETOR Abílio Machado Filho Amadeu Cury Aristides Azevedo Pacheco Leão Isaac Kerstenetzky José Carlos de Almeida Azevedo -Reitor José Carlos Vieira de Figueiredo José Ephim Mindlin José Vieira de Vasconcellos EDITORA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA CONSELHO EDITORIAL Afonso Arinos de Melo Franco Antônio Paim Arnaldo Machado Camargo Filho Cândido Mendes de Almeida Carlos Castello Branco Geraldo Severo de Souza Ávila Heitor Aquino Ferreira Hélio Jaguaribe Josaphat Marinho José Francisco Paes Landim José Honório Rodrigues Luiz Viana Filho Miguel Reale Octaciano Nogueira Tércio Sampaio Ferraz Júnior Vamireh Chacon de Albuquerque Nascimento Vicente de Paulo Barretto

Presidente: Carlos Henrique Cardim

ENEIDA
Tradução de Carlos Alberto Nunes

Editora Universidade de Brasília

FUNDAÇÃ O ROBERTO MARINHO

Laís Serra Bátor. Carla Patrícia Frade Nogueira Lopes.910. 280 p. Clarice Santos. Maria Helena Miranda. A Montanha. Editora Universidade de Brasília.Brasília . Trad. Patrícia Maria Silva de Assis. Rosas Saltarelli Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da UnB Controladores de Texto: Vergilius Maro. de Carlos Alberto Nunes.Distrito Federal EQUIPE TÉCNICA Editores: Lúcio Reiner. Wilma G. São Paulo. Maria Riza Baptista Dutra e Maria Rosa Magalhães Elmano Rodrigues Pinheiro Supervisor Gráfico: José Reis Supervisor de Revisão: Antônio Carlos Aires Maranhão.Este livro ou qualquer parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização escrita do Editor Impresso no Brasil Editora Universidade de Brasília Campus Universitário — Asa Norte 70. Publius V497a Eneida. Thelma Rosane Pereira de Souza. 1983. Manuel Montenegro da Cruz. Título original: Aeneis 871-1 V497a t . Brasília. Maria dei Puy Diez de Uré Heiinger. Fernanda Borges. Mônica Fernandes Guimarães.

PÚBLIO VERGÍLIO MARÃO ENEIDA Tradução portuguesa de CARLOS ALBERTO NUNES no metro original A MONTANHA Edições .

Edição comemorativa do Segundo Milenário do falecimento de VERGÍLIO que é incluída nas comemorações promovidas pela ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS no III ANO da Presidência do Acadêmico FRANCISCO MARINS São Paulo 1981 .

.Vergílio — morreu há dois mil anos. mais do que um clássico é o clássico por definição de nossa cultura greco-latina. produzindo mesmo seu melhor fruto na Idade Média ao gerar o poeta do Cristianismo. exatamente a 21 de setembro de 19 a. um segredo nessa mais do que milenar sobrevivência. E. sua influência não se restringiu ao universo pré-cristão. maestro". como luminosamente explicam um SainteBeuve. em Mântua. estudado. que o venera quase como um profeta. traduzido. em Brindisi. é o "vates" por excelência da Latinidade. com pouco mais de cinqüenta anos. um Theodor Haecker. comentado em todo o Ocidente. Dante. judaico-cristã.C. o que é mais notável. estendeu-se soberanamente. enfim. indiscutivelmente. na Itália meridional. Vergílio. chamando-o "duca. um Eliot. . e esse segredo é simples: Vergílio é ao mesmo tempo o mais poderoso dos poetas da idade antiga. Na verdade é o caso de indagar-se se cabe falar em morte de um poeta que há vinte séculos vem sendo lido. antes. signore. Há. nascido que fora a 15 de outubro de 70.VERGÍLIO O MAIOR dos poetas latinos — Publius Vergilius Maro .

Lavínia. os heróis. herói másculo e piedoso. gloriosos destinos. predestinado aos mais. em cujo louvor e por cuja ordem a Eneida havia sido escrita impediu essa perda irremediável. o ruido das armas que se ouve repercutir ao longe da Ilíada. mais do que isso. um de seus livros: as Bucólicas. a dominar e reger o universoOs seis primeiros cantos do poema recordam a Odisseia com seu fascinante relato de aventuras terrestres e de atribulações no mar. Euríalo e Niso. as Geórgicas.. os adolescentes mortos: Palante. A cada um desses temas corresponde. tal como os relatavam as antigas tradições latinas. toda uma galeria de imagens que fazem parte de nossa mitologia literária e. viril figura de Enéias. os combates. o poeta resumiu a imensa criação de seu gênio em apenas três palavras. ao Lâcio. a misérrima Dido. que compreendem dez composições arcádicas elaboradas entre 41 e 39 a. do "epos'' eterno. Caieta. a ciumenta Juno. Mesêncio e Aletes. preservando para os tempos um dos livros mais altos já escritos no Ocidente. os penates e os grandes deuses de Tróia. fosse queimado.No epitáfio que terá composto para seu túmulo. que ofereciam. ordenou. o fiel Acates. rura. no momento em que Augusto lançava bases do império. a Eneida. Obra capital. a imperiosa Amata. Seu tema essencial são as origens primeiras da raça e do culto romanos. dos arquétipos de nossa cultura. . Augusto. a mais ousada das obras vergilianas. finalmente. não tendo podido polir como desejara.C.C. brilhante e vasto cortejo de figurantes desfila imortalmente por seus versos: o venerável Anquises. poema da fundação de Roma. a fim de instala-los no solo itálico. Eneida É Enéias. o trabalho da terra. vivo interesse cultural e cívico. os seis últimos. divididas em quatro livros compostos de 37 a 30 a. Camila virgem amazona. duces": os campos. . Evandro. Turno. o jovem Ascânio. no qual trabalhou obstinadamente durante cerca de dez anos e que. a Sibila e os mistérios tremendos do antro em que o herói inicia a peregrinação pelo Tártaro e pelos Campos Elísios. Palinuro. filho de Vênus e de Anquises que transporta. . e. mas é ao mesmo tempo epopéia nacional e religiosa. declarando haver cantado "pascua. agonizante. da pátria vencida. efetivamente. Lauso. a é uma soberba estrutura épica concebida segundo o modelo das rapsódias homéricas. Tendo no centro a límpida. as operações estratégicas.

Não poderia haver melhor homenagem a Vergílio no bi-milenário de sua morte do que esta versão da Eneida feita pelo Professor Carlos Alberto Nunes. discípulo de Vergílio. entre nós. Vergílio lusitano. acolhida na língua de Camões. é esta a primeira vez que os hexâmetros de religiosa beleza e guerreira solenidade do poema maior de Roma encontram. NOGUEIRA MOUTINHO da Academia Paulista de Letras . Depois da empresa levada a efeito no século passado por Manuel Odorico Mendes.

O degli altri poeti onore e lume. Vagliami il lungo studio e il grande amore Che m'ha fatto cercar lo tuo volume. DANTE .

distante da Itália e das bocas do Tibre. Porém ouvira falar numa raça provinda dos troas que. de grande maldade na guerra. a deidade agravada. Lá teve as armas. dos pais albanos primevos e os muros de Roma altanados. as muralhas dos tírios ao chão lançariam. Contam que Juno a habitava e por ela especial preferência manifestara. dos colonos de Tiro povoada. Musa ! recorda-me as causas da guerra. então. forte Cartago. instalou-se na Itália primeiro e de Lavínio nas praias. para desgraça da Líbia. o carro guardava e o projeto ambicioso de fazer dela a senhora dos povos. e lembrada a Satúrnia da guerra primeira . fugindo das plagas de Tróia por injunções do Destino. por qual ofensa a rainha dos deuses levou um guerreiro tão religioso a enfrentar sem descanso esses duros trabalhos? Cabe tão fero rancor no imo peito dos deuses eternos? Cidade antiga existiu. belicoso e arrogante. rica de todo comércio. 1 -23 De medo. guerras sem fim sustentou para as bases lançar da Cidade e ao Lácio os deuses trazer — o começo da gente latina. andando o tempo. Isso as Parcas já haviam tecido. A impulso dos deuses por muito tempo nos mares e em terras vagou sob as iras de Juno. se os Fados anuíssem.ENEIDA Livro I As armas canto e o varão que. da qual um povo haveria nascer. até mesmo em confronto com Samos dileta.

o julgamento de Páris. num torvelinho o apanhou espetando-o em agudo penedo. cauteloso os comprime em profundas escuridões de caverna. com duros ferros e cárcere. ao passo que eu. Ajaz Oileu. irmã e consorte do próprio Júpiter. vinham cortando sem rumo desde anos o mar infinito. pelo espaço varrendo-os sem rumo nem nada. a injúria à sua forma impecável. e os sacrílegos atos da sua demência? Ela. consigo levaram as terras e os mares. o ódio aos troianos e as honras ao belo escanção Ganimedes: por isso tudo exaltada. as naus destroçou.10 ENEIDA que contra Tróia movera a favor dos seus caros argivos. Bramam os ventos em torno à prisão. Aqui. arrojou desde as nuvens o rápido fogo de Jove. porém. e a montanha retumba com a turbulência dos presos. todo o peito abrasado. com montes enormes por cima. Mas. sem conseguir afastar dessa Itália o caudilho troiano? Os Fados o obstam. e o próprio céu. Sentado na rocha altaneira Éolo se acha com o cetro. Tão grande empresa era as bases lançar da progênie romana ! Mal a Sicília perderam de vista e contentes rumavam para o alto mar. Palas não pôde queimar os navios desarvorados dos gregos. a Éolia chamada. ainda guardada no peito bem viva a lembrança das causas do seu rancor. os quais. soberana dos deuses. E ainda haverá quem ao nume de Juno preste homenagens ou grata oferenda no altar lhe deponha? Tais pensamentos volvendo no peito inflamado. Se o não fizesse. por culpa tão-só de um aquivo. revolvendo com os ventos as ondas. o rei Éolo as tempestades sonoras domina. a todos impondo o seu jugo. conversa consigo mesma: — Aceitar o fracasso no início da empresa. dos Austros feros. em pessoa. seus brios aplaca e os tempera. para encurtar ou soltar mais as rédeas. conforme o ordenasse. sem resultado. acossados dos Fados. na agonia final. como também um monarca lhes deu. mantinha afastados do Lácio como joguete das ondas os teucros escapos dos gregos e do terrível Aquiles. Juno potente. O Onipotente. . a sangrar-lhe no peito a ferida. sofrimento indizível de ofensas passadas. a deidade baixa até à pátria dos ventos furiosos. numa furna espaçosa. os impávidos ventos. e ao infeliz. há tantos anos guerreio um só povo. obediente ao seu mando. apartando com as quilhas as ondas salobres.

Negra noite o mar todo recobre. Jogam-se ao mar. Éolo. por entre fundos suspiros. Deiopéia. aos raios freqüentes o mar se ilumina. gente inimiga me sulca o Tirreno. a mim. preço do grande favor que me prestas. I V R O I 11 Súplice. no mesmo ponto em que Heitor sucumbiu sob a lança de Aquiles. e pai te tornes de prole sadia e invejada de todos. ao lutar nas campinas de Tróia de perecer sob os golpes dos teus fulminantes ataques. No meu cortejo se encontram quatorze belíssimas ninfas. os ventos. Troam os poios. formados em turbilhões. aos astros as mãos elevando. e o violento Aquilão em reforço à tormenta bate de frente na vela maior e até aos astros a atira. então. enunciando as seguintes palavras: Éolo.L. onde tantos escudos lascados e capacetes e corpos de heróis o Simoente carrega ! Não acabara. Em rolos seguidos as ondas às praias investem. deixando-os paralisados. Súbito. Áfrico. o alto céu. fértil em grandes procelas. em tropel. Força nos ventos insufla. respondeu: — A ti cabe. dizer-me quanto desejas. Eis se levanta a celeuma dos nautas. este cetro e a aquiescência de Jove. a mais gentil. dar-te-ei como esposa extremada. o mais forte dos filhos de Dânao ! Não ter eu tido a ventura. O meu reinar a ti devo. bradou: — Oh. a fim de que more perpetuamente contigo no mais harmonioso consórcio. valente Tidida. submerge essas naus alquebradas ou as dispersa no mar infinito e os seus corpos afunda. a quem deu o pai e monarca dos deuses e do homem as ondas bravas deter e acalmar a insolência dos ventos. o frio percorre de Enéias os membros. No jeito de tropas. Num pronto. Juno lhe fala. três vezes e quatro felizes os que morreram à vista dos pais. empurrou para o lado com a ponta do cetro monte escavado. 64 -103 . sob os muros de Tróia ! Ó tu. logo logo cumprir o que ordenas. Tudo à visão dos troianos são formas variadas da Morte. Dás-me também freqüentar os festins das deidades eternas e árbitro ser todo o tempo das chuvas no mar tempestuoso. Rainha. abalando-o até ao fundo sem luzes Noto mais Euro potentes e. as nuvens retiram da vista dos teucros a bela luz da manhã. Assim falando. onde Sarpédone ingente. dada a porta irromperam por essa abertura. enxárcias sibilam. levando consigo Tróia e os vencidos penates em busca da Itália distante.

observou o que então ocorria: no equóreo campo. surpreso. Impere naqueles penhascos imensos. . a esquipada com os homens de Acates robusto. mansões de vós todos. Mais para diante tereis o castigo de tanta ousadia. sem demora ! e ao rei vosso levai o recado de que o domínio do mar e o tridente não são propriedade dele. Netuno sentiu pelos surdos mugidos do mar profundo que no alto a tormenta a campear se encontrava. . Antes do fim do discurso o mar bravo ficara sereno. assoberbados das ondas os teucros. a luz bela do sol resplandece. de Ilioneu. Orgulhe-se dos seus domínios Éolo e mande no cárcere em que vos sentis como servos. tantas serras ergueis nos meus reinos? Sem mais conversas. Uns marinheiros se agarram na crista das ondas. a terra e o céu vasto num todo informe arrolais. a tempestade as domou. pertencem-me. Euro. três outros arrasta do mar encrespado Euro aos estreitos e sirtes do fundo — espetáculo triste! — nesses baixios os prende e os circunda de bancos de areia. À vista mesmo de Enéias uma onda o navio surpreende do fido Oronte e seus lícios. o céu arruinado. cuja areia sem pausa referve. Porém o que importa é compor a tormenta. Montanha escarpada desfaz-se nos mastros. a mais do que todas possante. Nesse entrementes. Parte-se a nau.12 ENEIDA quebram-se os remos. dispersa. armas e quadros. Vários ainda a nadar aparecem no pélago imenso. A nau de Abante. deixando os costados à mercê d'água. Noto a três barcos impele de encontro a uns rochedos ocultos. a serena cabeça põe fora d'água e. té ser tragado num ápice por um voraz torvelinho. em fuga os negros bulcões. a de Aletes. o fundo outros enxergam do mar. as ondas brabas três vezes o casco anegrado volteiam. observou toda a esquadra de Enéias. a proa se volta. caindo de cheio na popa. entram nelas furiosas as águas por quantas rimas encontrem nas frouxas junturas dos lenhos. Euro e Zéfiro chama e destarte lhes fala: De tanto orgulho vos incha a confiança na própria linhagem. quase submersos. do imo cachões a brotar. Fora daqui. dura meseta a que os ítalos deram o nome de Altares. despojos salvados da teucra opulência. Logo percebe tratar-se dos dolos da irmã rancorosa. ventos audazes? Sem me consultardes. de cabeça o piloto mergulha no oceano. Juno potente. Comovido. .

pelos dois flancos formado de uma ilha em que as ondas se quebram. Como por vezes ocorre em cidades de muitos vizinhos. e amparando-as com áridos ramos. primeiro de todos. com seu discurso as vontades compõe. O mar vasto se torna de súbito manso. do mar distante provindas. sob uma abóboda toda de pedra. até grande distância. com o céu já sereno. as armas a luta improvisa. os perigosos abrolhos com o próprio tridente remove. Sobe o caudilho troiano a um rochedo. uma grota se abre. mas. as frigias birremes. e na vasta campina líquida o olhar alongou para ver se alcançava o navio do forte Anteu. ou mesmo Cápis ou as armas na popa do nobre Caíco. De um pedernal tira Acates. quando rebenta revolta e dispara o povinho sem brio. repousa sem movimento o mar fundo. restos da grande flotilha. e Cimótoe as naves libertam das pedras. trabalhado dos ventos. um fogaréu logo apronta com chamas vivazes por tudo. os sócios de Enéias à praia mais próxima tendem. Nessa caverna o Troiano penetra com sete navios. Tritão. Logo. todos calam e atentos o escutam. no intuito de a parte sã triturar com pedrinhas e ao fogo tostar alguns deles. Ali. Impacientes de o solo pisarem. sofregamente os troianos na areia das praias os membros intumescidos distendem. o furor dulcifica: da mesma forma cessou o barulho das vagas. uma esplêndida selva com negro bosque em que os ramos inquietos o medo suscitam. De um lado e do outro. sirtes acalma. já voam pedras e fachos. Lassos. centelhas. as proas viram no rumo da costa da Líbia. a um gesto da divindade. ali perto. onde uma enseada discreta e profunda bom porto oferece. se de súbito surge um varão de aparência tranqüila e comprovado valor. retiram o úmido trigo e os agrestes de Ceres. dois picos irmãos ante o céu se levantam. Lambem as ondas as rodas ligeiras do carro marinho. tenteia a rédea e completa uma volta na extensa planície. Ao fundo. com fontes amenas e assentos talhados na rocha é a moradia das ninfas. Lá no alto. 144 -183 . os cansados navios não necessitam de amarras nem de âncoras para prendê-los. que em folhas secas recolhe.LIVRO I 13 Ele. conquanto alquebrados da viagem. dos grandes trabalhos da viagem. os troianos. ameaçadores. na base. ao olhar para as ondas. dois golfos distintos e certos.

Estes o couro das costas retiram. na relva se espalham. e. no peito concentra-se dor indizível. depois. e aguardai um futuro risonho. trazia-as Acates. a desgraça de Oronte lamenta. Antes de todos. onde os Fados nos mostram o ambicionado descanso nos reinos futuros de Tróia. e do ponto mais alto do céu contemplava 184 . Ao porto. Pára ali mesmo.223 . lhes fala. em tropel buliçoso. com todos reparte. Todos atiram-se às presas da caça e ao festim dão começo. Outros dispõem caldeiras na praia e as fogueiras despertam. Vós os atroantes escolhos de Cila enfrentar já soubestes e o seu furor desmedido. o pálido medo deixai de lado. se perguntam se acaso ainda vivem. cheios os vastos porões dos navios. a miuçalha. que logo à sombra se acolhem dos bosques de frondes inquietas. chora o destino de Amico. até ver atiradas por terra vítimas sete. Máxime Enéias. oprimido de tantos cuidados. lançando a mão ao arco das setas velozes. Voltai a ser o que sois. seu fiel companheiro. ou se na extrema agonia não ouvem a voz dos que os chamam. trementes no espeto as enfiam. Entre esperança temor. prado. Do melhor vinho que Acestes lhe dera ao partir da Trinácria. igualando com isso os navios recurvos. se encaminha e entre os sócios a caça divide. a que toda a manada acompanha. na fronte luze a esperança. as carnes desnudam. que os ramos vistosos no alto agitavam. perigos sem conta. várias escolhe. amenizar procurando os trabalhos com termos afáveis: Ó companheiros. três cervos errantes na praia somente enxerga. em longas práticas choram a perda dos sócios ausentes. Criai ânimo. Por entre casos variados. Refeitos todos com a boa pitança. Saciada a fome e desfeitos os últimos toques da mesa. Claro ainda estava. os guieiros abate.14 ENEIDA Naves à vista. avançamos na direção prometida do Lácio. Assim falou. Deus há de pôr fim a tão grandes canseiras. Mas. fartos do vinho precioso. o desastre de Lico indizível. o frio. então. em bons pedaços as cortam. dispersos a tiros. trabalhos mais árduos do que estes já suportastes. Tudo isso há de ser recordado algum dia. do incontrastável Cloanto e também o de Gias valente. escapastes também dos ciclópeos antros sem dano maior. alegremente a pastar pelo. nenhuma. não desiste o Troiano. da carne sucosa dos cervos. mui longe.

até se deter no espectac'lo visto do Olimpo. Genitor. povos de ânimo fero 224 . Qual a razão. depois de vencerem trabalhos sem conta. Vênus. Ainda verás a cidade e as muralhas da forte Lavínio. avançar até às fontes do rio Timavo. como te disse. para.263 . dos deuses diriges do alto do teu poderio. deu nome à colônia e os troféus de Ilio forte no alto fixou. Enquanto nós. e a morada dos seus troianos. Depois. Mudança não houve no meu pensamento. caindo de penhas altivas. as terras jacentes. tua gente. Senhor. e até aos astros o nome elevar-se de Enéias de alma sublime. disse: — ó tu. haviam de originar-se dos filhos de Teucro os romanos robustos que no mar vasto e na terra o comando teriam das gentes. que o destino dos homens. em quê meus troianos. a quem dás ter assento no Olimpo. Guerras terríveis ele há de enfrentar. cortar pelos reinos libúrnios. o peito angustiado e de lágrimas cheios os olhos. tomando de longe vou revolver o futuro e os arcanos do Fado mostrar-te. para. praias e povos remotos. dos plainos ferazes do reino da Líbia. afinal. e sempre afastados das costas da Itália. Esse é o penhor da piedade? a promessa de reinos futuros? Sorrindo. o pai dos mortais e dos deuses a filha aconchega com o mesmo gesto sereno com que tranqüiliza as tormentas do céu revolto e dos mares. e os espantas com raios atroantes: em quê te pôde ofender meu Enéias. uma vez que tais cuidos te agitam. Ali também a cidade de Pádua fundou. por nove bocarras ele se atira no mar. Quando na mente volvia cuidados de tal magnitude. oprimindo com as ondas o campo. Citeréia. imutáveis encontram-se os Fados. escapando das forças argivas. Mas. tantos navios perdemos — oh dor! — por capricho somente de uma das deusas. seguro. de onde. das tristes ruinas de Tróia me consolava equilíbrio buscando nos Fados opostos. de te haveres mudado a esse ponto? Essa esperança em verdade.LIVRO I 15 Jove o mar vasto cruzado de velas. Ora dorme no seio da paz almejada. Mas a Fortuna até agora aos varões incansável avexa. no golfo da Ilíria entrar e. os caminhos de acesso à Itália por mares e terras lhes sejam vedados? Foi muito clara a promessa: volvidos os anos. Quando. deste modo falou-lhe: Acalma-te. porás término a seus infindáveis trabalhos? Pôde Antenor.

reinar no Lácio e abater a fereza dos rútulos fortes. amarradas as mãos nas costas. Seu fíIho Ascânio — o c o g n o m e de Iulo lhe foi acrescido quando ainda no orbe sabia-se de ílio e da sua presença — governará por trinta anos. um mês depois do outro. Dou-lhes o império sem fim. os senhores do mundo. Obedientes às ordens de cima. mudada em melhor há de em breve os romanos favorecer. Não fosse impedir-lhes a entrada Dido em seus reinos. mui vaidoso da pele fulgente da loba. Cumpre de pronto o mandado. a deidade ofendida.303 . Tendo assim dito. quando. de origem tão clara. de Marte grávida. à luz há de dar os dois gêmeos preditos.16 ENEIDA domar no jugo. assentado sobre armas fatais. Há de a idade chegar. até que a princesa Ília. sacerdotisa. a boca a espumar só de sangue. três anos corridos. estios e invernos gelados. ao nascido de Maia deu ordens precisas para que os vastos domínios da nova Cartago acolhessem os trabalhados troianos. a cidade. Prazo nem metas imponho às conquistas do povo escolhido. insciente dos Fados. predispondo-se Dido 264 . na carreira dos lustros. dominará nestes povos e o burgo mavórcio' erigindo. Até Juno. Rômulo. César de Tróia. Assim me apraz. Do claro nome de Iulo provém o cognome de Júlio. seu reino. aquietam-se os ásperos sec'los. suspensas as guerras. a seus homens dar leis e cidades muradas. e a capital de Lavínio. Quirino. sua fama há de aos astros chegar dentro em pouco. aumentado de muito para Alba alfim mudará. guarnecida de grandes muralhas. os terríveis portões do Castelo da Guerra serão trancados com traves e ferros ingentes. de fortes muros. A boa Fé. rico de espólios do Oriente. Levado das asas lestes. até às águas do Oceano vai estender-se. em que a família de Assáraco à ilustre Micenas e Ftia dominará. e sobre Argos vencida há de impor o seu jugo. seu nome dará aos romanos ditosos. esse povo togado. que à terra. ao céu e ao mar bravo trabalhos sem pausa ocasiona com seus temores. Vesta e Remo. Invocado vai ser pelos homens. e dentro o ímpio Furor. então. esbraveja. de par com o irmão seu. Livre do medo infundado. despem-se os penos do gênio feroz. Mercúrio désliza e detém-se nos lindes da Líbia. hás de um dia no Olimpo acolhê-lo. Nestes domínios a gente de Heitor manterá o comando trezentos anos. ditarão leis. Então.

ou provéns da linhagem das Ninfas? Quem quer que sejas. veloz a cavalo em disparada mais que Euro ao passar no seu rápido curso. com pele de lince manchado nos ombros. e de volta aos seus homens contar o que vira. Longa é a injúria.LIVRO I 17 a receber os troianos com mostras de muita amizade. a nós sê propícia. Vênus falou: — Não sou digna. virgem de tuas irmãs encontrei nestas matas. bem protegidos os pés por coturnos de púrpura fina. ou na carreira a acossar com seus gritos javardo espumante? Falara Vénus. uma das minhas irmãs a vagar nestes ermos. para livrar-se do irmão. um nó bem posto segura-lhe no alto o vestido flutuante. resolveu pessoalmente inspecionar os contornos. sem ter notícias de nada: os lugares. com duas hastes na destra. os joelhos à mostra. dos tírios. opulento fenício em domínios. variados os fatos. Subitamente. acaso. nem mesmo a voz. não vistes. uma deusa. um povo intratável na guerra. exilada de Tiro potente. Casada foi com Siqueu. nos mares vagamos. soltas aos ventos as belas madeixas. seu fiel ajudante. 304 . no gesto e nas armas. irmã de Febo. de tanta honraria. volvendo na mente cuidados e planos. os homens. Foi a primeira a falar: — Olá. cidade erigida por Agenor. A Dido o império pertence. para saber se eram de homens ou feras as terras incultas em que se achava. munidas de pontas de ferro. jovens. minora os trabalhos de nossa gente e nos dize a que céu arribamos. no meio da mata ao encontro saiu-lhe a genitora. seguido somente de Acates. aljava a tiracolo. mal surge a alma luz. em verdade. Certamente és da corte celeste. em resposta: Nenhuma. o pio Enéias. talvez. Recordarei tão-somente por cima o que mais interessa. em tudo lembrava virgem da Esparta ou Harpálice trácia. as praias adonde arribara. Parte. Nos reinos púnicos te achas. Durante a noite. pois arco e flecha dos ombros pendiam-lhe qual caçadora. Uso é das tírias donzelas a aljava trazer sempre ao lado. as praias a que o destino nos trouxe. e o filho lhe disse o seguinte. fim dos líbios. oh ! quem direi? pois não tens de mortal nem o fino semblante. À aventura. A frota esconde no cavo de um bosque situado na base de grande pedra que as sombras horrentes da mata encobriam. Em teus altares viremos depor muito gratas of'rendas.343 .

O pio Enéias eu sou. Compram dos donos o solo que um couro taurino cercasse. sem a menor reverência à dor grande da irmã sofredora.383 . obediente aos decretos de cima. e vos sobrasse vagar para ouvir os anais dessas lidas. insepulto. donde lhe veio o cognome de Birsa. Porém vós outros. de incalculável valor. A aventura por uma mulher é chefiada. irmão dela. Véspero o dia encerrara no Olimpo bem antes do termo. Porém em sonhos a sombra do esposo ela viu. Os fugitivos ao ponto chegaram da costa em que logo verás os muros ingentes da nova Cartago e o castelo. guiado pela deidade materna. Aconselhou-a a fugir. prepara a saída e alicia mais gente para o seu plano. Dido. quem sois? de que terra partistes? adonde vos dirigis? e o caminho? — A tais vozes. Tomadas de assalto umas naves acaso prestes. Por muito tempo escondeu o seu crime. imolou a Siqueu desarmado. e responde às perguntas nos termos seguintes: Ó deusa ! se do princípio eu contasse os trabalhos passados. Enéias suspira profundamente. provieram. Entre eles dois reina a Fúria. movidos de horror ao tirano ou até mesmo de puro medo levados. das ondas e de Euro batidas. o pai a entregara ao marido e os unira felizes sob os primeiros auspícios. que as aras sangrentas lhe mostra. bem como a marca do ferro deixado no peito desnudo. os avós do alto Jove . Virgem. Apenas sete nos restam. ouro e prata aos montões para a viagem. e revelou toda a trama do que no palácio ocorrera. 344 . alarmada. carregam-nas de ouro. dos homens o mais celerado. Em Tiro reinava entretanto Pigmalião.18 ENEIDA a quem amor dedicava entranhável a bela consorte. ora levo comigo os penates salvos do imigo implacável. a exilar-se da pátria querida. Da antiga Tróia partidos — se acaso aos ouvidos chegou-vos o nome ao menos de Tróia — depois de vagar pelos mares uma terrível borrasca nas costas da Líbia jogou-nos. as famosas riquezas de Pigmalião. Procuro a Itália nativa. que havia escondido. de origem fenícia. Meu nome até aos astros se evola. cegado da sede do ouro. de palidez aflitiva. sobre tesouros antigos mostrar-lhe. Com vinte naus percorri grandes mares da Frigia. e o tirano. ante os próprios altares. e com mil subterfúgios soube iludir com fingidas histórias a esposa inocente.

as muralhas contemplam de frente. o traçado das ruas. Cheiro de ambória divina espalharam no ambiente os cabelos soltos da diva. não creio que os deuses de ti se apartassen uma vez que eles te guiaram para esta cidade dos tírios. que a a v e de Júpiter no éter sereno encalçava até há pouco. com belas portas. as asas agitam sonoras. da Europa e da Ásia excluído.423 . a nata especiosa dos teucros. em colóquio amistoso contigo? Dessa maneira. envolveu os viandantes de espessa neblina. ignoto. porque ninguém viesse embaraçá-los ou neles tocar ou fazer-lhes perguntas sobre o motivo da sua presença naquelas paragens. e dirige teus passos por este caminho. Não de outro modo teus barcos. avançam. completando seus giros em torno do polo. seguindo o caminho indicado. — Não mais pôde Vênus as queixa do filho ouvir. das toscas choupanas de outrora. ou já no porto se encontram ou. nos vastos plainos de cima. velas tufadas. e nela sobressaindo-se aos mais. Vênus. Os fortes tírios agitam-se. e ouvir-te não posso. Ali. a menos que seja vão tudo quanto aprendi sobre augúrios na arte paterna. dispostos em fila. A notícia te dou de que os sócios e a esquadra salvos se encontram. Daqui já distingues os paços da rainha Dido. à volta deles mais névoa adensando. carente de tudo. enquanto isso. Ora reunidos. vês doze cisnes em álacre vôo. Interrompe-o no meio da dor e lhe fala: Quem quer que sejas. em voz alta a gritar-lhe: Por que me iludes assim. Em frente. pois. o guerreiro troiano reconheceu-a. Deusa no porte. esta Líbia percorro. e ao virar-se. Até aos pés. jubilosa com um cento de altares a que o perfume sabeu e festões variegados enfeitam. Por esse tempo. . Disse. muros ciclópeos levantam. ao teu próprio filho. os dois galgam um teso próximo. transfulge-lhe o colo de rosa e perfume. parece que já alcançaram o pouso escolhido ou para isso se aprestam. Ela. dirige-se para a cidade. as vestes lhe descem. pelo éter librando-se atira-se a Pafos. queixoso. com enganosas imagens? Por que não trocarmos apertos de mão. bulício de gente. onde a morada revê. . de onde a paisagem dominam. No teu caminho prossegue. desatadas. Nessa hora. trazidos dos ventos agora propícios. De tudo admira-se Enéias. 384 . e o canto soltam joviais.LIVRO I 19 Eu próprio. porém. tantas vezes. perfeita. e à fuginte persegue.

à mão tente penedos removem. a esperar pela nobre rainha. ornamento soberbo de cenas futuras. onde os penos primeiro. Nesse lugar construíra a rainha sidônia um grandioso templo de Juno. de dons opulento. da guerra de Tróia destruída. Foi nesse bosque que Enéias sinais encontrou de certeza de que seus males estavam no fim e que lícito lhe era alimentar esperanças de sorte melhor no futuro. sem nenhum dos presentes notar o que passa. Cava-se um porto acolá. flagelo de ambos em Tróia. os portais reluzentes. E. 424 . a olhar os trabalhos do burgo. de sua pujança. vigas do mesmo metal. sinal encontraram por Juno amiga indicado: a cabeça de um belo cavalo. elegem. de bronze. e. Leis. e. nascente. A escadaria. Tal como abelhas que na primavera o trabalho exercitam. depois de vencidos os temporais e trabalhos nas ondas. ferve o trabalho por tudo. a que ponto da terra extensa não foi a notícia da nossa desdita? Príamo vês. pois. com sulcos demarcam as suas futuras moradas. nos campos floridos. coisa por coisa.463 . o primor dos trabalhos já feitos e a agilidade dos hábeis artífices. quando a máquina ingente do templo de perto admirava. mais adiante outros cuidam das bases de um grande teatro. detendo-se: — Acates. e de néctar os favos encher perfumados. Afortunados aqueles que vêem seus muros erguerem-se ! exclama Enéias. magistrados. ao sol. ou em densas colunas longe do asilo atirar a indolente cambada de zangãos. para os desastres. ou na faina de o mel derretido deixar mais denso. ou receber das que chegam a carga. piedade. para o infortúnio. sem deter-se. com a efígie da deusa. estas cenas te servem também de consolo. até aqui a virtude recebe seu prêmio: lágrimas. a fortuna rara daquela cidade.20 ENEIDA a sobranceira almeidina. colunas enormes nas duras canteiras talham em série. ringem quícios nas portas de bronze. nota as batalhas já divulgadas pelo orbe. olha a Príamo e a Aquiles. prova do gênio guerreiro dos penos. Os "dois Atridas admira. de bronze. a tomilho a colméia rescende. Outros. pergunta. no instante de novas colônias fundar com a prole crescida. mistura-se — coisa admirável! — com o povo de derredor. Bane o terror. Um bosquezinho de sombra agradável havia no centro da cidadela. e os graves e fiéis senadores.

. sem conseguir desfazer o estupor de que fora tomado. antes de o pasto provarem de Tróia e beberem do Xanto. a fugir os aquivos. frescas armas do negro Menão. com a cabeleira o chão varre. Enquanto Enéias dardânío admirava esses quadros sublimes. às demais divindades no garbo se exalta. Indescritível prazer no imo peito a Latona animava: tal era Dido no meio dos seus. Vê neste lance. herói sem entranhas: pelo chão duro arrastado. elegante. Em outra parte a Troílo revê despojado das armas. de forma belíssima. atrevia-se agora a lutar contra os homens. Torva. as ilíadas se dirigiam ao templo de Palas. Competição infeliz com Aquiles. em brancas tendas. e enquanto a alma apascenta com a vista de vãs pinturas.503 (escreve. Depois de haver por três vezes Aquiles à volta dos muros de Tróia o corpo de Heitor arrastado. e os próprios frígios adiante. na pugna entre as mais se distingue. Perto dali. a ativar o trabalho 464 . instados os jovens dardânios. Áureo boldrié traz por baixo da mama desnuda. de pronto assoladas no sono primeiro pelo Tidida feroz. Como nas margens do Eurotas ou cume do Cinto vistoso os coros Diana dirige na dança. Geme o caudilho troiano do fundo do peito dorido. não dá mostras de vê-las. um belo manto lhe ofertam. inermes. Os cavalos levou para o campo dos gregos. Pentesiléia terrível. ao perceber os espólios. a chorar reconhece os cavalos de Reso. o carro. soluça. vê os esquadrões orientais. a hasta um sulco na poeira ainda Nisso. acompanhada de enorme cortejo de moços da terra. seus próprios cavalos o levam. Cabelos ao vento. olhos fixos no chão. Virgem guerreira. de aspecto tristonho. pende do carro vazio. dirige-as. seguida de turba indescritível de Oréadas: pende-lhe a aljava dos ombros. no peito com as mãos percutiam. Príamo além» para o céu levantava as mãos brancas.LIVRO I 21 Dessa maneira falou. Dido. A si também reconhece a lutar contra os fortes aquivos. salpicado até aos pés da sangueira do morticínio. de prantos o rosto banhando. o cadáver do amigo. armadas de escudos lunados. infensa a Tróia. a deidade. na luta travada junto dos muros de Pérgamo. mui caro o vendia. entra a Rainha no templo. ao avançar. As Amazonas. nas mãos ainda as rédeas segura. premidos do carro de Aquiles.

o que esperam no ensejo. atentos ao bem e à impiedade. forte nas armas. terra antiqüíssima. desejam falar-lhes. adentrar um pouquinho nos vedam. guerra declaram de início. as tarefas indica ou sorteia. rodeada do corpo da guarda. e amparados da névoa. 504 . a quem Júpiter deu construir uma nova comunidade e com leis refrear a insolência dos povos ! Míseros teucros. do nome de um rei dessa gente famosa. depois de alcançada licença para falar. Outro é nosso ânimo. ora a Itália dos seus descendentes denominada. mais o forte Cloanto e os demais teucros que a força dos ventos durante a tormenta no mar revolto açoitara. os pleitos julga. pelos enótrios povoada. Emudeceu de estupor. nem para os barcos levamos as presas roubadas. Para ela vínhamos. dos gregos vetustos Hespéria chamada. dos ventos jogados por todos os mares. Medo e alegria a um só tempo. te suplicamos. ditosa a cuidar do futuro do reino. Foi quando Enéias notou que no meio daquele concurso vinha Sergesto de par com Anteu. debaixo da abóbada grande. sem rumo. honrai ao menos os numes. qual o destino daquela consulta. Poucos. mas a própria estranheza do caso os conteve. As naves nos poupa das chamas vorazes. senta-se no sólio excelso. por ondas mil dispersando-nos. Quando admitido no templo. Ilioneu com serena postura expressou-se: Nobre Rainha. Logo na entrada do templo.22 ENEIDA dos operários. de solo ubertoso. Mas. a nado alcançamos com muito trabalho estas praias. Se desprezais os mortais e seus fracos engenhos de morte. em peitos vencidos não mora a soberba. esperar decidiram para saber do destino dos seus e da esquadra. sê branda no teu julgamento. de repente Orião borrascosa nas ondas se abate e nuns baixios ocultos os austros protervos nos jogam. presentes ali se encontram seletos caudilhos de cada unidade. com Acates o mesmo acontece. apertos de mão trocar. Que geração aqui mora ou que pátria tais usos admite? pois nem sequer nos permitem saltar em paragens desertas. jogando-os para outras paragens. homens piedosos acolhe. Dessa maneira. Nem devastar intentamos com ferro os penates da Líbia. pedras ingentes.543 . sentenças prescreve e também compartilha da atividaide geral. Região existe.

até nos confins mais esconsas da Líbia. permitido os navios esparsos reunirmos. Prouvera aos céus que chegasse a este porto trazido dos ventos o próprio Enéias ! Já já mandarei explorar toda a costa por nossos homens. troianos. sem para as trevas terríveis haver até agora baixado. As duras leis do começo de um reino.583 23 . Se os Fados ainda o conservam e as auras vitais ele aspira. ó pai excelso dos teucros ! sem nada no mundo a amparar-nos. de comprovado valor nos combates. Sim. pois. de onde partimos faz pouco e de Acestes busquemos o amparo. ledos busquemos aquelas regiões e no Lácio saltemos. medo não temos de nada nem tu de nos teres salvado. Quem desconhece a ascendência de Enéias. 544 . a armada segura. depois de tudo isto. Mas. em termos concisos lhe fala a Rainha: Bani. horrores da guerra? Nós. é o que vemos. campos de lavras e o ínclito Acestes de sangue troiano. o primeiro. em tudo. Acates e o forte caudilho dos altos troas.LIVRO I Enéias foi nosso rei. Com sussurro de apoio manifestaram-se os troas. caso ele se ache nalguma floresta ou povoado distante. de muito romper desejavam a densa nuvem. os sócios. não somos tão bárbaros como pensastes. ponde os navios em terra. a proverbial resistência dos teucros. Não haverá distinção entre os penos antigos e os teucros. nem junge o Sol seus cavalos mui longe da nossa. se nas ondas ficaste e esperança de Iulo não. ou mesmo aos reinos de Acestes nos términos do monte de Érix. que pensas do caso? Tudo foi salvo. de remos e antenas provê-los. Se nos for dado ir à Itália com os sócios e o rei prestigioso. Com tal discurso animados. o mais justo e piedoso dos homens. Em igualdade quereis compartir do meu reino nascente? Esta cidade pertence-vos. Primeiro dos dois disse a Enéias Acates: Filho da deusa. a queda de Tróia. do peito o temor. cidade. Enéias. senão mesmo a própria necessidade me impõem rigor na patrulha da costa. com a minha ajuda e o recurso dos penos segui confortados. Se os largos campos visais de Saturno ou da Hespéria grandiosa. Dessa maneira Ilioneu se expressou. ao menos seja-nos dado voltar à Sicília troiana. na Sicília deixamos cidades e aliados de monta. expulsai os cuidados. Com os olhos baixos. temos. Seja-nos. os fenícios. mastros falcar nos teus bosques.

e de Ânquises troiano? Lembro-me bem que uma vez Teucro foi à cidade de Tiro. até agora perdido.34 ENEIDA Falta um. subitamente. e dás acolhida. a direita dá ao amigo Ilioneu. pois. e em seguida ao forte Gias. a Rainha espantou-se. Resplandecente na luz repentina apresenta-se Enéias como um dos deuses na forma e no gesto. que a dor compartilhas dos grande trabalhos de Tróia. no entanto. Desde esse tempo me são conhecidos teu nome aureolado. no nosso triste fadário. se ainda há justiça no mundo e consciência do próprio respeito — prêmio para esta vitória. e o ouro flavo encastoa na prata ou no mármor de Paros: de igual maneira aparece o Troiano aos demais. as sombras dos montes. de Vênus divina. o teucro Enéias. para dizer-lhes: — Eu sou quem buscais. a Cloanto valente e aos demais companheiros. dos lindes pátrios expulso. aos belos cabelos um resplendor purpurino.623 . dos tristes restos escapos dos dânaos. tinha de um novo reino fundar com a ajuda de Belo. que Fado inditoso por tantos perigos te urge a esse ponto? Que força te trouxe a paragens tão duras? És. teu nome e fama hão de sempre durar onde quer que eu me veja pelo Destino jogado. da sua grande desdita. — Depois de falar. ficando os dois homens visíveis a todos. 584 . falou-lhe: Filho de Vênus. ó tu. Tal como infunde mais brilho ao marfim a mão sábia do artista. a vivaz louçania dos moços. nascido nas margens claras do belo Simoente.ele. já livre das ondas bravias da Líbia. que as ondas tragaram na nossa presença. meu pai. Mal terminara. gestas dos cabos da Grécia. a Seresto a sinistra. Impossível. lar próprio e muros a quem já perdeu tudo quanto possuía. ainda mesmo que aqui se encontrassem todos os teucros dispersos nos longos caminhos do mundo. Serena. e a neblina desfez-se de pronto no espaço. a intenção . À aparição subitânea do herói. ó Dido. Enéias aquele. de improviso. pois Vênus ornara seu filho amado. Que século viu o teu berço? os pais ilustres que o teu nascimento ditoso abençoaram? Enquanto os rios o mar procurarem. que então Chipre vastado havia e o domínio dessa ilha obtivera de pouco. apenas. emprestando-lhe aos olhos. Dêem-te os deuses — se houver divindade que os bons recompensem. Tudo o mais se acha de acordo com o que nos predisse a deidade. infortúnios de Tróia vencida. é dizer-te quanto nos vai no imo peito.

663 . aos navios Acates envia. aprendi a ser boa com todos. ficasse momento algum. Por isso. dirige-se Acates às naves na praia. Sem demora. Ao mesmo tempo trazer recomenda presentes valiosos. do paço inconstante. preparam-se as salas do régio palácio para o festim. e também fino véu contornado de folhas de acanto. Da falsidade se teme dos tírios. Juno implacável lhe queima as entranhas de noite e de dia. conduz o Troiano ao palácio. que Ilioneu outrora empunhara. e se dizia oriundo da raça de antigos troianos. para que a Ascânio apanhasse e o trouxesse direito à cidade. pois em Ascânio cifrava-se todo o desvelo paterno. Por fado igual perseguida. javalis corpulentos um cento. belo colar de alvas per'las e áurea coroa com duas fileiras de gemas preciosas. a saber: rico manto bordado de ouro. no rosto e no gesto. depois de trabalhos sem conta me concedeu a Fortuna fixar-me afinal nestas plagas. e mais a alegria das festas: muitos pichéis de bom vinho. em baixelas douradas. ao mesmo tempo que envia bois vinte aos consócios de Enéias. inestimável presente de Leda. filha a mais velha de Príamo. lembrança materna. salvos das ruínas de Tróia. nas do centro o banquete com ricos aprestos. raros tecidos de preço. Por ter passado por isso. Um cetro traz.LIVRO I Conquanto imigo dos troas. entrai sem detença no nosso palácio. ao alígero Amor se dirige e lhe diz o seguinte: Filho. os feitos reluzem dos nobres antepassados. da argiva Helena trazidos aquando saiu de Micenas. realçava-lhes Teucro o prestígio. belas alfombras de púrpura. no litoral. 25 624 . A Citeréia no entanto revolve na mente conselhos e novos planos. subindo até à origem de antiga linhagem. A prataria resplende na mesa. Nesse entrementes. além disso. em quem cifro minha única força. pelo cinzel trabalhadas. e ordens transmite por que sacrifícios aos deuses se façam. jovens. e cordeiros com suas mães outros tantos. O amor de pai não consente que Enéias tranqüilo. Tendo o discurso acabado. no afã de Cupido trocar de aparência com o doce Ascânio. Passo estugado. por que se insinue na alma incendiada de Dido e até aos ossos seu fogo alimente. minha alta potência. pelo proibido himeneu atraída até ao burgo de Tróia. Cedo.

cinqüenta donzelas em filas cuidam dos finos manjares e a chama do lar alimentam. e em seu regaço abrigado o levou para os bosques Idálios. Como já sabes. onde o rodeia de sombras e flores o suave perfume da manjerona. Pois. Ora ele se acha com Dido fenícia. quietinho. para Cartago levava os presentes. sem que nume nenhum transmudá-la consiga e a mim se prenda por meio do afeto que a Enéias eu voto. não mais. seu todo assimila. contra o seu peito apertar-te durante o régio festim. Cupido. seguido da mocidade troiana. que mais do que todos me é caro. Por uma noite somente. Quero vencê-la em seu próprio arraial e inflamar a Rainha de ardente amor. das asas despe-se e os passos imita contente de Iulo. Água nas mãos deitam fâmulos. ouve atento o que passo a dizer-te. alegríssima. atirado de um lado para outro. teu pobre irmão não descansa. obediente aos preceitos maternos. de cestas as dádivas tiram de Ceres. menino como ele. aprestado no meio dos outros. onde oculto o conserve em lugar consagrado. Acates o guia. que o prende em colóquios intermináveis. num leito de esplendoroso dossel. Chega no instante em que Dido assumira o seu posto. Calmo sopor pelos membros de Ascânio infundiu a deidade. Nesse entrementes. e te cobrir de dulcíssimos beijos e ternos amplexos.26 ENEIDA pois não te temes dos dardos paternos.703 . fogo invisível lhe inspires com teus enganosos venenos. quando Dido. inclinados em leitos purpúreos. Vou sepultá-lo num sono profundo e levá-lo a Citera ou ao bosque Idálio. Quanto ao que espero de ti. No mesmo ponto Cupido obedece aos conselhos maternos. a figura de Ascânio para isso assume. se apresta para ir à grande cidade sidónia levando presentes salvos do mar e das chamas. O infante régio. O pai Enéias também seu lugar ocupara. Porém tenho dúvidas sobre a acolhida. mortais a Tifeu. belas toalhas dispõem de fino pelo. o inebriante perfume do néctar. recorro a ti nesta agrura e teu nume depreco insistente. Decerto esta pensa nalguma vantagem. errante nos mares por ordem de Juno. 664 . para que nada lhe ocorra de mal nem ninguém o descubra. No interior do palácio. obra de Juno. e num sono tranqüilo o conserva. Sempre nas minhas agruras te doeste do que eu padecesse. conforme meu pai ordenara.

Canta os eclipses do sol. e Arcturo. levando aos lábios a copa ao de leve. vai para Dido. dos toques do belo rosto de Ascânio. Estrepitosa algazarra pelo átrio espaçoso se eleva. as palavras fingidas. seu brilho divino. já tocada da peste que há de abrasá-la. e a gracejar a passou para Bícias. Assim dizendo. nada remisso. Quando concluído o serviço e a primeira coberta afastada. uni-vos comigo em louvor desta festa. Dido ordenou que trouxessem a copa de gemas e de ouro por onde Belo bebia e seus filhos e mais descendentes. logo a espumante cratera esgotou e do vinho banhou-se. de quando em quando apertando-o no peito — coitada ! — inconsciente da divindade que a abrasa. Aos pouquinhos o aluno de Vênus procura a imagem riscar de Siqueu e vivaz labareda numa alma fria acender. de pé pelas portas. não cansa de olhá-lo. as duas Ursas. Os próprios tírios. e o manto e o véu enfeitado de folhas de acanto amarelo. Pedido silêncio geral. Das arquitraves douradas os lustres acesos esplendem e a noite escura transmudam num ápice em luz e alegria. nos seja propício e a alma Vênus. Baco.743 . e de inundar de ternura o imo peito do pai presuntivo. conforme dizem. Principalmente a Rainha infeliz. Pasmam dos raros presentes de Enéias. que seja esta festa lembrada de tírios e teucros aqui chegados. E vós. que. a um só tempo abalada pela influição do menino e os presentes então recebidos. as Híadas de águas perenes. como era de praxe. as chuvas e o fogo. também são chamados para tomarem assento nos leitos de finos lavores. começou: Júpiter ! já que presides à hospitalidade.LIVRO I 27 Mais cem mocinhas e número igual de rapazes se ocupam de carregar as travessas e as mesas de copos proverem. fautor de alegria. Outros magnatas beberam. ó tírios. a geração dos mortais e dos brutos. 704 . e a encheu de vinho. depois de pender algum tempo do colo de Enéias. e que nossos netos com ela se ocupem. com vinho as coroam. que nele se embebe e o devora com os olhos. Este. num coração desafeito a bater de concerto com outro. belas crateras ali são trazidas. esquecida de tais sentimentos. Na cítara de ouro o crinito Iopas dedilha e descanta o que Atlante a tocar lhe ensinara. as mudanças constantes da lua. derrama na mesa a usual libação.

muito i n q u i r i n d o r e s p e i t o de Príamo. qual o feitio das armas do filho da Aurora divina. fonte instancável de amor insidioso. Por sua vez a Rainha infeliz todo o tempo gastava em longas práticas.28 ENEIDA qual a razão de no inverno banharem-se os sóis no Oceano e de tão longas então se mostrarem nessa época as noites. do início. os teucros o exemplo lhes seguem. Batem-lhe as palmas os tírios. este vagar sem descanso nem termo por mais de sete anos em toda a terra infinita. e de Diomedes os belos cavalos. as artimanhas dos dânaos.755 . 744 . nas ondas inquietas. muito de Heitor. Hóspede — fala-lhe — conta-nos tudo por ordem. a força de Aquiles. desditas dos teus companheiros. por tudo.

— Pela guerra alquebrados. se realmente desejas ouvir esses tristes eventos. e as estrelas. como os aquivos a grande potência dos teucros destruíram.ENEIDA Livro II Prontos à escuta calaram-se todos. e de que fui grande parte. com armas e gente escolhida de guerra. os mortais ao repouso convidam. tirados por sorte. de bojo com tábuas de. os cabos de guerra da Grécia com a ajuda da arte de Palas construíram na praia um cavalo alto como uma montanha. breve relato do lance postremo da guerra de Tróia. Mas. contar-te o sofrer indizível dos nossos. dos Fados repulsos em tantos anos corridos. abeto. dispostos a ouvi-lo. principiarei. espantosa catástrofe que eu vi de perto. num ápice enchendo as entranhas daquele monstro. os guerreiros de mais valor ingressaram. ora uma enseada de pouco valor ou nenhum para as naves. Quem fora capaz de conter-se sem chorar muito. ilha famosa se encontra defronte de Tróia. Nessa medonha caverna. bem que a lembrança de tantos horrores me deixe angustiado. 1-23 . rica no tempo em que o império de Príamo ainda existia. Tênedo. mirmídone ou dólope ou cabo de Aquiles? A úmida noite do céu já descamba. O pai Enéias. exordiou do seu leito elevado: Mandas. caindo devagarinho no poente. Voto de pronto regresso era a máquina L todos diziam. Rainha. então. reino infeliz.

Assim. Nós os supúnhamos longe. ou por dolo isso fosse ou dos Fados previsto. seguido de enorme cortejo. as praias desertas agora: O ponto era este dos dólopes. temo os dânaos. desconhecido. Nesse entretanto. o paço luxuoso de Príamo. entregara-se aos nossos. Com isso a Têucria respira mais leve no luto penoso. ou fabricada ela foi para dano de nossas muralhas. fogo deitássemos nela ou que ao menos o ventre do monstro fosse explorado ou sondadas as vísceras sem mais reservas. e outros mais de melhor parecer insistiam para que ao mar atirássemos logo a armadilha dos dânaos. Muitos pasmavam de ver o presente ominoso da deusa. o campo em que as hostes lutavam. na praia deserta se ocultam. Timetes. Não confieis no cavalo. com o ferro. e devassar nossas casas ou do alto cair na cidade. no valor próprio confiado e igualmente disposto a valer-se das artimanhas nativas ou a morte enfrentar decidido. a fim de seus planos levar a cabo e franquear os portões da cidade aos aquivos. Nisso. o vulgo inconstante oscilava entre vários alvitres. a caverna solta um gemido. da sobranceira almeidina desceu para a praia. a imensidão do cavalo. Laocoonte ardoroso. Abrem-se as portas. a caminho da rica Micenas. abaladas no fundo as entranhas do monstro. uns pastores troianos com grande alarido trazem ao rei um mancebo com as mãos amarradas nas costas. até quando trazem presentes. então. e arrojou com pujança viril um venab'lo dos grandes contra os costados e o ventre abaulado do monstro da praia. a tremer. os navios. primeiro de todos. A mocidade troiana curiosa de vê-lo converge 24-63 . Qualquer insídia contém. Disse. surtos na terra. a tal ponto desconheceis? Ou esconde esta máquina muitos guerreiros. alegram-se os troas de ver mais de espaço o acampamento dos dórios. eis onde Aquiles se achava. ó Tróia. no qual se encrava. e de longe mesmo gritou: — Cidadãos infelizes. Cápis. porém. sacudida com o baque. aconselhou derrubarmos o muro e direto o postarmos na cidadela. ou que seus dons sejam limpos? A Ulisses. que insânia vos cega? Imaginais porventura que os gregos já foram de volta. Oh ! se não fosse a vontade dos deuses e a nossa cegueira. estarias. deixaríamos frustra a malícia dos gregos. então. e em pé.30 ENEIDA Prestes mudaram-se os dânaos. troianos ! Seja o que for.

para que revolver na memória um passado tão triste? Por que deter-vos a ouvir-me? Se a todos os gregos na mesma conta tiverdes. logo se acalmam. se entre os gregos não tenho acolhida. à porfia. Talvez já tenhas ouvido falar do alto nome. caso voltasse à pátria algum dia. bom preço obtereis dos Atridas. A Fortuna criou a Sinão sem ventura. senhor. porém jamais o fará pusilânime e rico em mentiras. em que terra. o falso — só o que é notório vos digo — o tirou do convívio dos homens. que os próprios aquivos à morte infame votaram. sem armas. principiou para mim esta vida de prantos e luto. de lá minha estirpe descende. Não negarei que sou de Argos. em que confia. quando a inveja de Ulisses. enfim. e firmei o propósito. da seguinte maneira falou-nos: Seja o que for que me espera. da fama de Palamedes. de novas calúnias Ulisses sempre assacar-me. o temor. nascido de Belo.LIVRO II 31 de toda a parte. A esse guerreiro entregou-me meu pai. contar-te-ei a verdade. alguma vantagem do seu grande nome me aproveitava. entre os próprios argivos vingá-lo da morte infame. parando algum tempo no meio dos nossos. e entre o vulgo espalhar umas vozes um tanto ambíguas. Esse. doestos no preso atiravam. Mas. Porém. A esses gemidos mudaram-se os ânimos. Ah ! exclamou. a fim de adestrar-me no ofício das armas. Com isso chamei sobre mim ódio imenso. levados por falsos indícios. A conhecer ora aprende as insídias dos dânaos e julga por este os outros. por ser contrário — eis o crime ! — a esta guerra infeliz desde cedo. a que mar poderia acolher-me. basta isso que eu disse. muito jovem. declare-nos sua ascendência. Deposto. sem ventura nenhuma? pois.. Torvo. E não parou senão quando. Louco ! não soube calar. Enquanto vivo ele esteve e gozou de bom crédito junto dos governantes. É o que o Itacense deseja. o princípio. meu sangue reclamam.. 64 -103 . à morte me votam. exacerbada com a dor da desgraça do amigo inocente. contempla as colunas dos frígios. da multidão que o cercava. o castigo aplicai-me. por sermos aparentados. ou o que mais resta a um coitado como eu. a fim de aprestar-me um futuro ominoso. os troianos em peso me são contrários. por meio do sábio Calcante. os motivos da sua prisão voluntária. Tal foi a origem da minha desgraça. A que se explique o incitamos.

pois quem tinha medo de ver-se fadado à Morte. as ligaduras. se intemerata confiança ainda existe entre os homens pequenos. Mas. sem declarar nenhum nome e ao silêncio da Morte entregá-lo. Ah ! Oxalá que o fizessem ! Borrascas freqüentes as vias do mar lhes cortam. Sim. 104 -143 . que no peito de todos o brio congela. em resposta: Com sangue. enquanto eles se foram. tremor nos ossos. de acordo se mostra com a minha desdita. consternação. pelos numes conscientes de toda a verdade. sem suspeitar até onde ia a perfídia e a maldade de um grego. simples resquícios. velejar para a Grécia longínqua.32 ENEIDA Isso ainda mais nos desperta o desejo de tudo sabermos. o frumento salgado. ao cerco intentam pôr fim. nos olhos a venda. Rompendo meus laços. o Itacense com grande tumulto arrastou para o meio da multidão o adivinho Calcante. e os austros de medo a voltar os obrigam. Rei. quando. se é que partiram. nem nunca jamais abraçá-los. Quando essa voz se espalhou pelo povo. geral foi o espanto. para cobrar dos coitados a pena do meu grande crime. Todos de pronto o aplaudiram. deste infeliz apanhado sem culpa nas malhas da Sorte. de vítima nobre aplacastes os ventos para ir a Tróia. Apolo a quem chama e o Destino sorteia? Nisso. e lhe manda dizer-nos quem a deidade apontara. O dia infando chegou. já na fase final os aprestos do sacrifício. o combinado com ele contou e aos altares me vota. Calcante emudece. Máxime. os queridos filhos. mandamos Eurípilo ao templo de Apolo. indeciso. Ora esperanças não tenho de a pátria rever. não o oculto: da morte esquivei-me. nos quais talvez os argivos se vinguem da minha fugida. com sangue outra vez obtereis o retorno: precisareis imolar um dos gregos das vossas fileiras. mais espantosos trovões retumbaram pelo éter sombrio. apiada-te do meu sofrer indizível. continuou no seu falso relato: Mais uma vez. acossado por fim dos ingentes clamores de Ulisses. ó dânaos. os argivos cansados de guerra tão longa. Por cinco sóis e mais cinco. Por isso. Medo fingindo de nós. concluído o cavalo de fortes madeiros. o pai extremoso. Diversos já tinham sabido da trama cruel e em silêncio previam meu fado inditoso. Em tal aperto. que sem demora as sinistras palavras nos trouxe. durante uma noite entre os juncos do charco pude esconder-me.

contra eles. quem seria? A quê o destinam? Será religião ou artifício de guerra? Disse. porque. Obrigações já não tenho com a pátria. E ora que os ventos a todos levaram à pátria Micenas. dês que Ulisses. a promessa. Mal colocaram a estátua no campo. Logo a Tritônia nos deu manifestos sinais da mudança. servida por mim. que longe de mim joguei. me protejas neste perigo e me pagues o grande serviço de agora. armas e sócios aprestam. Porém. tocando.LIVRO II Compadecidos da sua desdita lhe demos a vida. do nume ofendido. divulgar suas tramas ocultas. surjam aqui de improviso. para o alto céu levantando as mãos livres. algemas nefandas. salgados humores banhando-lhe as faces. um simulacro levantem. O próprio Príamo logo ordenou que as algemas. sem renovarem em Argos os votos e o nume de novo reconduzirmos nos belos navios de proas recurvas. exclama. Toda a esperança dos dânaos e a grande confiança na guerra firmou-se sempre no auxílio de Palas. Tróia. o voto do sábio Calcante. as cordas lhe retirassem. e. e vós. altares sagrados. vendas sacras que a fronte me havíeis ornado ! Seja-me lícito os laços romper sacrossantos dos gregos. Depois. lhes disse. à guisa de pia oferenda. até o ponto de esvaecer-se o vigor para a luta. a invioláveis deidades dicados. as sentinelas matando primeiro da excelsa almeidina e a sacra efígie levaram. Esse. longe já se acham. Sinão. nas artes pelasgas. e tu. despidas dos ferros: Eternos fogos. Pérgamo não tombará sob o impacto violento dos gregos. com mãos sujas de sangue as faixas virgíneas da deusa — impiedade sem nome ! — a decair começou pouco a pouco a esperança. dos olhos abertos chispas saíram. ademais. dos gregos esquece-te. Sincero responde ao que vou perguntar-te: Por que construíram tamanho cavalo? E o inventor. a todos eles odiar. em tom brando e amigável lhe fala: Quem quer que sejas. Rei. de todo mal o inventor. contanto que cumpras. e o ímpio filho do velho Tideu imaginaram roubar o sagrado Paládio do templo. grande sábio em tramóias. E mais: em vez do Paládio. Pronto Calcante anunciou que se tente o implacável Oceano. Nosso és agora. Minerva. recruzando o mal alto. e por três vezes ao solo saltou — coisa incrível! — nas duas mãos segurando a tremer o broquel e a hasta longa de bronze. 144 -183 33 .

de medo. Mas. aparece para toldar e abalar as impróvidas mentes dos teucros. se violásseis com as mãos o presente fatal de Minerva. Aquiles feroz e mil barcos de guerra. porque não passasse nas portas. no rumo da costa depressa avançavam. a Ásia todinha baixara. sangue a escorrer e veneno anegrado das vendas da fronte. dez longos anos. Tais juramentos do falso Sinão. a língua silva e sibila na goela disforme. os dois monstros. Logo. Diante de tal. com roscas tamanhas barafustava no fundo. as insídias e manhas. os colos altivos. a avançar pelas águas furiosas. a crista sangüínea por cima das ondas as ultrapassam. a arrasar a cidade de Pélope. corria no auxílio de ambos. do altar a fugir. com dolos e prantos dos que não foram dobrados nem mesmo pelo alto Tidida. nem conseguísseis jamais para dentro dos muros levá-la. de fogo e sangue injetados os olhos medonhos. O sacerdote sorteado. 184 . sem proveito. os corpinhos dos dois meninos enredam no abraço das rodas gigantes e os tenros membros retalham com suas dentadas sinistras. mais tremendo que tudo. espetac'lo fugimos. Calcante esta máquina imensa mandou alçar até às nuvens. Peitos erguidos. a lamber-lhe os contornos. por próprio impulso a Laocoonte se atiram. o pescoço outras duas. no altar de Netuno solenemente imolava o mais belo dos touros. Mas. que o sacerdote imperito na dura cerviz assestara. o cutelo sacode . já já se aproximam da praia. tal como o touro. Troa o mar bravo e espumoso. a ele investem. se essas mãos a pusessem sem dano no centro de Tróia. praga iminente cairia — que os deuses o triste presságio contra ele próprio convertam ! — no império de Príamo e os teucros. um prodígio maior. Primeiro. eis quando — só de contar me horrorizo ! — à flor d'água de Tênedo nadam duas serpentes de voltas imensas por baixo do espelho. mui facilmente a confiança venceram. armado de frechas. no.223 . e havendo por duas vezes o corpo cingido. Pois. ao mesmo tempo que aos astros atira clamores horrendos. emparelhadas. o resto do corpo. Tenta Laocoonte os fatídicos nós desmanchar. ponto em que. muito por cima as cabeças lhes sobram. nas dobras enormes o apertam. Laocoonte. triste fadário que iria cair sobre os nossos bisnetos. e desse modo alcançásseis o amparo perdido dos deuses.34 ENEIDA Em desagravo da deusa.

chegados ao último dia. Meninos à volta. A uma voz declararam ter sido Laocoonte mui justamente punido. cabos de guerra. Franqueada a saída. pelo fado amparado dos deuses e a nós infenso. avançava até ao centro da bela cidade. infelizes. Em coro clamam que ao templo de Palas o bruto removam e a divindade com preces se aplaque. escapam do cavo escond'rijo Tesandro e Estênelo. morada dos deuses ! famosa na guerra. ultrajara o sagrado madeiro. dos corpos cansados o sono se apossa.263 35 . calam-se os teucros. Sinão abre a furto a prisão de madeira dos feros dânaos. debaixo dos pés lhes põem rodas. por quatro no ventre se ouviram tinir armas. Alegres.LIVRO II Nesse entrementes. o recinto do burgo franqueamos. a par os dragões escaparam. Muros deitamos por terra. o cavalo devolve para o ar os homens. por disparar contra o grande cavalo sua lança impiedosa. À faina todos concorrem. Assim transpôs as muralhas de Tróia o fatal maquinismo. E apenas brilhou na alta popa da capitânia o fanal. mas Apolo impediu que lhe déssemos crédito. forte baluarte dos dárdanos. folgando de as mãos encostar no cabresto. fabricante ardiloso do engenho. Acamante e Toante valentes os seguem. cordas de cânhamo forte ao redor do pescoço lhe passam. e dos mirmídones toda a maldade. por uma corda. ó pátria ! ó Ílio. Enquanto nós. o firmamento recobre de trevas espessas a terra. Espalhados nas casas. rastreando na direção do santuário de Palas severa. e o temível Ulisses. prenhe de fortes guerreiros. 224 . donzelas hinos cantavam. e se acolhem aos pés da deusa. cai a Noite no Oceano. Por quatro vezes o monstro pára na entrada. Nesse entremeio virou o alto céu. favorecida da ausência da lua silente. Mas. esquecidos de tudo o levamos — cegueira incurável! — e colocamos o monstro no próprio sacrário de Tróia ! Abriu a boca nessa hora Cassandra e falou sobre os fatos ainda por vir. pela cidade enfeitávamos arcos e templos com flores. Novo temor e pavor indizível a todos gelaram o coração. Ameaçador. Macáone e Menelau com Epeu. no asilo eficaz do broquel abaulado. mais o Pelida Neoptólemo filho de Aquiles. Na melhor ordem de Tênedo a argiva falange partira. no rumo das conhecidas ribeiras.

Assim como o vi. Não de outra forma.SC ENEIDA Todos. os guardas massacram. pareceu-me que o interroguei por primeiro com estas palavras doridas: Ó luz dardânia ! fortíssimo esteio dos homens de Tróia ! Por que voltaste tão tarde? A razão. tal como esteve antes disso. onde e quando as sofreste? Nada falou em resposta a essas fúteis perguntas do amigo. Sacudo o sono. as portas arrombam. entretanto. meu terno pai. Pela cidade. das armas se ouvia. e os sócios acolhem. de ficares por tanto tempo naquelas regiões. em torno ao muros. Disse. ante os olhos a sombra de Heitor. de muito ali postos à espera. de massacrados os seus defensores? Que mão criminosa desfjgurou-te? E as feridas do corpo. cada vez mais acentuados. sem mexer-me um tantinho. todas. de ouças atentas me pus a escutar. fosse longe e cercada por denso arvoredo. e o fogo eterno que ardia no lar. pelos dois pés arroxeados por forte e inamável correia. do incêndio te livra. doce prêmio dos deuses. caro Heitor. depois de cortares o mar tormentoso. hoje Tróia extinguiu-se. da guerra em defesa da pátria. estas mãos se imporiam na sua defesa. precisamente na hora em que para os mortais estafados coa nos membros o grato sopor. vi pareceu-me. procura morada para eles. grande cidade. Tróia te entrega os seus deuses e os sacros objetos do culto. e o mirante galgando do belo palácio. no santuário profundo. quando entrava vestido do espólio de Aquiles. desolada. indizíveis. a barba esquálida. o sangue a empastar os cabelos. quando austro furioso nas searas o fogo 264 . no sono e no vinho como que imersos. Dentro dos muros campeia o inimigo. ou quando o fogo dos frígios jogava nas naus dos acaios. para agora te vermos em tal estado. ressoavam lamentos confusos. cada vez mais o ruído das vozes. Mas. do imo peito emitindo um gemido profundo me disse: Foge daqui. a cidade invadiram. filho de uma deidade. Muito já demos a Príamo e à pátria. à uma. e embora a morada de Anquises. Quão diferente — ai de mim! — era então do outro Heitor que eu corria sempre encontrar. a chorar. feridas e cicatrizes sem conta. na biga arrastado à matroca. Se a Pérgamo a destra de algo valesse.303 . e entregou-me as sagradas insígnias e Vesta. depois «dos trabalhos da pátria. a derramar quentes lágrimas pelo semblante tristonho. Leva contigo esses sócios.

O desmedido cavalo. e o insultante Sinão onde passa semeia incêndios. ou a torrente aumentada com as águas dos montes arrasa os campos. Ílio santa deixou de existir. Tróia caiu. Já se encontrava por terra o palácio do forte Deífobo. do luar amparados. O Sigeu com o reflexo do fogo esplendia. Panto. 304 . arrancou do mais fundo um gemido abafado: O último dia chegou da fatal extinção dos troianos. A mim se agrega Rifeu juntamente com Êpito.LIVRO I í 31 por tudo espalha. de nada nos servem. corria até casa a buscar-me. O gume do aço brilhante e eriçado de pontas. nas trevas envoltos. noutra. clamor que até aos astros ecoa. sacerdote de Febo. do fogo. Era patente a traição. à força de Marte se opõem. A essas palavras do Otríada e aos próprios ditames dos deuses corro ao encontro das armas. a morte de toda a parte nos manda. logo as armas procuro. que a Tróia viera de pouco. Panto nessa hora ao encontro me sai. Numa das mãos traz os deuses vencidos. Fora de mim. Uma idéia somente nos exaltava: era belo morrer em defesa da pátria.343 . o grande e venerável guerreiro. Júpiter fero aos aquivos transferiu tudo. do amor desvairado trazido da profetisa Cassandra. tal multidão como nunca mandou-nos a forte Micenas. e as próprias matas carrega: perplexo. bem próximo ardia Ucalegonte. No burgo abrasado ora os gregos imperam. os primeiros guardas. seguido do jovem Corebo Migdônida. sem rebuços. seguiam-no rente os aquivos. a alta glória dos descendentes de Dárdano. Outros. a auxiliar como genro a defesa da fortaleza de Príamo e seus contingentes da Frigia. as ruas estreitas entopem de flechas sangrentas. onde a luta é mais forte? Ainda temos alguma defesa? Mal lhe falara. Ouvem-se gritos dos homens. dos bois o trabalho. sem compreender o que passa. a grega perfídia. Um pensamento a nós todos anima: voar para os pontos onde a batalha mais forte estrondava. ornatos do culto. mais Hípanis o alto Dimante. um netinho. inúmeros dânaos. filho de Otrias possante. do centro vital da cidade lança esquadrões sobre nós. a bela colheita. o pastor se admira do que ouve. pelo furor de Vulcano arruinado. ao grande estrondo dos ferros. nas portas abertas. o toque atroador das trombetas. das tristes Erínias. no cimo de um monte. atordoado. Com muito trabalho.

tendo notado no que lhe dissemos algo suspeito. quase loucura. com o bote já prestes: assim Andrógeo ao nos ver se dispõe a fugir. então ! Avancemos sem medo ! Para os vencidos só há salvação na esperança perdida. cauteloso. Morramos. rapazes ! Por que a sair demorastes do esconderijo? Por que essa preguiça.383 . os santuários e altares já abandonaram. o atroz morticínio daquela noite. até ao centro da grande Tróia. no sólio dos templos sagrados. e os vencedores também pereciam. rainha das outras. a investida e o discurso. Tal como lobos rapaces que cegos de fome imperiosa saem de noite à procura de presa e da cova se afastam. luto. Por tudo. assentou numa cobra quase escondida entre as pedras e salta a tremer quando a enxerga meio enrolada. e o cerco apertamos. por hostes densas rompemos no rumo da Morte. que ouvidos não teve de ouvir os prenúncios da sua amada ! Vendo-os dispostos a entrar na peleja. nas ruas. que vinha à frente de muitos guerreiros e nos confundira com combatentes argivos. de improviso. de colo cerúleo. quando outros argivos já estão saqueando os palácios em chamas de Pérgamo altiva? Somente agora deixastes as naves de proas recurvas? Apenas isso. a imagem da Morte em diversas posturas. de espadas. Em terra estranha. 344 . Mas. Arremetemos contra ele. disse-lhes: — Jovens de inútil esforço e ousadia ! No caso de me acolherdes o apelo para uma entrepresa arriscada. tomados de susto. pois nos vencidos. desgraças. lamentos. Corpos sem vida aos montões se acumulam por todos os lados. por vezes. tomados de brio. Com essas palavras inflamo até ao máximo o peito dos jovens. bem vedes para onde a Fortuna bandeou-se: Todos os deuses. Em tom amigável falou-nos: Mais pressa nisso. onde os filhinhos o aguardam com fauces sedentas. interrompendo de medo. por dardos. calou-se de pronto e recuou para o grupo. esteios da pátria. Foi o primeiro a of'recer-se a nosso ímpeto Andrógeo valente. Como o viandante que o pé. renasce o vigor primitivo. Atra noite por cima de nós circunvoa. Quem poderia narrar os horrores.38 ENEIDA Infeliz moço. Correis em defesa de ruinas e escombros em labaredas. nas casas amplas. ou com o pranto igualar o trabalho dos teucros? Caiu por terra uma antiga cidade. a um só tempo. colheu-os a Morte.

Todos se armam de espólios recentes. a gente graia acomete: o terrível Ajaz. Não de outra forma engalfinham-se ventos contrários em luta. os Atridas como dois gêmeos. o grupo da mocidade jovial. — Disse. primeiro de todos o engano percebem. Eis que de súbito vemos a virgem Cassandra. vaidoso com a posse dos corredores da Aurora. Cheio de dor ante a vista do quadro. e o exército inteiro dos dólopes feros. A floresta estrondeia. o riquíssimo escudo embraça. Vêm atacar-nos os mesmos que nós antes disso espalhamos pela cidade. logo o mesmo fizeram. a cair sobre nós do telhado do templo começam dardos sem conta que no alvo acertavam. Dada a superioridade do número. vistamos as gregas insígnias.423 . à procura de amparo. Dimante e outros mais. disposto a morrer. apenas. a fim de abrigarem-se no conhecido reduto. Corebo se anima e nos grita: Caros amigos. de Príamo filha dileta. tudo vale no trato de imigos. olhos. entre os dânaos jogou-se. Rifeu. e de lado ajustou linda espada da Grécia. Corebo não pôde conter a fúria e. escondidos nas dobras do manto da Noite. e quase às cegas de noite em sangrentos recontros mandamos récuas e récuas de aquivos para o Orco ainda mais tenebroso. Zéfiro e Noto e mais Euro galhardo. Cegos de dor e de raiva por terem perdido Cassandra. Acompanhamo-lo. Nossos escudos troquemos. retrocedemos. Muitos às naves se acolhem. cabelos esparsos. Brigam deveras. buscando refúgio na praia. com cascos de belos penachos. movidos do engano das armaduras dos gregos. empunhando belo tridente Nereu espumoso o mar fundo remexe. que as mãos delicadas os laços prendiam. arrastada do templo. 384 . Com tal sucesso exultando. os belos olhos para o alto estendia. Ah ! sem a ajuda dos deuses de nada nos vale a Fortuna. tomados de baixos temores. a fala de acentos estranhos. num batalhão bem formado investimos. outros. Sem numes pátrios. misturamo-nos com os próprios dânaos. Eles as armas nos dão. troca de escudos e glaivos. de novo ao cavalo sobem. Nisso. adiante ! Sigamos o próprio caminho da salvação que os benévolos Fados agora mostraram. então. e logo enfiou na cabeça o capacete de belo penacho de Andrógeo.LIVRO II 39 Favoreceu-nos a deusa Fortuna no nosso improviso. Ou por astúcia ou valor.

degraus sobem lestes. parece. duplicar o vigor dos vencidos. insígnias dos priscos monarcas. os eternos assim não pensavam. contra os dardos amparo eficiente. onde a batalha se trava com tanto furor. Marte indomável por tudo seu grande furor espalhava. em formações adensadas a entrada aos estranhos impedem. oculta aos argivos. seguido de Pélias e de Ifito. Panto ilustríssimo. Logo a atenção nos chamou grande estrondo nos paços de Príamo. pela mão do viril Peneleu. Torre construída na borda do teto e inclinada. Era Ifito bastante idoso. Porta secreta existia por trás do palácio de Príamo. Dimante mais Hípanis tombam às mãos dos seus próprios amigos. comunicante com as outras moradas. vir costumava sem guarda nenhuma trazendo o filhinho. tudo lhes serve. no afã de ganhar o telhado das casas. e as ínfulas sacras puderam salvar-te. nem tua piedade.463 . junto do altar de Minerva potente. das duras armas dos dânaos. também tombou. projéteis descobrem com que defender-se: são vigamentos dourados. lugar de onde os troas olhar costumavam o acampamento dos gregos. Cinzas ilíacas. com esforço conjunto a impelimos 424 .40 ENEIDA Logo Corebo caiu. gládios na destra. o homem justo. onde os pobres teucros seus írritos dardos jogavam no campo inimigo. Dali me afasto. em visita ao avô carinhoso. no peitoril com a direita seguros. ferido foi Pélias de um dardo de Ulisses. Com tartarugas formadas de escudos os gregos as portas assediavam. por onde Andrômaca. chamas da última pira dos teucros ! sois testemunhas de como jamais me esquivei de perigos. lá se encontrava. com sobra o meu braço tal prêmio exigia. ajuda assentamos levar ao palácio. Outros. Por essa porta subi ao ponto alto da casa. firmes na esquerda os broquéis. qual se noutras partes a calma reinasse. as naves de proas recurvas. e que se o Destino me impunha morrer na guerra. Na sua base assentando alavancas nos pontos mais fracos. Mais animados. Fortes escadas nos muros engancham. onde as junturas cediam. reforço aos vivos trazer. Rifeu. os troianos de cima as cumeeiras e as torres jogam abaixo. sem vítima alguma nem perdas. Astianacte infeliz. aos poucos avançam. dos troianos o mais acatado e virtuoso. postados nas portas. Mas. Por outro lado. ao tempo em que Tróia ao fastígio ascendera.

às batidas crebras do aríete as portas já cedem. depois larga entrada aos aquivos apresta. seus pórticos amplos. até ao céu estrelado se elevam. Não param de chover dardos e pedras. e o próprio gado carrega no bojo das águas. Pirro a ação predatória dirige. batentes se quebram. Ao lado seu Perifante se encontra e o escudeiro de Aquiles. dos gonzos escapam. Automedonte. abalados os quícios e as bronzeadas couceiras e roto um dos fortes batentes. Num ápice. gente da guarda também. suas cem noras e Príamo junto das aras com sangue fresco a irrigar as fogueiras por ele apagadas. o dardo tríplice agita e sibila na boca ardorosa. Logo esses claros preenchem com gente mais fresca. Cinqüenta leitos de núpcias. pórticos de ouro luzente. Hécuba.LIVRO II e da alta sede a arrancamos. sem vida tombam os guardas. de pele mudada. já livre do frio enervante. assolando até longe as falanges dos gregos. e arrebentando as barreiras que o passo impedir lhe tentavam. Com menos fúria a represa espumante seus diques estoura. O filho de Aquiles. o ululado femíneo. os dois Atridas irmãos na soleira do paço postados. sem que barreiras nem guardas consigam detê-lo. Desde o portal do vestíbulo Pirro exultante campeava. Eis que aparece o interior do palácio. despojos dos bárbaros. os aposentos de Príamo e nossos antigos monarcas. de ervas danihas nutrida no inverno debaixo da terra. com grande estrondo cai para a frente. Tudo são ais. Pirro na frente dos outros armado de dura bipene deixa em pedaços os fortes umbrais.503 . Com a mesma fúria do pai. de beijos sentidos as cobrem. apostados naquela defesa. nas belas portas se encostam. longe os terrenos alaga e os currais alinhados. resplandecente com o brilho invulgar de sua bela armadura. lamentos dilacerantes por tudo. miserável tumulto nas salas internas. com aparência de jovem o colo e a cabeça exaltasse. tudo 464 . os dânaos avançam e as salas inundam. do mesmo modo que à luz aparece do dia uma cobra. Pelos salões as matronas de pávido aspecto vagueiam. mais os fortes mancebos da bela Escíria. e ora. quadros de dor e de angústia. cocheiro também. que fachos acesos nos tetos jogavam. À força estradas alargam. promessa de bela colheita. brecha primeiro.

mostrou-se pio. tomba. E tomando o Velhinho pela mão trêmula. um dos rebentos de Príamo. e acatou os direitos de um velho pedinte. da espada sem gume se apossa. Acomoda-te aqui. tais extremos de inútil crueldade. e por último o alcança de cheio. No centro mesmo do belo palácio. fê-lo sentar no recinto sagrado. então — meio morto já estava — não pôde conter-se. às golfadas. abraçadas à efígie da deusa. corre por meio dos dardos. o próprio lar profanado e desfeito por gente inimiga. pois presencear me fizeste o trespasso de um filho inocente. Nesse momento. Polites. O ferro dos dânaos o incêndio alimenta. hasta no alto. deixando que para Tróia eu voltasse. punam-te os deuses — se houver mesmo deuses para esses abusos — a recompensa te dêem merecida. Vendo a cidade tomada. exclamou. o venerável monarca nos trêmulos ombros enverga sua armadura antiquada.543 . desabafou com palavras de cólera e dor represadas: Por este crime. Hécuba com suas noras em torno do altar se apertavam inutilmente. defesa mais forte. com o sangue limpo do filho as feições de um pai velho manchaste. ao ar livre no pátio. em frente mesmo dos pais. e decidido a morrer se dirige ao encontro do imigo.42 ENEIDA lama e ruínas. Príamo. um grande altar se encontrava ladeado de antigo loureiro. a perder sangue. destruídas as portas soberbas. não se portou desse modo com Príamo imigo. louco de fúria. o cadáver de Heitor entregou-me. — Assim disse. os átrios desertos perpassa na fuga. no jeito de um bando de pombas em fuga de ameaçadora tormenta. Ao perceber o marido vestido com as armas de moço: Mísero esposo. No encalço do moço Polites vai Pirro. este altar nos ampara. o Velhinho arrojou com a mão débil o dardo 504 . esvaído de sangue. Nem a presença do meu caro Heitor poderia salvar-nos neste momento. de quem falsamente te dizem nascido. Ao dizer isso. que as divindades do lar abrigava com a fronde vetusta. O próprio Aquiles. que delírio insensato te obriga a usar a velha armadura? Para onde te arrastas sem forças? A situação ora pede outras armas. exclamou. Ou vem conosco morrer. o castigo devido. E quando alfim chega à vista de Príamo e Hécuba. Provavelmente desejas saber o destino de Príamo. fugindo do gládio de Pirro. dos inimigos.

no fogo arrasada foi Tróia? E tantas vezes banhadas de sangue estas praias ficaram? Não. que ali morrera ultrajado. Olho ao redor para ver com que gente eu contava. governador inconteste de tantas regiões florescentes. meu nobre pai. A imagem do pai queridíssimo. ou fosse cansaço ou desânimo. Assim falando. o ódio dos teucros temia. punir de uma vez tantos crimes. uma idéia somente me ocorre: vingar a pátria destruída. abraçar pais e filhos. Pensei outrossim em Creusa ao desamparo. em Iulo sozinho. degenerado. não será. na casa incendiada. Minha alma em fúria se inflama. o fado trazido do berço. as proezas sem glória do filho pequeno. Sozinho estava. dos povos d'Ásia. Se é desdouro punir uma vil criminosa. 544 . me ocorre à mente. na qualidade de esposa de um rei. em vingança do incêndio de Tróia. do esposo ultrajado. há de a pátria Micenas rever. mas nisso diviso na entrada do belo templo a Tindárida em busca de um canto discreto para esconder-se.LIVRO II que pelo rouco metal repelido foi logo. com os traços de um rei tão idoso quanto ele. A vez primeira foi essa em que horror indizível do peito se me apodera. dos seus patrícios também se arreceava. e com a espada firme na destra. seguida de turba imensa de escravos da Frigia e de teucros. ainda vivos. enterrou-a até os copos no peito. Por entre os clarões da fogueira. arrastou para junto do altar o tremente Velho. Neoptólemo. aborrecida de todos. Calamidade comum para os gregos e para os troianos. que os pés resvalava no sangue empapado do filho. Mas antes disso aqui morre. com mostras de muito medo e calada. um corpo sem nome jogado na praia e separadas dos ombros as cãs venerandas de um velho. no altar a abrigar-se correra. Anquises. Com a mão esquerda segura os cabelos do Ancião. sem castigo. Hoje. à família e os filhinhos. da queda de Pérgamo. morrido já haviam todos. num triunfo insolente? Reconciliada reentrar no palácio. passeava com a vista por tudo. a luzir. ficando inutilmente suspenso no forro do escudo abaulado.583 43 . atiram-se dos altos muros alguns ou na imensa fogueira. portanto. enquanto Príamo aqui trucidaram. O fim foi este de Príamo. Como ! exclamei. a seu esposo reunir-se. à vista mesmo do incêndio de Tróia. Pirro falou: — Pois então vai tu mesmo contar ao Pelida.

com seus atavios de deusa. subverte a grandeza de Tróia. Ílio então vi devorada das chamas vivazes. e desde 584 . vou tirar a cortina que de úmidas sombras teus mortais olhos empana. Foge. grita às hostes amigas. arremata esse esforço improfícuo e sem glória. Vagam sem tino. de guarda nas portas Céias a lança a girar. deusa veraz. tomado de fúria. Por toda a parte os rodeiam as hostes furiosas dos gregos. Sevíssima. A distinguir comecei as terríveis feições das deidades a Tróia infensas. E com o seu hálito róseo me disse as palavras aladas: Filho. aos feros dânaos. dos entes queridos? Cuida primeiro em saber onde se acha teu pai venerando. Aqueles blocos não vês sotopostos a blocos maiores. Olha para o alto: no cimo da torre já vês a Tritônia Palas em nuvem brilhante. o velho Anquises. nem Páris. Juno. não digna de aplausos. Não ! Essa filha de Tíndaro não é culpada. já pelo fogo teriam morrido ou nos glaivos argivos. Pela destra me toma. Presta atenção. não vaciles um nada em seguir-lhe os conselhos. a diva inclemência. grandes penhascos envoltos em nuvens de poeira e de fumo? Pois nesse ponto Netuno com o forte tridente percute os alicerces de Tróia. por que te exasperas e a cólera assim te domina? sem te lembrares de mim para nada.623 . sequer de contar-se. e no escudo a ameaçar-nos a Górgona terribilíssima. Sem medo nenhum cumpre as ordens de tua mãe. ao paterno solar vou levar-te. a divina ! digo. se Creúsa ainda vive ou o teu filho pequeno. Não fosse a afeição que a eles todos dedico. Sempre estarei ao teu lado. a quem odeias e increpàs. Assim me achava.44 ENEIDA ação inglória. Jove também aos acaios anima. tal como jamais a enxergara. que venham depressa das naves recurvas para ajudá-la. Logo deixou de falar e ocultou-se nas trevas da Noite. Contive-me logo. apoio ao menos terei por haver dado à Morte este monstro de iniqüidade e a vergonha vingado dos manes queridos. os demais deuses concita a alistarem-se contra Dardânia. de seus fundamentos arranca a incomparável cidade. com planos terríveis. vi minha mãe com estes olhos. dos deuses odientos. a brilhar como nunca e a inundar toda a Noite divina de claridade celeste. quando. meu filho.

vencido aos pouquinhos de tanto sofrer. das chamas. Desço. que em toda a pujança da mocidade ainda estais. Eu próprio a Morte hei de achar ou o inimigo de mim apiedado. exclama. que eu pensava em levar para os montes da redondeza. minha morada teriam guardado. derradeiro gemido solta e desaba. se recusou a seguir-me no exílio e à ruína de Tróia sobreviver. a primeira pessoa que em busca eu partira. 624 . — A vós outros. pedimos-lhe para não trabalhar contra nós ou agravar o pesado destino. meu pai. o adeus último agora nos demos. e nisso estás: bem abertos os nossos portões ora se acham. prazer encontrando nas suas lembranças. disposto a morrer ali mesmo. do ferro e das chamas escapo. algum tempo ele ainda resiste. à porfia. Pirro vem perto. banhados em lágrimas. no intento primeiro insistia. Acabarei aqui mesmo. Diante de mim apartavam-se as lanças. tal como o roble nos cumes altivos que os fortes campônios de machadinhas armados golpeiam de rijo.LIVRO II seus fundamentos a Tróia Netúnia cair aos pedaços. té que. com sobras. a fronde vacila. meu pai ! supuseste que eu fosse capaz de deixar-te desamparado? Palavras tão feias um pai proferi-las? Se os imortais decidiram que nada de Tróia perdure. e à destruição da cidade acrescentas a tua e a dos teucros. há muito a existência inamável arrasto. Que mais podia esperar da fereza do Fado tão duro? Como. Odioso aos deuses. com as batidas no tronco. Logo que o pátrio solar alcancei.663 45 . Da nossa parte. manchado do sangue de Príamo. desde que o rej. é que cumpre no meio dos riscos pensar na fuga. arrastando na queda o que encontra. o mesmo que mata o filho ante os olhos do pai e ao pai velho nas aras. Se os imortais resolvessem premiar-me com vida mais longa. Insepulto ficar é o de menos. senhor dos mortais pequeninos soprou-me a pele e tocou-me de leve com o fogo do raio. Nisso teimáva. Nada o arredava daquilo. as chamas recuavam. que belo espólio imagine. e com o amparo divino. dos eternos. Já basta. sobreviver à tomada da minha cidade nativa. Volto a lançar mão das armas. eu e Creúsa com o filho Ascânio e as pessoas de casa. sem tomar fôlego quase. incessantes. a morada sabida dos meus maiores. Mãe generosa ! livraste-me de tantos dardos.

jamais contemplada. na espessa floresta do monte. e se acaso piedade te merecemos. e jogamos água nas chamas sagradas. salvai meu netinho. tomados de espanto. a nadarem no sangue anegrado uns dos outros? Trazei-me as armas ! A luz derradeira já chama aos vencidos. teu velho pai e a que um dia chamaste de esposa extremosa? Com tais queixumes enchia de dor até ao teto o aposento. as deidades invoca do alto e lhes fala. e sem dó nem piedade assassinados achar minha esposa Creúsa. meu filho. Pelo prodígio vencido. a espada de novo seguro. Não mais resisto. então. vimos de subido alçar-se de sua cabeça uma chama que mui por cima os cabelos lambia. 664 . e um trovão retumbou pelos vales do lado esquerdo. nem faço objeção em seguir-te. Reconduzi-me aos aquivos. confirma este augúrio feliz e nos salva ! Mal de falar acabara. Na sala percebe-se cheiro de enxofre. e parecia adensar-se um pouquinho na fronte pequena. meu filho Ascânio. no tempo em que as trevas da noite uma estrela de claridade inefável cortava. meu pai se levanta. não partas sozinho.46 ENEIDA para encontrar minha casa invadida. corremos a fim de salvá-lo. os pés me abraça. deslizar pelos tetos das casas bem feitas e no Ida augusto apagar-se. se ainda tens esperança na força e nos braços. Pronto ! partamos ! agora ! depressa ! para onde quiserdes ! Ó pátrios deuses. sim. Apavorados. E já ia transpor a soleira de casa. o pai velho. bem adaptado. todo prantos. Vimo-la. O sulco rebrilha por algum tempo. a um prodígio assombroso assistimos. o filhinho querido ao seu pai apresenta: Se à Morte corres. O agoiro é vosso.703 . guardai esta casa. o broquel na sinistra. Com isso. Mas. O pai Anquises. a morte apressemos. cuida primeiro da casa. deixai-me rever os combates enrubecidos. vinguemo-nos deles. não mais. a quem deixas Iulo pequeno. sem dano fazer-lhes. quando se me atravessou justamente no umbral minha esposa. quando. em falta de novos recursos. Enquanto Ascânio se achava nos braços dos pais. e se inclina ante a estrela sagrada. para mostrar o caminho a seguirmos. contigo nos leva. vê nossa angústia premente. transbordante de júbilo os olhos volve para o alto e elevando as mãos ambos alegre falou-nos: Júpiter onipotente ! se as preces dos homens te abalam. sob vossa potência está Tróia segura. nas armas.

recebo a carga. venha o que vier. e ali junto um cipreste de muitos invernos. à matroca. E quanto a vós. ao marido. leva os pátrios penates e objetos do culto. 704 . pois para ambos a salvação será a mesma. por injunção do Destino ou rendida talvez de cansaço. brinquedo de criança é o teu peso. e eis que ouço. Creúsa querida. não poderei tocar neles enquanto nas águas de um rio não me lavar. Nunca mais estes olhos puderam revê-la. por fim. ao filhinho querido.LIVRO II Disse. Atrás a esposa me segue. passos precipitados. mísero ! minha mulher extraviou-se. Tu. somente ela entre todos faltava aos companheiros de fuga. amiudando os passinhos. de fortes e densas colunas. Passando os caminhos sabidos sem vê-los.743 17 . e abaixando-me um pouco. Da mão me tomando do lado direito. Por diferentes caminhos devemos reunir-nos lá mesmo. que a devoção dos troianos conserva com todo o respeito. Vou carregar-te nos ombros. esforçando-se para ver claro na escuridão. e pouco atrás a consorte me siga de perto. Iulo procura igualar-me na marcha. e me espanto com um barulhinho. servidores. Ao meu lado acompanhe-me Ascânio. passei no pescoço e nas largas espáduas o manto e a pele de um fulvo leão. sem tino. parece-me. Meu pai. ouvi quanto passo a dizer-vos Numa colina ao sair da cidade há um templo de Ceres abandonado. e por vielas esconsas tomando. filho ! Depressa ! Estão perto ! Vejo brilhar os broquéis. Vamos. E eu. as espadas reluzem no escuro ! Desde esse instante não sei que deidade inimiga turvou-me o entendimento. À vista já me encontrava da porta. O pensamento ou o olhar não volvi para trás um momento. Assim falando. no tempo em que as fortes muralhas aos poucos cediam e os turbilhões da fogueira até perto de nós rodopiavam. correremos perigos iguais. atemorizo-me agora com o mais leve sopro. que até há pouco enfrentava sem medo os projéteis dos gregos e os batalhões de inimigos. mui crente de havermos ultrapassado os perigos. sem medo. paizinho ! Segura-te no meu pescoço e não caias. Destarte marchamos no escuro. té não chegarmos ao teso indicado e o sacrário de Ceres. por causa da carga e dos meus companheiros. Ali reunidos. Não sei dizer. caro pai. Desta matança terrível havendo eu saído de pouco. me gritou: — Foge.

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ENEIDA

Fora de mim, a que deus não culpei, a quem mais entre os homens? Calamidade maior onde eu vira nas ruinas de Tróia? O pai Anquises, Ascânio, os troianos penates aos sócios logo encomendo e os abrigo na curva de um vale sombrio, e a fulgurante armadura vestindo, retorno à cidade, disposto a os riscos de novo enfrentar, percorrer toda a Tróia, e sobre a minha cabeça chamar novamente os perigos. Primeiramente, às muralhas retorno e à passagem secreta por nós usada à saída, e no escuro procuro vestígios de nossos passos, a vista alongando por todos os lados. Horror é tudo; o silêncio geral nos aterra e deprime. A minha casa, depois; quem nos diz que ela não se tivesse lá refugiado? Tomada dos gregos, os quartos vazios. As labaredas, agora tocadas dos ventos, subiam até à cumieira; ultrapassam-na; somem no céu escampado. Vou mais além e revejo o palácio e o castelo de Príamo. Logo na entrada, no asilo de Juno e nos pórticos ermos, Fênix e Ulisses, o mau, como guardas ali se encontravam do espólio opimo. Amontoada, a riqueza de Tróia se via, templos saqueados, as mesas dos deuses, as mais belas copas de ouro existentes, e vestes e adornos dos pobres cativos. Ao derredor, em fileiras, morrendo de medo, os meninos, mães desoladas. Aventurei-me até mesmo a gritar no deserto sombrio; naquelas ruas vazias, tomado de angústia indizível chamei, chamei muitas vezes Creúsa, a bradar por Creúsa ! E enquanto assim me excedia, a rever os palácios e as casas, um simulacro infeliz ante os olhos me surge, a inefável sombra da minha Creúsa, de muito maior estatura. Tolhe-me o susto, os cabelos se eriçam, a voz se me embarga. Ela, afinal, me falou, procurando alentar-me com isso: Por que te entregas, esposo querido, a essa dor excessiva? Tudo o que agora acontece se passa de acordo com os planos das divindades. Levar não podias de Tróia a Creúsa por companheira. Isso impede o senhor poderoso do Olimpo. Longos exílios te estão reservados, o mar infinito. À terra Hespéria porém chegarás, onde o Tibre da Lídia corre sinuoso em campinas povoadas por fortes guerreiros. Ali te aguardam sucessos felizes, um reino e uma esposa de régia estirpe. Consola-te, pois, de perderes Creúsa. 744 - 783

LIVRO II Não entrarei nas soberbas moradas dos dólopes feros, na dos mirmidones, nem servirei às matronas argivas, pois, natural de Dardânia, sou nora de Vênus augusta. A grande Mãe das deidades do Olimpo aqui mesmo me guarda. É tempo; adeus ! O filhinho comum, guarda-o bem no imo peito. Tendo assim dito, deixou-me choroso e querendo dizer-lhe quanto no peito abrigava. Nas auras sumiu de repente. Três vezes quis apertá-la no peito, cingi-la nos braços; três me escapou dentre os dedos, no instante em que a tinha bem presa, tal como a brisa sutil ou imagem vazia dos sonhos. A Noite ao fim já chegara quando eu retornei para os sócios, tendo observado que o número deles crescera por modo extraordinário, de espanto causar: mães idosas, guerreiros, gente mais nova, infeliz multidão para o exílio dispostos. De toda a parte acorriam com os restos salvados da guerra, todos dispostos a irem comigo para onde os levasse. O matutino luzeiro já do Ida alcançara as alturas e conduzira a manhã. As estradas os gregos guardavam. De resistência já não nos restava nenhuma esperança. Cedi à sorte; e a meu pai carregando, subi para o monte.

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para buscar novas terras. A mãe Dionéia e às demais divindades do início das obras fiz sacrifícios na praia sonora e imolei à deidade máxima dos moradores do céu um belíssimo touro. Para lá me dirijo e na praia curva o traçado risquei de um povoado. conforme o meu nome. com cerejeiras silvestres e mirto de ramos trançados. Defronte.ENEIDA Livro III Quando aos eternos aprouve destruir sem motivo o invejável império d'Ásia e a progênie de Príamo. 1-23 . e ao mar alto me entrego. grato agasalho dos nossos nos lares amigos. o filho amado. deixo os portos as praias e os campos onde foi Tróia. faz tempo. enquanto boa a Fortuna nos foi. os penates e os deuses maiores de Tróia. em terra a soberba Ilio. sem próspero auspício. e meu pai insistir para os panos soltarmos. do fero Licurgo. e ao notarmos sinais de certeza de início da primavera. sem rumo certo. com os sócios. se encontra uma terra dicada a Mavorte. Um combro havia ali junto. e a os habitantes Enéadas chamo. Ao pé justamente de Antandro e do Ida augusto da Frigia navios bastantes construímos. e em ruinas ardentes a Tróia netúnia mudada. de moitas variadas coberto. por injunção dos agouros nos vimos lançados no exílio. da terra por todos ansiada. ao longe. nada sabendo dos Fados. exilado. a chorar. Reunimos gente. que os trácios aram regida.

ENEIDA Nele me achei certa vez; porém quando tentava alguns ramos do solo pingue arrancar para as aras cobrir de folhagem, prodígio horrendo me surge ante os olhos, tolhendo-me a fala: ao fazer força e arrancar do chão duro o primeiro raminho, gotas de sangue anegrado escorreram, manchando de pronto todo o terreno de pingos escuros. Horror tiritante gela-me os braços; o sangue sem vida coagula nas veias. Mais uma vez tento um ramo puxar de outro arbusto ali perto, para auscultar o segredo latente daquele prodígio: gotas mais negras escorrem do galho sacado com força. Mil pensamentos me ocorrem; às ninfas agrestes suplico, ao pai Gradivo que os campos fecundos dos getas protege, para que aquele presságio trocassem em próspero evento. Mas, na terceira investida, ao forçar o raminho mais firme, na areia branca os joelhos fincando, apoio seguro — di-lo-ei ou não? — do mais fundo da terra saiu um gemido lacrimejante, e aos ouvidos me chegam palavras sentidas: Por que laceras, Enéias, um ser infeliz? A um sepulcro poupa; não manches com um crime essas mãos abençoadas. Em Tróia também nascido, não somos estranhos. As plantas não sangram. Ai ! Foge destas paragens malditas, da terra mesquinha. Sou Polidoro; caí neste ponta crivado de dardos, que no meu corpo cresceram demais, para meu sofrimento. De horror tomado indizível, e o peito oprimido, de espanto não me mexi; os cabelos em pé, não dizia palavra. Foi este filho de Príamo aquele infeliz Polidoro que, havia tempo, com um grande tesouro o monarca mandara para o rei trácio educar, quando o cerco de Tróia apertava cada vez mais e ele o fim desastrado bem perto sentia. O rei, tão logo os sinais percebeu da mudança dos Fados, às vencedoras falanges aquivas aliando-se, as hostes agamemnônias, os pactos quebranta, degola o menino e do tesouro se apossa. A que extremos não forças os homens, fome execrável do ouro ! — Refeito algum tanto do susto, procuro os chefes eleitos do povo, a meu pai antes deles, e lhes relato o prodígio, pedindo um conselho para isso. A uma voz dizem todos que o solo poluído deixemos, o santo hospício manchado, e que as naves de novo se empeguem. A PoIidoro, primeiro, prestamos as honras funéreas. Monte elevado de Terra erigimos, altares aos manes, 24-63

LIVRO III

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infulas de cor azul para o luto e ciprestes escuros: ao derredor, as ilíadas, soltos os belos cabelos como de praxe; crateras de tépido leite vertemos. sangue das vítimas sacrificadas. Na tumba encerramos a alma do amigo e em voz alta lhe demos o adeus derradeiro. Mal adquirimos confiança no mar, quando os ventos às ondas deram sossego e o sussurro dos austros a todos chamava, os companheiros as praias encheram e as naves soltaram. Ao longe o porto nos fica; deixamos a terra e as cidades. Ilha graciosa se eleva no m e i o do mar, dedicada à mãe das belas. Nereidas, ao divo Netuno do Egeu. Antes, errava por costas e praias, até que o potente Asseteador a fixou entre Giaro aprazível e Mícone, para que, imóvel ficando, aprendesse a enfrentar as tormentas. Desembarcados ali, recebeu no seu porto tranqüilo os navegantes cansados. .Saudamos o burgo de Apolo. Ânio, de Pelos o rei, sacerdote de Febo ali mesmo, fronte cingida do régio diadema, do louro sagrado, veio encontrar-nos e a Anquises de pronto, seu velho comparsa reconheceu. Apertamos as mãos; ao palácio subimos. Adoro Apolo em seu templo vetusto e esta prece lhe envio: Morada própria, Timbreu, nos concede, socorro aos feridos, às gerações pouso estável. Em nós, outra Pérgamo salva, restos roubados aos gregos, à cólera imana de Aquiles. A quem seguimos? Aonde ir aconselhas? A sede assentarmos? Dá-nos agouro, Senhor ! ilumina estas mentes cansadas. Mal concluíra, e de súbito quis parecer-me que tudo tremia à volta, a porta do templo, o loureiro divino, o próprio monte em redor, a mugir a cortina lá dentro. Tontos, prostramo-nos; estas palavras então percebemos: Valentes filhos de Dárdano ! a terra primeira que a estirpe de vossos pais engendrou há de em breve ao seu seio acolher-vos, quando voltardes para ela. Buscai, pois, a mãe primitiva. Ali a casa de Enéias o mundo de um polo a outro polo dominará, de seus filhos os netos e seus descendentes. Essas palavras a todos reanima. A uma voz perguntamos para onde fosse preciso guiar nossos passos errantes, a fim de a terra alcançarmos da origem dos nossos maiores. Então, meu pai, evocando memórias da própria família: Chefes troianos, nos diz, conhecei vossas íntimas vozes ! 64 -103

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ENEIDA

A ilha de Creta se encontra no meio do mar, do alto Jove pátria sagrada; no centro, o monte Ida, dos nossos o berço, por cem cidades formosas povoada e de solo ubertoso. Teucro, o mais velho dos nossos avós, caso ainda me lembre de quanto ouvi, foi quem viu antes de outro as paragens retéias e os fundamentos lançou do seu reino. Nem Ílio nem Pérgamo ainda existiam; os homens moravam nos vales profundos. Daí nos veio de Cibele o culto, os timbales sonoros dos coribantes, mistérios do Ideu, o silêncio sagrado, e a bela junta de leões atrelados ao carro da deusa. Adiante, pois ! e cumpramos confiantes as ordens divinas. Propiciemos os ventos, e os reinos de Creta busquemos. Não distam muito; contanto que Júpiter nos favoreça, na luz terceira estarão nossos barcos nas praias cretenses. Disse; e nas aras imola o holocausto devido às deidades: touro a Netuno do mar; para ti, belo Apolo, mais outro; à tempestade uma negra cordeira, e uma branca aos bons ventos. Corre a notícia recente que, expulso dos reinos paternos, Idomeneu se ausentara, deixando desertas as praias da ilha de Creta, vazias as casas, o imigo distante. Do porto ortígio saímos, e o mar perigoso cortando, Naxo deixamos com suas bacantes, a verde Donisa, a nívea Paros, Oléaro e o mar salpicado das Cicladas, e multidão de outras ilhas e estreitos que ao longo se perdem. Os marinheiros, no seu entusiasmo à porfia conclamam para chegarmos à Creta dos nossos avós sem demora. Com vento à popa, reforço abençoado, emissário celeste, prosperamente chegamos às praias dos fortes Curetas. Sem perder tempo, assentamos as bases do burgo auspicioso, de nome Pergamo. Alegres os moços com o nome escolhido, exorto todos a um belo castelo construir ali mesmo. A maior parte dos nossos navios já estava no seco, e a mocidade, nas lidas do campo e do amor ocupada, dando-lhes eu casa e leis, quando em cima de nós, de inopino, nos cais um ano pestífero, os ares corruptos, nocivos aos seres vivos, às árvores, às sementeiras mofinas. Os que ainda vivem, minados de doenças mal podem mover-se. O ardente Sírio com os raios os campos estéreis arrasa; secam-se as ervas; queimadas, as searas seus frutos nos negam. Nessa aflição, exortou-me meu pai a que os mares de novo 104 -143

por efeito da claridade da lua então cheia. acorda ! e ao pai velho transmite sem mora a notícia alvissareira. Para isso enviou-nos à tua morada. Somente Cassandra tais coisas me disse. as mãos ambas levanto. que tudo confirma: dirija-se a Córito. porém de figuras verazes diante de mim.L I V R O I II 85 corte e consulte na Ortígia os oráculos de Febo Apolo. Atarantado com aquela visão e as palavras dos deuses — não se tratava de sonho. pelos enótrios outrora povoada e que seus descendentes o nome Itália puseram. nem Febo indicou-te estas plagas para a cidade fundares. de lá saiu Dárdano e nosso ascendente Iásio. de frutos opimos. terra antiqüíssima. afinal. bem nítidos. como alcançarmos remédio. seu novo engano. A ambígua prole de pronto assinala. me apareceram em sonhos. Noite serena. nem disse que fosses a Creta. ora manda 'que te anunciemos. e no lar sacrossanto dons puros derramo. com ternas palavras. progênie mui certa dos fortes maiores de antanho. os trabalhos das armas contigo participamos e o risco enfrentamos das ondas revoltas. presto falou: — Filho. a que praia. o remate nos diga de tantos trabalhos. forte nas armas. os penates dos frígios. a Dardânia incendiada. Nisso. Cumprido esse grato dever. que pela janela dos aposentos entrava. Por isso mesmo. segundo me parecera. na bela Ausônia. de um forte caudilho primevo. para o alto céu. Força é mudares de assento. Nós. sacras vendas na fronte. abordarmos. meus votos ardentes. ao fundir numa só duas terras diversas. sim. Levanta novas muralhas: não cedas jamais ao cansaço do exílio. os mortais se entregavam ao sono agradável. aliviar procuravam meus grandes cuidados: Tudo o que Apolo frecheiro queria dizer-te. gélido suor me banhava nessa hora dos pés à cabeça — salto do leito. recompondo-se. os sacros penates dos deuses que eu carregara de Tróia através da cidade incendiada. como de praxe. teus netos poremos acima dos astros e á sua pátria daremos o império do mundo. dos gregos Hespéria chamada. Eis nossa pátria. Há uma região muito fértil. corro a Anquises. os fados adversos de ílio te oprimem. conhecidas feições. para contar-lhe por ordem dos fatos o que se passara. Vamos. pois Jove te nega as campinas de Creta. Mas. clemência implore. os dois troncos da casa. 144 -183 .

Mas. do céu nos afasta o aguaceiro. Todos nós o aplaudimos. para o alto atirando ondas grandes. três dias sem sol. só de medo. o vento as águas agita. o rosto denota fome canina. Assim falou. com a noite escura e tormentas. duas ao todo. três noites feias erramos sem uso fazermos dos astros. cobre o dia. Dispersa a armada. com os lenhos cavados varremos as ondas. as mãos têm como garras. As trevas as ondas cobriram. Nem Palinuro consegue saber quando é dia ou se é noite. no Jônio vastíssimo. e aos deuses — a Jove primeiro — parte da presa ofertamos. pela praia recurva 184 . De espada em punho investimos. outro rumo tomemos. sem mais indícios de terra alguma — por tudo em redor. Jamais saíra das águas do Estige. Com Eebo por guia. espumas batem com força. abandonamos depressa tais sítios. espalhados por toda a parte. Quando já estávamos longe. Os marinheiros as velas amainam. quem diria que um dia os troianos à Hespéria chegassem? E acreditar quem podia nas falas da pobre Cassandra? Obedeçamos. avistamos nas belas campinas gratas manadas de boi sem nenhum pegureiro. depois de se verem privadas da mesa farta do velho Fineu. dos remos se apossam. uns poucos ficaram. por ordem dos deuses na sua cólera. Assim. fugiram. no pélago. Depois. ao falar destes reinos devidos aos nossos. o amplo céu e água funda — surge por cima de minha cabeça uma nuvem cerúlea. Ao Fado obedientes.56 ENEIDA lembro-me bem. por vezes de Itália. que ela por vezes chamava de Hespéria. primeiro as Estrófades me receberam. Mal nos pegamos em terra. A cerração. meio às tontas vogamos nos mares. varrendo a cerúlea campina. e rebanhos de cabras nos pastos virentes. jogados nos vimos de um lado para outro. Velas soltamos. assim pelos gregos denominadas. por serem morada da crua Celeno e outras harpias funestas. fétido fluxo lhes sai do ventre. nem do roteiro podia lembrar-se no meio das ondas. no mar tenebroso vogamos. alguns montes e nuvens de fumo. No quarto dia porém acertamos de ver no horizonte sinais de terra: mui longe. ininterruptos relâmpagos traçam seus riscos nas nuvens. monstro mais triste nem peste execrável: cara de virgem em corpo de pássaro.223 . Salvo das ondas. Deixando o rumo sabido.

então. sem nada ocultar-vos. e grasnidos. Os troianos investem e luta iniciam jamais sabida: com ferro ferir umas aves nojentas. bem distante dali refizemos a mesa. e voando por cima da nossa comida. então. antes mesmo de vossa cidade querida dos deuses de muros altos cingirdes. que foi assentar-se no pico da rocha. mal ouviu do seu posto de esculca Miseno o barulho tão conhecido. Meus companheiros. quando menos cuidávamos. E. Porém a espessa plumage' as livrava dos golpes certeiros. galgando as alturas celestes. de medo sentiram gelar-se-lhe o sangue. Com prósperos ventos heis de alcançar por sem dúvida a Itália longínqua. que tudo desmancham. Aos sócios. conjuntamente com o fogo e os altares em gruta profunda. tudo corrompem. Mas. progênie de Laomedonte? E. do reino dos seus genitores? Ouvi. vos conto. com ódio e amargura externou-se : Guerras? depois de matardes meus bois e vistosas ovelhas. Mas. e a presa desfalcada abandonam. do meio da praia levanta as mãos ambas. tudo emporcalha com as unhas. com vôo estridente de um bater de asas medonho as Harpias. O ânimo lhes faleceu. Vossos anseios à Itália vos levam. para com votos e preces pedir paz condigna. Mal acabou de falar. eu. alça o vôo e à floresta se acolhe. Meu pai Anquises. de árvores grossas fechada. apartai esta ameaça ! De tal desventura. invoca os numes e as honras prescreve que o caso exigia: Deuses do céu.LIVRO III 57 leitos pusemos e alegres o opimo manjar devoramos. Mais uma vez. e logo me revelou. donde. Tal como eu disse. Restou Celeno. fizeram. infeliz profetisa. às inocentes Harpias. 224 . com sombra discreta lá dentro.263 . rapidamente se esquivam. Mas. Tudo o que Apolo aprendeu com o mais forte dos deuses. o que tenho a dizer-vos. determino pegar em armas e guerra sem tréguas levar a esses monstros. da trombeta recurva solta o sinal. por cima. fedor espalhando ao redor. no meio das ervas rasteiras ocultam suas espadas. quereis expulsar-nos. quer sejam deusas aquelas criaturas ou aves nocivas e imundas. de lutar com suas armas desistem. surge o bulhento cardume de seus buracos. broquéis ajeitados para isso. das Fúrias a mais poderosa. de repente dos montes nos baixam. de todo poluída. na praia a rolar. haveis de roer até as mesas.

a planície varreram. o sol concluíra seu circulo grande. proas enfeitam as praias sonoras. à praia abicamos. permanente motivo de choro. e escapado da fúria dos fortes argivos. ferimos as ondas espúmeas. Logo perdemos de vista os merlões altanados dos feácios. Lassos. Soltas as âncoras.58 ENEIDA deuses. com dois altares a par. o gigante. of'recemos votos a Jove e acendemos as chamas lustrais nos altares. Nesse entrementes. Já pelas ondas banhada aparece a selvosa Zacintos. Logo da liniha nos surge Leucate de cumes nimbosos e o promontório de Apolo. desnudos os corpos e untados de azeite. votos solenes a oferecer e presentes funéreos às cinzas de Heitor. Noto enfunou logo as velas. a pátria de Ulisses nefando. Mais do que estranhos rumores enão os ouvidos nos ferem: que Heleno. Com desposar a viúva do eácida Pirro. sobre o seu túmulo inane. Subo à cidade. livrai-nos ! Salvai nossos filhos ! — E logo dá ordem para as amarras de terra colher e soltar o velame. Por belo acaso. De Itaca reino de Laertes fugimos. amaldiçoada por todos. sem risco. nas margens de um falso rio Simoente encontrava-se Andrômaca. e o negro inverno com ventos furiosos o mar encrespava. temido dos nossos marujos. e um só verso lhe aponho: Este troféu por Enéias foi ganho na guerra dos gregos. alegres de terem passado por tantas cidades gregas. a outro esposo troiano ligara-se Andrômaca. formado de céspede verde. filho de Príamo. não longe do burgo. Dulíquio e Samos e Nérito toda cercada de rochas. em gregas cidades reinava. Mando os remeiros o porto deixar e ocupar os seus bancos. 264 . de seus arrecifes. Fiquei pasmado. que Abante apenas usara. travam-se. e senti no imo peito desejo veemente de com Heleno falar e saber a verdade daquilo. deixando na praia os navios recurvos. ele o cetro também ganhara.303 . Batem os sócios o mar à porfia. na direção prosseguindo que o vento e o piloto indicaram. e pelas costas do Epiro seguindo chegamos ao belo porto Caônio e dali sem demora à cidade Butroto. Na praia de Áccio os desportos troianos então celebramos: os companheiros. Nas portas cravo do templo um escudo de côncavo bronze. Ledos de em terra pisar contra toda a esperança. ao burgo modesto subimos.

que é de Heitor? Assim dizendo. havendo corrido atrás de Hermione neta de Leda. ilíacos muros. Só muito tempo depois. sobre construir neste cerro outra Pérgamo. nem foi sorteada nem nunca na qualidade de escrava subiu para o leito de um dânao. seu pai. forte troiano. elegeu uma esposa lacedemônia e a Heleno seu servo me deu como escrava. aterrada com a vista daquele fantasma. que Fados amigos aqui te trouxeram? Ou que deidade atirou-te a estas plagas. também tio o esforço antigo e a ombridade a imitar porventura o estimula? Dessa maneira a coitada. 304 . mal consegui formular as seguintes palavras sem nexo: Ainda e sempre amarrado a uma vida de dor e trabalhos. Porém. Morto Neoptólemo. a chorar sem parada e proveito se desfazia. Sim. caiu de inopino sobre o ímpio filho de Aquiles. filho de Príamo. do varão Cáone. pertences a Pirro? Rosto abatido. debaixo dos altos muros de Tróia. a dor sofri de parir como escrava. Mas. . e o de Heitor. a serviço da imensa brutalidade do filho de Aquiles.L I V R O I I I Quando me viu a avançar. Perdida a pátria nas chamas. ao lado das aras o mata. a figura? Notícias verídicas trazes. sem mesmo o saberes? O que foi feito de Ascânio? Ainda vive? Ares puros respira? Nasceu no tempo em que Tróia. levada por mares sem conta. nisso saiu das muralhas Heleno. estuporada caiu. que ventos. recobrada do susto. Porém furioso por ver que lhe roubam a noiva extremada. num pranto incontido explodiu e o vizinho bosque inundou de clamores. Ah ! de que modo caíste da altura a que havias chegado com teu marido? Ou que acaso feliz te premiou novamente? Dize-me. e de pronto a armadura troiana reconheceu. . condenada a morrer sobre um túmulo imigo. que o nome de Caônia impôs logo a esta terra. que. e pelas Fúrias Orestes tomado. em voz baixa me deu a seguinte resposta: Mais do que todas feliz foi a virgem nascida de Príamo. Confuso com o seu sofrimento. Recordações dolorosas conserva da mãe falecida? O nobre exemplo de Enéias. sou eu. me disse: É tua. pois. O calor abandona-lhe os membros. mesmo. seus territórios em parte couberam ao próprio Heleno. podes crer-me.343 . Andrômaca: Heitor já não tendo. filho da deusa? Ainda vives? Se morto iá estás.

Para contar do começo. a ajuda dos deuses depreca. entrecortando com lágrimas as expressões de amizade. nas cintilantes estrelas. Como fazer para alfim sobrepor-me a tão grandes trabalhos? Heleno. Febo Apolo. que nos revelas o pensamento de Febo nos lauros de Claros e a trípode. o outro Xanto. com sua linguagem nefasta. silentes. As portas Céias abraço. no vôo e no canto das aves ! Fala e me instrui. Somente a harpia Celeno. e os vários portos que entrar imaginas. então. aos seus reconhece e com júbilo ao paço os dirige. todos os numes concitam-me a ir em demanda da Itália. Perto dali uma Tróia modesta revejo e muralhas baixas de Pérgamo e o leito arenoso de um riacho. De pronto.383 . pois as Parcas e Juno Satúrnia mo impedem. Assim seus desígnios o pai dos deuses dispõe e sorteia. ante cuja solenidade senti-me acanhado. Da mesma maneira. seguido de séquito grande. Pouco direi dentre o muito que fora preciso saberes. é certo. por serem vizinhos. para encontrar em paragens remotas a pátria dos sonhos. Passa-se um dia e outro dia. O rei a todos recebe num pórtico de ampla acolhida. E. impossível de crer-se: a adominável ameaça da fome que nunca se farta. do teu santuário. os auspícios mais altos me dão a certeza de que amparado o mar fundo navegas. falou-me: Filho da deusa. da fronte desata as ínfulas. inspirado. para que mares amigos e certos encontres nas tuas divagações e consigas fundear num dos portos da Ausônia. dirijo-me ao Vate e lhe faço as seguintes perguntas: Filho de Tróia. me prenunciou um prodígio inaudito. teus remos terão de dobrar-se nas ondas trinácrias e teus navios riscar as salgadas planícies da Ausônia. e pela mão me tomando conduz-me ao limiar. Taças em punho libavam a Baco no meio da sala. Essa é a ordem das coisas. pós haver imolado de acordo com o rito algumas reses. Antes. as auras convidam a navegar. Os oráculos boa viagem me auguram. dos deuses intérprete. Em pratos de ouro é servido aos troianos um lauto banquete.60 ENEIDA filho de Príamo. Então. essa Itália almejada e tão perto. Pouco há de ser. os troianos se regozijam com a vista daquela cidade tão nossa. longos caminhos e mares impérvios de ti os separam. 344 . com mais força no cárbaso sopra-nos Austro.

bota a cabeça de fora e os navios às. ao deixares o Epiro. mas separaram-se súbito num rompimento espantoso — tão poderosa é a passagem dos anos para essas mudanças ! — da costa Hespéria ficando a Sicília ali mesmo apartada por um canal. deitados no chão a mamar com sossego: esse será o local da cidade. Cila domina à direita. cujas ondas agora as campinas açoitam de ambos os lados. Contigo Apolo. singrando nos mares do lado esquerdo. Ali os locros Narícia fundaram. sem descansar. Contudo. Mais além.LIVRO III 61 do Inferno os lagos passar e também a ilha eéia de Circe. para evitar que entre as chamas sagradas em honra dos deuses se te apresente algum rosto inimigo e o agouro perturbe. três vezes as ondas atrai para o báratro escuro. da bela Sicília. Quando os navios. da mesma cor da mãe branca. Petília fundou de vizinhos distante. como é justo fazeres. abruptamente a chupá-las. e a estreita abertura do cabo Peloro. cobre os cabelos na forma ritual com um véu purpurino. Não te preocupes por causa da fome de roer até as mesas. grande circuito farás sempre à esquerda. Filoctetes. porém. Dizem que outrora estes dois continentes um todo faziam. já salvo. Foge daqui. e para os votos cumprir te aprestares. três vezes para o alto as atira. 384 . e com fervor religioso o costume os vindoiros preservem. pedras atira. Teus companheiros e tu observai essa prática sempre. escondida no bojo de negra espelunca. enquanto Cila. por nossos mares banhadas no seu balanceio diuturno. levarem-te os ventos às plagas sicilianas. para que alfim a cidade consigas fundar no chão firme. cidades da Hespéria. Dou-te os sinais. na esquerda a implacável Caribde. habitadas estão por acaios maldosos. evita estas plagas. na memória os retém. o descanso almejado. de fortes muralhas. da costa acautela-te à tua direita.423 . e as salentinas planícies ocupam os homens do líctio Idomeneu. Esta. caudilho extremado de Melibéia. açoitando com elas os astros distantes. Quando. as terras da Itália aqui perto. terminado já houverem seu curso. hão de os Fados achar o remédio adequado. è deparares deitada na sombra de bela azinheira uma alva porca com trinta leitões ao seu lado. na praia. Quando apreensivo esüveres nas margens de um rio sem nome.

te contará. 424 . teus votos dirige ferventes a Juno. Além do mais. busto de virgem donosa. que importa explicar-te com muita insistência. pragas jogando à Sibila. Nunca lastimes o tempo exigido para esses rodeios. me inspira e na mente me infunde seus vaticínios. ir até ao cabo Paquino e estender à Sicília o roteiro. té que resolva a falar-te e sem peias te mostre o futuro. ela os coordena. não mais se importa a Sibila de as folhas repor na mesma ordem de antes. a cidade de Cumas procura. e a profetisa inspirada que as coisas futuras conhece. Mas. na Itália saltar sem trabalhos. Antes de ouvir a Sibila não partas. as batalhas em que hás de medir-te. os bosques do Averno de sons agradáveis. Os vaticínios guardados assim pela virgem nas folhas. terás boa viagem. moção favorável por tudo soprando. como evitar os trabalhos ou o meio melhor de sofrê-los. Heleno a seus homens manda levar para as naves de proas recurvas muito ouro. a boa-vontade daquela deusa angaria. Os consulentes retiram-se. sem se moverem dali. Antes de todas. deixando-os depois arrumados na cova.62 ENEIDA Tem a primeira feições quase humanas. lagos divinos. belo marfim trabalhado.463 . se concedes a Heleno saber e prudência. quando a porta se entreabre e algum vento essas folhas remove do lugar certo e as dispersa por tudo no vasto aposento. Vai. variados objetos de prata. na mesma ordem do início persistem. Os povos todos da Itália. sob uma rocha e os orac'los transcreve em folhinhas delgadas. muito embora isso alongue o percurso. em verdade. porque finalmente consigas. os seus vaticínios. Aconselhável será. sendo que Apolo. deixando atrás a Sicília. e senso emprestar aceitável aos seus vaticínios. Eis tudo quanto me é lícito neste momento dizer-te. ainda que teus companheiros murmurem e os ventos convidem a soltar velas. Em terra-firme de novo. a ver de longe uma vez a terrível caverna de Cila com seus cachorros marinhos e os ladros difíceis de ouvires. cetáceo disforme. com teus atos eleva até os astros o nome de Tróia. Com tua súplica e dons numerosos. apenas dir-te-ei uma coisa. e até meio corpo. com cauda dupla de lobo em barriga de imano golfinho. Pós ter falado as palavras amigas. Se souberes falar-lhe. por baixo. dileto filho de Vênus.

despedi-me de todos com estas palavras: Vivei felizes. Nosso destino nos leva a vogar por paragens ignotas. recebe estas prendas por mim trabalhadas. desse modo falava. e sem perigo de um dia cair sob o assalto dos gregos.LIVRO III 63 uma loriga de tríplice malha dourada. ó vós que alcançastes a paz almejada. pilotos. não mais navegar longos mares precisareis. Anquises. Sem se conter. o Epiro conjuntamente com a Hespéria. 464 .503 . pois ambas de Dárdano vieram. Andrômaca trouxe não menos ricos presentes. e ver os campos que os Fados prometem aos meus descendentes. pai venturoso de um filho de tanta piedade ! Por que me ponho a falar-te. de saudades. antes disso. de iguais reveses provados. no convés amontoados a rodo. disse: Caro menino. longe ainda se acha a paragem da Itália que Apolo indicou-te. vestidos com áureos bordados. Fique mais isso aos cuidados dos netos. impedindo que os ventos te ajudem? Acabrunhada. para que os ventos de bem navegar em ação logo entrassem. Só tu a imagem me lembras do meu falecido Astianacte: assim. esse rosto era o dele. E para ele voltando-se. dodôneos vasos do louro metal. e para Ascânio uma clâmide frigia. Mas. Dá-nos remeiros também. delícia dos olhos. Tranqüilidade já tendes. esposo acatado de Vênus. quero que nossas cidades. nem buscar essa Ausônia que sempre nos foge. telas de fino lavor. também. armas de Pirro tudo isso. E mais: cavalos. querido das divindades. São dons dos teus últimos primos. que já foste salvo das ruínas de Pérgamo por duas vezes: a Ausônia está ali. Meu pai ganhou prêmios valiosos. vai tomá-la nas naves. Era no tempo em que Anquises mandava aprestar os navios. uma única Tróia construam. as mãos. um capacete de insigne cimeira com crista de crina. Tendes à vista uma imagem do Xanto. em tudo unânimes. com seus moradores. O sacerdote de Febo com vozes corteses lhe fala: Ó tu. supre os sócios das armas precisas. as muralhas da Tróia por vós aqui construída com muitos e belos auspícios. Se me for dado alcançar algum dia as paragens do Tibre. e de sua sempre lembrada amizade. esposa de Heitor. Na adolescência risonha de agora contigo entraria. terás de cortar muitas águas bravias. Adiante. como lembrança de Andrômaca.

brancos de neve. de vinho repleta. Seus companheiros. eis que avistamos ao longe os oiteiros modestos da Itália. só parecendo que o templo se afasta da praia sonora. Antes de todos. de novo alegres. a primeira a escutar-nos. Itália ! a uma voz. as Ursas unidas. ó terra bendita! Guerra os cavalos inculcam. Nem bem a Noite. patenteia-se o porto perto dali.64 ENEIDA Soltamos velas. o murmúrio das auras escuta. bons ventos soprai-nos agora ! A viração nesse em meio cresceu. — Na mesma hora invocamos o nume da divindade potente. as Hiadas núncias das chuvas. e no grêmio da terra querida. Os marinheiros as velas recolhem. levada das Horas ao meio chegara do seu percurso. Porém talvez estes mesmos acabem com o tempo a habituar-se. soltou da popa o seu toque sonoro. bela esperança de paz. Animaram-se as tendas. Nesse entretanto o sol baixa. 504 . ao repouso nos entregamos. soberba aparência. Vendo tão certos sinais de que o céu se mostrava sereno. No alto vê-se o santuário da deusa Minerva. Minerva. no jeito de duplas muralhas. então. Escorraçados os astros com a vinda do carro da Aurora. ao freio. Um belo porto ao nascente se arqueia. Meu pai Anquises. infladas as velas. senhor dos tufões. e puxar na lavoura a carroça. que como torres se alongam. sem descuidar-se de Õrião. batido das ondas. exclamam. a brandir sua espada fulgente. Desembarcados por fim. o sutil Palinuro saltando da cama todos os ventos explora. diante do qual dois escolhos banhados de espuma se opõem. Com o véu da Frigia. costeando de perto os penhascos ceráunios. Como primeiro presságio vi quatro cavalos pascendo num prado próximo. para isso é que os brutos se prestam. sombreando as montanhas da costa. das procelas ! próspera viagem cedei-nos. chamou pelos deuses do alto da popa: Deuses do mar e da terra. o curso observa no céu silencioso dos astros errantes: Arcturo. Itália ! gritou para os sócios Anquises. os mares tentamos. despertados. abicam na praia. no jugo unidos.543 . uma copa de grande formato engrinaldou e. caminho curto por mar para a Itália almejada alcançarmos. A todos o Sono cuidoso restaura. defronte do altar a cabeça cobrimos. os remeiros da guarda sorteamos para velar. E o pai Anquises: — A guerra anuncias.

companheiros ! Aos remos agora apliquemo-nos todos. cobrindo-se o céu de fumaça. com grande estrondo. quantas vezes. Durante a noite. com remos e vela à porfia se esforçam. E. meio queimado de um raio. mas o Etna troa ali perto. turbilhonam. gemendo sem pausa as entranhas do abismo. a fornalha gigante tais flamas expira. Uma onda grande até aos astros nos leva. as areias sem pausa a girar. e abrigado dos ventos. toda a Trinácria murmura. Bramidos fortes do mar enraivado à distância se escutam. é certo. no meio de enormes ruínas. à esquerda.LIVRO III 65 tal como Heleno o indicara. então. saltamos nas praias dos feros Ciclopes. vozes das penhas batidas das ondas em luta perene. Ao por do Sol. Obedecemos-lhe pronto. de Tarento avistamos e a bela cidade de Héracles. Sus. uma vez concluídos os votos solenes. segundo dizem. Contam que o corpo de Encélado. à Juno argiva prestamos as honras sem tudo devidas. nem mesmo a menor claridade 544 . pois nem os ventos se viam. Sem mais. o escolho terrível que Heleno predisse. liqüefeitos. Meu pai Anquises. vomitam penhascos. cinzas ardentes e chamas que os astros mui longe incendeiám. Por vezes lança para o alto uma nuvem de pez e de fumo. depois. de medo de haver ali gregos. acalmaram-se os ventos inquietos. rociados de pingos os astros. pretenda virar-se de ilharga. Ferve o mar fundo. ento: — Certamente esta é aquela Caribde. sem nunca atinarmos-lhe a causa. viramos as velas nas suas antenas e atrás deixamos as ribas. caído de chofre sobre ele. ou os lança para o ar. escondidos na mata observamos aqueles inenarráveis prodígios. cansado. e o templo de Juno lacínea. três mil partiram-se as ondas. Três vezes soa nas pedras de baixo o clamor das cavernas. do fundo escuro arrancadas. e adotando seu máximo alvitre. Palinuro se apresta para cortar o mar bravo à sinistra da proa recurva. outras. todos. O Etna avista-se ao longe da praia. sob o Etna se acha oprimido. O golfo. Rota a cratera. Do mar ignaros. finalmente. Porto sereno e espaçoso. Sem perder tempo.583 . de envolta sempre com brancas fagulhas em giro contínuo. rebaixada. o Cilaceu de passagem difícil e os muros de Cáulone. como o ordenara. faz-nos descer num momento às moradas dos mares profundos. as vísceras brutas dos montes. na bela Trinácria. estas as rochas.

quando de súbito surge das selvas espessas um vulto desconhecido. Noite importuna envolvia de sombras a lua distante. livrai nossa terra desse flagelo ! — Ninguém o conversa nem pode encará-lo. De tal altura é o seu dono. por tudo espalhavam-se as trevas. brutesco animal. ficando a mirar-nos. dos meus companheiros. era grego. Não nego que fui marinehiro da armada grega. na cova do imano Ciclope meus companheiros deixaram-me. negra espelunca e espaçosa. Eu mesmo o vi ressupino na furna medonha. Insistimos a que nos dissesse de onde provinha. atavios dardânios. Assim falando. nos falou da seguinte maneira: Sou natural da ilha de ítaca e um dos soldados de Ulisses. depois de picado. Passado o medo inicial. No mais. e de joelhos falou-nos: — Por todos os astros. Aquemênides chamo-me. rolava no chão. desfazendo-se em pranto amargo. que Fados adversos o oprimem. jogai meu corpo. seu nome. e com esse penhor de confiança o reanima. o desgraçado.623 . na justa marcial entre os sacros penates de Tróia. abraçava-me os joelhos. sem maiores delongas a destra dá ao mancebo. Dar-me-ei por pago se vier a morrer pela ação de outros homens. de extrema magreza e exterior repulsivo. despavorido deteve-se um pouco. que o céu alcança. Oxalá continuasse assim sempre ! No açodamento da fuga. 584 . meu pai. sem trato cabelos e barba. sem medida. teucros. — Poderes celestes. pobre de bens. Se vos parece tão grande o meu crime. para a praia correu. suja de sangue e com postas de carne por todos os cantos. Vemo-lo: imundo até ao cerne. no abismo insondável. pelas deidades celestes e este ar que a nós todos anima. ao notar nossas armas de longe. tirai-me daqui e levai-me para onde quiserdes. O próprio Anquises. quando ele com a mão enorme apanhou dois dos nossos mais fortes guerreiros e na parede os jogou. Vim para Tróia com meu pai. dos que saíram da pátria empenhados no cerco de Tróia. inundando de sangue o chão duro. manto seguro com espinha de peixe.66 ENEIDA o firmamento enfeitava. Mal despontara no oriente a manhã com a luz nova do dia e a bela Aurora expulsara do céu a umidade das sombras. como no solo encravado. sem dar um passo. sangue anegrado. Mas. Isso me basta. Só se alimenta de entranhas das vítimas. súplice as mãos dirigindo a nós outros na praia sonora. Depois.

Deixar este inferno era tudo. tal como o disco do sol ou escudo redondo dos gregos. Bagas. avistei vossa armada no rumo da costa próxima. cerejas de duros caroços são meu alimento. com ele se orienta. e logo assentei para ela passar-me. estendido na imensa caverna. a baixar para as notas ribeiras. de todos os lados nos arrojamos sobre ele e com uma haste aguçada furamos-lhe o olho gigante. me servem. desmesurado. Mas. de dor. Cercam-no as rudes ovelhas. monstro horroroso. nem pôde o Itacense tão grande barbaridade agüentar. ao devorar ele os membros sangrentos dos meus companheiros. a expelir pela boca.LIVRO III 67 Vi palpitar-lhe entre os dentes a carne ainda quente de vida. de um monte aqui perto. disforme gigante privado da vista. tremendo de vê-los e ouvir-lhes os passos. vazado de pouco. com raízes. E assim vingamos alegres os manes dos nossos amigos. Nas vossas mãos é vantagem morrer. seu único alívio. lavou a sânie que do olho escorria. repleto de carne e do vinho atordoado dobra no chão a cerviz. não ficou sem castigo. Avançou até ao meio das ondas d'água profunda. por entre as desertas tocas de feras.663 . aos numes depois de orar e sorteados os postos. a saída desses gigantes. e cortai sem demora as amarras dos vossos barcos. Mal terminara. e observo. centenas de outros Ciclopes ferozes como ele vagueiam por estas praias recurvas e têm seus refúgios nos montes de em torno. Rangem-lhe os dentes. em atroz pesadelo sujos despojos de envolta com vinho: nós outros. Porém fugi. Ervas também arrancadas do chão. desde que arrasto a existência nas selvas. 624 . que então recoberto da pálpebra estava. e mal chega-lhe o mar a banhar a cintura. consolo na desventura. Já por três vezes a lua seus cornos encheu de luz nova. Logo que o bruto. pobre gente. sem perguntar quem seríeis. Num desbastado pinheiro se apoia. (Do colo lhe pende uma flauta campestre) Quando se achava adentrado no mar e tocava nas ondas. Sempre a escrutar o horizonte. avistamos mover-se no cimo de um monte com seu rebanho de ovelhas a ingente e intratável figura de Polifemo pastor. pouco importa a maneira. Como o feroz Polifemo com suas ovelhas lanzudas munge na escura caverna e enche os tarros de leite. Ainda sabe que Ulisses se chama.

e as campinas das margens baixas passamos do Heloro. do golfo de Mégara. bem como Gela. Essas particularidades nos foram contadas in loco por Aquemênides. filhos do Etna. È fama que o Alfeu. Acragas alcantilada mais longe seus muros ostenta. de estarrecer até as bases medrosas da bela Trinácria e de obrigar a mugir o próprio Etna nas suas cavernas. nos lucos de Diana.68 ENEIDA Apavorados. Por Selinunte palmosa transportam-nos. percebendo que lhe era impossível chegar até aos barcos rapidamente levados nas ondas velozes do Jônio. adoramos os deuses da terra. com o nome do rio. fadada pelo Destino a ficar sempre fixa. nesse instante ocorreu-nos o sábio conselho de Heleno. desimpedidos os cabos. quando na sua elegância as mais belas alturas atingem. Algo ele ouviu. ciprestes coníferos que nas florestas de Jove cresceram. por ele inundadas. com olhos ferozes a contemplar-nos de longe. Fiéis a Heleno. para o caminho entre Cila e Caribde evitar perigoso. 664 . a geradora de antanho de belos e fortes cavalos. das matas ocorre. mais os rochedos do cabo Paquino com suas salientes pedras. Mis. Ao longe também Camarina avistamos. Mas. cidade mui grande. Concílio horrendo quais aéreos carvalhos. na entrada da bela baía de Siracusa há uma ilha a que o nome de Ortígia puseram seus moradores. para levar-nos além do Pantágias de rochas abruptas. No céu lhes entesta a cabeça. quando de súbito Bóreas começa a soprar do Peloro. que as praias e o porto logo enchem. rio da Élide grega vias subtérreas percorre até vir a final a reunir-se na tua boca. soltou um berro tão forte por cima das águas revoltas. a fuga apressamos depois de acolhermos o suplicante. o companheiro do mísero Ulisses. Perda fatal aguardava-nos. e as planícies do Gela. Inenarrável pavor nos levou a soltar vela aos ventos. a geração dos Ciclopes. Aretusa. Em sílencio cortamos as fortes amarras e. a fim de apressarmos a fuga. com as ondas do mar da Sicília. dos montes mais altos. varremos o mar à porfia. vista imponente. Outro roteiro escolhemos. ventos ponteiros. da humilde Tapso. sobre os remos dobrados.703 . para o lado das vozes os passos dirige. A esse barulho. Fronteira ao rio Plemírio. Vimos nessa hora os irmãos.

salvo de tantos perigos. sim. o Fado a que os deuses o haviam cingido. Um dos deuses. perdi meu pai. o adivinho que tantos horrores predisse. meu único amparo e consolo na adversidade. não me falou desse luto. me jogou nestas praias. Anquises. Esta. então.LIVRO III 69 e a Lilibéia de muitos perigos com cegos penedos. Pondo remate na história animada.716 . nem mesmo a funesta Celeno. O pai Enéias assim revelava a uma atenta assembléia suas andanças. sem norte na vida escabrosa. a mais cruel desventura. ao repouso acolheu-se. Sozinho deixaste-me. 704 . O próprio Heleno. pai extremoso. o remate da minha penosa navegação. Nesse lugar. Drépano aqui me acolheu no seu porto e funestas ribeiras. açoitado por tantas e tais tempestades.

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ferida de cega paixão desde muito. e os penates manchados de cruel fratricídio. O calor sinto agora da chama primeira. 1-23 . o gesto. Fala a Rainha ferida de morte à irmã. meu caro esposo. suspensa me encontro por sonhos horríveis. Baixa extração logo o medo revela. a úmida sombra do polo com a sua presença esfazendo. a alta linhagem do herói. se ao toro e aos fachos jugais não sentisse indizível repulsa. e que braço! Creio — e bem certa estou disso — ser ele de origem divina. somente. de almas gêmeas: Ana querida. depois de Siqueu me ter sido roubado. este.ENEIDA Livro IV Quanto à Rainha. nutre nas veias a chaga e no oculto braseiro se fina. De tantos cuidados não dorme. Ana. a esta primeira fraqueza talvez sucumbir eu pudesse. confesso-o. no imo peito gravadas conserva suas palavras. A nova aurora com a tocha de Febo alumiava o horizonte. mas este. por quantos golpes do Fado não foi agitado ! E as batalhas de há pouco? Se dentro d'alma já não mantivesse bem fixa a imutável resolução de não mais me prender com ninguém nas cadeias matrimoniais. os sentidos tocou-me e a vontade oscilante venceu de todo. a revolver de contínuo na mente o valor do guerreiro. dês que a Morte frustrou meu amor inocente. Que hóspede novo transpôs de inopino a soleira da porta? Como é galhardo ! Quão forte guerreiro. em verdade.

dias designa de tais sacrifícios. iminente? E as tropelias do irmão? Creio em verdade que o vento impeliu a estas costas os teucros. pretextos inventa de tê-los junto de nós todo o tempo em que Orião nossos mares encrespa. Juno. eu violar-te e infringir teus preceitos sagrados. no túmulo as guarde. na região mais deserta por falta d'água.72 ENEIDA Antes. cara irmã. os ferozes barceus. cerca-te a forte Getúlia. nutre. temida na guerra. Quem contra o peito achegou-me e colheu minhas caras primícias na mocidade. terror dos vizinhos. a Febo. fértil em triunfos. os delubros visitam. verte-a de pronto entre os cornos de branca novilha sem mancha. ainda. Inicialmente. E a guerra com Tiro. as reses abertas 24-63 . até à Noite profunda. isso mesmo com Jarbas acontecendo e com tantos caudilhos que esta África. Como verás a cidade crescer. e. sob os auspícios dos deuses e o amparo ostensivo de Juno. e de súbito banha de lágrimas ternas o peito. eficaz protetora dos vínculos do matrimônio. porém. na própria Tiro e na Líbia depois. imolam bidentes ovelhas do rito. deu esperanças à mente indecisa. sacrifícios completa. o céu hostil permanece e partidos os barcos se encontram. se a ajuda alcançasses das armas troianas? Cuida de os deuses propícios deixar. o pudor desatou-lhe. sem conheceres doçuras maternas e os dons da alma Vênus? Crês que isso importa aos sepulcros e às cinzas dos manes dos mortos? Em tua dor enjeitaste pedidos de muitos esposos. E ora queres opor-te a um desejo tão grato? Não consideras a terra a que vieste bater de pouquinho? De um lado. mais querida que a luz tão preciosa ! Na solidão e em perpétua viuvez murcharás tanto viço. escancare-se a terra e no abismo eu mergulhe. prima na hospitalidade. A formosíssima Dido tomando na destra uma copa. númidas feros que montam sem freios. Esse discurso o braseiro ainda mais avivou-lhe no peito. ou o Padre sumo com um raio me atire no reino das sombras pálidas. Pudor. do que. os deuses imploram nos seus altares. e a indômita Sirtes. quanto o reino. Disse. com tal consórcio ! A que altura insondável a glória dos penos se elevaria. ou majestosa passeia na frente dos pingues altares. Ana responde: — Ó irmã. do outro. ao padre Lieu e à legífera Ceres. consigo as conserve. no Érebo logo eu baixando.

a famosa opulência dos tírios. Inacabadas. na imagem paterna se embebe. separados no ponto em que a lua nos priva do claro lume e ao repouso as cadentes estrelas convidam. o fim desejado: Dido até aos ossos se abrasa de intensa paixão. mostra-lhe o burgo nascente. tu própria e teu filho. novos banquetes lhe apresta no fim da jornada. no leito se deita que ele ocupara. corre a coitada. não mais se exercitam moços esbeltos nos jogos da guerra. Ora percorre as muralhas com o cabo de guerra troiano. ser uma fraca mulher por dois numes agora vencida ! Não me escapou todo o medo que nossas muralhas te inspiram. vaga insana por toda a cidade. ora começa a falar e interrompe no meio o discurso. geme por ver-se sozinha na sala. por acabar as ameias. nome sem par. Pouco depois. sem que pudesse até a Fama eloqüente antepor-se-lhe à fúria. à noitinha. No seu delírio. toda a fábrica altiva. mas sempre ao lado encravada sentindo a fatal mensageira. sem que ele consciência então tivesse do fato. tal como veadinha nos bosques de Creta que o caçador transfixou. pende da boca outra vez do orador eloqüente e bem posto. com auspícios iguais os dois povos rejamos: Permite a Dido servir a um marido da Frigia. irrefreável.LIVRO IV e as palpitantes entranhas. de espaço examina. sem rumo certo. vencendo florestas do Dicte e arvoredos. ansiosa. o himeneu realizarmos? Já conseguiste o que tanto querias. interrompidas as obras. Tanto que a viu pela peste atacada a consorte de Jove. grande espólio. na ausência do amado ainda o vê. retém a Ascânio no colo. memorável façanha nos tempos vindoiros. merlões. Ambas. quanto receio já sentes dos paços da nobre Cartago ! Aonde tudo isto vai dar? Qual o fim do conflito iminente? Por que razão não firmar paz eterna. a este o dote 64 -103 73 . com uma flecha. o céu das ameaças descansa. O volátil caniço ali fica. Ó ciência vâ dos agouros ! Quê somam delubros e votos para os delírios do amor? Enquanto isso. então. Arde a Rainha infeliz. logo a Satúrnia dirige-se a Vênus com estas palavras: Alto louvor alcançais. a medula enlanguesce e no imo peito a ferida se alastra sem ser pressentida. as torres pararam. na faina dos portos. ainda o escuta. por esse modo pensando iludir a paixão absorvente. outra vez quer ouvir os desastres de Tróia.

Vênus. aos sócios agrega-se Enéias. no consumado himeneu. A juventude seleta nos largos portões se apinhava. áurea faretra de lado. Sai finalmente a Rainha na frente de séquito grande. afinal. os dois bandos se unirem num grande cortejo. De púrpura e ouro ajaezado seu palafrêm generoso. exultante. És sua esposa. Dido e o caudilho troiano na mesma caverna se abrigam. Tal como Apolo. Pela demora da nobre Rainha no tálamo odoro. — Ao projeto acedeu Citeréia. crebros trovões em tropel retumbando lá ao longe. Nesse entrementes. no manto da Noite envolvidos.74 ENEIDA com tua destra em mão própria darás: os guerreiros de Tiro. a ti cumpre sondá-lo do modo mais hábil. por esses montes. eu te sigo. por tudo. a Aurora saía do leito do Oceano. para negar-te um pedido ou enfrentar-te no campo da luta? Resta saber se a Fortuna estará também nisso de acordo. os afamados ginetes massílios e cães de bom faro. sidônia clâmide a cobre. fivela de ouro sustenta-lhe no ombro o vestido purpúreo. sentindo de longe a malícia daquele discurso. a real divindade: Tomo isso a mim. para que os reinos da Itália transfira às paragens da Líbia. os principais a aguardavam. Porém. de granizo e de chuva. porque alcancemos o fim cobiçado. se a idéia me aceitas. e. — Responde-lhe Juno. dissimulando um sorriso. Seguem-na os frígios da terra. Ora presta atenção ao que vou explicar-te sucintamente. atarantados. desta maneira lhe fala: — Quem fora demente a esse ponto. ao deixar Lícia hiberna e a corrente do Xanto. mal surja no oriente o esplendoroso Titã com seus raios e o mundo ilumine. acompanha-os Iulo. para. na crástina aurora. venab'los de ponta de ferro. Anda. negra tormenta farei desabar. com redes raras e cordas. A comitiva se perde. Porém duvido que os Fados ou Jove concorde em reunirmos numa cidade os de Tiro e os de Tróia exilados de pouco. Para a caçada prepara-se Enéias e a mísera Dido. Presente estarei. espumando o bocal mastigava. Enquanto as alas se afanam e o mato circundam com as redes. 104 -143 . em resistentes liames os dois atarei para sempre. nos louros cabelos a coifa. nessa mistura de etnias distintas por ti sugerida. por ter aventado a artimanha. de vária e sutil bordadura. mais belo de todos.

conscientes daquele enlace ulularam nos picos mais altos as ninfas. de Encélado e Céo gigantescos. Dido e o caudilho troiano se acolhem à mesma caverna. pulando dos picos mais altos. mais forças adquire. Cortando vales. do lado contrário. cretenses e dríopes. caminhos impérvios por tudo. Eis saltam cabras montesas. Ascânio menino em fogoso ginete a estes pretere. irritada com a ira dos deuses. Do falso decoro não cuida. Em correria sem tino. a própria Fama. e em polvoroso tropel muito ao longe em manadas se reúnem. correndo. furtivo amor não lhe chama. Aos altos montes chegaram. línguas e bocas falantes e orelhas ao máximo alertas. comporta-se como casada. coros instaura de turba mesclada. que escondem olhos em número igual — maravilha ! — sem pausa acordados. Ribeiras despencam das altas montanhas. Dizem que a Terra a engendrou. Monstro horrendíssimo. bem como o neto de Vênus. ao que consta. mobilidade é sua essência. A própria terra e depois Juno prônuba as juras confirmam. em torno das aras fremindo. última irmã. Corre num ápice a Fama as cidades extensas da Líbia. logo seguido de um forte aguaceiro e de infindo granizo. 144 -183 75 . pelas cumíadas do Cinto se adianta. o princípio de todas as desventuras de Dido. e de agatirsos pintados. nos campos se dispersaram. a terra sagrada do seu nascimento. crebros relâmpagos brilham e o éter se inflama. deixando matas e montes os cervos ligeiros planícies recortam. fazendo votos aos deuses que em meio daqueles rebanhos medrosos surja um javardo a espumar ou dos montes um leão se apresente. a cabeça entre as nuvens oculta. Tímida e fraca a princípio. na aljava ressoavam-lhe os dardos. inocentar-se pensando da culpa com um rótulo falso. Mais rápida praga do que esta nunca houve. aqueloutros no curso ultrapassa. com asas nefárias e escuras. Com grande estrondo de súbito o céu principia a embrulhar-se. e ajeitando os cabelos soltos ao vento os sujeita com áurea grinalda de folhas: de não menor formosura esplendia o semblante de Enéias com varonil imponência.LIVRO IV para ir a Delos. ingente. de pouco até aos astros se eleva. Esse o primeiro dos dias letais. A comitiva dos tírios e os moços esbeltos de Tróia. de pés velozes dotada. no solo os pés afirmando. de plumas coberto. transidos de medo.

a quem libam nesta hora os marúsi. Vária e palreira. onde arasse quanto quisesse.76 ENEIDA A moio espaço. Para Mercúrio voltando-se. núncia tenaz do que é falso e inventado. engrinaldadas as portas estavam. Tais invenções a feíssima deusa espalhou pela boca do povo ignaro. olvidados dos reinos. e inflamado por tantos rumores sem nexo. por tudo eram flores. oriundo de sangue troiano. grande pai. de sangue constantemente empapado se achava o chão duro. do rapto se goza. compraz-se em semear entre o povo mil boatos. cuidando de diversões. seguido de um bando de gente somenos. Como a senhor de seus reinos a Enéias agora se prende.os. o inverno passavam. dos próprios deveres. associa-te aos Zéfiros. fronte cingida com mitra da Meônia. repelindo as alianças propostas. Durante o dia se instala nas torres e tetos mais altos. de longe escutou-o o Onipotente. nascido de ninfa roubada dos garamantes. amedronta as cidades de mais movimento. dons imprestáveis te oferto. cem templos grandiosos fundara em seus reinos. no mento enlaçada. por tantas nuvens ocultos. das reses. aqui vinda sem rumo. eternas vigias dos deuses. jamais fecha os olhos ao sono agradável. do grato renome de todo esquecidos. sempre gratos ! Reparas nisto? Dar-se-á. dizem que em meio das belas estátuas dos deuses alçara súplice as mãos para Jove supremo e falou-lhe destarte: Júpiter onipotente. de perfumados cabelos. tua glória vazia eu cultivo? A suplicar abraçado nas aras. E ora esse Páris. no luxo torpe embebidos. indiferente contando a verdade e o que nunca se dera: Chegara Enéias. Filho de Hamão era Jarbas. ou que teus relâmpagos aterrorantes. Fora de si. que a vista volveu para a régia morada. aos dois amantes. e assim lhe inflama e revolta suscita com suas palavras. se escoa entre a sombra da Terra e o céu distante. nos belos leitos deitados. para chegares 184 . sempre a espreitar. que os teus raios agora vibras inócuos. cem fogos vivos. sem dano nenhum estrondeiam? Essa mulher. estridente. do que é verdadeiro. fala do modo seguinte: Vai. comprou por vil preço faixa de terra para uma cidade pequena. caro filho. caudilho com quem dignara juntar-se de pronto a pulquérrima Dido. num curto desvio. os dons de Lieu.223 . porém. E enquanto isso. até dar no rei Jarbas.

longe nas águas infindas. as asas o amparam. frustrar quer de Ascânio a grande glória de pai vir a ser da grandeza romana? Quê faz? Quê espera entre gente inimiga. com a própria 224 .263 77 . os ventos divide e dispersa as borrascas aglomeradas. joga-se às ondas. Uma espada cingia com jaspe esverdeado na empunhadura. Se o não inflama a ambição de tão belo futuro. por cima da terra espaçosa. ou as joga mais baixo que o Tártaro triste. do queixo do Velho rios despencam. sem se lembrar das cidades que os Fados propícios lhe deram. eis em suma o recado. pálidas sombras. a barba tem sempre ouriçada de gelo. A vara empunha. de Atlante. cuja fronte pinífera sempre rodeada de negras nuvens se encontra. como a avezinha que as praias rasando. de guerras grávida. há urgência: Essa não foi a promessa da mãe mais que todas formosa. de cor purpúrea. a qual levaria mui longe a progênie dos teucros na direção de todo o orbe. que o levam rapidamente qual sopro de vento passando mansinho. Mercúrio cortava seguro os empuxos da ventania na praia arenosa da Líbia distante. Leva-lhe da minha parte a seguinte mensagem. depois de deixar os pináculos brancos do avô materno. que o peso do céu na cabeça agüentava. prometeu que ele o império da Itália teria. Só nessa altura Mercúrio deteve-se. Mal tinha as plantas aladas roçado nalgumas palhoças. a Enéias viu a fundar fortalezas e erguer novas casas na sede augusta. Disse. a quem leis judiciosas daria. presente valioso de Dido. Primeiro. com esta ele as almas evoca desde o Orco. por ventos e chuva açoitada. ele os áureos talares ataca. nem para isso o livrou duas vezes das armas dos gregos. dos ombros pendia-lhe manto da Tíria. sim. os piscosos rochedos humildemente transvoa sem neles tocar nem de leve. Nele apoiando-se. Neves eternas nos ombros lhe pesam. sem se lembrar dos futuros ausônios. paradas. Transmite-o depressa. sim. No vôo distingue o alto cimo e as encostas do forte Atlante. dos campos lavínios? Faça-se à vela. se nada pensa intentar em louvor de si próprio. e abre os olhos que a Morte da luz já privara. em equilíbrio. afanando-se agora. dá sono e o tira.LIVRO IV rápido ao chefe troiano que se acha na tíria Cartago. Mercúrio dispõe-se a cumprir o mandado do Padre sumo. Não de outra sorte. De súbito.

A própria Fama levou-lhe a notícia da fuga da armada. ao ouvir os clamores de Baco. Quem pode esquivar-se da suspicácia da amante? Primeira de todos. Pronto o interpela: — Que fazes? As bases assentas possantes da alta Cartago com o teu mulherengo pendor para as coisas. Duvida de tudo. — Depois de falar. sem decidir coisa alguma. O inesperado do aviso. Muito em segredo se reúnam na praia. os navios esquipem. do expresso mandado do nume. a ponto todas as ordens lhe acatam e o plano.303 . nenhuma do encerro lhe escapa. de quadros de traço esquisito.78 ENEIDA mão adornado todo ele. Contentes. das coisas mais certas. Nesta alternância. sem mais. despojou-se da forma humana Mercúrio. o momento oportuno há de achar de falar-lhe. e a causa daqueles preparativos ocultem. por várias partes detendo-se. trienais. excitada. a esperança de algo fazer em louvor de ti mesmo. para dos olhos de Enéias sumir dissipado no ar puro. em delírio. estimulada tal como a bacante nas sacras orgias do Citerão. a ruptura dos laços de tanto amor. nas esperanças de lulo. armas aprontem sem serem notados. executam. e que tragam Seresto consigo. da antiga pátria de todo esquecido e dos teus interesses? O próprio rei inconteste dos numes. que a terra dirige como lhe apraz e o alto céu. durante a noite e segui-lo nas matas profundas do monte. 264 . entrementes. aventa quanto ocorria. Mas a Rainha pressente a tramóia. deixa-o sem tino e disposto a fugir das paragens amenas. percorre a cidade. como sair-se de tal apertura. Estarrecido a tais vozes Enéias ficou. de teus ascendentes. resolve tomar o seguinte partido: chama Mnesteu e Sergesto. Ah ! que fazer? De que jeito sondar a Rainha alarmada com tal suspeita? Que exórdio usará para alfim convencê-la? Veloz divide ora aqui ora ali o pensamento indeciso. pensa em Ascânio menino. hirta a coma. enquanto nada suspeita a boníssima Dido. a quem deves os reinos da Itália. na idade mais bela de todas. Fora de si. pois ele. cortando de chofre a conversa. desde o Olimpo. presas na boca as palavras. os altos muros de Roma. me impôs a incumbência de percorrer tanto espaço nas auras e dar-te um recado: Em quê te ocupas? Que tempo precioso esbanjado na Líbia ! Se não te move a ambição do porvir prometido.

e às escondidas deixares meus reinos sem nada dizer-me? Não te abalou nem a destra que outrora te dei. os tiranos númidas. apiada-te ao menos de um lar ora esfeito. doces lembranças. por quanto tempo consciência tiver de mim mesmo e com vida eu mover-me. o sagrado himeneu que de pouco nos une. o primeiro cuidado seria a cidade dos meus troianos reerguer. tão próxima já do seu termo? Como se nada isso fora. por ti a vergonha deixou-me. e sozinha não me julgaria. esse é o único nome de quem me chamou de consorte. Por tua causa me odeia esta gente da Líbia. e aquela fama que aos astros meu nome impoluto levara. contigo semelho nos traços. quadra infeliz. querido hóspede? Sim. e nos paços brincasse comigo um outro Enéias-menino. inamável. A quem entregas uma moribunda como eu. no caso de as preces contigo valerem. se algo mereço de ti ou se alguma ventura me deves. Muda de idéia. o palácio de Príamo ainda 79 304 . ou o próprio Jarbas getúlio me arraste daqui como escrava? Se pelo menos deixasses na fuga um produto do nosso inesquecível amor.LIVRO IV Topa afinal com Enéias e em termos violentos o aturde: Pérfido ! Então esperavas de mim ocultar essa infâmia. em verdade. navegarias no rumo de Tróia e o mar bravo cortaras? Foges de mim? Por meu pranto e também pela mão que me deste — Mísera ! pois perdi tudo. todos os tírios. sem nada me ter reservado — por nosso enlace. Obediente ao mandado de Jove tinha ele no solo fixos os olhos e a custo a emoção no imo peito guardava. e Tróia ainda em pé se encontrasse. direi simplesmente: intenção nunca tive de retirar-me à ocultas — apaga essa idéia — nem menos planos forgei de casar ou de alianças contigo firmarmos. cultivar as relíquias tão caras a todos nós. Senhora. Se a meu arbítrio deixasse o Destino dispor do futuro como eu quisesse. nem campos. Então. abandonada. Fala-lhe alfim por maneira sucinta: — Jamais negaria tantos favores. e outros muitos de que me recordas. nem nunca a imagem de Elisa sairá do meu peito. Disse. Quanto ao que ocorre. teus barcos aprestas no inverno.343 . pretendendo cortar os furiosos embates dos aquilões? Que crueldade ! Se acaso moradas estranhas não procurasses. Que mais espero? Que o irmão Pigmalião me derrube estes muros. nem a morte que a Dido aguarda. sim.

agravar minha mágoa — e a tua — com brigas. (adentrava. Se os justos deuses nos ouvem. pérfido ! A vida também a tiraste do Cáucaso adusto. Não venhas. como também a lembrança de Ascânio. Agora os augúrios do próprio Apolo. ou quando se elevam fulgentes os astros. Durante a fala de Enéias manteve-se Dido alheada. da Fenícia. virando a vista de cá para lá. carente de tudo. rico em penhascos. nem mesmo o filho do velho Saturno isto vê com bons olhos. o amor. me aterra. da Lícia as sentenças e até' mensageiros das divindades. Finalmente. Ali. nem brigo. a pátria. furiosa o despeito externou deste modo: Não tens por mãe uma deusa nem vens de linhagem dardãnia. me arrastam. mirando-o de alto a baixo. Porém Apolo de Grínia ordenou-me há pouquinho buscarmos a Grande Itália. Não há fé pura. Desbaratados os barcos.383 . ali. querida cabeça. meu pai. essa Itália que os vates da Lícia apontaram. Vai ! Segue os ventos da Itália. pois. Oh dor ! As Fúrias me abrasam. por que motivo impedires que os teucros na Ausônia se instalem? É de justiça buscarmos também novos reinos por longe. Ascânio e Anquises —. O mensageiro dos deuses da parte de Jove agorinha mesmo me trouxe um recado pelo ar — por aqueles o juro. quando as úmidas sombras ã terra baixam. sim. te agradam belos palácios e os muros construir na africana Cartago. salvei-lhe da morte a maruja. Não busco a Itália por gosto. eu próprio o enxerguei quando o burgo no resplendor. esta ordem terrível lhe trazem nas auras ! Como se os deuses cuidassem de nugas e o tempo esbanjassem do ócio divino ! Pois parte ! não peço que fiques. sua voz ainda soa-me nos ouvidos. da terra anunciada. Se a ti. Jogado na praia. espero que um dia hás de a morte nas duras rochas sorver e que o nome de Dido mil vezes 344 . mamaste nos peitos das tigres da Hircânia ! Para que dissimular por mais tempo? Que injúrias mais graves agüentarei? Reservou-me uma lágrima? Ao menos olhou-me? Chegou meu pranto a abalá-lo e de mim apiedado mostrou-se? Que afronta há mais dolorosa? Nem Juno. procura teus reinos nas ondas. e estas mãos outra Pérgamo a todos construíra.80 ENEIDA de pé estaria. sua pálida imagem nos sonhos me admoesta. possante deidade. o recolhi — quanta insânia ! — e no reino lhe dei parte ativa. Noites seguidas Anquises. que do seu reino na Hespéria eu defraudo.

Os marinheiros. essa traição. Mas. Hei de ouvir teu clamor desde os manes profundos. Esse pérfido distinguia como a ninguem. quantos gemidos soltavas. só. as popas das naus já coroaram. um pedido. à guisa de remos. Corta no meio o sermão sem resposta aguardar e. os grãos mais pesados levam nos ombros. geme de dor ante os golpes violentos da sua desdita. e algum consolo lhe dar com palavras de muito carinho.423 . As carinas breadas flutuam. O pio Enéias. também poderia na hora presente agüentá-lo. miserável. não se esquece das ordens do nume. depois que minha alma dos membros a Morte separe. Dido. para que os teucros redobrem de esforços e as naus desencalhem na praia ao longo. para abrandá-lo. desta infeliz satisfaze. quando do inverno mais perto e a seus paços escuros o levam: vai pelos campos o negro esquadrão carregando a pilhagem pelas picadas da relva. das matas carregam frondentes galhos. umas tantas. somente. as velas aos ventos apelam. para de tudo valer-se pouco antes de a Morte alcançá-la. até ao tálamo todo de mármore as servas a carregaram. Ana amiga. Sombra terrível. confiava-te seus pensamentos mais caros.LIVRO IV invocarás. no leito a depondo aprestado para isso. A esse espetáculo. quais foram os teus pensamentos. Mesmo ausente hei de os passos seguir-te com atros fachos. Pagar-me-ás. 81 384 . da luz se retira. Tu. de envolta com o surdo marulho lá ao longe? Ímprobo Amor ! Que de estragos não causas no peito dos homens? De novo tenta o recurso das lágrimas. A trilha com a faina referve. deixando-o confuso entre o muito que se dispunha a dizer e o que o medo prudente o impedia. ao veres do cimo das torres do teu palácio animarem-se as praias com o estranho alarido daquela turba. conquanto deseje acalmar-lhe o infortúnio. por tudo estarei. Pelos portões da cidade os vereis apressados correrem como formigas no ponto em que um monte de trigo saqueiam. Desfalecida. ao amor seu orgulho nativo rebaixa. incumbem-se algumas das hostes em marcha e as retardadas castigam. revista as trirremes. Se eu fui capaz de prever este golpe. fugindo mesta. sabias falar-lhe e a ocasião mais propícia para isso. súplicas novas. sem falta. Ana. Do afã da fuga tocados. não vês tanta azáfama em torno da praia? A maruja corre de todos os lados. alegres.

a este golpe tão duro.82 ENEIDA Vai. não foi tudo: de mármore um templo existia no paço. Não disse nada a ninguém. E para mais reforçar-lhe a intenção de privar-se da vida. porém a mente é inflexível e as lágrimas. sempre adornado de cândidos véus e guirlandas festivas. abalando-o o chão todo recobrem de folhas secas e galhos à força arancados da fronde. do que vira nas aras. mana. quando a Noite sem luzes a terra ensombrava. a infeliz. Foi quando Dido. Para que cerra os ouvidos tão duros às minhas palavras? Por que essa pressa? A esta amante infeliz conceda a última graça: Fuga mais fácil aguarde e mais prósperos ventos: eis tudo. nem aprestei meus navios para irem lutar contra Pérgamo. a luz bela do dia a angustia e deprime. nem à irmã. Mas. com juros de morte esta dívida eu saldo. julga ouvir vozes ou mesmo palavras do esposo defunto. Nesse local. Essas. Se isto alcançares. porém bem preso ele se acha. se perdem. somente um pouco de tempo para a ira acalmar. porém nada as preces o abalam. pensou na morte. Não de outra forma o guerreiro assaltado se vê por assíduas imprecações. frustras. as embaixadas da dor que a irmã dócil leva e releva Troiano. Não lhe reclamo o himeneu que juramos. ou arranquei do sepulcro de Anquisés as cinzas e os manes. e a solitária coruja. os Fados obstam.463 . as súplicas. umas tréguas para afeiçoar-me ao meu triste destino. De tua irmã compadece-te nesta aflição desmedida. inteiramente insensível se mostra a pedidos e queixas. de que ela cuidava com mimo. e fala a esse tipo de tanta soberba. a lamentar-se. viu — pavoroso presságio ! — anegrar-se nos vasos o leite dos sacrifícios e em sangue estragado mudarem-se os vinhos. nem que do Lácio formoso desista e por mim perca um reino. ao seu marido dicado. tal como no Tártaro afinca as raízes. no intento de deslocá-lo da terra e. por ele traído. o imo peito se abala. repassado de dor. e tão alto nas auras serenas eleva a copa. emitindo gemidos no canto agourento. viu que os Fados contra ela se achavam. pousada nas torres mais altas. Jamais em Áulide estive com os dânaos. na guerra de Tróia. 424 . os deuses lhe tapam as ouças amigas. Tal como quando à porfia nos Alpes os ventos se opõem a um venerável carvalho na força da idade. precisamente no instante de incenso queimar nos altares.

a maneira acertar e o momento para isso. a terra geme a seus pés. deter o curso dos rios e os astros forçar de tornada. e se julga a vagar sem ninguém ao seu lado. junto do leito fatal. O testemunho dos deuses invoco. As feições de palor se tingiram. na cena. cumpriu-as. nem transtornos mais sérios dos ocorridos na morte do esposo Siqueu. Abolir ora intento os nefandos rastros desse homem. e sobre ela deponhas as armas desse infiel e os despojos deixados por ele no quarto. Secretamente levanta no pátio de casa. também. que tem a incumbência de dar ao dragão alimentos com dormideiras e mel preparados. o filho do Atrida. dirige-se à irmã consternada: Os parabéns. 83 464 . calou-se. querida irmã. ou as vingadoras Erínias. dois sóis no espaço a abrasá-la e também duas Tebas ao longe. cara irmã ! Descobri o remédio mais fácil de conquistá-lo ou curar-me da louca paixão que lhe voto. calmante de preço. ou como Orestes. Ana de nada suspeita nem crê que os aprestos funéreos graves intentos encubram da irmã. ouvirás. de tudo carentes. As ordens dadas. correndo de sua mãe. Recomendada. percebe as Eumênidas torvas. Como Penteu dementado. de tua cabeça. guarda dos ramos sacros. ou deixá-lo num pronto de amor tresvariado. resolve dar corpo à idéia. Essa mulher com seus carmes promete sarar os tormentos do peito amante. entre os etíopes últimos há um lugar onde o Atlante máximo faz sobre os ombros girar o edifício estrelado. Lá para o fim do Oceano e do curso do sol. ao ar livre. Tendo isso dito. das montanhas os olmos despencam. E mais: até mesmo o Troiano sem coração a persegue nos sonhos. Do desespero dobrada e a morrer decidida. Sabe evocar dos sepulcros os manes noturnos.503 . me veio de lá uma velha massília. na portada do templo. Dissimulando o projeto com rosto sereno e sem mostras do que no peito abrigava. no ponente. que o persegue com fachos e negras serpentes. pira para isso adequada. e sempre sozinha vê-se. à procura dos tírios seus em regiões desoladas. de que contra a vontade a tais artes recorro.LIVRO IV As predições muito antigas dos vates a deixam sem tino. sem seus terríveis avisos. já faz muito. Tal foi o mandado da maga vidente. sacerdotisa do altar das Hespéridas.

bem como o sumo violento de certas plantinhas lanudas. ou. quando as estrelas se encontram no meio da rota prevista. arrancado de um potro à nascença. Caso haja um deus vingador dos amantes traídos. com podadeiras de cobre cortadas em noite de lua. das matas sombrias repousam.543 . para evocar as deidades e os astros cientes de tudo. cuidados de amor mais violentos. demais celebrada por ser sem palavra? Mais uma vez: quê fazer? Irei só. antes de a mãe o apanhar. a roupagem. evoca três vezes as cem divindades do Érebo. nas mãos piedosas a mola ritual. No sono aprazível os corpos cansados grato repouso desfrutam na terra na selva nos mares. ao ar livre. sendo de todos odiada? Infeliz ! Não vês nisso a progénie de Laomedonte. o Caos. os campos todos silentes o gado os voláteis vistosos e os moradores dos lagos. e mais a efígie de Enéias. a maga. Vários altares a pira rodeiam. alegando ser água das fontes do Averno. invoca sua justiça e depreca-lhe a ajuda no transe postremo. com achas de pinho e azinheira decora lodo o recinto. Por fim se acalma e a si mesma interpela com estas palavras: Como fazer? Ao ridículo expor-me dos meus pretendentes para consorte. vistosas guirlandas. Dido em pessoa. nem nunca anoitecem-lhe os olhos. qual serva de nenhum préstimo? Grandes serviços me devem. descalço um dos pés. a tríplice Hécate. tão logo no pátio. (Das duras lides de todo esquecidos agora descansam) Somente na alma da pobre Fenissa o repouso não cala. junto às aras se posta. No alto da pira o seu leito coloca. antes as penas redobram. os cabelos soltos. ao sono entregues e à guarda zelosa da plácida Noite. ao cortejo dos troas me agrego? 504 . A isso ela o hipómane ajunta. realmente ! A gratidão deles todos é um fato. de meus tírios seguida. Líquido asperge. Memória invejável ! Mas. enquanto o peito transborda nos estos da cólera viva. a espada. bem sabe o futuro que a espera. depois de os haver rejeitado a eles todos? Ou seguirei num dos barcos da armada troiana. desatadas as vestes. Diana também de três faces. Noite fechada. nem o sossego a visita. elevou-se pira adequada.H4 ENEIDA Mas a Rainha. com ramos funéreos. haverá quem me queira e me acolha na nave soberba. sob o amparo dos nautas.

de súbito Enéias se livra do sonho. para guiar-nos. depressa ! Velas aos ventos ! De novo um dos deuses me trouxe recado do alto. sem nunca sentir esta cruel apertura ! Os juramentos e as cinzas quebrar de Siqueu bem-amado ! Dessa maneira exprimia-se Dido no seu infortúnio. Já a nova Aurora saltara do leito do cróceo Titono para a luz bela espargir pelo mundo e de cores orná-lo 544 . Disse e desapareceu. Sé-nos propícia na viagem e faustas estrelas nos manda. guerreiros ! Cada um no seu banco. é rnelhor. de naves as águas se cobrem. cortemos os cabos ligeiro. com o ferro essa dor aniquila. os companheiros desperta e aos trabalhos concita do dia: Todos a postos. cara irmã. vencida das minhas lágrimas. confundido nas sombras da Noite. Apressemos a fuga. Despavorido. A voz lhe ouvi. varrendo a cerúlea campina. Divindade celeste. ao imigo sem fé me entregaste. já te seguimos ! De grado acatamos a tua mensagem. os guerreiros à faina concorrem. na popa altanada da capitânea o caudilho troiano entregara-se ao sono.LIVRO IV Ou novamente aos perigos exponho dos mares e ventos quantos com tanto trabalho arranquei da Sidônia distante? Morre. as pás espuma levantam. Não precipitas a tua partida. referver a ribeira de chamas sem conta. tocnas luzir. percebe a figura da mesma deidade que já antes lhe aparecera num sonho e advertência dos deuses trouxera. na esbelteza do porte. corta certeiro de um golpe as amarras possantes do barco. que o mereces. desertas as praias. caso te atrases e a Aurora te encontre por estas paragens. Vence a preguiça ! Levanta-te ! Toda mulher é volúvel. Logo. mui semelhante a Mercúrio na voz. quem quer que tu sejas. e livre passar o tempo. Nisto. é possível dormires com tanto sossego.583 85 . Tu. na cabeleira alourada e no gesto confiante dos moços: Filho da deusa. tens a culpa de tudo. — Falou. Cheios do mesmo entusiasmo. desta obsessão. Ah ! não viver como as feras sem tálamos ricos. e sacando da espada fulminea. que aos estos da ruria a cada hora se alteram. a Rainha no peito revolve projetos calamitosos. Já tudo pronto e acertada a partida. se o tempo o convida? Logo verás estas plagas turvarem-se com seus navios. sem perceber os perigos que em frente de ti se acumulam? Disposta a tudo.

fogo às naus lhe pusera. e Ascânio. e contra os malvados os vosso numes volvei ! Mas. passar à espada seus homens. do apetecido reinado não goze. e de um golpe extinguira o pai com o filho. E.86 ENEIDA no alvorecer. da luz suspirada. aos gritos ! Fúrias. —Há de esse homem. Há de nascer-me dos ossos quem possa vingar-me esta afronta 584 . e eu por último. ufana. se isso os decretos de Júpiter o determinam. voai. no dia em que o cetro lhe deste. sempre invocada nas encruzilhadas. os remos empunhem ! Mas. essa raça maldita. atirá-lo em pedaços nas ondas. gritou. ora sentes o peso da tua desgraça. minhas preces. a palavra de quem carregara os penates nos ombros. ao próprio pai num banquete ofertar como prato excelente ! Mas. vague sem rumo. ajudante consciente da minha indizível desgraça ! Hécate. tendidas as velas. nesse encontro a vitória estaria ao meu lado? Que importa? Quem vai morrer. quando Dido avistou desde a sua atalaia. que o universo iluminas e todas as coisas perlustras ! Juno. privado dos braços queridos de Iulo. Tírios ! Vosso ódio infinito em seu filho e nos seus descendentes extravasai ! é o que esperam de vós minhas cinzas ardentes. quem nas espáduas o peso sentiu da velhice paterna? E não poder apanhá-lo. em boa ordem a esquadra afastar-se. dai velas. Júpiter? Esse estrangeiro. e é forçoso pisar no chão firme. Sol. com o sangue vos lanço este apelo supremo. Mais valeria o saberes. morte sem glória de todos. Nenhuma aliança jamais aproxime os dois povos imigos. e deuses de Elisa expirante ! Minhas palavras ouvi. que profiro? Onde estou? que desvairo me cega a esse ponto? Dido infeliz. e os cabelos louros em fúria a puxar. Três. escapar-me. mas prematuro pereça e insepulto na areia se esfaça ! Ê o que vos peço. vindo a obter paz vergonhosa.623 . bem como as praias vazias e sem remadores os portos. que ao menos seja acossado por gente guerreira e. do mal vingadoras. e zombar de mim própria em meu reino? Não se armarão meus guerreiros e toda a cidade não corre no rastro dele? Dos seus estaleiros os barcos não tiram? Ide. trazei fogo. banido da Itália. sé o Fado impassível resolve que chegue ao porto esse monstro. Essa. auxilio implore e contemple o extermínio dos seus companheiros. quatro vezes o peito formoso golpeando. de quem pode temer-se? Incendiara de pronto seu arraial. seu filho mimado.

Tingidas de sangue espumante tinha ela as mãos. virando os olhos sanguíneos. visto que a sua ficara enterrada na pátria distante. iracunda. Dido. Uma cidade grandiosa fundei. Assim falou. querida ama. e na alma negra o presságio carregue da minha desgraça. estas últimas queixas profere: Ó doces prendas enquanto um dos deuses e o Fado quiseram. no ferro. vi suas fortes muralhas. A Velhinha apressou-se com passos tardonhos. ah ! demasiadamente o seria se as naves desses guerreiros troianos aqui nunca houvessem chegado ! Disse. armas de guerra por tudo. E no leito tocando com os lábios: Morremos inulta? — torna a falar — Pois morramos. pós recolher-se algum tempo. Hoje. para cortar o mais breve possível a trama da vida. banhados de lágrima os olhos. por último. já começados. Não se demore. as donzelas caída a percebem.663 . pelo interior do palácio irrompeu e postou-se. volvia no peito projetos sem conta. 87 624 . Enquanto isso. manchadas as lívidas faces. A Jove Estígio pretendo ofertar sacrifícios solenes.LIVRO IV com ferro e fogo. Do clamor das mulheres os átrios atroam. de Siqueu a velha ama. no momento mais certo em que o acaso os ajunte e força houver. Nessa postura. no toro excelso inclinada. na fronte usa a fita sagrada. convulsa e obstinada no seu tenebroso projeto. Vivi bastante e perfiz o caminho previsto dos Fados. Disse. Por fim.lançar na fogueira. Vai procurar minha irmã. castiguei um irmão inimigo. a efígie do teucro . assim baixarei para as sombras. quem limpe o meu nome com sangue dardânio. amanhã. enxergando as ilíacas vestes e o leito. e lhe dize que ponha pressa em se purificar na água limpa do rio aqui perto. a Barce resolve chamai. Veja o Dardânio de longe o espetáculo desta fogueira. no alto da pira. Traga também as ovelhas e as vítimas expiatórias. por próprio impulso. sacando da espada do chefe dardânio. Muito feliz. prenda jamais destinada para uso de tanta fereza. para. briguem praias com praias e as ondas entre elas. a palidez do trespasse futuro na cute mimosa. esta sombra ora baixa aos domínios subtérreos. a fim de curar-me de atroz sofrimento. minha pobre alma acolhei e de cruel pesadelo livrai-me. a meu esposo vinguei. Mal tinha acabado. Cheia de glória. até os últimos netos com forças ! Assim falando.

lamentações e gemidos. orvalhadas as asas. no espaço desliza. visto não ser decorrente este excídio do Fado ou de culpa muito pessoal.» h ENEIDA Percorre a Fama a cidade aterrada. nem sua cabeça votara às deidades do Inferno. atropela as pessoas. e nas auras o espírito logo diluiu-se. apiedada da longa agonia. prematura e de súbito acesso tomada. da sua morte penosa. busca no céu a luz bela do sol e. apoiando-se nos cotovelos. como se a própria Cartago ou a cidade de Tiro mais velha viessem por terra aos embates de turmas furiosas de imigos. o senado. de novo desfaleceu a Rainha. suspira. com o peplo afastava os cruores escuros. ao povo. ao querer levantar a cabeça. sem forças ouve Ana os clamores da turba. chamei pelos deuses pátrios. irmã. afeiando o gracioso semblante. carpe-se. corre. te desligo do corpo e a Plutão vou levar-te. no alto o éter ressoa com tanto alarido. por Dido a chamar. e tudo porque te finasses de mim afastada? Com tua morte. tua cidade sidônia. Dai-me água. Com os olhos errantes. os templos derruídos dos deuses. a pira. Foi quando Juno potente. 664-703 . na minha boca o recolho. cortou com a direita o cabelo cor de ouro. o pranto incontido de todas. três sobre o leito ela torna a cair. a íris rápida enviou do alto Olimpo. Fremem os tetos. Foi-se o calor. o minuto supremo ! Com minhas mãos levantei esta pira. para soltar aquela alma do nexo pesado dos membros. Três vezes tenta sentar-se. os altareâ dos deuses? De quê primeiro queixar-me. — Assim falando. Despavorida. um ferro. moribunda: Este era. mataste-me. No peito a ferida estertora. Entre gemidos. ainda Prosérpina não lhe cortara da fronte o cabelo louro. E galgando a alta pira. no peito aperta a cabeça donosa da irmã moribunda. se a irmã não me quis ao seu lado no próprio instante da morte. em chama envoltas as casas. Com muito esforço. Íris. então. Se um simples vestígio de alento ainda mostre. o sacrifício aprestado? Quiseste lograr-me? Isto as fogueiras forjaram. o ulular feminino. Sobre a cabeça de Dido detém-se: — Cumprindo o mandado que recebi. sarapintadas as penas com o brilho do sol esplendente. — Assim disse. o rosto a arranhar. querida. associadas no mesmo destino? Uma só dor para as duas. porque lavar possa suas feridas. encontrando-a.

já certo do rumo. somente o mar vasto e o céu claro por tudo. Obliquamente oferece-se ao vento. nem mais se avistava terra nenhuma. pois. Nem conseguimos as ondas romper. O próprio mestre do leme. Porém. apartava a cerúlea planície. triste presságio os troianos agora daquilo tiravam.ENEIDA Livro V Nesse entrementes. não saberia dizê-lo. Tudo é trevas nas ondas. Enéias. 1-23 . amainar logo ordena as brancas velas e o esforço conjunto aplicarem nos remos. da popa alto exclamou: — Por que as nuvens o céu de tal modo escurecem Quê nos preparas. Não longe das praias estamos. levado pelo aquilão generoso. e destarte se expressa: Ínclito Enéias. o sagaz Palinuro. Há nuvens escuras por tudo. Quando os navios ao largo sumiram. para onde ela aponta. sempre com os olhos nas fortes muralhas que ao longe a fogueira da infeliz Dido aclarava. Netuno? — Dito isso. do poente anegrado eles forçam pelas ilhargas as naves. sem vacilar avancemos. nem parados ficamos. Os ventos se acham trocados. com um tempo destes jamais saltaremos nas praias da Itália. nuvem sombria trazendo no bojo atra noite e a tormenta sobre a cabeça de Enéias parou. conhecendo o que pode no desespero a mulher ultrajada e a paixão sem ventura. o que manda a Fortuna. Qual fosse o motivo do incêndio. Façamos. ainda que Júpiter me assegurasse.

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