JAEL DE OLIVEIRA MARQUES

A JUSTIÇA ROUSSEAUNIANA E SEUS DESDOBRAMENTOS NA CONCEITUAÇÃO DO PRINCÍPIO DA IGUALDADE NO DIREITO TRIBUTÁRIO BRASILEIRO

SÃO PAULO – SP

2

2009 JAEL DE OLIVEIRA MARQUES

A JUSTIÇA ROUSSEAUNIANA E SEUS DESDOBRAMENTOS NA CONCEITUAÇÃO DO PRINCÍPIO DA IGUALDADE NO DIREITO TRIBUTÁRIO BRASILEIRO

Trabalho

monográfico

apresentado

como exigência parcial para obtenção do Diploma de Pós-graduação em Especialização em Direito Tributário, da Escola Superior de Advocacia da Ordem dos Advogados do Brasil – Secção São Paulo. Orientador: Prof. Ms. Fabrício de Carvalho Serafini

SÃO PAULO – SP

3 2009 .

4 ESCOLA SUPERIOR DE ADVOCACIA DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL – SECÇÃO SÃO PAULO A JUSTIÇA ROUSSEAUNIANA E SEUS DESDOBRAMENTOS NA CONCEITUAÇÃO DO PRINCÍPIO DA IGUALDADE NO DIREITO TRIBUTÁRIO BRASILEIRO ALUNA: JAEL DE OLIVEIRA MARQUES BANCA EXAMINADORA Professor Orientador: Fabrício de Carvalho Serafini Professor Examinador: Anis Kfouri Junior Professor Examinador: Paulo Panhoza Neto .

............22 BIBLIOGRAFIA............................................ 08 2 – OS DIREITOS NATURAIS E OS DIREITOS CIVIS......14 5 .....................................................16 6 ............5 SUMÁRIO INTRODUÇÃO........................................CRÍTICA À IGUALDADE NO DIREITO TRIBUTÁRIO BRASILEIRO COMO SINÔNIMO DE JUSTIÇA SOCIAL...............................................A INSTITUIÇÃO DA PROPRIEDADE E A DETURPAÇÃO DA IGUALDADE ENTRE OS INDIVÍDUOS......................O CONCEITO DE IGUALDADE NO DIREITO PÁTRIO.............................................................19 CONCLUSÃO............................... SOB A ÓTICA DO REGIME POLÍTICO E ECONÔMICO........................................................................................... 09 3 ..................................................................23 .......................................................................................................................05 1 – A VONTADE GERAL E O CONTRATO SOCIAL............................................................12 4 – O CONFLITO ENTRE PROPRIEDADE E IGUALDADE NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO..............................

aprendemos que a justiça deve ser o nosso norte em qualquer direção para onde direcionemos nossas ações. a partir de um ponto invariável1. os quais foram responsáveis por depurar os saberes individuais relativos às idéias que se tinham de determinadas concepções humanas – justiça. embora com muitos pontos semelhantes. de modo a torná-los. diferentemente do norte da bússola. Daí. moral.e a necessidade de tornar padronizados os conceitos através da linguagem que faz nascer o fenômeno denominado ciência. vislumbra-se que a simples menção da justiça como norte.6 INTRODUÇÃO Desde os tempos mais remotos até a modernidade. o que significa dizer que tal conceito. indicar sempre o Norte. nunca poderá ser o mesmo para todo ser humano. as idéias que se tem das coisas e suas propriedades. E como numa bússola em que o norte é invariável. cuja direção é traçada. liberdade. isto é. o conceito de justiça tem sua direção fixada por pontos variáveis. Porém. cientistas que se puseram a estudar as questões do ponto de vista do seres humanos – deslocamento da visão teocêntrica para a antropocêntrica -. o mais puro possível. fraternidade. especialmente a partir do século XIV. nos torna muito mais confusos em relação a ela. 1 O apontamento invariável da bússola para o norte decorre do fato de que a Terra possui dois pólos. e o ponteiro magnetizado da bússola é inversamente atraído. Com isso. destinado. ao invés de nos dar uma noção exata da direção a ser seguida. . na realidade. E se no campo da física. através de um método lógico. surgindo. – abstraindo-lhes o subjetivismo. da química e da biologia proliferaram teorias na tentativa de estabelecer o conceito e a definição da matéria. igualdade. a delimitar os saberes particulares e depurar a abstração de seus conteúdos. É exatamente a percepção da dominação das idéias do observador (subjetivismo) na concepção do objeto de estudo – os pontos variáveis do norte de que falávamos . etc. conceitualmente. um negativo e um positivo. o tema justiça permeia a mentalidade dos seres humanos. magneticamente. no campo das denominadas ciências humanas não foi diferente. de modo a tornar a descrição do objeto o mais próximo de sua realidade fática.

por sua vez. 2009). ser. já que a idéia de Rousseau está intimamente atrelada à condição de igualdade entre os seres humanos. 5 Por uma questão lógica (a igualdade pressupõe não distinção entre sexos) não faremos uso do vocábulo Homem.wikipedia. no caso. sem os chamados axiomas. e isso. em 1762. Com efeito. que através de vasta produção literária. possuir. . Enciclopédia livre. especialmente. Diante disso. mas igualdade econômica. dez. diante de um regime econômico capitalista como é o adotado pelo Brasil. isto é. guarda um significado especial. Uma das figuras marcantes do Iluminismo francês. ainda. Disponível em < http://pt. tão comumente empregado em outros tempos. não se poderia falar em tributo sem se falar. é conceituada. pelo conceito de propriedade. teórico político e um compositor musical autodidata. escritor. por sua vez. que embora a intenção seja eminentemente investigativa. importar. em atividade econômica. É o caso do capítulo 6. nos reservamos o direito de fazer críticas e apontar conclusões. na visão de Rousseau. doar. Rousseau é também um precursor do romantismo” (WIKIPEDIA. e esta. dado que não é possível tributar o ser – ninguém é tributado por possuir este ou aquele atributo físico – mas o ter – exportar. importa em atividade econômica -. ter. faz toda a diferença no alcance do conceito de justiça em nosso ordenamento jurídico. A escolha do conceito de justiça rousseauniana para o nosso estudo. se é que isso é possível. na medida em que o estabelecimento das premissas nos permita. o que nos remete à noção de que em nosso ordenamento jurídico qualquer estudo tributário deve passar. isto é. etc. Acesso em 01. nada tem de acaso. para designar indivíduos. 4 Texto publicado em 1755. 2 de Julho de 1778) foi um filósofo suíço. 3 Obra publicada em Paris.7 Jean-Jacques Rousseau2 é um desses teóricos. não como igualdade física. pretendeu compreender o ser humano5 sem as amarras dos dogmas. Devemos ressaltar. 2 “Jean-Jacques Rousseau (Genebra. relativamente às normas tributárias. adquirir.org/wiki/Confisco>. obrigatoriamente. reservamos também um capítulo para o estudo do tema. 28 de Junho de 1712 — Ermenonville. isto é. necessariamente. dentre as quais “Do contrato social”3 e “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”4.

como verdades históricas. de modo que só se poderia falar em direito onde existissem essas relações. condicionado ao convívio entre os seres humanos. valem menção Hobbes e Espinosa. 6 Em obra anterior ao “Do contrato social”. (Francisco C. embora a obra de Rousseau seja hipotética6. WEFFORT “Os Clássicos da Política”. que assim como outros de sua época. p. mas somente como raciocínios hipotéticos e condicionais. primeiramente na autora. em que se pode entrar nesse assunto.8 No mais. Por fim. Na medida em que ausentes dados concretos sobre a origem do Direito. evidentemente. apoiadas em raciocínio lógico. mais apropriados a esclarecer a natureza das coisas do que a mostrar a verdadeira origem e semelhantes àqueles que. seus mistérios. p. 02) . com suas peculiaridades. (Miguel REALE. posteriormente. denominada “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens” encontramos o método utilizado por Rousseau. Licões preliminares de Direito. se utilizou do método introduzido pela geometria (ciência exata) para análise das questões ligadas à moral e à política (ciências humanas). acreditamos que as hipóteses serão sempre um bom ponto de partida. o espírito investigativo de pensar o Direito. Afirma Rousseau: “Comecemos por afastar todos os fatos. não vemos isso como um obstáculo à conclusão e crítica supra mencionadas. Não se devem considerar as pesquisas. 194) 7 Miguel Reale define Direito como “fato ou fenômeno social”. há que se dizer que a escolha de Rousseau foi estritamente pensada com o objetivo de aguçar. e. no leitor. todos os dias. pois eles não dizem respeito à questão. desde que. fazem nossos físicos sobre a formação do mundo”. como peculiar e misterioso é o próprio ser humano7.

o Estado.. para se conservarem. em especial “Do contrato social” e “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”. as forças que cada indivíduo dispõe para se manter nesse estado. na medida em que a somatória das vontades se tornam tão agregadas. é basicamente filosófica. 26 . que o de formar.”8 [. o que significa tratar de questões outras.. “Do Contrato Social”. agrupadas. em especial políticas.. pela sua resistência. na qual ele se debruça sobre o conceito de justiça. tema sob análise. formando-se a partir dali um pacto que ele chama de contrato social.. tudo em prol do bem comum. Então esse estado primitivo já não pode subsistir e o gênero humano pereceria se não mudasse sua maneira de ser. Ao invés de descrever as circunstâncias de sua época.] Esse acordo ou pacto. Uma dessas hipóteses é a de um encontro de vontades entre os seres humanos. ente organizado a partir da força de cada um. mas somente unir e dirigir aquelas que existem.9 1 – A VONTADE GERAL E O CONTRATO SOCIAL Antes de mensurarmos o conceito de justiça. não têm outro modo. Esse pacto é formado em torno de uma pessoa pública. mais adiante contextualizado. Ora. as quais darão o tom do problema em foco. [. para Rousseau. p. Rousseau apenas as utiliza como ponto de partida para solidificar suas hipóteses. forças estas que. um conjunto de forças que possa sobrepujar a resistência. a proposta central da obra de Rousseau. se denomina vontade geral e confere ao tal ente a soberania. constrói um sentido de justiça. necessário se faz traçarmos as dimensões do próprio pensamento de Rousseau.] “Suponho chegados àquele ponto em que os obstáculos prejudiciais à sua conservação no estado de natureza sobrepujam. como os homens não podem engendrar novas forças. que se torna difícil identificar um atentado a um particular que não represente um atentado ao 8 Jean-Jacques ROUSSEAU. sociais e jurídicas. por agregação. de acioná-las para um único objetivo e fazê-las operar em concerto. De fato.

mas o segundo como prolongamento do primeiro. a força física – desigual entre os indivíduos – é substituída por uma força moral exercida pelo Estado. vigendo o estado civil. todos são iguais e essa igualdade é traduzida por 2 – OS DIREITOS NATURAIS E OS DIREITOS CIVIS Retomando a idéia anterior do contrato social. 28 . vislumbra-se. Em sua obra. o estado legal ou civil. a prevalência do direito do mais forte significa desigualdade efetiva. traduzida por legalidade. dois estados: um anterior. deve-se afirmar que isto é loucura e não pacto social”. ou das leis. cit. [. A premissa de Rousseau. afirmando que se trata de expressão de difícil definição. porém. a premissa para que o estado cívico represente uma ordem legítima. Na verdade. op. no estado natural.] “Enquanto os homens se contentaram com suas cabanas rústicas. se há que se dizer algo. Para Rousseau. por sua vez. o estado cívico. p. não é uma ruptura total entre os dois estados. Rousseau não chega a definir o que seja a lei natural. enquanto se limitaram a coser suas roupas de pele com espinheos ou 9 ROUSSEAU. que. A liberdade individual continua íntegra após a adesão ao pacto. por deliberação desses indivíduos. é esse último que limita o primeiro. porém.. e nisso consistiria a verdadeira liberdade. A passagem do estado de natureza para o estado cívico. Ou seja. através da cessão de vontades. 9 Nesse sentido. Em contrapartida. são aqueles traçados pelo estado de natureza? Porque para ele o ser humano é bom (por natureza) e por isso as leis naturais são melhores que as leis civis. E por que os limites do estado cívico. colocaria em situação de igualdade todos os indivíduos.. e fundada na igualdade. segundo Rousseau. traça um limite ao afirmar que “seria impensável uma alienação geral do povo de seus direito básicos para aderirem a um pacto. é de que as leis reproduzam os direitos naturais. justiça. como prolongamento do estado de natureza. conclui. senão o Estado sobre todos. significa que ninguém tem direito sobre ninguém. a partir de sua ocorrência. ou das leis. justa.10 corpo todo. o estado de natureza. e outro posterior. apenas reforçada pelo Estado.

10 11 ROUSSEAU.] “Esta passagem do estado de natureza ao estado civil produz no homem uma mudança notabilíssima. tanto quanto o poderiam ser pela sua natureza(. através do contrato social. e a sociedade o corrompe (por convenção)”. o mais engenhoso encontrava meios para abreviar a faina. como já mencionamos. a cessão de vontades individuais ao Estado. em dizeres do próprio Rousseau. Daí o direito do mais forte.) eles viveram livres.] Contudo. bons e felizes.. resultando. é extraída da premissa de que a natureza é boa. o mais forte trabalhava mais. “que os direitos civis se fizeram distanciar dos direitos naturais. e a obediência em dever. “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens” p..). Contrariamente.. as leis naturais são mais perfeitas que as humanas. como direito das gentes.“13 Essa conclusão. é no máximo um ato de prudência. ou seja. É só então que. Em que sentido poderá ser um dever?”10 [. o lavrador tinha mais necessidade de ferro ou o ferreiro mais necessidade de trigo. “Do Contrato Social”. cit. “o homem em si é bom (por natureza). por exemplo o emprego do ferro e o consumo dos alimentos estivessem sempre em um perfeito equilíbrio.] “O mais forte nunca é suficientemente forte para ser sempre o senhor.. o que ganha é a liberdade civil e a propriedade de tudo o que possui. 20 Jean-Jacques ROUSSEAU. “12 [.). Ceder à força. há uma distorção do primeiro estado para o segundo. op. p.) Tendo as coisas chegado a esse ponto é fácil imaginar o resto.. se não transformar sua força em direito. sãos. 24 .. mas a proporção que em nada se apoiava logo se rompeu.. e dando às suas ações a moralidade de que não dispunha anteriormente. cit. a voz do dever sucedendo ao impulso físico e o direito ao apetite. a se enfeitar de plumas e de conchas. A força é uma potência física.” [. As coisas teriam continuado nesse estado se os talentos fossem iguais e se.. pois.. op. em que pese a perfeição da teoria. trabalhando igualmente.. um ganhava muito enquanto o outro vivia em dificuldade (. ou. o homem... o mais esperto tirava melhor partido do seu trabalho...] “Reduzamos todo este balanço a termos de fácil compreensão: o que o homem perde pelo contrato social é sua liberdade natural e um direito limitado a tudo o que o tenta e que pode alcançar. e. é forçado a agir tomando como base outros princípios e consultando sua razão antes de ser influenciado por suas tendências. “11 [. que até então apenas havia olhado para si mesmo.. p. não vejo qual moralidade poderá resultar de seus efeitos.. a pintar o corpo de diversas cores (. isto é. Rousseau reconhece que no plano prático.11 cerdas. direito tomado ironicamente na aparência (. p. 31 13 Jean-Jacques ROUSSEAU. de modo que o direito civil se converteu em direito arbitrário e a lei natural remanesceu apenas como lei comum aos povos. substituindo em sua conduta o instinto pela justiça. 31 12 ROUSSEAU. não conduz à conseqüência natural que seria a paz social.

um romântico? Esse indivíduo contemplado por Rousseau.” (Francisco C. ainda que hipotético. sua obra é hipotética. tal como ele. p. dado que os estado de natureza não mais existe. ao estudarmos os textos de Rousseau. WEFFORT. quando se considera tudo isso em conjunto. 138) . e o Estado legal presente em toda parte parece situação consolidada. 54) 15 Ao pessimismo de Hobbes “contrapõe-se o otimismo de Jean-Jacques Rousseau. p. um sonhador. crente da bondade natural dos homens. como já dissemos. até o momento em que. principalmente nos dias atuais. “Filosofia do Direito”. associando-se apenas por medo da morte. pela má-fé de alguns. Hobbes14 define melhor esse ser humano. Porque quanto à força corporal o mais fraco tem força suficiente para matar o mais forte. Para Rousseau. Chegamos mesmo a nos sentir tentados a abandonar suas idéias e abraçarmos de vez teorias mais concretas. ainda. sendo necessário libertá-lo do contrato de sujeição e de privilégios. 14 Para Hobbes o Ser Humano é mau por natureza. De fato. que. tomando-se em consideração que sua obra se desenvolveu exatamente em um período de efervescência intelectual romântica15. em busca de satisfazer à seus desejos. Acredita. um pouco longe da realidade. mesmo assim. tendo-se em conta a concretude dos fatos. a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que qualquer um possa com base nela reclamar qualquer benefício a que outro não possa também aspirar. quer por secreta maquinação. para se estabelecer um contrato social legítimo. teria alguma chance de ter existido? Efetivamente. mas jamais afastada de todo. o homem natural é um homem bom que a sociedade corrompeu. que em estado de natureza todos os indivíduos são iguais. E não poderia ser diferente. quanto às faculdades do corpo e do espírito. quer aliando-se com outros que se encontrem ameaçados pelo mesmo perigo. de outro não podemos afirmar que ele está de todo errado. que teriam vivido um período paradisíaco. irrefreáveis. conforme a razão (Miguel REALE. teriam sido levados a aceitar um pacto leonino de sociedade. se de um lado temos razão para duvidar da bondade natural dos seres humanos. inevitável diante do outro ou dos outros associados contra si. ou de espírito mais vivo do que outro. diante de todas as atrocidades que são cometidas em nossos dias? Não seria Rousseau apenas um idealista. “Os Clássicos da Política”. embora. Todavia. pensamos. que traduzam melhor nossos dias. a impressão que temos é que se trata de um escritor por demais romântico. como poderíamos pensar num ser humano bom por natureza. e nunca veremos concretizadas as hipóteses a que Rousseau se refere. não se pode perder de vista que o estado de natureza do indivíduo contemplado por Rousseau em muito se assemelha a qualquer outro descrito pelos clássicos do romantismo. “A natureza fez os homens tão iguais.12 Na realidade. pois. fadada apenas à substituição desta ou daquela forma de governo. por vezes se encontre um homem manifestamente mais forte de corpo.

é preciso que cada um possa ter alguma coisa”17. as instituições da Grécia e de Roma”. embora reconheça que no plano prático a cessão de vontades individuais não resulta na paz social. este advindo da instituição da propriedade. o homem possa nisso colocar mais do que seu trabalho. por exemplo.. para Rousseau é perfeitamente sustentável a hipótese de igualdade entre os seres humanos à partir da instituição do contrato social. p. [. mas um conceito já deturpado “pois. WEFFORT. Os antigos divisavam uma misteriosa relação entre os deuses e o solo.] “(. op. afirma que muito embora tenham existido povos que nunca chegaram a instituir a propriedade privada entre si. Esta origem se mostra ainda mais natural por ser impossível conceber a idéia da propriedade nascendo de algo que não seja a mão-deobra. o conceito de justiça traçado por Rousseau. 52 . em sua obra “A cidade antiga”. e tendo todos alguns bens a perder. delega ao homem uma parte deste. Deus. definido como “entregar a cada um o que é seu”16. 16 17 Francisco C.. p. e em seguida Abrahão edifica-lhe um altar. cit. 209 WEFFORT. “Os Clássicos da Política”... “A cidade antiga: estudos sobre o direito. [. Deus fala a Abrahão: “darei esta terra à tua descendência” (Bíblia Gênesis 12:7).18 Fustel de Coulanges.13 3 – A INSTITUIÇÃO DA PROPRIEDADE E A DETURPAÇÃO DA IGUALDADE ENTRE OS INDIVÍDUOS Vimos no capítulo anterior que. proprietário do solo. não é mais o conceito puro advindo do pacto social. Na verdade. 209 18 Fustel de Coulanges. nenhum deixou de temer a represália pelos danos que poderia causar a outrem.. Na bíblia. como dito anteriormente. Entretanto. a concepção de Rousseau é diametralmente oposta à concepção geral mais aceita de propriedade. na Grécia e Itália sempre se reconheceu e praticou a propriedade privada. cujas origens são atribuídas à religião. pois..] Cabe aqui um parêntesis. começando os homens a voltar seu olhar para o futuro. para entregar a cada um o que é seu. pois não se compreende como..) além disso. para se apropriar das coisas que absolutamente não produziu. p. mas em conflito. de modo que apenas através da religião se estabelecia esse direito de propriedade. Desse modo.

De qualquer modo. pois todos estão na mesma condição. as paixões desenfreadas de todos. necessita dos auxílios do que tem. abafando a piedade natural e a voz ainda fraca da justiça. e o que não tem. caracteriza igualdade. indubitavelmente os torna diferentes. quebrado o equilíbrio natural. o ter caracteriza desigualdade. uma vez que as leis que o garantiram são bem diversas das nossas. “ A cidade antiga: estudos sobre o direito. as instituições da Grécia e de Roma”. divina ou humana.14 através do mundo moderno não podemos formar idéia do direito de propriedade dos antigos. p. retomando as idéias de Rousseau. ele atribui a origem da desigualdade entre os indivíduos à propriedade. eis que o ser perde importância para o ter. mesmo com o advento do pacto social. o que. as extorsões dos pobres. 49 19 . Fustel de COULANGES. enquanto o ser. Ou seja. na medida em que “as usurpações dos ricos. pelo menos a mais flagrante origem das desigualdades entre os indivíduos. necessita dos serviços do que não tem.19 Mas. tornaram os homens avaros. na medida em que aquele que tem. senão a única. E. de que a propriedade é. ambiciosos e maus”. segue-se a mais indigna desordem. não se pode furtar à conclusão expressada por Rousseau.

a mesma norma em relação à outro. Ou seja. todas desiguais entre si. sob pena de ferimento ao princípio da igualdade.. o pacto social destinado a tornar iguais os indivíduos é deturpado pela instituição da propriedade que. exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo. Acesso em 22. II. tomando-se em consideração cada indivíduo em si mesmo. cada pessoa é dotada de características próprias e. ao se interpretar a norma tributária toda e qualquer conclusão deverá passar pelo crivo da igualdade. não tendo a lei. quer seja porque. o da vedação ao confisco etc) já não permitem que se identifique sua exata dimensão. 110 22 Artigo 5º . à segurança e à propriedade. à liberdade. porém. à igualdade. 2009. sem distinção de qualquer natureza. de maneira diferenciada. mandamento nuclear de um sistema.uol. verdadeiro alicerce dele. tais 20 para Celso Antonio Bandeira de Melo "princípio é.>Acesso em 22. por evidente. out.asp?id=1342.” (Luciano AMARO. por definição.gov.” Citação disponível em <http://jus2. quer seja porque. norma positivada. 21 “(.htm >. é causa preponderante da desigualdade entre os seres humanos. . 2009. portanto – artigo 150. ponderamos.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao. nos termos seguintes:” Disponível em < http://www. e. por sua vez. disposição fundamental que se irradia sobre diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério para sua exata compreensão e inteligência. o que nos remete à idéia de que. É o conhecimento dos princípios que preside a intelecção das diferentes partes componentes do todo unitário que há por nome de sistema jurídico positivo” citação extraída do texto. porventura.br/doutrina/texto. mas não indicam até onde se deve ir naquela direção sem correr o risco de dar a volta ao mundo e voltar ao ponto inicial. caput.planalto. se a propriedade é causa da desigualdade entre os seres humanos e o Estado protege a propriedade22 não estariam. Ora. o da capacidade contributiva. out. no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico.15 4 – O CONFLITO ENTRE PROPRIEDADE E IGUALDADE NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO Em linguagem simplificada. p. que essa “igualdade” tributária não se mostra palpável21. “Direito Tributário Brasileiro”. não seria admissível a aplicação de uma norma tributária em relação à determinado contribuinte. mostram o rumo a seguir. teoricamente. Ocorre. da Constituição Federal de 1988: “Todos são iguais perante a lei.com.. garantindo-se aos residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. portanto. vale dizer representam o ‘princípio’ do caminho a ser trilhado. os princípios são vetores para os quais deve convergir a interpretação da norma20. à luz do pensamento de Rousseau. já que em nosso ordenamento jurídico esse é um princípio constitucional.) outros princípios (o da igualdade. Esses enunciados indicam o início. da Constituição Federal de 1988. condição de torná-las iguais por simples determinação. o começo do caminho.

qual seja. Assim. .16 conceitos em conflito? E admitindo-se a desigualdade como fato. será necessário incluir em nosso estudo mais uma variável. a igualdade dos indivíduos – e aqui já podemos falar em cidadãos brasileiros – a partir do regime político e econômico adotado pelo Brasil. seria possível conceber igualdade tributária? Creio ser possível responder à essa indagação. mas para isso. passaremos a examinar no próximo capítulo de que forma esse regime político e econômico influencia o conceito de igualdade previsto na Constituição Federal.

se todos os outros igualmente o fizessem. Porém..o último. o Estado. 253: “É evidente. Nos termos da lei que regula essa democracia. que a comunidade civil mais perfeita é a que existe entre os cidadãos de uma condição média. 80 25 Jean-Jacques ROUSSEAU. a igualdade significa que os ricos e os pobres não têm privilégios políticos. que sendo as primeiras sociedades oligárquicas. “Os Clássicos da Política”. e se esse soberano lhes dispensasse tratamento idêntico quando submetidos às mesmas situações. p. Rousseau vê nessa pretensa igualdade da democracia apenas um engodo. “Do Contrato Social”. cada ser humano só abriria mão da própria vontade para doá-la a um soberano. por esse meio. pois. WEFFORT. sendo seu próprio fundamento. Nos Ensina Arthur Machado Paupério23. citando Hobbes24 e Rousseau25 . e na qual ninguém encontrava segurança. porque ela pode fazer pender a balança em favor do partido ao qual se une e. “Teoria Geral do Estado” . fosse na pobreza ou na riqueza. SOB A ÓTICA DO REGIME POLÍTICO E ECONÔMICO Partindo da premissa de que a propriedade influencia diretamente na conceituação de igualdade. ao expressar –se da seguinte maneira: [. p. p. e que não pode haver Estados bem administrados fora daqueles nos quais a classe média é numerosa e mais forte que todas a outras ou pelo menos mais forte que cada uma delas. dentro de uma sociedade democrática. regime político e econômico adotado pelo Brasil. precursor da idéia de democracia. p. p. em tese. impedir que uma ou outra obtenha superioridade sensível. será necessário identificarmos de que maneira se comporta o princípio da igualdade à luz de uma democracia capitalista. Assim. dado que. em que os direitos e privilégios garantidos a um devem ser os mesmos garantidos a todos os outros submetidos à mesma condição. inventou facilmente razões enganadoras para fazer com que aceitassem seu objetivo: 23 24 Arthur MACHADO PAUPÉRIO. a noção de igualdade entre as pessoas tem o seu nascedouro fincado no próprio conceito de democracia. que tanto uns como outros não são soberanos de um modo exclusivo. suficiente para as suas necessidades. 289 Francisco C. “A Política”. Para Aristóteles26. cujas idéias são objeto de nosso tema -. depois de expor a seus vizinhos o horror de uma situação que armava a todos. uns contra os outros. ou “governo do povo”. é uma grande felicidade que os cidadãos só possuam uma fortuna média.. deveras.] “Com tal objetivo. essa igualdade é a situação política de cada indivíduo.” .17 5 – O CONCEITO DE IGUALDADE NO DIREITO PÁTRIO. e sim que todos o são exatamente na mesma proporção”. 77 26 ARISTÓTELES. que tornava suas posses tão onerosas quanto o eram suas necessidades. 236: “A primeira espécie de democracia é aquela que tem a igualdade por fundamento. ao que nos parece.

” Ainda. senão as idéias contidas no bojo da Revolução Francesa.. e que de certo modo reparem os caprichos da fortuna através de igual submissão do poderoso e do fraco a deveres mútuos (. cit.. mesmo que essa noção de igualdade e democracia tenha sido pensada primeiramente por Aristóteles. 213 WEFFORT.18 ‘unamo-nos – disse-lhes – para defender os fracos da opressão. apenas limitando-a por meio de um princípio mais amplo denominado dignidade da pessoa humana.] “Foi preciso muito menos que o equivalente a esse discurso para conduzir homens rudes. Ocorre. ao invés de abolir a propriedade.”28 Como se observa. WEFFORT. com muita razão reconhecendo as vantagens de um estabelecimento político. tal como um ferido permite que lhe amputem o braço para salvar o resto do corpo. 27 28 Francisco C. não foi ela quem nos influenciou.. p. o que significa oposição total ao ideal de justiça de Rousseau. e assegurar a cada um a posse daquilo que lhe pertence: instituamos regras de justiça e de paz às quais todos sejam obrigados a se submeter. percebemos que a exacerbação da limitação dos poderes do Estado em relação ao indivíduo. p. A Revolução Francesa. 283 . que não façam exceção à ninguém.)’”27 [. Todos correram ao encontro de seus grilhões. apesar de parecer de pouca importância essa afirmação.. pois. destruíram irremediavelmente a liberdade natural.. “Teoria Geral do Estado” . Rousseau é totalmente descrente da lei como forma de atribuir igualdade entres os indivíduos. “Os Clássicos da Política”.. fixaram para sempre a lei da propriedade e da desigualdade. de modo algum exclui a propriedade. concluindo que “tal foi ou deve ser a origem da sociedade e das leis.. op. fáceis de seduzir (. E. que propiciaram novos entraves ao fraco e forças ao rico. a legitimava. conter os ambiciosos. seguindo as lições de Arthur Machado Paupério29.). porém. 213 29 Arthur MACHADO PAUPÉRIO. p. que ao examinarmos o núcleo central das idéias difundidas em tal acontecimento histórico. não tinham bastante experiência para prever seus perigos: os mais capazes de pressentir os abusos eram precisamente aqueles que esperavam poder se aproveitar dos mesmos e até os sábios compreenderam que seria preciso sacrificar uma parte de sua liberdade para conservar a outra. crendo assegurar sua liberdade.

é possível afirmar que a desigualdade que o princípio da igualdade busca eliminar.19 para o nosso estudo ela é vital. Em contrapartida. estando intrinsecamente ligado ao ter (propriedade) e não ao ser (características pessoais). contém exatamente os aspectos definidos por Rousseau. neste ponto de nosso estudo. Ou seja. ou delimitar. já que introduz uma concepção de justiça muito diferente daquela traçada por Rousseau ao abarcar na expressão igualdade uma abstração com raízes fincadas no conceito aristotélico de ética. é inevitável concluir que dado o regime econômico e político adotado. em especial na aplicação das normas tributárias. . a igualdade no direito brasileiro não guarda as características identificadas por Rousseau. que o próprio agente comportamental gostaria que o outro lhe dispensasse estando ele (agente) na situação do receptor. que pode ser traduzido (tradução livre) por um comportamento que deve ser dispensado à todo e qualquer Ser Humano.

que a igualdade de oportunidade de acesso às mais básicas necessidades da pessoa humana. isto é. a saúde.planalto.htm >. Acesso em 22. aquela que ultrapassa a igualdade formal pretendida por Rousseau. em detrimento do ser. da Constituição Federal. fixando-se na igualdade social. 2009. o capitalismo. embora pareça delimitado na expressão constitucionalizada “proibição de instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente” 30 se mostra. Na verdade. abstrata demais para ser aplicada. o vestuário. Disponível http://www. 61 32 Fábio Konder COMPARATO. Ou seja. é exigência tradicional do próprio conceito de Justiça ” e . nos rendemos à idéia de Rousseau. mas não será uma oportunidade inata a cada cidadão. por seu turno.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao. não poderia ser alcançada por meio de leis. será uma pseudo-oportunidade. tornando-se. principalmente.32 Entendemos. a justiça em relação ao ter. justiça. mas. contudo.) pois. Ou seja. que. “Direito Público: estudos e pareceres”. acreditamos. etc . não se comporta como sendo. meramente uma promessa . pela aplicação de políticas ou programas de ação estatal. pode ser. tendo-se em conta o regime econômico adotado. o tratamento desigual dos casos desiguais.20 6 – CRÍTICA À IGUALDADE NO DIREITO TRIBUTÁRIO BRASILEIRO COMO SINÔNIMO DE JUSTIÇA SOCIAL O conceito de igualdade no Direito Tributário Brasileito. de fato. Em que pese o tom fatalista. como a alimentação. qual seja. que nem mesmo essa busca da igualdade social é palpável no direito pátrio.. “Direito Constituciona”l. out. É. de justiça. a habitação. já que limitada pela minoria que detiver o maior capital. porém. nos dizeres de Alexandre de Moraes31 “uma igualdade de possibilidades virtuais (. para quem a propriedade impossibilita qualquer pretensão de igualdade e. ao que nos parece essa igualdade pretendida pela Constituição Federal é puramente material.gov. o que se reflete em todo o ordenamento jurídico. na medida em que se desigualam. não se trata apenas de crítica gratuita. particularmente. pois. pelo menos para Rousseau.na prática é inatingível -. 59 em < . Ii. 30 Artigo 150. por sua vez. alcançada através de políticas públicas. sim. P. Ao contrário. p.. conseqüentemente. 31 Alexandre de MORAES.

em razão da essencialidade do produto. Daí a idéia anteriormente expressada. o que. o tratamento igualitário seria. ao invés de propiciar igualdade de tratamento aos submetidos à mesma hipótese de incidência – operação de circulação de mercadoria – na realidade é justamente o “carimbo da desigualdade” se comparado àquele que poderá consumir outros produtos. quando. a conclusão de que Rousseau tem razão ao identificar a propriedade como origem da desigualdade. como se faz. por exemplo. quando o fato gerador do tributo – ser proprietário de imóvel urbano – é particionado em inúmeros grupos de “iguais“. mas a permissão de sua aquisição sem qualquer incidência tributária. Daí. por exemplo. Por outro lado. numa situação em que só o segundo poderá consumir determinado produto porque pode pagar pela tributação incidente sobre aquele bem. em moeda corrente. Em última análise. nem mesmo essa igualdade em razão da renda. pelo IPI. por exemplo. se houvesse de fato a igualdade desejada pela lei. jamais um indivíduo “a”. por ser devida. esse consumo somente àqueles que possuam determinada renda – critério adotado. De fato. em relação ao fato em si. a isenção de ICMS nos produtos que compõem a cesta básica. também. se essa condição derivar justamente da desigualdade econômica. não a proibição de consumo dos produtos considerados “não essenciais”. por exemplo. Assim. toda a carga tributária. não é uma igualdade.21 Melhor explicando. Ou seja. levando em consideração esse conceito. na verdade. poderá ser considerada igualdade tributária. e só com uma análise social é que se poderia . já que não se pode chamar de igualdade a submissão do indivíduo à condição imposta pela legislação. consumir o produto “x”. já que limitada pela minoria que detém a maioria do capital. as quais são estipuladas de acordo com a metragem. e sim uma desigualdade. e não limitar. as alíquotas de IPTU. e nem o “b” se sentirá igual ao “a” se na aquisição do mesmo produto “b” pagar mais tributos que “a”. de modo que à todos fosse assegurado. de baixa renda. etc. deveria ser mensurada a partir da renda individual de cada contribuinte. se sentirá igual ao “b”. temos que não dá para chamar de igualdade de tratamento sob a mesma condição. têm tratamento diferenciado. a localização. de pseudo-igualdade. de acordo com tantos critérios quanto se possa imaginar. embora submetido à mesma hipótese. de alta renda. basicamente.

destruíram irremediavelmente a liberdade natural. fixaram para sempre a lei da propriedade e da desigualdade. p. 213) . para o proveito de alguns ambiciosos.22 pensar em igualdade. “Os Clássicos da Política”. Aí. segundo Rousseau não cabe onde estiver instituída a propriedade. (Francisco C. esbarramos no conceito de justiça que. daí em diante sujeitaram todo o gênero humano ao trabalho. à servidão e à miséria”. WEFFORT.33 33 “Tal foi ou teve de ser a origem da sociedade e das leis. fizeram de uma hábil usurpação um direito irrevogável e que. que propiciaram novos entraves ao fracos e novas forças ao rico.

por Ihering34 a democracia capitalista nada mais é do que uma luta pelo direito. pelo conceito de justiça rousseauniana. posteriormente. o princípio da igualdade. E isso. ainda que pautado em uma norma positivada. como definido por Rousseau. WEFFORT. mas desigualdade. “Os Clássicos da Política”. na prática. e. e não um fato. e que a justiça pressupõe a elevação do ser em detrimento do ter. Ou seja. as quais. com a balança estabelecem o direito – que Rousseau denominou de razões enganadoras para fazer com que os indivíduos aceitassem o que se propunha como direito35 – e com a espada estabelecem através da força. dado o regime político e econômico. na medida em que embora haja a proibição de tratamento jurídico diverso entre contribuintes que estejam submetidos à mesma hipótese de incidência tributária. também. que mesmo esse ideal de igualdade não poderia se tornar realidade no Direito Tributário Brasileiro. travestidas de igualdade. que mesmo jamais colocada em prática dá a esses contribuintes uma sensação de justiça. p. 34 35 Rudolf Von IHERING. a mesma hipótese de incidência poderá comportar tantas especificidades. promessa essa. diante das questões propostas por Rousseau. conclui-se que a tal igualdade almejada pela Constituição Federal não é palpável dentro do nosso ordenamento jurídico. e isso preserva a paz social. a manutenção do direito imposto. 11 Francisco C. no ordenamento jurídico brasileiro.23 CONCLUSÃO Partindo-se da premissa estabelecida por Rousseau. 212 . em que as minorias detentoras do capital empunham uma balança em uma das mãos e uma espada na outra. na medida em que. p. e que o ordenamento jurídico brasileiro elege a proteção à propriedade como um de seus fundamentos. A Luta pelo Direito. não significa nada mais que uma promessa aos contribuintes. não é igualdade. Concluímos. de que a desigualdade deriva da instituição da propriedade. nada mais são do que exclusão de alguns indivíduos em detrimento de outros.

rev. 21. São Paulo: Saraiva. Jean Jacques. 1975. Nestor Silveira Chaves Rio de Janeiro: Ed. “A Política”. 5ª ed. Atlas. Trad. “Curso de Direito Administrativo”. “Lições preliminares de Direito”. João Vasconcelos. REALE. COULANGES. Malheiros Editores. Eduardo Fonseca. 1995. Trad. Rudolf Von. São Paulo. ed. KOMPARATO. Ediouro. Rio de Janeiro: Ed.24 BIBLIOGRAFIA ARISTÓTELES. “Do contrato social e discurso sobre a economia política”. estudos sobre o direito. Miguel. s. Alexandre. Saraiva. IHERING. “Direito Constitucional”. 5ª ed. Fustel de. MORAES. as Trad. MELO. Trad. Rio de Janeiro: Ed. . 1967. A luta pelo direito. Márcio Pugliese e Norberto de Paula Lima. ROUSSEAU.. rev. A cidade antiga: ed. 2006. São Paulo: Ed. “Teoria geral do Estado”. 7ª ed. 1996. 23. e aum. .Forense. Hemus. 1996. São Paulo: Ed. Jonas Camargo Leite e instituições da Grécia e de Roma. 12. PAUPÉRIO. Arthur Machado. São Paulo: Hemus. ed. “Direito Público: estudos e pareceres”. São Paulo: Ed. Fábio Konder. 1994. 1999. Forense. Celso Antônio Bandeira de.d.

São Paulo: Ed. WEFFORT. 5ª ed. “Os clássicos da política”. “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens“. 1989. Ática.25 ROUSSEAU. São Paulo: Ed. Ática. Francisco C. 1995. Jean-Jacques. .

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