JAEL DE OLIVEIRA MARQUES

A JUSTIÇA ROUSSEAUNIANA E SEUS DESDOBRAMENTOS NA CONCEITUAÇÃO DO PRINCÍPIO DA IGUALDADE NO DIREITO TRIBUTÁRIO BRASILEIRO

SÃO PAULO – SP

2

2009 JAEL DE OLIVEIRA MARQUES

A JUSTIÇA ROUSSEAUNIANA E SEUS DESDOBRAMENTOS NA CONCEITUAÇÃO DO PRINCÍPIO DA IGUALDADE NO DIREITO TRIBUTÁRIO BRASILEIRO

Trabalho

monográfico

apresentado

como exigência parcial para obtenção do Diploma de Pós-graduação em Especialização em Direito Tributário, da Escola Superior de Advocacia da Ordem dos Advogados do Brasil – Secção São Paulo. Orientador: Prof. Ms. Fabrício de Carvalho Serafini

SÃO PAULO – SP

3 2009 .

4 ESCOLA SUPERIOR DE ADVOCACIA DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL – SECÇÃO SÃO PAULO A JUSTIÇA ROUSSEAUNIANA E SEUS DESDOBRAMENTOS NA CONCEITUAÇÃO DO PRINCÍPIO DA IGUALDADE NO DIREITO TRIBUTÁRIO BRASILEIRO ALUNA: JAEL DE OLIVEIRA MARQUES BANCA EXAMINADORA Professor Orientador: Fabrício de Carvalho Serafini Professor Examinador: Anis Kfouri Junior Professor Examinador: Paulo Panhoza Neto .

......O CONCEITO DE IGUALDADE NO DIREITO PÁTRIO........CRÍTICA À IGUALDADE NO DIREITO TRIBUTÁRIO BRASILEIRO COMO SINÔNIMO DE JUSTIÇA SOCIAL..........16 6 ............22 BIBLIOGRAFIA..............................14 5 ......................................................................................................................................23 ............................ SOB A ÓTICA DO REGIME POLÍTICO E ECONÔMICO.......12 4 – O CONFLITO ENTRE PROPRIEDADE E IGUALDADE NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO..............A INSTITUIÇÃO DA PROPRIEDADE E A DETURPAÇÃO DA IGUALDADE ENTRE OS INDIVÍDUOS......... 09 3 .................................................................................19 CONCLUSÃO......................................................................................................................................................................................................................................................................05 1 – A VONTADE GERAL E O CONTRATO SOCIAL... 08 2 – OS DIREITOS NATURAIS E OS DIREITOS CIVIS......................................5 SUMÁRIO INTRODUÇÃO....................................................

cuja direção é traçada. através de um método lógico. Porém. a delimitar os saberes particulares e depurar a abstração de seus conteúdos. . indicar sempre o Norte.e a necessidade de tornar padronizados os conceitos através da linguagem que faz nascer o fenômeno denominado ciência. fraternidade. Com isso. de modo a tornar a descrição do objeto o mais próximo de sua realidade fática. na realidade. o tema justiça permeia a mentalidade dos seres humanos. o que significa dizer que tal conceito. moral. E se no campo da física. vislumbra-se que a simples menção da justiça como norte. E como numa bússola em que o norte é invariável. surgindo. 1 O apontamento invariável da bússola para o norte decorre do fato de que a Terra possui dois pólos. as idéias que se tem das coisas e suas propriedades. de modo a torná-los. aprendemos que a justiça deve ser o nosso norte em qualquer direção para onde direcionemos nossas ações. no campo das denominadas ciências humanas não foi diferente. o conceito de justiça tem sua direção fixada por pontos variáveis. o mais puro possível. isto é. e o ponteiro magnetizado da bússola é inversamente atraído. os quais foram responsáveis por depurar os saberes individuais relativos às idéias que se tinham de determinadas concepções humanas – justiça. da química e da biologia proliferaram teorias na tentativa de estabelecer o conceito e a definição da matéria. etc. a partir de um ponto invariável1. um negativo e um positivo. destinado. nos torna muito mais confusos em relação a ela. especialmente a partir do século XIV. nunca poderá ser o mesmo para todo ser humano. magneticamente. cientistas que se puseram a estudar as questões do ponto de vista do seres humanos – deslocamento da visão teocêntrica para a antropocêntrica -. embora com muitos pontos semelhantes. liberdade. É exatamente a percepção da dominação das idéias do observador (subjetivismo) na concepção do objeto de estudo – os pontos variáveis do norte de que falávamos .6 INTRODUÇÃO Desde os tempos mais remotos até a modernidade. ao invés de nos dar uma noção exata da direção a ser seguida. diferentemente do norte da bússola. igualdade. – abstraindo-lhes o subjetivismo. Daí. conceitualmente.

escritor. ainda. . 5 Por uma questão lógica (a igualdade pressupõe não distinção entre sexos) não faremos uso do vocábulo Homem. dentre as quais “Do contrato social”3 e “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”4. Uma das figuras marcantes do Iluminismo francês. e esta. já que a idéia de Rousseau está intimamente atrelada à condição de igualdade entre os seres humanos. se é que isso é possível. especialmente. 2 de Julho de 1778) foi um filósofo suíço. tão comumente empregado em outros tempos. guarda um significado especial. adquirir. pretendeu compreender o ser humano5 sem as amarras dos dogmas. diante de um regime econômico capitalista como é o adotado pelo Brasil. na visão de Rousseau. isto é. o que nos remete à noção de que em nosso ordenamento jurídico qualquer estudo tributário deve passar. sem os chamados axiomas. 4 Texto publicado em 1755. em 1762. mas igualdade econômica. 2009). necessariamente. Com efeito. por sua vez. Acesso em 01. doar. nos reservamos o direito de fazer críticas e apontar conclusões.wikipedia. na medida em que o estabelecimento das premissas nos permita. pelo conceito de propriedade. teórico político e um compositor musical autodidata.org/wiki/Confisco>. e isso. ser. não se poderia falar em tributo sem se falar. por sua vez. dez. A escolha do conceito de justiça rousseauniana para o nosso estudo. nada tem de acaso. que embora a intenção seja eminentemente investigativa. Rousseau é também um precursor do romantismo” (WIKIPEDIA. obrigatoriamente. importar. não como igualdade física. isto é. importa em atividade econômica -. que através de vasta produção literária. 28 de Junho de 1712 — Ermenonville. Devemos ressaltar. Disponível em < http://pt. 3 Obra publicada em Paris. 2 “Jean-Jacques Rousseau (Genebra. em atividade econômica. Diante disso. no caso. relativamente às normas tributárias. ter. faz toda a diferença no alcance do conceito de justiça em nosso ordenamento jurídico. dado que não é possível tributar o ser – ninguém é tributado por possuir este ou aquele atributo físico – mas o ter – exportar. etc. Enciclopédia livre. É o caso do capítulo 6. é conceituada. reservamos também um capítulo para o estudo do tema. isto é.7 Jean-Jacques Rousseau2 é um desses teóricos. possuir. para designar indivíduos.

embora a obra de Rousseau seja hipotética6. no leitor. denominada “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens” encontramos o método utilizado por Rousseau. Por fim. o espírito investigativo de pensar o Direito. que assim como outros de sua época. (Francisco C. 194) 7 Miguel Reale define Direito como “fato ou fenômeno social”. primeiramente na autora. seus mistérios. Não se devem considerar as pesquisas. posteriormente. fazem nossos físicos sobre a formação do mundo”. de modo que só se poderia falar em direito onde existissem essas relações. p. evidentemente. com suas peculiaridades. não vemos isso como um obstáculo à conclusão e crítica supra mencionadas. Licões preliminares de Direito. há que se dizer que a escolha de Rousseau foi estritamente pensada com o objetivo de aguçar. pois eles não dizem respeito à questão. p. valem menção Hobbes e Espinosa. acreditamos que as hipóteses serão sempre um bom ponto de partida. em que se pode entrar nesse assunto. mais apropriados a esclarecer a natureza das coisas do que a mostrar a verdadeira origem e semelhantes àqueles que. (Miguel REALE. desde que. Afirma Rousseau: “Comecemos por afastar todos os fatos. apoiadas em raciocínio lógico. como peculiar e misterioso é o próprio ser humano7. WEFFORT “Os Clássicos da Política”. 02) . se utilizou do método introduzido pela geometria (ciência exata) para análise das questões ligadas à moral e à política (ciências humanas). condicionado ao convívio entre os seres humanos. como verdades históricas. mas somente como raciocínios hipotéticos e condicionais. todos os dias. Na medida em que ausentes dados concretos sobre a origem do Direito. e.8 No mais. 6 Em obra anterior ao “Do contrato social”.

Ao invés de descrever as circunstâncias de sua época. Esse pacto é formado em torno de uma pessoa pública. em especial políticas. em especial “Do contrato social” e “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”. de acioná-las para um único objetivo e fazê-las operar em concerto.”8 [. mas somente unir e dirigir aquelas que existem.] “Suponho chegados àquele ponto em que os obstáculos prejudiciais à sua conservação no estado de natureza sobrepujam. forças estas que.9 1 – A VONTADE GERAL E O CONTRATO SOCIAL Antes de mensurarmos o conceito de justiça. para Rousseau. que se torna difícil identificar um atentado a um particular que não represente um atentado ao 8 Jean-Jacques ROUSSEAU. não têm outro modo. que o de formar. o Estado. um conjunto de forças que possa sobrepujar a resistência. a proposta central da obra de Rousseau. constrói um sentido de justiça. se denomina vontade geral e confere ao tal ente a soberania. é basicamente filosófica. o que significa tratar de questões outras. [. pela sua resistência.] Esse acordo ou pacto. tema sob análise. Ora.. ente organizado a partir da força de cada um.. De fato. p. necessário se faz traçarmos as dimensões do próprio pensamento de Rousseau. na medida em que a somatória das vontades se tornam tão agregadas. por agregação. tudo em prol do bem comum. 26 . formando-se a partir dali um pacto que ele chama de contrato social. para se conservarem.. agrupadas. mais adiante contextualizado. as quais darão o tom do problema em foco.. na qual ele se debruça sobre o conceito de justiça. Então esse estado primitivo já não pode subsistir e o gênero humano pereceria se não mudasse sua maneira de ser. “Do Contrato Social”. as forças que cada indivíduo dispõe para se manter nesse estado. Uma dessas hipóteses é a de um encontro de vontades entre os seres humanos. sociais e jurídicas. Rousseau apenas as utiliza como ponto de partida para solidificar suas hipóteses. como os homens não podem engendrar novas forças.

e outro posterior. mas o segundo como prolongamento do primeiro. por sua vez. traduzida por legalidade. afirmando que se trata de expressão de difícil definição. no estado natural. porém. A liberdade individual continua íntegra após a adesão ao pacto. [. 9 Nesse sentido.. Em sua obra. traça um limite ao afirmar que “seria impensável uma alienação geral do povo de seus direito básicos para aderirem a um pacto. dois estados: um anterior. através da cessão de vontades. enquanto se limitaram a coser suas roupas de pele com espinheos ou 9 ROUSSEAU. são aqueles traçados pelo estado de natureza? Porque para ele o ser humano é bom (por natureza) e por isso as leis naturais são melhores que as leis civis. como prolongamento do estado de natureza. por deliberação desses indivíduos. vislumbra-se.10 corpo todo. vigendo o estado civil. não é uma ruptura total entre os dois estados. Na verdade. todos são iguais e essa igualdade é traduzida por 2 – OS DIREITOS NATURAIS E OS DIREITOS CIVIS Retomando a idéia anterior do contrato social. A premissa de Rousseau. porém. p. e fundada na igualdade. deve-se afirmar que isto é loucura e não pacto social”. se há que se dizer algo. colocaria em situação de igualdade todos os indivíduos. a força física – desigual entre os indivíduos – é substituída por uma força moral exercida pelo Estado. justiça. Para Rousseau. significa que ninguém tem direito sobre ninguém. é de que as leis reproduzam os direitos naturais. apenas reforçada pelo Estado. Em contrapartida. A passagem do estado de natureza para o estado cívico. segundo Rousseau. o estado de natureza. senão o Estado sobre todos. Rousseau não chega a definir o que seja a lei natural. justa. Ou seja. cit. a prevalência do direito do mais forte significa desigualdade efetiva.. 28 . o estado cívico. a premissa para que o estado cívico represente uma ordem legítima. ou das leis. que. ou das leis. o estado legal ou civil. op. e nisso consistiria a verdadeira liberdade.] “Enquanto os homens se contentaram com suas cabanas rústicas. conclui. a partir de sua ocorrência. E por que os limites do estado cívico. é esse último que limita o primeiro.

como direito das gentes. Daí o direito do mais forte.] “Esta passagem do estado de natureza ao estado civil produz no homem uma mudança notabilíssima. a se enfeitar de plumas e de conchas.. tanto quanto o poderiam ser pela sua natureza(.. as leis naturais são mais perfeitas que as humanas. não conduz à conseqüência natural que seria a paz social. é forçado a agir tomando como base outros princípios e consultando sua razão antes de ser influenciado por suas tendências. cit.” [. Em que sentido poderá ser um dever?”10 [. e a sociedade o corrompe (por convenção)”.. direito tomado ironicamente na aparência (. é extraída da premissa de que a natureza é boa.. Rousseau reconhece que no plano prático.) Tendo as coisas chegado a esse ponto é fácil imaginar o resto. p. em dizeres do próprio Rousseau. É só então que. 10 11 ROUSSEAU. sãos. e a obediência em dever.. As coisas teriam continuado nesse estado se os talentos fossem iguais e se.). 24 . a cessão de vontades individuais ao Estado. “Do Contrato Social”.“13 Essa conclusão.. 20 Jean-Jacques ROUSSEAU. ou seja. p. se não transformar sua força em direito. o mais engenhoso encontrava meios para abreviar a faina. Contrariamente. a voz do dever sucedendo ao impulso físico e o direito ao apetite. e. 31 13 Jean-Jacques ROUSSEAU. um ganhava muito enquanto o outro vivia em dificuldade (. como já mencionamos..] “Reduzamos todo este balanço a termos de fácil compreensão: o que o homem perde pelo contrato social é sua liberdade natural e um direito limitado a tudo o que o tenta e que pode alcançar. através do contrato social. por exemplo o emprego do ferro e o consumo dos alimentos estivessem sempre em um perfeito equilíbrio. cit. em que pese a perfeição da teoria.. “o homem em si é bom (por natureza).. 31 12 ROUSSEAU. op.] “O mais forte nunca é suficientemente forte para ser sempre o senhor. pois. a pintar o corpo de diversas cores (. de modo que o direito civil se converteu em direito arbitrário e a lei natural remanesceu apenas como lei comum aos povos. mas a proporção que em nada se apoiava logo se rompeu. o que ganha é a liberdade civil e a propriedade de tudo o que possui..) eles viveram livres.. “11 [. o mais esperto tirava melhor partido do seu trabalho. o mais forte trabalhava mais. isto é.11 cerdas.. que até então apenas havia olhado para si mesmo. op. A força é uma potência física. resultando. o homem.. p.] Contudo. o lavrador tinha mais necessidade de ferro ou o ferreiro mais necessidade de trigo. e dando às suas ações a moralidade de que não dispunha anteriormente.. não vejo qual moralidade poderá resultar de seus efeitos. “12 [..). trabalhando igualmente. é no máximo um ato de prudência. ou. bons e felizes. há uma distorção do primeiro estado para o segundo. “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens” p. “que os direitos civis se fizeram distanciar dos direitos naturais.. Ceder à força. substituindo em sua conduta o instinto pela justiça.

se de um lado temos razão para duvidar da bondade natural dos seres humanos. Para Rousseau. pois. mesmo assim. 138) . e o Estado legal presente em toda parte parece situação consolidada. Porque quanto à força corporal o mais fraco tem força suficiente para matar o mais forte. associando-se apenas por medo da morte. embora. Acredita. que em estado de natureza todos os indivíduos são iguais. diante de todas as atrocidades que são cometidas em nossos dias? Não seria Rousseau apenas um idealista. sendo necessário libertá-lo do contrato de sujeição e de privilégios. E não poderia ser diferente. Todavia. fadada apenas à substituição desta ou daquela forma de governo. conforme a razão (Miguel REALE. p. a impressão que temos é que se trata de um escritor por demais romântico. ainda. pela má-fé de alguns. quer aliando-se com outros que se encontrem ameaçados pelo mesmo perigo. um pouco longe da realidade. sua obra é hipotética. quanto às faculdades do corpo e do espírito. principalmente nos dias atuais. um sonhador. teriam sido levados a aceitar um pacto leonino de sociedade. “Filosofia do Direito”. dado que os estado de natureza não mais existe. irrefreáveis. crente da bondade natural dos homens. por vezes se encontre um homem manifestamente mais forte de corpo. um romântico? Esse indivíduo contemplado por Rousseau. pensamos. 54) 15 Ao pessimismo de Hobbes “contrapõe-se o otimismo de Jean-Jacques Rousseau. ou de espírito mais vivo do que outro.12 Na realidade. o homem natural é um homem bom que a sociedade corrompeu. que traduzam melhor nossos dias. ao estudarmos os textos de Rousseau. “Os Clássicos da Política”. De fato. Hobbes14 define melhor esse ser humano. que teriam vivido um período paradisíaco. tendo-se em conta a concretude dos fatos. como poderíamos pensar num ser humano bom por natureza. quando se considera tudo isso em conjunto. quer por secreta maquinação. WEFFORT. 14 Para Hobbes o Ser Humano é mau por natureza. ainda que hipotético. mas jamais afastada de todo. p. para se estabelecer um contrato social legítimo. como já dissemos. tomando-se em consideração que sua obra se desenvolveu exatamente em um período de efervescência intelectual romântica15. Chegamos mesmo a nos sentir tentados a abandonar suas idéias e abraçarmos de vez teorias mais concretas. a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que qualquer um possa com base nela reclamar qualquer benefício a que outro não possa também aspirar. teria alguma chance de ter existido? Efetivamente. “A natureza fez os homens tão iguais. não se pode perder de vista que o estado de natureza do indivíduo contemplado por Rousseau em muito se assemelha a qualquer outro descrito pelos clássicos do romantismo. tal como ele. que. inevitável diante do outro ou dos outros associados contra si. e nunca veremos concretizadas as hipóteses a que Rousseau se refere. em busca de satisfazer à seus desejos. até o momento em que.” (Francisco C. de outro não podemos afirmar que ele está de todo errado.

o conceito de justiça traçado por Rousseau... a concepção de Rousseau é diametralmente oposta à concepção geral mais aceita de propriedade. Deus fala a Abrahão: “darei esta terra à tua descendência” (Bíblia Gênesis 12:7). é preciso que cada um possa ter alguma coisa”17.. por exemplo. começando os homens a voltar seu olhar para o futuro. na Grécia e Itália sempre se reconheceu e praticou a propriedade privada. “Os Clássicos da Política”. Na bíblia. cit.. 52 . as instituições da Grécia e de Roma”.. Desse modo. para se apropriar das coisas que absolutamente não produziu. e em seguida Abrahão edifica-lhe um altar. de modo que apenas através da religião se estabelecia esse direito de propriedade. este advindo da instituição da propriedade. 16 17 Francisco C. Esta origem se mostra ainda mais natural por ser impossível conceber a idéia da propriedade nascendo de algo que não seja a mão-deobra. Deus. 209 WEFFORT. embora reconheça que no plano prático a cessão de vontades individuais não resulta na paz social. definido como “entregar a cada um o que é seu”16. [.. proprietário do solo. e tendo todos alguns bens a perder. afirma que muito embora tenham existido povos que nunca chegaram a instituir a propriedade privada entre si.18 Fustel de Coulanges.] “(. op. p. Entretanto. pois. mas em conflito. em sua obra “A cidade antiga”. [. 209 18 Fustel de Coulanges. como dito anteriormente. para entregar a cada um o que é seu.) além disso. p. o homem possa nisso colocar mais do que seu trabalho. para Rousseau é perfeitamente sustentável a hipótese de igualdade entre os seres humanos à partir da instituição do contrato social. Na verdade.13 3 – A INSTITUIÇÃO DA PROPRIEDADE E A DETURPAÇÃO DA IGUALDADE ENTRE OS INDIVÍDUOS Vimos no capítulo anterior que.. não é mais o conceito puro advindo do pacto social.] Cabe aqui um parêntesis. pois não se compreende como. p. nenhum deixou de temer a represália pelos danos que poderia causar a outrem. WEFFORT. Os antigos divisavam uma misteriosa relação entre os deuses e o solo. cujas origens são atribuídas à religião. mas um conceito já deturpado “pois. “A cidade antiga: estudos sobre o direito. delega ao homem uma parte deste.

De qualquer modo. abafando a piedade natural e a voz ainda fraca da justiça. o ter caracteriza desigualdade. na medida em que aquele que tem. ambiciosos e maus”. pelo menos a mais flagrante origem das desigualdades entre os indivíduos. divina ou humana.14 através do mundo moderno não podemos formar idéia do direito de propriedade dos antigos. eis que o ser perde importância para o ter. Ou seja. senão a única. ele atribui a origem da desigualdade entre os indivíduos à propriedade. retomando as idéias de Rousseau. p. e o que não tem. Fustel de COULANGES. necessita dos auxílios do que tem. quebrado o equilíbrio natural. mesmo com o advento do pacto social. as instituições da Grécia e de Roma”. necessita dos serviços do que não tem. segue-se a mais indigna desordem. E. caracteriza igualdade. “ A cidade antiga: estudos sobre o direito. indubitavelmente os torna diferentes. o que. as extorsões dos pobres. enquanto o ser. 49 19 . pois todos estão na mesma condição. na medida em que “as usurpações dos ricos. as paixões desenfreadas de todos. uma vez que as leis que o garantiram são bem diversas das nossas. não se pode furtar à conclusão expressada por Rousseau. de que a propriedade é. tornaram os homens avaros.19 Mas.

o pacto social destinado a tornar iguais os indivíduos é deturpado pela instituição da propriedade que. todas desiguais entre si. nos termos seguintes:” Disponível em < http://www. se a propriedade é causa da desigualdade entre os seres humanos e o Estado protege a propriedade22 não estariam. ao se interpretar a norma tributária toda e qualquer conclusão deverá passar pelo crivo da igualdade.planalto. Ou seja. à segurança e à propriedade.15 4 – O CONFLITO ENTRE PROPRIEDADE E IGUALDADE NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO Em linguagem simplificada. p. no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico. tomando-se em consideração cada indivíduo em si mesmo. não seria admissível a aplicação de uma norma tributária em relação à determinado contribuinte.) outros princípios (o da igualdade.com. porventura. “Direito Tributário Brasileiro”. cada pessoa é dotada de características próprias e. ponderamos. 2009. o que nos remete à idéia de que. tais 20 para Celso Antonio Bandeira de Melo "princípio é. exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo. condição de torná-las iguais por simples determinação. por definição.asp?id=1342. é causa preponderante da desigualdade entre os seres humanos. já que em nosso ordenamento jurídico esse é um princípio constitucional. à igualdade. disposição fundamental que se irradia sobre diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério para sua exata compreensão e inteligência. teoricamente. da Constituição Federal de 1988: “Todos são iguais perante a lei. . da Constituição Federal de 1988.br/doutrina/texto. por evidente.” Citação disponível em <http://jus2. 110 22 Artigo 5º . que essa “igualdade” tributária não se mostra palpável21. os princípios são vetores para os quais deve convergir a interpretação da norma20. vale dizer representam o ‘princípio’ do caminho a ser trilhado. à luz do pensamento de Rousseau. e.gov. mandamento nuclear de um sistema. mas não indicam até onde se deve ir naquela direção sem correr o risco de dar a volta ao mundo e voltar ao ponto inicial. Ocorre. verdadeiro alicerce dele. à liberdade. II. 2009.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao. Ora.>Acesso em 22. o começo do caminho. a mesma norma em relação à outro. porém. Esses enunciados indicam o início. portanto – artigo 150. não tendo a lei.. o da vedação ao confisco etc) já não permitem que se identifique sua exata dimensão. 21 “(. quer seja porque. quer seja porque.. Acesso em 22. sem distinção de qualquer natureza. É o conhecimento dos princípios que preside a intelecção das diferentes partes componentes do todo unitário que há por nome de sistema jurídico positivo” citação extraída do texto. garantindo-se aos residentes no País a inviolabilidade do direito à vida.uol. caput. o da capacidade contributiva. portanto.” (Luciano AMARO. norma positivada. por sua vez. out.htm >. de maneira diferenciada. out. mostram o rumo a seguir. sob pena de ferimento ao princípio da igualdade.

seria possível conceber igualdade tributária? Creio ser possível responder à essa indagação. a igualdade dos indivíduos – e aqui já podemos falar em cidadãos brasileiros – a partir do regime político e econômico adotado pelo Brasil. .16 conceitos em conflito? E admitindo-se a desigualdade como fato. qual seja. mas para isso. será necessário incluir em nosso estudo mais uma variável. passaremos a examinar no próximo capítulo de que forma esse regime político e econômico influencia o conceito de igualdade previsto na Constituição Federal. Assim.

inventou facilmente razões enganadoras para fazer com que aceitassem seu objetivo: 23 24 Arthur MACHADO PAUPÉRIO. cujas idéias são objeto de nosso tema -. uns contra os outros. ou “governo do povo”. essa igualdade é a situação política de cada indivíduo.17 5 – O CONCEITO DE IGUALDADE NO DIREITO PÁTRIO. citando Hobbes24 e Rousseau25 . é uma grande felicidade que os cidadãos só possuam uma fortuna média. “Os Clássicos da Política”. p. que a comunidade civil mais perfeita é a que existe entre os cidadãos de uma condição média. “A Política”. e se esse soberano lhes dispensasse tratamento idêntico quando submetidos às mesmas situações. e na qual ninguém encontrava segurança. Nos termos da lei que regula essa democracia. “Do Contrato Social”. deveras. 253: “É evidente. dado que. o Estado. impedir que uma ou outra obtenha superioridade sensível. p.. que tornava suas posses tão onerosas quanto o eram suas necessidades. sendo seu próprio fundamento. 289 Francisco C. 236: “A primeira espécie de democracia é aquela que tem a igualdade por fundamento. p. se todos os outros igualmente o fizessem. a igualdade significa que os ricos e os pobres não têm privilégios políticos. ao expressar –se da seguinte maneira: [. e que não pode haver Estados bem administrados fora daqueles nos quais a classe média é numerosa e mais forte que todas a outras ou pelo menos mais forte que cada uma delas. Rousseau vê nessa pretensa igualdade da democracia apenas um engodo. 77 26 ARISTÓTELES. cada ser humano só abriria mão da própria vontade para doá-la a um soberano. será necessário identificarmos de que maneira se comporta o princípio da igualdade à luz de uma democracia capitalista. porque ela pode fazer pender a balança em favor do partido ao qual se une e. 80 25 Jean-Jacques ROUSSEAU. fosse na pobreza ou na riqueza. ao que nos parece. que sendo as primeiras sociedades oligárquicas. Para Aristóteles26. SOB A ÓTICA DO REGIME POLÍTICO E ECONÔMICO Partindo da premissa de que a propriedade influencia diretamente na conceituação de igualdade..o último. por esse meio. suficiente para as suas necessidades.] “Com tal objetivo.” . Porém. a noção de igualdade entre as pessoas tem o seu nascedouro fincado no próprio conceito de democracia. que tanto uns como outros não são soberanos de um modo exclusivo. Nos Ensina Arthur Machado Paupério23. pois. regime político e econômico adotado pelo Brasil. Assim. e sim que todos o são exatamente na mesma proporção”. WEFFORT. p. em tese. em que os direitos e privilégios garantidos a um devem ser os mesmos garantidos a todos os outros submetidos à mesma condição. depois de expor a seus vizinhos o horror de uma situação que armava a todos. precursor da idéia de democracia. “Teoria Geral do Estado” . dentro de uma sociedade democrática. p.

“Teoria Geral do Estado” . apesar de parecer de pouca importância essa afirmação. fixaram para sempre a lei da propriedade e da desigualdade.)’”27 [.). A Revolução Francesa. seguindo as lições de Arthur Machado Paupério29.. cit. tal como um ferido permite que lhe amputem o braço para salvar o resto do corpo. op. Rousseau é totalmente descrente da lei como forma de atribuir igualdade entres os indivíduos. e que de certo modo reparem os caprichos da fortuna através de igual submissão do poderoso e do fraco a deveres mútuos (. Ocorre. a legitimava. p. não tinham bastante experiência para prever seus perigos: os mais capazes de pressentir os abusos eram precisamente aqueles que esperavam poder se aproveitar dos mesmos e até os sábios compreenderam que seria preciso sacrificar uma parte de sua liberdade para conservar a outra. senão as idéias contidas no bojo da Revolução Francesa. fáceis de seduzir (. 213 29 Arthur MACHADO PAUPÉRIO. pois. apenas limitando-a por meio de um princípio mais amplo denominado dignidade da pessoa humana. e assegurar a cada um a posse daquilo que lhe pertence: instituamos regras de justiça e de paz às quais todos sejam obrigados a se submeter..] “Foi preciso muito menos que o equivalente a esse discurso para conduzir homens rudes. o que significa oposição total ao ideal de justiça de Rousseau. p.” Ainda. que ao examinarmos o núcleo central das idéias difundidas em tal acontecimento histórico.. não foi ela quem nos influenciou. WEFFORT. ao invés de abolir a propriedade.. que não façam exceção à ninguém. que propiciaram novos entraves ao fraco e forças ao rico.. 213 WEFFORT. conter os ambiciosos. percebemos que a exacerbação da limitação dos poderes do Estado em relação ao indivíduo. porém. Todos correram ao encontro de seus grilhões. 283 . E. de modo algum exclui a propriedade. p. “Os Clássicos da Política”. destruíram irremediavelmente a liberdade natural.. mesmo que essa noção de igualdade e democracia tenha sido pensada primeiramente por Aristóteles.. com muita razão reconhecendo as vantagens de um estabelecimento político.18 ‘unamo-nos – disse-lhes – para defender os fracos da opressão. concluindo que “tal foi ou deve ser a origem da sociedade e das leis.”28 Como se observa. crendo assegurar sua liberdade. 27 28 Francisco C.

Ou seja.19 para o nosso estudo ela é vital. Em contrapartida. já que introduz uma concepção de justiça muito diferente daquela traçada por Rousseau ao abarcar na expressão igualdade uma abstração com raízes fincadas no conceito aristotélico de ética. contém exatamente os aspectos definidos por Rousseau. ou delimitar. que pode ser traduzido (tradução livre) por um comportamento que deve ser dispensado à todo e qualquer Ser Humano. em especial na aplicação das normas tributárias. é inevitável concluir que dado o regime econômico e político adotado. é possível afirmar que a desigualdade que o princípio da igualdade busca eliminar. . neste ponto de nosso estudo. estando intrinsecamente ligado ao ter (propriedade) e não ao ser (características pessoais). que o próprio agente comportamental gostaria que o outro lhe dispensasse estando ele (agente) na situação do receptor. a igualdade no direito brasileiro não guarda as características identificadas por Rousseau.

o que se reflete em todo o ordenamento jurídico. de justiça. “Direito Constituciona”l. “Direito Público: estudos e pareceres”. isto é. da Constituição Federal. já que limitada pela minoria que detiver o maior capital. para quem a propriedade impossibilita qualquer pretensão de igualdade e. é exigência tradicional do próprio conceito de Justiça ” e .na prática é inatingível -.gov. abstrata demais para ser aplicada. conseqüentemente. 30 Artigo 150. aquela que ultrapassa a igualdade formal pretendida por Rousseau. etc . embora pareça delimitado na expressão constitucionalizada “proibição de instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente” 30 se mostra. P. qual seja. não poderia ser alcançada por meio de leis..32 Entendemos. out. 2009. alcançada através de políticas públicas. mas. Ou seja. porém. a justiça em relação ao ter. como a alimentação. pelo menos para Rousseau. em detrimento do ser. Na verdade. ao que nos parece essa igualdade pretendida pela Constituição Federal é puramente material. que nem mesmo essa busca da igualdade social é palpável no direito pátrio. não se trata apenas de crítica gratuita. nos rendemos à idéia de Rousseau. justiça. não se comporta como sendo. que a igualdade de oportunidade de acesso às mais básicas necessidades da pessoa humana. Ou seja. que. tendo-se em conta o regime econômico adotado. particularmente.planalto. sim. por sua vez. o tratamento desigual dos casos desiguais. a saúde. acreditamos. p. o vestuário. 61 32 Fábio Konder COMPARATO. pois. mas não será uma oportunidade inata a cada cidadão.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao. de fato. Ii. Disponível http://www. Em que pese o tom fatalista.20 6 – CRÍTICA À IGUALDADE NO DIREITO TRIBUTÁRIO BRASILEIRO COMO SINÔNIMO DE JUSTIÇA SOCIAL O conceito de igualdade no Direito Tributário Brasileito. meramente uma promessa . contudo. 31 Alexandre de MORAES. nos dizeres de Alexandre de Moraes31 “uma igualdade de possibilidades virtuais (. tornando-se. Acesso em 22. pela aplicação de políticas ou programas de ação estatal. por seu turno..htm >. É.) pois. será uma pseudo-oportunidade. Ao contrário. o capitalismo. a habitação. na medida em que se desigualam. 59 em < . fixando-se na igualdade social. principalmente. pode ser.

etc. por exemplo. levando em consideração esse conceito. por ser devida. e só com uma análise social é que se poderia . e não limitar. Daí. quando o fato gerador do tributo – ser proprietário de imóvel urbano – é particionado em inúmeros grupos de “iguais“. Por outro lado. se sentirá igual ao “b”. o tratamento igualitário seria. de baixa renda. de modo que à todos fosse assegurado. toda a carga tributária. embora submetido à mesma hipótese. em moeda corrente. as quais são estipuladas de acordo com a metragem. por exemplo. as alíquotas de IPTU. se essa condição derivar justamente da desigualdade econômica. por exemplo. quando. nem mesmo essa igualdade em razão da renda.21 Melhor explicando. basicamente. a localização. e sim uma desigualdade. consumir o produto “x”. de alta renda. pelo IPI. de acordo com tantos critérios quanto se possa imaginar. mas a permissão de sua aquisição sem qualquer incidência tributária. o que. Daí a idéia anteriormente expressada. têm tratamento diferenciado. numa situação em que só o segundo poderá consumir determinado produto porque pode pagar pela tributação incidente sobre aquele bem. na verdade. em razão da essencialidade do produto. Assim. já que não se pode chamar de igualdade a submissão do indivíduo à condição imposta pela legislação. por exemplo. já que limitada pela minoria que detém a maioria do capital. ao invés de propiciar igualdade de tratamento aos submetidos à mesma hipótese de incidência – operação de circulação de mercadoria – na realidade é justamente o “carimbo da desigualdade” se comparado àquele que poderá consumir outros produtos. deveria ser mensurada a partir da renda individual de cada contribuinte. como se faz. Ou seja. a isenção de ICMS nos produtos que compõem a cesta básica. se houvesse de fato a igualdade desejada pela lei. De fato. de pseudo-igualdade. também. não a proibição de consumo dos produtos considerados “não essenciais”. temos que não dá para chamar de igualdade de tratamento sob a mesma condição. jamais um indivíduo “a”. em relação ao fato em si. e nem o “b” se sentirá igual ao “a” se na aquisição do mesmo produto “b” pagar mais tributos que “a”. poderá ser considerada igualdade tributária. não é uma igualdade. Em última análise. a conclusão de que Rousseau tem razão ao identificar a propriedade como origem da desigualdade. esse consumo somente àqueles que possuam determinada renda – critério adotado.

(Francisco C.22 pensar em igualdade. segundo Rousseau não cabe onde estiver instituída a propriedade. “Os Clássicos da Política”. fizeram de uma hábil usurpação um direito irrevogável e que. p. WEFFORT. que propiciaram novos entraves ao fracos e novas forças ao rico. 213) . destruíram irremediavelmente a liberdade natural. Aí. à servidão e à miséria”. daí em diante sujeitaram todo o gênero humano ao trabalho.33 33 “Tal foi ou teve de ser a origem da sociedade e das leis. fixaram para sempre a lei da propriedade e da desigualdade. esbarramos no conceito de justiça que. para o proveito de alguns ambiciosos.

que mesmo esse ideal de igualdade não poderia se tornar realidade no Direito Tributário Brasileiro. o princípio da igualdade. promessa essa. e não um fato. “Os Clássicos da Política”. conclui-se que a tal igualdade almejada pela Constituição Federal não é palpável dentro do nosso ordenamento jurídico. na medida em que embora haja a proibição de tratamento jurídico diverso entre contribuintes que estejam submetidos à mesma hipótese de incidência tributária. na medida em que. não é igualdade. A Luta pelo Direito. no ordenamento jurídico brasileiro. ainda que pautado em uma norma positivada. p. mas desigualdade. e que o ordenamento jurídico brasileiro elege a proteção à propriedade como um de seus fundamentos. pelo conceito de justiça rousseauniana. travestidas de igualdade. e. por Ihering34 a democracia capitalista nada mais é do que uma luta pelo direito. e isso preserva a paz social. Ou seja. não significa nada mais que uma promessa aos contribuintes. dado o regime político e econômico. que mesmo jamais colocada em prática dá a esses contribuintes uma sensação de justiça. como definido por Rousseau. e que a justiça pressupõe a elevação do ser em detrimento do ter. p. de que a desigualdade deriva da instituição da propriedade. diante das questões propostas por Rousseau. 34 35 Rudolf Von IHERING. a mesma hipótese de incidência poderá comportar tantas especificidades. posteriormente. 11 Francisco C. Concluímos. WEFFORT. com a balança estabelecem o direito – que Rousseau denominou de razões enganadoras para fazer com que os indivíduos aceitassem o que se propunha como direito35 – e com a espada estabelecem através da força. nada mais são do que exclusão de alguns indivíduos em detrimento de outros. a manutenção do direito imposto. as quais. na prática. 212 .23 CONCLUSÃO Partindo-se da premissa estabelecida por Rousseau. também. em que as minorias detentoras do capital empunham uma balança em uma das mãos e uma espada na outra. E isso.

Forense. Jean Jacques. rev. e aum. . São Paulo: Ed. “A Política”. Trad. ed. Rio de Janeiro: Ed. as Trad. . 1995. Rudolf Von. KOMPARATO. 1996. Arthur Machado. São Paulo: Hemus. IHERING. 23. “Curso de Direito Administrativo”. Saraiva. MELO. Trad. “Direito Constitucional”. 5ª ed. ROUSSEAU. Eduardo Fonseca. Miguel. 7ª ed. 21.. Atlas. Nestor Silveira Chaves Rio de Janeiro: Ed. Fustel de. Hemus. COULANGES. 12. Márcio Pugliese e Norberto de Paula Lima. estudos sobre o direito. s. São Paulo: Ed. Alexandre. Malheiros Editores. rev.24 BIBLIOGRAFIA ARISTÓTELES. Jonas Camargo Leite e instituições da Grécia e de Roma. São Paulo: Saraiva. 1994. ed. “Direito Público: estudos e pareceres”. 2006. Forense. “Teoria geral do Estado”. Trad. REALE. MORAES. Rio de Janeiro: Ed. Ediouro. 1999. A luta pelo direito. A cidade antiga: ed. 5ª ed.d. São Paulo: Ed. São Paulo. Fábio Konder. Celso Antônio Bandeira de. PAUPÉRIO. 1975. João Vasconcelos. “Lições preliminares de Direito”. 1967. “Do contrato social e discurso sobre a economia política”. 1996.

WEFFORT. “Os clássicos da política”. 5ª ed. São Paulo: Ed. 1995. Ática. “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens“. . Ática.25 ROUSSEAU. Francisco C. Jean-Jacques. 1989. São Paulo: Ed.