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ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICODRAMA E SOCIODRAMA

Curso de Formação em Psicodrama

CAMILA TYRRELL TAVARES

Doenças Sexualmente Transmissíveis, AIDS e Gravidez na Adolescência A conscientização da prevenção através da ação psicodramática

SÃO PAULO

2011

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CAMILA TYRRELL TAVARES

Doenças Sexualmente Transmissíveis, AIDS e Gravidez na Adolescência A conscientização da prevenção através da ação psicodramática

Monografia apresentada ao Curso de Formação em Psicodrama da Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama e a Federação Brasileira de Psicodrama, como requisito parcial para a obtenção do título de Psicodramatista Socioeducacional.

Orientadora: Herialde Oliveira Silva

SÃO PAULO

2011

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“Deus está sempre dentro de nós, tal como está para as crianças. No lugar de descer dos céus, entra pela porta do cenário. Deus não morreu, vive no psicodrama”.

DEDICATÓRIA

J. L. Moreno

Dedico este trabalho aos meninos e meninas da ONG Promove que contribuíram para o meu aprendizado do papel de psicodramatista.

este trabalho aos meninos e meninas da ONG Promove que contribuíram para o meu aprendizado do

AGRADECIMENTOS

Agradeço:

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A Deus que me permitiu e permite viver.

Ao criador do psicodrama, Jacob Levy Moreno, pelo seu Projeto Socionômico, que tanto admiro e considero inspirador.

A minha mãe, meu fiel ego auxiliar, com quem absorvi, através de

sua sensibilidade e delicadeza, o conteúdo primário do amor.

Ao meu pai e irmão, que proporcionaram o masculino do meu Eu, tão necessário aos papéis de minha vida.

A Herialde, pela paciência, amor e amparo na construção do meu

papel de psicodramatista e de meu ser cósmico.

A Luiza, minha companheira, ego e grande amiga de jornada.

Ao Jefferson, pelo companheirismo e amor, o ser com quem senti pela primeira vez o real significado do Encontro!

2011

Ao Jefferson, pelo companheirismo e amor, o ser com quem senti pela primeira vez o real
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Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada à fonte.

Catalogação da Publicação:

desde que citada à fonte. Catalogação da Publicação: TAVARES, Camila Tyrrell Doenças Sexualmente

TAVARES, Camila Tyrrell

Doenças Sexualmente Transmissíveis, AIDS e Gravidez na Adolescência - A conscientização da prevenção através da ação psicodramática./ Camila Tyrrell Tavares São Paulo, 2011. 53 f. + anexos; 30 cm.

Monografia (Formação em Psicodrama no foco Socioeducacional)

Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama, São Paulo, 2011.

Orientadora: Psicodramatista Docente Supervisora Herialde Oliveira Silva.

1. Psicodrama, 2. Adolescência, 3. Prevenção, 4. Conscientização, 5. Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), 6. AIDS, 7. Gravidez, 8. Sexualidade.

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CAMILA TYRRELL TAVARES

DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS, AIDS E GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA A CONSCIENTIZAÇÃO DA PREVENÇÃO ATRAVÉS DA AÇÃO PSICODRAMÁTICA

Monografia apresentada ao Curso de Formação em Psicodrama da Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama e a Federação Brasileira de Psicodrama, como requisito parcial para a obtenção do título de Psicodramatista - Foco Socioeducacional e Federação Brasileira de Psicodrama.

Banca Examinadora

Aprovada em:

/

/ 2011

Herialde Oliveira Silva Psicodramatista Didata Supervisor / FEBRAP nº 43 - Foco Socioeducacional / FEBRAP nº 182 - Foco Psicoterápico

Lúcio Guilherme Ferracini Psicodramatista Didata Supervisor FEBRAP nº 210 Foco Psicoterápico

Norival Cepeda Psicodramatista Didata Supervisor / FEBRAP nº 124 Foco Socioeducacional / FEBRAP n° 006 Foco Psicoterápico

RESUMO

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Esta monografia, Doenças Sexualmente Transmissíveis, AIDS e

Gravidez na Adolescência - A conscientização da prevenção

através da ação psicodramática, relata o trabalho realizado com

adolescentes de uma comunidade carente da cidade de São Paulo.

A intenção principal foi a conscientização dos jovens através da

teoria e prática psicodramática, sendo esta considerada por seu

criador, Jacob Levy Moreno, a força principal de expansão de visão

e consciência.

Palavras chave: DST; AIDS; Gravidez; Adolescência; Sexualidade;

Psicodrama; Conscientização.

ABSTRACT

This paper, Sexually Transmitted Diseases, AIDS and Teenage Pregnancy - Awareness of prevention through psychodramatic action, has reports the work with adolescents from a underprivileged community in São Paulo.

The main intention was to consciousness among young people about prevention of sexually transmitted disease (STD), AIDS and teenage pregnancies through the theory and practice of psychodrama, which is considered by its creator, Jacob Levy Moreno, the main force of expansion of vision and consciousness.

Keywords:

Psychodrama; Awareness.

STD;

AIDS;

Pregnancy;

Adolescence;

Sexuality;

Sumário

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Introdução

 

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Justificativa

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Objetivo

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I.

Capítulo Tema

15

Adolescência

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Mudanças físicas e psíquicas

16

Mudanças psicossociais

16

 

A

adolescência e as fases evolutivas do pensar, sentir

e

da vontade

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Conscientização, aprendizado e sensibilização

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Sexualidade na Adolescência

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II. Capítulo - Psicodrama

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Psicodrama e seu criador

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Psicodrama: O Método

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A

filosofia do Encontro EU=TU

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Conceitos básicos da Teoria Psicodramática

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Espontaneidade (fator e)

26

Criatividade

28

Adequação da Resposta

29

Tele

30

Teoria do Momento

31

Teoria da Matriz de Identidade

32

Teoria do Núcleo do Eu

34

Teoria dos Papéis

36

Prática Metodológica

39

A Sessão de Psicodrama:

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Contextos - Etapas - Instrumentos

39

O

Jogo como Recurso

44

III. Capítulo - Método Aplicação Prática

45

Procedimentos (coleta de dados e pesquisa de campo)

45

Resultados

47

Discussão

48

Conclusão

50

IV. Capítulo - Considerações finais

51

Referências Bibliográficas

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Anexos

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Introdução

Lembro-me da primeira vez que tive contato com o tema da sexualidade na escola EEPG “Ângelo de Siqueira Afonso”, São José dos Campos, na aula de ciências. A professora Arli falava com descontração sobre sexualidade e a importância da higiene pessoal apesar de todos nós, alunos da 6ª série A, estarmos rindo pela vergonha frente ao assunto.

Era o ano de 1988, eu já estava com 12 anos e as transformações do meu corpo já haviam iniciado. Começava a se moldar o “ficar” como teste preliminar dos namoros. As relações davam os primeiros passos para a superficialidade em meio a tumultuada explosão dos hormônios e da descoberta da Aids e suas primeiras vítimas no Brasil (Henfil, 04/01/1988 e Lauro Corona,

20/07/1989).

Minha

mãe

acabava

de

especializar-se

psicodramatista

iniciando a influência Moreniana em minha vida.

Mais alguns anos se passaram e eu lia e relia notícias e informações sobre métodos anticoncepcionais, o uso da camisinha, Aids e DST. Explicava e orientava desde as auxiliares domésticas que passaram pela minha casa até colegas de classe. Percebia a carência de informação e me interessava pelo tema.

Em meados de 1993, trabalhei como secretária num consultório de psicologia. Digitava textos sobre Psicodrama e Sociodrama, tendo contato com a literatura e com a história de seu criador, J.L. Moreno.

Em 1999 graduei-me Farmacêutica Bioquímica e passei a prestar assistência farmacêutica em balcões de drogarias, onde

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mais uma vez me vi orientando adolescentes estudantes de colégios próximos às drogarias sobre prevenção da gravidez e doenças sexualmente transmissíveis. Este novo contato, agora em condições ainda mais consolidadas pelo conhecimento e maturidade despertou-me o interesse por realizar trabalhos sobre o tema da sexualidade com adolescentes.

Após a frustração de algumas tentativas de formação de grupos de adolescentes para trabalhos nas farmácias me dei conta da necessidade de uma metodologia mais eficaz. Escolhi o Psicodrama e ingressei no curso que modificou minha forma de enxergar o ser humano, em sua capacidade criadora e cognitiva.

O curso de formação em Psicodrama e a necessidade da pesquisa-ação vieram de encontro a esse desejo e possibilitaram o trabalho realizado na ONG PROMOVE com adolescentes da Zona Norte de São Paulo, bairro Vila Penteado, no período de fevereiro a setembro de 2006.

Os dados com os quais nos deparamos a cada dia através da mídia, de que cada vez mais adolescentes iniciam mais cedo sua vida sexual expondo-se a doenças e a gravidez indesejada são alarmantes, principalmente em se tratando das estimativas no que se refere ao número de adolescentes e jovens grávidas contaminados com o vírus HIV, acarretando na transmissão vertical.

Os casos de AIDS em jovens de 13 a 24 anos de idade são responsáveis por 11,3% (66.751) dos casos acumulados no país desde 1980 até junho 2010. A maior proporção dos casos de AIDS nos jovens de 13 a 24 anos de idade, em ambos os sexos, está atribuída à categoria de exposição sexual, sendo 73,8% no sexo

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masculino e 94,0% no sexo feminino, no ano de 2009 (Anexo 1). (Boletim Epidemiológico, SUVIS, 2010).

O número de óbitos em jovens de 1998 a 2009 foi de 7.443,

sendo 58% no sexo masculino e 42% no sexo feminino. Nos últimos dez anos, o país tem registrado uma média de 589 óbitos por ano

entre os jovens.

Analisando o acumulado dos casos de AIDS notificados em indivíduos de 13 anos e mais no sexo masculino, a maioria destes (63,6%) relaciona-se à categoria de exposição sexual, distribuídos entre heterossexual (31,2%), homossexual (20,6%) e bissexual (11,8%). No sexo feminino, os casos de AIDS estão relacionados majoritariamente (91,2%) à categoria de exposição heterossexual (Anexo 2). (Boletim Epidemiológico, SUVIS, 2010).

No âmbito social, uma gama variada de estímulos atinge os adolescentes. Nos últimos tempos, eles são provenientes dos meios de comunicação de massa, principalmente da internet. A velocidade e a intensidade de penetração com que esses meios atingem as culturas têm sido muito intensas, chegando a suplantar a possibilidade de assimilação e a distorcer culturas tradicionalmente estáveis. Em contrapartida, o ambiente sociocultural tem se mostrado mais receptivo aos temas da sexualidade (Dubeux, 1998, pag. 158).

O desaparecimento dos valores tradicionais, as atrações do

mundo consumista urbano e as condições econômicas reais nas cidades favorecem tanto as relações sexuais pré-matrimoniais com diferentes parceiros, quanto à prostituição juvenil. Assim, aparecem as várias consequências negativas: gravidez não desejada e aborto e/ou DST/AIDS. Cada vez mais a escolha do parceiro,

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anteriormente assunto acordado entre as famílias, é assumida pelos próprios jovens. Isto, por sua vez, favorece que tenham relações sexuais com diferentes parceiros antes de encontrarem o parceiro escolhido. O diretor do programa global sobre AIDS da OMS (Organização Mundial de Saúde) expressou a sua preocupação com as seguintes palavras:

"Em muitas partes do mundo, a metade de todos os jovens até a idade de 15 ou 16 anos já teve relações sexuais, e milhões de adolescentes, já com 12 ou 13 anos. Principalmente as DST, entre elas a AIDS, é que colocam as jovens em perigo. Elas têm a tendência de casar ou manter relações com homens mais velhos, que já têm experiências sexuais. Pelo fato das mulheres

serem a parte receptora, elas se arriscam mais

das infecções pelo HIV nos adolescentes? Estima-se que, atualmente, cerca da

metade de todas as infecções pelo HIV ocorreram em jovens com menos de 25 anos de idade. Em outras palavras: desde o início da epidemia da AIDS, ao menos 6 milhões de jovens se contaminaram com o vírus do HIV através de relações sexuais desprotegidas ou pelo uso de seringas em comum. O potencial para a continuação da disseminação entre os adolescentes é enorme, principalmente porque 800 milhões deles vivem em países em desenvolvimento onde a epidemia se expande mais rapidamente" (Görgen, s/d).

Como é que está a situação

Justificativa

Mobilizada por dados tão alarmantes me cobrei à responsabilidade de interferir neste cenário. Por estar cursando psicodrama e verificar em vivências psicodramáticas pessoais fortes mudanças, acreditei que o psicodrama poderia ser uma metodologia eficiente e eficaz para conscientização e sensibilização.

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Esse trabalho foi feito como exigência para conclusão da formação em Psicodrama foco sócioeducacional. Foi realizada uma ação psicodramática sistemática na unidade Vila Penteado da ONG Promove Ação Social, no decorrer do ano de 2006, através da experimentação da Teoria Socionômica de Moreno. Foi abordado o tema sexualidade na adolescência e prevenção de DST, AIDS e Gravidez na Adolescência.

Objetivo

Preparar jovens através de orientação, conscientização e sensibilização, sobre prevenção de DST, AIDS e gravidez na adolescência, utilizando o método Psicodrama que possibilita, através de ações e dramatizações, que os jovens discutam, esclareçam e vivenciem situações relativas aos temas propostos.

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I Capítulo - Tema

Adolescência

A palavra adolescer vem do latim e significa crescer, engrossar, tornar-se maior, atingir a maioridade. (Tiba, 1986, pag.

37).

Puberdade é uma palavra derivada da palavra púbis, que em latim significa “penugem, pelo”. Este é um dos primeiros sinais do conjunto de transformações que ocorrem na passagem da infância para a adolescência, o aparecimento dos pelos corporais. São inúmeras e profundas as transformações psicofisiológicas e é o período em que o ser humano sofre as maiores modificações no seu processo vital.

Esta fase não possui um determinante cronológico, pois além das características físicas, leva-se em conta a bagagem psicológica, as aspirações e o meio em que vive, mas convencionou-se socialmente que o adolescente torna-se adulto a partir do momento que se mantêm socioeconomicamente, sem depender dos pais ou responsáveis. (Tiba, 1986, pag. 37). Nesta visão é possível ter-se um período um tanto quanto longo de adolescência, visto que alguns adultos permanecem dependentes de seus pais.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o período que compreende a adolescência é dos 13 aos 24 anos. Neste trabalho foi adotada a descrição segundo a OMS.

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Mudanças físicas e psíquicas

As fases da adolescência podem ser descritas como pré- pubere, púbere e pós-púbere. A primeira compreende a progressão da criança no seu desenvolvimento para a maturidade e é perturbada pelas alterações físicas, seus motivos, suas capacidades e as demandas do meio, obrigando-a a uma profunda reorganização intrapsíquica. (Bolsanello, A. e M., 1983, pag. 51). A fase púbere se inicia por volta dos 13 anos, representada pela maturação dos órgãos reprodutores e preparo do indivíduo para a sexualidade adulta. (Bolsanello, A. e M., 1983, pag. 51). Fase pós-púbere inicia-se entre os 15 e 20 anos. Compreende o período em que o adolescente enfrenta o problema vocacional, ajustamento profissional, emancipação familiar, desenvolvimento de relações satisfatórias com o sexo oposto e cristalização de uma identidade pessoal. (Bolsanello, A. e M., 1983, pag. 51).

Mudanças psicossociais

Além de todas as mudanças físicas há um contínuo turbilhão de emoções remexendo dentro do adolescente. Os pais esperam dele atitudes de adulto, mas não hesitam em tratá-lo como criança, muitas vezes em público. Aparece a sensação de humilhação. Tudo é ambíguo ao entorno dele. Existem muitos lutos a serem vividos na adolescência: do corpo infantil, dos pais idealizados e heroicos e de um mundo pequeno, familiar protetor. A casa dos pais, o seio familiar, é a

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primeira amostragem, reduzida, da sociedade em que o adolescente esta inserido. É o resultado de uma aventura, mas aventura de outro. Ele desconhece as “batalhas” travadas contra monstros e catástrofes, lágrimas derramadas que foram vividas para a construção do universo que ele faz parte, mas de que não é autor nem protagonista. Aparece o ímpeto de lançar-se pelo mundo, de romper com o “morno” do ambiente familiar, para ver o que existe por trás da montanha. Medo e sedução estão presentes. Enfrentar o medo do desconhecido, experimentar a ausência, a saudade é que permitirão o amadurecimento. (Rosenberg, 1995, pag.91). Mais do que um fenômeno biológico, emocional, universal e cultural; é um fenômeno psicossocial, moldado por aspectos econômicos e políticos e que influencia o ser adolescente. Inicia-se a rematrização, novamente todo o processo da Matriz de Identidade (indiferenciação, reconhecer-se, reconhecer o outro). Perde-se a imagem de criança e uma nova imagem, identidade, papel se inicia. (Picolo, 1999, pag. 10). Conforme tenha sido essa experiência quando bebê, durante a matrização, ele passara para esta próxima etapa de seu desenvolvimento.

As Fases evolutivas do pensar, sentir e da vontade

O pensar é uma função que surge do processo de interiorização do mundo exterior. Através da percepção, via cinco sentidos, canais pelos quais recebemos as mensagens externas, o mundo exterior torna-se o mundo humano interior. O material da percepção é comparado internamente com as percepções já elaboradas, produzindo uma imagem provisória do mundo baseada

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na experiência e que enriquece nossas reações defensivas. (Lievegoed, 1994, pag. 108). O sentir, do ponto de vista humano, constitui um mundo fechado de sentimentos e existe como um estado. Tem um significado diferente de sentir relacionado a sensações, como o prazer ou desprazer, relacionados com os impulsos e desejos vitais; Esses surgem automaticamente como reação ao mundo exterior e cabe também aos animais. A alegria e o sofrimento são humanos, consistindo num estado de alma sensível.

O querer é a função de exteriorização do mundo interior. No

primeiro ano de vida da criança observamos o predomínio dos impulsos vitais. Após este período aparecem os impulsos humanos, até que desperta a consciência do eu, abrindo a possibilidade de exercer a vontade propriamente dita. Mas a consciência do eu ainda

é pouco contínua, pois o conteúdo abrange apenas as primeiras experiências de vida. A direção em que se desenvolverá no futuro dependerá dos conteúdos da consciência da criança. (Lievegoed, 1994, pag. 108).

Conscientização, aprendizado e sensibilização.

A palavra conscientização traz em si um significado muitas

vezes obscuro e de profunda dificuldade de explanação. Conscientizar é mais do que trazer a realidade, é mais do que tornar real. O que poderia ser chamado inicialmente de “primeira tomada de consciência” seria um olhar ingênuo, um entendimento

superficial do que seria a realidade. Mais profundamente,

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consciente numa segunda etapa seria a capacidade de distanciamento do “objeto” e sua observação/admiração. Ainda mais profundamente, mediríamos a consciência em relação a algo como sendo nossa capacidade de ação enquanto sujeito pensante; um ato de conhecimento profundo, da “práxis humana”, o agir conscientemente sobre a realidade objetivada, através de uma consciência crítica e com uma posição epistemológica. (Paulo Freire, 1921). Não existe consciência sem que haja consciência de mundo. A conscientização só é possível se levarmos em conta o sujeito e o ambiente em que este está inserido. Seu entendimento dependerá das leituras, vivências e ações que ele percebe a sua volta. Portanto, qualquer que seja o conteúdo a ser aprendido, o objeto cognoscível, deverá ser respeitada a experiência de vida e todas as suas implicações no sujeito. (Uydenbroek, s/d, 1998). Só podemos nos envolver efetivamente no processo de mudança se compreendermos que o trabalho de conscientizar deve ser feito a partir do nosso papel de cidadãos que podem manejar certos instrumentos, como o psicodrama por exemplo. Segundo Paulo Freire, “educar é conscientizar”, porém, criar consciência não é patrimônio apenas do educador, mas de toda a pessoa que possua elementos que lhe permitam compreender mais profundamente a realidade, servindo-se destes para promover a mudança. (Bustos, 1982, pag. 17).

Sexualidade na Adolescência

O indivíduo, quando criança, possui um período de “latência sexual”, uma acomodação dos impulsos sexuais, o que permite o

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desenvolvimento da personalidade no sentido da aquisição de habilidades instrumentais e da formação de atitudes sociais. Ao entrar na adolescência, os impulsos básicos e os conflitos emocionais emergem, obrigando a personalidade a reorganizar-se em busca de um novo equilíbrio. (Bolsanello, A. e M., 1983, pag.

51).

Não existe prazo determinado para a iniciação sexual. Atualmente a primeira relação sexual se dá, geralmente, no início da adolescência. Com o aparecimento dos primeiros sinais de amadurecimento fisiológico, orgânico e visual, acompanhado da menarca no caso das meninas, e os pela polução¹ noturna, no caso dos meninos, esses sinais anunciam que o corpo está fisiologicamente preparado para reproduzir. Iniciam-se os primeiros indícios da possibilidade da prática sexual. São transformações físicas carregadas de significados e emoções, despertando as fantasias e os temores. Rigidez na educação, aceitação pelo grupo, vaidade, necessidade de afirmação são alguns dos fatores que influenciam os adolescentes a iniciarem sua vida sexual, antes mesmo de uma concordância interna integrada e verdadeira. (Aratangy, 1995, pag. 103). Todos esses fatores podem desencadear problemas futuros, pois são influenciadores do papel sexual do adulto. O lançar-se para conhecer mundo e testá-lo, desprovido da maturidade cerebral frontal correspondente ao discernimento faz com que o adolescente embarque em experiências arriscadas, muitas vezes sexualmente e sem proteção (prevenção).

1. Ejaculação involuntária (Houais, 2001, pag. 348)

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II Capítulo Psicodrama

Psicodrama e seu criador

A proposta psicodramática causa certo impacto ainda hoje. Mesmo depois de 100 anos de sua criação, suas características e formas não convencionais despertam a atenção. Intimamente influenciada pelas áreas das artes e ciências humanas, esta metodologia ainda causa curiosidade onde quer que se proponha, e vem muitas vezes, acompanhada de estranheza e incomodo. Para entender melhor esse método, se faz necessário conhecer um pouco da história de seu criador: Jacob Levy Moreno. Nascido em 1889, em Bucareste, aos 5 anos sua família fixa- se em Viena, onde mais tarde estudou Filosofia e Medicina. Aos 4 anos de idade, Moreno dramatizou ser Deus, junto com os amigos, que desempenhavam o papel de anjos a sua volta. Empilharam cadeiras até o teto, montando assim o “céu” e Moreno escalou-as até chegar ao topo. Ao ser questionado por uma das crianças: Por que não voas? Atirou-se da pilha de cadeiras. Este feito lhe rendeu um belo susto e um braço quebrado. Este costuma ser chamado de primeiro psicodrama privado que se tem notícia, “Brincando de Deus”, e foi de grande importância em sua obra. (Fonseca, 1980, pag. 2) Moreno continuou atraído pela idéia do Jogo de Deus das crianças. Por volta de 1909, montou um grupo que deu início ao trabalho com crianças de rua nos jardins de Viena, com a proposta de resgatar a espontaneidade perdida. Tratava as crianças deixando-as brincar de Deus, se quisessem e, atuarem de improviso, assim como acontecera com ele na infância. Era uma

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espécie de tratamento para anjos caídos. Deste trabalho surgiu o teatro para crianças. No dia 1º de abril de 1921, Moreno surgiu no palco onde havia apenas um trono, uma coroa e um manto púrpura. Nesta época a Áustria vivia uma forte ausência de liderança. Moreno propôs ao público tratar o problema. Convidou os espectadores para, um por vez, subir ao palco, experimentar a posição de liderança e tentar convencer aos demais do porque deveria ser o novo líder. Ao final do trabalho, concluiu-se que, no momento, não havia ninguém a altura de tal posição. Foi considerada por Moreno a primeira sessão psicodramática oficial, o primeiro sociodrama. (Moreno, 1984, pag.

49).

No mesmo ano, fundou o “Teatro da Espontaneidade”. Entre o elenco de Moreno havia uma jovem atriz chamada Bárbara, que sempre representava papéis românticos e ingênuos. Era admirada por todos, inclusive por George, assíduo espectador, que após um tempo de afeição, tornou-se seu marido. Certo dia, George procurou Moreno para lhe pedir auxílio, colocando que Bárbara, na intimidade, se comportava muito agressivamente, muito diferente da mulher que todos estavam acostumados a ver no palco. Foi então que Moreno começou a tratá-la sem que ela percebesse. Solicitou que ela atuasse em papéis mais agressivos. Depois de um bom tempo, Bárbara e George trataram-se em cena e foram curados. O “Caso Bárbara” é o marco da conversão do Teatro para a Espontaneidade em Teatro Terapêutico. Este se tornou um lugar de reunião dos descontentes e rebeldes psicólogos, o berço da revolução criadora. O uso das técnicas lúdicas, a terapia de

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representações espontâneas, a psicoterapia de grupo e a aprendizagem de papéis, foram assimilados gradualmente por muitos psicanalistas e educadores. (Moreno, 1984, pag. 55). Em 1927, já em Nova Iorque, inicia seus trabalhos, nem sempre bem recebido. Publicou a primeira revista dedicada a psicoterapia de grupo: “Impromptu”. Dedicou-se profundamente ao estudo de uma escola de reeducação americana para meninas e a partir daí fundamenta definitivamente as bases da sociometria. (Fonseca, 1980, pag. 04). Nos EUA seu misticismo diminui e passa a permear menos sua obra, mas ele nunca fugiu de sua essência, pois acreditava no Homem e na Vida. Acreditava na relação horizontal com Deus e na liberação das centelhas divinas, que em tudo existe, através da espontaneidade e da criatividade. Sua obra, principalmente na juventude, tem forte influencia religiosa e este foi o alicerce para sua obra.

“o homem seria algo mais que um ser psicológico, biológico, social e cultural; seria fundamentalmente um ser cósmico”. (Fonseca, 1980, pag. 05).

Psicodrama: O Método

O Psicodrama é o método do Projeto Socionômico de J. L. Moreno que estuda e focaliza as relações humanas através da Sociometria, Sociatria e Sociodinâmica. Este método criado por Moreno e até hoje estudado e aprimorado por diversos profissionais de múltiplas áreas, tem suas origens no Teatro, na Psicologia e na Sociologia.

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O psicodrama surgiu da necessidade de adequar-se a

psicoterapia, verbal e analítica, a uma psicoterapia de ação, permitindo que seus elementos reais fossem reproduzidos tal como no cotidiano. A vida e as relações de um indivíduo, antes reestruturadas e reconstruídas em clínica, encontraram no

psicodrama um espaço para reproduzir-se da mesma maneira que ocorria na realidade.

“O homem isolado, só, é uma abstração, não existe. Para ser, nascer, crescer, viver e reproduzir-se, necessita de outros”. (Bermúdez, 1980, pag. 21).

Assim permitiu-se o tratamento do indivíduo não mais de forma isolada e verbal, mas em grupo e com métodos de ação. Desenvolveu-se uma teoria da personalidade e uma teoria do grupo, muito mais profundas e amplas que as sua predecessoras. (Moreno, 1984, pag. 59).

Consiste, inicialmente, de um processo de ação e de interação. O psicodrama faz intervir, manifestamente, o corpo em suas variadas expressões e interações com outros corpos”. (Bermúdez, 1980, pag. 21).

Drama, do grego, significa ação ou coisa feita. Literalmente, psicodrama é uma coisa feita à psique pela psique. É a psique em ação; é a exploração da “verdade” através da dramatização. (Moreno, 1984, pag. 78).

O psicodrama permite rever, reviver e compreender as

situações trazendo-as a tona de forma dramatizada, permitindo-se

experimentar a liberdade em relação a nossa própria natureza, como criadores e co-criadores de nossa realidade, libertando-nos

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das amarras da conserva cultural, dos prejulgamentos, julgamentos e preconceitos.

“Toda e qualquer segunda vez “verdadeira” é a libertação da primeira.

mesma dor não afeta o ator e o espectador como dor”

inconsciente, impensado, imortal. Cada figura viva nega-se e resolve-se a si

mesma através do psicodrama”. (Moreno, 1984, pag. 78)

“ a

“É algo indolor,

A filosofia do Encontro EU=TU

Martin Buber foi um filósofo, pesquisador das artes, sociologia

e religião, cuja teoria comunga com os ideais comuns a Moreno.

Ainda mais religioso e fortemente influenciado pelo hassidismo, publicou em 1923 o “Eu-Tu e Eu-Isso”, sobre a filosofia do encontro,

base filosófica do psicodrama. (Rolim, 2008). O Eu não existe sem o Tu. O Eu só existe porque existe o Tu. Moreno acreditava na incompleta concepção do ser sem o Tu. Psicodrama é relação, e a relação só existe com o outro.

“A teoria moreniana é basicamente dialógica. Nunca o EU poderá encontrar-se através de si mesmo, só poderá encontrar-se através do outro, do Tu”. (Fonseca, 1980, pag. 06)

Assim, através do Eu-Tu estabelece-se o mundo de relação. Apesar de a idéia central assumir um caráter humano, o Eu-Tu não necessariamente aplica-se somente entre pessoas. Para Buber, são

possíveis três esferas relacionais para este Eu-Tu: a primeira seria

a nossa vida com a natureza; a segunda a nossa vida com os

homens e a terceira a nossa vida com as formas inteligíveis. Buber coloca a “experiência” em contraposição a “relação”, sendo a

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“experiência” o racionalismo, metodológico e sistemático e a

“relação”, emocional, a libertação dos esquemas, cuja meta é um encontro com perspectivas mutualmente enriquecedoras.

A proximidade com o Divino se traduz no encontro. Deus

chega a confundir-se com o ser humano. Moreno concebe o encontro do homem com seu semelhante, de tal modo que o Eu passa a ser Tu; o Tu se transforma em Eu. É a realização da comunicação perfeita através da inversão (Eu-Tu; Tu-Eu), e seu resultado é o Encontro.

“O encontro não seria uma pura nomenclatura, mas um frente a frente, um cara a cara, dinâmico e vivenciado”. (Fonseca, 1980, pag.15).

Conceitos básicos da Teoria Psicodramática

Espontaneidade (fator e)

A essência da vida humana é ser inovadora. Um dos pontos principais cuja teoria moreniana difere das tradicionais teorias psicanalíticas é no aspecto do nascimento. Ao contrário de vários estudiosos que consideram um momento traumático, Moreno considera o nascimento uma situação natural pela qual cada um de nós deve passar durante nosso desenvolvimento. Trauma e sofrimento existiriam se permanecêssemos além do necessário dentro do ambiente uterino.

A situação mais nova que o ser humano pode viver é o

nascimento. Não existe registro anterior. Dalí para frente passará por outras novas situações, mas esta será a mais nova experienciada por sua estrutura mais bruta e crua. A esta resposta

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de um indivíduo frente a uma situação e a nova resposta a uma situação antiga, Moreno chamou de Espontaneidade. (Fonseca, 1980, pag. 12).

“Para que o bebê viva, essa resposta deve ser positiva e sem falhas. Deve ser rápida, reagindo ao estímulo do momento. Essa resposta pode ser mais ou menos adequada. Deve existir, pelo menos nos momentos cruciais, uma certa soma desse fator e (espontaneidade). Um mínimo de espontaneidade já é requerido no primeiro dia de vida”. (Moreno, 1984, pag.

101).

A Espontaneidade, enquanto função cerebral é a menos desenvolvida quando comparada a inteligência e a memória. Possuímos um repertório pobre de respostas às situações. Estamos despreparados para lidar com o fenômeno da surpresa. Somos altamente influenciados pela conserva cultural¹, que nos “amarra” a respostas pré-estabelecidas e aceitas pela nossa cultura e sociedade. Espontaneidade = de livre vontade.

a tendência de substituir a espontaneidade pelas “conservas

culturais”. No mundo moderno, cada vez menos se dá chance ao indivíduo para responder livre e adequadamente a estímulos novos”. (Fonseca, 1980,

pag. 13).

”existiria

Podemos considerar quatro formas independentes de espontaneidade que formam um fator e geral: qualidade dramática, criatividade, originalidade e adequação de resposta.

Qualidade dramática: A primeira forma, a qualidade dramática da resposta, confere novidade e vivacidade a sentimentos, ações e

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expressões verbais. É a energia exteriorizada pelo indivíduo, a força com que expressa suas emoções e sensações.

Criatividade: A segunda forma é a criatividade.

Criatividade = potencial de resposta, novas ou velhas, de um indivíduo.

A criatividade é a alma de toda existência orgânica. As árvores, as flores, os animais e as pessoas têm de ser criativos para sobreviverem. (Fonseca, 1980, pag. 15).

A ação criativa do ser permite sua perpetuação. Assim como Darwin teorizou a adaptação das espécies, a criatividade desses foi um dos fatores que permitiu a permanência ou extinção de inúmeros seres. O fator criatividade é o responsável pela existência de todas as coisas vivas. Moreno explica que, no homem produtivo e criador, sua mente encontra-se num permanente status nascendi¹, repleta de sementes criadoras, sempre disposta a se desfazer das amarras da das conservas existentes e a criar novas formas, novas idéias e novas invenções. Constantemente está empenhado em produzir novas experiências em seu próprio íntimo, a fim de que elas possam transformar o mundo a sua volta, enchendo-o de novas situações. Essas novas situações estimulam-no a outras novas experiências, que remodelam o mundo ao redor. Surge assim um ciclo incessante de criatividade. (Moreno, 1984, pag. 143). Originalidade: A terceira forma de espontaneidade é a originalidade. É um livre fluxo de expressão, não tão significativo

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quanto a criatividade, mas ao mesmo tempo é uma variação ímpar da conserva cultural. Esta forma fica bem ilustrada nos desenhos espontâneos das crianças, que acrescentam algo a forma original sem alterar sua essência. Como um sol desenhado com sardas e cabelos, por exemplo. (Moreno, 1984, pag. 142)

Adequação da resposta: A quarta forma a se considerar é a adequação da resposta. Um homem pode ser criativo, original, ter qualidade dramática, ser espontâneo, mas nem sempre da uma resposta adequada a novas situações. A resposta é adequada quando produz, na relação Eu Tu, prazer, ganhos e soluções.

produz, na relação Eu Tu, prazer, ganhos e soluções. Assim, a resposta a uma nova situação

Assim, a resposta a uma nova situação requer senso de oportunidade, imaginação para a escolha adequada, originalidade de impulso próprio de emergência, pelo que deve responsabilizar-se uma especial função e. É uma aptidão plástica de adaptação, mobilidade e flexibilidade do eu, indispensável a um organismo em rápido crescimento num meio em rápida mudança. (Moreno, 1984, pag. 143).

Outros fatores também entram de forma importante na resposta, como a inteligência e a memoria, mas Moreno chama a atenção para o fator e, pois a resposta é imediata, automática, e quanto mais desenvolvido esse fator em nossa mente, maior o nosso poder de realização, influência e mudança ao nosso redor. Moreno afirma que milhares de outros Bettovens e Cristos existiram, e que suas ideias criadoras, inteligência, memoria, educação e outros fatores são comuns a todos eles, mas o que os diferenciou em Bettoven músico e Jesus de Nazaré foi a espontaneidade, seu fator e. Moreno atribui a este fator o sucesso ou o fracasso de um ser. (Moreno, 1984, pag. 142)

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Tele

Para que o sucesso das relações de um indivíduo seja real e que este exista em sua completa forma, é primordial a existência do outro. Sem vínculos o homem não existe. O eixo para a postulação teórica de Moreno é o vínculo. (Bustos, 1979, pag. 16). Ao vínculo, este canal que produz aproximações proveitosas, que conecta dois seres via “mão-dupla”, Moreno chamou de Tele. Para efeito de estudo e medição, Moreno propôs estuda-lo na proporção de unidades. Cada pessoa possui uma capacidade de vincular-se, uma área vincular. Seus vínculos, seu fator Tele será mais ou menos desenvolvido de acordo com a disponibilidade de papéis de sua Matriz de Identidade.

A Matriz de Identidade é o conjunto de vínculos nos quais a pessoa se insere ao nascer. (Bustos, pag. 20).

Nossa capacidade de vinculação é desenvolvida de acordo com os vínculos que aprendemos a criar em nossa Matriz de Identidade.

Moreno introduziu o termo Tele (à distância) para designar o conjunto de processos perceptivos que permitem ao indivíduo uma valorização correta de seu mundo circundante. (Bermudez, 1980, pag. 60).

Assim, Tele pode ser considerado como fundamento de todas as relações interpessoais sadias. Mesmo em se tratando esta monografia de um estudo com foco sócioeducacional, portanto pedagógico, não podemos fugir de alguns conceitos elementares da psicologia. A base do estudo

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moreniano é terapêutica, portanto muitos dos conceitos apresentados são psicoterápicos. Quando Moreno nos fala de relações interpessoais sadias tendo como foco o estudo de Tele, atribui a este a idéia de não transferência. Portanto, Tele é a percepção do outro em sua essência real. Tele é comunicação. É quando capta-se a intensão real do outro dentro da comunicação.

Teoria do Momento

O momento é a abertura pela qual o homem passará em seu caminho. J.L.Moreno

O momento foi posto de lado nas teorias psicanalíticas e outras que lidaram com o Eu-Tu. Moreno põe seu olhar na importância do momento, no aqui e agora, e critica a linguagem elaborada das filosofias de existência de forma estática, propondo a ação, a práxis. É de conhecimento popular que nossa ação está no aqui e agora, no presente. Não podemos agir no passado nem no tempo futuro. O aqui e agora é que nos permite alterar. Na filosofia do Momento Moreno pretende captar a realidade humana, tal como ela é, em todas as suas dimensões, reais, irreais ou existenciais. Isso implica no conceito do aqui e agora: cada ser, cada ato, tem uma existência num tempo concreto (momento), num lugar concreto (locus) e em ambiente concreto (matriz). Tudo na vida é existencial no aqui e agora. Segundo Moreno, para que o momento possa ser experimentado como um momento, literalmente, requer as

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seguintes circunstâncias: a) deve ocorrer uma mudança na situação; b) a mudança deve ser suficiente para que o indivíduo perceba a experiência de novidade; c) essa percepção implica atividade por parte do indivíduo, um ato de aquecimento preparatório de um estado espontâneo. (Moreno, 1984, pag. 155).

É devido à operação de um fator e que pode ter lugar uma mudança na situação e que uma novidade é percebida pelo sujeito. Uma teoria do momento é inseparável de uma teoria de espontaneidade. (Moreno, 1984, pag. 155).

Teoria da Matriz de Identidade

O nascimento de uma criança é um acontecimento compartilhado entre ela e a mãe. Assim que o bebê nasce, implanta-se em uma nova matriz, diferente da placenta onde passou os últimos 9 meses, a família. Habitualmente a família é o grupo social do qual ela depende que supram suas necessidades fisiológicas, psicológicas e sociais.

“É a placenta social da criança, o ‘locus’ onde se prende”. (Moreno, apud Bermúdez, 1980, pag.46).

Neste ambiente, Matriz de Identidade, através do contato vivencial, o bebê incorpora, num nível primário, as características familiares e se desenvolve assimilando o seu meio. Inicialmente está ligada aos processos fisiológicos e conforme evolui, a criança vincula-se aos processos psicológicos e sociais.

“A Matriz de Identidade provê, pois, a criança do alimento físico, psíquico e social”. (Bermúdez, 1980, pag. 47).

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Cada Matriz de Identidade possui um determinado número de papéis que são oferecidos. Assim, ocorre a transmissão da herança sociocultural, através de cada papel. Essa aprendizagem varia em tempo e duração e ocorre através de um processo de diferenciação

e inversão de papéis, em cinco etapas:

1ª Etapa: Corresponde a identidade total entre o Eu e o Tu. O acontecimento, o ato, acorre sem que o Eu diferencie o que é próprio dele e o que é do outro. Tudo é ele e ele é tudo. Tudo é uma extensão dele mesmo.

2ª Etapa: O Eu atenta para o Tu e estranha parte dele. Percebe o outro, mas não se percebe. Não tem entendimento de si nem de sua dimensão. Tudo fora de si é o outro (Tu).

3ª Etapa: O Eu já consegue separar pessoas de coisas entre si e de si mesmo. Consegue delimitar a outra parte, separando-a de outras experiências e de si mesmo.

4ª Etapa: O Eu começa a jogar os papéis que lhe foram disponibilizados pela Matriz de Identidade. Ela joga o papel da outra parte ativamente. A tomada de papéis na criança é uma longa fase até a inversão completa na maturidade do Eu.

5ª Etapa: O Eu inverte o papel com o Tu. Ele joga ativamente

o papel do Eu, e o Tu joga o papel do Eu. A inversão só acontece quando o ser humano assume o papel do outro com

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espontaneidade, criatividade, tele e adequação, isto é, com responsabilidade. Esse processo é de extrema importância, pois a forma como um indivíduo passou por estas etapas e por cada uma delas na infância se repetirá a cada novo papel que se inicie em sua vida, internamente e em suas relações. Por exemplo, quando for à escola, iniciará o papel de estudante. Todas as etapas descritas se repetirão, e seu papel se desenvolverá. Caso tenha tido algum problema durante essas etapas, provavelmente, durante o desenvolvimento do novo papel, o problema reaparecerá.

A Matriz de Identidade é o processo responsável pela

formação da Identidade de um indivíduo ou de um grupo. Os grupos também passam por estas fases e pelo desenvolvimento de um papel.

Teoria do Núcleo do Eu

Todo indivíduo, assim que nasce, inicia a formação de seus

papéis, que serão, numa fase mais adiante, formadores do Eu e responsáveis pela forma que este indivíduo desempenha seus papéis.

Os papéis psicossomáticos ou fisiológicos são aqueles ligados

a funções fisiológicas indispensáveis. Fundamentam-se na complementação das estruturas Genéticas Programadas internas e externas e envolvem tanto os indivíduos como o seu meio (Matriz de Identidade). O indivíduo nasce com uma série de necessidades que são satisfeitas, em condições normais, por seu ambiente. O conjunto das necessidades de cada papel e do indivíduo, em função deste papel constitui a Estrutura Genética

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Programada Interna e o conjunto dos elementos que o ambiente fornece a criança, que satisfaz suas necessidades, constitui a Estrutura Genética Programada Externa.

constitui a Estrutura Genética Programada Externa. Neste esquema de Bermudez podemos exemplificar: 1. A

Neste esquema de Bermudez podemos exemplificar: 1. A necessidade de fomento de estímulos térmicos da criança; 2. Um agasalho, acalanto e carinho da mãe para aquecê-la; 3. Traço criado pela interação das estruturas genéticas complementares e pela descarga tensional correspondente. Tensão gerada, por sua vez, pela necessidade. Ingestão, Defecação e Micção são as funções fisiológicas que dão origem aos papéis psicossomáticos:

1) Papel de Ingeridor 2) Papel de Defecador 3) Papel de Urinador

O

Núcleo do Eu estrutura-se a partir do Si Mesmo Fisiológico.

O

Núcleo do Eu é a estrutura resultante da integração das três

áreas: mente (pensar), corpo (sentir) e ambiente (agir), com

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os três papéis psicossomáticos: ingeridor, defecador e urinador. (Bermudez, 1980, pag. 123).

ingeridor, defecador e urinador. (Bermudez, 1980, pag. 123). Onde: PI: Papel Ingeridor; PD: Papel Defecador; PU:

Onde: PI: Papel Ingeridor; PD: Papel Defecador; PU: Papel Urinador; AA: Área Ambiente; AM: Área Mente; AC: Área Corpo.

Teoria dos Papéis

Existem várias definições para papel, inclusive nas artes cênicas. Moreno também define papel como sendo personagens ou funções assumidas na realidade social, como professor, por exemplo, e são formas reais e tangíveis que o Eu adota. O papel é uma cristalização final de todas as situações vividas numa área específica, pelas quais o individuo passou.

Papel são unidades culturais de conduta e, portanto, possuem as características e as particularidades próprias da cultura em que se estruturam. (Bermudez, 1980, pag. 56).

Segundo

a

classificação

de

fundamentais de papel:

Moreno

temos

três

tipos

1) Papéis

psicossomáticos

ou

fisiológicos:

Expressam

a

dimensão

fisiológica

e

são

responsáveis

pelo

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desenvolvimento do Eu. Estão ligados as funções fisiológicas, relacionadas com o meio: ex. comer, dormir, defecar, etc.;

2) Papéis sociais: são os papéis adquiridos na Matriz de Identidade dos grupos nos quais o individuo é inserido. Corresponde às funções sociais assumidas pelo indivíduo, através das quais se relaciona com seu meio social;

3) Papéis psicodramáticos: Expressam a dimensão psicológica do Eu e surgem da atividade criadora do indivíduo. Envolvem tanto os papéis existentes, pré-existentes quanto os da fantasia.

A teoria psicodramática dos papéis leva o conceito de papel a todas as dimensões da existência, desde a fase não verbal, continuando por toda a vida do indivíduo. Para todo papel desempenhado por um individuo existe um papel complementar, desempenhado por outro indivíduo específico, e cuja função é complementá-lo. Por exemplo, um indivíduo só possui o papel de filho se existe uma mãe (papel) que o complemente. Um papel de médico é complementado pelo de paciente, e assim com todos os demais papéis possíveis.

O individuo passa então a desempenhar seus papeis na vida. De acordo com o desempenho dos papéis, podemos encontra-los em várias fases de desenvolvimento, sempre comparado ao seu complementar. Por exemplo: Quando um indivíduo desempenha um papel adequadamente, numa relação produtiva entre ele e seu

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complementar,

indivíduo possui um papel, mas desempenha-o pouco ou insatisfatoriamente, temos o papel pouco desenvolvido.

O desempenho de papéis de um indivíduo pode ser entendido

através do diagrama de esquema de papeis de Bermudez. (Fig. 1).

(Bermudez, 1980, pag. 95).

o

chamamos

de

papel

desenvolvido.

Quando

Figura 1:

pag. 95). o chamamos de papel desenvolvido. Quando Figura 1: O círculo externo de linha contínua

O círculo externo de linha contínua corresponde ao limite de

“si mesmo”, como limite psicológico da personalidade e tem uma função protetora, relacionado com os mecanismos de defesa. Os

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papéis (3,4) são prolongações do Eu, e é por intermédio deles que se relaciona com os papéis complementares.

Prática Metodológica

A Sessão de Psicodrama

O psicodrama é basicamente um método de ação. A sessão constitui seu campo de ação, onde se opera com técnicas (solilóquio, duplo, espelho, etc.) e finalidades determinadas. Em uma sessão psicodramática levam-se em conta: três contextos, cinco instrumentos fundamentais e três etapas. (Bermudez, 1980, pag. 25).

Contextos: Social, Grupal e Dramático.

Contexto Social: é o que Moreno chama de realidade social. Neste contexto encontramos as leis e normas sociais, que determinam as condutas e normas ao indivíduo que a integra. Deste contexto provem o material trazido pelo indivíduo as sessões psicodramáticas.

Contexto Grupal: É constituído pelo grupo. Inclui todos os indivíduos presentes na sessão psicodramática, inclusive diretor e egos auxiliares. Neste, as normas e leis são particulares, inclusive a cada grupo. O grau de compromisso é semelhante ao do contexto social, isto é, cada indivíduo é responsável por seus atos e palavras frente aos outros e frente ao grupo. Diferencia-se do contexto social por possuir maior liberdade, tolerância e compreensão dadas às

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intenções do trabalho psicodramático proposto e conhecido por todos.

Contexto Dramático: Dramatização. É a cena montada pelo protagonista e pelo Diretor. É neste contexto artificial e fantástico que os protagonistas desenvolvem seus papéis no “como se fosse realmente”. No palco, procura-se transformar o campo tenso do protagonista num campo relaxado. Cria-se um ambiente para que o protagonista sinta-se seguro para poder expressar, através dos papéis desempenhados, seus mais ocultos sentimentos e realizar seus atos mais temidos.

Instrumentos:

Platéia.

Protagonista,

Palco,

Ego

auxiliar,

Diretor

e

Protagonista: É considerado o emergente dramático do grupo que, de alguma maneira, foi eleito pelo grupo como o representante deste. Em torno desta pessoa é que se centraliza a dramatização. Traz a cena para dramatizar e a desempenha.

Palco: Lugar habitualmente onde ocorre a dramatização. Quando existe a possibilidade de um palco circular, segue-se mais rigorosamente o proposto por Moreno. Quando não se tem esta possibilidade, delimita-se com um tapete ou uma marca com fita ou desenho. O importante é termos em mente que o palco existe para distanciar bem o contexto dramático do contexto grupal. No palco constrói-se o cenário.

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Ego auxiliar: são integrantes da equipe que acompanha o Diretor. Possuem conhecimentos e treinamento psicodramático prévio. São elementos fundamentais para a dramatização, pois devem colaborar com o protagonista, desempenhando personagens e criando uma atmosfera cênica. São considerados extensões, prolongamentos do Diretor, que entra em contato com o Protagonista, e aplicam técnicas psicodramáticas específicas quando solicitados pelo Diretor. Servem de instrumento ao Protagonista para seu processo psicodramático.

Diretor

É o responsável pelo psicodrama, nos seus diversos aspectos. Para tal, deve possuir uma sólida formação psicodramática, que lhe permita desempenhar seu papel com comodidade e eficácia. Possui função de produtor, discriminando o material trazido pelo Protagonista, avaliando e dirigindo as cenas da forma que considera conveniente e que favoreça a ampliação de visão e consciência do Protagonista. Além da função de terapeuta, em se tratando de um grupo terapêutico, desempenha a função de analista social, avaliando todo o conteúdo trazido em relação ao Protagonista, aos egos auxiliares, ao grupo e grupos sociais, avaliando suas interações, pautas e normas. Cabem ao diretor a organização e concepção dos recursos e estratégias a serem utilizados pelos participantes e, quando necessário, aplicados pelos egos auxiliares.

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Platéia

Correspondem ao conjunto de pessoas presentes no contexto grupal, presentes na sessão, mas fora do contexto dramático. Possui a função de apoiar o Protagonista, visto que este o representa e se expõe. Sua presença dá maior riqueza, intensidade e compromisso aos atos realizados pelo Protagonista. Em relação à própria platéia, a presença de mais pessoas dá maior coesão ao grupo expectador e quanto menor o número de pessoas que se conheçam no contexto social, maior a intensidade afetiva, maior a repercussão na plateia.

Etapas:

Aquecimento

(inespecífico

e

específico),

Dramatização e Comentários (compartilhar).

Aquecimento: Conjunto de procedimentos que propiciam a preparação do organismo de um indivíduo, para que se encontre em ótimas condições para a ação. Assim, devemos considerar dois tipos de aquecimentos: inespecífico e específico.

Aquecimento Inespecífico: Consiste num conjunto de procedimentos destinados a prender a atenção da plateia, diminuir os estados de tensão e facilitar a interação entre os participantes de uma sessão psicodramática. Ocorre no primeiro período da sessão, e é onde o Diretor entra em contato com a plateia e inicia sua preparação para uma atividade comum.

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Aquecimento Específico: É o aquecimento realizado com o Protagonista que emerge do grupo, preparando-o para a ação psicodramática.

Dramatização: A dramatização é o núcleo do psicodrama e o caracteriza. Inicia-se com o encontro entre diretor e protagonista. O material trazido pelo protagonista é posto em cena com a maior fidelidade possível, e o diretor observa a estrutura e interações geradas pelo conteúdo. O diretor cria um clima afetivo para aumentar o compromisso do Protagonista com o contexto dramático, “como se fosse realmente”, e realiza intervenções por meio dos Ego Auxiliares ou do contexto dramático. A finalidade é a abertura de visão e consciência do indivíduo, uma compreensão súbita da situação. Moreno (apud Bermúdez, 1980, pag. 34) considera que a dramatização deve preencher os seguintes requisitos para ser efetiva:

- 1. Alcançar um alto grau de espontaneidade;

- 2. Obter uma boa representação, adequada à situação e ao Protagonista;

- 3. Envolvimento e comprometimento na ação, afetivo e

emocionalmente;

- 4. Externar e representar diferentes personagens, reais ou

imaginários, concretizando imagens. Desta forma possibilita-se ao

Protagonista condições de comparar e tomar consciência de outras colocações, diferentes das suas;

- 5. Permitir a introdução de todo o indício dado pelo Protagonista;

- 6. Não perder contato com a Platéia;

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- 7. Manter uma congruência entre a dramatização e a linha vital do indivíduo.

Comentários: Última etapa de cada sessão psicodramática e põe a atenção na plateia. Aqui, também se expõem comentários, correlações teórico-práticas, emoções, desempenho, situações, etc. Os participantes podem externar e compartilhar com o Protagonista suas impressões e sentimentos.

O Jogo como Recurso

Jogo é sinônimo de divertimento, de brincadeira que segue algumas regras. Através do lúdico possibilita-se o encantamento do indivíduo, sua fascinação. O jogo dramático acontece no contexto dramático, no “como se fosse realmente”.

Toda atividade que propicie ao individuo expressar livremente as criações de seu mundo interno, realizando-as na forma de representação de um papel, pela produção mental de uma fantasia, ou por uma determinada atividade corporal. (Monteiro, 1979).

O jogo, escolhido como recurso psicodramático, possibilita a

transformação interior do indivíduo através do lúdico, propiciando um relaxamento de possíveis campos tensos, para melhor desempenho dos papéis e expressão da espontaneidade do ser

durante a dramatização.

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III Capítulo - Método - Aplicação Prática

Tipo de estudo: Estudo qualitativo por meio de pesquisa-ação, com utilização do psicodrama socioeducacional.

Participantes: foram feitos 21 encontros com 37 adolescentes, divididos em três grupos, sendo o primeiro formado por 12, o segundo por 19 adolescentes e o terceiro por 6 adolescentes, de idades entre 15 e 22 anos completos moradores dos bairros paulistanos Freguesia do Ó, Brasilândia e Vila Penteado, que frequentavam projetos de ação social na sede da ONG PROMOVE.

Os encontros foram realizados na ONG PROMOVE. Foi obtida autorização da presidente da ONG que relatou já ter por escrito a necessidade da abordagem deste tema, sexualidade e prevenção, levantada pelos próprios adolescentes. Foi feita uma preparação para inserção do trabalho através de uma vivência com os educadores, dirigida pela supervisora do projeto, Herialde Oliveira Silva, realizado nas dependências da ONG. (Anexo III).

- Procedimentos (coleta de dados e pesquisa de campo):

- Foram feitos 07 (sete) encontros com o psicodrama, com cada um dos grupos, de fevereiro a setembro do ano de 2006, dirigidos pela pesquisadora, com o auxílio da ego-auxiliar Maria Luiza Rodrigues Ferreira do Valle.

- 1º Encontro:

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Apresentações, Objetivos e Contrato grupal

Entrevista com os componentes do grupo (jogo “Qualidades e Manias”)

Aquecimento corporal

Dinâmica Grupal: Diagnóstico da fase de desenvolvimento da Matriz de Identidade do grupo - Ver-se, perceber-se e perceber o outro.

- 2º Encontro:

Papéis Familiares (homem/mulher)

Contextualizar através do jogo a relação homem/mulher na família e como cada integrante do grupo se percebe inserido na sua própria família.

Dramatização: Foto da Família

- 3º Encontro:

Aquecimento corporal

Jogo do Semáforo: para sinalizar o conhecimento do grupo sobre sexualidade

Trabalhar as questões levantadas pelos participantes do grupo a respeito de sexo, sexualidade, erotismo, pornografia mitos e verdades.

- 4º Encontro:

Aquecimento: Alongamento corporal

Gravidez: Jogo da Barriga Grávida

Carta ao amigo (orientando como evitar a gravidez na adolescência).

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- 5º Encontro:

Aquecimento: Jogo corporal

Teatro Espontâneo: Doenças Sexualmente Transmissíveis.

- 6º Encontro:

Aquecimento: Falando com as vogais

Jornal Vivo: Assuntos Polêmicos de reportagens de periódicos sobre o tema sexualidade.

- 7º Encontro:

Avaliação através de Máscaras

Resultados:

As sessões foram registradas por meio de relatórios escritos.

Para cada encontro foi feita autoavaliação da diretora, da ego- auxiliar, avaliação de uma pela outra, discutidos em supervisão com a supervisora do projeto e foram feitos ajustes para os próximos encontros.

Houve acompanhamento pela entidade acolhedora do projeto e pela instituição de formação ABPS.

Serão apresentados os resultados do grupo I. As amostras de fragmentos dos relatórios elaborados durante as aplicações das vivências estão em anexo. (Anexos IV-X)

Entre as falas dos adolescentes que foram coletadas no sétimo e último encontro do grupo I, onde o trabalho foi avaliado através de máscaras, selecionamos as seguintes:

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Participante 1: com um histórico de duas gravidezes adolescentes na família (as duas irmãs mais velhas), que nos dois primeiros encontros estava convicta de sua escolha quanto a engravidar logo, ainda adolescente, nos emocionou ao apresentar no último

este curso

encontro (avaliação através de máscaras) o relato: -

endireitou minha vida. Vocês me colocaram no caminho direito

Participante 2: confeccionou uma máscara parecida com a do

Batman, preta, representando que depois das vivências passou a

se prevenir: -

depois da oficina comecei a usar camisinha, que

eu não usava antes

Participante 3: confeccionou sua máscara fechada, e quando a

esta oficina fez

abria, via-se o desenho do planeta Terra. –“

meu mundo se abrir ”

Participante 4: confeccionou uma máscara retangular, repartida em dois, com duas cores diferentes, um lado vermelho e outro lado rosa. Explicou que o vermelho representava a forma como chegou no curso, envergonhada com o tema. O outro lado, rosa, representava a forma como estava saindo, pois já lida bem melhor com o assunto sexualidade;

Discussão

Pelo que pude perceber durante todo o tempo em que realizei este trabalho, apesar de faltar conhecimentos consistentes de anatomia, fisiologia e DST, os adolescentes possuem informação sobre prevenção e de como colocá-la em prática, mas não acreditam na possibilidade de contraírem doenças pela falta de cuidados. Não gostam de utilizar o preservativo.

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Observando as posturas dos jovens após o trabalho, podemos dizer que estavam mais seguros de seus papéis, até mesmo de multiplicadores, projeto posterior aplicado pelos mesmos nas escolas municipais da região.

Na comunidade em que estão inseridos, após a conclusão do ensino médio, não recebem incentivo familiar nem governamental para continuarem os estudos acadêmicos. Esta falta de perspectiva gera insegurança quanto aos seus papéis sociais. Acabam por fazer a leitura de que os papéis respeitados socialmente são os de pais e mães, e consideram então que assumindo estes papéis serão respeitados. Por incrível que possa parecer, as adolescentes muitas vezes escolhem a gravidez.

Este trabalho mostrou-se desafiador por dois grandes motivos, tratou de dois assuntos difíceis e de forte “tabu”:

Adolescência (comportamentos, descobertas e conflitos) e Sexualidade.

A pesquisa-ação foi realizada para a verificação da eficácia do psicodrama, jogos dramáticos e da utilização de objetos intermediários na conscientização da necessidade de prevenção, para trazer a realidade do perigo em se contrair uma doença sexualmente transmissível ou uma gravidez indesejada ou precoce demais.

Entrar na esfera do como se fosse realmente, através de jogos, permitiu a liberação de conteúdos internos de forma a sensibilizar os adolescentes da necessidade de prevenção. O psicodrama foi eficaz tanto para ajudá-los a perceber a fragilidade de suas vidas frente as DST/AIDS e a dificuldade de se enfrentar uma gravidez na adolescência, bem como na

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conscientização e interiorização da importância do cuidado com a saúde, higiene pessoal e prevenção.

Conclusão

O psicodrama foi útil e eficaz no preparo dos jovens

adolescentes da Vila Penteado para a conscientização e sensibilização quanto à prevenção de DST/AIDS e gravidez na adolescência.

Os trabalhos realizados em comunidades como Brasilândia,

Freguesia do Ó, Vila Penteado, etc., são poucos e vale a pena um maior investimento governamental para ampliar trabalhos como este e, inclusive, cursos específicos para o melhor preparo de

educadores escolares, para lidarem com o tema nas escolas estaduais e municipais de forma eficiente e eficaz. O espaço escolar pode propor novos modelos de educação, atingindo assim mais estudantes, ampliando suas perspectivas de vida.

A questão sobre a escolha da gravidez durante a

adolescência como busca de um papel social “respeitável” requer mais estudos.

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IV Capítulo: Considerações Finais

Confeccionar esta monografia me permitiu adentrar novamente no universo moreniano, o que possibilitou o reforço de sua metodologia, não só no desenvolvimento de meu papel profissional, mas em todas as extensões de meu ser.

Rever o método psicodramático, apoderar-me novamente de sua teoria, revigorou minha paixão pelo projeto moreniano e reforçou meus sentimentos quanto a aplicação deste em meu trabalho.

Foi inspirador reencontrar minha querida Herialde, que com sua força, paciência e amor, inspirou-me os escritos e mostrou-me o caminho. Amparada pela mestra, ego auxiliar, até que eu pudesse seguir com meus passos, me fortaleci no papel de psicodramatista.

Mais importante que esta obra acabada, foi o encontro comigo mesma, fundamental para o crescimento do meu ser cósmico.

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53

Görgen, R. Sexualidade na adolescência - enriquecimento ou ameaça? s/d.

Lievegoed, B. Fases da Vida crises e desenvolvimento da individualidade. 3ª ed., Antroposófica, 1994.

Moreno, J. L. Psicodrama. São Paulo, Editora Cultrix, 1984.

Motta, J. O Jogo no Psicodrama, 2ª ed., São Paulo, Ágora, 1995.

Picolo, M.J. Sexualidade e Adolescência em Tempos de Aids – “O corpo que sente uma questão de gênero”. ABPS, 1999.

Rolim, V. Encontro. Texto, s/d.

Romaña, M. A. Pedagogia do Drama: 8 perguntas & 3 relatos. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2004.

Silva, H. Textos utilizados em aula durante a formação.

Tiba, I. Puberdade e Adolescência Desenvolvimento Biopsicossocial. 2ª ed., São Paulo, Ágora, 1986.

Uydenborek, X. Conscientização na Obra de Paulo Freire, I Colóquio Internacional Paulo Freite, 1998.

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ANEXO I

54 ANEXO I

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ANEXO II

55 ANEXO II

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ANEXO III

56 ANEXO III Educadores ONG PROMOVE – 2006

Educadores ONG PROMOVE 2006

56 ANEXO III Educadores ONG PROMOVE – 2006

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ANEXO IV RELATÓRIO - GRUPO I - ENCONTRO I

I. OBJETIVO

Relatar o primeiro encontro do Grupo I no trabalho de supervisão da Unidade Funcional (Camila e Luiza) com o tema “Sexualidade na adolescência”. Realizado nas dependências da PROMOVE, instituição social e educacional, voltada para crianças e adolescentes, o trabalho será realizado em 7 encontros de 2 horas, com a finalidade de atender conteúdos internos dos adolescentes, que têm o propósito de apresentar o tema Sexualidade aos estudantes (crianças e adolescentes) da comunidade da Freguesia do Ó e da Brasilândia, como agentes multiplicadores.

II. DESCRIÇÃO

Participantes: 11 adolescentes entre 15 e 22 anos.

III. ETAPAS

1) AQUECIMENTO INESPECÍFICO

Camila (diretora) iniciou se apresentando, pediu que a Luiza (ego auxiliar) se apresentasse e, logo após, explicou que trabalhariam o tema sexualidade. Propôs ao grupo uma apresentação individual em que falassem nome, idade e expectativa quanto ao encontro. Durante a apresentação dos participantes ouviu-se repetidamente que vieram para obter mais “conhecimento” sobre o tema, pois em breve estariam iniciando palestras em escolas como multiplicadores do tema, e acharam que teriam uma palestra.

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A diretora prosseguiu explicando que a objetivo real de estarem ali seria o de prepará-los para abordar o tema sexualidade de forma mais confortável e consciente ao atuarem como agentes multiplicadores, através do autoconhecimento e do conhecimento da própria sexualidade. Percebeu-se que houve interesse nesta proposta por parte dos adolescentes. Foi explicado também que este trabalho seria realizado através do psicodrama, método que ambas (diretora e Ego-auxiliar) estavam cursando.

Pediu que todos se levantassem e solicitou que se cumprimentassem como de costume. A maioria se abraçou e se beijou. Propôs então que se cumprimentassem de forma diferente, utilizando outras partes do corpo. Cumprimentaram-se nariz com nariz, ombro com ombro, quadril com quadril, e o clima ficou bem alegre.

2) AQUECIMENTO ESPECÍFICO

A Diretora solicitou aos participantes que andassem devagar pela sala e pensassem na palavra “sexualidade”. Num dado momento solicitou que parassem no lugar e fechassem os olhos.

Iniciou: - Pensem que vocês estão com 2 anos de idade. Estão engatinhando. Estão andando e brincando com seus brinquedos.

- Agora, estão com 5 anos, já brincam com amiguinhos. Agora com

7 anos estão descobrindo, tomando consciência do próprio corpo. -

Sintam o seu corpo.

- Agora, com a idade atual e quando sentirem-se confortáveis, voltar para a sala da PROMOVE, caminhando novamente e sentem-se.

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3) DRAMATIZAÇÃO:

Disponibilizamos material para dobraduras. Foi solicitado pela diretora que fizessem uma dobradura ou desenho do que é sexualidade para cada um.

4) COMENTÁRIOS

Após o tempo determinado, sentamos e compartilhamos os significados das obras criadas. Alguns conteúdos:

- Participante 1: (fez um coração vazado no papel vermelho, colado num papel azul e dentro escreveu amor) Fiz um coração e escrevi amor, porque pra mim não é só sexo, tem que ter amor.

- Participante 2: (fez o rosto de um cachorrinho) Fiz um cachorro, me desculpem os homens, mas pra mim, todo homem é cachorro. Mas também particularmente, adoro cachorro.

- Participante 3: (fez uma casinha e desenhou várias etapas do crescimento de um homem) Dá primeira vez que você falou pra gente pensar na palavra sexualidade eu imaginei logo

Sexo. Aí, depois que você

mandou a gente andar, pensei na mesma casinha, mas com o crescimento de pessoas.

uma casinha para se fazer

- Participante 4: (Fez uma nota musical, já no final do tempo estipulado) - Sei lá, acho que pra mim a palavra sensualidade tem a ver com sexualidade, e algumas músicas são sensuais.

- Participante 5: (Desenhou um homem e uma mulher, de mãos dadas e no meio da folha, cortou um coração vazado) Pra mim, sexualidade é um nada. Eu sou evangélica, e esse

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É um nada, pois não dá pra acreditar que de um

nada, um sêmem pode gerar esta coisinha? (apontou para seu filho com um mês e 7 dias que dormia ao seu lado). É um nada que se torna um tudo.

assunto

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ANEXO V

RELATÓRIO 2 - GRUPO I ENCONTRO 2

I. OBJETIVO

Relatar o segundo encontro do Grupo I no trabalho de supervisão da Unidade Funcional (Camila e Luiza) com o tema “Sexualidade na adolescência”.

II. DESCRIÇÃO

Participantes: 12 adolescentes, entre 15 e 22 anos. (Acrescentou-se um componente a partir deste encontro).

III. ETAPAS

1) AQUECIMENTO INESPECÍFICO

Aquecimento corporal de conteúdo livre, em roda, como: “siga o mestre”. Cada participante propôs um exercício físico leve de alongamento e todos repetiram.

2) AQUECIMENTO ESPECÍFICO

A Diretora pediu que os participantes se dispusessem dentro de um quadrado indicado no chão. Deu a consigna que estariam então todos num barco navegando. De repente, este barco começou a apresentar problemas. Começou a afundar. Os participantes se mostraram apreensivos e temerosos. O barco afundou e eles tiveram que nadar até uma ilha. (todos no chão como se estivessem nadando até a praia).

Nesta ilha, experimentaram sensações e situações conforme as consignas da diretora:

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Já são 3 da tarde e vocês ainda não comeram. A fome começou a apertar.

Nossa

Tanta água do mar, e vocês morrendo de sede!

Apareceu uma cobra!

Está armando uma tempestade. Abriguem-se embaixo destas arvores. (Haviam 3 X marcados no chão com fita crepe, que representavam as árvores).

Depois da tempestade faz muito frio.

Após um tempo, três barcos atracaram, cada um em uma das árvores, para o resgate dos náufragos. E zarparam para pontos equidistantes, distanciando-se uns dos outros.

Formaram-se assim, três subgrupos. Foram dadas a eles duas questões para discutirem:

1) Qual a relação da vivência da ilha com a família?

2) Qual a influência da sua família no adulto que você será?

O que todos trouxeram como consenso foi a questão da união.

Após o tempo determinado, abrimos espaço para discussão, com o grupo todo e demos mais uma questão:

3) A família influencia na sexualidade?

Esta questão foi discutida por todos, juntos. Inicialmente, a tendência foi uma resposta negativa, onde alguns participantes negaram influência da família na sexualidade. Por fim, chegou-se a conclusão que influencia sim, e pudemos ouvir vários depoimentos de adolescentes que querem modificar a forma de educar seus filhos no futuro de forma mais aberta, clara e menos conservadora, dando mais instruções e orientações quanto a questão.

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3) DRAMATIZAÇÃO:

A diretora então ao ego-auxiliar que dispusesse o material (camisas, gravatas, chalé, vestido, bijuterias, boné, ursinho de pelúcia e camisola) no centro da sala. Disse que estava ali para tirar uma foto de uma família, e que até havia trazido uma máquina fotográfica para este fim. Solicitou que os participantes fossem pensando em um papel na família, que personagens seriam? Os adolescentes logo começaram a fuçar na cesta onde estava o material, e conforme iniciaram a montagem de seus personagens começaram a cantar: “Essa família é muito unida, e também muito ouriçada, briga por qualquer razão, mas acaba pedindo perdão. Pirraça pai, pirraça mãe, pirraça filho

O clima ficou muito descontraído, de forma que ficaram mais à

vontade para o trabalho. Quando já estavam montados os personagens, a diretora solicitou que se posicionassem para a foto. Pediu que de um em um, seguindo uma sequência determinada, fossem falando quem eram e o que são na família. Cada um se apresentou e falou o parentesco com os demais.

Foi perguntado se alguém gostaria de ver a foto como observador,

e um a um trocaram com o ego-auxiliar seus papéis. Foram

questionados se estavam contentes com o que viam, ou se queriam que algo fosse modificado. A maioria gostou muito do que viu, não realizariam alterações. Um participante (“pai”) disse que retiraria um outro (“filha lésbica”). Após todos que pediram observassem a foto, bateu-se a foto fictícia.

4) COMENTÁRIOS

Sentamos e compartilhamos a atividade realizada. A diretora questionou se haviam ficado desconfortáveis com alguma coisa,

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uma posição, um adereço. P. (“mãe”) e J. (“Pai”) compartilharam da opinião que pensando seriamente, não gostariam de ter uma família assim com um gay, uma lésbica. Não se sentiriam confortáveis. Foi trazido inclusive que o Júlio, enquanto observador, retiraria da foto a “filha lésbica”.

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ANEXO VI

RELATÓRIO 3 - GRUPO I ENCONTRO 3

I. OBJETIVO

Relatar o terceiro encontro do Grupo I no trabalho de supervisão da Unidade Funcional (Camila e Luiza) com o tema “Sexualidade na adolescência”.

II. DESCRIÇÃO

Participantes: 12 adolescentes, entre 15 e 22 anos.

III. ETAPAS

1) AQUECIMENTO INESPECÍFICO

A Diretora iniciou o encontro perguntando ao grupo como haviam passado do último encontro e como estava a disposição do grupo para o trabalho do dia. Com todos num círculo, solicitou que um participante realizasse o alongamento para aquecimento corporal e que todos seguissem suas orientações.

2) AQUECIMENTO ESPECÍFICO

Aproveitando-se o círculo, entregou uma bolinha de tênis a um participante e solicitou que jogassem a bola uns para os outros, mas quando a bola saísse de suas mãos, deveria dizer uma “parte do corpo que tenha correlação com sexo”.

Começaram a falar partes do corpo como: boca, orelha, braço, mão, etc. Começaram a faltar as palavras “convencionais” (conserva cultural). Vários participantes ficaram envergonhados e outros partiram falando os órgãos sexuais: pênis, vagina, clitóris, etc. A diretora então informou que poderiam falar os “apelidos” das partes

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do corpo, e eles começaram a falar, com certa timidez e receio, principalmente as meninas, os “palavrões”.

3) DRAMATIZAÇÃO:

Foi disponibilizado o material (círculos coloridos: verde, amarelo e vermelhos e canetas) para cada participante.

A diretora mostrou um roteiro no Flip-chart:

Perguntas que fariam a qualquer pessoa.participante. A diretora mostrou um roteiro no Flip-chart:  Perguntas que fariam para algumas pessoas apenas.

Perguntas que fariam para algumas pessoas apenas.no Flip-chart: Perguntas que fariam a qualquer pessoa.   Perguntas que não fariam a ninguém.

Perguntas que não fariam a ninguém. Perguntas que fariam para algumas pessoas apenas.   Pediu que cada um escrevesse atrás

Pediu que cada um escrevesse atrás do respectivo círculo suas perguntas. Deu um exemplo para esclarecer, pediu que não se identificassem e explicou que tiraríamos as dúvidas juntos.

Após o tempo estipulado, o ego-auxiliar recolheu os círculos e sentamos todos para conversarmos.

Notamos então que a maioria das perguntas era relacionada ao comportamento sexual das pessoas; A maioria escreveu perguntas pessoais, que fariam as pessoas de suas relações, mas não relacionadas com dúvidas propriamente ditas, e sim sobre curiosidades de seus comportamentos. Ex: Você tem uma vida sexual ativa? Com quantos anos você perdeu a virgindade?

Alguns participantes fizeram perguntas relacionadas a dúvidas que tinham sobre sexualidade:

relacionadas a dúvidas que tinham sobre sexualidade:  Gozar na coxa engravida? É verdade que o

Gozar na coxa engravida? É verdade que o corpo feminino muda a partir de quando “ela” passa a ter relação sexual?

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Como é o orgasmo? A excitação vem com facilidade ou precisa estar no clima? O Como é o orgasmo? A excitação vem com facilidade ou precisa estar no clima? O que é pequenos e grandes lábios? Dói e porque perder a virgindade?

Existe prazer para ambas às partes na relação? Existe prazer para ambas às partes na relação?

4) COMENTÁRIOS

A diretora questionou-os se haviam ficado desconfortáveis na atividade da bolinha, e como foi pensar no assunto sexo para elaborar as perguntas.

Foi realizada uma roda de conversa, onde as dúvidas que apareceram foram sanadas. As questões direcionadas como “curiosidades” pessoais, foram generalizadas e conversou-se sobre comportamento sexual.

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ANEXO VII RELATÓRIO 4 - GRUPO I ENCONTRO 4

I. OBJETIVO

Relatar o quarto encontro do Grupo I no trabalho de supervisão da Unidade Funcional (Camila e Luiza) com o tema “Sexualidade na adolescência”.

II. DESCRIÇÃO

Participantes: 12 adolescentes, entre 15 e 22 anos.

III. ETAPAS

1) AQUECIMENTO INESPECÍFICO

Camila iniciou o encontro perguntando ao grupo como haviam passado do último encontro e como estava a disposição do grupo para o trabalho do dia. Com todos num círculo, solicitou que alguém realizasse o alongamento para aquecimento corporal.

2) AQUECIMENTO ESPECÍFICO

Pediu que sentassem e pensassem em atitudes que diminuem os riscos da gravidez na adolescência. Deixou que pensassem por 5 minutos. Enquanto pensavam, a diretora fazia questionamentos. Ex:

Que atitudes podemos tomar para prevenir uma gravidez? O que podemos fazer? como agir para evitarmos uma gravidez?

3) DRAMATIZAÇÃO:

Explicou então que faríamos uma brincadeira. Perguntou se todos conheciam a brincadeira da batata quente, cuja bola passa nas mãos de todos os participantes enquanto a música toca. Todos disseram que sim. Explicou então que faríamos a brincadeira da “barriga grávida”, com uma bola, assim como na brincadeira da

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batata quente. Quando a música parar, o participante que estiver com a “barriga grávida” deve falar uma atitude para prevenção da gravidez na adolescência. Caso a resposta dada não fosse de fato prevenção, deveria levantar, colocar a bola debaixo da blusa e caminhar entre os participantes, como se estivesse grávida (o).

Pediu que o ego auxiliar entregasse a bola a um participante e colocasse a música. Deixou a “barriga grávida” correr de mão em mão até parar a música. O participante falava uma atitude e continuava-se o jogo.

A diretora procurou, de acordo com o tempo disponível, que a

“barriga grávida” parasse nas mãos de todos os participantes.

Durante o jogo, alguns adolescentes passaram pela experiência de caminhar com a barriga grávida. Enquanto caminhavam foram questionados pelos colegas do porquê de estarem naquela condição, porque não se preveniram, o que fariam agora, se teriam trabalho para sustentar um bebê, o que a família diria sobre o fato, etc.

4) COMENTÁRIOS

O grupo estava bem sensibilizado com a atividade. A diretora solicitou que cada um que vivenciou a experiência de estar “grávida (o)” colocasse seus sentimentos e impressões que vivenciaram. Esses participantes relataram que foi bem difícil enfrentar os questionamentos e as perguntas que eram feitas.

O fato de neste grupo terem quatro mães foi bem proveitoso, pois

elas compartilharam de suas experiências pessoais.

J. 17 compartilhou que já é pai desde os 15 e que atualmente teve que abandonar a carreira de futebolista, pois teve que começar

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a trabalhar para ajudar a sustentar seu filho. Todos os participantes ficaram mobilizados, pois J. 17 nunca havia comentado com o grupo, do qual já participa há mais de um ano, que já é pai.

Após acalmarem-se os ânimos e discutirem sobre os assuntos trazidos, discutiram então sobre as seguintes questões:

1)

adolescência?

Quais

as

vantagens

e

desvantagens

da

gravidez

na

2) O participante encontra dificuldade para se prevenir?

A diretora solicitou ao ego auxiliar que entregasse uma folha e uma

caneta para cada participante. Pediu que cada um pensasse em um amigo (a) e lhe escrevesse uma carta para evitar a gravidez na adolescência.

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72

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73

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ANEXO VIII RELATÓRIO 5 - GRUPO I ENCONTRO 5

I. OBJETIVO

Relatar o quinto encontro do Grupo I no trabalho de supervisão da Unidade Funcional (Camila e Luiza) com o tema “Sexualidade na adolescência”.

II. DESCRIÇÃO

Participantes: 12 adolescentes, entre 15 e 22 anos.

III. ETAPAS

1) AQUECIMENTO INESPECÍFICO

Camila iniciou o encontro perguntando ao grupo como haviam passado do último encontro e como estava a disposição do grupo para o trabalho do dia. P.D., 19, compartilhou ter lembrado do encontro anterior várias vezes durante a semana, principalmente por ter conhecido uma garota de 17 anos que está grávida e não tem onde morar e nem o apoio dos pais. Com todos num círculo, solicitou que alguém conduzisse o alongamento para aquecimento corporal.

2) AQUECIMENTO ESPECÍFICO

Pediu que os participantes se subdividissem em dois grupos. Indicou uma linha no chão que separava os subgrupos, como se fosse uma quadra de vôlei. Falou que fariam o “Jogo da Bexiga Preta”. Explicou o jogo: Um participante inicia jogando a bexiga para o outro grupo, falando, ao mesmo tempo, o nome de uma DST. O grupo que receber a bexiga, deverá devolvê-la, falando o nome de outra DST. Seguiu-se o jogo. Os participantes perceberam estar

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mal informados quanto a nomes de DST, ao contrário do que pensavam.

3) DRAMATIZAÇÃO:

A diretora explicou que faríamos um jogo, pedindo que todos se sentassem. Solicitou que o ego auxiliar entregasse uma caneta e uma ficha a cada um dos participantes, aleatoriamente.

As fichas continham inscrições específicas. Pediu que cada participante colhesse três assinaturas atrás de sua ficha e voltasse

a se sentar.

Pediu então que o participante que possuía um X na ficha se levantasse e que todos imaginassem que ele era portador do vírus HIV, e teve relações sexuais com quem assinou sua ficha sem nenhuma proteção. Quando todos estavam em pé, a diretora falou que quem possuía o C na ficha “usou camisinha durante a relação”

e poderia se sentar. Os que ficaram sentados, sem ter seus nomes

lidos, possuíam a ficha com os dizeres “não siga minhas orientações até que voltemos a nos sentar”. Ao terminar, a diretora falou que tudo foi um exercício.

Pediu que ficassem em silêncio e se dividissem em pequenos grupos para compartilhar esta experiência e sentimentos.

Solicitou então que cada subgrupo fizesse uma escultura com seus corpos que representasse a forma como estão se prevenindo no seu dia-a-dia. E cada subgrupo apresentou sua escultura.

Obs.: Todos ficaram emocionados com uma escultura em especial, em que um subgrupo de três componentes, fez a seguinte forma:

Por serem alunos da escola de circo,um participante fez uma ponte, o outro participante “sentou” de pernas abertas sobre o que estava

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na ponte e o último deitou por baixo, de frente. Explicaram: A ponte é a camisinha, o participante que está em cima, “sentado”, representava a vagina, e o que estava deitado, embaixo, representava o pênis.

Figura explicativa:

Vagina
Vagina

Pênis

Camisinha

4) COMENTÁRIOS

T.19 compartilhou ter “ficado com peso na consciência” de ter “passado” o vírus para os outros, principalmente porque escolheu pessoas de “quem gosta muito”. Os participantes que possuíam o C na ficha falaram terem ficado “aliviados” por saberem que “usaram camisinha”.

A diretora explicou que a rede de contaminação das DST/AIDS acontece de forma parecida com o exercício da rede de assinaturas. Escolhemos pessoas de quem gostamos para nos relacionarmos, e que, no caso do HIV, as pessoas podem não parecer estar doentes.

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ANEXO IX RELATÓRIO 6 - GRUPO I ENCONTRO 6

I. OBJETIVO

Relatar o sexto encontro do Grupo I no trabalho de supervisão da Unidade Funcional (Camila e Luiza) com o tema “Sexualidade na adolescência”.

II. DESCRIÇÃO

Participantes: 12 adolescentes, entre 15 e 22 anos.

III. ETAPAS

1) AQUECIMENTO INESPECÍFICO

Com todos num círculo, realizou-se o alongamento em duplas para aquecimento corporal.

2) AQUECIMENTO ESPECÍFICO

A diretora solicitou que o ego auxiliar dispusesse alguns recortes de fotos de revistas no chão, no centro da sala. Pediu que em silêncio os participantes começassem a caminhar ao redor das fotos e pensassem em que situação da sua vida aquela foto (figura) os remetia, dentro do tema sexualidade. Perguntou se alguma daquelas fotos lhes trazia à mente alguma cena vivida. Cada participante escolheu uma foto.

Pediu que compartilhassem estas cenas e procedeu a escolha da cena protagônica através de uma fila atrás do participante “dono” da cena.

3) DRAMATIZAÇÃO:

Após escolhida a cena, a diretora perguntou ao participante, cuja cena foi escolhida, se poderíamos vê-la encenada ali.

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Cena: Protagônica:

“Eu estava nadando com meu primo no mar e, de repente, ele começou a se afogar. Aí eu salvei ele, mas comecei a me afogar. Daí um banhista que estava vendo tudo foi me salvar e me tirou da água. Quase morri”.

C. 16 foi solicitado pela diretora que escolhesse algum colega para representar as pessoas envolvidas em sua história. Escolheu W.,17

e D.,17. Escolheu também T., 19, e E.C., 16, para participarem

como mar; C.16 pegou um tecido preto estreito e comprido para fazer o mar. Enquanto T., 19, e E.C., 16, chacoalhavam o tecido, C., 16, e W., 17, estavam brincando e nadando no mar, no meio do tecido. Eis que W., 17, começou a se afogar e C.,16, salvou-o, e em seguida começou a se afogar. Veio então D.,17, e salvou-o.

4) COMENTÁRIOS

O grupo estava bem sensibilizado com a cena de C.,16. A diretora

solicitou, então, que C.,16, colocasse seus sentimentos sobre a atividade. C., 16, compartilhou estar emocionado e gostou de ver sua cena. Os demais participantes compartilharam suas impressões. T.,19, que fez papel de mar, compartilhou ter ficado “agoniada” com a situação.

A diretora então pediu que C.,16 coloca-se seus sentimentos e

todos compartilharam com o participante terem sentido “agonia”; A

questão da possibilidade da morte ficou presente, e podemos entender que a prevenção nos afasta desta possibilidade, sendo este o caminho escolhido pela diretora para fechar o compartilhamento.

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ANEXO X RELATÓRIO 7 - GRUPO I ENCONTRO 7

I. OBJETIVO

Relatar o sétimo encontro dos Grupos I no trabalho de supervisão da Unidade Funcional (Camila e Luiza) com o tema “Sexualidade na adolescência”.

III. ETAPAS

1) AQUECIMENTO INESPECÍFICO

Com todos num círculo, realizou-se o alongamento em duplas para aquecimento corporal.

2) AQUECIMENTO ESPECÍFICO

A diretora explicou que as dúvidas que não foram sanadas nos

encontros do “Jogo do Semáforo” e DST/AIDS. Solicitou que o ego distribuísse alguns textos sobre DST/AIDS e alguns outros temas que apareceram como questões em outros encontros, tais como:

Sexo anal, virgindade, menstruação, etc. Depois de distribuídos os textos, deu 15 minutos para que os lessem.

3) DRAMATIZAÇÃO:

A diretora solicitou que o ego-auxiliar dispusesse o material no

centro da sala. Solicitou que os participantes pensassem em como foi “a oficina” e todos os nossos encontros. Pediu que cada um utilizasse o material disponível para confeccionar uma máscara que

representasse o que cada participante achou do curso. Estipulou um tempo para que as máscaras fossem confeccionadas.

Enquanto isso, alguns participantes nos procuraram, pois precisaram ir embora, e pedimos então que preenchessem as

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avaliações escritas. Algum tempo depois, estes mesmos participantes voltaram à sala e pediram que ambas sentássemos. Disseram que gostariam de nos agradecer e nos deram um bolo em nome de todo o grupo em sinal do agradecimento. Fomos presenteadas com um cartaz com os dizeres “Os pequenos momentos são inesquecíveis. Expressão é liberdade”, com o desenho de cada uma de nós em mangá.

4) COMENTÁRIOS

Alguns conteúdos:

J.,16, confeccionou uma máscara retangular, repartida em dois, com duas cores diferentes, um lado vermelho e outro lado rosa. Explicou que o vermelho representava a forma como chegou no curso, envergonhada com o tema. O outro lado, rosa, representava a forma como estava saindo, pois já lida bem melhor com o assunto sexualidade;

D., 17, confeccionou sua máscara fechada, e quando a abria, via-se o desenho do planeta Terra. Explicou que a oficina fez com que seu mundo se abrisse.

J., 17, confeccionou uma máscara parecida com a do Batman, preta, representando que depois das vivências passou a se prevenir, o que não costumava fazer.

E., 15, que na vivência da gravidez insistiu que estava bem quanto à decisão de engravidar, sim, e não se prevenir, falou, emocionada, que sua máscara representava que o curso tinha “endireitado” sua vida, e que nós, Camila e Luiza, a colocamos “no caminho direito”.

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F.,16, fez sua máscara onde os olhos, um redondo e outro em cruz, representavam a antipatia que inicialmente teve pela Luiza, mas que durante o curso pôde mudar seu sentimento em relação a ela.

O grupo estava bem sensibilizado e emocionado. Compartilhamos com ele a importância que este trabalho está tendo em nossas vidas, e como foi importante para nós, unidade funcional, termos passado esta experiência com eles.

tendo em nossas vidas, e como foi importante para nós, unidade funcional, termos passado esta experiência

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