Sócrates e seu pensamento

É o pensamento de Sócrates, entretanto, que marca o nascimento da filosofia clássica, desenvolvida por Platão e Aristóteles, de certo modo seus herdeiros mais importantes. O julgamento e a morte de Sócrates marcaram profundamente seus contemporâneos e muitos de seus discípulos e companheiros escreveram relatos e testemunhos desse episódio, em que o filósofo confronta o Estado, em que suas idéias se insurgem contra as práticas políticas da época, em que a necessidade de independência do pensamento é explicitada e discutida pela primeira vez em nossa tradição. A concepção filosófica de Sócrates pode ser caracterizada como um método de análise conceitual. Isso pode ser ilustrado pela célebre questão socrática "o que é...?", — encontrada em todos esses diálogos —, através da qual se busca a definição de uma determinada coisa, geralmente uma virtude ou qualidade moral. Para entender melhor, tomemos o diálogo Laques, cujo tema central é a coragem e no qual Sócrates discute com Laques, um soldado ateniense famoso pela coragem nas guerras em que serviu aos exércitos de sua cidade. Nesse diálogo temos exatamente um momento em que Laques é apresentado a Sócrates como o indivíduo mais qualificado para definir a coragem, por ser reconhecidamente corajoso (190-195). Laques oferece então diversos exemplos de situações em que indivíduos demonstraram sua coragem nas batalhas: o soldado que luta sozinho contra o inimigo numericamente superior, o soldado que mesmo ferido continua a combater, o soldado que não se retira da batalha, o indivíduo que não teme enfrentar perigos etc. Entretanto, Sócrates recusa esse tipo de resposta, dizendo que não é o que busca, mas sim uma definição do próprio conceito de coragem, que nos permite exatamente entender os exemplos dados como casos de coragem e não de uma outra coisa qualquer, p.ex., imprudência ou loucura. No diálogo Ménon — cujo tema é o ensinamento da virtude, embora seja discutível se este é ou não um "diálogo socrático" — encontramos uma célebre passagem a esse respeito (70a-72b): Ménon: Você pode me dizer, Sócrates» se a virtude é algo que pode ser ensinado ou que só adquirimos pela prática? Ou não é nem o ensinamento nem a prática que tornam o homem virtuoso, mas algum tipo de aptidão natural ou algo assim?

Sócrates: [...] Você deve considerar-me especialmente privilegiado para saber se a virtude pode ser ensinada ou como pode ser adquirida. O fato é que estou longe de saber se ela pode ser ensinada, pois sequer tenho

— Sócrates: Suponha então que eu lhe peça: é exatamente isto que quero que você me diga. então é fácil ver que a virtude de um homem consiste em ser capaz de conduzir bem seus afazeres de cidadão. Ela deve ser uma boa dona de casa. Mesmo que sejam muitas e de vários tipos. Há ainda uma virtude para as crianças do sexo masculino ou feminino. de tal forma que ninguém terá dificuldade de dizer o que é. Queria uma virtude e você tem todo um enxame de virtudes para me oferecer! Mas falando sério. esta também pode ser facilmente descrita. Ou se você quer saber sobre a virtude da mulher. em relação a cada função separada. ilustra exatamente o que dissemos: Acho que tenho sorte. Qual é a característica em relação à qual elas não diferem.] E como poderia saber se uma coisa tem uma determinada propriedade se sequer sei o que ela é. de tal forma que poderá ajudar seus amigos e causar dano a seus inimigos. e de modo semelhante. ao mesmo tempo tomando cuidado para não prejudicar a si próprio. mas quanto a outra coisa. qual é a sua natureza essencial. É isso que deve ser levado em conta por quem quiser responder à questão: 'O que é a virtude?'. Em seguida. o que você diria se eu lhe perguntasse então: mas é por ser abelhas que elas são muitas e de diferentes tipos. ao que Ménon responde: Mas não há nenhuma dificuldade nisso. E há muitos outros tipos de virtude. vamos levar adiante esta metáfora do enxame. Sócrates volta então à questão inicial. homens livres ou escravos. Suponha que eu lhe perguntasse o que é uma abelha. bastante irônica. não? — — Ménon: Sim. que não considera ainda respondida: "Então faça o mesmo com as virtudes. um vício. eu diria. uma outra para os velhos. Para cada ato e para cada momento. A resposta de Sócrates. Sócrates pede a Ménon: "Diga-me você próprio o que é a virtude".. cuidadosa com seus pertences e obediente a seu marido.idéia do que seja a virtude [. há uma virtude para cada um de nós. mas são todas iguais? Você teria algo a me dizer. Em primeiro lugar. distintas umas das outras? Ou você concordaria que não é quanto a isso que diferem. se é sobre a virtude masculina que você deseja saber. terão pelo menos algo em comum que faz de todas elas virtudes. e você me respondesse que há muitos tipos de abelhas." Temos nesta breve passagem algumas das principais características da concepção socrática de filosofia como método de análise conceituai.. como você quiser. outra qualidade como tamanho ou beleza? Ménon: Eu diria que enquanto abelhas elas não são diferentes umas das outras. A .

mas de idéias. Teeteto. partindo de um entendimento já existente. da . intuitivo. mas fazer com que outro indivíduo. Isso se dá através de sucessivos graus de abstração e do exame do que essa própria experiência envolve. das crenças e opiniões que temos. se você voltar a conceber. que descobrirá. transformando sua maneira de ver as coisas e chegando. consideradas vagas. que contudo se revela inadequado no momento em que deve ser tornado explícito. Sócrates jamais responde as questões que formula." Sócrates caracterizou seu método como maiêutica. uma analogia com o ofício de sua mãe que era parteira. ao verdadeiro e autêntico conhecimento.discussão parte da necessidade de se entender algo melhor. A definição inicial. reflete a visão corrente. e portanto parciais. ao hesitar quando parecia seguro — passe por todo um processo de revisão de suas crenças opiniões. A definição correta nunca é dada pelo próprio Sócrates. mas é através do diálogo. oferecida por Ménon. na concepção socrática. humilde e tolerante em relação aos outros homens. portanto. imediato. Ou seja. não sabemos aquilo que pensamos saber. Procura apenas indicar o caminho. nossa opinião ou doxa. O método socrático revela a fragilidade desse entendimento e aponta para a necessidade e a possibilidade de aperfeiçoá-lo através da reflexão. ou ao menos terá uma atitude mais sóbria. estará mais preparado após esta investigação. Temos talvez um entendimento prático. a partir de sua experiência. Trata-se de um exercício intelectual em que a razão humana deve descobrir por si própria aquilo que busca. seu interlocutor. Ele também se considerava um parteiro. não é transmitir um saber pronto e acabado. através de uma tentativa de se encontrar uma definição. por si mesmo. o entendimento comum que temos sobre o tema em questão. através da dialética. O método socrático envolve um questionamento do senso comum. apenas indica quando as respostas de seu interlocutor são insatisfatórias e por que o são. recusadas entretanto por Sócrates. explicitando o que no fundo já está contido nela. que Sócrates fará com que seu interlocutor — ao cair em contradição. mais completo. As palavras de Sócrates na conclusão do diálogo Teeteto (21 Oc) podem ser citadas a esse respeito: "Mas. e da discussão. a ser percorrido pelo próprio indivíduo: é este o sentido originário de método ("através de um caminho"). com freqüência. que significa literalmente a arte de fazer o parto. imprecisas. É por esse motivo que os diálogos socráticos são conhecidos como aporéticos (de aporia. Não há substituto para esse processo de reflexão individual. Vimos que Ménon oferece várias definições de virtude. e será suficientemente modesto para não supor que sabe aquilo que não sabe. É exatamente neste sentido que a reflexão filosófica vai mostrar que. essa melhor compreensão só pode ser resultado de um processo de reflexão do próprio indivíduo. O papel do filósofo. derivadas de nossa experiência. ir além dele em busca de algo mais perfeito. incompletas o que se reflete nos exemplos dados. o sentido daquilo que busca. impasse) ou inconclusivos. o que é considerado insatisfatório por Sócrates. É importante notar que.

A dialética socrática opera inicialmente através de um questionamento das crenças habituais de um interlocutor. dê a luz a suas próprias idéias (Teeteto. afastando-se do domínio da opinião (doxa). freqüentemente utilizando-se de ironia. Em seguida.do-o a dar respostas e a explicitar o conteúdo e o sentido dessas crenças. o indivíduo tem o caminho aberto para encontrar o verdadeiro conhecimento (episteme). 149a-150c). perceba a insuficiência delas. problematiza essas crenças. como vimos acima na passagem do Ménon. fazendo com que o interlocutor caia em contradição.discussão no diálogo. a idéia de que o reconhecimento da ignorância é o princípio da sabedoria. A partir daí. provocan. interrogando-o. sinta-se perplexo e reconheça sua ignorância. E este o sentido da célebre fórmula socrática "Só sei que nada sei". .

testemunhos. que foram talvez os mais importantes e influentes sofistas. que pintaram um retrato bastante negativo desses pensadores. Licofron. consistindo basicamente numa determinada forma de preparação do cidadão para a participação na vida política. o que os caracteriza é muito mais uma prática ou uma atitude comuns do que uma doutrina única. suas habilidades aos governantes e aos políticos em geral. a maioria destas citações e testemunhos nos chegaram através de seus principais adversários. que percorrem as cidades-estados fornecendo seus ensinamentos. um ensinamento. Embora sem formar uma escola ou grupo homogêneo. Górgias de Leontinos (c. esta dificuldade se agrava pelo fato de que. O principal e mais conhecido fragmento de Protágoras é o início de sua obra sobre a verdade. Pródicos. quando afirma: "O homem é a medida de todas as coisas. embora tenham existido muitos outros dos quais conhecemos pouco mais do que os nomes. respectivamente. Os sofistas foram portanto filósofos e educadores. Nossa análise irá se concentrar em Protágoras e em Górgias. Hípias de Élis. muitas vezes mestres itinerantes.C. por Platão.). Platão e Aristóteles. o que se reflete na forte oposição que sofreram por parte de Sócrates. das que são como são e das que não são como não são". Além de termos uma situação semelhante à dos pré-socráticos quanto aos textos dos sofistas. além de mestres de retórica e de oratória. sua técnica. e Trasímaco.Os sofistas e seu pensamento Texto de Danilo Marcondes Os sofistas surgem exatamente nesse momento de passagem da tirania e da oligarquia para a democracia. É difícil por isso mesmo termos uma avaliação mais concreta de sua função e mesmo de sua concepção filosófica e pedagógica. p. Platão e Aristóteles. em grande parte. Os próprios termos "sofista" e "sofisma" acabaram por adquirir uma conotação fortemente depreciativa. São os mestres de retórica e oratória. citações. influência e contribuição à filosofia e aos estudos da linguagem.ex.C. tudo o que nos resta são fragmentos. Sua função nesse contexto foi importantíssima e sua influência muito grande. que teria sido inclusive mestre de Sócrates. através de uma visão mais isenta e objetiva de suas doutrinas. Apenas recentemente os intérpretes e historiadores têm procurado revalorizar a contribuição dos sofistas. embora este papel lhes seja negado. bem como de seu papel. embora "sofista" inicialmente significasse tão-somente "sábio". Há portanto uma paideia.487-380 a.490421 a. uma formação pela qual os sofistas foram responsáveis. isto é. Os principais e mais conhecidos sofistas foram Protágoras de Abdera (c. e dos quais Platão nos legou um retrato bastante elaborado nos diálogos Protágoras e Górgias. Esse fragmento de .).

Protágoras parece assim valorizar um tipo de explicação do real a partir de seus aspectos fenomenais apenas. Os sofistas deram uma grande contribuição ao desenvolvimento dos estudos da linguagem na tradição cultural grega. A técnica argumentativa de Protágoras se encontra sobretudo em seu tratado Antilogia. que podem ser explicitadas por meio dessa técnica argumentativa. simplesmente porque isso não seria possível. as coisas são como nos parecem ser. e afasta-se da visão eleática de uma verdade única. do estabelecimento da análise etimológica. entretanto. variar de acordo com a situação. o humanismo e o relativismo. para que se pudesse produzir um consenso. e era para esse fim que a retórica e a dialética deveriam contribuir. mestres sem escrúpulos que vendiam suas habilidades retóricas a quem pagasse mais. mas também pode partir da concepção de que há sempre contradições latentes nas crenças comuns dos indivíduos. nosso conhecimento depende sempre das circunstâncias em que nos encontramos e pode. possivelmente do séc. em que desenvolve a antilógica como tentativa de argumentação pró e contra determinada posição. sem apelo a nenhum elemento externo ou transcendente. através da divisão das partes do discurso. O processo decisório envolvia. sendo ambas igualmente verdadeiras e defensáveis.certa forma sintetiza duas das idéias centrais associadas aos sofistas. há um tratado de autor desconhecido.C. por isso mesmo. seus objetivos. Protágoras aproxima-se assim bastante dos mobilistas. bem como a tradição literária . Portanto.. intitulado Dissoi logoi ("Os argumentos duplos"). em que aquele que argumenta deve procurar antecipar todas as possíveis objeções à sua posição. de quem pode ter sofrido influência. Portanto. que ilustra bem esse tipo de argumentação. Seu interesse pela elaboração e proferimento do discurso correto e eficaz levou-os a investigar a língua grega e a iniciar seu estudo sistemático. pode ter um sentido de preparação para a discussão e o debate. Embora essa obra de Protágoras tenha se perdido. e não temos nenhum outro critério para decidir essa questão. como se mostram à nossa percepção sensorial. Isto é. procurando defendê-los da melhor forma possível. ao contrário. a necessidade de superação das diferenças e a convergência de interesses e objetivos. acreditavam não haver nenhuma outra instância além da opinião a que se pudesse recorrer para as decisões na vida prática. Tipicamente. em uma discussão na Assembléia ninguém detinha a verdade em um sentido completo e absoluto. pode-se dizer que sofistas como Protágoras não eram meros manipuladores da opinião.IV a. mas todos tinham suas razões. Isso pode constituir uma técnica de desenvolvimento de argumentos opostos. Essa concepção da natureza humana e do conhecimento parece estar subjacente à visão política de Protágoras e a seu recurso à retórica e à dialética enquanto arte ou técnica do discurso argumentativo. seus interesses. examinando o significado e a origem das palavras. mas. as quais deveriam ser tomadas com base na persuasão a fim de produzir um consenso em relação às questões políticas.

metáforas.anterior. assim. que lhes fornecia boa parte dos recursos estilísticos — imagens. . Pode-se dizer. sobretudo a poesia épica de Homero e Hesíodo. que o interesse pela retórica e pela oratória motivou o desenvolvimento dos estudos de poética e gramática. figuras de linguagem — para seus discursos.

discutido anteriormente. que devemos situar o pensamento de Platão. a realidade mutável e perecível ou a essência eterna e imutável? Essa interpretação privilegia a epistemologia. ou a questão éticopolítica. A questão dos instrumentos do conhecimento: os sentidos e a razão. Sem dúvida. há outras possíveis. e é este o enfoque que pretendo adotar aqui. uma vez que a cultura é . desenvolvendo. definir em linhas gerais e em seus traços mais importantes os aspectos centrais desta filosofia que adquire propriamente com Platão sua primeira formulação clássica. tal qual ele é? 2. Vamos procurar.ex.. A questão do método: como é possível esse conhecimento? Ou seja. A filosofia adquire então uma função de análise crítica dos fundamentos. p. a questão do ser. é através da problemática do conhecimento. Creio que o desenvolvimento dessa análise deixará mais clara a razão de tal escolha. Podemos desdobrar a problemática mais ampla e mais geral do conhecimento nas seguintes questões que examinaremos em seguida: 1. A questão do objeto do conhecimento: o mundo material ou a realidade superior. o sucesso nessa tarefa permite com que a filosofia se estabeleça como uma espécie de árbitro. privilegiando. 4. de natureza inteligível. de legislador de uma cultura. assim.se durante os 25 séculos seguintes até os dias de hoje.O contexto de surgimento da filosofia de Platão Danilo Marcondes É nesse momento histórico da Grécia antiga. Uma das possibilidades de se caracterizar a filosofia. como se justifica uma determinada pretensão ao conhecimento como legitima. consistindo basicamente nisso sua função crítica. Pode-se apresentar uma justificativa para a primazia ao problema epistemológico na leitura de Platão. A principal tarefa da filosofia seria estabelecer como podemos avaliar determinadas pretensões ao conhecimento. isto é. do discurso legitimador. verdadeira? 3. o mundo. A questão da possibilidade do conhecimento: é possível conhecer a realidade. nesse sentido. a temática do conhecimento e o papel crítico da filosofia. de uma sociedade.

com a moral e a política. da reflexão filosófica. A obra de Platão se caracteriza como a síntese de uma preocupação com a ciência (o conhecimento verdadeiro e legítimo). isto é. é claro. Isso equivale. tentando descobrir a sua significação. não havendo assim circularidade. a discussão teórica da questão do conhecimento. Sua conclusão é que o conhecimento (o saber) identifica-se com o bem. de seus valores e ideais.precisamente o conjunto dessas pretensões ao conhecimento. "o mais sábio dos homens". bem como a que motivações profundas do homem — legítimas ou não — elas correspondem. portanto. avaliar. Platão pretende analisar. Daí a importância não só de como Platão tematiza questões como: — — — — — O que significa a democracia? Qual o estatuto civil da religião? O que significa ensinar? Qual o valor da arte? Como se definem as virtudes? mas também da maneira pela qual tal reflexão se realiza: o diálogo. Entendemos. no sentido de que permite que avaliemos criticamente as bases de nossas pretensões ao conhecimento da realidade sem apelar para este conhecimento como pressuposição de nossa investigação. o contexto político que afinal condenou seu mestre Sócrates. O conhecimento pode ser caracterizado como a posse de uma representação correta do real. Envolve assim um reconhecimento da função pedagógica e política da questão do conhecimento. Uma análise de nossas pretensões ao conhecimento é possível na medida em que examinemos como se formam essas representações. como ponto de partida do projeto filosófico. à morte. julgar as manifestações culturais gregas e o processo decisório em Atenas e suas conseqüências. incluindo as relações sociais que permitem sua produção. a colocar a epistemologia. aqui cultura em um sentido amplo. de seu modelo. Esquematicamente podemos identificar na concepção platônica as seguintes opo-sições: . E nesse sentido que a obra de Platão pode ser entendida como uma longa reflexão sobre a decadência da democracia ateniense. Tal análise tem um caráter fundacional.

Podemos estabelecer a característica essencial da filosofia. a tragédia. submetidos a um re-exame crítico. a opinião. Constitui um discurso que se funda na legitimidade. uma autoridade divina superior. a esse propósito. ambigüidades. de metáforas. respectivamente). a dialética platônica tem como ponto de partida o senso comum. . Os diálogos de Platão representam também. sua justificação.. vai ser esse discurso legítimo que se instaura como juiz. que produz um consenso legítimo. mas conduz seu interlocutor a descobrir ele próprio a verdade.ex. Veremos adiante. à certeza. Embora represente um rompimento com o senso comum. A prática filosófica envolve assim. independente de origem. o mito. que deve ser aceito por todos (tendo portanto um caráter universal). A filosofia. segundo o modelo platônico. p. p. um momento de luta política. à clareza.tinguindo-a dos outros modos de discurso. classe ou função. em certo sentido. livros VI e VII. A filosofia não deve apenas dizer e afirmar. o abandono do mundo sensível e a busca do mundo das idéias. o Górgias. ilusões.ex. Os sofistas ensinam a arte de convencer não através da busca da razão. os célebres textos da Linha dividida e da Caverna {República. mas da manipulação de crenças e interesses. a filosofia "pré-filosófica" dos pré-socráticos. O discurso filosófico preocupa-se com sua própria legitimação. uma superação da opinião. É isso que significa a universalidade da razão. estabelecendo o que deve ser aceito por todos. segundo Platão. daí ser considerado crítico e reflexivo. dis. como critério de validade de todos os discursos. mas preocupar-se em chegar à verdade. a retórica etc. que se opõe à violência do poder e à ilusão e mistificação ideológicas que caracterizariam o discurso dos sofistas. que se impõe pela argumentação racional. que se caracterizariam por uma degradação da prática do diálogo.OPINIÃO x VERDADE DESEJO x RAZÃO INTERESSE PARTICULAR x INTERESSE UNIVERSAL SENSO COMUM x FILOSOFIA A filosofia corresponderia a um método para se atingir o ideal em todas as áreas pela superação do senso comum. uma inspiração. uma oposição aos sofistas. O filósofo não invoca uma revelação externa. através da razão.

na verdade. isto é. transformado. ocultando as inconsistências da experiência sob uma falsa unidade. na visão de Platão. no entendimento racional. crenças. na realidade particular. contingente. O ponto de resolução desse conflito entre opiniões e interesses é o próprio discurso. que se baseia em fatos. superado. fazer com que o interlocutor tenha consciência disso. mas da defesa de uma aristocracia do saber. passageiro. Visa. o caráter de aparência das opiniões e preconceitos dos homens habitualmente em seu senso comum. concreta. como fundamento da certeza. denunciar. é contrário à tirania e à oligarquia. tomando como totalidade do real. antagônico à democracia que. a filosofia é necessária como resposta a uma situação histórica injusta e ilegítima. O discurso é sempre expressão de um sujeito. É. em seus aspectos epistemológico. a ausência de fundamento. o . O método dialético — em suas primeiras versões nos diálogos socráticos de Platão — visa expor e denunciar a fragilidade. mas que se apresenta como certeza. em última análise. na possibilidade de justificação.O diálogo é a forma pela qual tal consenso pode se estabelecer. buscando um consenso (homologia) fundado no conhecimento verdadeiro. Para Platão. de convenções. buscando uma solução para este problema em sua totalidade. É preciso ir contra a opinião que não se reconhece como opinião. O diálogo socrático visa o desmascaramento dessa realidade. portanto. Não percebe que a linguagem só é válida quando expressa um conhecimento verdadeiro. e portanto dos valores. e os interesses e não o conhecimento. As relações políticas existentes na democracia decadente refletem um estado de coisas que deve ser abandonado. admite as paixões. que a opinião tem uma "falsa consciência" de si mesma. a opinião. Além disso. de um conjunto de crenças e valores. portanto. aquilo que é parcial. A opinião não se dá conta do caráter convencional da linguagem. no saber. É a isso que Platão opõe a verdade e o conhecimento. isto é. na experiência. portanto. o diálogo. Por outro lado. superar esses obstáculos. Daí a afirmação de que sua obra pode ser considerada uma longa reflexão sobre o fracasso e a decadência da democracia ateniense. que formam um todo integrado. revelar. mutável. A filosofia é assim um projeto politico que tem como objetivo promover a transformação da realidade. de um interesse. que não se fundam no conhecimento da verdade. Não se trata de uma simples volta ao passado. interesses e preconceitos nela embutidos. É preciso. ético e político.

IV) do princípio de nãocontradição como devendo ser aceito por todos os participantes do discurso.discurso que se presta à manipulação e à mentira deve sempre necessariamente se submeter às regras da inteligibilidade e da sinceridade. Não há respostas prontas. por Aristóteles (Metafísica.ex.. a natureza daquilo que se discute. a alma. Deve admitir provisoriamente contradições para que elas sejam superadas. A dialética é assim também inicialmente um processo de abstração. de princípios discursivos. . e a opinião. trata-se sempre de um processo que visa levar o interlocutor a reconhecer a fragilidade de suas próprias crenças e ver que aquilo que diz não é o que parece ser. no diálogo Laques. à força física. É a partir da radicalização da discussão que se vai descobrir a essência. opondo-se à violência. justificações. sob pena de se pôr em risco a própria comunicação. exigindo uma atitude critica. Ao aceitar as regras do diálogo. clareza sobre o sentido das coisas. sob pena de não realizar sua função comunicativa. e o discurso que tem a pretensão de ser universal. O método dialético não substituí de início a certeza da opinião por uma outra certeza. capaz de superar as divergências de opinião e ter um caráter legislador. O diálogo é a relação verdadeira. A defesa. Procura estabelecer: o que se diz. é a filosofia. desejos e inclinações particulares que dão origem a antagonismos. não mais baseada em interesses. inconseqüente. E a existência de regras. é necessário buscar definições. e assim por diante. Antes mesmo da distinção. mais tarde. ao se expor se revela contraditória. legitimador. de sua origem. e um questionamento dessa própria opinião. no Fedro. estabelecer o significado do que se diz. Instaura-se entre eles uma nova relação. a coragem. que permite com que se chegue à definição de conceitos. de seus fundamentos. da oposição pura e simples entre o verdadeiro e o falso. explicitações de seu discurso. Através do diálogo. Trata-se agora da busca da universalidade. por que se diz. o que significa aquilo que é dito. mas é um método negativo. P. a opinião. mostrando a necessidade de uma interrogação. mas também à retórica manipuladora dos sofistas. os interlocutores abandonam progressivamente a opinião. que se crê certa de si mesma. representa nessa mesma linha de pensamento a possibilidade de se interpelar o interlocutor e de se exigir explicações. que permite resgatar o discurso verdadeiro e desmascarar a manipulação.

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