Sócrates e seu pensamento

É o pensamento de Sócrates, entretanto, que marca o nascimento da filosofia clássica, desenvolvida por Platão e Aristóteles, de certo modo seus herdeiros mais importantes. O julgamento e a morte de Sócrates marcaram profundamente seus contemporâneos e muitos de seus discípulos e companheiros escreveram relatos e testemunhos desse episódio, em que o filósofo confronta o Estado, em que suas idéias se insurgem contra as práticas políticas da época, em que a necessidade de independência do pensamento é explicitada e discutida pela primeira vez em nossa tradição. A concepção filosófica de Sócrates pode ser caracterizada como um método de análise conceitual. Isso pode ser ilustrado pela célebre questão socrática "o que é...?", — encontrada em todos esses diálogos —, através da qual se busca a definição de uma determinada coisa, geralmente uma virtude ou qualidade moral. Para entender melhor, tomemos o diálogo Laques, cujo tema central é a coragem e no qual Sócrates discute com Laques, um soldado ateniense famoso pela coragem nas guerras em que serviu aos exércitos de sua cidade. Nesse diálogo temos exatamente um momento em que Laques é apresentado a Sócrates como o indivíduo mais qualificado para definir a coragem, por ser reconhecidamente corajoso (190-195). Laques oferece então diversos exemplos de situações em que indivíduos demonstraram sua coragem nas batalhas: o soldado que luta sozinho contra o inimigo numericamente superior, o soldado que mesmo ferido continua a combater, o soldado que não se retira da batalha, o indivíduo que não teme enfrentar perigos etc. Entretanto, Sócrates recusa esse tipo de resposta, dizendo que não é o que busca, mas sim uma definição do próprio conceito de coragem, que nos permite exatamente entender os exemplos dados como casos de coragem e não de uma outra coisa qualquer, p.ex., imprudência ou loucura. No diálogo Ménon — cujo tema é o ensinamento da virtude, embora seja discutível se este é ou não um "diálogo socrático" — encontramos uma célebre passagem a esse respeito (70a-72b): Ménon: Você pode me dizer, Sócrates» se a virtude é algo que pode ser ensinado ou que só adquirimos pela prática? Ou não é nem o ensinamento nem a prática que tornam o homem virtuoso, mas algum tipo de aptidão natural ou algo assim?

Sócrates: [...] Você deve considerar-me especialmente privilegiado para saber se a virtude pode ser ensinada ou como pode ser adquirida. O fato é que estou longe de saber se ela pode ser ensinada, pois sequer tenho

terão pelo menos algo em comum que faz de todas elas virtudes. A . A resposta de Sócrates. Ela deve ser uma boa dona de casa. Qual é a característica em relação à qual elas não diferem. vamos levar adiante esta metáfora do enxame. há uma virtude para cada um de nós. de tal forma que ninguém terá dificuldade de dizer o que é. Em primeiro lugar. uma outra para os velhos. mas quanto a outra coisa. o que você diria se eu lhe perguntasse então: mas é por ser abelhas que elas são muitas e de diferentes tipos. se é sobre a virtude masculina que você deseja saber. Suponha que eu lhe perguntasse o que é uma abelha. bastante irônica. eu diria. Sócrates volta então à questão inicial.. em relação a cada função separada. e de modo semelhante. ilustra exatamente o que dissemos: Acho que tenho sorte. Para cada ato e para cada momento. ao que Ménon responde: Mas não há nenhuma dificuldade nisso. distintas umas das outras? Ou você concordaria que não é quanto a isso que diferem. como você quiser. Há ainda uma virtude para as crianças do sexo masculino ou feminino. E há muitos outros tipos de virtude. outra qualidade como tamanho ou beleza? Ménon: Eu diria que enquanto abelhas elas não são diferentes umas das outras. não? — — Ménon: Sim. e você me respondesse que há muitos tipos de abelhas. É isso que deve ser levado em conta por quem quiser responder à questão: 'O que é a virtude?'." Temos nesta breve passagem algumas das principais características da concepção socrática de filosofia como método de análise conceituai. cuidadosa com seus pertences e obediente a seu marido. — Sócrates: Suponha então que eu lhe peça: é exatamente isto que quero que você me diga. esta também pode ser facilmente descrita. um vício. Ou se você quer saber sobre a virtude da mulher. Queria uma virtude e você tem todo um enxame de virtudes para me oferecer! Mas falando sério.] E como poderia saber se uma coisa tem uma determinada propriedade se sequer sei o que ela é. Mesmo que sejam muitas e de vários tipos. qual é a sua natureza essencial. ao mesmo tempo tomando cuidado para não prejudicar a si próprio. Em seguida. então é fácil ver que a virtude de um homem consiste em ser capaz de conduzir bem seus afazeres de cidadão.. mas são todas iguais? Você teria algo a me dizer. Sócrates pede a Ménon: "Diga-me você próprio o que é a virtude". de tal forma que poderá ajudar seus amigos e causar dano a seus inimigos. que não considera ainda respondida: "Então faça o mesmo com as virtudes. homens livres ou escravos.idéia do que seja a virtude [.

discussão parte da necessidade de se entender algo melhor. portanto. não é transmitir um saber pronto e acabado. na concepção socrática. oferecida por Ménon. se você voltar a conceber. As palavras de Sócrates na conclusão do diálogo Teeteto (21 Oc) podem ser citadas a esse respeito: "Mas. transformando sua maneira de ver as coisas e chegando. mas é através do diálogo. por si mesmo. É importante notar que. É por esse motivo que os diálogos socráticos são conhecidos como aporéticos (de aporia. mas de idéias. Trata-se de um exercício intelectual em que a razão humana deve descobrir por si própria aquilo que busca. É exatamente neste sentido que a reflexão filosófica vai mostrar que. ao hesitar quando parecia seguro — passe por todo um processo de revisão de suas crenças opiniões." Sócrates caracterizou seu método como maiêutica. o que é considerado insatisfatório por Sócrates. reflete a visão corrente. intuitivo. humilde e tolerante em relação aos outros homens. O método socrático revela a fragilidade desse entendimento e aponta para a necessidade e a possibilidade de aperfeiçoá-lo através da reflexão. da . explicitando o que no fundo já está contido nela. que Sócrates fará com que seu interlocutor — ao cair em contradição. uma analogia com o ofício de sua mãe que era parteira. não sabemos aquilo que pensamos saber. estará mais preparado após esta investigação. Ele também se considerava um parteiro. o entendimento comum que temos sobre o tema em questão. o sentido daquilo que busca. Vimos que Ménon oferece várias definições de virtude. partindo de um entendimento já existente. ao verdadeiro e autêntico conhecimento. através de uma tentativa de se encontrar uma definição. ou ao menos terá uma atitude mais sóbria. que contudo se revela inadequado no momento em que deve ser tornado explícito. imprecisas. impasse) ou inconclusivos. e da discussão. que descobrirá. O método socrático envolve um questionamento do senso comum. e será suficientemente modesto para não supor que sabe aquilo que não sabe. ir além dele em busca de algo mais perfeito. imediato. derivadas de nossa experiência. Ou seja. com freqüência. mas fazer com que outro indivíduo. Teeteto. mais completo. Isso se dá através de sucessivos graus de abstração e do exame do que essa própria experiência envolve. a ser percorrido pelo próprio indivíduo: é este o sentido originário de método ("através de um caminho"). Procura apenas indicar o caminho. através da dialética. incompletas o que se reflete nos exemplos dados. nossa opinião ou doxa. recusadas entretanto por Sócrates. consideradas vagas. Sócrates jamais responde as questões que formula. e portanto parciais. Não há substituto para esse processo de reflexão individual. Temos talvez um entendimento prático. apenas indica quando as respostas de seu interlocutor são insatisfatórias e por que o são. que significa literalmente a arte de fazer o parto. A definição inicial. essa melhor compreensão só pode ser resultado de um processo de reflexão do próprio indivíduo. seu interlocutor. das crenças e opiniões que temos. a partir de sua experiência. A definição correta nunca é dada pelo próprio Sócrates. O papel do filósofo.

a idéia de que o reconhecimento da ignorância é o princípio da sabedoria. provocan. o indivíduo tem o caminho aberto para encontrar o verdadeiro conhecimento (episteme). perceba a insuficiência delas. fazendo com que o interlocutor caia em contradição. E este o sentido da célebre fórmula socrática "Só sei que nada sei". freqüentemente utilizando-se de ironia. sinta-se perplexo e reconheça sua ignorância. afastando-se do domínio da opinião (doxa). A dialética socrática opera inicialmente através de um questionamento das crenças habituais de um interlocutor. Em seguida. 149a-150c).do-o a dar respostas e a explicitar o conteúdo e o sentido dessas crenças.discussão no diálogo. problematiza essas crenças. dê a luz a suas próprias idéias (Teeteto. interrogando-o. como vimos acima na passagem do Ménon. . A partir daí.

490421 a. São os mestres de retórica e oratória. Os principais e mais conhecidos sofistas foram Protágoras de Abdera (c. influência e contribuição à filosofia e aos estudos da linguagem.C. embora este papel lhes seja negado. que foram talvez os mais importantes e influentes sofistas. que teria sido inclusive mestre de Sócrates. respectivamente. Além de termos uma situação semelhante à dos pré-socráticos quanto aos textos dos sofistas.).C. a maioria destas citações e testemunhos nos chegaram através de seus principais adversários. Pródicos. quando afirma: "O homem é a medida de todas as coisas. Nossa análise irá se concentrar em Protágoras e em Górgias. em grande parte. através de uma visão mais isenta e objetiva de suas doutrinas. Platão e Aristóteles.487-380 a. isto é. É difícil por isso mesmo termos uma avaliação mais concreta de sua função e mesmo de sua concepção filosófica e pedagógica. um ensinamento. esta dificuldade se agrava pelo fato de que. Sua função nesse contexto foi importantíssima e sua influência muito grande. e Trasímaco. que percorrem as cidades-estados fornecendo seus ensinamentos. Os sofistas foram portanto filósofos e educadores. Esse fragmento de . Apenas recentemente os intérpretes e historiadores têm procurado revalorizar a contribuição dos sofistas. sua técnica. embora tenham existido muitos outros dos quais conhecemos pouco mais do que os nomes. bem como de seu papel. Licofron. p. Hípias de Élis. por Platão. o que se reflete na forte oposição que sofreram por parte de Sócrates. além de mestres de retórica e de oratória. testemunhos. citações.Os sofistas e seu pensamento Texto de Danilo Marcondes Os sofistas surgem exatamente nesse momento de passagem da tirania e da oligarquia para a democracia. Górgias de Leontinos (c. suas habilidades aos governantes e aos políticos em geral. e dos quais Platão nos legou um retrato bastante elaborado nos diálogos Protágoras e Górgias. Há portanto uma paideia. O principal e mais conhecido fragmento de Protágoras é o início de sua obra sobre a verdade. embora "sofista" inicialmente significasse tão-somente "sábio". uma formação pela qual os sofistas foram responsáveis. das que são como são e das que não são como não são". Platão e Aristóteles.). muitas vezes mestres itinerantes. Os próprios termos "sofista" e "sofisma" acabaram por adquirir uma conotação fortemente depreciativa. o que os caracteriza é muito mais uma prática ou uma atitude comuns do que uma doutrina única. consistindo basicamente numa determinada forma de preparação do cidadão para a participação na vida política. que pintaram um retrato bastante negativo desses pensadores. Embora sem formar uma escola ou grupo homogêneo. tudo o que nos resta são fragmentos.ex.

e afasta-se da visão eleática de uma verdade única. A técnica argumentativa de Protágoras se encontra sobretudo em seu tratado Antilogia. para que se pudesse produzir um consenso.. Isso pode constituir uma técnica de desenvolvimento de argumentos opostos. mas. mas todos tinham suas razões. as coisas são como nos parecem ser. em uma discussão na Assembléia ninguém detinha a verdade em um sentido completo e absoluto. Tipicamente. entretanto. nosso conhecimento depende sempre das circunstâncias em que nos encontramos e pode. sem apelo a nenhum elemento externo ou transcendente. de quem pode ter sofrido influência. Portanto. a necessidade de superação das diferenças e a convergência de interesses e objetivos. as quais deveriam ser tomadas com base na persuasão a fim de produzir um consenso em relação às questões políticas.C. o humanismo e o relativismo. Seu interesse pela elaboração e proferimento do discurso correto e eficaz levou-os a investigar a língua grega e a iniciar seu estudo sistemático. possivelmente do séc. por isso mesmo. como se mostram à nossa percepção sensorial. que ilustra bem esse tipo de argumentação. pode-se dizer que sofistas como Protágoras não eram meros manipuladores da opinião. Protágoras parece assim valorizar um tipo de explicação do real a partir de seus aspectos fenomenais apenas. mestres sem escrúpulos que vendiam suas habilidades retóricas a quem pagasse mais. há um tratado de autor desconhecido. Embora essa obra de Protágoras tenha se perdido. bem como a tradição literária . Portanto. sendo ambas igualmente verdadeiras e defensáveis. Essa concepção da natureza humana e do conhecimento parece estar subjacente à visão política de Protágoras e a seu recurso à retórica e à dialética enquanto arte ou técnica do discurso argumentativo. mas também pode partir da concepção de que há sempre contradições latentes nas crenças comuns dos indivíduos. em que aquele que argumenta deve procurar antecipar todas as possíveis objeções à sua posição. seus objetivos. do estabelecimento da análise etimológica. através da divisão das partes do discurso. em que desenvolve a antilógica como tentativa de argumentação pró e contra determinada posição. ao contrário. simplesmente porque isso não seria possível. acreditavam não haver nenhuma outra instância além da opinião a que se pudesse recorrer para as decisões na vida prática. variar de acordo com a situação. Protágoras aproxima-se assim bastante dos mobilistas. Os sofistas deram uma grande contribuição ao desenvolvimento dos estudos da linguagem na tradição cultural grega. Isto é. e era para esse fim que a retórica e a dialética deveriam contribuir. que podem ser explicitadas por meio dessa técnica argumentativa.IV a. seus interesses.certa forma sintetiza duas das idéias centrais associadas aos sofistas. O processo decisório envolvia. examinando o significado e a origem das palavras. e não temos nenhum outro critério para decidir essa questão. pode ter um sentido de preparação para a discussão e o debate. intitulado Dissoi logoi ("Os argumentos duplos"). procurando defendê-los da melhor forma possível.

assim. que lhes fornecia boa parte dos recursos estilísticos — imagens. metáforas. . figuras de linguagem — para seus discursos. que o interesse pela retórica e pela oratória motivou o desenvolvimento dos estudos de poética e gramática. sobretudo a poesia épica de Homero e Hesíodo.anterior. Pode-se dizer.

A questão do objeto do conhecimento: o mundo material ou a realidade superior. de uma sociedade. discutido anteriormente. desenvolvendo. A questão dos instrumentos do conhecimento: os sentidos e a razão. a realidade mutável e perecível ou a essência eterna e imutável? Essa interpretação privilegia a epistemologia. A questão do método: como é possível esse conhecimento? Ou seja. e é este o enfoque que pretendo adotar aqui. definir em linhas gerais e em seus traços mais importantes os aspectos centrais desta filosofia que adquire propriamente com Platão sua primeira formulação clássica. A filosofia adquire então uma função de análise crítica dos fundamentos. p.se durante os 25 séculos seguintes até os dias de hoje. A questão da possibilidade do conhecimento: é possível conhecer a realidade. Podemos desdobrar a problemática mais ampla e mais geral do conhecimento nas seguintes questões que examinaremos em seguida: 1. isto é. a temática do conhecimento e o papel crítico da filosofia. uma vez que a cultura é . do discurso legitimador. Pode-se apresentar uma justificativa para a primazia ao problema epistemológico na leitura de Platão. privilegiando. Uma das possibilidades de se caracterizar a filosofia. Sem dúvida.O contexto de surgimento da filosofia de Platão Danilo Marcondes É nesse momento histórico da Grécia antiga. é através da problemática do conhecimento. Creio que o desenvolvimento dessa análise deixará mais clara a razão de tal escolha. como se justifica uma determinada pretensão ao conhecimento como legitima.ex. assim. Vamos procurar. que devemos situar o pensamento de Platão. tal qual ele é? 2. o sucesso nessa tarefa permite com que a filosofia se estabeleça como uma espécie de árbitro. de natureza inteligível.. o mundo. ou a questão éticopolítica. de legislador de uma cultura. a questão do ser. há outras possíveis. verdadeira? 3. 4. A principal tarefa da filosofia seria estabelecer como podemos avaliar determinadas pretensões ao conhecimento. nesse sentido. consistindo basicamente nisso sua função crítica.

E nesse sentido que a obra de Platão pode ser entendida como uma longa reflexão sobre a decadência da democracia ateniense. bem como a que motivações profundas do homem — legítimas ou não — elas correspondem. não havendo assim circularidade. Daí a importância não só de como Platão tematiza questões como: — — — — — O que significa a democracia? Qual o estatuto civil da religião? O que significa ensinar? Qual o valor da arte? Como se definem as virtudes? mas também da maneira pela qual tal reflexão se realiza: o diálogo. com a moral e a política. tentando descobrir a sua significação. avaliar. Entendemos. julgar as manifestações culturais gregas e o processo decisório em Atenas e suas conseqüências. O conhecimento pode ser caracterizado como a posse de uma representação correta do real. da reflexão filosófica. incluindo as relações sociais que permitem sua produção. à morte. é claro. portanto. a discussão teórica da questão do conhecimento. "o mais sábio dos homens". a colocar a epistemologia. isto é. de seu modelo.precisamente o conjunto dessas pretensões ao conhecimento. Isso equivale. aqui cultura em um sentido amplo. Envolve assim um reconhecimento da função pedagógica e política da questão do conhecimento. o contexto político que afinal condenou seu mestre Sócrates. Uma análise de nossas pretensões ao conhecimento é possível na medida em que examinemos como se formam essas representações. de seus valores e ideais. Esquematicamente podemos identificar na concepção platônica as seguintes opo-sições: . Tal análise tem um caráter fundacional. Platão pretende analisar. no sentido de que permite que avaliemos criticamente as bases de nossas pretensões ao conhecimento da realidade sem apelar para este conhecimento como pressuposição de nossa investigação. Sua conclusão é que o conhecimento (o saber) identifica-se com o bem. A obra de Platão se caracteriza como a síntese de uma preocupação com a ciência (o conhecimento verdadeiro e legítimo). como ponto de partida do projeto filosófico.

mas preocupar-se em chegar à verdade. estabelecendo o que deve ser aceito por todos. A prática filosófica envolve assim. a dialética platônica tem como ponto de partida o senso comum. A filosofia. um momento de luta política. Embora represente um rompimento com o senso comum. segundo Platão. uma inspiração. submetidos a um re-exame crítico. através da razão.OPINIÃO x VERDADE DESEJO x RAZÃO INTERESSE PARTICULAR x INTERESSE UNIVERSAL SENSO COMUM x FILOSOFIA A filosofia corresponderia a um método para se atingir o ideal em todas as áreas pela superação do senso comum. ambigüidades. a retórica etc. à clareza.. uma oposição aos sofistas. Constitui um discurso que se funda na legitimidade. que se opõe à violência do poder e à ilusão e mistificação ideológicas que caracterizariam o discurso dos sofistas. a opinião. É isso que significa a universalidade da razão. à certeza. uma superação da opinião. vai ser esse discurso legítimo que se instaura como juiz. sua justificação. a tragédia.ex. Os sofistas ensinam a arte de convencer não através da busca da razão. que se caracterizariam por uma degradação da prática do diálogo. p.tinguindo-a dos outros modos de discurso. mas da manipulação de crenças e interesses. como critério de validade de todos os discursos. classe ou função. que produz um consenso legítimo. o abandono do mundo sensível e a busca do mundo das idéias. que se impõe pela argumentação racional. a esse propósito. que deve ser aceito por todos (tendo portanto um caráter universal). livros VI e VII. Os diálogos de Platão representam também. Veremos adiante. A filosofia não deve apenas dizer e afirmar. o Górgias. em certo sentido. de metáforas. respectivamente). uma autoridade divina superior. dis. O filósofo não invoca uma revelação externa. segundo o modelo platônico. a filosofia "pré-filosófica" dos pré-socráticos. mas conduz seu interlocutor a descobrir ele próprio a verdade. Podemos estabelecer a característica essencial da filosofia. daí ser considerado crítico e reflexivo.ex. independente de origem. . ilusões. p. os célebres textos da Linha dividida e da Caverna {República. o mito. O discurso filosófico preocupa-se com sua própria legitimação.

que não se fundam no conhecimento da verdade. É preciso ir contra a opinião que não se reconhece como opinião. O ponto de resolução desse conflito entre opiniões e interesses é o próprio discurso. em última análise. antagônico à democracia que. Daí a afirmação de que sua obra pode ser considerada uma longa reflexão sobre o fracasso e a decadência da democracia ateniense. superar esses obstáculos. em seus aspectos epistemológico. A opinião não se dá conta do caráter convencional da linguagem. superado. mutável. revelar. Visa. contingente. O método dialético — em suas primeiras versões nos diálogos socráticos de Platão — visa expor e denunciar a fragilidade. que formam um todo integrado. buscando uma solução para este problema em sua totalidade. a filosofia é necessária como resposta a uma situação histórica injusta e ilegítima. que se baseia em fatos. no saber. mas que se apresenta como certeza. Para Platão. tomando como totalidade do real. na verdade. de um interesse. na realidade particular. o diálogo. admite as paixões. ocultando as inconsistências da experiência sob uma falsa unidade. É a isso que Platão opõe a verdade e o conhecimento.O diálogo é a forma pela qual tal consenso pode se estabelecer. na experiência. interesses e preconceitos nela embutidos. É. o . fazer com que o interlocutor tenha consciência disso. portanto. o caráter de aparência das opiniões e preconceitos dos homens habitualmente em seu senso comum. Não se trata de uma simples volta ao passado. a opinião. Não percebe que a linguagem só é válida quando expressa um conhecimento verdadeiro. é contrário à tirania e à oligarquia. a ausência de fundamento. denunciar. As relações políticas existentes na democracia decadente refletem um estado de coisas que deve ser abandonado. como fundamento da certeza. na possibilidade de justificação. O diálogo socrático visa o desmascaramento dessa realidade. Por outro lado. Além disso. e os interesses e não o conhecimento. de um conjunto de crenças e valores. portanto. transformado. passageiro. de convenções. O discurso é sempre expressão de um sujeito. aquilo que é parcial. no entendimento racional. e portanto dos valores. É preciso. crenças. A filosofia é assim um projeto politico que tem como objetivo promover a transformação da realidade. portanto. ético e político. isto é. buscando um consenso (homologia) fundado no conhecimento verdadeiro. isto é. que a opinião tem uma "falsa consciência" de si mesma. mas da defesa de uma aristocracia do saber. na visão de Platão. concreta.

e um questionamento dessa própria opinião. clareza sobre o sentido das coisas. Deve admitir provisoriamente contradições para que elas sejam superadas. e assim por diante. que permite com que se chegue à definição de conceitos. mas também à retórica manipuladora dos sofistas.discurso que se presta à manipulação e à mentira deve sempre necessariamente se submeter às regras da inteligibilidade e da sinceridade. da oposição pura e simples entre o verdadeiro e o falso. de seus fundamentos. mostrando a necessidade de uma interrogação. E a existência de regras. não mais baseada em interesses. Instaura-se entre eles uma nova relação. capaz de superar as divergências de opinião e ter um caráter legislador. é necessário buscar definições. Ao aceitar as regras do diálogo.ex. é a filosofia. O método dialético não substituí de início a certeza da opinião por uma outra certeza. O diálogo é a relação verdadeira.. A dialética é assim também inicialmente um processo de abstração. exigindo uma atitude critica. trata-se sempre de um processo que visa levar o interlocutor a reconhecer a fragilidade de suas próprias crenças e ver que aquilo que diz não é o que parece ser. no diálogo Laques. P. a coragem. sob pena de não realizar sua função comunicativa. por Aristóteles (Metafísica. mas é um método negativo. por que se diz. à força física. os interlocutores abandonam progressivamente a opinião. A defesa. a natureza daquilo que se discute. Trata-se agora da busca da universalidade. que permite resgatar o discurso verdadeiro e desmascarar a manipulação. Procura estabelecer: o que se diz. a alma. de sua origem. Não há respostas prontas. desejos e inclinações particulares que dão origem a antagonismos. IV) do princípio de nãocontradição como devendo ser aceito por todos os participantes do discurso. o que significa aquilo que é dito. representa nessa mesma linha de pensamento a possibilidade de se interpelar o interlocutor e de se exigir explicações. a opinião. e a opinião. Antes mesmo da distinção. legitimador. justificações. Através do diálogo. e o discurso que tem a pretensão de ser universal. estabelecer o significado do que se diz. explicitações de seu discurso. opondo-se à violência. inconseqüente. que se crê certa de si mesma. ao se expor se revela contraditória. sob pena de se pôr em risco a própria comunicação. no Fedro. de princípios discursivos. mais tarde. É a partir da radicalização da discussão que se vai descobrir a essência. .

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