Sócrates e seu pensamento

É o pensamento de Sócrates, entretanto, que marca o nascimento da filosofia clássica, desenvolvida por Platão e Aristóteles, de certo modo seus herdeiros mais importantes. O julgamento e a morte de Sócrates marcaram profundamente seus contemporâneos e muitos de seus discípulos e companheiros escreveram relatos e testemunhos desse episódio, em que o filósofo confronta o Estado, em que suas idéias se insurgem contra as práticas políticas da época, em que a necessidade de independência do pensamento é explicitada e discutida pela primeira vez em nossa tradição. A concepção filosófica de Sócrates pode ser caracterizada como um método de análise conceitual. Isso pode ser ilustrado pela célebre questão socrática "o que é...?", — encontrada em todos esses diálogos —, através da qual se busca a definição de uma determinada coisa, geralmente uma virtude ou qualidade moral. Para entender melhor, tomemos o diálogo Laques, cujo tema central é a coragem e no qual Sócrates discute com Laques, um soldado ateniense famoso pela coragem nas guerras em que serviu aos exércitos de sua cidade. Nesse diálogo temos exatamente um momento em que Laques é apresentado a Sócrates como o indivíduo mais qualificado para definir a coragem, por ser reconhecidamente corajoso (190-195). Laques oferece então diversos exemplos de situações em que indivíduos demonstraram sua coragem nas batalhas: o soldado que luta sozinho contra o inimigo numericamente superior, o soldado que mesmo ferido continua a combater, o soldado que não se retira da batalha, o indivíduo que não teme enfrentar perigos etc. Entretanto, Sócrates recusa esse tipo de resposta, dizendo que não é o que busca, mas sim uma definição do próprio conceito de coragem, que nos permite exatamente entender os exemplos dados como casos de coragem e não de uma outra coisa qualquer, p.ex., imprudência ou loucura. No diálogo Ménon — cujo tema é o ensinamento da virtude, embora seja discutível se este é ou não um "diálogo socrático" — encontramos uma célebre passagem a esse respeito (70a-72b): Ménon: Você pode me dizer, Sócrates» se a virtude é algo que pode ser ensinado ou que só adquirimos pela prática? Ou não é nem o ensinamento nem a prática que tornam o homem virtuoso, mas algum tipo de aptidão natural ou algo assim?

Sócrates: [...] Você deve considerar-me especialmente privilegiado para saber se a virtude pode ser ensinada ou como pode ser adquirida. O fato é que estou longe de saber se ela pode ser ensinada, pois sequer tenho

há uma virtude para cada um de nós. E há muitos outros tipos de virtude. ao que Ménon responde: Mas não há nenhuma dificuldade nisso. como você quiser. uma outra para os velhos. e de modo semelhante. Qual é a característica em relação à qual elas não diferem. terão pelo menos algo em comum que faz de todas elas virtudes. em relação a cada função separada. Em primeiro lugar.idéia do que seja a virtude [. — Sócrates: Suponha então que eu lhe peça: é exatamente isto que quero que você me diga. então é fácil ver que a virtude de um homem consiste em ser capaz de conduzir bem seus afazeres de cidadão. um vício. É isso que deve ser levado em conta por quem quiser responder à questão: 'O que é a virtude?'. Sócrates volta então à questão inicial. esta também pode ser facilmente descrita. Para cada ato e para cada momento. distintas umas das outras? Ou você concordaria que não é quanto a isso que diferem.. mas quanto a outra coisa. ilustra exatamente o que dissemos: Acho que tenho sorte. e você me respondesse que há muitos tipos de abelhas. de tal forma que ninguém terá dificuldade de dizer o que é. ao mesmo tempo tomando cuidado para não prejudicar a si próprio. eu diria. A . se é sobre a virtude masculina que você deseja saber. de tal forma que poderá ajudar seus amigos e causar dano a seus inimigos. não? — — Ménon: Sim. Há ainda uma virtude para as crianças do sexo masculino ou feminino. A resposta de Sócrates. o que você diria se eu lhe perguntasse então: mas é por ser abelhas que elas são muitas e de diferentes tipos. mas são todas iguais? Você teria algo a me dizer." Temos nesta breve passagem algumas das principais características da concepção socrática de filosofia como método de análise conceituai. homens livres ou escravos. Sócrates pede a Ménon: "Diga-me você próprio o que é a virtude". Suponha que eu lhe perguntasse o que é uma abelha. Mesmo que sejam muitas e de vários tipos. Ou se você quer saber sobre a virtude da mulher.. bastante irônica. Ela deve ser uma boa dona de casa. outra qualidade como tamanho ou beleza? Ménon: Eu diria que enquanto abelhas elas não são diferentes umas das outras. vamos levar adiante esta metáfora do enxame. Em seguida.] E como poderia saber se uma coisa tem uma determinada propriedade se sequer sei o que ela é. qual é a sua natureza essencial. que não considera ainda respondida: "Então faça o mesmo com as virtudes. Queria uma virtude e você tem todo um enxame de virtudes para me oferecer! Mas falando sério. cuidadosa com seus pertences e obediente a seu marido.

uma analogia com o ofício de sua mãe que era parteira. Vimos que Ménon oferece várias definições de virtude. não é transmitir um saber pronto e acabado. A definição inicial. Isso se dá através de sucessivos graus de abstração e do exame do que essa própria experiência envolve. ao verdadeiro e autêntico conhecimento. recusadas entretanto por Sócrates. derivadas de nossa experiência. impasse) ou inconclusivos. que significa literalmente a arte de fazer o parto. Não há substituto para esse processo de reflexão individual. O papel do filósofo. ao hesitar quando parecia seguro — passe por todo um processo de revisão de suas crenças opiniões. mais completo. o entendimento comum que temos sobre o tema em questão. das crenças e opiniões que temos. incompletas o que se reflete nos exemplos dados. Temos talvez um entendimento prático. O método socrático envolve um questionamento do senso comum. da . mas é através do diálogo. consideradas vagas. através de uma tentativa de se encontrar uma definição. que descobrirá. o que é considerado insatisfatório por Sócrates. essa melhor compreensão só pode ser resultado de um processo de reflexão do próprio indivíduo. transformando sua maneira de ver as coisas e chegando. não sabemos aquilo que pensamos saber. através da dialética. com freqüência. e da discussão." Sócrates caracterizou seu método como maiêutica. apenas indica quando as respostas de seu interlocutor são insatisfatórias e por que o são. oferecida por Ménon. A definição correta nunca é dada pelo próprio Sócrates. explicitando o que no fundo já está contido nela. que Sócrates fará com que seu interlocutor — ao cair em contradição. humilde e tolerante em relação aos outros homens. estará mais preparado após esta investigação. reflete a visão corrente. partindo de um entendimento já existente. As palavras de Sócrates na conclusão do diálogo Teeteto (21 Oc) podem ser citadas a esse respeito: "Mas. Procura apenas indicar o caminho. intuitivo. seu interlocutor. É por esse motivo que os diálogos socráticos são conhecidos como aporéticos (de aporia. e portanto parciais. mas fazer com que outro indivíduo. Teeteto. É exatamente neste sentido que a reflexão filosófica vai mostrar que. mas de idéias. por si mesmo. o sentido daquilo que busca. nossa opinião ou doxa. se você voltar a conceber. É importante notar que. Sócrates jamais responde as questões que formula. na concepção socrática. Trata-se de um exercício intelectual em que a razão humana deve descobrir por si própria aquilo que busca. que contudo se revela inadequado no momento em que deve ser tornado explícito. portanto. imediato. e será suficientemente modesto para não supor que sabe aquilo que não sabe. a ser percorrido pelo próprio indivíduo: é este o sentido originário de método ("através de um caminho").discussão parte da necessidade de se entender algo melhor. O método socrático revela a fragilidade desse entendimento e aponta para a necessidade e a possibilidade de aperfeiçoá-lo através da reflexão. ou ao menos terá uma atitude mais sóbria. imprecisas. ir além dele em busca de algo mais perfeito. Ou seja. Ele também se considerava um parteiro. a partir de sua experiência.

Em seguida. afastando-se do domínio da opinião (doxa). perceba a insuficiência delas. como vimos acima na passagem do Ménon. provocan. A partir daí. 149a-150c). A dialética socrática opera inicialmente através de um questionamento das crenças habituais de um interlocutor. problematiza essas crenças.do-o a dar respostas e a explicitar o conteúdo e o sentido dessas crenças. interrogando-o. a idéia de que o reconhecimento da ignorância é o princípio da sabedoria.discussão no diálogo. fazendo com que o interlocutor caia em contradição. E este o sentido da célebre fórmula socrática "Só sei que nada sei". dê a luz a suas próprias idéias (Teeteto. sinta-se perplexo e reconheça sua ignorância. . o indivíduo tem o caminho aberto para encontrar o verdadeiro conhecimento (episteme). freqüentemente utilizando-se de ironia.

Hípias de Élis. por Platão. Nossa análise irá se concentrar em Protágoras e em Górgias. esta dificuldade se agrava pelo fato de que. Apenas recentemente os intérpretes e historiadores têm procurado revalorizar a contribuição dos sofistas. o que os caracteriza é muito mais uma prática ou uma atitude comuns do que uma doutrina única. em grande parte. Esse fragmento de . que teria sido inclusive mestre de Sócrates. respectivamente. citações. consistindo basicamente numa determinada forma de preparação do cidadão para a participação na vida política. É difícil por isso mesmo termos uma avaliação mais concreta de sua função e mesmo de sua concepção filosófica e pedagógica. suas habilidades aos governantes e aos políticos em geral. tudo o que nos resta são fragmentos.Os sofistas e seu pensamento Texto de Danilo Marcondes Os sofistas surgem exatamente nesse momento de passagem da tirania e da oligarquia para a democracia.C. que percorrem as cidades-estados fornecendo seus ensinamentos. uma formação pela qual os sofistas foram responsáveis. além de mestres de retórica e de oratória.C. sua técnica. Os próprios termos "sofista" e "sofisma" acabaram por adquirir uma conotação fortemente depreciativa. testemunhos. Embora sem formar uma escola ou grupo homogêneo. embora "sofista" inicialmente significasse tão-somente "sábio". Além de termos uma situação semelhante à dos pré-socráticos quanto aos textos dos sofistas. que foram talvez os mais importantes e influentes sofistas. um ensinamento.490421 a. embora tenham existido muitos outros dos quais conhecemos pouco mais do que os nomes.487-380 a. Os principais e mais conhecidos sofistas foram Protágoras de Abdera (c. influência e contribuição à filosofia e aos estudos da linguagem. Sua função nesse contexto foi importantíssima e sua influência muito grande. que pintaram um retrato bastante negativo desses pensadores. muitas vezes mestres itinerantes.ex. Górgias de Leontinos (c. e dos quais Platão nos legou um retrato bastante elaborado nos diálogos Protágoras e Górgias. das que são como são e das que não são como não são". isto é. o que se reflete na forte oposição que sofreram por parte de Sócrates. e Trasímaco. Platão e Aristóteles. através de uma visão mais isenta e objetiva de suas doutrinas. Licofron.).). p. Platão e Aristóteles. a maioria destas citações e testemunhos nos chegaram através de seus principais adversários. Os sofistas foram portanto filósofos e educadores. São os mestres de retórica e oratória. embora este papel lhes seja negado. O principal e mais conhecido fragmento de Protágoras é o início de sua obra sobre a verdade. bem como de seu papel. Pródicos. Há portanto uma paideia. quando afirma: "O homem é a medida de todas as coisas.

simplesmente porque isso não seria possível. Isto é.IV a. em uma discussão na Assembléia ninguém detinha a verdade em um sentido completo e absoluto. sem apelo a nenhum elemento externo ou transcendente. Portanto. e era para esse fim que a retórica e a dialética deveriam contribuir. seus interesses. pode ter um sentido de preparação para a discussão e o debate. acreditavam não haver nenhuma outra instância além da opinião a que se pudesse recorrer para as decisões na vida prática. O processo decisório envolvia. possivelmente do séc. mas. que ilustra bem esse tipo de argumentação. Os sofistas deram uma grande contribuição ao desenvolvimento dos estudos da linguagem na tradição cultural grega. a necessidade de superação das diferenças e a convergência de interesses e objetivos. o humanismo e o relativismo. entretanto. pode-se dizer que sofistas como Protágoras não eram meros manipuladores da opinião. variar de acordo com a situação. Protágoras parece assim valorizar um tipo de explicação do real a partir de seus aspectos fenomenais apenas. do estabelecimento da análise etimológica. seus objetivos.C. através da divisão das partes do discurso. sendo ambas igualmente verdadeiras e defensáveis. para que se pudesse produzir um consenso. como se mostram à nossa percepção sensorial. Portanto. intitulado Dissoi logoi ("Os argumentos duplos"). Protágoras aproxima-se assim bastante dos mobilistas. examinando o significado e a origem das palavras. há um tratado de autor desconhecido.certa forma sintetiza duas das idéias centrais associadas aos sofistas. Seu interesse pela elaboração e proferimento do discurso correto e eficaz levou-os a investigar a língua grega e a iniciar seu estudo sistemático. que podem ser explicitadas por meio dessa técnica argumentativa. A técnica argumentativa de Protágoras se encontra sobretudo em seu tratado Antilogia. bem como a tradição literária . e não temos nenhum outro critério para decidir essa questão. mestres sem escrúpulos que vendiam suas habilidades retóricas a quem pagasse mais. mas todos tinham suas razões. por isso mesmo. em que desenvolve a antilógica como tentativa de argumentação pró e contra determinada posição. as quais deveriam ser tomadas com base na persuasão a fim de produzir um consenso em relação às questões políticas. em que aquele que argumenta deve procurar antecipar todas as possíveis objeções à sua posição. Isso pode constituir uma técnica de desenvolvimento de argumentos opostos. as coisas são como nos parecem ser. nosso conhecimento depende sempre das circunstâncias em que nos encontramos e pode. Essa concepção da natureza humana e do conhecimento parece estar subjacente à visão política de Protágoras e a seu recurso à retórica e à dialética enquanto arte ou técnica do discurso argumentativo. mas também pode partir da concepção de que há sempre contradições latentes nas crenças comuns dos indivíduos. ao contrário. Embora essa obra de Protágoras tenha se perdido.. e afasta-se da visão eleática de uma verdade única. Tipicamente. de quem pode ter sofrido influência. procurando defendê-los da melhor forma possível.

. que o interesse pela retórica e pela oratória motivou o desenvolvimento dos estudos de poética e gramática. assim. Pode-se dizer. sobretudo a poesia épica de Homero e Hesíodo. que lhes fornecia boa parte dos recursos estilísticos — imagens. figuras de linguagem — para seus discursos.anterior. metáforas.

isto é. Sem dúvida.se durante os 25 séculos seguintes até os dias de hoje. A questão dos instrumentos do conhecimento: os sentidos e a razão. consistindo basicamente nisso sua função crítica. de legislador de uma cultura. a temática do conhecimento e o papel crítico da filosofia. ou a questão éticopolítica. nesse sentido. de natureza inteligível. definir em linhas gerais e em seus traços mais importantes os aspectos centrais desta filosofia que adquire propriamente com Platão sua primeira formulação clássica. tal qual ele é? 2. A filosofia adquire então uma função de análise crítica dos fundamentos.. 4. o sucesso nessa tarefa permite com que a filosofia se estabeleça como uma espécie de árbitro. A questão do objeto do conhecimento: o mundo material ou a realidade superior. Podemos desdobrar a problemática mais ampla e mais geral do conhecimento nas seguintes questões que examinaremos em seguida: 1. o mundo. Vamos procurar.O contexto de surgimento da filosofia de Platão Danilo Marcondes É nesse momento histórico da Grécia antiga. uma vez que a cultura é . A questão da possibilidade do conhecimento: é possível conhecer a realidade. a questão do ser. Pode-se apresentar uma justificativa para a primazia ao problema epistemológico na leitura de Platão. e é este o enfoque que pretendo adotar aqui. a realidade mutável e perecível ou a essência eterna e imutável? Essa interpretação privilegia a epistemologia. que devemos situar o pensamento de Platão. Creio que o desenvolvimento dessa análise deixará mais clara a razão de tal escolha. como se justifica uma determinada pretensão ao conhecimento como legitima. privilegiando. desenvolvendo. A principal tarefa da filosofia seria estabelecer como podemos avaliar determinadas pretensões ao conhecimento. há outras possíveis. discutido anteriormente. Uma das possibilidades de se caracterizar a filosofia. de uma sociedade. do discurso legitimador. p. A questão do método: como é possível esse conhecimento? Ou seja.ex. assim. verdadeira? 3. é através da problemática do conhecimento.

"o mais sábio dos homens". a discussão teórica da questão do conhecimento. Daí a importância não só de como Platão tematiza questões como: — — — — — O que significa a democracia? Qual o estatuto civil da religião? O que significa ensinar? Qual o valor da arte? Como se definem as virtudes? mas também da maneira pela qual tal reflexão se realiza: o diálogo. Tal análise tem um caráter fundacional. julgar as manifestações culturais gregas e o processo decisório em Atenas e suas conseqüências. incluindo as relações sociais que permitem sua produção. não havendo assim circularidade. aqui cultura em um sentido amplo. de seu modelo. portanto. E nesse sentido que a obra de Platão pode ser entendida como uma longa reflexão sobre a decadência da democracia ateniense. bem como a que motivações profundas do homem — legítimas ou não — elas correspondem. Entendemos. como ponto de partida do projeto filosófico. Esquematicamente podemos identificar na concepção platônica as seguintes opo-sições: . tentando descobrir a sua significação. isto é. Sua conclusão é que o conhecimento (o saber) identifica-se com o bem. o contexto político que afinal condenou seu mestre Sócrates. é claro.precisamente o conjunto dessas pretensões ao conhecimento. O conhecimento pode ser caracterizado como a posse de uma representação correta do real. à morte. a colocar a epistemologia. no sentido de que permite que avaliemos criticamente as bases de nossas pretensões ao conhecimento da realidade sem apelar para este conhecimento como pressuposição de nossa investigação. Isso equivale. Envolve assim um reconhecimento da função pedagógica e política da questão do conhecimento. da reflexão filosófica. A obra de Platão se caracteriza como a síntese de uma preocupação com a ciência (o conhecimento verdadeiro e legítimo). avaliar. de seus valores e ideais. com a moral e a política. Uma análise de nossas pretensões ao conhecimento é possível na medida em que examinemos como se formam essas representações. Platão pretende analisar.

tinguindo-a dos outros modos de discurso. . em certo sentido. Veremos adiante. através da razão. mas conduz seu interlocutor a descobrir ele próprio a verdade. a filosofia "pré-filosófica" dos pré-socráticos. Constitui um discurso que se funda na legitimidade. É isso que significa a universalidade da razão. A filosofia não deve apenas dizer e afirmar. daí ser considerado crítico e reflexivo. Os sofistas ensinam a arte de convencer não através da busca da razão. o Górgias. que deve ser aceito por todos (tendo portanto um caráter universal). independente de origem. que se impõe pela argumentação racional. segundo Platão. livros VI e VII. a opinião. mas preocupar-se em chegar à verdade. que se caracterizariam por uma degradação da prática do diálogo. uma autoridade divina superior. ambigüidades. uma oposição aos sofistas. à clareza. O discurso filosófico preocupa-se com sua própria legitimação. O filósofo não invoca uma revelação externa. um momento de luta política. o abandono do mundo sensível e a busca do mundo das idéias. a esse propósito. à certeza. respectivamente). p. classe ou função. a dialética platônica tem como ponto de partida o senso comum. A filosofia. vai ser esse discurso legítimo que se instaura como juiz. que produz um consenso legítimo. os célebres textos da Linha dividida e da Caverna {República. sua justificação. p. A prática filosófica envolve assim. a retórica etc. o mito.ex. estabelecendo o que deve ser aceito por todos. uma inspiração.OPINIÃO x VERDADE DESEJO x RAZÃO INTERESSE PARTICULAR x INTERESSE UNIVERSAL SENSO COMUM x FILOSOFIA A filosofia corresponderia a um método para se atingir o ideal em todas as áreas pela superação do senso comum. que se opõe à violência do poder e à ilusão e mistificação ideológicas que caracterizariam o discurso dos sofistas. de metáforas. dis. Os diálogos de Platão representam também. submetidos a um re-exame crítico. segundo o modelo platônico. a tragédia. ilusões.ex. uma superação da opinião. Embora represente um rompimento com o senso comum. Podemos estabelecer a característica essencial da filosofia. mas da manipulação de crenças e interesses.. como critério de validade de todos os discursos.

portanto.O diálogo é a forma pela qual tal consenso pode se estabelecer. A filosofia é assim um projeto politico que tem como objetivo promover a transformação da realidade. Não percebe que a linguagem só é válida quando expressa um conhecimento verdadeiro. na possibilidade de justificação. É preciso. o caráter de aparência das opiniões e preconceitos dos homens habitualmente em seu senso comum. que formam um todo integrado. na realidade particular. isto é. que não se fundam no conhecimento da verdade. portanto. interesses e preconceitos nela embutidos. que a opinião tem uma "falsa consciência" de si mesma. mutável. concreta. Por outro lado. no saber. e os interesses e não o conhecimento. em última análise. tomando como totalidade do real. a ausência de fundamento. fazer com que o interlocutor tenha consciência disso. Daí a afirmação de que sua obra pode ser considerada uma longa reflexão sobre o fracasso e a decadência da democracia ateniense. superado. ético e político. superar esses obstáculos. passageiro. mas da defesa de uma aristocracia do saber. isto é. a opinião. O discurso é sempre expressão de um sujeito. É. na experiência. buscando um consenso (homologia) fundado no conhecimento verdadeiro. aquilo que é parcial. portanto. É a isso que Platão opõe a verdade e o conhecimento. na verdade. É preciso ir contra a opinião que não se reconhece como opinião. Não se trata de uma simples volta ao passado. buscando uma solução para este problema em sua totalidade. A opinião não se dá conta do caráter convencional da linguagem. crenças. Além disso. em seus aspectos epistemológico. que se baseia em fatos. como fundamento da certeza. admite as paixões. mas que se apresenta como certeza. As relações políticas existentes na democracia decadente refletem um estado de coisas que deve ser abandonado. transformado. contingente. na visão de Platão. o diálogo. o . O diálogo socrático visa o desmascaramento dessa realidade. O método dialético — em suas primeiras versões nos diálogos socráticos de Platão — visa expor e denunciar a fragilidade. antagônico à democracia que. a filosofia é necessária como resposta a uma situação histórica injusta e ilegítima. de convenções. no entendimento racional. e portanto dos valores. O ponto de resolução desse conflito entre opiniões e interesses é o próprio discurso. revelar. é contrário à tirania e à oligarquia. ocultando as inconsistências da experiência sob uma falsa unidade. de um conjunto de crenças e valores. Para Platão. Visa. de um interesse. denunciar.

da oposição pura e simples entre o verdadeiro e o falso. no Fedro. Não há respostas prontas. A defesa. de seus fundamentos. que se crê certa de si mesma. trata-se sempre de um processo que visa levar o interlocutor a reconhecer a fragilidade de suas próprias crenças e ver que aquilo que diz não é o que parece ser. É a partir da radicalização da discussão que se vai descobrir a essência. capaz de superar as divergências de opinião e ter um caráter legislador. representa nessa mesma linha de pensamento a possibilidade de se interpelar o interlocutor e de se exigir explicações.ex. justificações. no diálogo Laques. Instaura-se entre eles uma nova relação. legitimador. mas é um método negativo. a coragem. Ao aceitar as regras do diálogo. é necessário buscar definições. e a opinião.discurso que se presta à manipulação e à mentira deve sempre necessariamente se submeter às regras da inteligibilidade e da sinceridade. e um questionamento dessa própria opinião. mostrando a necessidade de uma interrogação. A dialética é assim também inicialmente um processo de abstração. opondo-se à violência. de princípios discursivos. de sua origem. desejos e inclinações particulares que dão origem a antagonismos. por que se diz. mas também à retórica manipuladora dos sofistas. Através do diálogo. estabelecer o significado do que se diz. é a filosofia. . a alma. Deve admitir provisoriamente contradições para que elas sejam superadas. e assim por diante. clareza sobre o sentido das coisas. a opinião. a natureza daquilo que se discute. sob pena de se pôr em risco a própria comunicação. o que significa aquilo que é dito. IV) do princípio de nãocontradição como devendo ser aceito por todos os participantes do discurso. E a existência de regras. Antes mesmo da distinção. e o discurso que tem a pretensão de ser universal. P. que permite com que se chegue à definição de conceitos. que permite resgatar o discurso verdadeiro e desmascarar a manipulação. por Aristóteles (Metafísica. Procura estabelecer: o que se diz. não mais baseada em interesses. explicitações de seu discurso. inconseqüente. à força física. O método dialético não substituí de início a certeza da opinião por uma outra certeza. mais tarde. ao se expor se revela contraditória. sob pena de não realizar sua função comunicativa. Trata-se agora da busca da universalidade.. O diálogo é a relação verdadeira. os interlocutores abandonam progressivamente a opinião. exigindo uma atitude critica.