Resenha do livro de Philippe Ariès "História Social da Infância e da Família

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1º O SENTIMENTO DA INFÂNCIA
1 As Idades da Vida Assim que uma criança nasce, passado um tempo, já começa a falar suas primeiras palavras, aprende a dizer seu nome, nome de seus pais e a sua idade. Mas no século XVI ou XVII, as exigências de identidade civil ainda não eram tão impostas desse modo. Achamos normal uma criança responder a sua idade corretamente quando questionada. Acontece que em certos lugares, como por exemplo, na savana africana, a noção de idade não se dá claramente como deveria. Nas civilizações técnicas, isso já se tornou corriqueiro, sabemos que precisamos da data de nascimento, para fazer viagens, votar, preencher formulários, entre outros tantos. A criança logo se tornará Fulano N, da turma X. Depois de adulto, ganhará um número de inscrição juntamente com sua carteira de trabalho, esse número passará a acompanhar seu nome. O cidadão será um número, que começa por seu sexo, seu ano e mês de nascimento. O serviço de identidade pretende chegar à meta de que um dia todos terão seu número de registro, por isso tantas campanhas conduzindo a fazer o registro de nascimento das crianças. Foi na Idade Média que surgiu o sobrenome, um nome apenas estava muito impreciso, portanto resolveram completar esse nome com outro logo após, que muitas vezes era nome de lugares. Atualmente, a identidade da pessoa é um documento legalmente imensurável e muito preciso em questão numérica. Existem também outros tipos de documentos, como títulos de comércio, letras de câmbio, cheques, testamentos, que não exigem data de nascimento, mas que são importantes da mesma forma. Acredita-se que somente no século XVIII, os párocos passaram a ter registros exatos como um Estado moderno deve ter, essa importância da idade deu-se a partir dos reformadores religiosos e civis que impuseram isso nas camadas mais ricas da sociedade, as camadas que freqüentavam os colégios. A idade passou a ganhar uma atenção muito especial desde então. Em retratos do século XVI, já se percebe essa preocupação em ressaltar as idades e as datas das pinturas. Nos retratos de pessoas da corte, isso se dava por ausente, um dos mais antigos exemplo era o admirável retrato de Margaretha Van Eyck,escrito no alto: meu marido me pintou em 17 de junho de 1439, e embaixo, 33 anos. Muitas dessas pinturas formavam quadros. Esses retratos de família funcionavam como documento da própria história familiar, assim como hoje seriam os álbuns de família. Também existiam os diários de família, que serviam para guardar os acontecimentos que haviam ocorrido, como por exemplo, os nascimentos e as mortes. As pessoas naquela época sentiam necessidade de dar á vida familiar uma história. No século XVII, espalhou-se o hábito de gravar uma data em objetos da casa. Na Alsácia, Suíça, Áustria e Europa Central no século XVII ao XIX, os móveis era datados e também vinham com o nome de seus proprietários. A partir do século XVII, muitas dessas inscrições começaram a desaparecer de quadros, só havia algumas ainda em pintores de província ou provincializantes. Referente à questão da criança a aprender seu nome e sua idade logo após começar a falar, pode verificar-se, por exemplo, que Sancho Pança não tinha conhecimento exato da idade de sua filha, era apenas algo inexato que descrevia que ela deveria ter uns 15 anos, ou mais, ou menos.

que dura até os 14 anos. ligada ás correspondências secretas internaturais. A terminologia que hoje nos passa uma impressão tão vazia traduzia noções que na época eram científicas. era assim chamada devida á força que estava no cidadão para ajudar a si mesma e aos outros. relata a história de sua vida com exatidão quando refere-se aonde e quando nasceu. Depois disso. Isidoro nomeia de gravidade. Essa noção pertencia ao Império Bizantino. no século VI. Na Idade Média. vem a adolescência. Estava aí um misto de rigorosidade e incerteza. era objeto de vulgarização.C dos escritos do Império Bizantino e que ainda sugeria os primeiros livros impressos de vulgarização científica no século XVI. responderam-lhe que ele teria nascido em 1499. em meados do século XVI. dava-se a velhice. repetidas e usuais. que traduzia a unidade essencial da natureza de Deus. o último dos livros era consagrado aos números e as medidas. Para o homem de outra época. Ele diz que quando se informou da data de seu nascimento. e tudo que nela nasce é chamo de enfant que significa não-falante. Le Grand Propriétaire de toute choses é uma grande enciclopédia que abrigava todos os conhecimentos profanos e sacros. As idades da vida se tornaram também uma das formas comuns de conceber a biologia humana. os autores faziam uma terminologia puramente verbal: infância e puerilidade. Essa concepção rigorosa pode ser relacionada ao atraso do avanço científico. e. As µidades da vida¶ ou µidades do homem¶ equivaliam a noções positivas. no domingo de Qüinquagésima. de anjos. descrições de física. natural de Valais. porém segundo Isidoro se estende até os 28 anos. que estava entre a juventude e a velhice. A ciência antigo medieval. velhice e senilidade. elas eram obrigadas a não falar claramente e responder certas reservas. juventude e adolescência. chega a segunda idade. escarrando. cada uma dessas correspondia a um período distinto da vida. Após os 14 anos. mas. O crescimento podia terminar antes mesmo dos 30.No século XVI. a idade da senectude. devido ao trabalho precoce que abalava adiantadamente o organismo humano. Eram vinte livros que tratavam de Deus. Os textos da Idade Média traziam a ideia de que a primeira idade é a infância que planta os dentes. de elementos. no momento exato que os sinos chamavam para a missa. porque nessa idade a pessoa é grave nos costumes e nas maneiras. Um gênero de correspondência sideral havia inspirado uma periodização ligada aos 12 signos do zodíaco. conhecidas.humanista e pedagogo. Até os 45. A idade do homem fazia parte de um sistema de descrição e explicação física que voltava aos filósofos jônicos do século VI a. que relacionava as idades da vida com um dos temas populares da Idade Média: as cenas do calendário. 50 durava-se a juventude. Até os 70 anos ou até a morte. e correspondia a um sentimento popular e comum da vida. Existia uma ideia que dizia que a unidade fundamental da natureza não se separava das manifestações sobrenaturais. O ato de conhecer da natureza limitava-se aos estudos das relações por meio de uma mesma causalidade. Thomas Platter. história natural e em práticas mágicas. que segundo Constantino se encerra aos 21 anos. mas existia um fato muito curioso em si. as crianças sabiam sua idade. e essa idade se dá quando a criança nascer e durar até os 7 anos. que passaram da ciência a experiência comum. do homem e do seu corpo. O simbolismo dos números vinha como uma das chaves da solidariedade profunda. os números eram familiares e estavam nas especulações religiosas. pois nessa idade a pessoa não fala bem e não forma ainda claramente suas palavras. em que o velho está sempre tossindo. 35 anos. por questão de boas maneiras. a vida consistia numa . a última fase dessas seria chamada de senies.

e isso criava o adolescente como herói do nosso século XX. em francês já existiam palavras que serviam para se referir a criança. os termos para representar a infância se tornaram numerosos e modernos. mais ou menos em 1900. e com isso. aonde os meninos aprendem a ler ou segurar um livro. a idade do amor. comandando e combatendo. até mesmo os que não eram mais considerados crianças. as cortes de amor. Logo em seguida. o adolescente seria imaginado pelo conscrito. marmousets. as bodas e as caçadas. Ela começou a ser pensada como uma forma de reaviver uma sociedade velha. mostrando novos valores. Furetiére. verificada no século XIV. Na Alemanha wagneriana. trata-se novas formas. das ciências ou dos estudos. complementou o uso do termo enfant. e isso explica o provável disfarce dos homens em mulheres no romance barroco do início do século XVII. Degraus da idade eram gravuras que retratavam pessoas que mostravam as idades justapostas do nascimento até a morte. uma boneca. era ressaltado que. Ou seja. dos homens da lei. cadet populo . A ambigüidade entre infância e adolescência começara a se formar. Na burguesia do século XVII. houve uma ausência de palavras para se referir as crianças pequenas. ou pássaros amarrados. De acordo com um calendário das idades do século XVI. Depois. pequeno frater. e um estojo. e mais tarde chegaria á França. um moinho. do mesmo jeito que acontece quando elas têm 18 anos. uma literária. Homens sem barbas e que já tinham traços suaves. A juventude significava força da idade. Bambino. de força física. Na língua do século XVI. tem a idade da escola. aos 24 anos dá-se a criança forte e virtuosa. no início do século XVIII. foram algumas palavras também criadas para nomear a infância. a ideia de adolescência iniciava-se com duas personagens. A juventude estaria em alta. não havia espaço para adolescência. só se saía da infância quando se saía da puberdade. as crianças brincam com um cavalo de pau. dos homens aramados e as idades sedentárias. A palavra petit também adquiria um sentido especial no final do século XVI: designava todos os alunos das µpequenas escolas¶. como se entrava muito cedo na vida social. das festas. como poupart.continuidade inevitável. Após a I Guerra Mundial. davam-lhes uma aparência feminina. Querubim. a palavra infância restringiu-se a seu sentido moderno. em inglês a palavra baby também era usada para crianças grandes. viraria alvo de preocupação de políticos e moralistas. e as meninas a fiar. ³pequenos anjos´. foi o primeiro adolescente moderno típico. de espontaneidade e de alegria de viver. dos passeios de rapazes e moça. a ideia de infância estava ligada a ideia de puberdade. A periodização da vida possuía a mesma fixidez que o ciclo da natureza ou a organização da sociedade. porque já atuavam como homens feitos. Em relação à idade dos brinquedos. em ³pequenas almas´. Por exemplo. e para nós hoje em dia a vida é considerada como um fenômeno biológico. conscrito. Eram usadas expressões do tipo ³Eles não vão á missa todos os dias. µidade média¶. No século XVIII. uma boneca. mas. mas sim. cíclica.petit peuple. Em Querubim. os traços redondos e cheinhos dos meninos da primeira adolescência. Siegfried de Wagner. já não eram mais considerados adolescentes. de naturismo.Essas expressões anunciavam o sentimento do século do XVIII e do romantismo. em . manifestou a mistura de pureza. Com Port-Royal e toda literatura moral e pedagógica. surgiram os fenômenos da adolescência. e a outra social. Idade da guerra. No século XVIII. é algo também que não possui nome e que procuramos nomeação. ele disse que esse termo também seria um termo de amizade para saudar ou agradar alguém. Poupart significava não apenas mais uma criança. como até hoje é utilizado pelos franceses. somente os pequenos.

A partir daí. Na França antiga. aquele ancestral de cabelos de prata. E no século XVI ainda vestiam-se assim as meninas. a adolescência cresceria. No fim do século XVIII o traje das crianças se transforma e nos subúrbios populares. era considerada como a idade dos livros. nem eram tão velhos assim e nos pareciam bem mais jovens do que como eram classificados. nada na roupa medieval a separava do adulto. No século XVII a criança de boa família passou a não ser mais vestida como os adultos. embora não existissem nos costumes. pois as meninas do momento em que deixavam os cueiros eram vestidas como mulherzinhas. os espaços da vida que haviam sido nomeados. ele foi trocado por ³homem de certa idade´ e ³senhores bem conservados´. o patriarca de importantes experiências: o ancião de Greuze. mais precisamente o menino. Nessa ocasião as capas e túnica muitas vezes tinham mangas que podiam se vestir ou deixa-las pendentes. A segunda etapa foi o desaparecimento do ancião. a velhice começava cedo. De acordo com os costumes. sofria uma evolução inversa. Enfim. Hoje. a velhice não era respeitada. calças compridas. que é também uma representação das idades da vida. também chamados de jaquette. aonde velho tinha um significado pejorativo. pelo menos do francês falado. o primeiro traje era o vestido das meninas e depois o vestido comprido com golas. No século XIX o costume de efeminar . desprezo da velhice. a adolescência. como por exemplo. nos séculos XVI-XVII a imagem do homem integral era a de um homem jovem. duas fitas largas presas ao vestido atrás dos dois ombros. Iniciava-se então uma época em quem a adolescência era tida como a idade favorita. era o período do traje longo. Nos colégios o vestido por cima das calças justas até o joelhos era utilizado. A idade privilegiada do século XVII era a juventude. mas comportava um ornamento singular. A ausência da adolescência. Na sociedade antiga. mais folgado. Cada época correspondia uma idade privilegiada e uma periodização particular da vida humana. 3 O Traje das Crianças Na idade média as crianças eram vestidas indiferentemente de idade. homens começaram usar traje mais específico. mas hoje já poderia ser considerado assim. a juventude virou um imenso fenômeno. os velhos de Moliére. A velhice dava-se pela perda de cabelo e uso de barba. do século XIX. Foram retirados do Império Bizantino e da Idade Média. a velhice desapareceu. do recolhimento. apetites e costumes. aonde os combatentes das frentes de batalha se colocaram contra ás velhas gerações de retaguarda. A evolução aconteceu em duas etapas: havia o ancião respeitado. A linguagem moderna usou esses velhos vocábulos para classificar realidades novas: último avatar do tema que durante muito tempo foi familiar e hoje está esquecido. deixasse mais à vontade. desaparecimento da velhice e introdução da adolescência manifesta a reação da sociedade diante da duração da vida. que equivaleriam ao avental. Restif de la Bretonne e todo o século XIX. no século XVIII o traje da criança torna-se mais leve. Já tinha os adolescentes casados. o Nestor que transmitia sábios conselhos. da devoção e da caduquice. Últimos restos das falsas mangas. fosse meninos ou meninas. não era propriamente um rapaz na época.1914. que mostrariam seus valores. A velhice. o ancião no concerto de Ticiano. fazendo com que a infância fosse para trás e maturidade fosse levada para frente. Essas fitas nas costas havia tornado signos da infância que distinguia as crianças. e do século XX. a infância. o das ³idades da vida´.

onde se faziam brigas de galo e brincadeiras de bola. A dança e o canto tinham uma grande importância naquela época e ainda com a mesma idade o menino já jogava malha. joga jogos de azar e assistia a brigas. que no primeiro momento ficava embaixo da mesa e indicava para a quem seriam as fatias do bolo. caça e cabra-cega. os jogos foram mais voltados à cavalaria. isso equivaleria hoje a uma criança praticando golfe. onde era perfeitamente natural. Na noite de Natal. Havia festas sazonais e tradicionais. tamanha barbárie vista nos dias de hoje. onde a criança tinha um papel ativo na celebração. Luís XIII dançava balé e até mesmo danças de meninos de quinze anos. onde era objeto de satisfação. a principal importância eram os jogos e os divertimentos. não diferente do que é hoje. era normal que meninos e meninas partilhassem deste brinquedo. principalmente mulheres. 4 Pequena Contribuição à História dos Jogos e Brincadeiras Para entender de forma mais clara como eram as brincadeiras no início do século XVII são utilizadas informações presentes no diário do médico Heroard sobre o Delfim da França. a criança jogava os mesmos jogos e participava das mesmas atividades dos adultos. diferente daquela época. era voltado aos adultos. isso também acontecia com os brinquedos em miniatura que eram monopólio das crianças. o catavento e o pião. o balanço também surgiu nesse momento. Já com quatro a cinco anos já praticava arco. caminhõezinhos. . rimas. bibelôs. a não ser que pagassem um tipo de fiança. o futuro Luís XIII. Com sete anos inicia-se o processo de abandono aos brinquedos e começa a aprender a montar a cavalo. as brincadeiras apareciam apenas na primeira infância. Com dois anos e sete meses recebe uma ³pequena carruagem cheia de bonecas´. jogos de raquetes. após carregavam uma vela. preta ou colorida. com três anos e já falando corretamente. que hoje se tornou o nome do teatro de marionetes reservado as crianças. Na questão das brincadeiras dá-se a entender que os adultos não se preocupavam tanto com o trabalho como hoje é valorizado. e no último momento saiam pela vizinhança cantando e tocando. Terça-feira gorda. a atirar e a caçar. mímicas e inúmeros outros de salão. como uma pomba mecânica e eram brinquedos destinados tanto a ele quanto a Rainha. lembrando que este instrumento não era nobre. Não havia sentimento de respeito e nem se acreditava na inocência delas. também brincava com cavalo de pau. nesta festividade podiam surrar os judeus e as prostitutas.os meninos só desapareceria após a Primeira Guerra Mundial. No século XVIII figuravam-se festas e ritos. As crianças eram tratadas com liberdades grosseiras e brincadeiras indecentes. como a dos Reis. ofícios. jogava xadrez. Por volta de 1600. Carnaval. e até mesmo adulto em suas coleções possuem objetos como carrinhos. Cerca de cinco meses depois ele começa a aprender a falar. sendo que se ensinava a pronunciar as sílabas separadamente antes de dizer a palavra. No fim do século XV. Com um ano e cinco meses o menino toca violino e canta ao mesmo tempo. o Delfim ganhou uma bola e algumas quinquilharias italianas. ou seja. O teatro de marionetes foi uma manifestação da arte popular. inclusive Guignol era uma personagem do teatro popular. até mesmo os adultos. quando as crianças. Nos dias de hoje isso nos choca. 5 Do Despudor à Inocência Século XVI inicio XVII: A infância era ignorada. se havia o hábito de confiar as crianças uma função especial no cerimonial que acompanhava as reuniões familiares e sociais. Existiam outras festas como a Santos-Inocentes.

Ensinar a ler bons livros. desenvolvendo o caráter e a razão. pois se neutralizariam. Surge na França e na Inglaterra. Começa a se falar sobre a sua fragilidade. A educação é vista como a obrigação humana mais importante. comparando-as com os anjos. e preocupação com a decência. evitar canções populares. desse modo. a liberdade de linguagem também era natural naquela época. Uma nova devoção do anjo da guarda se estabeleceu.A pedofilia fazia parte dos costumes daquele período. 3° Recato. na sociedade medieval. pois refletia a pureza divina da criança. como modelo a ser seguido. separá-las da sociedade dos adultos. Um grande movimento moral refletia com uma vasta literatura pedagógica. e se fossem maiores esses jogos não seriam feitas com segundas intenções. Não deixar as crianças sozinhas. Há também uma valorização dos trechos do evangelho. Elas ouviam e viam tudo que se passava no mundo dos adultos. uma preocupação sobre o respeito da infância. 2º A VIDA ESCOLÁSTICA Observando a história da educação no período da Idade Média podemos notar o progresso do sentimento da infância: como a escola e o colégio que se tornaram no início dos tempos modernos um meio de isolar as crianças justamente no período de formação moral e intelectual e. pequenas escolas. Essa doutrina desenvolveu alguns princípios: 1°. casas particulares. esses gestos não teriam conseqüências. A criança adquire dentro da família importância e torna-se brinquedinho do adulto. pois eram apenas brincadeiras. Neste período os pequenos Santos. Acreditavam que se as crianças fossem muito pequenas. comédias. O menino Jesus passa a ser representado sozinho (longe da sagrada família). (As crianças ricas eram confiadas a preceptor). 4° Evitar tratamentos íntimos. Portanto. O sentido da inocência infantil resultou em atitude moral. Certos educadores começaram a se preocupar com as linguagens utilizadas em livros. espetáculos. e as crianças santas. desenvolvendo uma disciplina rigorosa. Uma devoção particular passou então a ser dirigida a infância sagrada. brincadeiras sexuais entre crianças e adultos. tendo um comportamento sério. finalmente. A concepção moral da infância associava a fraqueza com a inocência. entre Católicos e Protestantes no fim do século XVI. contato com os criados. Só seria admitido quem estivesse preparado.as diferentes idades eram misturadas e . moralidade e mudanças de hábitos. preocupação também com o pudor e cuidados com a castidade. A 1° comunhão iria se tornar progressivamente a grande festa religiosa da infância. onde Jesus está com as criancinhas. o sentimento da infância não existia.na Idade Média . visto que . e começam a multiplicar os colégios. habituá-las cedo à seriedade. 2ª Evitar mimar. substituir o ³Tu´ pelo ³Vós´. A grande mudança nos costumes se daria durante o século XVI. O uso da mesma cama era hábito comum em todas as camadas sociais. com uma vigilância contínua. são valorizadas para outras crianças.

o estudante não era distinguido do adulto. a escola medieval não dispunha de um lugar ³próprio´ para o ensino. alunos de lógica e de física). Alguns moravam na própria casa do mestre ou na casa de um padre. de origem medieval ± senão persistente. vários em cada quarto. Essa evolução mostrou-se sensível ao sentimento das idades. Nesse regime. Graças ao modo de vida particular ³a juventude escolar foi separado do resto da sociedade´. ou melhor. enraizado na vida . Realmente não havia distinção entre a criança e o adulto fazendo. 1 Jovens e Velhos Escolares da Idade Média Na escola medieval misturavam-se todas as idades . os educadores inspiravam-se no espírito das fundações monásticas do século XIII. Muitas vezes as aulas eram dadas no claustro. essa separação não os atingia como crianças. o mestre alugava uma sala. portanto.postos a um mesmo local. A partir do século XV o colégio tornou-se instituto de ensino em que uma população numerosa foi submetida a uma hierarquia autoritária e de ensino das artes que serviu de modelo para as grandes instituições do século XV ao XVII. Essa indiferença pela idade era passada despercebida na medida em que era natural um adulto desejoso de aprender misturar-se a um auditório infantil. 2 Uma Instituição Nova: O Colégio No século XIII. a um ambiente inadequado para a aprendizagem. os velhos se misturavam com os jovens nas moradias. abandonando-os a si mesmo (ausência de internato). Philippe Áries deixa um questionamento sobre a negligência das idades: ³Mas como poderia alguém sentir a mistura das idades quando se era tão indiferente à própria idéia de idade?´. desejava-se proteger os estudantes das tentações da vida leiga. aliás. instituição não apenas de ensino. Fora da escola o mestre não conseguia controlar a vida quotidiana de seus alunos. com que as pessoas passassem sem transição de uma fase a outra.meninos e homens. desse modo. ³assim que ingressava na escola. longe de serem separados por idade. fazendo-se satisfeitos dispondo de uma esquina de uma rua. mas na maioria das vezes moravam no habitante local. os colégios eram asilos para estudantes pobres (os bolsistas). ou seja. proteger sua moralidade. o regime não era realmente infantil/juvenil. ou seja. No princípio os menores (os pequenos alunos de gramática foram os primeiros a ser distinguidos estendendo-se até os maiores. de seis a 20 anos ou mais . mas de vigilância e enquadramento da juventude.para o paradigma de que a sociedade de hoje é um reflexo da anterior (ou do princípio). ensinados por um mesmo mestre. forrava o chão com palha para os alunos . o colégio mostrou alterações. sobretudo. a criança entrava imediatamente no mundo adulto´. e sim como estudantes. O estabelecimento definitivo de uma regra de disciplina completou a evolução: de simples sala de aula. Mais tarde. Aliás. uma vez que fora da escola ele tivesse a obrigação de exercer funções de adulto e.lançadas. Indubitavelmente esse é um traço peculiar da antiga sociedade.velhos e jovens ± sentarem-se. (Novamente não se conhecia a natureza nem modelo de tal regime). Então. não se ensinava nos colégios. Em geral. Porém. dentro ou na porta de uma igreja. misturando-se novamente as idades. ao colégio moderno. já que o que estava em vigor era a matéria ensinada e não a preocupação com a idade (fundamental no século XIX). No início era um meio de garantir a um jovem .

Os mestres tinham a responsabilidade moral tanto de formar como de instruir o estudante e por essa razão convinha impor às crianças uma disciplina rígida. ³A repugnância pela precocidade marca a primeira brecha aberta na indiferença das idades dos jovens´. Isso só mudou a partir de uma iniciativa de origem flamenga e parisiense. Finalmente indicava ± essa distinção das classes ± uma conscientização das diferentes fases da vida (infância ou juventude) e do sentimento de que no interior dessas fases existiam várias categorias. Isto é. Portanto. alunos de oitonove anos até mais de 15. gerando assim a estrutura moderna de classe escolar. Todavia. com classes numerosas. Dizia-se como justificativo do retardamento ± retardamento porque até o meio do século XVII aos sete anos a criança . nobres. uma instituição essencial da sociedade: o colégio com um corpo docente separado. começou-se a dividir a população escolar em grupos de mesma capacidade que eram colocados sob a direção de um mesmo mestre. 4 As Idades dos Alunos Do meio para o final do século XVII e século XVIII a política escolar passou a eliminar as crianças muito pequenas. Mais tarde. entretanto mais autoritária e mais hierárquica. Tornou-se. Essa estrutura acentuava a necessidade de adaptar o ensino do mestre ao nível do aluno. idades muito diferentes. o que contrapunha os hábitos escolares medievais os quais misturavam as idades. constituía um grupo de idade maciço. abriu-se a um número crescente de leigos. passou-se a designar um professor especial para cada um desses grupos (na Inglaterra essa formação persistiu até o século XIX). Portanto o colégio era o instrumento para a educação da infância e da juventude em geral. entre a estruturação das classes e as idades. tradicional dos colégios. 3 Origens das Classes Escolares Desde o início do século XV. burgueses e também a famílias mais populares. século XV e XVI ampliou-se. implicando em um sentimento novo que distinguia uma primeira infância de uma infância propriamente escolástica. quase que como uma coincidência.clérigo uma vida honesta. a preocupação de separação das idades só foi reconhecida e afirmada bem mais tarde. logo. submetidos a uma lei diferente da que governava os adultos. as crianças de 10 anos eram mantidas fora do colégio. como à pedagogia humanista que não distinguia a criança do homem e confundia a instrução escolar com a cultura. por hábito. o que se opunha tanto aos métodos medievais de simultaneidade ou de repetição. Na realidade. existia uma relação despercebida. sendo a precocidade de certas infâncias algo aceitável. Porém. logo. com uma disciplina rigorosa. em princípio. A seguir. prestava-se sempre mais atenção ao grau do que à idade. O colégio. as classes e professores eram mantidos em um lugar comum. Dessa maneira conseguia separar uma primeira infância (até os 9-10 anos) de uma infância escolar (depois dessa idade). mesmo leiga. A nova necessidade de análise e divisão das classes caracteriza o nascimento da consciência moderna: a repugnância em misturar espíritos e. tornou-se a condição imprescindível de uma boa educação.

morava com outra família à qual havia sido confinado a um contrato de aprendizagem que previa a freqüência a uma escola. e. Eles deviam também formar os espíritos. hierarquizada da sociedade. cada vez mais. o estudante não estava submetido a uma autoridade disciplinar extracorporativa. A disciplina humilhante ± o chicote e a espionagem ± difere-se do modo de associação corporativa de antes.já podia entrar na escola . mesmo com essa substituição de modelo. seus deveres não consistiam apenas em transmitir. mas tampouco estava entregue a si mesmo. ou seja.. os educadores eram responsáveis pelas almas dos alunos perante Deus. 5 Os Progressos da Disciplina Antes do século XV.que os pequeninhos eram frágeis. graças à burguesia que espalhou o ensino superior/universidade. Contudo restou uma diferença entre a disciplina das crianças e dos adultos: fidalgos escapavam do castigo corporal e o modo da aplicação da disciplina contribuía para distinguir as condições sociais. educar tanto quanto instruir. era afastado do adulto e confundido com a criança. então a juventude escolar seria organizada com base em novos princípios de comando e de hierarquia autoritária. o hábito de impor a todos os alunos série completa de classes e as necessidades de uma pedagogia nova fez-se a relação. como mais velhos diante de companheiros mais jovens. Aliás. dentro do mundo escolar. ou incapazes. no início do século XIX. Entretanto. Entretanto no fim desse século. os elementos de um conhecimento. porque essa camaradagem era reconhecida pelo senso comum. ³imbecis´. Logo. o castigo corporal não é particular da infância. ou residia perto de uma escola com sua família. a uma hierarquia escolar. com a regularização do ciclo anual das promoções. que era o mesmo para todas as idades: jovens e adultos. ou. tinha um valor moral. em suma absolutista. a delação erigida em princípios de governo e em instituição. Porém a partir do fim da Idade Média. A análise de Ariès também revela que o adolescente.. Portanto. Ainda no início do século XIX. Duas idéias surgem ao mesmo tempo: a noção da fraqueza da infância e o sentimento da responsabilidade moral dos mestres. e a aplicação ampla de castigos corporais. mas não era estranha a presença no colégio de adolescentes atrasados. confrarias ou o estudante seguia um mais velho e em troca era surrado e explorado. inculcar virtudes. o sistema de camaradagem se deteriora gradativamente. o sentimento da particularidade da . separavam-se os maiores de 20 anos. ainda não se sentia a necessidade de separar a segunda infância da adolescência. jovens de até 20 anos. deuse a separação. corporações. ele pertencia a uma sociedade ou a um bando de companheiros: tinha que entrar para associações. Portanto. estendendo-se a todas condições sociais. surgem idéias novas da infância e de sua educação: para o Cardeal d¶Estouteville. pode-se afirmar que. De fato. entre a idade e a classe escolar. as vezes até mais também tinham que ser submetido a humilhação do castigo corporal e a uma disciplina idêntica a dos menores. O fato é que uma camaradagem às vezes brutal porém real regulava sua vida cotidiana. Embora a primeira infância fosse isolada a mistura das idades ainda persistiu até o fim do século XVIII. onde o mestre não se interessava pelo comportamento de seus alunos fora da sala de aula. Para definir esse novo sistema. não havia muita distinção entre a infância e a adolescência. três características: a vigilância constante. muito mais do que a escola e seu mestre. as crianças não podiam ser abandonadas sem perigo a uma liberdade sem limites hierárquicos. o sistema disciplinar teria que fugir das raízes da antiga escola medieval. na maioria das vezes. já que se generalizou ao mesmo tempo em que a concepção autoritária.

no século XVIII. uma nova orientação do sentimento da infância. na Inglaterra. uma nova concepção da educação. que a rebaixava a um nível mais inferior. a antiga turbulência medieval hoje é a marca dos meleques. qualquer que seja sua condição social. Os hábitos das classes do século XIX foram impostos às crianças. e o outro para as camadas burguesas e aristocráticas. : Estão faltando duas partes do trabalho do grupo que serão colocadas separadamente Postado por Mateus Pereira às 23:33 .infância. Na frança a criança bem educada seria o pequeno-burguês. reprovação e então o caráter servil do castigo corporal não era mais reconhecido como adaptado à fraqueza. antes de se tornarem os hábitos da elite desse século e. os contemporâneos situavam os escolares no mesmo mundo picaresco dos soldados. dos ³fora-da-lei´. que não mais se ligava ao sentimento de sua fraqueza e não mais reconhecia a necessidade de sua humilhação. o sentido de sua dignidade. começou pelo sentimento de sua fraqueza. *Obs. do homem moderno. tanto nas pequenas escolas como nas classes inferiores dos colégios. Uma nova noção moral deveria distinguir a criança escolar. A criança bem educada seria preservada das rudezas e da imoralidade. Tratava-se agora do despertar na criança a responsabilidade do adulto. os hábitos das crianças bem educadas. A criança era menos oposta ao adulto do que preparada para a vida adulta. no século XIX. criados e mendigos. os ricos foram separados dos pobres. gentleman ± tipo social desconhecido antes do século XIX. A relação entre esses dois fenômenos é que eles foram a manifestação de uma tendência geral ao enclausuramento. Esses hábitos no princípio foram hábitos infantis. e separá-la: a noção da criança bem educada (século XVII). que levava a distinguir o que estava confundindo. dos desordeiros. nos séculos XVI e XVII. já que. dos mendigos. últimos herdeiros dos antigos vagabundos. Triunfa. No século XVIII era preciso humilhar a infância para distingui-la e melhorá-la. pouco a pouco. E. que se tornariam traços específicos das camadas populares e dos moleques. 6 As ³Pequenas Escolas´ No século XVII as crianças foram separadas das mais velhas (de 5-7 a 10-11 anos). Surgiu a idéia de que a infância não era uma idade servil e não merecia ser metodicamente humilhada. entretanto foi surgindo um sentimento de repugnância. e a separar o que estava apenas distinguido. primeiramente como conceitos sem os viveram concretamente. dos escolares do século XVI e início do século XVII. tendo dois tipos de ensinos: uma para o povo. Isso resultou nas sociedades igualitárias modernas que substituía as promiscuidades das antigas hierarquias 7 A Rudeza da Infância Escolar Foi necessária a pressão dos educadores para separar o escolar do adulto boêmio (ambos herdeiros de um tempo em que a elegância de atitude e de linguagem era reservada ao adulto cortês). de sua diferença com relação ao mundo dos adultos.

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