Resenha do livro de Philippe Ariès "História Social da Infância e da Família

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1º O SENTIMENTO DA INFÂNCIA
1 As Idades da Vida Assim que uma criança nasce, passado um tempo, já começa a falar suas primeiras palavras, aprende a dizer seu nome, nome de seus pais e a sua idade. Mas no século XVI ou XVII, as exigências de identidade civil ainda não eram tão impostas desse modo. Achamos normal uma criança responder a sua idade corretamente quando questionada. Acontece que em certos lugares, como por exemplo, na savana africana, a noção de idade não se dá claramente como deveria. Nas civilizações técnicas, isso já se tornou corriqueiro, sabemos que precisamos da data de nascimento, para fazer viagens, votar, preencher formulários, entre outros tantos. A criança logo se tornará Fulano N, da turma X. Depois de adulto, ganhará um número de inscrição juntamente com sua carteira de trabalho, esse número passará a acompanhar seu nome. O cidadão será um número, que começa por seu sexo, seu ano e mês de nascimento. O serviço de identidade pretende chegar à meta de que um dia todos terão seu número de registro, por isso tantas campanhas conduzindo a fazer o registro de nascimento das crianças. Foi na Idade Média que surgiu o sobrenome, um nome apenas estava muito impreciso, portanto resolveram completar esse nome com outro logo após, que muitas vezes era nome de lugares. Atualmente, a identidade da pessoa é um documento legalmente imensurável e muito preciso em questão numérica. Existem também outros tipos de documentos, como títulos de comércio, letras de câmbio, cheques, testamentos, que não exigem data de nascimento, mas que são importantes da mesma forma. Acredita-se que somente no século XVIII, os párocos passaram a ter registros exatos como um Estado moderno deve ter, essa importância da idade deu-se a partir dos reformadores religiosos e civis que impuseram isso nas camadas mais ricas da sociedade, as camadas que freqüentavam os colégios. A idade passou a ganhar uma atenção muito especial desde então. Em retratos do século XVI, já se percebe essa preocupação em ressaltar as idades e as datas das pinturas. Nos retratos de pessoas da corte, isso se dava por ausente, um dos mais antigos exemplo era o admirável retrato de Margaretha Van Eyck,escrito no alto: meu marido me pintou em 17 de junho de 1439, e embaixo, 33 anos. Muitas dessas pinturas formavam quadros. Esses retratos de família funcionavam como documento da própria história familiar, assim como hoje seriam os álbuns de família. Também existiam os diários de família, que serviam para guardar os acontecimentos que haviam ocorrido, como por exemplo, os nascimentos e as mortes. As pessoas naquela época sentiam necessidade de dar á vida familiar uma história. No século XVII, espalhou-se o hábito de gravar uma data em objetos da casa. Na Alsácia, Suíça, Áustria e Europa Central no século XVII ao XIX, os móveis era datados e também vinham com o nome de seus proprietários. A partir do século XVII, muitas dessas inscrições começaram a desaparecer de quadros, só havia algumas ainda em pintores de província ou provincializantes. Referente à questão da criança a aprender seu nome e sua idade logo após começar a falar, pode verificar-se, por exemplo, que Sancho Pança não tinha conhecimento exato da idade de sua filha, era apenas algo inexato que descrevia que ela deveria ter uns 15 anos, ou mais, ou menos.

de anjos. de elementos. Para o homem de outra época. descrições de física. O simbolismo dos números vinha como uma das chaves da solidariedade profunda. Thomas Platter. Ele diz que quando se informou da data de seu nascimento.C dos escritos do Império Bizantino e que ainda sugeria os primeiros livros impressos de vulgarização científica no século XVI. natural de Valais. os autores faziam uma terminologia puramente verbal: infância e puerilidade. mas. Os textos da Idade Média traziam a ideia de que a primeira idade é a infância que planta os dentes. e tudo que nela nasce é chamo de enfant que significa não-falante. porém segundo Isidoro se estende até os 28 anos. Essa concepção rigorosa pode ser relacionada ao atraso do avanço científico. Após os 14 anos. relata a história de sua vida com exatidão quando refere-se aonde e quando nasceu. ligada ás correspondências secretas internaturais. chega a segunda idade. por questão de boas maneiras. Um gênero de correspondência sideral havia inspirado uma periodização ligada aos 12 signos do zodíaco. As µidades da vida¶ ou µidades do homem¶ equivaliam a noções positivas. que segundo Constantino se encerra aos 21 anos. juventude e adolescência. repetidas e usuais. pois nessa idade a pessoa não fala bem e não forma ainda claramente suas palavras. 35 anos. Estava aí um misto de rigorosidade e incerteza. Até os 45. em meados do século XVI. elas eram obrigadas a não falar claramente e responder certas reservas. conhecidas. cada uma dessas correspondia a um período distinto da vida. que relacionava as idades da vida com um dos temas populares da Idade Média: as cenas do calendário. responderam-lhe que ele teria nascido em 1499. escarrando. Le Grand Propriétaire de toute choses é uma grande enciclopédia que abrigava todos os conhecimentos profanos e sacros. Isidoro nomeia de gravidade. e. era assim chamada devida á força que estava no cidadão para ajudar a si mesma e aos outros. Eram vinte livros que tratavam de Deus. A terminologia que hoje nos passa uma impressão tão vazia traduzia noções que na época eram científicas. em que o velho está sempre tossindo. a última fase dessas seria chamada de senies. A idade do homem fazia parte de um sistema de descrição e explicação física que voltava aos filósofos jônicos do século VI a. que dura até os 14 anos. e correspondia a um sentimento popular e comum da vida. A ciência antigo medieval. Depois disso. que traduzia a unidade essencial da natureza de Deus. que passaram da ciência a experiência comum. e essa idade se dá quando a criança nascer e durar até os 7 anos.No século XVI. no momento exato que os sinos chamavam para a missa. que estava entre a juventude e a velhice. Existia uma ideia que dizia que a unidade fundamental da natureza não se separava das manifestações sobrenaturais. os números eram familiares e estavam nas especulações religiosas. no domingo de Qüinquagésima. Na Idade Média. as crianças sabiam sua idade. o último dos livros era consagrado aos números e as medidas. história natural e em práticas mágicas.humanista e pedagogo. vem a adolescência. As idades da vida se tornaram também uma das formas comuns de conceber a biologia humana. dava-se a velhice. O crescimento podia terminar antes mesmo dos 30. porque nessa idade a pessoa é grave nos costumes e nas maneiras. a idade da senectude. 50 durava-se a juventude. Até os 70 anos ou até a morte. era objeto de vulgarização. a vida consistia numa . mas existia um fato muito curioso em si. no século VI. O ato de conhecer da natureza limitava-se aos estudos das relações por meio de uma mesma causalidade. do homem e do seu corpo. Essa noção pertencia ao Império Bizantino. devido ao trabalho precoce que abalava adiantadamente o organismo humano. velhice e senilidade.

cadet populo . as cortes de amor. aos 24 anos dá-se a criança forte e virtuosa. já não eram mais considerados adolescentes. mas. uma boneca. trata-se novas formas. comandando e combatendo. de espontaneidade e de alegria de viver.Essas expressões anunciavam o sentimento do século do XVIII e do romantismo. Furetiére. do mesmo jeito que acontece quando elas têm 18 anos. a ideia de infância estava ligada a ideia de puberdade. Em relação à idade dos brinquedos. No século XVIII. marmousets. Em Querubim. as crianças brincam com um cavalo de pau. e a outra social. surgiram os fenômenos da adolescência. em . até mesmo os que não eram mais considerados crianças. Na burguesia do século XVII. Depois. dos homens aramados e as idades sedentárias. Bambino. e para nós hoje em dia a vida é considerada como um fenômeno biológico. porque já atuavam como homens feitos. complementou o uso do termo enfant.petit peuple. a idade do amor. não havia espaço para adolescência. Logo em seguida. a ideia de adolescência iniciava-se com duas personagens. e as meninas a fiar.continuidade inevitável. manifestou a mistura de pureza. Eram usadas expressões do tipo ³Eles não vão á missa todos os dias. Por exemplo. as bodas e as caçadas. e isso criava o adolescente como herói do nosso século XX. um moinho. a palavra infância restringiu-se a seu sentido moderno. Com Port-Royal e toda literatura moral e pedagógica. de força física. Na língua do século XVI. dos homens da lei. Siegfried de Wagner. houve uma ausência de palavras para se referir as crianças pequenas. A juventude estaria em alta. Degraus da idade eram gravuras que retratavam pessoas que mostravam as idades justapostas do nascimento até a morte. A ambigüidade entre infância e adolescência começara a se formar. No século XVIII. e isso explica o provável disfarce dos homens em mulheres no romance barroco do início do século XVII. só se saía da infância quando se saía da puberdade. pequeno frater. das ciências ou dos estudos. verificada no século XIV. A palavra petit também adquiria um sentido especial no final do século XVI: designava todos os alunos das µpequenas escolas¶. como poupart. Homens sem barbas e que já tinham traços suaves. A juventude significava força da idade. conscrito. mostrando novos valores. ³pequenos anjos´. como se entrava muito cedo na vida social. e mais tarde chegaria á França. cíclica. em inglês a palavra baby também era usada para crianças grandes. Querubim. viraria alvo de preocupação de políticos e moralistas. somente os pequenos. no início do século XVIII. uma boneca. de naturismo. uma literária. ele disse que esse termo também seria um termo de amizade para saudar ou agradar alguém. em ³pequenas almas´. foram algumas palavras também criadas para nomear a infância. e com isso. e um estojo. tem a idade da escola. mais ou menos em 1900. os termos para representar a infância se tornaram numerosos e modernos. aonde os meninos aprendem a ler ou segurar um livro. Ou seja. davam-lhes uma aparência feminina. µidade média¶. ou pássaros amarrados. Idade da guerra. De acordo com um calendário das idades do século XVI. Ela começou a ser pensada como uma forma de reaviver uma sociedade velha. Poupart significava não apenas mais uma criança. Na Alemanha wagneriana. dos passeios de rapazes e moça. era ressaltado que. Após a I Guerra Mundial. em francês já existiam palavras que serviam para se referir a criança. como até hoje é utilizado pelos franceses. das festas. foi o primeiro adolescente moderno típico. é algo também que não possui nome e que procuramos nomeação. os traços redondos e cheinhos dos meninos da primeira adolescência. A periodização da vida possuía a mesma fixidez que o ciclo da natureza ou a organização da sociedade. o adolescente seria imaginado pelo conscrito. mas sim.

que é também uma representação das idades da vida. A velhice dava-se pela perda de cabelo e uso de barba. o Nestor que transmitia sábios conselhos. A idade privilegiada do século XVII era a juventude. deixasse mais à vontade. desprezo da velhice. mais folgado. nos séculos XVI-XVII a imagem do homem integral era a de um homem jovem. que equivaleriam ao avental. Hoje. desaparecimento da velhice e introdução da adolescência manifesta a reação da sociedade diante da duração da vida. pois as meninas do momento em que deixavam os cueiros eram vestidas como mulherzinhas. Na sociedade antiga. A linguagem moderna usou esses velhos vocábulos para classificar realidades novas: último avatar do tema que durante muito tempo foi familiar e hoje está esquecido. calças compridas. Enfim. a velhice não era respeitada. A ausência da adolescência. homens começaram usar traje mais específico. sofria uma evolução inversa. Já tinha os adolescentes casados. Últimos restos das falsas mangas. E no século XVI ainda vestiam-se assim as meninas. No século XIX o costume de efeminar . a adolescência cresceria. pelo menos do francês falado. Na França antiga. do século XIX. mais precisamente o menino. A velhice. aonde os combatentes das frentes de batalha se colocaram contra ás velhas gerações de retaguarda. da devoção e da caduquice. fosse meninos ou meninas. No fim do século XVIII o traje das crianças se transforma e nos subúrbios populares. nem eram tão velhos assim e nos pareciam bem mais jovens do que como eram classificados. mas comportava um ornamento singular. embora não existissem nos costumes.1914. apetites e costumes. o patriarca de importantes experiências: o ancião de Greuze. não era propriamente um rapaz na época. De acordo com os costumes. a velhice desapareceu. Essas fitas nas costas havia tornado signos da infância que distinguia as crianças. Cada época correspondia uma idade privilegiada e uma periodização particular da vida humana. Nos colégios o vestido por cima das calças justas até o joelhos era utilizado. a juventude virou um imenso fenômeno. A evolução aconteceu em duas etapas: havia o ancião respeitado. que mostrariam seus valores. Iniciava-se então uma época em quem a adolescência era tida como a idade favorita. 3 O Traje das Crianças Na idade média as crianças eram vestidas indiferentemente de idade. como por exemplo. Foram retirados do Império Bizantino e da Idade Média. o das ³idades da vida´. o ancião no concerto de Ticiano. era considerada como a idade dos livros. e do século XX. era o período do traje longo. os espaços da vida que haviam sido nomeados. a adolescência. aquele ancestral de cabelos de prata. fazendo com que a infância fosse para trás e maturidade fosse levada para frente. no século XVIII o traje da criança torna-se mais leve. do recolhimento. nada na roupa medieval a separava do adulto. a velhice começava cedo. os velhos de Moliére. Nessa ocasião as capas e túnica muitas vezes tinham mangas que podiam se vestir ou deixa-las pendentes. o primeiro traje era o vestido das meninas e depois o vestido comprido com golas. No século XVII a criança de boa família passou a não ser mais vestida como os adultos. A segunda etapa foi o desaparecimento do ancião. A partir daí. Restif de la Bretonne e todo o século XIX. mas hoje já poderia ser considerado assim. também chamados de jaquette. ele foi trocado por ³homem de certa idade´ e ³senhores bem conservados´. duas fitas largas presas ao vestido atrás dos dois ombros. aonde velho tinha um significado pejorativo. a infância.

como a dos Reis. Com dois anos e sete meses recebe uma ³pequena carruagem cheia de bonecas´. onde era objeto de satisfação. jogos de raquetes. principalmente mulheres. 5 Do Despudor à Inocência Século XVI inicio XVII: A infância era ignorada. Havia festas sazonais e tradicionais. Com sete anos inicia-se o processo de abandono aos brinquedos e começa a aprender a montar a cavalo. e até mesmo adulto em suas coleções possuem objetos como carrinhos. bibelôs. se havia o hábito de confiar as crianças uma função especial no cerimonial que acompanhava as reuniões familiares e sociais. a não ser que pagassem um tipo de fiança. Com um ano e cinco meses o menino toca violino e canta ao mesmo tempo. até mesmo os adultos. tamanha barbárie vista nos dias de hoje. como uma pomba mecânica e eram brinquedos destinados tanto a ele quanto a Rainha. Cerca de cinco meses depois ele começa a aprender a falar. as brincadeiras apareciam apenas na primeira infância. rimas. os jogos foram mais voltados à cavalaria. No século XVIII figuravam-se festas e ritos. . o futuro Luís XIII. diferente daquela época. com três anos e já falando corretamente. o catavento e o pião. joga jogos de azar e assistia a brigas. que hoje se tornou o nome do teatro de marionetes reservado as crianças. Terça-feira gorda. preta ou colorida.os meninos só desapareceria após a Primeira Guerra Mundial. Luís XIII dançava balé e até mesmo danças de meninos de quinze anos. inclusive Guignol era uma personagem do teatro popular. que no primeiro momento ficava embaixo da mesa e indicava para a quem seriam as fatias do bolo. Carnaval. o balanço também surgiu nesse momento. a criança jogava os mesmos jogos e participava das mesmas atividades dos adultos. era normal que meninos e meninas partilhassem deste brinquedo. o Delfim ganhou uma bola e algumas quinquilharias italianas. 4 Pequena Contribuição à História dos Jogos e Brincadeiras Para entender de forma mais clara como eram as brincadeiras no início do século XVII são utilizadas informações presentes no diário do médico Heroard sobre o Delfim da França. também brincava com cavalo de pau. A dança e o canto tinham uma grande importância naquela época e ainda com a mesma idade o menino já jogava malha. As crianças eram tratadas com liberdades grosseiras e brincadeiras indecentes. não diferente do que é hoje. onde era perfeitamente natural. ofícios. a atirar e a caçar. jogava xadrez. Já com quatro a cinco anos já praticava arco. lembrando que este instrumento não era nobre. Na noite de Natal. Na questão das brincadeiras dá-se a entender que os adultos não se preocupavam tanto com o trabalho como hoje é valorizado. caça e cabra-cega. isso também acontecia com os brinquedos em miniatura que eram monopólio das crianças. era voltado aos adultos. Nos dias de hoje isso nos choca. onde a criança tinha um papel ativo na celebração. No fim do século XV. onde se faziam brigas de galo e brincadeiras de bola. e no último momento saiam pela vizinhança cantando e tocando. sendo que se ensinava a pronunciar as sílabas separadamente antes de dizer a palavra. a principal importância eram os jogos e os divertimentos. nesta festividade podiam surrar os judeus e as prostitutas. ou seja. isso equivaleria hoje a uma criança praticando golfe. após carregavam uma vela. O teatro de marionetes foi uma manifestação da arte popular. caminhõezinhos. Por volta de 1600. mímicas e inúmeros outros de salão. Existiam outras festas como a Santos-Inocentes. quando as crianças. Não havia sentimento de respeito e nem se acreditava na inocência delas.

A pedofilia fazia parte dos costumes daquele período. finalmente. Neste período os pequenos Santos. esses gestos não teriam conseqüências. Certos educadores começaram a se preocupar com as linguagens utilizadas em livros. comédias. pequenas escolas. substituir o ³Tu´ pelo ³Vós´. como modelo a ser seguido.na Idade Média . comparando-as com os anjos. evitar canções populares. são valorizadas para outras crianças. visto que . pois se neutralizariam. desenvolvendo o caráter e a razão. o sentimento da infância não existia. habituá-las cedo à seriedade. Uma devoção particular passou então a ser dirigida a infância sagrada. com uma vigilância contínua. pois eram apenas brincadeiras. Acreditavam que se as crianças fossem muito pequenas. Ensinar a ler bons livros. e preocupação com a decência. e começam a multiplicar os colégios. Essa doutrina desenvolveu alguns princípios: 1°. A grande mudança nos costumes se daria durante o século XVI. Só seria admitido quem estivesse preparado. Um grande movimento moral refletia com uma vasta literatura pedagógica. onde Jesus está com as criancinhas. entre Católicos e Protestantes no fim do século XVI. desenvolvendo uma disciplina rigorosa. uma preocupação sobre o respeito da infância. casas particulares. 4° Evitar tratamentos íntimos. A educação é vista como a obrigação humana mais importante. espetáculos. na sociedade medieval. O menino Jesus passa a ser representado sozinho (longe da sagrada família). Elas ouviam e viam tudo que se passava no mundo dos adultos. (As crianças ricas eram confiadas a preceptor). Surge na França e na Inglaterra. O uso da mesma cama era hábito comum em todas as camadas sociais. 3° Recato. moralidade e mudanças de hábitos. Há também uma valorização dos trechos do evangelho. a liberdade de linguagem também era natural naquela época. preocupação também com o pudor e cuidados com a castidade. A 1° comunhão iria se tornar progressivamente a grande festa religiosa da infância. 2ª Evitar mimar. A criança adquire dentro da família importância e torna-se brinquedinho do adulto. desse modo. tendo um comportamento sério. Começa a se falar sobre a sua fragilidade. Portanto. e as crianças santas. 2º A VIDA ESCOLÁSTICA Observando a história da educação no período da Idade Média podemos notar o progresso do sentimento da infância: como a escola e o colégio que se tornaram no início dos tempos modernos um meio de isolar as crianças justamente no período de formação moral e intelectual e. brincadeiras sexuais entre crianças e adultos. e se fossem maiores esses jogos não seriam feitas com segundas intenções. Não deixar as crianças sozinhas. pois refletia a pureza divina da criança.as diferentes idades eram misturadas e . A concepção moral da infância associava a fraqueza com a inocência. O sentido da inocência infantil resultou em atitude moral. Uma nova devoção do anjo da guarda se estabeleceu. contato com os criados. separá-las da sociedade dos adultos.

de origem medieval ± senão persistente. ou seja. vários em cada quarto. Nesse regime. dentro ou na porta de uma igreja. o estudante não era distinguido do adulto. Aliás. ³assim que ingressava na escola. instituição não apenas de ensino. ou melhor. 1 Jovens e Velhos Escolares da Idade Média Na escola medieval misturavam-se todas as idades . a escola medieval não dispunha de um lugar ³próprio´ para o ensino. a um ambiente inadequado para a aprendizagem. não se ensinava nos colégios. de seis a 20 anos ou mais . fazendo-se satisfeitos dispondo de uma esquina de uma rua. enraizado na vida . sobretudo. Indubitavelmente esse é um traço peculiar da antiga sociedade. No início era um meio de garantir a um jovem . o regime não era realmente infantil/juvenil. os velhos se misturavam com os jovens nas moradias. longe de serem separados por idade.velhos e jovens ± sentarem-se. A partir do século XV o colégio tornou-se instituto de ensino em que uma população numerosa foi submetida a uma hierarquia autoritária e de ensino das artes que serviu de modelo para as grandes instituições do século XV ao XVII. forrava o chão com palha para os alunos . aliás. mas na maioria das vezes moravam no habitante local.meninos e homens. desse modo. mas de vigilância e enquadramento da juventude. uma vez que fora da escola ele tivesse a obrigação de exercer funções de adulto e.para o paradigma de que a sociedade de hoje é um reflexo da anterior (ou do princípio). Muitas vezes as aulas eram dadas no claustro. misturando-se novamente as idades. alunos de lógica e de física).postos a um mesmo local. Realmente não havia distinção entre a criança e o adulto fazendo. 2 Uma Instituição Nova: O Colégio No século XIII. Graças ao modo de vida particular ³a juventude escolar foi separado do resto da sociedade´. ensinados por um mesmo mestre. Porém. a criança entrava imediatamente no mundo adulto´. os colégios eram asilos para estudantes pobres (os bolsistas). O estabelecimento definitivo de uma regra de disciplina completou a evolução: de simples sala de aula. Em geral. abandonando-os a si mesmo (ausência de internato). Fora da escola o mestre não conseguia controlar a vida quotidiana de seus alunos. portanto. Então. já que o que estava em vigor era a matéria ensinada e não a preocupação com a idade (fundamental no século XIX).lançadas. Alguns moravam na própria casa do mestre ou na casa de um padre. o colégio mostrou alterações. No princípio os menores (os pequenos alunos de gramática foram os primeiros a ser distinguidos estendendo-se até os maiores. Philippe Áries deixa um questionamento sobre a negligência das idades: ³Mas como poderia alguém sentir a mistura das idades quando se era tão indiferente à própria idéia de idade?´. Essa indiferença pela idade era passada despercebida na medida em que era natural um adulto desejoso de aprender misturar-se a um auditório infantil. Mais tarde. essa separação não os atingia como crianças. os educadores inspiravam-se no espírito das fundações monásticas do século XIII. o mestre alugava uma sala. proteger sua moralidade. desejava-se proteger os estudantes das tentações da vida leiga. ou seja. com que as pessoas passassem sem transição de uma fase a outra. Essa evolução mostrou-se sensível ao sentimento das idades. (Novamente não se conhecia a natureza nem modelo de tal regime). ao colégio moderno. e sim como estudantes.

o que se opunha tanto aos métodos medievais de simultaneidade ou de repetição. Portanto o colégio era o instrumento para a educação da infância e da juventude em geral. o que contrapunha os hábitos escolares medievais os quais misturavam as idades. por hábito. Na realidade. alunos de oitonove anos até mais de 15. em princípio. Finalmente indicava ± essa distinção das classes ± uma conscientização das diferentes fases da vida (infância ou juventude) e do sentimento de que no interior dessas fases existiam várias categorias. as crianças de 10 anos eram mantidas fora do colégio. Todavia.clérigo uma vida honesta. começou-se a dividir a população escolar em grupos de mesma capacidade que eram colocados sob a direção de um mesmo mestre. idades muito diferentes. Tornou-se. Essa estrutura acentuava a necessidade de adaptar o ensino do mestre ao nível do aluno. implicando em um sentimento novo que distinguia uma primeira infância de uma infância propriamente escolástica. burgueses e também a famílias mais populares. sendo a precocidade de certas infâncias algo aceitável. 4 As Idades dos Alunos Do meio para o final do século XVII e século XVIII a política escolar passou a eliminar as crianças muito pequenas. a preocupação de separação das idades só foi reconhecida e afirmada bem mais tarde. O colégio. Os mestres tinham a responsabilidade moral tanto de formar como de instruir o estudante e por essa razão convinha impor às crianças uma disciplina rígida. Dizia-se como justificativo do retardamento ± retardamento porque até o meio do século XVII aos sete anos a criança . entretanto mais autoritária e mais hierárquica. entre a estruturação das classes e as idades. 3 Origens das Classes Escolares Desde o início do século XV. Portanto. tradicional dos colégios. A nova necessidade de análise e divisão das classes caracteriza o nascimento da consciência moderna: a repugnância em misturar espíritos e. Dessa maneira conseguia separar uma primeira infância (até os 9-10 anos) de uma infância escolar (depois dessa idade). Isso só mudou a partir de uma iniciativa de origem flamenga e parisiense. abriu-se a um número crescente de leigos. prestava-se sempre mais atenção ao grau do que à idade. tornou-se a condição imprescindível de uma boa educação. como à pedagogia humanista que não distinguia a criança do homem e confundia a instrução escolar com a cultura. nobres. Isto é. gerando assim a estrutura moderna de classe escolar. existia uma relação despercebida. ³A repugnância pela precocidade marca a primeira brecha aberta na indiferença das idades dos jovens´. século XV e XVI ampliou-se. constituía um grupo de idade maciço. com classes numerosas. Mais tarde. as classes e professores eram mantidos em um lugar comum. logo. mesmo leiga. A seguir. com uma disciplina rigorosa. uma instituição essencial da sociedade: o colégio com um corpo docente separado. passou-se a designar um professor especial para cada um desses grupos (na Inglaterra essa formação persistiu até o século XIX). submetidos a uma lei diferente da que governava os adultos. Porém. quase que como uma coincidência. logo.

. Entretanto no fim desse século. Porém a partir do fim da Idade Média. Entretanto. onde o mestre não se interessava pelo comportamento de seus alunos fora da sala de aula. deuse a separação. as crianças não podiam ser abandonadas sem perigo a uma liberdade sem limites hierárquicos. pode-se afirmar que. mas não era estranha a presença no colégio de adolescentes atrasados. e a aplicação ampla de castigos corporais. Portanto. com a regularização do ciclo anual das promoções. tinha um valor moral. morava com outra família à qual havia sido confinado a um contrato de aprendizagem que previa a freqüência a uma escola. inculcar virtudes. os elementos de um conhecimento. o castigo corporal não é particular da infância. no início do século XIX. então a juventude escolar seria organizada com base em novos princípios de comando e de hierarquia autoritária. estendendo-se a todas condições sociais. mesmo com essa substituição de modelo. dentro do mundo escolar. o estudante não estava submetido a uma autoridade disciplinar extracorporativa. mas tampouco estava entregue a si mesmo. Logo. De fato.que os pequeninhos eram frágeis. hierarquizada da sociedade. em suma absolutista. ou incapazes. ³imbecis´. muito mais do que a escola e seu mestre. os educadores eram responsáveis pelas almas dos alunos perante Deus. Ainda no início do século XIX. surgem idéias novas da infância e de sua educação: para o Cardeal d¶Estouteville. jovens de até 20 anos. a uma hierarquia escolar. ou seja. na maioria das vezes. ou residia perto de uma escola com sua família. Embora a primeira infância fosse isolada a mistura das idades ainda persistiu até o fim do século XVIII. corporações. que era o mesmo para todas as idades: jovens e adultos. A disciplina humilhante ± o chicote e a espionagem ± difere-se do modo de associação corporativa de antes. separavam-se os maiores de 20 anos. 5 Os Progressos da Disciplina Antes do século XV. Eles deviam também formar os espíritos. o sentimento da particularidade da . era afastado do adulto e confundido com a criança. Portanto. três características: a vigilância constante.já podia entrar na escola . não havia muita distinção entre a infância e a adolescência. cada vez mais. Para definir esse novo sistema. porque essa camaradagem era reconhecida pelo senso comum. as vezes até mais também tinham que ser submetido a humilhação do castigo corporal e a uma disciplina idêntica a dos menores. e. graças à burguesia que espalhou o ensino superior/universidade. confrarias ou o estudante seguia um mais velho e em troca era surrado e explorado. ou.. ele pertencia a uma sociedade ou a um bando de companheiros: tinha que entrar para associações. O fato é que uma camaradagem às vezes brutal porém real regulava sua vida cotidiana. educar tanto quanto instruir. seus deveres não consistiam apenas em transmitir. o sistema disciplinar teria que fugir das raízes da antiga escola medieval. já que se generalizou ao mesmo tempo em que a concepção autoritária. o sistema de camaradagem se deteriora gradativamente. Aliás. ainda não se sentia a necessidade de separar a segunda infância da adolescência. o hábito de impor a todos os alunos série completa de classes e as necessidades de uma pedagogia nova fez-se a relação. A análise de Ariès também revela que o adolescente. a delação erigida em princípios de governo e em instituição. Contudo restou uma diferença entre a disciplina das crianças e dos adultos: fidalgos escapavam do castigo corporal e o modo da aplicação da disciplina contribuía para distinguir as condições sociais. entre a idade e a classe escolar. como mais velhos diante de companheiros mais jovens. Duas idéias surgem ao mesmo tempo: a noção da fraqueza da infância e o sentimento da responsabilidade moral dos mestres.

No século XVIII era preciso humilhar a infância para distingui-la e melhorá-la. últimos herdeiros dos antigos vagabundos. Isso resultou nas sociedades igualitárias modernas que substituía as promiscuidades das antigas hierarquias 7 A Rudeza da Infância Escolar Foi necessária a pressão dos educadores para separar o escolar do adulto boêmio (ambos herdeiros de um tempo em que a elegância de atitude e de linguagem era reservada ao adulto cortês). o sentido de sua dignidade. : Estão faltando duas partes do trabalho do grupo que serão colocadas separadamente Postado por Mateus Pereira às 23:33 . dos escolares do século XVI e início do século XVII. que a rebaixava a um nível mais inferior. A relação entre esses dois fenômenos é que eles foram a manifestação de uma tendência geral ao enclausuramento. os hábitos das crianças bem educadas. de sua diferença com relação ao mundo dos adultos. dos desordeiros. no século XVIII. Os hábitos das classes do século XIX foram impostos às crianças. já que. que não mais se ligava ao sentimento de sua fraqueza e não mais reconhecia a necessidade de sua humilhação. qualquer que seja sua condição social. A criança bem educada seria preservada das rudezas e da imoralidade. entretanto foi surgindo um sentimento de repugnância. tendo dois tipos de ensinos: uma para o povo.infância. uma nova orientação do sentimento da infância. antes de se tornarem os hábitos da elite desse século e. que levava a distinguir o que estava confundindo. reprovação e então o caráter servil do castigo corporal não era mais reconhecido como adaptado à fraqueza. tanto nas pequenas escolas como nas classes inferiores dos colégios. A criança era menos oposta ao adulto do que preparada para a vida adulta. na Inglaterra. a antiga turbulência medieval hoje é a marca dos meleques. e o outro para as camadas burguesas e aristocráticas. criados e mendigos. primeiramente como conceitos sem os viveram concretamente. Na frança a criança bem educada seria o pequeno-burguês. e a separar o que estava apenas distinguido. uma nova concepção da educação. *Obs. e separá-la: a noção da criança bem educada (século XVII). pouco a pouco. nos séculos XVI e XVII. Triunfa. no século XIX. os contemporâneos situavam os escolares no mesmo mundo picaresco dos soldados. começou pelo sentimento de sua fraqueza. que se tornariam traços específicos das camadas populares e dos moleques. Surgiu a idéia de que a infância não era uma idade servil e não merecia ser metodicamente humilhada. Tratava-se agora do despertar na criança a responsabilidade do adulto. 6 As ³Pequenas Escolas´ No século XVII as crianças foram separadas das mais velhas (de 5-7 a 10-11 anos). dos ³fora-da-lei´. os ricos foram separados dos pobres. do homem moderno. E. Uma nova noção moral deveria distinguir a criança escolar. gentleman ± tipo social desconhecido antes do século XIX. Esses hábitos no princípio foram hábitos infantis. dos mendigos.

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