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HUBERTO ROHDEN - O Que Vos Parece Do Cristo

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HUBERTO ROHDEN

“QUE VOS PARECE DO CRISTO?”

“QUE VOS PARECE DO CRISTO?”

Este livro do filósofo e educador contemporâneo, professor HUBERTO ROHDEN, totalmente reescrito e acrescido, é um dos mais importantes textos na extensa bibliografia do autor. A força de seu conteúdo nos atinge como o impacto de um pentecostes. A obra é centrada numa das mais enigmáticas perguntas jamais feita neste planeta Terra: “Que Vos Parece do Cristo?”, formulada por ele mesmo aos seus discípulos. A partir da sua formulação, há quase dois mil anos, a resposta definitiva e universal ainda não nos fora dada. Teólogos de diversas épocas têm tentado dar uma explicação a esta interrogação inquietante, mas a maioria das vezes as respostas não atingem o nível metafísico da sua verdadeira significação. ROHDEN, conhecedor dos textos gregos – os mais próximos do original – , e apoiado na sua imensa cultura e conhecimento dos escritos sobre a vida do Cristo, mergulha analítica e intuitivamente na gênese da pergunta até a sua resposta clara e definitiva. A linguagem da obra é concentrada, una, simples, nítida e apresentada linearmente. Ao folhearmos a última página, uma saciedade metafísica de certeza e transbordamento nos aquieta e conforta. Sentimo-nos imensamente enriquecidos. Agora sabemos a “saída para o futuro”. ROHDEN alerta a seus leitores: “As páginas deste livro são dedicadas à cristicidade individual de alguns, e não ao cristianismo social de muitos. Os muitos condenarão este livro como heresia, e têm razão; mas é precisamente este caráter herético a maior prova da sua autenticidade crística. A única chance de cristificar a humanidade é voltarmos à cristicidade da mensagem real do Cristo, que não está condicionada a tempo e espaço, mas é uma mensagem tipicamente extra-temporal e extra-espacial, porque, como dizia Tertuliano, toda a alma humana é crística por sua própria natureza. É neste sentido crístico que lançamos as páginas deste livro. Feliz daquele que ler este livro.

E mais feliz ainda é aquele que puder viver e vivenciar esta experiência crística. “Vós fareis as mesmas obras que eu faço, e fareis obras maiores do que estas”. Eis aí implicitamente a resposta suficiente e total. Sim, nós estamos nele e ele está em nós. Tudo é possível. Cristo – o Caminho, a Verdade e a Vida.

ADVERTÊNCIA

A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior, porque deturpa o pensamento. Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a transição de uma existência para outra existência. O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado. Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores. A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada se aniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa mas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa. Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquer convenções acadêmicas.

CRISTIANISMO – CRISTICIDADE

Antes de tudo, prevenimos o leitor que este livro não pretende justificar alguns dos numerosos tipos de cristianismo que, há diversos séculos, existem nos países ocidentais daquém e dalém-mar. Damos plena razão a Nietzsche que, no princípio deste século, escreveu: “Se o Cristo voltasse ao mundo em nossos dias, a primeira declaração que faria ao mundo cristão seria esta: Povos cristãos, sabei que eu não sou cristão”. Mahatma Gandhi respondia a todos os missionários cristãos que o queriam converter: “Aceito o Cristo e seu Evangelho, não aceito o vosso cristianismo”. Albert Schweitzer, teólogo cristão e filho de um ministro evangélico, escreveu: “Nós injetamos nos homens o soro da nossa teologia, e quem é vacinado com o nosso cristianismo está imunizado contra o espírito do Cristo. Abraham Lincoln, um dos maiores presidentes dos Estados Unidos, nunca se filiou a nenhuma das muitas igrejas cristãs que há nesse país, porque estava à espera da igreja do Cristo. Por que esta discrepância entre Cristo e cristianismo, da parte de pessoas espirituais e sinceras? Porque é impossível identificar o Cristo com alguma organização religiosa; qualquer tentativa destas é necessariamente uma deturpação e uma falência. Toda a organização é produto do ego, e esse ego é, por sua natureza, egocêntrico, e por isso anti-crístico. A única coisa que pode haver é uma experiência crística individual, mas nunca uma organização cristã social. Diversas pessoas têm tido e têm experiência crística; e onde há muita plenitude há necessariamente um transbordamento. Se houvesse muitos homens individuais com genuína experiência crística, o mundo social seria grandemente beneficiado por essa plenitude individual. A cristicidade de muitos produziria, por via indireta, uma espécie de cristianismo social por indução. Mas o que é impossível e contraproducente é que o espírito do Cristo seja expresso por uma organização qualquer, como o ocidente tem tentado inutilmente.

Disto sabia o Cristo quando preveniu os seus conterrâneos, dizendo: “O reino dos céus não vem com observâncias, nem se pode dizer ei-lo aqui, ei-lo acolá! O reino dos céus está dentro de vós”. Existem no Brasil três tipos principais de cristianismo: católico, protestante e espírita. Será que alguma dessas organizações certamente sinceras, pode ser identificada com a genuína mensagem do Cristo? Teria o Cristo feito consistir a grandiosa mensagem cósmica do seu Evangelho em confissão, comunhão e missa? Ou em ler a Bíblia de capa a capa e crer no sangue redentor de Jesus? Ou ainda em caridade e crença em sucessivas reencarnações? Se assim fosse, seria Jesus um hábil codificador de preceitos e proibições, mas nunca esse gênio cósmico que foi o Cristo Real da história. Radha Krishnan, antigo presidente da Índia, escreveu: “A religião da humanidade do futuro será a mística”. A mística é uma experiência estritamente individual, que, quando organizada socialmente, deixa de existir, assim como vida encaixotada não é vida, luz engarrafada não é luz. É da íntima essência da experiência mística ser individual, o que todavia não impede que essa verticalidade individual se desdobre em horizontalidade social; mas esse desdobramento ou transbordamento só acontece quando a experiência vertical atinge o zênite da sua plenitude. O nosso mundo conturbado não pode ser sanado por nenhuma nova organização, religiosa ou civil; somente a experiência mística de muitos pode beneficiar realmente a humanidade. Toda a mística verdadeira e plena é irresistívelmente transbordante e difusora; se não for isto, não passa de misticismo, mas não é uma mística dinâmica. O Cristo nunca organizou nada, nem no âmbito religioso da Sinagoga de Israel, nem no setor civil da política do Império Romano. A sua atuação foi exclusivamente indireta, por espontâneo transbordamento da sua própria plenitude, porque, como diz Paulo de Tarso, nele habitava corporalmente toda a plenitude da Divindade. Durante quase três séculos, do ano 33 até 313, a cristandade das catacumbas vivia dessa cristicidade mística, sem nenhuma organização social. E foi este o período mais glorioso do mundo cristão, o período da verticalidade mística das catacumbas, cuja única saída era para o martírio no Coliseu. Sabemos que no ano 33, foi Jesus entregue à morte pelo beijo de um de seus discípulos – mas muitos ignoram que o mesmo Cristo, no ano 313, foi assassinado pelo beijo de outro discípulo dele, o primeiro imperador cristão Constantino Magno. O beijo de Judas matou o corpo de Jesus – o beijo de Constantino matou o espírito do Cristo.

Judas versus Jesus. Constantino versus Cristo. O beijo com que Constantino Magno traiu o Cristo foi o Edito de Milão, do ano 313, que pôs termo a três séculos de perseguição – mas com este benefício de discípulo preludiou séculos de malefícios de traidor: convidou os discípulos do Cristo a se integrarem na organização do Império Romano; fez do cristianismo a religião oficial do Estado, uma religião estatal, defendida mediante armas, política e dinheiro – armas para matar os inimigos, política para enganar os amigos, dinheiro para comprar e vender consciências. O Edito de Milão foi o fim de três séculos de cristicidade – e o princípio de muitos séculos de cristianismo, social, político, militar. O cristianismo de Constantino continua até hoje no mundo oficial, das igrejas e de alguns governos. Paralelamente, à sombra das catacumbas do silêncio e da solidão, continua em algumas almas a cristicidade dos místicos, cujos nomes não constam e cujas estátuas não figuram em praças e salões.

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As páginas deste livro são dedicadas à cristicidade individual de alguns, e não ao cristianismo social de muitos. Os muitos condenarão este livro como heresia, e têm razão; mas é precisamente este caráter herético a maior prova da sua autenticidade crística. É sabido que a Europa moderna, sobretudo França, Alemanha, Inglaterra, abandonou praticamente o cristianismo tradicional das igrejas. Por isto os teólogos e missionários se voltam para os povos subdesenvolvidos e semianalfabetos da América Latina, onde ainda é possível a aceitação do cristianismo teológico, como no tempo do Império Romano, quando esse cristianismo surgiu. Os países do Oriente não aceitarão jamais o nosso cristianismo em sua forma eclesiástica, porque a cultura filosófica milenar do Oriente é incompatível com as nossas teologias; até hoje, após séculos de esforços missionários, não há 1% (um por cento) de cristãos nos países asiáticos. A verdadeira mensagem do Cristo é perfeitamente compatível com a mais alta evolução cultural da humanidade – mas não com as nossas teologias cristãs.

A única chance de cristificar a humanidade é voltarmos à cristicidade da mensagem real do Cristo, que não está condicionada a tempo e espaço, mas é uma mensagem tipicamente extra-temporal e extra-espacial, porque, como dizia Tertuliano, toda a alma humana é crística por sua própria natureza. É neste sentido crístico que lançamos as páginas deste livro.

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Com isto não condenamos as organizações eclesiásticas ou religiosas que aparecem com o nome de cristianismo. Sabemos que um grupo numeroso de pessoas necessita de uma religião padronizada, que eles passam encampar como norma moral. Essa religião padronizada pode ser considerada como uma espécie de corpo, mas não como a alma do cristianismo, que é o próprio Evangelho do Cristo. Sendo a maioria das organizações religiosas constituídas de massas de pouca evolução, devem os membros delas crer o que podem crer, sabendo, porém, que a verdadeira mensagem do Cristo é algo infinitamente mais sublime, consistindo na realização do Reino de Deus na vida diária. Enquanto as crenças e práticas externas não impedirem a realização do Reino de Deus, podem elas ser toleradas; mas, se alguém identificar com elas a alma da mensagem do Cristo, constituem impedimento para a realização do Reino de Deus sobre a face da terra.

O MISTÉRIO DA ETERNA FASCINAÇÃO DO CRISTO

Livros sem conta se têm escrito sobre o Cristo. Amor sem medida se tem jurado ao Cristo. E, no entanto, eternamente enigmático é o motivo dessa fascinação do Cristo. Tentaremos desvendar cautelosamente o porquê desse fascínio. Todo o homem é inconscientemente o que o Cristo é conscientemente – e o que nós somos potencialmente. A fascinação que sentimos em face do Cristo é a visão do nosso próprio Eu, se fosse plenamente realizado. Esse Eu do Cristo interno, sempre realizável e sempre realizando, e jamais realizado... Fascina-nos o próprio ego humano na visão longínqua do Eu crístico. Fascina-nos a planta dormente na semente. Sentimos o doloroso anseio de sermos explicitamente o que somos apenas implicitamente. Contemplamos o nosso “sopro divino” embrionário na adultez da “imagem e semelhança de Deus”. Vislumbramos o que poderíamos ser – e ainda não somos. “Vós fareis as mesmas obras que eu faço, e fareis obras maiores do que estas.” Como nos fascinam estas palavras! Soam como sinos a tanger em praias longínquas. Como convites para uma solenidade transcendental. Como enlevos de amor mesclados de dor. Como uma alvorada de luz num ocaso de trevas. O nosso Cristo-amor é um auto-amor em outra dimensão.

É amar o nosso Cristo interno no Cristo eterno. Todo o auto-amor, que parece alo-amor, é um Teo-amor. Se nunca ninguém se realizara plenamente, como poderíamos nós ansiar por nossa auto-realização? Agora vislumbramos em espelho e enigma o que esperamos contemplar face a face. Toda a fascinação do Cristo é uma auto-fascinação em ínfima potência. É uma resposta à eterna pergunta: Que é o homem?

QUE É O CRISTO?

A pergunta que serve de título a este livro foi feita, há quase 2000 anos, por Jesus aos chefes da Sinagoga de Israel. E eles responderam que o Cristo era filho de David, isto é, um descendente do rei de Israel, pai de Salomão. Jesus não aceita a resposta, porque, de fato, o Cristo não é filho de David. Esta confusão entre Cristo e Jesus é, pois, antiquíssima, e continua até hoje. Que é o Cristo, o Ungido, que os antigos hebreus chamavam Messias, o Enviado? O quarto Evangelho designa o Cristo com a palavra Logos, começando o texto com estas palavras: “No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus”. A palavra grega Logos é muito anterior à Era Cristã. Os filósofos antigos de Alexandria e de Atenas, sobretudo, Heráclito de Éfeso, designavam com Logos o espírito de Deus, manifestado no Universo. Logos seria, pois, o Deus imanente, em oposição à Divindade transcendente, que não é objeto de nosso conhecimento. A Vulgata Latina traduz Logos por Verbo: “No princípio era o Verbo...”. Logos, Verbo, Cristo são idênticos e designam a atuação da Divindade Creadora, a manifestação individual da Divindade universal. Neste sentido, o Cristo é Deus, mas, não é a Divindade. E neste sentido diz ele aos HOMENS: “Vós sois deuses”; os homens são manifestações individuais da Divindade Universal. A primeira e mais perfeita das manifestações da Divindade Universal, no Universo, é o Cristo, o Verbo, o Logos, que Paulo de Tarso chama acertadamente “o primogênito de todas as creaturas” do Universo. O Cristo é anterior à creação do mundo material. Ele é, “o Primogênito de todas as creaturas”. O Cristo não é creatura humana, mas a mais antiga individualidade cósmica, que, antes do princípio do mundo, emanou da Divindade Universal. O Cristo é Deus, mas não é a Divindade, que Jesus designa com o nome Pai: “Eu e o pai somos um, mas o Pai é maior do que eu”.

Deus, na linguagem de Jesus significa uma emanação individual da Divindade universal. A confusão tradicional entre Deus e Divindade tem dado ensejo a intermináveis controvérsias entre os teólogos. Mas o texto do Evangelho é claro: O Cristo afirmou ser Deus, mas nunca afirmou ser ele a própria Divindade. O Gênesis de Moisés principia com as palavras: “No princípio crearam os Elohim o céu e a terra”. O quarto Evangelho, de João, abre com palavras semelhantes: “No princípio era o Logos... por ele foram feitas todas as coisas”. Parece, pois, que as Potências Creadoras (em hebráico Elohim) são idênticas ao Logos, pelo qual foram creadas todas as coisas. Elohim, Logos, Verbo, Cristo – são nomes vários que designam a creatura cósmica que, antes do mundo material, emanou da Divindade transcendental. A filosofia oriental chama a Divindade universal Brahman, e dá o nome de Brahma à mais antiga individuação da Divindade. Brahma seria igual a Deus, Cristo, Logos, Verbo. Não existe em todo o Universo uma única creatura definitivamente realizada e incapaz de se realizar ulteriormente. Toda e qualquer creatura, mesmo Brahma, ou Cristo, são creaturas altamente realizadas, mas sempre realizáveis; são, por assim dizer, sinfonias inacabadas. Toda e qualquer creatura, mesmo a mais perfeita creatura cósmica, é ulteriormente evolvível ou realizável. A vida eterna não é uma chegada, uma parada, uma meta final – é uma incessante jornada ou evolução rumo ao Infinito, sem jamais coincidir com o Infinito. Todo o finito, diz a matemática, em demanda do Infinito, está sempre a uma distância infinita. Panta rhei, tudo flui, diziam os filósofos antigos; tudo é relativo, escreve Einstein em nosso século. A Divindade, o Infinito, o Absoluto, não é objeto de nosso conhecimento. Tudo que sabemos se refere ao Relativo, ao Fluídico, ao Evolvível, que está em incessante evolução. Referem os livros sacros que Cristo, a mais antiga creatura cósmica, se encarnou na pessoa humana de Jesus. Sendo que esta descida do Cristo cósmico às baixadas do planeta terra, é um fenômeno incompreensível, têm os homens feito inúmeras conjeturas sobre o porquê dessa encarnação do Cristo. E ele mesmo, na pessoa de Jesus, nunca disse claramente da finalidade da sua homificação.

Entretanto, sendo o Cristo o maior dos avatares do Universo conhecido, podemos interpretar a encarnação dele pelas normas dos outros avatares, de que passaremos a ocupar-nos num dos capítulos deste livro.

A ANTIDROMIA PARADOXAL DOS AVATARES

A palavra sânscrita avatara quer dizer “descido”, e designa uma entidade de elevada evolução que resolveu descer da sua altura às baixadas de regiões inferiores. Esta descida voluntária do avatar faz parte do drama da sua evolução ascensional. Esta contra-corrida, ou antidromia, representa um elo na longa cadeia da sua auto-realização, como diríamos em termos modernos. Quando um avatar atinge grande nível de evolução e libertação, tem ele o desejo de descer externamente às baixadas a fim de realizar a subida a maiores alturas, na escala da sua incessante auto-realização. Todos os avatares sabem, pela voz da sua consciência, que não há evolução sem resistência, sem luta, sem sofrimento. E, como nas regiões superiores do espírito não há suficiente resistência e sofrimento, resolve o avatar descer a regiões inferiores da matéria em busca da necessária resistência. Esta antidromia parece ao inexperiente uma espécie de masoquismo. Mas para o avatar o sofrimento não é um fim, mas sim um meio para um fim mais sublime. O avatar procura resistência e sofrimento a fim de prosseguir na linha ascensional da sua evolução indefinida. Este desejo de ulterior evolução parece egoísmo aos ignorantes, mas é o imperativo duma realização superior para o avatar, que já superou todos os estágios do egoísmo ilusório e trata exclusivamente da sua auto-realização, que é a lei de todo o Universo. As leis cósmicas não conhecem estagnação, nem involução; mas incessante evolução. Auto-realização é santidade, é auto-afirmação, é amor divino na creatura evolvível. Quanto mais liberto se sente o avatar tanto mais desejo tem ele de se escravizar voluntariamente por amor. Por amor de que? Muitos pensam que o amor do avatar vise os seres inferiores no meio dos quais ele encarna. Mas a verdade é que o amor do avatar visa sobretudo o

próprio avatar e sua evolução superior. Como já dissemos, não há nenhum resquício de egoísmo nesse auto-amor, que é supremo imperativo cósmico e divino: sede perfeitos, como perfeito é vosso pai. Entretanto, apesar de o amor do avatar ser um auto-amor, indiretamente é ele também um alo-amor, porque redunda em benefício dos seres inferiores que lhe causam resistência e sofrimento. Segundo leis eternas, toda a plenitude transborda infalivelmente. Quanto mais o avatar se auto-plenifica, tanto mais a sua plenitude transborda em beneficio de outros seres. “Da sua plenitude todos nós recebemos, graça e mais graça,” diz o texto sacro com referência ao maior dos avatares. Esses seres superiores que realizam a sua própria plenitude são os benfeitores ignotos de outros seres. Não é possível ser realmente bom sem fazer bem a outros seres devidamente receptivos. É esta a maravilhosa simbiose do Universo.

O QUE PAULO DE TARSO PENSAVA DO CRISTO

Paulo de Tarso tem sido acusado de ter introduzido no cristianismo um Cristo diferente de Jesus dos Evangelhos. De fato, ele fala mais do “Cristo, Rei imortal dos séculos” do que do Jesus, o carpinteiro de Nazaré, que ele não viu em carne. Ele se gloria de ser apóstolo, não do “Jesus carnal”, mas do Cristo imortal, que lhe apareceu às portas de Damasco, e o transformou totalmente. Dizem alguns teólogos que Paulo transformou o humilde Jesus da Galiléia num herói e redentor do mundo, à maneira dos super-homens dos escritores gregos. Sobretudo nas Epístolas aos Colossenses, aos Efésios e aos Filipenses, exalta Paulo as glórias do Cristo cósmico, que bem pouca semelhança tem com o singelo Jesus dos evangelistas. “No Cristo converge como na cabeça tudo quanto existe no céu e na terra”. O Cristo é “superior a todos os principados, potestades, virtudes e dominações, e que outro nome haja, não só neste mundo, mas também no outro – ele, que de tudo enche o Universo inteiro”. Estas palavras lembram o início da Epístola aos Filipenses, em que Paulo canta o Cristo cósmico, que estava na glória de Deus, e não julgou dever aferrar-se a essa divina igualdade, mas esvaziou-se dos esplendores divinos e revestiu-se da natureza humana, tornando-se homem, servo, vítima, crucificado. E por isto Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, de maneira que, em nome do Cristo, se dobram todos os joelhos, dos celestes, dos terrestres e dos infra-terrestres, e todos confessam que ele é o Senhor. Nestas palavras, como já dissemos, Paulo descreve a passagem do Cristo pré-humano para um super-Cristo pós-humano, tornando-se maior depois da encarnação do que era antes. A Vulgata Latina diz que Deus o exaltou, mas o original grego de Paulo diz enfaticamente que Deus o super-exaltou, ou o exaltou soberanamente, tornando-se ele maior do que fora. Os teólogos dogmáticos não admitem uma evolução no Cristo, porque identificam o Cristo com a própria Divindade, em que não há evolução; mas, se o Cristo é o “primogênito de todas as creaturas”, na expressão de Paulo, é possível uma evolução. Aos colossenses, que identificavam o Cristo com os anjos superiores, escreve Paulo: “Ele é a imagem do Deus invisível, o Primogênito de todas as creaturas, porque nele foram creadas todas as coisas, no céu e na terra, visíveis e

invisíveis – tudo foi creado por ele e para ele. Ele é anterior ao Universo, e nele o Universo subsiste. Ele ocupa a primazia em todas as coisas, e nele aprouve residir toda a plenitude”. A plenitude (pléroma) é, para Paulo, a Divindade, em oposição à vacuidade (kénoma). Para Paulo, o Cristo é a primeira e mais perfeita emanação individual da Divindade Universal, anterior a qualquer outra creatura, sendo ele a primeira de todas as creaturas cósmicas, o Alfa e Ômega, no dizer de Teilhard de Chardin, o princípio e o fim, na linguagem do Apocalipse. O Cristo, é, segundo João, o “Unigênito do Pai”, a creação única da Divindade, o único Teo-gênito, ao passo que nós e todas as outras creaturas somos Cristo-gênitos, creados pelo Cristo, como diz o autor do quarto Evangelho: “Por ele foram feitas todas as coisas, e nada do que foi feito foi feito sem ele”. A confusão que certos teólogos fazem entre Deus e Divindade, tem dado azo a controvérsias seculares e milenares. Segundo os livros sacros, sobretudo na visão de João e de Paulo, o Cristo é Deus, mas não é a Divindade, que ele chama “Pai”, que está no Cristo e no qual o Cristo está, mas “o Pai é maior do que eu”. Deus, à luz dos livros sacros é a mais alta emanação individual da Divindade Universal, portanto creatura da Divindade, o “Primogênito de todas as creaturas”. Em face disto, compreende-se que Pedro, numa das suas epístolas previna os cristãos daquele tempo, dizendo que, nos escritos do irmão Paulo, há certas passagens difíceis que os ignorantes pervertem para sua própria perdição. De fato, para Pedro e os outros pescadores galileus, deve ter sido difícil ter uma visão exata do Cristo cósmico do erudito ex-rabino e iluminado vidente do Cristo-Logos. Uma intuição cósmica nunca é exprimível em termos de análise intelectual. Tanto em nossos dias como naquele tempo persiste esta mesma dificuldade. Ainda hoje há filósofos e teólogos que consideram Paulo de Tarso como um falsificador dos Evangelhos, como um contrabandista que tenha introduzido no cristianismo um Cristo Cósmico ao lado do singelo Jesus nazareno. Entretanto, o Cristo de Paulo é o mesmo Nazareno descrito pelos Evangelistas, mas visualizado da excelsa perspectiva do Logos pré-histórico, que também João, o místico, descreve no início do seu Evangelho: “No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus”. O Cristo cósmico, pré-humano, e o Jesus cosmificado pelo Cristo, pós-humano – é esta a grandiosa síntese de Paulo de Tarso, o Alfa e Ômega da sua vivência e de todas as suas epístolas.

O CRISTO À LUZ DO QUINTO EVANGELHO

O Quinto Evangelho, do Apóstolo Tomé, recentemente descoberto no Egito, não é uma biografia de Jesus, como os outros Evangelhos; refere apenas 114 aforismos do Mestre. Esses aforismos giram, quase todos, em torno da idéia central do Reino de Deus, que está no homem e que deve manifestar-se fora dele, na sociedade e no mundo inteiro. Há entre esses pequenos capítulos do Quinto Evangelho, alguns tão profundamente místicos que não podem ser analisados intelectualmente, mas sim intuídos espiritualmente. Os aforismos 13 e 13-A referem o seguinte: “Disse Jesus a seus discípulos: Comparai-me e dizei-me com quem me pareço eu. Respondeu Simão Pedro: Tu és semelhante a um anjo justo. Disse Mateus: Tu és semelhante e um homem sábio e compreensivo. Respondeu Tomé: Mestre, minha boca é incapaz de dizer a quem tu és semelhante. Replicou-lhe Jesus: Eu não sou teu Mestre, porque tu bebeste da fonte borbulhante que te ofereci e nela te inebriaste. Então levou Jesus Tomé à parte e afastou-se com ele; e falou com ele três palavras. E, quando Tomé voltou a ter com seus companheiros, esses lhe perguntaram: que foi que Jesus te disse? Tomé lhes respondeu: Se eu vos dissesse uma só das palavras que ele me disse, vós havíeis de apedrejar-me – e das pedras romperia fogo para vos incendiar”. O sentido profundo destas palavras não pode ser falado, mas tão-somente calado. E é por esta razão que Tomé preferiu o silêncio, quando o Mestre lhe pediu opinião sobre ele. O profundo silêncio de Tomé é a mais eloquente declaração da grandeza indizível do Cristo; abriu os canais para o influxo da intuição espiritual. A última verdade sobre o Cristo não pode ser dita nem pensada. O que se pode pensar, já está adulterado; e, se o pensado for falado, há uma segunda

deturpação; e se esse pensado e falado for escrito, completa-se a terceira falsificação da verdade. As grandes verdades só podem ser recebidas em total silêncio, mensagem da própria alma do Universo. Por isto, Tomé preferiu calar-se duas vezes: não deu sua opinião sobre o Cristo, nem revelou aos outros o que o Mestre lhe disse quando o levou à parte e lhe falou a sós. Quem quer saber realmente o que o Cristo é, deve calar-se em tão profundo silêncio receptivo que a cosmo-plenitude possa plenificar a sua ego-vacuidade. Podemos apenas soletrar o abc sobre o Cristo, mas, para saber e saborear realmente o que ele é, temos de entrar na Universalidade Cósmica do silêncio. O que há de mais estranho nessa passagem são as palavras que Jesus disse a Tomé: “Eu não sou teu Mestre”, porque já ultrapassaste o Jesus humano e entraste na visão do Cristo divino; bebeste do cálice da sabedoria suprema, e por isto preferiste calar-te. Depois disto, o Mestre levou Tomé à parte e lhe revelou silenciosamente a plenitude do Cristo, revelação tão transcendental que Tomé não se atreveu a comunicá-la a seus colegas, que o teriam considerado louco e o teriam apedrejado como blasfemador; mas das próprias pedras teria saído fogo em testemunho da verdade. Esta revelação anônima e inefável que o Mestre fez a Tomé é um dos pontos culminantes do Evangelho. À pergunta “que vos parece do Cristo?” opõe Tomé o silencio absoluto, que é a melhor resposta.

“CRISTO, O PRIMOGÊNITO DE TODAS AS CREATURAS”

Com estas palavras declara Paulo de Tarso que o Cristo cósmico, o Verbo, o Logos, é creatura – mas não nega que ele é Deus. Ele é a primeira de todas as creaturas – cósmicas, mão humanas – que emanaram da eterna Divindade. Ele não é essa Divindade, tanto assim que o próprio Cristo afirma que a Divindade, que ele chama “Pai”, é maior do que ele. Há quase 2000 anos que filósofos e teólogos discutem se o Cristo é Deus ou não. E não chegaram a um acordo. Por que não? Porque confundem Deus com Divindade. Os concílios definiram que o Cristo é Deus e excomungaram a todos os que o negam; mas não estabeleceram diferença nítida entre Deus e a Divindade, tentando evitar o politeísmo mediante o recurso à “Trindade”, do qual o Cristo seria a segunda pessoa. O enigma não existe na realidade, e os livros sacros estabelecem compatibilidade entre Deus e creatura. O Cristo é Deus e é creatura. Nem o Cristo e seus discípulos afirmaram que o Cristo era a Divindade. O Cristo nega explicitamente a sua identidade com o “Pai” (Divindade): “Eu e o Pai somos um, o Pai está em mim, e eu estou no Pai, mas o Pai é maior do que eu”. Se ele não tivesse dito o Pai é maior do que eu, poderíamos pensar que ele se tivesse igualado à Divindade. Mas ele nega expressamente a sua identidade com a Divindade, apesar de se dizer Deus. Façamos uma comparação ilustrativa: um ser vivo pode dizer; eu estou na vida e a vida está em mim, mas eu não sou a vida, sou apenas um vivo; a vida é infinitamente maior do que eu. Deus é uma emanação da Divindade, mas não é a Divindade. A dificuldade dos teólogos nasce do fato de eles professaram o monoteísmo mosaico, ao passo que o Cristo fala em termos de monismo cósmico. O Evangelho é essencialmente monista, como, aliás, são todos os grandes gênios e místicos; todos os finitos estão no Infinito, mas nenhum finito, nem mesmo a soma total dos finitos, é o Infinito. No monismo não há cabimento para uma Divindade pessoal, porque toda a personalidade é necessariamente finita, ao passo que e Divindade é infinita e impessoal. Por isto, ela é

infinitamente além de qualquer personalidade. Um Deus pessoal não pode ser a Divindade Infinita. A lógica dos livros sacros é absoluta, ao passo que os teólogos sofrem de um deplorável ilogismo, base de todas as confusões sobre o Cristo. Toda a cristologia dos livros inspirados se torna compreensível, quando se faz nítida distinção entre Deus e Divindade. Há milênios que a sapiência da filosofia oriental faz essa distinção: Brahman é a Divindade, ao passo que Brahma, Vishnu e Shiva são Deus, emanações individuais da Divindade Universal. Quando Jesus, citando uma passagem da Bíblia do Antigo Testamento, diz aos Judeus: “Vóis sois deuses”, toma ele a palavra Deus no sentido de creatura. O Cristo, segundo João, é o “Unigênito do Pai” (da Divindade); é o Deuscreatura, o Deus-gênito. Segundo Paulo de Tarso, é o Cristo o Primogênito de todas as creaturas, o primeiro Deus ou emanação oriunda da Divindade. O Cristo-Lógos é o único “gênito”, ou filho, emanação da eterna Divindade. As outras creaturas, inclusive os homens, são Cristo-gênitas, mas não diretamente Teo-gênitas; o Teo-gênito é um só, os Cristo-gênitos são muitos. O texto grego do quarto Evangelho favorece esta explicação, quando diz: “No princípio era o Logos (Cristo, Verbo) e o Logos estava com a Divindade, e o Logos era Deus”. Quando o grego usa “Theós” sem artigo, devemos entender, um Deus, quando usa “ho-Theós”, com artigo definido, “devemos entender a única Divindade”.

É O CRISTO O FILHO UNIGÊNITO DO PAI?

Toda a cristandade está habituada, há milhares de anos, a dizer e repetir que o Cristo é o “Filho Unigênito do Pai”, como diz João. Acima de tudo, devemos lembrar, que a palavra pai equivale a “Divindade”, que nada tem que ver com uma pessoa, como é usado na língua tradicional. Podemos dizer que o Cristo, o Verbo, o Logos, era “Filho” da Divindade? A palavra “Filho”, no sentido comum, supõe um Pai e uma Mãe; ninguém é filho só de um pai, ou só de uma mãe. A bipolaridade Universal da natureza viva só conhece filho como produto de um pai e de uma mãe. Mas, na Divindade não há pai nem mãe, nem doador nem receptora, nem dativo nem receptivo, nem positivo nem negativo. A Divindade é absolutamente neutra, embora esse neutro contenha implicitamente o pólo positivo e o pólo negativo, o doador e o receptor. A expressão “filho” é um termo antropomórfico derivado do costume de nós só conhecermos filho como produto sintético de pai e mãe. Nesse sentido, o Cristo não é filho. Na Divindade não há nem gerador nem geradora, não há pai nem mãe. Quando o Uno da Essência se manifesta no Verso da Existência, temos uma emanação, um eflúvio, um efluxo, isto é, uma manifestação parcial, finita, da Divindade total, Infinita. Se dermos ao Uno da Divindade o nome de Essência, então o Verso da creaturidade é uma Existência, uma ex-sistência, algo colocado para fora, ou revelado, manifestado. Em caso algum, pode essa existência ser uma revelação total da Essência, nem mesmo uma divisão ou desmembramento da Essência. A Essência, como pura qualidade, se manifesta pela Existência quantitativa, sem nada perder da sua Essência qualitativa. A soma total do verso emanado do Uno em nada afeta a inteireza ou totalidade do Uno. Quando um pensador emite pensamentos, esses não diminuem o pensador, nem a soma total dos pensamentos emitidos é o pensador emissor – isto suposto que o emissor seja um finito em sua essência.

Quando uma quantidade emite quantidades, ela é diminuída – assim como uma fogueira é diminuída na razão direta das centelhas emitidas. Mas, quando a Essência qualitativa emana ou emite existências quantitativas, ela não é afetada por essas emanações quantitativas. O Cristo cósmico, de que fala o quarto Evangelho, é a primeira e mais perfeita emanação da Divindade, a mais perfeita existência emanada da Essência. Isto, todavia, não significa que o Cristo seja infinitamente e absolutamente perfeito, porque nenhuma existência pode ser de absoluta perfeição; se assim fosse a existência emitida seria idêntica à Essência emissora. Uma creatura absolutamente perfeita é um conceito intrinsecamente contraditório, como um círculo quadrado. Quando Paulo de Tarso diz que o Cristo é o primogênito de todas as creaturas, supõe ele que o Cristo seja creatura e não o Creador, e toda a creatura é evolvível, de perfeição elástica, aumentável. Nenhuma creatura pode coincidir com o Creador. Crear é a manifestação parcial da Essência em forma de uma existência – ao passo que criar seria a transição de uma existência em outra existência. De Creador à creatura só existe uma relação de crear. De creatura à creatura existe uma relação da criação, ou seja, de evolução. Crear é receber da Essência uma existência – a creação vem do Todo, da Essência, ainda que do Nada da Existência. Pela creação, o Nada da Existência passa a ser o algo da existência. A creação não aumenta a Realidade – manifesta apenas a Realidade em facticidades. Por outro lado, a des-creação, ou aniquilamento da existência, não implica em nenhuma diminuição da Realidade, que é sempre Infinita, com ou sem facticidades. Salomão diz que a sabedoria de Deus brinca todos os dias, brincando sobre toda a redondeza da terra. E a filosofia oriental afirma que Brahman, a Divindade, faz lila, ou bailado, com maya, a natureza. A creação é pois uma espécie de brinquedo, ou bailado, que a Essência Infinita faz com as existências finitas. Brincar, bailar, parecem indicar leveza, espontaneidade, serenidade. A creação é um ato livre da Divindade. Mas, na Divindade, livre e necessário não são atos contrários, e sim complementares,

de maneira que poderíamos dizer que a Divindade crea livremente e necessariamente as creaturas. No infinito coincidem todas as linhas paralelas finitas num ponto indivisível. No Infinito da Divindade há uma liberdade necessária, e uma necessidade livre. Aqui termina toda a nossa análise mental, e começa a intuição cósmica. A intuição cósmica vê perfeita logicidade na liberdade necessária e na necessidade livre, como já dizia, no século XVII o exímio intuitivo Spinoza. O Cristo é a mais perfeita emanação da Divindade – uma perfeição indefinidamente perfectível, como faz ver Paulo de Tarso, na Epístola aos Filipenses. Segundo o quarto Evangelho, o mundo material é uma creação do Cristo, e também esta creação se acha em permanente estado de evolução. A indefinida evolvibilidade de todas as creaturas, telúricas ou cósmicas, faz lembrar o fluxo perpétuo de Heráclito de Éfeso – ou a teoria da relatividade de Einstein. Todos os finitos, todas as creaturas, são antes um devir do que um ser, antes um processo do que um estado. O Uno do Ser, manifestado no Verso do dervir, é que se chama Universo, a unidade na diversidade, o Infinito revelado como finito. A mais alta emanação da Divindade Infinita é o Cristo finito e evolvível. Na Era Eletrônica e Atômica em que vivemos, é mister usar na metafísica a mesma acribia que a ciência usa na física. A clareza do pensamento se manifesta na exatidão das palavras. Hoje em dia, deveríamos dizer que o Cristo é a primeira e mais perfeita emanação da Divindade Universal em forma de creatura individual. Esta emanação cósmica se tornou materialmente perceptível na pessoa humana de Jesus de Nazaré. Embora o Cristo e Jesus estejam inseparavelmente unidos para sempre, não é lógico identificar simplesmente Jesus com o Cristo. Quando o homem, em horas de profunda cosmo-consciência, intue a Realidade para além de todas as facticidades, então tem ele a revelação exata, embora impensável e indizível, do Universo, da Essência Uma revelada em existências várias – do Cristo cósmico humanado – e do Jesus humano cosmificado.

É O CRISTO O CREADOR DO MUNDO?

Falando do Verbo, do Cristo-Logos, diz o quarto Evangelho que “por ele foram feitas todas as coisas, e nada do que foi feito, foi feito sem ele ”. Com isto declara o evangelista João que o Cristo é o Creador do Universo. Na última ceia, despede-se Jesus dos seus discípulos e se dirige ao Pai, dizendo: “Glorifica-me agora com aquela glória que eu tinha em ti, antes que o mundo fosse feito”. Com isto, ao que parece, refere-se ele à sua existência cósmica anterior à creação do Universo material, realizada por ele. Parece, dizem alguns, que a creação do mundo material diminuiu a glória do Creador Cristo, e ele reentra agora no esplendor da sua glória pré-mundial. A creação dos mundos, diz a filosofia oriental, é o “sacrifício cósmico” de Brahman. Brahman, em sânscrito, corresponde à Divindade Universal, absoluta, ao passo que Brahma, corresponde ao Deus individual, ao Cristo creador. Brahman como tal é a Divindade neutra, a grande Tese, ainda não bipolarizada nas antíteses positiva e negativa. Com a creação material principia a bipolaridade, base de toda a evolução do Universo. Segundo a filosofia oriental, o Creador é Brahma, Deus, mas não Brahman, a Divindade. A Divindade é o Ser, Deus é Agir. No Gênesis de Moisés, aparecem os Elohim, as Potências Creadoras, como autores do Universo: “No princípio crearam os Elohim o céu e a terra”. Brahma, Logos, Elohim, podem ser identificados, designando o princípio do Agir, enquanto Brahman, a Divindade, Yahveh, designam o princípio do SER. A palavra Elohim, que aparece nos primeiros capítulos do Gênesis hebraico, em vez de Yahveh, pode ser etimologicamente identificado com Logos, palavra grega para “Verbo” ou Cristo. Brahma, Lógos, Elohim significam, pois, o Deus-Agir concreto, a imanência da essência na existência, o aspecto concreto da Divindade abstrata do puro Ser. A Divindade transcendente no seu Ser não é objeto do nosso conhecer. O Uno da Divindade Universal abstrata como Ser revela-se pelo Deus concreto do Agir, e assim é por nós cognoscível.

O Cristo, é, pois, o “Teo-gênito, o filho da Divindade”, ao passo que nós e o mundo somos Cristo-gênitos, e não diretamente Teo-gênitos. Em última análise, é claro, tudo é Teo-gênito, nascido da Divindade. Do Uno do Absoluto, do Infinito, nasce todo o Verso dos relativos, dos finitos. O Uni-verso é o Creador e as creaturas. O Evangelho, depois de dizer que o Cristo-Logos é o Creador do mundo prossegue: “Nele estava a vida, E a vida é a luz dos homens, A luz brilha nas trevas, E as trevas não a prenderam” Aqui, a filosofia cósmica de João atinge o clímax da estética literária, onde a seguinte linha começa com a deixa da precedente: ................................................................................................. vida, Vida ........................................................................................... luz. Luz ........................................................................................ trevas, Trevas ............................................................................................... A quintessência do mundo creado, do Verso, é Vida, que é a fonte e base de tudo, do mundo mineral, vegetal, animal. Esta vida, porém, atingiu no mundo hominal a perfeição da luz, isto é, da vida consciente. E as trevas do mundo inconsciente não prenderam a luz do consciente; as trevas inconscientes não extinguiram a luz do consciente. Com estas palavras sintetiza o quarto Evangelho os dois pólos de todo o Universo creado: creação e evolução. A creação é a existência finita emanada da Essência infinita, ao passo que a evolução é o processo ascensional de uma existência rumo a outra existência. A Creação é, pois, o princípio das existências finitas emanadas da Essência Infinita. O algo existente não veio do nada, do inexistente; o algo veio do Todo. Esse algo veio, sim, do nada do algo (do não-algo) mas veio também do Todo, do Infinito, da Essência. Todo o Verso finito vem do Uno Infinito. A creação não é algo separado do Infinito, assim como uma centelha que salta da fogueira. A creação é comparável ao processo do pensamento em relação ao pensador. O pensamento que o pensador pensa não é algo separado do pensador, mas é o próprio pensador enquanto pensante. O pensamento é uma manifestação parcial e imanente do próprio pensador.

Assim, a creatura está no Creador, é uma manifestação parcial e imanente no Creador, é uma existêncialização finita da Essência infinita. É esta a última palavra da filosofia perene: o monismo cósmico, equidistante do monoteísmo dualista e do panteísmo ilógico. O Uno do Infinito presente em todo o Verso dos Finitos é idêntico na Essência, mas diferente nas existências. Para melhor compreensão, Brahman pode ser comparado com um lago tranquilo, ao passo que Brahma é como uma torrente que flui desse lago e se lança morro abaixo. O estado neutro do lago se manifesta em forma positiva e negativa na torrente. No decurso da torrente, Brahma, a filosofia oriental vê Vishnu, o continuador de Brahma, e finalmente Shiva, o consumador dos dois. Em Vishnu ainda vemos as antíteses, ao passo que em Shiva aparece a síntese. O amor em Brahman é bondade; mas em Brahma essa bondade passiva se converte em amor ativo; o ser-bom estático passa a ser um amar dinâmico; a brasa tranquila deflagra em chama vivificante.

O CRISTO INTERNO

Até ao Concílio Vaticano II, a teologia quase só falava do Cristo externo, identificando-o com a pessoa humana de Jesus de Nazaré. Hoje em dia, já se fala no Cristo interno no homem. Aliás, esse Cristo interno já aparece nos evangelhos, sobretudo na parábola da videira e seus ramos: a mesma seiva divina que circula no tronco da videira circula também nos ramos dela, isto é, o espírito divino, que é o Cristo em Jesus, é Idêntico ao espírito divino que existe em todos os seres humanos. Jesus afirma que a presença de Deus é uma realidade em todo o ser humano- “o Pai está em mim, o Pai também está em vós” – mas a consciência e atuação do espírito divino, varia de pessoa à pessoa. A presença de Deus é a mesma em todo o homem, mas o que cristifica o homem é a consciência e a vivência dessa presença divina. Diz o Mestre! “Aquele que em mim está, mas não produzir fruto, será cortado e jogado ao fogo e destruído; mas aquele que em mim está e produzir fruto, será podado (purificado) para que produza fruto ainda mais abundante”. Com estas palavras, afirma o Mestre a presença real do Cristo divino em toda a creatura humana, ao passo que a atuação subjetiva desse Cristo interno depende da consciência do Homem. A despeito da presença objetiva do Cristo no homem, pode o homem perecer espiritualmente, o que acontecerá se o homem não viver de acordo com esse espírito. Mas, se a presença objetiva do Cristo no homem produzir uma vivência subjetiva em harmonia com esse espírito, então esse ramo humano da videira divina será podado, ou purificado, a fim de produzir fruto mais abundante. A poda dos ramos da videira se faz no início da primavera, para que a seiva se concentre em pequeno espaço, e rompa com maior força, produzindo fruto vigoroso. Essa poda equivale a uma espécie de sofrimento da planta; a videira “chora”, diz o povo, porque do ferimento do ramo caem pingos de seiva vital e umedecem o solo. Quem vive de acordo com o espírito do Cristo passa por uma “sofrimento-crédito” para se tornar ainda mais espiritual. A espiritualidade não preserva o homem do sofrimento, como se vê pela vida do homem justo Job, e pela própria vida de Jesus; o sofrimento-crédito acompanha a evolução espiritual do homem. No princípio, esse sofrimento é compulsório, como mostra a vida de pessoas espirituais; só mais tarde passa esse sofrimento a ser um sofrimento voluntário, como aconteceu a Jesus, que aceitou espontaneamente o sofrimento causado pelo processo da sua cristificação: “Ninguém me tira a vida; eu deponho a

minha vida quando eu quero, e retomo a minha vida quando eu quero”. Não há evolução sem resistência. A dor, o sofrimento é uma resistência, provocada pela atuação do Eu superior sobre o ego inferior. Até na pessoa humana de Jesus houve um resto dessa resistência evolutiva, Jesus pede que o sofrimento passe dele; mas ao mesmo tempo o seu Cristo aceita livremente o sofrimento “para assim entrar em sua glória”. Os avatares procuram espontaneamente essa resistência evolutiva do sofrimento a fim de promover a sua espiritualização ulterior. Paulo de Tarso, na epístola aos filipenses, atribui essa antidromia ao próprio Cristo, que, das alturas dos esplendores divinos, desceu às dolorosas baixadas humanas, e foi, por meio disto, “soberanamente exaltado”. O despertamento e a vivência de acordo com o Cristo interno marcam o roteiro da evolução ascensional, da cristificação do homem. Também as palavras do Cristo “eu sou a luz do mundo – vós sois a luz do mundo” exprimem a mesma identidade da luz do Cristo em Jesus e em outros homens. Mas essa identidade da luz tem muitos graus de intensidade e manifestação; em muitos homens, a luz está sob o velador opaco do ego, ao passo que em Jesus estava ela no alto do candelabro da sua consciência crística. O evangelho do Cristo é rigorosamente monista, admitindo uma única essência manifestada em muitas existências.

É O CRISTO A SEGUNDA PESSOA DA TRINDADE?

Em Deus não há pessoa, nem uma, nem duas, nem três pessoas. A idéia de pessoa persona é invólucro, máscara, que compete somente às creaturas. No princípio do quarto século, sob os auspícios do Imperador romano Constantino Magno, tiveram os cristãos perseguidos a permissão de sair das catacumbas, onde viviam como adeptos de uma religião proibida. Com o despontar da liberdade começaram os cristãos a organizar-se e a analisar intelectualmente a sua grande experiência intuitiva. A filosofia cristã era o neo-platonismo, com sede em Alexandria. Mas as escolas neo-platônicas foram fechadas por ordem do Imperador, porque esta filosofia, essencialmente intuitiva-mística, não favorecia a constituição de uma poderosa hierarquia eclesiástica que unificasse as dezenas de igrejas cristãs, que se digladiavam. O platonismo intuitivo foi sucedido pelo aristotelismo analítico, que desde então, presidiu à formação da hierarquia e deu cunho à teologia eclesiástica, até atingir a sua culminância no século treze, pelo prestígio de Tomás de Aquino. Nesses séculos aristotélicos elaborou-se a idéia de um Deus uno em sua natureza e trino nas personalidades. Tomás de Aquino, em consequência de uma visão ou experiência mística, revogou toda a sua teologia analítica, declarando que tudo não passava de “palha”. Mas as doutrinas aristotélico-tomistas continuam até hoje como teologia oficial da igreja. Sendo a Divindade a própria Realidade ou Essência, nenhuma distinção de personalidade tem cabimento. A teologia, porém, não admite esse monismo impersonal, mas organizou um monoteísmo personal, dando personalidade a Deus e distinguindo nele três pessoas. O monoteísmo personalista é incompatível com a mensagem do Cristo – “Eu e o Pai somos um, o Pai está em mim, e eu estou no Pai... O Pai também está em vós e vós estais no Pai”.

A visão de Jesus é inteiramente monista, e não monoteísta; para ele, há uma única Essência, que ele chama de Pai, a qual se manifesta em muitas existências, ou creaturas. Depois de afirmar “Eu e o Pai somos um”, acrescenta ele “mas o Pai é maior do que eu”, como se dissesse: Eu, o Cristo, estou na Divindade, mas eu não sou a Divindade, a Divindade é infinitamente maior do que eu. Ou então, em terminologia filosófica: Eu, a existência individual, sou uma manifestação da Essência Universal, que é maior que qualquer existência; vós também, meus discípulos, sois existências individuais,, manifestações da Essência única da Divindade. A manifestação individual da Divindade Universal é por ele chamada Deus. Quando foi acusado de se dizer Deus, não o negou, e acrescentou que também os homens eram Deus, isto é, manifestações individuais da Divindade Universal: “Vós também sois deuses”. Quando o Cristo se diz Deus, afirma ele que é uma manifestação individual da Divindade, mas não faz de si uma parcela ou pessoa da Divindade, como não faz dos homens parcelas ou pessoas da Divindade. Nenhuma creatura é parcela ou centelha, da Divindade, como querem os poetas; se a Divindade se parcelasse, ela se diminuiria na razão direta do seu parcelamento. As creaturas são apenas manifestações da Divindade, ou existencializações múltiplas da Essência una e única. O Universo é o melhor símbolo da Essência Única (Uno) manifestado em existências várias (verso). Podemos simbolizar a Divindade por um pensador, e as creaturas como seus pensamentos. O pensamento é uma manifestação parcial do pensador, mas não pode ser considerado como uma parcela componente e destacada do pensador. Quando a Infinita qualidade se manifesta em quantidades finitas, a qualidade não se parcela, não se divide, mas, continuando íntegra e imutável, manifesta externamente a sua realidade de interna. O Cristo não é a segunda pessoa da Trindade – assim como o Espírito Santo não é a terceira pessoa – como constitutivos da própria Divindade, que não é composta, mas infinitamente simples. A doutrina de um Deus Trino, nascida no princípio da Teologia eclesiástica, é uma prova frisante de que a Divindade não pode ser analisada, porque toda a análise supõe decomposição de um composto. A própria palavra grega analysis quer dizer dissolução. Quem analisa Deus é ateu.

A suprema Divindade, só pode ser conhecida por intuição, experiência ou vivência íntima. Tudo que se pode analisar, pensar, falar, é finito. O Infinito não é analisável, pensável, dizível. A certeza de Deus não vem da análise, do pensamento – a certeza de Deus acontece ao homem quando ele se torna interiormente aberto e receptivo para receber a revelação do Infinito. “Quando o discípulo está pronto, então o Mestre aparece”. Desde o princípio do quarto século até o século 20 foi a igreja dominada pelo aristotelismo analítico, sobretudo de Tomás de Aquino; ultimamente há uma crescente prevalência do neoplatonismo intuitivo, que, como dissemos, era a filosofia dos luminares do cristianismo nos primeiros séculos. A filosofia oriental também admite três pessoas na Divindade suprema de Brahman, a saber: Brahma, Vishnu e Shiva. Mas essas três pessoas não são indivíduos, e sim funções da Divindade, que se revela como Brahma, o Creador; como Vishnu o Continuador, e como Shiva, o Consumador. Neste mesmo sentido monista, podem ser aceitas três pessoas como funções da Divindade: A Essência Una se manifesta incessantemente como existência iniciadora, continuadora e consumadora. O monoteísmo teológico se está aproximando cada vez mais do monismo filosófico; já admite, além da Divindade transcendente, o Deus imanente. Monismo não é panteísmo (tudo é Deus), mas pode ser chamado Panenteísmo (tudo em Deus). Como também admite Teilhard de Chardin: A Divindade transcendente é incognoscível; revelada como o Deus imanente, é cognoscível. O Cristo, segundo o Evangelho, é a primeira e mais alta emanação da Divindade, o “Unigênito do Pai”, segundo João; o “Primogênito de todas as creaturas”, segundo Paulo de Tarso. O Cristo é Deus, mas não é a Divindade.

PORQUE O VERBO SE FEZ CARNE

Dentro de poucos decênios, a humanidade celebrará o ano 2000 depois do nascimento de Jesus. A humanidade inteira, cristã e não cristã, conta a sua cronologia pelo nascimento de um pobre carpinteiro – e até hoje não sabemos bem porquê... É oportuno perguntar: Por que o Cristo cósmico, o Logos, o Verbo, se tornou pessoa humana? A resposta que os teólogos cristãos costumam dar a esta pergunta é conhecida: para salvar a humanidade. Entretanto, o próprio Jesus nada sabe dessa suposta salvação; ele mesmo nunca afirmou que viera ao mundo para este fim. Quando, na primeira páscoa, os discípulos de Emaús lamentavam a morte do Nazareno, perguntou-lhes ele, que incógnito os acompanhava: “Não devia então o Cristo sofrer tudo isto para entrar em sua glória?” Nenhuma palavra sobre a suposta salvação da humanidade. Paulo de Tarso, na epístola aos Filipenses, escreve: “Ele (o Cristo), que estava na glória de Deus, não julgou necessário aferrar-se a esta divina igualdade; mas esvaziou-se dos esplendores da Divindade e se tornou homem, servo, vítima, crucificado. Por isto, Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, de maneira que, em nome do Cristo, se dobram todos os joelhos, dos celestes, dos terrestres e dos infra-terrestres, e todos confessam que ele é o Senhor”. Nenhuma palavra sobre o intuito de salvar a humanidade. Veladamente, Paulo faz ver que o Cristo, pela encarnação, se tornou maior do que era, que se tornou, por assim dizer, um super-Cristo, a tal ponto que todas as creaturas do Universo, celestes, terrestres e infra-terrestres, proclamem a sua suprema grandeza. E aqui voltamos à antidromia incompreensível dos avatares, de que falamos em outro capítulo. Todo o avatar se desapega dos esplendores da sua grandeza e desce à pequenez de mundos inferiores – para quê? Não primeiramente, como já dissemos, para redimir os habitantes destes mundos, mas para realizar a sua própria evolução ulterior.

Para compreender essa estranha contra-corrida dos seres superiores, é necessário lembrar novamente que a lei suprema do Universo é evolução. Nenhuma creatura, por mais avançada, se acha no termo final da sua evolução. Esse termo, de fato, não existe; toda a creatura está numa permanente jornada para o além. Quanto mais liberto se sente um avatar, tanto maior é o seu desejo de se escravizar, porque a voz cósmica da sua consciência lhe diz que esta espontânea escravização é o único caminho para uma libertação ulterior. Quanto é pouco liberto não tem desejo de se escravizar – mas quem é muito liberto se escraviza voluntariamente. Não se trata aqui de uma “reencarnação”, no sentido tradicional, que seria compulsória. Trata-se de uma descida por amor, por excesso de liberdade. O amor que impele o avatar a realizar a sua descida é um auto-amor, o amor a uma auto-realização maior. O avatar, para “entrar em sua glória”, sai externamente dessa glória, como Paulo diz do Cristo, e desce à inglória da escravidão voluntária, da humilhação, do sofrimento, da morte, por ser este o único caminho de subir a regiões superiores, conforme exigem as leis cósmicas inexoráveis. Os horrores que Jesus sofreu no fim da sua vida terrestre são totalmente incompreensíveis senão à luz dessa gloriosa antidromia. Para que ele pudesse dizer, na cruz, a sua última e mais gloriosa palavra “está consumado”, quis ele humilhar-se até o ínfimo nadir da servidão, do vilipêndio, da infamação voluntária. No fim da sua vida terrestre, como se estivesse com pressa, reúne Jesus tudo que se possa imaginar de horrível e infamante. E, como se os sofrimentos físicos não lhe fossem suficientes, acrescentou sofrimentos metafísicos. No alto do Calvário, os chefes da sinagoga o desafiam solenemente para que, em prova da sua missão divina, desça da cruz: “Se tu és o Cristo, desce da cruz, e nós teremos fé em ti”. Provavelmente, muitos dos chefes da sinagoga receavam secretamente que Jesus atendesse ao desafio e descesse, glorioso, da cruz, que seria a derrota máxima da sinagoga. Jesus, porém, não desceu da cruz, não deu esta prova suprema da sua messianidade, tomando sobre si o opróbrio de ser um falso Messias, de enganar o povo com três anos de imposturas e magia negra. E, para cúmulo de humilhação, em vez de descer da cruz e assim provar a sua missão divina, fez exatamente o contrário: bradou em alta voz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”.

Os inimigos de Jesus devem ter soltado uma gargalhada de escárnio e de triunfo, ao ouvirem estas palavras. Ouvistes? – perguntou Caifaz, - o que ele disse? Que foi abandonado por Deus, que é um pseudo-Cristo... Razão tínhamos nós em dizer que ele era um falso Cristo, um aliado de satanás... Agora, no momento supremo, confessou a verdade – Deus o abandonou... É difícil conceber maior auto-difamação do que esta. Na sua corrida rumo ao nadir da voluntária humilhação, Jesus não poupa nenhuma oportunidade para arrazar a sua grandeza. Com este grito, entregou ele a seus inimigos o melhor punhal contra si mesmo. E seus discípulos e amigos, que ouviram este grito de abandono, que deviam eles pensar? Sua mãe, seu discípulo amado João, sua ardente discípula Madalena, todos eles ouviram que seu querido Mestre se confessou abandonado por Deus... E como podiam eles continuar a amá-lo e seguí-lo se o próprio Deus o havia abandonado?... Esta crudelíssima decepção dos seus devotados amigos e discípulos deve ter sido o derradeiro passo, nessa marcha acelerada rumo à auto-difamação e ao ego-esvaziamento. Estava terminada a corrida rumo ao nadir. Jesus, vendo, através dum véu de sangue, sua mãe e seu discípulo, ao pé da cruz, disse à mãe: “Eis aí teu filho”, e disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe”. Depois de se desfazer desses últimos tesouros que ainda tinha na terra, estava ele totalmente liberto de tudo e de todos, e seu Cristo podia dizer: “Está consumado”. E por fim: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. É este o drama tragicamente glorioso da encarnação do Verbo.

FOI JESUS UM LIBERTADOR?

Nos últimos tempos apareceram diversos livros sobre a idéia do Cristo libertador. Alguns acham que o Nazareno era um revolucionário, um subversivo, que tentasse libertar Israel do domínio romano. À luz dos Evangelhos e de outras fontes históricas, é sem esperança querer provar essa hipótese, tanto mais que ele mesmo declarou explicitamente perante o governador romano Pilatos que o seu reino não era deste mundo. Ultimamente, um grupo de jesuítas publicou mais um livro sobre este tema, mostrando a inanidade dessas tendências políticas e revolucionárias de Jesus. Mas, quando os autores deste livro chegam à pergunta positiva “de que nos libertou Jesus?” recaem à rotina das teologias tradicionais: ele nos libertou dos nossos pecados pelo seu sangue. Quer dizer que os piedosos autores desse livro substituem uma pseudo-libertação por outra pseudo-libertação; substituem uma suposta alo-libertação política por uma alo-libertação moral. Ninguém pode ser liberto, se ele mesmo não se liberta. Ninguém pode receber de presente uma libertação; quem confia em alo-libertação, e não realizou a sua auto-libertação, não é realmente liberto. A liberdade verdadeira e única não nos pode ser dada como presente de berço ou por favor alheio; a verdadeira liberdade é a mais alta conquista da nossa consciência, ou seja, a genuína evolução ascensional do homem; é esta a sua grande e única tarefa aqui na terra e em qualquer outra existência extra-terrestre: libertar-se. Todos os que atribuem a Jesus intenções de libertação política ou social desconhecem radicalmente o caráter fundamental dele. Mesmo os teólogos cristãos que lhe atribuem a libertação coletiva da humanidade da escravidão dos pecados não fazem jus ao verdadeiro Cristo libertador. Bem sabia Jesus que nenhuma libertação – seja política, social ou moral – é possível sem a libertação individual; e ele sempre falou desta libertação, que ele mesmo possuía no mais alto grau. Qualquer outra libertação periférica era para ele uma pseudo-libertação, pela qual nunca se entusiasmou com grande decepção de seus conterrâneos e discípulos. Perante o governador romano, como já mencionamos, poucas horas antes da sua condenação à morte, afirmou o Nazareno: “Eu sou rei, mas o meu reino não é deste mundo”. Para os inexperientes é impossível compreender a que espécie de reino e de realeza ele se referia.

Para Jesus a liberdade e libertação é um processo essencialmente individual. Desde a sua origem, é o homem escravo de si mesmo, se não se liberta individualmente dessa escravidão – e esta auto-libertação é a maior glória existencial da sua vida. O pólo negativo da natureza humana, o chamado ego, que o Gênesis simboliza pela serpente, oprime o pólo positivo do Eu, o chamado sopro de Deus. A tarefa fundamental e única da existência humana é precisamente a libertação dessa escravidão e a declaração da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Para este fim lhe foi dado o livre arbítrio. Sendo que Jesus possuía em grau supremo esta liberdade, não podia ele interessar-se por nenhuma liberdade ou libertação que não fosse a emancipação do homem da tirania da sua velha egocracia e a proclamação da gloriosa Cristocracia. Neste sentido resumiu ele toda a sua política e filosofia, sobretudo nas palavras lapidares “conhecereis a verdade – e a verdade vos libertará”. Para ele, como para todos os verdadeiros iniciados, a liberdade é o produto do conhecimento do homem sobre si mesmo, um auto-conhecimento vivido como autorealização. Verdade, liberdade, felicidade – esta trilogia é o centro da sua vivência individual e o cerne da mensagem do Cristo à humanidade. E, por ser tão radicalmente feliz, podia Jesus permitir qualquer sofrimento, porque nenhum sofrimento, nem a própria morte podem destruir a verdadeira felicidade baseada no conhecimento e na vivência do Eu divino. Jesus, o Cristo, é o maior libertador que a humanidade conhece.

É O CRISTO NOSSO REDENTOR?

É esta a idéia geral do povo e dos teólogos: o Cristo é o redentor ou salvador da humanidade. No alto do Corcovado está a gigantesca estátua do Cristo Redentor. Quer dizer que o Cristo é nosso redentor? Segundo os teólogos, quer dizer que o homem, desde o princípio, por obra de satanás, caiu no pecado, herdado depois por todos os homens; a humanidade toda é pecadora desde o nascimento, e cada homem se torna cada vez mais pecador por pecados pessoais. Quer dizer que o homem é um grande devedor, por herança e por atos próprios, e Deus é o grande credor. E, como o devedor é totalmente insolvente, incapaz de pagar a Deus os seus débitos, a humanidade está radicalmente falida perante a justiça divina, isto é, vítima de eterna condenação. Deus exige imperiosamente o pagamento da dívida que a humanidade contraiu, Deus se sente ofendido com os pecados da humanidade e exige satisfação. A dívida da humanidade é de infinita gravidade, como ouvi no catecismo e no curso de teologia – mas como a humanidade, falida e insolvente, poderia pagar a Deus um débito infinito? Deus, porém, não é somente justo, mas também misericordioso, e, sendo misericordioso, teve pena da humanidade e resolveu mandar à terra seu filho unigênito para pagar o débito dos homens. O Filho de Deus, o Cristo, de fez homem para poder, em nome dele, pagar o débito da humanidade, mas continua a ser Deus para que o seu ato de mediador tenha um valor Infinito. Estranhamento, o modo de pagar a Deus a dívida da humanidade foi o sofrimento e a morte do redentor; “o seu sangue nos purifica de todo pecado”. E assim, graças à morte de Jesus, nós somos salvos, libertos de toda a dívida de nossos pecados, reconciliados com Deus. É esta, mais ou menos, a ideologia que preside as nossas teologias sobre pecado e redenção. E há quase 2000 anos, essa tradição se cristalizou em verdade dogmática, passivamente aceita pela cristandade. Segundo a nossa lógica humana, parece razoável essa ideologia, quando, na realidade, é inaceitável, e até monstruosa, ao ponto de Arnold Toynbee ter

escrito: “Se o Deus da nossa teologia existe, é ele o maior monstro do Universo”. Antes de tudo, é absurdo supor que uma creatura finita possa cometer uma falta de gravidade infinita. É inaceitável supor que o Deus soberano se possa sentir ofendido, quando o senso de ofensa e a ofendibilidade é atributo de um ego mesquinho. É repugnante a idéia que Deus seja vingativo e não queira perdoar a suposta ofensa de pobres creaturas. É revoltante admitir que Deus tenha exigido do único homem inocente o pagamento pelos delitos dos culpados. É monstruoso pensar que Deus tenha decretado o requinte das crueldades e uma morte atroz de seus Filho Unigênito, para se dar por quite da dívida da humanidade pecadora.

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Então, o Cristo não é nosso redentor? É, sim, mas em outro sentido, nobre e digno e perfeitamente aceitável. De que modo? Acima de tudo, que é que se entende por pecado e por redenção? Pecado é a vitória do nosso ego luciférico e a derrota do nosso Eu crístico, como já vem simbolizado desde o Gênesis, que fala do sibilo da serpente derrotando o sopro de Deus. Quando no primeiro homem a serpente do ego derrotou o sopro divino do Eu, cometeu o homem o primeiro pecado, porque as imutáveis leis cósmicas exigem a vitória do Eu superior sobre o ego inferior. O pecado é, pois, uma voluntária inversão das leis eternas. Essa inversão só se pode dar pela ilusão do ego. Mas, quando a verdade do Eu supera a ilusão do ego, então surge a redenção do homem. Pecado e redenção são, pois, atributos da própria natureza humana; o homem é derrotado pelo seu ego, e é vitorioso pelo seu Eu, e, graças a seu livre arbítrio, o homem é responsável tanto por sua derrota ou pecado, como por sua vitória ou redenção. Tanto o lúcifer como o Logos, tanto o diabo da perdição como o Cristo da redenção, estão dentro do homem, e compete ao homem fazer triunfar o seu Eu Crístico sobre seu Ego luciférico. O lúcifer

interno e o Cristo interno do próprio homem são os fatores do pecado e da redenção, e o homem é autor tanto disto como daquilo. Não há nenhum Deus ofendido e vingativo que exija dum inocente o sofrimento pelo pecador. O ego pecador deve sofrer pela inversão das leis divinas em sua natureza humana; deve integrar-se voluntariamente no Eu Divino, e, como toda a integração do ego no Eu equivale a uma desintegração do ego, não pode o homem redimir-se sem essa morte do ego, sem esse “egocídio” – “se o grão do trigo (ego) não morrer, ficará estéril; mas, se morrer, produzirá muito fruto (Eu)”. Na pessoa humana de Jesus havia plena vitória do Eu crístico sobre o ego humano – “quem de vós me arguirá de um pecado?” – nunca o seu ego humano derrotou seu Eu divino, embora tentasse por diversas vezes, como nas trevas do Getsêmane e nos ardores do Gólgota. Por isto, Cristo é a realização do homem feito à imagem e semelhança de Deus, porque “nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”. E ele afirma que ele é, para nós, o Caminho, a Verdade e a Vida. Nele residia a plenitude do homem perfeito, e como toda a plenitude transborda necessariamente, “da sua plenitude todos nós recebemos, graça e mais graça”. Sendo que essa integração do inferior no superior equivale a uma desintegração daquele, e como toda a desintegração do ego é sofrimento, mostrou Jesus, nas últimas 15 horas da sua vida terrestre, que o homem deve estar disposto a tomar sobre si todo e qualquer sofrimento para realizar essa integração do seu ego humano no seu Eu divino. A Cristo-redenção, em que as teologias vêm uma alo-redenção, é uma genuína auto-redenção, uma redenção do homem pelo Cristo interno do seu Eu divino. Sem resistência não há evolução, e sem integração do menor no maior não há vitória. Todo o processo dos sofrimentos e da morte de Jesus equivale a um grandioso símbolo e a um insistente convite para o discípulo fazer o que o Mestre fez. O Cristo é o redentor da humanidade de um modo muito mais verdadeiro e glorioso do que imaginam as teologias tradicionais. Redimiu plenamente o seu Jesus humano pelo poder do seu Cristo divino – “não devia então o Cristo sofrer tudo isto para assim entrar em sua glória” – divinizou e cristificou a sua natureza humana individual, mostrando a todos o roteiro a seguir, a redenção da natureza humana de cada um e sua plena cristificação ou auto-realização. Jesus, pela sua cristificação, através do seu sofrimento voluntário e vitorioso, mostra a todo o homem que ele pode entrar na sua glória pelo mesmo caminho – “exemplo vos dei pra que façais o que eu fiz”.

PORQUE JESUS SOFREU E MORREU...

O nosso cristianismo tradicional acha evidente o motivo da morte de Jesus: ele morreu para pagar os nossos pecados. Entretanto, o cristianismo do primeiro século não achava isto tão evidente; para os primeiros cristãos, a paixão e morte de Jesus eram um tenebroso enigma, como Frei Leonardo Boff, faz ver no seu livro “Jesus Cristo Libertador” (Editora Vozes). Era-lhes incompreensível porque Jesus, que, durante 33 anos, desafiara vitoriosamente as ciladas dos seus inimigos, se entregasse, nos últimos dias, à sanha deles, dizendo: “Esta é a vossa hora e o poder das trevas”. E se deixou prender voluntariamente. Mesmo Paulo de Tarso, após a sua dramática conversão às portas de Damasco, estava perplexo em face do porquê da morte voluntária de Jesus, e, para solver o enigma, se retirou para os desertos da Arábia, e durante três longos anos meditou sobre esse mistério. Por fim, julgou haver encontrado uma solução plausível: associou a morte de Jesus à ideologia milenar da Sinagoga de Israel, que matava anualmente o “bode expiatório”, julgando que com a morte deste animal inocente, morriam os pecados de Israel. Paulo julgou ter descoberto que Jesus se entregou à morte para pagar com o seu sangue a dívida da humanidade perante um Deus ofendido. Mas, mesmo assim, não foi geralmente aceita pelo cristianismo primitivo esta solução. O próprio Jesus, que diversas vezes predisse a sua morte e ressureição, nunca afirmou que ia sofrer e morrer pelos pecados da humanidade. Muitos cristãos viam na morte do Nazareno a continuação da sorte de quase todos os profetas antigos: o justo não é tolerado pelos pecadores, no meio dos quais vive, e sofrer morte violenta. A idéia de uma morte expiatória não era opinião geral no primeiro século, e não deve ser “absolutizada”, como frisa o referido livro. A essa aceitação obstava também a idéia de que Deus se possa sentir ofendido pelos pecados e fizesse sofrer e morrer o único homem sem pecado para se dar por pago pelas culpas dos pecadores. Só muitos anos depois generalizou-se a idéia de que, como diz Paulo, “o sangue de Jesus nos purifica de todos os pecados”. A idéia duma alo-redenção, duma morte expiatória, como se vê, teve origem no judaísmo, e não no cristianismo. Nem Jesus nem os quatro evangelistas se

referem a essa idéia de que Jesus tivesse morrido para pagar os pecados da humanidade – tanto mais que, segundo os teólogos cristãos, todo homem, ainda hoje, nasce outra vez em pecado. Nem o Quinto Evangelho, do Apóstolo Tomé, recentemente descoberto no Egito, se refere com uma só palavra à morte de Jesus por causa dos pecadores. Quando os discípulos de Emaús, na tarde da primeira Páscoa, se achavam decepcionados com a morte cruel de um inocente, não lhes respondeu Jesus, que os acompanhava incógnito, que era para pagar os pecados da humanidade, como teria dito qualquer teólogo de nossos dias; mas disse simplesmente: “Não devia o Cristo sofrer tudo isto para assim entrar em sua glória?”. Com estas palavras insinua Jesus a verdadeira pista: sofreu e morreu voluntariamente para realizar-se a si mesmo, para entrar numa glória ainda maior. Esta idéia de auto-realização ulterior é incompreensível para muitos teólogos de hoje, porque acham que um homem como Jesus não era ulteriormente realizável. Na realidade porém ele mesmo insinuou essa realização ulterior. Toda a creatura, por mais evolvida, pode evolver ainda mais, porque a evolução é um processo indefinido e jamais definidamente terminado. O Cristo, segundo João, era o “Unigênito do Pai”, e, segundo Paulo, era o “Primogênito de todas as creaturas”; isto é, era “gênito”, creatura, e toda a creatura, mesmo teo-gênita ou primogênita, é finita e pode realizar ulteriormente a sua evolução, pode entrar numa glória maior. Jesus, apesar de tão altamente evolvido já ao entrar na vida terrestre, podia evolver ulteriormente, sob os auspícios do Cristo divino, como ele mesmo dá a entender no Gólgota. Quando diz “está consumado” dá por terminada a sua evolução terrestre, porque entrou em sua glória. Jesus sofreu e morreu voluntariamente a fim de completar a sua realização terrestre. E, sendo que toda a plenitude transborda necessariamente – “da a plenitude todos nós recebemos, graça e mais graça”, como escreveu o discípulo amado – o transbordamento dessa plenitude do Cristo reverte em benefício de toda a humanidade. Todos nós fomos beneficiados pela plenitude da auto-realização de Jesus. Mas, repetimos, o motivo central da sua morte voluntária não foi a redenção da humanidade, mas sim a plenitude da auto-realização do próprio Cristo, como ele mesmo faz ver aos discípulos de Emaús. Todo o avatar, quando altamente evolvido e liberto do seu ego, sente a necessidade de servir voluntariamente “às creaturas inferiores”; e todo o serviço do maior aos menores, se revela num sofrimento voluntário.

A verdadeira compreensão da natureza de Jesus torna compreensível o motivo do seu sofrimento e da sua morte voluntária. A entrada em sua glória é a sua evolução superior, a plenitude da sua auto-realização, da sua cristificação; porque em Jesus, como escreve Paulo de Tarso, “habita corporalmente toda a plenitude de Deus”, e, para realizar essa plenitude divina é que ele integrou todo o ego humano do seu Jesus no Eu divino do seu Cristo, desintegrando o seu corpo. Quando compreenderá a cristandade o Cristo verdadeiro?

DE GLÓRIA EM GLÓRIA – PELA INGLÓRIA

A verdadeira vida terrestre de Jesus só pode ser devidamente compreendida através das suas próprias palavras. Refere o Evangelho de João que, depois da última ceia, véspera da sua morte, levantou-se Jesus e assim falou: “Pai, é chegada a hora. Glorifica-me agora com aquela glória que eu tinha em ti, antes que o mundo fosse feito”. Poucos dias depois, no domingo da ressureição, falando com os discípulos de Emaús, novamente se refere à sua glória: “Não devia então o Cristo sofrer tudo isto para entrar em sua glória?” Antes da creação do mundo, e antes da encarnação do Verbo estava o Cristo na glória divina, como escreve Paulo de Tarso: “Ele, que estava na glória de Deus...” Depois da sua ressureição voltou para sua glória. Entre esses dois estados de glória, o de antes da encarnação e o depois da ressurreição, medeia um período de cerca de 33 anos, que, humanamente considerado, foi um período de inglória, sobretudo nos últimos dias da sua vida mortal. Entre a glória de ontem e a glória de amanhã jaz a inglória de hoje. Na última ceia, pede Jesus ao Pai que lhe restitua a glória que ele tinha em Deus; e aos discípulos de Emaús declara ele que entrou novamente em sua glória, pela voluntária inglória do sofrimento e da morte. Paulo de Tarso escreve aos cristãos de Filipes que o Cristo, graças a essa voluntária inglória, foi “super-exaltado” a uma glória maior do que tivera antes. É esta a estranha antidromia dos avatares: descer para subir, humilhar-se para ser exaltado. O céu do avatar não é só um céu gozado, mas um céu sofrido voluntariamente. A felicidade do avatar não é uma vida estática, mas uma vivência dinâmica, uma sinfonia sempre inacabada, movendo-se entre o gozo gozado e o sofrimento sofrido por amor. Por amor de quê?

Por amor de uma evolução ainda maior, de uma glória superior à glória anterior, através da inglória voluntária. Do zênite da glória e do gozo desce o avatar ao nadir da inglória e do sofrimento, sob o imperativo duma autorealização cada vez maior. Pois, todo o finito em demanda do Infinito está sempre a uma distância infinita. Mas o imperativo cósmico da evolução ascensional o convida a subir a alturas cada vez maiores, indefinidamente, por toda a eternidade. Esse incessante subir, e subir mais, de glória em glória, de amor em amor, de beatitude em beatitude, é que é a vida eterna do avatar. O avatar nada sabe de estagnação passiva, tudo sabe de evolução ativa. E, como não há evolução sem resistência, o avatar tem fome e sede de resistência, de luta, de sofrimento. E, se na zona excelsa da sua vivência não encontra essa resistência necessária, desce a regiões inferiores, em busca do meio necessário para sua evolução ulterior. Quando uma entidade de alta evolução entra num ambiente de baixa evolução, ingressa numa zona de resistência, de oposição, de sofrimento, de crucifixão. Entre a glória e a glória maior jaz a inglória – a gloriosa inglória dos grandes avatares. Neste signo de glória pela inglória decorre todo o plano Cristo-cósmico da encarnação e da ressureição, necessários para a plenitude dele e do Universo, na culminância do ponto ômega, como diria Teilhard de Chardin. O carácter das leis cósmicas é nitidamente evolutivo; nada de estagnação estática, tudo é evolução dinâmica. Entre o finito e o Infinito não existe nenhuma chegada, impera uma incessante jornada. Quem considera a vida de Jesus apenas à luz dos pecados da humanidade, não faz jus à excelcitude Cristo-cósmico.

ONDE PASSOU JESUS A SUA JUVENTUDE?

Existem numerosos livros que afirmam que Jesus passou a sua juventude, entre 12 e 30 anos, em países estrangeiros, no Egito, na Índia, no Tibet. Entretanto, as fontes históricas do primeiro século ignoram totalmente uma ausência de Jesus. Nem mesmo mencionam a sua presença entre os essênios, à margem do Mar Morto, onde provavelmente esteve com João Batista. Os Nazarenos, seus conterrâneos, estranham quando o jovem carpinteiro, aos trinta anos, aparece em público como profeta. Nem sequer frequentou escola, dizem eles. Os Nazarenos o conheciam como filho do carpinteiro José, que todos os dias trabalhava na oficina. Se Jesus tivesse estado ausente 18 anos, não teriam os seus conterrâneos alegado essa ausência em países longínquos, para explicar o mistério da sua grande sabedoria? Nem uma única palavra. Além disto, os cinco historiadores do primeiro século, Mateus, Marcos, Lucas, João e Paulo de Tarso, contemporâneos, e alguns deles conterrâneos de Jesus, nada sabem de uma ausência dele. Nem mesmo Paulo, homem viajado e erudito; nem Lucas, o médico grego, que diz no prefácio do seu Evangelho que investigou cuidadosamente, desde sua origem, todos os fatos referentes à vida de Jesus – ninguém menciona uma ausência do Nazareno. A narração da anunciação, que somente Lucas refere, faz crer que ele tenha estado pessoalmente com Maria, mãe de Jesus, que, entre o ano 58 e 60, ainda vivia em Jerusalém – e não teria Lucas, o meticuloso historiador, tido notícia dessa ausência de Jesus? Se Jesus tivesse passado longos anos no Egito, na Índia, no Tibet - esses países clássicos de iniciação esotérica – não teria ele, durante a sua vida pública, iniciado os seus discípulos, segundo o costume desses países, onde teria encontrado os seus mestres? Mas, nunca nenhum dos evangelistas menciona que Jesus tenha iniciado um só dos seus discípulos, nem mesmo Pedro, Tiago ou João, seus discípulos prediletos. O Mestre dá orientação a seus discípulos, mostrando o caminho por onde eles mesmos podiam iniciar-se nos mistérios do Reino de Deus, mas ele mesmo não os iniciou. Até ao fim da vida terrestre de Jesus, os discípulos dele continuam tão profanos como antes: alguns pedem licença para chamar fogo do céu para matar os samaritanos, que lhes negaram pousada; outros, ambiciosos, querem sentar-se um à direita e outro à esquerda do Mestre, no reino da sua glória. Todos entendiam pelo Reino de Deus a restauração da independência nacional de Israel; e ainda no

último dia da vida terrestre do Mestre, na Ascensão, perguntam: “É agora que vais restabelecer o reino de Israel?” Nenhum vestígio de iniciação espiritual. Verdade é que, na gloriosa manhã de Pentecostes, 120 pessoas, homens e mulheres, se iniciaram nos mistérios do Reino de Deus – mas foi uma autoiniciação, e não uma alo-iniciação; depois de 9 dias de silêncio e meditação, eclodiu neles a luz divina. E esse dia – provavelmente 30 de maio do ano 33 – foi o nascimento do verdadeiro cristianismo sobre a face da terra. Em face desse silêncio total, não podemos admitir como provável que Jesus tenha estado no Egito, na Índia, no Tibet, ou em outro país longínquo, nem como Mestre, nem mesmo como discípulo. E, contudo, o Nazareno foi o maior dos iniciados; passou pela auto-iniciação. Ele mesmo, nesses 18 anos de solidão relativa, nas montanhas da Galiléia, se iniciou no Reino dos Céus. As suas viagens de auto-iniciação não demandaram países alheios neste planeta terra, mas o próprio Universo, as “muitas moradas em casa do Pai Celeste”. Já aos 12 anos, após três dias de silêncio e interiorização, em algum recanto de Jerusalém, revela Jesus uma sabedoria tão surpreendente que encheu de estupefação os chefes espirituais de Israel. Depois dessa eclosão inicial, continuou ele o itinerário espiritual durante 18 anos, até culminar, aos 30 anos, quando começou a falar ao povo, em parábolas sobre os mistérios do Reino de Deus, que ele mesmo vivera intensamente durante esses anos. Lucas, o consciencioso historiador, liquida com uma única frase esses 18 anos de auto-iniciação, dizendo: “E Jesus foi crescendo em graça e sabedoria, perante Deus e os homens”. Como podiam os historiadores humanos saber desses mistérios esotéricos? Ninguém acompanhou o adolescente nas suas vastas experiências pelos reinos ignotos do Pai. Essas viagens cósmicas do jovem carpinteiro não foram realizadas necessariamente pelas regiões do cosmo de fora, mas sim pelo cosmos de dentro, porquanto “o Reino de Deus está dentro de vós”. Por isto, os evangelistas fazem bem em silenciar totalmente o período entre 12 e os 30 anos de Jesus

O BODE EXPIATÓRIO NO JUDAÍSMO E NO CRISTIANISMO

Por espaço de cerca de 2000 anos, desde Abraão, ou, pelo menos, desde Moisés, praticou Israel a cerimônia do bode expiatório. Cada ano reunia-se o povo de Israel na esplanada do templo de Jerusalém. O sumo sacerdote colocava as mãos sobre a cabeça de um cabrito, transferindo para esse animal os pecados do povo. Depois, esse “bode expiatório” era tocado para o deserto e precipitado por um barranco abaixo, onde morria. E com ele morriam todos os pecados de Israel, como era crença geral. Um mensageiro voltava, agitando uma bandeira branca e exclamando: “Deus extinguiu os pecados de seu povo, aleluia! aleluia!” E havia grande alegria em Israel, porque todos se sentiam como carta branca – e podiam carregar de novo o carro de lixo para o próximo ano. Israel não celebra mais o ritual do bode expiatório. Com a destruição do templo de Jerusalém, no ano 70, e a dispersão dos Judeus por todos os quadrantes do Império Romano, terminou também a cerimônia do bode expiatório. O novo Estado de Israel, criado há poucos decênios não voltou a praticar esse simbolismo. Infelizmente, porém, a idéia do bode expiatório, que morreu para o judaísmo, continua no cristianismo, com a diferença de que agora o bode expiatório não é mais um animal inocente, que, morrendo, extinga os pecados humanos, mas sim o único homem sem pecado que, segundo a teologia, paga com sua morte os pecados da humanidade. Esta ideologia se baseia em diversos equívocos. Supõe que Deus possa ser ofendido por suas creaturas – quando até homens avançados como Mahatma Gandhi, atingem uma completa inofendibilidade. Quem não se sente ofendido não precisa vingar-se nem perdoar; mas, quem se sente ofendido, pode vingarse da ofensa, ou então perdoá-la. Deus, porém, o Deus da teologia, ofendido pelos homens, não se vinga, nem perdoa, mas exige satisfação pela ofensa. Mas, como o homem é pecador é insolvente, incapaz de saldar o seu débito, Deus exige que um homem não pecador pague o débito dos devedores. E, como o único homem sem pecado é Jesus, é ele considerado como único pagador capaz de extinguir os pecados da humanidade. E o pagamento só pode ser feito com sangue, com o sangue inocente do único homem sem pecado. O bode expiatório Jesus tem de morrer, derramando o seu sangue, para que o Divino Credor ofendido se dê por satisfeito. Tomás de Aquino, considerando o maior teólogo cristão, diz, num dos seus poemas espirituais,

que uma única gota do sangue de Jesus seria suficiente para pagar todos os débitos da humanidade, mas que Jesus, por excessiva bondade, quis derramar até a última gota do seu sangue para pagar os pecados da humanidade. Depois desse pagamento dos pecados da humanidade pelo sangue de Jesus, era de esperar que o homem estivesse quite com a justiça divina; mas os teólogos ensinam que todo o homem nasce de novo em estado de pecado, vive e morre cheio de pecados – não se sabe em virtude de que lógica... Outro equívoco dos teólogos é a idéia de que um não-pecador alheio possa pagar os pecados de outro pecador. Na realidade, porém, cada pecador tem de pagar por seus próprios pecados. O que alguém semeou, isto colherá. Ninguém pode encarregar outra pessoa como procurador de agir em lugar do culpado. Não vigora semelhante política no Reino de Deus. Ninguém pode salvar alguém; cada um deve salvar-se a si mesmo. Mas, como pode um pecador absolver-se dos seus pecados? Não é isto um círculo vicioso? Assim seria se o homem fosse apenas o seu ego pecador, insolvente; mas todo o homem é também o seu Eu redentor; apesar de ser pecador na sua periferia humana, continua a ser sem pecado no seu divino; a imagem e semelhança de Deus mão se apagou com o pecado. Quem peca é o ego periférico – quem redime é o Eu central, o “Pai em nós”, o “Cristo interno”. Enquanto o ego pecador não conscientizar e vivenciar o seu Eu crístico, continua ele pecador; mas, se despertar em si a consciência da sua Divindade e viver de acordo com ela, redime-se dos seus pecados; os seus muitos pecados lhe serão perdoados, porque muito amou; e esse “muito amou” é o despertamento do Eu redentor. Nenhum bode expiatório alheio me pode libertar dos meus pecados – eu mesmo, no meu Eu divino, devo libertar-me dos pecados do meu ego humano. Somente a consciência e vivência da minha essência divina me pode libertar dos pecados da minha existência humana. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, conhecereis a verdade sobre vós mesmos, e esta verdade conscientizada e vivida, vos libertará do pecado, que temos, mas que não somos. Nós somos o Eu divino, e temos o ego humano. Toda a redenção é uma auto-redenção, mas não uma ego-redenção. O autós, ou Eu do homem é o seu Cristo interno. Auto-conhecimento transbordando em auto-realização é auto-redenção. Quando o nosso cristianismo teológico culminar em cristicidade divina, então desaparecerá esse equívoco da alo-redenção, e nascerá a verdade da autoredenção, da redenção pelo Cristo interno, sem nenhum bode expiatório alheio.

FUNDOU JESUS UMA IGREJA?

Sim – e não. Depende do que se entende por igreja. A palavra grega ekklesia, e o vocabulário no ecclesia, ocorrem repetidas vezes nos Evangelhos. A tradução portuguesa é igreja. Mas o que, hoje em dia, se entende por igreja é algo totalmente diferente do sentido primitivo desta palavra. Igreja é, para nós, uma organização social e hierárquica, com seu chefe humano e com sua constituição jurídica. Tomás de Aquino defende a igreja como uma sociedade perfeita, dotada de poder executivo, poder legislativo e poder judiciário. A igreja, segundo este conceito teológico, desenvolvido desde o quarto século, é uma organização estatal, cujo funcionamento obedece às mesmas normas de qualquer outro governo. Este é o aspecto jurídico-legal da igreja. No Evangelho, porém, a palavra igreja nada tem que ver com este conceito. Todo o Evangelho do Cristo gravita em torno do conceito central do “reino de Deus”, ou “reino dos céus” – e esse reino coincide exatamente com o que o Evangelho entende por igreja. Sendo que Jesus falava constantemente do “reino”, perguntaram-lhes os discípulos: “Mestre, onde está o reino de Deus?”. Respondeu Jesus: “O reino de Deus não vem com observâncias, nem se pode dizer: ei-lo aqui ei-lo acolá – o reino de Deus está dentro de vós... mas é como um tesouro oculto, como uma luz debaixo do velador, como uma pérola no fundo do mar”. O quinto evangelho, do apóstolo Tomé, encontrado recentemente no Egito, e já traduzida em todas as línguas, também, em português, trata explicitamente deste reino de Deus, no mundo e no homem, dessa igreja verdadeira, interna, real, invisível. O Mestre nega explicitamente que o reino de Deus possa ser descoberto por meio de observação; que ele tenha localização geográfica, e possa apontá-lo a dedo, dizendo: aqui está o reino, acolá está o reino. Depois, resumindo tudo, termina ele: O reino de Deus está dentro de vós.

A tradução “está entre vós”, como se fosse um fenômeno apenas social, é falsa; tanto o texto grego do primeiro século como o texto latino posterior dizem “está dentro de vós”, isto é, no interior da alma humana. Com isto nega o Mestre que se trate de uma organização social, com sua constituição, seus três poderes: executivo, legislativo e judiciário. Na sexta-feira santa, no pretório romano de Jerusalém, Pôncio Pilatos, governador romano da Judéia, perguntou a Jesus se ele era rei, e o acusado respondeu que sim, mas que o seu reino não era deste mundo. O reino de Deus existe potencialmente em toda a creatura humana, e o homem tem de conscientizar e desenvolver este reino. Hoje em dia, o movimento mundial de auto-conhecimento e auto-realização não visa outra coisa senão a conscientização do reino de Deus no homem e a vivência de acordo com ele. A verdadeira igreja do Cristo nada tem que ver com organização social ou jurídico-legal. Por que então foi fundada a igreja visível? A igreja visível foi fundada pelos homens, pelos teólogos, e pode coexistir com a igreja invisível, assim como o corpo é o aspecto material da alma espiritual. Mas seria absurdo dizer que a alma tem cabeça, pernas, braços, etc. A alma ou essência da igreja é o reino interno em cada indivíduo; o corpo ou a existência da igreja pode ser uma sociedade visível, contanto que esta não procure suplantar aquela, mas viva em perfeita harmonia como manifestação visível da igreja invisível. Em caso de conflito entre o corpo da igreja e a alma da igreja devemos abandonar o corpo e afirmar somente a alma. A alma invisível do reino de Deus pode manifestar-se através de vários corpos visíveis – contanto que não haja identificação entre a alma e o corpo, entre o reino interno e a organização externa. Sendo que o grosso da humanidade é e sempre foi infantil e espiritualmente imaturo, apareceu a mensagem metafísica do Cristo em forma de pedagogia infantil, como é toda a teologia. Essa interpretação pedagógica da mensagem cósmica do Cristo é um mal necessário, porque a maior parte da humanidade não está, nem nunca esteve, em condições de compreender e assimilar o espírito do reino invisível – e é melhor que as massas primitivas tenham uma disciplina pedagógica do que nada. Já no primeiro século escrevia Paulo de Tarso aos cristãos: “Aos que, entre vós, são infantes em Cristo, dei-lhes leite para beber – mas aos que são adultos em Cristo, dei-lhes comida sólida”.

Vinte séculos não foram suficientes para que muitas dessas crianças se tornassem adultas em espírito. A evolução vai com passos mínimos em espaços máximos. Infelizmente, muitos chefes cristãos têm interesse – social, político e financeiro e financeiro – em manter a cristandade no seu estágio infantil de obediência cega, porque nenhum chefe pode governar homens espiritualmente adultos. A adultez espiritual é autônoma e auto-determinante, e não obedece servilmente a ordens heterônomas. Se toda a cristandade estivesse espiritualmente adulta, não haveria necessidade da existência de uma igreja visível, porque a igreja é essencialmente invisível, o reino de Deus dentro do homem. Na razão direta que crescer a Cristocracia, decrescerá a clerocracia. E, quando a Cristocracia tiver atingido 100, a clerocracia descerá a 0. Parece que João, no Apocalipse, previu esta Cristocracia triunfante, quando escrevia: “Haverá um novo céu e uma nova terra, e o reino de Deus será proclamado sobre a face da terra.”. Os chefes espirituais podem e devem ser orientadores do povo, setas indicadoras ao longo do caminho, mas não intermediários entre o homem e Deus. Mas, para ser orientador e guia para outros, deve o homem ter realizado em si mesmo o reino de Deus. Do contrário, será um “guia cego guiando outros cegos”. Não basta dizer e fazer – é necessário ser, em espírito e verdade, aquilo que recomendamos aos outros.

INSTITUÍU JESUS A PEDRO COMO PEDRA FUNDAMENTAL DA IGREJA?

Já no século V, escreveu Santo Agostinho, então bispo de Hipona, que, com as palavras “tu és Pedro” Jesus não instituíu Pedro como pedra fundamental da Igreja; as palavras de Jesus não se referem à pessoa humana de Pedro, que é chamada “carne e sangue”; referem-se à revelação da Divindade do Cristo, confessada pelo apóstolo: “Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo”. A pedra fundamental da igreja, diz Agostinho, é o Cristo; a confissão de Pedro, mas não o Pedro da confissão, é a pedra fundamental, mas não a pessoa humana, que pode ter sucessores, através dos tempos, ao passo que a Divindade do Cristo é a verdade permanente. É esta a convicção de Agostinho, que ele nunca revogou, nem mesmo no seu livro posterior “Retractationes”. Mais tarde, por motivos de consolidação da hierarquia eclesiástica, os Concílios adotaram a idéia que hoje prevalece na teologia: que Pedro fora instituído por Jesus como sendo o fundamento inabalável da igreja – o mesmo homem que é por Jesus chamado carne e sangue, e, pouco depois “satanás”: “Vade retro, satana”. Nem Paulo de Tarso aceitou a idéia da primazia e infalibilidade de Pedro, como consta do Concílio Apostólico de Jerusalém, onde prevaleceu a idéia de Paulo, que repreendeu publicamente a Pedro por que havia “aberrado da verdade do Evangelho”, exigindo que os neófitos cristãos fossem circuncidados. Quanto ao pretenso pontificado de Pedro na sede de Roma, é uma idéia flagrantemente anti-histórica. Pedro pode ter vivido em Roma cerca de três meses, no ano 67, mas não durante 25 anos. Jamais dirigiu a igreja de Roma. Sabemos que no ano 64, rompeu a tremenda perseguição dos cristãos por parte do imperador Nero, perseguição que continuou por quase três séculos, até o ano 313. Durante este período, nenhum cristão conhecido sobreviveu em Roma, muito menos o chefe espiritual do cristianismo. Aliás, a primeira epístola de Pedro é datada da Babilônia, e deve ter sido escrita pelos meados do primeiro século. Em 58, em Corinto, escreveu Paulo a Epístola aos Romanos, verdadeiro tratado de cristologia, porque não havia na capital do Império Romano ninguém que pudesse dar esses esclarecimentos – nem mesmo Pedro.

No fim da Epístola manda Paulo lembranças a numerosos cristãos conhecidos em Roma – nenhuma saudação a Pedro, que não era conhecido na capital do Império. Nos anos 60 a 62 esteve Paulo preso em Roma. No cárcere, escreveu as epístolas aos Filipenses, aos Efésios, aos Colossenses, e a carta particular a Filemon. Nestas cartas menciona Paulo os cristãos que o visitaram no cárcere romano – nunca menciona Pedro, que não o visitou, porque não estava em Roma. Pelos historiadores antigos sabemos que durante a perseguição de Nero, Pedro e Paulo foram, às ocultas, visitar os cristãos sobreviventes em Roma; foram descobertos, presos e mortos; a tradição localiza a morte de Pedro e de Paulo no dia 29 de junho de 67. Para unificar as dezenas de grupos cristãos, cada um dos quais se dizia o único cristianismo verdadeiro, o primeiro imperador cristão Constantino Magno, pelo Edito de Milão, de 313, deu liberdade aos cristãos e proclamou o cristianismo como religião oficial do Império romano, a fim de estabelecer unidade nos diversos grupos litigantes, decretou Constantino que o bispo da capital do Império fosse considerado primus inter pares. A chamada infalibilidade do papa foi decretada somente pelo primeiro Concílio Vaticano no ano 1870, quer dizer, há pouco mais de um século. De resto, o papa não fez valer a sua suposta infalibilidade, nem mesmo nas mais veementes controvérsias recentes, sobretudo após a ruidosa encíclica “Humanae Vitae”, impugnada violentamente por bispos e cardiais. Quem confessa o Cristo como suprema e única rocha da igreja está de acordo com o Evangelho e com as palavras do próprio Cristo.

O CORPO DE JESUS ERA MATERIAL?

Era tanto material como astral – se por astral entendemos estado de pura energia. A ciência de hoje não admite mais a diferença essencial entre material e astral. A ciência é, hoje em dia, altamente monista ou unitária: os 92 elementos da química, de que são formadas todas as coisas, são fundamentalmente luz, luz cósmica, invisível. A luz é a mais alta vibração do mundo conhecido. Quando a luz cósmica diminui de vibração, aparece a luz visível das estrelas e dos sóis. Quando a luz continua a diminuir de vibração, aparece a energia (astral). E, quando a energia continua a se passivizar (congelar), aparece a matéria perceptível. Segundo a ciência de hoje, a luz cósmica é a mais alta forma da substância mundial, e a matéria é o estado mais baixo. Quanto maior é a vibração, tanto mais real é uma coisa – e quanto menor a vibração, tanto menos real. A substância menos real que a ciência conhece é a matéria, a substância mais real é a luz. O que é pouco real é visível, audível, tangível – o que é muito real é imperceptível. Um espírito da alta potência, como o do Cristo, tem o poder de modificar a vibração conforme as conveniências. Quando o Cristo encarnou na pessoa de Jesus, revestiu-se de um corpo material a fim de poder ser visto, ouvido, tangido pelos homens. De vez em quando isentava ele o seu corpo das leis da visibilidade e da gravidade; andava sobre as águas e flutuava no ar, isento de gravidade; tornava-se invisível, quando o julgava conveniente. Esse estado sem gravidade e visibilidade pode ser chamado corpo astral, energético, ou bioplásmico. A diferença entre luz, energia, matéria, não é de essência, mas de grau.

Depois da ressurreição, Jesus desmaterializava o seu corpo, tornando-o impassível e invisível. Só de vez em quando o tornava visível, para poder ser visto, ouvido e tangido por seus discípulos. Na ascensão, Jesus tornou o seu corpo permanentemente invisível, totalmente lucificado. No dia do Pentecostes, o Jesus cristificado se revelou aos 120 discípulos do cenáculo através de fenômenos perceptíveis de luz; esse estado é chamado por alguns carismático, ou espírito santo. A palavra grega charis e charisma quer dizer graça, beleza, força e indica uma maravilhosa síntese de matéria e luz como harmonia entre o visível e o invisível. Nesta forma carismática apareceu Jesus na gloriosa manhã do domingo de Pentecostes, dez dias depois da sua ascensão, provavelmente no dia 30 de maio do ano 33. Neste estado carismático fez ele eclodir o Eu divino dos 120 discípulos, após uma longa incubação de três anos e uma intensa introspeção de 9 dias de silêncio e meditação. Essa metamorfose dos 120 era um estado permanete de consciência e de vivência do Cristo interno. Esta comunhão do Cristo carismático, preludiada simbolicamente pelo Jesus eucarístico, da última ceia, foi o verdadeiro natal do Cristo e o início do cristianismo autênitico, a alvorada do reino de Deus na terra. A cristandade celebra, há quase dois milênios, o natal de Jesus em Belém, e a eucaristia de Jesus em Jerusalém – mas não compreendeu ainda o natal do Cristo e a comunhão do Cristo carismático, ocorridos no domingo de Pentecostes, quando encheu de verdade e de graça os seus verdadeiros arautos. Algum dia, talvez daqui a milênios, a nova humanidade centralizará a sua liturgia e os seus festejos em torno do natal e da comunhão do Cristo carismático. E haverá um novo céu e uma nova terra.

ERA JESUS UM CURADOR?

Sim – e não. Não era um curador no sentido usual da palavra. Não curava por meio de passes, nem com vibrações mentais. A terapêutica de Jesus estava radicada no mistério da sua própria cristicidade. Como o seu Cristo cósmico se havia revestido do invólucro humano pela encarnação, habitava nele “toda a plenitude da Divindade”, na expressão de Paulo de Tarso. Na Divindade não há doenças, e por isso não podia haver doença na mais perfeita emanação da Divindade Universal, no Cristo-Logos. E essa imunidade crística irradiava através da sua personalidade humana. Nem uma única vez o Evangelho fala de uma doença de Jesus. E a sua perfeita saúde contagiava os doentes que tinham abertura e receptividade para esse contágio salutífero. Estamos habituados a falar em contágio de doenças – mas uma perfeita saúde é mais contagiosa que qualquer doença. A perfeita saúde de Jesus contagiava beneficamente os doentes. No Evangelho não encontramos indício de que Jesus tivesse feito uma campanha para curar todos os doentes da pequena Palestina, muito menos do grande Império Romano, como poderia ter feito com seus grandes poderes. Ele nunca procura um doente; só cura os que lhe apresentam. É que ele sabia que doença é efeito de culpa, individual ou coletiva e ninguém, nem o próprio Cristo tem o poder de abolir a culpa alheia contra a vontade do culpado. O que ele fez nos três anos da sua vida pública foi mostrar aos culpados o caminho de abolirem ou prevenirem a sua própria culpa. Certos amigos da filantropia devem estranhar que um homem dotado de tamanho poder curador não se tenha arvorado em curador profissional. Bem sabia Jesus que o verdadeiro mal não está no corpo, mas na alma, e que não adianta reprimir os efeitos, enquanto persistir a causa. Já no Gênesis foi dito que as doenças e a morte são creações do pecador, e Paulo de Tarso repete que “o salário do pecado é a morte”. Daí essa indiferença de Jesus em face das doenças. Ele é muito mais Mestre que médico.

Quem esteve na Índia, deve ter estranhado o desinteresse do hindu em face de caridade e filantropia; parece que está no subconsciente desse povo que o principal não é curar doenças, mas sim estabelecer contacto com o mundo espiritual, não tanto na zona corporal, mas sim do espírito. Quando Maria de Betânia ungiu Jesus com um frasco de essência preciosa, no valor de 300 denários (ou cruzeiros), Judas e outros discípulos incriminaram Maria por esse “desperdício”, alegando que se poderia ter vendido essa essência e ter ajudado os pobres. Jesus, porém, defende o “desperdício” de sua discípula, dizendo: “Pobres sempre os tereis convosco, e podeis fazer-lhes bem quando quiserdes – a mim, porém, nem sempre me tereis”. Essa atitude do Mestre é dificilmente compreensível para os que só conhecem beneficência material, e nada sabem de beneficência espiritual, que lhes parece desperdício ou absurdo misticismo. Sendo que Jesus era o “Filho do Homem”, dava ele a máxima importância àquele ideal do homem que fora planejado pelos Elohim do Gênesis, mas até hoje não prevaleceu na humanidade. Aplainar os caminhos da alma é, para Jesus e a nova humanidade, mais importante do que consertar o corpo da velha humanidade. Nunca se recusa ele a curar os corpos doentes que lhe apresentam, mas nunca mostrou interesse em organizar uma campanha sistemática no sentido de curar todas as enfermidades do seu tempo. Das alturas da sua visão crística, o que mais o interessava era proclamar o Reino de Deus, e, uma vez estabelecido este, cessariam, não só os males, mas, acima de tudo, as maldades, causa daqueles. É esta a lógica genial do Nazareno, dificilmente compreensível e aceitável para certos cristãos que costumam pôr o carro diante dos bois. A nova humanidade é de homens feitos à imagem e semelhança de Deus, sem culpa, sem doença, sem morte compulsória. Esta humanidade ideal continua a ser frustada pela serpente do intelecto, e enquanto o poder das trevas tem poder sobre os homens, não surgirá uma humanidade perfeita.

JESUS TINHA IRMÃOS?

Repitidas vezes falam os Evangelhos de irmãos e irmãs de Jesus. Alguns desses irmãos aparecem com seus nomes e com os de seus pais. Alguns desses irmãos de Jesus parecem ter sido filhos de José, oriundos de um matrimônio anterior; portanto, enteados. Em todas as imagens, mesmo os mais antigos ícones bizantinos, aparece José invariavelmente como homem idoso, de cerca cinquenta anos, ao passo que Maria aparece sempre como uma jovem de uns dezoito a vinte anos. Se José era viúvo e trouxe para o matrimônio com Maria os filhos dele, compreende-se porque nenhum deles se tenha tornado discípulo de Jesus, e nenhum deles acompanhou a morte do Nazareno. A fama do profeta de Nazaré deve ter enciumado esses filhos de José, que desaparecem na obscuridade. Se os tais irmãos de Jesus tivessem sido filhos de Maria, não se compreende porque Jesus, ao morrer, tenha entregue sua mãe aos cuidados de seu discípulo João; não se teriam esses filhos interessado por sua mãe? A alegação arbitrária de certos teólogos, ansiosos por salvar a virgindade de José, não pode ser tomada a sério. Os livros sacros não se interessam por virgindade – tanto mais que, entre os judeus, a paternidade e a maternidade eclipsavam a virgindade. O fato da concepção virginal de Jesus, profetizado por Isaias, e referida por Mateus e Lucas, nada tem que ver com sexofobia, que é um anacronismo nascido séculos mais tarde. O motivo real da concepção virginal de Jesus visa motivar o início da nova humanidade, de que já falara o Gênesis de Moisés. A nova humanidade não podia aparecerer do mesmo modo como as creaturas humanas comuns, mediante uma fecundação material. O homem “imagem e semelhança de Deus”, devia ter uma origem genuinamente hominal, como teve Jesus, o “Filho do Homem”. Esta concepção hominal, por indução vital, e não por contacto material, implica, naturalmente, na preservação da virgindade, que não é uma finalidade, em si, mas apenas um fenômeno concomitante da origem da nova humanidade. Lucas, o erudito médico grego, insinua, no seu Evangelho, essa concepção imaterial, como expliquei no meu livro “A Nova Humanidade”.

Essa concepção imaterial e genuinamentre hominal do corpo de Jesus, nada tem que ver com uma interveção mitológica, do “espírito santo” se com esta palavra se entende uma suposta pessoa divina. Os Evangelhos de Mateus e Lucas identificam a genealogia de jesus com a de José, por sinal que consideram José com pai real, embora não material, de Jesus, nem reduzem José a um suposto pai adotivo ou legal de Jesus. A tríplice maldição que os Elohim, no Gênesis, lançam à serpente, à mulher e ao homem supõe que, através duma longa evolução ascensional, podia e devia a verdadeira humanidade atingir essa concepção genuinamente hominal. Esta evolução ascencional não se generalizou ainda por intervenção da serpente, símbolo da inteligênica humana, contrária ao espírito de Deus. Entretanto, o Gênesis dá esperanças que uma humanidade mais avançada “esmagará a cabeça da serpente” e abrirá os caminhos para uma humanidade feita segundo a imagem e semelhança de Deus. E então “o reino de Deus será proclamado sobre a face da terra”. E não se considerava Jesus o introdutor dessa nova humanidade e desse reino de Deus? Quase todas as suas parábolas giram em torno do foco central do “reino de Deus”. Em face disto, é lógico que uma mulher futura fosse a mãe de alguém que esmagasse a cabeça da serpente. E não diz Jesus de si mesmo: “Eu venci o mundo?” mas dos seus discípulos e de outros homens diz ele: “O príncipe deste mundo, que é o poder das trevas tem poder sobre vós”. Ele distingue nitidamente entre duas humanidades: a velha humanidade, ainda sujeita ao poder das trevas – e a nova humanidade que venceu o poder das trevas.

ERA JESUS UM MESTRE BONDOSO?

Os nossos devocionários e manuais de teologia espiritual têm a tendência de apresentar Jesus, o Cristo, como tendo sido o “meigo Nazareno” o “Mestre bondoso” etc. Essas expressões, embora fundamentalmente verdadeiras, dão aos leitores comuns uma idéia errônea do caracter de Jesus. Ser meigo, ser bondoso, é, para muitos de nós, ser bonachão, bonzinho, conivente com todas as fraquezas humanas; ser incapaz de rigor para defender a verdade e a justiça. A idéia que muitos livros dão de um mestre espiritual é que ele nunca diga não em face das molezas, indisciplinas e misérias dos outros. Para muitos, o mestre espiritual deve ser, acima de tudo simpático, deixando tudo como está para ver como fica. Não encontramos, porém, nenhum desses traços na pessoa de Jesus. Ele é, acima de tudo, o defensor da verdade, da disciplina, da retidão da vida humana, quer seja agradável, quer desagradável. Quando três homens queriam ser discípulos dele, o Mestre não os abraçou entusiasticamente como maravilhosos idealistas ou espiritualistas, mas encarou calmamente um destes entusiastas e lhe disse: “As raposas têm cavernas, as aves têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. E o fogoso candidato desapareceu para sempre. Um entusiasta declara ao Mestre que quer ser discípulo dele, contanto que o Mestre lhe permita despedir-se primeiro da sua família. Mas o Mestre lhe replica: “Quem lança mão ao arado, e depois olha para trás, não presta para o reino de Deus”. E, com esta trovejante reposta, o candidato sentimental desaperece para sempre. Outro jovem foi convidado por Jesus a seguí-lo simplesmente: “Segue-me”. E o convidado estava mesmo disposto a seguir o Mestre – contanto que... E aqui vem as costumadas condições restritivas de um seguimento condicional: “Permite, que vá primeiro sepultar meu pai que acaba de falecer”, e ele ouve a categórica resposta: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos – tu, porém, vai e proclama o reino de Deus”. Um guru bondoso e simpático, segundo o nosso figurino, devia, naturalmente ter atendido a um pedido tão razoável. Mas o Mestre que o Evangelho conhece se mostra rigoroso e, aparentemente, pouco amável. Qualquer mestre humano

teria atendido a um pedido tão humano e piedoso. O Mestre divino, porém, tem a coragem de negar o pedido humano e defender a verdade e a disciplina. Nenhum desses três casos merecia ao Mestre Jesus o título de meigo, bondoso, simpático. De todos os seus verdadeiros discípulos exige o Mestre, com inexorável rigor: “Quem não renunciar a tudo que tem, não pode ser meu discípulo”. Por ocasião da purificação do templo, não pede Jesus gentilmente aos profanadores: por favor retirai-vos com as vossas mesas de câmbio um pouco para a entrada do santuário – mas faz de umas cordas um azorrague e ameaça os vendilhões, derrubando sumariamente as mesas dos cambistas, e bradando: “Não façais da casa do meu Pai uma praça de mercado, um covil de ladrões”. Para o Cristo, acima de tudo, a verdade, a santidade, a dignidade da vida humana. Nada lhe interessa a ira ou os aplausos dos poderosos, nem a simpatia dos egoístas. Quando o Mestre age com rigor, age sempre em defesa de uma causa sagrada, e não em defesa de sua personalidade ofendida. Quando alguém lhe dá uma bofetada, está disposto a receber mais outra. Mas, ai de quem põe em risco a verdade, a justiça, a sacralidade, o respeito devido aos valores eternos da vida humana! Em face disto, o Mestre só conhece rigor e disciplina. É muito comum entre nós encobrir a fraqueza ou covardia espiritual com o véu colorido de espiritualidade, de bondade, de meiguice humana. A imensa maioria do nosso mundo social necessita mil vezes mais do rigor da verdade do que da meiguice da bondade. Amor sem rigor não é muito amor verdadeiro. Quem é rigoroso consigo mesmo pode ser rigoroso com os outros, sem faltar à verdade e ao amor. É possível dizer verdades duras a alguém sem o ofender, se ele percebe que o rigor é inspirado pelo amor. Estranhamente, quem é tratado com rigor amoroso estima mais o Mestre do que aquele que é tratado com bondade sem rigor. Somente um profano total espera ser tratado sempre com bondade piegas e melíflua, porque não está interessado na sua auto-realização.

O JESUS EUCARÍSTICO E O CRISTO CARISMÁTICO

Trinta e três anos após o nascimento de Jesus em Belém, nasceu o Cristo em Jerusalém, não num estábulo, mas nas almas de 120 dos seus discípulos. Este nascimento metafísico do Cristo ocorreu 53 dias depois da morte física de Jesus, 10 dias depois da ascensão, no ano 33 da nossa Era, num domingo de manhã, provavelmente no dia 30 de maio. Que aconteceu? Algo misterioso, inexplicável: 120 pessoas, homens e mulheres, ultrapassaram as baixadas do seu velho ego humano, e atingiram as alturas do seu Eu divino. Houve a primeira auto-iniciação. A gloriosa data do auto-conhecimento e da auto-realização. Mestre Lucas achou tão importante esse acontecimento que consignou a data e o momento exato: era às 9 horas da manhã, num domingo, no cenáculo de Jerusalém. E essa eclosão do Cristo interno ocorreu depois que os 120 discípulos do Mestre haviam passado por 9 dias completos de silêncio e profunda meditação. Hoje, no ocaso do segundo milênio, numerosas pessoas, nos cinco continentes do globo, compreendem que esse acontecimento marca a alvorada do verdadeiro Cristianismo, ou melhor, da Cristicidade, sobre a face da terra. E, como esta eclosão do Cristo se deu depois de 9 dias de silêncio e meditação, a elite crística do mundo faz períodos de silêncio e meditação, preparando assim o nascimento do Cristo em sua alma. Na última ceia, quinta-feira à noite, no mesmo cenáculo, havia Jesus simbolizado numa parábola genial essa comunhão do Cristo com a alma humana. “Convém a vós – dissera ele a seus discípulos – que eu me vá embora, porque, se eu não me for, o espírito da verdade não virá a vós”. E, para dramatizar a morte do seu Jesus humano e o nascimento do seu Cristo divino, dera ele a seus discípulos pão para comer e vinho para beber, fazendolhes ver que ninguém pode assimilar a alma desses alimentos sem primeiro destruir o corpo deles. Todos nós sabemos que ninguém pode integrar em sua vitalidade pão e vinho, ou outro alimento qualquer, sem que primeiro o desintegre. O que assimilamos não é o corpo, a matéria do alimento, mas sim a sua alma, a sua energia invisível, que a ciência chama “caloria”.

Para que o Cristo invisível pudesse ser integrado por seus discípulos, era necessário que o Jesus visível fosse primeiro desintegrado pela morte. Do mesmo modo, nenhum homem pode integrar o seu Eu divino sem que primeiro desintegre o seu ego humano: “Se o grão de trigo não morrer, ficará estéril; mas, se morrer, produzirá muito fruto”. Na última ceia, o grão de trigo do ego humano não morreu em nenhum dos seus discípulos, e por isto não podiam produzir fruto. O Mestre dera a seus discípulos os símbolos materiais, que não os fizeram produzir fruto espiritual; tanto assim que, depois desta ingestão dos símbolos, um deles consumou o crime da traição, e logo depois de suicidou; outro negou três vezes o Mestre e jurou que não era discípulo dele; e todos, a excessão de um só, fugiram covardemente, abandonando o Mestre. A comunhão eucarística não tornara espiritual nenhum dos discípulos, porque eles só comungaram os símbolos materiais do pão e do vinho, que não santificam ninguém. E o Mestre não estranhou que eles continuassem a ser os mesmos pecadores que sempre haviam sido. O pão e o vinho não os espiritualizaram. Mas quando, semanas depois, eles comungaram o simbolizado espiritual, o espírito do Cristo – então tudo mudou. Adeus, egoísmo! Adeus, ganância! Adeus, ambição! Adeus, todo o medo do sofrimento e da morte!... Os 120 Cristo-comungantes, foram perseguidos, martirizados e mortos mas nenhum deles traíu nem renegou o Mestre; todos eles exultaram, quando eram achados dignos de sofrer martírio e morte pelo Cristo. Através de quase 20 séculos, foram celebrados pelos cristãos os símbolos materiais do Jesus eucarístico – é chegado o tempo para celebrarmos o simbolizado espiritual do Cristo carismático, comungando-o em espírito e em verdade. Se o Jesus eucarístico não fosse privilégio e monopólio de uma classe dominante, já teria o Cristo carismático eclodido no mundo cirstão, porque este não é monopólio de nenhuma classe. Uma pequena elite crística está em vésperas de celebrar um novo Pentecostes, abrindo os olhos para o Cristo que disse; “Estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos”. E esses discípulos do Cristo e candidatos à comunhão em espírito e verdade sabem que, “quando o discípulo está pronto, então o Mestre aparece”. E eles se prontificam para o nascimento do Cristo em silêncio e meditação, como aqueles 120 do primeiro século. “As palavras que vos digo são espírito e são vida – a carne de nada vale... Eu sou o pão vivo que desceu do céu... Eu sou a ressureição e a vida – quem tem

fé em mim não morrerá, e, ainda que tenha morrido, viverá para todo o sempre”. Em plena Era do Aquário, quase na alvorada do Terceiro Milênio, preparemonos para o natal do Cristo. Quando o nosso ego humano desce ao ínfimo nadir do seu voluntário esvaziamento, então o nosso Eu divino subirá ao supremo zenite da sua Cristoplenificação. É este o verdadeiro advento do Cristo em espírito e em verdade.

“NINGUÉM VAI AO PAI A NÃO SER POR MIM”

Estas palavras do Cristo têm causado muita estranheza e incompreensão, e até certa revolta, sobretudo no oriente. Não parece presunção afirmar que nenhum homem possa chegar a Deus senão através do Cristo? E os povos que nada sabem do Cristo? O mal está em identificarmos o Cristo cósmico com o Jesus humano, através do qual aquele se manifestou. Mas não é este o sentido das citadas palavras. Imaginemos a suprema Divindade Transcendente, que no Evangelho aparece como o “Pai”, como um mar imenso, infinito, sem princípio nem fim; imaginemos o Cristo cósmico como canal-mestre que parte desse mar e se lança pela terra. E desse canal-mestre, repleto de água-viva, partem numerosos canais secundários, maiores e menores, que recebem as suas águas diretamente do canal-mestre do Cristo, ainda que indiretamente do mar da Divindade. O canal-mestre poderia dizer aos canais derivados; nenhum de vós recebe algo do mar a não ser por mim. Nesse sentido, disse Jesus, referindo-se ao seu Cristo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; quem me segue não anda em trevas, mas tem a luz da vida”. Esta verdade sugere o seguinte: parece difícil para a creatura humana comum entrar em contacto com a Divindade, diretamente; a distância é grande demais; quer dizer a distância interna, a capacidade receptiva do homem é pequena demais para receber em si algo do grande mar da Divindade transcendente, que o Cristo chama o Pai. O homem comum necessita de um intermediário, de um mediador, de um elo interligante, de um Deus-homem, de um Verbo feito carne, Verbo e carne para estabelecer contacto entre o homem e a Divindade, entre a Imanência de cá e a Transcendência de lá, entre o Aquém da humanidade e o Além da Divindade. Para melhor compreendermos isto, recapitulemos o que dissemos nas páginas anteriores. O Cristo cósmico é a primeira e mais alta individuação da Divindade Universal; é uma creatura cósmica, antes de se tornar uma creatura telúrica em Jesus. O Cristo cósmico era Deus, era o proto-Deus da Divindade, o Unigênito do Pai, e por isto mesmo o Primogênito de todas as creaturas. Ele era Deus, mas não era a Divindade. Muitos podem ser Deus, ninguém pode ser a Divindade.

O proto-Deus Cristo é o canal-mestre do mar da Divindade, e desse canalmestre partem outros canais ligados diretamente ao canal-mestre, e indiretamente ao mar da Divindade. A ligação com esse canal-mestre nada tem que ver com ocidente ou oriente, cristão ou pagão; depende unicamente do estado de consciência de cada creatura humana. Mahatma Gandhi era, certamente, um canal firmemente ligado ao canal-mestre do Cristo, embora não fosse oficialmente cristão; era tão crístico e tão pouco cristão que podia dizer aos missionários cristãos que procuravam convertê-lo ao cristianismo deles: “Aceito o Cristo e seu Evangelho – não aceito o vosso Cristianismo”. Pode um homem ser 100% crístico ou cristificado e ao mesmo tempo 0% cristão. O Cristo não fundou o cristianismo, que é obra dos seus discípulos. A individualidade do Cristo cósmico era “no princípio” de todos os princípios, “antes que o mundo existisse”. A personalidade de Jesus de Nazaré apareceu, aqui no planeta terra, há quase 2000 anos. Se o Cristo se personificou em outras regiões dos cosmos, disto nada sabemos, não o podemos afirmar nem negar. Que significam as palavras misteriosas dele: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”? O texto do grego diz muitas “permanências”, ou modos de estar – talvez personificações, modos de encarnação ou homificação. A encarnação do Verbo, do Cristo cósmico, não foi um ato compulsório de reencarnação, mas uma decisão livre de avatar. Quando alguém reencarna, obedece a uma lei necessidade; quando o Cristo encarnou em Jesus, fê-lo por amor, na culminância da liberdade.

E é precisamente aqui que começa o mistério dos avatares, ou mensageiros da Divindade, quando se acham em elevado grau de evolução ascensional: não querem apenas gozar o seu amor, querem sofrê-lo. Nenhum avatar se contenta com um gozo gozado, ele quer um gozo sofrido. A palavra sânscrita ananda parece expressar essa estranha bipolaridade de beatitude sofrida. A encarnação ou homificação do Cristo-Logos é uma personificação, externamente considerada como uma espécie de involução, na verdade, porém, uma evolução, como o Mestre diz aos discípulos de Emaús: “Não devia o Cristo sofrer tudo isto, para assim entrar em sua glória?” Glória é a sua auto-realização, o que se faz através do sofrimento voluntário, do sofrimentoamor. Quando, no Gólgota, ele disse: “Está consumado”, referia-se à consumação da sua evolução terrestre, prelúdio da sua entrada na glória. A consumação do Jesus telúrico é a glória do Cristo cósmico. Quando Jesus diz “niguém vai ao Pai a não ser por mim”, refere-se ele ao seu Cristo cósmico, e não a seu Jesus humano. O Cristo cósmico, é único e pode

ter-se homificado muitas vezes – talvez em Moisés, em Buda, em Krishna, em Gandhi, e em muitos outros seres humanos. O Cristo se homifica de acordo com a capacidade dos recipientes, e também de acordo com as necessidades de cada época e de cada povo. Não há ponto final na evolução de nenhuma creatura; toda a creatura, por mais evolvida, é sempre ulteriormente evolvível. A despeito de tudo isto, continua a ser verdade que nenhum homem vai à Divindade a não ser através do canal-mestre da primeira e mais alta emanação individual da Divindade Universal.

“EU VENCI O MUNDO”

Estas palavras do Cristo nos convidam a perguntar: que mundo venceu o Cristo? Certamente, não o mundo do Império Romano, que dominava a Europa, a Ásia e a África, inclusive a pequena Palestina, esse mundo em que Jesus nasceu e viveu. O mundo é, para ele a humanidade que habitava e habita este mundo. Que humanidade é esta? Ele o diz claramente: “O príncipe deste mundo, que é o poder das trevas, tem poder sobre vós”. E o próprio príncipe deste mundo declara: “Todos os reinos do mundo e sua glória são meus, e eu os dou a quem eu quero”. Logo, o que o Cristo superou foi a humanidade dominada pelo poder das trevas. Há pois duas humanidades: a humanidade de satanás – e a humanidade do Cristo. E esta última humanidade parece estar representada somente pelo Cristo, pelo menos até ao dia do Pentecostes, enquanto os discípulos de jesus estavam ainda sob o poder de satanás. A quase totalidade da humanidade de todos os tempos e países parece estar sujeita ao poder do príncipe deste mundo. Desde quando está a humanidade dominada pelo poder das trevas? Desde o tempo do Gênesis, desde o início. Nesse quase dois mil anos de cristianismo, parece, nunca foi tomado a sério o conteúdo do Gênesis. Nunca foram devidamente focalizadas as horríveis maldições que as Potências Creadoras fulminaram sobre a nossa humanidade: maldição sobre a inteligência simbolizada pela serpente: maldição sobre a mulher e maldição sobre o homem: “Maldita seja a terra por tua causa”. Estas arrazadoras maldições fulminadas pelos Elohim supõem uma causa de imensa importância e gravidade.

Que causa é esta? Ninguém assesta canhões e metralhadoras contra moscas. A causa que provocou esses anátemas deve ter sido de alcance cósmico, afetando toda a humanidade do futuro. Paulo de Tarso, na epístola aos romanos, referindo-se a isto, diz que, até à presente hora, toda a natureza geme e sofre dores de parto, na expectativa da revelação dos filhos de Deus, porque nós, que recebemos as primícias do espírito não realizamos ainda a nossa filiação divina; mas quando o homem se libertar da sua servidão, também a natureza será liberta da servidão da sua corruptibilidade. Vigora pois uma misteriosa simbiose entre o destino do homem e a natureza. Esta tragédia humana era possível em face do livre arbítrio. Quem desviou o homem da sua rota foi ele mesmo, fazendo prevalecer o lúcifer da sua inteligência sobre o Deus do espírito. A inteligência do ego, diz a sabedoria milenar da Bhagavad Gita, é o pior inimigo do Eu espiritual. As leis cósmicas dão plena liberdade de evolução ao joio no meio do trigo, que prolifera até o tempo da colheita. Trigo e joio tem o mesmo direito à sua evolução – mas o destino final não será o mesmo. Quando uma linha reta que aponta para o norte se desvia, digamos, por um milímetro ou menos dessa direção, esse desvio insignificante aumenta gradativamente, até dar um centímetro, depois um metro, e finalmente um quilômetro e mais – e o sentido inicial é totalmente desnorteado. Esse desvio se deu no início da humanidade, pelo próprio homem, e continua através dos milênios – porque o joio tem de chegar à plenitude da sua evolução, para satisfazer a sabedoria das leis cósmicas. Para a nossa humanidade profana é difícil, ou impossível, compreender a gravidade da causa que provocou tão horríveis maldições. Mas essa adulteração das energias cósmicas do homem, que os orientais chamam kundalini, e o Gênesis denomina serpente, deve ser de imensa gravidade, porque tende a frustar o destino do homem normal. As energias cósmicas do homem são responsáveis por sua eugenia corporal e por sua genealidade mental. Disto sabia Moisés, à luz da intuição cósmica, que lhe inspirou o Gênesis. Para neutralizar esse desvio inicial, deve o homem, segundo as palavras do Mestre, nascer de novo “de aguá e espírito”, e não apenas “de carne e carne”; só assim realizará ele o reino de Deus, a nova humanidade sobre a face da terra.

A humanidade atual está ainda sob o poder das trevas, porque ainda não venceu este mundo. O que ela pode e deve fazer é reduzir ao mínimo a sua escravidão, enquanto não nascer de novo de água e espírito. Sobre mim, diz o Mestre o príncipe deste mundo não tem poder algum, porque eu venci o mundo. Desde o início, tinha ele vencido este mundo da serpente, porque a origem do corpo de Jesus já obedeceu às leis que dominam a matéria, e não são dominadas pela matéria. E toda a sua vida terrestre foi orientada por essa mesma lei que vence o mundo. Nós, que, de início, nascemos de carne e carne, e não de água e espírito, como o Mestre, podemos apenas preludiar o novo mundo, diminuindo a nossa escravidão material e aumentando a nossa vitória espiritual. Até certo ponto, pode todo o homem chegar a dizer: sobre mim, o príncipe deste mundo, que é o poder das trevas, não tem poder porque eu estou vencendo o mundo. Aliás, o destino da encarnação terrestre do homem é unicamente esta progressiva emancipação do poder das trevas e essa progressiva libertação pelo poder da luz. “Conhecereis a verdade – e a verdade vos libertará”.

A SEGUNDA VINDA DO CRISTO

Muitos cristãos da atualidade estão à espera da segunda vinda do Cristo – na expectativa de uma parusia, gloriosa e fisicamente perceptível. No primeiro século, quase toda a cristandade tinha certeza do advento do Reino de Deus antes do fim do século. Grande foi a decepção deles, quando o Reino de Deus não se revelou. O Apocalipse afirma que o Reino dos céus será proclamado sobre a face da terra, e haverá um novo céu e uma nova terra. A segunda vinda do Cristo, a proclamação do Reino de Deus sobre a face da terra – tudo isto deve ser antes intuído espiritualmente do que analisado intelectualmente. Jesus disse aos seus ouvintes do primeiro século: “Há entre vós alguns que não verão a morte antes de virem o Reino de Deus em sua glória”. Daí concluíram os ouvintes que o Reino de Deus se manifestaria antes do fim do século – e sentiram-se decepcionados, quando nada aconteceu. Nada aconteceu? Aconteceu a coisa mais estupenda na manhã do Pentecostes, quando 120 pessoas, homens e mulheres, foram iniciados no Reino de Deus pelo Cristo carismático. A segunda vinda do Cristo, não será, provavelmente, um acontecimento histórico externamente visível, mas sim a manifestação do Cristo interno na consciência e na vivência de grande número de pessoas. Há milhares de anos que a humanidade, mesmo a humanidade cristã, vive à mercê do seu ego humano. Mas, segundo as leis cósmicas, grandes culpas geram grandes sofrimentos. Neste quase ocaso do segundo milênio da Era Cristã, a maldade coletiva do gênero humano atingiu um clímax sem precedentes. Videntes, antigos e modernos – sem excecutar o próprio Cristo – vaticinaram inauditas tragédias para os próximos decênios. O Anti-cristo da maldade coletiva tentará destruir a obra do Cristo, e o grosso da humanidade sucumbirá à sua estratégia. Mas, quanto mais se intensifica o polo negativo do mal, mais se intensifica também o polo positivo do bem. Quando os dois polos da natureza humana – a sua cristicidade e a sua satanidade – atingirem o apogeu da sua intensidade,

no bem e no mal, haverá uma gloriosa manifestação do Reino do Cristo na face do planeta Terra. Não consistirá em fenômenos externos, mas numa eclosão interna do Cristo, num Pentecostes em grande escala, não de 120 pessoas, mas de milhares. E esta eclosão interna também afetará, indiretamente, a vivência externa. O Cristo virá sobre as nuvens do céu, com grande poder e majestade, como já veio no ano 33, sobre as nuvens da ignorância de seus discípulos. Os fenômenos concomitantes descritos no texto sacro devem ser entendidos espiritualmente e simbolicamente. Uma segunda vinda material do Cristo, completando a primeira vinda material de Jesus, em nada modificaria a situação da humanidade, como até agora não modificou. Anualmente, a cristandade ocidental celebra o natal de Jesus como festa social e comercial, ou mesmo com liturgia espiritual – mas nada disto melhorou a humanidade. O grande místico medieval Meister Eckhart escreveu: “Mil vezes que Jesus nasça na gruta de Belém, se o Cristo não nascer em tua alma, perdido estás”. Cada vez mais decisiva na humanidade se tornam acontecimentos internos, e não fenômenos externos. Em todos os cinco continentes do globo se observa, que nesses últimos decênios, um crescente anseio de experiência direta de Deus, uma vivência crística não depende de terceiros, de teologias e ritualismos, mas uma vivência pessoal e direta do Cristo interno. Se se intensificar e generalizar esse anseio, pode ser o prelúdio de um novo Pentecostes, de uma transição radical do velho ego humano para o novo Eu divino. A segunda vinda do Cristo não depende do mundo objetivo de fora, mas do mundo subjetivo de dentro. Para Paulo de Tarso, Francisco de Assis, Mahatma Gandhi e muitos outros já se realizou a verdadeira parusia, o advento glorioso do Cristo. Este advento não acontecerá propriamente, mas será creado pelo próprio homem. A nova consciência mística e a nova vivência ética são os únicos responsáveis por esse advento do Cristo em espírito e verdade.

O SUPOSTO RETRATO DE JESUS

Na Biblioteca do Vaticano há um documento inédito a respeito de Jesus Cristo. É uma carta dirigida ao Senado Romano do tempo de Tibério, Publios Lentulus, procônsul romano, contemporâneo de Cristo e presumivelmente predecessor de Pôncio Pilatos na Judéia. A carta descreve a figura de Jesus Cristo. Nessa descrição, não ignorada nos tempos antigos, se inspirou a pintura cristã, à exceção de alguns raros pintores espanhóis e de Morelli em seu “Cristo Moribundo”. A carta do procônsul romano diz o seguinte: “Apareceu e vive estes dias por aqui um homem de singular virtude, que seus companheiros chamam Filho de Deus. Cura os enfermos e ressuscita os mortos. É belo de figura e atrai os olhares. Seu rosto inspira amor e temor ao mesmo tempo. Seus cabelos são compridos e louros, lisos até as orelhas e das orelhas para baixo crescem crespos, anelados. Divide-os ao meio uma risca e chegam-lhe aos ombros, segundo o costume da gente de Nazaré. As faces combrem-se de leve rubor. O nariz é bem conformado e a barba crescida, um pouco mais escura do que os cabelos e dividida em duas pontas. Seu olhar revela sabedoria e candura. Tem olhos azuis com reflexos de várias cores. Esse homem, amável ao conversar, torna-se terrível ao fazer qualquer repreensão. Mas, mesmo nesse caso, sente-se nele um sentimento de segurança e serenidade. Ninguém nunca o viu chorar. É de estatura normal, corpo ereto, mãos e braços tão belos que é um prazer comtemplá-los. O tom da voz é grave. Fala pouco. É modesto. É belo quanto um homem pode ser belo. “Chamam-lhe Jesus, filho de Maria”.

ÍNDICE

CRISTIANISMO – CRISTICIDADE O MISTÉRIO DA ETERNA FASCINAÇÃO DO CRISTO QUE É O CRISTO? A ANTIDROMIA PARADOXAL DOS AVATARES O QUE PAULO DE TARSO PENSAVA DO CRISTO O CRISTO À LUZ DO QUINTO EVANGELHO “CRISTO, O PRIMOGÊNITO DE TODAS AS CREATURAS” É O CRISTO UNIGÊNITO DO PAI? É O CRISTO O CREADOR DO MUNDO? O CRISTO INTERNO É O CRISTO A SEGUNDA PESSOA DA TRINDADE? PORQUE O VERBO SE FEZ CARNE FOI JESUS UM LIBERTADOR? É O CRISTO NOSSO REDENTOR? PORQUE JESUS SOFREU E MORREU DE GLÓRIA EM GLÓRIA – PELA INGLÓRIA ONDE PASSOU JESUS A SUA JUVENTUDE? O BODE EXPIATÓRIO NO JUDAÍSMO E NO CRISTIANISMO FUNDOU JESUS UMA IGREJA? ISTITUÍU JESUS A PEDRO COMO PEDRA FUNDAMENTAL DA IGREJA? O CORPO DE JESUS ERA MATERIAL? ERA JESUS UM CURADOR? JESUS TINHA IRMÃOS?

ERA JESUS UM MESTRE BONDOSO? O JESUS EUCARÍSTICO E O CRISTO CARISMÁTICO “NINGUÉM VAI AO PAI A NÃO SER POR MIM” “EU VENCI O MUNDO” A SEGUNDA VINDA DO CRISTO O SUPOSTO RETRATO DE JESUS

HUBERTO ROHDEN
VIDA E OBRA

Nasceu em Tubarão, Santa Catarina, Brasil. Fez estudos no Rio Grande do Sul. Formou-se em Ciências, Filosofia e Teologia em Universidades da Europa — Innsbruck (Áustria), Valkenburg (Holanda) e Nápoles (Itália). De regresso ao Brasil, trabalhou como professor, conferencista e escritor. Publicou mais de 60 (sessenta) obras sobre ciência, filosofia e religião, editadas pela Editora Vozes (Petrópolis), União Cultural (São Paulo), Editora Globo (Porto Alegre), Livraria Freitas Bastos (Rio de Janeiro), Fundação Alvorada e outras editoras.* Vários livros de Huberto Rohden foram traduzidos em outras línguas, inclusive o Esperanto; alguns existem em Braille, para institutos de cegos. Rohden não está filiado a nenhuma igreja, seita ou partido político. Fundou e dirigiu o movimento mundial Alvorada, com sede em São Paulo. De 1945 a 1946 teve uma Bolsa de estudos para Pesquisas Científicas, na Universidade de Princeton, New Jersey (Estados Unidos), onde conviveu com Albert Einstein e lançou os alicerces para o movimento de âmbito mundial da Filosofia Univérsica, tomando por base do pensamento e da vida humana a constituição do próprio Universo, evidenciando a afinidade entre Matemática, Metafísica e Mística.

Em 1946, Huberto Rohden foi convidado pela American University, de Washington, D.C., para reger as cátedras de Filosofia Universal e de Religiões Comparadas, cargo esse que exerceu durante cinco anos. Durante a última Guerra Mundial foi convidado pelo Bureau of lnter-American Affairs, de Washington, para fazer parte do corpo de tradutores das notícias de guerra, do inglês o para português. Ainda na American University, de Washington, fundou o Brazilian center, centro cultural brasileiro, com o fim de manter intercâmbio cultural entre o Brasil e os Estados Unidos. Na capital dos Estados Unidos, Rohden frequentou, durante três anos, o Golden Lotus Temple, onde foi iniciado em Kriya Yôga por Swami Premananda, diretor hindu desse ashram. Ao fim de sua permanência nos Estados Unidos, Huberto Rohden foi convidado para fazer parte do corpo docente da nova International Christian University (ICU), de Metaka, Japão, a fim de reger as cátedras de Filosofia Universal e Religiões Comparadas; mas, por causa da guerra na Coréia, a universidade japonesa não foi inaugurada, e Rohden regressou ao Brasil. Em São Paulo foi nomeado professor de Filosofia na Universidade Mackenzie, cargo do qual não tomou posse. Em 1952, fundou em São Paulo a Instituição Cultural e Beneficente Alvorada, onde mantia cursos permanentes, em São Paulo, Rio de Janeiro e Goiânia, sobre Filosofia Univérsica e Filosofia do Evangelho. Dirigiu Casas de Retiro Espiritual (ashrms) em diversos Estados do Brasil. Em 1969, Huberto Rohden empreendeu viagens de estudo e experiência espiritual pela Palestina, Egito, Índia e Nepal, realizando diversas conferências com grupos de yoguis na Índia. Em 1976, Rohden foi chamado a Portugal para fazer conferências sobre autoconhecimento e auto-realização. Em Lisboa fundou um setor do Centro de Auto-Realização Alvorada. Nos últimos anos de sua vida, Rohden residia na capital de São Paulo, onde permanecia alguns dias da semana escrevendo e reescrevendo seus livros, nos textos definitivos. Costumava passar três dias da semana no ashram, em contato com a natureza, plantando árvores, flores ou trabalhando no seu apiário-modelo. Quando estava na capital, Rohden frequentava, periodicamente, a editora responsável pela publicação de seus livros, dando-lhe orientação cultural e inspiração. Fundamentalmente, toda a obra educacional e filosófica de Rohden divide-se em quatro grandes segmentos: 1) a sede central da Instituição (Centro de Auto-

Realização), em São Paulo, que tem a finalidade de ministrar cursos e horas de meditação; 2) o ashram, situado a 70 quilômetros da capital, onde são dados, periodicamente, os Retiros Espirituais, de três dias completos; 3) a Editora Martin Claret, de São Paulo, que difunde, através de livros a Filosofia Univérsica; 4) um grupo de dedicados e fiéis amigos, alunos e discípulos, que trabalham na consolidação e continuação da sua obra educacional. À zero hora do dia 7 de outubro de 1981, após longa internação em uma clínica naturista de São Paulo, aos 87 anos, o professor Huberto Rohden partiu deste mundo e do convívio de seus amigos e discípulos. Suas últimas palavras, em estado consciente, foram: “Eu vim para servir a Humanidade”. Rohden deixa, para as gerações futuras, um legado cultural e um exemplo de fé e trabalho, somente comparado aos dos grandes homens do nosso século.

RELAÇÃO DE OBRAS DO PROF. HUBERTO ROHDEN

COLEÇÃO FILOSOFIA UNIVERSAL: O PENSAMENTO FILOSÓFICO DA ANTIGUIDADE A FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA O ESPÍRITO DA FILOSOFIA ORIENTAL

COLEÇÃO FILOSOFIA DO EVANGELHO: FILOSOFIA CÓSMICA DO EVANGELHO O SERMÃO DA MONTANHA ASSIM DIZIA O MESTRE O TRIUNFO DA VIDA SOBRE A MORTE O NOSSO MESTRE

COLEÇÃO FILOSOFIA DA VIDA: DE ALMA PARA ALMA ÍDOLOS OU IDEAL? ESCALANDO O HIMALAIA O CAMINHO DA FELICIDADE DEUS EM ESPÍRITO E VERDADE EM COMUNHÃO COM DEUS

COSMORAMA PORQUE SOFREMOS LÚCIFER E LÓGOS A GRANDE LIBERTAÇÃO BHAGAVAD GITA (TRADUÇÃO) SETAS PARA O INFINITO ENTRE DOIS MUNDOS MINHAS VIVÊNCIAS NA PALESTINA, EGITO E ÍNDIA FILOSOFIA DA ARTE A ARTE DE CURAR PELO ESPÍRITO. AUTOR: JOEL GOLDSMITH (TRADUÇÃO) ORIENTANDO “QUE VOS PARECE DO CRISTO?” EDUCAÇÃO DO HOMEM INTEGRAL DIAS DE GRANDE PAZ (TRADUÇÃO) O DRAMA MILENAR DO CRISTO E DO ANTICRISTO LUZES E SOMBRAS DA ALVORADA ROTEIRO CÓSMICO A METAFÍSICA DO CRISTIANISMO A VOZ DO SILÊNCIO TAO TE CHING DE LAO-TSÉ (TRADUÇÃO) SABEDORIA DAS PARÁBOLAS O QUINTO EVANGELHO SEGUNDO TOMÉ (TRADUÇÃO) A NOVA HUMANIDADE A MENSAGEM VIVA DO CRISTO (OS QUATRO EVANGELHOS TRADUÇÃO) RUMO À CONSCIÊNCIA CÓSMICA O HOMEM

ESTRATÉGIAS DE LÚCIFER O HOMEM E O UNIVERSO IMPERATIVOS DA VIDA PROFANOS E INICIADOS NOVO TESTAMENTO LAMPEJOS EVANGÉLICOS O CRISTO CÓSMICO E OS ESSÊNIOS A EXPERIÊNCIA CÓSMICA

COLEÇÃO MISTÉRIOS DA NATUREZA: MARAVILHAS DO UNIVERSO ALEGORIAS ÍSIS POR MUNDOS IGNOTOS

COLEÇÃO BIOGRAFIAS: PAULO DE TARSO AGOSTINHO POR UM IDEAL – 2 VOLS. AUTOBIOGRAFIA MAHATMA GANDHI JESUS NAZARENO EINSTEIN – O ENIGMA DO UNIVERSO PASCAL MYRIAM

COLEÇÃO OPÚSCULOS: SAÚDE E FELICIDADE PELA COSMO-MEDITAÇÃO

CATECISMO DA FILOSOFIA ASSIM DIZIA MAHATMA GANDHI (100 PENSAMENTOS) ACONTECEU ENTRE 2000 E 3000 CIÊNCIA, MILAGRE E ORAÇÃO SÃO COMPATÍVEIS? CENTROS DE AUTO-REALIZAÇÃO

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