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O Realismo em Machado de Assis

O Realismo em Machado de Assis

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Ensaio apresentado na disciplina Literatura Brasileira, ministrado pelo Msc Mestre :Sebastião Rios
Ensaio apresentado na disciplina Literatura Brasileira, ministrado pelo Msc Mestre :Sebastião Rios

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05/28/2014

O Realismo em Machado de Assis

“... Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida. O estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...”. Memórias Póstumas de Brás Cubas – M. de Assis.

Este trabalho tem por objetivo buscar a relação da estrutura de composição da obra machadiana com as características realistas e naturalistas, situando as perspectivas narrativas frente ao Realismo, já que persiste ao longo do tempo a aparente classificação do autor como escritor realista. No entanto, um olhar mais atento da obra de Machado de Assis, perpassa pela forma peculiar da narração que difere dos princípios realista/naturalista. Para melhor desenvolvimento da temática proposta, faz-se necessário uma visão da concepção desses movimentos literários. O Realismo foi um movimento artístico que se manifestou na segunda metade do século XIX. Caracteriza-se pela intenção de uma abordagem objetiva da realidade e pelo interesse por temas sociais. O engajamento ideológico fez com que muitas vezes a forma e as situações descritas fossem exageradas para reforçar a denúncia social. Sua radicalização rumo à objetividade sem conteúdo ideológico leva ao naturalismo. Muitas vezes, realismo e naturalismo se confundem. O Naturalismo baseia-se na filosofia de que só as leis da natureza são válidas para explicar o mundo e de que o homem está sujeito a um inevitável condicionamento biológico e social. As obras retratam a realidade de forma ainda mais objetiva e fiel do que no realismo. Por isso, o naturalismo é considerado uma radicalização desse movimento. Os naturalistas influenciados pelo positivismo de Comte e pela Teoria de Evolução das Espécies apresentam a realidade com rigor quase científico. A descrição predomina sobre a narração, de tal modo que se considera que os autores, em vez de narrar acontecimentos, os descrevem em detalhes. O expoente é Émile Zola, autor de Nana e Germinal, também são naturalistas os irmãos Goncourt, de Germinie Lacerteux. Em 1880 que o escritor Émile Zola (1840-1902) reuniu os princípios da tendência em seu livro de ensaios O Romance Experimental. No Brasil os autores realistas são: Aluísio de Azevedo, Raul Pompéia, Inglês de Souza, Júlio Ribeiro. Autores que preocupados com a estética realista, compuseram obras com rigor do cientificismo naturalista. Nessa perspectiva realista temos o exemplo de O cortiço de A. de Azevedo, que narra a fundação, o crescimento e ascensão de um cortiço, a ele se opondo um sobrado, símbolo de uma posição social a ser alcançada. Nesse caso, dois tipos que se opõem: João Romão e o comerciante Miranda. Personagens inescrupulosos e exploradores de pessoas simplórias, que os serviam pelas conveniências sociais. Um dos aspectos da pesquisa social do romancista consistiu em traçar o roteiro ascensional de ambos. Ao mesmo tempo, o romancista exibe no poder da observação, registro das emoções e reações da coletividade bestializada que compunha o cortiço, ressaltando certos tipos, como Rita baiana e Jerônimo. Romance sociológico que retrata bem o vigor realista da época. A linguagem do

romance é coloquial. Descreve vícios e mazelas humanos, faz uso de expressões vulgares. Temas do cotidiano urbano como crimes, miséria e intrigas, são usuais. Os personagens são tipificados: o adúltero, o louco, o pobre, a prostituta. No entanto, personagens sem nenhuma perspectiva psicológica. Entretanto, considerando a aversão do Machado de Assis ao realismo purista, como distingui-lo nesse cenário? A famosa crítica do autor ao romance de Eça, Primo Basílio, deixa claro, a rejeição que ele fez ao Realismo lógico, purista e obscuro. Machado refuta a extrema importância que os autores realistas destinavam a detalhes ínfimos nas obras e afirma “... A nova poética é isto, e só chegará à perfeição no dia em que nos disser o número exato de que se compõe um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha”. O realismo que M. critica está na concepção dos personagens, que em sua maioria, são vazios de significação, percepção e sem vínculo emocional com o leitor, como no caso de Luisa, de Eça de Queiros, mulher inerte e fútil que se entrega ao adultério sem nenhum motivo. Machado não critica ato do adultério em si, que é mais que humano, mas sim a falta de dramatização de Eça para com o ato despropositado de Luisa; o drama de consciência, o remorso, arrependimento que ela não teve, mas apenas a sensação física: o medo. Embora Machado de Assis também tenha sido classificado como escritor realista, fez-se necessário um estudo aprofundado, para situa-lo com mais precisão na literatura brasileira. Estudos estes, que demonstraram quanto o autor está além de uma classificação simplista. Segundo Alfredo Bosi (1981) “O tom do realismo de Machado de Assis não ecoa com seus contemporâneos, que tinham por base o realismo/naturalismo da época”. Machado foi um autor atemporal, compôs seus romances de formas distintas das prerrogativas realistas, embora tenha feito uso de algumas delas, inaugurou originalmente forma peculiar de escrever seus romances. A narrativa de Machado de Assis é deveras complexa e exige do leitor um mínimo de sapiência e entendimento não só ao que se refere à essência humana, quanto aos conhecimentos empíricos, como afirma S. Rios “... O narrador rompe com as expectativas do leitor ao rejeitar a concatenação lógica de causa e efeito, sobrepondo a ela a multiplicidade das incisões verticais que inibem o fluxo dos episódios e exigem o constante retorno ao já enunciado – tudo isso caracterizando a prosa sincopada do escritor...” Assim, pelo fato do narrador estar sempre desviando a atenção do leitor para circunstâncias alheias à sua obra, inserindo no contexto narrativo; fatos históricos, citações de autores clássicos e análises filosóficas que quase sempre é o suporte principal da história em si, pressupõe no leitor, a disposição para a reflexão dos sentidos. Segundo S. Rios (1998), o enredo latente é mais o mais significativo, já que resulta na forma de construção da obra em que os eventos narrados não estão ligados por uma relação de casualidade Sob esses aspectos, podemos perceber que o ângulo da narrativa machadiana, não está centrado apenas em um enredo patente de primeiro plano, mas em toda uma estrutura de composição da obra, que para ser entendida, deve-se buscar a definição da função do narrador. Os romances da fase madura de Machado de Assis dividiram-se em dois grupos: as autobiografias ficcionais, que predomina a situação narrativa em primeira pessoa, neste grupo incluem-se Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Memorial de Aires e os romances autorais: Quincas Borba e Esaú e Jacó. O romance autoral é aquele onde a situação narrativa está em evidência, e o narrador autoral dirige-se diretamente ao leitor. Segundo Sebastião Rios (1998) “Este narrador é uma máscara que o autor criou de si, que responde pela instância narrativa do romance. Esta máscara, uma vez criada, autonomiza e já não se identifica com seu criador: enquanto personalidade do autor ficcionalizada, ela

constitui o centro do processo narrativo”. Deste modo, Podemos dizer que para conceber um romance autoral o autor rompe com o narrador que por conseqüente rompe com o protagonista para demonstrar a mediação do universo ficcional. Nos romances memoriais de Machado de Assis, as duas formas coexistem de maneira harmônica. Observamos, por exemplo, no romance D. Casmurro a proximidade entre situação narrativa autoral e a situação narrativa em primeira pessoa em que o narrador Bento de Albuquerque Santiago, um senhor conhecido com a alcunha de Dom Casmurro, decide compor sua biografia. Dom Casmurro é o narrador autoral e onisciente que está distante em relação ao tempo, dos fatos narrados. Tem a visão panorâmica de todo o universo narrado, tanto dos acontecimentos passados, como da perspectiva interna que se encontra nos dramas íntimos e psíquicos de seus personagens, neste caso, o adolescente Bentinho. A distância narrativa e a visão panorâmica permitem ao narrador autoral a intromissão sempre que preciso, para a explanação do tema tratado. Bento de Albuquerque cabe perfeitamente na afirmação de Sebastião Rios “O tempo da experiência é observado a partir do ponto de vista do narrador no próprio ato de narrar: isto implica que o narrador já mais velho e maduro, com sua visão de mundo mais alargada, passa a demonstrar uma tendência para a retrospecção e reflexão”. Percebemos isto claramente no capítulo II “Do livro” em Dom Casmurro quando o narrador autoral declara “O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim”. Nos romances de autobiografias ficcionais é comum o desdobramento do protagonista em dois, o narrador que relata os fatos e o personagem que os vive. Este método permite a liberdade de direcionar o processo de percepção do leitor, a partir do ponto de vista do narrador, influenciando a imagem da realidade percebida pelo leitor. À respeito diz Sebastião Rios “A percepção do leitor depende diretamente do ponto de vista a partir do qual os eventos narrados são apresentados. Se este ponto de vista estiver situado no interior da história, no personagem principal ou no centro dos acontecimentos, temos uma perspectiva interna”. A perspectiva interna em Dom Casmurro é o personagem Bentinho, enquanto o mundo que o rodeia é a perspectiva externa. Pela perspectiva interna o narrador nos faz ver o pensamento do personagem, definindo o modo refletor. A oposição narrador/ refletor é de importância fundamental para interpretação da obra, estabelecendo a diferença sensível no grau de valor e credibilidade da narrativa diz Sebastião Rios. Outra característica da obra machadiana é a polifonia, resultado da divisão do protagonista em dois. No discurso indireto que apresenta os acontecimentos, percebemos a voz do narrador e na transposição mimética dos acontecimentos, dentro de uma perspectiva interna, percebemos a voz do protagonista. Há, no entanto, a alternância dessas vozes, que nos leva a percepção de três vozes: a voz de agora, a voz do passado, e a interpenetração dessas vozes. Um exemplo dessa interpenetração encontra-se no capítulo XXXII “olhos de ressaca” em Dom Casmurro: “Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade de delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos

cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, - para dizer alguma cousa, - que era capaz de os pentear, se quisesse”. - Você? - Eu mesmo”. Nesta passagem temos a voz de agora e a voz de outrora interligadas, o narrador autoral com toda carga de experiência que lhe é inerente, refletindo sobre o inferno de Dante, e o protagonista Bentinho, adolescente apaixonado e imaturo, preocupado somente com o momento vivido e com o objeto de sua paixão. Segundo Sebastião Rios, configura o caráter polifônico, a impossibilidade de unificação do sujeito que vive as experiências narradas provoca a multiplicidade da personalidade do protagonista, decorrendo assim a sobreposições de vozes na narrativa.Esta reflexão narrativa do narrador autor é outra forma que Machado utilizou em seus romances concedendo um potencial crítico à sua obra, são as incisões verticais deslocando a atenção do leitor para a instância narrativa, como forma de romper a expectativa romanesca, introduzindo digressões, exigindo de seu leitor uma postura refletiva e crítica, para a compreensão da obra em sua totalidade. Essas digressões são uma constante na obra machadiana. A inserções de metalinguagem nos episódios intercalados, chama atenção para os episódios secundários, que em sua maioria frente ao enredo central, valorizam a crítica da dominação social, que embora, pareça ser dissimulada, é bem evidente na obra machadiana, como afirma Sebastião Rios “As intromissões do narrador na narrativa, comentando seu texto, ou tecendo considerações gerais sobre a vida –como no delírio, na filosofia do humanismo, na teoria das edições humanas, na lei da equivalência das janelas etc – constituem, em nossa leitura, ao contrário, não um modo de evitar o tratamento das questões sociais, mas um momento privilegiado de reflexão sobre os eventos narrados e sobre os procedimentos narrativos, constituindo, antes, passagens-chave para o entendimento da obra”. Nessas passagens-chave destaca-se a filosofia do humanitismo, em que a guerra é a mãe da vida, e a paz significa destruição e o vício identifica-se com a virtude. Humanitismo que perpassa por toda obra da maturidade de Machado de Assis. Por meio de opostos que trocam seus papéis, é instituído o princípio de reversibilidade dos contrários, o que torna na narrativa machadiana os conceitos morais, relativos e ambíguos. Princípio que marca a inversão da lógica das categorias fixas, tais como; bem/mal, virtude/vício, sério/cômico. Nesse contexto Machado de Assis insere na sua obra a linguagem irônica, para delatar as mazelas humanas, seja em relação ao social na relação dominante/dominado, seja nos personagens espertalhões, parasitários. A apresentação da vida social como exploração contínua, como luta infindável – que constitui a filosofia central do humanitismo afirma S. Rios (1998). Onde o absurdo da subserviência humana toma proporção de normalidade. Esta era uma crítica velada que Machado de Assis, fazia a elite escravocrata do século XIX.

Em vista de todos essas considerações, podemos perceber que a narrativa machadiana distinguiu-se do discurso realista não só no que diz respeito à construção dos personagens, mas também aos elementos de composição da obra, tais como; erudição, dramas de consciência, formas digressivas e antagônicas, linguagem irônica, inserções metalingüísticas.Estilos que vinculam a narrativa machadiana a tradição Luciânica (sátira menipéia), em que o riso serve apenas como denúncia dos vícios humanos, e a mistura de gêneros é comum.Elementos singulares, embora não fossem novos, reunidos, contribuíram para dar a tônica do estilo-livre machadiano. A narrativa machadiana transcende o realismo, na medida em que o autor rejeita a constituição do inventário da realidade nos mínimos detalhes, e na sua observação da realidade sobrepõe o homem como estudo de sua obra. O homem real que sente, chora, ri, ama e odeia, e ainda dentro dessa concepção diz “... Se escreveis uma hipótese, dai-me a hipótese lógica, humana, verdadeira.” E não podemos negar que, ao contrário dos escritores realistas, Machado de Assis concebeu com maestria e perspicácia, personagens ricos de emoções, contraditórios e de psicologia apurada.

Bibliografia:
ASSIS, Machado – Dom Casmurro – São Paulo: Globo. 1997. BOSI, Alfredo. A máscara e a fenda - p.437- Coleção Escritores Brasileiros – Ed. Ática 1981. CDROOM. Almanaque Abril. 1999 – O realismo. O naturalismo. O positivismo. MELO e Souza, Ronaldes – O Princípio de Reversibilidade em Machado de Assis Texto policopiado. RIOS Jr, Sebastião – Além do Realismo – Revista.TB.133/134: 95/112, abr.set.1998. RIOS Jr, Sebastião – Perspectiva Narrativa no Romance Contemporâneo: A Técnica do Refletor – CERRADOS, Brasília, n°5. 1996. RIOS Jr, Sebastião. As autobiografias ficcionais. Texto policopiado.

–.

Universidade Católica de Brasília - UCB Disciplina: Literatura Brasileira III Prof: Sebastião Rios

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O Realismo em Machado de Assis

Milka Fonseca Lima

BSB Abril/ 2002

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