P. 1
Generos Dgitais Nos Livros Didaticos - Maria Estela 28112010 (3)

Generos Dgitais Nos Livros Didaticos - Maria Estela 28112010 (3)

|Views: 471|Likes:
Publicado porEstela Marques

More info:

Published by: Estela Marques on Jan 17, 2012
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOCX, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

07/02/2013

pdf

text

original

O avanço da tecnologia permitiu o surgimento de novos gêneros, os

14

digitais, que surgem a partir da necessidade comunicativa do homem e da
intencionalidade dele com o meio em que atua. No entanto, esses novos gêneros
não são inovações absolutas, pois alguns deles têm em si certa ligação com outros
gêneros textuais já existentes. Conforme afirma Marcuschi (2002, p. 20):

A intensidade do uso dessas tecnologias e suas interferências nas
atividades comunicativas diárias, bem como os novos suportes tecnológicos
da comunicação é que ajudam a criar esses novos gêneros, não sendo eles
inovações absolutas.

Assim os gêneros emergentes no contexto virtual, por vezes, não são
exatamente novos gêneros, e sim antigos gêneros que ganharam novas formas e
novas adequações diante das novas práticas discursivas ocorridas com os avanços
tecnológicos. Como afirma Araújo (apud CAVALCANTE; BEZERRA 2009, p. 68):

A transmutação do gênero tende a ser um indicativo de que assim como há
atividades que se estabilizam e outras que param de existir, existem
aquelas que são reinterpretadas e outras completamente novas que surgem
em função de novas práticas discursivas.

Ainda para Araújo (apud CAVALCANTE; BEZERRA 2009, p.68): “Esta
transmutação originará muitos gêneros, a fim de organizar as práticas linguajeiras
vividas no novo ambiente”. Desta forma os gêneros digitais apresentam aspectos
comuns com o esquema geral que caracteriza o gênero textual, mas também
apresenta diferenças importantes e únicas. Há elementos específicos que
distinguem as formas impressas das formas digitais, pois os gêneros que emergem
da esfera eletrônica, trazem elucidação a questões concernentes a escrita digital,
com sinais relevantes da mudança na linguagem que se materializa na esfera
eletrônica.

Assim a tecnologia possibilita não só o surgimento das inovações
comunicativas, mas também uma versão moderna de velhas formas de
comunicação totalmente diferente das tradicionais, e que certamente tem em nossas
vidas um impacto diferente e, possivelmente, mais forte, pois desafiam o uso da
linguagem e das relações comunicativas e discursivas. Como enfatiza Adamzik
(2009, p.33):

É de esperar que em tempos diferentes, sentidos diferentes sejam
atribuídos a acontecimentos comunicativos individuais e que as
particularidades de certos padrões comunicativos sejam reconstruídas, de
maneira distinta, nos diversos momentos da história inteira da interação.

Desse modo no contexto da comunicação mediada por computador

15

emergiram e materializaram-se conjuntos específicos de gêneros digitais que se
desenvolveram de acordo com o ponto de vista linguístico e modelo organizacional
da mídia virtual, trazendo novas formas de comunicação, geradas pela criatividade
do internauta.

1.2. A internet e o livro didático como suporte

O suporte tem a tarefa de fixar e comportar os gêneros em si, servindo de
base e apoio ao gênero suportado, tendo um papel fundamental na apresentação
circulação e materialização dos gêneros. Conforme define Marcuschi (apud
CAVALCANTE; BEZERRA, 2009, p. 67) ao dizer que o suporte é um: “lócus físico
ou virtual com formato específico que serve de base ou ambiente de fixação do
gênero materializado em texto”. Bezerra (apud CAVALCANTE; BEZERRA 2009, p.
67) enfatiza: “O suporte se apresenta como uma coisa, uma superfície ou objeto,
físico ou virtual, que permite a manifestação concreta e visível dos textos”.
Dessa forma a internet é vista como um suporte virtual que abriga a
demanda dos gêneros oriundos da mídia digital. Como ressalta Marcuschi (2008,
p.186): “Trato a internet como um suporte que alberga e conduz gêneros dos mais
diversos formatos. A internet contém todos os gêneros possíveis”.
Ainda na concepção de Marcuschi (2008, p.179): “[...] o livro didático é
nitidamente um suporte textual”, assim o livro didático é um suporte físico e
específico que reune e fixa os diversos gêneros discursivos, oriundos das inúmeras
manifestações linguísticas sociais.

Quanto à importância do suporte, ele é imprescídivel para que o gênero
circule na sociedade e deve ter alguma influência na natureza do gênero suportado,
pois os suportes sempre participam da própria constituição dos sentidos do discurso,
interferindo de modo significativo nos gêneros que comporta, influenciando-os.
Como afirma Marcuschi (2008, p.174): “O suporte não é neutro e o gênero não fica
indiferente a ele”.

Desta forma a internet, por ter uma presença marcante nas atividades
comunicativas humanas, ajudou a criar, além de abrigar, novos gêneros bastante
característicos e peculiares do meio eletrônico, e estes gêneros se concretizam
numa relação de fatores combinados com o seu contexto emergente.
Para Almeida (2008, p.27): “A transformação no tipo de leitura e escrita

16

peculiar da internet muitas vezes apresenta-se mais superficial que a tradicional, que
tem como suporte o livro”. Assim nos livros didáticos encontramos uma escrita
uniforme e padrão facilmente reconhecível pelos usuários da língua, pois em tal
suporte há elementos específicos que o distinguem do suporte virtual e tais
elementos são enfatizados tanto na leitura como na escrita.

1.3 Outras considerações

Os gêneros digitais demonstram uma transformação nas práticas
comunicativas das pessoas, pois carregam em si múltiplas semioses e certo
hibridismo entre a modalidade oral e a escrita, denotando novas estratégias
comunicativas pouco convencionais dotadas de muita interatividade e dinamicidade
que dialogam com outras formas textuais, modificando tanto o estilo como a
estrutura do discurso. Conforme nos remete Marcuschi (2008, p. 200), quando diz
que há quatros fatores relevantes no trato dos gêneros digitais:

São gêneros em franco desenvolvimento e fase de fixação com uso
cada vez mais generalizado.

Apresentam peculiaridades formais próprias, não obstante terem
contrapartes em gêneros prévios.

Oferecem a possibilidade de se rever alguns conceitos tradicionais a

respeito da textualidade.

Mudam sensilvemente nossa relação com a oralidade e a escrita, o
que nos obriga a repensá-la.

Tais aspectos se tornam esperados, pois as novas tecnologias implicam
em inovações discursivas e numa certa reestruturação comunicativa da sociedade,
que por sua vez afeta os modelos discursivos pré-existentes a sua emergência,
modificando também o modo das relações interpessoais. Conforme afirma Violi
(2009, p.49):

Uma mudança na tecnologia da comunicação implica uma diferente
estruturação do sistema de comunicação em si mesmo, que por sua vez,
afeta a estrutura textual e as estratégias de escrita. As transformações
técnicas nunca são apenas técnicas, elas mudam tanto as formas de nossa
escrita como as de nossa interação.

Assim as produções comunicativas oriundas da mídia virtual utilizam-se
de uma escrita informal tida como inadequada, segundo os padrões formais da
linguagem, mas que servem para veicular os sentidos específicos da interação que
pretendem. Conforme ressalta Xavier e Santos (2005, p.34): “Observamos no

17

gênero digital uma forte tendência à utilização do nível informal de linguagem”.
Bisognin (2009, p.55) enfatiza: “As novas tecnologias digitais produzem formas de
leituras e escrita com características próprias e especifícas”.
Desta forma os gêneros digitais têm como um de seus aspectos
essenciais a escrita, pois a comunicação se dá predominantemente por meio desta,
apesar de serem utilizados outros recursos criativos como o som e a imagem que
nos remetem a uma integração de imagens, voz, música e linguagem escrita. Para
Bisognin (2009, p.125):

Essa criatividade se manifesta na criação de códigos discursivos
complexos, pois usam ao mesmo tempo o alfabeto tradicional, as
caracteretas, os scripts e outros, que marcam a natureza processual e
dinâmico-discursiva.

Deste modo os gêneros digitais produzem um novo uso da língua que
lhes dá um caratér inovador no contexto das relações fala-escrita. Conforme relata
Marcuschi (2004, p.64): “Trata-se de um “novo espaço de escrita”, é mais do que
isso, ou seja, é uma nova relação como os processos de escrita”. E Araújo (2007,
p.21): enfatiza: “Dos gêneros digitais brota uma linguagem sustentada por escolhas
linguísticas que buscam atender a rapidez de sua natureza conversacional”.
Ainda para Bisognin (2009, p.13): “A internet é um novo ambiente de
enunciação cultural, com múltiplas linguagens, possibilidade de interações,
velocidade acelerada de informações e estrutura multimidiática”. Então é de se
esperar que em tal ambiente se expresse uma comunicação diferenciada que
denote novos gêneros discursivos permeados por novas variedades de linguagem,
expressas por uma escrita heterogênea diferente das tradicionais.
Desse modo os gêneros digitais são marcados por aspectos discursivos
constantemente adaptados, renovados e reestruturados, transformando assim a
organização do todo verbal em decorrência das associações possíveis entre as
diversas esferas da atividade humana e as condições sociais de inserção da
produção enunciativa.

18

CAPÍTULO II
INSERÇÃO DOS GÊNEROS DIGITAIS NOS LIVROS DIDÁTICOS DE
LÍNGUA PORTUGUESA

A inserção dos gêneros digitais em livros didáticos de língua portuguesa
merece uma atenção especial, pois os gêneros oriundos da mídia virtual diferem
substancialmente daqueles comumente encontrados nesses materiais, seja pela
natureza digital de seu suporte original, dotadas de sons, imagens e interatividade,
seja pelas peculiaridades de sua linguagem, especialmente no que concerne à
escrita. Conforme afirma Marcuschi (2008, p.199):

Do ponto de vista da linguagem, temos uma ortografia um tanto
bizarra, abundância de abreviaturas nada convencionais, estruturas frasais
pouco ortodoxas e uma escrita semi- alfabética.

Do ponto de vista da natureza enunciativa dessa linguagem,
integram-se mais semioses do que usualmente, tendo em vista a natureza
do meio.

Do ponto de vista dos gêneros realizados, a internet transmuta de
maneira bastante radical gêneros existentes e desenvolve alguns realmente
novos.

Crystal (2002, p.63), ao investigar os efeitos da internet na linguagem,

complementa:

Os gêneros do meio digital pertencem essencialmente à modalidade escrita,
e que esta escrita tem características bastante peculiares, como: ortografia
bizarra, pontuação minimalista, abreviaturas nada convencionais,
abundância de siglas, estruturas frasais pouco ortodoxas e escrita semi-
alfabética.

Deste modo os livros didáticos se encontram diante do desafio premente
de como tratar as particularidades estruturais dos gêneros digitais no tocante à
natureza digital do seu suporte, em dar ênfase às peculiaridades linguísticas pouco
convencionais da escrita, bem como relatar os possíveis aspectos composicionais
de tais gêneros, pois estes aspectos são considerados por alguns estudiosos, feito
Bakhtin (2000), como elementos importantes na compreensão de um gênero.
As abordagens dos gêneros digitais nos livros didáticos podem ser
interpretadas como um sinal concreto da preocupação com a inclusão desses novos
gêneros no ensino-aprendizagem da língua materna.
Mas os gêneros digitais, por trazerem mudanças significativas na

19

configuração das práticas de leitura e escrita, por vezes, são desvalorizados nos
contextos educacionais, pois muitos docentes ainda se sentem desafiados em
utilizar os gêneros digitais como ferramenta pedagógica. Conforme adverte Araújo
(2007, p.16): “Tais desafios de fato existem e estão inquietando os professores,
especialmente os que trabalham com o ensino de línguas. Essa inquietação pode
ser constatada pelo emprego de algumas expressões criativas”.
Estas expressões criativas para Violi (2009) são caracterizadas por um
certo “desleixo” quanto à ortografia com um grau de tolerância muito alto para a
grafia. Na concepção de Caiado (2007) tais expressões denotam a criatividade, a
necessidade de interação e a subversão à norma.
Desse modo os docentes, por vezes, desconhecem as particularidades e
peculiaridades linguísticas dos gêneros digitais e assim, se opõem a usá-los nas
suas atividades diárias. Conforme nos afirma Xavier (2005, p.37): “Muitos
professores por desconhecerem ou desconfiarem do funcionamento e das
vantagens das novas tecnologias de comunicação, têm se recusado a usá-las em
suas atividades cotidianas”. Araújo complementa (2007, p.58): ”Cabe ao professor
de língua materna o papel de explorar as possibilidades pedagógicas da Internet e
não simplesmente opor-se a esta sem realizar uma reflexão pertinente”.
Diante da inserção dos gêneros digitais nos livros didáticos os docentes
precisam saber dominar as particularidades e peculiaridades dos gêneros digitais,
pois se estes já se encontram inseridos nos livros didáticos, e porque se pretende
que eles sejam abordados na sala de aula e para que estes sejam devidamente
explorados é necessário que sejam perfeitamente dominados, conforme nos remete
Bakhtin (apud BHATIA 2009, p.191): “Os gêneros devem ser perfeitamente
dominados, para serem usados criativamente”.
Quanto aos livros didáticos estes devem acompanhar assiduamente as
evoluções tecnológicas relacionadas à educação e à comunicação. Especificamente,
aquelas direcionadas às novas formas de ensinar e de se comunicar, pois muitos
professores adotam os livros didáticos que costumam ser, quase que
exclusivamente, a principal fonte de material didático utilizados nas escolas da rede
oficial de ensino.

Desta forma os livros didáticos e os docentes se encontram perante uma
necessidade premente de se adaptar as novas práticas de ensino- aprendizagem, a
fim de atender essas novas tendências de gêneros que emergem do mundo virtual,
utilizando-os como uma ferramenta didática, pois as nossas práticas pedagógicas

20

não podem passar despercebidos das práticas discursivas que se atualizam na
sociedade, ignorando os propósitos comunicativos que as movem e os efeitos
pretendidos em cada situação particular de interação e se o professor continuar
alheio às transformações sociais e tecnológicas poderá este ficar à margem da
sociedade informatizada.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->