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SANTOS, Carlos Nelson F. dos. A cidade como um jogo de cartas. Niterói: Universidade Federal Fluminense.

EDUFF; São Paulo: Projeto Editores, 1988. p. 11 – 72. Resenha por: Elane Badaró Coelho1 O texto de Carlos Nelson dos Santos traz uma análise das cidades a partir da comparação de sua estrutura como se fosse um jogo de cartas. Para isto, num primeiro momento, é apresentada a história das cartas e toda subjetividade e correlações simbólicas que envolvem o seu universo. É interessante perceber como as cartas refletiam à sociedade que se originaram, à exemplo de como cada naipe é uma classe: copas, o clero; espadas, a nobreza; ouro, a burguesia; e paus, os camponeses. No capítulo que segue, o autor traz o que ele chama de “comos e porque introdutórios”, onde justifica o seu trabalho e como este foi desenvolvido. O trabalho consiste numa série de reflexões sobre como se formam e desenvolvem as cidades, se ordenam e controlam os espaços edificados. Traz também, de forma prática, alguns conceitos e formulações, a título de demonstração. Afirma ser necessário refazer uma área de domínio profissional, propondo novos conceitos, examinando os resultados do que era antes apresentado como verdade. Apresenta uma tentativa de resolver diversas questões enfrentadas na criação e/ou modificação das cidades. O principal objetivo é orientar os planos específicos para cada uma das novas cidades do estado de Roraima, que é o foco de seu trabalho. Seguindo os capítulos, apresenta “o espaço e os jogos (do poder)”, onde faz um retrospecto importante da arquitetura e urbanismo no mundo. A importância da arquitetura e do urbanismo só foi descoberta pelas técnicas de governo no séc. XVIII. Reflete sobre a organização do espaço das cidades, os serviços coletivos, a higiene e a construção de prédios. A seguir procuram modelos e tipos que materializem suas pretensões.

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Estudante do 6º semestre do curso de Urbanismo pela Universidade Estadual da Bahia – UNEB.

Questiona como encarar a arquitetura e o urbanismo? “As ideologias racionalistas. como que a prática do espaço pudesse ser. Acabou por destruir a noção de lugar e por realçar um vazio infinito. singulares e plurais que um sistema urbanístico deveria controlar ou suprimir e que (no entanto) sobrevivem à sua caducidade” (Certeau. O conceito de ordem é ter cada recanto vigiado e sob controle. não existe atividade humana. revelam o mundo e permitem percebe-lo. jogo e poder. . várias cidades. (SANTOS. A rua surge como elemento fundamental para entendimento da vida urbana. não apenas no que aparentam ou pretendem ser”. em uma só cidade. 1980 apud Santos 1988). Santos resume as relações entre espaço. Traz que as antíteses complementares que o racionalismo se esforçou por confundir e negar. 1988. ao mesmo tempo. 25). É preciso “analisar as práticas microscópicas. e criação de um tema universal e anônimo que é a própria cidade. desconforto e insegurança. O espaço é indispensável ao exercício do mando e suporte necessário e suficiente para que surjam disputas de poder. Afirma que Cidades só fazem sentido através de padrões que. p. Santos traz que o discurso utópico do urbanismo (Choay. 1973 apud santos 1988) se define por uma operação tríplice: produção de um espaço próprio. Na urbe surge a idéia de afirmar o poder do Estado até as ultimas conseqüências e tratar o território nacional como se fosse uma desmesurada (exceder as medidas de) cidade. Criando espaços para ordenar as relações sociais. Embasado em Certeau. no pós modernismo é a “resposta” para os questionamentos.O autor afirma que a consciência dos novos papeis que pode e deve desempenhar a cidade está ligada às espetaculares mudanças a que assistia a Europa. O racionalismo modernista transformou o espaço em descontinuidade. Segundo Santos. as proposições resultantes dos CIAM foram incapazes de perceber que a forma é a maneira mais direta de expressar e perceber a dimensão social da arquitetura. histórica ou mítica que dispense referência a um lugar real ou imaginário que lhe sirva de cenário. substituição da resistência teimosa das tradições por um “não-tempo” ou sistema sincrônico. fragmentação. os edifícios revestem a sociedade como são de fato.

nas cidades jamais serão encontradas distinções rígidas entre análise e síntese. o que favoreceu a localização das mesmas ao longo do litoral. “As cidades como puderam ser no Brasil” é o próximo capítulo do livro. intitulado como “as cidades como foram sendo em todo mundo” traz um histórico da constituição. surgimento e evolução das cidades. onde Santos traz a história das cidades brasileiras. sejam materiais ou simbólicas. o abastecimento e a defesa das cidades. São criadas aí duas correntes de arquitetos e urbanistas: o culturalismo e o progressismo. Mas existem muitos conflitos também dentro das cidades. as correntes ligadas à prática teórica ganharam muito prestígio. que o estudo das cidades exige análise e reflexões críticas. Segundo Santos. Santos fala da criação de teorias respeitáveis e de alcance o mais universal possível. ao fim deste capítulo. As primeiras cidades no Brasil foram criadas pela atividade aqui desenvolvida na época. principalmente o que está fora das abstrações idealizadas. já que os portugueses trouxeram consigo determinadas regras: regulava-se a boa disposição espacial. Santos traz o problema do governo brasileiro. A partir dos anos 60. Antes baseadas nas ordens do divino. . com o uso funcional das cidades como impulsionadoras do desenvolvimento e sedes do capitalismo à brasileira. devido a disponibilidade limitada de recursos. a configuração global do espaço sempre resulta da ação do governo. Era preciso controlar a população que se destinava as cidades.O quarto capitulo. a disparidade entre as cidades só cresce. sempre enfrentou dificuldades de gestão devido a ambigüidade da sociedade. Santos afirma. as cidades e o urbano começam a serem pensados para se ajustarem às condições do campo intelectual hegemônico. prever e organizar os impactos causados. que tinha destinação para a e exportação. Onde as questões fundamentais são relativas ao uso e ao mercado. Há um questionamento sobre essa espontaneidade do surgimento dessas cidades. Seja por iniciativa pública ou privada. Os espaços urbanos e arquitetônicos no Brasil estão sendo gerados sobre representações artificiais separadas: representações simbólicas e representações materiais. entre usos e trocas. O governo vai começar a intervir no cenário urbano com novas proposições a partir dos anos 30. Entretanto.

Apresenta a essência social do espaço. de enfrentar conflitos e preservar a união do conjunto. Traz informações e características como a composição geográfica. as políticas de governo e os municípios que compõem o estado. entra a POPULAÇÃO. p. O centro é a área mais dinâmica da cidade. no comércio e nos serviços. Há os políticos. com especial destaque para o capital ligado aos ramos imobiliário e da construção civil. título do livro em análise. cujas ações têm reflexos diretos no meio urbano. O ideal é que os jogadores. dominem as regras estruturais e se acertem quanto à sua aplicação. no capítulo “informações sobre o território”. Afirma que o jogo serve para representar.. ou AGENTES do desenvolvimento urbano. 1988. que é o objeto principal do seu estudo. de uma forma suave e sem maiores traumas. fragmentada nos mais diversos grupos . Carlos Nelson traz. as maneiras de estabelecer alianças e oposições.. técnicos e funcionários que representam o GOVERNO . Santos afirma que o lugar onde está cada pessoa no mundo é percebido como o lugar da vida e é o símbolo daquele tipo de vida que a situa em relação a outras possibilidades. respeitando-se as diferenças e atribuindo um papel a cada um. Através deles se produzem e se mantém memórias. A estrutura da cidade também é marcada pelos centros e pelas edificações..” (SANTOS. O jogo urbano se joga sobre um sítio determinado que é sua ‘mesa’. Por fim.Ao fim do capítulo. 50 e 51) Os naipes. o autor vai trazer. a relação entre a cidade e o jogo de cartas. Aí se juntam parceiros que se enfrentam segundo os grupos e filiações a que pertençam. o histórico de ocupação.. “O que acontece em uma cidade pode ser comparado ao jogo de cartas. São o lote e o espaço e logradouros públicos. Conjuntos de lugares e dos edifícios que os ocupam dão uma conformação às cidades e definem seus ritmos. informações sobre o estado de Roraima. o transporte. Após essa correlação mais explicita entre cidade e jogos de cartas. os números e as figuras do jogo urbano são os elementos considerados mais simples. de forma mais evidente. a economia. Existem as EMPRESAS que agem através de investimentos na indústria. como o próprio nome já diz. . que são a base da organização do espaço. Em “a cidade como um jogo”. As diversas combinações entre esses elementos configuram a chamada estrutura urbana.

exacerbada em atos autoritários. E é esta estrutura que vai orientar e articular o espaço urbano roraimense. resumo aqui os mais importantes. Os elementos estruturantes mais universais (lote. não foram aplicadas a essas soluções alternativas de desenho que as fizessem evoluir. terminaríamos por aqui o seu resumo. em um futuro que pode ser apressado através da construção de novas cidades. das chamadas “fontes superiores”. Acusadas de anacrônicas. símbolo e conseqüência do progresso. Apesar de toda sua força. Santos afirma que a estrutura de uma cidade é sua sintaxe espacial e que os espaços se articulam em muitos padrões que nada mais são que a combinação estilística de elementos fundamentais. onde foi feita uma escolha alternativa do que deve estruturar o espaço urbano. descobriram moldes capazes de enquadrar idéias dispersas e fracas. de comum acordo. ao contrario. e rua) foram tomados e agrupados numa ordem hierárquica. Os brasileiros não passaram a se identificar melhor com as cidades. Traz um dos grandes problemas da estrutura das cidades brasileiras que é os modelos de ocupação do espaço virem sempre de fora. se não fosse importante. sem rompimento obrigatório com a tradição. apenas para complemento e maior compreensão da análise: . O Estado e a sociedade investem. Santos afirma que há muitas controvérsias sobre tamanhos ideais para lotes e quarteirões. quarteirão.No capítulo “uma estrutura para as cidades”. Carlos Nelson destaca a insistência de soluções emblemáticas das tipologias urbanas brasileiras. No capítulo “sobre lotes e quarteirões”. ao ver desta resenhista. é usada como sinédoque. Apresenta o caso das cidades de Roraima. trazer alguns conceitos que são tratados mais a diante no livro. As “depurações” na legislação urbanística progressivamente vão fechando as possibilidades de uso de morfologias tradicionais. A cidade. Sendo este o último capítulo em análise nesta resenha. Desta forma. o Estado não age sozinho no espaço urbano. de forma sistemática.

fazendo que aí terminem as servidões. redes de serviços. onde não é permitido edificar. Conforme a densidade de ocupação do solo varia o tamanho de uma cidade. equipamentos públicos) ficam muito caros quando as densidades são baixas. O lote é uma área. Além disso. ocupada por uma única edificação e por espaços não construídos. as necessidades vão sendo atendidas e os resultados sairão harmoniosos. . estreita. que são geralmente arborizados. A servidão. No miolo de cada quarteirão há uma área protegida. conhecida também como vila. ou seja. 144 m². que possui 12m x 12m. mais desperdiçadas as obras que passam adiante. Se tudo for bem feito. É preciso então criar uma servidão de acesso. A forma ideal de um lote é a retangular. Pode haver. dentro de um mesmo quarteirão. pois os custos de urbanização (ruas. cuidada e vigiada pelos interessados diretos. não é bom que os lotes sejam de tamanho exagerado e que sua ocupação seja mínima. é um elemento urbanístico muito interessante.O lote: Densidade é a relação entre pessoas e terra disponível e é medida em habitantes por hectare (10000 m²). à medida que a cidade mude e os interesses dos proprietários mudem. também chamado de Quadra. sem acesso direto para a rua. O quarteirão: O quarteirão. os mesmos cujos fundos constituíam áreas non aedificandi. Quando um lote comprido é dividido. O lote é um múltiplo de um módulo. o acréscimo progressivo de lotes. Quanto maior a frente do lote. algumas parcelas ficam no fundo. é o resultado da agregação de lotes formando um conjunto com acessos comuns. permitindo aproveitar ao máximo o interior do quarteirão. vai ser preciso juntar lotes (remembrar) ou separar um lote existente em vários pedaços (desmembrar). As dimensões devem ser tais que permitam vários tipos de construção. e liberar essa área interna como espaço de uso comum. Para uma cidade. uma espécie de condomínio de todos os moradores da quadra. que não precisa ter as dimensões e o tratamento da via pública. Porém duas providências são necessárias: só se podem dividir em parcelas menores aqueles lotes grandes. sua testada. sem desrespeito aos princípios estabelecidos. É uma rua privada. A servidão ajuda muito a aumentar a densidade.

Um conjunto de nove quarteirões configura a base de um bairro. . Oito quadras seriam parceladas em lotes de propriedades privadas e a nona poderia se situar em qualquer posição e seria destinada a uso público. Variedade e complementaridade de funções. Há usos que não são compatíveis e se tornam intoleráveis juntos. Áreas que têm caráter próprio e necessidades peculiares – vizinhança. A noção de centralidade é mais importante do que os reconhecimentos de limites. Uma determinada área conformada por espaços públicos e privados tende a se diversificar e a exigir atividades complementares. a unidade de vizinhança mínima. Para os habitantes de um bairro. Quanto maior a variedade de lotes melhor. no mínimo. pois as famílias são diferentes e os objetivos e necessidades dos ocupantes da terra bastante distintos. ela seria a unidade mínima do bairro e este uma grande vizinhança. uma se destaca por ser mais importante. animação. nos centros urbanos mais antigos. A cada três ruas. Eles tendem a ficar maiores e mais imprecisos quando se afastam para as periferias. segurança. é obrigatório que. cruzamento de usos e pessoas são excelentes na cidade: garantem vida. 35% dos terrenos de uma gleba parcelada sejam destinados a vias de circulação e a equipamentos comunitários. A grelha: É o conjunto de ruas e quarteirões.766/1979. Quatro conjuntos de vizinhanças com nove quarteirões cada articulam a escala de bairro.O ideal é ter uma cidade misturada. No interior de cada grelha de vizinhança. as quadras podem ser divididas de muitas maneiras. pois a mistura de lotes grandes e pequenos com vários formatos garante a diversidade de ocupações e usos. Geralmente. os bairros são mais fáceis de identificar. ele existe em função do seu centro. O conceito de vizinhança é assemelhado ao de bairro. com quarteirões com lotes pequenos ao lado de outros com lotes grandes. Pela lei 6. O isolamento nas cidades só favorece a morte do bom relacionamento entre as pessoas.

surgindo grandes diagonais que. Outros são únicos e servem ao conjunto da cidade. As margens das diagonais terão um formato particular: triangular. Têm de ser programados em avanço para atender bem aos fins a que se destinam. Eles estarão muito perto das áreas residenciais. Sua localização não está vinculada à habitação. junto ao anel cercando o que será o centro. necessidades. Os bairros se disporão em torno do centro segundo os vetores lógicos de expansão urbana. formarão uma barreira. possibilidades e aspirações dos cidadãos. tranqüilo. terão acesso privilegiado ao sistema viário. o adensamento e a saturação de áreas centrais. Devem ser salpicados com a maior regularidade possível pelo território urbano. dedicado à habitação. Configurarão também faixas longitudinais arborizadas e ajardinadas servindo a grandes extensões do tecido urbano. configuram um sistema de vias arteriais. as periferia.População e densidade variarão conforme o parcelamento interno de cada quarteirão e com a maior ou menor intensidade de ocupação dos lotes. criarão descontinuidade visual e funcionarão como marcos. Quando a cidade cresce ultrapassando as fronteiras das áreas atuais. evitá-la. e a demanda por áreas vazias na . será necessário reestruturar o sistema viário pensando no futuro. a expansão de eixos viários e de meios de transporte coletivos. Quando as aglomerações se expandirem. em alguns casos. Devem mesmo. Equipamentos urbanos: São aqueles serviços públicos que exigem áreas ou edificações próprias para funcionarem. As vias arteriais terão ligação direta com os diversos bairros que poderão atravessar sem perturbar seu interior. Há equipamentos públicos voltados para vizinhanças e bairros. virará seu centro. As forças de crescimento da cidade são: o crescimento populacional. a diversidade de atividades econômicas.

com um jogo de cartas. todos tratados de maneira mais “informal” – inclusive correlaciona a cidade. enfim. A capital baiana não conta com uma divisão oficial do seu território2 . Tal fato é importante e deve servir de exemplo a outros estudos que venham a acontecer. Habitação e Meio Ambiente – SEDHAM – está realizando um projeto de geoprocessamento3 da cidade. e deve por tanto ser. existindo unicamente nas relações sociais da cidade. Em relação à forma como se estruturou o espaço urbano em Roraima. partindo da divisão com base nos elementos lote – quarteirão – rua. Esta forma de abordagem permite que seu texto seja melhor compreendido por um número maior de pessoas. mas que não são utilizadas para uma análise da estrutura urbana devido ao seu tamanho.quadra – lote da cidade. . pois os mesmos são feitos com um objeto de estudo de interesse de toda a população que reside numa área urbana. 2 A divisão atual de bairros de Salvador não é oficial. questões históricas. exemplos.Tendo aqui evidenciado os conceitos mais importantes tratados de maneira prática na parte final do livro de Carlos Nelson Santos. que é a estrutura urbana. que remete a uma presença no cotidiano da maioria das pessoas e compreendido por todos. ou tentar ser. que é uma forma e um conceito de difícil compreensão. Carlos Nelson traz. conceitos. questões técnicas. concluí-la. Entretanto. 3 Conjunto de tecnologias que abrange procedimentos de coleta. armazenamento e análise de dados espacialmente referenciados. onde está analisando e georeferenciando a mesma. é interessante fazer um contraponto com a atual situação da cidade de Salvador. que remete ao caso ocorrido em Roraima. que é muito grande para o interesse de um eventual estudo. a Secretaria Municipal de Desenvolvimento. compreendida pela mesma. inclusive em outros estados brasileiros. Existe uma divisão de Regiões Administrativas. e até mesmo em áreas rurais. durante todo o livro. retomo aos capítulos em análise nessa resenha para. inclusive que não tenham uma formação acadêmica na área de estudo. a partir de uma divisão em setor. manipulação.