INTERTEXTUALIDADE E INTERDISCURSIVIDADE: UMA ANÁLISE DO FILME SHREK1

Ana Paula Moreira Santos Faculdade de Educação – UFBA Leitura e escrita na escola: tecnologias possíveis Resumo Esta comunicação constitui-se numa análise do filme Shrek à luz dos conceitos de interdiscursividade e intertextualidade. Tem como objetivo principal analisar como o interdiscurso e a intertextualidade presentes nessa obra fílmica contribuem para uma desconstrução do ethos predominante nas histórias de fantasia e contos de fadas. O texto apresenta um breve resumo do filme Shrek, discute os conceitos de discurso, texto, interdiscursividade e intertextualidade – apoiando-se, sobretudo, nos trabalhos de Fiorin (1994) e Barros (1988) –, tece considerações sobre as estruturas narrativas dos filmes, fazendo contrapontos entre clássicos das histórias de fantasia/contos de fadas e a animação da Dreamworks – lançada em 2001 e ganhadora do Oscar de melhor animação. Apesar de não dar um destaque maior à relação entre linguagem cinematográfica e educação – o que fugiria do objetivo do trabalho –, fica, nas entrelinhas, a defesa do uso da linguagem cinematográfica na escola como mais um texto, e não como pretexto. Nas considerações finais, conclui-se que o interdiscurso e a intertextualidade presentes em Shrek promovem uma desconstrução do ethos dos contos de fada e histórias de fantasias a que fazem referência. Palavras-chave: Shrek – filme – intertextualidade – interdiscursividade O filme Era uma vez Shrek, um ogro que vivia sozinho e feliz, até as personagens dos contos de fadas invadirem o seu pântano e abalarem seu sossego. Disposto a se livrar daquelas criaturas e reaver sua tranqüilidade, Shrek decide procurar o responsável pelo despejo das personagens: o cruel Lord Farquaad. Para recuperar o seu pântano, Shrek terá que buscar a princesa Fiona, futura noiva do Lord, e salvá-la de um dragão que cospe fogo. Acompanhado por um burro falante – que insiste em ficar perto de Shrek após este ter salvado sua vida – o ogro verde segue em busca da princesa. Depois de atravessar um lago de larva vulcânica, subir ao quarto mais alto da torre mais alta e se livrar – temporariamente – do dragão, os dois conseguem libertar a bela Fiona. Na volta para casa, o ogro e a princesa se apaixonam, e Shrek não quer entregar a sua amada para o Lord... O filme é baseado no livro homônimo de William Steig (1990). É uma animação2 computadorizada dirigida por Andrew Adamson e Vicky Jenson. Foi lançado em 2001 e ganhou o Oscar de melhor animação. A versão original, em inglês, tem na equipe de dublagem personalidades hollywoodianas como Cameron Diaz, Mike Myers e Eddie Murphy.
Texto apresentado no I ELEGE – Encontro de Leitura e Escrita do GELING. Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2009. 2 Animação refere-se ao processo segundo o qual cada fotograma de um filme é produzido individualmente, podendo ser gerado por computação gráfica, fotografando uma imagem desenhada ou repetidamente fazendo-se pequenas mudanças a um modelo, fotografando o resultado http://www.tecnologia-e-cinema.com/tecnologia/o(http://pt.wikipedia.org/wiki/Anima%C3%A7%C3%A3o; que-e-animacao-computadorizada/). A animação usada em Shrek foi a computação gráfica.
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Greimas e Courtès definem discurso como “[. o que o torna um prato cheio para o tipo de análise proposta nesta comunicação. Entretanto.. Neste ensaio. que depende do Príncipe Encantado para despertar do sono. . vida feliz) é perturbada. é o objeto da perturbação. Rapunzel. 2001. Diferentemente da princesa Aurora (a Bela Adormecida). p. é possível inferir que intertextualidade está para relação entre textos e interdiscurso para a relação entre discursos. de reciprocidade. ordem perturbada (vilão. Para Barros (1988. 30). 1994). Branca de Neve. que depende do Príncipe Encantado para se livrar dos maus tratos da madrasta. Discurso e texto A distinção entre discurso e texto é um elemento importante para a compreensão dos conceitos de intertextualidade e interdiscursividade. Na tentativa de restabelecer a ordem é ele mesmo quem parte em busca da resolução do problema.30). o lugar onde é possível “tocá-lo”. será dada maior atenção às personagens Fiona e Shrek. E o que é o texto? O texto pode ser compreendido como a materialização do discurso. O filme possui a mesma estrutura de clássicos como A Bela Adormecida. A alusão. 1994. Há dois processos interdiscursivos: a citação e a alusão” (FIORIN. p. p. o que traz a idéia de posição intermediária. ocorre quando temas e/ou figuras de um discurso são colocados para servir de contexto para a compreensão do que foi colocado (FIORIN.]é o lugar em que diferentes níveis (fundamental. alusões e estilizações literárias e cinematográficas. é algo implícito. apesar da estrutura narrativa ser semelhante.. Nas palavras de Fiorin (1994. Quando um discurso repete percursos temáticos e/ou figurativos temos a citação.] o patamar do percurso gerativo de sentido em que um enunciador assume as estruturas narrativas e. de relação entre coisas. p... temporaliza-as e reveste-as de temas e/ou figuras” (GREIMAS e COURTÈS citados por FIORIN. 32). narrativo e discursivo) do agenciamento do sentido se manifestam e se dão a ler. ordem (re)estabelecida (herói sujeito da restauração). objeto da perturbação). entre outros: uma princesa. Diante de um prato tão cheio. por exemplo. “[. Ambas as afirmações nos permitem compreender o discurso como a categoria semântica que sustenta o texto. é repleto de citações. o processo interdiscursivo presente é a citação.Shrek. A narrativa do filme também é análoga à de muitos contos de fadas. Interdiscursividade “A interdiscursividade é o processo em que se incorporam percursos temáticos e/ou percursos figurativos. temas e/ou figuras de um discurso em outro.” Interdiscursividade e intertextualidade começam com o prefixo inter. Em Shrek. 1994. podemos caracterizá-la da seguinte forma: ordem existente (vítima. ou seja. A sua ordem inicial (pântano isolado.] o discurso caracteriza-se por estruturas sintático-semânticas narrativas que o sustentam e organizam”. Shrek não depende de outro que o salve. p. o primeiro filme de uma trilogia de muito sucesso do estúdio de animação norteamericano Dreamworks. nesta situação ele é o herói. Ele é autônomo. especializa-as. por meio de mecanismos de enunciação. Shrek distingue-se dos demais. o que não significa que em sua autonomia ele não possa contar com a ajuda de outros. o ogro verde é vítima e herói. é necessário fazer escolhas. Cinderela.86). Deste modo. ou da Cinderela. 7) “[. neste ponto ele é a vítima. sujeito da perturbação). por sua vez. como o Burro. Lançando mão do modelo Vanoye (citado por SILVA.. actorializa-as. um herói e um vilão/vilã..

pois implica a identificação / o reconhecimento de remissões a obras . As citações são muitas. certamente seria a forma humana. As recorrências formais (FIORIN. lembra muito o programa Tentação. 1994) que permitem tal afirmação são: o tratamento na segunda pessoa do plural e a utilização dos verbos em tempos derivados do pretérito perfeito. O “ser ogra” que poderia ser caracterizado como ordem perturbada. que remetem aos castelos medievais apresentados em filmes. descer por uma corda até a vossa bela montaria”. a intertextualidade requer “um universo cultural muito amplo e complexo. mas não cita as palavras (e/ou personagens. cria um leque de possibilidades para o gênero – possibilidades que foram aproveitadas nas duas obras seguintes da trilogia e em muitas outras animações como. a princesa ogra é a verdadeira forma. o Espelho Mágico é uma espécie de conselheiro. principalmente a de personagens. que era exibido aos domingos pela emissora SBT. A citação pode confirmar ou modificar o sentido do texto citado. podemos ver entre os hóspedes indesejados: Pinóquio. 1994. No momento em que o pântano de Shrek é invadido. a alusão e a estilização” (FIORIN. No que concerne à estilização. Intertextualidade “A intertextualidade é o processo de incorporação de um texto em outro. ao mesmo tempo. A ordem perturbada: a prisão no castelo e o tornar-se ogra. Ela vive aprisionada em um castelo à espera do príncipe que a liberte e lhe devolva a sua verdadeira forma com o beijo do amor. É através dele que Farquaad toma conhecimento da existência de Fiona. Shrek apresenta esses três processos. Em Shrek. Complexidade porque. por exemplo. seja para transformá-lo. temos outra vítima além de Shrek: a princesa Fiona. O espelho apresenta três princesas candidatas a noiva do Lord: Cinderela. Ao se reportar a Shrek. Em outro momento do filme. o leitor arranca-as para limpar o bumbum. o Lobo Mau da história da Chapeuzinho vestido de Vovozinha. Deu a louca na Cinderela. diz a princesa: “Vós devíeis me tomar em vossos braços. p.No filme. a estilização é a reprodução do estilo – conjunto de recorrências formais – de outrem (FIORIN. no castelo do Lord Farquaad. O processo interdiscursivo de Shrek implode a estrutura dos contos de fadas e. os três ursos do conto de Cachinhos Dourados. E qual seria a verdadeira forma da princesa – a ordem (re)estabelecida? Nos clássicos dos contos de fada. O que há em comum entre esses três processos intertextuais no filme? A complexidade e a idéia de implosão. Há de haver três processos de intertextualidade: a citação. segundo Maia (2008). no caso dos filmes). vemos o Espelho Mágico – aquele da rainha má da Branca de Neve – e a célebre frase “Espelho. 30). seja para reproduzir o sentido incorporado. na verdade é a ordem que se estabelece após a ação do herói. é possível notar a presença de elementos dos contos medievos nas primeiras falas da princesa Fiona. Branca de Neve sendo carregada pelos sete anões em seu esquife. e o seu gesto é bastante sugestivo em relação à proposta do filme. Há estilização também na estrutura arquitetônica dos castelos. A maneira como o Espelho Mágico apresenta as candidatas alude aos programas de auditório em que se concorre a prêmios – no caso no Brasil. Depois de ler algumas páginas. 1994). Assim como na história de origem. No início do filme temos outra alusão: a imagem de um livro e a voz de alguém que o lê – semelhante ao início do filme Branca de Neve e os Sete Anões na versão da Disney. os Três Porquinhos. Deu a louca na Chapeuzinho. espelho meu”. Branca de Neve e Fiona. pois se transforma em uma ogra após cada por-do-sol e o feitiço só pode ser quebrado com um beijo do amor verdadeiro. A ordem existente: a princesa livre e em sua forma humana. a alusão reproduz as construções sintáticas em que determinadas figuras são substituídas por outras. pular pela janela. O leitor é Shrek.

Ao invés de usar o filme para ilustrar os conceitos. Não se trata de uma explosão lançando tudo pelos ares. Considerações finais Ao lançar mão dos conceitos de interdiscurso e intertextualidade para analisar o filme. a donzela de uma condição real ou menos privilegiada cai numa situação despojada pela rivalidade de uma madrasta (como Branca de Neve) ou de meias-irmãs (como Cinderela) até que um príncipe se apaixona por ela e a conduz ao vértice da escala social. ou então simplesmente de baixo para cima.. o príncipe disfarçado de pobre é a prova de que cada pobre é na realidade um príncipe que sofrera uma usurpação e que deve reconquistar seu reino. Mas podemos pensá-lo também como uma ascensão do ser ogra/o a uma possibilidade de existência feliz dentro dos contos de fadas e histórias de fantasia.] No inconsciente coletivo. na alusão ou na estilização. [. e não como pretexto. A implosão converge para um ponto central: a idéia de rasgar os contos de fadas. em seus contos de origem. uma . p. ou menos conhecidos. Implosão porque o processo de desconstrução dos ethos predominante nas histórias de fantasia e contos de fada foi feito por dentro da própria estrutura narrativa desses gêneros. para depois reconquistar sua condição real. eles aparecem como criaturas incômodas. Os mesmos esquemas valem para as fábulas com protagonista feminina: no primeiro tipo. Mas. O ogro verde que mora no pântano e come rato também sabe ser romântico e cortês. são figuras muito benevolentes. O desfecho do filme Shrek surpreende o inconsciente coletivo: a princesa torna-se definitivamente ogra e vai morar no pântano com seu amado ogro. em Shrek. inclusive o jantar. A princesa que tem um linguajar culto também arrota alto. As personagens do filme Shrek são menos maniqueístas. 19-20). pastor ou camponês e talvez também pobre de espírito.. usamos os conceitos para compreender o filme.ou a textos / trechos mais. O Lobo Mau convive com as outras criaturas dos contos de fada e nenhuma delas se sente ameaçada com a presença dele. No primeiro tipo. O interdiscurso e a intertextualidade presentes em Shrek promovem uma desconstrução do ethos dos contos de fada e histórias de fantasias a que se referem. Se examinarmos as fábulas populares. no segundo tipo existe um jovem que não possui nada desde o nascimento. sempre com final feliz: primeiro de cima para baixo e depois de novo para cima. estamos defendendo o uso da linguagem cinematográfica na educação como texto. existe um príncipe que por alguma circunstância desastrosa se vê reduzido a guardador de porcos ou alguma outra condição de miserável. o que há é uma desconstrução do ethos a que se referem. verificaremos que elas apresentam dois tipos de transformação social. Seja na citação. apresentam apenas virtudes. a Branca de Neve e os sete anões. se encontra uma verdadeira pastora ou camponesa pobre que supera todas as desvantagens de seu humilde nascimento e realiza núpcias principescas. Elas são boas e são más. além de exigir do interlocutor a capacidade de interpretar a função daquela citação ou alusão em questão [grifo da autora]”. Por exemplo. Podemos pensar o tornarse ogra como um rebaixamento da condição de princesa. educadas e mal educadas. no segundo tipo. pois os sete adentram na sala carregando a Branca no esquife e colocamna sobre a mesa em que Shrek estava jantando – derrubam tudo que estava sobre a mesa no chão. Que desfecho esperar para uma obra assim? Os ogros transformando-se em seres humanos e vivendo felizes para sempre em um castelo? Segundo Calvino (1993. que por virtude própria ou ajudado por seres mágicos consegue se casar com uma princesa e tornar-se rei.

color. totalmente diferente: dentro de cada um nós existe um ogro/a. São Paulo: Companhia das Letras. Disponível http://acd. 1994. SILVA. 2ª edição. c2001. In: CITELLI.ufrj. . São Paulo: EDUSP. BRANCA de Neve e os Sete Anões (Título original: Snow White and the Seven Dwarfs). 1 DVD (89 min). 1994. Teoria do discurso: fundamentos semióticos. pouco a pouco. BARROS. cinema e TV. FIORIN. jogos. widescreen. pág.htm. rádio. O herói apresenta as características estéticas de um clássico vilão. Polifonia textual e discursiva. Earl Hurd. Roteiro: Ted Elliott. José Luiz (orgs. CALVINO. Bibliografia BARROS. Diana Pessoa de. Glendale: Dreamworks Animation. O prédio destruído construiu uma pilha de escombros. Dialogismo.6).29-36. 1-9. 2001 (Coleção aprender e ensinar com textos. 1 DVD (83 min). constrói outra paisagem: a pilha de escombros é uma paisagem diferente da anterior. Direção: Andrew Adamson e Vicky Jenson. 2008. Dialogismo. 1993. O herói ogro e a princesa ogra implodem as figuras do herói e da vítima. Outras linguagens na escola: publicidade. v. citado anteriormente. mostrase casa vez mais semelhante a uma ogra. Baseado em história de Jacob Ludwig Carl Grimm e Wilhelm Carl Grimm. por exemplo. Diana Luz Pessoa de. In: BARROS. para o que é diferente da maioria. Eles são ogros. Otto Englander. A linguagem cinematográfica na escola: uma leitura d’O rei Leão.). 1988. Diana Luz Pessoa de. Maria Christina de Motta. São Paulo: Atual.desconstrução não implica na construção de algo novo? A implosão de um prédio. pág. contos de fadas e histórias de fantasia fica subtendido que em cada um de nós existe um príncipe ou uma princesa. Intertextualidade. Por que ler os clássicos. Ítalo. a mensagem de Shrek é outra. São Paulo: Cortez. as personagens abrem espaço para o diverso. Acesso em jul. In: BARROS. Ted Sears e Webb Smith. FIORIN. Diana Pessoa de. Estados Unidos. José Luiz. Baseado no livro “Shrek” de William Steig. Direção: David Hand. Adilson (coord. Salete Therezinha de Almeida. Merrill De Maris. Polifonia e Enunciação. São Paulo: EDUSP.). Dick Rickard. de acordo com Calvino (1993). a princesa. Ao se distinguirem do comum. informática. 1937. Roteiro: Dorothy Ann Blank.). FIORIN. se amam e são felizes. Richard Creedon. Intertextualidade: em torno de Bahktin Mikhail. em: SHREK.br/~pead/tema02/intertextualidade2. na grande maioria das fábulas populares. Não é necessário que ambos tornem-se humanos para serem felizes. Polifonia. Polifonia. MAIA. José Luiz (orgs. Dialogismo. Intertextualidade: em torno de Bahktin Mikhail. Se. Produzido por Walt Disney Pictures.

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