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CONHECIMENTOS PEDAGOGICOS

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PROFESSORES REFLEXIVOS EM UMA ESCOLA REFLEXIVA Isabel Alarcão (Resenha) Isabel Alarcão refina o conceito de reflexividade, focando o professor

e a escola que se pensam e se avaliam em seu projeto educativo, qualificando não apenas seus alunos, mas toda a comunidade educativa formada por autores em contexto, construtores de práticas sociais geradas pelo esforço de encontrar novas soluções para os problemas que vivenciam. Neste livro, a autora reafirma a necessidade do pensamento crítico e acentua a dimensão coletiva da atividade dos professores. Enuncia as características distintivas do conhecimento destes profissionais da educação que assume como quadro de referência para a sua formação e o seu desenvolvimento. Mas não esquece os alunos nem a sua posição, bem como a dos professores e a da escola, perante as exigências da sociedade e da informação, do conhecimento e da aprendizagem. No primeiro capítulo, intitulado “Alunos, professores e escola face à sociedade da informação” aborda a problemática das competências de acesso, avaliação e gestão da informação e o papel que, na sociedade do conhecimento e da aprendizagem, se espera dos alunos, dos professores e da escola. No segundo capítulo, “A formação do educador reflexivo” a autora explica as razões do fascínio pela abordagem reflexiva e a desilusão que, no Brasil, se faz sentir. Reafirma a necessidade da reflexão crítica; acentua a sua dimensão coletiva e apresenta um conjunto de estratégias de formação propiciadoras do desenvolvimento de educadores reflexivos. No quarto capítulo, “Gerir uma escola reflexiva” discute a organização da escola com o objetivo de criar condições de reflexibilidade individuais e coletivas e de requalificação profissional e institucional. Capítulo I – Alunos, professores e escola face à sociedade da informação Introdução A sociedade da informação, como sociedade aberta e global, exige competências de acesso, avaliação e gestão da informação oferecida. De imediato se coloca uma questão: a das diferenças ao acesso à informação e da necessidade de providenciar igualdade de oportunidades sob pena de desenvolvermos mais um fator de exclusão social: a info - exclusão. Como discernir sobre a informação válida e inválida, correta ou incorreta, pertinente ou supérflua? Como organizar o pensamento e a ação em função da informação, recebida ou procurada? A sociedade da informação em que vivemos O cidadão comum dificilmente consegue lidar com a avalanche de novas informações que o inundam e que se entrecruzam com novas idéias e problemas, novas oportunidades, desafios e ameaças. No tempo em que vivemos a mídia adquiriu um poder esmagador e a sua influência é multifacetada, podendo ser usada para o bem e para o mal. As mensagens passadas apresentam valores, uns positivos, outros negativos, de difícil discernimento para aqueles que, por razões várias, não desenvolveram grande espírito crítico, competência que inclui o hábito de se questionar perante o que lhe é oferecido. O mundo, marcado por tanta riqueza informativa, precisa urgentemente do poder clarificador do pensamento. Edgar Morin afirma que só o pensamento pode organizar o conhecimento. Para conhecer, é preciso pensar. E uma cabeça bem feita - ao invés de bem cheia – é a que é capaz de transformar a informação em conhecimento pertinente. Para o autor, o conhecimento pertinente é o conhecimento que é capaz de situar qualquer informação em seu contexto e, se possível, no conjunto em que está inscrita.(Morin, 2000) Inerente a esta concepção, emerge a relevância do sentido que se atribui às “coisas”. Assume-se como fundamental, a compreensão entendida como a capacidade de perceber os objetos, as pessoas, os acontecimentos e as relações que entre todos se estabelecem. Nesta era da informação e da comunicação, que se quer também a era do conhecimento, a escola não detém o monopólio do saber. O professor não é o único transmissor do saber e tem de aceitar situar-se nas suas novas circunstâncias que, por sinal, são bem mais exigentes. O aluno também já não é mais o receptáculo a deixar-se rechear de conteúdos. O seu papel impõe-lhe exigências acrescidas. Ele tem de aprender a gerir e a relacionar informações para as transformar no seu conhecimento e no seu saber. Também a escola tem de ser uma outra escola. A escola, como organização, tem de ser um sistema aberto, pensante e flexível. Sistema aberto sobre si mesmo, e aberto à comunidade em que se insere. Esta era começou por se chamar a sociedade da informação, mas rapidamente se passou a chamar sociedade da informação e do conhecimento a que, mais recentemente, se acrescentou a designação de sociedade da aprendizagem. Reconheceu-se que não há conhecimento sem aprendizagem. E que a informação, sendo uma condição necessária para o conhecimento, não é condição suficiente. A designação de sociedade do conhecimento e da aprendizagem traduz o reconhecimento das competências que são exigidas aos cidadãos hoje. Importa, assim, refletir sobre as novas competências. As novas competências exigidas pela sociedade da informação e da comunicação, do conhecimento e da aprendizagem. No início dos anos 90 reuniram-se na Europa conceituados industriais europeus e reitores das universidades européias com o objetivo de pensarem o papel da educação no mundo atual. Deste encontro elaborou-se um relatório que ficou conhecido pelo modo como abordaram a noção de competência necessária a uma vivência na contemporaneidade. A noção de competência incluía não só conhecimentos (fatos, métodos, conceitos e princípios), mas capacidades (saber o que fazer e como), experiência (capacidades sociais, redes de contatos, influência), valores (vontade de agir, acreditar, empenhar-se, aceitar responsabilidades e poder (físico e energia mental) (Keen, citado em Cochineaux e Woot, 1995). Conceptualizações deste tipo apontam para uma formação holística e integrada da pessoa que não se limita à informação e ao conhecimento, mas vai além deles para atingir a sabedoria, característica que era tão querida aos

nossos antepassados gregos. Será bom que nos perguntemos até onde é que a escola leva os alunos neste percurso. Para uma grande parte da população, a resposta será talvez frustrante. Ficar-se-ão alguns apenas pelos dados, dados que não conseguirão trabalhar ao nível, superior, da informação. Poucos atingirão a sabedoria. Um número maior desenvolverá a capacidade de visão. O grosso situar-se-á ao nível da informação e da compreensão. Não se deve atribuir só à escola a culpa por esta caracterização. Há que se ter em conta as capacidades individuais, mas também a desresponsabilização da sociedade que, impotente perante a resolução de tantos dos problemas que ela criou, coloca na escola expectativas demasiado elevadas sem muitas vezes a valorizar como devia. Um dos autores que mais tem trabalhado a questão das competências é Philipe Perrenoud. Para ele, ter competência é saber mobilizar os saberes. A competência não existe, portanto, sem os conhecimentos. Como conseqüência lógica não se pode afirmar que as competências estão contra os conhecimentos, mas sim com os conhecimentos. Elas reorganizam-nos e explicitam a sua dinâmica e valor fundamental. Vejamos como exemplo a aprendizagem de uma língua estrangeira em contexto fora da escola. É possível saber-se bem a gramática de uma língua e ter até um bom domínio do vocabulário e contudo ficar imobilizado lingüisticamente numa situação real de comunicação pela incapacidade de mobilizar adequadamente os conhecimentos necessários naquela situação concreta. Como afirma Perrenoud, “a abordagem por competências não pretende mais do que permitir a cada um aprender a utilizar os seus saberes para atuar” (2001:17). Relativamente à questão da subordinação da educação à economia no que respeita às competências, não se pense que a noção de competência tenha passado do mundo empresarial para o da educação. Antes pelo contrário. A noção de competências utilizada anteriormente sob a capa de outras designações como destrezas, saberes-fazeres, ou na apropriação do termo inglês skill, foi utilizada no mundo da educação antes de ser adotada pelo mundo empresarial. As empresas reconhecem hoje a realidade das competências. Mas mesmo no mundo dos negócios não se trata de competências simples, lineares, acabadas e imutáveis, mas de competências dinâmicas em que a compreensão do mundo e a sabedoria da vivência social são fundamentais. A competência para lidar com a informação na sociedade da aprendizagem Entre as competências necessárias à vida na sociedade moderna, destaca-se a capacidade de utilizar a informação de modo rápido e flexível, o que coloca problemas ao nível do acesso, da avaliação e da gestão das informações, mas também da organização e ativação dos conhecimentos. Estes processos implicam a capacidade para lidar com a informação e os meios que a tornam acessível. É preciso saber o que procurar e onde procurar. A informação, pela sua grande quantidade e pela multiplicidade de utilizações que potencialmente encerra, tem de ser reorganizada por quem a procura. O professor continua a ter o papel de mediador, mas é uma mediação orquestrada e não linear. É imprescindível que se criem condições, nas escolas e nas comunidades, que compensem a falta de acessibilidade a fontes de informação que possam existir no seio das famílias. Só isso não basta, porém. Impõe-se uma diferente organização do trabalho escolar, promovendo o trabalho colaborativo entre os alunos, reorganizando os horários de forma a que os alunos tenham tempo para pesquisas s criando verdadeiras comunidades de aprendizagem.

Os alunos na sociedade da aprendizagem Numa “sociedade que aprende e se desenvolve” , como a caracterizou Tavares (1996), ser aluno é ser aprendente. Mais do que isso: é aprender a ser aprendente ao longo da vida. Subjaz a este modelo uma abordagem pedagógica de caráter construtivista, sócio-cultural. A aprendizagem é um modo de gradualmente se ir compreendendo melhor o mundo em que vivemos e de sabermos melhor utilizar os nossos recursos para nele agirmos. Uma boa parte das competências hoje exigidas são dificilmente ensináveis. E contudo elas têm de ser desenvolvidas. Importa perguntar: qual o lugar da aprendizagem dentro e fora da sala de aula e, mais à frente, reconceptualizar o papel do professor. Para Demo (citado em Carreira, 2000), a sala de aula deixou de ser um espaço onde se transmitem conhecimentos, passando a ser um espaço onde se procura e onde se produz conhecimento. Uma conceptualização da escolarização neste sentido implica a utilização de estratégias de organização das aprendizagens que assentem no próprio aluno e promovam a sua capacidade de auto e hetero-aprendizagem. E que, por isso mesmo, lhe conferem poder, o responsabilizam e autonomizam e, de deste modo, contribuem para a tão desejada democratização. Os professores na sociedade da aprendizagem Colocando-se a ênfase no sujeito que aprende, pergunta-se então qual o papel dos professores. Criar, estruturar e dinamizar situações de aprendizagem e estimular a aprendizagem e a auto-confiança nas capacidades individuais para aprender são competências que o professor de hoje tem de desenvolver. Não há que declarar morte ao professor. Pelo contrário, na era da informação, ele é o timoneiro na viagem da aprendizagem em direção ao conhecimento.Os professores são estruturadores e animadores das aprendizagens e não apenas do ensino. Primeiro que tudo, os professores têm que repensar o seu papel. Se é certo que continuam a ser fontes de informação, têm de se conscientizar que são apenas uma fonte de informação, entre muitas outras. Deve, no entanto, salientar-se que o seu valor informativo tem níveis diferentes conforme o acesso que os seus alunos puderem ter a outras fontes de informação. É fundamental que os professores percebam esta diversidade. O professor tem, também ele, de se considerar num constante processo de auto-formação e identificação profissional. Tem de ser um professor reflexivo numa comunidade profissional reflexiva. A escola na sociedade da aprendizagem

As escolas ainda não compreenderam que, também elas, têm de se repensar.Permanecem na atitude negativa de se sentirem defasadas, mal compreendidas e mal-amadas, ultrapassadas, talvez inúteis. Ficam à espera de alguém que as venha transformar. E não perceberam ainda que só elas podem transformar a si próprias. Por dentro. Com as pessoas que as constituem: professores, alunos, funcionários. Em interação com a comunidade circundante. As escolas que já perceberam o fenômeno, começaram a funcionar como comunidades auto-críticas, aprendentes, reflexivas. Constituem a escola reflexiva, que pode ser definida como “organização que continuamente se pensa a si própria, na sua missão social e na sua organização, e se confronta com o desenrolar da sua atividade em um processo heurístico simultaneamente avaliativo e formativo”. A escola reflexiva não é telecomandada do exterior. É auto-gerida. Tem o seu projeto próprio, construído com a colaboração dos seus membros. Sabe para onde quer ir e avalia-se permanentemente na sua caminhada. Contextualiza-se na comunidade que serve e com esta interage. Acredita nos seus professores, cuja capacidade de pensamento e de ação sempre fomenta. Envolve os alunos na construção de uma escola cada vez melhor. Pensa-se e avalia-se. Constrói conhecimento sobre si própria. Uma escola reflexiva é uma comunidade de aprendizagem e é um local onde se produz conhecimento sobre educação. Capítulo II - A formação do professor reflexivo Introdução Após o que poderíamos chamar de apoteótica recepção, assiste-se hoje, no Brasil, a uma crítica acesa contra a proposta do professor reflexivo (cf. por exemplo, Pimenta e Ghedin, 2002). Importa também tentar compreender se a expectativa foi demasiado elevada, se a proposta não foi totalmente entendida ou se ela é difícil de pôr em ação na prática quotidiana dos professores. Em que se baseia a noção de professor reflexivo? A noção de professor reflexivo baseia-se na consciência da capacidade de pensamento e reflexão que caracteriza o ser humano como criativo e não como mero reprodutor de idéias e práticas que lhe são exteriores. Como se explica o fascínio que atraiu? O fascínio por esta nova conceptualização pode ser entendido se tivermos em consideração a crise de confiança na competência de alguns profissionais (que tendemos a generalizar), a reação perante a tecnocracia instalada, a relatividade inerente ao espírito pós-moderno, o valor hoje atribuído à epistemologia da prática, a fragilidade do papel que os professores normalmente assumem no desenvolvimento das reformas curriculares, o reconhecimento da complexidade dos problemas da nossa sociedade atual, a consciência de como é difícil formar bons profissionais, e amplas visões associadas a estas representações sociais. Por que a atual desilusão? As três hipóteses seguintes parecem ter, no seu conjunto, valor explicativo. - Colocaram-se as expectativas demasiado alto e pensou-se que esta conceptualização, tal como um pozinho mágico, resolveria todos os problemas de formação, de desenvolvimento e de valorização dos professores, incluindo a melhoria do seu prestígio social, das suas condições de trabalho e de remuneração; - O conceito de reflexão não foi compreendido na sua profundidade, podendo ter seguido a força dos modismos; - É necessário reconhecer as dificuldades pessoais e institucionais para pôr em ação, de uma forma sistemática e não apenas pontual, programas de formação (inicial e contínua) de natureza reflexiva. Qual a relação entre o professor reflexivo e a escola reflexiva? O professor não pode agir isoladamente na sua escola. É neste local, o seu local de trabalho, que ele, com os outros, seus colegas, constrói a profissionalidade docente. Mas se a vida dos professores tem o seu contexto próprio, a escola, esta tem de ser organizada de modo a criar condições de reflexividade individuais e coletivas, sendo ela própria, reflexiva. Como formar professores reflexivos para e numa escola reflexiva? Se a capacidade reflexiva é inata no ser humano, ela necessita de contextos de liberdade e de responsabilidade que favoreçam o seu desenvolvimento. Nestes contextos formativos com base na experiência, a expressão e o diálogo assumem um papel de enorme relevância. Um triplo diálogo: um diálogo consigo próprio, um diálogo com os outros incluindo os que antes de nós construíram conhecimentos que são referência e o diálogo com a própria situação. Este diálogo não pode ser meramente descritivo, pois seria extremamente pobre. Tem de atingir um nível explicativo e crítico que permita aos profissionais agir e falar com o poder da razão. A reflexão, para ser eficaz, precisa de ser sistemática nas suas interrogações e estruturante dos saberes dela resultantes. A metodologia de pesquisa-ação apresenta-se com potencialidades para servir a este objetivo. Nos últimos anos tem-se realçado o valor formativo da pesquisa-ação e a formação em contexto de trabalho, pelo que muitas vezes se usa o trinômio pesquisa-formação-ação. A pesquisa-ação é uma metodologia de intervenção social cientificamente apoiada e desenrola-se segundo ciclos de planificação, ação, observação, reflexão. Subjaz a esta abordagem a idéia de que a experiência profissional, se sobre ela se refletir e conceptualizar, tem um enorme valor formativo. Aceita-se também que a compreensão da realidade, elemento que constitui o cerne da aprendizagem, é produto dos sujeitos enquanto observadores participantes implicados. Reconhece-se também que o que mobiliza a

conceptualização e generalização e. Por outro lado. entrando assim num novo ciclo da espiral da pesquisa-ação. nos leva à ação. eles encerram em si conhecimento sobre a vida. A escola como eu gostaria que ela fosse. e à sociedade em geral A escola surge-nos como um todo e não como um ajuntamento de pessoas.formação dos profissionais adultos advém do desejo de resolver os problemas que encontram na sua prática quotidiana. exige uma organização. As perguntas pedagógicas Como atributo do ser humano. reveladora do percurso profissional”. observação reflexiva. A análise de casos Os casos que os professores contam revelam o que eles ou os seus alunos fazem. em seguida. Capítulo 4 . significativamente comentada e sistematicamente organizada e contextualizada no tempo. “um acontecimento pode ser descrito. Pensando sobre a essência da escola A escola deve ser vista como uma comunidade. revelar-se. da reflexão. neste processo. quer o próprio professor. . a aprendizagem implica um processo de compreensão da realidade que nos leva a passar do nível concreto da experiência ao nível abstrato da conceptualização a que se associa um processo de intriorizaçãoexteriorização que. a capacidade de questionarmos e de nos questionarmos a nós próprios é um motor de desenvolvimento e de aprendizagem. Para ela. se conceptualizarem resultados e problemas emergentes. o professor normalmente pergunta-se sobre o que há de escrever. O ciclo de aprendizagem constituir-se-á. então. o fato de o portfólio ser uma construção pessoal do seu autor. norteada por uma finalidade (educar) que se concretiza num grande plano de ação: o projeto educativo. discutido. organizada para exercer a função de educar e instruir. assume grande significado a teoria da aprendizagem experencial de David Kolb (1984). Algumas perguntas podem ajudar: O que aconteceu? Como? Onde? Por que? O que senti eu e / ou outras pessoas envolvidas? O que penso relativamente ao que aconteceu? Narrativas e casos: que relação? As narrativas estão na base dos casos. se observar o que resulta da experiência. também ela em desenvolvimento e em aprendizagem. aspirando a um reconhecimento do mérito. Por um lado. conhecem. pensam. Idália Chaves utiliza a designação “portfólios reflexivos”. quer um colega ou supervisor. mas os casos implicam uma teorização. Comunidade que tem uma missão: educar. A pesquisa-ação. a autora mapeia a sua experiência como professora e como formadora de professores. Esse todo. esta tem de ser organizada de modo a criar condições de reflexividade individuais e coletivas.Gerir uma escola reflexiva Introdução Se a vida dos professores tem o seu contexto próprio. Existem. os explica e lhes dá coerência. à municipalidade. mas pertence também à família. experimentação na ação. Em resumo. Porém. enquadradora do tema Neste trecho do livro. interpretado. a abordagem reflexiva e a aprendizagem experencial Compreendido o problema. para merecerem a designação de pedagógicas. sentem. se planificar ou re-planificar. Segundo Kolb. A escola deve ser concebida como organismo vivo. o fato de o portfólio ter uma finalidade: dar-se a conhecer. Perante a folha de papel em branco. Missão que não é exclusiva da escola. dissecado e reconstruído” As narrativas Geralmente é difícil ganhar o hábito de escrever narrativas. que seleciona os seus trabalhos. Para ele. finalmente. Faz-se necessário ao educador abrir-se ao pensamento sobre a escola como uma comunidade socialmente organizada e dinamizada por um projeto próprio. urge planificar a solução de ataque e pô-la em execução para. para ser coeso e dinâmico. embora diversificados. têm de ter uma intencionalidade formativa e isso. um caso tem de ser explicado. em quatro momentos fundamentais: experiência. a escola. os organiza. Uma nota autobiográfica. independentemente de quem as faz. Os portfólios Portfólio: “um conjunto coerente de documentação refletidamente selecionada. a escola é uma comunidade social. Os casos não são meras narrativas. Comunidade em que participam vários atores sociais que nela desempenham papéis ativos. Shulman (1986) diz que os casos representam conhecimento teórico e assumem um valor explicativo que vai além da mera descrição. duas características a salientar. as perguntas.

Pensa-se e organiza-se para saber como desempenhar essa missão num dado contexto temporal e sócio-cultural. da produção e da reflexão dos seus profissionais. é um documento. projete. Quer saber se está no bom caminho e para isso investiga-se a si própria. Mas subjaz-lhe também a noção de organização aprendente de Senge (1994). definida na gestão de tensões positivas. na sua dimensão de produto. os professores. A escola tem há vários anos vindo a ser organizada em termos de quatro princípios que Roldão designou como “homogeneidade.No entanto. seqüencialidade e conformidade” (2001:127) e de cuja operacionalização resulta a previsão de percursos iguais para todos. em ciclos de aprendizagem pluri-anuais (em vez de turmas imutáveis). Só através da atenção dialogante com a própria realidade que lhe fala é que a escola será capaz de agir adequadamente. Escola. avaliação e formação. a organização dos alunos por turmas tanto quanto possível homogêneas e de composição estável. uma escola que tenha uma ambição estratégica por oposição a uma escola que não tenha visão e que não saiba olhar-se no futuro. Mas esse projeto/documento resulta de um processo de pensamento sobre a missão da escola e o modo como ela se organiza para cumprir essa missão. A escola reflexiva tem a capacidade de pensar para se projetar e desenvolver. uma escola que saiba criar suas próprias regras. Mas igualmente importante é perceber o processo que dá lugar ao produto e que implica tomadas de decisão a que subjazem valorações e preferências. os políticos e os pais começam a interrogar-se sobre se este paradigma organizacional de incrível uniformidade e o paradigma de educação e aprendizagem que lhe está subjacente (e que se baseia na idéia da transmissão linear do saber do professor para o aluno). uma escola que conhece suas necessidades. justificando seus resultados e autoavaliando-se para definir o seu desenvolvimento. a progressiva segmentação disciplinar e a multidocência à medida que a informação ganha em profundidade e o conhecimento perde o significado de conjunto. necessidade de se explorarem as capacidades de trabalho individual e cooperativo para se transformar em conhecimento o saber que brota da assimilação das informações. O projeto de escola. como conjunto de aprendizagens proporcionadas pela escola e consideradas socialmente necessárias num dado tempo e contexto. como instituição a quem a sociedade remete a ‘passagem’ sistemática (das) aprendizagens tidas como necessárias” (2000:17) Central ao currículo e à escola está a noção de educação e de aprendizagem. tempos e recursos. com as fontes de informação e com o saber. é “o currículo que legitima socialmente a escola. O projeto aparece assim na sua dimensão de processo e de produto. segmentação. em tarefas escolares à base de problemas e de projetos (em vez dos exercícios clássicos). dinâmica. em grupos flexíveis (em vez de turmas imutáveis). uma escola que analise. necessidades. em módulos intensivos (em vez de grades horárias provisórias / fragmentárias). o que obviamente implica outras formas de organização da relação do aluno com os professores. se adequa à nova realidade caracterizada por: uma população escolar altamente heterogênea e massificada. ou seja. a noção de grupo de aprendizagem. a existência de tempos e espaços previamente definidos e espartilhados em grades horárias. atue e reflita em vez de uma escola que apenas executa o que os outros pensaram para ela. No novo paradigma. desconstrua e refaça as suas opções e a sua ação curricular. definida como uma: “organização que está continuamente expandindo a sua capacidade de criar o futuro” (1994:14) Em síntese. princípios. de acordo com Macedo (1995:113). Por detrás desta concepção é fácil reconhecer a idéia de professor reflexivo de Schön. de preferência e de referência. uma escola que não lamente seus insucessos. se quisermos mudar a cara da escola. O próprio Perrenoud reconheceu as dificuldades de implementar estas novas formas de organização. traçar planos de ação. a reconstituir-se em função das necessidades ou dos objetivos. deveria substituir a de turma fixa. O projeto deve basear-se numa visão prospectiva e estratégica do que se pretende para a escola. relativamente a elas. é “o cerne da política da escola – política distinta e original de cada comunidade educativa. agir em situação. recursos e modos de funcionamento específicos de cada escola”. uma escola que se alimente do saber. uma visão . o projeto se deve centrar no modo como a escola se organiza para criar as condições de aprendizagem e desenvolvimento inerentes ao currículo. O currículo no centro do projeto de escola O currículo deve ser entendido no seu sentido lato. As escola. a escola tem uma missão: educar. comunidade com projeto Assume particular relevância o movimento em favor da autonomia das escolas e do projeto de escola de que tanto se tem falado. acessibilidade da informação. correlacionadas com a de ensino e de avaliação de onde decorrem as de organização de espaços. idealizou uma nova organização do trabalho na escola. organização e missão. mediada pela interação dos diferentes atores sociais que nela vivem e com ela convivem. Perrenoud. exigência do conhecimento como bem social. baseada em objetivos (e não tanto em programas). prestando contas de sua atuação. normas nacionais e objetivos. cria os seus contextos de formação e integra a formação no seu desenvolvimento institucional. Encontra-se sempre em construção. requisitos da sociedade global relativamente aos saberes qualificados.A autora expressa o desejo de que a escola tivesse as seguintes características: uma escola que conceba. Uma outra idéia que urge considerar é a de que. mas que questione o insucesso nas suas causas para. Destacam-se as idéias de pensamento e de reflexão. Deve-se entender a escola como uma construção social. em desenvolvimento. Como afirma Roldão. Esta idéia de um produto que se assume como referência é muito importante para o âmago deste texto: gerir a escola reflexiva. em 2001. em projetos pluridisciplinares (em vez de capelinhas disciplinares). que o mesmo é dizer. Um projeto de escola. é necessário um afastamento progressivo do atual modelo que temos. Como cheguei ao conceito de escola reflexiva A escola nunca está verdadeiramente feita. tendo a escola por missão educar e instruir.

1. Questões de lacunas (para completar). São as pessoas que. a. Características da avaliação escolar Agora.interpretativa da sua missão e alicerçada nos valores assumidos pelo coletivo dos atores sociais presentes na vida da escola. 1.1 A Observação. A AVALIAÇÃO ESCOLAR (José Carlos Libâneo) A avaliação é em última análise uma reflexão do nível qualitativo do trabalho escolar do professor e do aluno. 1994. o autor sintetiza as principais características da avaliação escolar. Avaliação na prática escolar Lamentavelmente a avaliação na escola vem sido resumida a dar e tirar ponto. professores com critérios onde décimos às vezes reprovam alunos. na qualidade de atores sociais. Ajuda a desenvolver capacidades e habilidades. nesse sentido. . Questões de identificação. 1.nortear-se pelo projeto de escola.saber avaliar e deixar-se avaliar. Questões de ordenação. sendo apenas uma função de controle. que é de fornecer os meios pedagógico-didáticos para os alunos aprenderem sem intimidação. a avaliação é uma análise quantitativa dos dados relevantes do processo de ensino aprendizagem que auxilia o professor na tomada de decisões. e. Reflete a unidade objetivos-conteúdos-métodos. Sabe-se também que ela é complexa e não envolve apenas testes e provas para determinar uma nota. Luckesi. Certamente. . . Ela também cumpre pelo menos três funções no processo de ensino: a função pedagógica didática. Possibilita a revisão do plano de ensino. para este fim. Questões de interpretação de texto.pensar e escutar antes de decidir.decidir. Os dados relevantes aqui se referem às ações didáticas. a qualificação e a apreciação qualitativa. 1. neste subtítulo. p. Ser objetiva. 1. 1. as estratégias que se lhes apresentam como conducentes à realidade das tarefas a executar. A título de conclusão. 1. Com estas ações. . o autor revisa e cita muitos deles ou os mais usados para verificar o rendimento escolar: 1. Um modelo em que cada um se considera efetivamente presente ou representado nos órgãos de decisão. são necessários instrumentos e procedimentos. Questões certo-errado (C ou E). Com isto. g. . nos diversos momentos de ensino a avaliação tem como tarefa: a verificação. a função de diagnóstico e a função de controle. Uma definição de avaliação escolar Segundo o professor Cipriano C. 2.assegurar uma atuação sistêmica. com isto. de diálogo clarificador do pensamento e preparador de decisões.acreditar que todos e a própria escola se encontram num processo de desenvolvimento e de aprendizagem.ser conseqüente.saber agir em situação. Prova escrita de questões objetivas. Questões do tipo "teste de respostas curtas" ou de evocação simples. Gerir uma escola reflexiva implica ter um pensamento e uma atuação sistêmica que permita integrar cada atividade no puzzle global e não deixar-se navegar ao sabor dos interesses individuais ou das influências de grupos instituídos. . c. Questões de correspondência. (Libâneo. dão vida aos projetos. . E ser pessoa é ter papel. Questões de múltipla escolha. . b. O modelo democrático de gestão é aquele em que todos e cada um se sente pessoa. ser responsável. há a exclusão do professor do seu papel docente. A construção do projeto é um processo de implicação das pessoas. . Gerir uma escola reflexiva é gerir uma escola com projeto Só um modelo democrático de gestão se coaduna com o conceito de escola reflexiva. Prova escrita dissertativa.ser capaz de liderar e mobilizar pessoas. quando a avaliação se resume a provas. gerir uma escola reflexiva é: .203). Gerir uma escola reflexiva é transformar o projeto enunciado em projeto conseguido ou o projeto visão em projeto ação. 1. 1. Ajuda na autopercepcao do professor. Procedimentos auxiliares de avaliação 11. Alguns destes procedimentos ou instrumentos já são conhecidos. . d.ser capaz de ultrapassar dicotomias paralisantes. 1. e mobilizando. . Volta-se para a atividade dos alunos. Instrumentos de verificação do rendimento escolar Uma das funções da avaliação é com certeza a de determinar em que nível de qualidade está sendo atendido os objetivos. mas. Esta frase marca este subtítulo "A avaliação é um ato pedagógico". dando a ela um caráter quantitativo.assegurar a participação democrática. Reflete valores e expectativas do professor em relação aos alunos. os professores não conseguem efetivamente usar os procedimentos de avaliar. f. O projeto pode se transformar num documento inerte se não houver o envolvimento continuado das pessoas. E em que há capacidade real de negociação e de diálogo capaz de ultrapassar as dicotomias entre o eu e o nós. ter voz. de negociação de valores e percepções. A Entrevista. desenvolvendo atividades várias.

torna-se imprescindível "solidariedade social e política para se evitar um ensino elitista e autoritário como quem tem o exclusivo do "saber articulado". para ele. "o educador que 'castra' a curiosidade do educando em nome da eficácia da memorização mecânica do ensino dos conteúdos. Ficha sintética de dados dos alunos. participação origina-se do latim "participatio" (pars + in + actio) que significa ter parte na ação. co-participado".. pode-se compreender a importância do tão divulgado "momento de sensibilização" na implementação de planos. p. No entanto. "Executar uma ação não significa ter parte. que condena as mentalidades fatalistas que se conformam com a ideologia imobilizante de que "a realidade é assim mesmo. de uma equipe) reconhecem e assumem seu poder de exercer influência na determinação da dinâmica. Não forma. mas abaixo dele está o que é implícito. decidir e agir em conjunto. De acordo com a etimologia da palavra. Em um grupo operativo. Como aponta Lück et al. mas sim conscientização e testemunho de vida. programas e projetos. O autor fala também da importância de se valorizar todas as formas de avaliação. Para Freire. Para Lück et al. quando se torna consciente de certos aspectos de sua estrutura dinâmica. faculdade de sentir. Trabalhar em conjunto. educar é como viver. É um "ato comunicante. 6566). expressando o resultado em notas e conceitos. ações.69). Em Paulo Freire. que se propõe de forma explícita ou implícita uma tarefa que constitui sua finalidade" (pp. em si. ora alternativas transformadoras ora resistência à mudança). programas. a participação é fundamental por garantir a gestão democrática da escola. tolhe a liberdade do educando. de modo que o próprio discurso teórico terá de ser aliado à sua aplicação prática. constantemente. isto é. pois ensinando se aprende e aprendendo se ensina. Para ter parte na ação é necessário ter acesso ao agir e às decisões que orientam o agir. (1998). 14).58). 53). social. é provocar e tornar a pessoa sensível. articuladas por sua mútua representação interna interatuando através de complexos mecanismos de assunção e atribuição de papéis. Ensinar é algo de profundo e dinâmico onde a questão de identidade cultural que atinge a dimensão individual e a classe dos educandos. o homem e a mulher são os únicos seres capazes de aprender com alegria e esperança. portanto. ou seja. cultural e histórico que faz dos homens e das mulheres seres responsáveis. É um "ensinar a pensar certo" como quem "fala com a força do testemunho".15). Por outro lado. mas gigante em esperança e otimismo. Pichon-Rivière (ibdem) diz que a resistência à mudança é conseqüência dos medos básicos que são o "medo à perda" das estruturas existentes e "medo do ataque" frente às novas situações. Atribuição de notas ou conceitos As notas demonstram de forma abreviada os resultados do processo de avaliação. tanto nas decisões e construções de propostas (planos. palavreado vazio e inoperante"(p. por fim. com abertura ao risco e a aventura do ser. No entanto. da cultura da unidade social. ou instrumentos. toda a curiosidade de saber exige uma reflexão crítica e prática. cabe perguntar: como estamos trabalhando. propriedade do organismo vivo de perceber as modificações do meio externo e interno e de reagir a elas de maneira adequada" (FERREIRA. Esta avaliação tem também uma função de controle. (1998) a participação tem como característica fundamental a força de atuação consciente. a idéia de participação. Propõe uma escala de pontos ensinando como utilizar médias aritméticas para pesos diferentes.62). pela qual os membros de uma unidade social (de um grupo. do trabalho associado de pessoas analisando situações. que educar não é a mera transferência de conhecimentos. caso contrário. E isto só é possível tendo em conta os conhecimentos adquiridos de experiência feitos" pelas crianças e adultos antes de chegarem à escola. pois é assim que todos os envolvidos no processo educacional da instituição estarão presentes. é libertar o ser humano das cadeias do determinismo neoliberal. cada sujeito conhece e desempenha seu papel específico.2. exige a consciência do inacabado porque a "História em que me faço com os outros (. que podemos fazer?" Para estes basta o treino técnico indispensável à sobrevivência. o ensino tornar-se-á "inautêntico. possa contribuir na reconstrução de uma escola de que precisamos? PEDAGOGIA DA AUTONOMIA Paulo Freire Pedagogia da Autonomia é um livro pequeno em tamanho. Neste sentido. eventos) como no processo de implementação. de acordo com as leis da complementaridade" (p. Para Pichin-Rivière (1991) grupo é um "conjunto restrito de pessoas ligadas entre si por constantes de espaço e tempo. a sua capacidade de aventurar-se. fazer com que ela participe de alguma coisa de forma inteira. requer compreensão dos processos grupais para desenvolver competências que permitam realmente aprender com o outro e construir de forma participativa. A autonomia. decidindo sobre seu encaminhamento e agir sobre elas em conjunto" (p.) é um tempo de possibilidades e não de determinismo"(p. no sentido do desenvolvimento de grupos operativos. lembra Pichon-Riviére (1991) que "um grupo obtém uma adaptação ativa à realidade quando adquire insight. Finalizando. sobretudo quando "a decência pode ser negada e a liberdade ofendida e recusada"(p. Este é constituído de medos básicos (diante de mudanças. a dignidade e a identidade do educando tem de ser respeitada. mostra como se deve aproximar notas decimais. educar é construir. Aprender é uma descoberta criadora. Portanto. o concreto. que não valoriza o processo. E de novo. Com diz Libâneo (2001). senão não terá eficácia. participação tornou-se um conceito nuclear. Freire salienta.63). consequentemente. onde cada sujeito. A partir desses breves comentários. com sua subjetividade. E só será sujeito da ação quem puder decidir sobre ela" (BENINCÁ. s/d). CONSTRUINDO UM CONCEITO DE PARTICIPAÇÃO A preocupação com a melhoria da qualidade da Educação levantou a necessidade de descentralização e democratização da gestão escolar e. domestica"(p. acompanhamento e avaliação. no sentido de formação de grupo. 1995. Sensibilizar. Segundo Freire. a partir da competência e vontade de compreender. O que se diz explícito é justamente o observável. afirma que qualquer iniciativa de alfabetização só toma . de modo algum produto de uma mente "burocratizada". na convicção de que a mudança é possível. responsabilidade sobre a ação. nas quais a pessoa se sente insegura por falta de instrumentação. "o entendimento do conceito de gestão já pressupõe.. e não apenas a prova no fim do bimestre como grande nota absoluta. reconhecendo que a história é um tempo de possibilidades. tempo de possibilidades condicionadas pela herança do genético. é essencial à "prática educativa progressista". Igualmente. Sensibilidade é "qualidade de ser sensível. projetos.

A Pedagogia da Autonomia é sem dúvida uma das grandes obras da humanidade em prol duma educação que respeita todo o educando (incluindo os mais desfavorecidos) e liberta o seu pensamento de tradições desumanizantes .. desejos e sonhos. enquanto competência profissional e generosidade pessoal. inserida numa reflexão sobre a prática educativo.. o enfoque não foge muito do que poderia ser chamado de "ética do ensino".106-107). seres histórico-sociais dotados de uma noção mínima de ética. ações terroristas sejam tomadas. com amor pelo que faz. que a língua Portuguesa também nos proporciona as possibilidades do uso de linguagem que respeita a comparticipação visível e dignificante da mulher no mundo atual. do qual nasce autêntica solidariedade entre educador e educandos. com alma. diz ele. embora não aceite que. O autor vai lentamente introduzindo conceitos que se misturam e se complementam. o filósofo. um Professor que através da sua vida não só procurou perceber os problemas educativos da sociedade brasileira e mundial. o ter alegria e esperança. acostumados à maneira masculina de ver o mundo. mas uma "educação de homens e mulheres". Para Freire. Ele mesmo percebe isso.105). do direito ao trabalho. o ter a consciência do inacabado.Na verdade. Paulo Freire beira o moralismo quando se põe a discutir sobre os preconceitos embutidos consciente ou insconscientemente no processo educativo. tendo como foco os professores que se dizem "progressistas" mas . acima de tudo. Pois. da propriedade. Discute desde frases do tipo "Maria é negra. é o significado do ensinar.porque opressoras. uma tomada de posição.123). sentimentos e emoções. Paulo Freire. sobre a qual também existe menção. É com a mais brilhante vocação que o autor mostra em simples palavras que ensinar é todo um processo de troca entre aluno e professor. à educação. ter a consciência da importância e da beleza desta tarefa. Paulo Freire A temática central deste livro é a formação de professores. Paulo Freire refere-se a mudanças reais na sociedade: no campo da economia.. Freire insiste na "especificidade humana" do ensino. procurando alertar o leitor sobre a diferença entre treinar. indica que o ensino exige do docente comprometimento existencial. pois ninguém se pode contentar com uma maneira neutra de estar no mundo. e nos fornece com um pensamento livre e despojado uma grande inspiração: de que ensinar vale a pena.11). a mãe! A impressão geral do livro é que Paulo Freire escreve e discursa. ao meu ver. Esta ensina os professores e as professoras a navegar rotas nos mares da educação orientados por uma bússola que aponta entre outros os seguintes pontos cardeais: a rigorosidade metódica e a pesquisa. A idéia de coerência profissional. É necessário que "o saber-fazer da auto reflexão crítica e o saber-ser da sabedoria exercitada ajudem a evitar a "degradação humana" e o discurso fatalista da globalização"(p.. Como princípios basilares a uma prática educativa que transforma educadores e educandos e lhes garante o direito a autonomia pessoal na construção duma sociedade democrática que a todos respeita e dignifica. o querer bem aos educandos. da importância de se poder fazer a diferença num sistema socio-econômico-político com certezas às vezes tão opressoras e cruéis àqueles que não dispõe de meios financeiros para obter cultura e informação. quando fala de "educação como intervenção". mas propôs uma prática educativa para os resolver. até a consideração dos educandos como seres humanos. Para Paulo Freire o ensino é muito mais que uma profissão.) reinventando o ser humano na aprendizagem de sua autonomia"(p. A sua pedagogia é "fundada na ética.)"(p. Só assim.12). é uma missão que exige comprovados saberes no seu processo dinâmico de promoção da autonomia do ser de todos os educandos.) se o Poder Público revela absoluta desconsideração à coisa pública?". pois enquanto aquela se baseia apenas na experiência cotidiana.. a ética e estética. por essência. no respeito à dignidade e à própria autonomia do educando"(p. para que se possa estabelecer a autêntica comunicação da aprendizagem. das relações humanas. Ensinar. à terra.progressista em favor da AUTONOMIA dos alunos (pois FORMAR é muito mais do que simplesmente EDUCAR). é uma forma de intervenção no mundo.dimensão humana quando se realiza a "expulsão do opressor de dentro do oprimido". a corporeificação. Os princípios enunciados por Paulo Freire. o professor Paulo Freire nos dá uma aula de ensinar. até uma ruptura com o passado e o presente.18). Uma das principais mensagens que o autor deixa nesta obra. o Professor que por excelência verdadeiramente promoveu a inclusão de todos os alunos e alunas numa escolaridade que dignifica e respeita os educandos porque respeita a sua leitura do mundo como ponte de libertação e autonomia de ser pensante e influente no seu próprio desenvolvimento. ensinar e educar. mas em sua complexidade.12). temas freqüentes na obra deste autor. a educação é ideológica mas dialogante e atentiva. Beira o moralismo também quando se refere a crianças de escola pública que depredam o próprio patrimônio (ou seja. o homem. por vezes. porque "como cobrar das crianças um mínimo de respeito (. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. Por outro lado. É a mensagem de que para ensinar precisamos. Paulo Freire demonstra a todos os falantes da língua portuguesa. e freqüentemente se dirige ao leitor para que ele lembre que não está sendo descrita uma "educação de anjos". Talvez isso seja uma reflexão de ideologia esquerdista. como libertação da culpa (imposta) pelo "seu fracasso no mundo". às vezes de maneira sutil.. A esperança e o otimismo na possibilidade da mudança são um passo gigante na construção e formação científica do professor ou da professora que "deve coincidir com sua retidão ética" (p. Está ao lado deles. a professora. a reflexão crítica da prática pedagógica. sem autoritarismos e arrogância. uma decisão. ambos crescem como seres humanos. portanto. (.. ambos adquirem e sanam dúvidas. onde ambos aprendem. e em outras ocasiões de maneira objetiva e absolutamente sincera. o pai mas também a mulher. Conseqüentemente. a qual tem mantido invisível metade da humanidade os seres femininos. autoridade de liberdade. a rejeição de toda e qualquer forma de discriminação. englobando desde recomendações sobre a tomada de consciência de que os alunos têm uma cultura e uma curiosidade que precedem a imposição da escola. Para Paulo Freire não existe unicamente o homem. respeito ao professor de respeito aos alunos. a competência profissional. a discussão sobre a mudança de "curiosidade ingênua" para "curiosidade epistemológica" (que não diferem em sua essência. nascerá um clima de respeito mútuo e disciplina saudável entre "a autoridade docente e as liberdades dos alunos. para que as injustiças acabem. ensinar de aprender” (p. a aluna. o ter liberdade e autoridade. o ter curiosidade. Grande parte do livro é dedicada a discussões sobre o quanto as atitudes que o professor toma dentro de sala e fora dela influenciam o que ele passa para seus alunos. à saúde(. Enfim. mas é bondosa e competente" e até justifica sua raiva frente a posturas deste tipo. o professor. entre gente. esta é dotada do rigor metódico. E é "vigilante contra todas as práticas de desumanização"(p. sendo esta intimamente relacionada ao seu preparo científico. sem cinismos). Os professores têm grande responsabilidade ao ensinar e devem ser dotados de ÉTICA (universal do ser humano. antes de mais nada. do criticismo). a escola). em referência clara a situação no Brasil e noutros países da América Latina. o aluno. O autor não fecha os olhos para as injustiças que acontecem com os "esfarrapados do mundo". o respeito pelos saberes do educando e o reconhecimento da identidade cultural.. o saber dialogar e escutar. ignorância de saber. combatendo a malvadez da ética de mercado mundial (baseada em lucros). não se poderá separar "prática de teoria.

no entanto. ele deve ter plena consciência disso. pode superar esta falha.se da ética. então. Cada um possui particularidades e pensamentos que não podem ser minimizados ou ridicularizados. para que se transforme em prática aplicável.terra. o professor tem que estar convencido de que mudanças são possíveis. Com base nestes apontamentos iniciais. por exemplo. não utópico. cada vez mais curioso. para que a pedagogia da autonomia seja aplicável: ensino dos conteúdos com formação ética dos educandos. não está assim. 8) Deve. 19) O professor. 4) Os conhecimentos dos alunos têm que ser respeitados. prática esta que pode acabar levando a disciplina à indisciplina. com humildade e tolerância. 3) É preciso reforçar a capacidade crítica do educando e sua insubmissão. isto não significa que elas sejam DETERMINADAS por ele (os obstáculos não são eternos).Bom senso. Contudo. mas sempre recomenda a postura crítica frente a qualquer atitude. o ato de ensinar/aprender deve ser permanente. e aplicá-los aos conteúdos ensinados (REALIDADE DENTRO DO APRENDIZADO). por fim. e como o professor é um desses exemplos. O professor deve estar aberto aos questionamentos e dificuldades dos alunos. A esperança faz parte do ser humano. isto faz parte da prática de lecionar. além de repensar sobre a eficácia das greves. tem que ajudá-lo. da construção e produção de conhecimentos. que pode ser solucionado. 10) O conhecimento do professor precisa ser vivido por ele. sejam feitas mudanças. Existem. uma vez identificados os erros. . com a aplicação da prática pedagógicoprogressista.2) O professor não pode somente transferir conhecimento. isto não significa que ele está condenado. e isso só é possível quando o educador sabe escutar. após todos estes apontamentos. o educador distancia. ensinar com aprender. a partir da curiosidade dos alunos.se epistemológica. Enfatiza a necessidade de respeito ao conhecimento que o aluno . atitudes estas que exigem esforço e moralidade. encarnado. 7) É necessário ensinar o educando a PENSAR CERTO. de qualidade. este diálogo não deve ser tratado como apenas um vai. com relação aos favelados e aos sem. 5) A crítica deve estar inserida no ensino. neste livro. principalmente daqueles vindos de classes mais baixas. Todas elas devem ser respeitadas e tratadas com responsabilidade. devem existir condições favoráveis. e portanto julgar as próprias ações. 16) Se a educação é ofendida (principalmente nas escolas públicas). seja ela um conteúdo escolar ou não. Porém. Entretanto.se renderam à rotina neocapitalista. assim como o aluno. a escuta não deve ser passiva. inicialmente ingênua. assunção esta incompatível com os pensamentos elitistas. dependendo da ideologia.vem de perguntas e respostas: momentos explicativos do educador são necessários. Existe ainda uma preocupação com a caracterização do meio escolar como um meio de convívio social onde existem exemplos humanos além dos que se encontram nos livros didáticos. colocando animais (inclusive mamíferos) como seres inferiores (o que é negativo principalmente na formação de Ciências Naturais). 9) O professor tem que estar ciente de que suas atitudes podem influenciar profundamente a vida de um aluno. Autoridade não pode ser entendida como autoritarismo. algumas relações que nunca podem ser desenlaçadas. 20) É preciso tomar muito cuidado com a relação autoridade. achar que é o dono da verdade. Esta. 15) Para a realização da docência decente. a educação é uma forma de se intervir no mundo. Ao invés de reprimi-lo. O ser humano também é inacabado e justamente por isso. e não como inexorável. porque essa postura crítica é o que caracteriza a "curiosidade epistemológica" e permite que. sempre ameaçadas pela prática do autoritarismo e da licenciosidade. Porém.e. 18) O futuro deve ser tratado como problema. ele pode acabar aceitando idéias perigosas (o mundo é assim. pois a avaliação é para eles. se o aluno foi submetido a um falso ensinar. Se o ensino for transformado em pura técnica. a ética é transgredida. não se separa da afetividade que o professor tem por seus alunos (embora ela não deva interferir. pois esta prática fere a dignidade do ser humano e não se aplica à democracia. Freire introduz a Pedagogia da Autonomia explicando suas razões para analisar a prática pedagógica do professor em relação à autonomia de ser e de saber do educando.11) O ensino e sua prática não podem ser tratados como algo definitivo. por exemplo na avaliação. positiva ou negativamente. Um educador não deve falar PARA o educando. leva tempo para ser construída. O professor tem que entender. porque a ideologia do professor contamina o que ele se dispuser a discutir) e ainda tem uma visão excessivamente centrada no ser humano. 17) Deve haver alegria e esperança. . Freire parece. deve ficar muito claro para o educador que a autonomia não vem de um dia para o outro. Freire tem. 12) É necessária a consciência de que as pessoas podem ser CONDICIONADAS de acordo com o meio. sugere que se leve discussões políticas para a sala de aula (o que é negativo para a formação de Ciências Sociais. deve ficar muito claro que uma docência decente. ao ser superada. 22) Não se deve falar de cima para baixo. espaciais e estéticas. mas excessivamente confiante na vontade das pessoas de se tornarem melhores (i. pois se ele tiver curiosidade e capacidade de se arriscar. Aspectos políticos também sempre devem ser levados em conta. ou ao progresso. e nem signifique que o educador deva amar todos seus alunos de maneira igual). em certas ocasiões. Entretanto. ignorância com saber (seja de educador ou educando). para que nenhuma perca seu sentido ou importância. competente e generoso. autoridade com liberdade. E. ela é uma boa forma de se fazer questionamentos sobre o que está sendo exposto. dentro de uma rigorosidade metódica. pode tornar. Um grande cuidado também é extremamente necessário ao educador: de que a educação é ideológica e que. poderá criar sempre mais). no aspecto teórico da epistemologia. de defender uma opinião própria. 21) O educador tem que ser seguro. prática com teoria. Classes dominantes enxergam a educação como IMOBILIZADORA E OCULTADORA de verdades. Se isto acontecer.se assumir a identidade cultural de cada um. então. respeito ao professor com respeito ao aluno. Com base nisso. para que ele não se torne um simples "memorizador". higiênicas.Não deve haver discriminação. também é movido pela curiosidade. o professor deve tomar uma postura política que o permita lutar contra esta ofensa. pontos falhos do aluno.liberdade. Ela é a mola propulsora do aprendizado e do ensino do educador. devendo haver uma troca de ensinamentos e aprendizagens entre educador e educando (este. apoiarem atitudes "progressistas"). e negá-la contradiz a prática progressista da educação e a ética (sempre contra a frase: "O QUE FAZER? A REALIDADE É ASSIM MESMO"). Porém. por exemplo). mas sim COM ele. 14) Sobre a avaliação: seria boa uma forma na qual fosse feita junto com os alunos. podem ser citadas algumas das considerações sobre a prática docente: 1) Deve existir uma reflexão crítica entre a relação Teoria/ Prática. E essas mudanças são aquelas que levariam à melhoria das condições de vida de cada um. pois além de várias vezes ser utópico. 6) Necessidade de decência e pureza (que não pode ser entendida como puritanismo). O corpo docente deve lutar pelos seus direitos (como um salário digno). Proporciona um diálogo entre o professor e o aluno. várias distorções de visão. 13) O respeito pela autonomia do aluno é exigido pela ética. são passíveis de mudança. e não para o educador. Isto pode ser refletido numa maneira crítica e justa de avaliação. Freire não insiste.

modificando aquilo que acharem preciso. que busca o saber e o assimila de uma forma crítica. mas não por isso situa o observador em erro. conhecer o mundo (. pois "quem forma se forma e re-forma ao formar. apesar da imoralidade dos salários. mais precisamente. visto ser ele um sujeito social e histórico. com questionamentos. de estar respeitosamente presente à experiência formadora do educando. assim como aprendizagem não é algo apenas de aluno. indispensável mesmo. a sua sintaxe e a sua prosódia. 32). e da compreensão de que "formar é muito mais do que puramente treinar o educando no desempenho de destrezas" (p. como seres históricos. e um gostar de aprender e de incentivar a aprendizagem. mas é. Paulo Freire orienta ao mesmo tempo que incentiva os educadores e educadoras a refletirem sobre seus fazeres pedagógicos. pré-estabelecida. É esta força misteriosa. Nessa obra. que o professor se ache repousado no saber de que a pedra fundamental é a curiosidade do ser humano" (p. questionar suas verdades. e seus sujeitos.. saber pensar é duvidar de suas próprias certezas. O professor precisa estar disposto a ouvir. Quem pensa certo é quem busca seriamente a segurança na argumentação. "Não há docência sem discência. instigadores.. Acima de tudo. É importante que professores e alunos sejam curiosos. que permite atitudes erradas e não impõe limites. além de fazerem a cada dia a opção pelo melhor. gostar do trabalho e do educando. que manda que "ele se ponha em seu lugar" ao mais tênue sinal de sua rebeldia legítima. como sujeitos históricos. 15). a dialogar. apesar das diferenças que os conotam. buscar e compreender criticamente só ocorrerá se o professor souber pensar. da decisão. uma vez que o erro não está em ter um ponto de vista. de doar-se e de trocar experiências. Segue sua análise colocando como absolutamente necessário o rigor metódico e intelectual que o educador deve desenvolver em si próprio.) Ensinar. portanto há sempre possibilidades de interferir na realidade a fim de modificá-la. O inacabamento do ser ou sua inconclusão é próprio da experiência vital. Para tanto. a sua inquietude. não de forma ingênua. O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros (. 161). seu dever (p. a ponto de dedicar-se. 23). terá facilidade de desenvolver em seus alunos o mesmo espírito. e orienta seus educandos a seguirem também essa linha metodológica de estudar e entender o mundo. do querer entender. para Freire. Faz-se necessário. Quem ensina aprende ao ensinar. enriquecedor. da ruptura. Esse pesquisar.) É por esta ética inseparável da prática educativa.. há inacabamento. que se furta ao dever de ensinar. não importa se trabalhamos com crianças.. e é o que discordando do seu oponente. há esperanças e possibilidades de mudanças daquilo que em sua visão necessita mudar. o estímulo à capacidade criadora do educando.traz para a escola. não tem o porquê contrair uma raiva desmedida.) O professor que desrespeita a curiosidade do educando. Não com um gostar ou um querer bem ingênuo. portanto. tanto quanto o professor que se exime do cumprimento de seu dever de propor limites à liberdade do aluno. mesmo do acerto do seu ponto de vista é possível que a razão ética nem sempre esteja com ele. não se reduzem à condição de objeto. deve se esforçar para estar à altura de sua profissão. se há tentativas. como o aluno. É ouvindo o aluno com paciência e criticamente que aprendemos a falar com ele. Inicia afirmando que "não há docência sem discência" (p. para buscas. enquanto inovador. como pesquisador. portanto. ensinar exige respeito à autonomia do ser do educando. Em sua análise. em sua incompetência provisória. ou que sente pena da situação de menos experiente do aluno. menciona alguns itens que considera fundamentais para a prática docente. deixa claro que o ensino não depende exclusivamente do professor. e quem é formado forma-se e forma ao ser formado" (p. O bom professor deve ser curioso e deve provocar curiosidade. O ser inacabado sabe que a passagem pelo mundo não é pré-determinada. O esforço para atingir estas metas fornece a moral necessária para que o professor transpareça a segurança de seus conhecimentos e sua autoridade nos assuntos que vai ensinar.. jovens ou com adultos. Define essa postura como ética e defende a idéia de que o educador deve buscar essa ética. "É preciso. É ter certeza de que faz parte de um processo inconcluso. A diferença entre um ser inacabado e o ser determinado é que o primeiro muito embora seja condicionado. ou ainda que deixa tudo como está que o tempo resolve. que devemos lutar (p. a qual chama de "ética universal do ser humano" (p. que se proporcionem momentos para experiências. seu meio social. 96).. transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência (p. transformadores. participante do mesmo processo da construção da aprendizagem. mas com certeza de que. a fazer de suas aulas momentos de liberdade para falar. relacionando os conhecimentos adquiridos com a realidade de sua vida. 25). porque domina conhecimentos que o educando ainda não domina. e rejeitar quaisquer formas de discriminação que separe as pessoas em raça. e o seu “destino” não é um dado mas algo que precisa ser feito e de sua própria responsabilidade. um do outro. mas um querer bem pelo ser humano em desenvolvimento que está ao seu lado. debater e ser aberto para compreender o querer de seus alunos.. enquanto instiga o leitor a criticá-lo e acrescentar a seu trabalho outros pontos importantes.. essencial para o trabalho docente. é preciso querer bem. 66). o professor que ironiza o aluno. 17 e 19). não ingênua. que o minimiza. mas absolutizá-lo e desconhecer que. da opção. em seus receios. as duas se explicam. Para ter segurança o professor deve estudar e preparar suas aulas. É digna de nota a capacidade que tem a experiência pedagógica para despertar. requer aceitar os riscos do desafio do novo. às vezes chamada vocação. Não podemos nos assumir como sujeitos da procura. expondo os saberes que considera necessários à prática docente. Quem observa. Se esta troca não ocorrer. que explica a quase devoção com que a grande maioria do magistério nele permanece. a não ser assumindo-nos como sujeitos éticos (. Se o docente faz isso. sua cidade. Para Freire. tem consciência do inacabamento. intervindo no mundo. classes. com o tempo o professor se verá diante de uma situação . o seu gosto estético. Ensinar. a sua linguagem. melhor ou mais inteligente. faz com que o docente aprenda a falar com ele. Uma das tarefas primordiais dos educadores é trabalhar com os educandos a rigorosidade metódica com que devem se aproximar dos objetos cognicíveis.. aprender e pesquisar lidam com dois momentos: o em que se aprende o conhecimento já existente e o em que se trabalha a produção do conhecimento ainda não existente (p. ainda que vindos de curiosidade ingênua. estimular e desenvolver em nós o gosto de querer bem e gosto da alegria sem a qual a prática educativa perde o sentido. é a capacidade de.25). sujeito curioso. como pode. apesar de saber que o ser humano é um ser condicionado. Esta curiosidade deve ser incentivada para que mantenha viva a chama do querer saber. o faz segundo um ponto de vista. Afirma que "não há ensino sem pesquisa nem pesquisa sem ensino" (p. 16). O professor que pensa certo deixa transparecer aos educandos que uma das bonitezas de nossa maneira de estar no mundo e com o mundo. um sentir prazer em ver o aluno descobrindo o conhecimento. Dessa forma. onde há vida. Justifica assim o pensamento de que o professor não é superior. Aprendendo a escutar o educando. e quem aprende ensina ao aprender" (p. E não apenas permanece. Resgatar nos saberes cotidianos. ouvindo suas dúvidas. mas cumpre. A superação da ingenuidade levando à criticidade segundo pensar correto de Freire demanda profundidade e superficialidade na compreensão e interpretação dos fatos. mas especialmente aperfeiçoando o trabalho.31).

o gestor é a figura que deve possuir e liderança. ambos crescem como seres humanos. A prática tem mostrado que o diretor é fundamental para dinamizar a construção coletiva do projeto. Significa. ainda. não pode administrar todos os problemas da escola. sua implantação e o acompanhamento e verificação da realização prática do teoricamente proposto. gerais e específicos. O caminho é a descentralização. organização. no que chamamos de gestão democrática. como professor. Ele deve incentivar a participação. Para isso. que não deve ter medo de expressá-la. acima de tudo. Ao contrário. de modo integrado ou sistêmico: Gestão Pedagógica. e nos fornece com um pensamento livre e despojado uma grande inspiração: de que ensinar vale a pena. Não se que dizer com isso que o sucesso da escola reside unicamente na pessoa do gestor ou em uma estrutura administrativa autocrática na qual ele centraliza todas as decisões. professores e funcionários. (grifo meu) Gestão de Recursos Humanos e Gestão Administrativa. A gestão escolar relativa ao processo docente educativo e o papel orientador do gestor Francisca Martins dos Santos O conceito de Gestão Escolar. avaliação) de forma integrada e articulada. e em outras ocasiões de maneira objetiva e absolutamente sincera. Suas especificidades estão enunciadas no Regime Escolar e no Projeto Político-Pedagógico. o de alguém que consegue aglutinar as aspirações. incrementando a gestão participativa da ação pedagógico-administrativa. plano de aula. Na opinião de Paulo Freire. Esta abertura ao querer bem não significa que. Para fim de melhor entendimento. sozinho. Propõe metas a serem atingidas. 2008. não é possível ao bom professor ser um ser completamente apolítico. Cuida de gerir a área educativa propriamente dita da escola e da educação escolar. O que se chama de gestão democrática onde todos os atores envolvidos no processo participam das decisões. pais. conduzindo a gestão da escola em seus aspectos administrativos. nessa tarefa. de fato. Assim. O gestor é o articulados/mediador entre escola e comunidade. Dirigir uma escola implica colocar em ação os elementos do processo organizacional (planejamento. econômicos. .83) O gestor escolar tem de se conscientizar de que ele. costumase classificar a gestão escolar em três áreas. Profissionais competentes. Nossa impressão geral do livro é que Paulo Freire escreve e discursa. o compartilhamento de responsabilidades com alunos. é preciso pô-las em práticas. (Hengemuhle. Uma das principais mensagens que o autor deixa nesta obra. de motivação e de coordenação. O gestor deverá animar e articular a comunidade educativa na execução do projeto educacional. pelos apoios pedagógicos. professores e funcionários. trata-se as decisões coletivamente. que funcionam interligadas. o professor Paulo Freire nos dá uma aula de ensinar. É a mensagem de que para ensinar precisamos. plano de curso. No entanto. auxiliado. financeiros e culturais. relativamente recente. os desejos. O professor deve descartar como falsa a separação radical entre seriedade docente e afetividade. (Borges. mas deve-se ter consciência da sua indevida utilização como meio de reprodução de ideologias dominantes. onde ambos aprendem. sozinho. para o ensino. O caminho é a descentralização. não pode administrar todos os problemas da escola. é o significado do ensinar. no clima de organização da escola que pressupõe a liberdade de decidir no processo educativo e não nos gabinetes burocráticos. Acompanha e avalia o rendimento das propostas pedagógicas e dos objetivos e o cumprimento das metas. ao nosso ver. avaliação e treinamento da equipe escolar. da importância de se poder fazer a diferença num sistema socio-econômico-político com certezas às vezes tão opressoras e cruéis àqueles que não dispõe de meios financeiros para obter cultura e informação. líderes que tenham capacidade para coordenar esforços coletivos. A curiosidade que silencia a outra se nega a si própria. A educação deve também servir de meio e forma para transformações sociais. É com a mais brilhante vocação que o autor nos mostra em simples palavras que ensinar é todo um processo de troca entre aluno e professor. (Libâneo. Como dirigente. O autor vai lentamente introduzindo conceitos que se misturam e se complementam. pais. obrigue a querer bem todos os alunos de maneira igual. administrativos. que a afetividade não deve assustar o docente. jurídicos e sociais. Uma vez tomada. do corpo docente e da equipe escolar como um todo. E isto reforça nele ou nela a importância de sua tarefa político– pedagógica. A curiosidade deve ser democrática. Avalia o desempenho dos alunos. cabe-lhe ter uma visão de conjunto e uma atuação que apreenda a escola em seus aspectos pedagógicos. Estabelece objetivos. p.332) Considera-se a Gestão Pedagógica o lado mais importante e significativo da gestão escolar. Define as linhas de atuação de acordo com os objetivos e o perfil da comunidade e dos alunos. participativamente. dado que estará expondo suas opiniões e ensinando muitos conceitos baseados em sua visão de mundo. Elabora os conteúdos curriculares. entendida como elaboração do conhecimento. O diretor é o grande articulador da Gestão Pedagógica e o primeiro responsável pelo seu sucesso. (Dos Santos. O diretor não pode ater-se apenas às questões administrativas.quase estática. cabe ao gestor escolar assegurar que a escola realize sua missão: ser um local de educação. antes de mais nada. p. da escola. O gestor escolar tem de se conscientizar de que ele. ambos adquirem e sanam dúvidas. trata-se de entender o papel do gestor como líder cooperativo. é de extrema importância para que se tenha uma escola que atenda às atuais exigências da vida social: formar cidadãos e oferecer. 2006.130) Toda a comunidade educativa na intencionalização (projetualização) da educação. isto é.191) Sua função envolve atividades de mobilização. às vezes de maneira sutil. p. também denominado Proposta Pedagógica. ter a consciência da importância e da beleza desta tarefa. metas. a possibilidade de apreensão de competências e habilidades necessárias e facilitadoras da inserção social. a escola deve estar bem coordenada e administrada. Enfim. que impedem o exercício livre da curiosidade. Mas podem demonstrar que é possível mudar. 2004. p. isto é. aquisição de habilidades e formação de valores. as expectativas da comunidade escolar e articular a adesão e a participação de todos os segmentos da escola na gestão em um projeto comum. o compartilhamento de responsabilidades com alunos. Parte do Plano Escolar ou Plano Político-Pedagógico de Gestão Escolar também inclui elementos da gestão pedagógica: objetivos gerais e específicos. respeitando as pessoas e suas opiniões. com amor pelo que faz. 2005. paternalista da maneira de ensinar.

relatam que há um distanciamento entre o gestor escolar e o planejamento pedagógico. não compartilhar as responsabilidades com os diversos atores da comunidade escolar. caso a escola queira democratizar a gestão da escola pública e avançar na melhoria da qualidade do ensino e. um líder pedagógico onde professores e gestor devem reunir-se e trocarem idéias. O diretor é. afirma permitir a aplicação de novas técnicas e idéias no enriquecimento do processo ensino aprendizagem. Na prática. na qualidade de vida dos educandos. decorre do fato de o gestor centralizar tudo. É notável a afirmação do gestor quando ele diz que não deve ser um líder pedagógico em contrapartida 100% dos docentes acreditam que o gestor deve ser o líder natural da escola. os docentes acreditam que o gestor deve exercer papel importante no planejamento pedagógico. pois é a pedra angular do edifício educativo que o coletivo docente deve construir dia a dia na escola. É desejável que os candidatos à eleição ao cargo de gestor tenham formação profissional específica e competência técnica. entretanto. as relações de poder que se estabelecem. a colocação de sua função pedagógica em segundo plano. avaliando. participando na elaboração de programas de ensino e de programas de desenvolvimento e capacitação de funcionários. ou seja. alguns professores relatam que nunca houve a participação do gestor escolar durante tal ação. p. a parte burocrática à qual são condicionadas. isso mostra o seu despreparo para assumir um cargo de gestor escolar. a sua importância como articulador pedagógico e mediador entre a escola e os segmentos da comunidade escolar e local. (Paro. p332) Análise de resultado Gestor: A maioria admite não ter recebido nenhum treinamento ou preparação para exercer a função de gestor. e o maior responsável pelo processo ensino aprendizagem. 2008. As instituições de educação deveriam destinar recursos para uma política eficiente de preparação destinada aos gestores com isso se evitariam transtornos que muitas vezes que gestores despreparados causam ao sistema educacional. se reconhece tempo é insuficientes segundo os professores para desenvolver um trabalho de qualidade. 89). Considerarmos que o papel do gestor é muito importante para o bom funcionamento da escola. incentivando a sua equipe a descobrir o que é necessário para dar um passo à frente. Seguem os resultados obtidos nas pesquisas no qual se pode observar que existem paradoxos e contradições em relação ao papel do gestor e as questões pedagógicas que precisam ser quebradas ousando construir um projeto de escola que reflete as (novas) utopias da educação. Espera-se. QUE SE IDENTIFIQUEM COM: • EXPERIÉNCIAS PEDAGÓGICAS DO GESTOR E DE CADA PROFESSOR. Observou-se que esse problema é tratado por muitos profissionais nos últimos cinco anos. como as funções mencionadas são essenciais ao gestor. É muito importante observar a divergência que há entre os professores e gestor quanto ao trabalho docente e o planejamento pedagógico. e fica disposto a fazer mudanças fundamentadas para melhorar o trabalho da escola. Entendemos que a participação do gestor é fundamental em todas as áreas: administrativa. incluindo liderança. OS INSTUMENTOS MEDIRAM CARACTERISTICAS E QUALIDADES. p. . e que nada contribui para a busca de maior eficiência na realização de seu fim educativo. a uma amostra de professores e de gestores com objetivo de medir as ações dos gestores em um determinado número de escolas. conseqüentemente. Aonde a responsabilidade maior em conduzir todo este processo está voltada para sua pessoa Decidir aplicar dois instrumentos de medição (questionário). métodos e técnicas pedagógicas e permitir sua aplicação com o objetivo de obter resultados positivos no processo ensino aprendizagem e melhorar o trabalho da escola em todas as suas dimensões. 2005. capacidade de gestão e conhecimento de questões pedagógico-didáticas. No entanto abordaram-se vários aspectos referentes à função do gestor na escola pública. Consideramos que todo gestor precisa de algum tipo de preparação prévia antes de assumir o cargo de gestor antes mesmo que se cogite a possibilidade de se assumir o cargo. como por em ordem questões administrativas. bem como enfatizando os resultados alcançados pelos alunos. cooperando na solução de problemas pedagógicos. auxiliando os profissionais a melhor compreender a realidade educacional em que atuam. o que se dá é a mera rotinização e burocratização das atividades no interior da escola. mais especificamente ao planejamento.130) O gestor escolar deve ser um líder pedagógico que apóia o estabelecimento das prioridades. estimulando os docentes a debaterem em grupo. Portanto deve haver um processo de seleção muito sério na escolha dos gestores. financeira e principalmente pedagógica. tornando a sociedade mais humana e justa. • CONHECIMENTO DO GESTOR E DOS PROFESSORES SOBRE O PAPEL DO GESTOR NA ESCOLA NO CAMPO DO PLANEJAMENTO PEDAGÓGICO.se a grande preocupação dos professores em relação à questão pedagógica. tempo para cuidar da parte pedagógica. e tomando em conta que o pedagogo principal da escola é o gestor. muitas vezes. bem como a importância do exercício da liderança. • NÍVEL DE PRIORIDADE QUE Os PROFESSORES DÃO AO TRABALHO DO GESTOR NO PROCESSO PEDAGÓGICO. Mostram-se opiniões que sua participação no planejamento pedagógico é importante mais que não precisa ser um líder pedagógico e acredita não ser necessária a troca com os docentes de métodos e técnicas pedagógicas. As contradições existentes são inúmeras. Professores: Constatou. (Libâneo. • NÍVEL DE CONSCIENTIZAÇÃO DOS PROFESSORES E DO GESTOR COM RESULTADOS ÓTIMOS DE UM BOM PLANEJAMENTO PEDAGÓGICO. construindo assim uma gestão democrática e participativa. demonstrar. financeiras e principalmente pedagógicas. como o caráter burocrático no qual se encontra tão envolvido. na maioria das vezes. Esta preparação deveria fazer parte das políticas educacionais da secretaria de educação ou de outra entidade responsável em executar tal tarefa. sem dúvida. além de estarmos conscientes de algumas dificuldades que tem nossa escola referente ao planejamento pedagógico. a refletirem sobre sua prática pedagógica e a experimentarem novas possibilidades. faltando-lhe. Para concluir deve-se frisar que o gestor escolar deve ser o principal pedagogo. a "autoridade máxima na escola e o responsável último por ela" (Paro 1995.Isso. • POLÍTICA DE PREPARAÇÃO PRÉVIA DA SECRETARIA DE EDUCAÇÃO PARA OS GESTORES. Além disso.

O ensino por sua vez é conceituado aqui como as ações. com João Amos Comenio. habilidades e atitudes. 2. Ação de ensinar. Entretanto. Desde a Antigüidade clássica ou no período medieval já temos registro de formas de ação pedagógicas em escolas e mosteiros. história da educação e pedagogia. Educação. detalha gráficos que apontam para um quadro onde a escola não consegue reter o aluno no sistema escolar. entre elas. das questões práticas relativas à metodologia e das estratégias de aprendizagem. sendo importantes para a formação das gerações e para os padrões de sociedade que buscamos. Libâneo situa a educação como fenômeno social universal determinando o caráter existencial e essencial da mesma. sendo assim uma instituição social. condições para que aconteça a instrução.. Libâneo define a didática como a mediação entre as dimensões teórico-científica e a prática docente. Pedagogia e Didática A educação escolar é um sistema de instrução e ensino de objetivos intencionais.. Já mais adiante. de igualdade nas oportunidades em educação. instrução e ensino A educação é apresentada com um conceito amplo. a não intencional. por isto as coisas devem ser ensinadas uma de cada vez. Porém. Libâneo. * Assegurar a transmissão e assimilação dos conhecimentos e habilidades. * O homem deve ser educado de acordo com o seu desenvolvimento natural. mostrando a evasão escolar e a repetência como graves problemas advindos da falta de uma política pública. que representa o trabalho docente incluindo a didática. A Didática e a formação profissional do professor Existem duas dimensões da formação profissional do professor para o trabalho didático em sala de aula. da formação de suas capacidades. o positivismo. 4. Isto acontece devido aos planejamentos serem feitos prevendo uma criança imaginada e não a criança concreta. mas considera. Henrique Pestalozzi (1746-1827). Afirma que a pedagogia investiga estas finalidades da educação na sociedade e a sua inserção na mesma. * O ensino deve seguir o curso da natureza infantil. Podemos daí determinar os elementos constitutivos da Didática: 1.A didática Magna&quot. A Didática segundo Libâneo Prática educativa e sociedade Os professores são parte integrante do processo educativo. 3. (1994. 35) cita Guiomar Namo de Mello: &quot. que tornou a verdadeira inspiração para pedagogia conservadora. A segunda é a técnico–prática. Jean Jacques Rousseau (1712-1778) propôs uma nova concepção de ensino. além do seu preparo para as exigências sociais que este indivíduo necessita. baseado nas necessidades e interesses imediatos da criança. formal ou não-formal. Os objetivos sóciopedagógicos. dando a importância da mesma para uma democratização maior dos conhecimentos. Sintetizando. Somente o ingresso na escola pode oferecer um ponto de partida no processo de ensino aprendizagem. diz que a Didática é o principal ramo de estudo da pedagogia para poder estudar melhor os modos e condições de realizarmos o ensino e instrução. sistematizados e com alto grau de organização.Didática: é uma ciência cujo objetivo fundamental é ocupar-se das estratégias de ensino. Já a intencional refere-se àquelas que têm objetivos e intenções definidos. O autor lista as tarefas principais das escolas públicas. . assim como no formalismo e o idealismo. que trabalhava com a educação de crianças pobres. Os métodos de ensino aprendizagem. * Oferecer um processo democrático de gestão escolar com a participação de todos os elementos envolvidos com a vida escolar. estabelecendo na obra alguns princípios com: A finalidade da educação é conduzir a felicidade eterna com Deus. Observa-se que a instrução está subordinada à educação. o autor fala mais detalhadamente deste grave problema do nosso sistema escolar. sociologia. Sua busca de cientificidade se apóia em posturas filosóficas como o funcionalismo. este autor não colocou suas idéias em prática. determinando que o fim da educação é a moralidade atingida através da instrução de ensino. metodológica e didática de procedimentos adequados ao trabalho com as crianças pobres. Estas relações criam uma relação intrincada destes três conceitos que são responsáveis pelo educar. dependendo sempre dos objetivos. Estes autores e outros tantos formam as bases para o que chamamos modernamente de Pedagogia Tradicional e Pedagogia Renovada. Aponta muitos motivos para isto. Já a instrução está relacionada à formação e ao desenvolvimento das capacidades cognoscitivas. cabendo mais adiante a outro pesquisador faze-lo. Os princípios didáticos. poderíamos dizer que ela funciona como o elemento transformador da teoria na prática. Estuda também os tipos de educação. a falta de preparo da organização escolar. A educação pode ser também. Desenvolvimento histórico da Didática e tendências pedagógicas O autor afirma que a didática e sua história estão ligadas ao aparecimento do ensino. deixando como resultado um enorme número de analfabetos na faixa de 5 a 14 anos. políticas e culturais. A escolarização básica constitui instrumento indispensável à construção da sociedade democrática &quot. que podemos sintetizar como uma modalidade de influências e inter-relações que convergem para a formação da personalidade social e o caráter. pesquisa e outras facetas práticas do trabalho do professor. As formas organizadas do ensino. * Assegurar o desenvolvimento do pensamento crítico e independente. Controle e avaliação da aprendizagem. Conteúdos das matérias. Estes três teóricos influenciaram muito Johann Friedrich Herbart (1776-1841). mediante o domínio de certos conhecimentos. como principal. Os componentes do processo didático o processo didático está centrado na relação entre ensino e aprendizagem. A didática como atividade pedagógica escolar os temas fundamentais da didática são: 1. o autor endente democracia como um conjunto de conquistas de condições sociais. fala também dos índices de escolarização no Brasil. As tarefas da escola pública democrática Todos sabemos da importância do ensino de primeiro grau para formação do indivíduo. a didática aparece em obra em meados do século XVII. aquela que está inserida em um contexto único. Neste subtítulo. A primeira destas dimensões é a teórico-científica formada de conhecimentos de filosofia. Educação escolar. Aplicação de técnicas e recursos. refere-se a influências do contexto social e do meio ambiente sobre os indivíduos. metodologias. destacam-se: Proporcionar escola gratuita pelos primeiros oito anos de escolarização. pela maioria da população para participar da condução de decisões políticas e sociais. A Escolarização e as lutas democráticas Realmente a escolarização é o processo principal para oferecer a um povo sua real possibilidade de ser livre e buscar nesta mesma medida participar das lutas democráticas. O autor coloca que as práticas educativas é que verdadeiramente podem determinar as ações da escola e seu comprometimento social com a transformação. isto é de acordo com suas características de idade e capacidade. * A assimilação dos conhecimentos não se da de forma imediata. Os conteúdos escolares. O Fracasso escolar precisa ser derrotado Nessa parte. ao escrever a primeira obra sobre a didática &quot. Ação de aprender. meios. 2. dando a ele esta capacidade de poder estudar e aprender o resto da vida.

É importante destacar que estas três referências não devem ser tomadas separadamente. o ensino é a combinação entre a condução do processo de ensino pelo professor e a assimilação ativa do aluno. motivacionais e atitudes do próprio aluno. intencional e dirigida. A atividade de estudo e o desenvolvimento intelectual Neste subtítulo. principalmente porque o professor usa um estilo convencional de aula. As características do processo de ensino Inicia-se analisando as características do ensino tradicional e suas principais limitações pedagógicas: o professor só passa a matéria e o aluno recebe e reproduz mecanicamente o que absorve. * Ajuda os alunos nas suas possibilidades de aprender. O ensino tem três funções inseparáveis: *Organizar os conteúdos para transmissão. porém. afinal o processo de ensino deve estabelecer apenas exigências e expectativas que os alunos possam cumprir para poder realmente envolvê-los neste processo e mobilizar as suas energias. dominar técnicas. O autor propõe que entendamos o processo de ensino como visando alcançar resultados tendo com ponto de partida o nível de conhecimentos dos alunos e determinando algumas características como: o ensino é um processo. Com isto. antes. Porém. pois devem se apresentar juntos no ambiente escolar. com o livro didático. oferecendo ao aluno relação subjetiva com os mesmos. igual para todas as matérias.Tendências pedagógicas no Brasil e a Didática Nos últimos anos. Neste aspecto. hábitos. Os objetivos têm pelo menos três referências fundamentais para a sua formulação. pode pensar que o conhecimento se baseia em dados da realidade. A aprendizagem esta presente em qualquer atividade humana em que possamos aprender algo. habilidades. convicções e desenvolvimento das capacidades cognoscitivas. Desta forma os objetivos são fundamentais para determinação de propósitos definidos e explícitos quanto às qualidades humanas que precisam ser adquiridas. Levanta dificuldades do trabalho docente para estimular aos alunos. Neste sentido. Devemos ter claro que o trabalho docente é uma atividade que envolve opções sobre nosso conceito de sociedade. Isto determina uma interligação nos momentos da assimilação ativa. vêm sendo realizados muitos estudos sobre a história da didática no nosso país e suas lutas. temos ou traçamos objetivos. cada tarefa didática será uma tarefa de pensamento para o aluno. habilidades e hábitos. no Brasil. A importância dos objetivos educacionais A prática educacional baseia-se nos objetivos por meio de uma ação intencional e sistemática para oferecer aprendizagem. * Os conteúdos básicos das ciências. . A cinco momentos da metodologia de ensino na sala de aula: * Orientação inicial dos objetivos de ensino aprendizagem..O objetivo da escola e do professor é formar pessoas inteligentes.testes rápidos para verificar assimilação e domínio de habilidades. aluno/aluno e observa e revisão de matérias anteriores. o professor deve se satisfazer se o aluno compreende a matéria e tem possibilidade de pensar de forma independente e criativa sobre ela. eleger mais do que um livro de referência. com regras e procedimentos padrões. não sendo em hipótese alguma casual ou espontânea. Com isto. Com isto define-se a aprendizagem escolar como um processo de assimilação de determinados conhecimentos e modos de ação física e mental. o autor declara algo muito importante e já dito em outros momentos humanos &quot. A tradicional vê a didática como uma disciplina normativa. estas dificuldades podem ser superadas com um domínio maior do conteúdo por parte do professor. ou seja. estar atualizado com as notícias. Mostra-se também a unidade necessária entre ensino e a aprendizagem. Para isto temos várias tarefas e exercícios específicos para este fim. com falta de entusiasmo e sem adequação com o mundo prático e real do aluno. temos o processo de assimilação ativa que oferece uma percepção. habilidades de caráter permanente. A estruturação do trabalho docente O autor reflete sobre este entendimento errôneo de que o trabalho docente na escola é o de &quot.  30. habilidades e hábitos. Algumas formas de estudo ativo O estudo ativo envolve inúmeros procedimentos para despertar no aluno hábitos. O livro coloca a aprendizagem escolar como uma atividade planejada. o aluno é o sujeito deste processo e o professor deve oferecer condições propícias para estimular o interesse dos alunos por esta razão os adeptos desta tendência dizem que o professor não ensina. compreensão. * Transmissão /assimilação da matéria nova. Tarefas de fases de assimilação de matérias . Isto prova que sempre conscientemente ou não. De início. ajuda o aluno a prender. * Dirigir e controlar atividade do professor para os objetivos da aprendizagem. * Verificação e avaliação dos conhecimentos e habilidades. geralmente. atitudes e valores. listados aqui como pelo autor: Exercícios de reprodução . combinando as atividades do professor com as do aluno. por isto obedece a uma direção.passar&quot. didáticas e metodologias. centrando a atividade de ensinar no professor e usando a palavra (transmissão oral) como principal recurso pedagógico. conhecer melhor as características dos seus alunos. implicando nas atividades mentais e práticas. o ensino é somente transmitido com dificuldades para detectar o ritmo de cada aluno no aprender. produzidos na história da humanidade. A aprendizagem pode ocorrer de duas formas: casual. * Consolidação e aprimoramento dos conhecimentos. não se identifica com leia. é importante definir o ensino e o autor coloca-o como o meio fundamental do processo intelectual dos alunos.Diálogo estabelecido entre o professor/aluno. * Aplicação de conhecimentos. Estas duas correntes têm grandes diferenças entre si. Tarefas na fase de consolidação e aplicação – compõem-se de exercícios e revisão de fixação. este processo visa alcançar determinados resultados como domínio de conhecimentos.&quot. atitudes.Atividades que favoreçam o confronto entre os conhecimentos sistematizados e a realidade dos alunos. quando for espontânea ou organizada quando for aprender um conhecimento específico. Tarefa de preparação para o estudo . o trabalho docente está restrito às paredes da sala de aula. classificando as tendências pedagógicas em duas grandes correntes: as de cunho liberal e as de cunho progressivista.. pois isto vai determinar a relação com os alunos. sob a direção e orientação do professor. dando ao ensino este caráter bilateral. Isto significa que podemos aprender conhecimentos sistematizados. * Os valores e idéias ditos na legislação educacional. Já a didática de cunho progressivista é entendida como direção da aprendizagem. E mostra que a estrutura da aula deve ter um trabalho ativo e conjunto entre professor e aluno. hábitos. Processos didáticos básicos: ensino e aprendizagem O livro mostra novamente a importância de garantir a unidade didática entre ensino e aprendizagem e propõe que analisemos cada parte deste processo separadamente. * As necessidades e expectativas da maioria da sociedade. é dada uma excessiva importância a matéria do livro sem dar a ele um caráter vivo. Podemos ainda dizer que existem dois níveis de aprendizagem humana: o reflexo e o cognitivo. a matéria de acordo. ligado estreitamente com a metodologia específica das matérias. reflexão e aplicação que se desenvolve com os meios intelectuais.

Acessibilidade e solidez. muitos professores fazem a idéia de que os conteúdos são o conhecimento correspondente a cada matéria. Já ao professor em sala de aula cabe estimular e dirigir o processo de ensino utilizando um conjunto de ações. * Ajuda na autopercepção do professor. nos diversos momentos de ensino a avaliação tem como tarefa: a verificação. a função de diagnóstico e a função de controle. Uma definição de avaliação escolar Segundo o professor Cipriano C. organização e coordenação da ação do professor. São métodos adequados para realizar os objetivos. o terceiro nível é o professor que concretiza tudo isto em ações práticas na sala de aula. no início da . porém.como centros de interesse. expressar os vínculos entre o posicionamento filosófico. hábitos. ou mesmo. pois há sempre três elementos no ensino: matéria. atualizar constantemente o conteúdo do plano. racial ou política. b) oferecer a todos as crianças. interdisciplinaridade e integração curricular Ao longo da história da escola. retomando a "pedagogia de projetos". * Ajuda a desenvolver capacidades e habilidades. c) assegurar a estas crianças o desenvolvimento máximo de suas potencialidades. Os conteúdos de Ensino Desde o início do livro. temas culturais" e. devemos estudar o ensino dos conteúdos como uma ação recíproca entre a matéria. o autor sintetiza as principais características da avaliação escolar. (Libâneo. eles são o conjunto de conhecimentos. temas geradores. A relação objetivo-conteúdo-método Um entendimento global sobre esta relação é que os métodos não têm vida sem os objetivos e conteúdos. Agora não se pode pensar em método como apenas um conjunto de procedimentos. o autor propõe uma forma mais didática de resolver esta difícil tarefa de selecionar os conteúdos a serem ministrados em sala de aula. o segundo é determinado pela escola que estabelece as diretrizes e princípios do trabalho escolar. ter um bom plano de aula. buscando a assimilação ativa e aplicação prática na vida dos alunos. Relevância social. assegurar a racionalização. onde o conteúdo determina o método por ser a base informativa dos objetivos. e claro. Abaixo. Por isto é muito importante que os conteúdos tenham em si momentos de vivências práticas para dar significado aos mesmos. * Reflete a unidade objetivos-conteúdos-métodos. Com isto. segundo Libâneo. objetividade e coerência entre os objetivos gerais e específicos.203). O primeiro nível é o sistema escolar que determina as finalidades educativas de acordo com a sociedade em que está inserido. sociológicos. habilidades.  38. metodologia de projetos e unidades de trabalho da "Escola Nova" . facilitar a preparação das aulas. passos e procedimentos que chamamos também de método. conhecer o nível dos alunos. diferentes maneiras de planejar o ensino têm sido preconizadas. f) institucionalizar os processos de participação envolvendo todas as partes formadoras da realidade escolar. a democratização dos conhecimentos. Com isto. sem nenhum tipo de discriminação cultural. Importância do planejamento escolar O planejamento do trabalho docente é um processo de racionalização. organizados pedagógica e didaticamente. * Possibilita a revisão do plano de ensino. modos valorativos e atitudes. Critérios de seleção Aqui. o trabalho do professor é um constante vai e vem entre as tarefas cognoscitivas e o nível dos alunos. como tarefa fundamental. político. coloca-se esta forma ordenada de elaborar os conteúdos de ensino: Correspondência entre os objetivos gerais e os conteúdos. * Volta-se para a atividade dos alunos. Neste aspecto. Caráter científico. este é apenas um detalhe do método. Entre estes objetivos educacionais destacam-se: a) colocar a educação no conjunto de lutas pela democratização da sociedade. Organização e planejamento do ensino: globalização. o método também pode ser conteúdo quando for objeto da assimilação. Caráter sistemático. passando pelas propostas de organização destes conteúdos em torno de um assunto . Os dados relevantes aqui se referem às ações didáticas. organização e coordenação do trabalho. Definindo os conteúdos. mais recentemente. garantindo uma base cultural para jovens e crianças. a maior característica deste processo é a interdependência. * Ser objetiva. o ensino e o estudo dos alunos. Tem-se que entender o plano como um guia de orientação devendo este possuir uma ordem seqüencial.A avaliação é um ato pedagógico&quot. a avaliação é uma análise quantitativa dos dados relevantes do processo de ensino aprendizagem que auxilia o professor na tomada de decisões. nalguns casos. pedagógico e profissional das ações do professor. observa-se então métodos matemáticos. Portanto. diretrizes e procedimentos do trabalho. Os objetivos gerais explicam-se a partir de três níveis de abrangência. da chamada "educação tradicional". conteúdos e métodos. politizando-as de forma mais explícita através do uso de "temas emergentes. eixos temáticos. uma preparação cultural e científica a partir do ensino das materiais. o método corresponde à seqüência de atividades do professor e do aluno. assegurar a unidade e a coerência do trabalho docente. Para se ter um bom resultado de interação nos aspectos cognoscitivo deve-se: manejar os recursos de linguagem. Luckesi. 1994.. a qualificação e a apreciação qualitativa. Sob este ponto de vista. entre outros. pelo mínimo. tendo as seguintes funções: explicar princípios.até as "proposições contemporâneas" que retomam as propostas de integração curricular do escolanovismo ressignificando-as e. p. objetivos claros. Conceito de métodos de ensino Um conceito simples de método é ser o caminho para atingir um objetivo. Esses saberes vêm sendo organizados através da listagem de conteúdos a serem vencidos pelos estudantes por etapas. Ela também cumpre pelo menos três funções no processo de ensino: a função pedagógica didática. Todas estas propostas didático-pedagógicas têm em comum a compreensão de que uma visão globalizante e interdisciplinar deve presidir a organização dos conteúdos nas propostas de trabalho. que são a matéria do livro didático. Características da avaliação escolar Agora. d) formar nos alunos a capacidade crítica e criativa em relação a matérias e sua aplicação. Aspectos cognoscitivos da interação O autor define como cognoscitivo o processo ou movimentos que transcorre no ato de ensinar e no ato de aprender. é indispensável o uso correto da língua Portuguesa. prever objetivos.Objetivos gerais e objetivos específicos Os objetivos são o marco inicial do processo pedagógico e social. o autor vem reiterando a idéia que as escolas têm.O autor fala que esta visão não é completamente errada. sendo também flexível. professor e o aluno. dessa forma a assimilação dos conteúdos depende dos métodos de ensino e aprendizagem. * Reflete valores e expectativas do professor em relação aos alunos. Alguns objetivos educacionais podem auxiliar os professores a determinar seus objetivos específicos e conteúdos de ensino. O que realmente importa é que esta relação de unidade entre objetivo-conteúdo–método constitua a base do processo didático. É importante entender que cada ramo do conhecimento desenvolve seus próprios métodos. * Esta frase marca este subtítulo &quot. Sob este aspecto. pedagógicos. na transposição didática dos saberes científicos em saberes escolares. e) formar convicções para a vida futura.

a teoria e a prática.estimular a análise de problemas concretos e reais e o conseqüente surgimento de pessoas criativas e inovadoras. O currículo integrado: possibilidades O currículo integrado permite: .favorecer o trabalho colegiado nas escolas. . resgatando a idéia de "corpo docente". ideologias e interesses presentes em todas as questões sociais e culturais.abordar conteúdos que são objetos de atenção em várias áreas de conhecimento. justifica esta proposta a partir da forma como a criança percebe o mundo: "Tanto mais imaturos sejam eles. nos limites das áreas disciplinares. . excursões. O mesmo autor defende que devem ser respeitados os conhecimentos prévios. em defesa dessa forma de organização no Currículo por Atividades da Educação Fundamental. Para Santomé (1998. tomando atitudes. . para melhorar o desempenho de estudantes nas instituições de ensino. Muito se tem avançado na pedagogia do discurso.aos interesses dos estudantes. Ensina-se pelas experiências proporcionadas. que os ajudem em sua localização na comunidade de forma autônoma. perguntas mais vitais. . . conseqüentemente. para tal. não fazem parte dos "currículos por disciplina" surgidos com a modernidade. não confinadas.favorecer a visibilidade dos valores. . espaço e recursos humanos para viabilizar visitas. seus ritmos. Logo é preciso aumentar o poder de participação e de decisão dos mesmos na escola. presta-se insuficiente atenção: . de Ivani Catarina Arantes Fazenda.à pesquisa. interdisciplinares.lIO). em 1996 (1979). ). aborda a interdisciplinaridade como uma nova atitude a ser assumida perante a questão do conhecimento. Santomé (1998. a ciência e a cultura. . da palavra..14). as principais críticas a esta forma de organização partem da percepção de que. " (Inglis. vivenciando sentimentos. substituindo a forma fragmentária pela unitária do ser humano. é o modelo linear disciplinar. . os interesses e os ritmos dos estudantes na organização das propostas de trabalho. .190). Apesar de todo o destaque teórico dado para a necessidade de a criança fazer – aprendizagem através da atividade -. de modo bastante simples. também é preciso redescobrir o vínculo entre a sala de aula e a realidade social: conjugar o aprender a aprender com o aprender "a viver. desencadeado nos Estados Unidos e também na Europa com o advento da Escola Nova.187) afirma que a utilidade social do currículo está em permitir aos alunos e alunas compreender a sociedade em que vivem. . com a conseqüente não estimulação dos necessários conflitos sociocognitivos. principalmente quando é privilegiado o uso do livro. na maioria das vezes. p.escolarização. Não se concebe o conhecimento enquanto ação. . criando hábitos intelectuais de levar em consideração diferentes possibilidades e pontos de vista. O processo de aprendizagem é um processo global.ao papel do professor e da professora como pesquisadores capazes de diagnosticar. desde meados do século. pela ação desencadeada. excluídos das salas de aula. ainda segundo o mesmo autor. a seus níveis de compreensão. o saber e o fazer. há temas.trabalhar conteúdos culturais relevantes. questões e problemas que precisam ser trabalhados e que não' se enquadram. a ênfase ainda hoje recai no ensino verbalista. para romper o isolamento que caracteriza ambos os mundos. publicado pelas Edições Loyola.texto. porém de tamanha grandeza a .à falta de nexos entre as disciplinas e o decorrente esforço de memorização que tal fato acarreta. pois.à inflexibilidade de organização do tempo.à experiência prévia dos estudantes. p. p. nesta forma. nas exigências de silêncio e imobilidade. . o desenvolvimento de aptidões. Há um dissociamento do processo de pensar do de atuar. propor e avaliar projetos e currículos. os padrões de verdade . . e continua-se muito distante da pedagogia da ação. Na escola são trabalhados o "sistema de conhecimentos de uma sociedade ( .aumentar a probabilidade de surgimento de novas carreiras e especialidades -interdisciplinaridades . considerando. em sala de aula.. logo é preciso ouvir esta mesma sociedade sobre o tipo de escola desejada para seus filhos e filhas.às relações pessoais entre estudantes e professores e professoras devido ao desmembramento artificial da realidade em disciplinas diferenciadas.preparar para a mobilidade profissional futura.. experiências diferenciadas. 1982. . na supervalorização do cognitivo. 1988. o trabalho intelectual e o trabalho manual. dos fatos e das idéias". nas áreas de conhecimento tradicionais e. p. sendo.que permitam enfrentar novos problemas e desafios. A afirmação do Parecer 853/71 . E. crítica e solidária. Para que tal objetivo seja alcançado. . o que a organização do currículo por disciplinas dificulta perceber. na maioria das vezes de uma forma bastante arbitrária. favorecendo. A proposta de currículo integrado surgiu como uma alternativa progressista aos modelos empresariais de objetivos comportamentais que eram oferecidos. Aprende-se participando. quanto mais em blocos lhes surge o mundo das coisas. ou o conjunto de disciplinas justapostas. Organização dos currículos: o modelo linear disciplinar A forma mais clássica de organização do conteúdo escolar. Integração e Interdisciplinaridade no Ensino Brasileiro: efetividade ou ideologia. da intervenção. Há uma supervalorização dos processos cognitivos em detrimento dos demais. O "currículo por atividades" não passa muitas vezes de um rótulo sem significado. geralmente. à atividade crítica e à curiosidade intelectual.à incapacidade para ajustar ao currículo questões práticas. É preciso também ouvir segmentos da sociedade. Na defesa de projetos curriculares integrados. ainda hoje.às dificuldades de aprendizagem decorrentes da constante mudança de atenção de uma matéria para outra. Dá-se ênfase na nossa cultura escolar à atividade intelectual. pelos problemas criados. na sua 4ª edição. .à problemática específica do meio sociocultural e ambiental do alunado. atuais. no recinto escolar. apud Santomé. para isso. a autora destaca. escolhendo procedimentos.CFÉ (apud Feldens. tanto técnicas como sociais. Para Arroyo (1994).. especialistas de diferentes áreas. como coisas opostas.levar a pensar interdisciplinarmente. ao estudo autônomo.

de fato. contribui para amenizar a relação dicotômica existente entre ensino e pesquisa. nos seus níveis Fundamental e Médio e Educação Superior. ou. onde aprenda a aprender. com os nossos limites. não de totalidade sobre o conhecimento. culturais. Inúmeros desafios são identificados e precisam ser removidos. revela os obstáculos de efetivação da interdisciplinaridade. Para tanto. transdisciplina. por direito de cidadania. bem como o seu incentivo à formação de novos pesquisadores e novas pesquisas. ativamente. evoluindo para o ‘modelo’ de suporte. Dessa maneira. é preciso que façamos a substituição da “Pedagogia da Certeza” pela “Pedagogia da Incerteza”. enquanto professores. tornando viva a nossa capacidade de viver. o revelar das possibilidades e não possibilidades para a concretude da interdisciplinaridade. com a incerteza sobre o fazer interdisciplinar e sobre as responsabilidades que são direcionadas aos pesquisadores que se propõe desvelar questões dessa natureza. quando se trata de educação inclusiva. Essa análise é bastante interessante porque caminha entre e sobre a legislação. Estadual e Municipal (SP) para a efetivação do ensino de 1º e 2º Graus e Ensino Superior. pois une. materiais e relacionadas à formação dos professores. discorre acerca da não separação do conhecimento para com a prática dos sujeitos e aponta algumas das utilidades e obstáculos que implicam a prática da interdisciplinaridade. Além disso. bem como no que se tem avançado – ou não. dentre os quais se destacam disciplina. desde a atitude que mantém diante da questão do conhecimento. mais radicais. os conhecimentos e contribui para com a transformação da realidade. particularmente pelos preconceitos e estereótipos com que a diversidade biológica tem sido tratada e internalizada no imaginário coletivo. dialético e complexo diz respeito a qualquer aluno que. metodológicas. Conforme a intenção de pesquisa – atitude esta primordial para a constituição da aprendizagem interdisciplinar. a autora percorre o caminho sobre a formação do conceito de interdisciplinaridade e percebe que este não possui um único sentido e uma estabilidade. a fazer. pois deles acabam surgindo razões de força para novas pesquisas. ou seja. mais moderados. pluridisciplina. após habitar a construção de conceitos. da pesquisa e da não conformidade. da metamorfose que se revela uma constante na interdisciplinaridade. ao mesmo tempo. Porém. Educação Inclusiva: do que estamos falando? Rosita Edler Carvalho O texto reflete as principais questões que têm sido discutidas nacional e internacionalmente. que prefaciou o livro. apenas vive-se”. Como processo contínuo. aparentemente ”encasulados”. bem como estabelecendo um paralelo legal. de modo bastante formal. Alguns. como o clareamento de determinados conceitos que cerceiam a prática interdisciplinar. destacar a reflexão que Ivani Fazenda tece acerca da não compreensão de alguns conceitos relacionados à atitude interdisciplinar e aos aspectos legais. de Educação Básica. habitados pela atitude interdisciplinar. institucionais.questão interdisciplinar ao enfatizar que esta “não se ensina. facilmente chega-se a presumir que a interdisciplinaridade é apontada como uma exigência interna das disciplinas para restabelecer o saber em sua unidade. fica ressaltada que a proposta de educação inclusiva não é específica para alunos e alunas com necessidades educacionais especiais ou outro termo que se escolha. pois como ele – um dos muitos parceiros de Ivani – mesmo destaca. a interdisciplinaridade poderá vir a ser utilizada de diferentes formas e apresentar-se como o ponto de encontro e de renovação da atitude perante o conhecimento. sensibiliza-nos como seres aprendentes. . Quando discute o conceito de integração. inacabados diante do saber. Estadual e Municipal (SP). olhares estes. entendem que a educação especial precisa rever seus princípios e seus procedimentos. trata que integração estaria relacionada. estabelecendo uma reflexão crítica da realidade. Nessas condições. jovens e adultos. classificados hoje. aflorando a necessidade de nós. Conceitos. deparamo-nos. aspectos de uma melhor formação geral e profissional são apontados. defendem o desmonte da educação especial. somos novamente lançados à vida e a ela somos convidados e instigados a atribuir cores novas. ainda não há consenso quanto à forma de levar o sistema gestor de políticas educacionais e nossas escolas a assumirem a orientação inclusiva. sujeitos aprendentes e ensinantes. integração e interação. Logo. para contribuirmos com a materialização de uma educação verdadeiramente unificadora. Essas possibilidades e não possibilidades para a concretização da interdisciplinaridade são subsidiadas pela análise legal que a autora estabelece com a legislação Federal. embriaga-nos e revitaliza-nos pela e com a possibilidade se sentirmos impregnados em nosso ser o desejo da mudança. psicossociológicas. tomarmos ciência desses termos para poder agir de modo fidedigno às suas origens. não se aprende. Convém. às disciplinas. Em relação às benécies da interdisciplinaridade. adolescentes. multidisciplina. Japiassú comunga com as idéias de Fazenda e aponta que essa incerteza/subjetividade que circunda a questão do conhecimento revitaliza a produção científica. pois apresenta-se como forma de compreender e modificar o mundo com diferentes olhares. novamente. revelando as similaridades existentes entre as referidas leis. ou defendem a permanência da educação especial no seu ‘modelo’ de serviços. para que a aplicação de uma proposta de aprendizagem unificadora venha realmente processar-se. Entretanto. dando uma visão parcial. interdisciplina. no entanto. é preciso manter um constante contato com as nossas dúvidas. para que se possa “interagir” de forma produtiva com o meio e com o conhecimento. “o conhecimento nasce da dúvida”. Enquanto que “interação é condição “sine quan non” para a efetivação da interdisciplinaridade. Assim. destaca dificuldades epistemológicas. Desse modo. a nível Federal. Em contrapartida. outros. Embora todos os educadores estejam de acordo quanto à necessidade de melhorarmos a qualidade das respostas educativas de nossas instituições de ensino-aprendizagem para todos os aprendizes: crianças. Concomitante com essas reflexões acerca da integração/interação e objetividade/subjetividade. a ser e onde participe. dentre eles o aspecto atitudinal se destaca. deve freqüentar escolas de boa qualidade. por muitas vezes. novas facetas pessoais e sociais e diferentes formas e atitudes para lidar com o conhecimento. Retomando trechos da Declaração de Salamanca. significados e pregações. Esse viver a interdisciplinaridade é por ela habitado. De acordo com Hilton Japiassú.

paralisia cerebral. aos recursos humanos e. parece não haver dúvidas de que os sujeitos da inclusão são todos: os que nunca estiveram em escolas. estou me valendo dos ensinamentos do Professor Plaisance baseados numa nova classificação dos níveis de deficiência. portanto. Destaco que a idéia-força que orientou o texto de Salamanca é a da escola para todos e não apenas para as pessoas com deficiência. igualmente diferentes serão os níveis de autonomia e de participação que poderão desenvolver. agimos em consonância com o princípio da igualdade de oportunidades. as que apresentam condutas típicas de síndromes neurológicas. imagino que alguns leitores devem estar interrogando se estou adotando uma nova terminologia. particularmente porque consta de mandamentos legais e dos documentos nacionais e internacionais que nos apontam diretrizes para a educação inclusiva. teológica ou jurídica” (p. Na verdade. os que lá estão e experimentam discriminações. por respeito às diferenças e muito menos por tolerância. Assim. constar das políticas educacionais e das práticas pedagógicas de todas as escolas. na medida em que me refiro às pessoas em situação de deficiência. de certo modo ocorreu para evidenciar a exclusão da inclusão das necessidades educacionais especiais de tantos e tantos alunos que precisam. a expressão pessoa em situação de deficiência apresenta a vantagem de relacionar as influências do meio com as capacidades que as pessoas podem desenvolver e manifestar. Fechando o longo parêntesis creio que. os que são vítimas das práticas elitistas e injustas de nossa sociedade. às escolas. estão no conjunto de práticas de moralismo abstrato e utópico e na contramão da ética da inclusão. Apesar de a tolerância ser uma virtude pessoal . Embora considere que discutir termos e expressões nem sempre nos ajude a descobrir os caminhos da inclusão. A igualdade de oportunidades é uma outra expressão que merece nossas reflexões. Inúmeros alunos com dificuldades de aprendizagem podem ser considerados em situação de deficiência decorrente de condições sociais e econômicas adversas. de modo que o direito de todos à educação não fique.. as palavras são fundantes dos sujeitos e dos objetos de que falam. apenas. os sujeitos da inclusão devem ser identificados dentre aqueles que não têm acesso aos bens e serviços histórica e socialmente disponíveis. como forma de aceitação passiva do Outro-. Lendo o texto da Declaração. por exemplos. Nesta. ao lado do respeito à diferença. os que não recebem as respostas educativas que atendam às suas necessidades. segundo a situação e as condições em que vivem. A tolerância. ao direito igual de cada um de ingressar na escola e. quando é utilizada como forma de apelo para garantir a presença de aprendizes em situação de deficiência nas turmas comuns. relacionada apenas às pessoas em situação de deficiência. porque referidos aos sistemas educacionais. buscamos aprimorar as respostas educativas de nossas escolas. à qual se seguem as Linhas de Ação com diretrizes para a universalização da escola.. principalmente. além de linguagens que . surdez. pois. Por exemplo: o ensino da Língua Brasileira de Sinais (Libras). será que devemos entender ‘igualdade de oportunidades’ como sinônimo de ‘oportunidades iguais’ (as mesmas). As barreiras existentes Sob essa denominação cumpre-nos examinar aspectos mais objetivos. em obediência à hierarquia do poder ou a pressões ideológicas. As situações contextuais que as envolvem sendo diferentes. como bem sabemos – desde Foucault com ‘As Palavras e as Coisas’.23). No que tange às pessoas que apresentam necessidades especiais decorrentes de uma situação de deficiência ou não. com os fatores contextuais que a cercam. respeitá-las. também. Infelizmente estamos nos referindo a uma considerável parcela de nossa população. penso que a tolerância . obviamente. bem como a qualidade de seu ‘ funcionamento’ pessoal. a expressão respeito à diferença. de aprender e de participar. como muitos supõem ser o eixo vertebrador da Declaração. na medida em que focaliza o sujeito significativamente diferente. incapacidade e impedimento (desvantagem social). reconheço sua importância. duas pessoas com a mesma deficiência e que. uso de recursos da informática e outras ferramentas tecnológicas. a partir das quais as escolas passam a ter o estado de inclusivas. qualidade e intensidade das ajudas e apoios especializados que receberam. E o evento de Salamanca. para todos? Penso ser esta uma provocação interessante para provocar debates. aprendendo e participando. mantêm ou reforçam as diferenças. equivocadamente. De outro lado. particularmente a partir da década de 90. deixa de enfatizar as normas e as práticas educativas que criam.que reflete o comportamento social de um indivíduo-. relacionando-o. a proposta de educação inclusiva está. os que se evadem precocemente e. principalmente. dado a priori. tolerando-as. psiquiátricas ou com quadros psicológicos graves. publicada em 2001. De um lado. definitivamente. tomados com base em considerações de ordem política. social e escolar. Não deve ser concebida como um preceito administrativo. Abrindo um parêntese.A inclusão educacional tem ocupado significativo espaço de reflexões em todo o mundo. a nova classificação ressalta o funcionamento global das pessoas. o que inclui. em termos de precocidade. O princípio geral é o da igualdade de direitos a oportunidades isto é. bloqueadoras de seu pleno desenvolvimento.. os que enfrentam barreiras para a aprendizagem e para a participação. além das superdotadas/ com altas habilidades. do código Braille. de gentileza em “agüentar” sua presença -. em 1994. mesmo sem apresentarem perturbações no nível biológico como cegueira. como retórica e se efetive na prática. nela. Quem são eles? De modo geral. aos próprios sujeitos da inclusão. restando-nos. em vez da tradicional classificação da OMS de 1980 que se refere à deficiência. pode ser considerada como mais um desdobramento da análise sobre o moralismo abstrato. mais uma vez.. vão encontrar maiores ou menores barreiras para suas necessidades de ir e vir. precisamos reconhecer que tem conotações que “remetem à capacidade fisiológica de suportar determinados remédios ou a uma decisão dos poderes públicos. na medida em que esse apelo pode influenciar a formação de um imaginário coletivo no qual as pessoas com diversidade biológica acentuada estão e serão como são. intimamente. Na medida em que. retardo mental. Servem como exemplo.como uma espécie de favor. o respeito às diferenças traz um ranço conservador e determinista. Aquilo que é necessariamente diferente do ensino escolar para melhor atender às especificidades dos alunos com deficiência. de modo geral. sem que lhes seja possível evoluir. que leva a estabelecer datas. instrumentos necessários à eliminação das barreiras que as pessoas com deficiência têm para relacionar-se com o ambiente externo. Deve ser entendida como princípio (um valor) e como processo contínuo e permanente. exercitar sua cidadania. Não por apelos sentimentais. atendendo a todos e a cada um. as pessoas em situação de deficiência. Mas.

A avaliação não deve ter o papel de prática rotuladora que estigmatiza e segrega. aplica-se a qualquer aluno. políticas e práticas inclusivas. além das dos alunos. necessariamente. vou me ater a alguns aspectos. o de sinalizar as mudanças que precisam ocorrer. políticas e práticas. sugerindo que sejam aprofundados e ampliados pelos colegas que se disponham a discutir as idéias que apresento neste artigo.As estratégias de alavancagem para mover um sistema educacional numa direção inclusiva levam-nos a pensar nos princípios que embasam a política educacional adotada e nas formas de administração consideradas como eficazes. entendida como um recurso e não como obstáculo? O que nos falta para desenvolver práticas pedagógicas com direção inclusiva? Este tema precisa ser objeto de nossas reflexões. educacionalmente. Penso que. Essa concepção tem gerado movimentos de segregação. em sala de aula. precisamos analisar nossas próprias atitudes frente à diferença. Estas precisam ser examinadas. mais importante é avaliar os fatores que bloqueiam ou facilitam a aprendizagem. o maior desafio está nas salas de aula onde o processo ensino-aprendizagem ocorre de forma sistemática e programada. inclusive no uso dos ‘instrumentos’ necessários. muito compatível com o modelo do déficit e que queremos substituir. nem para seu novo professor. necessitam dessas modalidades de atendimento educacional especializado. ‘Recursos’(instrumentos) específicos têm conotação bem diferente do sentido de ‘atendimento especializado’.. traduzem-se por necessidades das escolas.. urgentemente. faz parte da cultura das escolas explicar as dificuldades escolares de muitos e muitos alunos como resultantes de suas limitações pessoais e do contexto social em que vivem. as ações da educação especial também devem ser ressignificadas como um conjunto de serviços e de recursos de apoio. Outros autores sugerem que as discussões sobre educação especial devam ocorrer no contexto de uma agenda mais ampla. a começar pela identificação dos alunos que. Nossa forma tradicional de pensar tem-nos levado a procurar o que “falta” em nossos alunos para compensá-los. nas escolas. o atendimento educacional especializado traduz-se. realmente. uma boa pista esteja na tipologia dos apoios que devem ser oferecidos. o destino da educação especial alarga seu leque de compromissos. principalmente. A própria Declaração de Salamanca adverte que as políticas educativas deverão levar em conta as diferenças individuais e as diversas situações. mas considerando-se as limitações existentes em nossos sistemas de ensino e em nossas escolas. até o desenvolvimento da aprendizagem cooperativa. segundo as diferenças individuais e as diversas situações dos alunos. valorizando o trabalho na diversidade. E. com uma visão mais ‘moderada’ da educação inclusiva. é substituída pelo entendimento da educação especial como um processo geral e que se traduz. segundo a na tureza da deficiência e a especificidade das barreiras enfrentadas pelos sujeitos. A inclusão educacional exige que expliquemos dificuldades escolares não só tendo os alunos como focos. das quais uma é especializada. De modo geral. Do ponto de vista pedagógico. orientados para a educação regular. com vistas a tratamento é importante diagnosticar. como reintegração. que acabam sendo encaminhados para ambientes muito restritivos. o que implica. Ferreira e Nunes (2003) mostram que as classes especiais não estão integradas no cotidiano das escolas. não são pequenos.8). Igualmente. Penso que tais evidências não implicam na eliminação dos serviços oferecidos como educação especial. de modo a atender a todos e a cada um. o diagnóstico clínico nem sempre oferece aos educadores as pistas do que devem fazer. nem de um dia para outro. O que fazer com e nas classes e escolas especiais são questões em aberto a merecer nossas considerações. precisamos rever nosso entendimento sobre o papel das classes e das escolas especiais. como da exclusão deles em nosso imaginário.Os desafios para as escolas regulares assumirem uma orientação inclusiva em suas culturas. . com ênfase para a cultura do pensar. por culturas. mas para não deixálo ‘ em branco’. Do ponto de vista clínico. com bom senso e sem os extremismos apaixonados que nos impedem de perceber falhas e aspectos que precisam ser. em benefício de todos os aprendizes. a visão dicotômica que identifica um sistema comum e outro especial de educação . . assim como há desarticulação entre o projeto pedagógico da escola e os trabalhos desenvolvidos nas referidas classes. Outro desafio que tem sido enfrentado pelas escolas regulares diz respeito à avaliação. O desafio implica numa nova visão de necessidades educacionais especiais que. Mas. como é o caso de alunos surdos e surdos-cegos para os quais é mais conveniente que a educação seja ministrada em escolas ou em classes especiais. na medida em que este pressupõe a relação entre pessoas. Outras observações dignas de registro evidenciam que: (a) os professores das salas de recursos nem sempre organizam seus planos de trabalho juntamente com os professores das classes comuns e (b) que a passagem de alunos das classes especiais para as comuns. O primeiro dos aspectos diz respeito à avaliação diagnóstica. mas. necessariamente. embora precisem ser repensados. Sob a ótica da mudança. como mudanças não ocorrem no vácuo. tudo o que se tem criticado sobre a avaliação como aferição do rendimento escolar. pois as transformações devem se processar a partir de nós mesmos. Passemos. Trata-se de mudança nos conceitos e nas práticas. finalmente. é suscetível de problematização. Sob esse aspecto. cabendo examinar as causas. Talvez. não só dos alunos. Quanto ao aproveitamento na aprendizagem. Sem nenhuma pretensão de me aprofundar no tema. buscar as causas e fazer prognósticos terapêuticos. no âmbito pedagógico. modificados.precisam estar disponíveis nas escolas comuns para que elas possam atender com qualidade aos alunos com e sem deficiência (p. . a começar pela problematização de alguns aspectos que vão desde a arrumação da sala de aula. Esse tema é tão complexo e importante que justificaria um outro artigo. Segundo este conceito. Estudos realizados por alunos de Mestrado e Doutorado e que estão sumarizados por Mendes. Estou me referindo ao modelo do déficit que responsabiliza o aprendiz e apenas ele pelas dificuldades que manifesta e enfrenta.este voltado para pessoas com necessidades educacionais especiais-. Com essas e outras constatações temos que reconhecer que as classes especiais e as salas de recursos não têm cumprido seu papel. com vistas a identificar e operacionalizar as providências pedagógicas a serem adotadas pelos professores. não se dá com facilidade nem para o aluno. no desenvolvimento de escolas regulares de melhor qualidade. dos professores e de todos os recursos humanos que nelas trabalham. pelos recursos lingüísticos diferenciados o que. nas escolas comuns. A grande questão parece ser: como planejar e desenvolver práticas pedagógicas verdadeiramente inclusivas. a meu ver. com foco na educação para todos. não mais como um sistema paralelo e muito menos com a permanência de suas práticas. ao último tópico proposto. Sob essa ótica.

ou seja. sobre a /ógicada escola. quando suas práticas servem para qualificar o progresso das escolas e dos alunos e não como “medição”. passa a acontecer. Seriação e Avaliação: confronto de lógicas FREITAS. pois a forma como a sociedade está organizada afeta o cumprimento desse papel da escola. na prática. e. que prevalece até os dias de hoje. concluiremos pela necessidade de rever a natureza das práticas que temos adotado. a discussão dos princípios deve alavancar as decisões a serem tomadas e as providências cabíveis para atingir objetivos. pode ser traduzido em princípios. autores. vontade coletiva de tornar nossas escolas inclusivas? Esta. Sabendo que vontade política é um ingrediente indispensável na busca de soluções. de fato. colocando o leitor a par dessa polêmica. SãoPaulo:Moderna. Podemos estar presentes e excluídos. Precisa “ouvir a voz das crianças”. instituída no Estado de São Paulo em 1998. . estive no terreno dos princípios. Explica que. Ao tratar. dentre outros. agora. apresenta o argumento de que "há que se diversificar o tempo de aprendizagem". nas escolas. O conceito de inclusão é. dentro da temática da avaliação.queiramos ou não. de tolerância e de igualdade de oportunidades.Os princípios e valores que embasam as políticas educacionais constituem a base axiológica que move os formuladores de política. parafraseando o Prof. Secretarias de Educação de Estados. os dados obtidos nas cartas foram muito mais significativos e propositivos de mudanças do que aqueles coletados nas estatísticas e relatórios disponíveis! As práticas dialógicas envolvendo os atores são muito recomendáveis no espírito da administração compartilhada em que todos são. constitui o que ele chama de "perspectiva ingênua da eqüidade". professores e gestores. como. governo e educadores. LuizCarlosde. Certamente não estou me referindo a nada de novo. trocando “figurinhas”. de Municípios ou do Distrito Federal). Mas. na Comunidade e por políticos voltados para o bem comum e não para seus interesses pessoais. usando todo o tempo que lhe seja necessário. Mas não dependem de boa-vontade e sim de efetivas ações que garantam o funcionamento de escolas de boa qualidade para todos e com todos. 2003. a lógica da avaliação. recursos humanos para alimentar a produção hierarquizada e fragmentada. Precisa ouvir a voz das próprias pessoas em situação de deficiência.Numa exposição clara e bastante didática. da falta de tempo para. Segundo informações do próprio Secretário. A progressão continuada. diz o autor. que se faz no tempo da seriação dos anos escolares. (p. na medida em que o que está previsto nos objetivos. particularmente se não forem removidas as justificáveis insatisfações que a quase totalidade dos educadores manifesta. por exemplo.. o mais sutil porque inclusão é processo e não um estado. permito-me questionar. Sua construção histórica determina a sala de aula como espaço mais importante da produção pedagógica. no primeiro capítulo. do número de alunos por turma. estudarem juntos. sob os argumentos do respeito aos ritmos diferenciados de aprendizagem e da eficácia dos recursos escolares. também. Ciclos. Recupera alguns ideais da educação moderna.. ou nas salas de recursos e por serviços itinerantes. Movê-la não depende só dos educadores e das escolas. Mel: temos. com os processos de aprendizagem artificiais. de uma experiência muito interessante ocorrida em São Luiz. Em qualquer dos níveis de planejamento e administração de sistemas inclusivos. onde foi solicitado a todos os alunos que escrevessem para o Secretário Municipal de Educação. discutirem práticas pedagógicas. Maranhão. dos valores. gostemos ou não". mas está longe de ser o compromisso social da escola na atual sociedade". pois ensinar de maneira tradicional (verbal e por série) é mais rápido que por métodos ativos (pesquisa). nas Universidades. . também. Se democráticos e centrados na aprendizagem em vez do ensino. realmente.os modelos de seriaçãoou ciclos. Para Freitas. analisa em quatro breves capítulos a lógica da escola. a máxima liberal de que a escola deve ensinar tudo a todos. é preciso que cada um avance em seu ritmo. Nesse aspecto nos deparamos. Lembro-me. então. De certo modo. de respeito às diferenças. Sei que é mais fácil falar ou escrever. Em outras palavras. a função da escola é preparar rapidamente. pois "há uma hierarquia econômica fora da escolaque afeta a constituição das hierarquias escolares . as sériesde 5a.a 8a. o que requer um olhar para a necessidade de eliminação dos desníveis socioeconômicos e da distribuição do capital cultural/social entre os alunos. porque a movimentação física de alunos para que estejam presentes nas classes comuns não garante que estejam integrados com seus colegas e aprendendo e participando. agrupou em um módulo as séries de Ia. creio. até os dirigentes das escolas. E o papel da avaliação. nas Escolas. dentre eles. Neste livro o professor Luiz Carlos de Freitas discute. a lógica dos ciclos e a lógica das políticas públicas. os princípios serão verdadeiras alavancas que fazem sair da retórica para a prática. a 4a. em vez de valorizar aquilo que medimos temos que aprender a avaliar aquilo que valorizamos! Penso que esses temas. Se chegarmos a alguns consensos. em outro módulo. merece ser desdobrada em suas instâncias hierárquicas desde os gestores a nível central (MEC. seja nas classes comuns. do despreparo decorrente de sua formação inicial e continuada. pois essas e outras justas reclamações dos nossos educadores são bem antigas.. A articulação entre as políticas públicas para a remoção das barreiras existentes é tarefa de todos nós. na formação social capitalista e no desenvolvimento de suas forças produtivas. Ensinar tudo a todos "pode ser o nosso desejo. em série. esse ideal. seja nas classes e escolas especiais. precisam ser discutidos nas Secretarias de Educação.o autor inicia a discussão sobre como se organizam os tempos e os espaços da escola. quando problematizei o conceito de inclusão. Nesse ponto o autor problematiza as raízes da avaliação na escola e a própria lógica da escola capitalista. isto é.. sendo bem mais difícil concretizar. de modo que a desigualdade social deve ser compensada com os recursos pedagógicos da escola.18) Analisando em alguns autores os antecedentes da concepção de progressão continuada. é a principal de todas as alavancas. uma boa administração precisa de dados confiáveis sobre alunos. Queixam-se das condições materiais em que trabalham. Quanto às formas de administração dos sistemas. dos seus baixos salários. 96p.

Orientando-se pelo tempo de formação do próprio desenvolvimento humano. seremos levados a discutir a posição de todos os atores no processo educativo (. a avaliação surge como um "motivador artificial" para a aprendizagem. Esta obra do professor Luiz Carlos de Freitas expressa seu valor pela atualidade da temática e pela profundidade das críticas que apresenta sobre a escola. estabelecendo diferenças entre os princípios e as concepções do sistema de Progressão Continuada (concepção conservadora e liberal) e aqueles dos Ciclos (propostas transformadoras e progressistas). de prestar atenção em cada um deles. (p.27)..) .39). No segundo capítulo. desenvolve a ação avaliativa em três tempos. A diferença está no fato de o professor ser mais experiente do que o estudante.5l). nesse sistema. . sem resistências. A avaliação do desempenho da escola. mas redefinem seu papel (. Não eliminam a avaliação formal. De forma didática. tempo de compreender seus jeitos de aprender e tempo de mediação.aprenderão a ser submissas. humilhando-o. como uma categoria importante que desvelamecanismos de exclusão da escola. na implantação dos "ciclos de formação". a avaliação assume papel de controle e atua para implementar verticalmente uma política pública. 2°. essas lógicas usuais se cumprem" (p. os parâmetros a serem seguidos pelo professor baseiam-se nas características pessoais e nas vivências socioculturais.. Ela propõe que os educadores experimentem fazer o contrário do que vêm fazendo no sentido de não comparar os alunos.. O sistema de avaliação resultante em notas tem o sentido de estimular o aluno para os estudos -'~prender para trocar por nota" (p. "Devolver essa relação à sua naturalidade é algo fundamental como princípio educativo".e Freitas afirma: "os ciclos procutam contrariar a lógica da escola seriada e sua avaliação". em São Paulo. Nesse aspecto. no entanto. Conclui o autor que essa é a lógica da escola e que decretos não chegam a afetar a trama do processo educativo. Tal explicação evidencia o peso da avaliação informal no processo ensinoaprendizagem.. Conclui o autor que os ciclos devem ser vistos como um processo de mobilização e tomada de consciência dos reais impedimentos para que os estudantes aprendam. e não "aprender para intervir na realidade". O autor acrescenta a essa visão a noção de que os ciclos devem planejar suas vivências. muito menos a informal.)" (p. a lógica da exclusão e a lógica da submissão se completam: caso as crianças não aprendam o conteúdo escolar.) Valores e Atitudes: sua avaliação se revela-nos momentos em que o professor critica os valores e atitudes do aluno. subdivididos entre infância. tempo de conhecer bem os alunos.59) Outra dimensão apontada pelo autor diz respeito à auto-organização dos estudantes.) Comportamento: expressa o controle e o poder do professor sobre o comportamento do aluno. pré-adolescência e adolescência. No processo histórico de constituição escolar. prepara-a para um quase mercado. de reinventar as práticas avaliativas para não deixar nenhum estudante sem aprender. No quarto capítulo. através dos mecanismos de competição. "Ao 're-situarmos' a posição do aluno. Elabora três segmentos de avaliação do processo pedagógico que ocorre em sala de aula entre professor e alunos: 10. tendo em vista que as relações devem ser horizontalizadas e não baseadas na aprendizagem da subordinação. O terceiro capítulo analisa a lógicadosciclos. já devem ser apoiados. pela escola. visando a obediências.30).)" (p. gerados por uma estrutura social injusta. pois.62).estabelecendo forte vínculo com a realidade social (no sentido de apontar suas contradições). (p.A forma atual da escola diz respeito às necessidades de preparação de mão-de-obra do capitalismo: o conhecimento foi partido em disciplinas e distribuído por anos. O Jogo do contrário em avaliação Jussara Hoffmann O título deste livro revela o posicionamento da autora frente às práticas avaliativas excludentes e ainda vigentes no país. O autor apresenta um quadro esquemático. Suas considerações teóricas aparecem exemplificadas com interessantes estudos de casos e outros exemplos Parte I Entre claros e escuros da avaliação Avaliação formativa ou avaliação mediadora? Processo subjetivo e multidimensional Uma ação em três tempos Uma concepção formativa e mediadora As contribuições de Piaget e Vygotsky . através de provas e trabalhos.. comparação e premiação.59). iludi-lo pelo caminho da inovação alienante. punição. o autor opina que os ciclos não devem ser implantados como política pública que determine sua adoção em massa ..a escola deve ser o palco dessa aprendizagem (. Também se revela a noção do trabalho coletivo e da solidariedade como ancoragem da aprendizagem: "estudantes não 'exploram' o professor. ao discutir a lógicadas políticas públicas.28). professor não 'explorá o estudante e estudante não pode 'explorar' estudante". Para Freitas.as escolas devem ter autonomia para fazer a opção pelos ciclos. "Não foi o professor quem inventou essa lógica: ela faz parte da própria gênese da escolà' (p. sem.) Instrucional: baseia-se na demonstração do domínio de conteúdos e habilidades pelo aluno. marcada pela generosidade de não culpar apressadamente o professor pelos problemas surgidos na realidade. "Deixadas ao acaso. "Convencionou-se que uma certa quantidade de conhecimento devia ser dominada pelos alunos dentro de um determinado tempo" (p. tão presente nos discursos pedagógicos atuais. o autor apresenta a lógicatk avaliação como aquela que leva a "aprender para mostrar conhecimento ao professor". Só por isso. 3°. O autor aborda de forma positiva as experiências lançadas pela Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte e de Porto Alegre. tão "eficientes"quanto aqueles expressos na falsa neutralidade da avaliação formal. o autor critica a implantação da progressão continuada no Estado de São Paulo.

O papel mediador do professor Aprender ou não aprender? Com que critérios avaliamos? Leituras positivas e negativas O aprender sem complementos Evolução e conjunto das aprendizagens O aprender e o desejo de aprender Respeitar ou valorizar as diferenças? Cuidados especiais Uma pedagogia do contágio Quantidade ou qualidade em avaliação? Qualidade e aprendizagem: conceitos multidimensionais Da observação à ação reflexiva: relatórios e dossiês Relatórios: compreender e compartilhar histórias de vida Relatórios: do pensar ao agir na formação docente Sistema de avaliação é causa ou consequência do fracasso escolar? A discussão sobre regimes não seriados e reprovação Sobre o princípio de não reprovar Acesso e permanência na escola Movidos pela aprendizagem? Parte II Fazendo o jogo do contrário em avaliação O jogo do contrário em avaliação Observar aluno por aluno Os “difíceis” estudos de caso Avaliação mediadora em três tempos Tempo de admiração: conhecer para justificar o “não sido” ou compreender para promover oportunidades? O princípio de compreender O exercício do aprendizado do olhar O compartilhamento do olhar avaliativo A multidimensionalidade do olhar E o que se admira afinal dos e nos alunos? A perigosa prioridade às questões atitudinais Valoração objetiva e subjetiva: um olhar em ação Autoavaliação: um olhar que “realiza” o próprio aluno Conselhos de classe: compreender para encaminhar? Arquivos e registros: constituindo histórias Leitura positiva com apoio multidisciplinar Tempo de reflexão: corrigir tarefas ou interpretar situações de aprendizagem? Interpreta-se para compreender Tempo de reflexão: entrelaçando olhares Sobre o cenário avaliativo Sobre as relações afetivas Mediando a aprendizagem da leitura e da escrita Sobre a dinâmica das aprendizagens Análise dos avanços e necessidades percebidas Percursos possíveis de um olhar reflexivo A qualidade dos instrumentos de avaliação O tempo de reflexão e a dimensão do sensível Tempo de reconstrução: avaliar para aprovar e reprovar ou formar para vida? A experiência dos países que avançaram Finlândia: a leitura em primeiro lugar Malásia: diversidade e multidimensionalidade Experiências em avaliação mediadora no país Relatos de casos Sobre o inédito-viável Avaliação formativa ou avaliação mediadora? .

O livro Para entender o negro no Brasil de hoje: história. dossiês dos alunos (registros de avaliação). provas ou exercícios (instrumentos de avaliação). que possibilitam aos alunos superar quaisquer desafios. pelo contrário. uma vez que toda observação ou “exigência” do professor passa a vir acompanhada de apoios. Reconstruir as práticas avaliativas sem discutir o significado desse processo é como preparar as malas sem saber o destino da viagem. b) analisar e compreender suas estratégias de aprendizagem. pois levou 115 anos para introduzir no ensino o estudo da matriz cultural africana. diz professor Até agora ausente das prateleiras de bibliotecas e das salas de aula. Essa é a intenção do avaliador: conhecer. concepções de educação. o processo avaliativo é sempre de caráter singular no que se refere aos estudantes. Muito menos se deve nomear por avaliação boletins. Se antes a temática não representava um mercado potencial para as editoras. resultando em atitudes e respostas diversas por parte destes. Não se pode dizer que se avaliou porque se observou algo do aluno. analisar e promover melhores oportunidades de aprendizagem. instrumentos de testagem e formas de registro. cada aluno irá estabelecer maiores ou menores vínculos intelectuais e afetivos com cada professor. Ao avaliar efetiva-se um conjunto de procedimentos didáticos que se estendem sempre por um longo tempo e se dão em vários espaços escolares. É preciso. semestres. e por Nilma Lino Gomes. não podendo ocorrer por etapas delimitadas. Decorre daí que não se deve denominar por avaliação testes. que nasceu na República Democrática do Congo e leciona na USP desde 1980. nesse caso. a lei federal 10. acolher os alunos em suas diferenças e estratégias próprias de aprendizagem para planejar e ajustar ações pedagógicas favorecedoras a cada um e ao grupo como um todo. Voltado para Educação de Jovens e Adultos (antigo supletivo). não podem ser determinantes da sistemática de avaliação. ainda mais quando se trata de acompanhar os alunos no processo evolutivo da leitura e da escrita. E ela não caiu do céu.639 ajuda a desconstruir o mito da democracia racial no Brasil? Kabengele Munanga . é não fazer a intervenção pedagógica no tempo certo. fichas. sobre procedimentos adotados como justos. Bimestres. portanto. Da mesma forma. ele estará afetando vidas e influenciando aprendizagens individuais. problemas e caminhos (Global Editora/Ação Educativa) foi escrito pelo antropólogo Kabengele Munanga. trimestres. uma ação pedagógica desafiadora e favorecedora à superação intelectual dos alunos. É preciso refletir. então. O objetivo de “promover melhores condições de aprendizagem” resulta em mudanças essenciais das práticas avaliativas e das relações com os educandos. uma vez que as posturas avaliativas inclusivas ou excludentes afetam seriamente os sujeitos educativos. estabelecer-se-á de forma diferente com cada um deles. Por meio da ação mediadora. momentos de o professor dar notícias sobre o caminho percorrido pelo aluno até aquele momento. as anotações sobre seu desempenho bimestral. Nesse caso. do próprio professor ou de professores que lhe sucederem. não houve a mediação. mais especificamente. a obra também está sendo usada em cursos de graduação de outras universidades. Esta justificativa não é pertinente! Todo processo avaliativo tem por intenção: a) observar o aprendiz. o significado essencial desses registros é servirem de pontos de referência para a continuidade das ações educativas. Métodos e instrumentos de avaliação estão fundamentados em valores morais. de “alunos que tomam tempo”). sua relação. a nova legislação já dá mostras de avanços concretos. seja em termos de estratégias de sala de aula. ou seja. procedimentos de caráter múltiplo e complexo tal como se delineia um processo. anos letivos. Mesmo que o educador trabalhe com muitos alunos. ou seja. Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Tal processo é alicerce ao desenvolvimento dos alunos em todas as áreas de conhecimento. pensar primeiro em como os educadores pensam a avaliação antes de mudar metodologias. etc. mas é resultado da luta do movimento . defendeu o sistema de cotas e apresentou algumas idéias de sua obra. Somente se constitui o processo como tal. e c) tomar decisões pedagógicas favoráveis à continuidade do processo. da Faculdade de Filosofia. quando são feitos ao final de anos letivos. Em entrevista ao USP Online. Ou denominar por avaliação apenas a correção de sua tarefa ou teste e o registro das notas. Em vigor desde janeiro de 2003. Perder tempo. porque. livros paradidáticos que levantam questões sobre o negro brasileiro sem reduzi-lo a objeto começam a aparecer. com a prerrogativa de que se avaliam muitos alunos nas escolas e universidades. no que se refere aos registros escolares. realidades. Da mesma forma. Nova legislação e política de cotas desencadeariam ascensão econômica e inclusão dos negros. se ocorrerem os três tempos: observar. compreender. A avaliação da aprendizagem. nenhuma atenção aos alunos é considerada em demasia (como muito se fala. por exemplo. é contínua e evolutiva.Para se entender de avaliação. seja em termos de Conselho de Classe ou de apoio pedagógico de qualquer natureza. tanto intelectuais quanto afetivos. Dessa forma. no processo avaliativo. o professor Kabengele. da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. São essas as concepções que regem o fazer avaliativo e que lhe dão sentido. de sujeito. tempos de análise de tarefas e devolução aos alunos. são pequenas “paradas” de um trem em movimento.639 torna obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana em todas as escolas de ensino fundamental e médio públicas e particulares. Portanto. da tomada de decisão. A aprovação da lei 10. hoje. envolve e diz respeito diretamente a dois elementos do processo: educador/avaliador e educando/avaliando. Mas tratando-se a avaliação de um processo. de sociedade. No sentido de sua sistematização. como se defendeu de início. Alguém (educando) que é avaliado por alguém (educador). decorrente da interpretação das tarefas. a intervenção pedagógica. relatórios. devem-se programar tarefas avaliativas.A lei vem provar que o Brasil não era uma democracia racial. estratégias interativas decorrentes. o primeiro passo é conceber o termo na amplitude que lhe é de direito. conversou sobre a educação no Brasil.

Qual a importância da Frente Negra Brasileira e do Teatro Experimental do Negro para a educação e inclusão dos negros? K. Como se o machismo e a homofobia não fossem uma questão social. Nesse sentido. foi preciso negar os atributos daquelas sociedades. das tribos. a partir das lutas pelos direitos cívicos nos anos 1960. Porém. ou uma questão social. O senhor explica que foi após a conferência de Berlim (1885) que se deu a passagem de uma imagem positiva do povo e continente africanos para uma negativa. ensine a história e cultura dos negros africanos. Porém. uma parcela deles conquistou uma grande mobilidade social e econômica. Mesmo porque isso significaria acabar com a clientela das escolas particulares. Um aluno que entra pelas cotas e se forma. A experiência deles deu certo. o nomeia. Movimentos negros anteriores.Os primeiros viajantes na África. Não basta força militar. classe social. A nova lei tem tudo de positivo. os impérios e reinos africanos.Foram tentativas. Aqueles negros colocaram o mesmo problema que hoje estamos colocando: a educação é um dos caminhos para poder integrar o negro no mercado de trabalho. baseada na melhoria da escola pública. que vai lhe abrir muitas portas. Mas a situação dele será diferente. A lei não disse que África e Brasil ensinar. que surgiram em 1975. ambos os movimentos lutam para que o negro faça parte do sistema educacional. Não é verdade. E quando ele encontrar alguma porta fechada. eles acham que podem fazer algo. religião. como foi o caso de José Corrêa Leite. ciência e tecnologia. mas o social não é algo abstrato. um dos fundadores da Frente Negra Brasileira.Seria uma injustiça dizer isso. mas esteriotipada. A Frente Negra Brasileira foi um movimento social fundado por uma elite negra dos anos 30. Então não adianta dizer que basta melhorar o nível das escolas públicas. Ele certamente passará em um concurso público. nos livros didáticos. pois não colaboro com ONGs e conheço muito pouco sobre elas. Mas a partir do momento em que pobres e ricos mandarem seus filhos para as escolas públicas. como se não houvesse outras experiências em outros lugares? K. E se isso não for feito. cor. deixavam documentos sinceros sobre aquela sociedade. É o caso. Munanga . Munanga . Eles acham que a questão é simplesmente econômica. Simba Safári.Justamente porque não há vontade política para mudar as coisas. Mas se não fosse a lei. Todas as questões que tocam a vida do coletivo são sociais. Quantas coisas o Brasil copia dos Estados Unidos? Modelo econômico. Aids. Munanga . É como dizer que a sociedade deixou de ser machista. Munanga . dos EUA. O problema de cotas irá se colocar novamente. ninguém se mobilizaria. Não creio que eles estavam fazendo isso com o espírito da Missão Colonizadora. Não copiam as cotas porque não querem. Se o governo conseguisse fazer isso [melhorar a escola pública] seria ótimo. É isso o que a lei pretende corrigir. relatando as formas de organização política. Ela foi a primeira a denunciar o mito da democracia racial. O pobre estudava nas escolas particulares. ou poderá ter emprego e dinheiro para contratar um advogado. Muitos acham que o caminho para corrigir as desigualdades sociais seria uma política universalista. expressão artística etc. Além de introduzir a história da África no currículo. com intelectuais nas grandes universidades. os negros e pobres não tiveram acesso a ela... Na Índia o governo também adotou a política das cotas para as castas dos "intocáveis" desde 1950. A diferença é que os movimentos negros atuais. além de reivindicar a escola também querem que ela reconheça sua identidade. haverá outras formas de excluir o negro. nada vai acontecer. Como é o ensino da cultura afro-brasileira e africana na escola? K. Para se justificar a dominação através do discurso da Missão Civilizadora. que possuem um forte lobby e não tem nenhum interesse em ver escola pública de boa qualidade. Munanga . por exemplo.Chegou um momento em que movimentos sociais negros eles descobriram que o único caminho para garantir o acesso do negro à educação superior de boa qualidade era através de uma política pública. Será que a África é só isso? Já viu algum livro didático mostrar que a África é o berço da humanidade. queriam simplesmente se integrar na cultura dominante. idade. vai encontrar as mesmas barreiras do preconceito no mercado de trabalho. como os árabes. Mas isso é um discurso para manter o status quo. tem especificidade. como no caso específico da Frente Negra. Há uma classe média negra bastante notável. A África é um continente de 56 países e ilhas. porque enquanto se diz isso nada é feito. muitas organizações contribuíram com os países africanos. uma medida obrigatória. é ele que legitima a situação do "outro". tem endereço. é preciso que o poder seja legitimado pelo discurso. pois ele terá sólida formação. K. que a civilização egípcia era negra? Nunca se viu na historiografia oficial. A África é simplesmente tida como tribo. Então haveria um círculo vicioso? K. É essa África que foi ensinada na historiografia oficial. em que a identidade africana e dos afro-descendentes é apresentada de maneira positiva. Havia uniformes caros e outros mecanismos que os excluíam. Os livros escritos depois da colonização não trazem mais uma África autêntica. no sistema de poder. sexo. Quando começou a colonização da África. médicos em grandes hospitais. Muitos brasileiros ainda não acreditam na existência do racismo no Brasil. três anos após a independência do país. e só depois a academia foi estudá-lo. fazendo o que o governo não fazia no sistema de saúde e educação. engenheiros até na NASA. Quantos negros há na Universidade de São Paulo? Como surgiu o debate sobre cotas? K. Como membros da sociedade e conscientes das injustiças cometidas contra essas sociedades. que as maiores civilizações se desenvolveram lá. é preciso que ela seja efetivamente implementada e que seja definido exatamente o conteúdo a ser ministrado.social negro. por que no Brasil ela tem um tom de novidade. guerras. é uma nova história que será ensinada. É claro que o sistema de cotas é uma experiência que já foi vivida por outros países do mundo. essas memórias foram apagadas.A África que nós conhecemos é a do Tarzan. que pretendem salvar o negro e pobre (já que no Brasil pobreza tem cor)? K.Sim. O discurso é também um dispositivo de dominação. onde os negros são cerca de 12% da população e. É uma grande diferença. de classes. se contar apenas com a boa vontade do cidadão. não cruzam os braços. Munanga . fome. mas há uma saída. Munanga . Isso também tenta justificar a posição do negro na sociedade brasileira. o que tornaria todos os cidadãos brasileiros capazes de competir. Não se esqueça que quando as escolas públicas no Brasil eram boas. saberá lutar por seus direitos. Se essa política já existe em outros países. O senhor vê resquícios dos princípios da Missão Civilizadora em alguns trabalhos assistencialistas de organizações não-governamentais. Parto do princípio de que muitas delas perceberam que o Estado não estava cumprindo suas obrigações. A mulher está ocupando espaços .

mas o aluno que entra pelo ProUni se informa sobre o programa e sabe porque está indo à universidade.. achavam que ele não servia para nada. O homem nasce livre até que alguém o escravize. “[. tanto na educação dos filhos como na futura ascensão econômica deles. Em compensação. Serve tanto para o que educa. hoje se tem mais de 40 mil afro-descendentes que entraram nessas escolas particulares. Qual era o conceito de "escravo" na África antes dos tráficos liderados por europeus e árabes? K.. A competência abre muitas portas. o próprio conceito está errado. na África existia a categoria de cativos. Além disso. E todas têm o efeito multiplicador. O jogo das diferenças: o multiculturalismo e seus contextos. diferente da africana. Belo Horizonte: Autêntica. Os escravizados foram deportados para os países do Oriente Médio. Em seu livro e em outras obras. e os desdobramentos dessa política identitária no mundo contemporâneo. não é verdade. SILVA. E ele pode também se tornar aquele referencial que o negro não tem. Munanga . São duplamente discriminadas. Luiz Gonçalves. . que fez pós-doutorado em Sociologia pela Ecole des Hautes Etudes em Sciences Sociales (Paris-França). não deixará seus filhos passarem pelo mesmo caminho. o senhor desconstrói o mito de um sistema escravista africano que justificaria e legitimaria as formas de escravidão que deram origem aos tráficos. enquanto as mulheres se tornavam esposas e reprodutoras das famílias reais. Começou no século VI e terminou no século XX. os negros eram cerca de 70% da população. Por isso alguns eram enterrados vivos com reis.” (p. mas de subsistência. Petronilha Silva. esse conceito já está enraizado na literatura. pois as mulheres negras são as maiores vítimas da discriminação. A expansão do ensino público leva tempo. Essa categoria de cativo africano foi traduzida como escravo. pois não era uma sociedade de acúmulo de capital. a educação tem fator de multiplicação. caso sua família original não tivesse condições de adquiri-lo de volta.Creio que sim. Os homens trabalhavam como serventes dos reis. No Brasil. pois o sistema escravista pressupõe que os escravizados sejam bem mais numerosos que os senhores.” (p. A Arábia Saudita a aboliu em 1962. que é uma forma de questionar a ideologia etnocêntrica ou o eurocentrismo. no sentido de propiciar a conscientização política e ascensão econômica de pobres e negros? K. que possui pós-doutoramento em Teoria da Educação pela University of South Africa (Pretória-África do Sul). Em qualquer circunstância. Esses parentes poderiam trabalhar em outras famílias temporariamente ou para sempre. 4. algumas sociedades africanas não queriam nem guardar o cativo. Talvez não se fale muito porque não se vê tantos negros mestiços nos países árabes como se vê nas Américas. Como essa mulher também não tinha uma formação política. O acesso que ele tem a uma certa mobilidade social e ascensão econômica faz com que seus filhos possam estudar em uma boa escola. a existência do chamado "escravo" não é razão para aceitar a escravidão. Muitos reis e príncipes colaboraram com o tráfico negreiro para outros continentes. até século XVII. Dito de outra forma. Mas este fato também não justifica a escravidão. Enquanto isso os jovens que terminaram o Ensino Médio não podem estudar? Graças ao ProUni. O ProUni (Programa Universidade para Todos) teria os mesmos resultados que as cotas em universidades púbicas. além da Apresentação e das Referências. 22). Em hipótese alguma havia um escravismo como sistema de produção.Não se fala sobre isso porque a escravidão liderada pelos árabes é anterior à européia. para servi-lo no outro mundo. muitos trabalhavam como eunucos. O senhor se refere às mulheres brancas? K. príncipes e guerreiros. achava que seu lugar era na cozinha e na maternidade. famílias penhoravam algum parente quando havia grandes calamidades.. Serve igualmente aos indivíduos que querem “apenas” praticar a ação de respeitar o outro. como para o que está se formando educador. Em outros casos. Luiz Alberto Oliveira. Não sei como as escolas particulares trabalham as questões raciais. Além do mais. O texto em questão possui como tema central o multiculturalismo. passou por uma boa universidade. produz hiatos e descontinuidades na forma como as Ciências Sociais apresentam a sociedade a qual estudam. Porém. tem consciência dos problemas da sociedade. (Coleção Cultura Negra e Identidades).] o problema da diversidade cultural no centro dos debates políticos de sua época. Inclusive quando as pessoas dizem que o Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão. “Multiculturalismo e educação nos Estados Unidos”. que eram prisioneiros de guerra ou pessoas que cometiam algum delito na sociedade e eram levadas por outros grupos étnicos. 112 p. Mas não o é.Sim.] o multiculturalismo desde sua origem aparece como princípio ético que tem orientado a ação de grupos culturalmente dominados. A importância dessa obra é patente para quaisquer sujeitos. não "escravo". embora muitas outras estejam fechadas. Resenha: O jogo das diferenças: o multiculturalismo e seus contextos GONÇALVES. Quando se fala de escravidão na África só se pensa no tráfico liderado pelos europeus. enquanto mulheres e enquanto negras.públicos porque ela lutou e se capacitou. Um jovem que foi para a escola. “O multiculturalismo na América Latina” e “Estudos culturais e pesquisa em educação no Brasil”. Petronilha Beatriz Gonçalves e. Todos os filhos dos cativos eram livres. Isso é um ganho. Mas o acesso à educação propicia melhor conscientização e capacidade de lutar pelos seus direitos. ed. o livro “O jogo das diferenças: o multiculturalismo e seus contextos” faz parte de uma coleção denominada “Cultura Negra e Identidades”. por quatro capítulos assim denominados: “O multiculturalismo e seus significados”. Munanga . 17).. o multiculturalismo recoloca “[. É uma história que ninguém conhece. capturando negros de outros grupos étnicos para vendê-los como escravizados.Em primeiro lugar. a escravidão é uma instituição desumanizante e deve ser condenada. 2006. Portanto. Apesar de as mulheres servirem como concubinas nos haréns. o conceito de "escravo" vem de outra visão de mundo. e da professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A obra é composta. aos quais foi negado o direito de preservarem suas características culturais. Como em outras sociedades. De autoria do professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Munanga . a taxa de mortalidade dos negros era alta. Munanga . cuja coordenação é da educadora Nilma Lino Gomes. Em segundo lugar. Isso porque era freqüente a castração dos negros. E a responsabilidade árabe com a escravidão através das rotas oriental e transaariana? K. Há faculdades particulares de qualidade. Não há uma categoria de escravo natural. O correto é "escravizado".

Africologia e o nome do seu fundador. A reflexão mostra que o desenvolvimento infantil se dá pelo movimento. são mencionados no penúltimo capítulo os movimentos sociais que se engajaram na luta pelo respeito à diversidade cultural. com regularidade e continuidade do trabalho em casa. o vínculo mãe/criança. De acordo com estudos realizados na área de intervenção precoce. ao procurar construir uma suposta identidade nacional. embora existam vários movimentos sociais lutando para ampliar o espaço de tais políticas.. Dentre os assuntos abordados. a proposta desta comunicação é analisar o desenvolvimento da criança cega até dois anos de idade para aplicação de um programa de intervenção precoce do tipo Follow-up com crianças cegas. favorecendo as estruturas do pensamento e da linguagem. O segundo capítulo analisa o surgimento do multiculturalismo nos Estados Unidos da América (EUA) e define quais questões o mesmo defendia e continua a defender nessa sociedade. da música. o Estado nacional constitui-se como um objeto que também precisa ser re-significado pelos agentes multiculturalistas. Portanto. porém o ritmo é mais lento. Para demonstrar como se deram essas questões foram explicitados os significados de inúmeros temas-assuntos. particularmente com a mãe. INTRODUÇÃO A educação especial como linha de pesquisa do programa de pós-graduação em educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) adota um enfoque psicossocial: centrado nas pessoas com deficiências. em níveis acadêmicos. da literatura militante e da corrente culturalista. desenvolver-se. tanto na Educação Básica como na Educação Superior. Esses elementos são desconstruídos à luz do multiculturalismo afrobrasileiro que. da linguagem. o que ocorre é que as políticas multiculturais ainda são pouco contempladas nos currículos escolares. a sociedade brasileira. Na realidade. preferência sexual. Ou seja. que possui o monopólio da força legalizada. em especial o brasileiro. foram externadas as organizações afro-brasileiras existentes no Brasil e as políticas multiculturais por elas empreendidas para alterar os currículos escolares. o multiculturalismo passou a ser uma forma de defender também outras questões. aprendizado da diversidade e foram externadas também algumas críticas feitas à educação multicutural. vale frisar que o livro “O jogo das diferenças” é um instrumento muito relevante para evidenciar a diversidade cultural que compõe a sociedade brasileira. por exemplo. Apenas uma pequena parte das dissertações de mestrado e das teses de doutorado abordou a questão multicultural. na criança que não vê. de uma forma ou outra. bem como a análise do programa de atendimento em intervenção precoce. No dizer dos autores. pedagogia da eqüidade. assim como a relação com o ambiente e com as pessoas. filosofia afrocêntrica. A análise do programa mostra que seu sucesso depende do atendimento direto prestado à criança. Estudos Asiático-americanos. a Teoria da Negritude e a Teoria do Sujeito.” (p. PALAVRAS-CHAVE: Desenvolvimento sensório-motor – Programa de atendimento em intervenção precoce e criança cega. a noção do objeto. serve inegavelmente para denunciar e alterar a realidade de exploração na qual vivem milhões de agentes históricos. é extremamente complexo. a ausência da visão irá interferir na construção do seu . cujo tema central de investigação foi o multiculturalismo. participar da vida em sociedade e exercitar sua cidadania. e à família com orientações e integração de esforços. Destaca-se ainda nesse capítulo as transformações alavancadas pelo multiculturalismo na sociedade em geral e as contribuições dele (dos agentes que o integram) para determinadas parcelas da população. quem faz a leitura da obra não pode negar que o Brasil e também o mundo são extremamente multiculturais. um delineamento que leva em conta as possibilidades do sujeito para aprender. São externados também os sujeitos que empreenderam lutas em prol dos direitos civis.No primeiro capítulo os autores externam pormenorizadamente várias compreensões sobre o significado do que é multiculturalismo. ou seja. que são. tendo em vista que os primeiros estudos multiculturais datam do final do século XIX. que comparam crianças cegas1 com crianças videntes (que enxergam). tal como ocorre com os currículos escolares das instituições ensino. no tocante à postura e a deslocamentos. Os reflexos são análogos. Essa denúncia foi e é feita por meio da poesia. INTERVENÇÃO PRECOCE: REFLEXÕES SOBRE O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA CEGA ATÉ DOIS ANOS DE IDADE Gérson Carneiro de Farias* RESUMO O artigo envolve a reflexão do processo de desenvolvimento infantil da criança cega até dois anos de idade (período sensório-motor): as aquisições motoras tais como o desenvolvimento da preensão. O Estado. quem nega a multiculturalidade acaba por negar também a sua própria história. resguardando a função óculo manual da criança que enxerga e que. tais como: gênero. da afirmação da cidadania e da participação ativa dos “excluídos” na sociedade norte-americana. bem como explicitam que inicialmente este tinha como centralidade a questão étnica e procurava dar visibilidade aos negros e indígenas. para que os mesmos contemplem a diversidade cultural que compõe. Nesse sentido. Estudos Negros. por exemplo. quais sejam: Black Studies. adaptar-se. No último capítulo tem-se um estado da arte da produção científica realizada em Instituições de Ensino Superior (IES) brasileiras. efetivamente.. educação multicultural. Estudos Afroamercianos. Por fim. Contudo. afrocentrismo. Nesse sentido.] não se têm claramente formulada uma proposta que garanta. Sendo assim. A pós-graduação desenvolve pesquisas do tipo Follow-up: efeitos de programas para enriquecimento. a seqüência do desenvolvimento da criança cega é igual a da criança vidente. por sua vez. Posteriormente. em síntese. o principal campo de atuação dos multiculturalistas. bem como o chamado “mito da democracia racial”. esse trabalho não é nada fácil. “[. Além desses assuntos. O terceiro capítulo trata do movimento multicultural na América Latina. geração e pessoas que portam o que se chama de necessidades especiais. ao contrário. por inibir/coibir a pluralidade cultural de inúmeros povos. pode-se destacar a contestação da “imagem de paraíso racional” existente no Brasil. 96). sobretudo as contribuições no campo dos direitos civis e na área educacional. acaba. Estudos Índio-americanos. Os dados não são nada favoráveis à produção multicultural. uma formação permanente de professores e uma política cultural de envergadura nacional.

A criança vidente começa a repetir ações que produzem efeitos no ambiente. em um extremo processo de adaptação e progressiva conquista deste ambiente (NUNES. neste estágio. mas pode haver uma aversão à voz de estranhos no oitavo mês (WARREN. Freedman e Cannady (1971) assinalam que a restrição ambiental incide mais no processo de orientação e mobilidade2 do que a perda da visão. Contudo. a criança cega deve ser colocada em ambientes ricos em estímulos auditivos e táteis para que sua audição e mão aprendam a funcionar em conjunto. isto é. bem como na aquisição da fala. afirmam Warren e Kocon (1974). De um modo geral. Continua o uso da boca e das mãos. que indica dois processos de aprendizagem que ocorrem na primeira infância: a) aprendizagem iniciada pela criança e b) aprendizagem facilitada pelo adulto (NUNES. 1984). mas procurando e preparando tais estímulos de forma a tornálos úteis para a solução da questão e para o planejamento de ações futuras. denominado sensório-motor. é neste período que o desenvolvimento infantil. até o quarto mês a criança cega fará uso da mão e da boca de modo limitado e ao acaso para conhecimento do objeto. os passos e o colo. dos reflexos de proteção. Tais estudos reforçam ainda que a cegueira é fator de restrição ao processo de desenvolvimento como um todo. Com a audição e a mão funcionando em conjunto. É nesse período. permitindo-nos a reflexão de que um programa de atendimento em intervenção precoce poderá minimizar ainda mais essa diferença (FARIAS. O período de desenvolvimento intelectual a ser considerado nesta comunicação é o sensório-motor de Piaget (1975). 27-9) esclarece que antes de controlar o próprio comportamento. ANÁLISE SOBRE O PERÍODO SENSÓRIO-MOTOR Com base nesses estudos e levando-se em consideração o período sensório-motor. que a satisfazem e são interessantes para ela. progredirá de simples reflexos para a representação e internalização do pensamento. Outros fatores que interferem no processo de desenvolvimento infantil da criança cega é o pouco contato da mãe com a criança (BURLINGHAM. 1979). a integração das atitudes do outro na criança se faz mediante seu jogo tônico e. assim como a síndrome da superproteção. Por exemplo. vocalizando e imitando seus mediadores. 1984). controlando-a e tornandoa parte necessária de sua atividade prática. 1984). acarretando na área da locomoção a perda do equilíbrio. Mostra controle geral dos movimentos dos braços e pernas. equilibrar.]. Ferrel. a criança vai desenvolvendo atitude inteligente no mundo que a cerca: a manipulação de objetos e o relacionamento com as pessoas vão se estabelecendo de forma segura e autônoma.. o presente artigo foi redigido.1976). que não só asseguram sua sobrevivência. do nascimento até dois anos de idade. de atenção. devido à imaturidade motora. Necessita de carinho. Isso mostra que a criança cega necessita da ação do outro e do objeto.. mediante experiências repetidas. quanto para o desenvolvimento das estruturas cognitivas e de linguagem. a criança pode sorrir em resposta à voz dos pais. A criança vidente produz ações que causam efeitos no ambiente.. dirigida para a solução do problema em questão [.. 1984). da coordenação motora e do sentido de justeza dos passos (MILLER. p. a criança continua sorrindo em resposta à voz da mãe. organização e estruturação espaciais. iniciando desse modo seu processo de aprendizagem. 3-Reação Circular Secundária (de 4 a 8 meses). de abrigo.esquema corporal futuro: lateralidade. VYGOTSKY. 1-Reflexos (do nascimento até 1 mês). o qual Wallon (1976) chama de diálogo tônico com a mãe e o brinquedo cantado (música). Sendo a cegueira fator de restrição ao processo de desenvolvimento no seu campo de ação no tocante a gesto e rapidez. a criança começa a controlar o ambiente com a ajuda da fala.]. outros não. a criança tem um período muito longo de dependência do adulto. que a satisfazem e que sejam interessantes para ela.1995. Shaw e Deitz (1998) acrescentam que o tempo se encarrega de diminuir a diferença que existe entre as aquisições básicas de desenvolvimento da criança cega em relação à criança vidente. FRAIBERG. Com o objetivo de refletir sobre o desenvolvimento da criança cega até dois anos de idade e a atitude do educador a ser tomada frente ao programa de atendimento em intervenção precoce. por exemplo. arrastar. as crianças resolvem suas tarefas práticas com a ajuda da fala. pela experiência vivida de seu corpo em movimento. a criança aprende a planejar sua atividade. a manipulação dos objetos ajudará na construção da inteligência prática futura e na noção do objeto. Isso produz novas relações com o ambiente. por meio da motricidade social. a criança vem a estruturar as situações afetivas em esquemas tônico-emocionais específicos. neste estágio. fazendo incursões no pensamento de Wallon (1976) da linguagem e o vínculo mãe-criança. usando como instrumento não somente os objetos à mão.. Alguns refinamentos da ação reflexa ocorrem com as descobertas infantis. 1989). 1967. tendo assim seu processo de aprendizagem facilitado (WALLON. Ou seja. a criança está em constante interação com os adultos. 1995). de alimentação e higiene. DESENVOLVIMENTO COGNITIVO De acordo com a teoria de Piaget (1975). A criança começa a produzir sons silábicos. Sobre esse assunto. por exemplo (WARREN.]. Nesse sentido. 1995). Em um ambiente rico em estímulos e graças ao movimento. que a criança constrói gradativamente o conhecimento de si própria e do ambiente na e por meio da sua contínua interação com o ambiente físico e social. 2-Reação Circular Primária (de 1 a 4 meses). Para Piaget (1975). alguns objetos são sugados. a repetição das ações se dá somente pelo prazer e não são ainda controladas pelos efeitos no ambiente. fala e ação faz parte de uma mesma função psicológica complexa. Na criança cega pode haver atraso nos reflexos e um desenvolvimento motor mais lento. são processos interativos entre mãe e criança que irão fortalecer o desenvolvimento da linguagem futura. facilitando desse modo seu processo de locomoção: rolar. Segundo Freedman (1964). O comportamento infantil é caracterizado inicialmente por respostas reflexas do próprio corpo da criança e por alguns aspectos do ambiente externo. Vygotsky (1989) ressalta que. a ação da criança sobre o seu corpo e sobre os objetos que a rodeiam é fundamental tanto para o desenvolvimento da motricidade e da percepção.1965) e a ausência de estimulação vestibular3: mudanças de posição da criança ou balançá-la no colo. quadrupedar. o desenvolvimento da criança cega é semelhante ao da criança vidente neste estágio (WARREN. SMITH e ADELSON. assim como dos olhos e das mãos [. Vygotsky (1989. além de uma nova organização do próprio comportamento [. mas também mediam sua relação com o mundo. Essas ações inicialmente são dirigidas mais para seu próprio corpo do que para os objetos a sua volta. O contato corporal. Este período subdivide-se em seis estágios. Inicia-se a exploração dos objetos sonoros em experiências auditivas e táteis: a voz da mãe. e na orientação e identificação dos objetos e pessoas (WARREN. apoiar e andar. ou seja. requisita assistência de outra pessoa. Desse modo. . A criança interioriza um aspecto de outra pessoa e se transforma em função desta. Em outras palavras.. E. desde que nasce. reforçando ainda o vínculo afetivo entre os dois. esclarece Vygotsky (1989). Este estágio marca o início da orientação eficaz no ambiente.

1994). O desenvolvimento do esquema corporal futuro se dará por experiências do corpo em sensações cutâneas com o meio. O início da intencionalidade é visto neste estágio. esta desenvolve outras formas de comunicação. a criança cega só poderá pensar o que significa a palavra “bola”. seguindo a mesma seqüência do desenvolvimento da criança que enxerga. Usa de meios específicos para atingir fins específicos.1995). garanta a segurança de um ambiente propício e use de uma metodologia adaptada à ausência da visão. audição. as experiências de andar. e (3) estabelecer conseqüências adequadas para essas respostas do sujeito (NUNES. porém um pouco mais tarde. demonstrando a organização do seu desenvolvimento no ambiente. atividades de apoio e sem apoio. (2) ensinar à criança um repertório de comportamentos adaptativos. conforme frisado. É possível afirmar que. este estágio é um marco em que a criança liberta suas próprias percepções e ações. para conhecer a realidade. No caso da criança cega. quadrupedar e posteriormente andar. grupar objetos pequenos. Num segundo momento. que envolvem a sua motricidade. que servem para lhe dar outras percepções e outras dimensões. a criança cega não terá dificuldades para aprender se lhe for propiciado estimulação em tempo e de forma adequada. onde objetos e pessoas se fazem necessários. e a riqueza dos estímulos auditivos e táteis seja uma constante. Além de prover um ambiente rico em estímulos. O controle da cabeça e do tronco nas posições sentada e de pé será ajudado pelo arrastar. a “imagem” (esquema mental) inclui suas características essenciais: redonda. ao pai. Assim. Por isso. memorizadas em um esquema global. ao manipular a bola. A criança cega inicia suas próprias descobertas no ambiente. . pai e parceiros. Neste estágio. forma-se a “imagem” (esquema mental) de relação entre as coisas. Assim. esconder e buscar objetos. elaborar e organizar o seu próprio conhecimento rumo à competência social. Isto é. rodar. entre as partes desse objeto concreto com o mundo externo (as suas qualidades) e os conceitos. De acordo com Piaget (1975). é que ele planeje sua atividade.Reação Circular Terciária (de 12 a 18 meses). tocando os objetos com a boca. portanto. 6-Internalização do Pensamento (de 18 a 24 meses). Segundo Vygotsky (1989).22). internalizando-os. O influxo do meio ambiente e as atividades concretas de estimulação vão contribuir para a aquisição da linguagem e a consciência do seu próprio corpo. presente na criança que vê. mais particularmente pelo córtex cerebral. saltar. para melhor pensar sobre possíveis efeitos que causam. mediante oportunidades de ação sobre o meio e de vivências sensoriais variadas e significativas. pegar etc. Essas práticas de exploração vão ajudar a criança na formação de conceito (noção do objeto). chutar. O contato imediato com o objeto reforçará a noção do objeto e a compreensão das primeiras palavras. o desenvolvimento da criança. é da percepção e ação da criança sobre o ambiente que se forma a representação mental da realidade. gustação e olfato. depois que tiver tocado ou brincado com ela. Sua ação torna-se mais flexível e ela pode sistematicamente variá-la para obter objetivos específicos. Ilustrando. Isto é. estará sendo construído também seu processo de linguagem e de pensamento. sem características visuais. a criança reconstrói individualmente os modos de ação realizados externamente e aprende a organizar os próprios processos mentais. por exemplo. A imitação e a imagem especular (do espelho). tais como brincar. Parece buscar novidades por querer aprender mais sobre o ambiente. os apelos do meio ambiente e a aprendizagem facilitada pelo adulto implicam em novas atribuições do educador precoce. Caso ela não tenha oportunidade de usar os sentidos do tato. Na criança cega.4-Reação Circular Secundária de Coordenação (de 8 a 12 meses). porém táteis. levantar e transportar. Num segundo momento. explorar o mundo. Este autor afirma que a construção da imagem corporal advém também da oportunidade de relacionar-se com crianças da sua idade. será compensada pela ação do adulto (outro) e pelo contato. auditivas e de outro tipo daquele objeto concreto com o mundo exterior. o desenvolvimento da preensão se dará por experiências de enfiar contas.. bem como suas relações sociais desenvolvidas frente àquele objeto. empurrar. Observa-se que o sistema motor favorece as bases do desenvolvimento do pensamento lógico e a percepção influi na representação mental (SALTINI. segundo Bruno (1993). não por muito tempo. correr. Ela necessita se empenhar. habilidade. em que a criança vidente coordena suas ações em relação ao ambiente de diferentes modos. será favorecida a coordenação preensãoaudição. Assim. para poder perceber o próprio corpo em relação ao do outro.. é mediado pelo outro. olfativa ou gustativa. cheia etc. A atividade que antes precisou ser mediada passa a ser independente. 5. terá dificuldade para representá-la simbolicamente. Este estágio marca o início do pensamento internalizado na criança vidente. À medida que as informações vindas do ambiente. chutar. são imediatamente checadas ou integradas com informações armazenadas. sua autonomia frente à mãe. em cuja direção é preciso se movimentar. e construir desta forma a noção do eu e do outro (p. A questão é saber qual dos canais de percepção pode substituir a visão para que a criança identifique objetos e pessoas e adquira a estrutura espacial. A coordenação dinâmica geral dessas atividades irá ao encontro da formação de seu esquema corporal futuro. Explorando os objetos com as mãos e os pés. e na ampliação de seu repertório de palavras no diálogo com a mãe. auditiva. Ao internalizar as experiências fornecidas pela cultura. sem a intervenção de outras pessoas a criança se apropria da aprendizagem. puxar. favorecendo sempre que possível a exploração livre pela criança. Ou seja. estará preparada para falar e futuramente até escrever a palavra “bola” que representa a idéia “bola”. auditiva e tátil. ou seja. A criança cega. um ambiente rico em experiências onde ela possa trabalhar sensório-motoras integradas e significativas ajudarão a criança cega a se conhecer. onde a criança possa em experiências repetidas conhecer os objetos. a criança cega precisa saber que existe alguma coisa. caberá ao educador: (1) intensificar certas dimensões relevantes desses estímulos. Ela começa a ser capaz de imaginar suas ações e conseqüências. a criança que enxerga se envolve em atividades de tentativas e erros. Por exemplo. necessita de vivência corporal significativa para poder organizar sua ação no espaço. num primeiro momento. A construção de sua identidade se dá na interação e comunicação com o outro. A criança antecipa os efeitos de sua ação e os efeitos das ações de outras pessoas. o processo de desenvolvimento da criança está enraizado nas ligações entre a sua história social e individual. processadas pelo Sistema Nervoso Central. Que ela possa ainda aumentar seu repertório de palavras. Nesse sentido. autonomia e independência. cinestésica. subir e descer escadas. Todavia. No exemplo acima. da cultura e dos modos de funcionamento psicológico do seu grupo cultural. quando se bloqueia um canal de entrada existem outros canais que se desenvolvem. O que se exige do educador. sentar. auxiliarão a aumentar sua confiança. a criança se apropria do comportamento. o ambiente e as pessoas. mediante percepções tátil e auditiva que vão ajudá-la a organizar seu espaço. em atividades de ensaio e erro. mediante percepção tátil. arrastando-se e se expondo ao sol e ao vento etc. a outras pessoas e objetos. a criança cega precisa ser incentivada ao movimento e à procura do objeto sonoro no ambiente.

Além disso. Desse modo. de linguagem. o valor da estimulação em diversos ambientes e a segurança (vacinação. para que auxiliem efetivamente no desenvolvimento de sua criança. mas também dos processos em vias de desenvolvimento. tia. registrar as atividades e servir de intercâmbio entre diferentes profissionais. As palavras que usa não somente revelam o seu pensar. Isso mostra. amor etc. presta-se a esse serviço. da qual os pais devem fazer parte. são incluídos. a variedade de brinquedos e materiais disponíveis. tais como os de laboratório. A organização da aprendizagem pelo outro induz o desenvolvimento mental. Realizada a avaliação diagnóstica de forma transdisciplinar. o desenvolvimento da criança acontece a partir das constantes interações com o meio social em que vive mediante aprendizagem. na interação com sua mãe e familiares. motor e de comunicação. juntamente com um programa adequado ao ambiente familiar e paralelo a um trabalho sistemático de saúde e nutrição. a evidência e a necessidade de uma intervenção efetiva. Trata-se. ela sabe para quem escreve e como escreve (GÓMES. propondo um tipo de trabalho que considere mais suas qualidades do que seus defeitos. competência social e cognição. numa perspectiva de longa duração. Refiro-me às mães e/ou responsáveis que.Em outras palavras. a criança. podemos dar conta não só dos processos de maturação já completados. linguagem e competência social. e os encaminhamentos a neuropediatras. da comunidade local e da família. mediante os quais se procede a análise de anomalias maiores e menores que auxiliam a identificação precoce de quadros de deficiência. Esses programas têm uma preocupação em detectar e diagnosticar o problema da criança de forma transdisciplinar4 . assim. a competência social torna a criança mais segura de suas ações e menos dependente da mãe. isto é. isto é. da continuidade do trabalho em casa e da freqüência e regularidade no trabalho de intervenção precoce. 2002). plano de saúde. Isso induz novas atividades. isto é. Por meio dela. iniciando o trabalho com atividades já conhecidas pela criança. A competência social é um constructo que se integra aos domínios cognitivo. assim como da identidade de quem a escreve: mãe. pedem a individual e o coletivo. sensibilidade e flexibilidade de quem os aplica (os mediadores). facilitando desse modo às aquisições sensório-motoras. ou seja. na medida em que permite um confronto entre as práticas anteriores e posteriores. seu sucesso depende da estrutura familiar. Segundo Guralnick e Neville (1979). se a família tem moradia. (II) que o ensino seja funcional. após. transformando a si mesma. Em outras palavras. identificando potencialidades e atrasos no desenvolvimento. aberto ao diálogo transdisciplinar. transformando o nível de desenvolvimento potencial em real. o que ela consegue fazer sozinha é restringido pela ausência da visão. Seu sucesso depende da integração de esforços. cumprindo assim seu papel social. como também projetam o seu fazer. avó etc. quando necessário. para completar. é mais adequado ensinar à criança cega o conceito de bola quando ela estiver brincando no “play-ground” do . Como frisado. Desse modo. Ele delega e intermedia a passagem da fala oral para a escrita. 1995). significa criar situações reais de intervenção. (b) os exames médicos. cuja fonte é a criança. (c) a avaliação psicológica. não sabendo ler ou escrever. o “caderno de linguagem: caminhando juntos” descreve toda a história do processo de intervenção precoce na vida da criança. vai transformando esse meio familiar em função do atendimento às suas necessidades básicas. emprego. ou que poderão se instalar. havendo a necessidade de se trabalhar mais o seu nível de desenvolvimento potencial pela ação do outro. O “caderno de linguagem: caminhando juntos”. Portanto. tornando-se uma prática de representação: representa o trabalho desenvolvido na intervenção precoce. Portanto. além da orientação individual a eles encarregada em função das condições particulares da própria criança e da prática de atividades que devem realizar com a criança em casa. oftalmologistas etc. Reforçando este pensamento. A mediação influencia outras relações da criança com outros mediadores. na criança cega o seu nível de desenvolvimento real. o “caderno de linguagem: caminhando juntos” testemunha e conta a história da intervenção precoce para as gerações futuras. boa alimentação. ambientais ou socioculturais. Acrescentam eles que esses programas precisam ser imbuídos de entusiasmo. demonstrando que aquilo que uma criança pode fazer com assistência hoje poderá fazer sozinha amanhã. sobretudo nas áreas de motricidade. quer sejam normais. possibilitandolhes um processo evolutivo tão equilibrado quanto possível. o objetivo principal desses programas é o de impulsionar o desenvolvimento das habilidades básicas das crianças. cuja meta é prevenir ou minimizar problemas de desenvolvimento para criança de risco. nutrição. Guralnick (1997) acrescenta que a freqüência e a qualidade dos contatos com diferentes adultos. em planejar e coordenar os serviços de forma sistêmica. Os procedimentos do diagnóstico incluem: (a) a anamnese. linguagem. o educador elabora. por meio do discurso que a mãe descreve.) oferecida pela família vão contribuir para o desenvolvimento da criança. uma vez mais. tais como neuropediatras. realizada por meio da história familiar e dos antecedentes da própria criança. ou seja. de Sampaio (2000). para Vygotsky (1989). Como ela afirma: um veículo facilitador do processo de intervenção precoce. persistência. decorrentes de fatores biológicos. Resumindo. refletindo ainda na autonomia e independência da criança. portanto. mais sociável e mais firme emocionalmente. juntamente com a equipe. Mostra também a importância do envolvimento dos pais. responsabilidade. Nesse sentido. a ação pedagógica deve ser norteada visando a promover o desenvolvimento das habilidades sensóriomotoras da criança. recomenda-se: (I) que o educador utilize o ensino real e potencial. Assim. esses programas também promovem a competência social nas crianças. da eficiência de quem atende. em que se analisa o desenvolvimento da criança. PROGRAMA DE ATENDIMENTO EM INTERVENÇÃO PRECOCE Os programas de intervenção precoce para crianças com necessidades educacionais especiais têm se mostrado efetivo (NUNES. pois. oftalmologistas etc. afetivo. a que Vygotsky (1989) denomina zona de desenvolvimento proximal. (d) e. iniciando-a nas primeiras idades do desenvolvimento infantil. de risco ou com distúrbios no desenvolvimento. de apostar na capacidade da criança. e. na qual são avaliados os fatores de risco e os dados que constatam a presença de deficiências. a intervenção precoce tem esse propósito. Desse modo podemos concluir que. que inicie pelo nível de desenvolvimento real para promover sucesso (motivação). competência social e cognição. o nível potencial com ajuda. o plano individual de ensino com os objetivos a serem alcançados nas diferentes áreas do desenvolvimento: motor. está relacionada às aquisições básicas da criança. aquilo que a criança é capaz de fazer independentemente (nível de desenvolvimento real) e aquilo que ela faz com ajuda (nível de desenvolvimento potencial). Ou seja. a análise da estimulação do ambiente do qual procede a criança. permitindo acompanhar o desenvolvimento da criança. a fim de prevenir ou minorar os “déficits” instalados. pai. Quando ela modifica o ambiente físico e social por meio do seu cognição. O espaço de atuação do educador de intervenção precoce se dá no intervalo entre o nível de desenvolvimento potencial e o real. em seus primeiros anos de vida. exames complementares.

que na sala de intervenção. Um ambiente saudável e os recursos que a comunidade pode prover vão contribuir também para o desenvolvimento da motricidade. Portanto. A complementação alimentar produz benefícios não só sobre o crescimento físico. particularmente o período sensório-motor. compensando. cuidado. parece coerente afirmar que as intervenções efetuadas durante este período não só demonstram efeitos imediatos. dos padrões mais abstratos da linguagem utilizada no meio familiar e da forma de relacionamento do adulto com a criança. em que a linguagem. No caso da bola. a qualidade da relação mãe/filho interfere na evolução da criança. (IV) que se adaptem as atividades às condições da deficiência da criança. Não é à toa que Piaget chama esse período de sensório-motor. geradas pela ausência da visão. Assim. PÉREZ-RAMOS. 1996). o símbolo e o movimento desempenham importantes papéis. favorecerá a demonstração dos progressos e o aperfeiçoamento dos procedimentos do ensino. 1998). a inter-relação existente entre a intervenção precoce e a motricidade infantil. Nesse sentido. (3) e. acelerando-o ou retardando-o. Se a bola é retirada de suas mãos. ao longo do processo e em diferentes situações. (V) que se avalie e se registre o desempenho da criança. repercute favoravelmente no desenvolvimento infantil. essencialmente. portanto. ela demonstrará a aquisição da noção do objeto esticando a mão para pegá-la. Ou seja. segundo Piaget. efetuado desde os primeiros tempos de vida. da linguagem. Em outras palavras. Deduz-se que o enriquecimento adequado de um ambiente precariamente estimulador. tais como: linguagem e competência social. os efeitos negativos das variáveis ambientais inadequadas. assim. o conhecimento é construído socialmente no âmbito das relações humanas. o desenvolvimento da criança cega até dois anos de idade se dá pelo movimento. é pela aprendizagem nas relações com os outros que a criança vai construindo seu conhecimento que permite o desenvolvimento mental. ou seja. CONCLUSÃO Concluindo. que dependem da estrutura genética e ambiental (nutrição. é preciso tornar este ambiente materialmente sustentável. é reconhecido como determinante no desenvolvimento posterior. se o objetivo é favorecer o desenvolvimento da noção de permanência do objeto à criança cega. permitindo indicar as linhas básicas dos correspondentes programas de intervenção precoce (PÉREZ-RAMOS. a aprendizagem no meio familiar em rotinas diárias e a convivência social é que trarão a reboque o desenvolvimento da criança cega. RAMEY S. mas também sobre as áreas comportamentais relacionadas. Esses fatores afetam não só os padrões de interação mãe/criança em termos de melhoria na quantidade e qualidade. em grande parte. A avaliação contínua do comportamento da criança faz parte do processo de intervenção precoce. implica tornar a relação criança/adulto sintonizada com o interesse da criança. mas também capacitam a criança à aprendizagem futura. mas não em sua totalidade. da competência social e cognição. como também as áreas específicas do desenvolvimento da criança. o programa de atendimento deve ir ao encontro das necessidades da família. favorece a evolução das estruturas motoras de base. finalmente. a intervenção precoce adequada e consistente. demonstra que: (1) os efeitos positivos de um ambiente verbalmente estimulado sobre o desenvolvimento cognitivo dependem. ambiente propício. bem como das aprendizagens. que certas condições do meio circundante podem influir no desenvolvimento infantil. (2) as variáveis ambientais modificam o ritmo e a extensão do processo evolutivo infantil. os estímulos visuais deverão ser substituídos por auditivos e táteis. afetivo e motor. duração do estímulo e observação das respostas. Para Vygotsky. .. Assim. por exemplo. O período sensório-motor. a avaliação do plano de ação do programa de atendimento em intervenção precoce que analisa os efeitos dessa intervenção sobre o desenvolvimento infantil. e. além de apresentar a linguagem corporal como importante meio de comunicação tônico-afetiva. o educador deve balançar a bola com guizo perto da criança e permitir que ela a manuseie. para orientá-los no processo de educação da criança. bem como da estrutura genética da criança. amenizando as suas dificuldades. psicologicamente integrado e espiritualmente fecundo: caloroso para a criança e para a mãe. atitudes e valores. já que a sua evolução também depende do substrato biológico que a criança traz consigo. que são fatores cruciais para o desenvolvimento (RAMEY. De acordo com Wallon. na colaboração entre profissionais e responsáveis pela criança e no saber ouvir os pais nas suas crenças. O registro de observação do desempenho da criança de forma sistemática. estimulação e ensino). (III) que a estimulação seja adequada e consistente.

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