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ISBN 978-85-86508-67-7 9 788586 508677 Projetorealizadocomoapoio: SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA GOVERNO DO ESTADO
ISBN 978-85-86508-67-7
9 788586 508677
Projetorealizadocomoapoio:
SECRETARIA DE
ESTADO DA CULTURA
GOVERNO DO ESTADO DE
SÃO PAULO
Realização:
Parceiros:
Saberes
Caiçaras
Ministério do
Meio Ambiente
A cultura caiçara
na história de
Cananéia
Ministério
da Educação
Ministério
da Cultura
Cleber Rocha Chiquinho
GOVERNO FEDERAL
capa saberes.p65
1
19/11/2007, 16:17
Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia
ChiquinhoSaberes
Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia
Cleber
Cleber Rocha
Rocha Chiquinho
Saberes Caiçaras A cultura caiçara na história de Cananéia Cleber Rocha Chiquinho

Saberes

Caiçaras

A cultura caiçara na história de Cananéia

Cleber Rocha Chiquinho

Saberes Caiçaras

A cultura caiçara na história de Cananéia

Cleber Rocha Chiquinho

Organizador

PÁGINAS & LETRAS
PÁGINAS
& LETRAS

São Paulo

2007

I

© 2007, Cleber Rocha Chiquinho Av. Wilson Luiz Barbosa, 935 - CEP 11990-000 - Retiro das Caravelas - Cananéia - SP

Organizador Cleber Rocha Chiquinho

Fotografia

Coletivo Executor

Revisão José Luiz Mathais

Coletivo Executor Aldrin Klimke André Murtinho Ribeiro Chaves Andrew Ferreira Grube Bianca Cruz Magdalena Bruna Ap. Silva Franco Cleber Rocha Chiquinho Danielle Moreira Cosso Dayane Cristina Almeida Cubas da Silva Denise Antunes Ferreira dos Reis Laís Cristine Xavier Lohan Kovacsics Marcéli Lucilene da Silva Pontes Talita Alves Shimodaira Thais Cristina de Oliveira William Cunha Gonçalves

Colaboradores Adão Paiva Ana Maria de Borba Antonio Carlos Diegues Antônio das Neves Augusta das Neves Cubas Benedito Alves Carlos França Delfina Ventura Batista Enedina da Costa Barbosa Ernesto Scharmann Fernando Oliveira Francisco de Sales Coutinho Frederico Mandira Idorino Ventura Santana Ivete Mateus João Cassiano Martins (“João da Toca”) João Cordeiro de Alencar Joaquina Rodrigues Ponte Jan Van Der Heijden (Padre João Trinta) José Coelho Luiz Camilo Mateus Maria Aparecida Xavier Pontes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Maria Juliana Pedro Rodrigues Patrícia Dunker Pedro Costa Quirino Ermes Coelho Roque Mateus Rosalina Gomes da Silva Rosangela Pereira Camilo Salvador Alberto das Neves Salvador Donato Barbosa Sílvio Atanásio Tereza dos Lemos Santana Zeneide Xavier Pontes

Parceiros Associação Rede Cananéia Coletivo Jovem Caiçara Instituto de Pesquisas Cananéia – IPeC Ponto de Cultura “Caiçaras” Sala Verde Cananéia

Projeto e produção gráfica Páginas & Letras Editora e Gráfica Ltda. Tels. (11) 6618-2461 - 6694-3449 e-mail: paginaseletras@uol.com.br

Saberes caiçaras : a cultura caiçara na história de Cananéia / Cleber Rocha Chiquinho, organizador. -- São Paulo : Páginas & Letras Editora e Gráfica, 2007.

ISBN 978-85-86508-67-7

Vários colaboradores. Bibliografia.

1. Caiçaras - Cananéia (SP) 2. Cananéia (SP) - História 3. Cultura - Cananéia (SP) I. Chiquinho, Cleber Rocha.

07-4925

CDD-981.612

Índices para catálogo sistemático:

1. Caiçaras : Cultura : Cananéia : São Paulo : Estado : História

981.612

2. Cananéia : São Paulo : Estado : Cultura caiçara : História

981.612

3. Cultura caiçara : Cananéia : São Paulo : Estado : História

981.612

II

Agradecimentos À todos os caiçaras de Cananéia que nos acolheram humildemente em suas casas! Família

Agradecimentos

À todos os caiçaras de Cananéia que nos acolheram humildemente em suas casas!

Família “Lisboa da Veiga”

Instituto de Pesquisas Cananéia – IPeC

Núcleo de Pesquisa sobre Populações Humanas de Áreas Úmidas Brasileiras / Centro de Estudos Caiçaras (NUPAUB/CEC – USP)

Paróquia da Igreja de São João Batista

Ponto de Cultura “Caiçaras”

Prefeitura Municipal da Estância de Cananéia através do Departamento de Meio Ambiente, Agricultura e Pesca

Governo do Estado de São Paulo através da Secretaria de Estado da Cultura

III

IV

IV

Apresentação Este trabalho é fruto de uma grande persistência e confiança no potencial de jovens

Apresentação

Este trabalho é fruto de uma grande persistência e confiança no potencial de jovens de Cananéia na busca de suas raízes e de suas identidades. Trata-se de um olhar da juventude sobre os fatos e aspectos ligados ao que um dia marcou (e até hoje marca!) a vida dos moradores de uma das mais antigas e principais cidades do Brasil.

A iniciativa do projeto “Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia” partiu de um grupo de pessoas interessadas em contribuir para o resgate, registro e valorização da cultura caiçara em Cananéia. Propuseram para isto utilizar latas com um pequeno “furo de agulha” para o registro fotográfico do modo de vida caiçara 1 , realizar práticas artísticas, como a dança, para estimular jovens pelo gosto da cultura caiçara 2 e registrar o saber popular na história de um povo, como é a iniciativa deste livro.

O objetivo deste livro é contribuir para a valorização da cultura caiçara no município de Cananéia através da pesquisa, registro e disseminação do modo de vida caiçara dentro da história de Cananéia, possibilitando que a comunidade perceba seu pertencimento e co-responsabilidade na manutenção do saber tradicional e da cultura local.

1 Projeto “O Caiçara se Revela no Município de Cananéia” que também foi aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura através do PAC – Programa de Ação Cultural em seu edital nº 17 e que teve como proponente a turismóloga Patrícia Dunker.

2 Projeto “Dançando o Batido Caiçara”, outro projeto aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura através do PAC – Programa de Ação Cultural em seu edital nº 17 e que teve como proponente o artesão Amir de Oliveira.

V

O coletivo executor do projeto contou diretamente com a participação

de 15 jovens entre 14 e 26 anos que desde junho de 2006 estão organizados através do Coletivo Jovem Caiçara, grupo informal que vem discutindo,

propondo e atuando em prol de melhorias socioambientais e culturais em Cananéia e que tem como parte de sua missão, promover ações de resgate e valorização da história e da cultura caiçara de Cananéia.

O livro começa com uma introdução sobre a história caiçara nas palavras

sábias de um grande defensor deste povo e de sua cultura, que merece ser aplaudido por tanta dedicação, o Professor Antonio Carlos Diegues. Ele aborda em seu texto a dificuldade de encontrarmos arquivos e documentos antigos que registrem a história ligada a existência e aos modos de vida caiçara, bem como a influência que isto teve para a identidade caiçara no litoral brasileiro. Finaliza com uma projeção atual das iniciativas no litoral paulista que estão trabalhando com a valorização da cultura caiçara.

No segundo capítulo, o educador André Murtinho Ribeiro Chaves, deixa uma contribuição sobre o universo multicultural em que vivemos atualmente, fazendo uma reflexão sobre as questões sociais, econômicas e políticas que isto nos proporciona, bem como as dificuldades que enfrentamos diante da avalanche de imposições que são estabelecidas e as possibilidades de mudanças através da educação crítica e emancipatória. Aborda também o acesso e reprodução das informações através da mídia e o valor que isso pode ter para o enfrentamento das adversidades que essas culturas sofrem, entre elas a caiçara.

Os capítulos três e quatro mostram um pouco da história caiçara nos bairros de Cananéia e foram escritos pelos próprios jovens. O coletivo optou por escolher apenas alguns bairros, já que o tempo que teríamos para realizar o projeto, seis meses, era curto. Com isso, ficaram de fora importantes bairros, urbanos e rurais, do município. Foi uma escolha difícil, mas tivemos que optar!

A metodologia utilizada para a realização dos trabalhos contou com uma

oficina ministrada pelo Prof. da USP, Antonio Carlos Diegues, que trouxe para estes jovens subsídios para o reconhecimento e registro da cultura caiçara. Foi

VI

feito um levantamento bibliográfico sobre a história e a cultura caiçara em livros, artigos e documentos e também algumas vivências práticas, como o reconhecimento do Centro Histórico de Cananéia, acompanhados da monitora ambiental Ana Borba, uma verdadeira amante de nossa cidade.

Através de um roteiro elaborado previamente, os grupos, subdivididos por bairros, foram a campo, entrevistaram pessoas, fotografaram e registraram tudo através de anotações, gravações de áudio e fotos. Em posse dos materiais bibliográficos e das transcrições, redigiram os textos finais e escolheram as fotografias que marcaram essa inesquecível experiência.

Os textos escritos por eles sintetizam de forma bem simples as informações levantadas durante a realização do projeto e apresentam um pouco

da história de alguns bairros de Cananéia, destacando aspectos importantes da

cultura caiçara ligados a agricultura, pesca, artesanato, culinária, manifestações culturais, festas, causos e lendas, entre outras que eles e elas acharam

importantes e merecedoras de registro.

O último capítulo encerra o livro com uma recordação dos tempos de infância de um amante da cultura popular e parceiro em todas as “encrencas”, Fernando Oliveira. Neste texto as lembranças de boas histórias e momentos

vividos por ele são evidenciadas de uma forma simples e emocionante. Com isso, ele contribui para mostrar o valor da história e da cultura imaterial caiçara, ou seja, a herança cultural intangível perpetuada ao longo dos tempos, bem como a importância dos saberes/fazeres, seu registro e sua reprodução social.

O texto fornece também um bom referencial teórico para aqueles que se

interessarem em aprofundar nas diversas nuance da cultura caiçara.

Como foi visto em muitos trabalhos semelhantes, a pesquisa, reconhecimento e valorização cultura caiçara não está acabada, percebemos que

ela deixa de ser contada em livros e perde-se no tempo e na lembrança de poucos.

mas cheia

Portanto, fica aqui um pouco de nossa contribuição, pouquíssima

de surpresas, desafios, expectativas, anseios e desejos de um dia poder colher

os frutos de todo nosso esforço em manter viva essa riquíssima cultura.

VII

A publicação deste livro teve apoio da Secretaria de Estado da Cultura através do Programa de Ação Cultural – PAC em seu edital nº 17 (Concurso de Apoio a Projetos de Promoção da Continuidade da Cultura Caipira, Caiçara, Piraquara e Afro), possibilitando a aquisição de materiais, despesas diversas e a impressão dos mesmos.

Um agradecimento especial a todos e todas que se envolveram na concretização deste livro, em especial ao Coletivo Jovem Caiçara, que acreditou e descobriu que o trabalho foi muito mais do que a publicação de um livro, por meio dele tivemos uma experiência única que nos proporcionou momentos de alegria, tristeza, respeito, união, coletividade, organização, responsabilidade, realização, sol, chuva, conhecimento, aprendizado, amizade, desentendimento, atraso, perseverança enfim

Foi lindo!

Cleber Rocha Chiquinho 3

3 Bacharel e Licenciado em Ciências Biológicas, docente da Escola Estadual Profa. Yolanda Araújo Silva Paiva, coordenador da Sala Verde Cananéia e membro do Coletivo Jovem Caiçara.

VIII

Estadual Profa. Yolanda Araújo Silva Paiva, coordenador da Sala Verde Cananéia e membro do Coletivo Jovem
Sumário Agradecimentos III Apresentação V A História Caiçara de Cananéia Antonio Carlos Diegues

Sumário

Agradecimentos

III

Apresentação

V

A História Caiçara de Cananéia

Antonio Carlos Diegues

1

A Educação como Base para a Manutenção da Cultura Caiçara

André Murtinho Ribeiro Chaves

5

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia Centro

13

Rocio

31

Carijo

35

Morro São João

45

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia Itapitangui

53

Mandira

63

Santa Maria

77

Ariri

93

Varadouro

109

Marujá

127

Foles e Cambriú

143

Uma Memória Curta? Então, Curta a Memória! A Importância do Registro do Patrimônio Cultural Imaterial Caiçara

Fernando de Oliveira

159

IX

X

X

A História Caiçara de Cananéia Antonio Carlos Diegues 1 Intr odução A iniciativa dos jovens

A História Caiçara de Cananéia

Antonio Carlos Diegues 1

Introdução

A iniciativa dos jovens de Cananéia de pesquisar e divulgar a história e o modo de vida dos caiçaras dos diversos bairros rurais e urbanos de Cananéia é uma atividade inovadora que deveria ser seguida por iniciativas semelhantes nos municípios com comuni- dades caiçaras. Não se trata somente de resgatar a memória dos tempos passados, mas escrever a história contemporânea dessas comunidades, seu modo de vida, suas aspirações e visões de futuro a partir delas mesmas.

Um pouco de história caiçara

Os caiçaras raramente aparecem nos arquivos e documentos históricos. É como se eles nunca tivessem existido e mesmo os historiadores locais raramente se referem a eles, à gente dos sítios. Em alguns dicionários o termo caiçara é associado à pessoa indolente, pre- guiçoso. Até documentos recentes que se referem, por exemplo, à criação de áreas protegidas e reservas natu- rais em territórios sabidamente habitados por caiçaras os ignoram ou, às vezes, os classificam como “bons

1 Antropólogo e diretor científico do Núcleo de Pesquisa sobre Popu- lações Humanas de Áreas Úmidas Brasileiras / Centro de Estudos Caiçaras (Nupaub/CEC – USP).

selvagens”, pessoas que viveriam imersas na natureza, sem direitos de cidadania.

Os caiçaras fazem parte das populações brasilei- ras pobres e marginalizadas, apesar de terem mantido relações sociais e econômicas com as cidades da região.

São poucos os documentos que mencionam a existência dos caiçaras no período anterior ao final do século XIX e a maioria dos historiadores trabalham sobre documentos referentes, seja à fundação das vilas, seja à história das “grandes famílias”, seus feitos, número de escravos etc.

Na história mais recente, é importante a contri- buição de alguns historiadores locais, como Antonio Pau- lino de Almeida, de Cananéia (SP), que recupera, através de documentos e de relatos a história caiçara através de trabalhos como “Usos e costumes praianos” (1945), “Memória Histórica da Ilha do Cardoso” (1946), “Memórias Memoráveis” (da Ilha de Cananéia) (1948), entre outros.

Segundo Paulino de Almeida, em Memórias Me- moráveis (1948) baseado nos documentos do Livro do Tombo afirma que Cananéia, vila fundada em 1587 era habitada inicialmente por lavradores e pescadores, “parecendo mais esquecidos que lembrados, porém assim mesmo vivião fartos no seu bastante e descansados no seu

A História Caiçara de Cananéia

1

descanso”. As indicações do texto abaixo sugerem que o modo de vida caiçara teria sido adotado no litoral sul paulista desde o início da colonização:

de poucos e pobres moradores, parte naturaes d´este Brazil (índios) e parte vindouros das ilhas dos Açores

que era pobres de posições e por isso não eram

participantes da afluência do dinheiro, porem erão

riquíssimos da muita abundancia, que este lugar então lhes oferecia do seu mar os peixes e dos matos as caças; que lhes não faltarão o seu necessário, porem cultivando a terra com suas lavouras e exercitando o mar em suas pescarias, assim bem se sustentavão e dos seus

Não eram freqüentados de

amiudado commercio, parecião mais deixados e

esquecidos do que lembrados (

sobros negociavam (

) (

)

)

porem assim mesmo

vivião fartos no seu bastante e descansados no seu descanso”. (pág. 9)

Como se observa pela citação acima, as popula- ções locais, que já poderiam ser chamadas de caiçaras viviam bastante isoladas, mas mesmo assim, negocian- do seu pouco excedente com outras regiões:

“cujo negocio fazião elles com alguma embarcação, que por cauza dos ditos gêneros aqui lhes vinha oferecer assim dinheiro, como tambem outros gêneros a elles necessários” . (pág. 9)

Na Ilha do Cardoso, próxima à Cananéia existiu também uma vigorosa colonização, com mão-de-obra escrava e:

“era considerada como um dos melhores celeiros do município, onde se erguiam as mais prósperas fazendas

2

Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

com seus engenhos de pilar arroz, fábricas de aguardente, olarias e até um estaleiro de construção naval”. (ALMEIDA, 1946 : 22). “Já, no começo do século XX havia somente ruínas dos sobrados, em meio à mata frondosa”. (pág. 22)

Nos anos de 1930-40, Paulino de Almeida nota que na Ilha do Cardoso somente:

podem ser vislumbrados raríssimos casebres de pequenos lavradores, estando a grande ilha quase que inteiramente deshabitada, a não ser nas proximidades do pontal do sul, onde se erguem choupanas de pescadores.” (1948 : 22)

Está nessa descrição de Paulino de Almeida a base do mesmo processo de empobrecimento econômico-

social que se segue a um período de monocultura:

sobram os pequenos lavradores-pescadores que formam

a população caiçara e que no declínio desses ciclos

passam a viver numa quase-subsistência, apesar de manter laços comerciais com as cidades.

Em outro trabalho, Usos e Costumes Praianos (1945), Paulino de Almeida descreve o modo de vida caiçara nas primeiras décadas do século XX, definindo

o caiçara como aquele que vive entre as atividades

agrícolas e pesqueiras:

“Nessa luta terrível, ora para a terra ora para o mar, consomem toda a energia, julgando-se felizes quando conseguem algumas roças de mandioca e os apetrechos principais para a pesca”. (pág. 70)

A figura do caiçara, no entanto, começou a aparecer tardiamente, já nos anos 40-50 nos relatos e

trabalhos de antropólogos e geógrafos. Emilio Willems em 1952 escreveu: A Ilha de Búzios: uma comunidade caiçara no sul do Brasil (NUPAUB; 2003), sem dúvida o estudo mais completo sobre a cultura caiçara que adquiriu muito de sua fisionomia cultural nos primeiros 250 anos da história colonial” (pág. 170). Empregando métodos da história econômica e social bem como entrevistas e história oral, Willems indicou um caminho profícuo para o estudo dos caiçaras, com um grau de perspicácia dificilmente atingido por pesquisadores que lhe sucederam. Entre os trabalhos antropológicos de grande importância nesse período destacam-se o de Donald Pierson e Teixeira, em 1947, em Survey de Icapara:

uma vila de pescadores do litoral sul de São Paulo; de Maria Conceição Vicente de Carvalho em O pescador do litoral do Estado de São Paulo, em 1944. É importante se ressaltar também o trabalho de Carlos Borges Schmidt, A la- voura caiçara, publicado pelo Ministério da Agricultura, em 1958.

Hoje já existe um conjunto de relatos orais de caiçaras de diversas áreas do litoral sudeste brasileiro que se constituem em verdadeiros arquivos orais que permitem conservar o rastro de testemunhos de caiça- ras que nunca escreveram nada sobre suas vidas. Esses arquivos encontram-se, muitas vezes em trabalhos de pesquisa acadêmica contidos em teses com pouca divulgação, e também em fitas e vídeos parte dos quais foi divulgada recentemente pela Enciclopédia Caiçara, em cinco volumes, editada pelo Nupaub/Hucitec.

Vários depoimentos de caiçaras indicam que, nos últimos anos, os caiçaras começaram a reafirmar seu papel social e seu território frente à expulsão de suas terras. Um dos temas mais recorrentes na memória

caiçara é o da perda de suas terras através da ação dos especuladores imobiliários, que algumas vezes usaram jagunços para ameaçar os moradores e incendiar suas moradias. Esse processo que se iniciou já pelos anos 30-40 é lembrado em vários depoimentos em toda a região caiçara.

A partir dos anos 50-60 vários empreendimentos imobiliários começaram a se instalar em Cananéia, sobretudo na Ilha do Cardoso, onde compradores conseguiram as terras muitas vezes ludibriando os seus moradores.

Um outro processo bastante presente na memória mais recente dos caiçaras é a implantação de áreas protegidas, na qual seu modo de vida se torna inviável pela proibição do exercício de suas atividades agrícolas e extrativas e mesmo pela transferência forçada de suas residências por representes dos órgãos ambientais do Estado. A implantação dessas áreas protegidas se iniciou no litoral com o Parque Estadual da Ilha do Cardoso, criado em 1962, e levou à expulsão gradativa de inúmeras comunidades caiçaras restando, hoje, um número reduzido de caiçaras que moram, sobretudo, no sul da Ilha.

Se de um lado as implantações desses parques constam de documentos oficiais, que apresentam a visão do Estado, são raros os documentos que descrevem os traumas causados pela implantação autoritária dessas áreas protegidas, mas constam de inúmeros depoimentos orais em toda a extensão do território caiçara. Esses inúmeros relatos não são meras descrições da forma com que viviam os antigos moradores caiçaras, de seu modo de vida, mas expressam a tristeza e o

A História Caiçara de Cananéia

3

sofrimento associados ao processo de expulsão, a angús- tia em relação ao futuro incerto e à vida difícil nas favelas das muitas cidades litorâneas e ao descaso mostrado pelo Estado em relação a sua sorte.

A identidade caiçara

A partir do início da década de 80, começa a ser construída uma identidade caiçara, fruto dos embates contra a especulação imobiliária e contra o autoritarismo ambiental que não respeitou os direitos dos caiçaras às suas terras e modos de vida.

Uma outra reação à perda do território é a implantação de reservas extrativistas marinhas; atra- vés das quais, os pescadores passam a controlar efeti- vamente o território de uso tradicional dos recursos pes- queiros ou de coleta. A Reserva Extrativista do Mandira, em Cananéia foi a primeira a ser decretada, para o manejo e comercialização de ostras. Várias outras estão sendo planejadas na região costeira. O êxito da Reserva Extrativista de Mandira, entre outros benefícios como o aumento de renda, o surgimento de lideranças atuantes, tem aumentado a auto-estima e a identidade caiçara.

Um outro fenômeno recente é articulação de co- munidades caiçaras, realizada por Organizações Não Governamentais – ONG’s, institutos de pesquisa e asso- ciações locais. Essas instituições têm promovido regular- mente Congressos e Encontros Caiçaras no Litoral Norte e Sul de São Paulo, com a participação de líderes das comunidades tradicionais, para discussão e solução de problemas comuns.

4

Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Nota-se também um renascer de grupos de fandango e danças caiçaras tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo e no Paraná. Uma oficina realizada em Cananéia no Parque Estadual da Ilha do Cardoso, em fevereiro de 2003, reunindo vários grupos de fandango do litoral paulista e paranaense, além da constituição de novos grupos de Reisado e Marujada tem servido também para mostrar os aspectos culturais comuns a essas regiões litorâneas.

O apoio às organizações locais, através do progra- ma federal de “Pontos de Cultura” tem também colabo-

rado para manter viva a tradição musical caiçara. Algu- mas ONG’s locais, como a Associação dos Jovens da Juréia, em Iguape, a Mongue, de Peruíbe, a Rede Cana- néia e o Instituto de Pesquisas Cananéia, em Cananéia,

o Museu Caiçara, em Ubatuba, têm incentivado o surgi-

mento de novos grupos culturais que, sem dúvida, tem contribuído para aumentar a auto-estima dos caiçaras

e a sua identidade cultural. Merece destaque o trabalho da Ong Caburé que com seu projeto Museu Vivo do Fandango realizou um levantamento minucioso dos gru- pos de fandango e propiciou um intercâmbio frutuoso

entre os fandangueiros do litoral paranaense e paulista através de diversos encontros. Hoje o fandango voltou

a animar bailes populares em Cananéia, pela ação da Rede Cananéia e da Associação de Fandangueiros.

Percebe-se, portanto, a construção de uma auto- identificação dos moradores tradicionais caiçaras, pela qual eles passam a valorizar suas origens e sua cultura.

auto- identificação dos moradores tradicionais caiçaras, pela qual eles passam a valorizar suas origens e sua
A Educação como Base para a Manutenção da Cultura Caiçara André Murtinho Ribeiro Chaves 1

A Educação como Base para a Manutenção da Cultura Caiçara

André Murtinho Ribeiro Chaves 1

“Um país não vive quando a juventude só tem acesso a valores de outros povos”. Ariano Suassuna

O universo cultural

Quando moleque – até uns 16 anos – eu era um

destes torcedores fanáticos por futebol, que sabiam toda a escalação do time e lembrava, sem muito esforço, de todos os gols, datas e histórias dos ídolos. Com exceção de Argentina e Uruguai, que têm forte in- fluência européia, sempre que um time sul-americano jogava com a nossa seleção, eram esperadas “goleadas

históricas” – 5, 6, 7

Quando a Bolívia, por

exemplo, arriscava empatar, os locutores, comenta- ristas, repórteres de campo reagiam com um excessivo preconceito. “Desde quando futebol é um esporte na Bolívia”, diziam. ”Não podemos levar um gol deste timinho”. Nos dias que antecediam as partidas, havia

um esforço tremendo em desqualificar o futebol dos

“inimigos”. Um dia a Bolívia ganhou. Tragédia nacio-

nal

conhecia o restante da América do Sul.

Este era o meu mundo e foi a partir daí que eu

a 0, 1

1 Mestre em Ecologia, docente da Escola Estadual Profa. Yolanda Araújo Silva Paiva e membro do Coletivo Educador de Cananéia.

Esta postura preconceituosa da mídia contra povos essencialmente originários se estendia em relação à economia e cultura: segundo se divulgava, não havia riquezas, nem coisas interessantes nestes países pobres periféricos. Quando falamos que um produto é do Paraguai, ainda é sinônimo de má qualidade. A imagem que se faz da Colômbia é de um lugar onde só existem traficantes e marginais, tudo gente perigosa, como narrado em filmes norte- americanos. A opinião, portanto, que eu tinha e que muita gente tem da América do Sul não europeizada é aquela que a televisão passa através do circo de suas informações. Parece verdade. Mas será que os povos originários, indígenas, eram por natureza pior do que os invasores europeus? Era uma questão genética ou algo historicamente construído? Por que negros e indígenas seriam piores do que os brancos?

Um dia – aos 24 anos – eu consegui chegar na fronteira com a Bolívia. Ainda era Brasil – Corumbá, no Mato Grosso do Sul – e foi por algumas horas, mas minha opinião começou a mudar. Descobri que os bolivianos eram um povo, diferente sim, mas irmão.

A Educação como Base para a Manutenção da Cultura Caiçara

5

As mulheres se vestiam com trajes andinos, ainda que ao pé da “sierra”. Sentia que, mesmo no meu país, eu respirava uma outra cultura, a rica cultura indígena

sul-americana. Isto me fez bem. A partir daí comecei a

Voltei no

tempo

ao baixo vale do São Francisco. Sempre viajei para o Rio de Janeiro para visitar a minha avó e tias. Aos 17

anos fui estudar numa universidade em Campinas. E mesmo com esta mobilidade precoce, o meu universo cultural era essencialmente televisivo, com valores externos insistentemente martelados na minha cabeça. Ter cultura era, para mim, saber a cultura dos outros povos, principalmente europeus. Isto era sinônimo de erudição. Assim, eu caminhava para ser ao mesmo tempo erudito e ignorante.

Foi só após algum tempo, a partir dos 20 anos, conhecendo novos lugares e retornando periodica- mente à minha terra é que eu (re)descobri a cultura sergipana: São Cristóvão, Itabaiana, Laranjeiras, Japaratuba, Nossa Senhora da Glória, Canindé do São Francisco, tantos lugares bonitos e ricos, ficaram 16 anos ali, do meu lado, e eu nunca havia percebido os ritmos, seus cantos, sua história: bacarmateiros, bum- ba-meu-boi, dança do parafuso, maracatu. Um novo mundo se abriu. No meio burguês em que cresci, pouco se valorizava esta cultura local. Hoje estou investigando a minha história. A terra da minha avó paterna – Porto Real do Colégio, lado alagoano do Rio São Francisco – era um território dos índios Kariri-Xocó. Também sei que por parte de mãe, tenho uma ascendência Bororo, do Mato Grosso. Além obviamente de genes europeus, que se mesclaram no Pará, e genes africanos, mis-

Nasci em Aracaju, capital sergipana, próximo

refletir sobre a minha formação cultural

6

Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

turados em Alagoas e Sergipe. Toda esta diversidade étnica culminou num encontro nas praias cariocas, do qual o fruto foi produzido em solo sergipano.

O encontro de culturas

Conto um pouco do pouco que conheço de minha história para me fazer entender. Sei que muitos jovens que crescem numa rica cultura, como a caiçara, não têm a devida compreensão da importância deste reconhecimento. A paisagem, o jeito de falar, as pro-

Como disse

o Padre João Trinta em entrevista realizada para este

projeto: até a década de 1960, Cananéia era uma vila

com uma cultura produzida pelo isolamento e que com

a chegada de órgãos públicos estaduais e principal-

mente da televisão, houve um rompimento de valores, que causou uma forte instabilidade. O encontro de diferentes culturas pode ser um rico momento para produzir uma nova cultura, mas acredito que estupro cultural é o melhor termo para definir o que tenho ouvido sobre esta época em Cananéia. Havia uma

grande pressão cultural externa, de pessoas e de mídia, para que houvesse uma mudança de comportamento, visando um “jeito civilizado”. Para ser mais claro: um comportamento presente na zona sul carioca (europei- zado) e repetido ininterruptamente nos últimos 50 anos, através da TV e de diversos outros meios de in- vasão cultural. Caiçara, para quem chegava neste velho mundo, era sinônimo de preguiçoso. Isto gerou um descompasso violento entre a educação dos filhos

e a formação dos pais. Somado às políticas de governo,

deficiente nos diversos níveis, Cananéia vive hoje um

fissões e vocações, a culinária, as danças

momento cultural difícil. O jovem caiçara está meio perdido no meio de tanta informação, mas sem muita oportunidade. O que fazer com tanto ruído externo?

A situação do jovem em Cananéia

Minha experiência nestes 2 anos e meio de magistério em solo caiçara, me permite ver que a juventude cananeense é extremamente criativa e muito inteligente, como disse o Padre João Trinta. Mas, com diversas carências básicas, que têm influenciado diretamente na sua vida e nas suas opções, impedindo o seu desenvolvimento pessoal e frustrando os seus sonhos. Podemos resumir estas carências em duas: a) carência econômica e b) carência afetiva, ambas resul- tado de uma falência estrutural da sociedade. A pri- meira diz respeito à falta de políticas de desenvol- vimento, sejam para emprego e geração de renda, se- jam para cultura e educação. A opção econômica é di- retamente responsável pela situação educacional. Edu- cação aqui, em termos mais amplos, se refere à forma- ção de vida da pessoa, escolar ou não. A educação por sua vez, também tem um forte componente afetivo.

A estrutura da escola brasileira como um todo e mais especificamente da escola paulista, é deficitária e atrasada. Mesmo com os recentes avanços da inclusão educacional, esta o foi essencialmente quantitativa, sem prezar pela qualidade do ensino e pelos novos métodos transformadores baseados na práxis pedagógica e na construção do próprio conhecimento. Como educar ou mesmo instruir um adolescente numa sala com 45 alunos? Como inovar pedagogicamente se não temos acesso facilitado a este conhecimento? Como sugerir

uma nova postura na alimentação (e na vida) se o próprio governo manda comida enlatada e embutida para os alunos? Por mais que haja um esforço dos professores, a escola não tem capacidade física e psicológica de dar conta de tantos problemas familiares. A carência afetiva das crianças e jovens caiçaras está atingindo índices alarmantes.

Muito em razão da (des)estrutura econômica, poucos pais têm tempo disponível para oferecer o aconchego necessário para o desenvolvimento cogni- tivo da criança e do adolescente. A necessidade de permanecer fora de casa, a exploração pelo trabalho e suas conseqüências, são nefastas para a família. Além disso, muitas crianças são frutos de relações inde- sejadas, o que muitas vezes causam rejeições do pai, da mãe, ou do restante da família. O crescimento do aluno no meio de abandono é um dos motivos que contribuem para a dor de cabeça de muitos educa- dores. Como diversos relatos mostram, além deste abandono, a convivência com o alcoolismo e a violência familiar – muitas vezes sexual – também contribui para um desenvolvimento comprometido (no mau sentido) do jovem.

Mas por que esta falta de planejamento familiar? Por que a gravidez na adolescência tem altos índices aqui no Vale do Ribeira e especificamente em Cana- néia? Por que o alto índice de alcoolismo? Por que o abrupto crescimento do tráfico? Será que estas variá- veis estão relacionadas? É preciso investigar mais a fundo e de forma científica estas relações indesejadas, mas posso arriscar algumas hipóteses. Uma delas é o desemprego e a falta de oportunidades econômicas e culturais, já colocada acima. Talvez só isto não baste.

A Educação como Base para a Manutenção da Cultura Caiçara

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Outra hipótese complementar: a pressão da “sociedade do consumo”, embarcada pela grande mídia televisa- da e escrita, colocando na cabeça do jovem a sensação

de incapacidade de construção do seu próprio destino.

O modelo individualista de sucesso colocado como o

único possível por estes meios, pode levar à frustração precoce e continuada do jovem, o que por sua vez pode levar à tristeza e depressão. Como sabemos, a adolescência é um momento de formação e instabili- dade entre a vida infantil e a vida adulta. É delicado e

caótico: qualquer alteração nesta fase pode alterar toda uma vida, sem previsão. Talvez seja por isto que muitas mães e professores se surpreendam que mesmo irmãos – até gêmeos – podem ter comportamentos e escolhas

tão diferentes. Uma frase, um olhar

Nesta situação de extrema incerteza, é muito fácil descambar pelo lado do individualismo, o que gera cada vez mais frustração. Afinal quando achamos que

o sucesso e o fracasso é responsabilidade exclusiva-

mente nossa, aumenta a nossa sensação de potência ou de impotência, conforme o lado. Como o sucesso – dizem os seus defensores – é para poucos, esta seleção natural resulta numa grande massa descartada e frustrada. O “consolo” pode estar no álcool e outras drogas. A busca rápida por um casamento pode ser um tipo de venda informal da vida, o que acontece com muitas adolescentes. Esta busca da felicidade, em último caso, pode resultar na prostituição.

é o suficiente.

O acesso à informação

Em todo este processo e neste meio sobra pouco tempo, energia e interesse para o jovem conhecer a

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

fundo a sua história, o seu ambiente e mesmo a vocação de sua economia. Qualquer iniciativa que preze por esta busca da identidade sociocultural traz novos elementos para a resistência de uma vida esmagada pelo gigante do capital. Novos interesses em velhos territórios, formação de novos quadros jovens, busca de novas oportunidades acabam gerando esperança e reconhecimento no jovem caiçara. Nos últimos anos tem havido algumas tentativas neste sentido. Projetos de valorização ambiental (como o Cananéia Tem Parque), cultural (Resgatando o Fandango Caiçara) e econômico (como os de Turismo Rural e Agricultura Ecológica) têm prezado pelo desenvolvimento através do reconhe- cimento do modo de ser caiçara. Outros projetos edu- cativos de iniciativa governamental – como Educação de Chico Mendes, Ponto de Cultura “Caiçaras”, Sala Verde, Coletivo Jovem, Coletivos Educadores e mais recentemente este – Saberes Caiçaras, mesclados com

impulsos locais, têm levado alguns professores e alunos das escolas públicas de Cananéia a conhecerem de perto

a história e realidade socioambiental do município.

Vivenciar este conhecimento local, indo à campo, agindo no seu resgate e manutenção, é uma maneira

de educar esta molecada. Educar no sentido freiriano, de transformar a sua vida para melhor. Aumentar a auto-estima e o conhecimento de sua própria história

é

um requisito para um desenvolvimento legítimo. Se

o

jovem caiçara se sente capaz de se posicionar e de

produzir (escrevendo, falando, tocando, cantando), é necessário dar capacitação técnica e ferramentas para

que ele atinja seus objetivos. Com estas técnicas em mãos, num meio receptivo, não é tão difícil escrever um boletim, um zine ou um jornalzinho. Uma rádio

escola ou uma rádio livre (com transmissor simples) também não é tarefa complicada para jovens de uma cultura tecnológica (sim) que lida diariamente com a agricultura e a pesca.

Padre João Trinta coloca com bastante proprie- dade que a profissão de pescador é a mais ampla em conhecimentos, incorporando informações e práticas de diversas profissões: meteorologia, física, navegação, mecânica, biologia, oceanografia e outras áreas do conhecimento. Para quem convive com isto, um pouco mais de apoio técnico na área de comunicação é o suficiente para montar um periódico ou uma rádio. Não existe maneira mais legítima de educar do que este processo de produção de um novo conhecimento, vivenciado, com jovens educando jovens, na sua lin- guagem. A capacidade de ser dono do nosso próprio destino é uma qualidade a ser alcançada por todo indivíduo e qualquer comunidade, em qualquer idade.

É preciso ficar claro que quando se fala em resgate de sua cultura, nada impede que conheçamos outras culturas. Aliás, isto é preciso. Poucas pessoas com- preendem que um índio da etnia M’bya Guarani não perde a sua identidade cultural se visita a cidade ou se adquire certos hábitos do ambiente visitado. Há um profundo preconceito em algumas posturas. Por que se critica tanto o uso de telefones celulares pelos indígenas? Nós não usamos os seus colares? O mesmo ocorre quando um negro alcança um posto de visibilidade na sociedade. Mas ele não era escravo, pobre? Como pode? A cultura não se perde por trocas, se perde por opressão, quando um grupo se coloca acima de outro. Segundo o professor da aldeia Morros dos Cavalos, em Palhoça, a uns 15 quilômetros de

Florianópolis, Marco Karaí Djekupé, “a única coisa que uma comunidade Guarani não pode nunca abrir mão é da sua Casa de Reza. Não importa onde ela esteja. Temos o exemplo de uma aldeia que está na periferia de São Paulo, no meio dos não-índios. Mas essa aldeia tem sua Casa de Reza e lá as pessoas vão escutar as palavras antigas, para que a nossa cultura nunca morra”.

Assim, todo e qualquer preconceito social é mais uma tentativa de manutenção de privilégios de grupos historicamente dominantes, a custo da violência física ou moral contra povos oprimidos. O extermínio dos ancestrais guaranis ainda é incompreensível, ainda como não é possível para os seus descendentes enten- derem a expulsão dos mesmos de terras a que histori- camente lhes pertence. Para estes povos – assim como eram para os carijós – não existem fronteiras, existe um território: Ywy rupa. Se não existem fronteiras, para que guerras?

A grande mídia

Leio e ouço recentes episódios de ataques ferre- nhos da grande imprensa aos povos e à cultura tradi- cional e penso no desserviço prestado por estes orgãos que deveriam informar criticamente o cidadão. Uma reportagem da revista Veja, de maneira preconceituosa, discriminatória e imoral se refere o povo M’bya Gua- rani (do qual os carijós eram um ramo) como invasor, estrangeiro, “Made in Paraguai”, como diz o título do artigo. Em matérias veiculadas recentemente e diaria- mente pelos Jornais da Globo, como “Crime no qui- lombo? Suspeitas de fraude e extração de madeira de Mata Atlântica” , também se denigre pessoas e loca-

A Educação como Base para a Manutenção da Cultura Caiçara

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lidades declaradas como remanescentes de quilombos, questionando a veracidade dos pareceres que tornam estas áreas de extrema importância histórica e cultural. Em ambos os casos há um desrespeito profundo por estas etnias, que se estende aos profissionais reco- nhecidamente idôneos de instituições reconhecidas, como a Fundação Palmares.

Coincidência (?) ou não (!), após esta reportagem televisada do Jornal Nacional, aparece uma pesquisa sobre a miscigenação brasileira – amplamente divulga- da pelo jornal Estado de S. Paulo, onde negros famosos fazem parte do público analisado. Entre eles, Neguinho da Beija-Flor (puxador de samba) e Daiane dos Santos (ginasta) descobrem que mais de 60% do seus genes têm ancestralidade européia. Já Sandra de Sá e Seu Jorge (cantores) têm uma ancestralidade predominan- temente negra, cerca de 90%. Quanto aos métodos utilizados e à veracidade das informações ainda não tive oportunidade de analisar. Mas quanto à postura dos editores do Jornal Nacional, posso afirmar que houve manipulação completa, pois só foi divulgado por esta emissora os negros de ancestralidade pre- dominantemente européia, em tom festivo. Sandra de Sá e Seu Jorge não apareceram na reportagem.

Por que relato estes fatos? A grande maioria da população assiste o Jornal Nacional como se fosse o porta-voz da verdade, guardião da informação. Já a revista Veja é tida por boa parte dos “formadores de opinião” como uma referência. Os jovens e os pais

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

destes jovens estão sujeitos diariamente a este bombardeio. Se não há um conhecimento da história e da cultura de sua região, de forma a permitir que estes espectadores tenham uma avaliação crítica da informação veiculada por estas mídias, o cidadão fica sujeito ao que estas empresas querem veicular.

Comentários Finais

Uma das poucas formas de enfrentar esta ten- dência de extermínio da cultura caiçara é contribuindo para que os jovens se organizem, descubram e pro- duzam. Neste processo, pode se descobrir – ao contrário do que conta a história oficial – que a cultura caiçara é o encontro da cultura portuguesa com a indí- gena, com pitadas africanas, espanholas e alemãs. Que quem não gosta de trabalhar por trabalhar, não é ser preguiçoso, e sim sábio. Também se descobre que, apesar da truculência dos portugueses que chegaram, temos que aceitar a sua cultura. Assim, como tive que aceitar por muito tempo torcer por um time de futebol, cujo nome representava toda esta violência: Vasco da Gama. Se o nome do time não é dos melhores, sua história é marcante. O Vasco foi o primeiro time brasi- leiro a aceitar jogadores negros. Até então, o futebol era um esporte da elite européia. Entre a violência portuguesa e a resistência negra, existe a cruz de malta, símbolo de Cananéia.

da elite européia. Entre a violência portuguesa e a resistência negra, existe a cruz de malta,
A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia “A proposta do nosso trabalho,

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

“A proposta do nosso trabalho, desde o início, é fazer o resgate da cultura caiçara. Porém, só no decorrer do trabalho percebemos realmente a importância do resgate dessas informações e a gravidade de estarmos aos poucos perdendo essa cultura, pois vimos a dificuldade dos entrevistados em relatar certos costumes, já que grande parte dos caiçaras já não os utilizam”. “Apesar de ter sido uma entrevista apenas para treinamento, foi muito proveitosa e coletamos muitas informações importantes”. “Procuramos abordar as pessoas de maneira clara e precisa, pois antes de começar

a perguntar explicávamos que a intenção desse trabalho é registrar os costumes para que sejam lembrados e vivenciados pelas futuras gerações. Optamos por ter uma conversa espontânea, o que deixava os entrevistados mais a vontade para contar suas histórias”. “Foi necessária até mesmo uma explicação mais detalhada com uma monitora ambiental (Ana Maria de Borba), cuja presença foi essencial para o desfecho do capítulo”. “As conversas com os mais antigos, nos revelaram o quanto são sábios, sendo relatadas histórias com muito respeito e verdade. Esperamos contribuir para que a cultura caiçara esteja sempre presente em nosso cotidiano, das maneiras mais diversas”.

“A realização desse livro nos fez mudar o modo de ver nossa região ( Também nos fez refletir sobre toda nossa cultura (caiçara) que está, infelizmente, desaparecendo aos poucos. O que faz a diferença em nosso trabalho é o fato de que é contado por pessoas que nos contavam com maior entusiasmo sobre suas vidas (algo tão íntimo), aprendemos muitas coisas, principalmente valorizar a nossa terra, a nossa cultura e os nossos costumes que nunca iremos deixar se perder”.

).

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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Poema Caiçara

Rubens Paiva – Poeta e Compositor Cananeense

Todo dia que Deus dá as quatro da madrugada, Pego remo e samburá, E vou dar uma pescada.

Pego a tralha e a tarrafa, Vou ver se a maré tá boa, Levo água na garrafa, E uma rede de malha dentro da minha canoa.

De lanceio e de currico, vou pescando mar a fora,

E quando a pesca é farta e boa, Colho tudo e venho embora.

Na minha casinha simples, Depois do almoço já feito, Descanso da minha lida e a mó de pensar na vida, Na minha rede eu me deito.

Quando já pesca esta mais franca, E o peixe magro e sem peso, Tenho que achar um jeito, Passo com água no peito, Porque é tempo de defeso.

Ai então vem a tristeza,

E me bate o pessimismo,

Sou um pescador seu moço,

E pra não passar sufoco,

Vou ter que viver do turismo.

Nos mares audazes guerreiros, Pescadores de uma força rara,

Em terra, na benção dos lares,

O orgulho de ser caiçara.

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Centro e Rocio Centro Rodeado por inúmeras construções históri- cas, que são um grande atrativo

Centro e Rocio

Centro

Rodeado por inúmeras construções históri- cas, que são um grande atrativo de nossa cidade, este bairro é onde se encontra o maior ponto comercial, palco das festas tradicionais e religiosas e de grande importância, não só para o município, mas para todo o Brasil.

não só para o município, mas para todo o Brasil. Imagem de Satélite Dayane Cristina Almeida

Imagem de Satélite

Dayane Cristina Almeida Cubas da Silva 1 Talita Alves Shimodaira 2

Almeida Cubas da Silva 1 Talita Alves Shimodaira 2 Mapa geográfico do Centro 1 Membro do

Mapa geográfico do Centro

1 Membro do Coletivo Jovem Caiçara. 2 Estudante do 1º ano do ensino médio da Escola Estadual Profa. Dinorah Silva dos Santos e membro do Coletivo Jovem Caiçara.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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14 Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Cananéia atrai gente do mundo inteiro por causa de suas belezas naturais, porém poucos conhecem seu valor histórico e cultural.

porém poucos conhecem seu valor histórico e cultural. Imagem de satélite dos bairros Família Lisboa da

Imagem de satélite dos bairros

Família Lisboa da Veiga
Família Lisboa da Veiga

Imagem do Morro

Foi a partir daqui que surge o primeiro povoado brasileiro, em meados do ano de 1502. Historiadores afirmam que nessa data aportou em Cananéia a expe- dição exploratória dos portugueses Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio, que dão o nome de “Barra do Rio Cananor” à região. Trazia com eles o “Bacharel”, Mes- tre Cosme Fernandes, que foi deportado, mas este local já era habitado pelos índios tupi-guarani e até mesmo antes pelo “homem do sambaqui”.

De característica nômade, estes habitantes se alimentavam de peixes, moluscos e crustáceos e tinham o costume de acumular os restos destes alimentos (ossos e conchas) em um único lugar. Os sambaquis (“samba” = concha; “qui” = monte), como são conhecidos, representam uma grande prova da passagem de seres humanos por esta região, há mais de 7.000 anos, como comprovada pela datação destes sítios arqueológicos.

comprovada pela datação destes sítios arqueológicos. Imagem do Morro nos dias atuais A Cultura Caiçara na

Imagem do Morro nos dias atuais

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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O povoado inicialmente se instalou ao sul da Ilha Comprida, conhecida como Ilha Branca, pro- vavelmente onde é hoje o sítio Boa Vista; chamada de Maratayama (“valoroso guerreiro”, em tupi-gua- rani) permaneceu ali por cerca de setenta anos.

Com o passar do tempo, se tornou notável a escassez de recursos naturais como água potável e terrenos para poder plantar e as pessoas tiveram que se retirar de lá. Por isso, vieram para onde é hoje Cana- néia; local adequado como estratégia contra a invasão de índios bravios que queriam extrair dessa terra o que havia de melhor e pelo fácil acesso ao continente.

Foi elevada à categoria de vila 3 em 1578, com o nome de São João Baptista de Cananéa e, à cidade,

Arquivos PEIC
Arquivos PEIC

Foto aérea de Cananéia, mostrando alguns bairros, o Morro São João e a Ilha do Cardoso ao fundo

3 Ou distrito de paz como também é encontrado em livros e documentos antigos

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

em 1895. A denominação do município foi alterada em 1905 abreviando-se o nome de São João Baptista de Cananéa para Cananéa. Já em 1932 é acrescen- tada a letra “i” ao nome, tornando-se assim Cananéia.

Família Lisboa da Veiga
Família Lisboa da Veiga

Início da construção do aterro da Avenida Beira Mar

Embora não existam documentos que informem com precisão a data de sua construção, a Igreja Matriz de São João Baptista provavelmente foi construída em meados do século XVI, com enormes e fortes

Família Lisboa da Veiga
Família Lisboa da Veiga

Igreja antiga, sem data.

portões, poucas janelas e com as seteiras (aberturas nas paredes em forma de seta) que serviam tanto para ventilação quanto para quem estivesse dentro poder se defender dos ataques de índios e piratas, servindo como uma espécie de fortaleza durante as batalhas que eram travadas.

espécie de fortaleza durante as batalhas que eram travadas. Igreja nos dias atuais Fachada da Igreja

Igreja nos dias atuais

as batalhas que eram travadas. Igreja nos dias atuais Fachada da Igreja Matriz de São João

Fachada da Igreja Matriz de São João Batista

dias atuais Fachada da Igreja Matriz de São João Batista Seteiras Antes da bela edificação de

Seteiras

Antes da bela edificação de agora, existia uma pequena capela com apenas quatro metros de fa- chada por nove na lateral; feita de taipa, suas pa- redes eram de cal e areia com estacas e ripas. A cobertura era feita com palha. Em volta existia um cemitério que foi posteriormente soterrado e por cima dele construída a atual igreja.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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Missa na praça Martim Afonso de Souza, sem data A técnica utilizada para a construção

Missa na praça Martim Afonso de Souza, sem data

A técnica utilizada para a construção foi trazida de Portugal e baseia-se no uso de pedra e cal. As

pedras eram obtidas nos rios e nos morros próximos

e a cal tirada dos sambaquis, tudo isso misturado a

óleo de baleia 4 para dar ligadura e formar uma massa, conhecida como berbigão .

Foi feita com a frente voltada para o antigo porto de Cananéia, na desembocadura do rio Olaria, que então se localizava onde é situada a ponte do Morro São João. As grandes embarcações atracavam às margens deste rio e a tripulação seguia de canoa em

direção ao extinto rio Piranguinha, que ficava defronte

a igreja e que foi canalizado para as construções das atuais ruas Tales Bernardes e Ernesto Simões.

5

4 Na Ilha do Abrigo existiu uma armação de baleia que foi utilizada nos séculos XVI e XVII para extrair o óleo das baleias e utilizá-lo em cons- truções e lamparinas. As ruínas estão lá até hoje, inclusive um grande

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tacho de cobre que está submerso, mas com as bordas à flor da água.

5 Nome de um molusco da família dos bivalves (Anomalocardia brasiliana).

Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Instituto Geográfico e Cartográfico de São Paulo
Instituto Geográfico e Cartográfico de São Paulo

Mapa geográfico antigo do Centro Histórico

A igreja passou por três grandes reformas, a primeira ocorreu em 1723 e foi colocado um assoalho de madeira; a segunda, em 1769, foram construídos os botaréus (contraforte de reforço nas paredes) e a tercei- ra, nos anos de 1977-1978 reformou o telhado e o altar.

Chegou a ter três importantes sinos que pos- suíam os seguintes nomes: Meão, Sião e Leão, hoje sabemos apenas que foram roubados, assim como a primeira imagem de São João Baptista esculpida em madeira e trazida de Portugal, a pedido de Martim Afonso. Com a foto do padroeiro em suas mãos nos relata com emoção uma moradora:

“[

igreja no estilo antigo, ela era toda forrada, era de

] olha este

escadaria, o santo ficava lá em cima [

aqui era o santo padroeiro que roubaram [

vocês precisavam ver que beleza que era a

]

Paróquia de São João Batista
Paróquia de São João Batista

Antigo altar no interior da igreja, sem data

João Batista Antigo altar no interior da igreja, sem data Interior da igreja atualmente Imagem roubada

Interior da igreja atualmente

Imagem roubada de São João Batista

da igreja atualmente Imagem roubada de São João Batista A Cultura Caiçara na História dos Bairros

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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O milagre de São João Batista

O milagre de São João Batista

O milagre de São João Batista
No tempo em que a região de Cananéia sofria com as guerras e invasões de

No tempo em que a região de Cananéia sofria com as guerras e invasões de piratas, muitos navios entravam pela barra e aqui saqueavam, roubavam e destruíam tudo o que encontravam pela frente. Os devotos de São João Batista afirmam que este santo tinha muita sabedoria e que saiu numa noite escura da igreja e foi até a barra de Cananéia e lá aterrou a entrada impedindo o acesso destes navios à baía de Trapandé. Contam que o sinal deste milagre estava registrado nos pés da imagem cobertos de lama no dia seguinte.

No altar da igreja existe uma pia batismal, construída em pedra, que é utilizada até hoje e está ali desde sua construção.

Antigamente as missas eram cantadas, o coral ficava na parte de cima da igreja, o padre apenas

complementava com algumas palavras. Hoje em dia ainda existe um coral que realiza apresentações em datas comemorativas religiosas, como a de Nossa

(12 de agosto), em que os

Senhora dos Navegantes

barcos são enfeitados para a procissão no Mar de Dentro; a de São João Batista, São Pedro (padroeiro

dos pescadores) e a do Divino Espírito Santo.

6

6 O simbolismo da mulher corajosa e orientadora dos viajantes fez com que Maria fosse vista como uma eterna vencedora dos inimigos das tempestades. Costuma-se festejar o dia que lhe é dedicado com uma grande procissão fluvial em muitos lugares no Brasil.

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia Pia batismal Procissão terrestre de Nossa Senhora

Pia batismal

Procissão terrestre de Nossa Senhora dos Navegantes, sem data
Procissão terrestre de Nossa
Senhora dos Navegantes, sem data
Família Lisboa da Veiga
Família Lisboa da Veiga

Procissão marítima de Nossa Senhora dos Navegantes, sem data

“As festas religiosas ainda têm, não como antigamente, mas tem do Divino Espírito Santo, por exemplo, no dia treze de maio as bandeiras saíam para o sítio com violas, essas coisas, e eles são esses cantores repentistas”. (Relato de uma moradora local)

cantores repentistas”. (Relato de uma moradora local) Chegada da Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, sem

Chegada da Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, sem data

da Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, sem data Procissão marítima de Nossa Senhora dos Navegantes,

Procissão marítima de Nossa Senhora dos Navegantes, agosto de 2005

marítima de Nossa Senhora dos Navegantes, agosto de 2005 Ruas enfeitadas para a procissão de Corpus

Ruas enfeitadas para a procissão de Corpus Christi

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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Procissão das bandeiras do Divino Espírito Santo 22 Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na

Procissão das bandeiras do Divino Espírito Santo

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

A igreja tem uma importância enorme para Cananéia, não só por sua arquitetura, mas também pelo que tem a nos revelar em seus detalhes e histórias do povo caiçara. Com todos os relatos concluímos que as pessoas sentem muitas saudades dos objetos que não estão mais ali, das missas e da religiosidade, que está se perdendo em meio a tantas mudanças. Mas, com todos os esforços, os caiçaras não devem desistir nunca e buscar de todas as maneiras manterem vivas suas tradições religiosas.

As casas mais antigas situam-se onde hoje é a Rua Tristão Lobo, também chamada de “Rua do

Fogo”, pois ali passavam os escravos que eram

pelos senhores. Nesta mesma rua também

era comemorado o entrudo.

açoitados

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Família Lisboa da Veiga
Família Lisboa da Veiga

Rua Tristão Lobo vista da igreja de São João Batista

Entrudo

Em princípio era uma comemoração feita pelos escravos, após o casamento de um senhor de engenho, uma colheita bem sucedida ou o nascimento de alguma criança importante (rica). Os negros eram soltos nesta rua e saíam brincando e jogando farinha uns nos outros, enquanto os ricos ficavam em suas casas; estes juntavam em baldes, água suja com comida podre e até urina, e jogavam pela janela nos escravos que passavam pela rua. Essa comemoração não possuía música nem ritmo. Os ricos por ficarem dentro de casa tiveram vontade de brincar também e começaram a comprar máscaras importadas da Itália para saírem nas ruas e não serem reconhecidos. Posteriormente, o entrudo passou a ter novas características com a presença da população que saía fantasiada de “lacaios”, “diabinhos”, “frades” e até mesmo rapazes com roupa de moça jogando farinha e água nos transeuntes. Por volta da década de setenta eram usadas laranjinhas coloridas, feitas com cera derretida e corante, com perfume dentro. Essas eram vendidas aos foliões que jogavam nas costas das pessoas. A comemoração se dava durante o tríduo de momo e nas passagens de ano com o bloco “Zé Pereira”, aspirando muita alegria no decorrer de todos os meses.

Um dos primeiros sobrados de Cananéia, localizado na Rua Tristão Lobo As casas seguiam o

Um dos primeiros sobrados de Cananéia, localizado na Rua Tristão Lobo

As casas seguiam o mesmo padrão de constru- ção da igreja e tinham em seu alicerce pedras, conchas (“berbigão”) e óleo de baleia. As telhas que cobriam estas residências eram confeccionadas nas coxas dos escravos. Misturava-se o barro vermelho (argila) com água até obter uma boa consistência, em seguida, amassava-se com os pés e depois modelavam a massa na coxa e retirava-se o excesso de massa. Colocava- se ao sol para secar e, por último, levava-se para perto da fogueira onde a peça era queimada.

Suas fachadas mostravam o poder aquisitivo de seus moradores através das “beiras”, que são ondula- ções salientes abaixo do telhado, quanto mais “beiras” a casa possuía mais rica era a família que ali morava. Muitas dessas casas também tinham um lugar reser- vado, com tanques e mesas, que era chamado “eira”, onde os escravos preparavam os alimentos para seu

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia Telhas feitas na “coxa” dono. Vem daí

Telhas feitas na “coxa”

dono. Vem daí o ditado popular que se refere às pes- soas com situação financeira desfavorável, “sem eira, nem beira”.

que se refere às pes- soas com situação financeira desfavorável, “sem eira, nem beira”. Casas com

Casas com as “beiras”

Por questão de segurança, as janelas padroniza- das seguiam o modelo europeu e abriam para dentro, só existindo vidro nas casas das pessoas mais ricas, já que eram importados da Europa.

das pessoas mais ricas, já que eram importados da Europa. Detalhe das janelas das casas A

Detalhe das janelas das casas

A atual Câmara Municipal localizada na Rua Pero Lobo era uma delegacia onde ficavam detidos em sua maioria pessoas com problemas mentais, loucos, já que o índice de criminalidade na época era

loucos, já que o índice de criminalidade na época era A Cultura Caiçara na História dos

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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bem mais baixo do que hoje em dia, como afirma seu Silvio Atanásio, morador do bairro Carijo que foi carcereiro na mesma.

morador do bairro Carijo que foi carcereiro na mesma. Câmara Municipal em 1938, mostrando a posse

Câmara Municipal em 1938, mostrando a posse do prefeito

O primeiro posto de saúde era onde é o asilo

“Amigos da Velhice de Cananéia”, na Rua Tristão Lobo, nessa época (início do século XX) existia apenas um médico, o Doutor Paulo Gomes, uma pessoa que estava sempre disposta a atender em sua casa (atual

Pousada Caropá) ou na casa dos seus pacientes. A

Santa Casa só foi construída em 1917 e tanto ela como

a antiga escola pertenceram ao caiçara mais culto da época, Antonio Paulino de Almeida.

A escola situava-se na antiga sede da prefeitura

municipal (atual Departamento de Obras), localizada na Rua Pero Lopes; chamada de Grupo Escolar Mar-

tim Afonso de Souza, suas aulas ocorriam de primeira

a quarta série, mas algumas crianças estudavam até

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

a segunda série apenas, pois muitas tinham que ajudar os pais em trabalhos diários.

Onde é a Escola Estadual Professora Yolanda Araújo Silva Paiva era um pasto de gado, seu terreno abrangia muito mais do que ela ocupa atualmente, quan- do construída foi considerada a escola mais moderna do estado de São Paulo, o que já faz mais de trinta anos. Este prédio foi o primeiro edifício da cidade em grandes proporções, de acordo com moradores do centro.

Palco de inúmeras festas, como afirmado ante- riormente, aqui o carnaval era festejado primeiramen- te em casas de famílias, depois é que foram criados os dois principais clubes da cidade, primeiro o Clube União e depois o Maratayama.

“O carnaval era como é hoje, sendo mais simples, sem tanta bagunça, tinha o desfile do bloco, que era bloco, não existia escola de samba, ali do União e o bloco do Carijo, era feito o carro alegórico em cima de caminhões com os desenhos da música e as máscaras, tinha a borração; entrava nas casas, borravam as moças, todo mundo se escondia, era com farinha de trigo, que era raro, só quem tinha um pouco mais abastado, hoje parece que tem e chamam de Pracô.” (Dona Maria Juliana)

A história de Cananéia deixa evidente também que a região passou por vários ciclos que influencia- ram diretamente a ocupação do município e principal- mente os modos de vida caiçara, quer seja em seus aspectos sociais ou culturais. Mourão (2003), faz uma afirmativa dizendo que estes ciclos trouxeram estas mudanças:

Fantasias usadas durante carnaval quer lançando o homem na terra, quer dela o tirando. A

Fantasias usadas durante carnaval

quer lançando o homem na terra, quer

dela o tirando. A passagem para a agricultura, nesta região, não nos parece que tenha correspondido, mesmo no passado, a um objetivo de vida. Recorre-se à agricultura ante o desaparecimento do ouro. Abandona-se a agricultura quando os estaleiros necessitam de madeira. Volta-se à agricultura quando a construção naval desaparece. Outros emigram. Abandona-se a agricultura quando o peixe, o palmito e, mais tarde, a caxeta, passam a ter mercado. Com a proibição do palmito e da caxeta, uma parte da população afeita a essa atividade, como parte dos que dependiam da coleta da ostra de mangue, que está desaparecendo, ou tenta a sorte em outras regiões ou, em menor número, tenta voltar às pequenas roças quando ainda detém sua posse”.

“[

]

Diante destas argumentações nota-se que o Centro esteve ligado intrinsecamente a estes ciclos

econômicos. Durante o século XVI e XVII a região foi muito explorada para a extração de ouro, evidenciado pelos lugares que ainda preservam características desta época, como os municípios de Eldorado, Apiaí

e Iporanga ou aqui, no bairro rural Rio das Minas. Neste período muitos moradores partiam em busca deste ouro, deixando para trás sua terra natal.

em busca deste ouro, deixando para trás sua terra natal. Cachoeira do Rio das Minas Com

Cachoeira do Rio das Minas

Com o fim deste ciclo ou com o declínio da exploração do ouro, a população que outrora desbra- vou essa região acaba emigrando e boa parte que fica,

dedica-se à agricultura, sendo que no século XVIII inicia-se em Cananéia um notável surto da agricultura

e o desenvolvimento da construção naval.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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Em 1711 começam a operar os primeiros esta- leiros 8 . A indústria de construção naval atinge o auge em 1782, existindo nessa época 16 estaleiros navais funcionando a todo vapor. Exportavam embarcações para todo o litoral brasileiro, inclusive para Portugal. A fartura provocada pela produção agrícola propor- cionou um melhor escoamento dos produtos e um incentivo ao comércio regional. Junto com o advento da construção naval, Cananéia caracterizava-se por um equilíbrio econômico entre a área rural e a área urbana.

Família Lisboa da Veiga
Família Lisboa da Veiga

Navios na baia de Trapandé em 1938

Em 1787 interditaram os principais portos da região, entre eles o de Iguape e de Cananéia, e isto fez com que muitos produtores não conseguissem

8 Lugar onde se constroem e consertam diversos tipos de embarcações e suas peças.

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

vender seus excedentes e a economia local caísse bastante. Muitas famílias acabam abandonando os sítios e suas propriedades rurais para tentar melhores condições de vida no centro, trabalhando nos esta- leiros e nos comércios em expansão.

Com a decadência da agricultura, tiveram que vender ou abandonar seus sítios para trabalhar na cidade, assim, na pesca tiravam seu sustento, já que a oferta de mercado era grande e recebiam seu di- nheiro após o término do serviço, o que não ocorria com a lavoura, pois tinham que plantar e esperar o tempo certo para colher.

Esse interdito dura pouco tempo, voltando a economia de Cananéia a prosperar novamente, só que poucos retornam para seus sítios e os que lá ficaram voltam a produzir para a exportação, mas muitos sitiantes saem do continente para trabalhar no porto. Nota-se no final do século XIX e início do século XX grandes exportações de arroz e farinha de mandioca, como constatado em algumas entrevistas e relatado em outros capítulos que tratam de bairros específicos. Em meados de 1820, a produção de barcos entra em decadência.

Nessa época, existiam armazéns onde se com- pravam artigos como querosene, sal e demais pro- dutos que não eram confeccionados artesanalmente; muitas casas possuíam uma pequena horta com plantas e ervas medicinais e criavam galinhas e porcos para o consumo familiar.

No início do século XX (1910 aproximadamen- te), a pesca transforma-se na principal atividade eco- nômica da cidade (pescados, camarões, ostras e

mariscos), facilitada pela introdução do papel moeda e pela pesca comercial.

Em 1923, explorava-se muita madeira para a fabricação de barris; a fábrica que se situava na Rua Dr. Alcoforado , atual Avenida Beira Mar, teve muitos empregados, mas fechou por falta de madeira.

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Família Lisboa da Veiga
Família Lisboa da Veiga

Fábrica de barris

Na década de vinte poucas estradas existiam, a maioria eram picadas que os próprios moradores abriam “no braço”, sem uso de qualquer máquina; somente na década de trinta é que começaram a construir estrada por terra, nessa época a travessia de Cananéia para o continente era feita por pequenas embarcações e depois por balsa, sendo que a ponte só foi construída em 1982.

9 Joaquim Guedes Alcoforado (1854 -1906) foi o primeiro magistrado (juiz) da Comarca de Cananéia.

Em 1958 a maioria da população que vivia no Centro se dedicava ao comércio e à prestação de serviços, especialmente nas fábricas que existiam aqui; destacam-se duas fábricas de conservas localizadas no Morro São João, uma de beneficiar arroz, outra de gelo e duas olarias (também no Morro).

Com toda a sua história, cultura, magia, encan- tos, momentos e esquecimentos, Cananéia tem muito a oferecer aos visitantes, que além de suas belas paisa- gens e atrativos, abriga um povo receptivo que está sempre disposto a mostrar o melhor da cultura caiçara, com suas crenças, músicas, festas e tradições.

Atualmente, o turismo em expansão nos preocu- pa pelo fato de preservar e não agredir o meio am- biente e muito menos as famílias, especialmente as que residem em áreas rurais. É possível conhecer todas as maravilhas deste lugar sem interferir na cultura local e o que ainda existe conservado. Sem dúvida é o nosso maior patrimônio e para nós possui um valor incalculável já que como legítimos caiçaras valori- zamos a nossa origem e a nossa terra.

Calmo, tranqüilo, indiferente a tudo, é de se ver o seu ardor patriótico e entusiástico regionalismo, quando se refere à terra em que nasceu.” (Antonio Paulino de Almeida)

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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Local onde existia uma fábrica de beneficiar arroz, hoje funciona um estabelecimento comercial 30 Saberes

Local onde existia uma fábrica de beneficiar arroz, hoje funciona um estabelecimento comercial

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

arroz, hoje funciona um estabelecimento comercial 30 Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de
Bairro Rocio Talita Alves Shimodaira 1 Avenida Independência 1 Estudante do 1º ano do ensino

Bairro Rocio

Talita Alves Shimodaira 1
Talita Alves Shimodaira 1

Avenida Independência

1 Estudante do 1º ano do ensino médio da Escola Estadual Profª. Dinorah Silva dos Santos e membro do Coletivo Jovem Caiçara.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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O bairro Rocio está localizado na área urbana de Cananéia, seu nome se origina da grande quantidade de plantações que existiam em seus arredores, no tempo em que as ruas ainda nem tinham pavimentação.

Hoje em dia seu aspecto físico é outro, no lugar dos caminhos abertos no meio da mata, que outrora compunham a paisagem local, que por ação dos moradores foram se alargando, existe a Avenida Independência que cruza toda a cidade.

As casas eram de pau-a-pique e entulho, feito

com madeira cuja massa usava cal e areia branca, enquanto a cobertura era com a palha gamiova (Geonoma schottiana). Na década de 50 as construções mudaram, sendo feitas de madeira, já no início dos anos 80 se encontravam moradias de alvenaria, assim, ao decorrer dos anos o Rocio vem sofrendo algumas modificações em relação à arquitetura.

A principal atividade econômica era a

pesqueira, que se estendia do mês de abril a setembro, pois após esse período era interrompida para defeso das espécies marinhas. Havia vários estilos de pesca como, por exemplo, redes, cercos, tarrafas, espinhéis, pité e tacho.

“Pité, estilo de pescar camarão, era feito através de duas canoas lado a lado, que iam com uma espécie de peneira, arrastando os camarões.

Tacho era colocada a taquara pra ponta da canoa, acesa com uma tocha, um atrás ia remando e o outro ia fisgando os peixes com a lança”. (Relato de um morador local)

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Todos os produtos cultivados nas lavouras ser- viam para a subsistência da população, como a man- dioca, o arroz, a cana-de-açúcar e o feijão. Eram com- prados apenas os mantimentos que não podiam ser produzidos, como o sal e a querosene.

Um dos melhores lugares para o plantio ficava situado onde hoje é a Avenida Independência, antes chamada de Francisco Chaves.

As mulheres, além de cuidar da casa, ajudavam seus maridos na roça, levando os filhos juntos para a lavoura, mesmo os homens ficando encarregados dos trabalhos mais pesados.

Os alimentos típicos do bairro, fruto da própria produção local eram: o peixe seco com banana, prepa- rado com banana verde, a batata doce, a abóbora, o cará, a batatinha desfiada servida com peixe ou então a caldeirada, preparada com óleo de dendê, creme de leite, pimentão (vermelho e verde), lula, pedaços de polvo, mariscos e outros ingredientes à preferência.

A cataia 2 (Drymis brasiliensis), árvore típica da região, muito popular no Vale do Ribeira e norte do Paraná, possui folhas com propriedades medicinais, era usada para temperar alimentos e fazer chá, além de ser consumida curtida em cachaça pura ou com mel, que quando submersa na aguardente reduz drasticamente sua acidez, fazendo com que a bebida torne-se saborosíssima, por isso é também chamada de “uísque caiçara” ou “uísque da praia”.

2 O nome cataia vem do tupi e quer dizer “folha que queima”.

O uso de fitoterápicos era muito corriqueiro,

sendo que cada pessoa os usava de acordo com seus conhecimentos; os principais problemas de saúde enfrentados antigamente eram verminoses 3 , que acabavam ocasionando muitas mortes, pois até os indivíduos descobrirem o que tinham, já não havia mais solução, morrendo sem sequer saber qual doença lhes afetava.

A educação era muito rígida, segundo relato

de um morador tradicional “existia um inspetor de menores, e todos o respeitavam muito”.

As famílias eram muito unidas, em épocas de festa comemoravam todas juntas. Os jovens trabalha- vam com seus pais, faziam suas brincadeiras e tinham suas brigas, porém respeitavam uns aos outros.

A cultura caiçara era muito mais valorizada

antigamente. Havia várias festas tradicionais que se

desenrolavam durante todo o ano; no mês de março era Festa de São José; em maio, Festa do Divino, em que a bandeira do Divino Espírito Santo passava por

3 Espécie de infecção intestinal provocada por parasitas. Os principais sintomas relacionados com as verminoses são: cólicas abdominais, enjôos, mudança do apetite, falta de disposição, fraqueza, emagre- cimento, tonturas, vômitos, diarréia com ou sem perda de sangue ou fome constante.

todos os bairros da cidade, inclusive os rurais; em junho, precisamente no dia 24, Festa de São João; agosto co- memoração de Nossa Senhora dos Navegantes; já em outubro, Festa de Nossa Senhora do Rosário e dezem- bro, além das festas natalinas, Festa de São Benedito.

O ritmo mais escutado era o fandango, onde se usavam instrumentos feitos artesanalmente como a viola, a rabeca, o cavaquinho, o adufo e o tamborim. Nos últimos tempos vem se tornando cada vez mais comum, inclusive com a participação de jovens tanto em grupos de tocadores, quanto nas festas em que a música e dança tipicamente caiçara enchem de alegria os salões com seu “arrasta pé”.

Referências Bibliográficas

MOURÃO, Fernando A. Albuquerque. Os pescado- res do Litoral Sul de São Paulo: um estudo de Socio- logia diferencial. São Paulo: Editora HUCITEC/ NUPAUB/CEC/USP, 2003, pág. 131.

Paulo: Editora HUCITEC/ NUPAUB/CEC/USP, 2003, pág. 131. A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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Bairro Carijo e Morro São João

Bairro Carijo e Morro São João 34 Porto do Carijo e Morro São João Saberes Caiçaras

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Porto do Carijo e Morro São João

Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Carijo André Murtinho Ribeiro Chaves 1 Lais Cristine Xavier 2 Sílvio Atanásio 3 Rosalina Gomes

Carijo

André Murtinho Ribeiro Chaves 1 Lais Cristine Xavier 2 Sílvio Atanásio 3 Rosalina Gomes da Silva 3 Jan Van Der Heijden 3

O Carijo 4 hoje é um bairro eminentemente de pescadores artesanais, bem simples, bem pobres, mas que começaram a vender o pescado para o pessoal de Santos. Como método de preservar os peixes no passado, usava o sal”. (Padre João Trinta)

O nome Carijo origina-se dos índios Carijós que habitavam a região sul do Brasil, encontrando-se esse povo desde Cananéia até a Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul. No ano de 1500 estima-se que existiam mais de 100.000 mil carijós, mas em 1700, a etnia carijó é massacrada e dizimada.

Algumas terras que possivelmente abrigaram os carijós em nosso município foram o Varadouro, o Taquari, a costa oeste da Ilha do Cardoso (caminho do Canal do Ararapira) e, no Paraná, a Ilha do Superagui.

1 Mestre em Ecologia, docente da Escola Estadual Profa. Yolanda Araújo

Silva Paiva e membro do Coletivo Educador de Cananéia.

2 Membro do Coletivo Jovem Caiçara.

3 Moradores do bairro Carijo entrevistados durante a pesquisa de campo.

4 Tanto o povo como o bairro se escreve da mesma forma: Carijó (oxítona). Entretanto, os moradores de Cananéia historicamente, não se sabem muito os porquês, alteraram a pronúncia para Carijo (paroxítona), sem o acento. Isto também facilitará a leitura ao diferenciar a etnia indígena do bairro.

O bairro do Carijo se localiza circundando o Morro São João e seu acesso pode ser feito atraves- sando a ponte do rio Olaria, próximo ao centro da cidade. Teve sua formação definitiva em meados de 1902 com pequenas casas construídas pelas próprias famílias que ali chegaram e se estabeleceram em chácaras e sítios próximos ao rio.

e se estabeleceram em chácaras e sítios próximos ao rio. Imagem de satélite Cananéia A Cultura

Imagem de satélite Cananéia

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Imagem de satélite do bairro Carijo “ A oferta de numerário possibilitada pelo pescado e

Imagem de satélite do bairro Carijo

A oferta de numerário possibilitada pelo pescado e a possibilidade de se receber dinheiro logo após a pescaria, em vez de ter que aguardar o amadurecimento da pequena colheita que, no mercado de troca, atingia pequeno valor, determinaram a passagem para a pesca, como meio de subsistência, de cerca de cinqüenta famílias que ou venderam ou abandonaram seus sítios para se instalarem na cidade de Cananéia, onde formaram o bairro do Carijó, junto do morro São João”. Mourão (2003)

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia Índios Guarani M’Bya, em Cananéia existem quatro

Índios Guarani M’Bya, em Cananéia existem quatro aldeias onde podemos encontrar esse povo

As primeiras famílias que ocuparam o bairro foram a Reis, a Rangel, a Gomes e a Teixeira. Ainda existem familiares delas no bairro, muitas vieram do Araçaúba (localidade próxima ao Ariri e Varadouro, na divisa com o Paraná). Outras moraram um tempo na Praia do Meio (atualmente Bairro do Marujá) na Ilha do Cardoso e depois migraram para o Carijo, formando pequenas chácaras com cerca de cinco casas.

O Sr. Silvio Atanásio, morador do bairro a se-

tenta e sete anos, já foi vereador, carcereiro e também presidente da Colônia de Pescadores e nos contou que

quando ele chegou ao bairro, em 1930, “[

] morava

seis famílias aqui, não tinha água, não tinha luz, não tinha nada, quem puxou a luz pra cá a primeira vez fui eu [ ]”, e salienta que colocou postes de madeira, fez ligações elétricas e pagou todas as despesas, já que o prefeito nessa época não disponibilizou nenhum recurso financeiro e muito menos mão de obra.

Carijós

Com o naufrágio de um navio português na ilha de Santa Catarina seus tripulantes conseguiram alcançar as terras dos guaranis, terras já então campeadas por eles. Esses homens acabaram se unindo às índias adotando um novo regime de vida, fator esse que ocasionou o nascimento de inúmeros mamelucos (portugueses mais índios), cafusos (índios mais negros) e mestiços (brancos mais negros); sofreram uma alteração onde mudou completamente o aspecto desses indígenas e desde aí, começou a surgir a etnia “carijós”, que significa arrancado do branco, mestiço.

Os Carijós ocupavam o território que ia de Cananéia até a Ilha dos Patos, eles eram sem dúvida dóceis, trabalhadores e bem intencionados pertencentes ao ramo dos tupi-guaranis (tupi “o grande pai” ou “líder” e guarani “guerreiro”) e esse povo indígena fez um percurso do Paraguai para o sul do litoral brasileiro.

As casas que eles construíam eram cobertas com cascas de árvores e cultivavam o algodão, este eles usavam pra fazer agasalhos e redes que enfeitavam com plumas e penas, eram um povo muito receptivo a todos os navios, mas, porém um dia foram traídos bruscamente

e começaram a chamar o “homem branco” de inimigos.

Com relação à cura e a bruxaria eles possuíam uma sabedoria maior do que a outros nativos. Por exemplo: quando eles queriam matar alguém, pegavam um sapo, amarravam a uma árvore e conforme o animal fosse desfalecendo a pessoa também iria, ou se desejassem que alguém ficasse cego, tinha que enterrar um ovo debaixo da rede, mas se alguém descobrisse, a mandinga deveria ser desfeita.

Com certeza devemos aos índios o fato de nossa existência e principalmente todo o

nosso respeito, pois eles obtiveram uma importância enorme por toda a sua história,

seus conhecimentos

Foi um povo extremamente gentil e disposto a ajudar a qualquer um,

será que nos povos de hoje encontramos pessoas assim???, Seres humanos com toda a sua cultura dispostos a ajudar ao seu semelhante sem receio algum??!!

Se deixarmos a nossa “ignorância”, veríamos que eles são muito mais importantes para nós do que nós para eles.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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Silvio Atanásio A Sra. Rosalina Gomes da Silva, graciosamente chamada de “Rosinha”, moradora a sessenta

Silvio Atanásio

A Sra. Rosalina Gomes da Silva, graciosamente chamada de “Rosinha”, moradora a sessenta e quatro anos no bairro, lembra como ele começou a crescer:

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Depois de muito tempo é que foi crescendo,

] Minha mãe,

ela diz que ela mesmo que fez esse caminho pra

] eu lembro

assim até menina, esse caminho tinha aquela ponte grande que tem lá, o porto nós chamava de ponte grande, ali onde tem aquela manilha pra cá, mais ali onde tem aquelas coisa da Sabesp agora, nós chamava ponte pequena, já era uma

pontinha mais pequena né, então o caminho era ali mesmo, sabe? Era só um caminho”.

se formando mais gente [

baixo, que era pouca estradinha [

Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia Ponte sobre o rio Olaria, antigamente chamada

Ponte sobre o rio Olaria, antigamente chamada de Ponte Grande

As casas eram construídas de madeira cobertas com guaricana 5 ( Geonoma schottiana ) e

As casas eram construídas de madeira cobertas com guaricana 5 (Geonoma schottiana) e o chão de barro, algumas apresentavam o assoalho de madeira, utili- zando para tal a canela preta (Ocotea catharinensis), uma madeira muito resistente. Quando eles precisa- vam de barro iam buscar no morro São João, pois é o único local na Ilha de Cananéia que possui um tipo de solo diferente (argiloso). Dona Rosinha, falando de como eram as casas antigamente, lembra-se de al-

gumas práticas comuns na época “[

] então quando

se quebrava um pedaçinho de chão minha mãe pegava a latinha e ia lá pegá barro pra arrumá”.

A base do sustento que predominava no bairro era a agricultura, dona Rosinha fala que “a gente antigamente vivia mais disso ai né, do que plantava né, a

gente comia muito cará, essas coisas, batata-doce, a gente foi criado mais assim né, nessas coisas do lugar mesmo,

mas não como fonte

fazia farinha, tinha o biju né [

de renda, e sim como forma de subsistência, além disso beneficiavam muitos produtos comuns na época, como açúcar 6 e farinha de mandioca. Nesse sentido nos conta o Sr. Sílvio Atanásio que ele e sua mãe faziam açúcar da seguinte maneira:

]”,

“A gente pegava o caldo da cana punha num tacho grande pra fervê e vai fervendo, até ficar rijo, depois que esfria ele vira melado, rapadura, mas se quiser fazer açúcar vai batendo mais, até endurecer, endureceu você tira aqueles tabletes”.

5 Esta cobertura de palha possui como característica o impedimento total da passagem de água e ainda retém calor no inverno e ameniza a temperatura no verão. 6 Principalmente o mascavo, que não passa por processo de refinamento, mantendo assim as vitaminas e sais minerais do caldo da cana.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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Barcos de pesca no porto do Carijo Nessa época, a pesca era pouco praticada e

Barcos de pesca no porto do Carijo

Nessa época, a pesca era pouco praticada e as embarcações eram bem menores; pescavam em pequenas canoas chamadas “canoas de um pau só”, sendo que não existiam as peixarias e os pescados eram vendidos para embarcações que vinham de Santos e Santa Catarina.

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Atualmente, a pesca é a principal fonte de renda e o bairro abriga o maior número de pescadores do município, cuja profissão requer um amplo conhecimento de práticas e saberes tradicionais, pois depende de fatores como o clima, o barco, o motor, a rede, a procriação das espécies marinhas, a qualidade da água, enfim uma gama de situações de múltipla complexidade.

Um dos fatores que contribui para a escassez de pescado é a pesca de arrasto, que é feita com um ou dois barcos que puxam uma rede encostada no fundo do mar, muito eficiente para arrastar tudo o que aparece pela frente e extremamente predatória do ponto de vista ambiental e da conservação dos estoques pesqueiros. Os pescadores tentam interceder para que esta prática acabe, pois traz grandes prejuízos para aqueles que possuem embarcações de pequeno porte.

traz grandes prejuízos para aqueles que possuem embarcações de pequeno porte. Embarcação com suas redes de

Embarcação com suas redes de arrasto

Cerco

O cerco possui uma importância

Cerco O cerco possui uma importância enorme para a pesca, é uma armadilha fixa para reter

enorme para a pesca, é uma armadilha fixa para reter os peixes. É a principal técnica empregada no estuário; os moradores afirmaram que quem trouxe essa arte para cá foi um pescador de Iguape que aprendeu com um catarinense e depois ensinou o pessoal. Feitos com bambu ou taquara mirim e arame sustentado por mourões, a forma de colocação do cerco depende do posicionamento das primeiras cinco madeiras na água, pois a partir delas que ele é estruturado. Existem dois tipos de cerco:

o de inverno, com a malha maior por causa da tainha (que é pescada nesse período) e o de verão, com a malha menor (parati, corvina, robalo e a carapeva). A durabilidade do cerco é de três meses, aproximadamente, quando os bambus começam a se quebrar é trocado o arame ou feita a substituição.

É evidente a inocência das pessoas antiga- mente, algo fantástico e respeitado por todos, crianças, idosos e até mesmo jovens.

Dona Rosinha lembra que “antigamente tinha a ‘procissão dos mortos’, no dia de finados, e colocavam medo na gente, a gente até hoje fala, né:

‘- não deixem a roupa na rua no dia de morto’. Dia um para o dia dois não deixava nada fora, os mortos

iam passar [

(aponta a localidade)”.

Após término do carnaval e por mais quarenta dias (quaresma) ninguém podia ir para bailes, dançar, cantar e até assobiar, falavam que nascia rabo! Assim, devido ao medo todos seguiam essas orientações, pois naquela época as superstições eram tratadas com enorme respeito. Moradias comuns antigamente no bairro Carijo

e n t e n o b a i r r o C a r i

].

Deus me livre, aqui era o caminho

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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Lenda da Procissão dos Mortos

Contam que em Cananéia existiam algumas mulheres que eram vizinhas e que tinham o costume de ficar conversando na rua depois da meia-noite. Elas moravam atrás do cemitério, num bairro um pouco distante do centro da cidade.

Certa vez, numa dessas conversas, exatamente a meia-noite e meia, elas viram a “procissão dos mortos” vindo do cemitério, com todos seus componentes vestidos de preto e carregando uma vela nas mãos.

Elas pararam de conversar e prestaram atenção no cortejo e viram que um dos integrantes deixou uma vela na janela de uma delas. Depois que a procissão passou elas notaram que não era uma vela, mas sim um osso.

Diz a lenda que uma vez por ano a procissão passa de madrugada e deixa uma vela na janela da casa das pessoas. Ou será um osso?

Em relação às festas, a única comemorada no bairro era a do padroeiro São Pedro, o protetor dos pescadores, pois as outras festividades ocorriam no centro de Cananéia.

O modo de vida caiçara sempre foi muito sim- ples, desde suas crenças, usos e costumes até o cui- dado com sua alimentação; no dia-a-dia era refeição

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

simples, principalmente o arroz com feijão e peixe, já em datas comemorativas existiam acompanhamentos especiais como vinhos e carnes nobres. Dona Rosinha fazia a moqueca da ova de peixe 7 preparada da seguinte forma: primeiro tempera-se bem as ovas amassando todas elas para depois juntar com a farinha de mandioca, para dar consistência, depois ela é então enrolada numa folha de bananeira e levada para debaixo da brasa do fogão a lenha, onde permanece até o cozimento final; prato esse sempre apreciado nas refeições matinais.

final; prato esse sempre apreciado nas refeições matinais. Dona Rosinha em frente a sua casa 7

Dona Rosinha em frente a sua casa

7 Eram usados muitos tipos de peixes para as receitas caiçaras, mas o que foi citado com muita ênfase foi o bagre.

Antigamente no bairro do Carijo não existia rede de esgoto e a água era retirada de poços ou dos chafarizes que existiam espalhados pela cidade, sendo utilizadas para tudo, desde o preparo dos alimentos, para lavar roupas, beber e até mesmo tomar banho.

Com relação à saúde havia apenas um médico, que morava no Centro da cidade, onde é a pousada “Caropá”, o Dr. Paulo Gomes, assim, com toda essa falta de tratamentos e medicamentos as pessoas notavam que era muito mais fácil cuidar de seus males em casa, cultivando ervas e plantas usadas para curar diversos tipos de doenças, como nos contou seu Silvio Atanásio que teve uma doença chamada de Tracoma 8 que quase o deixou cego:

Ele só me ensino lava o olho com água, chama rosa branca, aquela flor da rosa branca, coloca ela num copo com água, deixa em infusão, depois fica lavando o olho, no prazo de cinco dias tava bom, doença do Tracoma que chama”.

Outro fator que contribuía para a utilização diária de saberes populares, bem como dos recursos naturais como plantas e ervas medicinais, coincidia com o nível da educação que existia na cidade.

Existia apenas uma escola na cidade, chamada de Grupo Escolar “Martim Afonso de Souza” e os estudos acabavam na quarta série, quem quisesse

8 É uma doença da conjuntiva (tecido vivo formado por uma substância fundamental na qual estão inserida células e certas formações especiais ou fibras e que serve de sustentação e, simultaneamente, nutrição e proteção) e da córnea (região anterior da esclerótica, transparente e de maior curvatura do que esta, coberta na sua superfície exterior pela conjuntiva) que pode levar à cegueira.

prosseguir não tinha alternativa senão ir embora de Cananéia. Com isso, muitos paravam de estudar e dedicavam-se logo cedo aos trabalhos em expansão no município, como a agricultura e a pesca. Já os mais aventureiros iam dar aulas nos sítios, pois quem tinha até a quarta série já estava apto para isso, como salientado por Dona Rosinha.

A estrutura familiar nunca foi bem definida entre os moradores do Carijo, o papel de cada membro da família era pouco estabelecido, a mãe sempre teve duas representações, a própria e a de pai, ao mesmo tempo, já o progenitor poucas vezes tomava a iniciativa de uma conversa “entre pai e filho” o que tornava a mulher muito mais forte.

Como nos disse Dona Rosinha “antigamente eu acho que o mundo era melhor, não tinha o modernismo de hoje, mas também não tinha violência”. As pessoas podiam pescar, caçar e plantar com o máximo de segurança, pois sabiam que não seriam multadas por estarem praticando seu único meio de sustento, já que esta atividade ocorria apenas para consumo próprio e não para comercialização.

Os caiçaras muitas vezes são chamados de preguiçosos, pois até na definição utilizada pelos dicionários está “indivíduo de pouco valor, caipira”, mas na verdade ele trabalha para obter apenas a sua subsistência, não possuíam a ganância que encontramos de querer sempre ter mais e mais dinheiro, para eles, poder sentar-se à sombra de uma árvore e conversar sobre qualquer assunto é sagrado.

Jan Van Der Heijden, conhecido como Padre João Trinta, foi vigário da igreja de São João Batista de

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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Cananéia por trinta anos e conta que o modo de vida do caiçara pode ser exemplificado através dos diálogos cotidianos das pessoas, “damos nome a essa conversa de ping-pong de idéias” e ocorre quando existe um inter- valo (pausa) entre a conversa de dois ou mais caiçaras:

“ – É cumpadre, o tempo tá bom, não tá?”

“ – Mas à noite vai esfriá!”

“ – Bem melhor que aquele calor de duas semanas atrás, hein?”

Sem dúvida o povo caiçara é um povo muito inteligente com todas as suas características, suas

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

crenças e seu modo de vida. Isso nos dá um enorme orgulho em sermos “CAIÇARAS”, pois ser caiçara “é uma maneira de viver que o povo de fora admira, não sabe o que é, mas dizem que é bonita. Uma cultura produzida pelo isolamento.”, como lembrado nas sábias palavras do Padre João Trinta.

Referências Bibliográficas

MOURÃO, Fernando A. Albuquerque. Os pescado- res do Litoral Sul de São Paulo: um estudo de So- ciologia diferencial. São Paulo: Editora HUCITEC/ NUPAUB/CEC/USP, 2003, pág. 51.

Sul de São Paulo: um estudo de So- ciologia diferencial. São Paulo: Editora HUCITEC/ NUPAUB/CEC/USP, 2003,
Morro São João Dayane Cristina Almeida Cubas da Silva 1 Maria Aparecida Xavier Pontes 2

Morro São João

Dayane Cristina Almeida Cubas da Silva 1 Maria Aparecida Xavier Pontes 2 Zeneide Xavier Pontes
Dayane Cristina Almeida Cubas da Silva 1
Maria Aparecida Xavier Pontes 2
Zeneide Xavier Pontes 2

Por do sol atrás do Morro São João

1 Membro do Coletivo Jovem Caiçara.

2 Moradoras do bairro Morro São João entrevistadas durante a pesquisa de campo.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

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O morro São João era chamado de Candairó;

Dona Maria Aparecida Pontes, moradora local há 40 anos, lembra que “quando nós viemos pra cá, eu acho

que só tinha quatro casas” e complementa falando sobre alguns residentes como “Seu Avelino Pontes, Seu An-

que eram os

moradores mais antigos e hoje só tem os filhos, porque eles já faleceram”.

O nome do bairro vem do fato de sua localização ser na base do morro São João, único ponto alto de Cananéia que devido a processos de entemperismos (sol, chuva, vento) foi sofrendo desgaste e formando essa parte onde fica a ilha de Cananéia, isso no de- correr de milhões de anos. Avanços e recuos do mar também caracterizavam esse processo de formações insulares. Um dia a Ilha de Cananéia e a Ilha do Cardoso já foram ligadas ao continente, o que leva a comprovar o fato de existirem, por exemplo, animais em muitas ilhas distantes da costa.

é um bairro

pequeno né, ele não cresce mais [

porque não tem lugar,

tenor Godoy e Seu Antonio Moaes, [

]

Como salienta Dona Maria, “[

]

]

o morro é tombado” e realmente não cresce, pois de um lado temos o Morro São João e circundando o bairro do Carijo.

As casas eram feitas de madeira, depois é que foram modificadas e passaram a ser de alvenaria.

A origem do bairro é devida, principalmente,

ao estabelecimento de muitas famílias provenientes da Ilha do Cardoso que saíram de lá após o local ter se tornado parque e ocorrido muitas restrições am- bientais, que impediram, por exemplo, muitas práticas agrícolas.

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia Embarcações atracadas no bairro Morro São João

Embarcações atracadas no bairro Morro São João

“[

virou um parque, então como nós éramos agricul- tores nós não podíamos ficar lá, porque tinha que

cortar a mata, plantar, né, aí nós tivemos que sair, aí que a gente saiu e graças a Deus conseguimos

lugar aqui, deu sorte[

(Dona Maria)

toda família que veio da ilha, veio porque lá

]

]”.

Após se estabelecerem tiveram a pesca como

principal fonte de renda, já que as famílias que aqui chegaram, embora fossem agricultores, hesitavam em

despencasse” como

plantar com medo de que o “solo

afirma Dona Maria. Com isso, muitas pessoas começaram a praticar a pesca embarcada e os que

3

3 O solo do morro se diferencia do resto da cidade, já que lá é argiloso e nas demais localidades é arenoso.

não eram pescadores trabalhavam na fábrica de gelo que ficava na Ceagesp – Companhia de Entreposto e Armazéns Gerais do Estado São Paulo (inaugurada em 1958) ou em outros pontos comerciais.

“Quando nós chegamos aqui era pesca, meu pai e meu irmão pescavam e quase todos, depois cada

] A Ceagesp

tem faz tempo, meu marido quase se aposentou da Ceagesp. Tem um rapaz aqui também, o Aroldo, filho do seu Laudilino, ele se aposentou na Ceagesp”.

(Dona Maria)

um foi conseguindo um trabalho, né [

Este bairro, assim como o Carijo, concentra a maior parte da economia da cidade, pois é onde atracam o maior número de embarcações pesqueiras que vendem seu pescado para as peixarias e para as empresas que congelam e o revendem, gerando com isso empregos e renda para diversas famílias.

No início, a pesca era feita à canoa, costume que mudou com a vinda de barcos de Santa Catarina, que introduziram os barcos à motor.

Temos também o mercado municipal (ao lado da ponte) que atualmente está fechado, mas já funcionou vendendo pescados e demais frutos-do- mar que eram embalados ali mesmo.

Notamos que atualmente há um número elevado de funcionários públi- cos no bairro. Apenas dois moradores têm o artesanato como fonte principal de renda, como foi citado nas entrevis- tas, ambos trabalham com madeira e raízes.

No entreposto de pesca conheci- do como “Golfinho”, atrás do Morro São João, existia uma olaria onde se con- feccionavam potes, panelas, cuscuzeiras e até mesmo as máscaras utilizadas para o carnaval, tudo artesanalmente. Lá também é um dos pontos turísticos de Cananéia e possui um valor histórico muito importante para a cidade, pois é onde se encontra o “argolão”, local on- de fixaram enormes argolas para anco- rar as naus no tempo da colonização.

argolas para anco- rar as naus no tempo da colonização. Atual Ceagesp A Cultura Caiçara na

Atual Ceagesp

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

47

Nesta época funcionava também uma fábrica de produtos enlatados, tudo era produzido lá mesmo,

como nos relata Dona Rosinha que trabalhou no início

da década de cinqüenta na mesma: “[

Depois eles começaram a plantar

pêssego, ameixa, essas coisas”.

O cotidiano dos moradores do bairro mescla os costumes da Ilha do Cardoso com os do centro, sendo notório nas lembranças dos entrevistados a vivência deles nos sítios com receitas, festas e costumes.

Dona Maria nos conta uma receita de “caldera- da de peixe”. Primeiro você escolhe um peixe bom, como: caragutanga, robalo, bagre, tainha, entre ou- tros; corta-se o peixe em postas e tempera-o apenas com limão e sal. Numa panela grande refogar cebola,

lá de palmito, doces [

] tinha fábrica

]

refogar cebola, lá de palmito, doces [ ] tinha fábrica ] Entreposto particular de pescados, “Golfinho”

Entreposto particular de pescados, “Golfinho” e o histórico argolão

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

alho, pimentão, cheiro verde, salsinha, manjericão e outros ingredientes de sua preferência. O próximo passo é colocar o peixe para dourar e em seguida a água, alguns tomates e mais cebola. Quando ele estiver cozido você mistura o caldo do peixe com a farinha de mandioca. Ressaltando que esse é um prato típico de toda a região. Destacam-se no dia-a-dia destes moradores o uso de plantas e ervas medicinais, que ainda são lembradas e utilizadas pelos mais antigos, como a folha de caju, o jambolão e a carobinha que servem para controlar o diabetes. Temos também o exemplo da “garrafada”, contada pela mãe de Dona Maria, a Senhora Zeneide Xavier Pontes, que é uma infusão de ervas que as mulheres bebiam após dar à luz pelas mãos de sábias parteiras.

Xavier Pontes, que é uma infusão de ervas que as mulheres bebiam após dar à luz

”Sabe o que a gente fazia depois que ganhava neném? A parteira que cuidava da gente torrava

sal bem torradinho, fervia um pouco de água, punha uma colher de sal rasa, colocava numa caneca a água que fervia , borbulhava, aí deixava esfriar e a gente tomava aquilo parece que queimava a gente. Antes de ganhar o neném já vinha aqui na cidade comprar os preparativos, era pinga pixilim, noz-moscada, abutu, mana e sene, eram sete remédios que a gente comprava e ralava. Aquele abutu, o pixilim e a noz- moscada tudo bem raladinho no ralador, arrumava uma panelinha e torrava aquilo bem raladinho com o açúcar, fazia uma calda com o açúcar e enquanto tava quente a gente vi- rava um pouquinho daquela pinga e deixava esfriar e tomava cinco dias, e também não saía do quarto antes dos cinco dias, não tomava água fria, nada, fazia uma dieta tanto dos pés como de comida. Quan- do uma mulher que ga- nhava neném, e elas se cuidavam tinha a qua- rentena, o negócio da co- mida minha mãe era muito medrosa para es- sas coisas e conhecia muito bem as coisas ela era do sítio, ela era mui-

conhecia muito bem as coisas ela era do sítio, ela era mui- Dona Maria Aparecida Xavier

Dona Maria Aparecida Xavier Pontes e Dona Zeneide Xavier Pontes

to inteligente [

]”

Todo esse conhecimento foi passado de geração para geração através das famílias que um dia viveram nos sítios, com todas suas facilidades e dificuldades. Hoje, notamos que os mais novos optaram pela praticidade de obter remédios na farmácia, sendo difícil encontrar entre estes o costume de utilizar medicamentos naturais.

Lenda da Fera do Morro São João

Contam que há muitos anos dois caçadores foram ao Morro São João com suas espingardas e um

cachorro. Chegando lá tomaram rumos diferentes, um deles escutou um disparo e supôs que seria

da

arma do companheiro, ouviu a seguir o latido do

cachorro que estava com o outro caçador. Então, chamou várias vezes pelo companheiro. Não obtendo respostas, seguiu em direção aos latidos.

Deparou-se com uma caverna e encontrou somente

a

espingarda na entrada.

 

O

caçador chamou mais uma vez seu compa-

nheiro, que não atendeu o seu chamado. Ele desistiu de procurar, não tendo coragem para entrar

na caverna. Conta o mesmo que provavelmente tenha sido uma fera ou outro grande animal que tenha devorado seu companheiro e o cachorro.

desde o acontecido nunca mais o caçador e seu cachorro foram vistos.

E

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Urbanos de Cananéia

49

Gruta de Nossa Senhora de Fátima Percebemos que existe uma boa organização do bairro, com

Gruta de Nossa Senhora de Fátima

Percebemos que existe uma boa organização do bairro, com uma associação de moradores atuante que está sempre pronta para ajudar quem precisa, costume bem típico dos caiçaras. Embora não existam comemorações religiosas, os moradores estão ligados diretamente ao centro, participando dos eventos que lá acontecem.

50

Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Com todos esses aspectos da nossa cultura vimos que há necessidade de resgatar parte dela que se perdeu ao longo dos anos devido a mudanças socio- ambientais, mas sabemos que apesar das dificuldades que encontravam quando deixaram de realizar as práticas agrícolas em suas propriedades rurais, estes caiçaras souberam adaptar-se à pesca, que era no prin- cípio para subsistência e agora se torna uma das prin- cipais fontes de renda.

Sabemos que além de registrar os fatos, tam- bém é necessário incentivar a vivência das suas tradições para que as futuras gerações possam dar continuidade de maneira mais verdadeira, ressaltan- do sua simplicidade e bondade, relatado perfeita- mente por Dona Maria:

“Pra mim ser caiçara é não perder os nossos

costumes, nossas raízes [

humilde, ele tem bom coração, o caiçara não tem ciúmes das coisas, ele não tem aquele egoísmo, aquela vontade de ter muita coisa, o caiçara mesmo é isso”.

o caiçara é o povo mais

]

ele não tem aquele egoísmo, aquela vontade de ter muita coisa, o caiçara mesmo é isso”.
A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia “Enquanto estávamos marcados pelo entusiasmo

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

“Enquanto estávamos marcados pelo entusiasmo de ir à busca do descobrimento de nossas raízes, nem imaginávamos o que veríamos pela frente - histórias marcantes e uma lição de vida passada pelos mais velhos. Não esperávamos receber tanta informação, principalmente de lugares que são considerados o “fim do mundo” por muitos”.

“Imaginávamos que por ser um bairro rural, afastado da cidade, os moradores iriam ter receio de nos contar sobre suas vidas. Mas não foi bem assim; fomos muito bem acolhidos e percebemos o prazer com que as pessoas nos contavam sobre suas crenças e seus cotidianos”.

“Nestes lindos lugares, pudemos ter inesquecíveis experiências e aprender o suficiente para entender o valor, tanto histórico quanto natural, que possui nossa cidade”.

“(

)

ainda se encontram nesses lugares verdadeiros caiçaras, que têm orgulho de sua terra e sua vida, que lutam pelos seus direitos como qualquer outro cidadão”.

“Enfim, temos agora muito mais consciência em relação a preservação de nossa cultura, ficamos indignados ao percebermos quais eram os fatores que estavam deteriorando a cultura, mas estamos cada vez mais orgulhosos de levantar nossa bandeira caiçara, pela perseverança que foi demonstrada pelos mais velhos em manter, através de seus conhecimentos, a cultura caiçara viva”.

“Nós tivemos a sorte e por conseqüência a honra, de termos escolhido essas comunidades. Esperamos que um dia vocês também a tenham!”

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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Cantiga Caiçara

Rubens Paiva – Poeta e Compositor Cananeense

Vai indo a canoa, desliza no mar, Quem joga a rede, nesse espelho d’água, Vai pescar seus sonhos, afogar as mágoas.

Pescador leva a tralha quando é madrugada, Currico ou lanceio, arrasta os anseios em cada remada.

O menino no barranco esperando o pai voltar, Pra saciar sua fome com coisa que trás do mar.

Oi mar, mareia A canoa é ribeirana Pescaria é de ameia

Quando volta a tardezinha, caiçara retirante, Pouco peixe e a vontade de vencer maré vazante.

A noite já foi, vem saindo o sol, Espinhel na água, isca no anzol, Cigarro de palha no canto da boca, Tarrafa de malha, esperança pouca.

A razão que o consola é amanhã de um outro dia, Voltar pro mar jogar rede, E sonhar com a pescaria. Vanzeiro na proa, contra o vento norte, Eu sou caiçara, teimoso e forte.

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Bairro Itapitangui Danielle Moreira Cosso 1 Laís Cristine Xavier 2 Benedito Alves 3 Delfina Ventura

Bairro Itapitangui

Danielle Moreira Cosso 1 Laís Cristine Xavier 2 Benedito Alves 3 Delfina Ventura Batista 3
Danielle Moreira Cosso 1
Laís Cristine Xavier 2
Benedito Alves 3
Delfina Ventura Batista 3
Idorino Ventura Santana 3
Tereza dos Lemos Santana 3

Ilha de Cananéia vista do continente, ao fundo a Ilha do Cardoso

1 Estudante do 3º ano do ensino médio da Escola Estadual Profa. Yolanda Araújo Silva Paiva e membro do Coletivo Jovem Caiçara.

2 Membro do Coletivo Jovem Caiçara. 3 Moradores tradicionais do bairro Itapitangui entrevistados durante a pesquisa de campo.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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“Aqui era um lugar que tinha muita coisa, a gente trabalhava, caçava, pescava, hoje a gente já não faz mais nada disso porque as coisas tudo diminuiu (Seu Idoro)

O Bairro do Itapitangui localiza-se na área con-

tinental de Cananéia. O acesso pode ser feito por balsa

a partir da Ilha de Cananéia, passando pelo bairro Porto Cubatão, distando 5 Km deste, ou pela rodovia SP 226, vindo de Pariquera-Açú. É um lugar que possui uma imensa beleza, principalmente por suas paisagens e

atrativos naturais, como rios, cachoeiras, serras e mata,

e pelo grande valor histórico para Cananéia, já que foi

ponto de passagem de colonizadores, bandeirantes e tropas em direção ao interior. É habitado por pessoas simples, vindas de sítios próximos da região e de outros municípios vizinhos.

próximos da região e de outros municípios vizinhos. 54 Imagem de satélite Saberes Caiçaras - A

54

Imagem de satélite

Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Quando eu cheguei aqui, não tinha nada disso, não. Era um matão que só Deus pra entrá!”. (Benedito Alves)

Era um matão que só Deus pra entrá!”. (Benedito Alves) Dia-a-dia no bairro Itapitangui O nome

Dia-a-dia no bairro Itapitangui

O nome Itapitangui vem do tupi-guarani e significa arroio (“pequeno rio”) da pedra vermelha, que é também o nome do rio que abastece a cidade de Cananéia e que deu origem ao nome do bairro.

As principais famílias moradoras do bairro identificadas nas entrevistas foram: do Vale, Serrano e Almeida que já habitavam o local há mais de 50 anos atrás e trabalhavam na fabricação de tijolos e na linha do telégrafo.

Ao invés de ruas, pequenos caminhos eram abertos pelos próprios moradores, dando acesso às humildes casas, que eram construídas de madeira como

Sr. Benedito e sua família, em frente a sua casa o “nhacatirão” ou jacatirão (

Sr. Benedito e sua família, em frente a sua casa

o “nhacatirão” ou jacatirão (Tibouchina mutabilis) e cobertas com palhas como a guaricana (Geonoma schot-

tiana) e o jassapê, utilizavam também para a cobertura das casas o capim do brejo (Paspalum spp.) como nos conta o Sr. Idorino Ventura Santana ou “Seu Idoro”

como é conhecido, e ainda complementa, “[

era mais forte ia lá no mato buscá palha, né, mas quem não

podia buscá palha cobria com capim, capim do brejo”.

Antigamente não havia nenhum tipo de trata- mento de água, mesmo porque os rios não enfrenta- vam tantos problemas como hoje. A água era retirada pelos moradores diretamente do rio e só muito tempo depois foi canalizada, fato causado pelo aumento do número de moradores no bairro e preocupações em relação à qualidade da mesma. Como nos contou Seu Idoro e sua esposa, quando se mudaram para o bairro, a espera foi de quinze anos para que chegasse energia elétrica (eles moram lá há cinqüenta e cinco anos!).

] quem

(eles moram lá há cinqüenta e cinco anos!). ] quem Detalhe de uma residência do bairro,

Detalhe de uma residência do bairro, nota-se que hoje algumas mudanças ocorreram nestas construções, na foto a presença de telhas de amianto

construções, na foto a presença de telhas de amianto Detalhe de uma das ruas do bairro

Detalhe de uma das ruas do bairro

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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56

A escola ficava onde hoje é a Unidade Básica de Saúde (UBS) conhecida popularmente como “postinho”, havia poucos alunos antigamente e o

ensino era realizado até as séries iniciais e bem precá-

rio por sinal, como nos afirma o Seu Idoro: “[

vinha três pessoas, duas pessoas,

quase não tinha ninguém”. Já hoje, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Osvaldo Lucachaki está em outro prédio e atende alunos de 1ª a 4ª série do ensino fundamental (ciclo I), mas agora com uma estrutura física muito boa e um corpo docente muito dedicado. Os alunos que terminam o ciclo I do ensino funda-

muito fraquinha (

] era

mental vão cursar o ciclo II (5ª a 8ª série) e o ensino médio na Escola Estadual do Bairro Cubatão.

Conta-nos Seu Idoro que no bairro existia um inspetor de quarteirão, uma pessoa que o delegado da cidade elegia para fiscalizar e monitorar o bairro, qualquer acontecimento deveria ser encaminhado a ele e até mesmo um namoro deveria ser comunicado ao inspetor para evitar qualquer caso de traição, além da permissão do pai da moça é claro!

A agricultura, a caça e a pesca eram muito praticadas nesta região, principalmente pela distância que existia em relação ao centro urbano de Cananéia dificultando a compra de mantimentos e produtos que não eram produzidos no local. Não é o caso da produção de farinha, por exemplo, como mostrou com muita generosidade Dona Delfina Ventura Batista, moradora do bairro há vinte e quatro anos e que possui um tráfico 4 de farinha em sua residência. Ela contou que não conseguiu deixá-lo no sítio onde residia antes de se mudar para o Itapitangui, devido a toda história dos usos e momentos de alegria vividos em todo o processo de utilização dos mesmos. O processo que nos mostrou é bem simples e semelhante a outros que existem em

)

é bem simples e semelhante a outros que existem em ) E.M.E.F. Osvaldo Lucachaki 4 Termo

E.M.E.F. Osvaldo Lucachaki

4 Termo usado em diversas comunidades caiçaras para caracterizar o processo de produção da farinha de mandioca, desde o cultivo até o ensaque, também pode ser chamado de tráfego ou trasfego (BRANCO, 2005).

Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Cananéia, consiste na colheita da mandioca (rama), a retirada de sua casca e o primeiro contato com o tráfico que é no ralador, onde a mandioca é ralada e todo o produto cai no cocho, um compartimento grande logo abaixo do ralador. Essa mandioca ralada é então levada para um cesto trançado, chamado tipiti e depois

levada para um cesto trançado, chamado tipiti e depois Ralador espremida na prensa, nesse processo é

Ralador

espremida na prensa, nesse processo é retirado um líquido branco, conhecido como mandiquera, que contém ácido cianídrico, tóxico para a saúde. Na seqüência é levada para o forno e torrada no tacho, normalmente feito de cobre.

para o forno e torrada no tacho, normalmente feito de cobre. Tipiti, cesto confeccionado artesanalmente Prensa

Tipiti, cesto confeccionado artesanalmente

Prensa

de cobre. Tipiti, cesto confeccionado artesanalmente Prensa A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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Forno com o tacho de cobre Após ter sido torrada pode ser passada pela peneira,

Forno com o tacho de cobre

Após ter sido torrada pode ser passada pela peneira, tanto por uma mais grossa e outra mais fina e depois está pronta para o consumo ou uso em outros pratos caiçaras.

Atualmente Dona Delfina não está mais pro- duzindo farinha de mandioca devido principalmente

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

à falta da matéria prima, pois não tem um pedacinho de terra para plantar e todo o dinheiro que consegue é investido em sua “nova” residência. Mas, afirma, com um olhar cheio de esperanças que ainda está disposta a manter a tradição que é seguida por muitos anos pela sua família.

tradição que é seguida por muitos anos pela sua família. Delfina Ventura Batista Para complementar, Dona

Delfina Ventura Batista

Para complementar, Dona Delfina nos conta uma receita simples e costumeira que sempre fazia, diz ela que “fica uma delícia” e que até hoje é muito apreciada, o chamado “pão de arroz”, é preparado da seguinte forma: coloca-se o arroz (cru) de molho em uma bacia por algumas horas, depois retira-se o excesso de água e leva-o para ser socado no pilão, toda essa massa é então passada numa peneira fina. Junta-se esse arroz pilado e peneirado com mistura básica de pão (farinha de trigo, ovos, leite, sal) e leva-

se ao forno para assar e quando estiver pronto pode ser servido com um cafezinho.

Nas atividades cotidianas dos moradores do bairro prevalecia muito mais o sentido de subsistência do que o comércio sem si, como exemplo dessas atividades podemos citar as trocas que eram feitas

dessas atividades podemos citar as trocas que eram feitas Neto do Sr. Benedito com uma batata-doce,

Neto do Sr. Benedito com uma batata-doce, costumes tradicionais sendo incorporado pelos mais novos!

pelos moradores quando tinham um excedente de produtos agrícolas (milho, mandioca, batata-doce, cana-de-açúcar, arroz etc.) e precisam de outros alimentos ou produtos de gênero diversos.

Para realização de um plantio ou colheita no

sítio, eram feitos grandes mutirões, como lembra com

] ali

juntava 50 pessoas, 60, 80, 100 pessoas, ali nós plantava

5, 6, 8 arquere de arroz, a gente fazia mutirão pra colhe, nós colhia 200 cestos, 500 cestos, às vez 1000 até [ ],

] nóis tinha

mil e seiscentos arquere de terra”. Após o término do trabalho, o dono da propriedade onde foi realizado o mutirão sempre oferecia um almoço, um café e um baile como pagamento, onde predominava o fandan- go e muita fartura na mesa dessa gente humilde.

quando não cabia na mesa, então estendia

nóis trabalhava sábado, domingo, feriado [

muito entusiasmo o Sr. Idoro e sua esposa, “[

“[

]

uma esteira no chão, esteira de pirí, ali ficava cheio de bijú, sabe?, ali jogava aí um arqueire, meio arqueire,

tudo aquilo a gente enchia de carne de paca, tatu, tateto,

]”

(Seu Idoro)

porco do mato, tinha muito né [

Na pesca utilizavam-se artefatos como, anzol, fisga e rede. Era praticada nos rios mais próximos e os peixes de água doce pescados com maior freqüência

eram o tairussu, aniá, o saguairu, acará, tairiputanga, alguns deles já não são encontrados com tanta faci-

tinha aniá

lidade, como nos afirma o Sr. Idoro, “[

também, tinha muito, não tem mais. Aniá de dia tava dor- mindo assim, o senhor ia bem em cima da pedra, poderia atrair quantos quisesse, cê olhava tava assim no rio, no

]

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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poço, aí podia pegar porque ele é devagarzinho, um fisgui- nha de ferro e pegava, hoje em dia não tem mais, acabou!”.

de ferro e pegava, hoje em dia não tem mais, acabou!”. Seu Idoro e sua esposa

Seu Idoro e sua esposa Sra. Tereza, no quintal de sua casa

Antigamente, pelo difícil acesso à cidade e

ausência de atendimento médico especializado, como

] só fui

conhecer um médico quando tinha 20 anos.”, os moradores se confortavam com a única maneira de curar-se de doenças e outras enfermidades, que era o uso de plantas ou ervas medicinais, como a rosa branca (Rosa alba), saguatajá, nhabutitana (Xyris jupicai), alfavaca (Ocimum basilicum) entre outras, utilizavam também uma mistura de várias ervas, conhecida localmente como cordeá 5 , para tratar diversos tipos problemas.

é lembrado nas palavras da Sra. Teresa, “[

5 Cordeá: o mesmo que cordial; beberagem de ervas - “quem sabe se um cordeá de nhabutitana cum sete sangria não cura o mininozinho”. (Extraído do Pequeno Dicionário de Vocábulos e Expressões Cananéias, de Edgar Jaci Teixeira, 2005).

60

Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Com todas essas dificuldades não havia outra saída a não ser aprender e realizar algumas simpatias, prática muito comum antigamente, mas que hoje não acontece com tanta freqüência pelo fato do acesso aos médicos ser mais fácil. Duas delas foram passadas da seguinte forma:

Quando uma mulher fosse ganhar bebê, virava-se um pilão com a boca para baixo e colocava-se em cima um santinho para rezar, para que o parto fosse bem realizado.

Quando alguém pegava cobreiro 6 apanha- vam-se folhas de um mamoeiro (Carica papaya) com as próprias mãos numa sexta-feira e falava-se a simpatia abaixo. Passados oito dias a pessoa estava curada.

“com o que que eu curo, cobreiro sapero brabo, então corta a cabeça e corta o rabo”.

Assim como as simpatias que eram levadas a sério, as lendas também eram. O saci, que por sua vez era um dos mais comentados pelos caiçaras, não deixou de ser lembrado em nossas entrevistas. Seu Idoro, por exemplo, nos afirma com a maior convicção que o saci bebe pinga! Pois certa noite, quando estava trabalhando no estaleiro, ele ouviu o saci cantando:

6 Cobreiro ou cobrêro: Doença da pele que consiste em estrias averme- lhadas que provocam forte coceira no local afetado. (Extraído do Pequeno Dicionário de Vocábulos e Expressões Cananéias, de Edgar Jaci Teixeira, 2005).

“Saci saperê, cabelo cortado, vestido de godê a noite tá frio tô com vontade de bebê.”

Naquela época poderia até não haver as facilidades que hoje temos, mas existia muito respeito entre todos como lembra muito bem Seu Idoro, “Naquele tempo não tinha nada disso, mas tinha respeito” e principalmente existia uma relação harmônica entre pais e filhos. Eles podiam ir trabalhar tranqüilos que suas casas estariam intactas quando eles voltassem, nos dias de hoje eles não podem mais fazer isso com tanta tranqüilidade, o desenvolvimento deixou o modo de vida do bairro melhor, porém modificou muito a cultura deles. Será que mudou para melhor mesmo?

Nos dias atuais muitas famílias mantém peque- nas hortas em suas residências, apenas para o consumo familiar, pois afirmam que tiveram que sair ou vender suas terras pelas dificuldades que estavam enfrentan- do, principalmente pelas restrições ambientais.

“Eu sou de acordo com o meio ambiente não deixá tirá muito as coisa porque se a pessoa vai lá e pega as muda das coisa, se não daqui um dia não tem mais nada, daqui um dia não existe mais uma ostra, num existe mais um camarão, então tem que tê a época certa pra pegá”.

(Seu Idoro)

então tem que tê a época certa pra pegá”. (Seu Idoro) Horta na residência do Seu

Horta na residência do Seu Idoro

Acreditamos que certos valores já nascem com a gente, mas outros são aprendidos, adquiridos ou

modificados ao longo de nossa jornada pelo mundo.

O que não podemos modificar nunca é a nossa cultura

caiçara. A sabedoria destas pessoas é a síntese de todo

o nosso trabalho, que para muitos não tem tanto valor,

mas que para nós e principalmente para eles possuem,

é o que existe de mais gratificante em cada ato, em

cada gesto, em cada fala desse povo da “terra”. Muitas vezes apresentam pouco estudo, mas são donos de um

conhecimento tão vasto que ninguém pode lhes tirar,

conhecimento este que teve como principal mestre, a “mãe natureza”. Se para muitos o mais importante é

o

desenvolvimento, para eles são os recursos naturais

e

o que podem extrair deles sem afetá-los negativa-

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

61

Alegria e espontaneidade nas antigas brincadeiras de crianças 62 Saberes Caiçaras - A cultura caiçara

Alegria e espontaneidade nas antigas brincadeiras de crianças

62

Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

mente e a cultura, que é o que irão levar até o fim de suas vidas. Por isso todo esse trabalho, esse empenho e dedicação para que nunca fiquem esquecidos os saberes, costumes e crenças, e para que todos compar- tilhem juntos a nossa cultura, “a nossa cultura caiçara”.

Referências Bibliográficas

BRANCO, Alice. Cultura Caiçara resgate de um povo. Oficina do Livro e Cultura. Peruíbe, SP. 2005, página 97.

TEIXEIRA, Edgar Jaci. Pequeno Dicionário de Vocábulos e Expressões Cananéias, 2005, 94 páginas.

2005, página 97. TEIXEIRA, Edgar Jaci. Pequeno Dicionário de Vocábulos e Expressões Cananéias , 2005, 94
Bairro Mandira 1 Bianca Cruz Magdalena Bruna Aparecida Silva Franco 2 Thais Cristina de Oliveira

Bairro Mandira

1

Bianca Cruz Magdalena Bruna Aparecida Silva Franco 2 Thais Cristina de Oliveira 3 Francisco de Sales Coutinho 4 Frederico Mandira 4

“Tendo o mar diante de si, e, para traz, o paredão da cordilheira marítima como que a interceptá-la do Planalto, – inteiramente isolada da civilização e do progresso, – passou a população da marinha como que a viver uma vida inteiramente à parte, conservando as suas lendas e tradições, usos e costumes, oriundos dos tempos coloniais”. (Antonio Paulino de Almeida)

A comunidade do Mandira está localizada no continente de Cananéia e seu acesso pode ser feito pela Estrada Itapitangui/Ariri – Km 11. Na encosta da Serra do Mandira e banhado por vastos mangue- zais que provém o sustento desses remanescentes

1 Cientista Social, docente da Escola Estadual Profa. Yolanda Araújo

Silva Paiva e membro do Coletivo Jovem Caiçara.

2 Estudante do 3º ano do ensino médio da Escola Estadual Profa. Yolanda

Araújo Silva Paiva e membro do Coletivo Jovem Caiçara.

3 Estudante do 1º ano do ensino médio da Escola Estadual Profa. Dinorah

Silva dos Santos e membro do Coletivo Jovem Caiçara.
4

Moradores tradicionais do bairro Mandira entrevistados durante a pesquisa de campo.

quilombolas 5 este bairro rural era uma fazenda do proprietário João José de Andrade, que engravidou uma de suas escravas, concebendo Francisco Vicente Mandira.

uma de suas escravas, concebendo Francisco Vicente Mandira. Imagem satélite 5 O termo especifica a situação

Imagem satélite

5 O termo especifica a situação dos negros em diferentes regiões e contextos e sua ligação com o sistema escravista brasileiro, nomeia um legado, uma herança cultural e material, que confere um sentimento de pertencer a um lugar e a um grupo social específico.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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Trecho da estrada que liga o Bairro Mandira ao Bairro Itapitangui 64 Saberes Caiçaras -

Trecho da estrada que liga o Bairro Mandira ao Bairro Itapitangui

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Francisco de Sales Coutinho, chamado por todos de “Chiquinho”, descendente desta família e morador local desde seu nascimento, conta que em 1860 6 Celestina Vinicius de Andrade, irmã de Francisco Vicente Mandira por parte de pai, doou 1200 alqueires paulistas de terra ao irmão por ir embora do lugar. Francisco Vicente se casou, foi pai de vários filhos, porém, somente João Vicente Mandira e Antonio Vicente Mandira permaneceram no bairro, no entanto, devido a uma briga dos irmãos, a terra foi dividida.

João Vicente lutou muito contra o grileiro Cabral que também queria a posse dessas terras até

ganhar a causa na justiça e a propriedade ficar para

a família, sendo que em 1912 a posse da área foi

registrada no cartório de Cananéia em nome da família Mandira e desde então é passada de geração em geração, até os dias atuais, onde residem os moradores desta localidade.

A primeira referência sobre o nome Mandira surge nas anotações em um cartório de Cananéia no

ano de 1763, pois ocorreu um tremor de terra que fez expelir fumaça do Morro Mandira, conforme relata

o documento que trás em suas anotações a frase, em

latim, “et mandira fumavit”, numa paródia ao poeta latino Virgílio que escreveu “et vesuvio fumavit”, ao mencionar a explosão do Vulcão Vesúvio, localizado em Nápoles. Segundo Antonio Paulino de Almeida, (2006), no artigo “Memórias Memoráveis”, publicado na Revista do Arquivo Municipal, em 1948, foi no ano de 1784 que este fato ocorreu:

6 Em relação a esta data existem controvérsias, em outra publicação sobre o quilombo, consta a data de 1868 como o ano em que as terras foram doadas a Francisco Vicente Mandira (PIMENTEL, 2005).

“Sai a novidade de um fogo no cabeço do monte ‘Mandira’ (situado a oeste da cidade de Cananéia). O cabeço deste dito monte foi visto, por três dias sucessivos, lançar de si conhecido fumo misto com lavaredas. Causou admiração este novo e estranho acontecimento, porque ponderada a causa daquele incêndio, não se lhe podia atribuir motivo humano, por ser cabeço, que por íngreme e pedregoso, não tinha até então facilitado em si entrada para divertimento de caçadas ou para extração de algum mister necessário ou de pesquisas minerológicas. Não se podia deixar de acreditar ser o dito incêndio acontecimento do mesmo monte, quando de outros também se conta que de contínuo vomitam fogo. ‘Fumavit Mandira semel mons vertice nostrum; noctes atque die fumigat A Etna suo’. (O monte Mandira fumegou uma vez: o Etna fumegou noites e dias no seu vértice)”.

Existem indícios de que os negros, que vinham sem sobrenome, procuraram o Salto do Ipiranguinha para se refugiar, um lugar que fica muito perto da Serra do Mandira, nas proximidades do bairro Santa Maria. Os primeiros registros históricos confirmam a presença de escravos, vindos da África, no final do século XVIII. A construção da linha do telégrafo nacional entre Santos e Iguape engrossou a lista de quilombolas; no trecho paulista, em 1868, traba- lharam cerca de 800 escravos, mais tarde a linha avançou até o Porto de Paranaguá, no Paraná, e mais trabalhadores fugiram para as matas.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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Francisco de Sales Coutinho, o líder comunitário do bairro conhecido como “Chiquinho”, no 5º Encontro

Francisco de Sales Coutinho, o líder comunitário do bairro conhecido como “Chiquinho”, no 5º Encontro das Comunidades Negras do Vale do Ribeira, em maio de 2007

Contando com 21 famílias, atualmente residem no bairro cerca de 100 pessoas, concentradas em três sítios, o Boacica, o Porto do Meio e o Mandira, mas existem outros parentes espalhados por outras regiões do estado de São Paulo. O quilombo, que antes da disputa por suas terras entre os irmãos possuía 2.880 hectares e hoje conta somente com 651,14 hectares foi reconhecido como remanescente de quilombo em 2002, pela Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo “João Gomes da Silva” (ITESP), porém, não recebeu ainda a titulação de suas terras, sendo que a questão quilombola foi assumida como parte dos debates e preocupações da nação somente em 1988, com a Constituição Federal, que institui no seu Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, artigo 68:

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

“Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado, emitir-lhes os respectivos títulos”.

Antes o bairro concentrava-se nas proximidades da “Casa de Pedra”, como é chamada pelos mora- dores uma construção feita pelos escravos há mais de trezentos anos e que usou calcário de sambaquis 7 para edificar suas espessas paredes de rochas. Contam os antigos que lá foi um engenho de arroz e também já serviu como local de combate na Revolução de 1932 8 . Os moradores só se mudaram por causa das terras que existem próximas à Casa de Pedra terem sido vendidas pelos familiares, mas era lá onde todos moravam, trabalhavam, roçavam; salientam também que em tempos passados os escravos abriram uma vala na serra para puxar água de três cachoeiras para virar a roda d’água do moinho deste engenho.

7 Estes sítios arqueológicos são muito encontrados nesta região do litoral sul paulista, especialmente na Ilha Comprida; oriundos de ocupações nômades datadas de 10.000 anos atrás são restos de conchas, peixes e até humanos que viveram nesta localidade. 8 A Revolução Constitucionalista de 1932 foi o movimento armado ocorrido no Brasil entre julho e outubro, visando a derrubada do governo provisório de Getúlio Vargas e à instituição de um regime constitucional após a supressão da Constituição de 1891 pela Revolução de 1930. Na primeira metade do século XX, o Estado de São Paulo vivenciou um acelerado processo de industrialização e enriquecimento devido aos lucros da lavoura de café e à articulação da política do café-com- leite, pela qual se alternavam na presidência da República políticos dos Estados de São Paulo e de Minas Gerais. Em meio à grave crise econômica devido à Grande Depressão de 1929, que derrubara os preços do café, eclodiu a Revolução de 1930, vindo Getúlio Vargas a assumir o poder, colocando fim à supremacia política das oligarquias paulistas.

Casa de Pedra, foto tirada por Cristiano Mateus Cunha, 13 anos idade, através da técnica

Casa de Pedra, foto tirada por Cristiano Mateus Cunha, 13 anos idade, através da técnica “Pinhole” (Projeto “O Caiçara se Revela no Município de Cananéia”)

“O Caiçara se Revela no Município de Cananéia”) Casa de Pedra A paisagem local já não

Casa de Pedra

A paisagem local já não conserva as mesmas características dos anos passados de escravidão, em que a segunda geração dos Mandira povoava a região.

Das casas de pau-a-pique hoje podemos notar moradias de alvenaria, muito simples, mas feitas já com material vindo da Ilha de Cananéia, todas de chão cimentado e caiadas 9 ; da guaricana (Geonoma schottiana) que outrora cobriam os tetos, só vimos telhas de amianto; do fogão a lenha que aquecia o interior das residências e produzia com suas chamas o fumeiro 10 para o a gás, sendo que agora conservam seus alimentos em geladeiras; das prateleiras postas nas paredes para guardar os utensílios domésticos para os usuais armários que temos; dos lampiões de querosene que iluminava as noites para a energia elétrica, que abastece o bairro desde 1982; da agulha que costurava as vestes dos mandiranos para a máquina de costura, fonte de renda das mulheres nos dias atuais.

No entanto, apesar de tantas transformações a população ainda guarda seus saberes e valores tradicio- nais caiçaras; ao ouvir a sapiência de Frederico Mandira, nascido em 1930 e residente no local desde essa data, constatamos que, mesmo depois de tantos anos e mu- danças ocorridas, os causos fazem parte do imaginário do povo desse lugar e lembramos de Almeida (2005), que salientava ao pesquisar o típico caiçara: “( ) orgulham-se dos seus feitos e narram suas histórias ao pé do fogo, da mesma forma que afirmam a existência do Saci, do Boitatá, do Lobisomem ou das Almas Penadas”.

9 Pintadas com cal. 10 Fogo que esquenta os varais onde são postas as carnes de caça e de peixe para secarem e defumarem, depois de salgadas para não estragarem. Usava-se lenha verde para fazer bastante fumaça e para a mosca não chegar.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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Lampião a querosene utilizado nos tempos passados junto com o “bodoque” 68 “A história da

Lampião a querosene utilizado nos tempos passados junto com o “bodoque”

68

“A história da onça é assim: quando deu o dilúvi,

que encheu, existia um sambaqui ali embaixo, tinha um

sambaqui (

sambaqui é um poco de barro, de concha,

de ostra, poco de mexilão, que ele amuntua tudo num

então a pessoa não tinha

)

lugá só (

)

acumula (

)

Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia Casa típica do bairro aquilo ali né,

Casa típica do bairro

aquilo ali né, quando seco a água pareceu ali, então, quando o pessoar, os escravo, naquele tempo eles trabalhavam, andavam de canoa, eles desceram, fazia a condução deles lá pra fora, leva o arroz, o feijão, pra vendê na cidade, quando chegaram lá embaixo onde tinha um, tem um pau até agora, agora tá, tá acabado, porque a água tá tafando ele, tinha um pau e tava uma onça em cima do toco parado, a água deu, ela foi trepada em cima do pau, o pau encalhou, ela ficou ali, não tinha como sair, quando eles descero ela tava lá, então fico, até hoje todo mundo chama o pau da onça, que tem lá embaixo, agora já tá o cupim, o pau da onça [ (Frederico Mandira)

Os novos mandiranos: crianças do bairro Mandira em momento de descontração e brincadeira pelos arredores

Os novos mandiranos: crianças do bairro Mandira em momento de descontração e brincadeira pelos arredores da praça

A principal fonte de renda da população é a extração de ostras dos manguezais que cortam a região, por isso, em 1997 foi criada a Cooperativa dos Produtos de Ostra de Cananéia (COOPEROSTRA), com o intuito de sair da clandestinidade e das mãos dos vendedores atravessadores, pois antes colhiam ostras e vendiam para firmas particulares.

Estando inserida dentro da Reserva Extrativista do Mandira 11 é uma área muito produtiva onde os idosos, nos tempos de juventude, pescavam bagre e

11 Unidade de Conservação de uso sustentável criada em 2002 e geren- ciada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Natu- rais Renováveis (IBAMA), esta categoria de área protegida permite aos moradores tradicionais extraírem de forma sustentável e consciente os produtos que a região lhes oferece, como a ostra, sem prejudicar e desequilibrar o ecossistema manguezal.

tainha com lanço de arrasto e dividiam o peixe colhido entre a comunidade. Fruto da ajuda de Marcos Campolim, de Renato Salles, do Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Populações Humanas em Áreas Úmidas Brasileiras (NUPAUB/USP) e do Instituto de Pesca, que cedeu as estruturas de engorda, a Reserva Extrativista através do Projeto de Ordenamento da Exploração de Ostras do Mangue no Estuário de Cananéia é um exemplo de manejo sustentado.

Estuário de Cananéia é um exemplo de manejo sustentado. Viveiros de ostras da COOPEROSTRA, situados na

Viveiros de ostras da COOPEROSTRA, situados na Reserva Extrativista do Mandira

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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André Murtinho Ribeiro Chaves
André Murtinho Ribeiro Chaves

Artesanato, foto tirada por Jean Carlos Alves, 13 anos de idade, através da técnica “Pinhole” (Projeto “O Caiçara se Revela no Município de Cananéia”)

Francisco de Sales Coutinho na oficina sobre Economia Solidária realizada durante o Projeto de Formação de Educadores Socioambientais no Município de Cananéia - Programa Educação de Chico Mendes em outubro de 2006

- Programa Educação de Chico Mendes em outubro de 2006 Outras atividades econômicas da localidade é

Outras atividades econômicas da localidade é a produção, principalmente pelas mulheres, de cestarias de cipó e bijuterias com sementes nativas como o capiá (Coix lacryma.), o olho de cabra (Abrus precatorius), o olho de boi (Anthemis tinctoria), além da cooperativa de corte e costura que confecciona camisetas estampadas com logotipos do Mandira e uniformes para apicultores. Trabalho artesanal este que substituiu a confecção de vários objetos que antes eram feitos pela comunidade, em sua maioria de caxeta (Tabebuia cassinoides), como as canoas, remos, gamelas, colheres de pau e bacias para tomar banho.

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Na década de 70, o bairro continha em torno de 200 pessoas que sobreviviam com o cultivo de roças, a retirada de caxeta e de palmito jussara (Euterpe edulis) das matas, porém, devido às restrições ambientais estão proibidos o corte destas plantas, que hoje estão sendo reflorestadas, além da prática da roça de coivara e a caça, desta maneira, a retirada de ostras para venda foi a alternativa encontrada para sobrevivência no início dos anos 80.

Antigamente, plantavam arroz, milho, feijão, mandioca 12 , batata, cará, banana, cana-de-açúcar,

12 Chamada pelos habitantes de “rama”.

sendo que cada família fazia uma roça para que ela cuidasse. Como a terra era de todos, o trabalho era feito em conjunto, denominado ajutório, onde se trabalha durante o dia, a troco do almoço ou jantar feito pelo dono da roça, às vezes só café forte; a dife- rença entre o ajutório e o mutirão é que no primeiro não há fandango.

Quase todos tinham os aparatos do tráfico de mandioca: a roda, o forno, a prensa e o tipiti. Cada pessoa, dentre os mais velhos, tinha seu pé de café na beira do rio do Mandira, café esse adoçado com melado da cana ou garapa.

Apesar da simplicidade em que vivem os man- diranos lutam para implantar novos projetos e

vivem os man- diranos lutam para implantar novos projetos e Moenda, foto tirada por Fatima Isabel

Moenda, foto tirada por Fatima Isabel Mateus Cunha, 5 anos de idade, através da técnica “Pinhole” (Projeto “O Caiçara se Revela no Município de Cananéia”)

garantir formas de renda a todos. Uma de suas maio- res conquistas foi a oficialização da COOPEROSTRA, eles a reivindicavam há muito tempo e com essa regularização passaram a trabalhar mais tranqüilos, agregando valor ao principal produto vendido fora da vila, que é comercializado e controlado, exclu- sivamente, por essa associação.

e controlado, exclu- sivamente, por essa associação. Pai de Chico Mandira Outro exemplo de orgulho é

Pai de Chico Mandira

Outro exemplo de orgulho é o Centro Comuni- tário; feito por eles próprios com material doado pela Fundação Florestal é o local de encontros, festividades, cursos e reuniões; situado no centro do bairro, ao lado de uma praça que ao entardecer ouve-se a prosa, a sabedoria, a situação da maré que varia conforme a Lua, os risos das crianças e os suspiros, como os nos- sos, por termos tido o privilégio de ter ao lado pessoas como Frederico Mandira, que relembra com graça a

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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história de seus antepassados, as folias de carnaval, onde se dançava fandango quatro dias e quatro noites na casa de alguém que tivesse a sala grande para acomodar todas as pessoas e o valor que aquela terra com nome de gente tem, sendo que até hoje se escuta a frase: “Se caso alguém der um tapa em um mandirano,

atinge a todos”, o que demonstra a fraternidade em que estas pessoas vivem e conservam seus saberes caiçaras. Em relação aos seus credos, pode-se perceber a fé que esta comunidade guarda; em sua maioria católica rezam na igreja local o terço cantado onde só os idosos puxam a “reza”, pois não há nenhum

onde só os idosos puxam a “reza”, pois não há nenhum Praça situada no coração do

Praça situada no coração do bairro, ao lado do Centro Comunitário

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

jovem que saiba fazê-lo. João Vicente Mandira Filho era espírita, ao contrário do restante que conserva o catolicismo e a crença no padroeiro Santo Antônio, cujas festas são realizadas todos os anos, no dia 13 de junho, regadas de orações, bailes e comidas típicas

da localidade, como a carne de porco acompanhada de arroz, biju, cuscuz e farinha de mandioca ou o jabacuí, alimento a base de milho seco, torrado e socado no pilão, uma espécie de massa fina que é servida com ostras e café.

Igreja, foto tirada por Silvina Mateus de Castro Cunha, 30 anos de idade, através da

Igreja, foto tirada por Silvina Mateus de Castro Cunha, 30 anos de idade, através da técnica “Pinhole” (Projeto “O Caiçara se Revela no Município de Cananéia”)

“O Caiçara se Revela no Município de Cananéia”) Igreja do Bairro Mandira onde são realizadas orações

Igreja do Bairro Mandira onde são realizadas orações e terços cantados pelos moradores mais antigos da comunidade

terços cantados pelos moradores mais antigos da comunidade Oratório com a imagem do padroeiro Santo Antônio;

Oratório com a imagem do padroeiro Santo Antônio; segundo relato de Francisco de Sales Coutinho esta peça existe há mais de trezentos anos, desde o tempo dos escravos que habitavam a região

anos, desde o tempo dos escravos que habitavam a região Santo Antonio, foto tirada por Irene

Santo Antonio, foto tirada por Irene Candida Mandira Coutinho através da técnica “Pinhole” (Projeto “O Caiçara se Revela no Município de Cananéia”)

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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Permeado por lendas escutam-se ainda no Mandira as histórias das traquinagens e assobios do Saci 13 , ser da mata com uma perna só que existia mui- to mais antigamente do que hoje, pois já se misturou com as pessoas de agora e que apesar da bagunça que aprontava e das peças que pregava, ao esconder os objetos da casa, mexer nas panelas, não metia medo, ao contrário das bruxas que sobrevoavam o céu grunhindo “cricó, cricó, cricó”, na tentativa de capturar os bebês que acabavam de nascer, por isso tinham que deixar o lampião aceso por sete dias, além de uma tesoura aberta na cabeceira da cama, como proteção.

Além de sacis que andavam sob as águas, bru- xas que nas noites de sexta-feira amedrontavam os moradores voando em suas vassouras encantadas tinham também os lobisomens, o sétimo filho de uma mãe que havia tido somente meninas antes dele, que nas noites de Lua Cheia metamorfoseava-se num enorme cachorro que revirava os restos de comida nos lixos e que não podia ser “desencantado”, pois essa era a sina dele; Seu Frederico conta que um sujeito tentou “desencantar” seu amigo que se transformava em lobisomem e depois do ato levou um tiro de espingarda deste.

Scarpin, (2006), relata a presença destas apari- ções no imaginário religioso do bairro São Paulo “Ba-

13 Câmara Cascudo salienta a origem tupi-guarani desta entidade; pro- veniente do sul brasileiro o mito se espalhou até o norte, acompanhando as migrações tupis, da ave original incorporou outras características até chegar ao ser de uma só perna, com cachimbo na boca e gorro vermelho, que azucrina as mulheres na cozinha, trança a crina dos cavalos e assobia longe quando está perto e perto quando está longe, só para confundir os indivíduos.

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

gre”, outra comunidade rural da Ilha de Cananéia, em que estas entidades representam os espíritos que rondam os espaços e convivem com os moradores dessas e outras localidades. Segundo suas análises:

“Essas entidades míticas fluidas e, de certa forma ambíguas, poderiam ser vistas como signos de uma angústia difusa que permeia toda essa sociedade. Presente na mente dos indivíduos elas seriam a cristalização de seus próprios medos. Apenas os signos cristãos, quando usados em forma de conjuração, têm suficiente poder sobre essas forças misteriosas. Só pessoas especializadas conhecem as fórmulas e sabem como utilizá-las”. (SCARPIN, 2006, p. 282)

No passado, tratavam seus males com plantas retiradas da mata, das quais faziam chás, como o de canela (Cinnamomum zeylanicum) para a menstruação

, como o de santa-maria (Cheno-

descer; emplastros

podium ambrosioides), em que a erva é socada, esquen- tada e adicionada a sal e vinagre, para ser colocada em cima do ferimento; os machucados eram tratados com moela da ave macuco (Tinamus solitarius), mata- se o macuco, tira sua moela sem limpar, seca, põe no vinho e vai tomando até o machucado melhorar; as fraturas curadas com talas de embaúba vermelha (Cecropia glaziovii) lascada, da onde se extraíam tam- bém o linho para fazer corda e esteiras, enquanto seu broto servia para tosse comprida e pressão alta; para hemorragias femininas ninho de marimbondo fervi- do; abortos, borra de café com vinho; dor de dente e inchaço usava-se cipó abuta (Cissampelos pareira).

14

14 Medicamento que amolece ao calor e adere ao corpo.

Tradição também no bairro era dar um tiro de espingarda quando nascia um menino, para a criança ser um bom caçador. Das brincadeiras era costume pular amarelinha, brincar de roda, corda, esconde- esconde, pega-pega, peteca (feita de palha de milho com pena de ave), bolinha de gude, bola, boneca e

pião (feito com pau de laranjeira), além das armadi- lhas para apanhar pequenas aves como o baiá, esti-

lingue, bodoque

15

.

pequenas aves como o baiá, esti- lingue, bodoque 15 . Nascidos no bairro e residentes desde

Nascidos no bairro e residentes desde então, o casal Maria Matheus Mandira e Frederico Mandira revelam na simplicidade de seus gestos e olhares o mandirano que luta resignado por seus ideais

Nos dias de hoje, as crianças, quase todas alfa- betizadas, estudam da 1ª à 4ª série do ensino funda- mental na Escola Estadual do Bairro Mandira e vão até o bairro Porto Cubatão para estudar da 5ª série até o 3º ano do ensino médio na Escola Estadual do Bairro Cubatão. Segundo relato de Chiquinho, expresso durante nossas visitas ao bairro, com sorriso nos lábios e brilho nos olhos:

ao bairro, com sorriso nos lábios e brilho nos olhos: Paisagem local do bairro, ao fundo

Paisagem local do bairro, ao fundo se vê a Serra do Mandira

15 Segundo Luís da Câmara Cascudo, em Antologia do Folclore Brasileiro, do árabe bondok, bodoque são pequenos arcos feitos de madeira com duas cordas separadas por duas pecinhas de madeira; no meio as cordas se unem por intermédio de uma espécie de malha, onde se coloca a bola de barro ou uma pequena pedra redonda que se queira arremessar.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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o caiçara ele é da beira-mar memo, tem uma

tradição já, tem um contato direto com a natureza, ele vive da natureza assim, tira sustento daquilo lá, dorme até na beira do mar, trabalha ali, então é uma coisa diferente pra nóis. Tenho orgulho de ser caiçara, orgulho de ser quilombola, mandirano, muito mais mandirano ainda viu (risos), com certeza. Aqui o que diferencia é um poco da organização e da união, um poco da união da família, aqui, graças a Deus, todo mundo um respeita o outro, isso é coisa já que vem, né, de nossos antepassado e mudou um poco, poquito só assim, mas ainda continua, se não tive união num vai, as coisa num acontece, né”.

“[

]

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

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Caiçara – Volume V – Festas, Lendas e Mitos Caiçaras. SP: Editora HUCITEC/NUPAUB/CEC/USP, 2006, p. 271-302.
Bairro Santa Maria 1 Bianca Cruz Magdalena Bruna Aparecida Silva Franco 2 Thais Cristina de

Bairro Santa Maria

1 Bianca Cruz Magdalena Bruna Aparecida Silva Franco 2 Thais Cristina de Oliveira 3 Ernesto
1
Bianca Cruz Magdalena
Bruna Aparecida Silva Franco 2
Thais Cristina de Oliveira 3
Ernesto Scharmann 4
Carlos França 4

Paisagem do bairro

1 Cientista Social, docente da Escola Estadual Profa. Yolanda Araújo Silva Paiva e membro do Coletivo Jovem Caiçara.

2 Estudante do 3º ano do ensino médio da Escola Estadual Profa. Yolanda Araújo Silva Paiva e membro do Coletivo Jovem Caiçara.

3 Estudante do 1º ano do ensino médio da Escola Estadual Profa. Dinorah Silva dos Santos e membro do Coletivo Jovem Caiçara.
4

Moradores tradicionais do bairro Santa Maria entrevistados durante a pesquisa de campo.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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Casa caiçara eu acho que todas as pessoas que moram aqui ele é feliz no

Casa caiçara

eu acho que todas as pessoas que moram

aqui ele é feliz no bairro, porque o bairro que nós temo

aqui tudo é da terra, no caso, e a gente, nós, temo uma beleza aqui, cachoera, mato, tudo o que é de bom nós temo aqui, no caso a gente vive uma vida que é uma beleza”. (Carlos França)

“[

]

O bairro continental Santa Maria localizado a 68 km da Ilha de Cananéia, vizinho do bairro Ta- quari, faz divisa com o estado do Paraná, cerca de 6 km do bairro rural Batuva, pertencente ao município de Guaraqueçaba. É um local de difícil acesso, sua estrada não asfaltada e esburacada, que tem como panorama a Serra do Gigante, antigamente era cami- nho para tropeiros e desbravadores dessas terras do

78

Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

interior, sendo que ainda guarda os saberes tradicionais dos sítios memoráveis dos antigos europeus que lá chegaram, no século XIX, por volta de 1820. Sua história remete-se a três famílias imigrantes: os França, os Scharmann e os Klimke.

A família França é a primeira a ocupar tais terras, vindos da França; Carlos França, mais conhecido como “Carlinhos”, nascido no bairro em 1954, conta que seu bisavô Lino da Silva França comprou o título, em 1860, de um sítio na localidade onde existia um engenho de arroz. Somente por volta do início do século XX a família Scharmann, cujo patriarca era Ricardo Scharmann, proveniente da Alemanha, vêm para o Brasil, como refugiados da Primeira Guerra Mundial, que assolava o Ocidente.

da Alemanha, vêm para o Brasil, como refugiados da Primeira Guerra Mundial, que assolava o Ocidente.

Imagem de satélite

No início da ocupação os alemães moravam próximos ao Salto do Ipiranguinha, na década de 20 cerca de 33 famílias habitaram o local e fundaram a Colônia Agrícola de Santa Maria, onde já existiam engenhos de arroz, que era a base da economia e subsistência dos moradores, e alambiques de aguar- dente, sendo que a fazenda era conhecida como Fa- zenda Rio Branco Júlio Klimke.

era conhecida como Fa- zenda Rio Branco Júlio Klimke. Moradia da família Scharmann Segundo Mourão (2003),

Moradia da família Scharmann

Segundo Mourão (2003), a Colônia Agrícola de Santa Maria foi criada, precisamente, em 1915; o governo alemão até prestou auxílio a ela, enviando um engenheiro agrônomo para a localidade, porém, suas terras foram abandonadas devido a dificuldades para comercialização dos produtos, o que se agravou com a Segunda Guerra Mundial, onde a colônia sofreu seu maior revés, uma vez que os cidadãos das nações do

Eixo (Alemanha, Itália e Japão) foram proibidos de habitar o litoral; fato confirmado através do relato de Manoel Grub, nascido na localidade e neto do alemão Karl Grub, que em 1927 habitava as terras da região.

A família Klimke, também alemã, possuía um alambique de pinga e uma fábrica de tijolos, dado a abundante quantidade de argila existente na proprie- dade, sendo que, primeiramente, eram com os próprios pés que os trabalhadores amassavam a mistura de bar- ro com areia, relembra Ernesto Scharmann, só depois é que construíram uma pipa, ou moinho, puxado por animais, para produzir o material que trazia impresso as seguintes letras JKFRB, que significava Júlio Klimke Fazenda Rio Branco. Outro ocorrido, narrado por “Er- nestinho”, como também é chamado, era a confecção de telhas que usavam como moldes as coxas dos empregados, antes de criarem uma fôrma para tal.

coxas dos empregados, antes de criarem uma fôrma para tal. Tijolo fabricado na Fábrica Rio Branco,

Tijolo fabricado na Fábrica Rio Branco, com as impressões JKFRB

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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Ainda hoje, além do cemitério onde eram enter- rados os “finados”, existe a casa sede, mesmo desocu- pada e abandonada, onde residiam os Klimke; sua construção de alvenaria com arcos na varanda utili- zou como reboco a mistura de cal de ostras, barro, estrume de cavalos e cinzas, sendo que difere das outras casas de madeira típicas do bairro e aponta o poderio econômico dessa geração.

do bairro e aponta o poderio econômico dessa geração. Antiga residência da família Klimke No entanto,

Antiga residência da família Klimke

No entanto, outro fato deve ser salientado, a presença de escravos que eram trocados até por mer-

cadorias, especialmente para a instalação dos postes

telegráficos da linha do telégrafo

nacional entre San-

tos e Iguape, inaugurada em 1871, usados para transmitir mensagens em Código Morse atendendo às

necessidades militares da Guerra do Paraguai.

5

5 O telégrafo elétrico é introduzido no Brasil em 1852, sob a direção do Barão de Capanema que inaugura a instalação do aparelho que ligava a Quinta Imperial ao Quartel do Campo de Santana, no Rio de Janeiro.

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia Cemitério A Trilha do Telégrafo ou Caminho

Cemitério

A Trilha do Telégrafo ou Caminho do Impera-

dor, como também é chamada, servia para passagem de informações entre o Império e outras regiões do Brasil e foi percorrida por portugueses no período da colonização, devido à procura de ouro. Conectava São Vicente a vila de São João Batista de Cananéia e era responsável também pelo transporte de mercadorias entre Iguape, Santos e todo o litoral norte paulista no trecho do bairro.

Vestígios dos centenários postes telegráficos ainda são encontrados na extensão da Trilha do Telégrafo Outras

Vestígios dos centenários postes telegráficos ainda são encontrados na extensão da Trilha do Telégrafo

Outras famílias fundadoras do bairro são os Grub, os Paiva e os Almeida, além daquelas que são remanescentes de quilombo como os Pedro, os Garcia, os Paula, os Fundador e os Amaro. Na década de 80 muitas pessoas deixaram as terras de Santa Maria por disputas com grileiros que ameaçavam os moradores, muitas brigas existiram por

Patrícia Dunker
Patrícia Dunker

Trilha do Telégrafo

esse motivo; Doutor Manoel da Silva e Lisboa foram duas dessas pessoas que importunaram o cotidiano da população, mas como disse Carlinhos: “O medo faz você criar coragem!”, dessa forma, uma parcela lutou brava- mente pelo que lhe era de direito, visto que as proprie- dades eram conquistadas mediante titulação, assim, através da Superintendência de Desenvolvimento do

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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Litoral Paulista (SUDELPA) conseguiram a legalização fundiária merecida.

Atualmente abriga 53 famílias, tendo 214 mora- dores que ainda conservam o modo de vida dos seus antepassados; a maioria da população vive em resi- dências de madeira ausentes de energia elétrica, que chega até o perímetro da escola, aquecidas por fogões à lenha cuja piúna, fumaça exalada da queima das toras, aumenta a durabilidade e resistência dos tetos.

das toras, aumenta a durabilidade e resistência dos tetos. Fogo de chão, foto tirada por Irineu

Fogo de chão, foto tirada por Irineu da Silva Lopes, 12 anos de idade, através da técnica “Pinhole” (Projeto “O Caiçara se Revela no Município de Cananéia”)

A Escola Estadual do Bairro Santa Maria, pertencente à Diretoria de Ensino de Registro, onde 21 crianças entre sete a onze anos estudam numa única sala, multisseriada, de 1ª a 4ª série do ensino

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

fundamental, ciclo I, esteve pronta em novembro de 1992, substituindo a antiga construção em madeira, na mesma localidade, porém foi inaugurada sem poço artesiano e iluminação, nas terras da família Klimke. A partir da 5ª série os alunos vão para a Escola Estadual do Bairro Cubatão saindo às 10 horas da manhã e retornando às 8 da noite, o que antiga- mente não acontecia, Ernestinho, por exemplo, estudou até a 1ª série do ensino fundamental na Ilha de Cananéia, no Grupo Escolar Martim Afonso de Sousa, que atendia até a 4ª série, onde hoje funciona o Departamento de Obras do município e já foi a antiga sede da Prefeitura Municipal da Estância de Cananéia.

sede da Prefeitura Municipal da Estância de Cananéia. Alunos da Escola Estadual do Bairro Santa Maria

Alunos da Escola Estadual do Bairro Santa Maria com a professora Maria de Lourdes de Souza

Elisângela Fundador Scharmann Suelen dos Santos Scharmann no interior da típica casa caiçara; detalhe para

Elisângela Fundador Scharmann

Elisângela Fundador Scharmann Suelen dos Santos Scharmann no interior da típica casa caiçara; detalhe para o

Suelen dos Santos Scharmann no interior da típica casa caiçara; detalhe para o peixe e a lingüiça que estão sendo defumados no fogão a lenha, tradicional ainda nas residências até os dias de hoje

A quantidade de lixo no bairro é pouca, sendo

os restos orgânicos usados como adubo nas hortas e pequenas plantações; o restante, caso possa, é incinerado, pois não há coleta seletiva nos arredores do bairro.

Abastecidas pelo Rio Taquari, as moradias

sépticas 6 , devido a ausência de

saneamento ambiental, mas já começaram a constru- ção dos sanitários secos compostáveis , como no Centro Comunitário do bairro e no bar “Batidão”, ponto de encontro das pessoas e local de forrós e festividades, porém o tradicional fandango é ouvido somente em cd´s, pois os tocadores da característica música e dança caiçara, tão reverenciadas nos mu- tirões dos anos passados, não estão organizados, outros como Lino Xavier, tio materno de Carlinhos, também construtor de instrumentos como violas, machetes, rabecas e cavaquinhos, mudou-se para a Ilha de Cananéia, assim, escutar as diversas modas, como a Chamarrita, o Anu, a Tonta, o Queromana, só pelo aparelho eletrônico mesmo.

A agricultura ainda se destaca como forma de

apresentam fossas

7

subsistência da população, porém o que mudou foi a liberdade que se tinha antigamente para cultivar nas

6 Unidades de tratamento de esgoto doméstico nas quais são feitas a separação e a transformação físico-química da matéria sólida contida no esgoto. É uma maneira simples e barata de disposição dos esgotos indicada, sobretudo, para a zona rural, todavia, o tratamento não é completo como numa Estação de Tratamento de Esgotos. 7 Também conhecidos como bason, este tipo de banheiro ecológico dis- pensa rede de esgoto e é de baixo impacto ambiental, usando a recicla- gem como fonte de materiais substitui o tradicional vaso sanitário, onde inclusive devem-se jogar os restos orgânicos domésticos, todo esse material sofre o processo biológico da compostagem aeróbica e se transforma em adubo.

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propriedades. As leis ambientais, indiscutivelmente, são consideradas entraves, responsáveis pelo atraso do bairro, pois não se pode plantar em qualquer área, tampouco praticar a coivara, o legado indígena de cultivo do solo, onde se queima o local a ser plantado para realizar a adubação.

Autorizados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e pelo Departamento Estadual de Proteção de Recursos Naturais (DEPRN), Carlinhos salienta que conseguiram, nos dias atuais, 84 licenças para roça onde plantam, sem o uso de agrotóxicos, feijão, arroz, mandioca, chamada pelos nativos de “rama”, café, inhame, milho e uma variedade de frutas, como laranja, limão, tangerina, goiaba, jabuticaba, banana.

como laranja, limão, tangerina, goiaba, jabuticaba, banana. Plantador de arroz, foto tirada por Ivan Paiva França,

Plantador de arroz, foto tirada por Ivan Paiva França, 7 anos de idade, através da técnica “Pinhole” (Projeto “O Caiçara se Revela no Município de Cananéia”)

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

Além disso, para consumo próprio criam galinhas soltas pelos quintais, pescam nos rios de água doce que cortam a região, retiram ostras dos manguezais próximos e produzem nas casas de farinha a farinha de mandioca, alimento singular na mesa caiçara.

Antigamente, existia mais fartura de produtos agrícolas provenientes de Santa Maria; na década de 50, por exemplo, as propriedades exportavam arroz para Santos, além de abastecer a Ilha de Cananéia, sendo o Rio Taquari o principal meio pelo qual navegavam as canoas que levavam os produtos, isso porque a estrada era péssima e até hoje é uma preocupação da população que vive nesses bairros continentais, porém, Ernestinho informa que existe um projeto do Parque Estadual de Jacupiranga, criado em 1969, para manutenção desta, o que facilitaria a venda das mercadorias locais.

Nesta época em que a atividade primordial era a agricultura eles tinham o direito de plantar em qualquer área, de desmatar para cultivar, assim, deixavam 50% da mata intacta e os outros 50% era desmatado, através dos mutirões de derrubada e roçada, desta forma, colhiam 400 alqueires de arroz, em média, sendo que hoje não passam dos 50; também tinham 30 mil pés de banana maçã (Musa sapientum) contra 5 mil nos dias atuais que servem apenas para cobrir as despesas domésticas e caso não cumpram estas restrições “os homi cai com a caneta e a gente é processado, multado”, retruca Ernestinho; Carlinhos salienta ainda que “se hoje fosse naquela época uma hora dessa você tava vendo em cada canto desse aí uma roça de arroz, vocês andaram o dia inteiro hoje e vocês não viram uma roça de arroz”.

Família Lisboa da Veiga
Família Lisboa da Veiga

Foto do Porto Bacharel com sacas de arroz

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Pilão de socar arroz Além de agricultores, os moradores de Santa Maria produziam desde a

Pilão de socar arroz

Além de agricultores, os moradores de Santa Maria produziam desde a vassoura que utilizavam até suas casas, tradição esta que só os idosos sabem

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

realizar nos dias de hoje; tudo o que era usado, como o remo, a canoa, a gamela 8 , o tipití 9 , a pá, a pia, a peneira, o pilão, o cesto, o balaio, entre outros arte- fatos, era feito de forma artesanal e trocado, bar- ganhado, através dos “rolos” entre os membros da comunidade.

através dos “rolos” entre os membros da comunidade. Rebolo: objeto centenário que servia de amolador para

Rebolo: objeto centenário que servia de amolador para os machados e facões

8 Vasilha larga, pouco funda, feita do tronco ou raiz da gameleira (Ficus

doliaria).

9 Cesto feito de taquara onde se põe a massa da mandioca ralada a fim de espremê-la na prensa.

“Forçado pelo meio em que vive, praiano é o homem que toca todos os instrumentos, como vulgarmente se diz, pois a necessidade de fazer a própria canoa, transformou-o no hábil carpinteiro na ribeira, mestre de construções navais, levando-o a realizar todos os trabalhos concernentes à arte, como a casa em que mora, o ‘tráfico’, para a farinha, artigos de cerâmica, tecimento de palhas para coberturas, esteiras de peri, violas e até violinos, caixas delicadas e uma infinidade de objetos de uso doméstico”. (ALMEIDA, 2005, p.51)

Fato esse comprovado ao visitarmos o bairro durante a coleta de dados para esta pesquisa; assim que chegamos a Santa Maria já nos deparamos com Maria Patrícia Godoy Scharmann, chamada por todos de “Nezinha”, esposa de Ernestinho, carregando, em seu ombro, um tronco de árvore que acabara de extrair da mata, a fim de produzir lenha para iniciar os preparativos do almoço; enquanto isso, Ernestinho confeccionava uma “barrigueira”, utilizada para carregar mercadorias que serve como um arreio ou sela para o cavalo, feita de saco de ráfia, um tipo de material plástico que preenchido com palha e posto no dorso do animal equilibra o peso dos produtos que serão carregados, especialmente quando realizam viagens para Guaraqueçaba, onde fazem algumas compras, pois a cidade paranaense que faz divisa com o bairro é mais próxima do que eles irem até a Ilha de Cananéia.

Percebemos a simplicidade e a humildade a partir destes pequenos atos observados nas pessoas

que ali residem; os valores e saberes tradicionais caiçaras ainda continuam conservados nas mãos que produzem o artesanato e nos olhares singelos e cheios

de simpatia dessa “gente de sítio” que confirma, nas palavras de Carlinhos, que “aquilo que a gente apren- deu, a gente tem que tentar passar pro outro” e nos re- mete aquela letra de Zé Rodrix e Tavito que dizia:

“Eu quero uma casa no campo / onde eu possa ficar no

tamanho da paz (

/ Eu quero plantar e colher com a

mão / a pimenta e o sal / Eu quero uma casa no campo / do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé / Onde eu possa plantar meus amigos / meus discos e livros / e nada mais”.

)

Mesmo com tanta riqueza cultural e atrativos ecológicos para serem apreciados, o turismo na região é considerado fraco, apesar de existirem projetos voltados para essa iniciativa e a localidade estar inserida num circuito de turismo rural, que engloba proprie- dades rurais dos bairros continentais de Cananéia.

Em relação às festas, a dança de São Gonçalo era um dos ritos agrários realizados após os mutirões de colheita de arroz, como tinha muito arroz para colher, eram feitos esses “mutirões” em troca de

alimentação e festividade, onde as mulheres ajudavam desde a colheita até a preparação das comidas típicas da localidade, como o peixe seco, defumado em cima dos fogões a lenha, servido com banana, farinha de

mandioca e biju

, acompanhados de caipirinha de

pinga com mel, tudo direto das terras de Santa Maria.

10

10 Também chamado de beiju, este alimento é uma espécie de biscoito feito de farinha de mandioca.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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Etelvina Porfilho de Almeida Conforme Almeida (2005), não existia derruba- da, plantação ou colheita, sem

Etelvina Porfilho de Almeida

Conforme Almeida (2005), não existia derruba- da, plantação ou colheita, sem a diversão que rompia só com o nascer do sol. Ernestinho, ao contar sobre as festividades confirma o que Antônio Paulino de Almeida discorre em “Usos e Costumes Praianos”, de 1945, que afirma que os indivíduos têm uma certa

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preocupação ao construírem suas salas no interior das casas, pois é o local de acomodação das folias e da hospitalidade, característica dos caiçaras, desta maneira, mediam, em média, de 6 metros de largura por 8 de comprimento.

Em agradecimento ao santo, por não ter chovido durante a colheita, prometiam que a primeira moda do baile seria o São Gonçalo, dançada do jeito que viessem da roça, sendo que as mulheres eram quem convidavam os homens, com buquês de flores, para dançarem diante de uma mesa onde era posta a imagem do santo violeiro e casamenteiro, que na falta era representado pelas próprias flores.

Scarpin (2006), evidencia este fato ao analisar o imaginário religioso do bairro São Paulo “Bagre”, no Volume V da Enciclopédia Caiçara sobre festas, lendas e mitos, organizada por Antônio Carlos Die- gues. Através do relato de um morador local confirma:

meu São Gonçalo, fazei que não chova no

dia do meu sirviço, que a primera moda é vossa aí, de noite. Intão tinha gente que tinha memo im casa o São Gonçalo mesmo, qui é um santo cu’a viola e otros que não tinham punha um buquê de frô e aí o violero

Acho que já fico coisa di princípio, né, que

Depos que

dançáva o São Gonçalo intão tudo mundo ia tomá seu banho, seu café. Du jeito que o pessoar vinha da roça, tudo sujo, tinha que dançá o São Gonçalo premero”.

“[

]

cantava. [

]

a pessoa faiz promessa pra não chovê

A Folia do Divino Espírito Santo, também conhe- cida como “Romaria do Divino” ou “Bandeira”, de

origem portuguesa, era uma tradição realizada todo ano, iniciando-se na última semana de abril ia até o final de junho, antes das comemorações na sede do município, no primeiro domingo do mês de julho. As atividades do cortejo têm início com a saída das bandeiras da Igreja Matriz de São João Batista de Cananéia para todos os bairros, desde a zona urbana, com rezas, cantos e ladainhas nas casas dos fiéis até se embrenharem pelos sítios com a bandeira e seus músicos.

Atualmente, realizam orações com terços nas moradias, de maioria católicas, já que a igreja exis- tente caiu e suas sobras foram desmanchadas para ser reconstruída; um fato inusitado é que existe uma moradora considerada padroeira do bairro, Dona Maria das Dores Paiva Pedro.

Ao escutar os causos, o conhecimento era passado de pai para filho; a lenda da cigana de sete saias que dançava e rodopiava em volta da centenária figueira (Fícus spp.) era ouvida em momentos domésticos como neste em que Carlinhos nos conta:

eu mesmo ia pra casa do meu avô,

chegava lá, ele tinha um fogão grande, a gente juntava cinco, seis, oito neto, né, e brincava um poco, aloitava 11 um poco, brincava um poco e depois escutava história

aloitava era pra ver qual era o camarada mais forte”.

“[

]

] [

11 Aloitá(r): lidar com; estar ao encontro com. (Extraído do Pequeno Dicionário de Vocábulos e Expressões Cananéias, de Edgar Jaci Teixeira, 2005).

Projeto de Formação de Educadores Socioambientais no Município de Cananéia - Programa Educação de Chico
Projeto de Formação de Educadores Socioambientais no
Município de Cananéia - Programa Educação de Chico Mendes

Figueira existente no bairro Santa Maria, onde a cigana de sete saias dança todas as noites, segundo a lenda local

Tanto Ernestinho quanto Carlinhos informam que o modo como brincavam e se alegravam pelas propriedades rurais era bem diferente das crianças de hoje; antigamente, se divertiam com piões, carrinhos, casinhas feitas de sabugo de milho e canoas que escorregavam em barrancos de terra.

Quanto aos casamentos, uns eram oficializados; outros não, o que ainda acaba acontecendo; as dife- renças entre os gêneros não existem, as mulheres rea- lizam o mesmo trabalho dos homens, desde mexer com a terra até tirar lenha da mata. Os partos, antes, eram feitos no bairro, por parteiras e também par- teiros, o pai de Ernestinho, Ricardo Scharmann, fez seu parto, em 1945, e de outros seis irmãos seus; atual- mente, mesmo tendo uma Unidade Básica de Saúde

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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(UBS) e um médico contratado pela prefeitura do município, que visita duas vezes ao mês o bairro, os nascimentos, assim como problemas mais graves, são feitos em Pariquera-Açu, no Hospital Regional do Vale do Ribeira (HRVR).

Os informantes da entrevista dizem que as pessoas viviam mais, a tia de Ernestinho, por exemplo, Dona “Mariquinha”, faleceu com 113 anos ainda lúcida, porém, doenças como diabetes e pressão alta preocupam os idosos que usam das plantas medicinais suas qualidades fitoterápicas preparando chás das

ervas locais: para cólica misturam pixilim com noz moscada 12 (Myristica fragrans), aquecido de água; pro-

(Phy-

blema nos rins toma-se chá de quebra-pedra

llanthus niruri) com parietária 14 (Parietaria officinalis)

ou fervem-se com água as folhas do abacateiro

(Per-

sea americana); para desnutrição, folhas de mandioca (Manihot esculenta) trituradas; gripes e resfriados, mel silvestre da localidade com extrato de própolis, aque- cido com canela e gengibre, além de utilizarem a carqueja (Baccharis trimera) como diurético.

13

15

12 Utilizada ao longo dos tempos, sobretudo em culinária, esta especiaria oriunda da Indonésia também possuí características terapêuticas, é estimulante, adstringente, auxilia nos problemas genitais femininos,

como leucorréias e em reumatismos.

13 Usada pela medicina popular no tratamento de cálculo renal, esta erva não funciona exatamente quebrando as pedras nos rins, na verdade evita que os cálculos se formem e relaxa o sistema urinário, o que

ajuda a expeli-los.
14

Chamada também de alfavaca-de-cobra, esta planta com propriedades diuréticas também é empregada contra as moléstias inflamatórias

das vias urinárias.

15 O chá também combate artrite, mal da gota, cálculos renais, dores e problemas de reumatismos, bem como gases intestinais. Comer o fruto adoçado com mel é ótimo para rejuvenescimento da pele e elimina manchas brancas. O abacate também é ótimo para inflamação dos dedos, doenças dos rins, debilidade do estômago e afecções da garganta.

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Patrícia Dunker
Patrícia Dunker

Enedina França Scharmann, mãe de Ernestinho, que com 84 anos conserva a vivacidade e a sapiência caiçara

Apesar de algumas adversidades em relação ao conforto que a vida contemporânea nos possibilita, os primos Ernestinho e Carlinhos têm orgulho de serem caiçaras, de terem seus sítios e de viverem de uma forma simples e humilde, tendo criado filhos e netos em Santa Maria, de onde não querem nunca sair.

Ernesto Scharmann e Carlos França A história oral como método de pesquisa tem permitido elucidar

Ernesto Scharmann e Carlos França

A história oral como método de pesquisa tem permitido elucidar como vivem certas populações tradicionais, como os caiçaras e seu modo de vida. Estes saberes da oralidade permeiam a memória dos idosos e estão contidos nos relatos e testemunhos que somados, compilam-se numa memória coletiva arquivada, transmitida de geração em geração.

“O finado Pedro Egílio, ele era cunhado do finado veio Henrique, né, que é finado meu avô, ele era casado com a irmã dele, a Julia França, aí ele chego e disse que foram pesca de linha, no mar, aí falaram que tinha muita jamanta de primeiro, que pegava na linha e na poita da canoa e levava pro mar, lá fora, pra virar a canoa pra pegar o sujeito, né, aí o finado meu avô, veio Henrique, andava com uma garrucha, carregava pela boca,

aí o finado Pedro Egílio, muito marvado, ele disse

assim: ‘Henrique, você leva essa tar garrucha pra nóis hoje dá um tiro na jamanta, que a jamanta vai pega na poita da canoa e vai carrega lá pra fora, e nóis somo capaz de vira a canoa, e pega nóis’

ela tem dois chifre assim em cima, tipo uma arraia, aí ele pegou e disse que levou ( ) começaram a pescar, daqui um poco pescaram, pescaram, mataram um poco de pexe, daqui um poco puxaram a poita, um pisco pro outro, pra fazê sacanagem, ‘Tá na hora’, como disse, ‘Agora’, puxo a poita, começo a fazê pra lá e pra cá, ‘Henrique, o bicho pego na poita, prepara a garrucha pra atira nele’ ( )

daqui a poco armo a

garrucha e diz que começo a aparece o vermelhão do barro, da lama, no mar. Chegaram em terra,

disse assim: ‘Henrique, você mato a jamanta?’ ( )

) fez nada,

fez um rombo na pedra chumbada (muitos risos). Acabaram com a vida dele, um cunhado aprontou com outro cunhado esse tipo de safadeza, né ( ) ‘O vô é verdade que você atiro uma pedra?’ ( ) ‘Veio mentiroso o finado Pedro Egílio’ ”.

(

)

‘Pô dexa que eu vô atira!’ (

)

‘Matei a jamanta’ (

Com os olhos cheios d’água, ouvimos e aprecia- mos o falar desse povo sorridente nas vozes de Ernesto Scharmann, 62 anos, casado e pai de sete filhos e Carlos França, 53 anos, também casado e pai de cinco filhos, a eles agradecemos pelo tempo dispensado, pela atenção com que nos receberam e pelo café fresquinho que nos foi servido, produzido ali mesmo, nas terras de Santa Maria.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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Casa caiçara Referências Bibliográficas ALMEIDA, Antonio Paulino de. Usos e Costumes Praianos. IN: DIEGUES, Antonio

Casa caiçara

Referências Bibliográficas

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Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

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MOURÃO, Fernando A. Albuquerque. Os pesca- dores do Litoral Sul de São Paulo: um estudo de Sociologia diferencial. São Paulo: Editora HUCI- TEC/NUPAUB/CEC/USP, 2003, pág. 46.

PIMENTEL, Alexandre, GRAMANI, Daniella e CORRÊA, Joana (organizadores). Cananéia. IN:

Museu Vivo do Fandango. Rio de Janeiro: Associação Cultural Caburé, 2006, pág. 136-167.

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TEIXEIRA, Edgar Jaci. Pequeno Dicionário de Vocá- bulos e Expressões Cananéias, 2005. 94 páginas.

pág. 271-302. TEIXEIRA, Edgar Jaci. Pequeno Dicionário de Vocá- bulos e Expressões Cananéias , 2005. 94
Bairro do Ariri 1 Aldrin Aldrin Klimke Klimke 1 1 1 William William Cunha Cunha

Bairro do Ariri

1 Aldrin Aldrin Klimke Klimke 1 1 1 William William Cunha Cunha Gonçalves Gonçalves 2
1
Aldrin Aldrin Klimke Klimke 1
1
1
William William Cunha Cunha Gonçalves Gonçalves
2
2
Enedina Enedina da da Costa Costa Barbosa Barbosa
2
José José Coelho Coelho 2
2
Quirino Quirino Ermes Ermes Coelho Coelho 2

1 Estudantes da 8ª série do ensino fundamental e 2º ano do ensino médio da Escola Estadual Profa. Yolanda Araújo Silva Paiva, respectivamente e membros do Coletivo Jovem Caiçara. 2 Moradores tradicionais da comunidade do Ariri entrevistados durante a pesquisa de campo.

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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]

era uma cultura que não destruía a natureza, era uma cultura que o povo trabalhava com muita dificuldade, só que a natureza continuava viçosa (José Coelho)

“No começo [

]

vamos dizer do Brasil [

Entre os limites do Estado do Paraná e São Paulo encontra-se um bairro com 487 habitantes, o bairro do Ariri. Um lugar que sofreu muitas mudanças ao longo dos anos e hoje é um ótimo local para viver, descansar e desfrutar do que há de melhor em nossa região. O acesso pode ser feito por água através do Canal do Ararapira, passando pela comunidade do Marujá (Ilha do Cardoso) e Vila do Ararapira (Ilha do Superagui) ou por terra pela estrada do Itapitangui/Ariri.

Superagui) ou por terra pela estrada do Itapitangui/Ariri. 94 Imagem de satélite Saberes Caiçaras - A

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Imagem de satélite

Saberes Caiçaras - A cultura caiçara na história de Cananéia

A origem do seu nome provém de uma espécie de

palmeira nativa do Brasil e deveria ser pronunciado Iriry (nome dado à palmeira), mas com a variação de

pronúncia ficou sendo chamado, nos dias atuais de Ariri. Antes de tocar na sua história e sua cultura local, vamos passar rapidamente pela história da Vila do Ararapira, que tem um total envolvimento com o bairro do Ariri.

A Vila do Ararapira situa-se no Estado do Para-

ná, no extremo norte da ilha do Superagui, antes do Bairro do Ariri e logo após a Comunidade do Marujá.

Essa região tinha diversos conflitos em termos de divisas territoriais. Antes o limite entre o Estado do Paraná e o Estado São Paulo se dava no meio da ilha do Superagui, que tinha como marco um “pé de jerivá”, assim São Paulo tinha toda a parte norte da

“pé de jerivá”, assim São Paulo tinha toda a parte norte da Entrada da Vila do

Entrada da Vila do Ararapira, pelo canal do Ararapira

Ilha, com as Vilas do Ararapira e da Barra do Arara- pira fazendo parte de seu território e o Paraná com o trecho sul. Após muitas discussões políticas entre os dois Estados, o governo paranaense conseguiu com

que toda a ilha do Superagui passasse ao domínio do Paraná e São Paulo ficasse com o outro lado da margem do canal do Ararapira, sendo este o limite atual entre os Estados.

do Ararapira, sendo este o limite atual entre os Estados. Igreja da Vila do Ararapira A

Igreja da Vila do Ararapira

A Cultura Caiçara na História dos Bairros Rurais de Cananéia

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Antes a Vila do Ararapira pertencia ao Estado de São Paulo e lá produziam o arroz, um dos

principais produtos de exportação pelos portos de Cananéia e Iguape, até metade do século XIX, como afirma Mourão (2003) e o escoamento desses produtos para esses municípios era feito através da Companhia de Navegação Fluvial Sul Paulista, atual DERSA . Quando passado para o lado do Paraná essa Companhia de Navegação parou de atracar na Vila, fato devido à Vila agora pertencer ao Paraná e a Companhia de Navegação passou a atender somente

o Estado de São Paulo. Com isso a Vila teria que

comercializar seus produtos com os principais centros comerciais do Paraná, entre eles Guaraqueçaba e

Paranaguá, o que tornaria mais difícil devido ao acesso.

Preocupados, os moradores mandaram cartas à Câmara Municipal de Cananéia em meados de 1920, pedindo à prefeitura que doasse um pedaço de terra em território paulista para eles, e foi concedido o pedido, mas mesmo assim alguns moradores permaneceram na Vila do Ararapira local, quebrando

o mito atual de “cidade fantasma”. O fato de hoje a

vila se encontrar sem moradores é justificado pela

dificuldade de acesso, ao processo erosivo que vem afetando aquela faixa de terra e principalmente à criação do Parque Nacional do Superagui, que limitou