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10 - Epístolas gerais

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Comentário bíblico extraido da internet.
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08/28/2013

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Introdução ao 59º Livro Bíblico: Tiago

http://geocities.yahoo.com.br/aguazul2001br/Biblia/

AUTORIA
De acordo com o primeiro versículo da epístola, o nome do autor é Tiago, que se apresenta como "servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo". "Tiago" é a forma grega do nome hebraico "Jacó", que significa "suplantador". Em princípio pode parecer que a autoria esteja clara e bem definida. Contudo, não é assim. Já que o Novo Testamento menciona várias pessoas com o nome de "Tiago", surge a questão de qual deles teria sido o autor da carta. Temos, no mínimo, três personagens distintos com o nome de Tiago. 1) O maior, irmão de João, filho de Zebedeu (Mt 10:1-4). 2) O menor, filho de Alfeu. (Mc 15:40). 3) O irmão de Jesus (Mt 13:55; Mc 6:3). Em Atos 1:13-14 os três estão presentes, mas o texto fala de um certo Judas, que era filho de Tiago. Não fica claro se esse Tiago era um dos três já citados ou se poderia ser um quarto personagem. As passagens dos evangelhos que citam Tiago, geralmente estão se referindo ao irmão de João. Sua morte é mencionada em Atos 12:2. Não sabemos o que aconteceu com o filho de Alfeu. A partir daí, existem outras referências que citam Tiago, em Atos e nas epístolas. Tais passagens são normalmente relacionadas à pessoa do irmão de Jesus. Em Gálatas, Paulo fala de seus contatos com Tiago, irmão do Senhor, que estaria em Jerusalém. Com base nesse texto, os outros também são associados, por dedução, à mesma pessoa. Tal associação é bastante aceita pelos críticos e parece muito coerente. Quem segue essa ligação de textos acaba por atribuir ao irmão de Jesus a autoria da epístola em epígrafe. Alguns comentaristas preferem não seguir essa tendência e se abstêm de apontar o autor. Considerando que Tiago, irmão do Senhor Jesus, escreveu a carta, destacamos algumas informações sobre a sua pessoa, conforme nos auxiliam o Novo Testamento, as conjecturas e a tradição eclesiástica. Tiago não cria em Jesus antes da crucificação (Jo 7:5). É possível que sua conversão tenha se dado após a ressurreição de Cristo, quando este lhe apareceu (I Co 15:7). Juntou-se então aos discípulos (At 1:14), tornando-se apóstolo (Gl 1:19) e uma das "colunas" da igreja em Jerusalém (Gl 2:9). Sua liderança obteve grande destaque, conforme se observa em Atos 12:17; 15:13-29; 21:18 e Gálatas 2:12. Tiago veio a ser chamado "o justo", por sua integridade, e "joelho de camelo" devido às marcas que possuía em virtude de suas constantes orações. Segundo Flávio Josefo, o irmão de Jesus morreu em 63 d.C. Sendo pressionado pelos judeus para que negasse a Cristo e tendo permanecido firme em suas afirmações, Tiago foi arremessado de um lugar alto nas dependências do templo. Não tendo morrido com a queda, foi apedrejado até a morte.

Data. A data de produção da carta se situa entre os anos 45 e 48 d.C. Alguns comentaristas sugerem um período ulterior às epístolas paulinas, na segunda metade do primeiro século. Tema principal. A religião prática. Textos chave 1:27 e 2:26. Características o livro tem teor prático e rigoroso, usa muitas ilustrações, é direto, tem estilo semelhante ao sermão da montanha. Apresenta diversos preceitos morais. A carta contém 108 versículos, entre os quais temos 54 mandamentos. Sobre seu rigor, destacamos 1:7; 1:26; 2:9; 2:10; 2:19; 3:6; 3:8; 3:14-15; 4:1-4; 4:8-9; 4:16; 5:1-6.

Paralelo entre o livro de Tiago e o Sermão da Montanha
Assunto Juramento Resposta à oração Prática da palavra Julgamento Tiago 5:12 1:5; 5:16-18 1:22 4:11 Sermão da Montanha Mt 5:34-37 Mt 7:7 Mt 7:24-27 Mt 7:1

O USO DE ILUSTRAÇÕES
Tiago, como bom pregador, utiliza de forma magistral as ilustrações, como meio de representar, de modo claro, as verdades ensinadas. Tal recurso ajuda a entender o ensinamento e também a fixá-lo na memória. A epístola utiliza fatos reais, eventos hipotéticos, elementos da natureza e até obras das mãos humanas para expressar suas idéias.

Fatos reais
    Abraão: 2:21-23; Raabe: 2:25; Jó: 5:11; Elias: 5:17-18.

Eventos hipotéticos.

   

Pobre e o rico na sinagoga: 2:2-4; O irmão necessitado: 2:15-16; O doente e os presbíteros: 5:14-15; Os planos de viagens e negócios: 4:13.

Elementos da natureza.
                mar e as ondas: 1:6; A fonte e a água: 3:11-12; A figueira: 3:12; Os figos: 3:12; A videira: 3:12.; As azeitonas: 3:12; O vapor: 4:14; A chuva e o fruto da terra: 5:7; O vento: 3:4; O bosque e o fogo: 3:5; Os cavalos: 3:3; Feras, aves, répteis, animais marinhos: 3:7; Frutos: 3:17; A erva, a flor e o sol: 1:10-11; Luz e sombra: 1:17; A traça: 5:2.

Obras das mãos humanas.
     enxerto: 1:21; O espelho: 1:23; s navios e o leme: 3:4; Vestes e anel: 2:2-3; Estrado – 2:3.

Figuras de linguagem
      

A língua é um fogo: 3:6; Está cheia de veneno mortal: 3:8; A cobiça concebe e dá à luz o pecado. Este gera a morte: 1:15; Alimpai as mãos, pecadores: 4:8. Vossas riquezas estão apodrecidas: 5:2; Vossos vestidos estão comidos de traça: 5:2; Vosso ouro e vossa prata se enferrujaram: 5:3;

    

Sua ferrugem dará testemunho contra vós: 5:3; E comerá como fogo a vossa carne: 5:3; O jornal dos trabalhadores... clama: 5:4; Engordaste os vossos corações: 5:5; O juiz está à porta: 5:9.

Em alguns textos, não é fácil saber se o autor usa determinada palavra com sentido figurado ou literal. Por exemplo, as "guerras" em 4:1.

Destinatários
A carta é destinada às 12 tribos da diáspora (dispersão). São judeus cristãos que se encontravam dispersos entre várias nações: (1:1 e 2:2).

Provas e tentações
Tiago introduz o assunto com palavras de impacto. "Tende grande gozo quando vos forem enviadas várias provações" (1:2). Não faz parte do nosso pensamento moderno uma idéia como essa. Em nosso tempo, procura-se o menor esforço e o maior prazer. A epístola nos mostra que as tentações e as provações são elementos presentes e importantes na vida cristã. Por quê essa importância? Tiago responde. "sabendo que a prova da vossa fé produz a paciência" (1:3). Precisamos saber isso para termos uma atitude positiva diante daquilo que Deus nos envia ou permite. Tudo o que Deus permitir de negativo em nosso caminho terá um propósito e produzirá alguma virtude em nós. Isso, evidentemente, se sairmos vencedores desse processo. É importante discernir entre prova e tentação e suas respectivas origens. Tiago diz que ninguém pode dizer que é tentado por Deus (1:13). Deus nos prova, nos coloca em teste. Ele não nos tenta. Entretanto, permite a tentação. Esta vem de dentro de nós, atraída por fatores externos (1:14-17). A isca é exterior. A tentação está no apetite do peixe. Casos diferentes foram as experiências de Adão, Eva e Cristo. Como não tinham pecado, a tentação foi totalmente exterior (Gn 3; Mt 4). Prova é teste. Tentação é indução ao erro. Toda tentação pode ser vista como prova. Contudo, nem toda prova é tentação. Por exemplo, se Deus nos permite passar por uma situação de dificuldade financeira, isso pode ser uma prova para demonstrar se continuaremos confiantes e fiéis ao Senhor ou não. Se, em meio a tudo isso, aparecer uma oportunidade de ganho ilícito, isso será uma tentação. Estar no deserto é prova. Oferta de "pedras no lugar de pães" é tentação (Mt 4:3). A prova e a tentação revelam o que há em nossos corações. São formas de manifestar o que somos interiormente. Tal demonstração não serve para que Deus nos conheça, pois ele já nos conhece plenamente. A prova e a tentação mostram para nós mesmos a nossa natureza e fraquezas que talvez não conhecêssemos.

Além do autoconhecimento, provas e tentações são oportunidades de aprendizagem, até mesmo quando fracassamos. Tal conhecimento será útil para as próximas vezes.

A Religião Prática
Confrontando a epístola aos Hebreus com a de Tiago, verificamos que Hebreus contém uma ênfase sobre a fé. Os destinatários precisavam se livrar da dependência que tinham em relação aos elementos visíveis do judaísmo. Os valores invisíveis e celestiais são enfatizados. Tiago também escreve aos hebreus. Porém, seu discurso tem uma ênfase diferente. Ele está enfatizando o visível. Enquanto a epístola aos Hebreus fala do céu, Tiago "põe os pés no chão" e nos convida a encarar necessidades e desafios do dia-a-dia. Não existe nisso nenhuma contradição. Os hebreus não deviam depender de elementos visíveis, tais como o templo, os sacerdotes e os sacrifícios, para estabelecer ou manter sua relação com Deus. Então, a fé no invisível é enfatizada. Entretanto, nosso cristianismo não pode ser invisível. Ele precisa se manifestar através de ações no mundo físico. Nessa parte entra a ênfase de Tiago sobre o valor das obras. O invisível não depende do visível, mas precisa produzir evidências visíveis, sob pena de ser considerado inexistente. Por isso Tiago diz. "mostra-me a tua fé sem as tuas obras." (2:18). Se a minha fé não produz obras, então tenho uma fé tão "eficaz" quanto a própria incredulidade. Precisamos mostrar alguma coisa, pois o mundo espera pra ver. E isso só é possível através de obras. Tiago enfatiza o valor do caráter cristão. Seu livro não se aplica à exposição doutrinária, mas ao apelo veemente à prática de toda a doutrina cristã que já se conhece. O conhecimento da palavra é fundamental (1:18, 21). Ouvir é bom hábito (1:19). A fé é indispensável (1:6-7). Mas o processo não pode parar nesse estágio, pois crer, os demônios também crêem. A insistência do autor é a fim de que seus leitores coloquem em prática a palavra de Deus. A epístola mostra o contraste que muitas vezes ocorre entre a fé e a prática. Conhecemos muito, cremos na palavra de Deus, mas praticamos pouco e falamos uma palavra diferente da que ouvimos. Tiago expõe essa contradição e exorta no sentido de corrigir tamanha distorção. ALGUMAS CONTRADIÇÕES OBSERVADAS POR TIAGO Ouve-se a palavra, mas não se cumpre (1:23) Considera-se religioso, mas não se refreia a língua (1:26) Reúne-se em nome de Cristo e comete-se a acepção de pessoas na mesma reunião (2:1-4)

Alguém tem fé, mas não tem obras (2:14) Deseja-se o bem ao próximo, mas não se pratica esse bem (2:15-16) De uma mesma boca procede bênção e maldição (3:1012) Alguém é considerado sábio, mas tem inveja e sentimento faccioso (3:13-16) "Cobiçais e nada tendes" (4:2); (Até no erro ficava evidente a contradição) "Pedis e não recebeis" (4:3) Deseja-se ser amigo de Deus e, ao mesmo tempo, amigo do mundo (4:4) Sabe-se fazer o bem, mas não se faz (4:17) ALGUMAS EXORTAÇÕES CORRETIVAS Pedi sabedoria a Deus (1:5) Sede prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar (1:19) Rejeitando toda a imundície, recebei com mansidão a palavra (1:21) Sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes (1:22) Mostrai pelo bom trato as obras em mansidão de sabedoria (3:13) Sujeitai-vos a Deus (4:7) Resisti ao diabo (4:7) Chegai-vos a Deus (4:8) Alimpai as mãos (4:8) Purificai os corações (4:8) Senti as vossas misérias, lamentai e chorai (4:9) Sede pacientes (5:7) Orai (5:13) Cantai louvores (5:13) Confessai as vossas culpas uns aos outros (5:16) A
INCLUI.

PRÁTICA PROPOSTA POR

TIAGO

PODE SER TRADUZIDA PELA EXPRESSÃO

"BOAS

OBRAS".

ISSO

 Ações a favor do próximo. Exemplo. "visitar os órfãos e as viúvas nas suas

tribulações" (1:27);  Bom comportamento. "guardar-se da corrupção do mundo" (1:27). Normalmente nos preocupamos em não fazer mal ao próximo. Está certo, mas, além disso, precisamos fazer-lhe o bem, pois, se não fizermos, estaremos pecando (4:17).

Conhecimento da palavra, fé em Deus e rituais podem muito bem constituir uma religião falsa se não estiverem associados à obediência, a qual se traduz em prática do que a palavra manda. A prática revela sabedoria, que é o conhecimento introjetado, assimilado e aplicado. Tiago apresenta uma hipotética reunião religiosa onde se peca pela acepção de pessoas. É a religiosidade desprovida de sabedoria, amor e obediência aos preceitos divinos (2:1-4). Observe que em todos os capítulos do livro encontramos ocorrências do termos "sabedoria", "sábio" ou conjugações do verbo "saber". 1:3, 5; 2:20; 3:1, 13, 15, 17; 4:4, 14, 17; 5:20. Em algumas passagens, o uso do verbo parece ser apenas com fim sintático. Em outras, torna-se evidente a questão do conhecimento e da sabedoria. O livro de Tiago tem sido também considerado por alguns como o "livro de sabedoria" do Novo Testamento, não apenas pelos versículos mencionados, mas pelo uso que faz dos conselhos morais práticos, da mesma forma como se vê nos livros sapienciais do Velho Testamento, principalmente Provérbios.

O CUIDADO COM AS PALAVRAS
Além das obras, Tiago coloca em evidência o que falamos. Se cremos na palavra de Deus precisamos falar de acordo com essa palavra e também proceder desse modo (2:12). As admoestações em relação à língua são diversas.

    

 

Não falar precipitadamente. Seja tardio em falar (1:19). Uma vez falada, a palavra não pode ser recolhida. Portanto, é bom que se reflita antes de se pronunciar algo. Assim, evitaremos ofensas, pedidos mal feitos (4:3), planos incertos (4:13-15) e até mesmo votos que não podemos cumprir (Obs. Ec 5:4-6); Não falar demais. Tiago usa a expressões "frear", "refrear" e "domar" a língua. (1:26; 3:1-12); Não mentir (3:14); Não amaldiçoar (3:10); Não acusar a Deus (1:13); Não usar palavras vãs no lugar da ação necessária (2:16): esse falar vão pode até ser uma oração. Existem momentos em que não adianta orar. É preciso agir. Lembre-se de Moisés diante do Mar Vermelho. Deus disse: por quê clamas a mim. Diga ao filhos de Israel que marchem" (Ex 14:15); Não falar mal nem julgar os irmãos (4:11). Se existe um problema a ser resolvido com uma pessoa, então não adianta comentar o fato com outros. Talvez, o mal falado até seja verdade. Contudo, ainda assim trata-se de maledicência. Mesmo que o irmão esteja errado, nós não devemos difamá-lo. Quando Noé se desnudou em sua tenda, seu filho Cão foi logo espalhar a notícia e por isso foi amaldiçoado. Os filhos Sem e Jafé tomaram a providência de cobrir a nudez paterna e por isso foram abençoados; Não reclamar dos irmãos (5:9); Não jurar (5:12).

Na seqüência do capítulo 5, versos 13 em diante, o autor nos indica o que devemos falar no lugar das queixas, ou dos juramentos. Ore, cante louvores, confesse seus pecados. Sintetizando, Tiago relaciona:
  

A palavra de Deus, a qual deve ser ouvida e recebida; A fé que depositamos em Deus e em sua palavra; Nosso falar e nosso agir, os quais devem ser coerentes com a palavra, conseqüências e evidências indispensáveis da nossa fé. Ouvir (a palavra) Crer (fé) Falar (O falar certo e o errado) (inclusive oração e louvor) 1:18, 21, 25 1:6 2:14-26 1:5, 13,19, 26 2:3, 12, 14, 16 3:1-12, 14 4:311-12, 1315 5: 4, 9, 10, 13, 14, 15, 17, 18 Agir (Boas obras) (Em benefício do próximo) (Manifestação da sabedoria) 1:4, 22-27 2:12,14-26 3:13-17 4:17 5:20

ARREPENDIMENTO E JUÍZO
Diante de uma realidade religiosa tão contraditória e tendo em vista o juízo divino, Tiago convida seus leitores ao arrependimento. Juízo, justiça e termos derivados 1:20; 2: 4, 9, 12, 13, 21, 23, 24, 25 3:1, 18 4:11, 12 5:6, 9, 12, 16 Convite ao arrependimento, ao choro, à confissão 4:7-10 5:1, 15-16; 5:19-20:

A FÉ E AS OBRAS
Um dos assuntos mais polêmicos que envolvem o livro de Tiago é o confronto entre fé e obras. Tiago valoriza tanto uma coisa (1:6) quanto a outra (2:14). Porém, sua carta fala mais das obras, já que o autor observou a gravidade da ausência das mesmas na vida religiosa do povo. É como um médico que está indicando um reforço alimentar para suprir a falta de determinado nutriente, sem, contudo, menosprezar os outros. A fé é tão importante quanto fica demonstrado em Romanos e em Hebreus. Entretanto, se essa fé não produzir evidências visíveis, ela será como um plano que nunca foi realizado e seremos como árvores infrutíferas. Obra é fruto (3:13,17). O fruto do Espírito é amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão e domínio próprio (Gl 5:22). Não obstante, tais virtudes precisam se manifestar através de atos e fatos. O fruto não pode ser abstrato. Precisa ser concreto. De que adianta um amor não revelado, não transmitido por meio de ações? (I Jo 3:18). A fé opera pelo amor (Gl 5:6). O amor é o canal por onde flui a fé. O resultado é obra. A fé se mostra superior nessa questão porque a nossa salvação depende dela. "Pela graça sois salvos mediante a fé" (Ef 2:8). "Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado" (Mc 16:16). Crer é fé. Batismo é obra, ato físico. Observe que ninguém será condenado pela falta do batismo e sim pela falta de fé. Entretanto, aquele que tem fé deverá manifestá-la através de atos de obediência, inclusive batizando-se. As obras devem ocorrer de acordo com os recursos e o tempo que Deus tiver nos concedido. Por exemplo, o ladrão que se converteu na cruz ao lado de Cristo, não teve tempo de se batizar nem fazer obra alguma. Contudo, foi salvo. Nós, porém, que temos tempo e recursos devemos fazer boas obras, não para sermos salvos, mas como fruto natural da nossa fé. A fé é superior porque produz as obras e não o contrário. Tiago diz. "... se alguém disser que tem fé e não tiver as obras... porventura a fé pode salvá-lo?" (2:14). O autor não está condicionando a salvação à prática de boas obras. O sentido é o seguinte. se a fé de alguém não produz obras, pode-se concluir que essa mesma fé não produzirá salvação, pois é ineficaz ou inexistente.

CONFLITO APARENTE ENTRE TIAGO E PAULO
"Vedes então que o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé" (2:24).

"Concluímos, pois que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei" (Rm 3:28). Lendo estes dois versículos, podemos pensar que Tiago e Paulo estão se contradizendo. Alguns comentaristas afirmam que a contradição existe e que é inexplicável. O próprio reformador Martinho Lutero tinha essa posição e chegou a usar a expressão "epístola de palha" para se referir ao livro de Tiago. Há quem diga que Tiago tenha escrito para atacar Paulo e seus ensinamentos. Tais hipóteses atentam contra a inspiração divina das Sagradas Escrituras. Outros teólogos apresentam a seguinte solução.

Ao escrever aos Romanos, Paulo apresentou argumentos que tinham por objetivo combater a tese judaizante daqueles que exigiam dos gentios o cumprimento da lei mosaica. Diante disso, o apóstolo deixou claro que a salvação não depende das obras da lei, não depende dos rituais judaicos. Em sua exposição, Paulo lembra aos leitores que Abraão não foi justificado pelas obras da lei nem mesmo pela circuncisão, já que o patriarca teve sua experiência com Deus num tempo em que a lei mosaica não existia e até mesmo antes de ser circuncidado. Portanto, sua experiência foi baseada na fé. Paulo não estava falando de boas obras, de modo geral. Ele estava se referindo especificamente àquelas obras exigidas pela lei. Por sua vez, Tiago está preocupado com "o outro lado da moeda". Muitos cristãos estavam reduzindo o cristianismo a uma religião teórica, apenas espiritual, sem efeitos visíveis. A estes, Tiago diz que as obras são importantes. Abraão é usado novamente como exemplo. Depois de ter sua experiência pela fé, Abraão não cruzou os braços. Abraão agiu. Ele saiu da sua terra, se dispôs a oferecer Isaque, e fez tudo aquilo que Deus queria que ele fizesse. Imagine que alguém entra no prédio de uma escola e queira logo apresentar trabalhos de pesquisa, fazer provas e exercícios. Será que a direção acadêmica aceitará tudo isso? De maneira nenhuma. Se o indivíduo não está matriculado, ainda não é aluno da escola. Então, não tem nenhum valor qualquer trabalho apresentado por ele. O que é necessário? A matrícula, o compromisso, o vínculo. Então, depois de matriculado, imagine que esse novo aluno resolva ficar em casa, totalmente alheio aos seus deveres escolares. Então a direção da escola irá procurá-lo para cobrar tudo o que ele deveria estar fazendo. Assim, antes de sermos cristãos, de nada adiantam as nossas boas obras. "Paulo está dispensando". Entretanto, agora que estamos salvos pela fé, precisamos executar as obras como fruto normal de um cristianismo autêntico e sadio. "Tiago está cobrando". Em Romanos 3, Paulo está apresentado a futilidade das obras da lei no plano de salvação. Em outros escritos seus, o apóstolo deixa claro o quanto valoriza as boas obras de modo geral. Não que elas possam nos salvar. "Pela graça sois salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie" (Ef 2:89). Entretanto, devemos fazer boas obras, porque este é um dos motivos da nossa permanência neste mundo. Caso contrário, poderíamos ter sido arrebatados no momento da conversão. "Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas" (Ef 2:10). Observe que são palavras de Paulo, na continuação do texto mencionado anteriormente. Quando escreveu a Tito, Paulo colocou nas boas obras a maior ênfase da carta (Tt 2:7, 14; 3:1, 8, 14). Contudo, no mesmo texto, o apóstolo deixa claro que as obras não salvam (Tito 3:4-5). Considerando suas epístolas de modo geral, Paulo enfatiza a fé, sem desvalorizar as obras. Tiago enfatiza as obras, sem desvalorizar a fé. De fato, ambas as coisas são importantes. A fé sem as obras é morta. Da mesma forma, as obras sem fé são obras mortas (Hb 6:1).

1) Prefácio e saudações - 1:1. 2) As provas e tentações - 1:2-18. 3) A prática da palavra de Deus - 1:19-27. 4) A acepção de pessoas - 2:1-13. 5) A fé e as obras - 2:14-26. 6) Os males da língua - 3:1-18. 7) Várias exortações práticas - a oração e a paciência - 4:1 - 5:20.

Glossário de termos do livro de Tiago
           

Improperar: censurar (1:5); Dobre: dupla face (versão católica); vacilante (Thompson) (1:8); Andrajoso: esfarrapado (2:2); Estrado: tablado ou piso acima do nível do chão (2:3); Deferência: respeito (2:3); Régio: real (do reino) (2:8); Argüido: censurado (2:9); Peçonha: veneno (3:8); Jactância: orgulho (4:16); Jornal: salário por um dia de trabalho (5:4); Cevaste: engordaste (5:5); Presbíteros: anciãos, pessoas maduras, pastores (5:14);

Introdução ao 60º e 61º Livros Bíblicos: Pedro (1ª e 2ª) Primeira Epístola
Texto chave (4:1)

Palavra chave: sofrimento (1:11; 2:20; 3:17; 4:19; 5:1, 9, 10)

Autoria
Apesar de ter sido considerado homem inculto e iletrado (At 4:13), Pedro escreveu uma epístola de alto nível. Talvez aquele rótulo advenha do fato de Pedro não ter freqüentado as universidades gregas da época, nem ter sido um escriba ou doutor da lei. Contudo, isso não significa que ele fosse analfabeto e ignorante. Se lhe faltava muito da vasta cultura grega, o mesmo não se pode dizer quanto ao idioma, pois o grego era falado por todas as classes sociais. Além disso, falava o aramaico e talvez o hebraico. Como todo bom judeu, Pedro tinha todo o conhecimento da lei de Moisés e demais Escrituras do Velho Testamento. A forma do seu texto pode também ter sido influenciada pela mão de Silvano, que foi seu amanuense (I Pd 5:12). A autoridade do autor fica evidente: Além de ser apóstolo (I Pd 1:1), Pedro foi "testemunha das aflições de Cristo" (I Pd 5:1). Seu ensino estava, portanto, bem fundamentado, sendo digno de aceitação. Além de Silvano, também Marcos estava na companhia de Pedro quando escreveu a primeira epístola (I Pd 5:13).

Data
Os comentaristas sugerem datas entre 63 e 68 d.C. O ano mais indicado é 64. Destinatários Cristãos dispersos na Ásia Menor (judeus e gentios) - 1:1; 2:10. Durante algum tempo, Pedro foi contrário à evangelização dos gentios. Vemos, portanto que, por ocasião do envio dessa epístola, tal problema já tinha sido superado. Agora Pedro já aceita os gentios e os considera tão dignos do evangelho e do reino de Deus quanto os judeus. O apóstolo chega a tomar palavras ditas a Israel no Velho Testamento, aplicando-as aos gentios que fazem parte da igreja. "...Antes não éreis povo, mas agora sois povo de Deus...". (I Pd 2:9-10). Outros textos desenvolvem esse paralelismo entre a igreja e Israel, citando o sacrifício e o templo numa nova perspectiva (I Pd 1:19; 2:4-5). A epístola foi dirigida aos irmãos que moravam em regiões por onde Paulo passou e fundou igrejas. Por quê Pedro escreveria para eles? Isso faz com que alguns entendam que, quando essa epístola foi produzida, Paulo já teria morrido. O fato Silvano e Marcos, antigos companheiros de Paulo, estarem com Pedro também é usado como argumento a favor dessa hipótese. Circunstância A carta foi escrita numa época de grande perseguição imperial contra a igreja após o incêndio em Roma. No livro de Atos, os principais perseguidores eram os judeus. No período em que Pedro escreveu, os perseguidores passaram a ser os gentios (4:3, 4, 12). Características O livro é exortativo, consolador, cristológico, "cristocêntrico". Observamos que Tiago quase não cita Jesus em sua carta. Pedro, porém, cita-o a todo o momento. Aquele que o havia negado, agora tem no seu nome a base de sua doutrina.
ESBOÇO

1) Natureza da salvação (1:1-21);

2) Crescimento do cristão (1:22 - 2:10); 3) Vida cristã prática –(2:11 - 3:22); 4) Exortações diversas (4:1-19); 5) Admoestações aos líderes (5:1-14).

Pedro apresenta Jesus como
1) Fonte de esperança (1:3); 2) Cordeiro do sacrifício (1:19); 3) Pedra angular (2:6); 4) Exemplo perfeito (2:21-23); 5) Aquele que levou nossos pecados (2:24); 6) Sumo pastor (2:25); 7) Bispo das nossas almas (2:25); 8) Aquele que está assentado à destra de Deus (3:22).

Coisas preciosas para Pedro
 Provas (1:7);  Sangue (1:19);  Pedras (2:4);  Cristo (2:6);  Espírito manso (3:4).

Propósito da carta - firmar, orientar, confortar
Para os irmãos atribulados, Pedro oferece uma palavra de esperança, menciona os fundamentos da fé cristã e o que Deus tem para nós no futuro. Quando as tribulações se multiplicam, é bastante oportuno que essas verdades sejam mencionadas para renovação da fé e do ânimo. A obra de Cristo no passado (1:3) e a herança cristã no futuro (1:4-5) são mencionados como estímulo para se enfrentarem as dificuldades presentes (1:6).

Em tais circunstâncias, é necessário que nos lembremos de quem somos. Nossa identidade pode estar sendo questionada pelos homens, pelo diabo (Mt 4:2) ou até mesmo por nós mesmos. Pedro então enfatiza essa realidade espiritual que, muitas vezes, é desafiada por uma realidade aparente adversa. Ele utiliza enfaticamente o verbo ser: "não éreis povo..."; "agora sois... povo de Deus, geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido..." (2:9-10). "Sois guardados, mediante a fé, para a salvação" (1:5). "Sois edificados como casa espiritual" (2:5). O autor lembra aos seus leitores o que Cristo fez por eles (1:2, 3, 19; 2:5, 21; 3:18). Nos momentos difíceis é bom lembrarmos o que Jesus fez por nós e qual é o nosso vínculo com ele. O inimigo procura colocar tudo isso em dúvida na hora da tentação.

ESBOÇO COMENTADO
Podemos delinear uma seqüência de pensamento na epístola, embora os temas às vezes se intercalem.

1) Natureza da salvação (1:1-12)
Salvos pela obra de Cristo O autor começa sua epístola falando sobre a salvação e a herança no céu. Os irmãos que estavam padecendo perseguições poderiam questionar sobre o efeito de sua conversão. Talvez alguns estivessem esperando uma herança na terra, uma vida tranqüila e próspera. Deus pode nos dar todo tipo de bênção material, mas isso não é uma promessa de Cristo para todo aquele que nele crê. Isso depende da vontade de Deus para cada pessoa. O que ele promete a todos nós é a vida eterna, uma herança nos céus. Não podemos esperar conquistas materiais como efeito obrigatório do evangelho. O resultado pode ser a frustração. Por outro lado, nada impede que o cristão trabalhe para conseguir o que lhe for lícito, assim como também fazem os não salvos. Entretanto, a busca material não se tornará o objetivo principal da nossa vida ou da nossa fé.

2) Crescimento do cristão (1:13 - 2:10) O que somos e o que devemos ser
Tendo falado da salvação, Pedro poderia agora expressar palavras comemorativas e congratulatórias para seus destinatários como se tudo estivesse resolvido. Contudo, não é assim. Agora que estamos salvos, precisamos do crescimento espiritual, que só é possível mediante o legítimo alimento espiritual: a palavra de Deus (1:23-25; 2:1-2). A palavra "portanto", de 1:13, liga as duas seções do texto. O "portanto" indica que considerando tudo o que foi dito antes, seriam apresentadas, a seguir, admoestações que estariam relacionadas às conseqüências naturais ou necessárias ao bom andamento da questão anterior. Como dissemos, Pedro utiliza bastante o verbo "ser". Observamos principalmente as conjugações:

"sois" e "sede" em referência ao que já "somos" pelos méritos de Cristo e por nosso compromisso com ele, e o que devemos "ser". Observe na palavra "sede" o modo imperativo indicando uma ordem. Pedro já disse que somos salvos... portanto... precisamos ser:  Santos - separados da corrupção do mundo (1:15-16);  Sóbrios (conscientes, atentos e vigilantes) (1:13);  Obedientes (1:14). Essas poucas palavras resumem tudo o que Deus espera de nós.

3) Vida cristã prática (2.11 - 3:22)
O risco do pecado; vigilância; oração; serviço; comportamento; sofrimento e glória. Após a conversão, temos um caminho pela frente: é a vida cristã prática. Pedro menciona situações e relações do cotidiano. O pecado é mencionado como um risco constante (2:11-12; 4:1-6; 1:13-16). Pedro, que um dia disse que não negaria a Cristo e acabou negando três vezes, está bem consciente de que o pecado pode acontecer, embora não deva. Diante desse risco real, o autor nos aconselha a orar e vigiar (4:7; 5:8-9). Contudo, a vida cristã apresentada por Pedro não é apenas espiritual. Não se resume à oração e à vigilância. Ele ensina o serviço cristão, exemplificado através da hospitalidade e do ministério (4:9-11). Não basta orar; é preciso agir, trabalhar. Outro item abordado é o comportamento. As falhas nesta área podem invalidar nossas orações (3:7) e nosso serviço. Pedro menciona então a vida social e civil (2:12-17), familiar (3:1-7), profissional (2:18). Aconselha maridos, esposas e servos. O Sofrimento é o tema principal da epístola. Esse elemento também faz parte da vida cristã. Esta era a situação vivida pelos destinatários da carta. O autor diz que não devemos estranhá-lo, como se fosse algo anormal (4:12). Então, devemos concluir que o mesmo faz parte do plano de Deus para nós, pois ele assim o quer (3:17). Trata-se de algo necessário (1:6). Tais afirmações podem ser chocantes. Por quê Deus quer que soframos? Não é que ele queira o sofrimento em si, mas sim o resultado do processo. Existem virtudes que não serão adquiridas de outra forma. O sofrimento tem grande força didática. "Te deixei ter fome... para te dar a entender que nem só de pão viverá o homem..." (Dt 8:3). Pedro menciona dois tipos de sofrimento: um pelo evangelho (perseguição, tentações e perseguições) e outro pelo pecado (conseqüências e punições). O autor adverte que se sofremos como cristãos, sem culpa, então somos bem-aventurados. Se sofrermos merecidamente, então nenhuma honra receberemos (2:19-20; 4:14-16). Lembremo-nos do Calvário. Dois tipos de sofrimento ali aconteciam: Jesus morria inocente, enquanto que os ladrões morriam em conseqüência dos seus próprios erros.

O sofrimento pela causa do evangelho trará como conseqüência a glória. Esta é outra palavra importante na epístola, indicando glória presente na vida do cristão, glória futura e também a vanglória (1:24; 1:7, 8, 11, 21; 2:12, 20; 4:11, 13, 14, 16; 5:1, 4,10). O sofrimento é de pequena duração quando comparado com a glória eterna que nos aguarda (1:6; 5:10; veja também Rm 8:18). Queremos a glória (e às vezes até mesmo a vanglória), mas sofrimento... jamais. Queremos colher o fruto sem plantar sua erva. Queremos participar da glória de Cristo em sua vinda, mas não queremos participar dos seus sofrimentos. Pedro vincula tais elementos (1:11; 4:13; 5:1). Para justificar a necessidade e a utilidade do sofrimento, Pedro cita Cristo como exemplo (2:21; 3:18). O mesmo apóstolo se diz testemunha das aflições de Cristo e participante da glória. Com isso, ele deixa subentendida sua própria participação nos sofrimentos pelo evangelho. Diante do sofrimento somos levados a procurar seus motivos. Perguntamos: por quê está acontecendo isso? O que eu fiz para merecer isso? Assim, olhamos para trás em busca da causa. O sofrimento pelo pecado pode ser assim compreendido. Podemos olhar para trás e reconhecer nossa falha. Muitas vezes, porém, não conseguimos ligar o fato presente ao erro cometido. No caso do sofrimento permitido por Deus sem que tenhamos pecado, devemos olhar para frente e perguntar: para quê está acontecendo isso? Mesmo que não possamos, em muitos casos, saber o propósito específico, sabemos, de modo geral, que toda adversidade que nos ocorre vem para o nosso próprio crescimento. Todo exercício físico, corretamente realizado, contribui para o desenvolvimento e manutenção da boa forma muscular. Tais exercícios não são leves nem suaves. Se assim fossem, seriam inúteis. Assim são as provações e adversidades que enfrentamos. São exercícios para o espírito e para o caráter. Por meio deles nossa fé cresce, nossa paciência e nossa experiência se desenvolvem. O produto do sofrimento faz com ele se justifique e seja até mesmo valorizado por escritores bíblicos como Pedro e Paulo (Rm 5:3-5). O ouro é retirado da jazida em estado bruto, cheio de sujeira e deformidades. Contudo, não será rejeitado por isso. Da mesma forma Deus nos resgata: sujos e deformados. Ele não rejeita a sua vida, por mais sujo que você esteja. Podemos até lavar aquela pepita de ouro, mas isso não será suficiente. Algumas impurezas estão incrustadas no metal. Então, o ourives precisa levá-lo ao fogo (Ml 3:2). Pedro compara o fogo às tribulações e diz que assim como o ouro precisa passar pelo fogo, da mesma forma nossa fé precisa ser provada para que sejamos aprovados (I Pd 1:7). O fogo, por mais destruidor que seja, só destrói as impurezas do ouro. No final do processo, o metal está limpo, brilhante, e muito mais valorizado. Assim acontece conosco. Em sua primeira epístola, Pedro menciona muitos termos negativos e muitos outros positivos. Pode parecer conflito ou paradoxo, mas não é. Nossa vida é assim. Todos os elementos negativos do processo são necessários para que os positivos se manifestem. É uma relação necessária. Sem morte não haverá ressurreição. Primeiro vem o fogo, depois o brilho e o valor. Só não é necessário o pecado nem o sofrimento que dele advém, já que não produz nenhum benefício, exceto uma lição que deveria ter sido aprendida de outra forma. Vejamos então as palavras negativas e positivas encontradas em I Pedro

NEGATIVAS Sofrimento - 5:9 Fogo - 1:7 Provação - 4:12 Tristeza - 1:6; 2:19 Aflição - 4:13; 5:1 Vitupério - 4:14 Padecimento 5:10

POSITIVAS Fé - 1:21; 5:9 Glória, honra - 1:7,8,21; 2:17, 20; 4:11, 14; 5:1, 10 Esperança - 1:21 Alegria, exultação, gozo inefável - 1:8; 4:13 Amor - 1:20, 22; 2:17; 3:8; 4:8 Misericórdia - 1:3; 2:10 Paz - 1:2; 3:11; 5:14 Graça - 1:2; 5:5,12 Louvor - 1:7; 2:14 Dias felizes - 3:10

Muitas vezes, as experiências negativas são presentes, enquanto que o benefício está indicado para o futuro (I Pd 1:4-5; 4:13; 5:1, 4, 6, 10). Contudo, já no tempo presente experimentamos a esperança, a paz, a alegria, o amor, a misericórdia, etc. A glória, ou exaltação, é o principal elemento localizado no futuro, vinculado à segunda vinda de Cristo.

4) Exortações diversas (4:1-19)
Nesse bloco são incluídos diversos conselhos sobre comportamento, amor mútuo, serviço e novamente sobre o sofrimento.

5) Admoestações aos líderes (5:1-14)
Pedro se dirige especialmente aos anciãos, os presbíteros da igreja, dizendo que os mesmos deviam ser exemplo para o rebanho e não dominadores. O líder não deve agir como se fosse dono das ovelhas, como se fosse senhor de suas vidas. Liderança não é manipulação nem opressão, mas orientação amável. A ovelha deve ser vista como alvo de cuidado e proteção e não como fábrica de leite e lã, embora ela os produza.

DESTAQUES DA EPÍSTOLA
PEDRAS VIVAS
O texto de Mateus 16:16-18 tem sido objeto de muitas discussões. Seria Pedro a pedra fundamental da igreja? Em sua primeira epístola, o apóstolo diz que todos os cristãos são "pedras vivas" e que Cristo é a principal pedra da construção que é a igreja. Se é assim, então Pedro continua pedra, como é o significado do seu nome. A igreja está firmada sobre

o fundamento dos apóstolos e profetas. Eles foram as pedras fundamentais da igreja. Porém, Cristo é a pedra principal. Sem ele, a construção não existiria. Qual é a relação entre tais pedras e a igreja? Tal fundamento está diretamente ligado às vidas, obras e ensinamentos desses homens, os apóstolos e profetas. Eles foram os primeiros a compor a igreja do Senhor. O próprio Jesus, por sua vez, é a pedra principal pois deu sua própria vida para que a igreja existisse. Foi ele quem resgatou com seu sangue todos aqueles que fariam parte dessa construção espiritual. Voltando às palavras de Pedro, todos nós somos pedras vivas, fazendo parte da igreja. Não fazemos parte do fundamento, pois a igreja já existia antes de nós. Porém, fazemos parte da obra, estando apoiados sobre os que nos antecederam e servindo de base para os que se inspiram em nosso testemunho e palavra (I Pd 2:4-8; I Co 3:11; Ef 2:20-22).

A PREGAÇÃO AOS MORTOS
“Porque também Cristo morreu uma só vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; sendo, na verdade, morto na carne, mas vivificado no espírito; no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão; os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava, nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas, isto é, oito almas se salvaram através da água” (I Pd 3:18-20). Este é um dos textos mais misteriosos das Sagradas Escrituras. As polêmicas em torno do seu significado não têm fim. Procuraremos expor resumidamente as principais linhas de interpretação do assunto em questão (leia também I Pd 4:5-6, Rm 10:7, Sl 16:10 e Ef 4:9). Neste assunto, além dos católicos não concordarem com os protestantes, estes últimos não concordam entre si. Encontramos posições diferentes de uma denominação evangélica para outra. A pergunta inicial é: Jesus foi ao inferno? O texto de Pedro não está dizendo isso, mas esta tem sido, muitas vezes, a interpretação adotada, principalmente por causa de outros textos bíblicos, dos credos da igreja católica e dos livros apócrifos, alguns dos quais mencionam explicitamente a descida de Cristo ao inferno entre sua morte e sua ressurreição. Por exemplo podemos citar o chamado "credo dos apóstolos" e os apócrifos: "Evangelho de Bartolomeu" e "Evangelho de Nicodemos". Um paralelo entre tais escritos e os textos bíblicos mencionados produzem a interpretação correspondente.

Questão Jesus foi

Respostas encontradas nos comentários Sim

Não

ao inferno? Como ele foi? A quem ele pregou? O que ele pregou? Com que objetivo? Qual foi o efeito? O

Aos ímpios (todos ou só aos da época de Noé) O evangelho Sua vitória Salvar os justos Salvação e ressurreição dos justos Salvar os ímpios Salvação dos ímpios

Em seu espírito humano Aos justos

Em carne e espírito

Através do Espírito Santo A justos e ímpios Aos anjos caídos

De jeito nenhum A ninguém Nada Nenhum

O evangelho e sua vitória Salvar a todos Declarar sua vitória Sofrer (batismo de fogo?)

Salvação Condede todos nação dos ímpios

Nenhum

QUADRO APRESENTADO ASSEMELHA-SE A UMA PROVA DE MÚLTIPLA ESCOLHA ONDE EXISTEM

ALTERNATIVAS PARA TODOS OS GOSTOS, INCLUSIVE PARA QUEM NÃO GOSTA DE NENHUMA. TRATA-SE APENAS DA EXPOSIÇÃO DAS DIVERSAS INTERPRETAÇÕES DO TEXTO DE JUNTAMENTE COM UMA SÉRIE DE PRESSUPOSTOS CONSIDERADOS EM CADA CASO.

CONTUDO, I PEDRO 3:18-20,

Cada alternativa traz uma série de conseqüências naturais (?) ou teologicamente necessárias, formando assim um intrincado conjunto de perguntas intrigantes, respostas incertas e dúvidas crescentes. Uma vez que o próprio texto bíblico não foi claro sobre o assunto, torna-se muito improvável que possamos sê-lo. Contudo, tal exposição poderá ajudar o estudante a tirar suas próprias conclusões. Algumas alternativas apresentadas podem ser refutadas pelo simples retorno ao texto de I Pedro. A passagem não diz que ele foi pregar aos justos e nem que teria sido a todos os mortos ou a todos os ímpios. São mencionados apenas os ímpios que viveram nos dias de Noé. Alguns comentaristas estendem tal pregação a todos os mortos, utilizando o texto de I Pedro 4:5-6, onde isso fica mais evidente. Dizer que Cristo foi em carne e espírito ao inferno, seria o mesmo que ele estava vivo antes da ressurreição. Se carne e espírito estão juntos, então não estamos falando de Cristo durante seus três dias em estado de morte. Dizer que o Espírito Santo foi ao inferno resgatar alguém é fazer uma grande confusão entre as funções das pessoas da trindade. Tal equívoco se dá pelo fato de que algumas traduções usam a palavra "Espírito" com letra maiúscula em I Pedro 3:18. Aqueles que dizem que Cristo não foi ao inferno, afirmam que ele foi se apresentar ao Pai após sua morte. Mencionam como argumento as palavras de Jesus ao ladrão crucificado: "Hoje estarás comigo no paraíso:" (Lc 23:43, 46). Como explicariam então o texto de Pedro? Calvino chegou a afirmar que a cruz foi o "inferno" experimentado por Cristo. Para os anabatistas, este mundo foi o "inferno" ao qual Cristo desceu ao encarnar.

Pelo que ficou registrado nos livros, até o século IV d.C. era plenamente aceita a idéia de que Cristo tenha mesmo descido ao inferno, assim identificado como o "lugar dos mortos". Somente a partir do século V é que se passou a questionar tal sentido. Nesse tempo, Agostinho propôs o seguinte entendimento para o texto de Pedro: o evangelho teria sido anunciado aos mortos no tempo em que os mesmos estavam vivos. Assim, os contemporâneos de Noé teriam ouvido a pregação antes do dilúvio. O espírito de Cristo, mencionado em I Pedro 3:18, estaria agindo através de Noé, o pregoeiro da justiça: Tal interpretação, bastante inteligente, não explica o texto de I Pedro 4:5-6, onde todos os mortos parecem estar envolvidos. Além disso, o texto de I Pedro 3:18-20 fala que a pregação foi dirigida a "espíritos em prisão" e não a pessoas vivas. O texto de Atos (2:27-31) talvez seja o mais claro para que se conclua que Cristo foi ao inferno. O autor utiliza a palavra Hades. Esta palavra estaria sendo usada em referência a um lugar espiritual? Ou simplesmente à sepultura? (2:29). Ou apenas ao estado de morte? (2:31). Algumas versões usam a palavra "hades" (A.R.C.) enquanto outras a traduzem como "morte" (Thompson e A.R.A). A versão católica dos Monges de Maredsous menciona "região dos mortos", o que não indica um sentido estritamente físico ou espiritual. A Bíblia das Edições Loyola utiliza a expressão "mansão dos mortos". A versão do padre Antônio Pereira de Figueiredo traduz "hades" como "inferno". A palavra "hades" é grega e se origina da mitologia dos gregos, sendo utilizada para identificar o lugar espiritual para onde vão os mortos. O hades estaria divido em duas partes: o "elísio" para os bons e o "tártaro" para os maus. Os hebreus tinham uma concepção semelhante sobre a região dos mortos. Chamavam-na de seol, ou sheol, também com um lugar para os justos e outro para os ímpios. Entretanto, sheol também significa sepultura. Como o Novo Testamento foi escrito em grego, então foram usadas as palavras gregas que mais se aproximavam do conceito hebraico. Assim, a dúvida sobre lugar físico ou espiritual prevalece.
 Sheol (ás vezes traduzido como inferno ou sepultura): Gênesis 37:35; Números

16:30; Jó 21:13; Salmo 9:17; Provérbios 5:5; 7:27; 9:18; 15:24; 23:14; Deuteronômio 32:22; Jó 26:6; Provérbios 15:11; 27:20; II Samuel 22:6; Salmo 18:5; 116:3; Oséias 13:14;
 Hades (às vezes traduzido como inferno): Atos 2:27,31; Mateus 11:23; 16:18;

Lucas 10:15; Lc 16:23; Apocalipse 1:18; 6:8; 20:13-14;
 Geena (às vezes traduzido como inferno): Mateus 5:22, 29, 30; 10:28; 18:9;

23:15; 23:33; Lucas 12:5; Tiago 3:6; Marcos 9:43-48;
 Tártaro (às vezes traduzido como inferno): II Pedro 2:4.

O Velho Testamento passa a idéia de que o Sheol é um lugar para onde vão todos os mortos, bons e maus. É normalmente identificado com o Hades do Novo Testamento. Veja que em Atos 2, a citação do Salmo 16, troca Sheol por Hades. Os luteranos interpretam Hades como sinônimo de inferno e seio de Abraão como paraíso. Utilizam a passagem de Lucas 16:22-25. O paraíso seria o lugar para onde o cristão iria imediatamente após a morte, a encontrar-se com Cristo (Filipenses 1:23).

Os católicos romanos dividem o hades em: inferno, purgatório, limbus patrum e limbus infantum. Eles entendem que Cristo tenha ido ao limbus patrum ou seio de Abraão, onde estariam os justos do Velho Testamento aguardando a salvação cristã. Apesar da boa organização de idéias, tal teoria não tem apoio bíblico, já que a Bíblia não menciona purgatório nem limbus. É bastante antiga a idéia de que alguém pudesse descer ao hades com alguma missão. De acordo com a mitologia grega, Hércules teria ido até lá. Histórias semelhantes são encontradas na literatura babilônica, egípcia, e romana. Conforme Orígenes, houve entre os judeus a crença de que os profetas do Velho Testamento tenham ido ao seol, onde continuariam seu ministério de pregação. Tal suposição aparece também no Talmude. Assim, a crença de que Cristo teria ido ao inferno não seria de difícil aceitação. Alguns, como Clemente de Alexandria, chegaram a dizer que os apóstolos também teriam ido ao hades após suas mortes para pregar e que também os demais cristãos teriam essa missão. Isso seria usado por alguns para justificar mortes de pessoas jovens (J. Paterson Smith). Afinal, segundo essa tese, essas pessoas teriam grande trabalho a executar na região dos mortos. Apresentamos, a seguir, outro quadro comparativo sobre o assunto, destacando a posição denominacional e de alguns líderes e teólogos. Cristo salvou apenas algumas pessoas Defendido Algumas Anabatistas Luteranos Lutero, mais por igrejas tarde católicos reformadas assumiu essa posição Algumas Arminianos *Calvinistas Flacius igrejas reformadas Zwínglio Agostinho Calov Marcion Wolf Tertuliano Buddeus Aretius *Calvino ENCONTRAMOS DUAS POSIÇÕES DISTINTAS ATRIBUÍDAS A CALVINO EM RELAÇÃO À IDA DE CRISTO AO NÃO SABEMOS SE ELE MUDOU DE IDÉIA COMO OCORREU COM LUTERO. UMA DAS FONTES CONSULTADAS FOI ESCRITA POR UM CALVINISTA E NEGA A IDA LITERAL DE CRISTO AO INFERNO.
INFERNO.

Cristo foi e salvou os justos

Cristo foi e salvou a todos

Cristo não foi ao inferno

Cristo foi mas não salvou ninguém

Alguns livros apócrifos afirmam que Cristo esvaziou o inferno, salvando todos os que ali estavam. Essa idéia serve bastante aos que pregam o "universalismo", que consiste na crença em uma salvação universal. Tais teólogos afirmam que ninguém escapará do alcance da graça de Deus e, finalmente, todos serão salvos, até mesmo os anjos caídos. Se assim fosse, então não precisaríamos pregar o evangelho.

Para o melhor entendimento possível a respeito desse assunto é fundamental que consideremos o ensino geral da Bíblia. Qualquer suposição deve ser confrontada com outros textos das escrituras para que se conclua sobre sua prevalência ou não. Jesus teria ido pregar aos mortos para que estes se salvassem? Tal entendimento não parece coerente com outras passagens das escrituras. Se, depois de viverem e morrerem no pecado, todos os ímpios ainda pudessem se salvar, então de nada teria valido a vida de justiça dos justos, já que todos acabariam no mesmo lugar e na mesma situação: salvos. É bem provável que Jesus tenha anunciado o evangelho aos justos do Velho Testamento, embora o texto de I Pedro 3:18-20 não os mencione. O fato é que muitos deles ressuscitaram após a ressurreição de Cristo, conforme está em Mateus 27:51-53. Davi disse: "Não deixarás minha alma no hades". Além de estar profetizando sobre Cristo, ele não poderia também estar falando sobre sua própria alma, conforme uma interpretação literal do Salmo? Os ímpios mortos também teriam ouvido a respeito do evangelho mas não poderiam ser salvos. Contudo, tal conhecimento serviria para legitimar a autoridade de Cristo para julgá-los no último dia. "... Àquele que está preparado para julgar os vivos e os mortos. Pois é por isto que foi pregado o evangelho até aos mortos..." (I Pd 4:5-6). Jesus teria descido para tomar as chaves da morte e do inferno das mãos do diabo? Os calvinistas dizem que isso não faz sentido, já que o diabo nunca teve tais chaves. Por outro lado, podemos também questionar: quem disse que o diabo mora no inferno? Pelo que sabemos, ele habita o planeta terra e circula pelas regiões celestiais. Muitas vezes o inferno é mencionado pelas pessoas como um lugar onde o diabo mora e faz suas reuniões estratégicas com os seus demônios. Em algumas dessas supostas reuniões, eles estão eufóricos com seus planos e realizações. Não estaríamos alimentando um folclore religioso com tudo isso? Afinal, a bíblia mostra o inferno como um lugar de tormento e não de reuniões satânicas. Se o diabo lá estivesse, estaria sofrendo tormentos e não fazendo planos.

Segunda Epístola
Autoria: no primeiro versículo, o autor já se apresenta como "Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo." Pouco adiante, Pedro menciona que presenciou o episódio da transfiguração (I Pd 1:16-18; Mt 17:5). No capítulo 3, versículo 1, o autor se refere à primeira epístola. Data: 64 d.C. Destinatários: por 3:1 entendemos que os destinatários são os mesmos da sua primeira carta: cristãos dispersos na Ásia Menor. O primeiro versículo do livro parece sugerir que o autor pretendia que seu escrito tivesse um alcance maior: ele se dirige "aos que conosco alcançaram fé igualmente preciosa..." Temas e Objetivos : animar os irmãos (cap.1); denunciar os falsos mestres (cap.2); falar sobre a segunda vinda de Cristo. Textos-chave 2:1 e 3:1-4.

ESBOÇO
1) Caminho 1: a vida cristã - uma palavra de estímulo (1:1-21); 2) Caminho 2: os falsos mestres – denúncia (2:1-22); 3) A segunda vinda de Cristo e o juízo (3:1-18). A segunda epístola de Pedro nos fala de dois caminhos. O primeiro, apresentado no capítulo 1, é chamado de "caminho da verdade" (2:2), "caminho direito" (2:15) e "caminho da justiça" (2:21). Embora essas expressões estejam no capítulo 2, é no início da carta que o autor fala sobre o procedimento do cristão. O outro caminho, o dos falsos mestres, é apresentado no capítulo 2 e chamado "caminho de Balaão" (2:15). É interessante notarmos que, ao falar do caminho de Balaão, Pedro não está se referindo àqueles que nunca conheceram o Senhor, mas ele fala de pessoas que foram resgatadas (2:1), mas desviaramse das veredas da justiça (2:15, 20, 21, 22). O próprio Balaão era um profeta verdadeiro até que, pelo interesse financeiro, desviou-se da verdade. Em cada um desses caminhos temos: ponto de partida, modo de caminhar e ponto de chegada, conforme fica evidente na epístola.

1) Caminho 1 - A vida cristã - uma palavra de estímulo (1:1-21)
O capítulo 1 está falando da trajetória cristã. O ponto de partida está em 1:4: "...havendo escapado da corrupção que pela concupiscência há no mundo". Trata-se da conversão. Quem se converte não pode achar que já tem tudo o que Deus pode oferecer. A partir do versículo 5, o autor apresenta uma lista de qualidades ou capacidades que devem ser alcançadas pelo cristão. Aquele se converte tem fé. A fé foi alcançada (1:1), mas ela não é um fim em si mesma. Pelo contrário, é o início de uma jornada. Com diligência (ou zelo) (1:5), o cristão deve buscar: virtude (bondade ou bom procedimento), conhecimento, temperança (ou domínio próprio), paciência (ou perseverança), piedade, amor fraternal (fraternidade), amor (ágape). Essas qualidades são mutuamente dependentes e complementares. Pedro está propondo um plano de crescimento, o qual deve ser o alvo de todo cristão. É desse modo que a natureza divina se desenvolve em nós (1:4). A fé sem conhecimento pode resultar em fanatismo e heresia. O conhecimento sem fé é intelectualismo ou legalismo. Imaginemos que alguém tem fé, conhecimento, mas não tem amor. Tal pessoa pode ser perigosa, tornando-se um manipulador e até mesmo agressor. Quando Tiago e João quiseram pedir fogo do céu para destruir os samaritanos, eles demonstraram que tinham conhecimento e muita fé, mas nenhum amor ao próximo, nenhuma bondade, nenhuma paciência, nenhum domínio próprio. Felizmente, Jesus impediu aquela tragédia e, mais tarde, aqueles discípulos aprenderam a amar. No relato de toda essa experiência cristã, Pedro utiliza diversas palavras que podem ser divididas em dois grupos: ações divinas e ações humanas. O início da nossa caminhada se dá pela operação do "divino poder" do Senhor (1:3). A partir daí, o homem tem muito a fazer.

PARTE DIVINA Seu poder (1:3) Seus dons (1:3) - ele nos deu tudo Sua glória (1:3) Sua virtude (1:3) Suas promessas (1:4) Sua natureza (1:4) Sua vocação (1:10) – ele nos chamou Sua eleição (1:10) – ele nos elegeu

PARTE HUMANA Empregando diligência (zelo) (1:5) Acrescentai bondade, conhecimento, temperança, paciência, piedade, amor fraternal, amor ágape (1:5) Procurai confirmar vossa vocação e eleição (1:10)

Se Pedro estava exortando (1:12-15) os irmãos a fazerem a sua parte no que diz respeito ao crescimento espiritual, é porque eles poderiam, depois de tudo o que Deus fez, ter cruzado os braços e parado no meio da estrada. Nesse caso, o resultado seria: a visão curta ou mesmo a cegueira espiritual, o esquecimento das primeiras experiências com Deus e o tropeço que poderia levar à queda (1:9-10; 3:17). Os tempos e modos dos verbos encontrados no texto nos ajudam a ver uma trajetória traçada e uma ordem de avanço. Alguns verbos estão no passado, indicando o lugar de onde saímos e aquilo que Deus já fez por nós. Alguns deles, no pretérito perfeito, indicam ações consumadas por Deus. É algo que foi feito e não se vai se repetir. Outros verbos estão no gerúndio e indicam uma ação constante. É presente, mas ainda não foi encerrada. São ações contínuas de Deus a nosso favor e ações contínuas da nossa parte em busca do alvo. Outros verbos estão no futuro e apontam para o resultado desejado. Destacam-se também aqueles que estão no modo imperativo e indicam ordem para que avancemos em nosso caminho com Deus.

PRESENTE IMPERATIVO FUTURO CONTÍNUO Alcançaram fé Nos tem dado Acrescentai Não vos (1:1) promessas (1:4) (1:5) deixarão ociosos (1:8) Nos deu tudo Empregando Procurai (1:10) Jamais (1:3) diligência (1:5) tropeçareis (1:10) Nos chamou Vos será (1:3) concedida entrada no reino (1:11)

PASSADO

Havendo escapado da corrupção (1:4) Lendo o quadro anterior, cada coluna, da esquerda para a direita, percebemos a idéia de movimento, de progresso com o passar do tempo. No caminho da vida cristã, o modo de caminhar se define por alcançar, praticar e manter as qualidades e capacidades já mencionadas. Esse deve ser o nosso modo de vida (3:11). O ponto de chegada ou objetivo a ser alcançado pode ser compreendido através das expressões: "para que por elas vos torneis participantes da natureza divina" (1:4), "...não vos deixarão ociosos nem infrutíferos" (1:8) e "vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (1:11).

2) Caminho 2 – Os falsos mestres – denúncia (2:1-22)
No capítulo 2, o autor muda para um assunto extremamente oposto ao que estava sendo tratado até então. Seu conteúdo é muito semelhante à epístola de Judas. Enquanto que no capítulo 1, Pedro falava a respeito dos cristãos fiéis, agora ele passa a se referir aos falsos mestres, seu caráter, suas obras e o conseqüente castigo. Esses são os que andam pelo "caminho de Balaão" (2:15). Sabendo de sua morte iminente (1:14), o autor está preocupado com aqueles que talvez o sucederão e aos demais apóstolos na liderança da igreja. Os falsos mestres:  Foram resgatados mas desviaram-se (2:1, 15, 19, 20, 21, 22);  Contudo, continuam dentro das igrejas (2:1, 13);  Estão na liderança (2:2 – muitos os estão seguindo);  Seu interesse primordial é o dinheiro. Assim como Balaão (2:3, 14, 15);  São comparados aos anjos caídos, aos contemporâneos de Noé e aos habitantes de Sodoma e Gomorra (2:4, 5, 6). O ponto de partida desse caminho é o mesmo daqueles mencionados no primeiro capítulo. Já que foram resgatados (2:1), o lugar de onde saíram está identificado como as "contaminações do mundo", de onde escaparam mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo (2:20). Contudo, desviaram-se da rota traçada pelo Senhor (2:15), sendo envolvidos e vencidos pelo mundo, terminando por se afastarem do santo mandamento de Deus (2:20-21).

O seu modo de caminhar é identificado através de seu comportamento. O texto apresenta verbos e adjetivos que nos fazem compreender o caráter desses homens:  Falsos, dissimulados, hereges, destruidores, negam a Cristo, libertinos, avarentos, mentirosos, fazem comércio de vidas, são carnais, seguem paixões imundas, são rebeldes, atrevidos, obstinados, como animais irracionais, blasfemos, injustos, luxuriosos, enganadores, adúlteros, insaciáveis, malditos, vaidosos, arrogantes, inconstantes, escravos da corrupção (2:1, 2, 3, 10, 12, 13, 14, 18, 19; 3:3). Tais palavras variam um pouco de uma versão bíblica para outra; apesar de todo esse conteúdo maligno, tais homens apresentam uma aparência positiva. Afinal, são líderes, são mestres, e prometem liberdade aos seus seguidores (2:1, 2,19). “São fontes... sem água. São nuvens ... também sem água” (II Pd 2:17; Jd 12). O aspecto é promissor mas não produzem nada de positivo. Dentre tantas características apresentadas, percebemos que se destacam as atitudes desses falsos mestres em relação à autoridade, ao dinheiro e ao sexo. Eles são rebeldes, avarentos e adúlteros, entre outros adjetivos a estes relacionados. O ponto de chegada desse caminho está demonstrado pelas expressões:  "... a sentença..." (2:3);  "... a perdição..." (2:3);  "... inferno..." (2:4);  "... cadeias da escuridão..." (2:4);  "... juízo..." (2:4);  "... destruição..." (2:6);  "... o dia do juízo, para serem castigados" (2:9);  "... a negridão das trevas" (2:17);  "... o último estado pior do que o primeiro" (2:20);  "... juízo e destruição..." (3:7).

3) A segunda vinda de Cristo e o juízo (3:1-18)
Pedro encerra sua obra com um capítulo escatológico. Após ter falado sobre dois caminhos, dois tipos de vida, o apóstolo fala sobre a segunda vinda de Cristo (3:4) e, novamente, trás à tona o tema do juízo, comparado ao dilúvio dos dias de Noé (3:7). Está em destaque a aparente demora da "parousia". Pedro adverte que o tempo de Deus é diferente do nosso. "Um dia para Deus é como mil anos e mil anos como um dia". (3:8).

Sobre a segunda vinda precisamos de duas atitudes: fé e paciência. A aparente demora de Deus é manifestação da sua misericórdia. Ele está dando tempo para muitos ainda se arrependam e se convertam (3:9). Enquanto que o dilúvio foi a destruição dos ímpios e suas obras através da água, Pedro nos diz que o fim desta nossa era se dará por meio de um "dilúvio de fogo". O apóstolo "desenha" um cenário "apocalíptico" iluminado pelas chamas da ira divina. O fogo abrasará (3:10, 12), destruirá (3:7) e fará derreter (3:12). Serão atingidos: os céus (3:7, 10, 12), a terra (3:7, 10) e todas as coisas que nela há (3:10-11). Semelhantemente ao texto de Apocalipse 21:1, Pedro também fala de novos céus e nova terra (II Pd 3:13; Is 65:17).

Introdução aos 62º, 63º e 64º Livros Bíblicos: Epístolas de João (1ª, 2ª e 3ª) Primeira Epístola
João, o apóstolo. Seu nome não é mencionado em suas três epístolas. Não obstante, sua autoria foi confirmada por Policarpo, Papias, Eusébio, Irineu, Clemente de Alexandria e Tertuliano. O nome "João" significa "graça de Deus". Era judeu, pescador (Mt 4:21), irmão de Tiago, filho de Zebedeu e Salomé (compare Mt 27:56 e Mc 15:40). Foi chamado de discípulo amado (Jo 13:23; 19:26; 21:20). Foi o discípulo mais íntimo do Mestre. Até no momento da crucificação, João estava presente. Isso mostra sua disposição de correr risco de vida para ficar ao lado de Jesus. Apesar de ter fugido no momento da prisão de Cristo, João voltou pouco tempo depois. Jesus chamou João e Tiago de Boanerges, "filhos do trovão", referindo-se ao seu temperamento indócil, tempestuoso, violento (Mc 3:17; Mc 9:38; Lc 9:54). São várias as citações a respeito de João nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. Seu nome é omitido no seu evangelho (Jo 20:2; 19:26; 13:23; 21:2). Encontram-se referências ao apóstolo também em Atos 4:13; 5:33, 40; 8:14; Gálatas 2:9; 2 João 1; III João 1; Apocalipse.1:1, 4, 9. Na segunda e na terceira epístola, ele se apresenta como "o

presbítero". Podendo se apresentar como apóstolo, demonstrou humildade ao utilizar título mais simples. Em Apocalipse, apresenta-se como "servo". Após o exercício do seu ministério em Jerusalém, João foi pastor em Éfeso, onde morreu entre os anos 95 e 100. Policrates (ano 190), bispo de Éfeso, escreveu: "João, que se reclinara no seio do Senhor, depois de haver sido uma testemunha e um mestre, dormiu em Éfeso." Palavras chave: Conhecimento (ou saber), amor e comunhão. Data de escrita da primeira epístola: Final do primeiro século, entre os anos 95 e 100. Local de origem: Éfeso Destinatários Por não conter saudações, despedidas ou menção de nomes, tem-se considerado que a carta foi destinada à igreja em geral. O apóstolo trata carinhosamente os destinatários como "meus filhinhos" (2:1, 18, 28; 3:7,18; 4:4; 5:21) e "amados" (3:2, 21; 4:1, 7, 11). Isso parece indicar que, embora não tenha vinculado a epístola a uma comunidade específica, o autor tem em mente pessoas conhecidas, as quais seriam as primeiras a receberem aquela mensagem.

CARACTERÍSTICAS
A carta apresenta denúncia contra os falsos e incentivo aos verdadeiros cristãos. O autor é incisivo, direto, totalmente convicto. Sua afirmações são muito fortes no sentido de apontar o erro e a verdade. O propósito da carta está bem definido com também vimos no evangelho (Jo 20:31). A epístola foi escrita: 1) "Para que a nossa alegria seja completa" - 1:4 2) "Para que não pequeis" - 2:1. 3) Para advertir contra os enganadores - 2:26. 4) "Para que saibais que tendes a vida eterna" - 5:13. Entendemos que o autor estava bastante preocupado com a igreja, em seu estado presente e futuro. Os demais apóstolos já haviam morrido e falsos mestres apareciam por toda parte. Alertando os irmãos, o apóstolo ficaria mais tranqüilo e sua alegria seria completa (1:4). Seu alerta é contra o pecado (2:1) e contra as heresias (2:26). São duas portas para o diabo entrar nas vidas e nas igrejas. Embora as duas coisas estejam intrinsecamente ligadas, as heresias apresentam um elemento muito perigoso. Todo tipo de pecado deve ser evitado, mas se, eventualmente, cometermos algum, confessaremos e seremos perdoados (1:7, 9; 2:1). A heresia entretanto, constitui-se num caminho de afastamento de Deus. A heresia, do tipo mencionado por João, leva à apostasia. Então, tem-

se uma situação muito perniciosa em que a pessoa está errada mas pensa que está certa. Trata-se de um estado de pecado sem reconhecimento, sem confissão, sem arrependimento e, consequentemente, sem perdão. Aquele que passa a crer numa doutrina contrária à cruz, como pode ser perdoado? Não é que Deus se recuse a perdoá-lo, mas a própria pessoa não acredita na única solução divina, que é o sacrifício de Cristo. A reversão desse quadro é possível, mas muito difícil. O melhor é a prevenção contra as heresias e isso se faz através do conhecimento e apego à Palavra de Deus.

CENÁRIO OBSERVADO POR JOÃO
A situação da igreja inspirava cuidados. Notamos isso pelo que se lê nas cartas às sete igreja da Ásia (Ap 2 e 3). As heresias grassavam em muitas comunidades. Em Apocalipse, livro escrito na mesma época, João menciona as expressões "sinagoga de Satanás" (Ap 2:9), "nicolaítas" (Ap 2:6,15), "doutrina de Balaão"(Ap 2:14), etc. O gnosticismo, sistema que mistura idéias filosóficas, crenças judaicas e cristãs, era uma das principais fontes de heresias da época. Assim, muitos cristãos se tornaram gnósticos. Criam em Jesus mas negavam a realidade de sua encarnação e morte. O fato de se denominarem cristãos criava uma situação confusa. Quem eram os verdadeiros cristãos? Os que criam de uma forma ou os que criam de outra? João observou a necessidade de identificação, discernimento, definição e posicionamento. Observemos as perguntas-chave que autor apresenta: 1) "Quem é o mentiroso senão aquele que nega que Jesus é o Cristo?" (I Jo 2:22). 2) "Quem é o que vence o mundo senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?" (I Jo 5:5). O autor se mostra bastante interessado em mostrar "QUEM É O QUÊ". São usados pronomes demonstrativos e indefinidos para apresentar especificações bem definidas que permitem identificar os indivíduos em relação a Cristo. João usa repetidamente a fórmula: "Quem não faz isso não é aquilo". ou "Quem faz tal coisa é outra coisa". Aquele - 2:6, 11, 17, 22, 23, 26, 29; 3:4, 6, 17; 5:1, 5, 16, 18 (veja também II Jo 1:9). Alguém – 2:1,15, 27; 4:20; 5:16. Quem – 4:7, 8, 9,10. O mentiroso e o verdadeiro precisam ser identificados. Essa é a missão de João em sua primeira epístola. O autor ajuda a identificar os personagens do cenário e a situação dos próprios leitores no contexto da verdade e da mentira. O exemplo clássico utilizado é o de Caim e Abel (I Jo 3:11-12), representando dois grupos de pessoas que estavam dentro da igreja. O autor identifica quem está em comunhão com Deus e quem não está. No quadro a seguir, listamos diversas expressões da epístola através das quais se traça uma linha divisória entre os dois grupos. Vamos chamá-los, alegoricamente, de "grupo de Abel" e "grupo de Caim".

"Grupo de Abel" "Grupo de Caim" Vida (1:1, 2; 2:16, 25; 3:14, 15, Morte (3:14; 5:16-17) 16; 5:11, 12, 13, 16, 20) Verdade – 1:6, 8; 2:4, 5, 8, 21, Mentira – 1:6,10; 2:4, 21, 22, 27; 27; 3:18, 19; 4:6; 5:7, 20 4:20; 5:10 Erro – 4:6 Engano - 1:8; 2:26; 3:7 Verdadeiro (2:8, 27; 5:20) Espírito da verdade (4:6) Cristo (1:3, etc) Amor ao irmão (2:10) Sofre ódio do mundo (3:13) Luz - 1:5, 7; 2:8, 9, 10: Falso ou mentiroso (2:22) espírito do erro (4:6) Anticristo (2:18, 22) Amor ao mundo (2:15) Ódio ao irmão (2:11; 3:15) Trevas – 1:5, 6; 2:8, 9, 11

É possível passar de um lado para o outro. Esse trânsito pode ser chamado conversão ou, no sentido contrário, apostasia. João disse que "passamos da morte para a vida." (3:14). E o seu cuidado era para que não acontecesse o processo contrário com alguns irmãos que, envolvidos pela heresia, pudessem passar da verdade para a mentira.

IDENTIFICANDO A DOUTRINA, O MESTRE E O ESPÍRITO
A heresia é uma doutrina errada, mas isso pode não estar tão claro no início. O que chega até nós é simplesmente uma doutrina. Esta deve ser então identificada. Por meio dos parâmetros encontrados na epístola, o autor identifica a doutrina, o mestre e o espírito que está por trás (2:22-23, 4:1-6). As chaves identificadoras são:  Relação com Cristo (2:22-23);  Relação com os irmãos. (3:10,17);  Relação com o mundo (2:15). Estes são os "instrumentos" que nos farão identificar a verdade e a mentira. Tais indicadores são complementares entre si. Se alguém negar que Cristo é o Filho de Deus, estará reprovado. Não está na verdade. Se alguém afirma que Cristo é o Filho de Deus mas nega sua encarnação e morte, estará reprovado. Se alguém diz ter uma fé correta a respeito de Cristo, então o próximo teste é a relação com os irmãos. Se a pessoa odeia os irmãos ou lhes nega auxílio nas necessidades, então estará reprovada. Se a pessoa ama o mundo, anda segundo o mundo, vive de modo agradável ao mundo, pecando habitualmente, então está do lado da mentira. As relações com os irmãos e com o mundo constituem evidências

visíveis do tipo de relação que temos com Cristo, uma vez que esse vínculo é espiritual e invisível. O objetivo dessas colocações não é sairmos julgando as pessoas dentro da igreja. Em primeiro lugar, cada um deve julgar e purificar a si mesmo (I Jo 3:3; 5:10; I Co 11:28, 31; II Co 13:5; II Jó 1:8). Depois, é preciso que saibamos julgar as profecias e as doutrinas que recebemos (I Co 14:29; I Ts 5:20-21; I Co 10:15). Se uma doutrina é contrária a Cristo, contrária à comunhão dos irmãos ou favorável ao mundanismo, então deverá ser rejeitada. Finalmente, a vida de um mestre deverá ser avaliada para que se decida sobre a sua doutrina. "Pelos seus frutos os conhecereis." (Mt 7:15-16). Muitos irmãos podem apresentar uma série de erros e até mesmo pecados por uma questão de imaturidade, fraqueza, ignorância, etc. Não devem ser alvos de julgamentos mas de orientação. O objetivo de João era alertar contra aqueles que se colocavam como mestres da igreja.

ESTAR E PERMANECER - POSIÇÃO E PERSEVERANÇA
No cenário da verdade e da mentira precisamos nos localizar. Onde estamos? João usa diversas vezes o verbo "estar". Em algumas delas, ele se preocupa em "localizar" espiritualmente as pessoas. Se guardamos a palavra e amamos os irmãos, isso indica que "estamos" em Cristo. Quem não ama seu irmão, "está" nas trevas. Finalizando, o autor diz que "estamos" em Cristo, que é o verdadeiro Deus. (I Jo 2:5, 6, 9; 5:20). Podemos ter nossa posição muito bem definida. Entretanto, vamos mantê-la? Um outro verbo muito importante para João é "permanecer". Lembre-se do capítulo 15 do evangelho de João: "Permanecei em mim e eu permanecerei em vós". "Se alguém permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto." "Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora." "Se vós permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós pedireis o que quiserdes e vos será feito." "Permanecei no meu amor...", etc. Na primeira epístola, a ênfase continua nos seguintes textos: 2:10, 14, 17, 19, 24, 27, 28; 3:6, 9, 14, 15, 17, 24; 4:12, 13, 15, 16. Em todos esses versículos aparece o verbo "permanecer". Isso demonstra a preocupação do autor com a perseverança dos irmãos no caminho da verdade. (veja também II Jo 1:2, 9).

COMBATE AO GNOSTICISMO
João se mostrou bastante combativo em relação ao gnosticismo. Esta palavra vem do termo grego "gnosis" que significa "conhecimento". Os gnósticos criam e ensinavam que a salvação da alma dependia do conhecimento de alguns mistérios só revelados aos que participavam de seus rituais de iniciação. O apóstolo usou então a mesma palavra, "conhecimento", para combater as heresias gnósticas. Tanto no evangelho como na primeira epístola, ele mostrou o que realmente importa conhecer: A verdade, que é o próprio Cristo e o amor, que é o próprio Deus.

O conhecimento sem amor pode causar tragédias. A bomba atômica é um exemplo clássico. O verbo "conhecer" aparece nos seguintes versículos: I João 2:3, 13, 14, 18, 20; 3:1, 6, 16, 19, 20, 24; 4:2, 6, 7, 8, 13, 16; 5:2, 20 (II João 1:1). A carta destaca também a palavra "luz", que também é um símbolo do conhecimento: 1:5, 7; 2:8, 9, 10. Outro verbo similar é o "saber". Essa palavra tem um sentido muito forte, pois não admite dúvida, insegurança, medo nem ignorância. O comentário da Bíblia Thompson chama a primeira epístola de João de "a carta das certezas". O autor usa o verbo "saber" de uma forma bastante clara e determinada. (I Jo 2:3, 5, 11, 21, 29; 3:2, 5, 14, 15; 5:15). Ele diz: "Sabemos que somos de Deus." Não estamos perdidos nem confusos. SABEMOS quem somos, onde estamos e para onde vamos. O gnosticismo afirmava que o mal residia na matéria. Portanto, negavam que Deus pudesse se encarnar. Em relação a Cristo, João escreveu: "nós ouvimos, vimos, contemplamos, nossas mãos tocaram..." (I Jo 1:1-3). Ou seja, o apóstolo estava afirmando insistentemente que o corpo de Cristo era matéria, pois poderia ser tocado, como de fato o foi. Não se tratava de um espírito, uma aparição, como os gnósticos afirmavam. (I Jo 4:2; 5:6).

OUTRAS PALAVRAS, DESTAQUE

EXPRESSÕES

E

CONCEITOS

EM

VIDA - 1:1, 2; 2:16, 25; 3:14, 15, 16; 5:11, 12, 13, 16, 20 Vida de Deus para nós por meio de Cristo. MUNDO - nosso posicionamento: não amamos o mundo; somos odiados por ele; haveremos de vencê-lo (I João 2:2, 15, 16, 17; 3:1, 13, 17; 4:1, 3, 4, 5, 9, 14, 17; 5:4, 5, 19). VERDADEIRO - Mandamento – 2:8. Luz – 2:8. Unção – 2:27. Jesus – 5:20. Deus – 5:20. AMOR (e verbo amar) 2:5, 10, 12, 15; 3:1, 10, 14, 16 (João 3:16): 3:17, 18, 23; 4:7, 8, 9, 10, 11, 12, 16, 17, 18, 19, 20, 21; 5:1, 2, 3: (Obs. II Jo 1, 3, 6 III Jo 1, 6, 7 Ap 2:3, 4, 19; 3 :9, 19). São da autoria de João alguns dos mais famosos versículos bíblicos sobre o amor: "Deus é amor" e "Porque Deus amou o mundo de tal maneira..." Na primeira epístola, o autor usa o verbo amar em diversas conjugações: ama, ameis, amamos, amemo-nos, amado, amados, amou, amar-nos, amo, amar, ame, amemos.

O amor vem de Deus, através de Jesus. "Ele nos amou primeiro". Daí em diante, o amor deve ter livre curso em direção aos irmãos, mas não em direção ao mundo. O amor deve "circular como sangue" no Corpo de Cristo, que é a igreja. COMUNHÃO - 1:3, 6, 7. MANDAMENTO (S) - 2:3, 4, 7 8; 3:22, 23, 24; 4:21; 5:2, 3. O QUE SE DIZ E O QUE SE É - 1:6, 8, 10; 2:4, 6, 9; 4:20; MANDAMENTOS NEGATIVOS NÃO AMEIS o mundo – 2:15. NÃO CREIAIS a todo espírito – 4:1. O amor e a fé só são positivos quando bem direcionados.

Segunda Epístola
Autor: Apóstolo João Data: entre 90 e 95 d.C. Propósito: Alertar contra os enganadores; combater a mentira. Palavra-chave: verdade

ESBOÇO
1) Saudações – 1-3. 2) O caminho da verdade e do amor – 4-6. 3) Os enganadores e como tratá-los – 7-11. 4) Saudações – 12-13. O autor não menciona seu próprio nome. Apresenta-se como "presbítero", que significa "ancião", conforme já consta em algumas versões bíblicas. Os anciãos, desde os tempos do Velho Testamento, eram os homens mais velhos, mais experientes, e, por conseqüência, líderes do povo (Ex 3:16, 18; 4:29; 12:21 etc.). Ao escrever seu evangelho e epístolas, o apóstolo João já era idoso.

Estando já familiarizados com os escritos do apóstolo, logo reconhecemos sinais de sua autoria na segunda epístola. Por exemplo, a ênfase sobre os temas: "verdade", "amor", "mandamento", "permanecer", e o combate às falsas doutrinas. Tudo isso constitui marca de João em seu evangelho, na primeira epístola, e também na segunda. Afinal, dos 13 versos da segunda epístola, 8 se encontram quase idênticos na primeira.

Destinatária
A segunda epístola é dirigida a uma senhora e seus filhos. Tal mulher não é identificada pelas escrituras. Há quem defenda a tese de que a "senhora eleita" seja Maria, irmã de Marta, a qual estaria mencionada no versículo 13. Há quem tome o termo "senhora" em grego, kuria (kuria), considerando-o como nome próprio. Outras hipóteses sugerem que João estivesse chamando de "senhora eleita" a uma igreja específica ou à igreja em geral. Nada disso se comprova. Seguindo a mais rigorosa interpretação, não podemos afirmar qual tenha sido essa mulher. Apenas entendemos tratar-se de uma senhora que, provavelmente era viúva. Caso tivesse marido, não seria natural que o apóstolo lhe dirigisse diretamente uma carta. O texto parece indicar que em sua casa aconteciam reuniões da igreja (vs.10). De qualquer forma, trata-se de uma mulher amada e respeitada por todos os irmãos que a conheciam (vs.1).

Tema
Todas as epístolas de João foram escritas na mesma época. Nota-se na segunda, que os assuntos da primeira ainda persistem na mente no apóstolo. Ele ainda se mostra combativo em relação aos enganadores. Seu esforço é a favor da verdadeira doutrina de Cristo.

NOSSA RELAÇÃO COM A DOUTRINA DE CRISTO

Cristo veio e nos deu sua doutrina, seu mandamento, que consiste no amor a Deus e ao próximo. O amor determina nosso vínculo com Deus e com os irmãos. Já recebemos a

sua doutrina. A questão agora é: vamos andar nesse mandamento? O verbo "andar" é muito utilizado por João e também por Paulo, indicando nosso modo de vida, nossas decisões, nossos rumos, nossas ações. Se praticamos a vontade de Deus, então estamos andando em espírito (Gl 5:16), andando com Deus (Gn 5:22, 24), no caminho que é Cristo (Jo 14:6). Contudo, de nada adianta estarmos no caminho por algum tempo se sairmos dele antes de chegarmos ao lugar onde ele nos levaria. Portanto, precisamos permanecer no caminho, por mais difícil que isso possa ser. Aos que permanecerem, Deus dará a devida recompensa. Os enganadores ameaçam o êxito desse processo (v.7 a 10). Isso ocorre com aqueles que abandonam o caminho da verdade e do amor, não permanecendo na doutrina de Cristo (v. 9) Os que se desviam perdem a recompensa, perdem o fruto do seu trabalho e fazem perder-se o fruto do trabalho daqueles que os conduziram a Cristo (v.8). João disse que alguns "vão além" da doutrina. Esta é uma forma sutil da heresia:
 

Exigir mais do que o que Deus exigiu; Esperar mais do que o que Deus prometeu.

Precisamos ser cuidadosos no sentido de não criarmos doutrinas extra-bíblicas, como se a palavra de Deus precisasse de complemento. Os que lideram precisam estar atentos em relação ao que exigem de seus liderados. Estaremos indo além da palavra de Deus? Vemos em Gênesis que, ao repetir o mandamento divino, Eva lhe acrescentou as palavras: "nem nele tocareis" (Gn 3:3). Paulo profetizou que nos últimos dias, surgiriam doutrinas de demônios, proibindo o casamento e determinando a abstinência de manjares que Deus criou para os fiéis (I Tm 4:1-3). A bíblia fala em dízimo, que significa 10%. Se alguém quiser dar 100%, fique à vontade. Será uma oferta voluntária. Entretanto, se algum líder exigir 100%, estará indo além, muito além, da doutrina bíblica. Esperar mais do que aquilo que Deus prometeu pode ser uma atitude inofensiva ou não, dependendo da situação. Se alguém espera que Deus lhe dê uma casa na praia, isso não é pecado. Contudo, não sabemos se Deus fará isso. Pode ser que sim e pode ser que não, uma vez que a bíblia nunca nos prometeu esse tipo de coisa. Então, se Deus não der, qual será a reação daquele que pediu e esperou? O problema se agrava quando esse tipo de expectativa é alimentada por formas doutrinárias, como as que temos ouvido hoje em dia, e que estão destituídas de fundamento bíblico. Esta é uma das formas de "ir além" da doutrina de Cristo. A palavra do Senhor nos ensina que ele atende aos nossos pedidos desde que estejam coerentes com a sua vontade (I Jo 5:14; Tg 4:3). A doutrina gnóstica, tão influente nos dias de João, negava a humanidade de Cristo, atribuindo-lhe apenas caráter espiritual. Era então um ensinamento espiritualista, o que, aparentemente, demonstrava elevação, desapego em relação à matéria. Estavam indo muito além da espiritualidade bíblica, a qual não nos nega o provimento às nossas legítimas necessidades físicas (I Tm 4:1-3; Cl 2:16-23). O cristianismo mostra o espiritual se encontrando com a matéria. "O verbo se fez carne e habitou entre nós" (João 1:14). E este era o principal ponto negado pelos enganadores a quem João combatia (II Jo 7). O próprio batismo e a ceia do Senhor fazem com que os nossos corpos participem das nossas

experiências com Deus. Palavras de João: "vimos com os nossos olhos... e as nossas mãos tocaram..." (I Jo 1:1). Era uma experiência física com o verbo encarnado. Uma espiritualidade exagerada, que vai além dos parâmetros bíblicos, é algo que deve ser questionado. Como exemplos podemos mencionar certas abstinências alimentares ou o celibato. Tudo isso pode ser praticado, desde que seja voluntário. Se for doutrina, será humana. Sobre os enganadores, aqueles que não trazem a doutrina de Cristo, João diz: "Não os recebais em casa nem tampouco os saudeis." Está estabelecido o limite para a hospitalidade cristã, tão valorizada pelos escritores do Novo Testamento. Não devemos ser tão bons ao ponto de acolher os lobos que vêm para ameaçar nossa firmeza na fé. O apóstolo não está nos aconselhando a sermos rigorosos contra os fracos na fé, mas sim contra aqueles que nos procuram com o objetivo de corromper a doutrina que recebemos do Senhor. Não trate bem uma serpente. Ela te matará na primeira oportunidade. Deduzimos que a "senhora eleita" era uma viúva. Seria mais um motivo para que ela ficasse atenta em relação àqueles que desejassem entrar em sua casa. Muitos exploradores, disfarçados de mensageiros de Deus, "devoravam as casas das viúvas" (Mt 23:14; II Tm 3:6).

PALAVRAS EM DESTAQUE
 Verdade (II João 1, 2, 3, 4);  Mandamento (II João 4, 5, 6);  Amor (II João 3, 6);  Ensino - doutrina (II João 9, 10);  Permanecer (II João 2, 9);  Anticristo (II João 7).

Terceira Epístola
Autor: Apóstolo João Data: entre 90 e 95 d.C. Tema: Caráter cristão. Palavra-chave: verdade.

ESBOÇO
1) Saudações (1-4); 2) O bom exemplo de Gaio (5-8); 3) Diótrefes - o ambicioso (9-11) 4) Demétrio - o cristão fiel (12); 4) Considerações finais e saudações (13-15). A epístola em estudo é de autoria do apóstolo João. Para confirmação compare os versículos:

III João 1 III João 13-14 III João 11

II João 1 II João 12 II João 9

A terceira epístola de João é uma correspondência particular dirigida a um irmão chamado Gaio. Este nome era bastante comum naquela época. Temos sua ocorrência em Atos 19:29, 20:4, Romanos 16:23, I Coríntios1:14, além de III João. Contudo, tais passagens não se referem sempre à mesma pessoa. Não temos muitas informações sobre Gaio, a quem João escreve. Entendemos que ele não era o líder de sua igreja local. O versículo 9 indica que o líder é outro.

A QUESTÃO DA PROSPERIDADE

O verso 2 diz: "Amado, desejo que te vá bem em todas as coisas, e que tenhas saúde, assim como bem vai à tua alma." Este talvez seja o versículo mais conhecido dessa pequena carta, o qual é muitas vezes utilizado como apoio para a doutrina da prosperidade. Devemos observar que a única certeza do texto está relacionada à alma do destinatário, ou seja, seu bom estado interior. No mais, o verso expressa apenas o desejo de João no sentido de que Gaio tivesse boa saúde e fosse próspero em todas as coisas. Não temos ali uma promessa nem uma doutrina sobre prosperidade material. Tal êxito depende do propósito de Deus para cada pessoa. Gostaríamos de ser bem sucedidos em tudo e em todo o tempo. Porém, essa trajetória certamente será muitas vezes interrompida por tribulações, as quais fazem parte da nossa experiência cristã.

ANDAR NA VERDADE (vs. 3-4). Tal expressão, tão importante para João, significa praticar, viver de acordo com a verdade. O verbo andar foi também muito utilizado pelo apóstolo Paulo em seus ensinamentos sobre a vida cristã (Gl 5:16, 25; Ef 4:1; 5:15; etc.). Trata-se do "procedimento" mencionado no verso 5.

PROCEDIMENTO, TESTEMUNHO E EXEMPLO (vv. 3, 4, 6, 10, 12) A palavra testemunho tem destaque em todos os escritos de João, desde o evangelho até o Apocalipse. Como cristãos, damos testemunho a respeito do Senhor Jesus, e isso vai gerar um outro testemunho que será dado a nosso próprio respeito. O procedimento será observado e produzirá um testemunho positivo ou negativo. João se alegrou pelo testemunho dado pelos irmãos a respeito de Gaio. Contudo, os estranhos também dão testemunho. Nesse contexto, os "estranhos" são irmãos vindos de outros lugares. No verso 12, todos dão testemunho, inclusive o próprio apóstolo e a própria verdade. Parece que a verdade, nesse contexto, está relacionada à doutrina, a qual serviria como parâmetro para confirmar determinado testemunho. Vemos portanto, que as nossas obras geram testemunhos a nosso respeito e essas mensagens circulam rapidamente e estruturam ou derrubam nossa reputação. A epístola destaca o procedimento de Gaio, Diótrefes e Demétrio. Daí surgiram testemunhos positivos e negativos, fazendo com que essas pessoas se tornassem bons ou maus exemplos, a serem imitados ou evitados. Gaio e Demétrio são apresentados como cristãos fiéis (vs.3-6, 12). Diótrefes é visto como ambicioso. Estava na liderança, mas João não o reconhece como tal. O apóstolo diz que Diótrefes "gosta de ter entre eles a primazia" (v.10). Ele gostava de ser líder, contudo não era vocacionado para aquele trabalho. Seu caráter se manifesta por suas palavras e ações:  Profere palavras maliciosas;  Não recebe o apóstolo João na igreja. É rebelde contra as autoridades espirituais;  - Proíbe que os irmãos o recebam;  - Exclui da igreja quem o faz. (v.10);
 Gaio, que já andava na verdade, deveria se inspirar nos bons exemplos (v.11).

Introdução ao 65º Livro Bíblico: Judas
Autor: Judas, irmão de Jesus Data: entre 64 e 70 d.C Tema: defesa da fé cristã Palavra-chave: guardar Texto-chave: 3, 4.

ESBOÇO
1) Saudações (1-2)

2) Defesa da fé cristã (3-4) 3) Os deturpadores do evangelho (5-16) 4) Instruções práticas (17-23) 4) Doxologia (24-25)

GUARDADOS EM CRISTO JESUS (v. 1)
Estar em Cristo, expressão importante na teologia de Paulo, é uma realidade espiritual que expressa nosso vínculo com Jesus e nossa posição espiritual. Trata-se de uma união mística. Estamos ligados a ele como os membros se ligam ao corpo e este à cabeça ou como os ramos se ligam à videira. Judas diz que estamos guardados em Cristo. Ele é o nosso refúgio, nossa fortaleza. Lendo apenas o versículo 1 e o 24, poderíamos pensar que a nossa situação e futuro dependem unicamente de Deus. Se assim fosse, não precisaríamos de tantas palavras de advertência como temos na bíblia. Contudo, o verso 20 muda a conjugação verbal e nos exorta dizendo: "Guardai-vos no amor de Deus" (ou conservai-vos). O autor nos repassa uma grande responsabilidade no sentido de nos mantermos na posição que obtivemos em Cristo mediante a salvação. Nosso estar em Cristo pode ser comparado à condição da família de Noé dentro da arca, a qual representou a salvação daquelas pessoas. O problema central apresentado pela epístola de Judas é o caso daqueles que não guardaram suas posições e se perderam, tornando-se exemplos do juízo divino (v.6). O autor cita como exemplos: o povo de Israel no deserto, os anjos, Sodoma, Gomorra, Caim, Balaão e Coré. Ele fala de experiências coletivas e individuais. Menciona desde pessoas que conheciam bem pouco sobre Deus, passando por aquelas que conheciam muito e chegando a mencionar os anjos, que viam a Deus face a face. O que todos tiveram em comum foi a corrupção e a conseqüente destruição. É impressionante observarmos que o povo de Israel, por sua rebelião e incredulidade, entra para uma lista de exemplos ao lado de Sodoma e Gomorra. Da mesma forma, um profeta ganancioso, Balaão, é listado juntamente com Caim, o irmão homicida. Isso mostra que, seja qual for a nossa posição, devemos ser cuidadosos para não entrarmos nas listas daqueles que não guardaram sua condição original e se corromperam. "Guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa" (Ap 3:11).

HERESIA - CAMINHO DA PERDIÇÃO
Por quê alguém deixaria sua posição de obediência a Deus para se tornar um infiel? Tal pergunta fica muito difícil de ser respondida se indagarmos a respeito da queda do diabo. Daí em diante, um dos meios mais utilizados foi a persuasão. Assim, os anjos foram levados, e também Adão e Eva. O infiel vai propagando a infidelidade. Judas estava

preocupado com essa prática, pois os hereges se manifestavam dentro da igreja e ameaçavam a firmeza dos irmãos através de doutrinas erradas. A epístola diz que eles "convertem em dissolução a graça de Deus" (v. 4). Aqueles falsos mestres transformavam a graça de Deus em libertinagem, como se a misericórdia de Deus representasse conivência em relação ao pecado. O fato de Deus não punir imediatamente o pecador significa que este tem oportunidade para se arrepender. Contudo, isso não significa que o juízo foi esquecido. Caso não haja arrependimento, haverá o castigo.

OS MENSAGEIROS DO MAL
Tais elementos são muito perigosos porque entram nas igrejas (v. 12) e conseguem posições de liderança e ensino (v. 8, 12). A sua aparência não é ameaçadora. Pode até ser agradável. Contudo, seu procedimento denuncia seu caráter. O autor utiliza muitas figuras de linguagem para mostrar tal realidade.

APARÊNCIA Nuvens Árvores Ondas Estrelas Rochas Pastores

CARÁTER sem água sem fruto, sem vida, sem raiz firme bravias errantes submersas que apascentam a si mesmos

A aparência pode ser muito boa, mas o conteúdo deixa a desejar. Apresentam um potencial muito grande, mas não utilizado como deveria. Por exemplo, a rocha, que poderia servir como base em uma construção, encontra-se submersa, representando um perigo oculto e fatal. As figuras de linguagem utilizadas nos falam de elementos que não se encontram fixos, não têm firmeza, encontram-se em movimento constante: nuvens levadas pelo vento, árvores que não estão presas por suas raízes, ondas do mar, estrelas cadentes. Os falsos mestres não conseguem se firmar dentro da verdadeira igreja do Senhor. Por isso é que acontecem os escândalos e eles se vão. Vemos no texto também a questão da inutilidade de tais pessoas. Uma estrela cadente não serve como ponto de referência. Ondas bravias só causam destruição. Nuvem sem água não produz chuva. Além disso, é levada pelo vento e nem sombra produz. O mesmo acontece com a árvore que, além de não ter frutos, foi arrancada. Nesse caso, o que não é útil pode se tornar uma ameaça. Então, nada lhe resta senão o fogo, que representa o juízo divino.

Assim, Judas apresenta o caráter dos falsos mestres, o perigo de sua mensagem e o destino que lhes cabe, a exemplo do que aconteceu com os rebeldes israelitas do deserto, e Sodoma, Gomorra, etc. Não devemos olhar para os fracos na fé e vê-los como falsos na fé. Por isso, Judas adverte que devemos ter compaixão daqueles que estão em dúvida (v. 22). Devemos salválos (v. 23), tomando cuidado para não sermos contaminados com seus erros práticos ou doutrinários. Judas adverte a respeito dos falsos, mas tem uma expetativa positiva em relação aos verdadeiros irmãos. "Mas vós, amados, lembrai-vos das palavras que foram preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo" (v. 17). "Mas vós, amados, edificando-vos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo, conservai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna". (vv. 20, 21). A conjunção "mas" introduz um texto com teor contrário ao anterior. Depois de falar sobre a mensagem, a vida e o destino dos falsos mestres, o autor exorta que os destinatários se firmassem na palavra ensinada pelos apóstolos de Cristo. Desse modo, teriam uma vida livre da corrupção e, consequentemente, seriam apresentados imaculados diante de Deus para a vida eterna. Por essa razão, Judas encerra sua epístola de modo tão exultante, com uma expressão de louvor a Deus.

PARALELO ENTRE JUDAS E II PEDRO
II PEDRO ASSUNTO 2:1 Falsos mestres 2:4 Anjos que pecaram 2:6 Sodoma e Gomorra 2:10 Contaminados e atrevidos 2:11 Contenda de anjos 2:15 Animais irracionais 2:17 Caminho de Balaão 2:18 Nuvens levadas pelo vento 3:2-5 Falando coisas arrogantes 3:2 Lembrai-vos das palavras 3:3 Escarnecedores dos últimos tempos JUDAS 1:4 1:6 1:7 1:8 1:9 1:10 1:11 1:12,13 1:16 1:17 1:18

Autor: Anísio Renato de Andrade – Bacharel em Teologia.

BIBLIOGRAFIA
SÁNCHEZ, Tomás Parra, Os Tempos de Jesus - Ed. Paulinas.

GONZÁLEZ, Justo L., Uma História Ilustrada do Cristianismo - Volume 1 - Ed. Vida Nova. PACKER, J.I., TENNEY, Merril C., WHITE JR., William, O Mundo do Novo Testamento - Ed. Vida. TURNER, Donald D., Introdução do Novo Testamento - Imprensa Batista Regular. CULLMANN, Oscar, A Formação do Novo Testamento - Ed. Sinodal. GIBERT, Pierre, Como a Bíblia Foi Escrita - Ed. Paulinas. ELWELL, Walter A. , Manual Bíblico do Estudante - CPAD. HOUSE, H. Wayne, O Novo Testamento em Quadros - Ed. Vida JOSEFO, Flávio, A História dos Judeus - CPAD DOUGLAS, J.D., O Novo Dicionário da Bíblia – Ed. Vida Nova Apostila do SEBEMGE – Pastor Delmo Gonçalves Bíblia de Referência Thompson - Tradução de João Ferreira de Almeida - Versão Contemporânea - Ed. Vida Estudo do Novo Testamento - Neusa Rocha de Souza Bíblia Sagrada – Tradução de João Ferreira de Almeida – Versão Revista e Atualizada Sociedade Bíblica do Brasil.

A EPÍSTOLA DE JUDAS
Arnold Doolan
Tradução: Joel Pereira

COPYRIGHTS: O Autor e o Editor autorizam a divulgação, no todo ou em parte, do presente opúsculo, desde que a fonte seja devidamente citada. Proibida a reprodução para fins comerciais ou edição em livro.

INTRODUÇÃO
O AUTOR DA EPÍSTOLA
Irmão de Tiago (v.1), Judas (Hb. Yehudah), um dos filhos de José e Maria, mãe de Jesus (Mc. 6:3; At. 1:14). Tal como o seu irmão Tiago, Judas não explora a sua parentela com o Senhor Jesus. O relacionamento espiritual era mais importante. Jesus disse: “todo

aquele que faz a vontade de Meu Pai que está no céu é Meu irmão e irmã e mãe” (Mat. 12:50). Judas tomou o lugar de SERVO. Durante o ministério do Senhor Jesus na terra, os seus irmãos na carne não creram nEle (João 7:5). Depois da ressurreição, Tiago converteuse (1Cor. 15:7) e podemos pensar que Judas também se terá convertido na mesma altura. Judas (de acordo com a história) foi casado e a sua esposa o acompanhava no percurso itinerante da pregação do seu marido. (1Cor. 9:5). Judas não menciona o nome dos destinatários desta carta. Trata-se de uma carta “geral”, pensando-se que tenha sido enviada a uma igreja local. O propósito desta carta é denunciar determinadas heresias que tinham invadido a Igreja. Ele está preocupado com elas, porque conduzem à apostasia. Mesmo nestes anos primitivos, a Igreja tinha sido infiltrada por homens que aparentando ser servos de Deus, eram, na realidade, inimigos da Cruz de Cristo. Judas procurou expor estes traidores e descrever a sua perversidade.

Paralelismo
Durante o estudo desta carta, e comparando com o segundo capítulo da 2.ª epístola de Pedro, verificará que existem versículos similares. Eis uma lista desses versículos paralelos: Judas
4 V. 6 V. 7 V. 8 V. 9 V. 10 V. 12 V. 16
V.

2º cap. de II Pedro
2:1-3 V. 2:2-4 V. 2:6 V. 2:9-10 V. 2:11 V. 2:12 V. 2:13, 17 V. 2:18
V.

I - A Saudação (1, 2)
Judas não nos refere onde os seus leitores residem, mas fornece-nos três descrições singulares do significado de ser Cristão. Os cristãos são chamados de “queridos em Deus Pai” e “conservados por Jesus Cristo”. PRIMEIRO - Um cristão é uma pessoa chamada para fora do mundo pelo poder do Evangelho para pertencer a Deus e servi-Lo. 2Ts. 2:13,14 torna isto bastante claro - de que Deus nos escolheu, nos chamou e igualmente nos separou (santificou) pelo Espírito Santo para sermos o seu povo especial e puro. Os mistério da Soberana graça de Deus, ao nos escolher, eleger e sermos Seus, está para além de qualquer espécie de compreensão humana, e não é aconselhável fazer deles a base de argumentações e divisões — “Os segredos pertencem ao Senhor, nosso Deus” - Dt 29:29. SEGUNDO - Um cristão é uma pessoa que é “querida em Deus Pai”. A maravilha do amor de Deus está para além da nossa compreensão. Esta frase significa que o cristão é

objeto da plenitude do amor de Deus. O cristão que deposita a sua confiança em Deus-Pai, é envolto na magnificência do afeto e amor do Pai. TERCEIRO - Um cristão é aquele que é conservado (guardado) por Jesus Cristo. Nenhuma dúvida pode ocorrer quanto à segurança eterna do crente. Ele não só é “querido em Deus Pai”, como também é guardado com segurança no Senhor Jesus Cristo. A palavra “conservado” é igualmente usada em Judas 6 e 13, traduzida por “reservado”, referindo-se aos anjos caídos e apóstatas que Deus preserva para julgamento. A palavra é usada igualmente no v. 21 - «conservai-vos a vós mesmos». O Senhor está a preservar os seus filhos para a Glória. Um antigo escritor disse que “Jesus Cristo é a arca onde as jóias de Deus são guardadas”. Uma vez que os filhos de Deus são santificados e preservados, eles são recipientes das Suas Bênçãos, misericórdia, paz e amor. Deus, na Sua grande Misericórdia não nos dá aquilo que merecemos. Pelo contrário. Ele transitou a punição a que estávamos submetidos, para o Seu Único Filho, na Cruz — Isaías 53:4,5. «Misericórdia» (grego, eleos), pode ser definida como uma graça imerecida em favor de indivíduos desprovidos de qualquer valor, e que o Senhor os restaurou à comunhão com Ele Próprio. Graças à obra sacrificial de Jesus Cristo na Cruz, os crentes podem gozar a paz com Deus, Romanos 5:1. A pessoa ainda nãosalva está em guerra com Deus e não pode agradá-Lo, Rm. 8:7,8. Mas quando ela confia no Salvador, a guerra termina e recebe a paz de Deus. É por isto que a saudação normal dos judeus, ainda nos dias de hoje, é Shalom, isto é Paz.. Judas também deseja para os seus leitores, caridade (amor) - uma realização e experiência contínua do amor de Deus, Rm. 5:5. Ele deseja que estas três bênçãos sejam multiplicadas, não medidas por adição, mas por multiplicação.

II - O Perigo (3, 4)
VERSO 3 Judas não tinha a intenção de escrever este tipo de carta. A sua intenção original era escrever acerca da salvação gloriosa que é a possessão comum de cada crente. Porém, quando ouviu das perigosas heresias que estavam a entrar na Igreja, foi guiado pelo Espírito Santo para escrever acerca da guerra a travar contra as forças do mal que estavam a invadir a Igreja. É mais fácil para um pregador encorajar os crentes, do que denunciar as heresias e os apóstatas. Por isso, para Judas, um simples ensaio doutrinal não servia – tinha que ser uma carta com um forte e fervoroso apelo que fortalecesse os crentes. Quando o inimigo está no campo, o vigia não deve dormir. A vida cristã é um campo de batalha, não um campo de jogos. Os crentes, nos dias de Judas, e igualmente nos nossos dias, devem «batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos”. No cumprimento deste dever, ele deve atuar sempre

como um cristão. Como Paulo escreveu, “ao servo do Senhor não convém contender, mas sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, paciente.” (II Tm 2:24). A fé pela qual devemos batalhar é o corpo de doutrina contida na Bíblia, o ministério apostólico e o ensino dado à Igreja, Atos 2:42. Notai que o ensino foi dado uma vez. O corpo de doutrina é completo, e nada mais pode ser acrescentado. Quando alguns regadores proclamam que receberam e detêm uma “nova revelação” que está para além do que está escrito na Bíblia, devemos rejeitá-lo. A fé foi dada e nós não precisamos de nada mais.

VERSO 4 - A NATUREZA DO PERIGO
Os falsos mestres introduzem-se em segredo. A tradução brasileira atualizada do texto grego diz: “Certos indivíduos se introduziram com dissimulação”. Ocultamente, secretamente. O perigo vem de dentro da Igreja e não de fora. A pergunta a fazer é a seguinte: Como é possível que tais pessoas entrem na Igreja, como podem os falsos mestres introduzir-se nas assembléias dos santos ? Eles podem introduzir-se quando os líderes espirituais das assembléias se tornam complacentes e passivos, quando é despendido mais tempo na discussão de assuntos insignificantes, em vez de lutar pela fé. Há duas características principais que identificam este tipo de pessoas: 1) A sua Conduta Depravada; 2) A sua doutrina corrupta. Na sua atitude, converteram a graça de Deus em devassidão ou imoralidade. Confundem liberdade cristã com libertinagem e pervertem a liberdade do serviço em liberdade para pecar. Na sua doutrina, negam o Senhor Deus e o Seu Filho, o Nosso Senhor Jesus Cristo. Negam o seu direito absoluto de reger e governar. Negam a sua Deidade, a sua morte sacrificial e substitutiva, a Sua Ressurreição. De fato, negam toda a doutrina essencial da Sua Pessoa e da Sua Obra. Quem são estas pessoas ? E será que ainda hoje existem ? A resposta é SIM - elas existem em todas as formas de liberalismo que negam e se opõem ao evangelho. O evangelho puro e simples ensina que a salvação alcança-se pelo precioso sangue de Cristo, e que a justificação operasse pela fé unicamente em Jesus Cristo, como Salvador e Senhor. Também existem em toda a forma de pregação e que oferece a redenção sem a Cruz, e salvação sem arrependimento. Existem em toda a forma de ensino que se afaste da verdade neotestamentária e da simplicidade dos irmãos se reunirem em Nome do Senhor Jesus. Podem ser supostos ministros do Evangelho, mas é um evangelho feito à sua imagem. Podem deter posições de liderança na Igreja, com títulos expressivos ou podem ser professores em seminários teológicos. Todos têm uma coisa em comum — são contra o Cristo da Bíblia, e inventaram para si próprios um «Cristo» liberal e neo-ortodoxo, feito à sua imagem e semelhança; um «Cristo» extirpado de glória, majestade, domínio e autoridade.

Afaste-se destes homens. Cuidado ! Podem parecer «anjos de luz» ou surgir sob a capa do ecumenismo defraudado. A Bíblia diz que são «homens ímpios». A palavra «ímpios» (grego, asébês) é usada igualmente por Pedro para descrever aqueles que foram destruídos no dilúvio e aqueles que morreram em Sodoma e Gomorra (2Pedro 2:5,6). Notai igualmente que a palavra «homens» não é a forma masculina (que no grego é «anër»), mas é a palavra neutra «anthropos», que tanto significa homem como mulher.

III- Os homens perigosos (5-16)
Judas prossegue apresentando uma série de exemplos para avisar os crentes dos perigos de dar ouvidos aos falsos mestres, ou mesmo permitindo que os mesmos se instalem no meio deles. Os três exemplos são extraídos do Antigo Testamento, por isso, conhecidos dos crentes. Mas, apesar de conhecidos, os crentes carecem de recordar que há sempre retribuição para a transgressão, e que o pecado envolve, inevitavelmente, o respectivo julgamento. Rm. 15:4; 1Cor. 10:11. VERSO 5 - A LIBERTAÇÃO DE ISRAEL O primeiro exemplo é extraído da remota história de Israel. Êxodo 14:27 relatamos que Deus, no Seu grandioso poder, libertou o povo de Israel do Egito e destruiu os seus inimigos. Porém, quando estavam perante a Terra Prometida, em vez de confiar plenamente em Deus, decidiram que não eram capazes de conquistar a terra, Num. 13:11; 14:1-4. Por causa da sua incredulidade, Deus declarou que iriam peregrinar no deserto durante quarenta anos, até que todos os homens que se tinham recusado a confiar no Senhor tivessem morrido, Num. 4:22,23,32. Tinham experimentado a salvação de Deus, mas não estavam dispostos a confiar nEle - por isso, morreram no deserto. Judas sublinha que foi o Senhor Quem os salvou, e foi também o Senhor Quem destruiu os incrédulos. Este é um aviso sério para os crentes do Novo Testamento. A incredulidade é um pecado destrutivo. E mesmo os crentes não estão isentos da operação das leis de Deus salvo se se arrependerem do seu pecado, a retribuição não pode ser evitada.

VERSO 6 - OS ANJOS CAÍDOS
O segundo exemplo escolhido por Judas é o julgamento dos anjos caídos. Estes anjos não são os mesmos que estão livres de andar e atuar segundo a direção do seu mestre, diabo. Estes anjos, de que Judas fala, estão presos em cativeiro até ao Julgamento Final. A sua rebelião deve ter tido um grau superior, e por isso, merecem a perda da sua liberdade e a possibilidade de atuarem nas trevas. Há duas referências na Bíblia a estes anjos: Judas 6 e 2Pedro 2:4. Pedro usa a expressão «anjos que pecaram». Judas é mais explícito, e revelanos que estes anjos estão condenados por causa de terem perdido o seu estado/natureza original. Há alguns comentadores que relacionam as passagens de Judas e de Pedro com Gn. 6:2, onde os «filhos de Deus» pecaram contra Deus, cruzando-se com mulheres (humanas),

e por causa desse pecado abominável, Deus condenou esses anjos ao inferno, e destruiu o resultado de tais ligações com o dilúvio. A Septuaginta usa o mesmo termo de Gén.6:2 («anjos») em Jó 1:6; 2 :1; 38:7; Sal. 29:1; 89:6 e Dn. 8:25. Há, porém, outros comentadores que rejeitam a interpretação acima indicada, considerado-a mais especulação que revelação. Para nós, e para o propósito deste breve comentário, concluímos que a principal causa da culpa destes anjos foi terem ultrapassado os limites estabelecidos por Deus para os mesmos, e o resultado foi a sua queda e a sua ruína. Qual o meio concreto pelo qual chegaram a este resultado, não nos é revelado na Escritura.

VERSO 7 - SODOMA E GOMORRA
O terceiro exemplo demonstrativo do perigo dos falsos mestres era ainda mais relevante relativamente às condições de vida no tempo de Judas. Mas não apenas para aqueles dias. O aviso aplica-se igualmente aos dias em que vivemos, muito próximos da consumação do século XX. As cidades de Sodoma, Gomorra, Adama e Zeboim, com a sua imponente imoralidade são apresentadas como ilustrações para o julgamento do pecado (Gn. 19:24; Dt. 29:23; Os.11:8). Estas cidades evidenciaram-se pela sua conduta vil e vergonhosa. Envolveram-se na fornicação e naquilo a que o escritor designa “ido após outra carne”, ou seja, homossexualidade. Judas usa esta imoralidade abjeta como ilustração do caráter abominável dos falsos ensinadores, contra quem esta epístola é escrita. Um antigo Puritano, Thomas Manton (1620-1677) escreveu: “A escola de Simão, os Nicolaitas e os gnósticos, tornaram-se execrandos, envolvendo-se em prevaricação monstruosa e abominável, idêntica à dos Sodomitas, e por isso sujeitos à destruição como Sodoma”. O pecado dos anjos caídos do v.6 foi uma transgressão deliberada, ultrapassando limites proibidos. O pecado das cidades condenadas no verso 7 foi a imoralidade perversa, particularmente a homossexualidade. Há aqui um paralelismo, evidentemente. Ambos ultrapassaram os limites traçados por Deus, e ambos foram punidos com a respectiva condenação. Estes avisos devem ter soado fortemente naqueles para quem Judas estava a escrever, e certamente devem tê-los feito pensar seriamente antes de aceitarem o ensino herético apresentado pelos mesmos (v.4). Os três exemplos usados por Judas nos versos 5 a 7 são um sério aviso, para nós, de que o pecado tem sempre retribuição. Os pecados mencionados não se confinam ao tempo em que foram cometidos, ou mesmo aos dias em que Judas viveu. Eles são um problema crucial do século XX em que vivemos. A descrença, a ambição auto-suficiente e a perversão sexual são bem comuns na atualidade, e - surpreendentemente - não são considerados pecados em alguns círculos religiosos. São descritos como legítimas

alternativas da forma de vida, mas Deus chama-os de pecado, e somente Deus tem a palavra final — tão certo como a luz do dia é seguida das trevas da noite, todos os que persistem no seu pecado descobrirão um dia que todo o seu pecado lhe trará punição. Contudo, o arrependimento e a fé no Senhor Jesus Cristo trazem perdão e eterna salvação: “O sangue de Jesus, Seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (1.João 1:7); “... ainda que os vossos pecados sejam como escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã”.

IV - O destino dos falsos mestres (8-19)
Esta é a maior seção da epístola, e refere-se aos falsos mestres que vinham espalhando as suas falsas doutrinas. Pela descrição que lhes é feita, pregavam uma mistura de Nicolaitaísmo e Gnosticismo. O primeiro era um grupo de pessoas presentes na Igreja de Éfeso, cujas obras o Senhor detestava e que obtiveram a Sua reprovação (Ap 2:6). Essa doutrina era igualmente defendida por alguns da Igreja em Pérgamo (Ap 2:15). Eram seguidores próximos de Nicolau de Antioquia, o qual ensinava a lascívia sexual extrema, desrespeito pela autoridade e a gula irrestringível. A sua doutrina era similar àquela pregada outrora por Balaão que influenciou os Israelitas a comer alimentos oferecidos (sacrificados) aos ídolos e a cometer fornicação (Ap 2:14,15). O Gnosticismo era, por sua vez, uma forma de ensino que professava a exigência de um conhecimento espiritual particular e especial. Apresentava-se — de uma forma algo mística — como uma aliada muito próxima do ocultismo. A caracterização básica encontrase descrita nos versos 8 a 16.

Versos 8 a 10
Judas descreve estes falsos mestres como adormecidos que contaminam a sua carne com os seus sonhos. A frase "semelhantemente adormecidos" (versão Almeida) é mais corretamente traduzida como "sonhadores alucinados" (versão Brasileira Atualizada), e sugere que estes homens pretendiam ver as suas cações justificadas por certas visões que alegadamente tinham recebido. Compare Dt 13:1-5. Estes "sonhos" conduziram aos resultados mencionados no versículo 8 - a contaminação da carne, a rejeição da autoridade e o vitupério (falar mal) das dignidades. Estes homens consideravam-se superiores aos outros cristãos orgulhando-se na reivindicação de lhes ter sido dado um conhecimento especial. Todavia, as suas práticas ímpias, os seus vícios contra-natura a sua indecorosa imoralidade e o seu total desrespeito por toda e qualquer lei da natureza eram piores que as práticas dos povos pagãos que os circundavam. Existe uma passagem paralela na segunda epístola de Pedro (cap. 2:10-11), onde Pedro os descreve como "aqueles que, segundo a carne, andam em concupiscências de imundícia". Em conseqüência, cumulam impureza para a sua própria causa como uma regra de vida. Não é necessário um grande raciocínio para concluir que estes versos, embora escritos há quase 2.000 anos atrás, continuam relevantes para a sociedade atual. A «legalização» do adultério e a pornografia, que constitui aliás um negócio multi-milionário,

são sinais da padronização de uma sociedade permissiva, em tudo semelhante à que vivemos, num absoluto desrespeito pela autoridade, numa recusa determinada em aceitar as regras da lei e da ordem. A História repete-se várias vezes em si própria. A palavra usada no verso 8 (dominação - versão Almeida e governo - versão Brasileira Atualizada) é a tradução da palavra grega "Kyriotes", a qual é usada penas 4 vezes no Novo Testamento (Ef 1:21, Col. 1:16; 2 Pd. 2:10 e Judas 8). A frase significa precisamente a rejeição da autoridade governamental, um espírito de revolta. Por outro lado, pode significar igualmente a recusa do controle Divino na vida pessoal. Estes homens falavam mal (vituperavam) as dignidades. Judas contrasta a arrogância daqueles homens com a conduta do arcanjo Miguel quando contendia com diabo a respeito do corpo de Moisés. Miguel não ousou pronunciar qualquer juízo de arrogância ou de maldição, mesmo contra o diabo. Ezequiel 28:11-19 conta-nos que diabo ocupou, em tempos, uma das posições mais elevadas na Criação, e em Jó 1:6 e 2:1 lemos que ele ainda detém o direito de aparecer junto da presença de Deus de tempos a tempos. Miguel era (e é) um dos príncipes dos chefes na hierarquia angélica (Dn. 10:13 e 12:1), no entanto, ele não repreendeu diabo, limitando-se a pronunciar a seguinte declaração: "O Senhor te repreenda". Onde foi Moisés sepultado ? Não se conhece o local exato. Dt 34:6 refere que ele foi sepultado "num vale, na terra de Moabe, defronte de Bete-Peor". É bem sabido que a veneração de homens famosos tem conduzido à idolatria, por isso é essencial que o local exato da sepultura de Moisés deva permanecer desconhecido. Se fosse conhecido, podemos imaginar o número de peregrinos de todos os lugares, e a argüição de custódia do local por vários grupos religiosos. O discurso arrogante (supra referenciado) destes homens era acompanhado de uma ignorância espiritual. Judas escreve que estes homens "dizem mal do que não sabem". Um antigo escritor disse: "o contexto não deixa qualquer dúvida que a região das coisas que eles não sabem refere-se aos espíritos — bons e maus". Mas apesar da sua ignorância, não deixaram de falar mal. Por outro lado, tinham um conhecimento instintivo da vida física, mas mesmo nesta área mostravam o seu caráter maligno. Há aqui uma referência clara aos impulsos naturais do desejo sensual que estes falsos mestres compreendiam muito bem, mas que eles pervertiam para a mera gratificação da luxúria numa maneira contrária à natureza. O leitor não tem qualquer dificuldade em reconhecer isto como uma referência à presente concepção da moralidade. Há nos dias de hoje uma indulgência quase total relativamente a pecados que escandalizavam a geração anterior. Se um Deus Santo não podia tolerar o pecado há dezanove séculos atrás, não há qualquer razão para crer que Ele o tolere nos dias de hoje.

VERSO 11
É evidente que esses pseudo-cristãos eram caracterizados por uma falta total de espiritualidade. Quando Judas contemplou a impureza moral e a fraqueza espiritual destes

homens malignos, ele não se pôde conter em si mesmo. "Ai deles", lamenta. Estas palavras eram mais propriamente de profecia do que de maldição. A sua repugnância perante aqueles pecados poderia ter provocado uma maior condenação, mas apenas referenciou que estes homens caíram no engano. Conclui que estavam longe de qualquer esperança e que inevitavelmente, a punição os aguardava. Então, Judas retira do Antigo Testamento mais três exemplos: CAIM, BALAÃO E CORÉ. 1) Refere que os falsos mestres "entraram pelo caminho de Caim". A história de Caim é bem conhecida (Gn 4). O Apóstolo João resume sucintamente nos seus escritos o incidente de Caim - 1João 3:12. Não há dúvida que Adão instruiu os seus dois filhos no único caminho aceitável para se chegarem a Deus, ou seja, pelo caminho do sacrifício dos animais. Caim, porém, constituiu a sua oferenda dos frutos que ele tinha «produzido» a partir do campo, o qual, por sua vez, tinha sido amaldiçoado. O animal sacrificado no altar era o reconhecimento do pecado do oferente, e de que a sua expiação só podia ser operada pela morte de outrem. Caim declinou o reconhecimento do pecado e a sua necessidade de reconciliação com Deus. Quando a sua oferenda foi rejeitada, ele colerizou-se, irou-se (a atitude espiritual teria sido a de humildade) e assassinou o seu irmão. Posteriormente, foi posto fora da presença de Deus e habitou na terra de Nod. Ao ódio seguiu-se o homicídio e logo depois a apostasia. Judas diz (verso 11) que este era o caráter dos falsos mestres daqueles dias. O espírito da ira e da morte podia ser encontrado neles, e tinham-se afastado de Deus. A sua persistência no pecado era demonstrada no seu desprezo pelo verdadeiro significado do Calvário (Gl 6:14). Tinham entrado pelo caminho de Caim, um homem ímpio e carnal. 2) Depois, Judas cita a história de Balaão (Nm 22-24). As tribos de Moabe e Midiam solicitaram a ajuda de Balaão, um profeta mercenário, de forma a amaldiçoar os Israelitas e impedir, desse modo, que estes invadissem os seus países. Apesar da proibição divina, Balaão pretendeu reclamar o benefício oferecido por Balaque. As suas tentativas de amaldiçoar Israel foram completamente ineficazes, e foi compelido a abençoar Israel. Completamente frustrado, Balaão propôs que os Israelitas deviam ser convidados pelas mulheres de Moabe para participar nos festivais religiosos de Moabe. Estas festas constituíam ocasiões de comportamentos licenciosos e dissolutos e Baal era “um deus moabita em honra do qual as virgens e as mulheres se prostituíam entre si” (Kiel). Os Israelitas foram atraídos e tomaram parte nos sacrifícios oferecidos aos deuses pagãos e em prazeres imorais associados à adoração idólatra (Nm 25:1-3; 31:16). Em Apocalipse 2:14.15 o ensino de Balaão surge associado ao ensino dos Nicolaitas. Tertuliano descreve estes como gnósticos e libertinos, de quem também Sir William Ramsay diz que « procuraram reter na vida cristã práticas que estavam em oposição direta com os princípios essenciais do Cristianismo». Pedro descreve Balaão como aquele que “amou o prêmio da injustiça” (II Pd 2:15), o que confirma a referência de Judas acerca da avareza desse homem. Logo, daqui pode deduzir-se que os ensinadores heréticos que apareceram entre os crentes, abandonaram os princípios cristãos em favor do proveito material e preocuparam-se apenas com aquilo que

poderiam obter da comunidade cristã como pagamento dos seus serviços. Tal como Balaão, eles encorajaram outros a práticas imorais. Eram seguidores do erro de Balaão. 3) Seguidamente, Judas acusa estes falsos mestres de revolta espiritual. Descreve a sua rebelião como comparável à revolta de Coré contra Moisés. A sua rebelião foi contrária à revelação e autoridade Divina. Em Números 16:1-35 lemos de uma revolta bem planeada, Coré, Datã, Abirão, Om e outros 250 príncipes de Israel acusaram Moisés de ter adotado uma posição que o mesmo nunca se tinha intitulado. A sua rebelião não durou mais do que o tempo necessário para a terra se abrir sobre os seus pés tragando a sua vida e a das suas famílias. A importância das palavras de Judas consiste precisamente no fato de que os falsos mestres irão um dia perecer sob a ira do Senhor Todo-Poderoso. Estes três exemplos (Caim, Balaão e Coré) eram e são, ainda hoje, bastante pertinentes. Caim, pela carnalidade, malícia e crueldade; Balaão, pela avareza e sedução e Coré pela rebelião contra a autoridade Divina. Não podia haver, nem pode haver escape para quem seja como eles no dia de hoje.

V - Engano e hipocrisia (11, 12)
Era prática da Igreja do primeiro século reunir-se juntos, usualmente semanalmente, mas em alguns casos de forma mais freqüente, para uma refeição, almoço ou jantar. Esta era conhecida pela festa do amor (ágape). Todos contribuíam com comida, quer fossem ricos ou pobres, e todos se reuniam sobre a base comum de terem sido salvos pela graça. As distinções sociais eram ignoradas. Era igualmente usual que a Ceia do Senhor fosse celebrada quer no princípio, quer no fim dessa festa do amor. Paulo, na sua epístola aos Coríntios teve que repreender alguns que degradavam o significado da comunhão nesta reunião por causa da sua conduta desordeira (I Co 11:22, 23). Esses, de quem Judas (e Pedro) escreve, participavam igualmente nessas reuniões, e em vez de ser uma ajuda e bênção para os crentes, tornaram-se verdadeiramente um perigo para eles. Como ensinadores, deveriam alimentar o rebanho, mas eles apenas se alimentavam a si próprios e entregando-se às suas práticas pecaminosas perturbavam a decência e a crença espiritual. Judas usa cinco ilustrações da natureza para mostrar o vazio e a influência degeneradora desses homens. Todas as ilustrações revelam a Natureza fora da harmonia em comparação à glória do seu propósito. As nuvens sem água são completamente inúteis para os agricultores que esperam as chuvas para os seus campos. Assim são os «ensinadores» que são incapazes de transmitir refrigério espiritual. As árvores infrutíferas podem ser promissoras à distância, mas não satisfazem. Estes homens, de quem Judas fala, eram enganosos e falazes. Tinham a aparência de folhas, mas não tinham qualquer fruto. Árvores assim estão duplamente mortas, e o seu fim é serem cortadas e lançadas ao fogo (Mt 8:20). Duas vezes mortos em relação a estes falsos mestres

significa, provavelmente, primeiramente mortos nos seus pecados (Ef. 2:1), e também, depois de professarem a conversão, mortos para as boas obras (Tg 2:17, 26). As ondas impetuosas do mar constituem, outrossim, uma ilustração bastante adequada. O mar nunca está calmo e as suas ondas batem incessantemente na costa, li depositando todo o lixo que polui o oceano. Assim eram aqueles falsos mestres. I quietos e instáveis, demonstravam o seu caráter na impureza que deixavam para trás (Is 57:20). As estrelas errantes estão reservadas para sempre para a escuridão das trevas. Todas as estrelas têm a sua órbita e mantêm o seu espaço nas galáxias e contribuem igualmente com luz refletida no céu. Mas estes homens, tal como estrelas fora do controle, tinham uma aparência irregular. Podiam iluminar num momento o céu, mas rapidamente desapareciam. A sua condenação estava determinada; a escuridão das trevas estava, pois, reservada. A fuga das conseqüências das suas cações era impossível, e a punição era inevitável e eterna.

VI - A profecia de Enoque (14, 15)
Enoque iniciou a sétima geração na história do Homem (Gn 5:1-19), e Judas confirma-o no verso 14. Ele referencia uma profecia de Enoque, mas acerca dessa profecia não há qualquer menção na Escritura. As referências a Enoque na Bíblia são muito escassas. A sua história está relatada em Gênesis 5:18-24 e revela simplesmente que ele viveu durante 365 anos, que teve filhos e filhos, o primeiro dos quais foi Matusalém, e que ele, Enoque, caminhou com Deus e que Deus o tirou da terra. Hebreus 11:5 acrescenta que, por causa da sua fé, foi transladado de forma que ele não conheceu a morte, sabendo ainda que antes da sua transladação, ele agradou a Deus. Nada mais é dito sobre Enoque e não há qualquer registo na Bíblia acerca de alguma profecia que tenha feito. É possível, e muitas vezes aconteceu no passado, que uma profecia seja transmitida de pais para filhos ao longo de gerações. Judas pode ter sido inteirado sobre ela e citou-a na sua epístola. Um escritor informa-nos que as palavras dessa profecia são quase idênticas às que se encontram no livro apócrifo de Enoque (I Enoque 1:9). Judas parece ter sido conhecedor desse livro e pode-o ter citado. É claro que isto não dá ao livro de Enoque qualquer estatuto de livro canônico. Ele diz-nos, no verso 14, que a profecia de Enoque se refere aos ensinadores de que estava escrevendo, mas ele também deve ter antecipado um tempo que ainda é futuro. Refere que o Senhor estava vindo com milhares dos seus santos (compare Dt 33:2). Enoque viveu numa época de degeneração e apostasia que era comparável à época de Judas e igualmente ao atual século XX. Ele viu a Vinda do Senhor para o julgamento como sendo a única perspectiva para o mundo. A História repete-se a si própria ... qual outra perspectiva existe para o mundo de hoje ? O Senhor vem para exercer julgamento sobre todo a culpa. Eles comparecerão perante Ele e convictos da sua conduta contrária à Vontade de Deus, as coisas ímpias que praticaram e toda a sua rebelião contra Ele. Todos os pecados são, em última instância, praticados contra Deus. Esta referência não é propriamente ao julgamento final do Grande Trono Branco (Ap 20:11-15), mas antes ao julgamento descrito pelo Senhor Jesus em Mateus 25:31-46, quando o Filho do Homem vier em toda a Sua Glória e Se sentar no

Trono da Sua Glória. Aqueles que viverem nesse tempo enfrentarão o Juiz perante os crimes que eles cometeram. O dia do ajuste de contas não pode ser evitado, e todo e qualquer detalhe da vida será trazido sob revista e a sentença pronunciada.

VII – Os murmuradores (16)
Uma outra descrição destes falsos ensinadores é, não obstante, uma descrição múltipla. Judas considera-os mais do que falsos mestres. Eles eram homens que tinham causado descontentamento e isso era evidente no seu próprio comportamento. Eram antagônicos à autoridade, sempre murmurando e queixando-se. Tal como Israel no Antigo Testamento, eles murmuraram rebeldemente contra a autoridade e não estavam contentes com a sua posição ou da forma como Deus os guiava. Estes homens seguiam as suas próprias concupiscências, conduzidos pelas suas paixões e desejos sensuais. Porque rejeitavam a autoridade de Deus, as Suas Leis não tinham qualquer efeito neles e estavam satisfeitos consigo mesmos da forma como viviam. Não apenas fizeram isto, como encorajaram outros a fazerem o mesmo. Era uma negação básica dos princípios do Cristianismo. A arrogância dominava o seu pensamento e consideravam-se superiores em sabedoria, olhando com desdenha para os cristãos «comuns». As suas queixas estavam vazias de substância e a sua arrogância provava a sua carnalidade. Que o leitor tome nota. Apesar de Judas estar a escrever sobre homens ímpios do seu tempo, que invadiram as igrejas com o seu falso ensino e com desprezíveis maneiras de estar na vida, as suas palavras podem ser facilmente aplicadas nos dias em que vivemos. Há um velho ditado que diz: “nem tudo o que reluz é ouro”. Há atualmente muitos falsos mestres que procuram retirar os crentes da verdade sólida da Palavra de Deus. Isto interessa a cada um de nós e especialmente àqueles que têm responsabilidade na guarda e condução do rebanho de Deus, para testarmos os espíritos a ver se são de Deus e para levantarmos, rapidamente, a verdade de Deus. Estes falsos mestres são como icebergues. Podem parecer relativamente inofensivos, mas são frios e maus, residindo o seu maior perigo debaixo da superfície.

VIII – Conselhos práticos (17-23)
Versos 16 e 17
Depois de avisar os crentes acerca dos homens ímpios que tinham invadido os grupos de cristãos, Judas procura dar algumas palavras positivas para a sua conduta. Lembra-os dos fundamentos dos apóstolos e desta forma reafirma que os cristãos devem ser cuidadosos, contudo não devem ficar alarmados porque a presença de homens ímpios já tinha sido predita. Por exemplo, compare Marcos 13:5-23; Atos 20:29-31 e II Tessalonicenses 2:3-12. Judas pode ter-se referido a predições orais que eram bem conhecidas dos cristãos, ou pode ter pensado numa profecia específica, tal como a contida em II Timóteo 3:1-6. O Espírito Santo inspirou os escritores a tratarem destas matérias,

bem assim sobre os Nicolaítas e as filosofias gnósticas.. Por exemplo, a epístola aos Colossenses foi escrita para tratar, com detalhe, a teoria gnóstica. Deste modo, Judas está verdadeiramente a dizer que a Igreja não deve procurar nenhuma revelação nova, antes deve considerar o que já entretanto tinha sido escrito. E mais uma vez, aquilo que era aplicável no tempo de Judas continua a ser aplicável atualmente. Ainda persistem muitos escarnecedores que rejeitam o ensino claro e puro da Palavra de Deus, preferindo viver de acordo com os padrões do deus deste mundo.

VERSO 19
Estes, diz Judas, “são os que causam divisões”. Reclamavam para si um conhecimento particular e especial, uma santidade especial que os distinguia dos demais. Deliberadamente criaram divisões e consequentemente, negaram a unidade da Igreja (Ef 4:3, 4). E, curiosamente, têm muitos seguidores nos dias de hoje, os chamados «crentes» que reclamam um dom ou conhecimento especial, que dizem ter recebido uma maior luz do que o crente comum. Esta atitude sectária, esta atitude de divisão não procede de Deus, antes é carnal e anti-espiritual. O Espírito Santo, através de Judas, descreve-os como “sensuais”. A palavra grega é «psychícos», que significa verbalmente propenso para o material, o homem natural de I Coríntios 2:14. Estavam preocupados apenas com a sua própria importância e com os seus desejos, não pensando em manter a unidade do Espírito no vínculo do amor. O seu trabalho de produzir problemas e causar divisões constituía uma contradição com o trabalho do Espírito Santo na unidade dos santos. As suas atitudes e maneira de vida mostravam que não possuíam o Espírito Santo, apesar de o professarem, não sendo, por conseguinte, verdadeiros Cristãos. Há algum tempo atrás, um prédio de 14 andares na cidade de Matosinhos caiu subitamente no solo. Era um edifício novo e, felizmente, não estava habitado, pelo que ninguém se feriu. Foi referido que a razão para esta queda residia no fato de que o material usado na construção era de qualidade inferior ao desejável. Quase na mesma altura, um outro edifício na cidade de S. João da Madeira começou subitamente a decair, ficando exposto num ângulo oblíquo. Era igualmente um edifício de apartamentos, mas neste caso a fundação não era suficientemente sólida para o suportar. Judas exorta-nos (verso 20) a edificarmo-nos a nós mesmos sobre a nossa santíssima fé - ou seja, a certificarmo-nos que temos a nossa vida cristã bem assente num fundamento sólido, que construamos a nossa vida nas qualidades eternas que permaneçam e resistam às vicissitudes (terramotos) da vida. A fé que uma vez foi dada aos santos (v.3) é o fundamento da vida cristã. Esta é a sólida rocha sobre a qual os crentes podem construir. Por isso, Judas encoraja-os a edificarem-se sobre a santíssima fé. Note as quatro palavras chave deste verso - construir (edificar), orar, conservar (sustentar) e esperar. Cada crente tem a responsabilidade pessoal de construir, de se

fortalecer a si próprio através da sã doutrina e de entender que apenas com uma alimentação contínua da Palavra de Deus pode a edificação ser atingida. Esta responsabilidade e esforço pessoais não significa ignorar a obra do Espírito Santo. Assim, Judas exorta os crentes de então (e a nós também) a orar. A oração é essencial para o bem-estar da vida cristã e orar no Espírito significa apresentar as nossas súplicas tal como o Espírito Santo as indica. Isto não significa o repetir de frases bem conhecidas ou utilizar vãs repetições. Na generalidade, os crentes em muitas igrejas precisam de aprender muito acerca da oração. Temos a impressão que aqueles que oram longamente nas reuniões em público, oram muito pouco, privativamente em casa. A oração é aquela comunhão com Deus que apenas pode provir de um coração em plena comunhão com Ele. É desta forma que a vida cristã é nutrida e sustentada. “Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus”, diz Judas. Apenas no amor de Deus há segurança e refúgio da má doutrina. O amor de Deus é imutável, mas o nosso gozo de tal amor flutua. Temos a tendência de nos afastarmos do amor de Deus por causa da nossa ligação ao mundo. Há tanta pressão no crente de hoje para se conformar com os padrões do mundo que não é difícil encontrar um crente fora do gozo do amor de Deus. A exortação de Judas é muito relevante e necessária na atualidade e nós somos responsáveis para nos mantermos numa condição espiritual que nada possa impedir que o amor de Deus abunde em nós e por nós (Hb 3:12). Finalmente, Judas exorta a esperar na misericórdia do nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna (verso 21). A nossa relação com Deus é o resultado da Sua Misericórdia, porque pela Sua misericórdia somos guardados dia após dia e é igualmente através da Sua misericórdia que podemos entrar na Sua presença. A total revelação e entendimento da Sua misericórdia será realizada na Vinda do Nosso Senhor Jesus Cristo. Então conheceremos total e perfeitamente como Ele é misericordioso. Já conhecemos em parte, já agora gozamos da vida eterna, mas a medida total e completa de tal vida espera pela Sua Vinda. É por isso que o crente ansiosamente espera por esse momento e almeja pelo Seu Senhor.

VERSOS 22 e 23
Os falsos mestres ou mesmos os falsos cristãos só causam problemas, criando facções nas igrejas locais. Os versos 22 e 23 revelam aos verdadeiros irmãos as suas responsabilidades em tais circunstâncias adversas. Apesar de Judas ter escrito diretamente acerca de ensinadores heréticos, não ignorou a possibilidade da recuperação espiritual de alguns deles. Pode ter sucedido que alguns estivessem verdadeiramente arrependidos e necessitassem carinho e ajuda. Alguns podem Ter sido tocados pelo Espírito Santo e estavam desejosos de deixar os seus caminhos pecaminosos e voltar para o Senhor. A misericórdia e compaixão que os crentes encontraram em Cristo devia ser também agora manifestada nestes homens. É necessário discernimento espiritual para o crente tratar com estas pessoas. Outros seriam salvos pelo medo, ou seja, no medo que os salvos tinham de ser contaminados através do contato com os culpados. Eles deveriam ser retirados do fogo e colocados em segurança nesse momento crítico. Compare Zaccarias 3:2 e Amós 4:11.

Aquele que libertasse o culpado deveria lavar os vestidos com as suas manchas corrompidas (Lv 15:4, 17), mas a compaixão pelo pecado e o desejo da sua salvação não deveria negar a repugnância do seu pecado.

IX – Doxologia (24, 25)
A doxologia é uma expressão de adoração, é louvor, é a contemplação da glória inefável de Deus. Judas relembra os seus leitores da sua esperança gloriosa e da sua presente proteção. Ele descreveu os caminhos nos quais homens sem escrúpulo algum tentaram afastar os crentes dos caminhos da retidão. Agora ele ergue a sua voz em louvor ao Senhor que os pôde (e pode a nós) guardar da queda. É propósito Divino suster o Seu povo até ao fim e de o apresentar sem mácula na presença da Sua glória com regozijo. “Isto, em contraste com o engano moral e espiritual dos falsos ensinadores” (F. A. Tatford). Nestes versos finais há uma nota de excelsa exaltação e de sobre-elevada alegria. Nós estamos tão preocupados com o nosso futuro eterno e com a alegria que iremos experimentar, que tendemos a esquecer o que significa para Deus, Nosso Pai, Ter todos os Seus filhos juntos dEle. Pense num pai humano cujos filhos tenham saído para longe. Depois, todos eles regressam a casa e se reúnem à volta dele. Quão alegria e regozijo deve ele sentir sobre os seus amados. Multiplique isto dez mil vezes por dez mil vezes e teremos alguma idéia da alegria que haverá no céu quando todos os redimidos se reunirem junto do Senhor, ao redor do Seu trono. Numa final explosão de louvor, Judas atribui glória, majestade, domínio e poder (soberania) ao Único Sábio Deus e Salvador, Jesus Cristo, Nosso Senhor. Ele é digno de toda a honra, de todo o louvor e de toda a lealdade e obediência do coração humano. Desde agora e para todo o sempre.

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