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Dissolução Parcial: a Retirada Imotivada do Sócio nas Sociedades Limitadas

Dissolução Parcial: a Retirada Imotivada do Sócio nas Sociedades Limitadas

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Tese: assiste aos sócios o direito de desligar-se da sociedade, voluntária e imotivadamente, por sua iniciativa unilateral, independentemente da vontade ou das atitudes dos demais sócios. A discussão extravasa as questões de simples interpretação do Código Civil, buscando argumentos dos mais diversos. Monografia de conclusão de curso de graduação na Faculdade de Direito da USP em 2007.
Tese: assiste aos sócios o direito de desligar-se da sociedade, voluntária e imotivadamente, por sua iniciativa unilateral, independentemente da vontade ou das atitudes dos demais sócios. A discussão extravasa as questões de simples interpretação do Código Civil, buscando argumentos dos mais diversos. Monografia de conclusão de curso de graduação na Faculdade de Direito da USP em 2007.

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Published by: Felipe Sotto-Maior on Jan 30, 2012
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Em muitos países, discute-se com mais ardor se seria ou não seria de

natureza contratual o ato de constituição da sociedade. No direito brasileiro, perde

um pouco de importância essa polêmica sobre a natureza jurídica do ato de

constituição da sociedade, em razão do nosso sistema legal ter adotado

expressamente a natureza contratual. O Código Civil de 1916 já definia que

“celebram contrato de sociedade as pessoas que mutuamente se obrigam a combinar

seus esforços ou recursos, para lograr fins comuns” (art. 1.363). Igualmente, o

Código Civil de 2002 estabelece que “celebram contrato de sociedade as pessoas que

reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de

atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados” (art. 981).

Consoante a sólida escola atribuída à doutrina ascarelliana, o contrato

da sociedade limitada pode ser – e, de fato, é – classificado como um contrato de

natureza plurilateral. Para TULLIO ASCARELLI, o ato constitutivo de sociedade é,

realmente, um contrato, mas uma espécie particular de contrato, dotada de

características próprias que explicam suas peculiaridades.

Segundo a doutrina do autor, os contratos podem ser divididos em

duas classes básicas: os de permuta (v.g.: venda, troca, locação, mútuo) e os

plurilaterais. Enquanto os contratos de permuta possuem sempre duas partes, ou dois

centros de interesses opostos e complementares, cada um com direitos e obrigações

perante o outro, os plurilaterais podem abrigar mais de duas partes, e todas possuirão

direitos e obrigações ante cada uma das demais.

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O contrato social é um contrato plurilateral. Nele, os sócios assumem,

cada um perante todos os outros, direitos e obrigações recíprocos, pactuados com o

intuito de coordenar seus interesses pessoais antagônicos (que também existem) e

colaborar mutuamente para possibilitar o alcance de um objetivo comum. A partir da

sua constituição, existem também direitos e obrigações recíprocos entre cada um dos

sócios e a nova pessoa jurídica, recém-criada.

Enquanto nos contratos sinalagmáticos (de permuta), a reciprocidade é

essencial à continuidade da vinculação das partes e condiciona a vida do próprio

contrato; nas sociedades, existe uma interposição do ente social entre os sócios, em

maior ou menor grau, intermediando a vinculação entre as partes, sem que se

produza aquela reciprocidade direta. Como conseqüência, contrariamente ao

verificado nos contratos sinalagmáticos, nos de sociedade o conteúdo das prestações

dos sócios pode ser indiferente para a individualidade do contrato e, portanto, os

vícios e inadimplementos que afetam a uma das partes não invalidam o negócio

jurídico fundamental, nem fazem desaparecer o ente criado, salvo na medida em que

a parte inadimplente seja indispensável à consecução do escopo comum.

Mesmo nas sociedades constituídas por apenas dois sócios, prevalece

a característica plurilateral do contrato de sociedade, por duas razões principais. Em

primeiro lugar, temos a existência da pessoa jurídica, que pode ser considerada uma

terceira parte do relacionamento contratual entre os dois sócios. De fato, os

dispositivos contratuais e legais que regem as sociedades impõem regras ao

relacionamento entre esses dois sócios, entre si, mas também entre eles e a sua

sociedade, que é titular de direitos e obrigações próprias, inconfundíveis com os dos

sócios. Temos, portanto, regulamentação para o relacionamento entre essas três

partes, no mínimo. O segundo e mais importante argumento é o de que a natureza

plurilateral do contrato de sociedade não decorre da existência factual de mais de

duas partes, mas sim da forma como as relações de direitos e obrigações se

estabelecem entre as partes neste tipo de contrato, intermediados pela pessoa jurídica,

o que difere essencialmente da forma como ocorrem nos contratos de permuta e que,

em última análise, por si só possibilitam o ingresso e a saída de sócios, sem que seja

necessária a extinção ou substituição do contrato, e, principalmente, sem prejuízo da

existência da pessoa jurídica criada.

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Tanto foi reconhecida essa propriedade e estendida também às

sociedades limitadas com apenas dois sócios, que os nossos tribunais reconheceram

amplamente a possibilidade de dissolução parcial destas sociedades, outorgando-lhes

o prazo de um ano, com base em aplicação analógica do art. 206, I, d, da Lei

nº 6.404/76, para que recompusessem a pluralidade de sócios ou passassem a operar

como firma individual. O novo Código Civil legitimou a unipessoalidade temporária

das sociedades limitadas, positivando-a em seu artigo 1.033, inciso IV, com o prazo

máximo reduzido para apenas 180 dias.

Sem essa natureza plurilateral e associativa do contrato de sociedade,

não haveria como vislumbrar o instituto da dissolução parcial, em nenhuma das suas

formas. Assim como os contratos de permuta, os contratos de sociedade precisariam

manter seus signatários originais para que pudessem continuar, sem permitir a saída

de nenhum deles, sem aceitar a entrada de novos contratantes.

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