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A Demografia Histórica e o Estudo da Condição Feminina no Brasil: Uma Análise Preliminar das Contribuições da ABEP.

Ismênia S. Silveira T. Tupy

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A visibilidade histórica da mulher brasileira pode ser entendida como decorrência direta de um enfoque historiográfico contemporâneo que busca recuperar a participação de significativos segmentos populacionais anteriormente excluídos dos estudos da própria história. Entre tais estudos destacam-se os que, sustentados pela demografia histórica, apreendem no cotidiano das relações sociais as mulheres como agentes de mudança, contestadoras de limites impostos por uma sociedade que lhes reservara os papéis tradicionais de filha, esposa e mãe. Destes elas surgem, por exemplo, como chefes de domicílio, como participantes do mercado informal de trabalho, ativas na escolha de estratégias de sua sobrevivência, no sustento de suas famílias e nas práticas de não aceitação da norma. Sob essa perspectiva, esta comunicação tem por objetivo contribuir para a realização de um balanço historiográfico sobre o estudo da condição feminina em nosso país, reconhecendo, de imediato, que a demografia histórica tem fundamentado a realização de pesquisas que permitem a apreensão da imensa gama de papéis desempenhados pelas mulheres brasileiras. Trata-se, portanto, de pesquisa bibliográfica que pretende recuperar, de início, os primeiros estudos que voltados para a constituição da família, abordaram direta e/ou indiretamente esta questão. E, em seguida, deter-se no momento em que adquirem autonomia ao especificarem, entre outros, os números e as relações de gênero no contexto da chefia de domicílio, da imigração, do mundo do trabalho, e ainda na sexualidade feminina, notadamente em sua forma ilícita (o meretrício). Reconhecendo ainda que, ao longo dos últimos vinte anos, a

Doutoranda em História Social, Departamento de História, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

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Associação Brasileira de Estudos Populacionais – ABEP – tem se constituído num fórum privilegiado para onde convergem pesquisadores e resultados de pesquisas de demografia histórica, esta foi a instituição priorizada na seleção das fontes deste trabalho. Acreditamos que a análise dos artigos/comunicações oferecidos à comunidade científica pelos seus membros/participantes possibilita o acompanhamento da trajetória teórica, dos métodos e técnicas empregadas, da circunscrição temática e dos resultados obtidos no estudo da condição feminina. E também uma melhor compreensão da sua evolução temporal, isto é, desde a sua gênese ao momento em que aliada à categoria de gênero, desassocia-se do estudo da família brasileira, assumindo paulatinamente a especificidade acima referida. Os parâmetros deste trabalho surgiram de pesquisa previamente realizada 1 , da análise de um total de 86 comunicações que foram apresentadas

e publicadas nos onze Anais de Encontros Nacionais da ABEP, realizados no

período de1978-1998; e de um total de 18 artigos publicados nos 15 volumes

da Revista Brasileira de Estudos Populacionais. Esta última constitui-se numa

publicação bienal, especializada e de âmbito nacional lançada em 1984. Ambas se configuram como espaços característicos de interdisciplinaridade, promotores da integração do conhecimento sobre a população brasileira, congregando pesquisadores por áreas de interesse, permitindo o aprofundamento de questões relativas à população e à história, à saúde, ao trabalho, ao gênero, ao meio ambiente, às migrações, à fecundidade e aos padrões de procriação. Sistematizados, os dados assim obtidos indicam a expressiva participação da demografia histórica, notadamente a partir da constituição de um grupo de trabalho específico, o GT – População e História (1992) 2 , no

1 Sobre a contribuição da ABEP aos estudos de demografia histórica em nosso país, ver SAMARA, Eni de Mesquita. A Produção da ABEP na Área de Demografia em uma Perspectiva Histórica no Conjunto da Produção Nacional: Levantamento, Análise e Sugestões. In BERQUÓ, Elza (org.). ABEP. Primeira Década, Avanços, Lacunas e Perspectivas. Belo Horizonte: AABEP, 1988, p. 99-126; e TUPY, Ismênia S. Silveira T. A Demografia Numa Perspectiva Histórica. A Produção da ABEP. 1978/1998. Texto elaborado para apresentação no Simpósio BRASIL 500 ANOS – A Historiografia Brasileira em Debate. Oferecido nos dias 19 e 20 de maio de 1999, coordenado pela Profª. Dra Eni de Mesquita Samara (no prelo).

2 Constituído por ocasião do VIII Encontro Nacional (1992), o GT - População e História dinamizou a participação dos estudos de demografia história. De fato, das 86 comunicações oferecidas nos onze encontros nacionais, 42 (48,8%) foram apresentadas depois de sua constituição. O mesmo pode ser

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conjunto da produção brasileira dos estudos populacionais. De fato, ela é a responsável por 86 (10,2%) das 846 comunicações oferecidas nos Anais e por 18 (13,0%) dos 138 artigos publicados na revista supracitada. Tais comunicações/artigos constituem-se num amplo universo de análise que propiciam ao interessado em demografia histórica, uma amostra considerável sobre dados relativos das instituições envolvidas, das épocas estudadas, dos locais destes mesmos estudos, dos temas tratados, dos tipos de população e das fontes utilizadas de maneira a constituírem-se em referências para o desenvolvimento de novos estudos. Por outro lado, cumpre destacar que esse conjunto das informações traz

à tona a existência de uma polêmica instigante em torno da definição e dos

rumos da demografia histórica em nosso país. Deveria ela ser entendida em seu stricto sensu, buscar sua identidade associando-se à reconstituição das famílias, método microanalítico que dado às dimensões continentais brasileiras

e ao desconhecimento da dinâmica e estrutura da nossa população pretérita,

ser de generalização limitada? (Nadalin, 1997, p. 146). Ou ser ela apreendida em seu lacto sensu, no qual, sustentada pela interdisciplinaridade, busca identificar as causas e as conseqüências do estado e dos movimentos das populações, ao mesmo tempo em que explicita as inter-relações destes com outros elementos da vida em sociedade? (Motta & Costa, 1997, p. 152). Embora seja essa uma questão teórica ainda não solucionada, uma primeira aproximação permite identificar que, em sua maioria, os artigos/comunicações oferecidos pelos pesquisadores tendiam, num primeiro momento, a secundar uma definição mais restrita de demografia histórica. Não obstante, restritos ou não, a análise da nupcialidade e da fecundidade (vista em 15 ou 14,4% dos trabalhos publicados), o tratamento de dados demográficos (13 ou 12,5%), da mortalidade e morbidade (8 ou 7,7%), da acumulação da riqueza (7 ou 6,7%), da força de trabalho (6 ou 5,8%), do sistema de transmissão de herança (2 ou 1,9%), entre outros trabalhos, constituíram-se em referenciais que ofereciam e continuam a oferecer expressiva contribuição

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ao conhecimento do passado da população do sul e do sudeste brasileiro 3 . Outros seriam os caminhos que, complementares, implicariam numa ênfase na interdisciplinaridade e estes passariam pela família apresentada em 15 artigos/comunicações ou 14,4% do total da amostra, com ênfase em um dos seus segmentos específicos, a constituição da família escrava. Quer seja associada ao tráfico de escravos, quer seja à aquisição de cativos enquanto processo de acumulação econômica, ou ainda à composição de plantéis na economia exportadora e/ou de subsistência, a família escrava emergiria daqui como uma instituição estável, contradizendo estereótipos de promiscuidade e anomias sociais. Um balanço dessa produção ao mesmo tempo em que impõe uma revisão do escravismo em nosso país, resultaria numa das mais significativas contribuições da demografia histórica à historiografia brasileira (Motta, 1988; Samara, 1988; Tupy, 2000). Uma outra ainda de suas contribuições imediatas implicaria na superação de um modelo tradicional de estudo da história em nosso país. Ao transformar a análise das populações e de seus segmentos específicos em seu objeto científico precípuo, a demografia histórica inviabilizaria a adoção de marcos temporais que vinham sendo costumeiramente determinados pelo sistema político. Sua referência principal é 1872, isto é, o momento da realização do primeiro recenseamento geral da população brasileira; suas pesquisas determinadas pela existência de fontes seriais que, numa fase proto- estatística, constituir-se-iam fundamentalmente nas listas nominativas dos habitantes, nos registros paroquiais de batismos, casamentos e óbitos, de inventários/testamentos, nos documentos inquisitoriais e processos crimes etc. Revisitados, os relatos de viajantes também seriam utilizados na apreensão do cotidiano da população (Slenes, 1988). Daqui emergiram os dados minuciosos que permitiram num primeiro

histórica. Este último, coordenado pela Profª. Dra. Maria Silvia B. Bazzanezi promoveu um balanço da produção e um debate historiográfico sobre os rumos da demografia histórica em nosso país. 3 Dos 104 artigos/comunicações pesquisados 68 ou 65,3% adotam os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Bahia e Rio Grande do Sul como referência geográfica. Sobre o conjunto da população brasileira encontramos 10 ou 9,6% do total. Outros 10 ou 9,6% do total tratam ao mesmo tempo de vários Estados. Os resultados obtidos confirmam a concentração dos pesquisadores em centros de pesquisa de demografia histórica em Estados como São Paulo (39 ou 37,5% do total dos pesquisadores), Paraná (com 18 ou 17,3%), Rio de Janeiro (14 ou 13,5%), Minas Gerais (com 9 ou 8,6%). Estes dados configuram 76,9% da amostra.

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momento a realização de análises sobre as taxas de nupcialidade, fertilidade e mortalidade, fatores que interligados à evolução sócio-econômica foram examinados dentro de um contexto global – a família - o que envolvia o estudo simultâneo dos dois sexos. Estes, por sua vez, possibilitaram uma primeira aproximação da condição das mulheres, buscada nas taxas diferenciais de nascimento, casamento e morte. Seus índices de participação aliados às variáveis econômicas e culturais mais bem explicitariam o papel destinado às mulheres numa sociedade de marcados valores patriarcais.

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Não obstante referências expressivas poderem ser encontradas nos temas relativos ao tratamento de dados demográficos, à nupcialidade e à fecundidade, à transmissão da herança, dentre outros, foram os relacionados à família e os balanços historiográficos que mais diretamente contribuíram para a identificação da condição feminina no Brasil. Senão, vejamos alguns exemplos, de caso a caso. Os artigos/comunicações relativos ao tratamento de dados demográficos explicitam, em sua maioria de forma didática, métodos e técnicas de pesquisa, bem como a seleção e o trabalho com as fontes, o que permite fundamentar o trabalho do demógrafo historiador. Dentre eles, destacam-se os que explicitam as técnicas de reconstituição das famílias, os que oferecem sugestões metodológicas quanto à realização de estudos comparados sobre fecundidade, à reconstituição de genealogias e ao compadrio. Como seu objetivo precípuo é a realização de análises da população global ou de segmentos específicos dela, nenhum deles, é evidente, trata especificadamente da questão da condição feminina. A incorporação da categoria gênero aos estudos demográficos aqui analisados ainda se faz de modo tímido. Os que se referem à nupcialidade, à fecundidade e à mortalidade, por sua vez, realizam também análises globais que apontam, por exemplo, como a ausência de fundamental equilíbrio entre os sexos pode induzir a significativas mudanças no mercado do casamento. A família torna-se, portanto, o locus privilegiado para a realização destes estudos: sua composição reflete a

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dinâmica populacional, traduzida pelos índices de casamento, celibato, viuvez. Dada a extrema mobilidade populacional brasileira, tais mudanças puderam ser mais bem observadas quando ocorreram em segmentos específicos da população – os escravos e os libertos, e os imigrantes. Não é por acaso que, no âmbito familiar ou não, os primeiros foram analisados em 25 (ou 25%) dos trabalhos e os segundos em 14 ou 13,5% dos mesmos. Em sua maioria, os estudos realizados sobre a família escrava 4 no sudeste brasileiro partiram da reconstituição da estrutura demográfica da população escrava em plantéis de pequeno, médio e grande porte, correlacionando-a à estrutura econômica e ao momento histórico (antes ou depois do fim do tráfico africano), em que os mesmos estavam inseridos. Os dados gerais observados, notadamente para antes de 1850, corroboram a tese tradicional da historiografia sobre as altas razões de masculinidade nos plantéis e reafirmam que a estratégia de reposição da mão-de-obra escrava era realizada, preferencialmente, pelo tráfico negreiro. Não obstante, os índices de uniões, consensuais ou não, os padrões de legitimidade da prole, a existência de famílias extensas que, incluindo algumas gerações, foram encontradas na comunidade cativa, começaram por afastar a hipótese de promiscuidade generalizada na senzala 5 . Assim, foram, entre outros, os dados quantitativos sobre a razão de masculinidade, as diferenças étnicas ou etárias, a distribuição de cativos segundo o tamanho dos plantéis, os índices de casamentos, a legitimidade e o tamanho da prole, associados ao estudo dos mecanismos legais que intermediaram as conflituosas relações sociais que então se estabeleceram, que permitiram comprovar a existência da família escrava, transformando-a

4 Como já foi afirmado, o estudo da família escrava constitui-se num dos campos mais fecundos da demografia histórica no Brasil. Não pretendemos realizar aqui um levantamento bibliográfico sobre esta questão. Trata-se, apenas, de levantar hipóteses sobre as possibilidades de estudo da condição feminina em condições de extrema violência e cerceamento de liberdade. Por outro lado, a importância da contribuição dos estudos demográficos sobre a família cativa para a historiografia brasileira pode ser observada em MOTTA, José Flávio. Família Escrava: uma incursão à historiografia. História: Questões e Debates. Curitiba, 9(16): 104-59, jun. 1988.

5 As conclusões aqui apresentadas sobre a constituição da família escrava no Brasil baseiam-se, fundamentalmente, nos artigos/comunicações apresentados por SLENES(1984, 1986, 1988) e FLORENTINO & GÓES(1994, 1995). Do primeiro enfatizamos a negação da anomia e promiscuidade, bem como os índices de casamento em plantéis de grande porte e a identificação de famílias extensas que abarcam várias gerações. Dos segundos, extraímos conclusões que correlacionam o tráfico negreiro com a

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num espaço autonômico, isto é, num possível espaço de liberdade dentro deste sistema coercitivo. Este espaço teria se traduzido no desenvolvimento de estratégias próprias em relação ao casamento, notadamente no que se refere à escolha do companheiro(a), em função de sua origem (negros ou mestiços, africanos ou crioulos) e condição social (forros ou libertos etc), obedecendo a razões culturais que lhes seriam próprias. Em todos estes estudos chama a atenção do pesquisador a aparente contradição entre a família escrava ser considerada um espaço de liberdade e os parâmetros de escolha do companheiro(a). De fato, o que se comprova é que numa situação coercitiva em que os altos índices de masculinidade poderiam aparentemente ter favorecido as escolhas femininas, a socialização entre cativos e cativas realiza-se privilegiando as escolhas masculinas. A transposição de práticas culturais africanas e o escravismo seriam responsabilizados pela dupla submissão das mulheres: num primeiro momento, presas sexuais de seus senhores e feitores e, em seguida, presas a padrões de comportamento (diferente das demais mulheres, as escravas seriam mais valorizadas pela sua capacidade reprodutora comprovada no momento do casamento) que, por prestigiar os idosos, as encaminhavam para a realização de uniões com parceiros bem mais velhos. Em resumo, o direito à escolha era do sexo masculino. Outras características que se destacam entre os cativos referem-se as uniões monogâmicas e, tendo estas se realizado, a preferência da compra da liberdade para as mulheres. Os estudos comprovam que, em sua maioria, os africanos casavam-se com as africanas, os pardos com as pardas, os libertos com as libertas, indicando que mais do que uma monogamia ética encontra-se aqui uma monogamia determinada pela condição jurídica. Por outro lado, observa-se também uma tendência maior de compra de cartas de alforria entre as escravas. Isto se deveria não só ao seu preço ser proporcionalmente menor do que o do cativo e as maiores possibilidades femininas de amealhar mais recursos do que os escravos (com a prostituição, por exemplo). Nas uniões entre cativos, dado ao princípio legal que o status jurídico da mãe determinaria

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a condição de seu filho (a mulher escrava como reprodutora dos laços da escravidão), teria determinado um esforço conjunto do casal para a obtenção da liberdade de seus futuros filhos. Nesse contexto, o momento da abolição da escravidão reafirma os laços de parentesco entre os cativos, o que poderia ser comprovado pelo aumento significativo no número de casamentos legais realizados nos anos que se seguem. Acompanhar, porém, a trajetória da família negra, ex-escrava, em

nosso país tem sido um desafio para os demógrafos historiadores. Empurradas para a periferia do sistema econômico, mal identificadas nos registros oficiais de casamento, nascimento e morte, mal caracterizadas nos recenseamentos gerais de população, têm sido objeto de poucos estudos. Dentre estes, destacam-se os que procuram associar dados demográficos aos testemunhos oferecidos pela história oral. Assim a reconstituição da família negra passa, necessariamente, pelos depoimentos, pelas entrevistas/recordações dos indivíduos que a constituem. Sem negar o valor intrínseco deste método de pesquisa, seus próprios pesquisadores dão conta, no entanto, da sua extrema dificuldade e dos poucos resultados até agora obtidos (Rios,1994).

A reconstituição da família imigrante constitui-se, também, em

expressiva contribuição da demografia histórica aos estudos da condição feminina no Brasil. De fato, a associação de temas como imigração, regime de trabalho, atividade econômica e padrão de casamento pode ser, direta ou indiretamente, observada em 16 ou 15,4% dos artigos/comunicações que compõem o universo deste trabalho. Destes pode-se inferir, em primeiro lugar, que ao privilegiar o trabalho familiar e estimular a imigração de famílias, a

política de atração e fixação de estrangeiros em nosso país contribuiu para diminuir discrepâncias entre os sexos no mercado de casamento e ainda para tornar a homogamia a sua prática dominante 6 .

Da transposição de suas práticas culturais européias observa-se entre

6 O estudo da família imigrante através dos artigos/comunicações da ABEP passa necessariamente pela sua associação com o colonato, regime de trabalho na economia cafeeira, característico da substituição da mão-de-obra escrava. Sobre este aspecto ver BASSANEZI(1984, 1988, 1990, 1992, 1994). Por outro lado, inicia-se, nesta última década, a realização de estudos comparativos sobre padrões demográficos entre imigrantes que se fixaram no Brasil e no Chile (BIDEAU & NADALIN, 1992) e sobre a correlação entre a imigração e padrões demográficos entre os italianos que se fixaram entre nós e os que permaneceram na pátria de origem (REGINATO, 1998; VANGELISTA, 1998).

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eles, por exemplo, a reduzida proporção de filhos ilegítimos, a sazonalidade da escolha da data da realização do matrimônio (calendário litúrgico e agrícola). Da adaptação à nova realidade deriva afirmativas sobre a precocidade da idade ao casar e que as relações familiares e a solidariedade grupal tiveram papel fundamental nas escolhas matrimoniais homogâmicas (origem, local de residência, ocupação, grupo de idade e instrução). De acordo com padrões demográficos internacionais, os viúvos mais do que as viúvas tenderiam ao recasamento. Estas últimas, quando o faziam, encontravam-se em idade reprodutiva. Dentre os estudos que correlacionam a imigração com o regime do colonato e a substituição da mão-de-obra escrava na economia cafeeira paulista, observa-se entre os imigrantes, na realização de atividades produtivas, a prática de uma divisão sexual do trabalho que conferia às mulheres os papéis tradicionais de filhas, esposas e mães, cabendo a elas a realização de tarefas domésticas, o cuidado e educação dos filhos, o cuidar das práticas de subsistência (horta, lenha, criação de pequenos animais) e, ainda, o cuidar do marido e ajudá-lo no seu trabalho. Neste contexto de regime de trabalho de base familiar parece natural o baixo índice de celibato feminino (Bassanezi, 1988). Se estudos sobre a imigração de povos de origem latina e católica, entre eles os italianos e espanhóis, como vimos acima, confirmam a posição subalterna feminina na instituição do casamento, os trabalhos sobre a imigração de povos de origem eslava e ortodoxa reafirmam que também aqui os limites do papel das mulheres estavam determinados por uma ordem social hierárquica e patriarcalista. A divisão sexual do trabalho valoriza o casamento e a formação da família como unidade produtiva, o que justificaria que a escolha do parceiro(a) recebesse enorme ingerência dos pais, bem como do pároco da localidade. A moradia conjunta que acolhia os recém-casados levanta como hipótese que as mães teriam mais interesse na escolha de uma boa nora dentro do seu quadro de referências e o pai na seleção do genro para garantir um bom trabalhador (Andreazza, 1998). Ainda que de forma tímida, até mesmo porque o eixo da problemática nelas levantadas passa apenas circunstancialmente pelas mulheres, as

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pesquisas acima relacionadas, possibilitam, no entanto, uma primeira aproximação do estudo da condição feminina ou de seu status com relação ao trabalho, à família e à sociedade. Aqui a aliança de variáveis demográficas, econômicas e culturais explicita e confirma o papel destinado às mulheres numa sociedade de marcados valores patriarcais. Quer seja como escravas, quer seja como libertas, quer seja como imigrantes, a elas estavam destinadas as funções de esposas e mães. As atividades econômicas que exerceram reduziam-se ao universo do privado. Os estudos demográficos que melhor recuperam sua efetiva participação serão, principalmente, aqueles que, adotando a perspectiva de gênero, tratam da análise da composição do domicílio e identificam não só sua condição dentro dele, como as atividades que as mulheres realizam para garantir a sobrevivência de suas famílias.

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Um primeiro resultado da realização de um balanço da produção demográfica sobre a constituição da família indica que a apreensão da real condição feminina depende de seus números, de sua raça, de sua classe social e/ou de seu estatuto jurídico. Brancas, negras ou mestiças; livres, forras ou escravas; ricas ou despossuídas, estes seriam alguns dos fatores que intermediam sua participação. De fato, as uniões legais, a filiação legítima, a ausência de atividade econômica remunerada constituem-se, entre outros, em elementos que mascaram a realidade dos índices de uniões consensuais, da ilegitimidade, da participação no mercado de trabalho informal, da chefia dos domicílios entre as mulheres. Devem aqui ser buscados os números que revelam suas estratégias de sobrevivência, uma realidade que não corresponde ao discurso dominante de exclusão das mulheres. Adotando-se esta perspectiva fica evidente a contribuição que a demografia histórica pode oferecer aos estudos sobre a condição feminina no Brasil. De fato, entre os trabalhos precursores desta nova visão da mulher(es) brasileira(s) destacam-se as que recuperam, ao longo do século XIX, suas estratégias de sobrevivência desenvolvidas a partir de atividades econômicas realizadas no mercado informal e o poder exercido pelas mulheres em modelos

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familiares de padrões distintos da estrutura patriarcal. Assim o fazendo deram origem a toda uma extensa linha de pesquisa voltada para a apreensão da imensa gama de papéis por elas desempenhados. O conjunto desta produção extensa e pluralista torna evidentes as diferenças de comportamentos e estratégias entre as mulheres brasileiras, adotadas em função de sua classe, raça, estatuto jurídico ou, até mesmo, do período em estudo (Dias, 1984; Samara, 1989, 1994). Neste contexto, a incorporação da categoria gênero à demografia histórica, tornou aquela uma premissa fundamental dessa nova linha de pesquisa – o estudo das semelhanças e diferenças no inter-relacionamento entre homens e mulheres. E fez-se indispensável para a recuperação da condição feminina, pois dados quantitativos que emergem da análise de fontes seriais, dos levantamentos populacionais podem e devem ser entendidos como expressão direta das dinâmicas que percorrem o universo do social nas sociedades em observação (Silberstein, Norambuena Carrasco & Guenaga, 1997). A busca de variáveis demográficas aliadas ao enfoque de gênero permitiria, portanto, a identificação e a distinção de fatores fisiológicos e culturais que, num primeiro momento, expressariam as semelhanças e as diferenças referidas acima. Se o conjunto dos artigos/comunicações aqui analisados ainda indica que em sua maioria os estudos relativos à condição feminina trilham o caminho da história da família (livre ou escrava), isto não invalidaria, como vimos, os resultados que oferecem aos interessados nesta questão. Nota-se, porém, que este não é o percurso de algumas das contribuições, extremamente significativas, oferecidas nos dois últimos encontros nacionais da ABEP. Quer seja como chefes de domicílio ou abordando a natureza do trabalho feminino e/ou suas estratégias específicas de sobrevivência, estas comunicações são exemplos de análises que permitem o repensar da história das mulheres. Estas aqui não mais seriam observadas como submetidas à ordem patriarcal, como fazendo ou não parte do universo masculino, mas reafirmando sua presença como mulheres aparecem envolvidas nas atividades necessárias à reprodução cotidiana. De fato, ao tratar da correlação da formação de famílias monoparentais

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com a chefia do domicílio, Dora Isabel P. da Costa inicia seu trabalho promovendo um rico balanço historiográfico sobre a utilização do conceito de família e domicílio, demonstrando que, intercambiáveis, tais conceitos exprimiram, historicamente, um moralismo autoritário quando tendiam a identificar como anômicas as formas mais simplificadas de família. Questionando a utilização ideológica de um procedimento que privilegia a noção de família patriarcal numa sociedade multifacetada, a autora endossa a tese que busca na chefia feminina do domicílio uma melhor compreensão da complexidade do caso brasileiro. Conclusões provenientes de estudos de caso sobre o sudeste permitem, de início, a realização de uma análise comparativa 7 que enfatiza diferentes alternativas de constituição de famílias chefiadas por mulheres. Dentre estas, destacam-se as que, para explicar os altos percentuais encontrados de mulheres chefiando domicílios levantaram algumas hipóteses que seriam cotejadas pela autora ao tratar o caso específico de Campinas, de 1829. Tais hipóteses levantam a probabilidade da emigração em busca de trabalho e a baixa freqüência de casamentos terem se constituído nos dois principais fatores explicativos para a existência de domicílios matrifocais. Ou ainda que no processo de transição à economia de mercado, a migração masculina em busca de emprego e as uniões consensuais propiciaram a organização de domicílios em torno do “modo de produção do tipo doméstico” no contexto rural (Costa, 1988, p. 1148-49). Outros fatores diferenciais indicariam ainda que a freqüência das mulheres chefes de domicílio aumentava à medida que se descia na hierarquia racial e ocupacional, pois a metade dos domicílios chefiados por negros eram, de fato, chefiados por mulheres negras, sendo que em dois terços deles não foi possível comprovar a existência de ocupações definidas. Se comparadas ao total das mulheres negras, poucas mulatas e, menos ainda, as brancas teriam chefiado domicílios, o que sugere que este comportamento decorreria do rompimento das relações consensuais em busca de trabalho e da posse da

7 Os parâmetros para a realização desta análise comparativa foram buscados pela autora, principalmente, nos trabalhos de Elizabeth Kuznesof, Maria Odila Silva Dias e Eni de Mesquita Samara para São Paulo; nos de Donald Ramos para Minas Gerais; e nos de J. Stewart e A. Dias para a Bahia. Todos tratam da

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terra (Costa, 1988, p. 1150). Ou ainda, que a pobreza seria o grande referencial para a constituição dos domicílios chefiados por mulheres. Citando Donald Ramos, a autora recupera os resultados de uma análise da composição dos domicílios chefiados por mulheres solteiras, e levanta algumas significativas diferenças, se comparados com os chefiados pelas casadas. Os primeiros eram menores, compostos por uma maioria de agregados do sexo feminino, com tendência a sustentar maior proporção de dependentes improdutivos e onde o nascimento dos filhos era postergado. De fato, as crianças teriam aqui permanecido mais tempo quer seja pela necessidade de contribuírem o maior tempo possível como membros produtivos da família, quer seja pela dificuldade de obtenção de recursos

necessários para constituírem um domicílio próprio (o oferecimento do dote, por exemplo).

A especificidade do caso campineiro 8 , por sua vez, pode ser mais bem

apreendida quando a autora caracteriza a estrutura social, econômica e ocupacional dos domicílios que se constituíram nos princípios do século XIX.

Aqui, entre outros, o status matrimonial – domicílios de famílias parentais (casadas) e monoparentais (solteiras) - indica que uma semelhança quanto à presença de agregados na composição dos fogos ainda na fase inicial do ciclo de constituição da família. Significativa diferença aparece quando as viúvas assumem a chefia do domicílio, compensando sua ausência com a maior presença de filhos no lar (Costa, 1988, 1169). Brancas, casadas ou viúvas, eram as maiores proprietárias de escravos, traduzindo a importância dos casamentos e da prática do dote para a economia doméstica.

A segmentação da chefia de domicílios por setores econômicos indica,

por sua vez, que, em Campinas, apesar das mulheres não terem migrado em direção às áreas urbanas, as solteiras e as casadas concentraram suas atividades econômicas no setor secundário, o qual lhes permitia maior facilidade de adaptação. Eram, em sua maioria, costureiras ou “viviam de suas

primeira metade do século XIX. Estudos para Minas Gerais e os de Kuznesof partem do final do dezessete. 8 Os dados quantitativos que configuram a análise da chefia feminina de domicílio em Campinas indicam que em 1829, o número de fogos existentes era de 939; a população livre de 4.220 e a escrava de 4.323; o número proporcional de mulheres que passou a chefiar domicílios chegou a quase ¼, associado a um recuo relativo da presença de casais que chefiavam domicílios, 65,1% (Ver Costa, 1998, p. 1153 e 1155).

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agências e de seus negócios” (sic). Outra referência significativa aparece quando se observa o grupo das viúvas: estas concentram suas atividades no setor terciário, o que poderia indicar que puderam acumular, em determinado estágio do ciclo familiar, um pecúlio suficiente para exercerem atividades menos desgastantes e de relativa lucratividade (sic). Uma das mais significativas contribuições da autora refere-se a presença da prole nos domicílios chefiados por mulheres. As condições econômicas teriam sido agentes determinantes da permanência e/ou exclusão de seus filhos e filhas. Desta correlação pode inferir que, no núcleo urbano de Campinas de 1829, onde se observa a concentração da presença da prole feminina, as mulheres puderam desenvolver atividades do setor secundário. No núcleo rural, por sua vez, a concentração da prole masculina indicaria que, para exercer atividades de tecelãs, fiandeiras e costureiras, as mulheres necessitavam da mão-de-obra masculina para as atividades de subsistência (Costa, 1988, p. 1173). Por outro lado, a análise das características demográficas das famílias dos imigrantes piemonteses permite a Chiara Vangelista, realizar uma análise da estrutura das famílias, dando ênfase particularmente a característica sexo tem como fonte principal de estudo as listas de embarque em três navios de passageiros para o Estado do Espírito Santo, entre 1894-1895 9 . Baseando-se no exame das relações de gênero e parentesco, a autora propõe hipóteses sobre algumas estratégias migratórias, surgidas de sua participação em dois tipos de unidades produtivas – a colônia e a fazenda. Participantes em ambas, os italianos teriam sido mais estudados no primeiro contexto, em razão dos aportes culturais, sociais, demográficos e tecnológicos que trouxeram. Daí emerge a família italiana, onde a mulher imigrante destaca-se pelas suas funções primárias de mãe e esposa e como responsável pela coesão familiar que fortalece a coesão das relações de parentesco. Num contexto definido também pelo imaginário social, recuperar a figura da mulher imigrante como “produtora silenciosa de filhos e de riquezas” (sic)

9 A autora indica que este artigo apresenta resultados parciais de uma extensa pesquisa conjunta, em andamento sobre a imigração italiana no Espírito Santo. Os dados parciais aqui apresentados surgem de trabalhos apresentados por Aurélia H. Castiglioni (Universidade do Espírito Santo) e Mauro Reginato (Universidade de Turim, Itália).

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exigiria, sem desmerecer os indícios fornecidos pelos dados quantitativos, o recurso aos dados provenientes da história oral:

as lembranças dos descentes e os depoimentos autobiográficos são documentos talvez insubstituíveis para compor um quadro dos papéis sexuais na imigração e na família imigrante e, principalmente para formular hipóteses em torno da auto-representação da

mesma” (Vangelista, 1998, p. 1337). Tratando de uma pesquisa em andamento, a amostra 10 selecionada para este trabalho, ainda que parcial, ao se fundamentar em segmentos, teria produzido resultados significativos quanto à identificação de unidades familiares (se nucleares ou com agregados, ou ainda, se grupos de famílias nucleares); à procedência das mesmas; e à profissão de seu chefe (agricultores). A predominância é das famílias nucleares: casais com filhos representam quase 60% do total das unidades familiares, e prevalecem as relações básicas esposa/marido e pais/filhos. Ressaltando alguns dados pertinentes às mulheres, podemos inferir a presença maciça da chefia masculina da família, sendo que apenas 8 indicam a presença de um chefe de família sem a esposa e 3 apresentam a mulher como chefe de família. Outros dados referem-se a constituição dos laços de parentesco. Estes indicam a presença que, apesar da pouca representatividade das famílias extensas no conjunto da amostra, pode-se encontrar aqui estratégias imigratórias que configuram a presença de grupos familiares da mesma localidade e de dois ou mais irmãos que imigraram com suas respectivas famílias. A autora sugere ainda que uma análise dos dados indica tratar-se de uma imigração que deixa seus antecedentes na pátria de origem, que o desequilíbrio entre os sexos foi gerada pela preponderância, entre os filhos, do sexo masculino (tendência a imigrar sem as filhas aparece como uma estratégia evidente), pois a mulher aparece aqui necessária muito mais como

10 A amostra foi composta pelos registros de passageiros de três navios e apresenta, para cada um deles, o nome e sobrenome, idade, relação de parentesco com o chefe da família, município e província de origem e, em alguns casos, a profissão e a religião do chefe da família. Os imigrantes piemonteses foram, no total, 467 pessoas, sendo que formavam 112 unidades familiares, com uma média de 4,2 pessoas para cada uma e com índice de masculinidade (122) superior àquele do total dos passageiros (107.8). Apenas um passageiro viajava sozinho (Vangelista, 1998, p. 1339-40).

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esposa do que como filha. Estas ficariam com parentes, ou trabalhando, ou com promessa de casamento. Aos filhos caberia dar continuidade ao núcleo familiar e manter os laços entre irmãos e cunhados emigrados. A presença da esposa sujeita às condições precárias da gestação de outros filhos e o número elevado de filhos pequenos reduzia as chances de inserção dessas famílias nos núcleos das colônias. Assim elas teriam se dirigido ao trabalho nas fazendas de café ou nos serviços das cidades (Vangelista, 1988, p. 1354-5). Outra comunicação oferecida por Eni Samara e Eliane Lopes, também fornece subsídios para a história das mulheres, correlacionando, desta vez, o exercício de uma atividade ocupacional tradicionalmente feminina – o meretrício - com a formação do domicílio e a constituição de suas respectivas famílias. A reconstrução da presença das meretrizes na sociedade oitocentista

passaria aqui pela análise do Arrolamento da População de Fortaleza que,

realizado em 1887, não apenas oferece dados quantitativos relativos à estrutura da população, bem como, relacionando-a ou não à atividade econômica, destaca a sua presença. Dos dados oferecidos infere-se a preponderância feminina em uma população jovem, onde o total dos solteiros suplanta o número de casados e viúvos (ênfase nos concubinatos e ligações transitórias). Não é de se estranhar aqui os altos índices de chefia de domicílio feminina (29,8%, sendo que destas, 64,4% eram solteiras). Se poucas são as mulheres que eram reconhecidas oficialmente como meretrizes (2,2% do total da população), estas, em sua maioria, não aparecem como exercendo uma ocupação. Os dados obtidos sobre elas estão presentes como uma observação, adendo que não obstante, permite recuperar, entre outras, informações sobre sua posição como chefes de domicílio (52,2%) nas residências onde se faziam presentes ou ainda como filhas, agregadas, amásias, irmãs e esposas. Poucas, dentre elas, exerciam outra atividade econômica, mas aproximadamente ¼ delas tinha prole na esmagadora maioria ilegítima. Eram quase todas (88,9%) analfabetas e estavam concentradas nas faixas etárias dos 20 (32,6%) e 30 (20,3%) anos. Poucas tinham uma outra atividade rentável: apareciam como lavadeiras, costureiras, desempenhando serviços domésticos, isto é, realizando atividades tradicionalmente reservadas

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às mulheres (Samara & Lopes, 1988). O caráter informativo de uma pesquisa em andamento, trazendo à tona um levantamento quantitativo de um segmento específico da população feminina, não impede que forneça alguns indícios sobre uma das mais camufladas atividades femininas. Tratada circunstancialmente, até bem pouco tempo, pela historiografia, um estudo da prostituição das mulheres, sustentado pela correlação da demografia com aspectos sociais e antropológicos, deverá sob a perspectiva de gênero, contribuir para a elucidação de estratégias femininas de sobrevivência.

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Considerando que a maioria dos estudos demográficos realizados sob a perspectiva de gênero aparece de forma tímida nas fontes utilizadas para a realização desta pesquisa, poucas são as conclusões que emergem deste trabalho. Estas são, no entanto, imprescindíveis quando correlacionadas ao estudo da condição feminina. Provisoriamente pode-se inferir, por exemplo, a relevância dos estudos sobre a família brasileira e, em especial, a família negra e imigrante. Do primeiro caso, emerge o abandono do entendimento de uma aparente situação de anomia social e a comprovação de sua existência fora dos parâmetros tradicionais. Este seria um passo fundamental para o avanço do questionamento e o abandono de um discurso ideológico patrocinado pelos agentes de sua subordinação. Formada ou não no âmbito das relações consensuais, traduzem estratégias cotidianas de sobrevivência e ampliaram as possibilidades de apreensão da formação da sociedade brasileira. Este parece ser também parte do caminho da questão da condição feminina em nosso país. Estudos demográficos sobre a família livre, mais do que caracterizar seus índices de nupcialidade, fecundidade e ilegitimidade, implicaram no reconhecimento da existência de famílias constituídas fora da norma pré-estabelecida. Estas também não mais seriam vistas como anômicas, mas traduziriam uma realidade marcada pela mobilidade populacional, onde as escolhas de parceiros dependeriam da condição social e

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econômica. Extensas ou nucleares, legais ou consensuais, entre outras, elas surgiriam apontando para uma extensa variedade de papéis assumidos pelos indivíduos que as constituíam. Neste contexto, a análise do domicílio permite a realização de um estudo sustentado pela categoria gênero, o que evidencia não apenas a importância das mulheres na chefia dos domicílios, bem como as estratégias que desenvolveram para a sua sobrevivência e a de suas famílias. Torna evidente que o papel de esposa e mãe que lhe havia sido tradicionalmente reservado, não mais dá conta de sua atuação. No cotidiano das relações sociais, elas emergem como pessoas ativas, contestadoras da norma, assumindo o necessário para o seu sustento e preservação. E, desta maneira, impedem serem caracterizadas através da utilização de um modelo de mulher submissa e inoperante (a mulher da elite) que até a bem pouco tempo definia a presença feminina na história de nosso país.

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