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Edmundo de Macedo Soares e Silva, Um Construtor - Depoimento

Edmundo de Macedo Soares e Silva, Um Construtor - Depoimento

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DEPOIMENTO AO CPDOC
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DEPOIMENTO AO CPDOC
LucÎa HÎppolíto
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Urganìzadoras
² APRESENTAÇÃO
S INTRODUÇÃO
T¹ UM ENGENHEIRO DE FARDA
33 REVOLUÇÃO E EXÍLIO
¹¹ A PREPARAÇÃO PROFISSIONAL
²3 A GESTAÇÃO DA GRANDE USINA
b² A AVENTURA DA GRANDE SIDERURGIA
111 MERGULHO NA VIDA POLÍTICA
T2S UM GENERAL EMPRESÁRIO
1A² RETORNO A VIDA POLiTICA
T13 l NDICE ONOMÁSTICO
1²1 LEGENDAS DE FOTOS
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S676
Silva, Edmundo de Macedo Soares e.
Um construtor do nosso tempo: depoimento ao CPDOC!
Edmundo de Macedo Soares e Silva; Lucia Hippolito e Ignez Cordeiro de
Farias (organizadoras) . - Rio de Janeiro: larte Impressos de Arte, 1998.
172 p.: iI.
1. Depoimentos. 2. Edmundo de Macedo Soares e Silva.
3. Siderurgia - Brasil . CSN. I. Hippolito, Lucia II. Farias, Ignez Cordeiro
de. III. Título.
CDU 92 SILVA, E.M.S.
COO 923.2
8· ¬A
Ì
dmundo de Macedo Soares e Silva foi um visionário, da estirpe de Mauá e Delmiro Gouveia,
capaz de vislumbrar um Brasil moderno e industrializado quando ainda nos mantínhamos
presos à economia agrária e comercial herdada dos tempos coloniais.
E Macedo Soares não apenas teve um sonho. Empenhou mente, coração e braços na materialização
desse sonho. Participou de todas as fases -planejamento, implantação e direção -da primeira
usina siderúrgica integrada na América Latina, uma herança que temos hoje a responsabilidade de
preservar e ampliar, como base indispensável do esforço de modernização do país e redução das
desigualdades sociais.
C Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio
Vargas resgatou a memória de uma das mais importantes sagas dessa época transformadora de nossa
história, com o depoimento de Macedo Soares, que foi um de seus mais ativos protagonista .
Clareza de propósito, frmeza de cal-áter e de vontade, dedicação patriótica e competência gerencial
vão se tornando evidentes nas respostas e esclarecimentos que Macedo Soares vai oferecendo às
perguntas das pesquisadoras da FGV e que, ao final, compõem um grandioso relato de sua vida e sua
obra.
A Companhia Siderúrgica Nacional, diretamente ou através da Fundação CSN, apóia iniciativas em
diversas áreas de interesse social, entre elas a de preservação da memória e do patrimônio cultural
do país.
Estamos convencidos de que Um construtor do nosso tempo merece ampla divulgação entre os estudio os
de nossa história empresarial e constitui exemplo perfeito de iniciativa merecedora do mais amplo
suporte público ou privado.
A Companhia Siderúrgica Nacional sente, por isso, imenso orgulho por sua participação neste projeto
editorial, revelador do passado que temos obrigação de não esquecer e de honrar. lum documento
que propicia ao leitor maior conhecimento sobre Edmundo de Macedo Soares e Silva, um hom m
que muito ajudou a construir o Brasil em que hoje vivemos e um símbolo maior dos milhares de
brasileiros que criaram a nossa siderurgia.
HE!¡AMI! b1E!!BRUCH
Presidente do Conselho de Administração
CSN

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L
ste livro baseia-se no depoimento concedido pelo general Edmundo de Macedo Soares e
Silva ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasi l ,
CPDOC, da Fundação Getulio Vargas entre novembro de 1 986 e agosto de 1 987. As 33
horas gravadas fazem parte do acervo da instituição e estavam à disposição de pesquisadores
interessados na história recente do paí s.
O CPDOC iniciou em 1 975 seu Programa de História Oral , cuj o acervo conta com depoimentos
de personalidades que se destacaram na vida pública nacional a partir do início da década de 20.
Daí seu empenho em realizar esta longa entrevista com Edmundo de Macedo Soares e Silva, que
está agora sendo colocada ao alcance do público graças ao apoio da Fundação CSN e da
Companhia Siderúrgica Nacional . Sua história de vida enriquece o acervo do CPDOC e permite
recuperar, tanto a história política do país, quanto a da siderurgia brasileira.
Ofcial do Exército, Edmundo de Macedo Soares e Silva engaj ou-se desde muito j ovem nos
movimentos revolucionários que marcaram a década de 20. Viveu a experiência da prisão junto
com vários de seus contemporâneos. O exílio na França, onde permaneceu por quase seis anos,
permitiu que se dedicasse aos estudos de engenharia metalúrgica, o que marcou toda sua atuação
posterior. Em 1 930, de volta ao Brasi l , retornou ao Exército, passando a servir em fábricas e
arsenai s. Integrou diversas e importantes comissões do governo federal , relacionadas com o
projeto siderúrgico brasileiro, e que resultaram no planejamento e construção da Usina de Volta
Redonda. Foi , pois, um dos principais artífices da criação da Companhia Siderúrgica Nacional , a
CSN. Ao lado dessas missões, dedicou-se ao ensino desde j ovem tenente, como instrutor de
engenharia da Escola Mi l itar. Engenheiro metalúrgico formado na França, lecionou em diversas
escolas tanto mi litares quanto civis. Ao longo de seu depoimento, Macedo Soares insiste em
afirmar que não foi político; entretanto sua participação no movimento tenentista, sua atuação
como ministro - nos governos Outra e Costa e Silva - e como governador do estado do Rio de
Janeiro de 1 947 a 1 95 1 enfatizam sua inserção na vida pública nacional . Mas é fato que ele estava
muito mais à vontade - e isto é facilmente perceptível na leitura do livro - quando discorria
sobre assuntos técnicos e sobre a aventura de criar, em plena guerra mundi al , uma empresa do
porte da siderúrgica de Volta Redonda. Seu relato adquiria tonalidades mais vibrantes quando
relembrava sua atuação como militar e metalúrgico lutando pela indústria siderúrgica no Brasil .
Temos plena consciência de que todo depoimento é uma versão, e que toda versão é um
ensinamento parcial e personalíssimo sobre situações e aconteci mentos, as pessoas e o mundo. Ao
narrar sua traj etória, o general deu não só a sua versão como participante de determinados
episódios mas ainda, como testemunha de uma época, permitiu esclarecer a história de uma
geração de brasileiros que viveu as grandes transformações do século XX.
A real ização da entrevista foi precedida de cuidadosa pesquisa, para que um exaustivo roteiro
pudesse ser elaborado. Partindo da infância, acompanhou sua socialização, a formação escolar e
9
profssional , dando especial ênfase à sua atuação como técnico e administrador. Homem
extremamente inteligente e preparado, Macedo Soares esteve sempre alegre, gentil e pronto a
esclarecer todas as dúvidas e problemas levantados.
Sem medo de errar, podemos afi rmar que o grande sucesso de sua vida profissional foi fruto de
uma importante fase da vida política e econômica do país, quando as Forças Armadas e o
presidente Getúbo Vargas não mediam esforços para desenvolver a indústria pesada,
especialmente a siderúrgica. Os problemas econômicos mundiais advindos com o
desencadeamento da Segunda Guerra Mundial aumentaram as preocupações brasileiras
promovendo o esforço para deslanchar esta indústri a. Edmundo de Macedo Soares e Silva, um
dos poucos brasileiros com formação de alto nível em metalurgia naquele momento, foi
convocado pelo governo federal e suas idéias aproveitadas da melhor maneira.
Macedo Soares, tendo sempre o apoio de Getúlio Vargas, dedicou-se com afinco e entusiasmo à
siderurgia, chegando ao posto de general de brigada sem j amais ter comandado uma tropa.
Engenheiro metalúrgico formado na França, seus créditos acadêmicos e profissionais o levaram
ao generalato sem que precisasse cumprir as exigências tradicionais das Forças Armadas; não
cursou a Esao, a Escola de Aperfeiçoamento de Ofciais, indispensável para o acesso à patente de
coronel ; tampouco a Eceme, Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, fundamental para
o acesso à patente de general .
O desafio de transformar em livro as 33 horas de entrevista foi estimulante. Tentamos transmitir
ao leitor a trajetória de Edmundo de Macedo Soares e Silva, seu empenho profissional , o sentido
de missão envolvido na aventura da grande siderurgia, guardando, ainda, a espontaneidade e o
sabor do depoimento oral , realizando uma reconstrução de sua vida, sem que ele próprio
pudesse participar do trabalho final . Falecido em 1 9 de agosto de 1 989, o general não pôde nos
socorrer nesta tarefa. Esperamos não estar traindo sua memória . . .
É
grande o número de pessoas cuja col aboração agradecemos, para que pudéssemos levar a
empreitada a bom termo e em tempo bastante curto. Certamente, a nenhuma delas podem ser
atribuídas eventuais incorreções e insuficiênci as, pelas quais assumimos total responsabi lidade.
D. Alcina Fonseca de Macedo Soares e Silva foi colaboradora incansável e insubstituível ;
completou informações, cedeu fotos de seu arquivo particular e nos transmitiu os sentimentos
profundos que acompanharam os 50 anos de convivência, companheirismo e cumplicidade entre
os dois.
Maria Ana Quagl i no, à epoca pesquisadora do CPDOC, participou da entrevista; Cl odomir
Ol i veira Gomes, técnico de som, foi responsável pela gravação do depoimento. Sérgio Lamarão,
pesquisador do CPDOC, fez a garimpagem preliminar na transcrição das entrevistas, agrupando
temas que vieram a constituir os primeiros capítulos deste l i vro. Lucia Lippi Ol iveira e Adelina
Novaes e Cruz realizaram criteriosa leitura crítica dos originais deste l i vro, apontando
insufciências, sugerindo aperfeiçoamentos, prestando, enfim, inestimável e fraternal
colaboração; Adelina encarregou-se ainda da identificação dos personagens e das legendas das
fotos. Osvaldo Barcel l os Cordeiro de Farias esquadrinhou todo o livro, fornecendo preciosa
1 0
ajuda, sobretudo no esclarecimento de detalhes mais técnicos. Cláudia Peçanha da Trindade L Luís Fernando
Mello da Silveira participaram da pesqujsa de fontes para a elaboração das notas e do ínruce onomástico. Regina
da Luz Moreira e Maria Helena França reviram os originais à procura de inevitáveis erros de digitação. Vera
Lúcia Lopes Rego deu tratamento digital aos documentos e fotos.
Na Fundação CSN, Vera Lúcia de Ol iveira Garcia e Alexandre Geraldine Clemente deram suporte aos pedidos
da equipe para a rápida conclusão do trabalho.
Por fi m, este livro não teria existido sem o empenho e o apoio da Fundação CSN e da própria CS que, nas
pessoas de Matheus Cotta de Carvalho Francisco Padilha, apostaram na idéia e no desafio d colocar a vida de
Edmundo de Macedo Soares e Si l va ao alcance do púbLco.
LUC!AÌ!llOIl!O
ÌGNIZ LOlD|!lO l| ÌAl!A·
Organizadoras
11

L
Vamos começar falando um pouco sobre sua famíli a.
Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, no dia 9 de junho de
1 90 1 . Meu pai era médico e se chamava Sebastião Edmundo
Mariano da Silva. Tinha uma fisionomia de estrangeiro, pois era
descendente distante de irlandeses; minha mãe se chamava
Elisa de Macedo Soares e Silva.
É
ramos cinco filhos ao todo:
dois rapazes e três moças. A mai s velha era a Maria Elisa, a
q. uem chamávamos de Maísa; depois vinha eu, logo em seguida
a Lígi a, o Hél i o - cinco anos mais novo que eu - e finalmente
a caçula, Icléia. A Maísa, que teve grande influência na minha
educação, viria a se casar com um al mi rante, o Carvalho Rego,
muito amigo do Ernâni do Amaral Peixoto.
Meus avós paternos moravam em São Paulo, e por isso tive
menos contato com eles. Meu avô tinha uma grande fazenda de
café em Sertãozinho e outra no estado do Rio - num distrito
de Barra Mansa que, coincidentemente, abrigari a mais tarde a
usina de Volta Redonda -, onde nasceu meu pai . Depois da
morte do meu avô, passei a ter mais contato com minha avó
Zazinha.
Seus avós tinham outros flhos, além do seu pai?
Mais cinco, todos homens. O mais chegado a nós era o tio Rosalvo, três anos mais
moço que papai ; fez carreira no Exército, na arma de engenhari a, chegando ao
generalato. Devo muito a el e. Além de i rmão do meu pai , era casado com uma
i rmã da minha mãe; eram dois irmãos casados com duas irmãs. Naturalmente, a
ligação acabou fcando maior.
Outro irmão de papai estudou engenhari a nos Estados Unidos, o que não era nada
comum na época. Depois que voltou para o Brasil foi convidado a participar da
construção de um túnel da Rede Mineira de Viação, entre Cruzeiro e Passa
Quatro. Durante a obra, houve uma explosão que causou a morte de operários e
engenheiros ; com isso, meu tio desistiu da engenhari a. Como a família possuía a tal
fazenda de café, que era muito grande, fcou por l á. Um terceiro tio tomava conta
da fazenda, juntamente com a minha avó, depois que o meu avô morreu.
Com quase 1 ano, em 1 de março de
1 902. ICo/eção particular Alcina
Fonseca de Macedo Soares e Silva)
Na pági na ao l ado: no colo da mãe,
Elisa, tendo ao lado a i rmã Maisa, em
14 de dezembro de 1 902. ICo/eção
particular Alcina Fonseca de Macedo
Soares e Silva)
1 5
�basiao Edmundo MarnlO da SIlva.
sd. (Co/�ço particular Alcino Fns�
d� Macfo Sr e Siv)
16
U M C
..
> _ _ R D
L a família de sua mãe, de onde era?
Daqui do Rio. Meu avô, Antônio Joaquim de Macedo Soares, e minha avó Teodora,
que era Azevedo de solteira, moravam numa chácara na rua Santa Al exandrina, no
Rio Comprido. Meu avô tinha uma cultura muito grande; foi lexicólogo,
magistrado e jurisconsulto, ministro do Supremo Tribunal Federal , autor do
primeiro dicionári o brasileiro da língua portuguesa. O casal teve oito fi lhas e três
flhos. Como havia estudado em seminário, deu às flhas nomes bíblicos, como
Débora, Judite, Elisa, Abigail . . . Já os meninos foram batizados com nomes dos
antepassados : Paulo Bueno de Macedo Soares, Jul i ão Rangel de Macedo Soares,
Henrique Duque Estrada de Macedo Soares.
Meu avô fal ava línguas européias - francês, inglês, alemão - e também l ínguas
africanas; olhava para um preto e dizi a: "Este é de tal nação." Isso porque sua
famí l i a possuiu muitos escravos. Embora fosse antiescravagista e republicano,
conviveu desde menino com escravos. Foi amigo de d. Pedro I I , mas era
republicano. D. Pedro I I , que era um homem superior, sabia disso, mas gostava
muito dele. Minha tia Cecí l i a, prima-i rmã de minha avó, chegou a ter 900 escravos
no Ri o. Eu mesmo, quando era bem pequeno, fui tratado por uma ex-escrava, uma
preta gorda chamada Alda, que tratou de mim como se fosse minha mãe, minha
mãe preta. Só cuidava de mi m, não fazia outra coisa.
Esse meu avô materno foi grão-mestre da Maçonari a; muito moço ainda, com uns
3 5 anos, atingiu o grau 3 3 , o grau máximo. Dizem que era muito bom orador. Foi
por seu intermédio que meu pai entrou e galgou degraus na Maçonaria; também
foi por seu intermédio que meu pai veio a conhecer minha mãe. Quando eles se
casaram, meu pai tinha um curso preparatório de medicina e já ganhava dinheiro
sufciente para sustentar a famíl i a.
uais são suas lembranças mais remotas?
Minhas primeiras recordações datam, creio, de quando morava na rua Haddock
Lobo, nO 2 5 , na Tijuca. A casa tinha um grande quintal , com vários cachorros . . .
Uma vez - eu tinha mais ou menos cinco anos - fui mordido por um cão e Rquei ,
durante muito tempo, com um medo enorme de cachorro. No j ardim da frente,
meu pai me ensinou a montar a cavalo.
Essa casa da rua Haddock Lobo era quase uma chácara?
Quase, era mesmo muito grande. Costumávamos até andar a cavalo ali . Meu pai i a
visitar seus doentes de febre amarel a, peste bubôni ca, varíola - o Rio era uma
cidade mui to doenti a, naquela época -, montado a cavalo, na verdade uma égua
chamada Mascarina. Eu o acompanhava montado num piquira, um cavalo pequeno,
de baixa estatura. Os doentes de varíola me causavam um choque tremendo. Meu
pai costumava dizer aos pacientes que não queriam se vacinar: "Vocês estão vendo?
Eu trago meu filho, porque ele está vacinado." E assi m, eles acabavam se vacinando.
U M E N
Usenhor passeava mui to com seu pai?
IRO DF FARDA
Ia freqüentemente com ele a um clube de tiro no Leme, junto ao que é hoj e o
forte, para vê-lo atirar. Meu pai era um grande atirador; ele e os companheiros
acertavam com um tiro um prato lançado no ar. Fundaram este clube não apenas
como um local de diversão, mas já pensando em preparar pessoas para o serviço
mi l itar, engrossando aquela campanha bonita promovida pelo poeta Ol avo Bilac em
prol do serviço mjutar obrigatório.
Dos amigos de seu pai, de quem o senhor se lembra?
Lembro bem do marechal Hermes da Fonseca, que meu pai conheceu na época do
Floriano Peixoto. Nessa ocasião, aliás, ele conheceu miita gente do Exército,
sobretudo oficiais de caval aria, porque papai gostava muito de montar. Ele não
tinha milita simpatia pela turma da Marinha; uma das poucas exceções era o
almirante Pecido, homem de elite, bem di ferente dos outros amigos del e. Mas
meu pai também tinha amigos civis, é claro. Lembro-me perfeitamente do Miguel
Per ira e do Fernandes Figueira, também mémcos, que iam miito lá em casa.
Qual era a situação financeira de seu pai?
Milito boa. Ganhava milito dinheiro, mas não economizou. Depois de sua morte,
mamãe encontrou um livro com uma lista de pessoas que deviam a ele. Era milita
gente, mas ninguém pagou, porque ela não tinha como provar que as dívidas
realmente existiam.
Meu pai morreu milito moço, com 39 anos; teve uma
miel ite transversa, uma doença da medula. Os
mémcos que o examinaram disseram que i ri am fazer
o diagnóstico e o prognóstico. Papai comentou,
amargo: "O diagnóstico já fi z: mielite transversa; e o
prognó tico, a cova." Eu, menino de sete anos, estava
presente à conversa. Pode imaginar uma coisa dessas?
Usenhor deve ter ficado mui to marcado pela morte de seu
pai, não é?
Muito! E mi nha avó Zazinha foi bastante responsável
por isso. Como eu era o flho homem mais velho, ela
me lembrava, a toda hora, que eu tinha uma grande
responsabi l idade pela frente, pois deveria tomar conta
da mi nha mãe . . . Suas palavras repercutiam
intensamente dentro de mim e me incutiam um
enorme senso de responsabilidade. Procurava sempre
segujr os passos de meu pai , tê-lo como gilia, como
exemplo.
E além da perda de papai , também fiquei longe da
minha mãe e dos meus irmãos. Fui levado por dois
Unlfof'nlz dn pm '909 (Colcç o
porculorAI no Í Ð5 CO J�MoccJ
5corrã 5|lvo}
17
U M C O N S T RU T O R D O N o sso T E M P O
amigos do meu pai , o Junqueira e o Denésio de Lima, para uma fazenda em São
Gonçalo do Sapucaí , no sul de Mi nas. Meu pai ia para lá nas férias com seu
material cirúrgico para operar aqueles papudos. Operava toda aquela gente
doente, de graça, natural mente; isto lhe deu grande notoriedade naquela parte de
Minas. Por conta disso, eu já estava habituado com a fazenda e fiquei por l á cerca
de um ano. Eu, que mal havia começado a aprender a ler no Ri o, fui ser
alfabetizado mesmo na escola da paróquia local . O professor usava uma palmatória
enorme, de maneira que progredi muito depressa. Aprendi a- se aritmética
cantando, a tabuada cantada: "Duas vezes três, seis; duas vezes quatro, oito." As
mais difíceis eram as tabuadas de sete e de nove.
Com a morte de seu pai, caiu o padrão de vida de sua família?
Sem dúvida. Mamãe ficou com muito pouco dinheiro. Ela recebia uma pequena
pensão, referente ao período em que papai , ainda estudante, foi profes or de
história natural e física na Escola Normal de Niterói , e de pedagogia, aqui no Ri o.
Minha mãe foi obrigada a vender a égua Mascarina, objetos, muitas armas fmas. A
quantia apurada lhe permitiu comprar dua casas : uma em Botafogo, na rua
Dezenove de Fevereiro, e a outra, pequena, em São Cristóvão. Eu, ainda menino, é
que cobrava o aluguel de cem mi l -réis. Tomava o bonde a burro, ia até lá
carregando a malinha de instrumentos de meu pai , recebia o di nheiro, dava o
recibo, punha os cem mil -réis na malinha, tomava o bonde de volta e entregava os
cem mi l -réis à minha mãe. Fui educado com grande senso de responsabilidade.
Recebemos ajuda do tio João Macedo, homem muito rico que morava em
Lausanne, na Suíça. Uma flha dele, Carm m, que era freira, fcou responsável pela
educação de Maísa e Lígi a, no Colégio Regina Coel i . Ti o Rosalvo também
contribuiu; durante un dois ano , pagou meus estudo , mas logo em seguida
ingressei no Colégio Mi l i tar, despesa com que mia mãe pôde arcar.
L como sua mãe administrava a casa? Vocês tinham empreBados?
Tínhamos apenas uma, o que era raro na época. Mamãe precisava de pelo menos
uma. Quando eu era bem pequeno, na rua Haddock Lobo, eram dez, 1 2 criados,
sei lá quantos. Eram muitos.
Sua ·mãe fcou viúva muito moça, com 37 anos. Ela nunca pensou em casar-se
novamente?
ão. Morreu idosa, em janeiro de 57, em decorrência de uma queda na qual
quebrou uma perna; ela morava com a Lígia aqui no Rio. Eu estava presidindo
Volta Redonda, nessa época; telefonaram-me para o escritório na usina e me
avisaram que mamãe estava muito mal . Terminei o que estava fazendo e vi m
correndo para o Rio, mas quando cheguei ela já tinha morrido.
Após a morte de seu pai, o senhor tomou conta de seu irmão Hélio?
Procurava educá-l o, mas ele reagia. Era boêmi o, o que nunca fui , gostava de um
U M E N GE N H R O D E F A R D A
bilharzinho, de uma cerveja. Ia para o botequim com os amigos, e eu ia atrás
buscá-lo. Mas sempre foi muito estudioso. Mais tarde fez concurso para a Escol a
Mi[jtar e passou muito bem, embora não tivesse estudado no Col égio Mi litar.
Foi por irluência de seu tio Rosalvo que o senhor e seu irmão escolheram a arma de
engenharia no Exérci to?
Realmente, el e teve muita influência; muita gente da famíl i a seguiu a carreira de
engenheiro. Tive um tio, irmão do meu avô, que foi engenheiro e chefe do
Observatório Astronômico do Rio; outros parentes também se tornaram
engenheiros , de sorte que isto certamente nos influenci ou.
Sua família era religiosa?
Meu avô materno estudou em seminário durante al guns anos, mas não chegou a
completar o curso; desistiu de ser padre porque encontrou minha avó. Por causa
russo, tinha amigos religiosos e até bispos. Minha mãe era a bra i l eira típica:
católica sem grandes conhecimentos e que também se dizia espírita. Lembro de ter
visto uma sessão de espiritismo l á em casa e, como eu era um menino muito
esperto, fiquei observando a mesa se mexer e descobri que era uma tia de minha
mãe, chamada Conceição Bueno de Azevedo Macedo, que movia o pé da mesa.
Usenhor recebeu formação religiosa em casa?
ão. Aprendi o catecismo no Colégio Rouanet , um colégio suíço na rua Haddock
Lobo; fi z minha primeira comunhão na igreja de São Francisco Xavier.
Quando sua família se mudou para Copacabana?
Em 1 9 1 0; eu tinha nove anos. Naquela época, ainda não era comum morar em
Copacabana. Lá não havia nada; a avenida Atlântica ainda não tinha sido construída.
Só havia a avenida Nossa Senhora de Copacabana, onde morávamos, que dava
fundos para a prai a. Nosso quintal era imenso; eu comia pitanga e caju na praia.
Em Copacabana era muito mais fresco que na Tijuca, e j á tinha bond el étrico.
Gostei da mudança: perto da prai a, com aquele quintal imenso. Só havia o forte de
Copacabana, ainda em construção. Como sempre gostei muito de caminhar, pude
assistir ao início das obras das primeiras casas na prai a.
esse ano de 1 91 0, ocorreu a célebre Revolta da Chibata na Marinha, contra a
aplicação de castigos corporais aos marinheiros. U senhor tomou conhecimento da
rebelião?
Fiquei muito impressionado com a Revolta da Chibata. a época, a Marinha era
muito rígida e adotava a pena de chibatadas, porque na Marinha inglesa era assi m,
e nós fomos formados pel os ingleses. | João Cândido resolveu, com os outros
marinheiros, acabar com isso; e começaram matando o capitão Neves, um capitão­
de-mar-e-guerra que comandava a esquadra. Por morar em Copacabana, pude

er,
da prai a, o encouraçado Minas Gerais manobrando para atirar, ameaçando a cidade,
Al uno d e Coleglo Mi l itar, em 26 de
deze "bro de 1 91 5. (Co/eção por'lrular
AlCIno Fonseca de Macedo Soares e
Silva)
19
U M C O N � T R U T O R D O N o � � o T E M P O
porque o forte de Copacabana ainda não dispunJla de artilharia para bombardear o
Minas Gerais.
Usenhor se i nteressava pelo que acontecia no mundo?
Eu tiMa um interesse particular por guerras. A primeira guerra que me
impressionou foi a dos bôeres, na
Á
frica do Sul, pela crueldade. Os bôeres eram
colonos de origem holandesa que lutaram contra os ingleses -Winston Churchill
participou deste conflito, como tenente. Depois aconteceu a guerra da Turqui a
contra a Itál i a, e em seguida vieram as guerras dos Bálcãs. RapaziMo, eu
acompaMava tudo aquilo, entusiasmado, lendo avidamente jornais e revistas.
Sempre fui um leitor infatigável , e os jornais brasileiros publ i cavam tudo.
Foi sua mãe quem decidiu que o senhor deveria estudar no Colégio Militar?
Era o preferido dela, e meu também. No Colégio Mi l i tar, alguns alunos tiMam
bolsa total ; outros, como eu, eram semicontribuintes, e os filhos de civis pagavam
tudo. Como meu pai tinha uma patente de ofcial da reserva, fui semkontribuinte,
pagando a metade.
Para entrar no Colégio Mi litar era preciso passar no concurso; por isso, eu me
preparei para as provas no Colégio Pitanga, da d. Maria Luísa Pitanga, uma grande
professora. Na verdade, quando entrei nesse preparatorio nem sabia ainda que ia
tentar entrar no Colégio Mi litar. O Colégio Pitanga fi cava mais ou menos a dois
qui lômetros da miMa casa, na rua Nossa SeMora de Copacabana; eu ia a pé, para
economizar os 400 ré i s do bonde.
Um di a, em fevereiro de 1 9 1 2 , miMa mãe me levou ao Colégio Mi l itar e deixou­
me lá. Eu, menino de dez anos, vestido com aquelas roupinhas qu se usavam
naquela época . . . TiMa tomado café cedo e, por volta de uma hora da tarde, já com
fome, fui chamado ao quadro negro. Quem me examinou em português foi um
professor chamado Ferreira da Rosa, um paul ista; em matemática foi o capitão
Herácuto Pais Ribeiro, amigo do tio Rosalvo. Ambos foram muito rigorosos
comigo, mas eu era estudioso; já estava convencido de que so seria alguma coisa na
vida se estudasse. Fui examinado também em rudimentos de historia natural .
Felizmente, saí-me bem em todas as matérias. No entanto, tive um problema para
entrar no Colégio Mi litar. Meu nome constava da lista nos jornais na relação dos
aprovados, mas não na dos matriculados, o que, na época, era automático. MiMa
mãe voltou comigo ao Colégio, e o argumento do secretário para não me
matricular foi o de que, como eu era muito novo, podia esperar um ano. MiMa
mãe retrucou que miMa prova tiMa sido muito boa. Então, el e mandou ver a
prova; viu, gostou e levou o ca o ao comandante, o coronel e professor Al exandre
Barreto. Quando voltou, disse: "Meus parabéns! O coronel resolveu matricular o
menino, mas el e vai ter de dormir na enfermaria, porque não há mais lugar."
aquela mesma noite, eu e mais 1 2 meninos fomos todos dormir na enfermari a.
Foi assim que entrei para o Colégio Militar, e como aluno interno. Fiquei l á de
1 9 1 2 a 19 1 7. Fi z o curso em seis anos.
U M E N GE N HE I R O O E F A R OA
Como era sua rotina de estudante?
C regime era muito duro. Acordávamos às seis horas e íamos para o banho fri o,
mas eu gostava.
À
s vezes, freqüentávamos a piscina, onde aprendemos a nadar.
Também tínhamos equitação; fazíamos volteio, quer dizer, montávamos no cavalo,
virávamos, ficávamos de costas, de frente, apeávamos, montávamos de novo, tudo
isso com o cavalo galopando. Tínhamos ainda aulas de esgri ma, não só de florete,
mas também de baioneta. De vez em quando nos machucávamo nessas aulas de
baioneta.
U ensino no Colégio Militar era rigoroso?
Muito! Era muito puxado. Eu estudava as matérias durante quatro horas por di a; à
noite lia l iteratura ou história. Costumava estudar sozinho; só me reunia com os
colegas para ensinar a eles. Os exames eram feitos em grupos de nove aluno
Primeiro eram corrigidas as provas escritas. Muitos tiravam zero e eram
reprovados; os demais prestavam exame. FeLzmente, sempre pude fazer o exame,
de forma que fui galgando os anos e terminei o curso. Os alunos podiam repetir
ano uma única vez; se não passassem na segunda tentativa, eram eli minados.
o aspecto acadêmico, propriamente, posso dizer que o ensino no Colégio era tão
bom, que saí de lá falando razoavelmente bem o francês e o inglAs. Naquela época,
a l í ngua universal era o francês; eu estudava em livros franceses, inclusive
matemática. Mas também havia l i vros em português, como o do meu professor de
álgebra, o coronel Liberato Bittencourt. Além do mais , o Colégio oferecia uma
disciplina que o Pedro II não ensinava: topografa; saíamos do colégio mais ou
menos agrimen ores, o qu viria a ser muito útil para mi m, porque me permitiu
ganhar dinheiro antes de ser engenheiro.
Usenhor se lembra de seus colegas?
Luís Carlos Prestes é um deles. Até hoje é meu amigo. I Ele foi meu
contemporâneo, embora três turmas na minha frente. Foi ótimo aluno e continua
um grande estudioso. Rapaz muito inteligente, embora um pouco ingênuo, coisa
que eu também sou, por isso eu nunca quis ser deputado nem senador.
Foi pena o Prestes ter aderido ao comunismo. Isso aconteceu depois da Coluna
Miguel Costa-Prestes, quando ele saiu da Bolívia e foi para a Argentina. Trabalhou
nas doca em Buenos Ai res, quando estava exi lado, e foi aí que aprendeu o
comunismo. Siqueira Campos e João Alberto, mais realistas, não quiseram saber do
comunismo, mas o Prestes fcou comunista para sempre. 2 Até hoje ele me diz que
o mundo vai ser marxista. Eu retruco: "Prestes, nem os russos são mais marxistas."
E el e: "Mas eu briguei com eles. "Também fui contemporâneo do Osvaldo
Cordeiro de Farias, do Delso Mendes da Fonseca e do Nélson de Melo, que tinham
mais ou menos a mesma idade que eu. 3
Luí Carlos Prestes dava aulas particulares, sobretudo de matemática, para ajudar a mãe.
Eu também fazia isso. Para ter o Lvros que não podia comprar, ensinava aos outros
1
Entrevista real i zada em 19 de
novembro de 1 986.
2
Antônio de Siqueira Campos ( 1 898-
1 930) foi um dos mais i mportantes
tenentes revolucionários; um dos
Dezoito do Forte (05.07. 1 922),
coma ndante de destacamento na
Coluna Prestes, faleceu em desastre
aéreo na baia do Prata, às vésperas da
Revolução de 30. João Al berto Uns de
Barros ( 1 897- 1 955) foi coma ndante de
destacamento na Col una Prestes e
revol ucionário de 30. I nterventor em
São Paul o ( 1 930-31 ), chefe de Policia
do Distrito Federal ( 1 932-33), deputado
em 1 934, presidente da Coordenação
de Mobilização Econômica ( 1 942-45).
Voltou à Chefia de Pol i ci a do Distrito
Federal em 1 945.
3 Osvaldo Cordeiro de Farias ( 1 901 -
1 9811 . coma ndou destacamento na
Coluna Prestes e participou da
Revolução de 30. Chefe de Policia de
São Paul o ( 1 93 1 -32), combateu a
Revolução de 32. I nterventor no Rio
Grande do Sul ( 1 938-43), coma ndante
da Arti l hari a Divisionária da F EB que
lutou na Itália; de volta ao Brasil
participou da deposição de Getúl i o
Vargas em 1 945. Fundador da Escola
Superior de Guerra ( 1 949-52),
governador de Pernambuco ( 1 955-58)
e chefe do EMFA ( 1 961) . Conspirador
ativo do movimento revol ucionári o de
64, foi mi nistro extraordi nári o para a
Coordenação dos Organismos Regionais
no governo Castelo Branco. Delso
Mendes da Fonseca ( 1 899-1 984),
te nente, revol uci o nário de 1 922 e
1 930, secretário de Obras do Distrito
Federal ( 1 931 -35). chefe da missão
mi l i tar brasileira na França ( 1 936-45),
signatário do man i festo dos generais
pela deposição de Getúlio em 1 945.
Nélson de Melo ( 1 899-1 989),
revol ucionári o de 1 924 e 1 930,
secretário de Segurança Públ i ca em
Pernambuco ( 1 931 -33), interventor no
Amazonas ( 1 933-35). che fe de Policia
do Distrito Federal ( 1 934-44), membro
da FE B, chefe da Casa Mi l i tar de
Juscel i no Kubi lschek ( 1 956-61 ) e da
delegação brasi l eira à Comissão Mista
Brasil-Estados Unidos ( 1 961 ). Foi
mi nistro da Guerra de João Goul art
( 1 962), contra quem conspirou em
1 964.
Edmundo (
8
') um dos oficiais-al unos
do Co l � gl o Mi l itar, 1 91 3/ 1 91 4.
(CPDOC/Arquivo Edmundo de Macedo
Soares)
22

U M C ON S T R U T OR 00 N o s s o T E M P O
alunos, e eles, então, me emprestavam os livros; alguns até me davam,
Além dos colega de colégio, sempre procurei as pessoas mais velhas para ouvir­
lhes as lições. Por exempl o, um amigo do meu pai , o Lima Coutinho, que foi
professor de música e diretor do Instituto de Música do Rio, me deu muitos
conselhos. Referia-se a muitos escritores e me convidava a l ê-l os. Isto não apenas
me proporcionou uma bagagem literári a, mas também um certo conhecimento de
fi losofi a; ] j os livros de Alexandre Herculano, os clássicos portugueses.
Minha geração foi marcada por Os sertões, de Euclides da Cunha. Hoje acusam o
l i vro de ser inexato em geologi a, mas é bom lembrar que naquela época não se
conhecia nada da geologia do Brasil . Independentemente do fator tempo, os
capítulos sobre a terra e o homem são formidávei s, mesmo naquela l inguagem
rebuscada do Euclides. Li também outros livros dele, como + margem da história.
Nessa época, eu tinha uns 1 6, 1 7 anos.
Havia discriminação racial no Colégio Militar?
De maneira alguma; o Exército recebia qualquer um. Eurico Outra, por exemplo,
era filho de uma lavadeira de Mato Grosso. El e se al istou como soldado e, como
tal , estudou; foi bom aluno e conseguiu matricular-se na Escola Mi l itar da praia
Vermelha. Foi assim que ele se formou. o Colégio Militar tive colegas judeu ,
como o Emílio Maurel J únior L seu primo- irmão, aliás excelentes alunos. J á a
Marinha não aceitava gente de cor, porque abrigava o pes oal nobre. O acesso era
bloqueado pelo alto preço do enxoval ; eu mesmo desisti , em grande medida por
causa disso. Não que preferisse a Marinha, mi nha mãe é que preferia, mas quando
chegou na hora de entrar, não havia dinheiro para comprar o enxoval . Os oficiais
do Exército consideravam um
absurdo a djscriminação que existia
na Marinha.
Usenhor foi primeiro aluno da turma
no ColégiO Militar . . .
Fui . Os primeiro alunos eram
chamados de oficiais-alunos. De
acordo com as notas, eram
promovidos a ofcial . Como fui o
aluno do primeiro ano com as
melhores notas, no segundo fui
capitão-aluno e, por isso, comandava
uma companhia. O Osvaldo Cordeiro
de Farias e o Justino Alve Bastos
foram meus tenentes. Lembro-me de
uma tirada muito engraçada do Alves
Basto . Certa vez, estávamos fazendo
exercícios na rua Haddock Lobo, em
U M ENG E N HE I R O O E F A R O A
direção à praça Saens Pena, quando um civil - um paisano, como chamávamos -
cruzou a companhia. O Al ves Basto , muito empertigado, veio com a espadinha na
mão e me cobrou uma atitude: "Você ' o capitão. Como permite que um paisano
atravesse a companhia? Você tem uma tropa sob seu comando! " A "tropa" eram
meninos de dez a 1 4 anos!
Todos os alunos do Colégio Militar seguiam carreira?
Nem todos; uma parte ia para o mundo civi l , estudar medicina, engenharia,
direito, como foi o caso do Osvaldo Aranha. Embora tenha guardado muita ligação
com os mi litares, ele não seguiu carreira e foi fazer advocacia; sua famí l i a tinha
muito dinheiro. Quando entrei no Colégi o, o Osvaldo estava no último ano;
ficamos próximos, porque nós dois éramos excelentes alunos.
Algum acontecimento político o marcou particularmente no ColégiO Militar?
A Revolta dos Sargentos, que aconteceu aquj no Rio em 1 9 1 5 . O motivo foi a
questão dos vencimentos, que continuam baixos, mas naquela época eram muito
piores. Foi o Maurício de Lacerda, pai do Carlos Lacerda, que concitou os
sargentos a fazerem a revolta. Seu interesse era o de todo político: ganhar votos.
Embora naquela época os sargentos não tivessem direito de voto, suas famí lias
votavam. 4 | Maurício falava bem; ra um orador admirável e um demagogo
terrível ! O fi lho era parecidís imo com o pai , mas muito mais inteligente, mais
preparado.
Como os alunos do ColégiO Militar reagiram ao movimento?
Nossa reação foi de indignação. A mentalidade mi l itar era muito rígi da; não
admitíamo que sargentos se levantassem contra os oficiais e contra a nação em
geral .
Quando o marechal Hermes da Fonseca foi eleito presi dente da República, em 1 9l 0, sua
família manteve contata com ele, embora seu pai já ti vesse morrido?
Sem dúvida. Pouco depois de ter entrado no Colégio Mi l i tar, fui visitar o marechal
no palácio Guanabara. Apresentei-me ao sentinela como filho de um amjgo do
presidente. O sentinela chamou o chefe da guarda, um sargento, a quem repeti
que era filho de um amigo do marechal Hermes e que queria falar com el e. O
sarg nto foi lá dentro e depois me autorizou a entrar. Encontrei o presidente numa
varanda, cercado por seus oficiais. Recebeu-me muito bem, com muita
simplicidade; perguntou-me sobre o que eu estava fazendo, sobre os meus estudos
etc. P dj sua opinião sobre o Colégio Mi l itar, e ele riu, botou a mão na minlla
cabeça e respondeu : "Faz muito bem, menjno, seja mi l i tar. Seu pai não foi , porque
estudou medici na, mas você será mil itar." Fiquei com ele algum tempo. Ofereceu­
me refr sco, me deu uma porção de coisas. Depois, fui embora.
4
Segundo a Co nstituição de 1 891 , não
tinham direito a voto os mendigos, os
analfabetos, os membros de ordens
religiosas e as praças de pré, isto é,
mi l i tares que não ti nham patente de
oficial , como era o caso dos sargentos .

" Nai r de Tefê, pri meira caricaturista
brasi leira, teve seus trabalhos
publicados na Europa. Filha do barão
de Tefê, usava o pseudônimo de Ri an.
U M C ON S TR U T OR D O N o s s o T E M P O
Embora menino, o senhor chegou a acompanhar a Campanha Civilista de 1 909, que opôs
Rui Barbosa ao marechal Hermes na disputa pela presidência da República?
Eu era muito pequeno, mas acompanhei essa campanha. Ficava chocado com os
ataques dos partidários de Rui Barbosa aos mi litares; chamavam o Hermes de
burro, o que ele não era mesmo! O Hermes era um homem muito bom e tinha
pr paro. Teve a infelicidade de perder a mulher, a d. Orsina, e ca ou-se com a Nair
d Tefé. 5 Esse casamento foi muito comentado, muito ridicularizado! Eu era
rapazinho, mas lembro-me bem disso. Afinal , ele era viúvo e tinha direito a se casar
de novo.
Seu primo José Eduardo de Macedo Soares participou ativamente da Campanha
Civilista, sobretudo pelas páginas do jornal O I mparci al .
U Imparcial foi fundado pelo José Eduardo, com o dinheiro do irmão José Carlos,
para fazer a campanha do Rui Barbosa. Foi uma campanha muito violenta, com
ataques pessoais muito fortes, aliás como todas as campanhas políticas no Brasi l .
Mas isso não me admira, porque nos Estados Uilldos é a me ma coisa. Muitos anos
depois, assisti a algumas campanhas lá, e todas continham ataques pessoais muito
pesados aos concorrentes.
Eu torcia pelo marechal Hermes , embora, naquela época, ainda não votasse. Mas
também admirava muito o Rui Barbosa; quando estava na Escola Mi litar, descia de
Realengo só para assistir aos seus comícios. Lembro-me de um no largo da
Carioca, no qual ele falou sobre o Jeca Tatu, colocando o Monteiro Lobato nas
alturas. Ele começou o discurso assim: "Conheceis, porventura, Jeca Tatu,
personagem de Monteiro Lobato, o admirável escritor paulista?" Depoi s, concluiu:
"O Brasil não era o que os políticos de hoje dizem. Era isto." E apontou para a
platéia.
Rui Barbosa participou de debates extremamente interessantes com o Pinheiro Machado
no Senado.
O Pinheiro Machado era uma raposa velha! Do Rio Grande. ão era tão preparado
quanto o Rui , mas tinha uma inteligência bri lhante. Nos debates entre os doi s,
juntava gente para assistir. Eu mesmo não assisti pessoalmente a nenhum deles,
mas lia os discursos nos j ornais. Eu ra um rapazinho de 14 anos, quando o
Pinheiro foi assassinado no Hotel dos Estrangeiros e acusaram meu primo José
Eduardo, mas ele me garantiu que não tinha nada a ver com aqui lo. Apesar de ser
muito temperamental , não acr dito que tenha chegado ao ponto de insuflar o
Manso de Paiva a matar o Pinheiro a facadas.
A Primeira Guerra Mundial teve alguma repercussão di reta em sua vida?
Meus irmãos e eu sofremos na pele por causa da guerra. Minha tia Zizinha, casada
com um irmão da minha mãe, precisou fazer uma cirurgia na Suiça e pediu para
mamãe acompanhá-l a, porque não falava francês. Mamãe foi com ela e até acabou
se submetendo também a uma operação lá; coisas de senhoras. Mas irrompeu a
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Primeira Guerra, e as duas ficaram isoladas na Suíça. O cônsul brasileiro sugeriu
que embarcassem em Bordeaux, no navio italiano Principessa Mcialda, que vinha
para o Brasil. No golfo de Biscaia, uma tempestade de quatro dias e quatro noites
quase afundou o navi o; mamãe chegou aqui aterrorizada.
A guerra, propriamente, também me mobilizou muito. Num certo momento,
criou-se a expectativa de que o Brasil iria tomar parte no conflito, e assim que
terminei o curso do Colégio, fui com toda a minha turma até a Escol a Mi l i tar,
pensando que teríamos oportunidade de combater. Mas a guerra acabou logo
depoi s.
Uma vez diplomado no ColégiO, era automático o ingresso na Escola Militar?
Exatamente, o ingresso era automático, não só para os egressos do Colégio Mi litar,
I ngressando na Escola Mi l itar, em 7 de
fevereiro de 1 91 8. (Co/eção particular
Alcino Fonseca de Macedo Soares e
Silva)

6
Eduardo Gomes ( 1 896-1 981 ) ,
sobrevivente dos Dezoito do Forte
(05.07. 1 922), participou da Revolução
de 30. Duas vezes candidato à
presidência da Repúbl i ca ( 1 945 e
1 950), apoiou o golpe mi l itar de 1 964
e foi mi nistro da Aeronáutica do
governo Castelo Branco ( 1 965-67).
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mas também para alunos que vinham de todas as escolas politécnicas que
funcionavam no Brasil . As vagas restantes, se existissem, eram completadas por
meio de um exame de admissão.
No inicio de 1 9 1 8 , como a Escola Mil itar estava fechada por causa das férias, sentei
praça entre j aneiro e março, como soldado na 4a Companhia de Estabelecimentos,
no Realengo, sobretudo por causa do soldo e para não fcar à toa enquanto
esperava o início das aulas na Escola. Lá, recebi peças do uniforme, sapatos e roupa
branca; guardei tudo isso e levei para a Escola, no mês de abri l , quando ganhei
mais peças. Mas o importante foi que me tornei o mais antigo da mi nha turma,
porque pude aproveitar esse tempo de serviço como soldado.
Quando a Escola Militar foi tranif erida da praia Vermelha para Realenao,foi extinto o
curso de enaenharia mi litar?
Sim, mas o general Al berto Cardoso de Aguiar, ministro da Guerra do presidente
Delfim Moreira, fez um decreto ordenando que fosse orgaruzada uma escola de
engenharia do Exército. Entretanto esta escola não foi formada, porque não havia
um corpo de professores.
Como eram os trotes daquela época?
Brutos. Os veteranos batiam nos "bichos", como eram chamados os calouros - na
minha turma éramos cento e tantos calouros. E eles tinham como alvos principais
aqueles gue tinham sido oficiais-alunos no Colégio Mi litar. Mas fui protegido dos
trotes violentos pelo Eduardo Gomes, que conhecia meu primo José Eduardo, de
Petrópolis. 6 Um dos trotes gue levei foi medir o pátio da Escola com um palito,
para ter noção de unidade. Passei o dia inteiro agachado, com o veterano ali , do
meu lado: "Bicho sem-vergonha, você j á sabe o gue é unidade?" Outro que os
veteranos aplicavam era obrigar os ''bichos'' a pas ar uma noite no cemitério do
Murundu, que ficava perto da Escol a, para saber gue iam morrer um dia. Livrei­
me d sse trote, mai uma vez graças ao Eduardo. Tínhamos também que engraxar
as botas dos companheiros; desse não escapei . De gualguer maneira, os trotes no
Exército eram menos violentos do gue na Marinha. Numa ocasião, a Escola Naval
chegou a fechar.
Usenhor já estava decidido a escolher a arma de enaenharia?
Bom, eu já tinha o exemplo do tio Rosalvo, mas só escolhi no segundo ano. Para
optar por engenharia ou artilharia, as armas nobres, o aluno precisava ter, no
mí ni mo, média seis; como eu era o primeiro da turma, isso não foi probl ema. A
arma mais procurada era a artilharia e depois a infantaria. A média exigida para
entrar na infantaria não era tão alta, e as promoções eram mais rápidas. Na
engenharia, o ensino era bem mai s puxado; tínhamos cinco ou seis cadeiras a mais
do gue na infantaria e ainda estudávamos balística, como na artilharia.
Fiz o curso completo de engenharia dentro da Escol a. Estudava muita matemática,
física, resistência dos materiais, eletricidade, um pouco de hidráulica, as cadeiras
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mi litares e três disciplinas de direi to: direito público internacional , direito
constitucional e direito admjnistrativo. A matéria mais interessante era higiene,
fundamental , tendo em vista os acampamentos e acantonamentos de tropa. Era,
sem dúvida, um curso eclético.
Usenhor chegou a CLrsar engenharia na universidade?
Saí da Escola como ofcial de engenhari a, mas na prática era um engenheiro
militar. Agora, a primeira vez que estudei numa universidade foi durante o exí lio
na França; lá obtive meu primeiro diploma uruversitário.
Com o soldo que recebia, o senhor ajudava financeiramente sua família?
Dos 450 mi l -réis que ganhava, metade entregava na mão da minha mãe. Mais
tarde, na Escola, passei a receber mais 300 mi l - réis de gratificação; então, a parte
dela aumentou.
Todo fim de semana eu ia para casa ver minha famí l i a. Lembro que no final de
1 9 1 8 , acho que em outubro, não pude sair da Escola por causa da epidemia de
gripe espanhola, mas felizmente não fui contagiado. Quando consegui ir para casa,
na rua Dezenove de Fevereiro, encontrei todo mundo de cama e sem comida. Fui
ao vizinho, que tinha um grande galinheiro, para comprar uma galinha, mas ele não
quis me vender. Como tinha l i do nos j ornais que estavam vendendo corlda no
Corpo de Bombeiros, vesti a farda da Escola e fui até l á, no Campo de Santana.
Comprei três galinhas , arroz, batata e levei tudo para casa. Minha mãe e a
empregada, embora ainda estivessem doentes, prepararam comida para toda aquela
gente. Dois dias depois , tive que voltar para Realengo, mas nos fins de semana
estava de novo em casa; eu me sentia chefe da famí l i a.
A gripe espanhola foi violentíssima, não? Houve muitas mortes.
Foi uma verdadeira tragédia; vi caminhões passarem cheios de mortos ! Dizem que
a epidemia foi trazida por soldados da Marinha brasileira, na volta da guerra. Por
isso, a primeira cidade atingida foi o Rio, e depois a gripe foi se espalhando pelo
Brasil afora. Por causa da doença, estudantes das escolas e cursos superiores do
país inteiro passaram de ano por decreto. Essa medida teve um lado positivo;
afinal , não era j usto as pessoas perderem o ano, mas acho que muita gente se
aproveitou.
Como era sua vida social? A farda fazia sucesso j unto às moças?
É
, naquele tempo andávamos fardados; hoj e, poucos fazem isso. Como eu não
tinha muitos recursos, rillnha vida era mais intelectual , mas naturalmente tinha as
namoradinhas e l evava as minhas irmãs e amigas aos bailes do Clube Mi litar e do
Clube Naval . Os alunos da Escola tinham entrada gratuita no Jockey Cl ub e no
Derby, o antigo rupódromo. Eu gostava milito de cavalo, mas não de corrida; até
hoje sou sócio do Jockey, mas não vou às corridas. Outro djvertimento eram os
cassinos; j ogava-se milito naquela época. Os cassinos funcionavam a pleno vapor,
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porque a entrada era baratí ssima: dez mi l -réis. O j antar também era muito barato.
Eu nunca j oguei , até hoje não pego numa carta. Mas os cassinos apresentavam
espetáculos maravilhosos. Uma vez, vi o Grande Otelo fantasiado de Mi stinguett !
Já imaginou isso? Mostrando as pernas!
L os alunos de fora do Rio, o que faziam durante as folgas?
O pessoal do Norte e os gaúchos, que não tinham para onde ir, ficavam na Escol a;
podiam sair durante o di a e voltar à noite. Os que tinham mai s recursos vinham até
a cidade, e os outros passeavam por Realengo. as férias, os alunos do Sul
visitavam suas famí l i as graças ao armador Henrique Laje, que lhes dava passagens
de navio. O Laje era assim; era considerado cadete honorário, pois tinha muitas
relações com os oficiais. Eu próprio, quando ia a Mi nas Gerais visitar minha famí lia
em Lambari , ia ao gabinete do mi nistro da Guerra, pedia passagem de trem e
ganhava um passe. Só pelo fato de ser cadete, de estudar na Escola Mi l i tar.
Como era a disciplina na Escola Militar?
Severa. De certo modo, mais dura que no Colégio. Em compensação, a
al imentação era bastante boa: arroz, fei j ão e carne de todas as maneiras. Os rapazes
que se sobressaíam no esporte tinham uma ali mentação especi al , uma dieta
diferente. Como eu era mais intelectual , o que comia bastava.
Usenhor teve bons priessores na Escola?
Na médi a, sim. Tive um professor de história mi litar, o Mário Clementi no, que
escrevia em O Imparcial, o jornal do meu primo José Eduardo. Mas também tive
um péssi mo prot ssor de história geral , por exemplo.
Naquela época, já se discutia no Brasil o nacionalismo. Na Escola Militar o tema
também era debatido?
Apaixonadamente. Desejávamos o progresso do Brasi l ; achávamos que na
República Velha o desenvolvimento industrial era muito pequeno. De indústri a, só
havia a têxtil , não é? Os cafeicultore , com exceção do Roberto Simonsen, só
investiam em tecidos, não aplicavam em outras indústrias. Aliás, sobre isso, tive
uma história engraçada com o Eugênio Gudin. Sempre que me encontrava, ele me
acusava de ter prestado um desserviço ao Brasil : a construção de Volta Redonda.
Para ele, o Brasil não devia ser um país industrial . Curioso, não é? Um homem
com aquela cabeça dizer esse tipo de coisa. Mas até dá para entender; afnal , ele
nunca trabalhou para uma empresa brasileira.
Havi a uma campanha contra os grupos estrangeiros que atuavam no Brasil?
Estávamos divididos. Havia quem fosse contra o capital estrangeiro, mas eu não
era, porque já tinha noção de que esse tipo de capital era necessário para o
desenvolvimento. Agora, em geral , o militar é nacionalista. Eu era muito jovem,
ainda estava no Colégio Militar, quando comecei a tomar conhecimento do
U M E N G E N HE I R O D E F A R G A
assunto. Alguns pensadores nacionalistas tiveram muita influência sobre a minha
geração. O Al berto Torres, por exempl o; tenho todos os seus livros aqui em casa.
Outro foi o Ol iveira Viana; líamos todos os seus l ivros. Ambos inuenciaram muito
aquela geração, principalmente os mi l itares. O Edgar Teixeira Leite, que veio a ser
meu secretário de Agricultura no governo do estado do Rio, era muito ligado aos
dois. 7 Homem de muito valor. Ele foi um dos fundadores da Sociedade dos Amigos
de Alberto Torres, criada em 1 93 2 , aqui no Rio. Depois o Oliveira Viana foi muito
combatido, porque aprovou a Constituição de 37, do Estado ovo. Em 1 950,
quando terminava meu mandato como governador, mandei cunhar uma medalha
de ouro em sua homenagem e levei -a, pessoalmente, em sua casa. Era um homem
muito interessante, mas nessa ocasião j á e tava doente e faleceu poucos meses
depois.
Com a eclosão da Revolução Russa, em 1 91 7, o comunismo passou a ser tema de
discussão na Escola?
Sem dúvida; havia gente que falava muito ni sso. Embora não fosse permitido, havia
muitas discussões políticas, além de brigas : bofetão para lá e para cá. A coisa
chegava a esse ponto; formavam-se grupinhos. Nessa ocasião, o Prestes ainda não
era comunista, mas j á se interessava pelo assunto. E ainda tinha o Cunha, um
maranhense, louco pelo movimento comunista, e mais uns três ou quatro colegas.
De que outros companheiros o senhor se lembra?
Do juarez Távora. 8 Conheci muito o juarez: um pouco ingênuo, muito religioso,
mas muito inteligente. Conheci também o irmão mais velho, o joagui m, que
praticamente educou os irmãos. Como era muÜo bom topógrafo, mediu muitas
fazendas no Mato Grosso e pôde ganhar dinheiro. Morreu em São Paul o, na
Revolução de 24.
Siqueira Campos também foi seu contemporâneo?
Foi , além de muito meu amjgo. E lhe digo uma coisa: se o Siqueira não tivesse
Sobre a admi nistração de Edmundo
de Macedo Soares e Sil va no estado do
Rio, ver adiante o capitulo "Mergulho
na vida politica".
Juarez Távora ( 1 898-1 975) participou
dos levantes de 1 922 e 24 e da
Revolução de 30: membro do Estado­
Maior da Col una Prestes, mi nistro da
Agri cul tura ( 1 932-34), comandante da
Escola Superior de Guerra ( 1 952-54).
chefe da Casa Militar no governo Café
Filho ( 1 954-55), candidato à
presidência da República ( 1 955),
deputado federal pelo PDC-GB ( 1 962-
64), mi nistro de Viação e Obras
Públicas do governo Castelo Branco
( 1 964-67).
Costa e Sil va (1 J, Edmundo de Mactdo
Soares e Silva (3 ) e Castel o Branco (4 J
(em pé, da di reita para a esquerda), em
' 920. (CPODC/ArQUlvo Edmundo de
Macedo Soare<)

9
Diz-se que um oficial leva "carona"
quando está bem colocado da l ista de
promoções. mas é ul trapassado por
outro. mais jovem. colocado em pior
situação.
..
U M C O N S T R U T O R D O N o ; s o T E M P O
morrido, teria sido milita coisa neste paí s. Era um homem de enorme energia; boa
cabeça, bom aluno, bom companheiro, bom brasilei ro.
Outros colegas de turma que se destacaram mais tarde na vida do país foram o
Costa e Silva e o Castelo Branco, que chegaram à presidência da República. O
Costa e Silva tinha sido comandante-aluno no Colégio Militar de Porto Alegre; foi
milito melhor aluno qu o Castelo Branco. O Costa e Silva era mais dedicado,
estudava as matérias do curso, mas lia muito pouco. Já o Castelo Ua tudo! Por isso,
ele se dava comigo; costumávamos trocar livros. | Castelo não era muÜo
simpático com quem não tinha intimidade, mas quando era amigo, era amigo de
verdade.
O general Machado Lopes, que chegou a comandar o I I I Exército, no Sul , também
foi meu contemporâneo, uma turma atrás da minha; ele também era da arma de
engenharia. Al iás, foi dele a única "carona" que recebi na carreira mil itar. 9 Como
tinha estado na guerra, comandando o Batalhão de Engenharia da FEB, quando
chegou o momento da promoção ele passou na minha frente.
Um colega de quem eu gostava muito, mas que morreu j ovem, foi o Melo e Sousa,
mais adiantado que eu . Era um desenhista admirável , cronista, escrevia nos j ornais
e foi quem batizou o picadinho que a cozinha da Escola preparava, aproveitando
todos os restos de comida, de "picadinho Lavoi sier", porque na natureza nada se
perde, tudo se transforma. Foi para a aviação e morreu num desastre. Também
conheci na Escola o
Â
ngelo Mendes de Morai s , bem mais velho; eu ainda era
cadete, e ele já era aspirante. O Mendes de Morais foi sempre milito bizarro; saía
por Realengo com uma vara na mão, e quando via uma galinha dava uma varada na
cabeça do bicho, matava, botava debaixo do braço e levava para assar.
A exemplo do Coléaio Militar, a Escola também aceitava bem judeus e nearos?
Claro. Tive dois colegas pretos na Escola Mi l i tar, e um deles chegou a marechal .
Homem excelente! Tive ainda dois col egas judeus, os irmãos Levi Cardoso,
Armando e Valdemar, ricos e milito inteligentes. O Armando gostava milito de
literatura e tinha uma biblioteca linda; freqüentei muito a casa deles em busca de
l i vros. A Marinha é que, como já disse, era racista e impedia o ingresso de pretos e
judeus. Nos primeiros tempos da Aeronáutica, talvez por influência da turma que
veio da Marinha, era mais ou menos a mesma coi sa: criavam caso na hora da prova,
no exame de aúde; inventavam sempre alguma coisa.
U final de seu curso na Escola, no início de 1 92 1 , coincide com a cheaada ao Brasil da
Mjssão Mjlitar Francesa, chiiada pelo aeneral Maurice Cameli no Além disso, temos no
mesmo período a atuação dos 'Jovens turcos" e a Missão Indíaena.
A Missão Francesa não entrou na Escola Mi l itar; seus ofciais atum"am basicamente
no curso de estado-maior e de aperfeiçoamento. O movimento dos "jovens turcos"
foi uma missão composta pelo Estêvão Leitão de Carvalho e mais cinco oficiais,
mandada à Alemanha no governo do Hermes, para trazer instruções do Exército
alemão para o Brasi l ; foram eles que compraram os canhões Krupp, em 1 9 1 0,
U M E N ü E N H I I R ' D E F A R A
1 9 1 1 . A Missão I ndígena foi , de certo modo, um desdobramento dos "jovens
turco " e recebeu csse nomc dos cadetes porque era formada por brasi l ei ros,
j ovens i nstrutores - como o Odí l i o Deni s, l O o Col ôni a e mai s tarde eu mcsmo ­
que foram mandados para a Escol a Mi l i tar. Por i nfl uênci a dos "jovens turcos" L da
Mi ssão I ndígena, houve grandes mudanças no ensi no da E col a, até ntão mui to
teóri co.
Quando o senhor se tornou instrutor da Escola Militar?
Saí aspi rante em j anei ro de 1 92 1 e fui servi r na 1 Companhi a Ferrovi ári a, cm
Deodoro. Como scmpre t i ve notas ll1 ui to al tas , pude escol her onde servi r e escol hi
Deodoro para cont i nuar no Ri o e ficar pcrto da mi nha famí l i a. Em mai o eu t i nha
acabado dc ser promovi do a segLldo-tenente e Fu desi gnado pel o comandante da
Escol a i nstrutor do curso de engenhari a da Escol a Mi l i tar do Rcal engo.
Qual era o papel do instrutor?
Era responsável pel a parte práti ca, pel os exercíci os. Fui i nstrutor dc topograFi a, na
parte de construção de estradas; ensi nava dj r i t i nho, porque fui mui to bom
topógrafo. O fato dc ter sido l otado na Escol a Mi l i tar foi determi nante para o meu
envol vi mcnto na Revol ução de 2 2 .
1
Odilio Denis ( 1 892-1985) participou
dos levantes de 1 922 e 24, da
Revolução de 30 e da instauração do
Estado Novo ( 1 937). Foi mi nistro da
Guerra ( 1 960-61) e participou
ativamente do gol pe militar de 1 964.
Na 1 Companhi a Ferrovl """. em 1 921
(CPODC/Arquivo Edmundo de Macedo
Soares)
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.
Em 1 921 tem início a campanha eleitoral para a sucessão do presi dente Epitácio Pessoa.
É
verdade. O Artur Bernardes era presidente de Minas - assim se chamavam os
governadores na República Velha - e vinha apoiado também por São Paulo.
Contra ele, Nil o Peçanha, ex-goverador do estado do Rio e ministro do
Exterior do governo Venceslau Brás; era candidato da Reação Republicana,
formada pelos situacionistas do estado do Rio, Rio Grande do Sul , Bahia e
Pernambuco. Eu j á me referi à tradição de violência das campanhas no Brasil , mas
aquela foi particularmente tensa. Meu primo José Eduardo foi o principal
articulador da candidatura do i l o Peçanha aqui no Rio.
Seus primos José Eduardo e José Carlos eram bem mais velhos que o senhor, não?
Quase 20 anos. O José Eduardo nasceu em 1 88 2 , e o José Carlos no ano
egui nte. O José Eduardo era um homem de enorme coragem; tinha sido oficial
de Marinha - foi ajudante-de-ordens do almirante Saldanha da Gama - mas
abandonou a carreira mi l i tar para ser j ornalista. Depois enb"ou para a polí tica e
foi deputado federal pelo Partido Republicano Flumi nense de 1 91 5 a 2 3 . O José
Carlos se casou com uma moça de São Paul o, Matilde Melchert da Fonseca, de
fami l i a muito rica, gente ligada ao café e à indústria. Mas o José Carlos também
não era pobre; o pai deles, também chamado José Eduardo, irmão do meu avô
materno, era professor em São Paul o, formou um ginásio e comprou uma grande
propriedade em Vila Mariana. Mais tarde vendeu este terreno, ganhando muito
dinheiro. De sorte que, quando o José Carlos se casou, não era um homem
pobre.
les tinham outros irmãos?
Mais três: o Jo é Cássio era médico e foi deputado federal pelo Partido
Constitucionalista de São Paulo entre 1 93 5 e 37; o José Roberto era diplomata e
foi embaixador em Montevidéu entre 1 945 e 5 1 , e o José Fernando, que se
formou em odontologia e nunca se meteu em política. Além disso, havia três
irmãs : Eunice, Eudóxia e Eponina, todas começando por E.
N a pagina ao lado' passaporte
dl plomallco do Peru rorcedid" ß
Edmundo de Maced0 Soares e Silva, em
30 de abr I de 1 925. (CPDOC/Arq,.,vo
Edmundo de Macedo Soarrs/dp)

1
El ísio de Carvalho, Brasil, potência
mundial: i nquérito sobre a i ndústria
siderúrgica no Brasil. Rio de Janei ro,
Moni tor Mercantil , 1 91 9.
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
Em que circunstâncias o senhor se aproximou do José Carlos e do Jo�é Eduardo?
Quando saí aspirante, fui a São Paulo visitar meus avós maternos e estive também
com o tio José Eduardo, pai deles; datam daí minhas relações mais estreitas com
os dois, sobretudo com o José Carlos. Ele influenciou muito a minha vida e eu,
de certo modo, a del e. Todos os Bvros que escreveu foram corrigidos por mi m;
el e me dava os originais para ler, e eu chamava a sua atenção para certas coisas.
Isso fez de mi m um revisor, profssão com que ganhei algum dinheiro no exílio na
França.
Seus primos eram Iiaados a Nilo Peçonha?
O Nilo sempre foi amigo do meu pai, da minha famíl ia. Sua mulher, Anita, era
prima-irmã da minha mãe. Muitos anos depoi s, quando fui governador, a prima
Anita estava muito mal - o Nilo não lhe deixara bens -, e consegui uma pensão
para ela. Recordo bem que o Ni l o, certa feita, me disse: "Raramente conheci
um homem como seu pai . Até hoje ouço referências a ele no estado do Rio."
Papai tinha tratado de muita gente no estado e era muito lembrado por isso.
O Nilo Peçanha, depois de derrotado pelo Bernardes, foi o chefe civil da
Revolução de 2 2 .
U Exército se envolveu na campanha presidencial por causa das "cartas falsas'?
Começou antes. Havia um grupo de oficiais que só pensava na industrialização do
Brasil e, a meu ver, este foi o motivo principal da campanha: tirar o país do
marasmo em que se encontrava. os nos articulamos visando a esse objetivo;
nosso ideal era que o Brasil se desenvolvesse de acordo com o que dizia aquele
livrinho do Elísio de Carvalho, Brasil, potência mundial. I
H avia possibilidade de a Reação Republicana vencer a eleição?
Acreditávamos que sim, mas estou plenamente convencido de que o Bernardes
venceu o pleito l icitamente. Creio mesmo que as tais cartas eram realmente
falsas. O que aconteceu foi o seguinte: em outubro de 2 1 , o Correio da Manhã
publicou umas cartas atribuídas ao Artur Bernardes, contendo ofensas pesadas ao
Exército e ao Hermes da Fonseca, que naquela época era presidente do Cl ube
Mi l itar. O Bernardes contestou a autenticidade da cartas, e depois descobriu-se
que o falsário, Oldemar Lacerda, redigiu-as com o objetivo de vendê-l as.
Mas a repercussão das cartas foi muito grande. Numa reunião do Cl ube Mi l itar,
falou-se sobre o assunto, e todos acreditavam que eram verdadeiras. Eu
feqüentava aquelas reuniões, que eram muito acaloradas, e também estava
envenenado . . . Um rapaz de 2 1 anos empolga-se com muita faci l idade, não é? A
situação evoluiu, e acabou sendo organizada uma comissão com representantes do
Clube Mi litar, do Artur Bernardes e do Correio da Manhã, para decidir se as tais
cartas eram apócrifas ou autênticas. Convidaram um técnico de origem francesa
para examiná- l"s, e o homenzinho concluiu pela autenticidade - mais tarde,
ficou-se sabendo que isso não era verdade. A tensão aumentou quando o
R E V O l U Ç Ã O E E X l l l O
presidente Epi tácio Pessoa mandou prender por algumas horas o marechal
Hermes e fechar o Clube por seis meses.
Vocês discutiram a possibilidade de um levante armado?
O Eduardo Gomes , o J uarez Távora, eu, o José Eduardo e mais quem el e
convidasse conspirávamos no automóvel dele, circulando pelas ruas do Ri o;
depoi s, nos reuníamos no Cl ube Militar. A maioria da platéia era formada por
ofciais j ovens , mas havia gente dos escalões mais altos. Um dia, fui avisado de que
a revolta acontec ria em 5 d julho. Nessa ocasião, eu era instrutor de engenharia
na Escola Mi l itar, dando aula de topografia e estradas; o Juarez também servia na
Escola, como i nstrutor de engenharia.
Os cadetes estavam muito inquietos. Vou dizer uma coi sa: se os oficiais não
tomassem a iniciativa, os cadetes fariam a revolução sozinhos. Resolvemos, então,
entrar em cena para enquadrá-l os.
orno foi o dia da sublevação?
O levante estourou na noite de 4 para 5 de julho de 2 2 . A
guarnição da Escola Mi litar, comandada pelo coronel Xavier de
Brito, saiu em direção à Vi la Mi l itar, levando o armamento
usado na instrução dos cadetes. Havia de tudo: metralhadoras,
fuzis, canhões. O Henrique Ricardo Holl - nós o chamávamos
de Henrich Richard Holl - levou dois obuseiros 1 05 . Para
nossa surpresa, fomos recebidos a tiros pelo 1 0 Batalhão de
Engenharia da Vila Mi l i tar. Decidimos nos recolher ao morro
da
Á
rvore Seca. Para chegar lá, tínhamos que atravessar um
riozinho; para aval iar sua profundidade, o juarez, que era alto,
entrou, e a água lhe bateu pelo peito. Então, os pequeninos
tiveram que ser carregados no colo.
Ficamos entrincheirados no
Á
rvore Seca e de lá atiramos sobre
a Vi la Mi l itar, e a Vi la sobre nós. essa troca de tiros, nosso
companheiro
Â
ngelo El iseu Xavier Leal acabou morrendo. |
Holl deu uns dez tiros no regimento de artilharia da Vi l a, cujo
subcomandante era o pai da Alcina, que viria a ser minha
segunda mulher; ela assistiu a tudo isso. Quando o coronel
Xavier de Brito viu que não havia mais nada a fazer, nos reuniu
e declarou que a única solução era a retirada e que não queria
sacrificar tantos jovens. No total , eram mais ou menos
seiscentos e poucos rapazes, fora os comandantes. A resist' ncia
tinha durado umas quatro horas, sem comida, sem coisa
nenhuma.
uem se sublevou no Rio?
A Escola Mi l i tar em peso - os cadetes contrários foram
colocados numa sala à parte -, uma parcela da Vila Mi l itar -
Edmundo d� Ma�o Sar � Silva �m
mnt� ao monum�nto aos Duoito do
Fort�, �m Copacbana, Rio d� Jan�iro,
�m 5 d� julho d� 198.
(CDOCAruiv Emundo de Macdo
Sars)

U M C O N S T R U T O R 00 N o � s o T E M P O
que, na prática, acabou não aderindo, porque o governo já tinha controlado a
situação -, o forte de Copacabana, onde estavam o Siqueira Campos, o Eduardo
Gomes, o Delso Mendes da Fonseca, o Mário Carpenter; era um grupo grande. A
Escola de Aviação tentou aderir, mas também não conseguiu.
Uque aconteceu depois da rendição?
Voltamos à Escol a. Descarregamos as armas, desarmamos os cadetes, que
relutavam em se render, e aguardamos a chegada de um esquadrão comandado
pelo Euclides de Figueiredo - pai do João Batista, que viria a ser presidente da
República -, que veio nos prender. Ele nos disse que era incügno um mi l itar
revoltar-se, e no entanto, dez anos depois, em 1 93 2 , ele se levantaria contra o
governo Vargas, na Revolução Constitucionalista de São Paulo. Naquele di a, o
próprio Euclides nos trouxe a notícia do fracasso do levante do forte de
Copacabana; cüsse que tinha morrido muita gente, foi muito cruel conosco.
Qual foi a participação do seu primo José Eduardo na revolta?
J unto com alguns companheiros, ele ocupou a Companhia Telefônica de iterói
na véspera do levante, impecündo as comunicações com o Rio. Depois do fracasso
do movimento, ele se refugiou na legação argentina. Mais tarde saiu de lá e foi
para Maricá, onde acabou sendo preso, mas conseguiu fugir; alcançou a ilha Rasa,
para onde os amigos mandaram um barco levado por pescadores. El e pegou o
barco, lançou-se na água e remou até o Leme. Mais tarde, voltou a ser preso.
Mesmo sendo deputado? Não existia imunidade parlamentar?
Naquela época, os deputados podiam ser presos, e ele ficou detido no Regimento
de Cavalari a, aqui no Rio. O José Roberto foi visitá-lo e trocou de roupa com
ele; o José Eduardo saiu com as roupas do irmão, e o José Roberto ficou na cel a.
Que destino ti veram os cadetes sublevados?
Voltaram para a tropa para esperar o j ulgamento. Quando este começou, foram
chamados para cüzer se estavam conscientes ou inconscientes do levante. A
maioria declarou-se consciente, mas uns 30 ou 40 se proclamaram inconscientes
e ficaram conhecidos por "inconscientes" pelo resto da vida. Essa minoria pôde
continuar a carreira mi l itar; os demais foram expulsos.
Os cadetes afastados que foram anistiados puderam voltar para a Escola cinco,
seis anos depois. Dos que podiam retomar a carreira mi l itar, a maioria voltou;
alguns fcaram no Banco do Brasi l , outros ingressaram no Judiciário e chegaram
até a desembargadores. Já os ofciais foram detidos quase imediatamente.
Minha primeira prisão foi na 1 a Companhia de Metralhadoras, aqui no Rio; fiquei
detido 1 5 cüas, junto com mais uns 40 ofciais. ão podíamos falar com ninguém,
mas havia um oficial da reserva que me conhecia e s e ofereceu para me trazer
tudo que eu preci sasse. Mandei buscar roupa, objetos pessoais; ele telefonava para
mi nha famí l i a, fazia contato com o advogado . . . Recebi um tratamento
privilegiado.
Mas como a tropa tinha que
continuar a receber instrução
e nós atrapalhávamos, fomos
transferidos para o navio
CUiabá, que inicialmente
ficou ancorado na bala da
Guanabara e depois zarpou
para Angra dos Reis, onde
permaneceu fundeado
R E V O L U ç A O E
durante uns meses. Ficar detido num navio signifcava estar sob a alçada da
Marinha; os oficiais eram muüo bons, muito educados, mas frmes.
E x i L I O
Foi uma temporada divertida. Embora fosse proibido, nós nadávamos no mar,
pulávamos na água, e os oficiais mandavam nos buscar. Pulávamos de novo, até
que eles puseram uma piscina a bordo. Trepávamos nos mastros e quando eles
viam, já estávamos l á em cima; queríamos fazer exercício.
Eram quantos prisioneiros?
É
ramos 1 5 6 presos, incluindo alguns generais, como o Sotero de Meneses, que j á
estava na reserva, e o Cl odoaldo da Fonseca, que havia comandado as tropas
rebeldes de Mato Grosso. No próprio navio recebíamos intimação para prestar
depoimento. Eu disse tudo, disse que havia participado porque j ulgara que devia,
que levara fulano, sicrano e beltrano para a Revolução, que eles não queriam, mas
eu havia insistido etc. O depoimento aconteceu uns dois meses depois do levante,
em setembro, portanto. Mesmo assi m, naquele mês fui promovido a primeiro­
tenente. A promoção era automática, por antiguidade. Eles não podiam evitar;
afinal , eu estava no quadro suplementar e, inclusive, recebia o soldo.
Que desdobramentos teve o processo?
Só quatro assumiram a responsabilidade. Os outros procuraram salvar-se, mas
ninguém consegui u. O promotor nos denunciou e, passado um tempo, o juiz
aceitou a denúncia. Nesse período, fomos postos em liberdade, e fiquei livre por
uns quatro meses, mas tinha que me apresentar ao Exército toda semana.
Durante esse tempo, trabalhei como agrimensor para o engenheiro Alencar Lima,
amigo do José Carlos, que estava chefiando uma comissão de recuperação da
Baixada Fluminense, área inteiramente pantanosa. Ele me convidou para fazer
topografa al i , traçar eixos . . . Levei o Eduardo Gomes comigo. Eu ia atrás com o
teodobto, que era do tio Rosalvo, �o Eduardo ia na frente, com a baliza e a
cadeia de 20 metros. El e media, e eu dava o alinhamento; marcamos tudo
aquilo ali .
Eduardo Gomes era de famíia pobre.
Era, e teve que lutar muito. Homem de caráter sem j aça, i libado. Também tinha a
sua parte de ingenuidade. Não era de muita conversa não, mas comigo ele
Oficiais detidos. vendo-se Edmundo de
Macedo Soares e Silva (ajoel hado à
direita), em 1 923. (CPODC/Arquivo
Edmundo de Macedo Soares)
Mi l i tares presos na Casa de Correção
no Rio de Janei ro, vendo-se Edmundo
de Macedo Soares sentado, à di reita
(de óculos), em 31 de dezembro de
1 924. (CPODC/Arquivo Edmundo de
Macedo Soares)
U M C O N S T R U T O R DO N o s s o T E M P O
conversava, posso dizer até que bastante. Conheci sua mãe, d. Geni , j á velhinha,
El a era de uma farí üa muito boa, muito instruída, mas o marido não. O Eduardo
tinha um irmão, Stanley, que tinha muito j eito para ganhar dinheiro; montou uma
empresa, a Geovi a, em sociedade com o Paulo Sardinha e o Romeu Marquês e fez
fortuna. J á o Eduardo e�a uma negação para negócios.
U que aconteceu depois que o juiz aceitou a denúncia?
Voltamos para a cadeia, mas dessa vez para um lazareto do tempo do Império,
situado na enseada do Abraão, na ilha Grande. O comandante era o capitão Oton
Santos , que tinha sido meu comandante na Escola. Como não sabia usar a
bandeira para transmjtir sinrus aos destróieres que tomavam conta para evitar que
fugíssemos e que, por sua vez, transmüiam em código para terra, ele me escolheu
para responder pela sinaüzação. Com a bandeira ou com os sinais, recebendo e
transmitindo, eu ficava sabendo de tudo. Al i ás , a estada na ilha Grande foi muito
boa; no lazareto, j ogávamos waterpolo, tomávamos conta dos doentes, dávamos
remédios. A população fcou muito grata a nós; conguistamos aquela gente.
Depois fui para a Casa de Correção, no Rjo, j unto com diversos companheiros,
na condição de réu comum, o que era contra a Constituição. Afnal , éramos
acusados de ter querido depor o governo, e isso era crime político; éramos
mi litares e presos políticos. Eles não tinham o djreito de nos colocar na Casa de
Correção! Nossos advogados entraram no Supremo com um pedido de habeas
corpus, que acabou sendo concedido por maioria de apenas um voto - porque os
ministros que sempre votavam com o governo estavam em gozo de l i cença -, e
conseguimos ser mandados de volta para a ilha Grande. Fiquei 1 6 meses na Casa
de Correção, mas de certo modo foi muÜo bom ter estado l á, num ambiente gue
pouca gente conhece. Fiquei convencido de gue na prisão não se corrige
ninguém; ao contrári o, o preso sai pior do que guando entrou.
U que vocês jaziam para passar o tempo?
LÍamos, jogávamos bola. Nosso contato com os presos comuns l i mi tava-se ao
pátio; eles podiam ficar lá o dia todo, mas nós só tínhamos permissão de fi car no
R E V O l U Ç Ã O I E X l l l O
pátio dua horas, de cinco às sete da tarde. Um di a, resolvemos não voltar para as
celas na hora acertada; o diretor do presídio enviou um pelotão de policia para
nos botar nos cubículos. Cercamos o pelotão, cabendo a mim adverti -los:
"Estamos armados e, ao primeiro gesto de vocês, tomaremos suas armas , e vocês
ficarão desmoralizados. Garanto que quem deu ordem para vocês entrarem nem
está mais aí ." E mandei o tenente ir confirmar o que eu estava dizendo. Ele foi e
quando voltou, não disse nada; olhou para mim, reuniu o pelotão e foi embora.
Se o tenente persistisse naquela orientação, seria por sua conta e risco. A partir
desse dia, passamos a fcar no pátio o tempo que quiséssemos.
Como vocês recebiam armamento?
C armamento chegava até nós no meio dos bolos que recebíamos dos nossos
famili ares ou escondidos em objetos. No fim de algum tempo, estávamos todos
armados. Também recebemos explosivos; tínhamos explosivo suficiente para
botar abaixo o muro da Casa de Correção, se quiséssemos. E o encarregado era
eu, por ser de engenharia.
É
ramos 200 homens, muito bem armados.
Como eram os interr08atórios?
Normais. Eles não recorriam à tortura, mesmo porque estávamos armados, e
ninguém nos tirava as armas. Para tirar a arma de um oficial , alguém teria que
morrer, e eles sabiam disso. A resistência seria dura. Na verdade, se o governo
realmente quisesse, teria desarmado todos os presos políticos, mas não queria
promover uma agitação ainda maior. Não era nada prudente mandar a polícia
contra oficiais do Exército.
Sua família passou por al8um aperto fnanceiro durante sua prisão?
Não, porque o Hél i o concluiu o curso da Escola Militar e passou a ajudar nas
despesas.
Usenhor participou da Revolução de 24 em São Paulo?
Sem dúvida! Saí da cadeia e fui conspirar em São Paulo; onde havia conspiração,
eu estava. Entrei em contato com antigos companheiros. . . a cadei a, estávamos
constantemente informados de tudo.
Como o senhor conse8uia ir para São Paulo?
SÓ a ousadia explica. Eu tomava o trem de terceira classe e descia uma estação
antes de São Paulo. E ia para a casa do Junqueira, um colega meu que morava na
capital . Na casa dele eu conspirava com o Miguel Costa, 2 o Juarez Távora e seu
irmão Joaquim.
Seu primo José Carlos participou do movimento?
Não, ele foi vítima de uma confusão. Meu nome figurava numa lista de um outro
conspirador, o primeiro-tenente de artilharia Custódio, e essa l i sta caiu nas mãos
2
Mi guel Costa ( 1 874-19591 participou
da Revolução de 24, comandou a
Coluna Mi guel Costa-Prestes, exi l ou-se
na Argentina, participou da Revolução
de 30 e foi membro da Al iança
Naci onal Libertadora.

3
9
3
D l ivro se chama Justiça e revolta
militar em São Pula, e foi publ icado
em 1925, em Paris.
4
Cândido Rondon ( 1 864-1 958)
participou do movimento republicano
( 1 889), fez expedições pelo i nterior do
pais, de cunho ci entifico, de defesa
territori al e de i mplantação de l i nhas
telegráficas; comandou as forças
legal istas contra a Coluna Prestes
( 1 924-25); recusou-se a participar da
Revolução de 30. Foi presidente do
Conselho Nacional de Proteção ao
í ndi o ( 1 939). Bertoldo Klinger ( 1 884-
1 969), estagiou na Alemanha ( 1 91 0-1 2)
e fundou a revista A defesa nacional
( 1 91 3). Comandou tropas legal istas
contra a Col una Prestes ( 1 925). chefiou
a Policia do Distrito Federal ( 1 930),
atuou na Revolução de 32 ao lado dos
paul istas e em 1 964 apoiou o golpe
mi l i tar.
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
dos oficiais governi ta . Acharam que o Macedo Soares que constava da relação
era o José Carlos, e não eu. Foi uma injustiça terrível . Para ele, civi l , homem
rico, deve ter sido um golpe tremendo. O José Carlos, homem maduro,
presidente da Associação Comercial de São Paulo, não tinha nada a ver com o
levante. Eu, com vinte e poucos anos , estava envolvido mesmo na conspiração e
sabia dos riscos que corri a.
U levante em São Paulo foi bastante violento. A cidade teve até que ser evacuada.
As forças legalistas bombardearam São Paulo. Bem que o José Carlos tentou fazer
um acordo com o governo para não haver bombardeio. Chegou a escrever um
livro sobre isso. 3 Ele ficou preso dois meses, mas acabou não respond�ndo a
processo; saiu da prisão e foi para o exílio na França.
No dia do levante, 5 de julho de 24, eu estava no Rio, pois tinha recebido a
incumbência de dinamitar uma ponte da Estrada de Ferro Central do Brasi l , em
Japeri , ação que envolvia umas 30 pessoas. Quando cheguei l á, não havia
ninguém. Eu l evava todo o explosivo comigo, num saco; como sozinho não podia
cumprir a missão, voltei para o centro da cidade e ainda tive de destruir o
explosivo.
O movimento de São Paulo foi derrotado, mas em novembro aconteceu o levante
do Rio Grande do Sul , comandado pelo Prestes, que desembocou na Coluna
Prestes. Eles percorreram o Brasil inteiro e se transformaram em heróis para a
oficialidade mais jovem. Por conseguinte, o governo teve certa dificuldade para
mandar os mi litares moços combaterem a Coluna, já que muitas vezes eles se
recu avam a reprimir os companheiros. O Castelo Branco dizia que, embora não
tivesse sido revolucionário, não se prestou a combater os companheiros da
Coluna. Daí a necessidade de o governo formar os batalhões provisórios ,
constituídos por gente da pior espécie e organizado por políticos nos seus
estados.
Quem comandou os legalistas foi o marechal Rondon; Bertoldo Klinger também
teve papel importante. 4 Alguns oficiais superiores, capitães e tenentes da reserva,
integraram as forças de repressão, mas poucos oficiais da ativa se prestaram a e se
papel .
Como o senhor consegui u escapar da ilha Grande?
Eu tinha estudado, com os oficiais de Marinha, todas as correntes e os farói s.
Então, em março de 2 5 , o Canrobert Pereira da Costa, o Luís Braga Muri e eu
fugimos de canoa da ilha Grande; fomos parar em Jacuecanga, perto de Angra.
Desembarcamos e fomos a pé até a fazenda do Pontal , cujo dono era tio de um
col ega meu e já tinha sido avi ado. Pouco depois, chegava a Marinha. A filha dele
nos aconselhou a nos escondermos num canavial próxi mo; entramos pelo meio
da cana, morrendo de medo de cobra e ficamos escondjdos lá. Um sargento da
Marinha deve ter passado a uns quatro meb'os de mi m, pelo leito do rio, mas não
me vi u. O fazendeiro deu pista errada, e eles foram embora. Fomos, então, para

R E V O l U Ç Á O E E x í l i O
uma mata próxi ma, onde construímos um ranchinho com ramos e cobrimos com
uns sacos; ficamos lá quatro dias e quatro noites. Nosso protetor tinha estudado
uns anos de medicina e tratava dos moradores da região, de modo que toda
aquela gente torcia por nós.
Juarez Távora fugi u da fortaleza de Santa Cruz, onde estava preso. Como muitos presos
conseguiam fugir?
A fidelidade ao governo não era total , de modo que, até certo ponto, fugir era
relativamente fácil . A simpatia pela Revolução era muito grande.
Quando fugi u da ilha Grande, o senhor já tinha feito um pedido ao ministro Vítor
Maúrtua, solicitando asilo na legação do Peru. Já tinha recebido resposta quando fugiu?
Não. Ele não respondeu, então resolvi ir direto para a legação, que ficava na
avenida Pasteur, entre Botafogo e a Urca; o porteiro,
um holandês, não quis me deixar entrar. Empurrei -o,
entrei , sentei numa cadeira e disse que não sairi a dal i e
que queria falar com o ministro. Como ele não estava,
fui recebido pela senhora dele, uma espanhola loura.
El e chegou mais tarde; tipo físico de índio, grande,
muito preparado, muito inteligente, formado em
direito, conhecia há tempos a minha famíl i a. Eu disse:
"Ministro, de acordo com a tradição, vim pedir a
proteção do Peru. Está aqui no Almanaque do
Exército." El e retrucou: "Mas o governo está dizendo
que o senhor não é mais oficial do Exército, que é um
desertor." Eu insisti : "Ainda estou nos quadros do
Exército. " El e me fez dormir do lado de fora do prédio
da legação, no quintal . Queria ver quem eu era em
matéria de higiene, como me al imentava, como me
vestia, o que l i a. Ficou me observando, e dois dias
depois, levou-me para dentro.
O Maúrtua dirigiu-se ao governo brasileiro nos
seguintes termos: "Este jovem fica comigo o tempo
que quiser. E quando eu sair em férias, vou levá-lo
comigo." O governo respondeu: "Se o senhor conseguir
do tenente que ele não vá para Buenos Aires , nós o
deixamos sair." O Maúrtua me consultou a esse
respeito, e eu concordei em não i r para a Argenti na.
Então, o governo Bernardes resolveu dar permissão para eu i r embora, mas
negou-se a me providenciar documentação. Mandei uma pessoa a São Paulo
buscar dinheiro com minha avó, tomei o Massi}ja, na classe intermediária, e fui
para Lisboa, viajando com um passaporte peruano.
Chegando a Lisboa, converti praticamente todo o meu dinheiro em libras
Edmundo de Macedo Soares e Silva, na
l egação do Peru, no Rio de Janei ro,
antes de embarcar para o exi l l o, em
1 925. (CPODC/Arquivo Edmundo de
Macedo Soares)
42
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esterlinas, a moeda forte da época - tinha lido em Eça de Queirós gue o
português transformava em libra todo o dinheiro gue recebia. Figuei em Lisboa
apenas dez dias, de 3 a 1 3 de maio, porgue em Portugal não havia curso de
metalurgi a. O país sempre foi muito bom em engenharia civi l , tanto gue a nossa
averuda Atlântica foi construída por engenheiros portugueses.
Tomei um navio do Lloyd Brasileiro e fui para Paris. Fui de terceira classe, mas
logo fguei amigo do homem da despensa, um pretinho. Quando ele ia buscar a
sobremesa para a primeira classe, eu ia junto e comia aguil o tudo. Desembarguei
R l V O l U Ç À O E E X l l l o
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Declaração u qaº ðf refere o n.o d.¨do ari1go J3.¨do
regulamento dc JJde Junho de JJJJ

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Declaração se o impetrante c emigrante contratado
ou subsidiado
~
Ûu/u do decreto que autorizou u cmtqt0¡ü6 contra­
tada
Declaração se o impetra te
sem vínculo de trabalho
/c
��
no Havre e fui de trem para Paris. Cheguei no dia 20 de j unho de 1 92 5 , já
munido da documentação portuguesa que havia conseguido em Lisboa.
Como foram os seus primeiros dias em Paris?
Hospedei-me num hotel na rua de Dunquerque, perto da Gare du ord. O hotel
me havia sido recomendado por um francês que conheci no navio, mas era uma
porcaria. No bar do hotel , pedi uma garrafa d' água ao garçom, que se espantou:
"
Á
gua? ! Ni nguém bebe água na França, aqui e bebe vinho e cervej a. Se o senhor
Passaporte concedido por Portugal a
Edmundo de Macedo Soares e Si l va
(CPDDC/Arquivo Edmundo de Macedo
Saares/dp)
Documento de Identidade concedi do
pelo governo francês a Edmundo de
Macedo Soares e Si l va. (CPODC/Arquivo
Edmundo de Macedo Soares/dp)
44
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O

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quiser água, tire da bica." Eu não ia beber água da bica em Pari s, pois é
fortemente clorada. Tive, então, que comprar água mineral . Mas logo mudei de
hotel .
Eu vivia com 750 francos por mês, o que, apesar de pouco, era o bastante para
mi m, isso porque os meus primos também estavam lá. El es não me davam
dinheiro, mas me levavam ao teatro, a restaurantes. O José Cássio levou-me a um
magazine e me autorizou a separar tudo que quisesse; comprei sobretudo, roupa
de baixo, carlsa, tudo o que um rapaz necessita. E olha que o José Cássio era
pão-duro! Essas compras foram providenciai s, porque eu iria enfrentar um
inverno violento, meses depoi s . Fiquei bem sortido e não tive que gastar
dinheiro.
Usenhor já falava bem francês, mas os hábi tos eram muito diferentes. Usenhor se
adaptou facilmente a essa nova realidade?
Sim, porque a rla famíba tinha muito contato com franceses. Naquel a época, a
influência fancesa no Brasil era muito grande. Além do mais, o José Carlos e o
José Eduardo estavam morando em Pari s. Eu convivia com eles, com a Matil de,
esposa do José Carl os, com a d. Escolástica, a sogra, criatura de uma cultura
extraordinária; eu me sentia bastante seguro, praticamente em casa.
Fora os parentes, também encontrei amigos do Brasil que tinham ido para l á. o
di a seguinte à mi nha chegada, quis conhecer a Place de l ' Opéra e, como não sabia
andar de metrô, tomei um táxi . Quando cheguei na praça, esbarrei com o Sílvio
Raulino de Obveira sentado num café. Depoi s , nós dois pegamos o metrô Nord­
Sud e fomos à casa do José Carlos de surpresa; ele ainda não sabia que eu estava
em Paris !
No mesmo di a, de volta ao centro da cidade, fui tomar um aperitivo com o
R E V O L U ç A o E x I L I O
Raulino, num café não muito longe da Ópera. Quem eu vejo? O Antônio Guedes
Muniz, que mais tarde foi ofcial da Aeronáutica; estava em Paris cursando
engenharia aeronáutica na Ecole d' Aéronautique. Depoi s, foi a vez do Pedro
Martins da Rocha, um ofcial de caval aria que tinha se tornado aviador, a quem
chamávamos de Macacão, porque o papel de carta que ele usava para se
corresponder com os amigos tinha um macaco pintado. Eu já o conhecia da
Certificado de conclusão do curso de
metalurgia, no Conservatoire des Arts
et Metlers, em 12 de outubro de 1926.
(CPODC/Arquivo Edmundo de Macedo
Soares/dp)
Escola Militar; ele tinha tomado parte nas
revoltas. O Pedro chegou a Paris e logo me
,\\INISTÊRE
R ÉPUBLI QUE FRANCAI SE
L'IIST�UCTION PUBLIQUE
l LbÖ BEAUX_ARTS
l'ENSEIGNEMENT TECHHIQUE
CONSEfVATOIRF NATIO�Al
1\!T¬-&-NL�1IL|:>

procurou: "Macedo, quero conseguir minha
licença de permanênci a. Vamos à policia."
Acompanhei-o à delegacia, e lá lhe pediram
os documentos. O Pedro tirou do bolso um
certi ficado da polícia paraguaia que
assegurava que ele não era mendigo; era esse
o seu único documento. Chamei -o no canto
e lhe disse, baixinho: "Pedro, vamos embora,
porque é bem capaz de acabarmos em cana.
Vamos embora." Eu ti nha um documento
português, mas ele, na prática, não tinha
nenhum, estava completamente i l egal .
Je žI6 heut'euxde vous (nnOPcet' qu'ã Ia .lute de l'e.ramen qtlC VOlts ave:
su0v.. ,. Ies matiere. enseigPées pClIdanl l'unnüscolre qui vicnt de se termlnet',
I¢ CO'$eil dAdml1Hs/rntioll du ('muet'vatoire 'Jational des At-Is et Métiers VOltS a
décerrlé u· Ce'-lifcal aU)lucl polH' t cours de 7 . µ
L Conseil vaus a atlt-ibui, en ou/re. en consid"(i1on des notes, analyses el
t"ésumé� que vom ÛfC« présenth I a? • 1
Eu mesmo já tinha tentado obter um
passaporte, mas o cônsul brasileiro que, aliás,
era nosso parente, não atendeu ao meu
pedido, dizendo que tinha ordens para não
dar. Quando entrou em férias, seu lugar foi
ocupado t mporariamente por um colega
vindo da Grécia. Procurei o cônsul
substituto, acompanhado de duas
testemunhas; ele foi receptivo ao meu pedido
el m' a chat"gé de 'us adt"esst! ses vives (élicitntiotls.
La Direction du Conservatoire tierl, des mainlenattl, ¢ oo/,"e diposi11on,
lous le$ iow's de la semaillc, ent"e 1Ôcl f7leures, ts cc,·ti/ical zl t'Pcompc1ISe
Indl'ués ct-dessus.
Agree.;, Monsielw/ l'assu,-ance de ma considêra/iol1 duti·1 -guú.
e reconheceu que eu tinha direito ao
passaporte brasileiro. Aproveitei a oportunidade para falar no caso do Pedro
Martins da Rocha, e o di plomata também concordou em liberar o passaporte
para el e. Aí ficamos com a situação legalizada.
Que cursos o senhor ).em Paris?
Assim que cheguei , matriculei -me no Conservatoire des Arts et Métiers com os
documentos que havia trazido de Portugal . Para todos os efeitos, na França eu era
português. Para fazer o curso, tive que prestar exame; o professor era o diretor
da Ecole Central e, Léon Guillet. Homem notável ; ditava as questões para os
candidatos, que as escreviam na pedra. Depois, dizia: "Podem falar." Então, nós
dissertávamos sobre o assunto pedido. Só fazia perguntas se achasse necessári o;
no final do exame, dizia apenas: "Muito obrigado." Não tínhamo condições de
saber se havíamos passado ou não. Quando chegou a mi nha vez, ele me
perguntou em que escola da França eu havia estudado. Respondi : "Estudei no Rio
Ie O1zec1euz.
46
U M C O N S I R U I O R D O N o s s o T E M P O
de Janeiro". Olhou-me, incrédulo: "I mpossível ." Eu confrmei : "
É
verdade. Lá
seguem os métodos daqui ." Ele acabou acreditando. Mais tarde, como fui o
primeiro aluno da sua turma, veio me cumprimentar: "O ensino no Ri o deve ser
mesmo muito bom." Era o Colégio MiUtar, a base.
Como o senhor encaminhou sua formação pr¿ssional?
Primeiro, fz um curso de química inorgânica, matéria em que era muito faco,
no lnstitut de Chimie Appliquée. Ao mesmo tempo, fazia matemática e fsica na
Sorbonne. Estudava muito, não fazia outra coisa. Meus vizinhos estranhavam: "
É
um vagabundo. ão faz nada, fca o dia inteiro no quarto." Em seguida, levando
adiante uma decisão tomada na prisão, fz o curso de metalurgia, que se estendeu
de 1 926 a 2 8 . No final , apresentei uma tese à Academia de Ciências da França. |
tema era dado pelo Gui llet, que publicava as teses dos alunos; meu trabalho foi
publicado numa revista de metalurgia, em outubro de 1 927.
Usenhor pagava o curso com o dinheiro que a sua avó lhe deu?
ão, eu trabalhava. Vou lhe dizer o que fazia: muitos médicos brasileiros,
sobretudo de São Paulo, chegavam a Paris e queriam comprar um aparelho de
rai o X ou outros aparelhos elétricos, e não sabiam nada de eletricidade, nada de
física! Então, por indi cação do José Carlos, eles me procuravam; eu os orientava
na compra dos aparelhos e, além disso, dava 30 aul as de eletricidade, uma por
di a, ensinando-lhes a usar o equipamento. Com isso, ganhei bastante dinheiro.
oncluído o curso de metalurgia, o que o senhor fz?
Fui para a Ecole de Chauffage Industri ei , uma escola de termodinâmica onde se
estudava, entre outras coisas, a construção de fornos metalúrgicos. Era um curso
só para engenheiros, que durava de três a quatro meses. Em seguida, ingressei na
Ecole Supérieure de Fonderie. Escola excelente, a primeira no mundo a formar
técnicos especializados em fundição.
senhor prestou algum exame para entrar?
Entrei automaticamente porque já tinha cursado o Conservatoire. O curso na
Ecole de Fonderie já era especializado para engenheiros e durou um ano; foi
quando estudava nessa escola que conheci o Ari Torre . Um dia, apareceu lá um
rapaz mais baixo que eu, d olhos azui s. Ele podia ser qualquer coisa, francês,
alemão . . . Depois da aul a, dirigiu-se a mi m e se apresentou: "Você é brasileiro,
não é? Eu sou de São Paulo. Sou fulano de ta1 ." E fi zemos boas relações.
oro o senhor conseguiu encontrar tempo para namorar e casar?
Quem não consegue? Bom, eu freqüentava muÜo a casa do Antônio Guedes
Muniz e lá retomei contato com a Maria José, sua irmã, que já conhecia daqui do
Brasil . Gostamos um do outro L fizemos o que achei , ela também, necessári o:
casamos em Pari s, na igreja d' Auteuil .
R E V O l U Ç A E x l I o
U senhor ganhava o sticiente para manter uma família?
Si m, ganhava bem com as aulas que dava. Além delas e do dinheiro da minha avó,
elaborava pequenos proj etos para o Brasil . O sujeito queria montar, por exemplo,
uma fábrica de panelas de alumínio, eu projetava; outro queria instalar um
laboratório de tratamento térmico, eu projetava, e assim por diante. De forma
que ganhava dinheiro, mais do que quando vim para o Brasil .
Como estava Paris nesse período entre-guerras?
Bom, Paris é sempre Pari s, não é? Quando cheguei , os inais da guerra ainda
eram visíveis. Visitei com o José Carlos e o José Eduardo vários pontos de
Verdun, que me i mpressionaram profundamente. Os franceses ficaram muito
marcados pela guerra de trincheiras, uma modalidade de guerra muito bárbara,
muito cruel . Tive um grande amigo na escola em Paris, um ofcial da reserva da
arma de artilharia, artilharia pesada; ele lutou contra os alemães na Lorena e
costumava dizer que quem enfrentava o drama maior era o soldado da infantari a,
que travava uma luta corpo a corpo, à baioneta, a facão, com o i ni migo.
Qual era a si tuação económica da França?
Foi nessa época que Raymond Poincaré assumiu o governo e conseguiu sanear as
finanças. Um outro ministro formidável foi o André Tardieu, do Comércio;
aprendi muito com ele. El e falava nos meios de que um país deve lançar mão para
se revitalizar, como as oficinas, as fábricas; chamava de "os fatores que fazem um
país". Isso reforçava o que eu já pensava em relação ao Brasi l , ou sej a, da
necessidade da industrialização. Para mi m foi muito interessante.
Fui também várias vezes à Itália . . . como cidadão português. Fui com um colega
meu que tinha passaporte brasileiro. Quando chegamos na alfândega, o ita\jano
pegou o passaporte dele e deixou-o passar; ao examinar o meu, perguntou se eu
era português. Respondi que si m; então, ele mandou que eu fosse para o canto e
me revistou de cima a baixo. Me botou nu!
Durante a permanência em Paris o senhor se manteve irformado sobre o que acontecia no
Brasil?
Sem dúvida. Recebia cartas freqüentes da mi nha mãe e dos meus irmãos.
Passavam sempre por Paris parentes meus e, sobretudo, amigos do José Carlos,
!
gente rica de São Paulo, que me pedia para mostrar coisas da França. Então eu
viajava, almoçava com el es, ia ao teatro, mas o meu desejo era poder voltar um
dia e aplicar meus conhecimentos aqui .
Então, o senhor tinha notícia dos preparati vos para a Revolução de 30?
O Orlando Leite Ribeiro, que estava exilado em Buenos Aires, esteve várias vezes
na Europa e me dava informações. Até que uma vez, pouco antes da nossa volta,
ele comentou comigo que viera comprar metralhadoras leves e pesadas na
Tchecoslováquia, pago pelo governo do Rio Grande do Sul . O armamento seria
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48
UM C O NS T R U T O R D O N o s s o T E M P O
embarcado num navio com destino a Porto Alegre e serviria para combater o
governo do Washington Luís. Ele me disse para me preparar para voltar ao Brasil
e tomar parte no movimento que estava sendo organizado.
Qual era sua si tuação legal no Brasil?
Em 1 928, meus companheiros e eu tínhamos sido j ulgados à revel i a e condenados
a um ano e quatro meses de prisão. El es foram muito generosos e não nos
condenaram a dois anos, porque nesse caso seríamos expulsos do Exército. Eu j á
tinha cumprido 22 meses; tinha, portanto, um saldo de seis. Em 1 930, obtive um
habeas corpus aqui no Brasil por intermédio de um dos advogados, o que me
permitia pleitear o retorno ao Exército. Então, fui à embaixada brasileira em
Paris e pedi autorização ao embaixador Sousa Dantas, que era muito amigo do
José Carlos, para regressar ao Brasi l .
Embarquei para cá mais uma vez num navio do L1oyd, com Maria José em
adiantado estado de gravidez - nossa filha Ieda nasceria em novembro, em São
Paulo. Quando o navio parou em Recife, o Carlos de Lima Cavalcanti , um dos
líderes da conspiração no Nordeste, mandou me convidar para comandar um
batalhão de i nfantaria contra São Paulo. Mandei lhe dizer que não era da
infantaria; se o batalhão fosse da engenharia eu comandaria, mas da infantaria
não.
Qual era a sua situação no Exército quando retornou ao Brasil?
Durante esse tempo todo eu havia ficado no quadro suplementar. Logo que
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De ordem d� 8r.r.Getulio Vargu, Chc­
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J cessario í normlidade d acçõo rcvolucioncxir. o quo cer�c.ment(
s Jrú de curte durúçõ'o , estarn Cnc\¯r do mi��c oi�sno . voltondo eu Î
rtinhn si tuÕçco du simples oI'iiuic.l r"formodo do "::orci to e entre
:
f� ndo esto posto honroso L quem de dirolto . i\ o scr'.ço do revoluçco
L da PQtria c0nto com o auilio effico.z do todos os mGUS CQurada�
Ccntinu: cr viGor todcs , ordens do neu ::'- , �· 0::f .or ·¡¸ que as 1!
cessidades do surviçp publico exigam quc.s qUUl' ",,0l.iI· icoçoes .
R E V O l U ç A o E E X l l l O
cheguei ao Rio, em agosto de 30, apresentei -me ao Ministério da Guerra;
nomearam um conselho e me absolveram da deserção. Assi m, quando fui
destacado para servir em São Paulo, minha situação no Exército era
completamente legal ; já estava pronto para outra. Como tinha feito diversos
cursos na França, todos com notas muito boas, o governo passou a se interessar
pela minJ1a volta. Afnal , já disse a vocês, minha tese tinha sido apresentada na
Academia de Ciências da França.
É
bom lembrar que durante esses anos não
recebi nada; só após a anistia, no final de 1 930, recebi 45 contos de réi s.
Por que o senhor decidi u voltar?
Porque sou brasileiro, é muito simples. Fui tentado a fi car em Paris com uma
representação de café, mas não quis; não sou comerciante. Pretendia dar
prossegujmento à carreira mi l itar e trabalhar como engenheiro, denb"o e fora do
Exército; este era o meu objetivo.
Onde o senhor estava servindo no início de outubro de 30, quando estoura a Revolução?
No Serviço de Engenharia da 2· Região, em São Paulo. Foi nessa ocasião que
estive em Quitaúna, para resolver um problema de abastecimento de água.
Lembro da chegada do Getúl i o em São Paulo. Flli buscá-lo na estação de trem,
onde se passou um episódio curioso. Mi l itar não tira o boné, e quando o Getúlio
chegou, eu estava de boné. El e se aproximou, cumprimentou-me; eu o
cumprimentei . Os civis gri tavam: "Tire o boné, seu tenente. Tire o boné, seu
mal-educado! " Mas eu expliquei : "Oficial não tira o boné, tanto que o presidente
já me cumprimentou. "
Nessa época, o senhor awmulava a carreira militar com um emprego na iniciativa
privada.
Exatamente. Trabalhava na fábrica de panelas Rochedo, empresa até hoje fami liar
e de capital totalmente nacional , controlado na época pela d. Escolástica, sogra
do José Carlos. A empresa tinha sido rurigida por um irmão do José Carl os, o
José Fernando, que se revelou péssimo administrador; a fábrica ficou no
vermelho. Para reativá-Ia, apliquei o bom senso, sobretudo porque não tinha
experiência; contratei um bom contador e, em menos de um ano, estava dando
lucro. Foi a minha primeira experiência empresarial , por assim ruzer. Aprendi
muito, apesar de ter passado menos de dois anos lá; iniciei na Rochedo a funrução
de coquilhas, molde de ferro fundido que reproduz a peça, que ainda não existia
no Brasi l .
O senhor participou da Revolução de 30 em São Paulo?
Participei ativamente. Fui eu quem deu a notícia da vitória da Revolução aos
j ornais; há, inclusive, um retrato meu na redação de O Estado de São Paulo no dja
em que fui lá informar que a Revolução tinha triunfado.
Assim que a Revolução venceu, compôs-se uma j unta mil itar com o general Tasso

49
General Isidoro Dias Lopes (sentado) e
o seu aJudante-de-ordens Edmundo de
Macedo Soares e Si lva (2 da di reita
para a esquerda), em 19 de novembro
de 1930. (CPODC/Arquivo Edmundo de
Macedo Soares)
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
Fragoso, o general Mena Barreto e o almirante Isaías de Noronha, que entregou o
governo de São Paulo ao general Hasunfilo de Moura, em caráter provisório. O
José Carlos de Macedo Soares era membro do Partido Democrático de São
Paulo, que desempenhou um papel importante na Al iança Liberal . O partido não
concordou com a entrega do cargo ao general e, em reunião na casa do José
Carlos, seus dirigentes resolveram montar o secretariado.
Eu estava em casa do José Carlos no dia da reunião, mas não participei porque
não tinha competência para tanto; apenas vi a movimentação e soube das
conversas. O secretariado foi formado por pessoas extremamente gabaritadas,
excelentes! O próprio José Carlos ficou com a pasta do Interior, o José Maria
Whüaker com a da Fazenda, o Plínio Barreto com a da J ustiça, e o Henrique de
Sousa Queirós com a da Agricultura. A chefia de Polícia coube ao Vicente Rao,
com quem trabalhei . O prefeito era o Cardoso de Melo Neto; eles formaram o
que se chamou "governo dos 40 dias".
O José Carlos tinha muita força, entre outros motivos porque era amigo pessoal
do Getúlio. Em j aneiro de 30, durante a campanha presidenci al , o Getúlio foi a
São Paulo, e ninguém queria recebê-lo. Pois o José Carlos hospedou-o em sua
casa, e foi aí que selaram uma amizade muito grande.
De onde o senhor conhecia Vicente Rao?
Da casa do José Carlos. Fiquei conhecendo muüa gente em São Paulo porque me
hospedava sempre em sua casa, onde havia um quarto reservado especialmente
para mim. Quando i a a São Paulo, tinha que ficar lá, porque o José Carlos gostava
de conversar comigo sobre vários assuntos. Muitos anos mais tarde, mesmo
depois de eu ter sido ministro, ele ainda continuava a me convocar para essas
conversas.
R E V O l U Ç A � E x I l I o
Com a vitória da Revolução tornei-me ajudante-de-ordens do general Isidoro
Dias Lopes, um dos chefes mi Utares do movimento. Figuei no cargo apenas 1 5
dias, principalmente porgue o Isidoro, apesar muito intel igente, brigava um
pouco com a gramáti ca. Não só ele, como também os demais aj udantes-de­
ordens dele. Pedi - lhe, então, para me dispensar das funções, alegando gue tinha
credenciais para desempenhar outras tarefas gue não a de seu ajudante-de-ordens.
Voltei ao guartel -general e figuei um tempo à disposição, sem fazer nada. Logo
em seguida, fui trabalhar com o Rao na chefia de Polícia.
Os primeiros tempos da Revolução em São Paulo foram muito violentos, não é verdade?
Sem dúvida. Foi nessa ocasião gue o povo de São Paulo - o povaréu, não é? ­
matou um capitão do Exérci to, um filósofo, um intelectual . Pegaram o homem,
li ncharam e o jogaram do alto do viaduto do Chá; tinham raiva do Exército.
Houve muita violência; vi cenas terríveis, cenas de Revolução Francesa. Vi móveis
serem retirados de dentro das casas e incendiados na rua e o povo fazer roda em
torno, dançando e cantando. Consegui impedir a invasão de edifícios públ icos,
ameaçando a multidão de lançar mão da tropa. Outra vez, andando na rua na
companhia do Vicente Rao, vi a multidão agarrar um preto e ameaçá-lo de
execução, sob a acusação de gue ele era bicheiro. Abracei -me com o homem,
enguanto o Rao bradava gue aguela atitude era contra lei . Consegui, com
di ficuldade, escapulir e entrar no palácio do governo. Salvamos o preto!
A situação piorou com a nomeação do João Alberto para ser interventor federal
em São Paulo. Quando ele chegou lá, dizendo gue iria assumir a interventori a, eu
e mais uns 1 50 oficiais gue serviam no estado, reunidos sob a presidência do
Mendonça Lima, votamos contra e demos conhecimento da nossa decisão ao
Getúlio. Mas ele mandou nos dizer gue, infelizmente, já estava comprometido
com o João Al berto. O João era um tipo peculiar, muito diferente dos seus
colegas. Já o Sigueira Campos era outra coisa; se tivesse sobrevivido, o Brasil
teria mudado.
O Sigueira morreu num desastre de avião em maio de 30, guando voltava de uma
conversa gue el e e o João Alberto tiveram com o Prestes em Buenos Aires. Foi
nessa famosa conversa gue o Prestes di sse gue a revolução gue se organizava era
um movimento burguês e disse também gue tinha aderido ao comunismo. O
avião em gue o João Alberto e o Sigueira Campos viajavam caiu no rio da Prata.
O mai s curioso nessa história é gue o Sigueira, gue nadava muito bem, faleceu, e
o João Alberto, gue não nadava tão bem, sobreviveu. O João teve paciência; ficou
dentro d' água, e a maré o levou para a prai a. Deu umas braçadas e foi salvo. Já o
Sigueira . . . Acho gue o Sigu ira teve gualguer coisa na cabeça, por causa do
i mpacto da água fri a.
essa ocasião, Luís Carlos Prestes lançou um manifesto, condenando o movimento
revoluci onário. U que o senhor, que era pessoalmente ligado a ele, achou do seu gesto?
Se pudesse, teria prendido o Prestes, mas não foi possível .
51
" O Diário Carioca foi fundado por
José Eduardo de Macedo Soares em
jul ho de 1 928, para fazer oposição ao
presidente da Repúbl ica Washington
Luis; nessa ocasião, ele já ti nha fechado
O Imparcial. Em 1 929, o Diário Carioca
passou a apoi ar o movimento da
Al i ança Liberal, que apresentou a chapa
Getúlio Vargas-João Pessoa às eleições
presidenciais de 1 930.
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
Em São Paulo, João Alberto não foi aceito pelos tenentes, nem pelo Partido Democrático e
muito menos pelo secretariado.
Os tenentes eram favoráveis a gue um paulista assumis e. osso raciocíruo era
gue, s alguém de fora de São Paulo assumi se o poder e cometesse erros, os
paulistas acusariam o Exército; então, era melhor gue fosse um paulista. Houve
um pedido de demissão coletiva do secretariado em repúdio à indicação do João
Alberto, mas as partes acabaram s acertando, em termos. Para preservar São
Paul o, procuraram se entender com o João Alberto, gue não era tolo e aceitou a
aproximação. Afnal , el e precisava ter uma base de apoio em São Paulo; mas, na
verdade, teve muito pouco.
O João Alberto nomeou diversas pessoas ligadas a ele, companheiros de
revolução, para cargo no governo, inclusive na chefa de Polícia, e agravou a
tensão com o Partido Democrático. O mínimo gue se pode dizer é gue foi muito
desagradável . A reação contra o João Alberto foi grande; os colegas diziam- lhe
abertamente gue a Úlca alternativa gue lhe restava era deixar a interventoria,
gue ele poderia ocupar outros cargos no governo, poderia até ser miru stro, mas
não governar São Paulo. Ele também teve problemas com a Faculdade de Direito,
a ponto de os alunos me pedirem para, juntamente com o Jo é Carlos, organizar
e comandar um batalhão acadêmico para colocá-lo para fora. Neguei -me a esse
papel : "Isso não é função de vocês. Vocês não vão se sacrificar. . . O João Alberto
manda a polícia - gue não é composta de paulistas, mas de nortistas - atirar
contra vocês, e vocês vão morrer à toa. Não aceito comandar batalhão nenhum e
vou pedir ao José Carlos de Macedo Soares gue aconselhe vocês a não formar
esse batalhão." Foi em função dessa crise toda gue o João Alberto afastou o
Vicente Rao da chefia de Polícia em 2 de dezembro; no dia seguinte, todo o
secretariado renunciou.
Loao depois da Revolução de 30, os tenentes se oraanizaram no Clube 3 de Outubro. O
senhor participava das discussões no Clube?
Não; poucos t nentes fizeram parte, muito poucos; houve pouca gente do
Exército. Eu era contra as idéias do Clube 3 de Outubro, achava-o inútil . O
Juarez não sabia bem o gue estava fazendo; mais tarde me disse gue se tinha
arrependido. Em 1 93 2 , para fazer oposição ao Clube 3 de Outubro, o José
Eduardo ajudou a organizar o Clube 24 de Fevereiro, gue chegou a ter alguma
força. Mas ele criticava muito o Clube 3 de Outubro nas páginas do Diário
Carioca. 5 Talvez por isso o j ornal tenha sido "empastelado". Em 2 5 de fevereiro de
3 2 , lembro bem, um grupo de radicais do Exército, liderados por um tenente
chamado Ribeiro, um homem de cor, "empastelou" o jornal todo. Esse tenente
tinha uma raiva muito grande do José Eduardo gue, por sorte, não estava no
Diário Carioca guando o grupo invadiu a redação; se estivesse, teria sido morto.
Como o j ornal estava fazendo campanha contra o Clube, contra os oficiai s, contra
a política gue el es seguiam, o Clube 3 de Outubro foi acusado por algun de estar
por trás do "empastelamento", mas não acredito nisso. Houve gente do Clube 3

R E V O L U Ç Ã O E x i L I O
de Outubro que tomou parte, mas não foi o Clube.
Entretanto o Getúlio não tomou uma atitude firme contra o "empastelamento", o
que levou o José Eduardo a intensificar suas críticas ao governo. El e redigia seus
artigos em casa, às seis horas da tarde; pegava o papel e escrevia de um só lance.
Cheguei .a assistir à cena: ele sentava, escrevia, assinava e botava por debaixo da
porta; já lá estava o rapaz que l evava para o j ornal . Nem relia! Era perfeito! El e
era duro nos seus textos. Lembro-me de um editorial que escreveu no final de 30
ou no início de 3 1 , o famoso "Balaio de caranguejos", que falava sobre os
políticos. Os políticos eram como um balaio de caranguejos, uns comendo os
outros. O texto foi censurado, impedido de sair, mas o José Eduardo consegYiu
imprimir uma porção de cópias e distribuir; todo mundo recebeu.
Quem também escrevia no Diário Carioca era o Lindolfo Collor. Este eu conheci
bem, era brilhante. Foi a crise gerada pelo "empastelamento" do j ornal que
provocou a saída dos gaúchos do Governo Provisóri o: saíram o Col lor, o Maurício
Cardoso, o Batista Luzardo e o João Neves da Fontoura. 6 O Maurício Cardoso
nunca mais fez as pazes com o Getúl i o, e veio a morrer em 3 8, em um acidente
de avião. O Lindolfo Collor também cortou relações definitivamente.
6
Li ndolfo Col l or dei xa o Mi nistério do
Trabalho, Mauricio Cardoso se demite
do Mi nistério da Justiça, Batista
Luzardo deixa a chefia de Policia do
Distrito Federal , e João Neves da
Fontoura, que não ti nha cargo formal
no governo, rompe com Getúl io Vargas.

r
´ ´
:
Depois que voltou da Europa, o senhor se envolveu em um grande número de ati vidades
prcj1ssionais, relacionadas, em boa medida, à siderurgia, No i nício da década de 30 já se
falava na possibilidade de implantação da grande siderurgia no Brasil?
Eu j á falava, e falava de coisas que ninguém sabi a, Os conhecimentos sobre
metalurgia e siderurgia ainda eram muito rudimentares no país; eu era
considerado um fenômeno, Ainda como candidato à presidência da República,
Getúlio Vargas tinha prometido executar um grande plano de reabilitação da
economia nacional e nele incluía a criação da grande siderurgia, Depois que
assumiu, em fevereiro de 3 1 ele declarou, num discurso em Belo Horizonte, que
a siderurgia marcaria para o Brasil uma era de prosperidade, mas não disse como
isso seria feito, Pensei então em me apresentar; procurei o Osvaldo Aranha, que
tinha sido meu contemporâneo no Colégio Militar, disse-lhe que sabia como
instalar uma usina siderúrgica e pedi -lhe que essa informação chegasse até o
Getúlio,
Aproveitando os conhecimentos adquiridos na Europa, o senhor foi um dos responsáveis
pela organização da Escola de Engenharia do Exército,
Como já contei a vocês, a Escola já estava no papel desde o tempo do general
Alberto Cardoso de Aguiar; foi ele que determinou a criação de uma escola do
Exército para formar engenheiros, Portanto, quando o Getúlio subiu ao poder j á
havia a lei ; fomos ao general Leite de Castro, que era o mi nistro da Guerra, e
solicitamos a i mplantação da escol a, Ele falou com o Getúl i o, que aprovou.
No princípio, el a funcionou na Escola Politécnica, no largo de São Francisco,
depois foi para a rua Moncorvo Filho. Na década de 40, quando fui ministro do
Outra, pedi a ele que construísse um prédio só para a Escol a; o edifício foi
erguido na praia Vermelha, em cuj a planta colaborei . Durante um certo tempo,
foi a única instituição de ensino no mundo que tinJa um microscópio para cada
dois alunos; era muito bem equipada.
Quando começou sua carreira de prciessor?
Comecei a lecionar na Escola de Engenharia do Exército em 1 93 2 , como
professor de metalografia - além da metalurgia em geral , estuda a estrutura
Na página ao lado. A Comissão de
t5tudos para a I ndústria Mi l i tar
Brasi l ei ra visita fábrica de armameotos
em Be'lIm, vendo-se á frente o gene",1
Leite de Ca�tro e Edmundo de Macedo
Soares e Silva (em ul t mo pl ano, de
óculus), em mala de 1 934. (CPOOC
ArqUIVO ídm0ndcdc Moccdc'ocrcs)
55
U M C O N S T R U T O R 0 0 N o s s o T E M P O
íntima do aço, a estrutura atômica - e de química aplicada à metalurgia; com
algumas interrupções, fui professor dessas cadeiras até 1 943 . Em 3 3 dei um curso
de aperfeiçoamento em metalurgia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Lá os
aparelhos fcavam atrás de uma vidraça e, por isso, os estudantes não se serviam
deles, só viam. Na Europa era muito diferente; os aparelhos eram confiados aos
alunos, que passavam o dia inteiro lidando com eles; a partir do primeiro dia, a
gente começa a pesquisar. Depois, lecionei em São Paulo durante mais ou menos
um ano.
A Escola de Engenharia do Exército só admitia alunos militares?
Não, já oferecia vagas para civi s, mediante concurso. O Exército sempre teve um
interesse muito grande em desenvolver a siderurgi a. Achávamos que um país sem
ferro não podia ter agricultura, porque eram necessárias máquinas para o
trabalho no campo, e não podia ter armamentos; visávamos exatamente à
fabricação de máquinas e de armamentos, tanto que participei da comissão
organizadora da fábrica de projéteis de artilharia do Andaraí , no Rio. A fábrica de
pólvora e explosivos de Piquete, em São Paulo, era bem antiga, do início do
século, mas se desenvolveu bastante nesse momento, na primeira metade da
década de 3 0. Uma das metas da Escola de Engenharia do Exército era oferecer a
cadeira de armamento, baseada na minha cadeira de metalurgi a. No Exército,
acreditávamos que o Brasil , mesmo não precisando entrar em guerra, deveria
estar adequadamente suprido de armamentos, para não cair na dependência de
outros países. Como diz a fase latina, "Si vis pacem, para bellum", ou sej a, "Se
queres a paz, prepara-te para a guerra."
Qual era a situação do ensino técnico naquela época?
Esse problema só começaria a ser equacionado mais tarde, com o Roberto
Simonsen, responsável pela criação do Serviço Nacional de Aprendizagem
Industrial , o Senai . O Simonsen era de origem judaica, homem excepcional ,
inteligentíssimo e com grande idealismo. El e me chamou e disse que ia fundar
uma escola de ensino profissional e queria a minha colaboração; prontifquei-me a
ajudá-l o. A primeira escola foi fundada em São Paulo, mas logo outras surgiram,
no Rio e nos estados.
Voltando à siderurgia, o assunto já era polêmico desde o inicio do século, não é?
N o Congresso de Estocolmo, de 1 9 1 0, foi tornado público que o Brasil possuía
muitas j azidas de ferro; Orville Derby, um dos participantes do congresso e
autoridade mundial no tema, tinha feito estudos aprofundados aqui no Brasil .
Então os ingleses, sobretudo, seguidos dos alemães e dos franceses, passaram a
comprar jazidas no paí s, e compraram baratíssimo. A famigerada empresa de
mineração inglesa, a Itabira Iron, foi criada nessa conjuntura, em 1 91 1 .
No Brasil a discussão girava em torno do aproveitamento do carvão-de-pedra
nacional como combustível para a siderurgia. Recordo-me de que o Pires do Rio
A P R E P A R A Ç Ã O P R O F I S S I O N A L
- que, além de engenheiro e advogado, foi mi nistro da Viação do Epitácio Pessoa
- era absolutamente cético quanto ao aproveitamento do carvão nacional , não
acreditava que o Brasil tivesse capacidade para ter siderurgia; achava o carvão
brasileiro muito pobre. No entanto, ele pode ser empregado, caso fal te carvão
estrangeiro, só que o rendimento será menor. A cinza é necessária para formar a
escória, mas o nosso carvão produz cinza demai s; uma grande quantidade de
escória diminui o rendimento do alto-forno, que passa a produzir menos; daí ser
recomendável a mistura com o carvão importado.
Mas a "novela" da ltabira Iron começou em 1 9 1 9, quando Percival Farquhar,
representante legal da empresa e depois seu acionista principal , obteve do
presidente Epitácio Pessoa um contrato extremamente vantajoso para a
exploração do minério de ferro. Esse contrato foi aprovado, em seguida, pelo
Congresso Nacional , mas esbarrou na oposição do presidente de Minas Gerai s,
Artur Bernardes, e de outros políticos mineiros de tendência nacionalista.
Eu ainda era muito moço, nessa época, mas pelo menos no meu círculo de
amizades o assunto j á empolgava. O Bernardes ficou contra porque o Farquhar
queri a instalar a siderúrgica em Três Rios, no estado do Rio, ou mesmo no Rio de
Janeiro, e não em Minas. Para el e, a questão era instalar uma usina siderúrgica em
Minas Gerais que, afinal , detinha as maiores reservas de ferro do Brasil . Nós,
tenentes , apesar de convivermos com o Bernardes como cão e gato, acabávamos
concordando com ele em determinadas lutas, como essa da siderurgi a. Mas com
raiva, a contragosto.
Embora tenha adotado uma posição nacionalista contra a habira lron, Artur Bernardes
fez cantata com o rei Alberto, em 1 920, procurando i nteressar os belgas na siderurgia; daí
nasceu a Belga-Mineira.
Exatamente, mas os entendimentos com os belgas eram no sentido de se instalar
em Mi nas uma usina siderúrgica movida a carvão de madeira. O presidente da
Belgo-Mi neira, um luxemburguês, veio ao Brasil e trouxe com ele um homem
extraordi nário, Louis Ensch. Ele era o que se pode chamar de um engenheiro de
grande usina, formado em metalurgia e em geologia. Aliás, o que eles nos
mandaram de melhor foram os homens, ponto de partida para a formação de
técnicos. A Belgo-Mineira acabaria criando uma tecnologia própria de carvão de
madeira, única no mundo; hoje, quem quiser construir uma usina movida a
carvão de madeira tem que se dirigir ao Brasil .
Mas a Suécia também utilizava carvão vegetal.
Com forno elétrico, não com forno convencional . Tentou-se util i zar o forno
elétrico aqui no Brasi l , mas na época não tínhamos energia suficiente; então, a
Belgo- Mineira recorreu ao forno convencional . O professor Léon Guillet dizia
que um alto-forno de carvão de madeira não podia passar de cem toneladas por
24 horas, porque a carga esmagari a o carvão. A Belgo- Mineira provou que isto
não era verdade e começou a fazer fornos de 1 50 e 200 toneladas; hoje faz fornos
1
Entrevista realizada em 1 2 de
dezembro de 1 986.
58
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
de cerca de mi l toneladas por 24 horas, alterando completamente a concepção
anterior.
'
A indústria siderúr8ica alemã teve um desenvolvimento verti8inoso, superando a in8lesa e
a francesa. Por que o senhor não foi estudar na Alemanha?
Não foi por falta de vontade, mas porque naquela época não falava alemão; se
falasse, não teria hesitado. Mas confesso que me surpreendi com o grau do ensino
na França, não sabia que era tão bom. O curioso é que nunca pensei em estudar
nos Estados Unidos, que já estavam bastante adiantados em metalurgia, talvez até
mais do que a própria Europa. A tradição americana era toda baseada no sistema
de pesquisas alemão. Antes disso, praticamente não existia pesquisa nos Estados
A P � E P � � A Ç � O P R O f l < S O N A L
Unidos, mas como havia no país muitos técnicos alemães, depois da guerra as
técnicas foram sendo aperfeiçoadas. Os americanos passaram a investir mais na
área de ciência, na formação de profissionais.
Qual era o quadro da indústria siderúr8ica brasileira nos anos 20 e 30?
A tendência de algumas empresas, como a Oedini e a Aços Villares, era considerar a
siderurgia um complemento de outras atividades industriais. Quem tinha siderurgia
geralmente possuía outras indústrias, sobretudo de tecidos, ou usinas de açúcar; era
assim que eles faziam. Trabalhei com o Dedini ; ele queria me conservar em
Piracicaba, mas não quis ficar l á. Hoje eles são uma empresa grande, e eu teria
enriquecido mas havia coisas mais interessantes a fazer, mais úteis ao Brasil .
levl�·a d 'emana, Zö de maio �e
• q 2 (CpOC/Arq'"vo Edml�do "e
Swres)
59
60
I
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
Uma empresa importante era a Companhia Mecânica e I mportadora de São
Paul o, talvez a primeira empresa paulista a investir mais firmemente em
metalurgia, de propriedade do conde Al exandre Siciliano J únior. Conheci -o
muito bem; falava um alemão muito bonito e até me exortou a estudar a língua.
A usina contava com dois fornos Siemens-Martin e produzia peças fundidas,
lingotes, laminados, vergalhões; usava sucata como matéria-prima. Aqui no estado
do Rio, em São Gonçalo, havia uma usina semelhante, a siderúrgica Hi me;
funcionava com sucata e fabricava vergalhões, arame, placas de j unção e porcas
para trilho, peças forj adas. A Hi me era mais completa do que a de São Paulo e
ainda está em operação. Em Blumenau, Santa Catarina, tinha a Eletroaço Altona,
uma indústria pequena, mas muito boa; foi , talvez, a primeira fabricante de aços
especiais no Brasil .
Afirma-se que o produto nacional era muito rui m. Isso é verdade?
Não, o produto era bom; essa i magem era vendida pelos importadores,
brasileiros e estrangeiros, que moviam uma campanha contra a indústria nacional .
Eles foram os piores inimigos que tivemos, porque não tinham nenhum interesse
na produção local; o que queriam era i mportar chapas, perfis laminados, para
vender aqui . Por sua vez, os capitalistas que compraram nossas j azidas de ferro
não se interessavam em benefciar o minéri o, e si m em exportá-lo em bruto.
Em janeiro de 1 93 1 , o general Leite de Castro, ministro da Guerra, organiza no
Ministério a Comissão Militar de Estudos Metalúrgicos.
Exatamente. Fui convidado a participar desta primeira comissão, j untamente com
o Sílvio Raulino de Oliveira e o Fra Emílio Rodrigues. Seu objetivo era
avaliar a capacidade de mobilização da indústria metalúrgica nacional em caso de
guerra. Ficou provado que poderíamos fazer muito pouco; tínhamos matéria­
prima, mas não fabricávamos praticamente nada. Por conseguinte, a Comissão
dedicou-se sobretudo a estudos para a fabricação de armamentos, de munição
etc. Foi por sua iniciativa que se fundou a fábrica de projéteis de artilharia,
aumentou-se a fábrica de cartuchos, fez-se a fábrica de trotil . Foi também por
iniciativa da Comissão que se cri ou, em agosto, a Comissão Nacional de
Siderurgia.
Por que essa comissão também ficou vinculada ao Exército?
Porque houve uma briga entre os ministérios da Viação e da Agricultura; para
resolver o impasse, o Getúlio encarregou o Ministério da Guerra de cuidar da
Comissão. O natural era ter ido para o Ministério da Agricultura, ao qual a Escola
de Minas estava ligada, mas o Ministério da Viação também se achava no direito de
reivindicar a Comissão, porque a metalurgia tem muito a ver com transportes. O
Ministério da Guerra, por sua vez, estava igualmente relacionado com os estudos
de metalurgia e de siderurgia; afmal, contava com os dois principais metalurgistas
do Brasil : apenas o Raulino e eu tínhamos cursos na Europa, ninguém mais.
A P R E P A R A Ç Ã O P R O F I S S I O N A L
Quem compunha a Comissão Nacional de Siderur8ia?
O presidente era o engenheiro Eusébio Paulo de Oliveira, diretor do Serviço
Geológico e Mineralógico do Brasi l ; o Getúlio o convidou por indicação mi nha.
Eu conhecia o Eusébio do Serviço Geológico, órgão que nessa época
desempenhava um papel bastante importante. Outro integrante de peso era o
Luís Betim Pais Leme, industrial e engenheiro muito competente. Homem de
família rica, falava português com sotaque francês; formou-se em Paris na Ecole
Centrale e foi um dos primeiros homens que usaram concreto armado em
construções no Brasi l ; também foi indicado por mim. O professor Ernesto Lopes
da Fonseca Costa, homem muito culto, era professor de metalurgia da Politécnica
do Ri o; quando fundei a Escola de Engenhari a do Exército, convidei -o para
professor. Havia ainda o engenheiro Raul Ribeiro da Silva, que tinha trabalhado
com o Farquhar, mas depois entrou em conflito com ele. O Raul acabou sendo
afastado da Comissão porque brigava com todo mundo; foi afastado pelo péssimo
gênio e não pela posi ção que defendia.
O governo de Minas demorou a indicar os seus representantes, mas acabou
enviando o Gi l Guatimozim, um dos fundadores da Belgo-Mineira, e o velho
Pandiá Calógeras, mini stro da Guerra do Epitácio Pessoa, uma pessoa fantástica!
Fi l ho de gregos, nasceu quando o navio em que seus pais viaj avam estava
entrando na baía da Guanabara. Depois foi para Minas e fez carreira por l á. Um
di a, ele me perguntou quem tinha me mandado para a Europa estudar siderurgi a.
Respondi que tinha si do uma decorrência da Revolução de 2 2 , que fora obrigado
a fugir do Brasi l . Ele me olhou e disse: "
É
a única justificativa que encontro para
aquela revolução." Publicou importantes trabalhos sobre a siderurgia e a
metalurgia no Brasil . No seu livro Problemas de 8overno, 2 ele afirma textualmente
que a usina siderúrgica a ser construída no Brasil deveria ficar no vale do Paraíba.
Al i ás, tenho todos os seus livros.
Calógeras foi o único ministro civil que o Exército já teve e talvez tenha sido o
maior ministro da Guerra de todos os tempos. Sua gestão foi um sucesso total ;
promoveu a remodelação do Exército, construiu quartéis. Montava a cavalo e i a
para o campo acompanhar todas as manobras do Exército. Conhecia muito mai s
balística do que muito oficial , conhecia organização militar; se não tivesse sido o
grande engenheiro que foi , teri a sido general .
Os ministérios militares também enviaram representantes?
Si m. A Marinha indicou o capitão-tenente Raul
Á
lvares de Azevedo Castro, aliás
meu parente. Pelo Ministério da Guerra, fomos designados eu, como secretári o­
relator, e o capitão Sílvio Raulino de Oliveira. Fui escolhido pessoalmente pelo
ministro Leite de Castro.
A comissão se dedicou a três grandes áreas de estudo: o da sucata, o da revisão do
contrato da Itabira Iron e o da discussão do processo Smith e da esponja de aço.
Em relação a essa última área, fizemos ensaios com um forno que havia sido
instalado pela Federação das Indústrias e chegamos à concl usão de que não se
2
João Pandiá Calógeras, Problemas de
governo. São Paul o, Rossetti, 1 928.

61
Entrevista realizada em 1 3 de janei ro
de 1 987.
62
U M C O N S I R U T O R 0 0 N o s � o T M P O
podia comprovar o valor econômico do processo; creio que mesmo na Europa e
nos Estados Unidos o processo Smith foi muito pouco utilizado. Al ém do mai s, o
Sindicato do Ferro do Brasil - criado em 1 942 e do qual sou o presidente até
hoje 3 - não aprovou a importação da matéria-pri ma, da esponja, que é um ferro
muito puro; ainda não fabricávamos a esponj a, que é empregada hoj e. Para
produzi -I a, coloca-se o minério no forno, com cal e coque e deixa-se reduzir;
o resultado é a esponja, que é usada como matéria-prima na fabricação do gusa,
do aço.
E quanto à sucata?
l o que sobra do corte de chapas, de perfs. A sucata pode ser ferrosa e não­
ferrosa, que compreende o cobre, o alumínio, o zinco, o chumbo. Tudo isto
deveria ser mantido aqui , porque não havia fonte melhor para fazer o metal do
que a própria sucata, mas o Brasil exportava tudo! Aí consegui que o Getúlio
baixasse um decreto proibindo a exportação. Ul timamente o Brasil está tendo
que importar sucata, porque o consumo cresceu muito; importamos dos Estados
Unidos e da Europa, onde o consumo também é grande, mas a quantidade de
sucata é bem mai or.
A Comissão decidiu concentrar todos os seus esforços na construção de uma
grande usina e em como suas necessidades seriam atendidas. Dispúnhamos do
levantamento da quantidade de ferro, divulgado no Congresso de Estocolmo de
1 9 1 0, e de um levantamento precário das reservas de carvão-de-pedra do sul do
país, que eu completei mais tarde, pois passei um tempo estudando as j azidas do
sul de Santa Catarina: 1mbituba, Laguna, Criciúma. O carvão de Santa Catarina e
do Rio Grande do Sul contém pouco enxofre, ma possui um teor de cinzas entre
1 6% e 1 8%, e o do Paraná não serve para siderurgia, ó para fundições.
O Henrique Laje foi um empresário brasileiro que sonhou com uma indústria
siderúrgica movida a carvão-de-pedra, carvão do Rio Grande e utilizando
minério do Paraná; a usina seria construída na parte continental de Florianópol i s.
O problema é que, como conseguimos confirmar, não havia minério sufciente
nem de boa qualidade no Paraná. O Laje era um tipo meio sonhador. Os irmãos,
e não ele, tinham sido criados para suceder ao pai, mas morreram num desastre
de avião; fcou o Henrique, que teve que virar empresário. Mas ele gostava
mesmo é do canto lirico e chegou até a tomar parte numa ópera. Foi aí que
conheceu a cantora Gabri ella Bezzanzoni ; casaram-se moraram naquele palacete
no Jardim Botânico, no Rio, onde hoje é o Parque Laj e.
Em julho de 1 932, os trabalhos da Comissão foram interrompidos devido à Revolução
Constitucionalista de São Paulo, mas antes o senhor já havia embarcado para a Europa.
Foi bom não estar no paí s, do ontrário eu teria aderido, não por convicção, mas
por solidariedade aos meus parentes. fu os adverti de que eriam derrotados,
entre outros motivos, porque não contariam com o apoio do Rio Grande do Sul .
Perguntaram-me se eu não tomaria parte por medo de perder; respondi que a
A P R E P A R A Ç À O P R O f i S S I O N A L
questão não era essa, São Paulo é que perderia. Se tivesse participado ao lado dos
paulistas, teria ficado numa situação bastante difícil , porque, no fundo, Getúlio
estava apostando naquilo que mais me interessava: a siderurgi a.
O que me deixou mais triste foi aquela história de separatismo. Mas a verdade é
que São Paulo, como Minas e o Rio Grande do Sul , sempre foi acostumado a
mandar no Brasil . Estes três estados faziam questão de ter a supremacia; daí ,
todos os problemas que surgiram entre eles e o governo federal .
Então, o senhor não teve qualquer envolvimento com a Revolução Constitucionalista?
Tive, mas depois que os paulistas foram derrotados; fui mandado para lá para
recolher armamento. Na Escola Politécnica de São Paulo, procw"ei o Ari Torres e
lhe pedi para me entregar os armamentos e a munição que ainda estavam com
eles. Observei que a munição, feita com expl osivos injetávei s, poderia acabar
explodindo ali mesmo e matando muitos paulistas ; eles entregaram tudo. Mandei
então dez trens carregados para o Rio, mas não tomei à força de ninguém.
Os armamentos eram Jabricados pelos próprios paulistas?
Não, pertenciam ao Exército. A munição é que fora fabricada nas fábricas
paulistas por técnicos estrangeiros, mas o que eles fizeram não prestou, não.
O que o senhor JOiJazer na Europa no início de J 932?
Acabei fazendo muitas coisas , mas inicialmente fui acompanhar meu primo José
Carlos de Macedo Soares, que fora designado pelo governo para representar o
Brasil na Conferência Internacional do Trabalho e para chefiar a delegação
brasileira à Conferência de Desarmamento, ambas realizadas em Genebra. El e me
convidou para acompanhá-l o, na qualidade de assistente técnico, e eu fui ,
naturalmente, com o consentimento do ministro Leite de Castro; permaneci na
Europa de j aneiro a setembro de 1 93 2 .
Estive com o José Carlos e m Roma, durante as festas garibaldinas, quando foi
inaugurado um monumento em homenagem a Garibaldi e à sua mulher, Anita. O
governo italiano não queria que a população soubesse que a Anita Garibaldi era
brasi leira, nascida em Laguna, em Santa Catarina, embora fosse descendente de
italianos. Foi nessa ocasião que conheci Benito Mussolini , o rei Vitório Emanuel
I I I e a rainha. Havia dois protocolos : tocavam o hino da Itália, e surgia aquele
homem pequenininho, de busto grande e pernas muito curtinhas; ao lado a
rainha, muito grande, bonita. Era um casal esquisito. Depoi s, vinha o Mussolini ,
com o peito estufado, cabeça erguida, arrogante; aí tocavam o hino Giovinezza
("Giovinezza/ Primavera di belezza") . E era uma bel eza mesmo! El e dava a volta,
subia e estendia o braço, naquele cumprimento de j uramento à pátri a.
Fiquei muÜo impressionado com a visita que fizemos ao rei Vitório Emanuel I I I
no palácio. Toda a delegação brasileira, chefiada pelo José Carlos, teve que sair
dando a frente para el e, curvando-se de três em três passos. Só quando chegamos
à porta pudemos dar as costas, o ritual era assim. Também estive no gabinete do
..
Na Confer�ncia Intemac'onal do
Trbalho, em Genebra, vendDs J�
Carlos de Macedo Sare (sntado ao
centro), Ernâni do Amarl �ixoto (1' i
euerda em �) e Edmundo de Macdo
Sare e Silva (3' da direita para a
euerda em p�), junho de 1 932.
(CDOCAruiv Emundo de Macedo
Srs)
¨´
U M C O N S T R U T O R 0 0 N o s s o T E M P U
Mussolini , mas, ao contrário do rei , que falou comigo, o Mussolini só falou com
o Jo é Carl os. Vi-o sentado à cabeceira da mesa e achei -o até razoável . Ainda não
sabia que ele era tão mau.
Quando termi naram os trabalhos em Genebra, ainda fiquei mais uns meses na
Europa, estagiando na empresa Breda, situada em San Giovanni , a nordeste de
Mi lão. Quando os italianos viram no meu currículo que eu já tinha o curso de
metalurgia, entregaram-me o comando de um forno elétrico.
Eu já tinha alguma experiência com esse tipo de foro, porque havíamos instalado
uma fábrica de banheiras esmaltadas no Andaraí , a Al ba, que possuía foro
elétrico. Os italianos pediram para eu fazer um aço com 1 3% de manganês , isto
é, um aço duro que serve para mandíbula de britador e para outros usos, e eu me
saí muito bem. O interessante é que ao lado da Breda havia uma fábrica de
projéteis de artilharia e de bombas de avião; percorri a fábrica e copiei todas as
fases, fazendo o que se chama um roubo "ocular".
Quando voltei , fui ao ministro da Guerra e disse-lhe que poderia fazer uma
fábrica de projétei s. O estágio em Milão acabou sendo duplo, porque fui
aprender forno elétrico - na verdade, já tinha algum conhecimento - e trouxe
uma nova tecnologia para o Brasi l .
Quanto tempo durou esse está
8
io?
Uns seis meses. Foi um tempo muÜo bom. Na hora do almoço, saíamos todos de
A P R E P A R A Ç Ã O P R O F I S S I O N A L
bicicleta e Íamos comer naqueles albergues pequeninos, onde a comida era boa e
barata. Assim, aprendi italiano, uma língua maravi lhosa.
Em março de 1 933, a Comissão Nacional de Si derurBi a foi reorBanizada. Qem passou a
inteBrá-la?
O presidente, Eusébio de Oliveira, e o Pais Leme foram mantidos, bem como os
representantes rti l itares - eu, como secretário-relator, o major Sílvio Raulino de
Ol iveira e o capitão-tenente Azevedo Castro. A representação mineira é que foi
alterada: o Calógeras saiu por motivo de doença, e o Guatimozim por ter sido
promovido na Belgo-Mineira. Seus lugares foram ocupados pelo ex-deputado
estadual Caio Nélson de Sena, que comparecia esporadicamente, e pelo dr.
Martins Di ni z Carneiro.
Mas a Comissão mudou também em termos de orientação; passou a emitir
pareceres e opiniões, em detrimento do estudo de siderurgia propriamente dito;
éramos requisitados para opinar acerca de uma série de temas. Foi nessa ocasião
que saiu um estudo sobre a Itabira Iron, resultado dos trabalhos desenvolvidos
por uma comissão constituída em setembro de 1 93 1 pelo mi nistro da Viação e
Obras Públicas, José Américo de Al meida - a chamada cortissão revisora - com o
objetivo de examinar o contrato da empresa, que deveria ter caducado em 1 930.
Ao que parece, a Itabira lron tinha um l obby poderoso.
O Farquhar j á não tinha mais disponibi li dade financeira, por causa da crise de
1 929; não tinha mais nada! E mesmo assi m, por infuência de alguns áulicos que
lhe davam apoio incondicional , o Getúlio autorizou uma nova comissão a
reestudar o contrato. No seu l ugar, eu teria pw-a e simplesmente dito adeus
Delegação brasileira na entrada da
embaixada do Brasil, em Roma, por
ocasião da visita ao rei Vitória Emanuel
I I I , vendo-se Edmundo de Macedo
Soares e Silva ( 1 ') , José Carlos de
Macedo Soares (4°) e Ernâni do Amaral
Peixoto (7') (da esquerda para a
direita), em ó de junho de 1 932.
(CPODC/Arquivo Edmundo de Macedo
Soares)
..
..
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àquele homem que nos hayja atado por 20 anos - e isso não é brincadeira! O
Getúlio, que era muito político, não quis parecer que estava impondo.
Nesse período o senhor também foi membro do Círculo de Técnicos Militares?
Sim. Era uma associação cultural que reunia os engenheiros militares; fui um dos
organizadores e primeiro presidente. Lá debatíamos os problemas do momento e
fazíamos recomendações ao governo sobre aquilo que j ulgávamos certo. Nós nos
reuníamos no Clube Mil itar e apresentávamos as conclusões de nossas reuniões.
Conyjdávamos determinadas pessoas ou atendíamos a pedidos de gente que
queria participar; as discussões eram quase sempre ligadas à questão siderúrgica.
A reyjsão do contrato da ltabira Iron foi , obyjamente, debatida no Círculo e
também no Clube Mil itar, que se manifestou contra. No Cl ube, participaram
dessa discussão centenas de oficiais da Marinha e do Exército, todos a favor do
fim do contrato, de mandar o Farquhar embora.
Dizem que no contrato da ltabir lron, de 1 91 9, estava prevista a construção de uma
usina siderúraica no Brasil.
Nunca acreditei nas boas intenções do Farquhar. No contrato havia uma cláusula
relativa ao porto que ele pretendia construir no Espírito Santo e segundo a qual
nele não seria permitida a entrada dos navios de guerra brasileiros, só dos nayjos
de transporte de minério. Isso era um absurdo! Um absurdo! E havia gente,
inclusive brasileiros, que aceitava essa restrição. Em relação à estrada de ferro, a
posição era basicamente a mesma; ele queria ter domínio total sobre a Vitória­
Minas, sobretudo sobre o ramal que ia para o porto, queria transportar apenas os
minérios das suas minas, não o minério de terceiros. A ferrovia não seria pública,
o que contrariava a legislação brasileira. Depois, acedeu em fazer esse transporte,
conquanto que não fosse escoado pelo seu porto. O que o Farquhar queria, em
resumo, era continuar com o monopólio da exportação do minério.
O governo brasileiro pretendia construir uma estrada de ferro de bitola larga,
pois a Vitória-Minas - a mesma que hoje transporta o minério de ferro até o
porto de Tubarão - era de bitola estreita, um metro. Acontece que o Farquhar se
opunha, e o governo acabou não fazendo nada. O poder que este homem teve
durante 20 anos foi uma coisa que nos enervou muito.
Outro alvo de di veraências dizia respeito à nacionalidade dos navios que transportavam
minério.
Não queríamos que os navios estrangeiros carregassem nossos minérios, mas não
tínhamos navios brasileiros em número suficiente. Então, fazíamos tudo o que
podíamos para utilizar todos os navios brasileiros. Só depois é que vinham os
navios estrangeiros. Entretanto conseguimos que os navios estrangeiros fretados
por empresas brasileiras ostentassem a bandeira nacional .
A P R E P A R A Ç A o P R O F I S S I O N A L
A Comissão Nacional de Siderurgia apresentou seu relatório fnal em j ulho de 1 933.
O que o documento sugeria?
A construção de uma grande usina siderúrgica integrada, ou no vale do rio Doce,
aproveitando o carvão de madeira al i abundante, ou então de coque metalúrgico,
com alto-forno, empregando o carvão-de-pedra de Santa Catarina misturado com
o carvão estrangeiro.
U que signiica exatamente uma usina i ntegrada?
É
a que comporta coqueria, aciaria e laminação, ofcinas, fundição. Um estudo
realizado no governo do Ni l o Peçanha já pensava em termos de usina integrada,
mas não usava esse nome.
Usenhor voltou à Europa nesse per/odo?
Sim, em outubro de 1 93 3 integrei a Comissão de Estudos para a Indústria Mil itar
Brasileira, comandada por um velho conhecido meu, o general Leite de Castro,
que havia deixado o Ministério da Guerra em j unho de 1 93 2 ; seu objetivo era
adquirir armamentos para o Exército. Eu fui encarregado da parte de munição;
tinha de tomar conhecimento de quais seriam os projéteis adequados para os
nossos canhões, copiar esses proj éteis , de modo a fabricarmos no Brasil o que
fosse possível . Naquela época o Brasil era o único país da América do Sul que
produzia essa munição.
Dessa vez, passei cerca de dois anos na Europa, a maior parte do tempo na
Alemanha, em Stuttgart . Além de aperfeiçoar meu alemão, providenciei a compra
A Comissão de Estudos para a I ndústria
Mil i tar Brasi l ei ra, em Berlim, vendo-se
à frente o general Leite de Castro e
Edmundo de Macedo Soares e Silva (ao
fundo, no centro), em maio de 1 934.
(CPODC/Arquivo Edmundo de Macedo
Soares)
.
A Comiso d� Etudos par a Indústria
Militar Brsil�ir, na PoIOnia, v�ndo-�
Edmundo d� Ma�do Sar� � Silva (ao
fundo, no �ntro), �m maio d� 1934.
(rui Eundo de Maco
Srs)
..
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U M C O N S T R U T O R 0 0 N o s s o T E M P O
de equipamento para a fábrica de projéteis do Andaraí , que estava em construção,
entrei em contato com o Instituto Metalúrgico de Aachen e com a fábrica Krupp,
com a qual os mi litares brasileiros j á tinham relações antigas.
Cheguei a conhecer pessoalmente o Krupp; visitei sua casa - foi a primeira visita;
voltei l á outras vezes. Era uma beleza de casa. Havia um cerimonial para receber
os visitantes : as pessoas chegavam, e eram atendidas à porta por empregados. Em
seguida, eram encaminhadas por dois ou três homen até o fundo de uma grande
sala, onde ele as estava aguardando como se fosse um príncipe. Aí todos tomavam
uma taça de champanhe - champanhe alemão, aliás, muito ruim - e depois se
dirigiam para a sala de jantar. A comida era muito boa.
O Haupt, representante da Krupp no Brasi l , ajudou muito a missão brasileira na
Alemanha. Foi por intermédio de um telegrama dele que fiquei sabendo da
minha promoção a maj or, em outubro de 1 934, e passei a ser chamado de herr
major.
Usenhor levou a família?
É
claro! Maria José, nossa fl ha Ieda e eu residíamos num hotel perto da estação
ferroviária de Stuttgart, chamado Hotel Victoria, cujos donos eram um casal , el a
A P R E P A R A Ç A O P R O f i S S I O N A L
alemã, ele suíço. Tínhamos uma nurse alemã que tomava conta da menina.
Dispúnhamos de três aposentos: um era o do casal , o segundo era da menina com
a nurse, e o terceiro era o meu gabinete.
U Partido Nacional-Socialista já estava no poder na Alemanha?
Sim, o Hitler já mandava em tudo, já era o chanceler do Reich. Certa ocasião,
quando passava por Stuttgart, fui ao teatro com a famí l i a Reuter, fornecedora de
grande parte do equipamento que estávamos comprando. Em certo momento,
cantaram o Deutschland uber alles, o hino nacional da Al emanha, e todo mundo
estendeu o braço, fazendo a saudação nazista. Fiquei na posição de sentido, já que
não tinha nada a ver com aqui l o; pois quando acabou o espetácul o, uma
autoridade veio ao nosso camarote pedir satisfações por eu não ter feito o
cumprimento nazista. O sr. Reuter explicou que eu não era alemão, que eu era
brasileiro e mi l i tar, por isso tinha batido continência; o alemão se conformou.
Usenhor chegou a ver Hitler de perto?
Numa ocasião, fiquei a uns três metros de distância dele. Era uma fgura
impressionante, tinha um olhar de louco! El e estava com a mão esquerda na
cabeça de uma meninazinha loura e olhava para o infinito, não olhava para
ninguém. Aliás, vivi uma experiência muito desagradável por causa do frihrer.
Certo dia, quando entrava no hotel , fui segurado por dois 55, rapazes muito
j ovens, fortes, fanáticos. Mostrei-lhes meu passaporte diplomático, mas não
deram importância; levaram-me ao porteiro e lhe perguntaram se ele me
conhecia. O porteiro disse que sim que eu morava no quarto em cima dos
aposentos de Hitler; puseram um guarda na minha porta.
No mesmo hotel?
Hitler estava no andar de baixo. Ele só se hospedava nos hotéis que o tinham
recebido quando era candidato, e coincidiu que o meu era um deles. Os 55
ficaram alucinados; temiam que eu quisesse matar o Hi tl er.
Vi coisas incríveis na Alemanha! Por exemplo, um dia por semana os alemães
eram obrigados a comer ensopado nos restaurantes; o dinheiro daí resultante era
destinado ao Partido Nazista. Eu gostava, porque estava acostumado, mas o
alemão não gostava de ensopado. Os 55 também pediam contribuições para o
partido nas ruas, e ai de quem se recusasse! Eu sempre dava algum dinheiro.
Usenhor recebeu remuneração extra para se manter na Europa?
Ganhava 1 . 500 dólares por mês e não gastava mais de mi l ; podia, portanto,
economizar uns 500 dólares. Meu soldo de capitão - e, depois, de major -, que
era muito pequeno, ficava aqui no Brasi l ; eu separava uma parte para a minha mãe
e guardava o resto, que foi se acumulando. Assim, quando cheguei de volta, pude
construir minha casa na rua Fonte da Saudade, na Lagoa.
69
A Comissão de Estudos para a I ndústria
Mi l i tar Brasileira, na Tchecoslováqui a.
(CPODC/Arquivo Edmundo de Macedo
Soares)

U M C O N S 1 R U 1 0 R D O N o s s o T E M P O
Além da Alemanha, que outros países foram visitados pela comissão?
Fomos à Polônia - atrás de um material de artilharia novo, barato, que o Leite de
Castro quis ver de perto -, à Tchecoslováquia e à Suécia.
Em novembro de 1 933, embora o relatório fnal sobre a revisão do contrato da ltabira
lron tivesse sido concluído em julho,foi constituída nova comissão com o objetivo de
examinar, uma vez mais, esse contrato. Por que tamanha insistência?
Havia as "forças ocultas", pressões de políticos inconformados. Mas o Silvestre
Rocha, o presidente, era um homem ilibado, à altura da missão. Esse grupo
chamou-se Comissão dos Onze, também conhecida como Comissão Silvestre
Rocha. Como membros tínhamos, além do presidente, o engenheiro ferroviário
Alcides Lins, que foi o relator; o general Júlio Horta Barbosa - positivista, que na
grande discussão sobre o petróleo do final dos anos 1 940, tomou posição
contrária à do Juarez -; o coronel João de Mendonça Lima, que viria a ser
ministro da Viação durante todo o Estado Novo; o comandante Firmino dos
Santos, diretor do Lloyd Brasileiro; o dr. Ernesto da Fonseca Costa, o major
Sílvio Raulino de Oliveira, o dr. Alexandre Siciliano J únior -todos j á
conhecidos de vocês -; o bacharel dr.
Â
ngelo Bevilacqua; José Monteiro
Lindenberg, de tradicional família capixaba, e o dr. Francisco de Oliveira Passos,
que nunca compareceu às sessões porque fazia parte de outra comissão. Ol iveira
Passos e Siciliano eram os representantes das usinas siderúrgicas.
Quem nomeou essa comissão?
O próprio Getúlio. El e costumava dizer: "Quando você quiser que uma coisa não
aconteça, nomeie uma comissão." Mas, ainda assim, não posso negar; o presidente
prestigiou os trabalhos da Comissão Nacional de Siderurgia e quase sempre
atendia aos meus pedidos.
A P R E P A R A Ç Ã O P R O F I S S I O N A L
Menos de um mês depois de ter sido instalada, a Comissão dos Onze tornou público seu
relatório fnal. O que esse documento recomendava?
Limitar o contrato da Itabira Iron ao da concessão de uma estrada de ferro que
permitisse a exportação do minéri o, o que criaria condições favoráveis para a
instalação da grande siderurgia no país.
Em j ulho de 1 934, Getúlio Vargas foi eleito presidente da República pelo Congresso;
assim, as discussões acerca da questão siderúrgica passaram a ser submetidas ao
Legislativo.
O Getúl i o me dizia que era preciso acabar com os estudos da Comissão Nacional
de Siderurgia antes que o Congresso começasse a funcionar. Segundo ele, quando
isso acontecesse, começaria a disputa entre políticos de São Paulo, Minas , Rio de
Janeiro e Rio Grande do Sul . Mas , de qualquer modo, ele tinha a maioria nas
duas casas, o que faci l i tava o encaminhamento dos projetos do Executivo.
Agora, a primeira manifestação pública depois da posse do novo Congresso veio
mesmo da iniciativa privada: em dezembro o conde Siciliano apresentou um
memorial sobre a economia brasileira, que colocava a siderurgia como a base do
desenvolvimento nacional . Esse documento propuna a construção de uma usina
com coque importado em Três Rios, no estado do Rio, e fazia sérias restrições à
siderurgia com carvão de madeira. O Sici l i ano conhecia muito bem a indústria do
ferro e não acreditava no desenvolvimento do Brasi l , se dependesse do carvão de
madeira; além do mai s, não concordava com a localização da usina a ser
construída, que fcaria no vale do rio Doce. Supono que ele tivesse algum
interesse pessoal ao propor a localização em Três Rios; era um homem de
qualidade, mas tinha pontos de vista intransigentes.

I LI·
. |¹ L

�- ¹ ¦ ¹
No final de novembro de 1 935, eclodi u a revolta comunista. O senhor estava no Rio de
Janeiro?
Estava de partida para a Europa e acabei adiando a viagem. O governo mandou
um regimento de infantaria da Vila Militar e tropas de artilharia cercarem o
3° Regimento de Infantaria, na praia Vermelha. O 3° RI teve que se render, porque
a superioridade da artilharia era muito grande. E no Campo dos Afonsos, o
Eduardo Gomes conseguiu controlar a situação, embora tenha havido assassinatos .
A cidade parou. Assim que soube da Intentona Comunista, corri para o Ministério
das Relações Exteriores para avisar o José Carlos, que era o ministro na época, mas
ele j á sabi a.
Segundo a opinião de vários militares, em todos os movimentos envolvendo as Forças
Armadas houve adversários, mas nunca inimigos; encerrado o movimento, restabelecia-se a
convivência entre os antigos companheiros. A partir de 1 935, tudo mudou. O senhor
concorda com essa avaliação?
Concordo inteiramente! A Revolta Comunista acabou com aquela concórdia.
Houve uma diferença muito grande de comportamento entre os dois lados: nós os
tratávamos com humanidade, mas se eles pudessem nos pegar, nos liquidariam. A
partir de então, houve de fato uma divisão nas Forças Armadas, mas fomos sempre
majoritários. O comunista odeia, o Partido Comunista odeia!
No entanto, o governo Vargas tratou duramente os acusados de envolvimento na revolta. O
próprio Luís Carlos Prestes ficou preso em condições desumanas.
Tenho uma história para contar a respeito da prisão do Prestes. Em j unho de 1 937,
o José Carlos foi nomeado ministro da Justiça, e eu me tornei subchefe do seu
gabinete. 1 O Filinto Müller, que era o chefe de Polícia do Distrito Federal , tinha
colocado o Prestes e o Harry Berger incomunicáveis num vão de escada no prédio
da Polícia EspeciaI . 2 Com a aprovação do José Carlos, visitei os dois na prisão e,
constatada aquela situação, disse ao Fi l into que, por ordem do ministro da J ustiça,
eu levaria os dois para um outro local . Ele reagiu, afrmando não ser subordinado
ao ministro e que eu não tiraria os dois dal i . O bate-boca continuou mais um
pouco, e só sei que acabei tirando o Prestes e o Berger à força, com o auxílio dos
1
José Carlos de Macedo Soares deixou
a pasta das Rel ações Exteriores em 1 0
de novembro de 1 936; e m 3 de junho
de 1 937 foi nomeado mi nistro da
Justiça, cargo que ocupou até 9 de
novembro, véspera da decretação do
Estado Novo.
2
Arthur Ernest Ewert ( 1 890-1 959),
conhecido como Harry Berger, membro
do Partido Comunista al emão, foi
enviado ao Brasil pela Internacional
Comunista ( 1 934) para orientar a
atuação do PCB. Preso em 26 de
dezembro de 1 935, só foi solto em
1 945, após a anistia. Prestes foi preso
em 5 de março de 1 936 e também só
saiu da prisão, anistiado, em 1 945. Para
defendê-los, o advogado Sobral Pinto
recorreu â Lei de Proteção aos Animais.
Na pâglna ao lado: o mini stro da
Justiça, José Carlos de Macedo Soares
(a frente), Visita um quartel no RIO de
Janei ro, com Edmundo de Macedo
Soares e Silva, seu subchefe de
gabi nete, em agosto de 1 937.
(CPODC/Arquivo Edmundo de Macedo
Soares)
.
3
Entrevista realizada em 1 8 de
dezembro de 1 986.
.
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
homens que estavam comigo. Coloquei-os no automóvel e levei-os para um lugar
muito meu conhecido: a Casa de Correção. Chegando l á, reservei uma parte da
enfermaria, com três quartos: coloquei o Prestes num quarto, o Berger no outro,
e deixei o terceiro para eles passearem. E mandei fazer um baneiro. Pedi ao José
Carlos para autorizar a entrada de j ornais e livros, e ele autorizou.
A partir daí, passei a visitar o Prestes uma vez por semana. E ia fardado. Na
primeira vez, as pessoas diziam que ele não me receberi a. Respondi : "A mim ele
recebe." E foi o que aconteceu; encontrei o Prestes lendo livros de filosofia católica
- ele lia de tudo; faz isso até hoj e. Ele fcou muito agradecido.
Mesmo que tenham seguido caminhos diferentes, a ligação entre o senhor e Prestes,
companheiros há tanto tempo,ficou muito pnunda, não é?
Há cerca de um mês estive com o Prestes; 3 continua o mesmo homem, meio
ingênuo, mas com uma cabeça muito boa. Os velhos companeiros, apesar das
diferenças, quando podem, ajudam uns aos outros. Com o Filinto Müller, embora
ele também tena sido revolucionário, a história é outra. Filinto é de uma turma
depois da minha na Escola Mi l i tar, mas nunca foi estimado pelos colegas ; era muito
autoritário. Ele mandou saber na Alemanha se a sua família tinha ascendência
j udaica; a resposta veio negativa, naturalmente, mas ele fez questão de investigar.
Getúlio reprimiu violentamente os comunistas e depois, aproveitando-se do Plano Cohen,
deu o golpe do Estado Novo em 1 937 com o apoio dos integralistas. Vargas teria utilizado
o Plano Cohen para j ustificar o endurecimento do regime?
O Plano Cohen, um suposto pl ano de ação dos comunistas, era de autoria do então
capitão Mourão Filho, aquele que em 64 iria levantar Minas - ele tinha sido
seminarista e estudou comigo na Escola Mi l i tar. Na minha opinião, tudo aquilo foi
concebido como um exercício, digamos, mas acabou chegando aos oficiais
superiores como sendo um projeto realmente comunista. Os integralistas
denunciaram o plano, colocando lenha na fogueira contra os comunistas, e o
Getúlio decretou o estado de guerra, com autorização do Congresso. Daí para o
golpe de Estado foi um pulo.
Fui nomeado secretário da Comissão Executora do Estado de Guerra, presidida
pelo José Carlos, na condição de ministro da Justiça, e integrada por dois
militares : o almirante Dario Pais Leme de Castro e o general Newton Cavalcanti ;
ambos eram simpáticos ao integralismo e desacatavam constantemente o José
Carlos.
O general Newton Cavalcanti é uma figura muito polêmica, mas um oficial cem
por cento. Era um homem que dizia frases do tipo: "Antes da hora, é hora; na
hora, j á não é mais hora; depois da hora, 1 5 dias de cadeia." Pouco inteligente, mas
reto, direito. Muito autoritári o! Chegou a me chamar de maluco, por causa da
minha posição sobre a siderurgia no Brasi l ; disse que eu nunca faria uma usina. Eu
o desafiei : "E se fizer, o que o senhor me dirá depois?" Ele repetiu que eu não
conseguiria. Mas consegui !
A G E S T A Ç Ã O D A G R A N D E U S I N A
Na Comissão do Estado de Guerra, eu advertia o general , mas ele não me ouvi a;
lembrava- lhe que uma coisa era fazer objeção, outra era desrespeitar os superiores.
Ele me chamava de menino, de criança, dizia que eu não sabia do que estava
falando.
À
s vezes, eu me irritava: "General , j urei bandeira, sou capitão e não posso
ouvir isto do senhor. Saiba que não aceito o que Vossa Excelência está dizendo." E
fcávamos assim. O almirante Pais Leme também metia o pau no José Carlos o
tempo todo, e eu também o advertia: "Almirante, não pode tratar o ministro da
Justiça dessa maneira. Vossa Excelência é um almirante, mas ele é o mjnjstro."
Os integralistas eram minoria no Exército, não é?
Ah, sim, a Marinha tinha milito majs. Aliás, a Marinha sempre teve um status
di ferente do Exército; só há um reb-ato de d. Pedro I I vestido de general , em todos
os outros ele aparece de almirante. Os nobres costumam ser oficiais marinheiros,
poucos são do Exército. Os ofciais da Marinha se consideravam superiores,
sempre foram assim.
essa ocasião, os integralistas ganharam milito terreno no cenário político. Acho
mesmo que, se não tivesse saído do Brasil em 1 93 3 , talvez eu tivesse engrossado as
fileiras integralistas. Mas conheci o nazifascismo na Alemanha e na Itál i a, vi o que
era aqililo. Então, quando voltei para o Brasil e me convidaram para participar,
recusei ; não servia para o Brasil nem para lugar nenum.
Como Ü senhor reagi u ao golpe do Estado Novo, deiechado em 1 0 de novembro de 1 937?
Não fili apanhado de surpresa; sabia o que vinha pela frente e até adverti o José
Carlos a esse respeito: "Vem aí um regime de força e você vai ter de decidir se
apóia ou não o Getúlio. Acompanharei você na decisão que tomar." Ele decidiu não
continuar à frente do Milistério da Justiça após a implantação do Estado Novo, e
eu saí com el e. Fiquei sabendo que
haveria uma mudança drástica de
governo por intermédio de alguém
do Exército, que me confidenciou . . .
Ou talvez tenha sido pelo Francisco
Campos, que foi quem planejou
tudo - todos os atos dos quais os
militares são j ulgados culpados
foram cometidos por civis. O Outra
e o Góis Monteiro, por exemplo,
acho que fcaram indiferentes; 4 o
Outra era milito legalista. Agora, o
Getúlio sempre me dizia que a
Câmara e o Senado lhe criavam
obstáculos, porque votavam contra
diversos projetos seus; então,
fechou os dois.
Góis Monteiro ( 1 889-1 956)
comandou as tropas revolucionárias em
30, foi mi nistro da Guerra ( 1 934-35 e
1 945-46), chefe do Estado-Mai or do
Exército ( 1 937-43), senador pelo PSD
alagoano ( 1 947-51 ) , chefe do EMFA
( 1 951 -52) e mi nistro do Superior
Tri bunal Militar ( 1 952-56).
Edmundo d� Ma�do Sa� � Silva
pronunciando uma conf�rêncla na
Eola d� Eng�nharia do Eéritog CP
1 7 d� no�mbro d� 1937.
(CDOrui Emundo d� Ma�o
Soar)
.
" Os pareceres das comissões e
conselhos sobre o caso da Itabira Iron e
a exportação de minério de ferro foram
publicados na íntegra em Conselho
Técnico de Economia e Fi nanças do
Mi nistério da Fazenda, A grande
siderurgia e a exportação de minério
de ferro brosileiro em larga escala.
Estudos e concl usões apresentadas ao
presidente da República em 27 de jul ho
de 1 938. Rio de Janei ro, Mi nistério da
Fazenda, 1 938.
76
U M C O N S T R U T O R 0 0 N o s s o T E M P O
Com o golpe do Estado Novo e a sua saída do Ministério da justiça, o senhor voltou a se
concentrar na siderurgia?
Exatamente. Fui convidado a participar, juntamente com técnicos e personalidades
da vida pública brasileira, do debate sobre o problema siderúrgico no âmbito do
Conselho Técnico de Economia e Finanças. Esse Conselho foi criado em novembro
de 1 93 7 com poderes muito ampl os; era presidido pelo ministro da Fazenda, Sousa
Costa. Uma de suas atribuições era emitir parecer sobre os di ferentes projetos
relativos à implantação da grande siderurgia no Brasil e à exportação em larga
escala do minério de ferro, temas que eu conhecia de perto há muito tempo.
Os membros desse Conselho eram o Guilherme Guinle, na condição de vice­
presidente; o se!made man Valentim Bouças como secretário-técni co; o Aurino
Morais como subsecretário, e o Pedro Demóstenes Rache - um rico empresário
mineiro - como relator. Os outros integrantes eram o Mário de Andrade Ramos,
líder empresarial e constituinte de 34, homem muito pão-duro; o Romero
Estelita, ex-funcionário do Tesouro Nacional ; o Aluisio Fragoso de Lima Campos,
j ovem empresári o; o embaixador J úl i o Barbosa Carneiro, cabeça muito boa; o
industrial Abelardo Vergueiro César e o Luis Betim Pais Leme, que j á tinha
trabalhado comigo na Comissão Nacional de Siderurgia. Todos esses nomes foram
escolhidos pelo próprio Artur de Sousa Costa, mas com o aval do Getúlio.
O contrato da Itabira Iron votou à berlinda; várias outras pessoas foram chamadas
para dar parecer perante o Conselho, entre as quais o Juarez Távora. O Juarez era
um homem muito idealista, capaz de atos de heroísmo, mas fantasioso, vivia no
espaço. Foram ouvidos também todos os professores de metalurgia do Brasil ,
inclusive eu.
Em termos concretos, o que resultou da ação do Conselho Técnico?
Foram analisados dois planos: o do Raul Ribeiro da Silva, de orientação
nitidamente nacionalista, contrário a qualquer participação do capital estrangeiro,
e o do engenheiro Paul Denizot, além da posição defendida pela própria Itabira
Iron. A maior parte do Conselho pronunciou-se a favor da empresa estrangeira,
acompanhando o parecer do relator Pedro Rache, simpático aos interesses da
Itabira Iron. Mas o Guilherme Guinle e o Mário de Andrade Ramos discordaram
de Rache e apresentaram seus votos em separado. s Quer dizer, acabaram sem
chegar a conclusão alguma, foi mais um trabalho que se perdeu. Não foi fácil não,
havia muitos interesses envolvidos.
Em linhas gerais, o que o senhor propôs ao Conselho Técnico?
Para começar, fui o único de todos os professores de metalurgia que apresentou
um anteprojeto nos moldes convencionais. Peguei meus livros de metalurgia e uma
planta clássica, e elaborei o projeto de uma grande usina, que veio a ser, em
essência, a usina de Volta Redonda. A idéia de fazer a grande siderurgia não
implicava acabar com as pequenas usinas, ao contrári o; a intenção era incentivar o
desenvolvimento das outras que já existiam.
A G E S T A ç A O o A G R A N D E U S I N.A.
Um ponto importante era o que desvinculava a exportação do minério de ferro da
construção da usina. A primeira era um negócio comercial , já a segunda era vital
para o Brasil . Em outras palavras, propus retirar da revisão do contrato da Itabira
Iron o que clzia respeito à obrigatoriedade da instalação da siderurgia. E o
Farquhar continuaria podendo exportar o minério, mas sem subsídios e outras
concessões que lhe haviam sido feitas.
Houve repercussões à sua proposta?
O ministro Sousa Costa manifestou-se favoravelmente, tanto é que me pediu para
aprimorá-l a, complementá- l a; foi daí que surgiram novos estudos sobre o
problema siderúrgico. Mas o Rache não gostou muito; considerou meu pl ano
falho, por não ter incluído uma fábrica de locomotivas. Disse- lhe que se ele
quisesse, poderíamos prevê-l a, mas esclareci que uma fábrica de locomotivas não
tinha nada a ver com indústria siderúrgica, mas com indústria mecânica.
A questão siderúraica também foi encaminhada em 1 938 à apreciação do Conselho
Federal de Comércio Exterior, criado em 1 934, e diretamente subordinado à Presidência
da República. Como o assunto foi debatido nesse Conselho?
Por uma comissão especial organizada no Conselho, presidida pelo embaixador
Barbosa Carneiro e secretariada pelo engenheiro A. Wani ck. Os representantes das
Forças Armadas eram o general Amaro Soares de Bittencourt, que tinha sido meu
comandante no Exército, e o almirante Ari Parreiras, ex-interventor no estado do
Rio, muito meu amigo, pessoa de peso, muito respeitada. Além desses dois,
lembro-me bem do engenheiro Benjamim do Monte - homem competente, de
grande gabarito, que mais tarde chegou a diretor de Volta Redonda na parte
administrativa -, do Luciano Jacques de Morais - um dos responsáveis, com o
Farquhar, pel o início da construção da Acesita -, do Gui l herme Weinschenk,
sobrinho do Oscar Weinschenk, que fcou com a parte ferroviári a. Tinha ainda o
capitão Ibá Jobim Meireles.
Depois de um ano de trabalho, a comissão apresentou seu relatório - era fevereiro
de 1 939, e eu estava mais uma vez na Europa. Esse documento possibilitava ao
governo empreender uma ação positiva, cllgamos, pois abandonava projetos sem
consistência como o do Raul Ribeiro da Silva e também os que ainda abriam
espaço para a Itabira Iron. Estava prevista a fundação de uma indústria siderúrgica
estatal , ao mesmo tempo em que se admitiam soluções para-estatais. Essas
conclusões já se aproximavam bastante daquilo que viria a ser adotado.
Por que Getúlio constituiu um número tão arande de comissões, se podia oraanizar
arbitrariamente uma comissão de sideruraia com pessoas de aabarito, capazes de diender
aquilo que ele desejava?
Porque, e isso é curioso, o Getúlio raramente decicla de forma clltatorial . Não
costumava agir por intermédio de decretos-lei ; era um político. Quando uma
comissão não servia, nomeava outra, até chegar a uma que aprovasse o que ele
6
No arquivo de Getúlio Vargas,
depositado no Cpdoc, encontra-se uma
carta da Krupp endereçada a seu
representante no Brasil, Olavo Egidio
de Sousa Aranha, confirmando O
i nteresse da empresa al emã.
.
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
queria. El e era assim.
É
claro que o funcionamento dessas comissões implicava
algumas despesas com viagens, diárias, mas seus membros não ganhavam nada,
além de muito trabalho. Participei de várias delas e nunca recebi salário.
De qualquer forma, naquela época Getúlio já demonstrava um interesse particular pela
siderurgia.
Sem dúvida. Em abril de 1 93 8, em ciscurso sobre as metas econômicas do Estado
ovo, o Getúlio destacou a importância da grande siderurgia no novo programa
de governo. Para ele, havia três possibilidades para a implantação da usina:
totalmente financiada pelo Estado; com capital misto, isto é, uma associação entre
o Estado e a iniciativa privada brasileira, e exclusivamente com capitais privados
nacionais, mas sob controle do Estado.
No início de 1 939, o senhor viajou novamente para a Europa. Qe missão o governo
Vargas lhe corou dessa vez?
Foram três atribuições: primeira, examinar a cisposição da Bélgica, da Inglaterra e
da Holanda de adquirir minério brasileiro; segunda, observar os métodos técnicos
que estavam sendo empregados na siderurgia desses e de outros países do
continente, e fmalmente, se houvesse oportunidade, começar a entabular
negociações em torno de um possível financiamento para a instalação de uma usina
de grande porte no Brasi l . Além desses três países , estive também na Al emanha e
na Itália; fui convidado a visitar a União Soviética, mas não quis ir; l á eu só veria o
que eles quisessem mostrar e, para completar, eu não entencia a língua.
Comecei minha viagem de trabalho pela Inglaterra. Tinha sido informado da
construção de uma usina na Turquia, com capitais ingleses; os bancos ingleses eram
mais acessíveis. Aliás, nessa ocasião vivi uma experiência muito interessante: os
ingleses sempre nos acusaram de lentidão nos trabalhos de carga e descarga de
navios; verifiquei que lá era pior. Quando fui a Glasgow, na Escóci a, visitei um
navio que estava ancorado num cais no rio Clyde; às cinco horas da tarde, parou
tudo por causa do chá; o trabalho foi interrompido não por 1 5 minutos, mas por
uma hora! El es ficavam tomando chá, cachimbando ou fumando, e só depois de
uma hora é que voltavam a trabalhar.
Onde o senhor sentiu um interesse mais concreto em participar de um empreendimento
siderúrgico no Brasil?
Na Al emanha. A Krupp mostrou-se cisposta a montar uma usina aqui e, inclusive, a
fabricar material bélico.
6
Dizem que a empresa chegou a fazer um estudo de
viabilidade a pedjdo do Getúlio. Pode até ser que ele tenha pensado nisso, mas o
estudo nunca existi u.
Por falar em Al emanha, fquei impressionado com o clima bélico que o país vivia.
Em Dusseldorf, um homem do povo olhou para mim e me perguntou se eu era
fancês e, sem esperar minha resposta, advertiu-me de que, em breve, a França
seria escrava da Alemanha. Dias depoi s, quando viaj ava de trem, de Dusseldorf
A G E S T A Ç Ã O O A G R A N D E U S I N A
para Berl i m, pude constatar o aumento da quantidade de desvios e o grande
número de trens cobertos com oleados , que escondiam, evidentemente,
armamento. Para mi m, mj l i tar, eram duas evidências claras de uma guerra
próxjma.
Por causa da i minência da guerra, minhas tarefas na Europa fcaram prej udicadas,
as negociações acabaram sendo interrompidas e ficaram por isso mesmo. Não foi
firmado nenhum compromisso, nada. Mas acredito que, numa situação normal ,
consegliríamos tudo o que pretendíamos, financiamento, equipamento, tudo. Se,
porventura, tivesse fechado negócio na Europa, o equipamento seria quase todo
alemão. A indústria alemã era muito séria, como ainda hoj e o é.
Em que circunstâncias o senhor deixou a Europa?
Escrevi ao Mendonça Li ma, ministro da Viação, falando das difculdades
encontradas e da guerra que já vinha; recebi ordens para partir para os Estados
Unidos. Estava em Bruxelas, quando chegou no meu hotel um telegrama do
general Francisco José Pinto, chefe da Casa Mi l itar, nos seguintes termos : "Maj or
Macedo Soares. Embaixada do Brasi l . Presidente determina siga Nova York. Lá
procurar cônsul a fim terminar tarefa. "Tomei o Manhattan no porto de Havre e
levei 1 1 dias para chegar a Nova York.
Eu nunca tinha ido aos Estados Unidos e não conhecia mui ta coisa a respeito do
pai s ; sabia que era um pais sem tradição
militar e que, al ém da guerra civi l , tinha
tido uma discreta participação na
Primeira Guerra Mundial .
Quando cheguei a Nova York, fiquei de
queixo caido. Um pais novo, com uma
mentalidade completamente di ferente
de tudo o que eu tinha conhecido na
Europa; marcou definitivamente a
minha vida. Depois, passei vários anos
nos Estados Unidos e tenho voltado lá
com freqüênci a.
Uque o senhor tinha a jazer em Nova
}ork?
Assim que cheguei , hospedei-me num
pequeno apartamento no hotel Waldorf
Astoria - o governo pagava o suficiente
para isso - e procurei o cônsul ; ele me
colocou em contato com a United States
Stee\ Products Company, que havia
manifestado a intenção de construir wna
usina no Brasil em sociedade com o
nosso governo.
Em Nova Yor\ �m maio d� 1 939.
rr uivo Edmundo de Macedo
Srs)
.
7
Osval do Aranha foi mi nistro das
Rel ações Exteriores de 1 5 de março de
1 938 a 23 de agosto de 1 944.
8
A afirmação de Amaral Peixoto
consta de Aspásia Camargo, Lucia
Hi ppolito, Maria Celina O'Araujo e Dora
R. Flaksman, Artes da politica. Di álogo
com Amaral Peixoto. Rio de Janei ro,
Nova Fronteira, 1 986. Getúl i o Vargas
recepcionou o presidente Frankl in D.
Roosevel t em Natal (RNl. em 28 de
janei ro de 1 943.
.

U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
E como foram os entendimentos com a US Steel?
Quando cheguei na sede da empresa, fui recebido por um secretário do
presidente, George W Wolf, que me introduziu numa sala onde se encontravam
vários americanos com as mãos na nuca e os pés em cima da mesa. Nunca tinha
visto aquilo antes , levei um susto danado! Eu, todo elegante, de paletó preto, calça
listrada, colete branco, chapéu côco, fiquei ofendido e comentei com o vice­
cônsul , que estava comigo: "Mas que falta de educação! " El e explicou que era assim
mesmo, que as pessoas ficavam daquela maneira, que ele mesmo também colocava
os pés em cima da mesa para descansar. De qualquer modo, fiquei com uma
péssima impressão deles. Mas me vinguei : pedi o champa8ne e o vinho tinto mais
caros do restaurante onde fomos comer. Após um mês - depois que comecei a ter
contato com eles, que vi o que era aquele país, como Estado e como nação -, j á
era o maior admirador dos Estados Unidos.
Ane80ciações previam que a US Steel emprestaria uma certa soma, que seria paaa sob
determinadas condições pelo aoverno brasileiro. Q}al era o interesse da empresa
americana em emprestar o dinheiro?
Seria um negócio muito grande, de 90 mi l hões de dólares , que o Brasil levaria anos
para pagar. Durante esse tempo, eles receberiam os dividendos, mas o grande
negócio seria a venda de material e tecnologi a, know how.
Uprimeiro contato com a US Steel foi feito por Osvaldo Aranha, que na época era
ministro das Relações Exteriores, não é?7
I sso mesmo, e acredito que por intermédio do nosso embaixador em Washington,
Carlos Martins.
Usenhor concorda com a versão de que Getúlio teria autorizado os Estados Unidos a
instalarem bases militares no Nordeste em troca da participação americana na
implantação da sideruraia no Brasil?
Não acredito, embora o Ernâni do Amaral Peixoto, genro do Getúl i o, afrme isso.
Afinal , quando ele conferenciou com o Roosevelt em Natal , todo o equipamento
para Volta Redonda já estava comprado. 8 Agora, o Getúlio era capaz de tudo.
Uprojeto siderúraico brasileiro foi discutido em meio a um cenário internacional
extremamente instável, dada a iminência da auerra. Afirma-se com freqüência que o
aoverno brasileiro, mantendo-se neutro, procurou neaociar com os dois lados em corlito,
tentando aproveitar-se da situação.
Enquanto o ministro Osvaldo Aranha negociava com os Estados Unidos e eu estava
em missão na Europa, a Krupp negociava diretamente aqui no Brasil . O Getúlio,
que tinha uma certa simpatia pela Alemanha, assinou dois grandes contratos com a
empresa, o que deixou o governo americano muito preocupado. Ainda em março
A G E S T A Ç Á O O A G R A N D E U S I N A
de 39, eu era professor de metalurgia na Escola de Engenharia do Exército e
escrevi um documento no qual afirmava não ser contra a Krupp montar uma
siderúrgica, contanto que fosse no interior; eu defendia uma indústria de paz, que
gerasse subprodutos para a indústria farmacêutica e química, mas não era esse tipo
de empreendimento que a Krupp estava tentando fazer.
Amaral Peixoto cirma que os Estados Unidos estavam protelando as ne80ciações com o
Brasil e que, por isso, Getúlio ameaçou fortalecer os contatos com a Alemanha. 9 O senhor
concorda com essa cirmação?
Concordo inteiramente. No fundo, o Getúlio tinha uma certa razão de fcar na
dúvida e pressionar quem tivesse mais dinheiro para poder implantar aqui a
siderurgia, essa é a minha opinião.
Em j unho de 1 940, Getúlio faz o célebre discurso a bordo do encouraçado Minas Gerais.
Lembro-me perfeitamente. A intenção do Getúlio foi boa; ele queria pressionar
um pouco os americanos. Mas os j ornais do país e mesmo o povo entenderam
como uma manifestação explícita de simpatia pela Alemanha; ficou um mal-estar
terrível ! Eu compreendi logo; embora não fosse político, já tinha vivido
suficientemente para saber que a política é assim.
A vinda do 8eneral Geor8e Marshall ao Brasil, em maio de 1 939 . . .
Não! A visita do Marshall foi por causa da guerra, mesmo. Eu o conheci bastante.
Era só a guerra, que podia começar a qualquer momento. Precisava do apoio do
Brasi l ? Precisava! Mas ele queria um corpo de Exército, que corresponde a três
divisões, e não apenas uma divisão. O Osvaldo Aranha me disse, na ocasião, que
achava um erro o Brasil mandar apenas uma divisão, pois isso não nos daria direito
de ficar nem com os prisioneiros, nem com os armamentos, nem com coisa
9
A decl aração de Amaral Peixoto
consta da obra citada na nota anterior.
Edmundo de Macedo Soares e Silva (2'
da direita para a esquerda na 1° fila),
professor da Escola de Engenharia do
Exército, no Ri o de Janei ro, em julho de
1 937 (CPOOC/Arquivo Edmundo de
Macedo Soares)

..
10
Os outros especialistas enviados pela
US Steel eram: R. I . Hassler,
contabil ista, e H. E. Parker, engenhei ro
e presidente da Bi rmi ngham Southern
Rai l road Coo
Edmundo de Macedo Soares e Silva, d.
Alcina e Herman Greenwood (da direita
para a esquerda) em almoço no Joã,
Rio de Janei ro, em 1 939. (Co/eção
particular Alcino Fonseca de Macedo
Soares e Silva)
..
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
alguma que conquistássemos; só ficamos na históri a. Com um corpo de Exército,
teríamos participação no comando geral dos Aliados; mas reconheço que isso
ficari a muito caro.
No fnal de j unho de 1 939, a United States Steel enviou técnicos ao Brasil para avaliar
a viabilidade de implantação da grande siderurgia.
Eram sete especialistas, todos civis. Sua vinda foi conseqüência das conversações
que empreendi j unto à US Steel , quando da minha passagem pelos Estados Unidos,
e das gestões desenvolvidas pelo ministro Osvaldo Aranha. Esses homens
integravam uma comissão conjunta de técnicos brasileiros e americanos, que
durante uns quatro meses viajou pelo Brasil reunindo uma grande variedade de
informações. Eu também fiz parte dessa comissão.
U senhor se lembra desses americanos?
De todos os sete, não. Lembro-me bem do Herman Greenwood, vice-presidente
da comissão; do Diehl , engenheiro de minas; do Haswel l , engenheiro chefe de
usinas no Alabama; do King, engenheiro metalurgista, e do Fischer, do setor
comerci al . 10 Eram, em geral , formados em escolas americanas e tinham
experiência nas diferentes especialidades. A US Steel tinha gostado muito do meu
projeto técnico e acabou adotando-o com poucos acréscimos. O relacionamento
com os americanos foi muito tranqüilo.
Na Comissão Mista havia também, é claro, técnicos brasileiros : três, além de mim.
O Miguel Arrojado Lisboa era engenheiro de minas, autor de uma memória sobre
o carvão, na qual afi rmava ser possível fazer um coque com 1 6% de cinzas; o João
Batista da Costa Pinto era um engenheiro da Central do Brasi l , muito versado em
estradas de ferro. Foi o nosso homem para transporte ferroviári o; projetou, com
os americanos, o pátio de Volta Redonda, com 90km de linhas, toda a sinalização e
também a ligação, com bitola de um metro, de Volta Redonda a Barra Mansa, que
permitiu a interligação com o sistema de um metro que atende o Brasil inteiro. E o
Plínio Cantanhede, fundador do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos
Industriários, homem de competência extraordinári a, que trabalhou conosco,
sobretudo na parte administrativa.
As viagens da Comissão Mista cobriram uma porção considerável do território brasileiro.
Qe roteiro foi cumprido?
Inicialmente, os integrantes da Comissão percorreram a região de Juiz de Fora a
Lafaiete, em Minas Gerais; depois desceram para Santa Catarina. Como os técnicos
americanos quiseram conhecer as j azidas de Minas Gerais, a primeira viagem da
Comissão foi a Lafaiete; alguns adidos militares estrangeiros nos acompanharam.
Fomos de trem, vimos as minas de ferro e de manganês e passamos por Belo
Horizonte; depois, descemos o vale do rio Doce para conhecer a ferrovia Vitória­
Minas. Os americanos se surpreenderam muito com o sul do Brasi l , acho que não
esperavam ver tanta gente clara. Em Santa Catarina, é raro encontrar um preto, e
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se há um, e ele vem falar com a gente, não pede trabalho, pede arbeit. Curioso, não
é? Tanto que o Exército botou um Batalhão de Caçadores lá, para misturar
brasileiros com aquelas branquinhas.
Em Santa Catari na, foi realizado um estudo sobre os portos de Laguna e Imbituba,
operados pelo Henrique Laj e; Imbituba funcionava a contento, mas Laguna deixava
muito a desejar. Tivemos de arrumar esse porto e comprar dez navios de
transporte de carvão, porque não havia navios suficientes na frota brasileira. A
Comissão também percorreu a Estrada de Ferro D. Teresa Cristina, que nesse
momento já tinha passado a ser administrada pelo governo.
A que conclusões chegou a Comissão Mista?
O relatório conj unto, que foi entregue no final de outubro de 39, recomendava a
construção de uma usina siderúrgica com capacidade inicial de 285 mi l toneladas
anuais e que produziria perfi s, trilhos, chapas e ferro gusa. A usina utilizaria o
coque de Santa Catarina mi sturado com carvão importado e deveria ser instalada
na cidade do Rio de Janeiro, nas proximidades de Santa Cruz, local considerado o
mais apropriado para reunir o carvão e o minério. Mais tarde, fiz um estudo acerca
de localização considerando quatro possibilidades: Antonina, no Paraná; a cidade
do Rio de Janeiro; Volta Redonda, no estado do Rio, e algum l ugar no estado do
Espírito Santo. Cheguei à conclusão de que a reunião das matérias-primas a serem
utilizadas na usina teria um custo menor em Volta Redonda.
Para a el aboração do relatório, a Comissão Mista teve acesso a todas as
informações disponíveis, inclusive as secretas; o governo brasileiro não escondeu
nada. Conhecemos, inclusive, um mapeamento das reservas de minérios de
algumas regiões do Brasil , realizado pelo Departamento Nacional de Produção
Mineral , material que, pelo
menos a princípio, deveria ser
sigiloso. Mas essa era a vontade
do presidente; ele mesmo nos deu
licença para isto. O Exército e a
Marinha também não
reclamaram.
Embora os americanos tenham vindo
para cá na perspectiva de que a
usina seria construída em conjunto,
o relatório expressa a convicção de
que o Brasil desenvolveria sua
indústria siderúrgica, com ou sem
auxílio externo.
Essa parte é de minha autori a. De
vez em quando, eles faziam certas
ameaças, e eu rebatia logo: "Não
Rebidos no palácio do Cat�t�, Rio d�
Jan�iro, �Io p�id�nt� Vargas � p�lo
minis Sous Co(1'), H�rman
G�nwood (2), da US St�1 �
Edmundo d� Ma�o Sa� � Silva ()
(da dirtita par a eu�rda), �m
outubro d� 1939. (ruiv
Edmundo de Macedo Srs)
..
Casamento de Edmundo Macedo
Soares e Silva com Alcina Fonseca,
Florianópolis, em 26 de junho de 1 939.
(Co/eção particular Alcino Fonseca de
Macedo Soares e Silva)
..
U M C O N S T R U T O R 0 0 N o s s o T E M P O
adianta ameaçar porque, com ou sem vocês, a usina será construída. O presidente
Vargas quer, o Brasil quer." Agora, eles acabaram não tomando parte na usina,
porque os russos, logo no começo da guerra, se apoderaram de uma usina de
minério de níquel que a companhia possuía na Finlândia. Então, em j aneiro de 40,
o departamento financeiro da US Steel decidiu que a empresa não deveria
participar de mais nenhum empreendimento no exterior.
Ainda em 1 939, no fnal do ano, uma nova comissão foi constituída pelo governo
brasileiro.
Foi a Comissão Preparatória do Plano Siderúrgico, presidida por mim. Essa
comissão elaborou um pl ano levando em conta o que j á existia em funcionamento
no país no campo da siderurgia, ou sej a, as pequenas usinas privadas, de forma que
elas não entrassem em colisão com a grande usina a ser instalada. O plano
defendeu também a criação do Conselho Nacional de Minas e Metalurgia.
A G E S T A Ç À O D A G R A N O E U S I N A
Ao mesmo tempo em que se dedicava ao sonho de construir uma grande usina, o senhor
ainda tinha tempo de cuidar de sua vida pessoal. Foi em 1 939 que o senhor se casou
novamente, não é?
Isso mesmo. A Maria José, minha primeira mulher, morreu moça, em 1 936.
Soubemos de sua doença na Europa; foi em Stuttgart que o médico me disse que
ela estava condenada por uma doença de fgado. Quando chegamos ao Brasi l , levei­
a imediatamente ao seu médico, que me disse a mesma coisa e alertou: "Ela não
pode ficar grávida", mas já estava. E de fato, faleceu levando a criança.
Fiquei viúvo, com uma flha pequena. Primeiro, levei-a para a casa da minha mãe.
A Ieda me perguntava: "Onde está a minha mãe?" Aquilo me cortava o coração; eu
respondia: "Está no céu, minha filha. " El a insistia: "Mas eu quero vê-l a." Eu não
escondi a: "Infel izmente, você não vai poder mais vê-l a." Pouco a pouco, a menina
foi se acalmando, e eu peguei a idéia de me casar de novo para ter um lar. Foi
mexendo com o carvão que eu encontrei a Alcina; embora tivesse nascido em
Macaé, aqui no estado do Rio, ela morava em Santa Catarina, onde seu pai
comandava um forte; nós nos conhecemos em Tubarão. Depois ela veio para o Rio;
seu avô materno, o dr. Ol avo da Rocha e Silva, morava aqui , e seus irmãos
também, de forma que era natural que ela quisesse vir.
Usenhor teve filhos com d. Alcina?
Tive dois rapazes e três meninas : Hél i o, Edmundo, Alcina, Sílvia e Elisa.
Usenhor se casou logo depois que retornou dos Estados Unidos?
Casei-me com a Alcina no dia 26 de j unho de 1 939; o casamento foi em
Florianópol i s, porque a mãe dela estava morando l á. Eu quis casar antes de ir para
a Europa, mas você sabe como são os brasileiros; eu tinha pedido a Alcina em
casamento há apenas três meses, e todos acharam que era muito pouco tempo de
namoro. Ela perdeu uma viagem interessantíssima, mas depois fez outras; hoje
conhece o mundo inteiro. Há uma frase alemã que diz: "Seja um siderurgista e
ande pelo mundo"; geralmente, se um siderurgista tem algum merecimento, viaja
o mundo todo.
D. Alcina ficou aqui, esperando o senhor voltar da viagem?
Sim, ficou no Rio, e ficamos trocando cartas. Na volta, começamos a arrumar
tudo. O Getúlio dizia: "O Macedo só pensa numa coisa agora: casar." Casamos na
catedral de Florianópol i s, com um padre alemão que falava um português horrível !
Casei fardado, de espada, luvas, no figurino, e dando a direita a ela; geralmente, o
civil dá a esquerda, mas o mi litar dá a direita por causa da espada.
Casamento de Edmundo Macedo
Soares e Silva com Alcina Fonseca,
Fl ori anópolls, em 26 de Junho de 1 939.
(Co/eção particular Alcina Fonseca de
Macedo Soares e Silva)
'`

No início de 1 940, como o senhor nos contou, a US Steel desistiu ccia1mente de
participar da construção da usina siderúr8ica no Brasil. Qal foi a reação de Getúlio?
Ele decidiu que a usina seria instalada por uma empresa nacional , e que o dinheiro
de fora viria sob a forma de empréstimo. Convocou, a mim e ao Guilherme
Guinle, para que fizéssemos um esboço da futura empresa. Em fevereiro de 40,
aprontamos um texto com o orçamento, as normas gerais de organização e as
recomendações para a redação dos estatutos da companhi a. No início de março, o
Getúlio criou a Comissão Executiva do Plano de Siderurgia Nacional e convidou o
Guinle para presidi -l a. Lembro-me bem disso, porque no dia seguinte fui
promovido a tenente-coronel .
Eu também participei da Comissão, j unto com o Ari Torres, o Oscar Weinschenk ­
engenheiro extraordinariamente capaz, escalado para a parte de transporte e um
pouco para a parte administrativa -, trazido pelo Guinle, o Costa Pinto - que ficou
com a parte ferroviária, mas consultava freqüentemente o Weinschenk -, o Adolfo
Martins Noronha Torresão, que representava a Marinha, e com o paulista Heitor
Freire de Carvalho, escolhido para a parte administrativa; o Heitor era um homem
competente, mas brigou com o Guinle, causando-nos um problema sério. A
Comissão foi organizada em subcomissões, e eu fui encarregado de responder pela
subcomissão de siderurgia.
Guilherme Guinle tinha diiculdade de se relacionar com as pessoas?
O Guinle era um homem extremamente polido, limpo, cultura médi a.
Absolutamente patriota, cem por cento honesto, mas muito suscetível . Para vocês
terem uma idéia, logo que nos conhecemos , tivemos que i r j untos a Petrópolis
para uma audiência com o Getúl i o, que estava em vilegiatura. O Guinle me
convidou para almoçar e, no restaurante, ficou me observando comer, como
pegava no garfo, na faca, registrou o que eu bebia. Não me convidou para fcar
hospedado na sua chácara; fiquei num hotel . No dia seguinte, levou-me para
conhecer sua casa - aliás, uma casa linda -, a coleção de selos , a plantação de
orquídeas e rosas. E, da vez seguinte em que fomos j untos a Petrópoüs, hospedou­
me. Mas não fquei nem um pouco ofendido com esse procedimento.
Na pági na ao lado, pri mei ra corrida de
ferro gusa do al to forno da Usi na de
Volta Redonda, a 1 h da madrugada de
11 de Junho de 1 946. (CPODC/Arquivo
Edmundo de Macedo Soares)
1
Entrevista realizada em 18 de
dezembro de 1 986.
Detalhe do decreto nomeando
Edmundo de Macedo Soares e Silva
membro da Comissão Executiva do
Plano de siderurgia nacional, Rio de
Janeiro, em 7 de março de 1 940.
(epODe/Arquivo Edmundo de Macedo
Soares/dp)
..

U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
L F r e e¸He n 1 e H a F e µ O C | | c a
R E S O L V E nomear, de acôrdo c om o artigo
de
l� do decreto-lei Ï� 2054 , de 4 d Õ m a r ç o
1,Lo, » f9.��� _ ~ -� ��� d�
membro da Comissão execut iva do Plano de siderugia nac ional .
Rio de Jane iro , ) de..�de 1,Lc; 11,-
7
da Independência da República . -
m
Os interesses já estabelecidos inteieriram de alaum modo na diinição do peiil que teria
a indústria siderúraica nacional?
Foi decicüdo - apesar da oposição dos importadores, e porgue fui eu guem
elaborou o programa da siderúrgica - que a usina teria um laminador de perfis
mécos e de trilhos, chapas largas e fmas, folha-de-fandres, ou sej a, a usina
produziria de tudo. E, para vocês verem, começaria com uma produção de 300 mil
toneladas. Hoje está em quase seis milhões. ! Essa estratégia não atrapalhava a
produção já existente, porque as usinas menores produziam vergalhões, arames,
enfm, outro tipo de produto.
A Comissão Executiva também promoveu estudos na área de eneraia elétrica e de
transportes?
Evidentemente. Foi organizada uma subcomissão para cuidar exclusivamente de
eletricidade; foi ela gue tratou do aproveitamento da cachoeira de Paulo Afonso.
Quanto aos transportes, os membros da Comissão Executiva tiveram um ótimo
relacionamento com os ministérios, as administrações dos portos e estradas de
ferro. aquela época, os portos, como Laguna e Tubarão, e a Estrada de Ferro D.
Teresa Cristina tinham administração própria; mais tarde - depois da morte do
Henrique Laj e, em j ulho de 41 ¯ suas empresas, incluindo as minas de carvão,
foram encampadas pelo governo federal .
Onde se pensou em instalar a usina?
Esse foi um tema que mexeu muito com a opinião pública; os j ornais participaram
intensamente da cüscussão, e eu fiquei sob violento fogo cruzado. Três locais foram
objeto de cüscussão: Santa Catarina, a cidade do Rio de Janeiro - alternativa
preferida dos americanos - e o vale do Paraíba. O Pandiá Calógeras já havia
sugerido o vale do Paraíba - já contei a vocês. O Cincinato Braga, deputado por
A A V E N T U R A D A G R A N D E S I D E R U R G I A
São Paulo, também defendeu aquela área, mais exatamente Barra Mansa, e
possivelmente Volta Redonda. Os mineiros me acusam de ter tirado a usina de
Minas, mas se a puséssemos lá os americanos não nos teriam emprestado dieiro;
achavam que a usina deveria fcar próxima ao litoral para poder receber mais
facilmente o carvão. Foi com certa relutância que eles aceitaram o vale do Paraíba
- daí Volta Redonda, na época apenas uma estação onde os trens se encontravam, e
hoj e uma cidade de mais de 3 00 mi l habitantes. Uma vantagem importante de
Volta Redonda era o custo do frete do minério de ferro que vinha de Minas, bem
mais barato para l á do que para o Rio.
Em j ulho de 1 940, Getúlio Vargas formou uma comissão integrada por três membros da
Comissão Executiva: Guilherme Guinle, Ari Torres e o senhor; a taria era negociar
diretamente com o Eximbank o fnanciamento para a usina no Brasil. Como os nomes
foram escolhidos?
Foi uma escolha absolutamente técnica: o Getúlio me indicou, e eu sugeri o
Guilherme Guinle e o Ari Torres. Na verdade, não havia muitas alternativas ; eu só
conhecia um homem que poderia me substituir: o Raulino, meu companheiro de
exílio na França e na Missão Leite de Castro e que, depois, foi da companhi a.
Embarquei para Nova York de navio, j unto com a Alcina e as crianças; fcamos
hospedados no mesmo hotel que o Ari Torres. Já o Guinle foi para o Hotel Pierre,
perto do Central Park, levando o mordomo italiano que cuidava de suas roupas e o
A Comissão Executiva do Plano de
siderurgia nacional . vendo-se Adolfo
Noronha Torresão, Edmundo de
Macedo Soares e Silva , Gui l herme
Gui nl e (presidente) e Oscar Weinschenk
(da esquerda para a direita), em 1 940.
(CPODC/Arquivo Edmundo de Macedo
Soares)
Edmundo de Macedo Soares e Silva,
Gui l herme GUl nl e Ari Torres, Lourdes
Leonardos e d. Alcina, a bordo do navIo
Arentino, em viagem a Nova York, em
28 de Jul ho de 1 940. (Coleção
particul ar Alcina Fonseca de Maced
Soares e Silva)
.
U M C O N S T R U T U R D O N o s s o T E M P O
Portel a, funcionário
do Banco Boavista,
que viajou na
qualidade de seu
secretário particular.
O Portela não gosta
que se diga, mas ele
não foi como
membro da
delegação; foi como
secretário do Guinle.
No dia seguinte ao
da chegada, fomos ao
Export and Import Bank e lá nos encontramos com o seu presidente, o Pierson,
acompanhado do Jesse Jones, administrador dos empréstimos federais do governo
americano, um homem riquíssimo. O Jesse Jones perguntou ao Guinle o que ele
fazia; o Guinle respondeu que era presidente das Docas de Santos e do Banco
Boavista e que, além disso, servia ao governo brasileiro, mas era "one doIlar year
man"; ou seja, trabalhava para o governo sem receber um tostão.
Depois, o Pierson começou a me interrogar, a querer saber detalhes da
organização da companhi a, da composição da futura diretori a. Eu disse que um dos
objetivos básicos da nossa ida aos Estados Unidos era a contratação de uma frma
de consultoria para nos auxiliar na montagem da empresa no Brasi l . Saí do
encontro achando que, no próximo, deveria comparecer acompanhado de um
advogado que entendesse do assunto. Pedi ao cônsul brasileiro que indicasse uma
firma de ótima reputação e que tivesse alguém que conhecesse as leis brasileiras;
foi assim que cheguei ao Mi cou, um francês que tina morado cinco anos no
Brasil , fal ava perfeitamente o português e conhecia toda a legislação brasileira.
No encontro seguinte, j á fui com o Micou e me senti mais à vontade, menos
pressionado. O Pierson achou muita graça quando me viu entrar acompanhado e
comentou: "Eu tinha certeza de que o senhor ia vir hoje com um advogado."
Retruquei : "O senhor tem o seu, e eu tenho o meu." Daí por diante, nossas
discussões foram feitas em outras bases. E assim fomos negociando. O
subsecretário de Estado Sumner Welles - a quem chamávamos de "seu" Manuel ,
por causa da pronúncia do nome em português - foi muito simpático conosco e
disse que poderíamos contar com seu apoio.
O embaixador Carlos Martins nos ajudou muito nesses contatos. Era um diplomata
brilhante; tinha muito j eito, sabia receber, sabia conversar, falava muito bem i nglês,
alemão e francês. Tinha servido oito anos em São Petersburgo, na Rússi a, antes da
Revolução, e a corte russa, nas recepções, só fal ava francês. Depoi s, foi para a
Á
ustria e aprendeu o alemão de Viena, que é o alemão mais bonito que existe; foi
para os Estados Unidos como embaixador e aprendeu o inglês americano. Foi lá
que eu o conheci . El e estabelecia um relacionamento próximo com as pessoas, o
que ajuda muito.
A A V E N T U R A n A G ' A N D E 5 I D E R � l G I A
Aliás, tive muita sorte com todo o pessoal que servia na embaixada brasileira,
gente muito competente. Mas os americanos reparavam numa coisa: todos os
funcionários da embaixada, inclusive o Carlos Martins, eram separados das esposas
e viviam com as suas companheiras; para eles, que são muito religiosos e radicais,
isso era uma grande irregularidade.
Outro apoio importante que continuamos tendo nessas negociações com o
Eximbank foi do Osvaldo Aranha; sua linha de pensamento em relação à siderurgia
era igualzinha à nossa, da Comissão. Quem hesitou muito foi o Sousa Costa; como
todo ministro da Fazenda, dizia que o país não tinha dinheiro. E quando nos
referíamos à possibilidade de obter recursos do Export and Import Bank, ele
retrucava que o governo americano não daria dinheiro a um país falido. Eu tentava
convencê-lo de que instituições como o Eximbank viviam exatamente da concessão
de empréstimos e quanto mais pudessem endividar o Brasi l , melhor, porque
ganhariam j uros; era isso que interessava a eles.
Não houve nenhuma oposição mais concreta?
Cl aro que houve. Almoçando, certo dia, com o Jesse Jones, ele me apresentou a
um tal de Brown, presidente do Sindicato do Carvão. Depois de me perguntar se
era eu que estava pretendendo construir uma usina siderúrgica no Brasi l , o suj eito
afrmou que não iria permitir que prejudicássemos as exportações americanas de
aço e outros produtos siderúrgicos, porque isso reduziria a oferta de emprego. Eu,
da minha parte, fiquei admirado de um líder sindical como o Brown morar
naquele hotel onde estava o restaurante, um hotel de luxo. Perguntei quanto ele
ganhava; era uma fortuna, um dinheirão.
Que firma consultora acabou sendo escolhida?
A Arthur G. McKee & Co. , de Cleveland. O Eximbank mandou alguém conversar
com eles, e os dirigentes da empresa disseram o que já sabiam sobre o Brasi l ,
deram sua impressão. Aí o banco concordou em estudar o nosso pedido de
empréstimo.
A McKee tratou de saber tudo a meu respeito. Depois que concluíram a
investigação, eles me procuraram e me mostraram o resultado: 'This is ¸curlife";
estava tudo l á. Foi um verdadeiro trabalho de espionagem; esquadrinharam a
minha vida e também a do Guinl e, de todos, enfm. E verificaram que nós
tínhamos condições de dirigir a usina. O americano tem essa virtude: é muito leal .
O maior erro nos Estados Unidos é mentir; mentira é crime, e quem mente vai
para a cadeia. Tudo tem que ser dito corretamente, mesmo que seja contra a gente.
Eu agi assim, o que agradou muito os americanos; tornei-me uma referência. Na
verdade, toda a comissão brasileira deixou uma impressão muito boa. O Guinle, o
Ari e o Raulino, que mais tarde se integrou ao grupo, eram homens de bem,
homens inteligentes , também incapazes de mentir.
E como foi o seu relacionamento com Guilherme Guinle e com Ari Torres?
O Guinle era amigo, mas não era chefe; era incapaz de dar uma ordem, tinha que
..
Durante o periodo de negociação com
o Eximbank, nos Estados Unidos,
vendo-se da direita para a esquerda na
1* fila, Saldanha da Gama ( 1 ) ,
Edmundo de Macedo Soares e Silva
(2"), Mr. Foell (3'), da US Steel, Noronha
Torresão (4') e Renato Azevedo (6"), em
1 940. (CPODC/Arquivo Edmundo de
Macedo Soares)

U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T EM P O
ser levado a i sso: "Dr. Guinle, eu preciso fazer isto assi m, assim." El e respondi a:
"Vosmecê faz se quiser; se não quiser, não faz." Nunca di zi a "estou de acordo" ou
"não estou de acordo". Com a minha formação militar, eu ficava completamente
aturdido. Já o Ari era um homem preparado, inteligente, bom caráter, mas muito
vaidoso. Também tive problemas com el e. Dizem que a mulher é vaidosa, mas
quando o homem é vaidoso, é infernal . Ele não admitia ser contrari ado; se dizia
sim, tínhamos que dizer sim; se disséssemos não, fcava ofendido. Por isso é que se
chocou comigo. Mas com os americanos, ele não teve nenhum problema. Falava
inglês melhor do que eu, pois já tinha uns três anos de Estados Unidos quando
chegamos l á, e eu estava apenas na minha segunda viagem, estava aperfeiçoando o
meu american ena/ish .
A A V E N T U R A D A G R A N D E S I D E R U R G I A
Quanto tempo durou essa etapa das negociações?
Exatamente seis semanas : começaram em 6 de agosto e se estenderam até 2 5 , 26
de setembro de 1 940, quando finalmente o Congresso americano aprovou o
empréstimo, ou melhor, aprovou a subscrição do capital , que possibilitaria o
empréstimo da ordem de 20 milhões de dólares. Mais tarde, com o
desenvolvimento dos trabalhos de construção da usina, o empréstimo seria elevado
para 45 milhões.
Houve alguns contratempos: o Eximbank só poderia emprestar dinheiro no
montante desejado se o Congresso aprovasse um projeto de lei aumentando seu
capital em 500 milhões de dólares. Mas acontece que o relator do projeto morreu
num desastre de avião, o que provocou um atraso de uma semana na discussão, até
nomearem outro relator. Depois foi preciso haver o que eles chamam de rieree, ou
sej a, a reunião do líder da Câmara com o líder do Senado, para aprovarem o
proj eto de lei de aumento do capital . Houve atraso, mas eles acabaram aprovando.
Eu nunca duvidei de que chegaríamos a um final satisfatório, mas o Guinle e o Ari
Torres ficavam aflitos; não acreditavam que o governo americano fosse dar o sinal
verde e me diziam isso claramente.
ëverdade que ao longo das negociações Ö senhor foi procurado por pessoas que se
iereciam para servir de intermediários?
Sim, tentavam me convencer de que eram indispensáveis para a obtenção do
empréstimo. Lembro de um ex-senador americano que veio exatamente com essa
conversa, e eu lhe disse que preferia ficar sem o empréstimo a ter de recorrer a
intermediários. El e deixou claro que eu também ganharia uma comissão; repliquei
que não queria nenhuma, que a comissão tinha que ser dada ao Brasil . Foi isso,
aliás, que o marechal Hermes fez quando foi à Alemanha comprar equipamentos
para o Brasil . Ofereceram-l he uma comissão, mas ele recusou e disse que a Krupp
teria de reduzir o preço que estava pedindo.
Vou dizer uma coisa: talvez seja falta de modéstia, mas quando concluímos Volta
Redonda, i a um brasileiro aos Estados Unidos, e eles diziam: "Se for um negócio
igual ao do Macedo Soares, nós fazemos." Eles me ofereceram 3 , 5% de comissão,
mas não aceitei um cêntimo. Eu dizia: "Prefiro que vocês baixem o preço." El es
alegavam que não podiam, porque era dinheiro de comissão. Eu então ameacei não
comprar o equipamento, procurar outro fornecedor; aí baixaram. Um colega meu
- peço licença para não dizer seu nome - dizia que eu era no minimo burro,
porque com os contatos que tinha estabelecido poderia ter me tornado um homem
rico.
Participei de muitos negócios vultosos e, se tivesse entrado no jogo, teria fcado
milionário. Na Alemanha, recebi a proposta dentro de um automóvel ; o alemão me
propôs 5% de comissão, metade do que ele iria ganhar, sobre 45 milhões de
dólares. Recusei terminantemente: "Sou muito bem pago pelo meu governo, não
preciso." Ele botou a mão no meu ombro, surpreso: "
É
a primeira vez que ouço
.
" ..
..
9
4

U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
Nos Estados Unidos, eles abriram tudo para o senhor ver?
Com exceção das minas magnéticas, tudo; afnal , eles queriam vender o
equipamento. Os americanos desprezavam tanto o Brasi l , que o seu único desejo
era vender equipamentos. Eles me perguntavam: "Mas vocês, brasileiros, têm
capacidade para ter uma usina? Vocês vão contratar uma companhia americana para
tomar conta dela?"
Teria sido possível construir a usina apenas com dinheiro brasileiro?
Tenho impressão de que sim, o país estava muito bem e não precisava do
empréstimo externo. Seria um investimento nacional conjunto, do governo e de
particulares. Gastamos na usina 90 milhões de dólares, 45 milhões dos Estados
Unidos e 45 milhões nossos. Poderíamos ter feito sozinhos; muito empréstimo tem
sido pedido sem necessidade, só para gerar comissões.
É
verdade que seria penoso
conseguir aqui dentro os 45 mi lhões que vieram dos Estados Unidos, mas ninguém
sequer tentou.
Como era sua rotina nos Estados Unidos?
Morávamos em Nova York, mas eu ia quase toda semana a Washington. Viaj ava
regularmente de trem, um trem muito confortável ; a cada viagem, eu l i a um livro.
A Alcina ficava direto com as crianças em Nova York: a Ieda, já grandinha, e o
Hél i o, ainda bebê. El a era ajudada por uma nurse, a madame B01l0n, uma francesa
arranj ada pela McKee, muito boa profissional . Ela mandava seu salário para a
França, mas parece que o dinheiro não chegava. Quando nos contou isso, eu lhe
disse para não mandar nem mais um tostão para lá. Aconselhei-a a abrir uma conta
num banco em Nova York e fazer seu pé-de-meia lá mesmo, nos Estados Unidos.
E o seu pagamento, o senhor recebia em dólar?
Recebia. Ganhava 1 . 800 dólares, gastava 1 . 200 e botava 600 de lado; dava para
viver bem. Todos os domingos recebia a comissão para almoçar; nesse dia,
conversávamos muito, bebíamos nosso whisky e falávamos do Brasi l , de viagens,
mas falávamos também de trabalho. Como da vez anterior, meu soldo de mil itar
fcava aqui ; eu já tinha feito umas economias na última viagem à Europa.
Permanecemos em ova York até j aneiro de 41 , quando nos mudamos para
Cleveland, onde a McKee estava sediada; fomos morar num apartamento. E,
embora Cleveland não fosse uma cidade pequena, ao contrári o, não podia ser
comparada a Nova York. O estilo de vida, portanto, mudou muito; era uma vida
mais tranqüi l a, com mais contato com a famí l i a. Em Nova York, era o vai -e-vem de
Washington, morávamos em hotel . . .
Eu gostava de Cleveland, mas a Al cina detestava, e olhe que tínhamos uma
empregada muito boa, uma crioula que chegava de automóvel e nos
.
"H d 1 7" A
'
cumpnmentava sempre com um ow are you, qgoo peop e. s vezes,
recorríamos a ela no domingo, o que não costuma acontecer nos Estados Unidos, e
ela sempre nos atendi a: "For ¸o:t,good people, J wilJ stay."
A A V E N T U R A D A G R A N D E S I D E R U R G I A
A Alcina viveu umas situações meio absurdas nos Estados Unidos. Certa vez,
perguntaram-lhe se ela era descendente de índios; el a respondeu: "Não, sou
descendente de portugueses e tenho, também, na famí l i a sangue holandês. Meu
mari do descende de irlandeses , de espanhóis e de portugueses." Mas el es não
acreditavam; queriam, de todo j eito, que tivéssemos parentesco com índios e com
pretos. Chegaram a perguntar à Al cina se, no Brasil , ela se vestia como as africanas!
A ignorância a respeito do Brasi l , e mesmo do mundo, era impressionante. Não é
que o Jesse Jones me perguntou um dia se, para ir do Brasil à Al emanha,
pegávamos trem? ! Eu respondi que não e lhe expliquei que era preciso atravessar o
oceano Atlântico. El es só conhecem a geografa dos Estados Unidos.
Assim, passamos lá um ano e meio, e voltamos para o Brasil em dezembro de 41 ,
logo depois do ataque j aponês a Pearl Harbor. Embora acreditasse que o
empréstimo do Eximbank sairia tranqüilamente, ao mesmo tempo sentia uma
certa ansiedade e mesmo insegurança em relação à conjuntura mundial , por causa
da guerra. Não sabia como ficaria a economia americana, como ficaria o mundo;
não sabia se as máquinas chegariam a salvo - algumas foram a pique, j unto com os
navios que as transportavam e que foram torpedeados por submarinos alemães.
Enquanto, nos Estados Unidos, o senhor começava a trabalhar diretamente com a McKee,
no Brasil a Companhia Siderúraica Nacional, a CSN, começava a aanhar forma?
Correto. Em j aneiro de 41 o Getúlio autorizou por decreto a Comissão Executiva
a promover todos os atos necessários à constituição da companhia, e o Ministério
da Fazenda a integralizar o capital pelo Tesouro Nacional ; em 9 de abri l a
companhia foi fnalmente criada.
Na hora de for mar a diretoria, o Getúlio me chamou e afirmou, taxativamente,
que eu seria o presidente da companhia. Recusei a oferta; disse que não era um
nome conhecido e indiquei para o cargo o Guilherme Guinle, que além de
presidente das Docas de Santos e do Banco Boavista, era conhecido no mundo,
rico, simpático. O Getúlio acatou minha sugestão; mandou telefonar para o Guinle
e marcou uma entrevista. Convidou-o pessoalmente, e o GWnle aceitou. Pouco
depois , o Guinle publicou no jornal do Commercio um longo artigo em que elogiava
o projeto da CSN e dizia como ele concebia a siderurgia. O Getúlio ficou muito
contente e me cumprimentou pela indicação. E foi assim que o Guinle entrou; não
é como a famí l i a dele conta. Os Guinles contam que foi o Getúlio que procurou o
Guinle e o convidou; e não me citam. Mas não foi assim não, foi como estou
dizendo.
Depois que o Guinle foi escolhido, tratou de formar a diretoria da companhia e,
por conta disso, me consultou sobre um nome para ocupar o cargo de diretor
técnico. Aconselhei-o a solicitar uma indicação da McKee que, para surpresa dele,
recomendou o coronel Macedo Soares. Quando o Guinle me perguntou se eu teria
coragem de assumir, respondi que sim e que a usina iria sair. Aí, ele convidou o Ari
Torres para a vice-presidência e o Oscar Weinschenk para a diretoria comerci al ; o
Al fredo de Sousa Reis J únior ocupou o cargo de diretor-secretário.
Dlretoria da CN, vendo-se Edmundo
de Macedo Soares e Silva, Raul i no de
Ol i vei ra, gui lherme Gui nl e (presidente),
Oscar Welnschenk e Benjamim do
MOllte (da esquerda para a direita), em
Janeiro de 1 945. (CPODC/ArqUlvo
Edmundo de Macedo Soares)
`
'
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Mas o Ari Torres só ficou até abril de 42; nessa ocasião, brigamos feio. El e queria
instalar a diretoria no Rio de Janeiro; fui contra e argumentei que, na condição de
diretor-técnico, já havia resolvido que ficaríamos em Volta Redonda, porque l á,
entre outros motivos, seria possível preparar a mão-de-obra para trabalhar na
usina. El e insistiu e ameaçou levar a questão à reunião de diretoria, mas eu lhe
antecipei que ele seria voto vencido. Então, a pretexto de que ia fazer concurso
para a cadeira de materiais de construção na Escola Politécnica de São Paulo, o Ari
deixou a empresa. E me fez muita falta, porque era um homem muito capaz.
Depois descobri que ele insistia tanto na cidade do Rio de Janeiro porque não
queria morar em Volta Redonda; queria desenvolver o projeto a partir no Rio,
onde sairia muito mais caro e eu não poderia escolher os homens que iriam ficar
na usina. Eu topei ir para Volta Redonda e lá passei uma temporada grande; no
início, fiquei alojado numa casa pequenina de madeira, pouco mais do que um
acampamento.
Qual foi o capital inicial subscrito?
Na ocasião, 500 milhões de cruzeiros, divididos, em partes iguai s, em ações
ordinárias e preferenciais. O Guinle conclamou a iniciativa privada brasileira a
comprar ações; de acordo com relatório que encaminhou ao Getúli o, em 1 941 a
companhia tinha mais de 2 2 mil acionistas. O dr. Guinle e seus assessores
desenvolveram um intenso esforço de convencimento. O principal assessor era o
Portela que, como eu já disse, trabalhava com o Guinle no Banco Boavista; eles
buscavam os recursos onde podiam, na área de gov rno, j unto a bancos, a
empresas particulares. Esses contatos envolviam gente de prestígio, que procurava
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convencer empresários e banqueiros da importância de se constituir uma grande
indústria ligada ao governo; pobre não consegue nada, mas rico consegue tudo.
O maior acionista particular foi o Jacques La Saigne, da Mesbl a; adquiriu muito
mais ações do que o Guinle, que comprou 2 . 500. A Hel oísa Guinle Ribeiro
adquiriu 1 . 500, o Ari Torres 500, eu mesmo fquei com 200, o Oscar Weinschenk
com cem; o Adolfo Martins de oronha Torresão, o Daniel Serapião de Carvalho,
o Fernando Machado Portela e o Traj ano Furtado dos Reis compraram 50 ações
cada um. Quanto às empresas, a Mesbla e a Sul América de Seguros compraram
cinco mil ações, e a Companhia Docas de Santos, do Guinle, 2 . 500. Empresas
privadas da área de siderurgia também demonstraram sua crença em Volta
Redonda: a Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira fcou com cinco mil ações, a
Companhia Brasileira de Usinas Metal úrgicas com três mi l , e a Barbará com mi l .
Se fossem contra, não teriam comprado, é claro. Todas essas ações eram ordinárias.
Os institutos de aposentadorias e pensões também entraram com uma parte do capital?
Dias antes da constituição da CSN, o governo autorizou não só os institutos dos
industriários, dos comerciários e dos bancários, mas também a Caixa Económica
do Rio e a de São Paulo, a subscrever ações preferenciais da companhia. E o Guinle
também tinha muita ascendência sobre os presidentes das autarquias e das caixas
económicas, porque fnanciava seus projetos.
A participação do governo federal se dava por intermédio do próprio Tesouro
Nacional , que subscreveu as ações ordinárias , aquelas que têm poder de voto, de
defnir os destinos de uma empresa. O governo tinha que ter o control e, não é? O
Getúlio podia sempre recorrer a um decreto-lei .
Edmundo de Macedo Soares e Silva
(em pri mei ro plano), o presidente
Gui lherme Gui nl e e Oscar Wei nschenk,
di retores da CSN, janei ro de 1 945.
(CPODC/Aruivo Edmundo de Macedo
Soares)
.
Fazenda Santa Cecil ia, em Volta
Redonda, 9 de abril de 1 941
(CPOOC/Arquivo Edmundo de Macedo
Soares)

'
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Se o Brasil esti vesse sob reaime democrático, com o Conaresso funcionando, a obtenção de
recursos j unto às autarquias e outros óraãos públicos teria sido mais difcil?
É
a velha história . . . O Getúllo sempre dizia gue era preciso resolver tudo gue
dissesse respeito à grande siderurgia sem o Congresso em funcionamento, porque
com os deputados e senadores em ação, logo começaria a disputa pela localização,
pelo tamanho da usina, e acabaria não acontecendo nada.
A essa altura, Amaral Peixoto, interventor no estado do Rio, já tinha determinado a
desapropriação de um imenso terreno em Volta Redonda, onde seria construída a usina.
Exatamente, o terreno foi desapropriado pelo Ernâni por 500 mi l cruzeiros, em
março de 1 941 . a verdade, a própria Companhia Siderúrgica Nacional tinha
poder para isso, mas ele quis nos doar o terreno, e nós agradecemos muito; foi
uma atitude política, reconheço, mas o Ernâni é cem por cento politico. Essas
terras faziam parte da fazenda Santa Cecí l l a, gue minha mãe tinha conhecido
guando moça. Compramos o terreno com a casa da fazenda, que serviu de sede à
companhi a; mudei-me para essa casa, uma casa tão boa, gue o Guinle costumava
dizer: "Vosmecê mora num palácio."
A A V E N T U R A D A G R A N D E S I D E R U R G I A
No caso de uma usina, o que se dqne primeiro: a dimensão ou o programa de produção?
Em primeiro lugar, levando-se em conta os recursos disp0nlveis e as necessidades,
decide-se o tamanho da usina: se ela vai ser, por exemplo, de 300 ou 400 mi l
toneladas. Depoi s, vê-se o que vai ser fabricado; em função cÌisso é que vêm as
instalações, equipamento, treinamento de pessoal . Foi por i sso que eu qui s instalar
logo a sede da empresa em Volta Redonda: para aproveitar a qualificação do pessoal
que tinha participado das obras civis. Sel ecionava os operários que já tinham
trabalhado com ferro ou em fundição, destacava esses últimos para o alto-forno, o
forno de aço. Formamos monotécnicos, cada um na sua profssão; j á estava
pensando nisso tudo enquanto projetava a usina.
Nossa preocupação com o ensino era enorme; construímos uma grande escola
técnica em Volta Redonda, que ainda hoj e está lá; fizemos um ginásio, que leva o
meu nome, e o entregamos a padres. Tomei essa decisão porque nas mãos dos
padres a escola não acabari a; se tivéssemos entregado a uma pessoa qualquer,
poderia ter sido vendida e até fechada. A mesma coisa com a escola para moças :
entregamos para as freiras ; e as duas escolas ainda estão l á.
Como se fez a seleção da mão-de-obra especializada?
Eu, o Raulino e o Ari Torres esco]}Úamos. Boa parte dos selecionados tinha se
formado na Escola de Engenharia do Exército, e quase todos tinham sido meus
alunos; passaram a trabalhar em conjunto com o pessoal da McKee, e alguns foram
para os Estados Unidos. Tudo gente moça, com idade média de 34 anos. Lembro
do Carlos Berenhauser J únior, já falecido, um dos responsáveis pela parte elétrica
da usina de força, engenheiro muito bom; depois organizou uma empresa
especializada. O Ernâni Bittencourt Cotrim era um engenheiro civil b

ilhante e o
mais velho do grupo; tinha o Torresão na coqueri a; o Larrabure, um paulista
inteHgenti ssimo, ligado à laminação; o São Tiago Filho, brilhante, também já
falecido; o Paulo Martins, na construção civil e na área de hidráu]jca; o Varonil de
Albuquerque Lima, cearense e militar; o capitão Saldanha da Gama, engenheiro
militar - este foi logo substituído; achou a função muito difíci l , não agüentou os
Estados Unidos e preferiu voltar. Não posso me esquecer do Mauro Mariano da
Silva, " meu primo-irmão, filho do tio Rosalvo, que cuidava da parte elétrica, nem
do seu irmão, o Rosauro, que trabalhava com o Paulo Martins.
Um cargo de fundamental importância era o de encarregado do alto-forno; quem
o ocupou foi o Renato Frota de Azevedo, excelente engenheiro, nascido em Minas
Gerais e formado na Escola de Minas de Ouro Preto. Foi para os Estados Unidos,
aprendeu ingl ês, aprendeu alto-forno. Eu ficava olhando para aquele homem
pequenino, às voltas com um alto-forno de 3 5 metros de altura, e não acreditava;
mas deu tudo certo.
Na área de infa-estrutura, o Napoleão Alencastro Guimarães foi responsável por
uma obra notável ; engenheiro e, na ocasião, diretor da Estrada de Ferro Central do
Brasi l , aumentou o gabarito dos túneis da serra do Mar, para passarem as grandes
peças - entre 50 e cem toneladas - que foram utilizadas na usina de Volta
..
2
Entrevista realizada em 19 de
fevereiro de 1 987.
.

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Redonda. Comprei vagões rebaixados, que estão aí até hoj e, 2 nos quais essas peças
eram colocadas, mas para passar nos túneis foi preciso aumentar o gabarito. O
Paulo de Frontin já tinha conseguido realizar a duplicação da linha férrea sem
interromper o serviço; e não é que o Napoleão conseguiu a mesma coisa? ! Ele e os
auxiliares conseguiram aumentar os túneis - o nome técnico disso é rebaixamento
- sem que tenha sido necessário tirar a linha de operação.
A indústria nacional teve alguma participação na construção da usina?
Posso garantir que sem os cabos de cobre produzidos na indústria que o Calógeras
mantinha em São Paulo, em sociedade com outras pessoas, ou os vergalhões feitos
pela Belgo-Mineira, teria sido muito difil construir a usina. Com eles, tivemos
condições de fazer tudo que estava relacionado à instalação elétrica da fábrica e ao
concreto armado; aliás, os americanos ficaram encantados com o conhecimento
brasileiro sobre concreto armado.
Além da construção da usina e das obras necessárias ao seu funcionamento, o que foi feito
em relação ao carvão-de-pedra de Santa Catarina?
O Cotrim era catarinense e conhecia muito as minas de carvão; por isso,
encarreguei -o dessa área; mandei -o para os Estados Unidos, para Pittsburgh, com
dez toneladas do carvão brasileiro, que foi submetido a ensaios de coquefação na
companhia Koppers. Algumas experiências já haviam sido feitas no Brasil pelo
Ernesto da Fonseca Costa, professor da Politécnica, com bons resultados; porém
esses testes não tinham sido completos, porque não dispúnhamos de todo o
equipamento. Empreguei um engenheiro americano, chamado Williams, para
acompanhar o processo de coquefação com o Cotrim; no fmal dos ensaios, deu
coque de boa qualidade.
A importação de carvão para o coque não acarretava custos elevados de transporte?
Esse custo era compensado pelo frete de retorno da exportação de minério de
ferro e manganês. Os navios que faziam esse frete eram brasileiros e estrangeiros;
os brasileiros eram embarcações alemãs apresadas nos nossos portos, em represália
ao afundamento de navios brasileiros por submarinos do Reich.
Como se desenvolviam as coisas na frente americana? Parece que surgiram problemas
quanto aos desenhos das máquinas.
Bom, os Estados Unidos estavam em guerra e não deixavam sair desenho algum do
paí s. Fiquei sabendo dessa proibição numa reunião da General Motors; fui
informado de que não poderia mais levar desenhos para o Brasil por imposição do
Exército e da Marinha. Reagi na hora: "Preciso dos desenhos para montar as
máquinas. Se não posso levar os desenhos, não compro mais máquinas nos Estados
Unidos." Criou-se o impasse, e começaram as negociações; como solução, tive que
arranjar um passaporte diplomático e passei a transportar os desenhos comigo, na
bagagem. Assim mesmo, uma vez, na chegada aos Estados Unidos, a Polícia do
A A V E N T U R A D A G R A N D E S I D E R U R G I A
Exército não quis me deixar entrar com o desenho. Mas por sorte - graças a Deus,
sempre tive sorte -, chegou um coronel do Exército americano que me conhecia;
expliquei que a minha bagagem tinha sido confiscada com os desenhos e que eu
não poderia entrar no paí s. El e acabou resolvendo tudo.
Fora esse problema, tive de enfrentar também a oposição da Marinha americana
que, devido à situação extremamente crítica na Europa, argumentava que com o
aço a ser utilizado na fabricação das máquinas para o Brasil poderiam ser
construídos alguns navios; isso atrasou o nosso projeto, e as máquinas só chegaram
a Volta Redonda após o térmjno da guerra. Mas, de resto, os militares
·
americanos
- o Exército, a Força Aérea e os próprios maTiners - não criaram embaraços para o
desenvolvimento do projeto.
A fabricação das máquinas não foi sequer interrompida. Cheguei , inclusive, a
visitar uma das fábricas onde estava sendo feito o equipamento; lá os americanos
me explicaram que estavam produzindo um material capaz de impedir a ação das
minas magnéticas inventadas pelos alemães, responsáveis pela explosão de um
grande número de navios.
Compreendj perfeitamente a demora na entrega, tanto que nem reclamei à
embaixada, apenas comentei com o Carlos Martins e disse que era preferível
deixar as coisas como estavam; tinha certeza de que assim que pudessem, eles nos
entregariam o equipamento.
Quando as máquinas foram enviadas para o Brasil , toda a infra-estrutura da usina já
estava pronta. Montei um esquema especial para o recebimento, baseado em
números e letras , de forma que cada equipamento fosse marcado e quando
chegasse a Volta Redonda iria para o l ugar que já lhe fora destinado previamente.
Mas como o consulado não queria que as máquinas já viessem com as marcas,
mandei a indicação por carta.
U Eximbank acompanhava de perto a execução do projeto?
O controle era completo, não só do desembolso fnanceiro, como também do
andamento físico do projeto da siderúrgica. Tínhamos que prestar contas de tudo
que fazíamos, de todos os estudos. Todas as informações que dávamos, cada palavra
que dizíamos, eram checadas pelos técllicos do banco; a aprovação dos nossos
pedidos só vinha depois dessa investigação. Se discordássemos em algum ponto,
tínhamos que negociar. Por exemplo, a McKee queria colocar fornos basculantes,
que são muito caros; consultei um engenheiro americano, e ele me aconselhou a
instalar fornos fixos, muito mais baratos. Fui à McKee e, baseado na opillião do
engenheiro, propus que instalássemos quatro fornos fixos e um basculante, para
experimentar; eles concordaram. Quando começamos a operar, viu-se que o
basculante era inúti l . Então, voltei à McKee e disse que ia trabalhar só com os
fornos fixos, porque sairia mais barato.
Outra divergência envolveu o laminador de chapas grossas. Tínhamos um trem
reversível para fazer a chapa; o lingote passava, ia e vinha, e depois passava
diretamente para o trem semicontínuo, o primeiro que os Estados Ullidos
. .
3
Entrevista realizada em 19 de
fevereiro de 1 987.
1 02

U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
exportaram. Sugeri que colocássemos uma outra gaiola, depois do laminador
reversível , para começar a diminuir a espessura das chapas, mas a McKee não
concordou, achou excessivo. Consultamos uma oUb-a fi rma, que nos deu razão; a
outra gaiola foi instalada e está lá em Volta Redonda até hoje.
3
Pelo que o senhor está dizendo, o Eximbank corava plenamente na opinião da McKee.
Plenamente. Mas convém informar que o Eximbank nunca me recusou coisa
nenhuma; é verdade que eu só pedia coisas j ustas. Certa ocasião, houve
necessidade de um empréstimo da ordem de cinco milhões de dólares. O Guinle
achou que precisaria ir pessoalmente aos Estados Unidos encaminhar a solicitação;
eu, que já estava l á, convenci -o a não ir. Fui ao Eximbank e voltei com os cinco
mi lhões de dólares; telefonei ao Guinle e disse que o dinheiro entraria na nossa
conta no dia seguinte.
�azendo um retrospecto de toda essa luta, poderíamos atribuir à ftabira lron e grupos a
ela ligados a responsabilidade pela demora na implantação do projeto?
Evidentemente! Volta Redonda poderia ter começado antes da guerra, quando os
problemas teriam sido de menor monta, e as faci l idades maiores. O Farquhar foi
um agente inibidor, terrivelmente inibidor; mas até hoj e há quem diga que eu
errei , que o Farquhar é que estava certo.
U senhor chegou a conhecer Percival Farquhar pessoalmente?
Quando já estava casado com a Alcina, todas as manhãs, às sete horas, ele saltava de
um táxi na porta da minha casa, para me convencer a aceitar os termos do seu
contrato; conversávamos uns 40 minutos, em inglês - ele só falava inglês. Eu me
desculpava, alegando que tinha que dar aula na Escola de Engenharia do Exército, e
ele ia embora; no dia seguinte, à mesma hora, lá estava ele de vol ta. Isso se repetiu
durante uns dois meses, até que um dia, consegui er mais objetivo e disse a ele
que não viesse mai s: "O senhor está perdendo seu tempo. Eu já lhe disse qual é a
minha posição, e dela não me afasto." Aí ele desisti u. Finalmente, em agosto de 39
o contrato da Itabira Iron foi considerado caduco pel o governo.
Naquela época, havia muita gente na cúpula do Exército preocupada com o
desenvolvimento tecnológico, não é?
Ah, sim. O Leite de Castro, o velho Augusto Inácio do Espírito Santo Cardoso . . .
Nós até brincávamos , dizendo que Volta Redonda era "obra do Espírito Santo". S
eu consegui fazer carreira e chegar a general , sempre exercendo cargos técnicos ,
dirigindo indústrias, foi porque sempre tive esse apoio.
Quem o ajudou a pensar nessa grande indústria de Volta Redonda?
Olhe, a solidão era um fato; eu estava sozinho, muitas vezes, e ia buscar
naturalmente no Raulino, no Ari Torres, o auxílio que me faltava. Com o Cordeiro
de Farias conversei muitas vezes ; ele sempre me apoiou. As Forças Armadas e as
A A V E N T U R A D A G R A N D E S I D E R U R G I A
grandes empresas apoiavam muito, mas os políticos estavam divididos. Se até 1 934,
na fase do Governo Provisório, o Getúl i o tinha, digamos, liberdade para decidir
sozinho, entre 34 e 37 ele ficou dependendo da opinião dos deputados e
senadores. Como j á contei antes, o próprio Getúlio costumava dizer que com o
Congresso funcionando seria muito mais difci l , e foi mesmo; cada parlamentar
queria colocar a usina no eu estado. E também questionavam o tamanho da usina;
diziam que era grande demais , que eu era louco etc. Mas quando Volta Redonda
começou a fWlci onar, todo mundo veio me cumprimentar.
Usenhor recebeu alguma proposta de trabalho nos Estados Unidos?
Como não? ! Fizeram de tudo para me naturalizar. Certa feita, um americano me
procurou em casa com os tais¡rst papers, os papéis pedindo naturalização, mas
recusei terminantemente, dizendo que queria continuar brasileiro. O homem ficou
Os primeiros chefes de serviço e
funcionários em frente ao primeiro
escritório da CN. em Volta Redonda.
em 1 941 . (CPOOC/Arquivo Edmundo de
Macedo Soares)
¸ . .
Cartão do Ol P ¯ Sideurgia, 1 937-45,
(CPODC/Arquivo Getúlio Vorgas)
. .
. . . . . . . . . .
espantadíssi mo: "Brasi l ? ! Mas o que é o Brasi l ? ! " Respondi que era o meu país e
que ele nunca entenderia o que era ser brasileiro, Agora, eu pergunto: o que teria
acontecido comigo se tivesse me naturalizado americano? Teria sido um
engenheiro, teria trabalhado em usinas, nada mais, ao passo que, voltando para o
Brasi l , fz uma carreira muito diferenciada,
U que o levou a tomar a decisão de implantar no pais uma usina de Brandes dimensões?
A análise do mercado, Fui vendo as possibilidades, as necessidades, e cheguei à
conclusão de que a usina não poderia produzir menos de 300 mj l toneladas por
ano. Fui ao Getúlio e disse: "Presidente, a siderúrgica não pode ser de 1 50 mj l
toneladas, tem que ser de 3 00 mi l ." El e duvidou: "Uma usina deste tamanho não
pode virar um elefante branco?"Tranqüjlizei-o: "Não, presidente. Tenho certeza de
A A V E N T U R A D A G R A N D E S I D E R U R G I A
que vai dar certo! " E ele acabou aprovando; aliás, os equipamentos foram
comprados j á nessa perspectiva. O Brasil foi sempre uma surpresa. O que este país
cresceu! Hoj e é o quinto do mundo em siderurgia. 4
Agora, muitas pessoas não tol eraram que Volta Redonda fosse feita por um militar;
achavam que era glória demais para o Exército. Acontece que eu não pedi para
fazer Volta Redonda, fui escolhido. O próprio Carlos Lacerda dizia que coronel não
deve se meter nem em política nem em indústria, quando o mundo está cheio
disso. Havia também muito ciúme do Getúlio, mas foi uma obra dele, da sua
tenacidade, da sua compreensão das coisas, tanto que a usina se chama Usina
Presidente Vargas.
Usenhor estava presidindo a Acesita, Aços Especiais habiT, em agosto de 1 954, quando
a crise política culminou no suicídio do presidente Getúlio Vargas. 5
Isso mesmo. Eu presidia a Acesita, mas mantinha um escritório aqui no Rio, na rua
Visconde de Inhaúma. No dia do suicídio, eu estava no escritório, quando minha
secretária veio e me disse : "Acabo de ouvir no rádio que o Getúlio se suicidou."
Para l'li m foi um choque. Agora, o Góis j á me havia dito que o Getúlio tinha essa
mania, sempre foi fxado na idéia de suicídio.
A crise estava muito feia desde a tentativa de assassinato do Lacerda, em 5 de
agosto, no atentado da rua Tonelero. A segurança do Getúlio era muito suj a; o
Gregório só não tomava confiança comigo porque eu não permitia. Quando eu
entrava l á, ele se levantava, porque senão, eu mandava levantar; ele falava comigo,
mas eu não lhe apertava a mão, porque sabia que era um bandido. Perguntava
como eu i a, se estava bem, queria entrar em certos detalhes, não dava confiança.
Qe forma que a "República do Galeão" teve sua razão de ser; 6 mas confesso que
não participei ativamente desse final : a Acesita tomava todo o meu tempo.
Depois de passar alguns anos castado, tendo sido ministro e governador de estado, 7 o
senhor volta à CSN, desta vez como presidente, nomeado por Ccié Filho em setembro de
1 954.
Foi o Juarez Távora, que era chefe da Casa Mi l itar, quem me transmitiu o convite
do Café, mas não sei de quem foi a idéia. O
Café era um homem intel igente mas muito de
esquerda, e eu não gostava da esquerda, como
não gosto até hoj e. De forma que eu temia o
seu governo. Mas aceitei de bom grado a
presidência da siderúrgica, até porque havia
necessidade de negociar novos empréstimos
para a ampliação da usina, e os americanos
estavam criando dificuldades. O Raulino foi
aos Estados Unidos e tentou resolver o
problema, mas não conseguiu; só depois , com
a minha interferência, é que o empréstimo
4
Entrevista realizada em 18 de
dezembro de 1 986.
" Sobre a presidência da Acesita, ver
adiante o capitulo "Um general
empresário".
6
A "República do Gal eão" foi instalada
na Base Mi l i tar do Galeão, logo após o
atentado da rua Tonelero. Visando
apontar os responsáveis pelo crime, o
i nquérito instalado pela Aeronáutica
chegou à conclusão de que houve
participação da guarda pessoal de
Getúl i o Vargas no episódio.
7
Ver o próximo capitulo.
Assi natura de contrato entre o
Exlmbank e a CN, em Washi ngton,
vendo-se Edmundo de Macedo Soares e
Silva e Samuel Waugh, em Junho de
1 956. (CPDOCArqu;vo Edmundo de
Mocedo Soores)
¸ . .
U M C O N S T R U T O R 0 0 N o s s o T E M P O
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A A V E N T U R A D A G R A N D E S I D E R U R G I A
sai u. Precisávamos do dinheiro para construir o terceiro forno da usina, que na
época era o maior do mundo; só no Japão havia um igual . Mesmo nos Estados
Unidos, estes fornos só estão sendo construídos de uns anos para cá. E o Brasil
construiu em 54 o forno três, de 1 5 mil toneladas por di a.
Fala-se que essa resistência americana era devida à ação de um congressista, que
representava um grupo siderúrgico interessado na compra da usina. 8
C congressista era Robert Mollohan, repre entante do estado de West Virgini a.
Mas ele nunca teve coragem de me apresentar uma proposta concreta.
Em 1 955, juscelino Kubitschekfoi eleito presidente da República, e suas promessas de
campanha foram reunidas no Programa de Metas, um conjunto de propostas para mudar
o país. 9 O senhor participou de sua elaboração?
Dei a minha contribuição. El e nomeou uma comissão chefiada pelo Glycon de
Paiva, que é muito meu amigo e me procurou para conversar. A indústria
automobilística foi prevista em Volta Redonda; queríamos a indústria para
empregar as nossas chapas, os nossos perfs. Fizemos uma comissão com o Ari
Torres, e mais uns dois ou três em São Paulo e nos reuníamos e tratávamos disso
com o governo federal . Quando foi candidato, o Juscelino adotou o no o proj eto;
conversou conosco e perguntou se era viável a indústria automobilística. Eu tinha
que ir à França para alguma função ofcial , e ele me pediu que trouxesse um
automóvel ; eu trouxe o Simca, francês; um bonito automóvel . E fez-se o Simca
aqui no Brasil .
A fábrica da Simca foi um dos projetos aprovados no Grupo Executivo da Indústria
Automobilística, o Geia, um dos grupos executivos mais importantes do governo
do Juscelino. Originalmente, a fábrica seria instalada em Minas, mas quando os
franceses chegaram aqui , disseram: "Se as peças estão em São Paulo, vamos para
São Paulo"; e foram. Os mi neiros ficaram muito zangados comigo, mas não tive
nada a ver com a escolha dos franceses.
os primeiros meses do seu governo, o Juscelino criou a Comissão de
Industrialização do País, da qual participamo Roberto Campos, Lúcio Meira, eu e
mais uns dois ou três. Nosso objetivo era obter dinheiro para a indústria
automobilística, e o Roberto Campos pediu-me que presidisse a Comissão.
Trabalhamos durante uns dois anos; obtivemos dinheiro, as empresas vieram para
cá. O Geia dependia dessa Comissão; eu não podia presidi -l o, porque presidia Volta
Redonda, então foi nomeado o Lúcio Meira, um homem inteligente, capaz,
absolutamente honesto.
Upresidente Juscelino o manteve na presidência da CSN Havia outros candidatos ao
cargo?
Não me lembro, mas devia haver. Antes de assumir, o Juscelino me chamou a Belo
Horizonte e me pediu a presidência da siderúrgica; queria me nomear presidente
da Petrobrás, porque queria encher Volta Redonda de gente. Eu lhe disse:
8
Para mai ores detalhes, ver Humberto
Bastos, A conquista siderúrgica no
Brasil. São Paul o, Livraria Martins
Editora, 1 959.
9
Juscelino Kubitschek foi eleito com
33,8% dos votos; Juarez Távora
recebeu 28,7%; Ademar de Barros,
24,400, e Plini o Salgado, 8% dos votos.
Na pagi na gO I�do, decreto do
presidente Café Fi l ho nomeando
Edmundo de Macedo Soares e Silva
presidente da Compa�hla Siderurglca
Nacional , RIO de Jare;ro, em 1 7 de
setembro de 1 954 (CPOOC/Arquivo
Edmundo de Macedo Soares)
¸ .
Edmundo de Macedo Soares e Silva
com o presidente Juscelino Kubi tschek,
em 31 de janei ro de 1 958. (Arquivo
.
. .
U M C O N S T R U T O R 0 0 N o s s o T E M P O
"Presidente, não entendo de petróleo, não sou homem de petróleo; sou homem de
siderurgia. Se Vossa Excelência quer a Companhia, fique com ela, pois é Vossa
Excelência quem nomeia. Agora, tenho receio de aceitar a Petrobrás, porque não
entendo de petróleo."
Aí ele recuou: "Bom, então o senhor fca na siderúrgica, mas eu preciso empregar
30 médicos e 30 advogados no escritório de Belo Horizonte." Respondi :
"Presidente, já temos médicos e advogados, não temos tanta gente doente, nem
tanta gente com problemas jurídicos, para poder empregar esses homens." El e
retrucou: "Mas eu sou o presidente da República." Eu disse: "Mas o presidente da
Companhia sou eu. Entretanto volto a dizer: se Vossa Excelência quer a
Companhia, fique com el a, eu saio." El e me manteve na siderúrgica. Aí eu
perguntei : "Vossa Excelência não tem um engenheiro para me indicar?" El e
respondeu: "Tenho dois." Eu, então, cedi um pouco: "Esses eu nomeio." Nomeei ;
não precisava, mas nomeei .
A A V E N T U R A D A G R A N D E S I D E R U R G I A
Sua demissão da CSN, em 1 959, deveu-se a um atrito com o presidente, que criou uma
nova diretoria sem consultá-lo,joi isso?
Foi . Durante todo o seu governo, o Juscelino voltava freqüentemente à carga. Eu
morava na rua Fonte da Saudade, no Rio, e às sete horas da manhã ele me
telefonava: "General , preciso empregar 20 médicos na Companhia em Belo
Horizonte." Eu respondi a: " ão posso, presidente, não temos tantos doentes assim.
Mas precisamos de engenheiros; o senhor tem algum engenheiro para me indicar?"
Ele respondia: "Engenheiro não me interessa." E eu: "Pois é a única coisa que posso
empregar."
O Juscelino não sossegou enquanto não criou uma diretoria, com vários cargos , à
minha revelia. Pedi exoneração, e ele mandou seu primo, o Kubitschek de
Figueiredo, vice-presidente da siderúrgica, me dizer que ele ainda tinha confiança
em mim. Aí eu falei : "Diga ao presidente que eu é que não tenho mais confiança
nele." Saí e fui tratar da minha vida.
Pouco tempo depois, o homem que trouxe a Mannesmann para o Brasi l , um judeu
chamado Sigmund Weiss, deu uma festa, e eu fui com a Alcina; l á estava o
Juscel ino. Assim que me viu, veio me dar um abraço e começou a conversar com a
Al cina, fazendo os maiores elogios a mi m. Eu lhe disse: "Presidente, me desculpe;
fui muito brusco, mal-educado mesmo." Ele respondeu: "A vida é assim mesmo,
esqueça isso."
Vej a o que é o político; por isso é que eu nunca tive j eito para político.
Mas Juscelino também o convidou para construir Brasília, o que demonstra que respeitava
suas qualidades pupssionais.
Realmente, ele me convidou, mas eu recusçi , dizendo: "Presidente, não posso
abandonar Volta Redonda, mas posso dar alguns conselhos. | importante construir
uma estrada de ferro ou de rodagem. Coloque um batalhão de engenharia do
Exército, que ele lhe constrói em seis meses uma estrada de ferro, ligando
Barretos ou Ribeirão Preto a Brasíl i a. Assi m, Vossa Excelência poderá transportar
convenientemente seus equipamentos." Ele disse: "Não, vou transportar tudo de
avião." O primeiro hotel foi construído com aço de Volta Redonda, todo
transportado de avião. O homem era louco mesmo!
Bom, depoi s, o Israel Pinheiro não queria me pagar o aço. Eu l he disse: "Israel , sem
dinheiro não há aço." Ele argumentou: "Mas o presidente está mandando." Eu
retruquei: "O presidente não manda em mim; o presidente me nomeou e pode me
demitir, mas quem manda na Companhia sou eu; se você não me pagar, não mando
mais aço."
Em seguida, começou a construção dos prédios dos ministérios; aconselhei o
Juscelino: "Faça de aço, presidente, que é muito mais barato." ão quis, queria
concreto. Aqui no Brasil existe a mania do concreto, construção mais cara. Nos
Estados Unidos tudo é de aço; na Europa, é quase tudo de aço, porque é muito
mais barato. Mas decidiram fazer de concreto, e custou uma fortuna.
¸ . .
' ¦
'
No final do Estado Novo,funda-se o movimento queremista, para apoiar a permanência
de Getúlio Var8as no poder. Uma das forças que sustentavam o queremismo era o Partido
Comunista. O senhor era a favor da continuação de Getúlio?
Eu teria gostado muito. Com uma nova Constituição, poderíamos ter conservado o
Getúlio por mais uns anos. Agora, quanto ao apoio dos comunistas, é verdade; o
Prestes apoiou o queremismo, como depois apoiou minha candidatura ao governo
doestado do Rio. Como vocês sabem, ele sempre foi meu amigo.
Mas o fi m do Estado Novo foi muito confuso. De um lado havia os queremistas,
mas do outro estava aquele embaixador americano, o Berle, se metendo na política
brasi leira, pedindo eleições. 1 Ninguém se entendia. Para complicar mais as coisas,
o Agamenon Magalhães fez aquela lei antitruste, que diziam ser contra o Assis
Chateaubriand, terrível adversário do Getúl i o. 2 Muito inteligente, escrevia muito
bem. Nessa época j á estava doente, mas isso não o impedia de agir. Agora, fazia
cada gafe! Uma vez, houve um jantar na embaixada francesa, e a embaixatriz
esperou 1 5 minutos por ele, que não chegava; ela, então, mandou servir o jantar.
O Chateaubriand chegou no fnal , berrando que era uma desconsideração, que ele
era um grande j ornalista, que não era possível começar o jantar sem sua presença.
O embaixador disse: "O senhor me perdoe, mas tenho aqui 30 pessoas tão
respeitáveis quanto o senhor, gue não podiam esperar. Vou mandar servir
imediatamente o seu j antar." E o Chateaubriand era tão sem-vergonha, gue comeu
tudo! No que fez muito bem, pois o j antar estava gostoso. Mas era um homem
assim, muito esquisito.
Assisti ao fi nal do governo do Getúlio com muita raiva daquela confusão toda. E
tudo piorou quando ele nomeou seu próprio irmão, o Bejo, para chefe de Polícia
do Distrito Federal . Eu estava na avenida Rio Branco e encontrei o João Alberto,
gue me disse: "O Getúlio está perdido; acaba de nQmear o Bejo para me substituir
na chefia de Polícia, e você sabe gue ninguém vai aceitar isto. Você aceita?" Eu me
espantei , mas respondi logo: "Não, não aceito." Disse ele: "Nem eu. E vou agora
conVersar com os chefes mi litares. Isto não fica assim."
Usenhor conheceu Benjamin Var8as?
Muito. Não tinha qualidade alguma; atrapalhou muito a vida do Getúlio. Ninguém
1
Em 30 de janeiro de 1 945, Adolf Berle
Jr. substi tui u Jefferson Caffery como
embaixador americano. Em 29 de
setembro, discursando em almoço
oferecido pelo Si ndi cato dos Jornal istas
Profissionais no Hotel Qui tandinha, em
Petrópol is (RJ), o novo embaixador
declarou que os Estados Unidos
acompanhavam com muito interesse as
medidas para a redemocratização do
Brasil e reivindicou l i berdade de
i mprensa, anistia, l i vre organi zação dos
partidos politicas e, pri nci pal mente, a
"solene promessa de el eições l i vres': O
discurso causou grande mal-estar no
governo brasi l ei ro.
2
A lei antitruste ou lei Malaia foi
criada pelo mi nistro Agamenon
Magalhães em 21 de junho de 1 945,
atraves de decreto-l ei : criava a Cade
(Comissão Admi nistrativa de Defesa
Econõmica) e delegava poderes ao
governo para expropriar qual quer
empresa vinculada a trustes e carieis,
cujos negócios fossem considerados
lesivos ao i nteresse nacional .
Entretanto, tendo em vista a oposição
de setores l i berais e da Sociedade dos
Amigos da America, que a
consideraram ditatorial, a lei foi
revogada em 8 de novembro de 1 945.
Na pági na ao lado: no dia da posse de
Edmundo de Macedo Soares e Silva (3')
como governador do estado do Rio de
Janei ro, no Palácio do I ngá. Niteról,
vendo-se Edi l berto Ri bei ro de Castro
( 1 "1. Ivair Noguei ra Itagiba (2 1. Jose
Eduardo de Macedo Soares (4') e o
prefeito de Niterói, Brandão Jr., em 24
de fevereiro de 1 947 (CPODC/Arquivo
Edmundo de Macedo Soares)
. .
3
Em 2 de dezembro de 1 945 houve
elei ções para a presidência da
Repúbl i ca, a Câmara dos Deputados e o
Senado Federal.
4
O registro do Partido Comunista foi
cancelado pelo . em 10 de maio de
1 947; os mandatos dos parlamentares
comunistas em todo o pais foram
cassados pela Câmara dos Deputados
em 7 de janei ro de 1 948.
5
O general Eurico Gaspar Outra foi
eleito presidente da Repúbl i ca com
54% dos votos. Eduardo Gomes obteve
34%%, ledo Fiúza 1 0%, e Mári o Rolim
Teles, do Partido Agrário Nacional ,
0,38% dos votos.
. . .
. . . . 0 0 N o s s o . .
sabe como ele aceitava aquele irmão. O Getúlio era um homem inteligente, mas al i
errou muito, talvez porque quisesse ficar no governo.
Com a deposição de Getúlio, em 29 de outubro de 1 945, assume o governo o presidente
do Supremo Tribunal Federal, José Unhares.
Um desastre. Era o quarto na linha de sucessão, e só assumiu porque não havia
nem Câmara nem Senado. Não fez nada, absolutamente nada! Era um j urista, não
um governante. Mas pelo menos as eleições correram tranqüilas.
3
Usenhor votou no general Dutra?
Votei sem hesitar. Gostava muito do Eduardo Gomes, mas não acreditava que ele
estivesse à altura daquele posto. Muito bom caráter, mas um sonhador, não tinha o
menor jei to para a politica. Eu acreditava muito mais no Outra, homem mais
firme, de caráter igual ao do Eduardo, mas com muito mais apoio nas Forças
Armadas ; o Eduardo só tinha o apoio da Aeronáutica. Não conheci ninguém a favor
do Eduardo no Exército.
Curiosa foi a candidatura do ledo Fiúza pelo Partido Comunista. Eu me dava muito
com ele - tinha sido prefeito de Petrópolis - mas disse logo: "Fiúza, é
absolutamente impossível . O Brasil luta contra o comunismo; como é que você
quer ser candidato à presidência da República pelo Partido Comunista? ! Vai
perder." E perdeu.
Mas o peB conseguiu jazer uma boa bancada nessas eleições.
Fez. Na Câmara elegeu cerca de 1 4 deputados e elegeu o Prestes como senador.
Agora, nas eleições de 47 para governador e para as Assembléias Legislativas o
Partido elegeu muita gente; só no estado do Rio foram 1 6 deputados estaduais,
que eu agüentei como governador. Por pouco tempo, é verdade, porque logo
depois o Partido Comunista foi cassado.4
O curioso é que eles eram comunistas, mas quando havia uma recepção no palácio,
compareciam, formavam um grupinho, não fal avam com ninguém e comiam
muito; fartavam-se do que havia de melhor. Eu, então, dizi a: "Se comunismo é isso,
quero ser comunista."
Getúlio fcou magoado com Dutra no episódio de sua deposição?
Ficou, mas acabou apoiando sua candidatura. Outra era um homem de moral
inatacável ; a própria d. Santinha, sua mulher, a quem quiseram acusar, era uma
pessoa absolutamente correta.
A vitória do general Dutra foi bastante jolgada, não é? 5
Foi . A grande surpresa para mim foi minha escolha para ministro, porque eu tinha
a impressão de que o Outra não gostava de mim. Ele me tratava muito secamente;
aliás, era um homem muito seco. E diziam que não gostava das pessoas que tinham
nomes de famí lias conhecidas.
M f R G U I H O N A V I D A P O L I T I C A
Um dia, eu estava em Santa Catarina e passei por Florianópolis. O dr. Nereu
Ramos, a quem eu via sem pré - inclusive, ele representou o José Carlos como
meu padrinho de casamento - me disse: "O que você está fazendo aqui ? O
presidente eleito está à sua espera no Rio." Eu respondi : "Isso é coisa da
siderúrgica, ele vai me tirar da siderúrgica." Fui para o Rio, preocupado. Procurei
o Outra, e ele me disse apenas o seguinte: "O senhor vai ser meu mi nistro da
Viação e Obras Públicas." Eu tentei argumentar: "Mas, presidente, é um ministério
muito complexo." Ele respondeu: º|por isso mesmo. O senhor vai cuidar dos
transportes para os equipamentos de Volta Redonda, para a produção de Volta
Redonda. | o senhor que deve i r para o lugar." Eu concordei : "Está bem,
presidente. Vossa Excelência fará o que quiser." Eu era coronel , e muito general
ficou aborrecido com a minha nomeação, mas o Outra agüentou firme.
Fiquei muito satisfeito com o convite, pois era um ministério interessantíssimo! E
muito importante para a época. Quando ia despachar, eu perguntava ao meu chefe
de gabinete: "Quantos centímetros de papel temos hoj e para despachar?" El e
respondia: "Um metro e 20." Era um ministério enorme: abrangia Transportes,
Comunicações, Correios e Telégrafos, Portos . . . Uma loucura!
6
Nereu Ramos ( 1 888-1 958) participou
da Revolução de 30, foi deputado em
1 934, governador e depois interventor
em Santa Catarina ( 1 935-45).
deputado federal (PSD-SC) em 1 946,
quando presidiu a comissão
constitucional. Vice-presidente da
Repúbl ica eleito pelo Congresso ( 1 947-
51 ), presidente da Câmara ( 1 951 -52).
senador ( 1 955-58). presidente do
Senado, presidente da República ( 1 955-
56), mi nistro da Justiça ( 1 956-57).
Morreu em desastre aéreo durante a
campanha eleitoral de 1958.
o pr�drntr Outra inaugura o
laminador dr trilhos r prrs, rm Volt
Rrdonda, vrndo-s Nrrru Ramo,
Edmundo dr Macrdo Sal r Silva r
Raulino dr Olivrira (à rurrdal, em 1 2
dr outubro dr 194 {Orui
Edmundo d� Macdo Sr
Almoço oferecido ao mi nistro da
Viação, Edmundo de Macedo Soares e
Silva (5'), vendo-se Francisco Galloti
( 1 '), Saturnino Braga (7') e Augusto do
Amaral Peixoto (9) (sentados da
esquerda para a direita), em 1946.
(CPODC/Aruivo Edmundo d� Macedo
Soares)
. .

U M C O N S T R U T O R 00 N o s s o T E M P O
Como era o sistema de trabalho do presidente Dutra?
El e era muito organizado, como o Getúlio. O Outra não despachava nada sem
estudar. Eu lhe levava um papel , e ele dizi a: "O senhor deixe aí ." Depois l i a,
chamava as pessoas que queria consultar, pensava e só então assinava. Nas reuniões
do ministério, era sempre um homem polido; seco, mas polido. As reuniões
ministeriais eram freqüentes, de modo que um ministro sabia sempre o que todos
os outros estavam fazendo. Al i ás , quando fui governador do estado do Rio, eu
reunia os meus secretários toda semana; às sextas-feiras tínhamos uma reunião
conjunta. Depois eu ia viajar, e passava o fim de semana visitando municípios;
voltava domingo à noite para iterói .
Quando Dutra o convidou, mencionou especifcamente os transportes. O governo de
Getúlio não tinha tido grande preocupação com a construção de estr

das. Dutra
representou uma mudança signiicativa nesse aspecto?
Uma enorme mudança. Logo que assumi , determinei a criação de uma comissão
para rever o pl ano geral de viação, e a partir daí iniciamos a construção de
estradas. Começamos com a Rio-São Paulo, a Rodovia Presidente Outra, que está
aí até hoj e. Havia uma estrada de terra, construída no tempo do Epitácio Pessoa,
passando por dentro de todas as cidades. Fizemos uma estrada um pouquinho mais
longa, afastada dos centros urbanos, e deixamos espaço para uma terceira fai xa; foi
a primeira grande estrada do Brasi l . A Rio- Bahia, também desse período, passa
pelo interior, por Feira de Santana, e vai até Salvador.
Agora, sobre o Getúlio, vou dizer o seguinte : ele não tinha uma sala de banhos
decente na sua fazenda, era completamente rú tico, gaúcho mesmo. A "casinha" era
lá fora, de madeira, era preciso sair da casa. Então, o pessoal do Rio Grande dizia:
"Por isto é que ele gosta do Catete, porque lá ele tem tudo; em São Borja não
tem."
M E R G U L H O N A V I D A P O L i T I C A
Durante o governo Dutra, têm início as encampações das estradas de ferro construídas
pelos ingleses no início do século.
C principal problema da encampação surgiu porque o Herbert Levy, deputado
pela UON de São Paul o, fcou ao lado dos ingleses, de modo que o governo federal
teve que pagar mais caro por sua causa. Mas consegillmos; a opinião pública era
favorável à encampação, embora alguns j ornais tenham feito campanha contra,
certamente pagos pelos ingleses.
O mais grave é que nesse meio-tempo a Estação da Luz, em São Paul o, pegou
fogo, e toda a documentação dos ingleses foi queimada. Dizem que foram eles que
botaram fogo, mas isso não evitou a encampação, embora tenha dificultado o
processo. Acabamos ganhando.
Há quem argumente que as encampações eram dispensáveis, porque o prazo de concessão
estava terminando.
Mas os ingleses queriam novação - é a palavra que se emprega em direito - de
contrato, e eu dizia ao presidente Outra: "O senhor se oponha, porque eles não
oferecem nada; vamos manter a desapropriação." Eles não ofereciam coisa
nenhuma! Eu já tinha experiênci a, desde o tempo da disputa da Itabira Iron,
inclusive na parte j urídica; conhecia bem os fatos e a situação dessas estradas de
ferro. Uma das di ficuldades advinha do fato de que a Coroa britânica possuía ações
das estradas de ferro. Depois dessa encampação, nunca mais fui convidado à
embaixada britânica, onde até então ia com freqüênci a. Nunca mai s!
Àfrente do Ministério, o senhor erientou problemas com os portuários.
Ah, sim, tivemos uma greve muito séria. O salário mínimo estava congelado desde
1 943 , e os portuários queriam aumento. Precisamos mandar fuzileiros navais para
Santos, para evitar que o porto fosse depredado. A mi m coube negociar com os
grevistas, e cheguei à conclusão de que os salários eram realmente muito bai xos.
Fui ao Outra e disse: "Presidente, esta gente está ganhando mui to pouco. Não
poderíamos conceder um aumento de 50%? El es estão pedindo 75%, mas se
propusermos 50%, talvez eles aceitem." O Outra respondeu: "A negociação é com
o senhor." Ou seja, deu-me autorização. Fui ao sindicato e disse : "Por 5 0%
fechamos o acordo agora." E eles : "Sessenta e cinco." Eu disse: "Cinqüenta e cinco,
e nem mais um tostão. " Fechamos o acordo, e acabou a greve.
Houve também uma grande campanha anticomunista, inclusive com demissão de
funcionários públicos.
É
verdade, e até mesmo no meu Ministério houve demissões. Os próprios sujeitos
facilitavam muito, porque iam aos j ornais e faziam declarações, dizendo-se
comunistas. Não promovi perseguições pessoais, mas não sei como se passaram as
coisas nos outros mini stérios.
A realidade é que o Outra não tol erava o comunismo, não tol erava. El e me dizi a:
"Para combater o comunismo, faço qualquer coisa." Havia muita infiltração
. .
7
Entrevista realizada em 5 de mai o de
1 987.
8
O jogo foi proibido em todo o
território nacional pelo Decreto-lei n'
9. 215, de 30 de abri l de 1 946.
. . .

U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P
comunista nos sindicatos, menos do que hoj e, é verdade, mas havi a. 7 Além disso, a
própria situação da Guerra Fria repercutiu muito aqui no Brasil , e o país tinha que
se alinhar a algum lado. Nos Estados Unidos estava começando uma grande
campanha de repressão ao comunismo. Houve também a questão da Guerra da
Coréia. E aqui , o rompimento diplomático do Brasil com a União Soviética, em
outubro de 47. Pessoalmente, fui a favor, mas como já era governador, não tive que
tomar nenhuma atitude.
Por que o senhor foi a favor do rompimento?
Porque sempre fui anticomunista, embora hoje seja mais tolerante.
Os Estados Unidos pressionavam pelo alinhamento?
Eles queriam que mandássemos uma força para a Coréia; poderíamos ter mandado
soldados profissionai s, mas não quiseram. O Congresso se opôs muito, e não foi
ninguém; daí os Estados Unidos esfriarem conosco, pois até a Colômbia mandou
um batalhão. Nós poderíamos ter mandado fuzileiros, soldados profissionais;
tínhamos uns 30 mi l fuzileiros , o batalhão de guardas, a infantaria da Aeronáutica.
I sto tudo devia dar uns 50 mi l homens.
Tendo em vista a amplitude de assuntos abrangidos por seu Ministério, os problemas
também deviam ser muito grandes, principalmente na área sindical.
E eram, mas o ministro do Trabalho, o OtacÍlio Negrão de Lima, era muito fraco e
pouco interferia na minha pasta; os meus assunt
<
s eu mesmo resolvia. Agora, tudo
ficou pior por causa da gastação de dinheiro. O Brasil saiu da guerra com muito
dinheiro, muitas divisas, mas foi tudo dilapidado com importações ; o ministro da
Fazenda, Gastão Vidigal, autorizou importações maciças de bens de consumo, e
isso torrou as nossas divisas. A solução teria sido a industrialização, mas o Outra
tinha um pouco de receio, porque ela poderia provocar o aumento da infação.
Como o senhor,favorável à industrialização e ocupando um ministério importante,
convivia com seus colegas nas reuniões ministeriais?
Não pude intervir. Quando fui ministro, fiz tudo para estimular a industrialização.
Mas a queima de divisas era um fato; nas reuniões do ministério saía muita
discussão sobre isso. Mas a discussão mais dramática que enfrentei foi o problema
do j ogo, logo no início do governo. O Outra decidiu fechar os cassinos, a pedido
da d. Santinha, que era muito catól i ca . Eu fui o único ministro a votar a favor do
j ogo e disse ao presidente: "Presidente, sou favorável porque, se proibirmos, não
teremos mais nenhuma vantagem, e o j ogo vai continuar, clandestino." Ele disse:
"Ponho na cadeia." Eu argumentei : "Vossa Excelência não vai poder controlar tudo
isto." E foi o que aconteceu. Eu não j ogo, não pego numa carta, não compro
bilhete de loteri a, nada. Entretanto achava que o j ogo, socialmente, era
importante. Mas fui derrotado.
8
M E R G U L H O N A V I O A P O L I T I C A
Outra conversava com o senhor sobre uma eventual volta de Getúlio ao poder?
Quando se aproximava o fi m de seu governo, o Outra passou a temer a
candidatura do Getúlio, mas não tinha certeza. Getúl i o foi o politico mais hábil
que conheci até hoj e; sabia envolver as pessoas, perdoava, fngia que esquecia, para
se beneficiar politicamente. O candidato do Outra seria o Nereu Ramos, que era
de primeira ordem, mas infel izmente era de Santa Catarina, um estado pequeno.
Aliás, o ereu sempre enfrentou essa difculdade: era um homem forte no PSD, o
seu partido, mas de um estado fraco. Como eu, que fz política no estado do Rio;
se fosse mineiro ou paulista, teria sido presidente da República. Mas o estado do
Rio, até hoj e só deu Nilo Peçanha, e assim mesmo como vice-presidente; o Afonso
Pena morreu, e ele assumiu a presidênci a.
Durante sua 8estão no Ministério da Viação, houve al8uns estudos em relação à Fábrica
Nacional de Motores, a FNM?
A Fábrica Nacional de Motores foi montada como uma empresa de economja
mista, ou sej a, o governo federal tinha 5 1 % das ações e o controle da companhi a;
as demais ações foram compradas por empresas e gente da iniciativa privada.
Quem montou a F M foi o Antônio Guedes Muniz, irmão da Maria José, minha
primeira mulher. Essa fábrica, pioneira no Brasi l , foi implantada em 1 942 ; durante
a guerra ela andou produzindo motores Wright, de avião de caça e treinamento,
um motor americano mais atrasado. Quando a guerra terminou, isso tudo foi
considerado obsoleto, e a FNM passou a fabricar caminhões , o famoso "Fenemê",
apelido dado pelos nordestinos, e que pegou.
Durante a minha passagem pelo Ministério da Viação, pedi alguns estudos, e no
fnal concluí que a FNM não teria vida longa; assim, propus sua venda para a Al fa
Romeo, com quem eu tinha contatos. Durante o segundo governo do Getúlio, a
Al fa Romeo comprou a maioria das ações que estavam em poder de particulares e
se tornou a principal sócia do governo. A partir do governo do Juscelino, começou
a fabricar aqueles automóveis "J K". Em 68, sua situação era muito rui m; eu era
ministro do Costa e Silva e negociei a venda das ações do governo na FNM para a
própria Al fa Romeo, que fcou, então, a única dona da fábrica. Por causa djsso,
sofri ura campanha feroz; teve até CPI , onde depus duas vezes. O próprio Costa e
Silva me disse, um di a: "Se você qujser ser presidente da República, vai ter que
explicar por que vendeu a FNM." Eu respondi : "Bom, então, quem vai explicar é
você, porque aceitou a minha sugestão."
e que o senhor era acusado?
De uma porção de coisas, mas sobretudo de querer trazer capital estrangeiro para
cá - queria mesmo. Mas diziam também que eu só protegia o capital estrangeiro,
que estava desnacionalizando a economia brasileira, e contra isso me insurgi .
Sabem quem me acusava? O Herbert Levy, j ustamente ele.
. . ·
En�rrm�nto da Conkrencia
Int�rm�ricna, no Hot�1 Quitandinha,
�m Pdr6polis �ndo� Edmundo d�
Ma�o Sare � Silv, Harr Truman,
preid�nt� do Edo Unido � Rul
�rand� ministro do Ext�rior (da
eu�rda par a di�ital, �m 2 d�
�t�mbro d� 1 947. {ruiv
Emundo de Macedo Sans}
. . .
. . . . . N o s s o . .
Menos de um ano depois de ter assumido o Ministério, o senhor se demitiu para se
candidatar ao 8ovemo do estado do Rio. Qem lhe su8eriu ser candidato?
O próprio Outra. Um dia ele me chamou: "Mandei fazer um inquérito no estado
do Rio, e o senhor é bem aceito lá; então, vai ser governador." Eu ponderei : "Mas,
presidente, primeiro é preciso ganhar a eleição." Disse ele, com inteira convicção:
"O senhor vai ser eleito; já sondamos os municípios, e o senhor tem maiori a. Vai
ter uma vitória muito bonita e vai poder prestar um grande serviço ao BrasiL" Eu
ainda ponderei : "Mas presidente, tenho que terminar o que estou fazendo no
Ministério." E el e: "Eu nomeio um general ." Nomeou um civi l , Cl óvis Pestana, do
Rio Grande do Sul . Muito bom.
Ao escolher seu nome, Dutra tomava uma atitude política contra Getúlio, pois Amaral
Peixoto era o presidente do partido no estado, não?
El e nunca me disse isso, mas é bem possível . Agora, na minha sucessão, eu não me
opus ao Ernâni , mas achava que ele deveria dar oportunidade a mais alguém. Eu
cheguei a lhe dizer: "Abra mão do governo, não me substitua; dê chance a outro.
Você poderá ser governador depois." Mas o Ernâni , muito político, quis ser.
Quanto a mim, j amais seria candidato, se o Outra não me tivesse feito candidato;
não sou político.
Durante o 8ovemo Dutra, quando o senhor já era 8ovemador do estado do Rio, o Brasil
recebeu a visita do presidente Truman, dos Estados Unidos.
Isso mesmo. Entre agosto e
setembro de 47 aconteceu
aqui a Conferência
Interamericana de
Manutenção da Paz e
Segurança Continental . Foi
quando se assinou o TI AR, o
Tratado Interamericano de
Assistência Recíproca, que
ficou conhecido como
Tratado do Rio de Janeiro.
Como as reuniões se
passavam no Hotel
Quitandinha, em Petrópol i s,
fui o anfitrião do banquete de
encerramento, e o presidente
Harry Truman se sentou à
minha direita e fez um
discurso primoroso.
Nessa ocasião, conheci a Eva
M E R G U L H O N A V I D A P O L i T I C A
Perón. Linda, mas sem-vergonha! Era como naquela peça do élson Rodrigues,
"bonitinha mas ordinária". Agora, linda, linda! Metia-se onde não era chamada. Por
exempl o, nessa conferência, ela estava em visita privada ao Brasil , mas cismou que
queria ir para a mesa; o velho Raul Fernandes, ministro das Relações Exteriores,
não deixou, dizendo: "De maneira alguma, el a não está em visita oficial ao Brasil .
Eu não recebi comunicação, o senhor também não recebeu, de forma que ela fica
lá no plenário. " Mandou arranjar um bom l ugar para ela e colocou-a l á.
Era uma beleza de criatura. E muito vaidosa, pensava que todo mundo devia lhe
beijar os pés. Quando termi�ou a conferência, ela esperou a minha visita. O
embaixador argentino veio a mi m, mas eu disse : "Não fi prevenido da vinda de
madame Perón; ela não está aqui ofcialmente. Vou mandar-lhe umas fores, e é tudo
que posso fazer."
Vamos conversar um pouco sobre seu 8overno? O senhor foi eleito por uma coli8ação que
reunia os três maiores partidos: PSD, UDN e PTB.
E também o Partido Comunista. Fui eleito com 3 5 0 mil votos, e meu antagonista,
Artur Lontra, teve 1 7 mi l ; fui eleito folgadamente. 9 Houve municípios em que não
tive um voto contra. Tinha acabado de construir Volta Redonda, não é? Depois é
que veio o desespero, porque encontrei o estado com cem contos de réis de
défici t. Apertei o cinto, criei novos impostos, e em dois anos o estado estava
equilibrado.
• •
«
Tendo sido eleito por uma coli8ação, o senhor a consultou para compor o secretariado?
A escolha era da exclusiva alçada do governador. Mas depois eu comunicava aos
partidos; uns concordavam, outros não. Meu secretário de Fazenda foi o Val fredo
Martins, funcionário antigo do estado, homem muito sério e que conservei o
9
Edmundo de Macedo Soares e Silva
foi eleito em 1 9.01 . 1 947. com 250.350
votos (89.2%); Artur Lontra Costa, da
Esquerda Democrática, obteve 9. 136
votos (3,2%), e João Macedo Pereira
(PSP). 1 . 548 votos (0,5%).
Posse de Edmundo de Macedo Soares e
Silva como governador do estado do
Rio de Janei ro, na Assembleia
Legislativa, Nlteról. em 24 de fevereiro
de 1 947. (CPODC/ArqUlvo Edmundo de
Macedo Soares)

. .
Cerimônia na Assembl éi a Legislativa,
Niterói, vendo-se o governador
Ademar de Barros (SP), o deputado
Ernãm do Amaral Peixoto (2 l, o
governador Edmundo Macedo Soares e
Silva, Nereu Ramos (3 l e o presidente
da Assembléia, Nelson Pereira Rebel,
entre 1 947 e 1 951 . (CPDDC/Arquivo
Edmundo de Macedo Soares)
.
U M C O N S T R U T O R D O N r s � o T F M P C
tempo todo; o Ernâni confirmou que se tratava de um homem de primeira ordem.
Na Viação e Obras Públicas, coloquei o Bento de Almeida, um engenheiro muito
distinto que eu levei , sobretudo visando à construção de estradas. Edgar Teixeira
Leite foi meu secretário de Agricultura; eu já o conhecia. Na Saúde, Vasco
Barcel os, que escolhi mediante consultas, inclusive com o meu irmão Hél i o, com o
Ernâni e com o Teixeira Leite. Na Educação coloquei o Lima Coutinho, autor de
gramáticas, professor de português. Homem excelente! O secretário de Governo
foi o Hélio Cruz, rapaz muito pobre, mas i l ibado, muito sério. Para a Segurança
chamei o coronel Ol into Oenis , irmão do Odilio, que tinha sido meu col ega de
turma.
Na pasta da Justiça tive dois secretários : primeiro o Leal J únior, homem muito
bom, mas seu partido, o PSD, me criticou na Assembl éi a; ele deu uma entrevista
apoiando o partido e não se exonerou. Então, eu lhe disse: "Dr. Leal , agradeço
muito seus serviços, mas estou esperando seu pedido de exoneração." Ele hesitou
um pouco, mas mandou. Para substituí -l o nomeei o Moacir Azevedo, homem do
norte do estado, de Cambuci , que ficou até o fim.
O presidente da Assembléia Legislativa era muÜo bom, Nélson Pereira Rebel ;
bacharel , homem muito direito e que, apesar de ficar com a Assembléia e contra
mi m, sempre me distinguiu. O mais curioso é que, quando fez dez anos que eu saí
do governo, ofereceram-me um almoço em Niterói , e toda a oposição
compareceu; disseram que eu tinha sido o melhor governador do estado. Eu me
espantei : "Mas, então, por que vocês foram tão contra mi m?" Responderam eles :
"Política." | difícil governar sem ter o apoio da Assembléia.
M | D IJ I t ( V
Como foi seu relacionamento com o funcionalismo público?
Foi bom. Apenas, como era natural , o funcionalismo queria aumento, pois era mal
pago. Mas de onde tirar este dinheiro? Tive que criar alguns novos impostos e,
pouco a pouco, fui conseguindo aumentar. Outra coisa gue fiz: guando havia uma
vaga, eu não preencrua, o gue os políticos não perdoavam, porgue gueriam a vaga.
Mas durante dois anos, não preencru . A crise era gravíssima, e eu demorei dois
anos para consertar tudo.
Fiz ainda dois empréstimos: um em bancos particulares, de 30 mHhões de
cruzeiros, e outro no Banco do Brasi l , de dez mil hões. Os dez milhões eu
empreguei na agricultura, que não tinha nada; comprei máquina e uma série de
aparelhos. Fiz uma grande campanha para aumentar as áreas reservadas à
agricultura no estado, contando com a ajuda inestimável do Edgar Teixeira Leite.
Os 30 mi lhões empreguei na melhoria dos salários do funcionalismo. Quando saí ,
deixei o primeiro empréstimo pago e o segundo faltando duas prestações; e deixei
40 milhões em caixa.
Em seu discurso de posse, o senhor disse que fcaria conhecido como o governador que
terminou as obras do antecessor. Foram muitas?
Muitas. O Ernâni fez muitas coisas boas, mas deixou outras pela metade. Os
governadores atuais abandonam as obras de seus antecessores L só tocam as
próprias, mas eu terminei tudo. Houve continuidade das obras iniciadas, e tem que
haver, senão o prejudicado é o povo do estado.
U presidente Dutra fez várias viagens ao estado. Isto resultava em prestígio político
para o senhor?
Sempre ajuda, não é? A
principal visita do Outra foi a
Campos, gue era, depois de
Niterói , a maior cidade do
estado. E vocês sabem como é o
temperamento do campista: ele
pensa gue o mundo inteiro está
pensando em Campos. Campos
é tão importante, que na Cruna,
hoj e, só se pensa em Campos.
Como o senhor lidou com a polícia
do estado do Rio?
ão aumentei seu efetivo, mas
nomeei como comandante um
major do Exército, da artilharia,
fi lho de um oficial da polícia
fl uminense. O rapaz era
'ereoe preslI e�le lulr". ro Pal Jll I
I lq ¿ "11 01 . rc Q47 . 1 %'
I C oe /J undoJcMal J
5corc·I
. .
10
O Mi nistério de Educação e Saúde
só foi transformado em Mi nistério de
Educação e Cul tura em junho de 1 953,
no segundo governo Vargas; criou-se,
nessa ocasião, o Mi nistério da Saúde.
11
O Pl ano Sal te era um conjunto de
medi das que visavam ao incentivo
di ferenciado a certas áreas do governo,
através de projetos especiais;
contemplava Saúde, Al i mentação,
Transporte e Educação.
GOVmador Milton Campos (MG].
gOVrnador Edmundo de Macedo
Sar e Si lva (RJ] e Augusto do Amaral
�íxoto. pridente do Uoyd Brasileir
(sntado da euerda par a di�ita].
em Angr dos Reis, 1 97.
(O uiv Edmundo de Macdo
50 =)
. ..
I
. C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
excelente, e a policia foi treinada, foi civilizada, e o que havia de ruim foi
expurgado. Tivemos uma polícia relativamente pequena, mas muito boa. Enfrentei
muitos problemas com os políticos locai s, porque nomeação de delegado é muito
importante para eles, Mas eu os desagradei , porque não nomeei os delegados que
eles indicavam; eles indicavam gente que não prestava, e eu só nomeava gente que
achava correta.
Usenhor se antecipou ao governo federal, separando as Secretarias de Educação e de
Saúde.
1 0
Sim, e fiz muitas obras na Saúde, construí vários hospitais. O Antônio Pedro, em
Niterói , j á tinha sido iniciado pel o Ernâni , mas só a parte de concreto estava
pronta; terminei as obras. Fiz o Hospital Psiquiátrico de J urujuba, recuperei a
Escol a de Enfermeiras, que também funcionava em Jurujuba - transformei numa
instituição tão boa quanto a Escola Ana Néri , aqui do Rio, recrutando gente por
concurso. Reformei também outro grande hospital , o Azevedo Lima, que estava
muüo abandonado. Hospital não é só leito, são os laboratórios, a boa escolha do
médicos e enfermeiros, a comida, a roupa de cama, enfm, muito mais.
Construí também muitos postos de saúde e terminei os que o Ernâni tinha
começado; não houve município que não tivesse pelo menos um posto. Como eu
não sabia escolher médico, pedia à Santa Casa para escolher um que quisesse ir
para o município. Mas acontecia muito de o médico aceitar, receber o dinheiro mas
não ir ao posto. Tive que demitir muitos e exigir dos outros que comparecessem,
pel o menos duas vezes por semana.
Durante o governo Dutra foi elaborado o Plano Salte, que tinha como um dos projetos o
saneamento da Baixada Fluminense, o combate à malária.
1 I
O governo federal me deu
recursos para a campanha contra a
malária, e a doença foi erradicada;
era preciso encontrar os focos e
matar o mosquito. A Baixada fica
abaixo do nível do mar, e era um
foco muito grande de malária e de
doença de Chagas, mas foi quase
toda aterrada. Mesmo assim, ainda
existem alguns alagados.
Usenhor levou a família para
Niterói?
| claro, morei no palácio do Ingá
os quatro anos de governo.
Quando foi interventor durante o
Estado Novo, o Ernâni não tinha
. . . . . . . . .
organizado o palácio porque praticamente não morava l á, morava no Rio. Eu tive
que organizar; fiz uma sala de visitas bem aconchegante e precisei mandar
construir mais dois quartos porque, além da Alcina e dos meus filhos, minha sogra
morava conosco. Quando os niteroienses viram o palácio cheio crianças, vieram
agradecer : "Há muito tempo não víamos este palácio com a famíl ia do governador
morando aqui."
Com a decadência da agricultura, a população mais pobre deixava o campo e vinha para
a perieria das cidades. No seu governo houve aumento de favelas em Niterói?
Não, porque eu não deixei ; a favela começava, e eu mandava a pol ícia destruir. No
meu governo não se criou nenhuma favela no estado do Rio. Eu arranjava um local
e dizia: "Aqui vocês podem construir." Eles alegavam que os terrenos de marinha
pertenciam à Marinha e que eu não tinha nada a ver com isso. Eu explicava, com a
maior paciência, o que é um terreno de marinha e dizi a: "Não, não pertencem à
Marinha, mas à União, e mesmo que pertencessem, a Marinha não consentiria."
Mas eles não queriam entender. Tentaram até construir uma favela ao longo da
Rio-Petrópolis, e eu não permiti ; seria horrível .
A política do estado do Rio sempre teve fama de violenta, principalmente a Baixada
Fluminense, onde atuava, nessa época, Tenório Cavalcanti . O senhor teve problemas com
ele?
CTenório era deputado estadual e pertencia à UDN, partido que me apoiou na
eleição. A Assembléia resolveu me fazer oposição, mas o Tenório ficou do meu lado
o tempo todo. Houve até um fato engraçado. Ele nos convidou, a mim e à Alcina,
para padrinhos de casamento de uma fila. No dia, compareci com o automóvel
nO 1 do estado, que servia ao governador. Quando saímos de sua casa para ir à
igrej a, procurei o meu carro, mas o Tenório o tinha apanhado para levar a filha para
a igrej a. Eu, então, tive que i r com a Alcina no carro dele.
Como era Tenório Cavalcanti? Criou-se uma lenda tão grande, que fica dicil separar a
fcção da realidade.
Bom, ele me jurava que nunca matou sem ter sido alvej ado primeiro. Dizi a: "Só
atirei depois de alvejado." Só ele e Deus sabem onde está a verdade. Agora, sei que
defendeu o meu governo o tempo todo. Quando estava presente na Assembléia,
tudo funcionava rigorosamente bem, porque todo mundo morria de medo dele;
quando ele não estava, era uma balbúrdi a!
Uma vez - eu estava i ndo para o interior, não me lembro se para Campos - o
Tenório me esperou na estrada e entrou no meu carro, dizendo: "Hoj e vão tentar
me matar; quando chegarmos a tal município, vão atirar no seu carro." Eu
ponderei : "Não atiram não, Tenóri o; eu estou armado, você está armado, e há dois
seguranças aí atrás." Felizmente, não aconteceu nada.
O cl i ma era muito tenso, um horror. Eu viajava só com o motorista e um
segurança; às vezes l evava alguém do governo, porque todo fim de semana eu
. ..
Fel iciano Sodré governou o estado
do Rio entre 1 923 e 1 927.
l ove'nador tdmL dO e Macedo
So es e S, va e pOI ' cos flum nens s,
em Caxias, em frente a c.s do
deputado Trnorlo Cavalcan', (de
Ó u os C bl goueJ, e' re 1 947 e 1 95
(LíUUCJArquivo íJmunJoJcMoccJo
5oorcs)
. ..
U M C O N T R U T O R I " N ( T [ M P o
percorria os municípios. Cheguei à conclusão de que só um outro governador fez
o que eu fz: o Feliciano Sodré, meu parente, muitos anos antes. 1 2 Eu visitei todos
os distritos, todos; o Ernâni não, alguns ele achou que não valia a pena.
O estado do Rio era dividido em regiões dominadas por grupos políticos. O
Tenório, por exemplo, di sputava yjolentamente a l i derança na Baixada com o
Getúlio de Moura, de Nova Iguaçu, que era do PSD. O Getúlio foi muito meu
amigo, mas eu não nomeei um candidato seu, porque ele me indicou uma pessoa
que não possuía os requisitos mínimos. Aí ele ficou contra mim e disse que se eu
fosse a Nova 19uaçu seria liquidado. O que foi que eu fz? Na semana seguinte, fui
ao municípi o; eu também gostava de uma briguinha. E quem é que encontrei lá? O
Tenório, com todos os seus auxiliares, seus bandidos, para me dar segurança; o
Getúlio fugiu da cidade.
or que o senhor não quis nomear o indicado de Getúlio Moura?
Porque não prestava. Quando indicavam um homem qualificado, eu nomeava, mas
só indicavam gente ordinária, que não era possível nomear. O próprio Ernâni
indicou um bêbado para o Arquivo do Estado; eu pensei : "Vai tocar fogo no
arquivo."
Governar o estado do Rio foi o cargo mais difícil que exerci . No governo, não tive
apoio dos partidos. Eu sabia que quando saísse, não me el egeria nem vereador, mas
não me curvei a fazer o que eles queriam: nomear gente, me controlar, tomar
conta de todo o governo. Cada um dos três partidos da aliança - o PSD, a UDN, o
PTB - queria me conquistar. O pior é ser eleito por muitos partidos; sendo eleito
por um só, a gente fica com ele e vai com ele; mas por muitos é difícil governar.
Maral Peixoto cirma que o senhor foi muito pressionado por seu primo José Eduardo.
Fui , mas não fiz o que ele queri a. Engana-se quem supõe que o José Eduardo
M E R d | | N A V I D A P O L I

mandou em mi m. De maneira alguma! Nem ele nem o José Carlos. Se houve coisa
errada no meu governo, o responsável sou eu, porque fiz o que quis, o que achei
certo.
Em 1 947 seu irmão Hélio foi eleito deputado. Qe posição ele tomou, nessas di vergências
entre o senhor e os políticos do estado?
Ficou com o Ernâni , contra mi m. El e era politico; veio a mim e disse: "Não posso
ficar com você, porque sou partidário." Eu disse: "Não se incomode, siga a sua
orientação." Mas isso não interferiu na nossa relação pessoal , pois ele era meu
irmão, e eu nunca tive comportamento político. O Ernâni tem razão, quando diz
que eu não sou político; não sou, não no sentido de usar a política em meu próprio
proveito.
Na política, ou a gente dá os cargos para os vereadores , deputados e senadores, ou
a gente não é votado - e eu não dava. Por exemplo, se nomeio um homem
escolhido por mim como ministro do Tribunal de Contas ou do Tribunal de Justiça
do estado, se não aceito a indicação do deputado ou do senador, eles ficam contra
mi m. Acontece que eles, geralmente, apontam alguém que não tem mérito, e eu
não aceitei isto. Como resultado, tive tribunais excelentes; até hoj e, recebo
telegramas e cartões por ocasião do Natal . Isso não quer dizer que eu não aceitasse
indicações dos políticos , nem que não tenha nomeado homens bons indicados por
eles; mas mandava verificar. Quando eu recusava, expunha os motivos a quem
indicou. Ele me diziam: "Sendo assim, vou votar contra o senhor na Assembléia. "
Eu respondi a: "Paciência. Saio do estado do Rio, não continuo na política, mas
quero sair daqui limpo."
No final do governo recebi um telefonema do Artur Bernardes; fiquei surpreso,
porque ele sabia que eu tinha participado do movimento de 2 2 , contra a sua posse.
Muito formal , apresentando-se como "presidente Bernardes" e não como ex­
presidente, manifestou a vontade de me visitar; marcamos encontro num
apartamento que eu mantinha no Leme. Exatamente na hora combinada, quatro da
tarde, o Bernardes chegou, e de fraque! Disse que não me incomodaria por mais
de 1 5

inutos, mas ficou uma hora. O motivo da visita era me convencer a fazer
carreira na política. Respondi-lhe que tinha de terminar o governo do estado do
Rio 'e que já tinha sido convidado para construir outra usina. Mas ele queria me
eleger senador. Pedi um tempo para pensar, e uma semana depois, estava ele de
volta. Desculpei-me, mas recusei o convi te. Esse episódio revela uma face muito
curiosa dos politicos: a maioria não guarda rancor.
senhor terminou seu governo rompido com praticamente toda a Assembléia Legislativa.
Sim, porque além de todos aqueles problemas - os políticos querendo me
aprisionar, as nomeações que não fiz - a Assembléia me fez um desrespeito muito
grande. Em vez de mandar o secretário de Governo, todos os anos eu comparecia
pessoalmente para ler a Mensagem do Executivo, como forma de prestar uma
homenagem ao Legislativo. No último ano do governo, a Assembléia me fazia
. ..
Edmundo d� Macedo Soa� � Silva
disur �m apoio à candidatur do
d�putado Pdo �lIy. ao gov�mo do
�do do Rio d� Jan�iro. �m 1 8 d�
junho d� 195. (OCAruiv
Emundo de Macdo Sar)
. ..
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
oposição cerrada. Fui ler a mensagem, como fiz todos os anos anteriores; na hora
não notei mas, à exceção do Tenóri o, ninguém se levantou. Só quando saí é que
reparei nisso. Fui para as escadarias do palácio do governo e comecei a fazer um
discurso; o povo se aglomerou, e eu fiz um discurso violento, mostrando a falta de
educação dos deputados. Um discurso violentíssi mo! Na Assembléia, os deputados
rebateram, mas se excederam, porque falaram palavrões , e eu não tinha dito
nenhum. Mas assim era a politica da época.
Qual foi sua atitude diante da candidatura de Amaral Peixoto à sua sucessão, em 1 950?
Não fui contra, também não fui a favor. O presidente Outra era muito contra a
candidatura do Ernâni , porque temi a a volta do Getúl i o e, se o Ernâni ganhasse a
eleição no estado do Rio, isso contribuiria para fortalecer o Getúlio.
Mas foi o senhor que convenceu o deputado Prado Kel1, da UDN, a erfrentar Amaral
Peixoto.
Eu me dava com o Prado Kelly e o achava muito bom, achava que podia combater
o Ernâni . Mas o Kelly não correspondeu e chegou até a faltar a alguns cOrcios;
quem fazia o discurso era eu. Aliás, ele era um grande orador, mas fez alguns
discursos muito fracos. Corri o estado todo durante a sua campanha, mas ele
realmente não correspondeu.
M E R G U L H O N A V I O A P O L i T I C A
ëverdade que o senhor foi ameaçado de morte quando estava para deixar Ö 8overno?
|, mas nunca soube por quem. Recebi cartas anônimas, e o meu gabinete recebeu
telefonemas; sempre me pareceu uma fantasia, porque eu era benquisto no estado.
E não acredüo que o Ernâni , tão pacífico, fosse capaz de uma coisa dessas.
Mantivemos conversas políticas, porém nunca tivemos discussão; naturalmente, ele
queria fcar com os cargos todos, e eu objetava: "Esse homem não serve, Ernâni ,
indique um que sirva." Mas, politicamente, o que me servia não servia a el e.
Apesar de rompido com Amaral Peixoto, o senhor lhe passou o 8overno?
Passei . Eu o recebi no paláci o, porque fcou combinado que não haveria discurso.
Recebi o Ernâni muito bem, mandei servir café e disse apenas: "Governador, tenho
a honra de lhe passar o governo. Muitas felicidades, desejo-lhe uma boa gestão."
Despedi-me, e ele mandou me levar à porta. Fiz questão de sair do palácio
sozinho. A guarda formou, o tenente me prestou continência, e eu saí a pé; h para
Icaraí e tomei a lancha de um cunhado meu, que me levou ao Iate Clube do Rio.
Foi isso.
Em outubro de 1 962, o senhor voltou a ser candidato ao 8overno do estado do Rio.
Por quê?
Eu estava em São Paulo, como vice-presidente da Mercedes Benz. Morei alguns
anos lá, foi quando comecei a lecionar na Politécnica de São Paulo. Três meses
antes da eleição, fui procurado por gente do Partido Socialista Brasileiro me
propondo a candidatura. Eu disse: º|muito tarde; não vou mais conseguir os
votos, porque todo mundo já está engaj ado. Além disso, são muitos candidatos."
Era o Tenório, era o Badger da Silveira . . . Candidatei-me, percorri o estado, e as
pessoas diziam: "Se o senhor for candidato à presidência da República, todos os
nossos votos serão seus, mas para governador já estamos engaj ados." Eu respondi a:
"Então, esqueçam, não faz mal , eu perco esta eleição."
O que me conforta é que não fui eu quem tomou a iniciativa da candidatura, foi
esse pessoal do Partido Socialista. Agora, quem me fez aceitar foi o Prado Kelly,
que veio a mim e disse: "Tenho certeza de que o senhor vai ser eleito." Eu disse:
"Olhe, dr. Kelly, não acredito, é muito tarde." El e insistiu: "Não, eu já me informei ,
aceite." Mas eu sabia que seria uma experiência rui m, e foi .

. .

Em janeiro de 1 95 1 , depois de deixar o 8overno do estado do Rio, o senhor voltou para o
Exérci to?
Em termos , porque fui transferido para o corpo permanente da Escola Superior de
Guerra. Ao sair do governo, eu me apresentei ao Ministério da Guerra, pedi férias
e eles me negaram. Aí pedi licença para ir a Santa Catarina visitar minha famíl i a, e
concederam. Quando vol tei , o pessoal do Ministério me disse: "O senhor vai para
a ESG, porque esteve muito tempo fora do Exército; j á é paisano."
A Escola Superior de Guerra era, desde sua fundação, um nicho anti8etulista. Como o
senhor foi recebido?
Muito bem. Eles caçoavam muito de mi m, porque sabiam que eu era getulista e
continuava fiel . Discutia-se muita política na ESG, não nas conferências, mas nas
reuniões do quadro permanente; no entanto, as discussões sempre foram cordiais.
Havia l á dentro muitos oficiais que temiam ser perseguidos com a volta do
Getúl i o, mas não houve nada disso. O Getúlio não era de perseguir gente que
pensava di ferente dele.
senhor participou da ESG desde seus primórdios. Como sur8i u a idéia de uma
instituição daquele 8ênero?
A história da ESG tem origem na Grã- Bretanha, que organizou uma escola para
preparar os seus funcionários para servir nas colônias - o Colonial Service - e
acredito que eles preparavam também os homens do lntelligence Service que iam
para lá. Mais tarde, muitos ofciais começaram a passar por essa escola para fazer
um curso sobre a presença inglesa nas colônias. Durante a guerra, a Inglaterra
aconselhou os Estados Unidos a fazerem uma coisa análoga para preparar oficiais
de 1 certo tipo que conhecessem bem as relações entre os Estados Unidos e os
outros países, ou seja, a conjuntura americana e a conjuntura mundial . Os Estados
Unidos, por sua vez, aconselharam o Brasil a implantar essa escol a. Essa é a origem
da Escola Superior de Guerra, que se inspirou no War College americano.
O César Obino era chefe do EMFA e encarregou o Cordeiro de Farias da tarefa.
Decidiu-se que a ESG deveria ficar subordinada ao Estado-Maior das Forças
Armadas, organismo encarregado do aperfeiçoamento do oficiais : Escola de
Na pági na ao lado: telegrama do
goverrJdOr Juscrli. o Kubl'crek (MG)
� Edmundo de M�cedo Soares e Silva,
presidente da ACr5lta. marcando VISI a
a empresa e a Coronel Fabnclano, Belo
Horizonte. em 4 de Junho de 1 953.
(CPOOCArqUlvo Edmundo de Macedo
Soares!
. ..
Na ESG, engenhei ro Fábio de Macedo
Soares Gui marães, coronel Edmundo de
Macedo Soares e Silva, coronel Delso
Mendes da Fonseca, em 1 951 . (Coleção
particular Alcino Fonseca de Macedo
Soares e Silvo)
. .
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
Estado- Maior, Escola de Aperfeiçoamento, tudo isto é subordinado ao EMFA,
Entrei na ESG assim que saí do governo; l á el es me disseram: "Você j á sabe muito
para ser aluno, por isso, vai ser também do corpo permanente," Fuj para a Seção
de Assuntos Nacionai s, cujo chefe era o coronel Delso Mendes da Fonseca,
pequero, muito inteügente, E lá eu fazia conferências sobre o Brasi l , sobre
metalurgia; devo ter feito umas 20 ou 30 conferências,
Para ajudar na implantação da Escola, em 1 949, vieram três oficiais americanos - o
pessoal da ESG não gosta que se conte isso, mas é verdade, O coronel do Exército
Alvord von Patten Anderson Jurnor, um canadense naturalizado americano,
permaneceu no Brasil . Os outros dois - Lowe H . Bibby e Wi lüam J. Werber -
foram substituídos. Quando cheguei à Escola em 1 95 1 , encontrei o Anderson, o
contra-alrjrante Charles Warren Wilkins e o coronel-aviador Andrews Thomas
McCann. A escola brasileira saiu um pouco diferente do War College americano,
atendendo às nossas peculiaridades. O curioso é que o Brasil teve essa escola muito
antes de quase todos os países europeus; a Argentina e outros países sul -americanos
vieram abeberar-se aqui para implantar as suas.
A fil osofia da Escola Superior de Guerra nasceu após a Segunda Guerra Mundi al ,
quando se percebeu que a segurança do país extrapolava o combate no campo de
batalha. Essas idéias chegaram aqui através da experiência brasileira na guerra; os
americanos tinham fornecido todo armamento e toda a doutrina para a FEB, e por
isso nos aconselharam também depois que a guerra acabou.
Quais eram os objetivos da ESC?
Primeiro, estudar o Brasil dentro da conjuntura mundial ; segundo, identifcar os
objetivos nacionais permanentes: qual o conceito estratégico do Brasil ? A estratégia
não é apenas uma arte rj ütar, é também uma arte política. Além de identificar os
objetivos do país, era preciso saber a estratégia que deveria utilizar para alcançá­
los. Todo ano a Escola renova esse princípi o; a nova definição é elaborada pelos
U M G E N E R A L E M P R E S A R I O
alunos, instrutores e estados-maiores das três Forças Armadas; o estudo é muito
interessante.
Antes da ESG, entendia-se segurança nacional como a defesa da pátria contra o
inimigo externo; a partir dela a Doutrina de Segurança acional passou a tratar
dos inimigos externos e internos, aqueles que ameaçam a consecução dos objetivos
permanentes do país. No início, os assuntos estudados eram divididos entre temas
mil itares, nacionais e internacionais .
Usenhor s e lembra dos pioneiros da ESC?
Al ém do Cordeiro de Farias, que fundou a Escola e que ainda encontrei lá, quando
cheguei , havia muita gente interessante. O almirante Benjamim Sodré era um dos
assessores imediatos; era homem do escotismo, como tinha sido o José Carlos, que
foi chefe do escotismo no Brasi l . O Benjamim era inteiramente dedicado ao Brasil ;
tinha sido meia-esquerda do Botafogo e j ogava bem. Tinha uma saúde de ferro,
inteligência boa e um caráter excelente; foi um grande representante da Marinha
na Escol a. O assessor da Aeronáutica era o brigadeiro Ismar Brasil , também de boa
moral ; talvez soubesse um pouco mais do que o Benj ami m. Ele era irmão da
mulher do Gustavo Cordeiro de Farias e meu vizinho, na rua Fonte da Saudade; foi
um grande amigo. Outros membros eram o general Sadi Folch, o coronel Afonso
Miranda Correia, o João Bina Machado. Um homem muito interessante era o
Jurandir Mamede, que foi ,
inclusive, cotado para a presidência
da República.
Como era a estrutura da Escola?
Havia o comando e o corpo
permanente, dividido em dois
departamentos: Estudos - a que eu
pertencia - e Administração. O
Departamento de Estudos
compreendia várias Divisões,
encarregadas de assuntos
e pecíficos: mil itares, nacionais e
internacionais - eu estava nos
assuntos nacionai s, j unto com o
DeI o e o meu primo Fábi o,
engenheiro civi l . Mai s tarde, em
54, as Divisões básicas passaram a
ser: assuntos políticos , econômicos,
militares e psicossociais.
Cada membro do corpo
permanente recebia a missão de
fazer um certo número de
Edmundo de Macedo Soares e Si l va em
al moço na ESG, vendo-se ao fundo o
general Cordeiro de Farias, em 1951
(Coleção particular Alcino Fonseca de
Macedo Soares e Silva)

. .
..

U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
conferências e de intervir nas conferências dos outros. O ritmo de trabalho era
acelerado; para o corpo permanente, dez horas por di a. Chegávamos cedo e
saíamos realmente tarde; passávamos o dia todo l á. Além de organizar o
funcionamento, os debates, tínhamos ainda o trabalho burocrático.
Fazia parte do corpo permanente o tenente-coronel Henrique Geisel?
Correto, muito meu amigo. Quem o l evava para a Escola era eu; passava pela ca a
dele em Botafogo e o l evava comigo. Os irmãos mais conhecidos são o Ernesto,
que chegou a presidente, e o Orlando, que foi ministro da Guerra. O Henrique
era o terceiro irmão, um pouco mais velho do que eu. Muito bom oficial - era da
infantaria; morreu cedo.
Upessoal de fora que i a fazer estági o também passava o dia todo Já?
Passava. E eles ainda levavam coisas para casa. Havia três tipos de trabalho: a
conferências do corpo permanente, três por dia; os trabalhos de grupo visando ao
estudo de assuntos específicos, e havia ainda o trabalho de turma. Dava-se um
tema, a turma se reunia e distribuía o trabalho; cada um fazia um capítulo.
A adaptação dos alunos a esses trabalhos de grupo tem sido muito boa, até hoj e.
No meu tempo, as turmas eram de 30 alunos, hoje chegam a quase 200; e são de
um nível muito alto. O curioso é que o número de mulheres aumenta a cada ano, e
elas são terrívei s! Na realidade, quem cursava a ESG era chamado de estagiário.
Mas eu fui professor durante muitos anos e, para um professor, quem aprende é
sempre aluno.
Usenhor entrou para a Escola no ano em que Getúlio voltou à presidência da República,
sob forte oposição de uma siBnificativa parcela das Forças Armadas. Como o debate
político é proibido dentro dos quartéis, as discussões se travavam dentro da ESG?
Ali também não se discutia política, pelo menos não com os alunos. O local
apropriado sempre foi o Clube Mi litar; ali o debate era duro. Eu mesmo assisti a
várias reuniões duríssimas contra o Getúlio. E como gostava muito dele, eu o
defendia nessa época, aceitando que ele acabaria saindo, mas procurava defender o
que já tinha feito. O Getúlio da primeira fase, até 1 945 , foi excelente, mas quando
voltou, foi péssimo; estava completamente fora da realidade brasileira. Nessa
ocasião, ele quis até me fazer presidente da República, mas não tinha mais força, já
estava totalmente enfaquecido.
Usenhor acompanhou a passaBem do comando da ESG, de Cordeiro de Farias para
juarez Távora? A orientação da Escola também mudou inteiramente, não?
Eu estava na ESG. O currículo muda praticamente todos os anos, de acordo com a
conjuntura mundial , mas quem determina a mudança não é o comandante, que
apenas aprova; é o diretor de Estudos com o seu corpo permanente. Durante o
ano de 5 1 o corpo permanente elaborou uma série de estudos sobre estratégia e
sobre a Doutrina de Segurança Nacional e decidiu promover algumas mudanças. O
. . .
Cordeiro de Farias não estava concordando muito, mas acabou aceitando, j á que
era exigência do corpo permanente, gue queria uma concentração maior dos
estudos no problema da segurança nacional .
Quando o senhor vai para a Escola o coronel Golberi do Couto e Silva já estava lá?
Estava, foi do meu tempo. Muito estudioso, foi aí que ele começou a se notabilizar,
começou a estudar muito e se tornou famoso por seus conhecimentos. Ele fal ava
melhor do que escrevi a; seus livros são pesados de ler. Acho que era como Euclides
da Cunha. Já viu um original do Euclides? Já tive um em mãos; ele escrevia, depois
ia a um dicionário de sinônimos, suponho eu, e substituía palavras por outras mais
difíceis. Creio gue o Golberi fazia a mesma coisa. Mas era um homem inteligente,
sério e produziu muito na Escola; a idéia de criar o SNI partiu del e.
No mesmo ano em que foi para a ESG, o senhor foi convidado para diri8ir a
reor8anização da Companhi a de Aços Especiais habira, a Acesi ta.
Foi isso mesmo. E em abril de 52 o Getúlio me promoveu a general -de-brigada;
passei para a reserva e assumi oficialmente a Acesita. Um dia, o Ciro do Espírito
Santo Cardoso, filho do velho general Espírito Santo Cardoso, me chamou e disse:
"Macedo, você será general muito em breve. Quer voltar para a tropa?" Respondi :
"Eu não escolho, é o governo gue escolhe. Farei o que o governo quiser." O
governo federal preferiu gue eu continuasse onde estava. Fui promovido a general­
de-brigada; na reserva, fui a general -de-divisão; se tivesse falado pessoalmente com
o Getúlio, ele teria me promovido a general-de-exército. Se tivesse fcado mais um
tempo na ativa, eu teria chegado a marechal .
Qual é a ori8em da Acesita?
A empresa tinha sido montada com financiamento do Banco do Brasi l , pelo
Farquhar e um grupo de empresários mineiros, gente muito rica; o banco entrou
com 70% do dinheiro, e os particulares com 30%. Volta Redonda ainda não tinha
entrado em funcionamento, e eles gueriam provar que ela estava errada em sua
concepção. A meu ver, o Farguhar não tinha nenhuma intenção de fazer usina, mas
apenas de exportar minério. Sei gue começaram a construir essa usina em Minas,
num distrito de Coronel Fabriciano; fzeram uma coisa muito peguena, de
forma que, no fnal de 5 1 , fui chamado para corrigir as coisas e fquei l á até 56 ¯
inclusive, em 54 voltei para a usina de Volta Redonda, como já contei a vocês, e
figuei acumulando com a Acesita. Transformei completamente a empresa.
Consta que quando a Acesita entrou em crise, seus diri8entes procuraram o presidente
Getúlio Var8as, que os aconselhou a procurar o senhor para dar um parecer sobre a
situação.
Exatamente; ainda tenho o relatório que fiz na ocasião. Fui à Alemanha e à Itália, às
minhas custas, para ter contato com meus antigos professores e alunos e saber
como deveria fazer uma usina de produtos especiais. A Acesita estava em crise,
133
Edmundo de Macedo Soares e Si lva,
presidente da Acesita, discursando, e o
governador de Mi nas Gerais, Juscel i no
Kubi tschek (sentado â di reita), em 8elo
Horizonte, em 13 de agosto de 1 953.
(CPODC/Arquivo Edmundo de Macedo
Soares)
. ..
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
porque eles não tinham formação profissional suficiente para cuidar daquele tipo
de usina; fizeram um projeto acanhado, visando fabricar apenas vergalhões. Tive
que refazer tudo. Coloquei um trem desbastador de 90 centimetros de largura
para fazer chapas já largas - chapas especiais de aços ao carbono, manganês e silício
para motores elétricos , tecnologia que comprei numa pequena fábrica alemã. Não
havia laminadores para as chapas; comprei na Matarazzo três gaiolas de
laminadores e montei em tandem, quer dizer, uma depois da outra. E lami nava à
mão; para isso, fui à Itáli a, além da Alemanha, e trouxe um grupo de italianos e
três alemães. Com estes homens consegui colocar toda a parte de aços especiais da
usina em funcionamento.
Comprei um forno elétrico de dez toneladas e um laminador para vergalhões
muito melhor do que eles tinham. Então, fazíamos vergalhões de aços especiai s,
chapas para motores, e isto deu um enorme aumento de receita. Qui s fazer aços
inoxidáveis, mas os americanos me recusaram a tecnologia, dizendo que no Brasil
não havia mercado; o que eles temiam é que a Acesita fosse exportadora, fizesse
concorrência a eles, como está fazendo hoj e.
. . .
Pelo que está nos contando, a crise da empresa tinha razões mais administrati vas do que
fnanceiras, porque o Banco do Brasil estava mantendo o fnanciamento.
Sim, o banco estava mantendo o compromisso assumido. Na empresa havia um
diretor fnanceiro chamado Ventura, que tinha sido chefe de seção no Banco do
Brasil , muito bom; com ele consegui refazer a usina. Criamos uma escola
profssional , um ginásio que, aliás, tem o meu nome, um colégio para meninas.
É
interessante porque, em todos os lugares onde estive fz as seguintes coisas : uma
igrej a, uma escola profssional e uma banda de música. Como bom oficial do
Exército . . . Existem muito bons músicos por todo o país; eu comprava os
instrumentos e dava a eles. Em Volta Redonda a banda existe até hoj e.
Usenhor presidiu a CSN entre 1 954 e 1 959, e a Acesita entre 1 952 e 1 956. Portanto
durante anos o senhor acumulou as duas?
Acumulei . Apenas , na Acesita eu era chamado de superintendente geral, quer
dizer, o construtor; foi a mesma coisa em Volta Redonda: primeiro fui diretor
técnico, porque precisava construir, depois é que fui presidente. Esse período foi
muito duro. Eu morava em dois lugares ; ia todos os meses à Acesita, onde passava
pelo menos uma semana. Também passava as férias escolares dos meu filhos, que
gostavam muito de l á. Tinha o rio Doce, nós Íamos pescar, fazer piquenique na
foresta. Víamos os animai s, macacos, pássaros, pacas. Eu construí tudo: a cidade,
as escolas, o posto de saúde, as casas, tudo. Quando cheguei l á o equipamento
estava completo, mas a usina vendia pouco; tive que aumentar o trem de
vergalhões e fazer o trem de chapas. Por volta de 1 95 5 a usina passou a funcionar
com o equipamento que eu comprei .
Juscelino Kubi tschek era o governador de Minas na época. Como foi seu relacionamento
com ele?
Muito bom. El e me deu muito apoio, moral , é claro. Dinheiro, nada; mineiro não
solta dinheiro facilmente.
Volta e meia Percival Farquhar cruza mais de perto com sua vida. Como o senhor se
relacionou com ele na Acesita?
Naquela altura, ele já estava perto dos 90 anos; mesmo assim foi me visitar.
Lembro que ele me tratou muito bem e disse: "O senhor preserve aquelas
cachoeiras, porque no futuro iremos precisar delas." Achei isto muito interessante.
Ele ainda viveu para receber uma boa indenização pela Acesita, foi indenizado pelo
governo. Hoje a maioria das ações é do Banco do Brasil , mas há muitos acionistas
particulares. I Atualmente a Acesita vende mais do que Volta Redonda, porque
fabrica todos os aços especiais.
Depois da usina de Volta Redonda,foram construídas várias siderúrgicas, i nclusive a
Mannesmann, inaugurada pelo próprio Getúlio. 2
Eu estava lá - sou presidente do Conselho de Administração da usina. 3 A história
1
Entrevista realizada em 20 de mai o
de 1 987.
2
A Mannesmann, situada em Mi nas
Gerais, foi i naugurada em 12 de agosto
de 1 954, na úl ti ma viagem do
presidente Getúlio Vargas antes de seu
suicidio.
3
Entrevista realizada em 28 de maio
de 1 987.

4
A Assessoria Econômica da Presidência
da República, instalada durante o
segundo governo Vargas, era chefiada
por Rômulo de Almeida e contava com
os economistas Jesus Soares Pereira,
Cleanto de Paiva Leite, João Neiva de
Fi guei redo, Ináci o Rangel, Tomás
Pompeu de Acióli Borges, Otomi
Stranch, Mário da Sil va Pinto e
Sal danha da Gama. Seus objetivos
básicos eram a formulação de uma
politica de energia e a realização de
um bal anço da situação econômica do
país e do desempenho do governo
anterior.
Edmundo d� Ma�do Sa� � Silva
�nt� flipino, �m Manila, �m 1956
(ru; Emundo de Ma�o
S�s)
. ..

U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T l M P O
da Mannesmann é a seguinte: o Getúlio encarregou o Rômulo de Almeida, que
chefiava a Assessoria Econômica, de estudar o proj eto de construção de uma nova
usina siderúrgica. 4 O Rômulo me chamou para opinar, a mim e ao Glycon de
Paiva. Fizemos um estudo e fomos ao Juscelino, que era o governador. Como a
companhia operaria com um forno elétrico, pedimos uma redução na tarifa de
eletricidade; o Juscelino prometeu tudo - e não deu nada. Mas fcou com a usina
porque tinha muito ciúme de Volta Redonda, e o Getúli o, para agradá-l o, mandou
construir a usina em Minas Gerai s.
Eu qui s a Mannesmann e, j unto com o Glycon de Paiva, ajudei a trazê- la para o
Brasil - o atual presidente, Schmidt Hal s, foi aluno de um professor alemão, de
quem fquei amigo quando estive na Alemanha para estudar o problema da Acesita.
Os alemães vieram, e ainda deu tempo de o Getúl i o inaugurar. O Juscelino tentou
sensibilizar os bancos mineiros para subscreverem capital , mas isso não se
concretizou; a maioria do capital veio mesmo dos alemães.
A partir de 1 954 o senhor começa a fcar conhecido internacionalmente. Enquanto
estava na Acesita foi enviado pela ONU à Venezuela. Para quê?
Para opinar sobre a construção de uma usina siderúrgica em Puerto Ordaz, no rio
Orenoco; aciaria, só aciari a. Levei alguns estudos e fquei lá um mês, em junho de
54. Dois anos depois fui à Argentina fazer seis palestras, tamb ' m a pedido da
ONU, para preparar engenheiros latino-americanos para a siderurgia. O
interessante é que uns 20 generais argentinos foram ouvi - Ias, e no fim veio um
intendente e me pagou. Eu não contava com i to, não queria receber, mas ele
disse: "Tenho que lhe pagar, é minha obrigação." E tive que aceitar, embora não
fosse grande coisa.
Ainda em 56, opinei sobre a construção de uma usina nas Fi lipinas, na i l ha de
Mindanao. Essa viagem foi muito interessante. Fui daqui para Paris, para assistir ao
casamento da Ieda, minha fi lha mais
velha, que se casava com um francês.
Em Paris tomei um avião da Ai r
France e desci em Mani la; l á
encontrei aqueles flipinos
pequenininhos, que me olharam e
falaram, em ingl ês: "Pensamos que o
senhor fosse baixinho! " Eu respondi :
"Não, sou alto mesmo." Eu lhes disse
o que era preciso fazer, escrevi um
roteiro e as especificações , como eles
deviam pedir material . Eles
disseram: "Precisamos de um
empréstimo e vamos pedir ao Japão."
Desaconselhei : "O Japão não vai dar,
porque não tem um Export and
Import Bank. O único país que vai
. . . . .
emprestar dinheiro para equipamento são os Estados Unidos. " Eles recusaram: Em 1 959 a Venezuela era governada
por Rómul o Betancourt ( 1 904-81 ).
"Mas nós somos contra os Estados Unidos. " Aí eu quis encerrar a conversa: "Então,
não tem dinheiro; ou vocês pedem aos americanos . . . " E eles : "Não vamos nos
ajoelhar diante dos americanos." Eu disse: "Eu não me ajoelhei . Agora, vocês têm
que ser razoáveis. Só eles têm dinheiro." Eles me perguntaram: "E o Brasi l ?" Eu
comecei a rir e disse: "O Brasil não tem dinheiro, o Brasil pede dinheiro."
Com o que ganhei nessa viagem, paguei o casamento da Ieda; recebi 1 2 mil dólares
da O U. Os flipinos não tinham dinheiro, tinham muita pretensão e muitas
universidades. Eu queria visitar as universidades, mas eles só queriam me levar
para a Escola Mi l itar. Eu dizia: " ão quero i r à Escola Militar; quero ver a
universidade, conversar com os professores e com os alunos." Mas foi muito difíci l ,
fzeram tudo para eu não ir.
Ofcio do ministro das R�laç
Ext�rio� Vi�nt� Rao. autorizando
Edmundo d� Ma�do Sare � Silva a
prer asist�ncia t�nica ao go�mo
da V�nuu�la. Rio d� Jan�iro. �m 21 d�
maio d� 1 95. (OAuiv
Edmundo de Macedo So r)
Por quê?
Porque era só fachada. Havia muitas universidades, mas nenhuma prestava; os bons
profissionais formavam-se nos Estados
Unidos ou na Europa; muitos fli pinos
se formavam na Alemanha. De qualquer
maneira, foi uma boa experiênci a.
Em 59 o senhor voltou à Venezuela?
Sim, para consertar os fornos Siemens­
Marti n, fornos de aço. Houve
problemas, os venezuelanos ficaram
perdidos e pediram à O U que me
mandasse novamente. Não queriam um
técnico de um país que pudesse
fornecer equipamento, porque um
técnico assim naturalmente indicaria o
equipamento do seu país. Na verdade,
escolheram todo o equipamento que eu
indiquei .
A Venezuel a, naquela época, era uma
ditadura muito pior que o Brasil . 5 As
nossas ditaduras foram, geralmente,
mais ou menos brandas. O Getúlio
cometeu alguns excessos, mas em
comparação com a Venezuela e o
Paraguai , foi muito mais suave. O
Stroessner, por exemplo, é um bandido.
Na década de 40, os paraguaios me
convidaram para montar uma u ina,
mas não pude fazer, porque eles
Em 21 de maio de 1954 .
Excelent !ssimo Senhor
General Edmundo de Macedo Soares .
� com prazer que venho comunicar a Vossa
Excelonci a que Ö Senhor Pre sidente da Republi ca o autri
zou a aceitar o convite das Naçoe s Unidas para prestar
assi stenc i a tocni ca ao Governo da Venezuela. O c onvit,
alom de recai r em pessoa da mai s al ta idonei dade e comp�
tenc i a , como Vossa Excelenci a, e extremamente honroso pª
ra o nosso paÍ s .
2 . Congratulo-me vivamente com Vossa Exceløn
c i a, que mai s uma vez i ra prestar magnÍ fi co servi ço ao
Brasil , elevando nosso nome no exteri or .
Aprove ito a oportunidade para renovar os
protestos da perfeita est ima e distinta consideraç ao , com
que me subscrevo
de Vossa Excelencia
·


/

"o general Alfredo Stroessner
governou o Paraguai entre 1 954 e
1 989.
Edmundo de Macedo Soares e Silva e
Pl i nl o QUelrOS no dia do lançamento da
pedra fundamental da Cosi pa, em
1 955. (CPODC/Arqulvo Edmundo de
Macdo Soares)
. ..

U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
queriam as ações de graça; queriam metade das ações para o Stroessner e um
outro general , que seria o presidente da usina. O Stroessner, mesmo presidente,
participava de tudo. 6 Recusei : "Fazer a usina eu sei ; dar as ações, não sei ."
~ |'

E 1 957 os paulistas o convidam
para o Conselho Consulti vo da
Cosipa, a Companhia Siderúr8ica
Paulista. O senhor também a
construiu?
Si m. Primeiro fui do Conselho,
mas logo depois passei a diretor
superintendente. O terreno não
foi escolhido por mi m, mas
pelo Plínio Queirós , que brigou
feio comigo; quis fazer um canal
para levar água, e eu objetei :
"Não pode, porque é lodo. Tem
que fazer de tijol o, de concreto.
E depois, numa usina
siderúrgica não se faz assim;
leva-se água com encanamento
para dentro da caixa d' água." Eu
não teria escolhido aquele terreno; para a construção foi necessário fincar estacas
de 45 metros ! A preparação do terreno custou quase metade do preço da usina
iderúrgica!
Que interesse tinha Plínio Qeirós para insistir naquela localização?
O reservatório da Light em Santos era próximo, portanto daria para fazer uma
usina elétrica. E mais, ele jurava que o fundo era de areia, mas era de basalto; isto
é sabido.
A Cosipa nasceu em 1 95 5 , pois os paulistas não podiam admitir que o Rio tivesse
uma usina e São Paulo não. Vieram a mim: "Vamos fnanciar, porque temos
di nheiro." Eu disse: "Então, está bem, vamos fazer." Quando chegou na hora de
financiar, eles queriam fabricar as máquinas.
No inicio, o projeto seria conduzido por uma holdin8 a ser organizada para
controlar a usina; seria formada com uma participação do Banco de Comércio e
Indústria de São Paulo, que era do Quartim Barbosa, que acabou não entrando, e
do Banco da América, do Herbert Levy, que também não entrou. Eles decidiram
investir em indústria mecânica, na fabricação de máquinas - hoje a indústria pesada
de São Paulo é muito boa. O governo do estado foi ao governo federal e conseguiu
uma verba: Volta Redonda foi obrigada a entrar com 1 50 mil cruzeiros. Além
disso, o próprio governo de São Paulo entrou com uma boa quantia. O grande
objetivo da Cosipa era fabricar chapa larga para a indústria automobilistica, e isto
. . . .
foi feito. Fizemos na Cosipa chapas de até quatro metros de largura; Volta Redonda
só faz mais estreita.
Falando em indústri a automobilística, o senhor foi vice-presidente da Mercedes Benz
entre outubro de 1 960 e março de 1 96 7. Como a empresa veio a se instalar no Brasil?
Trazida por Alfred Jurzykowski , um polonês que lutou na Primeira Guerra como
oficial da reserva de cavalari a; lutou também na Segunda Guerra - tenho absoluta
certeza de que pertenceu ao lntelliBence Service americano. Quando a guerra
acabou, colou peças de brilhantes e de pedras preciosas no corpo inteiro, vestiu
uma roupa e fugiu para a
Á
ustria; de lá tomou um navio para a Inglaterra e depois
para os Estados Unidos, onde vendeu as j óias. Já tinha algum dinheiro lá, fruto de
suas atividades como representante da Mercedes em Varsóvi a. Nos Estados Unidos
comprou cinco mi l toneladas de algodão e vendeu, lucrando alguns milhões de
dólares.
Veio dar com os costados no Brasil e foi ao Góis - como, eu não sei , nunca lhe
perguntei - e o Góis me indicou para aj udá- lo. O J urzykowski me procurou em
casa, na rua Fonte da Saudade, dizendo: "O senhor é siderurgista, portanto
entende de automóveis." Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu disse :
"Sim, e daí?" Disse el e: "Quero fabricar um caminhão no Brasil ." Eu respondi :
"Nisso posso ajudar." Aí ele me surpreendeu: "Então, o senhor vai ser presidente da
minha companhia." Decidimos escolher o terreno em São Bernardo do Campo, em
São Paulo, e começou a construção da fábrica. Primeiro, h do Conselho
Consultivo, depois me tornei vice-presidente.
Quando foi i nauBurada a fábrica da Mercedes Benz?
Em setembro de 56, e quem financiou a construção foi o próprio J urzykowski , que
era muito competente. Não pediu um tostão de financiamento ao BNDE, porque
tinha muito dinheiro. A matriz da Mercedes Benz entrou apenas com um terço do
dinheiro, porque não confiava no Brasil . Quando viu o sucesso, quis aumentar sua
participação, e o J urzykowski cometeu o erro de vender algumas ações, de modo
que ficaram sócios em partes iguai s; então, ninguém mandava, nem ele, nem a
Mercedes, e eu fiquei no meio.
Eles brigavam e não queriam realizar assembléias; eu ia ao advogado da companhia
e dizi a: "Explique a eles que, se não for feita a assembléia, o governo vai intervir."
Era uma luta! Agora, eles brigavam e iam a mim, contavam a históri a; eu ouvia e
dava a solução. A briga não era só entre o Jurzykowski e a Mercedes; os diretores
também brigavam, e eu resolvi a. Aí acabava tudo: eles seguiam rigorosamente a
minha decisão. Mas foi muito duro.
A Mercedes começou fazendo caminhões, e depois passou para os ônibus, só não
fez automóvel . Eu quis muito fabricar aqui o Mercedes 1 90 a diesel , o automóvel
que me servia no Rio, um carro excelente. Mas a Mercedes não fabrica seu
automóvel em nenhum lugar do mundo, a não ser na Alemanha; monta, mas não
fabrica.

Enfrentaram-se nas el eições
presidenciais de 1960, Jâni o Quadros
(eleito com 48% dos votos), o marechal
Lott, ex-mi nistro da Guerra (32%) e
Ademar de Barros, ex-governador de
São Paul o (20%).
8
Os resultados da eleição para vice­
presidente em 1 960 foram: João
Goul art ¯ 41 ,6%; Mi l ton Campos -
38,7%, e Fernando Ferrari " 1 9,5% dos
votos.
Edmundo de Macedo Soares e Silva e
Al 'red Jerzykowskl, 'undador da
Mercedes Benz do Brasol , $/d.
(CPDOCArulvo Ed"undo de Macedo
toars}
.

U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
Como se formou a mão-de-obra para trabalhar na fábrica da Mercedes?
C pessoal qualicado era
formado nos Estados
Unidos, na Europa e no
Instituto Mi litar de
Engenharia, o I ME, onde
se montou um curso
para preparar
engenheiros de
automóvel . Os operários
formavam-se no Senai .
Aliás, no Programa de
Metas do Juscelino
constava a qualificação de
pessoal para a indústri a.
Além disso, as próprias
fábricas mantinham
escolas. a Mercedes,
era o próprio Al fred
Jurzykowski , que tinha
muitos recursos. Uma
vez, ele colocou um saco
diante de mim e disse:
"Abra." Fui ver, e era um mi lhão de cruzeiros, com os quais comprei minha casa
em Pinheiros, em São Paulo. Peguei aquele dieiro, botei no banco, fui procurar
uma casa e comprei . De vez em quando ele me perguntava: "O que falta para eu
ser brasileiro?" Eu respondi a: "Você se registre como ' Al fred Jurzykowski da
Silva' ." E ele, que não tinha o menor sense i humour, fcava furioso.
Terminado o 8overno de Juscelino, em 1 960 ti vemos novas eleições para a presi dência da
República. Em quem o senhor votou? 7
ão gostei de nenhum dos três candidatos, mas a Alcina era j anista, e talvez por
isso acabei votando no Jânio, embora eu o conhecesse e o considerasse maluco. Foi
uma campanha que empolgou muito. O Lott era um candjdato pesadíssimo!
Cometia muitos erros de português, dizia muita bobagem; queria fazer demagogia
e não sabia.
Para vice-presidente votei no Mílton Campos , porque, como vocês sabem, a
eleição para vice era independente da do presidente. Mí l ton Campos era um
grande homem, esse eu queria para presidente. Mas acabou não sendo eleito; o
povo escolheu João Goulart. 8 Por isso é que sou a favor da vinculação do voto do
vice-presidente ao do presidente, como é hoje, porque um substitui o outro;
então, devem ser da mesma chapa.
U M G I N E R A I � M P R F � A R I O
Qual a sua avaliação sobre o governo jónio Qadros?
Do ponto de vista administrativo não foi rui m, mas politicamente el e fez uma
porção de loucuras, inclusive a condecoração de "Che" Guevara, que escandalizou
todo mundo. 9 Sua própria maneira de se vestir era muito esquisita, com aqueles
terninhos "safári".
ão acompanhei muito de perto as peripécias do Jânio, porque e tava na
Mercedes, trabalhando muito e completamente envolvido com a empresa. Mas
confesso que a renúncia me surpreendeu; depois vi que os mi l itares todos ficaram
sem entender. Renunciar por quê? Mas o Jânio estava convencido de que iria para
São Paulo e o povo iria buscá-l o; só que o povo não foi . Dizem que ele estava
tendo algumas dificuldades com o Legislativo e queria um Executivo um pouco
mais forte. Conversa fada! O Jânio não queria Congresso nenhum, achava que era
uma excrescência que não o deixava governar. No fundo, era um ditadorzinho;
achava que o Congresso não devia intervir na Presidência, devia deixá-lo fazer o
que quisesse. Ora, mas se o Congresso existe, j ustamente, para fscalizar a
Presidência!
Após a renúncia, o país adotou o parlamentarismo como forma de solucionar a crise
política. ' 'U senhor aprovou?
Nessa época, tive receio de que houvesse um surto revolucionário, e até
separatista, no Rio Grande do Sul , em apoio à posse do Jango. Por isso, qualquer
solução que evitasse um mal maior seria aceitável . Mas para mim a adoção do
parlamentarismo foi uma surpresa, porque achava que um país que não tinha
partidos sólidos não podia ter parlamentarismo. Agora, vou dizer o seguinte: eu
preferia que o Jango não tivesse assumido a presidência. E logo que ele assumi u,
comecei a conspirar para derrubá-lo.
tm dos instrumentos mais importantes da mobilização contra o governo João Goulart foi
o Insti tuto de Pesquisas Económicas e Sociais, o IPES. ' ' U senhor chegou a participar?
Participei ativamente. Eu estava em São Paulo, na Mercedes Benz, e fui convidado
pelo general Golberi do Couto e Silva, um dos fundadores do I PES e talvez sua
fgura mais proeminente. Eu já conhecia o Golberi da ESG. Em 6 1 ele foi nomeado
secretário do Conselho de Segurança Nacional ; quando o Jânio renunciou, fcou
tão aborrecido que pediu passagem para a reserva.
O I PES começou com grupos de industriais do Rio e de São Paulo, que o
financiavam; a eles se juntaram mi litares que tinham cursado a ESG. Os principais
participantes de que me lembro eram o Harold Polland; Antônio Gal lotti , da
Light, ex-integralista; o Azevedo Antunes, da Caemi , meu amigo até hoj e. De São
PaulQ, lembro do Paulo Reis de Magalhães, industrial ; do Carlos Eduardo
O'
Á
lamo Lousada, flho do embaixador O'
Á
lamo Lousada, que foi do gabinete do
Costa e Silva. Mas eu era mais ligado ao grupo do Rio.
Ernesto "Che" Guevara. mi nistro da
Economia de Cuba, foi condecorado
pelo presidente Jãnio Quadros com a
Ordem do Cruzeiro do Sul em 19 de
agosto de 1 961 .
" A crise gerada pela renúncia do
presidente Jãni o Quadros agravou-se
com a oposição dos três mi nistros
mi l itares a que o vice-presidente João
Goul art assumisse a presidência. A
solução politica encontrada foi a
aprovação da Emenda n' 4, que
instituiu o parlamentarismo.
O I nstituto de Pesquisas Econômicas
e Sociais foi fundado em 2 de fevereiro
de 1 962, por empresários cariocas e
paul istas, com o objetivo de "defender
a liberdade pessoal e da empresa,
ameaçada pelo pl ano de socialização
do governo João Goulart. através de
um aperfeiçoamento da consciência
civica e democrática do povo".
..
1 2
Entrevista realizada em 14 de j ul ho
de 1 987.
13
O I nstituto Brasil eiro de Ação
Democrática foi criado maio de 1 959 e
ti nha como objetivos "combater a
propagação do comunismo no Brasil".
Participou ativamente das eleições de
1 962, financiando candidatos de
oposição ao governo João Goul art.
1 42
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
Que atividades desenvolvia Ö IPES? Palestras, produção de arti80s?
Tinha de tudo. Os artigos, por exemplo, eram distribuídos pelas casas, porque não
podiam ser publicados na imprensa; eram impressos aos mi lhares e entregues em
mãos. Além disso, o I PES financiava viagens de estudantes aos Estados Unidos, para
conhecerem melhor o país e seu funcionamento.
A estrutura era inspirada na ESG?
Até certo ponto, porque o I PES conspirava, e a ESG não conspirava. Eu fazia
muitas palestras; como tinha assuntos da Mercedes para resolver aqui , vinha ao Rio
uma vez por semana. E aproveitava para conspirar.
A partir de certa hora, os grupos de São Paulo e do Rio começaram a divergir:
aqui o pessoal queria esperar o governo do Jango acabar e influir nas eleições de
65 , mas em São Paulo queriam mesmo era depor o Jango o mais rápido possível .
Fui me identifcando cada vez mais com os paulistas. Começamos a fazer uma
aproximação com o I I Exército, com a Marinha, através do Sílvio Heck, meu
amigo, companheiro de conspiração.
Qual era Ö principal ar8umento do IPES contra Ö 8ovemo João Goulart, a pro8ressiva
esquerdização do 8ovemo?
Não era esquerdização, não; era infiltração comunista mesmo. Mas não era só por
isso que queríamos derrubá-l o; criticávamos também a bagunça generalizada, a
desorganização administrativa, o descalabro econômico-financeiro. Até a polícia
dele era muito inepta. Conspiramos à vontade, e nunca fomos apanhados. De vez
em quando pegavam um, mas era raro. Muito inepta.
Qual a sua avaliação sobre João Gou1art?
Como pessoa era um homem bom, bonachão, generoso; como governante foi um
desastre.
É
como o meu amigo José Sarnei : gosto muito dele, conheço-o há 30
anos, mas não tem formação para a presidência, está evidente. 1 2 Considero sua
literatura indigesta, com seus Marimbondos de 1080' Li dele uns dois livros e umas
crônicas; comete muitos erros de português. Falta-lhe pulso, não tem uma linha de
comando, é um fraco. O que há de bom nos mi l itares - não defendo que todos os
presidentes sejam mi litares - é a disciplina, que praticam e estudam durante a vida
toda, inclusive na Escola Superior de Guerra.
V árias empresas financiavam Ö IPES, não é?
Sim. Por minha causa, a Mercedes e a Mannesmann davam dinheiro; não
participaram da conspiração, apenas deram dinheiro. Mas muitas outras empresas,
nacionais e estrangeiras, também financiaram. Em 63 acusaram até o I PES de estar
envolvido com o l BAD, mas eram dois organismos diferentes. 1 3 O l BAD financiou
minha campanha ao governo do estado do Rio em 62, embora eu não tivesse
pedido nada. Foi o Prado Kelly quem pediu ajuda fnanceira, e o lBAD deu, além
de ceder automóveis e gente para fazer propaganda.
U M G E N E R A L E M P R E S A R I O
Com a vitória da conspiração, o general Castelo Branco, assim que tomou posse na
presidência, nomeou muitas pessoas do [PESo
Ah, sim. O Castelo fez várias palestras no I PES, e além disso tinha total confiança
no Golberi ; bastava o Golberi indicar para ele nomear. Este, aliás, foi o primeiro a
ir para o governo, para montar o SNI , o Serviço Nacional de I nformações. Outro
que fez parte do I PES e depois foi interventor em Al agoas foi o João Batista
Tubino, muito meu amigo - todo conspirador era meu amigo. Mas havia também o
Dênio Nogueira, que acabou indo presidir o Banco Central ; muito bom, muito
capaz. Meu amigo Glycon de Paiva virou assessor do Conselho Nacional de
Economi a; o José Garrido Torres , excelente, foi para o BNDE; o Guilherme
Borghoff foi para a Sunab. Eram todos do I PES.
Por que o senhor não foi ministro de Castelo Branco?
Uma vez o Castelo me disse: "Olhe, Macedo, eu queria você para meu ministro,
mas não posso nomeá-lo porque nossa intimidade é grande demais."
Usenhor acompanhou os últimos dias do governo João Goulart?
Torci muito para que ele caísse o mais depressa possível . Os generais
revolucionários eram todos meus amigos e, embora eu não participasse
diretamente, estava sempre em contato.
Em que momento o senhor pensou: "O Jango está deposto'?
Foi depois daquele discurso no comício da Central do Brasi l . 1 4 As manifestações de
marinheiros, fuzileiros navais e sargentos, tudo aquilo era sinal de flagrante
desrespeito à hierarquia. As Forças Armadas j amais aceitaram quebra de hierarqui a.
Aüás, só há duas coisas organizadas no Brasil : as Forças Armadas e a Igreja
Católica.
D. Jaime Câmara, arcebispo do Rio de Janeiro, deu muito apoio ao movimento
revolucionário. O senhor tinha contato com ele?
Cl aro. El e tinha me apoiado quando fui governador do estado do Rio; ia
freqüentemente a Niterói . Uma vez, o Itamarati me deu uma informação errada.
Eu consultei : "Devo ir recebê-l o?" El es me responderam: "Não. O senhor é o
governador; depois do presidente da República, quem manda no estado é o senhor.
Espere-o no palácio." D. Jaime chegou, correu tudo muito bem, e fomos para uma
missa ao ar livre. Depois , lendo as regras do Itamarati , vi que eu deveria ter ido
recebê- lo. Fiquei furioso! Mas a Igreja participou ativamente do movimento de 64;
era o povo que pedi a.
A que grupo de conspiradores o senhor estava ligado?
Ao grupo liderado pelo Cordeiro de Farias; dele participavam o Ademar de
Queirós, chamado Tico-tico, muito meu amigo, meu companheiro na ESG e no
I PES; o Ulhoa Cintra, enteado do Outra, entre outros. O Cordeiro teve muita
14
o comício da Central do Brasil
real izou-se em 13 de março de 1 964.
Ali o presidente João Goulart assi nou
dois decretos: o pri mei ro desapropri ava
as refinarias particulares de petróleo, e
o segundo, chamado "decreto da
Supra", desapropriava todas as terras
situadas a 10km dos eixos de ferrovias
e rodovias federais.
. ..
A Marcha da Fami l i a com Deus pela
Liberdade, movimento organizado por
grupos rel i gi osos, foi realizada em São
Paulo em 19 de março de 1 964,
quando 500 mi l paul istas sairam à rua
contra o governo João Goulart; no Ri o
de Janei ro, a marcha reuni u 800 mi l
pessoas, no di a 2 de abri l , para
comemorar a vitória do movimento
revol ucionário.
6
O episódio a que se refere o
entrevistado ocorreu em fevereiro de
1 964. Brizola foi a Belo Horizonte para
fundar um comitê local da Frente de
Mobilização Popul ar. Grande
mani festação de mul heres convocadas
pela Mobi l ização Democrática
Brasileira, alem de outras organizações
anticomunistas, obrigou à retirada de
Brizola e sua comitiva, sendo seu carro
apedrejado.
Entrevista realizada em 4 de junho
de 1 987.
O general Castelo Branco assumi u a
chefia do Estado-Maior do Exercito em
14 de setembro de 1 963.
1 44
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T f M P O
atuação em São Paul o, porque era preciso que o estado entrasse em peso na
conspiração, O governador Ademar de Barros começou a comprar armamento na
Alemanha, se não me engano.
O movimento de 64 foi muito estimulado pelos civis, Vieram para rua - até a
Alcina participou. Morávamos em São Paulo, e lá el a tomou parte em movimentos
de rua, inclusive. Fez parte da Campanha da Mulher pela Democracia, a Camde, e
saiu naquela Marcha da Família com Deus pela Liberdade. I S Houve movimento no
Rio e em Belo Horizonte, onde não deixaram o Brizola falar. 1 6 Em suma, o povo
apoiou entusiasticamente a Revolução de 64.
Ucomandante do II Exército durante quase toda a conspiração era o general Peri
Bevilacqua; só em dezembro de 1 963 ele foi substituído pelo general Amauri Kruel. O
senhor conhecia Peri Bevilacqua?
Muito. Não era a favor do governo do Jango, mas também não era a favor de um
movimento armado. Conheci o Peri no Colégio Mi l i tar, e nossas relações sempre
foram muito cordiais. Há umas três semanas eu o encontrei e me dirigi a ele com
muita cordialidade; ele me olhou sério, apertou minha mão e virou as costas. 1 7 Foi
muito mal-educado, por isso não terá mais o meu cumprimento; se algum dia ele
se dirigir a mi m, não vou cumprimentá-lo. Terminou.
o senhor não sabe por quê?
Porque fui revolucionári o, e ele foi contra a Revolução. Depois foi cassado, tiraram
suas medalhas, tiraram tudo. Fui muito contra isso. Agorâ, o Peri nunca foi muito
certo da cabeça; ele tinha qualquer coisa. Dizem que todos os Bevil acquas têm um
parafuso meio frouxo.
Usenhor mantinha cantata com os i ndustriais paulistas? Afnal, o senhor dirigia a
Mercedes Benz, e eles eram seus colegas.
Estavam todos conosco, Lembro, entre os mais ativos, do Francisco Matarazzo
Sobrinho, do Toledo Pisa, do Quartim Barbosa, do Abreu Sodré - é meu primo -,
do Júl i o de Mesquita; o Estadão deu muito apoio.
Como era a convivência entre Júlio de Mesquita e Ademar de Barros, i nimigos antigos?
Tiveram que conviver, porque estavam conspirando j untos, mas brigavam muito;
sempre foram adversários.
É
verdade que o J úl io de Mesquita brigava com todo
mundo, só não brigava consigo mesmo. Os Mesquitas eram conhecidos como "a
família carretel ", a única que tinha linha; ninguém mais tinha. O Ademar de
Barros, por sua vez, não era uma figura boa, tinha muitos defeitos. Todos temos ,
mas ele tinha um pouquinho mais, porém colaborou com a conspiração, e muito.
E aqui no Rio, com quem o senhor mantinha cantata?
Com o Castelo Branco, que já estava como chefe do Estado-Maior do Exército; 1 8
. . . .
o Castelo e eu conversávamos muito. Já com o Costa e Silva a coisa era um pouco
mais complicada; quem era mais revolucionária era sua mulher, a d. Iolanda.
Qual era a posição dos governadores?
Em Minas, o Magalhães Pinto conspirou desde o primeiro dia, embora precisasse
manter as aparências; afnal , era governador de estado. Em São Paulo, como j á
disse a vocês, o Ademar foi impecável , grande colaborador. O Lacerda era mais
perigoso, porque era boquirroto; então, tínhamos que ter cuidado ao falar com
ele, mas ele nunca nos falhou. o Rio Grande do Sul , o l ido Meneghetti era mais
prudente, mais disfarçado.
A atuação de governadores como Miguel Arrais, em Pernambuco, assustava os
conspiradores?
Um pouco, tanto que o Arrais foi preso no próprio dia 3 1 de março. O
comandante do IV Exército era o Ju tino Alves Bastos. J á contei a vocês que fomos
contemporâneos no Colégio Mi l itar - o Al ves Bastos foi meu tenente, quando eu
era capitão-aluno. Pois ele conspirou o tempo todo para derrubar o Jango e, no
Nordeste, assegurou o apoio do Exercito à Revolução de 64. Deu ordem de prisão
ao Arrais no dia 3 1 e o encarcerou em Fernando de Noronha. Depois o Arrais foi
cassado. Ele não tem bom caráter. Está aí de volta, é muito político, mas a fama
que tinha, naquela época, era de mau caráter.
1 45
'
' ' '
\
¹
pós a vitória do ao1pe mili tar, oraanizou-se o Comando Supremo da Revolução,
composto pelo almirante Auausto Rademaker, o aeneral Costa e Silva e o briaadeiro
Correia de Melo, três velhos conhecidos seus.
Eu não gostava do Correia de Melo. El e era louco! Chamavam-no de Melo
Maluco. Mas o Rademaker era excelente; homem leal , milito ligado ao Costa e
Silva. Esse comando revolucionário foi escolhido pelo próprio Costa e Silva, como
ministro da Guerra do Mazzilli . 1 Foi esse grupo que se responsabilizou pela
primeira lista de cassações, editada em 1 0 de abri l , logo em segilida ao Ato
Institucional ; o Prestes estava nessa l ista. 2 Mais tarde, durante o seu governo, o
Costa e Silva me dizi a: "Macedo, hoje vai ser um dia terrível para mi m." Eu
perguntava: "Por quê?" El e respondia: "
É
di a de cassação, e eu não gosto disto.
Antes de deixar o governo, vou acabar com isso." Morreu antes. Cassava, porque o
Gama e Silva, ministro da Justiça, dizia que era necessário. De vez em quando, vejo
um desses políticos atuais, que foram cassados em 69, e peri so: "A cassação deste
levou a minha assinatura." Nunca fui favorável às cassações, mas era ministro e
tinha que acompanhar o Costa e Silva.
senhor participou da escolha do aeneral Castelo Branco como candidato à presidência
da República?
Era o nome que todos desejávamos. Não participei diretamente, mas quando
perguntado dizia que meu candidato era o Castelo. E o Congresso o elegeu. Agora,
na escolha do Costa e Silva como ministro da Guerra eu opinei . Havia uma
competição muito grande entre vários generais colegas do Castelo, todos querendo
ser ministro. O Castelo conversou com alguns amigos, inclusive comigo, e eu
disse: "Conheço todos os candidatos, mas se fosse você, eu nomearia o Costa e
Silva; acho que é a pessoa mais preparada." O Costa e Silva tinha vindo a mi m,
pedindo: "Fale com o Castelo, porque eu desejo milito ser ministro. Depois quero
ser presidente da República, e você vai ser meu ministro."
á quem diaa que o próprio Costa e Silva se empossou no Ministério.
Não! Ni nguém fazia isto com o Castel o, não! O Costa e Silva só foi ministro com a
concordância do Castelo.
1
Com a deposição do presidente João
Goul art, o próximo na l i nha de
sucessão era o presidente da Cãmara
dos Deputados, Ranieri Mazzi l l i , que
assumi u interinamente até a posse do
general Castelo Branco na presidência
da Repúbl ica.
o Ato Institucional n' 1 foi editado
pelo Comando Supremo da Revolução
em 9 de abril de 1 964. Entre outras
medidas, permitia a cassação de
mandatos e suspensão de di reitos
politicas por dez anos; criava o decurso
de prazo para aprovação pelo
Legislativo de projetas de l ei do
Executivo e quórum de maioria
absoluta para aprovação de emendas
constitucionais; cancelava a cláusula
constitucional de i nel egi bi l iadde. O
sal do do AI -I foi: 378 cassações, dez
mil demissões de funcionários públ icos
e cinco mil IPMs instalados, envolvendo
mais de 40 mil pessoas. Entre os
principais cassados estavam os ex­
presidentes João Goul art, Jâni o
Quadros e Juscel i no Kubi tschek, os
governadores Mi guel Arrais e Seixas
Dória e deputados federais, mi l i tares,
l i deres sindicais, membros do governo
João Goul art, al ém de Luis Carlos
Prestes e do jornal ista Samuel Wainer.
Na pagi na ao lado: Edmund de
Macedt Soares e Silva necebe a pasta
da ndustna e Comtrc'o do ex mi nistro
Paul l fyl dl l Maot ns, e" 1 5 de 0ð ço
de 1 967 (CPDOCArqUlvo Edmundo de
Macedo Soars)
. .
3
Os partidos politicas foram extintos
pelo Ato Institucional n' 2, de 27 de
outubro de 1 965, que determinava
ainda, entre outras medidas repressivas:
eleições i ndi retas para presidente da
República e novas cassações e
suspensões de di reitos pol íticos. O
pri nci pal cassado foi o governador
Ademar de Barros, em janei ro de 1 966.
4
Entrevista real i zada em 23 de junho
de 1 987.
1 48

U M C O N � T R U T O R D O N o s � o T E M P O
Que avaliação o senhor faz do ministério do presidente Castelo Branco?
Achei , em geral , bom. Havia alguns mi nistros de quem eu não gostava muito; não
eram bastante revolucionários. O Ministério da Justiça teve vários titulares.
Primeiro o dr. Mí lton Campos, homem esplêndido, de grande consciência, mas
ficou apenas um ano e meio. Foi quando o Castelo decidiu promover uma reforma
politica, uma reformulação partidária e acabar com os partidos existente . 3 Parece
que o Mílton Campos foi contra o bipartidarismo - queria um terceiro partido - e
acabou saindo. Foi substituido pelo Juraci Magalhães , meu contemporâneo; até
hoje me dou bem com el e. Não anda bem de saúde, mas nós nos vemos com
freqüência. 4 Bom, o Juraci saiu em 66, para assumir o Ministério das Relações
Exteriores, e seu substituto foi o Mem de Sá. Eu o conhecia miito, porque fizemos
juntos o levante da Escola Mi l itar, em 2 2 . Ficou só cinco meses como ministro e
passou a pasta ao Luis Viana Fi lho, chefe da Casa Civil , que ficou miito pouco
tempo. Finalmente, o último ministro da J ustiça foi o Carlos Medeiros da Silva,
excelente, um homem que redigia constituições inteiras em uma semana.
Por que houve cinco ministros da Justiça em apenas três anos de 8overno?
O próprio Castelo pode ter sido o motivo, porque era milito duro; não tratava mal
as pessoas, mas era muito seco. Nunca se afastava de sua linha de pensamento.
Na Marinha foram três ministros: Ernesto de Melo Batista, Paulo BosÍsio e Araripe
Macedo.
O Melo Batista era um homem de esquerda; quando o Castelo descobri u, livrou-se
dele. Mas na Aeronáutica também foram três : o Nélson Lavenere Wanderley,
excelente revolucionário, tinha feito o Correio Aéreo Mi l i tar em 1 93 1 ; o Márcio
de Sousa e Mel o, que fcou pouco tempo, e o Eduardo Gomes , que entrou no
fmal . No Itamarati ele teve dois mi nistros, o Vasco Leitão da Cunha e depois o
J uraci . Agora, no Ministério da Guerra, o Costa e Silva ficou o tempo todo, só
sendo substituido no fnal , quando foi candidato à sucessão do Castel o, pelo
Ademar de Queirós, o Tico-Tico. Na Fazenda, o dr. Bulhões ficou o governo todo,
e a mesma coisa o Roberto Campos no Planejamento. Na Viação e Obras Públicas,
fcou o meu amigo J uarez Távora, bom homem, mas milito ingênuo. Gostei milito
da nomeação do Flávio Suplicy de Lacerda para a Educação; tinha sido reitor da
Universidade do Paraná.
Diz-se que Castelo Branco era uma pessoa muito inteli8ente, não?
Milito, embora não se tenha destacado nos estudos. O primeiro aluno da sua
turma na Escola Mi l itar foi um gaúcho, o segundo foi o Costa e Si lva; ele deve ter
sido o quinquagésimo, mas lia tudo! Lia tudo. Costumávamos dizer que nordestino
é o homem mais feio do mundo, mas é o melhor do mundo. Que homem fei o,
meu Deus ! Fomos colegas na Escol a Mi l itar; nos exercícios, o Castelo era cômico:
fardado, de botas, perneiras e um fuzil na mão, baixinho daquele j eito! Quando
tinhamos que transpor um muro de dois metros e meio, um de nós pegava o
R E T O R N O A V I O A P O L i T I C A
Castelo, empurrava-o para o alto, e alguém o pegava do outro lado, porque ele não
conseguia pular o muro sozinho.
Tinha um temperamento muito fechado, não era de muita intimidade com as
pessoas. Escolhia seus amigos; ninguém o escolhia para amigo. Era ligado a um
círculo muito pequeno. Mesmo com os colegas, a intimidade era relativa, mas eu
gostava muito dele. Quando eu viaj ava, sempre trazia dois, três )jvros para ele,
todos em francês, porque Castelo não l i a outra língua.
Já Costa e Silva não parecia mui to amigos dos li vros.
O Costa e Silva era só coração, e foi isso que o matou. Foi primeiro aluno no
Colégio Mi ] j tar, segundo na sua turma na Escola Mi l itar, mas abandonou
completamente a leitura. A mulheres dos dois também eram muÜo di ferentes. D.
Argentina, mulher do Castelo, era muito inte]jgente e muito bonita, muito
companheira dele. s Ajudou muÜo mais o Castelo do que a d . lolanda ao Co ta e
Silva. Mas a d. lolanda também é uma mulher muito inte]jgente e atuou muito
bem nas obras de caridade e na Legião Brasileira de Assistênci a.
ntre 1 964 e 6 7, até assumir o ministério no governo Costa e Silva, o senhor foi
presidente da Corfederação Nacional da Indústria, a CNI, não é?
Is o mesmo. Fui eleito em 64 e em 66 fui reeleito por mais dois anos , mas achei
melhor não acumular com o ministério, embora não fosse ilegal , e renunci ei .
( governo Castelo Branco promove uma riormulação geral na política económica.
Roberto Campos, no Ministério do Planejamento, e Otávio Gouveia de Bulhões, na
Fazenda, lançam o PAEG, Plano de Ação Económica do Governo, que teve a oposição da
CNJ. Por que os industriais estavam insatiieitos?
Eles reclamaram, e era dever da C I mandar um documento ao governo. Os
industriais consideravam que o Roberto Campos não estava colocando o problema
5
Argentina Viana Castelo Branco
faleceu em 1 963.
Como pr�ldente da Confederação
NJClOnal da I ndúsõria (CNII, Edmundo
de Macedo Soares e Si l va recepciona o
presidente Castelo Branco "O I
Encontro dos Investldor� do Nord�te,
em Fortaleza, junho de 1 966.
(CPODC/ArqUlvo Edmundo de Macedo
)oares)

`
1 50

U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
nos melhores termos; não fez congelamento de preços, o gue teria sido
importante para estabilizar a situação. Além disso, eles gueriam expansão do
crédito e redução de impostos, coisa gue todo empresário reivindica. O Roberto
estava prevendo uma peguena recessão para depois retomar o crescimento,
inclusive para conseguir empréstimos j unto ao FMI e aos bancos estrangeiros. Mas
os poüticos e os empresários eram contra a recessão.
O Roberto Campos é um homem muito inteligente - veio do nada - mas
extremamente vaidoso. Por exempl o, ele tem casa em Miguel Pereira, onde vai
sempre, e nunca me visitou, pois está esperando a minha visita. Ora, guem chega
por último é gue deve visitar guem já está no lugar! Por isso, não o visito; tenho
tudo o gue ele gosta, whisky, tudo, mas se ele não me visitar primeiro, não o
visitarei .
Esse antagonismo com Roberto Campos não impediu o senhor de participar da comissão
presidida por ele e encarregada de acompanhar os trabalhos da consultora Booz, Allen ç
Hamilton, que chegou ao Brasil em 66, não é?
A Booz, Allen veio para o Brasil por mia indicação ao Castel o; aí ele nomeou o
Roberto Campos para fazer parte da comissão. Como não entendia nada de
siderurgia, o Roberto deu-me a presidência; assim, passei a presidir a comissão
brasileira, com a presença do Roberto e da Booz, Al len. Fizemos um estudo muito
bom; a empresa era competentíssima, eu ajudava na parte siderúrgica, e o Roberto
contribuía com a parte econômica. Reestruturamos todos os planos de expansão
da siderurgia, gue depois foram aplicados pelo governo Costa e Silva.
Conheci a Booz, Allen numa de minhas viagens aos Estados Unidos; era uma firma
famosa no mundo inteiro. Conversei com eles sobre Volta Redonda, na época da
construção da usina, e depois conversamos sobre suas necessidades de expansão.
No inicio do governo do Castelo, como eu viaj ava muito por causa da Mercedes,
fz um contato com eles , para a análise do setor siderúrgico brasileiro.
Usenhor e Roberto Campos tinham diferenças de opinião sobre o assunto?
Tínhamos, mas guem presidia a comissão era eu, e o Roberto não ousava dizer
nada, porgue eu sabia rebater. El e era pessoal demais e só admitia a sua opinião;
mas no fmal consegui impor o parecer da Booz, Al len.
Então, o senhor continuou mantendo contato com Castelo Branco, trocando idéias?
Fregüentemente, ele me chamava para conversar sobre o governo. Quando houve
um problema especifico, como esse da expansão da siderurgia, naturalmente ele
mandou me chamar. Vou contar uma coisa: o candidato do Castelo à sua sucessão
era eu, mas o Costa e Silva impedi u. Ele pediu para ser candidato, dizendo-lhe: "O
Macedo é mais novo gue eu, e eu vou morrer cedo; por isso guero ser presidente
agora." Quer dizer, ele já sentia alguma coisa, mas nunca me disse nada.
R E T O R N O A V I D A P O L I T I C A
Castelo Branco assumiu a presidência para completar o mandato iniciado por Jânio
Qadros, em 1 96 1 , portanto deveria deixar o poder no início de 1 966, mas prorrogou
seu mandato por mais um ano. Por quê?
Não foi fácil convencê-l o. Era preciso, porque a situação política não estava
inteiramente controlada, e o Castelo queria dar ao país uma nova Constituição,
uma carta que refletisse os novos tempos. Depois de muita insistência nossa, ele
concordou em continuar, mas não foi fácil , não.
Usenhor era o candidato de Castelo à sucessão, mas Costa e Silva, como o senhor nos
disse, insistiu em ser ele o novo presidente. As Forças Armadas aceitaram bem essa solução?
Hesitaram muito, pois estavam muito divididas. Mas, finalmente, o Costa e Silva
conseguiu maiori a. Escassa, mas conseguiu. O Cordeiro de Farias era ministro dos
Organismos Regionais e pediu demissão do cargo por discordar da opção pelo
Costa e Silva. El e me disse que fazia restrições também alguns membros do grupo
mais próximo do Costa e Silva, inclusive à d. I olanda: "A I olanda vai fazer o diabo
nesse governo. "Tenho a i mpressão de que não fez tanto assim, ou, se fez, ignoro.
Por que as Forças Armadas estavam tão divididas? Havia outros candidatos ostensi vos?
Havi a. Entre os civis, o mais conhecido era o Bilac Pinto, deputado e presidente da
Câmara. Teria sido muito bom para o Brasil . Apesar de ser muito amigo do Costa e
Silva, acho que o Bilac teria sido melhor que ele, pois teria começado, j á naquele
momento, uma abertura. Entre os militares, dizem que o próprio Cordeiro queria
ser o sucessor, não sei . 6 Mas havia também quem afirmasse que as Forças Armadas
não deveriam mais ter candidatos, porque qualquer erro seria atribuído a elas e
não ao presidente. Porém, escolhido o Costa e Silva, tudo serenou. Quem era
contra continuou contra, mas calou a boca; não houve uma oposição ferrenha.
No Congresso a eleição do Costa e Silva foi tranqüi l a, embora alguns
parlamentares da Arena, que era o partido do governo, tivessem se recusado a
votar. Lembro que o MDB se retirou todo do plenári o, e na Arena, o Afonso
Arinos e o Mem de Sá se recusaram a votar no Costa e Silva. 7 | compreensível ;
ambos sempre foram a favor de um governo civil , principal mente o Afonso Arinos,
que é mi neiro, e os mineiros, em geral , não gostam de mi litares. O Costa e Silva
foi eleito pelo Congresso e viajou para a Europa. Fui com ele, como presidente da
C I ; j á estava convidado para ministro da Indústria e Comércio .
.o final do governo Castelo Branco começa a aparecer a expressão "linha dura", que
passou a designar os ciiciais que cercavam Costa e Silva, em geral mais jovens e radicais.
Eu era da "linha dura", porque também queria manter a Revolução e a sua política.
Mas nunca fui de extrema direita, como alguns, como o Jarbas Passarinho, por
exempl o, que tinha sido integralista; todos os antigos integralistas passaram a
engrossar as fileiras da "linha dura", junto com a ofcialidade mais j ovem. ão fui
integralista porque, como j á contei a vocês, estive na Europa antes da guerra e vi
Hitler e Mussol i ni , sabia o que era aquele regime.
6
O nome do general Cordeiro de Farias
aparece numa lista de possiveis
candidatos elaborada pela Arena. Os
outros eram Bilac Pinto, Ademar de
Quei rós, Costa e Silva, Etelvino Lins e
Nei Braga.
7
O general Costa e Silva foi el ei to
presidente da República pelo Congresso
em 3 de outubro de 1 966; seu vice­
presidente foi o deputado mi neiro
Pedro Aleixo.
1 51
1 52
I
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
U senhor participou do 8overno Costa e Silva desde o início, como ministro da Indústria e
Comércio. Qjal é sua avaliação do conjunto do ministério?
Muito boa, tanto que o Costa e Silva não mudou praticamente ninguém. Al ém
disso, tínhamos muita autonomia, de modo que pudemos trabalhar sem
interferênci a; o que eu levava, ele aprovava. Quando era um assunto que não
conhecia, ele dizia: "Faça-se o que você quer." Agora, quando se tratava de um
assunto que ele dominava, discutia bastante.
O ministério se reunia semanalmente, o que deu grande coesão à equipe; as
reuniões eram muito interessantes. a J ustiça ficou o Gama e Silva, o homem das
cassações ; foi duríssimo no governo. Era um jurista acatado, muito inteligente, mas
tinha essa idéia fixa de que era preciso fazer as cassações. Para a Marinha ele
chamou o Rademaker, que tinha sido do Comando da Revolução, mas não foi
aproveitado pelo Castelo no ministério; voltou ao governo com o Costa e Silva. A
meu ver, foi excelente, assim como o Lira Tavares no Ministério da Guerra, que
pa ou a ser Ministério do Exército - era mais apropriado -; é um homem culto,
membro da Academia Brasileira de Letras e do Instituto Histórico. O da
Aeronáutica, Márcio de Sousa e Melo, também foi muito bom; fizemos j untos a
Embraer, a Empresa Brasileira de Aeronáutica.
Para o Ministério das Relações Exteriores ele chamou Ma8alhães Pinto, um
revolucionário. Foi boa escolha?
ão gostei , ele não sabia comer.
Não sabia comedI
ão. O Magalhães pegava nos talheres como quem pega na enxada e os usava na
mão errada, não era um homem fino. Sua mulher, então, era pior. Houve j antares
diplomáticos constrangedores; era horrível . O Magalhã s Pinto nunca deveria ter
sido escolhido para ser o ministro que representa o país no estrangeiro e lida com
governantes e outros diplomatas.
Outro cuja escolha não aprovei foi o Delfm Neto. O Costa e Silva me disse:
"Quem é secretário da Fazenda de São Paul o, pode er ministro da Fazenda." Eu
argumentei : "Bom, Costa, não é bem a minha opinião, mas se você quer, eu o
trago, porque o conheço."Trouxe o Delfim, o Costa e Silva conversou com ele e o
convidou. Eu achava que havia gente melhor; estava inclinado a indicar um ou dois
parlamentares , mas o Costa e Silva convidou logo o Delfi m. | verdade que não
posso dizer que sua atuação como ministro da Fazenda tenha sido rui m; fiquei a
favor das medidas que ele adotou.
Já o Andreazza, nos Transportes, eu aplaudi ; muito inteligente, muito malandro,
tanto que construiu a ponte Rio-Niterói e a batizou com o nome do Costa e Silva.
Outro malandro é o Passarinho, que foi nomeado para o Trabalho; a d . Iolanda
sempre dizia: "Este é o mais malandro de todos. " Político, está por aí até hoj e. O
Leonel Miranda era médico do Costa e Silva e foi nomeado mi nistro da Saúde.
Homem muito rico, auxiliava muito o governo, mas como político e como
médico, a meu ver, era medíocre.
R l T O R N O A V I O A P O L I T I C A
Ugeneral Albuquerque Lima foi nomeado ministro do Interior, mas depois entrou em
atrito com o general Costa e Silva e sai u do governo. ° U que houve, realmente?
O Albuquerque Lima foi nosso companheiro na conspiração, mas foi muito desleal
com o Costa e Silva, com quem teve inúmeros desentenrumentos , e eu tive que
intervir. Em várias reuniões ministeriais ele fal tava com o respeito ao Costa e Silva
que, um dia, não agüentou mais e o demiti u. Ele criticava abertamente o governo.
Poderia fazer pessoalmente, mas nunca em público. O que ele queria mesmo era
ser presidente da República.
O das Comunicações era um baiano muito competente, o Carlos Simas; foi quem
fez toda essa rede que temos hoje, de televisão, telegrafia, telecomunicações.
esse período do governo Costa e Silva, as comunicações deram um pulo muito
grande no Brasi l , tudo oblJa do Simas.
Comparando os dois períodos em que o senhor foi ministro, em qual o senhor se sentiu
mais à vontade?
O mais rufcil foi o Mi nistério da Viação, porque era muito grande, e
eu ainda era um pouco inexperiente nessas coisas de governo. Além
russo, o Outra era muito fechado; a convivência com o Costa e Silva
era muito mais fácil , mais agradável .
Entre o início do governo e a decretação do AI-5, o Congresso estava
funcionando. Como eram as negociações para a aprovação de verbas?
O Costa e Silva chamava os líderes na Câmara e no Senado, reunia os
ministros e combinava o que fazer. Como a Arena tinha maioria nas
duas casas, e os líderes era escolhidos por ele, nunca houve ruficuldade
maior.
Um problema político que o governo Costa e Silva herdou do anterior foi o
dos estudantes, cuja atuação gerou séria crise política, com passeatas,
prisões, excessos policiais . . .
Isto aborrecia muito, mas o governo tinha força. Além russo, o Costa e
Silva sempre foi muito tolerante com os estudantes.
U que o senhor pode nos contar sobre a edição do Ato Institucional nO 5?
O deputado Márcio Alves fez um ruscurso violento, criticando os
mi litares, e o presidente mandou o ministro da Justiça chamá-l o para
ruzer que se retratasse; ele não e retratou. Então, o ministro Gama e
Silva russe: "Nessas circunstâncias, deputado, teremos que afastá-lo da
Câmara. Vou combinar com o presidente um ato para isso." Essa é a
origem do AI - 5 .
Houve discussão n o ministério a respeito do conteúdo e do alcance do ato?
Eu fui contra e disse ao Costa e Silva que achava um ato muito violento. Ele
8
o general Afonso Augusto de
Albuquerque Lima ocupou a pasta do
interior entre 1 5 de março de 1 967 e
27 de janei ro de 1 969, sendo
substituido pelo coronel Costa
Cavalcanti, que deixa o Mi nistério das
Minas e Energi a; quem o sucede é o
economista Antônio Dias Leite.
o p�id�nt� Co� Silva � o mi nistro
Edmundo d� Ma�do Sa� � Silva, na
inauguraço das obrs da Ptroqulmica
União, �m São Pulo, abril d� 1 96.
(ruiv Emundo de Macdo
Sr)
1 53
o Ato Institucional n' 5 foi editado
em 13 de dezembro de 1 968 e
determinava, entre outras medidas:
suspensão do habeas corpus e de
vári as garanti as constitucionais da
magistratura; novas cassações de
mandatos e suspensões de di reitos
politicos; direito do presidente de
promul gar decretos-lei, decretar estado
de sitio sem anuênci a do Congresso,
demitir ou reformar oficiais das Forças
Armadas.
1 54
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
respondeu: "Concordo contigo, mas o mi nistro da j ustiça considera indispensável .
Entre a tua opinião e a da j ustiça, prefiro a da j ustiça. " E foi decretado o ato. 9
Uaeneral Castelo Branco teria cedido ao ministro da Justiça?
Ele teria sido ainda mais rigoroso do que o Costa e Silva; não só teria cassado o
homem, como o teria obrigado a deixar o país, teria expulsado o Márcio Alves do
Brasil . O Costa e Silva era muito brando, o Castelo era itamente mais duro.
Havia outros ministros contra?
Apenas mais dois, além de mi m: o Hélio Beltrão, do Planejamento, e o Carlos
Simas, o homem das comunicações; só nós três ficamos contra.
E quais eram os mais exaltados a favor do ato?
O único exaltado era o ministro da j ustiça; o resto cal ou-se. Mas eu lasti mei ,
porque tínhamos que assinar o ato, ou então, nos retirar do governo, o que seria
uma pena; estávamos fazendo muita coisa.
Loao ao assumir o Ministério da Indústria e Comércio o senhor criou o Grupo Consulti vo
da Indústria Siderúraica, que depois se traniormou em Conselho, para cui dar de sua
menina dos olhos, que sempre foi a sideruraia, não é?
Ah, sempre foi . O Consider foi criado com o objetivo de coordenar toda a
siderurgi a. Seu presidente era o ministro da Indústria e Comércio - como é até
hoj e. Os outros membros eram os ministros da Fazenda, do Planejamento, dos
Transportes, os presidentes do BNDE, do Banco do Brasi l , da CS e da Val e do
Rio Doce. Em dezembro de 67 o grupo apresentou o primeiro Plano Siderúrgico
Nacional , que atualizava aquele trabalho da Booz, Al l en; a própria empresa foi
consultada. Basicamente, o plano recomendava a expansão e moderni zação da
produção das usinas estatais. Aí , em março de 68 o Consider foi oficialmente
criado, com o objetivo de implantar o Plano Siderúrgico Nacional .
or que se deci diu pelo aumento da produção, se as perspecti vas de mercado não eram
muito boas?
Realmente, não eram. Mas eu estive em Luxemburgo, e lá me disseram o seguinte:
"A Europa vai diminuir a produção de aço, porque está muito fácil fazer aço;
vamos empregar a massa cinzenta européia em máquinas mais sofisticadas, vamos
para a indústria química de ponta, para a informática, e vamos abandonar a
siderurgia." Eles deixariam com o Brasil a produção do aço e fariam o material
mais sofsticado, que nós importaríamos.
or que o Plano Siderúraico Nacional não pôde ir adiante na sua aestão?
Porgue não havia recursos.
quem era o dono da chave do ccre?
O ministro da Fazenda Del fim Neto. Mi nhas relações com ele eram muito boas ,
R E T O R N O A V I D A P O L I T I C A
mas não havia dinheiro mesmo. Além disso, as tarifas também estavam muito
baixas; eu mesmo implantei um aumento tarifári o em três etapas, principalmente
das empresas ligadas ao governo. O Brasil tinha copiado essa prática tarifária dos
Estados Unidos porque l á, no início da década, o governo Kennedy tinha proibido
o aumento do preço do aço; com isto, as empresas foram descapitalizadas. E aqui o
governo copiou, o que deixou suas empresas em situação muito pior que as
particulares.
Esse aumento tarifário visava arranjar fundos para capitalizar as empresas estatais,
para poder viabi l izar as ampliações que eu pretendia fazer. As tarifas dessas
empresas estavam muito defasadas em comparação às das empresas particulares.
Acontece que quem determinava as tarifas para as empresas do governo era o
mini stro da Fazenda, e ele achava que devia dar melhores condições às empresas
privadas. O governo arcava com o prejuízo.
Em agosto de 69, o senhor assinou um decreta que substituía a antiga Comissão de
Desenvolvimento Industrial pelo CDI, o Conselho de Desenvolvimento Industrial, e
reestruturava os grupos executivos ligados a projetas industriais. Qe funções foram
atribuídas a esses grupos?
Os grupos executivos foram divididos por especialidades: Geimec, para a indústria
mecânica; Geipot, para os transportes, Geiqui m, para a indústria química; um
tratava de máquinas, outro de siderurgia; um terceiro de metais não-ferrosos, e
assim por diante; foi este o objetivo da reestruturação. Eram oito ou nove grupos,
compostos por especialistas e sempre presididos pelo ministro, e era por aH que
passavam os projetos que iam obter tratamento prioritário nas audiências de
governo para receber incentivos e financiamento.
Os chies militares tinham assento no CDI?
O chefe do EMFA tinha assento, tinha que ter, porque era uma questão de
segurança nacional ; e cada grupo executivo contava com um representante do
Exército, quase sempre um engenheiro mi li tar.
Qual o papel do BNDE na indústria siderúrgica?
Financiamento. Financiou muito, é verdade que menos do que fez antes de 64,
porque diversifcou sua atuação. Antes de 64 o banco estava praticamente todo
dedicado às grandes usinas que se implantavam; depois di mi nuiu um pouco sua
presença. Na minha gestão à frente do Ministéri o, consegui muito dinheiro,
sobretudo no estrangeiro. Tínhamos um trânsito muito bom no Eximbank
americano; depois surgiu o Export and Import Bank j aponês. E utilizamos ainda o
Crédit Lyonnais, fancês, e bancos alemães , onde eu tinha muito bom trânsito.
Onde foram empregados esses recursos?
Basicamente, na indústria mecânica e na indústria química.

1 56
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
Usenhor também tomou medidas para incentivar a indústria do ccé solúvel.
Isso foi um problema. Os americanos queriam uma pequenina taxa sobre o café
solúvel brasileiro, para que não ficássemos como os únicos exportadores. E o
pessoal daqui , sobretudo o pessoal da Cacique, não aceitava. Aliás, nomeei o dono
da Cacique, o Horácio Coimbra, como presidente do Instituto Brasileiro do Café,
o ! BC, e ele me traiu. I a à Europa em missão oficial e levava j ornalistas brasileiros,
às custas do governo; lá dava entrevistas contra mi m, até que eu descobri . Chamei­
o e mostrei- lhe um j ornal : "Olhe aqui , dr. Horácio, isto é seu?" El e respondeu que
sim. Eu disse: "Bom, então vai haver contrapartida." Escrevi ao Costa e Silva e
demiti-o. o lugar do Horácio nomeei aquele paulista, o Caio de Alcântara
Machado. Muito bom comerciante, coisa que eu nunca fui .
Mas este problema do café solúvel começou antes da minha gestão, ainda no
governo do Castelo. A National Coffee Association reclamou com o governo
brasileiro sobre a concorrência feita pelo nosso café solúvel . Não nos custava
satisfazê- los com uma pequenina taxa, 1 3 , 98%, mas eles não se satisfizeram com
isso. Aí fui contra: "Já se fez o que vocês pediram. Ponto finaL"
Foi uma época muito difícil . Fui à Europa e, enquanto estava l á, meu primo José
Celso de Macedo Soares Guimarães criava problemas com os europeus na parte de
navegação, de frete - estava à frente da Sunamam, a Superintendência Nacional da
Marinha Mercante. Um dia, o representante da Noruega abordou-me na reunião
da Organização Internacional do Café: "O senhor é culpado por esse problema
com os fretes." Eu me espantei : "Como? ! Não cuido de frete." Ele insisti u: "Mas é
culpado." Virei -me para o presidente da reunião, um francês, e perguntei : "Este
assunto está na pauta dos nossos trabalhos?" Ele respondeu que não. Eu encerrei a
conversa: "Então, meu caro representante, não se fala nesse assunto."
Mas era muito desagradável , eu lá negociando café, e acontecendo essa situação
aqui . Eu sempre quis mandar um representante à OI C, mas o Costa e Silva insistia:
"Tu vai s, porque o assunto é muito importante."
o final dos anos 60, o ccé solúvel ainda era novidade no mundo?
Era. Li sobre o assunto pela primeira vez no início dos anos 40, numa revista
americana, e fquei muito admirado. Daí por diante, fez-se tudo solúvel . Já na
minha gestão como mi nistro de Indústria e Comércio, o Brasil exportava muito
café solúvel ; o Horácio Coimbra é um comerciante excepcional . Meio mau
caráter, mas bom comerciante.
Usenhor também enfrentou uma crise do açúcar, em janeiro de 69. O que aconteceu?
As empresas de açúcar se dividiam em duas espécies : as bem geridas e as mal
geridas, ambas distribuídas pelo país todo. O que desencadeou a crise foi a
decadência do açúcar no ordeste, que foi brutal . Hoj e estão fechando muitas
usinas, e o �rasil vai acabar importando açúcar por incompetência, por
politicagem. Uma tristeza.
R E T O R N O A V I D A P O L I T I C A
Usenhor mencionou seu primo José Celso e a traniormação da antiga Comissão de
Marinha Mercante em Sunamam. Foi o senhor que o indicou ao presidente?
ão, e tampouco sei quem o fez. Ele é engenheiro naval , formado nos Estados
Unidos. | muito competente; muito convencido, mas competente. A Sunamam é
obra dele. Conseguiu uma grande autonomia para trazer frete para a frota
brasi leira; criou a lei de bandeira, que reverteu a situação anterior, em que
constava dos contratos a exigência de que o frete fosse feito por companhias
estrangeiras. O José Celso movimentou também a construção naval que, na época,
era muito incipiente.
Por que ocorreram aquelas irregularidades, o chamado "escândalo da Sunamam': que
estourou em 1 983?
Muita gente considera que o órgão não tinha estrutura para fscalizar os programas
de construção naval , principalmente no tocante à l i beração de recursos; além
disso, seus diretores dispunham de total autonomia para implementar políticas,
decidir sobre fmanciamento, l iberação de recursos, o que está errado; esses
assuntos têm que ser decididos pela diretoria plena. Pelo menos comigo, sempre
foi assi m. Mas a Sunamam fcava no Ministério do Andreazza . . .
Usenhor teve que montar sua equipe mais próxima com pessoas de sua coriança, porque
era um ministério muito grande, não?
Muito grande, mas contei com gente de muito valor. Meu chefe de gabinete foi o
José Fernandes de Luna, burocrata, mas muito séri o, muito competente; ele me
substituía quando eu viajava. A maioria da equipe era nomeada pelo presidente da
República, porque eram presidentes de institutos e empresas vinculados ao
Ministério.
Usenhor se aconselhava com alguém, discutia seus planos?
Olhe, acho que não perguntava a ninguém; eu era meio Geisel . Naturalmente eu
consultava, mas quem decidia mesmo era eu.
Como era seu relacionamento com os ministros das Minas e Energia? Era uma área
próxima do seu Ministério em muitos assuntos.
Muito bom, tanto com o Costa CavaIcanti como com o Di as Leite, que continuou
sendo meu amigo. Trocávamos idéias com freqüência, e na maioria das vezes
estávamos de acordo.
Usenhor screu muita pressão para nomear pessoas?
Bom, a política comigo nunca teve vez; ao fmal de algum tempo, eles desistiam dos
pedidos, porque viam que eu não iria atender. Eu sempre os ouvia, mas não fazia o
que eles queriam, e si m o que me parecia certo. No Brasil , a política se resume a
nomear, para ter votos; ninguém pensa no bem do país.
1 57
o m ' Ir Edm ' do dr Macedo < es
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..

U M C O N S f R U f O R U O N o s s o T E M P O
Usenhor já nos disse que foi responsável, junto com o ministro Márcio Sousa e Melo, pela
criação da Embraer, em 1 96 9.
A coisa se passou assim: o Márcio Sousa e Melo e seu Estado-Maior pensaram em
criar uma empresa para construir aviões, e isso tinha que ser submetido ao meu
Ministério, porque era indústri a; o Costa e Silva mandou submeter aos mi nistros
da Fazenda, do Planejamento, da Indústria e Comércio e da Aeronáutica. Acontece
que o Sousa e Melo era praticamente o pai da idéia; consultou-me, e eu, sempre a
favor da indústria, aprovei . Mas os ministros da Fazenda e do Pl anejamento diziam
que não era oportuno. Então, perguntei ao Hél io Beltrão: "Somos dois contra dois.
Você quer se aliar ao Delfm e ser o responsável pelo impedimento?" El e
d d "N
- -
" E I "O respon eu corren o: ao, nao quero; voto com voce. u conc \Ì . bmo, o
responsável fi ca sendo o Delfim." O Beltrão adorou e acabou aprovando a i déi a. A
empresa desenvolveu-se muito, sob a direção do Osíris Silva, um homem muito
bom. | tenente-coronel da Aeronáutica, e não sei por que não o promoveram a
brigadeiro; seria de justiça. Fez muita coisa na indústria civi l .
A situação política se agravou muito a partir do segundo ano de mandato de Costa e
Silva, não é? A contestação subiu de tom, e o regime começou a se fechar.
Nossa Senhora! As coisas começaram a ficar muito graves. Agora, o grande
responsável pelo fechamento do regi me, j á disse a vocês, foi o Gama e Silva, pois o
Costa e Silva era completamente contrário ao AI - S . El e próprio me disse:
"Macedo, é uma lásti ma, mas o Gama e Silva disse que é indispensável." Eu
argumentei : "Bom, Costa e Silva, você é o presidente, você é que vai assumir essa
responsabilidade." Disse el e: "Tu vais também, porque tens que assinar o ato." Eu
ainda hesitei : "Ou assino, ou saio." E el e: "Não, tu não vais sair." Assinei .
R E T O R N O A V I D A P O L I T I C A
Embora os atos de exceção tenham sido de autoria do ministro da justiça, os três
ministros militares o apoiavam.
Claro. E o Costa e Silva teve três bons ministros mi litares: o Lira Tavares, o
Rademaker e o Sousa e Melo. Agora, embora contasse com o apoio dos técnicos,
dos empresári os , dos mi litares e de grande parte da classe média, o governo teve
que enfrentar a oposição de alguns estudantes e intelectuais. Isso era muito
desagradável , e de vez em quando um estudante acabava preso, mas nunca era
maltratado; fcava preso por dois, três dias, depois era solto. Mas eles faziam sua
campanha dura contra o governo.
Mas e a morte do estudante Edson Luís, no restaurante do Calabouço, atinBido por uma
bala da polícia?/
Lembro, lembro desse caso. Os estudantes provocaram muito, de modo que,
infel izmente, essas coisas acontecem. Foi aí que começaram as passeatas.
E o cerco da Uni versidade de Brasília pela Polícia Federal, em 29 de aBosto de 1 968,
também incomodou muito o Boverno?
Muito. Não atrapalhava seu funcionamento, mas incomodava. Eu ficava
emocionado com o que acontecia, porque no fundo sou um liberal . Afinal , quando
moço também passei por essas coisas: revolta, prisão; tenho experiência.
prisões da década de 20 eram muito diferentes das prisões da década de 70, o senhor
não concorda?
Realmente, foi diferente; na década de 70, tivemos problemas trágicos no Brasil
em relação aos prisioneiros. O Exército envolveu-se muito nisso,
'
porque aí j á se
tratava do combate ao comunismo. Mas as barbaridades foram cometidas por
grupos radicais, não pela maioria das Forças Armadas. Esses radicalismos todos, de
direita ou de esquerda, são muito bárbaros; nunca pertenci a nenhum deles.
Em 28 de aBosto de 1 96 9, o presidente Costa e Silva sifre uma trombose cerebral, e os
três ministros militares constituem uma junta de Boverno. O senhor estava no Brasil
quando tudo isso aconteceu?
Não, tinha ido ao México negociar um acordo. Eu estava voando num avião do
I BC, que ia para o conserto nos Estados Unidos. Quando chegamos a Houston,
Texas, um funcionário do aeroporto veio a mi m, dizendo: "O senhor é fulano?
Tenho um recado do seu cônsul . Telefone para seu consulado. " O cônsul tinha
obrigação de ter ido me receber no aeroporto, porque eu era ministro, e eu lhe
disse isso, rudemente, ao telefone. Ele, então, me deu a notícia: "O presidente está
doente, e estão esperando o senhor no BrasiL" Eu falei : "Vou voar diretamente para
o Aeroporto Internacional de Nova York e vou já falar com a Varig; reserve um
lugar para mim no próximo vôo." Ele observou: "O senhor não pode aterrissar no
Aeroporto InternacionaL" Eu encerrei : "Isso veremos."
Meu piloto era americano, e eu lhe disse: "Telefone para o aeroporto de Nova York
1 0
O estudante Edson Luis de Lima
Souto foi morto pela Policia Mi litar em
28 de março de 1 968, quando
estudantes protestavam contra O
aumento do preço das refeições do
restaurante Calabouço, no Rio. O
acontecimento desencadeou, ao l ongo
do ano, uma série de passeatas e
enfrentamentos entre policia e
estudantes.
1 59
1 60
U M C O N S T R U T O R D O N o s s o T E M P O
e relate as circunstâncias ; fal e também com o consulado e avise ao nosso cônsul
que estou procurando embarcar, que ele faça uma gestão junto ao aeroporto." E
alçamos vôo; no ar recebemos a notícia de que eu poderia aterrissar por uma
exceção concedida pelas autoridades. A Varig já tinha sido prevenida pelo cônsul e
tinha guardado um lugar para mi m. Embarquei muito apreensivo, e durante toda a
viagem o piloto me deu notícias do Costa e Silva: "Não morreu, o senhor vai
encontrá-lo vivo." Cheguei aqui - ele tinha adoecido há três, quatro dias - e quis
vê-lo, mas não deixaram: "Sua visita vai ser um choque muito grande, o senhor foi
colega dele, então vai ser o último a vê-lo." be fato, alguns dias depois , tive
permissão para visitá-l o. Quando me viu, o Costa e Silva abriu os braços, e as
lágrimas rolaram; foi uma cena muito triste. El e, hemiplégico, sem poder falar.
Agora, o que ele pensava, conseguia escrever alguma coisa. Mas foi muito, muito
triste.
Como se comportou a junta militar nesse período de transição até a posse do aeneral
Médici na presidência?
Muito bem. O que foi extraordinário foi que não houve competição entre os três
ministros, que se mantiveram de acordo o tempo todo, porque é natural que todos
ambicionassem a presidência. Mas eles procederam com a maior correção.
Inclusive, quero dizer uma coisa: o governo da j unta, que é muito criticado, foi
talvez melhor que o governo do Costa e Silva. El es tinham mais frmeza; o Costa e
Silva era muito emotivo, e foi isto que o matou. Algumas decisões do Costa se
deveram à sua emotividade; homem muito bom, muito sincero, católico, de
comunhão semanal , mas emotivo demais. A j unta sabia de sua transitoriedade, mas
mesmo assim não houve solução de continuidade; eles foram muito capazes. Como
brasileiro, sou muito grato pelo que fizeram.
Dias depois do anúncio da doença de Costa e Silva, o aoverno foi surpreendido pelo
seqüestro do embaixador americano, Charles Elbrick, por oraanizações de esquerda. @al
foi a primeira reação do aoverno?
Foi um choque, confesso. Lamento dizer isso, mas o maior culpado foi o próprio
embaixador; o governo queria dar-lhe uma escolta, mandar segui -l o, mas ele
sempre se recusou, dizendo: "Tenho gente para isso, tenho minha guarda de
fuzileiros" - quem faz a segurança de todas as embaixadas americanas no mundo
são os fuzileiros navais , os mariners, aliás muito desagradáveis. Mas saía sem
ninguém, apenas com o motorista dele; por isso, foi facílimo seqüestrá-Io. Se
houvesse atrás dele dois automóveis , com os nossos homens, nada disso teria
acontecido.
Todos os embaixadores estranaeiros andavam com seaurança forneCida pelo aoverno
brasileiro?
Todos tinham, ninguém andava sozinho. Só o embaixador americano recusou e nos
deu esse prej uízo, moral e político. Um seqüestro dessa ordem, com repercussões
R E T O R N O A V I D A P O L I T I C A
muito sérias, dava a impressão de que o Brasil era um país completamente
despoliciado.
Qual sua opinião sobre o general Médici?
O Méclici era um homem inteligente, equilibrado, mas criou horror a ter uma
doença igual à do Costa e Silva. Então, a meu ver, entregou o governo aos
ministros; torava parte, presidia as reuniões, mas adotava as opiniões dos
ministros. Seu governo foi bom, mas o chamado "milagre" brasileiro foi
conseqüência das ações acertadas dos governos anteriores. Foi um período de
euforia muito grande no país. Depois veio o Geisel , que já fez um governo bem
cl i ferente, porque assumiu a rédea do poder. O Geisel é de ascendência alemã.
Ugeneral Geisel teve alguma irluência na escolha do general Médici?
Sim, infuiu muito e conseguiu fazer de seu irmão Orlando ministro do Exército
do Mécl ici . Até hoje encontro o Geisel , por quem fiz tanto, e ele fala comigo
djstante, mujto cistante.
1 1
Tanto que não me clirijo mrus a el e. Agora, quando nos
encontramos, ou ele se cirige a mi m, ou nós não conversamos.
U que o senhor fz pelo general Geisel?
Em meados da década de 50, fui convidado para fazer um inquérito na refmaria de
Cubatão, porque houve lá um problema. Fiz o inquérito, o relatóri o, mas não
pocia assumir porque estava presidindo Volta Redonda. Então, perguntaram-me
quem poderia assumir a cireção da usina, e indiquei o Geisel , que era coronel ,
nessa época. El e aceitou e fez uma boa administração, porque é capaz. Agora, é um
homem sequíssimo! Só faz o que quer. Al i ás, não posso falar muito, porque
também sou assi m.
O Geisel é muito peculiar; quando me encontra, faz apenas um aceno de cabeça. |
um homem séri o, um homem d bem; pode ter certeza de que todo o cinheiro
que ganhou foi correto, não tem nenhuma negociata no meio. Seu grande erro foi
impor o Figueiredo como sucessor na presidência da República.
Depois de deixar o governo, o senhor voltou para a
iniciativa pri vada?
Sim, e estou até hoj e. Logo que saí do Mi nistério,
voltei para a Mercedes Benz; dirigi a empresa até
dezembro de 70, quando passei para o Conselho
Consultivo. Em 72 comecei a presicir o Conselho
Consultivo da Mannesmann e da Dedini , depois
fui também do Conselho da Standard Electri c.
Quando fiz 80 anos, em 1 98 1 , o pessoal da
Mercedes me aposentou, porque atingi a idad
márima.
Al ém disso, pertenci ao Consplan, o Conselho
11
Entrevista realizada em 30 de junho
de 1 987.
Edmundo d� Ma�do Sa� � Silva �m
almoço d� conft�mizaço na
M��de B�nz. na dwda d� 7.
( Arui Emundo de Ma�o
Srs)

1 61
1 2
Entrevista realizada em 11 de agosto
de 1 987.
1 62
U M C O N S T R U I O R D O N o s s o T E M P O
Consultivo de Planejamento do Clube de Engenharia e ao Conselho de
Administração da Ebap da Fundação Getulio Varga . ão exercendo mais qualquer
função pública, tive mais tempo livre para freqüentar a Academia Brasileira de
Ciências e o Instituto Histórico e Geográfco Brasi l eiro, instituições de que sou
membro há muito tempo.
1 2
Fazendo um balanço de sua vida, o senhor se arrepende de ter deixado o Exército?
Nunca me arrependi . Servi muito pouco no Exército, porque fui logo retirado
para funções de ordem técnica, civi l , mas consideradas mi litares por um decreto­
lei do Getúlio. Não voltei mais ao Exército; fui sendo promovido, mas não voltei
mais. De forma que perdi um pouco contato com os mi litares, embora tenha
estado por um tempo na ESG e conspirado com meus colegas de farda. Mas eu já
não raciocinava como um mi litar há muito tempo.
`
Quando era capitão, chegou um momento em que o próprio Getúlio me disse
claramente que eu não tinha mais nada a fazer no Exército, que eu era mais
importante para o Brasil na indústria, empregando os conhecimentos que tinha
acumulado; aí selou-se a minha vida. O Getúlio sempre pensou em mim como
técnico, como engenheiro. Mais tarde, depois da minha promoção a coronel , em
dezembro de 1 94, ele me comunicou que, quando fosse promovido a general-de­
brigada, eu passaria para a reserva e depois seria promovido a general -de-divisão;
foi o que aconteceu. O Getúlio estava certo.
Agui ar, Alberto Cardoso de - 26, 55
Al berto, rei da Bél gica - 57
Al berto, João - V. Barros, João Alberto Li ns de
Al ei xo, Pedro ¯ 1 51
Al mei da, José Améri co de - 65
Al mei da, Bento de - 1 20
Al mei da, Rômul o Barreto de ¯ 1 36
Alves, Márci o Emanuel Morei ra ¯ 1 53, 1 54
Anderson Juni or, Alvord von Patten - 1 30
Andreazza, Mári o Davi ¯ 1 52 1 57
Antunes, Augusto Trajano de Azevedo - 1 41
Aranha, Olavo Egi di o de Sousa - 78
Aranha, Osval do Eucl i des de Sousa - 23, 55, 80 82, 91
Arinos, Afonso - V Franco, Afonso Ari nos de Mel o
Arrais de Al encar, Mi guel ¯ 1 45, 1 47
Azevedo, Moaci r Gomes de - 1 20
Azevedo, Renato Frota Rodri gues de - 99
Ba rbosa, J úl i o Caetano Horta ¯ 70
Barbosa de Ol iveira, Rui ¯ 24
Barbosa, Teodoro Quarti m ¯ 1 38, 1 44
Barcelos, Vasco - 1 20
Barreto, Al exandre - 20
Barreto, João de Deus Mena - 50
Barreto, Pl i ni o - 50
Barros, Ademar Pereira de ¯ 1 07, 1 40, 1 44, 1 45, 1 48
Barros, João Alberto Li ns de ¯ 2 1 , 51 , 52, 1 1 1
Bastos, Joaqui m Justi no Alves - 22, 23, 1 45
Bastos, Humberto de Ol i vei ra Rodri gues ¯ 1 07
Batista, Ernesto de Mel o - 1 8
Bejo - V. Vargas, Benj ami n Dornel es
Bel trão, Hél i o Marcos Pena - 1 54, 5P
Berenhauser Júni or, Carlos - 99
Berger, Harry - V. Ewert, Arthur Ernst
Berle Júnior, Adolf Augustus ¯ 1 1 1
Bernardes, Artur d a Si lva - 33, 34, 41 , 57, 1 25
Betancourt, Rómul o ¯ 1 37
Bevi l acqua ( família) - �4
Bevi l acqua, Ângel o ¯ 70
Bevi l acqua, Peri Constant - 44
Bezzanzoni Laje, Gabri el l a ¯ 62
Bi bby, Lowe H. - 1
Bi l ac, Ol avo Brás Marti ns dos Gui marães ¯ 1 7
Bi ttencourt, Amaro Soares de - 7 7
Bi ttencourt, Li berato - 21
Bol l on (madame) - 9
Borges, Tomás Pompeu Aci ól i ¯ 1 36

/
I
.
OI21 :- [1 C O
Borghoff, Gui l herme - 1 43
Bosisio, Paul o ¯ 1 48
Bouças, Val enti m Fernands ¯ 76
Bourgeois, Jeanne (Mistinguett) ¯ 28
Braga, Ci nci nato César da Si l va - 88
Braga, Nei Ami ntas de Barros ¯ 1 51
Brás, Vencesl au - V. Gomes, Vencesl au Brás Pereira
Brasi l , I smar Pfal tzgraff - 1 3 1
Bri to, José Mari a Xavier d e - 3 5
Bri zol a, Leonel d e Moura ¯ 1 44
Brown (sindicalista americano) - 91
Bul hôes, Otávio Gouvei a de - 1 48, 1 49
Café Fi l ho, João - 29, 1 05
Caffery, Jefferson - 1 1 1
Cal ógeras, João Pandi á ¯ 61 , 65, 88, 1 00
Câmara, Jai me de Barros - 1 43
Camargo, Aspásia Al cântara de ¯ 80
Campos, Al uísi o Fragoso de Lima ¯ 76
Campos, Antôni o de Si quei ra ¯ 2 1 , 29, 36, 51
Campos, Franci sco Lui s da Si lva ¯ 75
Campos, Mí l ton Soares ¯ 1 40. 1 48
Campos, Roberto de Ol iveira ¯ 1 07, 1 48- 1 50
Cândi do, João - 1 9
Cantanhede d e Al mei da, Pl i ni o Rei s - 82
Cardoso, Armando Levi - 30
Cardoso, Augusto I náci o do Espi ri to Santo - 1 02, 1 33
Cardoso, Ciro do Espirito Santo ¯ 1 33
Cardoso, Joaqui m Maurício ¯ 53
Cardoso, Val demar Levi ¯ 30
Carmem (prima) -1 8
Carnei ro, J úl i o Barbosa - 76
Carnei ro, Marti ns Di ni z - 65
Carpenter, Mári o - 36
Carval ho, Dani el Serapi ão de - 97
Carval ho, El ísio de - 34
Carval ho, Estêvão Lei tão de - 30
Carval ho, Heitor Frei re de - 87
Castelo Branco, Argentina Vi ana ¯ 1 49
Castelo Branco, Humberto de Al encar - 2 1 , 26, 29, 30, 40, 1 42- 1 44
1 47 1 :2, 1 54, 1 56
Castro, Dari o Pai s Leme de - 74
Castro, José Fernandes Leite de - 55, 60, 61 , 63, 67, 70, 1 02
Castro, Raul Álvares de Azevedo ¯ 61 , 65
Cavalcanti , Carl os de Li ma - 48
Caval canti , José da Costa ¯ 1 53, 1 57
Caval canti de Al buquerque, Natal ici o Tenório - 1 23, 1 24, 1 26, 1 27
Cavalcanti , Newton de Andrade - 74
Cecil ia ( tia) ¯ 1 6
1 63
César, Abel ardo Verguei ro - 76
Chateaubri and Bandei ra de Mel o, Francisco de Assis ¯ 1 1 1
Churchi l l , Wi nston Spencer - 20
Ci ntra, José Pi nhei ro Ul hoa ¯ 1 43
Cl ementi no, Mári o ¯ 28
Coi mbra, Horáci o Sabi no - 1 56
Col lor, Li ndol fo Leopoldo Boeckel ¯ 53
Correia, Afonso Henri que de Mi randa - 1 3 1
Costa, Artur d e Sousa - 76, 77, 9 1
Costa, Canrobert Pereira d a ¯ 40
Costa, Ernesto Lopes da Fonseca ¯ 61 , 70, 1 00
Costa Rodri gues, Mi guel Alberto Cri spi m da ¯ 39
Cotri m, Ernâni Bittencourt - 99, 1 00
Couti nho, Li ma ¯ 22, 1 20
Cruz, Hél i o - 1 20
Cunha, Eucl i des Rodri gues Pi menta da ¯ 22, 1 33
Cunha, Vasco Tristão Leitão da - 1 48
Dantas, Luís Marti ns de Sousa - 48
D'Araujo, Mari a Cel i na Soares ¯ 80
Dedi ni - 59
Delfi m Neto, Antôni o - 1 52, 1 54, 1 58
Deni s, Odí l i o - 31 , 1 20
Deni s, Ol i nto - 1 20
Deni zot, Paul - 76
Derby, Orvi l l e Al bert - 56
Di ehl , G. E. - 82
Dori a, João de Seixas - 1 47
Outra, Carmel a Leite (d. Santinho) - 1 1 2, 1 1 6
Outra, Euri co Gaspar ¯ 22, 55, 75, 1 1 2- 1 1 8, 1 2 1 , 1 22, 1 26, 1 43, 1 53
El bri ck, Charl es Burke - 1 60
Ensch, Loui s - 57
Estelita Lins, Romero - 76
Evita - V Perón, Mari a Eva Duarte de
Ewert, Arthur Ernest, dita Harry Berger ¯ 73, 74
Farias, Gustavo Cordeiro de ¯ 1 3 1
Farias, Osval do Cordeiro d e - 21 , 22, 1 02, 1 29, 1 3 1 - 1 33, 1 43, 1 51
Farquhar, Percival - 57, 61 , 65, 66, 77, 1 02, 1 33, 1 3 5
Fernandes, Raul - 1 1 9
Ferrari , Fernando ¯ 1 40
Ferreira da Rosa ¯ 20
Fi guei ra, Antôni o Fernandes - 1 7
Fi guei redo, Eucl i des ¯ 36
Fi guei redo, João Batista de Ol i veira ¯ 36, 1 61
Fi guei redo, João Kubi tschek de - 1 09
Fi guei redo, João Nei va de ¯ 1 36
Fi scher, J. - 82
Fi úza, ledo ¯ 1 1 2
Fia ksma n , Dora Rocha ¯ 80
1 64
Fol ch, Sadi ¯ 1 3 1
Fonseca, Cl odoal do d a - 3 7
Fonseca, Del so Mendes d a - 2 1 , 3 4 - 36, 1 30, 1 3 1
Fonseca, Escolástica Mel chert d a ¯ 44, 49
Fonseca, Hermes Rodri gues da - 1 7, 23, 24, 30, 93
Fonseca, Mati l de Mel chert - V. Soares, Mati l de Mel chert da
Fonseca de Macedo
Fonseca, Orsi na da - 24
Fontoura, João Neves da ¯ 53
Fortunato, Gregóri o ¯ 1 05
Fragoso, Augusto Tasso - 49, 50
Franco, Afonso Ari nos de Mel o - 1 51
Fronti n, André Gustavo Paul o de - 1 00
Gal l otti , Antôni o - 1 41
Gama, Luí s Fel i pe Sal danha da - 33
Gama, Sal danha - 1 36
Gama, S. Sal danha da - 99
Gamel i n, Maurice Gustave ¯ 30
Gari bal di , Ani ta - V. Si l va, Ana Mari a Ri bei ro da
Gari bal di , Gi useppe - 63
Gei sel , Ernesto - 1 32, 1 57, 1 61
Gei sel , Henri que - 1 32
Gei sel , Orl ando - 1 32, 1 61
Gomes, Eduardo - 26, 35 - 38, 73, 1 1 2, 1 48
Gomes, Geni ¯ 38
Gomes, Stanl ey - 38
Gomes, Vencesl au Brás Pereira ¯ 33
Goul art, João Bel chi or Marques (Janga) ¯ 21 , 1 40-1 45, 1 47
Greenwood, Herman ¯ 82
Gregóri o - V. Fortunato, Gregóri o
Guati mozi m, Gi l - 61 , 65
Gudi n Fi l ho, Eugêni o - 28
Guevara, Ernesto ( Che) - 1 41
Gui l l et, Léon - 45, 46, 57
Gui marães, Napol eão de Al encastro ¯ 99, 1 00
Gui nl e (família) - 95
Gui nl e, Gui l herme - 76, 87, 89-93, 95-98, 1 02
Hals, Schmi dt - 1 36
Hassler, R. I . - 82
Haswel l , A. B. - 82
Haupt - 68
Hi ppol i to, Luci a - 80
Hi tl er, Adolf ¯ 69, 1 51
Heck, Sí l vi o de Azevedo - 1 42
Hercul ano, Alexandre - 22
Hol I , Henri que Ri cardo - 35
Jango - V. Goul art, João Bel chi or Marques
Jones, Jesse - 90, 91 , 95
Junquei ra (amiga) - 1 d
Junquei ra ( colega) - 39
J urzykowski, Alfred - 1 39, 1 40
Kel ly, José Eduardo Prado - 1 26, 1 27, 1 42
Kennedy, John Fi tzgeral d - 1 55
Ki ng, G. D. - 7
Kl i nger, Bertol do - [
Kruel , Amauri -
Krupp von Bahl en und Hal bach, Gustav - 68
Kubi tschek de Ol i vei ra, Juscel i no ¯ 21 1 07, 1 09, 1 1 7, 1 3 5, 1 36, 1 40, 1 47
La Sai gne, Jacques -
Lacerda, Carl os Frederico Werneck de - 23, 1 05, 1 45
Lacerda, Fl ávi o Supl icy de -
Lacerda, Maurici o Paiva de - 23
Lacerda, Ol demar -
Laje, Henri que -
Larrabure -
Leal J úni or - )
,2, 83. 88
Leal , Ângel o El i seu Xavi er - 35
Leite, Cl eanto de Paiva - 1 36
Leite, Edga r Teixei ra - 1 20, •2 1
Leite Júni or, Antôni o Di as - 1 53, ' 57
Leme, Luí s Beti m de Pais - 65, 75, 76
Levy, Herbert Vitor -
Li ma, Afonso Augusto de Al buquerque - 53
Li ma, Al encar -
Li ma, Denési o -
Li ma, João de Mendonça - 1 , 70, 79
Li ma, Otaci l i o Negrão de - 1 6
Li ma, Varoni l de Al buquerque - 99
Li ndenberg, José Montei ro - I
Li nhares, José -
Li ns de Al buquerque, Etel vi no - 11
Li ns, Alci des -
Li sboa, Mi guel Arrojado -
Lobato, José Bento Montei ro - 4
Lontra Costa, Artur -
Lopes, I si doro Di as -
Lopes, José Machado -
Lott, Henri que Batista Duffles Teixeira ¯ O
Lousada, Carlos Eduardo Gui marães D' Ál amo ¯ 41
Lousada, Franci sco D' Ál amo -
Luís, Washíngton ¯ V. Sousa, Washí ngton Luís Pereira de
Luna, José Fernandes de -
Luzardo, João Batista -
Macedo, Conceição Bueno de Azevedo - 9
Macedo, João -
Macedo, Zi l mar Campos de Arari pe- 8
Machado, Cai o de Al cântara - 1 56
Machado, João Bi na - 1 30
Machado, José Gomes Pi nhei ro - 24
Magal hães, Agamenon Sérgi o de Godói - 1 1 1
Magal hães, J uraci Montenegro - 1 48
Magal hães, Paul o Rei s de - 1 41
Maísa ¬ V. Soares e Si l va, Mari a El isa de Macedo
Mamede, Jurandi r Bizarria - 1 3 1
Marquês, Romeu - 3 8
Marshal l , George G. - 81
Martins, Paul o - 99
Marti ns, Valfredo - 1 1 9
Marti ns Pereira e Sousa, Carlos - 80, 90, 91 , 1 01
Matarazzo Sobri nho, Franci sco - 1 44
Maurel Júni or, Emí l i o - 22
Maúrtua, Vítor M. - 41
Mazzi l l i , Pascoal Rani eri ¯ 1 47
McCann, Andrews Thomas - 1 30
Médi ci , Emí l i o Garrastazu - 1 60, 1 61
Mei ra, Lúci o Marti ns - 1 07
Mei reles, I bá Jobi m - 77
Mel o, Franci sco de Assis Correia de ( Melo Maluco) - 1 45
Mel o, Márci o de Sousa e - 1 48, 1 52, 1 58, 1 59
Mel o, Nél son de - 21
Mel o Neto, José Joaqui m Cardoso de - 50
Meneghetti , l i do - 1 4:
Meneses Júnior, José Sotero de - 37
Mesqui ta ( familia) - 4
Mesqui ta Fi l ho, J úl i o de - 1 44
Mícou (advogado) - qo
Mi randa de Al buquerque, Leonel Tavares - 1 52
Mi sti nguett ¬ V. Bourgeoi s, Jeanne
Mol l ohan, Robert - 1 07
Monte, Benj ami n do - 77
Montei ro, Pedro Aurél i o de Gói s - 75, 1 39
Morais, Ângel o Mendes de - 30
Morais, Auri no - 76
Morais, Luci ano Jacques de - 7
Moreira da Costa Ri bei ro, Del fi m - 26
Moura, Getúl i o Barbosa de - 1 2
Moura, Hastínfi l o de - 51
Mourão Fi l ho, Ol í mpi o - 74
Mül ler, Fi l i nto Strubbl i ng - 73, 74
Muni z, Antôni o Guedes - 45, 46, 1 1 7
Murí, Luís Braga - 40
Mussol i ni , Beni to - 3, 64, 1 51
Neves, João Batista das ¯ 1 q
Noguei ra, Dêni o Chagas - 43
Noronha, José Isaías de ¯ ¯
1 65
Obi no, Sal vador César - 1 29
Ol i vei ra, Eusébi o Paul o de - 61 , 65
Ol iveira, Sí l vi o Raul i no de ¬ 44, 45, 60, 61 , 65, 70, 89, 91 , 99, 1 02, 1 05
Otel o, Grande - v. Prata, Sebastião Bernardes de Sousa
Paiva Teixeira, Gl ycon de - 1 07, 1 36, 1 43
Paiva, Manso de - 24
Parker, H. E. - 82
Parreiras, Ari - 77
Passari nho, Jarbas Gonçalves - 1 51 , 1 52
Passos, Francisco de Ol iveira - 70
Peçanha, Ani ta - 34
Peçanha, Ni l o ¬ 33, 34, 67, 1 1 7
Pedro I I , i mperador do Brasi l ¬ 1 6, 75
Peixoto, Ernâni do Amaral - 1 5 80, 81 , 98, 1 1 8- 1 22, 1 24- 1 2 7
Peixoto, Fl ori ano Vi ei ra - 1 7
Pena, Afonso Augusto Morei ra - 1 1 7
Peni do (almirante) - 1 7
Pereira, Jesus Soares ¬ 36
Pereira, João Macedo - 1 9
Pereira, Mi guel ¬ 1 7
Perón, Mari a Eva Duarte de (Evita) - 1 1 8, 1 1 9
Pessoa, Epi táci o Li ndolfo d a Si lva - ¹ " 57, 61
Pessoa Caval canti de Al buquerque, João ¬ 2
Pestana, Clóvis - 1 8
Pierson, Warren Lee - c O
Pi nhei ro da Si lva, Israel - 1 09
Pi nto, Franci sco José - 7'
Pi nto, João Batista da Costa - ,2 &
Pi nto, Herácl ito da Fontoura Sobral - 3
Pi nto, José de Magal hães ¬ 1 45, ' 52
Pi nto, Mári o da Si l va - O
Pi nto, Ol avo Bi l ac Pereira ¬ 1
Pisa e Al mei da, Joaqui m de Toledo - 44
Pitanga, Mari a Lui sa -
Poincaré, Raymond -
Pol l and, Harol d Ceci l - 1
Portel a, Fernando Machado - 90. IE
Prata, Sebastião Bernardes de Sousa, dito Gra nde Otelo ¬ a
Prestes, Luí s Carlos - L 9. C 7"
Quadros, Jâni o da Silva - 1 41, 1 51
Quei rós, Ademar de ( Tico-Tico) - 43, 1 48, 1 5'
Quei rós, Henri que de Sousa -
Quei rós, José Mari a Eça de -
Quei rós, Pl í ni o - 1 38
1 66
Rache, Pedro Demóstenes - 76, 77
Rademaker Grünewal d, Augusto Hamann - 1 47, 1 52, 1 59
Ramos, Mári o de Andrade - 76
Ramos, Nereu de Ol ivei ra - 1 1 3, 1 1 7
Rangel , I náci o - 1 36
Rao, Vicente Paul o Francisco ¬ 50-52
Rebel, Nél son Pereira ¬ 1 20
Rego, Carlos de Carval ho - 1 5
Rei s, Trajano Furtado dos - 97
Rei s Júnior, Alfredo de Sousa - 95
Reuter ( família) - 59
Reuter - 69
Ri an - v. Tefé, Nai r de
Ri bei ro, Hel oísa Gui nl e - 97
Ri bei ro, Herácl i to Pais = 20
Ri bei ro, Orl ando Lei te - 47
Ri o, José Pi res do -
Rocha, Pedro Marti ns da (Macacão) - 45
Rocha, Si l vestre - 70
Rodri gues, Frankl i n Emí l i o - ,)
Rodri gues, Nél son - 8
Rondon, Cândi do Mari ano da Si lva - 40
Roosevel t, Frankl i n Del ano - dO
Sá, Mem de - 1 48 1 51
Sal gado, Pl í ni o - O
Santi nha, d. - v. Dutra, Carmel a Leite
Santos, Fi rmi no dos -
Santos, Otan -
São Ti ago Fi l ho - ;I
Sardi nha, Paul o Beral - 8
Sarnei Costa, José -
Sena, Cai o Nél son de -
Si ci l i ano Júni or, Alexandre = 60,
Si l va, Ana Mari a Ri bei ro da, dita Ani ta Gari bal di -
Si l va, Artur da Costa e -
Si l va, Carlos Medei ros da - 4R
Si l va, Gol beri do Couto e - " 3
Si l va, l ol anda Barbosa da Costa e - 44 1
Si l va, Luí s Antôni o da Gama e -
Si l va, Mauro Mari ano da - J'
Si l va, Olavo da Rocha e -
Si l va, Osíris -
Si l va, Raul Ri bei ro da - f , I I
Si l va, Rosalvo Mari ano da - ), 1 8 ln 1
Si l va, Rosauro Mari ano da -
Si l va, Sebastião Edmundo Mari ano da - ,
Si l vei ra, Badger Tei xei ra da -
Si mas, Carlos Furtado -
Si monsen, Roberto Cochrane - a, f5
Soares, Abi gai l de Macedo -
<6
Soares, Antôni o Joaqui m de Macedo - 1 6
Soares, Débora d e Macedo - 1
Soares, Eponi na de Macedo - 33
Soares, Eudóxi a de Macedo - 33
Soares, Eunice de Macedo - 33
Soares, Henri que Duque Estrada de Macedo - 1 6
Soares, José Carlos de Macedo - 4 34 7 44, 46-48, 50,
07 63, 4 2t, 1 3
Soares, José Cássio d e Macedo - ".,
Soares, José Eduardo de Macedo (primo) - 24, 26, 28, 33-36, 39.
4 4 2 ) 2
Soares, José Eduardo de Macedo ( tio) - 33, 34
Soares, José Fernando de Macedo - 3 9
Soares, José Roberto de Macedo - J 36
Soares, Jul i ão Rangel de Macedo - 1 6
Soares, Judite d e Macedo - I t
Soares, Mati l de Mel chert da Fonseca de Macedo - 13, 34
Soares, Paul o Bueno de Macedo -
Soares, Teodora Azevedo de Macedo -
Soares e Si l va, Al ci na Fonseca de Macedo - 5. 85, 89, 94 95,
1 D
Soares e Si lva, Al ci na de Macedo -
Soares e Si lva , El isa de Macedo (mãe) - 5, 1 6
Soares e Si lva, El isa d e Macedo ( filha) -
Soares e Si l va, Hél i o de Macedo (irmão) - 5, ' 8, 19, 1 20, 1 2 5
Soares e Si l va, Hél i o d e Macedo ( filho) - b , c4
Soares e Si l va, I cl éi a de Macedo -
Soares e Si l va, I eda Muni z de Macedo - t, b8, 85 94, 1 1b, ' li
Soares e Si l va, Lígi a de Macedo -
Soares e Si l va, Mari a El isa de Macedo (Maísa) - 1 8
Soares e Si l va, Mari a José Muni z d e Macedo -
Soares e Si l va, Síl vi a de Macedo -
Soares e Si lva Fi l ho, Edmundo de Macedo -
Soares Gui marães, Fábi o de Macedo - 1
Soares Gui marães, José Celso de Macedo - ,
Sodré, Benjami m de Al mei da -
Soqré, Fel i ci ano -
Sod ré, Roberto Costa de Abreu -
Sousa, Washi ngton Luís Pereira de - 12
Souto, Edson Luís de Li ma -
Stranch, Otomi -
Stroessner, Alfredo - 17 lB
Tardi eu, André -
Tavares, Aurél i o de Li ra -
48, GS O, 1 1 1
Távora, Joaqui m d o Nasci mento Fernandes - q
Távora, Juarez do Nasci mento Fernandes -
Tefé, barão de -
Tefé, Nai r de (Rian) ¯
Teles, Mári o Rol i m -
Torres, Al berto Franci sco - g
Torres, Ari Frederico -
Torres, José Garri do -
1, 89 C' 91, q 1, 99, 1 02 ' 07
Torresão, Adolfo Marti ns de Noronha - 87, 97, 99
Truman, Harry S. - 1 1 8
Tubi no, João José Bati sta - 1 43
Vargas, Benj ami n Dornel es (Bejo) - 1 1 '
Vargas, Getúl i o Dornel es - 2 36, 49-53, 55, 60-63. 65, 66, 70,
7 7 -78, la, 81 84. 85 87, 89. 95-98, 1 03- 1 05, 1 1 1 , 1 1 2,
4. 1 , 1 8, , 22, , 26, 1 29, 1 32, 1 33, 1 35- ' 37, 1 62
Ventura - 3.
Vi ana, Fancisco José de Ol iveira - 29
Vi ana Fi l ho, Luís - 4�
Vi di gal , Gastão da Costa Carval ho - ' 6
Vitório Emanuel I I I , rei d a Itál i a - 63
Wai ner, Samuel - 1 47
Wanderl ey, Nél son Freire Lavenere - 48
Wani ck, A. -
Wei nschenk, Gui l herme Benj ami n - 7
Wei nschenk, Oscar ¯ ^
Weiss, Si gmund -
Wel l es, Sumner -
Werber, Wi l l i am J. - 1 °
Whi taker, José Mari a - .0
Wi l ki ns, Charl es Warren - °
Wi l l i ams (engenheiro americano) - )0
Wolf, George W. -
Zazi nha (avó) - I, 1 1
Zi zi nha ( tia) -
.
Capa
Edmundo de Macedo Soares e Silva inaugura os
novos equj pamentos da usina Presidente Vargas, em
Volta Redonda, em 26 de janeiro de 1 984.
(ClD0C/ Arquivo Edmundo de Macedo Soares)
Pági na 2
Inauguração das obras da Petroquímica União, em
São Paul o, vendo-se Pais Barreto (presidente da
Petroquímica), Edmundo de Macedo Soares e
Silva, ministro da Indústria e Comércio, e o
presidente Costa e Silva (da esquerda para a
direita), em 1 1 de abril de 1 969. (ClD0C/ Arquivo
Edmundo de Macedo Soares)
Pági na 4
Governador Edmundo de Macedo Soares e Silva,
em Volta Redonda, entre 1 947 e 1 95 1 .
(ClD0C/ Arquivo Edmundo de Macedo Soares)
Págl 1� 8
Edmundo de Macedo Soares e Silva, possivelmente
em 1 944. (ClD0C/Arquivo Edmundo de Macedo
Soares)
P I qI 1J� 12 C 1 3
Edmundo de Macedo Soares e Silva (ao centro, de
branco), em Laranj al , Volta Redonda, 1 942 .
(ClD0C/Arquivo Edmundo de Macedo Soares)
Pági nas 68 C 169
Edmundo de Macedo Soares e Silva (ao centro, de
branco), em Volta Redonda, 1 942 . (ClD0C/Arquivo
Edmundo de Macedo Soares)
Pági na 170
O ministro da Guerra, Eurico Gaspar Outra
condecorando o tenente-coronel Edmundo de
Macedo Soares e Silva, em 25 de agosto de 1 944.
(ClD0C/ Arquivo Edmundo de Macedo Soares)
Pagi na 171
Assinatura de contrato entre o Eximbank e a CSN,
em Washi ngton, vendo-se Edmundo de Macedo
Soares e Silva e Samuel Waugh, em j unho de 1 956.
(ClD0C/ Arquivo Edmundo de Macedo Soares)
P 19l r1 72
Charge de Edmundo de Macedo Soares e Silva,
assinada por Nery, em 1 924. (ClD0C/Arquivo
Edmundo de Macedo Soares)
"Quando eu era capitão, chegou um momento em que
o próprio Getúlio me disse claramente
que eu não tinha mais nada a fazer no Exército,
que eu era mais importante para o Brasi l na indústri a,
empregando os conhecimentos que tinha acumulado;
aí selou-se a minha vida . ø ø O Getúli o estava certo."
E D MU D O D E MA C E D O S OA R E S E S I LVA

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