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Fabio Hermann - O que é psicanálise

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Sections

  • 4 - O APARELHO PSÍQUICO
  • 5 - A SEXUALIDADE I
  • 8 - A CURA PSICANALÍTICA
  • 9 - A PSIQUE E OS CAMPOS DO REAL
  • 10 – INDICAÇÕES PARA LEITURA

O QUE É PSICANÁLISE

Fabio Hermann

Editora Brasiliense – São Paulo

Este livro foi digitalizado sem fins comerciais para uso exclusivo de
pessoas com deficiência que necessitem de leitores de tela para aceder ao
seu conteúdo, não devendo ser distribuído com outra finalidade, mesmo de
forma gratuita.

1 - O MOMENTO DA PSICANÁLISE
Os seres humanos são pessoas muito estranhas e até
absurdas. Se você já o percebeu, acho que andou a terça
parte do caminho para se tornar psicanalista. O segundo
terço do caminho consiste em aprender algumas coisas: o
método, a teoria e a técnica psicanalíticos, de que lhe vou
falar um ‘pouco neste livrinho. Quanto à última e mais difícil
etapa, que é a de você mesmo descobrir que é também uma
pessoa estranha e absurda, isto é, que é um ser humano,
lamento não poder ajudá-lo a percorrer, pelo menos
escrevendo: talvez fosse preciso fazer análise.
Todavia, como estava dizendo, os homens são pessoas
estranhas e absurdas. Enquanto outros bichos têm
relativamente pouco trabalho em construir sua residência,
porque parecem satisfeitos com o mundo que encontram — o
que os cientistas chamam “sistemas ecológicos” —, os
homens têm passado seu tempo tentando construir uma casa
para si, gastando nisso um trabalho insano, sem nunca
ficarem contentes com o resultado. Construíram instrumentos
de osso e de eletricidade; domesticaram as plantas, os
primos animais e até seu próprio pensamento selvagem;
edificaram cidades, sistemas filosóficos, ciência e tecnologia.
Tudo fizeram para ter um mundo sob medida, quer dizer, um

mundo na medida humana.
Mas não desprezemos os homens por causa disso. Coitados,
eles talvez não tivessem outro jeito de sobreviver! Em
primeiro lugar, quando os bebês humanos nascem e por
longo tempo depois são muito indefesos e incapazes para a
vida: não conseguem comida sozinhos, não sabem defender-
se do frio, queimam-se com a própria urina etc. Logo, era
mesmo necessário viver em grupo, construir abrigos e um
sistema social. Por outro lado, os homens divertem-se demais
com os próprios pensamentos. São os únicos bichos, ao que
se sabe, tão estúpidos que podem ficar imaginando e
esquecer-se de comer; e, o que é pior, quando pequeninos e
famintos, parece que conseguem ficar sonhando que estão a
comer e contentar-se algum tempo com isso — coisa a que
os psicanalistas chamam “satisfação alucinatória do desejo”.
Alguns talvez até morram de fome, sonhando, sonhando. Por
fim, enquanto os animais ferozes quase nunca matam os de
sua espécie — “inibição da agressividade intra-específica”, é
como os estudiosos do comportamento animal (ou etólogos)
chamam a essa prova elementar de sensatez —, os homens
chegam a gostar de fazê-lo. Para sobreviver, então, ou pelo
menos para se poderem dominar e matar civilizadamente, foi
preciso que os homens domesticassem a natureza.
Por que, entretanto, esse trabalho não tem fim e nem é
considerado satisfatório? Bem, se você pertence a uma
família mais ou menos rica, provavelmente já mudou de casa
algumas vezes. De cada vez, a casa era perfeita, não é
verdade? — construída sob medida para o desejo de sua
família, com tantos quartos, garagens e televisões quantos
bastassem para fazê-los felizes —, porém, quando lá
moravam, descobriam que ainda não estavam satisfeitos nem
felizes. Aí mudavam, reformavam a casa ou compravam um
videocassete; e, insatisfeitos ainda, tornam a mudar ou
instalam uma mesa completa de som. Se esta é sua história

habitacional, não se culpe, nem a seu pai: culpe a casa, e
estará bem integrado com o resto da humanidade.
É que a casa que construíram, como a grande casa que a
humanidade vem construindo para si, representa bem demais
a realização de seu desejo. Ora, o problema é que nós não
desejamos o que queremos, nem tampouco ficamos
satisfeitos de encontrar o que desejamos. Na verdade, nós,
humanos, não sabemos bem o que desejamos.
Veja um exemplo. Antes de mais nada, nós somos aquilo que
desejamos ser. É fácil entender, já que desejo é o nome
daquilo que faz com que a gente pense, faça, seja. Ele
parece vir de dentro da alma, mas é criado na vida social e
biológica, de sorte que se pode dizer até que “somos
desejados” desta ou daquela maneira. Somos desejados
ativos ou entediados, cruéis ou compassivos, apavorados ou
distraídos. Aliás, a humanidade deseja-se como é; e, dizia,
constrói-se e constrói o seu mundo de acordo com tal desejo.
Só que não acredita que, de fato, se tenha desejado como é.
Assim, tendo transformado o mundo a fim de lhe servir de
casa, acha que não está ainda bem feito, que sobram muitas
coisas desumanas a humanizar.
O céu é muito alto, o tempo é longo demais, as guerras muito
freqüentes. Ora, se o tempo e o espaço são infinitos demais,
é que os homens têm em si uma aspiração em desacordo
com seu tamanho e duração de vida. Quanto às guerras,
quem as faz?
Numa palavra, ao domesticar o mundo, os homens irritam-se
ao ver que construíram uma casa que os retrata
maravilhosamente bem, que exprime seu desejo, tanto
naquilo que gostam, como naquilo que odeiam — a esta
última parte de seu desejo chamam desumana, dizem que
não é deles, que é um resto que deve ainda ser dominado.
Talvez por esta última razão, a construção do mundo humano

se tenha ultrapassado. Você já viu alguém fazer uma lição
com má vontade, pensando que quer realmente fazê-la bem.
Aparecem erros a cada linha, manchas de tinta, lapsos de
português, e o estudante começa a escrever adoidado,
obsessivamente, errando e copiando errado. Assim, a
espécie humana adquiriu uma estranha obsessão de
domesticar, familiarizar, educar. Se seus pais o educaram
assim, você provavelmente será exatamente como eles o
desejaram; e, no entanto, tanto eles como você mesmo terão
a impressão de que tudo saiu às avessas, pela simples razão
que ambos ignoram boa parte do modelo que foi impresso e
não o reconhecem depois de pronto. Domesticar significa
adaptar às normas da casa (que em latim se diz domus);
familiarizar significa tornar algo familiar, como que “da
família”. Mas, como os homens negam-se a admitir grande
parte de seu desejo, quanto mais doméstico e familiar vai
ficando o mundo que constroem, mais estranho e desumano
lhes parece. Desumano, que calúnia!
Sucedeu então que este grande projeto de construir um
mundo à medida humana, que é o de todas as culturas,
acelerou-se subitamente e estreitou-se. Uma das maneiras
de realizá-lo parece dominar todas as outras; e, não tendo
contra quem competir, pôs-se a tentar ser mais veloz que a
própria sombra. Nem é preciso dizer que a maneira
dominante é a civilização tecnológica, a qual se vale de uma
racionalidade exacerbada, de cálculo, medida, das Ciências
Naturais, tendo a Física por modelo. Quanto à sombra, é o
que veremos mais adiante.
Por enquanto, basta observar que o mundo onde vivemos,
sobretudo nas grandes cidades, tornou-se tão construído, tão
fabricado, que uma crise muito curiosa se desencadeou. As
pessoas começaram aos poucos a duvidar de que o lugar
onde vivem seja mesmo real. Antes, quando o contato com a
natureza era mais estreito, nos tempos em que qualquer

criança podia ver, digamos, ordenhar uma vaca, a sensação
de realidade vinha diretamente desse tipo de experiência:
podia-se dizer real como uma pedra ou como uma árvore...
De repente, contudo, os fatos começam a vir pelos jornais,
depois pela televisão, e você tem de se perguntar, a cada
momento, se o que ouve e vê é assim mesmo, se é uma
interpretação ou se é uma tentativa de enganá-lo. Quer dizer,
a realidade começou a perder confiabilidade.
As máquinas funcionam hoje quase como gente, as pessoas
quase como máquinas. A cada ação que você pretende
executar, fica sempre a dúvida se não está servindo a um
propósito que ignora e que talvez ache abominável. Se você
quer ser original, se quer recusar tudo o que está por aí,
acabará provavelmente descobrindo que faz parte duma
indústria da originalidade, usando um uniforme de original.
Pois bem, a ruptura com a natureza e a fabricação excessiva
da nossa vida cotidiana constituem exatamente o êxito
completo da construção da casa dos homens. Mas o homem
mesmo não se sente à vontade na casa que criou. Esse
retrato que vê no seu mundo parece-lhe absurdo. Ele se
pergunta: “Sou assim?”. E responde: “Claro que não; é que
falta dominar, organizar e calcular uma última coisa, a mente
humana”.
Veja que estranho. A loucura do nosso mundo é
simplesmente o resultado da maneira pela qual o
construímos. Porém, preferimos dizer que essa espécie de
sombra, a irracionalidade das relações entre os homens e a
irrealidade do mundo cotidiano, é produto de outra coisa, não
da razão, mas da falta de razão, da loucura. Assim, lá pelos
fins do século passado, fez-se um grande esforço para
compreender a loucura para medi-la, para dividi-la em tipos e
explicá-la cientificamente.
No começo isso não deu muito resultado.É verdade que

surgiu uma classificação das doenças mentais que até hoje é
bastante útil. Mas, em matéria de cura, pouco avanço houve.
Principalmente, a loucura do dia-a-dia permanecia
inexplicável e intratável.
E foi assim que nasceu a Psicanálise. As Ciências Exatas
tiveram de pedir ajuda a uma espécie de primo pobre: a
interpretação. Só a interpretação era capaz de abarcar os
sonhos, as emoções, a loucura etc. Até aí, tudo bem.
Entretanto, ao procurar elucidar a loucura — domínio que se
lhe havia concedido —, o método interpretativo acabou tendo
de ir mais longe, por descobrir que aquilo que não parecia ser
loucura, a vida comum, não era também muito diferente.
Posta em movimento, a interpretação não se soube deter,
nem é bom que se detenha, como veremos no próximo
capítulo, que trata do método interpretativo da Psicanálise.
Tudo se passa como numa história de fadas, quando depois
de chegar ao limite da pobreza a princesa recebe o príncipe e
o reino, ou quando depois de gozar da maior felicidade, ao
abusar um pouquinho mais da sorte, um homem se desgraça.
Vamos chamar a isto “princípio do absurdo”: quando algo
chega ao limite e ultrapassa-o, transforma-se em seu
contrário. Em nosso caso, o projeto de tornar bem racionais
todas as coisas, quando pretendeu dominar uma franjinha
que faltava, a loucura, criou um instrumento capaz de
entender e curar a loucura, é certo, mas que, junto com ela,
entende e mostra irracionalidade e loucura onde não se
suspeitava que houvesse. A história das idéias é assim:
irônica e, às vezes, vingativa. Vingança foi fazer ver ao
homem que, no desconhecimento de seu próprio desejo,
criava o que queria e o que não queria, sendo portanto
absurdo para si mesmo. E isto quando ele pretendia erradicar
os restinhos de absurdo e loucura de seu mundo.
Aliás, a atmosfera de Conto de fada não pára aí. Só nas
histórias infantis é que uma pessoa isolada inventa algo que

modifica o mundo, e o faz quase sozinho. Nossa ciência
infelizmente sugere que o impossível aconteceu. Com efeito,
Freud, praticamente só, inventou um método para interpretar
o lado irracional, ou melhor, o lado da mente que obedece a
regras duma racionalidade diferente daquela da consciência.
Digo infelizmente, porque isso aumenta muito a dificuldade
que temos, os psicanalistas, de continuar e, eventualmente,
vir a superar sua obra. Penso que os grandes psicanalistas
estão, quase sempre, começando de novo.
É claro que Freud não estava interessado originalmente, em
denunciar toda a loucura da crise do real de que há pouco eu
falava. Como um médico honesto, ele queria curar doenças.
Foi assim que se dedicou a tratar doentes histéricos —
pessoas que sofriam de ataques de angústia, de paralisias ou
dores sem causa orgânica (física) e outros sintomas
parecidos. Pode-se dizer que, ao tentar fazê-lo, foi como se
puxasse o gatilho do “princípio do absurdo”, pois dos
sintomas histéricos teve de passar aos sonhos, dos sonhos
aos atos falhos — por exemplo, esses escorregões de
linguagem, inoportunos, que nos fazem dizer a verdade
quando não queremos — e daí à vida mental como um todo.
Isso, porém veremos ao longo de nosso livrinho.
No momento, apenas desejo que você guarde a idéia central.
O mundo edificado por nossa cultura humanizou-se tanto, no
sentido de ser tão fabricado, que sua sombra, o lado
desconhecido do desejo humano, acabou por aparecer mais
do que devia, O real começou a ficar um tanto duvidoso e o
homem a ver-se, malgrado seu, cada vez mais absurdo para
si mesmo. Ora, se a Psicanálise foi inventada por uma
pessoa chamada Freud, no fim do século, em Viena, a idéia
psicanalítica — isto é, o método interpretativo — não foi
inventada por ninguém. Ela era a resposta certa para o
problema da loucura de nosso tempo. Por assim dizer,
quando o momento estava maduro, saiu do lugar onde esta

guardada, no grande depósito das idéias que não são
dominantes numa dada época, para vir a habitar a ciência
que Freud fundou. Sua missão, portanto é apresentar ao
homem o absurdo que o constitui e, se possível, ajudá-lo a
reconciliar-se com ele, com o absurdo, e consigo mesmo.
2 - O MÉTODO DA PSICANÁLISE
O que é que um psicanalista faz? Ele aplica o método
psicanalítico. Talvez esteja tratando um paciente, talvez um
grupo de pessoas, uma família, uma comunidade. Talvez não
esteja tratando ninguém, mas tentando interpretar algum
acontecimento. Desde uma notícia de jornal, até, por
exemplo, a curiosa tendência atual a desmantelar a casa
humana, que se revela no acúmulo de armas atômicas ou na
proliferação dos atentados. Pode querer compreender o
sentido de um palavrão, de uma piada ou de uma grande
obra de arte. O que ele estuda não é tão importante — desde
que seja um fenômeno humano —, é importante sim, para
saber se é um psicanalista, que esteja interpretando
psicanaliticamente, quer dizer, que empregue o seu método
próprio.
Na verdade, como Freud mesmo escreveu, o termo
“psicanálise” tem três sentidos: é o método interpretativo, mas
significa também uma forma de tratamento psicológico (ou
psicoterapia analítica) e igualmente é o nome do
conhecimento que o método produz (ou teoria psicanalítica).
Um pouquinho confuso, não? Bem, para evitar a confusão, e
como o método vem primeiro e é o essencial, costumo
escrever o nome do método e o da ciência inteira com letra
inicial maiúscula, “Psicanálise”; e, com minúscula inicial,
“psicanálise”, grafo o nome da terapia, disto que o analista faz
em seu consultório. Então, a ciência e seu método chamam-
se “Psicanálise”, a terapia denomina-se “psicanálise”, ou
simplesmente “análise”

— quanto à teoria, não há problemas, sempre dizemos “teoria
psicanalítica”.
Para que você entenda o que é o método psicanalítico, vou
usar agora, como exemplo, a terapia analítica, e tudo ficará
claro. Verá que entenderemos a Psicanálise através da
psicanálise.
Suponha, por conseguinte, que você se converteu em
analista — por artes mágicas ou depois de uns 15 anos de
estudo. Você estará decentemente trajado, sentado numa
confortável poltrona, em um consultório de bom gosto, tendo
à frente, deitado no divã, um cliente que o freqüenta algumas
vezes por semana. Isso, pelo menos, é o comum. Todavia,
não é impensável que estivesse nu, no meio do mato, com
seu paciente trepado no galho da árvore a seu lado, se as
condições sociais fossem outras. Dou-lhe essa imagem
alternativa, não porque tenha algo contra roupas e
consultórios, porém para que compreenda a diferença entre
moldura e quadro, O divã, a freqüência das sessões, o
pagamento etc. emolduram a análise, servem só para
sustentar e delimitar aquilo que se faz. Aliás, como com o
quadro que você tem na sala, é bom que a moldura não seja
tão pesada e rococó a ponto de embaralhar a cena retratada.
(Você já reparou como, nos jornais e nas discussões
públicas, quase que somente se fala das correntes,
associações e brigas entre psicanalistas? Pois este é um
exemplo da moldura atrapalhando a visão do quadro, porque,
afinal, isso tudo não é realmente importante.)
Digamos, porém, que você esteja sentado na poltrona e o
paciente deitado à sua frente. Ele estará falando...
As palavras são traiçoeiras. Quando falamos, dizemos o que
queremos dizer, porém, ao mesmo tempo, dizemos também
muitas outras coisas de que nem suspeitávamos. Mesmo se
alguém diz algo tão simples como “está chovendo”, refere-se

a um estado do tempo, mas comunica simultaneamente uma
porção de outras coisas. Falará com agrado ou com raiva, e
saberemos já se tinha ou não certo projeto que a chuva
atrapalhou. “Está chovendo” pode ser um convite a que
permaneçamos aconchegados num abrigo, talvez contenha a
idéia de uma espécie de vitalidade tal qual a da terra bem
regada etc. O que é garantido, no entanto, é que “está
chovendo” não significa apenas que está chovendo. Há
sempre, no mínimo, o fato de que isso foi dito para uma outra
pessoa e com alguma intenção conhecida — com alguma
intenção conhecida e com várias intenções mal conhecidas.
Na verdade, são tantos os sentidos simultâneos das nossas
palavras, que seria virtualmente impossível uma conversa
civilizada caso não se reduzissem tais sentidos a alguns
poucos. Quero dizer que é necessário um acordo tácito entre
as pessoas que se comunicam, a fim de limitar drasticamente
a abrangência do que se diz. É como se combinássemos: não
vamos prestar atenção a, digamos, 99% dos significados
possíveis do que estamos dizendo, para que o resto possa
ser bem entendido. Em particular, na vida cotidiana,
procuramos diligentemente ignorar tudo aquilo que, nos ditos,
refere-se ao interlocutor e não ao referente externo; isto é, no
“está chovendo”, procuramos esquecer todo o conjunto de
insinuações acerca de nossa convivência (do tipo, “chove,
portanto fiquemos aconchegados no quentinho”), e nos
concentramos no estado do tempo, o referente externo deste
caso (isto é, “chove, portanto não faz sol”).
A tão violenta redução costumo chamar “redução consensual
dos sentidos do discurso”, porque é fruto de um acordo ou
consenso entre as pessoas que se comunicam, ou chamo-lhe
“rotina”. Esta é uma grande tarefa, importantíssima e difícil.
Sem ela, não se poderia conversar, está visto.
Você já observou a confusão que se cria numa discussão
acalorada, quando, de repente, parece que ninguém fala mais

a mesma língua do outro. A cada momento é preciso explicar:
“Não foi isso que eu disse, não foi isso que eu quis dizer, eu
quis dizer só que... “. Dá-se simplesmente que, por causa da
animosidade dos espíritos, perdeu-se um pouquinho do
acordo consensual, foi violado o acordo sobre o tema, por
exemplo, e alargou-se um bocadinho o sentido permissível
das palavras.
Ora, se você está sentado detrás de seu paciente, escutando-
o, talvez pense que deva descobrir sentidos muito
complicados, “psicanalíticos”, no que ele diz. É um engano.
Para fazer análise, basta que consiga ouvi-lo de maneira que
se vá suprimindo aos poucos a redução consensual ou rotina.
Isto se consegue assim: seu paciente conta-lhe algo do que
fez ontem, depois comenta um detalhe novo do consultório,
faz uma piada, tosse, lembra-se de um sonho etc. Se você
fosse uma pessoa bem educada, numa situação cotidiana,
interessar-se-ia polidamente por cada assunto em separado,
responderia, riria com ele. . . e perderia o sentido de conjunto.
Fazer análise é uma espécie de falta de educação
sistemática. Atrás do paciente, você estará calado,
procurando juntar os pedaços da conversa, sem se deter no
que, de hábito, significaria
mudança de assunto. Ao contrário, prestará a máxima
atenção às mudanças de assuntos, perguntando-se: “Se se
trata de um só assunto, qual é ele e que se diz agora a
respeito?”. Em outras palavras, você eliminou uma referência
consensual importantíssima, aquela que afirma que cada dito
tem de ser entendido no assunto a que o interlocutor se
pretende ater. Como um chato que é, você se pergunta:
“Casa, mais consultório, mais piada, mais sonho, o que tudo
junto me comunica agora? O que quer dizer?”, ainda que o
paciente não o queira dizer, conscientemente.
Quando, pois, você descobrir um sentido geral, da forma que
mencionei, e comunicá-lo a seu paciente, ele se surpreenderá

muito. É plausível que afirme nunca ter pensado nisso e que
certa mente não foi o que quis dizer. Talvez então você sorria
com superioridade, porém não se esqueça de que ele tem
razão: com certeza não pensara e menos ainda quisera dizer
o que estava contido em suas palavras — você é que o ouviu
fora da rotina.
Alguns nomes mais. Desculpe, mas é importante saber
nomear o que se passa na análise, se quer vir a ser analista e
poder conversar acerca de seu trabalho. A esse tipo de
atenção um pouco extravagante, que viola todas as regras da
boa educação cotidiana, Freud chamava “atenção flutuante”.
Esse termo você já conhece, não é mesmo?
A comunicação feita ao paciente, que serve para romper os
limites do assuntos que ele pensava poder tratar em
separado, chama-se interpretação psicanalítica. Outro nome
conhecido. Finalmente, àquilo que dá sentido ao que se diz e
que o limita (“está chovendo” que faz referir-se a um estado
do tempo e não, por exemplo, a um estado da relação entre
duas pessoas) chamaremos “um campo da comunicação” ou
simplesmente “campo”. Portanto, ao interpretar, o que você
fez, essencialmente foi quebrar os limites que a rotina o dia a
dia impusera aos significados do paciente; isto é: você
produziu uma “ruptura de campo”.
Considero o efeito de ruptura de campo o processo
fundamental do método psicanalítico, tanto no que diz
respeito à produção de conhecimentos, como no que
concerne à produção da cura. Costuma-se crer que a
interpretação psicanalítica mostra ao paciente um tipo
especial de sentido, através de suas associações, das idéias
que nos comunica: os remanescentes da sexualidade infantil,
os processos de recalcamento e outros conteúdos
semelhantes, que através deste livrinho iremos discutindo,
Isto é certo, de algum modo. Esses esquemas interpretativos
constituem a teoria Psicanalítica, a qual norteia as

interpretações. Semelhantemente, há normas para bem
interpretar; condições de tempo propícias, ordem precisa em
que certas emoções podem ser patenteadas, formas
preferenciais para a formulação de interpretações etc. Em
conjunto, constituem a técnica psicanalítica. Teoria e técnica
juntas ensinam, pois, como fazer bem a análise; não
explicam, entretanto, o que vem a ser a interpretação em si
mesma — isto é, que ato é este, a interpretação, que pode
eventualmente ser bem ou mal feito.
Uma coisa é saber que jogo estamos jogando; outra é saber
jogá-lo bem. No momento, estou apenas querendo ensinar-
lhe a essência do jogo, que é, penso, a operação de ruptura
de campo.
Quando você escutou seu paciente dessa maneira estranha,
desrespeitando os limites dos assuntos que ele pensava
abordar, e comunicou-lhe um sentido geral que ele não sabia
reconhecer nas próprias palavras, o resultado terá sido, é
provável, bastante surpreendente. O cliente talvez reclame de
não ter sido compreendido, ao mesmo tempo em que
experimentará uma sensação algo vaga de que o que você
lhe disse tem tudo a ver com ele.
E há algo ainda pior — ou melhor, quem sabe. É que, dos
sentidos outros que suas palavras contêm, os quais se
cancelam geralmente no cotidiano, você terá selecionado
expressamente aqueles que definem a relação que os dois
mantêm no momento.É possível fazê-lo porque tudo o que
dizemos e pensamos sempre nos define; o que nos é alheio,
em algum momento, não é pensável sequer. Assim, você
estará procurando o sentido geral, incluído
despercebidamente no discurso (nas palavras do paciente),
que mostra quem é ele nesse momento, e em particular como
é ele na relação com você. Por fim, como este “ser na
relação” apóia-se com força sobre um estado afetivo, numa
emoção, você terá descoberto para ele como é que se sente,

sem o saber, em relação a você. É concebível — brinquemos
um pouco do jogo analítico — que ao constatar a chuva seu
paciente esteja a lhe propor que você é algo assim como uma
nuvem, chovendo sobre ele, que, na horizontal, se faz de
terra, fertilizando-o, mas fazendo brotar lembranças irritantes
de humilhações infantis. Estranho?
Estranhíssimo. E, no entanto, se a interpretação tiver sido
bem feita, se a compreensão tiver sido cuidadosa, tal sentido
estará de fato contido nos ditos do paciente (a que
chamamos “material”). Assim, ser-lhe-á difícil negar pura e
simplesmente que a interpretação tinha razão de ser.
Os muitos sentidos das palavras humanas, se tomados em
conjunto, poderiam levar-nos para quase qualquer lugar.
Sucede, porém, que durante uma sessão eles se cruzam e
descruzam, determinando pontos de convergência ou nós,
para onde se encaminham porções consideráveis dos
sentidos marginais do discurso. A essas malhas damos o
nome de fantasias. Seguimo-las através dos fios,
interpretamo-las ao reconhecê-las, produzindo uma sensação
de ter completado algo que faltava, para uma inteligência
diversa do material, que inclui agora seu “sentido geral
inconsciente”.
Então, o paciente já não sabe, momentaneamente, o que
está fazendo com você. Pensava estar contando coisas
importantes, e, de chofre, ouve que está a ser chovido! Como
isso parece-lhe tão estranho quanto bem encaixado, perde os
limites dos assuntos de que pensava tratar, percebe-se
diferente, não um relator de idéias, mas um não-sei-quê apto
a ser fecundado. Sente-se estranho, sem saber o que pensar.
Na verdade, diria, sem saber como fazer para pensar, porque
o pensamento cotidiano respeita cuidadosamente os limites
dos temas, dos assuntos; quer dizer, apóia-se em campos
bem definidos, como os pés sobre tapetes. E se lhe retirou,
com uma interpretação, o tapete debaixo dos pés do espírito.

Nesse estado de confusão, aparece algo que, de hábito, está
bem coberto. Aparece aquilo que faz com que alguém, o
paciente no caso, pense, sinta e faça o que faz, e que ele crê
ser sua vontade soberana. Puro engano. Esses sentidos
estranhos, como o de ser chovido, impulsionam nossa mente
sem que nos possamos dar conta; manifestam aquilo que
denominamos “desejo”. É o desejo que produz nossas
emoções. É ele uma espécie de matriz, que permite e obriga
alguém a possuir certo repertório de emoções e não outras
quaisquer. O analista, interpretando, vai formando, junto com
seu paciente, o esboço lento do desenho de seu desejo.
Fundamentalmente, por romper o campo da rotina e assim
propiciar um espaço em que o desejo se pode mostrar, ainda
que de forma indireta.
Tudo se passa como naquele jogo em que se coloca um
papel de seda sobre uma moeda. Risca-se e, devagar, vai
aparecendo a efígie da moeda no papel superposto. Tal qual
a moeda, o desejo não é visível diretamente — adiante saber-
se-á que ele é inconsciente, e poderemos discutir o que isto
quer dizer. Seu desenho aparece, não obstante, nas
sucessivas interpretações, pois, de tanto desenhar como é o
paciente em relação a você, surgirá a forma que seu desejo
adquire em relação a qualquer outra figura. Tal tipo de
escuta, que apreende o paciente em relação a seu analista,
responde também a um nome bastante conhecido:
transferência. Transferência, como a da moeda para a
superfície do papel, entendeu? Caso não tenha ficado claro,
sugiro que experimente, mas primeiro com a moeda e o
papel; ou na situação analítica, tendo a você mesmo como
paciente e alguém mais experimentado a fazer de analista.
Nesse jogo é preciso algum cuidado, uma vez que o desejo,
que vai mostrando sua face, é aquele absurdo a que antes eu
me referia. O sentimento de ser absurdo — chovido, por
exemplo — mexe com toda a constituição psíquica do sujeito.

É uma coisa séria realmente, é o lado que determina o que
somos, mas desconhecemos. Sentir-se absurdo é muito
parecido com estar louco. Na verdade, sentir-se absurdo sem
propósito e sem a expectativa de voltar a recuperar o sentido
de si mesmo pode levar à loucura. Na análise, o sentido de
absurdo é provisório, o paciente recupera a si mesmo depois,
tendo incluído na consciência de si algumas auto-
representações de que antes não dispunha. Por tal razão, e
porque pretende curar-se de sintomas — isto é, para tratar-se
e conhecer-se —, ele pode tolerar o absurdo provisório, na
expectativa de reencontrar-se ampliado. Mas, no trânsito
duma representação de si mesmo para outra (na “expectativa
de trânsito”), a consciência em condição de análise
experimenta uma séria angústia, uma impressão de se
desagregar, de não saber o que é, ou de não ser nada.
Recomendo que comece com moedas e um pedaço de
papel...

3 - O INCONSCIENTE
Não lhe quero mostrar como os conceitos foram criados ao
longo da história da Psicanálise. Para isso, há bons textos,
começando pelos de Freud e seguindo com a introdução de
quase qualquer livro sobre a Psicanálise. Prefiro, ao contrário,
deixar-lhe clara a maneira pela qual os conceitos
psicanalíticos são criados constantemente pela aplicação do
método, estudado no capítulo anterior. Para tanto há uma
forte razão. É que o sentido de um conceito teórico está dado,
em grande parte, por sua produção: a teoria significa o
processo que a cria e a utilização que se lhe dá. Lendo este
capítulo sobre o inconsciente, tenha isso em mente.
Vejamos. Quando um analista produziu inúmeras situações
de ruptura de campo com seu cliente, foram surgindo
aspectos diferentes do desejo.
Esquemas emocionais — como o de ser chovido —, se

comparados uns aos outros, vão devagar compondo um
desenho característico. Em primeiro lugar, tal desenho é
próprio desse paciente, em particular. A forma especial que
alguém tem de gostar, por exemplo, repete-se tanto nos
grandes amores, como nas pequeninas amizades. Mas, por
outro lado, como nosso repertório não é tão vasto, a forma de
gostar é também, um pouco mais abstratamente, a forma de
detestar, de brincar, de comer. Homens meticulosos amam,
odeiam, brincam ou comem por partes, organizadamente
odiando cada pormenor de quem os ofendeu, saboreando
cada mordia, mastigando cada pormenor. São pessoas que
dizem: “E além de tudo, ele ainda por cima me fez isso” — e
tal regra emocional vale para qualidades de sentimentos
diversos, da partida de futebol ao banheiro.
Ora, o repertório humano é mesmo bastante limitado.
Justamente quando cremos ser mais originais, mais
repetimos certas formas de ser que nos igualam a grupos
inteiros de pessoas; dá-se apenas que o ignoramos
cuidadosamente. Por causa disso, depois de interpretar
vários materiais diversos, de vários pacientes, descobrimos
que, no plano do desejo, há similitudes de esquemas que se
repetem com notável regularidade. E estes dizem respeito
precisamente aos aspectos mais fundamentais dos
sentimentos humanos, de suas ações e pensamentos. À
constância de certas formas do desenho do desejo humano
corresponde então uma formulação geral que os psicanalistas
podem fazer, referindo-se a tipos de emoção, a tipos de
pacientes, ou às pessoas todas. Chamamos a isso: teoria
psicanalítica.
Agora podemos entender melhor algo que talvez o
preocupasse no capítulo anterior. Você se perguntava: se as
palavras podem ter tantos sentidos diversos, bastará mostrar
qualquer um deles, dizer qualquer coisa? Na verdade, não.
Há um guia para as interpretações psicanalíticas, guia que

procede do próprio produto das interpretações anteriores.
Quer se trate do desenho deste paciente em particular, quer
saibamos de antemão certas características teóricas próprias
desse tipo de emoção que experimenta ou do tipo de pessoa
que é, sempre estaremos em busca de decifrar algo mais ou
menos determinado: queremos completar o desenho do
desejo.
A esta altura você talvez se esteja perguntando:
“Essas regras que compõem o desenho do desejo e que vão
orientando o trabalho de decifração psicanalítica,
compreendo que estejam na cabeça do analista, mas não
estarão também na psique do paciente?”. Tem razão, estão
sim. Estão, no sentido de limite; isto é, da mesma forma que
uma máquina de estampar tecidos só produz certo tipo de
desenho, há uma matriz para nossas emoções, a que
chamamos desejo, que nos limita a cumprir com certas regras
emocionais. Há, de fato, uma espécie de lógica das emoções
humanas bem diversa daquela que as pessoas usam para
explicar os motivos de suas ações. Aliás, nada há de tão
cuidadosamente ignorado como o lugar de onde provêm tais
regras limitantes; e você já deve ter desconfiado que tal lugar
é o inconsciente.
Que significa haver o inconsciente? Em primeiro lugar,
exatamente aquilo que eu dizia no começo: uma certa forma
de descobrir sentidos, típica da interpretação psicanalítica.
Ou seja, tendo descoberto uma espécie de ordem nas
emoções das pessoas, os psicanalistas afirmam que há um
lugar hipotético donde elas provêm. É como se
supuséssemos que existe um lugar na mente das pessoas
que funciona à semelhança da interpretação que fazemos; só
que ao contrário: lá se cifra o que aqui deciframos.
Veja os sonhos, por exemplo. Dormindo, produzimos
estranhas histórias que parecem fazer sentido sem que

saibamos qual. Chegamos a pensar que nos anunciam o
futuro, simplesmente porque parecem anunciar algo, querer
comunicar algum sentido Freud tratando dos sonhos, partia
do princípio de que eles diziam algo e com bastante sentido.
Não, Porém, o futuro. Decidiu interpretá-los. Sua técnica
interpretativa era mais ou menos assim. Tomava as várias
partes de um sonho, seu ou alheio, e fazia com que o
sonhador associasse idéias e lembranças a cada uma delas.
Foi possível descobrir assim que os sonhos diziam respeito,
em parte, aos acontecimentos do dia anterior, embora se
relacionassem também com modos de ser infantis do sujeito.
Igualmente, ele descobriu algumas regras da lógica das
emoções que produz os sonhos. Vejamos as mais
conhecidas. Com freqüência, uma figura que aparece nos
sonhos, uma pessoa, uma situação, representa várias figuras
fundidas, significa isso e aquilo ao mesmo tempo. Chama-se
este processo condensação, e ele explica o porquê de
qualquer interpretação ser sempre muito mais extensa do que
o sonho interpretado. Outro processo, chamado
deslocamento, é o dar o sonho uma importância emocional
maior a certos elementos que, quando da interpretação, se
revelarão secundários, negando-se àqueles que se
mostrarão, realmente importantes. Um detalhezinho do sonho
aparece, na interpretação, como o elo fundamental. Digamos
que o sonho, como um estudante desatento, coloca
erradamente o acento tônico (emocional, é claro), criando um
drama diverso do que deveria narrar; como se dissesse.
Ésquilo por esquilo... Um terceiro processo de formação do
sonho consiste em que tudo é representado por meio de
símbolos e, um quarto, reside na forma final do sonho que, ao
contrário da interpretação, não é uma história contada com
palavras, porém uma cena visual.
Essas e outras propriedades da linguagem onírica (Onírico =
do sonho) constituem os mecanismos de formação dos

sonhos. Mas — preste atenção! — como conhecemos tais
mecanismos? Do conjunto de associações que partem do
sonho, o intérprete retira um sentido que lhe parece razoável.
Para Freud, e para nós, todo sonho é uma tentativa de
realização do desejo. A interpretação, por conseguinte,
mostrará uma história que contém um anseio satisfeito; tal
como: “Eu queria ter isto ou fazer aquilo”, “A culpa do que fiz
não é minha”, “Isto realmente não aconteceu”, “Vejo-me
assim” etc. A história reconstruída pela interpretação chama-
se “conteúdo latente do sonho”, em oposição àquilo que o
sonho efetivamente mostra, que é seu “conteúdo manifesto”.
Os mecanismos oníricos, portanto, são a medida da
transformação de um texto em outro, são o que traduz o
conteúdo latente em conteúdo manifesto. Uma charada, onde
certas regras lógicas permitem transformar uma frase noutra,
cujo sentido é obscuro, até que o charadista a mate. Pois,
bem, como na charada, os mecanismos para criá-la não são
outra coisa senão o inverso daqueles que usamos para
resolvê-la. Se nós fizemos associações ramificadas a partir
de cada elemento do sonho, é natural que cada figura possa
condensar várias figuras, tantas pelo menos quantas tivermos
associado. Se descobrimos assim um outro valor afetivo para
o sonho, segue-se que o conteúdo manifesto acentuou
diferentemente — em relação ao conteúdo latente — tais
valores, realizou “deslocamentos”. Se cremos ter encontrado
o sentido verdadeiro do sonho, este o exibia falso, ou
simbólico. Se, por fim, ao interpretá-lo, transformamos a
linguagem visual do sonho em palavras, só nos resta dizer
que o sonho havia transformado as palavras do conteúdo
latente nas imagens do conteúdo manifesto. Simples, não é?
O inverso do processo interpretativo, o caminho de ida, se a
fosse o de volta, atribui-se ao inconsciente — são os
processos psicoprimários, por oposição aos da consciência,
os processos psicossecundários.

Será tudo apenas um brinquedo, uma charada que se inventa
para resolver? Não, por certo; e já veremos por quê. Apenas
você deve compreender que o inconsciente psicanalítico não
é uma coisa embutida no fundo da cabeça dos homens, uma
fonte de motivos que explicam o que de outra forma ficaria
pouco razoável — como o medo de baratas ou a necessidade
de autopunição. Inconsciente é o nome que se dá a um
sistema lógico que, por necessidade teórica, supomos que
opere na mente das pessoas, sem, no entanto afirmar que,
em si mesmo, seja assim ou assado. Dele só sabemos pela
interpretação.
Todavia, se não é por puro amor à charada, para que servem
os disfarces do sonho? Os psicanalistas pensam que têm
bastante utilidade. Teoricamente, supomos que haja uma
série de forças impulsionando a vida mental. Em que forma
existem, não se sabe ao certo. Porém, imaginamos que
sejam forças que operam de permeio entre o físico e o
psíquico. (Não é dizer muito, sei, mas é o máximo a que
podemos chegar...) Essas forças ou pulsões representam as
necessidades do organismo humano e de seu psiquismo, tais
como fome, sexo, curiosidade (diga “epistemofilia”, se quiser
surpreender os seus amigos com uma palavra difícil, que
significa “adição ao conhecimento” ou “curiosidade de
saber”)etc.
Dessas pulsões quase nada sabemos, são hipóteses
teóricas. Entretanto, elas se fazem representar na vida mental
por uma espécie de corpo diplomático — os representantes
psíquicos da pulsão
— que induz a psique a satisfazê-las. Eu posso não saber
exatamente o que é a fome fisiológica, mas sei bem o que
significa sentir fome.
Ora, pois; se eu sinto fome durante o sono, é possível que
acorde, o que viria prejudicar outra necessidade, a de

repouso; então sonho que como e me engano por algum
tempo. Pode suceder, não obstante, que me ocorra um
desejo menos aceitável, como o de redecorar a sala de visita
de casa com uma pintura de fezes. Não se espante, as
criancinhas têm vontades desse tipo, e infelizmente as
realizam, se não houver quem lhas impeça. Desejos de tal
monta, contrários frontalmente às aquisições duma boa
educação, feririam os pudores da consciência — além de
ferirem outros sentidos que não o estético —; têm de ser
disfarçados, há uma censura interna que lhes proíbe o
acesso à consciência.
De forma análoga são censurados certos desejos sexuais,
agressivos e outros. Muito daquilo que nossa vida infantil
permitia, na fase adulta já não pode mais nem ser pensado,
ou porque viole as normas de socialização, ou porque
contraria outros impulsos mais importantes. Seria ótimo viver
de brisa, a preguiça o diga, mas as necessidades de
manutenção pessoal ficariam muito contrariadas com tal
regime.
Para conjugar tendências tão opostas, a psique lança mão de
um truque. De um fado, ela não permite que cheguem a ser
representadas cons cientemente as pulsões muito contrárias
ao conjunto da vida mental duma fase qualquer da vida. Não
se representam, porém nem por isso desaparecem — em
alguma parte do coração temos sempre 20 anos, em outras
partes, 5 ou 6 meses de idade. À proibição de se representar
conscientemente uma pulsão denomina-se repressão: se ela
é muito completa, recalcamento. A repressão, portanto,
impede que a idéia (ou representação) dum impulso aceda à
consciência; contudo, o prazer ou o desprazer ligado à
representação não dá para sufocar. Os afetos passam. Só
que passam — e aí está o truque — disfarçados, ligados a
outra representação ou idéia, simbolizados. Daí a utilidade
dos processos de formação do sonho, segundo Freud, pois

despertaríamos desgostosos caso tivéssemos contato com as
idéias originais.
Os sonhos, os atos falhos (a que já me referi), os sintomas
neuróticos (que veremos à frente) funcionam pois como
válvulas de escape para o reprimido. Mais do que isso. São
verdadeiras obras de arte, fundindo, numa mesma idéia,
pulsões obstadas e a censura que as proíbe. Como se os
sonhos dissessem: “Quero isto, mas isto não é isto, nem sou
eu que o quero... “. Cuidado, pois, ao negar de muitas
maneiras diferentes a mesma coisa!
Vamos rever esse esquema teórico. Há pulsões (ou
impulsos). Alguns deles não se podem realizar, nem se
representam conscientemente, pois contrariam o equilíbrio da
vida mental, gerando desprazer. Já que a mente tende ao
prazer, a idéia que os representa é recalcada. Como o afeto
não o pode ser, este aparece, mas disfarçado, como se se
manifestasse em outra idéia. Esparramar as fezes pela sala é
incompatível com uma pessoa bem educada; pintar um
quadro — por mais feio que seja, cheira menos mal — é
compatível, é até meritório. Modificou-se o fim do impulso,
transformado em algo mais elevado culturalmente, mais
sublime: denomina-se isto “sublimação”. Ou então, o impulso
aparece menos disfarçado — todavia disfarçado ainda —
num sonho, num ato falho, num sintoma. Entendeu?
Decerto só ficamos sabendo de tudo isso através de
interpretações. Logo, o processo de encobrimento é apenas o
reverso do processo de interpretação. O inconsciente, por
assim dizer, é uma interpretação ao contrário.
Ora, se alguma coisa parece irracional, depois de
interpretada, ela fica bem explicável. Se alguém teme um
bichinho inofensivo, sempre se pode dizer que este, o
bichinho, representa impulsos autodestrutivos inconscientes.
E os impulsos autodestrutivos, é justo temê-los. Será certo

pensar assim? Bom, não muito. Senão, como se costuma
dizer, Freud sempre explica. Contudo, há muitas pessoas que
pensam que a Psicanálise é bem isso; e há outras pessoas
que a xingam por ser desse jeito, exatamente como não é.
Pois, para a Psicanálise, tanto o que é incompreensível
quanto o que é bem compreensível à luz da vida cotidiana
merecem igualmente que se interprete. As pessoas comuns
costumam explicar o que fazem da seguinte maneira. Eu fiz
isso assim porque tinha motivos. Se os motivos não me
ocorrem, entretanto, é possível que sejam motivos
desconhecidos, inconscientes, que justifiquem minhas idéias
e ações. O importante, você vê, é manter a proporcionalidade
entre motivo e ação. Nem que, para tanto, tenhamos de
inventar motivos inconscientes ou atribuir qualidades e
defeitos aos outros, como faz o homem preconceituoso. (Se
você não o fez, fê-lo seu pai ou tio, ou pelo menos você
poderia tê-lo feito etc.)
Nada mais diferente dessa psicologia motivacional primária
do que a Psicanálise. O método psicanalítico não se vale da
lógica cotidiana, da proporção entre motivo e ação. Por que
só o irracional haveria de ter motivos inconscientes; e o
resto? O inconsciente não é um sistema de explicações para
o inexplicável, mas uma lógica diferente. Tais explicações
justificam, o porquê duma idéia ou ação, quando ela já se
deu: são racionalizações. A interpretação psicanalítica visa
demonstrar o processo que torna possível uma idéia ou ação,
a maneira pela qual nós as concebemos, a lógica da
concepção. Não a lógica superficial do que já foi concebido.
Lógica da concepção, lógica das emoções ou lógica
inconsciente são nomes da mesma coisa: mostram o como,
não se detém no porquê. Além disso, a interpretação, como já
vimos, parte da noção de que há sempre inúmeros sentidos,
e não um só sentido verdadeiro.
Por essa última razão, dá-se algo curioso com a teoria

psicanalítica. Ela poderia explicar quase tudo, é claro. Por
isso, preferimos usá-la para não explicar nada, a não ser o
próprio processo de concepção. Assim, quando se usa uma
teoria psicanalítica para interpretar, mesmo que seja uma
teoria tão respeitável como a do complexo de Édipo, estamos
sempre procurando refutá-la.

No mínimo, estamos abertos a que a prática a refute. Chamo
a isso “princípio de risco” do processo interpretativo.
Aliás, se uma teoria qualquer entra no começo duma
interpretação concreta — feita a um paciente, por exemplo —,
é de se esperar que ela saia modificada na outra ponta da
interpretação. Caso contrário, se sai igual, direi que apenas
encontramos o que já tínhamos colocado, que a interpretação
foi teoricamente indiferente — conquanto talvez até possa ter
sido clinicamente útil. Se a teoria se modifica, se se
especifica ou é corrigida, aí sim penso que se tratou duma
interpretação teoricamente significativa. A teoria, por
conseguinte, arrisca-se, de cada vez que a empregamos de
forma legítima na prática analítica. Sempre estamos à
procura de outra coisa, de que algo novo surja. Essa
possibilidade sempre presente de dissolução da teoria faz
com que devamos considerar a prática psicanalítica não
como conseqüência simples das nossas teorias, porém como
uma atividade teórica muito perigosa e radical. Com efeito, a
prática analítica é o ponto de fusão de sua própria teoria.

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