O QUE É PSICANÁLISE

Fabio Hermann Editora Brasiliense – São Paulo
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1 - O MOMENTO DA PSICANÁLISE Os seres humanos são pessoas muito estranhas e até absurdas. Se você já o percebeu, acho que andou a terça parte do caminho para se tornar psicanalista. O segundo terço do caminho consiste em aprender algumas coisas: o método, a teoria e a técnica psicanalíticos, de que lhe vou falar um ‘pouco neste livrinho. Quanto à última e mais difícil etapa, que é a de você mesmo descobrir que é também uma pessoa estranha e absurda, isto é, que é um ser humano, lamento não poder ajudá-lo a percorrer, pelo menos escrevendo: talvez fosse preciso fazer análise. Todavia, como estava dizendo, os homens são pessoas estranhas e absurdas. Enquanto outros bichos têm relativamente pouco trabalho em construir sua residência, porque parecem satisfeitos com o mundo que encontram — o que os cientistas chamam “sistemas ecológicos” —, os homens têm passado seu tempo tentando construir uma casa para si, gastando nisso um trabalho insano, sem nunca ficarem contentes com o resultado. Construíram instrumentos de osso e de eletricidade; domesticaram as plantas, os primos animais e até seu próprio pensamento selvagem; edificaram cidades, sistemas filosóficos, ciência e tecnologia. Tudo fizeram para ter um mundo sob medida, quer dizer, um

mundo na medida humana. Mas não desprezemos os homens por causa disso. Coitados, eles talvez não tivessem outro jeito de sobreviver! Em primeiro lugar, quando os bebês humanos nascem e por longo tempo depois são muito indefesos e incapazes para a vida: não conseguem comida sozinhos, não sabem defenderse do frio, queimam-se com a própria urina etc. Logo, era mesmo necessário viver em grupo, construir abrigos e um sistema social. Por outro lado, os homens divertem-se demais com os próprios pensamentos. São os únicos bichos, ao que se sabe, tão estúpidos que podem ficar imaginando e esquecer-se de comer; e, o que é pior, quando pequeninos e famintos, parece que conseguem ficar sonhando que estão a comer e contentar-se algum tempo com isso — coisa a que os psicanalistas chamam “satisfação alucinatória do desejo”. Alguns talvez até morram de fome, sonhando, sonhando. Por fim, enquanto os animais ferozes quase nunca matam os de sua espécie — “inibição da agressividade intra-específica”, é como os estudiosos do comportamento animal (ou etólogos) chamam a essa prova elementar de sensatez —, os homens chegam a gostar de fazê-lo. Para sobreviver, então, ou pelo menos para se poderem dominar e matar civilizadamente, foi preciso que os homens domesticassem a natureza. Por que, entretanto, esse trabalho não tem fim e nem é considerado satisfatório? Bem, se você pertence a uma família mais ou menos rica, provavelmente já mudou de casa algumas vezes. De cada vez, a casa era perfeita, não é verdade? — construída sob medida para o desejo de sua família, com tantos quartos, garagens e televisões quantos bastassem para fazê-los felizes —, porém, quando lá moravam, descobriam que ainda não estavam satisfeitos nem felizes. Aí mudavam, reformavam a casa ou compravam um videocassete; e, insatisfeitos ainda, tornam a mudar ou instalam uma mesa completa de som. Se esta é sua história

habitacional, não se culpe, nem a seu pai: culpe a casa, e estará bem integrado com o resto da humanidade. É que a casa que construíram, como a grande casa que a humanidade vem construindo para si, representa bem demais a realização de seu desejo. Ora, o problema é que nós não desejamos o que queremos, nem tampouco ficamos satisfeitos de encontrar o que desejamos. Na verdade, nós, humanos, não sabemos bem o que desejamos. Veja um exemplo. Antes de mais nada, nós somos aquilo que desejamos ser. É fácil entender, já que desejo é o nome daquilo que faz com que a gente pense, faça, seja. Ele parece vir de dentro da alma, mas é criado na vida social e biológica, de sorte que se pode dizer até que “somos desejados” desta ou daquela maneira. Somos desejados ativos ou entediados, cruéis ou compassivos, apavorados ou distraídos. Aliás, a humanidade deseja-se como é; e, dizia, constrói-se e constrói o seu mundo de acordo com tal desejo. Só que não acredita que, de fato, se tenha desejado como é. Assim, tendo transformado o mundo a fim de lhe servir de casa, acha que não está ainda bem feito, que sobram muitas coisas desumanas a humanizar. O céu é muito alto, o tempo é longo demais, as guerras muito freqüentes. Ora, se o tempo e o espaço são infinitos demais, é que os homens têm em si uma aspiração em desacordo com seu tamanho e duração de vida. Quanto às guerras, quem as faz? Numa palavra, ao domesticar o mundo, os homens irritam-se ao ver que construíram uma casa que os retrata maravilhosamente bem, que exprime seu desejo, tanto naquilo que gostam, como naquilo que odeiam — a esta última parte de seu desejo chamam desumana, dizem que não é deles, que é um resto que deve ainda ser dominado. Talvez por esta última razão, a construção do mundo humano

Por enquanto. quanto mais doméstico e familiar vai ficando o mundo que constroem. mais estranho e desumano lhes parece. familiarizar. tendo a Física por modelo. das Ciências Naturais. lapsos de português. basta observar que o mundo onde vivemos. pôs-se a tentar ser mais veloz que a própria sombra. tão fabricado. de cálculo. Quanto à sombra. Assim. e o estudante começa a escrever adoidado. nos tempos em que qualquer . manchas de tinta. sobretudo nas grandes cidades.se tenha ultrapassado. no entanto. Uma das maneiras de realizá-lo parece dominar todas as outras. que calúnia! Sucedeu então que este grande projeto de construir um mundo à medida humana. a espécie humana adquiriu uma estranha obsessão de domesticar. Se seus pais o educaram assim. tanto eles como você mesmo terão a impressão de que tudo saiu às avessas. errando e copiando errado. acelerou-se subitamente e estreitou-se. familiarizar significa tornar algo familiar. Aparecem erros a cada linha. Você já viu alguém fazer uma lição com má vontade. você provavelmente será exatamente como eles o desejaram. quando o contato com a natureza era mais estreito. que é o de todas as culturas. Mas. Nem é preciso dizer que a maneira dominante é a civilização tecnológica. como que “da família”. como os homens negam-se a admitir grande parte de seu desejo. tornou-se tão construído. pela simples razão que ambos ignoram boa parte do modelo que foi impresso e não o reconhecem depois de pronto. e. e. Domesticar significa adaptar às normas da casa (que em latim se diz domus). a qual se vale de uma racionalidade exacerbada. As pessoas começaram aos poucos a duvidar de que o lugar onde vivem seja mesmo real. Antes. Desumano. não tendo contra quem competir. pensando que quer realmente fazê-la bem. que uma crise muito curiosa se desencadeou. educar. é o que veremos mais adiante. medida. obsessivamente.

Pois bem. Porém. Veja que estranho. fez-se um grande esforço para compreender a loucura para medi-la. é que falta dominar. a cada momento. As máquinas funcionam hoje quase como gente. mas da falta de razão. ordenhar uma vaca. Mas o homem mesmo não se sente à vontade na casa que criou. Ele se pergunta: “Sou assim?”. Assim. preferimos dizer que essa espécie de sombra. se é uma interpretação ou se é uma tentativa de enganá-lo.criança podia ver. a realidade começou a perder confiabilidade. organizar e calcular uma última coisa. De repente. A cada ação que você pretende executar. é produto de outra coisa. não da razão. acabará provavelmente descobrindo que faz parte duma indústria da originalidade. a ruptura com a natureza e a fabricação excessiva da nossa vida cotidiana constituem exatamente o êxito completo da construção da casa dos homens. fica sempre a dúvida se não está servindo a um propósito que ignora e que talvez ache abominável. da loucura. para dividi-la em tipos e explicá-la cientificamente. A loucura do nosso mundo é simplesmente o resultado da maneira pela qual o construímos. os fatos começam a vir pelos jornais. depois pela televisão. se o que ouve e vê é assim mesmo. as pessoas quase como máquinas. digamos. E responde: “Claro que não. No começo isso não deu muito resultado. a irracionalidade das relações entre os homens e a irrealidade do mundo cotidiano. a mente humana”. se quer recusar tudo o que está por aí.É verdade que . usando um uniforme de original. a sensação de realidade vinha diretamente desse tipo de experiência: podia-se dizer real como uma pedra ou como uma árvore. Se você quer ser original. Quer dizer. lá pelos fins do século passado.. contudo.. e você tem de se perguntar. Esse retrato que vê no seu mundo parece-lhe absurdo.

a loucura do dia-a-dia permanecia inexplicável e intratável. por descobrir que aquilo que não parecia ser loucura. Tudo se passa como numa história de fadas. A história das idéias é assim: irônica e.surgiu uma classificação das doenças mentais que até hoje é bastante útil. ao abusar um pouquinho mais da sorte. Só nas histórias infantis é que uma pessoa isolada inventa algo que . tudo bem. As Ciências Exatas tiveram de pedir ajuda a uma espécie de primo pobre: a interpretação. Até aí. Em nosso caso. Entretanto. que trata do método interpretativo da Psicanálise. criava o que queria e o que não queria. a interpretação não se soube deter. entende e mostra irracionalidade e loucura onde não se suspeitava que houvesse. Vingança foi fazer ver ao homem que. quando pretendeu dominar uma franjinha que faltava. em matéria de cura. mas que. o projeto de tornar bem racionais todas as coisas. às vezes. E isto quando ele pretendia erradicar os restinhos de absurdo e loucura de seu mundo. Mas. transforma-se em seu contrário. pouco avanço houve. a loucura. Só a interpretação era capaz de abarcar os sonhos. Posta em movimento. Aliás. a vida comum. o método interpretativo acabou tendo de ir mais longe. as emoções. junto com ela. no desconhecimento de seu próprio desejo. um homem se desgraça. ao procurar elucidar a loucura — domínio que se lhe havia concedido —. sendo portanto absurdo para si mesmo. ou quando depois de gozar da maior felicidade. E foi assim que nasceu a Psicanálise. Principalmente. vingativa. a loucura etc. quando depois de chegar ao limite da pobreza a princesa recebe o príncipe e o reino. não era também muito diferente. criou um instrumento capaz de entender e curar a loucura. nem é bom que se detenha. como veremos no próximo capítulo. é certo. Vamos chamar a isto “princípio do absurdo”: quando algo chega ao limite e ultrapassa-o. a atmosfera de Conto de fada não pára aí.

No momento. em Viena. porém veremos ao longo de nosso livrinho. os psicanalistas. inventou um método para interpretar o lado irracional. o lado desconhecido do desejo humano. o método interpretativo — não foi inventada por ninguém. o lado da mente que obedece a regras duma racionalidade diferente daquela da consciência. Foi assim que se dedicou a tratar doentes histéricos — pessoas que sofriam de ataques de angústia. ou melhor. É claro que Freud não estava interessado originalmente. que sua sombra. Ela era a resposta certa para o problema da loucura de nosso tempo. de paralisias ou dores sem causa orgânica (física) e outros sintomas parecidos. de continuar e. acabou por aparecer mais do que devia. Penso que os grandes psicanalistas estão. porque isso aumenta muito a dificuldade que temos.modifica o mundo. no fim do século. se a Psicanálise foi inventada por uma pessoa chamada Freud. ele queria curar doenças. eventualmente. O real começou a ficar um tanto duvidoso e o homem a ver-se. a idéia psicanalítica — isto é. quando o momento estava maduro. Isso. Nossa ciência infelizmente sugere que o impossível aconteceu. malgrado seu. Por assim dizer. Com efeito. Ora. e o faz quase sozinho. apenas desejo que você guarde a idéia central. Digo infelizmente. inoportunos. ao tentar fazê-lo. vir a superar sua obra. começando de novo. esses escorregões de linguagem. cada vez mais absurdo para si mesmo. pois dos sintomas histéricos teve de passar aos sonhos. foi como se puxasse o gatilho do “princípio do absurdo”. quase sempre. em denunciar toda a loucura da crise do real de que há pouco eu falava. O mundo edificado por nossa cultura humanizou-se tanto. Como um médico honesto. no sentido de ser tão fabricado. saiu do lugar onde esta . praticamente só. Pode-se dizer que. Freud. que nos fazem dizer a verdade quando não queremos — e daí à vida mental como um todo. dos sonhos aos atos falhos — por exemplo.

para vir a habitar a ciência que Freud fundou. o termo “psicanálise” tem três sentidos: é o método interpretativo. mas significa também uma forma de tratamento psicológico (ou psicoterapia analítica) e igualmente é o nome do conhecimento que o método produz (ou teoria psicanalítica). com minúscula inicial. até. Então. para saber se é um psicanalista.guardada. como Freud mesmo escreveu. “Psicanálise”. para evitar a confusão. a ciência e seu método chamamse “Psicanálise”. “psicanálise”.O MÉTODO DA PSICANÁLISE O que é que um psicanalista faz? Ele aplica o método psicanalítico. grafo o nome da terapia. mas tentando interpretar algum acontecimento. quer dizer. é importante sim. Talvez não esteja tratando ninguém. que esteja interpretando psicanaliticamente. com o absurdo. Talvez esteja tratando um paciente. talvez um grupo de pessoas. que se revela no acúmulo de armas atômicas ou na proliferação dos atentados. ou simplesmente “análise” . Desde uma notícia de jornal. Pode querer compreender o sentido de um palavrão. e como o método vem primeiro e é o essencial. Na verdade. não? Bem. a terapia denomina-se “psicanálise”. Um pouquinho confuso. Sua missão. disto que o analista faz em seu consultório. uma comunidade. a curiosa tendência atual a desmantelar a casa humana. ajudá-lo a reconciliar-se com ele. de uma piada ou de uma grande obra de arte. uma família. se possível. O que ele estuda não é tão importante — desde que seja um fenômeno humano —. que empregue o seu método próprio. costumo escrever o nome do método e o da ciência inteira com letra inicial maiúscula. e. e consigo mesmo. portanto é apresentar ao homem o absurdo que o constitui e. 2 . no grande depósito das idéias que não são dominantes numa dada época. por exemplo.

um cliente que o freqüenta algumas vezes por semana. no meio do mato. Verá que entenderemos a Psicanálise através da psicanálise. a freqüência das sessões. tendo à frente. porém. em um consultório de bom gosto. com seu paciente trepado no galho da árvore a seu lado. que você se converteu em analista — por artes mágicas ou depois de uns 15 anos de estudo. Para que você entenda o que é o método psicanalítico. Suponha.) Digamos. pelo menos. sentado numa confortável poltrona. porém. Você estará decentemente trajado.. afinal. a terapia analítica. não porque tenha algo contra roupas e consultórios. se as condições sociais fossem outras. porém para que compreenda a diferença entre moldura e quadro. por conseguinte. não há problemas. Dou-lhe essa imagem alternativa. dizemos o que queremos dizer. como com o quadro que você tem na sala. nos jornais e nas discussões públicas. e tudo ficará claro. sempre dizemos “teoria psicanalítica”. dizemos também muitas outras coisas de que nem suspeitávamos. Todavia. Mesmo se alguém diz algo tão simples como “está chovendo”. associações e brigas entre psicanalistas? Pois este é um exemplo da moldura atrapalhando a visão do quadro. emolduram a análise. isso tudo não é realmente importante. deitado no divã. (Você já reparou como. quase que somente se fala das correntes. que você esteja sentado na poltrona e o paciente deitado à sua frente. vou usar agora. Ele estará falando. não é impensável que estivesse nu. é o comum. porque.. Aliás. Isso. ao mesmo tempo. como exemplo. As palavras são traiçoeiras. O divã. refere-se . servem só para sustentar e delimitar aquilo que se faz. é bom que a moldura não seja tão pesada e rococó a ponto de embaralhar a cena retratada. Quando falamos. o pagamento etc.— quanto à teoria.

Há sempre. procuramos diligentemente ignorar tudo aquilo que. Em particular. Na verdade. que seria virtualmente impossível uma conversa civilizada caso não se reduzissem tais sentidos a alguns poucos. não se poderia conversar. portanto fiquemos aconchegados no quentinho”). no entanto. talvez contenha a idéia de uma espécie de vitalidade tal qual a da terra bem regada etc. está visto. procuramos esquecer todo o conjunto de insinuações acerca de nossa convivência (do tipo. “chove. a fim de limitar drasticamente a abrangência do que se diz. “chove. no “está chovendo”. Quero dizer que é necessário um acordo tácito entre as pessoas que se comunicam. é que “está chovendo” não significa apenas que está chovendo. porque é fruto de um acordo ou consenso entre as pessoas que se comunicam. portanto não faz sol”). o fato de que isso foi dito para uma outra pessoa e com alguma intenção conhecida — com alguma intenção conhecida e com várias intenções mal conhecidas. É como se combinássemos: não vamos prestar atenção a. O que é garantido. Esta é uma grande tarefa. são tantos os sentidos simultâneos das nossas palavras. mas comunica simultaneamente uma porção de outras coisas. Sem ela. nos ditos. A tão violenta redução costumo chamar “redução consensual dos sentidos do discurso”. ou chamo-lhe “rotina”. parece que ninguém fala mais . no mínimo. e saberemos já se tinha ou não certo projeto que a chuva atrapalhou. isto é. digamos. para que o resto possa ser bem entendido. quando.a um estado do tempo. o referente externo deste caso (isto é. e nos concentramos no estado do tempo. importantíssima e difícil. Falará com agrado ou com raiva. “Está chovendo” pode ser um convite a que permaneçamos aconchegados num abrigo. refere-se ao interlocutor e não ao referente externo. Você já observou a confusão que se cria numa discussão acalorada. na vida cotidiana. 99% dos significados possíveis do que estamos dizendo. de repente.

Fazer análise é uma espécie de falta de educação sistemática.a mesma língua do outro. Atrás do paciente. e perderia o sentido de conjunto. Como um chato que é. você se pergunta: “Casa. pois. significaria mudança de assunto. riria com ele. A cada momento é preciso explicar: “Não foi isso que eu disse. interessar-se-ia polidamente por cada assunto em separado. da forma que mencionei. É um engano. “. . aquela que afirma que cada dito tem de ser entendido no assunto a que o interlocutor se pretende ater. numa situação cotidiana. de hábito. você estará calado. . mais piada. não foi isso que eu quis dizer.. lembra-se de um sonho etc. Se você fosse uma pessoa bem educada. responderia. Quando. e alargou-se um bocadinho o sentido permissível das palavras. Dá-se simplesmente que. depois comenta um detalhe novo do consultório. ele se surpreenderá . no que ele diz. basta que consiga ouvi-lo de maneira que se vá suprimindo aos poucos a redução consensual ou rotina. por exemplo. ainda que o paciente não o queira dizer. “psicanalíticos”. Ao contrário. você eliminou uma referência consensual importantíssima. sem se deter no que. Para fazer análise. Em outras palavras. Ora. qual é ele e que se diz agora a respeito?”. o que tudo junto me comunica agora? O que quer dizer?”. se você está sentado detrás de seu paciente. escutandoo. foi violado o acordo sobre o tema. Isto se consegue assim: seu paciente conta-lhe algo do que fez ontem. eu quis dizer só que. mais consultório. e comunicá-lo a seu paciente.. perguntando-se: “Se se trata de um só assunto. tosse. talvez pense que deva descobrir sentidos muito complicados. por causa da animosidade dos espíritos. mais sonho. procurando juntar os pedaços da conversa. faz uma piada. conscientemente. perdeu-se um pouquinho do acordo consensual. você descobrir um sentido geral. prestará a máxima atenção às mudanças de assuntos.

como no que concerne à produção da cura. Freud chamava “atenção flutuante”. Portanto. das idéias que nos comunica: os remanescentes da sexualidade infantil. Esses esquemas interpretativos constituem a teoria Psicanalítica. Alguns nomes mais. A esse tipo de atenção um pouco extravagante. Isto é certo. essencialmente foi quebrar os limites que a rotina o dia a dia impusera aos significados do paciente. que viola todas as regras da boa educação cotidiana. a qual norteia as . É plausível que afirme nunca ter pensado nisso e que certa mente não foi o que quis dizer. chama-se interpretação psicanalítica. por exemplo. Outro nome conhecido. Finalmente. ao interpretar. porém não se esqueça de que ele tem razão: com certeza não pensara e menos ainda quisera dizer o que estava contido em suas palavras — você é que o ouviu fora da rotina.muito. Costuma-se crer que a interpretação psicanalítica mostra ao paciente um tipo especial de sentido. Esse termo você já conhece. tanto no que diz respeito à produção de conhecimentos. àquilo que dá sentido ao que se diz e que o limita (“está chovendo” que faz referir-se a um estado do tempo e não. de algum modo. a um estado da relação entre duas pessoas) chamaremos “um campo da comunicação” ou simplesmente “campo”. que através deste livrinho iremos discutindo. o que você fez. os processos de recalcamento e outros conteúdos semelhantes. se quer vir a ser analista e poder conversar acerca de seu trabalho. Considero o efeito de ruptura de campo o processo fundamental do método psicanalítico. através de suas associações. não é mesmo? A comunicação feita ao paciente. Desculpe. Talvez então você sorria com superioridade. mas é importante saber nomear o que se passa na análise. que serve para romper os limites do assuntos que ele pensava poder tratar em separado. isto é: você produziu uma “ruptura de campo”.

quem sabe. desrespeitando os limites dos assuntos que ele pensava abordar. dos sentidos outros que suas palavras contêm. outra é saber jogá-lo bem. Semelhantemente. Quando você escutou seu paciente dessa maneira estranha. como fazer bem a análise. e comunicou-lhe um sentido geral que ele não sabia reconhecer nas próprias palavras. que pode eventualmente ser bem ou mal feito. como este “ser na relação” apóia-se com força sobre um estado afetivo. E há algo ainda pior — ou melhor. estou apenas querendo ensinarlhe a essência do jogo. que mostra quem é ele nesse momento. penso. condições de tempo propícias. pois. que ato é este. bastante surpreendente. Assim. a interpretação. No momento. os quais se cancelam geralmente no cotidiano. constituem a técnica psicanalítica. O cliente talvez reclame de não ter sido compreendido. incluído despercebidamente no discurso (nas palavras do paciente). há normas para bem interpretar. você terá selecionado expressamente aqueles que definem a relação que os dois mantêm no momento. numa emoção. não explicam. a operação de ruptura de campo. não é pensável sequer. ao mesmo tempo em que experimentará uma sensação algo vaga de que o que você lhe disse tem tudo a ver com ele. . ordem precisa em que certas emoções podem ser patenteadas.interpretações. formas preferenciais para a formulação de interpretações etc. entretanto. Uma coisa é saber que jogo estamos jogando.É possível fazê-lo porque tudo o que dizemos e pensamos sempre nos define. Por fim. que é. o que vem a ser a interpretação em si mesma — isto é. Teoria e técnica juntas ensinam. Em conjunto. É que. é provável. o que nos é alheio. e em particular como é ele na relação com você. em algum momento. você terá descoberto para ele como é que se sente. você estará procurando o sentido geral. o resultado terá sido.

e. quer dizer. momentaneamente. Seguimo-las através dos fios. como os pés sobre tapetes. não um relator de idéias. produzindo uma sensação de ter completado algo que faltava. Os muitos sentidos das palavras humanas. sem saber como fazer para pensar. fertilizando-o. Pensava estar contando coisas importantes. Sucede. se faz de terra. o tapete debaixo dos pés do espírito. com uma interpretação. porque o pensamento cotidiano respeita cuidadosamente os limites dos temas. perde os limites dos assuntos de que pensava tratar. E se lhe retirou. o que está fazendo com você. de chofre. para uma inteligência diversa do material. determinando pontos de convergência ou nós. poderiam levar-nos para quase qualquer lugar. chovendo sobre ele. . se a interpretação tiver sido bem feita. mas fazendo brotar lembranças irritantes de humilhações infantis. se a compreensão tiver sido cuidadosa. que durante uma sessão eles se cruzam e descruzam. diria. A essas malhas damos o nome de fantasias. Sente-se estranho. dos assuntos. no entanto. E. mas um não-sei-quê apto a ser fecundado. percebe-se diferente. Estranho? Estranhíssimo. Na verdade. em relação a você. que inclui agora seu “sentido geral inconsciente”. sem saber o que pensar. interpretamo-las ao reconhecê-las. ser-lhe-á difícil negar pura e simplesmente que a interpretação tinha razão de ser. o paciente já não sabe. ouve que está a ser chovido! Como isso parece-lhe tão estranho quanto bem encaixado. É concebível — brinquemos um pouco do jogo analítico — que ao constatar a chuva seu paciente esteja a lhe propor que você é algo assim como uma nuvem. se tomados em conjunto. Então. para onde se encaminham porções consideráveis dos sentidos marginais do discurso. que. apóia-se em campos bem definidos. tal sentido estará de fato contido nos ditos do paciente (a que chamamos “material”). na horizontal. porém.sem o saber. Assim.

Fundamentalmente. ou na situação analítica. manifestam aquilo que denominamos “desejo”. está bem coberto. ainda que de forma indireta. e que ele crê ser sua vontade soberana. junto com seu paciente. o esboço lento do desenho de seu desejo. e poderemos discutir o que isto quer dizer. vai aparecendo a efígie da moeda no papel superposto. interpretando. mas primeiro com a moeda e o papel. que apreende o paciente em relação a seu analista. É ele uma espécie de matriz. sinta e faça o que faz. sugiro que experimente. . como o de ser chovido. o desejo não é visível diretamente — adiante saberse-á que ele é inconsciente. não obstante. de hábito. vai formando. pois. Nesse jogo é preciso algum cuidado. por exemplo — mexe com toda a constituição psíquica do sujeito. aparece algo que. entendeu? Caso não tenha ficado claro. Puro engano. É o desejo que produz nossas emoções. de tanto desenhar como é o paciente em relação a você. que vai mostrando sua face. Seu desenho aparece. por romper o campo da rotina e assim propiciar um espaço em que o desejo se pode mostrar. como a da moeda para a superfície do papel. Tal qual a moeda. nas sucessivas interpretações. o paciente no caso. Aparece aquilo que faz com que alguém. Transferência. uma vez que o desejo. é aquele absurdo a que antes eu me referia. que permite e obriga alguém a possuir certo repertório de emoções e não outras quaisquer. pense. Risca-se e. Esses sentidos estranhos.Nesse estado de confusão. O analista. devagar. surgirá a forma que seu desejo adquire em relação a qualquer outra figura. Tudo se passa como naquele jogo em que se coloca um papel de seda sobre uma moeda. impulsionam nossa mente sem que nos possamos dar conta. Tal tipo de escuta. tendo a você mesmo como paciente e alguém mais experimentado a fazer de analista. O sentimento de ser absurdo — chovido. responde também a um nome bastante conhecido: transferência.

3 . É que o sentido de um conceito teórico está dado. Mas. foram surgindo aspectos diferentes do desejo. uma impressão de se desagregar. há bons textos. tenha isso em mente. sentir-se absurdo sem propósito e sem a expectativa de voltar a recuperar o sentido de si mesmo pode levar à loucura. ao contrário. por sua produção: a teoria significa o processo que a cria e a utilização que se lhe dá. para tratar-se e conhecer-se —. Prefiro. Recomendo que comece com moedas e um pedaço de papel. ele pode tolerar o absurdo provisório. e porque pretende curar-se de sintomas — isto é. a consciência em condição de análise experimenta uma séria angústia. o paciente recupera a si mesmo depois. se . Na análise. no trânsito duma representação de si mesmo para outra (na “expectativa de trânsito”). Esquemas emocionais — como o de ser chovido —.O INCONSCIENTE Não lhe quero mostrar como os conceitos foram criados ao longo da história da Psicanálise. deixar-lhe clara a maneira pela qual os conceitos psicanalíticos são criados constantemente pela aplicação do método. mas desconhecemos. Na verdade. Vejamos. Lendo este capítulo sobre o inconsciente.É uma coisa séria realmente. o sentido de absurdo é provisório. Sentir-se absurdo é muito parecido com estar louco. Quando um analista produziu inúmeras situações de ruptura de campo com seu cliente. ou de não ser nada. é o lado que determina o que somos. de não saber o que é. em grande parte. Por tal razão.. tendo incluído na consciência de si algumas autorepresentações de que antes não dispunha. começando pelos de Freud e seguindo com a introdução de quase qualquer livro sobre a Psicanálise. Para isso. Para tanto há uma forte razão. na expectativa de reencontrar-se ampliado. estudado no capítulo anterior..

o repertório humano é mesmo bastante limitado. Chamamos a isso: teoria psicanalítica. bastará mostrar qualquer um deles. de suas ações e pensamentos. guia que . À constância de certas formas do desenho do desejo humano corresponde então uma formulação geral que os psicanalistas podem fazer.comparados uns aos outros. referindo-se a tipos de emoção. há similitudes de esquemas que se repetem com notável regularidade. a tipos de pacientes. São pessoas que dizem: “E além de tudo. de vários pacientes. por outro lado. mais repetimos certas formas de ser que nos igualam a grupos inteiros de pessoas. vão devagar compondo um desenho característico. E estes dizem respeito precisamente aos aspectos mais fundamentais dos sentimentos humanos. ou às pessoas todas. brincam ou comem por partes. Justamente quando cremos ser mais originais. Mas. organizadamente odiando cada pormenor de quem os ofendeu. Por causa disso. tal desenho é próprio desse paciente. repete-se tanto nos grandes amores. Você se perguntava: se as palavras podem ter tantos sentidos diversos. A forma especial que alguém tem de gostar. Homens meticulosos amam. mastigando cada pormenor. por exemplo. no plano do desejo. como nosso repertório não é tão vasto. dá-se apenas que o ignoramos cuidadosamente. depois de interpretar vários materiais diversos. a forma de gostar é também. Há um guia para as interpretações psicanalíticas. de brincar. descobrimos que. ele ainda por cima me fez isso” — e tal regra emocional vale para qualidades de sentimentos diversos. odeiam. Ora. de comer. a forma de detestar. em particular. um pouco mais abstratamente. como nas pequeninas amizades. Agora podemos entender melhor algo que talvez o preocupasse no capítulo anterior. não. dizer qualquer coisa? Na verdade. saboreando cada mordia. da partida de futebol ao banheiro. Em primeiro lugar.

Tem razão. Que significa haver o inconsciente? Em primeiro lugar. produzimos estranhas histórias que parecem fazer sentido sem que . Há.procede do próprio produto das interpretações anteriores. a que chamamos desejo. sempre estaremos em busca de decifrar algo mais ou menos determinado: queremos completar o desenho do desejo. exatamente aquilo que eu dizia no começo: uma certa forma de descobrir sentidos. mas não estarão também na psique do paciente?”. uma espécie de lógica das emoções humanas bem diversa daquela que as pessoas usam para explicar os motivos de suas ações. nada há de tão cuidadosamente ignorado como o lugar de onde provêm tais regras limitantes. A esta altura você talvez se esteja perguntando: “Essas regras que compõem o desenho do desejo e que vão orientando o trabalho de decifração psicanalítica. os psicanalistas afirmam que há um lugar hipotético donde elas provêm. Veja os sonhos. Ou seja. e você já deve ter desconfiado que tal lugar é o inconsciente. Estão. isto é. no sentido de limite. de fato. só que ao contrário: lá se cifra o que aqui deciframos. estão sim. há uma matriz para nossas emoções. da mesma forma que uma máquina de estampar tecidos só produz certo tipo de desenho. compreendo que estejam na cabeça do analista. Quer se trate do desenho deste paciente em particular. É como se supuséssemos que existe um lugar na mente das pessoas que funciona à semelhança da interpretação que fazemos. típica da interpretação psicanalítica. tendo descoberto uma espécie de ordem nas emoções das pessoas. Aliás. por exemplo. Dormindo. quer saibamos de antemão certas características teóricas próprias desse tipo de emoção que experimenta ou do tipo de pessoa que é. que nos limita a cumprir com certas regras emocionais.

Outro processo. como se dissesse. em parte. coloca erradamente o acento tônico (emocional. Tomava as várias partes de um sonho. significa isso e aquilo ao mesmo tempo.saibamos qual. chamado deslocamento. simplesmente porque parecem anunciar algo. ao contrário da interpretação. uma pessoa. Um detalhezinho do sonho aparece.. ele descobriu algumas regras da lógica das emoções que produz os sonhos. aos acontecimentos do dia anterior. Não. um quarto. como um estudante desatento. Vejamos as mais conhecidas. Com freqüência. seu ou alheio. criando um drama diverso do que deveria narrar. e fazia com que o sonhador associasse idéias e lembranças a cada uma delas. Chegamos a pensar que nos anunciam o futuro. não é uma história contada com palavras. reside na forma final do sonho que. quando da interpretação. partia do princípio de que eles diziam algo e com bastante sentido. se revelarão secundários. Igualmente. Digamos que o sonho. Porém. Um terceiro processo de formação do sonho consiste em que tudo é representado por meio de símbolos e. porém uma cena visual. é claro). realmente importantes. Essas e outras propriedades da linguagem onírica (Onírico = do sonho) constituem os mecanismos de formação dos . Decidiu interpretá-los. querer comunicar algum sentido Freud tratando dos sonhos. Chama-se este processo condensação. Sua técnica interpretativa era mais ou menos assim. Foi possível descobrir assim que os sonhos diziam respeito. como o elo fundamental. embora se relacionassem também com modos de ser infantis do sujeito. o futuro. e ele explica o porquê de qualquer interpretação ser sempre muito mais extensa do que o sonho interpretado. representa várias figuras fundidas. na interpretação.. uma figura que aparece nos sonhos. é o dar o sonho uma importância emocional maior a certos elementos que. negando-se àqueles que se mostrarão. Ésquilo por esquilo. uma situação.

por fim. Pois. cujo sentido é obscuro. os mecanismos para criá-la não são outra coisa senão o inverso daqueles que usamos para resolvê-la. Se. se a fosse o de volta. tal como: “Eu queria ter isto ou fazer aquilo”. atribui-se ao inconsciente — são os processos psicoprimários. são a medida da transformação de um texto em outro. “Isto realmente não aconteceu”. não é? O inverso do processo interpretativo. transformamos a linguagem visual do sonho em palavras. por conseguinte. “A culpa do que fiz não é minha”. é natural que cada figura possa condensar várias figuras. Mas — preste atenção! — como conhecemos tais mecanismos? Do conjunto de associações que partem do sonho. só nos resta dizer que o sonho havia transformado as palavras do conteúdo latente nas imagens do conteúdo manifesto. bem. Simples. ao interpretá-lo. realizou “deslocamentos”. em oposição àquilo que o sonho efetivamente mostra. que é seu “conteúdo manifesto”. ou simbólico. segue-se que o conteúdo manifesto acentuou diferentemente — em relação ao conteúdo latente — tais valores. onde certas regras lógicas permitem transformar uma frase noutra. são o que traduz o conteúdo latente em conteúdo manifesto. todo sonho é uma tentativa de realização do desejo.sonhos. Os mecanismos oníricos. até que o charadista a mate. Se nós fizemos associações ramificadas a partir de cada elemento do sonho. o intérprete retira um sentido que lhe parece razoável. . o caminho de ida. mostrará uma história que contém um anseio satisfeito. portanto. este o exibia falso. Para Freud. Uma charada. por oposição aos da consciência. A história reconstruída pela interpretação chamase “conteúdo latente do sonho”. A interpretação. “Vejo-me assim” etc. Se cremos ter encontrado o sentido verdadeiro do sonho. e para nós. tantas pelo menos quantas tivermos associado. como na charada. Se descobrimos assim um outro valor afetivo para o sonho. os processos psicossecundários.

é possível que acorde.. Em que forma existem. o que viria prejudicar outra necessidade. uma charada que se inventa para resolver? Não. mas é o máximo a que podemos chegar. por certo. uma fonte de motivos que explicam o que de outra forma ficaria pouco razoável — como o medo de baratas ou a necessidade de autopunição. Dele só sabemos pela interpretação. Eu posso não saber exatamente o que é a fome fisiológica. tais como fome. Ora. mas sei bem o que significa sentir fome.. não se sabe ao certo.) Essas forças ou pulsões representam as necessidades do organismo humano e de seu psiquismo. Todavia. sei. supomos que opere na mente das pessoas. que significa “adição ao conhecimento” ou “curiosidade de saber”)etc. (Não é dizer muito. seja assim ou assado. se eu sinto fome durante o sono. no entanto afirmar que. Teoricamente. supomos que haja uma série de forças impulsionando a vida mental. para que servem os disfarces do sonho? Os psicanalistas pensam que têm bastante utilidade. são hipóteses teóricas. a de . Inconsciente é o nome que se dá a um sistema lógico que. pois. imaginamos que sejam forças que operam de permeio entre o físico e o psíquico. sem. se não é por puro amor à charada.Será tudo apenas um brinquedo. Entretanto. curiosidade (diga “epistemofilia”. e já veremos por quê. Apenas você deve compreender que o inconsciente psicanalítico não é uma coisa embutida no fundo da cabeça dos homens. em si mesmo. Porém. Dessas pulsões quase nada sabemos. por necessidade teórica. elas se fazem representar na vida mental por uma espécie de corpo diplomático — os representantes psíquicos da pulsão — que induz a psique a satisfazê-las. se quiser surpreender os seus amigos com uma palavra difícil. sexo.

se não houver quem lhas impeça. a preguiça o diga. ligados a outra representação ou idéia. Os afetos passam. então sonho que como e me engano por algum tempo. portanto. Não se representam. Desejos de tal monta. porém nem por isso desaparecem — em alguma parte do coração temos sempre 20 anos. as criancinhas têm vontades desse tipo. Daí a utilidade dos processos de formação do sonho. na fase adulta já não pode mais nem ser pensado. De um fado. ela não permite que cheguem a ser representadas cons cientemente as pulsões muito contrárias ao conjunto da vida mental duma fase qualquer da vida. não obstante. Pode suceder. A repressão. À proibição de se representar conscientemente uma pulsão denomina-se repressão: se ela é muito completa. mas as necessidades de manutenção pessoal ficariam muito contrariadas com tal regime. ou porque contraria outros impulsos mais importantes. 5 ou 6 meses de idade. agressivos e outros. feririam os pudores da consciência — além de ferirem outros sentidos que não o estético —. há uma censura interna que lhes proíbe o acesso à consciência. e infelizmente as realizam. contrários frontalmente às aquisições duma boa educação. Não se espante. como o de redecorar a sala de visita de casa com uma pintura de fezes.repouso. pois . o prazer ou o desprazer ligado à representação não dá para sufocar. De forma análoga são censurados certos desejos sexuais. a psique lança mão de um truque. que me ocorra um desejo menos aceitável. têm de ser disfarçados. em outras partes. Muito daquilo que nossa vida infantil permitia. recalcamento. contudo. Seria ótimo viver de brisa. simbolizados. segundo Freud. ou porque viole as normas de socialização. impede que a idéia (ou representação) dum impulso aceda à consciência. Para conjugar tendências tão opostas. Só que passam — e aí está o truque — disfarçados.

Como o afeto não o pode ser. os sintomas neuróticos (que veremos à frente) funcionam pois como válvulas de escape para o reprimido. num sintoma. Alguns deles não se podem realizar. Cuidado. “. ao negar de muitas maneiras diferentes a mesma coisa! Vamos rever esse esquema teórico. E os impulsos autodestrutivos. cheira menos mal — é compatível.. pulsões obstadas e a censura que as proíbe. Ou então. representa impulsos autodestrutivos inconscientes. Modificou-se o fim do impulso. Mais do que isso. mas isto não é isto. como se se manifestasse em outra idéia. o bichinho. nem sou eu que o quero. o processo de encobrimento é apenas o reverso do processo de interpretação. Ora. pois. Esparramar as fezes pela sala é incompatível com uma pessoa bem educada. Será certo . pintar um quadro — por mais feio que seja. fundindo. o impulso aparece menos disfarçado — todavia disfarçado ainda — num sonho. os atos falhos (a que já me referi).. mas disfarçado. Há pulsões (ou impulsos). O inconsciente. mais sublime: denomina-se isto “sublimação”. nem se representam conscientemente. numa mesma idéia. ela fica bem explicável. sempre se pode dizer que este. se alguma coisa parece irracional. Os sonhos. pois contrariam o equilíbrio da vida mental. São verdadeiras obras de arte. Como se os sonhos dissessem: “Quero isto. depois de interpretada. este aparece. gerando desprazer. é uma interpretação ao contrário. é até meritório. num ato falho. Já que a mente tende ao prazer. Se alguém teme um bichinho inofensivo.despertaríamos desgostosos caso tivéssemos contato com as idéias originais. transformado em algo mais elevado culturalmente. a idéia que os representa é recalcada. por assim dizer. Logo. Entendeu? Decerto só ficamos sabendo de tudo isso através de interpretações. é justo temê-los.

entretanto. é manter a proporcionalidade entre motivo e ação. da proporção entre motivo e ação. Se os motivos não me ocorrem. O método psicanalítico não se vale da lógica cotidiana. Além disso. fê-lo seu pai ou tio. para a Psicanálise. há muitas pessoas que pensam que a Psicanálise é bem isso. Nem que. como faz o homem preconceituoso. Eu fiz isso assim porque tinha motivos. mas uma lógica diferente. para tanto. Pois. As pessoas comuns costumam explicar o que fazem da seguinte maneira.pensar assim? Bom. como se costuma dizer. parte da noção de que há sempre inúmeros sentidos. tenhamos de inventar motivos inconscientes ou atribuir qualidades e defeitos aos outros. que justifiquem minhas idéias e ações. lógica das emoções ou lógica inconsciente são nomes da mesma coisa: mostram o como. O importante. ou pelo menos você poderia tê-lo feito etc. Senão. exatamente como não é. dá-se algo curioso com a teoria . tanto o que é incompreensível quanto o que é bem compreensível à luz da vida cotidiana merecem igualmente que se interprete. é possível que sejam motivos desconhecidos. Não a lógica superficial do que já foi concebido. não muito. e o resto? O inconsciente não é um sistema de explicações para o inexplicável. não se detém no porquê. como já vimos. Freud sempre explica. Tais explicações justificam. o porquê duma idéia ou ação. Lógica da concepção. (Se você não o fez. a lógica da concepção. A interpretação psicanalítica visa demonstrar o processo que torna possível uma idéia ou ação. inconscientes. e há outras pessoas que a xingam por ser desse jeito. Contudo.) Nada mais diferente dessa psicologia motivacional primária do que a Psicanálise. Por essa última razão. a interpretação. e não um só sentido verdadeiro. a maneira pela qual nós as concebemos. Por que só o irracional haveria de ter motivos inconscientes. você vê. quando ela já se deu: são racionalizações.

é de se esperar que ela saia modificada na outra ponta da interpretação. 4 . por exemplo —. arrisca-se.O APARELHO PSÍQUICO Se você entendeu o caminho ou método pelo qual o inconsciente se descobre e a utilização legítima da teoria psicanalítica. por conseguinte. Chamo a isso “princípio de risco” do processo interpretativo. A teoria. No mínimo. Por isso. de que algo novo surja. se se especifica ou é corrigida. a prática analítica é o ponto de fusão de sua própria teoria. Sempre estamos à procura de outra coisa. que a interpretação foi teoricamente indiferente — conquanto talvez até possa ter sido clinicamente útil. Se a teoria se modifica. preferimos usá-la para não explicar nada. porém como uma atividade teórica muito perigosa e radical. aí sim penso que se tratou duma interpretação teoricamente significativa. é claro. quando se usa uma teoria psicanalítica para interpretar. se sai igual. de cada vez que a empregamos de forma legítima na prática analítica. mesmo que seja uma teoria tão respeitável como a do complexo de Édipo. Caso contrário. Essa possibilidade sempre presente de dissolução da teoria faz com que devamos considerar a prática psicanalítica não como conseqüência simples das nossas teorias. Com efeito. direi que apenas encontramos o que já tínhamos colocado. a não ser o próprio processo de concepção. Ela poderia explicar quase tudo. estamos abertos a que a prática a refute.psicanalítica. Assim. podemos passar agora ao exame das teorias do aparelho psíquico e da libido. se uma teoria qualquer entra no começo duma interpretação concreta — feita a um paciente. Aliás. . estamos sempre procurando refutá-la.

da máquina espiritual de pensar. nem respeita os limites das convenções a respeito deles. sentir ou agir por causa dos efeitos que visamos obter. Nós todos temos muitas explicações a dar sobre as razões que justificam o que fazemos e sobre a ordem que há no que pensamos. Pois bem. nada sabemos dizer. Poucas certezas há. Com efeito. ou mesmo mais abstrato. precisamente. experimenta rompê-lo. fazemos uma atribuição indevida. social. seu aparelho psíquico. deveria principiar pela distinção. quanto aquela da existência dos indivíduos humanos: eu. Sempre que se lhe antepõe uma divisão bem estabelecida. em sua consciência. agir. ao estudar o mais individual de todos os atributos do indivíduo. É como dizer: meu carro anda por causa do lugar . aquele que não pode ser dividido?” Mas a teoria psicanalítica do aparelho psíquico começará justamente por aí. já estabelecida páginas atrás. dividindo-o e mostrando que ele não se centra onde pensava. a Psicanálise. talvez sejam elas a psique humana. Talvez as obras humanas contenham seu próprio psiquismo. são referências naturais de toda sentença. de ações. uma teoria geral do aparelho psíquico. Pois o termo “indivíduo” não evoca indivisível. entre lógica do concebido e lógica da concepção. a Psicanálise ameaçará romper a unidade individual. afirmando que chegamos a pensar. No máximo. em seguida. confunde um pouco os limites estabelecidos. embora comece a investigar o aparelho psíquico em pessoas distintas. mais até que as pessoas isoladas. você. a respeito das razões e ordem de concepção em si mesma. de forma que o psiquismo poderia ser também coletivo. da concepção que nos faz grávidos de sentimentos. sentir. ele. e talvez até mais escandalosamente. é onde.A Psicanálise não trata de fatos materiais. de idéias. que tão fortemente estejam calcadas em nosso espírito. E. ela deve perguntar: “Em que campo tal distinção se assenta?”. na vida comum. Também. porém.

não se pode limitá-la arbitrariamente aos indivíduos isolados: há idéias e ações sociais. menos o próprio processo de concepção. onde tudo começa. Disso ninguém duvida. pelo menos no tocante à sua — que haja a dos outros. Há a consciência. nem se esquece. é consciência. comecemos com as pessoas comuns. desconfio que me está tentando enrolar. só há esquecimentos onde pode haver memória — o inconsciente não se lembra. Nós a conhecemos. no interior delas e não só no dos seus autores. A consciência é um desses entes difíceis de definir. A razão dessa falácia é muito simples. A memória é consciência e só há memória de fatos mentais conscientes. e mais. o nome pomposo de falácia teleológica. a Psicanálise interessa-se por todos. entretanto. ou melhor. numa palavra. Se você disser: “Estou sofrendo um terrível sentimento inconsciente de culpa”. (Por outro lado.) Tudo o que se concebe. o inconsciente psicanalítico a ela pertence. há concepção nas obras mesmas. por outro lado. felizmente. O princípio básico do funcionamento mental. mas centra sua atenção na questão dos conteúdos muito carregados de afeto. engano (falácia) por confundir origem e eficiência com finalidade (teleologismo). Como ficou sabendo disso? A percepção que temos do mundo é consciência. não requerem definição. . isto é. é sempre um problema delicado. inclusive a dos sonhos e devaneios. Acontece que a lógica da concepção é inconsciente. dos filósofos. Ao investigar os processos de concepção. Todavia. de prazer ou desprazer. porém tudo aquilo que conhecemos é consciência. não a conhecemos. mas que. são consciência. as lembranças. há significados que abrangem toda a humanidade. Para compreender mais facilmente o aparelho psíquico.aonde quero ir — erro que recebe.

suas representações permanecem ativas para sempre. “Pré-consciente” chama-se o lugar onde. Nem tem sentido pejorativo. segundo Freud. Estes podem estimulá-las. que impede certas idéias de emergir. há uma espécie de entrelaçamento entre certas representações (ou idéias) e núcleos ou complexos inconscientes. não sendo conscientes. o ato de escrever for excessivamente carregado com libido (ou “energia sexual”). das pulsões sem representação consciente. portanto. provocando as maiores confusões — se. como o sistema inconsciente desconhece o tempo e o esquecimento. alguém poderá sentir vergonha de escrever em público como se fora um exibicionista tímido. todavia. teoricamente. há energia pulsional livre e representações que podem ser carregadas com essa energia. inibi-las. fazê-las penosas ou agradáveis. por exemplo. nem há razão para se dizer que fulano está “complexado”. que é o pré-consciente. No inconsciente.segundo Freud. estariam as representações que. na Psicanálise. Sempre estão a jogar entre si. As idéias recalcadas. “complexo”. bastando para isso que o sujeito se interesse por elas. Entre o inconsciente e a consciência medeia um outro sistema psíquico. usando como moeda a energia livre do sistema inconsciente. À medida que nossa vida consciente se desenrola. não ficam inertes. além de influírem no funcionamento da consciência. podem vir a sêlo. é o lugar teórico das representações recalcadas ou daquelas que nunca puderam chegar à consciência. é o de evitar desprazer. significa simplesmente um conjunto complexo de idéias carregadas afetivamente — como se diria um “complexo industrial”. Inconsciente é também o próprio processo de recalcamento. É o . Nós já vimos que idéias capazes de gerar desprazer ou dor psíquica são impedidas de emergir à luz da consciência. O inconsciente.) E mais. (A propósito.

mas toma em conta as funções que a psique perfaz e as estruturas por elas responsáveis. O modelo é simples. O que lhes é essencial. por assim dizer. id. no máximo. é. porém. pese sua inegável utilidade. é que já se exprimem por palavras. o inconsciente trabalha só de acordo com o princípio do prazer-desprazer. onde há o recalcamento. mas não demais. sobretudo quando se quer entender os diferentes tipos de lógica operantes em nossa mente. Os sistemas possuem características lógicas diversas ou. conjuga esses três sistemas: consciente. esse modelo é apenas isso: um modelo. ou segunda tópica (de topos = lugar). O id — que nas palavras-cruzadas tem como conceito: “substrato instintivo da mente” — é exatamente assim: uma . que Freud mesmo criou outro modelo do aparelho psíquico. pré-consciente e inconsciente. A consciência toma em conta a realidade consensual. como uma espécie de máquina de reduzir tensões mentais. acesso fácil ou mais difícil. do guardado. também claro e útil. Um dos esquemas de funcionamento da psique. um tanto incômodo. como se diz também. muitíssimo útil e prático. princípios diversos de funcionamento. daquilo que é. Porém. Este segundo esquema.lugar do esquecido. Tanto é verdade. enquanto que os conteúdos inconscientes encontram vedado precisamente esse passo básico para chegarem à consciência. porque o excesso de tensão é experimentado como desprazer. por conseguinte. O processo de relegar uma idéia ao pré-consciente chama-se “repressão”. A verdadeira barreira da censura está. menos “forte” que o recalcamento. superego. Você talvez já conheça os nomes dessas três estruturas psíquicas: ego. pois. não se funda na disposição dos conteúdos mentais em relação à consciência. entre o pré-consciente e o inconsciente — pois os conteúdos do primeiro ainda mantêm acesso à consciência.

Dessa forma. Seus conteúdos são os representantes psíquicos das pulsões. O ego é a sede de quase todas as funções mentais. Aos poucos. o contato com as pressões da realidade iria provocar uma espécie de organização secundária da periferia do id.espécie de substrato. nesse sentido. é fácil compreender que o id é a instância original da psique. Para realizar essa tarefa ingrata — ingrata para o ego —. nada mais é do que uma parte bastante diferenciada do ego. que serão visitados por nós quando estudarmos as neuroses. Há funções inconscientes do ego. Toda a consciência cabe ao ego. ele se baseia nas normas morais que se fixam a partir dos primeiros anos de vida. que se responsabiliza portanto pelo contato com o ambiente. com a realidade externa. os famosos mecanismos de defesa. para saber quando exatamente se forma o superego — para nós ela não é importante. é um simples feixe de funções: percepção. etc. que seus interesses separam-se daqueles do ego e podem se lhes contrapor. Por conseguinte. como seus critérios são . Mas o ego não é só consciência. fazendo que parte de tal massa indiferenciada se estruturasse — mais ou menos como a crosta dum pão que está assando. também tem seu pé na cozinha. se o id é puro inconsciente. puro id. Há uma pequena discussão. juízo (ou julgamento do que é real e dos fins a perseguir) etc. seja os que nunca chegaram a se tornar conscientes. A terceira instância ou estrutura psíquica. de onde provêm as pulsões. como todas as boas famílias. proíbe o resto. O ego. estimula o que se deve processar. para Freud. Tão diferenciada. o superego. todavia. seja os que foram recalcados. A essa casca organizada dá-se o nome de ego. entre os psicanalistas. o ego liga-se estreitamente ao sistema pré-consciente-consciência. Ao nascer. O superego é uma espécie de censor das funções do ego. o indivíduo psicológico seria. mas. atividade. basta observar que.

Tratase de um acordo de compromisso: o superego fecha um pouco os olhos. quando tudo vai bem. a pedir passagem. a condenação do superego irá se expressar sob forma de dor psíquica. No funcionamento adequado do psiquismo. o ego vê-se prensado entre exigências impossíveis de serem inteiramente satisfeitas. mas não é um bom juiz. O superego age como uma consciência moral e. a serviço dos fins das pulsões. Por isso. autorizado pelo superego. é fundamentalmente inconsciente e bastante imoral. Para poder impedir que uma pulsão penetre na consciência. representada conscientemente e posta em ação. o juízo moral do superego é freqüentemente primitivo. Felizes? Nem tanto. Se o acesso da pulsão é inteiramente proibido. tão esquemáticas. que domina o inconsciente. no entanto. esta continuará a insistir. transforma em pensamentos conscientes. Às vezes proíbe coisas que o ego mais desenvolvido poderia fazer com perfeito sucesso. o ego acaba por barganhar: aceita parcialmente a pulsão. necessitam usar um tanto de energia para se opor. Se a pulsão é aceita. O id supre energia pulsional. o id cede quanto à forma. projetos. para dele . sentimento de culpa. só porque não o poderia ter feito nos tempos de sua origem. Mas onde encontrá-la? A solução é tão elegante quanto insatisfatória. disfarçada. que o ego. ações. porém. eis o paradoxo. Diante de uma pulsão do Id que o superego desaprova. nem sempre se diferenciam. o recalcamento em particular.fundados em normas muito precoces. os processos defensivos egóicos. angústia. E necessário enganar o princípio do prazer. chocando-se com as aquisições mais elevadas do ego. Essas três estruturas. É um juiz. É só quando eclode um conflito que se fazem realmente notar as discrepâncias entre as estruturas. formam antes um todo harmonioso. e todos ficam felizes. porém modificada.

você sabe. Para dissipar um pouco a impressão de esquematismo rígido. cede energias para contrariar seus próprios fins pulsionais. Pois bem. na verdade. Diante de uma pulsão proibida. No fim. E se tanto pode mudar o interesse sexual. carregados dessa energia. E o id. conseguida com um truque que envolve angústia. Modelos são sempre ingratos. Libido. Basta então ativar os mecanismos de defesa. que é que se satisfaz (ou não) em formas tão diversas? Resposta: a quantidade de energia sexual. portanto. são formas muito secas de pensar. ego. seja lá o que isso signifique. definido para você o modelo estrutural — id. enganado até certo ponto. todos ficam mais ou menos insatisfeitos — mas o que se há de fazer. pois satisfeita de um . é a arte do possível. porém. mas também variam as maneiras pelas quais se satisfaz a sexualidade. é o nome usado por Freud para designar a energia sexual. Como podemos conhecê-la. o ego aciona uma espécie de alarma. Para nós. em relação ao desenvolvimento da libido. vale a pena tratar de imediato da origem dessas instâncias. a política mental. Para efetivar esse truque. sempre que tal tipo de pulsão se lhe apresenta à porta. como se vê. dói.mesmo retirar forças que se oporão à sua satisfação. entretanto. superego — e exercitado com este exemplo de conflito padrão. um pequeno sinal de angústia. cuja satisfação daria prazer se o superego não se opusesse. Como se dissesse ao id: veja como isso que parece bom. Disso sabemos todos. ficará provavelmente a idéia de uma espécie de organograma de empresa: certos departamentos responsáveis por tais ou quais funções. se energias mentais não são mensuráveis? A questão está longe de admitir uma resposta simples. basta considerar que a sexualidade sofre transformações: o objeto de interesse sexual varia bastante ao longo da vida humana. pelo menos. há que convencer o princípio do prazer de que sucederá dor.

Surge o ego. decerto. A primeira fase da libido caracteriza-se por esse tipo peculiar de satisfação. interessa-nos mais. o que conhecemos pelo nome tão difundido de “narcisismo”. primeiro como um feixe embrionário de funções — tais como motilidade. primeiro para a mãe. por exemplo. esse reservatório indiferenciado de pulsões. quero apenas que você guarde a idéia de um equilíbrio. todavia. entre quantidades de libido dirigidas a objetos externos de amor e . da energia ligada às pulsões alimentares. estruturas mentais outras que o id. ao contrário. porém. Chupando o dedo não se alimenta. para Freud. Acontece então que o próprio ego se torna objeto de libido. seguindo-se depois toda a série de escolhas sexuais que veremos no próximo capítulo. digamos. de interesse amoroso. em que o objeto sexual é ainda o próprio corpo infantil: o “autoerotismo”. para a Psicanálise. A libido então se voltará para objetos externos de amor. percepção. é a energia que pode experimentar os maiores desvios e contra tempos em sua utilização. que ademais seguirá pela vida afora. Não por ser a única. erótico. que é como em latim se diz desejo. nem há. juízo de realidade —. o psiquismo começa a organizar-se. Logo em seguida. mas por ser a mais complicada. consegue algo assim como um suporte para suas fantasias de estar mamando — engana a fome e a si mesmo. Por ora. que se expressa no ato de chupar o dedo. depois como uma estrutura bastante coerente. O bebê que se alimenta retira do ato de sugar um prazer a mais. Por isso.modo qualquer. observa-se uma diminuição da necessidade de satisfazê-la de outro. nos começos da vida mental. A tal constante nas mudanças Freud chamou “libido”. Inicialmente. Na fase de auto-erotismo não há objeto externo. A libido. a libido aparece como um “algo a mais” ligado às funções de nutrição.

só aceita essa desilusão ao preço de identificar-se com os aspectos mais proibitivos das figuras paternas. que se resignou a não ser objeto sexual dos pais. No conflito por causa de um impulso proibido. leva ao aumento do investimento libidinal do ego. mas. É um equilibrista. que se encarnam numa parte especializada do ego. com a profissão etc. Será vigilante. por igual. seguirá doravante dizendo muito mais não do que sim.quantidades voltadas para o próprio ego. sem dúvida. faz diminuir tal investimento. Desde sua origem. Também isso se verá melhor no capítulo seguinte. vimos bem como se faz para burlá-lo. as instâncias psíquicas jogarão entre si um jogo de pequenas e grandes burlas. e como todo vigilante exigirá que se lhe engane a atenção. exigindo que o amor que o ego perde por si mesmo seja compensado por uma retribuição provinda do objeto. Uma decepção com os objetos externos. . Será o modelo da aceitação social. Isto é normal. o superego. é suficiente reter que a criança. ao contrário. No indivíduo normal ou passavelmente neurótico. lutando entre si quando fracassam as tentativas do ego de harmonizar-lhes as exigências. do conformismo às normas externas. com a pessoa amada. uma paixão. um objeto muito estranho. Dos amores do ego. No momento. quase que não se distinguindo uma das outras. Ele está dividido a serviço do id. Essa parte. dando amor a troco de obediência. do superego e das exigências do mundo externo. vê-se então. não é apenas um feixe de funções. à lei do castigo. fonte de interesse pelo mundo e receptáculo de amor. Pois o superego nasce (sempre para Freud) como um herdeiro da resolução do complexo de Édipo. mesmo a exigências extremamente irracionais. um departamento empresarial. o superego. É preciso ter pena do ego. O ego. tendo como prêmio a saúde mental: quando tudo vai bem. o caso mais desesperançado é.

como comportam um quantum de satisfação erótica ou de negação dessa forma de prazer. . Há libido investida em todos os atos psíquicos. de uma ou de outra forma. a extensa teorização que dela os psicanalistas fizeram. e em especial à reprodução. mas o de que toda a vida é vida sexual. procriar. Tenhamos pena do ego. Antes da Psicanálise. 5 . mas respeitemos suas manhas. Simplismo. este se alarga demais. todos os movimentos vitais tanto tendem à conservação do indivíduo. Por vezes. O sentido forte do alargamento da noção de sexualidade não é o de que toda a vida é um derivado da sexualidade. como o conjunto de atos ligados à relação sexual ou coito. sobra ao ego habilidade para jogar com as forças tão discrepantes das pulsões. é claro. considerava-se em geral a sexualidade. da realidade externa. nem há de ser tão amplo e geral que se descaracterize. de forma algo restrita. Não pode ser tão estreito que não cubra todos os fenômenos correlacionados. você pode compreender facilmente como deve ser importante definir com toda a exatidão o conceito de sexualidade. produzir a civilização e suas obras.contudo.A SEXUALIDADE I Se a libido desempenha o papel de motor de inúmeros processos psíquicos psicanaliticamente relevantes. foi o ponto de partida para um alargamento radical do conceito. E ainda lhe sobra habilidade para construir a vida. A descoberta freudiana da sexualidade infantil. da censura do superego. no sentido estrito: isto é. Pareceria que todos os sentimentos que se pudessem vincular ao amor (ou ao ódio) seriam “sexuais” pela única razão de se poder derivá-los interpretativamente de diferentes destinos do amor sexual.

como ela o chamava. tudo está para ser engolido ou. eventualmente. Melanie Klein e sua escola estudaram profundamente essas primeiras relações de objeto. há uma modificação profunda nessa atitude passiva. como o eixo de todas as bondades possíveis: é alvo de uma paixão que não encontra paralelo na vida afetiva posterior. um período oral-receptivo e outro período oral-canibalístico ou sádico-oral. Uma das descobertas fundamentais da Psicanálise freudiana foi a sexualidade infantil. A atitude dominante do sujeito nessa fase consiste numa relativa passividade. rejeitado. Primeiro é a fase oral. tanto representa o modelo de toda boa relação subseqüente. quase sem antecedentes. dilacera. Também não há noção que distinga o si mesmo do outro: o seio materno (ou seu substituto) é considerado como parte do sujeito infantil. Compreendê-lo fica mais fácil quando se pensa no desenvolvimento infantil. O prazer está então vinculado essencialmente à recepção dos alimentos. que vimos ligar-se à amamentação. Aquela satisfação extra.Por esta razão diz-se que a mente e sua evolução individual é um processo psicossexual. de fato. Durante a fase oral. predominam sentimentos muito violentos em relação ao objeto de amor (o seio materno). Já com o aparecimento da dentição. O seio bom. Daí que se distinga. vai modificar-se grandemente até chegar à forma que costumamos reconhecer da sexualidade adulta. Mostraram que o seio nutriente é experimentado. como é também o núcleo do . O que Freud descobriu. como a de uma boca aberta para engolir o mundo circundante. na fase oral. pelas fantasias infantis. onde se pensava haver um aparecimento súbito. desde a infância até a maturidade. mastiga. durante a puberdade. foi uma linha de continuidade sexual. pois a criança adota uma postura mais agressiva: morde. brusco e inesperado.

a experiência de sentir fome. É verossímil que as primeiras experiências mentais sejam muito fragmentárias. é um seio mais ou menos. bastando que se introjete um seio bom ou um seio mau. É como se houvera dois objetos e dois egos. O objeto primeiro é assim louvado ou atacado ferozmente. ao contrário. Naturalmente. sem que haja possibilidade alguma de conceber unificadamente esses dois elementos polares da vida mental — que só para o observador coincidem no seio materno. Introjeção será o contrário. A isso chamamos “cisão”. bons e maus. Entende-se por projeção a tendência a atribuir certas qualidades do sujeito a seu objeto. que só conhecem emoções extremas. se falassem. é ódio puro.desenvolvimento do ego infantil. uma linguagem que exprimisse tais extremos . um inferno sem atenuantes. você compreende. um engolir psíquico. num dado momento. sem que o seio materno acorra para aplacá-la. O ego infantil. irreconciliáveis. ou que. por seu lado. nós não os entenderíamos. O entrejogo de tais mecanismos faz com que. claro está. lampejos de consciência ainda desconectadas entre si. A relação entre o bebê e o mundo dá-se principalmente através de um par de mecanismos chamados “projeção” e “introjeção”. é apenas uma tentativa de compreensão. nós não o podemos saber com certeza: os bebês não falam. Por outro lado. com características diabólicas. Quais são exatamente os conteúdos mentais das criancinhas. pelo qual partes ou qualidades do objeto são internalizados pelo sujeito. este se transforme em seio péssimo. e. Dominam então processos mentais bastante simples e um tanto brutais. e são dois os lados na psicanálise kleiniana. também pode oscilar entre os mesmos extremos. em fantasia. Ora. O que não existe. tudo o que haja de bom ou aprazível na vida mental seja propriedade do seio idealizado (muito bom). esse modelo do pensamento infantil da fase oral.

projéteis perigosos. veja. a dura descoberta de que o seio adorado e o seio odiado são um e de’ que este é parte duma totalidade pessoal chamada mãe. Pelo ângulo da evolução da libido. segundo Melanie Klein. A fase anal é o momento da evolução infantil onde cobra importância o dar. Junto com a posição depressiva. Daí para a frente. que servirá de base a todas as vivências depressivas posteriores. A criancinha é recompensada por evacuar em hora e local devidos. reter. já não é tão puro. será o reconhecimento do “objeto inteiro”. estamos ainda tão-somente no começo do segundo semestre de vida pós-natal. chama-se a esse momento “posição depressiva”. especialmente. o esforço por um bom comportamento. punida por não o fazer. acompanham-no todos os estímulos e sanções que a sociedade utiliza para . vale dizer. muito da nossa vida mental terá por meta consertar. pois que a criança capacita-se de ter atacado com ódio precisamente sua mais preciosa fonte de vida. proteger. expulsar. Fezes são de início muito mais do que uma sujeira a ser escrupulosamente escondida. que durante a vida toda se mantém — embora não só necessariamente em relação às fezes —. todavia. aqueles bens que tememos ter destruído pelo nosso ódio. Por isso.haveria de ser incompreensível para nossos hábitos adultos. haverá também uma modificação importante. Consciência penosa esta. levará a criança paulatinamente a modos mais compreensíveis de funcionamento mental. O prazer de soltar e de reter. A primazia da zona oral de satisfação. a primazia anal introduz o drama da culpa. São presentes ou são instrumentos agressivos. A evolução psicossexual infantil. cederá o passo lentamente para a questão do controle muscular e. E. reparar. do controle das excreções anais. depois do primeiro ano de vida. Uma aquisição importantíssima. Culpa e remorso acompanham tal fusão. embora um tanto mais tardia.

Aliás. conquistar. Se porventura ocorre mais tarde na vida uma insatisfação maior com as circunstâncias reais. regridirá aos pontos de fixação já marcados. o acesso à fase seguinte estará comprometido. Há prazeres orais. Chama-se a isso: um ponto de fixação. no presente e na produção. conquanto em forma diversa. o comer. cada fase. tanto na doação. onde foi bom. quanto tem de avidez. destruir.. Como a vida mental é neles formada. o caráter. a significação das fases do desenvolvimento libidinal não se esgota nesses passos primeiros de sucessivas superações. mais agressivamente. de satisfação em reter. agora. o prazer de atacar. isto é. O caráter oral receptivo alia uma certa passividade . A vida econômica. a mordida. por exemplo há muita frustração da oralidade ou exigência extrema na educação para a higiene anal. Também o prazer de evacuar permanece representado nos atos de expulsão.promover a educação. Sobra a forma mesma de nossa vida adulta. o fumar. Cada estágio do crescimento infantil. apenas pode ser superada. e. por exemplo. como na sensação de se livrar de coisas ruins e perigosas.. O selo dos pontos de fixação fica visível no caráter do indivíduo. Com efeito. se o prazer que nela se obtinha for obtido na fase ulterior. se. na expulsão violenta e aliviadora que certos jogos encarnam à maravilha. É como se ficasse em parte lá. A criança então passará a repetir a última forma libidinal que lhe proporcionou adequada satisfação. de domínio. são mais que restos o que sobra das fases iniciais do desenvolvimento da libido. o sujeito tentará a tornar aos padrões que lhe foram satisfatórios. fica sempre a marca característica das primeiras fases e de como elas foram vividas. o beijo. Você já ouviu falar seguramente de fixação e regressão. poderá compreendê-las. Quando há problemas mais graves.

significa apenas integração. no começo do século. que veremos em seguida. São feitios de caráter normais. porém. Não. Se agora juntarmos um terceiro. há uma constante voracidade agressiva. meticulosidade exagerada. pode apresentar utilidade para a vida pessoal e social. sempre atacando para conseguir. onde o prazer expulsivo domina. Ser cordato ou empreendedor. Superação.ao desejo perene de receber. O importante é. timidez. quando Freud o expôs pela primeira vez. Isto é. Houve integração numa estrutura de ordem superior. onde os desvalores apontados comportam igualmente certas boas qualidades. Dito assim. quando não se está nos extremos. a fase oral. que despreza o outro. insaciável. porém. que tende a expulsar de si todos os aborrecimentos. E se as fases oral e anal . representando a fase fálica. Foi um tremendo escândalo. intolerante a frustrações e a limites. a segunda. nesse caso. A marca da fase anal-retentiva. ser agressivo ou meticuloso. como se o mundo sempre lhe estivesse a dever as primeiras satisfações. sendo o ângulo formado a fase anal. passamos dum segmento a um ângulo. a vida psicossexual dos adultos representar-se-ia por uma pirâmide de base triangular. Não era assim. Compreendeu? Esse quadro dos começos da sexualidade na criança hoje nos parece mais ou menos comum. leva a um caráter especialmente violento. que você note como as fases do desenvolvimento da libido não são realmente abandonadas. é ao contrário uma espécie de cautela excessiva. parecerá talvez que se trate de doenças. respeitoso temor por ordens e hierarquia. deste a uma figura plana e a um sólido tridimensional. No caráter oral sádico. mas destruindo ou desaproveitando o que consegue. teremos um triângulo. ou quase. Nessa analogia. não abolição da estrutura anterior. É como se para construir uma figura começássemos com um lado. A primeira fase anal. juntando-lhe outro depois.

escandalizaram nossos avós, que dizer da fase fálica? Pois a fase fálica já é “sexual”, mesmo para o mais obtuso. Nela, por volta dos 3 aos 5 anos, o interesse erótico concentra-se nos órgãos genitais: no pênis, no menino, na vulva, clitóris e vagina, na menina. E há masturbação, assim como fantasias sexuais com pessoas reais. Escândalo puro, já se vê, para uma sociedade que cria nascer o sexo apenas na puberdade, e olhe lá. Os objetos de amor, agora, como todos sabem, são os pais. Se o primeiro objeto externo é sempre a mãe, na fase oral, agora será o genitor de sexo oposto ao da criança, geralmente. O menino anseia por possuir sexualmente a mãe, a menina o pai, e ambos consideram o genitor de mesmo sexo como um rival perigoso. Odeiam-no. E aqui surge o problema; também o amam carinhosamente, pelo que dele recebem de afeição e cuidados. A ambivalência, ódio e amor simultâneos, é o grande problema da fase fálica. Essa relação triangular, carregada de ciúmes, conhece-se como “Complexo de Édipo” — nome daquele rei mítico de Tebas, que, tendo matado o pai, sem o saber, acabou desposando a própria mãe. Acresce ao drama da criança edipiana, além da ambivalência, o fato óbvio de sua incapacidade efetiva para concretizar uma relação sexual. Pobre pequeno com sonhos tão ambiciosos! Sente que sua incapacidade provém da proibição dos pais, sente cada punição como um castigo pelos desejos proibidos, como castração, numa palavra. As fantasias edipianas dão culpa, os limites e frustrações impostos pelos pais parecem castigos por tais culpas. Por fim, vence o desejo de paz. A criança aceita renunciar ao objeto de amor sexual, por medo da rivalidade poderosa do genitor de mesmo sexo, e pelo repúdio que experimenta de seu amado. O menino, por temer a perda do precioso órgão genital, que

cada reprovação ou castigo parece ameaçar, concorda, digamos, em ser provisoriamente castrado, isto é, em renunciar ao uso do pênis por um certo tempo. Em troca, não pretendendo permanecer em luta com o pai, trata de imitá-lo, identifica-se com as qualidades do pai castrador, torna-se um homenzinho. Com a menina dá-se algo mais complicado, em teoria. Primeiro, seu amor inicial pela mãe, a primeira a prodigalizarlhe satisfações genitais, durante os cuidados de higiene corporal, tem de mudar de direção. Provavelmente isso se consegue por uma decepção prévia. A menina, que constata as diferenças sexuais com um irmão ou amiguinho, estabelece uma teoria infantil, segundo a qual falta-lhe esse órgão tão valorizado, o pênis, não por não o ter, mas porque o perdeu ou ainda não se ter desenvolvido. Responsabiliza a mãe por tão desagradável condição, rompe com ela, e passa a dirigir seu amor ao pai. Por isso, costumamos dizer que o menino sai do complexo de Édipo através da castração, enquanto a menininha pela castração nele penetra. De qualquer modo, em ambos os sexos, há uma aceitação forçada da castração e renúncia provisória da satisfação genital, que permite voltar o interesse mental para atividades outras, como o brinquedo e o estudo, no período conhecido como de latência. Em ambos os sexos, também, a fase fálica (de falo = pênis) é riquíssima em fantasias, ocorrendo curiosas teorias a respeito da sexualidade e reprodução. As teorias infantis postulam que os bebês nascem pelo ânus, como as fezes, imaginam castrações fantásticas, onde um simples corte no dedo, uma extração de amídalas etc, têm sentido muito agourento. Com base nessas fantasias edipianas é que se estabelecerão os tipos de objeto de amor da vida adulta. Representarão os pais; porém, de maneira mais ou menos disfarçada, não raro recaindo a escolha em figuras francamente opostas aos

primeiros objetos de amor. O temor à castração pode ser tão terrível, aliás, que um menino talvez renuncie precipitadamente ao genitor de sexo oposto, oferecendo-se, por medo, àquele de mesmo sexo como objeto de amor. Não me castre, não me mate, mas ame-me, que me ofereço, seria a forma do Édipo invertido, fundamento de quadros posteriores de homossexualismo. O mecanismo dominante na fase fálica, durante a resolução do complexo de Édipo sobretudo, é pois a repressão. Mais forte ou menos forte, será um herdeiro para toda a vida. Compreende-se então que a introjeção das proibições paternas, causa primeira da repressão, fixe-se nessa fase, e que a identificação com o genitor de mesmo sexo deixe um ideal e uma fonte de censura. Como já vimos, essa fonte de ideal e censura consolida-se numa estrutura permanente conhecida como superego. O período de latência dura até a puberdade. Renascem aí, com violência, os interesses eróticos, já voltados entretanto para substitutos dos pais. Esta é a fase genital propriamente dita, onde muito do que importa já está determinado. O que se disse até aqui deve ter formado em você uma idéia bastante difundida e que, justa mente, gostaria de desfazer. Talvez lhe pareça que a sexualidade segue um caminho bastante tormen toso até chegar, com sorte, ao porto seguro da genitalidade, ou normalidade sexual. um erro. Não existe tal sorte e se existisse talvez não fosse sorte. A imagem do adulto normal, que se satisfaz exclusivamente com o coito, é por si uma espécie comum de perversão. Como o adorador de objetos fetichista, de sapatos ou calcinhas, como o exibicionista ou como aquele que só encontra prazer em relações sádicas, o “supernormal”, que renuncia a tudo menos ao coito, reduz excessivamente a riqueza da relação sexual. Perversão é, na verdade, qualquer versão restritiva da sexualidade (ou do real, em sentido mais amplo). A vida

pequenas seduções. na primeiríssima infância. mesmo que nunca a visão do coito paterno haja ocorrido. como se a pulsão tivesse um caminho natural. o desejo de ser capaz de operar magicamente o controle desse ir e vir. São pequenos fatos. de ser por ela amada e desejada sexualmente. Todas essas fantasias podem ter um efeito traumático. As cenas que alimentam as fantasias sexuais vão-se acumulando no transcorrer do desenvolvimento infantil. difundida pelos atos todos da vida e não só os da cama. é claro. Os estímulos genitais que acompanham o trato da criança pequena marcam-na com uma intuição. que. de jogos. quando os pais estão fechados no quarto. da maneira em que um nó é apenas a ‘forma do barbante em que se deu. de sonhos. . talvez não de todo errônea. que foi sofrido passivamente. E isto é normal. por exemplo. será preenchida por experiências com companheiros de brinquedo e adultos. conformar a um nó o desejo. provindas dos primeiros contatos com a mãe. Outra fantasia dominante é a de ter presenciado relações sexuais entre os pais. no futuro. diversas para cada indivíduo. as fantasias de sedução. Fundamentais são. É falsa a imagem comum que opõe pulsão a trauma. O simples jogo da presença e ausência da mãe. as fantasias sexuais.sexual normal. O trauma é antes a forma da pulsão. é vivido sexualmente. Caberá à análise desfazer alguns nós. é uma arte prática. isto é. frustrações minúsculas que se somam e se organizam em fantasias prevalentes. com todo o peso da frustração que carrega. Ao contrário. Não há que tanto as temer. O isolamento em que a criança vive. embora comportando também renúncia e sublimação. marcar. se isso tem sentido. Para existir o trauma não é preciso que algo terrível tenha sucedido. mas não é sequer possível pensar o barbante pulsional sem forma alguma. que os traumas impedem ou desviam. dar forma especial. de fantasias vívidas.

Pelo menos. Não constituem. ou que não depositemos confiança excessiva nos resultados. por conseguinte. é o que se deveria fazer. o esforço de pensar teoricamente.A SEXUALIDADE II Nos três últimos capítulos. ter uma idéia vaga das teorias melhor estabelecidas. não se pode garantir de antemão —. Se. é seu método. é necessário também acompanhar o processo de expansão teórica. pois. muito melhor do que um relato de esquemas já estabelecidos. tão duradouro ao menos como a própria Psicanálise. o simples percurso. tomando por tema a psicologia dos sentimentos e como ponto de partida a própria sexualidade. ferramentas que todos os psicanalistas empregam para organizar teoricamente o que descobrem nas sessões. São instrumentos. mais básicas e universalmente aceitas da Psicanálise. Pensa-se geralmente que tais ou quais teorias constituem artigos de fé. título e propósito deste opúsculo. não basta. Para que você entenda o que é a Psicanálise. aliás. ensinará. o processo mesmo pelo qual as teorias são criadas. tratei de resumir para você algumas das teorias psicológicas mais tradicionais. abandonamo-las como facas embotadas ou alicates com ferrugem. 6 . como instrumentos. tal como o estudamos no segundo capítulo. Ainda que não cheguemos a grandes conclusões — o que.mesmo que esta seja embaraçosamente nodal. deixam de ser úteis. Convido-o. a brincar de teórico junto comigo. na investigação da sexualidade. o caminho que leve à produção de novos interpretantes. quão preocupados estão os psicanalistas em determinar a . como se fabricam os conceitos da Psicanálise. Creio que você já percebeu. Pois o único instrumento perene.

dá-se simplesmente que a noção de instintos primários é um tanto obscura e afirmativa demais. a questão não é bem de simpatia. etc. ódio e amor. O que teremos de fazer será tomar como ponto de partida alguma tendência geral mais simpática (ou menos obscura). o bom demais). basta considerar dois grandes ir afetivos inatos. do mau demais). os temores persecutórios (do muito mau. mas pesquisando. etc. A própria teoria do narcisismo afirma algo assim. instinto de morte e instinto de vida. Acrescentando-lhes dois mecanismos básicos. que por um motivo qualquer você não simpatiza com a idéia de instintos fundamentais e mecanismos primitivos. já temos os alicerces da vida mental rudimentar. a partir de alguns poucos princípios e pulsões vigentes na primeira infância. Amor projetado dá objeto bom. etc. É um caminho. ao contrário. Vamos supor. Vale isso dizer que estaremos interessados em conhecer a gênese lógica. Ademais. ou.) Tudo estará perdido. da lógica das emoções. Em sua versão mais radical. é o desejo de ser inteiro. e já deixei dito que ele é muito útil. Denomina-se genético esse ponto de vista (de gênese = origem). quando o que está ainda separado vier a se juntar etc. reintrojetado dá um self (ou “si mesmo”) bom etc. bastante conhecido de todos nós. (Na verdade. todavia. progredindo não tanto pelos caminhos da gênese infantil. todos os sonhos de grandeza e imortalidade levam-nos a pensar que. E como o bom e o mau não se misturam. projeção e introjeção. . Vejamos se presta. Um sentimento básico. o método não mais se poderá usar? Absolutamente. a idealização (o muitíssimo bom. deles deriva-se também o mecanismo de cisão. se preferir. tudo bem. e já se anuncia o drama depressivo. de início.seqüência que gera a sexualidade adulta. de bastar-se a si mesmo. a forma pela qual os sentimentos se afinam e ganham especificidade em qualquer altura da vida. a de Melanie Klein. Até aqui.

Conformar-se com isso? Bem. representantes sempre do próprio sujeito. mesmo aceitando a indispensável abertura para o outro. além disso. Chamemos. nostálgicos precisamente do que tão-somente imaginaram ter possuído. é próprio das relações de objeto psicanalíticas. inter cambiáveis. “luto primordial”. ou seja. existe. o mundo externo. cujo excedente apenas se pudesse esparramar pelos outros. descomprometido e brincalhão. a pessoa amada. ser mais que isso. os objetos substitutos serão nada menos que o mundo inteiro. caso contrário. cada homem seria o último homem na Terra. Ora. a posse integral de si próprio é infelizmente impossível — ou felizmente. não nos conseguimos conhecer diretamente: só no confronto com os outros é que sabemos de nós. Em nosso caso. É como se. no entanto. para o mundo. não há outro jeito.no fundo. Porém. A concepção acima. bom mesmo seria fechar-se em si mesmo. todos são objetos substitutivos. que semelha. Como em qualquer estado de luto. o trabalho. um jogo de idéias. a esse estado de perda. sendo o bem perdido essa integridade absoluta e independente. pois a tendência a procurar outros objetos ou pessoas que substituam o bem perdido. esse caráter de fuga em direção a figuras eminentemente inter cambiáveis. posto que. depressa mostra. dos vínculos emocionais com pessoas e coisas. resta sempre um sentimento de perda. embora referente a um estado de posse absoluta que nunca houve ou haverá. Somos muito dependentes do meio e da sociedade e. De fato. o lar etc. num amor autocentrado. satisfeito. mas os homens são assim. descontente com sua incompletude. Será irracional talvez. como que uma saudade de si. Mesmo o sentimento . os amigos. básico e inevitável. como o dos deuses nas religiões monoteístas. houvesse uma fuga constante do homem. nem haveria obras ou civilização. Quer dizer que não há propriamente objetos primários. à primeira vista.

que o faça com o outro. Se é assim. se no outro vou buscar a mim mesmo. São. quantas amizades e casamentos não são mais que atos sádicos prolongados. É o princípio teórico do sadismo. comê-lo ou penetrá-lo até a alma. Ora. a paixão toda especial que tem o sádico por infligir dor: a dor. A fusão total e violenta com o outro anula-o. quase todos os estímulos sensoriais podem ser negados ou disfarçados por quem os sofre. a dor. fervendo sempre no seu próprio caldo? Enquanto o objeto de apego sádico não se deteriora. Não é raro que pessoas terminem a alegria em choro. em geral. fica com as mãos vazias. Seu intuito cumpre-se melhor parando na metade. perdido. pareceria lógico que minhas relações tendessem à fusão total. pelo menos. sobre a outra pessoa. . sustenta a ilusão de estar fundido. é claro. com efeito. Se o sádico aniquila a sensibilidade do parceiro. destrói-o e não satisfaz. seria um pouco longo. física ou moral. mas decepciona. pense na necessidade periódica de sono. dominando apenas na medida certa. após um período de muito contato pessoal numa festa. o sadismo é uma arte mais sutil. Quantas relações humanas duradouras. feita só de passividade. sendo inegável. Na prática. Isso existe. por exemplo.de perder-se nas relações externas é verdadeiramente universal — demonstrá-lo. Ou. que pretende invadir o parceiro. que lhe mostre poder produzir efeitos notórios. inegáveis. O apelo sádico consiste numa espécie de atração dum objeto que oferece a possibilidade de ser constantemente vencido. seu apelo mantém-se e mantém-se a relação. porém. menos. como uma parte ativa numa outra. Daí. Se não me posso fundir comigo mesmo. quem sabe. É suficiente que você reflita em como se sente um tanto vazio e ansioso por se recolher. pequenas vitórias e pequenas concessões que a alimentam: a relação sádica raramente explode em violência.

Tomemos o exemplo do voyeurismo. A partir desse ponto. Podemos figurá-lo materialmente como a janela do prédio fronteiro. É um encontro de prazeres. todavia. para que isso aconteça. consistente em que o prazer se obtém principal ou unicamente pela contemplação do corpo alheio. no exibicionismo. Pois bem. Considera-se o voyeurismo uma perversão — mas logo veremos o que significa tal juízo —. É um acordo complicado. apóia se num apelo provindo das fantasias aprazíveis. a fuga para os objetos. ao passar pelo sadismo. para o prazer voyeur. que o apelo sádico constitui. A vida cotidiana oferece margem suficiente para tal tipo de prazer: assim como oferece seu complemento. os dois saímos mais ou menos satisfeitos. você já deve ter entendido que o apelo sádico constitui o mais eficiente e primário lenitivo para a perda de si mesmo (ou luto primordial).sem se considerar derrotado de vez. que o voyeur se arme de binóculos ou freqüente um cabaré. Empresto-lhe minha sensibilidade em troca da sua. que você elabore em mim seu próprio luto. é a existência do quadro correto. já se deve falar de elaboração sexual da perda de si mesmo. permitindo. bastante equilibrada. pois a fusão. mais geral e mais simples. será preciso antes franquear a verdadeira porta de entrada da sexualidade. no entanto. sem parar de resistir e morrer. a relação não precisa fundar-se no irrecusável (na dor). Porém. uma reciprocidade. assim como para o exibicionismo. onde uma jovem se prepara para dormir. porém no interesse de conservação recíproca e no prazer. Mas reciprocidade não quer dizer necessariamente simetria. Não é preciso. No entanto. Entretanto. serve ao voyeur e ao exibicionista qualquer parte limitada do real que separe sua experiência da vida . Perco-me em você e em você me recupero. É possível que o sujeito aceite uma troca de influências. sem dúvida. como contrapartida. Se é assim. Fundamental. por sorte não precisa aí estagnar-se.

o nojo. do estranho. enoja. é justamente da adequada composição entre identidade e . se a jovem. há de ser num igual. no caso do exibicionismo-voyeurismo. Para que a fuga em direção ao objeto seja satisfatória. Seria. seja o mesmo. espirros. o objeto de prazer sexual. Como se algo de interno saísse para fora. isso sim. faz-se ridículo. é essencial que este. O fascínio obtém-se por uma adequada mistura de “mesmo” e de “outro”.rotineira. É a marionete. Ora. A sexualidade. tocasse a campainha do apartamento e se oferecesse abertamente ao voyeur. sub-repticiamente admirada. Explico. são distantes. nuvens. para que o apelo ganhe máxima eficiência. Por outro lado. Trata-se. Pedras. eu que me perdi de minha inteireza. em primeiríssimo lugar. dificilmente fascinam sexualmente. o macaco ensinado. suscita um sentimento de parecido desagrado. Em segundo lugar. você entende. provoca o riso. de um recorte apropriado do real. seja bastante próximo do sujeito. há de ser entendida pelas qualidades do apelo que seu objeto exerce. de imenso mau gosto. Pois esta emoção. sem ter seu estofo. lá encontrado. O quadro do real é o fundamento de seu atrativo. Algo que semelha a forma humana. convém não o esquecer. Contudo. Estes não dão asco. e. então. representa com perfeição o sentimento que nos desperta o encontro com aquilo que é demasiadamente igual e interno. E estes são dois. tivesse de ser posto para dentro de novo. numa espécie de mim mesmo. estar diante do alheio. será requerido um equilíbrio adequado dos componentes do atrativo. Se eu devo me encontrar ali. o autômato. Imagine pôr para fora a saliva e voltar a engoli-la: é cuspo. o sentimento de absoluta identidade e interioridade no encontro com o objeto sexual é paradoxalmente desagradável. para que alcance o fascínio. comparável ao quadrado da janela alheia. fazem rir. duma área bem delimitada e especial.

Tradicionalmente. Como podem ver. Ora. sua composição explica tanto o apelo sexual. mas não se coroa numa integração final. de imediato. prejudicada apenas nas doenças psíquicas. Não há aperfeiçoamento. Interessa-nos. Tomando como exemplo o fascínio — muitos outros exemplos de regras seriam utilizáveis. talvez a fascinação das aventuras. duma mistura sábia de elementos desagradáveis. não há normalidade final. um último resultado desta investigação diz respeito à própria noção de realidade. como na composição de um bom coquetel ou perfume. Com bastante certeza. pôr em relevo a impropriedade de se crer numa linha reta e ascendente de transformações. do apelo sexual. fiquemos neste —. como este. que desemboca na sexualidade adulta ou genitalidade. às portas de várias descobertas. põe em dúvida tal certeza do senso comum. entre fusão e alienação. Porém há mais. isto é. dentro dessas especulações. cremos que exista uma realidade normal. os esquemas emocionais. Por fim. é feito do equilíbrio de contrários. quanto à composição do fascínio.outridade. Desenvolvimento há. que nasce o apelo mais forte da sexualidade: o fascínio. entre nojo e ridículo. independem da qualidade especial dos afetos envolvidos: a regra é mais geral do que a substância. Isto. para cada estado de emoção. decerto. a constatação de que há tãosomente quadros mais ou menos satisfatórios do real. ramifica-se inesperadamente. como também o apelo exercido pelos delírios. temos o direito de afirmar que diversas constituições do apelo sexual — apelo sádico. nossa investigação duma regra teórica leva-nos. o estado final constrói-se a cada momento. talvez certas propriedades do apelo artístico. Até certo ponto. .

pedra é pedra. Pode ser um quarto. em relações de causa e efeito. porém numa seqüência lógica. As coisas. as pessoas. O real da teimosia é pura extensão. É uma parte pequenina do mundo. todavia só existe como uma espécie de flutuação das ondas que provêm do relicário. . ou de televisão e cama. não é negado. correspondentes às fantasias dominantes em cada caso. muitas formas de monogamia ou poligamia etc. é curiosamente fluido. não se individualizam por completo. branco é branco — ou é preto. apelos homossexuais (de vários tipos). um panorama. de que o presente é só um resto. e que mantém a fusão do sujeito consigo mesmo. a situação ou pessoa amada. multiplicidade e variedade de condições tidas como satisfatórias pelo sujeito dito normal. O real saudoso. etc. centro imaginário onde está representado o bem perdido. É duro. para sua satisfação. por conseguinte. por exemplo. se o indivíduo é uma espécie de profissional altamente especializado num quadro apenas. São como ondas os fatos. que guarda o sentido todo de ser real. com justiça chamamo-lo perverso. Seu centro é o teimoso. seja este feito de sapatos à meia-luz. Cada sentimento. constrói uma espécie algo distinta de real. Vejamos. quadros diferentes do real. Se a satisfação só se pode obter num quadro muito exclusivo. ou de correntes e chicotes. mas cada elemento teima também: teima em ser só isso que é. será o de uma perversão do real. — exigem. Posto que a perversão é só uma versão restritiva da sexualidade. feito exatamente de coisas concretas.voyeur. será ela simplesmente um tipo de muitos tipos. o real onde se cumpre. claro. Já o real teimoso consiste numa coagulação. A ele chamamos relicário. restrito. nada é inteiramente presente ou inexistente. ordenadas. uma música. O resto está ali fora. Se há sentido em aludir à normalidade. se o teimoso assim o quer. pois há um lugar.

por evidenciá-los. além de mostrar como se produz uma concepção psicanalítica geral. dizse que é uma teoria legítima.Não há como comparar os dois. este deve ser lido e relido com cuidado. Nesse caso ocorre algo raro e maravilhoso: o teimoso pode curar-se da própria teimosia. as regras emocionais criam formas específicas do real: reais diversos de diversos apelos sexuais. 7 . é quando a saudade afeta a teimosia. predomínio maior de traços orais ou anais. A realidade. de campos muito diferentes entre si. real saudoso. então. Vários desenlaces possíveis. Como você está vendo. cuja análise pode restituir sua diferença.PSICOPATOLOGIA O desenvolvimento da personalidade pode culminar em estados mentais diferentes. nem são miscíveis. através da rotina. está perfeitamente de acordo com aquilo que verificáramos ser o método psicanalítico (no segundo capítulo). mas difícil. Sendo assim. cabem nos limites da psicologia normal. Como qualquer jogo ou arte. Ainda que um pouco mais difícil que outros capítulos. A única junção possível. real teimoso e inúmeros outros reais que deveriam ser descritos. a teoria da Psicanálise só se aprende fazendo. a teimosia sara na saudade. objeto de estudo . só se resume a ser uma espécie de redução. E também existem anormalidades psíquicas. nossa teoria. não se fundem. no processo chamado ruptura de campo. ou seja. Segundo o modelo que juntos desenvolvemos neste capítulo. diversos destinos da resolução do complexo de Édipo. já que a única maneira de compreender a teoria psicanalítica é nós mesmos experimentarmos fazer trabalho teórico. posto que trata de coisas menos conhecidas e popularizadas. tem propriedades que correspondem bem ao método que a criou. múltiplas reações individuais a perdas.

tanto no corpo como no espírito. Existe o anormal. que somos todos. Na raiz das neuroses encontra-se uma disposição inata pouco conhecida. No entanto. Filha do princípio do absurdo. neuróticos. ao ler este capítulo. ou como quer que se lhe chame. Tolices. não se assuste demais: a normalidade psicológica aproximada. preferem esvaziar a distinção. de pequenos sintomas dispersos. recusando. enquanto a normalidade é feita de variados conflitos. nossa ciência quer encontrar nos estados patológicos um instrumento precioso para a compreensão da vida mental. cremos que . felizes. existem — e doem muito. Quanto à constituição. você se encontrar um pouquinho em cada quadro descrito. depois compreendê-las e. afirmando que não há normalidade. que não existe mais doença no campo psíquico — o que seria ótimo. é feita dum mosaico psicopatológico inespecífico. a que existe. a especificidade dos conflitos geradores Dir-se-ia que o neurótico (ou o psicótico) especializou-se num certo padrão. Daí dois exageros de sua popularização. Todavia. Se. mais simplistas ainda. o sintoma neurótico tem equivalentes próximos nos sonhos. por exemplo. a Psicanálise renovou o sentido do patológico. Para superar os preconceitos contra as doenças mentais. As pessoas nascem diferentes. nos atos falhos e no resultado de certos conflitos cotidianos mais fortes. a doença psíquica. a estrita distinção entre normal e doentio. é necessário primeiro admitir sua existência. Diferenciam as neuroses a persistência e intensidade de suas manifestações. traçar as linhas de continuidade com a vida comum. Outros. As neuroses. ao mesmo tempo. Alguns popularizadores da Psicanálise anunciam. caso os pacientes tivessem a gentileza de não mais sofrer. só por fim. de inúmeras fixações parciais.da psicopatologia psicanalítica. no mínimo.

portanto. as idéias e sentimentos que os pais têm a seu respeito e que. enfrentará um problema complicado. pois. quando podemos estudá-las. Pois o meio inclui precisamente os irmãos. Não é difícil. frustrações acumuladas de um mesmo tipo. Já não se acredita que um grande trauma. temendo agudamente as ameaças fantasiadas de castração. Ora. O ponto de fixação teórico da histeria é a fase fálica. na puberdade. é inato? Como descontar a complicada reciprocidade das relações afetivas nos primeiros meses de contato com os pais? Por conseguinte. de experiências de incapacidade e humilhação afetiva. por assim dizer. que dão forma de nó aos impulsos. que a criança fique emocionalmente paralisada. impedindo que se satisfaçam medianamente. É fato que certas crianças toleram menos as frustrações que outras. os mecanismos de defesa e os sintomas mais comuns. assinalando os tipos de conflito. contudo. já viveram. mas sabemos pouco a respeito. o drama edipiano. vamos nos contentar em descrever algumas formas características de neuroses e psicoses.seja importante. porém. carregado de ambivalência. já enfrentaram um meio ambiente bastante especial e dificilmente comparável mesmo ao de seus irmãos. responda pela origem das neuroses. isoladamente. são pequenos incidentes traumáticos. em parte. enquanto persiste em orientar seu amor e sua rivalidade para as figuras originais do conflito: pai e mãe. O que. constitui um ponto especialmente delicado da evolução psicossexual. desprezando distinções impossíveis. já derivam também da própria forma de ser da criança. interessar-se normalmente pelos amiguinhos ou pela escola. Talvez não dê mostras disso. Pode mudar de assunto. quando o interesse sexual recrudescer. Cada escolha amorosa ulterior haverá de manter o mesmo sabor . Comecemos pela histeria.

chora e ri descontrolado. na histeria. condições não especialmente graves provocam um medo extremo. o que é mais . ora mais moderada. tosse. será preciso reprimir as pulsões sexuais. que continua vendo em cada pessoa atraente uma nova versão dum genitor e age. como se fora o outro. Mas a repressão não funciona totalmente. ratos. como se simbolizassem perigos internos. fantasias violentas de penetração sexual etc.incestuoso e proibido. ele mesmo. Há quadros em que domina uma angústia flutuante. terminando numa espécie de desmaio. Outra forma comum de sintoma de angústia são as fobias. Sempre. Paralisias de membros. “ataques” de ansiedade em que o paciente se debate. E vem. como se avisasse o sujeito de que algo doloroso está por vir. Mas há também formas sintomáticas onde a angústia parece estar ausente. por exemplo. porém. tiques etc. Ou a angústia manifesta-se por crises intensas. completa perda de consciência. insuportável. um elevador. O aparecimento na consciência de impulsos sexuais toma então um caráter de angústia. entretanto. como festas ou entrevistas. a sexualidade será traduzida em desprazer e nojo. inexistem lesões orgânicas que justifiquem os sintomas e. aves. dores ou insensibilidade localizadas. situações sociais particulares. Os sintomas são. ou em meio à multidão. impulsos de autopunição suicida. manifestações de angústia. Então. onde não há. Situações como estar encerrado em espaços limitados. o mecanismo de defesa conhecido como recalcamento. ou encontrar-se à beira de um lugar alto. em suma. quase sem representações que lhe indiquem a origem. numa palavra. geralmente. Predomina. baratas. não haverá experiências novas e aprendizagem afetiva. parecendo representar um grande drama afetivo. pequenos animais não muito perigosos. ora mais intensa. a mesma sensação de incapacidade e ciúmes da relação fálica com os pais. pela ação condenatória do superego.

experimentou o complexo de Édipo. ou alimenta movimentos convulsivos. aí já existe o engano básico. A agressividade anal que cobre seus pensamentos também .importante. com a sensação de que há algo errado. da pulsão reprimida chamamos “conversões”. tentando reter tudo. os sintomas representam simbolicamente a pulsão proibida e o esforço de controlá-la. ao invés de se dirigir para os lados de Perdizes. físicas. Sabe quando alguém se engana a respeito do fundamental. É que o afeto ligado à pulsão sexual não pode ser reprimido. todavia. o ato sexual. uma paralisia com contratura dum braço pode significar um impulso a se masturbar. talvez. conjuntamente com a proibição de fazê-lo: um gesto interrompido. Reprimida a representação. O candidato às obsessões chegou a penetrar na fase fálica. e provando a paixão libidinal como se fora agressividade. Já a neurose obsessiva é fruto de um equívoco. Isso porque a dúvida obsessiva é uma dúvida simbólica. A tais manifestações somáticas. Só que o obsessivo honesto se perguntará. esse afeto extravasa-se como angústia.. principalmente os sentimentos. Porém. não suportando a ambivalência edipiana. e. O mais perigoso para ele é portanto o amor.. Este sim destrói. na avenida Paulista. fica procurando atormentadamente acertar os pormenores? Se. Ou melhor. gestos paralisados etc. O ponto de fixação da neurose obsessiva localiza-se na segunda fase anal ou fase anal retentiva. quem trocou as penas da perdiz pelas dos anjinhos. é provável que estranhe cada esquina e tente resolver o enigma da ordem invertida em que aparecem os prédios conhecidos. você virou o carro para o Paraíso. regrediu imediatamente para a fase anal retentiva. é como se tivesse vivido o conflito edipiano num registro anal. Assim.

uma pausa no pensamento que permite desligar o afeto experimentado da representação que o motivou. Aliás. Medidas defensivas são empregadas contra a destrutividade. mecanismo de defesa que inverte o sentido dos afetos. porque no fundo se dirige contra os objetos mais preciosos. Quando uma idéia ou um acontecimento s carregados de forte valor erótico ou agressivo. tem de olhar duas vezes cada idéia. Por conseguinte. ignorando que os cuidados representam raiva e que a raiva representa um perigoso amor. é claro. pois pode chatear o interlocutor. há que se acautelar contra a perigosa descoberta do amor. ato ou pensamento. ocorre uma espécie de distração. A mais comum chama-se formação reativa. Quando sinto que meu amor destrói o outro. os pais. isto é. em seguida. resulta que em cada idéia ou emoção oculta-se. depois raiva por cuidados para protegê-lo. Mas como cada novo sentimento recobre um sentimento oposto. a marquinha azarenta da destrutividade. Exatamente como um homem supersticioso pretendendo isolar a urucubaca. exagerando muito o pólo oposto ao original. como aquele motorista equivocado. é óbvio. o obsessivo. Ele se examinará dez vezes antes de dizer algo. E é uma catação infindável. também o representa simbolicamente. o ódio do obsessivo transforma-se num cuidado extremo. é fortemente proibida. e a mim. a própria idéia de azar é obsessiva. porque aquilo que ele procura entre as letrinhas . enganado quanto ao fundamental. subrepticiamente. um sinal do afeto proibido.produz angústia. devo substituir amor por raiva. examiná-la ao microscópio. Há uma forte impressão de que o amor mata. o que vai torná-lo. para certificar-se que não entrou nela. ameaçadora. um gesto ritual. razão que o leva a ensaiar uma manobra obscurecedora. anula o sentimento proibido. repeti-la. muito cansativo e chato. dos efeitos dela. num medo supercauteloso de ferir alguém. que é menos perigosa. Sobretudo.

miúdas constitui o papel mesmo em que o texto foi escrito.. oculta. Ou antes. se a tendência à sujeira o domina. o qual é desviado para a constituição de sintomas. símbolo da sexualidade e do veneno. Um jogo de escondeesconde. pensar ou dizer três vezes uma fórmula mágica. isso é a neurose. uma idéia horrível — matar uma criancinha. de súbito. Isto é Freud. São pensamentos obsessivos: ele sente como se não fossem seus. ser uma cobra atrás do ânus — cobra. há de verificar cinco vezes se o gás está fechado. sobretudo porque é um impulso amoroso sexual. No fundo. a destrutividade sob os cuidados filantrópicos. a sexualidade proibida. —. porém. É uma teoria bastante tradicional e . Assim é a vida obsessiva.atacá-los com rituais protetores: nomes-do-padre. a agressão. A vida do obsessivo é o rodopiar dum cão atrás da própria cauda. o impulso anal que deve ficar oculto. que ele suspeita. Deve tomar banhos demoradíssimos. defecar na igreja etc. escrutinando os detalhes. Pois bem. eis aqui uns pequenos esboços de dois quadros neuróticos característicos. preciso contra. se quer envenenar a família. em que a satisfação fica proibida pela censura do superego. vêm à força. é compulsivo realizá-lo. do toque fascinante e mortal. sob a agressão. não sem razão. boazinha. contudo. repetir um pequenino gesto. a sexualidade (anal) sob um puritanismo desmedido. não enxerga o essencial. O equívoco fundamental leva-o a uma auto-observação constante que. filantrópica. O contra-ataque não pode ser sustado. bater em madeira.. algo que mostra o gosto pela sujeira anal sob a mania de limpeza. cheia de superstições racionalizadas. Meticulosa. Sob o cuidado. Daí provêm os sintomas obsessivos. desconectando-se então a representação prazerosa (geralmente sexual) do afeto correspondente. Já chega. para compreender que neuroses são produto de conflitos pulsionais. Então o paciente tem. repetida.

Somos estimulados a enriquecer por quaisquer meios. se andamos na rua ou folheamos uma revista. em nível pessoal. é a relação com a sociedade. este. o superego. mas se deixam prender etc. de um comilão compulsivo ou de qualquer outra especialidade. Em vez de reprimir o impulso. o sujeito realiza de fato o impulso proibido. e danem-se os outros. Nas perversões. digamos. parece não haver angústia. o indivíduo põe em ação justamente aquilo que lhe está vedado pelo superego. Nossa sociedade é um tanto psicopática e perversa. anulando a instância repressora . liga-se profundamente com a vida social. E até verdadeira. Superficialmente ao menos. o retrato quase puro de certas instigações . o operário padrão será um masoquista. mas na externa. que roubam. São pessoas que se fazem desprezar. executo-o. é tão forte e tão exigente que toda a relação com ele se torna impossível. Nas psicopatias dá-se algo parecido.. O problema da psicopatia. nas perversões e psicopatias aparece.. Assim. porém. convidam-nos ao voyeurismo. os atos estão em sintonia com o ego. É uma solução prática. O sado-masoquismo está vigente no seio das instituições. sádica. Há uma boa teoria geral das neuroses na Psicanálise.que provou ser utilíssima. o respeito e as inibições impostas pela vida em comunidade. O resultado é que os atos psicopáticos e perversos acabam procurando sua punição não na vida interna. uma perversão. Na verdade. O que está comprometido. uma psicopatia. como se o superego estivesse ausente. Tratese de um voyeur. mas um paciente pode escolher. somos tentados ao consumo indiscriminado. a polícia. já se vê. uma psicose. as teorias psicanalíticas são menos categóricas. Para as outras doenças psíquicas. de um sádico. no entanto. Perversões e psicopatias são uma forma de enlouquecer sem ficar louco: louco fica quem tem de lidar com elas.

há delírios . Esse princípio do “deixar que saia tudo”. de diferentes modos. por mortes. sem se importar muito com o meio. vencendo o superego. Psicanaliticamente falando. é bom. passa a sentir-se alvo das desgraças todas. Seu pensamento voa. mas por que se preocupar? Ele sabe que é o melhor. perde-se inteiramente o que se tem. e se se o tem inteiro. esgotado. sua família morta. Primeiro. E há por fim as psicoses. Há delírios nas melancolias — delírios de ruína.sociais. Dentre as psicoses. Ao melancólico. à fase anal expulsiva — como vocês já devem ter suspeitado. pode dar uma volta de 180º. nem mesmo precisa de consideração externa. nome que se dá àquele quadro em que a depressão extrema é substituída subitamente por uma sensação de exaltação. por exemplo —. por todo tipo de desgraças. a sociedade o despreza. o das psicoses em que predominam idéias e crenças muito estranhas. É sempre o problema de ter atacado objeto de amor. Dá para ver. há um último grupo que a Psicanálise tem estudado bastante. e a mania. ele se basta. a melancolia. identificado com o objeto perdido. considerando-se vitorioso. as idéias mal chegam a formar-se e já são ditas. que é um estado de luto permanente e exageradíssimo. o conteúdo é confuso e pueril. cuja responsabilidade o superego lhe atribui. Ele está arruinado. que se arrasta. acusando-o de ser o culpado pelas perdas de objetos. teoricamente. que fogem à compreensão comum. tanto a melancolia quanto a mania ligam-se. O resultado é que o sujeito. Está cheio de amigos — que importa a perda sofrida —. Tanta é a perseguição interna que. é ótimo. está ligado. de felicidade esfuziante. mas que compreenderemos melhor no último capítulo deste livro. das que o neurótico foge por seus sintomas. chamadas “delírios”. à fase oral e à posição depressiva kleiniana. o superego cobre de insultos. ao contrário do melancólico.

um deus. dominam seus pensamentos. um rei. alguém pode delirar por ter ingerido drogas ou por sofrer de alguma doença infecciosa. Vive grandes perseguições. conhecem seus projetos mais escondidos. que as doenças não diferem totalmente da vida . Primeiro. sente-se engrandecido e famoso. volta-o para dentro de si. um mundo que está encoberto pela rotina do cotidiano. Justamente por se ter separado do mundo cotidiano. trata de recriá-los. E isso é que tentaremos compreender no último capítulo. causadas por distúrbios cerebrais mais ou menos conhecidos. ou seja. Segundo. não consegue permanecer encerrado numa vida mental sem objetos emocionais. as esquizofrenias e paranóias são as doenças onde melhor se pode reconhecer a atividade delirante.nas psicoses epiléticas. Por fim. é como se o delirante vivesse num mundo diferente do das outras pessoas. e que o termo “doença” até que está aqui bem empregado. Todos o invejam e atacam. por conseguinte. Ele controla as idéias alheias. No fundo. reinventa o mundo. mas um mundo diverso do dos seus semelhantes. impõem-lhe sentimentos que não quer. mas os outros também controlam as suas. de nosso percurso pelo meio das doenças psíquicas. parece que o resultado é ter perdido a noção de distância entre o dentro e o fora — exatamente como uma criancinha ao nascer. São reedições paralisadas da experiência de aprender a pensar. O paciente retira seu interesse libidinal do mundo externo. que há doenças. Essas psicoses relacionam-se. Como. porém. É o narcisismo secundário. podemos verificar duas coisas. com a primeira fase oral e com a posição esquizoparanóide de Melanie Klein. regride em direção ao narcisismo dos primeiros meses de vida. Por ora. basta saber que essas psicoses repetem as primeiras experiências mentais da vida humana. é um herói. Contudo.

atingir um estado semelhante ao de uma fruta madura ou de um queijo bem curado. e porque a análise começou como um tratamento de distúrbios neuróticos. exageram certas características. como para os queijos. de uma pessoa para outra. Há uma experiência cotidiana. Por isso. 8 . Análise é análise. Pode ser que não. Os pontos variam. como já vimos no começo. a de como esse nó foi desfeito. são. continuam-na. que tenha o projeto de libertar-se. especializações indevidas. o processo de cura psicanalítico pode ser descrito como o de uma história neurótica. um olhar cruzado na . um neurótico ou certos pacientes psicóticos. por motivos clínicos e diagnósticos. mas. isto é. mas o processo de cura psicanalítica será. ou até que almeje se tornar um terapeuta. de repente. sua vida compreende dois tempos. mas ainda assim é possível saber o que é estar curado: uma harmonia realizada das potencialidades características nos queijos. que deseje conhecer-se melhor. Estar curado significa para nós curar si mesmo. sensivelmente parecido num caso ou no outro. no ponto. Logo. e o de cura.A CURA PSICANALÍTICA Se alguém nos procura para fazer análise. Só que a história da neurose é a narrativa de como se formou um nó. que nos parece bastante corriqueira.mental chamada normal. e nossa idéia de cura não é assimilável à dos critérios médicos mais comuns. nas pessoas. não obstante. desde que se o faça sem preconceitos. É importante conhecer as diferenças das expectativas. Seja um indivíduo mais ou menos normal. pode acontecer que sofra de uma das doenças descritas no capítulo precedente. antes de tudo. não é preciso ter medo de usar o termo doença. cuidar de seu desejo.

sempre enfrentam bravamente os batavos e covardemente massacram os heróis da Independência. algum prazer. onde sempre o herói é o do nosso lado. a lei e a justiça vencem. que tal estranheza é um começo de consciência e uma porta entreaberta que pede exploração. Talvez seja uma paixão que nasce e morre no entrecruzar de olhares. um corte. de trabalho. destacam-se os dias em vermelho. ou por outra. um trabalho ou um sonho revelam algo assustador e estranho. como se outra vida estivesse a ser vivida no interior do cotidiano. as festas religiosas e cívicas. Os portugueses. porém será sempre uma diferença. no meio dos dias em preto. Correspondem a celebrações bastante convencionais. Pode ser qualquer coisa. pois tem medo. que oculta sua História real. pode ser uma angústia intolerável ao se ver sozinho. tem: é sua perfeita contrafação. em geral. sintomas no meio do cotidiano. Esse trauma seria . baseado nas histórias que suas pacientes lhe contavam. na seqüência dos atos costumeiros. iguais. o paciente quer curar-se dela. haverá trabalho. se somos neuróticos. A História celebrada nos feriados nacionais nada tem que ver com a verdadeira História do país. Ora. ao contrário. Nossa vida é feita de dias pretos. E como é ela? Quando Freud começou a estudar as neuroses. um pouco de esperança. atribuiu-as a um trauma sexual. os acontecimentos perturbadores. Há um sentido convencional que se ensina às crianças na escola. celebram a história convencional da neurose. assim como os dias em vermelho celebram a História convencional da pátria. Nada que chame a atenção. nossa é a causa justa. nessa História. O analista sabe. É tal qual um calendário. quem sabe uma dúvida incompreensível e fulminante. que deve conduzir seu cliente a curar-se dela — não a erradicá-la —. Mas mesmo assim aceita-o para tratamento. um pouco menos de prazer e um certo desespero. Porém. um encontro numa festa. E.rua.

no aqui e agora da sessão. na análise eles são tomados em consideração. Uma certa estrutura de relacionamento. o modelo das situações que deram forma aos representantes pulsionais. Repete-se. Reproduz-se então de início a história convencional da neurose. cria um jeito especial de se arrumarem impulso e defesa. É parte da história convencional atribuir tudo a uma sedução ou a outra catástrofe original. repetidos. Não ata este setor aos outros setores da personalidade. enquanto no dia-a-dia os sintomas são polidamente ignorados. conforma o desejo. e mais intensamente em certas pessoas. mais do que fatos isolados. todos os dias tendem a ser vermelhos. Hoje pensamos que os traumas são pequenos. essa em que o paciente crê. é celebrado em episódios chamados sintomas. naquilo a que chamamos “neurose . Todavia. Só que. Pois o trauma é isso. por fortes que sejam. Só que em alguns setores da vida mental. nem se desata espontaneamente. o cliente fala de sua vida comum. a forma do desejo semelha um nó. Há uma concentração das celebrações neuróticas. praticada por pessoa adulta com a criança que haveria de se tornar neurótica. concentradamente. o tempo da neurose celebra o trauma. No calendário da terapia analítica. Vindo à análise. De qualquer modo.uma sedução. vividas agora em relação ao analista. de maneira convencional e muito reduzida. porém. envolvendo o analista. Em todos nós é assim. a situação especial onde o desejo se mostra em seus nós traumáticos. ou semelhança formal. a interpretação do analista rompe o campo onde se assentava o tema comum. deixando surgir. os dias em vermelho repetem. mantendo entre si uma relação de homologia. Análise: deixar que surja e tomar em consideração. ou melhor.

Acontece. e não sua versão posterior. deixa-se que surjam e tomamse em consideração as muitas pessoas que vivem em cada um. algo de peculiar ocorre com a dupla terapêutica. Rompido o campo da convenção neurótica a respeito da própria história. e é. Comemorar e recordar são as chaves da mudança. pela interpretação. rompe-se o campo onde se apoiava a história convencional da neurose. isto é. interpretada. Quando. porém. O que era celebração isolada e sempre igual transforma-se em comemoração. Por aí se vê como se acavalam as diferentes ordens de sentido. O trabalho de recuperação da multiplicidade é o que se chama transferência. porém. através dela. Ou. pô-la em questão. que mesmo essa festa parece ter sido celebrada em data equivocada. Talvez o aspecto mais grave da convenção neurótica seja reduzir uma pessoa a ser apenas uma possibilidade dentre todas que estariam a seu alcance. Tal como se pudéssemos reproduzir as situações mesmas que compuseram uma história. que a celebração é acolhida. a rigor. e recordadas numa reedição partilhada com alguém. Quando. de nada serviria. procurou-se cobrir. a festa de Natal foi antecipada de janeiro para 25 de dezembro. com a mudança. é possível agora elucidála. a celebração da festa pagã do solstício de inverno (no Hemisfério Norte). são revividas emocionalmente em seu sentido profundo. no campo transferencial. os muitos sentidos possíveis da história do paciente. tentando atingir seu sentido verdadeiro. que ele foi paulatinamente reduzindo a uma convenção. em seguida. comemoradas (com memoradas).transferencial”. como as . Pense de novo no calendário. Acontece. lá pelos fins do século III. testá-la. E de que serve tudo isso? Se fosse apenas uma celebração a mais. torna-se assunto. as situações traumáticas são convidadas a voltar do exílio convencional ao coração da mente (recordadas).

decifra o . eliminando as diferenças. espectador. uma pessoa pode experimentar várias roupas. descobrir diversas identificações.muitas crenças são achatadas na História oficial. eles estão numa sala. Pois o paciente neurótico sofre de uma restrição: ele é só isso que o nó traumático determina. teríamos uma idéia do que lhe é peculiar. Que é muitos. O campo transferencial é aquele em que. portanto. apesar da violência. poderia dar a impressão de que seu corpo tem a forma da veste. amigo. Se uma pessoa apenas usasse uma roupa. Várias roupas. Na história pessoal também. como se o conheceria? Resposta: mudando de roupa. Materialmente. Como seria alguém cujo corpo fosse invisível e impalpável. porém. não carecem de sutileza e têm de ser pacientemente reconhecidas. nunca é capaz de aparecer por si mesmo. é um complicado tecido de emoções que. Uma mulher com saia rodada pareceria ter as coxas em forma de sino. de corte diverso. o neurótico identificou-se com algo bem definido (não para ele. Em outras palavras. o inconsciente. Campo transferencial é o lugar onde convivem paciente e analista. Uma identificação é isso: uma veste sobre o corpo do desejo. diferentemente do corpo físico. com essa história convencional que celebra nos sintomas. comemora. Sua comunicação. No entanto. amante etc. Isso é possível porque o analista vive as celebrações convencionais junto com seu cliente. durante toda a vida. isto é. Quem só se enxerga vítima. que pode ser despido e revelar seus contornos. A isso chamo desenhar o desenho do desejo. o corpo do desejo. verá também que é carrasco. sobre seu corpo determinariam traços comuns. Veja você. desfiadas e recosturadas. com a ajuda do analista. lógico).

o corpo invisível. se tem mobilidade de fantasias e se habita seu próprio desejo. As identificações neuróticas são. Se a pessoa pode se representar de muitos modos. ele vai assimilando o jogo do campo transferencial. Não é preciso mais parar de viver uma vida cotidiana para entrar no tempo da neurose. sabe que mesmo os grandes feitos ocorreram no meio de coisas pequenas. o paciente pode ter muitas. bem ao contrário. Seu desejo toma forma. É como o historiador que conhece bem o passado de seu país. Ele não mais acredita que houve um passado heróico. E mais. ou que só viver para “cuidar de sua neurose”.sentido dos nós que o amarravam a uma só representação de si mesmo e mostra-lhe a quantidade de fantasias que sob ela se ocultavam. e a outras ainda que simplesmente não estavam antes disponíveis. de ter mobilidade de fantasias. integradas a muitas outras da vida comum. pensam que serão reduzidas a uma espécie de ser médio. perde o chão. que os heróis não prescindiam de banheiro. muitas idéias que o representam. revela vários sentidos simultâneos. O . Não é propriamente que aquela identificação neurótica tenha desaparecido. o paciente começa a conhecer o que não muda sob elas. e. experimentar vestes diferentes. Aos poucos. De tanto experimentar identificações diferentes. entre o comer e o dormir. Em vez de uma fantasia dominante. então. vai adquirindo a capacidade de. a distinção entre dias pretos e vermelhos também cai. como no exemplo anterior (da chuva). Pois a regra do campo transferencial é que qualquer idéia que nele ocorra sofre ruptura de campo. As pessoas que procuram análise temem que se perca sua originalidade. medíocre. Já não é necessário parar de viver o cotidiano para celebrar um acontecimento traumático. por si só. Só um terapeuta muito incompetente estimularia tal redução. nos dias vermelhos.

Ou melhor. O também é importante. veremos. Para tanto. também tem seu lugar — rompido seu campo. Vimos como é diverso o real da saudade do da teimosia. Talvez assim as fábricas produzam mais. há que imaginar um campo (um lugar de sentido) onde todos os ditos. por analogia. é exclusivista. no próximo capítulo. somos iludidos para crer que os dias da semana são iguais. porém. portanto. justamente porque há os fins de semana. no processo analítico. Toda a diferença se encontra no lazer de fim de semana. . Não se perde. a integrar na personalidade algo como o campo transferencial. pode ver como o mundo comum é trágico. o sentido original. neurótico. idéias. É como se devêssemos voltar a viver em cores o que estava em preto e branco. tudo vale por querer dizer outra coisa também. Na verdade. mandar e obedecer. como é diferente o real autoritário. sentimentos. que antes era celebrado nos sintomas. fabuloso. também há muitos reais. Aí. ações etc. as pessoas são menos felizes. mágico e heróico. logo. este não é falso. romper o campo que nos aprisiona entre trabalho e lazer. A cura psicanalítica equivale. o próprio sentido neurótico. Nesse campo onde tudo vale como ruptura de campo. Pois como há muitos homens num só. esvaziando os dias de trabalho de seu prazer. o da exclusividade ou nó. Há inúmeras condições do real. sem deixar de ser comum. daí resultando que a pessoa não mais esteja aprisionada pela dualidade tempo da neurose-tempo do cotidiano. É o destino das diferenças. decerto. A análise do social deveria. produzir e consumir. reconhecer que há inúmeros campos do real onde pensávamos haver uma realidade única.paciente que abandona sua fábula de origem encontra-se no seio dum drama. valessem apenas por terem o destino de sofrer ruptura de campo. ele se integra a muitas outras formas que agora são vivíveis. nada tem sentido único.

responsabilizam os interesses discordantes dos grupos sociais pelo atual estado de coisas. pensaremos juntos um pouquinho em como se pode aplicar o Campo Psicanalítico para o conhecimento dos campos do social. estão mesmo em conflito permanente. você me perguntará. preservar o método dentro dos limites da relação bipessoal é muito melhor que nada. Entretanto. Os interesses dos grupos. das nações. baseada em guerras de tiros e guerras comerciais. que toda explicação sociológica inclui uma passagem pela Psicologia — e esta geralmente não se . Caso contrário. 9 . Tudo o que vimos até aqui talvez o tenha convencido disso. voltemos à frase inicial do primeiro capítulo: os homens são pessoas muito estranhas e até absurdas. porém. o campo onde tudo o que ocorre só vale como possibilidade de ruptura é. o Campo Psicanalítico ou campo transferencial. nada mais. quando nele se dá (neurose de transferência). em exploração e dominação.A PSIQUE E OS CAMPOS DO REAL A título de epílogo deste nosso passeiozinho pela Psicanálise. Quando os sociólogos e os economistas procuram nos fazer entender a confusão em que vivemos. Tudo o que lá se diz vale como fantasia. E têm razão. nada menos.Ora. vale apenas para produzir outras formas de ser. Talvez. serve para produzir outras idéias. até a neurose. Acontece. das classes. Mas não será um pouco egoísta ter essa experiência em caráter privado?. no último capítulo. só que ainda não sabemos bem como generalizá-la — por enquanto. e na produção enlouquecida de bens perfeitamente inúteis. pense em como organizam seu mundo e compare isso com as explicações que encontram para tal organização.

porém.menciona. Como vimos. é que cada um deles tenta defender o seu. aconselho-o a buscar descobrir quantas dessas afirmações psicológicas simplistas ocultam-se nos raciocínios mais bem construídos. existe a suposição de que. há também inúmeras afirmações sociológicas pueris ocultas nas teorias psicológicas. Esta já é uma afirmação psicológica. seu sentido é fabricado pela psique. para qualquer pessoa que olhe para cima. a guerra ou o nacionalismo são produzidos inteiramente por causas concretas. usam-na sem perceber. é óbvio. Ora. creio que ficará atônito. Se um homem. seu sentido é psique. como é óbvio. o que é um grave pecado. nem é . é óbvio que os defendam. mas este é outro problema. portanto. de acordo com a orientação de seu desejo. sejam individuais ou coletivas. Sendo assim. Ela simplesmente não tem lugar material. se os grupos humanos lutam por interesses. estudar a psique não é um passa tempo. Um automóvel é fabricado numa linha de montagem. A afirmação correta seria: se alguém tem interesses. uma classe ou país têm interesses. (Na verdade. Psique é o que produz sentido nas coisas humanas. a Psicanálise não pode e não deve fazer Sociologia. grupos ou à humanidade em geral. por exemplo. o fato de que o Sol gira em torno da Terra. É óbvio que sim. cada vez que ligam um comportamento a uma causa qualquer. luta por eles ou contra eles. O que se aplica a pessoas. mas é falso. um grupo. O objeto do estudo psicanalítico chama-se psique. a inflação. mas é capaz de mostrar algumas coisas que interessam aos estudiosos da sociedade. Se você se interessa pela Sociologia.) Os sociólogos freqüentemente pensam que não estão a usar Psicologia. e o resultado é que a usam mal. a psique não é uma coisa que existe na cabeça do indivíduo nem na cabeça coletiva. Neste caso. nem é sequer percebida. Valem-se do senso comum. Ou seja.

Claro que não só a Psicanálise o faz. que é o único que conhecemos — é o mesmo que o desejo. mas visto no mundo. Há. . além de outras Ciências. é a psique a estranheza dos homens. Vivemos nele mas sem o enxergar. falando. como as dos sonhos. a psique. a realidade é produto duma espécie de acordo entre os homens. pois a psique é um ser muito estranho. A Psicanálise tem seu quinhão. e sua realidade? Penso que seja assim. é tomá-los em consideração. mas. da psicopatologia. acabam por criá-lo. Veja um exemplo. Isso não significa a inexistência de objetos materiais: a materialidade das pedras e dos carros está aí. depois. uma outra série de regras de bom-tom. Trata-se dum conjunto de regras muito loucas. Aliás. A Antropologia e sobretudo a Filosofia. que pode ser grande. das emoções. o real é onde se produz a experiência humana. atropela-nos. Todavia. E. Nós todos vivemos num reino a que chamamos realidade.egoísmo elitista de gente rica. O motivo principal de se saber tão pouco a respeito da psique é que ela não pode ser compreendida. só se chega pela interpretação. que se encarrega de organizar aquilo que pode ser visto sem ofender os olhos. Há muitos campos do real. que necessitam de algo comum para poder falar. a que chamo “rotina”. como os homens. mas aos campos que as determinam. Nossa compreensão alcança justificar relações entre os vários comportamentos dos homens e sociedades. Real — real humano. A interpretação opera uma ruptura de campo que permite deixar surgir os sentidos psíquicos. Acontece apenas que só aos poucos começamos a tatear essa área obscura e complicada do universo humano. felizmente. também se interessam pelas raízes do sentido das coisas humanas. uma espécie de chão sobre o qual vivemos.

construir a civilização. Porém. condição anterior. apenas interpreta-se. embora esteja embrenhada no mundo. inconsciente e totalmente diversa. para isso. entre outras coisas.Nossa cegueira ao real é importante e até certo ponto benéfica. Permite-nos. que tem de ser depois retraduzido. sob o tapete da realidade cotidiana. o que invalida o bom delírio. A primeira é a possibilidade de sentir-se fortemente o mesmo. A segunda condição decisiva consiste na capacidade maior ou menor de distinguir entre reais e possíveis. O mesmo ator em vários papéis. O delírio é exatamente isto. falar. posso transformar o fato de que muitas coisas não são o que parecem na certeza delirante de ser eu mesmo um extraterreno. . pensar com lógica. É possível que haja seres inteligentes entre as estrelas. esteja também prejudicado — caso contrário. Já a lógica do real. atos humanos. Por isso não se a compreende. ou para não o ser. Há duas condições psicológicas para alguém chegar a ser delirante. Um mergulho indevido no absurdo. por mais que pareça. Quando alguém toma contato de repente com o chão absurdo. Pois a lógica do real não é a mesma lógica da realidade. a que produz nossas idéias e atos. Esta é a organização dos produtos do pensamento. em linguagem comum. através das várias mudanças de identificação que a vida traz. Ótimo. emoções. fica louco. sempre haverá a noção de ser alguém que pensa ser marciano. é necessário também que o sentido de permanecer o mesmo. se a distinção entre o que é e o que é possível se desfaz. os homens vivem num mundo absurdo sem o saber. Só que. é menos possível que já tenhamos entrado em contato e menos ainda que meu vizinho seja um deles. Então. é da mesma ordem que a lógica da concepção. a maneira pela qual se ordenam e ligam as idéias.

para a lógica e para as imagens da vida cotidiana. para explicar as coisas incríveis. se alguém manda pela força. Por duas razões incluo o delírio entre os campos do real. para me acertar com os outros homens. a psique não é individual nem social. Inicialmente. Bem. existe um . Há formas sociais bastante equivalentes à dos delírios individuais para que os possamos comparar. você está certo pela metade. por exemplo. Depois disso.Ora. haverá um esforço para reconstituir o mundo rotineiro. E os estudos psicanalíticos da constituição do real humano apenas se iniciam. pode acontecer que um súbito desvio da linha de vida faça colar-se a mim uma identificação nova. porém. numa escola ou num grupo de amigos. Só que tal identidade há de corresponder a meu próprio desejo para ter eficiência. sendo assim um mergulho profundo na ordem absurda do mundo. deve-se quem sabe ao fato de ser o delírio um contato indevido com o solo da vida humana rotineira. a gente fica sabendo. O uso de algum tipo de força para constranger a obediência alheia é evidentemente parte do processo autoritário. Como reconhecê-lo? Fácil. Mas há algo mais característico. Ele precisa traduzir sua experiência absurda para si mesmo. tomada agora por mim como se fosse uma nova identidade total. Pode ocorrer num país ou numa casa. se eu me perco com certa facilidade nas mudanças de condição que a vida obriga e não consigo discriminar bem a hierarquia dos possíveis. Talvez por causa disso o louco que delira seja um narrador compulsivo.) O processo autoritário é uma de tais formas. em si mesma. ele se define melhor por sua relação com a verdade. você dirá. não é só o indivíduo que pode delirar. (Afinal. No autoritarismo. porque nossa dificuldade geral de ter uma compreensão psicanalítica tão boa dele quanto das neuroses. Depois. havendo ou não uso de força. Um estudo psicanalítico do processo autoritário mostra que. em primeiro lugar.

portanto. Resulta que suas histórias não necessitem apoiar-se na experiência concreta: constituem uma espécie de delírio. se tudo pode ser ou não. supõe-se. enquanto que as idéias tornam-se espessas. o processo autoritário domina totalmente um grupo. É como se todas as coisas que se diz pudessem ser ou não verdadeiras. O grupo dominante afirma como verdadeira e única a idéia que lhe parece. Ora. para saber que estou alegre devo beber um uísque. é possível afirmar uma idéia qualquer como sendo a única correta. pois. sociedades ou partes delas. . O autoritarismo. a comunicação dá-se quase que só pela via de atos concretos e símbolos materiais convencionados. Contra o regime autoritário. Por exemplo. volta-se então uma espécie de regime de ação pura (ou “regime do atentado”. pesadas como fatos: não exprimem uma verdade. nada é certo. os fatos deixam de ser o que são. como prefiro chamar).descrédito profundo pelo conhecimento. desde que se tenha meios para sustentá-la. passem a confiar inteiramente na força da ação. Quando. depois de certo tempo já não encontro caminho para pensar e dizer. por que. que já não é um sistema organizado por idéias mentirosas. que leva a todo tipo de atrocidades. quando se defronta com alguma oposição. porém. respondem-me que a faço porque sou mau — e não porque penso diferente —. Dessa maneira. Um delírio coletivo. Sendo impossível pensar. funda-se num apego apaixonado à mentira como sistema. mas a uma intenção maligna e pérfida de quem a sustenta. Pode suceder então que grupos inteiros de indivíduos. não a atribui a outra maneira de ver os fatos. Se a cada objeção que faço a uma dada idéia. vai-se tornando paulatinamente impossível pensar e argumentar. são uma espécie de sintoma de intenções ocultas. nem se pode conhecer. e. mas por ausência de idéias. não contêm uma solidez implícita.

Seja com uma pessoa. em 32. quando tem a oportunidade de mostrar-se. ainda que ela se assuste com isso. o “Caso Dora” ou o do “Homem dos Lobos”. Novamente. A Psicanálise. exibindo-o. São claros. Sempre seguindo o mesmo procedimento: ruptura de campo. Além delas. que deixa à mostra o absurdo do que parecia costumeiro. ler as “Conferências Introdutórias”. como você pode ver. Desta obra complexa. por exemplo (a edição “Standart” das obras completas de Freud foi publicada em português pela Ed. uma introdução pequena encontra-se em Hanna Segall. se isso lhe interessar. extraordinariamente bem escritos e com um sabor quase detetivesco. 10 – INDICAÇÕES PARA LEITURA Provavelmente. inicialmente. mas sugiro que aí conte com a ajuda de alguma pessoa que o oriente. o absurdo nada mais é que a presença da psique humana. curso que Freud preparou para um público leigo (em 1917. E isso vai só como exemplo. continuadas. Imago). uma “psicose de ação” — no seio dos campos do social. creio que vale a pena.ou para sentir-me livre devo matar alguém. sugiro que se estude um dos casos clínicos de Freud. Introdução à obra de Melanie . os trabalhos teóricos principais. O absurdo é o mais humano do homem. que sempre se esconde por trás de seus produtos. Quanto à obra de Melanie Klein. serve então à sociedade. a melhor introdução à Psicanálise continue sendo a obra de Freud. com as “Novas Conferências Introdutórias”). no caso. seja com um acontecimento social. A Psicanálise dos campos do social deverá revelar muito mais ampla mente a forma da psique humana. convidando-a a enxergar-se tal como é. Aos poucos você lerá. trata-se do equivalente duma loucura pessoal —.

Depois. será procurar seus escritos traduzidos. mas sempre com orientação. ÍNDICE — O momento da psicanálise — O método da psicanálise — O inconsciente — O aparelho psíquico — A sexualidade 1 —A sexualidade 2 — Psicopatologia — A cura psicanalítica — A psique e os campos do real — Indicações para Leitura . Winnicott etc. O mesmo vale para todos os outros grandes psicanalistas: Abraham. Comece com Freud. Bion. Ed. e não use este livrinho como um manual. que ele não o é. 1966. se se fascinar procure orientação de leitura: a Psicanálise é um tanto complicada — desconfie de manuais. Lacan. etc. Nacional.Klein Comp.

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