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Porto Belo Vol II

Porto Belo Vol II

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Com quantos paus se faz uma canoa? Geralmente com um só, e em geral da
árvore do Garapuvu y gyapiruvu (Schizolobium parahyba), árvore símbolo do
litoral catarinense, utilizada na construção de canoas.
Os carijós usavam duas espécies de canoas. Uma, era construída de um pau
só, inteiriço (monóxilo), que cavavam a frio quando a madeira era mole ou por
meio de fogo no caso contrário; e chamavam a este tipo ingará, de y-gára (a que
flutua). As grandes canoas deste sistema chamavam igara-oçu ou igara-tê (canoa
de vulto ou verdadeira), que comportavam muitas vezes, de 40 a 60 pessoas.
As pequenas eram conhecidas por igara-mirim. Na construção destas
embarcações empregavam geralmente as seguintes madeiras (ibira): garapuvu,
tamuri, ou tambui (caxeta), guaruva, figueira branca, cedro etc. Ao pau de canoa
chamavam ubiragára.
A outra canoa era construída de casca de certas árvores escoradas por
dentro, tendo os extremos ligados com cipó. As canoas deste tipo eram menores e
mais fracas. Chamavam-nas oba, de oba-yá (casca aberta) ou piroga (esfolada).
Denominavam as maiores embarcações deste tipo ubá-uçú ou bacuçú. Conta-nos
Hans Staden:

“No país há uma espécie de árvore que se chama Yga Ivera (igá ibira, pau de
canoa), cuja casca (pyrêra) eles desprendem de cima até em baixo, fazendo uma
armação especial ao redor da árvore para tirá-la inteira. Depois, tomam a casca e
levam da serra até o mar, aquecem no fogo, dobram-na para diante e por de trás e
lhe amarram dois paus atravessados no centro para que não achate, e fazem
assim uma canoa, na qual cabem 30 pessoas, para ir à guerra. A casca tem a
grossura de um dedo polegar, certamente 4 pés de largura e 40 pés de
comprimento; algumas mais longas e outras mais curtas. Nelas remam depressa
e navegam tão longe quanto querem. Quando o mar está bravo, puxam as
canoas para a terra até o tempo ficar bom. Vão mais de duas milhas (a milha
alemã tem 7.408 metros) mar a fora; mas ao longo da terra navegam muito
longe”.

Conta Thevet1 que estas embarcações feitas de casca tinham 5 a 6 braças de
comprido e 3 pés de largura, comportando de 40 a 50 homens e mulheres,
empregando-se estas em esgotarem a água que entrava. No dia da extração da
casca da árvore, os que executavam da raiz até a copa abstinham-se de tomar

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qualquer alimento ou bebida com receio de lhes sobrevir alguma desgraça no
mar.

E quando este se encrespava, lançavam às ondas uma pena de perdiz ou
outra dádiva para aplacá-lo. Viajavam costeando a terra. Remavam de pé com um
remo chato dos dois lados o qual o seguram pelo meio. Guerreiam nelas. “E
quando o pede o perigo – diz o P. Simão de Vasconcelos –, com o mesmo remo
se escudam, porque era o seu remar em pé, e tinham os remos, uns como
escudete, com que aparavam as flechas dos contrários. Andam também à vela,
segundo a conjunção o pede”.
Tanto as igáras, como as obas e pirogas eram usadas na pesca, no transporte
de mercancias e na guerra. As destinadas a este último propósito, em que ia o
chefe tuchaua, traziam como distintivo um chocalho maracá à proa e, por isso,
eram denominadas igatim (canoa de bico) ou maracá-tim. Ao canoeiro chamavam
ybá yara; as canoas ronceiras chamavam ã-uatá; quando a embarcação se
prendia, diziam y-recê; a canoa solta, obá yera; para dizer que estava algo na
canoa, diziam igára-pupé. À proa da embarcação chamavam tim; ao remo, apé-
cuitá; ao leme ou remo de pá, yacumá; ao remador, yacumahua; à boça ou
amarração da canoa, yga-ra-téa; para fundeá-la empregavam uma pedra pesada
ligada a um cabo ou cipó póitá (poita) ou itaguaçu (pedra grande).
Não sabemos se antes da descoberta eles conheciam o uso da vela; em todo
o caso, ficou ela conhecida pelo nome de igare-tinga (o branco da canoa) ou
cûtinga (língua branca). Ao mastro chamavam içá e cûting-yba ao pano da vela.
No ponto onde encalhavam as embarcações denominavam igara-paba. À grande
quantidade de canoas diziam igara-tuba ou obá-tuba.
Os carijós empunhavam o remo com rara maestria e o manejavam com
cadência. Remavam, em geral, de pé. O naufrágio diziam Murú ou Mururú;
enquanto remavam, em geral cantavam suas cantigas (nheengareçava). Faziam
também uma espécie de regata (Mo nheenga), que por muito tempo existiu entre
nós com o nome de Morenga.
Desde o descobrimento com Pedro Álvares Cabral, passando pelo navegador
francês Binot Paulmier de Gonneville (1504), Sebastião Caboto em 1526, é farto
os registros sobre a abordagem dos indígenas às embarcações dos navegantes,
chegando em grande número a bordo de canoas feitas de troncos escavados.

1André de Thevet (1516 em Angoulême - 23 de novembro de 1590 em Paris) foi um sacerdote
francês franciscano, explorador, cosmógrafo e escritor que viajou ao Brasil no século XVI. “He
described the country, its aboriginal inhabitants and the historical episodes involved in the France
Antarctique , a French settlement in Rio de Janeiro , in his book Singularities of France
Antarctique.” Ele descreveu o país, seus habitantes aborígenes e os episódios históricos
envolvidos na França Antártica, uma colônia francesa no Rio de Janeiro, em seu livro
Singularidades da França Antártica.

O alemão Hans Staden esteve duas vezes no Brasil na primeira metade do
século XVI. Na segunda, foi aprisionado pelos indígenas em Bertioga, com os

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quais conviveu durante meses até ser resgatado por um navio francês. Ao retornar
à sua terra, escreveu um livro contando suas experiências, publicado em 1557,
que é um dos documentos mais preciosos sobre os anos iniciais do Brasil colonial.
“Existe lá, naquela terra, uma espécie de árvore, que chamam igá-ibira. Tiram-
lhe a casca, de alto a baixo, numa só peça e para isso levantam em volta da
árvore uma estrutura especial, a fim de sacá-la inteira. Depois trazem essa casca
das montanhas ao mar. Aquecem-na ao fogo e recurvam-na para cima, diante e
atrás, amarrando-lhe antes, ao meio, transversalmente, madeira, para que não se
distenda. Assim fabricam botes nos quais podem ir trinta dos seus para a guerra.
As cascas têm a grossura dum polegar, mais ou menos quatro pés de largura e
quarenta de comprimento, algumas mais longas, outras menos. Remam rápido
com estes barcos e neles viajam tão distante quanto lhes apraz. Quando o mar
está tormentoso, puxam as embarcações para a praia, até que se torne manso de
novo. Não remam mais que duas milhas mar afora, mas ao longo da costa viajam
longe.”

A canoa junto com a jangada e a balsa foram as primeiras embarcações
utilizadas pelo homem, constituindo-se em autêntica proeza e representando um
dos grandes saltos qualitativos da história do homem: a invenção da navegação,
isto é, atravessar uma superfície líquida sem molhar-se. Este avanço,
provavelmente, foi obtido de duas maneiras: unindo com cipós e ataduras vários
pedaços de árvores (balsa) ou escavando um tronco (canoa). Existiram canoas
em todos os continentes, utilizadas por praticamente todos os povos primitivos
litorâneos.

Dependendo do avanço tecnológico da humanidade, das árvores disponíveis e
das necessidades humanas, diferentes tipos de canoas foram sendo criados em
todo o mundo. Inicialmente, escavavam-se troncos grossos com o auxílio de fogo
e pedras, em um penoso processo que trazia como recompensa sólidas
embarcações. Onde a natureza proporcionava a ocorrência de grandes árvores
dotadas de grossas cascas, o homem aprendeu, através do calor, a desprender a
camada externa do caule, de modo a construir canoas como quem dobra uma
folha de papel.

Descobertos os metais, tornou-se muito mais fácil a escavação de toras de
madeira, mas logo a evolução permitiu que o homem aperfeiçoasse suas
ferramentas e trabalhasse a madeira de modo a obter peças com seções esbeltas,
de uma maneira que teria sido impossível com fogo ou rochas. Surgiram as ripas,
as tábuas e com elas o desmembramento dos barcos em estruturas autônomas
cobertas com tabuado, couros e produtos diversos: estavam criados os barcos
propriamente ditos.

O Almirante Antônio Alves Câmara, o primeiro estudioso a interessar-se pelo
fabuloso patrimônio naval dos rios, lagoas e mares do Brasil, na publicação ainda
não superada de 1888 – Ensaio sobre as Construções Navaes Indígenas do Brasil
–, afirma que “a origem desta palavra é americana, das caraíbas”.

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Depois de confirmar que a denominação foi citada por Colombo e os primeiros
viajantes da América, refere-se ao vocabulário português latino do padre Rafael
Bluteau, publicado em 1712, que descreve: “Canoa – Embarcação de que usam
os gentios da América para a guerra, de que mais se aproveitam os moradores
para o serviço, pela pouca água que demandam e pela facilidade com que
navegam (...). Cada qual se forma de um só pau comprido e boleado, a que tirada
a face de cima, arrancam todo o âmago, e fica a moda de lançadeira de tear, e
capaz de vinte ou trinta remeiros”.
Poucos anos depois da expedição de Cristóvão Colombo, Pero Vaz de
Caminha, o insigne cronista da frota comandada por Pedro Álvares Cabral,
oficialmente os primeiros europeus a chegarem ao Brasil, em seu pormenorizado
relato do gentio (os portugueses não tinham dúvidas quanto à verdadeira posição
do oriente e só muito mais tarde chamaram de índios aos nativos que encontraram
vivendo no Brasil) não deixa de citar as embarcações que chamou de almadias:
”... as quais não são feitas como as que eu já vi; somente são três traves atadas
entre si. E ali se metiam quatro ou cinco...”.
O padre Leonardo Nunes, jesuíta chegado ao Brasil com Tomé de Souza e
Manoel da Nóbrega, relata que:
”... dez ou doze léguas junto do porto de S. Vicente, um sábado em amanhecendo,
viemos a vista de umas canoas de índios, que são uma certa maneira de barcos
em que se navega (...) e dizendo isto nos começaram a cercar ao redor, porque
eram sete e cada uma tinha trinta ou quarenta remeiros, às quais correm tanto que
não há navio por ligeiro que seja que se tenha com elas...”.
Frei Vicente do Salvador, frade franciscano que foi o autor da primeira “História
do Brasil”, editada ainda no século XVII, afirma: “Mas os índios naturais da terra as
embarcações de que usam são canoas de um pau só, que lavram a forro e ferro; e
há paus tão grandes que ficam depois de cavadas com dez palmos de bocas de
bordo a bordo, e tão compridas que remam a vinte remos por banda”.
Sobre a guerra entre portugueses e tamoios, no sul do Brasil, afirma o cronista
que: “Haviam os tamoios ajuntado ao número ordinário de suas canoas outras
novas que chegavam a cento e oitenta...”.
Já conhecidas, portanto, dos indígenas, utilizadas no litoral, na Amazônia, no
Pantanal e nos rios do interior brasileiro, as canoas receberam, com a chegada
dos portugueses (vindos da Europa e do Oriente) e logo depois dos escravos
africanos, novas influências, detalhes e desenhos.
Segundo todos os depoimentos, as canoas indígenas anteriores ao
Descobrimento locomoviam-se a remos, inexistindo o uso ou o conhecimento da
vela em toda a América. A introdução de mastros e velas foi a primeira adaptação
importante nas canoas brasileiras, trazendo como consequência lemes e bolinas,
seguindo-se logo várias adequações, surgindo assim a enorme variedade deste
tipo de embarcação ainda encontrada em todo o Brasil.
De uma maneira geral, pode-se afirmar que as canoas do interior do país
guardaram mais as suas origens indígenas no formato dos cascos, nos remos, na

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ausência de velas e na falta de pinturas vivas. No litoral, de onde os índios foram
quase que totalmente desalojados ainda no século XVI, prevaleceram modelos
africanos, europeus ou asiáticos. No litoral, do sul para o norte, existem diversas
variedades: as canoas bordadas e as de borda lisa, com variantes gaúchas/sul-
catarinenses, norte-catarinenses/paranaenses e paulistas/cariocas, as canoas
baianas, as canoas cearenses (desde há muito confeccionadas com cavernas e
tabuado) e as maranhenses (inclusive as montarias).
Na região centralizada por Santa Catarina, existem alguns tipos das belas
canoas bordadas, assim chamadas porque, nas bordas dos troncos escavados,
adicionam-se, com grande maestria, tabuões que ampliam a borda livre e
aumentam a força e velocidade dos remos. Estas canoas são pintadas com cores
vivas e inserem-se entre as embarcações plasticamente mais expressivas do
mundo. Com algumas variações, existem até no Rio de Janeiro.
Aparentemente toscas, as canoas são na verdade barcos dos mais antigos do
mundo e que sobreviveram milênios em função de sua adaptabilidade e facilidade
construtiva. No Brasil, representam a síntese de modelos de origem indígena ou
de outros continentes, adequados às necessidades de cada uma das baías,
enseadas, praias, ilhas, estuários e cursos de água deste país continental.
Pertence ao documentário geral relativo a Sebastião Caboto parte de uma
longa missiva com a data de 10 de julho de 1528, que descreve a Ilha de Santa
Catarina e os acontecimentos que nela então se sucediam, escrita por um dos
seus marujos, o espanhol Luiz Ramirez. Foi esta carta enviada a seu pai, tudo
depois de haver saído a armada da Ilha de Santa Catarina e já se encontrar dois
anos em San Salvador, em Rio La Plata.
Representa a carta de Luiz Ramirez para a Ilha de Santa Catarina algo similar
à de Pero Vaz de Caminha, de 1500, com referência ao Brasil. Era Luiz Ramirez
pessoa bem informada e que viajara com o próprio Sebastião Caboto, na
Capitânia, que houvera naufragado na Baía Sul da Ilha de Santa Catarina.
O texto está guardado na biblioteca do Escorial, proximidades de Madri,
Espanha. No Brasil, a carta foi publicada pela primeira vez na revista do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro (Tomo XV, 1852, p. 14-41). Para esta
Enciclopédia fizemos, todavia, a presente tradução, restrita à parte referente à
Ilha. Acrescemos uma numeração com vistas a facilitar citações.
A carta, depois de narrar o aportamento em Pernambuco e referir-se às
bondades dos moradores e aos indígenas daquelas costas nordestinas, descreve
ainda longamente o curso ao longo da costa, na qual se perdeu um batel, episódio
que motivou o aportamento na Ilha de Santa Catarina, para finalmente abordar os
acontecimentos aqui acorridos.
1. “As naus desfizeram-se de alguns objetos inúteis para dar-lhes alívio. A nau
capitania perdeu o batel que trazia na popa.
A tormenta, da maneira como tenho dito, e muito pior, nos durou toda a noite
até domingo. Amanheceu o dia com muito e bom sol como se não houvesse
passado nada, e assim andamos até que sexta-feira seguinte, dezenove do dito

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mês (de outubro), chegamos a surgir em uma Ilha através de uma grande
montanha, porque parecera ao Capitão General ser aparelhada de madeira para
fazer batel para a nau capitânia, porque, como digo, na tormenta passada havia
perdido o seu.

2. E estando nisto, vimos vir uma canoa de índios, a qual veio à nau capitania,
por sinais nos deu a entender que havia ali cristãos. O que ainda não acabado de
entender, o senhor Capitão General lhes deu a estes índios algum resgate, os
quais foram muito contentes.
Estes índios, segundo parece, foram por terra adentro e deram novas de
nossa vinda. De maneira que, outro dia de manhã, vimos vir outra canoa de índios
e um cristão dentro dela.”
No transcorrer desse século (1500/1600) veremos a importância das canoas
indígenas, como elemento fundamental na descida dos jesuítas paulistas, com
destino às missões pelo litoral catarinense.

CAPÍTULO II

23

OS PRIMEIROS CAMINHOS

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