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O POPOL VUH

A BÍBLIA DOS MAIAS, DESCENDENTES DOS ATLANTES


Tradução ao português
A tradução ao português foi feita por Renan Dias que utilizou o texto em espanhol
traduzido do quíche por Adrián Recinos. A tradução de Recinos é considerada por
diversos estudiosos da cultura maia como a mais fiel ao texto original em quíche
clássico.

Adrián Recinos (1886–1962) foi um historiador guatemalteco, ensaísta,


estudioso da civilização maia, da cultura quiche e dos povos Kaqchikel da
Guatemala. Foi ele quem deu luz à primeira edição em espanhol do Popol Vuh, que
foi baseada em sua tradução encontrada na Livraria Newberry, em Chicago, nos
Estados Unidos.

http://diariodolegionario.blogspot.com/

Neste diário citado no blog acima conto sobre a minha vida e sobre a atuação
do judaísmo financista internacional no contexto global como o maior
inimigo e que deve ser combatido.
INTRODUÇÃO PRINCIPAL
Não é honesto falar em uma Bíblia, pois as Bíblias últimas derivam das primeiras, dos
primeiros documentos que vieram ter às mãos dos encarnados, por intermédio de alguns
seres dotados de faculdades, por efeito de espíritos, anjos ou almas comunicantes.
Se as Bíblias maiores ou mais famosas são oito, por milhares de documentos se
contam os escritos ditos Sagrados. Entretanto, a Popol-Bug e o Livro dos Mortos formam
na dianteira das Bíblias todas, pois a primeira deriva da civilização atlante e a segunda
vale por sua continuação. A famosa civilização egípcia é apenas reflexo da civilização
atlante.
Manu fez uma sinopse deveras interessante, uma codificação valiosa, pois fez um
extrato daquilo que havia de melhor sido revelado, até então. Seu espírito de síntese foi
genial, como soem ser todos os codificadores. Atrás deles funcionam as Legiões do Senhor,
o chamado Espírito da Verdade, e eles apresentam as linhas mestras, as chaves
doutrinárias.
O segundo grande codificador foi Moisés, que inclusive tornou a transmitir o Código
Divino, tendo sido também o primeiro batizador coletivo de Revelação. Os Dez
Mandamentos datam de mais de duzentos mil anos. E o primeiro batismo de Espírito está
relatado no capítulo onze do Livro de Números.
Todos os ensinos contidos nas demais Bíblias, nos demais chamados Livros Sagrados,
partem daqueles dois. O Védico-Budismo deu o primeiro, tendo a Raça Atlante contribuído
fundamentalmente para isso; os continentes eram ligados e os primeiros Grandes
Reveladores nela viveram, não sendo a Índia mais do que continuação, assim também
como o Egito de eras posteriores.
Os autores dos Livros Sagrados, portanto, foram milhares; e de longe em longe surtia
um grande codificador. Assim foi, assim é, assim irá sendo, até a consumação evolutiva do
Planeta. Pouco importa o que venham a pensar certos homens, aqueles que sempre se
apresentam pensando que são os juízes e fiscais do próprio Deus!...
De Moisés a Jesus - Cristo muitas coisas aconteceram; e aquilo que realmente importa
ser conhecido, neste livreco está relatado. Quem o souber ler, ficará com o Espírito das
Revelações e com as Chaves da Verdade. O Verdadeiro Livro Sagrado é a Obra Divina, é a
chamada Criação! Está escrito desde a Eternidade e seus capítulos e versículos são as leis
do Senhor! Os mundos infindos e as vidas é que lhe são as páginas gloriosas!
As Bíblias são a História do Mediunismo ou Profetismo; seus altos e baixos derivam
dos altos e baixos daqueles que as revelam; importa saber discernir entre o que veio da
Mensageiria Superior e aquilo que houve de ingerência humana. Não é suficiente ler a
Bíblia ou as Bíblias; o mais importante é saber ler. De tal modo a ignorância grassa no
mundo, que os donos de religiões transformam os Livros Proféticos ou Mediúnicos em
elementos de blasfêmia contra o Profetismo. Foram os anjos, almas ou espíritos
comunicantes que ensinaram os homens; mas aqueles que lêem mal, induzidos por
aqueles que têm interesses materiais na adulteração dos fatos, tudo procuram inverter e
corromper.
De Ordem Superior, este livro representa uma Súmula das Revelações; quem deu os
informes anteriores, nas eras remotas, continua em vigência; a Mensageiria Divina a Deus
pertence.
(Trecho introdutório extraído de A Bíblia dos Espíritas – escrito por Osvaldo
Polidoro, reencarnação de Allan Kardec)

(... continuação secundária)

A exposição seguinte apresenta os comentários de renomados pesquisadores


maianistas, além da influência do documentário Calendário Maia feito pelo
National Geographic.

Desastres naturais parecem cada vez mais freqüentes.

Fenômenos astronômicos que ocorrem a cada 26 mil anos.

Alguns dizem que o fim do mundo está próximo. E que os maias, criadores de uma das
maiores civilizações humanas, com incríveis conquistas em astronomia, matemática e arte,
foram os que o profetizaram.

Entretanto, qual é a verdade por trás destas supostas profecias. Será que o mundo passará
por tremendas catástrofes no dia 21 de dezembro de 2012?

Na cosmogenia maia a destruição do homem já ocorreu diversas vezes. Para descobrir a


verdade devemos nos dirigir ao início de tudo. E o mito maia da criação do homem é o
ponto de partida. Este relato está preservado em um livro: o Popol Vuh.

O Popol Vuh – Livro da Comunidade, em língua quiche (maia) – é a Bíblia dos maias
por que fala da criação. A história nos leva a este gênese de como os deuses criaram
o homem e a terra. (Richard Hansen – arqueólogo que há trinta anos investiga os
mistérios que a civilização maia nos deixou)

Segundo o Popol Vuh, os deuses criaram e destruíram inúmeras gerações de homens em


sucessivos cataclismos. Por fim, os deuses criaram os homens de milho que hoje povoam a
terra, e que também estariam condenados à destruição.

Contudo, a autenticidade do Popol Vuh tem sido questionada. Durante anos se pensou que
o Popol Vuh fosse um documento colonial com muitos elementos vinculados à Bíblia.

Mas então, como seria comprovada a autenticidade do Popol Vuh?


Devemos, primeiramente, nos dirigir à selva de Petén, na Guatemala, onde existem indícios
da presença de mais de 100 cidades maias. Uma destas cidades poderia desvendar o
enigma de se o Popol Vuh é anterior ao período da conquista espanhola no século XVI.

Calcula-se que havia cerca de 1 milhão de habitantes no Vale de El Mirador, na Guatemala,


considerado o berço da civilização maia devido à presença das maiores cidades e
monumentos da civilização maia.

No ano 1000 a.C os maias começaram a se assentar e a construir plataformas. E de 400 a


300 a.C surgiu o grande Estado Maia.
No Vale de El Mirador surge a maior pirâmide do continente, a Danta. A sua construção
pode ser datada de cerca de 1600 anos antes da chegada dos espanhóis. E, segundo a
descoberta de pesquisadores, pode-se provar que os maias acreditavam na criação do
homem assim como em sua destruição, ambas descritas no Popol Vuh.

Há reais evidências do Popol Vuh em El Mirador. Os personagens gêmeos Hunapu e


Ixbalanqué, por exemplo, protagonizam grande parte do Popol Vuh. Há pictogramas
dentro das pirâmides que os mostram em diversas situações, como aquela em que Hunapu
está engolindo e levando com ele a cabeça de seu pai.

“É maravilhosa esta cosmovisão retratada no período pré-clássico tardio (200 a 300


a.C). Conclui-se, portanto, que o Popol Vuh é um livro verdadeiro, e a sua origem é
de séculos e séculos antes de Cristo. Logo, a crença maia nas sucessivas destruições
do homem também é verdadeira.” (RH)

Agora, como e por que estas destruições ocorreriam?

No Popol Vuh poderia estar contida toda a chave para responder a esta pergunta.

“O Popol Vuh tem um começo muito parecido com o da Bíblia judaico-cristã.


Existiam apenas os deuses formadores: Huracán, Tepeu e Gucumatz. Então estes
criaram seres para os adorarem. Criaram um homem e uma mulher de madeira.
Mas estes eram maus, e, portanto, são destruídos por um dilúvio de água. Os deuses
criam, em uma outra tentativa, homens e mulheres de fibra vegetal. Mas a
ingratidão faz com que os deuses os destruam. Assim, os deuses se reúnem para
buscar a substância perfeita para criar o homem: a massa de milho. Nós somos os
homens de milho. “(Yvonne Putzeys – arqueóloga e especialista em textos
indígenas).

Mas, segundo o Popol Vuh, se não respeitarmos os deuses ao praticar os


Mandamentos que eles nos deixaram, haverá conseqüências, e mandarão uma
catástrofe, um dilúvio, fogo, terremoto para nos corrigir ou para que sejamos
remetidos a outros estados inferiores. (RH)

Os maias não contam o tempo como nós. Começamos no ano zero e andamos para frente
ou para trás. O tempo para os maias é cíclico, sendo este uma espiral, em que os fatos se
repetem uma ou outra vez.

Para algumas interpretações, os escritos maias reservam catástrofes que poderiam ter vez
no futuro.

O Código de Dresden (1), um dos antigos manuscritos maias que sobreviveram à


destruição espanhola, relata um imenso dilúvio que talvez tenha ocorrido no passado. E
este, de acordo com o conceito cíclico do tempo, pode ser encarado como uma profecia.

Neste manuscrito há o desenho de um crocodilo, chamado de crocodilo cósmico, com


grifos que identificam Vênus e o Céu. Uma cachoeira sai da boca do crocodilo. Há um grifo
escrito em maia que diz que o céu está negro. Dia 21 de dezembro de 2012 seria o final
do 13° baktun. Nesta data, segundo os especialistas, indica que há ou haverá uma
destruição.
O Popol Vuh e o Código de Dresden alimentam a idéia de que o homem de milho
também poderia sofrer uma destruição.

Alguns seguidores das profecias maias, como aqueles que habitam uma aldeia nas
proximidades de Córdoba, na Argentina, afirmam que estão esperando o desenrolar deste
período evolutivo para os que estão encarnados hoje na terra. Nestas aldeias há a crença
de que a terra irá sobreviver a esta grande mudança de ciclo. Eles acreditam que viver em
uma comunidade auto-sustentável vai garantir que continuem obtendo recursos quando o
sistema entrar em crise. Além disto, defendem que viver longe das grandes cidades – num
campo eletromagnético mais livre - permite a eles desenvolver o que será o veículo de
comunicação do futuro: a telepatia.

Na comunidade de Xul – significa o fim, em língua maia -, no México, alguns italianos se


estabeleceram e deram início a um empreendimento em uma área privada, o que os obriga
a contratar mão de obra local. Parece que há um laboratório por lá, e as construções são
redondas e de muro duplo, de 60 cm, segundo os operários que lá trabalharam, e a vista
aérea que se fez do local.

Na Cidade do México, os seguidores da Confederação Galáctica acreditam que seres de luz


terão o encargo de auxiliar os terrícolas durante estas mudanças cíclicas. De acordo com
seus seguidores, a principal profecia que os seres de luz anunciaram através das
canalizações é o salto quântico. Isto significa que tanto o planeta quanto a raça humana
mudariam de dimensão, ou ordem vibratória. Quando estas energias chegarem, elas
afastarão tudo que não é luz. Todas as energias negativas que a humanidade criou - sob a
forma de egoísmo, orgulho e ódio- foram guardadas no planeta, e a maneira de libertar
estas energias é sob a forma de movimentos telúricos. Mas se estivermos sintonizados em
Luz Divina, aí será uma experiência magnífica. Gaia é a divindade de luz que representa o
planeta terra e quer ascender à quinta dimensão em 2012. Isto segundo relatos dos
próprios seguidores.

O fato é que no dia 21 de dezembro de 2012 acaba um ciclo e começa outro. Os maias
previram que neste dia ocorrerá um alinhamento da Terra com o sol e o centro da galáxia,
além do alinhamento de várias estrelas com o eixo terrestre. Esta profecia se encontra
escrita na lápide do rei Pacal, o Grande (governante maia no século VII d.C).

“O que poderá acontecer é um aumento da corrente de energia sobre a terra.


Portanto sobre todos os corpos que a habitam. E, esta corrente, se comparada a um
motor, ou funcionaria mais rápido ou queimaria. Esta mudança de freqüência está
produzindo mudanças físicas na terra: vulcões, terremotos, maremotos, tsunamis,
furacões, secas, etc.” (Julián Palaoro – habitante da aldeia Eco)

O especialista em cultura maia, Gerardo Aldana, desenvolve uma tese esclarecendo que o
calendário maia foi convertido no calendário gregoriano através do cálculo da correlação
GMT (2) que foi usado para datar toda a história maia. No entanto, os antigos maias
deixaram de usar a contagem longa em alguns momentos. Isto implicaria em alguns erros
de cálculo, que acarretaria em um erro de décadas. Como começaram a usar a contagem
curta, não teríamos a certeza de quando passaram a utilizar este novo calendário.
(1) – O Código de Dresden é um manuscrito provavelmente escrito por escribas mais
anteriormente à conquista espanhola. Afirmam que espíritos superiores, ou deuses,
atuam em nosso cotidiano todo o tempo. Explica dados do calendário maia e do
sistema numérico maia. Foi muito importante ao se fazer a decifração dos
hieróglifos maias. Encontra-se na Biblioteca de Dresden, na Alemanha.
(2) Correlação Goodman, Martinez e Thompson - A correlação GMT estabelece que
a data de criação 0.0.0.0.0 ocorreu em 6 de setembro 3114 a.C (calendário Juliano)
ou 11 de agosto de 3114 (calendário gregoriano), número do dia juliano 584283.
Esta correlação é utilizada para datação astronômica, etnográfica, de fontes
histórias, e de carbono.

Primeira Parte
Capítulo I
Esta é a raiz de como tudo estava em espera, tudo em calma, em silêncio; tudo imóvel,
calado; a extensão do céu estava vazia.

Esta é a primeira relação, o primeiro discurso. Não havia nem um homem, nem animais,
pássaros, peixes, caranguejos, árvores, pedras, cavernas, barrancos, ervas, nem bosques;
apenas existia o céu.

Não se manifestava a face da terra. Somente o mar e o céu em toda a sua extensão estavam
calmos.

Não havia nada que estivesse de pé; somente a água em repouso, o mar plácido, só e
tranqüilo. Não havia nada dotado de existência.

Somente havia imobilidade e silêncio na obscuridade, na noite. Somente o Criador, o


Formador, Tepeu, Gucumatz, os Progenitores, estavam na água rodeados de claridade (1).
Estavam ocultos sob plumas verdes e azuis (2), por isso eles são chamados de Gucumatz.
De grandes sábios, de grandes pensadores é a sua natureza. Desta maneira existia o céu, e
também o Coração do Céu, pois este é o nome de Deus. Assim contavam.

Chegou aqui, então, a palavra. Vieram juntos Tepeu e Gucumatz na escuridão, à noite, e
falaram entre si. Falaram, pois, discutindo entre si e meditando. Puseram-se de acordo,
juntando suas palavras e seus pensamentos.

Então se manifestou com clareza, enquanto meditavam que, quando amanhecesse, devia
aparecer o homem (3).

Então dispuseram da criação e do crescimento das árvores e dos arbustos, e do


nascimento e da vida e da criação do homem. Dispôs-se assim na escuridão e à noite pelo
Coração do Céu, que é chamado de Huracán.
O primeiro se chama Caculhá-Huracán. O segundo é Chipi-Caculhá. O terceiro é Raxá-
Caculhá. E estes três são o Coração do Céu.

Logo vieram juntos Tepeu e Gucumatz, e discutiram entre si sobre a vida e a claridade, e
em como se fará para que se clareie e amanheça, sobre quem produzirá o alimento e o
sustento.

“Faça-se assim! Que se preencha o vazio! Que esta água se retire e desocupe o espaço! Que
surja a terra e que se firme!” Assim disseram. “Que clareie! Que amanheça no céu e na
terra! Não haverá glória nem grandeza na nossa criação e formação até que exista a
criatura humana, o homem formado.” Assim disseram.

Logo, terra foi criada por eles. Assim foi, de verdade, como se fez a criação da terra:
“Terra!” – disseram, e, no mesmo momento, ela foi feita.

Como a neblina, como a nuvem e como uma poeira foi a criação, quando surgiram da água
as montanhas; neste mesmo momento cresceram as montanhas. Somente por um
prodígio; somente por arte mágica se realizou a formação das montanhas e dos vales; e, no
mesmo instante brotaram juntos os ciprestes e pinheiros na face da terra. E, assim, se
encheu de alegria Gucumatz, dizendo: “Boa tem sido a sua vinda, Coração do Céu; Você,
Huracán, e você, Chipi-Caculhá, Raxá-Caculhá!”

“Nossa obra, nossa criação será terminada” – responderam.

Primeiro a terra, as montanhas e os vales foram formados; as correntes de água foram


divididas, e os arroios foram correndo livremente entre os cerros, e as águas ficaram
separadas quando apareceram as altas montanhas.

Assim foi a criação da terra, quando foi formada pelo Coração do Céu, o Coração da Terra.
Assim são chamados os que primeiro a fecundaram, quando o céu estava em espera e a
terra se achava submersa dentro da água.

Desta maneira se aperfeiçoou a obra, quando a executaram depois de pensar e meditar


sobre seu feliz desfecho.

(1) Estavam na água por que os quiches associavam o nome de Gucumatz com o elemento líquido.
O bispo Núñez diz que Gucumatz é cobra de plumas que anda na água. O manuscrito cakchiquel
afirma que um dos povos primitivos que emigraram à Guatemala foi chamado de Gucumatz pois
sua salvação estava na água.
(2) Guc, ou Q’uc, Kuk em maia, é a ave que hoje é chamada de quetzal (Pharomacrus mocinno); o
mesmo nome se dá às lindas plumas da cauda desta ave, às quais se chama quetzalli em náhuatl
(idioma asteca). Raxón, ou raxom é outra ave de plumagem azul celeste, segundo Basseta, um
pássaro de “peito verde-musgo e asas azuis”, segundo o vocabulário dos padres franciscanos.
Ranchón na língua vulgar da Guatemala é a Cotinga Amabilis, de cor azul turquesa, de peito e
garganta roxos que os mexicanos chamam xiuhtótolt. As plumas destas duas aves tropicai, que
abundam principalmente na região de Verapaz, eram usadas nos adornos cerimoniais dos reis e
senhores principais desde os tempos mais antigos dos maias.
(3) Com a concisão própria do idioma maia, o autor se refere a como nasceu claramente a ideia na
mente dos Formadores; a como se revelou a necessidade de criar o homem, objetivo último e
supremo da criação, segundo as ideia finalistas dos quichés. A ideia de criar o homem se
concebeu , então; mas como se verá no curso da narração, só foi posta em prática muito tempo
depois.
(4) Huracán, uma perna; Caculhá Huracán, raio de uma perna, ou seja o relâmpago; Chipi-Caculhá,
raio pequeno. Esta é a interpretação de Ximénez (descobriu um manuscrito em idioma quiche
sobre que se afirma ter sido um livro sagrado para os maias, o Popol Vuh; este mesmo foi
traduzido por Ximenez ao espanhol. Depois foi dada pelo Padre ao manuscrito, e por Recinos
também, uma versão mais literária). O terceiro, Raxa Caculhá, é o raio verde, segundo o mesmo
escritor, e o relâmpago ou o trovão, segundo Brasseur (abade francês, especialista em estudos
mesoamericanos; afirmava que existiam relações entre os maias antigos e o continente perdido
de Atlântida, e sobre isto muito especulou; traduziu o Popol Vuh ao francês). O adjetivo rax tem,
entre outros significados, o de repentino, súbito. Em [língua] cakchiquel, raxhand-hih é o
relâmpago. Contudo, de tudo isto, racán tem em quiche, e em cakehiquel o significado de grande
ou longo.

Capítulo II
Logo fizeram os animais pequenos do monte, os guardiões de todos os bosques, os gênios
da montanha (5), os cervos, os pássaros, leões, tigres, as serpentes, as cobras, falésias,
guardiães dos bosques.

E disseram os Progenitores: -- Somente silêncio e imobilidade haverá sob as árvores e os


bosques? Convém que, doravante, haja quem os guarde.

Assim disseram, quando meditaram e falaram em seguida. Neste momento foram criados
os cervos e as aves. Em seguida dividiram suas moradas com os cervos e com as aves.

“Você, cervo, dormirá na margem dos rios e nos barrancos. Aqui estará entre os matos,
entre as ervas; no bosque se multiplicarão, em quatro pés vocês andarão e se sustentarão.”
E assim como se disse, assim se fez.

Logo designaram também aos pássaros pequenos e às aves maiores a sua morada:

“Vocês, pássaros, habitarão sobre as árvores e os bosques; ali terão os seus ninhos, ali se
multiplicarão, ali se sacudirão sobre os ramos das árvores e dos bosques. Assim foi dito
aos cervos e aos pássaros para que fizessem o que deviam fazer. E todos tomaram suas
habitações e seus ninhos.

Desta maneira os progenitores deram suas habitações aos animais da terra. E, tendo
terminado a criação de todos os quadrúpedes e das aves, foi-lhes dito aos quadrúpedes e
aos pássaros pelo Criador e formador, e os progenitores:

“Falem, gritem, gorjeiem, chamem, falem cada um segundo a sua espécie, segundo a
variedade de cada um.” Assim foi dito aos cervos, aos pássaros, aos leões, aos tigres e às
serpentes.

“Digam, pois, os seus nomes, louvem-nos, sua mãe, seu pai. Invoquem, pois, Huracán,
Chipi-Calculhá, Raxa-Calculhá, o Coração do Céu, o Coração da Terra, O Criador, O
Formador, os Progenitores; falem, invoquem-nos, adorem-nos! – lhes disseram.

Mas não se pôde conseguir que falassem como os homens; somente gritavam, cacarejavam
e grulhavam; não se manifestou a forma de sua linguagem, e cada um grita de maneira
diferente.

Quando o Criador e o Formador viram que não era possível que se comunicassem, falaram
entre si: - Não foi possível que eles dissessem o nosso nome, o nosso!, seus criadores e
formadores. Isto não está bom – disseram entre si os Progenitores.
Então lhes foi dito: “Serão mudados por que não foi conseguido que falem. Trocamos de
parecer: seu alimento, seu pasto, sua habitação e seus ninhos os terão: serão os barrancos
e os bosques, por que não se pôde conseguir que nos adorassem nem nos invocassem. No
entanto, há quem nos adore. Faremos outros seres que sejam obedientes. Vocês, aceitem o
seu destino: suas carnes serão perturbadas. Assim será. Esta será sua sorte.” Assim
disseram quando eles fizeram saber a sua vontade aos animais pequenos e grandes que há
sobre a face da terra.

Logo quiseram tentar a sorte novamente. Quiseram fazer outra tentativa e tentar de novo
que os adorassem.

Mas não puderam entender sua linguagem entre eles mesmos. Nada puderam conseguir e
nada puderam fazer. Por esta razão foram imoladas suas carnes e foram condenados a ser
devorados e mortos os animais que existem sobre a face da terra.

Assim teve que fazer, pois, uma nova tentativa de criar e formar o homem através do
criador, o Formador e os Progenitores.

“ Testaremos outra vez! Já se aproximam o amanhecer e a aurora; façamos aquele que nos
sustentará e alimentará. Como faremos para ser invocados, para ser lembrados sobre a
terra? Já testamos com as nossas primeiras obras, nossas primeiras criaturas; mas não se
pôde conseguir que fôssemos louvados e venerados por eles. Provemos agora fazer alguns
seres obedientes, respeitosos, que nos sustentem e alimentem. Assim disseram.

Então houve a criação e a formação. Da terra, do lodo fizeram a carne do homem. Mas
viram que não estava bem, por que se desfazia, estava leve, não tinha movimento, não
tinha força, caía, estava aguado, não movia a cabeça, a cara ia para um lado, tinha velada a
vista, não podia ver para trás. No princípio falava, mas não havia entendimento.
Rapidamente se umedeceu dentro da água e não se pôde sustentar.

E disseram o Criador e o Formador: “Bem se vê que não podia andar nem multiplicar-se.
Que se realize uma discussão sobre isto”, disseram.

Então desbarataram e desfizeram a sua obra e a sua criação. E, em seguida, disseram:


“Como faremos para aperfeiçoar, para que saiam bem os nossos adoradores, os nossos
invocadores?” Assim disseram quando de novo falaram entre si.

“Digamos a Ixpiyacoc, Ixmucané, Hunahpú-Vuch, Hunahpú-Vuch, Hunahpú-Utiú. Testem a


sorte outra vez! Provem fazer a criação!” Assim disseram entre si o Criador e o Formador
quando falaram a Ixpiyacoc e Ixmucané.

Em seguida falaram àqueles adivinhos, a avó do dia, a avó do alvorecer, que assim eram
chamados pelo Criador e pelo Formador, cujos nomes eram Ixpiyacoc e Ixmucané.

E disseram Huracán, Tepeu e Gucumatz quando falaram ao agourento, ao formador, que


são os adivinhos: “Há que reunir-se e encontrar os meios para que o homem que vamos
criar nos sustente e alimente, nos invoque e se lembre de nós.”

“Entrem, pois, em discussão, avó, avô, nossa avó, nosso avô, Ixpiyacoc, Ixmucané. Façam
com que se clareie, que amanheça, que sejamos invocados, que sejamos adorados, que
sejamos lembrados pelo homem criado, pelo homem formado, pelo homem mortal. Façam
que assim se faça.”
“Procurem conhecer a sua natureza, Hunaphú-Vuch, Hunaphú-Utiú, duas vezes mãe, duas
vezes pai Nim-Ac, Nimá-Tziís, o Senhor da Esmeralda, o joalheiro, o escultor, o entalhador,
o Senhor dos belos pratos, o Senhor da verde cabaça, o mestre da resina, o mestre Toltecat
(6), a avó do céu, a avó do alvorecer, que assim serão chamados por nossas obras e nossas
criaturas.”

“Tomem a sorte com seus grãos de milho e tzité.(7) Faça-se assim, e se saberá, e resultará
se lavraremos ou entalharemos sua boca e seus olhos na madeira.” Assim foi dito aos
adivinhos.

Em seguida veio a adivinhação, a tomada da sorte com o milho e o tzité. Sorte! Criatura!
Disseram-lhes, então, uma velha e um velho. E este velho era o das sortes do tzité, o
chamado Ixpiyacoc. E a velha era a adivinha, a formadora, que se chamava Chicarán
Ixmucané.

E começando a adivinhação, disseram assim: “Junte-os, acople-os! Falem! Que os ouçamos!


Digam, declarem se convém que se junte a madeira e que seja lavrada pelo Criador e
Formador, e se este (o homem de madeira) é o que nos há de sustentar e alimentar quando
clarear, quando amanhecer!”

Você, milho; Você, tzité; Você, sorte; Você, criatura; Unam-se, juntem-se! Disseram ao
milho, ao tzité, à sorte, à criatura. Vem sacrificar aqui, Coração do Céu; não castiguem
Tepeu e Gucumatz!

Então falaram e disseram a verdade: “Bons sairão seus bonecos feitos de madeira; falarão
e conversarão os seus bonecos feitos de madeira, falarão e conversarão sobre a face da
terra.

“Assim seja!” – responderam, quando falaram.

E, neste instante, foram feitos os bonecos lavrados em madeira. Pareciam com os homens,
e povoaram a superfície da terra.

Existiram e se multiplicaram; tiveram filhas, tiveram filhos os bonecos de pau; mas não
tinham alma, nem entendimento, nem se lembravam de seu Criador, de seu Formador;
caminhavam sem rumo, e andavam de quatro.

Já não se recordavam do Coração do Céu e, por isso, caíram em desgraça. Foi somente um
ensaio, uma tentativa de fazer homens. Falavam a princípio, mas seu rosto estava débil;
seus pés e suas mãos não tinham consistência; não tinham sangue, nem substância, nem
umidade, nem gordura; suas bochechas, pés e mãos estavam secos, e amarelos as suas
carnes. Por esta razão já não pensavam no Criador nem no Formador, os que lhes davam o
ser e cuidavam deles.

Estes foram os primeiros homens que em grande número existiram sobre a face da terra.

(5) Literalmente o homenzinho do bosque. Os antigos índios criam que os montes estavam
habitados por estes antigos guardiões, espíritos dos montes, espécie de duendes semelhantes aos
alux dos maias.
(6) O autor parecer enumerar neste lugar os ofícios correntes do homem daquele tempo. O autor
invoca o ‘ahqual’, que é evidentemente o que entalhava as esmeraldas ou pedras verdes; o
‘ahyamanic’, ou seja, o joalheiro ou ourives; o ‘ahchut’, cinzelador ou escultor; o ‘ahtzalam’,
entalhador ou ebanista; o ‘ahraxalac’, ou seja, o que fabricava os verdes ou belos pratos; o
‘ahraxazel’ o que fazia os copos ou cabaças, verdes e belas, pois ambos os sentidos tem a palavra
‘raxá’; o ‘ahgol’ que era o que trabalhava a resina ou o copal; e, por último, o ‘ahtoltecat’, que
era, sem dúvida, o ourives, tolteca. Os toltecas foram de fato os grandes mestres na arte da
ourivesaria, que, segundo a lenda, lhes foi ensinada pelo próprio Quetzalcóatl.
(7) Tzité, árvore de pito, Erythrina corallodendron, Tzompanquahuitl na língua mexicana. Usa-se
no campo para fazer cercados. Se fruto é uma espécie de vagem que contém uns grãos vermelhos
parecidos com o feijão, os quais os índios ainda usam com os grãos de milho em seus sortilégios
e feitiçarias.

Capítulo III
Em seguida foram aniquilados, destruídos e desfeitos os bonecos de pau. Receberam a
morte.

Uma inundação foi produzida pelo Coração do Céu; um grande dilúvio se formou, e caiu
sobre as cabeças dos bonecos de pau.

De tzité se fez a carne do homem, mas quando a mulher foi lavrada pelo Criador e pelo
Formador, se fez de espadana (8) – fibra vegetal da espadana- a carne da mulher. Estes
materiais o Criador e o Formador quiseram que entrassem em sua composição.

Mas não pensavam, não falavam com seu Criador, seu Formador, que os tinham feito, que
os tinham criado. E por esta razão foram mortos, foram inundados. Uma resina abundante
veio do céu. O chamado Xecotcovach chegou e esvaziou os olhos deles; Camalotz veio
contar-lhes a cabeça; e veio Cotzbalam e devorou as suas carnes. O Tucumbalam chegou
também e quebrou e contundiu os seus ossos e os nervos, os moeu e desmanchou os seus
ossos.

E isto foi para castigá-los por que não haviam pensado em sua mãe, nem em seu pai, o
Coração do Céu, chamado Huracán. E por este motivo se obscureceu a face da terra e
começou uma chuva negra, uma chuva de dia, uma chuva de noite.

Chegaram, então, os animais pequenos, os animais grandes, e os paus e as pedras


golpearam os rostos. E se puseram todos a falar; suas moringas, suas frigideiras (9), seus
pratos, suas panelas, seus cães, suas pedras de moer (10). Todos se levantaram e bateram
nas suas caras.

“Muito mal vocês nos faziam; comiam-nos, e nós agora os morderemos”, lhes disseram
seus cães e suas aves de curral. (11)

E as pedras de moer: “Éramos atormentadas por vocês; cada dia, cada dia, à noite, ao
amanhecer, todo o tempo faziam holi, holi, huqui, huqui os nossos rostos, por causa de
vocês (12). Este era o tributo que lhes pagávamos. Mas agora que vocês deixaram de ser
homens, vocês provarão das nossas forças. Moeremos e reduziremos a pó as suas carnes”,
lhes disseram suas pedras de moer.

E eis aqui que seus cães falaram e lhes disseram: “Por que vocês não nos davam a nossa
comida? Apenas estávamos olhando, e já nos lançaram de seu lado e nos deixaram de fora.
Vocês sempre tinham pronto um pau para nos bater enquanto vocês comiam.

Assim era como nos tratavam. Nós não podíamos falar. Quiçá não lhes déssemos a morte
agora; mas por que não refletem? Por que não pensam em vocês mesmos? Agora nós os
destruiremos, agora vocês provarão os dentes que há em nossa boca: os devoraremos”,
disseram os cães, e logo destroçaram as suas caras.
E, por sua vez, suas frigideiras de barro, sua panelas lhes falaram assim: “Dor e sofrimento
nos causaram. Nossa boca e nossos rostos estavam tisnados, sempre éramos postos sobre
o fogo e nos queimavam como se não sentíssemos dor. Agora vocês provarão, os
queimaremos – disseram suas panelas, e todos destroçaram as suas caras. As pedras do lar
que estavam amontoadas se lançavam diretamente desde o fogo contra suas cabeças
causando-lhes dor.(13)

Desesperados corriam de um lado para o outro: queriam subir sobre as casas e as casas
caiam e os arrastavam ao chão; queriam subir sobre as árvores, e as árvores os lançavam
longe; queriam entrar nas cavernas, e as cavernas se fechavam diante deles.

Assim foi a ruína dos homens que haviam sido criados e formados; dos homens feitos para
serem destruídos e aniquilados; de todos foram destroçadas as bocas e as caras.

E dizem que a descendência daqueles são os primatas que existem agora nos bosques;
estes são a amostra daqueles, pois somente de pau foi feita a sua carne pelo Criador e pelo
Formador.(14)

E por esta razão o primata se parece com o homem; é a amostra de uma geração de
homens criados, de homens formados que eram somente bonecos e feitos somente de
madeira.

(8) O nome quiche ‘zibaque’ se usa correntemente na Guatemala para designar esta planta da
família das tifáceas, muito usada para a fabricação de esteiras, chamadas no país camas de tules.
(9) Comalli, em língua mexicana, xot, em quiche, prato grande, semelhante a um disco de barro, que
se usa para cozinhar as tortilhas de milho.
(10) ‘Qui caa’, no origrinal, é pedra de moer, ‘metate’ no México.
(11) Os cães cujas carnes comiam aqueles homens de pau não eram os que hoje existem na América,
mas uma variedade que os cronistas espanhóis chamam cães mudos, pois não ladram. Suas aves
de curral eram o pavão, o faisão, e o inhambu-açu.
(12) Estas palavras são unicamente uma imitação do ruído que faz a pedra durante a moagem do
milho.
(13) A ideia de um dilúvio antigo e a crença de outro que seria o fim do mundo, e teria caracteres
parecidos aos que se descreve neste lugar do Popol Vuh, existia ainda entre os índios da
Guatemala nos anos subseqüentes à conquista espanhola, segundo se lê na Apologética História
(Cap. 235, p. 620)
(14) Segundo os Anais de Cuauhtitlán, na quarta idade da terra “se afogaram muitas pessoas e foram
arremessadas outras aos montes, e se converteram em macacos” (Tradução de Galícia
Chimalpopoca)
Segunda Parte
Capítulo I
Agora diremos também o nome do pai de Hunahpú e Ixbalamqué. Deixaremos na sombra
sua origem, e deixaremos na obscuridade o relato e a história do nascimento de Hunahpú
e Ixbalamqué. Somente diremos a metade, uma parte somente da história de seu pai.

Eis aqui outra história. Eis aqui o nome de Hun-Hunahpú, assim chamado. Seus pais eram
eram Ixpiyacoc e Ixmucané. Deles nasceram, durante a noite, (1) Hun-Hunahpú e Vucub-
Hunahpú, de Ixpiyacoc e Ixmucané. (2)

Então, Hun-Hunahpú havia engendrado e tinha dois filhos, e destes dois filhos, o primeiro
se chamava Hunbatz e o segundo Hunchouén. (3)

A mãe destes se chamava Ixbaquiyalo. Assim se chamava a mulher de Hun-Hunahpú. E o


outro, Vucub-Hunahpú não tinha mulher, era solteiro.

Estes dois filhos, por sua natureza, eram grandes sábios e grande era a sua sabedoria;
eram adivinhos aqui na terra, de boa índole e de bons costumes. Todas as artes lhes foram
ensinadas a Hunbatz e Hunchouén, os filhos de Hun-Hunahpú. Eram flautistas, cantores,
atiradores de zarabatana, pintores, escultores, joalheiros, ourives: estes eram Hunbatz e
Hunchouén. (4)

Então Hun-Hunahpú e Vucub-Hunahpú se ocupavam somente de jogar dados e jogar bola


todos os dias; e de dois em dois jogavam os quatro quando se reuniam no jogo de bola.

Ali vinha observá-los o Voc (5), o mensageiro de Huracán, de Chipi-Caculhá, de Raxá-


Caculhá; mas este Voc não ficava longe da terra, nem longe de Xibalbá; (6) e num instante
subia ao céu ao lado de Huracán.

Estavam, no entanto, aqui na terra quando morreu a mãe de Hunbatz e Hunchouén.

E, tendo ido jogar bola no caminho de Xibalbá, os escutaram Hun-Camé e Vucub-Camé, os


Senhores de Xibalbá.

“O que estão fazendo sobre a terra? Quem são os que a fazem estremecer e fazem tanto
ruído? Vão chamá-los! Que venham jogar bola aqui, onde os venceremos! Já não somos
respeitados por eles; já não têm consideração nem medo de nossa categoria, e até se põem
a brigar sobre nossas cabeças”, disseram todos os de Xibalbá.

Em seguida entraram todos em conselho. Os chamados Hun-Camé e Vucub-Camé eram os


juízes supremos. A todos os Senhores as suas funções eram assinaladas: Hun-Camé e
Vucub-Camé, e a cada um eram assinaladas as suas atribuições.

Xiquiripat e Cuchumaquic eram os Senhores destes nomes. Estes são os que causam o
derrame de sangue dos homens.

Outros se chamavam Ahalpuh e Ahalganá, também senhores. E o ofício destes era inchar
os homens, fazer brotar pus das suas pernas e tingir-lhes de amarelo a cara; o que se
chamava Chuganal. Tal era o ofício de Ahalpuh e Ahalganá.
Outros eram o Senhor Chamiabac e o Senhor Chamiaholom, oficiais de justiça de Xibalbá,
cujas varas eram de osso. A ocupação destes era enfraquecer os homens até que os
tornasse somente ossos e caveiras, e morriam e os levavam com o ventre e os ossos
estirados. Tal era o ofício de Chamiabac e Chamiaholom, assim chamados.

Outros se chamavam o Senhor Ahalmez e o Senhor Ahaltocob. O ofício destes era fazer que
aos homens acontecesse alguma desgraça, quando iam para casa, ou em frente dela, e que
se os encontrasse feridos, estendidos de bocas sobre o solo e mortos. Tal era o ofício de
Ahalmez e Ahaltocob, como lhes chamavam.

Vinham, em seguida, outros Senhores chamados Xic e Patán, cujo ofício era causar a morte
aos homens nos caminhos, o que se chama morte repentina, fazendo chegar sangue em sua
boca até que morressem vomitando sangue. O ofício de cada um destes Senhores era
molestá-los, oprimir as suas gargantas e o peito para que os homens morressem em seu
caminho, fazendo chegar o sangue à garganta enquanto caminhavam. Este era o ofício de
Xic e Patán.

E, tendo-se reunido em conselho, trataram da maneira de atormentar e castigar Hun-


Hunahpú e Vucub-Hunahpú. O que desejavam aqueles de Xibalbá era os instrumentos de
jogo de Hun-Hunahpú e Vucub-Hunahpú, seus coros, (7) seus aros, suas luvas, a coroa e a
máscara (8), que eram os adornos de Hun-Hunahpú e Vucub-Hunahpú.

Agora contaremos a sua ida a Xibalbá, e como deixaram atrás deles os filhos de Hun-
Hunahpú, Hunbatz e Chouén, cuja mãe tinha morrido.

Logo diremos como Hunbatz e Hunchouén foram vencidos por Hunahpú e Ixbalanqué.

(1) Isto é, antes que houvesse sol, nem lua, nem homem.
(2) Hun-Hunahpú, Hunahpú; Vucub-Hunahpú, Hunahpú, são dois dias do calendário quiche. Como
se sabe, os antigos índios designavam os dias antepondo um numero a cada um, formando séries
de 13 dias que se repetiam sem interrupção até formar o ciclo de 260 dias que os maias
chamavam tzolkin, os quiches cholquih e os mexicanos tonalpohualli. Era costume dar às
pessoas o nome do dia em que nasciam.
(3) Note-se que, fora da indicação de que se dirá o nome dos pais de Hunahpú e Ixbalanqué, não se
volta a falar destes heróis até que se conte o seu nascimento no capítulo V da Segunda parte. Ali
se refere a outra metade da história, que, neste lugar, deixa o autor intencionalmente na
obscuridade.
(4) Ah chuen, em maia, significa artesão.
(5) No lugar onde jogavam bola, ‘pa hom’ no original, chegava a observá-los o ‘voc’ ou ‘vac’, que é
o gavião.
(6) Para os quiches Xibalbá era a região subterrânea habitada por inimigos do homem.
(7) Tzuun, rodela de couro, interpreta Ximenez. Era o couro que cobriam as pernas e protegiam
contra o golpe da bola.
(8) Vachzot, segundo Ximenez significa máscara. Todos os objetos eram necessários para o violento
jogo de bola e para adorno dos jogadores.

Capítulo II
Em seguida ocorreu que os mensageiros de Hun-Camé e Vucub-Camé vieram..

- Vão! lhes disseram Ahpop Achih (9). Vão chamar Hun-Hunahpú e Vucub-Hunahpú.
“Venham conosco”, lhes dirão. “Dizem os Senhores que venham”. Que venham aqui jogar
bola conosco, para que com eles se alegrem os nossos rostos, pois realmente nos causam
admiração. “Então que venham!”, disseram os Senhores. “E que tragam cá seus
instrumentos de jogo, seus aros, suas luvas, e que tragam suas bolas de borracha”,
disseram os Senhores. “Venham logo, lhes dirão”, foi dito aos mensageiros.

E estes mensageiros eram corujas: Chabi-Tucur, Huracán-Tucur, Caquix-Tucur e Holom-


Tucur. (10) Assim se chamavam os mensageiros de Xibalbá.

Chabi-Tucur era veloz como uma flecha; Huracán-Tucur tinha somente uma perna;
Caquix-Tucur tinha as costas vermelhas, e Holom-Tucur somente tinha cabeça, não tinha
pernas, mas possuía asas.

Os quatro mensageiros tinham a dignidade de Ahpop-Achic. Saindo de Xibalbá chegaram


rapidamente, levando a sua mensagem ao campo onde estavam jogando bola Hun-
Hunahpú e Vucub-Hunahpú, num jogo de bola que se chamava Nim Xob Carchah (11). As
corujas mensageiras se dirigiram ao jogo de bola e apresentaram a sua mensagem,
precisamente na ordem pela qual lhes foi dada através de Hun-Camé, Vucub-Camé,
Ahalpuh, Ahalganá, Chamiabac, Chamiaholom, Xiquiripat, Cuchumaquic, Ahalmez,
Ahaltocob, Xic e Patán, que era como se chamavam os Senhores que enviaram o seu recado
por meio das corujas.

“Verdade que assim falaram os Senhores Hun-Camé e Vucub-Camé?” Certamente falaram


assim, e nós temos que acompanhá-los.

“Que tragam todos os seus instrumentos para o jogo”, disseram os Senhores.

“Está bem”, disseram os jovens. “Aguardem-nos! Somente vamos nos despedir de nossa
mãe.”

E, tendo-se dirigido até a sua casa, falaram com sua mãe, pois seu pai já estava morto.
“Vamos partir, nossa mãe, porém em vão será a nossa partida. Os mensageiros do Senhor
vieram nos buscar.” “Que venham!”, disseram, conforme se manifestem os Enviados.

“Aqui ficará como garantia a nossa bola”, disseram. Em seguida penduraram-na em um


buraco que havia no teto da casa. Em seguida, acrescentaram: “Já voltaremos para jogar. E,
dirigindo-se a Hunbatz e Hunchouén, lhes disseram: “Vocês se ocupam de tocar flauta e de
cantar, de pintar, de esculpir; esquentem a nossa casa e o coração de sua avó.”

Quando se despediram de sua mãe, enterneceu-se Ixmucané e começou a chorar. “Não se


aflijam, nós vamos partir. No entanto, não morremos,” disseram ao partir Hun-Hunahpú e
Vucub-Hunahpú.

Em seguida partiram Hun-Hunahpú e Vucub-Hunahpú e os mensageiros os carregavam


pelo caminho. Assim foram descendo pelo caminho de Xibalbá, por umas escadas muito
inclinadas. Foram descendo até que chegaram à margem de um rio que corria
rapidamente entre os barrancos chamados Unzivan Cul e Cuzivan(12); e passaram pelo rio
que corre por entre calabaças espinhosas. As calabaças eram inúmeras, mas elas passaram
sem lastimar-se.

Depois chegaram à margem de um rio de sangue e o atravessaram sem beber de suas


águas; chegaram a outro rio somente de água e não foram vencidos. Passaram adiante até
que chegaram onde se juntavam quatro caminhos e ali foram vencidos no cruzamento dos
quatro caminhos.
Destes quatro caminhos um era vermelho, outro negro, outro branco e outro amarelo.
E o caminho negro lhes falou desta maneira: “Eu sou aquele que vocês devem tomar por
que eu sou o caminho do Senhor”, assim falou o caminho.

E ali foram vencidos. Levaram-nos pelo caminho de Xibalbá e quando chegaram à sala de
reunião dos Senhores de Xibalbá, já haviam perdido a partida.

Agora, pois, os primeiros que estavam ali sentados eram somente bonecos, feitos de pau,
reparados por aqueles de Xibalbá.

Cumprimentaram estes primeiro:

“Como estão, Hun-Camé?” – disseram-lhe ao boneco.

“Como estão, Vucub-Camé?”, disseram ao homem de pau. Mas estes não lhe responderam.
Neste momento os Senhores de Xibalbá soltaram gargalhadas, e todos os demais
começaram a rir ruidosamente, pois sentiam que já os haviam vencido; que haviam
vencido Hun-Hunahpú e Vucub-Hunahpú. E seguiam rindo.

Logo falaram Hun-Camé e Vucub-Camé: “Muito bem”, disseram. “Vocês já vieram. Amanhã
preparem a máscara, seus aros e suas luvas”, disseram-lhes.

“Venham sentar em nosso banco”, disseram-lhes. Mas o banco que lhes ofereciam era de
pedra ardente e no banco se queimaram. Puseram-se a dar voltas no banco, mas não se
aliviaram e se não tivessem se levantado teriam queimado as suas nádegas.

Aqueles de Xibalbá começaram a rir de novo. Morriam de rir; se contorciam da dor que
lhes causava a risada nas entranhas, no sangue e nos ossos; riam todos os Senhores de
Xibalbá.

“Foram agora àquela casa”, lhes disseram; ali lhe levarão um pedaço de pinho (13) e o seu
cigarro. E ali vocês dormirão.

Em seguida chegaram à Casa Escura. Não havia mais que trevas no interior da casa.

Entretanto os Senhores de Xibalbá discorriam sobre o que se deviam fazer.

“Vamos sacrificá-los amanhã; que morram rápido para que seus instrumentos de jogo nos
sirvam para jogar”, disseram entre si os Senhores de Xibalbá.

No entanto, seu pinho tinha uma ponta redonda de pedra que chamam de zaquitoc; este é
o pinho de Xibalbá. Seu pinho era pontiagudo e afiado, e brilhante como osso; muito duro
era o pedaço de pinho daqueles de Xibalbá.

Hun-Hunahpú e Vucub-Hunahpú entraram na Casa Escura. Ali lhes foi dado o seu pedaço
de pinho, um só pedaço de pinho aceso que lhes mandavam Hun-Camé e Vucub-Camé,
junto com um cigarro para cada um, aceso também, que lhes mandavam os Senhores.
Deram-lhes isto a Hun-Hunahpú e Vucub-Hunahpú.

Estes se encontravam de cócoras na escuridão quando chegaram os portadores do pedaço


de pinho e dos cigarros. Ao entrar, o pedaço de pinho iluminava brilhantemente.
“Que acendam seu pedaço de pinho e seus cigarros; que venham devolvê-los ao
amanhecer, mas que não os consumem e, sim, os devolvam inteiros”; isto é o que mandam
dizer os Senhores. Assim lhes disseram. E assim foram vencidos. Seu pedaço de pinho se
consumou e, assim mesmo, foram consumidos os cigarros que lhes foram dados.

Os castigos de Xibalbá eram numerosos; eram castigos de muitos tipos.

O primeiro era a Casa Escura, Quequma-ha, em cujo interior só havia trevas.

O segundo era a Casa onde tremiam, Xuxulim-há, pois seu em seu interior era muito frio.
Um vento frio e insuportável soprava em seu interior.

O terceiro castigo era a Casa dos Tigres, Balami-ha, assim chamada. Nela não havia mais
que tigres que resolviam, se amontoavam, grunhiam e zombavam. Os tigres estavam
trancados dentro da casa.

Zotzi-há, a Casa dos morcegos, era o Quarto lugar de castigo. Dentro desta casa não havia
mais que morcegos que gritavam ensurdecedoramente e volteavam na casa. Os morcegos
estavam trancados e não podiam sair.

O Quinto se chamava Casa das Navalhas, Chayin-há (14), dentro da qual só havia navalhas
cortantes e afiadas, silenciadas ou tinindo umas com as outras dentro da casa.

Muitos eram os lugares de tormento de Xibalbá; mas não entraram neles Hun-Hunahpú e
Vucub-Hunahpú. Somente mencionamos os nomes destas casas de castigo.

Quando entraram Hun-Hunahpú e Vucub-Hunahpú e ficaram diante de Hun-Camé e


Vucub-Camé, lhes disseram estes: “Onde estão os meus cigarros? Onde está o meu pedaço
de pinho que lhes deram à noite?”

“Acabaram”, Senhor.

“Está bem. Hoje será o fim dos nossos dias.”

“Agora vocês morrerão. Serão destruídos, os faremos em pedaços , e aqui ficará oculta a
sua memória. Vocês serão sacrificados.”, disseram Hun-Camé e Vucub-Camé.

Em seguida os sacrificaram e os enterraram no Pucbal-Chah, assim chamado. Antes de


enterrá-los cortaram a sua cabeça de Hun-Hunahpú e enterraram ao irmão maior junto
com o irmão menor.

“Levem a cabeça e coloquem-na naquela árvore que está semeada no caminho”, disseram
Hun-Camé e Vucub-Camé. E, tendo ido colocar a cabeça na árvore, neste momento cobriu-
se de frutas esta árvore que jamais havia frutificado antes; que pusessem a cabeça de Hun-
Hunahpú entre seus ramos. E a esta calabaça invocamos a cabeça de Hun-Hunahpú. Assim
se disse.

Com admiração Hun-Camé e Vucub-Camé contemplavam o fruto da árvore. O fruto


redondo estava em todas as partes; mas não se distinguia a cabeça de Hun-Hunahpú; era
um fruto igual aos demais frutos da calabaça. Assim aparecia diante de todos aqueles de
Xibalbá quando chegavam a vê-la.
De acordo com aqueles, a natureza desta árvore era maravilhosa devido ao que tinha
acontecido num instante quando puseram entre seus ramos a cabeça de Hun-Hunahpú. E
os Senhores de Xibalbá ordenaram: “Que ninguém venha a pegar desta fruta! Que ninguém
venha a se colocar sob esta árvore”, disseram. E assim se dispuseram a impedir isto a
todos aqueles de Xibalbá.

A cabeça de Hun-Hunahpú não voltou a aparecer, pois havia se transformado na mesma


coisa que o fruto da árvore que se chama calabaça. No entanto, uma moça ouviu a história
maravilhosa. Agora contaremos como foi a sua chegada.

(9) Título de alguns dos Senhores de Xibalbá.


(10) Chabi-Tucur, Coruja flecha; Huracán-Tucur, coruja de uma perna, ou coruja gigante; Caquix-
Tucur, Coruja arara; Holoni-Tucur, Cabeça de coruja, ou Coruja que se distinguia pela cabeça.
Tucur é o nome quiche da coruja. Assim se chamava também um povo da Verapaz, São Miguel
Tucuré. Esta ave noturna é conhecida indistintamente na Guatemala com o nome de tucuru e
com o de tecolote, do idioma náhuatl ‘tecolotl’.
(11) O grande Carchah, centro importante de habitação na Verapaz, região onde os quiches parecem
haver localizado os fatos mitológicos do Popol Vuh. No manuscrito cakchiquel se lê que estes e
os quiches foram povoar Subinal, no meio de Chacachil, no meio de Nimxor, no meio de
Moinal, no meio de Carchah (nicah Carchah). Alguns destes lugares conservam seus nomes
antigos e podem identificar-se facilmente na região da Verapaz. Segundo o documento
cakchiquel, Nim Xor e Carchah eram dois lugares diferentes.
(12) Existem indicações nestes capítulos que demonstram que os antigos quiches tinham idéias
bastante precisas sobre a localização de Xibalbá, onde habitavam uns chefes sanguinários e
despóticos a quem aqueles estiveram sujeitos nos tempos mitológicos. Xibalbá era um lugar
profundo, subterrâneo, um abismo que devia-se escalar para chegar à terra; o próprio documento
quiche explica que os Senhores de Xibalbá não eram deuses, nem imortais, porém falsos de
coração, hipócritas, invejosos e tiranos; no entanto não eram invencíveis.
(13) Chah, em quiche, ocotl em língua mexicana; é um pinho resinoso que os índios usam para
iluminação.
(14) Chay, obsidiana, substância vidrosa, pedra vulcânica, “a pedra de raio” dos camponeses, da qual
os índios desprendiam lâminas cortantes que usavam como facas ou navalhas, ou pontas de
flecha.

Capítulo III
Esta é a história de uma donzela, filha de um Senhor. O nome do pai era Cuchumaquic e o
da donzela Ixquic. Quando ela ouviu a história dos frutos da árvore, que foi contada por
seu pai, ficou admirada em ouvi-la.

“Por que não vou ver esta árvore sobre a qual contam?, exclamou a jovem. Certamente
devem ser saborosos os frutos dos quais ouço falar. Logo ela sozinha se pôs a caminho, e
chegou ao pé da árvore que estava semeada em Pucbal-Chah.

“Ah!”, exclamou. “Quais os frutos produz esta árvore? Não é admirável ver como se têm
coberto estes frutos? Vou morrer, me perderei se cortar um deles?”, disse a donzela.

Falou, então, a caveira que estava entre os ramos da árvore, e disse: “O que é que você
quer? Estes objetos redondos que cobrem os ramos da árvore não são mais que caveiras.”
Assim disse a cabeça de Hun-Hunahpú, dirigindo-se à jovem. “Por ventura os deseja?”,
agregou.

- “Se os desejo?”, respondeu a donzela.

- “Muito bem”, disse a caveira. Estenda até aqui a sua mão direita.
- “Bem”, replicou a jovem; e, levantando a sua mão direita, estendeu-a em direção à
caveira.

Neste instante a caveira lançou uma cusparada de saliva que foi cair diretamente na palma
da mão da donzela. Olhou-a rapidamente, com atenção na palma da mão, mas a saliva da
caveira já não estava em sua mão.

“Em minha saliva e em minha baba eu te dei a minha descendência (disse a voz da árvore).
Agora a minha cabeça já não tem nada em cima, não é mais que uma caveira despojada da
carne. Assim é a cabeça dos grandes príncipes, a carne é o único que lhes dá uma bela
aparência. E, quando morrem, espantam-se os homens por causa dos ossos. Assim é
também a natureza dos filhos, que são como a saliva e a baba, já sendo filhos de um
Senhor, de um homem sábio ou de um orador. Sua condição não se perde quando se vão,
mas se herda; não se extingue nem desaparece a imagem do Senhor, do homem sábio ou
do orador, porém a deixam para as suas filhas e para os seus filhos que engendrem. Isto
mesmo eu fiz com você. Sobe, pois, à superfície da terra, que você não morrerá. Confia em
minha palavra que assim será, disse a cabeça de Hun-Hunahpú e de Vucub-Hunahpú.

E tudo o que tão acertadamente fizeram, foi por mandado de Huracán, Chipi-Caculhá e
Raxa-Caculhá. Voltou-se, em seguida, em direção à sua casa a donzela depois que lhe foram
feitas todas estas advertências, tendo concebido imediatamente os filhos em seu ventre
pela virtude única da saliva. E, assim, foram engendrados Hunahpú e Ixbalanqué.

Chegou, então, a jovem em sua casa e depois de se completarem seis meses, foi advertido
seu estado pelo seu pai, o chamado Cuchumaquic. Neste momento foi descoberto o
segredo da jovem pelo pai, ao observar que tinha filho.

Reuniram-se, então, em conselho todos os Senhores Hun-Camé e Vucub-Camé com


Cuchumaquic.

“Minha filha está grávida, Senhores; foi desonrada”, exclamou Cuchumaquic quando
compareceu ante os Senhores.

“Está bem”, disseram estes. “Obrigue-a a declarar a verdade, e, se ela se negar a falar,
castigue-a; que ela seja levada para sacrifício longe daqui.”

“Muito bem”, respeitáveis Senhores, respondeu. Em seguida interrogou a sua filha:

“De quem é o filho que você tem no ventre, filha minha?” E ela respondeu: “Não tenho
filho, senhor, meu pai; ainda não conheci um varão.”

“Está bem”, replicou. “Você é mesmo uma rameira. Levem-na para sacrifício, senhores
Ahpop Achih; tragam-me o coração dentro de um porongo, e voltem hoje mesmo diante
dos Senhores,” disse às corujas.

Os quatro mensageiros tomaram o porongo e seguiram caminho levando em seus braços a


jovem e, também, o canivete de pedra para sacrificá-la.

E ela lhes disse: “Não é possível que me matem, oh, mensageiros!, pois não é uma desonra
o que levo no ventre, pois foi engendrado só quando fui admirar a cabeça de Hun-Hunahpú
que estava em Pucbal-Chah. Assim, pois, não devem me sacrificar, oh mensageiros!”, disse
a jovem, dirigindo-se a eles.
“E que colocaremos no lugar do seu coração?” Disse-nos o seu pai: “Tragam-me o coração e
vão diante dos Senhores; cumpram o seu dever e ocupem-se juntos da obra; tragam-me o
coração na porongo, e coloquem-no bem no fundo dele”.

“Por acaso não nos foi falado assim? O que lhe daremos entre o porongo? Nós bem
queríamos que você não morresse”, disseram os mensageiros.

“Muito bem, mas este coração não pertence a eles. Tampouco deve ser aqui a morada de
vocês, nem devem vocês tolerar que os obriguem a matar os homens. Depois serão
certamente vocês os verdadeiros criminosos; e os meus serão em seguida Hun-Camé e
Vucub-Camé. Assim, pois, o sangue e só o sangue será deles, e estará em sua presença.
Tampouco pode ser que este coração seja queimado diante deles (15). “Colham o produto
desta árvore”, disse a donzela. O suco vermelho brotou da árvore, caiu no porongo e, em
seguida, se fez uma bola resplandecente que tomou a forma de um coração feito com a
seiva que corria daquela árvore encarnada. Semelhante ao sangue brotava a seiva da
árvore, imitando o verdadeiro sangue. Logo o sangue coagulou ali dentro, ou a seiva da
árvore vermelha, e cobriu-se de uma camada muito brilhante como de sangue ao coagular-
se dentro do porongo, enquanto a árvore resplandecia por obra da donzela. Chamava-se
Árvore Vermelha Brilhante, mas, desde então, tomou-se o nome de Árvore do Sangue pois
sua seiva é chamada de sangue.

“Lá na terra serão amados e terão o que lhes pertence”, disse a jovem às corujas.

“Está bem, menina. Nós vamos para lá, subiremos para servi-la; você, segue o seu caminho
enquanto vamos apresentar a seiva em lugar do seu coração diante dos Senhores”,
disseram os mensageiros.

Quando chegaram diante dos Senhores, estavam todos aguardando.

“Vocês acabaram com isso?”, perguntou Hun-Camé.

“Tudo está concluído”, Senhores. Aqui está o coração, no fundo do porongo.

“Muito bem. Vejamos!”, exclamou Hun-Camé. E, o levantou com os seus dedos; a fibra do
coração se rompeu, e começou a derramar o sangue de cor vermelho vivo.

“Aticem bem o fogo e ponham-no sobre as brasas”, disse Hun-Camé.

Em seguida jogaram-no ao fogo e começaram a sentir o odor aqueles de Xibalbá; e,


levantando-se, todos se aproximaram e certamente sentiam muito doce a fragrância do
sangue.

E, enquanto eles estavam pensativos, partiram as corujas, os servidores da donzela se


debandaram voando do abismo até a terra; e os quatro se converteram em servidores.

Assim foram vencidos os Senhores de Xibalbá. Pela donzela foram todos enganados.

(15) Ixquic sabia muito bem que os Senhores desejavam o seu coração para queimá-lo. Este era um
antigo costume dos maias.
(16) Chuh Cakché é a árvore que os mexicanos chamavam de ezquahuitl, árvore de sangue, que os
europeus denominavam sangue, Sangue do Dragão, Croton sanguifluus; uma planta tropical cuja
seiva contém a cor e a densidade do sangue.
Capítulo IV
Então estavam com sua mãe Hunbatz e Hunchouén (17) quando chegou a mulher chamada
Ixquic.

Quando chegou a mulher Ixquic diante da mãe de Hunbatz e Hunchouén, levava os seus
filhos no ventre e faltava pouco para que nascessem Hunahpú e Ixbalanqué, pois assim
foram chamados.

Quando a mulher chegou diante da anciã, disse-lhe a mulher à avó: “Cheguei, senhora,
minha mãe; eu sou a sua nora e filha, senhora, minha mãe” . Assim disse quando adentrou
a casa da avó.

“De onde vem você? Onde estão meus filhos? Por ventura não morreram em Xibalbá? Não
vê estes aos quais ficaram a sua descendência e a sua linhagem e que se chamam Hunbatz
e Hunchouén? Saia daqui! Vá embora!”, gritou a velha à moça.

“É mesmo verdade que sou a sua nora; faz tempo que sou. Pertenço a Hun-Hunahpú. Eles
vivem no que levo; Hun-Hunahpú e Vucub-Hunahpú não morreram; eles voltarão a
mostrar-se claramente, senhora, minha sogra. E então logo você verá a sua imagem no que
eu carrego”, foi dito à velha.

Então se enfureceram Hunbatz e Hunchouén. Só se divertiam tocando flauta e cantando,


pintando e esculpindo; era nisto que passavam o seu dia; e eram o consolo da velha.

Falou logo a velha, dizendo:

“Não quero que você seja a minha nora, por que o que você leva no ventre é fruto da tua
desonestidade. Além disto, você é uma embusteira. Meus filhos, de que fala, já estão
mortos”.

Logo a avó acrescentou: “Isto que lhe digo é a mais pura verdade; mas, enfim, está bem.
Você é a minha nora, segundo ouvi. Vai, então, buscar a comida para aqueles que tem de
alimentar. Vai colher uma rede grande de milho e volte em seguida, já que você é minha
nora, segundo o que ouço”, disse-lhe a moça.

“Muito bem”, replicou a jovem. E foi, em seguida, ao milharal que possuíam Hunbatz e
Hunchouén.

O caminho tinha sido aberto por eles e a jovem o tomou e assim chegou ao milharal; mas
não encontrou mais que uma mata de milho; não havia dois, nem três e, vendo que só
havia uma mata com a sua espiga, se encheu de angustia o coração da moça.

“Ai, pecadora, desgraçada de mim! Onde vou conseguir uma rede de milho, como me
ordenou você?”, exclamou. E, em seguida, se colocou a invocar o Chahal (18) da comida
para que chegasse e a levasse.

“Ixtoh, Ixcanil, Ixcacau (19), vocês que cozinhem o milho; e você também Chahal, guardião
da comida de Hunbatz e Hunchouén”, disse a menina. E, em seguida, pegou as barbas – os
pêlos vermelhos do sabugo e os arrancou, sem cortar o sabugo. Logo os arrumou na rede
como sabugos de milho e, logo, a grande rede se encheu.
Voltou, em seguida, a jovem. Os animais do campo iam carregando a rede e, quando
chegaram, foram deixar a carga em um rincão da casa, como se ela já a tivesse levado.
Chegou, então, a velha e, logo que viu o milho que havia na grande rede, exclamou:

“De onde você trouxe todo este milho? Por ventura você acabou com o nosso milharal e
trouxe todo ele para cá? “Irei ver neste instante”, disse a velha, e abriu caminho para ir ver
o milharal. Mas o único pé de milho estava ali, porém se via o lugar onde havia estado a
rede no rés do pé (20). A velha regressou, então, com pressa para a sua casa e disse à
moça:

“Esta é a prova suficiente de que realmente você é a minha nora. Verei agora as suas obras,
aqueles que você leva no ventre e que também são sábios”, disse à moça.

(17) Era a avó destes rapazes que lhes servia de mãe.


(18) Guardião das sementeiras
(19) Brasseur interpreta estes nomes como: Ixtoh, a deusa da chuva; Ixcanil, a deusa das searas
(espiga de milho amarelo); e Ixcacau, a deusa do cacau.
(20) “U qolibal cat chuxe”. Nem Brasseur nem Ximenez traduzem ‘chuxe’, ao pé.

Capítulo V
Contaremos agora o nascimento de Hunahpú e Ixbalanqué. Aqui, pois, diremos como foi o
seu nascimento.

Quando chegou o dia de seu nascimento, de a luz à jovem que se chamava Ixquic; mas a
avó não os viu quando nasceram. Em um instante foi dada a luz a dois meninos chamados
Hunahpú e Ixbalanqué. Lá no monte foi dada a luz.

Logo chegaram em casa, mas não podiam dormir.

“Vai botá-los pra fora!”, disse a velha, porque realmente gritam muito. E, em seguida,
foram colocá-los sobre um formigueiro. Ali dormiram tranquilamente. Logo os tiraram
deste lugar e os colocaram sobre espinhos.

No entanto o que queriam Hunbatz e Hunchouén era que morressem ali mesmo no
formigueiro ou que morressem sobre os espinhos. Desejavam-no assim por causa do ódio
e da inveja que por eles sentiam Hunbatz e Hunchouén.

No princípio se negavam em receber em casa os seus irmãos menores; não os conheciam e,


assim, se criaram no campo.

Hunbatz e Hunchouén eram grandes músicos e cantores; haviam crescido no meio de


muitos trabalhos e necessidades, e passaram por muitas penas, mas chegaram a ser muito
sábios. Eram ao mesmo tempo flautistas, cantores, pintores e entalhadores; tudo sabiam
fazer.

Tinham notícia de seu nascimento e sabiam também que eram os sucessores de seus pais,
aqueles que foram a Xibalbá e morreram lá. Grandes sábios eram, pois Hunbatz e
Hunchouén sabiam tudo relativo ao nascimento de seus irmãos menores. No entanto, não
demonstravam a sua sabedoria devida à inveja que lhes tinham, pois seus corações
estavam cheio de má vontade para com eles, sem que Hunahpú e Ixbalanqué os tivessem
em nada ofendido.
Estes últimos se ocupavam somente de atirar com zarabatana todos os dias; não eram
amados pela avó nem por Hunbatz, nem por Hunchouén. Não se lhes dava de comer;
somente quando já estava preparada a comida e haviam comido Hunbatz e Hunchouén,
então chegavam eles. Mas não se enojavam, nem se encolerizavam, mas sofriam
caladamente, pois sabiam sua condição e se davam conta de tudo com claridade. Traziam
seus pássaros quando vinham a cada dia, e Hunbatz e Hunchouén os comiam, sem dar
nada a nenhum dos dois, Hunahpú e Ixbalanqué.

A única ocupação de Hunbatz e Hunchouén era tocar flauta e cantar. E, uma vez que
Hunahpú e Ixbalanqué chegassem sem trazer nenhum gênero de pássaros, e entrassem na
casa, a avó se enfurecia.

“Por que vocês não trazem os pássaros?”, disse a Hunahpú e Ixbalanqué.

E eles responderam: “O que acontece, nossa avó, é que nossos pássaros ficaram travados
na árvore e nós não podemos subir e pegá-los, querida avó. Se nossos irmãos maiores
assim o quiserem, que venham conosco e que desçam os pássaros”, disseram.

“Está bem, iremos com vocês ao amanhecer, disseram os irmãos maiores.

Deliberaram, então, os dois entre si a maneira de como vencer Hunbatz e Hunchouén.

“Somente mudaremos a sua natureza, a sua aparência; cumpra-se, assim, a nossa palavra,
devido aos muitos sofrimentos que nos causaram. Eles desejavam que morrêssemos que
nos perdêssemos seus irmãos menores. Em seu interior nos tinham como meninos Por
tudo isto os venceremos e daremos um exemplo. Assim iam conversando entre eles
enquanto se dirigiam ao pé da árvore chamada Canté (21).

Iam acompanhados de seus irmãos maiores e atirando com a zarabatana. Não era possível
contar os pássaros que cantavam sobre a árvore, e seus irmãos maiores se admiravam de
ver tantos pássaros. Havia pássaros, mas nem um só caía ao pé da árvore.

“Nossos pássaros não caem sobre o solo. Vão descê-los”, disseram a seus irmãos maiores.

“Muito bem”, responderam estes. E, em seguida, subiram à árvore, mas a árvore aumentou
de tamanho e seu tronco inchou. Rapidamente quiseram descer Hunbatz e Hunchouén,
mas não puderam descer da cimeira da árvore.

Então exclamaram desde o alto da árvore: “O que nos aconteceu, irmãos nossos?
Desgraçados de nós! Esta árvore nos causa espanto só de vê-la. Oh, irmãos nossos!”,
disseram da cimeira da árvore. E Hunahpú e Ixbalanqué lhes responderam: “Desatem os
seus calções (22), atem-nos abaixo do ventre, deixando longas as pontas e atirem-nas para
trás. Deste modo vocês poderão andar facilmente”. Assim lhes disseram os seus irmãos
menores.

“Está bem”, responderam, jogando para trás a ponta de suas cintas. Mas, neste instante, se
transformaram estas em caudas e eles ficaram com a aparência de macacos. Em seguida
partiram sobre os ramos das árvores, por entre os grandes e pequenos montes, e se
internaram no bosque, fazendo caretas e balançando-se sobre os ramos das árvores.

Assim foram vencidos Hunbatz e Hunchouén por Hunahpú e Ixbalanqué; e só pela arte da
magia puderam fazê-lo.
Voltaram estes a sua casa e, ao chegar, falaram com sua avó e com sua mãe, dizendo-lhes: -
“O que será, nossa avó, que aconteceu aos nossos irmãos maiores, que de repente tiveram
suas caras transformadas em cara de animais?” Assim disseram.

“Se vocês causaram algum dano aos seus irmãos, me fizeram desgraçada e me encheram
de tristeza. Não façam semelhante coisa aos seus irmãos, oh, filhos meus!” Disse a velha a
Hunahpú e Ixbalanqué.

E eles lhe disseram:

“Não se aflija, nossa avó! A senhora voltará a ver a cara de nossos irmãos; eles voltarão,
mas será uma prova difícil para a senhora, avó. E tenha cuidado em não rir. E agora, prove
a sua sorte!” Disseram.

Em seguida começaram a tocar flauta, tocando a canção de Hunahpú-Qoy. Logo cantaram,


tocaram a flauta e o tambor, tomando as suas flautas e o seu tambor. Depois sentaram
junto a sua avó e seguiram tocando e chamando com a música e o canto, entoando a
canção que se chama Hunahpú-Qoy.

Por fim chegaram Hunbatz e Hunchouén; e, ao chegar, se puseram a dançar; mas quando a
velha viu suas caretas feias, começou a rir ao vê-los, sem poder conter a risada; então eles
foram embora neste mesmo instante, e ela não voltou a ver as suas caretas.

“Já os vê, avó! Foram para o bosque. O que você fez, avó nossa? Somente quatro vezes
podemos fazer esta prova e não faltam mais que três. Vamos chamá-los com a flauta e com
o canto, mas procure conter a risada. Que comece a prova!” Disseram Hunahpú e
Ixbalanqué.

Em seguida se colocaram de novo a tocar. Hunbatz e Hunchouén voltaram dançando e


chegaram até o centro do pátio da casa, fazendo macaquices e provocando a risada de sua
avó até que esta soltou uma gargalhada. Realmente eram muito divertidos quando
chegaram com as suas caras de macaco, suas nádegas amplas, suas caldas finas e o buraco
de seu ventre; tudo isto fazia a velha rir.

Logo foram embora outra vez para os montes. E Hunahpú e Ixbalanqué disseram: “E agora,
que faremos, avó? Só desta terceira vez provaremos.”

Tocaram novamente a flauta e os macacos voltaram dançando. A avó conteve a risada.


Logo subiram sobre o forno; seus olhos expeliam uma luz vermelha, alargavam e
esfregavam os focinhos e espantavam com as caretas que faziam um ao outro.

Enquanto a avó via tudo isto começou a rir violentamente; e não se viu mais as suas caras,
por causa da risada da velha.

“Apenas desta vez os chamaremos, avó, para que eles venham aqui uma quarta vez”,
disseram os rapazes. Voltaram, pois, a tocar flauta, mas eles não regressaram uma quarta
vez, e foram embora com toda a pressa para o bosque.

Os rapazes disseram à avó: “Fizemos todo o possível, vozinha; primeiro vieram, depois
tentamos chamá-los de novo. Mas não se aflija; aqui nós estamos, seus netos; a nós a
senhora deve ver, oh, nossa avó, como a lembrança de nossos irmãos maiores, daqueles
que se chamavam e tinha por nome Hunbatz e Hunchouén”, disseram Hunahpú e
Ixbalanqué.
Aqueles eram invocados pelos músicos e cantores, pelas gentes antigas. Invocavam-nos
também os pintores e entalhadores em tempos passados (23). Mas foram convertidos em
animais e se transformaram em macacos por que se ensoberbeceram e maltrataram os
seus irmãos.

Desta maneira sofreram seus corações; assim foi a sua perda e foram destruídos Hunbatz e
Hunchouén; e se tornaram animais. Tinham vivido sempre em sua casa; foram músicos e
cantores, e fizeram também grandes coisas quando viviam com a avó e com a sua mãe.

(21) Canté, pau amarelo, Gliricidia sepium.É uma árvore cujas raízes forneciam aos
maias uma substância de cor amarela, segundo o Dicionário de Motul. Em Yucatán é
conhecida com o nome de Zac-Yab e na América Central com o de Mãe de cacau.
(22) Provavelmente era uma simples tanga semelhante ao maxtatl dos índios
mexicanos e ao ‘ex’ dos maias.
(23) Os pintores e entalhadores de Yucatán invocavam Hun-chevén e Hun-ahau que
eram os filhos menores de Ixchel e Itzamná (a deusa e o deus que veneravam os maias
da península), segundo se refere o P. Las Casas (1909, ccxxxv, “Dos livros e das
traduções religiosas que havia na Guatemala”).

Capítulo VI
Começaram, então, os seus trabalhos para fazê-los conhecidos perante sua avó e sua mãe.
O primeiro que fariam era o milharal. “Vamos semear o milharal, avó e mãe nossa”,
disseram. “Não se aflijam vocês; aqui nós estamos, seus netos. Nós que estamos em lugar
de nossos irmãos”, disseram Hunahpú e Ixbalanqué.

Em seguida tomaram os seus machados, as suas picaretas e as suas pás de pau e foram
embora, levando cada um a sua zarabatana no ombro. Ao sair de sua casa, encargaram a
sua avó de lhes levar a comida.

“Ao meio-dia nos trará a comida, avó”, disseram-lhe.

“Está bem, meus netos”, respondeu a velha.

Pouco depois chegaram ao lugar da semeadura. E, ao afundar o enxadão na terra, lavravam


a terra. O enxadão fazia o seu trabalho sozinho.

Da mesma maneira cravavam o machado no tronco das árvores e em seus ramos e, neste
momento caíam e ficavam jogadas no chão todas as árvores e arbustos. Rapidamente
caiam as árvores, cortadas com uma só machadada.

O que o enxadão arrancava era muito. Não se podiam contar os arbustos nem os espinhos
que tinham sido cortados com um só golpe de enxada. Tampouco era possível calcular o
que haviam arrancado e derrubado em todos os grandes e pequenos montes.

E, tendo ensinado a um animal chamado Ixmucur (24), o fizeram subir sobre o cume de
um grande tronco, e Hunahpú e Ixbalanqué lhe disseram: - Observa quando vier a nossa
avó nos trazer e quando começar a cantar. Neste momento empunharemos a enxada e o
machado.
- Está bem, respondeu Ixmucur.

Em seguida começaram a atirar com a zarabatana; certamente não faziam qualquer


trabalho de lavoura.

Pouco depois cantou a pomba e imediatamente um deles correu para pegar a enxada e o
outro o machado. E, envolvendo a cabeça, um deles cobriu as mãos de terra
intencionalmente, e sujou a cara para parecer um lavrador. O outro, propositalmente,
jogou sobre si farpas de madeira para parecer que estivesse de fato cortando as árvores.

Assim foram vistos por sua avó. Em seguida comeram, mas realmente não haviam feito
trabalho de lavoura. Receberam sua comida sem merecê-la. Logo foram para casa.

“Estamos muito cansados, avó”, disseram ao chegar, estirando, sem motivo, as pernas e os
braços em frente a sua avó.

Regressaram no dia seguinte, e, ao chegar ao campo, viram que todas as árvores, arbustos,
moitas e espinhos tinham voltado a se unir e a se enlaçar entre si.

“Quem nos pregou esta cilada?” Disseram. Sem dúvida todos os animais pequenos e
grandes, o leão, o tigre, o cervo, o coelho, o gato montês, o coiote, o javali, o coati, os
passarinhos, os pássaros grandes; estes foram os que o fizeram e em uma noite o
executaram.

Em seguida começaram de novo a preparar o campo e a preparar a terra e as árvores


cortadas. Logo discorreram acerca do que haviam de fazer com os paus cortados e as ervas
arrancadas.

“Agora velaremos o nosso milharal; talvez possamos surpreender aquele que venha a fazer
todo este dano”, disseram conversando entre si. E, em seguida, regressaram para casa.

“O que você acha, avó, pois nos ludibriaram? Nosso campo que tínhamos lavrado se tornou
um grande capinzal e um bosque espesso. Assim a encontramos, quando chegamos havia
um momento, avó.” Disseram-lhe a sua avó e a sua mãe. Mas voltaremos lá e velaremos,
pois não é justo que nos façam tais coisas, disseram.

Logo se vestiram e foram novamente ao seu campo de árvores cortadas e ali se


esconderam, ocultando-se na sombra.

Reuniram-se, então, todos os animais, um de cada espécie se juntou com todos os demais
animais pequenos e grandes. E era meia-noite em ponto quando chegaram todos falando e
dizendo assim em suas línguas: “Levantem-se, árvores! Levantem-se, arbustos!”

Isto se dizia quando chegaram e se agruparam sob as árvores e sob os arbustos. Foram se
aproximando até manifestarem-se ante os olhos de Hunahpú e Ixbalanqué.

Eram os primeiros o leão e o tigre, e quiseram pegá-los, mas não se permitiram. Logo se
aproximaram ao cervo e ao coelho, e só puderam pegar as suas caudas, e somente as
arrancaram. A cauda do cervo ficou entre as suas mãos e, por esta razão, o cervo e o coelho
carregam cortadas as caudas.
O gato-montês, o coiote, o javali e o coati tampouco se entregaram. Todos os animais
passaram em frente a Hunahpú e Ixbalanqué, cujos corações ardiam de cólera por que não
conseguiam pegá-los.

Mas, por último, chegou outro dando saltos ao chegar, e a este, que era o rato, no momento
que entrou o pegaram e o envolveram em um pano. E quando o pegaram, apertaram a sua
cabeça e quiseram afogá-lo. Queimaram a sua cauda no fogo, por isto que a cauda do rato
não tem pêlo; e, por isso, os meninos Hunahpú e Ixbalanqué também quiseram pegar os
seus olhos.

E disse o rato: “Eu não devo morrer em suas mãos. E o seu ofício tampouco é o de semear
milharais.”

“O que você nos conta agora?” Disseram os meninos ao rato.

“Soltem-me um pouco, pois tenho algo em meu peito que quero dizer a vocês. Mas antes
me dêem de comer”, disse o rato.

“Depois lhe daremos comida. Fala primeiro!” Responderam-lhe.

“Está bem. Saberão, pois, que os bens de seus pais Hun-Hunahpú e Vucub-Hunahpú, assim
chamados aqueles que morreram em Xibalbá, ou seja, os instrumentos com que jogavam,
ficaram e estão ali pendurados no teto da casa: o aro, as luvas e a bola. No entanto, a sua
avó não quer ensiná-los pois, por causa deles, morreram os seus pais.

“Você tem certeza disto?” Disseram-lhe os rapazes ao rato. E seus corações se alegraram
grandemente quando ouviram a notícia da bola de borracha. E, como o rato já havia falado,
mostraram-lhe a sua comida.

“Esta será a comida: o milho, pedacinhos de pimenta, feijão, o pataxte, o cacau: tudo isto
pertence a você, e se existe algo que está guardado ou esquecido, será seu também. Coma-
o!” foi dito ao rato por Hunahpú e Ixbalanqué.

“Magnífico, meninos, disse aquele; mas o que direi a sua avó se ela me vir?”

“Não tenha pena, por que nós estamos aqui e saberemos o que dizer à nossa avó. Vamos!
Cheguemos logo à esquina desta casa. Chegue logo onde estão essas coisas penduradas;
nós estaremos olhando no sótão da casa e prestando atenção somente em nossa comida”,
disseram ao rato.

E, tendo-se disposto assim durante a noite, depois de falar entre si, Hunahpú e Ixbalanqué
chegaram ao meio-dia. Quando chegaram levavam consigo o rato, mas não o mostravam;
um deles entrou diretamente na casa e o outro se aproximou à esquina e dali fez subir
rapidamente o rato.

Em seguida pediram a sua comida à sua avó: “Prepare nossa comida (25), queremos um
chilmol (26), nossa avó”. E rapidamente lhes preparou a comida e colocou diante deles um
prato quente.

Mas isto era só para enganar a sua avó e a sua mãe. E, tendo feito com que se consumisse a
água que havia na moringa: “Estamos mesmo morrendo de sede; vá nos trazer algo para
beber”, disseram à sua avó.
“Bom”, ela respondeu e foi embora. Começaram, então, a beber, mas não tinham fome de
verdade; só era um escárnio o que faziam. Vieram, então, em seu prato de pimenta chilli
(27); como o rato se dirigia rapidamente em direção à bola que estava pendurada no teto
da casa. Ao ver isto, em seu chilmol, despacharam um certo Xan, o animal chamado Xan,
que é como um mosquito, o qual foi ao rio e perfurou a parede do cântaro da avó. Mesmo
assim ela tentou conter a água que saía, porém não conseguiu fechar a picada que tinha
sido feita no cântaro.

“Que acontece com a nossa avó? Temos a boca seca por falta de água, estamos morrendo
de sede”, disseram a sua mãe e a pediram para sair. Em seguida o rato foi cortar a corda
que sustentava a bola que caiu do teto da casa junto com o anel, as luvas e o couro. Os
meninos se apoderaram deles e, neste instante, correram para escondê-los no caminho
que conduzia ao jogo de bola.

Depois disto se encaminharam ao rio, para reunir-se com a sua avó e a sua mãe, que
estavam atarefadas tratando de tapar o furo do cântaro. E, chegando cada um com a sua
zarabatana, disseram quando chegaram ao rio: “O que vocês estão fazendo? Cansamos de
esperar e viemos”, disseram-lhes.

“Olhem o furo de meu cântaro que não se pode tapar”, disse a avó. Neste momento
taparam-no e regressaram juntos, caminhando diante de sua avó.

E assim foi o descobrimento da bola.

(24) Espécie de pomba, mucuy em maia


(25) Literalmente, moam a nossa comida. A comida dos índios quiches consistia principalmente de
tortilhas e bolo de arroz
(26) Chilmulli, no idioma náhuatl, molho de chili ou pimenta aji.
(27) Dentro do chilmol. O molho líquido e vermelho fazia as vezes de espelho e refletia os
movimentos do rato no teto, sem que os rapazes parecessem estar observando.

Capítulo VII
Muito contentes foram jogar no campo de jogo de bola; estiveram sozinhos jogando por
muito tempo e limparam o campo onde jogavam seus pais.

E os ouvindo, os Senhores de Xibalbá disseram: “Quem são estes que voltam para jogar
sobre as nossas cabeças, e que nos incomodam com a bagunça que fazem? Por acaso Hun-
Hunahpú e Vucub-Hunahpú não morreram; aqueles que quiseram se engrandecer diante
de nós? Vão chamá-los agora!”

Assim disseram Hun-Camé, Vucub-Camé e todos os Senhores. E ao enviar seus


mensageiros, disseram-lhes: “Vão e lhes digam quando chegarem lá que venham”,
disseram os Senhores, pois aqui desejamos jogar bola com eles. Queremos jogar dentro de
sete dias. Assim disseram os Senhores para lhes falar quando chegarem. Esta foi a ordem
dada aos mensageiros. E estes vieram, então, pelo caminho longo dos meninos, e que
conduzia diretamente à sua casa; por este caminho chegaram diante da avó daqueles, que
estava comendo quando os mensageiros de Xibalbá chegaram.

“Que venham com segurança”, dizem os Senhores; disseram os mensageiros de Xibalbá. E


apontaram o dia os mensageiros de Xibalbá: “Dentro de sete dias os esperam”, disseram a
Ixmucané.
“Está bem, mensageiros, eles chegarão”, respondeu a velha. E os mensageiros regressaram.

Então o coração da velha se encheu de angústia. Quem mandarei que vá chamar os meus
netos? Não foi desta mesma maneira que vieram os mensageiros de Xibalbá da vez
passada, quando se dirigiram aos seus pais?” Disse a avó, entrando só e aflita em sua casa.

E, em seguida, caiu um piolho em sua saia. Ela o pegou e colocou na palma da mão, e o
pilho se balançou e começou a andar.

“Filho meu, você gostaria que eu o mandasse que fosse chamar os meus netos no jogo de
bola?” Disse ao piolho. “Chegaram mensageiros diante de sua avó”, dirá. “Que venham
dentro de sete dias, que venham; são os mensageiros de Xibalbá que falam; assim o manda
dizer a sua avó”, disse esta ao piolho.

Lá se foi o piolho, neste momento, se balançando inteiro. E estava sentado no caminho um


menino chamado Tamazul, ou seja, o sapo.

“Aonde vai você?”, disse o sapo ao pilho.

“Levo um mandamento em meu ventre; vou procurar os rapazes” respondeu o pilho a


Tamazul.

“Está bem, mas vejo que não está com pressa”, disse o sapo ao piolho. “Não quer que eu lho
traga? Verá como eu corro. Assim chegaremos rapidamente.”

“Muito bem”, respondeu o piolho ao sapo. E logo o sapo o engoliu. E o sapo caminhou
muito tempo, mas sem se apressar. Logo encontrou uma grande cobra que se chamava
Zaquicaz.

“Aonde vai, jovem Tamazul?”, disse Zaquicaz ao sapo.

“Vou como mensageiro. Levo um mandamento em meu ventre”, disse o sapo à cobra.

“Vejo que não caminha depressa. Eu não chegaria mais rápido?”, disse a cobra ao sapo.
“Vem cá!”, respondeu. Em seguida Zaquicaz absorveu o sapo. E desde então foi esta a
comida das cobras, que mesmo hoje engolem os sapos.

Ia caminhando com pressa a cobra e, tendo-a encontrado o Vac (28), que é um pássaro
grande, neste mesmo instante a engoliu este gavião. Pouco depois chegou ao jogo de bola.
Desde então foi esta a comida dos gaviões, que devoram as cobras nos campos.

Quando o gavião chegou, ele parou à beira do campo de jogo de bola, onde Hunahpú e
Ixbalanqué se divertiam jogando. Quando chegou, o gavião se pôs a gritar: “Vac-có, Vac-có!
(Aqui está o gavião)!” Dizia em seu grasnido. “Aqui está o gavião!”

“Quem está gritando? Que venham nossas zarabatanas!”, exclamaram. E dispararam-se,


em seguida, ao gavião. Miraram bem em suas pupilas. Acertaram. E dando voltas caiu no
chão. Correram para pegá-lo, e lhe perguntaram: “Que veio fazer aqui?”

“Trago uma mensagem em meu ventre. Curem-me primeiro o olho, e depois lhes direi”,
respondeu o gavião.
“Muito bem”, disseram. E tiraram um pouco da borracha da bola com que jogavam, e a
colocaram sobre o olho do gavião. Lotzquic (29) o chamaram. Neste mesmo instante a
vista do gavião foi curada por eles.

“Fale, então”, disseram ao gavião, que, logo em seguida, vomitou uma grande cobra.

“Fale você”, disseram à cobra.

“Bem”, ela disse; e vomitou um sapo.

“Onde está o seu mandamento que anunciava?” disseram ao sapo.

“Aqui está o mandamento em meu ventre”, respondeu o sapo. E, em seguida, fez esforços,
mas não pôde vomitar; somente enchia a boca com baba, mas não lhe vinha o vômito. Os
meninos já queriam pegá-lo.

“Você é um mentiroso”, disseram ao sapo, dando-lhe pontapés no traseiro, sendo que o


osso das ancas desceu às pernas. Tentou de novo, mas só a baba lhe enchia a boca. Então
os rapazes abriram a boca do sapo e, uma vez aberta, procuraram dentro da boca. O piolho
está grudado nos dentes do sapo; havia ficado não boca. O sapo não o havia engolido,
somente tinha feito como se o tivesse engolido. Assim ficou desdenhado o sapo, e não se
sabe o gênero de comida que lhe dão, não pode correr e virou comida de cobras.

“Fala”, disseram ao piolho, e então este disse o mandamento: “Sua avó disse, rapazes: Vá
chamá-los; vieram mensageiros de Hun-Camé e Vucub-Camé para vocês irem a Xibalbá;
diziam que a encontrassem dentro de sete dias para jogar bola com eles, e que levem os
seus instrumentos de jogo, a bola, os aros, as luvas, o couro, para que lá se divirtam. Sua
avó disse que vieram de verdade. Por isto eu vim, por que em verdade disse isto a sua avó,
e chora e se lamenta. Por isto eu vim”.

“Será certo?”, se perguntaram os rapazes, quando ouviram isto. Neste momento partiram e
chegaram ao lado de sua avó. Somente foram se despedir dela.

“Partimos, avó. Somente viemos nos despedir. Mas aí fica o sinal que deixamos sobre nossa
sorte: cada um de nós semeará um pé de cana. No meio de nossa casa a semearemos. Se
secarem, este será o sinal de nossa morte.”

“Mortos são”, dirão, se chegam a secar. “Mas se brotarem e viverem: estão vivos”, dirão.

“Oh, nossa avó! E a senhora, mãe! Não chorem, pois aí deixamos o sinal da nossa sorte”.
Disseram.

E antes de partir, semeou um pé de cana Hunahpú e outro semeou Ixbalanqué; semearam-


nas em casa, não no campo, nem tampouco na terra úmida, mas em terra seca; no meio de
sua casa as deixaram semeadas.

(28) Gavião que come cobras. Vocabulário dos P.P. Franciscanos.


(29) Lotz, azeda-miúda, vulgarmente na Guatemala, chicha forte –mais popular bebida; lotzquic,
borracha de substância da azeda-miúda. É uma erva tropical americana, que os mexicanos
chamam Xocoyolli e que parece ser Oxalis na nossa classificação de história natural, diz
Brasseur. Agrega ainda que os indígenas da América Central a usavam para curar catarata nos
olhos. Garcilaso de la Veja, o inca, fala de uma planta semelhante usada pelos índios no Peru.
Capítulo VIII
Partiram, então, cada um levando a sua zarabatana. Foram descendo em direção a Xibalbá.
Desceram rapidamente as escadas e passaram entre vários rios e barrancos. Passaram
entre uns pássaros e estes pássaros chamavam-se Molay.

Passaram, então, por um rio de pus e por um rio de sangue, onde deviam ser destruídos
segundo pensavam aqueles de Xibalbá; mas não os tocaram com seus pés, mas os
atravessaram usando suas zarabatanas.

Saíram dali e chegaram a uma encruzilhada de quatro caminhos. Eles sabiam muito bem
qual eram os caminhos de Xibalbá: o caminho negro, o caminho branco, o caminho
vermelho e o caminho amarelo. Assim, pois, despacharam um animal chamado Xan. Este
deveria recolher as notícias que mandavam procurar. “Pica-os, um por um; primeiro pica
aquele que está sentado em primeiro plano e acabe picando todos, pois esta é a parte que
lhe corresponde: chupar, nos caminhos, o sangue dos homens”, disseram ao mosquito.

“Muito bem”, respondeu o mosquito. E, em seguida, adentrou o caminho negro e foi em


direção aos bonecos de pau que estavam primeiro assentados e cobertos de adornos.
Picou o primeiro, mas este não falou; logo picou o segundo, que estava sentado, mas este
também não falou.

Picou um terceiro; o terceiro dos que estavam sentados era Hun-Camé. “Ai!”, disse quando
o picaram.

“Que é isso, Hun-Camé?” “O que é que picou vocês?” “Vocês não sabem quem os picou?”,
disse o quarto dos Senhores que estavam sentados.

“Que é isso, Vucub-Camé?” “O que é que os picou ?”, disse o quinto sentado.

“Ai, ai!”, disse então Xiquiripat. E Vucub-Camé lhe perguntou: “O que os picou?” E disse
quando o picaram o sexto que estava sentado: “Ai!”

“O que é isso, Cuchumaquic?”, disse-lhe Xiquiripat. “O que é que os picou?” E disse o sétimo
sentado quando o picaram: “Ai!”

“O que houve, Ahalpuh?” disse-lhe Cuchumaquic. “O que é que picou os picou?” E disse,
quando o picaram, o oitavo dos sentados: “Ai!”

“O que é isso, Chamiabac?”, disse-lhe Ahalcaná. “O que é que picou?”, disse, quando o
picaram, o nono dos sentados: “Ai!”

“O que é isso, Chamiabac?”, disse-lhe Ahalcaná. “O que é que os picou?” E disse, quando o
picaram, o décimo dos sentados: “Ai!”

“O que se passa, Chamiaholom?”, disse Chamiabac. “Quem os picou?” E disse o décimo-


primeiro sentado quando o picaram: “Ai!”

“O que ocorre?”, disse-lhe Chamiaholom. “O que é que os picaram?” E disse o décimo-


segundo dos sentados quando o picaram: “Ai!”
“Que é isto, Patán?”, disseram-lhe. “Quem os picou?” E disse o décimo-terceiro dos
sentados quando o picaram: “Ai!”

“Que passa, Quicxic?”, disse-lhe Patán. “O que é que os picou?” E disse o décimo-quarto dos
sentados quando o picaram: “Ai!”

“O que os picou, Quicrixcac?”, disse-lhe Quicré.

Assim foi a declaração de seus nomes, que foram sendo ditos uns aos outros, a todos;
assim foram conhecidos ao declararem os seus nomes, chamando-se cada um de chefe. E,
desta maneira, disse seu nome cada um dos que estavam sentados em seu rincão.

Nem um só homem se perdeu. Todos acabaram de dizer os seus nomes quando os picou
um pêlo da perna de Hunahpú que este tinha arrancado. Na verdade não era um mosquito
que os tinha picado e que tinha ido ouvir os nomes de todos por parte de Hunahpú e
Ixbalanqué.

Os rapazes continuaram o seu caminho e chegaram onde estavam aqueles de Xibalbá.

“Saúdem o Senhor, que está sentado”, lhes disse um deles para enganá-los.

“Este não é o Senhor, não é mais que um boneco de pau” disseram. E seguiram adiante. Em
seguida começaram a saudar: “Saúde, Hun-Camé!”. “Saúde, Vucub-Camé!”. “Saúde,
Xiquiripat!”. Saúde, Cuchumaquic!”, “Saúde, Ahalpuh!”, “Saúde, Ahalcaná!”, “Saúde,
Chamiabac!”, “Saúde, Chamiaholom!”, “Saúde, Quicxic!”, “Saúde, Patán!”, “Saúde, Quicré!”,
“Saúde, Quicrixcac!”, disseram chegando diante deles. E, mostrando a todos a cara, lhes
disseram seus nomes a todos, sem que escapasse o nome de um só.

Mas o que estes desejavam era que não se descobrisse os seus nomes.

“Sentem-se aqui”, lhes disseram, esperando que se sentassem no assento indicado.

“Este não é assento para nós, é só uma pedra ardente”, disseram Hunahpú e Ixbalanqué, e
não puderam vencê-los.

“Está bem, vão àquela casa”, lhes disseram. E, em seguida, entraram na Casa Escura. E ali
também não foram vencidos.

Capítulo IX
Este era o primeiro teste de Xibalbá. Ao entrar ali, pensavam aqueles de Xibalbá que seria
o princípio de sua derrota. Entrara, então, na Casa Escura; em seguida foram levar os seus
pedaços de pinho acesos, e os mensageiros de Hun-Camé levaram a cada um seu cigarro.

“Estes são seus pedaços de pinho; que devolvam este pinho amanhã ao amanhecer junto
com os cigarros, e que o tragam inteiros”, disse o Senhor. Assim falaram os mensageiros
quando chegaram.

“Muito bem”, responderam eles. Mas, na realidade, não acenderam o pedaço de pinho, já
que puseram uma coisa vermelha em seu lugar, ou seja, umas plumas da cauda da arara,
que aos veladores parecia um pedaço de pinho aceso. E, no que diz respeito aos cigarros,
puseram vagalumes na ponta dos cigarros.
Durante toda a noite deram-nos por vencidos.

“Perdidos são”, diziam os guardiões. Mas o pinho não havia acabado e tinha a mesma
aparência; e os cigarros não foram acesos e tinham o mesmo aspecto.

Foram dar parte aos Senhores.

“Como foi isto?” “De onde vieram?” “Quem os engendrou?” “Quem lhes deu a luz?” “Em
verdade fazem arder de ira nossos corações, por que não está bom o que fazem. Seus
rostos e a sua maneira de conduzir são estranhos”, diziam eles entre si.

Logo mandaram chamar todos os Senhores.

“Ei! Vamos jogar bola, rapazes!”, lhes disseram. Ao mesmo tempo foram interrogados por
Hun-Camé e Vucub-Camé.

“De onde vocês vêm?” Contem-nos, rapazes!,” lhes disseram aqueles de Xibalbá.

“Quem sabe de onde viemos! Nós ignoramos isto”, disseram unicamente, e não falaram
mais.

“Está bem. Vamos jogar bola, rapazes”, lhes disseram aqueles de Xibalbá.

“Ótimo”, responderam.

“Usaremos esta nossa bola”, disseram os de Xibalbá.

“De maneira alguma vocês usarão não esta, mas a nossa”, responderam os rapazes.

“Essa não, mas a nossa será a que usaremos”, disseram os de Xibalbá.

“Está bem”, disseram os rapazes.

“Vá por uma lagarta”, disseram aqueles de Xibalbá.

“Isso não, já que falará a cabeça do leão”, disseram os rapazes.

“Isso não”, disseram aqueles de Xibalbá.

“Está bem”, disse Hunahpú.

Então aqueles de Xibalbá arrumaram a bola e a lançaram direto no aro de Hunahpú. Em


seguida, enquanto aqueles de Xibalbá lançavam mão da faca de pedra, a bola quicou e foi
saltando pelo chão todo no jogo de bola.

“O que é isto”, exclamaram Hunahpú e Ixbalanqué. “Vocês não querem matar?” “Por acaso
não nos mandaram chamar?” “E não vieram os seus próprios mensageiros?” “Na verdade,
desgraçados de nós! Partiremos agora!”, lhes disseram os rapazes.

Isso era precisamente o que queriam que acontecesse aos rapazes, que morressem
imediatamente; e ali mesmo durante o jogo de bola, e que assim fossem vencidos. Mas não
foi assim; e foram aqueles de Xibalbá os que foram vencidos pelos rapazes.
“Vocês não partirão, rapazes. Sigamos jogando bola, mas usaremos a de vocês”, disseram
aos rapazes.

“Está bem”, responderam, e então colocaram a bola no aro de Xibalbá. Isto terminou a
partida.

E, lastimados por suas derrotas, disseram aqueles de Xibalbá:

“Como faremos para vencê-los?” E, dirigindo-se aos rapazes, disseram: “Vão pegar e nos
trazer cedo quatro vasos com flores.” Assim disseram aqueles de Xibalbá aos rapazes.

“Um ramo de chipilín colorido (30), um ramo de chipilín branco, um ramo de chipilín
amarelo e um ramo de chipilín de Carinimac”, disseram aqueles de Xibalbá.

“Está bem”, disseram os rapazes.

Assim terminou a conversação; igualmente fortes e enérgicas eram as palavras dos


rapazes. E seus corações estavam tranqüilos quando se entregaram os rapazes para que os
vencessem.

Aqueles de Xibalbá estavam felizes pensando que já os haviam vencido.

“Isto nos saiu bem. Primeiro têm que cortá-las”, disseram os de Xibalbá. “Aonde irão levar
as flores?”, perguntavam-se.

“Com segurança vocês nos darão cedo as nossas flores; vão cortá-las”, disseram aqueles de
Xibalbá a Hunahpú e Ixbalanqué.

“Está bem”, responderam. De madrugada jogaremos bola de novo”, disseram e se


despediram.

E, em seguida, os rapazes entraram na Casa das Navalhas, o segundo lugar de tormento de


Xibalbá. E o que desejavam os Senhores era que fossem despedaçados pelas navalhas, e
fossem mortos rapidamente; assim desejavam os seus corações.

Mas não morreram. Falaram logo depois às navalhas (31) e as advertiram:

“De vocês serão as carnes de todos os animais”, disseram às facas. E não se moveram mais,
já que estavam quietas todas as navalhas.

Assim passaram a noite na Casa das Navalhas. E, chamando a todas as formigas, lhes
disseram: “Formigas cortadeiras, saúvas, (32) venham e, imediatamente, tragam-nos todos
os gêneros de flores que devem ser cortadas para os Senhores!”

“Muito bem”, elas disseram. E partiram todas as formigas a procurar as flores dos jardins
de Hun-Camé e Vucub-Camé.

Previamente os Senhores haviam advertidos os guardiões das flores de Xibalbá: “Tenham


cuidado com as nossas flores, não deixem os rapazes que irão cortá-las as roubar. Como
que poderiam ser vistas e cortadas por eles? De maneira alguma. Velem, pois, todas as
noites!”
“Está bem”, responderam. Mas não ouviram os guardiães do jardim. Inutilmente lançavam
os seus gritos dos galhos das árvores do jardim. Ali estiveram toda a noite, repetindo os
mesmos gritos e cantos.

“Ixpurpuvec! Ixpurpuvec!, dizia um deles, gritando.

“Puhuyú, Puhuyú!” dizia gritando o chamado Puhuyú. (33)

Dois eram os guardiães do jardim de Hun-Camé e Vucub-Camé. Mas não sentiam as


formigas que roubavam o que estavam cuidando. Davam voltas, moviam-se e cortavam as
flores. Subiam sobre as árvores e recolhiam-nas do solo ao pé das árvores.

Entretanto os guardas seguiam gritando, e não sentiam os dentes que lhes cortava as
caudas e as asas.

E, assim, se achavam entre os dentes as flores que desciam. E, colhendo-as, partiam com
elas entre os dentes.

Logo encheram as quatro cumbucas de flores. Estavam úmidas de orvalho quando


amanheceu. Depois chegaram os mensageiros para colhê-las. “Que venham! E que tragam
cá o que cortaram agora”, disseram os Senhores aos meninos.

“Muito bem”, responderam. E, levando as flores nas quatro cumbucas, partiram. E, quando
chegaram à presença do Senhor e dos demais Senhores, dava gosto ver as flores que
traziam. E desta maneira foram vencidos aqueles de Xibalbá.

Os rapazes somente haviam enviado as formigas para cortar as flores. E, em uma noite, as
formigas as colheram e as puseram nas cumbucas.

Neste momento todos aqueles de Xibalbá empalideceram, e os seus rostos ficaram lívidos
por causa das flores. “Por que vocês deixaram que roubassem as nossas flores? Esta que
aqui vemos são as nossas flores”, lhes disseram os guardiães.

“Não sentimos nada, Senhor. Nossas caudas também sofreram”, responderam. E logo
rasgaram a boca em castigo por haverem deixado roubar o que estava sob a sua custódia.

Assim foram vencidos Hun-Camé e Vucub-Camé por Hunahpú e Ixbalanqué. E este foi o
princípio das suas obras.

Desde então a coruja traz rasgada a sua boca. E assim fendida a tem hoje.

Depois desceram para jogar bola, e jogaram também tantos iguais. Logo acabaram de jogar
e combinaram outra partida na madrugada seguinte. Assim disseram aqueles de Xibalbá.

“Está bem”, disseram os rapazes ao terminar.

(30) Certa planta chamada chipilín, diz Ximenez. É uma planta da família das leguminosas,
Crotalaria longirostrata.
(31) ‘Ta x-e chire cha’. Brasseur observa neste lugar que os quiches se compraziam nestes jogos de
palavras. Em todo este capítulo é usada pelo autor a palavra ‘cha’ que significa ‘falar, dizer,
lança, navalha, vidro, etc’. O mesmo pode se dizer da palavra ‘cah’ usada como adjetivo, verbo e
advérbio.
(32) Formigas avermelhadas ou negras que saem pela noite e cortam as folhas tenras e as flores. São
conhecidas popularmente na Guatemala com o nome de saúvas, palavra mexicana.
(33) Purpuvec e puhuy (pronuncia-se ‘purpugüec e puhuy’), são os nomes que são dados aos quiches
e cakchiqueles à coruja ou coruja-do-capim.

Capítulo X
Entraram depois na Casa do Frio. Não é possível descrever o frio que fazia. A casa estava
cheia de granizo. Era a mansão do frio. Logo, contudo, os meninos, com troncos velhos,
fizeram com que o frio desaparecesse.

Assim não morreram; estavam vivos quando amanheceu. Certamente o que queriam
aqueles de Xibalbá era que morressem; mas não foi assim, já que quando amanheceu
estavam cheios de saúde, e saíram novamente quando os mensageiros foram procurá-los.

“O que é isso?” “Não morreram ainda?”, disse o Senhor de Xibalbá. Admiravam-se de ver as
obras de Hunahpú e Ixbalanqué.

Logo em seguida entraram na Casa dos Tigres. A Casa estava cheia de tigres. “Não nos
mordam! Aqui está o que lhes pertence”, disseram aos tigres. E jogaram uns ossos aos
animais. E estes caíram sobre os ossos.

“Agora sim se acabaram. Já comeram as suas entranhas. No fim se entregaram. Agora estão
triturando os seus ossos.” Assim diziam os guardas; todos alegres por este motivo.

Mas não morreram. Igualmente bons e sãos saíram da Casa dos Tigres.

“De que raça são estes?” “De onde vieram?” Diziam todos os de Xibalbá.

Logo entraram no meio do fogo em uma Casa de Fogo, onde só havia fogo, mas não se
queimaram. Só ardiam as brasas e a lenha. Assim mesmo estavam sãos ao amanhecer. Mas
o que aqueles de Xibalbá queriam era que morressem ali dentro, por onde haviam
passado. Contudo não ocorreu assim, o que desacorçoou aqueles de Xibalbá.

Foram colocados, então, na Casa dos Morcegos. Não havia mais que morcegos dentro desta
casa, a casa de Camazotz, um grande animal, cujos instrumentos de matar eram como uma
ponta seca, e, no momento, pareciam os que chegavam à sua presença.

Estavam, pois, ali dentro, mas dormiram dentro das suas zarabatanas. E não foram
mordidos pelos que estavam na casa. Contudo, um deles teve que se render por causa do
outro Camazotz que veio do céu, por meio do qual fez a sua aparição.

Estiveram juntos e em conselho toda a noite os morcegos, e volteavam: “Quilitz, quilitz”,


diziam; assim estiveram dizendo por toda a noite. Pararam um pouco, contudo. E já não se
moviam os morcegos. No entanto, se agarraram à ponta de uma das zarabatanas.

Disse, então, Ixbalamqué a Hunahpú: “Vai amanhecer logo? Olhe você”.


“Talvez sim. Vou ver”, respondeu este.
E como tinha muita vontade de ver fora da boca da zarabatana, e queria ver se havia
amanhecido cortou-lhe a cabeça Camalotz, e o corpo de Hunahpú caiu decapitado.
Novamente perguntou Ixbalamqué: “Ainda não amanheceu? Mas Hunahpú não se movia”.
“Aonde foi Hunahpú? O que ele fez? Mas não se movia e permanecia calado.”

Então se sentiu envergonhado Ixbalamqué e exclamou: “Desgraçados de nós! Estamos


completamente vencidos.”

Logo depois, foram colocar a cabeça no jogo de bola por ordem expressa de Hun-Camé e
Vucub-Camé, e todos os de Xibalbá se regozijaram pelo que havia ocorrido à cabeça de
Hunahpú.

Capítulo XI
Em seguida Ixbalamqué chamou a todos os animais: o quati, o javali, e todos os animais
pequenos e grandes. Durante a noite e a madrugada lhes perguntou qual era a sua comida.
“Qual é a comida de cada um de vocês? Pois eu lhes chamei para que escolham a sua
comida”, lhes disse Ixbalamqué.
“Muito bem”, responderam. E, em seguida, foram tomar cada um as suas coisas, e partiram
todos juntos. Alguns foram pegar as coisas corrompidas (podres); outros foram colher
ervas; outros foram recolher pedras; outros foram recolher terra; Variadas eram as
comidas dos animais pequenos e dos animais grandes.
Atrás deles tinha ficado uma tartaruga, que chegou se balançando para pegar a sua
comida. E, chegando ao extremo do corpo, tomou a forma da cabeça de Hunahpú, e, neste
momento, foram trabalhados os seus olhos.
Muitos sábios vieram, então, do céu. O Coração do Céu, Huracán, veio pairar sobre a Casa
dos Morcegos.
E não foi fácil acabar de fazer o seu rosto, mas saiu muito bonito; a cabeleira também tinha
uma bonita aparência, e, assim mesmo, pôde falar.
Mas como já queria amanhecer, e o horizonte se tingia de vermelho. “Escureça de novo,
velho!”, foi dito ao urubu.
“Está bem”, respondeu o velho, e, no mesmo instante, obscureceu o velho. (34) “O urubu já
escureceu”, dizem agora as pessoas.

E, assim, durante o frescor do amanhecer, começou a sua existência. “Estará bem?”


disseram. “Sairá parecido com Hunahpú”?
“Está muito bem”, responderam. E, de fato, parecia de osso a cabeça; havia-se
transformado em uma cabeça verdadeira.
Logo falaram entre si, e se colocaram de acordo:

“ Não jogue bola; aja unicamente como se jogasse; eu sozinho farei tudo”, lhe disse
Ixbalamqué.
Em seguida deu suas ordens a um coelho: “ Prepara-se para jogar bola; fique ali entre o
azinheiral”. Foi dito ao coelho quando lhe foram dadas estas instruções durante a noite.
Logo amanheceu e os dois rapazes estavam bem e sadios. Então desceram para jogar bola.
A cabeça de Hunahpú estava sobre o jogo de bola.
“Triunfamos! Vocês trabalharam a sua própria ruína; Vocês se entregaram!”, diziam-lhes.
Desta maneira provocavam Hunahpú.
“Bata na cabeça com a bola”, lhe diziam. No entanto, não o incomodavam, pois ele não se
dava por entendido.

Logo os Senhores de Xibalbá arremessaram a bola. Ixbalamqué saiu ao seu encontro; a


bola ia direto ao aro, mas se deteve e, quicando, passou rapidamente por cima do jogo de
bola e, com um salto, foi parar no azinheiral.
O coelho saiu, neste momento, e foi saltando; e aqueles de Xibalbá corriam perseguindo-o.
Iam fazendo ruído e gritando atrás do coelho. Todos aqueles de Xibalbá acabaram indo
embora.

Em seguida se apoderou Ixbalamqué da cabeça de Hunahpú; a tartaruga foi levada


novamente e colocada sobre o jogo de bola. E aquela cabeça era realmente a cabeça de
Hunahpú; e os dois rapazes ficaram muito contentes.
Foram, pois, aqueles de Xibalbá procurar a bola e tendo-a encontrado entre os azinhais, os
chamaram, dizendo:
“Venham cá. Aqui está a bola. Nós a encontramos”, disseram, e mantinham-na pendurada.
Quando regressaram aqueles de Xibalba, exclamaram: “O que é isto que estamos vendo?”
Logo começaram a jogar novamente. Tantos iguais fizeram pelas duas partes.
Em seguida, Ixbalamqué lançou uma pedra à tartaruga; esta veio ao chão e caiu no campo
do jogo de bola em mil pedaços como pepitas, diante dos Senhores.
“Quem de vocês irá procurá-la? Onde está aquele que irá trazê-la?” Disseram aqueles de
Xibalbá.
E assim foram vencidos os senhores de Xibalbá por Hunahpú e Ixbalamqué. Através de
grandes trabalhos estes passaram, mas não morreram apesar de tudo o que lhes foi feito.

(34) Os quiches chamam o urubu macho ‘mama cuch’, ou seja, urubu velho. A identidade que aqui se
menciona carece, contudo, de importância. Os antigos se serviam dos objetos e seres naturais
para representar as idéias e as coisas imateriais pela semelhança de seus nomes. No presente
caso tratavam, sem dúvida, de representar a ideia da obscuridade que precede imediatamente ao
amanhecer, a qual chamavam ‘vuch’.

Capítulo XII
Eis aqui a memória da morte de Hunahpú e Ixbalanqué. Agora contaremos a maneira como
morreram.

Tendo sido prevenidos de todo o sofrimento que lhes queriam impor, não morreram dos
tormentos de Xibalbá, nem foram vencidos por todos os animais ferozes que havia em
Xibalbá.
Mandaram chamar depois dois adivinhos que eram tidos por profetas; chamavam-se Xulú
e Pacam; eram sábios, e lhes disseram:

“Serão perguntados pelos Senhores de Xibalbá sobre a nossa morte, que estão planejando
e preparando o fato de que não morremos, nem nos puderam vencer, nem que perecemos
em seus tormentos, nem que nos atacaram os animais. Temos o pressentimento em nosso
coração de que usarão a fogueira para nos matar. Todos aqueles de Xibalbá se reuniram,
mas a verdade é que não morremos. Eis aqui, pois, as nossas instruções sobre o que devem
dizer: Se eles vierem consultá-los sobre a nossa morte e que vamos ser sacrificados, o que
vocês dirão, Xulú e Pacam? Se lhes disserem: Não será bom que os pendurássemos nas
árvores? Vocês responderão: De maneira alguma convém, por que também vocês voltarão
a ver as suas caras. E quando, pela terceira vez, disserem a vocês: Será bom que joguemos
os seus ossos no rio? Se assim lhes for dito por eles; assim convém que eles morram –
vocês dirão; logo convém moer seus ossos na pedra, como se moe farinha de milho; que
cada um seja moído separadamente; em seguida joguem-nos no rio, onde brota a fonte
para que atravessem todos os montes pequenos e grandes. Assim vocês lhes responderão
quando puserem em prática o plano que aconselhamos”, disseram Hunahpú e Ixbalanqué.

E, quando se despediram deles, já tinham conhecimento de sua morte. Aqueles de Xibalbá


fizeram, então, uma grande fogueira, uma espécie de forno, e os encheram de ramos
grossos.

Depois chegaram os mensageiros que tinham de acompanhá-los, os mensageiros de Hun-


Camé e de Vucub-Camé. “Que venham! Vão vocês procurar os rapazes! Vão lá para que
saibam que vamos queimá-los.” Isto disseram os Senhores.

“Oh, rapazes!, exclamaram dos mensageiros.

“Está bem”, responderam. E, colocoando-se rapidamente no caminho, chegaram juntos à


fogueira. Ali quiseram obrigá-los a se divertir com eles.

“Tomemos a nossa menina e voemos quatro vezes cada um sobre a figueira, rapazes!”,
lhes foi dito por Hun-Camé.

“Não tentem vocês nos enganar”, responderam. “Por acaso não temos conhecimento da
nossa morte , oh, senhores! E de que é isso que nos espera?”. E, frente a frente, estenderam
os braços, se inclinaram até o chão e se jogaram na fogueira; e assim morreram os dois
juntos.

Todos os de Xibalbá se encheram de alegria e, dando muitos gritos e assovios,


exclamavam: “Agora sim nós os vencemos! Por fim se entregaram!”

Depois chamaram Xulú e Pacam a quem haviam deixado advertido, e lhes perguntaram o
que deviam fazer com os seus ossos tal como eles haviam predito. Aqueles de Xibalbá
moeram, então, os seus ossos e foram jogá-los no rio. Mas estes não foram muito longe,
pois, quando se assentaram no fundo da água, se transformaram em bonitos rapazes. E,
quando de novo se manifestaram, tinham, de fato, os seus mesmos rostos. (35)

(35) Os rostos de Hunahpú e Ixbalanqué

Capítulo XIII
No quinto dia voltaram e foram vistos na água pelas pessoas. Tinham ambos a aparência
de homem-peixe (36) quando viram aqueles de Xibalbá, depois de procurá-los por todo o
rio.

E, no dia seguinte, se apresentaram dos pobres, de rosto envelhecido e aspecto miserável,


vestidos de farrapos, e cuja aparência não os recomendava. Assim foram visto pelos de
Xibalbá.

Era pouca coisa que faziam. Somente se ocupavam em dançar a dança do Puhuy (corujas
ou as aves da noite), a dança do Cux (doninha) e do Iboy (tatus-galinha); e dançavam o
Ixtzu (centopéia) e o Chitic (o que anda sobre pernas de pau).(37)

Além disso, obravam muitos prodígios. Queimavam as casas como se deveras ardessem e,
no mesmo momento, voltavam aos seu estado anterior. Muitos daqueles de Xibalbá os
contemplavam com admiração.

Logo se despedaçavam a si mesmos; se matavam um ao outro; estava como morto o


primeiro a quem haviam matado, e, neste momento, ressucitava o outro. Aqueles de
Xibalbá olhavam com assombro tudo o que faziam, e eles o executavam como o princípio
de seu triunfo sobre aqueles de Xibalbá.

Chegou logo depois a notícia de suas danças de ouvidos dos Senhores Hun-Camé e Vucub-
Camé. Ao ouvi-la, exclamaram: “Quem são estes dois órfãos?” “Realmente causam tanto
prazer a vocês?”

“Certamente são muito bonitos os seus bailes e tudo o que fazem”, respondeu aquele que
havia levado a notícia aos Senhores.

Contentes de ouvir isto, enviaram, então, os seus mensageiros que tratavam com
bajulação. “Que venham cá, que venham para que nós vejamos o que fazem. Que os
admiremos, e que nos maravilhem. Isto dizem os Senhores.” Assim dirão vocês a eles. Foi
dito aos mensageiros.

Estes chegaram logo em seguida diante dos dançarinos e lhes comunicaram a ordem dos
Senhores.

“Não queremos”, responderam, “por que francamente nos dá vergonha. Como não
poderíamos ficar envergonhados apresentarnos na casa dos Senhores com nosso mau
estado de espírito, nossos olhos tão grandes e nossa pobre aparência? Não está vendo que
somos só uns pobres dançarinos? O que diremos aos nossos companheiros de pobreza que
vieram conosco e que desejam ver nossas danças e divertir-se com eles? Por ventura
poderíamos fazer o mesmo com os Senhores? Assim, pois, não queremos ir, mensageiros”,
disseram Hunahpú e Ixbalanqué.

Com o rosto constrangido de contrariedade e de pena foram embora no fim; mas por
algum tempo não queriam caminhar e os mensageiros tiveram que pegá-los várias vezes
na cara quando se dirigiam à residência dos Senhores.

Chegaram, pois, diante dos Senhores, com ar desanimado e se inclinando; chegaram se


prostrando, fazendo reverências e humilhando-se. (38) Viam-se extenuados, maltrapilhos,
e, realmente, com o aspecto de vagabundos quando chegaram.
Perguntaram-lhes, depois, por sua pátria e por seu povo; perguntaram-lhes também por
sua mãe e por seu pai.

“De onde vocês vêm?”, lhes disseram.

“Não sabemos, senhor; não conhecemos a cara de nossa mãe nem a de nosso pai. Éramos
pequenos quando morreram”, responderam e não disseram uma palavra a mais.

“Está bem. Agora façam os seus jogos, vocês, para que nós os admiremos. O que vocês
desejam? Daremos a sua recompensa a vocês”, lhes disseram.

“Não queremos nada; mas, de fato, temos muito medo”, disseram ao Senhor.

“Não se aflijam, não tenham medo. Dancem! E façam primeiro a parte em que vocês se
matam; queimem minha casa, façam tudo o que vocês sabem. Nós os admiraremos, pois;
isto é o que desejam os nossos corações. E para que vocês partam depois, pobres pessoas,
daremos a sua recompensa”, lhes disseram.

Então deram início aos seus cantos e às suas danças. Todos aqueles de Xibalbá chegaram e
se juntaram para vê-los. Logo representaram a dança do Cux, dançaram o Puhuy e
dançaram o Iboy.

E o Senhor lhes disse: “Despedacem o meu cão e que seja por vocês ressucitado”, lhes
disse.

“Está bem”, responderam, e despedaçaram o cão. Depois o ressucitaram. Bem cheio de


alegria estava o cão quando foi ressucitado, e movia a cauda quando o reviveram.

O Senhor lhes disse, então: “Queimem agora a minha casa!” Assim lhes disse. No momento
queimaram a casa do Senhor, e, ainda que estivessem juntos todos os Senhores dentro da
casa, não se queimaram. Logo voltou a ficar bem e, por nenhum instante, chegou a se
perder a casa de Hun-Camé.

Maravilharam-se todos os Senhores. E, assim mesmo, as suas danças lhes davam muito
prazer.

Logo foi-lhes dito pelo Senhor: “Matem agora um homem! Sacrifiquem-no! Mas que não
morra”, disseram.

“Muito bem”, responderam. E pegando um homem, o sacrificaram em seguida. E,


levantando ao alto o coração deste homem, suspenderam para que os Senhores o vissem.

Maravilharam-se novamente Hun-Camé e Vucub-Camé. Um instante depois foi ressucitado


pelos rapazes o homem, e seu coração se alegrou grandemente quando foi ressucitado.

Os Senhores estavam assombrados. “Sacrifiquem-se agora vocês mesmos! Que nós o


vejamos! Nossos corações desejam de verdade as suas danças.!, disseram os Senhores.

“Muito bem, Senhor”, responderam. E, a seguir, se sacrificaram. Hunahpú foi sacrificado


por Ixbalanqué; um por um foram cerceados os seus braços e as suas pernas. Foi separada
a sua cabeça e levada a distância. Seu coração foi arrancado do peito e arremessado sobre
o capim. Todos os Senhores de Xibalbá estavam fascinados. Olhavam com admiração, e só
um estava dançando, que era Ixbalanqué.
“Levante-se”, disse este e, neste momento, voltou à vida. Alegraram-se muito os jóvens. Os
Senhores se alegraram também. Na verdade, o que faziam alegrava o coração de Hun-
Camé e Vucub-Camé. E estes sentiam como se eles mesmos estivessem dançando. (39)

Logo seus corações se encheram de desejo e de ansiedade pelas danças de Hunahpú e


Ixbalanqué. Hun-Camé e Vucub-Camé deram, então, as suas órdens.

“Façam o mesmo conosco! Sacrifiquem-se vocês!”, disseram. “Despedacem-nos um por


um!”, disseram Hun-Camé e Vucub-Camé a Hunahpú e Ixbalanqué.

“Está bem; depois vocês ressucitarão. Por acaso vocês não nos traíram para que nós os
divirtamos, os Senhores, e os seus filhos e vassalos?, disseram aos Senhores.

E eis aqui que primeiro sacrificaram o que era o seu chefe e Senhor, o chamado Hun-Camé,
o rei de Xibalbá.

E, morto Hun-Camé, se apoderaram de Vucub-Camé. E não os ressucitaram.

Aqueles de Xibalbá se colocaram em fuga, logo que viram os Senhores mortos e


sacrificados. Em um instante foram sacrificados os dois. E isto se fez para castigá-los.
Rapidamente foi morto o Senhor Principal. E não o ressucitaram.

E um Senhor se humilhou, então, apresentando-se diante dos bailarinos. Não o haviam


descoberto, nem o tinham encontrado. “Tenham piedade de mim!”, disse quando se deu a
conhecer.

Fugiram todos os filhos e vassalos de Xibalbá a um barranco, e se meteram todos em um


fundo precipício. Ali estavam amontoados quando chegaram inumeráveis formigas que os
descobriram e os desalojaram do barranco. Desta maneira os tiraram do caminho e,
quando chegaram, se prostraram e se entregaram todos, se humilharam e chegaram
aflitos.

Assim foram vencidos os Senhores de Xibalbá. Somente por um prodígio e por sua
transformação puderam fazê-lo. (40)

(36) Literalmente homem-peixe. O autor joga indubitavelmente com estas palavras para dar a
entender que os herois da história eram filhos das águas.
(37) Na dança de Ixtzul os dançarinos portavam máscaras pequenas e a calda da arara na cabeça,
segundo Barela. Landa diz que nas festas de Ano Novo, quando esta caía no dia Muluc, os maias
de Yucatán dançavam com muito altas pernas de pau.
(38) Há aqui uma repetição do mesmo conceito expressado em uma série de verbos sinônimos.
(39) Estas trapaças, que lembram os atos de sugestão dos faquires da India, eram bem conhecidos dos
indios maias do México. Sahagún, descrevendo os costumes dos huastecas, tribo mexicana
relacionada com os maias de Yucatán, diz que quando voltaram à Panutla, o Pánuco, “levaram
consigo os cantares que usavam quando dançavam e todos os adereços que usavam na dança ou
areyto. Os mesmos eram amigos de preparar embustes, com os quais enganavam as pessoas,
dando-lhes a entender ser verdadeiro o que é falso, como fazer crer como se queimavam as
casas; que faziam aparecer uma fonte com peixes, e não havia nada, senão ilusão em seus olhos;
que se suicidavam talhando e despedaçando as suas carnes, e outras coisas que eram aparentes,
mas não verdadeiras ...”
(40) Refere-se naturalmente à metamorfose de Hunahpú e Ixbalanqué nos dois rapazes pobres que
enganaram tragicamente os Senhores, valendo-se de suas artes de magia.
Capítulo XIV
Em seguida disseram seus nomes e se exaltaram a si mesmos ante todos aqueles de
Xibalbá.

“Ouçam os nossos nomes. Diremos também os nomes de nossos pais a vocês. Nós somos
Ixhunahpú e Ixbalanqué. Estes são nossos nomes. (41) E nossos pais são aqueles que vocês
mataram, e que se chamavam Hun-Hunahpú e Vucub-Hunahpú. Nós, os que vocês aqui
vêem, somos, pois, os vingadores das dores e sofrimentos de nossos pais. Por isso nós
sofremos todos os males que vocês lhes fizeram. Em consequencia, acabaremos com todos
vocês. Levaremos a morte e ninguém escapará”, lhes disseram.

Neste momento caíram de joelhos todos aqueles de Xibalbá.

“Tenham misericórdia de nós, Hunahpú e Ixbalanqué! É certo que pecamos contra os seus
pais de que vocês falam, e que estão enterrados em Pucbal-Chah”, disseram.

“Está bem. Esta é a nossa sentença, a quel lhes vamos comunicar. Ouçam-na todos vocês,
aqueles de Xibalbá:”

“Já que não existe o seu grande poder nem a sua estirpe, e, tampouco, vocês merecem
misericórdia, será rebaixada a condição do sangue de vocês. Não será para vocês o jogo de
bola. (42) Somente vocês se ocuparão de fazer louça, potes de argila (43) e pedras de moer
milho. Somente os filhos das ervas daninhas e do deserto falarão com vocês. Os filhos
esclarecidos, os vassalos civilizados não pertencerão a vocês e se afastarão da presença de
vocês. Os pecadores, os maus, os tristes, os desventurados, os que se entregam ao vício.
Estes são os que acolherão a vocês. Vocês já não se apoderarão repentinamente dos
homens. Tenham presente a humildade de seu sangue.” Assim disseram a todos aqueles de
Xibalbá.

“Desta maneira começou a sua destruição e começaram os seus lamentos. Não era muito o
seu poder antigamente. Só os aprazia fazer o mau aos homens naquele tempo. Na verdade
não tinham outrora a condição de deuses. Além disso, suas caras horríveis causavam
espanto. Eram os Inimigos, as corujas. (44) Incitavam ao mal, ao pecado e à discórdia.

Eram também falsos de coração, negros e brancos ao mesmo tempo. (45) Invejosos e
tiranos, segundo contavam, Além disso, se pintavam e untavam a cara.

Assim foi, pois, a perda de sua grandeza e a decadência de seu império.

E isto foi o que fizeram Hunahpú e Ixbalanqué.

Entretanto a avó chorava e se lamentava em frente aos pés de cana que eles haviam
deixado semeados. Os pés de cana brotaram, mas logo se secaram quando foram
queimados na fogueira; depois brotaram outra vez. Então a avó acendeu o fogo e queimou
copal diante dos pés de cana em memória de seus netos. E o coração de sua avó se encheu
de alegria quando, pela segunda vez, brotaram os pés de cana. Estes foram aforam
adorados por sua avó e esta as chamou o Centro da Casa, Nicah (o centro) se chamaram.

Pés de cana vivos na terra plana. Cazam Ah Chatam Uleul foi o seu nome. E foram
chamados o centro da Casa e o Centro, por que no meio de sua casa eles semearam as
canas. E os pés de cana que foram plantados foram chamados de Terra Aplanada, Pés de
Cana Vivos na Terra Plana. E também as chamou Pés de Cana Vivos por que brotaram. Este
nome lhes foi dado por Ixmucané aos pés que Hunahpú e Ixbalanqué deixaram semeados
para que fossem recordados por sua avó.

Então, os seus pais, aqueles que morreram antigamente, foram Hun-Hunahpú e Vucub-
Hunahpú. Eles viram também os rostos de seus pais lá em Xibalbá, e seus pais falaram com
seus descendentes, os que venceram aqueles de Xibalbá.

E eis aqui como foram honrados por eles os seus pais. Honraram Vucub-Hunahpú; foram
honrá-lo diante do Altar do Sacrifício do jogo de bola. E, assim mesmo, quiseram lhe fazer
a cara. Procuraram ali todo o seu ser: a boca, o nariz, os olhos. Encontraram o seu corpo,
mas puderam fazer muito pouco. O Hunahpú não pronunciou o seu nome. Não pôde dizer
a sua boca.

E eis aqui como exaltaram a memória de seus pais, a quem haviam deixado e deixaram lá
no Altar do Sacrifício do jogo de bola: “Vocês serão invocados”, lhes disseram os seus
filhos, quando se fortaleceu o seu coração. “Vocês serão os primeiros a se levantar, e serão
adorados primeiramente por filhos esclarecidos, pelos vassalos civilizados. Os seus
nomens não se perderão. Assim será!”, disseram a seus pais e consolou o seu coração. “Nós
somos os vingadores da morte de vocês, das penas e dores que lhes foram causadas.”

Assim foi a sua despedida, quando já haviam vencido todos os de Xibalbá.

Depois subiram no meio da luz e, neste momento, se elevaram ao céu. Em um lhe tocou o
sol e no outro a lua. Então se iluminou a abóbada do céu e a face da terra. E eles moram no
céu.

Então subiram também os quatrocentos rapazes a quem matou Zipacná, e, assim, se


tornaram companheiros daqueles, e se converteram em estrelas do céu.

(41) Xhunahpu, Xbalanque no original. A letra ‘x’ inicial denota o diminutivo em quiche. Neste lugar
serve para estabelecer a relação de pai e filho entre Hun-Hunahpú e Ixhunahpú.
(42) Recorde-se que o jogo de bola estava reservado aos fidalgos (Senhores Principais)
(43) Vasilhas grandes de barro com a abertura larga, assim chamadas na Guatemala.
(44) Ah-Tza, aqueles da guerra. Ah-Tucur, as corujas. Como indica Brasseur, pode haver relação
entre estes nomes e os ‘itzaes’, tribo maia que habita o norte da Guatemala na região chamada
Petén-Itzá, e os povoadores de Tucurú, povo da Verapaz. É provável que os quiches e os
cakchiqueles emigraram do norte, fugindo da tirania daqueles povos e com o propósito de viver
em liberdade em terras novas.
(45) Com aspectos de negros e de brancos, dupla aparências, símbolo de sua falsidade: de duas caras.
Terceira Parte
Capítulo I
Eis aqui, pois, o princípio de quando se dispôs de fazer o homem; e quando se procurou o
que devia entrar na carne do homem.

E disseram os progenitores, os criadores e formadores, que se chamam Tepeu e Gucumatz:


“Chegou o tempo do amanhecer, de que se termine a obra e que apareçam aqueles que nos
hão de sustentar e nutrir, os filhos esclarecidos, os vassalos civilizados; que apareça o
homem sobre a superfície da terra.” Assim disseram.

Juntaram-se, chegaram e celebraram o conselho na escuridão e na noite; logo procuraram


e discutiram, e aqui refletiram e pensaram. Desta maneira saíram à luz, claramente, as
suas decisões e encontraram e descobriram o que devia entrar na carne do homem.

Pouco faltava para que o sol, a lua e as estrelas aparecessem sobre os Criadores e
Formadores.

De Paxil, de Cayalá, assim chamados, vieram as espigas amarelas e as espigas brancas.

Estes são os nomes dos animais que trouxeram a comida:(1) Yac (o gato do monte), Utiú (o
coiote), Quel [uma caturrita vulgarmente chamada cocota (chocoyo)] e Hoh (o corvo).
Estes quatro animais lhes deram a notícia das espigas amarelas e das espigas brancas, e
lhes disseram que foram a Paxil e lhes ensinaram o caminho de Paxil.

E assim encontraram a comida, e esta foi a que entrou na carne do homem criado, do
homem formado; esta foi seu sangue, desta se fez o sangue do homem. Assim entrou o
milho (na formação do homem) por obra dos Progenitores.

E, desta maneira, se encheram de alegria, por que haviam descoberto uma bonita terra,
cheia de deleites, abundante em espigas amarelas e espigas brancas, e abundante também
em pataxte (espécie de cacau) e cacau; e em inumeráveis sapotis, ariticuns, seriguelas,
muricis, médicos inábeis e mel. Abundância de saborosos alimentos havia naquele
povoado chamado de Paxil e Cayalá.

Havia alimentos de todas as classes; alimentos pequenos e grandes, plantas pequenas e


plantas grandes. Os animais ensinaram o caminho. E moendo, então, as espigas amarelas e
as espigas brancas, fez Ixmucané nove bebidas, e deste alimento provieram a força e a
gordura, e com ele criaram os músculos e o vigor do homem. Isto fizeram os progenitores,
Tepeu e Gucumatz, assim chamados.

A seguir entraram num diálogo sobre a criação e a formação de nossa primeira mãe e
nosso primeiro pai. De milho amarelo e de milho branco se fez sua carne; de massa de
milho se fizeram os braços e as pernas do homem. Unicamente massa de milho entrou na
carne de nossos pais, os quatro homens que foram criados.

(1) Echá, comida, alimento. Quando se trata do homem, ‘echá’ é o milho cozido e moído que era a
comida corrente do índio americano, e que os quiches pensavam logicamente que havia servido
para formar os primeiros homens.
Capítulo II
Estes são os nomes dos primeiros homens que foram criados e formados: o primeiro
homem foi Balam-Quitzé, o segundo Balam-Acab, o terceiro Mahucutah e o quarto Iqui-
Balam.

Estes são os nomes de nossas primeiras mães e pais. (2)

Diz-se que eles somente foram feitos e formados; não tiveram mãe nem pai. Somente eram
chamados de varões. Não nasceram de mulher, nem foram engendrados pelo Criador e
Formador, pelos progenitores. Somente por um prodígio, por obra de encantamento foram
criados e formados pelo Criador, o Formador, os Progenitores, Tepeu e Gucumatz. E como
tinham a aparência de homens, homens foram; falaram, conversaram, vieram e ouviram,
andaram, agarravam as coisas; eram homens bons e belos, e sua figura era a figura de
varão.

Foram dotados de inteligência; vieram e, rapidamente, se estendeu a sua vista;


conseguiam ver, conseguiram entender tudo o que havia no mundo. Quando olhavam,
neste momento viam ao seu entorno, e contemplavam entorno deles a abóboda do céu e a
face redonda da terra. As coisas ocultas (por distância) as viam todas, sem ter primeiro
que se mover; em seguida viam o mundo e, assim mesmo, do lugar onde estavam o viam.

Grande era a sua sabedoria; sua vista chegava até os bosques, as rochas, os lagos, os mares,
as montanhas e os vales. E grande era a sua sabedoria; sua vista chegava até os bosques, as
rochas, os lagos, os mares, as montanhas e os vales. Em verdade eram homens admiráveis
Balam-Quitzé, Balam-Acab, Mahucutah e Iqui-Balam.

Então lhes perguntaram o Criador e o Formador: “Que vocês pensam de seu estado? Não
olham? Não ouvem? Não são boas a sua linguagem e a sua maneira de andar? Olhem, pois!
Contemplem o mundo! Vejam se aparecem as montanhas e os vales! Provem, pois, ver!”
disseram-lhes.

E, em seguida, acabaram de ver o quanto havia no mundo. Logo, deram graças ao Criador e
ao Formador: “Em verdade lhes damos graças duas ou três vezes! Fomos criados, nos
foram dadas uma boca e uma face; falamos, ouvimos, pensamos e andamos; sentimos
perfeitamente e conhecemos o que está longe e o que está perto. Vemos também o grande
e o pequeno no céu e na terra. Damos-lhes graças, pois, por nos ter criado. Oh, criador e
formador! Por nos ter dado o Ser: “Oh, avó nossa! Oh, nosso avô!,” disseram dando graças
por sua criação e formação.

Acabaram de conhecê-lo por completo e examinaram os quatro rincões e os quatro pontos


da abóboda do céu e da face da terra.

Mas o Criador e o Formador não ouviram isto com gosto: “Não está bom aquilo que dizem
as nossas criaturas, as nossas obras; tudo conhecem, o grande e o pequeno” – disseram. E,
assim, se reuniram novamente os Progenitores: “Que faremos agora com eles? Que a sua
vista somente alcance o que está perto; que vejam apenas pouco da face da terra! Não está
bom o que dizem. Por acaso não é por sua natureza simples as obras; Por acaso não é por
sua natureza simples as criaturas e os feitos nossos? Eles também devem se tornar
deuses? E, se não procriarem e se multiplicarem quando amanhecer, quando sairá o sol? E
se não se propagarem?” – Assim disseram.
“Refreemos um pouco os seus desejos, pois não está bom o que vemos. Por ventura eles
irão se igualar a nós mesmos, seus autores, que abrangemos grandes distancias, e que tudo
sabemos e tudo vemos?”

Isto disseram o Coração do Céu, Huracán, Chipi-Caculhá, Raxá-Caculhá, Tepeu, Gucumatz,


os Progenitores, Ixpiyacoc, Ixmucané, o Criador e o Formador. Assim falaram e, em
seguida, mudaram a natureza de suas obras, de suas criaturas.

Então o Coração do Céu lhes jogou um vapor sobre os olhos, os quais se embaçaram como
quando se sopra sobre a lâmina de um espelho. Seus olhos velaram-se e só puderam ver o
que estava perto; somente isto era claro para eles.

Assim foi destruída a sabedoria e todos os conhecimentos dos quatro homens: a origem e
o princípio.

Assim foram criados e formados os nossos avós, os nossos pais: pelo Coração do Céu, o
Coração da Terra.

(2) Os antepassados, os progenitores, por assim dizer. O autor sempre volta a chamá-los mães,
mesmo que em sentido genérico.

FIM DA TRADUÇÃO DO MANUSCRITO