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O Revisor de Textos e as Novas Tecnologias

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Sabendo-se que o revisor tem de analisar em seu cotidiano de trabalho textos produzidos nas mais diferentes esferas e áreas de conhecimento, o objetivo deste trabalho é discutir sobre as ferramentas que esse profissional utiliza para analisar os aspectos discursivos e linguísticos dos textos. Para tanto, tomamos como base a experiência de três revisores, sob os pseudônimos de Fernando, Lígia e Aurélio, particularmente o posicionamento deles diante dos problemas detectados no texto e sua relação com as novas tecnologias.
Sabendo-se que o revisor tem de analisar em seu cotidiano de trabalho textos produzidos nas mais diferentes esferas e áreas de conhecimento, o objetivo deste trabalho é discutir sobre as ferramentas que esse profissional utiliza para analisar os aspectos discursivos e linguísticos dos textos. Para tanto, tomamos como base a experiência de três revisores, sob os pseudônimos de Fernando, Lígia e Aurélio, particularmente o posicionamento deles diante dos problemas detectados no texto e sua relação com as novas tecnologias.

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O REVISOR DE TEXTOS E AS NOVAS TECNOLOGIAS Risoleide Rosa Freire de Oliveira (UFRN/ UERN) riso@ufrnet.br; risoleiderosa@uern.br Helton Rubiano de Macedo (UFRN) heltonrubiano@gmail.com Considerações iniciais Sabendo-se que o revisor tem de analisar em seu cotidiano de trabalho textos produzidos nas mais diferentes esferas e áreas de conhecimento, o objetivo deste trabalho é discutir sobre as ferramentas que esse profissional utiliza para analisar os aspectos discursivos e linguísticos dos textos. Para tanto, tomamos como base a experiência de três revisores, sob os pseudônimos de Fernando, Lígia e Aurélio, particularmente o posicionamento deles diante dos problemas detectados no texto e sua relação com as novas tecnologias. Os dados para análise foram constituídos em entrevistas individuais online e coletiva1 com revisores atuantes no mundo do trabalho, nas quais os profissionais emitem opiniões e conceitos acerca dos conhecimentos necessários ao revisor, dos instrumentos de apoio utilizados no processo de revisão, das novas tecnologias e das mudanças linguísticas, bem como da relação com os autores. Para tanto, transpomos principalmente algumas noções teórico-metodológicas construídas pelo Círculo de Bakhtin ao longo das décadas de 1920 a 1970, como a de interação socioverbal (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1990) e a de gêneros do discurso (BAKHTIN, 2003), ambas subsidiadas pela concepção dialógica de linguagem, a qual está intrinsecamente relacionada com as atividades humanas nas diversas esferas sociais. Assim, em um primeiro momento, destacamos as relações entre o indivíduo e as novas tecnologias e os impactos desse cenário sobre as profissões. A partir daí, exploramos as concepções de revisão que circulam nas esferas escolares e do trabalho, em seguida destacamos a experiência de profissionais da área de revisão e concluímos destacando sua importância nas diversas atividades da vida humana. Relações entre o indivíduo e as novas tecnologias Ela está bem perto de nós. Se olharmos atentamente ao nosso redor, podemos identificar facialmente o uso da tecnologia. Podemos reconhecê-la em nossa própria casa, em nosso ambiente de trabalho, no contato com amigos e com familiares. Por meio dessa observação, somos capazes de distinguir o uso de diferentes ferramentas, nos mais diversos campos da nossa vida diária. De acordo com Dertouzos (1997, p. 153), a tecnologia
está transformando a maneira como vivemos, trabalhamos e nos divertimos, como acordamos pela manhã, fazemos compras, investimos dinheiro, escolhemos nossos entretenimentos, criamos arte,
1 Cf. OLIVEIRA, Risoleide Rosa Freire de. Um olhar dialógico sobre a atividade de revisão de textos escritos: entrelaçando dizeres e fazeres. 172f. Tese (Doutorado em Estudos da Linguagem) – UFRN, Natal, 2007.

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cuidamos da saúde, educamos os filhos, trabalhamos e participamos ou nos relacionamentos com as instituições que nos empregam, vendem algo, prestam serviços à comunidade.

A cada época, a tecnologia foi utilizada como forma de instrumentalizar novas formas de realizar atividades. Assim como na Idade da Pedra, os indivíduos construíam ferramentas talhando pedras de modo a formar instrumentos de uso doméstico e social. Hoje, utilizamos, obviamente em maiores proporções devido aos avanços tecnológicos, novos modos de facilitar nosso cotidiano. Trata-se de um desejo infindável em evoluir, aperfeiçoando ferramentas e utensílios. É assim que, pelo prisma da revolução tecnológica, avistamos a chamada Era da Informação, tecida e reabastecida por meio de uma rede mundial, na qual um fluxo incessante de informações perpassa o cotidiano de milhões de pessoas em todo o mundo. É propiciada pelo advento de novas tecnologias que a informação ocupa papel primordial e hoje serve como moeda de valor da cadeia produtiva da sociedade. Nesse cenário, não podemos deixar de considerar, entretanto, que constituímos uma sociedade que hoje passa por grandes mudanças em diferentes aspectos. Somos hoje uma sociedade em crise. Segundo Marcondes Filho (2004, p. 9), “a crise de que se fala hoje em toda a parte é principalmente a de orientação, de estar em um mundo no qual desapareceram repentinamente todos os mecanismos que apontavam para o norte nas ações das pessoas”. Dentro dessa realidade de perda de parâmetros, tornamo-nos uma sociedade marcadamente tecnológica. Marcondes Filho (2004, p. 29) afirma ainda que nessa sociedade “o homem como que transfere à máquina uma grande quantidade de trabalhos que o ligavam diretamente à terra, à produção e mesmo à criação artística”. É por meio de aparatos eletrônicos que formatamos nosso dia a dia. Criamos uma dependência profunda de instrumentos que não possuíamos até pouco tempo. Pelo exposto, constatamos que atravessamos um período de ampla transformação. Somos indivíduos imersos em uma cadeia de acontecimentos que está provocando mudanças profundas no modo de agir e pensar da sociedade. Castells (2006, p. 39) destaca que “uma revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação começou a remodelar a base material da sociedade em ritmo acelerado”. Trata-se de um período marcado por transformações baseadas em novos modos de produzir e consumir informações, e cujas consequências ainda não podem ser totalmente antecipadas. As novas tecnologias e as profissões Tomando o pressuposto de que novas tecnologias, principalmente aquelas que alavancam o uso da informação, permeiam o cotidiano de toda a sociedade, consideramos suas múltiplas influências em diversos campos da vida social. Uma dessas influências incide no campo do trabalho. Sobre isso, Castells (2006, p. 39) afirma que “[...] a nova tecnologia da informação está redefinindo os processos de trabalho e trabalhadores e, portanto, o emprego e a estrutura ocupacional”. Sob essa perspectiva, novas tecnologias atuam diretamente sobre as profissões. Algumas delas desapareceram. Outras surgiram em meio aos novos cenários. A maioria delas, entretanto, foi acometida, de um modo ou de outro, por um algum tipo de mudança advinda do desenvolvimento de tecnologias digitais. Dessa forma, deter conhecimentos e estar apto a dominar novas formas de processar informações passou a ser condição fundamental para profissionais atentos às mudanças da dinâmica do mercado de trabalho e que, por isso mesmo, buscam atualização permanente.

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Acerca das mudanças sobre as profissões a partir do advento tecnológico, Arraes (2011) entrevista o professor de Economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) José Carlos Cavalcanti. Segundo o professor, com as novas tecnologias surgem novas demandas e, consequentemente, novas vagas de emprego que possam suprir essas novas necessidades.
Se uma empresa resolve automatizar seus negócios e implantar softwares responsáveis pela parte mais burocráticas, automaticamente torna-se necessária uma pessoa que seja capaz de analisar os dados gerados pelo computador. Ou seja, segundo o professor, as máquinas não roubaram o trabalho do homem, apenas ficarão com o trabalho “brutal” enquanto os homens serão responsáveis pelo aprofundamento. “Os profissionais precisam voltar para as universidades para aprenderem a colocar novas questões”, afirma José Cavalcanti (ARRAES, 2011).

Em diversas profissões, podemos observar as mudanças em curso. Na medicina, novos equipamentos são produzidos ou aperfeiçoados a fim de propiciar novas práticas que auxiliam o dia a dia médico bem como contribuir para diagnósticos mais precisos e tratamentos mais eficientes de doenças. Na engenharia, novos softwares são desenvolvidos a cada dia com o intuito de facilitar a elaboração de projetos e a execução de cálculos. No jornalismo, profissionais dessa área agora contam com um poderoso instrumental para a transmissão de informações, o que contribui significativamente para os processos de apuração, construção e veiculação da notícia, de modo cada vez mais ágil. Os exemplos acima são apenas ilustrativos. Como foco deste artigo, detemo-nos sobre a influência das novas tecnologias sobre o trabalho do revisor de texto. Assim como exposto, nosso olhar estará voltado para os posicionamentos de revisores acerca do uso de novas tecnologias no seu dia a dia profissional. Revisão da forma ou revisão do discurso? Em uma perspectiva tradicional, a revisão é vista como uma etapa subsequente à produção escrita, principalmente de alunos, com o objetivo principal de corrigir o texto e detectar violações nas convenções da norma culta, pautada no senso comum de que revisar resume-se a corrigir ortografia, pontuação, concordância verbal e nominal, de acordo com as normas apontadas em gramáticas, dicionários e manuais. Nessa abordagem, portanto, a revisão é tratada como uma das etapas de reescritura (cf. OLIVEIRA, 2010), sendo focalizada em sua grande maioria em situações de sala de aula, ou seja, em contextos escolares, com o objetivo de serem apontados os aspectos estruturais encontrados nos textos, pelos professores. Em uma perspectiva diferente, por levarem em conta os profissionais que participam do processo de revisão em contextos extraescolares, destacamos a obra História do cerco de Lisboa (SARAMAGO, 1998) e o artigo científico A relação exemplar entre autor e revisor (e outros trabalhadores textuais semelhantes) e o mito de Babel (ARROJO, 2003), bem como duas publicações que enfocam a revisão de textos sob a ótica do revisor: o Manual de revisão, produzido por Guilherme (1967), no estado do Ceará, e o Manual do revisor, editado por Malta (2000), no estado de São Paulo (cf. OLIVEIRA, 2010). Paralelamente aos acontecimentos do cerco de Lisboa, o autor português José Saramago conta a história de um revisor de textos, personagem solitário e tímido, que

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vive “fechado em casa, triste como um cão sem dono” (SARAMAGO, 1998, p. 299), ganhando a vida revisando textos que muitas vezes despreza, sempre respeitando, entretanto, a posição que lhe cabe na hierarquia do trabalho com as palavras. Isso muda, entretanto, no momento em que o revisor decide ignorar essa hierarquia e muda o texto do autor, o que leva sua vida pessoal e profissional a passar por mudanças, como deixar de pintar o cabelo e receber proposta para escrever outro livro sobre a referida história. Conforme demonstrado por Saramago, em sua grande maioria, o revisor de texto não tem o reconhecimento que deveria ter, pois ainda é visto como um profissional que, por um lado, deve apenas corrigir os erros gramaticais, e, por outro, a exemplo de outros profissionais como o tradutor, sua situação profissional é, como aponta Arrojo (2003, p. 193): “[...] geralmente associada a uma reputação de traidor marginal e de escritor desajeitado”. Isso se dá, ainda conforme a autora, como
[...] consequência direta de concepções de “original” e de autoria que partem de noções essencialistas de linguagem, segundo as quais seria possível congelar significados e protegê-los em “invólucros” textuais que deveriam ser abordados com todo o cuidado. [...] significados originalmente definidos pelo autor (ARROJO, 2003, p. 193).

A Associação Brasileira de Normas Técnicas, por exemplo, por meio da NBR 6025 (ABNT, 2002, p. 1), indica dois tipos de revisão: a de originais e a de provas. Na revisão de originais (ou “copidesque”), faz-se a “normalização ortográfica, gramatical, literária e de padrões institucionais, aplicando-se as técnicas editoriais e marcações para uniformizar o texto como um todo”; na revisão de provas, “também chamada de revisão de cotejo ou conferência”, assinala-se com símbolos e sinais convencionados aquilo que difere do original2. Os manuais de Guilherme (1967) e de Malta (2000), por sua vez, apesar de sugerirem que o revisor “ouça seu cliente”, que procure ter um “conhecimento mais amplo”, “versatilidade”, entre outras dicas, não inovam, não apresentam um ponto de vista alternativo, nem desafiam concretamente as vozes conservadoras das normas gramaticais, propondo uma fundamentação teórico-metodológica consistente. Ao contrário dessa postura, eles também exercem o papel das gramáticas normativas, qual seja, dar orientações e prescrever normas e dicas sobre a revisão, o que os configura como “autoridades” sobre a temática, isto é, vozes sociais que hierarquizam valores e modos de interpretação, refletindo e defendendo determinadas finalidades comprometidas com interesses específicos, como propor uma determinada forma e função generalizante à tarefa de revisar. Nesse sentido, ao se identificarem e escolherem essas normas para se subsidiar, em uma convergência de interesses e objetivos, tornamse aliados das vozes que pretendem criticar, fortalecendo seus efeitos autoritários. Porém, como sabemos, na arte de revisar, as normas gramaticais são insatisfatórias, apesar de precisarem ser levadas em consideração, porque deixam lacunas em relação aos aspectos da ordem do discurso, os quais precisam muitas vezes da mediação do revisor para mostrar os problemas ao autor, pois este muitas vezes está tão familiarizado com seu texto que não observa certos problemas discursivos. Isso não significa dizer, entretanto, que o revisor deve interferir nos pontos de vista ou no projeto
2 Cf. os sinais de revisão na NBR 6025 (ABNT, 2002). Esses códigos, “em torno de quarenta ou menos, embora, extensivamente, ultrapassem a centena” (ARAÚJO, 2008, p. 394), são semelhantes aos apontados em outros trabalhos como os de Guilherme (1967) e Malta (2000), sendo os da ABNT, os adaptados por Malta e os efetivamente utilizados no dia a dia de gráficas, jornais e editoras em número menor que os propostos pelos manuais e publicações.

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de dizer dos autores, mas que pode ajudá-los a dar acabamento ao texto, considerando a posição deles diante do dito (OLIVEIRA, 2006, 2008, 2009). A experiência dos profissionais com as novas tecnologias É inquestionável que os softwares instalados em computadores fornecem ferramentas e programas de revisão que detectam problemas linguísticos e sugerem soluções, daí o profissional necessitar reconhecê-los como apoio para o seu trabalho e saber utilizá-los como mais um instrumento de mediação. Conforme afirma Derrida (2004, p. 148), “o computador instala um novo lugar”. Diante disso, uma postura de rejeição a essas novas tecnologias se mostra inoportuna e, mesmo, retrógrada, uma vez que, como esclarece Coracini (2006, p. 153-154),
a resistência tenaz e ineficaz [...], apenas marginaliza e nos torna mais arredios e ignorantes. O melhor é entrar nesse mundo da virtualidade para compreender melhor o outro [...], o mesmo no diferente, o diferente no mesmo, mundo híbrido, heterogêneo, complexo, que, por isso mesmo, espalha tensões, conflitos e contradições que precisamos administrar para não sucumbir.

Entretanto, mesmo uma ferramenta sofisticada como o computador não pode substituir o trabalho humano na área de revisão, por não ser capaz de analisar as relações discursivas construídas em um texto, já que se limita a determinados aspectos da correção ortográfica e de concordância e regência verbal, não podendo o trabalho do revisor ser substituído pela máquina, uma vez que tal atividade implica também analisar escolhas estilísticas do autor, aspecto que foge às suas possibilidades. Como enfatiza Fernando, um dos revisores entrevistados:
A revisão não é só um trabalho mecânico que você olha assim e vai resolvendo problema a problema por uma técnica. Isso é um aspecto que se sobressai mais. Mas a ordem da frase, os hábitos, as características do estilo do autor têm que ser levados em consideração. [...] Todos nós temos experiência dessa ordem. [...] pegar um texto muito confuso e conversar com o autor para enxugar, dar uma ordem mais objetiva. Principalmente quando se trata de um texto técnico, que visa passar informações com clareza.

Em concordância com as apreciações de Fernando, a revisora Lígia destaca a complexidade de se analisar as relações discursivas em um texto:
Analisar a superfície do texto é simples, basta desenvolver um olhar de lince... que a gente vai em cima. Mas o trabalho do revisor não é só isso. [...] Considerando, por exemplo, num texto acadêmico, que a pessoa quer defender uma tese, quer argumentar em torno daquela tese, e quer fazer com que o leitor se convença que o que ele faz é relevante, [...] Nesse sentido, é importante salientar que, embora o olhar de lince do revisor para a superfície textual seja desenvolvido, é muito mais importante observar as relações discursivas, quais são as metas que essa pessoa tem, e para atingir essas metas, o que ela precisa preencher em termos de lacuna, de discurso. [...] é muito mais tranquilo, mais rápido e objetivo dizer e mostrar ao autor erros

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ortográficos e de concordância verbal e nominal. [...] Por exemplo: uma pessoa escreve o texto do ponto de vista da norma culta impecavelmente, mas do ponto de vista do dizer, do que ela quer mostrar com aquele texto há uma série de lacunas que a gente precisaria, na posição de revisor, orientar para que ele fortaleça os argumentos.

Complementando o exposto acima, em relação às novas tecnologias e sua influência na atividade de revisão de textos, Lígia diz que, por mais modernos que sejam os computadores e seus programas de revisão, não há como eles substituírem o trabalho de um bom revisor. Ela argumenta que “os programas de revisão podem cuidar da dimensão formal de um texto (e isso é muito bom), mas eles não são capazes de analisar as relações discursivas construídas em um texto”. Aurélio, por sua vez, demonstrando experiência no manuseio de computadores, e talvez por isso mais abertura às novas tecnologias e a sua interferência no trabalho do revisor, reconhece que
a área de computação se desenvolve muito rapidamente, sendo importante o profissional dominá-la, pois ela dispõe de vários recursos que o auxiliam de forma fantástica, como os do editor de textos, os de programas de consulta, os dos dicionários eletrônicos.

Segundo ele, os recursos proporcionados pelo editor de texto Word – como sublinhar em vermelho a palavra que esteja grafada de forma incorreta, e, na cor verde, erros de concordância verbal ou nominal –, são importantes porque o profissional pode revisar diretamente na tela do computador. Ainda segundo Aurélio, os programas de pesquisa como o Google ajudam a solucionar várias dúvidas por serem “de altíssima capacidade”, assim como um dicionário eletrônico agiliza com precisão a consulta ortográfica de palavras, além de fornecer subsídios, “como, por exemplo, ao se digitar um verbo, dispor-se dele conjugado em todos os tempos e em todas as pessoas, em fração de segundos”. Apesar disso, Aurélio ressalta que “nem sempre o editor de texto está com a razão”, daí não acreditar que “o conteúdo humano possa desaparecer, até porque a máquina sempre necessitará de pessoas, tanto para inventá-la e incrementá-la como para manuseá-la”. Com isso, ele enfatiza que a postura do revisor diante das novas tecnologias, as quais servem de instrumentos mediadores para o seu trabalho, não deveria ser de subserviência; pelo contrário, caso haja dúvidas diante das sugestões fornecidas pela máquina, “a última palavra sempre será a do revisor”. Na verdade, os depoimentos aqui transcritos mostram como a autonomia do profissional é fundamental no trabalho de revisão, especialmente em relação às novas tecnologias instauradas no mundo contemporâneo, sendo o computador, mais especificamente, apenas um instrumento de apoio e fonte de consulta, a exemplo dos dicionários, gramáticas e manuais. Como visto acima, Fernando comenta que as tecnologias da informática estão sempre trazendo novidades que pretendem tornar obsoleto o trabalho do revisor. Cauteloso, pondera não serem “muito boas, aparentemente, as perspectivas de trabalho para o revisor, no futuro”, embora, até o momento, essas inovações tenham se limitado a determinados “aspectos da correção ortográfica”. A seu ver, “as questões de estilo estão longe de serem resolvidas pela máquina porque nessa área as opções são várias, e

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quase todas válidas, e só quem pode decidir sobre isso é um ser pensante, [...] a máquina não pode penetrar na mente do autor e interpretar as nuanças de significado, as segundas intenções de um verso, o duplo sentido proposital e sutil, latente, mas não explícito, de um trocadilho”. Para que isso aconteça, segundo Fernando, “a máquina teria de sentir como um ser humano, o que não parece provável, apesar de toda a evolução que venha a sofrer no futuro. Sempre haverá, portanto, áreas da língua inacessíveis à máquina. Esta será, como é hoje, tarefa do homem, isto é, do revisor”. Ao dizer isso, ele na verdade está mais uma vez chamando a atenção para as relações de sentido que são estabelecidas em um texto e que só um profissional com conhecimento na área focalizada pode entender adequadamente. Todos três revisores concordam no que se refere à possibilidade de mesmo uma ferramenta sofisticada como o computador não vir a substituir o trabalho humano na área de revisão, por não ser capaz , como diz Lígia, “de analisar as relações discursivas construídas em um texto”; como lembra Fernando, “de se limitar a determinados aspectos da correção ortográfica”; e, como enfatiza Aurélio, “sempre precisará de pessoas, tanto para inventá-lo e incrementá-lo como para manuseá-lo”. Assim, todos são unânimes em afirmar que o trabalho do revisor não pode ser substituído pela máquina, uma vez que tal atividade implica também analisar as relações dialógicas, aspecto que foge às suas possibilidades. Eles sobressaem, assim, a autonomia do profissional, que tem no computador apenas mais um instrumento de apoio e fonte de consulta, a exemplo dos dicionários, manuais, entre outros. O status do computador estaria equiparado ao dos recursos acessórios citados por Aurélio, úteis para esclarecer dúvidas de ordem linguística, de conhecimento enciclopédico e outras afins. Assim, para eles, as novas tecnologias3, do mesmo modo que as gramáticas e os dicionários, podem ajudar a solucionar problemas em um texto, o que, segundo Lígia, “é muito bom”. Esse reconhecimento às inovações tecnológicas estabelecidas no mundo contemporâneo, as quais têm facilitado a atividade de revisão, é necessário para que o profissional acompanhe as transformações que ocorrem a cada novo momento. Em resumo, o profissional da área de revisão precisa conhecer as novas tecnologias para não ficar isolado, limitado, sem poder de agenciamento diante delas. Saber utilizá-las como mais uma ferramenta de trabalho significa também poder se situar e se familiarizar melhor com o mundo contemporâneo e com as possibilidades virtuais proporcionadas por esse universo tecnológico. Considerações finais Ao longo deste artigo, procuramos mostrar como se processa a atividade de revisão de textos a partir de depoimentos de profissionais, tomando como foco a relação deles com as novas tecnologias. Para tanto, levamos em conta as experiências de três profissionais atuantes no mundo do trabalho editorial em diversos gêneros e áreas de conhecimento.

3 No caso do computador, mais especificamente nos sítios de busca como o Google, por exemplo, o revisor pode utilizá-lo para obter informações que ajudem a solucionar algumas dúvidas surgidas no texto, como frisa Aurélio, além de, principalmente, possibilitar a pesquisa online a jornais, revistas científicas, bibliotecas universitárias. Assim, é importante que o profissional saiba manusear tais ferramentas, porque elas podem servir como mediadoras para que ele acompanhe as transformações do mundo contemporâneo.

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Conforme pudemos observar, a atividade de revisão é uma tarefa complexa que pressupõe não apenas o conhecimento da língua mas também de práticas socioverbais em diversas esferas da vida humana, considerando-se as transformações pelas quais passam a sociedade e as linguagens no mundo contemporâneo. Mundo que exige uma redefinição qualitativa do papel do revisor, não podendo esse profissional se restringir aos mesmos procedimentos e concepções de revisão de épocas anteriores. Ou seja, as mudanças de ordem científica, tecnológica e sociocultural, ocorridas nas últimas décadas, pedem que profissionais e instituições ampliem seus conhecimentos e práticas para poderem acompanhá-las. Nesse sentido, há necessidade de o revisor estar sempre atento às transformações e adequações por que passam seu material de trabalho: o texto, que pode se apresentar em diversos gêneros, linguagens e suportes. Sendo os últimos o papel ou as novas tecnologias eletrônicas, o profissional geralmente tem às mãos e aos olhos uma produção elaborada por diferentes pessoas e instituições, de diversas áreas de atuação, daí a necessidade de o revisor estar sintonizado com as peculiaridades e singularidades dos diversos gêneros discursivos que circulam nas diferentes esferas das atividades humanas, muitas vezes transmutando-se, intercalando-se, ajustando-se, de acordo com suas necessidades, em especial os gêneros secundários (BAKHTIN, 2003), como romances, contos, artigos e relatórios científicos, que são gêneros complexos e requerem mais atenção do revisor em relação ao conteúdo temático, construção composicional e escolhas lexicais e estilísticas utilizadas pelo autor, que carregam suas peculiaridades de acordo com as áreas de conhecimento. Considerando isso, a atividade de revisão iria além da correção das normas gramaticais, uma vez que os profissionais atentariam também para as condições concretas de produção, recepção e circulação do texto. Ou seja, analisariam, primeiramente, a concatenação das ideias, as relações de sentido, o querer dizer do autor, o endereçamento do texto, a alternância dos sujeitos do discurso, para depois tratarem de elementos pontuais, como os relacionados com acentuação, ortografia, morfossintaxe, pois o procedimento inverso poderia descaracterizar a entonação apreciativa do autor ou das outras vozes que ele utiliza em seu texto. Seguindo esse percurso, os aspectos estruturais seriam o ponto de chegada no processo de revisão, sendo os aspectos discursivos o ponto de partida, conforme propõem Bakhtin/Volochinov (1990) para a análise linguística. Esses aspectos da ordem do discurso estão relacionados com os posicionamentos e visões de mundo do autor e sua imagem de destinatário, que só podem ser considerados se se olhar o texto primeiramente em uma situação concreta de interação, sempre permeada pelas posições axiológicas em diversos graus de convergências e divergências, levando em consideração quem escreve, o quê, e para quem, o que remete à questão de alteridade e de alternância de sujeitos; de que lugar escreve, o que remete à questão de esfera/área/atividade; como escreve, o que remete à questão de gênero discursivo e seu enquadramento ou transformação. É necessário, portanto, por parte do revisor, reconhecer que os materiais com os quais ele trabalha no dia a dia estão inseridos nos gêneros mais diversos. Estes, por sua vez, são constituídos de temas, construções composicionais e estilos que, embora geralmente submetidos às imposições linguísticas e sociais que permeiam todo ato de dizer, também podem ser flexíveis, dependendo de onde e para quem o autor está escrevendo, o que implica considerar as condições de produção, circulação e recepção. Por conseguinte, para o trabalho de revisão, não basta que os profissionais dominem a língua como sistema para corrigirem os lapsos gramaticais no texto; é preciso que eles adotem uma atitude compreensiva em relação aos valores que orientam as escolhas das

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formas dadas ao conteúdo do texto. Além disso, reafirmamos o uso das novas tecnologias como ferramentas que, se bem utilizadas, auxiliam o profissional aberto às inovações. Referências ARAÚJO, Emanuel. A construção do livro: princípios da técnica de editoração. 2. ed., rev. e atual. Rio de Janeiro: Lexikon; São Paulo: Fundação Editora da Unesp, 2008. ARRAES, Júlia. Novas tecnologias geram novas profissões. Diário de Pernambuco. Disponível em: <http://www.diariodepernambuco.com.br/nota.asp?materia=20101004130903>. Acesso em: 11 fev. 2011. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6025: informação e documentação – Revisão de originais e provas. Rio de Janeiro, 09/2002. ARROJO, Rosemary. A relação exemplar entre autor e revisor (e outros trabalhadores textuais semelhantes) e o mito de Babel: alguns comentários sobre História do cerco de Lisboa, de José Saramago. Delta, v. 19, p. 193-207. 2003. Edição especial. BAKHTIN, Mikhail/VOLOCHINOV, Valentin. [1929]. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 5. ed. São Paulo: Hucitec, 1990. BAKHTIN, Mikhail [1979]. Estética da criação verbal. 4. ed. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003. CASTELLS, Manuel. A sociedade em Rede. 9. ed. Trad. de Roneide Venâncio Majer. São Paulo: Paz e Terra, 2006. CORACINI, Maria José Faria. Identidades múltiplas e sociedade do espetáculo: impacto das novas tecnologias na comunicação. In: MAGALHÃES, Isabel; GRIGOLETO, Marisa; CORACINI, Maria José Faria (Org.). Práticas identitárias: língua e discurso. São Carlos: Clara Luz, 2006, p. 133-156. DERRIDA, Jacques. Papel-máquina. Tradução de Evandro Nascimento. Rio de Janeiro: Estação Liberdade, 2004. DERTOUZOS, M. L. O que será: como o novo mundo da informação transformará nossas vidas. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. GUILHERME, Faria. Manual de revisão. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1967. MALTA, Luiz Roberto. Manual do revisor. São Paulo: WVC, 2000. MARCONDES FILHO, Ciro. Sociedade tecnológica. São Paulo: Scipione, 2004. OLIVEIRA, Risoleide Rosa Freire de. O papel mediador do revisor de textos: dos aspectos discursivos aos aspectos notacionais. XXI Jornada Nacional de Estudos Linguísticos. João Pessoa, 2006, p. 2483-2492. OLIVEIRA, Risoleide Rosa Freire de. Um olhar dialógico sobre a atividade de revisão de textos escritos: entrelaçando dizeres e fazeres. 172 f. Tese (Doutorado em Estudos da Linguagem) – UFRN, Natal, 2007. OLIVEIRA, Risoleide Rosa Freire de. Revisão de textos: o ponto de vista de manuais. In: OLIVEIRA, Maria Bernadete Fernandes de; ALVES, Maria da Penha Casado; SILVA, Marluce Pereira da. Linguagem e práticas sociais: ensaios e pesquisas. Natal: Edufrn, 2008, p. 127-151. OLIVEIRA, Risoleide Rosa Freire de. Práticas dialógicas na atividade de revisão textual: a relação entre revisor e autor. I Encontro de Pesquisa em Assu. Natal: Edufrn, 2009, p. 1-15.

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OLIVEIRA, Risoleide Rosa Freire de. Revisão de textos: da prática à teoria. Natal: Edufrn, 2010. SARAMAGO, José [1989]. História do cerco de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

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