Análise do Poema "Mar Português

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Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.

Escrito a 9 de Junho de 1935, seis meses antes da morte de Fernando Pessoa, este poema tem uma importância eminentemente esotérica. Foi neste âmbito que a análise será feita, recorrendo a um texto de Dalila Pereira da Costa, publicado em 1978. Como bem indica esta pessoana de renome, o poema «Mar Português» surge na continuação do que é a Mensagem. No entanto, e se tal for possível, é ainda mais hermético do que aquela, porque se na Mensagem se invoca o Mar Português ainda físico da conquista e depois lentamente transcendental do espírito, no poema «Mar Português» a invocação é já plenamente transcendental, focada na importância da obra do próprio Fernando Pessoa num futuro renascer da alma nacional. Identificam-se temas comuns entre este poema e a Mensagem. Nomeadamente a referência ao mar simultaneamente espelho e abismo, onde a alma se perde no sonho e depois do sonho se reflecte num projecto de futuro esplendoroso porque plenamente espiritual e desligado da terra. Há o reconhecimento que nada mais há a buscar no mar físico, mas que resta a exploração do mar espiritual, onde Pessoa quer ser empossado argonauta, porque é através da poesia, da linguagem do inefável, que se podem descobrir os mistério da alma e da vida, escondidos à visão normal dos homens. Um primeiro ciclo exauriu-se: o da descoberta do mar. Um novo ciclo se anuncia: a segunda vinda, a descoberta da alma, do mar espiritual. É a água, o elemento água, a paz, a solidão, a reflexão, o contínuo movimento de renovação e desafio que permite a revelação da profecia. É a água que simboliza a latência do sonho, a água nua, despida e apenas espelho ou abismo, que mostra e que esconde. Combinação proibida de opostos, como a própria poesia, que se por um lado comunica, nada diz de imediato, mas antes quer provocar em quem a lê a reflexão mais profunda ou a reflexão mais imediata, o abismo e o espelho. O mar, o sonho e a poesia são os três elementos que Dalila Pereira da Costa indica como sendo os vectores essenciais da alma portuguesa. Não interessa a ambição, mas o sonho, não interessa o destino, mas a viagem, não importa nada que se acabe na sua própria realização, porque nada que se consuma inteiramente pode ser eterna. Portugal, pátria à beira água é também pátria à «beira-mágua». O sofrimento e a dor marcam a viagem ás ilhas afortunadas da alma, porque nenhuma grande descoberta se faz sem sacrifício de monta e relevo. Esta alquimia, processo de integração dos desejos mais profundos e íntimos do ser, liga o desejo à metafísica de o realizar na carne. Dalila relembra, e bem, Jung, na sua análise do subsconsciente como meio de alcançar a ligação entre os dois mundos, porque ténue terreno de fracas consistências e certezas palpáveis, senão pela intuição. Pessoa foi mais longe, ao desdobrar-se em quatro (Caeiro, Campos, Reis e Soares) fez a chamada quadratura do circulo, antigo esquema alquímico em que o Eu permanece no centro, permeado pelo mediador, pelo Logos. O apocalipse do fim aparece em Pessoa como revelação de uma verdade interior, reservada a quem empreenda a viagem sem destino que é perder-se de si mesmo. O começar na nova aurora neste Império Espiritual é algo mais do que a presença diáfana de um vasto território dominado por uma só língua e um só povo, antes um horizonte sem fim em que se atinge a irmandade dos homens, a paz in excelsis intemporal e imperfeita apenas por não ser ainda de Deus, mas encimada por um desejo incompleto de se realizar sempre no futuro.

Foram estas mãos portuguesas que "rasgaram o véu" à Europa. O facho que uma mão ergue. o Intermediário secreto para entender o significado de Deus para o Homem. onde o Encoberto recebe a unção do Espírito Santo apenas para se revelar como o eterno Logos. mas dividido em Homem e em Deus. encontrar dentro de si um patriotismo de tais dimensões que quase parecia impossível de traduzir em sentimento. baseado na unidade de todos os homens em Cristo simbólico. . Sendo um poema trinitário. regressando.Análise do poema "ocidente" Com duas mãos. A mão que rasgou o véu. sem ligar ao medo. mas imbuído de uma interpretação mística e paraclética. Não é a importância de possuir o mar (possessio maris quer dizer posse e não propriedade do mar.o Acto e o DestinoDesvendámos. "com duas mãos . Completo em corpo e alma. sem destino? Foi Deus que esculpiu no corpo o seu destino e o guiou sem que este tomasse noção do perigo. humana e por isso "Acaso". A Mensagem é um poema trinitário. A Mensagem foi um meio também de Pessoa expressar a sua mágoa em palavras.afasta o véu. o Acto foi a coragem de descobrir e o Destino a força que o permitiu. como uma cobra que morde a própria cauda e na força centrífuga potencia o futuro. "apoiada pela ciência e pela ousadia".o Acto . Buscar que também é esperar em símbolo e superar o vazio da aparente ausência de Destino". à maneira cristã. Embora grande importância tenha tido essa mão que luziu. com a luz que alumiava e o destino que rasgava o véu. "Determinação" e grau "Intemporal".Brasão. Este destino não é no entanto história de Portugal. E foi por providência divina (v. dividido em 3 partes.onde Pessoa justifica de certo modo a proposta feita na primeira parte . há que recordar que a Mensagem é um poema nacional. Pessoa vê Portugal como o rosto com que o Ocidente fita o futuro e o passado. prostrada na glória de mostrar que o mar é sempre o mesmo e toda a descoberta é imperial se feita passando além da dor. Fosse a hora que haver ou a que havia A mão que ao Occidente o véu rasgou. foi também instrumento. é a luz que de Portugal emana e que pretende iluminar o que antes era trevas . uma mágoa de quem abandonou o país na sua juventude para.Mar Português . era já uma mão de "Certeza". a Mensagem é também um poema dialéctico. ou Temporal A mão que ergueu o facho que luziu. que separou desde sempre o querer de Deus e a ignorância do Homem. dividido nas duas mãos. senão uma massa informe. foi a face do Ocidente perante o abismo. e por isso é efémera e passageira).o Acto e o Destino" (v. ou apenas "Temporal". poema "Ocidente"). uma versão moderna e espiritualista dos Lusíadas. Mas sendo o agente. mas o seu interrompido prólogo (nas palavras de Agostinho da Silva em "Um Fernando Pessoa"). Portugal foi a cara com que a Europa enfrentou esse destino. No mesmo gesto. Fosse Acaso ou Vontade. o poema "O Infante") que Portugal desvendou. Foi Deus a alma e o corpo Portugal Da mão que o conduziu. muito menos em letras no papel.enquanto outra . O poema "Ocidente" inclui-se na segunda parte . em que cada parte contribui para a seguinte. Só para mostrar o significado vão de possuir e o significado altíssimo de buscar. Antes de analisar o poema em questão. O que é um corpo sem alma. A proposta era a de uma nação que iria trazer novos mundos ao mundo. feito civilização. nas palavras do eminente estudioso de Pessoa. a mão do facho que iluminou. sobretudo o nascer de um Império Espiritual. perseguindo uma síntese Hegeliana na sua leitura final. A mão predestinada. A coragem e a força são interdependentes. ao céu Uma ergue o facho trémulo e divino E a outra afasta o véu. porque instrumento de uma vontade superior.o Destino . António Quadros. construído sabedoria e intelecto. nenhuma importância teria sem a vontade de Deus em a dirigir como "alma". Foi alma a Sciencia e corpo a Ousadia Da mão que desvendou. sendo o "corpo" Portugal. "Vontade". mas a preciosidade de ter encetado a busca. Foi Deus a alma de Portugal na sua missão.

à indignação do ser «imundo e grosso» que sai. foi também o intérprete comovido da História nacional . a Mensagem encontra na sua segunda parte alguns dos episódios mais descritivos e emocionais. Na segunda parte de Mensagem. tratando-se do episódio do Mostrengo. ele é inocente quando pretende uma revolução pelo espírito.análise do poema "o mostrengo" O mostrengo que está no fim do mar Na noite de breu ergueu-se a voar. o poeta. E disse no fim de tremer três vezes: ³Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um povo que quer o mar que é teu. instrumento inflexível da vontade do rei. João Segundo!»). está encimada pela elocução latina possessio maris (posse do mar). João Segundo!´ O poema "O Mostrengo" enquadra-se na segunda parte de Mensagem: O Mar Português. que me ata ao leme. No entanto. Torna-se progressivamente mais escura e hermética a linguagem de Pessoa. Considerando-se um «nacionalista místico». Assim analisa Jacinto do Prado Coelho o Mostrengo: «O Mostrengo» opõe dramaticamente . excepcionalmente. atravessada por um sentimento negro de exaustiva análise e frustração por um futuro ainda por acontecer. que também originalmente se deveria chamar Portugal. Manda a vontade. comunicando-se. Fernando Pessoa. sem dúvida. sob a sugestão do Adamastor. quando pretende enunciar os princípios em que basearia uma nova civilização e esperasse essa realidade. E disse: ³Quem é que ousou entrar Nas minhas cavernas que não desvendo. das profundezas do mar: «Aqui ao leme sou mais do que eu: / sou um povo que quer um mar que é teu!»). embrenhada num messianismo que ele vê difícil de se cumprir senão pelos mistérios de uma fé no regresso de uma nobreza já estranha aos seus contemporâneos. Três vezes ao leme as reprendeu. mais profundamente até porque esteve longe de Portugal e sentiu longe o que era realmente a saudade de um passado mais tranquilo do que aquele que vivia. João Segundo!´ Três vezes do leme as mãos ergueu. De El-Rei D. O Mostrengo. Que embora sinta profundamente o seu nacionalismo. essa revolução teria de ser sempre em bases espirituais e é assim que ele as invoca. em decassílabos sonoros com um refrão cuja força épica aumenta de estrofe para estrofe («El-Rei D. mais tarde vês que nem Sidónio Pais. e rodou três vezes. alvo de comentários menos elogiosos por parte de Pessoa em alguns momentos da sua vida. a análise é diferenciada. que me a alma teme E roda nas trevas do fim do mundo. A segunda parte. em versos de densidade poética e sugestão rítmica insuperáveis. um poema originalmente escrito em 1918 (Pessoa tem então 30 anos) é menos sombrio e hermético que outros que viriam a constituir a Mensagem. revelada na primeira parte. Voou três vezes a chiar. uma obra simbólica e obscura. empunha a «tuba canora e belicosa» ( ) Assim. À roda da nau voou três vezes. Isto deve-se a uma desilusão crescente em Pessoa. Pessoa parece querer por momentos desafiar Camões. Sempre considerada como impregnada de um sentido de épico eminentemente racionalista e intelectual. No seu todo é. Fernando Pessoa expressa a nobreza dos actos. tremendo: ³El-Rei D. Meus tectos negros do fim do mundo?´ E o homem do leme disse. que acompanhou a nobreza da intenção. a decisão do marinheiro português. E mais que o mostrengo. e comparativamente elaborar um momento de grande força dramática e menor força simbólica. que se em 1912 na sua primeira experiência como escritor/crítico clama por um Super-Camões e por um renascimento da psique nacional. . nem a Ditadura Militar que se lhe segue surgem como soluções para tal. por sua vez. João Segundo!´ ³De quem são as velas onde me roço? De quem as quilhas que vejo e ouço?´ Disse o mostrengo. ³Quem vem poder o que eu só posso. Pode considerar-se que o poeta se mantém um ingénuo. Três vezes rodou imundo e grosso. Que moro onde nunca ninguém me visse E escorro os medos do mar sem fundo?´ E o homem do leme tremeu e disse: ³El-Rei D. escorrendo medos.

Isto significa que mesmo na mais simples das acções há desígnio e destino. O pobre homem do leme ou o Mostrengo são armas sensíveis de um poder maior do que eles mesmos. Três foram os heterónimos principais (ou heterónimos únicos. quer no homem. quer na natureza. . ou até do que o destino de ambos. como que dizendo que mesmo nas puras acções de coragem há a presença do divino ou pelo menos do conhecimento oculto. pois Bernardo Soares é um pseudónimo e só Alexander Search teria eventualmente dimensão de heterónimo mas nunca foi desenvolvido enquanto tal pelo poeta). desenvolvidos. embora reduzido em simbolismo parece-me apenas uma aproximação a um tema de Camões. ainda assim. e uma aproximação lírica não-simbólica ao tema da acção dos homens tem. algo de simbólico na presença do número três. três são as estrofes de O Mostrengo e três um número que paira sobre o poema. que nunca pode ser negado.O Mostrengo. como uma sombra de misticismo.

referências herméticas à sociedade secreta dos rosa-crucianos. sobre o qual me questiona no seu pedido. para fora do plano do mito. Sendo certo que a questão Sebastianista foi longamente debatida ao longo da história nacional. onde um rei mora esperando . cala-se a esperança e resta o nada que é o sonho depois dele acordarmos. Pessoa ergue D. no milagre. encontra-se na terceira parte do livro de Fernando Pessoa. falando das Ilhas Afortunadas. e há só o mar .análise do poema "as ilhas afortunadas" Que voz vem no som das ondas Que não é a voz do mar? É a voz de alguem que nos falla. As Ilhas Afortunadas . a propósito de diversas interpretações de outras partes de A Mensagem. Mas. esta divide-se em três partes. na segunda parte. se acordarmos de as sonhar. Ele diz. que embora admita o regresso físico do rei perdido (chega a justificar tal regresso pela teoria da metempsicose. na revelação e no mito. mas o quinto mártir. Remeto a análise desta divisão para essas respostas. o Império do Espírito. D. Sebastião a mais do que um mito. se vamos dispertando. umas das vozes que profetizou o regresso do rei) e trocar também o mito judeu de Jesus pela realidade nacional de Sebastião. Galaaz. porque se espera o regresso de alguém feito mito. Onde o Rei mora esperando. Sebastião já é O Desejado. que devíamos trocar Fátima por Trancoso (onde nasceu o profeta Bandarra. António Quadros. ou transmigração das almas). pessoa enquadra-se nela enquanto um poeta-profeta. e por isso ungido de sagrado significado futuro. ou o revelador do Santo Graal escondido. sendo as referências à rosa. O quarto símbolo. remete para o inconsciente. Após desenhar na primeira parte da Mensagem a figura do rei. a Religião do Encoberto ocupa o lugar da religião cristã. a esperança nas ilhas afortunadas . Sem saber de ouvir ouvimos. Onde o Rei mora esperando. encontra evidentes similitudes com a ressurreição de Jesus Cristo. onde apenas esperanças infundadas e vagas residem: São ilhas afortunadas. cala a voz. para não me repetir. Mas que. traído pela sua ambição. Consciente da riqueza do subconsciente nacional. São terras sem ter logar. E só se. nas suas páginas mais intimas. . Que ella nos diz a esperança A que. em Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista). e ha só o mar. como uma criança Dormente. Cala a voz. Finalmente. Cala a voz. no que António Quadros denomina como sendo uma visão providencial da história . depois do seu martírio e morte. cala. se vamos despertando. se vamos despertando . príncipe mártir. Por ter havido escutar. No segundo símbolo Pessoa fala da sua visão do Quinto Império (remeto aqui para as análises feitas já no fórum sobre este assunto). meio dormindo. e há só o mar . a El-Rei D. É a terceira parte já totalmente destinada ao Encoberto. O advento do Quinto Império. Mas. faz essa justificação através da única linguagem que a pode entender a poesia. O Poema que refere. a dormir sorrimos. são terras sem ter lugar. Encontra-se porém num momento sebástico (usando as palavras do ilustre pessoano. o rei morre mas é divinizado pela sua morte heróica. fazendo da sua figura a base real e verdadeira de uma religião nacional O Sebastianismo. Sebastião feito já mito. quando ainda oculta. São ilhas afortunadas. No terceiro símbolo. Ou seja. No primeiro dos símbolos. Como já foi dito no fórum. que trará essa nova esperança a um povo perdido. se escutamos. no quinto símbolo. caminho para a nova religião. em que esta se dá a conhecer. as acções dos marinheiros aparecem como que por obra e graça da intervenção divina.

é movido como instrumento de uma vontade maior. se bem que é apenas um episódio. bem como portugueses a uniram descobrindo novos continentes. adianta a morte ao próprio Infante. mas parece-nos que a referência. Até que finalmente. antes um plano espiritual e simbólico. É o Infante . pois ele diz. tanto porque foi um Português que primeiro a navegou por inteiro Fernão de Magalhães. ou seja. une pelo mar a velha Europa à novíssima América de Colombo. na primeira parte da Mensagem. Além do mais. não o homem. Por isso este Império ficou Infante. Cumpriu-se o Mar e o Império se desfez . porque finalmente totalmente percorrida pelos olhos humanos. como dizem os brasileiros. no fim da primeira quadra: Sagrou-te e foste desvendando a espuma : Mas é certo que o princípio do poema nos diz que Portugal. e foste desvendando a espuma. eterno. cultura. desvendar o mundo. como processo alquímico. Se ele diz que falta cumprir-se Portugal. e o Império se desfez. pois a terra já lá estava e era habitada). bem como no sentido lato e ocultista. redonda. Talvez Pessoa se refira mesmo ao nascimento do Império. que ao contrário dos Judeus teve o seu mártir morto em guerra por Deus e Nação. Foi Deus também que quis que a Terra finalmente fosse uma. Mas falta ainda tudo. de um Destino feito história de Portugal. A última quadra. ao construir o Império. por se cumprir. que guia as acções dos marinheiros e dos estrategas. do azul profundo. . consagrada ao tema Possessio Maris. esta terceira parte anuncia-nos um projecto de paz universal. o Império podia crescer. Fraternidade achada na semelhança com Deus. o relato de como tudo começa. Infante . Era esta a primeira missão cometida por Deus a Portugal. Cumpriu-se o mar. De facto é só na terceira parte d'A Mensagem que esse destino maior se desenha em mais fino pormenor. que compreende diversos passos até ao seu final. Quem te sagrou criou-te português. e ela chegou ao seu termo. Encimado pela elocução latina Valete Frates. Mas não um plano filosófico ou político. já que se desfez o destino material do corpo. De facto o descobrimento do Brasil (descobrimento e não descoberta. espírito e alma. viagem cumprida a Terra fosse de repente redonda . ou talvez mesmo achamento. fale no seu final. Pessoa defende um Império Maior.análise do poema "infante" Deus quer. se quisermos. Sagrou-te. Falta cumprir-se Portugal . pelo menos para ele. pelas naus nacionais. a obra nasce Deus quis que a terra fosse toda uma. ser Rei. Se por um lado Pessoa se refere ao inicio da aventura marítima. que na história ainda curta que era do Império já Pessoa lhe desenhe a morte. para a humanidade. mais soturna. com a alma do verdadeiro povo escolhido. Surgir. do início da obra. ele não se refere apenas a isso. já não separasse. que Portugal para ele era língua. que se vai revelar lentamente dentro de cada homem. ou pelo menos ao começo de algo. poderia estar a referir-se ao Infante D. Note-se a ironia subjacente. como acção. O título do poema. de cada alma. Porque em verdade. Sagrado Infante. fraternal. É Deus que quer . até ao fim do mundo. o Império morreu mesmo antes de se cumprir. o homem sonha. É a vontade de Deus. por isso mesmo. verdadeiro Império. um Império Espiritual. morreu Infante. Do mar e nós em ti nos deu sinal. deve ser entendida no sentido estrito da palavra. E a orla branca foi de ilha em continente. é certo. ele quer dizer que falta cumprir-se o destino glorioso (e imaterial) da alma. à espera que se cumpra o Império Espiritual que será. Note-se que aqui obra . Senhor. Henrique. à juventude. pois esse mesmo inicio. Clareou. como hoje se entende. simbólico de um processo muito maior. Sabemos que Portugal era para Pessoa mais do que apenas a terra que se define dentro dos limites da fronteira. é. E viu-se a terra inteira. é ao nascimento. a posse do mar. falta cumprir-se Portugal! O poema Infante enquadra-se na segunda parte de A Mensagem. A orla branca da espuma é revolta de ilha em continente . porque nunca se poderia cumprir como coisa material. diz Pessoa. mas também com a alma portuguesa. puramente simbólica. ou se quisermos o Destino. de repente. De facto na quadra seguinte se observa a descrição do crescimento do Império. correndo. Que o mar unisse. esse sim. Pessoa já se referia ao outro infante .

é o símbolo da perfeição cósmica. a obra nasce . Este último verso associado a todos os outros elementos simbólicos dá ao poema características simbolistas. Note-se o uso do presente perfeitamente em consonância com o discurso axiomático. Esta interpelação confere ao poema um pendor dramático. Portugal. O último verso sugere mais do que aquilo que afirma. a sua divinização. convém a um discurso carregado de simbolismo. Deus quer a terra unida pelo mar. Nesta estrofe temos um novo esquema hegeliano: o sonho cumpriu-se (tese). Após a primeira aventura gloriosa. A afirmação deu sinal é a chave para o decifrar do mistério que já se vinha revelando desde há algum tempo. não separasse. Este esquema dialéctico cíclico impõe o nascimento de um novo sonho. associando a cada agente a sua acção. estando também assim dentro da técnica simbolista. iniciático. Teríamos assim uma nova vontade divina. Na primeira está contido uma afirmação tripartida de tipo axiomático ou aforístico Deus quer.colectânea de poemas de Fernando Pessoa. Os versos são decassilábicos heróicos. o homem sonha. Se Deus não quisesse. Os três termos seguem-se segundo a ordem lógica causa-efeito. no fim dos versos. miraculosa. Note-se o valor simbólico do verbo sagrou-te . Note-se o projecto divino concretizado na rede semântica que aponta para essa união: uma. que tem a visão e finalmente foi desvendando a espuma . permitindo que certas palavras chave do poema fiquem em posição de destaque. aparecendo também o binário. A primeira subunidade diz respeito à apresentação da vontade de Deus e vai até sagrou-te . a esfera. data da sua publicação. surgir . desfez-se (antítese) e deu lugar a um novo sonho (síntese). Este ritmo largamente repousado. Por outro lado é também o herói em busca de um caminho de universalidade. português. A terceira vai até ao final desta segunda parte e refere-se à obra e corresponde à revelação. uma. Nesta parte aparece ainda a passagem do mistério para a luz em palavras e expressões como orla branca clareou (sair das sombras. No poema esse homem identifica-se com o Infante. O poema poderá dividir-se em três partes. Assim se justifica o uso do artigo definido em O Infante e o homem. redonda. revelar-se) e pelo azul profundo (do mar imenso. Predomina o ritmo ternário. Ao longo desta segunda parte o tempo verbal predominante é o pretérito perfeito que permite narrar os acontecimentos passados. um novo sonho e uma nova acção. Mas sem a vontade do primeiro nenhum dos outros se concretizaria. . tendo em conta o desenvolvimento do assunto: a primeira correspondendo apenas ao primeiro verso. mas tal só se pode verificar se o Senhor corresponder ao apelo que lhe é dirigido na frase exclamativa e em forma de vocativo Senhor. da unidade. atendendo também em parte à tensão emocional da segunda estrofe com o surgimento mágico quase da terra redonda. a sua sagração é também a de todos os portugueses. de quatro versos (quadras). com valor universalizante. O sentido aforístico da afirmação tem valor universal. espectacular. Além disso os versos são curtos. sugerindo o Infante de Sagres e a escolha do Infante para uma missão divina. cumprindo um dever individual e pátrio: a realização terrestre de uma missão transcendente. O segundo momento referir-se-á ao homem e vai até ao fim da primeira quadra. a sua escolha para desempenhar uma missão transcendente. segundo o esquema rimático abab. Isto confere-lhe um carácter divino. O redondo. A rima é sempre cruzada. Além disso advém-lhe ainda grande força pelas suas conotações religiosas. do azul profundo . unisse.: o substantivo homem refere-se ao ser humano em geral e obra designa qualquer acção humana. cdcd. do fundo do mistério). revelar-se) já adivinhada na espuma (branca) da segunda parte e que se prolongará pelo surgir (sair das sombras. Por isso. Ele é o herói navegante em busca do caminho da imortalidade. como nasce. o azul profundo e na terceira estrofe sinal . Há aqui portanto um diálogo implícito entre o sujeito poético e Deus. sobreveio o desânimo. Ele é aquele que sonha. daí o uso de expressões como desvendando a espuma (desfazendo o mistério). Quanto ao metro e ao ritmo os versos são regulares. Nesta segunda parte da obra que nos propomos analisar abordam-se o esforço heróico na luta contra o Mar e a ânsia do Desconhecido. Esta visão da terra sugere a ideia de que a obra dos portugueses é o realizar de um plano divino. mundo. Aqui se desenvolve a ideia de que o homem sonha e põe em prática a vontade de Deus. efef. o que acentua o carácter messiânico e misterioso do poema. A revelação é repentina. A segunda parte poderá por sua vez subdividir-se em três momentos. constatamos que o poema é constituído por três estrofes. da obra completa e perfeita que Deus quis. redonda. Pelo facto de ser português. O mar por sua vez é também simbólico do mistério e do desconhecido. sinal. Aqui merecem especial atenção os navegadores que percorreram o mar em busca da imortalidade. Tal é sugerido pela expressão E viu-se a terra inteira. A conclusão é nítida o povo português foi o eleito por Deus para esta façanha./ surgir . O Infante é o escolhido por Deus para concretizar o seu projecto. a segunda parte desde ali até ao final da segunda estrofe e a terceira constituída pela última estrofe. Há no poema vários indícios de revelação de repente . escrita entre 1913 e 1934. Regressa-se nesta estrofe novamente ao presente o que se adequa à sucessão presente-passado-presente da dinâmica hegeliana. inteira. falta cumprir-se Portugal! . é necessário o apelo em que o verbo falta acentua a urgência. de repente. cumprindo um dever individual e pátrio (realização terrestre de uma missão transcendente) Em termos formais. Na terceira parte transpõe-se para o povo a glória do Infante.Trata-se de um poema da segunda parte Mar Português da Mensagem. o homem e não sonharia e a obra não nasceria. ou seja realizou a obra.

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