Análise do Poema "Mar Português

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Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.

Escrito a 9 de Junho de 1935, seis meses antes da morte de Fernando Pessoa, este poema tem uma importância eminentemente esotérica. Foi neste âmbito que a análise será feita, recorrendo a um texto de Dalila Pereira da Costa, publicado em 1978. Como bem indica esta pessoana de renome, o poema «Mar Português» surge na continuação do que é a Mensagem. No entanto, e se tal for possível, é ainda mais hermético do que aquela, porque se na Mensagem se invoca o Mar Português ainda físico da conquista e depois lentamente transcendental do espírito, no poema «Mar Português» a invocação é já plenamente transcendental, focada na importância da obra do próprio Fernando Pessoa num futuro renascer da alma nacional. Identificam-se temas comuns entre este poema e a Mensagem. Nomeadamente a referência ao mar simultaneamente espelho e abismo, onde a alma se perde no sonho e depois do sonho se reflecte num projecto de futuro esplendoroso porque plenamente espiritual e desligado da terra. Há o reconhecimento que nada mais há a buscar no mar físico, mas que resta a exploração do mar espiritual, onde Pessoa quer ser empossado argonauta, porque é através da poesia, da linguagem do inefável, que se podem descobrir os mistério da alma e da vida, escondidos à visão normal dos homens. Um primeiro ciclo exauriu-se: o da descoberta do mar. Um novo ciclo se anuncia: a segunda vinda, a descoberta da alma, do mar espiritual. É a água, o elemento água, a paz, a solidão, a reflexão, o contínuo movimento de renovação e desafio que permite a revelação da profecia. É a água que simboliza a latência do sonho, a água nua, despida e apenas espelho ou abismo, que mostra e que esconde. Combinação proibida de opostos, como a própria poesia, que se por um lado comunica, nada diz de imediato, mas antes quer provocar em quem a lê a reflexão mais profunda ou a reflexão mais imediata, o abismo e o espelho. O mar, o sonho e a poesia são os três elementos que Dalila Pereira da Costa indica como sendo os vectores essenciais da alma portuguesa. Não interessa a ambição, mas o sonho, não interessa o destino, mas a viagem, não importa nada que se acabe na sua própria realização, porque nada que se consuma inteiramente pode ser eterna. Portugal, pátria à beira água é também pátria à «beira-mágua». O sofrimento e a dor marcam a viagem ás ilhas afortunadas da alma, porque nenhuma grande descoberta se faz sem sacrifício de monta e relevo. Esta alquimia, processo de integração dos desejos mais profundos e íntimos do ser, liga o desejo à metafísica de o realizar na carne. Dalila relembra, e bem, Jung, na sua análise do subsconsciente como meio de alcançar a ligação entre os dois mundos, porque ténue terreno de fracas consistências e certezas palpáveis, senão pela intuição. Pessoa foi mais longe, ao desdobrar-se em quatro (Caeiro, Campos, Reis e Soares) fez a chamada quadratura do circulo, antigo esquema alquímico em que o Eu permanece no centro, permeado pelo mediador, pelo Logos. O apocalipse do fim aparece em Pessoa como revelação de uma verdade interior, reservada a quem empreenda a viagem sem destino que é perder-se de si mesmo. O começar na nova aurora neste Império Espiritual é algo mais do que a presença diáfana de um vasto território dominado por uma só língua e um só povo, antes um horizonte sem fim em que se atinge a irmandade dos homens, a paz in excelsis intemporal e imperfeita apenas por não ser ainda de Deus, mas encimada por um desejo incompleto de se realizar sempre no futuro.

Mar Português . Embora grande importância tenha tido essa mão que luziu.onde Pessoa justifica de certo modo a proposta feita na primeira parte . "com duas mãos . O poema "Ocidente" inclui-se na segunda parte . dividido em 3 partes. Não é a importância de possuir o mar (possessio maris quer dizer posse e não propriedade do mar. prostrada na glória de mostrar que o mar é sempre o mesmo e toda a descoberta é imperial se feita passando além da dor. "apoiada pela ciência e pela ousadia". mas imbuído de uma interpretação mística e paraclética. dividido nas duas mãos. A Mensagem foi um meio também de Pessoa expressar a sua mágoa em palavras. onde o Encoberto recebe a unção do Espírito Santo apenas para se revelar como o eterno Logos. No mesmo gesto. foi a face do Ocidente perante o abismo. mas o seu interrompido prólogo (nas palavras de Agostinho da Silva em "Um Fernando Pessoa"). muito menos em letras no papel. uma versão moderna e espiritualista dos Lusíadas. "Determinação" e grau "Intemporal". poema "Ocidente"). A proposta era a de uma nação que iria trazer novos mundos ao mundo.Brasão. Foi alma a Sciencia e corpo a Ousadia Da mão que desvendou. O facho que uma mão ergue.o Destino .afasta o véu. . à maneira cristã. era já uma mão de "Certeza". Fosse a hora que haver ou a que havia A mão que ao Occidente o véu rasgou. uma mágoa de quem abandonou o país na sua juventude para. sendo o "corpo" Portugal. perseguindo uma síntese Hegeliana na sua leitura final. E foi por providência divina (v. Pessoa vê Portugal como o rosto com que o Ocidente fita o futuro e o passado.o Acto e o Destino" (v. o Acto foi a coragem de descobrir e o Destino a força que o permitiu. a mão do facho que iluminou. nenhuma importância teria sem a vontade de Deus em a dirigir como "alma". Completo em corpo e alma. baseado na unidade de todos os homens em Cristo simbólico. A Mensagem é um poema trinitário. Foram estas mãos portuguesas que "rasgaram o véu" à Europa. Portugal foi a cara com que a Europa enfrentou esse destino. foi também instrumento. nas palavras do eminente estudioso de Pessoa. em que cada parte contribui para a seguinte. mas a preciosidade de ter encetado a busca.enquanto outra .o Acto e o DestinoDesvendámos. como uma cobra que morde a própria cauda e na força centrífuga potencia o futuro. António Quadros. Antes de analisar o poema em questão. Foi Deus a alma de Portugal na sua missão. A coragem e a força são interdependentes. Mas sendo o agente. encontrar dentro de si um patriotismo de tais dimensões que quase parecia impossível de traduzir em sentimento. ao céu Uma ergue o facho trémulo e divino E a outra afasta o véu. sobretudo o nascer de um Império Espiritual. A mão predestinada. porque instrumento de uma vontade superior. feito civilização. sem ligar ao medo. regressando. ou Temporal A mão que ergueu o facho que luziu.Análise do poema "ocidente" Com duas mãos. o poema "O Infante") que Portugal desvendou. Fosse Acaso ou Vontade.o Acto . que separou desde sempre o querer de Deus e a ignorância do Homem. mas dividido em Homem e em Deus. com a luz que alumiava e o destino que rasgava o véu. a Mensagem é também um poema dialéctico. O que é um corpo sem alma. o Intermediário secreto para entender o significado de Deus para o Homem. sem destino? Foi Deus que esculpiu no corpo o seu destino e o guiou sem que este tomasse noção do perigo. ou apenas "Temporal". "Vontade". Foi Deus a alma e o corpo Portugal Da mão que o conduziu. senão uma massa informe. há que recordar que a Mensagem é um poema nacional. Só para mostrar o significado vão de possuir e o significado altíssimo de buscar. humana e por isso "Acaso". A mão que rasgou o véu. e por isso é efémera e passageira). é a luz que de Portugal emana e que pretende iluminar o que antes era trevas . construído sabedoria e intelecto. Este destino não é no entanto história de Portugal. Buscar que também é esperar em símbolo e superar o vazio da aparente ausência de Destino". Sendo um poema trinitário.

embrenhada num messianismo que ele vê difícil de se cumprir senão pelos mistérios de uma fé no regresso de uma nobreza já estranha aos seus contemporâneos. tratando-se do episódio do Mostrengo. revelada na primeira parte. Isto deve-se a uma desilusão crescente em Pessoa. nem a Ditadura Militar que se lhe segue surgem como soluções para tal. empunha a «tuba canora e belicosa» ( ) Assim. uma obra simbólica e obscura. Três vezes rodou imundo e grosso. Na segunda parte de Mensagem. . a decisão do marinheiro português. À roda da nau voou três vezes. alvo de comentários menos elogiosos por parte de Pessoa em alguns momentos da sua vida. Meus tectos negros do fim do mundo?´ E o homem do leme disse. João Segundo!´ Três vezes do leme as mãos ergueu. Voou três vezes a chiar. excepcionalmente. quando pretende enunciar os princípios em que basearia uma nova civilização e esperasse essa realidade. instrumento inflexível da vontade do rei. E disse: ³Quem é que ousou entrar Nas minhas cavernas que não desvendo. mais profundamente até porque esteve longe de Portugal e sentiu longe o que era realmente a saudade de um passado mais tranquilo do que aquele que vivia. à indignação do ser «imundo e grosso» que sai. Torna-se progressivamente mais escura e hermética a linguagem de Pessoa. Considerando-se um «nacionalista místico». A segunda parte. foi também o intérprete comovido da História nacional . Três vezes ao leme as reprendeu. ele é inocente quando pretende uma revolução pelo espírito. um poema originalmente escrito em 1918 (Pessoa tem então 30 anos) é menos sombrio e hermético que outros que viriam a constituir a Mensagem. essa revolução teria de ser sempre em bases espirituais e é assim que ele as invoca. ³Quem vem poder o que eu só posso. De El-Rei D. E mais que o mostrengo. mais tarde vês que nem Sidónio Pais. e comparativamente elaborar um momento de grande força dramática e menor força simbólica. a análise é diferenciada. Que moro onde nunca ninguém me visse E escorro os medos do mar sem fundo?´ E o homem do leme tremeu e disse: ³El-Rei D. comunicando-se. No seu todo é. a Mensagem encontra na sua segunda parte alguns dos episódios mais descritivos e emocionais. atravessada por um sentimento negro de exaustiva análise e frustração por um futuro ainda por acontecer. Manda a vontade. em decassílabos sonoros com um refrão cuja força épica aumenta de estrofe para estrofe («El-Rei D. sob a sugestão do Adamastor. Que embora sinta profundamente o seu nacionalismo. No entanto. João Segundo!»). Pode considerar-se que o poeta se mantém um ingénuo. Assim analisa Jacinto do Prado Coelho o Mostrengo: «O Mostrengo» opõe dramaticamente . está encimada pela elocução latina possessio maris (posse do mar). das profundezas do mar: «Aqui ao leme sou mais do que eu: / sou um povo que quer um mar que é teu!»). João Segundo!´ ³De quem são as velas onde me roço? De quem as quilhas que vejo e ouço?´ Disse o mostrengo. que me ata ao leme. O Mostrengo. Fernando Pessoa. que também originalmente se deveria chamar Portugal. E disse no fim de tremer três vezes: ³Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um povo que quer o mar que é teu. Fernando Pessoa expressa a nobreza dos actos. sem dúvida. Pessoa parece querer por momentos desafiar Camões. que se em 1912 na sua primeira experiência como escritor/crítico clama por um Super-Camões e por um renascimento da psique nacional. o poeta.análise do poema "o mostrengo" O mostrengo que está no fim do mar Na noite de breu ergueu-se a voar. Sempre considerada como impregnada de um sentido de épico eminentemente racionalista e intelectual. por sua vez. que acompanhou a nobreza da intenção. e rodou três vezes. em versos de densidade poética e sugestão rítmica insuperáveis. João Segundo!´ O poema "O Mostrengo" enquadra-se na segunda parte de Mensagem: O Mar Português. escorrendo medos. que me a alma teme E roda nas trevas do fim do mundo. tremendo: ³El-Rei D.

Três foram os heterónimos principais (ou heterónimos únicos. quer na natureza. O pobre homem do leme ou o Mostrengo são armas sensíveis de um poder maior do que eles mesmos. algo de simbólico na presença do número três. três são as estrofes de O Mostrengo e três um número que paira sobre o poema. que nunca pode ser negado. desenvolvidos. como que dizendo que mesmo nas puras acções de coragem há a presença do divino ou pelo menos do conhecimento oculto. Isto significa que mesmo na mais simples das acções há desígnio e destino.O Mostrengo. quer no homem. e uma aproximação lírica não-simbólica ao tema da acção dos homens tem. pois Bernardo Soares é um pseudónimo e só Alexander Search teria eventualmente dimensão de heterónimo mas nunca foi desenvolvido enquanto tal pelo poeta). como uma sombra de misticismo. ou até do que o destino de ambos. . embora reduzido em simbolismo parece-me apenas uma aproximação a um tema de Camões. ainda assim.

No terceiro símbolo. que trará essa nova esperança a um povo perdido. se vamos despertando . para não me repetir. O Poema que refere. para fora do plano do mito. Sendo certo que a questão Sebastianista foi longamente debatida ao longo da história nacional. cala a voz. referências herméticas à sociedade secreta dos rosa-crucianos. Sebastião feito já mito. em que esta se dá a conhecer. Sebastião a mais do que um mito. Mas. Sem saber de ouvir ouvimos. e por isso ungido de sagrado significado futuro. No primeiro dos símbolos. faz essa justificação através da única linguagem que a pode entender a poesia. Cala a voz. encontra evidentes similitudes com a ressurreição de Jesus Cristo. António Quadros. Ou seja. umas das vozes que profetizou o regresso do rei) e trocar também o mito judeu de Jesus pela realidade nacional de Sebastião. Galaaz. Cala a voz. na revelação e no mito. no que António Quadros denomina como sendo uma visão providencial da história . em Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista). . a El-Rei D. ou transmigração das almas). no quinto símbolo. quando ainda oculta. Encontra-se porém num momento sebástico (usando as palavras do ilustre pessoano. e há só o mar . O advento do Quinto Império. o rei morre mas é divinizado pela sua morte heróica. Onde o Rei mora esperando. cala-se a esperança e resta o nada que é o sonho depois dele acordarmos. onde um rei mora esperando . e há só o mar . Finalmente. príncipe mártir. Sebastião já é O Desejado. a esperança nas ilhas afortunadas . Mas que. Consciente da riqueza do subconsciente nacional. na segunda parte. D. São terras sem ter logar.análise do poema "as ilhas afortunadas" Que voz vem no som das ondas Que não é a voz do mar? É a voz de alguem que nos falla. se vamos despertando. a Religião do Encoberto ocupa o lugar da religião cristã. Por ter havido escutar. cala. meio dormindo. a dormir sorrimos. nas suas páginas mais intimas. Pessoa ergue D. falando das Ilhas Afortunadas. se acordarmos de as sonhar. As Ilhas Afortunadas . onde apenas esperanças infundadas e vagas residem: São ilhas afortunadas. se escutamos. É a terceira parte já totalmente destinada ao Encoberto. O quarto símbolo. pessoa enquadra-se nela enquanto um poeta-profeta. e ha só o mar. ou o revelador do Santo Graal escondido. Mas. no milagre. remete para o inconsciente. Onde o Rei mora esperando. Ele diz. a propósito de diversas interpretações de outras partes de A Mensagem. o Império do Espírito. traído pela sua ambição. são terras sem ter lugar. E só se. porque se espera o regresso de alguém feito mito. Remeto a análise desta divisão para essas respostas. mas o quinto mártir. São ilhas afortunadas. sobre o qual me questiona no seu pedido. Como já foi dito no fórum. fazendo da sua figura a base real e verdadeira de uma religião nacional O Sebastianismo. depois do seu martírio e morte. que embora admita o regresso físico do rei perdido (chega a justificar tal regresso pela teoria da metempsicose. Após desenhar na primeira parte da Mensagem a figura do rei. as acções dos marinheiros aparecem como que por obra e graça da intervenção divina. No segundo símbolo Pessoa fala da sua visão do Quinto Império (remeto aqui para as análises feitas já no fórum sobre este assunto). Que ella nos diz a esperança A que. se vamos dispertando. caminho para a nova religião. como uma criança Dormente. sendo as referências à rosa. esta divide-se em três partes. que devíamos trocar Fátima por Trancoso (onde nasceu o profeta Bandarra. encontra-se na terceira parte do livro de Fernando Pessoa.

Fraternidade achada na semelhança com Deus. O título do poema. é movido como instrumento de uma vontade maior. bem como portugueses a uniram descobrindo novos continentes. falta cumprir-se Portugal! O poema Infante enquadra-se na segunda parte de A Mensagem. que na história ainda curta que era do Império já Pessoa lhe desenhe a morte. mas também com a alma portuguesa. que guia as acções dos marinheiros e dos estrategas. até ao fim do mundo. puramente simbólica. espírito e alma. pelas naus nacionais. Clareou. na primeira parte da Mensagem. fraternal. com a alma do verdadeiro povo escolhido. ou seja. deve ser entendida no sentido estrito da palavra. Sabemos que Portugal era para Pessoa mais do que apenas a terra que se define dentro dos limites da fronteira. por isso mesmo. que compreende diversos passos até ao seu final. porque finalmente totalmente percorrida pelos olhos humanos. mais soturna. se quisermos. se bem que é apenas um episódio. pois a terra já lá estava e era habitada). por se cumprir. De facto é só na terceira parte d'A Mensagem que esse destino maior se desenha em mais fino pormenor. já que se desfez o destino material do corpo. pois esse mesmo inicio. é ao nascimento. ou talvez mesmo achamento. Até que finalmente. consagrada ao tema Possessio Maris. que Portugal para ele era língua. Note-se a ironia subjacente. Que o mar unisse. porque nunca se poderia cumprir como coisa material. bem como no sentido lato e ocultista. de um Destino feito história de Portugal. esse sim. tanto porque foi um Português que primeiro a navegou por inteiro Fernão de Magalhães. ao construir o Império. Note-se que aqui obra . Se por um lado Pessoa se refere ao inicio da aventura marítima. Porque em verdade. ser Rei. Quem te sagrou criou-te português. ele não se refere apenas a isso. é. verdadeiro Império. diz Pessoa. De facto o descobrimento do Brasil (descobrimento e não descoberta. eterno. simbólico de um processo muito maior. como hoje se entende. Falta cumprir-se Portugal . Pessoa defende um Império Maior. cultura. que se vai revelar lentamente dentro de cada homem. à juventude. Além do mais. o relato de como tudo começa. do azul profundo. e foste desvendando a espuma. já não separasse. o homem sonha. de repente. Cumpriu-se o Mar e o Império se desfez . A última quadra. A orla branca da espuma é revolta de ilha em continente . e o Império se desfez. ou se quisermos o Destino. Talvez Pessoa se refira mesmo ao nascimento do Império. É Deus que quer .análise do poema "infante" Deus quer. une pelo mar a velha Europa à novíssima América de Colombo. Pessoa já se referia ao outro infante . correndo. Sagrado Infante. Se ele diz que falta cumprir-se Portugal. adianta a morte ao próprio Infante. a obra nasce Deus quis que a terra fosse toda uma. Por isso este Império ficou Infante. ele quer dizer que falta cumprir-se o destino glorioso (e imaterial) da alma. De facto na quadra seguinte se observa a descrição do crescimento do Império. Mas falta ainda tudo. um Império Espiritual. . E viu-se a terra inteira. fale no seu final. Senhor. É o Infante . Foi Deus também que quis que a Terra finalmente fosse uma. do início da obra. redonda. mas parece-nos que a referência. Era esta a primeira missão cometida por Deus a Portugal. no fim da primeira quadra: Sagrou-te e foste desvendando a espuma : Mas é certo que o princípio do poema nos diz que Portugal. pois ele diz. de cada alma. morreu Infante. Encimado pela elocução latina Valete Frates. para a humanidade. Henrique. o Império podia crescer. é certo. Sagrou-te. poderia estar a referir-se ao Infante D. que ao contrário dos Judeus teve o seu mártir morto em guerra por Deus e Nação. à espera que se cumpra o Império Espiritual que será. viagem cumprida a Terra fosse de repente redonda . como dizem os brasileiros. E a orla branca foi de ilha em continente. Mas não um plano filosófico ou político. como processo alquímico. Cumpriu-se o mar. É a vontade de Deus. a posse do mar. ou pelo menos ao começo de algo. como acção. Surgir. e ela chegou ao seu termo. antes um plano espiritual e simbólico. não o homem. esta terceira parte anuncia-nos um projecto de paz universal. Do mar e nós em ti nos deu sinal. Infante . desvendar o mundo. o Império morreu mesmo antes de se cumprir. pelo menos para ele.

Aqui se desenvolve a ideia de que o homem sonha e põe em prática a vontade de Deus. a esfera. A terceira vai até ao final desta segunda parte e refere-se à obra e corresponde à revelação. ou seja realizou a obra. Nesta estrofe temos um novo esquema hegeliano: o sonho cumpriu-se (tese). falta cumprir-se Portugal! . efef. cumprindo um dever individual e pátrio: a realização terrestre de uma missão transcendente. Este ritmo largamente repousado./ surgir . associando a cada agente a sua acção. um novo sonho e uma nova acção. tendo em conta o desenvolvimento do assunto: a primeira correspondendo apenas ao primeiro verso. No poema esse homem identifica-se com o Infante. permitindo que certas palavras chave do poema fiquem em posição de destaque. Há no poema vários indícios de revelação de repente . A primeira subunidade diz respeito à apresentação da vontade de Deus e vai até sagrou-te . Esta visão da terra sugere a ideia de que a obra dos portugueses é o realizar de um plano divino. a sua divinização. . Pelo facto de ser português. é o símbolo da perfeição cósmica. Teríamos assim uma nova vontade divina. Nesta parte aparece ainda a passagem do mistério para a luz em palavras e expressões como orla branca clareou (sair das sombras. Este último verso associado a todos os outros elementos simbólicos dá ao poema características simbolistas. revelar-se) já adivinhada na espuma (branca) da segunda parte e que se prolongará pelo surgir (sair das sombras. atendendo também em parte à tensão emocional da segunda estrofe com o surgimento mágico quase da terra redonda. o homem sonha. a sua sagração é também a de todos os portugueses. A segunda parte poderá por sua vez subdividir-se em três momentos. de repente. a segunda parte desde ali até ao final da segunda estrofe e a terceira constituída pela última estrofe. Note-se o valor simbólico do verbo sagrou-te . como nasce. de quatro versos (quadras). da unidade. cdcd.Trata-se de um poema da segunda parte Mar Português da Mensagem. O último verso sugere mais do que aquilo que afirma. Além disso os versos são curtos. convém a um discurso carregado de simbolismo. A conclusão é nítida o povo português foi o eleito por Deus para esta façanha. mundo. Por isso. Quanto ao metro e ao ritmo os versos são regulares. Ele é o herói navegante em busca do caminho da imortalidade. escrita entre 1913 e 1934. miraculosa.colectânea de poemas de Fernando Pessoa. mas tal só se pode verificar se o Senhor corresponder ao apelo que lhe é dirigido na frase exclamativa e em forma de vocativo Senhor. Ele é aquele que sonha. Aqui merecem especial atenção os navegadores que percorreram o mar em busca da imortalidade. da obra completa e perfeita que Deus quis. O Infante é o escolhido por Deus para concretizar o seu projecto. sinal. Isto confere-lhe um carácter divino. A afirmação deu sinal é a chave para o decifrar do mistério que já se vinha revelando desde há algum tempo. Os versos são decassilábicos heróicos. não separasse. do azul profundo . O sentido aforístico da afirmação tem valor universal. o homem e não sonharia e a obra não nasceria. iniciático. o que acentua o carácter messiânico e misterioso do poema. O mar por sua vez é também simbólico do mistério e do desconhecido. do fundo do mistério). A rima é sempre cruzada. Note-se o uso do presente perfeitamente em consonância com o discurso axiomático. Por outro lado é também o herói em busca de um caminho de universalidade. Deus quer a terra unida pelo mar. é necessário o apelo em que o verbo falta acentua a urgência. Ao longo desta segunda parte o tempo verbal predominante é o pretérito perfeito que permite narrar os acontecimentos passados. desfez-se (antítese) e deu lugar a um novo sonho (síntese). que tem a visão e finalmente foi desvendando a espuma . inteira. o azul profundo e na terceira estrofe sinal . unisse. Além disso advém-lhe ainda grande força pelas suas conotações religiosas. no fim dos versos. constatamos que o poema é constituído por três estrofes. Predomina o ritmo ternário. revelar-se) e pelo azul profundo (do mar imenso. com valor universalizante. Mas sem a vontade do primeiro nenhum dos outros se concretizaria. Na primeira está contido uma afirmação tripartida de tipo axiomático ou aforístico Deus quer. Regressa-se nesta estrofe novamente ao presente o que se adequa à sucessão presente-passado-presente da dinâmica hegeliana. uma. cumprindo um dever individual e pátrio (realização terrestre de uma missão transcendente) Em termos formais. Este esquema dialéctico cíclico impõe o nascimento de um novo sonho. a obra nasce . data da sua publicação.: o substantivo homem refere-se ao ser humano em geral e obra designa qualquer acção humana. Na terceira parte transpõe-se para o povo a glória do Infante. O poema poderá dividir-se em três partes. O redondo. sobreveio o desânimo. Nesta segunda parte da obra que nos propomos analisar abordam-se o esforço heróico na luta contra o Mar e a ânsia do Desconhecido. Tal é sugerido pela expressão E viu-se a terra inteira. O segundo momento referir-se-á ao homem e vai até ao fim da primeira quadra. Os três termos seguem-se segundo a ordem lógica causa-efeito. Note-se o projecto divino concretizado na rede semântica que aponta para essa união: uma. Assim se justifica o uso do artigo definido em O Infante e o homem. Após a primeira aventura gloriosa. A revelação é repentina. sugerindo o Infante de Sagres e a escolha do Infante para uma missão divina. Portugal. redonda. surgir . Se Deus não quisesse. português. segundo o esquema rimático abab. a sua escolha para desempenhar uma missão transcendente. Esta interpelação confere ao poema um pendor dramático. espectacular. aparecendo também o binário. daí o uso de expressões como desvendando a espuma (desfazendo o mistério). Há aqui portanto um diálogo implícito entre o sujeito poético e Deus. estando também assim dentro da técnica simbolista. redonda.