P. 1
aula terceira (1ª part.)

aula terceira (1ª part.)

|Views: 244|Likes:

More info:

Published by: Magda Matthes Kappes on Feb 18, 2012
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

04/08/2013

pdf

text

original

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE

Amigos, Chegamos à terceira aula do nosso curso. Sei que uma característica comum entre meus alunos é a heterogeneidade. Claro que posso tornar a aula a mais palatável o possível, mas não posso deixar de utilizar determinados termos técnico-jurídicos que são inerentes ao tema. Entendo as dificuldades dos odontólogos, químicos, farmacêuticos, médicos etc, os quais levam mais tempo para “digerir” a aula. Devagar e sempre! Lembre-se: entenda os exemplos. Eles são a alma da nossa aula. Nesta aula trataremos do erro de tipo e das excludentes de ilicitude. Como você já deve ter percebido, os institutos tratados em aula são agrupados em sequência didática. Tento fugir dos esquemas dos manuais tradicionais e busco o fluxo natural da matéria. É por esse motivo que trato do erro de tipo neste momento, logo após falar do “tipo penal”. Geralmente, os manuais, em geral, apresentam o “erro de tipo” e o “erro de proibição” em um mesmo capítulo. Não quero dizer que é errado, mas não penso ser didaticamente o mais apropriado. Portanto, tratarei do “erro de proibição” na culpabilidade, em aula futura. Não deixem de participar do nosso curso do FACEBOOK (LÚCIO VALENTE - DIREITO PENAL)

Vamos à aula!

1

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
ERRO DE TIPO (CPB, art. 20)

Um tema assaz importante nas provas de Direito Penal e que causa certa confusão aos candidatos (sem motivo, diga-se) trata-se da TEORIA DO ERRO. Isso ocorre, mormente pelo fato de os Manuais de Direito Penal tratarem da matéria na sequencia em que o Código Penal a elenca. Como sempre digo, códigos de leis são para organizar normas jurídicas e não para ensiná-las.

Legal, vamos ao ERRO DE TIPO.

1. Agora que já aprendemos o significado do termo TIPO PENAL (modelo de conduta proibida), podemos compreender que durante o encaixe de uma conduta real ao modelo (tipo) pode ocorrer um erro, um tilt. Ou seja, no processo de adequação típica pode ocorrer um defeito na formação mental do dolo na cabeça do agente. Preste atenção nesta estória! Jorge Rogério foi com amigos para uma festa rave. Ao som de muita música eletrônica e regado a doses de álcool, ficou no local até a manhã seguinte. Ao retornar, não mais encontrou seus amigos, motivo pelo qual resolveu tomar um táxi. Perto de sua residência há um supermercado com horário de funcionamento de 24 horas. Aproveitou para passar neste local e comprar alguns utensílios para sua casa, além de pão e leite. Jorge, um pouco atordoado por ter ficado por várias horas em frente a uma caixa de som de 15.000 W de potência, saiu do mercado caminhando em direção ao estacionamento. Neste momento, avistou um veículo Lada de cor vermelha. Como possui um carro com exatamente as mesas característica, Jorge teve uma confusão mental e imaginou ser seu aquele carro estacionado. Ao entrar no veículo, foi surpreendido pelo dono deste, o qual estava acompanhado de policiais militares. Jorge foi detido e levado à delegacia.

2

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
Amigos, acreditem ou não! Tal fato ocorreu em um plantão em que trabalhei como delegado de polícia. Quando eu ouvi a estória, inicialmente não acreditei. Poxa, mas depois que o sujeito me apresentou os documentos de seu carro, vi que, de fato, ele tinha um Lada vermelho idêntico àquele que estava estacionado. Caramba, não seria possível que um indivíduo desejasse possuir DOIS LADAS VERMELHOS! Um só já é castigo o suficiente! (hehe) Caso você não seja do tempo do veículo LADA, dê uma olhada no Google imagens. O carro era um FIAT 147 piorado. Segundo ficou demonstrado, Jorge acreditou sinceramente que o carro que ele tentou retirar do local era de sua propriedade. Se analisarmos o tipo (modelo) do furto (art. 155 do CPB) “subtrair coisa alheia”, podemos fazer a seguinte indagação: Jorge tinha o dolo de subtrair coisa alheia? Entendemos que não. Isso porque ele se equivocou sobre um elemento do tipo de furto, qual seja, coisa alheia. Acreditou ele que o alheio fosse próprio.

Neste exemplo está estampado o erro sobre o elemento do tipo, uma vez que o houve UM ERRO NO PREENCHIMENTO DO TIPO. (FCC - 2010 - TRE-AL ANALISTA JUDICIÁRIO) A dispara seu revólver e mata B, acreditando tratar-se de um animal. A respeito dessa hipótese é correto afirmar que se trata de fato típico, pois o dolo abrangeu todos os elementos objetivos do tipo.

Resposta: Errado.

Pergunto: Jorge Rogério tinha dolo de subtrair coisa alheia?

3

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
Penso que não. Na verdade, na cabeça dele o carro não era alheio, o que torna a adequação ao tipo de furto equivocada.

Observe:

MODELO: SUBTRAIR COISA ALHEIA MÓVEL (furto, art. 155).

ERRO: O AUTOR PENSA QUE O “ALHEIO” É DELE.

Meu carro!

(CARRO ALHEIO)

2. Bom, se não há DOLO de subtrair o “alheio”, qual a consequência do erro de tipo?

O ERRO DE TIPO SEMPRE AFASTA O DOLO. O ERRO DE TIPO SEMPRE AFASTA O DOLO. O ERRO DE TIPO SEMPRE AFASTA O DOLO.

4

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE

(POLICIA CIVIL_MG_2007) A finalidade precípua do erro de tipo essencial é a de afastar o dolo da conduta do agente. Resposta: Certo. (CESPE - 2010 - TRE-MT - Analista Judiciário – Adaptada) O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo e a culpa, podendo o agente, no entanto, responder civilmente pelos danos eventualmente ocasionados. Resposta: errado.

O erro de tipo afasta o dolo do autor. Lembre-se, o erro de tipo essencial sempre afasta o dolo, seja o erro evitável ou inevitável. No erro de tipo, o autor conhece e quer as circunstâncias de ato do tipo legal. Portanto, se o erro incide sobre tais circunstâncias haverá a exclusão do dolo. O erro de tipo sempre traduz um defeito de conhecimento e se constitui em uma representação ausente e incompleta por parte do sujeito ativo. Em síntese, o erro de tipo representa um DEFEITO na formação intelectual do dolo, o que exclui seus elementos.

3.

ERRO DE TIPO É UM ERRO SOBRE UM DADO DA REALIDADE!!!!

Sabe aquele dia que parece que tudo parece dar certo pra você? Então, esse era o dia do nosso amigo ASTROGILDO. Estava ele em uma casa noturna com amigos, quando percebeu que a mais gata das gatas estava “dando mole” pra ele.

5

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
Pô, o ASTROGILDO não é um cara que podemos classificar como “boa pinta”, sabe? Mas, aquele era o seu dia. Percebendo o mole que a gata estava dando, ASTROGILDO resolve se aproximar. Claro, porque mulher bonita não paquera, é paquerada. ASTROGILDO se apresenta e iniciam, assim, uma conversa. Tudo que ASTROGILDO fala, segundo ela, é engraçado, inteligente, espirituoso. Depois de uns drinks, ela diz que está cansada e deseja ir pra casa, mas que já bebeu um pouco e que gostaria que ASTROGILDO a levasse para casa. Pede, então, que ele deixe seu carro (um Lada vermelho, hehe) e use a Merceds Bens dela. Chegam ao apartamento da gata... Música romântica para embalar o namoro... As coisas começam a esquentar... As roupas começam a voar... Mas, quando ASTROGILDO tira a última peça de roupa da gata.........................................................................................................

............................................................

O ERRO DE TIPO É MUUUUITO GRANDE! (HEHE) Na cabeça do ASTROGILDO era uma gata, mas, na REALIDADE, a gata era um leão!! (hehe)

Brincadeiras à parte, essa é a exata ideia do erro de tipo. Na cabeça do agente o fato é “X” (tremenda gata), mas a realidade é “Y” (RONALDO!)

6

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
Enfim, o erro de tipo é um erro que incide sobre um dado da realidade, da vida real, concreta. Assim, para que um erro incidente sobre um dado da realidade seja considerado erro de tipo, é preciso que a situação sobre a qual incidir o erro esteja descrita num tipo penal. A denominação “erro de tipo” deve-se ao fato de que o equívoco do agente incide sobre um dado da realidade que se encontra descrito em um tipo penal.

( FCC - 2007 - TRE-MS - Analista Judiciário - Área Administrativa) Considere os exemplos abaixo: I. Casar-se com pessoa cujo cônjuge foi declarado morto para os efeitos civis, mas estava vivo. II. Aplicar no ferimento do filho ácido corrosivo, supondo que está utilizado uma pomada. III. Matar pessoa gravemente enferma, a seu pedido, para livrá-la de mal incurável, supondo que a eutanásia é permitida. IV. Ingerir a gestante substância abortiva, supondo que estava tomando um calmante. Há erro de tipo nas situações indicadas APENAS em a) I, II e III. b) I e III. c) I, III e IV. d) II e III. e) II e IV. Resposta: Letra “E”.

4.

O erro de tipo é classificado na doutrina como:

7

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
a. evitável, indesculpável ou inescusável: (afasta o dolo, mas permite a punição pelo resultado a título de culpa, se previsto em lei). b. inevitável, desculpável ou escusável: afasta o dolo e a culpa.

(CESPE_JUIZ SUBSTITUTO_TJ_SE_2008) O erro inescusável sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo e a culpa, se prevista em lei. Resposta: errado.

Lembre-se do clássico exemplo em que um caçador vai caçar veados na companhia de um amigo dançarino de balé clássico. Este último, querendo pregar uma peça no amigo, traveste-se do animal. O caçador, ao ver o amigo saltitante, efetua-lhe um disparo mortífero. Ao verificar o resultado do disparo, percebe que matou o amigo. O erro incide no elemento “alguém” do tipo “matar alguém”. O dolo do caçador foi de matar veado e não uma pessoa.1

Se, diante das circunstâncias, chegássemos à conclusão que o caçador poderia ter sido mais diligente ao efetuar o disparo, ou seja, que o erro poderia ter sido evitado, o dolo ficará afastado (pois o erro de tipo sempre afasta o dolo), mas responderá pelo resultado a título de culpa. Caso chegássemos à conclusão de que o erro era inevitável, o caçador terá o dolo e a culpa afastados.

OUTROS EXEMPLOS

1

Em sala de aula costumo brincar com os alunos: “queria matar o VE, mas acabou matando o VI!

8

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
O erro de tipo nos crimes sexuais – Imagine a hipótese do agente que, em uma casa noturna, conheça uma jovem que aparente ter mais de 18 anos. Em animada conversa durante a noite, a jovem afirma ter vinte anos e ser estudante universitária. Já pela madrugada, o casal dirigese para um motel, local onde mantém relações sexuais. No dia seguinte, o agente é procurado por policiais, os quais lhe imputam o crime de estupro, uma vez que a jovem tem apenas 13 anos de idade (estupro de vulneráveis). Podemos falar que o agente incidiu em erro de tipo, uma vez que acreditou manter relações sexuais com uma jovem maior de idade. Não tinha ele o dolo de manter relações sexuais com uma jovem menor de 14 anos. Não responderá, portanto, pelo crime de estupro de vulnerável (art. 217-A).

Erro de tipo na lei de drogas (L. 11.343/06) – Imagine a hipótese do agente que atende uma solicitação de um conhecido para que leve uma quantidade de remédios para um parente adoentado em cidade vizinha. Ao ser abordado por policiais durante o trajeto, surpreende-se ao saber que o conteúdo das caixas era de cocaína e não de remédios. Hipótese de erro de tipo que afasta o dolo de tráfico.

CONSEQUÊNCIA – O ERRO DE TIPO SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE, AFASTA O DOLO.

É UM ERRO SOBRE O FATO REAL, OU SEJA,
O AGENTE PENSA “X”, MAS A REALIDADE É “Y”.

ERRO DE TIPO EVITÁVEL (OU INDESCULPAVEL OU INESCUSÁVEL) - AFASTA DOLO, MAS PERMITE PUNIÇÃO POR CULPA, SE PREVISTO EM LEI.*

ERRO DE TIPO INEVITÁVEL SOMENTE AFASTA DO DOLO E CULPA

9

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
5. *COMO ASSIM, SE “PREVISTO EM LEI”?

CLARO, PORQUE HÁ CRIMES QUE NÃO ADMITEM A MODALIDADE CULPOSA, COMO O DANO, O FURTO, O ROUBO, ABORTO, ENTRE OUTROS. ( CESPE - 2004 - Polícia Federal - Delegado de Polícia - Nacional) O médico Caio, por negligência que consistiu em não perguntar ou pesquisar sobre eventual gravidez de paciente nessa condição, receitalhe um medicamento que provocou o aborto. Nessa situação, Caio agiu em erro de tipo vencível, em que se exclui o dolo, ficando isento de pena, por não existir aborto culposo. Resposta: correto

E COMO SEI QUE UM CRIME ADMITE OU NÃO A MODALIDADE CULPOSA? O ÚNICO JEITO DE SABER É LENDO A LEI. É ELA QUE VAI DIZER SE O CRIME ADMITE OU NÃO A MODALIDADE CULPOSA (PRINCÍPIO DA EXCEPCIONALIDADE DO CRIME CULPOSO). PENSE NA SITUAÇÃO EM QUE O AGENTE SAI DE UM RESTAURANTE E LEVA O GUARDA-CHUVA DE UM TERCEIRO. NA CABEÇA DELE O OBJETO É SEU (X), MAS NA REALIDADE O OBJETO É DE TERCEIRO (Y). OCORRE QUE O GUARDA-CHUVA DO SUJEITO É CINZA, MAS O QUE ELE LEVOU, POR DISTRAÇÃO, ERA PRETO. ORA, ESSE ERRO PODERIA SER EVITADO PELO NOSSO AMIGO. RESULTADO: ERRO EVITÁVEL AFASTA O DOLO (NÃO RESPONDE POR FURTO). DEVERIA ELE RESPONDER POR CULPA, MAS NÃO EXISTE FURTO CULPOSO. UAI, PROFESSOR, ENTÃO ELE NÃO VAI SER APENADO? NÃO!

10

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
SERIA DIFERENTE SE NOSSO AMIGO TIVESSE ATIRADO EM SEU FILHO (X), PENSANDO QUE É UM LADRÃO QUE ENTRA NA CASA À NOITE (Y).

NESTE CASO, SE FICAR DEMONSTRADO QUE O PAI PODERIA TER EVITADO O ERRO, RESPONDERÁ ELE POR HOMICÍDIO CULPOSO DO FILHO, POIS O CÓDIGO PENAL PREVÊ A MODALIDADE CULPOSA PARA O HOMICÍDIO. B) ERRO DE TIPO INEVITÁVEL (DESCULPÁVEL OU ESCUSÁVEL) – QUALQUER PESSOA COMETERIA O MESMO ERRO SE TIVESSE NA POSIÇÃO DO AGENTE. ESSE ERRO AFASTA O DOLO (COMO SEMPRE), E AFASTA TAMBÉM A CULPA.

NESTE PONTO, PRESTE ATENÇÃO EM UMA COISA! EU DISSE QUE O ERRO DE TIPO INEVITÁVEL AFASTA A CULPA!

DÊ UMA OLHADA NESTA QUESTÃO DE CONCURSO:

(CESPE_Advogado Júnior_CEF_2006) O erro de tipo é aquele que recai sobre os elementos ou circunstâncias do tipo, excluindo-se o dolo e, por conseqüência, a culpabilidade.

EXCLUINDO O QUÊ? A CULPABILIDADE? NÃO, ERRADO! O ERRO DE TIPO ESCUSÁVEL OU DESCULPÁVEL EXCLUI A CULPA, NÃO A CULPABILIDADE.

LEMBRE-SE CULPA É UMA FORMA DE CONDUTA. A CONDUTA PODE SER DOLOSA OU CULPOSA (DOLO OU CULPA). CULPABILIDADE É OUTRA COISA. CULPABILIDADE É UM DOS ELEMENTOS DO CRIME.

11

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE

Muito bem. Com o estudo do erro de tipo, terminamos o estudo do fato típico. A partir deste momento, iniciamos o estudo da ilicitude (ou antojuridicidade).

6.

Outras espécies de erros (erros acidentais ou secundários)

a. Erro determinado por terceiro: médico, querendo matar paciente, entrega injeção com substância mortífera para que a técnica em enfermagem, desconhecedora da conduta daquele, aplique na vítima. No caso, somente o médico responderá pelo crime (responde pelo crime o terceiro que determina o erro, art. 20, § 2°). b. Erro sobre a pessoa: josé, querendo matar Tadashi, confunde-se e mata o irmão daquele, Takashi. O juiz vai aplicar a pena considerando todas as circunstância de José ter matado a vítima que pretendia matar (Tadashi). O erro quanto à pessoa contra a qual o crime é praticado não isenta de pena. Não se consideram, neste caso, as condições ou qualidades da vítima, senão as da pessoa contra quem o agente queria praticar o crime (art. 20, § 1º). c. Erro de execução (aberratio ictus): José, querendo matar João, mata Maria que passava na rua. No caso, foi atingida pessoa diversa daquela que o agente queria atingir (desvio de golpe). Julga-se o fato como se tivesse sido a pessoa visada (art. 20, § 3º). Se ambas forem atingidas, aplica-se o concurso formal (uma só pena com aumento). d. Resultado diverso do pretendido (aberratio delicti): José joga pedra em uma vitrine, mas atinge pessoa que está atrás. No caso, o agente, por erro, lesa bem ou interesse diverso do pretendido. Responde por culpa, se couber crime culposo. Haverá concurso formal se ocorrer, também o resultado pretendido (arts. 70 e 74). e. Erro sobre o nexo causal (aberratio causae): José, querendo matar João afogado, lanaça-o de cima de uma ponte. Durante a queda, João acaba por bater a cabeça na pilastra e morre de traumatismo craniano. A responsabilidade de José não é afastada, pois “considera-se causa a ação ou omissão (jogar da ponte) sem a qual o resultado não teria ocorrido”. f. Dolo Geral (hipótese particular de erro sobre o nexo causal): o místico russo Rasputin (Grigoriy Yefimovich Rasputin , místico russo, nasceu dia 22 de janeiro de 1869 em Pokrovskoie, Tobolsk e foi assassinado no dia 29 de dezembro de 1916 aos 47 anos em Petrogrado, atual São Petersburgo) foi uma figura influente no final do período czarista da Rússia, tendo sido assassinado de forma curiosa: primeiro ele foi envenenado num jantar, porém

12

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
sua úlcera crônica fê-lo expelir todo o veneno, posteriormente teria sido fuzilado atingido por um total de onze tiros, tendo no entanto sobrevivido; foi castrado e continuou vivo, somente quando foi agredido e o atiraram inconsciente no rio Neva ele morreu, não pelos ferimentos, mas afogado.Existe um relato de que, após o seu corpo ter sido recuperado, foi encontrado água nos pulmões, dando apoio à ideia de que ele ainda estava vivo quando jogado no rio parcialmente congelado. No dolo geral, o agente julga consumado o crime, mas, na realidade, a consumação só acontece depois depois, em decorrência de outros atos praticados. O agente responde pela resultado final, o qual estaria envolto em um só dolo (o dolo geral). Não confundir DOLO GERAL de DOLO GENÉRICO. O segundo, refere-se ao dolo existente em todos os crimes dolosos em contraposição ao dolo específico, existente em alguns tipos, conforme vimos em aula anterior.

13

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE

QUESTÕES COMENTADAS

1. (FCC - 2010 - TRE-AL ANALISTA JUDICIÁRIO) A dispara seu revólver e mata B, acreditando tratar-se de um animal. A respeito dessa hipótese é correto afirmar que se trata de fato típico, pois o dolo abrangeu todos os elementos objetivos do tipo.

COMENTÁRIO: trata-se de hipótese clássica de erro de tipo. No caso, o dolo do agente não abrangeu todos os elementos do tipo “MATAR ALGUÉM”. O dolo foi de matar um animal e não de matar alguém (que não deixa de ser um animal, mas tudo bem!).

GABARITO: ERRADO

2. (POLICIA CIVIL_MG_2007) A finalidade precípua do erro de tipo essencial é a de afastar o dolo da conduta do agente.

COMENTÁRIO: o erro de tipo essencial sempre afasta o dolo. Caso o erro seja inevitável, afastará, também, a culpa.

14

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
GABARITO: CERTO

3. ( CESPE - 2010 - TRE-MT - Analista Judiciário – Adaptada) O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo e a culpa, podendo o agente, no entanto, responder civilmente pelos danos eventualmente ocasionados. COMENTÁRIO: o erro sobre o elemento do tipo (erro de tipo) sempre afasta o dolo, mas não afasta a culpa se for evitável. No último caso, poderá haver responsabilização civil (perdas e danos). GABARITO: ERRADO

4. ( FCC - 2007 - TRE-MS - Analista Judiciário ) Considere os exemplos abaixo:

I. Casar-se com pessoa cujo cônjuge foi declarado morto para os efeitos civis, mas estava vivo.

II. Aplicar no ferimento do filho ácido corrosivo, supondo que está utilizado uma pomada.

III. Matar pessoa gravemente enferma, a seu pedido, para livrá-la de mal incurável, supondo que a eutanásia é permitida.

IV. Ingerir a gestante substância abortiva, supondo que estava tomando um calmante.

Há erro de tipo nas situações indicadas APENAS em a) I, II e III.

15

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
b) I e III. c) I, III e IV. d) II e III. e) II e IV. COMENTÁRIO: No primeiro item não erro de tipo, uma vez que a morte, para o Direito, se prova documentalmente. Não irá modificar a situação jurídica se a pessoa estiver fisicamente viva, uma vez que está morta para o Direito. A não ser que haja nova decisão judicial que anule a morte civil. No segundo caso, houve ausência de dolo da mãe por falsa percepção da realidade (erro de tipo). O terceiro item trata de hipótese de erro de proibição. Veremos na próxima aula que no erro de proibição o agente age acreditando que o faz conforme o direito, mas este lhe vira as costas (erro sobre a ilicitude do fato). No terceiro caso, houve ausência de dolo da gestante por falsa percepção da realidade (erro de tipo). GABARITO: E

5. (CESPE_JUIZ SUBSTITUTO_TJ_SE_2008) O erro inescusável sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo e a culpa, se prevista em lei. COMENTÁRIO: vimos que o erro de tipo inescusável (indesculpável, evitável) afasta o dolo, mas permite a punição culposa, se previsto em lei. GABARITO: E

6. ( CESPE - 2004 - Polícia Federal - Delegado de Polícia - Nacional)

16

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
O médico Caio, por negligência que consistiu em não perguntar ou pesquisar sobre eventual gravidez de paciente nessa condição, receita-lhe um medicamento que provocou o aborto. Nessa situação, Caio agiu em erro de tipo vencível, em que se exclui o dolo, ficando isento de pena, por não existir aborto culposo. COMENTÁRIO: de fato, se o médico Caio receita medicamente abortivo, não sabendo da condição da mulher gestante por ser negligente, há erro de tipo, que, no caso, poderia ser evitado. Deveria responder por aborto culposo, mas não existe essa possibilidade na lei penal brasileira. GABARITO: CERTO

7. ( CESPE - 2011 - TRE-ES - Analista Judiciário) Erro de pessoa é o mesmo que erro na execução ou aberratio ictus.

COMENTÁRIO: no erro sobre a pessoa, o agente confunde-se sobre a pessoa contra quem dirige sua ação. No erro de execução (aberratio ictus), ele dirige sua ação contra a pessoa correta, mas erra o golpe, atingindo pessoa diversa. Apesar de serem institutos diferentes, os efeitos são semelhantes. Ou seja, o juiz considerará, para fins de aplicação de pena, a pessoa que se pretendia atingir e não a efetivamente atingida. GABARITO: Errado

8- ( VUNESP - 2011 - TJ-SP - Juiz) Analise as proposições seguintes.

I. O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas não permite a punição por crime culposo, ainda que previsto em lei. COMENTÁRIO: o erro de tipo, quando evitável, permite a punição por culpa.

17

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE

II. Responde pelo crime o terceiro que determina o erro. COMENTÁRIO: é exatamente o que determina o art.20, § 2º do CPB.

III. O desconhecimento da lei é inescusável, mas o erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, poderá diminuir a pena de um sexto a um terço. COMENTÁRIO: o desconhecimento da lei é, de fato, indesculpável. O erro sobre a ilicitude do fato (erro de proibição), como veremos, afasta a culpabilidade, se invencível. Se vencível, diminui a pena.

IV. O desconhecimento da lei é considerado circunstância atenuante. COMENTÁRIO: sim, conforme o art. 65, II do CPB.

V. Se o fato é cometido sob coação irresistível, só é punível o autor da coação. COMENTÁRIO: a coação moral irresistível afasta a culpabilidade do coagido, como veremos. No caso, somente o autor da coação responde pelo ato.

Assinale as proposições corretas. a) I, II e V, apenas. b) II, III e IV, apenas. c) II, IV e V, apenas. d) I, II e III, apenas. e) II, III e V, apenas.

GABARITO: C

18

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
9. (UPENET - 2010 - SERES-PE) Considere a seguinte situação: Policiais militares ingressaram num coletivo que ia do município de Salgueiro para o Município de Arcoverde, ambos no sertão pernambucano, e relataram aos passageiros que haviam recebido informe no sentido de que algum daqueles passageiros estaria transportando significativa quantidade da substância entorpecente de uso proscrito, popularmente conhecida por cocaína. Alguns passageiros, voluntariamente, passaram a exibir suas bagagens. O passageiro "X" exibiu sua bagagem, e os policiais militares constataram que ele trazia consigo duas embalagens de talco, em cujo interior havia 400g (quatrocentos gramas) da droga pesquisada. O passageiro foi preso e autuado em flagrante, na delegacia de polícia local, onde afirmou que não tinha conhecimento de que transportava cocaína, pois pensava que, nas embalagens, havia talco e que sua irmã "Y" teria arrumado as malas. Diante disso e considerando alternativa CORRETA. a teoria finalista da ação, assinale a

a) Constatada a veracidade da alegação de "X", ele deverá ser absolvido, porque sua conduta caracterizaria erro de tipo essencial e seria atípica. b) Constatada a veracidade da alegação de "X", ele deverá ser absolvido, porque sua conduta caracterizaria erro de proibição inevitável e haveria a exclusão da culpabilidade. c) Constatada a veracidade da alegação de "X", ele deverá ser absolvido, porque sua conduta caracterizaria erro de proibição inevitável e seria atípica. Nesse caso, "Y" seria responsabilizada por tráfico de entorpecentes. d) Ainda que seja verdadeira a alegação de "X", ele deverá ser condenado por crime de tráfico de entorpecentes (Lei nº 11.343/2006). Nesse caso, "Y" também seria co-responsabilizada pelo mesmo crime. e) Ainda que verdadeira a alegação de "X", ele deve ser condenado, pois a Lei nº 11.343/2006, ao equiparar o tráfico de entorpecentes aos crimes hediondos (Lei nº 8.072/90), estabelece, também, a responsabilidade penal objetiva. COMENTÁRIO: trata-se de exemplo típico de erro de tipo, afastador do dolo. Como não existe tráfico de drogas na modalidade culposa, o agente deve ser absolvido. GABARITO: A 10. ( CESPE - 2010 - ABIN - OFICIAL TÉCNICO DE INTELIGÊNCIA - ÁREA DE DIREITO) Incorrendo o agente em erro de tipo essencial escusável ou

19

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
inescusável, excluir-se-á o dolo, mas permanecerá a culpa caso haja previsão culposa para o delito. COMENTÁRIO: o erro de tipo escusável afasta o dolo e culpa, mas o inescusável, permite a punição por culpa. GABARITO: errado.

20

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE

I. Casar-se com pessoa cujo cônjuge foi declarado morto para os efeitos civis, mas estava vivo.

QUESTÕES

II. Aplicar no ferimento do filho ácido corrosivo, supondo que está utilizado uma pomada.

1. (FCC - 2010 - TRE-AL ANALISTA JUDICIÁRIO) A dispara seu revólver e mata B, acreditando tratar-se de um animal. A respeito dessa hipótese é correto afirmar que se trata de fato típico, pois o dolo abrangeu todos os elementos objetivos do tipo. 2. (POLICIA CIVIL_MG_2007) A finalidade precípua do erro de tipo essencial é a de afastar o dolo da conduta do agente. 3. ( CESPE - 2010 - TRE-MT Analista Judiciário – Adaptada) O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo e a culpa, podendo o agente, no entanto, responder civilmente pelos danos eventualmente ocasionados. 4. ( FCC - 2007 - TRE-MS Analista Judiciário ) Considere os exemplos abaixo:

III. Matar pessoa gravemente enferma, a seu pedido, para livrá-la de mal incurável, supondo que a eutanásia é permitida.

IV. Ingerir a gestante substância abortiva, supondo que estava tomando um calmante.

Há erro de tipo nas situações indicadas APENAS em a) I, II e III. b) I e III. c) I, III e IV. d) II e III. e) II e IV. 5. (CESPE_JUIZ SUBSTITUTO_TJ_SE_2008) O erro inescusável sobre elemento

21

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo e a culpa, se prevista em lei. 6. ( CESPE - 2004 - Polícia Federal - Delegado de Polícia Nacional) O médico Caio, por negligência que consistiu em não perguntar ou pesquisar sobre eventual gravidez de paciente nessa condição, receita-lhe um medicamento que provocou o aborto. Nessa situação, Caio agiu em erro de tipo vencível, em que se exclui o dolo, ficando isento de pena, por não existir aborto culposo. inescusável, mas o erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, poderá diminuir a pena de um sexto a um terço. IV. O desconhecimento da lei é considerado circunstância atenuante. V. Se o fato é cometido sob coação irresistível, só é punível o autor da coação. Assinale as proposições corretas. a) I, II e V, apenas. b) II, III e IV, apenas. c) II, IV e V, apenas. d) I, II e III, apenas. e) II, III e V, apenas. 7. ( CESPE - 2011 - TRE-ES Analista Judiciário) Erro de pessoa é o mesmo que erro na execução ou aberratio ictus. 8- ( VUNESP - 2011 - TJ-SP Juiz) Analise as proposições seguintes. 9. (UPENET - 2010 - SERES-PE) Considere a seguinte situação: Policiais militares ingressaram num coletivo que ia do município de Salgueiro para o Município de Arcoverde, ambos no sertão pernambucano, e relataram aos passageiros que haviam recebido informe no sentido de que algum daqueles passageiros estaria transportando significativa quantidade da substância entorpecente de uso proscrito, popularmente conhecida por cocaína. Alguns passageiros, voluntariamente, passaram a exibir suas bagagens. O passageiro "X" exibiu sua bagagem, e os policiais militares constataram que ele trazia consigo duas

I. O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas não permite a punição por crime culposo, ainda que previsto em lei. II. Responde pelo crime o terceiro que determina o erro. III. O desconhecimento da lei é

22

CURSO COMPLETO DE DIREITO PENAL PARAS AS CARREIRAS POLICIAIS LÚCIO VALENTE
embalagens de talco, em cujo interior havia 400g (quatrocentos gramas) da droga pesquisada. O passageiro foi preso e autuado em flagrante, na delegacia de polícia local, onde afirmou que não tinha conhecimento de que transportava cocaína, pois pensava que, nas embalagens, havia talco e que sua irmã "Y" teria arrumado as malas. Diante disso e considerando a teoria finalista da ação, assinale a alternativa CORRETA. a) Constatada a veracidade da alegação de "X", ele deverá ser absolvido, porque sua conduta caracterizaria erro de tipo essencial e seria atípica. b) Constatada a veracidade da alegação de "X", ele deverá ser absolvido, porque sua conduta caracterizaria erro de proibição inevitável e haveria a exclusão da culpabilidade. c) Constatada a veracidade da alegação de "X", ele deverá ser absolvido, porque sua conduta caracterizaria erro de proibição inevitável e seria atípica. Nesse caso, "Y" seria responsabilizada por tráfico de entorpecentes. d) Ainda que seja verdadeira a alegação de "X", ele deverá ser condenado por crime de tráfico de entorpecentes (Lei nº 11.343/2006). Nesse caso, "Y" também seria coresponsabilizada pelo mesmo crime. e) Ainda que verdadeira a alegação de "X", ele deve ser condenado, pois a Lei nº 11.343/2006, ao equiparar o tráfico de entorpecentes aos crimes hediondos (Lei nº 8.072/90), estabelece, também, a responsabilidade penal objetiva. 10. ( CESPE - 2010 - ABIN OFICIAL TÉCNICO DE INTELIGÊNCIA ÁREA DE DIREITO) Incorrendo o agente em erro de tipo essencial escusável ou inescusável, excluir-se-á o dolo, mas permanecerá a culpa caso haja previsão culposa para o delito.

23

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->