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KANT • RESPOSTA À QUESTÃO: O QUE É ESCLARECIMENTO?

RESPOSTA À QUESTÃO: O QUE É ESCLARECIMENTO ₁

O opúsculo traduzido foi publicado originariamente em dezembro de 1784, com o título original Beantwortung zu der Frage: Was ist Aufklärung?, no Mensário Berlinense. O periódico, dirigido entre 1783 e 1796 por J. E. Biester (1749-1816) e F. Gedike (17541803), contava com vários colaboradores ligados ao Esclarecimento – dentre os quais, além do próprio Kant, Humboldt, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson. O texto de Kant que serviu de base para a presente tradução encontra-se no volume VIII da edição das obras completas de Kant pela Academia Real de Ciências de Berlim: KANT, I. Kants Werke, Berlin: Ed. Königlich Preussischen Akademie der Wissenschaften, Georg Reimer, 1902 em diante <Akademie Text-Ausgabe, Berlin, Walter de Gruyter & Co.>. p. 33-42. No corpo de nossa tradução, assinalamos a paginação da edição da Academia entre colchetes com a abreviação [AK]. Nas notas, as demais obras de Kant também são reportadas à edição da Academia, exceção feita à obra Crítica da razão pura, cuja paginação corresponde à edição de 1781 [A]. Dispomos, em português, de duas outras traduções do opúsculo kantiano: KANT, I. Resposta à pergunta: que é Esclarecimento? In: Textos seletos. Ed. bilíngue. Tradução de Floriano de Souza Fernandes. Petrópolis: Vozes, 1974. p. 100-1167; KANT, I. Resposta à pergunta: que é Esclarecimento? Tradução de Luiz Paulo Rouanet. Brasília: Casa das Musas, 2008. Para a elaboração de parte das notas da presente tradução, foram consultadas as seguintes obras: KANT, I. Réponse à la question: Qu´est-ce que le lumières? In: _____. Oeuvres philosophiques. traduction et notes par Heinz Wissmann Paris: Gallimard, 1985; MAESTRE, A. Estudio Preliminar. In: ERHARD, J. B. et al. Que é Ilustración? Madrid: Editorial Tecnos, 1993. p. XI-L. No seu artigo, Kant faz referência a dois textos de época, ambos publicados no Mensário Berlinense. Uma dessas referências figura na primeira nota do ensaio: o escrito de J. F. Zöllner. A segunda figura na última nota: o escrito de M. Mendelssohn. Indicamos, abaixo, a referência completa de ambos: ZÖLLNER, J. F. (1783) “Ist es rathsam, das Ehebundnis nicht ferner durch die Religion zu sanktionieren?” <”É aconselhável, daqui em diante, deixar de sancionar o matrimonio pela religião?”>, in: Berlinische Monatsschrift, III, p. 107-116; M. MENDELSSOHN (1784), “Uber die Frage: was heisst Aufklärung?” <”Sobre a pergunta: O que é Esclarecimento?”>, in: Berlinische Monatsschrift, IV, pp. 193-200.
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afinal. dentre outros. para isso ocupam-se cada um dos tutores. mas de resolução e coragem de fazer uso dele sem a direção de outra pessoa. Que. Menoridade é a incapacidade de servir-se do próprio entendimento sem direção alheia. pedindo cautela no assunto. também seja considerado muito perigoso. Não preciso necessariamente pensar. dizia ele na conclusão do texto. outros se incumbirão por mim desta aborrecida ocupação. J. Sapere aude! Ousa fazer uso de teu próprio entendimento! Eis o lema do Esclarecimento. se posso apenas pagar. e porque seja tão fácil a outros apresentaremse como seus tutores. É tão cômodo ser menor. mesmo depois de a natureza há muito tê-los libertado de uma direção alheia (naturaliter maiorennes3). um médico. M. que decide por mim a dieta etc. O argumento de Biester era simples: homens ilustrados poderiam perfeitamente dispensar o cerimonial religioso. que é mencionado em nota ao fim de nosso opúsculo. Mendelssohn. 2 Inércia e covardia são as causas de que uma tão grande maioria dos homens.407 407 [AK 35] Esclarecimento é a saída do homem da menoridade pela qual é o próprio culpado . já em si custoso. decide entrar no debate com este texto. caso procurem andar por própria conta e risco. Para as referências aos textos relacionados nesta nota. Após terem emburrecido seu gado doméstico e cuidadosamente impedido que essas dóceis criaturas pudessem dar um único passo fora do andador.. Kant. mostram-lhes em seguida o perigo que paira sobre elas. junto à grande maioria dos homens (incluindo aí o inteiro belo sexo) o passo rumo à maioridade. 2 3 Nota do Tradutor “Naturalmente maiores”. este perigo nem é tão Nota do Tradutor: A razão por que o artigo de Kant inicie pela definição de Esclarecimento explica também seu título. um guru espiritual. Ora. em que propunha abolir a exigência de que os matrimônios fossem sancionados pela Igreja. quando sua causa reside na falta. juntamente com a resposta de outro célebre intelectual do período. de bom grado permaneça toda vida na menoridade. E. assim não preciso eu mesmo dispender nenhum esforço. Biester publicou sob pseudônimo um artigo no Mensário Berlinense. nem se sabe ainda ao certo o que é Esclarecimento. F. a data a que este título faz referência e o contexto que lhe deu origem. O homem é o próprio culpado por esta incapacidade. Zöllner responde a Biester. Possuo um livro que faz as vezes de meu entendimento. que faz às vezes de minha consciência. do qual era o editor. Em artigo publicado no mesmo periódico em 5 de dezembro de 1783. Em setembro de 1783. J. publicado em dezembro de 1784. . ver bibliografia. não de entendimento. que de bom grado tomaram para si a direção sobre eles.

aquela de fazer em . visto não estar habituado a uma liberdade de movimento desta espécie. É portanto difícil para cada homem isoladamente livrar-se da menoridade que nele se tornou quase uma natureza. se lhe for concedida liberdade. assim como os antigos. e. Pois. quando incitado por aqueles dentre seus tutores que são incapazes de todo esclarecimento. Por isso são poucos os que conseguiram. desembaraçar-se de sua menoridade e. antes. Que um público se esclareça a si mesmo. faria apenas um salto inseguro sobre o fosso mais estreito. Há. uma peculiaridade: o público. é bem possível. difundirão à volta de si o espírito de uma avaliação racional do próprio valor e a vocação de cada um de pensar por si mesmo. Também quem deles se livrasse.408 408 ANTOLOGIA DE TEXTOS FILOSÓFICOS ������������������������������������������ KANT • RESPOSTA À QUESTÃO: O QUE É ESCLARECIMENTO? grande. pois terminam voltando-se contra aqueles que foram seus autores. Preceitos e fórmulas. novos preconceitos servirão. Para este esclarecimento. de um mau uso racional de suas aptidões naturais. a mais inofensiva de todas as espécies. a saber. nisto. Até afeiçoou-se a ela e por ora permanece realmente incapaz de servir-se de seu próprio entendimento. Uma revolução pode. como amarras à grande multidão destituída de pensamento. que antes se encontrava submetido por eles a este jugo. produzir a queda do despotismo pessoal e da opressão ávida e ambiciosa. sempre se encontrarão alguns livre pensadores <Selbstdenkende>. mas jamais uma reforma verdadeira do modo de pensar. não é exigido nada mais senão liberdade. quer seus antecessores. são os entraves de uma permanente menoridade. pois através [AK 36] de algumas quedas finalmente aprenderiam a andar. antes. esses instrumentos mecânicos de um uso. pois nunca se deixou que ensaiasse fazê-lo. aliás. através do exercício individual de seu espírito. e isso é até quase inevitável. Tão prejudicial é cultivar preconceitos. após terem sacudido de si o jugo da menoridade. em seguida obriga-os a permanecer sob ele. mesmo dentre os tutores estabelecidos do vulgo. quer tenham sido eles próprios. assim. talvez. os quais. porém. tomar um caminho seguro. Por isso um público pode chegar ao esclarecimento apenas lentamente. mas um exemplo assim dá medo e geralmente intimida contra toda nova tentativa.

com Gelehrter. não é permitido raciocinar. Porém. para que. e ele apenas pode difundir o esclarecimento entre os homens. rei da Prússia de 1740 até sua morte. mas exercitai! O conselheiro fiscal diz: não raciocineis. próximo dos partidários do Esclarecimento. foi um “déspota esclarecido”. o uso privado da mesma pode. Denomino uso privado aquele que ele pode fazer de sua razão em determinado posto ou encargo público a ele confiado. mas pagai! O sacerdote: não raciocineis. contudo. sim. Nossa opção por “instruído” baseia-se em que. porém. este termo também abrigava outras acepções.409 409 todas as circunstâncias uso público da sua razão. em alguns ofícios. através do qual alguns membros da república precisam comportarse de modo puramente passivo. uma classe específica de homens. deve-se obedecer. logo abaixo. ou ao menos para impedirem a destruição destes fins. O elogio deve-se a que Frederico. através de uma unanimidade artificial. sem todavia por isso prejudicar sensivelmente o progresso do esclarecimento. evidentemente. antes. favorável? – Respondo: o uso público de sua razão deve sempre ser livre. Ora. sabendo ler e escrever. mas obedecei!)4 Por toda parte. Terra e R. Kant não designa. nomeado e enaltecido por Kant na conclusão do texto. mas crede! (Somente um único senhor no mundo diz: raciocinai tanto quanto quiserdes. Aqui.). um determinado mecanismo faz-se necessário. Após sua morte. que concernem ao interesse da coisa pública6. ser estreitamente limitado. tais como “sábio”. Naves na tradução brasileira de Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita (ver biblio. por “república” a expressão gemeines Wesen. “erudito”. 6 . a ascenção ao trono de Frederico Guilherme (1744-1797) representou um recrudescimento significativo na liberdade de opinião. “douto”. 5 Nota do Tradutor: Vertemos aqui por “coisa pública” e. advertido que foi pela publicação de A religião nos simples limites da razão (1793). está apto a inscrever-se em um debate público. Só que ouço clamarem de todos os lados: não raciocineis! [Ak 37] O oficial diz: não raciocineis. seguindo a opção adotada para ela por R. qual limitação à liberdade é contrária ao esclarecimento? Qual não o é. e que vertemos por “instruído”. sejam orientados pelo governo a fins públicos. sob o uso público de sua própria razão aquele que alguém faz dela como instruído5 diante do inteiro público do mundo letrado. neste texto. e sobre o que quiserdes. o que se vê é limitação da liberdade. 4 Nota do Tradutor: O termo alemão utilizado por Kant. é Gelehrter. Compreendo. atingindo o próprio Kant. Ao contrário: Gelehter é todo homem que. tão logo esta parte da máquina se considera como membro de uma inteira república. Para Kant e seus contemporâneos. até mesmo Nota do Tradutor: O “senhor” a que se faz alusão neste passo é Frederico II (17121786). antes. singularizados por um saber ou competência especial. Porém. sendo-lhe.

3) como homem do mundo ou cidadão do mundo em geral <Weltburger uberhaupt> (I. o mesmo indivíduo não age contra o dever de um cidadão. restringir-se às circunstâncias e interesses particulares que singularizam sua inscrição concreta. que se dirige por meio de escritos a um público em sentido próprio. pode naturalmente raciocinar. depende da liberdade de usarmos publicamente a razão. ao afirmar que há três perspectivas sob as quais se considerar um assunto: 1) como homem privado. ele deve obedecer. Em Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita. Entretanto.410 410 ANTOLOGIA DE TEXTOS FILOSÓFICOS ������������������������������������������ KANT • RESPOSTA À QUESTÃO: O QUE É ESCLARECIMENTO? da sociedade civil universal7. na ocasião em que deve pagá-las. vol. VIII. antes possui a missão de Nota do Tradutor: A “sociedade civil universal” <Weltburgergesellschaft> exprime um ideal cosmopolita. prejudique os ofícios a que em parte está ligado como membro passivo8. O cidadão não pode recusar-se a arcar com os impostos que lhe são cobrados. Ak. Theorie und Praxis. é capital para compreender todo o argumento de Kant neste texto. 31. Em outro escrito. opondo-o ao uso privado da razão: cada um deles remente a âmbitos diferentes. usa sua razão privadamente. por isso. Compreender no que consiste este uso. Quando o agente se reporta à sociedade civil universal. por isso. formada por todos os homens na condição de seres racionais. quando se considera parte do mecanismo. Kant. na qualidade de alguém instruído. por referência ao qual o agente se considera a si mesmo e aos demais na condição de seres racionais e. interligados. capazes de enunciar juízos sem. Ideia. p 277. Asssim. p. Uso público da razão e cosmopolitismo figuram. desse modo. como diz Kant no início deste parágrafo. publicado em 1792 e intitulado Sobre o dito: o que vale em teoria não vale na prática. Ak. uma censura impertinente de tais taxas. sem que. portanto. trad. que recebesse alguma ordem de seus superiores. quisesse abertamente raciocinar em serviço sobre a conformidade ou o benefício desse comando. um sacerdote está obrigado a professar seu sermão para seus catecúmenos ou para a comunidade conforme o credo da igreja a que serve. se um oficial. Mas não se pode recusar-lhe devidamente que faça observações sobre os erros no serviço militar e as exponha à apreciação de seu público. publicada quase contemporaneamente a “O que é o Esclarecimento?”.) 7 Nota do Tradutor: O Esclarecimento. Apesar disso. Kant explica o que seja o uso público. Kant auxilia a compreender melhor tal conceito. 24). enuncia seus juízos sob uma perspectiva universal (ver nota precedente). na condição de instruído. o cosmopolitismo é apresentado como a perspectiva normativa sob a qual os acontecimentos humanos devem ser perfilados em uma história (cf. Do mesmo modo. ver biblio. pois foi sob essa condição que aí foi admitido. assim. ao fazê-lo. possui completa liberdade. 2) como homem político <Staatsmann>. seria muito prejudicial. exprime publicamente seus pensamentos contra a impropriedade [AK 38] ou mesmo injustiça de tais imposições. na condição de instruído. 8 . quando. vol. VIII. pode até mesmo ser punida como um escândalo (que poderia ocasionar insubordinações generalizadas).

sobre o [AK 39] povo? Afirmo que isto é inteiramente impossível. e isso. por maior que possa ser. o mundo. através deles. não é livre. nem pode sê-lo. irá extrair todos os benefícios práticos de preceitos que ele mesmo não subscreveria com inteira convicção. ou uma alta “classe” (como a si mesma se intitula entre os holandeses). que favorece a perpetuação dos absurdos. Pois que os tutores do povo (em coisas espirituais) devam ser eles mesmos também menores é um absurdo. Um tal contrato. não se depare com nada que colida com sua religião interior. em relação à qual ele. junto a sua paróquia. não poderia exercer com boa consciência sua função. mas tem de fazê-lo segundo a instrução e em nome de um outro. mesmo se fosse homologado pelo poder supremo. Dirá: nossa igreja ensina isto e aquilo. Nisto não há nada que pudesse ser reprovado a sua consciência. porém. Logo. que pode empenhar-se em expor. de modo a conduzir e perpetuar uma tutoria superior sobre cada um de seus membros e. obrigar-se uns para com os outros quanto a um credo. é absolutamente nulo e sem validade. o eclesiástico usufrui no uso público de sua razão de uma liberdade ilimitada de servirse de sua própria razão e em seu próprio nome. pois não é inteiramente impossível haver alguma verdade envolta neles – desde que. isto é. esta é apenas uma reunião doméstica. Em seguida. e eis os argumentos de que se serve. Pois. preceitos. Mas não deveria ser justificado a uma sociedade de eclesiásticos. teria de renunciar a ela. enquanto homem instruído que fala através de escritos para o público propriamente dito. caso concluísse estar diante de uma contradição deste tipo. o uso que um ministro encarregado do ensino faz de sua razão junto a sua paróquia é tão-somente um uso privado: porque. porém. Pois o que ele ensina por conta de sua função enquanto dignatário da Igreja. pois se encarrega de uma tarefa alheia. Em contrapartida. pelos parlamentos e pelos mais solenes tratados . enquanto sacerdote.411 411 compartilhar com o público todos os seus pensamentos cuidadosamente refletidos e bem intencionados sobre as imperfeições neste credo e as propostas voltadas para uma melhor orientação da religião e da Igreja. isso ele expõe como algo em vista do que não possui livre poder para ensinar conforme bem entender. que seria concluído para afastar definitivamente do gênero humano todo novo esclarecimento. algo como um sínodo.

assistimos à transposição deste princípio da autonomia individual para o âmbito da política. a fim de introduzir uma certa ordem. a ponto de a unificação de suas vozes (ainda que não de todas) pudesse levar ao trono uma proposta em defesa daquelas paróquias que.-J. 9 . exposto na Crítica da razão prática (ver biblio. que se pretendesse publicamente inquestionável por todos. portanto. isto é. prejudicando desta maneira a posteridade. Rousseau em Do contrato social.412 412 ANTOLOGIA DE TEXTOS FILOSÓFICOS ������������������������������������������ KANT • RESPOSTA À QUESTÃO: O QUE É ESCLARECIMENTO? de paz. por assim dizer aniquilar uma época na marcha da humanidade rumo ao melhor e torná-la estéril. Isso seria um crime contra a natureza humana. apoiando-se nele para formular o princípio da autonomia moral. para fazer publicamente. e os descendentes estão. permaneceria em curso. através de escritos. na qualidade de homem instruído. somente por algum tempo –. suas considerações sobre as imperfeições da instituição vigente. obstar àquelas que se contentassem com o estado de coisas precedente. desse modo. Em nosso opúsculo. concebida sob o signo da progressão da espécie humana rumo à realização de suas disposições morais mais elevadas. completamente justificados a rejeitar aquelas resoluções como absurdas e injuriosas. purificar-se dos erros e. especialmente o sacerdote. porém. tanto quanto em textos ulteriores de Kant. Mas é absolutamente ilícito firmar um acordo em torno de uma constituição religiosa permanente.). adiar o esclarecimento quanto ao saber que lhe incumbe. até que a compreensão da natureza dessas questões tivesse se estendido e se consolidado publicamente. Um homem na verdade pode. Kant foi leitor de Rousseau desde a década de 1760. a partir de um exame aprofundado. A medida de tudo o que pode ser decidido como lei para um povo reside na pergunta: pode um povo impor a si mesmo uma tal lei?9 Sim. período em que se deixaria livre cada cidadão. no que concerne a sua pessoa – e mesmo assim. prosseguir no esclarecimento. A ordem estabelecida. sem. concordassem em torno de uma reorientação religiosa. como a Doutrina do Direito (1797). isso seria possível por um período determinado e breve. cuja determinação originária reside exatamente nesta progressão. mesmo durante o curso da vida de um homem e. na expectativa de uma lei melhor. Uma época não pode aliar-se e conjurar para impor a época seguinte um estado no qual lhe seja impossível alargar seus conhecimentos (principalmente conhecimentos tão caros a si). de modo geral. Nota do Tradutor: A ideia de que só é legítima uma lei que o povo poderia outorgar a si mesmo revela a proximidade (embora também existam diferenças) que a concepção política de Kant das formulações apresentadas por J. todavia.

. de servirem-se de seu próprio entendimento sem a direção alheia de modo seguro e desejável em matéria de religião. mas em uma época de esclarecimento. que não considera indigno de si dizer que possui o dever de nada prescrever aos homens em matéria de religião. pela violência. Mas o que nem um povo pode decidir sobre si mesmo [AK 40]. portanto. tomados em seu conjunto. Caso se contente em cuidar para que toda melhoria. pois sua autoridade legislativa reside exatamente no fato de que ele unifica em sua vontade a a inteira vontade do povo. ou o século de Frederico. for perguntado: vivemos agora em uma época esclarecida? A resposta será: não. que seus súditos façam por si mesmos o que acharem necessário para a salvação de suas almas. Se. mas de deixá-los em total liberdade a este respeito. Um príncipe. mas sim a de evitar que eles. esta época é a época do esclarecimento.413 413 mas renunciar a ele. a ponto de sustentar em seu Estado o despotismo espiritual de alguns tiranos sobre o resto de seus súditos. menos ainda um monarca pode decidir sobre o povo. No atual estado de coisas. Mas dispomos de sinais claros de que agora se encontra aberto para eles o campo em que podem trabalhar nisto livremente e de que diminuem paulatinamente os obstáculos do esclarecimento geral ou da saída da menoridade pela qual eles próprios são culpados. quando rebaixa seu poder supremo. estejam em condições. seja no que concerne a sua pessoa. recusa que 10 Nota do Tradutor: “César não está acima dos gramáticos”. pode deixar. falta ainda muito para que os homens. quando submete à vigilância de seu governo os escritos por meio dos quais seus súditos procuram purificar suas ideias. presumida ou verdadeira. quer o faça a partir de sua própria compreensão superior – no que se expõe à objeção: Caesar non est supra grammaticos10 – quer. então. sua incumbência não é esta. ou possam vir a dispor de condições. no resto. se impeçam uns aos outros de trabalhar por sua determinação e promoção segundo todas as suas capacidades. Desse ponto de vista. e em maior grau. que. significa lesar os veneráveis direitos da humanidade e deitá-los abaixo. Faz mesmo prejuízo a sua majestade ele imiscuir-se nisto. seja tanto mais no que concerne à posteridade. concorde com a ordem pública.

414 414 ANTOLOGIA DE TEXTOS FILOSÓFICOS ������������������������������������������ KANT • RESPOSTA À QUESTÃO: O QUE É ESCLARECIMENTO? lhe associem o soberbo nome da tolerância. temos disso um exemplo ilustre. mesmo se isso for acompanhado de uma crítica franca da legislação estabelecida. submeter livre e publicamente à prova seus juízos e ponderações. pois no que concerne às artes e ciências nossos senhores não possuem interesse de exercer a tutela sobre seus súditos. A rigor. Mas o modo de pensar de um chefe de Estado. principalmente em matéria de religião. Crítica da razão pura. isto é. Pois esse último defronta-se com um exemplo de que. na qualidade de homens instruídos e sem dano a seu dever funcional. Kant. é ele mesmo esclarecido e merece ser louvado pelo mundo e pela posteridade em reconhecimento. num ou noutro ponto distantes do credo estabelecido. Pouco a pouco. aquela menoridade é dentre todas a mais prejudicial. Sob ele veneráveis eclesiásticos podem. Este espírito de liberdade expande-se também ao exterior. em regime de liberdade. caso pretenda obter o respeito de nossa razão. não há o mínimo a temer no que respeita à paz pública e a unidade da república. não há perigo em admitir que seus súditos façam uso público de sua própria razão e que apresentem ao mundo seus pensamentos sobre como tornar melhor sua redação. mesmo em relação a sua legislação. Além disso. Mas o que concluir. todo enunciado que possua uma pretensão normativa tem de submeter-se ao tribunal da crítica. um aparente círculo no argumento de Kant: embora o Esclarecimento represente um 11 . o que vale com mais forte razão para quem não estiver limitado por um dever funcional. como aquele que primeiro livrou o gênero humano da menoridade – ao menos por parte do governo – e fez cada um livre para servir-se de sua própria razão em tudo o que concerne à consciência. da saída dos homens da menoridade da qual são os próprios culpados. Nota do Tradutor: Conforme a nota do Prefácio da Crítica da razão pura (I. que favorece o esclarecimento em matéria religiosa vai além e percebe que. A XII) o exame crítico da razão concerne não apenas aos enunciados da metafísica. mesmo lá onde tem de lutar com obstáculos externos de um governo que não se compreende a si mesmo. os homens se desembaraçam de sua brutalidade. como também a mais desonrosa. que faz com que nenhum monarca preceda aquele que reverenciamos11. mas também àqueles da religião e da legislação. assim. caso o monarca não deseje ver as razões de sua política discutidas publicamente? Percebe-se. basta cessar a arte de mantê-los intencionalmente nela. Tratei do principal ponto do esclarecimento. portanto.

Kant apresenta uma solução para esta dificuldade no outro texto a que já fizemos alusão. entretanto. A relação entre necessidade. que é mais que uma máquina. limitado pelos interesses do monarca? Nessa direção. 12 Nota do Autor: Nas Notícias hebdomadárias de Busching de 13 de setembro. 13 . quando o consideramos em larga escala. podese interpretar o passo em pauta como a simples observação de que a liberdade de usar publicamente a razão não traz riscos à tranquilidade civil. dia 30 do mesmo mês. Prússia 30 de setembro de 1784 passo indispensável para a moralidade dos homens (afinal. a saber: até que ponto o Esclarecimento. contingência e finalidade também será objeto da Crítica da faculdade-de-julgar. mas possui à disposição um numeroso e bem disciplinado exército para assegurar a ordem pública. apenas obedecei!12 Aqui as coisas humanas revelam um curso estranho e não esperado. vários estudos historiográficos (dentre outros. Ela ainda não chegou às minhas mãos. não se vê. o processo histórico em que ele se realiza se vê subordinado ao aparecimento circunstancial de um governante esclarecido. leio hoje. intitulado Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita. pode dizer o que um estado não monarquico não pode se permitir: raciocinai quanto quiserdes e sobre o que quiserdes. que agora só pode figurar aqui como ensaio sobre até que ponto o acaso pode trazer o acordo de pensamentos. tivesse chegado. ele mesmo esclarecido. não teme as sombras. um grau menor da mesma. isto é. Nota do Tradutor: “Raciocinai quanto quiserdes e sobre o que quiserdes. eu teria retido a presente resposta. o pendor e a vocação ao pensamento livre. se a natureza desenvolveu sob este duro invólucro o germe de que cuida tão delicadamente. e lhe coloca. Logo. proporciona a este o espaço para expandirse conforme todas as suas capacidades. no qual foi incluída a resposta do Sr. Königsberg. quase tudo nele é paradoxal. E. Sem desmerecer tais análises. diz Kant um pouco acima). “determinação originária” da humanidade reside nesta progressão moral. como também. o anúncio do Mensário Berlinense deste mês. este paulatinamente reincide sobre o modo de sentir do povo (o que pouco a pouco torna este mais apto a agir livremente) e finalmente também até sobre os princípios do governo. conforme sua dignidade13. barreiras <Schranken> instransponíveis. (Ver bibliografia). na prática. apenas obedecei!” – O lema que Kant associa a Frederico II traz à luz uma dificuldade que foi recorrentemente discutida pelos intérpretes. de 1790. Hobsbawn. em contrapartida. o qual descobre ser propício para si mesmo [AK 42] tratar o homem.415 415 Mas também somente aquele que. Um grau maior de liberdade civil parece vantajoso à liberdade de espírito do povo. ver bibliografia) salientam o caráter conservador da modernização conduzida por déspotas esclarecidos como Frederico II e Catarina da Rússia (1729-1796). J. no qual Kant lança suas fichas. Mendelssohn à mesma pergunta.

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