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Lefebvre - O direito à cidade

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Published by: Paula Franchi on Feb 22, 2012
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O DIREITO À CIDADE Henry Lefebvre, São Paulo, Centauro, 2001.

INDUSTRIALIZAÇÃO E URBANIZAÇÃO Noções Preliminares
INTRODUÇÃO A sociedade urbana define a nossa realidade social. Processo de industrialização é o motor de transformação da sociedade, é o indutor, e os induzidos são problemas relativos ao crescimento e planificação, questões referentes à cidade e ao desenvolvimento da realidade urbana, do lazer e da cultura. A cidade é anterior à industrialização e, as criações urbanas mais belas (obra = aquilo que tem valor de uso; produto = aquilo que tem valor de troca) datam de antes da indústria. No processo histórico, a burguesia substitui a aristocracia, e junto com a democracia substitui também a opressão pela exploração, e com isso, substitui a obra pelo produto. TRÊS MOMENTOS NO PROCESSO DE “URBANIZAÇÃO INDUSTRIAL” Destruição da idéia social urbana de cidade pela imposição da realidade econômica industrial; A urbanização e a sociedade urbana se generaliza, identificando-se com a realidade socioeconômica, mas também reconhecendo a necessidade da cidade e da centralidade no processo de composição da sociedade; Reencontro ou reinvento da realidade urbana, buscando-se restituir uma nova centralidade, o centro de decisões. Nasce ou renasce a reflexão urbanística, desnecessária na cidade medieval ou renascentista, quando as pressões do povo ou de uma outra civilização levavam ao investimento em obras urbanas. ACUMULAÇÃO CAPITALISTA NAS CIDADES No processo de consolidação da cidade medieval, quando elas centralizam riquezas e os grupos dirigentes investem improdutivamente parte da riqueza na cidade que dominam, o capitalismo bancário e comercial já se transformou em riqueza móvel – através de circuitos de troca, redes de transferência de dinheiro, fazendo com que a riqueza já não seja apenas imobiliária, pois nem a produção agrícola, nem a propriedade da terra não são mais predominantes. CIDADES DO RENASCIMENTO E DO BARROCO A sociedade em conjunto formada pela cidade, pelo campo e pelas instituições reguladoras de suas relações forma Redes de cidades com uma certa divisão (técnica, soial e política) do trabalho, ligadas por estradas, vias fluviais e marítimas, relações comerciais e bancárias. (O período das conquistas além mar). Este sistema não impediu rivalidades e concorrências, mas é a base do Estado que faz surgir a cidade sobre as demais, a capital. Surge então três termos que se distinguem: a Sociedade, o Estado e a Cidade sendo que esta última conserva sua organização corporativa que vem da aldeia. O contínuo processo de luta de classes, entre riqueza e pobreza, reforça o apego à cidade, arena destes conflitos. Para justificar seus privilégios diante da comunidade, os poderosos gastam suas fortunas em edifícios, palácios, embelezamentos e festas, demonstrando que sociedades muito opressivas foram muito criadoras e ricas em obras. Este processo se modifica com a substituição da produção de obras pela produção de produtos, modificando as relações sociais responsáveis por aquelas obras.

matéria prima. da televisão. que regulamenta atividades no espaço (ruas e bairros) e no tempo urbano (honorários e festas). jogado sobre o território e composto por um conjunto de vias. Simultaneamente. implica mudança radical que se traduz em crise. tão complexa quanto o sistema industrial. modas. a indústria adequou às suas necessidades. de um bairro para outro. A PERMANENCIA DOS NUCLEOS URBANOS Nos núcleos dos centros urbanos. 2) da perspectiva da cidade. Descontinuidade entre indústria nascente e suas condições históricas. matérias primas. esvaziamento demográfico. são espaços apropriados para festas. costumes. etc. rompe núcleos antigos. há fenômenos sócio-culturais que podem diferenciar-se na própria cidade. luz. Atenas. mão de obra. quando assistimos a um processo de concentração da população. pelo menos dividindo-a. as qualidades estéticas desempenham um grande papel na preservação. industriais) e de habitação (residências. gás. dos utensílios de plástico. absorvido pela juventude do lugar e. pouco estudada no que diz respeito à cidade e ao “sistema urbano”. CIDADE E INDUSTRIALIZAÇÃO SE CONTRADIZEM INDUSTRIALIZAÇÃO = CRESCIMENTO = PRODUÇÃO ECONÔMICA X URBANIZAÇÃO = DESENVOLVIMENTO = VIDA SOCIAL. Além da base econômica do TU. . as cidades antigas são mercados. atacando cada cidade. com rápida extensão da aglomeração.) TU está ligado ao conceito de um ecossistema. CIDADE E INDUSTRIALIZAÇÃO SE COMPLEMENTAM A indústria se implanta fora da cidade. perto de fontes de energia. etc – e sistema de valores: lazeres. fontes e geração de capitais. Atratividade recíproca entre industria e cidade. meios de transportes.TESE: A CIDADE E A REALIDADE URBANA DEPENDEM DO VALOR DE USO. A industrialização exige destruição do sistema urbano preexistente. por onde a sociedade e a vida urbana penetram no campo. mobiliário. O VALOR DE TROCA E A GENERALIZAÇÃO DA MERCADORIA PELA INDUSTRIALIZAÇÃO. Exemplos em cidades antigas: Veneza. infraestrutura e edificações. concentração dos meios de produção: ferramentas. acompanhados do carro. pois contêm monumentos e sedes de instituições. população migra para Mestre. oriundos de realidade agrária dependente da industrialização e dos pólos de crescimento mundiais. sendo suporte de um modo de vida urbana. A regra é onde existe rede de cidades. se aproxima ou produzir seus centros urbanos. dos transportes e das trocas comerciais. urbanização sem industrialização. o tecido urbano pode ser visto: 1) da perspectiva do campo. Unidade em conflito. residência de dirigentes. com seus sistemas de objetos – água. espaços e locais de lazer. exigências referentes ao futuro. SISTEMA CORPORATIVO E INDUSTRIALIZAÇÃO O embate entre sistema capitalista bancário e comercial e o sistema corporativo. TECIDO URBANO Mais que conjunto físico. reserva de mão de obra. se não transformando a realidade rural. mas principalmente América do Sul e África: cinturão de favelas em torno da cidade. habitado por camponeses sem posses ou arruinados. Cidades que crescem com pouca industrialização em locais da Europa. ampliação das periferias e das redes (bancárias. não limitado à sua morfologia. comerciais. provoca expansão urbana. que tende a se fixar em uma estrutura imóvel. TENDEM A DESTRUIR A CIDADE E A REALIDADE URBANA. com o surgimento de favelas onde a industrialização não consegue ocupar e fixar a mão de obra disponível.

O ressurgimento do núcleo da cidade como centro comercial ou turístico. no fundo. praças. expulsa do centro urbano e da própria cidade o proletariado. destruindo a urbanidade. monumentos. Através do conceito do HABITAT (divergente do habitar = participar da vida social. A aceitação do habitat esfuma a consciência da cidade e da realidade urbana. ameaça os ricos. TENDÊNCIAS DO URBANISMO Urbanismo dos arquitetos e escritores: Humanistas.. na ideologia. às comunicações e às informações. político. Ao contrário dos pavilhões. no conhecimento. retorno dos trabalhadores ao centro. de comunicação. é também formalismo. moradores dos pavilhões se apóiam no imaginário do habitat. entre outras ações. no menor tempo e baixo custo. não desaparece. reforça valor da cidade enquanto obra = valor de uso. enxergam apenas seu espaço e a cidade deixa de existir em suas consciências e em sua prática. Por trás dos vazios dos parques e bulevares está a afirmação da glória e do poder do Estado. ocorre a suburbanização. Prática: o núcleo urbano deteriorando. As urgências fazem com que a política habitacional se resuma em fazer mais moradias. pois ela ameaçava os privilégios da nova classe dirigente. que emprega riquezas produzidas na cultura. intelectual. econômico. aldeia ou cidade). nem natural nem sem vontades. Ou caem no formalismo adoção de modelos sem conteúdo ou sentido – ou no estetismo. na arte. passeios. não atentam que o homem mudou de escala e que a medida de outrora é agora desmedida. Não hesitaria em arrasar o que resta da cidade para dar lugar aos carros. A gestão de Haussmann. lugar de consumo e consumo do lugar. A DEMOCRACIA URBANA Em 1848. religioso. Os moradores dos conjuntos se refugiam na lógica do habitat. Tornam-se valor de uso e valor de troca. ao estarem desconectados da cidade. diversões e produto de consumo para turistas e suburbanos. os conjuntos – blocos de apartamentos – não deixam margem para apropriação e plasticidade do habitat. A possibilidade de uma democracia urbana – encontros e desencontros. confrontos de diferenças políticas e ideológicas que coexistem na cidade –. SUBURBANIZAÇÃO E CONJUNTOS HABITACIONAIS Comuna de Paris (1871). a menos que se afirme como centro do poder. residencial. Intervenção das classes dirigentes – que possuem capital. o processo de suburbanização faz desaparecer elementos da realidade urbana tais como ruas. IDEOLOGIA E POLÍTICA DA URBANIZAÇÃO Processo de tomada da cidade pela industrialização.desfiles. A CRISE DA CIDADE Teórica: o conceito de cidade está em curso de transformação e de nova elaboração. termina aí. adoção de modelos pela beleza o que. espaços para encontro. com pobres ocupando térreo de edifícios com pessoas abastadas nos andares superiores. Urbanismo dos administradores ligados ao setor público: Geralmente. transbordando. que faz dos operários proprietários de suas casas. mas seu reinado parece acabar. não deixa seu lugar a uma nova realidade nova e bem definida. é uma técnica de circulação. periferização da cidade e ocupação do centro. dá idéia do seu passado como centro comercial. gerando empregos do capital e investimentos produtivos – e da sociedade. . da comunidade. Em ambos casos..

compondo uma urbanização desurbanizada. . ao redor dos quais se localizam periferias dispersas.Da convergência destes projetos podem surgir novas contradições. todas as condições se reúnem para a exploração das pessoas. mas a constituição de uma estratégia unitária bem sucedida seria irreparável. onde se juntam centros de consumo privilegiados. outros centros de decisão e de poder. Neste contexto. um sistema unitário e um urbanismo total.Urbanismo dos promotores de vendas: Que concebem e realizam para o mercado. que se torna valor de troca. consumidores de produtos e de espaço. TENDÊNCIA GLOBAL ESTRATÉGICA? Estas tendências convergem para uma estratégia global. vendendo agora não mais moradias ou imóveis. como produtores. mas urbanismo.

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