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19-Juventude-Conteporaneidade-Revista-Brasileira-de-Educaçã

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  • Juventude, tempo e movimentos sociais
  • O jovem como modelo cultural
  • Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil
  • Estudos sobre juventude em educação
  • Jovens urbanos pobres
  • Escola noturna e jovens
  • O trabalho, busca de sentido
  • O jovem no mercado de trabalho
  • O trabalho como escolha e oportunidade
  • Juventude temporera
  • De estudantes a cidadãos
  • Jovens dos anos noventa
  • Transgressão, desvio e droga
  • As gangues e a imprensa
  • Juventude(s) e periferia(s) urbanas
  • Espaço Aberto
  • Resenhas
  • Notas de Leitura
  • Resumos/Abstracts
  • Normas para Colaborações
  • Assinaturas

Revista Brasileira de Educação

Número especial Juventude e contemporaneidade Angelina Teixeira Peralva Marilia Pontes Sposito
organizadoras

Mai/Jun/Jul/Ago 1997 Nº 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 Nº 6 ISSN 1413-2478

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Editorial Juventude, tempo e movimentos sociais Alberto Melucci O jovem como modelo cultural Angelina Teixeira Peralva Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil Helena Wendel Abramo Estudos sobre juventude em educação Marilia Pontes Sposito Jovens urbanos pobres: anotações sobre escolaridade e emprego Jerusa Vieira Gomes Escola noturna e jovens Maria Ornélia da Silveira Marques O trabalho, busca de sentido Guy Bajoit, Abraham Franssen O jovem no mercado de trabalho Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins O trabalho como escolha e oportunidade Antonio Chiesi, Alberto Martinelli Juventude temporera: relações sociais no campo chileno depois do dilúvio Gonzalo Falabella

15 Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação

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Revista Brasileira de Educação

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De estudantes a cidadãos: redes de jovens e participação política Ann Mische Jovens dos anos noventa: à procura de uma política sem “rótulos” Anne Müxel Transgressão, desvio e droga Carlo Buzzi As gangues e a imprensa: a produção de um mito nacional Martín Sánchez-Jankowski Juventude(s) e periferia(s) urbanas Eloisa Guimarães

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Short cuts: histórias de jovens, futebol e condutas de risco Luis Henrique de Toledo
Espaço Aberto Quando o sociólogo quer saber o que é ser professor: entrevista com François Dubet Angelina Teixeira Peralva, Marilia Pontes Sposito Resenhas Notas de Leitura Resumos/Abstracts Normas para Colaborações Assinaturas

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Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6

Editorial

Depois de um período de latência, os estudos sobre juventude reemergem lentamente no cenário acadêmico brasileiro. Com este número, a Revista Brasileira de Educação pretende contribuir para a aceleração dessa tendência. Ela nos parece capital, não somente para a compreensão dos problemas específicos de um grupo etário particular — aquele que as definições institucionais em uso situam na faixa dos 15 aos 24 anos —, mas também para a elucidação de alguns dos mais importantes problemas da atualidade. Em um breve lapso de tempo, mudanças cruciais se impuseram a nós. A rapidez com que se processaram tornou nossa sociedade opaca. A tal ponto, que experimentamos hoje uma aguda consciência do novo, e da obsolescência de uma parte pelo menos das categorias através das quais várias gerações de cientistas sociais e educadores pensaram o mundo. O trabalho, a escola, os valores, a política

constituem elementos centrais dessas transformações, que afetam os jovens, mais do que outras categorias da população, simplesmente porque se trata de uma história que está nascendo com eles. São mudanças gerais, que se observam simultaneamente em diversos lugares, embora cada sociedade as construa sob uma forma própria e de acordo com tradições particulares. E posto que se trata de abrir um debate, onde o jovem apareça a um só tempo como objeto de análise, beneficiário de iniciativas da sociedade civil ou de políticas públicas, conforme trata artigo de Helena Abramo, e revelador de tendências emergentes, pareceu-nos importante trazer a público, além de reflexões sobre o caso brasileiro, outras, capazes de apontar o estado da discussão nos demais países. Ora, o paralelismo em cada um dos campos examinados não deixa de surpreender. Historicamente, a escola se construiu contra o trabalho

infantil e juvenil. Hoje, em um momento reconhecidamente marcado pelo prolongamento geral da esperança da vida escolar, o trabalho paradoxalmente já não se apresenta para o jovem apenas como constrangimento do qual cabe liberá-lo, mas como exigência de autonomia individual. Vários artigos — os de Jerusa Vieira, Heloísa Martins, Ornélia Marques, ou de Chiesi e Martinelli — tratam aqui deste tema. Mas vale talvez destacar que as chances de inserção no mercado de trabalho — e, portanto, de construção dessa autonomia — são diversificadas em decorrência de características da economia e do peso do desemprego, dramático como é o caso da Bélgica, analisado por Guy Bajoit e Abraham Franssem, que dispõe de proteção social, mas onde a sombra do Estado obscurece em parte as chances do indivíduo inventar seu próprio futuro. O caráter aleatório, indeterminado e imprevisível,

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que define um modelo emergente de relação com o trabalho, parece definir também uma nova relação com a política. Enquanto os instrumentos clássicos de uma política representativa (partidos e sindicatos) se debilitam, a política é, não obstante, reinventada, conforme sugerem, a partir de experiências diversas, Alberto Melucci, Gonzalo Fallabela, Anne Müxel e Ann Mische. Em um mundo onde a violência se juveniza, não poderíamos deixar de abordar também esse tema. A partir de survey realizado na Itália em 1992, Carlo Buzzi sugere os

limites das condutas transgressivas da juventude. Martín Sánchez-Jankowski aponta, mais além da realidade material das gangues americana, o papel da imprensa na reconstrução pública desse fenômeno. Eloisa Guimarães e Luis Henrique de Toledo abordam, através das galeras cariocas e da violência no futebol, casos que têm despertado a atenção dos brasileiros. Encerra este número, que se pretende apenas um começo, entrevista com François Dubet. Sociólogo travestido de professor de um colégio público da periferia de

Bordeaux, ele quis saber o que é, na prática, ensinar para adolescentes pobres em uma escola pública de massas. Em todos os casos, não se trata aqui de concluir nada. Os temas aqui abordados são questões em aberto, tratadas sob óticas teóricas e pontos de vista diversos. Nossa intenção foi resgatar a relevância dessa área de estudos e contribuir para uma discussão que nos parece importante e que apenas está começando. Angelina Teixeira Peralva Marilia Pontes Sposito

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Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6

Juventude, tempo e movimentos sociais
Alberto Melucci
Universidade degli Studi di Milano

Tradução de Angelina Teixeira Peralva Publicado em: Revista Young. Estocolmo: v. 4, nº 2, 1996, p. 3-14.

As atuais tendências emergentes no âmbito da cultura e da ação juvenil têm que ser entendidas a partir de uma perspectiva macro-sociológica e, simultaneamente, através da consideração de experiências individuais na vida diária. Neste ensaio, tentarei integrar esses dois níveis de análise e proporei que: 1) conflitos e movimentos sociais em sociedades complexas mudam do plano material para o plano simbólico; 2) a experiência do tempo é um problema central, um dilema central; 3) pessoas jovens, e particularmente adolescentes, são atores-chaves do ponto de vista da questão do tempo em sociedades complexas. Da ação efetiva ao desafio simbólico Vivemos em uma sociedade que concebe a si mesma como construída pela ação humana. Em sistemas contemporâneos, a produção material é transformada em produção de signos e de relações sociais. Uma codificação socialmente produzida intervém

na definição do eu, afetando as estruturas biológica e motivacional da ação humana. Ao mesmo tempo, existe uma crescente possibilidade, para os atores sociais, de controlarem as condições de formação e as orientações de suas ações. A experiência é cada vez mais construída por meio de investimentos cognitivos, culturais e materiais. Tais processos, de caráter sistêmico, são diretamente vinculados às transformações, pela produção de recursos que tornam possível a sistemas de informação de alta densidade manterem-se e modificarem-se. A tarefa não é somente da ordem da dominação da natureza e da transformação de matériaprima em mercadoria, mas sim do desenvolvimento da capacidade reflexiva do eu de produzir informação, comunicação, sociabilidade, com um aumento progressivo na intervenção do sistema na sua própria ação e na maneira de percebê-la e representá-la. Podemos mesmo falar de produção da reprodução. Tome-se o exemplo dos processos de socialização: o que foi considerado no passado como transmissão básica de regras e valores da sociedade é

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nas suas pré-condições e raízes. O que eu quero dizer é que sociedade não é a tradução monolítica de um poder dominante e de regras culturais na vida das pessoas. as quais têm que ser confiáveis e capazes de auto-regulação. a desafios face aos códigos dominantes que dão forma à experiência humana? Mais apropriado seria falar de redes conflituosas que são formas de produção cultural. uma diferenciação pronunciada demanda maior integração e intensificação do controle. mas tornam-se pontuais. existe um aumento da capacidade social de ação e de intervenção na ação enquanto tal. e em certa medida. Do ponto de vista do planejamento demográfico e da biogenética o que era considerado reprodução de aspectos naturais de um sistema tornou-se um campo de intervenção social. Nos sistemas comtemporâneos os signos tornaram-se intercambiáveis: o poder apoiase de forma crecente nos códigos que regulam o fluxo de informação. Trata-se de uma lógica de meios: requer aplicação e operacionalização de decisões tomadas em nível de aparelhos anônimos e impessoais. substituíveis. a qual. Mas pode-se continuar a falar de “movimentos” quando a ação se refere a significados. Ao mesmo tempo. eles são cada vez mais temporários e sua ação serve de indicador. Mais uma vez os atores através dos conflitos colocam na ordem do dia a questão dos fins e do significado. cognitivas e motivacionais da ação humana. do comportamento para a pré-condição da ação. das raízes biológicas. mas também se dão conta de que tal possibilidade lhes escapa. de qualquer forma. Isto revela os dois lados da mudança na nossa sociedade. a respeito de seus problemas cruciais. A ação coletiva de tipo antagonista é uma forma. transmite uma mensagem para o resto da sociedade. Sem o desenvolvimento das capacidades formais de aprender e agir (aprendendo a aprender). Os atores nesses conflitos são aqueles grupos sociais mais diretamente expostos aos processos que indiquei. tendo então basicamente um “caráter formal”. A ciência desenvolve a capacidade auto reflexiva de modificação da “natureza interna”. tempo é uma das categorias básicas através da qual nós construímos nossa experiên- 6 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . A maneira pela qual os conflitos se expressam não é. Os indivíduos percebem uma extensão do potencial de ação orientada e significativa de que dispõem. a da ação ‘efetiva’. seja como for. pela sua própria existência.Alberto Melucci agora visto como possibilidade de redefinição e invenção das capacidades “formais” de aprendizado. Mas ao mesmo tempo levantam questões obscurecidas pela lógica dominante da eficiência. e influenciam a seleção de novas elites. Elas afetam as instituições políticas. que afeta suas raízes motivacionais e suas formas de comunicação. Eu chamo essas formas de ação desafios simbólicos. como se fosse uma mensagem enviada à sociedade. Os objetivos instrumentais típicos de ação política não desaparecem. Experiência de tempo Em uma sociedade que está quase que inteiramente construída por nossos investimentos culturais simbólicos. graças a uma regulação capilar de suas capacidades de ação. que se desloca do conteúdo para o código. habilidades cognitivas. e por outro. indivíduos e grupos não poderiam funcionar como terminais de redes de informação. a produção de significados está marcada pela necessidade de controle e regulação sistêmica. porque modernizam a cultura e a organização dessas instituições. criatividade. ao mesmo tempo sujeitas às maiores pressões por conformidade. Os sistemas complexos nos quais vivemos constituem redes de informação de alta densidade e têm que contar com um certo grau de autonomia de seus elementos. Desafios manifestam-se através de uma reversão de códigos culturais. Os conflitos se desenvolvem naquelas áreas do sistema mais diretamente expostas aos maiores investimentos simbólicos e informacionais. ela lembra um campo interdependente constituído por conflitos e continuamente preenchido por significados culturais opostos. Por um lado. com seus próprios modelos de organização e expressão.

emoções) e tempos exteriores marcados por ritmos diferentes e regulado pelas múltiplas esferas de pertencimento de cada indivíduo. Aliás. mas certamente em uma sociedade rural ou mesmo na sociedade industrial do século XIX. essa dilatação do tempo subjetivo induzida pela droga. O tempo da máquina é um produto artificial que tem a objetividade de uma coisa. as estações. A máquina cria uma nova dimensão do tempo: não mais “natural” (isto é. Hoje. o fim da história. Uma experiência comum de dilatação forçada do tempo interno é produzida por drogas. nascimento e morte) e não mais “subjetivo”(isto é. tempo e movimentos sociais cia. marcado somente pelos ciclos do dia e noite. Na situação presente. existiu uma certa integração. em uma íntima relação com o tempo. Há tempos muito difíceis de medir — tempos diluídos e tempos extremamente concentrados. Não há separação entre a droga ritual dos índios americanos e seu papel na vida social e na vida interior dos indivíduos. representa um ator crucial. A segunda característica da experiência moderna de tempo é uma orientação finalista: tempo tem direção e o seu significado só se torna inteligível a partir de um ponto final. O tempo que a sociedade moderna conhece é medido por máquinas: relógios são máquinas por excelência. no qual o tempo era considerado em termos de duas referências fundamentais. o tempo se torna uma questão-chave nos conflitos sociais e na mudança social. Pense na multiplicidade de tempos que imagens (televisão. Em sistemas mais altamente diferenciados. Tempo é uma medida de quantidade: nos ritmos diários de trabalho como nos balancetes anuais das empresas. Tais mudanças refletem tendências amplas no sentido de uma extensão artificial das dimensões subjetivas do tempo por meio de estímulos particulares ou de situações construídas.Juventude. a máquina estabelece uma continuidade entre tempo individual e tempo social. a descontinuidade tornou-se uma experiência comum. interpretando e traduzindo para o resto da sociedade um dos seus dilemas conflituais básicos. a ênfase com que a sociedade industrial tratou a história. deriva de um modelo de tempo que pressupõe uma orientação para um fim: progresso. e entre os vários níveis dos tempos sociais. através do dinheiro e do mercado. riqueza das nações ou a salvação da humanidade (um tempo linear que se move em direção a um fim é a última herança dessacralizada de um tempo cristão). interrupções mais definidas que no passado — muito mais perceptíveis do que em estruturas sociais relativamente homogêneas — entre os diferentes tempos em que nós vivemos. Existe particularmente uma clara separação entre tempos interiores (tempos que cada indivíduo vive sua experiência interna. biológica e culturalmente. é parte de uma ordem sagrada e contribui para a reafirmação de um equilíbrio entre a vida social e o espaço assegurado ao indivíduo no grupo. propaganda) introduzem na nossa vida diária. adquire sentido em relação ao ponto final: todas as passagens intermediárias são medidas em relação com o final do tempo. no entanto. o extremo exemplo das drogas representa um sinal dramáti- Revista Brasileira de Educação 7 . Nas nossas sociedades. Existe então uma unidade e uma orientação linear do tempo. uma certa proximidade entre experiências subjetivas e tempos sociais. A própria idéia de um curso da história. em qualquer cálculo pautado na racionalidade instrumental. revolução. Isto também significa separações. Drogas ocupam um lugar importante em sociedades tradicionais. Viemos de um modelo de sociedade. É também uma medida universal que permite comparação e troca de desempenhos e recompensas. o que o indivíduo experimenta. Os tempos que nós experimentamos são muito diferentes uns dos outros e às vezes parecem até opostos. gráficos. podemos perceber nossa distância com respeito a esse modelo porque a diferenciação das nossas experiências do tempo está aumentando. afeições. ligado à percepção e experiência dos atores humanos). A presença dessas diferentes experiências temporais não é novidade. Essa “fratura” ritual permitida. o capitalismo industrial. e o que ocorre nele. mas nos limites de uma ordem que lhes atribui uma função específica. A primeira é a máquina. A juventude que se situa.

Adolescência e tempo Adolescência é a idade na vida em que se começa a enfrentar o tempo como uma dimensão significativa e contraditória da identidade. 1980. 1978. Fabbrini & Melucci. o mais significativo e ambíguo sintoma de diferença entre tempo externo e tempo interno. um aumento de oportunidades artificialmente construídas para viver e experimentar emoções livres dos limites do tempo social: desde o turismo exótico ou experiências de “liberação” do corpo até os paraísos totalitários das seitas neomísticas. Ricci Bitti et al. 1989). onde a comida perde qualquer referência a ciclos sazonais. A maneira como a experiência do tempo é vivenciada vai depender de fatores cognitivos. 1979. A juventude. A diferenciação do tempo produz alguns problemas novos. Agora todos os outros tempos da natureza estão perdendo sua consistência. Hopkins. Schave. A ambivalência desses fenômenos deve ser sublinhada. 1988. Esta elementar observação é suficiente para ilustrar o entrelaçamento de planos temporais e a importância da dimensão do tempo nesta fase da vida (Levinson. 1983. Savin Williams. Aumenta. ou em nossas férias. um tempo de muitas histórias relativamente independentes. que nos oferecem um sol tropical ou neve durante todo o ano. o grupo que os torna visíveis para a sociedade como um todo. Cavalli. Offer. 1979. 1987. acima de tudo. Por último. 1996a. A adolescência. o que faz do presente uma medida inestimável do significado da experiência de cada um de nós.. 1988 e 1991). embora em uma escala menos dramática. Ricolfi & Sciolla. se a experiência do envelhecimento está sempre relacionada com o tempo. 1983. Pesquisas psicológicas e psico-sociológicas têm tido uma atenção toda especial durante os últimos anos para com a perspectiva temporal do adolescente (Tromsdorff et al. 1985. por causa de suas condições culturais e biológicas. tornando-se produtos de intervenção médica e social. emocionais e motivacionais os quais governam o modo como o indivíduo organiza o seu “es- 8 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Csikzentmihalyi. um campo cultural e conflitivo no qual está em jogo o próprio significado da experiência tem- poral. inaugura a juventude e constitui sua fase inicial. Mas existe também. A definição de tempo torna-se uma questão social. é o grupo social mais diretamente exposto a estes dilemas. dentro da unidade de uma biografia individual e de um “sujeito” da ação dotado de identidade (Melucci. Eles são sinais de uma tensão não resolvida entre os múltiplos tempos da experiência cotidiana. Até o nascimento ou a morte. Como medir o tempo? Quando será encontrado o significado ‘certo’ para o tempo individual e coletivo? Como podemos preservar nosso passado e preparar o nosso futuro em sociedades complexas? Tais questões sem respostas são alguns dos dilemas básicos com os quais se confronta a vida humana em sociedades complexas. tanto em um nível coletivo.Alberto Melucci co. Nuttin. eventos por excelência do tempo natural estão perdendo sua natureza de necessidade biológica. é durante a adolescência que essa relação se torna consciente e assume conotações emocionais. Não há dúvida que. ou melhor.. 1987. 1985. 1980 e 1990. um tempo múltiplo e descontínuo indubitavelmente revela seu caráter ‘construído’ de produto cultural. 1991). Então é também um tempo sem um final definitivo. Além disso. Palmonari. 1981 e 1988. A experiência das estações se dissolve nas mesas de nossas salas de jantar. na qual a infância é deixada para trás e os primeiros passos são dados em direção à fase adulta. A fábrica industrial já cancelou o ciclo natural de dia e noite. um tempo diferenciado é cada vez mais um tempo sem uma história. Uma análise em termos de perspectiva temporal considera o tempo como um horizonte no qual o indivíduo ordena suas escolhas e comportamento. Mas existe também uma acentuação da necessidade de integrar essas diferenças. em primeiro lugar. construindo um complexo de pontos de referência para suas ações. a dificuldade em reduzir tempos diferentes para a homogeneidade de uma medida geral. Anatrlla. quanto. Montagnar. Coleman.

amplia o limite do imaginário e incorpora ao horizonte simbólico regiões inteiras de experiência que foram previamente determinadas por fatores biológicos. atitudes relacionadas com várias fases temporais podem ser levadas em consideração (ex. possibilidades amplas. acima de tudo. que nossa cultura engendra. ser jovem parece significar plenitude como o oposto de vazio. porque a biografia dos dia de hoje tornou-se menos previsível. a juventude não é mais somente uma condição biológica mas uma definição cultural. Tais resultados de pesquisas sugeririam que a perspectiva temporal do adolescente constitui um ponto de observação favorável para o estudo da maneira pela qual nossa cultura está organizando a experiência do tempo. mobilidade. satisfação ou frustração. participação em grupos.Juventude. perspectiva ampla ou limitada. físicos ou materiais. saturação de presença. a relação entre eventos externos e internos. por outro lado. e os projetos de vida passaram mais do que nunca a depender da escolha autônoma do indivíduo. ou o grau de extensão assumido pelo horizonte temporal para cada indivíduo (ex. preferência por uma orientação direcionada para uma ou outras fases temporais). Para o adolescente moderno. abertura ou fechamento com respeito ao passado. a experiência é cada vez menos uma realidade transmitida e cada vez mais uma realidade construída com representações e relacionamentos: menos algo para se “ter” e mais algo para se “fazer”. tempo e movimentos sociais tar na terra”. a relativa incerteza da idade é multiplicada por outros tipos de incerteza que derivam simplesmente dessa ampliação de perspectivas: a disponibilidade de possibilidades sociais. ou a direção que cada pessoa atribui para a sua própria experiência do tempo (ex. Em comparação com o passado. abertura para mudança todos os atributos tradicionais da adolescência como fase de transição. a qual era determinada pelo nascimento e se tornava previsível pela história da família e o contexto social. Nesse sentido. Nesse sentido. Uma perspectiva temporal aberta corresponde a uma forte orientação para a auto-realização. 1991). guerra. funcionam como linguagens temporárias e provisórias com as quais o indivíduo se identifica e manda sinais de reconhecimento para outros. a tendência aponta no sentido de uma redução dos limites da memória e de se considerar o passado como um fator limitativo. colapso econômico). Ziehe. gêneros musicais. presente ou futuro). parecem ter se deslocado bem além dos limites biológicos para tornarem-se conotações culturais de amplo significado que os indivíduos assumem como parte de sua personalidade em muitos estágios da vida (Mitterauer. linguagem e regras. A vida social é hoje dividida em múltiplas zonas de experiência. Complexidade e diferenciação parecem abrir o campo do possível a tal ponto que a capacidade individual para empreender ações não se mostra à altura das potencialidades da situação. Nas sociedades do passado. a incerteza quanto ao futuro podia ser o resultado de eventos aleatórios e incontroláveis (epidemia. mas raramente envolvia a posição de cada um na vida. o grau de investimento emocional em várias situações — tudo se torna meio de organizar a própria biografia e definir a própria identidade. espaço e cultura. transitoriedade. Incerteza. O adolescente percebe os efeitos dessa ampliação de possibilidades da maneira mais direta atra- Revista Brasileira de Educação 9 . contínua ou fragmentada). cada qual caracterizada por formas específicas de relacionamento. Na opinião que prevalece nos dias de hoje. A perspectiva temporal do adolescente tornouse um tema interessante de pesquisa. Estilos de roupas. A pesquisa indica várias tendências. A organização de eventos e sua seqüência. de fato. a adolescência parece estender-se acima das definições em termos de idade e começa a coincidir com a suspensão de um compromisso estável. A adolescência é a idade em que a orientação para o futuro prevalece e o futuro é percebido como apresentando um maior número de possibilidades. a variedade de cenários nos quais as escolhas podem ser situadas. Esse excesso de possibilidades. Nesse sentido. resistência contra qualquer determinação externa dos projetos de vida e desejo de uma certa variabilidade e reversibilidade de escolha. 1986. com um tipo de aproximação nômade em relação ao tempo. Na sociedade contemporânea.

Meredith. Mas esta des-linearização do tempo revela a singularidade da experiência individual. uma chance fantasma. Não somente ele não retorna em um ciclo repetitivo sem fim. tudo pode ser tentado). a pluralidade das participações. 10 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . O passo da mudança. Sem atingir-se o limite não pode haver experiência ou comunicação. Adolescentes pertencem a uma pluralidade de redes e de grupos. como reconhecimento daquilo que fomos e do que podemos nos tornar. O que acontece com a experiência? Ultrapassada e invadida pelo apelo simbólico da possibilidade. Consciência do limite. Selvini Palazzoli. a reversibilidade de escolhas e decisões (tudo se pode mudar). relações interpessoais. ecológica) torna-se uma possibilidade. a repetição e a perda do senso de realidade. Noonan. 1976. 1975. Na experiência dos adolescentes de hoje. 1984. A possibilidade de definir uma biografia contínua torna-se cada vez mais incerta. não pode haver ação dotada de significado ou possibilidade de manter uma relação com outros. as novas patologias dos adolescentes. a substituição de constructos simbólicos pelo conteúdo material da experiência (tudo pode ser imaginado). sem raízes. o cansaço produzido pelo esforço para ultrapassá-lo. sem a consciência da perda da existência do outro. a percepção do que está faltando — sentido de perda — criam raízes para que se presencie como algo possível a aceitação do presente e o planejamento do futuro: como responsabilidade para consigo mesmo e para com outros. na sua dureza. O tempo pode se tornar um invólucro vazio. A quantidade de informação que eles mandam e recebem está crescendo em um ritmo sem precedentes. Para os adolescentes de hoje a experiência de tempo como possibilidade. a abundância de possibilidades e mensagens oferecidas aos adolescentes contribuem todos para debilitar os pontos de referência sobre os quais a identidade era tradicionalmente construída. mas também como limitação. isto é. lazer e tempo de consumo geram mensagens para os indivíduos que por sua vez são chamados a recebê-las e a respondê-las com outras mensagens. ela ameaça se perder em um presente ilimitado. nem em um destino final da história.1989).Alberto Melucci vés de uma expansão dos campos cognitivo e emocional (tudo pode ser conhecido. produz frustração. 1985. a plenitude e capacidade de realização parecem reinar. Copley. o ambiente educacional ou de trabalho. uma espera sem fim por Godot. Os meios de comunicação. é uma maneira de salvaguardar a continuidade e a duração. Um tempo de possibilidades excessivas torna-se possibilidade sem tempo. Nesse sentido. Presenças como a capacidade de atribuir sentido às próprias ações e de povoar o horizonte temporal com conexões entre tempos e planos de experiências diferentes. o significado do presente não se encontra no passado. Os novos sofrimentos. O tempo individual e cada momento dentro dele não se repete nunca. como dimensões que compõem o estar-na-terra. a necessidade de testar limites tornou-se uma condição de sobrevivência do sentido. nós nos deparamos com o vazio. A experiência se dissolve no imaginário. Entrar e sair dessas diferentes formas de participação é mais rápido e mais freqüente do que antes e a quantidade de tempo que os adolescentes investem em cada uma delas é reduzida. são frágeis e pouco sólidas. o tempo perde sua finalidade linear e a catástrofe (nuclear. com pouca esperança para o futuro como todos os produtos do desencanto. Lawton. simplesmente um mero fantasma da duração. uma maneira de evitar que o tempo seja destruído em uma seqüência fragmentada de pontos. mas o teste de realidade.1986. devido à uma memória pobre. outra finalidade senão aquela que os indivíduos e grupos são capazes de produzir para si mesmos. mas tampouco será portador de outro sentido. estão relacionadas com o risco de uma dissolução da perspectiva temporal (Laufer. Exatamente ali onde a abundância. uma soma de momentos sem tempo. Continuidade através da mudança Está agora claro que a maneira pela qual os adolescentes constróem sua experiência é mais e mais fragmentada. tédio e perda de motivação.

o tempo como uma flecha linear ou como campo de experiência reversível e multidirecional. 1996b). Novamente. 1981. Desafiando a definição dominante do tempo. Kett. Revertendo a definição adulta do tempo. Tornar o poder visível é a mais importante tarefa na ordem dos conflitos em nossa sociedade. Isso também significa acalentar o presente como experiência única.Juventude. eles apelam à sociedade adulta para a sua responsabilidade: a de reconhecer o tempo como uma construção social e de tornar visível o poder social exercido sobre o tempo. Deve ao invés disto ser baseado na capacidade interior de “mudar a forma” de redefinir-se a si mesmo repetidas vezes no presente. tempo e movimentos sociais Nomadismo e metamorfose parecem constitutir respostas para essa necessidade de continuidade através da mudança. 1985. A definição e o reconhecimento de limites pessoais e externos é a chave para se mover em qualquer direção: através da comunicação com o exterior e conformidade com as regras do tempo social ou através de uma voz interna que fala com cada pessoa em sua linguagem secreta. os dilemas do tempo em uma sociedade complexa: o tempo como medida de mudança para nossas sociedades que necessitam prever e controlar seu desenvolvimento. o questionamento sobre limites torna-se um problema fundamental para os adolescentes de hoje. Eles revelam o poder escondido atrás da neutralidade técnica da regulação temporal da sociedade. 1987) eles próprios expostos a uma pressão crescente da mudança. Ação comunicativa O antagonismo dos movimentos juvenis é eminentemente comunicativo do ponto de vista de sua natureza (Melucci. como a cadeia de possibilidades torna-se muito ampla comparada com oportunidades atuais de ação e experiência. os adolescentes sentem que a identidade deve ser enraizada no presente. as metamorfoses da vida pessoal. para abraçar um campo amplo de experiências que não pode ser confinado dentro dos rígidos limites de um pensamento racional. Somente assim um ciclo de abertura e fechamento pode ser estabelecido. Eles devem ser capazes de abrir e fechar seus canais de comunicação com o mundo exterior para manter vivos seus relacionamentos. através de uma oscilação permanente entre os dois níveis de experiência. Tais passagens marcam a evolução dinâmica. grupo ou cultura definidos. eles precisam de novas capacidades para contatos imediatos e intuitivos com a realidade. Eles vivem para todos como receptores sensíveis e perceptivos da cultura contemporânea. Considerando o declínio dos ritos de passagem que outrora marcavam os limites entre infância e vida adulta (Van Gennep. e no interior da qual cada um se realiza. Aprendendo como empreender estas passagens — um problema de escolha. 1989. incerteza e risco — os adolescentes reativam no resto da sociedade a memória da experiência humana dos limites e da liberdade. E fazendo isto. que não pode ser reproduzida. Ainda mais. os adolescentes simbolicamente contestam as variáveis dominantes de organização do tempo na sociedade. sem serem engolidos por uma vasta quantidade de signos. A unidade e continuidade da experiência individual não pode ser encontradas em uma identificação fixa com um modelo. a juventude contemporânea tem que encontrar novos caminhos para vivenciar a experiência fundamental dos limites. Nos últimos trinta anos a juventude tem sido um dos atores centrais Revista Brasileira de Educação 11 . Essas exigências alteram os limites entre dentro e fora e apontam para a necessidade de uma maior consciência de si mesmo e responsabilidade para um contato mais estreito com a experiência íntima de cada um. os adolescentes anunciam para o resto da sociedade que outras dimensões da experiência humana são possíveis. 1977) e sendo exposto a um novo relacionamento com os adultos (McCormack. revertendo decisões e escolhas. Desafiando a definição dominante de tempo Para lidar com tantas flutuações e metamorfoses. o tempo como definição pontual da identidade indivídual e coletiva. Herbert.

Nesses sistemas cada vez mais baseados em informação. dispersos. A ação dos movimentos como símbolo e como comunicação faz implodir a distinção entre o significado instrumental e expressivo da ação. fragmentados. a ação coletiva particularmente aquela que envolve os jovens oferece outros códigos simbólicos ao resto da sociedade — códigos que subvertem a lógica dos códigos dominantes. os movimentos funcionam para o resto da sociedade como um tipo específico de veículo. cuja função principal é revelar o que um sistema não expressa por si mesmo: o âmago do silêncio. Nestes três casos. Movimentos são meios que se expressam através de ações. Pelo que fazem e a maneira como fazem. como os movimentos juvenis se batem para subverter os códigos. finalmente. os movimentos anunciam que outros caminhos estão abertos. Ela pode se combinar com as duas formas acima (movimentos contemporâneos de juventude fazem grande uso das formas de representação como o teatro. da violência. Novas redes Movimentos juvenis tomam a forma de uma rede de diferentes grupos. posto que. Isto também significa afirmar que a solução para o problema relativo à estrutura do poder não é a única possível e mais do que isso. c) Representação: aqui a mensagem toma a forma de uma reprodução simbólica que separa os códigos de seus conteúdos os quais habitualmente os mascaram. nos movimentos contemporâneos. que eles não usem slogans ou mandem mensagens. elas dividem características comuns que indicam um padrão emergente de movimentos sociais em sociedades complexas. através das mobilizações cívicas nos anos 90 como o anti-racismo no norte da Europa. pós-modernas. através do papel central da juventude nas mobilizações pacifistas e ambientais dos anos 80. Eles são um laboratório no qual novos modelos culturais. Mas sua função enquanto intermediários entre os dilemas do sistema e a vida diária das pessoas manifestase principalmente no que fazem: sua mensagem principal está no fato de existirem e agirem.Alberto Melucci em diferentes ondas de mobilização coletiva: refiro-me a formas de ação inteiramente compostas de jovens. b) Paradoxo: aqui a autoridade do código dominante revela-se através do seu exagero ou da sua inversão. E. A batalha pela mudança já está encarnada na vida e estrutura do grupo. os centros sociais juvenis em diferentes países europeus. formas de relaciona- 12 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . a mídia). que existe sempre outra saída para o dilema. A profecia é um exemplo notável da contradição a que me referi. oculta os interesses específicos de um núcleo de poder arbitrário e opressor. Não é que eles não falem palavras. o vídeo. porque a ação. Todas estas formas de ação envolvem pessoas jovens como atores centrais. do poder arbitrário que os códigos dominantes sempre pressupõem. os movimentos de ocupação de imóveis. os resultados da ação e a experiência indivídual de novos códigos tendem a coincidir. Começando pelo movimento estudantil dos anos 60 é possível traçar a participação juvenil em movimentos sociais através das formas ‘sub-culturais’ de ação coletiva nos anos 70 como os punks. É possível identificar três modelos de ação comunicativa: a) Profecia: portadora da mensagem de que o possível já é real na experiência direta dos que o proclamam. através de ondas curtas mas intensas de mobilização de estudantes secundaristas dos anos 80 e começo dos 90 (na França. Espanha e Itália. Profetas sempre falam em nome de terceiros. mesmo se apresentam diferenças históricas e geográficas com o passar das décadas. imersos na vida diária. também. em lugar de produzir resultados calculáveis. que as necessidades dos indivíduos ou grupos não podem ser reduzidas à definição dada pelo poder. muda as regras da comunicação. mas não podem deixar de apresentar-se a si mesmos como modelo da mensagem que proclamam. assim como à participação de pessoas jovens em mobilizações que também envolveram outras categorias sociais. eles difundem culturas e estilos de vida que penetram no mercado ou são institucionalizados. Nesse sentido. por exemplo) e. França e Alemanha ou o movimento da anti-máfia na Itália.

A natureza precária da juventude coloca para a sociedade a questão do tempo. Sua voz é ouvida com dificuldade porque fala pelo particular. mas porque assumem culturalmente a característica juvenil através da mudança e da transitoriedade. os atores considerados não podem ser estáveis. que toma a forma de um desafio cultural aos códigos dominantes. A hipótese de conflitos sistêmicos antagônicos pode se manter se preservamos a idéia de um campo sistêmico ou de um espaço no qual os atores podem variar. formando as novas elites. como vimos. modernizando seu pensamento e organização. para dispor de um tempo que não se pode medir somente em termos de objetivos instrumentais. Os jovens se mobilizam para retomar o controle sobre suas próprias ações. desintegração social. envia sua mensagem. Objetivos com cer- teza existem. O desafio vem através da inversão de códigos culturais e é por isso eminentemente “formal“. Se compararmos agora informações relativas a grupos de jovens em diferentes países europeus e as diferentes ondas de mobilização mencionadas acima não é difícil encontrar elementos deste sistema de ação. Evapora-se na pura exibição de signos (variedade de tribos metropolitanas) produz a profissionalização pelo mercado de recursos culturais inovadores e. etc) a expressiva marginalidade da contra-cultura. Estas redes emergem somente de modo esporádico em resposta a problemas específicos. da doença mental. Tais formas de ação exercem efeitos sobre instituições. tornando provisórias decisões profissionais e existenciais.Juventude. do desabrigo. Mas ao mesmo tempo. anarquistas. exigindo o direito de definirem a si mesmos contra aos critérios de identificação impostos de fora. a tentativa de controlar uma parte das organizações políticas e de transformar grupos juvenis em agências para políticas juvenis e uma orientação conflituosa. nos ordenadores dos fluxos de informação. Segundo. Os movimentos de jovens dividem-se entre o radicalismo político e a violência de alguns grupos extremistas (às vezes grupos de direita. Enquanto nós aplicamos e executamos o que um poder anônimo decretou. Em um ambiente que favorece a “pobreza” de recursos internos (desemprego. declina na marginalidade das drogas. As pessoas não são jovens apenas pela idade. numerosas dimensões. os atores vivem as exigências contraditórias do sistema como fonte de conflitos. imigração) este último componente não pode ser bem sucedido na combinação com outros e o “movimento” juvenil se divide. Em sistemas onde os signos tornam-se intercambiáveis o poder reside nos códigos. as formas empíricas de mobilização contêm. mas eles são esporádicos e até certo ponto substituíveis. os jovens perguntam para onde estamos indo e por quê. no entanto. suscitam questões para as quais não há espaço. não é a da ação “efetiva”. O campo é definido pelos problemas e diferentes os atores que o ocupam expõem para toda a sociedade questões relacionadas com o sistema na sua totalidade e não só com um grupo ou uma categoria social. pela sua própria existência. porque os meios através dos quais se criam e distribuem na sociedade possibilidades de identificação estão continuamente mudando e operando em campos variados. Se os conflitos se expressam em termos de recursos simbólicos. às vezes revolucionários. Tratase de uma mudança morfológica que nos força a redefinir as categorias analíticas de atores coletivos. A ação coletiva antagonista é uma “forma” que. pela maneira como se estrutura. tempo e movimentos sociais mento. A juventude deixa de ser uma condição biológica e se torna uma definição simbólica. pontos de vista alternativos são testados e colocados em prática. não o fazem durante a vida inteira e não estão permanentemente enraizados em uma categoria social única. de forma ainda mais trágica. A maneira pela qual o conflito se manifesta. contra sistemas de regulação que penetram na área da “natureza interna”. Evidentemente. Primeiramente. Mas através de certos aspectos da ação a juventude sinaliza um problema relacionado não somente com as suas próprias condições de vida mas também com os meios de produção e distribuição de recursos de significado. Quando a demo- Revista Brasileira de Educação 13 . Revela-se pelo modelo da condição juvenil um apelo mais geral: o direito de fazer retroceder o relógio da vida.

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A criança se afastava rapidamente de seus pais.” A noção de aprendizado. ele distingue também (Ariès. como objetos de uma ação educativa. 1973.) asseguradas pela família. ou seja naquilo que ela teve de intrinsecamente educativo. A perspectiva de Ariès não é evolucionista.. 6) o tipo particular de vínculo que liga adultos e crianças nas eras moderna e pré-moderna. do ponto de vista do que ela implicou em termos de ação voluntária sobre os costumes e os comportamentos. durante séculos. prefácio. conforme relembram François Dubet e Danilo Martuccelli (1996) ao comparar o ideal educativo da III República na França a uma paidéia funcionalista. a qual inspirou toda uma série de trabalhos capitais sobre a ordem moderna. sublinhada no texto original que acabo de citar. e de forma mais geral a socialização da criança não eram (. École des Hautes Études en Sciences Sociales Da cristalização histórica das idades da vida Nós sabemos hoje que as idades da vida. nem controladas por ela.. Ao afirmar o caráter tardio da emergência do sentimento de infância e sua natureza eminentemente moderna. Universidade de São Paulo Centre d’Analyse et d’Intervention Sociologiques. O trabalho de Philippe Ariès (1960) constitui provavelmente o marco mais importante no sentido dessa tomada de consciência. Ele aprendia as coisas que era necessário saber.O jovem como modelo cultural Angelina Peralva Faculdade de Educação. opõe-se à de socialização. portanto. já estivessem presentes na antigüidade clássica. datado. função da especificidade biológica da fragilidade infantil) se opõe ao caráter voluntário da ação socializadora característica da modernidade. e inseparável do lento processo de constituição da modernidade. ajudando os adultos a fazê-las. a educação foi assegurada pelo aprendizado graças à coexistência da criança ou do jovem e dos adultos. não são fenômeno puramente natural. Ele sabe e afirma que a especificidade da juventude foi reconhecida em outros tempos Revista Brasileira de Educação 15 . mas social e histórico. e pode-se dizer que. do mesmo modo como o caráter inespecífico da relação entre adultos e crianças na Idade Média (quase que reduzida à sua dimensão biológica. embora ancoradas no desenvolvimento bio-psíquico dos indivíduos. Pouco importa que a consciência da especificidade da infância e da juventude. “A transmissão de valores e saberes.

publicado pela primeira vez em 1939. indissociavelmente. Também para Foucault educação e ordem são faces complementares do dispositivo intrínseco à racionalidade moderna. 70) remete a um período situado entre 1525 e 1550 o aparecimento do termo “civilidade” em sua acepção moderna e atribui sua difusão ao imenso sucesso de público encontrado por um pequeno tratado. A criança se torna objeto de atenção particular e alvo de um projeto educativo individualizado. 78. de cima para baixo. primeiro. como nos mostram todos esses autores.Angelina Peralva e em outras sociedades. Supõem. diz Ariès (1973). como parte de uma cosmogonia. As técnicas disciplinares. e uma redefinição do lugar da criança no interior da família. Escolarização e sentimento familiar se desenvolvem Uma representação natural das idades da vida. Se a difusão é lenta e progressiva. no século XIX. Nesse momento. entre elas e sobretudo a educação. múltiplas dimensões da proteção do indivíduo. alguns anteriores. e cujo autor é Erasmo de Rotterdam: tratado que. Ela emerge. anteriores à era medieval. 1 16 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . justamente intitulado “as idades da vida”. que a escola condensa (1975). Mas ao opor esses dois momentos da história ocidental. que a racionalidade moderna se torna também imperativo universal. é também porque esse problema durante muito tempo escapa à esfera da ação do Estado. precede essa representação propriamente social e é discutida por Ariès (1973) no primeiro tópico do capítulo dedicado à análise da emergência do sentimento de infância. aos processos históricos de construção da democracia. a mistura e a indiferenciação dos grupos etários. instituição definitivamente obrigatória e universal. de forma voluntária e sistemática. com a escolarização. escapando à iniciativa aleatória e intermitente da sociedade civil (Furet et Ozouf. mais do que nunca. Interessa menos aqui retraçar as diferentes etapas dessa história (que é parte integrante do saber contemporâneo sobre a ordem moderna) que relembrar que a difusão desses novos mecanismos de ordenamento do mundo ocorre. a civilização dos costumes é um elemento crucial constitutivo de uma ordem moderna pacificada. Nesse sentido. Sabemos o quanto. do ponto de vista da particularidade de suas atitudes com respeito à infância e à juventude. o período áureo da experiência moderna é sem dúvida a era industrial. transformações essenciais no âmbito da família e em primeiro lugar da família burguesa. publicado pela primeira vez em 1530. que supõe a separação entre seres adultos e seres em formação. revela também a particularidade do vínculo social através do qual a juventude aparece como configuração própria da experiência moderna. se as camadas populares durante muito tempo escapam às injunções da racionalidade moderna. com uma mais nítida separação entre o espaço familiar e o mundo exterior. De civilitate morum puerilium. Em seu estudo sobre a civilização dos costumes. a cristalização social das idades da vida se especifica como elemento da consciência moderna1 . para Elias. 1977). ao contrário. outros posteriores a Ariès. do mesmo modo como o aprendizado supunha. tem por objeto a educação dos jovens. porque se vincula também. como seu nome indica. é quando a escola se torna. que de certo modo qualifica o lugar que ela virá posteriormente a ocupar na sociedade adulta. Também a consciência da infância e da puberdade são inseparáveis da consciência da sexualidade infantil e juvenil (sexualidades desviantes) e da constituição de um dispositivo científico — dispositivo de saber — que pretende produzir efeitos de ordenamento sobre os costumes e os comportamentos (1976). Textos básicos do pensamento contemporâneo. se esta se expressa durante muito tempo apenas através de transformações imprecisas e fragmentárias no plano da mentalidade das elites. da aristocracia e da burguesia em direção às classes populares. Os processos através dos quais ocorre a cristalização social das idades da vida são múltiplos e convergentes. podem ser relidos à luz dessa perspectiva aberta por ele. situam-se no âmago dos processos sociais constitutivos de um aparelho de poder renovado. Norbert Elias (1973. É a partir do momento em que o Estado toma a si.

ela termina por se tornar. as modalidades tradicionais de aprendizado se restringem e o aprendizado de modo geral se decompõe. indiscretos. Revista Brasileira de Educação 17 . as formas de inserção da criança no mundo do trabalho se degradam. e sobretudo a partir do segundo pós-guerra. À medida que a escolarização se difunde. em Paris. o aprendizado se faz sem contrato e na prática. consolida o processo de escolarização das crianças das classes populares. grosseiros e algumas vezes insolentes’. era praticado. mas uma categoria administrativa — vale dizer jurídica e institucional. Ao mesmo tempo. 255). sem tradição de ofício. que passa cada vez mais a depender do Estado enquanto mediador dos dispositivos que lhe asseguram a reprodução social. da mesma forma que no passado. ao fim do século XIX. Um desses elementos é a generalização do trabalho assalariado na manufatura e na indústria nascente. Esses aprendizes de um gênero novo. a criança só efetua as tarefas subalternas que um aprendiz outrora teria considerado indignas dele: é chamada burrinho de carga. forma geral de iniciação ao trabalho que selava precocemente o fim da infância e marcava a entrada na vida adulta.O jovem como modelo cultural como dimensões complementares e contraditórias da experiência individual: por um lado. em todas as camadas da população. ainda que abrigando fortes diferenças sociais no seu interior (Touraine. contribuindo com sua lógica própria para a modulação social das idades da vida. a experiência das sociedades industriais no século XIX introduz elementos novos que aceleram essas transformações históricas. Mais do que isso. ao longo do tempo. Desde então a regulamentação e a limitação do trabalho das crianças transformam-se em objetivo comum do discurso higienista das elites (Perrot. mais essa assertiva é verdadeira. são freqüentemente apresentados na literatura patronal como ‘indóceis. Primeiro. assíduos. mas sobretudo redefinem o processo social de cristalização das idades. o que é o caso na experiência francesa. ao passo que seus antecessores eram ‘exatos. O aprendizado. mentirosos. 1993).” Por outro lado. enviar a criança ao colégio traduz a atenção particular de que ela passa a ser objeto no seio da família. Desse ponto de vista também. tornando-as objeto de uma ação socializadora sistemática por parte do Estado. que altera de maneira importante a organização familiar e os modos de vida no seio das camadas populares. “Na maior parte dos outros ofícios (a tipografia por exemplo). Quanto mais importante é a presença do Estado na esfera educativa. Marie-France Morel (1977. 21-22) observa que. essa separação necessária é contraditória com o sentimento de família nascente e com a nova importância assumida pelos vínculos afetivos na estruturação das relações familiares. ela tende a subtrair segmentos progressivamente mais amplos da população infantil às injunções do trabalho. Na França. As crianças percebem uma remuneração — coisa que os pais apreciam — mas não recebem uma verdadeira formação profissional. por outro. institucionalizando as diferentes fases da vida por efeito da ação do Estado. A escolarização avança contra o trabalho. só os ofícios de maior prestígio e melhor remunerados continuam a praticá-lo. a lei obriga os patrões a oferecerem educação a seus jovens trabalhadores. 1993). cuidadosos e habilidosos em seu ofício’. Em segundo lugar. a lei de 1841 limita a oito horas o trabalho das crianças entre 8 e 12 anos. o verdadeiro “suporte” da família contemporânea (Singly. redimensionando-as. a 12 horas o dos adolescentes entre 12 e 16 anos. a cristalização social das idades supõe uma progressiva exclusão da criança do mundo do trabalho. Destacando sua presença maciça na manufatura e na indústria. diz Ariès (1973. que rapidamente tornou indispensável a contribuição do magro salário infantil (um terço a um quarto do salário adulto). a definição da infância e da juventude enquanto fases particulares da vida torna-se não apenas uma construção cultural. Nesse sentido. Marie-France Morel explica isso como o resultado da miséria das famílias populares urbanas. Mas é a Terceira República que. durante o Segundo Império. retardando a entrada na idade adulta. 1977) e do movimento operário nascente.

ela toma partido e formula sua inquietação: “O testamento. que diz ao herdeiro aquilo que será legitimamente seu. na verdade o primeiro ensaio da coletânea.) A especificidade portanto da educação no mundo moderno é que ela é e deve ser intrinsecamente conservadora. eles assumem a responsabilidade pela vida e pelo desenvolvimento da criança. que afirma. mas tão somente o devir eterno do mundo e dentro dele o ciclo biológico dos seres vivos. tradução minha a partir da edição francesa. mas também pela continuidade do mundo. definindo o lugar no mundo de cada idade da vida. tinham forte apelo entre a juventude e eram “especificamente antiburguesas”. as três. ainda que de maneiras diversas. conforme propôs David Matza (1961). umas em relação às outras. parte considerável da sociologia da juventude constituir-se-á então como uma sociologia do desvio: jovem é aquilo ou aquele que se integra mal. entre uma orientação definida pela lógica da modernização (portanto. Não por acaso. através da afirmação conquistadora da renovação enquanto valor) e o fundamento normativo da ordem moderna. embora a tradição boêmia. Durkheim (s. os pais não somente deram a vida a seus filhos. a primazia do passado enquanto elemento de significação do futuro. para elucidar a metáfora. Já no prefácio de Between Past and Future.” (1972. sobre as gerações que não se encontram ainda preparadas para a vida social. de socialização. atribui um passado ao futuro. que resiste à ação socializadora. em sua análise das tradições ocultas da juventude. que indica onde se encontram os tesouros e qual é seu valor — tudo indica que nenhuma continuidade no tempo pode ser definida e conseqüentemente não é possível existir. humanamente falando. sem tradição — que escolhe e nomeia. o passado informa o futuro e essa definição cultural da ordem moderna define também as relações entre adultos e jovens. o radicalismo estudantil e a tradição delinqüente incidissem sobre campos diferentes da prática social. Hannah Arendt dedicou alguns dos seus mais belos ensaios à análise desse dilema. Concepção que está na origem de uma noção mágica da sociologia. “O delinqüente. pelas gerações adultas. intrínseca à modernidade. domesticar. que transmite e conserva. 14) Essa perspectiva define diretamente para ela o sentido do labor educativo. orientação para o futuro. particular- 18 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .” (Grifo meu. os elementos de transformação e modernização inerentes à vida moderna. ainda que não sempre em suas modalidades extremas. Ele rejeita os sentimentos burgueses de método e rotina.) O velho se impõe sobre o novo.Angelina Peralva Fases da vida e ordem moderna Uma vez dotadas de especificidade própria. Como Hannah Arendt. que inspirará toda uma linhagem de sociólogos — e muito especialmente os sociólogos da juventude — a noção.” (Grifado no original. conforme Matza (1961:106). Permanecem interdependentes e mesmo hierarquizadas. ao contrário. Em um certo sentido. embora talvez de forma mais radical e mais dura.. nem passado nem futuro. mas ele os viola. de forma a evitar que ele seja devastado e destruído pela onda de recémchegados que o invade a cada nova geração. Sem testamento ou. Essas duas responsabilidades não coincidem de modo algum e podem mesmo entrar em conflito. essa responsabilidade pelo desenvolvimento da criança vai contra o mundo: a criança precisa ser particularmente protegida e cuidada para evitar que o mundo possa destruí-la. é inerente à experiência juvenil. sem destruir. eles ao mesmo tempo os introduziram em um mundo.d. Se as formas do desvio variam. as fases da vida não se tornam apenas autônomas. Assim. senão da própria sociologia. não denuncia os dispositvos da propriedade burguesa. isto é à ordem social já constituída. Ao educá-los. explicitado nesta passagem extraordinária de A crise da educação(1972. Tal hierarquia constróise sobre a base de uma tensão. Mas o mundo também tem necessidade de proteção. 238-239): “com a concepção e o nascimento. por exemplo. que se desvia em relação a um certo padrão normativo. Cabe ao passado. o desvio enquanto tal. 41) dirá da educação que ela é “a ação exercida. em função de níveis distintos de estratificação social e cultural. é claro.

que os temas da ordem e da normatividade estão longe de ser um problema exclusivo do funcionalismo. embora horrorizada com a dimensão mercantil comumente associada a esses dispositivos. Em artigo anterior. num contexto definido em termos de interações. Tampouco os recortes classistas fogem a essa oposição estrutural de tipo intergeracional. em sua vida. Assim. que o sentimento de insegurança inspirado pelos jovens não pode ser reduzido a um efeito mecânico do crescimento da delinqüência juvenil. (.” (Matza. sobretudo deslocando uma problemática até então definida em termos motivacionais para uma outra. o temor suscitado pelo jovem. embora o in- teracionismo tenha renovado profundamente as formas de perceber o desvio. o próprio David Matza. uma ordem moral e normativa e o desvio. mas cada uma seguiu uma linha de ataque algo diferente. como quer Chamboredon (1971). e particularmente o esgotamento da ordem industrial inviabilizaram (Dubet. encarnando tudo aquilo que. mas o a priori.O jovem como modelo cultural mente quando eles se manifestam no interior do sistema escolar. o foco primário do ataque radical foi o sistema capitalista de dominação política e econômica e o papel imperialista alegadamente desempenhado por tais sistemas nos assuntos internacionais. podese dizer mesmo central. porque lança raízes mais amplamente no conjunto de representações sociais que cada sociedade e cada época constróem sobre a sua própria juventude. 1987). ela perde nesse contexto sua dimensão juvenil estrito senso. 106) Embora a contribuição do funcionalismo.. Já não se trata aí do jovem cujo desvio é necessário prevenir ou mesmo punir. nessa perspectiva. é difícil também não reconhecer o aspecto quase caricatural de uma sociologia para a qual valores e arcabouço normativo da ordem social constituem. se o jovem não constitui uma categoria exclusiva dos desviantes. Quer se trate de uma dominação de classe travestida através de categorias administrativas e da ação do Estado. para a compreensão das práticas desviantes da juventude. juntamente com Gresham Sykes (1957). mas daquele que ameaça o adulto indefeso. Aliás. E. que representa o mais importante exemplo do radicalismo moderno. se interroga sobre as técnicas empregadas pelos jovens para neutralizar o inevitável sentimento de culpabilidade que experimentariam ao transgredir valores convencionais. constitui com certeza uma categoria importante. através de um número considerável de estudos empíricos. 1961... Gérard Mauger (1991) dirá. não categorias de análise. seja de importância inegável.)Particularmente nas variedades do marxismo revolucionário. sobretudo norte-americano.) Nesse sentido. a partir do qual a análise será desenvolvida. (. quer se trate dos prolongamentos dessa temática tal como se manifesta na discussão sobre as subculturas Revista Brasileira de Educação 19 . A ordem social é. de tipo profissional e com capacidade de integração do jovem nas práticas criminosas. Embora a delinqüência do jovem esteja presente. simultaneamente. Nessa perspectiva. que a delinqüência propriamente juvenil inexiste em áreas fortemente controladas por uma criminalidade adulta estável. definida em termos de interação.. O ator goffmaniano é extremamente convencional e para Becker (1985) as próprias normas são produzidas por empresários da moral. nas representações sociais do desvio. constituem a outra face dessa moeda. este já não consegue controlar. observação importante. definida pela oposição entre norma e desvio. quer se trate de uma socialização de classe que as transformações históricas da sociedade. o sentimento de insegurança a ele freqüentemente associado no imaginário adulto. vemos que cada tradição subterrânea foi hostil à ordem burguesa. Vale dizer. A atitude boêmia com relação aos dispositivos da propriedade burguesa é tipicamente de indiferença. para quem os atores institucionais comportam-se de maneira muito mais flexível e laxista quando se trata de punir o desvio em jovens originários de classes médias ou abastadas do que quando se trata de jovens oriundos das classes populares. também muito conhecido. de passagem. ele não rompe com a estrutura básica do raciocínio funcionalista. Solomon Kobrin (1951) registra. fato excepcional e objeto a ser explicado — mas também fato inscrito no interior de uma relação intergeracional.

66-67). sempre subculturas de classe. ela havia significado uma valorização do novo na área da sociologia do conhecimento. pelos mesmos motivos. impossibilita hoje paradoxalmente a emergência de uma consciência geracional. alimentadas por enteléquias comple- 20 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . que para Mead constituíram o fosso entre as gerações. Des-ordem na representação social do ciclo da vida Essa estrutura de oposições significativas que deu abrigo a uma sociologia da juventude desaparece ou se dissolve. em meio aos debates sobre o engajamento político da juventude. Tal questão. a aceleração. um único elemento comum: o fato de ser uma expressão política juvenil. já não há também possibilidade de cristalização de identidades geracionais diferenciadas. como seus pais e os senhores de outrora. ou por mudança excessivamente rápida. quer o futuro se imponha ao passado como perspectiva de renovação. na sua observância. Quer o passado imprima ao futuro o seu significado. 1986). dessas transformações que constituiu um fosso entre as gerações e deu-lhes a brusca consciência de suas identidades geracionais. no centro da análise empreendida por Marialice Foracchi (1964) sobre o papel do estudante na transformação da sociedade brasileira. Culture and Commitment. 93) A consciência da identidade geracional deriva portanto de uma tensão entre duas ordens de significados expressos por gerações diferentes e é tanto mais forte quanto mais forte a própria tensão. no bojo de um movimento operário nascente. Significativamente a juventude da greve historiada por Michelle Perrot (1984) refere-se ao mesmo tempo ao caráter violento das greves protagonizadas por jovens no século XIX. tinha como subtítulo a Study of the Generation Gap. Nos termos em que foi originalmente formulada por Mannheim (1990). cristalizou-se em torno da idéia de geração. A juventude não é apenas vigiada e desviante: sua marginalidade inova e transforma (Perrot. eles estarão perdidos”. na ruptura com relação a ela. no bojo da aceleração das transformações contemporâneas e hoje só se mantém na ótica da crise ou de uma reação conservadora. para Mead (1979). Como para Hannah Arendt (mas também como para Tocqueville que Hannah Arendt evoca). o passado não mais iluminando o futuro. já havia sido considerada por Mannheim (1990. dizia ele.Angelina Peralva juvenis. 1979. “Temos”. justamente. eles podem proceder por introspecção. Renasce nos anos 60. a consciência “caminha nas trevas”: “enquanto os adultos pensarem que. “a prova contrária de que a aceleração da dinâmica social é a causa da entrada em atividade da potencialidade de criação de novos impulsos de geração. A noção de geração estará. no fato de que comunidades profundamente estáveis ou que se transformam pelo menos muito lentamente — como o mundo camponês — não conhecem o fenômeno das unidades de geração que se destacam. A ruptura com uma problemática fortemente dominada pelos temas da ordem e do desvio. Foi. diz Mead. É preciso. alterando as relações entre elas. Esse engajamento público maciço a que se assiste então nos mais diferentes países tem. Se a tensão se dissolve. reconhecer que os fundamentos da sociologia da juventude estão originalmente ligados a uma representação da ordem social. É o que parece estar ocorrendo agora: o prosseguimento em ritmo acelerado das mesmas transformações históricas. ou na sua transformação. invocando sua própria juventude para compreender a juventude atual. (Mead. de resto. o binômio ordem social/socialização permanece inteiro enquanto categoria interpretativa central. ou por mudança excessivamente lenta. não obstante. enquanto tal. São duas faces do mesmo problema: é o engajamento político dos jovens que revela o fosso entre as gerações. e à juventude dessa forma de luta. de Margaret Mead (1979). e do lugar dos grupos etários e de suas responsabilidades respectivas na preservação dessa ordem.

que parece anunciar uma desinstitucionalização do modelo do ciclo de vida ternário.5% dos ativos passavam diretamente da atividade à aposentadoria: 35% vinham do sistema de pré-aposentadoria e 20% do seguro desemprego. Guillemard (1995. podemos talvez perceber. o que é o caso na experiência das social-democracias européias..” Em 1988. (. Importantes mudanças sociais e culturais incidem sobre as representações relativas à especificidade das fases do ciclo vital. na França. os Países Baixos. a acentuar o peso dos critérios cronológicos entre as referências que marcam os limites e balizam as transições entre uma idade e outra do ciclo da vida. O futuro se torna presente e absorve o passado. que implicava simultaneamente um ingresso no sistema de aposentadoria.O jovem como modelo cultural tamente novas. “O modelo tradicional de saída definitiva da atividade. conforme sugerem alguns autores. que faixas etárias diferentes se seguem. “O desenvolvimento dos sistemas de aposentadoria ajudou. contemporâneos. contribuindo para a multiplicação e a diversificação das modalidades possíveis de saída precoce do mercado de trabalho. Este último ordena o percurso etário em três tempos sucessivos com funções bem distintas: a juventude se forma.” (Grifo meu. um ritmo excessivamente rápido pode conduzir a um recobrimento dos germes das enteléquias das gerações uns pelos outros. exatamente escalonadas. elas incidem diretamente sobre a representação social do ciclo da vida. porque as novas gerações crescem em meio a transformações contínuas de gradação invisível. tornou-se mesmo claramente minoritário para três países: a França. pelo prolongamento da esperança de vida. doravante marcado essencialmen- Revista Brasileira de Educação 21 . As transformações nas relações de trabalho e o prolongamento da escolarização são provavelmente as mais importantes. Os jovens entram mais tardiamente no mercado de trabalho.) Portanto. alterando-as profundamente. com exceção da Suécia e do Japão. juntamente com outras políticas sociais (a educação entre outras). Por outro lado. 177): “Estamos assistindo a um remanejamento profundo da transição da atividade para a aposentadoria. também a passagem direta à aposentadoria tornou-se minoritária: entre 1980 e 1984. Na Alemanha. cedendo lugar a um tempo funcionalmente diferenciado. conforme observa Anne- Marie Guillemard (1995.. quanto mais o ritmo da dinâmica sócio-intelectual se acelera. a distribuição do trabalho ao longo do ciclo da vida sofreu mudanças significativas nos últimos vinte anos. inclusive Alberto Melucci em artigo publicado neste número. Isso acarretou ao mesmo tempo um envelhecimento demográfico e um envelhecimento médio da força de trabalho. a idade adulta trabalha e a velhice tem direito ao repouso. Ali. enquanto os adultos saem mais cedo.) Assim. a Alemanha. As aposentadorias contribuíram portanto para a cronologização do percurso etário.” Partindo da constatação da queda brutal dos índices de atividade na faixa de 55 a 64 anos na maioria dos países desenvolvidos. somente 26. e coexistem em sua maneira de reagir. metade dos que se aposentavam vinham de um regime de pensão por invalidez. O tempo linear aparentemente se esgota. A incidência da transformação das relações de trabalho sobre a representação social do ciclo da vida é naturalmente mais visível ali onde a ação sistemática do Estado mais fortemente contribuiu para institucionalizá-las. por outras vias que não a da aposentadoria. maiores são as chances de que situações de geração determinadas reajam às mudanças com sua própria ‘enteléquia’ a partir de sua nova situação de geração. graças a uma observação mais atenta. Essas alterações não são inócuas. Além disso. mas sem conseguir alcançar a formação de novas enteléquias de geração e princípios estruturadores correspondentes. a cristalização geracional se dissolve pela dissolução da oposição entre o passado e o futuro. exatamente em um momento em que o ciclo biológico também se alterou. Nós. os próprios critérios de atribuições de pensões por invalidez foram modificados para fazer face às novas injunções de funcionalidade do trabalhador assalariado em relação ao mercado de trabalho. 179) constata que isso acarretou uma modificação na arquitetura dos dispositivos institucionais que regulam a saída definitiva da atividade econômica.

no quadro da emenda à lei contra a discriminação no emprego.. Esboça. no sentido de um aprendizado comum rea- “Assim. particularmente no que se refere às responsabilidades respectivas e à lógica das reciprocidades entre os diferentes grupos etários..Angelina Peralva te pelas idades cronológicas — a idade obrigatória da escolaridade e a idade mínima fixada pelo fim da escolaridade que delimita a infância e a adolescência. ao mesmo tempo. sob a influência da reestruturação da proteção social. co-fundador da ordem moderna. O significado simbólico de certos atributos se altera e certas idades diminuem — a idade do acesso ao relógio. São a estrutura e a composição dos atributos sociais da juventude. Passa-se de referências cronológicas a referências funcionais para balizar os limites entre uma idade e outra. no caso dos Estados Unidos.) tratar essas transformações da adolescência como um simples alongamento (modelo do postergamento ou do sursis). conseqüentemente. portanto.) prevalece. Esse dispositivo legislativo introduz o princípio de um direito ao trabalho e ao prolongamento da atividade ao qual não pode ser oposto nenhum critério etário. 1995. 17. 1995. etc. Mutação biológica do ciclo da vida: o jovem como modelo cultural A desorganização do modelo ternário do ciclo da vida. para a des-organização do modelo terná- rio do ciclo da vida. Vários indícios apontam para um modo de ordenamento cultural que seria hoje..2 Por outro lado. “O tempo imediato. 189) 2 22 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . a idade fixada para o direito à aposentadoria integral assinalando a entrada na velhice. O desemprego do jovem e a carência de autonomia financeira obrigam muitos a permanecerem durante muito tempo sob o mesmo teto que os pais. Mas essa alteração não é puramene corretiva. Hoje. onde invalidez e desemprego desempenharam um papel restrito.” Não se trata de fenômeno puramente social. à detenção de um meio de locomoção independente. mais cofigurativo.” Essa definição institucional do percurso etário tinha como corolário a sua normatização e a sua forte previsibilidade. nem sempre se faz de modo adequado. 20) Mas. Embora nossa consciência dessas transformações seja ainda extremamente recente. se recorrermos às categorias de Mead (1979). Estaríamos evoluindo de um ‘tempo administrado’ para uma ‘recusa do tempo’. Isso é particularmente visível no que se refere à atividade econômica. que já não encontra mais um freio eficiente na definição moral da honra feminina. o ciclo de vida ternário sofre. isso não ocorre de maneira homogênea em todas as camadas da população. fundados nas capacidades e desempenhos do trabalhador. Entre as camadas populares a separação entre sexualidade precoce e reprodução. sabe-se que qualquer critério de idade para o exercício. marcada por um recuo do critério da idade cronológica e a prevalência de critérios funcionais. ao voto.” (Guillemard. os modos de acesso à maturidade que se encontram modificados. entrou em estado de obsolescência. (Chamboredon. constitui apenas um dos indicadores das transformações mais gerais do mundo contemporâneo. 18. da atividade profissional foi abolido desde 1986. nem como uma simples redefinição do perído. mas também cultural. 1995. uma forma de organização social diferente do percurso etário. à moradia independente. duas transformações importantes: uma descronologização do ciclo de vida e sua des-estandardização. “Não se pode (. conforme foi dito. ligada às transformações demográficas gerais. ela tende a tornar-se padrão. 189-192) A tendência generalizada a um prolongamento da escolaridade também estaria contribuindo para uma desconexão dos atributos da maturidade e. a descronologização do percurso etário induz um ordenamento impreciso. após 40 anos. carro ou moto. vista sob o prisma do reordenamento funcional das prestações oferecidas pelo Estado no campo da proteção social.. instantâneo (. por critérios de funcionalidade. já parece claro que o modelo educativo da socialização.” (Guillemard. aleatório e não controlável. onde a proteção social se orienta cada vez mais. Somente esses últimos critérios autorizam doravante legitimamente o empregador americano a despedir ou a aposentar. Etc. ao exercício da sexualidade adulta.

DURKHEIM. em modelo cultural do presente. que passa a ser concebido como uma experiência heterogênea em que a doença física e o declínio mental. Helena Wendel. Caxambu. (1994). 22 a 26 de outubro de 199.. Enquanto o adulto vive ainda sob o impacto de um modelo de sociedade que se decompõe. Paris: Calmann-Lévy FORACCHI..) oferecem (. mas também da nova sociedade transformada pela mutação. ELIAS. Marialice Mencarini. La crise de la culture. A invenção da Terceira Idade e a rearticulação de formas de consumo e demandas políticas. São Paulo. (1971). 1970). pautado na transmissão da experiência passada como elemento de ordenação e domesticação do futuro. La délinquance juvénile. A l’école: sociologie de l’expérience scolaire. gêneros e cenas numa representação da sociedade enquanto espetáculo (Abramo. La civilisation des moeurs. 335-377. Revista Brasileira de Educação 23 . Danilo. Paris: Seuil. Revue française de Sociologie. Trata-se também de uma verdadeira mutação biológica do ciclo da vida.” Acrescenta no entanto que seria ilusório pensar que essas mudanças são acompanhadas de uma atitude mais tolerante em relação às idades. 1994). de promessa de futuro que era. Hannah. Minas Gerais. “a promessa da eterna juventude é um mecanismo fundamental de constituição de mercados de consumo”. cujas conseqüências permanecem ainda obscuras para nós (Morin. Paris: Seuil. ed. a definição das fases da vida. (1996). Paris: Fayard. XII. p. São Paulo: Scritta. ARENDT. O novo significado dos estudos sobre juventude emerge ao que parece desse conjunto de transformações. essai de construction d’objet. Paris: Métailié CHAMBOREDON.d). (1973).) um quadro mais positivo do envelhecimento. Emile. o jovem já vive em um mundo radicalmente novo. La Galère: jeunes en survie. do que pós-figurativo. MARTUCCELLI. pontuada em seus extremos pelo nascimento e pela morte. Howard S. Philippe. ou préfigurativo como foi o modelo fundado nas utopias de que foi portadora a geração dos anos sessenta. Outsiders: etudes de sociologie de la déviance. ARIÈS. Norbert. O tema das subculturas juvenis ancoradas em experiências de classes tende a ser relativizado e cede em parte lugar ao dos estilos. 7. São Paulo: Melhoramentos. Educação e sociologia. 12 e 13) observa. A importância dos meios de comunicação de massa como veículo de integração cultural e o crescimento do consumo de massa contribuem para essa juvenização. (1973). Paris: Plon. DUBET. (s.. BECKER. que “as novas imagens do envelhecimento e as formas contemporâneas de gestão da velhice no contexto brasileiro (. Referências bibliográficas ABRAMO. Guita Debert (1996. (1964). Interrogar essas categorias permite não somente uma melhor compreensão do universo de referências de um grupo etário particular. L’Enfant et la vie familiale sous l’Ancien Régime. “A característica marcante desse processo é a valorização da juventude que é associada a valores e a estilos de vida e não propriamente a um grupo etário específico.. __________. Desse ponto de vista. O envelhecimento postergado transforma o jovem. (1985). (1996). Mas não se trata apenas de aceleração da mudança social. DEBERT. Jean-Claude. __________. Tese (Doutorado). (1972). (GT: Cultura e Política). introduzida a partir de uma elevação importante da esperança de vida. FFLCH/USP. como o foi o modelo da modernidade ocidental. XX Encontro Anual da ANPOCS.” Mais do que isso. Cenas juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. cujas categorias de inteligibilidade ele ajuda a construir. (1960). Paris: Gallimard. O estudante e a transformação da sociedade brasileira. sofre também uma alteração profunda. L’Enfant et la vie familiale sous l’Ancien Régime. são redefinidos como condições gerais que afetam as pessoas em qualquer fase. que já dobrou em menos de um século e cujo processo de alongamento tende a continuar. Guita Grin. nessa perspectiva. considerados fenômenos normais nesse estágio da vida.O jovem como modelo cultural lizado pelos diferentes grupos etários face às injunções de um mundo que lhes aparece como fundamentalmente novo. (1987). François.

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revistas de comportamento. no noticiário. mas também ao crescimento de noticiário a respeito de jovens. tanto por parte da “opinião pública” (notadamente os meios de comunicação de massa) como da academia. os temas mais comuns são aqueles relacionados aos “problemas sociais”. estilo de vida e estilo de aparecimento. e a grosso modo. Só recentemente tem ganhado certo volume o número de estudos voltados para a consideração dos próprios jovens e suas experiências. é necessá- Revista Brasileira de Educação 25 . No caso dos produtos diretamente dirigidos a esse público. moda e aconselhamento etc. Na academia. programas de auditório na televisão. moda. programas só de rock ou de rap nas rádios e canais de televisão. crime.). drogadição. principalmente através de dissertações de mestrado e teses de doutorado — no entanto. lazer. De forma geral. assim como por parte de atores políticos e de instituições. Universidade de São Paulo Ação Educativa Tem crescido a atenção dirigida aos jovens nos últimos anos no Brasil. revistas etc. Entre os meios de comunicação de massa. ou a família. no caso de adolescentes em situação “anormal” ou de risco). que prestam serviços sociais. os jovens voltam a ser tema de investigação e reflexão. passando pelas rádios. depois de anos de quase total ausência.Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil Helena Wendel Abramo Departamento de Sociologia. da televisão à grande imprensa. poucas delas enfocando o modo como os próprios jovens vivem e elaboram essas situações. ou as medidas para dirimir ou combater tais problemas. governamentais e não governamentais. a maior parte da reflexão é ainda destinada a discutir os sistemas e instituições presentes nas vidas dos jovens (notadamente as instituições escolares. exploração sexual. Quando os jovens são assunto dos cadernos destinados aos “adultos”. em matérias analíticas e editoriais. formas de sociabilidade e atuação. assistimos a uma avalanche de produtos especialmente dirigidos ao público adolescente e juvenil (os cadernos teen nos grandes jornais. pode-se notar uma divisão nestes dois diferentes modos de tematização dos jovens nos meios de comunicação. esporte. Com relação às políticas públicas. os temas normalmente são cultura e comportamento: música. suas percepções. ou mesmo as estruturas sociais que conformam situações “problemáticas” para os jovens. ou ainda os sistemas jurídicos e penais. como violência.

que envolve a adolescência e a juventude propriamente dita. O Brasil.Helena Wendel Abramo rio notar que. dependendo do caso e da interpretação). explicita ou implicitamente. A maior parte desses projetos destina-se a prestar atendimento para adolescentes em situação de “desvantagem social” (adolescentes carentes é o termo mais usado. estamos nos referindo ao momento posterior à infância. Há mais tempo e em número bem maior que as ações governamentais. como alvo diferenciado do das crianças. Numa primeira visão panorâmica. na sociedade ou no próprio jovem. ou seja.). diferentemente de outros países. adolescentes submetidos à exploração sexual. passou ao largo desse movimento. nos países de língua espanhola da América Latina. no Brasil. no Brasil. nunca existiu uma tradição de políticas especificamente destinadas aos jovens. todos eles visando dirimir ou pelo menos diminuir as dificuldades de integração social desses adolescentes em desvantagem: programas de ressocialização (através de educação não-formal. gerando algumas iniciativas de cooperação regional e Ibero-americana. pela seu “afastamento das ruas” ou pela ocupação de “suas mãos ociosas”. porém. termo muito empregado para designar adolescentes que vivem fora das unidades familiares (os “meninos de rua”). associa- Quando falamos de juventude. de modo geral. uma Assessoria Especial para Assuntos de Juventude. tem crescido projetos e programas destinados a jovens por parte de instituições e agências de trabalho social (ongs. é uma contenção do risco real ou potencial desses garotos. que em parte considerável desses programas. para salvá-los e reintegrá-los à ordem social. em atos de delinqüência etc. não passam de oficinas ocupacionais. ganha significação a partir dos anos 80. enfoque que vem ganhando corpo mais recentemente. 1 ções beneficientes. para além da educação formal1. instituições de assistência etc. vinculada ao gabinete do Ministério da Educação. Na Europa e Estados Unidos a formulação de políticas para jovens e a designação de instituições governamentais responsáveis por sua implementação têm se desenvolvido ao longo do século. neste artigo. ou aqueles envolvidos com o consumo ou o tráfico de drogas. Toda essa atividade. É necessário notar. no fundo. A grosso modo. atividades de esporte e “arte”) e programas de capacitação profissional e encaminhamento para o mercado de trabalho (que. visando adolescentes de família com baixa renda ou de “comunidades pobres”) ou de “risco”. muitas vezes. gerada por uma sensação 26 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . o que se busca. cultura e lazer. tomando os jovens eles próprios como problemas sobre os quais é necessário intervir. esse fenômeno. oficinas ocupacionais. Somente recente e lentamente pode-se observar. pode-se dizer que a maior parte desses programas está centrado na busca de enfrentamento dos “problemas sociais” que afetam a juventude (cuja causa ou culpa se localiza na família. ONU e o governo da Espanha. mas. e há dois programas do Comunidade Solidária destinados a jovens: o Universidade Solidária e um concurso de estímulo e financiamento a programas de capacitação profissional de jovens. a preocupação de responsáveis pela formulação de políticas governamentais com os jovens: algumas prefeituras e governos estaduais têm ensaiado a formulação de políticas específicas para esse segmento da população. apesar das boas intenções neles contidos. não logram promover qualquer tipo de qualificação para o trabalho). com intercâmbio de informações e experiências. na qual se inclui a sua formação para a “cidadania”. pela primeira vez. principalmente estimulado por organismos como a CEPAL. Há alguns projetos preocupados com a questão da formação integral do adolescente. envolvendo programas de formação profissional e de oferecimento de serviços especiais de saúde. no entanto. no entanto. nota-se também uma movimentação no plano federal para focar a questão: foi criada. de encontros para realização de diagnósticos e discussão de políticas. no Brasil. pode-se verificar que a maior parte dos programas desenvolvidos por estas instituições dividem-se em dois grandes blocos. promoção de capacitação técnica.

2 juvenis nas esferas políticas (ao contrário do que outrora foram as entidades estudantis e as juventudes partidárias). num registro muito imediatista e desarticulado. o desaparecimento da juventude da cena política. em contraste com a elaboração de informação. mas a grande maioria dos projetos se limita ao enquadramento anterior. com mais dimensão de “festa” do que de “efetiva” politização. de suas características. muito menos dos jovens. como resultado da acentuação do individualismo e do pragmatismo que se afirmam como tendências sociais crescentes. a preocupação de diferentes atores políticos com a juventude (partidos políticos. o enfraquecimento desses atores estudantis levou a fazer notar. que buscam desenvolver atividades centradas na noção de que os jovens são colaboradores e partícipes nos processos educativos que com eles se desenvolvem)2 . e lamentar.Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil de urgência frente a situações de desamparo e desregramento. frente aos quais todas as outras manifestações juvenis aparecem como desqualificadas para a política. conceituação. com pouca capacidade de gerar uma compreensão mais ampla e aprofundada. em 1992. É quase como se. por parte desses agentes sociais. tem permanecido. Essa ausência diz respeito tanto à inexistência ou fraqueza de atores A maior parte dos programas que lidam com essa perspectiva têm se desenvolvido nas áreas da saúde (principalmente sexualidade e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis) e da cultura. É curioso notar que. em primeiro plano. tornando-os “pré-políticos” ou quase que inevitavelmente “a-políticos”. como à baixa adesão de jovens aos organismos e movimentos políticos. tem sido constante. o que reflete. apesar de terem crescido o número de ações e programas destinados a adolescentes e jovens. a partir dos anos 80. destacada presença em prol dos processos de democratização e combate às estruturas conservadoras. No entanto. eles continuem apenas desfocadamente visíveis. uma preocupação com a renovação de quadros no interior dessas organizações. Por exemplo. pedagogias e metodologias específicas para lidar com a infância. A maior parte dos atores políticos queixa-se da distância que os jovens têm demonstrado para com as suas proposições. durante todo o período dito “de modernização” do país (dos anos 30 aos 70). que se começa a produzir no Brasil. apesar da juventude estudantil ter tido. em conseqüência de toda a movimentação em torno da defesa das crianças. No entanto. erigindo aquelas formas de atuação antes suspeitas a modelos ideais de atuação. salvo raras exceções (entre elas Revista Brasileira de Educação 27 . na maior parte dos casos. sindicatos e centrais sindicais. houve sempre certa ressalva com relação à eficácia de suas ações: para os setores conservadores. trata-se mais de uma preocupação com a ausência dos jovens nos espaços e canais de participação política do que com questões políticas relativas a eles. Mesmo sua participação nas movimentações de rua pelo impeachment de Collor. foram largamente desqualificadas por serem “espontaneistas”. quase não se encontram subsídios mínimos para um tratamento singularizados dos adolescentes. alguns movimentos sociais). Essa preocupação vem acompanhada de um diagnóstico que identifica nos jovens um desinteresse pela política e de um modo mais geral pelas questões sociais. suas questões e modos de experimentar e interpretar essas situações “problemáticas”. embora não possamos dizer consistente. “espetaculares”. a suspeita de alienação ou de radicalidade pequeno-burguesa inconseqüente. Num outro plano. bandeiras e formas de atuação. aqueles projetos que se baseiam na idéia de protagonismo juvenil (ou seja. os grupos juvenis que atuam na esfera do comportamento e da cultura não têm sido considerados como possíveis interlocutores pelos atores políticos. Por outro lado. mais do que em tratar e incorporar temas levantados pelos próprios jovens. obscurecidos por uma sensação de que esta falta de instrumentos e “jeito” se deve ao fato de que a “adolescência é mesmo uma fase difícil” de se lidar. a respeito do público alvo. Além disso. a suspeita de baderna e de radicalismo transgressor. por exemplo. É necessário assinalar que há exceções. para alguns setores da esquerda.

no Depto. 28 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . da violência. das doenças sexualmente transmissíveis. de sustentar uma relação dialógica com outros atores. a manutenção de uma desqualificação generalizada da atuação pública dos jovens e um temor relativo à inserção dos jovens nos processos de construção e consolidação da democracia. exclusivamente e de um modo sufocante. mesmo quando é essa a intenção. mesmo por que. de uma maneira mais geral. 1996. assim como a questão da participação só aparece pela constatação da ausência. paralelamente a essa dimensão. os jovens só estão relacionados ao tema da cidadania enquanto privação e mote de denúncia. Telles. uma questão. os desvios) que são enfocados. nem na formulação de ações a eles dirigidas. tanto no plano da sua tematização como das ações a eles dirigidas. salvo raras exceções. das drogas. como a idéia de dádiva e favor sobrepuja a de direito)4 e ao modo como as diferenças sociais (sejam étnicas. desde já. No entanto. Isso pode ser percebido pela discussão que se faz atualmente a respeito da questão da “cidada- nia”. tal dificuldade está ligada. não resultando na tentativa de realizar um entendimento mais aprofundado deste setor. ou quase nunca. ao modo como a juventude tem sido tematizada na 3 Isto faz parte do projeto que busco desenvolver como tese de doutorado. seminário ou publicação relacionando esses dois termos (juventude e cidadania) traz os temas da prostituição. Os partidos. colam-se então. invenção e negociação de direitos. além de simplesmente sofrê-los ou ignorá-los. de gênero ou geracionais) têm conseguido se transformar em alteridades políticas5 . Resta. às entidades estudantis.Helena Wendel Abramo assume destaque o movimento negro). Contudo. As questões elencadas são sempre aquelas que constituem os jovens como problemas (para si próprios e para a sociedade) e nunca. são os “problemas” (as privações. de contribuir para a solução dos problemas sociais. então. Pode-se dizer que a preocupação dos atores políticos. todo debate. questões enunciadas por eles. de propor ações relevantes. assim como ao modo como se processam a constituição de espaços de conflito e negociação política na sociedade brasileira. regra geral. uma grande dificuldade de considerar efetivamente os jovens como sujeitos. da gravidez precoce. o foco central do debate concentra-se na denúncia dos direitos negados (a partir da ótica dos adultos). assim. Ou seja. seja pelos atores políticos seja pelas instituições que formulam ações para jovens. Mas. Essa dificuldade está ligada a fatores específicos relativos à formulação de direitos sociais na sociedade brasileira (por exemplo. toda vez que se relaciona a questão da juventude à da cidadania. pode ser levantada: parece estar presente. uma dificuldade de ir além da sua consideração como “problema social” e de incorporá-los como capazes de formular questões significativas. principalmente os de esquerda. Nesse sentido. seja por se apresentarem como muito difusos e com baixo grau de formalização. 1994. em sua capacidade de representação e mobilização. mas sem conseguir apostar. de Sociologia da FFLCH da USP. na maior parte da abordagem relativa aos jovens. tal como este termo tem assumido papel de destaque na conjuntura brasileira: relativamente à questão dos direitos e da participação de diferentes sujeitos sociais. ao mesmo tempo. não há espaço comum de enunciação entre grupos juvenis e atores políticos. culturais. 4 5 Sales. *** Uma análise mais detalhada dessas recentes interpretações e ações destinadas aos jovens ainda está para ser feita3. e nunca — ou quase nunca — como sujeitos capazes de participar dos processos de definição. de um modo amplo e difundido. seja por levantarem questões não consideradas pertinentes para as agendas políticas em pauta. não sai desse plano da preocupação.

A tematização da juventude pela ótica do “problema social” é histórica e já foi assinalada por muitos autores: a juventude só se torna objeto de atenção enquanto representa uma ameaça de ruptura com a continuidade social: ameaça para si própria ou para a sociedade. da infância para a maturidade. seja porque um grupo ou movimento juvenil propõem ou produz transformações na ordem social ou ainda porque uma geração ameace romper com a transmissão da herança cultural. 6 Revista Brasileira de Educação 29 .Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil sociedade ocidental contemporânea. e. como uma categoria propícia para simbolizar os dilemas da contemporaneidade. tanto na opinião pública como no pensamento acadêmico. é profundamente baseada no conceito pelo qual a sociologia funcionalista a constituiu como categoria de análise: como um momento de transição no ciclo de vida. agentes culturais e trabalhadores sociais. pode-se dizer que a “juventude” tem estado presente. normas e comportamentos. retrabalhadas e difundidas pelos meios de comunicação. Como a juventude é pensada como um processo de desenvolvimento social e pessoal de capacidades e ajuste aos papéis adultos. Seja porque o indivíduo jovem se desvia do seu caminho em direção à integração social — por problemas localizados no próprio indivíduo ou nas instituições encarregadas de sua socialização ou ainda por anomalia do próprio sistema social —. como tema de risco para a própria continuidade social. Não é por acaso que a problematização é quase sempre então uma problematização moral: o foco real de preocupação é com a coesão moral da sociedade e com a integridade moral do indivíduo — do jovem como futuro membro da sociedade. em relação às tendências sociais percebidas no presente e aos rumos que essas tendências imprimem para a conformação social futura. integrado e funcional a ela. em que os indivíduos processam a sua integração e se tornam membros da socieda- de. Cohen e retomada por Hall & Jefferson. A juventude. É. assim. através da aquisição de elementos apropriados da “cultura” e da assunção de papéis adultos. vista como categoria geracional que substitui a atual. É nesse sentido que a juventude só está presente para o pensamento e a para a ação social como “problema”: como objeto de falha. aparece como retrato projetivo da sociedade. *** De um modo geral. condensa as angústias. livre. disfunção ou anomia no processo de integração social. integrando-se à sociedade e podendo desempenhar os papéis para os quais se tornou apto através da interiorização dos seus valores. 1978 e por Bessant. numa perspectiva mais abrangente. de um modo ainda apenas sugestivo e sob a forma de anotação de idéias: a tematização da juventude pelo “senso comum”. e genericamente difundida como noção social. são as falhas nesse desenvolvimento e ajuste que se constituem em temas de preocupação social. 1993/94. o momento crucial no qual o indivíduo se prepara para se constituir plenamente como sujeito social. Por isso mesmo é um momento crucial para a continuidade social: é nesse momento que a integração do indivíduo se efetiva ou não. É nesse sentido também que na maior parte das vezes a problematização social da juventude é acompanhada do desencadeamento de uma espécie de “pânico moral” que condensa os medos e angústias relativos ao questionamento da ordem social como conjunto coeso de normas sociais. É essa a questão que me interessa desenvolver neste artigo. É nesse sentido que a ênfase da sociologia funcionalista e quase que de toda sociologia preocupada com o tema da juventude recai sobre o processo de socialização vivido pelos jovens e sobre as possíveis disfunções nele encontradas.6 *** Essa idéia de “pânico moral” foi desenvolvida por A. que corresponde a um momento específico e dramático de socialização. os medos assim como as esperanças. por atores políticos. Nesse sentido. A concepção de juventude corrente na sociologia. trazendo conseqüências para ele próprio e para a manutenção da coesão social. apoiada em representações construídas pelo pensamento acadêmico.

categoria social frente à qual se pode (ou deve) tomar atitudes de contenção. 1968. como um momento em si patológico. ver Bessant. movimentos pacifistas. o problema volta a ficar circunscrito. Eisenstadt. para uma integração normal e sadia à sociedade. Mais tarde. o problema apareceu como sendo o de toda uma geração de jovens ameaçando a ordem social. O medo aqui era duplo: por um lado. da circunscrição do significado das culturas juvenis como espaços de socialização diferenciados e da funcionalidade desse comportamento momentaneamente desviante como parte do processo de integração à sociedade adulta. os imigrantes nas grandes metrópoles. as proposições da contracultura. se bem conduzidos. Ver. 7 8 A esse respeito. assim. tanto no enfoque da anomia como no da inovação e ajuste. quando os atos de “delinqüência juvenil” extravasam os limites dos setores “socialmente anômalos” (os marginalizados. nos planos político. De certa forma. quase que inerente à condição juvenil. A interpretação baseada na explicação da “fase inerentemente difícil” leva a localizar o problema na adolescência enquanto tal. o movimento hippie. Em algumas interpretações. 1942. inerentemente pertubadora. 1976. A juventude apareceu então como a categoria portadora da possibilidade de transformação profunda: e para a maior parte da sociedade. Nos anos 50. as “classes perigosas” — como foram objeto de atenção na passagem do século por criminologistas como Pestalozzi 8) e se tornam comuns entre jovens de setores operários integrados e de classe média. até como fonte de inovação e revigoramento sociais 9. condensava o pânico da revolução. é nesse momento que assume uma dimensão social a noção que vinha sendo cunhada desde o fim do século passado a respeito da adolescência como uma fase da vida turbulenta e difícil. por sua própria condição etária. e na busca de soluções através da prescrição de uma série de medidas educativas e de controle para assegurar a contenção dessa delinqüência. integrando-se de forma sadia e normal à sociedade. podemos retomar o modo como a juventude veio sendo tematizada durante a segunda metade desse século para verificar como acabou sendo sempre depositária de um certo medo7. A sociologia funcionalista norte-americana produziu intensamente estudos e debates a respeito das ações coletivas da juventude. o da reversão do “sistema”.. o problema social da juventude era a predisposição generalizada para a transgressão e a delinqüência. demandando cuidados e atenção concentrados de adultos para “pastorear” os jovens para um lugar seguro. resultando no conhecido processo de “demonização” do rock’n’roll. contra a tecnocracia e todas as formas de dominação. esse pânico cede lugar a um entendimento da “normalidade” do desconforto e agitação adolescentes. cultural e moral. Nos anos 50. acaba. e na formação de culturas juvenis como antagônicas à sociedade adulta. entre outros. mas com a qual é difícil estabelecer uma relação de troca. por ex. num arco amplo de interpretações. intervenção ou salvação. Nos anos 60 e parte dos anos 70. portanto. de diálogo. 9 30 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . gerando angústias quanto ao próprio modelo de integração existente na sociedade. de intercâmbio. 1993/94. Flitner. O consolo se produz a partir da conclusão de que a maior parte dos jovens. O problema passa a ser o fato de que jovens que teriam “condições objetivas” de ajuste ao mundo adulto manifestam dificuldades nesse sentido. à delimitação dos grupos ou setores juvenis estruturalmente anômalos. por uma atitude de crítica à ordem estabelecida e pelo desencadear de atos concretos em busca de transformação — movimentos estudantis e de oposição aos regimes autoritários. corporificadas na figura dos “rebeldes sem causa”. para os quais se destinam medidas específicas de controle e “ressocialização”. depois de alguns percalços. a juventude aparece ela mesma como uma categoria social potencialmente delinquente. Parsons.Helena Wendel Abramo De um modo ligeiro e quase caricatural.

11 É em contraste com essa imagem que a juventude dos anos 80 vai aparecer como patológica porque oposta à da geração dos anos 60: individualista. envolvidas em diversos tipos de ações individuais e coletivas. não conseguindo mudar o sistema. por outro lado. o pragmatismo. Foracchi. de se “enquadrar”. o medo era o de que as ações juvenis atrapalhassem a possibilidade efetiva de transformação. esses movimentos juvenis condensaram o oposto. pelo contrário. do ensino secundário e universitário. Ianni. 1968. desse modo. os jovens que se recusaram a assumir um emprego formal. e muitos setores políticos de oposição à ordem (como os partidos comunistas e organizações sindicais tradicionais) interpretavam tais manifestações juvenis como ações pequeno-burguesas inconseqüentes quando não ameaçadoras de um processo mais sério e eficaz de negociações para transformações graduais. através de mobilizações de entidades estudantis e do engajamento nos partidos de esquerda. por sua própria recusa (os jovens que entraram na clandestinidade. 10 11 Ver Abramo. Roszak. que foram viver em comunidades à parte. na relação com a propriedade e o consumo. Foi somente depois. é a presença de inúmeras figuras juvenis nas ruas. que a imagem dessa juventude dos anos 60 foi reelaborada e assimilada de uma forma positiva. consumista. O problema relativo à juventude passa então a ser a sua incapacidade de resistir ou oferecer alternativas às tendências inscritas no sistema social: o individualismo. por um lado. 1972. os jovens condenavam a si próprios a jamais conseguirem se integrar ao funcionamento normal da sociedade. No Brasil. Vale a pena lembrar que tal medo gerou. Uma geração que recusase a assumir o papel de inovação cultural que agora. respostas violentas de defesa dessa ordem: os jovens foram perseguidos pelos aparelhos repressivos. com formas familiares e de sobrevivência alternativas etc) — não mais como uma fase passageira de dificuldades. mas como uma recusa permanente de se adaptar. o medo de que. Marcuse. apática. nesse caso. a esperança de transformação10. Essa reelaboração positiva acabou. No entanto. Nos anos 90 a visibilidade social dos jovens muda um pouco em relação aos anos 80: já não são mais a apatia e desmobilização que chamam a atenção. por fixar assim um modelo ideal de juventude: transformando a rebeldia. 1972. para alguns setores descontentes com o sistema (como para pessoas de esquerda e promotores da “contra-cultura”). o idealismo. criativa. morais. mas também pelos movimentos culturais que questionavam os padrões de comportamento — sexuais. passava a ser atributo da juventude como categoria social. a juventude aparece aqui como depositária de um certo medo relativo ao “fim da História”. os jovens apareciam mais como uma fonte de energia utópica do que propriamente alguém capaz de levar a cabo efetivamente tal transformação. generalizando a ótica da minoria que neles depositava diferentes tipos de esperança: a imagem dos jovens dos anos 60 plasmou-se como a de uma geração idealista. mesmo para esse setores. Tematizada por aqueles que fizeram parte da geração dos anos 60 e 70. aqui.Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil por outro. No entanto. a inovação e a utopia como características essenciais dessa categoria etária. Por outro lado. tanto pelo comportamento (o uso de drogas. a maior Ver. 1994. quando tais movimentos juvenis já haviam entrado num refluxo. Revista Brasileira de Educação 31 . depois da reelaboração feita sobre os anos 60. que ousou sonhar e se comprometer com a mudança social. o modo de se vestir etc) como por suas idéias e ações políticas. exatamente pelo engajamento de jovens de classe média. é particularmente neste momento que a questão da juventude ganha maior visibilidade. a falta de idealismo e de compromisso político são vistos como problemas para a possibilidade de mudar ou mesmo de corrigir as tendências negativas do sistema. 1970. na luta contra o regime autoritário. o conservadorismo moral. conservadora e indiferente aos assuntos públicos. generosa. uma vez que nega seu papel como fonte de mudança. entre outros autores.

alguns traços presentes nos filmes. aqui. de revigoração das instituições políticas. a não ser o fato de que os protagonistas da ação. dessa angústia. pode ser percebida a partir da observação de dois filmes brasileiros recentes: O que é isso companheiro e Como nascem os anjos12. O pânico. O que é isso companheiro? é um filme de Bruno Barreto. na verdade. se estrutura em torno da própria possibilidade de uma coesão social qualquer. o surf ferroviário. como sujeitos que apresentam suas próprias questões. apesar da sempre crescente visibilidade que a juventude tem alcançado na nossa sociedade. na concentração da atenção nos problemas de comportamento que levam a situações de desvio no processo de integração social dos adolescentes (drogas. como encarnação de impossibilidades. sem pretender que essa leitura seja a única possível. os jovens se tornam depositários desse medo. eles nunca podem ser vistos. 13 12 32 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . as galeras. as gangues. principalmente no interior dos meios de comunicação. como encarnação de todos os dilemas e dificuldades com que a sociedade ela mesma tem se enfrentado. tem o mesmo título do filme e foi editado em 1979. aqui. Sem nenhuma intenção de fazer considerações de ordem estética. da profunda cisão entre integrados e excluídos. e ouvidos e entendidos. de construção de projetos que transcendam o mero pragmatismo. O livro. os arrastões. Permanecem. de uma cultura que estimula o hedonismo e leva a um extremo individualismo. De certa forma há uma retomada de elementos característicos dos anos 50. são personagens juvenis. o interesse. no qual o roteiro do filme foi baseado)13. para observar como. épocas e questões muito diferentes. os atos de puro vandalismo). E nessa formulação. escrito por Fernando Gabeira. pela Ed. eles se apoiam em algumas das problematizações apontadas ao longo desse artigo. Como nascem os anjos é de Murilo Salles e foi exibido em 1996. de superação das injustiças. de formulação de ideais. À primeira vista esses dois filmes nada têm em comum. Fruto de uma situação anômala. ou a respeito da propriedade das abordagens dos fatos tratados pelos filmes (ou mesmo de entrar na polêmica relativa à “correção” histórica e política que se produziu em torno do filme “O que é isso companheiro”). no plano do ima- ginário.Helena Wendel Abramo parte dessas ações continua sendo relacionada aos traços do individualismo. os jovens aparecem como vítimas e promotores de uma “dissolução do social”. particularmente no Brasil. sob certo ângulo. *** Uma indicação desse modo de tematizar os jovens. em ambos. No filme “O que é isso companheiro” os personagens protagonistas da ação central são jovens de classe média que. semi-invisíveis. no final dos anos 60. ao desregramento e desvio (os meninos de rua. violência. de diálogo democrático. de transformação utópica. Ou seja. é o de levantar elementos para pensar no modo como os personagens juvenis são enfocados nos dois filmes. tratando de fatos. entrando para uma organização de esquerda clandestina. o que os faz aparecer. à violência. talvez super-dimensionando. de parâmetros de equidade. destacaremos. Codecri. da fragmentação e agora mais do que nunca. tal como ela aparece referida em produtos culturais. mesmo para aqueles que os defendem. como a encarnação das impossibilidade de construção de parâmetros éticos. exagerando certos traços a partir do qual eles podem ser vistos. Apenas me interessa iluminá-la como uma indicação de uma percepção presente na opinião pública e que funciona como pano de fundo para toda a tematização da juventude no Brasil. da falências das instituições de socialização. para além dos medos e esperanças dos outros. Para isso. assim. lançado em 1997. envolvimento com a criminalidade e comportamentos anti-sociais). Como vítimas ou como promotores da cisão e da dissolução social. seqüestram o embaixador americano para forçar o governo brasileiro a soltar e deixar sair do país presos políticos (fato real ocorrido em 1969. documentado e relatado em livro por um dos integrantes da ação. e que desejam uma transformação social.

mas também genericamente na construção social a respeito da juventude no Brasil. logo depois fica desacordado. mas nos dois casos. A partir daí o drama se desenvolve em torno das tentativas dos meninos saírem da casa. divididos entre a busca por uma inserção “normal” na sociedade (através do estudo) e o mundo do tráfico e da criminalidade. jovens carentes e envolvidos com o mundo da criminalidade. figuras juvenis totalmente diferentes. Figuras paradigmáticas em cada conjuntura histórica. os jovens estudantes politizados. O interesse de fazer uma reflexão conjunta desses dois filmes. jovens em “situação de risco” (risco para si próprios e para a ordem social). “tropicalistas” etc. são de fato. Nos dois casos escolhidos para serem retratados nos filmes. envolvidos nas suas entidades e manifestações públicas. São. num seqüestro de um alto executivo de uma multinacional americana. se envolvem na guerrilha. idealistas e comprometidos com as causas sociais e políticas da sociedade. a juventude em evidência eram os jovens de classe média. matando e morrendo muito cedo. em muitos aspectos. que acaba arrastando junto seu amigo. tanto mudanças políticas como comportamentais e de valores: estudantes do ensino secundário e universitário. E também nos dois casos. Revista Brasileira de Educação 33 . o mata. hippies. embora uma comparação possa. a partir do endurecimento do regime e do fechamento dos canais de participação democrática. e são as crianças que têm de passar a dirigir a situação. Nos anos 90 as figuras juvenis mais em evidência são os jovens pobres que aparecem nas ruas. principalmente. são uma das imagens mais dramáticas e ameaçadoras dos nossos tempos. como se vê. e. diametralmente opostas nas equações que se montam a respeito da exclusão e da cidadania e na formulação das esperanças e das angústias neles depositadas: numa ponta. Os jovens que. jovens infratores. vivendo na clandestinidade. a face mais dramática dessa juventude genericamente vista como em busca de mudança. na fuga. meio sem querer. decide entrar na casa e exigir que o executivo providencie curativo para o ferimento e meios para a fuga sem chamar atenção da polícia. fazendo ações armadas. a ação desencadeada pelos jovens é uma ação “criminosa” (embora uma seja um crime “político” e a outra um crime “comum”). É curioso notar que alguns elementos de enredo se repetem nos dois filmes: no centro da ação de ambos está o seqüestro de norte-americanos. acompanhado pela menina. Um menino que tenta se manter distante do universo do crime (pertencente a um núcleo familiar estável e freqüentando a escola regular) e sua maior amiga. dos quais aqueles envolvidos no tráfico.Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil No filme Como nascem os anjos os personagens principais do drama são duas crianças a caminho da adolescência (com cerca de 12 anos). onde pedem para usar o banheiro de uma mansão. séries de seqüestros foram motivo de pânico e de violentas respostas policiais. trata-se de figuras emblemáticas para o período enfocado: jovens politizados nos anos 60. exilados e muitas vezes mortos. e mantendo os moradores da casa como reféns. O rapaz. Esse rapaz. divididos entre o hedonismo e a violência: meninos de rua. atira no rapaz que. galeras. sendo presos. após um incidente com um dos chefes da quadrilha. moradores de uma favela do Rio de Janeiro. parecer um pouco forçada. E o seqüestro é um ato que provoca o pior dos horrores: é crime hediondo. jovens pobres envolvidos com a criminalidade nos anos 90. empenhados em propostas de mudança. é enfatizar como há um ângulo comum pelo qual essas duas figuras opostas de nossa juventude são vistas. O motorista do dono da casa. suspeitando de assalto. torturados. roubam um carro e vão para num bairro rico. sem serem presos pela polícia. revidando. encarnam a face mais dramática da juventude do período: nos anos 60. e jovens envolvidos em movimentos culturais e contraculturais. e é namorada de um rapaz pertencente à quadrilha da favela onde moram. gangues. tenta fugir para se estabelecer em outro lugar. embora o sentido dos seqüestros seja completamente diferente. que não tem esse tipo de inserção. que se envolvem. e nas duas diferentes conjunturas históricas. na outra. tribos. por motivos e com sentidos completamente distintos. muito ferido.

os jovens são vítimas da lógica política instaurada na ditadura: o fechamento dos espaços institucionalizados de participação. que já não têm uma postura ou não se identificam como jovens) que impelem os personagens juvenis às situações mais críticas. manipulados pelo destino. torturados. sua decepção. mas que acabam engulidos por essa lógica que lhes escapa (quando não manipulados por adultos com lógicas externas a eles). Sujeitos incompletos. isolada e tendente a ter de provocar ações cada vez mais extremas que. Nesse esquema. No caso do filme “Como nascem os anjos” é o rapaz envolvido no tráfico que joga as crianças na situação dramática. Nunca por sua própria lógica. que é a dos jovens como vítimas das lógicas do sistema e. do inimigo. sempre heterônomos. No filme O que é isso companheiro?. se vê lograda — o final do filme acentua o isolamento dos jovens. pela lógica do sistema e pela lógica de instituições ou de atores que operam à margem ou contra o sistema. Embora os jovens sejam os protagonistas das ações que montam o drama. da desigualda- 34 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . No filme Como nascem os anjos. forçando-os. mesmo jovens adultos com mais idade ou mais experiência. o sentimento de estarem perdidos e de toda sua atuação ter sido. por sua vez. alguns são mortos e outros vão para o exílio por força de outra operação da esquerda armada (outro seqüestro de embaixador). joga os jovens insatisfeitos com o estado de coisas nos partidos clandestinos que propunham a luta armada. são retratados como jovens idealistas. em certa medida. sua ação é quase uma ação inconseqüente. está presente a idéia de que eles são como que impelidos a essa ação. que parece encerrada numa armadilha. um sacrifício inútil: acabam sendo todos presos. Protagonistas de uma ação de alto impacto e intensidade. Uma vez nesse espaço. sem sentido. sido um “sucesso”. e seu idealismo acaba aparecendo quase como um desvario. No caso do filme “O que é isso companheiro”. que visava a denúncia do regime de exceção e a adesão popular à exigência da transformação das regras políticas instauradas pelo endurecimento da ditadura. em suma. parece ser sempre um caso de polícia. o endurecimento da repressão a qualquer forma de organização e manifestação e de todo canal legal de proposição de mudança. no plano mais imediato. que “vêm de São Paulo” para dirigir a operação do seqüestro. os jovens que assumem essa posição. e que se relaciona com a postura geral pela qual normalmente a questão da juventude é tratada na nossa sociedade. Dessa maneira. Nos dois casos. nunca autores reais de suas ações. esta acaba ficando. ou seja. embora tenha. jovem ainda mas com uma postura totalmente rígida e já sem nenhuma identificação com a jovialidade (que todos os outros integrantes do grupo inicial conservam). ações de alta intensidade e de profundos efeitos. há a figura do velho militante de esquerda e o outro militante. por exemplo. ou incapazes de se tornarem sujeitos no sentido pleno da palavra. os jovens acabam aparecendo como vítimas da lógica da esquerda armada. a vão isolando e encerrando cada vez mais o sentido das suas ações. também existe a figura de adultos (ou de pessoas mais velhas que os personagens centrais. Em ambos. à queima roupa. a questão dos jovens.Helena Wendel Abramo desencadeando a violenta resposta de aparatos policiais. desejosos de mudança. no Brasil. há uma mesma idéia subjacente. no filme. e que buscam imprimir uma “racionalidade política” (ou de guerra) à ação quase romântica e fantástica proposta pelos jovens. e é para salvá-lo que eles pioram cada vez mais a situação. os jovens são vítimas da lógica econômica-social. pois eles conseguem efetivamente a troca dos presos políticos pelo embaixador. quanto ao fim último que eles pretendem. em última instância. nesse sentido. no plano mais profundo a sua iniciativa. de tal forma que é quase inacreditável que jovens tão jovens pudessem tê-la levado a cabo. É nesse ponto que me parece que reside uma idéia comum aos dois filmes. a negar critérios afetivos como os de amizade (ao indicar a lista dos militantes presos que deveriam ser trocados pelo embaixador) e a encarar “com naturalidade” — ou como imperativo lógico — a necessidade de execução. Parodiando frase tristemente famosa.

são ações desvairadas. Ações. meio por acaso mas quase como destino inelutável. ou melhor dizendo. crianças. como um mundo à parte onde impera uma outra lógica. dos anos 90. Mesmo se vistos com “simpatia”. junto com o medo. ou melhor. e ao mesmo tempo. No meio desses dois fogos. acabam por. outras menos). e impensável. quando o esforço do menino e da família se faz no sentido de construir um outro caminho. ao privilegiar o foco de nossa atenção sobre os jovens como emblemas dos problemas sociais. mais ou menos inocentes (umas mais. Mas dificilmente como sujeitos capazes de qualquer tipo de ação propositiva. assim. contra a sociedade. novamente. como os militantes de esquerda dos anos 60. levando os jovens a reagirem com respostas que os acabam conduzindo a o que se imagina a respeito deles. nos livrar de uma postura de desqualificação da sua atuação como sujeitos. da lógica doentia instaurada nessa sociedade tão profundamente dividida. *** O que me interessou ressaltar nesse breve elenco de anotações. por que não há outras referências (no caso da menina). como conseqüência. do aprofundamento das tendências do individualismo e do hedonismo. ações que se voltam contra os próprios sujeitos que as executam. a sociedade age como se assim fosse. mesmo que conflituo- Revista Brasileira de Educação 35 . assim.Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil de. serem desqualificados como incapazes de uma ação com eficácia real. Suas ações. da exclusão. objeto da nossa compaixão e de esforços para denunciar a lógica que os constrói como vítimas e de ações para salvá-los dessa situação. por outro — e dessa maneira ajudando a compor a impressão geral de que a juventude hoje está confinada a proceder através de comportamentos de desregramento social. e da violência. se comportam de forma desregrada e amoral. quase inevitáveis. e. Se os jovens que mais se aproximaram de uma atuação política reconhecida. não previam. os jovens moradores da favela são vítimas dessas duas lógicas conflitantes e complementares. É uma lógica inescusável. e com conseqüências terríveis e desastrosas para si próprios e para os outros. Nos dois casos. Na conjuntura atual. muitas vezes não conseguimos enxergá-los e entendê-los propriamente. fonte de medo e perplexidade. inconseqüentes do ponto de vista da racionalidade dos próprios sujeitos. atuando num plano comportamental e cultural sempre vizinho aos planos do hedonismo. qualquer tipo de positividade das figuras juvenis. Podem tornar-se. do mundo peculiar que se monta nos morros cariocas. assim. as chances de vivenciar experiências que os desviam desse caminho são enormes. Compelidas por que o tráfico e a marginalidade impõem padrões culturais e de valores que conformam a vida na favela. Contudo. Os jovens tornam-se. é muito presente e forte a imagem dos jovens que assustam e ameaçam a integridade social. acaba por manter invisível. nem a importância de discuti-las. é o fato de que. ou mesmo. em guerra contra a sociedade institucionalizada. como idealistas ou inocentes e como vítimas dos defeitos do sistema social. Assim. É importante ressaltar que não se pretende aqui negar a existência dessas dimensões apontadas nos filmes. a lógica do tráfico. ao fim e ao cabo. por um lado. Mesmo que não estejam envolvidos em acontecimentos “delinqüentes”. sem ao menos entender como chegaram àquilo. promovendo o aprofundamento da fratura e do esgarçamento social que os vitima. das vontades das próprias crianças. isso se acentua com os sujeitos juvenis de agora. Ações que significam risco para os jovens e risco para sociedade. Vítimas do processo de exclusão profunda que marca nossa sociedade e. de que quase não têm consciência. o que se busca desenvolver neste artigo é a observação de que a acentuação da atenção nas dimensões de vitimização e heteronomia frente às lógicas do sistema. fruto de armadilhas do destino. todas acabam envolvidas na execução de atos que não queriam. trata-se de ações inconseqüentes quanto a seus fins. ao mesmo tempo. como interlocutores para decifrar conjuntamente. as crianças se vêem compelidas a assumir o lado da marginalidade.

Londres: Hutchinson and Co. O jovem radical. T. RODRIGUEZ. p. 7. JEFFERSON. São Paulo: ANPOCS/ Scritta. vol 1. v. B. DABEZIES. (1994). (1968). S. Judith. S. (1972). HALL. Raízes da desigualdade social na cultura política brasileira. (1990). (1996). São Paulo: Pioneira. (1971). 26-37. São Paulo: Perspectiva.. Rio de Janeiro: Zahar. Petrópolis: Vozes. SALES. Youth & Policy. (1993/94). IANNI. Resistence through rituals. Marialice. nº 43. FLITNER. TELLES. Teresa. Introdução ao Cadernos de Pesquisa do CEBRAP. (1994). E. BESSANT. jul. v. T. In: Sociologia da Juventude.. Os problemas sociológicos nas primeiras pesquisas sobre juventude. Talcot. A juventude na sociedade moderna. São Paulo: CEBRAP.. nº 4. nº 25. (1976). Primer informe sobre la juventud de America Latina. 36 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .Helena Wendel Abramo samente. o significado das tendências sociais do nosso presente e das saídas e soluções para elas.. Vera da Silva. Revista Brasileira de Ciências Sociais. De geração a geração. Cenas Juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. (1976). Sociologia da Juventude. PARSONS. Referências bibliográficas ABRAMO. Contesting models of youth policy. FORACCHI. Quito: Conferencia Iberoamericana de Juventud. A contracultura: reflexões sobre a sociedade tecnocrática e a oposição juvenil.. Age and sex in the social structure of the United States. Octávio. EISENSTADT. American Sociological Review. 1.. Rio de Janeiro: Zahar. (1968). As novas faces da cidadania. ROSZAK. Helena Wendel. (1942). N. Andreas.

sobre o próprio tema eleito para investigação e sua eventual presença nos estudos que constituem o campo da pesquisa educacional. pois em fase posterior a análise dos trabalhos será realizada a partir da leitura do texto completo. de pesquisadores e de trabalhos em curso. resultando. coloca um primeiro problema clássico: o da delimitação do domínio dos objetos” (1994. Agradeço aos bolsistas Janaina Vargas. técnico. Ao Setor de Documentação de Ação Educativa o meu particular agradecimento pelo suporte técnico competente. Para Mauger. retirados dos resumos das dissertações e teses defendidas na área de Educação. qualquer investigação em torno da produção de co- Revista Brasileira de Educação 37 . Thereza Pozzi e Irene Miashiro pela sistematização dos dados. de 1980 a 19951. no acréscimo de trabalhos a serem considerados no âmbito da temática. decorrer da existência de trabalhos cujos resumos não foram enviados para a ANPEd ou CAPES. Eventuais falhas do levantamento da produção ainda estão sendo corrigidas mediante revisão e acesso a outras fontes. Poderíamos concluir que.6). Buscando oferecer um quadro amplo do estado das investigações sobre os jovens na França. Paula Gonçalves. de constituição e de apresentação de uma bibliografia. principalmente. 1 O projeto de pesquisa denomina-se “Juventude e Esco- larização: uma análise da produção de conhecimento” e está sendo desenvolvido em conjunto com Sérgio Haddad (Ação Educativa e PUC/SP). Universidade de São Paulo Este artigo apresenta resultados preliminares de investigação que examina a produção de conhecimento sobre o tema juventude. os pesquisadores interessados em estudar e realizar balanços sobre essa temática estariam frente a uma situação paradoxal de difícil resolução. aparentemente. Algumas lacunas podem.Estudos sobre juventude em educação Marilia Pontes Sposito Faculdade de Educação. p. com o apoio da FAPESP e CNPq. o trabalho “aparentemente inocente. Inicialmente. também. Marco Antonio Edreira. torna-se necessário considerar que os problemas da análise da produção de conhecimento sobre jovens ou juventude recobrem um elenco significativo de questões que incidem. apontando questões advindas do exame de dissertações e teses defendidas nos Programas de Pós-Graduação em Educação. provavelmente. de recenseamento de unidades de pesquisa. pois a primeira questão que se apresenta é a da própria definição da categoria juventude. De um lado. Os dados aqui apresentados caracterizam-se pelo seu caráter ainda inicial. esse pesquisador evidencia as dificuldades presentes nesse intento.

140). estaríamos diante de um impasse de difícil resolução. definida a partir de universos mais amplos e diversificados. sobretudo aqueles derivados das diferentes situações de classe (p. para outros a temá- tica estaria subsumida no interior de outras dimensões da vida social. mas o modo de apreensão de tais problemas também muda3. do objeto de estudo de modo a orientar os critérios de seleção. se nos anos 60. para formular essa categorização inicial as dificuldades não são desprezíveis. realiza um esforço de sistematização. tornando-se mais ou menos permeá- As formulações de Mannheim constituem contribuições fundamentais sobre o tema da juventude a partir da idéia de transição (MANNHEIM. Sendo assim. os estudos sobre tais sujeitos também sofrem essas influências ao elegerem suas âncoras teóricas e respectivas formas de aproximação do objeto. reside em reconhecer que a própria definição da categoria juventude encerra um problema sociológico passível de investigação. configurando.Marilia Pontes Sposito nhecimento exigiria. não só em virtude do decréscimo da visibilidade das manifestações anteriores. quase transformando-a em categoria econômica (Pais. Bourdieu (1986) examina as ambigüidades presentes nessa expressão. Nesse momento a atenção dos pesquisadores voltava-se para os movimentos de contracultura e para as manifestações estudantis que atingiam a sociedade norte-americana. a juventude era um “problema” na medida em que podia ser definida como protagonista de uma crise de valores e de um conflito de gerações essencialmente situado sobre o terreno dos comportamentos éticos e culturais. ainda que provisória. ao realizar balanço sobre estudos de gangues nos EUA — tema que participa do foco de interesses da sociologia norte-americana desde o início dos anos 20 com a Escola de Chicago — verifica que houve um arrefecimento desses estudos nos anos 60. 3 38 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . tendo em vista a exequibilidade do empreendimento investigativo. a juventude tem sido encarada como fase de vida marcada por uma certa instabilidade associada a determinados “problemas sociais”. que na pesquisa em Educação. sua duração e características têm variado nos processos concretos e nas formas de abordagem dos estudos que tradicionalmente se dedicam ao tema2. a partir da década de 70 os “problemas” de emprego e de entrada na vida ativa tomaram progressivamente a dianteira nos estudos sobre a juventude. a eleição de uma definição. como afirma Mauger. Do mesmo modo. Pais (1990). na medida em que os critérios que a constituem enquanto sujeitos são históricos e culturais. De outra parte. como em decorrência da escalada de violência juvenil que atingiu o país. as pesquisas sobre gangues ocupam novamente o interesse dos estudiosos. Poderíamos considerar. como pressuposto. 2 No artigo “De quoi parle-t-on quand on parle du ‘problème de la jeunesse’?”. pois seria quase impossível recorrer a um uso da categoria jovem que se imporia de modo igual a todos os pesquisadores. ênfases temáticas e categorias de análise não se despem das influências das conjunturas históricas e dos processos sociais em que se movem. É preciso reconhecer que. dois grandes blocos que indicam a construção social do campo de estudos: o primeiro compreenderia os trabalhos que consideram a juventude como um conjunto social derivado de uma determinada fase de vida. se para ordenar fosse preciso recorrer a critérios comumente utilizados e se. Jankowski (1992). como hipótese. Assim. 1968 e 1982). Assim. Uma das formas de aproximação. 1990). Pais (1990) também alerta para as diferenças existentes entre a definição da juventude enquanto problema social e a definição da juventude enquanto problema para análise sociológica. ao examinar um conjunto expressivo de autores que se dedicaram à investigação sobre juventude. de fato. histórica e socialmente. ao menos. No início da década de 80. Embora ocorra um reconhecimento tácito na maior parte das análises em torno da condição de transitoriedade como elemento importante para a definição do jovem — transição da heteronomia da criança para a autonomia do adulto — o modo como se dá essa passagem. com ênfase nos aspectos geracionais. é problemática a adoção desse mínimo já estabelecido.

De qualquer modo. inclusive. a tendência maior é a de antecipação do início da vida juvenil para antes dos 15 anos. 1994).123). 1988. a delimitação da faixa etária para levantamento das dissertações e teses não De acordo com Chamboredon o conceito de ciclo de vida. Parte importante do seu modo de construção se desvela nessa interação. pode ser enganador se ele sugere a determinação natural dessas etapas e o caráter universal. que os registram em sucessão — num processo contínuo de substituição — na Antropologia social os vemos em plena simultaneidade. em alguns países europeus. da leitura do estudo de Arruda (p. suas relações com os processos históricos que permitem a visibilidade desse segmento na sociedade brasileira nos últimos anos. pois compreende uma primeira delimitação como ponto de partida. se possível. Mas outro elemento a ser considerado é a dinâmica do próprio campo de conhecimento. no âmbito da exame da produção de conhecimento. 4 mesmo neste caso — a delimitação da faixa etária — foi preciso considerar as condições sociais em que se opera o desenvolvimento dos ciclos de vida em sociedades como a brasileira5. sem que o novo paradigma elimine o anterior pela via das ‘revoluções científicas’. ao concluir sua escolaridade. caracterizado pela adoção de matrizes disciplinares que. seus modos de aproximação do fenômeno em questão. Assim. 15)4 . não consegue se inserir nas atividades profissionais do mercado de trabalho formal (Chamboredon. Mas. revelador de uma nova fase — a pósadolescência — que estaria configurando um período de latência ou de moratória social pois o jovem. É preciso considerar os estritos limites em que essa delimitação opera e seu caráter preliminar. Para Felicia Madeira. a análise de como um determinado campo de estudos também vem construindo teórica e conceitualmente o tema da juventude enquanto objeto de investigação. Discorda assim de Kuhn (1975). Integramos no conjunto amplo denominado juventude os segmentos etários que vão de 15 a 24 anos. Mas. “articulariam de modo sistemático um conjunto de paradigmas. Por essas razões cabe realizar. a adoção desse escopo não isenta o pesquisador da necessidade de utilização de critérios classificatórios explícitos. útil para fins descritivos. homogêneo e estável de seu conteúdo (1985. sobretudo aqueles desenvolvidos por Felicia Madeira6 . assim. pois nesse campo pode ocorrer a convivência. seguindo as orientações de trabalhos na área demográfica.. para o conjunto da sociedade brasileira. o exame de estudos que realizaram aproximações indiretas sobre a temática.19). seus recortes principais e. Mas. 6 5 Revista Brasileira de Educação 39 . Por essas razões Oliveira considera que no âmbito da Antropologia Social — por extensão creio ser pertinente sua análise para o campo da Educação — matriz disciplinar e paradigma não seriam considerados sinônimos. mas essa exigência deve contemplar a idéia de um certo grau de flexibilidade para possibilitar. segundo Oliveira (1988). na medida em que certas características de autonomia e inserção em atividades no mundo do trabalho — típicas do momento definido como de transição da situação de dependência da criança para a autonomia completa do adulto — tornam-se o horizonte imediato para grande parcela dos setores empobrecidos. 1985 e Müxel. pois há enorme diferenças de tratamento dos dados inclusive sob o ponto de vista sócio-demográfico. essa ampla faixa por ela estudada compreende de 15 a 19 anos os adolescentes e de 20 a 24 os jovens propriamente ditos. “à diferença das Ciências Naturais. muitas vezes em um mesmo país ou em uma mesma instituição de várias matrizes. Os trabalhos de Madeira (1986.Estudos sobre juventude em educação veis a essas situações. 1996). mantendo-se todos e cada um ativos e relativamente eficientes” (p. 1989) a partir dos anos 80 têm se constituído em uma importante referência sobre o tema no Brasil. a condição de coexistirem no tempo. A fixação de alguns critérios relativos à faixa etária constituiu um procedimento inicial e útil para a seleção dos trabalhos. As idéias de Oliveira foram citadas por Maria Arminda Arruda (1995) em seu artigo sobre Florestan Fernandes e a Escola Paulista de Sociologia. Esse alongamento tem sido tratado como um desafio para a investigação. Minha apropriação do trabalho de Roberto Cardoso de Oliveira decorre. Sob o ângulo restrito das estatísticas. os estudos tendem a alongar os limites superiores da faixa etária pela incorporação da população com a idade de 29 anos (Bauby e Gerber.

que definiram um alongamento da permanência no interior da escola para novos segmentos sociais e as condições diferenciais de acesso ao mundo do trabalho — sem significar a formação de uma nova unidade conjugal ou o abandono da casa paterna — exigiram novas modalidades de compreensão para essa passagem. pela instantaneidade da passagem da infância à vida adulta e pela concordância necessária dessas três etapas. cada descritor. 40 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . As questões acima enunciadas são. militares. 21). o modelo burguês delineava-se pela idéia do “diletantismo” que possibilitava adiar o momento e as etapas definitivas de entrada na vida adulta sem renunciar. situação típica de países como a França (Chamboredon. nos últimos anos. a partir dos principais descritores utilizados pelos autores para definir sua aproximação ao universo estudado. tanto centrais como periféricas. a incorporação de pesquisas de faixas etárias um pouco anteriores ou superiores ao universo 15-24 anos. 8 9 7 Esse uso é também reconhecido por Mauger (1994) Sob a categoria outros foram reunidos os trabalhos que. foi preciso recorrer a outros procedimentos que permitiram incorporar os usos associados. a conhecer certas formas de independência. seriam elementos importantes para o estudo dos jovens nos dias atuais. e a latência. que separa a posse de alguns atributos do seu imediato exercício. delimitadas pela partida da família de origem. ainda que indiretamente. expressão de processos históricos peculiares que resultaram. O primeiro caso — a descristalização — oferece como exemplo o exercício das atividades adultas da sexualidade já na puberdade. temáticas diversas. torna-se também um desafio conceber a multiplicidade e a desconexão das diferentes etapas dessa passagem para a vida adulta incorporando as situações peculiares da vida urbana e rural7. assim. significando dissociação no exercício de algumas funções adultas. O segundo caso — a la- tência — seria ilustrado pela situação de posse de habilitação profissional oferecida pelo sistema escolar sem o imediato ingresso no mercado de trabalho. tanto a descristalização. visivelmente. O segundo critério foi a seleção dos trabalhos que explicitamente utilizaram-se da categoria adolescentes e o terceiro pela adoção da categoria adolescentes em situações de exclusão como os assistidos. 1991). meninos e meninas de rua (essa última categoria foi contemplada pela seleção de estudos que incorporaram os adolescentes ou a população de 14 a 17 anos). Em decorrência.Marilia Pontes Sposito implica em mera atribuição burocrática. quanto aos recortes disciplinares selecionados. Chamboredon (1985) propõe. assim. não obstante considerarem a população em questão no âmbito da faixa etária. Além do critério etário e dos cuidados teórico-metodológicos de sua adoção. Finalmente. podendo envolver. etc. dissociado das funções reprodutivas e familiares. em alguns casos. os segmentos operários eram caracterizados. no entanto. 1985. A seleção dos trabalhos foi feita. à noção de juventude8. no início do século. possibilitando. Para Galland. utilizaram-se de descritores como atleta. As transformações observadas nos sistemas escolares ao longo do século. a entrada na vida adulta significa ultrapassar três etapas importantes. carentes. embora a centralidade da investigação se restrinja aos estudos ancorados nas disciplinas compreendidas pelas Ciências Sociais (Sociolo- A essas situações poderiam ser acrescentados os temas relativos ao gênero e às etnias. Em oposição. na superação do “modelo de instalação” na passagem para a vida adulta (Galland. Um primeiro lote de trabalhos foi reunido a partir do uso direto da expressão jovem no corpo da investigação. a multiplicidade e a desconexão das diferentes etapas de entrada na vida adulta. Segundo este autor. mas deve sofrer cuidadoso critério de definição da pertinência ou não do estudo em questão. O quarto uso diz respeito à categoria aluno ou estudante e o quinto pela combinação trabalhador-estudante ou aluno-trabalhador9. sobretudo nas sociedades urbanizadas. pela entrada na vida profissional e pela formação de um casal. menores. Considerando as relações presentes nos modos de reprodução das diversas classes sociais.

7 100 Teses 0 0 1 0 0 2 0 0 1 7 3 1 5 1 0 6 27 % 3.2 100 Total 9 13 9 0 19 18 9 12 9 25 19 14 18 13 7 51 244 Total % 3. Embora esse incremento seja significativo é preciso considerar que nesse mesmo período se observa. seguida pela Antropologia e Política) não foi possível desconsiderar as ênfases derivadas da Psicologia no balanço da produção discente. Desse conjunto.6 8.7 7. Sobre a presença dos temas psicológicos na pesquisa em educação consultar Warde (1993).5 3.7 22.8 7. atingindo limites superiores em 1981 (8.1 3. um crescimento expressivo no número total de teses e dissertações defendidas. oferece informações a partir do ano de 1981. Tabela 1 Produção acadêmica discente em juventude 1980-1995 Ano 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 Total Dissertações 9 13 8 0 19 16 9 12 8 18 16 13 12 12 7 45 217 % 4 6. em decorrência da tradição na pesquisa educacional que sempre contemplou espaços importantes para estudos examinados à luz dos temas dessa disciplina10. Por essas razões é ainda prematura qualquer inferência sobre um maior interesse sobre esse campo de investigações no interior da área da Educação. Não constam também do levantamento as dissertações e teses que examinaram populações portadoras de algum tipo de deficiência.2 3.5 3.4 3. 11 Revista Brasileira de Educação 41 .5 5.7 7. correspondendo a 4% da produ- ção em Educação11.7 5 3. 1985 (7.2 4 5. No entanto. até o momento foi levantado um total de 217 dissertações e 27 teses (Tabelas 1 e 2). sintetizada pelos resumos publicados nos Cadernos da ANPEd. perfazendo um total de 6092 trabalhos.4 5.2 20.5 3.2 2. mediante listagens oferecidas pela ANPED. Esse índice comparativo sofre pequenas alterações no período. também. compreendendo 651 Teses e 5441 dissertações.2 7.8 7.7 7.7 18.7 20.Estudos sobre juventude em educação gia.2 6.9%) e em 1995 (6.4%). conteúdos e novas metodologias de ensino.8 5. que reuniu as informações contidas em todos os cadernos. os dados globais da produção não integram esse ano porque o CD-ROM.7 5.8 100 10 Não foram classificados os estudos que trataram de componentes específicos do processo de ensino e aprendizagem — os de natureza estritamente pedagógica — que visavam a uma percepção de questões relacionadas ao modo como ocorre a absorção de conceitos.6 8. de forma dominante.4%).7 26 11. Embora tenha sido possível levantar os resumos de trabalhos do ano de 1980.7 10. é preciso reconhecer que no interior da temática “Estudos sobre Juventude” há um sensível crescimento nos últimos anos. pois cerca de metade da produção está concentrada nos anos 90. De posse desses critérios iniciais foi preciso percorrer a vasta produção do período (19801995).4 3.2 7.5 5.5 3.

1 13 2.5 0.9 1993 526 88 614 12 2.4 2.4 1989 383 58 451 18 4.4 1988 340 31 371 8 2.2 0.1 1991 404 47 461 13 3.2 8.8 51 6.4 0.3 25.1 0 7 1 1995 693 103 796 45 6.7 1985 205 22 227 16 7.8 2.4 0.2 21. Tabela 3 Distribuição geográfica da produção acadêmica discente por Ufs e regiões Região/Estado Centro-Oeste Distrito Federal Goiás Mato Grosso Mato Grosso do Sul Nordeste Bahia Ceará Paraíba Piauí Rio Grande do Norte Sudeste Espítito Santo Minas Gerais Rio de Janeiro São Paulo Sul Paraná Rio Grande do Sul Santa Catarina sem identificação Total Dissertações 8 3 1 1 3 21 7 6 6 1 1 129 4 7 53 65 54 8 45 1 5 217 Teses 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 20 0 0 2 18 7 0 7 0 0 27 Total 8 3 1 1 3 21 7 6 6 1 1 149 4 7 55 83 61 8 52 1 5 244 % Total 3.2 1 1.4 0.5 1990 419 41 460 16 3.1 3.2 0 9 4 1987 244 26 270 12 5 0 12 4.5 7 12 25 5.3 1 3.4 1.6 34.8 22.4 1982 161 4 165 8 5 1 25 9 5.8 2 9.2 1 1.2 9 2.3 19 4.4 Total 5441 651 6092 217 4 27 4.2 1.4 6 5.4 2. ** O ano de 1980 não está computado no total de porcentagens.4 1983 227 11 238 0 0 0 1984 319 17 336 19 6 0 19 5.6 2.9 18 2.9 1986 211 16 227 9 4.1 18 7.3 1.3 244 4 * As porcentagens se referem ao total da produção da área de educação catalogadas no CD-Rom da ANPEd.1 1994 612 86 698 7 1.4 61. uma vez que o CD-Rom da ANPEd não fornece os dados deste ano.8 3 7.2 5 6.4 2 100 42 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .7 14 3 1992 537 87 624 12 2. Dissertações % Teses % Total Total % 1980** 9 0 9 1981 150 4 154 13 8 0 13 8.Marilia Pontes Sposito Tabela 2 Participação da produção acadêmica em juventude sobre o total nacional 1981-1995 Série Produção acadêmica discente nacional Produção acadêmica discente em juventude Ano Dissertações Teses Total Nac.

as proporções do conjunto da área.3% e 22.1 3. 12 Revista Brasileira de Educação 43 .1 12. a maior incidência de trabalhos defendidos. explica.5 4.4 0.4 2. Tabela 4 Distribuição da produção acadêmica discente por entidades mantenedorasa Instituição Dissertações Teses Total PUC/SP 25 9 34 UFRGS 25 6 31 PUC/RS 20 1 21 UNICAMP 17 2 19 PUC/RJ 13 2 15 UFRJ 14 0 14 USP 7 6 13 UFSCar 10 1 11 UFF 10 0 10 IESAE 10 0 10 UFPR 8 0 8 UFBA 7 0 7 UERJ 6 0 6 UFCE 6 0 6 UFMG 6 0 6 UFPB 6 0 6 UFES 4 0 4 PUCCAMP 3 0 3 UFMS 3 0 3 UnB 3 0 3 UNIMEP 3 0 3 UFGO 1 0 1 UFMT 1 0 1 UFPI 1 0 1 UFRN 1 0 1 UFSC 1 0 1 UFU 1 0 1 sem identificação 5 0 5 Total 217 27 239 a Faltam os dados sobre as entidades mantenedoras relativos a cinco dissertações do ano de 1980 % Total 14. à primeira vista. Os estados de São Paulo e Rio de Janeiro concentram 56.7% e a região sul por 19.4 4.1 4. seguida da região sul com 25.9% da produção nacio- nal (34.3 1.Estudos sobre juventude em educação A distribuição geográfica da produção sobre o tema revela que a região Sudeste reuniu 61.4 2.2 1. praticamente. com 21.7 7.2 2.3% dos trabalhos defendidos nesse período.1%. No entanto verifica-se a presença marcante do estado do Rio Grande do Sul.2 0.8 5.4 0.4 0. pois os dados coletados seguem.5% do total da produção discente.5% da produção nacional nos estudos sobre juventude.4 0.4 0.6%. No período de 1982/1991 a região Sudeste ficou responsável por 67.4 2.6 1.2 1.4 1.2 5. aliada à sua longevidade.8 2.9 6.8 8. respectivamente) (Tabela 3)12 . como demonstra o estudo de Warde. reunida em duas instituições (PUC/RS e UFRGS) (Tabela 4).4 2 100 A concentração dos Programas de Pós-Graduação na Região Sudeste e Sul.

2 4. principalmente.3% dos temas e o conjunto restante de assuntos investigados.3 13.2% das dissertações e teses distribuídas em âmbitos diversos.Marilia Pontes Sposito Os descritores utilizados pelos autores referemse. sendo desenvolvidos por estudos que utilizaram sobretudo o termo adolescente como descritor.1% dos trabalhos. adolescentes em situação de exclusão (9%) (Tabela 5). compreende 16. compreendendo 59. capacidade crítica e representações integram 21.8 % dos assuntos tratados nas dissertações e teses (Tabela 6).8 4. os adolescentes (15.5%).5 9 3. a escolaridade de primeiro e segundo graus recobre a maioria desses interesses temáticos e a pesquisa sobre ensino superior dedicou-se.9 4. às definições do sujeito a partir de sua condição de aluno ou estudante. significaram 44. Em termos de grau de ensino.2 100 Tabela 6 Distribuição da produção acadêmica discente por temas pesquisados Tema Dissertações Teses Total Escola 41 1 42 Trabalho e Educação 36 6 42 Cursos noturnos 29 3 32 Ensino superior 22 8 30 Aspectos psicossociais 27 1 28 Representações 21 4 25 Participação política 11 1 12 Projetos de atendimento 8 2 10 Meios de comunicação 6 0 6 Grupos juvenis 4 1 5 Violência 2 0 2 Outros* 10 0 10 Total 217 27 244 * Inclui prática de esporte. educação militar.2 13.4 2 0.6 15.% sobre o total dos descritores). em sua grande parte caracterizados por abordagens mais próximas das orientações da Psicologia.1 100 44 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Os temas relativos aos aspectos psicossociais dos sujeitos investigados.7% da produção.5 10. Nesse último bloco.6.3 11. compreendendo a escola (primeiro e segundo graus). sobretudo.1 12. ao estudo do destino ocupacional e expectativas profissionais dos alunos. As relações entre trabalho e educação no âmbito da faixa etária ocuparam 17. Desse conjunto (144). O tema constitui um dos elementos importantes para descrever e caracterizar essa produção. educação ambiental. jovens (13. buscando traçar seu perfil13. prostituição infanto-juvenil % Total 17. Considerando-se apenas o tema principal é possível perceber que as relações dos jovens com as formas institucionais do processo educativo. os cursos noturnos e ensino superior.5 15. O restante criou formas de aproximação do sujeito a partir de outras categorias tendo como foco de investigação.1 2.2%).3 17. julgamento moral. 38 estudos se referiram diretamente à categoria estudantetrabalhador (15. tais como valores. caracterizado Tabela 5 Distribuição da produção acadêmica discente por descritores Descritores Estudante Estudante-trabalhador Adolescente Jovem Adolescente excluído Outros Total Dissertações 95 34 32 28 20 8 217 Teses 11 4 5 5 2 0 27 Total 106 38 37 33 22 3 44 % Total 43.

em menor número.8% 42.8%) constituem os últimos grupos em termos de freqüência.2 Total 9 13 9 19 18 9 12 9 25 19 14 17 13 7 51 244 100 Tabela 8 Distribuição (a cada 5 anos) da produção acadêmica discente por descritor Descritores Jovens Adolescente Estudante Estudante trabalhador Adolescente excluído Outros Total 80-84 2% 18% 62% 4% 12% 2% 100% 85-89 15% 17. concentram-se alguns temas mais próximos dos estudos clássicos da Sociologia da Juventude.5% 100% 90-95 17. Temas como projetos e instituições destinadas aos adolescentes em situação de risco. As aná- lises sobre grupos juvenis (gangues. Dentre eles estão presentes as investigações desenvolvidas em torno do movimento estudantil e da participação política compreendendo 12 trabalhos (4.4% 12.2% 43.4% 36. prostituição infanto-juvenil e prática de esportes. envolvendo propostas alternativas estão presentes em 4.7% 5.6 Adolescente excluído 1 1 3 1 1 4 2 1 1 7 22 9 Outros 1 1 1 1 1 3 8 3.5% 15.5% 9% 3.5 Adolescente 2 3 1 3 6 2 1 4 1 3 2 1 8 37 15.5% 13. citaríamos estudos que trataram de carreiras. A categoria outros. educação militar.6% 9% 3. grupos musicais) que foram objeto de investigação de apenas 5 trabalhos (2%) ou violência (0. Tabela 7 Distribuição (ano a ano) da produção acadêmica discente por descritores Descritores Ano 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 Total Total % Jovem 1 3 2 2 3 1 3 3 1 3 1 10 33 13. as pesquisas envolvendo jovens e mídia (2.1% dos trabalhos selecionados e.4% 21. como o perfil do estudante de enfermagem. Se considerarmos a seqüência temporal tanto na utilização dos descritores como nas preferências temáticas alguns indícios importantes de mudança de ênfase podem ser verificados (Tabelas de 7 a 10).5% 15.5% 5.5 Estudante 1 1 2 1 1 1 5 5 3 5 6 5 2 38 15.4%).3% 100% Total 13. etc. reunindo estudos muito díspares quanto ao tema. inclui educação ambiental.2% 100% 13 Como exemplo.2 Estudante trabalhador 6 7 4 14 6 4 7 4 10 9 3 8 3 21 106 43.Estudos sobre juventude em educação pela sua baixa freqüência. galeras.9% do total da produção sobre juventude). Revista Brasileira de Educação 45 .

1% 12.5% — aliado a uma significativa alteração no modo de sua abordagem.5% 10. A este dado pode se acrescentar um decréscimo nas categorias relativas à condição escolar — de 66% no primeiro período para 57.7% 19% 10.7% 3.3% 8.4% 2% 0.8% 4% 100% 46 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .5% 6.7% 3. praticamente inexistente no início dos anos 80 (2%).4%) (Tabelas 7 e 8).3% 11.2% 5.7% 16.4% 8.2% 4.8% 19.5% 8.9% 16. verifica-se o aumento da freqüência para o descritor jovem.7% 3.3% 2.9% 1.3% 1.2% 100% 90-95 15.7% 1.9% 7.3% 17.4% na fase mais recente).3% 100% Total 17.3% 1. al- cançando proporção maior já nos primeiros cinco anos da década de 90 (17.7% 2. Tabela 9 Distribuição (ano a ano) da produção acadêmica discente por temas pesquisados Ano 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 Total Tema Escola 3 4 1 2 3 1 3 1 5 4 1 2 1 11 42 Educação e Trabalho 1 2 1 5 2 2 1 5 4 5 5 2 7 42 Cursos Noturnos 3 1 1 1 6 2 6 1 4 5 30 Ensino Superior 1 6 1 2 2 1 6 4 1 2 3 3 32 Aspectos Psicossociais 5 4 3 3 2 1 1 1 1 2 1 5 28 Representações 1 2 4 1 2 5 1 1 3 5 25 Grupos juvenis 1 1 3 5 Projetos de Atendimento 1 2 1 1 1 3 10 Participação política 1 2 1 1 2 1 4 12 Violência 1 1 2 Meios de Comunicação 1 1 1 1 1 1 6 Outros 4 1 1 1 3 10 Total 9 13 9 19 18 9 12 9 25 19 14 17 13 7 51 244 Tabela 10 Distribuição (a cada 5 anos) da produção acadêmica discente por temas pesquisados Descritores Escola Trabalho e educação Ensino Superior Cursos Noturnos Aspectos psicossociais Representações Participação política Projetos de atendimento Meios de comunicação Grupos juvenis Violência Outros Total 80-84 20% 18% 14% 30% 6% 8% 4% 100% 85-89 17.3% 13.9% 3.2% 6.8% 13.Marilia Pontes Sposito Quanto ao uso de descritores pode ser observado o decréscimo gradativo da utilização do termo adolescente (de 18% no período 80-84 para 12.

didáticas. sobretudo. 57). 14 Revista Brasileira de Educação 47 . Mas a investigação realizada por Warde aponta. 69). no último período. Chama a atenção a presença de estudos no início dos anos 80 sobre adolescentes em situação de exclusão e uma pequena recuperação de sua freqüência nos anos 90. ao Tanto o decréscimo da presença da vertente psicológica como o incremento de uma possível abordagem ancorada nas Ciências Sociais não indicam. também. de acordo com as análises responsáveis pela avaliação acadêmica da área (Gatti. ainda. ao passo que estudante-trabalhador de 4% no período 80-84 atinge 21.Estudos sobre juventude em educação O descritor estudante atingia 62% dos trabalhos e passa. mas de: a) fragmentação dos temas numa multiplicidade de subtemas ou assuntos. As ênfases temáticas (Tabelas 9 e 10). a “dispersão e a variação temática continuam a ser características predominantes sobre a unidade e a continuidade. As temáticas emergentes dos anos 90 compreendem o exame dos agrupamentos e as formas de violência no horizonte da sociabilidade juvenil. em si mesmos. Por outro lado. ao longo desses 15 anos. 1993. também oferecem elementos para reiterar certas observações já verificadas na análise dos descritores. Não se trata de diversidade. envolvendo um movimento contrário de aumento da categoria jovem. técnicas de ensino. marcada pela dispersão e variação temática. Os assuntos relativos a educação e trabalho e. A ênfase nas pesquisas de natureza estritamente pedagógica. Algumas considerações para a análise Várias interrogações se impõem ao investigador.6% nos anos 90) 14. ampliando os estudos sobre jovens. compreendendo gama variável de aspectos tais como metodologias. traço positivo a ser conquistado e preservado. de acordo com Warde. após o exame desses dados ainda preliminares. Assim. 1993).4%. nos anos 80. b) pulverização dos campos temáticos e c) descontinuidade no trato dos assuntos” (Warde. progressos ou regressões no campo de estudos. o advento e disseminação da categoria estudante-trabalhador revelam a busca de mecanismos de aproximação da realidade escolar capazes de integrar outros aspectos das relações sociais — o trabalho — em que parte significativa de seus sujeitos está mergulhada. a preferência por temas pedagógicos. diminuindo as investigações em torno da escola sem o recurso a essas adjetivações. apresentando um índice rápido de crescimento na época (1982-1991) principalmente os trabalhos sobre o ensino de disciplinas ou áreas de estudo. 1993. anteriormente restritos à participação política (sobretudo no movimento estudantil). O modo de aproximação do sujeito expresso no uso dessas categorias oferece alguns elementos importantes para a reflexão.5% nos anos 90. o tema na área educacional não sofreu tratamento acadêmico suficiente de modo a oferecer uma contribuição crítica para a formulação de políticas públicas. planejamento. pequeno grau de permeabilidade da academia à problemática desses segmentos. A pequena participação do que amplamente poderíamos designar como Estudos sobre Juventude em Educação decorre das características da própria produção. A análise mais detida dessas inflexões só poderá ser empreendida mediante avaliação em profundidade dos trabalhos. resultantes do levantamento empreendido sobre a produção discente na Pós-Graduação em Educação de 80 a 95. Esses dados indicam. cursos noturnos tenderam o ocupar espaços mais relevantes. entre outros (Warde. Intensamente debatido na segunda metade dos anos 80 e consagrado em nova ordenação institucional em 1990 com o Estatuto da Criança e do Adolescente. por formação e atuação. de um número não desprezível de professores e técnicos de ensino ligados. para 36. De um lado parece que a ênfase em categorias consagradas da Psicologia — adolescente — tende a diminuir. A sensível diminuição da freqüência de assuntos em torno dos aspectos psicossociais da faixa etária parece indicar um decréscimo da presença de matrizes disciplinares da Psicologia na análise dos sujeitos (de 36% para 15. parece decorrer da entrada na Pós-Graduação. 1983 e Warde. mais próxima da tradição sociológica.

Ao que tudo indica estaria ocorrendo um padrão de esgotamento das análises sobre a escola no Brasil que privilegiariam apenas a experiência pedagógica e os mecanismos presentes na distribui- O primeiro trabalho localizado data de 1981. Nesse campo de estudos levantados pelo conjunto de dissertações e teses. Mas. ainda. na explicação do isolamento da área em relação às demais ciências humanas. que este seria. Dubet e Martuccelli. Ao que tudo indica. tentando apreender as especificidades da escola noturna. para grande parte da população escolar. embora não utilize a expressão estudante-trabalhador. 69). também. 1996). particularmente na faixa etária que recobre os segmentos juvenis? Seriam apenas os temas psicológicos o campo privilegiado de interlocução com outras áreas de investigação social? Se considerarmos que a maioria dos pesquisadores. 1987 e 1991. Ou seja. incluindo aquelas que dizem respeito às formas associativas e de expressão cultural dos segmentos juvenis na medida em que se acentua a crise da escola e sua capacidade de intervenção socializadora sobre a população em idade escolar. Se essa suposição é correta. Seria então observada. em menor quantidade. interessados em compreender a escola. para a investigação de aspectos pedagógicos. Essas questões iniciais já permitem uma indagação importante. poderíamos supor. ao ensino superior. nas teses e dissertações reunidas estaria ocorrendo esse diálogo apontado por Warde. as investigações mais recentes recorrem a novas abordagens. percebe-se a sua fraca participação no conjunto da produção da área nos últimos quinze anos. ainda que em caráter incipiente. utilizou-se do tema escola e dos descritores que examinam a condição de aluno ou estudante. reduzindo as expectativas. A compreensão da vida escolar estaria. de estudos de natureza sociológica sobre jovens no interior da pesquisa em Educação? Ou. 15 48 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Tal fato parece auxiliar. Por essas razões a pesquisa voltou-se para o exame dessas formas híbridas que caracterizariam a experiência educativa da maioria da população de origem trabalhadora ou excluída da sociedade brasileira. As pesquisas estariam privilegiando no desvelamento do sujeito apenas a sua condição mais visível de aluno. trata do estudante que trabalha. e propondo a questão de forma mais modesta. em nosso caso adolescentes ou jovens. um aspecto reiterador das características gerais da produção discente na área. estaria ocorrendo no seu interior a emergência de formas de sociabilidade juvenil não contempladas nas investigações (Dubet. revelando forte interesse no processo de aprendizagem mas com escassa ênfase no conhecimento do aluno. cit. exigindo novos aportes da pesquisa. a categoria aluno não possibilitaria uma aproximação mais global de suas práticas escolares. enquanto sujeito ao qual se destina a atividade educativa da escola. interesses e formas de sociabilidade. cujos dados preliminares foram aqui apresentados. conforme já apresentado. nesse universo da pro- dução discente. assim. sobretudo. uma vez que além da sua escassa capacidade de transmissão de conhecimentos e valores considerados legítimos pela sociedade.Marilia Pontes Sposito ensino de primeiro e segundo graus e. ao contrário. como forma de aproximação do sujeito.. Um ponto importante de inflexão nesse universo de dissertações e teses se verifica na adoção da categoria estudante-trabalhador no âmbito das investigações que também procuraram entender a escola noturna e as relações entre educação e trabalho 15. esses pesquisadores voltaram-se. mediante a constituição de uma área. a inexistência de relativa porosidade capaz de absorver dimensões da sociabilidade do educando que afetariam os patamares em que se dá a sua experiência escolar. uma forma de aproximação inspirada nas disciplinas compreendidas pelas Ciências Sociais para a análise do sujeito ao qual se destina o processo educativo. estabelecendo apenas em alguns temas e por parte de alguns pesquisadores “um diálogo diferençado com outras áreas de investigação social” (Warde. ainda que incipiente. op. poderíamos admitir a hipótese de que no interior dos estudos sobre a Educação estaria sendo contemplada. A dissertação foi posteriormente publicada sob o título Ensino noturno realidade e ilusão (Carvalho. 1984).

1973). em decorrência das orientações e — tomo a liberdade de acrescentar — do padrão de interações de seus agentes: corpo administrativo. ilustram a adoção dessas vertentes inspiradas em Cândido. ao realizar um balanço das tendências predominantes no pensamento sociológico sobre a Educação. Cândido assinalava a inevitável tensão existente entre as gerações. que reduziria as situações particulares ao que estaria estabelecido e interpretado “a priori” em seus aspectos mais genéricos. Utilizando-se da significação heurística atribuída por Znanieck (1973). Os trabalhos de Luiz Pereira. 17 Revista Brasileira de Educação 49 . a segunda vertente — pedagógico-sociológica — buscava os elementos teóricos que pudessem ser traduzidos na possibilidade do bom funcionamento da escola. “A escola numa área metropolitana” (1967) e o artigo “Rendimentos e deficiências do ensino primário brasileiro”. tornava-se preciso investigar não só os mecanismos que traduzem a ação deliberada dos grupos instituidores. mas se transformava em componente da Pedagogia e da Administração Escolar. Tratava-se de criticar a “ilusão pedagógica” de Durkheim (Durkheim. expressos nas ordenações advindas do Poder Público. no artigo “A estrutura da escola” Cândido (1973 a) desenvolve um excelente roteiro de investigação para a análise da unidade escolar.Estudos sobre juventude em educação ção do conhecimento escolar sem levar em conta outras dimensões e práticas sociais em que está mergulhado o sujeito16 . Ao levantar elementos importantes para a análise das situações pedagógicas da escola e do processo educativo. publicado no livro Estudos sobre o Brasil contemporâneo (1971). a Sociologia da Educação. Antônio Cândido identificava três grandes orientações: uma primeira — filosófica-sociológica — qualificada por suas preocupações em definir o caráter social do processo educativo. Cândido não se detém nesses aspectos e também aponta não só fecundos caminhos para uma nascente Sociologia da Educação. Essa sociabilidade. A tese de doutorado de Guimarães (1995). Este. João Baptista Borges Pereira (1976) também em sua dissertação de mestrado. Em suas reflexões pioneiras. Por outro lado. estabelecendo as articulações gerais entre o funcionamento da sociedade e a educação. mas contempla o espaço possível para uma abordagem sociológica sobre juventude. Propunha Cândido que a Sociologia da Educação voltasse sua atenção para os aspectos sociais do processo educacional. sua dissertação de mestrado. Sugeria. finalmente. O caminho proposto procurava dar conta do universo de relações que compunham sua estrutura e funcionamento. e. se utiliza das formulações de Cândido. que privilegiou no estudo da escola pública da cidade do Rio de Janeiro as suas relações com as galeras de jovens e o narcotráfico traduz essas tentativas de novos aportes. eixo central mas não exclusivo do processo educativo na sociedade moderna (Cândido. como sua forma de sociabilidade interna que nasce na dinâmica do próprio grupo. Assim. articulada ao campo dos estudos sociológicos sobre a educação. sem transformar a explicação dada na chave mestra. publicada sob a forma de livro em 1966. professores. entretanto. seria preciso reconhecer que uma certa abertura da pesquisa em Educação às disciplinas constitutivas das Ciências Sociais (em especial a Sociologia) estaria fortalecida se esse campo do conhecimento tivesse reservado em seus domínios uma atenção aos fenômenos educativos e aos estudos sobre juventude. alunos e suas famílias. que considerava a escola como grupo social instituído. como na sala de aula17. Em 1955. dizia Cândido. poderia ser investigada tanto nas formas espontâneas de agrupamento e nos mecanismos produzidos para a sua sustentação. O início dos estudos sociológicos sobre educação no Brasil indicava um caminho promissor e fecundo para o desenvolvimento de pesquisas sobre a escola que merece ser retomado. um ramo em vias de constituição. que tentava ao mesmo tempo afastar-se do caráter especulativo da primeira tendência e do imediatismo presente na segunda orientação. também. não foi o caminho seguido. a analise sociológica das 16 situações pedagógicas desenvolvidas no âmbito da escola.

Universidade e sociedade e Educação Popular. Não obstante o maior desenvolvimento dos estudos sobre juventude na França. Os estudos de Marialice Foracchi constituem. (1992 e 1994). 1987). a pesquisadora voltou sua atenção para os jovens. abriu perspectivas no campo dos estudos sobre crianças e adolescentes em situação de exclusão. pois só recentemente o tema da juventude tem aparecido no debate público e político. quando se debruçou sobre os sujeitos do processo educativo não encontrou nessa área do conhecimento possibilidades de fértil interlocução. levantados mediante consulta aos acervos de centros situados em São Paulo (Celaju. 1965. 1972. após a morte prematura de Marialice Foracchi. Assim. Na busca da compreensão da educação brasileira.Marilia Pontes Sposito 1975) que examinou o tema da educação sem estabelecer os conflitos entre os adultos e os imaturos (jovens e crianças) que condicionariam o próprio processo de instrução. que desenvolviam pesquisas em temas explicitamente ligados à educação (Weber. até os nossos dias. 1982). Seus trabalhos revelam as tentativas. reunindo artigos de periódicos. impasses e as alternativas gestadas no esforço desenvolvido pelos jovens estudantes universitários para se afirmarem como sujeitos dos conflitos e das lutas sociais dos anos 60 (Foracchi. é necessário ajudá-la a ser ou a desaparecer? Para nós essa indagação se apresenta de forma mais aguda. esgotando o eixo Rio-São Paulo. 1992). compreendendo a educação de adultos e os movimentos sociais pela escola pública. A evolução das Ciências Sociais no Brasil compreendeu o abandono da educação que se tornou objeto quase inexistente para os sociólogos18 e o escasso desenvolvimento do tema da juventude. Propunha. 18 A pesquisa em andamento pretende realizar balanço de dissertações e teses sobre juventude no campo das Ciências Sociais. muito menos. o exemplo melhor sucedido de tratamento do tema. Um balanço realizado por Silke Weber sobre a produção recente no país da pesquisa que estabeleceu as relações entre educação e sociedade. a disseminação de equipes constituídas em torno do tema. com raras exceções. Há uma publicação. Não se configura nem uma sólida tradição investigativa no campo iniciado por Foracchi e. a pesquisa em Educação. “Bibliografia sobre la juventud brasilera” que apresenta títulos. 19 50 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . dentre os 13 existentes no país na área de Sociologia. a seguinte questão. enquanto domínio de pesquisa sociológica nesse país. As dissertações e teses defendidas na própria USP são esparsas. O trabalho importante de balanço da literatura realizado por Alvim e Valladares (1988). Mauger (1994) ainda aponta em seu balanço que a Sociologia da Juventude. um campo sólido nos estudos sobre juventude. A ampla faixa que completa 18 anos só se constitui interesse pelos índices de violência associados a esse segmento. Quando a preocupação se fez presente. que havia localizado apenas 4 programas. não só na Sociologia como na Antropologia e na Ciência Política. as dissertações e teses foram desenvolvidas por pesquisadores isolados ou por raros grupos de pesquisa19. A Sobre as relações entre os sociólogos e a Educação consultar os artigos de Luiz Antonio Cunha. livros e teses. esse autor. final dos ano 80. recoberto pelos processos de exclusão social que atingem crianças e adolescentes nas denominadas “situações de risco”. sobre jovens. se as Ciências Sociais no Brasil não desenvolveram nos últimos 25 anos. revestido de forte audiência política e de intenso teor profético ainda padecia de fraca legitimidade científica e pouca consistência teórica no início dos anos 90. dos dilemas nascidos no interior de uma sociedade dependente. A publicação de Cardoso e Sampaio (1995) em torno da produção na área. elencou as seguintes linhas de estudo: Estado e educação. Analisou uma categoria construída historicamente na dinâmica dos embates entre as classes. mas que não se esgotava no âmbito dessa relação. oferecendo subsídios para a análise do desenvolvimento dos estudos sociológicos sobre juventude. em 1987. Weber reitera o relativo desinteresse dos sociólogos pela educação apoiando-se em levantamento realizado por Clarice Baeta Neves em 1991. reúne estudos importantes mas não oferece um quadro sistemático da produção devido a um volume significativo de trabalhos que não foram considerados e à ausência de periodização e classificação das fontes na forma como a bibliografia foi apresentada.

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rupturas com as crenças fundamentais de um grupo e. os elevados índices de repetência. Algumas das idéias de maior impacto foram disseminadas e apropriadas como certezas. Afinal. E isso não é possível sem uma verdadeira conversão. por esse motivo. escolaridade e oportunidades de emprego nas últimas décadas. Nas ciências sociais “as rupturas epistemológicas são muitas vezes rupturas sociais. Revista Brasileira de Educação 53 . a luta pela estrita sobrevivência é responsável pelo trabalho precoce de amplo contingente infanto-juvenil que. as principais dessas certezas talvez sejam: é crescente a demanda por educação nas camadas populares. nunca se corre o risco de exagerar a dificuldade ou as ameaças.49) Porém.. de fracasso e de evasão-expulsão escolar. as novas tecnologias e a globalização da economia tendem a impor exigências mais elevadas de escolaridade quer para o ingresso quer para a permanência no empre- 1 Bourdieu usa a expressão certezas partilhadas. A ruptura é.Jovens urbanos pobres Anotações sobre escolaridade e emprego Jerusa Vieira Gomes Faculdade de Educação. É ainda ele quem diz: “Tratando-se de pensar o mundo social. uma mudança de toda a visão do mundo social. sempre. em re- lação às quais cabe a dúvida radical. a grande maioria das crian- ças que ingressam nas escolas de primeiro grau apresenta dificuldades de aprendizagem e de ajustamento.38-9). ele se apresenta com as aparências da evidência. p. uma metanoia. a despeito do cuidado de seus respectivos autores no sentido de evitar totalizações. achando-se inscrito ao mesmo tempo nas coisas e nos cérebros. com efeito. Praticar a dúvida radical em sociologia é por-se um pouco fora da lei. (ibidem. uma revolução mental. por vezes. as oportunidades de emprego dependem do nível de escolaridade alcançado. abandona a escola.). Em conseqüência. A força do pré-construído está em que. No Brasil. a falácia da neutralidade científica já foi suficientemente desmistificada em nosso tempo. uma conversão do olhar(. que passa despercebida porque é perfeitamente natural. o que explica.” (1989. em grande parte. p.. Universidade de São Paulo Muito se tem escrito sobre a relação entre pobreza. temas como o tratado neste texto implicam riscos ainda maiores. a tentativa de rediscutir qualquer uma delas constitui. com o corpo de certezas partilhadas que fundamenta a communis doctorum opinio. o que indica o valor a ela atribuído nesse nível de classe. um empreendimento de alto risco1. com as crenças fundamentais do corpo de profissionais.

Jerusa Vieira Gomes go. mais especificamente. Por certo essas idéias são verdadeiras. um dos autores mais influentes sobre o pensamento construído nesse campo. Não bastasse isso — e por mais paradoxal que esta afirmação possa soar em tempos de modernização da produção —. reconhecem na escolaridade o critério mais relevante a ser requerido para o ingresso e a permanência no emprego. prevê-se que as desigualdades escolares repercutam cada vez mais nas oportunidades de emprego disponíveis ao trabalhador e. conforme veremos a seguir. afirmou: “O número de alunos que concluem o primeiro grau é apenas a metade dos que ingressam. No caso de famílias populares a escolarização é uma experiência recente. (cf. além dos diversos fatores já sobejamente analisados pela literatura. ainda. E. embora os estudos realizados e/ ou orientados por Maria Helena Souza Patto (ex. É o que parece ocorrer em relação àquelas que dizem respeito à evasão/expulsão escolar e ao elevado valor atribuído pelos jovens pobres à educação escolar. os índices de desemprego e de exclusão social tendem. de oposição entre as esferas (zonas) formal e informal da vida quotidiana.12). Ou. a sua fonte de resistência. p. internacional e nacional. a afetar. 1990) expliquem a produção/reprodução pelas instituições escolares. Vejase. Patto. o que se reflete na escolarização das novas gerações4. nessa medida. explica a indisciplina e a evasão escolar entre esses jovens em termos de respos- O fato de o sistema escolar brasileiro reproduzir as desigualdades sociais e os altos índices de reprovação e de evasão no 1º Grau foi reconhecido. o grupo informal é a unidade básica de uma cultura e. doravante. a justificativa para retomar duas questões tão antigas assenta-se na suposição de que. À medida que o jovem se dá conta disso é-lhe mais difícil reconhecer a importância do saber escolar. No sentido de contribuir para o esclarecimento delas. Ou seja: a história de escolarização de uma família particular ilumina a história singular de seus filhos. este artigo assume o desafio de recolocar duas questões: Em que medida a escola é verdadeiramente valorizada pelo jovem pobre e por seu grupo doméstico? Qual a perspectiva de valorização do critério escolaridade no caso dos empregos acessíveis ao jovem urbano pobre? Respondê-las talvez nos ajude a desvendar uma outra face do processo de evasão/expulsão. No caso brasileiro. 4 3 54 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .. em decorrência das novas condições de trabalho.) O sistema reproduz a injustiça social. Em vista disso. os pais vão se interessar pelo ensino. as populações menos escolarizadas. em todos os níveis da hierarquia ocupacional. e que se relaciona à história familiar de socialização. ainda.. ao jovem trabalhador pobre2 . e os níveis de evasão escolar e repetência são muito elevados. As proposições acima assumidas fundamentam-se em dados da literatura. Para ele. cabe. nela. aponta-nos as dificuldades de escolarização de crianças e de jovens urbanos da classe operária. da mediação foi por mim analisada em textos anteriores. Assim. implícita ou explicitamente. (. Jornal do Brasil.. no início do corrente ano letivo. pelo atual Ministro da Educação que. 16-0297.) Na medida em que os os filhos da classe média entrem na escola pública. e em resultados de pesquisas de campo desenvolvidas com jovens pobres na região metropolitana de São Paulo. ainda insuficientemente estudada. especialmente: Gomes (1990. em especial. à história familiar de escolarização. aprofundar o conhecimento sobre os aspectos sociais e familiares envolvidos nesse processo. mas nem são conclusivas nem estão livres de interpretações equivocadas.. a vida escolar de cada sujeito depende. em entrevista à imprensa. Ele tece sua explicação em termos culturalistas. Pobreza e escolaridade: breve (re)leitura de alguns escritos Paul Willis (1977). prioritariamente. a escolaridade parece constituir um critério ainda secundário quando estão em jogo os emprego acessíveis ao jovem nesse nível de classe. Sem dúvida.(. 2 A importância da socialização familiar e. 1993 e 1994). de sua história singular de socialização no seu grupo doméstico de origem3. também. àquelas que.

” (Willis.. Esta imagem é o produto complexo. da escola5. Mas. op. é a necessidade de estudos comparativos sobre a educação familiar e a educação escolar. 99). na análise de Boudon.) Eles constróem virtualmente seu próprio dia a partir daquilo que lhes é oferecido pela escola. penso.cit. discute a influência parental sobre a escolarização dos filhos e. Boudon já aconselhava-nos que. seu trabalho constitui um marco. A partir de sua posição.) mas também porque mede apenas um aspecto daquilo que podemos descrever mais acuradamente como a mobilidade estudantil informal. o que Willis acaba pondo em jogo. 117). 101). duas proposições essenciais (segundo ele estabelecidas pelos trabalhos de Girard e colaboradores na França) deveriam ser retidas: “a primeira é que a herança cultural joga um papel importante na geração das desigualdades sociais diante do ensino. E é isso que o sujeito individual pesa em cada Revista Brasileira de Educação 55 . Além disso. A mais importante delas..(. não somente do status sócio-profissional do pai. os indivíduos ou as famílias têm uma estimativa diferente de custos. ou seja. tão em voga naqueles tempos. Em suma. revendo os principais estudos até então divulgados sobre as desigualdades sociais. tendo em vista o propósito deste artigo. quando tantos acadêmicos talvez ainda acreditassem que o desejo de saber. Willis vai ainda mais longe quando: refere-se à organização social da escola. quando chama a nossa atenção para a influência dos valores e das atitudes que os pais manifestam em relação à escola sobre os valores e as atitudes dos filhos. riscos e benefícios antecipados que estão associados a uma decisão” (cf.. a partir de dados fornecidos pela literatura internacional. “A oposição à escola manifesta-se principalmente na luta para conquistar espaço físico e simbólico da instituição e suas regras e para derrotar aquele que é percebido como o principal propósito dela: fazer você ‘trabalhar.Jovens urbanos pobres ta (oposição) do grupo informal às demandas da zona formal. a segunda que esta influência é particularmente sensível na juventude” (Boudon. 26-27) 5 E é em função dessa história familiar que o autor explica a decisão a ser tomada pelo sujeito e sua família no sentido de dar ou não continuidade ao projeto individual de escolarização. dizia: Estes diferentes resultados sugerem que o nível de aspiração escolar do filho depende da imagem social que a família tem dela mesma. pelo menos até que eles ampliem o círculo de relações sociais e escapem à influência parental direta. da rejeição à escola. uma referência obrigatória. deve interessar-nos o fato dele reconhecer que o nível escolar é um dos “mecanismos essenciais de determinação do status de destinação” (Boudon. Porém. A despeito das inúmeras críticas que lhe foram e ainda são dirigidas. além da importância atribuída à história familiar — em termos de relação estreita entre nível escolar e status social de origem —. e contém pistas para outras pesquisas. Mesmo considerando discutível a interpretação em termos de cultura (e contra-cultura) de classe.’ (.. consiste nesse reconhecimento de uma certa resistência à escolarização. Boudon. 1979. já seria suficiente para o bom êxito dos empreendimentos individuais. Segundo ele.. Boudon também chamava a atenção para os “fatores ligados à estrutura familiar. 1977. E permanecer ou não “depende de um processo de decisão cujos parâmetros são funções da posição social ou posição de classe. 1979. implícito nos movimentos pró-escolarização.. ibidem 305). embora fosse extensa a literatura sobre a relação entre herança cultural e desigualdades sociais.” E.) O faltar às aulas dá apenas uma medida imprecisa — até mesmo sem sentido —. mas igualmente da história da família e da história escolar dos membros da família nuclear (Boudon. Isso acontece não apenas por causa da prática de passar na sala para registrar a presença antes de sair (. Alguns anos antes. sobretudo.. esse fenômeno de resistência tem-se revelado persistente nos mais diversos países. todo sistema de ensino contém momentos críticos nos quais o aluno se depara com a necessidade de decidir sobre continuar ou não sua vida escolar.

a vida escolar dos avós e dos pais do jovem metropolitano pobre. é possível supor que. em geral. Teixeira (1993). (. 8 7 56 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . em termos de contra-cultura escolar. Em conseqüência. A pergunta que se nos apresenta é: o que têm em comum esses jovens urbanos pobres que os leva a atribuir tão frágil valor à escolaridade? O que há de comum entre eles. nesse nível de classe. foi bastante incompleta e precária. ser colocado nos seguintes termos: o valor que as pessoas atribuem à educação escolar é propocional à familiaridade delas com as coisas que dizem respeito à escola. Estudos sobre bairros populares reconhecem a existência. Vieira (1992). conforme vimos anteriormente. por que a escola parece destituída de um valor em si? A resposta a esta pergunta talvez também explique de maneira mais satisfatória a chamada resistência encontrada por Willis e por ele interpretada. Dito de outro jeito. de populações pertencentes a diversos níveis de classe. 6 Sobre a escolarização de crianças e de jovens em regiões semi-rurais de Portugal. então. A expressão mesmo nível de classe baseia-se na suposição de que. Na verdade. dentre os estudos já divulgados veja-se: Araújo e Stöer (1993). o jovem contemporâneo. incompleta a manifestação dela só pode ser frágil8. é recente e ainda está em curso o processo de incorporação da escola e do valor atribuído à escolaridade ao capital cultural familiar a ser herdado pelas novas gerações. a grande distinção entre uns e outros reside no Ao comentar os dados por ele obtidos em pesquisa sobre a relação família. o valor a ela atribuído depende de suas possíveis conseqüências para a vida adulta de cada um deles. com jovens do Norte de Portugal. a energia psíquica. além da pobreza. penso: a ori- gem rural e uma história familiar de analfabetismo ainda recente. e com uma história familiar de escolarização mais antiga. exemplo quase extremo desses conflitos. Esta suposição implica outra: para esses jovens a escola (e o saber por ela promovido) tem pouco ou nenhum valor em si. facilitada pela história de vida dos companheiros ou dos vizinhos mais velhos. neste trabalho os níveis de pobreza não são levados em conta. na melhor das hipóteses.. que funciona como aspecto distintivo de seus grupos informais quando comparados a grupos informais de jovens urbanos pertencentes a outros níveis de classe? Seguindo a pista de Boudon.Jerusa Vieira Gomes momento decisivo: permanecer na escola é garantia de melhores condições de vida e de trabalho no futuro? Ou seja. 53-54). não sendo por isso de estranhar — bem pelo contrário — que assuma formas muito desiguais o investimento que nela se faz. a maior parte sequer chegou a concluir o primeiro grau7. Em contrapartida. o nosso problema pode. E a escola perde valor para os mais novos à medida que eles vão se dando conta do fraco impacto da escolaridade na vida da geração anterior 6. Mas. diz Esteves: “a escolarização já não tem o mesmo impacto motivacional nos diversos grupos sociais. embora em graus variados) um aspecto distintivo dos mais relevantes. pois. o quanto um grau escolar mais elevado é capaz de garantir. e reconstruindo a história dessas populações. a grande maioria é de pobres e possui uma história sócio-cultural mais ou menos assemelhada. filho e neto de semi-alfabetizados ou de analfabetos. etc (Esteves. p. historicamente. Esteves (1995). do ponto de vista da estrutura de classes. este já é um valor incorporado ao capital cultural herdado. dadas as peculiaridades do país. ou melhor. Se assumirmos também dois dos conceitos centrais de Bourdieu — de capital cultural e de aprendizagem por familiarização insensível —. escola e trabalho. Porém. melhores empregos? A antecipação desses riscos e benefícios é. o dinheiro. neles. À medida que essa apropriação é recente e. habitante dos cortiços e das periferias metropolitanas é. de diversos níveis de pobreza. Ou seja. para os jovens oriundos de outros níveis de classe. No caso das populações pobres essa familiaridade — a partir da experiência direta e/ou vicária — é. 1995.) A medida desse (des)investimento é indiretamente dada pelo facto e pelo grau de exclusão ou admissão de situações de vida que concorrem com a escolarização na utilização de recursos tão escassos e tão importantes como o tempo. ainda hoje. descobriremos (em diversos países.. nesse nível de classe. recente.

a preterida costuma ser a escola 9 . refere-se aos dados obtidos por Schmidt e Miranda (1977) na região metropolitana de Belo Horizonte. Em outras palavras. ora de capital cultural. Dentre os estudos que. No que concerne a Sposito.1981. De acordo com a literatura. À guisa de exemplo. ou o emprego e a escola. consolidado através de duas ou mais gerações (Gouveia. sem dúvida. Sposito (1993) e Fonseca (1994). levanta a possibilidade de que em grupos economicamente mais favorecidos outros fatores podem ser relevantes. é lícito supor uma estreita relação entre atitudes familiares e duração da escolaridade. Nesses casos. relacionadas inclusive com o valor simbólico que um diploma superior possa ter para a família. ou a maternidade e a escola. Em todos esses momentos em que a vida lhes impõe uma escolha. influenciariam a extensão da escolaridade dos mais novos? Com base na breve (re)leitura levada a cabo até agora. além da renda. 1993). os de Gouveia (1981). entre escola e trabalho. a análise de trajetórias individuais a partir da condição familiar haveria certamente de revelar a influência. dentre os quais as necessidades ou aspirações da população. consolidadas através de gerações sucessivas. A pergunta inevitável é: por que só nos casos de grupos em “situação econômica mais favorável” as atitudes famíliares. especialmente no que concerne às escolhas dos jovens de ambos os sexos em momentos decisivos da existência de cada um deles. na família. Ao referir-se à persistência do fenômeno em diversos países. a esclarecer aspectos ainda obscuros da relação família-escolaridade. Ou seja.Jovens urbanos pobres grau em que esse valor foi aprendido. Gouveia é. no interior dos grupos domésticos de origem. quase sempre. o grau de influência deriva da localização de um grupo familiar particular em uma escala de variação que abrange desde as atitudes mais favoráveis já consolidadas até às mais desfavoráveis. restringem ou dificultam a freqüência à escola e o prosseguimento da escolaridade” (Gouveia. desde os primeiros anos de vida. na comunidade científica brasileira. quais características da família de origem podem estar relacionadas ao nível de escolaridade alcançado pelo sujeito individual. 1981. 113). op. os quais são indicativos do efeito positivo da elevação da renda familiar sobre a escolaridade. Em contrapartida. ela também sugere que a questão talvez não se resolva “inteiramente com a oferta de vagas ou incentivos governamentais e nem mesmo com a alteração das condições materiais que. uma das pioneiras no estudo da relação entre desigualdades educacionais e origem social. direta ou indiretamente. tendo em vista os propósitos e os limites deste artigo. cit. A idéia de uma apropriação ainda incompleta do valor atribuído à escolaridade ajuda. uma das preciosas pistas de trabalho legadas por Gouveia: a necessidade de investigar. Os jovens que conseguiram permanecer na escola. lidam com a relação pobreza-escolaridade no Brasil retomemos. 114). ora de atitudes altamente favoráveis a uma escolaridade mais prolongada. ela faz referência explícita ao que denominou “a recusa da escola”. ou não. 9 percepções diferenciadas da prática escolar. nas demais camadas a experiência escolar é vivida com toda a força de sua inevitabilidade tão logo ela tenha início. a jovem vê-se testada em três momentos decisivos quando deve escolher entre a vida doméstica e a escolar. Nesse sentido. E considera a possibilidade de influência de outros fatores sobre a extensão da escolaridade. dentre outros. veja-se os trabalhos de: Gouveia. as atitudes familiares influenciam a extensão da escolaridade individual sejam elas: favoráveis consolidadas. pois. Eis. De outra parte. No caso do jovem o conflito é. concluir o Revista Brasileira de Educação 57 . As críticas e a recusa da escola contêm também A esse respeito. Teixeira. consideremos: é notória a irregularidade da freqüência às aulas entre as populações pobres. ou favoráveis pouco consolidadas ou até mesmo as desfavoráveis. em seu criterioso trabalho sobre movimentos populares e a luta por educação em São Paulo nos anos 80.

dotando-a de conhecimentos úteis e integrando-as às redes sociais adequadas” (Fonseca. o descrédito e. essa pesquisa lida. Vejamos algumas de suas principais afirmações: a educação formal faz aparentemente pouca diferença na vida das pessoas. Quanto a Fonseca (1994). Mas. Nesse sentido. que têm suas rotinas cotidianas ordenadas por outras prioridades. Na verdade. 58 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . a recusa à escola (recusa que pode ser meramente temporária ou definitiva). é necessário refletir sobre o processo amplo de socialização que. A diferença. embora corroborem a suposição assumida neste artigo. a autora conclui: “Para entender o lugar da escola no sistema de valores dos grupos populares no Brasil urbano. amigos. de descrédito diante do conjunto de expectativas que produziram a vontade de acesso à instrução (Sposito. Algumas de minhas descobertas. a sua é uma pesquisa antropológica realizada com moradores de um bairro popular de Porto Alegre. prepara a criança para a vida. 1987 e 1996) Porém.(cf. também pode De acordo com notícia veiculada em jornal carioca. a vida escolar não é uma experiência “familiar” para todos eles. embora desencanto. Willis. quer se trate de indivíduos ou de grupos ou de instituições. neste contexto. descrédito e recusa sejam experiências singulares. inscrevem-se os meus próprios trabalhos (p. em camadas abastadas da sociedade brasileira atual10 . além de defender as escolas próximas às casas. A partir desses e de outros resultados. o desencanto. tendo em vista a preparação deles para a vida adulta. se preferirem) do valor atribuído à escolaridade. após árduos e intensos movimentos protagonizados pelos habitantes de um bairro. há consenso quanto à necessidade de saber ler e escrever e de que cabe à escola promover essas aprendizagens. mais do que qualquer outra.. op. 1992. também os sentimentos e as representações a elas associados são. quanto mais existe a possibilidade de frequentar a escola. Assim. Sposito também estabelece a estreita relação entre atendimento às expectativas familiares e a extensão da vida escolar. a educadora Zaia Brandão. finalmente. penso. 381). nas diversas camadas sociais. Manifesta-se uma forma de desencanto. Pressupondo que a hierarquia de prioridades deriva da escala de valores de quem a estabelece.16/02/97. disseminados no meio social de pertencimento. 27) E a população pobre. Portanto. No que tange à vida escolar. ocorre um processo de ‘desfetichização’ do saber escolar. com o objetivo específico de apreender as prioridades por eles estabelecidas e que. supostamente. a escola é muito menos importante do que nós imaginamos. de certo modo. progressivamente. tendem a ser compartilhados por contingentes populacionais cada vez mais amplos e significativos. É exatamente isto que venho fazendo há mais de uma década: estudos sobre a socialização de jovens e a trajetória deles da família à escola e ao trabalho. ajudam a esclarecer o tema proposto neste artigo. verificável. maior a crítica. Boudon e Bourdieu). por uma série de motivos. especialmente daqueles em cuja tradição. cit. ex. Não faltará quem nos aponte a generalidade desse fenômeno. Porém. inclusive. p. os dados obtidos por Fonseca são aparentemente desconcertantes. vizinhos. 155). ela aprofunda a análise dessa relação e nos oferece uma contribuição significativa sobretudo ao reconhecer que: à conquista da escola. elas só podem ser melhor compreendidas à luz de alguns dos mais relevantes estudos anteriores. exprimem suas insatisfações ante a educação a que têm acesso. teria reconhecido que: “No fundo. contudo. cedo se apercebe disso. lembremo-nos: cada sujeito compartilha sua experiência com familiares. seguem-se. inevitavelmente. com os valores predominantes nas populações estudadas. ao comentar sobre a qualidade de ensino no Rio. 10 ser buscada na força da apropriação (ou inculcação. quanto mais longo é o percurso escolar. em decorrência do modelo de pesquisa de campo adotado.Jerusa Vieira Gomes primeiro ou o segundo grau. a escola não ocupa um lugar central nas preocupações das pessoas.” (Jornal do Brasil. parentes e até mesmo com companheiros de trabalho. determinam a educação dos filhos. na linha anteriormente apontada por Gouveia. Gomes.

acabou ingressando em um dos cursos de Ciências Humanas (USP). um avô chegou mesmo a dizer-me. mães. também foram colhidas informações sobre as experiências escolares dos sujeitos e de seus familiares. há quem assuma sem constrangimento visível o fato de não gostar de estudar. os mais novos mencionam o segundo grau. em contrapartida.Jovens urbanos pobres O retorno aos autores revela. crianças e jovens — manifestavam. o trabalho parecia ser mais atraente e mais convincente do que a escola. só serve para ensinar a viver com os outros. escrita. Quando Revista Brasileira de Educação 59 . Nela. Ao contrário. premidos por qualquer necessidade material mais imediata. de que maneira o jovem conseguia empregar-se sem sequer concluir o primeiro grau? Para responder a essas e outras perguntas realizei (de 1988 a 1992) uma segunda pesquisa: um estudo longitudinal das trajetórias de adolescentes e de jovens (participantes da pesquisa anterior) da família à escola e ao trabalho. valorização e expectativas razoavelmente elevadas no que diz respeito à escolaridade. quase todos os discursos contém o reconhecimento do valor da escolaridade prolongada mas. em contrapartida. É o caso de uma jovem. No curso do tempo dei-me conta de um dado assaz intrigante e instigante: portadores de uma tradição rural e de analfabetismo recente. com muita naturalidade: “a escola não tem importância mesmo. Para complementála. então. 1987). a partir de então começa a perder importância. de maneira a obter dados sobre a história escolar e ocupacional deles e de seus respectivos grupos domésticos (Gomes. o centro da vida infantil. todos os entrevistados — avós. Em suma. 1996). é comum a história de repetências sucessivas. parece generalizada a discrepância entre a fala que idealiza a escola e a vida escolar da maioria deles. esses jovens são filhos e netos de semi-alfabetizados e de analfabetos. Ou seja. a grande maioria limita a importância da escola a ensinar leitura. sobretudo. aritmética e alguns conhecimentos gerais. escola. vimos. repõe a família e a socialização no cerne da análise da relação entre pobreza e escolaridade. E. Transição família. sobretudo à medida que alguns deles entravam e saíam da escola sem que estivessem. finalmente. ao mesmo tempo em que confirma as suposições iniciais assumidas neste texto. foi aplicado um questionário aos alunos matriculados em uma escola pública das redondezas (27 alunos de uma mesma turma). com base na reconstrução das histórias de vida (Gomes. trabalho Minha primeira pesquisa sobre socialização consistiu em um estudo geracional (três gerações consecutivas) acerca da ação socializadora familiar. a grande maioria daqueles que freqüentavam a escola apresentava fraco empenho em sua vida escolar particular. com obstinação enfrentou os sucessivos obstáculos impostos pela pobreza e. aproximadamente. O conjunto dos dados. a idade de 11 a 12 anos a escola constitui. participante da pesquisa longitudinal: cultivou desde criança o gosto pelo estudo. eram: por que esses jovens deixavam a escola? A precariedade das escolas e o trabalho docente inadequado eram explicações suficientes para as atitudes escolares de crianças e de jovens? Em que medida a história familiar de escolaridade ajudava a explicá-las também? Se as oportunidades de traba- lho dependem do nível de escolaridade alcançado — crê-se que as novas tecnologias imponham exigências mais elevadas de escolarização —. A cada dia evidenciava-se uma discrepância maior entre discurso e vida. aponta-nos outras descobertas ainda mais desconcertantes e instigantes do que as anteriores. junto com a família. e pareciam buscar no trabalho um substitutivo dela. mas raras. quanto à expectativa de escolarização enquanto os mais velhos deles fazem referência à oitava série. até. Aliás.” As perguntas que se me colocavam. interesse. Senão. alguns jovens manifestavam acentuada intolerância à rotina escolar. para esses. de fato. em suas falas. Por certo há exceções. mas essas informações não constituíam o objetivo primordial. a antiguidade de muitas questões e de tentativas de interpretações delas com as quais nos debatemos até hoje. vejamos: com raras exceções.

gostar de trabalhar. ter boa coordenação motora e habilidade manual. ter boa aparência (ser digno. A escola serve para outras coisas também. Ou a jovens com uma qualificação educacional mínima. Porém. honrado). que esclarece enfaticamente: Antes da escolaridade. ser dinâmico. 1996) É uma fábrica moderna. sem ser eliminatório. O Gerente de Produção (engenheiro). de pequeno ou de médio porte localizadas na região. E esclarece: “não precisa ir até a oitava série. Conhecimento é bom para as pessoas. no mesmo setor que o outro mais estudado. tem dificuldade em qualquer trabalho” (moça. não sei justificar porquê. quero ir ao máximo que eu puder. Bastaria o primeiro grau. essa mesma engenheira (formada em escola de renome) é cética em relação à maior exigência de escolaridade. seu relacionamento com outras pessoas. E justifica: a informática não preocupa. revela-se reticente e evasivo.” Esse testemuho é confirmado pela Gerente de Qualidade (engenheira). De acordo com a encarregada de selecionar os candidatos a emprego. entre eles. uma pessoa atirada. Todos os bons que eu conheço aprenderam sozinhos. sobretudo no setor de produção. de firma que não tem diretrizes. precisa conhecer matemática e precisa saber escrever. Dado no mínimo intrigante em tempos de modernização empresarial e de globalização da economia. por seu turno. comerciais ou fabris. 16 anos). fabricante de componentes microeletrônicos. rapazes e moças entre 14 e 21 anos. No meu caso é porque eu quero saber. Dessa aparente contradição deriva a terceira pesquisa. rápido. claras e objetivas também acabam restringindo essa importância ao ensino e à aprendizagem da leitura. após 60 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . precisa ter cursinho? Não. revelam uma apreensão vaga e elementar da importância da escola. é a boa vontade. Ao final.” Aliás as biografias dos jovens participantes da pesquisa atestam a veracidade dessa assertiva: a grande maioria realiza a transição para o trabalho entre 12 e 14 anos de idade. o resto ela vai aprender aqui dentro.” Nessa mesma época. e. Generalizada mesmo. razoavelmente informatizada. Nesse sentido. nem mesmo essa jovem — uma exceção entre seus companheiros e em seu meio — considera necessária a escolarização prolongada para todos. quem a justifique relacionando essas aprendizagens às exigências do mercado de trabalho: “se você não sabe ler. da escrita e da aritmética. os critérios são: “ser não-fumante. É visível a existência de uma massa de empregos acessíveis a jovens pouco esco- larizados. a vontade de trabalhar naquela empresa. todavia. alunos da escola pública. Quanto às perspectivas futuras. flexível. quero estudar. tendo em mente que vai aprender uma coisa importante para você. limpo. é a consciência de ser suficiente e bastante um domínio apenas elementar dessas habilidades para o sujeito conquistar e garantir o emprego.Jerusa Vieira Gomes ainda cursava a oitava série já relacionava escolaconhecimento: Se você encarar a escola como uma coisa de obrigação aquilo fica chato. os primeiros empregos são conseguidos em empresas. Ela precisa saber fazer conta. Há. De fato. No futuro vai mudar a escolaridade? Na minha opinião isso é uma pré-seleção de preguiçoso. antes mesmo de concluir o primeiro grau. só por vontade de saber. talvez o primeiro grau. é exemplar a fala de um dos jovens informantes: “a gente vê cara que só tem terceira série de hoje e trabalha na mesma fábrica. bem antes. E quase todas elas já são informatizadas e adotam modernos padrões de gerenciamento e de produção. Até mesmo nas respostas mais consistentes. Eu sei que quero. Você tem que ir à escola pensando que você vai aprender uma coisa legal. a escolaridade está longe de constituir um critério relevante de recrutamento. Esta é a qualificação exigida e que deve funcionar como critério de seleção. por exemplo. (Gomes. Mas. com o objetivo de identificar os critérios de seleção e de recrutamento utilizados em uma dessas fábricas — uma metalúrgica de médio porte. Gostar da empresa. querer trabalhar. quero aprender.

Revista Brasileira de Educação 61 . (1993). Helena. BOURDIEU. Stephen. C. 11 __________. escola. Todavia. (1993). E tudo indica que esse esforço é percebido e sentido pouco compensador porque os custos envolvem. (1990). (61):144-155. Psicologia-USP. e Noronha. Brasília: INEP. Campinas. École et formation professionnelle en Italie. Jerusa V. CAPECCHI. São Paulo: Perspectiva. O. Genealogias nas escolas: a capacidade de nos surpreender. Tese (Doutorado em Psicologia). (1979). é desproporcional. Ou seja. a escolaridade é percebida como tendo pouco impacto. 1993. A maior escolaridade traz. São Paulo: FDE. as histórias dos jovens participantes das pesquisas corroboram todas essas afirmações: nenhuma empresa exigiu deles um certo grau de escolaridade por ocasião da seleção. School. diz: “Claro que a escolarização maior será importante. Se não for para ingressar e/ou se manter no emprego. dos amigos. (1987). Mas. E não eram fabriquetas de fundo de quintal11. que é mais ameaçadora à medida que são apoios da identidade. Qualificação do trabalho face às novas tecnologias: parâmetros culturais. Sérgio (org). penso. Qual as vantagens desse tipo de análise? A principal delas. Este é o desafio posto. __________. A sua tarefa primordial. sobretudo. (1995).. aspectos subjetivos. também. São Paulo. Preparando-se para a vida: reflexões sobre escola e adolescência em grupos populares. b) Kawamura. haverá de ser a de convencer as novas gerações de estudantes de que o saber escolar é importante para a vida pessoal e social. de outra parte. L’inégalité des chances. Pierre. FE-UNICAMP. In: COSIN. São Paulo: IPUSP. In: MICELI. Essa percepção talvez ajude a esclarecer o estabelecimento prévio do grau escolar a ser atingido. (1989). Jovens e idosos: família. trabalho. Ben (org). a despeito das atuais exigências associadas ao mundo do trabalho.M. (1987). Ora. STÖER. La Documentation Française. Porto: Afrontamento. (1994). 1990. 1993 (mimeo). ESTEVES. (1989). Vittório. Schooling for inequality? Ordinary kids in school and the labour markert. Relações família e escola: continuidades e descontinuidades no processo educativo. A excelência e os valores do sistema de ensino francês. (mimeo). Cláudia. (1993). será importante para viver melhor. Socialização: um problema de mediação?. Raymond. Reconhecer a força da resistência derivada de uma história recente de analfabetismo familiar é condição sine qua non para que a escola atue no sentido de vencer tais resistências. inicialmente. É possível supor que esse nível reflita o os novos patamares econômicos e sociais alcançados pela família singular. A economia das trocas simbólicas. Para tanto os esforços dela precisam ser redobrados. conseqüências insuficientes na vida adulta de cada um deles. (44):67-80. Idéias. École et formation professionelle en Italie. Paris: Armand Colin. BOUDON. La Documentation Française: Paris. não generalizável. em cada geração (oitava série ou segundo grau). Porto: Afrontamento. Paris (44):67-80. se é frágil a atribuição de valor ao saber escolar em si e se. de fato o esforço a ser dispendido na condição de aluno é sentido como demasiado. Nos custos são avaliadas as possíveis perdas de laços afetivos significativos.. tal determinação se realiza em coerência com a história familiar e do grupo de pertencimento. Em Aberto. Sobre as exigências de escolaridade em empresas. O poder simbólico. (16):84-92.” Por certo podemos estar diante de um caso isolado. não lhes parece compensador. São Paulo: IPUSP.). é a de obrigar-nos a enfrentar as dificuldades inerentes à história cultural e social familiar. (1):57-65. Phillip. Socialização: um estudo com famílias de migrantes em bairro periférico de São Paulo. a ameaça de afastamento dos grupos de pertencimento: da família. veja-se: a) Capecchi. em si mesma. Referências bibliográficas ARAÚJO. London:Hodder and Stoughton. dos vizinhos e dos parentes em geral.V. GOMES. __________. L. Antonio J. Lisboa: Difel BROWN. (coord. work & equality.Jovens urbanos pobres salientar a importância atribuída à educação escolar em sua família de origem. FONSECA.

(1993). São Paulo: Loyola. Maria de Fátima A. Universidade de São Paulo. Socialização Primária: tarefa familiar?. (multigrafado) PATTO.). SPOSITO. A Produção do fracasso escolar. G. trabalho: construindo desigualdades e identidades subalternas. (multigrafado) VIEIRA. Maria Helena S. (1993). 62 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Aparecida Joly. (91):54-61. (1994). A ilusão fecunda: a luta por educação nos movimentos populares. Ricardo.. Família. Porto: FPCE/Univ. (1996). Lili. FE-UNICAMP. (1977). (multigrafado) GOUVEIA. Tese (Livre-docência). São Paulo. Qualificação do trabalho face às novas tecnologias: parâmetros culturais. How working class get working class jobs. São Paulo: Fundação Carlos Chagas.Jerusa Vieira Gomes __________. Campinas. Entre a escola e o lar. (1990). (coord. WILLIS. Democratização do ensino e oportunidades de emprego. São Paulo: Faculdade de Educação.. Paul. NORONHA. Queiroz. __________. escola. Marília Pontes. Lisboa: Escher. TEIXEIRA. São Paulo: Hucitec. Olinda M. escola e diversidade cultural: a cultura como prática social. Hampshire: Growe. do Porto. KAWAMURA. (1981). Cadernos de Pesquisa. Educação. (1992). (1993).

mais de 50% da matrícula de 5ª a 8ª séries do 1º grau está concentrada no período noturno. tanto no âmbito da oferta de vagas. Se. para alguns. necessariamente. o que implica uma compreensão do papel da educação no processo de desenvolvimento do país. etc. Há regiões administrativas do interior do Estado em que este percentual chega a ser de 78% nas 8ª séries. seu papel é formar cidadãos conscientes. a escola noturna representa mais de 80% da matrícula do segundo grau. a educação é concebida como a possibilidade do país sair da crise em que se encontra e como estratégia de desenvolvimento. Em alguns estados do Nordeste. quanto da qualidade dos seus cursos. Será essa presença significativa da escola noturna uma forma de democratização do ensino? Seus destinatários são todos trabalhadores? Partimos do princípio de que não é somente a situação de trabalhadores que esteja provocando a ida dos jovens para a escola noturna. mais do que Revista Brasileira de Educação 63 . os maiores percentuais estão nas escolas localizadas nas periferias da cidade. para outros. Nesta perspectiva. em dezembro de 1995. comprometidos com um novo modelo de sociedade. Universidade Federal da Bahia Este artigo faz parte de reflexões desenvolvidas na tese de doutoramento defendida pela autora na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). produtividade. Todos os que se debruçam sobre essas questões concordam que houve um considerável aumento da oferta de matrículas e que esse aumento da oferta não foi acompanhado pela melhoria da qualidade da escola. Essa discussão sobre a democratização e a qualidade da educação brasileira. As divergências surgem quanto aos indicadores de qualidade. os indicadores de qualidade estão submetidos a critérios de competitividade. A qualidade da escola noturna A discussão sobre a democratização e a qualidade da escola brasileira tem gerado calorosos debates. controle. participativos. Segundo dados de matrícula de 1993 para todo o Estado da Bahia. pois é nessa escola de terceiro ou quarto turno que se encontra a maioria dos jovens estudantes que tentam conciliar a necessidade de sobrevivência e os estudos.Escola noturna e jovens Maria Ornélia da Silveira Marques Faculdade de Educação. fornecidos por técnicos da Secretaria de Educação do Estado. Em Salvador. Talvez. nos leva para uma compreensão do papel da escola noturna. No âmbito dessa segunda concepção se coloca o conceito liberal de qualidade de ensino.

contribuir para o conhecimento da realidade da escola notur- na de 1º grau (5ª a 8ª séries) a partir de um de seus atores — o aluno. em particular para a escola noturna. lugar por excelência onde os jovens trabalhadores buscam não só a qualificação para o trabalho. A tentativa de fazer uma nova leitura dessa realidade foi se constituindo como nosso problema.Temos clareza que as respostas às questões que envolvem dimensões relativas à qualidade do ensino não se esgotam no plano pedagógico. mas também um espaço de sociabilidade e de troca de experiências que ultrapassam as dimensões do processo instrucional. Do total de alunos da 5a série somente 26% tem idade entre 14-15 anos. pois. das conversas. a exemplo do que vem ocorrendo em alguns programas de educação básica para jovens e adultos. na luta por um espaço de sociabilização1. Acreditamos. pois. construimos nosso referencial teórico em autores que centram seus estudos da sociedade em paradigmas mais amplos. O presente estudo pretendeu. das festas. na conciliação entre escola e trabalho possa ser gestada uma nova identidade coletiva. Um modelo próprio para os cursos noturnos só será construido a partir de uma avaliação mais densa. para explicar a presença dos jovens na escola noturna. das reuniões. o saber para a sobrevivência. Nossas dúvidas eram muitas. pois uma discussão meramente técnica do problema qualitativo escamoteia seus aspectos políticos na medida em que não se analisa a qualidade do ensino no âmbito das questões relativas aos grupos sociais que estão tendo acesso ou não à atividade pedagógica. uma ocupação mais digna. à cultura sistematizada. construtora de um novo projeto pedagógico para a escola brasileira. em tese. despidos de um caráter mais instrumental. Pudemos verificar. 1 64 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . que à essa escola se reservava uma outra função social. mesmo após várias repetências e abandono. Qualquer diretriz democratizadora da escola pública deve resgatar a discussão político-pedagógica da qualidade do ensino noturno na direção de um novo projeto para este curso que não signifique. retorna à escola? O que representa essa escola noturna para os jovens? Assim. Tínhamos a certeza de que as análises pautadas na centralidade do trabalho já não eram suficientes. a exclusão através de repetências e o abandono da escola seja um fator determinante dessa busca pela escola noturna. esperanças e sonhos podemos estar contribuindo para que estes jovens sejam portadores de uma nova utopia. A sociabilidade é entendida como valorização da amizade. que a maioria dos alunos já passou pelo processo de repetência (72%) e 41% já abandonou a escola. embora importantes. Por outro lado. em estudo feito em uma escola noturna de um bairro da periferia de Salvador. o conceito de sociabilidade e/ou sociabilização é aquele referendado por Gilberto Velho no livro Subjetividade e sociedade: uma experiência de geração (1986). limitando a influên- Neste estudo. que ao tentarmos decifrar suas angústias. já deveriam estar concluindo a 8a série. a abertura dos cursos noturnos tem sido um dos artifícios utilizados pelos sistemas estaduais de ensino para responder às pressões sociais. Como compreender esse aluno? A partir de que categorias de análises? Onde buscar um referencial teórico que contemplasse outras dimensões do aluno na sua dupla condição de jovem e trabalhador? Qual seria a função dessa escola noturna? O que os jovens esperam dessa escola? Quais as suas necessidades? Onde se estruturam essas necessidades? Por que o jovem. dos encontros e dos diálogos. ampliando a rede sem grandes investimentos. Citando Simmel. a democratização e a qualidade do ensino básico exige um olhar especial para a escola noturna. Estávamos convictas. quando. o autor fala de sociabilidade como uma forma lúdica da associação e sua principal característica é não estar presa a necessidades e interesses específicos.Maria Ornélia da Silveira Marques a situação de trabalho. Discutir. É possivel que na luta cotidiana desses pequenos atores. também. também. o aligeiramento ou a banalização das finalidades básicas do ensino de 1º grau. sistemática e objetiva da sua prática e das representações dos seus principais atores: os professores e alunos. ou seja a sociabilidade tem um fim em si mesma. na busca do poder da escola como forma de sobrevivência.

Assim. como um dos espaços prováveis da sociabilidade do jovem trabalhador.Escola noturna e jovens cia da classe social e a centralidade do trabalho nas determinações da sociedade. o mundo do trabalho não é mais uma referência central para os jovens trabalhadores. afastando-se dos paradigmas clássicos da sociologia marxista da luta de classes. distintos dos critérios que regem relações familiares. o tempo de preparação do jovem para a sua saída da infância para Revista Brasileira de Educação 65 . Apesar da precoce inserção do jovem no mercado de trabalho. trata-se de compreender as diversas formas de socialização e sociabilidade dos jovens filhos da classe trabalhadora. Esse referencial permitiu-nos estruturar o nosso trabalho tendo como objetivo traçar o perfil do aluno do ensino de 1º grau regular noturno da escola pública e analisar como esse aluno representa a escola. por sua vez. Isso ocorre em sociedades que são orientadas por critérios universalistas. o mundo da escola é o mundo de grupos etários bem definidos. A escola seria. a educação escolar do jovem tem um papel muito importante pois ela atua como o “tempo da espera”. Mannhein (1982) e Foracchi (1982) elementos para a compreensão da juventude e do estudante como categorias sociais. Entender a juventude como um conceito cultural e histórico levou-nos a contextualizar a sua visibilidade como categoria social na sociedade brasileira e procurar compreender os diversos processos de construção da sua identidade. seja como busca de autonomia e consumo. na sua maioria. com o lazer. que moram nos bairros periféricos das grandes cidades brasileiras e que estudam em escola noturna. Segundo o autor. o jovem é identificado com o estudante. com a família. com o consumo. Portanto. para as ocupações que requerem um certo grau de escolaridade. mesmo que cada sociedade defina e atribua significados diferentes a essas faixas de idade ou etapas do crescimento. com o trabalho. estes jovens estão construindo nos seus interstícios situações propiciadoras de afirmação de suas identidades. Nesse momento. de “subir na vida”. o sistema escolar surge porque a família e as relações de parentesco não são mais capazes de assegurar uma transmissão contínua e fácil dos conhecimentos e das disposições dos papéis. também. Identificam novos sujeitos. O conceito de juventude gerado pelo modelo urbano industrial de desenvolvimento se baseia numa transformação das relações existentes entre a família e o trabalho no que se refere ao processo de socialização (Sandoval. Para Eisenstadt (1976). o retorno ao estudo de alguns clássicos da sociologia da juventude foi muito importante. portanto. Assim fomos buscar em Ianni (1968). Sua condição de jovens exigiu uma aproximação com outros estudos que tratam das suas relações com a cultura. seja pela premência das necessidades de sobrevivência da família. Essa transformação se dá quando o processo de sociabilização do jovem passa a ser de responsabilidade da educação e esta é concebida como meio de formar mão-de-obra qualificada para o modelo de vida urbana. sua identidade. Nesse momento. Buscam construir uma nova teoria do social. dos processos que levam à produção e reprodução da sociedade. Esta. o primeiro estágio de transição da vida familiar para uma sociedade regulada por princípios universalistas. possível de gestar novas identidades coletivas. a juventude aparece como uma categoria social de forma e momentos diferentes de acordo com as formas de socialização de cada sociedade. ele admite algo de universal comum a toda sociedade quando se trata de delimitar faixas de idade que correspondam ao ciclo vital do homem. Porém. Suas análises tentam recuperar a perspectiva do ator. Ao buscarem a escola como forma de “melhorar de vida”. penetram na esfera do cotidiano. as possibilidades de explicação das formas de organização da ação e de mobilização nas sociedades contemporâneas. portanto. Nas sociedades modernas. será analisada e compreendida. seu ponto de vista. por jovens entre 14 e 24 anos nos mostrou a necessidade de se construir um conceito de juventude como categoria social. A juventude como categoria social A constatação de que a escola noturna é frequentada. Ampliam. 1986).

A grande maioria da juventude brasileira não era visível. Nesta sociedade. 1972) centram suas análises no comportamento político da juventude tendo como certo sua capacidade de desenvolver uma postura crítica e transformadora da sociedade. com a comunidade mais ampla e. 1968. perde o convívio com a família. Também. via prolongamento do tempo da escola. segundo ele. os estudiosos da sociologia da juventude brasileira (Ianni. Segundo Melucci (1991). em particular entre as gerações. Segundo Otávio Ianni: a história do capitalismo tem sido a história do advento político da juventude. Ianni discorda das explicações da emergência dos conflitos da juventude como uma crise específica de uma idade social das pessoas. passando a retrair-se na vida privada e delegando à escola o papel de socializar suas crianças. altera suas relações de sociabilidade. Assim. Ianni afirma que ela não explica o comportamento do jovem em sociedades urbanas industriais. excêntricos. Porém. a partir do século XVII. através da música. Na América Latina. no período medieval não havia separação entre o mundo infantil e o mundo do adulto. Melucci vê no estudo da juventude a possibilidade de compreensão do agir coletivo das sociedades contemporâneas. pois seu comportamen- 66 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . em seguida.Maria Ornélia da Silveira Marques a idade adulta. é somente a partir de meados do século XX que a juventude passa a se constituir como um problema para a sociedade. Ianni retoma também as análises feitas por Mannheim (1982) quando este afirma que o problema da adolescência em nossa sociedade está no conflito entre o desejo de autonomia do jovem e a insistência paterna em manter a dependência. O interesse sociológico pelo estudo da juventude estaria no fato mesmo de os jovens se constituírem como atores de conflito. Foracchi. que se rebelavam contra a ordem estabelecida. nas sociedades industriais modernas o tema da juventude se transforma como um dos problemas da modernidade. constituindose na adolescência e juventude. A condição juvenil era identificada com os jovens universitários filhos das classes médias. que a juventude se torna rapidamente um elemento decisivo dos movimentos sociais (1968. tem como objetivo deixar o jovem fora do mercado de trabalho. Ao analisar o comportamento radical (de direita ou de esquerda) do jovem. Sua presença inicial como categoria social vai surgir na Europa através de movimentos de jovens delinqüentes. p. Nesse momento. Os estudos sobre esta juventude ou tratavam da sua marginalidade ou das suas relações com o trabalho/desemprego. o que gera a crise é a própria natureza do sistema social criado com a sociedade industrial: “O inconformismo juvenil é um produto possível do modo pelo qual a pessoa globaliza a situação social”. Para instaurar-se ou durante o seu desenvolvimento o capitalismo transforma de forma tão drástica as condições de vida de grupos humanos. Segundo ele. perde o convívio com o adulto. do tempo de preparo para a vida adulta. não havia a separação entre o universo familiar e o universo social mais amplo. pois esta era feita no espaço coletivo. Entre as décadas de 60-70. Ariès (1978) afirma que a juventude como uma fase socialmente distinta foi-se constituindo no desenvolvimento da sociedade ocidental através da progressiva instituição de um espaço separado de preparação para a vida adulta. a criança perde dois espaços importantes para a sua socialização até aquele momento. contestadores. Ambos conviviam no mesmo espaço. pois. A transformação da família. “atenuando” a crise do desemprego no país. a fase de transição entre a infância e o mundo do adulto vai adquirindo visibilidade. François Dubet (1991) analisa essa situação na sociedade francesa e conclui que o prolongamento da juventude operária francesa. de modos de vida e até mesmo com o “niilismo” (Abramo. Contestando a tese de Mannheim. a juventude torna-se visível somente a partir da década de 60 com a crise do modelo econômico excludente que atinge a maioria dos jovens filhos de trabalhadores. da arte. 159). a família não era o núcleo básico da socialização. com a extensão da escola. 1994).

Em graus diversos de complexidade. de novas interpretações. ele é histórico. com os quais se confrontam. Nessas Revista Brasileira de Educação 67 . No quadro desta complexidade da sociedade moderna tentamos compreender como os alunos da escola noturna de 1º grau. estabelecendo relações pautadas por diversas lógicas. recria na imaginação e na utopia. no espaço da rua. Assim. se transformam ou manipulam as representações que os outros fazem de si. evidentemente. no momento em que se afirma como produto histórico. se estabelecem campos de negociação com os outros atores. se aceitam ou não as identificações que lhes são atribuídas pelos adultos. desconhecendo sua força. Para Foracchi. uma identidade social. a juventude representa a categoria social sobre a qual se manifestam de forma mais visível as crises do sistema. segundo o lugar social que o indivíduo ocupa na sociedade. Essas representações. estão construindo suas identidades individual e coletiva. daí o seu comportamento radical. que por definição é múltipla e facetada. isto é. potência nova que. 1994). a maioria dessas interpretações tem como ponto de referência a comparação com os movimentos juvenis dos anos 60. 1968). na escola. A capacidade de se reconhecer e de se fazer reconhecido nestas diversas situações consiste no que Melucci (1992) chama de afirmação da identidade. seguindo os sistemas de valores. vivendo no seu cotidiano diversos papéis. sem nenhum interesse pelas questões públicas ou coletivas (Abramo. O que muda é o sistema de relações ao qual nos referimos e a respeito do qual temos nosso reconhecimento. toda identidade é socialmente construída no plano simbólico da cultura. podemos pertencer a várias identidades: a identidade pessoal. Se queremos pensar a identidade dos jovens frente aos outros com os quais eles se relacionam. o jovem tem uma identidade na família. são construídas de forma diferente segundo os diversos tipos de sociedade. porém com outra conotação. na escola. segundo os conjuntos de valores. como movimento de juventude. Segundo a autora. se confrontam na família. Rede de significados frente à qual os jovens estão dizendo quem são eles. o autor explica que outros mecanismos operam nas relações entre as gerações. a grande importância atribuída pelos adultos aos jovens na sua capacidade de preservar e renovar.Escola noturna e jovens to radical está estreitamente vinculado às condições materiais da existência. ao analisar os movimentos estudantis da década de 60. a práxis de um mundo que apenas se esboça”. Ela é um conjunto de relações e de representações. No seio da família apenas se inicia o processo de “estranhamento” do jovem com os valores da sociedade. Esses novos processos de socialização dos jovens moradores dos bairros periféricos das grandes cidades brasileiras exigem a busca de novos referenciais. no trabalho. no trabalho. a identidade de pertencer a uma família. instituições e ideais coerentes com o “status quo” (Ianni. em relação aos quais os movimentos espetaculares da década de 80 apareciam como significativos de uma juventude carente de idealismo e de empenho transformador. mas é no grupo mais amplo dos amigos e da escola que ele vai perceber as contradições do sistema sóciocultural e econômico desigual das sociedades capitalistas. a noção de juventude se impõe como categoria histórica e social. a exemplo de Eisenstadt. socialmente determinado. É a partir desses referenciais que o indivíduo organiza a sua percepção da realidade. entre esses. Sem negar a importância atribuída à família. no pedaço. de idéias e normas que pautam o código de leitura através do qual ele interpreta a sua visão de mundo. Até meados da década de 80. temos que pensar qual é a rede de significados que a vida social constrói no plano simbólico da cultura e que é movida pela própria dinâmica da sociedade. tanto no plano psíquico como no plano social. conclui que estes se afirmam como um “poder jovem. etc. Foracchi (1972). A busca de uma identidade jovem Toda identidade é um conjunto de representações que a sociedade e os indivíduos têm sobre aquilo que dá unidade a uma experiência humana. Portanto. Instaura-se assim a relação de negatividade com o presente.

muito identificados como os novos consumidores da indústria cultural. na maioria das 68 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . ou dos problemas gerais que a estrutura educacional do país coloca em termos de qualificação e aproveitamento escolar. na sua maioria. Hoje. Todos esses espaços por onde o jovem vai construindo e/ou afirmando a sua identidade são importantes como potencialidades de gestar novas identidades coletivas. Os estudiosos estão mais preocupados em perceber as formas de um agir coletivo entre os jovens. o tratamento da juventude é. Procuram dirigir suas análises para o reconhecimento de que os jovens. mas. no mundo da droga e da criminalidade. Nessas análises. os jovens são considerados como incapazes de formular propostas de transformação social. do trabalho. no bojo das discussões sobre o caráter reprodutor da escola. como espaço de práticas sociais libertadoras. os diversos processos de sua socialização nos espaços da cidade. tratam da relação entre educação e trabalho nas sociedades capitalistas. geralmente. a maioria dos estudos dedicados aos jovens tem voltado a atenção para as relações entre trabalho e educação. vestuário. Essas análises tiveram entre seus méritos o de romper com as ilusões do liberalismo e do economicismo educativo representadas pela teoria do capital humano. de afirmação da identidade do jovem. algumas vezes. o agravamento da crise social. Suas novas formas de ação. da rua. as questões da juventude alcançam outras dimensões. 1994). Cada vez mais a juventude se apresenta como uma problemática cultural e política. Nesses estudos. etc. da produção de imagens. da escola. permanecendo no seu individualismo e pragmatismo. subordinado à ótica das questões maiores referentes às formas de exploração e de reprodução da força de trabalho. também. econômicas e políticas de uma dada sociedade. Os estudos realizados a partir desse momento. têm como eixo estruturador o caráter reprodutor da escola nas relações entre capital e trabalho. Suas análises. indicam que esses jovens paradoxalmente buscam a integração. com a retração ou diminuição do poder de mobilização dos movimentos populares. baseados em estudos de Bourdieu. Nesse panorama. ora da positividade das relações de trabalho na educação do trabalhador. Althusser. Seus eixos norteadores tratam ora da negatividade. a escola não é mais vista somente como o espaço onde se reproduz a força de trabalho. dança. são atores sociais portadores de novas identidades coletivas (Sposito. Na década de 70. ressalvadas algumas especificidades.Maria Ornélia da Silveira Marques análises. símbolos. colabora para que esses jovens entrem precocemente no mundo do trabalho e. O trabalho — uma categoria necessária A compreensão da presença dos jovens na escola noturna nos coloca a necessidade de perceber como estes jovens vêem o trabalho e de como este pode constituir-se como afirmação de suas identidades. como um espaço de socialização. seus modos espetaculares de existir através da música. no Brasil. entre outros. em particular os filhos da classe trabalhadora. impõe a busca de outros referenciais para a compreensão das novas ações coletivas que se gestam em meio à crise dos modelos da modernidade. estimulado pela indústria cultural. Entretanto. as análises sobre a escolarização dos jovens filhos da classe trabalhadora refletem uma estreita relação entre o trabalho e a escola como forma de “educar” o futuro trabalhador. Os estudos que tratam da relação entre educação e trabalho. O apelo ao consumo. Establet. mesmo que essa integração se faça pela inserção no mundo do consumo. tendo em comum o trabalho como categoria central na explicação dessas relações. ao denunciarem o caráter reprodutor da escola brasileira romperam com a tradição liberal segundo a qual a ação educativa era concebida como possibilidade transformadora capaz de romper as desigualdades sociais. os jovens são identificados como trabalhadores e a escola como instituição a serviço do capital. Passeron. Falar das questões juvenis é ampliar as análises para além das relações com o trabalho e a escola. São os chamados teóricos da reprodução que. Assim.

dos novos problemas tecnológicos e organizacionais que configuram o novo contexto do processo de terceirização nas sociedades modernas.Escola noturna e jovens vezes. A dialética do trabalho. poderíamos dizer. A tradição clássica concebia a sociedade moderna e sua dinâmica como uma sociedade de trabalho. novos estudos começam a questionar as reflexões que têm o trabalho como categoria central na análise da sociedade. pretende transferir para a escola os mesmos critérios de qualidade utilizados nas empresas. Segundo Offe (1989). que a racionalidade que foi capaz de compreender a dinâmica do mundo moderno já não basta para apreender a dinâmica da sociedade contemporânea. não captam os desejos. o discurso das relações entre capital e trabalho na educação se reveste de uma nova roupagem. na elaboração do moderno pensamento social — de Marx a Durkheim — a categoria trabalho é fundamental porque. por sua posição no sistema produtivo”. em síntese. Os autores que falam da “crise da sociedade do trabalho” negam que este esteja perdendo centralidade na explicação da sociedade e continuam afirmando que as “chances de participação social. Perseguindo o raciocínio do autor. inclusive para manter os estudos? Perda da centralidade do trabalho Toda essa reflexão retoma a discussão sobre a centralidade do trabalho como categoria de análise do social. Diante de todas essas observações. aspirações. O que dizer dos milhares de jovens desempregados e subempregados engajados na força de trabalho do mercado de trabalho informal? O que essas análises teriam para lhes dizer quando estes afirmam que querem estudar para conseguir um emprego melhor que. expectativas. se não combinada com a dialética de outras relações sociais. na educação escolar e na formação da mãode-obra. problematizam questões tais como o fenômeno da globalização da economia. Porém hoje. O que dizer da sociedade brasileira em que. Somente 25% dos jovens que trabalham têm registro em carteira e estão engajados no setor de Revista Brasileira de Educação 69 . consequentemente. A crise da sociedade do trabalho Nos anos noventa. em parte. pela precariedade nos vínculos que estabelecem com o trabalho? Em nossa pesquisa. encontramos um pequeno número de jovens que têm um emprego regular e com direitos trabalhistas assegurados. nos questionamos sobre quais seriam os campos de possibilidade do trabalho para a socialização dos jovens e em que medida as análises sobre a relação entre educação e trabalho não estariam sendo pautadas em uma relação de um trabalhador abstrato com as máquinas e tecnologias de última geração. as análises em torno da crise da sociedade do trabalho e a sua tradução no discurso pedagógico através da relação trabalho e educação estão sendo pautadas por discussões calorosas sobre a “qualidade total da escola” que. o essencial da existência dos atores se desenrola para além do mundo do trabalho. numa primeira aproximação com a questão. com maior garantia de emprego. do avanço científico e tecnológico e seus impactos na força de trabalho. com o desenvolvimento. o mundo do trabalho era o universo inclusivo onde se inseriam os atores sociais. No momento. Estes autores. geralmente. embora importante. uma ampla maioria de trabalhadores tem uma trajetória de trabalho regida pela insegurança. significa escapar da pobreza? É possível falar hoje da centralidade do trabalho para a análise do social diante de tantos desempregados? O que dizer sobre o trabalho para jovens que não se sentem trabalhadores que estudam mas estudantes que trabalham. Esses questionamentos perpassam as discussões presentes sobre a função da educação diante do rápido processo de desenvolvimento da sociedade. Mais uma vez. em linhas gerais. com exceção de um pequeno segmento de mão-deobra mais qualificada e mais valorizada e. a subjetividade e as formas de socialização e sociabilidade no e pelo trabalho. da crise do fordismo e do pós-fordismo. pela instabilidade. então. torna-se inoperante para explicar o nosso tempo. política e cultural dos indivíduos ainda são determinadas.

é preciso rever o poder do trabalho na determinação das relações sociais mais amplas. partimos do princípio de que é muito limitado tentar compreender as causas dessa inser- 70 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . me produzir para ir trabalhar (aluna da 6ª série). Segundo ele. mas principalmente. pelo desejo de mudar a vida. um emprego para poder satisfazer paixões pessoais. na construção de sua identidade. ao privilegiar a subjetividade e a sociabilidade nas relações sociais. Procura-se. das reuniões. Também Lapeyronnie. Nosso contato com os jovens da escola noturna permitiu-nos buscar outras abordagens para essas relações. mas eu quero ver gente. Concordamos com Lapeyronnie. vai muito além da razão prática ou da lógica mercantil do mundo capitalista. sem nenhuma garantia. O espaço da fábrica não constitui apenas relações conflituosas de trabalho versus produção. sugere o retorno e a valorização da amizade. Em relação à inserção dos jovens no mercado de trabalho. 22). etc. Outros 62% estão trabalhando no mercado informal. a construção da identidade individual não passa mais pelo trabalho. despidos de um caráter mais instrumental. da realização pessoal e da dignidade. pelo conflito no interior de um mesmo espaço. Ao deixar o espaço do bairro onde mora para ir trabalhar em outros locais. revela necessidades diversas. Segundo o autor. o trabalho não significa apenas a garantia da sobrevivência do núcleo familiar e a capacidade de consumo. como um projeto de família em melhorar de vida o que significa encontrar possibilidades de fugir da pobreza. Apesar de reconhecermos que os jovens transfiguram suas necessidades em virtudes. Apesar de os jovens apresentarem um maior índice de escolaridade que seus pais. de coleguismo. E é nesse sentido que compreendemos a fala da jovem que anseia encontrar um emprego: Há mais de um ano que estou desempregada e não agüento mais ficar parada em casa. dos encontros. não pode- mos desconhecer que o trabalho é um campo de possibilidades de estruturação de suas identidades. esses espaços de sociabilidade permitem a construção de identidades sociais num contínuo processo de interação entre seus atores. em particular na socialização do jovem. Portanto. Neste sentido concordamos com Gilberto Velho que. E os jovens como pensam o trabalho? O trabalho para os jovens funciona quase como um rito de passagem do mundo infantil para o mundo adulto. o jovem amplia suas possibilidades de sociabilidade através de laços de amizade. quando diz que a vida social não é mais estruturada em torno da produção. como forma de garantir a constituição de sujeitos plenos. me arrumar. de solidariedade. A frequência à escola faz parte desse projeto entre os trabalhadores. resgatando a dimensão pessoal da existência. esta é uma realidade em suas vidas. eventualmente. integrados. No seu espaço. Permitiu-nos também perceber formas de socialização que extrapolam as determinações de classe e estão vinculadas a uma rede de relações significativas para a constituição de suas identidades. daí o grande esforço que as famílias fazem para manter seus filhos na escola.Maria Ornélia da Silveira Marques serviços. o que de certa forma lhes protegeria mais do desemprego. A fala desses jovens revela uma outra razão. Para os jovens pesquisados. 1992. nos seus interstícios. As idéias de uma relação necessária entre o progresso social e a valorização do trabalho desapareceram (Dubet e Lapeyronnie. quero ter colegas. mesmo porque estamos diante de uma situação nada promissora na qual o desemprego já é uma experiência normal da população brasileira. uma rede de relações significativas vai sendo construída. São relações pautadas pelo cansaço. inclusive com um redimensionamento dos parcos orçamentos domésticos e a inserção precoce de alguns filhos no mercado de trabalho. ao analisar as relações dos jovens na sociedade contemporânea fala da necessidade da busca legítima do individualismo. Já consegui um para trabalhar em casa de família. outras referências. pela solidariedade.

. falam com orgulho da autonomia que têm em relação à família. entre eles os de Gouveia (1982). ter dinheiro para comprar roupas e gastar no fim de semana. educados pelas famílias na ética do trabalho.. possibilita a frequência à escola. principalmente com as mães. Não consideramos que a necessidade de trabalho seja unicamente uma realidade imposta pelas condições de pobreza das famílias. Suas falas deixam bem clara essa situação: (. ao mesmo tempo em que os coloca numa situação de explorados. receber algum salário para quem tem uma autonomia relativa. o tênis. de consumir os bens culturais que os identifiquem como jovens. garantir os estudos. a maioria respondeu porque era pobre e precisava ajudar a família. Ao mesmo tempo em que vêem na sua ocupação presente um momento de aprendizagem para um trabalho futuro. Enfim. ou abrir a possibilidade de conquistar um espaço de liberdade (Madeira. principalmente àquelas transmitidas pelos meios de comunicação. que já posso comer e beber sem depender dele. na maioria das vezes. (Sarti. não deixa de significar a afirmação de sua identidade. Trabalhar. principalmente com as mães.Escola noturna e jovens ção precoce no mundo do trabalho somente através da sua situação de marginalidade e pobreza. Para eles. outros motivos ficaram evidentes como: ter mais liberdade. Daí eu disse pra ele que eu sou dona da minha vida. Ao contrário do discurso moralizante de seus pais sobre a necessidade do trabalho para transformá-los em pessoas responsáveis. faz parte das obrigações familiares e. mesmo sendo parte de sua obrigação de filho. na necessidade de ostentar marcas visíveis de pertencer à categoria jovem. na tentativa de ter acesso a bens de consumo e a padrões de comportamento que definem as marcas dos jovens nas grandes cidades. o trabalho. Quando questionamos os jovens sobre os motivos de sua inserção no mundo do trabalho. Madeira (1986) e Spindell (1985) falam com muita procedência do significado de liberdade contido na decisão de trabalhar por parte dos jovens. a roupa etc. aparece como resultado dos novos padrões de consumo que lançam os jovens no mercado do vestuário e das atividades de lazer variadas. Essa relação contraditória entre ser menor dependente e ser trabalhador termina por influenciar as formas de socialização dos jovens tanto na família como na escola. não podemos compreender as relações que os jovens estabelecem com o trabalho sem reconhecer a importância da sua condição juvenil que se expressa. só pode significar liberdade (Madeira. Alguns estudos brasileiros. de comprar. muitas vezes incompatíveis com a economia doméstica e a sua hierarquia de consumo. 1986). 1986). eles vêem no trabalho seu caráter de provedor. etc. freqüentemente. Na minha casa a conta da luz fica por minha conta (aluna da 7ª série). Nossas análises nos levam a concluir que o trabalho do jovem aluno da escola notuna faz parte do cotidiano das famílias pobres de toda a sociedade brasileira. quando aprofundamos a discussão nas entrevistas individuais e em grupo. Porém.) Um dia meu pai quis me bater porque eu estava namorando um colega e estava chegando tarde em casa todo dia. 1994). o conflito dos jovens com seus pais. mas que essa necessidade se constrói no próprio processo de socialização do jovem. marcados pela ética do trabalho árduo em seu processo de socialização. ter uma carteira de trabalho. nos centros urbanos: o som. Segundo Zaluar (1992). mas está procurando aumentar seu grau de autonomia. Entre esses jovens. Essa integração no mercado pela via do consumo nem sempre é valorizada pelos pais. Revista Brasileira de Educação 71 . Trabalho e família: uma relação delicada Esses jovens. na afirmação da sua identidade. ser livre significa ter liberdade para tomar decisões sobre a própria vida. Trabalhar. é ter autonomia em fazer uso do seu dinheiro. estabelecem com esse uma relação contraditória. possibilita a afirmação de sua identidade.

aliada à pressão do consumo. Ao mesmo tempo em que reconhece a condição de trabalhador do aluno. Afastar os filhos do perigo da rua significa para as famílias pobres uma crença no poder da escola em fazer de seus fillhos não apenas futuros trabalhadores mas “gente honesta”. as estatísticas têm demonstrado que uma parcela cada vez maior de adolescentes tem acesso à escola de 1º e 2º graus exatamente porque está exercendo uma atividade remunerada. os jovens atribuem à escola uma outra função que se tornou bem evidente durante a nossa pesquisa — a função sociabilizadora. A primeira centra-se na estrutura escolar. Ressaltam. O trabalho é visto pela sua negatividade e não pelas possibilidades como princípio educativo e como espaço de sociabilidade. propomos analisar a escola noturna a partir da ótica de seus atores. o trabalho vem como conseqüência da freqüência à escola noturna. os cursos noturnos são justificados sob o argumento de viabilizar o ensino escolar aos jovens e adultos que. pertencente às camadas mais pobres da população e. 1989). Os estudos nessa linha de interpretação trazem a realidade de trabalho dos alunos para a escola. Em muitos casos. instalações físicas e recursos humanos da escola pública. A necessidade de ajudar a família. o caráter de reprodução do sistema escolar. da ausência de um projeto pedagógico que atenda a sua dupla condição de jovem e de trabalhador e seu retorno à escola através dos cursos noturnos. que leve em conta a realidade dos alunos. no nosso caso. 1991). sua exclusão da escola em função de várias repetências. não tem merecido muita atenção dos estudiosos (Sposito. entendida como um conjunto de relações significativas. não tiveram acesso à escola em idade regular. porém sem necessidades e interesses específicos. por serem inseridos no mercado de trabalho de forma precoce. Sem desconhecer os problemas estruturais da sociedade brasileira e que se refletem na escola. desta forma. (Caporalini.Porém. filhos de trabalhadores. As análises mais recentes destacam a escola noturna na sua especificidade no atendimento ao aluno trabalhador. excluído da possibilidade de frequentar a escola na idade correta. entre as análises feitas podemos identificar duas orientações. para o ócio. alunos jovens. Entre a casa e a escola sobra muito pouco tempo para a rua.Por outro lado. enfatizando sua organização interna como forma de seletividade: horários. Trata o aluno trabalhador de forma genérica. Negam as soluções técnico-pedagógicas propostas pelas análises anteriores e propõem que o estudo da escola noturna seja feito de forma mais abrangente. evidenciam que a necessidade de trabalhar os força a abandonar a escola ou impede o seu acesso. relação professor/ aluno. Nessas análises. Porém. além de outros fatores. Entre o cansaço do trabalho e os 72 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Há um medo generalizado entre as famílias pobres sobre os perigos da rua e uma alternativa viável para minimizar esse medo é manter o jovem sempre ocupado. Essa ausência de diálogo impossibilita ao aluno a sistematização do conhecimento construído e/ou assimilado no cotidiano do trabalho. as afirmações de que o aluno da escola noturna a procura por motivo de trabalho nem sempre revelam a realidade. também. a escola pode constituir-se num espaço diferente. suas análises tratam do trabalho como algo negativo para o processo de escolarização do jovem. Para esses jovens. percebendo na sua prática possibilidades de sociabilização e de construção da identidade de seus atores. sublinhando.Maria Ornélia da Silveira Marques A escola como espaço de sociabilidade A educação dos jovens trabalhadores. A experiência da escola: discutindo com alguns autores As análises mais frequentes sobre o processo de escolarização dos jovens. conteúdos. A rua deixou de ser uma das referências tradicionais da socialização do jovem e passou a ser o “espaço do perigo”. ressaltando a ausência de um diálogo entre o trabalho e o conteúdo real da aprendizagem. Porém. impulsiona os jovens a procurar trabalho. o caráter do currículo oculto como forma de disciplinar o tra- balhador. como tal.

Aqui na escola a gente conversa com os professores. o que pode contribuir na formação da sua identidade. dificultam a criação de laços mais perenes entre os jovens. Por que esses jovens vinham para a escola. cozinhando. a escola e o trabalho. 61). a escola pela sua desorganização interna e pela falta constante dos professores tornase um ‘pedaço’ bastante frequentado pelos jovens. nas ausências dos professores: Eu fico o dia todo tomando conta de meus irmãos. com a família.Escola noturna e jovens problemas com a família. da escola Essas falas levantam questões pouco abordadas nas análises sobre a escolaridade dos alunos trabalhadores. os dados empíricos. assumindo formas tão surpreendentes. Magnani (1984) afirma que: Curiosamente. seja justamente essa capacidade de subverter o convencional. vê no ócio dos jovens o perigo da rua. 1992). o encontro com o amigo confidente (. A rua para alguns e a escola para todos é o lugar privilegiado para estabelecerem relações sociais mais amplas. as entrevistas e contatos com esses jovens permitiramnos perceber o quanto é importante para eles os momentos de lazer. aos espaços dos corredores e do pátio. a brincadeira.) Esses momentos de reconstrução cotidiana se dão nas situações mais diversas. muitas vezes. o encontro com os amigos. lavando.. mesmo que sua freqüência se restrinja. entre uma aula e outra. é uma forma efetiva de lutar por uma nova sociedade (Guimarães.. Ficávamos impressionadas com a presença dos jovens nos corredores da escola na 6ª feira à noite. de descontração. educada na ética do trabalho árduo. onde há lugar para o namoro. arranja alguma paquera. Daí os constantes conflitos com a família que. quanto gratificantes (1992. A maioria dos alunos fala da presença marcante da escola enquanto espaço de novas relações. Revista Brasileira de Educação 73 . que o modo como os jovens reconstróem o próprio cotidiano da escola aliviando o tempo de trabalho. mesmo sabendo que não haveria aula? Aos poucos. Esses espaços são recriados nos interstícios da organização escolar. Marcados por um cotidiano denso de relações conflituosas com o trabalho. a escola passa a ter uma importância como espaço do encontro e encontro com pessoas com as quais mantêm uma relação diferente do que na família e no trabalho. mesmo com a ausência de seus professores... que têm um cotidiano tomado por responsabilidades. arrumando meus irmãos prá ir prá escola que fico doida que chegue de noite prá eu vir pra escola e ficar com minhas amigas. fomos nos aproximando desses jovens e descobrimos que a escola era o ponto de encontro para a ida do grupo aos bailes de pagode do bairro e de outros bairros vizinhos. eles preferem a escola. Cultura e lazer como afirmação da identidade do jovem Se no início da pesquisa pensávamos que os jovens da escola noturna construiam suas identidades pessoal e coletiva nas suas relações com a família. com os colegas. em estudo sobre a escola noturna observou que os alunos são capazes de: (. esses jovens transformam o ambiente da escola em espaços agradáveis. tornando a escola um dos espaços possíveis para uma vinculação mais duradoura com os amigos. também. nos processos de migração de um bairro a outro. A aproximação com uma literatura pertinente permitiu-nos uma compreensão de que o tempo livre das imposições normativas do trabalho.) metamorfosear o ambiente de trabalho e a própria escola em espaços agradáveis onde há lugar para a brincadeira. eu estou até namorando um colega da sala (aluna da 7ª série). Também Guimarães. Acreditamos que uma das saídas possíveis para que a escola se transforme num espaço de sociabilidade entre os jovens. buscar outros objetivos para a escola. aliadas a outras instabilidades no meio da família. as relações transitórias e instáveis diante do trabalho. Por outro lado. Eu já disse pra minha mãe que quando eu acabar a 8ª série eu vou arranjar um emprego. repensando a escola para além da simples transmissão do conhecimento. Para esses. Acreditamos.

uma das características marcantes da sociedade contemporânea é o seu caráter de massificação advindo do processo de urbanização e desenvolvimento das grandes cidades. divertimento e estudo são faces de uma mesma moeda que só pode ser comprada com o seu trabalho precoce. é uma maneira efetiva de tomar parte em uma luta pela busca de uma nova sociedade. Na relação entre a ética do trabalho e a ética do lazer que impõe um estilo de vida entre os jovens. de viver com intensidade todo o tempo livre. Nas respostas ao questionário. com a monotonia. a análise dos dados empíricos sobre o lazer dos jovens sujeitos da pesquisa. dentro da perspectiva de uma cultura de massa. como nos dizia uma aluna. com a quebra da rotina. dos avanços tecnológicos que alteraram os padrões de sociabilidade e interação entre os sujeitos. tornar-se portadores de uma nova utopia. pois são formas diferentes de hierarquizar as necessidades. Trabalho para esses jovens é coisa de futuro. O caráter transitório de sua condição juvenil permite o estranhamento das agruras do trabalho e da pobreza. escola. apesar das influências dos meios de comunicação social. Para alguns estudiosos esta função pode ser um recurso à vida imaginária. para muitos jovens. Para o aluno da escola noturna. do jogo (Zaluar. há o espaço da brincadeira. amigo. Neste sentido. não lhe dá o status de trabalhador. do “gozar a vida”. as redes de relações sociais e. trabalho. A indústria cultural coloca à disposição do jovem uma série de bens de consumo que. filho.Maria Ornélia da Silveira Marques e da família. Poderão. de consumo que se incompatibilizam com as necessidades imediatas de suas famílias. consumo e lazer que eles constroem a sua subjetividade. Este estilo de vida cria necessidades de lazer. Trabalho que. Comprar um aparelho de som. Também Gilberto Velho. ampliam a sociabilidade. o que o leva a considerar-se um estudante que está aprendendo a ser trabalhador. garantir a individualidade dos sujeitos. da disciplina. daí a busca do teatro. Em síntese. que estabelecem redes de relações sociais significativas. apesar de ocorrer em situações contraditórias. A ida ao pagode nos fins de semana faz parte do lazer da maioria do grupo. nas conversas informais e nas entrevistas pudemos depreender que o aparelho de som ocupa um lugar privilegiado nas suas casas. Aliada ao pagode. aliviando o tempo de trabalho e repensando a escola para além da simples transmissão do conhecimento. da indústria cultural. pode ser o tempo dos jovens recriarem a liberdade em direção a seus próprios interesses. cria um estilo de vida jovem. que eles tentam construir suas identidades. nos limites do bairro e de suas condições materiais. no seu cotidiano. colega. Entre a dureza do trabalho e a disciplina da escola. Segundo o autor. foi a porta de entrada no mercado de consumo. Enfim. dos meios de transporte e comunicação. assim. do cinema. 1994). formas de lazer que garantem a sua identidade jovem. a música e a dança têm uma influência muito grande na conformação de suas identidades. só depois de estudar e com carteira assinada. retoma a discussão sobre as possibilidades do consumo ampliar. É na complexidade dessas relações entre família. o que gera o conflito. É nessa multiplicidade de papéis de aluno. permite-nos concluir que. em suas análises sobre a cultura popular e a sociedade de massas. o que sobra entre a escola e o trabalho. Concordamos com Alberto Melucci quando 74 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Aproveitar da vida como ela é. na maioria das vezes. O divertimento e a recreação são explicados pelos sociólogos do trabalho como uma ruptura com o trabalho. esses jovens recriam. ao mesmo tempo. Ver no aluno da escola noturna somente o jovem que trabalha sem considerar suas características e papéis assumidos. cria-se uma zona de conflito entre estes e seus pais. Nossa pesquisa demonstrou o quanto a escola está distante desses jovens. concluímos que a juventude nas classes populares é vivida como um tempo de liberdade. inviabiliza qualquer projeto pedagógico que procure responder às suas necessidades. a música também é um referencial forte entre o grupo. principalmente dos rapazes. trabalhador. através do lazer. Queremos crer que o modo como eles reconstroem o próprio cotidiano.

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> enfim. busca de sentido Guy Bajoit Abraham Franssen Universidade Católica de Louvain Tradução de Denice Barbara Catani Publicado em: Les Jeunes dans la compétition et la mutation culturalle. > a contribuição é medida pelo esforço que é preciso dispender a fim de se preparar para o trabalho e para realizá-lo. Catholique de Louvain. a experiência ou inexperiência do mercado de trabalho constitui um momento decisivo da sua redefinição identitária. > a retribuição é sempre postergada: há. Nossas interrogações remetem às formas de desagregação do modelo cultural do trabalho. quête de sens. a comunidade. a retribuição legítima.VIII: Le travail. a classe de origem. faz parte de um grupo. o mercado de trabalho é o campo em que se exercem mais diretamente as coerções materiais e simbólicas da competição. o esforço. Cap.O trabalho. inicialmente. O modelo cultural da sociedade industrial se caracteriza pela centralidade da ética do trabalho. mais ou menos estruturado. a ética do rendimento que está no cerne desse modelo contém várias idéias: > o trabalho deve contribuir para um projeto coletivo: deve ser socialmente útil para a coletividade (donde a ociosidade é sempre mais ou menos vergonhosa). caracterizado o modelo central de trabalho da sociedade industrial. Examinamos também quais são as representações e as atitudes dos jovens com relação ao 76 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . o trabalhador participa do mundo do trabalho por intermédio de instâncias coletivas: o sindicato. As expectativas e as atitudes com relação ao trabalho. Examinando os “modos de gestão de si”. o sacrifício que é preciso fazer a fim de preparar-se para o trabalho e em seguida para executá-lo e então como uma conseqüência. Além disso. ao emprego e ao desemprego são uma dimensão privilegiada para apreender a crise e a mutação das referências culturais entre os jovens. Univ. pudemos constatar que para numerosos jovens. Aliás. Rapport de recherche au Fonds de la Recherche Fondamentale Collective. e à emergência de novas orientações com relação ao trabalho. no modelo tradicional de trabalho. > a contribuição e a retribuição devem se equivaler: a tal contribuição deve corresponder uma “justa” retribuição. de trabalhadores. Sua participação não é exclusivamente individual: ele não está só face ao seu empregador.

olha aquilo. de realizar seus sonhos de adolescência. interrompe seus estudos aos dezoito anos para fazer o serviço militar. olha que belos carros eles têm. ele obtém um contrato temporário de seis meses para um mutirão de desobstrução de sítios históricos. e era assim o tempo todo. lhe prometiam um futuro que realizaria seu projeto de promoção social. mas também. “quando fui rebaixado para 8. não sei por que. Dessa experiência ele guarda sobretudo a lembrança das más relações de trabalho. vamos apresentar Hervé.. Hervé começa a escola profissional técnica de tipografia. Mas.. Contudo. destrói seu sonho. Olha o senhor e a senhora Fulano de Tal. nos mercados. de muito futuro. Seus pais. A interrupção dos estudos é motivada pela vontade de adquirir independência financeira.. Hervé reage referindo-se aos seus direitos: “Se você continuar tentando me botar prá fora. escolheu a marinha para realizar um sonho: “Eu só via realmente uma coisa. olha que bela oficina. é quase uma carapaça como se diz. Trata-se de minas militares submersas. dragar minas no mar belga. mas tartarugas que se movem rápido. busca de sentido desemprego. conhecer gente nova. tanto mais que na época ele era “meio hippie”. caracterizado por uma forte preocupação com o status. olha isso. Quando visto meu casaco de couro. eu via os barcos à vela partir pelos oceanos”. a comunicação.”1 . de maneira mais expressiva. mas não ficar a bordo de um pequeno barco com a missão de dragar. conheceu um período de desemprego de mais de um ano. vou ficar dois anos. A gente é quase como as tartaruga nas estradas. a maior parte do tempo confinado a tarefas subalternas.. eu cha- Revista Brasileira de Educação 77 . os barcos. isso foi o mais difícil. o couro negro. O tempo do desemprego foi um tempo socialmente inútil: “O dia de um desempregado leva cinco minutos”. Eles têm uma gráfica há não sei quantos anos.” Nessa época. ele é minha segunda pele. A experiência cotidiana nas forças armadas.) 1 “Por interferência de amigos”....500 francos. É para a prática da moto que Hervé reporta então seus sonhos de evasão e suas necessidades de relações sociais. e me comunicar com outras pessoas. é verdade que enquanto jovem você realmente carrega um rótulo”. antes. “Quando você está desempregado. “A coisa do desempregado é terrível. Meus pais diziam. entrei em pânico.... é duro. noites inteiras eu não conseguia dormir. um belo ofício. Meu objetivo é a viagem. você aprende a contar os minutos”.. especialmente pelos clubes de motociclistas que ele freqüenta. mas ela é também um fator de sociabilidade importante. mas tudo bem. operários. Viveu essa experiência com um forte sentimento de degradação social e pessoal. “Não é isso que eu queria fazer. (Nota de revisão.. aliás. abandonadas pelos alemães ao fim da II Guerra Mundial. restam-lhe-talvez “1000 francos por mês para sair um pouco do mofo onde se está metido”. Insiste bastante sobre as limitações de dinheiro. Em seguida a essa experiência. cuja história ilustra esse conjunto de questões. é uma boa. Depois de duas reprovações no primário. A dificuldade de concretizar suas expectativas de auto-realização explica a justificativa puramente instrumental que ele oferece para o prolongamento do seu contrato. em seguida é orientado para a joalheria — o que lhe agrada muito. uma semana. ao que parece. Se ele se engajou no exército por dinheiro. “Estava cheio. Diante do chefete que o provoca. Hervé Ele é oriundo de uma família numerosa.O trabalho. você vê o tempo passar. queria era viajar. Blusões negros. Depois de pagar o que deve aos seus pais. ele lhe fala e ela o compreende. minha moto me permite viajar. a única fonte de ganhos ocasionais de que dispunha era a venda de bijouterias de sua confecção. As pessoas têm medo de nós. que moram aqui nos fundos. ganho a vida durante esse tempo e depois procurarei outra coisa”. A moto é um prazer solitário (“é a única coisa que me faz sair de mim mesmo”): ela é sua companhia.

Embora encontre nessa cultura da comunicação e da convivialidade um substitutivo para a identidade profissional não realizada pelos canais tradicionais. Seria meu próprio patrão e faria uma associação cooperativa. porque não é um cara como os meus patrões de antes. aí eu teria uma loja. o senhor tem 25 anos. faria só um modelo de jóia por pessoa.. seu horizonte inelutável é o desemprego e uma nova busca para encontrar um emprego. de qualquer forma. mas isso vai acontecer um dia. como podem ser dois dias. Nesse pequeno meio da criação. pelo menos quando exercida de uma forma arbitrária ou absurda. eu evoluo. no entanto. Hervé aspira de modo impreciso e flutuante a um trabalho. mas dentro de três anos terei de recomeçar. No plano profissional... o novo tipo de relações que experimenta (“é jóia. Hervé. ele valoriza muito. acredito. de fragmentação ou de desarticulação que impedem a formação de uma relação estável com o trabalho. num futuro previsível. as pessoas 78 . É outra coisa. é muito agradável trabalhar com ele. um carrinho e.. Bom. já que faço a criação. até um pouco demais. realizar-se é: “eles têm uma casinha.. Caro senhor. o conteúdo desses contatos sendo menos importante do que a própria comunicação. e apenas um ano de experiência.. dois anos de desemprego ou dois meses.. eu me esforço muito. Segue-se um breve período de desemprego.. eles chegaram a um ponto onde eu gostaria de chegar. sobretudo. Hervé trabalhará voluntariamente um dia por semana numa associação cultural.. desencadeando efeitos de ruptura. não suportando mais o tédio e o vazio de seus dias. do gênero Van Cleef e Arpels. Agora estou bem porque tenho um trabalho. Para ele. que seria operário também.. Depois ele será contratado para um cargo de serviços gerais no quadro dos programas de reinserção para desempregados. ao mesmo tempo cooperativo e independente (“ser meu próprio patrão”). De maneira geral.. recomeçar? Vai ser. Desde que estou aqui. A precariedade constitui seu universo de referência. o que se chegou a fazer foi um mini-festival com os “hard-rockers” que foi muito bom. isto é. de ter acesso a um novo universo cultural e relacional suscetível de lhe proporcionar novos pontos de referência: “eu me sinto crescer com esse trabalho cultural. que a gente encontra aqui têm outra mentalidade”. Eu não cheguei aí. Não dá nem para dizer que é meu patrão. que lhe assegure um status social condizente com suas expectativas iniciais e uma auto-realização através de uma atividade criativa. você encontra pessoas”) e o caráter expressivo das atividades que o constituem. filhos. que podemos fazer pelo senhor? Não dá para contratá-lo. Hervé não considera. Se eu tivesse podido ser joalheiro.” Enquanto isso. um atelier de criação. Hervé se afirma resistente a toda autoridade. entretanto. um emprego interrompido três dias depois de ele haver sido contratado. para que a gente faça alguma coisa que valha a pena. Abraham Franssen mo a inspeção do trabalho”. não é mesmo. acredito nisso. Teria sido Van. Além do ganho financeiro e da ocupação. Bom. e isso vai ser o quê.. Como na canção de Renaud em que se escuta: “ele tinha vontade de arrebentar o crânio do chefete que não sabia suportá-lo”. seu emprego como um verdadeiro trabalho. Acho normal beneficiar outros operários como eu. é um eixo central de suas orientações no trabalho.. Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 Essa inserção profissional lhe dá ocasião de se abrir. eu gostaria de ter feito dessa loja ou desse atelier.. A comunicação. o trabalho é antes de mais nada valorizado pelos contatos sociais que favorece.Guy Bajoit. como aquele que lhe traria status e estabilidade. por causa de um acidente de moto (que serve de pretexto para seu empregador não recontratá-lo) e um novo período de desemprego com duração de quinze meses com prestações do seguro-desemprego que vão sendo reduzidas progressivamente.. sentimos muito. eu poder ter o que quero. talvez.. Se seu emprego tem muito pouco de conteúdo próprio. É um cara muito legal.? Nos últimos meses de desemprego.

desde o início.O trabalho. por vezes essencial. Para Patrick. compraria um barco. Ele é o exemplo banal de um jovem cuja socialização de trabalho foi. a precariedade de sua inserção profissional é a constante em sua trajetória no mercado de trabalho. Suas condições atuais de existência tornam hipotética a realização de seus projetos e Hervé tende a refugiar-se numa situação de moratória. a continuar morando na casa dos pais. se ele fosse joalheiro. encarregado numa pequena empresa metalúrgica da região de Liège. por trás da aparente homogeneidade das expectativas — um trabalho de que se gosta num ambiente positivo. A bebida faz com que — bom. “de se sentir bem” e “de estar num bom ambiente”.. daqui a três anos. Revista Brasileira de Educação 79 . você O trabalho na vida Contra as apreciações lapidares (“os jovens perderam o sentido do valor do trabalho”) é preciso sublinhar que o trabalho continua sendo uma fonte importante de normatividade e uma experiência central de socialização. As palavras são as mesmas (trabalho-emprego-desemprego). Se você não acha trabalho nos próximos seis meses. Ao todo. a bebida começa a chegar. apesar de seu caráter penoso. Entretanto. aos vinte e cinco anos.. Ao lado do salário. Para Hervé. os trinta meses de desemprego e os empregos precários que ele conheceu não lhe permitiram investir em tarefas de conteúdo importante. que assegure ganho e reconhecimento social — as experiências vividas e as significações atribuídas ao trabalho são múltiplas. o trabalho é ao mesmo tempo uma necessidade vital. A crise do modelo tradicional do trabalho O modelo tradicional de trabalho é ainda bem presente e desejável para muitos jovens. como para Bernard. porque muitos jovens..” chega a um ponto sem volta. trata-se “gostar do trabalho”. um ano e meio de desemprego. seria legal de fazer.. que é um critério importante que justifica as mudanças de empresa. O trabalho tem uma dimensão instrumental (ganhar a vida) mas. são os nervos que sofrem e eu não sei se é a maioria dos desempregados que são assim.. Trabalhar — quer dizer. sempre importante. mesmo tendo-se tornado mais ou menos difícil de praticar. O modelo de trabalho ao qual ele se refere é bastante impraticável. são fontes de desestruturação profunda e de ameaças de anomia. Longe de constituir uma etapa inicial. As afirmações de Hervé são assim constantemente divididas entre uma aspiração à normalidade e à conformidade social (“se eu conseguisse entrar na pequena burguesia”) e uma busca de evasão e de encontros (“Meu objetivo é a viagem e a comunicação”). exercer uma atividade produtiva com caráter social assegurando uma independência financeira — permanece. vamos ver”. louco. os indivíduos ficam reduzidos à impotência existencial e vivem uma ameaça de desagregação psíquica. Essa situação de moratória é acentuada pela dependência financeira que o obriga.. e os jovens. para todos os jovens que entrevistamos. No fim das contas. você embarca p’ro hospital. uma expectativa básica. cuja contrapartida é o status social que ele confere e a satisfação pessoal que proporciona. no momento da entrevista. depois de um ano. fragmentada e precária. fazia seis anos que Hervé havia saído da escola. como alcoólatra ou então como.. face à sociedade fechada e desorganizada. Aliás. Ele evoca assim o horizonte negativo de uma desorientação pessoal. torneiro-fresador numa empresa metalúrgica próxima de Bertrix. busca de sentido Eu acredito que as pessoas teriam mais vontade de vir comprar comigo do que com qualquer outro. impedindo a realização das expectativas ligadas ao projeto familiar inicial. Os dois anos no exército. Além disso. que ele teme.. mas as significações são diversas. uma obrigação social e um dever moral. Essa fragmentação e essa heterogeneidade. ele comporta também uma forte dimensão expressiva (realizar-se social e pessoalmente). entre sonhos malogrados e projetos indefinidos: “No momento estou aqui.

Solange. como Bernard — que detalha longamente o funcionamento de sua máquina: “uma máquina suíça de 39 que trabalha com micron” — são reveladores de uma cultura do ofício. Hervé) foram realizadas em 1985 e 1986. (“o domingo é sagrado”). a consciência das exigências dos contratos e a ausência de perspectivas profissionais destruíram a maior parte de suas referências ao modelo tradicional do trabalho. à sua dificuldade. o prolongamento da escolaridade obrigatória até os dezoito anos e o esgotamento das fontes tradicionais de empregos operários. está disposto a encarar qualquer trabalho: A pessoa que vai bater ponto (no organismo de registro dos desempregados) acaba tomando gosto nisso. É preciso observar que algumas das entrevistas evocadas aqui (Pierre. Pierre acabou sendo engajado no Governo belga: “Eu tive de me fazer de criança nessa hora. seu ritmo. e o trabalho. na qual o registro afetivo (“Tenho necessidade de um trabalho. tem contribuído para manter muitos jovens num espaço relativamente indeterminado. escrevi. departement de Sociologie UCL. Sua identidade orgulhosa está ligada ao conteúdo técnico do trabalho (trabalhar com uma máquina de tipo digital). se lixa. É o tempo do trabalho que determina o ritmo de vida. o que eu precisava era de uma entrada mensal de dinheiro. à “importância de seu papel”. no começo procurei no meu ramo. que meu filho havia acabado de nascer.. que significou. “Se me dissessem para ser desentupidor de privadas. ela está pouco ligando. Ameaçado e obrigado a recuar. distinguindo claramente tempo de trabalho e de lazer. o sentimento de inutilidade. M. e que ocupa um lugar central nas suas existências. 2 Hoje. Se esse modelo tradicional é ainda bastante desejável. e A. Pierre. muito trabalho. e de sua carreira operária são claramente balizados.. mas depois. o confinamento em tarefas pouco qualificadas. É verdade que eu era casado. Além disso. rapport de recherche. suas relações. para muitos jovens. tal como geralmente foi vivida por seus pais. cujo pai é chofer caminhoneiro. para ela.) prevalece sobre a transação mercantil.. de quando em quando.. de Ronge Jeune et identité au travail.. eu seria desentupidor de privadas. O “garantismo” Ao fim de um longo período de desemprego sem estar registrado no organismo competente.Guy Bajoit. qual- Esse parágrafo apóia-se bastante numa pesquisa anterior levada a efeito sobre as orientações de trabalho dos jovens e apoiando-se na análise aprofundada de uma dúzia de entrevistas com jovens em situação precária no mercado de trabalho. com sua rotina e seus incidentes. O tempo do trabalho vem primeiro.. respondi aos anúncios. os dias em que se está só. Nem um nem outro reclamam por efetuar horas suplementares em função das exigências da produção. o desânimo. pode ser igualmente encontrada. até mesmo à sua sujeira. este aparece como uma referência longínqua. Ao fim de seus estudos de auxiliar de enfermagem Solange experimentou um longo período de desemprego. a experiência do desemprego e da instabilidade. e o da recuperação é secundário.. Ver Molitor.. sua impraticabilidade relativa o leva a entrar em crise. Mas isso não deu porque era preciso ser bilíngüe”. As etapas e os mecanismos de sua entrada no mundo do trabalho. com seus códigos. 2 Essa atitude de implorar emprego.”. o tédio. Patrick. 1987. como para Hervé. eu tinha necessidade absoluta de dinheiro”3 . no qual uma vez por semana uns trinta jovens dispõe de 12 centímetros quadrados para atrair a atenção de um empregador. A valorização está igualmente ligada ao nível de responsabilidade exercida. isso não é para mim”. “Eu pedi para ser varredor de rua. Obrigado. na página “jovens que procuram emprego” do jornal Le Soir. 3 80 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . sem nada para fazer: “eu procurei muito. impedindo a socialização precoce no mundo do trabalho. Laura.. Abraham Franssen Uma grande parte do discurso é espontaneamente voltado para a descrição do processo de trabalho no qual estão engajados. eu tive quase que chorar para conseguir o lugar.. e às competências mobilizadas. num contexto fortemente marcado pela crise do empego indusrial.

na falta de um status real e de uma função. a fragilidade de suas redes sociais. Contrariamente a Bernard ou a Patrick.. “para mim. “naquele momento. vendo minhas possibilidades de trabalho.. de ser útil. permanece indefinida e marginal (“sou pau mandado”). discutimos e ele. as categorias administrativas ou afetivas substituem as categorias sociais e profissionais.. para esses jovens em situação precária. (Pierre) A ausência de mediação pelo trabalho e. Solange. de maneira geral. o tema da retribuição prevalece sobre o da contribuição. Por fim. o GB é..O trabalho. Stéphane. como relações interpessoais. com Michel Molitor. mas como estritamente hierárquicas e burocráticas (vazias de conteúdo) ou. o que é proibido pelo regulamento. Pode-se. há aqui a ausência de uma cultura do trabalho estável e constituída... falar da figura do “garantismo” para caracterizar a degradação das referências de trabalho que se observa entre os jovens confrontados com o fracasso relativo de seu projeto de integração. mas de tarefas a realizar (“arrumo as prateleiras”) ou de uma definição institucional (“Trabalho como estagiário”) ou ainda. seja por uma identificação total à empresa: “No GB.A prova: eu fui uma vez surpreendido fumando nos banheiros. um lugar público. “O GB é uma família”. Didier e tantos outros agarram-se aos farrapos da norma- Revista Brasileira de Educação 81 .. através de empregos pouco qualificados no setor dos serviços ou no quadro de sub-status do setor não-mercantil. mas sempre desejada. O percurso no mercado de trabalho é descrito mais em termos administrativos (“fiz um estágio para desempregados. ligadas às categorias do afetivo (“simpáticos”. “obtive meu certificado 4”) mais do que em termos de ofícios. a gente está entre amigos. a dimensão expressiva do trabalho desaparece: o sentimento de participar de um processo de produção global. tenho medo de ficar desempregada de novo”. as preocupações econômicas (“um trabalho a qualquer preço”) ou de status (“não estou contente de ter um emprego provisório remunerado pelo Estado”) prevalecem sobre as características próprias do trabalho. torna-se uma referência distante. de se realizar pessoalmente. inversamente.. sindicatos. busca de sentido quer coisa. de conteúdos.). Pierre. me disse: ‘bom.. eles são boa gente. estava fazendo um estágio de espera”. as dificuldades prolongadas de inserção no mercado de trabalho impedem a estabilização no modelo de trabalho ao qual aspiram e se traduz por uma desestruturação de suas referências identitárias. A ocupação não é percebida em termos de ofício. Ela tende a ser reduzida ao organograma que lhe assinala um lugar. Nessas condições. A cultura do trabalho.. temporário.”. um status social. se diverte. capaz de proporcionar uma identidade digna e positiva ao trabalho. fre- qüentemente. substituindo outra pessoa: “Eu gosto de trabalhar. “legais”. fui chamado pelo gerente.” (Pierre) A dimensão coletiva e conflitual das relações de trabalho desaparece aqui completamente. administrações) ao arbítrio das quais eles sentem-se particularmente expostos. vamos deixar passar’”. A dimensão expressiva do trabalho como locus da realização de si é progressivamente abandonada em favor unicamente da lógica do emprego. Hervé. como diria. Para esses jovens cuja experiência da precariedade origina-se freqüentemente numa socialização familiar que oferece recursos frágeis ou inadequados e é confirmada pelo veredito do sistema escolar. Luc. A organização do trabalho é então sentida como heterônoma. é isso mesmo. uma ocupação do tempo. na medida que elas constituem seu elo com o sistema social. Nesse sentido. como auxiliar de enfermagem num lar para pessoas idosas. teve a sorte de encontrar um primeiro emprego. As expectativas com relação ao trabalho são reduzidas à sua dimensão instrumental: uma fonte de ganhos. a gente discute. substituída seja por um sentimento de isolamento e de impotência. reforçam o sentimento de vulnerabilidade social com relação às diferentes instituições (Ofício para os desempregados. cheguei até a pedir numa usina de fabricação de plástico. as relações de trabalho não são mais vividas como relações de produção. babá e tudo”. Para esses jovens cuja inserção se efetua. como empregada doméstica.

Para aqueles que. a “apatia” é apenas a distância que os salva. sem contar com recursos culturais e sociais que lhes permitiriam viver diferentemente sua situação. onde se insiste em fazê-los adquirir uma qualificação de base (construção civil) — são também os mais conscientes das imposições do mercado de trabalho e sem ilusões sobre suas próprias possibilidades de exercer um trabalho interessante. particularmente em torno da temática da comunicação e da auto-realização expressiva. nem dela distanciarem-se. ao mesmo tempo. Com relação à experiência de Hervé. face a uma sociedade da qual eles se sentem marginalizados e à qual se agarram. Às ofertas tradicionais de formação. por certo. Experimentando a precariedade. Trata-se. É a lógica do gato escaldado e da nostalgia que melhor caracterizam a atitude desses jovens no mercado de trabalho e. nas conversas de Hervé ele evoca o grupo dos “irredutíveis” com o qual se vêem “confrontadas” as instituições de reinserção profissional que se habituaram a distinguir. como no de muitos outros jovens. uma desestruturação das referências tradicionais de trabalho tornadas completamente impraticáveis e a manifestação de orientações novas. essa modificação das orientações com relação ao trabalho está ligada à experiência de empregos “alternativos” do setor não mercantil no quadro de sub-status (diversos mecanismos institucionais especialmente criados pelo governo para atendê-los. Por exemplo. nessa zona brumosa que separa as exigências do mercado de trabalho dos seus recursos e das suas aspirações. Novas Aspirações ao Trabalho Na ética tradicional. decorrentes de políticas de emprego destinadas aos jovens. fortemente marcada pela lógica da precariedade. por freqüentarem a diversos meios. em termos de socialização. mas induzem uma socialização que. no seu público. No caso de Hervé. decididamente. sem alternativa positiva. que se mantêm bem ou mal. os jovens “aptos à formação para o trabalho” e os jovens que é preciso antes “ressocializar”. de maneira mais geral. esses jovens respondem freqüentemente com indiferença. onde eles têm a oportunidade de experimentar outros tipos de relações de trabalho. transformam-se em atitude de auto-preservação. a própria heterogeneidade de sua experiência propicia uma socialização inédita e a aquisição de novas referências e orientações com relação ao trabalho. formação em alternância). sem realmente questioná-la. por força da necessidade de uma aventura sempre recomeçada. Essas aspirações. podemos nos interrogar com relação aos efeitos. Abraham Franssen lidade do trabalho. na medida em que não podem se realizar no âmbito do mercado de trabalho. manifestando em contrapartida mais interesse por atividades com forte dimensão expressiva (“teatro”). nesse caso. É através de sua parti- 82 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . resistem à socialização pelo trabalho (e tanto mais na medida em que esta se efetua sob a forma de estágios mal remunerados no quadro de pequenas e médias empresas marcadas pelo autoritarismo das relações de trabalho). da experiência de trabalho.Guy Bajoit. O exemplo de Hervé esclarece a lógica interna dos jovens que galeram no mercado de trabalho. mas sem esperanças realistas de encontrar uma saída.. entre desestruturação psíquica e o distanciamento lúcido. provisoriamente. ainda amplamente elaboradas com base nas normas do modelo tradicional de trabalho. Esses jovens — maciçamente encontrados nas diferentes iniciativas públicas e privadas de formação através do trabalho (escolas de aprendizado. de uma lógica de crise no sentido de que a impraticabilidade das normas adquiridas é vivida dolorosamente e dá lugar a diversas estratégias de compensação e de racionalização. o trabalho é considerado como um dever moral e social. O transitório Ao mesmo tempo. com Michel Molitor.).. se poderia qualificar de “socialização do transitório”. Verifica-se. eles se retraem sobre as referências de que dispõem. é possível formular a hipótese de que esses empregos de substituição não permitem uma integração real no mundo do trabalho. De uma maneira mais global.

O ambiente não me agradava. Essa reivindicação se exprime muito nitidamente na vontade de “não se deixar consumir pelo trabalho” e de realizar um trabalho que tenha sentido. situação que ele sabe que é provisória sem que por isso seus projetos estejam claramente definidos (“Eu não sei. organizada em sua região no quadro de uma AID (ação integrada de desenvolvimento) destinada aos jovens “excluídos”. negativamente. Enquanto antes ele era importante em si. não tem ilusões quanto às exigências do mercado musical e não imagina que vai poder viver disso. Era meio que trabalho em cadeia. Não esquecer que o resto também tem importância e que o fundamental é estar bem na própria pele. Vê-los todos os dias. no final do ano.. Acabamos de ver que para um certo número de jovens. Não é mais o indivíduo que é referido ao trabalho. Eu não teria conseguido continuar ali.” Esta experiência de sujeição à máquina e à agressividade nas relações de trabalho. Enquanto no modelo tradicional a realização pessoal estava subordinada ao trabalho. Nesse sentido. A melhor profissão é. o choque da entrada no “mundo do trabalho” foi tanto mais violento quanto sua Revista Brasileira de Educação 83 . Embora faça rock com um grupo de colegas. aquela de que a gente gosta. Tinha muito barulho. mas sim da reivindicação de um trabalho que tenha sentido para o próprio indivíduo e/ou que lhe deixe tempo para uma vida própria. O que muda não é tanto a importância do trabalho. paralelamente. E com isso os outros operários aproveitam. Eu prefiro achar alguma coisa melhor. a ser submetido às aspirações e à crítica do indivíduo. Havia relações entre os operários. antes de tudo. Eles vêem que você é o otário. Assim. hoje é o trabalho que tende a estar subordinado à realização pessoal. Christian encontra-se agora desempregado há seis meses (“com o desemprego eu posso aproveitar melhor a vida”). permanecendo entretanto como um elemento e um locus essencial. é importante ter sucesso no plano profissional. isto é. pela participação que assegurava ao projeto coletivo da sociedade industrial. a poeira. Rompi meu contrato. eu não suporto. tanto no plano da satisfação pessoal quanto do status social.. (posto que representa uma grande parte da nossa vida) (Jean Pierre). embora não exclusivo. essa aspiração exprime-se por uma rejeição ao trabalho assalariado na fábrica e por uma recusa do trabalho-alienação. mas para mim não dava. mas sim a relação com ele. agora ele se torna importante para o próprio indivíduo. sua resposta é inequívoca: “Não. mas mantendo um distanciamento com relação a isso. Para mim.. a crise de praticabilidade e de legitimidade das normas tradicionais de trabalho dá também ocasião a uma mutação estrutural das orientações com relação ao trabalho. sabe que não voltará à fábrica. não dava. Ao mesmo tempo. E quando lhe perguntam se está interessado numa formação em trabalho com madeira. Silvana também já viveu.. busca de sentido cipação no processo de produção que o indivíduo pode pretender a uma auto-realização.. mas autoreferido. você tem que trabalhar. 22 anos. Essa coisa de poeira.. a gente vê”). mas diferentemente. Não. não se trata tanto de uma rejeição do trabalho. na medida que pode contribuir para o seu projeto singular. que eu esteja seguro de gostar mais. O valor do trabalho tende a não ser mais sacralizado. o trabalho continua sendo importante. Para ela. eu já conheço. no qual o indivíduo possa realizar-se. vamos todos ao restaurante e você tem a impressão de que é o carrossel encantado. É o tempo todo a mesma coisa. e depois. Muitos jovens manifestam assim sua rejeição a uma carreira operária normal tal como a que foi vivida por seus pais. Christian. No começo para guardar o lugar. o trabalho é referido ao indivíduo. Em outras palavras. a gente vê. esta referência tornou-se longínqua e impraticável e que esta degradação é vivida sob a forma da crise. eu não quero. interrompeu a escola aos dezoito para ir trabalhar. Eu trabalhava numa usina química. De qualquer forma. sou alérgico a isso. A recusa do trabalho-alienação De maneira defensiva.O trabalho.

permanecer humana.. os desempregados não são necessariamente pessoas que não prestam para nada. o sentimento de monotonia e de vazio que o acompanha não são novos.” Da fábrica onde Silvana trabalhou três anos. Não. Eu emagreci cinco quilos. Por isso. é rápido demais. você só pode ir (ao banheiro) duas vezes. sujeita ao ritmo da máquina. A máquina gira todo o tempo. Eu penso que os desempregados não devem se deixar abater. Mas o fato de ter trabalhado como um cão me ajudou a pensar. o trabalho determinava uma condição operária vivida como uma razão social. ela guarda uma experiência heterônoma.. é preciso sempre andar rápido.. quando me registrei no Ofício do desemprego. porque. Só agora me dou conta disso. Eu não voltarei jamais a uma fábrica (Gabriella.. você pode meter os dedos na máquina. Eles também têm sua vida.. sem conteúdo próprio. Fiquei tão horrorizada com esse cara que me arrependi realmente de ter parado de estudar. (. foi primeiro preciso que eu tivesse uma experiência ruim para adquirir vontade e caráter. ainda que se duvide. apesar de seu caráter penoso. Mas acabam desistindo. porque não conseguia comer em vinte minutos. com relação à qual não havia outra escolha 84 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . oito horas.. Ali. três meses que comecei a refletir e disse a mim mesma que não queria mais voltar a trabalhar numa fábrica. Silvana ou Isabelle (que trabalha como secretária): não terminar como eles. Passado o primeiro choque de entrada no mundo do trabalho.. no universo protegido da família e no quadro convivial da escola. mas desta vez um trabalho que me agrade (agência de viagem) porque gosto de estar em contato com as pessoas.. Então eu não comia nada. escravizados e aviltados pelo ritmo de trabalho e suas relações convencionais. isso eu não quero. Desempregada há quinze dias (“eu mereci”) Silvana não voltará a trabalhar na fábrica para não perder a sua humanidade: Se eu trabalhar toda a minha vida num lugar assim.criar os filhos. confrontada com a vulgaridade e com as rivalidades de suas colegas mais velhas: Numa fábrica. atelier de escrita). cuidar das pessoas. antes de se perderem como sujeitos: Faz mais ou menos 6 meses que estou desempregada. A dimensão alienante do trabalho assalariado..) Para mim. ressaltaram abundantemente essa escravização da pessoa à máquina e as micro-estratégias individuais ou coletivas acionadas para escapar a isso (psicossomatização. o trabalho ideal é o de mãe de família. mas por enquanto estou vivendo muito bem e espero poder achar um trabalho. te deixam o tempo todo no mesmo lugar. você é protegida... Com isso você fica sonolenta e isso é mau porque.. feliz. fazer o trabalho mais duro e o mais chato. Cinco minutos... o dia inteiro. você tem a impressão que é mimada. no começo eu fiquei. me senti em férias e foi depois de dois. porque passei cinco anos de minha vida numa fábrica abominável onde o patrão era o patrão e a operária um instrumento de trabalho. freqüentemente.. Quanto a mim... a primeira experiência de trabalho — às vezes depois de muitos anos — longe de conduzir a uma confirmação do modelo de trabalho (como no exemplo de Patrick que “está recomeçando tudo de novo”) conduz a uma rejeição total ou parcial. vou me tornar ruim. ou pessoas à parte.. É precisamente essa perspectiva que é rejeitada de forma explícita por Christian. Para esses jovens.. As antigas se aproveitavam das mais jovens.. 23 anos. É depressa demais. mesmo se eles não têm os meios financeiros como os outros.. eles têm razão. Toda a literatura sociológica sobre a condição operária. interiorizando as coerções.. vou ficar como elas.. você não pode parar a máquina. rotinizados. vou fazer como todo mundo” (Isabelle).Não obstante. Porque nas fábricas. a briga é essa: os banheiros.. fuga através do sonho. greve tartaruga. não a tinha preparado de maneira alguma para isso: “Quando você está na escola. eles tentam se acomodar: “Eu não queria dizer aos meus pais que estava infeliz nessa fábrica” (Silvana) “É verdade. Abraham Franssen socialização anterior. senão submeter-se. admito.).. e em particular as pesquisas junto às operárias.Guy Bajoit. é verdade que eu não gasto mais tanto como antes.

Quando é um trabalho de que você não gosta muito. mas era só para ter direito ao de- Revista Brasileira de Educação 85 .)4.. não me incomodaria de trabalhar dez horas por dia. talvez fosse desse jeito. é só isso.. Numa pesquisa realizada com jovens de camadas populares. atitudes e representações. De bom grado eu trabalharia. Se eu fosse chefe de empresa..O trabalho.” A consciência e a gestão desse descompasso dá lugar a diferentes estratégias. Mathieu. O trabalho então é apenas um “bico”. um pouco o que me cai nas mãos. status. de início. me envolvo um mínimo. precisa bem o alcance de seu investimento no trabalho: Travail Ras-le-bol? Jouissance? Ed. que alguns adotam uma atitude estritamente minimalista e instrumental com relação ao emprego. Tudo se passa como se a experiência de trabalho de numerosos jovens fosse caracterizada por uma distância importante. que permitem ao indivíduo existir como sujeito dissociando-se de sua situação.. recepcionista de uma agência de viagens. como eu já caí na armadilha. “há um certo desencantamento”. Bem. Inclusive para Mike e Antoine.. o trabalho é como um negócio. lamentar a falta de interesse qualitativo de seu trabalho.. ao contrário. entre suas aspirações e a realidade (conteúdo e ambiente) do seu trabalho. pela maior parte dos jovens.000 francos belgas por mês durante dois anos. a minimização às vezes desdenhosa da implicação de si no trabalho (“um trabalho. Na medida em que não seja realizador. o “contrato”. eu me definiria principalmente pelo que faço paralelamente” (Isabelle). ele tende a ser minimizado. Esta lógica é particularmente presente entre os jovens que seguiram estudos do tipo artístico ou literário e que experimentam sua frágil rentabilidade no mercado de trabalho. que ao fim de um contrato de aprendizagem de 6.. Uma maioria de jovens vão. Só para ganhar a vida. ou mesmo de sua condição profissional. mas. o “trabalhinho”. 4 horas bastam. O trabalho no quadro de um emprego não é considerado como o único modo de autorealização. reduzido à sua função instrumental (pelo dinheiro) enquanto toda a dimensão da autorealização é reportada à esfera privada e à sociabilidade escolhida.. mais satisfeitos com suas características extrínsecas (ganhos. “Isso depende do trabalho. O trabalho é.. A figura mais clássica dessa gestão da insatisfação é a do trabalho desinvestido. “temporário”. Essa recusa de um trabalho que impõe suas limitações ao conjunto da existência (“o trabalho que absorve vida inteira”) é expressa.... É na medida que não encontram um trabalho que corresponda a suas aspirações profundas e no qual eles possam investir. acabou de ser contratado como reparador de caixas registradoras. Não é o meu caso.. J. 1986..P.. na esfera familiar para alguns. de maneira mais ou menos aberta e declarada. eu procuro emprego com contrato indeterminado. assim. Vie Ouvrière.”.. sentida e expressa. Freqüentemente a decepção os espera na entrada do “mundo do trabalho”: “Na realidade. Se eu tivesse um trabalho de que gostasse muito. Bruxelles. Quanto a Ana. D. enquanto o verdadeiro trabalho é a atividade autônoma. Ruquoy. 4 Hiernaux. “Eu não me definiria pelo trabalho. E vejo família como realização. no máximo. aparentemente os mais alérgicos ao trabalho. seria milionário. Para mim. Raramente são coisas que eu gosto (Ana). qualquer que seja seu nível sócio-profissional: “Não quero uma vida em que você se sacrifica pela empresa” (Joy). para justificar uma auto-redefinição. Eu não sou diretor de empresa. Daniel Ruquoy e Jean-Pierre Hiernaux mostraram bem a defasagem entre a importância atribuída a priori ao trabalho e a satisfação advinda da experiência concreta com o mesmo. você imagina muita coisa com relação ao trabalho. então não vejo como poderia.. estimando-se. busca de sentido O trabalho desinvestido e o trabalho sonhado. ou a partir de uma atividade pessoal para outros.

quer se trate do tempo cotidiano ou da divisão das etapas da vida.. Trata-se de ter “um bom lugar” que permita efetuar toda uma carreira — os papéis profissionais são papéis para toda a vida. que sofre no balcão de uma agência de viagens. Ana. “não vou envelhecer lá dentro”. subsiste freqüentemente o sonho de um trabalho que propiciasse a auto-realização pela realização de um projeto próprio. forçoso é constatar que há menos empregos estáveis e que a norma do emprego em tempo integral e para toda a vida tende a aparecer como um contra-modelo. estudei fotografia. “um trabalho tranqüilo. e gostaria muito de me fixar na fotografia. ou pelo menos cultural. A maior parte dos jovens não procura enfeitar. A norma é a do emprego em tempo integral e para toda a vida. só trabalhou em secretariado. (“É uma questão de lucidez”). eu gostaria muito de ter uma formação como vitrinista. numa coisa artística. Joy — atualmente desempregada e que. Os jovens executivos tendem a afirmar seu desprendimento e sua capacidade de ruptura não somente com relação ao emprego. o trabalho é um dado indiscutível que determina o ritmo da existência. E para Didier.. bom salário. por assim dizer. Eu quero fazer alguma coisa interessante... desde que parou de estudar com dezessete anos. no teatro. isso seria minha base. com a possibilidade de “reconversão” sob o império da necessidade.Guy Bajoit. Jovens com maiores recursos inquietam-se às vezes de se verem confinados em um lugar “confortável” (estabilidade. faço questão de deixar claro”.. qualquer coisa mais — como dizer —. gostaria de viajar “organizar viagens para as pessoas e tudo isso” ou então fazer fotografia.. amarrado há muitos anos entre uma situação de desemprego e um status indeterminado. O receio da monotonia supera o desejo de segurança e de retorno financeiro (“o dinheiro. O que não impe- 86 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Abraham Franssen semprego.. Se ainda se encontra entre os jovens esta aspiração a uma segurança na existência. isso é a minha grande ambição. “uma pura exploração” ou “pequenos serviços ingratos” — tenta lançar as bases que a aproximariam de seu sonho: Meu grande sonho e minha grande ambição seria trabalhar um pouco mais na área do espetáculo ou do canto. Eu me sentiria útil à beça e faria uma coisa que gosto (Antoine). Daí se eu pudesse achar outra coisa. onde eu me envolvesse mais. Muitos jovens reivindicam assim o caráter temporário da sua ocupação atual: “eu vou sair logo”. eles depreciam seu “trabalho de paus mandados” para dele melhor se distanciarem. a gente precisa. Mas é evidente que é preciso viver de coisas que não somente sejam sonhos. lá no alto. de de ter os pés no chão e uma consciência lúcida das obrigações. e daí. A estabilidade do emprego é uma dimensão importante e é o modelo progressivo e cumulativo da carreira que constitui a norma (sancionada por uma medalha depois de 25 anos de fidelidade). mas o termo mesmo de “reconversão”sugere a amplitude da reorientação que isso significa. Isabelle que “fica lendo atrás de sua máquina de escrever enquanto o chefe não está lá”..”) aparece como a contrapartida das aspirações não concretizadas de autorealização “num trabalho que não seja mais um trabalho”. sem chateação. Tempo de trabalho e tempo de vida Essa aspiração à autorealização e essa relação dessacralizada com o trabalho se traduzem também em uma outra relação com o tempo. isso é um treco que eu bem que gostaria de fazer (Mike). mas pouco interesse intrínseco) que não se teria mais coragem de deixar. um trabalho perigoso e ao ar livre. nem assumir com orgulho sua própria situação: ao contrário. No modelo tradicional de trabalho. tudo o que é um pouco público. gostaria de escrever ou então “ir para o Terceiro Mundo”. A imprecisão e a grandeza do projeto puramente virtual permitem a evasão. o emprego ideal seria trabalhar em postes de eletricidade. mas também com No horizonte. Assistente social. mas é para gastar”). por isso.

isto é. da autenticidade. O mau ambiente e o caráter hierárquico e competitivo das relações de trabalho são freqüentemente evocados como o primeiro fator de desgaste e de rejeição ao trabalho assalariado. com freqüência. a motivação pelo salário é aqui secundária com relação ao desejo de ter tempo para a própria vida. Depois você não tem mais vontade de fazer nada no começo. às quais eles tendem a aplicar as exigências da comunicação. chega em casa são duas e meia.. O trabalho. horrível mesmo o que você faz (Silvana). E.. O trabalho-paixão Como antípodas do trabalho alimentar. O recurso ao sindicato tende.. a confundir sua atividade profissional e seu projeto de auto-realização. sem referência a um coletivo (a um “nós”). a relação social empregador-empregado diluindo-se. eu diria que entre os colegas aqui embaixo na agência. Quando você pára.completamente exausta. A maioria dos jovens não viveram as condições de constituição de uma identidade coletiva a partir do trabalho. e sem envolvimento. Você fica meio abatida porque você acha que é horrível. É isso que me dá muito medo no trabalho. Quanto ao tempo cotidiano. julgadas pouco legítimas e inoperantes para responder às situações particulares dos jovens.. “Eu rompi com esse sistema que assegurava vantagens demais para o patrão”.O trabalho. busca de sentido relação à carreira. Você vive só p’ra isso (Christian). Bom. não há problemas. na verdade. atrás da relação interpessoal “legal”. nas expectativas de comunicação e de convivialidade nas relações de trabalho. toma espaço demais. a partir daí. por vezes. (“parar”. Mesmo que isso não venha a ser feito. “jóia” ou da personalidade simpática do empregador. sempre com as mesmas ordens o dia todo. entre os quatro. é de fato a rotina que para mim vai um pouco de encontro à vida. Essa importação de categorias do afetivo pode ser ambígüa. tendem a te rebaixar um pouco (Ana). eu ficava no sofá e dormia. de jovens com grandes recur- Revista Brasileira de Educação 87 . Eu acho que isso toma um tempo enorme. da reciprocidade das relações pessoais.. Freqüentemente.” (Ana). liquidada (Isabelle). e energia também. que te imobiliza e é enfadonha (Joy). que é constrangedora. a individualização das trajetórias profissionais e a precariedade dos diferentes empregos ocupados fazem da experiência do trabalho uma experiência vivida individualmente. com freqüência.. “fazer qualquer outra coisa”). é principalmente no nível da hierarquia enfim porque eles se acreditam talvez um pouco superiores pelo fato de serem secretárias ou contadores. Quanto às instâncias de mediação e defesa dos interesses coletivos dos trabalhadores. às vezes. termina o trabalho às duas horas. um número reduzido de jovens chegam a conciliar. às vezes até 7. enfim. Eu me vejo muito mal num escritório sempre com o mesmo patrão. elas são. O trabalho: uma experiência individual Esta vontade de considerar o trabalho a partir das categorias da experiência manifesta-se. “eu acumulo toda a minha raiva. no começo. nos primeiros meses. você faz o quê? Você descansa no sofá porque você não agüenta mais. Trata-se. de que o tempo todo não seja consagrado à recuperação da “força de trabalho”. depois me desabafo e vou-me embora. a ser estritamente instrumentalizado ou rejeitado em proveito de um protesto individual que se traduz mais diretamente pela desimplicação e a saída expressiva do que pela reivindicação e a negociação. Positivamente os jovens são sensíveis à qualidade das relações de trabalho. não há problemas. Para a maior parte dos jovens. Numerosos jovens falam assim do trabalho manifestando um sentimento de isolamento como se fossem os únicos a conservar uma distância crítica.. em meio a colegas rotinizados. no final da semana eu estou realmente a nocaute. que desgasta. 8 horas.

importa ser confrontado. é preciso que sejam “pessoas que aprendam rápido”. de início. A intensidade do investimento liga-se também à vontade de vencer no jogo da competição plenamente assumida. que incluem um forte componente tecnológico (informática) e/ou artístico (música. então devo refletir e ver como reconstruir alguma coisa. se os projetos me interessam. O grau de satisfação é ele próprio ligado ao fato de poder envolver-se totalmente. Penso que meu trabalho não evolui mais na medida que sou obrigada a refazer a mesma coisa que já foi feita. Abraham Franssen sos sociais. eu os mereço. “competição”. para uma viagem para jornalistas. isso é claro. de status e simbólica não são o mais importante: elas não são buscadas enquanto tais. Esse modelo do trabalho como paixão encontra-se entre os jovens executivos e entre as profissões criativas. “ser hiperrentável”. ao mesmo tempo. E ter todos os elementos nas mãos. com novos desafios.Guy Bajoit. Deixemos.. engenharia de som): “eu desejo que meu trabalho seja um hobby. Melhor do que outros. que permite bancar a mulher de marketing quando tenho vontade e organizar as campanhas de promoção. Eu tenho necessidade de um trabalho no qual possa me envolver. inclusive ela mesma. É um critério que deve se aplicar permanentemente. de separação entre tempo de trabalho e tempo de lazer apagamse aqui em proveito total de um modelo hiper-profissional. que ela defina suas funções numa agência de comunicação para cuja fundação ela contribuiu: Eu tenho uma função de coordenação que me permite.. As gratificações material. bancar a jornalista quando tenho vontade. A retribuição do esforço não é postergada. Isso não me incomoda. O registro de Sophie é o da administração de empresas. estar sob stress dez horas por dia. e escrever. econômicos. que me permite ter o luxo universitário de pensar e elaborar projetos. Porque no dia em que levanto dizendo: ‘merda. evoluir. justamente esse aspecto total: gestão de uma equipe e criação de um produto. Sophie resume as características desse modelo. desenho. depois de dois anos. de equilíbrio entre a prestação e a retribuição. com termos como “investimento”. em nome de uma busca do sujeito e de uma vontade de auto-realização. com o qual eu me divirta todos os dias. fazer alguma coisa de que se gosta. trata-se de ver outras pessoas. de fato” (Martial). mesmo que eles não se concretizem nunca.. Na imagem desse jovem executivo que indica em pós-scriptum de seu curriculum vitae: “Uma paixão: O trabalho é uma paixão se é envolvente”. minha função. de estabilidade. fazer o tempo todo coisas excitantes e apaixonantes escapar à rotina. de sua propensão a integrar-se numa equipe”e como há um turn-over importante (o tempo de se fazer um nome no mundo da publicidade). mas imediata pela auto-realização para a qual ela contribui. E eu me dei conta de que o que me interessava era justamente. ter um papel de diretor de projetos e obter subsídios junto à CEE para um caderno complementar. incessantemente. Sophie integra totalmente a lei 88 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . O critério fundamental do êxito é a satisfação que se experimenta. ela “recruta” seus “colaboradores”em função do seu “potencial”. E que para mim é importante ter o reconhecimento dos outros. das normas tradicionais da ética do esforço. Meu salário. “Todo mundo na casa sabe que está permanentemente sobre um assento ejetável”. sem concessão ao diletantismo. não tenho vontade de ir trabalhar’. Assiste-se assim a um reinvestimento e a uma relegitimação. “performance”.. cujo percurso é caracterizado pelo controle de suas escolhas. Além disso. colocar-se em questão. Os critérios de medida. culturais. e sim consideradas como a contrapartida normal do investimento. que é um papel de RP quando nos convidam nas conferências da imprensa. às vezes ambígua.

pessoal. da performance. mas “para terminar isso deu certo. que ao fim de uma aprendizagem em marcenaria de luxo lançou-se na restauração de móveis antigos. sobram apenas três. Para Bill. E pretendem também ser os únicos juízes de seu êxito ou fracasso. não se incomodando de se deixar explorar um pouquinho desde que isso lhe permitisse encontrar pessoas interessantes... trabalhando muito. “em sua natureza”. Esta atitude estratégica a serviço de um projeto de auto-realização supõe uma forte confiança em si mesmo. Mesmo quando eles vinculam seu projeto a um papel. eu gostaria de ir fundo”. Para os jovens que rejeitam resolutamente a perspectiva de um trabalho alimentar. Sobretudo.. O êxito de sua empresa confunde-se com o seu êxito pessoal do qual eles são a encarnação e a expressão. É. Os jovens independentes Esta figura do “trabalho-paixão” deve distinguir-se das orientações para o trabalho dos jovens independentes. o trabalho é. A sociedade é apreendida como um mercado que oferece recursos a serem mobilizados e que impõe obstáculos a serem ultrapassados. estão mais próximos da ética protestante de trabalho do que de um projeto “pour le fun”. A importância do envolvimento é vivida como forma de sacrifício.” Sua família teria preferido que fizesse estudos mais clássicos. mais do que como forma de prazer ou de alegria. da concorrência. antes de tudo. para Pascal. apoiandose sobre uma facilidade natural de classe ou sobre a convicção de um “fogo sagrado” interior. O trabalho encontra seu sentido a serviço desse projeto. é impos- Revista Brasileira de Educação 89 . A partir do momento em que viram que não tinham a responsabilidade que deles se esperava. apreendido como lugar de realização e de expressão de uma essência pessoal — “qualquer coisa que está neles”. o fotógrafo. o engenheiro de som. quando se está em condições econômicas tão difíceis. procuraram outro rumo (. cairam antes. há a combinação. Isso é uma vocação: eles não são chamados de fora. em proporções variáveis. Se esses não cedem nada aos primeiros quanto à intensidade e ao volume horário de seu investimento pessoal. único. Assim. que é vivido como singular. Encontrase aqui uma forte vontade estratégica em proveito de um projeto-paixão clara e precocemente definido: “era realmente aquilo que me interessava.. busca de sentido da empresa. Yves já tinha muitas realizações profissionais a seu favor: jingles para a televisão. ao terminar seus estudos de engenheiro de som no IAD. sem problema”. Da equipe do início. Eric. músicas de filmes publicitários. confundindo trabalho e lazer e envolvendo-se muito intensamente. Não se cria uma estrutura para agradar às pessoas com quem se trabalha. E é verdade que eu estou consciente de que estou sentada em um assento ejetável. “eu tinha começado bem afiado o trabalho lá dentro”. só se paga pessoas que sejam hiper-rentáveis: Chega um momento em que se tem que tomar a devida atitude com uma série de colegas e isso é realmente duro. No momento. mas de dentro.. encorajado por um ambiente familiar em que “todo mundo se interessava pela música” foi “ten- tado a inserir-se nesse meio.. “me comprometi bem antes de largar os estudos”.) E. ou Stéphanie. mas a sua auto-realização através dele. arranjos em estúdios..O trabalho. desapareceram.. não é sua concretização enquanto tal o que eles buscam. a finalidade visada e a significação atribuída ao trabalho são outras. Todos os outros cairam. Não é mais um papel socialmente reconhecido como útil: eles não pretendem seguir caminhos batidos e balizados por outros. a grande limpeza. ou para Yves. Digo que é preciso um mínimo de sacrifícios durante alguns anos e depois.. A norma é “estar sob stress dez horas por dia” e aqueles que não sabem acompanhar não há lugar para eles. Aos 22 anos.. E eles consagram todo o seu tempo a ele. como engenheiro. que acabou de abrir um snack. Uma segunda figura do modelo de trabalhopaixão encontra-se nas conversas dos jovens artistas. o desenhista. de um projeto de auto-realização e de um modelo competitivo. É preciso dizer que desde a idade de 15 anos.

poderoso. Num artigo. O desemprego total caracterizado pela humilhação. Louvain-La-Neuve. porém mais como um período ativo de busca de emprego e de formação profissional. torna-se aqui a primeira. O status do de- Schnapper. que assegure um ganho e se possível que permita “fazer um trabalho que se gosta”. Isto é realmente o mínimo para viver.Guy Bajoit. Um emprego satisfatório. ele é considerado como um período de moratória. As diferentes lógicas assim distinguidas podem nos ajudar a dar conta das experiências vividas pelos jovens de nossa amostra desde que sejam entendidas como simultâneas.. além de alguns meses. superando todas as limitações. A insatisfação expressa com relação ao emprego e ao trabalho não implica de modo algum uma valorização positiva da situação de desemprego. Na melhor das hipóteses. isto é. com a força de vontade. valorizada pelo tempo libe- rado para atividades pessoais que desemprego permite. Difícil nessa situação é. Dominique Schnapper 5 distingue três tipos de experiências de desemprego. desfeito. anomie” in La crise dans touts ses états: ouvrage collectif. O desemprego As representações e as vivências do desemprego são o oposto do trabalho. A situação de desemprego não é verdadeiramente apreendida como tal. ser forte.. Não ter emprego é ser excluído. CIACO. e eu estou desempregado e não faço nada dos meus dias”. Os jovens desempregados não se reconhecem na imagem que a sociedade cria deles. principalmente o sentimento de desvalorização social que daí provém. O período do desemprego é considerado como transitório e apreendido sob o ângulo dos recursos (tempo-dinheiro) assim colocados à disposição pela busca de um projeto pessoal. Nesse sentido. O desemprego postergado é o desemprego vivido na forma de “como se”. partindo do nada (“eu tinha 600 francos na minha conta”). designa a experiência do desemprego vivida como um tempo vazio. já antigo. D. sobre a vivência do desemprego. e um elemento essencial de sua identidade. chômage. a intensidade negativa da experiência de desemprego entre os jovens. que não é geralmente citada nas motivações principais do emprego. trata-se mesmo de um prazer postergado: “temos a riqueza de nossas obrigações” Vence-se graças ao trabalho. o emprego continua sendo o lugar privilegiado da participação social. e não se desesperar (Eric). Se as expectativas e as aspirações com relação ao trabalho são. é certamente uma experiência muito negativa. num bom ambiente é sentido pela maior parte dos jovens desempregados como a condição necessária da participação social. o desemprego é quase sempre vivido negativamente e isso. com freqüência. quando se prolonga. “Crise Economique. inclusive para os jovens que se definem mais diretamente por um projeto de auto-realização. isto é. o tédio e a dessocialização. 5 90 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Longe disso. A preocupação financeira. que permite tomar fôlego ou autoriza uma redefinição de projetos. frustradas. Para eles. isso faz do desemprego uma experiência comum — a situação de desemprego. sem atividade de substituição e com o sentimento de sua própria inutilidade. Abraham Franssen sível economizar porque o que se pega é realmente o que sobra no fim do mês. O desemprego: o tédio e a desvalorização Apesar da banalização objetiva do fato — mais de 25% dos menores de vinte e cinco anos estão desempregados: e se levarmos em conta o fluxo contínuo dos que entram e dos que saem. 1984. traumatizante para a maior parte dos jovens que encontramos. Apesar de tudo é preciso não ceder. (Dominique). A maioria vive o desemprego sob a forma de culpabilidade ou da vergonha: “é duro com relação aos outros da família que trabalham. impressiona ao contrário. sendo feliz com o que se realiza. O desemprego invertido indica uma vivência do desemprego totalmente desdramatizada.

os dias não passam. os traços comuns e generalizados da experiência do desemprego. Le chômage des jeunes: des vécus très differents. Para mim. O desemprego moratório e o projeto de auto-realização6 Ao lado dos jovens que vivem o desemprego como uma verdadeira doença. Às vezes tenho a impressão de não ter nada para comunicar.. quanto mais eu durmo. nada de interessante nisso (Bill). Fico com raiva. uma pessoa que ganha 50. É o caso de Dominique: O desemprego. Não chego a me interessar pelo que quer que seja. Não tenho mais conversa com meu pessoal que já está restrito. porque a gente tem alguma coisa no fim do mês. menos eu penso. E é o caso. Mas também isso tranqüiliza. aceitar esse status. Jacques. O desemprego também é horrível porque a gente se sente muito isolado. o inferno da minha vida. eu nem sonhava com uma coisa semelhante. Inclusive para os jovens que escolheram voluntariamente a situação de desemprego ou que o aproveitam para realizar um projeto pessoal. o tédio ocupa a maior parte dos dias. Me vejo acabar mal. Acho que eu valho mais que isso. com freqüência... para mim. mesmo com meu companheiro. isso me deixa doente. mas são pessoas como as outras. Tenho um pouco de vergonha” (Solange). minha saúde não vai tão bem (Luc). esteticista).000 francos vale 10. o tédio e o sentimento de desestruturação do tempo são freqüentemente evocados para caracterizar a experiência do desemprego. me visitar e tenho dificuldade em vencê-lo (Texto de Florence... no momento. de mulher que não faz nada. Passado o primeiro mês. Quando estou sem trabalho. a tendência é me deprimir. go. que não tem vontade de fazer. que não sabe fazer mais nada. a vivência de desestruturação do tempo. de verdade. freqüentemente. o aborrecimento vem. Também me refugio no sono. porque não sei se teria a disciplina para fazer tudo que tenho vontade”. 22 anos. Eu me deixo viver sem reagir. eu penso (risos).000 francos e uma pessoa que ganha 10. desempregado: de qualquer forma isso acaba sendo insuportável. Meu problema é que me sinto diminuído. Não era nada do que eu tinha vontade de fazer. E de toda forma não há. tenho realmente uma imagem negativa do desemprego e acho que isso não vai comigo mesmo. 5 Revista Brasileira de Educação 91 . foi muito difícil aceitar estar desempregado. tanto a leitura quanto a limpeza da casa. um certo número dentre eles vão manifestar com relação a ele um ponto Le Movel. “engasgado”. Entretanto sei que é covardia. que está tenso com relação ao seu futuro profissional fica apreensivo com o prolongamento de sua situação.. vou estar atrapalhando alguém.000. Dizem que os desempregados não servem para nada. foi um horror. O tempo me parece longo. foram precisos meses e meses e somente agora começo a. o mal estar ligado ao caráter provisório da situação são.. Para me colocar. além da diversidade de situações.O trabalho. Psicologicamente. foi terrível. Depois de um tempinho. Às vezes tenho a impressão de que todas as pessoas que encontro sabem que estou nesse lugar horrível. busca de sentido sempregado está. O desemprego é sempre visto como uma armadilha. Meus deslocamentos diários se limitam ao ofício do desempre- O sentimento de desvalorização social. Ou então destruo minha saúde.000 francos vale 50. eu tenho um pouco de medo de ficar desempregado. Ter o rótulo de desempregada. me esforço para não me afundar e depois é o tédio de novo. às vezes eu me repreendo. vou perturbar minha mãe e meu pai.. afetando sempre a identidade social e às vezes a identidade pessoal. o tempo no desemprego é uma variável fugaz cujo controle requer uma auto-disciplina forte: “É por isso. com o risco para a pessoa de se instalar aí confortavelmente e o próprio Bill. Outras características do desemprego total estão presentes nas conversas dos jovens desempregados.

com saída indeterminada (“a gente vê”). Como os jovens que vivem um desempregodoença. dar boas respostas na entrevista. O desemprego vai bem alguns meses. 23 anos. sindicato. ele tende a viver esta experiência sob a forma da negação. “manter-se construtivo”: buscar emprego sistematicamente.. estou meio na expectativa de uma boa idéia (Joy). Tanto melhor. eu levo uma vida da qual aproveito cada instante. de modo geral aqueles que dispõe de diploma negociável no mercado de trabalho. “ocupar ativamente seus dias”. isto é. que pode ter dinheiro assim. nem do ponto de vista financeiro. (“não incomodar em casa”. Trata de fazer como se não houvesse nada. exprimem um ideal profissional que assegura tal projeto de auto-realização. uma paixão. Abraham Franssen de vista mais desenvolto e banalizado em relação a ele (sem. à qual é preciso conformar-se: escrever um bom curriculum. na medida em que a situação é um pouco delicada.). consertar coisas em casa). casado há cinco meses. outros não respondiam nunca. Os auxílios de desemprego permitem destinar um momento para tomar fôlego ou para buscar uma atividade considerada como um verdadeiro trabalho. O desemprego postergado O “desemprego postergado” é aquele que encontramos principalmente entre os jovens executivos de nossa amostra. compreendido como forma de redefinição de projetos pessoais... fazer cursos complementares. Essa atividade torna-se objeto de uma verdadeira cultura profissional. no entanto. instrumentalizando suas relações com diversas instituições sociais (ONEM. O tempo de desemprego é vivido como o do exercício de um ofício em tempo integral. cuja duração está ligada à coerção financeira. apesar de tudo. ele considera o trabalho como um elemento estruturante de sua existência: “um lugar que seja estável e que me traga ao menos alguma coisa”.... transformá-lo numa experiência positiva). manifestam geralmente uma capacidade de concretizar seu projeto. Desempregado há seis meses. aquele que não tem vontade de trabalhar.. antes de tudo. apresentar-se bem. academia. Entre a vivência do desemprego-doença e aquela do desemprego-projeto pessoal.) e ao preço de uma auto-disciplina incessantemente ameaçada de relaxamento. esses jovens que se definem freqüentemente a partir de uma sensibilidade artística. Trata-se geralmente de jovens com maiores recursos escolares e culturais. o daquele que procura. quando você tem necessidade de se situar. que se beneficiam de ajuda econômica familiar. mas diferentemente dos primeiros.. necessitando da aquisição de competências ad-hoc. como uma vocação pessoal (escrever. fazendo do tempo do desemprego um tempo ativo. Perseguindo um objetivo de estabilidade. terminou uma graduação em informática como analista programador. fazer fotografia..Guy Bajoit. Vou me dar um ano tranqüilo no desemprego (Antoine). a fim de redigi-la com a clareza em relação aos problemas que ela poderia ter. 92 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . então passei a ficar atento aos termos da minha carta.) Observei que alguns empregadores respondiam.. O critério de validade da atitude é aqui a adequação à forma esperada pelos empregadores. “a informática é apesar de tudo. de fazer outra coisa que não trabalhar. para quem o desemprego é.. Dizem que eu deveria aprender por mim mesmo a ver as cartas que dão resultado e as cartas de candidatura que não dão resultado (. não reconhecida pela sociedade mercantil. Há momentos em que a gente tem necessidade de uma vida mais calma para se encontrar um pouco (Isabelle). tanto melhor (Julie). alguns jovens querem essencialmente experimentar o desemprego como um período de expectativa. Não é uma situação sustentável a longo prazo. Agora eu me dou uma chance no desemprego (Bill). isto é. Jacques. no respeito às normas tradicionais. um prolongamento da moratória da adolescência.. Se o sistema é feito assim.

Enquanto no passado articulavam-se trabalho e emprego. sou um pouco diferente. ela cumpriu seu contrato até o fim. se você olhar bem. desempregados doentes que se deprimem. as entrevistas dos jovens ilustram a dissociação dessas diferentes dimensões. De um lado. se ainda vou me divertir amassando o pão. por outro lado. dimensão instrumental e dimensão expressiva. e com grande pesar para Jacques que não foi selecionado! É curioso esse fetichismo do curriculum ou da entrevista para contratação. que lhe permite viver como ator o seu próprio desemprego. tanto para Jacques.Clube de Busca Ativa de Emprego. O CRAE já fez muito sucesso na França e em outros lugares: Canadá. oito horas por dia durante três semanas”. depois. é verdade. Mas. No entanto. respostas. o elo entre a contribuição e a retribuição se atenua numa atitude garan- Revista Brasileira de Educação 93 .O trabalho. Optou por estudar filosofia (“a rever. a não fazer nada. Cecília é “um pouco à parte”. aprendo muitas coisas que me agradam. ainda durante um ano ou dois. constata que a agrada estar desempregada. Trata-se de uma experiência multidimensional e que evolui ao longo do tempo. eu deveria estudado marketing”) ela está frustrada de não rentabilizar o diploma e queria trabalhar. via um “método ativo. quanto para outros executivos desempregados que nós encontramos. digamos. retomou o curso de guitarra que havia abandonado por causa dos estudos. participação social e realização pessoal. estou angustiada e descontente com os empregadores que nem sempre são muito honestos e o mercado de trabalho que é uma verdadeira porcaria. desempregados O que concluir? A diversidade das experiências dos jovens no trabalho e no desemprego revelam a fragmentação das diferentes dimensões do modelo tradicional do trabalho. O essencial é negar ao máximo a situação de desemprego na ótica do “como se” e desenvolver uma atitude positiva e internalizante. Na prática.. ao preço. esse sistema de defesa progressivamente.. Esse modo de gestão da situação de desemprego só é sustentável a médio prazo.. Ao cursar a universidade conforme as expectativas da sua mãe. Digamos que eu me fixe como objetivo que espero trabalhar daqui. ela se realiza: ela própria faz o pão. não sei.. Jacques dirigiu-se igualmente ao CRAE . encontrei um livrinho que se chama: como achar um emprego e ser contratado?O subtítulo é: você sabe se vender? Explicam como se apresentar bem e propõe respostas para questões que funcionam como armadilhas. o trabalho é sentido como um obstáculo à realização pessoal. Áustria. o superinvestimento de alguns no trabalho coincide com a desimplicação de outros. Queria aprender a fazer pão. o mais cedo possível. busca de sentido Agora. Uma experiência multidimensional É preciso insistir na simultaneidade das diferentes lógicas presentes na experiência concreta do desemprego.... uma divisão do Fórum de Arlon — que organiza sessões intensivas de busca de emprego.. quando antes constituía a condição. (“uma bobagem”). Aprendo a bordar. é verdade que faço uma porção de coisas. quando tiver que fazer minhas oito horas de trabalho. Essa organização reivindica 80% de colocações bem sucedidas.. Sobre a mesa de carvalho do apartamento. Não há de um lado. O trabalho não corresponde mais necessariamente ao emprego: para um certo número de jovens. Com o prolongamento da situação. Se eu tiver que continuar. acho que vou ficar como um verdadeiro leão na jaula (Jacques).. Suécia. Mas por outro lado. se esboroa.. restaura móveis velhos e ocupa-se de seu companheiro que lhe diz que ela deve aproveitar enquanto pode e que a situação financeira deles não é crítica. faço montanhas de coisas.. felizes que resplandecem e de outro. Bom. de uma seleção prévia de candidatos. eficaz e dinâmico... acaba de ser instalado um computador e os arquivos: cartas expedidas. no fim não trabalhar torna a gente embrutecido.

e que permanece preso ao trabalho até nos engarrafamentos. e Enzo para quem os dias decorrem. Em suma. que dispõe de empregos com altos ganhos e nos quais se realiza e uma maioria confinada a tarefas subalternas. Pode-se resumi-las. É. interpessoal das relações de trabalho. Se o emprego continua sendo uma dimensão central da identidade e a base da normalidade social. As preocupações com o emprego. 1988. particularmente. Galilée. o mercado de trabalho é freqüentemente o lugar da decepção e do desencantamento. e o desemprego-moratória ou projeto pessoal de outros. Com respeito a essas diferentes dimensões. a maioria não encontra mais num emprego assalariado um modo satisfatório de auto-realização. Através das formas degradadas do antigo modelo e as atitudes de distanciamento com relação aos conteúdos e ao ambiente tradicional do trabalho assalariado manifestam-se.. através de uma modificação da relação com o tempo e com o ambiente de trabalho que se pode apreender essa exigência. isto é. o trabalho não é mais considerado como o único modo de auto-realização de si. longos Gorz. A gestão dessa defasagem dá lugar a diversas estratégias de minimização do envolvimento no trabalho e de reinvestimento na esfera privada. Abraham Franssen tista. falando de uma orientação de fundo com relação ao trabalho que tende a ser apreendido a partir das exigências de auto-realização. estágio. trazem sobretudo outra consideração. substituição. uma série de atitudes novas com relação ao trabalho. Se se pode opor duas maneiras distintas de viver e de se representar o desemprego. quando não se está envolvido. Para os jovens de meio popular. As identidades coletivas e a cultura do ofício dão lugar a uma sensibilidade à comunicação e ao caráter convivial.Guy Bajoit. O tempo de trabalho. e sim está no trabalho de levar em conta as aspirações individuais. em proveito do trabalho “autônomo”. empregos cujos próprios titulares não sabem se devem qualificar de “trabalho” ou designá-los em termos administrativos: TCT. Entre Robert que afirma que seu tempo é precioso. a sobrevivência econômica. Estas já não se definem pelo fato do indivíduo conformar-se às exigências de um trabalho até dele adquirir ethos e a cultura. no que se refere a afirmação de uma cultura do trabalho e do ofício que se tornaram bastante inviáveis. especialmente. André Métamorphoses du Travail: quête du sens. distinguindo o desemprego vivido sob a forma do tédio e da desestruturação de alguns. Quanto à experiência do desemprego. após o espaço pro- tegido da escolaridade. 7 94 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Esta modificação de orientações com relação ao trabalho pode estar ligada à experiência da instabilidade. Paris. Esta ruptura da normalidade esperada das trajetórias profissionais é vivida sob a forma de crise por um certo número de jovens. quer dizer se investe em nome da auto-realização pessoal. apesar de sua banalização objetiva. o mundo do trabalho organizado a partir do processo de produção cede lugar a múltiplos serviços. À exceção dos jovens que dispõem de meios para concretizar um projeto de auto-realização no campo profissional.. O uso do tempo é um bom indicador dessa distância. ela continua muito problemática e negativa a médio prazo. também ora sob a forma de recusa (“eu não voltarei jamais à fábrica”) ora sob a da alternativa. Ed. é preciso entretanto sublinhar a simultaneidade dessas lógicas e a permanência do sentimento de desvalorização social que acompanha sempre o “rótulo de desempregado”. ele tende a entrar em concorrência com outras experiências que lhe impõem seus próprios critérios. a diversidade e a fragmentação das experiências de trabalho e de desemprego dos jovens ocupam os cenários desenvolvidos por André Gorz7 quando se inquieta com a cisão crescente entre uma minoria fortemente qualificada. A maior parte dos jovens experimentam um fosso entre suas aspirações e a realidade concreta do mercado de trabalho. tende a ser oposto e subordinado ao tempo de vida “para si”. o acesso a um salário.

é preciso considerar que as diferentes experiências e representações do trabalho e do desemprego aparecem como socialmente diferenciadas. Os jovens das classes médias tem.O trabalho. há a distância que separa aqueles que têm recursos para participar do jogo da competição e aqueles que são obrigados a suportar a mutação do mercado de trabalho. Enfim. Revista Brasileira de Educação 95 . Globalmente os jovens do meio popular continuam mais ligados às normas tradicionais do trabalho e sua vivência do desemprego se aproxima da figura do desemprego total. mais recursos para redefinir seu projeto existencial e marginalizam o lugar do trabalho assalariado em proveito de um projeto de auto-realização. com freqüência. busca de sentido como uma jornada sem trabalho.

Mesmo na pesquisa social aplicada. ou não se constituísse mais como a referência a partir da qual homens e mulheres pudessem construir a sua identidade. acentuam a falta de perspectivas e possibilida- 96 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . uma posição conservadora”(p. Privadas da utopia que inspirou trabalhadores. hoje. vemos o surgimento do que ele chama de “novo subjetivismo sociológico” na análise da sociedade e do espaço vital. Universidade de São Paulo As discussões a respeito do destino do trabalho no limiar do século 21 têm favorecido a elaboração da imagem de uma sociedade onde o trabalho não teria mais lugar. como por exemplo. hoje. estão trabalhando menos horas. o comportamento divergente. a saúde. Isto tudo leva Offe a concluir pela “implosão da categoria trabalho”(p. 1982). a religião. 19) e que a sustentação de “modelos de sociedade e critérios de racionalidade centrados no trabalho ‘assalariado’. Ou seja. 18). impregnadas de pessimismo e negatividade. 17). tais como a família. sindicatos. a respeito das temáticas de pesquisa. das teses. partidos e intelectuais. que rompe com a primazia da categoria trabalho na “determinação da consciência e da ações sociais” (1989. no interior das ciências sociais.O jovem no mercado de trabalho Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins Departamento de Sociologia. 1989). Outras variáveis são apontadas como mais significativas do que aquelas relacionadas com o trabalho. todas essas análises. representa. etc. Diante da diminuição do tempo de trabalho disponível e do comprometimento das concepções éticas do trabalho (Offe. os papéis do sexo. aponta-se a limitação dos modelos de sociedade “centradas no trabalho”. de tal forma que até mesmo as experiências feitas no trabalho e o potencial de conflitos daí resultantes receberiam interpretações elaboradas fora do ambiente do trabalho. as conferências e as publicações atuais nas ciências sociais. O que parece se colocar hoje como questão central é a abolição do trabalho (Gorz. pois as pessoas estão encontrando cada vez menos empregos permanentes. os temas são buscados em áreas à margem da esfera do trabalho. Creio que aqui está o ponto central da crise que permeia o pensamento sociológico em nossa época. tem sentido falar em sociedade do trabalho? Pode-se pensar ainda na existência do proletariado ou de uma classe trabalhadora? Tomando em consideração a observação de Offe.

em 1995. nas relações existentes no local de trabalho? Uma das principais consequências do chamado regime da acumulação flexível (Harvey. de 12. o trabalhador agora não é mais especializado. no mesmo período. o que se tem observado é a constituição de um padrão segmentado do mercado de trabalho. o trabalhador não é mais visto como mero executor das determinações vindas da gerência. Nestes tempos de economia globalizada. enfrenta a necessidade de reconstruir habilidades e se requalificar para o trabalho nessas novas condições (Abramo. apesar da exigência cada vez menor de mão-de-obra. com a prevalência de formas precárias de trabalho — caracterizadas por redução de salários. mas esperase que ele participe das decisões. aumentando para 17. vemos que a procura de trabalho. vemos que só nos treze municípios abrangidos pela base territorial do Sindicato dos Metalúrgicos. de 97% na produtividade. houve um aumento no faturamento de 74%. não consegue absorver o número de desempregados. irracionalidades e grandes estoques devem ser evitados. a distância entre os gerentes e os trabalhadores. diante de todas essas mudanças. com os novos processos e organização do trabalho. de um lado. segundo os diferentes tipos de desemprego. com 15. obtem-se cada vez mais bens e serviços. ausência de garantias ou benefícios sociais e por condições inferiores quanto à segurança e instalações — e o aumento das taxas de desemprego. cai para 24. que projetos podem ser elaborados diante das transformações que ocorrem no mundo do trabalho.5% em 1995. Considerando somente esta última região. levava. observase um crescimento significativo nos setores do Comércio e de Serviços: no primeiro. a distribuição dos ocupados no setor industrial. Dados referentes ao desemprego em 1995. O que esses dados demonstram é o crescimento econômico acompanhado pela redução dos postos de trabalho e que. No setor de autopeças. que são usados para explicar o que está acontecendo. cerca de quatro meses no caso do desemprego Revista Brasileira de Educação 97 . Fala-se hoje em um processo de produção enxuto. ou seja.9%. 1996a).O jovem no mercado de trabalho des de pensar a construção do futuro. mas trabalha em grupos ou equipes. Diminue-se. sejam as ilhas ou células de fabricação. sendo que as maiores se verificaram nas regiões metropolitanas do Distrito Federal. onde os desperdícios de material e mão-de-obra.4% em 1989. em Serviços.4% em 1995. 1997). com um núcleo cada vez mais reduzido de trabalhadores qualificados. realiza mais de uma tarefa. A nova realidade imposta pela reestruturação produtiva é marcada pela introdução de novos termos. referidos como parceiros envolvidos nos interesses comuns de aumento de produtividade e da qualidade do produto. o trabalhador tem.6% em 1995 (DIEESE. O setor da economia que tem sido mais atingido é o industrial. operando mais de uma máquina. nas condições de trabalho. e uma diminuição de 12% no emprego (DIEESE. Informações referentes às montadoras de carros no Brasil revelam que no período de 1991 a 1995 houve um crescimento da produção de 70% e de 78% na produtividade. Em contrapartida. com acentuada redução no contingente de trabalhadores. De fato. mas provocaram mudanças nas qualificações dos trabalhadores.7% e de São Paulo.2% (DIEESE. o trabalhador não fica mais fixo a um posto de trabalho na linha de produção. fornecendo idéias para melhorar a produção.4% em 1989 para 43. que era de 32. mas. a ocupação passou de 37. assim. entretanto. com emprego permanente. sejam os chamados semi-autônomos (quase inexistentes no Brasil). 1996). com 13. em tempo integral. Tomando em consideração o relatório elaborado pela subseção do DIEESE em Osasco. que alteraram não só o modo de trabalhar. 1992) diz respeito ao mercado de trabalho. é polivalente. O que se tem argumentado é que a abertura de emprego no setor terciário da economia. em média.3% em 1989. destruídas as suas antigas habilidades. em algumas regiões metropolitanas. enquanto verificou-se uma redução no emprego de 5%. 1988). mostram que a taxa de desemprego foi. com a introdução de novas tecnologias. a distribuição de ocupados era de 15. de outro.

a parcela da população com 10 anos e mais de idade que está ocupada ou desempregada na região da Grande São Paulo. para aprender o que é o Q1 (. evidenciam como o trabalho assalariado foi desvalorizado. submete-se à pressão pela realização de horas-extras. vemos que é nele que ocorrem as principais alterações: neste curto período de cinco anos. Ela (empresa) conseguiu pôr na cabeça da peãozada que ‘olha você só tem que produzir’.5% em média. Para completar esse quadro da perda de qualidade do emprego. tão implantando um tal de Q1. Mas o crescimento do desemprego foi maior: 42.. ao ano)..3%.Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins aberto. Na discussão do emprego/desemprego quero. só pensa realmente na produção. o que eu sinto é que o companheiro não conversa com o outro. são atingidos pela “insegurança do trabalho”(Mattoso. eles conversavam com o outro na fábrica. pensasse em organizar. para aquele período.7% (6.. se não vender aqui. é chamado para ir no domingo. praticamente o dobro do número de empregos. o peão chega a pedir. O que esse e outros depoimentos revelam é que mesmo o trabalhador que está empregado é induzido à demissão “voluntária”.4%. ao ano). pela acentuação das desigualdades. estariam protegidos pelo contrato de trabalho. 1996). 1994). fazer com que eu pensasse não só na produção. Em grande parte. realizada mensalmente pelo Dieese/Seade. enquanto o dos assalariados sem carteira de trabalho assinada cresceu 72. Hoje. PMC quadrado. ou seja. um conversava com o outro. destacar alguns aspectos que considero importantes para o objetivo deste texto. em média.) a empresa joga tudo na cabeça do companheiro: ‘tem que dar qualidade.1%. cinco meses no desemprego total e de seis a sete meses no desemprego oculto (DIEESE. eles tinham mais companheirismo.. desgasta-se no esforço de “vestir a camisa”da empresa e de “mostrar serviço”. faz com que o cara se bitole. aparentemente. As informações referem-se à População Economicamente Ativa (PEA). o emprego de trabalhadores assalariados com carteira de trabalho aumentou 3. e hoje. pensasse no salário. caracterizado pela recessão que se estendeu até 1993 e pela abertura da economia brasileira. o que salienta ainda mais o quadro de insegurança existente. você vê quadro da empresa com palavras jogando a responsabilidade para o trabalhador. Nós temos companheiro lá.5% (0.) tem companheiros que vão no domingo lá. por exemplo. ao ano). a precariedade das formas de trabalho. o trabalho autônomo. e o emprego autônomo cresceu 40. na hora extra.2% ao ano). pensasse em lutar por quarenta horas. o trabalho autônomo aumentou 57.1% ao ano). Isso o faz aceitar o salário e as condições de trabalho que lhe são oferecidos. enquanto a PEA cresceu 24. para o período de março de 1986 a março de 1995. o dado mais significativo diz respeito à composição da ocupação: enquanto o emprego assalariado cresceu 11. não.3% ao ano).0% (4. se caracteriza pela precariedade. pela ausência de vínculos empregatícios e pela insegurança. Assim. em média.5% (DIEESE. ainda que rapidamente. pela superexploração do trabalho. trocar idéias. hoje a empresa tá tão avançada que ela nem obriga. o emprego assalariado com carteira assinada diminuiu em 8. Se considerarmos apenas o período que vai de março de 1990 a março de 1995. 98 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . a ameaça da perda do emprego. vai dá desemprego (. cito os dados referentes ao registro em carteira: no mesmo período. Assim. nessa situação. Quando eu estava na A1 até 86. a ocupação aumentou 22.1% (2. O depoimento de um metalúrgico trabalhando em uma montadora da região do ABC revela a pressão a que estão submetidos: Hoje os trabalhadores se matam de trabalhar. ou por conta própria. enfrenta o medo do “facão”. 1995). Aonde você vai.2%. Entretanto. além de trabalhar no sábado.2%. mesmo os trabalhadores que. Dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego.5% (2. que trabalha das sete (da manhã) às dez da noite. pelo temor de desemprego. tem que produzir com eficiência’. tá uma coisa assim que não tem aquela coisa que tinha antes de companheirismo. dizendo que se nós não vendermos aqui. o relativo ao sem carteira assinada aumentou 54.3% (1. a Fiat ganha no mercado.

enquanto a taxa de desemprego atingiu 23.1%. nos estreitos limites deste artigo. sob novas formas. Nesses dois países. para 41 horas em 1995.4%. 9. Defrontamo-nos. entre as mulheres ela chegou a 30.4% trabalharam mais do que a jornada legal em 1985. Segundo a OIT. Mesmo nos países de cultura não-latina.3%. em 1994. quanto para atender às exigências da empresa. esclareço que entendo por jovem aqueles que estão compreendidos na faixa etária que se estende dos 15 aos 25 anos. o corte seria aos 24 anos. portanto. mostra que a taxa de desemprego é sempre maior entre as mulheres e os jovens. o aumento do número de horas trabalhadas.9% em 1995 (DIEESE. na natureza das atividades. Assim. a taxa foi de 12. tanto para obter rendimentos maiores. ao meu ver. em 1994. 1982). especialmente das pp. enquanto a taxa de desemprego para todas as pessoas foi de 12. verifica-se. 13. ou seja. como a Inglaterra e a Suécia. no setor do comércio passa de uma jornada média semanal de 50 horas em 1985. no sentido de verificar como ela tem sido atingida pelas transformações que ocorrem na estrutura produtiva e que afetam o trabalho. a porcentagem dos assalariados que trabalharam além da jornada é de 23. nas exigências de qualificação ou requalificação profissional. Diante das questões que se colocam hoje para o mundo do trabalho. expresso em horas extras. Na Espanha. para os três setores observa-se a mesma tendência: a redução da jornada legal de trabalho é acompanhada pelo aumento do trabalho. a jornada média semanal é reduzida de 43 horas em 1985. para 46 horas em 1995. Entretanto. com um movimento contraditório que nos mostra. 41.8% em 1985 e de 35.0% na Suécia. Remeto para dois textos que considero importantes para o balanço bibliográfico a respeito do uso sociológico desse conceito: o de Helena Abramo (1994.6% e entre os jovens de 31. sendo que a denominação de adolescentes abrangeria aqueles que têm entre 15 e 19 anos e a de jovem os de 20 a 24 anos (Madeira. em serviços. No setor de serviços. e. enquanto 22. 1996). 42. indicam que. a jornada legal começa a ser reduzida. o desemprego entre as mu- Não pretendo. para 43 horas em 1995. se já provocam situações difíceis para os trabalhadores adultos. que acentuam as dificuldades de inserção e de permanência no mercado de trabalho para amplas parcelas de trabalhadores. uma década depois. até onde se estende a juventude? Quando o jovem deixa de ser jovem? 1 Revista Brasileira de Educação 99 . Para os objetivos deste trabalho. 1-53) e o de Pais (1990). para toda a população ativa. 1996b). no caso dos jovens elas ganham certa dramaticidade. para as mulheres. portanto. quanto no conteúdo do trabalho. sendo que no setor industrial ela passa de uma jornada média semanal de 46 horas em 1985. Desde meados da década de 80. uma das reivindicações mais constantes do movimento sindical foi a da redução da jornada de trabalho. dados referentes à região metropolitana de São Paulo. Na Itália. e que parecem configurar um novo tipo de trabalho e de trabalhador. Afinal. 55.8% trabalharam além da jornada legal.5% dos trabalhadores fizeram horas extras. Todas essas informações parecem-me fundamentais para a reflexão que proponho neste texto a respeito dos jovens trabalhadores. a redução dos postos de trabalho com um aumento significativo da produtividade e do faturamento das empresas. de um lado. Efetivamente. na indústria. e em 1995.8% para todas as pessoas. No comércio. com a taxa de desemprego para toda a população atingindo. que em 1985. a partir de 1985.6% e para os jovens 23. As mudanças introduzidas tanto na organização do processo de trabalho. O problema maior na definição do jovem concentra-se. Uma análise do perfil do desemprego em alguns países da Europa.1% dos empregados fizeram horas extras. tomarei como referência uma parcela significativa dessa população — os jo- vens1 —. discutir mais amplamente a noção de juventude. a taxa de desemprego é maior entre os jovens.O jovem no mercado de trabalho Reaparecem. de outro.5% e 8.9% e entre os jovens a 38. também. na Inglaterra. no limite superior da faixa. Na França. entre as mulheres foi de 13. onde o mercado de trabalho é mais favorável às mulheres.5%. as velhas armas para restabelecer a obediência e a disciplina na empresa (Gorz.0%. atingindo.

a experiência de trabalho e de vida do jovem. Vários autores tem discutido as dificuldades do acesso dos jovens ao trabalho e ao emprego. 1996). ou seja. o trabalho temporário ou “intermitente”. poderia ser considerado pelo jovem como “uma maneira de viver livre. entre as mulheres era de 15. precário.1%”. Já com relação ao desemprego juvenil. “enquanto o nível de emprego oscilava entre 12.4% e 6. a significativa mobilidade ocupacional dos jovens. São essas condições de trabalho que levam Clot a falar em “marginalização objetiva” do jovem. especialmente com a introdução de novas tecnologias.4% e 16.6%. enquanto a taxa de desemprego entre os homens era de 10. as taxas de desemprego entre adolescentes e jovens saltavam para 21. com a circulação por diversas situações seja de trabalho (formação. com as exigências de maior qualificação e experiência. Para ele. Assim.Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins lheres se situava em 7. 5/6). entre eles. respectivamente. 5). aprendizagem. não tem nenhuma garantia sobre a duração do emprego que ocupa e sua eventual recondução” (p.9% no primeiro país. principalmente em decorrência da introdução de novas tecnologias. que os orientaria para o trabalho nos setores periféricos. entre os homens era de 11. com a imagem de seus pais. então. a precarização do trabalho juvenil seria acompanhada pela periferização dos jovens em torno do mercado de trabalho secundário. as práticas novas de inserção constituem muito mais respostas a uma situação nova e não o efeito de uma alergia cultural”(p. emprego).1%. ou seja. a um afastamento ou recusa do trabalho. Clot. Essa discussão sobre a precarização do trabalho do jovem tem em outro autor. para Clot. 1996). e de 16. 1996). Em 1995. parece-me bastante significativa: “Pode-se considerar que um jovem em cada dois na França é o que se convencionou chamar de trabalhador precário. mas sim que “a transformação de atitudes. inclusive os modos de vida. seja de emprego (desemprego. distinguir entre o trabalho temporário inserido ou como parte de um “plano de carreira” e o que aparece como a única possibilidade de sobrevivência para os jovens menos qualificados.2%. fazem com que os jovens elaborem negativamente a sua identidade com o emprego e o trabalho. que aparece para muitos como uma demonstração da falta de empenho do jovem. Uma citação de Tartakowsky.7%. 5). inatividade. antes de buscarem estabilidade e assumirem maiores responsabilidades. Em 1995. de um lado. para Clot. se reapropriando dos ritmos de inserção social e profissional” (p. com as perspectivas do futuro profissional: a diminuição das oportunidades de empregos para os jovens. “enquanto o nível de desemprego total variava em torno de 13.2%. Pais (1991). argumentos que apontam. Assim. 15. quanto por uma preferência pelo trabalho “intermitente”. em 1985. de outro. no segundo (DIEESE. Y. respectivamente” (Madeira.5% e a de jovens (de 20 a 24 anos) chegava a 14. Dessa maneira. ele tem menos direitos. tanto em consequência da sua fraca especialização/qualificação. Quanto aos jovens. as menores oportunidades de trabalho para os jovens com pouca ou nenhuma qualificação e. a taxa foi de 14. feita por aquele autor.3% (DIEESE. isso não pode ser reduzido a uma simples mudança de “valores” na juventude. de suas condições insatisfatórias de trabalho. No caso do Brasil a situação não é diferente.5%. o que conhece uma vida marcada pelo signo ‘menos’: ele ganha menos. a taxa de desemprego entre adolescentes (de 15 a 19 anos) atingiu 25. em 1985. as condições desvantajosas que enfrentam quando inseridos no trabalho. acentuando que isso parece depender das recentes modificações nas estruturas produtivas. Deve-se.7%.8% e entre as mulheres. que afetam o perfil setorial do emprego. transformam as atividades profissionais. temporário. etc. alteram o funcionamento do mercado do trabalho e modificam. especialmente da juventude operária. resume essa discussão apontando os fatores que exprimiriam essa dificuldade de inserção dos jovens no mercado de trabalho e fortalecem a insatisfação. em tempo parcial. para aqueles “que não encontram aí senão um meio temporário de esca- 100 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego do DIEESE/SEADE mostram que.).

entram para. Para Clot. apesar de reduzidos nas empresas. o recorte privilegiado é o de classe. com suas críticas. serem.) Hoje. seja pela permanência na casa dos pais. Para Pais. pela redução do convívio com os amigos. que exprime. s/d) chama de “realismo do desespero”. É o que denomina de “interregno entre a escola e o emprego” (p. quer dizer. pretende destacar em sua crítica à tese da alergia ao trabalho. a maior parte dos jovens trabalhadores está entrando nas empresas como ajudantes de produção. seja pela ampliação do tempo na escola. a realidade das empre- Revista Brasileira de Educação 101 . pensando especificamente como as transformações no processo de trabalho afetam a juventude operária. chama a atenção para o fato de que cada vez mais amplas camadas da população juvenil passam por um período relativamente longo de indeterminação antes de ingressarem na vida adulta ou. como a de outro dirigente.. observar mais detalhadamente as condições objetivas de inserção do jovem no emprego. As empresas não estão fazendo uma qualificação. 6). Ou seja. exatamente. não estão tendo a oportunidade de no começo de seu trabalho. evidenciam. para essas teorias. também. no seu primeiro emprego. constituindo o que M. Entram para serem mão-de-obra mais barata.. ele poder se profissionalizar (. É exatamente esse sentido de desencantamento com o mundo do trabalho que Clot. na verdade. O autor refuta as duas. Tanto Clot como Pais procuram mostrar. da inserção profissional. afirmando que não se pode atribuir a “um fenôme- no de geração. o que não pode ser imputável senão às transformações nas condições de escolarização e de funcionamento do mercado de trabalho” (p. 960). mas detenho-me. quer dizer. ou pela da “alergia do jovem ao trabalho”. recusando a possibilidade de uma realização pessoal e profissional através dele. Isto nada mais é do que uma avaliação realística de suas chances no mercado de trabalho. ele entrava na empresa. A explicação desse interregno tem sido dada ou pela tese da “inadequação da escola ao mercado de trabalho”. Mas.) Hoje. como auxiliares. massa de trabalho. Assim. que significa um prolongamento da juventude. o interregno vivido pelos jovens entre a escola e o emprego resulta das dificuldades de adaptação ao modo de vida adulto. etc. quinze anos atrás. Pialoux (Clot. rigidez de horários. na discussão da segunda. às condições desfavoráveis de inserção no emprego. dando uma oportunidade de qualificação desses trabalhadores. acentuando a tendência à subutilização de uma mão-de-obra de pouca ou nenhuma qualificação. que não é possível tratar de juventude sem acentuar a diversidade que essa categoria encobre. apoiandose em um trabalho de Vincent Merie. uma recusa da ética tradicional do trabalho. a tese da alergia ao trabalho resulta de teorias preocupadas com a análise das atitudes e representações que os jovens têm sobre o trabalho e o emprego. ao emprego e ao desemprego. então. que implica em uma desvalorização do trabalho. uma alergia ao trabalho. 4). tanto a sua entrevista. existem menos trabalhadores dentro das empresas.. a especificidade da relação subalterna que os jovens das classes trabalhadoras estabelecem com o mundo do trabalho. Este dirigente refere-se. que também foi recusada por Clot. Na entrevista realizada com um dos diretores do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco. iniciando pelos cursos do Senai (.O jovem no mercado de trabalho par aos ritmos de uma temporalidade imposta por um ‘destino’ de classe” (p. em seu depoimento. a grande maioria. mão-de-obra com um potencial energético muito mais forte do que pessoas com um pouco mais de idade”. à consideração dos jovens como um conjunto homogêneo e propõe a tese das reações diferenciadas dos jovens em relação ao trabalho. temos o relato de como o jovem está entrando hoje na produção: Antes. diminuiu a quantidade de trabalhadores jovens. Pais também se opõe à generalização. então. proporcionalmente. Daí as atitudes de resignação ou indiferança em relação às escolhas profissionais. Pais (1991).. vamos dizer. marcado pela disciplina do trabalho. Os jovens desenvolveriam. por ora. há dez. Convém. os jovens não constituiriam sua identidade a partir do trabalho. pelo menos.

buscando enfrentar a concorrência. aponta a relação com os trabalhadores jovens como um problema enfrentado pelos representantes das comissões de fábrica. reorganizando o trabalho e mudando as formas de gestão empresarial. um outro aspecto que nessas entrevistas foi destacado: mesmo os jovens portadores de alguma qualificação. até 27. deixe a companhia’ (. também. impõe a A pesquisa realizada por Marta Luedemann (1996). é convidado. participativo e que não está ligado à organização sindical” (p. principalmente. a existência de trabalhadores jovens. Nestas.. nem sempre. não tem na manutenção. tem na produção. criativo. realizada com operário empregado em uma montadora da região do ABC. como vimos. é humilhante. é mudar. por isso “se apegam mais à empresa e recebem uma atenção especial. Mas. em 1994. não participam de assembléias e quando há paralisações. a deixar a companhia. ou com um grau maior de escolaridade. especialmente ao tratar da Ford. que não só pode explicar a inserção do jovem no mercado de trabalho 2 como. ela vai mudar. ou seja. se precisar de alguém na manutenção. jogando dominó”(p. Ela mostra que a 2 Ford “contratou. em duas empresas automobilísticas. é a relação de competição e de fiscalização existente. por exemplo. quase mil trabalhadores com menos de 30 anos e com escolaridade entre o 2º grau e nível superior. muito menos memória do movimento de lutas e reivindicações da classe trabalhadora. estão hoje trabalhando na linha de produção.. tinha em mente aqueles entre 15 e 18 anos de idade.. há uma informação que parece contradizer o depoimento anterior. Geralmente. entre os trabalhadores de mais idade e os jovens. é muita gente nova que tá na fábrica hoje. é favorável aos primeiros (Pais.. ou seja. oposição entre os jovens e os não jovens e a competição que. também. essa situação decorre do aumento da terceirização. De um lado. é apontada. na grande maioria das empresas. 23. não tem nada. especialmente na linha de montagem onde se produz o Gol 1000. na manutenção e estão todos na produção. de parte ou de setores Na verdade. introduzindo inovações tecnológicas. os que estão situado na faixa etária acima dos vinte anos. A maioria desses jovens não tem tradição de mobilização operária. estão em seu primeiro emprego. enquanto o segundo. para trabalharem na linha de montagem.Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins sas metalúrgicas brasileiras. o primeiro informante quando se referia aos jovens. ao contrário de tomar parte das discussões ficam. da transferência para empresas contratadas. porque ela quer acabar com todos os velhos. De qualquer maneira. Tem mais de 100 garotos hoje na produção porque não tem vaga na ferramentaria. tem tudo ali dentro. o que se observa é o baixo investimento. não vão admitir mais. também tem na produção. 102 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .. o emprego e o desemprego decorrem dessas modificações. a falta de competitividade. ainda. depois de 28 anos de companhia. São trabalhadores com menos de 25 anos..) bastante molecada (.. Nelas. na faixa de 22/21 anos. não quer velho lá dentro. Então. temos um núcleo de empresas que. a pouca eficiência da estrutura produtiva e a escassa experiência e tradição empresarial.) (o trabalhador antigo da empresa) está sendo convidado. quer dizer.. por um lado. Se. 171). o desemprego é consequência do encerramento das atividades ou da redução drástica dos postos de trabalho. que eles saiam fora. modernizam-se. No caso da Volkswagen. a administração gosta do perfil jovem. muitos realizando atividades aquém de sua capacidade e com dificuldades de ascensão profissional. se precisar de ferramenteiro. Pessoal velho de 28/30 anos (na empresa) é para sair da companhia. Em outra entrevista. que era para estarem na ferramentaria. os dois depoimentos apontam a segmentação do mercado de trabalho. 1991). 140). lá tem mais de 100 garotos que se formaram no Senai. ‘por favor. tem bastante jovens mesmo (. ao mostrar o aumento dos trabalhadores jovens na empresa: .) é uma humilhação. É o que nos diz o relato do operário de uma montadora do ABC: A molecada do Senai. Mas há. Um outro aspecto que é salientado no decorrer do texto. chamados de “debutantes”. não adianta.

a presença de jovens nas empresas. 3 com seis jovens. montador na linha de produção da Siemens. aponta que. Mas. Todos enfatizam a formação profissional obtida previamente ou a necessidade de ampliação dos conhecimentos para. foram todos empolgados. dois deles. dois meses na pintura. calibrador na Volkswagen. a interiorização das condições objetivas do mundo do trabalho. de 18 anos. destinando-se ao trabalho em escritório. que definem as diretrizes de seus projetos profissionais. de 20 anos. Esse operário tem. que precisa adquirir ou ampliar os seus conhecimentos para manter-se no mesmo lugar. Hoje trabalha das 7 às 17 horas produzindo imãs. também são mecânicos da manutenção. Gorz não quer dizer que o trabalho seja desqualificado ou monótono. operador de máquinas também na Siemens. só que hoje eles não têm nenhuma perspectiva. Com esse termo. adquirindo uma mobilidade impensada há alguns anos antes. salários mais altos. é justamente esse “passado familiar” Revista Brasileira de Educação 103 . cursa química industrial. Como vemos. interpretação de desenho. trabalhando no setor de câmbio da Volks. o mais significativo nessa reportagem é o fato que todos esses jovens são filhos e. por outro. entretanto. Entretanto. contabilidade. com idade variando de 16 a 23 anos. possa sair da linha de produção. Aliás. mais “educados”. Assim. de 16 anos. essa molecada ficou entusiasmada porque iriam para o grau 5 (na hierarquia salarial). instrumento e “caminha para ser torneiro mecânico”. esse pessoal além de conhecer a fábrica na produção. de computação. em contrapartida. ainda que menos qualificados. na medida em que suas operações possuem qualificações comuns e formação de base também comum. alemão e engenharia ou computação. Pensava em trabalhar em “um lugar sossegado. esse operário deve ter uma formação específica de acordo com a indústria. acreditando que. entretanto.. ao mesmo tempo que impõem limites aos seus sonhos e esperanças. por parte dos jovens. então. dois meses na funilaria. esta. pelo menos. são ferramenteiros (. com isso. afinal. César. dois meses na estamparia.) Quando eles foram para a produção há um ano atrás. Essas colocações são reiteradas em entrevistas realizadas pelo jornalista Alceu Castilho (1997). é também uma exigência da implantação da polivalência 3 ou da multifunção no processo de trabalho. pretende estudar “inglês. discutindo a polivalência do operário nas indústrias de processo contínuo.O jovem no mercado de trabalho da produção. Daniel. Márcio.. João Américo. netos de operários. ao contrário. para garantir o seu lugar na linha de montagem”. administração e datilografia. devido ao número de candidatos. Fez cursos colegial. Assim. Parece-nos inteiramente apropriada a denominação dada pelo autor do artigo a esse novo tipo de trabalhador — “o peão ilustrado”. de 18 anos. trabalhando em grandes indústrias da região metropolitana de São Paulo. tranquilo. “e só imãs”. não sendo um prisioneiro de “sua” empresa. Mesmo reconhecendo que além de uma formação comum. não exige muito tempo de treinamento. nunca pensou em trabalhar em indústria. É isso que torna banalizado o saber profissional. hoje as pessoas podem muito facilmente ter acesso a certas habilidades ou competências. esta também pode substituí-lo muito mais facilmente. uma “autonomia existencial” maior. mas sim que há uma acessibilidade muito grande da qualificação. É o processo de banalização das competências que torna o saber ou as capacidades profissionais fácil e rapidamente substituíveis. Provavelmente. Um trabalhador. que podem circular de uma empresa a outra sem problemas. ficam dois meses na usinagem. faz escola técnica e cursos extracurriculares. por outro lado. portadores de nível maior de escolaridade. manter o seu emprego na linha de produção. Esses garotos não ficam numa área só. prendese a essa banalização das competências apontada por Gorz. Mas esse conhecimento geral de tudo não significa. trabalhando na linha de produção da Mercedes Benz. Gorz (1995). esses relatos revelam. mas já fez cursos de programação. que trabalham ou trabalharam nas mesmas empresas que hoje os empregam. haveria uma mobilidade potencial desses trabalhadores. limpinho”. está no terceiro ano do curso de engenharia mecânica e considera difícil ocupar um lugar de engenheiro. a “molecada” a que o operário se refere está sendo preparada para trabalhar em vários setores da fábrica. de 19 anos. É o pessoal que vai conhecer toda a fábrica e. também. Já Fernando. ou seja.

pela idade em que começaram a trabalhar. 1991. essa relação instrumental com o trabalho tem sido explicada como decorrência da mudança nos valores e nos modos de regulação social que afetam a maneira pela qual o jovem é socializado e preparado para entrar no mundo do trabalho. Pais destaca as diferenças existentes entre os jovens. Cara que quer fazer hora extra para trocar de carro. que ressalta o individualismo.Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins que garantiu a eles a entrada em uma grande empresa. apontando as dificuldades para a inserção e a permanência no mercado de trabalho. para uma profissão? 104 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . vemos que 48. referentes a 1993. pois “filhos e irmãos de funcionários têm prioridade na hora de fazer os cursos do SENAI”. o que ganha é só para gastar mesmo. Mas. de interesses. Concluindo essas considerações sobre a inserção do jovem no emprego. com relação ao emprego e ao trabalho. Algumas questões decorrem da análise feita até aqui: como se formam e são transmitidos os valores referentes ao trabalho? Como as diferentes representações sobre o trabalho são elaboradas? Iniciei esta exposição. e só na escola. indicar um filho para ficar em seu lugar. outros o pai já tem uns vinte e três anos na empresa. a diversidade de origens sociais. volto ao depoimento do operário da montadora do ABC. para outros jovens. Olhando apenas a faixa etária de 10 a 14 anos. como nos lembra o operário da montadora entrevistado. preparando-se. discutir como. caso haja vaga. parecendo cada vez menos irrelevante a ética do trabalho” (Pais. Nas análises sociológicas da juventude. para o Brasil. Essa molecada não está preocupada com o sindicato. mais de uma reação pode ser apontada: “enquanto entre alguns jovens se encontra uma mais disseminada ideologia de realização individualista. como insiste Pais. Trata-se de uma imagem da juventude marcada pela negatividade. Portanto. ao esforço e à realização pessoal e profissional. dados da PNAD. constituiriam os elementos sociais básicos que orientam os jovens na elaboração das representações do empre- go e do trabalho. contudo. de perspectivas e de aspirações (Pais. mostram que 86. 962). dois anos. já tem um carro zero. moleque que entrou.) então essa molecada está preocupada em trocar de carro.1% da população empregada começou a trabalhar antes dos dezoito anos. o trabalho ainda se afirma como um valor cultural e simbólico. exatamente. para reintroduzir a questão de como os jovens trabalhadores interpretam a sua relação com o emprego e o trabalho. quando um trabalhador sai da empresa ou se aposenta. E. com um ano lá. muitos são filhos de chefe. de um operário com vinte anos de trabalho na empresa. O que impele essas crianças e adolescentes para o trabalho.6% dos trabalhadores iniciaram a sua trajetória de trabalho nessa fase de sua vida (DIEESE. colocando em dúvida a possibilidade de se considerar. Essa entrevista. na sociedade brasileira. do emprego e do desemprego. a falta de companheirismo e o afastamento das questões que afetam o conjunto dos trabalhadores. Considerando a distribuição dos ocupados. concepções e idéias diferenciadas. ou mesmo na hora da contratação. o emprego aparece como uma fonte de satisfação meramente instrumental. a obtenção de emprego fortemente associada ao empenhamento. perplexo e sentindo-se impotente diante das mudanças introduzidas no trabalho dentro da empresa. 1996). que os conduzem a trajetórias profissionais específicas. em um momento em que deveriam estar na escola.. jovens e adultos. “orgulhosamente”. tem sua casa (. a passividade. especialmente nas montadoras. e porque. As exigências de autonomia individual. não vai se preocupar com mais nada. o consumismo. ele pode. buscando escapar da tendência de apenas ver a juventude como um conjunto homogêneo. Resta agora.. 1993). é preciso considerar a existência de reações diferenciadas dos jovens diante do trabalho. a centralidade do trabalho na vida de homens e mulheres. reproduz a visão generalizada na sociedade a respeito dos jovens trabalhadores. o individualismo exacerbado e a valorização dos modos privados de consumo. Assim. muitas vezes. Essa molecada nova que entrou. aparecendo. na sociedade contemporânea.

então. Este é um tema que. o trabalho antecipa a escola ou se dá concomitantemente a ela”(p. Outros motivos parecem orientar a inserção precoce da população no mercado de trabalho. muitas vezes. dos 58 milhões de crianças e de adolescentes de 0 a 17 anos.5% das famílias ganhavam de menos de meio salário mínimo até três salários mínimos. O objetivo da pesquisa era estudar o chamado fenômeno do “fracasso escolar” entre crianças pertencentes a famílias de baixa renda. igualmente. a pesquisa realizada pelo DIEESE em seis capitais brasileiras. assim. 1990). revela alguns dados surpreendentes. moram com a família em casas relativamente cômodas. em sua maioria.Gouveia já comprovara que 95% dos chefes de família trabalhavam em atividades manuais e. nos anos de 1995 e 1996. em grandes cidades do país” (DIEESE. constituindo-se em uma ocorrência habitual em famílias com as mais diversas origens e condições sociais. 83). Revista Brasileira de Educação 105 . Mas. neste aspecto. na área metropolitana de São Paulo. também. O que esses dois autores propõem é pensar que “para a grande maioria da população. nos artigos de Gou- veia (1983) e Madeira (1993). Madeira. permite avançar nessa discussão. abandonar a escola. repousa na correlação estabelecida entre pobreza e trabalho4. destes. que o trabalho precoce não decorre. como consenso nas pesquisas sobre o trabalho de crianças e adolescentes de 10 a 17 anos. Poderíamos concluir. considerando o caso do município de São Paulo. em virtude dos baixos salários recebidos por seus pais6. Pobreza. o que a levou a discutir. pois “são crianças que estudam. Confirma-se. na decisão de trabalhar. tem sido discutido pelos analistas no sentido de apontar a importância da escola na formação das novas gerações para o trabalho. Porque pertencentes a famílias de baixa renda.419 crianças de sete a catorze anos. vemos que a média do rendimento familiar médio era de 4. 5 4 trabalho dessas crianças.3 salários mínimos. mais amplamente. adquire esse caráter imperioso. Mas. necessariamente. Pesquisa realizada por Dauster (1992). criança e adolescente são inseridos precocemente no mercado de trabalho. Dauster. esses mesmos estudos mostram que outros motivos interferem. com crianças e adolescentes de 9 a 17 anos. Mesmo com sua pequena remuneração. com crianças a partir de 7 anos e com jovens que cursam a escola pública em uma favela do Rio de Janeiro. Assim. Aparecida J. a pesquisa constatou que em torno da metade delas tem pais trabalhando. praticamente. da desagregação familiar ou do fato dessas crianças e adolescentes provirem de uma família incompleta (Gouveia. tendo que. em ocupações tipicamente urbanas5.O jovem no mercado de trabalho A explicação mais frequente nos estudos sociológicos sobre essa questão. e que 55. conexões viciosas. com 1. cerca da metade eram trabalhadores não qualificados. A imposição do trabalho assalariado seria. então. que seria a evidente pobreza que empurra para o trabalho os filhos dessas famílias. 1983). 1997a. Contrariando a afirmação de que as crianças trabalham no lugar dos pais. como apontam Ferretti e Madeira (1992). decorrente do “aguilhão da fome” (Machado da Silva. 10). para explicar porque o trabalho infanto-juvenil. Dados da PNAD mostram que. procurando entender o que leva as crianças das camadas populares a buscarem a escola — crianças que se auto representam como 6 Essa conclusão aparece. Além do mais. Assim. os dados não justificam o Remeto. 1993. para o texto de Felícia R. compostas de pai. todavia. tratavam-se de famílias estruturadas. De uma maneira geral. crianças e adolescentes contribuem para o aumento da renda familiar. Essas colocações não são suficientes. nos anos de 1994 e 1995. a relação entre a escola e o trabalho. afirmando-se. têm hábitos urbanos. por exemplo. que desenvolve uma reflexão crítica das interpretações correntes sobre o tema. Em pesquisa realizada em 1981. mais de 50% vivem em famílias com rendimento de até meio salário mínimo per capita.Uma das conclusões da pesquisa é que o motivo imediato da entrada dessas crianças no mercado de trabalho é a necessidade de complementação da renda familiar. Escola e Trabalho — convicções virtuosas. mãe e filhos. que contribui tão pouco com a renda familiar e implica em tantos sacrifícios para essa geração.

Os jovens querem trabalhar para se sentirem importantes dentro de sua família. trabalhando em retribuição aos pais que lhes dão mo- radia e comida. as constantes solicitações de passagem para a deliquência e. a atração que esta exerce sobre os jovens. a questão do trabalho infantil é tratada pela autora como “uma forma cultural que coletivamente se impõe às crianças das camadas populares” (p. um outro significado do trabalho que Dauster observa em sua pesquisa: o sentido de decisão e de afirmação. por se constituir em uma prática cotidiana coletiva e também como natural. essas crianças e adolescentes submetem-se à imposição de uma norma que. Assim. 33).00 por semana. deve complementá-la” (p. ao contrário. do tóxico. aparece como regra. como parte da socialização das novas gerações. 7 106 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . seja no sentido da aquisição de bens de consumo. expressando. mas se constitui. que a autora explica como resultado tanto de uma escola afastada dos interesses das crianças. do banditismo. Analisando os depoimentos. Mas. a valorização da escola. em sua pesquisa. Contudo. certos objetos — como o tênis e as roupas de marca. portanto. no cotidiano de vida dessas famílias. os costumes e atitudes que se expressam nos “usos simbólicos da escola e do trabalho” (p. Uchôa (1994). Constrangidas pela necessidade. Nesse sentido. seja no desfrute do lazer. Dauster mostra que o trabalho de crianças e jovens não é visto apenas como imposição de uma necessidade decorrente das condições econômicas da família. da transmissão. “viver a condição juvenil” (p. entendida como natural e legítima. 64). também.00 por semana. Zaluar (1985) aponta o limite tênue que separa o trabalhador da marginalidade. a autora procurou. por parte de suas famílias e delas. para crianças e jovens. trabalhadora e estudante — mostra que o ingresso delas nas classes de alfabetização revelam grande interesse e expectativa. Dauster retoma as colocações de autores como Alvim e Valladares. a partir dos sete anos. portanto. afastando seus filhos das más companhias. a condição de trabalhador é inerente à condição de pobre. Essa pressão do consumo é destacada. o que não presta. mas. considerando-a como “uma estratégia do sistema de socialização das camadas populares. da ideologia do trabalho. segundo as orientações dos pais. A inserção dos jovens no mercado de trabalho é o que lhes permite. moradores do morro do Borel. Dessa maneira. desde cedo. Em um sistema de troca nas relações familiares. persistirem no seu trabalho de carregadores de pesadas sacolas de compras que lhes rende cerca de R$ 30. a respeito da importância do trabalho enquanto um valor cultural e econômico. as crianças demonstram uma atitude de resistência. mostra como é difícil. mas a valorização do trabalho é resultado de fatores culturais. 33). Aqui. recuperar as orientações e os valores. ao risco da marginalidade. com o seu dinheiro. que vê o trabalho pelo seu aspecto de formador das novas gerações. ou seja. na visão dos pais. Uma de suas hipóteses. o trabalho infantil. é representado como obrigatório. 8 Uma dimensão importante do cotidiano dos jovens é o lazer e.Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins pobre. o trabalho. especialmente. também. em sua reportagem. quando um “soldado do pó” empregado pelos traficantes tira. o estudo de Helena Abramo (1994) é uma contribuição importante. como anteparo aos perigos vividos “na rua”. por parte das camadas populares. a análise dessa autora se afirma como leitura obrigatória para todos que pretendem discutir as questões relacionadas com a juventude. nesse sentido. fundamentais na construção de uma identidade jovem8 . mas. R$ 100. é de explicar a inserção no trabalho não apenas a partir das condições econômicas em que essas crianças vivem. 33). ou seja. 35). aos poucos. Entre os moradores da favela pesquisada. quanto do incentivo dos pais para o trabalho. constitui-se como dever e obrigação das gerações mais jovens das camadas populares. as crianças e jovens se dispõem a “ajudar” sua família. no Rio de Janeiro. Diante da escassez de pesquisas sobre os jovens. lembro aqui apenas a sua colocação de que “a juventude é vista como período em que se pode gozar a vida e tentar um futuro melhor” (p. em média. enfim. o mundo com os seus perigos7. o relógio — que lhes permitam o acesso a uma “gramática do gosto” (p. 62). há ainda. para poderem comprar. Mas. que não se opõe necessariamente à escola mas. pela família.

84). caindo de 6.3% e dos com o segundo grau completo. parecia preferir os jovens que tinham completado um ciclo de estudo e que. “a década de 90 inaugura-se com forte revigoramento das antigas esperanças no poder transformador da educação via impacto no processo de trabalho. assim como a dos que tinham o primeiro grau incompleto: de 18% para 15. Ferretti e Madeira (1992). Os dois economistas concluem a sua pesquisa afirmando que “a batalha da produtividade só será ganha se os trabalhadores elevarem seu nível de educação” (Campos.3%. Ao contrário. o trabalho se afirma como a “necessidade transformada em virtude”. expressa muito bem essa visão. Os autores manifestam a sua perplexidade diante do fato de que. destacando que são pouco frequentes.7% para 16. O estudo dos dois economistas. por exemplo. vem propiciando o aparecimento (e o desaparecimento) das qualificações ou especializações exigidas dos trabalhadores. para 5% em 1995. citado acima. Pode-se concluir. em vários outros textos como um dos mais fortes motivos que impulsionam os jovens para o trabalho (Ferretti e Madeira. A novidade com respeito a essa colocação é que. como nos outros setores da economia. portanto. 66).8%. que a indústria. certamente. A quase totalidade deles expressa um sentimento de auto-realização e de orgulho. a pesquisa aponta a redução do número de analfabetos. de que os jovens de 18 a 25 anos reproduzem. com base nos levantamentos do DIEESE/SEADE entre 1988 e 1995. portanto.O jovem no mercado de trabalho também. aliado ao sentido da afirmação. a inserção profissional será daqueles com o grau de instrução maior. em artigo no qual realizam uma importante revisão bibliográfica das relações entre trabalho e escola. de um grau de escolaridade maior. as manifestações de amargura ou revolta pelo fato de precisarem trabalhar. que se identificavam como “pobre honrado. Na indústria hoje. destacam como a década de 90 inicia-se com os governos de diferentes países reintroduzindo a importância da educação para o desenvolvimento econômico. as alterações no processo de trabalho e as novas técnicas organizacionais introduzidas nas empresas. analisando dados etários. por pesquisadores e empresários e que é imposta como uma necessidade aos trabalhadores. portanto. do Instituto de Pesquisa Apresento uma pequena variação da definição elaborada pelos trabalhadores da periferia de São Paulo pesquisados por Cintia Sarti (1994). hoje. portanto. lembro a observação de Gouveia (1983). contem informações significativas a respeito dessa questão. compartilhada.2%. Não se deve estranhar. de renda e de qualificação dos ocupados da Grande São Paulo. 1992). entre os seus entrevistados. que passou de 8. Confirma-se. elementos dessa ética do trabalho.6% para 12. diz respeito à relação entre a educação e o trabalho. Aliás isso não é tão novo assim nas empresas. Dessa maneira. portanto. Especificamente com relação ao grau de instrução desses trabalhadores. O “novo” profissional depende. 1996). 9 em Economia Aplicada (IPEA). em seus projetos de vida. as empresas esperam que seus empregados sejam sempre capazes de aquisição de novos conhecimentos e requalificações. a tendência que tem sido apontada em várias pesquisas. tivessem deixado de ser estudante. A pesquisa realizada pelos economistas Edgard Luiz Alves e Fábio Veras. O último aspecto que destaco nestas reflexões sobre o jovem trabalhador. construindo a sua identidade no trabalho a partir da noção de “honesto e digno” porque um trabalhador9. porque trabalhador” (p. houve um acréscimo da parcela daqueles com curso universitário completo. apesar da crítica elaborada durante os anos 80. sem dúvida. A participação dos ocupados com até a quarta série declinou de 35% para 27. ou pelo menos formular uma hipótese de pesquisa. provavelmente. como destaca Gouveia.1%. aliás. Como já apontamos. Revista Brasileira de Educação 107 . em sua versão economicista”(p. inclusive na que venho realizando entre os jovens trabalhadores metalúrgicos em Osasco. de 11. Mas. em 1988. nos dois anos indicados. Chaia (1987) já apontava em seu artigo. a presença de engenheiros na linha de produção.

De certa forma. “O trabalho do menor: necessidade transformada em virtude”. Cenas Juvenis — punks e darks no espetáculo urbano. 15:186.. na medida em que “o novo paradigma dos processos de produção está apoiado na formação mais pluralista da força de trabalho. Yves. 108 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . 31-36. Miguel W. São Paulo. Metamorfosis del trabajo. como acentuam Ferretti e Madeira no artigo referido. André.. São Paulo: Scritta/Anpocs. Portanto. novos desafios. Boletim do Dieese. a participação. (1995). FERRETTI. mimeo. nº 82. Lua Nova. Anuário dos Trabalhadores. Referências bibliográficas ABRAMO. 4:14. setembro. São Paulo. Boletim do Dieese. “Fim da linha”. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Tania. 12-16. Paulo. (1996). (1996). 75-86. (1988). agosto. DIEESE. CHAIA. agora. São Paulo. Cadernos de Pesquisa. O trabalho tolerado de crianças de até catorze anos. São Paulo. (1997). José Roberto. (1987). que encaminhou a escola para um modelo profissionalizante stricto sensu. Trabalhador pouco instruído perde espaço. muito menos.. (1995). Reconversão industrial e resposta sindical na América Latina. São Paulo. Adeus ao proletariado: para além do socialismo. a solidariedade. 14:170. set. ABRAMO. (mimeo). DIEESE. abril/jun. (1994). DIEESE. CASTILHO. (1996a). O Estado de S. Jeunesse. Helena W. (1992). DIEESE. baseando-me em um conjunto de textos e de entrevistas com trabalhadores. Emprego perde qualidade em São Paulo. o que se acredita hoje que seja demanda do mercado é algo próximo do que os educadores reivindicam há muito tempo” (p. tomei como referência dados estatísticos que nos dizem a porcentagem dos que trabalham. (1997a). GORZ. por outro. (1982). Sindicato deo Metalúrgicos de Osasco e região. 7:347. Subseção do Dieese. por um lado. os que situam entre os 18 e os 25 anos. O menor no mercado de trabalho. portanto. Celso J. 6-11. Diferente. G4 e G5. São Paulo. mais próximo de um adestramento específico. Alceu L. 4 de agosto. Boletim do Dieese. abril/jun. CAMPOS.. todos ativistas sindicais. Na realidade. nº 80. destacar as questões fundamentais para discutir a relação do jovem com o trabalho. nesta exposição. (1992). Laís W. travail. __________. O que se deve incrementar. DIEESE. não na faixa etária que escolhi como ponto de partida para a minha pesquisa. que o pesquisador deve enfrentar. maio. MADEIRA. (s/d). nº 44. Felícia R. constitui-se em um desafio. dos desempregados. S. Procurei. 85). (1983). sobretudo a matemática. ou seja. Como a maioria dos autores citados. Boletim do Dieese. etc. abril. uma reflexão de adultos sobre o jovem. pode representar uma desvantagem inicial mas. A categoria em números. 55-62. nem o quê o trabalho significa para eles e. colocam para os educadores. 16:193. 15:186.Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins A reestruturação produtiva e as novas formas de gestão e organização do trabalho. “Educação/Trabalho: reinventando o passado?”. 9-16 CLOT. B4. É preciso reduzir a jornada de trabalho. 93-99. Paulo. DIEESE.... Pelo menos. (1996b). São Paulo. Madrid: Editorial Sistema. São Paulo. é a criatividade. 8 de maio. G1. Paulo. Uma infância de curta duração: trabalho e escola. Aparecida J. DAUSTER. São Paulo: Fundação Seade. da ideologia dos anos 60. GOUVEIA. em sua maior capacitação para apreensão de linguagens. mas que não informam em que condições esses jovens trabalham. quase não existem pesquisas que tenham como ponto central da análise o trabalhador situado nesse período do ciclo vital. (1997). 3-5. Cadernos de Pesquisa. como se situam diante das condições de trabalho e as exigências que se colocam hoje para o exercício de suas atividades profissionais. A visão dos trabalhadores sobre globalização e setor automotivo. 1:1. São Paulo em Perspectiva. 6-20. caderno de O Estado de S. do nível de renda. do grau de instrução. Zap!. Isto. Cadernos de Pesquisa.. portanto.. société — voies et enjeux d’une mutation.

1. ZALUAR..O jovem no mercado de trabalho HARVEY.as organizações populares e o significado da pobreza. conexões viciosas. São Paulo em Perspectiva.. jan. São Paulo em Perspectiva.. Emprego juvenil e mudança social: velhas teses./dez. (multigrafado) UCHÔA. 70-83. 8:1. A família como espelho: um estudo sobre a moral dos pobres na periferia de São Paulo. A2. 1º de março. SARTI. Luis A./mar. Jorge. 4:3/4. Carl. __________. Trabalho e Sociedade: problemas estruturais e perpectivas para o futuro da “sociedade do trabalho”. (1990). Pobreza. A máquina e a revolta:. Trabalho sob fogo cruzado. Paulo: Loyola. Trabalho de Graduação Individual apresentado ao Departamento de Geografia da FFLCH/USP. 13-41. (1993). 10 de abril. jan. As novas formas de organização do trabalho na indústria automobilística brasileira: o caso da Ford e da Volkswagen. novos modos de vida. 7:1. __________. A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. A (des) organização do trabalho no Brasil urbano. (1996). Análise Social. (1989). Zap!. (1996). (1991). OFFE.. Marco. Felícia R.. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda. Desemprego: quantos são os jovens. São Paulo em Perspectiva. 945-987. O Estado de S. David. caderno de O Estado de S. Menino do Rio.. Universidade de São Paulo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. São Paulo: Fundação Seade. São Paulo: Fundação Seade. 13-21. Culturas Juvenis. 26. (1994). (1985). José Machado. Tese (Doutorado em Antropologia). Revista Brasileira de Educação 109 . Paulo. MADEIRA./mar. PAIS. S. São Paulo: Brasiliense.4-5. (1992). (1994). Paulo. (1993). Cintia. São Paulo: Fundação Seade. 5:217. Trabalho como categoria sociológica fundamental?. LUEDEMANN. Marta da S. (mimeo) MACHADO DA SILVA. MATTOSO. Lisboa. jul. (1994). Alba. Departamento de Antropologia. 26:114. escola e trabalho: convicções virtuosas.

Bologna: Il Mulino.). II. a meta de se tornar adulto. Cap. Os jovens tendem a deixar a família mais tarde e igualmente adiam a idade do casamento e do nascimento dos filhos. 1993. começar a trabalhar e assumir as responsabilidades da idade adulta e é cada vez mais uma condição social que pode durar vários anos. acentuam-se os mecanismos de socialização dos jovens para os papéis da vida adulta. tendência esta. desenvolvem-se processos de reprodução econômica e social. A pesquisa IARD de 1992 confirma e esclarece tais resultados. o estereótipo da re- cusa do trabalho dos jovens dos anos 70 e do estereótipo da competição individualista e do conformismo dos jovens da década sucessiva. efetuadas em 1983 e 1987. mais acentuada na Itália que em outros países por causa das atitudes de proteção mais acentuadas por parte de muitos pais e da menor tendência dos jovens a afastar-se da família por razões de estudo e trabalho e para estabelecer uniões con- 110 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Alessandro e LILLO. em particular. Em segundo lugar.O trabalho como escolha e oportunidade Antonio Chiesi Alberto Martinelli IARDI Tradução de Nilson Moulin Publicado em: CAVALLI. Premissa As atitudes em relação ao trabalho constituíram sempre um dos temas de maior interesse nos estudos sociológicos e psicológicos sobre a condição juvenil por razões facilmente compreensíveis. confirmaram alguns lugares-comuns difundidos na opinião pública. introduzindo também alguns elementos de novidade. A propósito da crescente afinidade das atitudes dos jovens italianos com os seus coetâneos europeus. mostraram como a condição e as atitudes dos jovens italianos relativas ao trabalho. vale a pena destacar algumas tendências claramente perceptíveis. isto é. de fato. o trabalho é um dos âmbitos mais importantes em que se desenvolvem as relações entre gerações. Em contextos culturais muito diferentes entre si. mesmo conservando algumas especificidades significativas. têm se uniformizado às de seus coetâneos de outros países desenvolvidos do ocidente. As pesquisas IARD sobre a condição juvenil na Itália. Giovani anni 90. Antonio (orgs. produziram alguns resultados relevantes: em primeiro lugar. A primeira tendência é o prolongamento da idade juvenil e o significado novo do próprio conceito de juventude: ser jovem é cada vez menos um processo direcionado para uma finalidade.

quando não oferecem uma imagem do trabalho enquanto fonte de ansiedade. a ponto de satisfazer a demanda de trabalho qualificado dos jovens escolarizados) e uma recusa dos trabalhos com pouco prestígio social que são deixados aos imigrantes. A tendência para uma incerteza crescente acerca das próprias opções laborais pode por sua vez ser atribuída a dois tipos de causas. não no sentido de uma crise de mecanismos de socialização para o trabalho. A atitude da maior parte dos jovens em relação à escolha do trabalho não parece caber na execução de um projeto final de afirmação individual e de um planejamento rigoroso da própria carreira. a condição laboral e as atitudes perante o trabalho dos jovens são influenciadas pelo gênero. A esse respeito. Os programas escolares não prevêem formas alternativas de instruçãotrabalho. procura-se introduzir mais elementos de liberdade e autonomia. que só se concretiza sob a forma de trabalho precário e ocasional. os pais carecem muitas vezes de uma percepção clara das inclinações e das capacidades efetivas dos filhos e das informações adequadas sobre a evolução do mundo do trabalho. ao contrário. relacionados com a conversão industrial e com a expansão da economia terciária. Nem “hippies” nem “yuppies” A análise dos estereótipos mostra que a atitude de recusa do trabalho parece interessar a minorias reduzidas. Os jovens da geração de 68 introduziram valores e atitudes antiautoritárias nas relações de trabalho. obviamente. pois para muitos ela esconde uma atitude de experimentação e de prova que conduz a adiar a escolha definitiva após ter explorado as próprias capacidades pessoais e as demandas do mercado por meio de diver- Revista Brasileira de Educação 111 . trata-se de reduzir as quan- tidades e os tempos. tratam da gratificação imediata das necessidades. pelo status sócio-econômico da família e pelo lugar de origem e de residência. como acontece difusamente nos países da Europa do Norte e na França. mas parece mostrar. Com efeito. que se desenvolveram nos anos posteriores. dos homens) entre os inativos e entre os que ainda estão à procura do primeiro trabalho. Em primeiro lugar. como nos outros países desenvolvidos. A segunda tendência é o crescimento das expectativas. Em segundo lugar. observa-se uma redução das diferenças entre homens e mulheres em relação ao diploma escolar e à presença nos vários tipos de emprego. um crescente desemprego intelectual (sobretudo nas áreas em que não se verificou um desenvolvimento dos papéis técnicos e profissionais. negligenciando a necessidade de aprendizagens longas e complexas e sobre as obrigações derivadas de um contrato de trabalho. continuam muito fortes as desigualdades de gênero (a favor. Tais resultados permitem superar o estereótipo do “yuppismo” dos anos 80. Contudo. aos quais ninguém quer sacrificar a própria vida afetiva. também no caso do gênero parecem atenuar-se. porém. a pesquisa IARD de 92 permite aprofundar e interpretar melhor a demanda crescente de autonomia e de valorização das próprias capacidades. tanto uma atitude de incerteza no momento da escolha do primeiro trabalho quanto uma atitude pragmática e negociadora e um compromisso realista entre opções e oportunidades. O trabalho permanece um aspecto central da vida dos indivíduos. As desigualdades associadas a tais fatores acham-se bem visíveis na pesquisa de 1992. De qualquer modo. o conhecimento escasso e a experiência ainda reduzida que boa parte dos jovens tem do trabalho nos anos de escola: o trabalho é uma realidade bastante remota e pouco visível para muitos estudantes. nos casos de trabalhos que permitam realizar as próprias capacidades. que comportou um defasamento progressivo entre oferta e demanda no mercado de trabalho. os meios de comunicação de massa transmitem mensagens centradas no tempo livre e no consumo em vez de abordar a produção. Enfim. tal incerteza não deve ser supervalorizada. preocupação e cansaço mais que de satisfação. no caso de trabalhos pouco gratificantes. mas no sentido de uma atitude mais racional diante da experiência laboral. determinada pelo aumento do nível de instrução.O trabalho como escolha e oportunidade jugais de fato.

é ao contexto sócio-econômico precedente à crise do início da década de 90 que temos de referir-nos para interpretar as atitudes dos jovens. A relação de trabalho dependente parece sempre ser cada vez menos um modelo apreciado. é claro. tendo exorcizado a preocupação pelo posto de trabalho. chegando a encará-la favoravelmente. observa-se um progressivo redimensionamento das expectativas sobre o traba- As edições anteriores da pesquisa já sublinharam a preferência dos jovens pelo trabalho autônomo. com as costumeiras exceções parciais de algumas áreas do Mezzogiorno (região centro-sul). Além disso. a preocupação de encontrar trabalho de qualquer jeito. a partir do ano seguinte da acentuação. em detrimento do trabalho dependente. Se examinarmos a relação entre as estratégias dos atores e as condições do contexto. na época em que foi feita a pesquisa (março de 92). cotejando as atitudes dos estudantes e dos jovens que trabalham. uma atitude de experimentação e uma abordagem realista quanto à escolha do trabalho. a abrir um negócio por conta própria. mas o último levantamento mostra uma queda ulterior contra o trabalho dependente (de 32. 1 112 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Por exemplo. no seu conjunto. por exemplo. é significativa a propensão ao trabalho autônomo. ao passo que só é nitidamente mais baixa entre os desempregados. flexibilidade e crescimento profissional A exigência de autonomia. já presente desde a primeira pesquisa IARD de 83. aos quais correspondem atitudes desencantadas e racionais na pesquisa do trabalho. Grande parte dos jovens. que modificaram sobretudo os comportamentos dos jovens em busca do primeiro emprego (basta pensar. mas justamente por ser percebido como mais seguro em relação ao passado. que não tem precedentes na última década e são influenciadas também pelas políticas de flexibilização da oferta. provocado pela deterioração das condições econômicas gerais. Alberto Martinelli sas experiências de trabalho ocasional. buscam oportunidades de aprendizagem e crescimento profissional. surgem como os traços mais marcantes dos jovens entrevistados. Portanto.5% em 1992) e um aumento daqueles que responden “depende”. capaz de favorecer a realização pessoal. isto é.Antonio Chiesi. parece muito interessada nos conteúdos e nas modalidades de trabalho e manifestam uma forte exigência de autonomia. era mais positiva que antes. tendentes a encontrar uma mediação praticável entre expectativas e oportunidades do mercado. pri- vilegiam a dimensão criativa do trabalho. para os quais prevalece. Neste sentido. confimando assim uma tendência datada de uma década. a serem os únicos responsáveis pelo próprio trabalho. É preciso destacar também o fato de que a preferência pelo trabalho por conta própria é alta não só entre os filhos de trabalhadores autônomos. As estratégias de oferta de trabalho por parte dos jovens se beneficiam com esta conjuntura favorável. surge claramente a adoção de comportamentos muito realistas. capaz de mediar expectativas e oportunidades. adotadas a partir de meados da última década. em favor da amizade e do amor. das incertezas crescentes de muitas empresas sobre o futuro e da conseqüente redução dos investimentos. no desenvolvimento dos contratos de formação e trabalho). Embora as perspectivas do mercado de trabalho tenham piorado rapidamente. temporário ou precário. que mostram pretender avaliar racionalmente os prós e os contras da alternativa. com o objetivo de poder potencializar as próprias capacidades. não temem a flexibilidade da relação de trabalho. O início da década de 90 coincide com o ápice de um período em que o mercado do trabalho atingiu a plena ocupação nas regiões do norte e também no sul se presencia uma diminuição do desemprego. um porto seguro e protegido para o qual dirigir-se1. perde posição na hierarquia das coisas importantes da vida. a percepção dos jovens acerca do próprio futuro ocupacional. o trabalho sempre é considerado importante no projeto pessoal de vida.4% em 1983 para 27. Autonomia. mas também entre os filhos de funcionários.

O trabalho como escolha e oportunidade

lho autônomo, expressão do fato de que as transformações do sistema produtivo (desenvolvimento dos papéis profissionais e de condições laborais com alto grau de autonomia) caminham mais lentamente do que seria exigível pelas expectativas dos jovens. Todavia isso não deve induzir a subestimar tais expectativas de autonomia, auto-realização e retomada de responsabilidade da maior parte dos jovens. Ao contrário, tanto as grandes empresas quanto a administração pública deviam adotar formas de organização do trabalho com características bem definidas de delegação de responsabilidades e de funções, de avaliação dos resultados, de autonomia na definição das modalidades e dos tempos da prestação laboral. Indicações análogas emergem do exame das modalidades de pesquisa do trabalho, que parecem adaptar-se realisticamente à situação específica do mercado nas diferentes áreas do país. Os jovens meridionais investem com mais freqüência na inscrição nos escritórios de alocação de mão-de-obra e nos concursos públicos, estratégias complementares numa situação de carência de postos no setor privado. Os jovens do norte e do centro confiam mais freqüentemente nos pedidos encaminhados a empresas e nas respostas a classificados que oferecem emprego. Além disso, os resultados da pesquisa desmentem a imagem de que os jovens do sul sejam obrigados, mais que os do norte, a recorrer ao apoio de pessoas influentes para obter trabalho. A persistência da defasagem entre norte e sul também se manifesta pelas diferenças no modo de trabalhar e de encontrar emprego dos jovens. Mas as dificuldades do mundo do trabalho juvenil no sul não são mais uma condição homogênea e difundida e só produzem degradação quando intervêm fatores de precipitação bem identificados pela pesquisa, como baixo nível de estudos, a origem social camponesa e a condição feminina. Esclarecidas as tendências gerais, vejamos agora analiticamente os principais aspectos da condição laboral dos jovens e de suas atitudes em relação ao trabalho.

Os jovens em condição de (quase) pleno emprego Antes de mais nada, podemos nos perguntar que peso tem a conjuntura econômica sobre as estratégias de atraso da transição para a idade adulta. Com efeito, se é verdade que nos últimos 25 anos, e não só na Itália, os jovens tendem a adiar cada uma das cinco passagens essenciais a tal transição (conclusão dos estudos, novo endereço residencial, união de casal, trabalho e paternidade-maternidade), também é plausível supor que pelo menos duas dessas passagens sejam muito influenciadas pela conjuntura econômica. A nova residência pode representar, de fato, uma opção realizável só se o mercado de casas for favorável às modestas disponibilidades econômicas de um jovem. Inclusive a entrada no mundo do trabalho pode depender, em última instância, das condições da oferta de vagas. O ano de 1992 mostra condições de emprego muito favoráveis aos jovens. Apesar disso, a percentagem dos que têm uma experiência de trabalho não ocasional desce para 37,9%, em relação aos 43% de 5 anos antes. Portanto, os dados sugerem que a melhoria das condições de mercado não consegue alterar uma tendência cultural muito profunda. A cota dos jovens em busca do primeiro emprego, categoria histórica da condição juvenil nos últimos 30 anos, reduziu-se a menos de um terço (passando de 11% em 1987 para 3,7% em 1992). Trata-se de uma queda deveras relevante, difícil de encontrar nas estatísticas oficiais de outros países desenvolvidos. Por outro lado, tal dado tem conexão com as dinâmicas ocupacionais reais de 1992, consideradas pelo CENSIS (1992) substancialmente positivas até o outono, e com os resultados do levantamento trimestral ISTAT (1992) sobre as forças de trabalho do segundo trimestre de 1992, que mostram uma leve piora do desemprego a partir de julho. Existem muitas probabilidades de relação direta entre a diminuição do desemprego juvenil na década de 80 e a aplicação das políticas de flexibilização das relações de trabalho buscada nos úl-

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timos anos também na Itália. Basta pensar que os trabalhadores inseridos com contratos de formação e trabalho, que entram exatamente nas faixas etárias incluídas em nossa pesquisa, dobraram depois da metade dos anos 80, até superar meio milhão2. Inclusive os contratos de tempo parcial, que não abarcam apenas os jovens, superam 200.000 em 1991. Os dados obtidos em nossa pesquisa não mostram apenas uma redução drástica dos jovens que esperam o primeiro emprego. Também os desempregados, isto é, aqueles que estão à procura de um novo trabalho, tendo perdido o anterior, diminuíram, embora em proporção menor (passando de 5,3% para 4,9%). Do total de entrevistados abaixo de 25 anos, 41% hoje trabalham em diversos setores e segundo modalidades muito diferenciadas. Os jovens que desenvolvem uma atividade compõem, de fato, uma categoria heterogênea, pois somente a metade trabalha com um contrato em tempo integral, isto é, segundo a modalidade de trabalho standard3. Os autônomos representam 15,4% ao passo que 14,5% têm uma relação de trabalho atípica (part-time, trabalho por tempo limitado, trabalho precário). A esse grupo deve ser somado um conjunto de 22,2%, representado por estudantes-trabalhadores. Dentre os estudantes que atualmente não trabalham (46,8%, em aumento sensível comparado aos 39,1% da pesquisa de 1987), 4,4% já trabalharam de modo não ocasional, 4,9% aceitam com freqüência trabalhos ocasionais remunerados. De qualquer modo, 28,2% tiveram pelo menos uma experiência de trabalho ocasional. Basicamente, pode dizer-se que a percentagem daqueles que, durante a vida, tiveram alguma ex-

Por causa das modificações normativas concernentes a este tipo de contrato de trabalho, os jovens inseridos se reduzem a 286.000 indivíduos em 1991 (cf. Ministério do Trabalho, 1992). Trata-se especificamente de 54,2% sobre um total de 661 indivíduos empregados, isto é, apenas 20,9% do conjunto da amostragem.
3

2

periência de trabalho sobe de 60% em 1983 para 66,4% em 1992. Assim, trata-se de um crescimento não negligenciável, que diz respeito essencialmente à ampliação da faixa de emprego marginal. Conforme trataremos de demonstrar recorrendo aos dados sobre a subjetividade do trabalho, a difusão dos papéis marginais corresponde em parte a uma estratégia precisa e depende portanto da combinação de escolhas conscientes e de novas condições estruturais. A atração que o mundo do trabalho exerceu sobre os jovens é testemunhada, de resto, também pela redução dos inativos e dos estudantes que, mesmo não se declarando estudantes-trabalhadores, admitem trabalhar ocasionalmente no momento da entrevista. Este último grupo chega a dobrar no período considerado, passando de 4,3% para 8,5% do conjunto da amostragem. Assim, é verdade que os jovens adiam a entrada definitiva ou “oficial” no mundo do trabalho, permanecendo mais tempo na condição de estudantes, mas experimentam seu sabor com algumas experiências “oficiosas”, de um modo igualmente generalizado (tabela 1). A atração pelo mercado de trabalho, contudo, não travou o crescimento progressivo a longo prazo do título de estudo, que continua a representar uma credencial importante para ter acesso ao mercado dos empregos. De fato, os que só possuem o curso primário enfrentam uma taxa de desemprego muito mais alta do que aqueles que têm algum diploma (12,7% contra 5,7%) e sobretudo uma percentagem mais alta de desempregados sem estímulo que já não procuram trabalho (22,5% contra 1,5%) (tabela 2). A tabela 3 mostra além disso de modo evidente a permanência das diferenças tradicionais entre regiões ricas e pobres. No sul, o desemprego é mais alto, é mais elevada a proporção de jovens em busca do primeiro trabalho e também continua alta a percentagem dos inativos, isto é, jovens desempregados que, tendo sido desencorajados, sequer procuram o primeiro trabalho. A situação do mercado de trabalho parece mais favorável na região nordeste que na noroeste. Nas 3 Venezas e na Emília Romana, o grupo de 341 entrevistados só abrange

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Tabela 1 Condição profissional por sexo (%)
1987 Condição Trabalhador-estudante/Trabalhador Estudante Em busca do primeiro emprego Desempregado Inativo M 43,5 40,1 7,8 5,5 3,1 100,0 N=2.000 F 30,6 38,1 14,3 5,1 11,9 100,0 M 43,9 45,1 2,3 5,1 3,6 100,0 N=1.718 1992 F 38,3 48,5 4,2 4,7 4,2 100,0

Tabela 2 Condição profissional por nível de estudo (%)
Elementar* 50,1 8,8 3,9 12,7 24,5 100,0 Média Inferior** 47,5 39,3 2,6 5,5 5,4 100,0 Média Superior*** 54,6 30,9 5,2 5,7 3,5 100,0

Trabalhador-estudante/Trabalhador Estudante Em busca do primeiro emprego Desempregado Inativo

N=2.500 * corresponde a primeira etapa do ensino fundamental (1ª a 4ª aérie) ** corresponde a segunda etapa do ensino fundamental (5ª a 8ª série) *** corresponde ao ensino médio (1º a 3º colegial)

Tabela 3 Condição profissional por zona geográfica de residência (%)
Trabalhador-estudante/Trabalhador Estudante Em busca do primeiro emprego Desempregado Inativo N=2.500 NO 59,4 32,9 1,3 2,8 3,6 100,0 NE 61,4 32,7 0,5 2,5 2,9 100,0 Centro 46,9 41,8 3,6 4,5 3,2 100,0 Sul 43,1 33,0 6,5 9,5 7,9 100,0

2 (dois) jovens em busca do primeiro emprego. Assim, pode afirmar-se que, no início da década de 90, nessas regiões, o problema não diz respeito aos jovens, mas sim às empresas, que correm o risco de não encontrar trabalhadores em caso de necessidade. Os homens tendem a entrar mais precocemente que as mulheres no mercado de trabalho, pois entre os empregados, 31,5% dos homens apresentam uma ancianidade laboral superior a 4 anos,

contra 23,3% das mulheres. Entre os trabalhadores-estudantes, os homens têm acesso a um trabalho estável com maior freqüência que as mulheres, ao passo que elas vivem mais freqüentemente experiências de trabalho ocasional. Tal situação é fruto da persistente maior dificuldade relativa do componente feminino para encontrar trabalho e é comprovada também pelo fato de que, para obter um posto, as jovens estrevistadas devem possuir um

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título de estudo em média superior ao dos homens. Com efeito, entre os desempregados, as mulheres com diploma representam 45,2% contra 32,7% dos homens. Também as jovens com instrução posterior à escola obrigatória ou diploma superior são relativamente mais numerosas que os homens (9,1% contra 6,4%). Portanto, não surpreende que as taxas de desemprego feminino sejam sensivelmente superiores às dos homens4. A pesquisa mostra o duplo aspecto do desemprego, o quantitativo e o qualitativo. A taxa abrangente representa de fato um indicador de gravidade genérica, concentrada sobretudo entre os jovens do sul, com baixo título de estudo e baixa extração social. A incidência dos que estão em busca do primeiro trabalho nos diz também alguma coisa sobre a qualidade do desemprego: quanto mais baixo é o valor, numa situação de desemprego elevado, mais grave o próprio desemprego, pois envolve jovens que viveram a experiência da perda de um trabalho. É sobretudo o caso daqueles que não terminaram a escola obrigatória, sujeitos a um sistema de expulsão precoce do processo produtivo por causa da falta de capacidade profissional ou até de uma inadequada socialização para o trabalho. Onde, ao contrário, o peso relativo dos jovens em busca do primeiro trabalho é baixo, no interior de uma situação de baixos níveis de desocupação abrangente, pode-se sustentar que a desocupação causada por perda do posto corresponde a uma situação de mobilidade do trabalho absolutamente fisiológica. É esse o caso das regiões do nordeste. Enfim, pode surgir o caso de que níveis de desemprego superiores à média sejam representados sobretudo por jovens em busca do primeiro trabalho. É este o caso das altas qualificações, dos diplomados e sobretudos dos que têm curso superior, entre os quais persistem fenômenos de desemprego intelectual devido às dificuldades para obter um emprego adequado ao nível de instrução formal conseguido.
As taxas de desemprego são calculadas segundo a definição do ISTAT: relação entre os que procuram trabalho e o total da mão-de-obra ativa.
4

Porém, as estatísticas sobre as taxas de desemprego ocultam um aspecto ulterior, circunscrito mas grave, constituído por aqueles jovens que desejariam um trabalho, mas sendo desencorajados, não o procuram mais. Entre os filhos de camponeses, por exemplo, a percentagem de desestimulados é de 12,7% do total dos entrevistados, enquanto entre os filhos da burguesia (empresários, dirigentes, profissionais liberais) e entre os filhos de funcionários, tal percentagem desce para 3,2%. As estratégias para busca de trabalho São bem conhecidas as carências institucionais do nosso país no campo da orientação profissional, da integração entre escola e trabalho e da inserção dos jovens no mundo do trabalho. A Itália não possui, de fato, um sistema de orientação e formação para os jovens, capilar e eficiente como o francês e sequer estruturas formativas similares às alemãs, que se baseiam na integração estreita entre escola e empresa e prevêem períodos de permanência dos estudantes nas empresas. Apesar dessas carências estruturais, os dados disponíveis mostram um grau notável de espírito de iniciativa dos jovens italianos. A propensão para o trabalho autônomo e a alta percentagem de entrevistados que viveram experiências de trabalho precoces desde o período estudantil induzem a considerar que os jovens estejam em condições, não obstante tudo, de desenvolver estratégias muito realistas e “competentes” na busca de um trabalho qualitativamente satisfatório. Um primeiro aspecto de tais estratégias consiste na definição dos limites geográficos dentro dos quais movimentar-se para oferecer as próprias capacidades (tabela 4). A disponibilidade em mudar para encontrar trabalho ou melhorar as condições é muito elevada porque abrange mais da metade dos interrogados e também envolve a maioria dos entrevistados, tanto homens (61%) quanto mulheres (53%). Um título de estudo elevado torna mais disponíveis para a mudança, pois os mais instruídos aspiram a postos de trabalho com maior remuneração e o mer-

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Tabela 4 Para encontrar trabalho ou melhorá-lo, estaria disposto a mudar de município? (%)
Não Sim Depende N=2.500 NO 29,8 52,8 17,3 100,0 NE 35,3 51,6 13,1 100,0 Centro 27,3 56,8 15,9 100,0 Sul 27,6 61,3 11,1 100,0 Total 29,3 56,9 13,8 100,0

cado de trabalho com altas qualificações normalmente é mais vasto que o de mão-de-obra genérica. De fato, enquanto entre os que têm só a 4ª série, pouco mais de um terço (37%) está disposta a transferir-se por motivo de trabalho, tal proporção atinge quase dois terços (64%) entre os que concluíram o 2º grau e os que têm diploma universitário. A disponibilidade para mudar para o norte engloba 64% dos jovens do sul dispostos a transferir-se, enquanto a disponibilidade de ir para o sul só envolve 34% dos residentes no nordeste, ou seja, aqueles para quem é mais fácil encontrar trabalho na própria zona de residência. Recentes pesquisas comparadas internacionais reafirmaram a preferência dos trabalhadores italianos em geral para as relações de trabalho autônomo5 . Tal preferência também é bastante visível em nossa amostragem de jovens e diz respeito, obviamente, mais aos homens que às mulheres, além de ser ligada à disponibilidade de chances, como a origem social ou o nível de segurança do atual posto de trabalho. Em particular, enquanto a área geográfica de residência não parece influenciar a preferência pelo tipo de relação de trabalho, os jovens pertencentes a famílias burguesas e de trabalhadores autônomos são relativamente menos propensos ao trabalho dependente, que é ao contrário mais apreciado pelos desempregados e pelos jovens que atualmente possuem relações de trabalho não standard (part-time, trabalho temporário, contrato de formação e trabalho, trabalho negro etc.) (tabela 5).

Num contexto em que os jovens se acham de fato privados de uma tutela e de uma orientação institutcional para a entrada no mercado de trabalho (menos de 9% se dirige a centros de orientação), as modalidades de busca deste último mostram a predominância de estratégias individuais e familiares: o posto de trabalho é procurado envolvendo a retícula das solidariedades primárias e as ligações fortes do vínculo de amizade e de parentesco (tabela 6). É verdade que a inscrição nas agências de emprego abrange quase a mesma percentagem daqueles que confiam em amigos e parentes e é a modalidade de pesquisa do trabalho mais difundida (quase três quartos dos entrevistados), mas quem se inscreve nas agências de emprego é também mais pessimista quanto à possibilidade de encontrar efetivamente um posto e, conforme mostram muitas pesquisas, o faz por razões que muitas vezes não têm diretamente a ver com os objetivos ocupacionais6 . Os dados mostram ainda estratégias adaptativas ao mercado de trabalho. Enquanto no norte existe um recurso mais freqüente à relação direta com as empresas (demandas, respostas a classificados, inserções), estimulado pelas condições mais favoráveis para a oferta de trabalho juvenil, no sul e no centro, na falta de alternativas, as pessoas se inscrevem sem ilusões nas agências de emprego e participam de concursos públicos com atitude cética.

A comparação de 11 amostragens referentes a igual número de países industrializados mostra um nível mais alto de preferência absoluta pelo trabalho autônomo na Itália (cf. Eurisko, 1993).

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Os limites do papel desempenhado pelas agências de emprego no mercado de trabalho são bem conhecidos. A inscrição nas listas de emprego depende de vários fatores, alguns externos (prioridade de acesso a algumas prestações assistenciais), outros só indiretamente relacionados à procura do trabalho (obter pontos em classificações para a admissão mediante concurso).

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Esta proporção constitui. além das condições e das características do trabalho que desenvolve.500 NO 68. não é mais delineada nitidamente como antes.0 61.5 30. Com freqüência os estudantes trabalham. quase um terço (31.4 57.4 9. entre ocupação e desemprego. De fato.3 13.3 8.7 51. um quadro em que a separação entre condição de emprego e condição inativa.8 25.0 76.6 38.5 8. Alberto Martinelli Tabela 5 Grau de preferência dos jovens pelo trabalho por conta própria (%) No conjunto: homens mulheres Posição empregatícia: contrato estável contrato atípico trabalhador autônomo desempregado estudante Posição social paterna: burguesia funcionário trabalhador autônomo operário camponês Título de estudo: elementar média inferior média superior ou universitário 58.9 52.8 65.4 4.6 52.9 17. Desenha-se.6 69.2 6.2 26.1 58.6 Total 59.0 Centro 56.8 6.0 43.3 33.0 52.0 Sul 59.0 Os jovens que já entraram no mundo do trabalho em diversos níveis continuam a buscar estratégias para melhoria da própria condição. colocam-se os 46% que têm menos de 3 meses de ancianidade e portanto demonstram aceitar o posto com a idéia de mudar na primeira oportunidade e 54% daqueles que de algum modo obtiveram um posto de trabalho de baixa qualificação.0 56.3 8.1%) dos empregados procura um trabalho melhor.1 64.8 61. Diante dos 33% que concluíram o 2º grau e dos universitários que procuram um trabalho melhor.2 37.6 44.0 46.1 32.7 20.Antonio Chiesi.7 7.3 28.7 33. um dado médio e varia notavelmente conforme os recursos efetivos de que o jovem já inserido pode dispor. basicamente.8 23. evidentemente não se contentando com o primeiro emprego que encon- traram.1 45.7 53.0 29.0 43.7 24.2 43.6 33. sujeitos a contrato de trabalho indeterminado.4 28. junto aos empregados em tempo integral. obviamente.0 NE 52.2 72.0 40. empresas Proteção de pessoas influentes Cadastro em centros de orientação Colocar anuncio em jornais N=2.0 26.3 24.0 33.5 Tabela 6 Modalidade de procura de trabalho (%) Influência de amigos e parentes Cadastro em agências de emprego Participação em concursos públicos Pedidos em empresas Resposta a classificado Apresentação em escolas.0 16.8 17. coloca-se uma proporção significa- 118 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .9 6.9 48.0 12.

contudo. em que o trabalho é descritível como um continuum da atividade eventual ao posto de trabalho seguro e esse continuum pode ser percorrido mudando o posto de trabalho com freqüência. Da pesquisa de 1983 resultava que um jovem trabalhador no sul ganhava cerca de um terço (35%) menos que seus coetâneos do resto do país. do ponto de vista de contrato de trabalho e de horário. com um leve agravamento das diferenças com respeito ao levantamento de 1983. até 29 horas semanais. mensurada a partir da posição paterna. mas evidencia também como na faixa do part-time7. sem nos permitir captar a extrema variedade das condições efetivas de trabalho. como se a condição juvenil garantisse a todos pelo menos as mesmas condições de partida. a diferença foi reduzida a um quarto (-24. em média. Todavia. dos funcionários do terciário urbano avançado de uma grande cidade do norte. numa situação mais móvel e flexível que no passado. relativas à entrada no mercado de trabalho: quem tem dificuldades para encontrar um posto provavelmente terá de contentar-se com um medíocre.1% declara explicitamente trabalhar em regime de part-time. as respostas sobre rendas tendem. dividir os professores precários do sul dos operários das regiões com industrialização difusa do centro da Itália. Tal diferença percentual demonstra a aspiração dos jovens ao tempo integral e reforça a hipótese de que o tempo parcial enquanto condição estável seja considerado apenas como uma solução de retrocesso.6%) menos que os homens. mas também a dar uma imagem menos desigual em relação à realidade efetiva. tendo por base a experiência amadurecida e a aquisição de capacidades profissionais on the job. à espera de encontrar melhores condições. por exemplo. os jovens dos anos 90 aprenderam a servir-se do mercado do trabalho para explorar uma realidade ocupacional muito mais variada do que no passado. como se deduz da tabela 7. O tema é tão complexo que pouco se adapta a ser estudado de “fora”. da análise das diferenças na duração do período laboral que descreve não apenas a relação óbvia segundo a qual quanto mais se trabalha mais se ganha. Revista Brasileira de Educação 119 . é interessante notar que essa faixa de trabalhadores representa 17. emersas nas tabelas precedentes. a pesquisa permite analisar ao menos dois parâmetros fundamentais da prestação laboral: a retribuição e o horário de trabalho. as diferenças reaparecem entre os sexos e entre as diversas regiões do país. de modo mais abrangente e qualitativo. Apesar disso. As maiores diferenças salariais permanecem. mas que só 3. embora o nível médio de instrução delas seja. Aqueles que entram no mundo do trabalho concebem o primeiro posto simplesmente como uma ocasião temporária. As mulheres ganham em média um quinto (22. a origem social.7%). capaz de nos dar somente uma imagem sumária e um juízo sintético do entrevistado. a defasagem entre o norte e o sul foi reduzida. a ser alcançado de uma vez para sempre. De qualquer modo. conforme demonstrado pelo cálculo do desvio pa- 7 Aliás. Vamos concentrar-nos agora na análise das condições de trabalho. quando o posto era fixo por definição. superior ao dos homens.7% do total. Sabemos que em pesquisas deste tipo. As condições de trabalho Nos parágrafos anteriores nos ocupamos das estratégias no mercado de trabalho. não está em condições de explicar as diferenças dos níveis de retribuição. As diferenças nos valores médios das remunerações salariais reiteram em parte as desigualdades. A desigualdade das condições de trabalho emerge. Entre o que ganha o filho do camponês e as entradas do filho do profssional ou do dirigente não há diferenças estatisticamente significativas. embora mantendo níveis consideráveis. não só a serem subestimadas. Todavia. ligadas ao título de estudo: quem tem diploma universitário ganha em média 50% a mais do que aqueles que só têm a 4ª série. mediante um questionário. Em 1992. Em suma. existe uma enorme disparidade das retribuições para o mesmo horário de trabalho.O trabalho como escolha e oportunidade tiva de trabalhadores em condições atípicas. que podem.

da faixa de trabalho tutelado. que encontramos no mercado de trabalho central. 1223 1361 1053 1378 1296 1300 1003 1208 1263 1235 1194 1264 970 1175 1256 1444 drão. como veremos8.8%) trabalha mais de 50 horas. representativas do elevamento rápido da curva dos valores médios e da baixa da curva do desvio padrão.4. os dados confirmam que o horário de trabalho curto é também um indicador de subemprego feminino: muitas mulheres preferem trabalhar com horário reduzido por causa de seus compromissos familiares. Os dados à disposição exigem contudo uma explicação um pouco mais complexa. pois as mulheres tendem a ter horários de trabalho semanais mais curtos e nas faixas acima das 45 horas semanais sua proporção é muito inferior à dos homens (18% delas contra 36% deles). ao passo que mais de um quarto dos homens casados (26. que na faixa de horário standard. encontramos uma percentagem de solteiras quase igual à dos homens e que entre as casadas a percentagem se reduz em quase um terço.Antonio Chiesi. é interessante analisar as características sociais dos jovens que se colocam principalmente nas áreas extremas do gráfico 2. Se é verdade. as retribuições já não aumentam no mesmo ritmo. Para horários de aproximadamente 40 horas semanais correspondem remunerações bem mais altas.01). Basicamente. 8 120 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . mas os valores dos desvios padrão recomeçam a se elevar. Trata-se. Alberto Martinelli Tabela 7 Remuneração média por categorias relevantes em milhares Média Geral: homens mulheres Áreas de Residência: Noroeste Nordeste Centro Sul Posição Paterna*: burguesia funcionário autônomo operário camponês Nível de estudo: elementar médio inferior médio superior universitário * Diferenças estatisticamente não significativas (sig=>. A explicação corrente de tais diferenças remete para o estado civil das mulheres: as casadas são menos disponíveis para horários de trabalho longos por causa dos compromissos domésticos. O horário de trabalho efetivo depende antes de mais nada do gênero do entrevistado. Acima das 45 horas semanais. A essa altura. abaixo das 20 horas a proporção de solteiras equivale à das casadas e é quase o triplo dos homens. de fato. mas outras não logram obter um horário maior. ao redor das 40 horas semanais. de fato. Isso indica que horários de trabalho particularmente penosos implicam maiores desigualdades econômicas e assinalam a presença de marginalidade e desvalorização. que os jovens almejam.1%) concentra o próprio horário entre 20 e 39 horas semanais. A diferenciação por estado civil de homens e mulheres mostra também que quase a metade das casadas (47.

trabalhador a domicílio Ajudante Outros Total % F no Total 26.0 37.4 73. mas o horário standard de 40 horas semanais abrange a percentagem mais baixa. Neste dilema. Tendem portanto a persistir os estereótipos que vêem a profissão de magistério como uma ocupação predominantemente feminina e o trabalho autônomo como predominantemente masculino. não enquanto indicadores de um sistema cultural mais vasto. 43.9 85.1 25.5 43. como o nível de qualificação do trabalho manual e o nível de responsabilidade do trabalho intelectual (empresários e profissionais). Nesta ótica. A idade também influi no horário de trabalho. O fato de que certas condições de trabalho impliquem horários mais ou menos longos e que certas ocupações imponham um regime semanal específico. pois a proporção dos jovens com horário de trabalho longo (superior a 45 horas) é em média mais alta que em outras regiões.7 23. as tendências de então) das jovens gerações foi condicionado pela contraposição entre valores materialistas e pós-materialistas.0 51. no sentido de tornar progressivamente mais homogêneos os regimes ao redor do horário standard em tempo integral.6 Os jovens do sul não apenas trabalham menos horas em média. pode estar na base da persistente segregação de gênero em muitas ocupações.5 27. mas também muito longo. pode afirmar-se que as gerações jovens não constituem exceção à tradicional regra geral que reza existirem ocupações mais ou menos “adequadas” conforme o gênero. Os jovens que realizam um trabalho autônomo têm horários de trabalho semanais muito mais longos que os colegas sob regime contratual. Revista Brasileira de Educação 121 . o ponto de partida da análise é constituído pela distribuição das respostas relativas ao nível de satisfação no trabalho. Um horário muito curto.9 40. onde a feminilização das tarefas mais intelectualizadas supera a dos funcionários executivos. tanto na reafirmação da centralidade do trabalho ou na sua negação pós-materialista.4 40. a imagem do trabalho e seus significados foram assumidos como um indicador confiável da cultura juvenil em geral. De fato.O trabalho como escolha e oportunidade Tabela 8 Ocupação e respectivas taxas de feminilização Empresário. mas a tabela 8 mostra também que a segregação contra mulheres jovens concerne também outras dimensões.8% deles trabalhou mais de 45 horas na última semana contra 23% dos contratados. quanto na sua concepção instrumental ou realizadora. A subjetividade do trabalho O debate dos anos 70 sobre as novas tendências culturais (isto é. proprietário agrícola Cargo de Dirigente Professor Funcionário com tarefas mais intelectualizadas Funcionário executivo Operário qualificado Artesão Comerciante Aprendiz. Em resumo. O nosso ponto de vista é mais circunscrito. profissional liberal. Queremos analisar as atitudes e a imagem do trabalho em si mesmas. é portanto um indicador de marginalidade temporária para quem entrou há pouco no mercado de trabalho. à medida que se passa para as faixas de idade mais avançadas.0 60. com uma única exceção significativa no trabalho de funcionários.

Em particular.0 Sul 10.5 17. Ceri (1988) e Chiesi (1990). o trabalho é colocado no terceiro lugar em ordem de importância.1. que o estudo e a cultura.7 7. Conforme discutido em outra parte do livro10.0 100. em particular.8 23.5 13.0 Na pesquisa de 1992.0 Centro 7.000 dos não satisfeitos) e com a origem social do entrevistado.0 0.7 100. que o compromisso social. tendo por base uma interpretação conjuntural ou uma estrutural.1 1.4 21. em conseqüência. Assim.2 100.7% em 1983 para 25.6 100.000 de liras contra 936.0 31. A perda da importância do trabalho em relação a outros objetivos é.2%). É interessante notar que.1 9. em relação às pesquisas anteriores. Ver a propósito o capítulo terceiro e.3%). porém tornou-se mais moderado e ponderado. O trabalho conta mais que o tempo livre. o grau de satisfação no trabalho expresso pelos jovens não se afasta substancialmente daquele dos colegas mais velhos. atribuível à obtenção do pleno emprego e. envolvendo a imagem e a identidade pessoal.6% para 21. o valor atribuído ao trabalho perde a segunda posição e é superado pelo concernente aos afetos (amizade e amor).9 59. A interpretação conjuntural sugere que a piora das condições ocupacionais juvenis deveria au- 9 Cf. prevalecem os juízos matizados. A satisfação com o trabalho também se relaciona positivamente com o ganho mensal (os muito satisfeitos ganham em média 1.3 5. a avaliação é muito influenciada pelo nível de instrução: os menos instruídos estão bem mais insatisfeitos. as perguntas que visam simplesmen- te a medir o nível absoluto de satisfação no trabalho pecam por escassa variação e tendem em geral a deslocar a distribuição das respostas sobre valores correspondentes a outros níveis de satisfação declarada.0 31.0 54. deveria ter um caráter conjuntural. 10 122 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . De fato diminuíram os entusiastas (os muito satisfeitos baixaram de 28. De fato. Se comparado com pesquisas análogas de amostragens representativas de toda a população 9.3 0. levada a cabo. o grau de satisfação declarada não aumentou. conforme foi dito.2 49.5 14.8 22. Alberto Martinelli Tabela 9 Satisfação no trabalho (15-29 anos) Nenhuma Pouca Não sabe Suficiente Muita N=1. em nossa opinião.257 NO 6. enquanto a posse do diploma universitário aumenta igualmente o nível de satisfação (tabela 9). ao passo que são confirmadas as relações entre nível de satisfação e área geográfica. Mesmo permanecendo nuançada. A medida correta do nível de satisfação no trabalho deve por isso ser cotejada com outras grandezas de valor.0 NE 1. mas também os insatisfeitos (passaram de 26. religioso e político.9 53. no interior da tipologia dos valores apresentada.Antonio Chiesi. a tabela 3.7 50. Este fenômeno é bem conhecido e está ligado ao fato de que o juízo sobre o próprio trabalho equivale em parte também a um julgamento sobre si mesmos. em condições de mercado de trabalho decididamente melhores do que aquelas que caracterizaram as edições anteriores da pesquisa.7 1. os menos satisfeitos estão também mais propensos a transferir-se para melhorar sua condição. depois da família e das amizades/ amor. Demonstrando coerência com o modelo de racionalidade estratégica. podem ser feitas duas previsões para o futuro.2 100.0 Total 6.374.

Em suma. 1988). para reduzir os efeitos negativos de sua ausência. Já tinha sido levantado11 que as opiniões dos jovens se dividem entre uma concepção tradicional do trabalho. 11 na escala da evolução das necessidades. e considera portanto o rendimento como o aspecto mais importante. A tabela 11 exemplifica esta atitude através da análise das respostas à alternativa entre duração do horário de trabalho e remuneração. O trabalho passa a ser cada vez menos uma necessidade cansativa. os resultados da pesquisa colocam em evidência que não nos encontramos perante o declínio da importância do trabalho. Com os anos 90. De fato. Mais em geral. Em resumo. uma vez obtido. os modelos de resposta não devem induzir a pensar que o trabalho seja mais importante só para aqueles que visam obtê-lo ou conseguir um outro melhor. o trabalho perde uma posição significativa na competição com outros valores existenciais. por isso os jovens.8%) e os profissionais (76%). como a possibilidade de melhorar a própria posição e sobretudo a possibilidade de aprender coisas novas e exprimir as próprias capacidades (primeiro lugar entre os que concluíram o segundo grau. Percentuais de entrevistados acima da média geral que consideram o trabalho “muito importante” estão presentes entre aqueles que não atingiram ainda uma posição satisfatória. mas tampouco passa a ser neutralizado ou circunscrito. que se baseia sobre a perda progressiva da importância do trabalho a longo prazo. como os jovens à procura do primeiro emprego (72%) e os trabalhadores ocasionais (79. a importância atribuída ao trabalho cresce com o aumento do título de estudo.O trabalho como escolha e oportunidade mentar a importância relativa do trabalho com relação a outros aspectos da vida. terceiro para os jovens só com quarta série). Porém. para os que têm diploma de 2º grau e universitário tal propensão se reduz sensivelmente. porém. O título de estudo influi muito na imagem do trabalho. conforme demonstrado pela inversão na classificação das duas concepções (tabela 10). o crescimento dos níveis de instrução e a evolução das condições de trabalho juvenil conduziram ao predomínio da concepção realizadora sobre a instrumental. A hipótese estrutural. Tal propensão se reduz com a idade. os que concluíram o segundo grau. Também os jovens do sul atribuem uma importância relativa maior ao trabalho em relação aos jovens do norte (65. Com o aumento da titulação cai o interesse pelo rendimento (os jovens que têm apenas a 4ª série colocam a remuneração em primeiro lugar. mas assistimos à transformação de sua concepção. que assume sua valência instrumental. pela qualidade das relações com os companheiros de trabalho e com os superiores e pelo horário e aumenta o interesse pela dimensão realizadora. prefeririam trabalhar mais para ganhar melhor. O interesse pelo aspecto reditício do trabalho aumenta quando se considera o sul e entre os jovens de extração social mais modesta.1% contra 57. mas adquire uma dimensão mais apreciada na aspiração qualitativa. reforçaria ao contrário as interpretações pós-materialistas da cultura juvenil. embora permaneça majoritária. A maior parte dos entrevistados gostaria de trabalhar mais e ganhar mais. e uma concepção realizadora. para reduzir os efeitos negativos de sua presença. Também os que desenvolvem atividades gratificantes e realizadoras. consideram o trabalho muito importante. por cau- Revista Brasileira de Educação 123 . provavelmente por causa de sua maior escassez relativa. A aspiração dos jovens é de chegar logo a uma integração completa no mundo do trabalho. colocada mais alto Ver em especial a interpretação dos dados proposta na edição anterior do relatório (cf. que de fato trabalham menos. em terceiro lugar). a hierarquia dos aspectos mais importantes do trabalho sofre uma mudança ainda mais significativa em relação às precedentes edições da pesquisa. A análise das hierarquias de valores feita por categorias relevantes de entrevistados não parece contudo dar muito crédito a este tipo de interpretação.1%). a ser conquistada.1%). como os empresários (73. Cavalli e de Lillo. Também a idade influi sobre a alternativa entre horário e salário.

em que a taxa de sindicalização do conjunto aparece mais baixa em absoluto.0 sa da obtenção progressiva de uma posição de trabalho estável e em tempo integral.4 52. Portanto. contra 49.0 100. pode afirmar-se que a racionalidade ativa com que os jovens enfrentam sua relação com o trabalho parece emergir de um capítulo sobre o individualismo metodológico de um manual qualquer de sociologia.6 100.1 100.Antonio Chiesi. depois dos clubes desportivos. o sindicato aparece exatamente no último lugar no interesse dos entrevistados. como fica evidente pelo fato de que somente 8.6 15.) 5. Numa lista de 15 organizações. Em geral. que mostra o nível de sindicalização italiana de 2. mas apenas 50% se declara alheio ao fenômeno) e também os interesses são buscados numa lógica predominantemente individual.6 72. Accornero (1992). Boas relações com os companheiros de trabalho 6.1% semelhante ao da Espanha (1.7%) aderiu a atividades das respectivas associações de categoria. A possibilidade de melhorar (rendimento e tipo de trabalho) 4.2%). Alberto Martinelli Tabela 10 Gradação dos aspectos mais importantes no trabalho 1.5% daqueles que estão empregados há mais de 4 anos. 29. com os chefes 7.0 Universitário 28. estimáveis ao redor da média européia de 40% na segunda metade da década de 80. No panorama europeu de declínio da participação sindical. a sindicalização juvenil é relativamente muito baixa. similar à de países como França e Espanha.0 Médio Inf. tempo de transporte etc. Boas relações com os superiores. ao passo que os países em que os jovens são mais sindicalizados atingem apenas 10% como na Alemanha e na Inglaterra. 19.7 13.6 100. grupos associações e iniciativas coletivas. os jovens representam o componente mais crítico. 65% dos jovens que trabalham há menos de dois anos gostariam de trabalhar mais. pois. Assim.3 17. por exemplo. os ideais de realização e autonomia deixam espaço também para atitudes moderadamente oportunistas (basta pensar. ao redor de 15%.7 63.7 100. dedicado aos jovens dos países da União Européia. Possibilidades de aprender coisas novas e exprimir as próprias capacidades 2. O horário de trabalho Tabela 11 Gostaria de fazer menos horas ganhando menos ou ganhar mais fazendo maior número de horas? Menos horas Mais horas Não sabe N=1257 Elementar 13.2% dos empregados sob regime contratual participou nos últimos 12 meses de atividades sindicais. Estas dados estão sincronizados com o que emerge do Eurobarômetro de 1990. As condições de trabalho (ambiente. é preciso explicar o relativo distanciamento maior dos jovens do sindicato em nosso país.0 18. o rendimento 3. ao passo que um percentual maior de autônomos (11. A situação é particularmente grave na Itália. que 65% dos entrevistados condena o absenteísmo no trabalho como inadmissível.1 58. 124 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . dos escoteiros e das associações turísticas.2 17.0 Médio Sup. O trabalho é des-ideologizado. A possibilidade de viajar muito 8.3 56. O salário.8%) e da França (2. comparando as taxas de sindicalização abrangentes. foi verificado de forma confiável12 12 Cf.0 Total 24. De fato.

Assim. A. da classe política e dos membros do governo 13. Secondo rapporto IARD sulla condizione giovanile in Italia. Giovani anni 80. Bollettino Mensile di Statistica. o que permitiu aos jovens entrar no mercado de trabalho. 59. (1992). não causa surpresa que os jovens de nossa amostragem associem.. de redução do horário e de melhoria das condições de trabalho e nestes campos obtiveram.. Bolonha: Il Mulino. Rilevazione delle forze di lavoro. (1988). Lavoro e politiche dell’ocupazione in Italia. resultados significativos e amplo consenso das bases. ISTAT. pois as taxas de sindicalização aumentam significativamente entre aqueles que partilham uma concepção instrumental do trabalho. onde a contratação de jovens foi marginal nos últimos 10 anos e viu o desenvolvimento da pequena empresa dispersa e do terciário como uma vitória das tendências desreguladoras e neo-conservadoras do capital. Roma: Istituto Poligrafico dello Stato.. Bolonha: Il Mulino. Por exemplo. Angeli. Social Trends. a imagem do sindicalista àquela. bem mais que coletivas. os quais ficaram por muito tempo como expressão dos segmentos anciãos da força de trabalho. Collana Ricerche. La parabola del sindacato. Sobre tal objetivo os sindicatos ainda não souberam oferecer nada aos tra- balhadores. Diante da pergunta sobre o grau de confiança concedido a 13 diferentes instituições e figuras sociais. 26 Rapporto sulla situazione sociale del Paese. Strategie di mercato e azione collettiva. CAVALLI. tal concepção tende a ser substituída pelo trabalho enquanto oportunidade de realização14. CENSIS.). por causa de uma incapacidade generalizada de renovar os conselhos de delegados. (1988). A pesquisa mostra que os jovens não são insensíveis a tudo isso. EURISKO. A. a taxa de sindicalização cai abaixo de 5%. (1993). (1992). Mas é também verdade que. (1990). (1992). IRES/PAPERS. a taxa de sindicalização dos trabalhadores dependentes que consideram mais importante o salário e as condições de trabalho supera 10%. M. CERI. Gli attegiamento verso il lavoro. 27. no grau de confiança concedido. inclusive porque estes têm sido procurados de forma eficaz recorrendo a estratégias individuais. MINISTERO DEL LAVORO. Rapporto 1990/91. O sindicato de fato defendeu sempre o emprego das grandes empresas. Impresa e lavoro in trasformazione. conforme foi dito. a representação sindical de base permaneceu muito tempo impermeável à troca da força de trabalho. bastante deteriorada. o sindicalista ocupa apenas o décimo lugar. Os sindicatos se colocaram tradicionalmente objetivos concretos de tutela do salário. no passado. Igualmente nas grandes fábricas. e DE LILLO. Referências bibliográficas ACCORNERO. P. ao passo que entre os jovens que buscam sobretudo ocasiões para aprender a exprimir as próprias capacidades. 14 13 Revista Brasileira de Educação 125 . do funcionário estatal. I lavoratori dipendenti lombardi. 12. A. Milão: F. CHIESI. (org. A.O trabalho como escolha e oportunidade que os sindicatos na Itália permaneceram estranhos ao segundo milagre econômico da década de 80. Bolonha: Il Mulino. (1992). International Social Survey Program.

Jovens Temporeros2 e a Reestruturação Econômica A hipótese central desta seção sustenta que há uma correspondência entre os jovens deste mundo O marco mais amplo dentro do qual se desenvolve este trabalho se encontra em Gonzalo Falabella. por sua idade e circunstâncias de trabalho e vida.3 Os jovens são. USA. madre de la fruta chilena”. (1993). Nº 2. particularmente no setor agro-exportador. Alves de Lima Este trabalho se organiza em torno de três hipóteses que se relacionam: a) o caráter das transformações vividas no Chile. (N. justamente. tem no “bóia-fria” o seu equivalente. deles surgem1 . “Reestructuración y respuesta sindical: la experiencia en Santa María. A realidade brasileira. b) o tipo de ação estatal e social que se desenvolvem em vista das características deste novo personagem. que exige enorme flexibilidade nas relações de trabalho e que. a Sociedade e a Cultura em seu conjunto. em conseqüência. em Ver. Universidade de Maryland. mais maleáveis e permeáveis a esta profunda flexibilização de sua existência. trabalho apresentado no Seminário “Social Change in Latin America. College Park.T. e o jovem rural moderno que dali surge. Podán reorganizarse? Cómo?”. Segundo Semestre. está concluída e abarcou também o Estado. particularmente das mulheres. (1994). Temporero: trabalhador rural que encontra serviço só em algumas épocas do ano e trabalha sem vínculo empregatício formal.Juventude temporera Relações sociais no campo chileno depois do dilúvio Gonzalo Falabella Corporação Mancomunal Tradução de João Carlos B. Towards the year 2. é uma das características principais destes jovens. “Temporeros y Campesinos en América Latina.) 2 1 moderno que surgiu no campo chileno e o caráter da reestruturação da economia. e c) o perfil particular destes trabalhadores e a organização e movimento social que. 8 e 9 de abril. Falabella. Cabe assinalar que no Chile a reestruturação que teve início há mais de 20 anos. em Revista de Economia y Trabajo. No campo chileno a profunda reestruturação que resultou da contra-reforma agrária e o fomento das exportações horti-frutícolas e florestais têm correspondência com a profundidade da mudança social vivida pelo setor agrário. diferentemente de outros países onde este processo é recente e basicamente econômico. 3 126 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . G.000”.

T. já que as tarefas básicas no setor florestal duram três meses. O resultado é que nem sequer existe um mesmo coletivo que con- tinue trabalhando com um mesmo contratista ou com uma mesma empresa de um lugar para outro. (N.T. GEA/Uneversidad de Humanismo Cristiano. De Praderas a Parronales. já que ela se dava exclusivamente através de contratistas 6. 9 Torrantes: denominação dada aos trabalhadores agrí8 Packing: na cadeia de produção da fruta. (1990). o grupo de trabalho vai mudando de contratistas. (N. ainda que a demanda de trabalho não ultrapas- 7 Tratero: temporero do setor produtor de beterraba. período anterior ao golpe militar que derrubou o governo Allende. muitas vezes em outra região. o produtor de beterraba (principal setor do mercado interno) e o frutícola5. Venegas (1990). Inclusive o trabalho mais intensivo não se dava na época de colheita. 25 anos.Juventude temporera particular das relações trabalhistas trazidas pela economia exportadora. no verão. nos Vales do Norte e Centro do país — com exceção dos extremos de Curicó e Copiapó10 —. não impede que a relação de trabalho com o produtor ou packing 4 dure muitas vezes vários anos. Surgiu assim um mercado de trabalho local baseado nestes migrantes. Nem sequer existia ali uma relação direta entre as empresas e os trabalhadores. (N. como ocorreu no passado. (N. em que se trabalha intensamente por 15. tendo o trabalhador de em seguida deslocar-se para outro trabalho. em Proposiciones. D.T. não se permitia residir na propriedade com suas famílias. esta grande maleabilidade. Santiago do Chile. Isto se dando ao longo de uma temporada que dura de 4 a 6 meses cada ano. temendo o patrão que surgisse uma organização sindical ali. é a seção de acondicionamento e empacotamento das frutas após a colheita. “Trabalho Temporal y Desorganización Social”. G. e Venegas. mas durante a roçagem. A vida social chega assim a sua mínima expressão. (1992). por tipo de fruta e. G. Nº 18. surgiram mercados locais de trabalho estruturados com a população local. Em relação à profundidade da reestruturação. povoados ou bairros de origem. Havia migrantes das zonas mapuche. no inverno.) Falabella.) 6 5 4 colas temporários até 1973. muitas vezes.. como fizeram anos atrás os “torrantes”9. GEA/Universidad de Humanismo Cristiano. Todavia.) Falabella. que lhes permitiu negociar individualmente suas condições de contratação8. 10 Revista Brasileira de Educação 127 . Una gota al dia. mais ou menos. homens sós. “Desarrollo del capitalismo y formación de clase: el torrante en la huella”. Santiago do Chile. No tipo de produção em questão. por empreitada. No setor frutícola. colheita — ou seja a derrubada ou roçagem — e construção de aceiros — a limpeza dos limites do bosque durante o outono).) Rodríguez. têm seu equivalente na realidade do campo do Brasil na figura do “gato”.T. em distintas propriedades. 20. Nº 32:1. (1970). Un chorro al año. S. Em 1985-1987 realizei um estudo nos três setores onde o trabalho temporário se implantou em toda sua profundidade: o florestal. Um bom indicador da profundidade da flexibilização ocorrida é o fato de os contratos de trabalho temporários no setor frutícola serem de uma a três semanas.. de região e de empresa a cada três meses. pelo contrário. No setor produtor de beterraba esta situação era mais estável devido ao caráter anual do cultivo. em Revista Mexicana de Sociología. Contratistas: são arregimentadores de trabalhadores temporários para as propriedades de produção agrícola. cada uma (plantações de inverno. Também neste setor se constatava a desestruturação da vida social — embora não no nível encontrado no setor florestal — isto por que aos “trateros”7. Estes intermediários das relações trabalhistas eram eles mesmos temporeros. a mais extremada era a do setor florestal. e S. migrantes de outras zonas. pré-cordilheranas e costeiras. amontoados em “coletivos” dentro das propriedades. à desarticulação da vida social e exigência de flexibilidade do trabalhador. deslocada pela distância de suas famílias.Isto lhes possibilitava. ao menos em parte e enquanto durava o contrato — às vezes por até um ano — reconstituir sua vida social. El impacto social de la expansión frutícola.

Em Santa Maria. paralelamente. Esta cultura da liberdade no trabalho e no bairro. Em conseqüência. obtêm maiores salários que os homens. Foi surgindo ali uma cultura e perspectiva trabalhista feminina. 12. uma proximidade entre o lugar de trabalho e o de residência. aqui existiam povoados rurais ou cidades relativamente importantes ao redor dos vales frutícolas. elas têm um controle decisivo sobre o processo produtivo. Nos packings de noite trabalham quase somente mulheres. dormem o padre. Em conseqüência. o tipo de trabalho exigia uma flexibilização bastante profunda também. e a fruta cortada e deixada ao sol é poder de negociação em suas mãos! Por isso mesmo. (1991). como é o caso de Copiapó. Fala-se de protagonismo. Surgiu ali uma cultura feminina bastante consolidada. diferentemente dos setores florestal e da beterraba. um grau de satisfação curiosamente bastante alto no trabalho11.Gonzalo Falabella sasse os seis meses. o capital sempre busca os setores mais débeis e/ou mais flexíveis. As mulheres jovens desenvolvem durante seu trabalho noturno. Por serem mais abertos à reestruturação. 15 anos. o prefeito e o policial. em contraste com estes dois últimos setores. como ocorre no caso da uva. janeiro de 1995. paralelamente. não somente dos jovens mas também das mulheres. durante a temporada. o que desorganizava novamente a vida social. depois de sete anos de vida sindical. O Canelo de Nos. destas “mães da noite” que trabalham durante as horas da liberdade. con la naturaleza en el Valle de Aconcágua (sus provincias “temporeras” de San Felipe y Los Andes). Houve casos de violações de homens jovens em espaços sociais onde as mulheres são maioria. existindo. e o packing. que vão desde o Huasco ao Cachapoal. quatro dirigentes são mulheres. só com a presença de um capataz. porque as mulheres manipulam a fruta em sua etapa mais vulnerável. pois realizam um trabalho mais especializado e manejam a fruta quando já está cortada e deve ser embalada no mesmo dia. já desorganizada durante o verão quando o trabalho do homem se realizava durante o dia e o da mulher durante a tarde e a noite. sem o patrão. Suas demandas como assalariadas e um sentido de dignidade de setor de ponta (por trazerem as divisas ao país e não serem remuneradas de forma equivalente —”produzimos em dólares e ganhamos em pesos”—) se mesclou durante anos com suas reivindicações de gênero e de mães. A resultados similares chegou a análise do “focus group” de mulheres temporeras em um estudo feito pela Corporação Mancomunal para a Fundação Ford: “Desarrollo con la gente. A reestruturação feita sobre os ombros dos jovens e mulheres não é impedimento para que exista. relatados por espantados dirigentes camponeses nacionais em visita à região! As mulheres são maioria na fruticultura (52% —e 62% em Aconcágua—) e dominaram sem contrapartida a vida do packing e dos povoados temporeros durante as noites nos últimos 10 a 15 anos. para imporlhes o peso e o custo da transformação em marcha. de um total de cinco. neste setor a desestruturação social era bem menor. São horas em que dorme o patrão. E. Mas há efeitos inesperados. não podendo o casal temporero encontrar-se nem sequer em casa: ela chegava às duas horas da manhã e ele se levantava às seis. 11 128 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Nos outros 6 meses era preciso migrar para os vales onde não existiam estes mercados locais. devem organizar sua sobrevivência como melhor puderem. Informe de investigação não publicado. Também. de Aconcágua e de outras regiões próximas a Santiago. como os jovens e as mulheres. devido às tensões decorrentes de terem abandonado os filhos para poderem trabalhar. permeia suas vidas dando um perfil peculiar a estas jovens mulheres assalariadas da produção da fruta. dormem seus familiares. Isso permite compreender sua peculiar cultura e espírito rebelde. que cumprem o papel fundamental na produção. o povoado e o bairro lhes pertencem. ademais. Investigação participativa acerca das trabalhadoras temporeras da fruta. Em Copiapó os temporeros migrantes. mais acentuado que o do homem. Sem dúvida. “espaços de liberdade” em seus packings e povoados. provavelmente Díaz. porque a labuta era muito intensa e durava até 6 meses. Em geral os grupos vão se repetindo ano após ano e com eles o fluxo de cumplicidades entre estas mulheres. São até 3 meses de trabalho noturno — além dos 3 meses que dura a poda— durante 10. Chile.

e no setor da fruta. pela duração dos contratos de trabalho: no setor da beterraba são por “acordos” e praticamente ao dia. porque os trabalhadores tendem a se repetir ano após ano nos mesmos packings e propriedades. da incerteza e da desorganização social”. como já fizemos nas páginas anteriores. Isto ajuda a explicar a incorporação massiva desta população assalariada durante a temporada e o fato dela ser submetida a condições de trabalho extremas e desregulamentadas. superando assim práticas de indiferença liberal. já que não há nenhuma outra possibilidade de que se “encontrem” as pessoas durante o verão senão através destes programas. e o papel facilitador de um Estado que contrata assessoria dessa instituição e expande o programa a sete vales frutículas articulando empresários e temporeros. são de três meses. na Comuna de Santa Maria em Aconcágua. de liberdade e autonomia— e o tipo de resposta que requer por parte das instituições que trabalham com ele. 80% de seus dirigentes serem mulheres. As mulheres sentem o sindicato como algo próprio (“nós o formamos. Entre o fim do populismo e o Estado Liberal: relações catalisadoras. em particular aquele da jovem mulher temporera. e festas durante a colheita. A Casa do Temporero. O Sindicato nasceu com um grande índice de sindicalizados.. Isso se realizou através da Escola de Inverno. como o cuidado de crianças e informação sobre leis trabalhistas para suas mães trabalhadoras. a 80 km de Santiago e Valparaiso. Estes contratos curtos são absurdos. este tipo de jovem trabalhador —permeável às mudanças econômicas e trabalhistas. porque vocês (os homens) não se atreveram. a ponto de hoje. após 3 meses do estabelecimento da Casa. tanto como de populismo assistencialista e clientelista. as contratações são no máximo por três semanas. por acordos e por tipo e variedade de fruta. Por exemplo. Com efeito. como já observamos. o papel catalisador do programa de cuidado de crianças criado pela Casa do Temporero. porque existem estes espaços peculiares de liberdade. que trouxe extrema desregulamentação a estes trabalhadores. surgiu um sindicato de grande influência. a necessidade de flexibilizar suas relações e um espírito juvenil permeável à mudança.) se da institucionalização da desconfiança. que também têm contratos de três meses. No estudo já nomeado 12.Juventude temporera (e quem sabe justamente). com uma cultura individualizada. através de programas que iam ao coração de suas necessidades. efeito da ação transformadora do regime militar em reação às políticas de um governo marxista.. (N. Nasceu de uma greve muito dura e vitoriosa no packing de uma das grandes exportadoras. a situação se caracterizou como “a institucionalização da desconfiança. e foi alcançado só na medida em que se combinaram estratégias que cobriram demandas individuais e sociais. Revista Brasileira de Educação 129 . pois o sistema de relações entre trabalhadores e empresários é muito precário. Quando se trabalha 12 ou 14 horas durante 6 dias da semana não cabe ministrar cursos sobre a historia social ou política do Chile.T. incluindo até os contratistas. com o objetivo de responder ao processo de flexibilização. Oito anos atrás o autor que escreve este artigo criou esta organização não governamental (ONG). baseado em vínculos efêmeros.”). O objetivo foi abrir um espaço para a reorganização social de sujeitos muito individualizados. por mim presidido. Ou seja. diferentemente de tantos outros setores produtivos. Esta flexibilização extrema pode ser simbolizada. no florestal. facilitadoras. A segunda hipótese estabelece a adequação que existe entre a flexibilização das relações de trabalho. O resultado foi uma reestruturação muito profunda da vida social. existe uma adequação entre o tipo de demanda de trabalho. A experiência da Casa do Temporero definiuse como “um lugar de encontro” deste mundo do trabalho juvenil disperso. Fala- 12 Ver nota 5. que ofereceu estes e outros cursos de caráter técnico. da mesma forma que é absurdo o trabalho por empreitada em um produto onde a qualidade é decisiva.

MIT. que é o pico da temporada frutícola em Aconcágua. depois da atomização e desorganização social que se seguiu “Organizarse y sobrevivir en Santa María. esta nova mulher jovem assalariada. as mulheres jovens param às 2 da tarde e a fruta cortada pela manhã fica exposta ao sol. a qualidade da fruta segue baixa. sem comida. representada por nós. em qualquer packing do Vale me dão trabalho”. porque. A cada minuto que passa os salários sobem 1% e trabalhadoras e empresários chegam a um acordo em não mais do que 20 minutos. e os temporeros seguem sem previdência social. e núcleo central do sindicato não foram reincorporadas ao trabalho. a casa está bem. Quando nós indagamos. Mas. O primeiro tema que surgiu nestes espaços femininos foi a reafirmação do pessoal: o “eu”. O relato reflete o diálogo de duas culturas. ed. duas experiências. não há mais o que conversar. nem moradia adequada. empresários e trabalhadores). a resposta foi: “eu não vou me humilhar frente a esse sujo. e depois a organização: dois projetos. não terá sentido. na organização social e na relação do Estado com elas. Este sistema de desproteção se institucionalizou durante os duros anos da ditadura. USA. em suas palavras. Estas variadas necessidades até hoje não enfrentadas tornam necessário estabelecer. respeitarem-se a si mesmas. embora exista formalmente. a delas. houve uma “Arca de Noé” da qual saíram alguns animaizinhos que começaram novamente a repovoar a terra. A ser publicado em inglês sob o título “Conspiracy spaces and union democracy in Santa María”. surgida da radical reestruturação flexibilizadora do trabalho na fruticultura de exportação. através de outra lei. no ano seguinte. que envolva municípios — para o que seria necessário postular um fundo nacional para este fim —. Realizamos um segundo diagnóstico depois de uma primeira experiência de três anos e descobrimos que. Nova Orleans. apoiados pelos programas de mulheres da Casa do Temporero. um sistema de serviços com financiamento provavelmente tripartite (por exemplo. a dos anos sessenta. Anteriormente tudo era social e a pessoa se dissolvia na massa perdendo seu perfil particular. menos ainda trabalho fora da temporada. no qual o desemprego chegou a mais de 30%. assim como sua participação nos mercados internacionais. Mas também colocamos. durante todo o ano. Desta maneira o sindicato não tem sentido. as jovens mulheres dirigentes dessa greve. pois sem este direito a organização sindical. porque elas aceitavam esta repressão e não defendiam a organização. Surgiu assim a necessidade de institucionalizar no projeto profissional. novas formas que dêem expressão ao eu individual e seu ser social. saúde. Democracia social en um sindicato de temporeros e temporeras”. Trabalho apresentado no 47º Congreso Mundial de Americanistas. Jonathan Fox. em particular a deste jovem. Primeiro está o “eu”. o coletivo se desmonta. os profissionais e “professores sindicais” que trabalhavam no projeto. como está dito na Sagrada Escritura13. O sindicato existe para negociar.Gonzalo Falabella chegando a representar 35% da força de trabalho temporera do município. enquanto que nos outros municípios do país a sindicalização temporera não chegava a 1%. 13 130 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Do contrário continuarão as práticas atuais em que a ação coletiva trabalhadora terá só uma existência pontual e efêmera: por volta do 1 de fevereiro. Assim. após o grande dilúvio. o direito à negociação coletiva dos temporeros antes da temporada. e a dos noventa. como dizem elas. como Casa do Temporero. duas classes sociais (trabalhadoras e profissionais) que se encontravam e negociavam os termos de sua colaboração. Outro exemplo desta nova cultura emergente se deu quando se formaram os grupos de mulheres jovens no interior do Sindicato. transporte adequado. Depois. para melhorar as condições de vida e trabalho. 7-11 de julio de 1991. a família está bem”. com contribuições iguais para cada um e a exigência de contribuição do terceiro quando as outras duas partes tenham levantado os recursos. A nossa lógica foi defender a organização. “se estou bem. as crianças estão bem. como Casa e como Sindicato. Neste mundo emergente o individual precede ao social.

Assim. 14 aqueles. recolhendo a experiência desenvolvida em Santa Maria. FLACSO/PREALC. sobre os atores sociais e governos locais com que se conta para se fazer frente a esta crise. Para isso concluiu-se recentemente um estudo para a Fundação Ford acerca da crise econômica do Vale de Aconcágua (o primeiro a reconverter-se. com o apoio do Governo da Noruega e o Ministério de Agricultura14. hotelaria. com novas lealdades. à fruticultura da uva de exportação). surgiu novamente a vida social. Santiago do Chile. Ainda mais que os parreirais concluíram seus 15 anos de vida útil. como nos demais vales frutícolas. ademais. nem na zona florestal. Quando se atravessa o túnel de Chacabuco. também recebem formação em negociação coletiva na seção de leis trabalhistas. acossados pelo surgimento dos contratistas que os estavam despojando de sua mão-de-obra local e cativa. aparece o Vale como um só parreiral. Un esfuerzo mancomunado de apoyo a los temporeros. dois programas nacionais (cuidado de crianças e capacitação na baixa temporada). reapareceu a vida social entre essas mulheres dos packings e a população trabalhadora da noite. inclusive. com melhor tecnologia e fácil acesso ao crédito (muitas vezes pelas próprias exportadoras de maior envergadura — que ao todo não são mais de cinco). produzidas em outros vales. ainda que o individual tenha primado sempre como eixo da vida social. empresários não frutícolas. os temporeros chegarão. após 10. pediram que formássemos essas bolsas para que os temporeros não se comprometessem com Ver Venegas. seja para a temporada de Copiapó ou localmente. novas solidariedades. podendo desenvolver. surgiram variedades de uva muito mais competitivas. gestão de microempresas). Maipo. e os caminhos de saída para ela. y Emilio Klein (eds.) Los pobres del campo. em muito melhores condições para vender sua força de trabalho. secagem de frutas. temporeros/as e trabalhadores permanentes— conclui que a saída para a crise é multisetorial. camponeses produtores para exportação.Juventude temporera à des-reforma agrária. centrado agora na queda do emprego de temporada e no desemprego de pós-temporada. pois não existem ali mercados de trabalho locais institucionalizados em torno aos povoados temporeros. Mas onde existiam estes povoados e novos mercados de trabalho locais. e Ministerio de Agricultura-Chile (1995). A partir dos egressos do curso de alvenaria propusemos a criação de uma bolsa de trabalho. incluindo nove sedes. nestes três vales. No curso de alvenaria. há mais de 15 anos. sem que se tenha pago as inversões iniciais —o que os deixa sem acesso ao crédito— sem renovar os pomares. 12 e 15 anos. Cachapoal). O estudo —baseado em uma de suas partes em “focus groups” de produtores. e em seus povoados e bairros de periferia começou a reemergir uma nova vida social e a refazer-se uma nova convivência. duas leis nacionais (direitos básicos e corresponsabilidade dos produtores e contratistas) e a negociação coletiva em discussão atualmente no Congresso. onde se reproduziu a experiência da Casa do Temporero. e requer Revista Brasileira de Educação 131 . “Programas de apoyo a temporeros y temporeras en Chile” en Gómez. por exemplo. Santiago do Chile. através da capacitação. as Corporações de Desenvolvimento. Foi iniciado um novo ciclo no trabalho profissional com os temporeros. O programa Casa do Temporero foi concluído depois de institucionalizar um trabalho de duas Confederações e três ONGs. Desde 1993 o Serviço Nacional de Capacitação e Emprego (SENCE). Isso não ocorre na fruticultura de Copiapó. Proyecto centro de servicios para trabajadores de temporada agrícola. nem na zona da beterraba. quando se saturam os mercados. por exemplo). para mercados mais competitivos. novas cumplicidades. formas coletivas de contratação. Esta foi uma forma de responder aos empresários que. Isso permitiu começar a enfrentar deficiências de capacitação próprias à fruticultura (com o curso sobre manejo integral de frutas. o que traz dificuldades quando cai o preço da uva. Sylvia (1992). S. criou uma linha especial de capacitação para trabalhadores temporeros durante a baixa estação nos três vales (Aconcágua. assim como o desemprego de inverno (com os cursos de alvenaria.

que inclua municípios com maior capacidade de gestão própria. em terceiro lugar. um Governo aberto e um Estado menor. uma vez que ação populista o Estado toma para si o encargo do que só ele pode realizar e também do que outros podem fazer. formas acertadas de relações entre as empresas locais com as Universidades. extensão. de pessoas muito individualizadas. a AFP. e empresários sem nenhuma responsabilidade. inclusive como a saúde e previdência social. abrindo espaços para que a própria sociedade civil opere a transformação social. No século passado. para estes fins. agências de capacitação e emprego. quase nenhuma obrigação social. do ponto de vista legal. com empresários que não têm. e sendo assim é necessário aliar-se com os diversos setores que estejam dispostos a apoiá-los a partir do Estado ou em sua relação com ele. com um sistema de apoio profissional comum a eles. A base de sustentação de um tal projeto de desenvolvimento é assim uma nova institucionalidade. Primeiro. que os temporeros. Ali começa a ação solidária: na própria casa. um Estado que se faz responsável. justamente. nem exigências que sobre eles pesassem. invadindo toda a vida econômica. treinamento. menor e mais indiferente. Nenhum deles é apropriado ao caráter do temporero e à imensidão de suas necessidades de todo tipo. como ocorreu no projeto apoiado pelos Noruegueses. para isso. Sobre a base destas alianças com organizações e entidades estatais afins será mais possível para os temporeros estabelecerem. Tem sentido. mais descentralizado. São importantes. Hoje em dia. fundos de garantia. como Corporações de Desenvolvimento. havia uma economia internacionalizada e um Estado liberal que pouco se importava com a sorte das pessoas. informação. as Corporações de Desenvolvimento. como demostraram os trabalhadores bancários constituindo seu próprio sistema privado de aposentadoria. deve-se resgatar o mutualismo. Em particular o projeto atual — da Corporação Mancomunal. os Sindicatos e os órgãos descentralizados do Estado. negociações sociais amplas com empresários e outros órgãos do Estado como no projeto proposto de serviços municipais tripartites para temporeros. e com acesso ao crédito. Conclui-se esta seção estabelecendo que existe um novo tipo de ação estatal e estilo de ação social das Corporações de Desenvolvimento sem fins lucrativos. muito mais cooptável pelas organizações sociais. elas mesmas. com um Estado com poucos recursos. este tipo de Estado não tem sentido. Ademais. obviamente. finalmen- 132 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . se fazerem responsáveis pelas suas necessidades básicas. que acompanha. Em primeiro lugar. cabe recordar que. o mutualismo se expandiu fortemente no Chile porque. Segundo. é possível e perfeitamente necessário desenvolver. as pessoas têm que se juntar para. e que conte. política e cultural. ante sua total desproteção. possam estabelecer sistemas de alianças com outros atores afins.Gonzalo Falabella um desenvolvimento diversificado com criação de emprego para o ano todo. em quarto lugar. não serve. este tipo de situação que descrevemos convida a uma ação estatal facilitadora. Deve-se negociar com o Estado. porque se ninguém toma para si as responsabilidades. como as Mancomunales do norte no século passado que nasceram recolhendo a cota mortuária de seus filiados para não deixar insepultos seus companheiros trabalhadores do salitre. a ação social era basicamente reivindicativa e centrada na mera redistribuição. Hoje em dia. ou seja. sem perspectivas de que a lei de negociação coletiva seja aprovada. o mutualismo é muito importante em certas áreas. no qual cada um se arranja como melhor pode e não é problema de ninguém o que sucede ao vizinho. Estabelecidas estas amplas relações. banco de dados para o Vale e comprometer as universidades em trabalhos de extensão na região. que se correspondem com o novo tipo de ator individual e social que nasce desta reestruturação econômica e flexibilização do trabalho tão profundas. a estratégia social deve combinar várias formas. por outro lado. social. experimentação e formas negociadas de acesso aos mercados. antes. não populista. Sob as condições descritas. Tão pouco serve o Estado liberal. a ONG herdeira da Casa do Temporero — se propõe formar.

a relação entre o individual e o social é mais fértil. e se liga também com uma Corporação de Desenvolvimento dinâmica. O movimento social que surge caracteriza-se pelo fato de cada indivíduo manter seu próprio perfil. em uma greve de mulheres em um packing. os movimentos antinucleares. são sincrônicas. São movimentos de indivíduos personalizados. sem as quais não haverá participação dos temporeros nos frutos do desenvolvimento que eles trouxeram ao país. só se esboçará a terceira hipótese que guiou a exposição. Ver por exemplo. (Cambridge: Cambridge University Press. sua ação social se define como catalisadora de um desenvolvimento econômico distinto. Essa hipótese estabelece que a flexibilização das relações trabalhistas. no caso descrito. Poderia-se definir a relação como de “negociação” de cada membro no interior da organização ou movimento. na qual os membros da organização mantêm um nível de controle do movimento durante seu desenvolvimento. estratégias reivindicativas de luta social. como ocorre. E no caso que descrevemos. como os movimentos contra a guerra do Vietnã. No tipo de movimento como o aqui apresentado. e que. mais interessante. respectivamente). Finalmente. baseadas em contradições de interesses legítimos e legitimados em seu mutualismo. com um tipo peculiar de resposta coletiva por parte dos temporeros. Trata-se. Do ponto de vista de uma Corporação de Desenvolvimento sem fins lucrativos. Este tipo de movimento e natureza da relação com seus membros e o caráter deles se parecem muito mais com os movimentos culturais surgidos nos Estados Unidos e Europa a partir dos anos sessenta e setenta. que resulta da reestruturação econômica e que produz um jovem mais personalizado e cidadão (com maior noção de direitos e dignidade). Esta articulação permite relações frutíferas com um Estado facilitador. por exemplo. com as pessoas e com uma organização social que respeita o espaço. de jovens15 do que com os movimentos sociais populistas latino-americanos. ao menos enquanto dure o movimento. Juventude temporera e movimento social. não mais de 20 a 40 minutos. enquanto o caráter deste último muitas vezes se resumia a de uma mera massa social manipulável. ecologistas. Antinuclear Movement. nos quais ocorria uma dissolução do indivíduo no coletivo. precisamente. depois “nós”. movimentos de cidadãos nos quais persiste o indivíduo para além do fato de que se atue pontualmente de forma coletiva. Jo Freeman. com o movimento social. sem inibir sua capacidade de ação coletiva. catalisadora de um desenvolvimento com a organização. pré-diluvianos. O ponto a sublinhar é. alianças e negociações amplas. 1979). Social Movements of the 60’s and 70’s (Nueva York: Longman. sem diluir-se no grupo. de mulheres. que a organização dura tanto como o movimento.Juventude temporera te. 15 Revista Brasileira de Educação 133 . que apóia um processo deste tipo. e as condições de cooperação. de uma concepção moderna de participação: “a luta pelos termos da incorporação”. os direitos e o controle social dos membros em seu interior. tem correspondência com um certo estilo de relação estatal e de Corporações de Desenvolvimento (caracterizados como facilitador e catalisador. com mais possibilidades. que se faz responsável pela sorte de seus cidadãos. por sua vez. 1983) e Alain Touraine. mediante sua adesão mais ou menos consciente à ação coletiva. são bastante menores. claramente o ordenamento é primeiro o “eu”. como no caso do projeto em andamento de desenvolvimento diversificado com criação de emprego para enfrentar a crise atual do Vale de Aconcágua. Compreender este fenômeno é fundamental para entender o caráter da ação social destes jovens trabalhadores sob as atuais condições.

desde as celebrações eufóricas do “renascimento” da resistência estudantil de três décadas atrás. Agradeço os comentários de Helena Abramo. procuro examinar as manifestações de 1992 numa perspectiva histórica. analisando tanto as mudanças nas relações sociais. Eles despertaram e começaram a descobrir o que é lutar verdadeiramente pela cidadania. ao mesmo tempo. É uma geração que tem consciência de cidadania”1. Mustafa Emirbayer. Maria da Gloria Gohn. para sua convergência no movimento pelo impeachment e. quais são os fatores que contribuiram. presidente da União Nacional dos Estudantes na época. Fernando Rossetti Ferreira. Salvador Sandoval. Cinco anos depois das manifestações juvenis que animaram o país e ajudaram a derrotar um presidente. e Harrison White. Além do heroísmo. 28/6/93. quanto em relação aos grupos e movimentos que contribuem Entrevista com Lindberg Farias no caderno Folhateen. 1 134 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . e computadores. Charles Tilly.De estudantes a cidadãos Redes de jovens e participação política Ann Mische Universidade de Columbia Este artigo faz parte de tese de doutorado defendida na New School for Social Research e envolveu dois anos de pesquisa de campo com várias organizações políticas e sociais de jovens brasileiros nos anos 90. levanta uma série de perguntas críticas para a análise da participação política da juventude. Carlos Antonio Costa Ribeiro. e como se distingue da identidade estudantil dos anos 60? Dada a heterogenidade e dispersão das várias “juventudes” dos anos 90. Neste ensaio. quanto as reformulações político-culturais que influiram na participação dos jovens brasileiros nas últimas três décadas. A convergência dramática dos “caras pintadas” nas ruas das principais cidades brasileiras em agosto de 1992 tem gerado interpretações contraditórias. Comecemos com as palavras de um dos jovens que se destacou na época: “O movimento estudantil hoje é outro (…) mudou pelos próprios estudantes. até as manipulações cínicas dos meios de propaganda. quais são as perspectivas levantadas para a futura participação dos jovens. tanto em relação à consciência e aos projetos pessoais. ainda que provisoriamente. Até hoje há poucas tentativas sérias de analisar as origens e os impactos desses eventos em termos da especificidade histórica dessa corte de jovens. essa declaração de Lindberg Farias. quais as contradições e tensões sociais que também se manifestaram? Finalmente. esses eventos ainda inspiram surpresa e mistificação. usando a “grife” dos caras pintadas para vender roupas. cursinhos. De que consiste essa nova “consciência de cidadania”? De onde surge a nova identidade “cívica” entre os jovens.

“em contraste com seus pais. que queriam mudar o mundo. muitos duvidaram se as instituições democráticas brasileiras constituiriam os melhores meios para realizar esses fins. Brasília. muitas das quais entraram em grupos clandestinos de resistência armada durante os anos 70. alguns meses antes das eleições de 1989. perseguição.000 pessoas em São Paulo. incluindo atos de 20. Jornal da Tarde. aponto para uma reformulação teórica da noção de identidade coletiva — e sua relação com a estrutura ou a posição social — questionando as visões estáticas e pré-deterministas que geralmente acompanham tais conceitos. educadores.000 no Rio de Janeiro. e outras cidades. Na consideração da “cidadania juvenil”. indicou que embora a maioria dos jovens aprovassem ideais como “liberdade” e “participação”. 2 “geração shopping center”. nascida durante a ditadura e criada entre as expectativas crescentes e disilusões sucessivas da lenta e conservadora transição à democracia. morte ou exílio da maior parte das lideranças.”3 Devido à percepção predominante de apatia e individualismo juvenil. Vivem para resolver seus projetos pessoais. Quando a constituição de 1988 estendeu o voto para jovens de 16 anos. A batalha das interpretações Quando milhares de jovens brasileiros — a maior parte de classe média — saíram às ruas para protestar contra a corrupção no governo do presidente Fernando Collor de Melo. Surgiram comparações nostálgicas com a oposição estudantil dos anos 60. as primeiras manifestações em 11 de Agosto (o Dia dos Estudantes) mobilizaram 10. eles pegaram a maioria dos brasileiros (incluindo os próprios jovens) de surpresa. Salvador. Nos dias e meses depois das manifestações. O movimento estudantil foi brutalmente esmagado em 1968 com a prisão. Uma pesquisa na Folha de São Paulo. diversos atores — a mídia. A nostalgia dessa época influiu tanto na confluência dos eventos como nas interpretações posthoc. partidos políticos. que mobilizou mais de 200. pode abrir novos caminhos na compreensão de como a cultura política é reformulada através da ambiguidade conflituosa das interações sociais. Sugiro aqui que a análise sistemática de “redes” interpessoais e organizacionais. quanto as relações emergentes entre os grupos organizados. que começou com a campanha pela reforma universitária e se radicalizou ao longo de vários anos de confronto com a ditadura militar. O movimento culminou em um grande ato no dia 25 de agosto. Precisamos de uma nova ótica teórica capaz de englobar a multiplicidade de relações e significações sociais. não foi por coincidência que as manifestações A pesquisa de McCann Erikson sobre os jovens brasileiros faz parte de um perfil maior da juventude na America Latina. movimentos sociais e organizações estudantis — batalharam para dar interpretações públicas dos eventos imprevistos. precisamos de instrumentos adequados à complexidade da dinâmica social que leva à formação de novas identidades e projetos de ação. e o caráter interativo e processual de toda experiência social. Em 1991. 3 Revista Brasileira de Educação 135 . 30/5/91. o inesperado entusiasmo político dos jovens em 1992 gerou amplo comentário e debate. só a metade dos jovens esperados tirou o título de eleitor. Essa ótica deve visar tanto os mundos interativos dos jovens.2 Reportagens na grande imprensa retratavam o ceticismo e disinteresse político da Segundo estimativas policiais. focalizando a “multivalência” de discursos e ações. Foram seguidas por uma onda de manifestações em várias cidades brasileiras.000 em São Paulo. a próxima geração está mais interessada em melhorar a própria vida… Os jovens de hoje não se interessam por qualquer tipo de manifestação social. uma pesquisa da agência de publicidade McCann Erickson declarou que. e os pontos de convergência ou distanciamento entre os dois.000 a 40.De estudantes a cidadãos de diversas maneiras à sociedade organizada do país? Para aprofundar a análise dessas questões. representantes do governo.

Há um aparato que garante a segurança dos manifestantes. Isso tocou numa grande reserva de frustração pública com o clientelismo e a corrupção crônica do sistema político. Embora não seja verdade que os compromissos marxistas estivessem completamente ausentes das manifestações pelo impeachment. assim. a repressão ajuda a interromper o trânsito. enquanto as bandeiras da moralidade pública e da “ética na política” ganharam força na imprensa. que não arredam o pé da frente do palanque. o que fica evidente no ceticismo deste comentário jornalístico: Nos anos 60. a visita do banqueiro Rockefeller gerou protestos: criticavam a presença no país do representante de imperialismo. ou até como “estudantes”. Hoje. o Reporter Esso falava do clima de guerra civil no centro da cidade. as palavras de ordem viram jingles. periga serem convidados a subir no palanque. Nesse sentido. Depois da revelação de uma extensa rede de patrocínio coordenada pelo assessor Paulo César Farias. o “Globo Repórter” dedica uma hora. à noite. e certamente serviu como inspiração nas semanas exaltadas de agosto de 1992. tentando resgatar a “democracia-emformação” da herança de corrupção e impunidade pública. o governo ficou mais e mais isolado. pois eles receberam amplas formas de apoio oficial e não-oficial. mas como “cidadãos-emformação”. À noite. reencontrando caminhos para a concretização da cidadania no 136 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . membros de grupos políticos. Não há compromissos ideológicos vinculados aos padrões marxistas. para nova “onda teen”. a participação entusiasmada dos jovens nas passeatas pelo impeachment — organizados pelas entidades estudantis. sejam contratados por políticos em campanhas. de ambulâncias a bombeiros. Folha de São Paulo. conseguindo manter a unidade provisória na medida em que deixou de lado as questões mais conflituosas sobre o futuro social e econômico do país. policiais feridos e quebra-quebra nas ruas. o ME seu papel político. há fortes diferenças entre os dois episódios de mobilização juvenil. que cativou a audiência jovem com seus personagens simpáticos e sua visão romântica do movimento de 68. (Marcelo Rubens Paiva. outra diferença notável em relação aos anos 60 foi a subordinação dos discursos tradicionais da esquerda à linguagem mais expansiva e universalizante de “cidadania. e se o presidente da cadeia de lojas 7-Eleven ou a diretoria da Nike visitarem o Brasil. presidente do histórico Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo: Retoma. Enquanto as mobilizações anteriores foram conduzidas num campo político polarizado entre o Estado militar e a oposição estudantil. socialistas ou liberais. a liderança sobe nos palanques montados pela prefeitura e pelo governo do Estado. Um tom oficial entra em choque com a espotaneidade juvenil. não fique aí parado” (…) Saldo do dia: estudantes mortos. os jovens estavam participando — pelo menos em teoria — não como radicais ou conservadores.” O discurso do Movimento pela Ética na Política focalizou a defesa das instituições democráticas (as ditas “regras do jogo”). e. para chamar atenção e buscar adesão do povo: “Você é explorado. Esse redirecionamento no sentido do discurso universalizante de cidadania é evidente na declaração de Marco Aurélio Chagas Martonelli. Nesse clima. Profissionais do ramo distribuem banderinhas de partidos de oposição. os caras pintadas foram atores privilegiados em uma ampla mobilizaçao da sociedade civil e política contra o governo Collor. em horário nobre. mas não mostrava imagens (…) Nos anos 90. Suspeita-se que alguns manifestantes.Ann Mische anti-Collor aconteceram no final da mini-série da Rede Globo Anos Rebeldes. representativo dos interesses dos estudantes. os rostos estão pintados. apoiados pelos partidos e entidades civis. as passeatas eram na hora do “rush”. 19/9/92). a FIESP está presente. Ratazanas da política procuram aproveitar de manifestantes ingênuos… Nos 60. nas organizações civis e nos partidos de oposição. Mas há democracia. Apesar da evocação da mémoria de 68. e divulgados pela grande imprensa — não pode ser chamada de “independente” ou “espontânea”.

(Folha de São Paulo. (Veja. embora se esforçando para parecer apartidárias e representativas de amplos setores da juventude. focalizando a falta de experiência política e a indignação espontânea dos jovens. (Folha de São Paulo. como foi a tomada da Bastilha. e continuarão marchando. Segundo José Dirceu. o movimento estudantil pode se reorganizar e assumir seu papel político institucional. 15/8/92) Porém. as lideranças das entidades estudantis. 24/8/92) Na mesma linha. Eles marcharam. jogando um papel importante nas mobilizações a favor do impeachment. 15/8/92. e a possível revitalização da atividade estudantil organizada. Aí é que vai aprender a resgatar os valores democráticos. e da política neo-liberal do governo Collor: Revista Brasileira de Educação 137 . Por outro lado. será o verdadeiro divisor de águas da História brasileira. O impeachment do presidente é ponto de honra para qualquer cidadão. A politização dessa juventude se dá no processo. contrariando a interpretação de que as manifestações juvenis foram ligadas ou coordenadas por grupos organizados da esquerda: Esses grupos. Por exemplo. atores diversos — desde militantes e intelectuais da esquerda até políticos conservadores e comandantes militares — puderam fazer afirmações entusiasmadas sobre a “nova cidadania” dos jovens. políticos e intelectuais da oposição. deputado estadual pelo PDS e ex-secretário de segurança pública (que comandou uma violenta invasão da PUCSP em 1977. Numa linha parecida. (Estado de São Paulo. nas ruas. as entidades estudantis — lideradas por jovens militantes de partidos da esquerda — tentaram ligar a participação de estudantes “como cidadãos” a uma crítica mais ampla da injustiça social. não como privilégio. O povo indignado deveria fazer uma tomada do Planalto. É uma juventude politizada.) que simplesmente não aceitam que seu país seja assaltado impunemente por corruptos. o coronel Dias também procurou subdimensionar o potencial político do movimento. Essa é uma bandeira extremamente política. A juventude reage com indignação e exige punição. como na seguinte reportagem da Veja: Na verdade. apóia o impeachment e pode ser o estopim da mobilização contra Collor (…) Em sintonia com a juventude. de cuja probidade eu duvido. declarou seu forte apoio ao movimento de 1992: A sociedade precisa unir-se para dar um basta à atividade criminosa no governo federal. (Folha de São Paulo. independente de qualquer ideologia. muitos deles lideranças estudantis no passado. mas como pressuposto básico para a democracia. da crise econômica. deputado federal pelo PT em 1992 e presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo em 1968. a multivalência do conceito o sujeita a interpretações múltiplas e as vezes contraditórias. Nas palavras de Lindberg Farias.De estudantes a cidadãos país. A CPI do PC desvendou para a juventude um quadro cruel: o estado de decomposição moral de nossas elites e os sinais de desagregação social que nosso país enfrenta. eles foram os primeiros a ir às ruas defender o impeachment. já não têm força para organizar o que quer que seja. Instituir-se a ética na política. a quase totalidade dos estudantes que tomaram a Paulista não pertence a nenhum partido e jamais participou de uma reunião política na vida. porém com implicações divergentes. Assim. o coronel Erasmo Dias. por- Em contraste marcante com o minimalismo político e a indignação puramente “ética” dos comentários conservadores. celebraram a emergência de uma nova politização entre os jovens que indicava seu maior desejo de participação política. querendo participar. então presidente da UNE e militante do PC do B. 31/8/92). 9/9/92) Mas apesar do universalismo da noção de cidadania. viram na nova cidadania dos jovens o renascimento de uma consciência crítica mais ampla. a grande impresa enfatizou o caráter apartidário do movimento. na qual dois mil estudantes foram presos).

tanto nas vidas e perspectivas dos jovens. como poderemos medir as verdadeiras dimensões desse momento de participação juvenil? Não queremos tampouco cair no ceticismo de atribuir o fenômeno dos caras pintadas somente à manipulação pela mídia ou pelos partidos políticos. categóricas e substancialistas da palavra com uma visão dinâmica. também houve uma experiência orgânica importante. complexa e contraditória. junto com a experiência prévia em outros grupos organizados. irreverência e rebeldia tomaram conta das ruas. No país de abundância. a contingência. A capacidade de nos revoltarmos frente à injustiça. que influiram no recrutamento para a Comuna de Paris em 1871. 1988) demonstra que os laços prévios entre estudantes recrutados para o movimento de direitos civis nos anos 1960. e por isso pouco adequada para a análise processual que estou defendendo. Gould introduz o conceito útil de “identidade parti- 138 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . até as análises mais estrei- tas de classes sociais. processual e interativa. Entre o espontaneísmo dos conservadores e a exaltação dos grupos organizados. da moral dos bons costumes. Para entender as mudanças históricas que levaram os jovens da identidade participativa forte de “estudante” nos anos 60 à nova identidade. A formação de identidade: redes e projetos Um dos problemas com as tentativas de explicar a participação política de jovens é a utilização de modelos estáticos e deterministas de influência social. capazes de compreender o dinamismo. indicativa de mudanças estruturais e culturais. precisamos de outros instrumentos de análise mais flexíveis. arrocho. de “cidadão” nos anos 90. A noção de “identidade” em si já coloca uma série de dificuldades teóricas. de cada um (…) É fome. Tais modelos têm várias versões. Se existiu manipulação (de vários lados). livre desta quadrilha que assaltou o Palácio do Planalto (…) Uma crise que vai além da falta de ética. e a multiplicidade das experiências e interações sociais. baseadas em redes sociais (Wellman e Berkowitz 1988.Ann Mische Descontração. Sem subestimar os efeitos reais de normas e de classes sociais. Com interpretações tão contraditórias sobre a participação dos jovens nas manifestações de 92. e que ameaça a própria existência do país. tudo se faz para manter o plano “neo-liberal”. impunidade. 1995) demonstra que foram os laços múltiplos. tanto de bairro como de grupos organizados. é necessário analisar as transformações nas redes interpessoais e organizacionais nas quais os jovens se encontram. quanto na organização social e política da sociedade brasileira. Roger Gould (1991. que explica o comportamento dos jovens como a internalização de normas pré-concebidas. alguns pesquisadores de movimentos sociais estão incorporando o trabalho recente da análise de redes (“network analysis”) que enfatiza o caráter relacional — em vez de puramente categórico ou atribucional — de identidades. aponta para as tensões inerentes ao conceito: “A palavra ‘identidade’ é inseparável da idéia de permanência. recessão. o plano de desmantelamento do estado público (…) Continua a rebeldia característica de juventude. uma análise dessas mudanças requer uma reformulação teórica do vínculo entre as relações sociais e a dinâmica cultural da formação de identidades e projetos. são os fatores mais importantes que influem no compromisso político dos jovens. Na tentativa de achar uma saída parcial para esse dilema. a compreensão dessa “nova cidadania” apresenta um desafio para a pesquisa e a análise. Da mesma forma. Doug McAdam (1986. 8/92). o povo e a juventude no maior sufoco.. Por exemplo. Emirbayer e Goodwin. desde a teoria funcionalista de socialização. teórico dos “novos movimentos sociais”. que reduzem a ação e os interesses do jovem à sua posição nas relações de produção.. Porém. 1994). Um comentário de Alberto Melucci. desemprego. e como as estruturas diferenciadas dessas redes influenciam na articulação de projetos pessoais e sociais. das instituições. White 1992. O problema principal é como reconciliar as pressuposições estáticas. (Panfleto de UNE/UBES. 1994).” (Melucci. De cara pintada a juventude demonstrou estar disposta a construir um país diferente.

familia — dão visibilidade social às dimensões específicas de ex- periências que são relevantes naquele círculo. dando direção às ações além de definição aos grupos. objeto dos “apelos” dos mobilizadores. Mannheim enfatiza que não é apenas a posição social que determina a emergência de uma identidade geracional distinta. Nesse sentido. bairro. Como Erikson (1968) e outros mostram. trabalho. é necessário um conceito de identidade como focalizador de projetos. Identidade como experimentação Para entender a dinâmica temporal de identidades como influência na ação coletiva.De estudantes a cidadãos cipativa”. na França.” Isso é facilitado pela participação em “grupos concretos. Por isso não conseguem focalizar o processo fluido e contingente da formação de identidades na interação dinâmica entre o “ciclo de vida” da pessoa. que dão sentido e direção aos laços sociais. atividades de lazer e. Ainda sofrem de uma visão substancialista e determinista.” Esse conceito abarca a dimensão intersubjetiva de redes sociais: cada rede representa um repertório mais ou menos delimitado de reconhecimentos coletivos. procurando reconhecimento no meio de diversos “círculos” (ou redes): família. raça. Também implica que em qualquer momento. e por isso relativamente invisíveis nas superfícies de interações públicas. para uma outra identidade na Comuna de 1871. não reconhecidas. 13. grifos no original). havia uma mudança da identidade participativa baseada em classe social na Revolução de 1848. é preciso analisar como elas interagem com o ciclo de vida da pessoa. às vezes. Ele demonstra que tais identidades podem ser reformuladas a partir de uma reestruturação das redes de trabalho e comunidade. eles estabelecem compromissos (ainda provisórios) com laços sociais e significados coletivos. a participação no movimento e as mudanças históricas da época. Redes diferentes — por exemplo. Identidade como reconhecimento O primeiro passo nessa nova conceituação é a potencialização de identidade. baseada na comunidade urbana. que se tornam visíveis. em que as pessoas experimentam várias expressões públicas. dentro do que Pizzorno (1986) chama de “círculos de reconhecimento. escola. colegas. Na realidade. que terão um impacto crítico nas suas opções ao longo da vida. como classe. de trabalho. pois é necessário que as experiências comuns estejam sujeitas à reflexão consciente dentro de situações históricas de “desestabilização dinâmica. em que a vida é nova. Embora esses trabalhos representem avanços significativos na compreensão do caráter múltiplo e interativo de identidades. como por grupos de idade. O que normalmente entendemos com essa palavra são as qualidades agregadas de categorias sociais. muitas dimensões de relações — junto com laços ou identidades possíveis — são desarticuladas. Revista Brasileira de Educação 139 . vendo identidade como algo pré-existente nas relações sociais. e atitudes básicas no processo de desenvolvimento podem se aproveitar das forças moldantes de novas situações” (Mannheim 1952. Essas experiências também têm um impacto na emergência de novos “estilos geracionais”. esses atributos são simplesmente identidades possíveis. ou nacionalidade. Embora a “estratificação da experiência” esteja condicionada tanto por classe social. as forças de formação estão apenas vindo a ser. 296). entre a multiplicidade de conexões que poderiam ser feitas. efetivas e relativamente “fixas” apenas quando reconhecidas publicamente por outros. a juventude é um período sensível na formação de identidades. atividade política. escola. Durante esse período de experimentação. referente à “identidade social que um indivíduo assume em uma dada instância de protesto social” (Gould 1995. eles oferecem apenas uma solução parcial à problemática desse conceito. Para resgatar esse aspecto. não é apenas o atributo ou a posição social que determina a identidade. gênero. por exemplo. como Mannheim demonstra: “Na juventude. mas também são as experiências e orientações coletivas dentro de um dado contexto concreto que criam o potencial para formas diferenciadas de reconhecimento.

Dá-se pouca atenção ao papel de identidades como mecanismos de orientação. Não é apenas a pergunta “quem sou eu?” que os jovens procuram responder enquanto experimentam expressões de identidade. Isso não se deve a uma lógica intrínseca ou “destino histórico” de estudantes como categoria social. invenção de caminhos e direções de vida. culturais e políticos mais diversos. oferecendo possibilidades para a fusão de projetos pessoais e coletivos que atravessam círculos e redes sociais. Em contraste. mas acontecem em contextos sociais. é necessário prestar atenção à estrutura do mundo juvenil universitário nos anos 60. segundo os projetos emergentes dos atores. devido ao influxo da classe média no ensino superior do país. mas resultou da estrutura específica de suas redes sociais. dentro de uma dinâmica radicalizante de oposição política. manobra e. quer dizer. Experiências dentro de vários locais sociais criam as oportunidades e barreiras. a categoria de “estudante” não tem a multivalência necessária para servir como um prisma para a diversidade de projetos-em-formação dos jovens nos anos 90. esse mundo estava no meio de uma reconfiguração importante. Assim as identidades funcionam mais como prismas do que como fronteiras. esperanças e frustrações. Daí a necessidade de uma identidade mais abrangente (e ambígua). Embora a porcentagem dos 140 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . nas universidades. 1994). 307). Meu argumento básico é que o período anterior. pelos quais eles tentam resolver conflitos e criar novas oportunidades de ação (Emirbayer e Mische. as determinições de quem pertence ou não a uma dada categoria ou grupo. usados pelos atores para dar direção e forma à ação futura. A identidade forte de “estudante” se tornou um prisma para múltiplas dimensões dos projetos emergentes dos jovens da classe média universitária. serviu como um nexo para a concentração de identidade. concentradas principalmente na família e. às vezes. os jovem também têm algum espaço de escolha. Por isso. cristalizados numa dada identidade social. com mais ou menos receptividade às identidades e projetos pré-concebidos que são oferecidos pela sociedade. na tentativa de entender como os jovens foram levados da identidade participativa de “estudante” no movimento anterior a uma outra identidade participativa. evidente no universalismo formal de “cidadão. em 1992. englobando um campo maior de possíveis (e às vezes contraditórios) projetos pessoais e coletivos.” Concentração de identidade: os anos 60 Para acompanhar essa transformação. Identidades não são apenas categorias sociais que em si dão estrutura e sentido às redes sociais. Muitas vezes as soluções encontradas implicam em uma fusão de múltiplos “projetos-em-formação”. o período posterior de reestruturação democrática. é caracterizado pela dispersão crescente das redes juvenis.Ann Mische onde a estimulação mútua numa unidade próxima e vital inflama os participantes e os ajuda a desenvolver atitudes integradas adequadas aos requisitos de suas posições comuns” (p. Os anos formativos dos jovens não são limitados à familia e às universidades. de 1960 a 1968. mas são mobilizadas de forma seletiva. mais importante ainda. nos anos 80 e 90. Identidade como orientação Outra limitação do conceito de identidades é uma tendência a focalizar seu aspecto delineador. mas também “por onde vou?” Embora as carreiras e trajetórias abertas aos jovens estejam estruturadas pelas posições de classe e pelas instituições sociais e políticas. que levam os jovens a experimentar diferentes futuros possíves. Mudanças estruturais e culturais: 1960-1990 Como será que esse conceito mais dinâmico e interativo de identidade pode nos ajudar na com- preensão da participação dos jovens brasileiros em episódios diferenciados de ação coletiva? Utilizaremos essas formulações na análise das diferenças históricas entre o movimento estudantil dos anos 60 e os caras pintadas dos anos 90. No início da década. qualificada pela noção mais abrangente de “cidadão”.

muitos estudantes se juntaram às discussões e manifestações pela reforma universitária no início da década. cultural e política do país. que removeu as barreiras ao ensino superior enquanto aumentava o número de vagas nas universidades públicas e gratuitas (Martins. para garantir acesso ao novo setor burocrático das empresas privadas e estatais. Segundo a análise de Luís A.386 em 1964. ou seja. 65% da matrículas eram em universidades. essa expansão se deve a uma confluência de fatores.387. que não foram equipadas para atender ao influxo dramático de jovens de classe média. começando no final dos anos 50. podemos traçar a crescente importância da categoria de “estudante” nas suas passagens por diversas redes interpessoais e organizacionais. aumentando de 27. Esse aumento de vagas se deu por meio da “federalização” do sistema universitário. que para muitos foi o ponto de partida para uma postura crítica e um engajamento maior. que. 299) No meio da década de 60. reconhecendo os contornos de uma condição alienada. Num estudo revelador sobre os estudantes da Universidade de São Paulo em 1962. passando pelo projeto de constituição de uma cultura nacional popular do CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE. como futuro profissional. Foracchi demonstra como a ambigüidade da categoria de “estudante” serve como veículo tanto do projeto familiar de ascensão social. e lutando para ultrapassá-la com os recursos de engajamento de que se dispõe como estudante. juntava os estabelecimentos isolados de ensino (particulares. “o atendimento da demanda de ensino universitário por parte do Estado populista”. municipais e estaduais) e criava grandes centros universitários.De estudantes a cidadãos jovens no ensino superior continuasse minúscula em relação ao conjunto juvenil do país. com uma nova configuração nas redes organizacionais dos militantes estudantis. Marialice Foracchi descobriu uma alta incidência de estudantes da primeira geração universitária. (Foracchi. durante a tumultuada década de 60. para 142. Até 1971. que começavam a ter um papel importante na vida intelectual. Cunha (1983). incluindo.253 estudantes matriculados em 1945. ao mesmo tempo. as universidades serviram como os principais centros de intercâmbio intelectual.4 Dentro desse quadro. por um lado. 1993). 4 Enquanto os jovens passavam do círculo restrito da família para as redes mais complexas da universidade. 94. quanto do questiona- mento pelo jovem das expectativas familiares. esse número aumentou para 561. o jovem está. Naquele momento. é constituída e se expressa no espaço universitário: das discussões existencialistas à bossa nova. 35). muitas vezes de familias de ascendência imigrante. naquele momento. Desiludindo-se com as condições inadequadas do ensino nas universidades. Essa rica interatividade nas universidades cruzou. 85). a identidade estudantil se investia com novas e autônomas significações. o que significa um crescimento linear anual de 12.). vividos por universitários” (Abramo 1992. um crescimento de mais de 500% ao longo da década dos 60 (Durham. 1983.5% (Cunha. 1983). o aumento da demanda pelo ensino superior entre a “nova classe média”. político e cultural. e a formação de “projetos de carreira” que melhor expressam seus desejos de autonomia e participação dentro do contexto do desenvolvimento nacional do país: Transformando-se em estudante e procurando dar sentido renovador ao seu projeto de carreira. tal como se formula no plano da experiência familiar. pelos festivais de música universitária e pela tropicália: são culturas e estilos de vida identificados aos meios universitários. mesmo quando não consubstanciada no movimento estudantil. a grande maioria instituições públicas (Cunha. 1977. constituindo uma concentração intensa de círculos de reconhecimento por parte dos estudantes: “Quase toda a vida cultural e comportamental juvenil. 1987. esse setor se achava em plena expansão. e por outro lado. A direção do ME estava saindo de uma po- Revista Brasileira de Educação 141 .

1987). souberam levantar a bandeira da “Reforma da Universidade” (Martins 1994. o movimento continuou a crescer durante os anos subsequentes. 1994. o clima foi permeado pela utopia social. ocasionados pelas manifestações de massa e os conflitos com a polícia. que aumentaram a receptividade dos jovens aos mensagens políticas. 63). Essas viagens foram dinamizadas pelas apresentações culturais do recém formado Centro Popular de Cultura (CPC da UNE). formando o dito “grupão”. Além disso. Para resumir. Nos anos que dirigiu a UNE.5 Embora a sede da UNE no Rio de Janeiro tenha sido invadida e incendiada. nos anos 196466. e as entidades estudantis autônomas banidas (substituídas pelos “diretórios” atrelados ao Estado). contra a ditatura e a interferência norte-americana no desenvolvimento do país. a liberalização cultural e a alta seriedade político-moral que caracterizou o movimento juvenil internacional que estava explodindo em várias partes do mundo. esse grupo ajudou a intensificar o intercâmbio político e cultural nas universidades por meio da UNE-volante. ideológicos e políticos dos anos 60. 2). 1984). vividos principalmente pelos jovens universitários. Ao lado da radicalização crescente dos setores militantes. na década anterior. de setores “liberais” à liderança estudantil em vários estados. 1994). a participação maciça dos estudantes na greve de 1962 “cristalizou um momento da convergência entre a ‘vanguarda’ estudantil e a massa universitária” (Martins 1994. 2). na Ação Popular (Souza. aguçaram tanto a crítica do Estado militar (e seus laços com o imperialismo capitalista). hegemonizados pelo Partido Comunista. quando as lideranças se radicalizaram e sairam daquela entidade. embora logo em seguida ficaram disiludidos com a perda da democracia (Martins. embora a derrota da greve resultasse no delocamento do interesse da militância das lutas “específicas” universitárias para a busca de alianças “políticas” com setores operários e camponeses (Martins. é mais fácil convencer um estudante de que ele deve ser contra a ditadura. Como uma liderança estudantil comentou. se viu de novo uma convergência de lutas específicas do meio estudantil — como a crítica ao projeto MEC-USAID e a retomada das bandeiras da reforma universitária — com as lutas políticas mais gerais. A “atualização” dessa identidade (para usar Alguns comentaristas argumentam que. O reconhecimento e aprendizado social dos estudantes. O início dos anos 60 foi marcado pela ascendência da juventude católica. Durante os primeiros anos da ditadura. Essas lideranças conseguiram se compor com diversos grupos da esquerda marxista. onde no começo simpatizaram com o golpe. o ME sobreviveu inicialmente depois do golpe militar devido à posição ambígua dos estudantes da classe média. 1987. as universidades foram os únicos espaços que restaram de oposição visível e organizada. quanto a identidade empolgante dos estudantes como “sujeitos da história”. entre os grupos udenistas/liberais. Lima e Arantes. que controlavam a UNE de 195055. através da dinâmica do confronto com o Estado militar. do que era antes convencê-lo que ele deveria ser contra o capitalismo” (Foracchi 1982. 5 142 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . engajados em projetos revolucionários de transformação social. ao mesmo tempo que expandiam o apoio entre as bases estudantis. os contextos interpessoais. ajudando a superar a distância entre essas bases e os grupos vanguardistas: “Melhor do que elas. onde os diretores da UNE viajavam aos estados para discutir as reformas e mobilizar a “greve do 1/3” pela democratização interna das universidades. e à ascendência. carregaram a identidade de “estudante” com significados múltiplos capazes de ligar uma variedade de projetos-em-formação.Ann Mische larização. as organizações católicas canalizaram a insatisfação da juventude da classe média. organizada primeiro na JUC e depois. Depois do golpe de 1964. o movimento estudantil (e a categoria de “estudante”) ganhou uma nova forma de reconhecimento. diferente do movimento sindical e camponês. “hoje. Segundo João Roberto Martins Filho. e os grupos vanguardistas da esquerda. e sensíveis aos reclamos de um meio que muito bem conheciam.

especialmente com a extensão da “cultura jovem” para jovens trabalhadores e das periferias. Segundo Felícia Madeira.05% em 1961 para 61. 1993. 749 eram estabelecimentos isolados. a penetracão dos meios de comunicação de massa. o número de matrículas no ensino superior cresceu de 561. relativamente restrita e delimitada. dos quais 582 eram particulares (Durham. Com a crise da esquerda. (Abramo. que dificultam a organização política. formadas nas escolas públicas e particulares. o fim da ditadura como fator unificador e a abertura de espaços alternativos para participação política. 1995). cultura e sociabilidade (Abra- A proporção de estudantes matriculados nas instituições particulares subiu de 44. mas dependia dos processos de aprendizagem social que ocorriam em vários “círculos de reconhecimento”. 1993.397 para 1. e a difusão do sistema crediário. 1994). que nos anos 60 foi sede de uma intensa interatividade político e cultural.) estenderam a identidade jovem para uma parcela maior da sociedade” — entre as quais se destacam o rejuvenescimento (e monetarização) do mercado de trabalho.De estudantes a cidadãos o termo de Mannheim) e sua capacidade de cristalizar um “estilo geracional” emergente não eram “inerentes” à posição de familia. 1993). por parte dos jovens das camadas populares. exemplificado no demantelamento da Faculdade de Filosofia da USP na Rua Maria Antonia. o enfraquecimento da noção de cultura alternativa como modo de contraposição ao sistema. ocasionando a radicalização de uma identidade que fôra.30% em 1991 (Durham. localizando-se com maior frequência em faculdades isoladas. 1993. Em 1990. em vez de universidades centralizadas6. 8). altamente ligadas ao consumo e aos “estilos” culturais. estendendo seu alcance além dos setores médios e abrangendo outras significações.565.1986). no início da década. As universidades públicas também foram decentralizadas. facilitando o acesso ao consumo para jovens das classes populares (Madeira. Costa. embora houvesse uma estagnação do crescimento durante os anos 80 (Durham. 1992. Ao mesmo tempo. e sua substituição pelas faculdades fragmentadas e isoladoras da Cidade Universitária. os jovens brasileiros enfrentam uma outra configuração. o movimento estudantil perde seu monopólio na mobilização juvenil. através de redes densas e concentradas. De 1971 para 1991. a identidade juvenil se desloca para fora das universidades. ou geração dos estudantes. as décadas intermediárias dos 70 e 80 visavam “uma série de modificações que (. é confirmada por estudos recentes sobre os jovens brasileiros durante a “modernização conservadora” dos anos 80: Descortina-se uma nova configuração do universo juvenil: a crise do espaço universitário como significativo para a elaboração das referências culturais. o aumento das oportunidades de estudo.. Em contraste com os anos 60. 10). Uma mudança crítica é que as universidades — e o movimento estudantil — já não se constituem como os centros da vida cultural e política juvenil.. e em outras espaços de lazer. nos clubes noturnos. 1994. Dispersão de identidade: os anos 90 Três décadas depois do desmantelamento brutal do movimento estudantil dos anos 60. Sposito. bastante diferenciada. das 918 instituições de ensino superior. A diversificação da experiência da juventude. nos lugares de trabalho. nos bairros e ruas. “Ser jovem” não é mais equivalente a “ser estudante”.056. no início dos anos 90 a porcentagem de instituições privadas establizou-se em torno de 75% do total (Sampaio. classe. 82) mo. o meio universitário viveu seu próprio processo de diversificação. no campo de lazer ligado à indústria cultural. 6 Revista Brasileira de Educação 143 . os jovens agora passam seus anos formativos em redes mais dispersas. O excedente de demanda pelo ensino superior que começou a se manifestar no final dos anos 60 foi absorvido em grande parte pelo setor privado. e a emergência de uma intensa vivência. nos “shopping centers”. de seus contextos relacionais e culturais.

até as associações de área e as empresas juniores. chegando a 5. focalizando os anseios e esperanças das camadas populares.).Ann Mische Entre os estudantes dessas faculdades. Essas tensões permeiam o campo político-juvenil nos anos 90. capazes de transformar suas críticas so- 144 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . criando novos conflictos e oportunidades vindo da superposição de diferentes projetos e estilos de intervenção. junto com uma recessão econômica que sufocou as aspirações de muitos jovens. para a falta de espaços centralizadores ou de identidades públicas unificadoras. e formando quadros importantes de lideranças comunitárias e par- É interessante notar que a preferência de sociabilidade varia de acordo com o grau de centralidade ou isolamento das escolas: nas universidades públicas. influindo tanto nas relações entre os grupos. também se vê uma complexificação marcante das formas de participação social e política. a perplexidade diante desse quadro foi intensificada pelas incertezas e frustrações da década anterior de transição democrática. Os jovens testemunharam as crises e escândalos recorrentes do retorno ao governo civil. Esses fatores confluiram para sustentar uma ambivalência forte sobre a política. s. viviam a ansiedade da inflação crônica. Mais recentemente. distanciada da população jovem mais ampla. 7 tidárias. por outro lado. organizações nãogovernamentais e associações profissionais. a Pastoral de Juventude da Igreja Católica começou a se destacar. 1996b). tanto para os militantes juvenis como para as juventudes mais amplas. embora varie significamente por curso universitário (Cardoso e Sampaio. e outras organizações se cruzam. Porém. sindicais e anti-discriminatórios. Numa pesquisa recente sobre universitários em São Paulo e Campinas. Desses alunos. 1994). as condições de trabalho e as redes de sociabilidade também se diversificaram.d. A partir dessa breve análise. vimos como as redes interativas dos jovens — junto com os contextos culturais-ideológicos para a formação de identidades — se diversificaram durante os anos 90. uma característica que atravessa atributos como gênero e classe social. No meio dos grupos organizados. enquanto nas escolas isoladas privadas esse número diminui para 12%. s. 48% se socializam com mais frequência com pessoas fora da escola. um ceticismo sobre a possibilidade de mudanças institucionais e uma tendência à paralisia política. 20% saem com pessoas das escolas. Essa diversificação das redes de estudo. Porém. Muitas vezes as redes dos movimentos. e sociabilidade expõe os jovens a influências e pressões diversas.4% nas universidades particulares (Sampaio. localizadas nos cursos universitários. Jovens com algum interesse político agora podem escolher entre muitas formas alternativas de militância. outros grupos juvenis estão emergindo. como nas dificuldades de atrair mais jovens para a participação política organizada (Mische. essa ambivalência não significa necessariamente que os jovens fossem acríticos ou apáticos. o movimento estudantil tem se engajado num processo conflituoso de reconstrução. Desde seu reaparecimento nas manifestações pela democratização no final dos anos 70. Nesse período. no início dos anos 90 a PJ também se encontra em uma “crise” de reavaliação. e apenas 12% dão preferência aos amigos do meio escolar (Sampaio. de diversas classes sociais. partidos. embora 26% saiam com pessoas dentro e fora da escola. embora essas redes continuem a ser densas e entrelaçadas. movimentos populares. embora ficasse politicamente marginalizado durante a maior parte dos anos 80. Esses vestígios foram especialmente visíveis para os estudantes na resistência de muitas direções escolares aos grêmios estudantis e na repressão às greves dos professores no final dos anos 80.d. Aponta.)7 . trabalho. exigindo um certo jogo de coordenação e segmentação entre os diversos envolvimentos. desde os movimentos dos negros e homossexuais. incluindo partidos políticos. Ao mesmo tempo. Ruth Cardoso e Helena Sampaio anotam que mais da metade dos alunos pesquisados trabalham. junto com as contradições de verem os discursos e formalismos democráticos (incluindo uma nova constituição) ao lado dos vestígios de autoritarismo. Para muitos jovens.

os laços fortes e identidades restritas dos militantes têm reforçado uma tendência ao auto-isolamento do ME. uma ponte importante se constróoi por meio do fenômeno da “militância múltipla”. Por isso. porém. Apesar das afirmações da “autonomia” dos movimentos e protestos contra a “partidarização” das entidades. Um exemplo marcante aparece na pessoa de Lindberg Farias. Facções do movimento estudantil são intimamente ligadas à participação em partidos e tendências de esquerda — um fator que não quero denunciar como falha-base. na verdade. como aconteceu em agosto de de 1992. precisamos examinar como a articulação de identidades e projetos atravessa redes distintas. as ligações formadas são sempre ambíguas. tais interlocutores podem também colher benefícios próprios dessas ar- ticulações. que eles vêem como distantes de suas preocupações e aspirações. Com efeito.De estudantes a cidadãos ciais — muitas vezes agudas — em ação coletiva. Para entender esse processo. Aqui é essencial o papel de interlocutores sociais. ainda não explica por que a categoria de “cidadão” surgiu como alternativa efetiva. pois aparece quase como uma necessidade estrutural dentro da complexa organização da sociedade civil e política dos anos 90. As pessoas que servem como pontes efetivas são aquelas que podem evocar sua multiplicidade de laços (e identidades) para serem “vistas” em uma variedade de contextos sociais. quanto os laços mais amplos com outros setores juvenis. com identidades múltiplas. nos partidos políticos. a simpatia. que virou herói popular em decorrência das manifestações. Para entender essa dinâmica no contexto da diversificação das redes juvenis nos anos 90. experimentais e. Contribui para a desilusão de muitos jovens com a política estudantil organizada e as entidades históricas do ME. e assim viabilizar oportunidades para conexão e ação conjuntas de diversas pessoas ou grupos. Porém. precisamos voltar à ideia dos círculos de reconhecimento: as identidades se tornam visíveis apenas quando reconhecidas por outros dentro de locais específicos de interação. tanto interpessoais como organizacionais. que controlara a direção da UNE desde a reconstrução da entidade em 1979 (com exceção dos anos 1987-1991. devido à falta de resonância com as identidades mais dispersas dos jovens brasileiros. as redes de liderança são extremamente interligadas. Nem explica a dinâmica de articulação dessa identidade no meio de uma convergência política inesperada e multifacetada. que assim serve como um “prisma” para projetos diversos. quando foi dirigida majori- Revista Brasileira de Educação 145 . a indignação e o entusiasmo dos jovens poderiam ser tocados de forma inesperada. como fazem muitos outros críticos. no caso de jovens que são simultaneamente lideranças no movimento estudantil. contraditórias. pois só funcionam porque atores desligados reconhecem dimensões diferentes de si mesmos na identidade multivalente da “pessoa-ponte”. Ao mesmo tempo. No contexto brasileiro. às vezes. Como qualquer intermediário. Lindberg também foi militante do PC do B. nos grupos da igreja. Mas o potencial que poderia ser mobilizado para protesto social ainda estava presente. embora possibilitem alianças provisórias e conjunturais. onde o engajamento nas “lutas institucionais” faz parte das estratégias e repertórios dos movimentos sociais. essas conexões não implicam necessariamente em uma correspondência de objetivos entre todos os setores ligados. Durante as manifestações pelo impeachment. alguns interlocutores novos entraram em cena que foram capazes de renovar tanto os vínculos fortes dentro do ME e da esquerda. Convergência e interlocução Embora essa análise das configurações juvenis explicasse a ressonância reduzida da identidade estudantil nos anos 90. posicionados no cruzamento de vários contextos sociais. é importante reconhecer que o caráter denso e entrelaçado dessas redes — onde os militantes falam muito entre si e pouco para quem está fora — tem tido consequências negativas para o movimento. embora as vantagens possam tomar a forma não-material de liderança ou status dentro das várias redes conectadas através deles. ou em outros movimentos e organizações.

embora enfatizassem a visão espontaneista e puramente ética da cidadania. eles também foram usados por atores e forças distintas — e muitas vezes alheias — a seus próprios projetos políticos. Desde os que usavam camisas de Che Guevara até os frequentadores de shopping centers. ele projetou uma imagem bonita e charmosa.Ann Mische tariamente pelo PT). A própria eleição de Lindberg como presidente da UNE se deve a uma mudança explícita de estratégia dentro do ME. Lindberg cresceu como liderança dentro de seu papel múltiplo. Especialmente notável foi uma colaboração entre as direções da UNE e do Centro Acadêmico XI de Agosto. Já vimos como a grande imprensa. revoltados. que sediou o ato que fechou a primeira passeata. Por causa de suas múltiplas identidades públicas. que estaria mais voltada para cultura. que o permitiu desfrutar de uma explosão política que nem ele nem o partido previam. como nas inúmeras entrevistas. Lindberg conscientemente subordinou sua orientação socialista. que estava sendo articulada nas várias forças políticas desde o final dos anos 80. junto a metaleiros e skatistas. Foi a passeata do grito indignado de uma juventude que acredita na mudança no Brasil. Lindberg foi a figura ideal para construir a ponte entre o movimento estudantil tradicional. e com a ajuda da militância partidária. enfatizando a convergência de diversos setores de jovens: Eram 20 mil jovens. Nas outras alas da militância. surgiu uma discussão paralela sobre as novas preocupações dos jovens. nem em relação às outras forças ativas no movimento pelo impeachment. Por exemplo. essa corrente conseguiu colocar Lindberg numa posição. e nas expressões culturais das periferias. De tal maneira. não necessariamente concentradas nas universidades. (Folha de São Paulo. um “socialista convicto” e uma militante comunista de muitos anos. Nas passeatas. Devido à sua tenacidade na disputa pelo controle das entidades estudantis. o PC do B manteve seu investimento na potencialidade estudantil. forjando uma aliança provisória entre os comunistas e os social-democratas em nome do projeto mais amplo da defesa da cidadania. ecologia e outras formas mais leves e alegres de participação social (embora essa mentalidade ainda pudesse levá-los a uma crítica mais aprofundada das barreiras impostas aos jovens pelo sistema capitalista). a juventude do PC do B começara a destacar uma “nova mentalidade” entre os jovens. incluindo alguns setores do PT. ele abraçou seu papel de pessoaponte. com um vocabulário jovem que ajudou a quebrar a estereotipia do militante chato e barbudo. declarando que “como presidente da UNE. como porta-voz emergente do movimento. nas escolas secundárias e nas faculdades públicas e particulares. e até os ex-representantes do Estado militar. 15/8/92) Para não supervalorizar o papel do indivíduo. Todos. Assim ele conseguiu se projetar para fora das redes militantes. essa corrente tentava focalizar as novas aspirações e frustrações dos setores médios estudantis. os políticos diversos. concorreram para oferecer seus elogios aos jovens manifestantes. esporte. os projetos da esquerda. e as experiências dispersas da geração “shopping center. aparecendo nas manifestações (e na mídia) como figura simpática e inteligente na qual os jovens de classe média poderiam reconhecer suas próprias experiências e aspirações. Enquanto tais discussões levaram muitos militantes petistas a desvalorizar o engajamento no ME. Diversos os rostos. À frente da entidade histórica dos estudantes.” Embora filho de ativistas políticos. é importante lembrar que Lindberg não agiu sozinho. O papel da imprensa foi especialmente importante aqui. junto com a UNE e os partidos políticos souberam aproveitar e canalizar a conjuntura emergente. articulador suprapartidário das lideranças estudantis e mobilizador-relâmpago da logística e infraestrutura das passeatas. 31/8/92). pediam o impeachment do presidente. se Lindberg. Como já vimos. pois 146 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Estudantes pesquisadores. nem em relação a sua própria corrente política. em 1992. porém mais dispersas nos movimentos sociais e sindicais. represento os interesses dos estudantes brasileiros e tenho posições mais amplas” (Folha de São Paulo. Por outro lado. bolsistas do CNPq.

os jovens abraçam essa identidade com conviccão e energia. mulheres. etc. e assim pudessem se juntar a partir de mil focos informais nas escolas. se empolgando na tarefa de formar grêmios estudantis e revitalizar os centros acadêmicos e DCEs. nos bairros. como o discurso cívico também serve para estabelecer parâmetros éticos de comunicação interna entre os próprios grupos organizados. passando por sua expansão com os movimentos anti-ditatoriais e anti-dis- criminatórios (dos negros. procuro localizar os pontos de conexão e de distanciamento entre essas óticas. até sua recente apropriação pelos setores consumidores e empresariais. De que maneira a nova identidade de “cidadão” está funcionando como ponte-articuladora dos movimentos juvenis? Como vimos acima. Contra os perigos gêmeos do espontaneismo e iluminismo. em decorrência das manifestações de 1992? Embora os caras pintadas aparentemente tivessem se ausentado do cenário nacional logo após o impeachment. Além disso. a resposta é muito mais complexa do que se imagina. coloca-se uma questão ideológica de fundo: nesse cruzamento. e a comprensão do papel que elas exercem nas diversas cidades e regiões do país requer um levantamento sistemático. revela sua capacidade de veicular projetos divergentes dentro da linguagem universalista de direitos e responsibilidades. nos locais de trabalho e de sociabilidade. Como as redes organizacionais juvenis estão se reconfigurando. como “ponte articuladora” na fusão de projetos pessoais e coletivos. tenham bastante ambivalência e disputa ideológica sobre o alcance e os limites do conceito. as manifestações juvenis tiveram um forte impacto nas redes organizadas. dada a heterogeneidade e complexidade do campo político-juvenil nos anos 90. que aumentou mil vezes o poder “prísmico” de sua posição multivalente.De estudantes a cidadãos Lindberg deve sua extraordinária projeção social em grande parte à sua “adoção” como menino-dosolhos da imprensa. Restam três linhas de indagação. dois aspectos do universalismo do conceito de “cidadania” merecem mais atenção: como essa linguagem está sendo mobilizada para articular conexões com setores mais amplos da juventude. como vimos acima. Reconfigurações emergentes O ponto de partida da análise desenvolvida aqui é a necessidade de reexaminar a participação juvenil a partir da intersecção de duas óticas diferentes: 1) da estrutura relacional e cultural dos mundos juvenis num dado momento histórico. que serve. povos indígenas. O descaso dessa mesma mídia com os projetos maiores do ME se evidenciou no ano seguinte. Assim. homosexuais. Embora o número de entidades estudantis tenha claramente aumentado. às vezes de maneira ambígua e contraditória. A trajetória do discurso cívico no Brasil. e ver como influem na formação de novas identidades e práticas políticas. soubessem com antecedência do percurso das manifestações. em redes dispersas e desorganizadas. 1996a). especialmente nos meses imediatamente após o impeachment. e se evidenciam na falta de uniformidade na adoção da identidade cívica: em alguns contextos. desde seu reaparecimento nos movimentos populares e sindicais no final dos anos 70. reforçando um processo de reavaliação interna que os militantes ainda estão tentando desenrolar. O ME se ocupou em canalizar o influxo de energia e reconhecimento social que ganhou com o impeachment. é importante analisar as Revista Brasileira de Educação 147 . e 2) da estrutura dos grupos organizados. A mídia também operou no sentido de possibilitar que milhares de jovens. Porém.). embora em outros. os dados sobre a quantidade de novas entidades são bastante incertos. quando foi lançado um ataque feroz contra o “sectarismo” e a “visão antiquada” que a imprensa visava nas entidades estudantis. e talvez mais criticamente. devido às interpretações tão diversificadas do sentido e prática de “cidadania” (Mische. que abro brevemente aqui como indicativas para o estudo mais amplo que estou elaborando sobre movimentos juvenis brasileiros nos anos 90. quais projetos substantivos estão ganhando campo em relação à futura direção política e econômica do país? As divergências nesse ponto aparecem no meio dos grupos organizados.

elas ajudaram a provocar um momento dramático de diálogo social. entre setores mais amplos da juventude? Essa pergunta é mais difícil para se responder. trabalhos e shopping centers. não apenas em relação às correntes políticas tradicionais. e a grande dispersão de identidades e projetos-em-formação. tanto para os jovens como para a cultura política democrática no Brasil. Depois das passeatas. Conclusão As influências a médio e longo prazo das manifestações de 1992.” Para não incorrermos no retrato individualista e desinteressado da juventude. do ponto de vista deste. como os movimentos sindicais. Meu argumento é que a interlocução social de atores como Lindberg Farias funcionou em direções diversas: ajudou a dar identidade e orientação aos jovens nos atos pelo impeachment. pois as auto-reflexões da esquerda já estavam acon- Como fui lembrada enfaticamente por jovens universitários engajados no movimento negro. seria difícil delinear as vá- rias manifestações assumidas por essa nova “consciência de cidadania. Porém. A pressuposição básica aqui é que um evento público de tais proporções como o impeachment. no qual os discursos e repertórios da cultura cívica podiam ser reformulados. especialmente do ponto de vista de uma pesquisa que focaliza os grupos organizados. as empresas juniores. talvez sem a grande escala utópica das décadas passadas. 8 os movimentos de área (ligados aos cursos universitários). Embora mais alguns se juntaram aos movimentos organizados. é importante indagar sobre a existência de novas maneiras de articular projetos pessoais e coletivos. Os sinais recentes de maior interesse estudantil pelas organizações específicas de curso. embora difusa. dada a diversificação das redes e setores juvenis. esses ainda constituem um grupo pequeno. Existem sinais do advento de uma consciência “cívica”. 8 148 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . ao mesmo tempo que contribuiu para a rearticulação dos discursos e projetos dos setores organizados (da esquerda e talvez da direita também). simbolizado pela entidade histórica da UNE. de ligar as preocupações e aspirações pessoais com visões mais amplas da sociedade e seus problemas. em relação à luta mais abrangente contra o racismo. embora certamente contribuiram nessa direção. não poderia passar sem deixar alguma marca nessa coorte de jovens brasileiros.Ann Mische reconfigurações das relações entre os diversos grupos organizados. apesar do presidente da UNE eleito em 1996 ser negro e usar este fato como bandeira da entidade. cujos parâmetros precisam ser melhor compreendidos. religiosos e comunitários. mais prágmaticas e delimitadas. com os outros movimentos e organizações mais “específicos” (do ponto de vista do ME). mas também visando a relação do ME “geral”. A marginalização da questão racial na política estudantil foi salientada por universitários negros no Congresso da UNE de 1993 sob a bandeira: “A juventude negra não tem cara pintada. incluindo o movimento negro. a maioria dos caras pintadas voltaram para suas redes dispersas nas escolas. na tentativa de cativar o engajamento de uma coorte de jovens muito diferenciada daquela de três décadas atrás. porém mostrando outras formas. apontam para algumas possibilidades nesse sentido. é o movimento estudantil que aparece como movimento “específico”. e outros setores que se organizam fora do meio escolar ou universitário. ainda estão para ser vistas. apontam para uma reformulacão (ainda em progresso) dessas relações. Porém. Esse processo certamente não começou com Lindberg. amplamente divulgado e celebrado nos meios de comunicação de massa. Não se pode dizer que as passeatas “causaram” o impeachment do presidente Collor.” As relações muitas vezes conflituosas entre esses setores. além da emergência de várias formas contestadoras de expressão cultural. além de tentativas recentes de aproximação. A necessidade de tal análise está colocada pelo carácter majoritariamente branco e de classe média dos caras pintadas e das lideranças estudantis. embora as tendências ao corporativismo e/ou ao recuo político desses setores também precisem ser analisadas.

SP: Papirus. Felícia. McADAM. FORACCHI. dentro do clima intensificado de indignação e debate público. Cenas Juvenis: punks e darks no espectáculo urbano.. (1994). Helena Wendel. 23. (1982). EMIRBAYER. New York: Oxford University Press. Los Angeles. O estudante e a transformação da sociedade brasileira. Os estudantes e a política no Brasil (1962-1992). Departamento de Sociologia. (1994). Haroldo. (1984). Multiple networks and mobilization in the Paris Commune. Karl. um prisma forte no qual os projetos políticos no processo de reformulação poderiam alcançar setores mais amplos da sociedade. São Paulo: Scritta/ANPOCS. COSTA. What is Agency?. Network analysis. Centro de Educação e Ciências Sociais: Universidade Federal de São Carlos. Grupos juvenis dos anos 80 em São Paulo: um estilo de atuação social. Revista Brasileira de Ciências Sociais. __________. __________. A manutenção dessas pontes — e suas significações substantivas para o futuro do país — ficam como desafios no complexo mundo juvenil do final do século. (1986). O sistema federal de ensino superior: problemas e alternativas. Revista Brasileira de Educação 149 . culture. Mustafa. Assim. Jovens e as mudanças estruturais na década de 70: questionando pressupostos e surgerindo pistas. (Paper presented at the Conference of the American Sociological Association) ERIKSON. História da ação popular: da Juc ao PCdoB. ARANTES. New York: Oxford University Press. (1952) [1928]. como parte de um dialogo interno — às vezes doloroso — decorrente das mudanças no Leste Europeu. especialmente entre jovens recebendo suas primeiras experiências formativas na esfera pública. 1986. Movimento Estudantil e Ditatadura Militar: 1964-1968. (1992). (1994). (1995). São Paulo: Alfa-Omega. American Sociological Review. 26. A participação dos excluídos. (1994). (1993).” American Journal of Sociology. 56. Marialice. Luiz A. Community. Chicago: University of Chicago Press. A universidade crítica. W. and agency. New York: W. __________. LIMA. (1987). (1993). and Insurrection in Paris from 1848 to the Commune. 99:6. MISCHE. Structural Holes: The Social Structure of Competition. P. Rio de Janeiro: Vozes. GOODWIN. Campinas. contribuindo tanto para a mobilização da ação coletiva. Ann. Eunice Ribeiro. American Journal of Sociology. Porém. Keckemeti). (1991). Se ele foi usado por diversas forças políticas. Os “Carecas do Subúrbio”. Universidade de São Paulo. (1968). SAMPAIO. São Paulo: Companhia Editora Nacional. São Paulo: Hucitec. Freedom Summer. CARDOSO. Helena. 1871. Mustafa. (1992). Rio de Janeiro: Francisco Alves. 58. DURHAM. São Paulo: Fundação Carlos Chagas. Roger. In: Essays on the Sociology of Knowledge (trans. August 5-9 1994. Erik. __________. Cadernos de Pesquisa. Identity: Youth and Crisis. Dissertação (Mestrado em Sociologia). (1977). CUNHA. Cambridge: Harvard University Press. MARTINS FILHO. Aldo. Ruth. João Roberto. Nesse processo.De estudantes a cidadãos tecendo havia algum tempo. GOULD. MANNHEIM. 92. (1983). Jeff. Norton. a inflexão de múltiplos projetos-emformação no universalismo ambíguo de cidadania serviu para criar pontes — pelo menos momentaneamente — entre as redes densas dos militantes e as redes juvenis mais dispersas. Teoria e Pesquisa. Referências bibliográficas ABRAMO. “Recruitment to High Risk Activism: the Case of Freedom Summer. Doug. BURT. 10. quanto para as interpretações subsequentes dessa ação no debate público. Ronald. MADEIRA. __________. Revista Brasileira de Ciências Sociais. ele também se aproveitou de uma dinâmica que lançou aprendizados sociais em vários sentidos. criou-se a possibilidade de uma refocalização de discursos políticos no sentido mais abrangente de cidadania. The problem of generations. Estudantes universitários e o trabalho. EMIRBAYER. Márcia Regina. Insurgent identities: Class. (1994). a alta visibilidade de Lindberg. (1988). criou um círculo multivalente de reconhecimento. e a incorporação desse discurso aos estilos emergentes de participação.

(1986). identity and social history. Redes de Jovens. Luis Alberto Gomez de. Alessandro. Cambridge: Cambridge University Press. (1984). Cambridge. 5:1-2. Teoria e Debate. (1994). Johnston. In: FOXLEY. BERKOWITZ. (1992). SPOSITO. O’DONNELL.). S. (1996b).. (1988). A sociabilidade juvenil e a rua: novos conflitos e ação coletiva na cidade. Identity and control. Citizenship. Development. Charles (ed). SOUZA. (1994). PIZZORNO. SAMPAIO. Tempo Social. B.Ann Mische MELUCCI. __________. Projecting democracy: the formation of citizenship across youth networks in Brazil. __________.). (eds. democracy. H. (1996a). M.). Social Movements and Culture. G. In:. O marketing do ensino superior no Brasil.D. Klandermans. (s.. 150 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . (eds. WELLMAN. (1995). Ann.. In: TILLY. Some other kind of otherness: a critique of rational choice theories. and the art of trespassing. Harrison. UK: Cambridge University Press. (eds. Barry. Notre Dame: University of Notre Dame Press. Princeton: Princeton University Press. Revista de Sociologia da Universidade de São Paulo. Petrópolis: Vozes. Sociabilidade dos jovens universitários. A. 31. McPHERSON. Marília Pontes. Minneapolis: University of Minnesota Press.d). WHITE. (Texto para discussão). Alberto. MISCHE. The process of collective identity. Texto preparado para ANPOCS. A JUC: os estudantes católicos e a política. Social structure:a network approach. Helena.

engajada e politizada. todas as idades. ou ainda a necessidade de se tomar parte e se colocar na sociedade —. antecipação do futuro. que não tinham há vinte anos atrás. sofreriam mais marcadamente. mas têm indubitavelmente. L’Engagement Politique: déclin ou mutation? Paris: Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques. as condições da aceitabilidade ou da rejeição do sistema político vigente.-L. a partir dos próprios pressupostos que fundamentam sua identidade e sua especificidade — entre outras coisas. Em- Revista Brasileira de Educação 151 . Em todos os tempos e em todos os lugares. Os jovens. 1990. 1992). 1991). em primeira linha. o diagnóstico do relacionamento dos jovens com a política suscita de uma forma muito particular o interesse e a curiosidade. os traços de uma política de aparência distorcida. um após outro. os poderes institucionais. 1926). a juventude cristalizaria. eles frisam.Jovens dos anos noventa À procura de uma política sem “rótulos” Anne Müxel Centre d’Étude de la Vie Politique Française (CNRS-FNSP) Tradução de Ines Rosa Bueno Publicado em: PERRINEAU. Missika.). reais e simbólicos. J. sobre a base da crise econômica. e solicita com abundância os discursos sábios assim como os discursos comuns. de transmitir para as novas gerações. e finalmente de uma juventude “realista”e “pragmática” que dominou em seguida até os dias de hoje. o retrato de uma geração em revolta. faz uns trinta anos que os diagnósticos são mais ou menos otimistas. nos anos sessenta. Pascal (org. Vedel. Em relação aos jovens. As constatações sobre a “crise da representação política”. Reflexo e espelho e ao mesmo tempo. assim como sobre a decomposição do sistema e a necessidade de sua “recomposição” são abundantes (Cevipof. a força de suas motivações. sobre a demanda crescente de uma “nova política”. as mesmas constatações tocam o conjunto da sociedade. todas as categorias de população. ao mesmo tempo. Não são novos (G. 1994. um relevo e uma acuidade. mais ou menos pessimistas de acordo com os momentos. hoje em dia. a inocência da mocidade. esta interrogação levaria à necessidade e. Pois. a exigência das suas expectativas e de suas aspirações. O estado de saúde de um sistema político e de uma organização social depende disso. Percheron. como um tipo de “espelho agigantador” (A. que instauram e legitimam o político. depois “apática” e “despolitizada”no decorrer dos anos setenta até os finais dos anos oitenta. um episódio marcado pelo recuo e a frieza antes do ressurgimento de uma geração “moral” na época do movimento colegial-estudante de 1986. à dificuldade. Fundamentalmente.

de certa forma. o tipo de orientação e de filiação partidária. a metade deles assalariada e o resto estudantes. a partir de uma instrução não direcionada e muito ampla: “Gostaria que falássemos do que a política representa para você. exceto no período de co-habitação do qual guardam basicamente uma lembrança de uma potencialidade de renovação política que não vingou.Anne Müxel bora seja preciso tomar cuidado com generalizações e clichés que são a receita das manchetes de jornais nesta área. como pudemos observá-lo. à profunda mudança política que representa a chegada da esquerda ao poder. Segundo as famílias. 1990. são objeto de muitas estórias e anedotas e fornecem uma primeira estruturação ao quadro de sua socialização política. estas paisagens políticas. A aparição progressiva. A sua entrada no cenário político. não sem reticência e ambigüidade. a partir de fragmentos de histórias de vida. Tal é o contexto em que cresceram estes jovens de 23-24 anos de idade. assalariados. Os jovens de quem falaremos. coletamos umas trinta entrevistas aprofundadas. Elas revelam as condições de sua socialização política assim como os métodos de estruturação de sua identidade política nos tempos de juventude. para cobrir uma diversidade de classes sociais. em relação à nossa problemática de análise: critérios sociológicos. Nesta correria. estas representações sucessivas são indicadores. A amostra se divide em metade de estudantes e de assalariados em empregos mais ou menos estáveis. só conheceram a esquerda no poder. O painel constituido contem hoje 11200 jovens de 23-24 anos. Ele permite seguir a evolução das primeiras escolhas. por volta de sete anos). ainda estudantes ou na véspera de sua entrada na vida ativa. é a lembrança mais frequentemente mobilizada na memória política. de nível de estudos e de situação em relação ao emprego. é para a maioria deles. Müxel. senão novas. isto para apanhar as formas de passagem do estado de cidadão de direito ao estado de cidadão ativo. 1992)1. março 1992 e março 1993. não só entre os jovens em questão. março 1989. mas também de critérios políticos tais como os seus niveis de interesse pela política. etapa inaugural de sua entrada “oficial” na política. a maoria deles vivendo em região parisiense. os prazeres e os medos que se lhe sucederam. visando estabelecer as condições de sua inserção social e de sua experiência existencial do tempo de juventude. maio 1988. A entrevista tinha duas partes: uma primeira parte que solicitava uma história de vida. Os 31 jovens do painel com quem foram realizadas as entrevistas aprofundadas que representam o lado qualitativo desta pesquisa foram escolhidos em função de um certo número de critérios pertinentes. ou seja. tecnologicamente mágica — como se costuma dizer — do rosto de Mitterrand nas telas de televisão.2 O período de observação fixado pelo protocolo da pesquisa quantitativa é relativamente longo (entre 18 e 25 anos. morando na região parisiense. Até hoje. a oportunidade de seu primeiro voto é dada quando da eleição presidencial de maio de 1988. no início de sua adolescência. assim como o dia suplementar de férias dado pelo presidente aos alunos. assiste. inesperada: é a greve no colégio em novembro-dezembro 1986 e a experiência de uma comunidade de interesses intermediada pela primeira vez. atravessaram. A maioria tendo nascido em 1968. a diversidade de suas trajetórias sociais e familiares. cinco levas de pesquisa foram realizadas: novembro-dezembro 1986. medir sua durabilidade assim como sua estabilidae no tempo. da qualidade dos laços entre os cidadãos e a política assim como dos interesses dominantes que estão em jogo na sociedade.” 2 1 152 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . pela política e. relatando. De lá para cá. uma segunda parte centrada nas atitudes e comportamentos diante da política. da política? Será que os hábitos e os comportamentos até então vigentes são substituidos por exigências e práticas próprias da geração ascendente dos cidadãos de hoje? No quadro de uma pesquisa longitudinal que vimos realizando há cinco anos sobre as condições da entrada na política de uma mesmo coorte de jovens (A. Será que as percepções das características do sistema político atual estão acompanhadas de representações. pelo menos diferentes. quando da efervescência revolucionária que tocava a geração de seus pais.

a perda de confiança dos cidadãos para com estes representantes e contribuiram fortemente para uma impressão de nojo. diz um outro. é inútil” ou ainda “Quer seja um governo ou outro. Esta perda generalizada de credibilidade estabelece um tipo de ruptura nos laços que podem unir os jovens ao mundo político. esta se encontra re- duzida ao jogo das divisões internas. A política “domínio das pessoas sem escrúpulos”. A ruptura é denunciada em vários níveis. muito particularmente. como se pode ver diariamente. Os políticos não são suficientemente próximos dos “problemas concretos das pessoas” e são suspeitos. antes de qualquer outra perspectiva. Como disse um dos nossos entrevistados: “Há mais respeito em uma luta de boxe do que na política!” Finalmente. Esta queixa. A sofisticação dos debates e das clivagens políticas. Uma ruptura entre dois mundos: “Temos a impressão que o mundo político é um mundo que não é o mundo em que vivemos”. mal relatada e portanto mal-compreendida”. de esquerda ou sem orientação política definida. os escândalos políticos e financeiros que agitaram o país nestes últimos anos exacerbaram. não vem apenas dos simpatizantes da esquerda. é vivamente expressa. de nem poder compreender e apreendê-los. A homogeneidade dos argumentos é impressionante. a própria idéia de eficácia ou de projeto políticos. voltam como leitmotivs nos discursos. A própria classe política é responsável por essa situação. não inspira um sentimento de aprovação. “Eles governam para eles mesmos sem pensar nas consequências que esta situação pode provocar”. tanto pelos estudantes como pelos assalariados. pelos jovens sejam eles diplomados ou não. é normal que hoje. ou ainda esta: “Não entendo bem o que eles querem. Como se esta retórica do desencanto servisse para alimentar a suspeita de mentira da qual a política é tão frequentemente acusada e para manter um relacionamento desiludido e distanciado para com esta: “As pessoas foram ludibriadas. disse um. condenam qualquer perspectiva de autenticidade política. Os discursos se alimentam de uma mesma briga e têm como alvo um certo número de reivindicações que questionam a natureza das relações entre o cidadão de base com o mundo político.Jovens dos anos noventa A política “desmascarada” rejeição. mantém uma impressão de confusão. ligada às próprias orientações políticas do partido socialista. cada vez mais complicados para se compreender e decodificar. Ela define uma argumentação principal a partir de três tipos de denúncias: Primeiro. Além disso. por causa dos privilégios de que dispõem. nada mudou”. das alianças e dos oportunismos. Por isto mesmo.’” Este sentimento de uma competência política falimentar é Revista Brasileira de Educação 153 . — as brigas politiqueiras despojam a política de seus conteúdos e de seus projetos. de direita. levando à falência. A constatação é unânime. elas sintam um certo desdém” ou “prometer coisas sabendo que não se poderá cumprí-las. os desvios dos homens e das instituições são denunciados com a mesma força de convicção. dos “fantoches” e do dinheiro. Este é percebido como um mundo “paralelo”que suscita cada vez mais incompreensão e em relação ao qual eles têm cada vez mais dificuldade de se identificar e se situar. A crise da representação política se impõe pelo seu caráter evidente. imagens negativas. A política está posta à prova dos fatos. A rejeição da política. Em relação à política. As maracutaias financeiras. distância e perda de credibilidade A evocação da palavra “política” suscita. A perda de credibilidade das personalidades assim como das instituições é um elemento recorrente do conjunto dos discursos. cultivada pela mediatização dos shows políticos. além das ambições pessoais e os arrivismos de todos os tipos dos políticos. não entendo bem o que eles dizem. disse uma estudante. A política é “mal explicada. eu me sinto ‘pequenininha. a das promessas não cumpridas pela esquerda e do “desencanto” duramente sentido que se sucedeu. mas manifesta também nos discursos dos jovens que se colocam à direita ou se situam fora de quaisquer amarras partidárias. o jovens têm o sentimento de dispor de poucas chaves para compreender a atual situação política.

É sem dúvida. não desistiu de sua panóplia de ilusões. Lá se percebe notadamente a confirmação de certas predições sobre a evolução da participação política. eles pensam demais em suas viagens. Esta geração crítica da política e. eu acho genial que todo o mundo se mobilize. se manter a par e não há nada particularmente motivador para fazê-lo. nos matamos dando um duro. mais o reflexo da complexificação dos interesses políticos do que uma diminuição do conhecimento político em si3 . 154 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .Anne Müxel amplamente difundido. será que encontramos sugestões e até mesmo referentes sobre o que deveria ser a política? Dito de outra maneira. É preciso fazer um esforço para seguir. entretanto. com eventuais acentos de protesto. “as idéias. a mundialização dos problemas. em suas quotas de popularidade. Nós. tecnológico. 1986) ou ainda para movimentos políticos tradicionalmente anarquizantes ou contestatórios. A lista dos remédios está feita. A política seria um “disfarce”. a política é irreal em relação a tudo isto. estando a realidade na vida econômica. a construção européia. A política. de uma ausência de controle. os adultos de amanhã. será que a visão da política dos jovens deve permanecer nesse patamar? Em contraponto a um questionamento tão radical e tão desesperado. como percebida e julgada hoje em dia não evoca imagens positivas e poucas apreciações nuançadas. Mas o que é indubitavelmente novo em relação a tempos idos é encontrá-los partilhados de forma tão consensual pelas classes de idade mais novas. o que irão eles reconstruir no lugar? Em busca de um “novo” repertório político Quando esta mesma pergunta lhes é dirigida. Sem esquecer o trabalho científico.. Um estudante. a constatação não é anódina. não é forçosamente novo. expert em contabilidade) o que se coloca na frente para esconder o dinheiro”. uma elite que entra na política. O dia a dia das pessoas se tece fora das políticas e. Desiludida e cínica antes da idade. em outras instâncias. os argumentos aqui usados serviram de retórica para outros tipos de discurso a certas corporações profissionais conhecidas pelas suas visões reivindicatórias. Quando a gente vê os teletons na tevê.” (jovem substituto. por outro lado. Da parte dos novos eleitores. como por exemplo. e mais geralmente. o pessimismo rigoroso sobre a eficácia e a legitimidade da política atual difere singularmente das expectativas fortes e ambiciosas que se expressam para com ela. Acrescente-se a isto a impostura denunciada por alguns de uma política cada vez mais “pré-fabricada” obedecendo à lógica do marketing e da quota de popularidade nas pesquisas de opinião.. em uma seção comercial de um IUT (Institut Universitaire de Technologie). a política vive para si mesma. dificilmente suspeita de irrealismo. no trabalho das pessoas mesmas. sobre a emer- Último tipo de constatação para fechar este dignóstico: não é menos em termos políticos do que em termos econômicos que se jogam os verdadeiros interesses da sociedade. os artesãos e os pequenos comerciantes (Mayer. 3 Os trabalhos de Annick Percheron (1989. eles estão muito longe. de domínio sobre a realidade política assim como sobre as decisões dos governantes. 1991) mos- traram um crescimento dos conhecimentos políticos ds crianças e dos jovens nesses vinte últimos anos. declara ter se distanciado da política depois de um curso de comunicação que apresenta as técnicas de fabricação dos discursos dos políticos. O conjunto deste discurso de negação da política. se eles desconstróem. não sem algum surto de idealismo nas expectativas da política. Finalmente. Mas isso vem dos governantes. A primazia da economia. “São só faladores. e em uma interpretação tão unívoca. como uma torre de marfim superprotegida. esta política “distante” e excludente desemboca no sentimento de uma impotência. Em outros tempos. as leis da finança internacional relativizam de fato a autonomia do político e seus meios de ação. fechada em suas próprias lógicas.

Outros recursos podem ser usados para alimentar e substituir a atividade política. estabelecendo um laço muito direto com novos imperativos morais. deveria criar um ambiente para tirar idéias de tudo quanto é lugar para poder fazer avançar. Eu vejo a política um pouco assim. vai permitir e fazer progredir seu objetivo. feitos. Previamente. R. instaurando uma reapropriação pelo consumidor da base das suas mensagens.. por novos interesses. Para aplicá-lo. Vem em seguida a necessidade de uma reconciliação entre os imperativos econômicos e os imperativos comandados por aquilo que poderiamos definir como “um humanismo de bom senso”. a arte e a cultura: “Os políticos não podem responder a todas as expectativas.). a cultura. “e mais profundidade”. como os avalistas e substitutos na transmissão de um certo número de marcas e de referências a serviço. é preciso “convergir antes que divergir. M. se unir antes que se diferenciar”. as idéias. e implicando. 1979.”A idéia de uma política “interativa” está emitida. É exatamente o que penso da política: per- Revista Brasileira de Educação 155 . sustentadas pelas clivagens ideológicas tradicionais e por amarras partidárias que delas decorriam. Podemos chegar a muito mais coisas com a educação. de “dar uma impressão de verdade”.. A política é muitas vezes bloqueada por contingências materiais da economia. um reforço da democracia direta é muito vivamente reclamado. mas também porque são fatores que alimentam as brigas e impasses e dos quais os jovens querem livrar o sistema político. É preciso que reflitam sobre os problemas da sociedade.” O “programa” é ambicioso. atingir sua meta. Como disse um deles. Barnes. e assim mesmo constituiria um tipo de “esqueleto” moral da sociedade. Há pessoas que respondem muito mais nos seus escritos. além de levar em conta aquelas que ele pode emitir em retorno: “Outro dia. dando-lhe substância. o indivíduo na coletividade (H. Os cidadãos devem ser consultados. o que confirma a necessidade de aproximação entre o mundo político e a população. assim como da propaganda que deve encontrar novas lógicas de comunicação. Mas não se trata mais das idéias políticas de antigamente. também. levantando o desafio de “pensar nas pessoas e na economia ao mesmo tempo. para que funcione. por exemplo. A política seria a interface destes dois tipos de exigência. do político. às vésperas de se tornar professor em um colégio: A política. uma melhor difusão da informação fazem. no que se cria. Tal poderia ser a palavra de ordem de uma nova ética política.” Uma melhor comunicação entre as pessoas. Agora. Finalmente. Inglehart. 1977. notadamente por via da instrução cívica ou mesmo das aulas de moral na escola. citadas em exemplos do passado. é preciso que as pessoas tenham respeito (. mesmo indiretamente. levados em conta nas decisões: “Eu sou a favor das pessoas tomarem conta delas mesmas. os projetos devem se abrigar novamente a política. parte das novas expectativas em relação ao político. uma “glasnost” que seria aplicada a nosso país. Os rótulos são rejeitados não somente em nome da sua obsolescência. um pouco como uma empresa que tem um patrão e que vai se cercando de colaboradores e de empregados que. É preciso apelar mais para a competência e para a boa vontade do que para a ideologia política. a necessidade de uma moralização da política se impõe: a necessidade de transparência. A educação é muitas vezes invocada.Jovens dos anos noventa gência de novas formas de cidadania e sobre a diversificação dos modos de ação da política. Séguela dizia que o futuro da propaganda era a propaganda interativa. Kaase et al. A caricatura desta nova ordem política está contida nas seguintes palavras: A política. e até mesmo uma “objetividade” nos dossiês tratados. cada um na sua individualidade e seu trabalho. tantas expressões da vontade dos jovens de depurar a política para se reconciliar com ela e voltar a lhe devolver a sua credibilidade e legitimidade. Reconhece-se neles valores pós-materialistas. “mais amor”. 1990). canções. a emergência de se encontrar uma “dignidade” no debate político. As idéias são “desideologizadas” em nome da eficácia e da competência políticas.

Esta evolução acontece no sentido de uma menor legibilidade das clivagens entre a esquerda e a direita e de um recuo do sentimento de pertencimento. a política serviria o sonho de uma comunicação verdadeira entre todos e entre todas. É bom observar que as casas nos extremos nunca são ocupadas. sete na casa central. o sentido e o significado de seu posicionamento. a se colocar entre a esquerda e a direita. certas categorias sociais. Resta saber entre a maioria dos que se posicionam. dois entre as posições 2 e 3. Em 1991. eminentemente “democrático”. Mas se as identificações à esquerda ou à direi- Citaremos Max Kaase e Samuel H. um aumento bastante importante do número de pessoas para quem a distinção entre esquerda e direita não fazia mais tanto sentido. Tomadas de decisão se tornarão mais difíceis em razão da participação ampliada dos cidadãos” (p. 6 156 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . a proporção só era de 20% (R. contamos as classificações seguintes no seio de nossa amostra: dois jovens se colocam na posição 2. põe em causa a dimensão elitista da política. ou até mesmo em função de comunidades de interesses individuais 5. cada vez mais orientada por ações pontuais e objetivadas. em 1981. mesmo entre os mais novos. Será isto válido. quais referências poderão eles mobilizar? A contribuição das entrevistas qualitativas permite levar um pouco mais adiante esta reflexão e revela constatações onde se misturam confusão e paradoxos. cinco na posição 3. (Tradução do revisor) 5 4 Na escala esquerda-direita em sete pontos. no respeito às diferenças das culturas e das individualidades. só 33% aqueles que compartilhavam da mesma opinião. Esta visão de um espaço político ampliado. 55% dos franceses estimavam que a distinção esquerda-direita está ultrapassada para julgar as tomadas de posição política. na conclusão de sua obra. três entre as posições 4 e 5. redefinem as condições de restauração entre os jovens cidadãos e a política. tantas palavras de ordem que.) crescentemene variáveis e pluralistas. cinco na posição 5 e três na posição 6. coesão antes que coerção. 6). Ele mobiliza referentes “de alto nível” e lança mão dos imperativos que anunciam talvez as condições de emergência de uma “nova moral política”: dignidade e transparência. A nebulosa esquerda-direita: formas vazias de filiação As pesquisas de opinão revelavam. hierárquicas e abrangentes (. 1990). explica um jovem adido comercial. há dez anos. 1992). Supõe uma intensificação da participação. Michelat. em 1981. comunicação e reforço da democracia. perto de um terço da população (30%) se recusa hoje. Os trabalhos de Guy Michelat mostram que a existência de uma coerência e de uma correspondência entre as posições no eixo esquerdadireita e as dimensões do universo sóciopolítico permanecem globalmente verificadas (G. cujos referentes nesta área não podem ser tão estruturados quanto os das gerações anteriores? Só tendo conhecido a esquerda no poder. de seus atores. Um espaço político concebido como “grandes orelhas” onde se expressariam ao mesmo tempo que seriam canalizadas todas as tendências da sociedade. Cayrol. reapropriado e habitado por uma diversidade de tendências e de interesses. as posições sociais das elites vão se tornar cada vez menos permanentes. por detrás de seu idealismo aparente.. além de se tratar de uma esquerda cujas distinções próprias foram se confundindo.Anne Müxel mitir a volta de uma opinião vai fazer evoluir as coisas”. (Tradução do revisor) Ronald Inglehart (1990) prevê uma mudança dos modos de participação política: “um declínio da mobilização política dirigida pelas elites e um crescimento de grupos orientados por questões contestatórias”(p. unidade e respeito das diferenças.. partindo da esquerda para a direita. Resumindo. assim como dos seus modos de ação 4. os dominantes e os dominados. Barnes (1979) que. em nível local ou em escala planetária. 531). Todos os jovens que interrogamos exceto um adotam uma classificação na escala esquerda-direita6. O nível de exigência que transparece neste “repertório” das expectativas em relação à política está alto. fazem a seguinte observação: “No futuro. de acordo com os interesses específicos de certos grupos.

por exemplo) do que entre os jovens cuja orientação é mais determinada. da base ao cume da pirâmide política! Se a esquerda e a direita são muitas das vezes colocadas no mesmo pé de igualdade. mas um papel muito eficaz na construção da identidade política dos jovens de hoje em dia. os discursos que elas suscitam só encontram poucas referências sólidas na própria realidade da relação de forças políticas. o limiar de “perigo” político e uma exposição da democracia ao perigo. não entre todos. infra. enquanto que os interesses políticos da esquerda são mais percebidos como. desempenha nisto um papel de repelente. as únicas verdadeiras balizas que delimitam o campo político. não é mais reivindicada. a mais engajada da nossa amostra. nem mesmo compreeender realmente as razões de sua escolha. quer se esteja reconhecidamente filiado à esquerda ou à direita. 1992). A distinção entre a esquerda e a direita. a confusão reina. Os interesses políticos da direita dizem respeito sobretudo ao país e a situação econômica. por exemplo. à ordem e à performance econômica. conosco então. Extremos contra os quais é preciso se garantir e se proteger. espantosamente pobres sobre este assunto. no quadro de uma pesquisa similar. Há uns vinte anos atrás. teriamos aparentemente encontrado discursos mais estruturados ideologicamente. com a sua credibilidade recíproca posta em perigo. A Frente Nacional (Front National). em absoluto. os dis- cursos permanecem. Apesar das diferenças apontadas graças à insistência muito particular do entrevistador. Concebida como mais “indulgente”. apenas algumas referências mínimas continuam sendo usadas para delimitar a esquerda e a direita. não adianta. tocantes aos indivíduos e suas condições de vida. para reconhecer o que os diferencia. no conjunto. Müxel. A interpretação que se dá do apagar Reportar-se à contribuição de Nonna Mayer: “A mobilização anti-Front National”. Neste marasmo geral. As palavras desta jovem simpatizante comunista. esta visão embaçada e turva das clivagens ideológicas não aparece mais marcadamente naqueles que não confessam nenhuma filiação particular (os que se colocam na posição central da escala. a receita. não sei se isso é possível”. ao “capitalismo” — a palavra ainda é usada —. mas certamente de alguns. Entretanto. ela é instrumentalizada em um duplo discurso relativamente ambíguo e contraditório. exceto alguns raros indivíduos mais engajados que evocam com fé a “missão social” que cabe a eles. o que resume muito bem um deles (“sou de direita porque sou contra a esquerda”). embora sempre suscite a idéia de dois campos opostos. a ausência total deste tipo de discurso é reveladora da mudança que ocorreu. Além destes extremos. e seus pertencimentos fragilizados. Aliás. e coletado pedaços inteiros de retórica doutrinária ou profissões de fé políticas. que muitas vezes designam para eles. mas de uma maneira formal ou virtual do que real.Jovens dos anos noventa ta sempre acontecem (A. mas extremos dos quais eles têm a impressão que são as únicas posições políticas a partir das quais se estrutura o debate político atual. Os discursos políticos não são. Por seu lado.” Este sentimento de diluição das referências é compartilhado. Para a primeira são reservados o campo da ação social. prioritariamente. Hoje em dia. única referência forte em relação à qual eles podem se situar e existe uma posição real a tomar7. dispensam comentários: “Sou comunista com referências capitalistas”. é claro. Sem dúvida. o “tomar partido” das pessoas comuns e a defesa dos pobres. em contrapartida. com uma “barragem”entre os dois. a situação está muito instável. uma aceitação mais popular. elas parecem funcionar como formas vazias de filiação. 7 Revista Brasileira de Educação 157 . são os “extremos”. Por enquanto até eles estão perdidos. facilmente identificáveis e identificadas pelos jovens. disse um deles. mais “conciliante”. A observação seguinte é exemplar: “Muita coisa está acontecendo. a direita é associada ao “liberalismo”. é também suspeita de impostura: “ser de esquerda e viver em bairros bonitos. a instauração de mais igualdade. mas sem poder ir muito longe em sua argumentação. Geralmente as representações da esquerda não vão além da lembrança destes poucos princípios.

uma verdadeira via de reconstrução do político. eloqüente: 158 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . a direita e o centro. eleitor do PS ou dos comunistas renovadores e que reivindica porém. 1990). com o risco de perder a própria essência da política. tornam possível a crença nesta evolução. por detrás das suas palavras. e fazer um conjunto que seja o mais homogêneo possível. Hoje em dia. e isto. é bom. se subentende uma demanda por clarificação dos interesses reais da política. portanto. ao mesmo tempo.Anne Müxel das marcas ideológicas esquerda-direita revela um tipo de duplo constrangimento em que seu raciocínio está envolvido — à maneira do sistema “double bind” descrito pelos interacionistas sistêmicos americanos8 —. a primazia da eficácia e da competênca objetiva sobre as querelas ideológicas. a não ser por uma total redistribuição das cartas políticas. Um jovem estudante de direito. a gente vai à direita. uma maior legibilidade de seus conteúdos e de suas referências e a anulação da dependência destes últimos em relação às grandes clivagens políticas tradicionais. que acaba de conseguir um diploma comercial: “É preciso estar no centro das idéias. Tomar o que há de bom à esquerda e à direita. segundo eles. Eu não digo que isto é algo desejável. Como o disse um deles. a gente vê como a política se define: a gente vai à esquerda. Ainda existem diferenças entre a esquerda e a direita. 8 Novos valores fundamentam outras clivagens a respeito das quais as palavras de ordem tradicionais não funcionam mais. As expectativas em relação à política pedem portanto. e isto quaisquer que sejam as filiações políticas (R. De um lado. havia realmente mais disparidades. Balladur mostrou que ele podia ser social sendo de direita. em um primeiro momento. Reportar-se aos trabalhos da escola de Palo Alto. Se isto pode se nivelar. ao mesmo tempo. ele designa também hoje em dia. que possa fazer avançar. colocando o indivíduo diante da impossibilidade de responder a duas injunções contraditórias. A ilustração que propõe um jovem estudante das Belas-Artes. a rejeição do conflito. na ala mais à esquerda da movimentação socialista. um engajamento quase militante. Chevènement mostra que o patriotismo pode ser de esquerda. Ou ainda: Não vejo a política como uma separação: a esquerda. o desejo do consenso se impôs por meio das próprias circunstâncias da conjuntura política. eu acredito que em termos históricos. fiadora da liberdade. a gente vira e depois vê no que é que dá! Por outro lado. São todos homens que fazem alguma coisa e eu os julgo mais pelos seus atos do que pelas filiações políticas.” As clivagens políticas se estabelecem doravante menos no conflito entre as classes ou os grupos sociais. é deste ponto de vista. apresentados na obra. Eles sentem falta de um tipo de idade mítica ultrapassada em que as referências existiam e onde lhes parecia forçosamente mais fácil se determinar e decodificar as lógicas políticas: Mesmo que eu não tenha vivido e que tenha. dificuldade para falar a respeito. O desejo de autonomia individual vem se interpor entre a demanda de controle e de planejamento do Estado e a economia de mercado. A vontade geral de consenso revela uma evolução profunda da cultura política no sentido. sem filiação política definida. Um duplo constrangimento difícil de se reconciliar. Inglehart. arbitrados até então pelos partidos tradicionais de direita e de esquerda. Chegaremos lá. por todos os lados. dirigido por Paul Watzlawick e John Weakland (1977). declara assim: Não se pode mais cair na facilidade de pensar que as coisas caridosas são o apanágio da esquerda e que o patriotismo intransigente é o apanágio da direita. Se. de uma homogeneização de suas expectativas e de uma diversificação de seus interesses.

A consideração que eles dão ao direito de voto se reveste de uma dimensão simbó- Eleição presidencial de maio 1988. os jovens se determinam para decidir as suas escolhas? Trajetórias de voto: “moderato cantabile” A memória eleitoral parece espantosamente fraca. Nós temos este direito mas ao invés de aproveitá-lo. que representa o primeiro voto da maioria dos jovens interrogados. A gente se sente integrado na sociedade. as eleições municipais de março de 1989. A abertura. e sobretudo o livre arbítrio permanecem as condições de expressão das escolhas políticas. A gente se sente inserido com as pessoas que votam pelo mesmo candidato. mais ou menos constantes. até entre os jovens cujas orientações ideológicas são mais definidas. mesmo que a esquerda e a direita estejam bem diferenciadas. O período é. resulta de um tipo de “participação negativa”. é considerado como uma passagem significativa para a entrada na vida de adulto (A. O primeiro voto é muitas vezes investido de um entusiasmo e de um sentimento de poder: “Era excitante se encontrar no meio dos adultos. as eleições legislativas de junho de1988. se revelam vários itinerários. Nesta nebulosa esquerda-direita. entretanto. e cobre seis eleições9 . nem sempre fáceis de serem decifrados e interpretados. curto. eu vou votar para a política que vai recuperar estes 1000F. Entretanto. cinco anos. se eu trabalhar e o meu patrão se esquecer de me pagar 1000F. Eles permitem entender um certo número de configurações reveladoras do relacionamento dos jovens com a política. constitui a referência mais confiável. Dois outros tipos de trajeto são particularmente significativos da sensibilidade eleitoral atual. 1990). nós não estamos nem aí. a eventualidade de uma mudança de campo se torna possível. mas também os votos bran- Revista Brasileira de Educação 159 . as poucas flutuações observadas permanecem moderadas e se explicam sobretudo pelas condições da oferta política ou pela tentação de uma hora para outra pelo voto ecologista. isto é. Francamente. Ele junta os abstencionistas. Neste caso. Tem países onde se briga para conseguir o voto. duvidar de sua capacidade para fixar amarras fiéis e duradouras a partir de uma concepção dessas. as outras eleições são dificilmente citadas e precisam da intervenção do entrevistador para que sejam lembrados os interesses e o contexto da época. mais de um terço dos jovens se destacam por um comportamento relativamente constante no seio de uma constelação política determinada.Jovens dos anos noventa Se eu jogar na raspadinha e ganhar 1 milhão. O primeiro. Se a eleição presidencial de maio 1988. 9 lica particular: o fato de votar. então. e de sua evolução nos últimos quatro anos. desde a reeleição de François Mitterand em 1988. Entre eles. elas só raramente revestem um caráter definitivo.” Até os que se declaram abstencionistas ou desistiram da política demostram muitas vezes um sentimento de trair um direito e também um dever. de que influências. Mesmo que as escolhas não se confirmem sempre com muita convicção. mesmo no caso destas trajetórias e votos. Deste calendário eleitoral retraçado passo a passo. e finalmente as eleições regionais e cantonais de março de 1992. o referendo para a Nova-Caledônia de outubro de 1988. como é que são. podemos. arbitradas as escolhas eleitorais? Neste contexto. Por outro lado. a fluidez da adesão. o que significa o voto dos recém chegados na política? A partir de que dados. Esta falha de memória destoa da importância que a maioria dos jovens dá ao direito de votar: “Mas mesmo que precise votar em branco. sempre votarei. de expressar a legitimidade de suas escolhas. Müxel. Quando as filiações são reconhecidas. fico danado quando sei que alguém vai ser eleito com 70% dos votos”. cuja sucessão das escolhas expressa uma certa determinação assim como uma relativa estabilidade. não obstante. mais ou menos um quarto dos jovens entrevistados. as eleições européias de junho de 1989. eu vou votar para uma política que conserve meu milhão: a direita.

Eles resolvem os seus problemas entre eles mesmos. não me sinto. Votei na Simone Veil. mas “sem tomar posição”. Esta mobilidade se apresenta de duas maneiras que não têm exatamente o mesmo alcance político. feita com a coorte que seguimos há cinco anos. deu seu voto a Jacques Toubon: “Embora tenha afinidades com a esquerda.) do que uma verdadeira instabilidade. mas que. a famosa “barragem” esquerda-direita na adesão aos candidatos. Michel Noir. hoje. ter desistido: Eu tinha escolhido o Mitterrand porque estava um pouco exaltado. um jovem em três ultrapassa no momento de seus votos. me absteria.. para lhe dar voz. Os abstencionistas constantes são raros e são. Mas já que não é o caso.) E depois. sobre a mobilidade das posições na escala esquerda-direita em sete pontos ao longo dos ciclos de pesquisa. o socialismo.e Simone Veil nas eleições européias pelas suas qualidades pessoais e políticas: Quando votamos. de maneira alguma. “Eu voto na esquerda ou em branco” são observações que sempre voltam na descrição dos itinerários. me sentiria burro de ir votar estupidamente nos socialistas. os mais afastados. Em compensação. eu não me sinto envolvida. uma verdadeira instabilidade das escolhas e uma mobilidade dos votos. há uma outra família de abstencionistas que parece se impor mais ainda. Nela se expressa uma desfiliação recente e progressiva da política. mas eu acredito em alguma coisa”. Os votos em branco participam de uma mesma lógica. eles parecem mais investidos de sentido por seus usuários. Prioridade talvez dada. E muito menos votará na direita como ele faz questão de frisar. Porém. não é por causa disso que vou questionar todo o trabalho que ele fez. A menos que eu volte decididamente a ler as notícias e isto me interessar. Eles respondem a uma preocupação de se expressar. só encontramos um número muito restrito de passagens entre a esquerda e a direita (4%). De acordo com as etapas da enquete. “De canseira. se eu tivesse que votar. Há medidas que ela tomou que eu gosto. Mesmo que eles administrem o país onde moro. mais ou menos sistematizadas e racionalizadas. Na amostra. não era bem no partido dela. e a uma vontade de exercer uma pressão política.Anne Müxel cos e as desfiliações progressivas ao sabor do interesse eleitoral. “O voto em branco é a minha maneira de dizer: não acredito em Sicrano. ou Simone Veil. (. nas municipais. de fato. às qualidades pessoais de um candidato acima das orientações ideológicas ou partidárias habitualmente expressas pelo indivíduo. Um outro que trabalha com informática e votou muitas vezes no PS reconhece. não acredito em Beltrano. Ela é em geral acompanhada de identificações partidárias senão pouco afirmadas.” Na análise quantitativa. A inconstância do voto resulta muitas vezes da desilusão e do desencanto em relação à esquerda. Raymond Barre. Mas. era nela. envolvida” declara uma jovem secretária que votou em Mitterrand no primeiro turno da eleição presidencial de 1988 e depois não votou mais. sempre o mesmo contexto. Assim. é para expressar alguma coisa. Ela traduz uma verdadeira impossibilidade de saber onde se situar e como se sentir novamente envolvido. contabilizamos um número muito importante de “hesitantes” (36%) que se caraterizam por um flutuamento de suas posições devido à escolha intermitente na casa central. mas pelo menos relativamente flexíveis. mas também votou nos ecologistas. este entrevistado que votou muito mais vezes na esquerda. Lá. a mobilidade observada aparenta mais uma flutuação ligada à atração de certas políticas na movimentação do centro (entre outros.. nada se mexe. em um momento ou em outro. Primeiro caso de destaque. a rosa. estes hesitantes se colocam alterna- 160 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Eles são mais ou menos sistemáticos e são mobilizados de forma intermitente com outros votos: “Eu voto na direita ou em branco”. gilidade das identitificações partidárias. O segundo tipo de trajetória revela uma fra- Ou este outro que costuma votar no PS. afirma um jovem adido comercial... É uma boa mulher daquelas que a gente não vê muito na política.

embora o espectro do extremismo de direita ou do racismo seja assim mesmo rejeitado. da transparência. em nível da coorte. ele pode também suscitar a atração da travessia do proibido. e que todavia. geralmente próximos da direita. “passaram” à direita. por outro lado. Habert. a relativa mobilidade das trajetórias de votos. é significativa da perda de substância e de conteúdo das identificações que acontecem à esquerda e à direita. Assim. em nome da moralização. por um lado. amedrontá-los” (subentendido o resto da classe política). discutindo com um raciocínio puramente individualista e oportunista as vantagens respectivas da esquerda ou da direita de acordo com um milhão que ele pode ganhar na loto ou um litígio qualquer com seu patrão. como no passado. não é algo que se faz levianamente. A maneira como o voto Le Pen pode ser utilizado e argumentado é.” Tanto um como outro destes exemplos nos levam à dimensão protestatória do voto que também explica este tipo de comportamento eleitoral. apesar da difusão da ideologia da renúncia e do “egoismo da fatalidade”. em primeiro lugar. sua vontade de tratar os reais problemas podem ser considerados por um bom número deles (cinco ou seis) como qualidades. Ele pode ser instrumentalizado como uma ferramenta de contestação. Lancelot. sua “coragem” para dizer o que os outros não querem dizer. Formas vazias de filiação. “para agitá-la”. enuncia um tipo de exor- cização do sentimento de mal-estar que se sente tanto para com a política quanto para com a sociedade em seu conjunto. das variáveis ditas “pesadas”. O caso do jovem estudante citado anteriormente. e até mesmo do perigo. declara: “É duro ir votar. para fazer mudar as referências e os interesses da política. Além disso. Ela tem a ver com voto “estratégico” ou “racional”(P. não é só um nome que se coloca de um envelope. Certas trajetórias aparecem espantosamente movimentadas. sem por isso ultrapassar a barreira que separa os dois campos. este tipo de comportamento eleitoral fica fortemente submetido à influência tanto da conjuntura como da oferta política. — a expressão foi encontrada por um dos nossos entrevistados —. Cinco jovens declaram ter votado pelo menos uma vez em Le Pen. A tentação do voto Le Pen. A. que parecem afetar Revista Brasileira de Educação 161 . ou entre jovens que. significativa. A decalagem aparente que pode ser observada entre. tais como nós descrevemô-las anteriormente.Jovens dos anos noventa damente no centro e em uma posição de esquerda ou de direita. O falar-franco de Jean Marie Le Pen. O engajamento político. das determinações sociológicas do eleitor. é bem ilustrativo como exemplo. assim como o fraco número. deste ponto de vista. Mitterrand no segundo turno. Nos jovens cujas orientações políticas são pouco fixadas. e questiona na sua própria lógica. e “estratégia dos pequenos passos” Apesar do mal-estar do marasmo político e da instalação de uma morosidade ambiente quanto às esperanças de mudança na sociedade. e no discurso de alguns outros. toda a latitude do jogo eleitoral pode se afundar nelas. esta jovem secretária que votou FN. para “amedrontar. F. representada pela posição central (Müxel. a permanência das classificações na escala esquerda-direita. 1988) que já não depende estreitamente. e da busca por eficácia tão reclamadas hoje em dia. ou em quem o sentimento em relação à política é particularmente desabusado. são também as idéias em que acreditamos. a idéia de identificação e de laços partidários. O outro tipo de mobilidade aparece menos freqüentemente mas se mostra mais radical. Neste caso de destaque. isto pode representar uma atração. quando ela surge nos discursos. a arbitragem dos votos se faz. a eventualidade de fazê-lo um dia não é totalmente excluída. consciência planetária. das travessias de barreira mostrada pela posição central entre os dois campos e. FN nas européias e ecologista nas municipais. a partir das circunstâncias e dos interesses da vida pessoal. no primeiro turno da eleição presidencial de 1988. decepcionados com a esquerda. Se ele funciona para muitos como referência-repelente.1992).

os discursos dos jovens sobre o engajamento político revela uma vontade de implicação e um grau de consciência espantosos. que haja algo positivo e que sirva. da noção de partido. há pouco lugar nisso para o recuo “individualista”. Não existe mais esta noção de associação.” O discurso cheio de imagens deste desenhista-projetista. o que que significa. Seria no fundo “mais um engajamento para si mesmo do que para os outros”. A recusa das etiquetas. fazem rejeitar o engajamento de tipo partidário. Lipovetsky. Esta idéia de “associação” é a principal peça da sua aceitação dos modos de ação e de intervenção dos cidadãos de hoje. Além disso. portanto a própria negação da idéia de engajamento. sobre o papel dos sindicatos. os do dia a dia e também os que dizem respeito à sociedade em escala planetária. atacar por meios “concretos” os “verdadeiros” problemas. mas também. é mais objetivo. O caráter definitivo do militantismo tradicional amedronta. existe a da entidade econômica. Se eu ajudo. portanto. O engajamento deve se fazer “fora das cores políticas”. Não se trata de “mudar o mundo”. como ele é concebido hoje em dia. nem que seja através da obrigação de consciência. Ela define uma concepção depurada. esclarece um deles. ao mesmo tempo mais modesta e mais realista. cujos defeitos na vida política atual. Esta última enunciar-se-ia de um tipo de “ética de síntese que reconcilia ecologia e economia. procurando desenvolver as suas idéias e tomar o poder”. uma ampliação de um engajamento “artesanal”. este tipo de adesão não poderia escapar da luta pelo poder. sempre ativo. Nem pensar ser “revoltados”. moral e eficácia. um avanço por “passinhos”. É certo que com bemóis e nuances.Anne Müxel todo o mundo. 1992. tamanha a complexidade e a amplitude dos problemas que parecem de difícil resolução. e de toda restrição à liberdade de pen- sar ou de agir. dos restaurantes para namorados à instalação de bombas de água no Sahel. Além disso. Na noção de partido. se “desligar” de uma obrigação de consciência. eles denunciam. este tipo de engajamento apela para valores morais e se concebe como uma cadeia de solidariedade de um espaço de intervenção que pode ir da “soleira da sua porta” até os confins do outro lado do mundo. e talvez de um dever de solidariedade que correspondem bastante bem à definição que Gilles Lipovetsky dá para “cidadania planetária”. o medo da “arregimentação”. A ação no quadro dos partidos políticos é maculada com a dupla suspeita de uma ausência de autenticidade e do risco de impostura. mas de tão somente “melhorar as coisas”. são profissionais. Mas no fundo. natureza e proveito”(G. não existe mais o lado “showbizz”do sistema político que faz se avance seu personagem para introduzir suas idéias. a posibilidade de uma maior eficácia. “Nos partidos políticos. segundo os meios e as vontades de cada um. muito menos se desengajar. das brigas internas e externas do jogo partidário. Mas nada deixa transparecer nas suas palavras um recuo do terreno de ação política. Não a ação política que seria levada no quadro institucional dos partidos. gostaria que isso se visse. um laço mais estreito com os atores envolvidos e. e sobretudo invocando uma concepção do engajamento que já não tem mais muito a ver com os usos militantes do passado. O engajamento político. Eles não acreditam na possibilidade de grandes mudanças e medem os limites de eficácia das ações que eles poderiam realizar à sua altura. “anarquistas” ou “utopistas”. como dizem. a também em nome de uma moralização da política. São benévolos que pedem a outras pessoas para serem benévolas para consolar outras pessoas que sofrem. é revelador desta redefinição e desta atomização dos modos de ação: 162 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . “Engajar-se em uma associação. se constrói a partir de um discurso de dupla voz: a de um idealismo. o modelo de associação supõe um controle mais direto sobre a realidade dos problemas. qualidade e crescimento. Eles desenvolvem uma outra visão da mudança social. do assujeitamento. Sendo benévolos. mais concreto. 227). e a que inspira o realismo e a renúncia. mas uma ação política com “P” maiúsculo. p. e imaginam a generalização e a multiplicação de pequenas ações. Descrito desta forma.

A grade dos temas mobilizadores recenseados nos discursos faz aparecer a dimensão protestatória subjacente a estes modos de ação. apoiando-se em uma implicação pessoal do indivíduo. Um outro poderia fazer parte de uma associação de bairro para “ajudar as pessoas” e “lutar contra a solidão”. seja por excesso de individualismo (“A mim. Este outro ainda queria combater para a programação dos filmes em VO. Um ponto comum a todas elas. Um deles. fazer uma cadeia e fazer de tal modo que os dois campos que lutam parem. Anistia International ou os apelos do comandante Cousteau são algumas das iniciativas às quais os jovens poderiam imaginar se juntar um dia. 10 Revista Brasileira de Educação 163 . Paralelamente a este registro clássico de mobilização. Embora os jovens que se situam politicamente na movimentação da esquerda manifestem uma vontade de engajamento mais marcada que nos outros. a subida dos nacionalismos podem suscitar impulsos espontâneos particularmente determinados. seja de ganhador na loto. sim. hoje. Idealismo e utilitarismo se misturam para definir formas de engajamento mais “fraternais”. tipos de missões sociais no cotidiano. sempre o mesmo: a ausência de marca política. A Cruz Vermelha. Encontramos aí a necessidade de democracia direta mencionado anteriormente. no seu conhecimento ou na sua experiência imediata do problema. As causas pelas quais os jovens se declaram interessados e eventualmente prontos para se mobilizarem dizem respeito tanto aos interesses planetários quanto aos interesses da vida cotidiana. No final das contas. Mas não quero que estejam CGT ou FO por detrás dele. e cada vez mais administrados pela iniciativa autônoma dos indivíduos10. As grandes causas clássicas de tipo humanitário ou ecologista ocupam um espaço amplo. Uma jovem estudante de matemática. o mesmo porém que avaliava a sua escolha política em função de seus interesses próprios. É preciso também lembrar da ajuda aos doentes aidéticos.Jovens dos anos noventa Fazer um sindicato dentro das empresas. que não sejam muito grandes.” Ou deste outro. só um quarto dos jovens entrevistados descarta a perspectiva de qualquer engajamento. tão diversos quanto os problemas o são. mais centradas. dos mais graves aos anódinos. Que não haja filtro. iria à luta “para que o campo não morra. profundamente ligada à sua cidade de Aveyron. a par dos problemas. a guerra. as considerações de Samuel H.” (Tradução do revisor). aliás lembrado muitas vezes. caso Le Pen chegue ao poder. O sindicato das pessoas que têm algumas coisas em comum. Barnes e de Max Kaase que vêem. de acordo com o modelo mítico da Resistência Francesa durante a segunda guerra mundial. rua de Lyon. cada vez menos substituidos pela mediação das instituições políticas tais como os partidos. declara: “Se conseguirmos encontrar 20. o que me preocupa é a minha vida. no aumento destes modos de ação. a dos Lembraremos mais uma vez aqui. outros tipos de intervenção são imagina- dos. Quero que seja o sindicato dos Seres Humanos. que desencadeariam as motivações de seu engajamento. apaixonado por carros. nas redes públicas de televisão e nos cinemas do interior. a expressão de valores pós-materialistas que redefinem a ação política: “Eles estarão obviamente entre os primeiros a traduzir a insatisfação política em uma ação política corretiva.000 pessoas. sem esquecer a luta contra o racismo. O racismo. no trabalho. um deles. à escuta das pessoas. poderia se engajar em uma “associação da estrada”. resoluto a “entrar na guerrilha”. para “lutar contra as mortes”. que afetam a vida cotidiana dos franceses. para que o mundo rural continue a existir”. eu entro nesta na hora. Os exemplos de ação a realizar abundam e seriam. seja de explorado pelo patrão. das ações a realizar na periferia. Um micro-sindicato em uma micro-sociedade. se precisasse montar uma lista. os sindicatos ou até mesmo a representação parlamentar. Que as coisas andem mais rápido. Médicos-Sem-Fronteiras. dos direitos das mulheres. O sindicato dos locatários da 64. em torno de três quartos dos entrevistados a um momento ou outro da entrevista. A respeito das guerras étnicas.

Por este fato mesmo. mais ou menos contestatória. aliás. abaixo-assinados. em certos casos. até. perdurariam? Revelador da necessidade suplementar no campo político. em movimentos tais como SOSRacismo. um deles. Será que se encontraria. mas também um medo do combate”. mesmo em crise. A realidade dos engajamentos efetivos que podem deles resultar não é sem dúvida tão otimista. em mais ou menos grande escala. A relação dos jovens hoje. do engajamento de tipo esquerda. Raros são aqueles que. parece mais aleatória e obedece a motivações mais individualizadas. Manifestações. não se envolveram na ação coletiva. “Tenho vontade de me engajar. ela é menos fácil de localizar. Anistia International. Todos. Além deste evento maior.Anne Müxel meus amigos. mas que estaria circunscrita nesta nova ética moral “indolor”da qual fala Gilles Lipovetsky (1992)? Esta supõe ao mesmo tempo uma forte tomada de consciência dos problemas. a expressão da ideologia do engajamento que parece se difundir bastante amplamente. dada a conjuntura atual. a aderir a um movimento ou uma associação que tornaria realidade o seu engajamento. mais atomizadas. em uma ação política. O conjunto destes discursos sobre engajamento revela portanto grande disponibilidade potencial dos jovens. mas sem implicar em uma obrigação de devotamento ou de dever. defendendo sobretudo interesses categoriais. Foi a oportunidade para uma experimentação di- reta da política. dos meus pais. passagens mais ou menos duradouras. como muitos outros. — os textos atuais das canções de variedades são. sem por em causa o próprio indivíduo. se implicaram ou participaram de uma forma ou de outra. Esta deixa mais ou menos traços nos seus discursos e os interesses do movimento são decodificados e muitas vezes despojados de parte do entusiasmo e da ilusão que os animava na época. Os jovens situados à esquerda aparecem mais motivados e mais ativos do que os outros. não quero saber como vai o mundo e nem para onde ele vai”). de uma forma mais acessível. Mas há também uma certa inércia. Diversas experimentações da ação política que testemunham um engajamento relativamente consequente. Os jovens são. uma certa frieza. sob este ponto de vista. capaz de redefinir os interesses de uma “nova esquerda”? De qualquer forma. Sinal de que os traços da herança. com o engajamento. Seus territórios podem ser ao mesmo tempo muito vastos. manifestada nas palavras dos nossos entrevistados. animada dos valores morais fundamentais que são o altruismo e a tolerância. eloquentes e portadores de novos valores —. se limitando às paisagens familiares das contingências existenciais do dia 164 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Uma vontade de fazer alguma coisa. Será que grandes princípios e pequenos passos podem traçar o caminho de engajamentos reais? Se todos não estão dispostos a partir para a Somália. A mobilização política dos outros jovens que se situam à direita ou são indeterminados nas suas escolhas políticas. quer se trate da sua própria geografia ou de suas orientações estratégicas. a um dado momento. precisamos constatar a diversidade de ações realizadas por cada um. mas que não são acompanhadas de nenhuma estruturação militante ou ideológica profunda e persistente. muito pelo contrário. O movimento colegial e estudantil de 1986 mobilizou mais da metade dos jovens entrevistados. Os seus comportamentos testemunham de uma capacidade de mobilização não desprezível. ou mesmo Luta Operária. as ações às quais eles participaram dizem mais respeito frequentemente a luta contra o apartheid e contra o racismo do que no resto da amostra. nem sem ter incidência direta sobre o curso da vida cotidiana. seja porque eles não se sentem nem prontos nem suficientemente seguros de si para concretizar e assumir a responsabilidade do engajamento. participação em concertos. mais ou menos. o conjunto das paisagens e dos interesses em escala planetária está envolvido. e muito restritos. os primeiros a reconhecê-lo. Mas a experiência permanece inteira e marca data no percurso da sua socialização política. a sua disponibilade parece todavia prolongar se além somente de seus discursos. nem mesmo. organiza-se em um espaço de duas dimensões. afirma.

cujos conteú- dos nós tentamos explicitar. as contradições que levantamos em várias ocasiões na sua interpretação da política. A existência deste “novo” repertório é um segundo ensinamento. que só aconteceria através da anulação relativa das determinações sociais. Mesmo com “pequenos passos”. primeiro inventário —. Ela se encontra. sofrendo uma evolução comparável à da moral. na sua maneira de entender. em nome de uma lógica da eficácia e de um maior controle sobre a realidade concreta dos problemas a serem tratados. por um lado. Nisto. Como encontrar novos substitutos para definir as condições de emergência de uma “nova” política que. um deslocamento dos interesses e uma rejeição dos conflitos. sem dúvida. Os eleitores “contestadores” da nossa amostra têm posições mais frágeis ou mais dificilmente adquiridas que os outros. e a recusa das clivagens. uma restauração do valor de engajamento. ligados à etapa em que se situa este trabalho — primeira exploração. as respostas. sentimonos desconfortáveis e. Sem dúvida. — são o produto de uma situação de transição entre dois mundos políticos. tal como transparece nos discursos dos jovens. Sinal de que o mal-estar é geral. ou entre o idealismo e a eficácia pragmática. Em primeiro lugar. ele permite uma reabilitação da política a partir dos imperativos seguintes: uma exigência de moralização de todas as instâncias envolvidas. a sua concepção do engajamento define uma “nova” ética de responsabilidade que pode se revelar futuramente eficiente e mobilizadora. seria uma “pós-política”.Jovens dos anos noventa a dia. sinal de que o estado das reivindicações é o mesmo. a difusão do “novo”repertório político. sinal de que a espera de uma renovação é unanimemente compartilhada. pode questionar as arbitragens clássicas do jogo eleitoral. define a relação com o político de cada um dos jovens entrevistados. por outro. de acordo com o meio. Define diferentes momentos de implicação respondendo ao mesmo tempo à lembrança dos grandes princípios idealistas da moral. não têm as mesmas implicações. Terceira constatação. a própria homogeneidade dos discursos é reveladora. enfim. uma recusa dos rótulos e uma forte demanda de reconciliação dos interesses partidários. Concluindo esta leitura exploratória. entre a demanda conjunta de esclarecimento dos interesses. Se a crise da representação política parece inegavelmente presente. Mas. até porque eles sofrem as consequências de uma ruptura relativa na transmissão da cultura política entre as gerações. apesar da homogeneidade observada. estes jovens não compartilham necessariamente a mesma comunidade de experiências. a recomposição do político. Entretanto. Estes interesses próprios às suas condições de “entrada na vida”adulta. Estas diferenças não transparecem no nível das representações e nem das expectativas que eles demostram em relação à política hoje. as constatações esboçadas neste texto respondem a certas interrogações que animam os debates atuais sobre o estado das relações entre os jovens cidadãos e a política. os discursos dos jovens se inscrevem em uma relação ao mesmo tempo heterônoma e autônoma em relação ao político. Os referentes se misturam e se recompõem em lógicas que nem sempre são fáceis de identificar pelos próprios atores. — por exemplo. já está realizada. reforçada pelo fato que os discursos foram recolhidos no interior de uma mesma classe de idade. de diferenciação das referências. às expectativas são também desenvolvidas. Deste ponto de vista. e nas suas próprias expectativas. Todavia. Assim como é anunciado. da modernidade ou do materialismo aos quais foram atribuídos os mesmo prefixos? Revista Brasileira de Educação 165 . com o risco de não sobrar senão a intencionalidade de um discurso e à necessidade de reintroduzir um modelo de ação concreta. de não ter dado conta da trama existencial que. no presente caso. estas diferenças se encontram ainda nas urnas. com os níveis de estudos e de qualificação. tipo de bandeira bicolor do engajamento político. ou ainda entre a consciência planetária e a estratégia dos pequenos passos. regido pelo imperativo da eficácia.

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Transgressão. Dos dezoitos comportamentos utilizados na terceira pesquisa do IARD. desvio e droga Carlo Buzzi IARD Tradução de Nilson Moulin Publicado em: CAVALLI. sem dúvida enfraqueceram o sentido da legitimidade. o consideravam admissível. Antonio (orgs). Em tempos mais recentes. que surgiram sempre mais numerosas no contexto nacional. as tendências de crise. Bologna: Il Mulino. Giovani anni 90. É óbvio que o processo de evolução social. manifestas ou latentes. catorze já estavam presentes também nas duas primeiras. Todavia os modos e as formas com que se manifestava a transgressividade entre as novas gerações pareciam bastante estáveis durante a década de 80. outros dois foram inseridos no questionário pela primeira vez. 1 Revista Brasileira de Educação 167 . mas foi nos últimos anos que o distanciamento entre gerações parece ter aumentado. faz também com que a validade dos afastamentos das normas codificadas mude e se transforme com o passar do tempo. VII. É sob esta luz que provavelmente deva ser lido o aumento da propensão transgressiva registrada no início dos anos 90. 1993. em dois comportamentos só foi possível sua confontação na primeira pesquisa. A respeito desta problemática. Cap. que comporta mudanças nos costumes e na moral. a orientação ética dos jovens mostrava uma certa distância de tudo aquilo que era partilhado e considerado legítimo pelo mundo adulto. Isso provocou. dando a entender que o inconformismo perante os valores e as normas dominantes podia ser considerado um aspecto fisiológico da condição juvenil. c) se lhes seria possível colocá-lo em prática. de 1983 e 1987. um relaxamento dos princípios éticos na população juvenil e talvez não só nela. Premissa A população juvenil sempre se caracterizou por uma propensão transgressiva maior em relação às normas morais e legais da sociedade. Nas pesquisas anteriores do IARD. no questionário aos jovens entrevistados foi proposta. Para cada um deles foi pedido: a) se o consideravam socialmente criticado. Alessandro e LILLO. em analogia com as pesquisas anteriores do IARD. como veremos difusamente mais adiante. tal fenômeno se confirmou pontualmente: em muitos campos de vivência social. em sua avaliação pessoal. uma lista de 18 comportamentos1. b) se.

Carlo Buzzi

As respostas à primeira pergunta exprimem a percepção dos jovens sobre o juízo dado pela sociedade; aquelas da segunda pergunta exprimem a avaliação de admissibilidade dos próprios jovens; as da terceira exprimem, embora de modo indireto, a tendência dos jovens para assumir comportamentos considerados potencial ou explicitamente transgressivos. A percepção das normas sociais A análise comparada do trend evolutivo dos modos com que os jovens percebem as normas sociais mostra alguns afastamentos de certa importância. No conjunto, permanece a convicção de que os comportamentos propostos, em geral, sejam mais criticados que tolerados pela sociedade, mas a intensidade de tais convicções tende a diminuir sensivelmente em alguns âmbitos ético-normativos específicos.

É o caso, por exemplo, da área das relações sexuais e conjugais. Os jovens dos anos 90 identificam maior permissividade social para as relações pré-matrimoniais, para a convivência e para o divórcio; o primeiro comportamento, em especial, encontra uma significativa maioria dos jovens (três quintos) disposto a considerá-lo hoje aceito socialmente, fenômeno novo, pois nas pesquisas anteriores aqueles que não o consideravam criticado não ia além da metade dos entrevistados. Estes resultados mostram como os jovens estão captando algumas transformações em curso no país. O enfraquecimento progressivo das normas e dos vínculos sociais ligados à esfera da sexualidade, que parece cada vez mais pertencer ao livre arbítrio do indivíduo singular e cada vez menos objeto de controle social, é um fenômeno que o confronto entre as três revelações do IARD permite pôr em evidência. Todavia, neste contexto, duas são as

Tabela 1 Variações no tempo da percepção das normas sociais. Percentagem dos que consideram criticados pela sociedade os diversos comportamentos, segundo o ano do levantamento (idade: 15-24 anos)
1983 Área das relações econômicas Não pagar o transporte público Faltar ao trabalho com desculpa de doença Pegar objetos numa loja sem pagar Falsificar a declaração de renda Área das relações familiares e sexuais Divorciar-se Ter relações sexuais sem ser casados Ter experiências homossexuais Morar junto sem ser casados Ter relação com uma pessoa casada Área do consumo de drogas Embriagar-se Fumar maconha ocasionalmente Usar drogas pesadas (heroína) Área da vida humana Suicidar-se Abortar Matar um inimigo na guerra combatendo pelo próprio país Área da violência e do vandalismo Brigar para impor opiniões pessoais Brigar contra torcedores de outro time Danificar bens públicos 79,5 77,6 91,8 74,3 65,0 52,4 88,2 63,8 82,4 78,6 90,1 95,2 84,2 72,1 – 66,6 – – 1987 74,6 72,8 91,9 72,3 66,0 50,0 91,6 61,7 82,1 78,5 91,1 96,1 – 75,4 – 70,4 – 90,1 1992 64,6 67,1 90,2 70,8 62,1 40,9 91,5 57,2 81,8 77,5 88,7 97,5 83,4 78,8 30,3 67,2 90,7 88,8

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exceções, aliás bastante significativas: a homossexualidade, que ainda mantém todas as características do tabu social e as relações extra-conjugais, comportamentos que pressupõem a não sinceridade nas relações internas da família. Em ambos os casos, o estigma social é percebido pela grande maioria dos jovens. Um segundo âmbito no qual é possível notar a atenuação da constrição das regras sociais é constituído pelos comportamentos ligados às relações econômicas. Assim os entrevistados parecem um pouco mais propensos a considerar tolerável viajar num transporte público sem pagar a passagem ou faltar ao trabalho sem motivo válido ou enganar o fisco. Também neste caso os jovens parecem receber da sociedade algumas práticas comportamentais que desvalorizaram pesadamente o sentido do dever cívico por parte do cidadão. Ao contrário, continua substancialmente estável no tempo o modo de entender a moral social no que concerne ao uso de substâncias psicotrópicas, ao recurso à violência e à esfera da tutela da vida humana. Neste último campo, encontramos o único comportamento que denota um incremento notável de intolerância captada: abortar, aos olhos dos jovens, parece cada vez mais uma opção socialmente criticada (tabela 1). As normas individuais Deslocando a análise da moral social para a pessoal, o quadro abrangente muda sensivelmente. Baseando-nos nas declarações de aceitação relativas aos comportamentos propostos, os dados da última pesquisa do IARD, conforme o das pesquisas anteriores, mostram uma forte propensão juvenil a se considerar pessoalmente mais tolerantes do que a sociedade em que vivem. Mas é um fenômeno que se manifesta em termos de intensidade permissiva mais que de qualidade, no sentido de que os comportamentos com maior punição social, bem como os mais aceitos, encontram também um confronto no mesmo sentido por parte da moral juvenil.

A aceitação máxima é atribuída aos comportamentos da esfera sexual; o trend está em alta e, no início da década de 90, os jovens que não consideram aceitáveis no plano ético as relações prématrimoniais ou o divórcio ou então morar juntos, constituem uma minoria. Emerge, em tal contexto, também uma tolerância maior em relação ao homossexualismo. Da mesma forma, os comportamentos ligados à área econômica mostram uma tendência a uma avaliação cada vez menos rígida. Transparece implicitamente um certo relaxamento da moral relacionada com os deveres cívicos. Assim, muitos são os comportamentos pelos quais se concretiza entre os jovens um menor rigor em relação ao passado. Todavia existem 3 exceções relevantes: convém notar como, tanto as relações extra-conjugais quanto o aborto e os comportamentos violentos aparecem com redução progressiva no que concerne à aceitação (tabela 2). O quadro geral que emerge revela um cruzamento heterogêneo de fatores que interagem e tornam complexa a relação entre moral comum e moral juvenil. Para entender melhor sua lógica é útil o confronto entre normas sociais e códigos morais pessoais. A transgressão das normas submetidas à regulação dos comportamentos privados encontra os jovens altamente tolerantes, muito mais do que eles percebem que a sociedade o seja. Sob tal ótica a liberdade sexual, a convivência, o divórcio, são avaliados como opções praticadas por indivíduos conscientes, plenamente legitimados para realizá-las. Ao contrário, o que não se tolera é quando a transgressão viola os direitos do outro. É o caso dos comportamentos violentos, em relação aos quais a recusa dos jovens é maior do que aquela que se difunde na sociedade. Neste contexto, também encontra espaço crescente o rechaço à infidelidade conjugal e ao aborto, embora os jovens permaneçam em relação a ambos muito mais permissivos do que consideram ser o mundo dos adultos. São as normas instituídas para a convivência social que vão encontrar jovens e sociedade numa

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Tabela 2 Variação no tempo das regras de conduta individuais. Percentagem daqueles que consideram admissíveis os diversos comportamentos por ano de levantamento (idade: 15-24 anos)
1983 Área das relações econômicas Não pagar o transporte público Faltar ao trabalho com desculpa de doença Pegar objetos numa loja sem pagar Falsificar a declaração de renda Área das relações familiares e sexuais Divorciar-se Ter relações sexuais sem ser casados Ter experiências homossexuais Morar junto sem ser casados Ter relação com uma pessoa casada Área do consumo de drogas Embriagar-se Fumar maconha ocasionalmente Usar drogas pesadas (heroína) Área da vida humana Suicidar-se Abortar Matar um inimigo na guerra combatendo pelo próprio país Área da violência e do vandalismo Brigar para impor opiniões pessoais Brigar contra torcedores de outro time Danificar bens públicos 26,3 28,6 10,9 24,9 73,8 79,9 36,7 76,2 53,0 49,8 26,9 8,8 21,8 57,6 – 35,7 – – 1987 25,5 32,2 9,3 28,7 74,1 79,8 30,9 79,0 49,3 49,6 20,8 6,7 – 51,8 – 33,7 – 6,2 1992 35,1 38,5 9,3 28,3 78,6 84,9 40,8 77,9 48,0 49,2 27,6 7,7 18,6 47,5 55,7 31,6 7,0 3,6

sintonia singular. Só o furto é estigmatizado amplamente: as demais transgressões, incluindo a evasão fiscal, cada vez mais parecem fazer parte daquela área de admissibilidade que associa setores consideráveis das velhas e novas gerações. A propensão a transgredir As tendências transgressivas dos jovens foram analisadas com a pergunta sobre a possibilidade de pôr em prática os vários comportamentos propostos. Como as modalidades de resposta eram “sim”, “não”, “não sei”, interpretamos as afirmações positivas como tendências evidentes para a violação normativa, as negativas como introjeção plena e aceitação da norma e o “não sei” como instabilidade do código moral. Em outras palavras, a incerteza pode significar que, mesmo tendo consciência

de praticar um ato sujeito a reprovação social, a situação contingente poderia induzir à transgressão. Por isso juntamos os “sim” com os “não sei”, considerando-os como expressão de uma potencial propensão transgressiva. Aqui os dados mostram maior estabilidade no tempo com relação aos outros dois planos de análise. Os comportamentos que denotam um aumento significativo da possiblidade de transgredir as normas sociais são apenas três: viajar num meio público sem pagar (de 83 a 92 o afastamento é de 8% a mais), faltar ao trabalho com desculpa de doença (+ 7%), ter relações sexuais sem ser casados (+ 5%) (tabela 4). No conjunto, tudo o que se afirmou anteriormente sobre os critérios de aceitação “teórica” é reiterado também com referência à possibilidade prática de transgredir. Tudo o que concerne à es-

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Tabela 3 Coerência entre normas sociais e individuais. Percentagem dos que consideram os comportamentos criticados e não admissíveis segundo o sexo e a idade
M F M F M F M F 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 anos anos anos anos anos anos anos anos Área das relações econômicas Não pagar o transporte público Faltar ao trabalho com desculpa de doença Pegar objetos numa loja sem pagar Falsificar a declaração de renda Área das relações familiares e sexuais Divorciar-se Ter relações sexuais sem ser casados Ter experiências homossexuais Morar junto sem ser casados Ter relação com uma pessoa casada Área do consumo de drogas Embriagar-se Fumar maconha ocasionalmente Usar drogas pesadas (heroína) Área da vida humana Suicidar-se Abortar Matar um inimigo na guerra combatendo pelo próprio país Área da violência e do vandalismo Brigar para impor opiniões pessoais Brigar contra torcedores de outro time Danificar bens públicos 37,6 48,1 75,2 59,4 20,5 9,2 66,4 11,2 44,4 40,1 68,6 89,3 69,3 45,8 16,2 40,7 86,0 85,5 43,5 37,3 82,8 58,9 12,1 16,4 52,4 21,9 55,4 46,1 68,8 88,8 68,4 44,2 16,7 47,2 84,1 82,8 46,9 50,8 84,6 55,9 21,4 9,0 63,2 16,9 45,5 42,6 66,8 89,4 71,6 49,8 15,3 52,8 85,8 88,2 46,6 42,9 85,9 60,1 14,3 15,0 49,6 18,1 52,0 50,8 69,2 91,5 74,7 41,6 16,3 54,7 86,2 84,7 44,3 54,0 79,8 48,5 16,7 4,7 58,0 15,8 32,2 37,4 55,1 88,4 72,6 41,4 17,5 53,5 87,8 88,4 50,7 44,9 87,1 52,2 13,5 11,0 45,8 17,4 47,3 43,8 69,3 92,3 69,2 40,9 18,1 54,9 84,6 86,3 50,9 58,8 84,0 50,5 14,4 4,0 53,1 10,8 34,2 33,2 60,3 90,1 67,3 36,0 13,5 56,7 89,1 86,9 59,0 57,3 87,3 54,8 15,2 13,7 48,3 20,2 48,9 46,2 67,2 91,2 67,8 41,5 18,9 59,9 86,5 87,6 Tot.

48,2 50,3 83,6 54,3 15,8 9,8 53,9 16,3 43,9 41,9 65,0 90,2 69,9 42,0 16,6 53,4 86,5 86,5

fera privada do indivíduo está amplamente aberto a escolhas que não colocam sérios dilemas morais, a tal ponto que teríamos dificuldades, por exemplo, para definir as relações pré-matrimoniais como violação de uma norma social (apenas 1 jovem sobre 6 exclui categoricamente a eventualidade, assim como só 1 sobre 4 garante que nunca se divorciará e 1 sobre 3 que não vai conviver sem ser casado). Desrespeitar as normas que regulam a vida dos indivíduos na esfera pública, que vimos ser considerado admissível por uma minoria significativa de jovens, parece envolver na prática uma cota bem mais ampla, em alguns casos superior à metade dos entrevistados. Isso remete ao problema da coerência entre códigos éticos e comportamentos de fato.

O confronto entre os dois níveis mostra como apenas poucas transgressões encontram os jovens unanimemente coerentes ao recusá-las no plano moral e no de uma hipotética realização concreta. São aqueles comportamentos que poderíamos definir explicitamente “desviantes”. Por ordem: os atos de vandalismo, o consumo de drogas pesadas, a violência desportiva, o roubo. Todo o restante parece mais controverso. Em geral, a coerência aumenta com a idade e as moças são mais coerentes que os rapazes, conforme a pesquisa de 87 já havia evidenciado. Entre os subgrupos da amostragem separados por sexo e por idade, destaca-se o dos adolescentes masculinos (15-17 anos); neles a presença de tensões quanto aos comportamentos que implicam

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Tabela 4 Variações no tempo das atitudes de “não exclusão” da possibilidade de transgredir as normas sociais. Percentagem daqueles que consideram possíveis os diversos comportamentos, o que não exclui a possibilidade de praticá-los, por ano de levantamento (idade: 15-24 anos)
1983 Área das relações econômicas Não pagar o transporte público Faltar ao trabalho com desculpa de doença Pegar objetos numa loja sem pagar Falsificar a declaração de renda Área das relações familiares e sexuais Divorciar-se Ter relações sexuais sem ser casados Ter experiências homossexuais Morar junto sem ser casados Ter relação com uma pessoa casada Área do consumo de drogas Embriagar-se Fumar maconha ocasionalmente Usar drogas pesadas (heroína) Área da vida humana Suicidar-se Abortar Matar um inimigo na guerra combatendo pelo próprio país Área da violência e do vandalismo Brigar para impor opiniões pessoais Brigar contra torcedores de outro time Danificar bens públicos 53,9 49,1 14,9 42,5 72,3 79,6 10,8 64,6 56,1 51,0 18,4 5,7 13,9 42,9 – 44,6 – – 1987 54,6 50,5 12,8 40,4 70,1 79,6 5,2 64,9 49,6 49,3 14,6 3,8 – 42,0 – 43,7 – 10,1 1992 62,1 55,9 12,7 37,8 72,8 84,3 4,4 65,8 49,8 48,7 19,1 3,3 10,7 40,4 48,2 40,1 11,6 7,7

vandalismo e violência é notoriamente mais forte (tabela 5). No conjunto, muitos jovens parecem possuidores de instâncias morais e de propensão à ação que se diferenciam, em diversos níveis, daquelas que são as expectativas captadas do mundo adulto. Portanto, estabelecemos o objetivo de identificar, na ampla variedade de atitudes juvenis, uma tipologia que reagrupasse os entrevistados ao redor de modalidades homogêneas de orientação geral em relação ao comportamento transgressivo. Por meio de uma série de cluster analysis a solução mais simples e convincente pôs em evidência 4 grupos de jovens que refletem igual número de modos típicos de relacionar-se com a eventualidade de incorrer em comportamentos socialmente reprováveis (figura 1).

Figura 1 Tipologia da propensão à transgressão

Desviantes 8% Oportunistas 17,8% Integrados 36,6%

Permissivos 37,6%

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4 49.7 22.3 44.9 61.3 56.8 87.7 92.5 30.9 48.0 58.6 74.2 47.1 63.4 93.0 65.8 14.7 87.1 96.5 69.9 73.6 43.4 30.9 90.2 50.6 76.6 15.0 51.2 66.7 91.9 77.2 22.0 54. é representado por jovens caracterizados por um sentido modesto dos deveres civis. Pensando bem.7 23. encontramos neste grupo 17.8 19. A primeira concerne à liberalidade quase unânime em relação aos comportamentos sexuais (com exceção do homossexualis- Revista Brasileira de Educação 173 . Percentagens dos que consideram não admissíveis nem praticáveis os diversos comportamentos segundo o sexo e a idade M F M F M F M F 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 15-17 anos anos anos anos anos anos anos anos Área das relações econômicas Não pagar o transporte público Faltar ao trabalho com desculpa de doença Pegar objetos numa loja sem pagar Falsificar a declaração de renda Área das relações familiares e sexuais Divorciar-se Ter relações sexuais sem ser casados Ter experiências homossexuais Morar junto sem ser casados Ter relação com uma pessoa casada Área do consumo de drogas Embriagar-se Fumar maconha ocasionalmente Usar drogas pesadas (heroína) Área da vida humana Suicidar-se Abortar Matar um inimigo na guerra combatendo pelo próprio país Área da violência e do vandalismo Brigar para impor opiniões pessoais Brigar contra torcedores de outro time Danificar bens públicos 19.2 86.Transgressão.5 44.0 56.2 42.2 48. surge como portador de instâncias mais articuladas.4 92.0 91.3 90.6 36.8 85.7 43.4 91.5 20.8 11.2 44.0 54.1 42.4 62. que denominamos oportunistas. As tendências transgressivas se direcionam todas para a área das relações econômicas (exceto o furto).3 90.6 81.3 75.2 No primeiro grupo.5 20. Um segundo grupo.2 43.0 3.4 42.0 64.4 38.3 27.0 84.1 94.0 79. O perfil ético que daí emerge pode ser relacionado com estilos de vida permissivos que provavelmente caracterizam as tendências evolutivas da cultura juvenil moderna.9 26.0 69. cujos códigos morais coincidem com os da ética comum até que o interesse coletivo exige certos custos ao indivíduo.9 31.7 45.3 67.8 14.2 57. poderíamos considerar tais jovens como integrados oportunistas. 37.4 28.0 54.4 79.0 15.9 55.0 85.9 70.4 59.7 89.1 88.9 30.3 80.7 16.4 14.9 42.1 53.0 10.0 66.4 42.3 49.2 53.5 Tot.3 33.4 19.5 71.7 74.7 62.6 34.9 73.0 60.0 19.4 5.5 87.1 10.8% da amostragem.2 36.4 74.5 57.3 25.6 54.5 48.8 46. Duas parecem ser as características que mais chamam a atenção.1 46. que poderíamos definir como o dos integrados.7 77.1 15.4 48.9 91.9 90.9 43.3 27. O tipo se caracteriza por um baixo índice de propensão em todos os possíveis “desvios”.6 46.7 44.1 11.8 14.5 92.0 74.6% da amostragem. No conjunto.6 94.4 27.6 25.5 42.8 41.3 13.7 15.3 32. é possível reconhecer 36. O terceiro tipo.9 30. dos permissivos.3 11.6 12.4 86.9 59.0 13. quanto ao restante as atitudes que emergem são iden- tificáveis com as do grupo precedente.2 92.4 5.3 58.6 86.9 88.7 35.7 25.3 63.0 45.1 45.8 31. que vimos serem hoje amplamente difundidos.4 73.4 92.3 42.7 33.1 62. desvio e droga Tabela 5 Coerência entre normas individuais e comportamento. do mesmo modo também neste âmbito as percentagens de propensão para transgredir se mantêm de maneira considerável abaixo da média geral.3 87. exceto alguns relativos à esfera das relações sexuais.3 37.7 80.8 56.

8 63.1 49. que é composto por 37.8 49.9 5.6 86.1 18.4 47. Neste contexto. àqueles típicos do segundo grupo.7 86. a propensão à transgressão é particularmente difundida e indiferenciada.0 98.0% dos entrevistados) mas nem por isso de menor importância é o quarto grupo.7 49.4 67.5 33. o grupo dos permissivos.3 17.2 29.2 62.5 83.5 48.7 30. Ao contrário.5 10. pode ser incluído também o modo diferente de considerar o aborto.8 19.4 61. que reunimos sob a definição de desviantes.9 41.2 38.0 7.4 85.2 61.0 76.5 6.5 5.9 3.4 4.8 71.7 47.8 5.2 33.2 86.8 88. elas parecem mais inerentes ao âmbito sexual.9 0.4 53. Sublinhando que o sexo tem uma influência relevante. Entre esses jovens. a ponto de podermos definir o grupo como sob grande risco de desvio.0 1. A segunda característica parece relacionada à cultura da addiction: embriagarse ou o uso de drogas leves atingem níveis de propensão bem superiores à média da amostragem. se nos primeiros dois grupos as práticas abortivas eram fortemente estigmatizadas por serem ligadas à esfera da defesa da vida humana.8 78. pois entre os tipos “integrados” e “oportunistas” prevalece a presença feminina e nos ou- 174 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .3 9.9 11. Todos os itens propostos apresentam altos índices. ao roubo em lojas e à droga.2 mo). Os tipos registrados se distribuem de modo diferente em relação às condições sociodemográficas. Isso torna mais fácil avaliar seu significado real.8 62.2 71. a ponto de dois terços não excluírem a possibilidade de se envolverem com elas.2 76.1 6.4 18.0 0.1 22.7 14.Carlo Buzzi Tabela 6 Tipologia da propensão à transgressão (15-29 anos) Tipologia Integrados Oportunistas Permissivos Desviantes Área das relações econômicas Não pagar o transporte público Faltar ao trabalho com desculpa de doença Pegar objetos numa loja sem pagar Falsificar a declaração de renda Área das relações familiares e sexuais Divorciar-se Ter relações sexuais sem ser casados Ter experiências homossexuais Morar junto sem ser casados Ter relação com uma pessoa casada Área do consumo de drogas Embriagar-se Fumar maconha ocasionalmente Usar drogas pesadas (heroína) Área da vida humana Suicidar-se Abortar Matar um inimigo na guerra combatendo pelo próprio país Área da violência e do vandalismo Brigar para impor opiniões pessoais Brigar contra torcedores de outro time Danificar bens públicos 20.8 21.2 3.2 38.2 27.4 21.7 2.9 1.7 52. embora consistentes.9 96.8 93.6 40.6 2.8 94.1 Total 57.6 89.6 71.9 20.5 1.1 77.9 35. Minoritário (8.4 4.5 6. mesmo não podendo ser definido completamente fiel quanto às normas que regulam as relações econômicas e civis.7 5.8 37.6% dos entrevistados.9 42.3 83. Na tabela 6 é apresentado o perfil típico dos quatro grupos em relação aos 18 comportamentos transgressivos utilizados.0 49.5 1.9 93. demonstra por esta área níveis de transgressão inferiores.1 3.0 10.4 85.8 66.4 39.0 17.9 81. mesmo para aqueles relativos a comportamentos violentos.3 10.3 33. neste terceiro grupo.

6 43.2 32.5 14.6 28.0 34.0 10.0 27.0 Integrados Oportunistas Permissivos Desviantes Superior 25.6 41. Porém.0 Sul 42. adquire interesse especial a composição dos grupos segundo a idade.8 37.5% para a heroína.0 25-29 45.3 100. tendência que se afirma como majoritária nas outras três realidades italianas (tabela 7). por outro lado.0 15-17 28.7 16.0 9. uma propensão acentuada para comportamentos notoriamente desviantes pode ser lida como o resultado de identidades ainda em construção que vêem na transgressão. a atitude tolerante assume dimensões mais relevantes: 28. Os “integrados” atingem a densidade máxima nas regiões meridionais e a mínima nas centrais.8 14.7 6.6 100.7 42. maior rigor para as “pesadas”.0 Idade 18-20 21-24 34.0 Região Nordeste Centro/Ilhas 33. a relevância de tais inclinações. a região meridional se distingue por uma tendência menor à permissividade.2 44. se o juízo se desloca para o nível pessoal. mas ao contrário não é tão difusa a crítica pessoal a tal consumo.7 40.6 29.0 100.5 12.7 6. “fumar maconha ocasionalmente” e “usar drogas pesadas (heroína)”.6% para a maconha e 7.0 100.4 14.8 10.2 38.5 33. Sob este aspecto a maior incidência de jovens adolescentes nos tipos “oportunistas” e “desviantes” redimensiona. a reduzir-se quantitativamente. mais teórica que real.5 44.2 26. desvio e droga Tabela 7 Tipologia da propensão à transgressão por algumas condições sociodemográficas (%) Tipologia Integrados Oportunistas Permissivos Desviantes Sexo Total Masculino Feminino 36.0 tros dois a masculina. com o aumento da idade.6 17.4 100.00 Segmento Social de Origem Funcionários Autônomos Operários 34.6 17. uma modalidade de auto-afirmação.5% no segundo. Os jovens do centro e do sul do país encontram-se associados por sua presença marcante no grupo dos “oportunistas”.6 19.0 Noroeste 35. Dois jovens em cada Revista Brasileira de Educação 175 . A avaliação e a propensão ao uso de drogas A percepção social e a imagem pessoal do uso de drogas Que o consumo de drogas seja considerado comportamento socialmente reprovado é uma convicção amplamente difundida entre os jovens. por um lado.4 100.3 100. são as determinações geográficas que assinalam a persistência também no interior do universo juvenil de culturas diferentes. É muito provável que haja uma incidência. para exprimir a aceitação ou a recusa do uso de drogas. Por fim.Transgressão.8 37.3 21.3 10.8 44.9 20.5 11.1 31.7 28.9 7.2 16.1 20.0 21.5 5. destinadas.6 100. as opiniões se diferenciam de modo consistente em relação à substância psicotrópica considerada: grande tolerância para as drogas comumente chamadas de “leves”.7 8. Contudo. a percentagem de jovens que considera que o uso de drogas não seja criticado de modo especial pela sociedade é muito restrita: 11. num certo sentido. O confronto entre estes dois juízos demonstra como os jovens são muito mais permissivos do que eles julgam ser a sociedade ao avaliar os comportamentos ligados ao consumo de estupefacientes.0 100.4 100.3% no primeiro caso e 2.7 7.5 42.0 100.6 46.0 100.3 8.7 41.5 100.2 8.0 100.0 4. de maior consciência dos adolescentes quanto à coisa pública e.7 17. Referindo-nos a duas situações distintas.6 6.00 100. Ou melhor.

os mais expostos pareceriam aqueles grupos sociais marcados por características que poderíamos definir como privilegiadas (tabela 8).9 2. A idade não parece ter uma grande influência na determinação desta atitude.2 12. nas áreas metropolitanas e nas regiões do centro e do norte do país.3 3.1 18.4 2.6 1.0 19.2 1.2 1. os jovens que não condenam o uso de drogas leves supera 40%) e naquelas com desenvolvimento econômico mais alto (nas regiões centro-setentrionais do país a percentagem de jovens permissivos gira ao redor de 34-37% contra o índice bem mais modesto de 19% das regiões meridionais).2 4.8 8.7 18.5 Total 18. nem que seja superficialmente.7 15. Estas últimas indicações demonstram que a cultura da droga não está diretamente relacionada com fenômenos de marginalidade e de subdesenvolvimento.0 17.8 15. Também as variáveis territoriais exercem uma influência significativa: a tolerância de fato atinge o máximo nas áreas metropolitanas (nos centros com mais de 250 000 habitantes. No conjunto.9 19.0 Maconha Heroínas Maconha Heroínas grupo de 7 declaram assim o uso de drogas “leves” perfeitamente compatível com os próprios códigos morais.7 Amplitude comum (x 1. consumidores habituais.8 3.6 19.2 3. Mas é dos dados relativos à experiência pessoal que emerge como uma grande parte dos jovens é expos- 176 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .000) Regiões >250 50-250 20-50 <10 Noroeste Nordeste Centro Sul Ilhas 26. Tal posição é mais difusa entre os homens.3 2.9 2.8 14. da classe social e das variantes regionais. não se consideram completamente estranhos à cultura da droga.Carlo Buzzi Tabela 8 A propensão ao uso de drogas (percentagem daqueles que NÃO excluem que poderia acontecer com eles) Tipologia Maconha Heroínas Sexo Idade Masculino Feminino 15-17 18-20 21-24 25-29 21. ao contrário. mais de um jovem em cada dupla conhece.3 2.1 2. à diferença do sexo. embora abstratamente.3 13.9 5. embora de modo indireto. é de fato possível estimar ao redor de 2 milhões e meio os jovens que.2 16. entre os segmentos superiores.0 3. A propensão ao uso é de fato notavelmente mais acentuada entre os homens.1 14.3 2.0 3.9 3.3 21. Um primeiro indicador importante é o conhecimento de pessoas que usam drogas. entre os segmentos sociais médio-superiores e aumenta com a idade.1 17.1 3.0 20.8 4.5 Segmento Social de Origem Superior Funcionários Autônomos Operários Camponeses 26. O contato com o mundo da droga A incidência real que o fenômeno droga pode ter como fato social e cultural entre os jovens deve contudo ser necessariamente medida em termos de “contatos” com o mundo da droga. Este aspecto foi indagado. com uma pergunta específica: “Teria acontecido de o entrevistado haver fumado maconha ocasionalmente” ou então “usar uma droga pesada como a heroína”? Os dados parecem bastante significativos: quase um jovem sobre 5 não exclui a experiência do consumo de drogas leves ao passo que quase 1 em cada grupo de 30 não exclui o consumo de drogas pesadas.7 2. A propensão ao uso de drogas Considerar pessoalmente admissível o consumo de substâncias psicotrópicas ilegais exprime uma avaliação genérica sobre um problema social mas não implica necessariamente um envolvimento pessoal. Encontramo-nos portanto diante de um fenômeno quantitativamente de grande relevância: mesmo com as devidas cautelas.

contudo se deve considerar que. Falar com alguém que consumiu haxixe ou maconha faz parte da experiência de quase 40% dos jovens entrevistados. Um “trend” em alta O cotejo entre os levantamentos da primeira e da segunda pesquisas nacionais do IARD sobre a condição juvenil tinha evidenciado quanto o fenômeno “vizinhança com o mundo da droga” estava diminuindo. uma distinção entre drogas “leves” e drogas “pesadas” pois o fenômeno se articula diversamente. 3. Estamos ainda num nível superficial de contato onde o caráter ocasional ou involuntário do fato poderia também ter tido o seu peso. não conseguem quantificar de modo confiável um determinado fenômeno. bem como cerca de 30% viu jovens que tinham consumido há pouco (ou talvez estavam consumindo) tais tipos de drogas.1% receberam propostas para experimentá-la. quando tocam esferas privadas muito delicadas. Igualmente a pesquisa oferece alguns elementos de reflexão. 9. viu ou tocou uma dessas substâncias. atingindo seus níveis máximos na faixa de 2124 anos: basta pensar que um quarto dos jovens deste grupo declara ter tido experiências de conta- to direto com a substância. Na terceira pesquisa. as perguntas diretas. com toda probabilidade. 3.2% viram alguém usar tais drogas. já alto. dado emblemático. De qualquer modo a relevância dos dados mostra como a experiência de ocasiões de proximidade com o mundo da droga não é coisa de pequenas franjas de marginais mas sim de uma considerável minoria de jovens. É diferente se avaliamos o contato físico com a substância ou a oportunidade concreta de consumo: 20. aumentam também as ocasiões de risco.6% dos jovens entrevistados viu ou tocou maconha. profissionais liberais. mesmo que não fossem. uma vez mais. bem mais preocupante. 3. mas todos os indicadores mais significativos utilizados alcançaram e superaram o nível. Se deslocamos a atenção para as drogas pesadas. a amplitude do município de residência e a região de origem. dirigentes).4%. subdimensionados. a extração social. a tendência não apenas se inverteu. o fenômeno encontra sua maior concentração nos centros com mais de 50 000 habitantes e em particular nas grandes cidades do norte e do centro da Itália. 23. como na realidade são. é menos freqüente mas em termos relativos decididamente relevante: 26.Transgressão. Se tomarmos como exemplo o indicador que mais aparece associado à contigüidade com o fenômeno — ver ou tocar qualquer tipo de droga — os homens denotam uma percentagem de “exposição” dupla em relação às mulheres. a maior contribuição é dada pelos jovens provenientes de famílias de classe elevada (filhos de empresários.5% declara ter sentido o desejo ou a curiosidade de provar haxixe ou maconha. Tais contatos constituem por si mesmos uma “fotografia” da extensão do fenômeno. Aqui é oportuno estabelecer. o dado quantitativo esteja subdimensionado: a delicadeza do tema faz com que muitas reticências sejam previsíveis. Com o aumento da idade. De que modo a proximidade com o mundo da droga influi na propensão ao consumo? Eis uma questão destinada a não produzir respostas satisfatórias. Dentre os entrevistados. A experiência de contato com o mundo. seriam consistentes por si mesmos (tabela 9). As variáveis que mostram as correlações mais significativas são o sexo.2% falaram com consumidores. da heroína ou da cocaína. desvio e droga ta à droga de modo direto. No âmbito das pesquisas extensivas usando questionários.4% sentiu pelo menos uma vez o desejo ou a curiosidade de experimentar heroína ou cocaína e uma percentagem quase idêntica (3%) não exclui que isso poderia acontecer.8% foi convidado a experimentá-las. Entre os segmentos sociais. cota que se eleva a 44% se considerarmos só os homens. Analisemos brevemente os dados: a convicção de que o consumo de substâncias psicotrópicas ilegais seja condenado pela maioria das pessoas mostra um trend divergente conforme o tipo de droga. Trata-se de dados que. Em relação às revelações precedentes surge o dado Revista Brasileira de Educação 177 . e já vimos no parágrafo anterior que 18% não exclui que isso poderia acontecer. 20. de 1983-84. a idade. Além disso.

7 29.0 26. a não negação decidida de que a experiência de provar drogas possa ocorrer.3 32.7 1992 27.7 3. ainda não atingiu os níveis de 1983 (tabela 11).7 63.Carlo Buzzi Tabela 9 Contatos com o mundo das drogas (qualquer tipo) por segmento social de origem (%) No conjunto Aconteceu com você: Falar com alguém que tenha usado drogas ao menos uma vez Conhecer pessoas que usam droga regularmente Ver alguém que havia acabado de consumir droga Receber convites para provar (ou comprar) qualquer tipo de droga Ver ou provar qualquer tipo de droga Superior Segmento social de origem Funcionários Autônomos Operários Camponeses 56.4 34.1 3.5 39. ao menos nas opiniões e nas crenças dos jovens. uma tendência a distinguir e diferenciar os 178 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 .6 7.8 1992 19.4 Tabela 10 Variações no tempo da percepção das normas sociais (percentagem dos que consideram NÃO criticáveis pela sociedade os comportamentos ligados ao consumo de drogas) Maconha Heroína 1983 9.3 de que os jovens de hoje. é diferente no que concerne à heroína que. ou melhor.3 46.5 Tabela 11 Variação no tempo da avaliação pessoal sobre o uso de drogas (percentagem dos que consideram admissíveis comportamentos ligados ao consumo de drogas) Maconha Heroína 1983 26.9 51. o fenômeno é interessante pois transparece.4 5.9 23.9 22.7 Tabela 12 Variação no tempo da propensão ao uso de drogas (percentagem dos que NÃO excluem que poderia acontecer com eles) Maconha Heroína 1983 18.9 8.4 20.6 56.7 1987 14. talvez por causa das recentes e reiteradas campanhas sociais visando combater sobretudo o uso da heroína.6 18. porém mais tolerante quanto às leves (tabela 10).0 22.2 2.9 19. mostra igualmente maior abertura às drogas leves que contrasta com um juízo mais severo em relação às pesadas. Portanto.9 54.8 70.4 26.5 1992 11.6 56.0 43.9 21. A propensão explícita ao consumo de drogas. embora em alta comparando-se com 1987.6 3.8 52.7 53.5 54.3 37.8 1987 20.6 34.5 1987 8.4 43.5 18. as declarações de aceitação do uso de estupefaciantes como a maconha registram um aumento em toda a linha. Deslocando a análise para as regras de conduta individual.1 54. tenham em seu conjunto a imagem de uma sociedade mais decidida a combater as drogas pesadas.6 4.8 6.

1 nr 10. por exemplo. embora se destaquem os homens. O caráter de “desvio” ligado à proximidade com o mundo da droga é posto em discussão tanto de um ponto de vista quantitativo (percentagens muito elevadas de jovens são envolvidos nele com intensidade variável) quanto qualitativo (o “perfil” social do jovem envolvido parece amplamente indiferenciado). é sem dúvida muito preocupante (tabela 13).6 10. tal opinião resulta mais freqüente entre os que constatamos serem os mais próximos a comportamentos contíguos à cultura da droga. quando em 1987.9 43. Os contrários superam de modo bem nítido os favoráveis.9 22.3%. Já vimos como tais resultados se aplicam sobretudo às drogas leves mas a consistência do fenômeno. os mais velhos.8 1987 46.Transgressão. dizia respeito só a um terço deles. certamente. para se tornar uma experiência “normal” de grandes grupos de jovens.4 7.7 efeitos das substâncias estupefacientes (tabela 12). não parece existir nenhum critério previsível que induza relações significativas entre predisposição para o consumo e características sócio-econômicas dos entrevistados. mensurado em sua evolução quantitativa. contudo.7 24. Numerosos sinais indicam quanto o problema social da droga deva ser explicado em termos culturais. estes últimos atingem cerca de um terço dos jovens. desvio e droga Tabela 13 Variação no tempo dos indicadores de contato com o mundo das drogas (%) 1983 Aconteceu com você: Falar com alguém que tenha usado drogas ao menos uma vez Conhecer pessoas que utilizam droga regularmente Ver alguém que havia acabado de consumir alguma droga Receber convites para provar (ou comprar) qualquer tipo de droga Ver or provar qualquer tipo de droga Sentir desejo (oucuriosidade) de provar alguma droga 54. O uso — ocasional — de drogas se torna assim completamente desligado de condições de desvantagem e de marginalidade. a proximidade com a droga se propõe de fato como um fenômeno indiferenciado aberto à experiência de qualquer jovem. Revista Brasileira de Educação 179 . os jovens parecem portadores de uma moral que se distancia progressivamente dos valores tradicionais. Portanto. é nas atitudes e nos comportamentos quanto ao uso de substâncias psicotrópicas que estão se difundindo novos modelos culturais.3 44. Obviamente. As características sócioidentitárias dos jovens que se declaram favoráveis à descriminação do consumo de drogas não são especialmente nítidas. no específico. o contato físico com uma substância estupefaciente mais que dobrou.8 32. Conhecer jovens que delas se utilizam faz parte da experiência de mais da metade dos entrevistados. a tendência a antever canais de dupla moralidade conforme os âmbitos de experiências vividas contingentemente. Os dados objetivos de exposição à droga estão em franco aumento. os moradores das grandes cidades.5 1992 56.8 39.6 54. Conclusões O quadro geral resultante confirma assim algumas tendências que foram se consolidando na última década. como também a confissão de ter vontade (ou só a curiosidade) de experimentá-la. no conjunto.7 21. A última questão relacionada às drogas estava centrada nas opiniões dos jovens quanto a uma eventual legalização futura do uso dos estupefacientes. Se. os favoráveis à legalização sobem para 43.8 4.8 39.1 20. a projeção no presente como produto natural de uma lábil projeção futura. um papel não irrelevante é representado por alguns elementos que caracterizam o universo juvenil: a percepção da reversibilidade dos percursos existenciais. aí incluindo os de caráter transgressivo. entre os que tiveram contato com uma substância estupefaciente.

As gangues e a imprensa
A produção de um mito nacional

Martín Sánchez-Jankowski
Universidade de Berkeley

Tradução de Ines Rosa Bueno Publicado em: Actes de la Recherche en Sciences Sociales. Paris: nº 101-102, março 1994, p. 101-117.

Le crime tient sans trêve le devant de la scène, mais le criminel n’y figure que furtivement, pour y être aussitôt remplacé. Albert Camus, La Chute, 1956

Foi no iníco do século 20 que as gangues apareceram no cenário urbano americano. Desde então, elas foram continuamente estigmatizadas como um “problema social” maior. O que sempre chamou a atenção da opinião pública, são as suas atividades que podemos qualificar como delituosas ou ilegais, que fazem nascer o medo e atentam contra os bens ou ameaçam as pessoas. O Estado, então, sempre empenhou meios consideráveis e cada vez maiores, para tentar erradicar o fenômeno. Entretanto, apesar destes esforços impressionantes e ininterruptos, as gangues não só persistiram mas não pararam de se expandir, particularmente nas duas últimas décadas. Como explicar este paradoxo? Por quê o empenho de tantos esforços na luta contra as gangues não produziu os resultados esperados? Esta interrogação é que esteve na origem das minhas

pesquisas sobre o fenômeno das gangues na América urbana contemporânea1. Dez anos de investigações avançadas sobre o assunto me levaram à conclusão de que a resposta para esta interrogação reside no fato de as gangues serem organizações, um dado que a maior parte dos estudos anteriores tinha desprezado. Enquanto resposta coletiva a uma situação econômica de grande penúria e de isolamento, estas organizações elaboraram estratégias racionais de sobrevivência que se aplicam tanto aos meios de aumentar seus efetivos e fazer florescer seus haveres financeiros quanto ao estabelecimento de relações com seu ambiente, quer se trate de organizações rivais, da polícia, do sistema político e da mídia. Estas relações formam um sistema de intercâmbios multiforme que se revela, em última instância, como sustentáculo da existência das gangues. O artigo a seguir se inscre-

1 Cf. M. Sánchez-Jankowski, Islands in the Street: Gangs

in the American Society, Berkeley e Los Angeles, University of California Press, 1991, obra em que este artigo se apóia.

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As gangues e a imprensa

ve nesse quadro conceitual e se propõe a analisar a contribuição que a mídia traz para a persistência do fenômeno das gangues urbanas americanas. A mídia se vê, ora observadora neutra das gangues, ora sua adversária, quando na realidade ela contribui em parte para a sua sobrevivência. De fato, de todas as instituições que podem exercer uma influência sobre o fenômeno, poucas ocupam uma posição tão estratégica2. Convém notar logo de início, que não são “especialistas” sobre gangues mas jornalistas das mídias ditas de “massa” que são autoridades na matéria. De modo que são a principal fonte de informação não somente do “cidadão médio”, como também dos pretensos “especialistas” responsáveis pela elaboração e realização das medidas de luta contra as gangues. Fiquei admirado ao longo das minhas investigações, quando constatei o quanto aqueles que se consideram como “experts” retiram os seus conhecimentos do fenômeno pelo menos, tanto das reportagens emitidas pelas mídias quanto dos trabalhos de pesquisa. Isto, para dizer que é indispensável elucidar o modus vivendi que se estabelece entre a mídia e as gangues se pretendemos entender a perenidade dessas últimas. A maioria das pessoas — inclusive, experts — está convencida de que a cobertura pela mídia dá conta da realidade das gangues, quando ela na verdade introduz distorsões tão profundas quanto sistemáticas. Estas distorsões têm a ver com as exigências estruturais a partir das quais a mídia funciona, assim como a ignorância, a incompetência e as ambições profissionais dos jornalistas. As análises que seguem se apóiam em três tipos de dados: observações diretas efetuadas quando membros das gangues de New York, Boston e Los Angeles, cujas atividades eu compartilhei, foram entrevistados pela imprensa ou pela televisão; uma série de entrevis-

tas com jornalistas cobrindo a atualidade urbana; finalmente roteiros de programas de rádio e de televisão dedicados as gangues, assim como as gravações em vídeo de telejornais, de documentários, debates, docu-dramas, novelas como Hill Street Blues e filmes (Colors, The Warriors, Fort ApacheThe Bronx) em que as gangues desempenham um papel central. A reportagem de atualidade ou o procedimento “informativo” Os jornais e revistas da atualidade não têm como objetivo apenas difundir notícias: eles devem também realizar lucros. Os redatores-chefes da imprensa e os produtores dos telejornais e de rádio devem coletar e selecionar informações mas devem sobretudo interessar os leitores, ouvintes ou telespectadores pela apresentação que eles fazem. No quadro competitivo, uma reportagem sobre as gangues se inscreve na rúbrica de “jornalismo de rotina3” que trata de acontecimentos do dia a dia e este tratamento afeta obviamente a imagem pública das gangues. Uma tal imagem não pode ser uma representação detalhada e nuançada da realidade, em razão das exigências de programação e de tempo, além do quê uma reportagem responde a um imperativo econômico preciso: suscitar no público um interesse que o leve a comprar tal jornal ou a assistir ao noticiário numa determinada rede de rádio ou de televisão ao invés das outras. As gangues só são notícia quando estão implicadas em um acontecimento particularmente sensacional. Pela sua própria natureza, os jornais e as informações de televisão não podem tratar a “notícia” de forma exaustiva (diga o que disser o New York Times,cujo lema é — “All the news that’s to print”: Todas as notícias que merecem ser impres-

Vigil e Hagedorn abordam as mídias mas sem analisar suas relações com as gangues. Ambos se contentam em sublinhar a imagem negativa que elas veiculam destas últimas. Ver Hagedorn, People and Folks,.23-24, 156; e Vigil, Barrio Gangs, P. 40, 124.

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Todd Gitlin usa a expressão “jornalismo de rotina”em The Whole World is Watching: Mass Media and Unmaking of the New Left,Berkeley, University of California Press, 1980. P.4.

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sas). Para merecer algumas colunas na rubrica das notícias populares ou alguns minutos no jornal da noite, uma gangue deve cometer um ato fora do comum: para ser mais claro, é preciso que tenha se tornado culpada de ações violentas ou criminosas. E quanto mais violento o crime cometido, mais chances ele tem de ser escalado no noticiário do dia. Deste modo, os telejornais e as rádios assim como os jornais de informações estão a toda hora em busca de acontecimentos “captadores de interesse” para agarrar e tornar fiel seu público. As violências e os crimes que implicam gangues são, neste aspecto, assuntos cobiçados. De fato, eles estimulam a curiosidade do público e poupam aos jornalistas inúmeras dificuldades técnicas com que costumam se deparar. Por exemplo, os repórteres têm o hábito de apresentar os principais acontecimentos do dia como fatos comprovados. Entretanto, na maioria dos incidentes ligados a gangues, esta pressuposicão é errada. Nas três cidades estudadas (Los Angeles, New York e Boston), um grande número de notícias populares violentas é regularmente apresentado como “crimes envolvendo gangues” (gang-related crime), quando na maioria dos casos, o que é apresentado ao público como “verdade” dos acontecimentos, não tem absolutamente nenhum fundamento. Quando experts (em geral policiais) são interrogados para comentar o incidente em questão, eles sempre o fazem com termos cautelosos, usando expressões como “achamos que este crime tem a ver com gangues”. Neste caso, o setor de informação pode atribuir o ocorrido que, ele tem a certeza, será do agrado do público, a ação de uma gangue sem ter de identificar nominalmente a pessoa ou grupo presumidamente responsável pelo crime. Um caso de gangues é, por natureza, um produto midiático ideal: cativa o público sem realmente pôr em jogo a responsabilidade do jornalista. O repórter de uma rede de televisão de New York explica: “Fazer uma matéria sobre as gangues, é a panacéia para um jornalista e para a sua rede de informação. (...) Em primeiro lugar, já que só se cobrem as histórias de gangues quando há crime ou violência, é mais fácil determinar quem é o culpado: pode se

acusar um grupo, e não uma pessoa em particular. É mais fácil identificar um grupo do que tentar remontar até um indivíduo: e isto permite que todo o mundo tenha folga! (...) Todo o mundo ganha tempo e a reportagem é valida assim mesmo. Em uma palavra, a rede consegue um ótimo “furo” sem muito trabalho. Além do mais, a vantagem, quando dizem que o culpado é uma gangue, é que ninguém precisa se fazer perguntas: porque ao acusar um indivíduo particular, corre se o risco de prejudicar as suas chances de ter um processo justo.” É assim que muitos crimes são abusivamente estigmatizados como “envolvendo gangues”. Em muitos casos precisos que eu estudei, o erro era porque o jornalista ignorava a existência de outros tipos de crimes coletivos, como os cometidos pelas crews, estas equipes de três a cinco pessoas que se associam apenas para o tempo de um assalto. Da mesma forma, quando um jovem comete um crime a título individual, independentemente da gangue à qual se alega que ele faz parte, é incorreto e abusivo falar em “crime de gangue”. E quando este tipo de erro ocorre, os jornalistas e os órgãos de informação não correm o risco de ser criticados, já que o público desconhece que o crime relatado foi cometido por um grupo que não tem, nem a estrutura nem o modo de funcionamento específico da gangue. Aquilo que um jornalista de um diário de New York reconhece: “Era uma série de assaltos durante os quais muitas pessoas levaram tiros. Quando cheguei no lugar para fazer a cobertura dos acontecimentos, fiz a minha investigação e descobri que os ladrões eram pelo menos seis. Então, fiz a minha matéria dizendo que as vítimas tinham sido agredidas e roubadas por uma “gangue”. Mas de fato, pouco depois, compreendi que os ladrões não tinham nada a ver com uma gangue: eles formavam. o que, na periferia, se chama uma “equipe” (crews). Em outras circunstâncias, ficaria muito aborrecido de ter cometido tamanho erro na minha matéria. Mas lá não, já que ninguém não está nem aí. Você acha que o público quer saber se estes caras formavam uma gangue no sentido estrito da palavra? Claro que não! O que importa para eles é que alguém

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foi assaltado e roubado por um bando de vagabundos e foi o que eu escrevi... Aliás, meus patrões se lixam para o meu erro, já que, de qualquer forma, esta história agradou aos leitores; além disso, eles sempre têm a desculpa de poder dizer que tudo isto tinha um pouco a ver com uma gangue.” Na verdade, os contatos diretos entre os jornalistas que produzem a “notícia” e os membros de gangues são extremamente limitados. De uma maneira geral, estes não interrogam os jovens das gangues no momento de cada acontecimento, simplesmente porque não têm tempo material para isto. Eles têm prazos para cumprir, que os impedem de localizar o ou aos membros da gangue incriminada e estabelecer com eles o clima de confiança indispensável a uma boa cooperação4. Aliás, a maioria dos jornalistas considera este procedimento como inútil e supérfluo. E, de fato, o número de encontros entre um jornalista e as gangues com que trabalha varia entre nenhum, no caso dos apresentadores de programas de televisão e alguns no máximo, o caso dos repórteres da imprensa. É por esta razão que os jornalistas se contentam com as informações sobre as gangues vindas da polícia, como o admite um jornalista que trabalha em um diário de New York: “De fato, quase nunca encontrei as gangues das quais eu falo nas minhas reportagens, nunca precisei realmente disso, já que se tratava sempre de casos de homicídio. Os comentários da polícia eram, portanto, amplamente suficientes. Você entende, eu não escrevia matérias de fundo: não é o que o redator-chefe queria de mim. Tudo o que eles queriam de mim era que eu escrevesse uma matéria sobre um acontecimento interessante e que o produza a tempo.” A reportagem de fundo ou o método “explicativo” Dada a extrema raridade dos contatos entre as gangues e os jornalistas que trabalham para as emis-

soras e a imprensa diária, não é de admirar que as notícias não ofereçam praticamente nenhum dado de fundo sobre o fenômeno, quando não fornecem delas dados inexatos e enganadores. As reportagens sobre os casos de gangues têm, não obstante, uma função muito útil para a mídia como um meio cômodo de atrair a atenção e cativar o público5. Os produtores de programas de televisão sabem que para segurar o público é preciso produzir jornais variados e movimentados6. Da mesma maneira, os diretores de diários e de revistas procuram atrair leitores com manchetes, capas e títulos chamativos7. Mas os produtores e diretores de jornais são também conscientes dos limites do procedimento puramente “informativo”. Eles se esforçam, portanto, para capitalizar em cima do desejo de explicações complementares despertado no público pelas informações factuais, para oferecer artigos ditos de “fundo”, reportagens longa metragem e documentários que alegam tratar de forma mais profunda os acontecimentos relatados de maneira muito sucinta no noticiário do dia. O objeto declarado deste segundo procedimento, que eu chamarei “explicativo”, é uma compreensão em profundidade da natureza das gangues. Em matéria de televisão, a grande referência é o documentário realizado nos anos 50 por Edward R. Murrow para a CBS, intitulado Who Killed Michael Farmer? É muito citado nas universidades como paradigma do gênero e todos os jornalistas que, desde então, fizeram filmes sobre gangues se inspiraram nele. Neste trabalho, Murrow trata de um incidente violento que fez muito barulho na época, a morte de um jovem deficiente nas mãos de uma gangue do Bronx na cidade de New York, cujas causas ele tenta trazer à luz do dia

É claro que as gangues não são o único tema que serve para “prender” leitores, ouvintes ou telespectadores ao noticiário.
6 Ver Herbert J. Gans, Deciding What’s News: A Study

5

4 Ver Gitlin, The Whole World is Watching, p.35, sobre

of CBS Evening News, NBC Nightly News, Newsweek and Time, New York Random house, 1980,p.218.
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a importância dos prazos na simplificação das reportagens.

Ibid., p. 219.

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para esclarecer o grande público a respeito do fenômeno mais geral das gangues na América8. A comparação entre o documentário de Murrow e dos recentes programas como Our Children: The Next Generation de Dan Medina, 48 hours: on gang street de Dan Rather (o famoso apresentador do jornal da noite da CBS nos EUA), ou Not my kid de Tyne Daly, produzido em 1989, revela que todos usam as mesmas técnicas de apresentação inovadas por Murrow9. Após ter lembrado os detalhes de uma notícia popular que fez derramar muita tinta nas manchetes, cada um traz informações sobre o contexto e as circunstâncias ambientes, para produzir uma análise de maior alcance sobre as gangues. No caso de Murrow, a notícia inicial é um incidente isolado, o homicídio de Michael Farmer; no de Dan Medina e de Dan Rather, são duas séries de crimes provocadas por confrontos coletivos entre muitas gangues de Los Angeles. Cada um destes eventos teve a cobertura de jornais da noite antes de se tornar o suporte de uma investigação mais completa que procura acima de tudo cativar e comover o público. O documentário de Murrow é inegavelmente um filme que enche os olhos: a lembrança das circunstâncias que levaram à morte trágica de Michael é entrecortada pela narrativa da história pessoal de seus agressores assim como pelas reações dos pais do jovem deficiente num tom que alterna

Embora Murrow e Yablonsky (na sua obra The Violent Gang) usem o mesmo incidente para analisar o fenômeno das gangues, eles chegam a conclusões diametralmente opostas. É possível pensar que é porque um deles é um sociólogo de profissão (Yablonsky) e o outro um jornalista persistente (Murrow) e que Yablonsky tem por esta razão mais chances de estar certo, por causa da sua formação. Não é nada disto: minhas pesquisas sobre este caso me levam a crer que as conclusões de Murrow estão mais próximas da realidade das gangues e do encadeamento dos eventos que conduziram efetivamente à morte de Michael Farmer No meio de uma gama de documentários dedicados a gangues, escolhi centrar nestes três programas por serem típicos do método “explicativo” com destino ao grande público.
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emoção e suspense. Mas, embora com perfeito domínio no plano da forma, o famoso documentário sofre, no fundo, enormes lacunas. As informações fornecidas esclarecem alguns dos fatores que podem ter influído os autores do crime mas que não dizem quase nada sobre a gangue em si, a não ser que Michael foi a vítima inocente de uma luta intestina entre seus membros. Nada é dito, notadamente, sobre o modo de organização e os comportamentos específicos de uma gangue urbana. E à pergunta inicial, “quem matou Michael Farmer?”, Murrow se contenta em responder in fine que foi a sociedade a responsável na medida em que permanece cega e insensível perante as condições socio-econômicas opressivas que levam os jovens dos bairros pobres a formar grupos suscetíveis de agredir pessoas. Uma resposta destas só faz reforçar a idéa comum de que as gangues são hordas de predadores, lobos ou hienas, famintos e violentos. O espectador, a quem ninguém propõe nenhuma análise séria da gangue enquanto tal, não pode, portanto, captar a relação entre a gangue como organização e a criminalidade juvenil. Os programas de Rather e Medina diferem do de Murrow na maneira de se articular em torno de assassinatos em série atribuídos a várias gangues de Los Angeles. Como o filme de Murrow, eles relatam a vida dos membros das gangues incriminadas e suas atividades e utilizam, para manter o interesse e o ritmo do programa, cenas comoventes contando a vida das vítimas. Entretanto, há trinta anos de distância, eles parecem notavelmente próximos da reportagem de Murrow e só fornecem mesmo breves comentários e lugares comuns sobre a vida das gangues. Isto se explica pelos imperativos técnicos, profissionais e comerciais que guiam a escolha e a apresentação dos “casos” considerados dignos de serem documentados pela mídia. As exigências do trabalho de jornalista Exigências inerentes ao processo de produção jornalística explicam em parte as semelhanças que se observam entre os diferentes programas de tele-

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Assim. justamente a cidade em que se situa a reportagem. Nenhuma das reportagens sobre as gangues faz a comparação entre diferentes cidades dos EUA mas todas usam diversos procedimentos para lhes dar um alcance nacional. A primeira das contingências que pesam sobre o trabalho dos jornalistas é o que os próprios chamam de “importância do caso” (story suitability). É. tendo como resultado que nenhum destes aspectos é suficientemente desenvolvido para permitir o menor esclarecimento sobre o fenômeno. os jornalistas precisam se perguntar se ele traz alguma novidade: se falharem neste ítem. os seus superiores lhes chamarão logo a atenção sobre este ponto. 146 -181. p. extremos de New York e de Los Angeles. A primeira receita usada em todos os programas de televisão consiste na exploração do tema da violência. não estabelece rigorosa- 10 Ibid. Antes mesmo de começar o seu trabalho. O que permite que Dan Rather e Tyne Daly concluam ambos seu programa (48 hours e Not my kid) com a idéia de que “não é um problema que concerne apenas aos habitantes de Los Angeles: é um problema que concerne a todos nós”. se só merece a atenção em um perímetro local e regional. desprovidos de todos os dados comparativos. Esta exigência é particularmente evidente nos programas citados acima. mente nenhuma relação entre o que acontece em Los Angeles e no resto do país. eles só dão um espaço extremamente reduzido aos comentários pessoais dos protagonistas entrevistados já que é muito sabido que este tipo de comentários “quebra” o ritmo do programa. Our Children: The Next Revista Brasileira de Educação 185 . Um dos credos dos profissionais da notícia é que o ritmo de um programa deve ser controlado. Para criar “ação”. no documentário de televisão. Rather e Medina. pelo contrário. se ele é sucetível de interessar o país inteiro ou. Por exemplo. para que o interesse do telespectador não relaxe nunca. É por esta razão que as reportagens sempre contêm cenas de violência entre as gangues cuja finalidade não é tão somente a de descrever o dia a dia nos bairros pobres e operários quanto a de fornecer “ação”. Outro método visando a produção deste efeito de generalização é a exploração emocional da dor das vítimas da criminalidade das gangues e de sua família. como a tristeza e a cólera que a morte ocasiona. o da violência e o das emoções. E é a idéia de violência que permite aqui. No jargão jornalístico. portanto. Em cada um dos documentários citados. preciso ou selecionar um assunto totalmente novo. os jornalistas apelam para dois tipos de registros. “ação” significa na verdade. o jornalista insiste no fato de que a violência das gangues é onipresente em todas as grandes cidades dos USA e prossegue afirmando que “em nenhum lugar. eu me limitarei aqui a desenvolver as que se aplicam especificamente aos documentários de Murrow.. sobre um mesmo tema. A terceira pergunta que um jornalista deve se fazer é a de saber se uma reportagem contem bastante “ação”’. O documentário é feito para permitir que os espectadores entendam a violência que assola o seu próprio bairro através dos exemplos. muitas vezes forçadas. Todas as reportagens sobre as gangues redobram esforços para gerar a emoção nos telespectadores mostrando-lhes pessoas que são elas mesmas absolutamente transtornadas. alargar o alcance da reportagem no país inteiro. e passam muito rapidamente de um aspecto da vida das gangues para outro. A segunda regra que condiciona a produção de tais documentários é o “imperativo do inédito”. aliás. É por esta razão que todas as reportagens sobre as gangues são variações. isto é.As gangues e a imprensa visão dedicados às gangues. esta violência só está presente em X”. Estas contingências foram analisadas detalhadamente por Herbert Gans10. A quarta regra tem a ver com o “ritmo”. ou encontrar uma nova luz para um tema que já foi tratado. Assim. eles mesmos trazem uma resposta afirmativa a pergunta que todo jornalista de profissão deve se fazer nos EUA: será que a minha reportagem vai interessar a sociedade toda? — enquanto que o conteúdo de seus documentários. emoção. este ingrediente indispensável à produção de uma “boa” reportagem.

mas. Mas ele ainda não havia terminado o terceiro quando o jornalista o cortou: “Na verdade. difícil e até mesmo impossível para ele juntar as informações de base. É. há seis anos em Boston. se você quer realmente simplificar. É também muito comum um jornalista que dialoga com os membros de uma gangue obrigá-los a transformar suas palavras para simplificálas. Medina afirma que entre as vítimas das gangues aparecem as suas famílias e ele prossegue anunciando que “são famílias que se mobilizaram contra a violência”.Martín Sánchez-Jankowski Generation. Os comentários deste jornalista. o que restringe drasticamente seu conhecimento sobre as gangues. E. no começo do documentário de televisão Our Children: New Generation. É o caso de um jornalista entrevistando um membro de gangue de New York sobre as razões que levavam a sua gangue a se enfrentar com outra.” Mas quando o repórter se foi. p. isto é. falando simplesmente. por um esforço visando apresentar aspectos muito diversificados da vida das gangues.” O jornalista o interrompeu então.. na verdade. o jovem declarou: “Suponho que ele quer que as pessoas entendam. É por esta razão que esta exigência só faz reforçar a incompreensão geral que reina em torno do fenômeno das gangues.. Por exemplo. para equilibrar as coisas. respondeu que muitos fatores explicavam este conflito e começa a enumerálos. sem dar a menor explicação a respeito desta diferença. Se esta intenção parece a priori louvável. entre as quais a mais tirânica é sem dúvida a dos prazos a serem cumpridos pelos jornalistas. às vezes. se referindo à excitação da ação violenta como catalizador das gangues. Dan Medina diz notadamente: “A violência na rua se tornou um esporte para alguns. é o que você quer dizer. suponho que é isto. o dinheiro e as mulheres se encontrem amalgamados na idéia de violência.” Seguem curtíssimas cenas violentas de apenas alguns segundos. outra vez: “Mas. em uma única frase.. O que se traduz nos programas dedi- cados às gangues.” No que Nimble respondeu: “Bem. o que você quer dizer é que é um problema de território.. como fim de programa. Mas eu 186 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . às vezes. embora o status social.. a ponto de. ilustram bem este dilema da atividade dos repórteres: “Estava fazendo uma matéria de fundo sobre as gangues e havia realmente todos os elementos para que a reportagem fosse um arraso. abandona-se para o público a tarefa de dar um jeito de reconciliar estes comportamentos de aparência contraditória. a análises extremamente pobres e sucintas que cabem. ele conclui dizendo que uma das causas da perenidade da violência juvenil é que as famílias não assumem suas responsabilidades. sem a menor explicação nem prova. oferecendo ao mesmo tempo diferentes perspectivas sobre cada uma delas. a saber o status social. se você quiser. o dinheiro e as mulheres. Porém. O rapaz. Mostrando ao mesmo tempo pais que se levantam contra as gangues e outros que parecem não preocupados. então sim. ela só leva. chamado Nimble.-se!” A sexta exigência que pesa no trabalho jornalístico recomenda uma reportagem “equilibrada”. O conteúdo das reportagens sobre as gangues é também submetido a exigências mais diretamente técnicas. é muito óbvio que enquanto o jornalista não tem domínio suficiente de certos aspectos fundamentais da questão. portanto. mas é mais complicado do que isto. tirar todo o significado de sua palavras. Quinta exigência: a “clareza” da reportagem. Pouco depois. E neste passo. não tem mais jeito de eles entenderem agora! Mas se é o que ele quer.. eles mostra pais que não têm nada a dizer sobre o fato dos filhos fazerem parte de uma gangue. após o quê ele acrescenta: “A violência é um excitante e é também o maior sustentáculo das gangues da região de Los Angeles”.. e deontologicamente defensável. ele sugere três outros fatores que levariam os jovens a se juntar a gangues. que mostre diversidade mas também igualdade na escolha das matérias e na expressão das orientações políticas. Os jornalistas consideram que seu trabalho deve poder ser entendido por todo o público embora seus comentários se reduzam ao estritamente necessário. o público corre o risco de não aprender grande coisa com as suas reportagens.. A conseqüência mais evidente disto é que o jornalista trabalha muito pouco tempo no mesmo assunto.” E Nimble assentiu: “É. f.

mas a realidade profissional é completamente diferente. o que faz com que os estereótipos os mais comuns sobre as gangues não parem de se reproduzir e se reforçar. ainda. Infelizmente. Quase todos aqueles que fazem reportagens de fundo sobre as gangues am- bicionam produzir um diagnóstico de caráter sociológico. acontece que pedem aos especialistas para discutirem um aspecto da vida das gangues que foi relatado ao jornalista ou que ele viu. Isto é o que costuma acontecer quando o jornalista não consegue convidar o especialista desejado para o seu programa e se vê obrigado a substituí-lo. Mais uma vez. comedida. Mas nenhum deles tem a formação requerida nem as ferramentas necessárias para este tipo de abordagem. 12 Revista Brasileira de Educação 187 . eles muitas vezes pedem para pretensos especialistas comentarem os aspectos do assunto a respeito dos quais eles mesmos se sentem os mais incompetentes. Gostaria de pelo menos ter podido ficar com eles. problema que os jornalistas compartilham com os sociólogos. de maneira algum. mas o meu diretor tinha prazos para cumprir e portanto eu tive de ceder também. de improviso. ou que ele estudou há tanto tempo que suas observações são completamente obsoletas. Isto. consciente disto e reconhece até um certo embaraço. Os jornalistas sempre podem sonhar em não ter nenhum limite neste caso. A quarta dificuldade técnica é a da extensão imposta ao programa ou ao artigo. aliás. o resultado é que a análise dos pretensos especialistas repousa menos sobre dados atuais do que sobre imagens repetidas. O verdadeiro problema é ganhar a confiança dos seus membros para ser autorizado a observar diretamente o conjunto das atividades da gangue e a recolher as confidências dos jovens implicados. Esta dificuldade não consiste tão somente em entrar em contato com eles. Ou. Aí vem notadamente o problema de como saber usar os comentários dos especialistas. Salvo exceção. o que cria um sério problema de qualidade do nível das informações fornecidas no programa. Mas isto não impede de reconhecer que deixei de escrever o artigo que eu poderia ter redigido. geralmente dos sociólogos e dos criminologistas. Para preencher as lacunas de suas reportagens. os jornalistas confiam no que já foi dito antes deles sobre o assunto11. equilibrada. Para dar o troco. 11 Estas decisões são elas mesmas fortemente determinadas pelo que a profissão tem costume de considerar como uma boa reportagem (clara. Muitas vezes. como estes repórter que eu pude ver perguntar a especia- Usar observações feitas por outrem não acontece sem riscos. o jornalista pressiona o especialista a responder muito brevemente a suas perguntas e com termos diferentes dos que ele gostaria de usar. incomodar os jornalistas: eles produzem apesar de tudo suas reportagens compensando a sua própria carência de informações diretas tomando emprestado os comentários de outras análises. pois um encontro se obtém bastante facilmente. os sentimentos e as aspirações — de seus membros. os jornalistas não são aceitos no seio das gangues e não têm portanto acesso à sua vida externa e muito menos à vida interna — as idéias. de fato. mas que o especialista mesmo não observou. Mas este problema não parece. A maioria dos jornalistas é.” Uma outra exigência tem a ver com a dificuldade de acesso aos membros das gangues. obriga os jornalistas a fazerem uma escolha entre os diferentes aspectos do assunto que eles vão tratar e a decidir sobre o tempo a dedicar a cada um deles12. pergunta-se aos especialistas sobre um assunto fora das suas competências. E estas exigências de duração e de extensão afetam diretamente tanto a profundeza quanto a qualidade da reportagem. etc. pois sabia que precisaria de mais tempo mas não fiquei com bronca do meu chefe porque eu sei que ele mesmo estava preso na engrenagem. dos quais os dois principais são que estas observações sejam falsas ou sem pertinência no contexto em que são trazidas.As gangues e a imprensa precisava passar muito tempo com os jovens. A terceira dificuldade técnica tem a ver com a formação dos jornalistas. Estava frustrado.). por uma pessoa menos competente porém mais disponível.

Estes clichés que a mídia contribuiu para criar. e isto. um jornalista explicar a um expert que sua teoria devia ser falha. assim como os que eu interroguei durante as entrevistas formais e com quem tive a oportunidade de discutir quando vinham entrevistar as gangues com as quais eu andava. e também espero que me permita ganhar muito dinheiro. do sexo e da violência e que são envoltas por uma atmosfera sulfúrica que mistura sinistro e mistério. É realmente o tipo de matéria ideal para um jovem jornalista como eu.. Porém. em Los Angeles. eu ganharia ainda mais respeito e prestígio na profissão. eu posso provar a mim mesmo que ainda estou por dentro. As gangues são um problema muito grave nas cidades americanas e sempre foi assim porque os grupos representam uma ameaça para o americano médio. Resumindo. eu sei que vou conservar a estima profissional que eu adquiri em todos estes anos aos olhos de meus colegas. Vi. de espaço e de formação ditam. Seriamente. as exigências de tempo. Eles esperam firmemente conseguir graças às gangues um cargo mais importante com responsabilidades ampliadas assim como um salário mais generoso. o conteúdo das reportagens sobre as gangues e as explicações que dão para justificar a sua multiplicação. Mostrou-se que as gangues são invariavelmente associadas aos temas do crime. Explorar estes clichés. no seu próprio jornal ou rede de televisão ou rádio. a sua “linha” (your take) sobre a violência das gangues. E se eu conseguisse dar uma visão nova das gangues ou de um outro assunto tão explosivo quanto esse.” Todos os jornalistas que eu encontrei. O especialista. prestígio e poder. eles seriam capazes de dar uma visão nova das gangues. se prepara para se lançar numa explicação bastante longa mas é imediatamente interrompido pelo jornalista que exige uma resposta precipitada. há pouco tempo. para uma boa parte. Nos casos em que o jornalista deixa o especialista se expressar à vontade. não é muito complicado no meu caso.Martín Sánchez-Jankowski listas: “E o senhor. Um jornalista. Interesses profissionais e pressões comerciais Ambições profissionais e pressões comerciais são o último elemento que explica a perceptível similitude dos programas dedicados às gangues. pois se eu conseguisse fazer uma reportagem sobre as gangues. Um jovem jornalista tem uma tremenda necessidade de uma ou de duas boas reportagens destas para lançar a sua carreira. os seus projetos não tinham nada de muito novo. se revelar particularmente eficaz para ganhar dinheiro. por conseguinte. afirmou sem constrangimento: “É claro que quero fazer uma reportagem sobre as gangues. qual é?”. não me desagradaria. até. é um ótimo assunto para se trabalhar porque continua havendo violência e crimes nos casos de gangues e é exatamente com isto que o público sonha. no momento da entrevista.) O que eu espero de uma boa reportagem é que me faça ganhar o respeito de meus colegas. estavam convencidos de que ao acumularem as informações necessárias. um produto — de destaque que pode. e que me faça conseguir outros programas. Muito francamente. seguro após vários anos de reflexão sobre o assunto. para ser mais preciso. explica também o interesse de tais reportagens: “Você me pergunta por quê eu quero fazer esta reportagem sobre as gangues? Na verdade. a não ser aos seus 188 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . limitando-se a adotar um ângulo novo para apresentá-los. (. As gangues representam portanto para os jornalistas um assunto — ou.. tornou-se um dos meios mais concorridos para fazer carreira na mídia. Os jornalistas estão convencidos de que uma boa reportagem sobre as gangues pode realçar o seu prestígio no seio da profissão e.” Um outro jornalista em New York há muitos anos. sua intervenção será pura e simplesmente reduzida ou suprimida na hora da montagem. já que não conseguia expressála em poucas palavras. Escolhendo um assunto que sempre costuma ser a notícia destes últimos tempos. são aqueles mesmos sucetíveis de atrair um grande público. se eu me encarrego de uma reportagem difícil sobre um assunto importante que interessa para todo o mundo. além do mais. tenho certeza que teria muito a ganhar. na maioria dos casos.

ao discutir comigo. não acredito que seja exatamente a mesma coisa. é ativamente encorajada pelo animador. cita diversas estimativas da amplitude do fenômeno pelos experts e salienta a extrema gravidade da situação. particularmente entre as pessoas que não residem nos bairros pobres assolados pelas gangues. Os talk-shows de grande audiência na parte da tarde como Geraldo. Phil Donahue.As gangues e a imprensa próprios olhos. animados por um apresentador-astro (como Geraldo Rivera. A participação ativa e barulhenta da platéia. apita e ovaciona os debatedores. no palco pessoas que viveram tal situação extrema para ilustrar o tema do dia. Porém. No caso das gangues. The Phil Donahue Show. a quem [Nota do tradutor] Estes programas diários. Como estes programas apresentam um assunto diferente a cada dia (ou seja. O apresentador lembra algum incidente violento notório que implique uma ou mais gangues. uma frase de introdução basta para dramatizar o problema. eles só têm pouco tempo para dedicar ás pesquisas necessárias a cada tema. Um talk-show destes é sempre aberto com uma apresentação do assunto pelo animador que dá o tom do programa. Passei muito tempo nesta reportagem e acho que vou poder convencer o redatorchefe de que é algo inédito”. destacando as atitudes e as emoções dos participantes13. escondemse objetivos essencialmente profissionais e comerciais. 13 Revista Brasileira de Educação 189 . As gangues como assunto de diversão Os debates de televisão e os filmes marcam uma etapa suplementar — e uma escalada — na exploração midiática do interese do grande público pelas gangues. geralmente. sexualidade e imoralidade) junta. As declarações deste jornalista ilustram bem esta atitude: “Dois colegas me disseram que a minha matéria sobre as gangues já tinha sido feita. devidamente certficados por seus diplomas) que supõem sugerir alguma terapia individual como solução do dilema discutido. É por esta razão que elas privilegiam todos os assuntos considerados como os mais “chamativos” junto ao público da tarde. Alguns até confessaram que outros que haviam trabalhado sobre o tema tinham avisado que sua abordagem não era original. eles juntam no palco “experts” ou pretensos experts na matéria. O que os jornalistas consideram ou teimam em considerar como uma apresentação “inovadora” só faz. Isto é devido ao fato deles nem procurarem compreender o que são realmente as gangues. Mas em compensação. representantes de associações envolvidas e diversos experts (geralmente psicólogos e profissões paramédicas. Sob a cobertura da investigação “explicativa”. que aplaude. sobretudo quando é tratado com um sensacionalismo desmedido. que emprestam o seu patrônimo ao programa) que conduz uma discussão personalizada de alto teor emocional em volta de um tema selecionado pelo seu impacto midiático (os temas giram invariavelmente em torno de dinheiro. as reportagens de fundo difundidas sobre as gangues pelas revistas. cinco assuntos por semana). Ele diz o número de vítimas inocentes desta manifestações de violência. o fenômeno das gangues é o próprio tipo de assunto que estimula o interesse dos telespectadores. É porém. E este tipo de reportagem reforça uma imagem das gangues que deve menos à realidade do que aos mitos que as envolvem. na verdade. e Ophrah Winfrey. além dos debates que alegam promover sobre diferentes “problemas da sociedade” vistos através das situações individuais. jornais ou pela televisão só se aproveitam do interesse criado pelo noticiário para faturar. raro que permitam uma melhor compreensão do fenômeno. se apresentando como análises aprofundadas do assunto. francamente. mas. reforçar o mais comum ponto de vista sobre as gangues com todas as suas falhas. amor. têm como grande ambição a de revelar “o aspecto humano” de cada história. usando termos e imagens estereotipados e alarmistas. Em suma. assim como as tomadas de posição definitivas e irreconciliáveis. eles não davam a mínima para estas advertências e continuavam falando como se tivessem efetivamente uma concepção revolucionária do problema para vender ao seu diretor ou produtor. ao vivo. e The Oprah Winfrey Show se apresentam — e se vendem — como programas que. Estas emissões são retiradas das programações sempre que elas deixam de ter uma alta taxa de audiência.

Assim. O cinema também usa este assunto para fins recreativos e comerciais16. mesmo que a estratégia posta em prática permita efetivamente obter debates animados. os mais memoráveis são sem dúvida West Side Story. Entretanto. Fundamentalmente. The Warriors das dos anos 70 e Colors dos anos 80. 17 16 190 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Obviamente. Cagney and Lacey e The Mod Square contêm todos episódios em que as gangues são destaque. Eles representam tudo aquilo que a sociedade execra profundamente e sobretudo tudo aquilo que ameaça os seus valores mais sagrados. por assim dizer. ele limita as intervenções de cada um a algumas frases que ele utiliza como ponto de partida daquilo que é ou vai realmente ser o coração e a razão de ser do programa: as interações múltiplas e rápidas entre o animador. metidos e sedutores apesar de tudo. As telenovelas Hill Street Blues. Outros filmes recentes como Fort Apache-The Bronx fazem semelhante pintura das gangues. L. nada sobre o fenômeno das gangues. o objetivo divertimento é bem atingido mas ao preço de uma acentuação dos clichés sobre o problema das gangues. Law. sua competência não tem nada a ver com o assunto em pauta. é obviamente impossível dar respostas um pouco complexas e completas que sejam. O objetivo é criar um debate conflituoso entre todos os participantes (sem dúvida porque se considera que é o único meio de interessar os telespectadores). que colocou face a face defensores da supremacia branca e militantes afro-americanos. Mas muitas vezes. perdedores com costumes primários e com comportamento violento. eles são notavelmente similares na sua maneira de apresentar as gangues e o seu meio ambiente. em que os grupos quebraram o nariz de Geraldo Rivera. e os telespectadores. mas sobretudo. The Warriors e Colors. mas utilizar as gangues como suporte para vender o espetáculo das trocas (bate-papo) entre os partcipantes. oriundos da classe operária. Entre a pletora de filmes sobre as gangues. O apresentador manipula seus convidados para que o debate seja o mais ágil possível.Martín Sánchez-Jankowski se pede comentários sobre o que for dito ao longo do programa pelos convidados ou pelo público14. Até porque os muitos convidados têm todos conhecimentos e opiniões muito dispersos sobre o assunto. O apresentador assume portanto o papel do provocador para criar a polêmica entre os diferentes grupos de participantes15. Porém. apesar deste quadro temporal muito preciso. O papel do apresentador face aos convidados é ressaltar as diferenças e acentuar as oposições entre os pontos de vista expostos. Porém. um bate-boca violento estourou em Geraldo durante um programa. entre o público presente e os telespectadores. os convidados. chovem as perguntas de senso comum tais como: Por quê eles são tão violentos? Como fazer para tirá-los desta? etc. são “perdedores”. os espectadores se empolgarão também.A. Em Warriors e Colors os princípos que guiam a conduta dos mem- Falar em pretensos experts não significa que as pessoas solicitadas careçam de competência. Definitivamente. finalmente entre os convidados e o público. a esta questões em meia hora de programa (sem contar as propagandas que interrompem os debates a cada seis ou oito minutos). e entreter a animação do programa incentivando ininterruptamente as trocas (bate-papo) entre os convidados. não se aprende. Até os primeiros filmes sobre os Bouwery Boys os apresentam como coitados. 14 Podemos incluir aqui os telefilmes e as passagens de seriados que integram históras de gangues. os produtores do programa estimam que se eles conseguem “esquentar o públi- co” do estúdio. Durante as emissões dedicadas às gangues. nos programas que estudei. Cada um destes filmes descreve uma gangue de uma época diferente: West Side Story nos fala das gangues dos anos 50. o público do estúdio. 15 Acontece que este segundo método funciona tão bem que o apresentador se vê transbordado e paga por isto. e que não têm nem competência nem vontade de crescer na escala social ou de se tornar cidadãos produtivos17. Cada um destes filmes apresenta os membros das gangues como jovens pobres. É verdade que o procedimento e o objetivo destes programas não é buscar a compreensão.

em Colors. Quando lhes é oferecida a possibilidade de sair de seus guetos e escapar da corrupção que as assola. embora de maneira mais sútil: as forças do “bem” se manifestam através de Maria e Tony enquanto que o “mal” é encarnado por todos aqueles que pertencem a uma gangue. um filme mais antigo que descreve a vida de uma comunidade particularmente pobre19. Basta comparar as personagens femininas de cor e policiais brancos em Colors e em Fort Apache-The Bronx. 19 Fort Apache The Bronx é um filme sobre o bairro “ghetificado” do South Bronx de New York. é uma enfermeira portoriquenha e. uma mulher fácil que corre pelas ruas com a sua gangue latina. Seu tema central é a criminalidade neste enclave pobre de New York e as tribulações dos policiais que lá trabalham. a garçonete mexicana termina com Sean Penn. sem dúvida. por exemplo. os parentes dos jovens delinquentes aparecem com traços particularmente sombrios. as comunidades a que pertencem as gangues aparecem como completamente desorganizadas e completamente incontroláveis e os indivíduos que as compõem incapazes de tomar conta delas mesmas. amantes ou simples conhecidas. o marido de Madonna. uma mexicana que vende sanduíches. Em compensação. Nos dois casos. todas as mulheres de cor são imorais e irresponsáveis. que a encontrará depois nos braços de um dos membros da gangue. de longe. em Colors — se apaixona pela mulher “diferente das outras”. A morte de Tony é tratada no flme à maneira da paixão do Cristo. as personagens mais negativas. quando levam juntos seu corpo para a terra. a mais disciplina. Mas são as companheiras dos membros de gangues que são. mas que ninguém sabe Revista Brasileira de Educação 191 . enquanto Maria chora este sacrifíco como a Virgem Santa. o policial branco — Paul Newman em Fort Apache e Sean Penn. nos dois filmes. ele só trata incidentalmente das gangues. Elas estão dispostas a cometer o adultério e até a se prostituir. ou ainda são alcoólatras ou drogadas. Os pais. Nestes dois fil- É também a mensagem de West Side Story. seu inimigo pessoal mas também e sobretudo o único negro desta gangue mexicana! O simbolismo racial é particularmente revelador em relação a isto: fazer amor com um delinquente mexicano já seria bastante imoral. 18 mes. Chegamos finalmente à definição que Hollywood dá do ambiente social das gangues. têm todas costumes suspeitos. mas fazê-lo com o único negro da gangue é realmente a traição suprema. Colors está centrado sobre as atividades presumidas das gangues de Los Angeles assim como o seu meio ambiente. as duas se mostram profundamente incapazes de agarrar esta oportunidade: a jovem portoriquenha se recusa a parar com a heroína e acabará morrendo de overdose. em bairros “não brancos”. Da mesma forma. mas a maneira como elas os traem é particularmente repreensível aos olhos da moral dominante. Em todos estes filmes. apresentam as intrigas amorosas dos membros de gangues de uma maneira ao mesmo tempo sexista e racista que em nada corresponde à situação específica das gangues. E claro. A enfermeira portoriquenha se revela ser uma viciada em heroína e a garçonete mexicana. sejam elas namoradas. a única mulher “não branca” apresentada como diferente das outras é justamente aquela que parece ter escapado da influência corruptora da sua comunidade. Assim. que a sua moralidade aparente não passa de uma máscara de hipocrisia. que todos eles aspiram. O sacrifíco de Tony leva os Jets e os Sharks à humanidade. que precisam de um mínimo de cenas de amor e de sexo para serem vendidos. Estes filmes. cada filme contém várias cenas que procuram demonstrar que “esta gente” é incapaz de fazer reinar a ordem.As gangues e a imprensa bros das gangues representam verdadeiros anátemas lançados contra a sociedade 18. Elas não só são apresentadas como desleais para com seus namorados brancos. Mas descobre-se logo durante o filme que estas duas mulheres não são nada “boas”. sejam eles brancos ou portoriquenhos (como mostra a célebre cena do assassinato seguido pela dor de Maria). ignoram ou negligenciam suas responsabilidades face a seus filhos no descaminho. As mulheres que têm qualquer tipo de relações com membros de gangues. Esta representação é muito mais chocante porque a maioria destes filmes se concentra sobre gangues de “não brancos”. Em Fort Apache.

mas o palanque desmorona durante a assembléia e a reunião afunda no caos./ ICRY organization). parece que os jovens demônios fabricados peça por peça. Hollywood criou um verdadeiro mundo imaginário com seus personagens míticos. nem família. Ver Youth at Large. esta comunidade afundaria no maior caos. Ronald Reagan. não têm nada de humano. na ausência de informações e análises rigorosas sobre o assunto. ler a notável obra de Michael Rogin.. The Warriors foi criticado até por gangues que protestaram escrevendo para a revista trimestrial Youth at Large (revista publicada em Los Angeles pela Inner City Rountable of Youth. A mensagem mandada ao público é que. Em West Side Story. Como as gangues usam a mídia As gangues não se impressionam nada com a mídia e a perspectiva de ser o objeto de um artigo ou de uma entrevista não os entusiasma a ponto de liberar sem reserva as informações que os jornalistas procuram obter delas. nem ambições. Mas são também conscien- Cada um dos quatro filmes citados contém cenas deste tipo. A idéia definitivamente veiculada é a de que as gangues e seus próximos (ou seja o conjunto da população “não branca”) constituem e vivem em um universo profundamente imoral. As gangues são de fato desconfiadas dos jornalistas — como o quer o seu “individualismo desafiante” acentuado24. The Movie. A sua observação se conclui com estas palavras: “No filme. 4-6. por exemplo). Hollywood representa uma situação urbana contemporânea através de uma visão colonialista das mais tradicionais: sem a polícia (exército colonial). para se acreditar na idéia de que os pobres teriam uma moral radicalmente diferente da que está em curso no resto da sociedade. o autor do romance que inspirou o filme. os produtores e os diretores de Warriors. nem amigos. p. nem alguma destas molas que associamos com os objetivos da existência. sobretudo. Sánchez-Jankowski. Para responder às críticas que lhes foram feitas a este respeito.] É por esta razão que não gostamos de Warriors. p. já que os moradores mais bem intencionados destes bairros (países pobres) não têm as competências necessárias para controlar as gangues (facções e tribos) e impedí-las de guerrear entre si. estas comunidades pobres (países colonizados) viveriam numa desordem contínua. talvez sem querer. os moradores do bairro se juntam e colaboram com a polícia para elaborar um dispositivo de defesa contra as gangues. 223-224. 21 Notemos que muitas obras acadêmicas de alto reconhe- 20 cimento científico contribuem. Em Colors. Sobre a tendência que grande parte dos americanos tem de se empolgar com os demônios políticos e sociais que aterrorizam a sociedade. à exclusão das gangues de origem européia (italina ou irlandesa.cit. em sua grande maioria não é de lá). no 2. ver M. ao assinalarem que o filme trai o livro. 23-28. O único meio de restabelecer a ordem é então fazer com que a polícia intervenha. Assim. Islands in the Street. [. Social Order of the Slum. 10 e 21. Hollywood fez gangues e. Elas estão dispostas a informar desde que seja de acordo com suas condições. há um gentil vendedor que gostaria muito de ajudar mas que é reduzido à impotência pela violência das gangues. em ruptura com o resto da sociedade21. Inc. nem sentimento. exatamente como os jovens de ICRY. 22 Este filme suscitou muitas reações críticas. se tornam o prisma principal através do qual as pessoas constróem a sua própria compreensão da realidade social das gangues. nem consciência. já que Warriors somos nós (itálicos no original). nem senso moral. 24 23 192 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . p. os jovens que escreveram na revista defendem Sol Yurick. Fort Apache-The Bronx e Colors retorquiram obviamente que seus filmes não tinham a pretensão de ser documentários mas apenas filmes de ação procurando o divertimento23.Martín Sánchez-Jankowski como instaurá-la20. Sobre a noção de “individualismo desafiante” que estrutura a visão do mundo dos jovens das gangues. Acontece que tais imagens se instalam no espírito do público e. gangues “não brancas” e das suas mulheres fez agentes do mal por excelência. Este simbolismo colonial é tanto mais evidente e chocante quanto os recentes filmes são dedicados às gangues das comunidades de cor.. dezembro de 1979. Aliás. Dito de outra forma. sem a polícia (enquanto instituição cuja autoridade vem de fora da comunidade e cujo pessoal é igualmente composto de indivíduos que.. op. Assim o faz Gerald Suttles. São eles os elementos diabólicos da sociedade: verdadeiros “inimigos do interior” que ameaçam os próprios fundamentos da moral nacional 22.

Então. Bird. estava toda contente mas. mas a gente só os enrolava. Assim. E depois finalmente a gente pensou: “As suas reportagens. a gente a fez babar um pouco. Mas. para saber mais e a gente só dizia o que queria. E depois respondemos o que quisemos. Mas nem todos são capazes de organizar e aplicar estratégias tão elaboradas quanto as descritas anteriormente.. antes de ir embora.. mas não tudo o que eles querem. eles ficam embasbacados. mas só que são as nossas informações. De fato.. tem um monte de jornalistas que já tinha tentado fazer reportagens sobre a comunidade e sobre nós. isto interessa as pessoas. tem valor. 18 anos. Eles faziam todo tipo de perguntas: se a gente fazia tráfico de armas para a IRA. Eles obtêm o que nós queremos que eles obtenham e nada mais. pertence a uma gangue negra de New York City: “Era uma jornalista que queria fazer uma reportagem sobre nós. 19 anos. A gente é ótima para este tipo de besteiras. conta: “Claro. Coal. estar no noticiário pode ser muito útil para nós. Eles diziam que não queriam a cara deles na televisão porque os policiais Revista Brasileira de Educação 193 .” Jammer. portanto. dizem as gangues.” Todas as gangues que eu estudei em Los Angeles.” Entramos nesta e rolou mais vezes. um rapaz de 17 anos. Ela nem entendeu o que estava acontecendo. A gente dá para eles um pouquinho. a sua reportagem se encaixava bem. Muitas vezes. então melhor dizer para eles o que a gente quer que eles digam. as gangues que encontram dificuldades para manipular a mídia explicam isto pelo fato de alguns membros se recusarem a qualquer contato com os jornalistas. A razão deste comportamento. As gangues são portanto “vendedoras” mas controlam estreitamente os fluxos de informação tanto em volume como em seu teor. falamos sobre o que íamos fazer com ela. sabe. o que a gente ia dizer para ela. o lado suspeito de uma cidade. a gente dá as informações aos jornalistas. Os comentários. E depois. de qualquer forma. Era sempre preciso que eles voltem. eles precisam fazer boas matérias e depois. então eu acho que eles também não estavam nem aí.A gente só procura fazer funcionar os nossos negócios. fixamos o que a gente ia passar para ela: sabe como é. coisas assim. Sabe. Tudo isto é só armação. estas desculpas só servem para esconder a inaptidão destas gangues para controlar suas relações com a mídia já que a sua organização e a sua estrutura estão definhando. Então. mas a gente não dava mais entrevista para ninguém. Todas as gangues que estudei entenderam muito bem que a mídia está sempre disposta a fazer reportagens a seu respeito desde que tenham algo de novo a lhe propor. e também para a organização.G. eles as farão de qualquer forma. só para lhes dar água na boca. já que muitos brothers (membros da gangue) não queriam que o fizéssemos. New York e Boston entenderam o interesse que elas podem ter em serem cobertas pela mídia. Dava para ver que ela precisava tremendamente fazê-la. é membro de uma gangue de Los Angeles.Ela veio e interrogou os caras que a gente escalou. falamos dois-três negócios que podiam interessá-la para que ela volte ou fale para outro jornalista e para que eles voltem”. é bom dizê-lo. (um animador social do bairro). todo mundo fica contente por que eles não entendem nada. as gangues são um ótimo cavalo de batalha.As gangues e a imprensa tes do fato de que toda informação que lhes diz respeito é muito procurada e. portanto. quem ia falar com ela. Ele acrescenta a este respeito: “Os jornalistas. era chamativa.. Eles não entendiam bulhufas. de três jovens membros de gangues ilustram esta consciência que elas têm da utilização estratégica que podem fazer da mídia. para muitos de nós. durante a reunião da gangue. é que estes indivíduos temem ser identificados pelas autoridades e presos ou ainda porque não querem cooperar com a mídia que sempre os apresenta de forma negativa. mas a gente não queria falar com eles. pertencente a uma gangue de New York confessa: “Muitos jornalistas queriam entrar em contato conosco. os jornalistas! Ela. 20 anos. que é membro de uma gangue irlandesa de Boston. Como se a carreira dela dependesse disso! Ela nos mandou um monte de mensagens pelo intermédio de M. Decidimos que a gente podia aproveitar para fazer um pouco de propaganda e. a seguir. mas se funciona.

Um verdadeiro bordel e não havia chefe com bastante autoridade para acabar com aquilo.. estes aí”... mas que não seria sempre assim e que a gente ia perder uma p.Finalmente não pudemos tirar nada da mídia porque não conseguimos decidir entre nós o que fazer. quando dizem: “para alguns.Martín Sánchez-Jankowski poderiam reconhecer e prendê-los. O que leva a fazer muitas perguntas: primeiro. sabe. já que você estava lá. nunca entraria neste grupo em particular. É assim que a coisa acontece. sabe. Estes brothers eram realmente bad (no jargão deles: bons. Me parecia até bobo entrar no exército para aprender alguma coisa e depois fazer uma carreira. o que é muito útil 194 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Outras gangues fazem muito bem isso.. de fato. Um jovem de 18 anos que faz parte de uma gangue de New York acrescenta: “Estava vendo o noticiário na tevê quando de repente falaram das gangues. ser um recruta é o início de uma carreira” ou besteiras deste tipo. a verdadeira razão. A gente só ficava lá sentado e brigando um com outro. mas muitos chegados dos outros kikas (ramificações da gangue) queriam opinar na escolha daqueles que iam ser escalados para as entrevistas. Bateram na tecla certa!” Segunda vantagem procurada pelas gangues nas suas relações com os jornalistas: uma passagem pela mídia serve para incrementar os negócios. (.. se um pessoal de televisão faz uma reportagem sobre nós e a gente se mostra cooperativo. Isto quer dizer que nós temos possibilidades para eles. esta mensagem não me interessava. é parecido com o nosso papo: têm caras que entendem e que vêem possibilidades para eles. Tomemos como exemplo o testemunho de um membro de uma gangue de Los Angeles (21anos): “Sabe. porque eles tinham um outro cara em mente para substituí-lo. eles conseguiram nos impedir de fazer os nossos negócios com os jornalistas.. mas não teria escolhido este se não tivesse ouvido o que falavam no programa. Uma gangue que se beneficiou de uma “plataforma midiática” poderá sempre começar uma outra ramificação em um outro bairro da cidade.” Um outro membro de uma gangue de Los Angeles. Bem. isto ajuda a recrutar mais membros. eles (os jornalistas) vão nos fazer perguntas e nós vamos responder dizendo coisas que dão a impressão aos caras da vizinhança de que o que fazemos é o máximo. oportunidade para fazer a nossa propaganda. assim a gente faz passar as mensagens úteis. fortes. A mim. parece até mesmo bobo. de qualquer forma.. (. a gente diz coisas que o resto do mundo escuta e para eles. Mas têm caras que acreditam nestas besteiras. Sabe. Mas a gente está se lixando para o motivo pois. nunca vi gangue nenhuma receber dinheiro da mídia como contrapartida da sua cooperação nem nunca vi um único jornalista propor um negócio desta natureza. com 20 anos. por que lhes parece tão importante adotar uma estratégia coletiva nas suas relações com a mídia? Para responder à primeira destas perguntas. dá razões mais próximas: “Tinha um pessoal entre nós que queria aceitar a oferta dos jornalistas de nos levar para a mídia. (.. Mas para os caras da vizinhança isto quer dizer outra coisa. como quando a gente vê na tevê a propaganda do exército. É o poder das palavras. poderia ter participado de outro grupo. o que é que ganham cooperando? Segundo. você sabe. então eu disse para mim mesmo: “Eh! talvez eles tenham coisas interessantes para mim. se preciso. mas não adiantou nada. Então decidi ir lá ver com meus próprios olhos e me juntei à gangue. é óbvio que as gangues tiram muitas vantagens de uma passagem no noticiário. O que importa é saber como cooperar com eles.) Todos aqueles que estavam a favor das entrevistas disseram que as gangues estavam realmente na moda naquele momento. Na verdade era tudo papo furado já que eles nem precisavam estar lá no momento das entrevistas. Quer saber de uma coisa. é assim.. Elas esperam de uma reportagem que as descreva como sendo mestres de um território bem definido e dispostas a usar a força. é legal. duros) e tinham algo a dizer.. pois o programa terá despertado um interesse para esta gangue entre os novatos. é que eles não queriam que o cara que é presidente agora aproveite da propaganda..” Ao longo de mais de dez anos de pesquisas de campo.) Por exemplo..) Não. se as gangues não recebem dinheiro.

No programa de domingo à noite da CBS. é tipico: “Eu vi um programa na tevê sobre uma gangue do bairro. seremos sem piedade. 60 minutes. Ouvi o que eles diziam.” A mídia pode também oferecer uma outra forma de propaganda às gangues ao lhes servir “páginas amarelas” da economia ilegal. a gente consegue fazer passar a mensagem para todos aqueles que gostariam de vir tentar um golpe no nosso bairro: se os pegarmos.” Finalmente. E quando vieram me propor a proteção. membro de uma gangue de Los Angeles). seus membros se esmeram em dar de si uma imagem particularmente impressionante. porque eu sei que ele dirá por tudo quanto é lugar para não me procurarem!” (17 anos. Eis por exemplo o testemunho de um jovem membro de uma gangue irlandesa de New York (18 anos): “Quando a gente dá entrevista a um jornalista. porque. um membro de uma gangue de Chicago dá um tiro em seu próprio pé para provar a sua virilidade. Em um caso destes. alguns membros adotam um comportamento mais assustador ainda do que os outros durante as entrevistas na esperança de fazer reputação e de ganhar mais respeito e mais prestígio no seio da própria gangue ou. dei uma de doidão. 21 anos. tive um pouco de medo. 16 deles (ou seja 30%) me disseram ter sido influenciados (ou intimidados) por reportagens da mídia sobre as gangues. Mesmo que nem sempre consigam. que a sua entrevista lhes trará no mínimo esta vantagem. traficantes de objetos roubados entraram em contato com determinada gangue para expandir o seu mercado ou para terceirizar algumas de suas atividades após ter notado durante uma reportagem que esta gangue controlava o bairro. não estou neste país há muito tempo. elas sempre têm mais sucesso do que as que não têm estratégia deste tipo. a gente tenta ser realmente durão. Man. E. Então. 9 das 37 gangues que eu estudei elaboraram uma estratégia coletiva destinada a influenciar o conteúdo das reportagens. Acontece realmente que alguns traficantes encontram por meio da imprensa ou da televisão o nome de grupos que poderiam lhes ser útil na produção ou na distribuição de suas mercadorias. Dos 53 pequenos comerciantes que eu entrevistei após terem aceito a proteção de uma gangue. E depois que eu os contrato não tenho mais problemas. para assegurar melhor a segurança pessoal na rua25: “Quando dei a entrevista para este jornalista. claro que eu falei para eles que. ‘tudo bem’! Você vê. É por esta razão que cada vez que uma gangue é objeto de uma reportagem. Para as próprias gangues a mídia é também o meio de fazer chegar às outras gangues (ou a outros adversários eventuais) advertências contra possíveis invasões de território. Se as pessoas acreditarem que você é louco ninguém vem te encher o saco. os membros são persuadidos a se sairem bem. ainda. mas o que eu havia planejado. trocadilho sobre o fato de que eles têm armas calibre 357. Assim. porque eu queria ter uma aparência completamente pirada. saca. Disse coisas muito puxadas. explica: “Durante anos os jornalistas vieram nos fazer perguntas e tocar os negócios deles e a gente não lucrava nada com isto. Uma manobra destas permite aos traficantes evitar ou reduzir os gastos gerados pela organização e a formação de um novo grupo para uma atividade particular. chefe de gangue em Los Angeles. No documentário Our Children: The Next Generation. 25 Revista Brasileira de Educação 195 . quando entram em contato com novos clientes para propor-lhes a sua proteção.As gangues e a imprensa para elas. produzido por Dan Rather. Então eu procuro parecer o mais alucinado possível quando topo com algum jornalista. um jovem a quem foi perguntado por quê ele pensa que a sua gangue e ele mesmo não serão atacados por outras gangues responde: “Temos 357 razões para não nos deixar chatear”. notadamente para as suas atividades de trambique. a gente faz os caras superdelirantes. O testemunho de um proprietário de uma pequena mercearia de New York. então. elas têm mais chances de fazer o negócio se já tiverem saído na televisão. desta forma. eles sabem que serão massacrados. não quero aborrecimentos com ninguém. Para maximizar o seu proveito midiático. e depois a polícia falou dos crimes que esta gangue havia cometido. Em todas as gangues estudadas.

As gangues. Mas foi só quando começamos a refletir realmente no que a gente queria passar e tivemos um plano do que íamos dizer e fazer com os jornalistas que conseguimos obter o que a gente queria. portanto. E depois. Só podemos dizer o suficiente para manter o interesse deles. a venderão para um patrocinador e o grande público. Mas assim que tivermos resolvido tudo isto. algumas táticas que procuram estimular ou entreter o interesse da mídia. Assim as gangues conservam todo o seu mistério e poderão de novo responsabilizar o repórter pela inexatidão. (outras gangues) que só diziam o que lhes passava pela cabeça e que não tinham nenhum plano. no fim da análise. estes poderão então vender a sua reportagem a seus diretores que. Cada vez que um novo jornalista se apresenta. porque todo jornalista acredita que ele é que vai fazer a melhor repotagem sobre as gangues. Assim. Mas. às vezes. a gente se arranja para que haja sempre um outro jornalista que venha nos ver. a gente se saia melhor que estes filhos da p. como ofertas de recrutamento e para dizer às pessoas onde era o nosso território. chefe de gangue de New York de 18 anos. E elas reforçaram juntas o mito popular das gangues na cultura americana. o que mais choca na maneira como esta última tratou e trata o fenômeno. para passar a certeza de que elas não enganaram o jornalista mas que foi este último que não soube relatar as suas palavras. mudava a reportagem e nos enrolava. o jornalista. dava certo. Assim. a gente não tinha do que se queixar quando as coisas não davam sempre certo. uma com a outra. estamos com problemas de organização. ou não sei mais quem. Elas só mantêm que a reportagem é só parcialmente condizente com a verdade. Ao fazer isto. Algumas observações para concluir Hoje como ontem. A primeira consiste em criticar o que outros jornalistas disseram sobre elas alegando que suas proposições são inexatas. assim como as exigências técnicas que pesam sobre eles. assim mesmo. O testemunho de Sonic. a gangue controla estreitamente o que é dito e o que o jornalista é autorizado a ver. porque de qualquer maneira. por sua vez.Martín Sánchez-Jankowski Então decidimos ver se tinha jeito de tirar uma grana deles. ilustra bem esta situação: “A gente não pode dizer tudo para eles (os jornalistas). quando a gente diz que a última reportagem sobre nós contém monte de erros. E entretanto. por outro lado. elas não põem em causa o conjunto da reportagem já que isto significaria que elas mesmas mentiram para o jornalista. Mas. é a sua notável uniformidade. sempre têm novidades para oferecer aos jornalistas. é claro. as gangues desejam que esta última continue a falar delas. voltaremos a pensar nisso.” Em vista das múltiplas vantagens que a mídia pode lhes trazer. Gangue e mídia instauraram.. mas eles disseram que não. portanto. Mas não posso dizer que tenha funcionado todas as vezes porque. as gangues são o objeto de uma intensa atenção por parte da mídia. a gangue promete lhe dizer “toda a verdade” para aguçar o seu interesse. escondendo o jogo.. Elas elaboraram. a influência deliberada que as próprias gangues exercem sobre estas reportagens para tirar proveito delas. sabe. Então decidimos fazer passar mensagens úteis.” De um ponto de vista de marketing. as gangues possuem um grande trunfo sobre os jornalistas pelo fato da cultura das ruas se transformar continuamente. os interesses profissionais e os interesses comerciais dos diversos agentes do mundo da mídia. 196 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . uma relação que permite a cada uma manter o seu estatuto no seu mundo social respectivo e na sociedade. Dois fatores se combinam para produzir os invariantes observados na forma e no conteúdo das reportagens sobre as gangues: de um lado. é verdade. por esta razão. na maioria dos casos.. e depois às vezes. então não é possível pensar numa estratégia midiática porque temos problemas mais urgentes. mas guardando muito mais. Na maioria dos casos todavia. elas podem iscar outros jornalistas ou outros canais interessados em voltar para refazer uma reportagem mais exata. a gente ganhava uma propaganda gratuita em horários de grande audiência! Por enquanto.

isto é. esta imagem é muito mais eloqüente a respeito das fantasias se- xuais e raciais dos brancos do que sobre a realidade das gangues26. Este artigo faz menção de gangues irlandesas. Relatar casos de gangues. Finalmente. Embora a mídia apresente as gangues como malfazejas e destruidoras. Baltimore. também é mérito dela o fascínio ligado a estes outros personagens da cultura americana que são o cowboy. as comunidades pobres não são mais “desorganizadas” que as outras no plano social. e esta mesma imagem que reforça continuamente o lugar e o estatuto das gangues na cultura e na sociedade urbanas americanas. nem seus membros menos capazes de instaurar por elas mesmas uma disciplina de vida individual e coletiva.As gangues e a imprensa Porém. no grau mais elevado. ver Winthro D. uma força física fora do comum (ou seja. muito pelo contrário. sexo. que se nutre de estereótipos culturais e de distorções comuns da realidade social. é preciso salientar que este mito é portador de uma imgem muito negativa com as conotações maléficas e perigosas. o desperado e o tira-gangster. droga. e que são conformes à imagem que eles mesmos têm das gangues. as qualidades que a cultura nacional venera: um individualismo resoluto. mas existem também gangues brancas ítalo-americanas e apalachianas. quem as possui está Sobre este tema da mulher de cor que seduz um homem branco. Embora a sua presença seja mais marcada nos bairros pobres de gente de cor. ela insiste incessantemente sobre a violência das gangues e sobre a agressividade dos seus membros. Paradoxalmente. O que não signfca que a oposição entre o bem e o mal não figure na mesa dos valores americanos. uma independência feroz. O estudo aprofundado das relações entre gangues e mídia prova que as gangues são uma “produção” social em que os jornalistas desempenham um papel não desprezível e encontram amplamente o seu interesse. lhes provê dinheiro seguro. o mito popular que eles contribuem para produzir e perpetuar é apenas uma imagem deformada e longínqua da realidade. e sempre. constituem um mito inesgotável. a capacidade de lutar e ganhar) e uma temeridade a toda prova. seja em forma de documentário. De fato. a violência não é um elemento tão fundamental da vida das gangues como a mídia dá a crer. prestígio e poder no seio do mundo midiático por causa do gosto que o grande público tem por este tipo de reportagem. ancorada nos medos individuais e coletivos. produzido muitas gangues. 26 Revista Brasileira de Educação 197 . O único critério determinante na matéria é a exibição das qualidades enumeradas acima. os bairros brancos têm também. A mídia oferece uma imagem seletiva e sistematicamente deformada da atividade das gangues. 1550-1812. se a imagem fabricada pela mídia diaboliza as gangues. Em terceiro lugar. seja nas novelas. Penguin Books. White over Black: American Attitudes towards the Negro. As gangues tais como aparecem na mídia.150-151. que bem e mal são dissociados das noções de legalidade e de ilegalidade. Jordan. 1969. p. Primeiro. para eliminar o tipo de delinquência que elas encarnam. Mas se é verdade que muitos membros de gangues se envolvem em incidentes graves. mas antes. como o sugere a imagem difundida pela mídia. crime e violência. as gangues não são um fenômeno que concerne exclusivamente comunidades negra e latina. Como no caso das primeiríssimas gangues americanas que foram os bandidos do Far West. que estimula e sustenta o interesse do público. tanto uma como outra se aproveitam de uma relação que não contribui em nada. É esta imagem. promoção. as gangues são invariavelmente apresentadas como uma ameaça física para o cidadão médio respeitador da lei e também como perigo para a moral e os valores da sociedade toda. a imagem da jovem de cor de “vida fácil” agarrando nas suas redes homens brancos e íntegros tem uma longa história no imaginário social americano. Estes modelos de violênca viril ocupam um lugar de honra no panteão folclórico americano pois possuem. Depois. É por esta razão que os jornalistas só tomam emprestado do saber dos “especialistas das gangues” as informações que se inscrevem no quadro dos temas que interessam ao grande público.

demasiadamente. Isto suporia igualmente fazer com que o país tome consciência da estratificação rígida da sociedade e da pobreza persistente em que estas organizações encontram a sua fonte. e neste plano pelo menos. mais incômodo ainda para o conjunto da sociedade.Martín Sánchez-Jankowski do lado do bem. seu comportamento coletivo não difere de jeito nenhum do de outras organizações de caráter mercantil. difícil de aceitar pelo público americano. a imagem deformada e romanesca que a mídia lhes propõe à própria realidade prosaica das gangues. reconhecer as gangues pelo que elas são levaria os dirigentes do país a procurar para o pretenso “problema das gangues” uma solução econômica em vez de se embrenhar em políticas penais que só fazem agravá-lo. Os americanos preferem. o que os tornaria menos divertidos e abaixaria o seu valor midiático. Mas os membros das gangues têm as mesmas aspirações e são animados pelo mesmo desejo de sucesso material e social que todos os americanos. quem está desprovido delas é definitivamente relegado para o lado do mal. 198 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Mostrar as gangues como elas são equivaleria a tirar todo o charme associado aos personagens violentos da mitologia nacional. portanto. Finalmente. Esta realidade é sem dúvida muito.

com relativa organização interna. a questão das agremiações juvenis. a escola. as galeras. motivações e modos de representação distintos pode ser pensada como uma das marcas da atualidade. poderiam ser denominadas de “periferia social”. assumindo grande vulto nos anos 80 — a partir de sua segunda metade —. seus modos de ser singulares. tece-se nos diferentes espaços sociais dos quais os jovens participam — a rua. mas também aquelas áreas que. a rua — e das quais incorporam os nomes. com seus diferentes símbolos e estilos. O principal ponto desse cruzamento pode ser localizado no gosto pela música e pelos bailes funk. que se estrutura e se define nesse século. grupos de jovens da periferia1 da cidade. assim como as áreas de lazer — e nas redes de relações que aí são estabelecidas. Relacionam-se ao mundo funk sem que os dois universos se confundam. ainda. com referência às populações pobres que habitam favelas construídas em morros encravados em bairros centrais.Juventude(s) e periferia(s) urbanas Eloisa Guimarães Universidade Federal do Rio de Janeiro Instituto de Estudos da Cultura e Educação Continuada Como em outros estados brasileiros. cada um com suas próprias características. Essa marca. cruzando-se em alguns aspectos e diferenciando-se em outros. A expressão galeras designa. a casa. fundamentalmente. em processo de expansão. São elementos que se combinam de diferentes maneiras produzindo estilos e modos de ser singulares e distintos entre os vários universos juvenis. e entre eles e os contextos em que vivem os jovens. De fato. as agremiações juvenis (res)surgem no Rio de Janeiro no final da década de 70. onde se constitui uma cultura voltada para os diferentes modos de utilização do tempo livre. e das formas de ocupação do espaço. Desenvol- Uso o termo “periferia” para designar áreas da periferia geográfica da cidade. o morro ou favela ou. e nos anos 90. Esse artigo tem como propósito analisar uma dessas agremiações. São movimentos distintos. 1 Revista Brasileira de Educação 199 . em função da geografia da cidade. em sua multiplicidade. no Rio de Janeiro. com a constituição de uma cultura jovem. É na tensão entre esses elementos. que podem ser buscadas as linhas de formação e de constituição dos subgrupos juvenis. que se estruturam em torno de suas áreas de residência — o bairro. grupos formados nos subúrbios cariocas — embora não fiquem restritos a essas áreas —.

a qual as galeras cariocas buscam ainda desenvolver. galeras associadas às quadrilhas de traficantes e outras que buscam delas se distanciar. esses grupos se diferenciam em relação a vários aspectos. característica que se manifesta. uma dimensão geográfica e outra social. às “gangs” de rua norte-americanas. de forma crescente. os conflitos já podiam ser sentidos entre aqueles jovens (brigas entre turmas rivais. de início. menos ainda. por um lado. entre as quais já estavam desenvolvidas algumas das principais características das atuais galeras: a constituição por bairros (ou ruas) e a rivalidade exacerbada entre turmas de bairros (ou ruas) diferentes lembram. destacar que há galeras “guerreiras” e galeras pacíficas e pacifistas. Refiro-me. ainda. ainda. a partir de então. e está representada. também. Embora a rua fosse. Elaborados e reelaborados por cada subgrupo. freqüentadores de academias rivais. seguida de assassinato. Não há unidade. sejam elas de classe média ou de periferia: sua intensa fagmentação e forte heterogeneidade. nas saídas das escolas). não só as galeras dos subúrbios. naquela época. nas ruas. entre as populações de melhor poder aquisitivo ou entre as de menor renda. nas áreas centrais da metrópole ou na periferia. era nesse nível que ela se colocava como objeto de percepção e de registro. à juventude das periferias. As galeras são. Referindo-se à curra da jovem Aída Curi. Ou. entretanto. pelo menos. recentemente. a existência de galeras de classe média. Contudo. Por outro lado. ou. e que têm uma tradição organizativa que remonta ao início do século. vêm-se registrando. intensa rivalidade entre si — de onde os conflitos e os embates públicos pelos quais se tornaram conhecidas. ao mesmo tempo. cruel e gratuita. Tais grupos são herdeiros de certas tradições organizativas desenvolvidas por outras agremiações juvenis. A expressão galeras se torna familiar sobretudo a partir da década de 90. que não encontrava equivalente na 200 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . entretanto — jovens de áreas periféricas e de baixo poder aquisitivo —. Em ambas. a referência para essa segmentação é a mesma. homogeneidade. entre outros. inicialmente. Ventura (1995) nota que Eles inauguraram um modelo de agressividade. entre esses grupos como não há em seu interior. É necessário destacar dois princípios que fazem parte da constituição dos movimentos juvenis atuais e que estão fortemente presentes entre as galeras (e entre os funk). nos clubes. Embora se estruturem tendo como referência princípios comuns. pode ser verificado entre diferentes grupos urbanos: as torcidas organizadas. nas quais as galeras de periferia buscam inspiração. pelas ruas de residência. hoje. objeto de percepção e de registro entre as camadas médias. da classe média. imprimindo suas características. mas as de classe média. no interior das agremiações pertencentes às camadas médias e daquelas de periferia. novos. ao mesmo tempo. com base nesse parâmetro de organização. A violência que atingia o núcleo metropolitano parecia vir. o espaço de socialização por excelência dos jovens do sexo masculino e representasse muito menos perigo. Entre esses vale. Há. A questão da delinquência juvenil já era. A extrema heterogeneidade referida se revela inter e intra grupos juvenis e está fortemente presente entre as galeras. então. às turmas de jovens de classe média existentes no Rio nas décadas de 50 e 60. Não se conhece o número dessas galeras. inicialmente. Entre as últimas. Processo de segmentação semelhante. pelo critério geográfico em torno do qual os diferentes grupos se configuram e a partir do qual se constróem. pelo morro ou favela em que se vive. embora operado a partir de outros critérios. grupos fortemente fragmentados e intensamente segregados. galeras femininas e galeras mistas. os padrões de organização hoje adotados pelas galeras não são.Eloisa Guimarães vem. que representa. inclusive — embora seja raro — galeras chefiadas por mulheres. sabe-se que é um movimento largamente disseminado. suas identidades: são as divisões por áreas de moradia que podem estar representadas pelo bairro. a partir dos contextos sócio-culturais em que estão inseridos e de suas motivações e condições de vida. galeras masculinas.

A violência da cidade passou a ser. O termo galeras será utilizado. das galeras residentes nas periferia ou em morros localizados em áreas centrais. alemães e outros —. Contudo. que se diverte com brincadeiras como atear fogo em mendigos. se faz entre a geração do asfalto. contribuiu. já congregavam. em grande medida. entretanto. As galeras ganharam grande visibilidade a partir de 1992 com os “arrastões” ocorridos nas praias da Zona Sul. antecipou uma vertente moderna da violência urbana. Enquanto estilo musical e pela frequência2 aos bailes funk é hoje o fenômeno mais generalizado entre os jovens da periferia. Essa geração do asfalto. juntamente com as galeras. na imensa capacidade que têm. A idéia do “arrastão”. mas habitados pelas populações pobres e. como cheguei a afirmar em trabalho anterior (cf. é bom registrar. a ampla difusão dada. ainda. Galeras (e) Funk A grande clivagem entre os jovens cariocas. do outro. histórias e modos de organização similares. e amplamente divulgados pela mídia. de um lado. levando a um processo de estigmatização crescente desse segmento juvenil — a quem foi debitada a conta pelos “arrastões”. ao funk e ao funkeiros. Embora muito relacionados. identificada às galeras. Os bailes funk e. A originalidade dos grupos atuais está. ao mesmo tempo que ambos têm sido por ela responsabilizados. condição que se generaliza aos frequentadores dos bailes. 1995). de forma sistemática e recorrente. sendo comumente denominadas de galeras funk. anterior às várias possibilidades de fragmentação que teria sido possível enumerar acima. galeras e funkeiros se distinguem. contribuiu ainda para que as galeras e funkeiros passassem a aparecer sempre relacionados à temática da violência e. mais de um milhão e meio de jovens. ná época. que tendem a se reproduzir nos espaços públicos. foi incluída uma outra cate- goria de jovens — os funkeiros — que. ou seja. pois. em grande medida ocupados por quadrilhas ligadas ao tráfico de drogas. Guimarães. 2 Revista Brasileira de Educação 201 . em consequência.Juventude(s) e periferia(s) urbanas violência praticada pelos malandros de morro de então. graças em boa parte à concorrência da mídia. Grupos de jovens — ingleses. a partir de então. lugar onde aparecem. mesmo tendo várias conexões com as galeras. não podem a elas ser reduzidos. Nesse mesmo processo estigmatizante. de modo particular. em exigências de intensificação de processos repressivos. Para isso. É desse último segmento que trata esse artigo. às quadrilhas de traficantes de drogas. por sua expressividade numérica. extrapolando necessariamente o contingente que se organiza em galeras. de construção e reconstrução de sua prórpria história e da utilização dos recursos hoje disponíveis. É bom mencionar que parte da confusão gerada em torno desta questão resulta do fato de que as galeras são funk. muitas vezes. fortemente centrado na diversão. a partir desse momento. uma idéia que vem se tornando dominante é a de que os famosos “arrastões” não passaram de conflitos entre galeras rivais. a população que os frequenta passaram a ser maciçamente criminalizados. São em número muito restrito os estudos que buscam analisar de forma sistemática os fenômenos funk(eiros) e galeras no Rio de Janeiro. para designar tais grupos da periferia. em discursos e ações públicas e no discurso cotidiano das populações. nesse século. a eles imprimindo a imagem de bailes violentos (esse aspecto será tratado no último item desse artigo). de criar e recriar tal herança em torno das atuais condições sociais e das novas práticas culturais — centradas no lazer e nas novas culturas musicais —. pela própria natureza de seus movimentos: o funk é um fenômeno musical de massa. como Segundo estimativas feitas em 1994 os bailes funk que se realizavam a cada final de semana em vários clubes da cidade. resultando em projetos e. às notícias de crimes ligados aos bailes funk. e a juventude dos morros e da periferia da cidade. desenvolvem. franceses. americanos.

Reafirma. esse aspecto também nem sempre é claramente estabelecido. Herschmann introduz uma outra perspectiva que não está presente nas colocações anteriores e que possivelmente representa o ponto de interseção entre os diferentes universos juvenis atualmente presentes na cena urbana. 3 202 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . 15/02/93). 26/10/92). Por isso. Em Vianna (1996). se encontra a distinção mais enfática. Essa questão foi profusamente tratada pela imprensa televisiva e pela imprensa escrita entre 1992 e 1993. através de diferentes mediações. 20/06/95). cap. entre outros. Outro estudo que tem importância para a questão levantada é o de Herschmann (1994-95). tráfico e “arrastões” como elementos articuladores de um mesmo e único fenômeno: a violência. “DJ’: traficantes pagam bailes ‘funk’” (O Globo. contudo. mantendo-se. em seus próprios termos) e suas relações com a cultura da violência que toma corpo nos últimos anos no meio urbano. que aborda o problema do ponto de vista da cultura hip-hop3 (ou culturas das ruas. estão os estudos empíricos de base acadêmica sobre o tema. então. As referências para o autor são. O autor define a cultura hip-hop como “conjunto de manifestações culturais (abrange o rap. na opinião pública. Assim. o samba e a capoeira.Eloisa Guimarães a(s) maior(es) manifestação(ões) de massa entre jovens da periferia. Em menor número. como já fizera em trabalhos anteriores. de uma imagem maciça e homogeneizadora. que têm maior impacto sobre a opnião pública. portanto. insistem em chamadas como: “Funk carioca mistura música e violência” (O Estado de São Paulo. inicialmente discriminadas e condenados foram. 23/02/92). enquanto as referências à violência. “Funks voltam aos bailes e às brigas” (O Dia. diferentes inflexões em sua narrativa onde transparecem certas distinções: quando suas análises se relacionam ao funk a associação é com o fenômeno musical e com as festas (os bailes). a outros processos que existiram na história da cidade. no contexto do mun- do funk são sempre pontuadas pela menção às galeras (Ventura. as práticas culturais e os estilos musicais que mobilizam parcela expressiva dos jovens atuais. que identifica o movimento musical (funk). ainda. caracterizados pela recusa a prática culturais desenvolvidas e/ou adotadas pelas populações do subúrbio. seu caráter de festa e de diversão. a quem se deve uma competente etnografia sobre esses bailes. ao negar a idéia da música e bailes funk como essencialmente violentos. de forma clara. aceitos e incorporadas à vida urbana. que buscam tematizar a questão dos movimentos juvenis em sua conexão com os movimentos urbanos relacionados à violência. pouco voltado para os subgrupos galeras e funkeiros. as galeras funk. 1990. o rap. Embora no corpo das matérias essa identidade por vezes se dilua. Assim. com menor ênfase até os dias atuais. Em estudos mais sistemáticos. Sobre as diferenças entre a cultura hip-hop e sua apropriação pelos grupos brasileiros (cariocas e paulistas) ver Vianna. b-boy) bastante comum nos guetos negros norteamericanos e que vêm sendo apropriada de modo geral pela camada menos favorecida da população que habita basicamente as periferias das grandes cidades brasileiras” (Herschmann. aí incluídos o funk. galeras. no entanto. “Arrastão: o mais novo pesadelo carioca nasce nos bailes ‘funk’” (O Globo. 9). aborda o aspecto da violência relacionada a esses grupos — que se manifesta sobretudo nos bailes — sem. O problema da discriminação do funk (e dos bailes) se relacionaria. Por parte da imprensa há um movimento de geração. estudioso do fenômeno funk desde os anos 80. o funk. posteriormente. Em uma dessas análises Ventura (1995). 1995. apresenta-se como problemática a questão da relação (e. 1994-95: nota 2 à pagina 90). em trabalho jornalístico desenvolvido a partir da convivência com populações de áreas periféricas. das diferenças) entre galeras e mundo funk na cidade. o break graffiti. segundo o Vianna. estabelecer diferenças entre eles. Pode-se encontrar. as manchetes jornalísticas.

galera! Galera é assim: cada morro. regras e comportamentos exigidos do que a elas se vinculam e por elas circulam. uma área de atuação e de controle por seus membros.. em que condições ele se atualiza (ou não) e em relação a que segmentos juvenis. e como reação ao caráter excludente e autoritário da sociedade que pode ser entendida a mobilização de diferentes segmentos juvenis. 64).. Ao contrário. Apesar dessa caracterização generalizante. Todas têm um código particular que inclui não só uma linguagem própria e diferenciada. tem surgido entre as galeras Sobre essa questão dos modos de intervenção dos grupos juvenis no social ver Abramo (1994) 4 É esse o termo utilizado por pessoas relacionadas às galeras para traduzir os conflitos e os confrontos físicos entre eles. fortemente marcada pela divisão espacial (e social) da cidade com uma cultura marcadamente guerreira. também. uma forma de organização e de pertencimento ao grupo. ao mesmo tempo. As brigas5 aparecem. o discurso e o comportamento funk/rap. definindo. ao mesmo tempo que as interdita aos de fora. esses grupos tentam também imprimir. 5 Revista Brasileira de Educação 203 . A segmentação do espaço em áreas delimitadas e controladas define normas.. A questão consiste em buscar compreender seu significado. entre eles o que é objeto desse artigo. Essas duas dimensões são faces de um mesmo processo. A cultura guerreira das galeras Não há como negar a existência de forte potencial de conflito no interior de alguns desses grupos — as galeras incluem-se entre eles. galera do Morro X” (Guimarães. que parece contituir a marca por excelência desse tipo de organização juvenil. à cultura hip-hop um tom segregador. A configuração das galeras do cruzamento da vida e de uma história forjada nas ruas. Assim. 93). em certo sentido. de certa eficácia no passado. em certo sentido. ocupando lugar central em sua existência e na lógica de sua organização. a hegemonia das áreas onde se encontram. Definem-se por oposição umas às outras disputando.Juventude(s) e periferia(s) urbanas O autor aborda a questão da violência buscando tematizá-la e explicá-la no contexto das práticas culturais referidas. 1995. briga de galera. são a resposta de um segmento social que já não acredita mais na conciliação. inclusive aqueles que resultam em morte.) (Herschmann. a quem cabe defendê-lo e no interior do qual elaboram seu estilo e suas regras de funcionamento definindo. A constituição e a auto-representação das gale- ras em torno e a partir de um território determinado acionam certos processos de pertencimento e de exclusão característicos. 1994-95. Outras brigam apenas quando provocadas. simplesmente como resultado do encontro entre alguns desses grupos. (. sistematicamente. como estratégias distintas de intervenção no social4 o autor adverte que: (. A demarcação territorial é. na concretização de uma harmonia social. enfatizando a existência de diferentes segmentos juvenis. os “alemães”. As rixas entre as galeras representam algo mais. caracterizando como inimigo o outro. Entre os depoimentos ouvidos em uma pesquisa empírica realizada eram frequentes depoimentos do tipo: “é briga.. que preconizavam a harmonia entre raças e classes sociais. o morro X. assim prática fundamental de estruturação das galeras.) numa sociedade ainda muito marcada pelo autoritarismo e pela exclusão social. É no esgotamento dessas representações e modelos. gangue de cada morro. Sua interpretação é a de que tais práticas instituem-se como reação a uma sociedade tradicionalmente autoritária e excludente e como forma de se contrapor a representações e modelos. mas regras sociais de relacionamento e de hierarquia que não podem ser violadas. fronteiras demarcatórias com outros grupos. É essa a origem da extrema rivalidade que se observa entre as diferentes galeras e motivo dos embates permanentes entre elas. Muitas se estruturam apenas para brigar. então.

Relacionando-se dinamicamente. espaços de sociabilidade e circuito da violência Uma das frases mais ouvidas quando se trata do assunto galeras é a de que “quando duas galeras rivais se encontram. contudo. segundo a análise de Da Matta sobre o significado da “casa” e da “rua” como categorias sociológicas fundamentais para a compreensão da sociedade brasileira. entretanto. essa questão relaciona-se ao próprio modo de ser da sociedade. Embora venham sendo relativizados os espaços. De modo mais específico. a existência de “gangs” de rua. pautando-se por comportamentos pacifistas e buscando desenvolver ações de pacificação dos outros grupos. no Brasil. ocorrendo como parte dos rituais das galeras. No caso brasileiro. a ocorrência de briga entre as galeras é parte da própria constituição desses grupos (às vezes. o embate é certo”. destacam a importância das lutas e dos combates como princípio fundamental para aprópria contituição e estruturação das “gangs” de rua. Assim. levar em consideração que. É necessário. Essa foi uma das interpretações dadas aos modos de ação e de estarem presentes das galeras em uma escola (de subúrbio) pesquisada entre 1991-1992. mais ainda precária. em parte. estão longe de atingir o nível de organização e estruturação daquelas. Tentarei destacar algumas mais comuns e frequentes. mas também — e é sob esse aspecto que as considerações desse autor interessam aqui — como lugar da luta (. tradicionalmente. Como deve ter ficado claro no intem anterior. Em qualquer das hipóteses consideradas. por imposição do tráfico. organização interna. por excelência. não se pode dizer que essa distinção tenha desaparecido completamente. No Rio de Janeiro o processo de estruturação de tais grupos é ainda emergente com relativa. 13-70). em um segmento dominante. sobretudo entre as camadas populares. resultam. gratuitas. Não constituem-se ainda. 1991.. esses conflitos estão relacionados aos padrões de sociabilidade que vêm se desenvolvendo no meio urbano. cada um com sua lógica particular. Galeras. parte do universo masculino e lugar. que analisam grupos formados em países. alheios 204 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . sem ter a pretensão de dar conta da explicação de todas elas no espaço desse artigo. essas duas categorias expressariam formas de organização do mundo social brasileiro: o mundo da rua como espaço do legal e do jurídico — universo. de movimentos dos mesmos jovens que buscam novas formas de se relacionarem — e de se afirmarem — com as populações e as instituições. onde seus modos de ação.) e do perigo (cf.. ao mesmo tempo que aumenta seu potencial para as lutas. As brigas aparentam ser. são muitas vezes proibidos. trata-se de mera dramatização da briga) assim como representa uma forma de desenvolver e colocar em ação seus próprios projetos. uma vez que a consciência de pertencimento a ela tende a cerscer com os combates. Resultam. É também instrumento de elaboração da identidade do grupo. sobretudo os norte-americanos e os ingleses. Da Matta. muitas vezes. De fato. marcadamente masculino —. espaço fundamental para a constituição e existência das galeras é. As demonstrações de coragem e de força física ainda representam modos tradicionais de afirmação desses grupos. Autores. sobretudo entre jovens. A consciência de pertencimento e a lealdade ao grupo seriam incrementados através dos combates travados. da elaboração de seus padrões de virilidade. os modos e estilos de vida masculinos e femininos. das disputas e dos deslocamentos de grupos nos quais hoje se organiza parcela dos jovens para resolver suas pendências fora dos espaços residenciais. embora as galeras cariocas busquem inpirar-se nas “gangs”de rua norte-americanas. a ocorrência dos embates pode ter várias interpretações. em escala expressiva.Eloisa Guimarães cariocas aquelas que se recusam às brigas. ainda. característica que ganha maior relevo entre os meios pobres da sociedade. A rua. Durante longos períodos a escola se encontrava permanentemente cercada por grupos externos. é registrada em algumas áreas dos Estados Unidos desde os anos 20.

uma vez estabelecidas. dos Matérias de jornais vêm. uma vez iniciado. elaborado a partir das posições de dois especialistas que. quando são acionados para buscar e punir pessoas (jovens ou não) que estejam devendo7 às quadrilhas. Essa é outra circunstância explicativa de cercos às escolas pelas galeras. 1997. O confronto entre galeras. um último elemento que seria interessante lembrar tem relação com o mundo do tráfico e suas articulações com parcela dos grupos que se organizam como galeras. quando a instituição se apresenta como lugar em que. segundo os termos desses grupos. Finalmente. muitas das vezes.Juventude(s) e periferia(s) urbanas à vida escolar. devem ser rigorosamente cumpridas. 1995. não fica sem conclusão. Um terceiro motivo desencadeador dos conflitos aponta para o desdobramento de brigas anteriores. através das quais esses grupos criavam e mantinham um clima permanente de confronto com a instituição. do mesmo “poder” dos traficantes. ou ainda. não acontece nenhum tipo de violência (. Se interrompido. 1 e 2 e Guimarães. também. Essas regras variam de galera para galera. indicativo de que alguém deve dinheiro às quadrilhas por ter apanhado a droga em consignação ou para uso próprio não tendo liquidado a dívida. Sua abordagem pode ter como ponto de partida o enfoque que consta no trabalho de Ventura (1995). que tenham ferido alguma das regras internamente estabelecidas. sofrerá deslocamentos. que são violentamente reprimidas pelos seguranças. as galeras inimigas vão Para uma descrição mais completa ver Guimarães. por estarem a eles ligados. tentativas de invasão eram. tentadas 6. a partir da vivência dos bailes da frequência mais ou menos sistemáticas a alguns deles. Entretanto. de invasão do espaço escolar —. por consequência. Processos semelhantes podem ser vistos em outras situações (uma delas. ou ter o indicar grupos ou pessoas que tenham violado as regras estabelecidas. recorrentemente. algumas das pessoas buscadas podem ser encontradas. A questão dos bailes. Manoel divide os bailes em três categoria. de que falaremos adiante). dando origem a punições rigorosas que podem chegar à morte. os bailes. Uma segunda interpretação diz respeito à briga como movimento de cobrança e de punição de membros das próprias galeras. a quem certas galeras servem como sistema de apoio. mostrando e enfatizando a adesão de grupos de classe média aos bailes funk. nesses casos. caps. podem derivar da presunção de certos grupos de partilharem. Representa. um dos pontos incluídos nos múltiplos deslocamentos desses grupos para fazer cumprir seus projetos e forjar sua própria tradição enquanto grupo. Algumas vezes. de fato. A situação aqui tratada indica. Pode ter um significado literal. Operavam de forma a demonstrarem aos quadros escolares a possibilidade de invasão iminente. uma das circunstâncias de assédio das escolas por esses grupos — e. A categoria mais interessante é a terceira. Nos bailes do segundo tipo. 8 Revista Brasileira de Educação 205 . após longos períodos em que a ação se dava apenas de forma dramtizada. quando o objetivo dos grupos pode ser — e o é muitas vezes — o de concluir a briga começada em bailes e interrompida pelos seguranças.). Na primeira. aí incluindo a dimensão da violência.. A ação das galeras ocorria sob a forma de ações dramatizadas. os embates podem estar relacionados a ações ordenadas e/ou coordenadas pelas quadrilhas de traficantes. espaço privilegiado de aglutinação dessa juventude8. desenvolveram certas formas de pensar a participação das galeras nos bailes. é elucidativa de alguns dos processos descritos acima. Essa é uma das situações em que grupos de jovens podem ser utilizados pelo tráfico. 7 6 para provocar brigas esporádicas. Sua violação provoca a intervenção do grupo. até que seja satisfatoriamente resolvido. maior diversão dos jovens da periferia da cidade e. O termo dever é amplamente utilizado entre populações que vivem no interior ou nas proximidades de áreas ocupadas pelo tráfico de drogas. seguramente. Em certos casos..

porque tem que provocar outra galera”. 206 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . 1988. e já estão trabalhando para isso. 1994. pelo simples encontro entre galeras rivais. uma violência grupal. por esse motivo. segundo diferentes depoimentos ouvidos. esses instrumentos permanecem escondidos fora e são recuperados na saída. um confronto ritualizado de galeras. Aí qualquer esbarrão ou uma pisada no pé pode gerar o início de uma briga (sobre as danças desenvolvidas nos bailes funk. é o responsável pelo maior número de brigas. ainda quando os grupos são acionados para assumir a defesa de um de seus membros. Impedidos de levá-los para dentro dos clubes pelos seguranças que procedem a rigorosas revistas na entrada. as galeras vão aos bailes apenas para brigar. fortemente marcada pela presença do tráfico de drogas mas ainda em processo de ocupação e que. por isso. 121). de funkeiros. Três fatores foram por eles destacados. Exemplo de uma dessas situações pode ser encontrado em Ventura. regra geral. ver Vianna. a área de moradia com as quadrilhas de traficantes. O autor declara ter ouvido de um dos chefes do tráfico presentes. divide. briga de galera. Pode-se supor que. correntes. a gente num vamos poder parar. a violência que aparece nos bailes é. quando os 9 Vigário Geral e Parada de Lucas são dois bairros tradicionalmente rivais no Rio de Janeiro. Algumas delas já descem os morros armadas de paus. sendo também a situação em que elas ocorrem com maior violência. o que o autor denomina uma “brincadeira infernal”: os trenzinhos. referente à área em que a pesquisa se desenvolveu. um esbarrão em algum elemento da outra galera e os gritos de guerra são os sinais para o início dos conflitos: “é briga. quando todos pulam a um só tempo) são apontados com muita frequência como um desses fatores. Estudantes ouvidos em 1992. De acordo com seus depoimentos. No interior destas áreas. 4). Esse último grupo referido. nos bailes realizados nas quadras ou em outros espaços. sem dúvida. Tu segura o teu pessoal que eu seguro o meu” (Ventura. 1995. Há um terceiro fator relacionado à inserção social e às espectativas de parte dos escolares ouvidos. A briga entre elas ocorre. Funkeiros e não-funkeiros têm consciência de que não podem “armar confusão” no pedaço. O risco de que a situação se resvalasse para o tumulto foi percebido por várias pessoas. que a violência que aí ocorre pode ser regulamentada (Ventura. a explicação de que o problema da briga diz respeito aos bailes nos salões. no momento em que algumas galeras começam a dançar. A música e o modo de dançar (os trenzinhos e os momentos de maior pique dos bailes. em pesquisa de campo realizada na Zona Oeste. Ouvi com alguma frequência. A fala do traficante se referia à ameaça de briga entre duas galeras. O segundo diz respeito ao fato de que as galeras. em conversa com outro.Eloisa Guimarães bailes que Manoel chama de embate. de acordo com os alunos entrevistados. naquela área. o que constituiria o segundo daqueles fatores. onde e quando fosse possível. a frase: “se tiver briga. buscava distanciar-se e criar. relacionados à heterogeneidade dos grupos juvenis.) Os dois acreditam. as mais temidas pelos jovens funkeiros entrevistados.. estão vinculadas ao tráfico de drogas. exige um processo de recrutamento mais intenso — e mais ativo — entre jovens. fossem mais radicais ao enfatizar as diferenças. ele não se apresentaria. pedras. Há alguns fatores importantes que contribuem para elucidar esse maior rigor na posição dos escolares. mas simbólicas. apresentavam uma versão mais dura das brigas nos bailes.. processo que. O estarem frente a frente. cap. compulsoriamente. Um deles. Eram. Do ponto de vista dos alunos entrevistados. 221). em sua maior parte. na descrição do baile realizado para celebração da paz entre Vigário Geral9 e Parada de Lucas. Segundo os entrevistados. fora das áreas controladas pelo tráfico. as brigas nos bailes assumem diferentes formas e ocorrem por motivos distintos. barreiras não só físicas — evitando os lugares freqüentados por “bandidinhos” e pelas galeras —. por isso mesmo. (.

em muitos casos eles contribuem para evitar as confusões. Elas “pensam que podem tudo” ou elas “gostam de arrumar confusão” são as frases empregadas pelos estudantes ao se referirem a essas grarotas e às confusões por elas Revista Brasileira de Educação 207 . são esses jovens. Escolas. In: Tempo e Presença. Tolouse. na medida que é comum. até que sejam interrompidas pelos seguranças que expulsam os envolvidos. (1991). Actes du Colloque Grandes Metropóles d’Afrique et d’Amérique Latine. Como explica uma das “funkeiras” entrevistadas: “até a hora da música lenta. então. ela tem poder”. quando são freqüentes os couros. Se não são resolvidas nesse espaço. 1991..s. Namorar faz parte de suas vidas. em grande parte. elementos que são apresentados por vários autores como inerentes à adolescência e à juventude. Finalmente. do passado e do presente. Nova Yorque não é aqui: funk e rap na cultura carioca. (1991). nº 2. não. Tese(Doutorado em Educação).Juventude(s) e periferia(s) urbanas conflitos se radicalizam. os tiros e as mortes. ficam namorando um pouquinho e já voltam. ela pode tudo. In: Comunicação e Política: mídia. os “bandidinhos”. e voltam correndo para ir brigar de novo. ano 17. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. Esta parece ser uma responsabilidade que diz respeito. 1. Luis Fernando D. a educadores e professores em geral. Rio de Janeiro: PUC-Rio. alguns nem ligam pras namoradas. (1995). Galeras e Narcotráfico. Referências bibliográficas ABRAMO. São Paulo: Scritta. nacionais e internacionais: são parte da estrutura e da história desses segmentos. HERSCHMANN. a briga pode ou não ocorrer. Esse processo é desenvolvido por vários grupos de jovens. ao mesmo tempo. de um esbarrão ou acontecer de modo totalmente gratuito. têm como objetivo envolver o namorado em sua defesa. a atuação dos seguranças ou a fuga dos grupos que se encontram em desvantagem.. hoje. mesmo nos momentos em que são tocadas músicas lentas. e a maioria tem namorada que é abandonada nos bailes em favor das brigas. mesmo. n. A Casa e a Rua. DA MATTA. resultam em brigas. ponto de encontro certo de alguns dos envolvidos. A briga representa a forma de curtir dos grupos e para isso vão aos bailes. drogas e criminalidade. muitas vezes. as brigas começam lá dentro. como foi mencionado acima. juventude e violência urbana: o fenômeno funk e rap. Apesar de não serem permitidas nos clubes. independente das regras do “pedaço”. até na hora da música lenta eles tão querendo saber só de brigar. Como esclarecem os frequentadores do funk. que deêm conta da atual situação da juventude nos centros urbanos. v. Música. nº 281. permitam caracterizações mais abrangentes. para a saída do baile. Afinal. Essas provocações podem derivar de um olhar que se dê na direção delas. em outras. Esses processos merecem estudos mais aprofundados que. De acordo com os depoimentos. __________. DUARTE. GUIMARÃES. (1995). Em situações como essas. não se procuram motivos para explicar a origem do conflito. mostrando que “por ser namorada de bandido. quando reconhecem em quem é provocado um elemento de sua própria área ou alguma amiga de infância que. (1994). Legalité et Citoyenne dans le Bresil Urbain contemporain: observation anthropologique d’une experiénce d’aide légale et d’éducation civique. Eloisa.. numérica ou instrumental. Helena Wendel. Micael M.. Roberto. mais do que os escolares idealizados por mirabolantes propostas curriculares. um terceiro fator desencadeador de briga nos bailes deve ser localizado no comportamento de certas garotas — namoradas de membros das galeras ou de jovens pertencentes ao mundo do tráfico. e vão dar um beijo na namorada. dependendo da adesão dos bandidos. eles buscam proteger. os alunos de nossas escolas. provocadas nos bailes que. Cenas Juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. Nesses casos. para não perder nem um segundo na briga”. da mesma forma que o desejo de aventura. É também valorizado como fonte de emoção e excitação. (1995). as brigas se transferem para outros espaços: é então que chegam às escolas. também aí. seus desdobramentos transferem-se.

Hermano. Inc. p. 178187.. Frederic M. (1996).. Cidadania e Violência. In: VELHO.. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. London: University of Chicago Press VELHO. 208 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Cidade Partida. G. n. Machado. 6. M. M. 151-160. Chicago. ALVITO. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda. J.. 1996 THRASHER. VENTURA. (1996). Culturas Juvenis. (1988). VIANNA.313 gangs in Chicago. PAIS. p. Jack. __________. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. p. Violência. Editora FGV. The gang: a study of 1. Cidadania e Violência. Editora FGV. São Paulo: Companhia das Letras. Rio de Janeiro. 3. Seductions of crime: moral and sensual attractions in doing evil.. New York: Basic Books. G. (1994). Reciprocidade e Desigualdade: uma perspectiva antropológica. In: Estudos Históricos. Gilberto. (1996) O funk como membro da violência carioca. Funk e cultura popular carioca. vol.Eloisa Guimarães KATZ. (1990). (1996). ALVITO. Zuenir. In: VELHO. 10-24. Publishers.

entre cristãos e turcos. romance escrito por Italo Calvino. A propósito.. ocorreu o esgarçamento e dilaceração do corpo do protagonista da história. compa- * O termo conduta de risco.. Assim. na errância das duas metades da personagem do Visconde. aproveito a oportunidade para agradecer ao antropólogo Piero de Camargo Leirner pela leitura que fez da primeira versão deste artigo. prazer e violência. anteriormente alocados num mesmo corpo cristão. futebol e condutas de risco* Luiz Henrique de Toledo Núcleo de Antropologia Urbana. bem como à socióloga Angelina Peralva pelas críticas e sugestões. um dilema do próprio homem contemporâneo. de modo surreal. cindida por uma bala de canhão nas porções esquerda e direita de seu corpo.) Meu tio [o próprio Visconde] se achava na primeira juventude: a idade em que os sentimentos se misturam todos num ímpeto confuso. num provável século XVII. decimento e intolerância. O Visconde Partido Ao Meio). esta fantástica história narrada por Calvino evoca. amor e ódio. Ao enfrentar o inimigo e no calor do combate físico. Universidade de São Paulo Em O Visconde Partido ao Meio. ainda não separados em bem e mal. que passam a gozar de uma autonomia. indica uma específica modalidade de transgressão e violência verificadas entre setores juvenis da população. utilizado por Peralva (1996). fragmentado e alienado em suas experiências sociais. ainda que temporária. acirramento das conviccões em justas religiosas. a idade em que cada experiência nova. A desfiguração corpórea e psíquica do aludido Visconde se deveu a uma encarniçada guerra. vagando a esmo pelas pradarias e campos. é toda trepidante e efervescente de amor e vida (.) (Italo Calvino. um dos personagens assim descreve o fenômeno da juventude: (. irrompem o bem e o mal. Polaridade levada ao extremo num desencontro fatal entre o bem e o mal. imposta pelas circunstâncias de ruptura social provo- Revista Brasileira de Educação 209 . paixão e fé.Short cuts Histórias de jovens. num golpe certeiro. como será mencionado mais adiante... das metades esquerda e direita da personagem. descritas pelo autor. nas palavras do autor. vitimado pelos desígnios da determinação. também macabra e desumana. materializada.

integravam estes agrupamentos sobretudo jovens de classe média. de relatarmos os acontecimentos dramáticos protagonizados por alguns desses jovens torcedores verifiquemos. na sua visão de mundo. cada qual corporificada em uma das metades do infeliz rompante. entre vítimas e algozes. agora em estado puro. promover a união ou junção em uma só categoria ou classe (todos iniciados). Podemos constatar tal fato desde o ano de 1943 quando o jornal A Gazeta Esportiva e a Rádio Gazeta promoveram o campeonato das torcidas uniformizadas. e o futebol em específico. característica de uma série de instituições das sociedades ditas primitivas. 1996. até aquela data Palestra Itália). acabam por instaurar o caos na cultura. contudo.. Diverso do mosaico de subgrupos que compõem as torcidas organizadas atuais. uma diferenciação entre perdedores e ganhadores. os jogos e as competições partem de uma situação de igualdade (o 0x0. esgarçado em duas metades tão irreais quanto irreconciliáveis. De uma simetria pré-ordenada. Tais alegorias bem poderiam aludir a outras tantas narrativas. “(. grupos e até sociedades em comunidades morais nos rituais competitivos.Liuz Henrique de Toledo cada pela referida guerra. na sua maioria sócios dos próprios clubes. ocupam-se. Situação revertida somente com a união das metades corpóreas ao final do romance. a desconfiança. símbolos e marcas distintivas de times e respectivas torcidas de futebol. encontram-se próximos ao dilema existencial do efebo Visconde que. em virtude da igualdade das regras entre os participantes. que repartem e polarizam indivíduos. quando foram fundadas algumas das denominadas torcidas uniformizadas dos clubes mais populares (Sport Club Corinthians Paulista. viu-se privado na sua percepção e representação das coisas. a repugnância. partido ao meio. São Paulo Futebol Clube e a então recém nomeada Sociedade Esportiva Palmeiras. como um extenso sistema de rituais de trocas complexas (materiais e simbólicas) cuja reciprocidade. ao final. num momento posterior. é reduzida para a assimétrica equação do ganhar-perder. portanto uma reciprocidade que denominaria aqui de aberta. Coletividades contrastivas de jovens torcedores de futebol existem no Brasil desde os anos 40. promoverem uma cisão. que levam alguns a vencer e outros a perder” (LÉVI-STRAUSS apud TOLEDO. sobretudo. porém. jovens anônimos das camadas populares da cidade de São Paulo. alicerçadas por uma heráldica futebolística. Violados e privados da sua relação dialética. por onde passam. desde que apartadas. estes jovens irão conferir. Cisões que nos últimos tempos têm se revelado irreconciliáveis e intolerantes pelos campos e estádios. como constataremos mais adiante ao enfocar dois casos específicos. por exemplo) para. distúrbios. Antes. 1 engendrada pelas manifestações esportivas. transgressões e violências ganhavam uma dimensão significativa enquanto um 210 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . concretude a peculiares sociabilidades. ou em realidades mais trágicas. inversamente.) LéviStrauss [na obra O Pensamento Selvagem] também atentou para o elemento irruptivo e passional dos jogos competitivos (rituais disjuntivos). apartando milhares de adolescentes nas representações bons e maus. as condições socio-históricas que gestaram tais condutas coletivas e as práticas sociais dos agrupamentos juvenis em torno do futebol profissional. Segundo ele. agora mais locais e verídicas. O bem e o mal. cujos protagonistas sem títulos nobiliários. em instilar a desordem. expressas nas cores. desde então. chega-se a uma assimetria imposta pelas contingências do acaso. a inveja e a insegurança. talento ou circunstâncias outras. na cidade de São Paulo exatamente a partir de 1942. ainda que de modo breve. cujas atividades torcedoras somavam-se aos interesses e aspirações dos diretores das referidas associações esportivas. iniciativa que buscava normatizar. diferentemente do que ocorre nos rituais das sociedades pré-industriais e nas sociedades ditas primitivas. É curioso observar de que modo estas torcidas estavam alinhadas ao arranjo institucional do futebol da época. 133). atributos inerentes à lógica 1 Poderíamos conceber as competições esportivas. Igualmente arrebatados por convicções e paixões dilaceradoras. nas quais a lógica separa de antemão os envolvidos (iniciados e não-iniciados) para.. a conduta torcedora já que. De outro modo. e outras dicotomias correlatas. ao invés de marcada pela simetria dar-receber-retribuir.

etc). Apenas para lembrar. coresponsáveis pela invenção do já então denominado esporte-rei. grande propagador dos esportes a serviço de um ideário de nação baseado na saúde social. à propósito. Este modelo de assistência instituído por estas Os anos 40 são marcados por um redimensionamento significativo do futebol profissional com a inauguração do estádio do Pacaembu. ganhou significativo espaço e apelo torcedor. estas torcidas rapidamente se popularizaram e hoje dominam o cenário das organizações torcedoras. estas torcidas caracterizam-se por serem instituições sem fins lucrativos. É neste período que os jornais esportivos começam a noticiar esquemas de segurança e de prevenção de como evitar brigas entre os assistentes. pela segunda grande guerra e o nazifascismo. de fato. é preciso salientar. no plano internacional. alicerçadas e difundidas em palavras como juventude. De modo genérico. nação e ordem 3. como pode ser notado. De modo geral. aliás. excursões. de elite torcedora. nitidamente mais popular e contendora. que originalmente surgiram num contexto de efervescência política. que estava há aproximadamente 15 anos a frente do Sport Club Corinthians Paulista. como acontece ainda com parte das torcidas na atualidade. Aliás. o que gerou uma maior preocupação por parte das autoridades em conter e regular a conduta torcedora. este torcedores. 16 de setembro de 1944). Fatos que atestavam a plena anuência deste modelo de participação de torcedores no arranjo institucional do futebol profissional da época. Salve! Cronistas e locutores esportivos. tais como os meios de comunicação e a crônica esportiva4. No âmbito nacional. nos espetáculos esportivos. raça. 4 3 2 torcidas uniformizadas perdurou até os anos 70 quando outra modalidade de participação. muito mais complexas do ponto de vista etário. Para maiores detalhes sobre os desdobramentos sociais e simbólicos destas organizações no que diz respeito às formas de sociabilidade gestadas consultar Torcidas Organizadas de Futebol. muitos atribuíam e creditavam às torcidas uniformizadas um certo papel dirigente. como foi o caso da primeira agremiação torcedora. geracional e da segmentação 5 Discutia-se. Possuem sedes e organizam-se em função de várias atividades em torno do futebol (festas. regular e até mesmo manter a ordem na assistência. estas primeiras organizações torcedoras evocam tais aspirações nacionalistas. embora. esporadicamente. sábado. muitas vezes em confronto aberto com os dirigentes destes. dos dirigentes e demais artífices dos espetáculos esportivos. podem ser tipificados como sendo predominantemente do sexo masculino. Tal fato alavancou a participação popular nestes eventos esportivos. como atesta a matéria intitulada O policiamento de amanhã no Pacaembu (A Gazeta Esportiva. cujos papéis consistiam tão somente em propagar o futebol oficial dos clubes. sobretudo na cidade de São Paulo. oriundos das classes populares e possuindo idades variando entre 15 e 18 anos. a Gaviões da Fiel5. Em 3 de maio de 1943 o jornal A Gazeta Esportiva traz em sua matéria A Torcida Líder em Ação duas fotos da torcida uniformizada corinthiana empunhando faixas de exaltação à pátria e aos jornalistas beneméritos dos esportes: Para uma Pátria grande e raça forte. 6 Revista Brasileira de Educação 211 . organizadas burocraticamente por estatutos e cargos eletivos. Os Gaviões são a primeira e atualmente a maior torcida organizada existente no Brasil. as autodenominadas Torcidas organizadas de futebol.Short cuts problema sério no futebol2. exercem alguma atividade remunerada. É relevante correlacionar o surgimento dessas instituições torcedoras num contexto mais amplo de valorização das instituições populares num período em que os direitos políticos e a cidadania estavam cerceados pelo regime militar. a legitimidade do então presidente corintiano Wadih Helu. que passa a congregar milhares de torcedores nas partidas (por volta de 60 mil torcedores nos jogos que estavam envolvidos os times mais populares). este perfil típico-ideal não seja. capaz de integrar. Estas torcidas nasceram inspiradas e bastante delineadas pelas fortes motivações de época. este período é marcado. aquele que caracterize e prepondere entre os subgrupos dirigentes destas organizações. citado. De algum modo. pelo estado centralizador getulista. estudantes que. já que em outros estados o atrelamento aos clubes ainda é verificado como um modelo preponderante. por motivo do jogo São Paulo versus Palmeiras. não mais uniformizados mas organizados. na ocasião. Em parte autônomas das vidas institucionais dos clubes6 .

. basicamente. vêm colocando em cheque. com outras implicações históricas e culturais..) para abrir espaços significativos de vivência e para elaborar e expressar as inquietações relativas à sua condição (. Por exemplo. as torcidas cumpriam e. e assumo os riscos de imprecisão ao elaborar um mau resumo. a participação dessas organizações torcedoras como co-atores do ritual do futebol profissional. também em um nível internacional. 1996). 1996b). Impossível reconstituir toda a linha argumentativa da autora. num certo sentido. Momento caracterizado pela fragmentação. um ciclo mais ou menos recorrente de acontecimentos fatais. Cronologias da violência no futebol podem ser datadas a partir de 1988 com a morte de um torcedor e dirigente da Mancha Verde palmeirense. são as consequências devas11 10 9 7 Dada a complexidade e variedade de grupos que parti- cipam destas torcidas pode-se constatar também projetos diversificados de participação na esfera pública. naquilo que concerne ao âmbito nacional.Liuz Henrique de Toledo em termos de estratificação social 7. este papel institucional de garantir aos torcedores um certo espaço de exercício e participação coletiva nas franjas do futebol organizado profissionalmente. 212 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . modalidades variadas de transgressão juvenil vem sendo analisadas por alguns autores10 que as vinculam a um contexto mais amplo e que dizem respeito. mesmo entre aqueles jovens que não participam ativamente ou cotidianamente destas organizações. acarretando uma sucessão de tragédias em torno do futebol. Além do mais. A vivência e a fruição de uma partida de futebol transcendem seus limites convencionais de tempo e espaço para muitos destes aficcionados. os jovens utilizam-se do tempo e dos elementos de consumo disponíveis. recuo e desinvestimento nestas tradicionais instituições que. caracteriza uma demanda predominantemente juvenil. sendo observadas. uma torcida corintiana. aliás. citado. Não obstante. Zaluar (1996) e Peralva (1996. historicamente marcado por um gerenciamento autoritário e elitista desde o seu surgimento enquanto mani- festação popular e simbolicamente relevante de nossa identidade. 1994. Trabalho aqui. é inegável a presença marcante e destacada destes setores juvenis e populares em torno do futebol. A construção da pessoa do jovem torcedor organizado. De lá para cá adensaram-se as estatísticas sobre delitos torcedores. 79). Zaluar analisa o desinvestimento popular em algumas instituições (religiões afro-brasileiras. Esta radicalização da conduta predominantemente juvenil. penso que algumas ainda o fazem. no domínio público. em 1995. aqui. o universo do samba.. em parte. sobretudo. abordando outros contextos de manifestação dessa experiência geracional. Contudo. como se sabe. inaugurado por volta do final da década de 809 . a saber. garantiam uma dada inserção e supriam uma carência institucional regular entre as populações desasistidas pelos poderes constituídos11. já ganhou um campeonato oficial do carnaval na cidade de São Paulo. com duas autoras que atualmente vem elaborando instigantes análises sobre as novas modalidades transgressoras de inserção juvenil na esfera pública.)” (Abramo. num período recente de nossa história. associações de bairro e etc) associando-o a um complexo processo (relacionado à globalização) de fragmentação local de determinados grupos e práticas culturais. a crise dos papéis desempenhados pelas instituições populares ou vicinais (Zaluar. no caso. 8 Consultar o livro Torcidas Organizadas de Futebol. que extravazam os limites do universo do futebol. ao que tudo indica não consiste num fenômeno circunscrito somente às manifestações esportivas de massa no Brasil. Como enfatiza Helena Abramo. Todavia. a Gaviões da Fiel.. requer um investimento simbólico rico e plural em experimentações que. porém o que ela enfatiza. inúmeras torcidas participam ativamente dos festejos carnavalescos como blocos e escolas de samba. Cléo. o futebol como um bem de consumo e entretenimento “(. como demonstro alhures8. ou de milhares de outros que sancionam esta modalidade de participação coletiva no futebol ou em outras práticas esportivas. bem como o forte papel agregador que estas torcidas organizadas suscitam.

sempre foi a maneira mais pobre de explicar qualquer um deles (. como todos os outros fatos sociais. da presença jovem no tráfico de drogas. ou a popularização de novas práticas de expressão e entretenimento jovem (igualmente excludentes) que também possuem uma natureza contendora e fragmentária. por exemplo. Como exemplos cita o avanço de certas manifestações religiosas intolerantes que reordenam e segregam indivíduos e famílias. constituem-se. sobre determinadas modalidades e expressões da violência observadas entre agrupamentos juvenis ou com a participação dos mesmos. outros por terem sido vitimados nas contendas. estético) por elas estimulados. como veremos. por estarem entre aqueles que responderam (e estão respondendo). que desenvolvo a presente análise. bárbaros.. econômico ou sociológico. Uns pelo cessar ou arrefecimento da paixão. alimentado tanto por um novo reordenamento econômico.. ou melhor. 26/10/94). por opção ou compulsoriamente. inclusive com a privação da própria vida. 13 12 tadoras que tais mudanças acarretam em vários domínios como.)” (Zaluar. preenchiam suas vidas adolescentes com o futebol. as torcidas organizadas. seja no que se refere às contendas ou as transgressões observadas entre jovens torcedores em torno destes padrões coletivos de conduta. manchetes. Sendo assim. diverso do samba que congregava gerações e grupos mais extensos. fragmentos de histórias de vida sistematizados a partir de uma pesquisa documental realizada na imprensa escrita alicerçada ainda por uma pesquisa de campo12 sobre as práticas sociais dos agrupamentos torcedores na cidade. tal como pode ser verificado na lógica do funk. No entanto. É a partir desses últimos. Muitas das explicações veiculadas na mídia possuem um forte componente determinista. editorial. seja no que se refere às modalidades de sociabilidade e comportamento (verbal. Campo crivado de armadilhas conceituais de pouco vigor analítico. que o desemprego e a falta de perspectiva levam muitos jovens a extravasarem frustrações de forma violenta (. Indivíduos tidos por parte significativa da mídia e da opinião pública como delinquentes. socialmente pernicio- sos mas que. bruscamente interrompidas pelas participações trágicas decorrentes do envolvimento em brigas e confrontos generalizados.. Revista Brasileira de Educação 213 . algumas das explicações mais correntes sobre a violência urbana. a crise econômica13. quanto pelo desinvestimento aludido acima.. na ocasião em que desenvolvi a pesquisa de mestrado no departamento de Antropologia Social na USP e que resultou no livro já citado em notas anteriores. explicações tais como a fome. O material etnográfico que sustenta toda a argumentação que segue provém de depoimentos. aludindo que “(. entre 1990 a 1993. ou até mesmo aquelas que apelam para a infalibilidade da violência como carac- Convivi com torcedores por um período de três anos.. todavia de grande apelo sociológico. seja no discurso da mídia ou até mesmo no discurso científico. muitos destes mesmos jovens torcedores das arquibancadas.Short cuts Atualmente proibidas. Observaremos que nem sempre a violência pode ser contextualizada por estas variáveis tão objetivas. Outros. numa referência expressiva. ao menos nos campeonatos locais e jogos realizados no estado de São Paulo. que alimentam convicções e paixões irrefreadas entre torcedores. mesmo que de maneira transitória.)” (Folha de S..) a selvageria ligada ao futebol tem um componente social. Paulo. coisa e ideal ao mesmo tempo. moral e judicialmente.) tornar o econômico o fator determinante ou a pobreza a explicação de fatos que. como milhares de outros. 53). circunstância em que abandonam as hostes e a monomania pelo futebol em função de outras atividades.. pelos delitos e transgressões cometidos. a pobreza. a partir do final dos anos 80. a desesperança fruto desta conjuntura. Contextualizar estes dramas individuais nos quais se envolveram estes jovens consiste em retomar. ainda que de modo sumário. A antropóloga Alba Zaluar também critica esta postura confortável de determinadas análises ao “(. 1996. esta mesma conjuntura gestada por estas atuais torcidas. estão afastadas formalmente dos estádios. alimentadas por uma ampla demonização midiática de certas práticas religiosa mais tradicionais. torcedores diretamente envolvidos em casos de violência física. também afastam. sobretudo em se tratando de contendas torcedoras. ainda. são coisa e representação. a intensificação. e veementemente combatidas nos meios de comunicação e crônica esportiva..

) tentar explicar as formas atuais de manifestação da violência entre nós. denunciando a convivência contraditória em nossa formação histórica entre formas hierárquicas (patriarcais. enfim.. latentes nos estádios. Apesar do arrefecimento das lutas abertas entre torcedores. características muito peculiares e simbolicamente valorizadas entre parcelas expressivas dos segmentos juvenis. é seguir à risca a lógica identitária contrastiva e é também negar a história que põe o institucional e o cultural em eterna transformação (. uma diminuição das contendas desde a proibição das manifestações dos agrupamentos torcedores no estado de São Paulo. Aliás. Naquilo que diz respeito às sanções mais severas impostas às modalidades de transgressão observadas entre torcedores. Longe de ser uma excrescência indesejada na vida social. no avesso da norma e da ordem que instaura.)” (Zaluar. como se ela fosse um fenômeno à parte das sociedades. portanto. coronelistas. ou seja. 1996. que na prática não só os agrupamentos torcedores estão participando dos jogos. porém com forte caráter persuasivo e prazeroso. o que impossibilitou milhares a de torcedores ocuparem as dependências do estádio Brinco de Ouro. Basta observar que o contingente policial nos estádios continua a ser expressivo14. feita muitas vezes de maneira precipitada. tendem a adensar o debate cotidiano acerca do comportamento transgressor e dos conflitos urbanos de um modo geral. o que revela outra faceta da violência. O que só confirma o distanciamento entre estes sistemas punitivos legais e as representações de justiça. repito. julgados e sentenciados. que permanecem. o que na prática sustenta e tende a se justificar na perpetuação da repressão e exclusão dos socialmente perigosos e desajustados do arranjo institucional do futebol profissional. Inúmeras vezes os discursos sobre a violência podem vir imbuídos de um excessivo essencialismo que busca uma explicação para a violência no dilema brasileiro. muitas vezes ser preso ou detido em contendas torcedoras só vem adensar biografias já repletas de atitudes socialmente reprováveis. prisões e processos judiciais. apesar de alguns torcedores serem presos. como será mencionado. O fato se deveu a venda de uma carga excessiva de ingressos. não leva em conta o caráter ontológico e até mesmo atemporal da violência como constitutiva de qualquer ordenamento social15. Nem a polícia. irrupção caótica da natureza em meio à cultura. inclusive no desenvolvimento das modalidades esportivas. através da violência organizada. É preciso enfatizar.. muito embora se observe. autoritárias) e impessoais (da ordem da igualdade entre indivíduos) na constituição da sociedade brasileira. em maio de 1997 houve uma outra morte de um torcedor e uma generalizada manifestação violenta de torcedores na partida entre os times do Guarani Futebol Clube e do Sport Club Corinthians Paulista. a frequente exorcização da violência. Mais ainda. simbólica ou concreta. Maria Lúcia Montes sintetiza esta argumentação da seguinte maneira: “(. ordem e legalidade presentes entre determinados agrupamentos sociais. apelando para o hibridismo de uma cultura brasileira que apresenta esses valores hierárquicos expressos paradigmaticamente na relação senhor-escravo que se reconstitui sempre é eternizar uma forma cultural... momentaneamente. No entanto. Outro dado a ser levado em conta é que as punições às atitudes delinquentes.) nenhum sistema normativo se sustenta sem a sanção que obriga a respeitá-lo. todavia. como adverte Alba Zaluar. a expiação destes torcedores perante a opinião pública. não garante a exclusão do uso da violência física como linguagem entre os jovens torcedores. organizados ou comuns. através da qual ele se impõem e se conserva ao longo do tempo.Liuz Henrique de Toledo terística de um país de etnia indecisa. No entanto.. circunscritas somente às organizações torcedoras (torcidas organizadas). como o nível de animosidade e intolerância continua disse- minado entre uma parcela imensa de torcedores. sensibilizam ou conscientizam pouco. inibidas apenas pela forte e agora intensificada intolerância policial. a violência constitui.. sequer a Federação Paulista de Futebol assumiram a responsabilidade pelos incidentes. 15 14 214 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . 49). geralmente tais atitudes violentas são qualificadas como fenômenos exógenos ao futebol. na cidade de Campinas. “(. de modo mais ou menos velado.

113-114)... aspecto raramente levado em conta nas análises que circunscrevem e esgotam a compreensão do fenômeno da violência nos limites do comportamento torcedor. cronologicamente anterior àquele.. 16 discussões a respeito das regras esportivas e a necessidade em conter a violência entre jogadores. A conduta torcedora. no ano de 1995. região da zona norte da cidade de São Paulo. o fenômeno esportivo esteve vinculado. de modo decisivo. o são-paulino Reinaldo Marin. como forma ou resultado da sua transgressão. Segundo este autor. Para uma verificação do processo de constituição do campo esportivo em interdependência com outras esferas sociais consultar Norbert Elias. utiliza-se do neologismo esportificação para adequar a evolução do referido esporte ao processo de longa duração denominado pela expressão processo de civilização. No entanto.. parece impossível abordar quaisquer fenômenos esportivos. a natureza e o sobrenatural. manifesta também o embasamento último em que esta se assenta. foi um entre dezenas de outros torcedores que se engalfinharam na guerra do Pacaembu. ocultando do horizonte das análises os processos conflitivos. ao arremessar uma bomba de fabricação caseira na torcida corintiana por ocasião da partida entre São Paulo Futebol Clube e Sport Club Corinthians Paulista. na criação das mediações institucionais reguladoras por um lado e auto-controle individual na resolução dos conflitos.Short cuts Uma outra dimensão crucial para se compreender a eclosão das manifestações transgressoras em estádios de futebol reside na própria constituição do campo esportivo. A justiça desportiva constitui outro foco de controvérsias na gestão da equanimidade no cumprimento das regras e manutenção de ordem desportiva (. 225). à época com 13 anos. da sua concepção sobre o mundo. Único indivíduo responsabilizado e que está até hoje (1997) preso. faz parte desta lógica inerente ao processo de esportificação17. Neste sentido. ou seja. O gordo do ABC. acusado de ser o responsá- José Sérgio Leite Lopes. e do lugar que nela ocupa a vida humana. lugar da emergência de identidades e antagonismos coletivos por excelência. ao manifestar-se. “(. taça São Paulo de futebol juvenil. como transgressão e ruptura da ordem.1997. tanto quanto a norma. O advento dos esportes contribuiu para o desenvolvimento desse processo e. O condicionamento coletivo e individual às regras impessoais e universais formam o apanágio das sociedades ocidentais burguesas.) o processo de constituição das configurações esportivas esteve sempre imbricado ao processo de civilização (parlamentarização da vida pública)16. à época com 20 anos. 1996. como princípios ordenadores da vida associada (. palmeirense. jogos e divertimentos]. Desta maneira. através da qual uma sociedade nos fala do seu modo de organização. por outro [em qualquer instância da vida social: seja no âmbito da política ou no âmbito dos costumes. em grande medida. dos valores que reputa fundamentais. transgressores e violentos que eclodem de tais manifestações sociais. final de um campeonato de juniores entre São Paulo Futebol Clube e Sociedade Esportiva Palmeiras. sobretudo entre aqueles que militam no futebol profissional. o futebol concorreu para disciplinar o nível de violência da esfera pública das sociedades pré-industriais. dessa forma. office-boy de uma ótica em Perus. foi acusado de ter vitimado o adolescente Rodrigo de Gásperi. Estas considerações feitas acima podem ser adensadas com as descrições de dois fatos amplamente divulgados pela mídia que estimularam. uma política de repressão. ao resenhar um conjunto de textos de Norbert Elias sobre a temática do futebol. citado.)” (Toledo.. desde sua gênese. Até hoje observamos acirradas seu fundamento oculto que.)” (Montes. às coletividades organizadas de torcedores: um que ficou vulgarmente conhecido como a guerra do Pacaembu e outro como o caso do gordo do ABC. torneio tradicional que acontece todos os meses de janeiro e que antecede as temporadas do futebol profissional (campeonatos estaduais e competições nacionais). por parte dos poderes públicos. utilizado por Elias.. a violência. sobretudo o futebol. constitui também ela uma linguagem. Adalberto dos Santos. 17 Revista Brasileira de Educação 215 . à domesticação mais geral dos conflitos deflagrados nas sociedades.

Passados alguns dias uma caravana da Torcida Tricolor Independente é detida na serra do mar. *** Reinaldo Rocha Marin tinha na ocasião do acontecido..) eles me disseram para arrumar as poltronas. na cidade de Santos. apesar das controvérsias até hoje não explicadas pois alguns torcedores alegaram que a própria polícia militar havia plantado19 a bomba no ônibus. Num determinado momento do gol do São Paulo Futebol Clube. na Vila Belmiro. 43 deles menores de idade. semifinal da taça São Paulo realizada no estádio do Nacional. Paulo. que trabalhava como balconista.Liuz Henrique de Toledo vel pela morte de Márcio Gasparim da Silva. que o levava aos estádios desde criança. Torcedores juram: foi armação foi uma das manchetes do Jornal da Tarde do dia 29/01/92 trazendo alguns relatos dos torcedores envolvidos na ocasião. Paulo. imposta pelas reduzidas dimensões do estádio. 14/03/92). 20 anos de idade. desta vez contra o Santos Futebol Clube. Só vi a bomba na mão do policial. na sua libertação20. Porém a tese da armação pela polícia também não ficou comprovada. foram conduzidos ao 1o distrito policial de São Bernardo. Américo Brasiliense. A Folha de S. Quero mesmo é sair da Em tempo. atingiu o outro aglomerado torcedor. de 8 de fevereiro de 1992.) Logo de início é bom dizer que nem quero saber com quem o São Paulo vai jogar ou deixar de jogar. uma bomba de fabricação caseira é arremessada a esmo em meio aos corintianos ainda aturdidos pelo tento adversário. Clóvis Manoel Gouveia. Situação em que mal se podia identificar os contendores.. mudou seu depoimento em 13 de março alegando ter sido pressionado pela PM no momento de apreensão da bomba no ônibus: “(.. A única testemunha de acusação. Pela posição em que se encontrava no estádio e a provável distância que o separava de Rogério (45 metros) seria impossível a ele arremessar um artefato de 250 gramas a tal distância. como era conhecido na torcida a qual estava associado. espanto. estas bombas caseiras consistem em bolinhas de gude confinadas misturadas a pólvora. dor.. a explosão posterior. o gordo. 16 anos. no dia 14 de março. são-paulino. rodovia Anchieta. indignação compuseram o cenário que vitimou o corintiano Rogério de Gásperi. Paulo (num dia em que haveria um jogo entre São Paulo e Palmeiras) alegando que jamais iria a um estádio novamente: “(. 45 dias depois. ao contrário de Reinaldo Marin (o gordo). Uma bomba de fabricação casei- ra18 foi encontrada. o ano de 1992. e 99 torcedores. A paixão pelo futebol herdou do pai. a Torcida Tricolor Independente que acompanha o São Paulo Futebol Clube. no campo do Nacional. fiquei com a cabeça abaixada durante a revista. Havia uma superlotação no estádio. disse (. 20 19 18 216 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . insultos disparados por ambas as partes e uma proximidade perigosa entre as torcidas rivais. alegria. sequer qualquer atributo que os individualizassem. Filho de um pequeno empresário de Santo André. proprietário de uma malharia. Bomba sem endereço determinado. ânimos acirrados como de costume. Pouco antes de ser libertado. As próprias circunstâncias em que foi preso o ajudaram. não fazia parte de qualquer torcida organizada. Adalberto.)” (Folha de S.. Do interrogatório com os adolescentes se chegou ao gordo do ABC como o provável culpado pelo arremesso da bomba dias atrás. Um gol. segundo as simulações feitas pela reconstituição pericial. Houve até a alegação de sobrevivência política do então secretário de segurança pública Pedro de Campos em tentar resolver rapidamente o caso. trabalhava com o pai como vendedor havia três anos e cursava o primeiro ano do segundo grau na escola estadual Dr. ocasião em que os são-paulinos iriam acompanhar o time num outro jogo. além da explosão de alegria incontida do lado da torcida são-paulina. trouxe uma matéria em que a reconstituição do caso num teste simulado não confirmava ser Reinaldo o autor do arremesso da bomba. clube da segunda divisão da capital paulistana. a não ser pelo contraste das cores dos opositores.. Reinaldo concedeu uma entrevista à Folha de S. Rotina que se alterou bruscamente a partir do dia 23 de janeiro de 1992.

Não quero que fiquem pensando que estou querendo aparecer ou ser candidato a alguma coisa no futuro (. suspensão das atividades da sãopaulina Torcida Independente. Eu não quero ficar falando sobre os times porque pode ser ruim pra minha imagem. Márcio Gasparim da Silva. situados ao lado e ao fundo de um dos gols e. É triste. que se agrupavam numa parte da arquibancada. segundo os primeiros laudos médicos. gera uma maior tensão entre os aficcionados. É uma das etapas para se chegar ao futebol profissional. Paulo. 23 A categoria de juniores faz parte dos departamentos amadores dos clubes profissionais. Morte súbita. Pista interessante porém insuficiente para compreender todo o desencadeamento do acontecido. policiais. Durante todo o segundo semestre e os anos de 1996 e 1997 pode-se verificar os desdobramentos do fato23. 1997. abundantemente veiculadas nas TVs e estampadas nos jornais. tem um monte de gente que já cumpriu pena mas não saiu porque ficou esquecido pela justiça. este também revestia-se de pouca importância se comparado às pelejas acirradas que marcam e instilam animosidades na cidade. munidos de muito entulho deixado atrás do gol em virtude de uma reforma no setor comumente conhecido como tobogã (arquibancada atrás do gol). espero apenas que não haja violência. torcedores palmei- renses invadiram o gramado para comemorar o 1x0 e apupar os torcedores adversários. o ministério público do Estado designando um promotor de justiça zões do desfecho funesto desta partida. fato que colaborou para o acirramento dos ânimos. Paus e pedras foram desferidos entre os torcedores... Forte pressão da imprensa. travaram uma sequência de investidas. suspensão das atividades e extinção da Torcida Organizada Mancha Verde. mas nunca mais pretendo passar na porta de estádios de futebol. por exemplo. Aqui na cadeia. que não são culpados e aguardam julgamento há anos. proibição dos cantos de guerra nos estádios. à deriva sobre suas pernas. por fim projetado contra o alambrado. Houve. desde as primeiras décadas deste século. A partida era uma final de campeonato de juniores21 entre São Paulo Futebol Clube e Sociedade Esportiva Palmeiras e. indiciamento de Adalberto por homicídio doloso. O revide veio logo em seguida com os são-paulinos pulando e derrubando alambrados. Porque foi por causa dela que vim penar nesse inferno. na ocasião.) Hoje sei que há coisa muito mais importante no mundo do que futebol. Mas como até aqui dentro a rivalidade contra o Palmeiras é grande. predominantemente os organizados. As imagens de um jovem combalido. Quando a bola tiver rolando no Morumbi vou pra algum canto do pátio da cadeia pra não ouvir o radinho dos palmeirenses. de um adolescente. Continuo tricolor. O saldo foi ainda pior com a ocorrência de uma morte. por lesões generalizadas. Entre outros o afastamento dos grupos organizados dos estádios. percorrendo com dificuldades pela lateral do gramado. profissionais da imprensa que cobriam o evento entre outros.Short cuts cadeia. como no jogo anterior onde Reinaldo Marin protagonizou o ocorrido. como eu. Raro encontrar alguém que não as tenha visto. proibição de venda de bebidas alcoólicas. E alguns. 110). bem como de levar aos estádios paulistas bandeiras e instrumentos percussivos. entre os grandes times profissionais. jogadores assustados. consiste no término do jogo imediatamente após um dos contendores fazer um gol.. ou gol de ouro. Se não fosse pelos fatídicos acontecimentos ambos os jogos aqui em questão ficariam confinados às estatísticas esportivas. e não posso fugir das brincadeiras dos colegas de cela. alegando que a interrupção brusca pelo gol fatal. ao vivo pela TV. o tamanho da agressividade coletiva que se instaurava naquele momento. misturando-se aos palmeirenses. retrocessos. Findo o jogo. Difícil descrever as imagens. atribuída ao já referido adolescente Adalberto B. demonstrava. desmaiado. sem dar chances de recuperação ao adversário. nem ver pela TV ou ouvir no rádio. avanços e recuos uns contra os outros. quem atribuísse a esta regra as ra22 21 Revista Brasileira de Educação 217 . por morte súbita22. dos Santos (Toledo..)” (depoimento de Reinaldo Marin à Folha de S. Não desejo nem ao pior inimigo (. 08/03/92) Passemos à guerra do Pacaembu.

cuja modalidade de violência 25 Grifo do autor. Até janeiro deste ano (1997) o laudo ainda não havia sido divulgado pelo IML. O advogado de defesa iria solicitar em juízo tal documento no intuito de comprovar sua hipótese de que não foi o golpe desferido por Adalberto que matou o são paulino Márcio Gasparim (Folha de S. Não cabe aqui reconstituir toda esta sequência de eventos. computou 23 indiciados. seis meses após o pedido. o único indivíduo efetivamente culpabilizado pela morte de Gasparim foi Adalberto. acusado de homicídio doloso. A precipitação dos fatos culminou na prisão preventiva de Adalberto sob a alegação de clamor popular. sobretudo).. que extravazasse os limites temporais dos jogos futebolísticos (em São Paulo. Dezenas destes confrontos aleatórios envolveram indivíduos sem quaisquer vínculos uns com os outros. 1996. passados quinze meses. motivado por crueldade. com as participações juvenis nos bandos rivais do crime organizado. abertura de inquérito policial. catalizaram-se as violências parciais (institucionais. em geral torcedores não se confrontam para além dos limites dos dias de jogos). Era necessário. no tráfico de drogas e disputas por pontos e bocas de fumo. Tal como na lógica sacrificial. por exemplo a presença de uma grande reforma no estádio. O advogado de defesa Laertes Torrens consegue. Suspeita-se que houve um erro (na leitura da chapa e na abertura do crânio) na cirurgia feita no adolescente vitimado 24. é raro estas atitudes violentas ocuparem o tempo da esfera cotidiana. convergindo-as para uma única pessoa. ainda alegando incongruências nos laudos periciais. 10/04/97)... e outras relativas à condução da cirurgia e dos laudos médicos. o que não foi permitido pelo referido juiz a pedido da promotoria que alegou que o legista não havia “acompanhado as investigações e por isso. constata-se que um número reduzidíssimo delas aconteceu em função de vendetas ou vinganças na disputa por algum bem. material ou simbólico. 24 Em fevereiro de 1997 o juiz Sérgio Rui da Fonseca denuncia-o por homicídio triplamente qualificado. 218 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . propôs que o renomado legista Fortunato Badan Palhares depusesse como testemunha de defesa. denunciados por crime de rixa e um preso.)” (Rifiotis. Os advogados de defesa de Adalberto pediram a exumação do corpo de Márcio e uma perícia para indicar que o golpe desferido pelo réu não foi aquele que vitimou o referido adolescente. Adalberto. o adiamento do julgamento que estava marcado para 14 de abril deste mesmo ano. desse modo. Vínculo no sentido de uma ação recíproca mediada por uma história previamente compartilhada entre os contendores. Apesar de uma série de irregularidades evidenciadas na ocasião. Um balanço feito pela promotoria da capital em novembro de 1996.) violência se espalhasse por toda a sociedade (. A defesa. Se tal fato ocorresse certamente a cronologia da delinquência em torno do futebol seria alimentada por casos ainda mais contundentes como ocorre. 9). não poderia ir a plenário” (O Estado de São Paulo. ao menos. aliás rica do ponto de vista de uma investigação mais detida na medida em que veio à baila uma série de contradições no andamento do inquérito em função de possíveis irregularidades nos prontuários médicos do torcedor vitimado.Liuz Henrique de Toledo para acompanhar o caso. Quais semelhanças guardam estes dois acontecimentos e tantos outros ocorridos com adolescentes ou jovens torcedores de futebol? Em que medida é possível verificar um padrão de conduta mais objetivo e causal nestas contendas? Tomando como exemplo grande parte das mortes entre torcedores. Ainda que as imagens claramente mostrem a sua participação no acontecido há indícios de que o golpe considerado fatal por ele desferido não tenha sido o causador da morte de Gasparim. impossibilidade de defesa da vítima e futilidade25 (briga entre torcedores). o que implicava numa evidente ausência de condições em sediar qualquer partida. como no caso do gordo do ABC. por exemplo. ou seja. Paulo.. como se pudessem evitar que a “(. um rápido procedimento para indiciar e apresentar ao público os responsáveis. 16/01/97).

Short cuts conflagrada possui. brigas) até uma atitude mais deliberadamente agressiva. Entre os jovens torcedores de futebol das classes populares. mas. afirmando que os jovens vivem de embalos. audacioso e socialmente perigoso (um roubo da bandeira adversária. todavia.. ainda. por Gasparim e Rodrigo de Gáspari. Apavorar revela um êxtase e prazer na atitude furtiva. etc). o uso do termo apavorar para denotar algum feito espetacular. A própria fala de Adalberto ao enfatizar um caráter coletivo das investidas.A. tais manifestações revelam. gerações. Ed. 1996.)” (depoimento de Adalberto ao Jornal da Tarde. a ocorrência destas situações de conflito.) não se pode viver sob o incentivo dos outros para praticar uma briga (.) superpõem e se anulam no decorrer de um único dia (. que parecem animar determinadas condutas individualizadoras. pequenas transgressões em estabelecimentos comerciais. e o texto da mesma autora citado no presente artigo. outros elementos definidores26. no contexto destes grupos específicos. 27 José de Souza Martins adverte para o uso inadequa- 26 tuações similares às relatadas: “(. representações de masculinidade posta à prova nestas coletividades. uma certa representação de desapego da sua própria integridade física. classes sociais.. 16/04/96).. tais como Peralva (1996). afirmando que se tais identidades existem. Outros autores. sociologicamente. foi vacilão. entretanto se “(.. compõem o universo de possibilidades de ação diante de situações tais como no caso do gordo ou da guerra do Pacaembu. que a mobilização de alguns elementos profundamente desagregadores. entretanto.. e aqui inclui-se os próprios aliados de uma mesma torcida. evidenciando. Adalberto e. esta modalidade de violência é constatada de modo mais reincidente a partir dos anos 80? Não querendo negligenciar o caráter coletivo de tais investidas. também vêm estudando a inserção juvenil no tráfico de drogas.) bota aí que a pior coisa da vida é viver sob as influências dos outros.. Isso leva os garotos a agir [sic] no embalo.. motivadas obviamente por uma centralidade e catalização das animosidades por parte dos agrupamentos torcedores. pedras. paus) e simbólico que sustentam a atribuída intolerância destas torcidas (os gritos de guerra. Parece que há um forte elemento desagregador de identidades neste comportamento manifesto e um forte apelo individualizador na busca de prazer e emoção em tais atitudes. que foi o que me levou a encarar uma situação dessas (. paradoxalmente. A despeito do débil esforço por parte de alguns segmentos dirigentes das organizações torcedoras (torcidas organizadas) em conterem as transgressões e em que pesem todo o aparato quase bélico (bombas caseiras. de modo preponderante. como comumente dizem os torcedores.. Revista Brasileira de Educação 219 .. Moderna. no linguajar evocativo de afirmação e bravura entre os grupos. parece por demais linear tributar exclusivamente a uma ação organizada. São Paulo. 1996. 38). Por quê. A exposição aos perigos (e aos prazeres) partilhados na forma da contenda futebolística entre torcedores mobiliza dezenas de jovens em situações similares cujos desfechos potencialmente poderiam ser tão trágicos como aqueles vivenciados por Marin. deixa transparecer.. é muito usual. O indivíduo agredido. valorizando uma dada identidade coletiva desses agrupamentos. por parte do agressor.)” (Martins. demonstrando não somente um desprezo pela existência do outro. O relato de Adalberto em certa medida corrobora com esta análise ao negar uma identidade27 substantiva que se quer atribuir às torcidas em si- Para uma interessante análise sobre o envolvimento de jovens no tráfico de drogas consultar Alba Zaluar. Da Revolta ao Crime S. ainda que de modo variável.) Eu nunca fui de organizada (.. principalmente. como pude constatar várias vezes observando circunstâncias semelhantes as relatadas neste artigo. ao mesmo do do termo identidade no estudo de pequenos grupos ur- banos.. um acontecimento limite que. que tais atitudes são opções que vão além da imediata solidariedade coletiva. recuos e medos. preso ou até mesmo morto simplesmente se fudeu. contudo não destituídos de apreensão.

1996b. Quanto mais individualizada for a transgressão maior o prazer suscitado na atitude de apavorar terceiros....) liquidação de antigas formas de regulação das relações humanas (.. parece mais diretamente pautada pelo engajamento em condutas de risco. o que permeia as atitudes que envolvem condutas de risco é a angústia da morte28 revelada pela e na ação transgressora. particularmente os casos extremos aqui expostos. ao que parece.. Momento em que alguém se destaca do anonimato da torcida e conquista uma certa visibilidade. cujo “(. ainda que efêmera e socialmente reprovável. o que ocorre é que o contendor ou oponente em potencial parece também não consistir no objetivo da ação. mas também inter-geracional.) já não funciona suficientemente como matriz protetora. o surf ferroviário. traduz-se em temor e angústia na realização do próprio ato. antes.)” (Peralva. o apelo à ordem se manisfesta sobretudo através da violência policial e extra-policial contra o jovem (. ao contrário. a sociedade “(. No caso do jovem. ou seja. que tais condutas são caracterizadas por se constituírem em atitudes autoreferidas. 1996b. s/n). cuja inexistência do outro como objetivo de consumação da transgressão concretiza uma situação limite de negação do ato de realizar-se no ou pelo outro. entretanto. para inseri-los neste movimento mais amplo de desregulação e recuo institucional descrito acima.) No contexto de um Estado de direito frágil e incapaz de assegurar os requisitos básicos de uma ordem legal [como é o caso brasileiro]. correlacionado aos processos sociais de fragmentação e desinvestimento nas instituições populares mencionados por Zaluar.. As condutas torcedoras. E segue a autora: “(. agregamse os de uma mutação cultural... lembrando que a violação aqui não se caracteriza por ser auto-referida como nas condutas de risco típicas29. A violência do jovem.. s/n).. que parecem evidenciar também uma manipulação angustiada da morte. em certa medida podem ser informadas pela categoria precedente (conduta de risco) só que não exatamente para tipificar tais atos beligerantes.)” (Peralva. que debilita a antiga preeminência exercida sobre ele pelo adulto: a desregulação não é apenas social.) engajamento voluntário dos sujeitos em um risco de morte é o mecanismo ao qual recorrem para enfrentar a angústia diante de um mundo desprovido de proteção (. espécie de anteparo que simplesmente veicula ao mesmo tempo uma negação do coletivo e uma auto-afirmação..Liuz Henrique de Toledo tempo. 29 220 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Dessa maneira. consiste numa ação em que embora motivada pelo comportamento coletivo instituído pelos grupos torcedores é profundamente desagregadora. mesmo que pautada numa sociabilidade negativa. No caso da presença do outro (dos adversários) nas transgressões protagonizadas por torcedores de futebol. a acentuação da angústia da morte consiste num fenômeno generalizado das sociedades onde o processo de individuação foi intenso. muitas vezes acabam abortando experiências mais coletivas de socialização devido a um processo de “(. ademais. citando outros autores tais como Edgar Morin. envolvendo significados plurais” (Peralva.. como o enfrentamento ou a aniquilação física do desafeto. Alguns outros fenômenos vêm sendo conceituados na literatura especializada sobre sociabilidade e delinquência entre os segmentos juvenis pela expressão comportamento de risco. Segundo Peralva (1996b). Essa dupla desregulação parece torná-lo em muitos casos mais sensível ao engajamento à violência como forma de gestão da angústia da morte (.). individualizadas. ao superdimensionar a noção de indivíduo.. Vale ressaltar. s/n).. por fim. como expressão mais radical de condutas de risco. politicamente igualitárias que. 28 efeito perverso engendrado nas próprias sociedades modernas.. mas. abandonando o indivíduo face à angústia da morte. citados em parágrafos anteriores. Segundo ainda esta autora. 1996b. mas tão somente no objeto. como nas sociedades ocidentais.. 1996b. s/n). Apavorar. O engajamento dos torcedores em circunstâncias semelhan- A autora vem estudando. aos efeitos da desregulação social.)” (Peralva.

ZALUAR. Identidades e conflitos em campo: a guerra do Pacaembu. Guerra do Pacaembu foi uma verdadeira demonização. São Paulo: Hucitec. v. São Paulo: Scritta/ANPOCS. Saímos. demandas conscientemente organizadas por coletividades torcedoras. José de Souza (org. Fapesp. J. São Paulo: Companhia das Letras. (1996). Paris: Centre d’Analyse et d’Intervention Sociologiques. O apelo a um projeto de torcida. então. A peleja da vida cotidiana em nosso imaginário onírico. Luiz Henrique de. Cidadania e violência. Norbert. Rio de Janeiro: Relume-Dumará.. Revista da USP. e me parece pouco razoável explicá-las como sendo. José Sérgio Leite. __________. Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências. Violência. (Document provisoire). n. São Paulo. __________. As ações transgressoras entre torcedores relatadas aqui. um sequestro. Caxambu. aquele que atribui uma dada racionalidade à ação30 (a violência como um meio consciente para se atingir um determinado fim. In: VELHO. ALVITO. (Des)figurações: a vida cotidiana no imaginário onírico da metrópole. como um roubo. sobretudo entre os segmentos jovens. ANPOCS. __________. TORRES. L. Helena. out. nessas mesmas formas de organização. São Paulo: Moderna. portanto. Em busca da excitação. (1996).). qualquer ação terrorista ou mesmo uma ação policial mais ostensiva ante algum delito por exemplo). 1. no senso comum. para ingressar num âmbito mais subjetivo (e porque não dizer movediço) de sua dimensão. Maria Lúcia. cultura popular e organizações comunitárias. tão valorizado em determinados momentos por inúmeros daqueles organizados. n. Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales. A cidade das torcidas: representações do espaço urbano entre os torcedores e torcidas de futebol na cidade de São Paulo. Torcidas Organizadas de Futebol. CALVINO. A globalização do crime e os limites da explicação local. indicam um processo. exclusivamente. Marcos. emoção e conflito social. Da revolta ao crime. (1960). (1994). (1996b). Marcos. out. set. O que pode acarretar em efeitos até mais perversos de atomização e desregulação ainda maior de tais condutas intolerantes nos estádios. Alba. O Visconde Partido ao Meio. como se estes pudessem ser comparados a outros agrupamentos que se utilizam das ações transgressoras e violentas como um meio para atingir objetivos pré-determinados. ao menos de impasses e crises na formação de identidades coletivas. (1996b). 32. Juvenização da violência e angústia da morte. In: MAGNANI. dos grupos de torcedores desordeiros. (1996). parece não mais estimular e mobilizar os jovens sócios que buscam. Lisboa: Difel. 1. Gilberto. (1996b). PERALVA. Campinas: Autores Associados. Cenas Juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. Cidadania e violência. senão de esgotamento. C. 20. errantes viscondes habitantes dos grandes centros urbanos. (1996). MONTES. Note pour une analyse comparative de la violence juvénile en France et au Brésil. MARTINS. (1996). TOLEDO. Referências bibliográficas ABRAMO. nem sancionado nem coibido pelas coletividades torcedoras. Neste momento as análises igualmente instrumentais perdem em muito seu valor heurístico. José de Souza. In: VELHO. do terreno propriamente instrumental do uso da violência. LOPES. (1995). Multigrafado. São Paulo: Edusp. Na metrópole: textos de Antropologia Urbana. (1997). __________. Rio de Janeiro: UFRJ/FGV. Gilberto. 30 O que se constatou a partir da Revista Brasileira de Educação 221 . ELIAS. fragilizadas que estão num contexto de repressão e despolitização de seus quadros. ALVITO. Estamos diante. ou seja. uma via mais segura (dada até mesmo pelo próprio anonimato da multidão) de aparição espetacular no domínio público. (1995). de fenômenos intrigantes e que ainda não foram suficientemente esclarecidos nas análises. Italo. Rio de Janeiro: UFRJ/ FGV. Esporte. MANA: estudos de Antropologia Social. In: MARTINS. Angelina.Short cuts tes às descritas acima em grande parte é voluntário (e solitário).

1966. o sociólogo François Dubet reflete sobre a sua experiência de um ano como professor de história e geografia em um colégio da periferia de Bordeaux. (com Danilo Martucelli) Paris: Seuil. 1991. enquanto pesquisador. É autor de mais de uma dezena de livros. a queda de nível dos alunos. François Dubet é pesquisador do Centre d’Analyse et d’Intervention Sociologiques (CNRS . 1994 (Edição portuguesa: Lisboa. A primeira é que nos meus encontros. Paris: Seuil. você escolheu lecionar por um ano em um colégio? Eu quis ensinar durante um ano por duas razões um pouco diferentes. François Dubet quis vivenciar. Paris: Seuil. diretamente como professor. coletivos ou individuais. a impossibilidade de trabalhar. 222 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . professor titular e chefe do departamento de sociologia da Universidade de Bordeaux II e membro senior do Institute Universitaire de France. 1997) e A l’école. durante breve estada no Brasil. Les lycéens. Paris: Fayard. etc. eu tinha a impressão de que eles davam descrições exageradamente difíceis da relação pedagógica. Por quê. França. E eu me perguntava se não era um tipo de encenação um pouco dramática do seu trabalho.Espaço Aberto Quando o sociólogo quer saber o que é ser professor Entrevista com François Dubet Entrevista concedida à Angelina Teixeira Peralva Marilia Pontes Sposito Universidade de São Paulo Tradução de Ines Rosa Bueno Em entrevista concedida à Revista Brasileira de Educação em setembro de 1996.École des Hautes Études en Sciences Sociales). Sociologie de l’experience. Eles insistiam muito sobre as dificuldades da profissão. Instituto Piaget. entre os quais: La galère: jeunes en survie. com professores. Conhecido por suas pesquisas sobre a juventude marginalizada na França. os dilemas da escola francesa contemporânea. 1987.

não sabia como contar histórias e fazer com que os alunos escrevessem ao mesmo tempo. só se aproveitam uns vinte minutos. Foi um pouco por desafio que eu quis dar aulas para ver do que se tratava.) fiquei muito contente que o menino tivesse 13 anos. Lá. os alunos me testaram. eu estaria com problemas. A minha primeira surpresa. não de hostilidade. Os alunos não estão “naturalmente” dispostos a fazer o papel de aluno. de ser um “intelectual”. com crianças de 13/14 anos. Entretanto. o levantei e o trouxe para frente. não acredito que se possa fazer pesquisa se colocando no lugar dos atores. a rir (. Podemos dizer muitas coisas sobre esta experiência. sonhando com outra coisa e não fazer barulho. encontrei duas professoras com uma resistência muito grande ao tipo de análise que eu propunha. Ele se recusou. finalmente. eu acho que é um sentimentalismo sociológico que não é sério ou que supõe muitas outras qualidades diferentes das minhas. muita simpatia (. Aprendi que para uma aula que dura uma hora. Ou se eu fosse uma jovem professora de 22 anos. Mas após duas semanas. outros não terão lápis..Não são alunos capazes de fingir que estão ouvindo. eles falam. eles se aborrecem ou fazem outra coisa.) Aliás.) Por exemplo. Se você não os ocupa com alguma coisa. Ele gritava: “Ele vai quebrar meu ombro!” Bom. Ensinei história e geografia já que são disciplinas que me interessavam e que não requeriam uma formação específica como o inglês ou as matemáticas. Isto significa que eles não escutam e nem trabalham espontâneamente. quando a gente fala “peguem os seus cadernos”. É extremamente cansativo dar a aula já que é necessário a toda hora dar tarefas.. um menino que estava no fundo da sala. Tive muitas dificuldades. Elas deixaram o grupo.. Uma delas escreveu uma carta em que me criticava particularmente por não ter lecionado.. me esforcei para ser um professor razoável. alguns terão esquecido seus cadernos. em um colégio popular.Espaço Aberto A segunda razão é que. seduzir. o resto do tempo serve para “botar ordem”. Portanto. nunca imaginei seriamente escrever um livro sobre a minha experiência de professor. A minha segunda surpresa: é preciso ocupar constantemente os alunos.. eu fiz este trabalho em boas condições pois fui muito bem acolhido pela grande maioria dos professores que ficaram bastante sensibilizados pelo fato de eu ir dar aulas e tive real- mente muito apoio. houve um contato (. não sei como teria reagido. ao lado de minhas atividades de acadêmico. 2º ginasial (que começa após os cinco anos de escola elementar). me dei conta de que a “observação participante” era um absurdo. Dito de outra forma. Fui buscá-lo. para dar orientações.) Um aluno. Por exemplo. mas de resistência ao professor. Contudo. pois se tivesse pego uma classe de troisième (3º ginasial) e que o menino tivesse 1. quatro horas por semana. não é preciso esconder que o fato de ser um homem no meio de mulheres pode também ajudar. tentei ficar observando. Começaram então a conversar. durante uma intervenção sociológica com um grupo de professores. estava completamente envolvido com o meu papel e eu não era de maneira algum um sociológo. falar (. Durante duas semanas.80 m e pesasse 75 kilos. Logo. são cinco minutos de bagunça porque eles vão deixar cair suas pastas. corresponde ao que os professores dizem nas suas entrevistas. e que é fundamental. fazia tanto barulho que eu pedi para ele vir se sentar na frente. da volta às aulas em setembro até o mês de junho. depois de dez minutos. pelo menos no nível escolar em que eu trabalhava. a situação escolar é definida pelos alunos como uma situação. Era um clima bastante agradável. de ter uma imagem abstrata dos problemas. de chefe de departamento. para começar. Devo dizer que esta experiência não era nada central para mim já que não era o coração do meu trabalho de pesquisa. isto é. embora tivesse me esforçado para manter um diário de umas cinquenta páginas no qual redigi minhas impressões. ameaçar. Se eu contasse a história de Roland e de Revista Brasileira de Educação 223 . eles queriam saber o que eu valia. Assumi uma classe de cinquième. bastante difícil em que o nível dos alunos é baixo e dei aulas durante um ano. na primeira aula. ver a mim mesmo dando aula....

Mas numa sala de professores. eles perguntavam se era para escrever com caneta azul. eles me suportavam. não conseguiam. no canto da mesa. nunca tive a menor sombra de um problema desta natureza. É cansativa. eu escrevo a seus pais. falei disso com os meus colegas. eu estava um pouco desesperado: eu não conseguia nunca dar a aula. não quero mais ouvir ninguém rir. O que mais me chamou a atenção. ela nunca se torna rotina.. Quando olho para os meus colegas. não era bagunça. é de fato o que a gente realmente experimenta. Como acaba se construindo uma relação com os alunos? Sem me dar muito conta disso. Depois. tendo sido assistente muito jovem ainda. eles gostavam muito de mim. era agitação. de sedução. E então um dia. como fazer com que não façam barulho? Esta é a dificuldade. cada vez. é preciso reinteressá-los. fiz um “golpe de estado” na sala. Pode ser mais duro para um professor iniciante. as relações se tornaram bastante boas com os alunos e bastante afetuosas. É uma experiência 224 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . não entendiam nada do que eu dizia.. como fazê-los trabalhar. nunca se fala disso. Enfim. é preciso recompensar (. Você disse que fez um “golpe de estado”. a relação escolar é a priori desregulada. os alunos me escutavam como se eu contasse um conto de fadas e não escreviam nada. que davam boas aulas. É preciso reter desta história extremamente banal que o fato de ser sociológo pode permitir explicar o que acontece. E durante uma semana foi o terror. Se eu falo de charme. de suas histórias (. No final das contas. Cada vez que se entra na sala. é preciso lembrar as regras do jogo. Realmente. eu puni. todo o mundo parece ser um bom professor. E eu também.. Era uma relação muito complicada já que era ao mesmo tempo afetivo. não é a violencia.Espaço Aberto Carlos Magno. Depois de dois meses. já que eles sabiam que havia regras. de cara. Me deram presentes. Aliás. que durou mais ou menos dois meses. Porém lá. isto significa que eu falo com eles. digamos que eu tive o sentimento que começava a aprender pouco a pouco a dar aulas.. De fato. vermelha ou sublinhar (. muito penosa. Não havia agressões. Isto quer dizer que alguns professores tinham medo antes de entrar na sala. Não era um colégio violento. cada vez. Durante estas dificuldades. E quando escreviam. Mesmo que a gente visse colegas chorando. é preciso ameaçar. e o primeiro que falar. achei que a descrição que os professores entrevistados faziam na pesquisa era bastante correta. e ele terá duas horas de castigo. não havia insultos mas era obviamente uma provação. facilitou a minha vida e tenho a impressão de que esta “crise”deu aos alunos um sentimento de segurança. Com os alunos. Eu disse: vocês vão colocar as suas cadernetas de correspondência. não quero mais agitação. Disse a meus colegas que eles bagunçavam e eu estava tão mais surpreso com a bagunça porque.) A gente tem o sentimento de que os alunos não querem jogar o jogo e é muito difícil porque significa subtemer à prova suas personalidades.) No fim do ano. mas não de antecipar melhor que a maioria das pessoas. cada vez. ou outros que nunca vinham. como fazer com que ouçam. a caderneta em que se colocam as punições. os alunos eram sensíveis ao fato de eu me interessar por eles como pessoas. Fizeram uma festa quando eu fui embora. é preciso reconstruir a relação: com este tipo de alunos. que eu me lembro de suas notas.) É extremamente difícil e eu tive uma grande agitação na sala. obviamente. foi o clima de receio para com os alunos na sala dos professores. Cada vez. eu não controlava nada e os meus colegas apreciaram talvez que eu tivesse tido problemas. eles sabiam que nem tudo era permitido. não é por narcisismo. Havia outros que visivelmente. havia muitos deles que eram muito fortes. que passavam pelo corredor.. já que alguns me ofereceram um livro: Comment enseigner sans stress? (como ensinar sem estresse?) Talvez eu pudesse dizer que sentia dificuldades porque meu status social me permitia dizê-lo sem ter o sentimento de vergonha.. muito disciplinar e muito rígido. Disse aos alunos: de hoje em diante não quero mais ouvir ninguém falar.

O que é que você achou dos programas escolares? É uma das coisas mais espantosas. eles não querem tê-las. Eles podem encontrar um professor simpático. De fato. agressivos. Podemos fazer outras observações muito banais sobre a heterogeneidade das classes. e que vamos deixar de lado os maus alunos. ameaças. O programa é feito para um aluno que não existe. A gente dá aula e só faz isso. O que este “golpe de estado” mudou fundamentalmente? Para mim foi muito negativo porque a gente se sente reduzido a expedientes. aliás. eu achava que podia seduzí-los intelectualmente. Eis um pouco do que eu observei e devo dizer que isto correspondia exatamente ao que diziam os professores nas entrevistas individuais ou coletivas. que nunca havia usado na minha vida universitária. “entraram em greve”. mas antes alunos fracos em geral. no Natal queria parar. repito. mas de qualquer forma. Os alunos são adolescentes completamente tomados pelos seus problemas de adolescentes e a comunidade dos alunos é “por natureza” hostil ao mundo dos adultos. a gente fica contente. no colégio. como professor universitário. me comportei como um iniciante. O “golpe de estado” é um fracasso pedagógico e moral. O programa é também uma grande abstração. Outra coisa que me chamou a atenção. É feito para uma turma que trabalha incessantemente. eram muito gentis mas tinham decidido que não trabalhariam. já não adiantava. Nenhum efeito. disciplina. Eles não exageram. individualmente. até em história e em geografia. de amor. eles não entram completamente no jogo. Mas é uma história fracamente controlada. não há cronologia. Falando bem e sabendo mais coisas do que eles. talvez se tenha experiência suficiente para ver as coisas e fazê-las ao mesmo tempo mas. racistas. são alunos que. Mas eles sabiam que todos os meses. Somos obrigados a dar aula a um aluno teórico. Por exemplo. que eu desconhecia completamente. É um trabalho que se recomeça a cada dia embora. quando não funciona. Eu vivi muito dificilmente este ano. é uma história de sociólogos. hostil aos professores. que a gente podia jogar com a sedução intelectual. não se trate de alunos malvados. não é uma história que conta histórias.Espaço Aberto muito positiva quando funciona. Fiz reinar o terror durante algumas semanas e depois relaxei. tendo de certa forma o sentimento de que vamos deixar um pouco de lado os bons alunos. tê-los-ia punido todos os dias. porque existem. É feito para um aluno cujo pai e cuja mãe são pelo menos professores de filosofia e de história. Digamos mais simplesmente que é feito para um aluno extremamente inteligente. alunos que nada fizeram. Isto significa que a gente não consegue observar e dar aula ao mesmo tempo. É completamente desesperador: no início eu os puni e no fim não os punia mais. sedução pessoal. não faziam nada. daí a metade do programa e contei a história. é preciso trabalhar na transformação dos adolescentes em alunos quando eles não têm vontade de se tornar alunos. Depois de alguns anos. estabelecer relações com os professores. É realmente uma situação em que a gente tem grandes dificuldades para conquistar os alunos. eu teria recomeçado. mas nada do que pe- Revista Brasileira de Educação 225 . Tiravam zero em todas as provas. eles podem encontrar um professor interessante. fiz como todos os meus colegas. mas permitiu fixar uma ordem bastante estúpida a partir da qual a gente pode tentar controlar uma relação pouco regulada. a gente se desespera. mesmo se os alunos queiram. depois de dois meses. coletivamente. de amizade e o professor fica sempre um pouco frustrado porque. O programa é de uma ambição considerável e não se pode realizá-lo materialmente. No fundo eu estava persuadido. Eles permanecem nos seus problemas de adolescência. Estamos lidando com alunos extraordinariamente diferentes em termos de performances escolares. Foi preciso mobilizar muitos registros. neste ano. Por isto. um aluno médio que não existe.

A segunda coisa é a manutenção de uma ficção sobre os alunos. Mas eles sabem que isto nem sempre é verdadeiro. A pedagogia é uma técnica da operacionalização da personalidade. a situação escolar não tem nenhum sentido. Assim. De certa forma. não uma violência simbólica de classe como diz Bourdieu. Assistir ao filme levou quatro horas porque era preciso explicar as palavras: a palavra inquisição. magoados. isso nem sempre é verdadeiro. por estarmos numa sociedade democrática. que não é um absurdo. mas é muito demorado.. É o preço de um sistema que é ao mesmo tempo democrático. Isto faz com que o trabalho do professor seja muito cansativo com o tempo e entretanto. mas uma violência individual pedagógica. pede-se para que ele próprio mude. Ao mesmo tempo. a gente vê muito bem o tipo de sabedoria professoral.. quando eu estava em cinquième (segundo ginasial).. muitos professores o fazem muito bem. a gente sempre lhes explica que se eles não obtiverem bons resultados é porque não trabalham bastante. Procura-se então outros meios. Quando se pede a um professor para mudar o seu método. É obviamente preciso que a situação escolar tenha sentido para os alunos o que não é exatamente o caso 226 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . eles têm obviamente performances desiguais. e na realidade. com a mesma idade deles. Mas para muitos alunos. apesar de tudo. os alunos parecem sensíveis ao fato de que a gente quer vê-los bem sucedidos. então. A gente experimenta um descompasso entre os programas e os alunos. Eu tenho a imagem de uma relação bastante dura que é compensada por toda a sua vida juvenil. que eles são iguais. os alunos são muito sensíveis a este tipo de adequação da personalidade do professor e de seu estilo pedagógico. a palavra ordem religiosa (.) Eu diria que este sentimento de absurdo da situação pedagógica é reforçado pelo fato dos programas se dirigirem para alunos abstratos. E aliás. tinha programas infantis. Eu os levei para ver um filme sobre a Idade Média na televisão: O Nome da Rosa. Entretanto. Gostaria de apontar duas outras dificuldades. E é portanto vivida como uma pura violência. A primeira tem a ver com a extrema brutalidade da seleção. Só se diz para eles: se você trabalhar mais. não se pede apenas que ele mude de técnica. em uma pedagogia milagrosa. terá melhores resultados. a gente decide o destino dos alunos em alguns minutos.” A gente vê professores que adotam métodos tradicionais que funcionam muito bem e outros que têm métodos ativos que funcionam. E. como a maioria dos meus colegas. Esta desregulação da relação pedagógica. porque isto não interessa para eles (.. quer dizer. Uma pedagogia não é uma pura ferramenta na medida em que não há corte entre a pedagogia e a personalidade. por seus amigos. o problema é múltiplo. que ordena os valores. programas muitos simples. Mas muitos jogam a toalha. será preciso concebê-la como uma evolução geral da escola ou antes como um problema de métodos pedagógicos? Não sou pedagogo mas não acredito. isto é. sentem-se humilhados. Isto significa que eles fingem dar aula para alunos que fingem ouvir. há.) Nunca se lhes dá realmente os meios de compreender o que lhes acontece. É por eles terem dificuldades de outra ordem. um tipo de ficção no julgamento escolar que faz com que nunca se permita aos alunos suas própria explicações ou que tomem realmente em mãos as suas próprias dificuldades. Até porque as pessoas acham que os alunos que cumpriram este programa adquiriram completamente os dos anos anteriores. enquanto que. muitos alunos são extremamente infelizes na escola. um sistema em que todo mundo é igual e meritocrático. por suas brincadeiras. Porém. alunos que não existem. Os conselhos de classe são cansativos porque na verdade. a gente considera que todos os alunos têm o mesmo valor. de relacional. quando os professores dizem: “Existem métodos que me servem e métodos que não me servem. Para o colégio. no fundo.Espaço Aberto diram que eu fizesse. Mas a gente vê também professores que se obrigam a aplicar métodos que não são os seus e não dá certo. Temos então interesse em deixar uma multiplicidade de métodos possíveis.

que dirigiu durante muito tempo o ensino superior na França. Porém. ao invés disso. verdadeiros contratos de vida comum entre os professores e os alunos mas que suporiam obrigações para estes alunos. Quando você fala de democracia escolar. ou seja. que o mundo do colégio seja um mundo em que haja uma cidadania escolar. hoje em dia na França. obviamente. Mas. Mas o que os professores pedem muitas vezes. muitos alunos têm a impressão que a escola não serve para nada. a partir de uma definição dos direitos e dos deveres. os alunos têm o dever de entregar os trabalhos na data prevista. coisas fundamentais a serem feitas. em torná-los amigos. Não se pode manter programas feitos para uma pequena elite da burguesia. ela perderá um pouco de tempo no colégio. Não acredito de jeito nenhum que a pedagogia consistiria em reconciliar os alunos e os professores. na realidade. me parece que deveria ter regras de vida em grupo partilhadas. Por exemplo. no caso do colégio. Por exemplo. É claro que este problema não se limita somente á escola. isto não é muito grave. na medida em que as contradições do sistema não são administradas e explicitadas politicamente. mas é preciso que os professores tenham o dever de entregar as correções na data prevista. Seria necessário refundar um trabalho educativo sobre o aprendizado de um tipo de democracia escolar. muito menos difícil do que ela é. será que você pode falar com mais precisão sobre estas idéias? Qual é o lugar de produção destas regras na medida em que você fala de enfraquecimento. Finalmente.. mas também obrigações para os professores. Então.Espaço Aberto nos estabelecimentos populares já que os alunos que lá estão não são mais os antigos bons alunos oriundos das boas famílias para quem a escola é uma coisa normal. a escola não pode mais esperar que o sentido da situação escolar venha de fora. tanto faz para a elite da burguesia. Depois. creio que a situação escolar se esvazia de todo seu sentido nos meios populares já que os alunos não acreditam mais que os diplomas vão lhes permitir abandonar sua origem social. os alunos são definidos por lacunas. mas é preciso que eles as aprendam. tenho convicção disto. que se aplica vagamente (. seria preciso ver. aquilo que se chama “retomada nas mãos” é a definição do poder mas não a definição do direito. ou seja. aplicadas e recíprocas. é isso que me parece importante. as dificuldades do sistema se tornam os problemas psicológicos e pessoais dos indivíduos. Precisamos ter tempo para ter certeza que eles as conheçam pois o que os faz progredir é ter superado a dificuldade. dizia: é preciso que os alunos de colégio aprendam poucas coisas mas que aprendam coisas difíceis e que as saibam. eu acho que eles devem aprender menos coisas. das famílias cujo julgamento os professores fazem aliás muitas vezes. Seria preciso rever os programas e as ambições de um modo que os alunos não sejam colocados de entrada em situações de fracasso. Haveria em termos de educação para a cidadania. ensina-se cada vez mais coisas sem nunca ter o tempo de verificar se são assimiladas. é que esse quadro normativo deveria envolver tanto alunos como professores. os alunos têm o dever de não xingar os professo- res: a recíproca também tem de existir. o lugar da adolescência pois hoje em dia o colégio é definido por um tipo de guerra fria entre os adolescentes e a escola. Hoje em dia. É preciso portanto rever a oferta escolar. as pessoas as vivem como problemas individuais. isto é. Revista Brasileira de Educação 227 . há um regulamento interior nos colégios. Porém. Porém. de desaparecimento das instituições? No colégio. E isto por uma razão extremamente simples. ele tem sobretudo a ver com a situação do mercado de trabalho. A gente poderia imaginar desenvolver aprendizados que pareçam mais úteis.. pelo menos coisas que deveriam permitir tornar a relação pedagógica muito menos tensa.). Claude Allègre. eu acho que há coisas a serem feitas no colégio. de cidadania escolar. Então. Portanto. Para falar mais simplesmente. Mas acredito que este quadro deva ser criado de um modo democrático. A palavra democracia quer dizer que as regras de vida em grupo são regras definidas. é preciso recriar um quadro normativo.

sou hostil a esses dispositivos novos. que têm a capacidade de criar civilização. mas eles devem fazê-lo num quadro normativo. que já teve grandes virtudes. eu o digo claramente. violência (. Sabemos muito bem que os professores precisariam escolher o seu estabelecimento. e a prova que isto é possivel. é extremamente autônomo. por exemplo.. será possível? Até um certo ponto. Como é que se pode levar em conta a sociabilidade dos alunos? Será que é preciso se inspirar nos modelos inglês ou americano? Mais convivência. violência real. quando não há disciplina. Já que equipes coerentes precisam ser construidas. A gente vê muito bem. Quando se trata de ordem e liberdade. é preciso que o colégio aceite que haja uma vida adolescente na escola e que não a considere como desvio. você sabe isto tanto quanto eu. É preciso dar um quadro a esta vida adolescente. acaba explodindo ou. como temos o sentimento de não poder mudar as regras. Na França. um sistema disciplinar rígido. a escola é uma construção histórica longa fortemente associada à cultura de uma sociedade. Como criar uma vida em comum em um colégio. criemos uma escola democrática. é a rua que entra no colégio. são quase sempre respostas à violência sofrida por alunos. Sou. quando existe. O que os alunos não aprenderam durante sete horas de matemática. a violência escolar não é só produto da violência social. É a tradição centralizadora. 228 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . seria necessário que os professores sejam cooptados pelas equipes. É preciso oferecer um quadro. quando eles não escolheram ir para lá? A formação de um quadro educativo supõe que se mude profundamente um certo número de regras de funcionamento. é preciso tocar no conjunto do sistema.Espaço Aberto é um quadro disciplinar que os proteja sem obrigálos a cooperar. é preciso que os alunos façam outras coisas que não seja assistir às aulas no colégio. escolarizando mais alunos ainda que não aprendem durante a aula. Sou contra a idéia de que vamos resolver os problemas escolares. Será que precisamos adotar o modelo inglês ou americano? Aí eu tomaria mais cuidado. e outros. que certos colégios que deveriam conviver com a violência não a conhecem. ao mesmo tempo. Dito de outra forma. Mas mudar o modo de nomeação dos professores é uma revolução nacional. a priori protegidos. O problema na França é que para mudar um pequeno aspecto do funcionamento.. Porém. Além disso. Sou totalmente hostil ao sistema dos mediadores. quando os professores são nomeados pelo computador. uma vez na sala. é que há colégios que o fazem. Por exemplo. contra o dispositivo de ajuda nos deveres. não o aprenderão em dez horas. são violentos. Atualmente. criemos uma escola justa. então.). mas eles não sob um quadro normativo. Coloca-se pessoas cuja profissão é falar com as famílias. é preciso que os professores aprendam a falar com as famílias como elas são e não como elas deveriam ser. da disciplina e da democracia. Não. Trata-se de criar as condições para dar aulas normalmente o que supõe. um certo número de mudanças. Quando se compara o sistema escolar francês. Há colégios que puderam criar sistemas. para que as famílias não tenham medo de ir ao colégio. e um modo de expressão possível dos alunos. O quadro normativo cria. com regras que os eduquem. e outros não. Muitas vezes. pouco importa. as diferenças entre os estabelecimentos são muito importantes. não é uma tecnologia que se pode importar. ser cooptados por seu estabelecimento para que haja uma coordenação pedagógi- ca. Mas isto sugere algumas mudanças na gestão do sistema. cada professor. de programas. tanto em termos de performance quanto de problemas de conduta. Os alunos estão diante de relações estilhaçadas a partir das quais tentam se virar. a maioria dos casos de violência contra professores. efetivamente. ao mesmo tempo. criamos múltiplos dispositivos novos. no conjunto o sistema escolar francês funciona melhor. por exemplo. agir. Não se trata de dizer: criemos uma escola ideal. de modos de funcionamento que não são em si consideráveis mas que pedem mudanças de hábitos. violência simbólica. Quando é só disciplina. importa dar aos alunos os meios de criar este quadro.

portanto sem negociação. Este tipo de atitude supõe mudanças consideráveis no sistema. o resto não é problema meu. insisto. que insultar professor (. Por exemplo. “estúpida”: quem brigar será expulso. em termos de performances globais. Será que a escola deveria ser socializadora? Sim. catastrófico. o colégio das Minguettes era um colégio violento. Mas isto não impede que ele seja expulso. ele seja punido. eles querem aceitar um certo número de coisas já que eles não têm escolha mas é preciso que a regra seja justa e envolva a todos.. Qual é a consequência deste mecanismo? É que depois de algum tempo.) sabemos que ele apresenta alguma dificuldade e ele terá a possibilidade de falar a respeito com os adultos. O que você pensa sobre elas? Os IUFM são uma mudança considerável porque na França. eu acho que isto é um falso debate. faço o trabalho. supõe que os di- retores tenham poder. requer por exemplo que os professores sejam recompensados. Mas é verdade que o sistema escolar francês. Os alunos se deram conta de que nem tudo era possível e portanto a taxa de violência baixou sendo que eles podiam também ser ouvidos e ajudados. o sistema era o seguinte: formavase pedagogicamente os mestres da escola elementar e não se formava os professores de colégio.. quer dizer que não recebe mais quando ele trabalha mais ou melhor. não digo que é preciso punir os professores. Como produzir esta mudança? O que o ministério pode fazer? Eu acho que esta mudança supõe menos diretrizes ministeriais do que mudanças do modo de orgranização. os ministérios as promulgam diariamente. e o aluno tem a sensação de que seu problema será levado em conta. qualquer aluno que brigar. mas ela o é de fato. Mas. no momento. Chegou um diretor que disse: Bom vamos fazer duas coisas simultâneamente. Os alunos pedem para que haja um pouco de reciprocidade. Houve nos últimos anos grandes mudanças na formação dos professores. volta da disciplina. muito mais aberto.Espaço Aberto Não acho que a escola deva se tornar um clube de vida juvenil. Quando é nomeado por um computador. volta dos princípios (. Segundo.. pois não faria sentido se os adultos fizerem o que eles proibem que as crianças façam. Mas não acredito que ela deva ser socializadora da maneira como muitos entendem na França hoje em dia: conservadora. Por exemplo. eu venho. volta da moral. mas ele pode dizer porque ele xingou o professor. Ela o é. Os pro- Revista Brasileira de Educação 229 .) Eu acho que ela deve ser socializadora de um modo muito mais democrático. o professor diz. o aluno que xinga o professor é punido.). O debate não é entre permissividade e autoridade. eu repito. Um professor faz o que quer na sua sala. ele ganha mais à medida que fica velho. mas que o professor que dedica muito tempo organizando uma viagem para a Inglaterra.. se a gente quiser a autonomia dos estabelecimentos. É portanto necessário encontrar modos de organização que farão com que o trabalho seja coordenado. é preciso reconhecer isto e pagá-lo. requer regras. quem xingar um professor será expulso. quem roubar será expulso. Porém. supõe que os sindicatos não defendam sistematicamente todo colega (. Diretrizes. Isto não requer diretrizes. Primeiro. que dedica muito tempo para fazer teatro. simultâneamente. os professores entendem que seu interesse é se engajar menos. um professor tem uma carreira “biológica”. isto é dos estabelecimentos capazes de ter políticas. Nos anos 80. está extremamente rígida e precisaria ser agilizado. inclusive quando não funciona. e ao mesmo tempo. que este poder seja controlado. Mas as diretrizes que dizem: é preciso se comportar desta maneira com os alunos. é preciso muito cuidado.. são ineficazes. vamos estabelecer uma disciplina mecânica.. São mudanças que não parecem importantes mas que são consideráveis. é obviamente preciso que os professores sejam cooptados num estabelecimento. É preciso ter ao mesmo tempo autoridade e liberdade. É claro. e são tão ótimas que não têm efeitos reais.

a partie daí faz-se o do terceiro (. ou seja estágios. Ao longo dos anos.. que os professores sejam guiados.) Não digo que seria uma boa aula. Esta formação deveria ser mais ágil. é preciso sublinhar a grande qualidade da escola maternal que muito bem administrou a idéia de uma socialização infantil e de um pré-aprendizado escolar. ela requer um aprendizado de práticas. Sendo que se me largarem amanhã em uma classe do último ano do colégio. Se aprende coisas e ainda se permanece na infância. selecionados por concursos. orientados por pessoas que tenham experiência. os mestres de escola são claramente melhor formados por uma razão muito simples. mas o princípio de uma formação dos professores é um bom princípio. sou incapaz de ensinar crianças a ler. para a psicologia. São estas razões que me fazem pensar que é preciso “primarizar” o colégio. Quanto ao resto. posso dar uma aula de história (... Agora todos seguem uma formação pedagógica nos IUFM.) Mas o ensino na França é muito normativo porque existe uma convicção muito forte entre os professores: há uma solução pedagógica para todos os problemas.) Porém. Em primeiro lugar. Não se tem certeza se os IUFM funcionam sempre bem. mas sou intelectualmente ca- paz de fazê-lo. É preciso preparar as pessoas para todas as dificuldades. a lógica seletiva é muito menos forte na escola primária. posso dar uma aula de matemática. muito mais longa e muito menos ideológica. de mestres de estágio. acho que é preciso uma formação prática. portanto aproveita-se o tempo. É preciso continuar uma pedagogia da repetição enquanto que o colégio retomou o modelo do colégio “burguês” da pedagogia de acumulação. Da mesma forma. E quando se fazem testes sobre as performances em matemática. Há um grande êxito na França. Ensina-se um programa do primeiro ginásio. de experiências. E último lugar. sobre uma ideologia pedagógica. posso dar uma aula de francês. por pessoas que ajudem. a gente se dá conta de que a grande causa de fraqueza em matemática é que as crianças não entendem o problema.. desenvolveu-se uma sensibilidade para a infância. a partir daí faz-se o programa do segundo. se fizer um pequeno esforço. de ajuda nos momentos de dificuldades (. a única escola em que se requer os mesmosdiplomas para ensinar para crianças de dois anos e para crianças de quinze anos.). A presença dos pais é muito mais forte também. confia-se elas a gente qualificada. relativamente harmoniosa. Diz-se que o aprendizado dos alunos de colégio tem a ver com seu apêgo aos professores.. Deveria haver cursos sobre a violência porque a gente deveria aprender a responder a isto como se aprende a ensinar as matemáticas: é um absurdo. um pouco mais de sociologia. Durante muito tempo os mestres franceses só falaram com alunos. Enquanto é possível se comportar de forma relativamente brutal em relação aos adolescentes. É aliás. A profissão de docente é uma prática. porque pouco a pouco os mestres da escola elementar aprenderam a falar tanto para alunos como para crianças. pela performance.. da escola primária que parece ter evoluido no bom sentido.. eu acho. ele é adquirido. com as crianças é diferente. tão qualificada quanto qualquer outro professor. O que significa que eles não sabem ler o suficiente para entender o problema. A terceira coisa que joga a favor da escola primária tem a ver com o romantismo da infância.apesar de tudo. 230 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Eu sei ler e escrever. peloos exames de fim de ano. sobretudo são lacunas que se acumulam. ele é adquirido. Não se confia crianças de dois anos a guardas. as pessoas são menos obcecada pelo nível. a formação é muito mais centrada sobre os princípios pedagógicos. Você tem uma imagem muito interessante. que apoiem (. é que ensinar a ler para crianças é uma profissão particular.. já que de qualquer forma todo o mundo tem acesso a ele. Você pode nos dizer se há questões cruciais no quadro da formação? Ao lado da didática. seria necessário um pouco de psicologia dos adolescentes. Na verdade.Espaço Aberto fessores do secundário eram apenas definidos pelo nível de conhecimento.

A ideologia do professor também não tem nenhum efeito. este tipo de medida confirma sua impressão. Georges Felouzis. Isto significa que há professores que ensinam muitas coisas a muitos alunos. aqueles que têm confiança nos alunos. É preciso uma forte maturidade intelectual para distinguir o interesse pela disciplina do interesse por quem a ensina. interesses sociais. nas atitudes particulares. há professores que ensinam muitas coisas a alguns alunos. o efeito professor é considerável. psicologicamente. A primeira é que. os testa no fim do ano e mede o aumento de suas performances. Obviamente. O único elemento que parece desempenhar um papel é o efeito pigmaleão. fez um estudo sobre o efeito professor. e há professores que não ensinam nada a nenhum aluno. O método pedagógico escolhido não faz a diferença. os alunos de colégio não estão em condições de distinguir o interesse pela disciplina do interesse por aquele que ensina a disciplina. A terceira razão é mais científica. entram também orientações culturais gerais. Quando os alunos dizem “depende do professor”. Há velhos professores totalmente ineficientes e pessoas que começam eficientes logo na primeira semana. Os mais eficientes são também os professores que vêem os alunos como eles são e não como eles deveriam ser.Espaço Aberto Acho que é verdade por três razões. Não são apenas problemas psicológicos. Revista Brasileira de Educação 231 . e isto na mesma disciplina. tipos de recrutamento e de formação. A docimologia confirma este julgamento. Ou seja são os que partem do nível em que os alunos estão e não aqueles que não param de medir a diferença entre o aluno ideal e o aluno de sua sala. A segunda razão é que esta observação é confirmada pelos alunos cujas notas variam sensivelmente em função dos professores. Um dos colegas de Bordeaux. Mas evidentemente. Ele testa alunos no começo do ano. isto é os professores mais eficientes são em geral aqueles que acreditam que os alunos podem progredir. os antigos não mais que os novos. Os homens não são mais eficientes que as mulheres. O problema é que não se sabe o que determina o efeito professor.

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O termo galère tem o mesmo significado que galera em português. sua crise e suas mutações. É importante explicar o conceito central do trabalho: galère. No primeiro. um tipo antigo de embarcação movida a vela e a remo (normalmente por escravos. em condições precárias. Vários destes temas reaparecem neste livro onde. onde realizou estudo sobre movimento operário. em francês ao significado de galera como infortúnio. nos Revista Brasileira de Educação 233 . François Dubet faz a leitura do fim de um mundo popular e do esgotamento de um tipo de sociedade organizada em torno da classe operária e dos movimentos sociais onde ela era protagonista. indicando que ela “resulta de uma série de fatores convergentes. Paris: Fayard. Tais mutações deram origem a um sistema social com contornos não muito bem definidos. O autor é professor da Universidade de Bordeaux II e pesquisador do Centre d’analyse et d’intervention sociologique (CADIS). François. viver de forma incerta. Na gíria francesa. em conjuntos habitacionais e periferia. políticas sociais urbanas e políticas destinadas aos jovens e sobre diversos tipos de movimentos sociais. o que deu origem também. o autor procura indicar os contornos do fenômeno social galère. possivelmente filho de pai operário e/ou imigrante. La galère: jeunes en survie. lutas estudantis. colegiais. onde freqüentemente se reúnem estes fatores. A galère não se desenvolve onde os jovens estão ainda inseridos em redes tradicionais de solidariedade e onde a referência ao movimento operário é ainda forte” (p. significando estar à deriva. No segundo trecho. trabalho forçado. sem vínculos sociais estáveis. a partir da experiência de vida dos atores jovens no contexto conturbado das periferias urbanas. mas onde nem trabalho nem família são o centro da socialização e onde há crescente exclusão e forte crise dos movimentos coletivos. vive em um conjunto habitacional de periferia. a fugacidade das relações e a forte presença da subjetividade. onde a droga e a delinqüência não estão ausentes. sem que se possa determinar um modelo rígido de causalidade. 503 p. O cotidiano desse jovem é expressão de uma experiência coletiva e os indivíduos que correspondem a esta descrição certamente se reconhecem na experiência da galère. preferindo descrever o seu protagonista (ou “personagem sociológico”). realiza pequenos trabalhos para sobreviver. urbano e não tradicional. isto é. 1987. são analisados o desenvolvimento do individualismo. sem qualificação. Um jovem tem tanto mais possibilidades de se encontrar na galère se ele vive no meio popular.58). as experiências fragmentadas. condenação à pena de remar neste tipo de embarcação). Assim. passa seu dia em longos períodos de ócio nas ruas ou cafés. A partir da análise das condutas de jovens pobres das grandes cidades. O autor não a define de imediato. Para deixar mais claro o conceito. indica como tipo de jovem da galère um rapaz de vinte anos. a palavra deu origem ao verbo galèrer. freqüentemente desempregado. a galère é definida como “a expressão. (reedição francesa por Éditions du Seuil em 1993) Através da análise da experiência cotidiana de jovens de periferias de grandes cidades francesas.Resenhas DUBET. reproduzimos dois trechos do livro. o autor interpreta os principais desafios da sociedade industrial. provavelmente não tendo claro o rumo e sem suficiente visão de horizonte para ter projetos. com baixo nível de escolarização.

entrou em crise profunda e tornou-se incapaz de preencher os objetivos igualitários que ela professa. o vazio da socialização e a crise da escola republicana. O autor compara o contexto de socialização e de instituições a que estão relacionados os jovens nesses diferentes contextos: “apesar de estarem em um universo onde estão presentes os serviços sociais. Na primeira parte da obra. La galère: jeunes en survie é um trabalho sociológico completo. cada grupo sob a coordenação de dois pesquisadores. música. Nada parece mais distante do movimento operário e das lutas sociais organizadas do que as experiências dos jovens de periferias urbanas. 371). Além de reuniões de discussão entre os jovens. para Dubet movimento operário e galère são momentos de um mesmo processo social. a socialização não passa mais essencialmente pelo mundo do trabalho. na periferia operária de Liège). concentrados nos bairros dos centros industriais onde a realidade do trabalho fabril e a presença ativa do partido comunista (por isso eram chamadas banlieues rouges). 234 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . nesse contexto. da decomposição do sistema de ação da sociedade industrial. no meio jovem. etc). jamais poderiam seguir a mesma trajetória de trabalho e de participação que seus pais. Uma parte significativa dos jovens da galère é formado por descendentes de gerações de operários militantes dos anos 1950-60. já que Seraing é a imagem de um meio operário organizado e integrado. foram realizadas reuniões em que estes se encontravam com interlocutores de diversos tipos (pais. os serviços sociais. possibilitando estabelecer contraponto e comparações. os jovens que “galeram” falam sempre das instituições. músicos. A partir do material coletado. sendo que a segunda é a expressão. do fim do movimento operário e da perda da centralidade do trabalho e da família como fatores de socialização. expressão social e de reação à dominação e à exclusão tampouco poderiam ser as mesmas. Suas formas de construção de identidade. O método. que dialoga com diversas tradições teóricas e apresenta detalhada discussão metodológica. Por sua vez. Champigny e Clichy) e uma cidade belga (Seraing. os laços sociais (regulação e solidariedade) destruídos. políticos. ao analisar os resultados de um extenso trabalho de investigação. consistiu na formação de diversos grupos formados por jovens. e se distancia de elementos de integração. Contudo. ainda. ajudavam a atribuir significado à dominação e à subalternidade de sua condição social. sindicalistas. O grupo formado nesta última cidade funcionou de certa forma como um “grupo de controle” em relação aos demais. O fundamento da proposta metodológica é desenvolver uma sociologia que vai da ação ao sistema. Em seguida. os estágios e os clubes de jovens aparecem como um segundo conjunto de socialização. os jovens de Seraing falam o tempo todo da família.167). policiais. enfim é o mundo da classe trabalhadora que a sociologia classicamente interpretou em termos de consciência de classe. animadores culturais. de um princípio de unidade face à diversidade da sociedade. Sartrouville. consagrada ao quadro analítico e conceitual. participação e sistema de ação. distinto do primeiro. da ruptura de um modo de integração popular tradicional. droga. aplicado a este caso. Ao contrário. a escola foi. Mas o jovens de que fala Dubet encontraram um mundo completamente diferente. do esgotamento de um ator histórico — o movimento operário — e. onde. um símbolo do laço político. trabalhadores sociais. para a importância do Estado (através das políticas sociais) e os meios de comunicação de massa na socialização dos jovens da galère. enfim. com fortes ligação à família e ao trabalho. O estudo aponta. Para os jovens dos bairros onde a realidade operária sofreu forte transformação. o objetivo era reforçar a capacidade de expressão dos atores e produzir material que permitisse interpretar os sentidos da ação atribuídos por eles.Resenhas jovens das classes populares. na malha mais frouxa da periferia (nas demais cidades estudadas). Em tais reuniões. identidade operária e identidade comunitária. O estudo estabelece uma oposição entre as quatro primeiras e a última. Assim a escola. são interpretados os resultados da pesquisa realizada com base na metodologia de intervenção sociológica. do bloqueio e da transformação de certas formas de participação e de mobilidade” (p. ainda que quisessem (e esse não é o caso). educadores. vivência do conflito. que se havia desenvolvido no período entre as duas guerras mundiais. Foram desenvolvidas atividades com grupos em 4 cidades francesas (Orly. a fratura do mundo industrializado. violência. a família” (p. O repertório de socialização e de ação destes inclui mais apatia. não têm mais uma imagem positiva nem do trabalho nem da luta operária. desenvolvida pelo grupo coordenado por Alain Touraine no CADIS. o autor analisa o fim do mundo da classe operária organizada. Eles vivem de forma acentuada um vazio de socialização. sobretudo na França.

Bandos e turmas desapareceram quando os bairros se tornam heterogêneos e quando uma cultura de massa invadiu o mundo popular. Existe heterogeneidade. ela é provocada pelo sentimento de exclusão e de impotência frente à desorganização. sobre a delinqüência juvenil. da falta de aceso ao consumo. excluídos e enraivecidos porque a dominação a que estão submetidos não lhes faz sentido. sem alvo determinado. No segundo. revelando relações sociais diluídas freqüentemente marcadas pela heteronomia. sobretudo música e dança). Sua ação decorre da falta de regulação. a sociologia dos movimentos sociais. se refere às desordens na família e no meio social. E revela um sentimento generalizado de dominação. como estratégias de ação. notadamente a Escola de Chicago nos anos 30. Porém. A desorganização é interior e exterior ao indivíduo. Dubet identifica três pólos em tornos dos quais estão as dimensões de ação da galère: desorganização social. No primeiro caso ela é desorganização afetiva e identitária. em lugar da sociologia das condutas marginais dos jovens. sem direção. nem de um conflito específico. ócio e música. A galère não é vista como mera conduta anômica ou estigma. Na galère a ação é desorganizada. o apelo à dignidade e à liberdade e o refúgio em ilhas de resistência individuais (atividades expressivas. violência. à educação e à imigração. Ela se manifesta também na frustração gerada por uma forte integração cultural que acompanha a exclusão social e econômica. em especial a Marcha pela igualdade e contra o racismo. Nela não há a definição de um adversário social. Por outro lado. realizada em 1983. ruptura e fragmentação. Nesse contexto é possível existir ação coletiva? Seria possível estudar as condutas marginais dos jovens. uma massa social disforme temida pelos cidadãos e pelas instituições. Essa parte da juventude representa uma ameaça difusa à juventude trabalhadora e à sociedade em seu conjunto. a experiência atual da galère reúne problemas relacionados ao urbanismo. antes do que uma conduta marginal de jovens pouco ou mal integrados. do estar fora da escola. a reflexão teórica sobre os movimentos sociais sempre se apoiou sobre movimentos “positivos” com a elaboração de um projeto social e a busca de autonomia. niilismo.Resenhas Dubet analisa a galère como resultante das transformações ligadas ao fim do mundo industrial e portanto da anomia. A exclusão (não marginalidade) se manifesta através do desemprego. se refere ao lumpenproletariado na formação da sociedade industrial. marginalizados e dependentes para serem considerados como sujeitos de um novo movimento social. A expressão “classes perigosas”. sobre a qual o poder realizou uma ampla empresa de controle e socialização. da procura de trabalho. O que os caracteriza é a recusa do mundo industrial e operário. O que motiva sua ação é cultural e é nesse âmbito que manifestam sua vontade de autodeterminação. Elas representam três lógicas ou orientações de ação. ausência de futuro e de esperança. se pergunta qual seria a capacidade de ação dos atores da galère. Há ação fragmentada e dispersa em distintas lógicas. falta de sentido para esta dominação. Como abordagem teórica. contudo a experiência da galère procede da crise e decomposição de um sistema de ação. a sociologia dos movimentos sociais define a sociedade como sistema de integração e de conflito. da anomia e da exclusão e também da ausência de movimentos sociais e consciência de classe. A experiência da galère não repousa sobre nenhum princípio estável. A raiva aparece de forma difusa. organizada ou um movimento social latente? Na galère os jovens estão em situação de exclusão e desorganização. O que não existe é um princípio único e organizado. esboços de conflitos ou reivindicações culturais larvais? esta é a pergunta central do estudo. da exclusão e da ausência de movimento social. delinqüência e trabalhos no setor informal. que são muito frágeis. da estigmatização e do racismo. Há condutas de excesso e de dependência. Seria possível apoiar-se sobre o quadro teórico da análise dos movimentos sociais para estudar um objeto tão distante dele como a galère (caracterizada pela hetertonomia)? Seria possível observar a transformação da galère em ação autônoma. A experiência cotidiana mobiliza redes frágeis (em lugar de turmas). Diante desse quadro. Dubet analisa ainda o movimento de jovens e sua luta contra o racismo na França dos anos 80. ela não é puro espaço de dependência e de ausência de ação social. delinqüência. exclusão e raiva. criada por Louis Chevalier. A galère é. uma ação de classe perigosa. Tal como as classes perigosas ao longo do século XIX. tal como as interpretações sociológicas da marginalidade. Depois da Revista Brasileira de Educação 235 . ao desemprego. mas não há realmente formação de uma subcultura marginal. droga. da falta de integração e de formas de expressão do conflito. propõe. manifesta por todos os lados por atores pouco integrados. a galère hoje.

Durante quase três anos. publica. além dos profissionais já mencionados. mas sim os problemas da autonomia e da personalidade. 347). Primeiramente. na maior parte dos casos. descrevendo e objetivando compreender a experiência que cada aluno tinha em sua escola. Para o leitor. Na visão do autor são os jovens imigrantes que têm maiores capacidades de transformar as lógicas da galère. como a parte principal da pesquisa. segundo os autores. François Dubet utiliza mais uma vez. como também psicólogos escolares e um orientador educacional. A integração intelectual das equipes de pesquisa foi assegurada por grupos de reflexão. estudantes que elaboravam suas teses em Sociologia. seus professores e pais. por sociólogos. à segunda fase do ensino fundamental (“les collégiens”) ao ensino médio (“les lycéens”). ocorreu a volta à periferia e o fortalecimento de uma vida associativa. após uma trajetória de quase vinte anos (sua primeira publicação — “Lutte etudiante”. François. François Dubet. mediante um trabalho de grupo. mas também a produzirem uma análise de seus problemas. pesquisadores na École des Hautes Études em Ciências Sociais.Corporación de Investigación Economica para America Latina DUBET. o método da “intervenção sociológica”. visando extrair as dimensões e os mecanismos da experiência social. A l’école: sociologie de l’expérience scolaire. incluindo. fica ainda o mal estar diante da ausência de projetos e de saídas para o problema da exclusão social. momento esse considerado. Ambos. Cristina Almeida Cunha Filgueiras CIEPLAN . pontos de apoio de uma ação organizada e de um projeto. não fica claro o que o autor espera das diferentes instâncias de socialização em relação aos jovens da galère que buscam inserção e sentido. 362 p. 1996. em sua carreira de pesquisa. debruçaram-se sobre os dados coletados. Ao final do trabalho.” (p. Nesse sentido. procedia-se à coleta dos documentos e à realização de entrevistas semidiretivas junto aos sujeitos da pesquisa. quatorze grupos reuniram-se duas vezes por semana. levando os atores não somente a testemunhar sua experiência. uma imagem de cada situação. uma vez escolhidos os estabelecimentos. significa um amadurecimento das idéias apresentadas por Dubet em obra anterior — “Sociologia da Experiência” (Paris. É importante ressaltar que “À l’école” como seu subtítulo indica — “Sociologia da experiência escolar”. pelos autores. os autores a revisitam. com Danilo Martuccelli (pesquisador no CNRS) os resultados de uma pesquisa de campo. as equipes desenvolviam um estudo em profundidade de cada tipo de atores. da experiência que os alunos (crianças. Os nove grupos de estudantes e cinco de adultos (incluindo grupos de 236 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . MARTUCCELLI. aos quais vieram associar-se professores-pesquisadores em Psicologia e em Ciências da Educação. Esses jovens imigrantes conseguem definirse melhor ao confrontar-se ou aliarse a outros atores. Seuil. juntamente com sua equipe. os atores devem encontrar nela dimensões positivas. 1994). em Psicologia e em Ciências da Educação. Paris. ou seja. em co-autoria — data de 1978). Seuil. espaços de resistência e de autonomia. além de alguns meio-períodos de trabalho. observar e entrevistar alunos cuja idade escolar corresponde às séries iniciais do ensino fundamental (“les écoliers”). grupo criado por Alain Touraine. partindo de seu interior. a busca de maior capacidade de expressão cultural. A pesquisa “A fim de melhor analisar os processos educativos. buscando ultrapassar a mera constatação. Paris. adolescentes e jovens) vivenciam por intermédio das relações com os adultos. porque estão constantemente desafiados por um apelo de identidade ao enfrentar o racismo e ao vivenciar a dualidade do sentimento de não pertencimento e da vontade de integração. para se formar. Como membro do CADIS (Centro de Análise e de Intervenção Sociológica). aparecem com força os aliados externos. tais como os animadores culturais que atuam nesses espaços urbanos. O que é certo é que não é o trabalho o que alavanca a mobilização. professor de Sociologia na Universidade de Bordeaux II.Resenhas grande mobilização nacional. Delimitando seu campo de análise. os grupos de pesquisa foram constituídos. Danilo. que se reuniam periodicamente. Em um segundo momento. por meio da qual puderam. A pesquisa desenvolveu-se em dois momentos. a escola. Para que seja possível encontrar saídas da galère.

os alunos da escola elementar são dominados por um princípio de integração. (1996. mostrando como a Educação não pode mais ser pensada como uma prática institucional.) A escola não é somente desigual. um Posfácio e um anexo intitulado Pesquisa. através da “intervenção sociológica”. suas emoções a partir daquilo que os unia e produziam suas reflexões que foram objeto de uma discussão posterior com os pesquisadores. (. na França. no primeiro. que ela é feita também de mil relações entre professores e alunos. popular e um “bom colégio” de classes médias. as estratégias escolares. A primeira parte. nós gostaríamos de saber que tipos de ator social e de sujeito se formam durante longas horas e numerosos anos passados na escola. em que os autores apresentam os fenômenos detectados e as respectivas análises sobre o mundo dos alunos. Enfim. contavam. Os dois seguintes descrevem a experiência colegial em contextos sociais contrastantes — um colégio de periferia. No colégio. Os pesquisadores propõem análises sociológicas do trabalho do grupo e pedem aos atores que reajam. 5. suas estratégias. e a experiência social dos professores. os autores apresentam dois capítulos refletindo. além dos grupos de intervenção: anotações de entrevistas individuais junto aos alunos e aos adultos. a “experiência social” passa a ser desvendada. as escolhas e estratégias. No liceu. 3. e de observações realizadas no decorrer da formação dos grupos. as diferenças de gênero (rapazes e moças). incluindo membros dos meios populares e das classes médias. é composta de um capítulo que aborda as mudanças da escola atual em relação à escola republicana. no sistema escolar brasileiro. 17 e 18). pela relação face a face da entrevista individual. apesar dela e contra ela”. Preocupados com as mudanças pelas quais passam a escola. e uma possibilidade de “vocação”. no colégio — (que corresponde. Educação e escola. combinam diversas lógicas da ação que estruturam o mundo escolar”. por meio dos quais eles se constituem a si mesmos. os autores preocupam-se em detectar como os alunos constroem sua experiência. Escola e Educação. bem como as tensões e os sentimentos vivenciados no interior da escola. ela produz também diferenças subjetivas consideráveis. às séries da segunda etapa do ensino fundamental) — eles entram na afirmação de uma subjetividade que introduz uma certa tensão com a escola. de interiorização das expectativas dos adultos. 14 e 15). novos objetivos). para fazer emergir a especificidade dos trajetos e das sensibilidades pessoais. Ainda na Introdução. evitando o fechamento do testemunho sobre si mesmo. 15). que ela é um dos espaços essenciais da vida infantil e juvenil”. novas regras. apresentando alguns detalhes dos grupos de intervenção e indicando os componentes e os pesquisadores responsáveis por cada grupo. A obra O livro está dividido em cinco partes: 1. A segunda parte — “Na escola elementar” — é composta por três capítulos. Cabe ressaltar a presença de um outro material de pesquisa.. Educação e Sociologia. as relações entre os pais e a escola. Conclusão. (p. construída pelo interesse próprio por certas disciplinas. no liceu (que corresponde ao nosso ensino médio) eles atingem uma racionalidade definida pelas utilidades escolares. Dubet e Martuccelli afirmam: “A principal originalidade desse método refere-se à construção de um debate entre os pesquisadores e os atores”. (p. algumas vezes. o instrumentalismo Revista Brasileira de Educação 237 . 2. de pais e um de especialistas da infância e da juventude) foram compostos visando diversificar os contextos sociais. um dos conceitos-chave de sua obra: “Experiência escolar será definida como a maneira pela qual os atores. “É necessário apreender a experiência por meio de um grupo. 4. outros fora. além de uma Introdução.. tanto em sua forma como em sua natureza (novos valores. individuais ou coletivos. expunham suas escolhas. reconhecendo-se nas análises apresentadas ou mesmo recusando-as. os autores apresentam o problema central do livro: “Perguntando sobre o que a escola fabrica. A sintonia entre teoria e método manifesta-se na medida em que. os autores referem-se ao processo de formação dos atores: “Inicialmente. A escola elementar.” (pp. 62). ela sustenta uns e enfraquece outros. É nesse capítulo que os autores explicitam a definição de “experiência escolar”. sobre a vida juvenil. Cada grupo de intervenção foi composto por uma média de dez pessoas que descreviam. (pp. entendendo que a escola não se reduz à sala de aula.Resenhas professores. Na Introdução. provocado. Na quarta parte — “No liceu” —. incluindo as expectativas. A terceira parte — “No Colégio” — é estruturada em quatro capítulos: o primeira aborda a experiência colegial. uns se formam na escola. na qual estes ‘fabricam’ relações. Depois. estratégias e significados. O último capítulo aborda a experiência dos professores. 11).

consolidando-se uma cultura adolescente. (p. a sociologia da experiência destaca mecanismos objetivos que nos informam sobre o sistema escolar. Maria Amélia G. Mas não se pode consagrar tantos esforços. mas. Enfim. com a emergência de um sentimento de crise profunda da escola. em seguida. 18). “Um tipo de atenuação operase. O último capítulo volta-se para a reflexão de fenômenos próprios desses três períodos. segundo os autores. mediante uma política educacional. Dubet e Martuccelli apresentam uma conclusão e um posfácio. as tensões da experiência. que abrem portas a futuras pesquisas com desdobramentos temáticos. sim. dentre outros temas. Partindo da análise da experiência escolar dos atores e de sua subjetividade. capaz de tornar o funcionamento mais aceitável e mais harmonioso para os alunos e professores”. é necessário também detectar a maneira como os alunos constroem sua experiência. portanto. Se na escola elementar se observou uma continuidade entre a objetividade das regras e a subjetividade dos alunos. 303). o inverso do ocorrido na escola elementar. 346). são ainda o coração da Sociologia da Educação atual. adolescentes e jovens trouxe elementos férteis. o que reforça a idéia de que “(. como eles “fabricam” relações. (p. 320 e 321). No posfácio. encontramos reflexões sobre alguns dos fenômenos detectados. seu funcionamento e suas relações com seu meio ambiente. eles buscam apresentar os resultados. (p. Já no liceu. Finalizando o livro. os desafios que as transformações sociais propõem.Resenhas escolar. que.) para compreender o que a escola fabrica. os autores apresentam seu posfácio. significações por meio das quais eles se constituem em si mesmos”. a Sociologia da Educação — afirmam os autores — diversificou-se e freqüentemente faz de si a “especialista” dos problemas da escola. ter conhecido tanto as alegrias e os sofrimentos e evitar todo julgamento”. (p. associando as mutações da escola às de suas análises. No segundo capítulo. observou-se uma fase de distância extrema. “Educação e Sociologia”. e pretendendo penetrar na “caixa preta” da escola. não se fechando em uma nostalgia paralisante.. e cuja teoria da reprodução pode aparecer como uma síntese durante os anos setenta. a alienação e a resistência à ordem escolar. não a descrição precisa do campo da Sociologia da Educação. 330). 337). O abandono das ilusões da paideia funcionalista e o distanciamento dos encantamentos da postura crítica traduzem-se na proliferação de estudos visando testar a democracia real da escola” (pp. estratégias. os papéis e os métodos de trabalho. conformando uma integração. bem como para psicólogos e sociólogos envolvidos com a escola e preocupados com o tema da adolescência e de juventude. os autores. a subjetivação. nos limites deste texto. Encerrando a obra. pelo que foi possível abordar. ao se debruçarem sobre a escola na França. um período marcado por uma série de críticas. afirmam os autores (p. Dubet e Martuccelli fazem um apelo à audácia dos educadores. A última parte do livro. Dentro dessa perspectiva. com o declínio dos contra-modelos revolucionários. referente a um pensamento social que se poderia qualificar de “paideia funcionalista”. as possíveis respostas às indagações que nortearam a pesquisa. em que “a diversificação da experiência acentua-se e dá lugar a uma diferenciação crescente dos indivíduos”. esperamos haver comunicado a importância desse livro para profissionais da Educação. Giovanetti Universidade Federal de Minas Gerais 238 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . tem por objeto. “Este livro gostaria de ser ao mesmo tempo científico e “engajado”. a ordenação de um raciocínio. apresentam alguns princípios de ação possíveis. Em seguida. Três grandes períodos são destacados pelos autores: no interior da Sociologia da Educação. o “momento fundador” da escola republicana. a sociologia da experiência escolar é concebida também como uma sociologia da escola e. não basta estudar os programas. 14). tarefa que os autores se propuseram realizar em seu último capítulo. (p. Buscando tornar claras quais seriam as grandes linhas que deveriam conduzir a uma mutação do sistema escolar. segundo os autores. Repassando as análises desenvolvidas em torno das três experiências escolares — na escola elementar. no colégio.. uma mutação do sistema escolar. Na primeira. oposta ou paralela à cultura escolar (p.. ter encontrado tantos alunos e professores. no sentido de buscarem responder. 328). no colégio e no liceu — diferentes fenômenos são apontados.. Ele gostaria de dizer sobre a experiência dos atores da escola e descrever os mecanismos os mais sutis. ou seja. partindo da análise do “sistema”. C. torna-se necessário indagar sobre o lugar dessa perspectiva no interior da Sociologia da Educação. A análise da experiência escolar de um grupo de crianças. constatou-se uma redução das tensões. destacando a importância de “.

Eram considerados forasda-lei e um problema social. como se organiza. caso ele quisesse entender sociologicamente as comunidades de baixa renda. cuja importância ou relevância eram avaliadas no momento imediatamente após serem vividos. Nos Estados Unidos. Sua pesquisa procura analisar a gangue como uma organização e o fenômeno da gangue em geral. Berkeley: University of California Press. Os registros foram feitos tanto por escrito como por gravações. 1991. lhe confere Revista Brasileira de Educação 239 . Martín. com a força policial e com os meios de comunicação. afro-americanos. Os métodos usados envolveram. Ao fazê-lo pode perceber que entre a juventude pesquisada havia uma grande quantidade envolvida em gangues em todos os grupos étnicos. detalhado e cientificamente embasado. O autor conviveu com esses jovens. o jovem das classes desfavorecidas. Dessa forma seria possível entender o que havia em comum e o que era particular a cada gangue. Islands in the Street traz uma profunda análise sociológica e interpretativa dos motivos que levam os jovens a entrar nas gangues e porque são por elas aceitos. dominicanos. políticos. suas famílias e comunidades. mas o séc. Para isso Jankowski acreditou ser necessário conduzir um estudo comparativo. apresentando seus elementos como seres humanos e não criaturas dignas de pena ou que causam medo. Dentre as etnias representadas estavam irlandeses. posteriormente agravadas pela Grande Depressão Econômica. bem como a análise dos depoimentos pessoais dos envolvidos. O número de membros da gangue também variava: as menores tinham cerca de trinta e quatro membros sendo que as maiores contavam com mais de mil. sendo que treze estavam situadas em Los Angeles. Obviamente. representantes da mídia e pessoas que mantinham algum tipo de negócio com membros de gangues. A amostra estudada consistia em 37 gangues. XX trouxe uma nova configuração socioeconômica com a chegada de milhões de trabalhadores imigrantes. No entanto aqueles agrupamentos de adultos diferiam dos grupos compostos por jovens estudados por Jankowski. partindo da vivência dentro das próprias organizações e um trabalho de campo paciente. mexicanos. participando de suas reuniões e envolvendo-se em atividades e até em brigas. jornada. Através dele pode-se repensar o sujeito da pesquisa. uma reflexão sobre os padrões de ação de cada grupo.Resenhas SÁNCHEZ-JANKOWSKI. Apenas ficou acertado que ele não se envolveria com drogas e procedimentos ilegais. durante e depois de cada evento. Essas observações encaminharam-no para o desenvolvimento do projeto de pesquisa que o levou a interagir com esses grupos num extenso período de tempo. Estas gangues entraram para a mitologia dos forada-lei. minas e ‘saloons’. Essa flexibilidade. portoriquenhos. Uma das estratégia importantes era obter a opinião e o ‘feeling’ dos membros que participavam de uma ação antes. bancos. Naquela época ele quis comparar os resultados com amostras de porto- riquenhos em Nova York e Boston. como se relacionam com as comunidades onde vivem. O livro de Jankowski oferece uma visão clara sobre gangues e sua situação no interior de uma sociedade urbana como a dos Estados Unidos. além da observação participante. E compara o período de tempo que usou para a pesquisa como uma longa jornada pelas comunidades urbanas às quais os grupos estudados pertenciam. oficiais da força policial. por mais de cem anos. Historicamente o termo gangue sempre teve uma conotação negativa. desde o século dezenove havia certos grupos no oeste sem lei que atuavam roubando diligências. seria necessário entender porque o fenômeno das gangues persistia nos Estados Unidos. Houve. desmistificando a imagem que se faz das gangues. Islands in the Street: Gangs and American Urban Society. também. burocráticos do governo. Sua pesquisa é dinâmica. líderes de comunidades. a colaboração de pessoas que mantinham contato com gangues em níveis variados tais como familiares. econômico e moral. vinte na área de Nova York e quatro eram de Boston. aliada ao embasamento teórico que Jonkowski aplicou ao seu trabalho. jamaicanos e centro-americanos. foi necessário usar tais recursos para maior veracidade na coleta de dados. Ocorreu-lhe então que. quando o crime organizado instalouse e os grupos que o compunham eram chamados gangues. As dificuldades que surgiram com o enorme contingente que chegava ao país. O tempo gasto com cada gangue variava de acordo com os eventos que cada uma delas vivenciava. Martín Jankowsky empregou dez anos e cinco meses neste projeto de pesquisa e inicia o prefácio dizendo que o termo “gang” no Webster’s New American Dictionary tem como um de seus significados o termo “journey”. O estudo originou-se de uma pesquisa feita pelo autor sobre a atitude política dos jovens mexicanos na década de 70.

sua organização e atividades. os quais ela denomina modelo verticalhierárquico. examina a relação entre as gangues e as suas comunidades locais. Também imprimiu a elas um caráter interativo que fez com que os próprios membros das gangues o considerassem um igual e esquecessem estar tratando com um acadêmico. As tradições étnicas são consideradas na medida que influenciam comportamentos muito particulares de cada uma das etnias. Havia respeito e entendimento mútuo. O capítulo 2 começa a investigação. Os capítulos seguintes apresentam dados de como os elementos avançados na teoria se aplicam à vida diária. oferecendo uma breve definição do fenômeno. A conclusão faz algumas colocações finais sobre as gangues em si e sua natureza dentro da sociedade americana. No primeiro capítulo inicia apresentando uma teria sobre gangues. As comunidades vêem as gangues como tão perigosas e destrutivas que deveriam ser erradicadas? Elas vêem os participantes como indivíduos incompreendidos. ou tem exagerado sobre o assunto todo. O capítulo 7 explora quais as maneiras em que a política e as agências governamentais afetam o modo como as gangues operam. O capítulo 6. Ele relata. quanto e quais fatores influenciam as organizações a se comportar de determinadas maneiras. A análise então se volta para uma das questões que causa maior perplexidade diante da sociedade americana: por que o sistema de justiça criminal não tem tido capacidade de erradicar gangues ou controlá-las? O capítulo 8 prova a interação entre as gangues e o sistema de justiça criminal de forma a entender seu impacto nas operações das gangues.Resenhas um enfoque abrangente não encontrado em pesquisas anteriores. e como os indivíduos e a organização como um todo compactua com isso. Ao fazê-lo. fator benéfico para tal interação. endereçando a questão mais fundamental: quem entra para uma gangue e por que? Há uma atenção particular dirigida ao modo como o indivíduo decide ingressar na gangue e como esta o recruta. O capítulo 9 lida com o contínuo debate sobre se a mídia tem ajudado a informar o público sobre a natureza das gangues e o problema social ligado a elas. o autor tenta esclarecer os dilemas e dificuldades que estas apresentam à sociedade. contrariamente às suas expectativas. porque certas gangues persistem e sobrevivem enquanto outras declinam o morrem. A violência da gangue — tópico que tem ocupado a atenção pública. explicando quais as variáveis consideradas. Algumas observações feitas por Jankowski são particularmente importantes. legítimos membros da comunidade que devem ser defendidos dos abusos dos policiais e do ataque da mídia? Ou elas simplesmente não pensam nada a respeito das gangues? Na parte II. Os cinco capítulos da parta I enfocam a dinâmica interna da gangue no seu ambiente local. Finalmente examina porque gangues como um fenômeno têm sido capazes de persistir ao longo do tempo na sociedade urbana americana. as pessoas entrevistadas que interagiam noutros níveis com as gangues também se mostraram acessíveis. que encerra a primeira parte. que a comunidade representa na forma em que a gangue opera. também. O capítulo 3 levanta a questão que tem intrigado os pesquisadores e o público em geral: o que acontece numa gangue? Apontando para este tema produz uma descrição da dinâmica interna das gangues. Cada um deles é estudado de forma a determinar qual é mais eficiente na manutenção do grupo. 240 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . um enfoque que busca determinar a natureza e as causas da violência. especialmente dos grupos irlandeses e mexicanos. o modelo influencional. A questão central remete-se ao papel. Uma atenção particular é devotada à análise de como as gangues e a mídia se relacionam e avalia os efeitos desta última sobre as formas como as gangues venham a conduzi seus negócios. modelo horizontalcomissional e por último. em parte pelo enfoque dado pela mídia — é assunto do capítulo 5. Pode-se ressaltar os diferentes tipos de organização dentro da gangue. O capítulo 4 identifica como a organização se mantém e examina tanto o tipo de atividade econômica em que os membros da gangue se envolvem quanto os fatores a influenciar o sucesso ou o fracasso dessa atividade. O conteúdo estudado desenvolve-se ao longo de oito capítulos. suas funções. que. numa linguagem leve que não esquece o rigor científico. se há algum. A introdução do livro relata como se travou todo o contato e seu desenvolvimento. Jankowski acabou sendo aceito como o pesquisador que estava com eles e isso era um fato normal. Jankowski vai da dinâmica interna das gangues seu meio às suas relações com o mundo fora da comunidade. Trata-se de uma análise da sociologia da violência das gangues. tanto como se organizam. teorizando sobre quais fatores afetam o comportamento das gangues enquanto organizações.

O título escolhido para a coleção já sugere o desafio lançado a cada participante da coleção: escrever uma história dos jovens. Declaração dos Direitos do Homem. Os estudos mostram que as idades que delimitam o fim e o início da juventude variam com espaço e às vezes. tecerem dando corpo a idéia de juventude. Afinal. sugerir outras categorias ou enfoques para a pensarmos a temática da juventude nos nossos dias. os organizadores incentivaram a apresentação de modelos interpretativos múltiplos. Tradução de Cláudio Marcondes. No entanto. Nilson Moulin. ainda. Revista Brasileira de Educação 241 . Para os organizadores da obra. que podem ser marcadas por solidariedade e/ou conflito. “História dos Jovens” não é uma obra de caráter macro-histórico. Universidade de São Paulo LEVI. quase todos os capítulos se iniciaram por uma definição do termo específica para o período estudado. História dos Jovens. A atenção que a TV. acompanhar o esforço dos historiadores para delimitar a condição do grupo de jovens cobertos pelo corpo documental. examina a questão da mídia e sua relação com as gangues. JeanClaude (Orgs.Resenhas Finalmente. entre outras. É possível encontrar ao longo da leitura dos dois volumes certa unidade de procedimentos de trabalho privilegiados pelos pesquisadores e uma tentativa mais ou menos constante responder à questões que serão apresentadas a seguir. estudando práticas sociais que envolviam os personagens nesta faixa etária que delimitamos como juvenil. a condição do jovem que está no campo não é a mesma daquele que está na cidade. evitaria síntese uniformizadora e até redutiva do problema. 9 capítulos. 8 capítulos. Por isso. refletir sobre tais circunstâncias pode revelar-se um um exercício agradável e útil de desmonte de certos preconceitos. Mas é particularmente prejudicial a visão estereotipada trazida especialmente por programas sensacionalistas e filmes preconceituosos. já que. Os estudos descrevem as complexas relações sociais concretas que o grupo neste estágio do processo pode manter com a comunidade ou sociedade mais ampla.). Cada estudo. resultou em um capítulo da coleção. Giovanni. a juventude pode ser entendida como um conjunto de problemas que se colocam para um indivíduo entre uma primeira fase de separação e a fase final de agregação do processo de socialização. ou. por fim. representações ou imagens que as sociedades ou os próprios jovens construíram sobre si. a condição verificada não pode ser estendida a todo o grupo e para longos períodos. 1996. também. 382 páginas). Relações. 372 páginas) e. Uma geração não pode sujeitar às próprias leis as gerações futuras Artigo 28. foi a de descartar as “imagens fortes” que em nossa sociedade conotam o termo “juventude”. jornais e filmes chamam para as gangues traz vantagens e desvantagens. Em outras palavras. apesar dos subtítulos: “Da antigüidade à Era moderna” (primeiro volume. não da juventude. essa organização da obra não deve nos levar a vê-la como mera coletânea de textos autônomos sobre um mesmo tema. “A época contemporânea” (segundo volume. Essa colocação. O primeiro objetivo de cada estudo foi o de desvendar a construção social e simbólica que diferentes sociedades. ou. Rosely Aparecida Romanelli Mestranda . Podemos. Para o leitor. faz do estudo de Martín Sánchez-Jankowski uma obra indispensável àqueles que se dedicam à pesquisa nesta área. na maioria dos casos. São Paulo: Companhia das Letras. É impossível não notar que o social se sobrepõe ao biológico. Isso é alcançado através da análise de documentação jurídica. essas. no mesmo espaço. neste caso. SCHMITT. Lendo os estudos podemos nos deparar com circunstâncias de vida dos jovens muito familiares e outras absolutamente diversas daquelas que conhecemos. Os estudos têm ainda em comum a preocupação de buscar modos de pensar. Maria Lúcia Machado. Pode. 1793 “História dos jovens” é uma coleção composta a partir da colaboração de diversos historiadores europeus do campo da história social. a condição dos jovens que pertencem a sexo ou classe social diversas podem variar profundamente dentro de uma mesma sociedade e período determinados. A preocupação. Mais ainda.Faculdade de Educação. com o passar do tempo. 2 v. Paulo Neves. o que segundo eles. Cada colaborador desenvolveu uma periodização interna e específica para a compreensão do jovem na sociedade e tempo referente ao seu tema de estudo. em diferentes épocas. onde aqueles que não são brancos e pertencem a população de baixa-renda carregam automaticamente o estigma da imoralidade e da corrupção de costumes.

Resenhas Lendo a coleção de uma maneira não autorizada. Foi só a partir dos anos 50. A atual constância de notícias trágicas envolvendo jovens imprensa brasileira e mundial. temos a impressão de que podemos olhar nossos problemas com mais tranqüilidade. O capítulo “O mundo romano” assinado por Augusto 242 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Foi também neste contexto que os jovens passaram a estruturar um vocabulário. o jovem vinculava-se a defesa e manutenção das instituições. A afirmação que serviu de epígrafe para essa resenha não seria concebível um século antes na Europa. pretendeu criar através da escola. como mostrou o capítulo assinado por Luisa Passerini. poderiam fazer reascender o desejo. a natureza. Os jovens começam a ser representados a partir das rebeliões liberais juvenis do século XIX como sujeitos naturais. Guia de leitura Volume 1 Alain Schanapp defende em seu capítulo “A imagem dos jovens na cidade grega” que a continuidade (ou reprodução) da sociedade grega esteve fundada na paidéia. numa época corrompida. estava associada a fraqueza de espírito e a desordem. É também bastante ritualizada a vida do jovem das camadas privilegiadas durante a Idade Média. com a nossa sociedade como um todo. através do belo e penoso caminho até tornar-se um cavaleiro. vol. No prefácio. Nem sempre as “crises” têm o caráter apocalíptico que pretendem os seus divulgadores. Esse é o caso tanto daqueles que tiveram seus casamentos arranjados. elas quase sempre podem ser entendidas como desordens vinculadas e compreendidas pelos adultos. tão freqüentes a partir de 1550 nas comunas e cidades. Os jovens das camadas privilegiadas na Idade Moderna européia ora tinham seus destinos conduzidos pela manutenção das linhagens e patrimônio da família. uma geração com padrões de pensamento e comportamento revolucionários. O autor relata o funcionamento e o significado da prática da ginástica. como fizeram os historiadores nestes estudos. percebi que pode ser datada a questão tão atual da continuidade/descontinuidade entre as gerações. como daqueles que por decisão paterna foram conduzidos aos conventos. a preocupação das sociedades era claramente o de preparar e garantir adesão dos jovens aos valores e padrões políticos e sociais vigentes. expresso particularmente na Convenção de 1792 na França. Essa crença. a constituição do companheirismo (solidariedade com os indivíduos da mesma faixa etária) e as relações rituais entre adultos e jovens (pederastia-philia). bastante arraigada ao projeto de liberdade e igualdade até os nossos dias. nos Estados Unidos que. da caça. Essa regularidade tende a se inverter ao acompanharmos a descrição das relações estabelecidas pelos jovens e adultos ao longo do segundo volume. também. gosto estético e musical específicos. Ou seja. a idéia força do fascismo e do nazismo. o serviço militar. O projeto jacobino. instituições e práticas rituais que formavam o futuro cidadão. No mundo clássico a vida do jovem era marcada por um conjunto de práticas rituais e formativos asseguravam assimilação dos modelos necessários para a perpetuação da vida civil. para compreensão do enígma da juventude em nossa sociedade. apresentados no primeiro volume. até o exército e o sistema jurídico” (p. práticas rituais que asseguraram modelos de bem viver e do estilo necessário para viver civilmente. Mas. Essa paidéia. mostra o relato. 1). como mostrarão os três últimos estudos que compõe o segundo volume. conhecemos grupos de jovens apartados do mundo dos adultos. A juventude inspirava medo e desconfiança. 13). mesmo entre aqueles que viam a rebeldia como um traço inerente à juventude. O autor mostra que a idéia de agrupamento por classe etária. apesar das constantes medidas repressivas. Como sugerem os organizadores da coleção. Quando são descritas as “vagabundagens juvenis noturnas”. um sistema de tradições. foi. Ao longo dos capítulos referentes a Grécia clássica até Reforma protestante. a verdade. em que as idades são sempre identificadas com mais precisão. Sujeitos que. têm insistentemente sugerido a idéia de “crise”. os organizadores afirmaram que os Estados modernos “progressivamente sugeriram formas orgânicas de socialização e controle: desde a escola. foi sendo configurada e construídas desde a época arcaica até o período clássico. talvez tenhamos que nos deparar. potencialmente livres das dominação dos padrões da história da sua época. como agentes da história. movimentos políticos autoritários. É muito recente na história ocidental a instituição de uma “subcultura” própria de uma geração. Quando comparada às inúmeras e diferentes “crises” que são relatadas ao longo dos dois volumes da “História dos Jovens”. os elementos de conflito e as resistências inseridos nos processos de integração e reprodução social”(p. 12. com “elementos de desagregação associados a períodos de mudanças. organização praticada originalmente em Creta foi mantida ao longo da história das cidades-estado.

poetas e sobretudo. vivia quase sempre uma total dependência em relação ao pai. mas como “aprendizes”. não só chefe da família. esse fenômeno atinge mais de um terço dos homens em idade adulta. generosidade. que ao longo dos séculos estudados tendeu a estender sua compulsoriedade para além dos filhos das famílias mais abastardas. Nas miniaturas (imagens inserida nos livros) produzidas na Europa do século XIV e XV. As cifras não são muito diferentes para as mulheres. também denunciam o perígo da juventude. O autor.Defendiam que. leis e práticas defendidas pelos rabinos. Norbert Schindler em “Os tutores da desordem: rituais da cultura juvenil nos primórdios da era moderna” analisa decretos comunais contra os tumultos noturnos praticados por jovens do sexo masculino. no final do século XVII e início do XVIII.Resenhas Fraschetti nos mostra a difícil trajetória de jovem da nobreza romana até o ingresso definitivo na vida autônoma. através da descrição de rituais e instituições tipicamente romana procura nos apresentar o conteúdo simbólico que a juventude tinha para os romanos. estava vinculado a defesa das instituções e a sobrevivência do próprio grupo social dominante. Seu estudo se desenvolveu através do estudo de textos de filósofos. antes dos 40 anos “o jovem” estava sujeito à fragilidade do corpo e da alma. Os grandes pregadores do período. que no plano simbólico era a busca exemplar da morte. A partir dos 15/16 anos os jovens abandonavam em meio a uma cerimonial doméstico os emblemas da infância e adotavam a “toga viril”. possível esteticamente bela. elegância de maneiras e de coração. Nele se confirma a posição marginal do jovem no conjunto das representações do mundo medieval. Apesar dos inúmeros rituais instituídos com o objetivo de induzir os jovens a partir dos 18 anos. Desde então. “Uma flor do mal: os jovens na Itália medieval (séculos XIII-XV)” assinado por Elisabeth Crouset-Pavan apresenta o conflituoso processo de integração/ marginalização do jovem do sexo masculino das elites nas cidadesestado italianas. geralmente associada à licenciosidade. Na Inglaterra. como chefe do negócio da família. na defesa e participação política nas cidades. relatados neste estudo. Elliott Horowitiz nos apresentará “Os diversos mundos da juventude judaica na Europa: 13001800”. deveriam ser controlados e governados. podiam acompanhar os negócios públicos e jurídicos. que se estendia até os 45/ 50 anos. parece ter sido tratado como um conflito geracional. será a último estudo a tratar desse período. doença. onde eram encerrados jovens sem nenhuma escolha pessoal ou vocação. também. Podemos acompanhar o processo de implantação da educação para os jovens das comunidades judaicas. na França e na Itália. portanto. Revista Brasileira de Educação 243 . Essa aprendizagem deveria durar até os 28/ 30 anos quando. mais da metade dos homens em idade adulta não se casa. aparece era também a cor mais utilizada na representação da juventude. A autora defenderá que a busca do jovem por um destino heróico. O capítulo seguinte. mostra a autora. e. lealdade contratual. Depois de apresentar documentos que indicam a concepção que a época moderna construiu sobre os jovens. Christiane Machello-Nizia apresentará a construção de valores e representações que marcaram profundamente o jovem palaciano da Idade Média européia: aventura. “Os emblemas da juventude: os atributos e representações dos jovens na imagem medieval” escrito por Michel Pastoureau. O autor vai tentando acompanhar nos debates das autoridades comunais o “consenso tácito” que se estabelecia entre os jovens e adultos nestes rituais de confronto. inconstância. Deve-se ressaltar que esse jovem. “Cavalaria e Cortesia” descreve ainda o processo de adouber (ordenação do cavaleiro) e as íntimas ligações do bacharel (aspirante de cavaleiro) com o seu senhor. chamado a participar da vida política e social da cidade. Trata ainda das jovens de famílias pobres que se empregavam como domésticas e dos processos de casamento. como tendeu a ampliar o tempo de duração obrigatória. e poucas vezes. segundo os legisladores romanos. desordem. o estudo das atas das reuniões dos conselhos de governo deixa transparecer o medo e a ameaça que este grupo representava para a elite governante. A partir da segunda metade do século XVI. os jovens nas raras vezes que foram representados. São inúmeros e graves os conflitos e tentativas de administrá-los. que tornam-se muitíssimo freqüentes a partir de 1550. As “vagabundagens noturnas” parecem ser fruto da resistência de uma nova moral que tentava se impor. ocupam as margens ou o segundo plano da representação. A autora discutiu ainda. em “Jovens nobres na Era do absolutismo: autoritarismo paterno e liberdade” discutiu o resultado das políticas familiares que instaurou um mundo repleto de conventos. período da Reforma. A cor verde. terminaria a adolescência e se iniciaria a juventude. a esperança e sorte. Renata Ago. Através da literatura européia do século XI ao XVI.

o documento exigido dos pais para o ingresso da criança no mundo do trabalho e o casamento. Em três dias de festa ocorriam missas. é longo e denso. doenças foram simuladas e até mutilações foram preferidas à prestação compulsória do serviço militar. a autora lembra que. já que no século anterior. capítulo assinado por Michelle Perrot. o marco para o ingresso na vida adulta. “A juventude operária: da oficina à fábrica”. por fim. as Províncias Unidas 62 anos. farças juvenis que varavam a madrugada. temia-se a vagabundagem. 92 anos. em 1882. para uma situação de família patriarcal transmissora de 244 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . O tradutor avisa-nos numa nota de rodapé que o título do original francês tanto pode ser traduzido. Daniel Fabre descreverá a festa-ritual tradicional que ocorria em uma aldeia camponesa na Montanha Negra languedociana. A autora trabalhou principalmente sobre dois tipos de fontes primárias: os relatórios das juntas médicas que atestam. A autora mostra as transformações que a própria delimitação da faixa etária sofreu no período. a convocação prendia o jovem dos 20 aos 26 anos para o serviço de defesa da nação. 16 anos. a autora trata das três imagens emblemáticas produzidas sobre os jovens operários na França do século XIX: o aprendiz. como indica o título. E. “A guerra tem traços juvenis” é a frase de abertura do capítulo escrito por Sabrina Loriga. a Áustria. Lembrar esse contexto basta para justificar a importância do tema. o autor coloca-nos questões muito interessantes sobre os conflitos e solidariedades que se estabeleciam tradicionalmente entre as gerações. que descreve por um lado o processo de instalação da prestação de serviço militar obrigatório na Europa a partir do século XVIII. Mas a sua questão é a de operar dentro de uma análise regressiva. quando elas eram bastante comum em todas as aldeias e cidades européias. Ou seja. os 18 anos como marco da maioridade. instituiu. e. Para concretizar essas representações. Para esses jovens a experiência militar representou uma aprendizagem que podia passar pela alfabetização. Seguiram-se a essas guerras profissionais outro século de guerras revolucionárias. A instituição do ensino obrigatório e gratuito na França. refeições em comuns. Mostra um conjunto de tramas que vão libertando o jovem da opressiva condição de filho-operário de uma oficina-família. poderá ser explicada por uma simples oposição autoritário/ liberal. A autora discute ainda a complexa relação família-fábrica e jovem. que nem sempre como ela tentará mostrar. autobiografias de operários. depois de idas e vindas. o que cobre os anos 60 para cá. levou a substituição do atestado religioso pelo diploma escolar. a Espanha 82. 26/24 anos para as mulheres operárias. Essa ambigüidade parecer ser a própria hipótese do autor. namoros. E se a maioria dos soldados eram do sexo masculino. era comum o ingresso no exército a partir dos 15. Muitos dos jovens convocados precisavam deixar um vínculo de trabalho familiar ou mesmo em uma oficina. por uma concepção mais duradoura no imaginário coletivo de virilidade e masculinidade. pela superação dos regionalismos e integração na nacionalidade. tradição que remonta ao Antigo Regime. idas ao cemitério ligando a vida dos vivos e dos mortos. e até. sobre uma certa pedagogia que se escondia sob a forma desses rituais. até o início do século XIX. Volume 2 “Imagens da juventude na era moderna” assinado por Giovani Romano é um capítulo curto que trata dos pintores e pinturas que retratam os jovens no período indicado no título. ao longo do século XIX. mais. a libertinagem e seu espírito contestador e. A autora relata uma série de formas de resistência à convocação: casamentos foram antecipados. por muito tempo. reconstruindo ritualmente a memória da aldeia e da nação. “A experiência militar”. Seus dados decorrem da observação ou da memória dos antigos moradores da região. por “Ser jovem na aldeia” como “construir-se jovem na aldeia. Em relação ao jovem operário. o apache e a grisette. Além de nos proporcionar um relato muito agradável e divertido. procurar o sentido constitutivo da própria juventude contido neste tipo de festa-ritual.. Isso representou um “envelhecimento” das fileiras dos soldados que podiam começar a servir. Sintetiza a autora: entre 1618 a 1763 a França combateu durante 73 anos. a Inglaterra apenas 45. A carteira de registro de trabalho obrigatória para todos os menores.Resenhas a concepção pedagógica renascentista que atribuiu aos pais a responsabilidade última pela felicidade e escolhas dos filhos. defendia-se a necessidade de salvar a juventude. O atestado de primeira comunhão foi. do outro lado o capítulo tenta dar conta de apresentar. a mulher participava normalmente da vida dos acampamento militares. por isso. bailes. não só a dispensa militar e o flagelo da pobreza e do trabalho precoce sobre a saúde dos filhos dos operários. A partir de 1798 na França. e. rito que acontecia entre os 28/25 anos para os homens. como ele o fez.

a debilidade no preparo dos professores e dos conteúdos ministrados. na França. Para o autor. uma geração com padrões de pensamento e comportamento revolucionários. No século XIX. criando imagens fortes. menino fardado que enfrentou um soldado austríaco. até. que concorda com Ariès. De fato. através do mesmo recurso. Pouco a pouco. “a juventude deixou de existir. é preciso reconstituir. mas hipertrofiou o imaginário” Defende ainda que o jacobinismo criou a própria concepção de geração ao confiar o sucesso da Revolução aos jovens e à sólida formação cívica e nacional que lhes seria incutida através da escola leiga e gratuita. e quase sempre exilados revolucionários. o mais jovem de todos os jovens. partilhavam do velho espírito não revolucionário. Para entender a vida de um estudante nos colégios e liceus no século XIX. Vale a pena acompanhar esse penoso processo de implantação. nas longas e constantes descrições de conflitos entre alunos e seus professores e administradores escolares. produzidos sob a observação e vigilância dos severos mestres um documento confiável? Para escrever “Os jovens na escola: alunos de colégios e liceus na França e na Europa (fim so século XVIII ao fim do XIX)” JeanClaude Caron estudou documentos deixados por mestres. que passava em média onze horas em posição sentada em uma postura que teoricamente era silenciosa. e. Descreve ainda os conflitos criados por um projeto que depositava nos jovens toda a esperança mas que permitia a plena participação política somente aqueles que ultrapassassem os quarenta anos. e pela consolidação de uma visão subjetivista e voluntarista de fazer política que a historiografia socialista e acadêmica francesa. Quase sempre o jovem era um interno que lamentava o afastamento da família. a juventude de outro países europeus continuava sacrificando suas vidas pelos projetos dos velhos. diretores. mas tão cheia de conseqüências sociais e culturais. A autora analisa a força simbólica de imagens como “Mamma Itália” e de seus filhos jovens.Resenhas um conhecimento profissional. sobreviveram à revolução e acabaram amargurados acusando aqueles que sendo cronologicamente jovens. provocativo. Trata ainda do drama daqueles que. ele só pode ser considerado totalmente implantado. Ela substituiu o “look” juvenil inconformista composto por caveiras com punhal entre os dentes dos primeiros anos. o modo de vida de conceber a vida. na segunda metade do século XX. para a legislação trabalhista e enfim. expresso particularmente na Convenção de 1792. a ideologia fascista vai enveredando para uma apologia daqueles que têm idéias jovens. pelas memórias que políticos e romancistas registraram em suas obras. Mostra que essa arte dirigida por ideais políticos foi impondo símbolos que indicavam um estilo de vida fascista. Mas o autor mostra que se em 1848 a juventude francesa demostrava uma profunda indiferença à participação política. O projeto jacobino. mostra o autor. O autor passará pela criação do “estilo bohemien” que marcará a juventude no período da Comuna. Essa exaltação do jovem concreto se transforma numa exaltação do Dulce considerado. imbuídos dos ética e do heroísmo dos tempos revolucionários. A experiência dos jovem pode ser captada sobretudo. O autor descreveu através dos testemunhos da época. pretendeu criar através da escola. a generalização da individuação do assalariado. as péssimas condições dos prédios. defende o autor. Analisa ainda as ilustrações dos inúmeros periódicos que veiculavam idéias fascistas. Um exemplo tratado é o balilla. pedagogos e. lendo esse estudo. rotina violenta que impunham. “Jovens rebeldes e revolucionários: 1789-1917” escrito por Sérgio Luzzanatto é um capítulo arrebatador. e a sua derrota como lembrará o estudo deixará um entulho mental que Revista Brasileira de Educação 245 . símbolo dos símbolos. Laura Malvano em “O mito da juventude transmitido pela imagem: o fascismo italiano” analisou a vasta documentação iconográfica encontradas nas bienais dirigidas pelo Sindicato Fascista das Belas Artes. para a condição feminina nas fábricas e/ ou oficinas-ateliês mantidas por damas de caridade e religiosas. divulgou ao analisar a Revolução Francesa. Indica a insistência da ideologia fascista na representação do povo como um jovem viril e na enfática propaganda de famílias numerosas. Há um destaque especial para a questão da aprendizagem profissional. saudáveis esportistas. A situação das jovens também aparece neste estudo. por imagens mais respeitáveis e tranqüilas. modelo de família rural imposto a todo conjunto da sociedade. O autor terminou o artigo se reportando aos ecos destas concepções entre os populistas russos e na trajetória intelectual de Lenin. O principal mérito do artigo é o de traçar uma cronologia que delimitará qualitativamente a função social e política da instituição escolar na França. esse projeto demorou para se realizar. Extremamente erudito é mais ainda. Como estudar a experiência dos jovens nos colégios e liceus se raramente esses nos deixaram fontes escritas? Ou podemos considerar seus trabalhos escolares. tão aspirada pelos jovens.

Mas tese do artigo “Soldados de uma idéia: os jovens do Terceiro Reich” ultrapassa os limites da apresentação da condição da população que compreendemos como jovem. De acordo com o depoimento de Erika Mann. A leitura do capítulo vale pela excelente síntese que a autora faz da condição juvenil em cada um desses dois períodos e contextos abordados. etc. citado por Eric Michaud. o fascismo não mais defendeu o jovem biológico. a autora apresentou uma interessante análise da produção cinematográfica que. unidades da juventude hitlerista. Seguindo as próprias pistas oferecidas por esse debate. A autora apresenta a constituição da idéia e do campo de estudos que tenta revelar o que era o adolescente (teenager) e seus problemas. A autora defenderá que o fascismo.Resenhas pesará sobre as gerações cronologicamente jovens após a derrota do fascismo. O Estado assumiu esse papel de maneira direta através do controle do Partido sobre as HJ. acho que as semelhanças. metáfora da mudança social. porque ser jovem. Ela sintetiza os estudos mais significativos desenvolvidos por psicólogos. “A juventude. belicoso. e. O estudo insiste no difícil exercício praticado por cada alemão que. não foram devidamente explicitadas nesta apresentação. Um povo inteiro foi infantilizado pelo Estado. Por fim. Corresponder a vontade do Fürer. o jovem como o restaurador de uma sociedade desordenada e sem rumo. Neste ítem a autora tratou ainda das diferença que marcavam os jovens do sexo masculino e feminino nestes agrupamentos. Após sua consolidação. A high school criou espaços de convivência que cobriram o dia a dia do jovem de uma maneira totalmente apartada do mundo adulto. no lugar dela. jovens). Para possuir ou manter uma alma jovem era preciso corresponder aos desejos do Fürer. mas do espírito jovem: inquieto. slogans. A partir dos 10 anos o jovem alemão era convocado a tornar-se um soldado do Reich. também foram alvo de perseguição do Estado que se quis jovem. de acordo com a ideologia nazista era sobretudo um comportamento. a autora descreveu a experiência do jovem americano no período. uma estética que diferencia o jovem do adulto. neste contexto. associações similares para as jovens. e as vestimentas inglesas. sociólogos e até jornalistas que deram corpo a atual concepção de adolescência. cantos. se existem de fato. A parte das relações com pais e professores esses jovens criaram uma sub-cultura onde tornaram-se referentes de si próprios. tentará mostrar as semelhanças ideológicas que poderemos encontrar em dois contexto tão diferentes. colocou em segundo plano a família e a escola como meios de formação para os jovens. parece que a atração que elas exerciam vinha justamente do fato de propiciar uma certa liberdade para o jovem. pertencer a juventude na Alemanha nazista poderia implicar em fazer a saudação hitlerista de 50 a 150 vezes num só dia. transformará o problema político e social em problema geracional. teve o jovem e seus problemas como tema e esse mesmo grupo como público consumidor. A partir de 1935 a passagem pela HJ tornou-se requisito necessário para o ingresso nas universidades e em certas profissões liberais. aderiu ao Fürer. alimentando-se do problema da reintegração ex-combatentes com o fim da Primeira Guerra. trajes. O leitor não encontrará um trabalho comparativo propriamente dito. Dirce Spedo Rodrigues Mestranda . Isso só foi possível a partir da generalização e prolongamento da vida escolar. Aproximadamente 40% da juventude alemã esteve alheia a imposição de ingresso nas HJ.Faculdade de Educação. O estudo sobre os jovens norte-americanos no anos 50 foi organizado em três frentes. algo bastante similar ao que foi defendido pelo fascismo italiano em anos anteriores. que retirou toda a responsabilidade dos indivíduos sobre as suas vidas e exigiu. Produção que apresentará. Dois debates sobre os jovens na Itália fascista e so Estados Unidos da década de 50” assinado por Luisa Passerini. A partir de 1932 integrar uma HJ implicava para o participante pequenos privilégios. O projeto nazista. Universidade de São Paulo 246 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . Era preciso lutar para acabar com “o que havia de judeu dentro de cada um”. A autora analisou também a produção cinematográfica do período que representou de alguma forma a propaganda destes ideais. São nestes filmes que se institui pela primeira vez na história. obedecer implicava na autoprodução de gestos. O estudo apresenta as características específicas que revestiam as BDM. Os poucos jovens que resistiram abertamente e que no período preferiram o jazz ou o swing. frente a forte opressão que esses sentiam em relação a família e escola. generoso. arrojado. (não por acaso. característico de todo genuíno “faci”. nos anos 50. obediência cega.

de alguma forma vinculadas à música. acompanhando as transformações do homem e da sociedade. de alguma forma. numa expressão típica da complexidade crescente do mundo urbano. aos padrões de comportamento e valores vigentes. Mas diferente de grande parte dos estudos existentes nesta área. a efervescência manifesta na comunhão emocional entre público e artista. as relações sociais seriam caracterizadas por um “neotribalismo”. cada um deles com significados e emoções próprias. a emoção coletiva que flui. Neste novo caldo de cultura. Goli. definidos como “contracultura”. propõe-se a compreender o fenômeno do rock e resgatar o universo cultural dos rockers no Brasil. um ritual moderno que conjuga fragmentos de movimentos arcaicos com a alta tecnologia. a emoção Revista Brasileira de Educação 247 . fazendo uma análise interpretativa das canções e buscando compor o perfil sócio-cultural dos rockers no Brasil. O primeiro capítulo é uma etnografia do show de rock. onde um olhar panorâmico capta os movimentos dos corpos. Guerrreiro constrói um show hipotético. Este movimento é fruto de um conjunto de fatores sócio-culturais. Para isso desenvolve três tipos de abordagens: > etnográfica. É uma forma de compreender a música como uma dimensão presente na história cultural da humanidade. que manifesta-se numa postura crítica radical à sociedade industrial. expressando. escolhendo 3 bandas (Paralamas do Sucesso. Para a descrição etnográfica. como as “olas” ou o acender de isqueiros. com um mercado próprio e uma consciência etária. Não há um projeto definido. a experiência tátil dos corpos se roçando. entre outros critérios. abarcariam o universo de estilos de rock no Brasil. Dai a categoria “tribo”: uma forma de agregação social determinado por ambiências. É nesse contexto que o rock’n’roll. pela cultura de massas. as relações existentes. fazendo dos seus participantes membros da “tribo” urbana rocker. o trabalho não tem como objeto grupos determinados ou mesmo indivíduos na sua especificidade. expressão da geração “transviada” dos anos 50. sentimentos e emoções. buscando ai um retrato momentâneo do comportamento e visão de mundo de uma parcela significativa da juventude. Para ele. a relação do indivíduo com seu mundo. O objeto de análise é o evento coletivo enquanto um ritual. uma socialidade baseada na empatia.Resenhas GUERREIRO. É esta a noção que vai orientar a análise dos rockers. originalmente uma dissertação de mestrado apresentada ao programa de Antropologia Social da USP. discutindo o lugar do rock no campo da música popular brasileira a partir dos anos 60. Em seguida a autora faz uma caracterização da sociedade contemporânea. É toda uma abordagem que ressalta a emergência de culturas juvenis visíveis numa multiplicidade de estilos de vida. Tematiza o rock e seus shows. tornou-se um fenômeno cultural. o desejo presente nos olhares e encontros casuais.1994. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA. > histórica. Mais do que um estilo musical. sua música e seus shows. o rock e sua expansão mundial é situado no contexto dos movimentos juvenis da década de 60. reunindo aqueles que pensam e sentem de maneira coincidente. “Retratos de uma tribo urbana” é um livro que trata do rock brasileiro. sua história. como a chegada ou a saída. é reelaborado como o principal veículo da revolta e rebeldia da juventude. Retratos de uma Tribo Urbana: rock brasileiro. Uma nova concepção de música. > sócio-antropológica. Legião Urbana e Titãs) que. seus valores e comportamentos. O trabalho de Guerreiro. os rituais coletivos. Nesse sentido. de uma subcultura juvenil. na melodia e nas letras. no caso a efervescência cultural dos anos 60. A vida cotidiana das “tribos” é caracterizada pela estética — o sentir em comum. focalizando-a na sua dimensão cultural. O campo da arte é o espaço privilegiado de representação do novo ideário. Busca mostrar que o show é manifestação de um neotribalismo contemporâneo. o grupo é movido pelo desejo de estar junto num presente vivido coletivamente. a agregação das pessoas em grupos e sua localização pelo espaço. Inicialmente é discutida a relação do rock com a problemática da cultura. Se inscreve numa tendência que tem caracterizado os estudos sobre a juventude nos últimos anos. no seu tempo. utilizando o marco teórico de Michel Maffesoli. pela ética — o laço coletivo e pelo costume — o resíduo que fundamenta o estar junto. o universo de valores na sociedade atual constitui uma nova “episteme”: a da pós-modernidade. de estilo de execução e de letras das canções selou um vínculo identitário que expandiu para todo o mundo. os gestos. numa espécie de sexo grupal. entre eles a criação. descrevendo o show enquanto espaço de ritualização do rock. Os diferentes momentos do show.

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partilhada do cantar e dançar juntos. São aspectos que fazem do show um espetáculo, “a forma como a cultura de massas se apresenta”. Neste sentido, tem uma dimensão de negócio capitalista, de investimento num mercado juvenil que é cada vez mais uma fonte de lucros, numa configuração produzida pelos meios de comunicação de massa. A autora apenas pontua essa dimensão, o que deixa em suspenso a questão polêmica, e necessária, sobre o peso e o significado da indústria cultural na produção de comportamentos e valores da cultura juvenil. Guerreiro torna evidente que este mesmo espetáculo tem uma dimensão de ritual, agregando pessoas, permitindo a experiência de sentir e experimentar em comum, fazendo parte de uma massa humana que se reconhece na mesma música, que acompanha os mesmos gestos no mesmo ritmo, e, principalmente, na idolatria ao ídolo comum, visto como objeto de fascinação e envolto em aura, como um mito moderno. É uma catarse de emoções, com um vitalismo que conjuga efeverscência e paixão, numa intensificação do desejo, reforçada pelo roçar dos corpos. O show também traz à tona o imaginário dos ideais comunitários presentes no rock, numa atualização dos seus valores fundantes. Em síntese, ao apresentar o show como espaço ritual, a autora indica que o rock é mais do que simplesmente a música, é uma maneira de ser, ligado a um estilo de vida, onde “os rituais dão forma às suas ideologias, valores e posturas”. A sua existência, conclui, “nos levam a crer que os novos agrupamentos humanos ainda encontram paralelo com movimentos arcaicos que a mente humana insiste em preservar. E talvez nem a mais sofisticada tecnologia que o homem possa alcançar conseguirá aniquilá-los”.(48)

Ao descrever e analisar os diferentes momentos do show, a autora chama a atenção para a complexidade, no plano real e simbólico, de um evento tão presente no cotidiano da vida dos jovens. Entre outros aspectos, coloca-nos diante da controvérsia a respeito da efetividade ou não da tendência de desencantamento do mundo presente na sociedade moderna e o conseqüente processo de desritualização, numa atomização individual no consumo de símbolos. Na sua especificidade, aponta que os jovens, através ou apesar da indústria cultural, vêm produzindo espaços e tempos coletivos onde recriam e atualizam significados, onde experienciam processos rituais. Resta saber se é significativo o suficiente a ponto de substituir ou complementar outros espaços e tempos coletivos de referência de valores. Porém, o capítulo apresenta alguns problemas, relacionados ao uso da categoria “tribo”. Um deles é a ambigüidade existente na utilização do termo, ora como uma metáfora, ora como uma categoria. Na pg. 11 afirma ser uma categoria nativa; na pg. 21 afirma que a noção irá ser usada de uma forma mais descritiva do que como teoria explicativa da formação da sociedade e na pag. 49, ao definir o rocker, o faz apenas enquanto consumidor da música rock. Nestas situações utiliza o termo como metáfora, dando a entender um agrupamento de iguais, que se reconhecem na adesão ao rock, unidos numa “cerimônia” ritual. Mas ao mesmo tempo, na pag. 41, utiliza a noção como uma categoria, mas sem evidenciar as características que a constituem, na perspectiva de Maffesoli. A questão, como nos lembra Magnani (1992), não é a utilização do termo em si, que pode

ser tanto uma metáfora quanto uma categoria, mas sim a sua precisão, de tal forma a descrever com maior clareza o fenômeno que se quer estudar, não tomando como dado exatamente aquilo que é preciso explicar. E é o que acontece em relação aos rockers. O leitor não sai totalmente convencido se estes constituem-se realmente como uma “tribo”, e, aqui, tanto no sentido metafórico quanto categorial. Guerreiro afirma que o show é o único momento onde se pode falar da existência concreta da tribo rocker, mais tarde define o rocker como consumidor de rock. Se assim é, não há uma vida cotidiana, não há um envolvimento orgânico de uns com os outros, não há a construção de uma ética. E fica mesmo a questão: será que os participantes dos shows se reconhecem, possuem um sentimento de pertença como rockers? Qual o grau de adesão do jovem ao rocker como estilo de vida? Se o rock foi analisado como expressão de um estilo de vida, será que em nenhum outro momento aqueles jovens não se agregam em torno da música? As festas, por exemplo, não poderiam ser um desses momentos? Uma outra questão é saber como os jovens elaboram individualmente essa experiência, como contribui ou não como elemento de identidade, além da auto-definição como rocker. Em outras palavras, será que ser rocker não significa algo mais além do estilo musical e seu imaginário? Pode ser que estas questões estejam além dos objetivos e da opção metodológica da autora, que não se propõe a conhecer especificamente uma tribo rocker nem o peso que tem na vida dos jovens que dela participam. Mas a falta dos sujeitos na pesquisa e os sentidos que estes jovens atribuem àquela experiência

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social ali descrita pode ser responsável por estas lacunas. No capítulo seguinte é desenvolvida uma análise interpretativa das canções, buscando traçar um perfil sócio-cultural dos rockers. Guerreiro tem como pressuposto de que é possível alcançar o imaginário dos rockers através das representações que os produtores das canções de rock elaboram para seus consumidores. Dessa forma analisa 105 discos e 1100 canções de 22 cantores e grupos de rock, utilizando a proposta de análise de conteúdos de Laurence Bardin. A própria autora ressalta, porém, “que é uma, dentre múltiplas leituras que poderiam ser empreendidas a partir de um material tão rico”(104), principalmente porque a canção é uma mensagem ambígua, que contém uma pluralidade de significações. Além do mais, são mensagens de comunicação oral, em que o significado depende muito da performance do cantor e do contexto de ocorrência. Não podemos esquecer também que cada receptor pode atribuir um sentido próprio a uma canção, sendo arriscado qualquer generalização. Assim é problemático poder afirmar que a interpretação possa expressar o perfil de um grupo social tão heterogêneo. Ao mesmo tempo, considerando seus limites, não deixa de ser um novo veio de análise para aqueles que se interessam na relação entre grupo social e música. A autora identifica nas canções uma grande variedade temática, terminando por agrupá-las em quatro grandes temas: identidade, amor e sexo, cotidiano e política. No seu conjunto é possível, de forma genérica, captar possíveis elementos constituintes do imaginário juvenil. O tema do cotidiano expressa o tempo e o ritmo da metrópole, com

todas as suas contradições, correspondendo à perplexidade que a vida urbana tem gerado, onde uma nova forma de ser e relacionar têm interferido na própria produção dos sujeitos sociais. O tema do amor e sexo é o que apresenta o número maior de canções, sendo uma grande inspiração que até então não deu mostras de cansaço. O amor aparece como a força criadora e transformadora do mundo, capaz de fazer coincidir o desejo e o destino. O outro tema é a política, que aparece principalmente a partir de 1985, quando ocorre uma “politização” do rock na esteira da campanha das Diretas-já. As denúncias, a descrença nos poderes instituídos, a impotência diante da realidade são aspectos de um diagnóstico possível do envolvimento da juventude com os problemas nacionais Um último tema é o da identidade. Chama a atenção a sua recorrência, o que demonstra a sua centralidade para a juventude contemporânea. As músicas parecem expressar que não há mais uma identidade, e sim uma diversidade delas, fragmentadas, fruto da heterogeneidade de grupos e valores, da realidade cotidiana descrita anteriormente. Os conflitos existenciais estão presentes diante da incerteza e insegurança da vida, da busca de sentido. As instituições que eram referência de valores, tais como a família e a religião são deslegitimadas como instâncias de orientação. Nessa ebulição, a busca das próprias verdades aparece como uma saída, junto com a afirmação do desejo de liberdade individual. O grupo aparece como um espaço para adquirir parâmetros de comportamento necessários para a construção da auto identidade. Em suma as músicas expressam um conflito fundamental onde, de um

lado, tenta-se a afirmação do ser, do ego, da liberdade individual. Por outro lado, quando o ego volta-se para dentro de si mesmo, mergulha numa absoluta falta de sentido, num vazio existencial que torna amarga a auto definição. A interpretação realizada coincide com análises que procuram dar conta de uma nova subjetividade que vem surgindo, fruto das possibilidades e limites abertas pelo aprofundamento da modernidade, onde, pontua Melucci (1996), a identidade não é mais considerada como uma essência mas sim uma construção cotidiana, caracterizada pela ambigüidade entre o auto reconhecimento e o heteroreconhecimento. Através das músicas, os jovens parecem se colocar como os arautos de um novo tempo. O terceiro e último capítulo é uma leitura da história da música popular brasileira desde os anos 60, onde é recuperada a presença do rock no cenário cultural, e estabelecida as relações entre a MPB e o contexto sócio-político brasileiro. A autora pontua os momentos mais significativos dessa história, começando pela bossa nova, chegando até o momento da expansão do rock na década de 80. Até este período, o estilo era reduzido ao circuito alternativo. A partir de 1982 aconteceu uma conjunção de fatores, entre eles, a emergência de uma nova geração urbana que até então não se reconhecia na produção musical existente. A descoberta deste filão juvenil levou a indústria fonográfica a investir em novos grupos musicais. Foi uma resposta industrializada às exigências reais da época, um dado significativo que relativiza o poder da indústria cultural em criar estilos. Foi neste contexto que o rock explodiu como um estilo musical nacional, conseguindo articular os

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códigos da “urbes” e representar um estilo de vida paradigmático da juventude urbana. A partir dai tornou-se “uma forma de expressão cultural que corresponde à sua própria maneira de ser e de estar no mundo”, transformando-se no estilo dominante ao longo da década. É importante observar como a história recuperada por Guerreiro nos remete à algumas características da história cultural brasileira que merecem ser ressaltadas. Uma delas é a relação da música com o contexto sócio-político. As canções de protesto são um exemplo, mas é o festival da canção de 1968 que é paradigmático na evidência da relação íntima entre a política e a expressão cultural, quando a juventude do período consegue expressar toda a sua revolta e indignação nas arquibancadas do Maracanãzinho e nas letras das músicas, numa forma lúdica de driblar a censura existente no período. Outro aspecto que chama a atenção é a dimensão de ruptura e continuidade existente na história da música. A relação entre a rebeldia e o rock é um exemplo, estando presente desde os anos 50, mas sempre com uma nova feição, “uma nova/velha bandeira”: é a delinqüência juvenil e o rock’n’roll; é a contracultura e o hippismo e o rock dos anos 60; é o punk com seu som pesado, “sujo” e agressivo nos anos 70. E o rock no Brasil, a partir de meados dos anos 80, depois de uma fase “adolescente”, que recupera a rebeldia através da crítica sócio-política, se tornando o grito de guerra nas passeatas do período. A música “Inútil”, do grupo “Ultraje a Rigor” por exemplo, se tornou o emblema do movimento dos “caras pintadas”. Um último aspecto a ressaltar é a perspectiva de processo detectada na cultura nacional, na direção de um amadurecimento e

uma abertura às trocas culturais. Somos devedores do movimento tropicalista pela experiência revolucionária de uma fusão de nossa herança cultural com o que havia de mais moderno, numa reelaboração (ou numa antropofagia, como afirmavam os próprios tropicalistas) que ampliou as possibilidades de produção cultural para muito além da tendência nacionalista, presente no debate sobre o que era ou não genuinamente nacional ou mesmo entre o erudito e o popular. Atualmente o rock não detém mais a hegemonia no cenário cultural, havendo até prognósticos do seu desaparecimento. De qualquer forma ele continua vivo na influência aos diversos ritmos musicais que coexistem atualmente, cada qual expressando estilos de vida diversos. É a manifestação da heterogeneidade cultural presente no mundo contemporâneo, que tem na tensão entre o particular e o universal, o local e o global um dos maiores desafios. De qualquer forma, a música continua influenciando/sendo influenciada pelos jovens, que parecem sentir através dela alguma coisa que não conseguem explicar nem exprimir: uma possibilidade de reencontrar o sentido. Podemos dizer assim que os jovens podem ser reconhecidos como a difícil invenção de maneiras de viver em um mundo novo, em que certamente nossa palavra parece não mais os guiar. Diante do estranhamento a que são sujeitos pela sociedade, que tende a imputar-lhes estereótipos, taxá-los de alienados ou outras alcunhas, devemos lembrar que esse mundo onde os jovens estão se construindo e sendo construídos é o mundo possível que nossa geração construiu e vem deixando como legado. Se há algum desvio, a responsabilidade é de todos.

Finalizando, podemos dizer que o trabalho de Guerreiro não é linear, onde o texto sugere mais do que desvela, toca em questões que ficam sem respostas, mas ao mesmo tempo apresenta reflexões e insights que instigam. Vem reforçar a importância da dimensão artística, e nela, a centralidade da música e suas expressões, como uma forma privilegiada de conhecer a juventude como ator social. Neste sentido o livro é uma contribuição significativa, principalmente se levarmos em conta a escassa bibliografia existente com esse enfoque. Mesmo não tendo a juventude como objeto da pesquisa, muito menos a educação como uma preocupação presente, é um trabalho que deve interessar aos educadores na medida em que problematiza, que traz elementos para melhor conhecer esse setor social tão polêmico quanto pouco estudado. Bibliografia citada MAGNANI, José Guilherme Cantor. Tribos urbanas: metáfora ou categoria? In: Cadernos de Campo, Ano II, nº 2. São Paulo: USP, 1992. MELUCCI, Alberto. Il Gioco dell’io. Milão: Saggi/Feltrinelli, 1996, 3º ed. Juarez Tarcísio Dayrell Universidade Federal de Minas Gerais

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FRABONNI, Franco; GENOVESI, Giovanni; MAGRI, Primo; VERTECCHI, Benedetto (Orgs.). Giovani oggi tra realtà e utopia. Milano: Franco Angeli, 1994.

Esse livro resultou de uma pesquisa coletiva interuniversitária realizada no decênio compreendido entre 1982 e 1992 por professores das universidades de Bolonha, Ferrara, Modena e Parma tendo por título Espaço jovens: pesquisa sobre centros de agregação juvenis. A investigação toma como objeto de estudo a condição juvenil privilegiando a agregação juvenil enquanto comportamento sócioexistencial e a oralidade juvenil como código de comunicação. A publicação dos resultados da pesquisa envolveu a contribuição de doze autores abordando oito temas distintos distribuídos em dois grandes blocos temáticos: Parte I Fazer-se homens. As grandes etapas do crescimento; Parte II - Flashes sobre as problemáticas juvenis. A primeira parte compreende quatro temas. O primeiro, denominado O léxico dos jovens. Reflexões sobre os dados de uma pesquisa, se subdivide, por sua vez, em quatro tópicos: Linguagem como

jogo, de Giovanni Genovesi; Língua comum, língua padrão, língua literária, de Alessandra Briganti; O léxico dos jovens: uma leitura em chave educativa, de Benedetto Vertecchi; e Dicionário do léxico juvenil, organizado por Maria Fibbi, Giovanni Genovesi e Lorenza Raponi. O segundo tema, de autoria de Franco Frabboni, tem por título Desorientados inquietos descompromissados. Viagem ao Continente-jovens: em direção a um ponto final de nome participaçãoprotagonismo. Aqui o autor, lançando mão da metáfora da linha de ônibus, tece considerações sobre o processo através do qual os jovens chegam a superar suas inseguranças, intimismos e rebeldias por um caminho onde destaca a importância da adminstração pública local e do associativismo. Propugna, então, pela articulaçãso desses dois elementos na formulação de uma política de juventude tendo por eixo dois modelos de agregação juvenil: os centros adolescentes e os centros juvenis, descrevendo as respectivas finalidades, sua estrutura e conteúdos. No terceiro tema, Os jovens e a nova política, Enzo Catarsi analisa as relações entre os jovens e a política no contexto da longa adolescência, destacando a

importância de um sistema formativo integrado no qual a escola desempenha papel central na educação política dos jovens. O quarto tema, Os jovens e sua imagem, foi construído por Primo Magri com base numa exploração razoavelmente detalhada dos dados obtidos através de enquetes realizadas com adoloscentes e jovens. A partir daí emerge a imagem que os jovens fazem de si mesmos destacando-se o perfil psicológico, a socialização (família, amizade e amor), a escola e a cultura, o tempo livre, trabalho e profissão. O uso do termo flash na segunda parte indica que se trata de abordagens sintéticas iluminando aspectos específicos da condição juvenil. Aqui também são destacados quatro temas: Paideia, philia e eros. Reflexões sobre o papel da amizade e do amor na formação dos jovens, de Anita Gramigna; Jovens portadores de deficiência em busca do tempo livre, deMaura Gelati; Grupos juvenis espontâneos e associativismo juvenil organizado, de Liliana Dozza; e As trocas juvenis internacionais, de Massimo Baldacci. Como destacam os organizadores na Apresentação do livro, a pesquisa espaço jovens se propunha a atingir um tríplice alvo investigativo, todos eles em

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perspectiva eminentemente pedagógica. O primeiro alvo, de caráter hermenêutico, se traduziu numa contribuição ao esclarecimento do controvertido tema da identidade e condição juvenis no contexto atual de uma sociedade complexa e em transição. O segundo alvo, de caráter argumentativo, envolveu uma contribuição no sentido tanto de se decifrar como de se formular políticas culturais voltadas à participação ativa dos jovens na organização dos próprios espaços sociais e existenciais. O terceiro alvo, de cunho especificamente investigativo, se refere à contribuição trazida pelos autores, através de cuidadosa pesquisa de campo, à “leitura (quantitativa e qualitativa) da atual produção oral dos jovens em situação de agregação e de tempo livre” (p. 8). Dermeval Saviani Universidade Estadual de Campinas

Giovani: Aspetti e problemi educativi della condizione giovanile oggi. Ricerche Pedagogiche, n. 116-117, luglio-dicembre 1995.

Trata-se de um número duplo, de caráter monográfico, da Revista Ricerche Pedagogiche, versando sobre a problemática juvenil. O volume reúne, em suas 174 páginas, vinte artigos resultantes da contribuição de dezoito autores oriundos de nove diferentes universidades italianas (Bari, Bergamo, Bologna, Chieti, Ferrara, Firenze, Padova, Parma e Pisa). O primeirro artigo, de autoria

do diretor da Revista, Giovanni Genovesi, versa sobre a necessidade de clareza do próprio conceito de jovem. Os demais artigos abordam, todos eles, a questão da juventude em relação com os temas da família (Enzo Catarsi), da política (Franco Cambi), escola e trabalho (Primo Magri), universidade (Luciana Bellatalla: os jovens e a universidade; e Saverio Santamaita: os jovens graduados), a profissão (Angelo Luppi), os jornais (Anita Gramigna), o associacionismo (Franco Frabboni), a educação profissional e os centros de agregação (Maura Gelati), a sexualidade (Giovanni Genovesi), a linguagem (Antonio Santoni Rugiu), a literatura (Mario Valeri), poesia (Marco Riguetti), música (Alessandra Avanzini), os meios de comunicação de massa (Luciano Galliani), cinema e teatro (Daniele Seragnoli), esporte (Piergiovanni Genovesi), violência (Lino Rossi) e tóxico-dependência (Giovanni Genovesi). De um modo geral, os artigos se fazem acompanhar de abundantes referências bibliográficas, o que se constitui num recurso da maior utilidade para os leitores interessados em pesquisar o tema ou aprofundar o conhecimento das questões a ele relacionadas. A simples relação dos títulos, como indicado acima, já permite constatar o leque amplo de situações referidas à questão dos jovens abrangido por essa publicação. Registre-se, ainda, o empenho de cada autor em abordar de forma sintética mas consistente os respectivos temas. Em se tratando de um assunto em si mesmo de natureza educacional — de vez que os jovens são parte integrante, ao mesmo tempo como sujeto e objeto, do processo educativo — e considerando o enfoque

predominantemente pedagógico adotado pelos autores, resulta inegável a relevância desse número duplo da Revista Ricerche Pedagogiche para os pesquisadores da educação e para os educadores de maneira geral. Dermeval Saviani Universidade Estadual de Campinas

GUIMARÃES, Eloisa. Escolas, Galeras e Narcotráfico. Rio de Janeiro: Departamento de Educação, PUC-Rio, 1995 (Tese de Doutorado).

A tese de Eloisa Guimarães tem por objetivo analisar a inserção da escola pública nos diferentes processos sociais que vêm se desenvolvendo recentemente no Brasil e, principalmente, no Rio de Janeiro. Os processo estudados são exteriores à escola. São eles: o narcotráfico, as galeras e os movimentos juvenis. Destacam-se, neste último aspecto, os movimentos de jovens que se constituem a partir de ritmos musicais, predominantemente “funk” e “house”. Apesar de exteriores à escola, estes movimentos, e aqui está uma das grandes contribuições desta pesquisa, exercem sobre a escola uma interferência a tal ponto, que a transforma, seja em sua organização, seja na sua capacidade de cumprir com suas funções mais gerais que lhe são atribuídas socialmente. As análises de Eloisa Guimarães são o resultado de pesquisa etnográfica realizada em duas escolas municipais cariocas, sendo a primeira localizada na área central da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, na proximidade dos

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originadas por contínuas “brigas” pelo seu domínio. segundo a autora. mas afetam a toda a população que habita nas áreas por eles ocupadas. Existem galeras que mantém relação com o narcotráfico inclusive funcionando como formação de mão-de-obra para este. o principal elemento estruturador das galeras. baseados na força das armas e interferindo nos mais diferentes níveis de vida da população. Outras apenas se dispõem a cumprir certas determinações dos “donos dos morro”. porém tacitamente acordadas entre os grupos e. A autora nos mostra sensíveis diferenças existentes entre os dois movimentos. No Rio de Janeiro a presença e o poder desses grupos se fazem sentir não só pela ousadia e violência de suas ações. principalmente de Los Angeles1 . O autoritarismo e a violência das ações do narcotráfico não se restringem apenas a seus membros. que as fronteiras nem sempre são visíveis. para proteção de seus membros. A radicalidade nas estruturas da vida da população é o que garante. A violência é. entre outros. a recente história dos movimentos juvenis em termos mundiais e a organização do crime existente nesses locais. Eloisa Guimarães nos aponta três fatores que se inter-relacionam para a constituição das galeras: a segregação social imposta aos grupos de onde elas se originam. São muito voláteis. deveriam ser supridos pelo Estado. a expansão e a sobrevivência do narcotráfico no Rio de Janeiro. assim definido. dentro de seus limites. assistência hospitalar. As galeras Aqui se apresenta mais um dos méritos da pesquisa realizada por Eloisa Guimarães: a sociabilização do jovem no Rio de Janeiro pelas galeras. o narcotráfico mantém duas formas distintas de ação: por um lado. masculinidade e virilidade. realizada entre 91 e 92. Caracterizando os movimentos Narcotráfico Nos diz a autora que o narcotráfico. atrapalham o tráfico. sem sombra de dúvida.Notas de Leitura morros. a partir da década passada tem sofrido significativa expansão em várias cidades do mundo. “Funkeiros” e “Houseanos” Os “funkeiros” são grupos de jovens que se constituem a partir do gênero musical “Funk”. demandando ações de seus chefes. tidos ou conhecidos como “donos do morro” já que se articulam e atuam nas áreas dominadas pelo tráfico. na verdade. a briga entre galeras pode atrair a presença da polícia e afastar os consumidores de drogas. Porém. Em termos comparativos se aproxima muito mais do conceito de gangues norte-americanas. alimentação. que àquele apresentado por Dubet. para impor respeito às regras. O que ressalta Guimarães. onde as relações têm por objetivo expandir os negócios do tráfico e. O poder das armas de fogo é a garantia do cumprimento de acordos firmados com e entre os traficantes. são instauradas regras e formas de comportamentos próprias daquele grupo. pois se organizam no território dominado pelo narcotráfico. A noção de território é bastante complexa e ultrapassa sua definição geográfica. medicamentos. é vista pelos membros das galeras em seu sentido tradicional. além de estarem associados às estruturas mais amplas do crime organizado. a violência é utilizada ainda pelas galeras. tais como a proteção contra outros bandidos. diferente do narcotráfico. nos anos de 89 e 90. segundo Guimarães. instituem sistemas próprios de poder. ligada à brutalidade. construção de quadra de esportes. por conseguinte ampliar o lucro imediato. portanto. Por exemplo. Algumas ações das galeras inclusive. oferecem “serviços” que. por outro lado. zona oeste. sendo o ensino diurno o universo da pesquisa. podemos encontrar similares nas torcidas organizadas de futebol3 . diferenciando-a do narcotráfico. as galeras têm na organização de seu próprio movimento o foco central de suas ações. onde foi pesquisado o universo do período noturno. O conceito de galera. Desarte. Apesar de não ser Revista Brasileira de Educação 253 . No caso brasileiro e restringindo-se à questão da sociabilidade. Além da manutenção e expansão dos territórios. Na organização do movimento o território ocupar lugar de destaque. é que não é essa base de sua constituição. além de um estilo próprio de vestimentas e indumentárias. Com a população. para defesa da honra que. permanecendo em tensão constante. Apesar de não ter sido explorada pela autora em toda complexidade que apresenta. é realmente uma nova contribuição aos estudos da sociabilidade juvenil no Brasil. É comum a sociedade estigmatizar os membros das galeras como bandidos e traficantes. podemos da tese extrair seu sentido como sendo um espaço para elaboração simbólica e construção da identidade desses jovens. A outra escola pesquisada localiza-se em Jacarepaguá. mas também pelo seu alto poder de organização e hierarquia interna. sobre as galeras francesas2 .

Apesar de habitarem as mesmas áreas dos funkeiros. o “baile” apresenta-se como principal meio de diversão. condições de vida e violência destas populações. apresentamse ora como protetor. padrões de comportamentos e. segundo Guimarães: ampliar o espaço controlado pelo tráfico e como forma de exercitar os “princípios e fazer valer os projetos organizativos das galeras” (p. procuram deles distinguirem-se. Contudo. esses movimentos estão presentes na escola levando-a a alterar suas formas de organização e. ouvir música. A escola perde. Durante a semana. ressalta a autora. a partir da relação que os jovens mantém com o baile. a escola significa a ampliação da área física para suas atividades e dos grupos sociais sob seu controle. de transmissão da educação letrada e na inculcação no sujeito das categorias e dos esquemas perceptivos que tornam possível o consenso cultural (p. a escola encontra-se em semelhante posição que as populações que residem nas áreas comandadas pelo narcotráfico: ora subjugada. tal conceito permite compreender os comportamentos e distanciamentos que se apresentam nas ruas do Rio de Janeiro. são indicativos da definição do “modo de ser” desses jovens. os padrões mais gerais que norteiam a organização da instituição escolar são rompidos. O cerco sobre a escola tem duas motivações. antes são sociabilizados no que a autora chamou de subcultura escolar. no que diz respeito às vestimentas. o que é mais grave. por aqueles que ainda não possuem idade. a autora nos apresenta o conceito “Cultura da Evitação”4 . o baile principalmente. Segundo a autora. Para a escola. A autora nos mostra. são jovens das galeras. a fim de estabelecer fronteiras no que diz respeito aos movimentos.132). Para melhor investigar a relação existente entre funkeiros e houseanos. 79). que a dança e a música. os funkeiros são membros das galeras. O baile é o acontecimento mais esperado e desejado pelos jovens. nos segmentos das classes médias em relação à população mais empobrecida. lugares. seu papel. a figura dos “donos do morro”. traficantes. as origens das brigas não são o resultados da ação direta dos traficantes. assistir televisão. Passa a não mais existir enquanto uma Instituição (no sentido sociológico do termo). Os “houseanos” são também grupos de jovens articulados em torno da música. Não constróem uma experiência escolar. Outras formas de lazer são apontadas: perambular pelas ruas com os amigos. principalmente. mas como uma organização tentando sobreviver. Para os traficantes. E. houseanos. ora mediador de grupos em conflito ou sintetizando as duas funções. normalmente. segundo ela. funkeiros. neste caso “house”. a autora nos mostra que no topo da hierarquia. antes passam pela “intermediação de outras esferas sociais das formas de organização dos jovens membros das galeras” (p. devemos retornar àquele que é o objeto da pesquisa realizada por Eloisa Guimarães. suas motivações. está o baile. A escola torna-se então. por aqueles que já o freqüentam ou. assim definido por Bourdieu5 . pois.40). conversar com os amigos. uma agenciadora de experiências que estão muito além das desejadas e atribuídas pela sociedade. como nos demais. segundo conclusão da autora. É nesse ambiente no qual as escolas pesquisadas estão mergulhadas negociando sua existência ou sobrevivência com o tráfico ou isolando-se da comunidade que. emprestado de Silva e Milito. Estes meios de diversão são hierarquizados pelos jovens e. jogos de rua. os jovens são sociabilizados a partir de processos e valores exteriores à escola. Nos jovens pesquisados pela autora. A diferença é em relação à escola as ações do narcotráfico são infinitamente mais discretas. A Escola Feita essa caracterização dos movimentos. bandidinhos. distante das demais. além de apresentar os encaminhamentos efetuados pela direção da escola. Eis o que a autora nos apresenta como sendo o grande desafio das escolas de contextos semelhantes aos aqui descritos: “encontrar formas de relacionamento e de convivência com os diferentes universos contidos em seu interior e 254 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . A escola apresenta-se como um dos espaços sociais do universo estudado. a autora relata de modo extremamente envolvente o “cerco” e a invasão da escola pelas galeras. Ao longo de mais de trinta páginas. Não são jovens “da” escola. ora protegida. a violência. aguardando ansiosamente o dia em que poderão frequentá-lo. impedindo-a de concretizar suas funções mais gerais atribuídas pela sociedade. Nesse sentido. Com relação ao narcotráfico. 6). as galeras e o narcotráfico estendem sobre ela suas redes de controle. presentes “na” escola. a partir de onde elas são desencadeadas. aliadas às formas de se vestir e os sistemas de deslocamentos em grupos aliados” (p.Notas de Leitura uma regra.

o trabalho. Torcidas organizadas de futebol. suas relações com a escola e com a sociedade mais ampla (família. LAPEYRONNIE. podem consumir os bens culturais que os identificam enquanto jovens. A escolha do período noturno na maioria das vezes se dá antes mesmo de se ter um trabalho e as causas principais são a repetência e o abandono da escola diurna. mas também porque pelo trabalho passam a ser respeitados e a ter autonomia em relação ao adulto. suas formas de socialização e sociabilidade no e pelo trabalho. sua expectativa. A tese de doutorado de Maria Ornélia Marques procura entender as novas formas de socialização e sociabilidade dos jovens das classes trabalhadoras moradoras da periferia das grandes cidades brasileiras e estudantes da escola noturna.Faculdade de Educação. Sérgio (org. etc. por meio da compreensão da relação desse aluno com a escola. O conteúdo das aulas é desprezado. o lazer. não levando em consideração o que há de mais específico no trabalhador. Les gangs aux États-Unis Bilan des recherches. Paris: Seuil. B. F. São Paulo: Editores Associados/ANPOCs. conseguem transformá-la em “locus” de sociabilidade. seja apontando um caráter positivo ou negativo na sua grande maioria tiveram como objeto um trabalhador abstrato. procurou traçar um perfil do aluno-trabalhador (de quinta à oitava série) de uma escola pública de 1º e 2º graus de três turnos de ensino da periferia de Salvador. A autora argumenta que as analises que colocaram o trabalho como referência central da análise da sociedade. Tese (Doutorado) — Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. S. No decorrer do texto vão sendo confirmadas as seguintes hipóteses: 1) A escola pública hoje não é mais freqüentada — como se pensava até então — por adultostrabalhadores e sim por jovens trabalhadores. São Paulo: Perspectiva: 1982b Manoel Rodrigues Portugues Mestrando . Maria Ornélia da Silveira. Notas 1 JANKOWSKI. (mimeo) 2 DUBET. A Economia das trocas simbólicas. La galère. Rio de Janeiro: Relume-Dumará. 1996 4 SILVA. sem abrir mãos de suas funções mais fundamentais” (p. Vozes do meio. lazer.). talvez porque esses estejam distantes da realidade cotidiana do educando. possibilidades de fazer novas amizades. 3) Os jovens procuram a escola como forma de “melhorar a vida” e a mesma propicia situações de afirmação de identidade. cap. Esses jovens que se inserem no primeiro momento no mercado de trabalho informal estão sempre oscilando entre o trabalho e a escola.). Os jovens subvertem a ordem da escola. São Paulo. criam um novo espaço de convivência. Relatório de Pesquisa. pois. 3 TOLEDO. habilitá-los para a participação ativa Revista Brasileira de Educação 255 . seus desejos. ampliam os horizontes de conhecimento. onde criam uma rede significativa de contatos e aprendizado (de grande peso na formação de sua identidade) e ainda essa escola representa a possibilidade de credenciá-lo (via “diploma”) para um trabalho melhor no futuro — uma vez que o mercado de trabalho tem exigido cada vez mais um alto grau de escolarização.Notas de Leitura que se manifestam no meio circundante. A autora parte do princípio que a função da escola — formar o cidadão através da socialização dos conhecimentos e habilidades básicas que possibilitem a decodificação das informações e valores transmitidos ao educando no seu cotidiano. etc. aspirações e como está sendo construída sua identidade desses múltiplos espaços. partindo de uma compreensão ampla (das diversas formas de construção da identidade) e não mais comparando-os aos movimentos juvenis da década de 60. 5 BOURDIEU. expectativas. 1992. tem como norte o trabalho formal para o qual a escola será um trampolim. MILITO. Para tanto. Universidade de São Paulo MARQUES. In: MICELLI. saúde.. Os jovens na escola noturna: uma nova presença. ou seja. aspirações. Reprodução cultural e reprodução social. 2) O mundo do trabalho não é mais uma referência central para analisar esses jovens-trabalhadores.. Partindo sempre de grandes categorias sociais. 6. D. jovens que se inserem no mercado de trabalho não só por uma questão de pobreza material. Porém. Cláudia. Hélio R. Les quarties d’exil. Luiz Henrique de. 13). 1995. Os dados mostram que a grande maioria dos estudantes do período noturno pesquisado está na faixa de 14 a 24 anos. 1992. Além do mais há uma grande parcela de jovens desempregados ou subempregados no mercado informal de trabalho o que dificulta uma analise desses jovens a partir do trabalho formal. mantém com o primeiro uma relação de relativa responsabilidade e autonomia. Pierre. a família. a cultura.

Diferente formas associativas bem particulares coexistem naquele local. Marialice e Martins. 256 Mai/Jun/Jul/Ago 1997 N º 5 Set/Out/Nov/Dez 1997 N º 6 . criou formas de atendimento que não deram conta de atender com qualidade os novos usuários.” (Abramo. e tendem a receber seu significado do primeiro. a autora considera importante começar por entender sua infância. Trata-se do Jovem Oratório. Universidade de São Paulo NAKANO. O cotidiano do Jardim Oratório. em um ambiente que pode ser considerado difícil dadas as precárias condições de infra-estrutura e situações permanentes de violência. nascida no local entre fins da década de 70. foram levantados processos combinados de socialização e dessocialização. mediados e tutelados por instituições como a Igreja Católica ou a família. eles compartilham valores. verificando-se entre os próprios jovens e entre instituições interferências recíprocas. no entanto. 1995. quer apareçam como confirmação. mas sempre entre eles. seu poder de subverter a ordem escolar. a autora procura pensar o processo de socialização de jovens.” (Berger. envolvendo jovens e algumas instituições. grupos montados a partir de objetivos específicos como aprender tricô ou tocar violão e grupos voltados para “fora”. canalizando a energia do jovem. o local é caracterizado por dois mundo bem delineados: os atores da urbanização da favela. Peter e Brigite. Tais formas associativas vão além dos limites da família e da casa. é com os adultos que os jovens aprendem a ser adultos (Foracchi. Marilena. início da de 80. O problema da pesquisa foi.. a União Popular e a Comissão da Terra. mas também os socializantes. questionando assim os fundamentos sociais da compreensão adulta de mundo.. pensar quais as possibilidades dos jovens desenvolverem ações e se constituírem coletivamente como sujeitos. como os rapazes do futebol ou da escola de samba. quer como sua negação e antítese. professores. foi necessário enveredar pelas diferentes formas associativas que esses jovens se mostraram capazes de produzir: ao se unirem em grupos. não se adequou à expansão. é como se eles pudessem ter uma relação nula com os funcionários.Departamento de Sociologia. solidariedade. ou seja.. A autora estudou a primeira geração de jovens do Jardim Oratório. visto que afeta não afeta o indivíduo socializado. aprendizado. composto por três associações de moradores — a Sociedade Amigos de Bairro (SAB). região da Grande São Paulo. ou seja. formando outros estratos. então. Nesse sentido. “A experiências posteriores [desses jovens] são sobrepostas às impressões básicas. para a exibição e representação do local em que vivem. com as regras escolares. José de S. a maior favela de Mauá. amizades. Maria Socorro G. todas com protagonistas diferentes e perspectivas distintas e o mundo da violência. não está marcado unicamente pelo mundo da violência e pela ação do movimento de urbanização da favela. A escola recebeu novos usuários com as velhas estruturas. 1994) Para estudar os vários grupos de jovens a autora fez um recorte contendo grupos localizados em espaços circunscritos. Uma vez não cumprindo a sua função a escola acaba sendo apropriada pelos alunos que fazem com que ela cumpra o papel de espaço relativamente barato de sociabilidade. ou vinda para lá ainda criança. processo esse que se dá exatamente no contato com esse mundo adultos. pois a chamada democratização da educação ocorrida a partir da década de 70 acabou por expandir uma caricatura da escola. À primeira vista. enfim com tudo que diz respeito a instituição escolar. Para entendê-la. Os educandos criam uma rede de ligações. Partindo da idéia de que a juventude é sensível à crise social — exatamente por não estar inserida no mundo adulto — crescer nas condições de vida proporcionadas pelo Jardim Oratório sem dúvida não é algo simples. Torquato Mestranda . visto que a “socialização não é um processo unilateral. de criar novas experiências independentes das instituições. Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. (Dissertação de Mestrado). Por fim o texto termina apontando a necessidade de escola encontrar novas funções. integrando vários jovens.Notas de Leitura e crítica na vida social e política não está sendo cumprida. já que pareceu-nos ser uma hipótese inicial da autora a possibilidade de “ruptura e recuperação do sentido social através de uma práxis inovadora “(p. In: Foracchi.um estudo dos jovens do Jardim Oratório.11) por parte desses jovens. É um processo recíproco. 1977). Com este trabalho. conteúdos programáticos. Para entender como se dão tais processos. Um primeiro dado instigante está exatamente no fato dos jovens não se engajarem com afinco no primeiro e na existência de razões que levam alguns poucos a buscarem o segundo. 1972). Jovens: vida associativa e subjetividade .

Les quarties déxil. DUBET. somado a naturalização de ser favelado. 1992. A não incorporação da subjetividade é explicativa desse processo. In: Les jeunes e les autres: contributions desenvolvimento sciences d l’homme à la question desenvolvimento jeunes. Dissertação (Mestrado em Educação) — Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Pedro Augusto Hercks Menin Doutorando . São Paulo: Brasiliense. 1996. Naucres