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Unidade 1 Sociedade dos indivíduos

Unidade 1 Sociedade dos indivíduos

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Capitulo-1-Os indivíduos, sua história e a sociedade
Nossas escolhas, seus limites e repercussões
Das questões individuais ás questoes sociais
Vizinhos e internautas

Capitulo-2- Processo de socialização
O que nos é comum
As diferenças no processo de socialização
Tudo começa na família
Os sonhos dos adolescentes

Capitulo-3- As relações entre indivíduo e sociedade
Karl Marx, os indivíduos e as classes sociais
Émilie Durkheim, as instituições e o indivíduo
Max Weber, o indivíduo e a ação social
Norbert Elias e Pierre Bourdieu: a sociedade dos indivíduos
Regras e exceção não têm mais regras
Capitulo-1-Os indivíduos, sua história e a sociedade
Nossas escolhas, seus limites e repercussões
Das questões individuais ás questoes sociais
Vizinhos e internautas

Capitulo-2- Processo de socialização
O que nos é comum
As diferenças no processo de socialização
Tudo começa na família
Os sonhos dos adolescentes

Capitulo-3- As relações entre indivíduo e sociedade
Karl Marx, os indivíduos e as classes sociais
Émilie Durkheim, as instituições e o indivíduo
Max Weber, o indivíduo e a ação social
Norbert Elias e Pierre Bourdieu: a sociedade dos indivíduos
Regras e exceção não têm mais regras

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conhecer a sociedade cientificamente? A Sociologia serve para quê?

Essas são perguntas que muitos alunos fazem quando encontram essa disciplina na grade curricular. E as perguntas no decorrer de nossos estudos. não param aí. Vamos procurar respondê-Ias

P

or que estudar a sociedade em que vivemos? Não basta vivê-Ia? É possível

O que se pode dizer, inicialmente, é que a Sociologia, assim como as demais ciências humanas (História, Ciência Política, Economia, Antropologia, etc.), tem como objetivo compreender e explicar as permanências e as transformações que ocorrem nas sociedades humanas e até indicar algumas pistas sobre os rumos das mudanças. Através dos tempos, os seres humanos buscam suprir suas necessidades

básicas mediante a produção não só de alimentos, abrigo e vestuário, mas também de normas, valores, costumes, relações de poder, arte e explicações sobre a vida e sobre o mundo. Viver em sociedade é participar dessa produção. Ao fazê-lo, acabamos produzindo a história das pessoas, dos grupos e das classes sociais. Por isso, a Sociologia tem uma estreita relação com a História. Basta dizer que precisamos de ambas para explicar a existência da própria Sociologia.

Das relações pessoais aos grandes conflitos mundiais, a Sociologia investiga os problemas que afetam o nosso cotidiano, evidenciando a estreita relação entre as questões individuais e as questões sociais. Imagem A: as Torres Gêmeas, em Nova York, Estados Unidos, momentos antes do segundo ataque de avião, em setembro de 2001. Imagem B: o conflito árabe-israelense suspenso no abraço de dois garotos, um palestino e outro judeu. Israel, 1993. Imagem C: mulher japonesa e seu filho em frente às lanternas do mausoléu de Yasukuni, erguido em 1869 em homenagem aos combatentes mortos em guerra. Tóquio, Japão, 2005. Imagem D: campo de refugiados da guerra civil de Ruanda. Tanzânia, 1994.

o estudo

da Socioloqie

I7

Mas qual é o campo de estudo específico da Sociologia? Para entender os elementos essenciais da sociedade em que vivemos, os sociólogos procuram dar respostas a questões como estas: • Por que as pessoas agem e pensam de uma forma e não de outra? • Por que nos relacionamos malmente padronizada? • Por que existe tanta desigualdade e desemprego em nosso cotidiano? • Por que existem a política e as relações de poder na sociedade? • Quais são nossos direitos e o que significa cidadania? • Por que existem movimentos sociais com interesses tão diversos? Esses movimentos são revolucionários ou apenas reformadores? de massa? • O que é cultura? Qual a relação entre cultura e ideologia? Como elas estão presentes nos meios de comunicação uns com os outros de determinada maneira, nor-

A Sociologia nos ajuda a entender melhor essas e outras questões que envolvem nosso cotidiano, sejam elas de caráter pessoal, grupal, ou, ainda, relativas à sociedade

à qual pertencemos ou a todas as sociedades. Mas o fundamental da Sociologia é
fornecer-nos conceitos e outras ferramentas para analisar as questões sociais e individuais de um modo mais sistemático e consistente, indo além do senso comum. Para Pierre Bourdieu, ciências humanas, pos se empenham que determinados
Onde está a autonomia de um indivíduo aprisionado aos meios de comunicação? A televisão é uma caixa vazia de conteúdo, como sugere a charge de Laerte? Poderia ser diferente? Questionando as situações do dia a dia, o pensamento sociológico estimula uma postura crítica em relação às vivências que nos condicionam e limitam.

sociólogo francês contemporâneo,

a Sociologia,

quando se coloca numa posição crítica, incomoda muito, porque, como outras revela aspectos da sociedade que certos indivíduos ou gruem ocultar. Se esses indivíduos e grupos procuram impedir atos e fenômenos sejam conhecidos do público, de alguma de tais fatos pode perturbar seus interesses ou mesmo

forma o esclarecimento

concepções, explicações e convicções. Ora, uma das preocupações da Sociologia é justamente formar indivíduos autônomos, que se transformem em pensadores independentes, capazes de analisar o noticiário, as novelas da televisão, os programas do dia a dia e as entrevistas das autoridades, percebendo o que se oculta nos discursos e formando o próprio pensamento e julgamento sobre os fatos, ou, ainda mais importante, que tenham a capacidade de fazer as próprias perguntas para alcançar um conhecimento mais preciso da sociedade à qual pertencem. Como bem lembrou o sociólogo estadunidense Charles Wright Mills, a Sociologia contribui também para desenvolver nossa imaginação sociológica, isto é, a capacidade de analisar nos.n 8
N

sas vivências cotidianas e estabelecer as relações entre elas e as situações mais amplas que nos condicionam e nos limitam, mas que também o filósofo inglês Alfred N. explicam o que acontece com nossa vida. Parafraseando Whitehead, podemos dizer que a Sociologia tem por objetivo fazer com que as pessoas possam ver e analisar o bosque e as árvores ao mesmo tempo.

81

A produção social do conhecimento
Todo conhecimento se desenvolve socialmente. Se quisermos conhecer e

compreender como pensavam as pessoas de determinada época, precisamos saber em que meio social elas viveram, pois o pensamento de um período da história é criado pelos indivíduos em grupos ou classes, reagindo e respondendo a situações históricas de seu tempo. Se quisermos saber por que os indivíduos, grupos e classes pensam de determinada forma, por que explicam a sociedade deste ou daquele ponto de vista, precisaremos entender como os membros dessas sociedades se organizaram e se organizam para suprir suas necessidades, relacionar-se e discutir as questões que envolvem as relações sociais, as normas, os valores, os costumes, as tradições e a religiosidade. Ou seja, deveremos entender como são criadas as instituições sociais, políticas e econômicas que permitem certa estabilidade social. Na maioria das sociedades, há indivíduos e grupos que defendem a manutenção da situação existente, o statu quo, porque este atende a seus interesses. Assim, procuram apoiar e desenvolver formas de explicação da realidade que justifiquem a necessidade de conservar a sociedade tal como está. Há pessoas, entretanto, que querem mudar a situação existente, pois não pensam que a sociedade à qual pertencem é boa para elas e para os outros. Tais pessoas procuram explicar a realidade social destacando os problemas dela e as possibilidades de mudança para uma forma de organização que assegure mais igualdade entre os indivíduos. Aqueles que querem manter a situação existente normalmente são os que detêm o poder na sociedade; aqueles que lutam para mudá-Ia são os que estão em situação subalterna. Além do conflito no campo político e econômico, há um conflito de ideias entre os diferentes grupos sociais. Mas as ideias e formas de conhecimento nunca são radicalmente opostas; elas coincidem em alguns pontos e em outros não, e é isso que mantém aberta a possibilidade de diálogo.
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À esquerda, charge inglesa de 1848 (autor desconhecido) satiriza a luta das mulheres pela igualdade de direitos, especialmente o direito ao voto, só conquistado em 1918; à direita, mulher vota nas primeiras eleições parlamentares do Afeganistão em 36 anos, em 2005. Apesar da obtenção do direito ao voto, as afegãs enfrentam uma situação de profunda desigualdade em relação aos homens: são forçadas pela tradição a cobrir o corpo e o rosto com a burca e a casar por determinação de suas famílias. A quem interessa manter a tradição?

A Sociologia é uma dessas formas de conhecimento, resultado das condições sociais, econômicas e políticas do tempo em que se desenvolveu. Ela nasceu em resposta à necessidade de explicar e entender as transformações que começaram a ocorrer no mundo ocidental entre o final do século XVIII e o início do século XIX, decorrentes da emergência e do desenvolvimento da sociedade capitalista.

o estudo

da Sociologia

I

9

Naquela época, a produção de alimentos e de objetos artes anais, que se concentrava no campo, passou a se deslocar para as cidades, onde começavam a se desenvolver as indústrias. Essa mudança desencadeou importantes transformações no modo de vida dos diferentes grupos sociais, afetando as relações familiares e de trabalho. Aos poucos, as normas e valores se estruturariam em novas bases, menos religiosas, estimulando o desenvolvimento de novas ideias. Grandes transformações políticas também ocorreram, no contexto do que se chama de Revolução Industrial, impulsionadas por movimentos como os da Independência dos Estados Unidos e da Revolução Francesa. Procurando entender essas transformações e mostrar caminhos para a resolução dos problemas por elas gerados, muitos pensadores escreveram e divulgaram suas teorias sobre a sociedade anterior e sobre a constituição da nova sociedade, que estava vivendo tantas incertezas. Criaram-se assim as bases sobre as quais a Sociologia viria a se desenvolver como uma ciência específica. Entre o final do século XIX e início do século XX, os estudiosos que mais iriam influenciar o posterior desenvolvimento da Sociologia concentravam-se fundamentalmente em três países: França, Alemanha e Estados Unidos. Na França, vários autores desenvolveram trabalhos sociológicos importantes; entre eles, Frédéric Le Play (1806-1882), René Worms (1869-1926) e Gabriel Tarde (1843-1904). O mais expressivo deles, porém, foi Émile Durkheim (1858-1917), que procurou sistematicamente definir o caráter científico da Sociologia, inaugurando uma corrente que por muito tempo seria hegemônica entre os sociólogos franceses. Na Alemanha, destacaram-se os estudos sociológicos de George Simmel (1858-1918), Ferdinand Tonnies (1855-1936), Werner Sombart (1863-1941), Alfred Weber (1868-1958) e Max Weber (1864-1920), este último o mais conhecido deles, pela extensão e influência de sua obra. Nos Estados Unidos da América, a Sociologia desenvolveu-se desde o fiA produção sociológica no Brasil encontra espaço não só nas escolas e universidades, mas também na mídia, acessível a quem quiser conhecê-Ia. Abaixo, capa da primeira edição de revista lançada em São Paulo, em 2007.

nal do século XIX e início do XX nas universidades de Chicago, de Colúmbia e de Harvard, principalmente. Muitos foram os sociólogos que se destacaram; entre eles, Robert E. Park (1864-1944) e George H. Mead (1863-1932). No decorrer do século XX, a Sociologia tornou-se uma disciplina mundialmente reconhecida. Os sociólogos estão presentes não só nas universidades, mas também nos meios de comunicação, discutindo questões específicas ou gerais que envolvem a vida em sociedade. Os mais destacados, independentemente do país de origem, ministram cursos e conferências em centros universitários de todos os continentes e têm seus livros traduzidos em

pescar?
D/teu.tlo.obre
tnOdlolo. dOI p.rt)j.IOI

peixes,
soelfli'abrali'-Irol

muitos idiomas. No Brasil, a Sociologia tem alcançado uma visibilidade muito grande, seja por causa da presença em todo o território nacional de institutos de pesquisa social ou cursos de graduação e de pós-graduação, seja pela atuação de sociólogos em muitos órgãos públicos e privados ou nos meios de comunicação de massa. Assim, a Sociologia e os sociólogos estão presentes no cotidiano do país. Se você quiser ler mais sobre a história da Sociologia, há no final deste livro uma exposição detalhada.

10 I

1. A Sociologia compreensão mos? Por quê? A Sociologia e a miséria humana
Levar à consciência os mecanismos tornam a vida dolorosa, que

é necessária

para

a

da sociedade em que vive-

2. No seu entendimento,
contribuir de pensamento

a Sociologia pode

para que haja mais liberdade e de ação?

inviável até, não é LIVROS RECOMENDADOS

neutralizá-Ios; explicar as contradições não é resolvê-Ias. Mas, por mais cético que se possa ser sobre a eficácia social da mensagem sociológica, não se pode anular o efeito que ela pode exercer ao permitir aos que sofrem que descubram a possibilidade de atribuir seu sofrimento a causas sociais e assim se sentirem desculpados; e fazendo conhecer amplamente a origem social, coletivamente oculta, da infelicidade sob todas as suas formas, inclusive as mais íntimas e as mais secretas.
BOURDIEU,

Introdução ao pensamento sociológico, de Ana Maria de Castro e Edmundo Fernandes Dias (orgs.). São Paulo: Centauro, 2001. Esse é um livro muito interessante, pois os organizadores procuram, por meio de textos de autores clássicos (Émile Durkheim, Max Weber, Karl Marx, Talcott Parsons) e de alguns de seus comentadores, conhecimento sociológico. de Carlos B. Martins. dar uma visão panorâmica das principais questões do

Pierre (coord.). A miséria do mundo.

Petrópolis: Vozes, 1997. p. 735.

Tarefa da Sociologia
Não há escolha entre maneiras "engajadas" e "neutras" sociologia de fazer sociologia. Uma

o que

é Sociologia,

São Paulo: Brasiliense, 2001.

descomprometida

é uma impos-

sibilidade. Buscar uma posição moralmente neutra entre as muitas marcas de sociologia hoje praticadas, marcas que vão da declaradamente libertária à francamente comunitária,

é um esforço vão. Os sociólogos só podem negar ou esquecer os efeitos de seu trabalho
Carlos Benedito Marfins

sobre a "visão de mundo", e o impacto dessa visão sobre as ações humanas singulares ou em conjunto, ao custo de fugir à responsabilidade de escolha que todo ser humano enfrenta diariamente. A tarefa da sociologia é assegurar que essas escolhas sejam verdadeiramente livres e que assim continuem, vez mais, enquanto durar a humanidade.
BAUMAN,

OQUEÉ SOCIOLOGIA
editora lnsiIiense Nesse pequeno livro da coleção "Primeiros passos" pode ser encontrada uma análise do surgimento da Sociologia e das várias correntes sociológicas que se foram constituindo. É uma boa leitura inicial para quem quer aprender um pouco mais de Sociologia, pois tem uma linguagem acessível e muito clara.

cada

Zygmunt.

Modernidade líquida.

Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 246.

Leituras e atividades

I

11

o indivíduo
de hoje. Quando organizaram

nunca teve tanta importância analisamos

nas sociedades como nos dias a noção de

as diversas formas de sociedade e como elas se percebemos que só na modernidade

historicamente,

indivíduo ganhou relevância. Entre os povos antigos, pouco valor se dava à pessoa única. A importância do indivíduo estava inserida no grupo a que pertencia (família, Estado, clã, (grega etc.). Basta analisar as sociedades tribais (indígenas), as da antiguidade havia sequer a hipótese de pensar em alguém desvinculado forma Protestante. Esse movimento -

e romana) e a medieval: apesar das diferenças naturais entre os indivíduos, não de seu grupo. A ideia de indivíduo começou a ganhar força no século XVI, com a Rereligioso definia o homem como um ser criado à imagem e semelhança de Deus, com quem podia se relacionar sem a necessidade de intermediários no caso, os clérigos cristãos. Isso significava passava a ter "poder". do capitalismo firmou-se e e de individualismo que o ser humano, individualmente, do pensamento definitivamente,

Mais tarde, no século XVIII, com o desenvolvimento liberal, a ideia de indivíduo

pois se colocava a felicidade humana no centro das atenções. da felicidade como um todo, mas de sua expressão de bens, de dinheiro No século XIX essa visão estava completamente o fato de a pessoa ser proprietária

Não se tratava, entretanto, material. Importava ou apenas de seu trabalho.

estabelecida, e a sociedade capitalista, consolidada.

Membros da Academia Real de Ciências e seus objetos de trabalho compõem a cena criada pelo pintor Henri Testelin em exaltação a Luís XIV. Até mesmo por tratar-se de total ficção, pois a obra data de 1667 e só em 1682 o rei visitaria a Academia, a composição é representativa da crescente valorização das ciências e, portanto, da autonomia do indivíduo em relação às explicações religiosas do mundo.

Mas como indivíduos e sociedade se tornam uma só engrenagem? A Sociologia dispõe de um conceito importante para investigar essa questão: sociacom mais detalhes no lização. O processo de socialização, que examinaremos

próximo capítulo, começa pela família, passa pela escola e chega aos meios de

Capítulo

1 • O indivíduo,

sua história

e a sociedade

I

13

comunicação,

mas inclui outros caminhos,

como o convívio com a comunipor relações que

dade do bairro ou da igreja, com o grupo que frequenta o clube ou participa das festas populares, etc. Afinal, nosso dia a dia é pontuado não se restringem que nascemos e VIvemos. a um único espaço, nem apenas ao bairro ou à cidade em

Nossas escolhas, seus limites e repercussões
Quando nascemos, já encontramos parâmetros. prontos valores, normas, costumes e práticas sociais. Também encontramos uma forma de produção da vida material que segue determinados Muitas vezes, não temos como interferir nem como fugir das regras já estabelecidas. A vida em sociedade é possível, portanto, porque as pessoas falam a mesma língua, são julgadas por determinadas leis comuns, usam a mesma moeda, além de ter uma história e alguns hábitos comuns, o que lhes dá um sentimento de pertencer a determinado O fundamental comum grupo. o que é de cada um eo por todos não estão separados; formam é entender que o individual-

o que é compartilhado

uma relação que se constitui conforme reagimos às situações que enfrentamos no dia a dia. Algumas pessoas podem ser mais passivas, outras mais ativas; algumas podem reagir e lutar, ao passo que outras se acomodam tâncias. Isso tudo é fruto das relações sociais. E é justamente que construímos indivíduos, estes também criam as circunstâncias. a sociedade em que vivemos. Se as circunstâncias às circunsformam os nesse processo

Dia de eleições em Canutama, pequena cidade do Amazonas, 1998. Em quem votar? A decisão é de cada eleitor, mas o processo de escolha passa pela influência da propaganda eleitoral, das conversas com amigos e parentes, das notícias e matérias divulgadas pelos meios de comunicação.

Existem vários níveis de interdependência grafia de cada pessoa por exemplo, o candidato por sua vez, é organizado

entre a vida privada -

a bioque,

e o contexto social mais amplo. Em uma eleição, no qual votamos está inscrito num partido, de uma forma previamente determinada pelas leis

vigentes naquele momento em nosso país. Ou seja, votamos em alguém que já foi escolhido pelos membros do partido, os quais se reuniram para decidir quem deveria ser seu candidato.

14

I

Unidade 1 • A sociedade dos indivíduos

Quando propaganda

decidimos votar ou não votar em alguém, prestamos atenção à política, conversamos com parentes e amigos, participamos de as notícias nos meios de comunicação. Portanto,

comícios, acompanhamos

as decisões que tomamos, em nossas relações com outras pessoas, têm ligação com decisões que já foram tomadas. As leis que regem os partidos políticos e as eleições foram decididas por pessoas (no caso, deputados consideradas quem as fez. Assim o indivíduo Entretanto, está de alguma maneira condicionado por decisões e escolhas que ocorrem fora de seu alcance, em outros níveis da sociedade. as decisões que a pessoa toma a conduzem a diferentes direções na sempre será resultado das decisões vida. Seja qual for, a direção seguida do indivíduo. As decisões de um indivíduo podem ções históricas, construindo representantes sabe como essas leis foram feitas, tampouco e senadores) de da sociedade. Mas, muitas vezes, o cidadão não quais foram os interesses

Ievá-Io a se destacar em certas situaas características individuais e

o que se costuma classificar como uma trajetória

de vida notável. No entanto, ao considerarmos afirmar que não existem determinismos

sociais, bem como os aspectos históricos da formação de uma pessoa, podemos históricos ou sociais que tornam alguns indivíduos mais "especiais" que outros, pois a história de uma sociedade é feita por todos os que nela vivem, uns de modo obstinado à procura de seus objetivos, outros com menos intensidade, questões que se apresentam poder de influir nas situações existentes. De acordo com Norbert Elias, a sociedade não é um baile à fantasia, em que cada um pode mudar a máscara ou a fantasia a qualquer momento. Desde o nascimento, estamos presos às relações que foram estabelecidas antes de nós durante nossa vida. e que existem e se estruturam mas todos procurando resolver as em seu cotidiano, conforme seus interesses e seu

Das questões individuais às questões sociais
Podemos chamar de questões sociais alguns problemas que vão além de nosso dia a dia como indivíduos, que não dizem respeito somente a nossa vida privada, mas estão ligados à estrutura de uma ou de várias sociedades. Éo caso do desemprego, por exemplo, que afeta milhões de pessoas em diversos grupos SOCIaIS. Um bom exemplo desse assunto é dado pelo sociólogo estadunidense

C. Wright Mills (1915-1962), que escreveu o livro A imaginação sociológica
(1959). Mills considera que, se numa cidade de 100 mil habitantes tratando as habilidades e potencialidades país com 50 milhões de trabalhadores de cada um. Entretanto, 5 milhões não encontram poucos indivíduos estão sem trabalho, há um problema pessoal, que pode ser resolvido se em um emprego, a

questão passa a ser social e não pode ser resolvida como um problema individual. Nesse caso, a busca de soluções passa por uma análise mais profunda da estrutura econômica e política dessa sociedade.

Capítulo 1 • O indivíduo, sua história e a sociedade

I

15

Existem também situações que afetam o cotidiano das pessoas e que são ocasionadas por acontecimentos a chamada que atingem a maioria dos países: por exemplo, a crise de 1929, que levou ao colapso todo o sistema financeiro mundial; Crise do Petróleo, em 1973, provocada pela elevação súbita dos do mundo; o ataque, em 11 de setembro de a relação do o cotidiano preços da principal matéria-prima

2001, às Torres Gêmeas em Nova York, que alterou substancialmente dos Estados Unidos com os outros países e, principalmente, cidadão estadunidense.

Flagrantes de acontecimentos que afetaram a história mundial e o cotidiano de milhões de indivíduos: acima, trabalhos de resgate na manhã de 11 de setembro de 2001, após o ataque às Torres Gêmeas, em Nova York, nos Estados Unidos; acima à direita, fila de desempregados em Chicago, nos Estados Unidos, em fevereiro de 1931, uma imagem da depressão financeira desencadeada pela quebra da Bolsa de Nova York; ao lado, nervosismo na Bolsa de Tóquio, no Japão, em 27 de dezembro de 1973, dia seguinte ao anúncio do aumento dos preços do petróleo pelos árabes.

Podemos perceber, assim, que acontecimentos dentes de nossa vontade nos atingem fortemente. foram resultado de uma configuração

completamente

indepen-

No entanto, é importante

destacar que, tanto em 1929 como em 1973 e em 2001, os eventos mencionados social criada pelas decisões de algumas pessoas, que provocaram situações que foram muito além de suas expectativas. Essas situações, além de afetar as relações políticas, econômicas e financeiras de todos os países, também prejudicaram até na satisfação de suas necessidades, combustível. indivíduos em muitos lugares, de alimentos e de como o consumo

Esses pontos, que estão presentes na biografia de cada um de nós, fazem parte da história da sociedade em que vivemos e, muitas vezes, assumem forma ainda mais ampla. Tomar uma decisão é algo individual tempo, sendo impossível separar esses planos. e social ao mesmo

16

I

Unidade

1 • A sociedade

dos indivíduos

Cenário

DA SOCIABILIDADE

COTIDIANA

Vizinhos e internautas

R

io de Janeiro -

Estudiosos do comportamento

humano na vida moderna constatam

que um

dos males de nossa época é a incomunicabilidade

das pessoas. Já foi tempo em que, mesmo nas

grandes cidades, nos bairros residenciais, ao cair da tarde era costume os vizinhos se darem boa-noite, levarem as cadeiras de vime para as calçadas e ficar falando da vida, da própria e da dos outros. A densidade tos, a violência demográfica, os apartamen-

urbana, o rádio e mais tarde a

TV ilharam cada indivíduo no casulo doméstico. Moro há 18 anos num prédio da Lagoa; tirante os raros e inevitáveis cumprimentos de praxe no

elevador ou na garagem, não falo com eles nem eles comigo. Não sou exceção. Nesse lamentável departamento, sou regra.

Daí que não entendo a pressão que volta e meia me fazem para navegar na Internet. Um dos argumentos que me dão é que posso falar com

pessoas na Indonésia, saber como vão as colheitas de arroz na China e como estão os melões na Espanha. Uma de minhas filhas vangloria-se de ser internauta. Tem amigos na Pensilvânia e arranjou

um admirador em Dublin, terra do Joyce, do Bernard Shaw e do Oscar Wilde. Para convencê-Ia de seus méritos, ele mandou uma foto em cor que foi impressa em alta resolução. É um jovem simpático, de bigode, cara honesta. Pode ser que tenha mandado a foto de um outro. Lembro a correspondência sentimental das velhas revistas de antanho. Havia sempre a promessa: "Troco fotos na primeira carta". Nunca ouvi dizer que uma dessas trocas tenha tido resultado aproveitável. Para vencer a incomunicabilidade, acredito que o internauta deva primeiro aprender a se comunicar

com o vizinho de porta, de prédio, de rua. Passamos uns pelos outros com o desdém de nosso silêncio, de nossa cara amarrada. Os suicidas se realizam porque, na hora do desespero, falta o vizinho que lhe deseje sinceramente uma boa noite.
(ONY,

(arlos Heitor. Vizinhos e internautas. Folha de S.Paulo, 26 jun. 1997. Opinião, p. A2.

1.

No texto, Carlos Heitor Cony fala de mudanças No lugar onde você vive, ocorreram mudanças

que ocorreram importantes

nas cidades nos últimos anos.

nos últimos trinta anos? Analise-as

e verifique se elas alteraram o modo de vida e as relações entre as pessoas.

2. Você pensa que as mudanças na sociedade podem influir no comportamento
da família, da escola ou de outros grupos de convívio? De que forma?

das pessoas no espaço

3. A internet nos aproxima de muitas pessoas que com frequência nem conhecemos,
nos distancia de quem está perto de nós. O que você pensa disso?

mas parece que

Capítulo 1 • O indivíduo, sua história e a sociedade

I

17

No capítulo anterior vimos como o indivíduo atua na sociedade e como a sociedade atua na vida do indivíduo. O processo pelo qual os indivíduos formam a sociedade e são formados por ela é chamado de socialização. A imagem que melhor descreve esse processo é a de uma rede tecida por relações sociais que vão se entrelaçando a sociedade. Cada indivíduo, ao fazer parte de uma sociedade, insere-se em múltiplos grupos e instituições que se entrecruzam, como a família, a escola e a Igreja. porque forma uma complexa E, assim, o fio da meada parece interminável individualidade, e compondo diversas outras relações até formar toda

rede de relações que permeia o cotidiano. Ainda que cada sujeito tenha sua esta se constrói no contexto das relações sociais com os diferentes grupos e instituições dos quais ele participa, tendo por isso experiências semelhantes ou diferentes das de outras pessoas.

o que

nos é comum

Ao nascer, chega-se a um mundo que já está pronto, e essa relação com o "novo" é de total estranheza. A criança vai sentir frio e calor, conforto e desconforto, vai sorrir e chorar; enfim, vai se relacionar e conviver com o mundo externo. Para viver nesse mundo, ela vai aprender a conhecer seu corpo, seja observando e tocando partes dele, seja se olhando no espelho. Nesse momento ainda não se reconhece como pessoa, pois não domina os códigos sociais; é o "nenê", um ser genérico. Com o tempo, a criança percebe que existem outras coisas a seu redor: o berço (quando o tem), o chão (que pode ser de terra batida, de cimento, de tábuas ou de mármore tios, avós com tapetes) e os objetos que compõem pessoas o ambiente em que vive. Percebe que existem também nomes como José, Maurício, pai, mãe, irmãos, de amigos

com as quais vai ter de se relacionar.

Vê que há outras com

Solange, Marina, que são chamadas

ou colegas. Passa, então, a diferenciar medida que cresce, vai descobrindo não pode fazer. Posteriormente

as pessoas da família das demais. À pelas normas

que há coisas que pode fazer e coisas que

saberá que isso é determinado

e costumes da sociedade à qual pertence. No processo de conhecimento do mundo, a criança observa que alguns dias são diferentes dos outros. Há dias em que os pais não saem para trabalhar e ficam em casa mais tempo. São ocasiões em que assiste mais à televisão, vai passear em algum parque ou outro lugar qualquer. Em alguns desses dias nota que vai a um lugar diferente, (no caso de os pais praticarem que mais tarde identificará como igreja uma religião). Nos outros dias da semana vai

à escola, onde encontra crianças da mesma idade e também outros adultos.

18

I

Unidade 1 • A sociedade dos indivíduos

A criança vai entendendo que, além da casa e do bairro onde reside, existem outros lugares, uns parecidos com o local em que vive e outros bem diferentes; alguns próximos e outros distantes; alguns grandes e outros pequenos; alguns suntuosos e outros humildes ou miseráveis.

De bebês a adultos, em seu caminho de descoberta do mundo, todos os integrantes de uma sociedade passam pelo processo de socialização. Cena registrada em escola de Carolina do Norte, Estados Unidos.

Ao viajar ou assistir à televisão, a criança perceberá que existem cidades enormes e outras bem pequenas, novas e antigas, bem como áreas rurais, com poucas casas, onde se cultivam os alimentos país, que normalmente que ela consome. Aos poucos, saberá que cidades, zonas rurais, matas e rios fazem parte do território de um é dividido em unidades menores (no caso brasileiro elas são chamadas de estados). Nessa "viagem" do crescimento, a criança aprenderá que há os continentes, os oceanos e os mares, e que tudo isso, com a atmosfera, constitui o planeta Terra, que, por sua vez, está vinculado a um sistema maior, o sistema solar, o qual se integra numa galáxia. Esse processo de conviver com a família e com os vizinhos, de frequentar a escola, de ver televisão, de passear e de conhecer novos lugares, coisas e pessoas compõe um universo cheio de faces no qual a criança vai se socializando, isto é, vai aprendendo e interiorizando palavras, significados e ideias, enfim, os valores e o modo de vida da sociedade da qual faz parte.

As diferenças no processo de socialização
Entender a sociedade em que vivemos significa saber que há muitas diferenças e que é preciso olhar para elas. É muito diferente nascer e viver numa favela, num bairro rico, num condomínio formas diferentes de socialização. Ao tratar de diferenças, temos também de vê-Ias no contexto histórico. diferente da dos anos 1950. A socialização dos dias atuais é completamente fechado ou numa área do sertão nordestino exposta a longos períodos de seca. Essas desigualdades promovem

Naquela época, a maioria da população vivia na zona rural ou em pequenas

Capítulo

2 • O processo

de socialização

I

19

cidades. As escolas eram pequenas e tinham poucos alunos. A televisão estava iniciando no Brasil e seus programas eram vistos por poucas pessoas. Não havia internet e a telefonia era precária. Ouvir rádio era a principal forma de tomar conhecimento do que acontecia em outros lugares do país e do mundo. As pessoas relacionavam-se quase somente com as que viviam próximas e estabeleciam fortes laços de solidariedade entre si. Escrever cartas era muito comum, pois constituía a forma mais prática de se comunicar nos setores de comunicação transformações e informação, a distância. N o decorrer da segunda metade do século XX, os avanços tecnológicos o aumento da produção industrial grandes e do consumo e o crescimento da população urbana desencadearam

no mundo inteiro. Em alguns casos, alterações econômicas e

políticas provocaram a deterioração das condições de vida e organização social, gerando situações calamitosas. Em vários países do continente africano, milhares de pessoas morreram de fome ou se destruíram em guerras internas (o que continua a acontecer). Na antiga Iugoslávia, no continente europeu, grupos étnicos entraram em conflitos que mesclavam questões políticas, econômicas e culturais e, apoiados ou não por outros países, mataram-se durante muitos anos numa diferente de viver guerra civil. Nascer e viver nessas condições é completamente permanente"

no mesmo local com paz e tranquilidade. A socialização das crianças "em guerra (quando conseguem sobreviver) é afetada profundamente.

Acima, cena registrada em região turística da Costa Rica, em 2007; ao lado, fotografia tirada em Anata, bairro palestino de Jerusalém, em julho de 2005. Como a guerra ou a paz, a miséria ou a abundância podem afetar a socialização das crianças?

Tudo começa na família
Mesmo considerando todas as diferenças, há normalmente um processo

de socialização formal, conduzido por instituições, como escola e Igreja, e um processo mais informal e abrangente, que acontece inicialmente na família, na vizinhança, nos grupos de amigos e pela exposição aos meios de comunicação. O ponto de partida é a família, o espaço privado das relações de intimidade e afeto, em que, geralmente, podemos encontrar alguma compreensão e refúgio, apesar dos conflitos. É o espaço onde aprendemos a obedecer a regras de convivência, a lidar com a diferença e a diversidade.

20

I

Unidade

1 • A sociedade

dos indivíduos

Os espaços públicos de socialização são todos os outros lugares que frequentamos em nosso cotidiano. Neles, as relações são diferentes, pois convivemos com pessoas que muitas vezes nem conhecemos. Nesses espaços públicos, não podemos fazer muitas das coisas que em casa são permitidas, e precisamos observar as normas e regras próprias em cada situação. Nos locais de culto religioso, por exemplo, devemos fazer silêncio; na escola, onde ocorre a chamada' educação formal, precisamos ser pontuais nos horários de entrada e saída, e assim por diante. Há, entretanto, agentes de socialização que estão presentes tanto nos eso cinema, paços públicos como nos privados: são os meios de comunicação -

a televisão, o rádio, os jornais, as revistas, a internet e o telefone celular. Estes talvez sejam os meios de socialização mais eficazes e persuasivos (sobre eles, falaremos com mais detalhes na unidade 6 "Cultura e ideologia").

Cenários

DA SOCIABILIDADE

CONTEMPORÂNEA

Os sonhos dos adolescentes

A

o longo de 30 anos de clínica, encontrei várias gerações de adolescentes (a maioria, mas não todos, de classe média) e, se tivesse que comparar os jovens de hoje com os de dez ou 20 anos

atrás, resumiria assim: eles sonham pequeno. É curioso, pois, pelo exemplo de pais, parentes e vizinhos, os jovens de hoje sabem que sua origem não fecha seu destino: sua vida não tem que acontecer necessariamente no lugar onde nasceram, sua profissão não tem que ser a continuação da de seus pais. Pelo acesso a uma proliferação extraordinária de ficções e informações, eles conhecem uma plural idade inédita de vidas possíveis. Apesar disso, em regra, os adolescentes e os pré-adolescentes de hoje têm devaneios sobre seu futuro muito parecidos com a vida da gente: eles sonham com um dia a dia que, para nós, adultos, não é sonho algum, mas o resultado (mais ou menos resignado) de compromissos e frustrações. Um exemplo. Todos os jovens sabem que Greenpeace é uma ONG que pratica ações duras e aventurosas em defesa do meio ambiente. Alguns acham muito legal assistir, no noticiário, à intrépida abordagem de um baleeiro por um barco inflável de ativistas. Mas, entre eles, não encontro ninguém " (nem de 12 ou 13 anos) que sonhe em ser militante do Greenpeace. Os mais entusiastas se propõem a estudar oceanografia ou veterinária, mas é para ser professor, funcionário ou profissional liberal. Eles são "razoáveis": seu sonho é um ajuste entre suas aspirações heroico-ecológicas concretas (segurança do emprego, plano de saúde e aposentadoria). [...] perdido e as "necessidades"

É possível que, por sua própria presença maciça em nossas telas, as ficções tenham sua função essencial e sejam contempladas não como um repertório arrebatador

de vidas posOs heróis

síveis, mas como um caleidoscópio percorrem o mundo matando

para alegrar os olhos, um simples entretenimento. defendendo enquanto, causas e encontrando

dragões,

amores solares, mas

eles não nos inspiram: eles nos divertem, [...] com os amigos.

comportada mente, aspiramos a um churrasco

Capítulo 2 • O processo de socialização

I

21

É também possível (sem contradizer a hipótese anterior) que os adultos não saibam mais sonhar muito além de seu nariz. Ora, a capacidade de os adolescentes inventarem seu futuro depende dos sonhos aos quais nós renunciamos. Pode ser que, quando eles procuram, nas entrelinhas de nosda

sas falas, as aspirações das quais desistimos, eles se deparem apenas com versões melhoradas mesma vida acomodada que merece.
CALLlGARIS, Contardo. Os sonhos dos adolescentes. Folha de S.Paulo, 11 jan. 2007. Ilustrada, p. ElO.

que, mal ou bem, conseguimos

arrumar. Cada época tem os adolescentes

1.

Será que o autor tem razão? Os jovens só querem um emprego seguro e bem pago, e nada mais?

2. Os jovens de hoje têm a capacidade de reagir com vigor às injustiças, à degradação ambiental ou
à morte de pessoas cotidianamente, pela violência ou pela falta de assistência médica? qual a bandeira a ser levantada?

3. Conformismo

ou resistência e ação alternativa:

Socialização por fragmentos

N

o primeiro capítulo de seu livro Visões da tradição sociológica, o sociólogo estadunidense Donald Levine discute uma das características do nosso tempo: a visão fragmentária do mundo. Seu

texto inspira uma reflexão sobre o processo de socialização tal como ocorre hoje. Cada vez mais, a socialização acontece em pequenos fragmentos. A televisão despeja imagens e as pessoas "zapeiarn" de canal em canal. A leitura de livros é substituída resenhas publicadas nos periódicos, em revistas semanais. Os computadores apresentam pela de resumos ou de como se fossem quando não apenas por frases e parágrafos soltos destacados as notícias e informações demonstram Os pais entregam os filhos para as escolas e acrediuma capacidade reduzida para ou processual do que está

todas iguais e tivessem a mesma importância. tam que com isso os estão educando. argumentar acontecendo, com fundamento

Os estudantes

e"'quase não têm uma visão histórica

pois, como nos diz Eric Hobsbawm,

para eles até a Guerra do Vietnã é pré-histórica, e ultrapassados, um peso para os familiares,

o que evidencia não apenas ignorância do passado, mas também falta de um senso de relação histórica. Os mais velhos são considerados improdutivos o novo que aparece a todo instante. como se não pudessem mais dizer ou ensinar algo aos mais novos. O que importa é o momento e

1. É possível um processo de socialização que não leve em conta a experiência acumulada? Explique. 2. As mudanças atualmente são tão radicais que o que foi escrito e pensado pelos que nos antecederam
pouco servem hoje?

3. Como você interpreta

a fragmentação

a que se refere o texto? O quadro pintado ou a realidade é essa mesmo?

no texto está

muito carregado de tintas escuras e de pessimismo,

22

Unidade 1 • A sociedade dos indivíduos

Entre os estudiosos que se preocuparam Marx, Émile Durkheim, capítulo examinaremos indivíduos se relacionam.

em analisar a relação do indiví-

duo com a sociedade, destacam-se autores clássicos da Sociologia, como Karl Max Weber, Nobert Elias e Pierre Bourdieu. Neste as diferentes perspectivas adotadas por esses autores da sociedade e a maneira como os

para analisar o processo de constituição

Karl Marx, os indivíduos e as classes sociais
Para o alemão Karl Marx (1818-1883), os indivíduos devem ser analisados de acordo com o contexto de suas condições e situações sociais, já que produzem sua existência em grupo. O homem primitivo, segundo ele, diferenciava-se dos outros animais não apenas pelas características dendo-se e criando instrumentos, existência no grupo social. Ainda segundo Marx, a ideia de indivíduo isolado só apareceu efetivamente na sociedade de livre concorrência, ou seja, no momento em que as condições históricas criaram os princípios da sociedade capitalista. Tomemos um exemplo simples dessa sociedade. Quando mana e que tem determinados um operário é aceito numa empresa, assina um contrato do qual consta que deve trabalhar tantas horas por dia e por sedeveres e direitos, além de um salário mensal. Nesse exemplo, existem dois indivíduos se relacionando: o operário, que vende sua força de trabalho, e o empresário, que compra essa força de trabalho. Aparentemente se trata de um contrato de compra e venda entre iguais. Mas só pois o "vendedor" não escolhe onde nem como vai trabalhar. aparentemente, biológicas, mas também sua história e sua por aquilo que realizava no espaço e na época em que vivia. Caçando, defenos indivíduos construíram

As condições já estão impostas pelo empresário e pelo meio social. Essa relação entre os dois, no entanto, não é apenas entre indivíduos, mas também entre classes sociais: a operária e a burguesa. Eles só se relacionam, nesse caso, por causa do trabalho: cionamento o empresário precisa da força de trabalho esse relado operário e este precisa do salário. As condições que permitem

são definidas pela luta que se estabelece entre as classes, com a

intervenção do Estado, por meio das leis, dos tribunais ou da polícia. Essa luta vem se desenvolvendo há mais de duzentos anos em muitos países e nas mais diversas situações, pois empresários e trabalhadores segundo Marx, normalmente são a favor dos capitalistas. têm interesses opostos. O Estado aparece aí para tentar reduzir o conflito, criando leis que, O foco da teoria de Marx está, assim, nas classes sociais, embora a questão do indivíduo também esteja presente. Isso fica claro quando Marx afirma que os seres humanos constroem sua história, mas não da maneira que querem,

Capítulo 3 • As relações entre indivíduo e sociedade

I

23

pois existem situações anteriores

que condicionam

o modo como ocorre a

construção. Para ele, existem condicionantes os grupos e as classes para determinados de reagir a esses condicionamentos

estruturais que levam o indivíduo,

caminhos; mas todos têm capacidade

e até mesmo de transforrnã-los.

o "homem real" faz a História: populares invadem a Assembleia Constituinte da França em 15 de maio de 1848, para forçáIa a manter suas conquistas democráticas e sociais. Pintura de autor desconhecido, s.d.
Marx se interessou por estudar as condições de existência de homens reais na sociedade. O ponto central da sua análise está nas relações estabelecidas em determinada classe e entre as diversas classes que compõem a sociedade. Para ele, só é possível entender as relações dos indivíduos com base nos antagonismos, nas contradições e na complementaridade entre as classes sociais. Assim, de acordo com Marx, a chave para compreender a vida social contemporânea está na luta de classes, que se desenvolve à medida que homens e mulheres procuram satisfazer suas necessidades, "oriundas do estômago ou da fantasia".

Os indivíduos e a história
A História não faz nada, "não possui nenhuma riqueza imensa", "não luta
nenhum tipo de luta"! Quem faz tudo isso, quem possui e luta é, muito antes, o homem, o homem real, que vive; não é, por certo, a "História", que utiliza o homem

como meio para alcançar seus fins -,
MARX,

como se se tratasse de uma pessoa à parte
2003. p. 111.

pois a História não é senão a atividade do homem que persegue seus objetivos.
Karl e ENGELS, Friedrich. A sagrada família. São Paulo: Boitempo,

Émile Durkheim, as instituições e o indivíduo
Para o fundador da escola francesa de Sociologia, Émile Durkheim (1858-

1917), a sociedade sempre prevalece sobre o indivíduo, dispondo de certas regras, normas, costumes e leis que asseguram sua perpetuação. Essas regras e leis inde-

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I

Unidade 1 • A sociedade dos indivíduos

Entre os estudiosos que se preocuparam Marx, Émile Durkheim, capítulo examinaremos indivíduos se relacionam. Karl Marx, os indivíduos

em analisar a relação do indiví-

duo com a sociedade, destacam-se autores clássicos da Sociologia, como Karl Max Weber, Nobert Elias e Pierre Bourdieu. Neste as diferentes perspectivas adotadas por esses autores da sociedade e a maneira como os

para analisar o processo de constituição

e as classes sociais

Para o alemão Karl Marx (1818-1883), os indivíduos devem ser analisados de acordo com o contexto de suas condições e situações sociais, já que produzem sua existência em grupo. O homem primitivo, segundo ele, diferenciava-se dos outros animais não apenas pelas características dendo-se e criando instrumentos, existência no grupo social. Ainda segundo Marx, a ideia de indivíduo isolado só apareceu efetivamente na sociedade de livre concorrência, simples dessa sociedade. Quando mana e que tem determinados ou seja, no momento em que as condições um operário é aceito numa empresa, assina históricas criaram os princípios da sociedade capitalista. Tomemos um exemplo um contrato do qual consta que deve trabalhar tantas horas por dia e por sedeveres e direitos, além de um salário mensal. Nesse exemplo, existem dois indivíduos se relacionando: o operário, que vende sua força de trabalho, e o empresário, que compra essa força de trabalho. Aparentemente se trata de um contrato de compra e venda entre iguais. Mas só pois o "vendedor" não escolhe onde nem como vai trabalhar. aparentemente, biológicas, mas também sua história e sua por aquilo que realizava no espaço e na época em que vivia. Caçando, defenos indivíduos construíram

As condições já estão impostas pelo empresário e pelo meio social. Essa relação entre os dois, no entanto, não é apenas entre indivíduos, mas também entre classes sociais: a operária e a burguesa. Eles só se relacionam, nesse caso, por causa do trabalho: cionamento o empresário precisa da força de trabalho esse relado operário e este precisa do salário. As condições que permitem

são definidas pela luta que se estabelece entre as classes, com a

intervenção do Estado, por meio das leis, dos tribunais ou da polícia. Essa luta vem se desenvolvendo há mais de duzentos anos em muitos países e nas mais diversas situações, pois empresários e trabalhadores segundo Marx, normalmente são a favor dos capitalistas. têm interesses opostos. O Estado aparece aí para tentar reduzir o conflito, criando leis que, O foco da teoria de Marx está, assim, nas classes sociais, embora a questão do indivíduo também esteja presente. Isso fica claro quando Marx afirma que os seres humanos constroem sua história, mas não da maneira que querem,

Capítulo 3 • As relações entre indivíduo e sociedade

I

23

pendem do indivíduo e pairam acima de todos, formando uma consciência coletiva que dá o sentido de integração entre os membros da sociedade. Elas se solidificam em instituições, que são a base da sociedade e que correspondem, nas palavras de Durkheim, a "toda crença e todo comportamento instituído pela coletividade". A família, a escola, o sistema judiciário e o Estado são exemplos de instituições que congregam os elementos essenciais da sociedade, dando-lhe sustentação e permanência. funcionamento". consequentemente, Durkheim dava tanta importância às instituições que definia das instituições e, a Sociologia como "a ciência das instituições sociais, de sua gênese e de seu

Para não haver conflito ou desestruturação mas vagarosamente

da sociedade, a transformação dos costumes e normas nunca ao longo de gerações e gerações. na herança passada por intermédio e controlado

é feita individualmente,

A força da sociedade está justamente

da educação às gerações futuras. Essa herança são os costumes, as normas e os valores que nossos pais e antepassados deixaram. Condicionado pelas instituições, não desestabilizar a vida comunitária; cada membro de uma sociedade sabe como deve agir para sabe também que, se não agir da forma da falta cometida. o sistema

estabelecida, será repreendido ou punido, dependendo

O sistema penal é um bom exemplo dessa prática. Se algum indivíduo comete determinado crime, deve ser julgado pela instituição competente judiciário -, que aplica a penalidade correspondente. O condenado é retirado

da sociedade e encerrado em uma prisão, onde deve ser reeducado (na maioria das vezes não é isso o que acontece) para ser reintegrado ao convívio social. Diferentemente de Marx, que vê a contradição e o conflito como elementos essenciais da sociedade, Durkheim coloca a ênfase na coesão, integração e madas relações sociais, ou por nutenção da sociedade.'Para ele, o conflito existe basicamente pela anomia, isto é, pela ausência ou insuficiência da normatização falta de instituições que regulamentem da sociedade comunidade fundamentais essas relações. Ele considera o processo e assegura

de socialização um fato social amplo, que dissemina as normas e valores gerais para a socialização das crianças a difusão de ideias que formam um conjunto homogêneo, fazendo com que a permaneça integrada e se perpetue no tempo.

A sociedade, a educação e os indivíduos
[...) cada sociedade, considerada num momento determinado volvimento, do seu desentem um sistema de educação que se impõe aos indivíduos como

uma força geralmente irresistível. É inútil pensarmos que podemos criar os nossos filhos como queremos. Há costumes com os quais temos que nos conformar; se os infringimos, eles vingam-se em nossos filhos. Estes, uma vez adultos, não se encontrarão em condições de viver no meio dos seus contemporâneos, com

os quais não estão em harmonia. Quer tenham sido criados com ideias muito arcaicas ou muito prematuras, não importa; tanto num caso como noutro, não são do seu tempo e, por conseguinte, não estão em condições de vida normal.

Capítulo 3 • As relações entre indivíduo e sociedade

I

25

Há pois, em cada momento do tempo, um tipo regulador de educação de que não podemos desligar sem chocar com as vivas resistências que reprimem as veleidades das dissidências.
DURKHEIM,

Émile. Educação e sociologia. Lisboa

Edições 70, 2001.

p.

47.

Max Weber,

O

indivíduo e a ação social
diferentemente de Durkheim, tem

o alemão

Max Weber (1864-1920), central compreender

como preocupação

o indivíduo e suas ações. Por que as mas não é algo externo

pessoas tomam determinadas

decisões? Quais são as razões para seus atos?

Segundo esse autor, a sociedade existe concretamente, reciprocamente. Assim, Weber, partindo

e acima das pessoas, e sim o conjunto das ações dos indivíduos relacionando-se do indivíduo e de suas motivações, pretende compreender se comunicar, a sociedade como um todo.

O conceito básico para Weber é o de ação social, entendida como o ato de de se relacionar, tendo alguma orientação quanto às ações dos e até desconhecidos. Como o próprio Weber exernplioutros. "Outros", no caso, pode significar tanto um indivíduo apenas como vários, indeterminados fica, o dinheiro é um elemento de intercâmbio que alguém aceita no processo de troca de qualquer bem e que outro indivíduo utiliza porque sua ação está orientada pela expectativa de que outros tantos, conhecidos ou não, estejam dispostos a também aceita-lo como elemento de troca. Seguindo esse raciocínio, Weber declara que a ação social não é idêntica a uma ação homogênea de muitos indivíduos. Ele dá um exemplo: quando estão caminhando na rua e começa a chover, muitas pessoas abrem seus guarda-chunão está orientada pela dos vas ao mesmo tempo. A ação de cada indivíduo

demais, mas sim pela necessidade de proteger-se da chuva. Weber também diz que a ação social não é idêntica a uma ação influen-

ciada, que ocorre muito frequentemente
Quando há uma grande aglomeração,

nos chamados fenômenos de massa. quando se reúnem muitos indivíduos por comportamentos grupais, isto

por alguma razão, estes agem influenciados é, fazem determinadas

coisas porque todos estão fazendo.

Max Weber, ao analisar o modo como os indivíduos agem e levando em conta a maneira como eles orientam suas ações, agrupou as ações individuais em quatro grandes tipos, a saber: ação tradicional, ação afetiva, ação racional

com relação a valores e ação racional com relação a fins.
A ação tradicional tem por base um costume arraigado, a tradição familiar ou um hábito. É um tipo de ação que se adota quase automaticamente, sempre se faz deste jeito" exemplificam A ação afetiva tem por fundamento tais ações. os sentimentos de qualquer ordem. O reagindo a estímulos habituais. Expressões como "Eu sempre fiz assim" ou "Lá em casa

sentido da ação está nela mesma. Age afetivamente quem satisfaz suas necessidades, seus desejos, sejam eles de alegria, de gozo, de vingança, não importa. O que importa é dar vazão às paixões momentâneas. Age assim aquele indivíduo que diz: "Tudo pelo prazer" ou "O principal é viver o momento".

26

I

Unidade

1 • A sociedade

dos indivíduos

A ação racional com relação a valores fundamenta-se como o dever, a dignidade, a beleza, a sabedoria, dência de uma causa, qualquer que tem certo "mandado" ou ruins, prejudiciais

em convicções, tais

a piedade ou a transcen-

que seja seu gênero, sem levar em conta as forem boas

consequências previsíveis. O indivíduo age baseado naquelas convicções e crê para fazer aquilo. Se as consequências ou não, isso não importa, pois ele age de acordo com que diz: "Eu acredito é que

aquilo em que acredita. Age dessa forma o indivíduo nossa causa seja vitoriosa".

que a minha missão aqui na Terra é fazer isso" ou "O fundamental

Em Brasília, DF, no Dia Mundial de Combate à aids, em 2003, estudantes confeccionam a "colcha da solidariedade". Uma ação social orientada pela expectativa de reduzir o preconceito em relação aos portadores do vírus HIV.

A ação racional com relação a fins fundamenta-se

numa avaliação da rela-

ção entre meios e fins. Nesse tipo de ação, o indivíduo pensa antes de agir em uma dada situação. Age dessa forma o indivíduo que programa, pesa e mede as consequências, e afirma: "Se eu fizer isso ou aquilo, pode acontecer tal ou qual coisa; então, vamos ver qual é a melhor alternativa" ou "creio que seja melhor conseguir tais elementos para podermos atingir aquele alvo, pois, do contrário, não conseguiremos nada e só gastaremos energia e recursos". Para Weber, esses tipos de ação social não existem em estado puro, pois os indivíduos, quando agem no cotidiano, mesclam alguns ou vários tipos de ação social. São "tipos ideais", construções para analisar a realidade. Como Durkheim, o indivíduo se pode perceber, para Weber, ao contrário do que defende as normas, os costumes e as regras sociais não são algo externo e, com base no que traz dentro de si, dependendo das situações escolhe condutas e comportamentos, teóricas utilizadas pelo sociólogo

ao indivíduo, mas estão internalizados, que se lhe apresentam.

Assim, as relações sociais consistem na probabilidade sentido, sempre numa perspectiva

de que se aja socialmente com determinado de reciprocidade por parte dos outros.

Capítulo

3 • As relações

entre indivíduo

e sociedade

I

27

Sobre a ação social
A ação social (incluindo tolerância ou omissão) orienta-se pela ação de outros, que podem ser passadas, presentes ou esperadas como futuras (vingança por ataques anteriores, réplica a ataques presentes, medidas de defesa diante de ataques futuros). Os "outros" podem ser individualizados e conhecidos ou então uma pluralidade de indivíduos indeterminados e completamente desconhecidos (o "dinheiro", por exemplo, significa um bem de troca que o agente admite no comércio porque sua ação está orientada pela expectativa de que outros muitos, embora indeterminados e desconhecidos, estarão dispostos também a aceitá-Io, por sua vez, numa troca futura). [...] Nem toda espécie de contato entre os homens é de caráter social; mas somente uma ação, com sentido próprio, dirigida para a ação de outros. Um choque de dois ciclistas, por exemplo, é um simples evento, como um fenômeno natural. Por outro lado, haveria ação social na tentativa dos ciclistas se desviarem, ou na briga ou considerações amistosas subsequentes ao choque.
WEBER, ax. Ação social e relação social. In: FORACCHI, M Marialice Mencarine, MARTINS, . de Souza. J Sociologia e sociedade. São Paulo: Livros Técnicos e Científicos, 1977. p. 139.

Norbert Elias e Pierre Bourdieu: a sociedade dos indivíduos
Examinamos até aqui três diferentes perspectivas de análise da relação entre indivíduo e sociedade. Para Marx, o foco recai sobre os indivíduos inseridos nas classes sociais. Para Durkheim, o fundamental é a sociedade e a integração dos indivíduos nela. Para Weber, os indivíduos e suas ações são os elementos constitutivos da sociedade. Apesar das perspectivas diferentes, todos buscaram explicar o processo de constituição da sociedade e a maneira como os indivíduos se relacionam, procurando ciedade procurando ambos construíram. identificar as ações e instituições fundamentais. analisaram a relação entre indivíduo e soDois autores contemporâneos

integrar esses polos: o sociólogo alemão Norbert Elias e o

francês Pierre Bourdieu. Vamos conhecer a seguir os principais conceitos que

o conceito de configuração.

De acordo com o sociólogoalemão Norbert Elias (1897-

1990), é comum distanciarmos indivíduo e sociedade quando falamos dessa relação, pois parece que julgamos impossível haver, ao mesmo tempo, bem-estar e felicidade individual e uma sociedade livre de conflitos. De um lado está o pensamento de que as instituições família, escola e Estado devem estar a serviço da felicidade e do bem-estar de todos; de outro, a ideia da unidade social acima da vida individual. As distinções entre indivíduo e sociedade levam a pensar que se trata de duas coisas separadas, como mesas e cadeiras, tachos e panelas. Ora, é somente nas relações e por meio delas que "os indivíduos podem possuir características humanas, como falar, pensar e amar", como diz Elias em seu livro A sociedade

dos indivíduos. E poderíamos complementar
educação, e não isoladamente.

declarando que só é possível tra-

balhar, estudar e divertir-se em uma sociedade que tenha história, cultura e

28

I

Unidade

1 • A sociedade

dos indivíduos

Para explicar melhor o que afirma e superar a dicotomia entre indivíduo e sociedade, Elias criou o conceito de configuração (ou figuração). É uma ideia que nos ajuda a pensar nessa relação de forma dinâmica, como acontece na realidade. Tomemos um exemplo: se quatro pessoas se sentam em volta da mesa para jogar baralho, formam uma configuração, pois o jogo é uma unidade que não pode ser vista sem os participantes e sem as regras. Sozinho, nenhum deles consegue jogar; juntos, cada um tem sua própria estratégia para seguir as regras e vencer. Vamos citar um exemplo mais brasileiro. Em um jogo de futebol, temos outra configuração, ou seja, há um conjunto de "eus", de "eles", de "nós". Um time de futebol é composto de vários "eus" os jogadores -, que têm um objetivo que lá estão para único ao disputar com os do outro time. Há também as regras que devem ser levadas em conta e a presença de um juiz e dos bandeirinhas, marcar as possíveis infrações. Além disso, há a torcida, que também faz parte do jogo e congrega vários outros indivíduos com interesses diferentes, mas que, nessa configuração, têm um objetivo único: torcer para que seu time vença.

brasileiro Ronaldo após a partida entre os times do Brasil e da França na Copa do Mundo de 2006, em Frankfurt, Alemanha. Ele não está sozinho: a imagem pungente da derrota reflete o intenso fluxo de relações e expectativas que ocorre durante uma partida - dos jogadores de cada time entre si e com os adversários, as torcidas, os técnicos, o juiz, os assistentes. O significado da derrota só pode ser entendido nessa configuração.

o jogador

Assim, há um fluxo contínuo durante o jogo, que só pode ser entendido nesse contexto, nessa configuração. Essa relação acontece entre os jogadores, entre eles e a torcida, entre eles e o técnico, entre os torcedores, e entre todos e as regras, os juízes, os bandeirinhas, os técnicos e os gandulas. Fora desse contexto, não há jogo de futebol, apenas pessoas, que viverão outra configuração, em outros momentos. No grupo social é assim: não há separação entre indivíduo e sociedade. Tudo deve ser entendido de acordo com o contexto; caso contrário, perdem-se a dinâmica da realidade e o poder de entendimento. O conceito de configuração sociedades inteiras, constituídas pode ser aplicado a pequenos grupos ou a de pessoas que se relacionam. Esse conceito entre as pessoas. Por isso, Elias utiliza

chama a atenção para a interdependência

a expressão sociedade dos indivíduos, realçando a unidade, e não a divisão.

Capítulo

3 • As relações

entre indivíduo

e sociedade

I 29

Escolhas e repercussão social
Toda sociedade grande e complexa tem, na verdade, as duas qualidades: é muito firme e muito elástica. Em seu interior, constantemente se abre um espaço para as decisões individuais. Apresentam-se oportunidades que podem ser aproveitadas ou perdidas. Aparecem encruzilhadas em que as pessoas têm de fazer escolhas, e de suas escolhas, conforme sua posição social, pode depender seu destino pessoal imediato, ou o de uma família inteira, ou ainda, em certas situações, de nações inteiras ou de grupos dentro delas. Pode depender de suas escolhas que a resolução completa das tensões existentes ocorra na geração atual ou somente na seguinte. Delas pode depender a determinação de qual das pessoas ou grupos em confronto, dentro de um sistema particular de tensões, se tornará o executor das transformações para as quais as tensões estão impelindo, e de que lado e em que lugar se localizarão os centros das novas formas de integração rumo às quais se deslocam as mais antigas, em virtude, sempre, de suas tensões. Mas as oportunidades entre as quais a pessoa assim se vê forçada a optar não são, em si mesmas, criadas por essa pessoa. São prescritas e limitadas pela estrutura específica de sua sociedade e pela natureza das funções que as pessoas exercem dentro dela. E, seja qual for a oportunidade que ela aproveite, seu ato se entremeará com os de outras pessoas; desencadeará outras sequências de ações, cuja direção e resultado provisório não dependerão desse indivíduo, mas da distribuição do poder e da estrutura das tensões em toda essa rede humana móvel.
ELlAS, Norbert.

A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. p. 48.

o conceito

de habitus. Habitus é outro conceito utilizado por Norbert Elias. porque, além de esclarecedor, estabelece uma ligação Para de Elias e o do francês Pierre Bourdieu (1930-2002).

É muito interessante
entre o pensamento

Elias, habitus é algo como uma segunda natureza, ou melhor, um saber social incorporado durante nossa vida em sociedade. Ele afirma que o destino de uma nação, ao longo dos séculos, fica sedimentado algo que muda constantemente, entre continuidade e mudança. indivíduo e sociedade. Não há diferença entre o no habitus de seus membros. É mas não rapidamente, e, por isso, há equilíbrio

A preocupação de Bourdieu, ao retomar o conceito de habitus, era a mesma de Elias: ligar teoricamente que Elias e Bourdieu pensam em termos gerais, apenas na maneira de propor a questão. Para Bourdieu, o habitus se apresenta como social e individual ao mesmo tempo, e refere-se tanto a um grupo quanto a uma classe e, obrigatoriamente, também ao indivíduo; A questão fundamental para ele é mostrar a articulação entre as condições de existência do indivíduo e suas formas de ação e percepção, dentro ou fora dos grupos. Dessa maneira, seu conceito de habitus é o que articula práticas cotidianas determinada a vida concreta dos indivíduos com as condições de classe de sociedade, ou seja, a conduta dos indivíduos e as estruturas mais

amplas. Fundem-se as condições objetivas com as subjetivas.

30

I

Unidade

1 • A sociedade

dos indivíduos

Para Bourdieu, o habitus é estruturado

por meio das instituições de sociae é aí que a ênfase na

lização dos agentes (a família e a escola, principalmente),

análise do habitus deve ser colocada, pois são essas primeiras categorias e valores que orientam a prática futura dos indivíduos. Esse seria o habitus primário, por isso mais duradouro indivíduo mas não congelado no tempo. não contrário ao anterior, mas um habitus individual conforme À medida que se relaciona com pessoas de outros universos de vida, o desenvolve um habitus secundário indissociável daquele. Assim vai construindo agrega experiências continuamente.

Isso não significa que será uma pessoa ra-

dicalmente diferente da que era antes, pois se modifica sem perder suas marcas de origem, de seu grupo familiar ou da classe na' qual nasceu. Os conceitos e valores dos indivíduos (sua subjetividade), segundo Bourdieu, têm uma relação muito intensa com o lugar que ocupam na sociedade. Não há igualdade de posições, pois se vive numa sociedade desigual. Por exemplo, no Brasil, teoricamente, há condições todos podem ingressar na univerporque a falta de sidade, mas, de fato, as chances de que isso aconteça são remotas, objetivas e subjetivas que criam um impedimento: do ensino básico, um vestibular como este: "Não adianta de exercer a profissão?". vagas, as deficiências ria ou um pensamento conseguir". não terei possibilidade

que elimina a maio-

nem tentar, pois não vou

Ou este: "Para que ingressar

em um curso superior se depois

Habitus,

O

que é isso?
o que

Os habitus são princípios geradores de práticas distintas e distintivas -

o operário come, e, sobretudo, sua maneira de comer, o esporte que pratica e sua maneira de praticá-Io, suas opiniões políticas e sua maneira de expressá-Ias diferem sistematicamente do consumo ou das atividades correspondentes do empresário industrial; mas são também esquemas classificatórios, princípios de classificação, princípios de visão e de divisão e gostos diferentes. Elesestabelecem as diferenças entre o que é bom e mau, entre o bem e o mal, entre o que é distinto e o que é vulgar etc., mas elas não são as mesmas. Assim, por exemplo, o mesmo comportamento ou o mesmo bem pode parecer distinto para um, pretensioso ou ostentatório para outro e vulgar para um terceiro.
BOURDIEU,

Pierre. Razões práticas. 4. ed. Campinas: Papirus, 1996. p. 22.

Como se pode perceber, a Sociologia oferece várias possibilidades teóricas para a análise da relação entre indivíduo e sociedade. Esse é apenas um exemplo de como os sociólogos trabalham. Muitos autores analisam as mesmas questões e propõem alternativas a fim de que se possa escolher a perspectiva mais apropriada para examinar a realidade em que se vive e buscar respostas para as perguntas que se fazem. A diversidade de análises é um dos elementos essenciais do pensamento sociológico.

Capítulo 3 • As relações entre indivíduo e sociedade

I

31

Cenarzo

,.

DA SOCIABILIDADE

CONTEMPORÂNEA

Regra e exceção não têm mais regras

D

esde crianças aprendemos que precisamos seguir regras para viver organizadamente

em socie-

dade. No entanto, nos últimos tempos, as regras parecem ter-se tornado exceções e vice-versa. expôs-se à luz desde o governo social que a psicanalista no

E o mau exemplo vem de quem deveria dar o bom exemplo. A corrupção que sempre existiu nas estruturas governamentais brasileira Collor. Ela está à nossa vista, e isso gera uma situação de libertinagem jornal Folha de S.Paulo de 15 de janeiro de 2005. Disse ela que estava andando em uma calçada de Copacabana, no Rio de Janeiro, quando notou dois rapazes da periferia engraxando bem para o freguês e arrancou resolveu "cair fora". Maria Rira, que observava tudo, não conseguiu deixar de protestar: "Cara, você vai cobrar 50 reais para engraxar os sapatos do gringo?". O engraxate simplesmente disse: "Se eu quiser, cobro cem, cobro mil, e a senhora não se meta com a gente". E o outro remendou: "Vai buscar seu mensalão, madame, que este aqui é o nosso". Com base nessa experiência, ela concluiu: "Não é difícil compreender públicos (os políticos) mensalão já se tornou sinônimo salve-se quem puder [...]." E, assim, o exemplo que "vem de cima" mostra ao povo que o melhor é "se dar bem", ou, como dizia o comercial antigo de cigarros que deu origem à famosa Lei de Gerson, "é preciso levar vantagem em tudo, certo?". Isso autoriza os indivíduos a fazer o que quiserem: "Se os poderosos fazem, por que eu não posso fazer também?". que a bandidagem escancarada entre representantes a delinquência dos interesses O termo autoriza definitivamente no resto da sociedade. os sapatos de um turista. Ao terminar o serviço, taxao estrangeiro

Maria Rita Kehl muito bem descreveu no artigo "A elite somos nós", publicado

ram o preço em 50 reais. O turista achou muito e deu uma nota de 10 reais. O engraxate olhou da sua carteira uma nota de 50 reais. Assustado,

de patifaria generalizada:

[...] estamos todos à deriva. É a lei do

Neste capítulo examinamos conceitos utilizados por diferentes autores na análise da relação entre o indivíduo e a sociedade: classe social (Marx), consciência coletiva e anomia (Durkheim), ação social (Weber), configuração (Elias), habitus (Bourdieu). Qual ou quais desses conceitos poderiaím) ajudar na interpretação do comportamento descrito por Maria Rita Kehl?

32

I

Unidade 1 • A sociedade dos indivíduos

ora vulgar ora bizarro, em língua nacional ou em qualquer língua (qualquer, principalmente).

Eu etiqueta
Em minha calça está grudado um nome que não é meu de batismo ou de cartório, um nome ... estranho. Meu blusão traz lembrete de bebida que jamais pus na boca, nesta vida. Em minha camiseta, a marca de cigarro que não fumo, até hoje não fumei. Minhas meias falam de produto que nunca experimentei mas são comunicados a meus pés. Meu tênis é proclama colorido de alguma coisa não provada por este provador de longa idade. Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, minha gravata e cinto e escova e pente, meu copo, minha xícara, minha toalha de banho e sabonete, meu isso, meu aquilo, desde a cabeça ao bico dos sapatos, são mensagens, letras falantes, gritos visuais, ordens de uso, abuso, reincidência, costume, hábito, premência, indispensabilidade, e fazem de mim homem anúncio itinerante, escravo da matéria anunciada. Estou, estou na moda.

E nist.o me comp~azo, tiro glória de minha anulaçao. Não sou vê lá -

(': ~\,

anúncio contratado .' pago "~/:
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t ':

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Eu é que mimosamente

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para anunciar, para vender em bares festas praias pérgulas Piscin'a,' '. e bem à vista exibo esta etiqueta global no corpo que desiste de ser veste e sandália de uma essênciarl tão viva, independente, .

.\ ,
I

que moda ou suborno algum a compromete. Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher, minhas idiossincrasias tão pessoais, tão minhas que no rosto se espelhavam, e cada gesto, cada olhar, cada vinco da roupa resumia uma estética? Hoje sou costurado, sou tecido, sou gravado de forma universal, saio da estamparia, não de casa, da vitrina me tiram, recolocam, objeto pulsante mas objeto que se oferece como signo de outros objetos estáticos, tarifados. Por me ostentar assim, tão orgulhoso de ser não eu, mas artigo industrial, . peço que meu nome retifiquem. Já não me convém o título de Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisa mente.
ANDRADE,

homem',

I

É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade, trocá-Ia por mil, açambarcando todas as marcas registradas, todos os logotipos do mercado. Com que inocência demito-me eu que antes era e me sabia tão diverso de outros, tão mim-mesmo, ser pensante, sentinte e solidário com outros seres diversos e conscientes de sua humana, invencível condição. Agora sou anúncio, de ser

Carlos Drummond

de. O Corpo. 10. &d. RJ0'~'.

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de Janeiro: Record, 1987.

p.

85·7.

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.,~)./!'I '.

"-,,,''1-

11- ~ 1. Ao ler esse poema de Drummond.jvocê no seu cotidiano, em casa, na escola
011"

t/p

identifica alguma situação que enfrélnqtt'l mesmo entre os amigos? .,. "~~ ou uma cada você acha-

2. Ao comprar
miseta empresa

uma roupa de grife,í~to

é, que tem uma etiqueta, que a fabricou,

/1J'f

que vem com a logomarca

Leituras e atividades

I

33

ria estranho

pagar para ser utilizado

Somos nós que fazemos a hora? Ou a hora já vem marca da, pela sociedade em que vivemos? O que, afinal, o "sistema" nos obriga a fazer em nossa vida? Qual a nossa margem de manobra? Qual o tamanho nossa liberdade?
RODRIGUES, Alberto Tosi. Sacio/agia da educação. 4. ed. Rio de Janeiro: DPA, 2004. p.19. ~

como um outdoor ambulante?

3. O poema realça a capacidade humana de
pensar, agir e decidir sobre a própria vida como um valor fundamental. to, vivemos numa sociedade Entretanem que a

da

imagem é uma das coisas mais importantes e, por isso, a roupa e os objetos que usamos são algo que nos identifica como membros de determinado grupo ou classe social. Você acha que se despersonaliza, deixa de ser autêntico, quando escolhe

1. Escreva sua biografia, principais

destacando

os

produtos pela marca que ostentam?

fatos de sua vida e de sua fa-

mília. Em seguida, selecione aconteciPARA ORGANIZAR O CONHECIMENTO

mentos e situações sociais simultâneos a períodos tabelecendo de sua história de vida, esuma relação entre eles. Por para uma cida-

O sociólogo Alberto (1965-2003),

Tosi Rodrigues

exemplo: por que sua família deixou a zona rural e mudou-se de? Por que sua família mudou de uma região para outra? Por que sua família mudou de um bairro para outro em uma mesma cidade? Por que você e sua família continuam vivendo no mesmo lugar?

que foi professor da Universi-

dade Federal do Espírito Santo, infelizmente morreu muito jovem, sem poder concluir o que tinha projetado. Mas escreveu vários o texto livros, e de um deles foi extraído

a seguir, que poderá ajudá-lo a ordenar as ideias sobre o que leu nesta unidade. Discuta com seus colegas as respostas que daria às perguntas feitas pelo autor.

2. Procure, em jornais, revistas ou na internet, reportagens sobre questões sociais (eventos nacionais ou internacionais) que, na sua opinião, exerceram influência no seu cotidiano. Com essas informações em mãos, construa um painel com fotografias e textos que destacam essa relação.

o homem

faz a sociedade

ou a sociedade faz o homem? Num de seus sambas, Paulinho da Viola narra a trajetória de um malandro do morro, Chico Brito. Na canção, ele é malandro, sim, vive no crime e é preso a toda hora. Paulinho, porém, não atribui sua condição a uma falha de caráter. Chico era, em princípio, tão bom como qualquer outra pessoa, mas "o sistema" não lhe deixara outra oportunidade de sobrevivência que não a marginal idade. O último verso diz tudo: "a culpa é da sociedade que o transformou". Jáem outra canção, bem mais conhecida, Geraldo Vandré dá um recado com sentido oposto: "quem sabe faz a hora, não espera acontecer".

LIVROS ..•.-.-..•.••..

RECOMENDADOS

Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios, de Charles Wright Mills. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. Recomenda-se principalmente o capítulo intitulado ''A promessa", no qual o autor discute o modo de pensar a sociedade em que vivemos e apresenta como necessária a qualidade que chama de "imaginação sociológica".

34

I

Unidade

1 • A sociedade

dos indivíduos

o mito do herói nacional, de Paulo Miceli.
São Paulo: Contexto, 1997.
o

A história narrada nesse filme se passa durante a Grande Depressão de 19291930. Uma mulher bonita e bem-vestida (Grace) chega à cidade de Dogville fugindo de um bando de gângsteres. Grace é auxiliada por um rapaz que procura convencer os outros moradores locais a fazer o mesmo, desde que ela preste pequenos serviços. Mas os gângsa busca teres continuam

o
e! .9
'õ w

*
o

e os habitantes da cidade sentem-se em perigo. Isso faz com que eles passem Nesse livro, o autor analisa os principais heróis nacionais, desmitificando-os, Procura mostrar que eles eram pessoas comuns, como tantos outros homens de sua época.
SUGESTÃO DE FILMES

a eXIgu rnars serviços em troca do risco possível. Grace começa a perceber que o custo de ficar ali é muito maior do que supunha. Esse filme pode nos fazer pensar sobre as relações entre as pessoas em diferentes situações.

.

.

Billy Elliot (Inglaterra, 2000). Direção:
Stephen Daldry. Elenco: Julie Walters,

o

homem bicentenário

(EUA, 1999).

Gary Lewis e J amie Bell. Billy Elliot é um garoto que gosta muito de dança, mas seu pai quer que ele seja boxeador. Ao chegar à puberdade, pela professora Billy (J ulie procura frequentar balé, incentivado escondido as aulas de

Direção: Chris Columbus. Elenco: Robin Williams, Sam Neil e Oliver Platt. Esse filme é uma ficção científica, e a narrativa se passa num tempo não muito distante, em que há um robô doméstico Todos os (NDR-114) projetado para fazer os serviços caseiros para os humanos. NDRs são exatamente iguais, mas há um (Andrew) que não se conforma e procura sempre se aprimorar. Com a ajuda de um projetista de robôs, vai sendo alterado com as últimas inovações da robótica até se tornar muito parecido com um humano. filme destaca os elementos fundamentais que caracterizam o ser humano. O

Walters), que acredita que o menino tem muito talento. É um belo filme, estimulante para discutir as opções que fazemos e a influência que as relações familiares e escolares exercem sobre nós.

Dogville (Alemanha, França, Suécia, 2003).
Direção: Lars Von Trier. Elenco: Nicole Kidman, Harriet Anderson e Lauren Bacall.

Leituras e atividades

I

35

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